RESUMO: Este estudo objetiva analisar perfil da mulher, sobretudo, na escrita feminina a partir dos estudos de gênero. Escolhemos para perfilarem, pela análise que pretendemos fazer, as personagens da obra Terras Proibidas – a saga do café no vale do Paraíba do Sul de Luíza Lobo(2011). Elegeu-se personagem Eliza para um maior enfoque, pois esta, apesar de não ser a protagonista principal, é a partir dela que surgem e se desenrolam os primeiros atos de transgressão. A posição ocupada pelas mulheres na sociedade oitocentista, tanto aquelas que se conformam e/ou supostamente aceitam a dominação do patriarcado, como Maria, Ambrósia, Maria Paula e Ana e aquela que se opõe a esse modelo social – Eliza, que é considerada irregular por recusar a dominação dos homens e enveredar por caminhos e ações que as demais mulheres não ousariam trilhar. Por meio da caracterização dessas mulheres é que se pode perceber a força da sociedade patriarcal na determinação e criação de estereótipos da imagem de mulher. A ficção será examinada conforme as teorias de Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elódia Xavier (2001), Judith Buttler (1987) e Foucault (1988), que direcionam suas proposições para as relações de poder no discurso, gênero e os processos de construção da identidade feminina.
Palavras-chave: Perfil. Mulher. Estereótipos.Terras Proibidas.
ABSTRACT: This study aims to analyze the profile of women, especially in women’s writing from gender studies. We chose to this profile, in the analysis we intend to do in this work the female characters from Terras Proibidas – a saga do café no vale do Paraíba do Sul (Forbidden Lands – the saga of coffee in Southern Paraíba valley) by Luiza Lobo (2011) holds. The character Eliza was elected to have a greater focus, because, despite of not being the main character, she is the starting point of the first acts of transgression. The position occupied by women in the nineteenth-century society, both those who conform and / or supposedly accept the domination of patriarchy, like Mary, Ambrosia, Maria and Ana Paula and the one that opposes this social model – Eliza, who is considered irregular by refusing the domination of men and embark on paths and actions that the other women would not dare. Through the characterization of these women we can realize the strength of the patriarchal society in determining and stereotyping the image of women. The fiction will be examined according to the theories of Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elodia Xavier (2001),
* Mestranda em Letras (UESPI). E-mail: raimundaccorreia@gmail.com
Judith Butler (1987) and Foucault (1988), who direct their propositions to the power relations in discourse, gender and the processes of construction of female identity.
Keywords: Female representation. Stereotypes. Terras proibidas.
Para falar do perfil da mulher nas obras de arte, e aqui nos reportamos mais, precisamente, a arte literária, é preciso, antes de tudo, fazer uma espécie de retrospectiva histórica em torno da questão. Neste sentido, pode-se afirmar que a mulher, ao longo dos tempos, foi vista de diferentes maneiras, de anjos intocáveis de beleza plena, outras completamente reprimidas e oprimidas pelo sistema patriarcal a verdadeiros demônios sedutores.
Este perfis, bem como, variadas questões relacionadas a mulher na literatura feminina têm sido questões bastante discutidas nas academias de todo país. Discute-se em torno de inúmeras temáticas e formas de representar as mulheres. Neste aspecto, teóricos desvelam questões como o que é escrita feminina? Sobre o que e como escreve a mulher? Como se apresenta o discurso que se chama feminino? E como a escritora feminina representa o perfil da mulher em suas escritas. Mediante essas questões afirma-se que: “Sabe-se da estreita relação entre linguagem e sujeito, e, portanto, quando uma mulher articula um discurso este traz a marca de suas experiências, de sua condição; práticas sociais diferentes geram discursos diferentes” (XAVIER, 1991, p. 13).
Para a autora, a leitura das narrativas feministas possui certa diferenciação pelo fato de que existe um discurso diferente, que é o “discurso feminino”, isto dentro de uma linguagem e de um posicionamento diverso da narrativa de autoria masculina. Desta forma, a importância de estudar a linguagem é visível, pois este estudo representa uma tática feminina que pode auxiliar no rompimento de barreiras impedidoras, ao longo dos tempos, do crescimento da escrita da mulher no que se refere a temáticas abordadas e a sua divulgação.
Sabemos que os fatores que dificultam o apogeu dessa escrita não são os, por vezes, alegados, mas bem outros. Por exemplo, a leitura dos textos de autoria feminina requer certa assimilação, por parte de quem ler, de conhecimentos prévios, para que, desta maneira, não se caia nas estratagemas das teorias literárias firmadas no discurso produzido pela escrita
masculina, numa sociedade de conceitos, basicamente masculinos. Onde os homens figuram como maiorais e usam de estratagemas diversos, na tentativa de excluir a mulher como sujeito da sua própria história ou criam perfis bem distorcidos destas.
O escrever feminino aborda variadas temáticas e com narrativas bem arquitetada, fato que pode ser comprovado em obras como “Terras Proibidas: A saga do café no vale do Paraíba do Sul” da escritora Luíza Lobo. Esta obra é o objeto de análise deste artigo e traz uma miscelânea de temas e habilidosa maneira de escrever. O exame parte de construtos teóricos de Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elódia Xavier (2001), Cristina Ferreira Pinto (1990), Judith Buttler (1987) e Foucault (1988), dentre outros e a discussão se encaminhará na perspectiva de verificar como a submissão ou transgressão feminina apresentam-se na obra, face ao patriarcalismo e como se dá a abordagem através da escrita feminina.
LUÍZA LOBO E SUAS “TERRAS PROIBIDAS”
“Terras Proibidas, A Saga do Café no Vale do Paraíba do Sul” (2011), da escritora Luiza Lobo que é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada do Programa de Pós- Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tradutora, poeta, contista, cronista, e ensaísta e autora de dezenas de livros e traduções. Muitos de seus trabalhos, o primeiro deles sobre Virginia Woolf, publicado em 1970, faz parte dos estudos inaugurais no campo da literatura de autoria feminina e dos estudos da negritude no Brasil. Destaca-se o ensaio intitulado “Women Writers in Brazil Today”, e “Literatura negra brasileira contemporânea”, inicialmente publicado em 1987 na Revista de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes. Destacam-se, ainda, os artigos sobre Maria Firmina dos Reis, que apresentaram a romancista maranhense aos estudiosos e ao público brasileiros.
Publicado em 2011, “Terras Proibidas” é fruto de uma pesquisa da professora e pesquisadora Luiza Lobo que durou 10 anos. Composto de quase quinhentas páginas e está dividido em quatro partes, cada uma delas subdividas em quatro sub-partes, a saber:
Parte I – A cena: O café e o eito – 1. A maldição do escravo; 2. O barão de Vassouras e a Cachoeira Grande; 3. Baronesas loucas seus fantasmas e; 4. A saga de Eliza na Cachoeira.
Parte II – O mito: Os clãs e a saga do café – Do ouro de Minas ao ouro verde das “Terras Proibidas” – 5. Os Teixeira; 6. Os Ferreira Leite e os Leite Ribeiro e; 7. Os Furquim e os Almeida.
Parte III – A história: Barões e varões do café – 8. A história do café; 9. A fundação de Vassouras; 10. Os pássaros-locomotivas e; 11. Os barões da caridade ou da maçonaria.
Parte IV – O futuro: Ruína e libertação – 12. As vozes submersas de São João Marcos; 13. Apogeu e ruína do Vale do Paraíba do Sul; 14. No limiar da abolição;
15. A ruína da Cachoeira Grande e; 16. O último banquete. (LOBO, 2011, p. 12).
A autora Luiza Lobo assim se refere ao seu livro “Terras Proibidas”: “Meu texto busca romper com a cronologia rígida dos fatos – ao apresentá-lo fora da ordem em que ocorreram – pois é assim que os fatos e as pessoas se apresentam como a nós no dia a dia… Assim o romance pode ser considerado um romance da nova história.” (LOBO, 2007, p. 02).
Escrito em forma de romance, misturando ficção e história, conta a trajetória de ascensão, apogeu e decadência das grandes fazendas do ciclo do café, destacando um personagem influente da região: Francisco José Teixeira Leite, O Barão de Vassouras, que vem a ser avô de Luíza Lobo, fato que comprova que a escritora narra a história da própria família, o que não a impede de engendrar com maestria uma narrativa que acompanha quase três séculos de história de família e da história do café, mas também, a história de um tempo e de uma parte do Brasil.
A narradora proporciona ao leitor a segregação de quatro grupos distintos para a condição do gênero: O grupo masculino, modelo inquestionável; Um grupo de mulheres, cujos estereótipos sociais são representados como pessoas bondosas, adequam-se, pelo menos supostamente, ao sistema social vigente; Um grupo de personagens femininas que se desviam dos ditames sociais e não aceitam viver de acordo das amarras estabelecidas pela sociedade. Onde Eliza figura como a principal representante. E o grupo de escravos e escravas, com suas rezas, macumbas, seu poder de articulação desconstruindo, visões sedimentadas sobre o escravo, como, por exemplo, o mito do escravo submisso, humilde, obediente, haja vista, haver a representação de grupos de escravos com grande poder de articulação, fato que chega a desestabilizar o comando de barões do café.
O narrar histórias de uma família, e no caso de Luíza Lobo, da própria família, poderia supor certa tendência a maquiar fatos ou sobrepor, hierarquicamente, importâncias entres as personagens, não é o que acontece na narrativa de “Terras Proibidas”, haja vista que as personagens desta obra possuem lugares equivalentes. Dos escravos ao senhor do café, todos tem voz e lugar no enredo. Há, inclusive, como já citado aqui, a desmitificação do escravo como ser obediente, preguiçoso; no lugar deste aparece um escravo inteligente, que age com cautela e de forma astuciosa.
Apesar de ser uma história, onde, supostamente, os homens predominariam, as mulheres possuem lugar e ações de destaque. Personagens como Maria Paula, condenada a se
casar com o primo Caetano, viúvo de Ambrósia; Ana que também teve de se casar com o cunhado Francisco, viúvo de sua irmã Maria, são transgressoras, apenas em pensamento. Elas apenas sentem no íntimo, porém não conseguem esboçar ação contra a situação, como comprova a passagem: “Maria, ao se casar com Francisco José, logo se sentiu traída, como a terra fora traída […] tudo foi devastado por causa do café, do dinheiro, da voracidade humana […] Ela também se sentia repuxada, cortada, sua seiva arrancada […]” (LOBO, 2011, p. 133).
A respeito da “não ação” das mulheres mencionadas, afirma-se que: “[…] Para que a dominação simbólica funcione, é preciso que os dominados tenham incorporado as estruturas segundo as quais os dominantes percebem que a submissão não é um ato da consciência, suscetível de ser compreendido […]” (BOURDIEU, 1996, p. 36).
É assim que acontece na narrativa, as mulheres representadas em “Terras Proibidas” (2011), as que, de certa forma, aceitam a dominação masculina, fazem isso porque já incorporaram como algo natural, como pode ser percebido no próprio texto: “Ah, minha filha,você ainda é jovem e sonhadora. Não pode uma pessoa fazer tudo sozinha, inventar tudo, tem de seguir a regra geral. A vida é assim. Repetir os antigos.” (LOBO, 2011, p. 203).
Seguindo a ótica do filósofo francês “a dominação masculina está de tal modo inserida no nosso inconsciente que deixamos de nos aperceber dela” (BOURDIEU, 1996, p. 42). Fato percebível na fala de Eleonora irmã de Eliza, que apesar de ser mulher e sofrer com a não realização de seios anseios, seguindo aquilo que dita a sociedade vigente, reafirma o discurso masculino: “Bailarina é profissão de mulher da vida, não é para moça de família!” (LOBO, 2011, p. 226).
Por outro lado, tem-se, nesse quadro narrativo, o retrato da transgressão em Eulália,que se torna amante de Joaquim Nabuco, provando da felicidade apenas desejada por muitas mulheres do Cachoeira Grande e Eliza, neta de Francisco José, menina-mulher, forte, sagaz, livre e solta que após viver todo tipo de peripécias, decide simular a morte, conseguindo a liberdade a partir de então. Eliza questiona-se: “Ninguém perguntara a sua mãe, Maria, se gostava do primo ou se queria casar com ele. Mulher não tinha querer” (LOBO, 2011, p. 170). A partir de questionamentos como esse é que Eliza inicia sua não aceitação das estruturas e conceitos vigentes e começa a transformá-los com seu discurso e ação.
“TERRAS PROIBIDAS” – do pensamento a ação
Pensar a escrita feminina e como a escritora constrói o perfil de mulher na escrita feminina, de certa forma, é pensar uma história de resistência iniciada em 1859, quando Maria Firmina dos Reis publica, com o pseudônimo de “Uma maranhense”, Úrsula, considerado, até o momento, o primeiro livro de autoria feminina na literatura brasileira.
Necessário se faz lembrar que quem revelou a autora de “Úrsula”, para o mundo foi a autora de “Terras Proibidas”. O romance Úrsula traz uma visão diferenciada da até então disseminada pela ótica da escrita masculina, onde o perfil de mulher era/é apresentado como de um ser sem vontade própria, obediente e facilmente manipulada pelo homem, uma vez que a escrita, até então, pelo menos a que era publicada, era feita por homens, mesmo a que tratasse sobre mulher. De acordo com Saffioti: “A sociedade delimita, com bastante precisão, os campos em que pode operar a mulher, da mesma forma como escolhe os terrenos em que pode atuar o homem” (SAFFIOTI, 2004, p. 8).
Nesta escrita sobre mulher e feita por homem se cristaliza os lugares dos quais fala a teórica. Eliza da obra “Terras Proibidas” (2011) protagoniza a mulher que faz a reversão desse costumeiro perfil, apresentando-se como aquela que não aceita a delimitação dos espaço culturalmente construído pelo homem, numa visão patriarcal de masculino e feminino, como comprova o excerto que segue:
Considerada “irregular”, por não submeter-se aos domínios do homem, no caso, principalmente, o pai e o avô, pois a personagem conta com apenas treze anos de idade. Além disso, o relacionamento amoroso que acontece entre Ela e o Cigano, com quem foge, (após simular a morte para viver, segundo a própria), posteriormente, para o Pará, não se configuram numa relação de opressão, ao contrário, uma relação de amor e igualdade de gênero.
Diferencia-se das demais mulheres com quem convive por agir de forma livre e acreditar não haver papeis estipulados para homens e mulheres. Neste sentido declara-se:
[…] das mulheres se espera que sejam „femininas‟, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E qualquer comportamento feminino que não se enquadrasse nas representações do feminino
imaginado pelo masculino (mulher como boa mãe e esposa) era lido pelos estigmas de degeneração. (BOURDIEU, 1996, p. 82).
É exatamente por isso que Elisa é considerada uma “fora do prumo”, por não se enquadrar no estereótipo de mulher ditado pela sociedade, e construir, assim, sua maneira própria de forma caminhar.
Estudos da crítica feminina vêm mostrando que a mulher tem diferentes modos de representação, dependendo do espaço e das experiências vividas, bem com da visão de quem a representa. Assim, podemos afirmar que a escrita da mulher traz as marcas do que essa acredita. O que não significa dizer que a escrita feminina é apenas sobre temas relacionados a ela ou como já foi dito “coisas de mulher”, usado no sentido pejorativo a expressão.
A obra “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul” figura, no cenário da escrita feminina, como um exemplo preponderante do que se firma como uma grande obra, uma vez que os fios narrativos por esta abordados, não pertencem a uma temática única, longe disso, o que há, de fato, é um entrelaçamento, de modo a formar uma narrativa rica, bem estruturada e variada, dando ao leitor inúmeras possibilidades de análise. A própria autora em “A literatura de autoria feminina América Latina” afirma que:
[…] texto literário feminista é o que apresenta um ponto de vista da narrativa, experiência de vida, e, portanto um sujeito de enunciação consciente de seu papel social. É a consciência que o eu da autora coloca, seja na voz de personagens, narrador, ou na sua persona na narrativa, mostrando uma posição de confronto social, com respeito aos pontos em que a sociedade a cerceia ou a impede de desenvolver seu direito de expressão. (LOBO, 2007, p. 01).
Partindo desse construto teórico, da autora de várias obras, dentre elas “Terras Proibidas”, é que se pode assegurar que a escrita feminina, principalmente, a partir de 1970, quando os estudos em torno desta se avolumam em quantidade e qualidade, direciona-se como uma ruptura no diz respeito às ideias socialmente vigentes em uma sociedade patriarcal. Óbvio, o que chamamos de escrita feminina, sem dúvida, ainda tem muito a trilhar. Fato compreensível, considerando a larga distância existente entre o fazer literário de autoria feminina e o de autoria masculina, uma vez que, ao longo dos tempos, o estudo e mesmo a apreciação da literatura foram praticados por homens que, por consequência, delinearam as teorias e práticas em relação a posição da mulher na sociedade e na vida, restando a essa quebrar bloqueio e fazer sua escrita ser vista, lida e valorizada.
Os estudos em torno de gênero e da crítica literária feminista fizeram com que, gradativamente, o discurso tradicional, que rotula os textos de autoria feminina como texto menor, perdesse credibilidade. Desta maneira, atualmente, pode-se dizer que a mulher
escritora tem seu trabalho mais reconhecido no meio acadêmico, apesar do muito que ainda se tem a conquistar. A obra “Terras Proibidas” da escritora Luiza Lobo comprova isso na medida em que é uma narrativa que está em consonância com a qualidade da literatura de grandes e renomados textos.
Admitindo que toda produção humana reflete-se naquilo que o seu autor acredita e tem como socialmente construído e se pensarmos uma mulher que desde os primórdios dos tempos, vive e convive numa sociedade organizada de modo a ter homens no poder, concluiremos que a mulher sempre produziu, o que dificultou o crescimento, no entanto, foram as estruturas de divulgação e consolidação da escrita feminina. Por isso, Zolin declara: “… o cânone tradicional brasileiro até 1970 (e isso não quer dizer que ele não seja mais assim) é de ordem masculinista, impossibilitando a mulher de escrever, de poder participar do cânone literário.” (ZOLIN, 2003, p. 70).
Considerando o cânone como instituição que determina qual literatura é representativa, e conduzido, numa sociedade patriarcal, pelo cunho da ordem masculina, é explicável porque a literatura de autoria feminina quase não aparece, não se torna visível durante todo esse tempo. Luiza Lobo em “A literatura feminina na América Latina”, teoriza:
[…] o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje. (LOBO, 2007, p. 03).
É essa tônica que escritora de “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul”, segue, pois no curso narrativo da obra não retrata histórias de reclusão ou repressão, e sim de superação, histórias de mulheres que, mesmo em meio a tudo que dita o que seria a ordem socialmente construída, revelam-se condutoras e sujeitos de suas vidas. Curioso notar a estratégia utilizada pela narradora ao iniciar terceiro capítulo, quando escreve: “Das mulheres não falo porque não são importantes” (LOBO, 2011, p. 133), uma vez que bem mais que a história do café e seus barões, que chegou a deslocar o eixo econômico do Brasil, é das mulheres que a obra trata, de suas vidas e vivências, os demais personagens são importantes na medida em que é a partir da convivências estes, que as personagens femininas, mais precisamente Eliza, se conscientizam das relações sociais, até então mantida, e passam a lutar por mudança.
Outra passagem que chama atenção na narrativa é o fato da repetição, por inúmeras vezes da epígrafe: “Nenhuma mulher foi feliz na Cachoeira Grande” (LOBO, 2011, p. 10),
pois a consciência da não felicidade é um dos fatores que impulsiona essa mulher na busca de transformação política e social.
No romance é mostrado que a as personagens femininas, tendo em Eliza principal a representante, longe estão de aparecerem enleadas em relações de gênero ou qualquer coisa do tipo. Elas figuram na narrativa como seres, capazes de delinearem sua própria trajetória e provocarem discussões e manifestações contra o poder de ideologias patriarcais vigentes, que, apesar de não mais encontrarem total espaço em todos os segmentos da sociedade, ainda o encontram em alguns. Traço muito interessante e que ajuda a construir essa imagem de mulher transgressora, porém sem ligar exatamente a imagem da submissão, é o fato de Eliza simular a própria morte, metáfora que representa um nascer para a liberdade.
É minha última taça. A doença é o caminho da salvação! Livre! Livre enfim! Estou a um passo da morte, que é a porta para a vida! Nada me impedirá de encontrar o Príncipe das Trevas. Sei que é cruel com meu pai, mas a decisão já está tomada, e o plano preparado! Sou eu A donzela do Lied de Schubert, que irei ao encontro do Cavaleiro da morte! Beberei até a última gota da taça para ressuscitar! Adeus! Adeus a todos! Que Deus me acompanhe no Outro Mundo, longe muito longe daqui! Lá me libertarei, lá ressuscitarei! (LOBO, 2011, p. 233).
Assim, Luíza Lobo utiliza-se estratégias narrativas que fazem de sua obra atual e livre de elementos que possam trazer a repetição de temáticas e formas de escrever, bem como, apontá-los como exemplos do que não deve ser restaurado nem na literatura como em outras formas de discursos. Nesta perspectiva, afirma-se que “[…] os modos de registro das mulheres estão ligados à sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade.” (PERROT, 1989, p. 12). Sendo assim, a escrita feminina, atualmente, vem provar que a mulher-escritora está muito antenada como seu tempo, seus direitos, seu papel de sujeito atuante, construindo um espaço legítimo na literatura universal.
Realizar a leitura de “Terras Proibidas”, buscando analisar o perfil de mulher delineado na escrita feminina, numa escrita de mulher, apresentou-se com uma oportunidade de contato como uma obra literária bem estruturada e que muito bem representa a literatura brasileira.
No romance “Terras Proibidas”, a escritora Luíza Lobo, embora não tenha vivido o passado que relata, ateve-se durante dez anos, reunindo documentação confiável, o que sustenta a pesquisa como histórica. Partindo desse ponto, é feito o entrelaçamento entre
história e ficção de forma muito bem arquitetado, comprovando o tênue limite entre estes dois campos do fazer humano.
A cultura social consolidada no modelo patriarcalista que produz e tenta manter a submissão da mulher é concebida como recurso para manutenção e sucesso da ordem social ainda defendida por alguns. Os conflitos e possibilidades de transgressão do feminino sofrem, por vezes, empreitadas com o intuito de sufocá-los, utilizando como desculpa, garantir a harmonia no contexto da sociedade. No percurso narrativo da obra, aqui analisada, aparece como destoante Eliza, a neta rebelde do Barão de Vassouras “[…] um anjo que voou para a liberdade” (LOBO, 2011, p. 337). Tanto é assim, que no enredo a saga de Eliza termina com a suposta morte desta.
Podemos dizer que “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul” é um projeto de retomada do passado na modernidade. Uma mistura de manifestações históricas e ficcionais que nos permite apreciar uma parte da história do Brasil através de uma narrativa literária de grande porte, onde a mente do leitor, através de uma apurada leitura, deve interligar fatos e preencher os espaços existentes.
Assim, a obra termina por nos apresentar um enredo que, com muita precisão discorre em torno do perfil da mulher na literatura, tanto como escritora quanto como protagonista de sua própria história. Um romance que pode ser analisado sob inúmeros ângulos, trazendo a luz, mais uma vez, a comprovação de autoridade da escrita de autoria feminina.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato Aguiar. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
FOUCAULT, Michel. Ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
LOBO, Luiza. A Literatura de Autoria feminina na América Latina. Disponível em:
<http://members.tripod.com/~lfilipe/LLobo.html>. Acesso em: 03 abr. 2007.
. Terras proibidas, a saga do Café no Vale do Paraíba do Sul. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
PERROT, M. Práticas da Memória Feminina. Revista Brasileira de História, v. 8, n. 18, p. 9-18, 1989. Disponível em: <file:///C:/Documents%20and%20Settings/cliente/
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SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. “Não há revolução sem teoria”. In. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. (Coleção Brasil Urgente).
XAVIER, Elódia. Reflexões sobre a narrativa de autoria feminina. In: XAVIER, Elódia (Org.)
Tudo no feminino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.
ZOLIN, L. O. Desconstruindo a opressão: a imagem feminina em “A república dos sonhos”, de Nélida Piñon. Maringá: Eduem, 2003.
Bio fornecida pelo palestrante.
MINICURRÍCULO DE JORGE VENTURA: Jorge Ventura é carioca, escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Possui 11 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ, titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE-RJ e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, em nível nacional e internacional, como autor e intérprete. Alguns dos seus poemas foram vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego.
OUTRAS (POESIAS) URBANAS, OUTRAS (LENDAS) URBANAS NA NOVA OBRA DE JORGE VENTURA
Almir Zarfeg
Outras urbanas é o mais novo livro de poemas do poeta e editor, jornalista e ator Jorge Ventura. Trata-se de sua décima obra..
O título foi extraído do poema “Urbi et Orbi”, presente na quarta parte da nova obra intitulada “Caos”. Lê-se o trecho: “são ruínas aqui como em outras urbanas / cidades não têm culpa do que os homens fazem”. As outras três partes são “Gentes”, “Bichos” e “Ruas”, que examinaremos primeiro.
Senhor da palavra, o artista se apossa do texto poético e encara os aspectos verbais e não verbais do signo, fundindo verso e imagem, explorando ritmos e sonoridades. Ao mesmo tempo, imprime à obra um apelo social, uma urgência em resgatar (e instaurar) a normalidade tão desejada, visando, assim, à passagem do caos ao cosmo – se é que isso é possível, a essa altura dos acontecimentos.
A seção “Gentes” abre-se com o poema “Crueza”, que anuncia o que virá pela frente: uma série de textos com a desenvoltura técnica e temática de que as pessoas, com seu jeito de ser e estar no espaço urbano, são protagonistas. Citem-se os poemas “Culpa”, “Delinquência”, “Marginal”, “Romance Urbano”, “Droga”, “Feminicídio”, “Vulnerabilidade”, “Expatriado” e “Andar, Andar”. Enfim, títulos que compõem um vocabulário bem conhecido e que abarcam a violência urbana de que todos, querendo ou não, participam, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades.
“Crueza” retrata muito bem – através de redondilhas menores e tom pessimista impressos no espaço negro (não branco) da página – as impressões que o artista tem de si
e do mundo à sua volta: caos pessoal versus distopia social. Lê-se no poema em questão: “à sorte me atrevo / só creio em meus atos”. O poeta dispara: “vejo o que não devo / o osso em vez da carne”.
Na seção “Bichos” o leitor é presenteado, logo na abertura, com as redondilhas maiores do poemíssimo “Dúvida”: “Abro a caixa de Pandora / Sob o luar sedutor / Que selva aguarda lá fora? / Serei caça ou caçador?”
A seguir, somos envolvidos numa verdadeira (sic) fábula cujo melhor representante não poderia ser outro senão o bicho-homem que, cheio de arrogância, continua achando que sabe das coisas…
O destaque vai para “Zoo 1” e “Zoo 2”, textos povoados por bichos feitos mais de metáforas do que de realidades. No primeiro deles o poeta enumera os animais do marketing estampados nas latas, produtos, slogans e logos tão comuns numa selva de pedra como o Rio de Janeiro, mas que poderia ser qualquer outra metrópole brasileira. O poema acaba em chave de ouro, ou melhor, em advertência do Ministério do Marketing: “Cuidado, homem, o rifle da mídia costuma acerta o seu público-alvo”!
No segundo poema dessa seção “Bichos”, o bicho-poeta recupera algumas metáforas cotidianas que, de tão repetidas, já se tornaram piadas ou expressões assimiladas pela repetição. Ele se diverte: “Não suporto selvagens / nem aceito crocodilagem”. Outros poemas – como “Capital selvagem”, “Gatuna”, “Felina”, “Último uivo” e “Engasgo” – garantem o alto nível da seção pet. Inclusive com boas doses de lirismo e nenhuma referência – que peninha! – aos bichos do Barão de Drummond.
O texto “Engasgo” – pelo requinte estilístico, jogo metafórico e tensão simbólica
instaurados – merece uma análise à parte. Eis que o poeta, em visita à feira livre, se vê cara a cara com um peixe morto, à venda numa barraca. Eles se entreolham, como se fosse um amor à primeira vista. Em seguida, um espanto, um desconforto e um pedido de socorro se instauram instantaneamente. O envolvimento é tamanho que o eu lírico já desconfia de que aqueles olhos ainda detêm a vida e que, na verdade, suplicam por um salvador. Passado o entrevero, o poeta volta à realidade: “essa espinha – até hoje – / me atravessa a garganta”.
A seção “Ruas” começa com um “Maniqueísmo” de boas-vindas: “O que dá mais prazer entre Deus e Satã? / Os infernos da noite… Os céus da manhã…”. Pessoalmente, não tenho a resposta e tampouco saberia escolher, de pronto, entre céu e inferno. Talvez ficasse com os dois, mas não seria maniqueísmo nem dualismo psicopoético! Certo é que um poeta não menos sagaz já sacou que “Deus escreve certo por ruas tortas”.
Essa terceira parte – um flâneur mais atento vai notar isso – apresenta uma série de poemas que dialogam com a pandemia da Covid-19 e, também, com a morte – física ou
metafísica –, da qual nenhum cidadão consegue escapar. A propósito, leem-se “Lockdown”, “Memento pandêmico” (um grito em prol da utilidade poética), “Praça seca”, “Cemitério Municipal”, “Réquiem para uma flor” (à moda drummondiana), “Mártir”, “De todos os jogos o jogo” (gostaria de me deter nesse espetáculo/tragédia) e “Desorigem”, que li e comentei nas redes socais, enaltecendo o talento minimalista do autor.
Antes de entrar na quarta e última seção de Outras urbanas, precisamos nos valer da música: as quatro partes ou seções da nova obra de JV se nos apresentam como movimentos de uma peça sinfônica (“As quatro estações”, de Antonio Vivaldi, por exemplo), cujo 1º movimento mais rápido é seguido por um 2º movimento mais suave. O mesmo se dá com o 3º e 4º movimentos, que se repetem alto e baixo som, respectivamente.
Também verificamos quatro movimentos na obra em questão, em que o primeiro é sucedido pelo segundo, assim sucessivamente. No entanto, em vez do andamento alto/baixo, aqui temos uma espécie de “crescendo”, em que o 1º movimento alcança o 2º movimento, que atinge o 3º movimento, que finalmente chega ao 4º movimento. Mas isso se dá de maneira gradativa, em que a intensidade poética ganha qualidade técnica (forma e fundo) à medida que se verifica a passagem de uma seção para a seguinte. Essa é uma constatação minha pura e simplesmente.
Por fim, chegamos à seção caótica, “Caos”, em que poesia e prosa se confundem, gerando uma prosa poética (os leitores mais experimentados vão lembrar “Le spleen de Paris”, de Charles Baudelaire, e/ou “Spleen de BH”, de Leonardo de Magalhaens). Mas se trata de um caos urbano e, portanto, humano e histórico. A mesmíssima Cidade Maravilhosa de hoje foi, no início do século XX, apelidada de Cemitério de Europeu – de tanto malcheirosa, caótica e contaminante que era.
“Caos” se inicia com a pequena obra-prima “Ovulação” (haicai), que é seguida do ótimo “Urbi et Orbi”, do qual foi retirado o título da obra. A seguir, temos “Para amar e morrer”, “Tempos inexatos”, “Vampiros urbanos”, “A Chuva”, “Parque industrial” (abaixo o consumismo!), “Semáforo”, “Segunda-feira” e “Sempre assim”. Ainda que não abram mão do rigor formal, esses textos são marcados pela discursividade, informalidade e espontaneidade próprias da prosa e, portanto, conseguem dialogar mais e melhor com os leitores. Mas sem prescindir da poeticidade que, o tempo todo, se mantém presente, ou em estado de potência.
Haja fôlego para vivenciar tanta emoção proporcionada pela leitura de “Outras Urbanas”, que brinda seus leitores com o rigor técnico de um mestre da palavra e a riqueza temática de um cidadão do mundo antenado com os eventos atuais. Sem esquecer o projeto gráfico-visual de encher os olhos.
Comedido metaforicamente, equilibrado formalmente e plural humanisticamente, o autor nos envolve com sua poesia. Depois, só nos restará torcer para que caos se transforme em cosmo e a desordem dê lugar à ordem. Quanto às outras (lendas) urbanas, com a palavra Jorge Ventura!
NOTAS
1 Almir Zarfeg é poeta, jornalista e ficcionista. É vencedor de dezenas de prêmios em nível nacional e internacional, é fundador e Presidente de Honra da Academia Teixeirense de Letras (ATL) da Bahia.
2 Ventura, Jorge. Outras urbanas. Poesia. 108 p. Rio de Janeiro, Ventura, 2023. ISBN: 978-65-998703-2-3.
3 Ver https://jornalalerta.com.br/analise-do-poema-de-todos-os-jogos-o-jogo-presente-no-livro-outras-urbanas/.
Bio fornecida pelo palestrante.
Luiza Lobo toma posse na Academia Carioca de Letras – ACL – no dia 21/05/2025 – na vaga 29, do patrono Olavo Bilac e último ocupante Waldir Ribeiro do Val e sob a presidência de Sergio Fonta, vice-presidência de Adriano Espínola e saudação de Paulo Roberto Pereira. Participaram do evento os Profs. Alcmeno Bastos, Ana Arruda Callado, Antonio Carlos Secchin, Eduardo Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira.
Bio fornecida pelo palestrante.
Bio fornecida pelo palestrante.
William Soares dos Santos é professor de italiano e didática da Faculdade de Letra, poeta, contista e tradutor dessa língua.
Bio fornecida pelo palestrante.

Bio fornecida pelo palestrante.
Luiza Lobo fala de seu romance Terras Proibidas, da Rocco, que conta a história do barão de Vassouras e do café no Vale do Paraíba do Sul.
Bio fornecida pelo palestrante.
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA
LIVRO: Três sóis.
AUTOR: William Soares dos Santos.
Dados: São Paulo, Patuá, 2019. 142 p. Ilustrado.
ISBN: 978-85-8297-554-1
Resenha publicada na Revista da Academia de Letras do Brasil, n. 9, jan./jun. 2023: p. 154-156. Brasília, D.F., Editora Opção/Cajuína.
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UMA INFINIDADE DE SÓIS
Luiza Lobo
da ALB
Professor e tradutor de italiano da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor de Linguística Aplicada na sua pós-graduação, especialista em Shakespeare, com Dissertação de Mestrado sobre o autor, exímio desenhista, mestre em artes marciais, autor dos livros de poesia Rarefeito (Ibis Libris, 2015), Poemas da meia-noite (e do meio-dia), (Moinhos, 2017), Raro – poemas de Eros (Urutau, 2018), e autor do livro de contos Um Amor (Ibis Libris, 2016), além de diversos livros de ensaios, é difícil acompanhar a ampla atividade de William Soares dos Santos, que parece girar num eixo de 360 graus, incansavelmente. A tal ponto que percebeu que há três sóis no céu, o que ninguém ainda sabia, um segredo que agora nos revela no seu belíssimo livro lindamente ilustrado com figuras da arte clássica, renascentista e pré-rafaelita. O autor conseguiu unir aí, com apoio da cuidadosa edição da Patuá, artes gráficas e da escrita. Seus poemas vão além do tema sentimental e individualista, com um certo descuido da forma, que tem grassado em nossas Letras ultimamente – se é que ainda podemos falar de “Letras” num mundo tão desconexo e multifário como o em que vivemos, no qual agora descobrimos que não há só um, mas três sóis.
O tema de William lembra-me o da magistral trilogia de romances de Haruki Murakami, 1Q84, autor que merecia ter recebido o prêmio Nobel em lugar de outro japonês, Kenzaburo Oe, este sediado na Grã-Bretanha e seguindo a linha mais conservadora possível da literatura ocidental, além de tratar de temas pacifistas. Em 1Q84, num jogo simbólico com o famoso 1984, de George Orwell, o longo romance de 1.300 páginas se inicia com a capacidade de alguns habitantes de Tóquio de verem duas luas, em lugar da singela e prosaica Lua habitual, já tão despida de mistério e explorada ultimamente.
Sinal dos tempos pós-modernos, nos quais a literatura se torna essa arte de encontrar o insólito, o inusitado, o original num cotidiano tornado globalizado e previsível em quase todo o mundo. William busca essa linha de pesquisa sobre o nosso modo de (re)ver as coisas, não de forma desorganizada e mal-acabada, como tantos textos da atualidade, sem técnica, mas partir de um princípio desconstrutor da realidade. No início do livro, ela é vista à luz da metafísica, com a epígrafe de Henrique VI e o quadro O Parélio, ambos sobre o fenômeno da ilusão dos três sóis. Mas essa leitura renascentista já não corresponde mais o que as pessoas – pelo menos os poetas – esperam, na Terra.
Como afirma o crítico e poeta Adriano Espínola, nas orelhas do livro, essa multiplicação dos sóis representa, para o autor, um espaço “cósmico” e “epifânico”. Pouco importa que esse fenômeno ocorra real e raramente no hemisfério nórdico. Prefiro ver nessa temática uma retomada simbólica da revolução copérnica, desconstruindo as certezas e verdades de um mundo até agora organizado, com suas afirmações insofismáveis, e que vêm sendo desconstruídas desde Nietzsche. A proposta do autor, desde o Livro 1, Três Sóis, é romper com um mundo racional, num mergulho nas novas incertezas da atualidade, não despidas do temor do desconhecido: “Os três sóis / dançavam no etéreo / da galáxia / atraindo o planeta mais cheio de vida a / girar ao redor de / seu contrapasso. // O parélio que / fez-se claro / no horizonte / leva-nos à vertigem / do ocaso (Santos, 2019, p. 20). O parélio é o fenômeno em que cristais de gelo criam a ilusão da multiplicação dos sóis – explica o autor, em nota (p. 137).
O protagonista do livro é o Sol, em todos os momentos do dia e da noite, até o sol da meia-noite, em Reykjavík (p. 31), anunciando a aurora boreal (p. 32), e prenunciando a “Cobrança”, quando “A Terra cobra o seu preço / no clangor do verão.” (p. 35), e finalmente os Eclipses (Livro 2) Essas imagens, que terminam numa atmosfera apocalíptica, inserem o eu narrativo num universo muito mais profundo e gótico que o do simples eu poético – como ocorre nos poemas e nos desenhos de William Blake para o Paraíso perdido de Dante, bem conhecidos de William, sem sombra de dúvida.
É este “Over-soul” (p. 44) e a sempre ameaça de um apagar do sol, após seu multiplicar-se, que dão a dimensão telúrica a esse livro, inserindo o ser humano aí como um fantoche frágil e manipulável, ao bel-prazer das forças universais. Na epígrafe de Henrique VI, o rei Eduardo IV afirma: “Meus olhos me enganam, ou vejo três sóis?” e Ricardo II explica: “Três gloriosos sóis, /cada um perfeito, / Mas separados em um claro e límpido céu.”. Já na visão poética de William esse fenômeno atmosférico parece, antes, prenunciar um céu sombrio e apocalíptico de fim de mundo.
Nessa trajetória, as imagens e texto das três últimas partes do livro, num total de cinco, minimizam a figura humana, com toda a sua prepotência destrutiva em relação ao planeta, focando num histórico da cultura da arte através dos tempos: desde a pintura do parélio, em Estocolmo, de 1636, que sobreviveu apenas numa cópia de Elbfas, até esculturas da arte clássica grega, representando Apolo e Prometeu, que foi punido, justamente por querer dominar o fogo, ou quadros pré-rafaelitas.
O que me pareceu instigante nesse original livro de William Soares dos Santos foi a sua capacidade de mostrar nossas míseras vidas como “amantes de Kairós” (p. 128), “sem pudor”, // enquanto se comprimem / em desejo de saudades / transtornadas de passado”, numa total inconsciência da passagem do tempo, de Cronos. Na nossa insaciedade de cobiça e poder, ignoramos a passagem da água pela clepsidra da Terra.
Bio fornecida pelo palestrante.
Luiza Lobo fala de seu romance Terras Proibidas, da Rocco, que conta a história do barão de Vassouras e do café no Vale do Paraíba do Sul.
Bio fornecida pelo palestrante.
O HOMEM DO PLANETA AUSCHWITZ – Texto de Miriam Halfim
Teatro Laura Alvim. 6ª, sáb., dom. Estreia: 1º julho 2022. Até 31 julho 2022 e Funarj e Arcos produções. Vendas: funarj.eleventickets.com
Direção: Ary Coslov
Atores: Mario Borges e Susanna Kruger
Cenário: Marcos Flaksman
Figurino: Wanderley Gomes
Trilha sonora: Ary Coslov
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O SOBREVIVENTE DA ESTRELA AMARELA
REFLETIDA NOS ASTROS
Luiza Lobo*
No seu mais recente texto dramático, Miriam Halfim retoma o comprometimento com o teatro engajado, de ideias, que tanta falta faz nesses tempos hedonistas e negativistas pós-modernos. É um espetáculo forte, impressionante, montado num cenário em negro, com uma cerca de arame farpado, criação de Marcos Flaksman. A direção, de Ary Coslov, é segura, e os atores têm voz alta, impactante e convincente.
É claro que a falência da filosofia humanista ocidental já fora acusada desde Nietzsche, mas foi justamente com o nazismo que se abriu a maior brecha no pensamento e na política de Estado dos povos ditos civilizados e eruditos. A peça focaliza um encontro imaginário entre o escritor judeu polonês Yehiel De-Nur e a cientista política Hannah Arendt, que se exilou nos Estados Unidos ainda em 1933, portanto antes da criação dos guetos e dos campos de concentração nazistas. Arendt defende uma análise objetiva dos fatos, enquanto De-Nur, sobrevivente de Auschwitz, se choca com sua frieza, numa postura emocional.
A discussão imaginária entre os dois tem como ponto de partida um artigo publicado por Arendt na imprensa, intitulado “Eichmann em Jerusalém”, que foi amplamente criticado pela imprensa. Ali, ela expôs sua teoria da “banalidade do mal” e defendeu um processo dos nazistas de acordo com as regras jurídicas, inclusive o de Adolf Eichmann, chefe do campo de extermínio de Auschwitz, como o que foi realizado em Nuremberg, na Alemanha. Para Arendt, justiça e mídia são dois polos incompatíveis. De seu lado, De-Nur alega que esse julgamento frio e técnico nada mostrou da atrocidade praticada, nem do sofrimento humano das vítimas, exterminadas sem qualquer possibilidade de defesa e sem culpa por qualquer crime, e que, portanto, não comoveu a opinião pública. Alega que, em face da barbárie do genocídio, exigir uma justiça “normal”, como a de um país democrático, seria um ato de frieza e insensibilidade, e defende o julgamento realizado em Jerusalém, após o sequestro dos principais mandantes nazistas e sua condenação à morte. Para ele, o artigo de Arendt é uma prova de elitismo racional e universitário, distante do sofrimento das vítimas que foram brutalizadas e exterminadas sem razão. Segundo ele, só um julgamento emocional, como o realizado em Israel, com apoio da mídia, poderia ao menos em parte resgatar a atrocidade dos atos praticados por Adolf Eichmann.
Em seu artigo, Arendt caracterizou a “banalidade do mal” como o cumprimento de ordens sem raciocínio próprio nem discussão delas, numa atitude burocrática, de subserviência, sem visão crítica. Ela partiu do aspecto intelectual, individual, pontual, da questão. Já De-Nur se preocupou com a repercussão coletiva da opinião pública – tanto que passou a escrever diversos livros sobre o ocorrido nos campos de extermínio e visitou escolas, para conscientizar os jovens. Arendt acusa De-Nur de não ter confrontado Eichmann, ao ser interrogado no processo de Nuremberg. Ao invés, ele falou de astrologia, de estrelas e até desmaiou. Ele se justifica afirmando que a frieza e o riso cínico do carrasco, encerrado na sua confortável e protegida cabine de vidro, o fizeram silenciar. E a acusa de ter se refugiado nos Estados Unidos assim que possível, ter vivido como professora, longe dos fatos, e ter convivido com um antigo simpatizante das ideias nazistas.
A dramaturga opõe, no debate imaginário entre os dois protagonistas, a inclinação teórica de Arendt, com sua formação de cientista política e apreço pelo pensamento racional, a sociedade democrática e bem constituída, com leis em vigor, e a inclinação para a emoção de um sobrevivente quase por milagre, e marcado psicologicamente pelo dia a dia do holocausto. A pior crítica de Arendt, a meu ver, é de que os judeus não teriam se rebelado, teriam aceitado seu destino e até acreditado que iriam apenas trabalhar – e não seriam exterminados nos chamados “campos de trabalho” alemães.
A questão primordial da peça gira em torno do conflito entre racionalidade e emoção. Arendt contesta a emotividade propagada pela mídia e a necessidade de espetacularização dos fatos do cotidiano (conforme a definiu Guy Debord em A sociedade do espetáculo, obra de 1967). De-Nur se horroriza com a frieza metódica e científica da teórica, incapaz de viver na própria pele o sofrimento humano, e exigindo um julgamento justo para aqueles que criaram a mais injusta das tiranias da sociedade moderna. Inclusive porque alguns sobreviventes do holocausto terminaram por se suicidar, por não suportar o sofrimento que sentiram até o final de suas vidas. Afirma que, diante de crimes que ultrapassam o humano, leis “normais” não são suficientes para punir o chefe do campo de concentração nazista. Principalmente porque no pós-guerra os principais chefes já tinham fugido do país e trocado de identidade, alguns vivendo escondidos em países como Argentina e Brasil. Hoje é conhecido o preparo logístico de Hitler para uma fuga para a América do Sul, com a construção de ferrovias entre Buenos Aires e a Patagônia argentina e de moradias fortificadas naquele extremo, e de uma rede de apoio de neonazistas. No Brasil, também houve apoio para eles, com refúgio em hotéis distantes, onde, até, organizavam congressos que fomentavam o nazismo, em um hotel de Itatiaia.
Creio que a questão que a peça impõe é a exigência de um processo técnico, jurídico, legalista e democrático diante de crimes de exceção bárbaros dirigidos contra a humanidade, que passaram por cima de qualquer lei civilizada. Sem a emoção do povo e a indignação provocada com a divulgação pela mídia, haverá realmente a conscientização coletiva de forma que semelhantes crimes de genocídio não voltem a ocorrer? Por outro lado, é possível sequestrar criminosos de guerra e julgá-los, como ocorreu em Israel, ao arrepio da lei “normal”? Mas que “normalidade” existiu na própria criação de guetos e campos de extermínio, quando pessoas foram condenadas ao sofrimento, ao trabalho forçado, à fome, à morte, à destituição de seus bens e identidade, sem terem cometido crime algum?
Apesar de não ser correto realizar julgamentos sem seguir todos os trâmites jurídicos – que, aliás, levam décadas e não possibilitariam a punição dos criminosos, devido a sua idade avançada, por terem se escondido e trocado de identidade – dada a excepcionalidade dos fatos ocorridos, e sabendo-se quantos “julgamentos” políticos extrajudiciais ocorrem pelas mãos de espiões, da CIA, da KGB russa etc, a visão de De-Nur confronta o purismo acadêmico, de aguardar que o braço da justiça normal atingisse aqueles genocidas a tempo.
Interessantes analogias são traçadas por Miriam Halfim com nossos tempos atuais no Brasil e no mundo. Como reagir, que fazer nas ditaduras ou nos governos não democráticos? Como poderiam reagir as vítimas dos guetos e dos campos de concentração, dada a desigualdade de recursos? Estes, em suas casas, destituídos de tudo; os algozes, munidos do poder total do Estado e das mais poderosas armas dos SS. E por que não reagiu a própria população alemã, que via passarem trens de gado carregados de seres humanos em condições insuportáveis, de forma pior que o gado? Por que as ditaduras fazem silenciar os povos?
O artigo de Arandt define a banalização do mal numa perspectiva teórica, individual. Prende-se à falta de consciência e pensamento sobre os próprios atos. É uma resposta teórica da cientista política no âmbito individual da consciência racional para um problema que na verdade é da alçada da política, da coletividade e da sociedade – portanto da mídia, também, conforme alega o escritor Yeliel De-Nur. Ele afirma que no primeiro interrogatório de Nuremberg falou de estrelas e de astrologia como a única forma de expressar o sofrimento que sentia pelo seu estranhamento de que neste planeta o holocausto pudesse acontecer. Na verdade, só essa metáfora poderia representar todo o sofrimento humano vivido pelos judeus assassinados. Assim, por condensação metafórica, a estrela do céu remete à estrela que as vítimas eram obrigadas a usar no peito, desde que foram aprisionados em guetos. (Mas essa é uma longa história trágica, que já ocorria desde a Idade Média, na ascensão do mercantilismo, como estratagema para a impor a hegemonia religiosa cristã e seu domínio sobre as finanças e o Estado moderno emergente).
O mais importante, nesse renovado teatro de ideias, é o fato de estimular a abertura de debates, indagações, pesquisas. Só esse questionamento possibilita entender a questão do judaísmo no contexto do capitalismo cristão, que desde seu início utilizou as divergências religiosas como ponto de partida para a criação de um bode expiatório ocidental – quando, na verdade, a questão era quem deteria o capital e o poder.
Quando, ao final do espetáculo, os dois protagonistas bebem juntos um copo, combinam seus dois pontos de vista, a razão, e a emoção. O público então compreende a divergência milenar da guerra entre o bem e o mal, que reaparece na política sob diferentes disfarces. Impõe-se, como expõe Hannah Arendt em seu artigo, a necessidade de um pensamento lúcido e autocrítico sem descanso; mas também, como alega De-Nur, de sensibilidade e emoção, para que se transformem consciências e mentalidades. E isso só pode ser vivenciado e percebido pela emoção.
Estão de parabéns a autora e a equipe técnica desse belo espetáculo nesses tempos de retorno do mal. Filmado e distribuído na Internet, ele poderá atingir um público ainda mais amplo.
Rio, 11 de julho de 2022.
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* Luiza Lobo é professora aposentada e ex-pesquisadora 1 da UFRJ, entre outras universidades nacionais e internacionais. É autora de 20 obras, sendo as mais recentes Cânone e renovação do cânone em literatura (antologia de ensaios, Amazon 2019) e dois romances: Fábrica de mentiras: do Vale do Café ao Arco do Triunfo (RJ, 7Letras, 2022) e Terras proibidas: o Vale do Café (RJ, Batel, 2022).
Bio fornecida pelo palestrante.

O CREPÚSCULO DO AMOR
Entrevista com Adriano de Paula Rabelo
Por Virginia Nogueira –
Pós-graduação da PUC de SP
Obra: O amor é um abismo furtivo, Amazon, 2020.
ADRIANO RABELO
Adriano de Paula Rabelo tem publicado obras literárias de sua autoria, bem como traduções de textos literários a partir das línguas inglesa e francesa. Também possui livros publicados no campo do ensaísmo. Tem sido professor de literatura e cultura brasileira no ensino superior. É doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas. Nos últimos anos, publicou Desabraçar (Patuá, 2018), Ouriço: Senso incomum (Aglaia, 2019) e Esta agonia é o nosso triunfo: As cartas de Sacco e Vanzetti (Edições 70, 2020).
O amor talvez seja o assunto mais recorrente na história da literatura, revelando-se inesgotável na pena de escritores de todas as épocas, que têm explorado minuciosamente as mais diversas concepções e as mais variadas nuances deste sentimento. É o caso de Adriano de Paula Rabelo em seu mais recente livro de contos, intitulado O amor é um abismo furtivo (São Paulo, editora Aglaia, 134 páginas). Autor de outro livro de contos, em que aborda múltiplos aspectos das relações familiares, nesta obra Rabelo focaliza, em especial, um momento específico do processo amoroso: o instante em que o amor acaba e os amantes se separam. É sobre isso que conversamos com ele.
Se o amor sempre contém um abismo oculto, como dá a entender o título de seu livro, conclui-se que você é contra o amor e não o recomenda a ninguém…
Quem sou eu para ser contra o amor! Quem sou eu para recomendar a quem quer que seja que ame ou deixe de amar! Mas de fato há um abismo furtivo em cada amor, no qual todos nós já caímos alguma vez na vida. Ele tem a ver com a fragilidade e a incoerência humana, com nossa enorme precariedade, que se reflete na pouca solidez dos laços que estabelecemos com os outros. As tragédias gregas costumavam terminar, depois de acontecimentos terríveis, com o coro ocupando o centro do palco e refletindo que ninguém pode se dizer feliz antes de morrer, pois podemos perder tudo a qualquer momento e mergulhar na infelicidade. Édipo ou Medeia que o digam! Sinto que no amor é a mesma coisa. Podemos perdê-lo a qualquer momento, ele pode acabar no meio da jornada que percorremos juntos, muitas vezes causando enormes sofrimentos, de modo que não podemos dizer que fomos felizes no amor antes de morrer. No máximo podemos dizer que nele fomos felizes por algum tempo, em geral no começo. Não conhecemos muito bem nem a nós mesmos. Muitas vezes nos surpreendemos com nossas próprias atitudes. Imagine só o quanto ignoramos do outro. No entanto, viver é se lançar e correr riscos, senão simplesmente existiremos de modo inautêntico e banal. Por isso, apesar de a separação ser a lei do mundo, seguimos amando e nos fazendo amar.
Você parece ter verdadeira obsessão pelo fim do amor. Sua história pessoal tem sido marcada por rompimentos traumáticos?
Como todo mundo, tenho experimentado meus rompimentos e minhas perdas. Esse processo é sempre mais ou menos traumático, dependendo do quanto você se envolveu no relacionamento, do que construiu juntamente com a pessoa com quem compôs um casal, do momento em que a separação aconteceu, da forma como aconteceu. Há sempre um processo de luto mais ou menos demorado até que se possa voltar a experimentar o prazer de uma solidão escolhida e o momento de se permitir ao outro novamente. Ou de seguir sozinho, o que é uma escolha legítima. Mas minha experiência pessoal não tem importância no que tange a meus contos. O que importa é se eles funcionam bem como narrativa, se tocam a sensibilidade dos leitores. Há sempre aqueles que gostam de identificar personagens ou acontecimentos ficcionais com o autor. Não que a experiência biográfica do escritor não tenha importância alguma. Mas é preciso ter em vista que os personagens e acontecimentos da literatura são sempre mais coerentes, mais significativos e mais reais que os da realidade.
Suas histórias dão a impressão de que o amor está pré-programado para acabar. É assim que você o concebe?
Sim, todo amor vai acabar. A grande maioria deles acaba em alguns anos, às vezes em alguns meses. Mesmo aqueles que duram um tempo mais longo acabam na morte dos amantes. Somos seres finitos e tudo o que é humano está sujeito à finitude. As novelas, as séries de tv, os filmecos americanos e as canções água com açúcar, em seu romantismo obsessivo-compulsivo, estão sempre batendo na tecla de um amor panaceia, que tudo resolve, que tudo vence, até mesmo a morte. Ora, a morte demole o amor com um piparote. Isso não quer dizer que, quando acontecer, o amor não possa ser fruído mesmo em sua precariedade, no que ele tem de bom no momento presente, não como redentor de nossas misérias ou paraíso vindouro. Sua fragilidade pode mesmo constituir um de seus encantos.
Mas será mesmo que essa visão do amor é típica da arte banal, de massas? E o famoso “amor que move o sol e as outras estrelas” com que Dante termina a Divina comédia?
No caso de Dante, ele obviamente não se refere ao amor Eros, mas ao amor Ágape, ideal espiritual do cristianismo. No entanto, houve momentos na história da grande literatura em que o amor Eros foi cantado e decantado como sendo o nec plus ultra da experiência humana. Para ficar só nos poetas, pode-se mencionar a lírica amorosa da Idade Média e todo o movimento romântico do século XIX, ou poetas de épocas muito diversas, como Safo de Lesbos, Catulo, Petrarca, Camões, Tomás Antônio Gonzaga, Vinicius de Moraes. Todos eles criaram obras de grande beleza. Não é o tema que faz a grande arte, mas a força expressiva do artista. O que me parece que estamos discutindo neste ponto não é exatamente literatura, ou seja, se existem assuntos típicos da arte autêntica ou da criação banal, mas relações de casal, ou seja, se a concepção romântica do amor erótico é adequada, em especial num tempo como o nosso. A mim, essa concepção me parece desastrosa.
Por quê?
A vida é muito vasta e muito complexa, com muitas dimensões tão válidas quanto o amor: a amizade, a busca do conhecimento, o desenvolvimento de talentos e vocações, a conquista da independência, o amadurecimento, a realização pessoal, a espiritualidade… Quando sobrevalorizamos um amor idealizado, colocando-o muito acima dessas outras dimensões, como fonte única de sentido de nossas vidas, não só nos limitamos muito como corremos o risco de perder, ao perder o amor, o sentido e o valor de nossas vidas. Ora, perder um amor não é o fim do mundo, apesar de carregarmos essa sensação por alguns meses, até a dinâmica da vida redirecionar nossas atenções e nossos afetos. A realidade é muitas vezes dura, grotesca, aborrecida, e as pessoas são muito imperfeitas, muito inconstantes, ora bastante atraentes e estimulantes, ora tediosas e insuportáveis. E as relações interpessoais são sempre conflitivas. Portanto, ir para um relacionamento, em especial para um casamento, imbuído da idealização romântica do amor é a receita segura do fracasso.
Voltando à literatura, percebe-se, nos escritos de grande parte dos autores contemporâneos, uma predominância de textos curtos que tratam de assuntos “menores”, sem a pretensão de oferecer uma mensagem universal. Em geral, seu foco está no indivíduo, no cotidiano, na fragilidade humana. Além disso, a literatura atual, em sua quase totalidade, aborda personagens e temas urbanos. Por que isso?
A literatura contemporânea, como a filosofia contemporânea ou moda contemporânea, é um produto do nosso tempo. Na Antiguidade, por exemplo, acreditava-se que a Terra era o centro do universo e que o homem era “a medida de todas as coisas”. A grande literatura de então tratava de assuntos “maiores”, em linguagem sublime, com personagens extraordinários como Ulisses, Orestes, Édipo, Medeia ou Eneias, que realizavam grandes feitos ou eram vítimas de tremendos infortúnios. Essas grandes figuras personificavam o heroísmo, a condição humana, a nacionalidade e protagonizavam acontecimentos nada cotidianos. No rolar dos séculos, fomos descobrindo não somente que a Terra não é o centro do universo como é um grãozinho de areia muito insignificante e muito periférico numa imensidão inimaginável para o homem da Antiguidade. Do mesmo modo, fomos perdendo importância como senhores do mundo, autônomos e autoconscientes, até nos enredarmos num cotidiano marcado pela fixidez, o automatismo, a passividade, nos tornando escravos de um emprego muitas vezes frustrante, do consumismo e do entretenimento banal. Num mundo assim, a literatura contemporânea só poderia ser como é. Porém muitas vezes ela é grande abordando assuntos “menores” por meio de textos em geral curtos. Não é isso que define seu valor. Quanto à predominância absoluta de personagens e temas urbanos, isso também é reflexo de um mundo que se tornou, ao longo do século XX, quase que absolutamente urbano. O Brasil, por exemplo, era 70% rural nos anos 1940. Não surpreende que os anos 30 do século passado tenham gerado uma vasta literatura regionalista que tematizava o sertão e outras regiões não urbanizadas do interior do país. Hoje a sociedade brasileira é cerca de 85% urbana. E mesmo a população rural tem hoje em dia um estilo de vida e valores bastante parecidos com os que predominam nas cidades. Não surpreende, portanto, que a literatura atual contenha essa abundância de temas e personagens urbanos que você menciona.
Percebe-se, nos contos deste seu livro, um trabalho formal em que você lida com o fracionário, o fragmento, o inacabado. Com isso você buscou refletir a realidade do nosso tempo? Em que sentido?
Sim, nesta reunião de contos sobre o fim do amor, alguns textos se formam com a justaposição de visões diferentes sobre um mesmo acontecimento, divisão de uma história de amor ao longo de alguns meses, coletânea de mensagens trocadas pelos dois membros de um casal, uma junção de curtíssimas histórias de amor/desamor contadas apenas no que elas têm de essencial, em três ou quatro parágrafos… A era do Google, do WhatsApp, do YouTube, do Tinder, do Netflix, do Spotify, da Amazon, das redes sociais, dos jogos eletrônicos, dos portais de pornografia disponíveis para todos na internet é, por excelência, a era do fragmentário, do inacabado, das pílulas de informação, do saltar de uma canção para outra, de um vídeo para outro, de um filme para outro, de um perfil para outro, de uma busca para outra sem nem ao menos ler, ouvir ou ver tudo o que a tela oferece. Além disso, é comum fazermos várias coisas ao mesmo tempo, dividindo ainda mais nossa atenção. Isso tem tido reflexos na sensibilidade e na capacidade de compreensão das pessoas, que já não conseguem manter-se atentas na mesma coisa por um longo tempo ou fazer um esforço de compreensão do que não possui um significado evidente. Se não tivermos uma satisfação imediata de nossas expectativas, simplesmente abandonamos o que estamos fazendo e saltamos para outra coisa. A segmentação de alguns de meus contos busca dialogar com essa realidade ainda nova para todos nós. Aparentemente a era dos grandes panoramas, das grandes narrativas, das abordagens totalizantes, terminou, até mesmo pela prosaica falta de tempo do leitor comum para se engajar na leitura de um Fausto ou uma Guerra e paz. Do mesmo modo, grandes conceitos como “conhecimento”, “liberdade”, “verdade”, “progresso”, “nação” foram estigmatizados como legitimadores de uma autoridade intelectual e política anacrônica e conservadora. De modo que a realidade contemporânea nos convida o tempo todo a pensar sobre o pequeno, o efêmero, o imperfeito, o inacabado.
Como surgiu a ideia de escrever este livro?
Sou grande apreciador de museus e os visito regularmente. Tenho tido a oportunidade de fazer isso em muitos lugares, no Brasil e no exterior. A experiência museológica mais marcante que já tive não foi em alguma das grandes instituições de Nova York, Londres ou Paris. Foi numa pequenina, chamada Museu das Relações Terminadas, que fica na cidade de Zagreb, capital da Croácia. Faz uns cinco ou seis anos que passei ali toda uma tarde, contemplando seu acervo de objetos que remetem a histórias impressionantes de relacionamentos afetivos que tiveram um fim com a separação ou a morte. Quando saí para a rua, ainda comovido, me veio a ideia, ainda vaga e fugidia, de escrever uma série de histórias que focalizassem o momento em que o amor acaba, que refletissem sobre os descaminhos da vida que provocam a separação de pessoas que um dia se amaram. Mas não estou bem seguro de que a ideia surgiu ali mesmo. Um livro vai se formando bem devagar, ao longo de muitos anos, no espírito do escritor, a partir de suas experiências, conhecimentos, leituras, conversas com outras pessoas, acontecimentos de seu tempo. De modo que é sempre difícil precisar um quando, um como ou um por quê. Além disso, a necessidade de escrever é sempre prioritária em relação ao tema. Há grandes obras sobre quase nada ou sobre temas aparentemente pífios. Em meu caso, a partir de uma inquietação direcionada para a escrita, gosto de escolher um tema e produzir uma série de contos sobre ele. De todo modo, embora seja um aspecto importante, o tema costuma ser secundário.
Para finalizar, como você vê o que se tem feito na literatura brasileira hoje?
Eu diria que a literatura brasileira de hoje vai muito bem. Há uma grande quantidade de excelentes escritores fazendo coisas muito variadas e focalizando, pelos mais diversos pontos de vista, este momento terrível pelo qual o Brasil está passando. Para ficar apenas em alguns que admiro, eu citaria Milton Hatoum, Michel Laub, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Adriana Lisboa, Cristóvão Tezza, Conceição Evaristo, Chico Buarque, Ricardo Lísias, Bernardo Carvalho, André Sant’Anna, Marçal Aquino, Bernardo Kucinski, Julián Fuks… e por aí vai. Por outro lado, há uma grande quantidade de editoras pequenas publicando autores desconhecidos, algumas delas com excelente produção gráfica, o que estimula novos talentos literários que não teriam oportunidade em editoras grandes e prestigiosas. Se a crítica literária mais séria está hoje encastelada na universidade, há uma enorme e positiva proliferação de sites, blogs, videologs e canais no YouTube tratando de literatura, debatendo-a e oferecendo orientação para escritores e leitores. Há feiras literárias de norte a sul do país, mesmo em cidades pequenas. Apesar de a literatura sofrer hoje muita concorrência do entretenimento audiovisual, ela segue tendo um público crescente e fiel. Claro que existem a catástrofe de nosso sistema de educação, o analfabetismo funcional de grande parte da população, muita gente não conseguindo suprir sequer suas necessidades mais básicas de subsistência, a dificuldade de acesso ao livro nas regiões menos estruturadas, o apego vicioso à tela do telefone móvel. Se com tudo isso ainda se faz uma literatura de excelente qualidade no Brasil e ela ainda mantém e expande o seu público, temos razões para estar otimistas.
O amor é um abismo furtivo, de Adriano de Paula Rabelo, pode ser adquirido pelo site www.amazon.com.br.
Bio fornecida pelo palestrante.

Entrevista com Adriano de Paula Rabelo
Acaba de ser publicado, pela editora Aglaia, de São Paulo, o livro Ouriço: senso incomum, do escritor mineiro Adriano de Paula Rabelo. A obra é composta por uma coletânea de frases sobre os grandes temas da humanidade: o amor, a morte, Deus, o tempo, a política, a linguagem. O autor, que no ano passado foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e neste ano foi indicado ao Prêmio Jabuti por seu livro de contos Desabraçar, falou nesta entrevista sobre seu novo trabalho.
Seus aforismos, em grande parte, buscam desconstruir frases feitas e expressões consagradas repetidas por muita gente em nossa cultura. O que o levou a fazer isso?
Tudo o que é repetido indefinidamente gasta-se e perde força expressiva, passando a não mais dizer muita coisa. Lembro-me de um episódio da infância, no finalzinho dos anos 1970, quando eu disse a palavra “bunda” diante de meu avô, que era um homem bastante severo, à antiga. Aquilo provocou-lhe um escândalo inaudito, e fui duramente repreendido por pronunciar aquela barbaridade, aquele termo tão assombrosamente vulgar. Eu, que muito respeitava meu avô, fiquei sem saber onde enfiar a cabeça. De lá para cá, a palavra foi sendo usada com tanta frequência que foi perdendo a conotação negativa até se tornar um vocábulo comum, presente até mesmo na fala dos mais pudicos, dos mais educados e dos mais elegantes. É preciso sempre renovar as formas de expressão, enxergar o mundo por outros ângulos. Nenhuma ideologia, nenhuma religião, nenhum discurso, enfim, abarcam a complexidade da realidade e a vastidão da vida. Sempre ficam lacunas, interditos e não ditos clamando por serem expressos. Por isso a literatura, a arte em geral, e a reflexão crítica são infinitas.
O Brasil e o mundo vivem atualmente uma crise da linguagem, não?
Sem dúvida. A internet deu voz pública a todo mundo. Basta acessar as redes sociais ou os fóruns de discussão, postar um vídeo no YouTube. O que teoricamente seria algo bom, por ser democratizante e por ampliar os horizontes de todos nós, tornou-se um inferno de insultos, banalidades e vulgaridades de toda sorte, com pessoas vivendo e pensando exclusivamente dentro de uma bolha ideológica, exalando preconceitos e extremismos por meio de uma linguagem miserável. Foi o que vimos nas eleições do ano passado, em que não houve um debate construtivo de ideias, com argumentos válidos. Assistimos à apoteose das fake news, da bestialidade nas falas, da polarização estéril. E tudo isso gerando popularidade e dividendos políticos! Vimos certas palavras não mais dizendo o que elas significam, tais como “ideologia”, “comunista”, “nazista”. O sentido em que foram e ainda têm sido usadas se caracteriza por ser muito pessoal ou, no máximo, do âmbito de determinados grupos, constituindo uma espécie de autoverdade. Mas a linguagem é a grande mediadora que nos liga numa comunidade, e os sentidos das palavras têm uma história comunal. Quando passam a ser usadas pessoalmente ou com sentidos arbitrariamente dados a elas por grupelhos ideológicos, está rompida a capacidade de nos compreendermos e está aberto o caminho para a prática de abusos e violências. No Brasil e no mundo de hoje, parece que todos falam, mas ninguém ouve ninguém. Nem tem a disposição de fazê-lo.
Você identifica, na cena pública, um grande descompasso entre o que se diz e o que se faz?
O tempo todo. Agora mesmo estamos diante desta crise em que um ex-juiz e um procurador federal, que se autoproclamavam paladinos da moralidade na luta contra a corrupção, revelam-se como o Tartufo e o Falstaff da atual cena pública brasileira. Recentemente, na campanha eleitoral, vimos políticos gabando-se de não serem políticos. E desde sempre temos essa polícia, em grande parte apodrecida, em simbiose com o crime que deveria combater. É o mundo às avessas. Nossos filhos estão sendo educados assistindo ao mais deslavado cinismo das falas – em geral de moralistas – na esfera pública do país, amplificadas pelos meios de comunicação hoje onipresentes. É um tempo de trevas que, como sociedade, teremos de lutar muito para superar.
Voltando ao livro, como surgiu e o que ele possui de especial?
Sempre gostei de frases que dizem muito com poucas palavras. Durante muito tempo fui até um colecionador delas, primeiramente num caderno, depois no computador. Como sou um leitor voraz de todo tipo de assunto, elas sempre frequentaram meu dia a dia. Com o tempo, comecei eu mesmo a escrever minhas próprias frases a partir de observações e reflexões sobre a realidade, os acontecimentos pessoais e coletivos, as perplexidades que todos tempos diante dos mistérios da vida. Depois de vários anos, percebi que possuía material para um livro, este que está sendo lançado agora. Se é que ele possui algo de especial, é uma perspectiva peculiar a um sujeito ao mesmo tempo do interior de Minas e do mundo que está muito ciente dos limites de seu conhecimento, da fugacidade da vida e da fragilidade das coisas humanas.
Por que Ouriço?
Os pensamentos expressos pelos aforismos contidos no livro se pretendem “espinhosos”, perturbadores, críticos, indo na contracorrente do senso comum. Mas, sem perder a ternura, em vários momentos são líricos, poéticos também. De modo que o ouriço, um animal cheio de espinhos mas não agressivo, é uma boa imagem para exprimir isso.
Na literatura contemporânea, proliferam-se as obras curtas e fragmentárias. Você acredita que essas formas simples e breves são expressão de uma era em que as pessoas vivem correndo de uma atividade para outra, de um relacionamento para outro, sem ter tempo para quase nada?
Sim, infelizmente, pois sou fã dos trabalhos extensos, com uma ampla abordagem da existência. Pensemos em Guerra e paz, de Tolstói, Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Em busca do tempo perdido, de Proust, Fausto, de Goethe, Os miseráveis, de Victor Hugo, Os sertões, de Euclides da Cunha, Odisseia, As mil e uma noites, A divina comédia, D. Quixote, a Bíblia… Ninguém devia morrer sem ter lido essas grandes obras. Mas vivemos hoje os tempos líquidos, na definição de Bauman, em que tudo surge para não durar, não apenas as mercadorias, mas também as relações humanas, o trabalho, os projetos de vida. Numa época em que não temos tempo para quase nada, em que saltamos de uma coisa para outra, sem parar, a lógica desse estilo de vida só pode ser a do efêmero e do fragmentário. Embora essa lógica dificilmente abarque muita coisa da existência e do mundo, pode ser poética e profunda, como tantos trabalhos contemporâneos têm mostrado. A criatividade humana é inesgotável.
O livro Ouriço: senso incomum pode ser adquirido no site www.amazon.com.br
Bio fornecida pelo palestrante.

O SENSO INCOMUM DE UM FRASISTA DE PRIMEIRA: ADRIANO DE PAULA RABELO
Ana Clara Batista de Almeida
Universidade Federal de Minas Gerais
Resenha sobre o livro Ouriço: senso incomum, de Adriano de Paula Rabelo.
São Paulo: Aglaia, 2019. 152 páginas.
Fazia já algum tempo que eu não tinha contato com um livro de aforismos originais. Em geral, as coletâneas de frases reúnem sentenças pronunciadas ou escritas por personalidades famosas ou recolhidas em grandes obras da literatura, da filosofia e das humanidades, bem como nos livros sagrados. Foi, portanto, com certa surpresa que li Ouriço: senso incomum, de Adriano de Paula Rabelo. Envolvida pelas criativas e provocadoras elucubrações do autor, não consegui deixar o livro até praticamente terminar a leitura numa só sentada. Depois disso ainda voltei a ele várias vezes, relendo várias páginas aleatoriamente.
Dividido em quatro partes – “Sociocultural”, “Sentimentos”, “Linguagens” e “Especulações” –, o livro coleta pensamentos sobre as questões essenciais do homem: o amor, a morte, Deus, o destino, a sexualidade, o sucesso, a felicidade, a beleza… A vivacidade dura, provocadora e espinhosa da linguagem do autor chega a lembrar o estilo do panfletário austríaco Karl Kraus, frasista de muita verve. O humor ácido com que critica os costumes lembra a irreverência do aforista italiano Pitigrilli. O destemor com que vergasta instituições falidas e personalidades reacionárias lembra a postura do jornalista americano H. L. Mencken. Já o deboche com que ataca alguns valores consagrados da nossa época lembra o nosso Nelson Rodrigues, que não por acaso está presente na epígrafe do livro. Não sei se Rabelo conhece todos eles. Nem isso importa muito. Se não se pode falar de influência, certamente se pode falar de afinidades eletivas com esses quatro grandes satiristas do século passado.
Parodiando provérbios, frases feitas e sentenças consagradas nas grandes obras, o autor de fato constrói uma ode ao “senso incomum”. Chacoalha a poeira daquilo que é repetido popularmente ou de forma pretensamente intelectual, automaticamente, sem reflexão, como os cães que latem ao ouvir outros cães latirem. Afinal, qual seria o sentido de se escrever um livro, se for para pensar de novo o já pensado, da mesma forma como já foi pensado?
Se as grandes frases que circulam por nossa cultura – muitas vezes repetidas sem crédito ao autor ou à obra de que se originam – quase sempre constituem sentenças morais ou moralizadoras, pode-se dizer que os aforismos de Adriano de Paula Rabelo são amorais. Eles não se preocupam em moralizar nem inverter simplesmente a moral consagrada em busca de uma originalidade forçada. É como se o autor não se guiasse por um código de moralidade prévio e definidor de suas concepções, que vão se apresentando na escrita ao sabor dos efeitos expressivos, da poesia da sintaxe, da morfologia e da semântica da língua portuguesa.
Vejamos alguns dos recursos utilizados por ele:
Aliteração:
“Casamento: recíproco leito de Procusto.”
“Bobos são os bons bombardeados pelo padecer.”
“Amor materno: meio Maria, meio Medeia.”
Assonância:
“Os outros compõem um monstro só olhos.”
“O coração é o bobo do corpo.”
“Sem o riso, a realidade nos convocaria ao suicídio.”
Metáfora:
“A boa reputação, esse piolho da moralidade.”
“O amor é uma brotoeja da eternidade.”
“A inveja é o subúrbio do ódio.”
Antítese:
“Gente fina, pura grossura.”
“Amar é atormentar-se docemente.”
“Um feio assunto rende lindas histórias.”
Paradoxo:
“Sofrimento passa, mas é para sempre.”
“Para execrar o cinismo, encontremos um cínico.”
“O silêncio fala demais.”
Rima:
“Só se pode ser bonito sem faniquito.”
“Ao burro, basta o urro.”
“Distraídos, desunidos.”
Paronomásia:
“Rumores não têm rumo.”
“Um ator: ou atordoa ou atormenta.”
“Mostre-me uma musa e lhe mostrarei um museu.”
Intertextualidade e paródia:
“A feiura não está nos olhos de quem vê.”
“A mentira possui pernas curtas porém asas longas.”
“O homem é a desmedida de todas as coisas.”
“Os que não viram e creram, deles é o reino da manipulação.”
Jogo com o duplo sentido das palavras:
“A paixão é cega e surda, mas não muda.”
“O homem grávido é algo que não se pode conceber.”
Humor:
“O pior voyeur é aquele que não quer ver.”
“Amor: óleos nos olhos.”
“Quando conseguir me encontrar, me direi poucas e boas.”
“Há poemas sublimes como um furúnculo.”
Essa verve espinhosa está em consonância com a metáfora do “ouriço” que dá título ao livro. Se se tiver de classificar a filosofia que o perpassa, talvez ela possa ser aproximada de um misto de estoicismo e epicurismo em seu pessimismo e desapego de base. É o que transparece em frases como estas, que enfatizam a fragilidade das coisas humanas:
“Recém-nascido é um ser humano velho o suficiente para morrer.”
“A luxúria sempre renasce das próprias secreções.”
“O ser humano está mais para piramboia que para Pirandello.”
“Por dentro de um corpo bonito, apenas um esqueleto horrendo.”
Chama a atenção também o diálogo do autor com o momento tenebroso por que estamos passando. Títulos como “Cunha”, “Bozano”, “Skaf”, “Liberalite”, “Homo demens”, “#MeToo” falam por si mesmos. Já no campo das frases, algumas parecem tratar diretamente de absurdos recentes:
“O juiz é um sicário vicário.”
“Os linchadores de teclado têm medo de sangue.”
“Quando um político se diz não político, politicalha.”
“Quem entende o que quer procura desentender-se.”
Mas o autor também é terno e lírico em alguns momentos:
“No abraço da infância, a vetustez se desmancha.”
“Ser o que meu cão acredita que sou.”
“Uma bela boca vale mais que belos ditos.”
“Os momentos felizes, não os passamos, nós os possuímos.”
Enfim, Ouriço: senso incomum é um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos, seja pela qualidade da expressão do autor, seja pelo conteúdo filosófico e a poesia das frases, seja pela renovação de um gênero secularmente explorado, seja pela discussão leve mas profunda de problemas fundamentais da humanidade, seja pelo debate acerca das misérias do nosso tempo. Parece-me que desses novos autores, a maioria desconhecidos a publicar por editoras pequenas, faz-se hoje a literatura brasileira mais interessante.
O livro Ouriço: senso incomum pode ser adquirido no site www.amazon.com.br
Bio fornecida pelo palestrante.

Ivan Neves Marques Júnior
Mestre em Estudos Clássicos – Universidade de São Paulo
Resenha da obra
Ouriço: senso incomum, de Adriano de Paula Rabelo
São Paulo: Aglaia, 2019. 152 páginas
Aforismo é uma sentença de cunho moral ou prático que, de certa forma, sintetiza um pensamento e eclode no raciocínio do leitor. Por óbvio, essa é apenas uma das formas de se definir um aforismo. Mas ela se encaixa na percepção resultante dos muitos que encontramos na mais recente obra de Adriano de Paula Rabelo, intitulada Ouriço: senso incomum. Segundo o autor, o título da obra tem a ver com o desejo de perturbar e estabelecer uma crítica de comportamento, mas de uma forma pacífica, tal qual o animal ouriço, dócil e ao mesmo tempo repleto de espinhos. Rabelo possui vários livros em seu currículo, mas quem leu seu último trabalho, Desabraçar (se você não leu, leia, pois é muito bom), e agora este, verá que sua última ocupação tem sido desvelar a crueza dos costumes humanos em suas idiotices, hipocrisias, vergonhas, bizarrices, fascismo, vulgaridades etc. E, se esse processo de censura aos costumes (sutil ou mesmo aberta, por vezes dissimulada) permanece, o estilo do autor começa agora a soltar as amarras da norma culta, caminhando com segurança numa plataforma de escrita que se compõe agora de neologismos e uma infinidade de recursos da linguagem, trazendo uma verve refrescante ao domínio de sua escrita. Para que o leitor tenha uma pequena ideia do que isso significa, não há outro caminho para se alcançar a potência de escrita e força narrativa de um Machado de Assis, um Guimarães Rosa ou um Graciliano Ramos.
O livro de divide em quatro seções. Elas compartimentam aforismos que, normalmente (ou seja, não todos eles), singularizam um costume, uma crença, um pensamento marcado pelo senso comum, para tão somente, no mesmo instante, destruí-lo. Esse recurso de singularização e explosão também aparece (embora numa outra variante discursiva) na obra Desabraçar e parece se configurar uma inovadora característica do autor. Essas quatro seções também servem para apontar as maneiras encontradas por ele para desaforar a vida através de seus aforismos. Que os leitores me perdoem o trocadilho, mas ele cabe e é proposital.
Na primeira seção, intitulada Sociocultural, prevalece um riso oblíquo, sarcástico ou até debochado sobre o famoso contrato social, que hoje mais parece um peso a se carregar pela vida, uma espécie de saco de pedras que hedonismo nenhum alivia. A arma mais pesada contra esse tipo de coisa é o riso. É a arma mais poderosa capaz de destruir uma instituição, aniquilando justamente todas suas crendices, insanidades e absurdos, que demais transitam em seu próprio meio, sempre numa corrente cínica, empacotada na mais pura normalidade. Quando, no aforismo Consultas, o autor diz que “O horóscopo é o meretrício da esperança”, não busca com isso desatar a risada, mas cortar o costume pelo sarcasmo, irritando o maneirismo da vida comum pelo quase deboche. E o que dizer de Estirpe: “A Justiça tem classe”? Talvez injusto, não? Afinal todos nós ganhamos 50 mil por mês, não é mesmo? Todos nós recebemos auxílio-moradia, não é verdade? O caminho desse riso é a lembrança de que há entre nós uma constituição social, um tecido feito aparentemente de “contratos” entre seus componentes, em suma, todos os cidadãos. Caia o leitor das nuvens de algodão e saiba que os homens formam um contrato social não por anseios altruístas e colaborativos, mas por instintos de disputa e autopreservação. Isso pode lhe parecer pessimista, caro leitor, mas é o jeito como a coisa é. E seja qual for sua orientação política, Vossa Senhoria há de convir comigo que não vivemos exatamente dias de celebração de pactos sociais, daí o peso em nossas vidas sem que sequer percebamos. Diz o próprio autor: “Civilização é a barbárie enluvada”. Tapa com luva de pelica na nossa esperança de que tudo vai bem.
Recheada de torções de frases feitas, a segunda seção traz aforismos sobre os Sentimentos. Que me perdoem os leitores, mas acabei de ler o livro e talvez ele tenha me contagiado de certo deboche raivoso, afeto resultante de uma desesperança ou vazio trazido pela vida à maneira como vimos nos aforismos dessa seção. Por óbvio, sempre haverá o mais empedernido defensor do Amor como forma de resgate e esperança para a humanidade… Mas, de verdade, será que não passou da hora de sentarmos e discutirmos nossa relação com o Amor? Quem sabe não possamos fazer isso à noite, com uma taça de vinho e… sozinhos! Em resumo, tudo parece uma Brisa em que “O amor é uma ventosidade de esperança”. Esses aforismos “sentimentais” de Ouriço nos ensinam que, no fim, todos estamos sós e que, como nos diz o aforismo Acolá, “O sofrimento vai sempre além de qualquer análise”. No entanto, é importante deixar claro que essa verve antipatética não está a serviço de negar nossos sentimentos ou mesmo o Amor. Tudo sempre é o ser humano. Nesse caso, trata-se de mais uma manifestação do pessimismo do autor para com a nossa espécie, que conflagra ilusões ao mesmo tempo em que parece querer destruir tudo o tempo todo.
Na terceira seção, o livro elenca uma série de aforismos relacionados à linguagem. E é por ela que vazam as desesperanças com nossa existência, como se tudo fosse um fluxo inevitável em que a fluidez da fala revela os conflitos interiores. É verdade que usamos a linguagem para ironizar, debochar ou falar dos nossos sentimentos, como vimos até então. O caso é que agora o autor procura mostrar que a própria linguagem é um instrumento de perturbação. Vou tentar explicar melhor. É como se ele dissesse que a linguagem é uma obrigação algo que burocrática e que está na verdade a serviço de nossa incapacidade de sermos mais colaborativos ou mesmo mais altruístas ou, para usar um termo mais atual, empáticos. Assim tudo o que resta como opção é o silêncio. Quando lemos que “O silêncio é a única sabedoria ao alcance do imbecil”, somos, à primeira vista, levados a pensar nos imbecis, nas pessoas que consideramos imbecis. Mas logo percebemos que, pensando assim, o conceito de imbecil não é algo congelado no tempo em que as pessoas nele se enquadram. Na verdade, ser imbecil é sempre um risco ao qual qualquer um está sujeito, se não perenemente, ao menos ocasionalmente. E o pior é que, se isso for verdade, não seria o silêncio então uma quase imposição a todos nós? Decerto não há como as coisas serem assim. Mas isso prova o quanto aforismos desse tipo podem nos fazer parar e pensar em nosso grande e quotidiano falatório. Se notarmos bem, quase todos os aforismos desta seção propõem uma coisa muito simples nestes tempos de vozerio desenfreado: é melhor que façamos silêncio.
A quarta e última seção traz aforismos que flertam com a filosofia. Não por acaso ela se denomina Especulações. Algumas de suas frases referem-se a pensamentos filosóficos. Parecem querer brincar com a própria metafísica, ao cutucar temas como a verdade (Verdade: “A mentira tem pernas curtas, porém asas longas”), a eternidade (Ensejo: “A eternidade tem seus momentos”) e a liberdade (Punilha: “O indivíduo, esse caruncho da liberdade”). Ai de ti, Adriano, quando encontrares Kant ou Aristóteles! A seção se estende em outros temas, tais como vida, homem, livre-arbítrio etc. Tudo para estender o tapete da inconfiabilidade também do pensamento. Mais um desenrolar do convite à desesperança produtiva. Em Ecce hinc: “Além do horizonte há outro horizonte”, por exemplo, além da referência a Nietzsche (Ecce homo), o autor brinca com a expressão esperançosa de se encontrar algo além de onde podemos ver. Para ele, a esperança não leva a lugar algum, pois sempre há algo mais a se esperar. É melhor que nos concentremos no nosso caminho, no agora. Uma seção destinada ao discurso habitual dos aforismos é uma forma de homenagear a filosofia, mas também de apontar a miserável condição humana frente aos desafios de seu próprio pensamento.
O título do livro é autoinstrutivo. A intenção é claramente colocar um ouriço na sala e perguntar quem tem coragem de mexer com ele. O objetivo é garantir que se possa cutucar qualquer um a respeito de qualquer coisa, garantida a preservação do próprio animal. Trata-se de um pequeno manual de desconstrução minimalista, que faz fluir certo pessimismo e desesperança. Por outro lado, essa desconstrução é uma ferramenta que nos possibilita repensar nossos modos de escolha, de vida e de constituição social. Daí, talvez, a escolha por aforismos assemelhados àquilo que damos o nome “pílulas de sabedoria” para uma vida mais empática e equilibrada, quando, de fato, parecem “pílulas de sabedoria” para que repensemos nossa forma de atuar no mundo e transformá-lo. Trata-se de uma excelente contribuição de Adriano Rabelo para uma época de gente parva no comando de uma nação que perdeu a capacidade de pensar.
O livro Ouriço: senso incomum pode ser adquirido no site www.amazon.com.br
Bio fornecida pelo palestrante.

Antologia de ensaios revistos, publicados no Brasil e no exterior, por Luiza Lobo, reúne 15 ensaios expostos em conferências e publicados em anais de congressos e em revistas especializadas, totalmente revistos e com bibliografia atualizada. O livro se compõe de três partes: 1- Escritoras 2- Escritores 3-Teorias da escrita.
Na Parte 1, os ensaios pretendem discutir a literatura de escritoras da América Latina, tanto do Brasil como de língua hispânica, e a questão do pioneirismo na literatura no continente, sempre tendo em vista a criação de novos cânones, inclusive em face do cânone ocidental, como em Virginia Woolf. A ensaísta apresenta as principais escritoras brasileiras, tais como Clarice Lispector, Dinah Silveira de Queiroz, Maria Firmina dos Reis, a primeira escritora brasileira, entre outras. A definição de literatura de autoria feminina sempre se define por aquela escrita por mulheres, não sobre elas.
Na Parte 2, diversos ensaios tratam em profundidade da obra de Joaquim de Souza Andrade, o Sousândrade, mostrando os recursos da épica romântica reinserida no clássico e no renascentista, pelo poeta maranhense. Há também um ensaio psicanalítico comparando Machado de Assis a Edgar Allan Poe, à luz de Freud.
Na Parte 3, Simone de Beauvoir e sua crítica realizada pelas feministas mais atuais são comparadas e suas teorias dissecadas em face do feminismo atual, visando a apontar novos caminhos teóricos.
Em todos os textos a perspectiva é o hibridismo, o cosmopolitismo, o nomadismo, o cronotopo (dimensão espaço-tempo), a intertextualidade e a interculturalidade – linhas que caracterizam a condição pós-moderna, explicitada em ampla bibliografia, que abrange a teoria literária e a literatura comparada.
Bio fornecida pelo palestrante.
UM LIVRO DENSO NA ERA DOS “MEMES”
Ivan Neves Marques Júnior
Doutorando em Latim pela Universidade de São Paulo
Resenha de Desabraçar, de Adriano de Paula Rabelo
São Paulo: Patuá, 2018. 198 páginas
A última frase do letreiro colocado na porta do Inferno, por Dante versado na “Divina Comédia”, traz os seguintes dizeres: “Lasciate ogne speranza, voi ch’entrate” (“Abandonai toda a esperança, vós que entrais”). Ali, depois que leu todos os dizeres daquela inscrição na entrada, Dante logo reclamou com seu mestre, Virgílio, sobre a dureza daquelas palavras. Afinal, o que pode doer mais? A destinação ao inferno ou uma placa, na sua porta, dizendo que qualquer fio de esperança deve ser deixado na sua entrada?
Não sei por quais trâmites do meu pensamento, minhas sensações ao término do primeiro conto de “Desabraçar” (Adriano de Paula Rabelo, Patuá, 2018, 198 páginas, R$ 40,00), cujo título é “Só se morre sozinho”, me remeteram a este trecho do poema de Dante Alighieri. Nesta primeira estória, um homem aidético e hospitalizado narra, no presente, os momentos em que seu quadro de saúde piora enquanto sua fragmentada, desestruturada e traumatizada família, perdendo a esperança, assiste à sua passagem pela porta do inferno. Esse personagem, levado às consequências dos seus atos, nos conta também que eventos, conduzidos por ele, levaram-no àquela situação e corroeram a vida de todos seus familiares.
O leitor, numa perplexidade paulatina, sente, logo nas primeiras páginas da obra, um soco no estômago e, de cara, é surpreendido pela estrutura narrativa adotada pelo autor: personagens-narradores contam, em primeira pessoa e no tempo presente, uma estória de suas vidas que, por sua vez, se torna o pretexto para uma narrativa subjacente, no tempo passado, cuja conexão com a atual é cronológica, mnemônica ou afetiva. Essa estrutura, heterodoxa àquela habitual dos contos (que conta com um conflito claramente demarcado no tempo e no espaço, reservando à narrativa um momento de clímax), faz com que os eventos do tempo passado eclodam no tempo presente, trazendo simultaneamente para esse instante o conflito e o clímax.
Assim, a mistura entre o impacto do conto de entrada e o volume conflitivo dos demais, associados a essa “sui generis” forma de contar uma estória, deixam o leitor com uma sensação de estar à deriva, “abandonado” pela falta da conhecida estrutura das narrativas a que está habituado a ler e pego de surpresa no meio de acontecimentos em que a crua realidade da vida (repleta de dissoluções, mentiras, crises conjugais, abandonos, morte etc.) se revela inexorável.
É preciso muita coragem para, hoje em dia, iniciar um livro dessa maneira e, sobretudo, construí-lo numa estrutura assim. Vivemos num mundo de cínicos reducionismos. Um mundo que, por exemplo, tenta nomear suas figuras midiáticas por meio de letras e números: CR7, R9, H13, B17… Infelizmente, não se trata mais de dizer que perdemos o fôlego para o argumento mais trabalhado, o texto mais alongado e estruturado, para os sermões de Vieira ou para um simples livro sequer. Nós já perdemos tudo: a palavra, a frase, o parágrafo… Já tentou você, leitor, argumentar contra um “meme”?
Este mais novo trabalho de Adriano de Paula Rabelo, talento que desponta em nossa reduzida safra de escritores, é um alívio neste nosso inferno em que o caldeirão é a mídia e as redes sociais o tridente.
Tal como a vida, que traz momentos de desilusão, outros de resignação (aquelas situações em que dizemos que tudo poderia ser pior), outros de desamparo, tristeza, raiva ou desencanto, os contos assim se alternam desencadeando as descobertas da vida tendo como chave o advento da morte, presente ela própria por vezes e, em outras, figurada, na forma de uma mudança de residência ou de um relacionamento que acabou. O saldo, porém, é a conclusão de que não há abrigo para a nossa condição humana. Somos invariavelmente levados pela correnteza da vida social, do instinto de sobrevivência, de procriação, e até mesmo de nossas vontades, sobre as quais, na verdade, não exercemos controle algum.
O livro traz essas lições numa escrita fluida, que em muitos momentos lembra a prosa de Machado de Assis, sobretudo nas elucubrações dos personagens quando retratam, eles próprios, sua relação com os outros.
Não obstante o estilo do autor ainda revelar a necessidade de soltar um pouco mais sua escrita, desprendendo-a da norma culta e deixando-a mais próxima das condições psicológicas ou emocionais do personagem, seu texto tem o mérito maior de adequar seu estilo à atmosfera presente no conto, de tal modo que acabamos sentindo o pesar dos instantes de morte e desencanto com a vida, a platitude da velhice que vê o fim da vida chegar e até mesmo a doçura da criança que se vê de repente pertencente a uma nova família por ocasião do casamento do pai.
A se lamentar somente uma coisa. É uma pena que um livro tão bem escrito e que muito pode nos ensinar seja, aqui no Brasil, uma obra para iniciados na literatura. Por que um país desse tamanho não é um berço onde autores com Adriano Rabelo e tantos outros possam ser nutridos? A vida tem seus requintes de crueldade, não é mesmo? Não bastasse sermos um país de poucas livrarias e de bibliotecas sucateadas ou mesmo inexistentes, somos agora uma sociedade que só aprende vendo “memes” nas redes sociais. Não temos mais tempo nem paciência para a leitura, para depreender um argumento, para analisar uma obra artística em toda sua completude. Leia “Desabraçar” e suas eclosões de sentimentos e você entenderá o que estou tentando aqui dizer. Você se deparará com pensamentos e emoções que sequer tinha percebido ou, no melhor dos casos, esqueceu-os. Aí então você, leitor, perceberá que a riqueza da vida é o que realmente importa, e não a nova mensagem que te chama no celular. Poderá ver a diferença entre a perenidade da existência em toda sua complexidade e a efemeridade e tosquice dos “memes” sobre política e outras bobagens. Você vai se lembrar de uma passagem bíblica, bastante repetida nesses últimos dias: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”. Mas se prepare, pois a verdade e a liberdade são verdadeiras entidades humanizantes, com todo o significado que o termo abarca e que nem sempre estamos preparados para entender.
Bio fornecida pelo palestrante.
Entrevista a Luiza Lobo por Rosalia Mitsztajn, em 19 de abril de 2018, sob forma de depoimento.
ROSALIA MILSZTAJN FALA DE SUA LITERATURA
Meu primeiro poema surgiu de forma inusitada, aos quase quarenta anos de idade. Como uma música, o primeiro verso veio em minha cabeça durante uma madrugada que me levou a escrever quase para conseguir dormir. E com este verso, aconteceu todo um poema que, de forma lírica, contava sobre minha infância.
Um processo iniciara-se: a revelação de minha identidade de poeta camuflada por traumas de infância. Lembrei-me dos concursos literários dos quais fui vencedora na infância, mas ignorados por minha família, assim como o meu talento de bailarina, artes que não desenvolvi. E, assim, só tardiamente comecei a escrever poesia.
A partir desse poema, que acabou ganhando um concurso, publiquei meu primeiro livro em 1991, chamado No azul, pela editora Imago. Acresci à atividade profissional de médica e psicanalista, que exercia em meu consultório, a frequência em oficinas literárias, como por exemplo, na Biblioteca Nacional, além de participar de saraus, noites e noites de recitação e encontros com poetas, o que fortaleceu meus estudos e leitura intensa de poesia.
Cinco anos depois, em 1996, publiquei meu segundo livro, Itgadal — memória dos ausentes, pela editora Diadorim. Depois veio o terceiro, em 1999, Luminosidades, pela editora 7Letras, logo após ter sido vencedora do Prêmio SESC de Poesia do Rio de Janeiro.
O quarto livro — Aqui dentro de mim – foi publicado pela editora Aeroplano no ano de 2003.
De 2003 até 2010 participei de várias antologias, jornais e publicações, como por exemplo, Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional.
Curiosa com todo o meu processo de escrita, quis aprofundar meus estudos literários com a especialização em Literatura na PUC do Rio de Janeiro que fiz nos anos de 2005/2006.
Somente depois desses sete anos sem publicar livros, inaugurei em minha escrita uma prosa que se revelou em pequenos contos que publiquei no meu quinto livro A história dos seios, pela editora 7Letras, em 2010.
Em 2014 voltei à poesia e publiquei, pela editora Patuá, o livro Esse recorte, que acabou ganhando o Prêmio Literário de Poesia do Pen Clube do Brasil do ano de 2016.
Meu mais recente livro, publicado neste ano de 2018, editado também pela editora Patuá, volta aos pequenos contos e chama-se Era uma vez e outros contos.
Por que poesia?
Poesia, porque ela me chegou pronta dessa forma em minha experiência inaugural da escrita. Como aquilo que muitos não gostam de chamar inspiração.
Com o passar do tempo a espontaneidade cedeu lugar a um trabalho árduo de elaboração, com a escrita juntando-se à inspiração, que precisou ser estimulada e exercitada através de estudos e de leituras de poetas.
Mas acho que tenho uma capacidade de síntese, uns insights também desenvolvidos com a minha profissão de psicanalista e certa franquia ao inconsciente, o que facilita um pouco o acesso ao “ainda”, como dizia o grande Drummond, o lugar onde as palavras nascem e que não estão prontas.
Meus livros e leituras prediletas
Meu livro predileto é o de 2014, Esse recorte, que acho mais bem elaborado, fruto de certa experiência com a escrita de poesia.
Mas tenho também muito apreço pelo meu primeiro livro, No Azul, de 1991, com o qual me revelei poeta e, por último, A história dos seios. de 2010, no qual comecei a esboçar uma pequena prosa poética.
Uma grande parte de minhas leituras foi para estudos em Medicina, a profissão em que me formei; e, por muito tempo, anos, li somente livros de estudos médicos. Depois, como psicanalista, lia praticamente a literatura psicanalítica e pouco tempo me sobrava para a poesia e a literatura em si.
Mas lembro de que lia muito na infância, contos de fadas, Monteiro Lobato, e tudo o que me caía nas mãos. Na adolescência li muitos romances de Machado, Herman Hesse, Graciliano Ramos, A.J, Cronin.
Não me interessavam escritores médicos como Pedro Nava ou Guimarães Rosa, pois ainda não tinha feito essa dobradinha comigo mesma, de médica-psicanalista e poeta. Me interesso por poetas da língua inglesa, francesa e da nossa, como Drummond, Cecília Meireles, Clarice Lispector.
Poesia e prosa com minhas questões judaicas e emocionais
Não escrevo especificamente sobre minha condição judaica, rituais judaicos de luto ou cemitério. Os livros que escrevo são um pouco despertados, isto é, se iniciam com o estímulo, ou um pouco ao sabor daquilo que eu esteja vivendo no momento.
É verdade que meu segundo livro, Itgadal, memória dos ausentes, de 1996, traz alguns desses elementos, pois foi um livro que escrevi enquanto vivia as mortes de entes muito queridos e outras perdas das mais diversas. A escrita desses poemas me remetia à identidade dos meus pais, e me direcionavam aos rituais e cultura religiosas segundo os quais fui criada; escrevendo, eu elaborava essas perdas.
O meu quinto livro, A história dos seios, também se iniciou com uma situação muito forte emocionalmente, com um câncer de mama que, pelo fazer literário, se transformou não em um livro catártico, de autoajuda ou médico, mas um belo livro de pequenas histórias em que a prosa e a poesia se revelaram de um jeito que agradou muito ao público em geral, despertando muito interesse.
Meu último livro já foi lido como pequenas histórias autobiográficas e ao mesmo tempo, como usei a invenção, o novo estilo se aproximou mais de uma prosa poética. Realmente, poderia ter escolhido um romance para descrever melhor a minha história, romanceando-a com minha imaginação, e, talvez ficasse um livro mais grosso. Na verdade, não sei ainda muito bem qual é este estilo que comecei a usar no livro A história dos seios, e que de certa forma continuei no Era uma vez e outros contos, porque os dois são de prosa, mas muito imaginativos, como a poesia. Poema em prosa, talvez, me faz lembrar de Baudelaire ou ainda, Rimbaud em sua Temporada no inferno.
Muitas histórias, ali, são autobiográficas e eu teria muita dificuldade em ser fiel a elas se as colocasse em forma de poesia. Por outro lado, uma prosa sintética talvez seja como uma flecha de percepção, que permite ao leitor se identificar com os contos, apesar de serem autobiográficos. Afinal, certos cheiros, lugares, cores foram vividos também pelo leitor, que pode assim se identificar com os meus contos, e estes saírem de um lugar estreito que é somente a autobiografia, e se universalizarem.
Literatura e Psicanálise
Não distingo meus livros de poesia e de prosa, nem, dentre eles, o do câncer de mama, por terem alguma aproximação com a medicina ou a psicanálise, e de forma alguma seriam didáticos.
Cada livro que escrevo, seja de prosa ou de poesia, revela ou esconde uma parte de minha vida e também estágios de amadurecimento com a escrita e as revelações que me leio e me estudo através deles.
Como mencionei anteriormente, cada livro, pelo menos no começo, nasce inspirado, como também ocorreu com o livro sobre o câncer de mamas. Escrevi por uma necessidade íntima profunda, com nos fala o poeta Rilke, um desejo imperioso que não poderia deixar de realizar. Não com o objetivo didático, médico ou psicanalítico. Aliás, não tinha o objetivo de escrevê-lo, senão, e tão somente, de escrevê-lo.
Acredito que o meu fazer literário não expressa minha atividade psicanalítica ou médica.Talvez qualidades que tenho e que sejam comuns às três funções, ou o estar-no- mundo, que seriam: sensibilidade para apreensão do mundo ao redor, em detalhes, ou seja, uma percepção pelos sentidos, ambas aguçadas; uma grande memória; e uma necessidade de olhar e estar com o outro.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rio de Janeiro, março-abril de 2018.
VAITSMAN, Eliete. O cisne e o aviador. Rio de Janeiro, Rocco, 2014.
Entrevista a Luiza Lobo
HELIETE VAITSMAN DESCOBRE PASSADO NAZISTA NOS PEDALINHOS DA LAGOA
Formada em Comunicação e em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e em Didática da Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, foi jornalista das áreas cultural e internacional e colunista especializada em saúde em O Globo e Jornal do Brasil. Atualmente, é editora e tradutora. Autora de Judeus da Leopoldina (Rio de Janeiro, Museu Judaico, 2006), teve seu primeiro romance, O cisne e o aviador (Rio de Janeiro, Rocco, 2014) selecionado como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2015.
Seu livro é tocante na construção das personagens femininas. Há uma delicadeza e uma intimidade com elas que parecem indicar um “roman à clef” retirado da realidade. Você utilizou modelos reais para as personagens ficcionais?
R – Sim, houve modelos reais de mulheres que me serviram de inspiração. Como neta de imigrantes judeus poloneses, testemunhei na infância os embates e a profunda dor daquela gente. As três personagens femininas circulam em liberdade num Rio de Janeiro ameno, arborizado, de classe média, entre vizinhos amáveis, o Rio dos anos 1950 e 60. Elas ocultam o trauma ligado ao extermínio de suas famílias na Europa. O desejo de esquecer os horrores da Segunda Guerra e projetar o futuro é algo em comum entre elas, ainda que as três não compartilhem hábitos e nem mesmo inserção social. Acredito que consegui torná-las críveis, sem recorrer a estereótipos redentores. Como acontece com qualquer ser humano, de qualquer origem, elas se apaixonam, riem, sofrem, traem maridos, cuidam de filhos. É necessário que o leitor acredite nas personagens, que vivem além do que o autor diz sobre elas.
Até hoje muitos, em seu país, negam que Herberts Cukurs, a personagem real do livro, tenha sido um criminoso de guerra. O Brasil também não o investigou. Como se explica isso?
R – Negar a realidade pode ser cômodo, por um lado, e por outro há a ideologia da extrema direita. Na Letônia, o governo chegou a homenageá-lo com um selo, em 2004, mas diante das pressões de grupos locais defensores de direitos humanos e do governo israelense, retiraram-no de circulação. As tentativas de reabilitar a imagem de Cukurs (pronuncia-se Tsukurs) integram, ainda hoje, um movimento de revisionismo histórico que, em vários países europeus, acontece junto com a ascensão conservadora e os discursos contrários aos imigrantes.
R – Sim. Embora eu tenha começado com o foco na personagem principal, Frida, duas coadjuvantes, Rosa e Clara, ganharam importância. São mulheres fortes, “curadas ao sol de Copacabana”, como diz a letra de George Israel ao falar dos sobreviventes de uma Europa antissemita e violenta anterior à Segunda Guerra. Elas aprendem a ir em frente num mundo melhor, numa sociedade brasileira onde ocorrem grandes mudanças. Não seria possível escrevê-las num vazio político e social, e, à medida que eu as construía, a História também se tornava mais presente.
As pesquisas me levaram a entender o papel de Cukurs como criminoso de guerra. Sua participação é uma incógnita. Ele não era importante na hierarquia nazista e não poderia ter sido o organizador do massacre dos judeus letões. Isso não o exime nem o desculpa, pois foi um daqueles colaboradores frios e sinistros que fizeram parte do trabalho sujo para os alemães em todos os países ocupados. Os eslavos eram desprezados pelos nazistas, que planejaram e organizaram o genocídio.
Você acha que esse deslumbramento com os estrangeiros, louros, altos, de olhos azuis, é uma marca de nosso sentimento de inferioridade colonial? Todas as portas são abertas a eles, na pesquisa ou na sociedade, por serem europeus ou norte-americanos.
R- Concordo que essa pode ser uma forte marca, impressa pela elite sobre as demais classes sociais, que nada ganham com ela. As matérias sobre Cukurs na revista O Cruzeiro, então a mais popular do Brasil, são deslumbradas diante da competência do piloto, o estrangeiro bonitão, apresentado como um empreendedor que, depois de colocar os primeiros pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, prometia transformar o local em grande ponto turístico. Em fotos abertas, aparecem ele e a bela filha fazendo esqui aquático. Quem o acolheu, altas patentes militares da época, não tinha interesse em tomar conhecimento do que homens como ele haviam feito durante a guerra. As autoridades da época igualavam os imigrantes estrangeiros – judeus sobreviventes ou antigos colaboradores nazistas – e a única exigência que se fazia a eles era que não perturbassem a “ordem pública”.
Em que medida você acha que o seu livro contribui para uma mudança de mentalidade, alertando as pessoas a não serem tão ingênuas, se informarem, lerem mais sobre a história, o passado?
R – Quando os fatos são apresentados sem pieguice nem adjetivação, como procurei fazer, a transmissão da História se dá naturalmente. Claro que o leitor precisa ter vontade de sair daquela zona de conforto que adere ao lugar-comum quando se fala de guerra e de perseguições, onde tudo é explicado como uma luta do Bem contra o Mal, ou dos indivíduos sadios contra os loucos. O Reich de Mil Anos pretendeu apagar tudo o que não fosse “ariano”, da arte à ciência e às pessoas. Os indivíduos deviam aceitar-se insignificantes, sem subjetividade, sem direito a memórias próprias. Mas tudo o que minhas personagens fazem e sentem comprova sua significância, sua singularidade. Acho que a humanidade delas impacta mais o leitor do que se fossem estereótipos.
Você não acha que a ingenuidade do Brasil com relação à questão judaica e dos nazistas que viveram aqui é causada pela oralidade e desinformação? Já leu o livro de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector? Achou-o exagerado?
R – O Brasil é muito voltado para dentro, e o que acontece “lá fora”, para além das paisagens e do turismo, interessa a um grupo reduzido. Mas os colonizados buscam a aprovação dos estrangeiros. Jornais brasileiros publicam a repercussão de acontecimentos daqui pela imprensa estrangeira, como se o olhar de fora fosse imprescindível! Mas governos não têm ingenuidade. Para os brasileiros em geral os judeus fazem parte da nação, não são objeto especial de apreço nem de desapreço. Foram discriminados no período Vargas, mas depois se integraram completamente. As pessoas com acesso a livros e filmes se horrorizam com o que fizeram os nazistas, e gostam de saber que nazistas foram presos aqui. Não há aqui uma questão judaica.
Gosto do livro de Moser sobre Clarice. O autor repetiu informações já conhecidas, pode-se alegar. Mas sempre citou as fontes e nunca afirmou que queria ser completamente original. Ele quis contar uma história e o faz sem os rodeios com os quais a cultura ibérica fala de temas “delicados”. Por exemplo, a mãe de Clarice teria sífilis por ter sido estuprada antes de imigrar para o Brasil. Como inexistem provas, não se deveria falar disso? Mas convenhamos que nem a CIA e o Mossada juntos poderiam encontrar provas de um estupro no início do século XX nos confins da Ucrânia. Moser segue a tradição norte-americana das biografias. É uma tradição que abomina a censura e a exclusividade do saber.
Outro ponto é que Clarice foi, por muitos anos, qualificada na imprensa como uma brilhante escritora pernambucana, filha de imigrantes ucranianos. Ora, nada mais distante de um ucraniano que um judeu ucraniano! Mas ela teve sua persona pública composta também pelos elogios aos seus pômulos faciais eslavos! Atribuir-lhe “origem” judaica é outro ponto estranho. O que é origem? Ser judeu não é uma nacionalidade, portanto ou se é ou não se é judeu. Para Moser, Clarice entra numa categoria similar à dos Jewish American writers. É uma escritora brasileira-judia.
Você costuma ser metódica em sua escrita, ou trabalha por inspiração? O seu trabalho de jornalista lhe deu disciplina de se sentar e escrever até terminar um capítulo ou até terminar uma determinada tarefa para o livro?
Não tenho a disciplina que gostaria de ter. Quando tenho tempo, sento diante do computador e posso ficar cinco horas escrevendo sem parar. O problema é sentar! Deixar de lado outras tarefas, para mergulhar num romance exige uma disposição, uma crença de que o texto terá valor. Por isso mesmo não estou conseguindo finalizar um romance que comecei a escrever há um ano. No jornalismo a gente tem deadlines, no romance não.
Quanto tempo levou para escrever este livro? Quais foram as dificuldades que encontrou, após a pesquisa, na escrita propriamente dita? Foi pesquisando e escrevendo, concomitantemente, ou terminou a pesquisa e só então escreveu a ficção? Heloísa Maranhão dizia que após a pesquisa ela fechava os livros e misturava tudo. Mas o resultado por vezes ficava bastante confuso…
Levei dois anos. Primeiro terminei toda a pesquisa, em livros e periódicos da época. Tinha o dobro de informações do que as publicadas, pois minha editora, Vivian Wyler, ponderou que um romance brasileiro não deveria tratar em minúcia de situações específicas, sob pena de tornar-se tedioso. Um exemplo: as polêmicas sobre a invasão nazista dos países bálticos, que dificilmente empolgariam o leitor brasileiro.
Escrevi ao mesmo tempo os capítulos factuais e os ficcionais, ao sabor da minha própria vontade, sem organograma. Quando me cansava do horror nazista, falava de Frida, Rosa e Clara. Até o último momento voltei aos livros de História para conferir fatos. Vi milhares de fotos, mapas, entrevistas. Acabei me tornando “especialista” em Letônia, embora sem nunca haver pisado no país. A dificuldade na escrita, para mim, é encontrar a palavra exata, e encadear as frases num ritmo que tenha alguma beleza. Dou importância ao som, ao encadeamento, ao tom. Reescrevi algumas vezes a fala das personagens, tentando fugir da artificialidade. A voz interior e os diálogos muitas vezes emperram textos com tramas ótimas.
Como classificaria seu romance, lírico, histórico ou de metaficcionalidade historiográfica (nova história)?
Se eu fosse Jorge Mautner, diria que é um amálgama, tudo junto e misturado, como o Brasil! Não houve intenção de fazer metaficção, mas talvez seja possível dizer que algo ocorreu nessa direção. Isso cabe à crítica. O que posso dizer é que a parte ficcional foi escrita com a emoção, um fluxo, como num transe em que o autor recebe o espírito das personagens, recria seu modo de falar, sua visão de mundo. A recriação, quando é bem sucedida, é uma maravilha, aquela história do “seja universal, fale de sua aldeia”. O leitor de “O cisne e o aviador” pode entrar alternadamente no espaço literário e no espaço real. Pode refletir diante da política e também sentir empatia diante dos dramas das personagens ficcionais. Pelo menos foi o que eu procurei.
O que é verdade, o que é imaginação, o que são as lembranças? Como jornalista, aprendi a checar todas as informações, a lidar com a realidade sem fantasiar. Como romancista, pude “viajar” nesse tema fascinante que são as memórias e suas relações com a História. No caso, memórias de personagens ficcionais com as quais os leitores podem se identificar. Todorov afirma que as memórias são um terreno de liberdade que só os regimes totalitários pensam ser possível domar. O real que elas recriam não é a realidade tal como ela se apresenta, nem como os romances ditos realistas pensavam que era possível apresentar.
Suas próximas obras terão aspectos históricos e jornalísticos, como este romance?
Sim. Gostei muito dessa mescla. O próximo livro está caminhando nessa direção, com personagens europeus e brasileiros e, de novo, as barbaridades e as consequências da Segunda Guerra, as figuras sinistras. Na Europa, a Segunda Guerra é uma memória viva, assim como na Argentina os anos de chumbo continuam a ser lembrados, ensinados aos jovens. O Brasil oficial é que cultiva uma desmemória.
Bio fornecida pelo palestrante.
As revistas Mulheres e Literatura (antes nota 1-B da Qualis-CAPES) e Literatura e Cultura (antes 2-B da Qualis-CAPES) cessaram após julho de 2017. No entanto, os artigos das revistas antigas continuarão disponíveis.
Resenhas de livros atuais continuam a ser aceitas, contendo dados completos do livro, número de páginas, editora e ano, nome do autor da resenha e cinco linhas de currículo sobre ele ou ela.
Entre outros fatores, pesa a nova forma de avaliação da Qualis-CAPES, inatingível para revistas não institucionais como estas, feitas desde 1997 sem qualquer apoio financeiro. Cremos ter prestado um bom serviço à comunidade de ensino e pesquisa nacionais.
Os números das revistas já publicadas continuarão disponíveis para consulta.
E estarei presente no blog da LUIZA LOBO (em construção).
Bio fornecida pelo palestrante.
Dec. 2005 – Aarhus, Denmark
Christmas at Den Gamle By
First you shrink
To the size of a thumb
Then you step in
The miniature carriage
That shines and lies
on the mantelpiece
And head quickly
to the Old City
The show will soon begin
In the small theater
The stage is crooked and pink
The chairs painted green
and so very uncomfortable
You can barely fit it.
But remember,
you are a dwarf,
don’t worry
Just raise a magic wand and
The music begins
The show must go on!
New Year’s Eve and Hope
She came from a land where the sun always shines
And the wind blows lightly
It is many years from now
She doesn’t remember her family
But here the streets are covered with snow
And seem to crack her bones.
The chilly wind that runs through her clothes
has robbed her of her soul.
But she hasn’t lost her hope.
At the sound of the fireworks
She decides that she doesn’t mind
And has the great idea to steps on a bus
She doesn’t know where she is going
Only to the other side.
She hops on the bus but the next stop
It reaches the end of the line.
She hops off and waits for another bus
just like the first
And soon it pops up in the next corner
She hops in and hopes for the best
At least she can rest her tired old feet
and heat her broken breast.
It is at the sound of the fireworks that
She hops off and steps on another bus
Just like the other in that city
She doesn’t remember if she ever got a family
But hopping on and off she got herself lost in the city
She doesn’t know where she is going
Just to the other side
But at the sound of the fireworks she hopes for the best
For sure she will fi
Contemplation
Aros
Aarhus
Air hus
Brick walls
Floating steps
Stretch your hand
Reach another dimension
Vertical horizon
Straight lines
White walls
Banegaard
Greek temple
Lit at night
Yellow light
Straight tracks
Iron bars
Wait for the next train
To nowhere
At the Banegaard
Where are you going?
Just walking in the Banegaard.
There the noise
There the life that never stops
There the yellow light like in a Greek temple
That makes the station slightly float at night
Marseliesborg on a Winter Sunday
When not a leaf on the trees
When not a soul in the streets
When not any life in the woods
Slowly head to the Queen’s Palace.
She won’t be there
But there is an observation booth for the private guard
Waiting for you to spy who is approaching
The Queen may arrive at any moment
Most probably in the next summer.
There the world has stopped
The colors have faded
Only white pervades as far as the woods and clouds go
Movement is gone
People are home.
Step on the garden where the Queen is not
And see the marks of your steps deep into the snow
Only two squirrels and one aligator in iron
Talk around the iced lake stiff with cold
Maybe you want to have a chat and a cup of tea too?
The ivy-stand is white as snow. Nothing stirs.
Not a nightingale, not a cricket, not a crow
All is white
The clouds the grass the roof of the castle
Enchanted by some strange white spell
Winter has come forever
Even the window-panes are ice-surfaced
They have become mirros that stare back at you
But they don’t carry an answer.
The Strand Vej in Summer
The Strand Way
The Strange Way
Where you can look for a stone
To sit and fish
There is a canoe
Or the other side of the sea
Where the cliffs are
A sailing boat goes by
As fast as the wind
It drifts constantly driven by a never-ending wind
A wind that never ceases never ends never ever never ends
A Spring Afternoon at Rissko Psychiatric Hospital
The Rissko hospital is a palace
Under a spell. You must be careful
Or else you may never come out of it.
Once inside it you will wander by the
French gardens the lawn the old oaks
Full of mystery and you can go up the trees
And catch apples as big as soccer footballs
You can even play soccer if you find someone to play with
The problem is that there is no one around.
In the palace there are so many bedrooms that you can’t count
And the gardens are full of blind alleys
Just pick up a flower and put it on your hair.
You may want to sit on a bench and watch the boats or talk to someone there
The problem is that there are no other visitors
But you are welcome to any of the workshops
Where you can make your own sculptures
Just like those in the garden.
Perhaps a trunk without members or mouth?
Or a face without eyes or brain? You choose!
By producing your own handcrafts or works of art
You will be allowed to wander forever and ever in the alleys without end
And will be let to try alone how to find your way out of the mazes formed by hedges and bushes
It is spring and you can take your time.
Nobody will disturb you there
Except your own thoughts.
At lunch time, remember lunch time?
A big table will be laid just for you
with fish and shrimp and fruit
Juices and pure water and delicious desserts
together with wine, everything beautifully served
And the same for dinner, and lunch, and dinner, indefinetely.
At night you can dance interminably through
the immense ball-room floors where music never stops to play
To sleep you can choose any of the bedrooms
There are no nuts there, not a face, not a soul.
You can look through the windows and watch
The silent sailing boats sailing by
Very silently indeed perhaps there are heading to Ebeltoft.
It is all so peaceful, so very peaceful, so too peaceful
That You may not be allowed to leave this peace, this silence, this dreamy loneliness
Step out of the palace before they see you – there you may be a queen forever.
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA – LITERATURA E CULTURA
14 de janeiro de 2017
POR Luiza Lobo
Vicenzia, Ida. Elogio do gozo. Contos. Rio de Janeiro, Ponteio, 2013. 88 p.
Ida Vicenzia tem uma ampla experiência de jornalista e crítica teatral (atualmente mantém o blog idavicenziablogspot.com). Publicou O teatro católico de Octavio de Faria (RJ, Ponteio, 2013), várias biografias e obras teatrais, e tem vários livros e projetos em andamento.
Elogio do gozo (2013) é seu primeiro livro de contos. Antes, minicontos. 28 em 88 páginas, a maioria de uma a três páginas, além de uma homenagem inicial a Lygia Fagundes Telles. É certo que minicontos são bem diferentes de contos, e mais ainda de novelas. Para começar, minicontos não compõem uma atmosfera completa, com princípio e meio (deixemos o fim para a Poética, de Aristóteles; não é necessário chegar a tanto. Podemos ter uma “obra aberta”, sem final, na expressão de Umberto Eco). Mas é claro que esses insights de situações nos deixam curiosos sobre os personagens, e até sobre os desfechos. Ressentimo-nos bastante de um contexto mais estendido e delineado.
Seus minicontos são em geral escritos em Ich-Erzählung (narrativa em primeira pessoa). Por exemplo, em “Feiticeiro do lago” (p. 57), a narradora se refere a dois homens amados trancados numa chácara – mas não sabemos quem são nem quem é esta narradora. Neste, como em outros contos, o Ich-Erzählung fica muito preso na cabeça da autora/narradora, e o texto só faz sentido como poesia, pela beleza das imagens e palavras escolhidas. Excesso de memória e de imaginário são traiçoeiros; podem se transformar num monólogo ou num solilóquio. Frequentemente não sabemos quem fala, pois é claro que o narrador em Ich-Erzählung não pode realizar todos os papéis. O Ich-Erzählung reforça a ideia de que os contos são escritos como se fossem um diário. “Cosa nostra” (p. 69-70), passado em Nova York, embora em terceira pessoa do singular. Refere-se ao musical Os Miseráveis, baseado em Victor Hugo. Mas a emoção da West 46th Street, um sequestro, a Broadway… tudo marca a emoção daquele momento. Quase desejaríamos que fosse datado, uma vez que hoje há mais chineses que italianos em Nova York, e há mais Máfia russa que a Cosa Nostra.
Pelo fato de serem tão curtos, com forte eixo metafórico, os minicontos funcionam, portanto, como poesia: à p. 65, “Cena obscena”, temos, realmente, um poema; “a grande orquestra”, p. 71; à p. 54, o miniconto “O garoto” termina com um poema; “Tempo refletido”, p. 55, é um poema. Curioso que nos poemas a narradora é externa, dirige-se a uma personagem que não é ela, ao contrário de nos minicontos. Em meio a esse “O livro dos excessos” (p. 19-22), o/a leitor/a pode perder um pouco o norte, sem entender o enredo, e se perguntar: Mas, afinal, quem é tio Ranulfo? Quem é Paulo? Lisa Maria? Pedro Borges? (Ver o conto “Pra dizer que te amo, (Lembrando Octavio de Faria)”, p. 43-p. 44). Quem é Paulo louco? O amor é louco? (p. 37). Quem é o “cruel Fernando Lobo?” e quem é o “talentoso jornalista”? – em “La historia de un amor”, p. 35-37). Alguns textos são minúsculos minicontos, como “Álcool ou Prozac?”, de apenas quatro linhas, no qual a narradora assume a ilusão, quem sabe até a poesia diante da vida e do texto, concluindo-o: “Nem álcool, nem prozac: o que a alimenta são as grandes doses de autoengano que toma todos os dias” (p. 61). Aqui a narradora não usa o Ich-Erzählung, mas antes se refere a uma personagem que não é ela mesma, e a opção parece ser, mais uma vez, pelo eu lírico poético.
O ponto positivo dessa narradora que fala em tom de diário é ser sempre uma voz de mulher. Nós nos acostumamos por décadas a ouvir a monocórdia voz masculina nos textos literários. Agora mesmo temos o tonitruante Pablo Neruda no cinema, recitando seus poemas com sua voz empostada que tinham os poetas do passado. A mulher veio, a partir da década de 1970, principalmente, no Brasil, romper com esta formalidade acadêmica e introduziu uma poesia pessoal, subjetiva, minuciosa, cotidiana, até doméstica (por que não?). Talvez por isso a epígrafe do livro é dirigida a Lygia Fagundes Telles, uma pioneira na afirmação da literatura de autoria feminina e a dissertação de Ida Vicenzia versa justamente sobre Cecília Meireles. Mas aqui, como entre as pioneiras da literatura de autoria feminina, presenciamos o uso de um feminismo ligado ao feminino, à delicadeza, que em geral é atribuída à mulher, de forma essencialista, o que é falso, já que tais atributos de feminilidade também podem ocorrer independentemente do gênero, devendo-se mais à cultura e ao contexto de vida do que a uma categoria intrínseca do ser humano. Freud mesmo se inclinou a atribuir à mulher a histeria e ao homem a ação, a racionalidade – armadilha já denunciada por Simone de Beauvoir no pioneiro O segundo sexo, mostrando que tendências de comportamento devem ser atribuídas principalmente à cultura, e não à biologia (ou ao DNA, palavra muito em moda hoje em dia, que é aplicada a torto e a direito em referência a racismo, homofobia ou outras escolhas ideológicas pessoais, jamais herdadas no código genético!). O traço poético feminino da primeira fase da literatura de mulheres do século XX e fins do século XUIX tem mostrado mulheres impreterivelmente gentis e delicadas, com uma sensibilidade à flor da pele. Essa imagem de sensibilidade delicada ocorre em Ida num miniconto que parece valorizar a mulher oriental e seu gozo solitário, num passado remoto (p. 63) – transmitindo uma imagem de equilíbrio e harmonia. À p. 77 há também referência a uma mulher sufi, um poço… Num movimento contrário, nesse livro de Ida algumas mulheres parecem ter envolvimento político, participar de ação, rompendo com o estereótipo do imanentismo feminino como delicado e gentil. A imagem da mulher feminina também habita as páginas de Ida Vicenza sob a forma de um grand jetté, passo elaborado de balé (ver “Nuvem passageira”, p. 67). Mas, ironicamente, é um passo de balé masculino, e se trata de um roubo….
Quase ao final da obra, o conto se pergunta se o é e afirma que é mesmo um conto… (p. 81). A própria autora propõe, em metalinguagem, a definição sobre suas opções literárias, ao recorrer a Mário de Andrade quando ele “diz que conto é tudo o que chamamos de conto”. Mas este apelo a Mario deve-se, claramente, ao fato de que a autora tem consciência de que se trata de um livro que oscila entre a poesia e a prosa poética.
Bio fornecida pelo palestrante.
Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s
Reading Lolita in Tehran
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
Abstract: The writings of the Iranian diaspora, the westbound migratory movement motivated by extreme Islamic regimes and violent conflicts, raise public and scholarly interest especially in regard to their “return narratives”, autobiographical novels by writers moving fluidly between Western and Middle-Eastern spaces, homes, and identities. In this article, I join the academic debate about notions and constructions of women’s subjectivity in one of such works, Azar Nafisi’s 2003 Reading Lolita in Tehran. Supported mainly Susan Stanford Friedman’s theorization on locational feminism and multiple subjectivities in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), I argue that protagonist Azar’s cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances in the narrative.
Keywords: Women’s Literature; Iranian Diaspora; Return Narratives; Hybrid Subjectivities.
Resumo: A escrita da diáspora iraniana, movimento migratório para o ocidente impulsionado por regimes islâmicos extremistas e conflitos violentos, desperta interesse público e acadêmico para suas “narrativas de retorno”, autobiografias de autores que se deslocam fluidamente entre espaços, lares e identidades ocidentais e orientais. Esse artigo visa contribuir com o debate sobre noções e construções da subjetividade feminina em uma dessas obras, Lendo Lolita em Teerã (2013), de Azar Nafisi. Baseada na teorização de Susan Stanford Friedman sobre feminismo locacional e subjetividades múltiplas em Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), proponho que a mobilidade espacial e cultural da protagonista Azar causa a fragmentação e hibridização de sua identidade devido às interações entre constituintes identitários de poder e opressão em diferentes momentos da narrativa.
Palavras-chave: Literatura Escrita por Mulheres; Diáspora Iraniana; Narrativas de Retorno; Subjetividades Híbridas.
Minicurrículo: Marcela de Oliveira e Silva Lemos é mestranda em Literaturas de Língua Inglesa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Licenciada em Inglês por esta universidade, participou na graduação do projeto de pesquisa “Mobilidades culturais, geografias afetivas: espaço e gênero na literatura contemporânea”. É membro do Núcleo de Estudos de Guerra e Literatura da UFMG. Suas linhas de pesquisa são literatura, história e memória cultural e políticas do contemporâneo. Sua dissertação trata da literatura de guerra escrita por mulheres e do efeito da guerra sobre os constituintes identitários de personagens femininas.
Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s
Reading Lolita in Tehran
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
One can be veiled and yet mobile.
Carole Boyce Davies, Black Women, Writing and Identity
In the epigraph, Davies (1994) interprets a Saudi woman’s declaration on television: “I resent not being able to drive an automobile more than I resent having to wear a veil” (p. 2). To Davies, the statement expresses “a layering of resentments, issues to be struggled with, one assuming – for the moment – primacy over the other” (p. 2). One of such issues, determined mainly by religion and gender, is the right to mobility, a contemporary matter implicit in the notion of diaspora. Davies’s discussion about black migratory identities inspires me to look at another moving subject: the Iranian woman. That is because, similarly to diasporic black women’s writings, the works of Iranian female immigrants have become increasingly popular recently.
Since North-American incursions in the Middle-East during the War on Terror led by former U.S. president George W. Bush, Western interest has boosted the publication of autobiographies by authors of Islamic origin, such as Azar Nafisi’s Reading Lolita in Tehran (2003), Azadeh Moaveni’s Lipstick Jihad (2005), Marjane Satrapi’s Persepolis (2007), and Pardis Mahdavi’s Passionate Uprisings (2008). These novels, termed “return narratives” by Jasmin Darznik (2008, p. 56), portray the characters’ departure from Iran to America, and their later return to the native country, where their search for home and identification is often frustrated by changes in the land and within themselves. In this article, I focus on the character Azar Nafisi’s back-and-forth relocations between rigid and liberal, religious and secular, private and public contexts throughout her story. Based on the effects of movement through cultures on subjectivity, discussed by Susan Stanford Friedman (1998), I argue that Azar’s1 cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances.
Reading Lolita in Tehran is Nafisi’s debut novel. Simultaneously the first-person narrator and protagonist, Azar writes in the present time of a “fall day in another room in another country” (2003, p. 6). She recalls memories of pre-revolutionary Iran, schooldays in England, Switzerland, and the United States, and Islamic-ruled Iran. These recollections are organized into four sections, which, owing to Azar’s expertise in literatures in English, are named after Western authors and classics. In each section, Azar discusses events and women’s conditions in relation to those classics. The first part is “Lolita”, in a reference to Vladimir Nabokov’s work that also appears in the title of the novel. It is set in 1995, after Professor Nafisi resigns from teaching Literatures in English at a college in Tehran. She invites her seven best-ever female students to a weekly book club: a private session held at her living room every Thursday morning for two years, in which the class reads, discusses, and writes about occidental literary works banned by the Islamic regime. In the process, the members dive into each others’ problems, create affective relationships, and raise awareness to women’s treatment and roles in society.
The subsequent sections, “Gatsby” and “James”, refer respectively to F. Scott Fitzgerald’s The Great Gatsby, and to the U.S. born author Henry James. Both are chronologically set before “Lolita”. “Gatsby” significantly begins in the United States, where Azar attends graduate school with her first husband, and joins student movements and demonstrations. Following the dreams casted by a popular uprising, she journeys eastward, married this time to Bijan. After seventeen years away, she encounters a different country, where the books she teaches are attacked and forbidden. In “James”, Azar is expelled from the University of Tehran, and lives through the Iran-Iraq war, while female use of veil becomes mandatory. In the final part, “Austen”, the narrative returns to the years from 1995 to 1997, when Professor Nafisi leaves Iran definitively. This is the section in which her private class mostly compares Western and Islamic cultures, especially in regard to their experience as women. To its peculiar structure, polemic themes, and powerful writing, Reading Lolita in Tehran owes both its wide reception and harsh criticism.
As Darznik observes, “an all-out campaign has been launched against Iranian immigrant writers… leading the campaign are US-based Iranian academics who decry these writers’ authority to speak about the experience of ‘real’ Iranians” (2008, p. 55). Two US-based academics critic of Reading Lolita are Hamid Dabashi, in “Native Informers and the Making of the American Empire” (2006), and Fatemeh Keshavaz, in Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran (2007). They claim that “Nafisi substitutes Western hegemonic ideals for Iranian censorship… [and that] redemption in the form of Western cannon can be its own kind of hegemonic prison” (Blumenthal, 2012, p. 253-254). That is, those critics believe that Nafisi endorses worldwide supremacy of Western ideology through her novel’s defense of democracy and admiration for English-language literature. This way, she is regarded as an Orientalist, in reference to Edward Said’s (1978) concept, who propagates patronizing views of the East through cultural translation and commodification to an American audience.
It is rather ironic that US-based Iranian academics question US-based Iranian writers as representative of their “real” people. In this line of reasoning, since both groups are in the same privileged condition of escaping a tyrannical regime and living in a democracy, they are equally distant from and unable to speak about Iranian “reality”. We must remember, moreover, that Reading Lolita in Tehran is a literary work. As such, it does not establish guaranteed allegiances with reality. Indeed, it even unsettles the assumption of truth commonly associated to autobiographies, as the “Author’s Note” acknowledges the inevitable constructiveness of reminiscences: “[t]he facts in this story are true insofar as any memory is ever truthful” (2003, p. 1). Furthermore, by contesting the representativeness of a character’s experience, Nafisi’s critics disregard that, as Joan W. Scott (1991) puts it, “experience is at once always already an interpretation and something that needs to be interpreted” (Motlagh, 2011, p. 417). That is, what Azar narrates is her comprehension of the world and events, which we read against our own backgrounds. Moreover, Rachel Blumenthal argues that “critics must also consider the specificity and nuance” of Azar’s story (2012, p. 257). By attacking this personal interpretation and representation of Iranian, immigrant, Islamic womanhood, scholars may run the risk of silencing voices long unheard.
Amy Motlagh (2011), Darznik, and Blumenthal are attentive to the nuances and difficulties of women’s Eastern and Western lives and writings. The question of authority and authenticity of Iranian-American experience, for instance, is addressed by Motlagh in “Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora”. In her turn, in “The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora”, Darznik observes an adaptation, by Iranian women like Nafisi, of the Western genre of travel literature into return narratives. She also considers a dislocation of the notion of home in relation to those female characters, to whom “[h]ome is… a place at once rooted in Iran and yet mystically beyond place” (2008, p. 60). This idea that the immigrant’s home, signifying the unity of geography, affect, and belonging, is an unachievable desire constantly postponed is further developed by Blumenthal in “Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini”.
Blumenthal argues that diaspora “locates homeland geographically, ideologically, and textually” (2012, p. 251). She affirms that Azar moves to a Western ideological homeland through her opposition to Islamic totalitarian rule and her use of English-language literature, to which the narrator attributes words such as “genuine democracy”, “freedom”, and “courage” (Blumenthal, 2012, p. 252). However, similarly to Darznik, Blumenthal notices Azar’s paradoxical refusal, or perhaps impossibility, to completely divorce herself from “historical, intellectual, and emotional connections to Iran” (BLUMENTHAL, 2012, p. 261). Evidence of this denial, to Darznik, is “the dominance of Iran… [a] gaze steadfastly fixed on Iran” (2008, p. 56), which pervades the narrative through the lingering presence of Iranian settings and Persian cultural elements even when characters engage with Western classics.
Although Darznik and Blumenthal offer interesting considerations about the displacement of home for the Iranian-American immigrant woman, their discussions do not investigate a fragmented, hybrid subjectification as a cause for and consequence of that dislocation. I believe that, in Azar’s movement through cultures, her identity is constantly reconfigured due to the various privileged and oppressed positions she occupies. In this sense, instead of a unitary being unable to find home, Azar is a transcultural, transnational, fragmented, and hybrid subject with different geographical and ideological homelands.
This article’s discussion about the construction of Azar’s subjectivity subscribes to the theoretical apparatus of feminist literary criticism and geographies of identity, as presented by Friedman in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Friedman argues that a locational approach to subjectivity in feminist critical practice is consonant with our postmodern world because it regards identity not as fixed and wholesome, but as fluid and fragmented. This approach traces figurations of the subjects, that is, maps of the social-political locations one occupies in a given context, which together compose the self. In “‘Beyond’ Gender: The New Geography of Identity and the Future of Feminist Criticism,” Friedman names those components of the self, such as gender, ethnicity, and class, axes of identity. She also devises six discourses related to them within locational feminism and geographics: the discourses of multiple oppressions, multiple subject positions, contradictory subject positions, relationality, situationality, and hibridity. Among them, the last two are of special interest to this study.
The discourse of situationality “assumes that identity resists fixity… [and that] it shifts fluidly from setting to setting”, in a way that, if we “change the scene, the most relevant constituents of identity come into play” (Friedman, 1998, p. 23). In this sense, feminist practice following this discourse is concerned with movement and geography in a more literal way, attentive to which axes of a character’s identity are highlighted or minimized in the narrative space and time through which she travels. The discourse of hibridity, in its turn, emphasizes identity as a heterogeneous mixture produced by migrations. Analyses conforming to this discourse focus on the subject’s movement through cultures, which usually, but not necessarily, involves spatial dislocation.
Since Azar transits between Iranian and American land and culture, and even between pre and post-revolutionary societies whose settings and customs profoundly differ, I find situationality and hibridity appropriate bases to discuss her complex construction. Moreover, these two discourses overlap and enrich each other when considered that movement through cultures provides distinct settings and situations, altering the interplay between aspects of subjectivity. With that in mind, I now discuss two narrative moments of different space, time, and socio-political configurations, inserted either in American or Iranian contexts, to see how Azar’s axes of identity interact in each of them.
The first of these narrative moments is set in the late sixties and early seventies in Norman, Oklahoma, to where Azar moves with her first husband to attend a university’s graduate program. Before that, she goes to school in England and Switzerland, and briefly returns to Iran to visit her father in jail. Her father, “the youngest mayor in Tehran’s history… who went into politics despising politicians and defying them almost at every turn” (Nafisi, 2003, p. 45), is arrested for publically sympathizing with the French government. According to Azar, he and the rest of her relatives are “cultural snobs” (Nafisi, 2003, p. 45), who pride “themselves on the fact that as far back as eight hundred years ago… the Nafisis were known for their contributions to literature and science” (NAFISI, 2003, p. 84). From these excerpts and from the fact that her family can afford her foreign instruction, we may conclude that the axes of class and education are sites of privilege of Azar’s identity highlighted in Iranian context, even though her political status as the daughter of a convicted traitor determines her oppression then.
When we change the scene to Oklahoma, Azar’s upper-middle class continues to be an emphasized aspect of her identity. After all, it is because of her social-economic condition that she has access to higher education, while other Muslim women are at times denied any formal instruction. Class is not the only axis of subjectivity underlined in this situation, though. In a Western context, categories that are taken for granted in Iran are brought to the foreground, such as ethnicity, nationality, and religion. As an Iranian Muslim in America, Azar is part of a minority. In this sense, axes that used to ascertain privilege now determine oppression, making her join the Iranian student group at the University of Oklahoma, long for home, and participate in demonstrations “shouting slogans against the US involvement in Iran” (Nafisi, 2003, p. 86).
Paradoxically, the context that causes Azar to feel excluded also empowers her as a woman. That is because, in Iran, gender is a constituent of identity that imposes women’s inferiority in relation to rights, education, freedom and opportunities. In the United States, on the other hand, aside from studying, Azar is allowed to leave and divorce her husband, socialize with other men, express political opinions, and dress however she wishes. All those contradictory subject positions of power and powerlessness might be the reason why the narrator describes this as a “schizophrenic period in my life in which I tried to reconcile my revolutionary aspirations with the lifestyle I most enjoyed” (NAFISI, 2003, p. 85). They are also permanent marks of another culture that affect Azar’s identity even once she returns to Iran.
The narrative moment that mostly contrasts with that in the United States is set in post-revolutionary Tehran. In this context, on the one hand, nationality and ethnicity are once again locations of privilege of Azar’s identity. Religion and gender, on the other hand, determine oppression. When extremist Islamic faith is indissoluble from politics, those of moderate religious views are persecuted by the regime. In spite of her Muslim origins, Azar’s education and transcultural experiences make her critical of the Republic’s use of religion “as an instrument of power and ideology” (NAFISI, 2003, p. 273) that foments hatred and justifies deaths. In addition, Azar stands up to the Islamic rule by reading and teaching Western classics, whose values, like freedom and the right to imagination, are “the exact opposite of those of the revolution” (NAFISI, 2003, p. 107). Because of her reluctant religious and political positions, Azar is confronted by radical male students, has her house searched for illegal books and satellite dishes twice, and is finally expelled from the University of Tehran.
The axis of gender interacts in this situation with religion and political orientation to determine the character’s powerlessness. After living the women’s liberation movement in America, Azar returns to a circumscribed existence in Iran. It is not to say that the West is then the land of gender equality. Indeed, it is during that time that Anglo-American feminism begins to be criticized for its internal reproduction of discrimination. Nevertheless, in Tehran, Azar encounters a strongly unequal scenario: “the government had waged a war against women” (NAFISI, 2003, p. 110). Among rulers’ several impositions on women in this context, the one I would like to further examine is the compulsory use of the veil.
In Reading Lolita in Tehran, Azar narrates a long strife between government and female citizens over veiling, which becomes mandatory in all public spaces around the years of the Iran-Iraq war, supported by the nationalist union the conflict inspires. According to Darznik, return narratives “express the opposition [between Iranian and American selves] through a common symbol: the veil… But at the heart of every return narrative lies a question of not only identity, but of allegiance expressed in terms of veiling” (2008, p. 57). She also considers that it is “as if these folds of fabric have the power to remake not only their bodies, but their personalities” (2008, p. 59). The question of allegiance expressed through veiling is observed in Azar’s defiance of the rule because she thinks “to wear the veil… [is] to compromise” (NAFISI, 2003, p. 203), to be complicit with a tyrannical regime. Even when it comes down to covering herself or going to jail, Azar resists: “I always wore my veil improperly” (NAFISI, 2003, p. 184). The novel also presents the effect of the veil, as pointed by Darznik, on the construction and self-perception of the characters, oppressed and effaced by religion and gender. Azar, for instance, claims that wearing the veil imposes on her a transformation that makes her look at the mirror and hate the stranger she becomes. She feels “irrelevant” (NAFISI, 2003, p. 150), “invisible” (NAFISI, 2003, p. 168), as if, inside the cover forced upon her, her “whole body disappeared” (NAFISI, 2003, p. 167). Such descriptions suggest the veil as a tool of ideological control over women, which alters their public identity so that they become powerless, faceless, deprived of the creative energy that comes from difference, and therefore unthreatening. Privately, however, we notice the unveiling of Azar’s hybrid and complex subjectivity.
The private class held weekly in Azar’s house is “a place of transgression” (NAFISI, 2003, p. 8), where she and the girls can exist in their differences. The learning space created in her living room is itself hybrid, reflecting Azar’s mixed cultural identity. She states that “more than any other place in [her] home, the living room was symbolic of [her] nomadic and borrowed life. Vagrant pieces of furniture from different times and places… created symmetry” (NAFISI, 2003, p. 7). The incongruent, competing fragments compose the harmony of the room and of her subjectivity. On the one hand, Western influence in that space of resistance is verified in the women’s inobservance of the veil, revealing their hidden images, in colorful tones of hair, nail polish, and clothes. It is, naturally, also present through the books, which not only portray different worlds, but bring into discussion themes such as captivity, sexuality, dreams, and even feminism. This way, “every great book read became a challenge to the ruling ideology” (NAFISI, 2003, p. 288), instigating questionings based on occidental thinking. On the other hand, the East composes that space just as much. It is there in the food and drinks consumed, in some students’ unfailing Muslim faith, and in Azar’s childhood stories. It lingers in the Elburz Mountains reflected by the antique oval mirror inherited from her father. That old family mirror inserts in that hybrid space a part of Iran that symbolizes Azar’s roots and a love for the land that, to echo Virginia Woolf in Three Guineas (1938), does not implicate blind sacrifice for the nation.
The different parts of Azar’s class/living room contrastively build that space just like the cultural aspects of her subjectivity compete for and constitute her identity. These aspects and the privilege and oppression they situationally determine are like “two worlds… forever seeking each other out and denying their attraction for each other” (Darznik, 2008, p. 68). That is, they are dialectal fragments, mutually dependent Others that epitomize desire and difference. Each side is dependent on the Other, and does not exist without it, so that, as Darznik puts it, “unit is born of disunity” (DARZNIK, 2008, p. 69) both in the class space and in Azar’s subjectification. So much it is, that she prefers this mixture of influences to any of the parts alone: she declares, “The more attached I became to my class and to my students, the more detached I became from Iran” (NAFISI, 2003, p. 317). Similarly, when away from the meetings and the country, she feels the need to recreate that space, this time, textually.
Blumenthal and Darznik argue that, to the Muslin woman, to write an autobiography is to create a textual space of transgression. That is because this genre is not “compatible with the core values of shame and honor pertaining throughout the Muslim world”, since it “invites a critique of self, family, tribe, or Islam” (Blumenthal, 2012, p. 259). From this statement, we can infer that autobiography and other forms of life writing belong primarily to Western literature and ideology. In this sense, it might be valid to suggest that the Islamic authoress that writes her cultural experience through a Western genre creates not only a textual space of transgression, but of hibridity. This way, we may conclude that Azar’s hybrid, fragmented, and migratory subjectivity is reflected in the very form of Nafisi’s work.
It is possible to extend our analysis, grounded in the discourses of identity within geographics, to other women characters in Reading Lolita in Tehran. Azar’s students, for instance, might as well be considered hybrid subjects, even though some of them never leave Iran, for “the greatest trips can take place without physically moving from one’s habitat” (BRAIDOTTI, 2011, p. 26). Guided by their professor, the girls travel through language and literature, and acquire cultural knowledge and experience. Interestingly, Davies has a view of critical theory similar to Azar’s approach to literature. To her, “theory… ought not to be an impediment to movement but should be an enabling set of discourses” (DAVIES, 1994, p. 25). The feminist critical practice Friedman advocates, locational feminism, allows us to study and understand subjectivity as positionality, thus affected by movement. It also invites us to look closely at literary representations of moving subjects, diaspora, and hibridity, thus acknowledging, for example, the once silenced voices of Iranian women.
Note
Works Cited
BLUMENTHAL, Rachel. Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini, Arab Studies Quarterly 34.4 (2012): 250-265. Access on Web: 1 July 2015.
BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory. 2nd ed. New York: Columbia University Press, 2011.
DABASHI, Hamid. Native Informers and the Making of the American Empire, Al-Ahram Weekly Online (2006). Access on Web: 2 July 2016.
DARZNIK, Jasmin. The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora, MELUS 33.2 (2008): 55-71. Access on Web: 3 July 2015.
DAVIES, Carole Boyce. Introduction: Migratory Subjectivities. In: Black Women, Writing and Identity: Migrations of the Subject. New York: Routledge, 1994. p. 1-37.
FRIEDMAN, Susan Stanford. Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Princeton: Princeton University Press, 1998.
KESHAVAZ, Fatemeh. Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2007.
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MOAVENI, Azadeh. Lipstick Jihad: A Memoir of Growing up Iranian in America and American in Iran. New York: Public Affairs, 2005.
MOTLAGH, Amy. Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora, Comparative Studies of South Asia, Africa and the Middle East, 31.2 (2011): p. 411-424. Access on Web: 3 July 2015.
NAFISI, Azar. Reading Lolita in Tehran. New York: Random House, 2003.
SAID, Edward. Orientalism. New York: Vintage Books, 1979.
SATRAPI, Marjane. The Complete Persepolis. New York: Pantheon, 2007.
WOOLF, Virginia. Three Guineas. New York: Harcourt, 1963.
Bio fornecida pelo palestrante.
Luana Balieiro Cosme
Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes
Resumo: Nesse artigo, foi proposta uma métodologia black/mestiza feminista para pensar a composição textual do texto acadêmico como forma de resistência, principalmente em relação ao imperativo intelectual da Europa. Os textos base que constituíram aportes desta discussão foram Speaking in Tongues e How to Tame a Wild Tongue, da escritora chicana Gloria Anzaldúa. O artigo se compõe dos recursos da linguagem e das percepções sobre a margem ou os sujeitos da margem, e as variações textuais foram minuciosamente escolhidas, ao nível de intervenções. Multiplicam-se os efeitos, fazendo gerar nos leitores sentimentos de repulsa e negação, tendo como importante componente a ideia de descolonização do pensamento e do Outro.
Palavras-chave: Descolonização, Outro, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
Abstract: In this paper, we propose a black/mestiza feminist methodology to approach the textual composition of the academic text as a form of resistance, especially in relation to eurocentrism. The texts that served as basis for this article were Speaking in Tongues and How to Tame a Wild Tongue, by the chicana writer Gloria Anzaldua. The linguistic resources and perceptions of the border and of border subjects constituted a contributions for this discussion and were useful to the writing of this article. Textual variations were carefully chosen at the level of intervention. The effects are multiplied, and they generates feelings of repulsion and denial in the readers implying in the idea of decolonization and of the Other.
Keywords: Decolonization, Other, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
Minicurrículo: Luana Balieiro Cosme é professora, graduada em História (Unimontes) e Pedagogia (Universidade Cruzeiro do Sul), mestre em História (Unimontes). Atualmente está vinculada ao Grupo de Pesquisa Gênero e Violência (Unimontes) e é colaboradora do Projeto de Extensão “Informática básica para mulheres”, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), campus Montes Claros.
MESTIZA: UMA PROPOSTA DE DESCOLONIZAÇÃO
Luana Balieiro Cosme
Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes
Chicanidade, pretanidade, não-branquinidade. As três palavras aparecem com o traço vermelho do corretor ortográfico, não existem no dicionário, tentaram me avisar. As palavras aparentemente desconexas são um propósito para falar sobre alguns estudos não muito recentes que se propõem a descolonizar do pensamento. Este não é um conceito em sua concepção, mas é uma prática constante, quase diária.
A ideia não é inventar novos nomes para velhas discussões, como talvez as palavras não-palavras poderiam sugerir. Percebe-se o termo Latinidade, carregado de sentido, do dicionário e conceitual. Seria a inversão de latinidade a palavra chicanidade? Onde se inverte os sujeitos falantes? A resposta é não/não.
A descolonização não (des)constrói nada, por isso, a aversão imediata. Não se propõe a desconstruir latinidade para construir chicanidade. Esta última se configura uma forma de desestabilizar o texto. Tentar trazer ao leitor um sentimento de perda do norte. As pequenas “não-compreensões” é que vão fazer o método, a escrita ou o modo de viver, compreensíveis.
Uma das autoras que se propõe a pensar a própria escrita dentro do âmbito tido como “culto”, é Gloria Anzaldúa. Em um texto, que sua versão primeira é datada de 1980, ela se dispõe a escrever uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Recorto um trecho: “ainda não me desaprendi as tolices esotéricas e pseudointectualizadas que a lavagem cerebral da escola forçou em minha escrita” (ANZALDÚA, 2000, p. 229).
O movimento sobre si de Anzaldúa para realizar a escrita é uma forma de resistir a uma produção ocidental do conhecimento que opera sobre os sujeitos que utilizam a linguagem para se comunicar. Uma força positiva (incisiva) tenta imperar sobre a escrita acadêmica. A indiana Gayatri Spivak (2010, p. 47) diz que essa situação entre outras é “uma violência epistêmica”, vasta e heterogênea “de se constituir o sujeito colonial como Outro”. Esse projeto, a produção intelectual ocidental, “é também a obliteração assimétrica do rastro desse Outro em sua precária Sub-jetividade”.
Quando somos interpelados pelo que nos é estranho, quando somos interpelados por aquilo que não estamos acostumados ou por aquilo que rejeitamos, provavelmente uma vontade de revolver essa situação surge, com agressividade, com silenciamento, com relativismo, com incorporação forçada, etc. Mas, o Outro[1], o estranho, o diferente não é um problema, então não precisa ser resolvido. Nesse momento, quando nos percebemos nessa situação, somos tomados por um sentimento de desorientação e até mesmo vazio, perda de sentido já que não conseguimos lidar.
Quando você se sente como o Outro, numa tentativa desesperadora de empregar a alteridade não se consegue praticar a descolonização, mas quando você é Outro, a percepção sobre descolonização faz sentido. Perceba a citação de uma fala de Audre Lorde:
I am defined as other in every group I’m part of. The outsider, both strength and weakness. Yet without community there is certainly no liberation, no future, only the most vulnerable and temporary armistice between me and my oppression. [Sou definida como outro em cada grupo que participo. A que está fora (the outsider), entre força e fraqueza. No entanto, sem comunidade não há possibilidade de libertação de um futuro, apenas um vulnerável e temporário armistício entre eu e minha opressão] (LORDE, 2006, p. 2). [2]
Assim, Audre Lorde nos deixa claro o lugar que ocupamos, enquanto pretas e/ou mestiza – “subalternos” para Gayatri Spivak (2010) – na sociedade, não somos os sujeitos que buscam empregar a alteridade, porque nós somos o Outro a que esse termo se refere. Mesmo que Lorde seja norte-americana por nascimento, isso não implica que sua vida não foi marcada por certas invisibilidades. Conforme M. Jacqui Alexander e Chandra Mohanty, explicam que o racismo é um fenômeno acionado em qualquer ambiente da sociedade. E isso inclui os “estudos de mulheres” acadêmicos e os movimentos sociais, segundo as autoras:
However, the specificities of our national and cultural genealogies-being Black and Brown women-and our statuses as immigrants were constantly being used to position us as foreign, thus muting the legitimacy of our claims to the experiences of different racisms. [No entanto, as especificidades das nossas genealogias cultural e nacional – ser mulheres pretas e marrons – e nossos status de imigrantes foram constantemente utilizados para posicionar enquanto estrangeiros, silenciando, assim, a legitimidade de nossas reivindicações para as experiências de diferentes racismos] (MOHANTY; ALEXANDER, 1997, p. xiv).
As autoras complementam que “through a politics of decolonization, we have learned that racial solidarity is necessary, even if that means grappling with the differences between oppositional and relational consciousness”. [através de uma política de descolonização, nós aprendemos que a solidariedade racial é necessária, mesmo que isso signifique enfrentar com as novas diferenças no que refere à consciência opositiva e relacional]. As experiências decorridas do ato de ocupar vários lugares onde o racismo é frequente nos Estados Unidos convenceram as autoras de que devemos entender o local, bem como as manifestações globais de poder e os investimentos discursivos que viabilizam o racismo.
Retornando à fala de Audre Lorde, ela persiste na ideia da situação ser “black woman” [mulher preta] é ser invisível, e se adicionarmos feminista, chicana, lésbica etc são construídas outras possibilidades de invisibilidade. Sobre a tensa percepção sobre identidade é interessante percebemos uma nuance: se você deixar o mundo definir você, porque ele irá, será em desvantagem. Lembrando que para o mundo você é o outro, Lorde diz:
As a Black woman, I have to deal with identity or I don’t exist at all. I can’t depend on the world to name me kindly, because it never will. If the world defines you, it will define you to your disadvantage. So either I’m going to be defined by myself or not at all. [Como uma mulher preta, eu tenho que lidar com a identidade ou eu não existo de qualquer forma. Eu não posso depender do mundo para citar-me gentilmente, porque isto nunca acontecerá. Se o mundo define você, ele irá defini-lo em desvantagem para você. Então, ou eu vou ser definida por mim ou de modo nenhum] (LORDE, 1991, p. 19).
A produção acerca da identidade e sua pluralização, ou projeto de não identificação é uma armadilha se o mundo onde você habita ainda evoca os discursos naturalizadores das identidades. Cuidado.
Em seu leito de morte, ela tenta nos avisar “your silence will not protect you” [o seu silêncio não protegerá você] (LORDE, 2006, p. 13). Eu recebo a dica com carinho e é isto que falo aqui, meu silêncio não é uma escolha mais. É preciso falar.
Se nossas produções do conhecimento são propostas a partir de referenciais universalistas, brancos, ocidentais, etc não é possível tal prática (descolonizadora). Uma voz me diz bem forte: Não precisamos da alteridade dos brancos, somos o outro. E agora?
Perceba as citações retiradas de um texto de Gloria Anzaldúa, “as línguas selvagens não podem ser domadas, elas podem apenas ser decepadas” (ANZALDÚA, 2009, p. 306). Ela cita três frases ditas, respectivamente, pela mãe, pela professora e pelo imaginário mexicano: “I want you to speak English” [Eu quero que você fale Inglês]; “speak ‘American’” [diga: americana]; “El Anglo con cara de inocente nos arranco la lengua” (ANZALDÚA, 1987, p. 75-76; ANZALDÚA, 2009, p. 305-306) [O inglês com cara de inocente nos arrancou a língua]. É nessa visão do trágico-agressivo e não do atenuante que se descoloniza, primeiramente a si mesmo. Desestabiliza e desconforta quando se mescla as línguas, “lenguas”, “tongues”; os gêneros textuais; as variações de textos etc.
Isto é uma poesia?
Eu vi o vídeo.
O vídeo foi visto.
Por quantos brasileiros?
(Poesia inédita, de minha autoria)
Como explicar o/um método mestiza? Primeiramente ele não se propõe a ser explicado. Gloria Anzaldúa e outras chicanas escrevem e misturam poesia, prosa, teoria, autobiografia e narrativas experimentais. A partir disso, conseguimos tentar forjar um método.
É complexo tentar propor uma transliteração de enunciados sobre uma imagem de estar em duas, três, quatro… fronteiras/margens/bordas ao mesmo tempo ou trilhar uma outra rota, diferente e não adversa. Mestiza vive entre culturas com pertencimentos culturais, identitários e geográficos (ou não), múltiplos, e uma “inquietude psíquica”.
A chicana Gloria Anzaldúa defende uma posição plural em detrimento a contraposição, um agir que não seja apenas reagir, um reflexo automático a uma ação. Nesse sentido, quem fala tem um corpo. Este é um incômodo, principalmente se alguém precisa identificá-lo, marcá-lo, pontuá-lo, pois imediatamente o transforma em “outro”.
O trânsito, a translocalidade, o movimento múltiplo agride as teorias, metodologias e epistemologias vigentes e seu deslocamento é uma incômoda mobilidade.
Você viu o vídeo?
Que vídeo?
O “Nasça branca da próxima vez”.
Não vi.
O golpe é maior que tudo isso.
“Nasça branca da próxima vez”.
Ninguém se importa,
com nascimento de ninguém
FIGURA 1 – Um quadrinho de Virus Tropical.
Fonte: POWER, Paola. Virus Tropical. Espanha: Random House, 2013.
“How to Tame a Wild Tongue” (Como domar uma língua selvagem)[3] é o quinto capítulo do livro “Borderlands/La Frontera” (1987), ao olhar o significado no dicionário Oxford para o termo “to tame”, vemos:
Pronúncia: /teɪm/
VERBO
(WITH OBJECT)
1.1Make less powerful and easier to control.
Old English tam (adjective), temmian (verb), of Germanic origin; related to Dutch tam and German zahm, from an Indo-European root shared by Latin domare and Greek daman ‘tame, subdue’ (OXFORD, 2015).
[(COM OBJETO)
[Inglês arcaico tam (adjetivo), temmian (verbo) , de origem germânica; relacionadas com tam holandês e zahm alemão, de uma raiz indo-europeia partilhada pelo latim domare e grego daman ‘cativar , subjugar’]
Ao ler a proposta de significação do dicionário Oxford, “To tame” se tornou um termo muito complexo para traduzir, pois seus possíveis significados são complexos. Nas constantes traduções à “la brasileira” se tem como princípio, e não sei de onde isso vem, atenuar as palavras. A tradução do título do capítulo ficou “Como domar uma língua selvagem”. “Domar” é um termo muito simples para “to tame” que em sua origem latina e grega, remete também a “subdue”, subjulgar.
Apanhar de chicote, em português (brasileiro), equivale a lhe darem uma surra com pluma. Tenho essa sensação quando leio a tradução, apesar de que esta tradução em termos gerais é excelente. E, aqui, eu tenho um problema. Sou a favor da democracia de leitura, mas critico as traduções. Mas não é porque critico a atenuação das palavras que serei contra a popularização de traduções de textos. Eu quero é que possamos ler, em “línguas plurais”.
Um termo se tornou de uso comum entre alguns grupos feministas dos Estados: “speaking in tongues” [falar em línguas]. Sempre que digo isso a alguma pessoa, ela ri. Parece muito engraçado, deve ser. Resguardarei em não traduzir culturalmente o termo agora, não sei se consegui entendê-lo direito, mas daquilo que compreendi, de algum modo tentei aplicar.
“Speaking in Tongues” aparece em vários escritos de feministas de fronteira e um deles é “Speaking in Tongues: A Letter to 3rd World Women Writers” [Falando em línguas: uma carta às mulheres escritoras do terceiro mundo], capítulo de Gloria, publicado à margem, em 1980 – republicado em 1983 – e nele tem uma poesia de Cherríe Moraga, conforme tabela 1:
TABELA 1: Poesia de Cherríe Moraga com tradução simultânea.
| I lack imagination you say | Falta-me imaginação, você diz |
| No. I lack language. | Não. Falta-me linguagem. |
| The language to clarify | Linguagem para clarear |
| my resistance to the literate. | minha resistência para com o letrado. |
| Words are a war to me. | Palavras são uma guerra para mim. |
| They threaten my family. | Eles ameaçaram minha família. |
| To gain the word | Para ganhar a palavra |
| to describe the loss | para descrever a perda |
| I risk losing everything. | Corro risco de perder tudo. |
| I may create a monster | Eu poderia criar um monstro |
| the word’s length and body | comprimento das palavras e do corpo |
| swelling up colorful and thrilling | super colorido e vibrante |
| looming over my mother, characterized. | pairando sobre minha mãe, a caráter. |
| Her voice in the distance | Sua voz na distância |
| unintelligible illiterate. | ininteligível aos iletrados. |
| These are the monster’s words. | Estas são as palavras do monstro. |
Fonte: ANZALDÚA, Gloria, 1980, p. 166.
A poesia de Moraga surge abruptamente dentro do texto de Gloria Anzaldúa (1980, p. 166), como trechos de uma poesia qualquer que também interrompe esse texto. É uma forma não estática de leitura, que desloca o leitor a lidar com variações dentro da escrita/leitura. Mas as intervenções se interligam em um mesmo sentido. Aqui também se tenta fazer essa ligação entre o artigo para uma revista acadêmica, cartuns e trechos de poesias. Para Gloria, o leitor que tentar juntar os fragmentos desse tipo de texto, faz um trabalho análogo àquele que as feministas fazem para decifrar e confrontar a sociedade patriarcal.
Não sei.
Eu vi o vídeo
e não vou esquecer,
mas branca nunca quero/irei nascer.
FIGURA 2 – Sin titulo [Sem título].
Fonte: Yetta (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
Muitos leitores desse artigo irão se perguntar: “Mas a autora não desenvolveu os termos do título direito. Não se prestou a explicá-los”. Um leitor da história ficará repetindo “isso não é história, isso não é história, isso não é história” como se fosse um belo espécime de papagaio (Amazona aestiva) ou quiriri (Brotogeris chiriri). Estas são aves tão singelas e que gosto muito.
Quando me percebo historiadora em uma sociedade, local, nacional ou global, como muitos se prestam a ser, não me agrada, é esta a palavra, o ofício. Talvez, no limite, penso que sou uma historiadora fracassada, como repito para mim mesma em momentos de crise. Quando sou historiadora ocupo “uma identidade” de quem apenas assiste a vida (passado-presente) confortavelmente em uma posição urbana-capitalista que se propõe a escrever e prepotentemente analisar sobre o objeto/o outro. Escrever é, sem sombra de dúvida, uma forma de resistência. Na escritura desse texto não sou historiadora e ao chegar a essa conclusão, e não subjetivação, penso: é uma resistência. É isso, é essa a sensação. O afeto que deixo termina aqui.
To Tame. In: Oxford English Dictionary. Oxford: Oxford University Press, 2015. Disponível em:
http://www.oxforddictionaries.com/pt/defini%C3%A7%C3%A3o/ingl%C3%AAs/tame?q=to+tame&searchDictCode=all. Acessado em 08 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Como domar uma língua selvagem. Tradução de Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão), Cadernos de Letras da UFF, Dossiê: Difusão da língua portuguesa, nº 39, 2009: p. 297-309.
ANZALDÚA, Gloria. How To Tame A Wild Tongue. In: Borderlands/La Frontera. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
ANZALDÚA, Gloria. Speaking In Tongues: A Letter To 3rd World Women Writers. In: ANZALDÚA, Gloria e MORAGA, Cherríe. This Bridge Called My Back: Writings By Radical Women Of Color. 1980.
Disponível em:
https://hamtramckfreeschool.files.wordpress.com/2014/05/anzalducc81a-gloria-this-bridge-called-my-back-dragged.pdf. Acesso em 8 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, jan. 2000. ISSN 0104-026X. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880>. Acesso em 15 set. 2016.
LORDE, Audre. Audre Lorde: Interview. Entrevista por Karla Hammond, Denver Quarterly 16.1. 1981: p. 10-27.
LORDE, Audre. The Cancer Journals: Special Edition. San Francisco: Aunt Lute Books, 2006.
MOHANTY, Chandra Talpade; ALEXANDER, M. Jacqui (Eds.). Introduction: Genealogies, Legacies, Movements. In: Feminist Genealogies, Colonial Legacies, Democratic Futures. New York: Routledge, 1997.
PAOLA, Power. Vírus tropical. Madrid: Random House, 2013. (Selo Reservoir Books).
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
YETTA (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
Disponível em: http://jessicasangoy.com/post/149004303482. Acesso 8 set. 2016.
NOTAS AO TEXTO
[1] Outro será utilizado em inicial maiúscula respeitando a conceitualização de Gayatri Spivak (2010).
[2] Em todo o texto, sempre que houver citação em língua estrangeira, será acrescida uma tradução livre em português, delimitada por colchetes, o que constitui uma forma de escrita dentro da metodologia mestiza.
[3] A tradução desse título do capítulo foi realizada por Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão) (2009) e publicada nos Cadernos de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Bio fornecida pelo palestrante.
Elisa Riffel Pacheco
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a escrita feminina através dos aportes teóricos e metodológicos referentes à beleza feminina contemporânea e sua representatividade presente nos diversos artefatos culturais e midiáticos, incluindo o cinema e a literatura. Tal estudo abrange um conteúdo histórico que ressalta a trajetória do embelezamento feminino ao longo dos séculos, bem como sua importância e repercussão nos dias de hoje. Traz como referência teórica os Estudos Culturais em Educação, que fazem pensar as pedagogias culturais que constroem e dão sentido a um modelo/padrão de beleza feminina que cada vez mais ganha visibilidade através de um corpo que se coloca constantemente em evidência e em espetáculo. Este artigo traz um recorte da minha pesquisa de dissertação de mestrado “Meninas fantásticas e o sonho do universo fashion: entre a beleza, o luxo e o glamour das passarelas, vale tudo para ser uma top model?”, que analisou como muitas meninas sonham em serem modelos e tornarem-se mulheres “fantásticas” no mundo da moda.
Palavras-chave: Estudos Culturais; Beleza; Feminilidade; Corpo.
Abstract: This article aims to analyse the female writing through the theoretical and methodological related to female beauty and its representations existing in the various media and cultural artifacts, including cinema and literature. This study has a historical background that highlights the feminine embellishment over the centuries, as well as today. It employs cultural studies in education as its theoretical reference, which leads to the cultural building of a pedagogy and measures the meaning of a standard of feminine beauty that increasingly gains visibility through a body that arises constantly in evidence and in shows. This article is part of my dissertation research, “Fantastic Girls and the fashion universe: the glamour of catwalks among beauty, luxury and glamour. Is it worth anything to be a top model?” It analysed the dreams of so many girls who dream about being a model and to be “fantastic” women in the fashion world.
Keywords: Cultural studies; Beauty; Femininity; Body.
Minicurrículo: Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Psicopedagoga especialista em Pedagogia da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escritora, poeta, atriz. Possui diversas publicações tanto no campo acadêmico como no campo literário.
ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR
Elisa Riffel Pacheco
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
A beleza tem muitas histórias para nos contar. Hoje, vivemos a idolatria do belo sexo e as antigas atitudes hostis ao amor do corpo já se encontram ultrapassadas. Na contemporaneidade está em vista a indústria da beleza e a coqueteria já não causa repugnância, nem suspeita em relação à aparência feminina. Crescem os desejos de autonomia e realização pessoal e a tendência é amar a si mesmo, agradar-se e agradar aos outros. Melhorar a forma física tornou-se uma atitude legítima. As mulheres podem embelezar-se aos “quatro ventos” e o investimento feminino na aparência é promulgado constantemente. Contudo, nem sempre foi assim. Segundo Lipovetsky (2000, p. 102):
(…) durante a maior parte da história da humanidade, a mulher não representou de modo algum a encarnação suprema da beleza, seus encantos não se beneficiaram nem de uma condição muito elevada nem de um tratamento artístico privilegiado. Lição incomparável do mergulho no passado mais distante: não há nenhuma permanência nem necessidade transistórica do “belo sexo”. Este é um fenômeno inteiramente histórico, uma instituição social, um “construído” cuja origem não remonta a muito além da aurora dos tempos modernos.
Nem sempre a beleza feminina foi reconhecida e apreciada no prisma das exaltações estéticas. Nas sociedades ditas “selvagens” que datam aproximadamente do período da pré-história, não se levava em consideração a supremacia estética do feminino. Nessa época, conforme Lipovetsky (2000, p. 104) “(…) o atributo sublinhado não é a beleza feminina, mas a fecundidade, o poder superior de vida e de morte. A deusa não é celebrada por sua beleza, mas por ser senhora dos animais e das forças incontroladas, poder divino de vida e de morte”.
Nesse sentido, a beleza feminina não era mais admirada que a dos homens nem aparecia como uma propriedade distintiva da mulher. O homem era “(…) o ponto de mira da estética corporal” (Lipovetsky, 2000, p. 104). Assim, por mais ricos e espetaculares que fossem os ornamentos e tatuagens femininos, isso não significava uma religião estética da mulher. O curioso era que na sociedade sem escrita, tanto a beleza masculina como a feminina eram reconhecidas socialmente e cantadas, mas não eram enaltecidas nem personificadas como um dom de superioridade.
O mesmo autor nos explica que essa “recusa” social de sacralizar a beleza feminina não cabe somente às eras “primitivas” da humanidade. A ausência de culto do belo sexo foi também percebida na mentalidade camponesa do mundo rural tradicional. Os antigos provérbios empenhavam-se em desvalorizar e diabolizar a beleza feminina. Ao afirmar que por toda a parte dominava a tendência de depreciação dos encantos femininos, Lipovetsky (2000, p. 105) afirma: “(…) trata-se antes de tudo de prevenir os rapazes contra os atrativos fugidios e perigosos da beleza: ‘não há rosa sem espinho’ (Provença-Languedoc); ‘Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento’ (Albi); ‘Beleza não põe mesa’ (Gasconha)”.
O que sustentava a condição de beleza nas sociedades primitivas era a fecundidade. Dessa forma, a mulher infecunda era desprezada, porque tornava incompleto o dever de descendência. Devido a isso, a beleza não poderia ser beneficiada de homenagens. Em tudo, o homem era considerado superior às mulheres. Embora o lado feminino tivesse poderes reconhecidos, nenhum deles poderia ser nivelado fora da supremacia do homem. Ao destacar que as atividades nobres, o prestígio e as marcas de glória eram propriamente da ordem do masculino, Lipovetsky (2000, p. 106) elucida que “(…) nesse contexto, a idolatria social da beleza feminina não pode surgir, uma vez que liberaria um foco de consagração feminina antinômico com o princípio do monopólio masculino do prestígio e da superioridade social”.
Em nenhum código social a adulação do feminino e a ausência de religião estética das mulheres, estavam associadas à organização do trabalho. Assim, na ordem social primitiva não havia mulheres ociosas. Todas as mulheres, segundo o autor, eram encarregadas de assegurar um papel de produtoras, inclusive as esposas dos chefes, que também participavam das atividades econômicas.
Em meio a todo esse contexto, a valorização da beleza como uma característica distintiva do feminino não ganhava corpo. Para possibilitar-se a idolatria do belo sexo era preciso que surgisse uma divisão social entre as classes ricas e pobres. E foi isso o que aconteceu. Com a separação das classes nobres das classes laboriosas, abriu-se uma condição necessária para uma categoria de mulheres isentas de trabalho. Essas novas condições sociais contribuíram para tornar mais estreita a relação entre práticas de beleza e feminilidade, conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 107), dizendo-nos que, “(…) nas longas horas de ociosidade de que dispõem as mulheres das classes superiores, elas passam a se dedicar a maquiar-se, enfeitar-se, fazer-se belas para se distrair e agradar ao marido”. O autor ainda coloca que desde a antiguidade grega, e depois romana, já se fazia o uso feminino nas pinturas. Porém, essa prática não estava associada à cultura do “belo sexo”, e sim à procura das mulheres pelo próprio embelezamento. O reconhecimento social da beleza feminina entra em uma nova fase com o aparecimento do Estado e das classes sociais.
1.1 O culto da beleza feminina e a invenção do belo sexo
Falar da beleza é também falar do corpo. Para Del Priore (2000, p. 15), “(…) as noções de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura”. Hoje, vive-se uma corrida constante pela beleza, em que todos os corpos devem ser cultuados e bem “cuidados”. Vive-se um “carinho”, um cuidado de si, como afirma Couto (2012, p. 119), onde todos são “(…) convidados a administrar a própria aparência, suprir e redesenhar as formas físicas”. Hoje, o sonho de ser bela democratizou-se e está ao alcance de todos. Sant`Anna (2005, p. 122) diz-nos que:
(…) através das imagens e dos discursos criados com o intuito de embelezar a mulher, segundo os interesses econômicos, os padrões morais e os argumentos científicos de cada época, cruzamos outras histórias paralelas ao sonho de ser bela: no Brasil, em particular, o gesto que embeleza não desenha somente uma fisionomia mais à moda, em detrimento de uma aparência doravante considerada ultrapassada, portanto, feia. Ao fazê-lo, ele também revela as diversas nuanças do antigo sonho de ser moderno e civilizado que há muito persegue as elites desse país.
O que antes era considerado um sonho apenas das elites, tornou-se também um sonho do povo, de uma cultura de massa. Ao afirmar que, para o homem ocidental, o corpo tornou-se o lugar de sua identidade e seu modo de ser, Couto (2012, p. 119) destaca que:
(…) nossa época se rende aos diversos cultos que celebram e festejam a corporalidade. Das práticas esportivas intensas e, muitas vezes, radicais, ao uso proliferado do silicone e das cirurgias plásticas, diversas técnicas e terapias servem para hipervalorizar e pavonear o corpo nas ruas, praias, clubes, páginas de revistas, programas televisivos, filmes publicitários, imagens diversas na internet, passarelas, galerias de arte.
Mas, será que sempre foi assim? Tal pergunta feita por Del Priore (2000, p. 15) coloca que “(…) a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais (…)”. Ela salienta ainda que, “(…) mais do que nunca, a mulher sofre prescrições (…)”.
Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cercam. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. E se, em termos contemporâneos, “(…) o algoz não tem rosto” (Del Priore, 2000, p. 15), somos bombardeados, constantemente, por centenas de imagens que nos ensinam uma cultura feminina das aparências. No entanto, no passado era diferente, deslocavam-se outros critérios de beleza que produziam outros efeitos corporais.
Assim como nos explica Vigarello (2006), cada regra, etiqueta ou receita de beleza está ancorada a sua dinâmica corporal. Albino e Vaz (2008), ao analisarem como Vigarello (2006), organizando sua exposição sobre a história do embelezamento feminino, explicam que no século XVI a beleza foi revelada, no XVII era expressiva, no XVIII era experimentada e no XIX, torna-se desejada. Por volta de 1914 até os anos 2000, os autores apresentam a beleza como democratizada. Época democrática do belo sexo significa, nesse sentido, glorificação sem reservas de seu reino, emancipação da dimensão beleza em relação aos medos e às litanias misóginas, autonomização total no que se refere às conotações morais e religiosas. Fim da ambivalência imemorial dos encantos femininos: com o século XX, triunfa a era da pós- mulher fatal (Lipovetsky, 2000, p. 170).
É ao falar da difusão dos cuidados estéticos em todas as camadas sociais que o autor (2000) nos conta sobre uma era democrática da beleza e da chegada do século XX, que faz com que os produtos e as práticas de embelezamento deixem de ser um privilégio de classe. Para Lipovetsky (2000), ao longo das últimas décadas, ocorreu um deslocamento de prioridades, onde uma nova economia das práticas femininas de beleza instituiu outra relação com o corpo. O autor ainda ressalta que:
(…) a preocupação feminina de parecer jovem não tem nada de fenômeno recente. No entanto, por muito tempo os cuidados proporcionados à aparência foram dominados pela obsessão com o rosto, por uma lógica decorativa concretizada no uso dos produtos de maquiagem, nos artifícios da moda e do penteado (p. XX).
Ao falar de uma cultura feminina das aparências, Del Priore (2000) mostra-nos como era comum buscar a transformação do corpo feminino para dissimular as imperfeições com o uso de pós, perucas, unguentos, espartilhos e tecidos volumosos. A cosmética evoluía. E desde o século XVI, na Europa Moderna, já começavam a circular “livros de receitas”, os chamados “segredos” de beleza. Enquanto os poetas despiam o corpo feminino, a sociedade ditava regras para cobri-lo e transformá-lo. A autora (2000, p. 23) afirma que “(…) a pele azeitonada, a robustez física, as feições delicadas e a longa cabeleira passavam por processos feitos de bens e serviços, utensílios e técnicas, usos e costumes capazes de traduzir gostos e rejeição, preceitos e interditos”. Mas, Lipovetsky (2000) conclui que essa tendência não é mais a nossa. Se por muito tempo, o grande alvo do embelezamento feminino era o rosto, hoje o corpo e sua conservação ganham mais paixão e cuidados estéticos. Del Priore (2000, p. 60), destaca que:
Quanto ao rosto, a moda da fisiognomonia, ou seja, a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços do rosto ditava regras. Trocas fisiológicas entre interior e exterior, relações entre físico e moral, compunham um abecedário de normas para fazer o rosto “falar”: a fronte alta e lisa era denotativa de temperamento dócil e serenidade de alma; sobrancelhas naturalmente arqueadas diziam da franqueza de sua possuidora; olhos negros anunciavam calor e vontade; os azuis, ternura e paixões tranquilas; o nariz não podia ser nem muito pontudo nem muito largo e suas aletas, suficientemente bem recortadas para exprimir “impressões fugitivas”; a boca jamais poderia ter lábios finos pois associavam-nos à mesquinharia.
Hoje, no novo planeta da beleza em que vivemos, a magreza se faz preponderante, mas não está sozinha, pois vem acompanhada da febre da beleza-magreza-juventude, que vem sendo anunciada desde os anos 60, em que a cultura juvenil ganha força através da difusão de modelos estéticos adolescentes. Segundo Lipovetsky (2000, p. 130) “(…) desde a Antiguidade as mulheres utilizam maquiagens e outros unguentos a fim de mostrar-se vantajosamente e mascarar certos desfavores”. Com a chegada do século XX, a palavra “ordem” adquire outra configuração e passa dar valor a um furor que põe em evidência uma aparência jovem, magra e descontraída. O velho e admirável “coroa” burguês perde a sua vez e o que vemos hoje, segundo o autor (2000, p. 137), “(…) exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada às metamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedades modernas de cem anos para cá”. A magreza passa a ser o epicentro dessa espiral de coerções estéticas. O corpo esbelto e firme torna-se uma norma consensual.
Nessa perspectiva, Lipovetsky (2000, p. 137) afirma que, “(…) ao longo de todo o século, as estrelas e as manequins propagaram o ideal estético da mulher moderna, esbelta e esguia”. O autor coloca ainda que o corpo feminino emancipou-se de suas antigas servidões (sexuais, procriadoras e indumentárias), mas cada vez mais se rende às atividades modeladoras e à conquista da beleza relacionada à esbelteza, restrições alimentares e exercícios corporais.
Del Priore (2000) salienta que o corpo feminino passou por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. Por muito tempo “(…) a mulher de forma mais salientosa tendia a ser considerada mais ortodoxamente feminina” (p. 53). A mulher era considerada desejada por ser sexuada e fecunda. Como nos diz a autora (2000, p. 58) “(…) feliz prisioneira dessas formas, ela sublinhava a relação entre sua conformação anatômica e sua função biológica e, ao mesmo tempo, sagrada: reproduzir, procriar, perpetuar”. Lipovetsky explica a extraordinária adesão das mulheres à estética da magreza por suas transformações de sua identidade social:
(…) nas sociedades que nos precederam, a corpulência feminina era valorizada porque era associada à fecundidade, destino supremo da condição feminina tradicional. O desenvolvimento dos métodos contraceptivos e o novo compromisso profissional das mulheres transformaram radicalmente não apenas as condições de vida feminina, mas também, no mesmo passo, sua relação com a aparência (2000, p. 138).
Desde o século VI a.C a coqueteria era considerada como ardes diabólicos e o uso de pinturas típicas do gênero feminino era condenado e visto como trapaças desonestas (Lipovetsky, 2000). O humanismo renascentista deu uma nova significação para a beleza feminina e, assim, estabeleceu-se uma ruptura com sua diabolização tradicional. Uma bela mulher era dita como uma obra-prima de Deus. Tais encantos femininos alimentavam a inspiração de muitos artistas, entre eles, pintores, escritores, filósofos, pensadores e poetas. Assim, tanto nos meios letrados, como nos aristocráticos, a mulher era admirada como a emanação da beleza divina, sendo posta na condição de anjo. Se antes sua beleza era inscrita como a “arma do diabo”, símbolo da malignidade, no século XV e XVI, mulher bela, divina, como nos diz Lipovetsky (2000, p. 114) “(…) instalou-se um processo excepcional de dignificação da aparência feminina, de celebração de sua supremacia estética, do qual somos os herdeiros diretos”. Da mesma forma que a beleza foi acusada, também foi exaltada, com os mesmos hinos ao feminino. Lipovetsky (2000, p. 113) ao contextualizar que a idolatria do “belo sexo” é uma invenção da Renascença, explica que:
(…) de fato, é preciso esperar os séculos XV e XVI para que a mulher seja alçada ao pináculo como personificação suprema da beleza. Pela primeira vez na história, realiza-se a conjunção das duas lógicas que instituem o reino cultural do “belo sexo”: reconhecimento explícito e “teorizado” da superioridade estética do feminino e glorificação hiperbólica de seus atributos físicos e espirituais.
Ainda o que caracteriza a beleza renascentista é a imobilidade, o ócio e a brancura da pele, atributos relacionados à ordem aristocrática, assim como com a função de distinção social. Del Priore (2000, p. 56) informa-nos que “(…) as mulheres brancas eram descritas como possuidoras de um corpo negligenciado, corpulento e pesado, emoldurado por um rosto precocemente envelhecido”. Entre as diversas causas, explica-nos Del Priore (2000) estavam os banhos quentes, o amor à comodidade, o matrimônio e a maternidade precoces, a falta de exercício físicos, entre outros. A autora, ainda nos conta que:
Alguns viajantes atribuíam a palidez e o desmazelo das moças à severidade com que eram tratadas pelos pais e maridos, sendo mantidas muito segregadas da vida social – situação ainda mais grave no interior, onde passavam às vezes muitos meses encerradas entre quatro paredes, sem aparecer às janelas. A sujeira e o desleixo que diziam testemunhar provocavam segundo eles, violentas deformações físicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estúpida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” e por esse motivo pareciam também descoradas e doentes (…) (DEL PRIORE, 2000, p. 57).
Isso faz lembrar a história da “Branca de Neve”, em que a princesa é proibida por sua madrasta de sair do castelo, e por isso não tem o hábito de tomar sol, nem de passear pelo bosque, ora de conhecer o mundo em que vive. Contudo, nos diz Lipovetsky (2000, p. 133) que hoje mais do que nunca, as mulheres combatem com muito empenho “(…) tudo o que parece ser flácido, gordo, mole. Já não basta não ser gorda, é preciso construir um corpo firme, musculoso e tônico, livre de qualquer marca de relaxamento ou de moleza”.
No século XIX começa a surgir a necessidade de uma sensibilidade mais individual, mas isso ainda não é tão visto no cotidiano e demora a se consolidar. Como diz Vigarello (2006), há o nascimento de uma nova sociedade que tenta se opor à antiga, mas que ainda se vê sob a “velha etiqueta aristocrática”. Lipovetsky (2000, p. 128), também nos fala que até o fim do século XIX, “(…) a idolatria do belo sexo se desenvolveu em um quadro social estreito”. O autor, ao salientar que as homenagens artísticas às mulheres e às práticas estéticas quase não ultrapassavam os limites do publico rico e cultivado, destaca que:
(…) fora dos círculos superiores da sociedade, as valorizações poéticas e cosméticas da beleza, assim como as imagens resplandecentes do feminino, têm pouca difusão social. Na sociedade camponesa, até a Primeira Guerra Mundial, as acusações tradicionais contra os encantos femininos superam em muito sua exaltação. Durante quase cinco séculos, a celebração da Bela conservou sua dimensão elitista: é um culto de tipo aristocrático que caracteriza o momento inaugural da história do belo sexo (LIPOVETSKY, 2000, p. 128).
Entretanto, enfim, chega o século XX, onde a beleza é associada ao bem estar feminino. As referências dessa época são as misses e atrizes, das quais as imagens passam a ser usadas como propagandas de cosméticos. Lipovetsky (2000, p. 128) acentua que com a chegada do século XX “(…) a imprensa feminina, a publicidade, o cinema, a fotografia de moda propagaram, pela primeira vez, as normas e as imagens ideais do feminino na escala do grande número”. As estrelas, as manequins, as imagens de pin-up são as personagens principais, modelos superlativos da feminilidade que saem das passarelas e das telas do cinema e invadem o cotidiano. Não é mais sonho, nem raridade, é realidade. Conforme nos diz ainda o autor (2000, p. 129), “(…) as revistas femininas e a publicidade exaltam o uso dos produtos cosméticos por todas as mulheres”. O culto do belo sexo entra em sua dinâmica mercantil e democrática, ganhando uma dimensão social inédita ao invadir a era das massas com o advento da cultura industrial e midiática.
É com relação a esse protagonismo que nasce um novo modo de pensar e viver a beleza, em que “(…) buscar uma singularidade transforma-se em um dever” (Albino e Vaz, 2008, p. 250). Neste sentido, antes de investir no próprio corpo, faz-se necessário descobrir a si mesma, pois neste novo contexto, o corpo representa o que se é interiormente. Neste novo cenário da beleza contemporânea, os modelos tornam-se mais fugazes, uma vez que acompanham a vontade e o estado de espírito das musas. Para Lipovetsky (2000, p. 129) “(…) durante séculos, a glorificação do belo sexo foi obra dos poetas e dos artistas, de agora em diante ela é própria da imprensa, das indústrias do cinema, da moda e dos cosméticos”. Com esse “boom da beleza”, termo utilizado por Lipovetsky (2005):
(…) abriu-se um novo ciclo histórico baseado na profissionalização do ideal estético (estrelas e manequins) e no consumo de massa de imagens e de produtos de beleza. Industrialização e mercantilização da beleza, difusão generalizada das normas e imagens estéticas do feminino, novas carreiras abertas à beleza, desaparecimento do tema da beleza fatal, inflação dos cuidados estéticos com o rosto e com o corpo: é a conjunção de todos esses fenômenos que funda a ideia de um novo momento da história da beleza feminina. Depois do ciclo elitista, o momento democrático; depois do ciclo artesanal, a época industrial; depois do período artístico, a era econômico-midiática. As democracias modernas não fazem declinar a cultura do belo sexo, coincidem com sua apoteose histórica.
Com esse incitamento ao consumo, “(…) a negação metafísica da carne foi substituída por um ativismo funcional do corpo” (Lipovetsky, 2000, p. 141). Os novos discursos de valorização de si mesma não escapam às normas e aos domínios de controle do corpo. Ao falar de uma “teologia da beleza”, por exemplo, Lipovetsky (2000, p. 140) coloca que “(…) a febre contemporânea da beleza feminina é a continuação da religião por outros meios”. Em tempos hipermodernos, o centro é a diabolização do pecado da gordura. Este é o catecismo que culpabiliza as mulheres e hipnotiza e manipula os “fiéis” a renunciarem aos prazeres da gula. De agora em diante, segundo Lipovetsky (2000, p. 140):
(…) as eleitas são as top models e as não-eleitas as mulheres gordas e enrugadas. Como todos os cultos religiosos, a beleza tem seu sistema de doutrinação (a publicidade dos produtos cosméticos), seus textos sagrados (os métodos de emagrecimento), seus ciclos de purificação (os regimes), seus gurus (Jane Fonda), seus grupos rituais (Vigilantes do Peso), suas crenças na ressurreição (os cremes revitalizantes), seus anjos (produtos de beleza), seus salvadores (os cirurgiões plásticos).
Se o sistema contemporâneo da beleza amplia a lógica moderna do consumo, ele também vem acompanhado de um novo sistema de comunicação, do qual a imprensa feminina faz parte e contribui para promover normas estéticas. A profusão das representações da beleza feminina conheceu uma popularidade crescente e, segundo Lipovetsky (2000, p. 155), “(…) tanto as mensagens como as imagens reforçam a definição do feminino como gênero destinado à beleza”.
1.2 A Algumas considerações: ser bela e feliz para sempre?
Ao nos afirmar que a imprensa feminina adquiriu um imenso poder sobre as mulheres ao longo do século XX, Lipovetsky (2000, p. 165) ressalta que “(…) não há muita dúvida de que a imprensa feminina figura entre os agentes mais eficazes da propagação social das normas do corpo esbelto (…). Frente às novas exigências de sedução, surge uma nova mulher que usa a maquiagem e a roupa que quer. Lipovetsky (2000) conta-nos que a partir dos anos 1960, a imprensa feminina dá mais acessibilidade à elegância, tornando-a prática e descontraída. E assim, a mídia passa a valorizar a individualidade e a personalidade, e a beleza, agora, se torna livre. Até um artigo da Vogue de 1968, como destaca Lipovetsky (2000, p. 165) “(…) defende a ideia de que a beleza resulta metade da personalidade, um quarto da maquiagem e outro quarto da natureza”. Dessa forma, a mídia feminina começa a reforçar o poder das mulheres sobre sua aparência física. E que mulher não sonha em ser bela? Ao falar que se difunde uma cultura que favorece a responsabilização individual pelo corpo e o princípio de autoconstrução de si, Lipovetsky (2000, p. 101) coloca que:
É um belo romance, é uma velha história. Lembremo-nos dos contos, das rainhas e de suas inquietações lancinantes: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Ao longo dos séculos, os poetas se maravilharam com os encantos da bela, os pintores e os escultores glorificaram a plástica de Vênus, os livros de “segredos” propagaram as receitas da sedução feminina. Ainda em nossos dias, as fotografias de moda, os institutos e concursos de beleza, os conselhos e produtos cosméticos não cessam de recompor o primado da beleza feminina, de reproduzir a importância da aparência na identidade feminina. Que mulher não sonha em ser bela e que homem não sonha com mulheres lindas? Uma mulher nunca é bela demais: quanto mais o é, mais irradia sua feminilidade. Para os homens, nada de semelhante: a imagem da virilidade não é função da beleza. Hoje como ontem, as expectativas em relação à beleza e ao valor a ela conferido não são equivalentes no masculino e no feminino. Para nós a equação é evidente: segundo sexo e belo sexo, é a mesma coisa.
Esse primado da beleza feminina vem reforçando o sonho de se estar bela desde as nossas infâncias. A importância da aparência ganha palco nas mais diversas circunstâncias sociais. As mulheres são cobradas para adquirirem e manterem uma beleza midiática, a ser consumida e produzida como nos contos de fadas. Muitas meninas, por exemplo, já devem ter sonhado em assumir um estilo Cinderela, Branca de Neve ou Bela Adormecida de ser. Para terem a chance de atingir tais sonhos, elas “abraçam” os conselhos e as dicas que prometem corrigir todos os “defeitos”, alcançando o corpo idealizado. Mas e o que a mídia tem a ver com isso? Conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 167) “(…) a mídia menos produz o desejo feminino de beleza do que o exprime e intensifica”. Mas o que as artistas, as princesas e as manequins têm em comum? Não poderíamos pensar que ambas nos sugestionam ou irradiam uma feminilidade fantástica? Nessa exposição e proliferação de imagens de mulheres realçadas e intensificadas na mídia, não nos inspiramos a querer ser cada vez mais belas e sedutoras? O sonho de ser uma famosa top model não poderia estar de certa forma relacionado com todo esse encantamento literário da beleza feminina? Lipovetsky (2000) nos explica que, por muito tempo, se pendurou o tema da beleza perigosa, que despertava o medo e a desconfiança dos homens. Contudo, com a sagração do belo sexo, houve uma mudança importante e o feminino passou a ser cercado de homenagens enfáticas. Nesse contexto, segundo Lipovetsky (2000, p. 125):
(…) “Cada bela mulher é uma rainha”, diz justamente Balzac: depois de milênios de depreciação, um poder feminino é posto num pedestal, admirado, supostamente igualando ou mesmo superando o poder dos monarcas. O novo reside em que um atributo feminino tornou-se capaz de conferir às mulheres títulos de nobreza, prestígio, riqueza simbólica. Assim, os hinos ao belo sexo não podem ser assimilados pura e simplesmente a um instrumento de alienação do feminino; concretizando um reconhecimento e uma valorização inéditos das prerrogativas femininas, permitiram ao mesmo tempo impulsionar uma promoção social e simbólica das mulheres, ainda que excepcional, a exemplo das Damas de Beleza e outras favoritas do Rei.
E que mulher ou menina não sonha em ter uma beleza de princesa ou de rainha? Que jovem não almeja em ser a dama do rei ou aquela moça da corte cortejada por seu admirado embelezamento? Desde cedo, as meninas aprendem a ser princesas, buscando dicas e conselhos de beleza para o seu aperfeiçoamento físico. Ser considerada como uma “rainha” pode ser um caminho para se chegar às passarelas. As misses ao vencerem um concurso de beleza, usam uma coroa. Tal objeto glorifica a beleza que foi conquistada. Muitos atributos femininos são ensinados nos contos de fadas: comportamentos, modos de agir, de pensar, de vestir, de andar, de acenar, e de cuidar da própria aparência. O trabalho de uma modelo não se distancia muito das aprendizagens consideradas importantes para uma princesa. Rainhas, princesas, misses e atrizes cinematográficas, o que elas têm em comum? Os penteados, as maquiagens, o corpo magro, as medidas, e o nariz arrebitado? Será que todas essas referências não trazem em si o brilho de uma super top model? Elas não deixam de ensinar a importância de uma superprodução para se estar bela. Em um passe de mágica, a Gata Borralheira virou Cinderela. Lipovetsky (2000, p. 181) considera que essas figuras ideais do feminino têm em comum “(…) o fato de sua beleza ser fruto de um extraordinário trabalho de metamorfose”. O autor complementa afirmando que “(…) evidentemente, os artifícios sempre permitiram que as mulheres resplandecessem e parecessem ‘outras’”. Isso nos é mostrado até nas imagens de mulheres representadas nos contos de fadas. E as top models, segundo Lipovetsky (2000), prolongam esse processo de superprodução artificialista. As receitas da sedução feminina estão produzindo um modelo de mulher para ser posto em espetáculo a ser desfilado em concursos de beleza. Conforme ainda nos explica o autor (2000, p. 182):
(…) a fase radiosa da beleza coincide com o momento em que a técnica permite construir belezas vivas mais sublimes que as criações imaginárias, em que o mito da beleza torna-se verídico e as belezas de carne, imagens míticas. Em nossas sociedades, a beleza feminina já não é acusada de produzir o mal, é produzida como uma imagem de sonho para o consumo das massas (…).
Nesse sentido, a beleza maldita foi substituída por uma beleza mercantil, segundo Lipovetsky (2000, p. 182): “(…) uma beleza funcionalizada a serviço da promoção das marcas e do faturamento das indústrias do imaginário”.
As princesas dos contos de fadas, apresentam a figura de uma mulher jovem, loira, alta, magra, com uma cintura de manequim e um rosto delicado. Muitas meninas, por exemplo, se inspiram até hoje na imagem da Cinderela e de seu sapatinho de cristal, cuja história já ganhou algumas adaptações e releituras para o cinema. Isso também inclui a Bela Adormecida, uma princesa romântica, meiga, delicada, de vestido rosa, cabelos feitos da luz do sol e lábios rubros como as rosas vermelhas. Uma jovem que sonha em encontrar seu príncipe encantado e ser feliz para sempre. Nesses contos infantis, as princesas apresentam um corpo feminino perfeito. Essa cultura que cria e ensina gestos, atitudes, valores, maneiras de ver e cuidar de si, difunde-se no campo social, estabelecendo estilos e tendências. Muitas animações, por exemplo, dão fluência a tais discursos legitimando como é ser mulher na atualidade. Uma das mais recentes releituras dos contos de fadas, o longa-metragem – Espelho, espelho meu – faz uma adaptação do filme “A Branca de Neve e os sete anões” da Disney. A rainha má, interpretada pela atriz americana Julia Roberts, mostra os seus métodos e artifícios para manter a aparência de um corpo perfeito. Ao fazer referência a essa personagem, pretendo ilustrar, como a partir de um panorama cultural, as meninas são interpeladas a se tornarem fantásticas desde as suas infâncias. Lipovetsky (2000, p. 181) destaca que “(…) as mulheres manequins, da mesma maneira que as estrelas da tela grande, não são irreais nem fictícias, são recompostas e surreais”. Esse filme, por exemplo, teve uma bilheteria de quase dois milhões de ingressos vendidos no Brasil. Assim, penso que algumas imagens de corpos femininos que circulam e são produzidas na mídia, investem em modelos a serem perseguidos. Nessa constante busca pela aparência perfeita, qualquer técnica de beleza parece ser válida para que bruxas, princesas, artistas, modelos e as mulheres ditas “comuns” adquiram os padrões e transformem-se em “uma linda mulher”.
Referências
ALBINO, B. S.; VAZ, A. F. Uma narrativa histórica por meio da beleza: comentários sobre História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje, de Georges Vigarello, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 29, p. 145-151, 2008.
COUTO, Edvaldo Souza. Corpos voláteis, corpos perfeitos: estudos sobre estéticas, pedagogias e políticas do pós-humano. Salvador: EDUFBA, 2012.
PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
Bio fornecida pelo palestrante.
Dina Maria Martins Ferreira
Universidade Estadual do Ceará
Université Paris V, Sorbonne
RESUMO: Este estudo se configura pela hibridez de áreas de estudos da linguagem, já que leva em conta os estudos linguísticos e literários sobre gênero feminino em torno do mito de Helena, o eterno feminino. Faz-se um percurso analítico desde o século VIII a.C. na Grécia antiga e chega-se ao Brasil contemporâneo. Nessa jornada poética, senão filosófica, discute-se se é pertinente aceitar o conceito de gênero feminino por vozes masculinas, formadores de estereótipos falocráticos, ou se o conceito de gênero feminino se constitui apenas por performatividades da mulher.
PALAVRAS-CHAVE: Feminino; Mito; Estereótipo; Vozes masculinas
ABSTRACT: This study sets the hybridity of areas of language and literature studies, as it takes into account the linguistics and literary studies about feminine gender concerning the myth of Helen, the eternal feminine. It is an analytical survey since the VIII Century B.C., in ancient Greece, until contemporary Brazil. In this poetic journey, we discuss if it is appropriate to accept the notion of feminine gender by male voices, forming phallocratical stereotypes, or if the concept of feminine gender can only consist of women’s performances.
KEYWORD: Feminine; Myth; Stereotype; Male voices
MINICURRÍCULO: Pós-doutora pela Université Paris V, Sorbonne e Unicamp (2010), é graduada pela Universidade de Campinas, Unicamp (2002-2003) e doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ (1995). É docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará; membro pesquisadora do Centre d’Études sur Les Actuels et Quotidien, Université Paris V, Sorbonne. É autora de quatro livros, organizadora de quatro outros, capítulos de livros, artigos nacionais e internacionais.
MÚLTIPLAS VOZES LITERÁRIAS
Dina Maria Martins Ferreira
Universidade Estadual do Ceará
Université Paris V, Sorbonne
Este estudo é resultado de estudos sobre o feminino e mitologemas na literatura greco-latina (BRANDÃO, 1989)[1]. Aparentemente não teria ligação com os estudos atuais sobre o que, por exemplo, Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012) e
Luce Irigaray (1994; 1994) chamam de “feminismo da diferença”, pois, como poderão observar, não vai se travar nenhuma luta ferrenha em prol do feminismo nem tratar especificadamente de escrita feminina. Muito pelo contrário, pois são as vozes masculinas literárias que constroem o feminino Helena.
A escolha do título “O feminino Helena: múltiplas vozes masculinas” vem justamente nos possibilitar viajar não só pelo território geográfico-simbólico de Helena como também pelos territórios das vozes dos poetas-masculinos construindo o feminino “helena”, uma representação do ‘eterno’ feminino no universo mítico masculino, cujas contingências e performatividades são da seara do sistema patriarcal ‒ um devir de helenas que não têm nem início nem fim, habitando as brumas dos mitologemas. Nessa viagem literária de ‘helenas’, mesmo enaltecida ou enegrecida, o que o movimento feminista contemporâneo (século XX e XXI) chama de gênero feminino é apagado, devido não ser construído pela performatividade feminina.
Mesmo que tenhamos a preocupação de ‘localizar’ o geográfico, este local no atlas é de natureza simbólica. Quando me refiro à noção do simbólico estarei no espaço de mitologias gregas, quando o caso, que se constroem na sacralidade do símbolo. E por tal aporte sacralizador torna-se um signo denso e durável, na medida em que está sempre em equivalência com outros sentidos de vida (BARTHES, 1989). Segundo Brandão (1986, p. 38), a própria etimologia do termo símbolo já ratifica sua densidade de sentido, ou seja, o vocábulo grego súmbolon (de sun = junto, com e ballein = atirar, lançar) tem o sentido de
(…) ‘lançar com’, arremessar ao mesmo tempo, ‘com-jogar’. De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitia aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de equivalência (grifo nosso).
Apesar de estarmos aventando ao símbolo um caráter sacralizador, durável e equivalente, ele não está ontologizado no essencialismo; até, muitas vezes, está agregado ao simbólico, pois não se nega à morfologia cultural de cada emergência simbólica. O que se propõe é entender a construção do ‘gênero helena’ pela percepção de que
(…) os símbolos são diversamente vividos e valorizados: o produto dessas múltiplas atualizações constitui em grande parte os ‘estilos culturais’ (…) [e] como formações históricas, essas culturas não são mais intercambiáveis; estando já constituídas em seus próprios estilos, elas podem ser comparadas no nível das Imagens e dos símbolos (ÉLIADE, 1996, p. 173) (grifo nosso).
E Haesbaert (2006, p. 40) nos auxilia a entender porque estamos designando essa viagem de uma geografia simbólico-literária. Para esse autor nada é mais coerente do que tratar território pela vertente cultural ou “simbólico-cultural: [que] prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido”; Ou seja, a dimensão simbólica habita um espaço social organizando-se pela historicidade e geograficidade, quesitos de territorialidade. Vale a observação que historicidade e geograficidade podem ser valores construídos no próprio território ou designados por outro território ‒ neste caso estaremos ainda em viagem, mas já fora da Grécia Antiga, pois os valores da mitologia grega podem ou não ser apropriados por outro território, tal como Itália, Alemanha, Brasil ‒ os territórios que também vamos visitar.
Apresentamos o início de nossa viagem com um guia-atlas: primeiro a localização histórico-geográfica dos poetas masculinos[2], depois o percurso de Helena pela literatura mais antiga. Vale a ressalva de que reduzimos em muito nossa viagem, pois só na literatura greco-romana haveria mais de 34 obras em que Helena se presentifica.
Onde bradam as vozes dos poetas-masculinos gregos:[3]
Figura 1
www.atlas.google.com.br
Legenda:
Geografia das vozes dos poetas e suas obras:
Anatólia, Homero, Ilíada e Odisseia (séc. VIII a.C.)
Ilha de Kíos, Hesíodo, Os trabalhos e os dias e Teogonia (séc.VIII e VII a.C.)
Ilha de Lesbos, Safo, Poemas, L.I (séc. VII a.C.)
Éfeso, Hipônax, Fragmentos (séc. VII a.C.)
Ilhas Cíclades, Semônides
de Amargós, Sátiras às Mulheres (séc. VII e VI a.C.)
Atenas, Ésquilo, Oréstia (séc.V e IV a.C) e
Eurípedes, Andrômaca, Orestes, Medeia, Helena (séc.V e IV a.C)
Peregrinação literário-simbólica de Helena:
Troia
Ilha de Ítaca
Micenas
Esparta
Creta
E já tendo a contextualização geográfico-histórico-simbólico, é na e pela linguagem que se os poetas masculinos constroem as suas helenas, senão os estereótipos de representação feminina. Estamos chamando novamente a atenção para os estereótipos, devido ao fato de não haver performativos femininos nessa caminhada. No entanto, se os estereótipos fossem considerados gêneros, teríamos quatro subgêneros ‒ feminino-deusa; feminino-heroína; feminino-traidora-prostituta; e feminino-em-paz ‒, todos sob a égide do hemistíquio de Ésquilo ‒ “sofrer para compreender”.
3.1. Feminino-deusa
A primeira Helena se constitui em divindade creto-micênica. Sua existência foi comprovada em Atenas e na Ilha de Creta e outros lugares como Rodes etc, conforme atestou o geógrafo Estrabão (63 a.C.-24 a.C., grego da Amaseia, atual Turquia). Era uma deusa ctônica da vegetação, que sempre renascia todo ano. Tanto que Apolo na tragédia euripidiana Orestes confirma a tradição divina de Helena:
Porque, filha de Zeus, ela deve viver como imortal,
E com Cartor e Pólus entará nas profundezas do éter,
como guardiã da vida dos navegantes [4]
(Or.1635-1637)
E Homero a apresenta na Ilíada, quando ela sobe as escadarias em Troia para ser apresentada ao Rei Príamo, pai de Páris, o príncipe de Troia, encantado por sua beleza a sequestra de seu marido Menelau, rei de Esparta:
Não, não é uma nêmesis [“uma punição”] que troianos e aqueus de belas grevas
[sofram tantas desgraças,
há tanto tempo, por semelhate mulher (…)
Quando vista de perto ela se assemelha terrivelmente às deusas imortais …
(Il. III. 156-158)
Esse trecho se refere ao fato de que Zeus engendraria uma filha, Helena, de tal modo que provocasse uma guerra entre atual Ásia e Europa, de modo a trazer o equilíbrio cósmico, os homens mortais estavam em grande alarido. E Helena seria o pretexto para deflagar o conflito e Aquiles agiria. Esta mesma prerrogativa se repete em Helena de Eurípides, não só ratificando o papel do feminino que deve ser punido, como também transformando esse papel punidor em glórias ao masculino (Aquiles):
Além do mais, a estes infortúnios acrescentaram-se
outros desígios de Zeus: a eclosão da guerra entre os helenos
e os desventurados troianos, a fim de aliviar a Mãe-Terra
de uma pletora impertinente de mortais e enaltecer
o mais destemido dos gregos.
(Hel. 36-41)
Helena como a deusa da punição, já constrói a representação estereotípica de que tudo que acontece é culpa da mulher. Não é só o hemistíquio de Ésquilo que compõe o feminino-punição, Eurípedes é insistente nessa prerrogativa na obra Medeia:
De todos os seres viventes e pensantes, somos nós, as mulheres,
as criaturas mais sofredoras. Primeiro, somos obrigadas
a gastar muito dinheiro para comprar um marido
e (além disso, a) dar um senhor ao nosso corpo, mal
ainda mais grave que o primeiro
E vem o problema mais sério: será ele bom ou mau?
Pois é uma vergonha para as mulheres abondonar o marido
sem lhes ser possível repudiá-lo.
(Med. 230-237)
3.2. Feminino-heroína
E, na condição de heroína, mesmo isenta de culpa pelo rei de Troia, Príamo, Homero não deixa Helena livre do sentimento de que merece punição. Helena se amaldiçoa e se julga digna de castigo:
Diante de ti, dileto sogro, sinto-me constrangida e temerosa,
Antes me tivesse levado a morte cruel do que ter seguido
teu filho até aqui, abandonando meu tálamo, meus parentes,
minha querida filha e minhas amáveis companheiras.
(Il. III. 172-175)
Na Odisseia, Helena minora, de um lado, sua culpa de mulher espartana em diálogo com Telêmaco ‒ conta sua experiência em Troia com a entrada de Ulisses e o “cavalo de Troia”, o famoso “presente de grego” ‒, e, de outro, não deixa de glorificar a superioridade masculina:
Nesse tempo, enquanto outras mulheres troianas lamentavam-se em altas vozes,
meu peito, no entanto, se alegrava, pois meu coração já se inclinara
a voltar para casa, e lamentava a loucura em mim,
provocada por Afrodite, quando para lá me arrastou de minha terra pátria,
deixando minha filha, meu tálamo, meu esposo,
que não é inferior a ninguém, quer no espírito, quer na beleza.
(Od. IV. 259-264)
A superioridade masculina também é enaltecida pelo próprio feminino Helena, tanto que na Ilíada, a mulher heroína necessita, para ter tal atributo, de um marido herói, Menelau, já que Páris se enfraquece diante dos horrores da guerra de Troia:
Se os deuses, todavia, nos reservaram estes horrores,
porque, ao menos, não sou mulher de um homem destemido,
capaz de sentir a repulsa e as múltiplas injúrias dos homens?
Páris, no entanto, não tem persistência alguma e jamais aterá.
E creio que, em breve, ele verá as consequências.
(Il. VI, 349-353)
Helena se faz tão heróina que enfrenta Afrodite, acusando-a do feitiço recebido para ter abandonado Menelau, rei de Esparta. Manda Afrodite deitar com Páris:
Vai deitar com ele. Abandona a companhia dos deuses,
deixa de escalar o Olimpo. Aprende a te atormentar por causa dele,
vela por ele, até que o mesmo te faça sua esposa e talvez sua escrava!
(Il. III, 406-409)
Mas Helena-heroína, rapidamente se transforma em anti-heroína por Hesíodo, em Os trabalhos e os dias:
Outros, conduzidos em navios, para além do abismo marinho,
para Troia, por causa de Helena de linda cabeleira,
lá foram envolvidos pela morte que tudo finaliza.
(Trab. 164-166)
3.3. Feminino-adúltera-traidora-prostituta
E de anti-heroína Helena passa a adúltera e traidora, em Andrômaca de Eurípedes:
Nenhuma jovem espartana, mesmo que o desejasse,poderia permancecer virtuosa:
desertando a casa paterna, coxas nuas e peplos esvoaçantes,
participam com os adolescentes
dos exercícios nos estádios e palestras, hábitos a meu ver intolerávies.
É necessário, após isso, admirar-se de não formardes esposas honestas?
(And. 595-601)
Realmente Eurípides não perdoa Helena, porquanto não a isenta de um segundo julgamento que a condena à morte. A impura mulher em Orestes deve ser condenada:
Se nosso punhal se erguesse contra uma mulher honesta,
seria um crime abominável. Helena, todavia, pagará pelaGrécia inteira,
cujos pais matou, cujos filhos fez perecer, cujas mulheres privou de seus maridos.
Erguer-se-á um grito de júbilo e as chamas dos altares
(…)
por termos derramado o sangue de uma mulher infame.
(Or. 1132-1140)
Ésquilo também se insurge contra Helena, na trilogia Oréstia. Aliás é impossível em tragédia salvar alguém, não?
Quem, pois, senão um ser invisível que na sua presciência,
fazendo-nos falar a língua do destino, deu este nome tão verdadeiro
àquela que, objeto de contestação, o esposo reclama, lança na mão,
esta Helena justamente cognominada perdição de navios,
perdição de homens, perdição de cidades
(Agam. 681-688)
Esta mulher traidora ascende a Hesíodo, em Os trabalhos e os dias, pois conclama que /quem confia em mulher está confiando em ladrões/ (Trab. 375), e também na Teogonia:
E quando, em vez de um bem, [Zeus] criou este mal tão belo,
conduziu-a (Pandora) para onde estavam os demais deuses e homens.
(…)
(…) Dela se originou
a espécie maldita das mulheres, flagelo terrível instalado
entre os homens mortais…
(Teog.585-588; 590-592)
E um pouco mais ao sul do continente grego, nas Ilhas Cíclades, Simônides de Amorgós também não perde a vez de satirizar Helena em Sátira às mulheres:
Zeus criou com efeito este imenso flagelo
e a ele nos prendeu com liame indestrutível: o Hades
recebeu, por isso mesmo, os que lutram por causa deuma mulher.
(Sat. mulh. 115-118)
Mas a misogenia alcança o seu épice com Hipônax de Éfeso, cujo ditado popular circula até hoje entre homens machistas:
Há dois momentos em que a mulher nos proporciona um prazer supremo,
no dia do casamento e quando a levamos à sepultura.
(Frag. 29 Bergk)
3.4. Feminino-em-paz
Diante de tanta misogenia, parece-me que até a voz patriarcal-poética se cansa, A este cansaço chamo pelo feminino-em paz, porquanto Eurípedes desvanece Helena em éter:
Todos vós, frígios e aqueus, como sois infelizes. As maquinações de Hera
fizeram que, por minha causa, durante tantos anos morrêsseis
nas margens do Escamandro! Julgáveis que Páris, possuísse
uma Helena e ele no entanto nunca a teve. Agora, após cumprir
durante todo esse tempo o que me foi pelo destino imposto,
retorno para junto de meu pai, nos altos dos céus.
(Hel. 608-613)
Já Goethe a celebra em Fausto (1806 [1981]), nas serenas camadas do Éter, vivendo com Aquiles, na foz do Danúbio, eternamente ditosa na Ilha Branca:
Eu [Helena], como sombras, vinculei-me a ele, outra sombra,
Um sonho foi, dizem-no as próprias palavras;
Desmaio. E sombra torno-me eu, para mim mesma.
(Fausto, Ato III)
Contudo, parece que Helena não descansa no éter da Ilha dos Bem-Aventurados, continua até hoje a provocar pulsões (séculos XIX, XX e XXI), sejam elas misóginas ou não, sejam irônicas, suaves e deleitosas ‒ mas sempre pulsão na voz do masculino. Como diz Brandão (1986, p. 121), “Curioso é que entre muitos poetas modernos Helena continue sua caminhada, às vezes parecendo até que o sangue de Troia nunca foi purgado!”. Continua o hemistíquio esquiliano “sofrer para compreender”!
O poeta neogrego Giorgos Seféris (apud PAES, 1986, p. 169) a transforma em sombra, talvez querendo lhe dar paz ou até culpando-a da guerra, quiçá?:
E em Troia?
Nada em Troia – apenas um fantasma.
Assim os deuses o quiseram.
E Páris se deitou com um sombra, como se ela fosse um ente sólido,
e por Helena durante dez anos fomos massacrados.
(Diário de Bordo III)
Na comédia Abel e Helena (título é um trocadilho) de Artur de Azevedo (1877), Helena tem um rapto diferente. Helena deveria ir para um convento, pois seu padrinho Nicolau (que a pretendia para esposa) a surpreende com o bem-amado Abel. E este, disfarçado de frade, rapta Helena. Na fuga, já no trem em movimento, Abel tira o capuz, os óculos e a barba e grita para a apoplético Nicolau:
Ó Nicolau, triste papel
fizeste em cena:
cá levo Helena…
Eu sou Abel!
(Ato Terceiro, Cena IX)
Já o poeta e ensaísta Gilberto Mendonça Telles, no poema Ubi Troia Fútil, em quatro versos, euripidizou Helena, em Sociologia Goiana (1982, p. 111):
Helena de um
Helena de dois
Helena de trois
Helena de trottoir
Enfim, parece que o feminino se eterniza em mito e poesia, pela voz literária-masculina de Goethe em Fausto:
Têm os filólogos aqui
Enganado a si mesmos como a ti.
Se é mitológica, é única a mulher;
Recria-se o poeta como lhe prouver.
Não envelhece, nem fica madura,
Mais sedutora, sempre, sua figura.
Raptam-na, moça, idosa, ainda é do amor a meta;
Pois basta! Não se atém ao tempo o poeta.
Mas ainda o feminino não é o agente de sua representação, é o Alter masculino que a constrói, seja belamente, seja ironicamente.
Mesmo em uma viagem que se iniciou em tempos primevos, a voz feminina deu o seu brado: Safo, a poetiza da ilha de Lesbos. Talvez um marco para o movimento feminista em que a mulher é agente de suas escolhas. A história de Safo é envolta em lendas e muitas controvérsias devido à Escola para Moças que fundou, onde se ensinava poesia, música e dança somente a mulheres. Safo amava todas as suas “amigas” e não alunas (daí o termo lesbianismo, devido sua homosessualidade), e principalmente seu grande amor e amante Ítis. Safo, diante da escolha de Helena de acompanhar seu amante Páris, elogia sua coragem e destemor:
Uns consideram que as corridas de carros, de infantes ou de navios
são o que há de mais belo na face da negra terra.
Para mim, o que de mais sublime existe é o objeto do amor de cada um.
É muito fácil fazer que todos compreendam esta verdade:
Helena, que pôde comparar a beleza de tantos homens,
escolheu como o mais atranete aquele que destruiria a gloriosa Troia.
Tendo abandonado a filha e os parentes mais queridos,
deixou-se ir, arrastada por Cípris, a fim de amar
um homen de terras longínguas…
(Liv. 1, 27 D, 1-13)
Mesmo que o percurso do feminino pela voz masculina não revele um embate feminista, este estudo não deixa de captar a prerrogativa de Simone de Beauvoir (1949[1973]), quando diz “não se nasce mulher, torna-se mulher”; até porque é uma afirmativa que embuti toda uma noção de performatividade, seja uma suposta Helena um sujeito agente, seja um personagem do universo masculino.
Se pudéssemos ancorar a representação do feminino pela figura de Helena(s), duas categorias são aventadas para a constituição de sua representação social: feminilidade e “feminilitude” (MARTINS FERREIRA, 2009). Na feminilidade, encontramos com a Helena que “alimenta o perfil identitário do senso comum da mulher tradicional, provido por arquétipos do sistema patriarcal” (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 126) ‒ não é à toa a construção que é feito pelos poetas-masculinos. E, na “feminilitude”, encontramos a Helena de Safo que “escolheu”, agiu ‒ enfim esta Helena constrói “ o sujeito-’feminilitude’ [que] precisa afirmar-se no seu meio funcional, adotando elementos que indexem seu posicionamento de força” (MARTINS FERREIRA, 2009, p.127).
Retornando a Simone de Beauvoir (1949[1973]), Helena, a meu ver, torna-se mulher, mesmo sob a égide do falocentrismo, até porque os poetas precisaram da força centrípeta de Helena para compor sagas, comédias e tragédias humanas. Sem Helena, mesmo sendo assinalada com fantasma, cf. Seféris, suas ‘histórias’ literárias não se narrativizariam. Sob o falocentrismo é a mulher punição, precisa “sofrer para compreender”, no entanto o masculino esqueceu que sofrer é ação, é um “tornar-se mulher”, mesmo que, pretensamente, submetida ao alter masculino.
Parece-me que, mesmo insistindo em categorias dicotômicas na construção identitária de gênero feminino, em que o universo ontológico se exacerba, a dicotomia perde sua força hierarquizante. O “tornar-se mulher” beauvoiriano encontra-se com a asserção do filósofo analítico Willard van Orman Quine: “ser é ser o valor de uma variável” (apud Rajagopalan, 2000, p.80). O termo ser pode nos levar ao onto, mas o variável se movimenta, se performatiza, torna-se. Nesse sentido,
Tal assertiva vislumbra o universo multifacetado em que a identidade se constrói, por exemplo, ser mulher é ser o valor feminino de uma rede variável sócio-cultural-ideológica, ou seja, o construído da identidade do feminino mobiliza, situado em espaço social e cultural, sentidos ideológicos (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 127).
A própria Judith Butler (1986, p. 35), uma das grandes representantes do feminismo contemporâneo, afirma que “se há algo de certo na afirmação de Beauvoir de que ninguém nasce mulher e sim torna-se mulher decorre de que a mulher é um termo em processo, um devir, um construir de que não pode dizer com acerto que tenha uma origem ou um fim”.
Não foi isso que aconteceu às helenas (propositadamente no plural) pelas vozes masculinas desde o século VIII a.C. até os XIX, XX e XXI? O “ser mulher” não foi se “tornando mulher” x, y, z, de acordo com o tempo e espaço, de acordo com as gramáticas culturais nas quais emerge?
É preciso também lembrar que a noção de gênero[5] “é um conceito contemporâneo, que surge a partir da ideia de que o feminino e o masculino correspondem
a construções culturais que vão mais além das fronteiras entre os secos de caráter puramente biológico (KUBISSA, 2006, p. 182).
Resta a questão de saber se o gênero feminino é apenas delimitado pela agência do discurso feminino ou pode ser construído pelo masculino.
Se gênero feminino está vinculado ao discurso da mulher, à Helena não aplicamos a noção de gênero, e sim a de um arquétipo feminino construído pelo sistema patriarcal. Se o movimento do “feminismo da diferença” reclama contra a divisão cultural genérica entre masculino e feminino, buscando uma superação de gêneros para uma compreensão unitária do humano (cf. KUBISSA, 2006, p. 183), o nosso estudo sobre o poeta masculino construindo o feminino perde sua razão de ser. Até porque uma “compreensão unitária” é uma linha cultural e sociológica de valoração, mas eliminar as diferenças, parece-me inviável. Para Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012), a linguagem é uma tradução e que qualquer escritor fala através do corpo; e como o corpo feminino é diferente do masculino, logo as literaturas vão construir outros corpos diferentes de acordo com o corpo-escritor. Nesse sentido, Helena não seria um gênero feminino ‘puramente’ feminino já que a escritura é construção do masculino?
Se gênero é uma estilização do corpo, independente de quem o constrói, Helena seria um corpo construído (pelo masculino), estilizado pelo tempo e história em que é construído; mas se depende da própria agência, Helena seria uma fantasma-mulher ou uma personagem feminina segundo a vontade do masculino. Conforme argumentação de Pinto (2002, p. 106) agência/linguagem/corpo é uma rede de contínua intercomunicação, pois “o efeito do ato de fala é operado ao mesmo tempo pelo que é dito, por quem diz e como é dito”, logo, sujeito, fala e corpo estão em relação imbricada. No caso de nossa viagem, teríamos o sujeito e a fala masculina construindo o corpo feminino. Aí o perigo de entendermos gênero como dissociado de quem fala, pois
(…) o dizer do corpo não é um acidente, uma causalidade psico-física-motora do momento da enunciação ligada à intenção do/a falante. O corpo é também ritualizado. Sua ação não é um ato físico não convencional. (…) Suas estilizações fazem parte dos processos de marcação social; a convencionalidade e a repetição definem sua legitimidade e traçam o domínio do possível, do pensável e do executável (PINTO, 2002, p. 107).
E nessa viagem a “convencionalidade” e a “repetição” de helenas-sofrer-para-compreender parecem se deter na categoria feminilidade, sob a legitimação do sistema patriarcal.
Porém, o “domínio do possível, do pensável e do executável” está aí, haja vista a nova imortal da Academia Brasileira de Letras, a pensadora e crítica Rosiska Darcy de Oliveira, que assumiu a cadeira 10 em junho 2013, cujos atributos, “a rebeldia, a irreverência, a defesa do ‘feminino’ e uma ruidosa campanha pela felicidade” (ZAIDAN, 2013, p. 154) constróem o gênero feminino: “O movimento feminista se constrói sobre uma ideia extraordinária ‘nosso corpo nos pertence’. Quer botox? Faça!” (ZAIDAN, 2013, p. 158).
Se o gênero está no “que é dito, por quem diz e por como é dito”, Helena continua um gênero-fantasma. Mas “Fazemos votos que Helena e helenas se libertem dos bárbaros e não sejam raptadas por culpa de Zeus, mancomunado com Momo, Têmis e Plutão, nem tampouco espezinhadas e ameaçadas por algum truculento Diomedes (BRANDÃO, 1989, p. 8).
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, A. Abel, Helena. In: Teatro de Arthur de Azevedo. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas/INACEN. V. 7. (Coleção Clássicos do Teatro Brasileiro, Tomo 1), 1887.
BARTHES, R. Elementos de Semiologia. Tradução Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 1989.
BERGK, Teodor. Poetae Elegiaci et Iambographi. Lipsiae. In: Aeditus B.G. Teibmero, MCMXIV.
BEAUVOIR, Simone (1949). Le deuxième sexe. Tome I et II. Paris: Gallimard, 1973.
BRANDÃO, Junito de S. Helena – O eterno feminino. Rio de Janeiro: Vozes, 1989.
BRANDÃO, Junito de S. Mitologia grega. Volume I. 2a ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1986.
BUTLER, Judith. Sex and gender in Simone de Beauvoir’s Second Sex, Yale French Studies, Oxford, 72, 1986: p. 35-49.
ÉLIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
GOETHE, Johann W. von. (1806) Fausto. Tradução Jenny Klabin Segall. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. São Paulo: Bertrand Brasil, 2006.
IRIGARAY, Lucy. Thinking the Difference: For a Peaceful Revolution. New York: Routledge, 1994.
IRIGARAY, Lucy. Toward a Culture of Difference. New York: Routledge, 1993.
JEANNET, Fréderic-Yves. Hélène Cixous: Encounters: Conversations on Life and Writing. Trans. Beverley Bie Brahic Malden. Chicago: University of Chicago Press, 2012.
KUBISSA, Luisa P. Diferencia, identidad y feminismo: una aproximación al pensamiento de Luce Irigaray, Anales del Seminario de Metafísica, 39, 2006: p. 181-201.
MARTINS FERREIRA, Dina M. Discurso feminino e identidade social. 2a ed. São Paulo: FAPESP/Annablume, 2009.
PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
PINTO, Joana P. Performatividade radical: Ato de fala ou ato de corpo? Revista Gênero, Niterói, UFF, v. 3, no 1, 2002: p.101-110.
RAJAGOPALAN, Kanavillil. O singular: uma pedra no caminho dos teóricos da linguagem, Cadernos de Estudos da Linguagem, Campinas, Unicamp, 38, 2000: p. 79-84.
TELLES, Gilberto M. Sociologia goiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
ZAIDAN, Patrícia. Pop e, agora, imortal, Revista Claudia, São Paulo, 6, junho 2013: p. 154-158.
NOTAS AO TEXTO
[1] Não poderia deixar de agradecer a Junito de Souza Brandão de me ter permitido, mesmo post mortem, utilizar sua obra Helena, o eterno feminino (1989), do qual fiz parte como compositora do texto grego, praticamente na íntegra, como forma de reescrever o já dito, de modo que este primoroso livro chegue mais perto aos leitores do século XXI.
[2] Também incluímos no mapa a ilha de Lesbos, local da poetisa Safo, como forma de economia de figuras, desordenando um pouco a nossa argumentação.
[3] Em formatos diferentes e em cor vermelha, a legenda indica o local de nascimento dos poetas gregos, o título da obra em que Helena se faz personagem e o período aproximado dessas obras. As formas em turquesa referem-se às passagem de Helena na geografia das obras gregas. Aos outros poetas que se inserem na Grécia Moderna, na Alemanha, com Goethe, e no Brasil, com dois poetas, não recebem figuração em atlas devido à memória recente dos leitores.
[4] As citações de fragmentos foram retiradas da obra de Junito de Souza Brandão, Helena, o eterno feminino (1989), vide nota 1.
[5] Tradução livre da autora; texto original: También el concepto de género, dentro de la elaboración teórica del feminismo, es de cuño contemporáneo y surge a partir de la idea de que lo femenino y lo masculino responden a construcciones culturales, que van más allá de la frontera entre los sexos de carácter puramente biológico.
Bio fornecida pelo palestrante.
Aline de Castro Costa Martins
Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora
Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Patrícia Sá de Almeida Tavella
Universidade Federal de Juiz de Fora
RESUMO: Este artigo tem por objetivo estabelecer uma reflexão comparativa entre literatura e mídia, por meio de análise da obra literária Olga, do autor Fernando Morais, baseada sobre a vida da mulher do líder político Luís Carlos Prestes, Olga Benário, e do filme homônimo do diretor Jayme Monjardim, confrontando as diferenças de abordagem – transposição do hipotexto (texto de partida) para o hipertexto (filme de chegada), ou seja, a transposição da obra literária para o cinema – e a noção de fidelidade. Buscar-se-á também evidenciar os planos de montagem utilizados no filme. O embasamento teórico do trabalho pauta-se, principalmente, em Yannick Mouren que, ao discutir sobre tal transposição, evidenciou três diferentes tipos: a diegética, a pragmática e a de personagens, as quais serão abordadas na presente análise. Percebeu-se que, apesar de literatura e cinema serem artes diferentes, a contribuição que uma suscita à outra é expressiva, permitindo o hipertexto manter uma relação de interdependência com o hipotexto, conservando, no entanto, cada uma das artes características e motivações próprias.
Palavras-chave: Olga. Literatura. Cinema.
RÉSUMÉ: Cet article a pour objectifs établir une réfléxion comparative entre la littérature et les médias, par le moyen de l´analyse de l´oeuvre littéraire Olga, de Fernando Morais, basé sur la vie de la femme du politique Luís Carlos Prestes, Olga Benário, et du film homonyme du réalisateur Jayme Monjardim, en affrontant les différences d´abordage – transposition de l´hypotexte (texte de départ) pour l´hypertexte (arrivée du film), c´est à dire, la transposition de l´oeuvre littéraire pour le cinéma – et la notion de fidélité. On cherche aussi mettre en évidence les plans de montage utilisés dans le film. La base théorique du travail est guidé, principalement, par Yannick Mouren que, en discutant sur telle transposition, a évidencé trois types différents: la diégétique, la pragmatique et celle des personnages, auxquelles seront abordées dans l´analyse présente. On s´est apperçu que malgré que la littérature et le cinéma soient des arts différents, la contribution de l´une vers l´autre est significative, permettant l´hypertexte de maintenir une interdépendance avec l´hypotexte, tout en conservant chacun des arts leurs caractéristiques et motivations.
Mots-clé: Olga. Littérature. Cinéma.
Minicurrículos:
Aline de Castro Costa Martins: Graduada em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF; Pós Graduada em Revisão de Textos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG; Mestre em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF – SMC.
Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira: Graduada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF – SMC. Doutoranda pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG.
Patrícia Sá de Almeida Tavella: Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora; Pós Graduada em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora; Mestre em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF – SMC.
OLGA: PERSONAGEM FEMININA
NA LITERATURA E NO CINEMA
Aline de Castro Costa Martins
Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora
Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Patrícia Sá de Almeida Tavella
Universidade Federal de Juiz de Fora
Introdução
O cinema, hoje, desponta como a arte que agrega o maior número de interessados, assim como a literatura o fez nos séculos XIX e XX (GALDA, 2010). Nesse cenário, percebe-se que muitos filmes produzidos são adaptações de romances. Uma análise comparada dessas artes permite visualizar a contribuição que uma suscita à outra, pois, mesmo sabendo que elas são independentes, mantêm também uma relação.
Apresenta-se, neste artigo, uma reflexão comparativa entre estas duas artes: literatura e cinema, tendo como objetos de discussão o livro Olga, de Fernando Morais, publicado em 1985 e relançado em 1994, e o filme homônimo, dirigido por Jayme Monjardim, cuja estreia data de 2004. Colocam-se em evidência fatores como noção de fidelidade, espaço e tempo, narrador e personagens, planos de montagem. O embasamento teórico do trabalho pauta-se, principalmente, em Yannick Mouren, que discute a transposição do hipotexto (texto de partida) para o hipertexto (filme de chegada), ou seja, a transposição da obra literária para o cinema.
O livro e o filme são uma biografia, porque a atenção, segundo Bakthtin (2003), concentra-se nas façanhas, afazeres, méritos como também na organização do destino e felicidade/infelicidade de Olga Benário. Ambos, apesar das diferenças que serão discutidas a seguir, contam a história dessa mulher que, nascida em Munique, na Alemanha, em 1908 e filha de pais judeus, ainda com 16 anos, saiu de casa e tornou-se uma ativista comunista.
Percebe-se, no entanto, que o livro e o filme apresentam a trama de forma diferenciada, pois enquanto o hipotexto (obra literária de partida) tem como abordagem principal a história de Olga com o comunismo, enfatizando ideais políticos e sociais, o hipertexto (filme de chegada) foca a relação amorosa de Olga e Prestes.
Noção de fidelidade x adaptação
Serão abordadas as relações entre literatura e cinema, considerando a teoria de Yannick Mouren (1993), para mostrar os elos e as diferenças entre as obras literária e fílmica. A transposição do livro Olga, de Fernando Morais, ao filme homônimo, dirigido por Jayme Monjardim, é considerada pelo teórico francês como “adaptação”, pois o cineasta e/ou o roteirista partem de uma biografia única e fazem dela um filme de ficção (MOUREN, 1993).
O filme de chegada assim como o texto de partida são narrativos, porque produzem uma mensagem multíplice, apresentando uma série de circunstâncias, de eventos e de ações conciliados na unidade de um enredo (GUALDA, 2010). Quanto ao gênero, são épicos, pois há, de acordo com Cunha (1979), distanciamento entre sujeito (narrador) e o objeto (mundo narrado). Há, ainda, a abordagem da história de um povo (judeu) ou de uma nação (Alemanha à época do holocausto), envolvendo aventura, guerras, viagens, gestos heróicos e um tom de exaltação, valorizando a heroína Olga e seus feitos.
Autor e diretor, no livro e no filme respectivamente, colocam-se diante do objeto, segundo determinado ponto de vista de observação, para registrar, apontar, mostrar, apresentar, caracterizando uma narração em terceira pessoa, uma vez que o narrador não está presente na história. Esse tipo de posicionamento (distante), segundo Cunha (1979), vem corroborar o enquadramento dos textos em estudo como pertencentes ao gênero épico. Os fatos são narrados no passado, inclusive no filme (apesar de parecer que as ações estejam desenrolando-se no presente).
Ainda que tenham características comuns, são obras autônomas, uma vez que a obra fílmica não é mera cópia da literária. Nesse sentido, apesar de tais abordagens manterem relação entre si, o hipertexto conserva características e motivações próprias, rompendo, assim, com a noção de “fidelidade”. Isso ocorre, principalmente, por levar em consideração as diferenças entre os meios que veiculam essas obras (o livro é veiculado por um meio verbal, e a obra fílmica é veiculada por um meio multifacetado); a não subordinação do texto-resultante (hipertexto fílmico) com relação ao texto que lhe “deu origem” (hipotexto); e o fato de que qualquer texto, seja ele literário, fílmico, ou de qualquer outra natureza, configurar, segundo Sbrissa e Harris (2013), uma “construção híbrida”, resultado da confluência de muitas vozes “ouvidas” por seu autor (SBRISSA E HARRIS, 2013).
A questão da adaptação, de um ponto de vista narratológico, precisa considerar, segundo Mouren (1993), a exploração de diferentes tipos de transposição do livro ao filme: a transposição diegética, a transposição pragmática e a transposição de personagens, as quais abordaremos em seguida.
Transposição diegética: tempo e espaço
A biografia de Olga Benário contextualiza-se no período dos regimes totalitários na Europa e, posteriormente, da ditadura varguista no Brasil. Para Bakhtin (2003), o tempo biográfico corresponde ao real, pois todos os seus momentos estão vinculados ao conjunto do processo global e, por isso, a biografia traz períodos longos e opera com partes orgânicas do todo de uma vida, como idades, por exemplo (BAKHTIN, 2003). O espaço, por sua vez, reveste-se de um caráter particular, deixando de ser apenas pano de fundo para o herói (neste caso para a protagonista Olga – heroína). A protagonista insere-se no mundo e os lugares onde se passam as ações são significativos para a trama. O espaço é funcional na biografia.
O conjunto de acontecimentos narrados, levando-se em conta a dimensão espaciotemporal, por Morais, na biografia, e retratados, no filme, por Monjardim, apresenta diferenças e semelhanças que serão versadas aqui, considerando-se a teoria de Yannick Mouren (1993) que aborda o texto de partida (romance biográfico Olga, escrito por Fernando Morais) como hipotexto e o filme de chegada (homônimo, de Jayme Monjardim) como hipertexto.
De acordo com Mouren (1993), a transformação de um hipotexto escrito em um hipertexto fílmico requer que o autor dessa operação pratique certo número de escolhas. Procurar-se-á demonstrar como a biografia levada à tela apresenta modificações nos quadros espacial e temporal, ou seja, adaptações.
O livro começa com espaço e tempo bem marcados no subtítulo: “BERLIM, ALEMANHA, ABRIL DE 1928” (MORAIS, 2008, p. 17). O narrador relata aquilo que já aconteceu, conta a façanha de Olga, ao resgatar Otto Braun da prisão de Moabit, no centro de Berlim. Após o fato (o resgate), Olga e seu namorado ativista viajam para Stettin, uma cidade na fronteira entre Alemanha e Polônia. “De lá embarcam num trem rumo a Moscou”, na União Soviética (MORAIS, 2008, p. 21).
O filme, por sua vez, tem início também com uma proeza de Olga, mostrada em flashback, em que ela quando ainda criança, em uma noite de inverno, durante uma nevasca, pula por cima de uma fogueira. Posteriormente, após a cena da menina pulando a fogueira, aparece o rosto da protagonista em uma janela, no campo de concentração de Ravensbrück, na noite que antecede sua morte em 1942. Para marcar local e tempo, há, no filme, uma legenda com as seguintes palavras: “CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE RAVENSBRUCK, ALEMANHA, 1942”. Olga, ao esperar pelo fim de sua vida, pressentindo o que acontecerá, traz à lembrança imagens de sua própria infância, e isso a remete à infância de sua filha.
Distanciando-se do livro, que se inicia em 1928, o filme narra o que está acontecendo em 1942. Segundo Gualda (2010), o tempo cinematográfico apresenta-se com imagens de ações concretas e é percebido como análogo ao tempo real, em que notamos ação e movimento, e não o tempo. Enquanto o tempo, no livro, é codificado linguisticamente.
Na filmagem do texto literário, Olga, na véspera de sua morte, começa a pensar na carta que escreveria para Prestes, seu esposo, e para Anita Leocádia, sua filha: “– Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade”. Com papel e lápis em mãos, dentro do alojamento do campo de concentração, ela começa a escrever sua última carta. Ao redigir, olha para duas “companheiras” que estão na cama à frente e verifica que uma delas bordava em um pano branco uma maçã. A imagem da maçã remete Olga mais uma vez ao passado, levando-a a lembrar-se da cesta com maçãs que carregava (para esconder a arma que utilizaria em sua façanha) quando resgatou Otto Braun da prisão de Moabit, em Berlim, na Alemanha, em 1928.
Essa cena do resgate de Braun marca o início do livro, sendo, portanto, um ponto de contato entre as obras. A cena seguinte do filme é um recorte da viagem de Olga e Otto de trem para Moscou, semelhante ao livro. Todavia, no livro, entre o resgate de Braun e a viagem, há outros fatos.
Durante a viagem da Alemanha para União Soviética, na obra fílmica, Olga relembra seu passado: suas participações nas manifestações comunistas, o dia em que saiu da casa de seus pais, que pertenciam à classe média, para viver em um bairro pobre, de operários, em Berlim. Essa retomada memorialista do passado não acontece no livro na mesma sequência em que ocorre no filme, pois no livro ela relembra os mesmos fatos quando entra no hotel em que se hospeda em Moscou.
Há, na obra de Fernando Morais, um recorte espacial feito pelo narrador, o qual remete o leitor a outro continente, da Europa à América, mas o tempo é preservado: “BUENOS AIRES, ARGENTINA, ABRIL DE 1928” (MORAIS, 2008, p. 22). Isso não ocorre no filme. O narrador do livro contextualiza, no tempo (1928) e no espaço (América), Luís Carlos Prestes, mostrando sua militância, aproximando-o ideologicamente de Olga, apesar da distância continental entre ambos.
No filme não há esse recorte para mostrar a vida de Luís Carlos Prestes. A sequência fílmica, após a viagem de Olga junto com Otto para Moscou, é um discurso que ela faz para várias pessoas, no qual ela exalta a revolução e narra sua vontade de realizar um treinamento militar para se capacitar e, somente assim, participar efetivamente do que está por vir, da revolução. No final desse discurso, Otto rompe com ela no filme, diferente do livro, no qual o rompimento vem após o treinamento militar, quando ela segue para sua primeira missão na França.
O narrador, do livro, após contar os feitos da Coluna Prestes, transporta o leitor à capital soviética, retornando a 1928. Olga e Otto chegam a Moscou. Quando Olga preenche a ficha de entrada no Hotel Desna, nota que exatamente cinco anos antes ela entrara pela primeira vez em uma organização comunista (1923). No livro, há o flashback nesse contexto, quando o narrador marca essa retrospectiva feita pela personagem, da seguinte forma: “Foi no verão de 1923, em Munique, sua cidade natal, poucos meses depois do seu 15º aniversário” (MORAIS, 2008, p. 29). Diante dessas informações, concluímos que Olga, em 1928, estava com 20 anos. O narrador retoma os anos anteriores, como Olga conheceu Otto e seu envolvimento com o comunismo, além de sua ascensão no partido. No filme, esse flashback acontece durante a viagem de trem.
De 1928 a 1931, Olga realizou vários trabalhos em Moscou relacionados à sua militância comunista, participou de um treinamento paramilitar, aprendeu a usar armas, a cavalgar, incorporada a uma unidade regular do Exército Vermelho. “No final de 1931, Olga seria escalada para sua primeira missão internacional” (MORAIS, 2008, p. 55). Olga e Otto estavam se afastando por causa dos compromissos com o Partido Comunista, “os dois vinham se encontrando cada vez menos” (MORAIS, 2008, p. 55). Então, Olga propôs a separação. Mais uma vez diferente do filme, como já citado, foi Otto quem rompeu com Olga antes do treinamento paramilitar, alegando que ela não teria tempo para ser mulher, devido ao empenho.
No final de 1931, Olga viaja para a França. Ao voltar a Moscou faz um curso de paraquedismo e pilotagem de aviões na Academia Zhukovski da Força Aérea, onde encontrou jovens de vários países do mundo. Foi onde ouviu, pela primeira vez, um jovem latino-americano narrar a aventura revolucionária na América do Sul, cujo líder seria Luís Carlos Prestes. Esse último fato (ouvir falar sobre Prestes) é semelhante nas duas obras.
É relevante observar que há, no filme, um recorte, durante as cenas da viagem de navio, para mostrar que os fatos são lembranças de Olga, pois aparece seu rosto com lágrimas, no campo de concentração, retomando o espaço e o tempo iniciais da obra fílmica, lembrando ao espectador que a heroína está recordando fatos vividos.
Olga viveu durante pouco tempo no Brasil, junto com Prestes. Após derrota do movimento revolucionário, eles foram presos. Em 23 de setembro de 1936, Olga foi deportada para Alemanha, grávida de sete meses. Na madrugada de 27 de novembro de 1936, um ano após a frustrada revolta no Rio de Janeiro, nasce Anita Leocádia, na prisão em Lichtenburg, Alemanha.
A partir de janeiro de 1937, Olga e Dona Leocádia começam a se corresponder por cartas. Dessa forma é que Olga volta a se comunicar, ainda que precariamente, com Prestes no Brasil. Esse ponto também converge nas obras literária e fílmica.
Durante o período de amamentação, Olga pode ficar com a filha, mas em 21 de janeiro de 1938, Anita Leocádia foi tirada de Olga. Quem passa a cuidar da criança é dona Leocádia, sogra de Olga. Após separação de mãe e filha, Olga é transferida da prisão de Lichtenburg para Ravensbrück (campo de concentração nazista), onde ficou de 1938 a 1942. Esse período é retratado tanto no filme como no livro.
O filme termina com a morte de Olga na câmara de gás. O livro não: o narrador remete o leitor a São Paulo, Brasil, em julho de 1945, para contextualizar o que havia acontecido com Luís Carlos Prestes. Relata que havia saído da prisão e que havia sido escolhido para secretário geral do Partido Comunista, e que, naquela ocasião, 15 de julho de 1945, faria um comício no Pacaembu, após dez anos de fechamento da aliança Nacional Libertadora, em 1935. Naquela mesma noite, em 1945, Prestes recebeu notícias de Olga. Tratava-se de um despacho curto, sem o acréscimo de muitos detalhes:
Berlim – As autoridades aliadas acabaram de informar que, entre as duzentas mulheres executadas na câmara de gás da cidade alemã de Bernburg, na Páscoa de 1942, estava a Sra. Olga Benário Prestes, esposa do dirigente comunista brasileiro Luís Carlos Prestes (MORAIS, 2008, p. 296).
Anos depois, Prestes recebeu a carta que Olga escrevera para ele e para a filha na véspera de sua morte, em 1942. Verifica-se, portanto, que o espaço apresentado relaciona-se ao tempo, como categorias narrativas de relevo para a ancoragem de personagens e ações, num universo referencial dado. Percebe-se, no entanto, conforme analisa Gualda (2010), que o espaço predomina no filme; em contrapartida, o tempo predomina no romance. O espaço é conceitual no romance, mas o tempo é expresso intensamente desde a sucessão dos episódios.
Transposição de personagens
Conforme a abordagem teórica de Yannick Mouren (1993), relativa à transposição das personagens do hipotexto para o hipertexto, critérios objetivos e identificáveis precisam ser considerados, quais sejam: o número de personagens, a idade e o sexo. Abordaremos o número e a idade das personagens, pois com relação ao sexo das personagens não há alteração. O próprio Mouren (1993) diz que são raras as adaptações nas quais as personagens mudem de sexo ao serem transpostas para a tela. (MOUREN, 1993)
Quando se estuda uma adaptação cinematográfica, podem-se enumerar as personagens presentes no hipotexto e comparar o número assim obtido ao dos atores do hipertexto fílmico. O livro Olga, de Fernando Morais, descreve detalhadamente as personagen, que são muitas. Já o filme mostra mais superficialmente as personagens, visto que o foco deste é o casal Olga e Prestes. Segundo Mouren (1993) o cinema apresenta uma tendência geral de reduzir o número de personagens em relação ao hipertexto (MOUREN, 1993), conforme essa pesquisa constatou.
As personagens da obra de Fernando Morais foram, segundo Antônio Candido (2011, p. 71), “transpostas de modelos anteriores, que o escritor reconstitui indiretamente, por documentação ou testemunho, sobre os quais a imaginação trabalha”. Morais realizou uma pesquisa que se inicia em 1982 e só termina em 1985, para “recompor o retrato de Olga” (MORAIS, 2008, p. 9).
A obra literária enfoca personagens políticos como Filinto Müller, Getúlio Vargas, partidários comunistas como Miranda, Rodolfo Ghioldi, Victor Barron, Agildo Barata, Arthur Ewert e Elisabeth Saborowsky Ewert, militares da Coluna Prestes e militares do governo Vargas. No filme, há uma redução de personagens, além de enfoques diferentes. Um exemplo de redução do número de personagens no filme seria a ausência do irmão de Olga, que está presente no livro. No filme, ele aparece apenas em uma fotografia, quando Olga está relembrando o dia em que saiu de casa e pega um porta-retratos no qual há a foto da família.
Com relação à idade das personagens, no texto de Fernando Morais, nós acompanhamos a passagem do tempo por datas marcadas: 1928, 1930, 1934, 1942 e 1945. No filme, de Monjardim, há Olga menina, pulando a fogueira, depois jovem (imagem marcada pelo cabelo com tranças, quando a personagem relembra suas ações em manifestações comunistas), posteriormente Olga adulta, na viagem para o Brasil com Prestes. Há também a passagem do tempo marcada pela gravidez e pelo nascimento de Anita Leocádia (bebê), além de seu crescimento – a imagem de uma menina de mais ou menos cinco anos.
As personagens secundárias que estão ligadas diretamente à Olga e Prestes são mantidas no filme: dona Leocádia, Lígia (irmã de Prestes), Dr. Benário (pai de Olga), a mãe de Olga, Elisabeth Saborowsky Ewert (amiga de Olga), Getúlio Vargas, Filinto Müller, entre outros. Porém, no livro, a ênfase dada aos aspectos políticos e aos personagens políticos é maior, além da descrição e caracterização das personagens secundárias.
O romance e o cinema enfocam e constroem de modos diferentes as personagens, pois, enquanto no primeiro, as personagens são feitas de palavras escritas, no segundo, elas se constroem por imagens; os contextos são diferentes: escrito e visual (CANDIDO, 2011).
Transposição pragmática
A transposição que surge a nível pragmático, de acordo com Mouren (1993), constitui a maior parte do trabalho de passagem do hipotexto escrito para o hipertexto fílmico. Constatou-se essa característica na passagem da obra de Fernando Morais, Olga, para o filme homônimo de Jayme Monjardim, pois o filme coloca a história de amor entre Olga Benário e Luís Carlos Prestes em primeiro plano, universalizando a história. Essa abordagem amorosa aponta para um discurso emocional, ao passo que o discurso do livro é mais político e enfatiza questões históricas (nazismo e comunismo).
Olga, o filme, nos oferece o momento histórico simplificado. O espectador é envolvido pelo romance entre as personagens de tal maneira que a história fica em segundo plano. O livro faz o leitor refletir sobre o contexto político e histórico, construindo uma visão crítica. A narrativa do livro apresenta um espaço amplo, pois Olga vive na Alemanha, em seguida União Soviética, depois viaja por vários países europeus, entre eles a França, e, posteriormente, para o Brasil, retornando à Alemanha. O filme, no entanto, reproduz o espaço europeu em estúdio no Rio de Janeiro/RJ.
Para Mouren (1993), os exemplos de supressões e de permutações de ações são comuns. Pode-se mesmo dizer que são a regra na passagem do hipotexto ao hipertexto. As escolhas de Jayme Monjardim, relativas à transposição pragmática, serão discutidas ao serem abordados, brevemente a seguir, os planos de montagem. Apesar de a questão da adaptação de um romance para o cinema sempre gerar discussão, é possível vislumbrar a contribuição que uma arte traz à outra.
A análise fílmica não é feita facilmente. Francis Vanoye (1994), ao tratar desse assunto, revela as dificuldades de analisar um filme, principalmente, devido à impossibilidade de citar a imagem. O contexto da ação é minuciosamente planejado, segue uma ideia preestabelecida, possui objetivos claros e revela determinada ideologia. As técnicas escolhidas pelo diretor e suas estratégias formais como a montagem, o distanciamento da câmera, o close-up, por exemplo, são alguns dos caminhos encontrados para reprodução cinematográfica (VANOYE, 1994).
O mundo que o diretor Jayme Monjardim reconstruiu no filme Olga é muito familiar à ideia que podemos ter daquela época. Apesar de ter sido totalmente rodado no Rio de Janeiro, o diretor conseguiu que os recursos técnicos possibilitassem a neve e uma fotografia sombria, por exemplo, que coincidem com a imagem que muitos têm do mundo europeu. A produção do filme conseguiu recriar as cidades de Moscou, Berlim, Munique e Ravesnbruck. As sequências foram rodadas nos estúdios “Renato Aragão”, da Rede Globo e em locações como a antiga fábrica Bangu, que se transformou no campo de concentração de Ravensbruck.
O filme Olga tem pouco mais de duas horas de duração e foi filmado praticamente todo da mesma forma. Muitos dos planos mais fechados da obra cinematográfica podem ser explicados por uma questão técnica, além da ênfase dada à emoção. Tendo sido filmado no Rio de Janeiro, sob forte calor, o diretor precisou evitar planos gerais, abertos, para conseguir transmitir uma ideia realista da localização geográfica: Alemanha e Rússia.
O filme parece, tecnicamente, bem construído, em questão de luz, cenário e figurino. Um excesso da utilização da linguagem visual-televisiva percebida no filme, pode ser devido ao fato do diretor do longa, Jayme Monjardim, ter vasta experiência com programas televisivos, e nenhuma com cinema, sendo Olga seu primeiro filme.
Outra influência relativa à televisão seriam os chamados planos “estourados”, em close-up ou primeiro plano, tão comuns nas telenovelas, por exemplo, e que foram empregados amplamente na maior parte no filme. O diretor valeu-se ainda dos recursos de plano de meio conjunto, plano médio e meio primeiro plano para algumas cenas sem recorrer aos planos ambientais durante as filmagens.
Essa escolha estética pode ter sido usada por dois fatores: pela experiência do diretor em televisão ou pode ter sido uma escolha estética e, dessa forma, a linguagem imagética seria de mais fácil absorção, não causando qualquer tipo de estranhamento.
Considerações finais
A literatura e o cinema são artes independentes, mas quando se tem um hipotexto como referência de um hipertexto, como foi o caso analisado nesse estudo sobre a obra literária Olga, de Fernando de Morais, e o filme homônimo de Jayme Monjardim, pode-se perceber que, apesar de se manter tal característica (autonomia), uma relação de interdependência é ressaltada. A personagem protagonista Olga também ganha interpretações e recortes diferentes na obra literária e no filme, naquela ressalta-se seu envolvimento com a política e neste o relacionamento amoroso com Preste. A análise comparada de ambos, pautada no referencial teórico de Yannick Mouren, possibilitou uma maior compreensão da complexidade da forma em que acontece essa passagem, além de uma visão da transformação do leitor em espectador.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. O romance biográfico. In: ______. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 213 – 216.
CANDIDO, Antônio et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2011.
CUNHA, Helena Parente. Os gêneros Literários. In: PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasil, 1979. p. 107 – 115.
GUALDA, Linda Catarina. Literatura e cinema: elo e confronto. Matrizes. São Paulo: USP, Ano 3, n.2, p. 201-220, jan/jul. 2010.
MOUREN, Yannick. Le film comme hypertexte. Poétique, Paris: Seuil, n.93, p. 113-122, fev.1993.
MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
OLGA. Direção: Jayme Monjardim. Produção: Carlos Eduardo Rodrigues; Bruno Wainer e Marc Beauchamps. Intérpretes: Camila Morgado; Caco Ciocler; Fernanda Montenegro. Roteiro: Rita Buzzar. Brasil: Europa Filmes, 2004. 1 DVD (140 min.), drama, son., color.; NTSC.
SBRISSA, Fernanda de Souza; HARRIS, Peter James. O conceito de fidelidade na adaptação cinematográfica de obras de literatura: uma comparação entre o romance Enduring Love, de Ian MCEWAN, e o filme de mesmo título. Disponível em: <http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_36854746850.pdf.>. Acesso em: 20 set. de 2013.
VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 5 ed. Trad. Marina Appenzeller. Campinas: Papyrus, 1994.
Bio fornecida pelo palestrante.
Dante Luiz de Lima
Universidade Federal do Pará
Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima
Universidade Federal do Pará
RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar alguns trechos do livro Lavoura arcaica (1989), de Raduan Nassar, comparando-os às cenas do filme homônimo dirigido por Luís Fernando Carvalho (2011). Nosso intuito é debater os critérios envolvidos na adaptação de uma obra literária para um meio audiovisual. Para tal nos valemos de cenas do filme que consideramos excepcionais e que foram adaptadas de forma a representar o lirismo retratado no romance de uma forma inovadora e criativa, pois a passagem do meio literário para o fílmico é bastante complexa. Para atingir nossos objetivos, trabalhamos à luz dos teóricos de cinema Linda Hutcheon, Robert Stam e Graeme Turner.
PALAVRAS-CHAVE: Adaptação fílmica, Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, Romance, Cinema.
ABSTRACT: This article aims at analyzing some passages from the book Lavoura arcaica (1989), by Raduan Nassar, comparing them to the scenes of the homonymous film directed by Luis Fernando Carvalho (2011). Our aim is to discuss the criteria underlying the adaptation of a literary work to audiovisual media. In order to achieve our goals, we refer to the scenes of the movie that we considered exceptional and that were adapted to represent the lyricism portrayed in the novel in an innovative and creative way, considering that an adaptation from book form to a film is quite complex. We based our article on some film theorists, such as Linda Hutcheon, Robert Stam and Graeme Turner.
KEYWORDS: Filmic adaptation, Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, Novel, Cinema.
MINICURRÍCULOS: Dante Luiz de Lima é Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 2016), Mestre em Literaturas de Língua Inglesa pela UFSC (2007) e Especialista em ensino de Língua estrangeiras pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Atualmente é professor de Língua Inglesa e suas interfaces literárias na Universidade federal do Pará (UFPA).
Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima é Mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará-UFPA, formada em Letras pelo Centro Universitário Moura Lacerda e especialista em Língua Inglesa e suas literaturas pela Universidade de Ribeirão Preto-UNAERP. Atualmente é professora de Língua Inglesa da Universidade Federal do Pará (UFPA).
LAVOURA ARCAICA: O LÍRISMO LITERÁRIO ADAPTADO PARA O CINEMA
Dante Luiz de Lima
Universidade Federal do Pará
Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima
Universidade Federal do Pará
INTRODUÇÃO
Cada vez mais nos deparamos com adaptações de romances e contos para os mais diversos formatos, sejam eles filmes, animes, televisão, parques de diversão, experimentos de realidade virtual, representações históricas, programas de rádio, entre outros. Neste artigo focaremos na adaptação de obras literárias para o cinema, pois esse mercado se tornou extremamente rentável para a indústria cinematográfica e também uma grande fonte de pesquisa para estudiosos de cinema e literatura.
Nos últimos anos houve uma onda crescente de filmes baseados em livros, como exemplos podemos citar: Anna Karenina de Leon Tolstói (1877), Orgulho e preconceito (1813), de Jane Austen, até livros mais comerciais, como a franquia Harry Potter da escritora J. K. Rowling (1997). Apesar disso, a adaptação fílmica ainda é considerada, por alguns críticos, como um gênero menor e menos valorizado.
Tendo isso em vista, pretendemos com esse trabalho fazer a análise de alguns trechos do livro Lavoura Arcaica a fim de debater sobre os critérios envolvidos na adaptação de uma obra literária para um meio audiovisual. Publicado inicialmente em 1975 e adaptado para o cinema pelo diretor Luís Fernando Carvalho em 2001, o romance do escritor paulista Raduan Nassar é uma obra densa e complexa que instiga estudiosos da literatura e gera debates e críticas.
Quando uma obra literária é adaptada para as telas, muitos aspectos devem ser considerados, entre eles: quem irá dirigi-la, o público alvo, se o livro será seguido integralmente, se não for o caso, quais partes serão escolhidas para serem trabalhadas, entre outros aspectos. Mas o fundamental é levar-se em consideração que o:
O cinema não é um sistema discreto de significação, assim como a escrita. O cinema incorpora as tecnologias e os discursos distintos da câmera, iluminação, edição, montagem do cenário e som – tudo contribuindo para o significado (TURNER, Graeme, 1997, p. 56).
Portanto, o papel do adaptador é bastante complexo, pois ao passar o texto escrito para o meio audiovisual lidará com formas distintas de narrar. Por exemplo, as sensações experimentadas por um personagem dentro de um determinado romance, podem ser descritas em várias páginas e com muitas minúcias. O cinema poderá intensificar ou diminuir tal aspecto do romance, mas terá que achar meios de fazê-lo com os elementos mencionados acima. Um movimento de câmera, uma luz mais sombria, um cenário claustrofóbico ou uma música triste diegética ou não, poderão captar em instantes aspectos que o romance usou várias páginas para descrever. Adaptar é um trabalho árduo e deve ser bem pensado e analisado para que seja bem-sucedido.
Com as línguas, nós nos movemos, por exemplo, do inglês para o português, e conforme vários teóricos nos ensinaram, a tradução inevitavelmente altera não apenas o sentido literal, mas também certas nuances, associações e o próprio significado cultural do material traduzido. Com as adaptações, as complicações aumentam ainda mais, pois as mudanças geralmente ocorrem entre mídias, gêneros, e, muitas vezes, idiomas e, portanto, culturas (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 9).
Dessa forma, as adaptações, assim como as traduções, trabalham com as nuances e sutilezas das obras e também levam em consideração a cultura em que são feitas, uma vez que o sentido inicial do texto pode se perder ao ser adaptado para outro gênero ou idioma.
A adaptação deve ser entendida como uma nova obra, mas sempre tendo em mente que ela dialogará invariavelmente com o texto do qual foi baseada, o que acarretará em comparações e críticas. A esse respeito, afirma Hutcheon:
O estudo que Uma teoria da adaptação faz das adaptações como adaptações – ou seja, como obras que não são apenas autônomas – parte de uma duplicidade factual bastante curiosa: de um lado, a popularidade das adaptações; de outro, o desprezo sistemático com o qual são atacadas. Em contrapartida, as adaptações são aqui examinadas como revisitações deliberadas, anunciadas e extensivas de obras passadas (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 14-15).
Vemos aqui que apesar de serem bastante populares há muito tempo, as adaptações ainda são vistas como um gênero depreciado, não tendo tanto mérito quanto as obras das quais são fruto. Segundo Hutcheon a adaptação é tida como uma traição e uma infidelidade ao texto original. Observamos tal afirmação no trecho “a travessia do literário para o cinematográfico ou televisivo já foi inclusive chamada de passagem para ‘uma forma de cognição deliberadamente inferior’” (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 23). No entanto, a autora as considera como revisitações das obras originais, o que fica claro quando ela afirma que “a arte deriva de outra arte; as histórias nascem de outras histórias” (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 22). Dessa forma, a adaptação sempre será comparada com a obra literária, em uma relação infinita com suas fontes:
Tal como as paródias, as adaptações têm uma relação declarada e definitiva com textos anteriores, geralmente chamados de “fontes”; diferentemente das paródias, todavia, elas costumam anunciar abertamente a tal relação. A valorização (pós-romântica) da criação original e do gênio criativo é claramente uma das fontes da depreciação de adaptadores e adaptações (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 24).
Interessante notar aqui que a questão da originalidade pode ser vista como algo essencial em uma obra, seja ela literária, televisiva ou cinematográfica, mas essa é uma criação pós-romântica, visto que na antiguidade as obras eram muitas vezes cópias, recriações ou reinterpretações de outras já consagradas. Hutcheon afirma ainda que a adaptação é uma repetição do texto original, mas não é uma réplica e possui caracteres diferentes, pois as intenções do adaptador podem ser variadas:
A adaptação é repetição, porém repetição sem replicação. E há claramente várias intenções possíveis por trás do ato de adaptar: o desejo de consumir e apagar a lembrança do texto adaptado, ou de questioná-lo, é um motivo tão comum quanto a vontade de prestar homenagem, copiando-o (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 28).
Ou seja, a obra que surge, seja ela cinematográfica ou de qualquer outro gênero, pode ser feita para questionar, para homenagear, para criticar ou eternizar a memória do original. Achamos importante ressaltar também as três perspectivas distintas que norteiam o estudo da adaptação, segundo a mesma autora:
Em primeiro lugar, vista como uma entidade ou produto formal, a adaptação é uma transposição anunciada e extensiva de uma ou mais obras em particular. Essa “transcodificação” pode envolver uma mudança de mídia (de um poema para um filme) ou gênero (de um épico para um romance), ou uma mudança de foco e, portanto, de contexto: recontar a mesma história de um ponto de vista diferente, por exemplo, pode criar uma adaptação realmente distinta (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 29).
Essa citação define a adaptação como uma transposição extensiva de uma obra ou mais, e aborda um quesito fundamental em relação à adaptação: que ela pode tratar de uma mudança de mídia (por exemplo, de um conto para um programa de rádio), de foco ou ponto de vista ou gênero literário:
Em segundo, como um processo de criação, a adaptação sempre envolve tanto uma (re-)interpretação quanto uma (re-)criação; dependendo da perspectiva, isso pode ser chamado de apropriação ou recuperação (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 29).
Nesse segundo aspecto, a autora afirma que a adaptação deve sempre envolver uma nova interpretação e criação, o que pode ser caracterizado como uma apropriação ou recuperação da obra original:
Em terceiro, vista a partir da perspectiva do seu processo de recepção, a adaptação é uma forma de intertextualidade; nós experenciamos as adaptações (enquanto adaptações) como palimpsestos por meio da lembrança de outras obras que ressoam através da repetição com variação (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 30).
Assim, a adaptação deve ser vista como uma forma de intertextualidade, se relacionando constantemente tanto com a obra de que teve origem, como com outras obras literárias. Acreditamos, por fim, que a adaptação é, ao contrário do que pensam alguns críticos, um gênero importante e que deve cada vez mais ser utilizada para que um maior número de pessoas possa ter contato com os textos literários.
O livro Lavoura arcaica, publicado em 1975, é considerada a obra prima do escritor paulista Raduan Nassar, cuja foto é mostrada acima. Tido como um autor bastante recluso, Nassar publicou apenas outras duas obras, Um copo de cólera, de 1978 e Menina a caminho, de 1994.
Dividida em duas partes: “A Partida” e “O Retorno”, a história se passa em uma comunidade rural em meados da década de 40 e é narrada por André, filho de uma tradicional família libanesa cristã, que foge da casa paterna, pois é apaixonado por sua irmã. Apesar de comandar a família de forma bastante rígida, o patriarca, em uma referência à parábola bíblica do filho pródigo, pede ao filho mais velho que traga André de volta para casa. Sobre a temática de Lavoura arcaica, Erica Gonçalves, em seu artigo intitulado Lavoura arcaica: análise de personagens na literatura e no cinema, afirma que:
Essa questão religiosa notada acima permeia toda a história através de várias referências, a mais importante delas é a epígrafe da segunda parte do romance, retirada do alcorão, livro sagrado da religião muçulmana:
Vos são interditadas: vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs, (…)”
(Alcorão – Surata IV, 23)
Tal epígrafe faz referência à questão central do romance: a grande paixão de André por sua irmã caçula, Ana. Apesar de a sexualidade estar presente em todo o romance, ela não é mostrada de forma explícita mas sim bastante lírica. O romance se inicia durante uma cena de masturbação de André em seu quarto:
Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto-catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia (NASSAR, Raduan, 1989, p. 7).
Interessante destacar aqui a descrição bastante poética da cena, a nudez, o quarto e a penugem do corpo. No filme essa cena é bastante longa e muito interessante, pois começa com o barulho de um trem, enquanto André se masturba. O som não diegético da locomotiva torna-se essencial para o engrandecimento da cena, pois a medida em que este aumenta, mais próximo está André em obter o prazer vindo de sua própria mão, culminando no seu orgasmo acompanhado do ensurdecedor barulho do trem. Assim sendo, percebemos que o cinema narra, não apenas com o uso de imagens e palavras, mas também usando de outros mecanismos, nesse caso, o som não diegético foi fundamental para demostrar a intensidade do prazer obtido pelo rapaz. Esse artifício usado pelo diretor do filme demonstra a importância do som como veículo narrativo.
Robert Stam no livro Introdução à teoria do cinema (2003) explica que o som é um dos elementos essenciais nos filmes, mas o estudo deste artifício utilizado pelo cinema foi bastante negligenciado pelos estudiosos da área, de acordo com o autor: “Parte desse atraso é o resultado, quem sabe, da visão convencional do som como um mero acessório ou suplemento da imagem” (STAM, 2003, p. 238). O autor continua seu raciocínio se referindo aos termos usados para descrever os filmes e sua relação com o som:
Os próprios termos em inglês para o cinema – the movies, motion pictures, cinema – enfatizam o registro de fenômenos visíveis, dirigidos a espectadores (e não ouvintes) que vão ver (e não escutar) um filme. A metalinguagem crítica usada para falar sobre o cinema, da mesma forma, mostra-se mais preparada para dar conta de questões como os raccords de olhar e a montagem em ponto de vista do que sobre o som (STAM, Robert, 2003, p. 238).
Portanto, de acordo com as considerações do autor, o estudo do cinema prioriza os fenômenos visíveis e deixa o som em um segundo plano. No entanto, percebemos, que o som foi fundamental na cena que acabamos de descrever, pois o barulho do trem não apenas nos remete aos pensamentos conflitantes do protagonista da trama, mas também, sem o uso das palavras descreve a veemência do orgasmo experienciado pelo mesmo. Sendo assim, o som é um elemento essencial para que um filme, adaptado ou não, possa transmitir ou provocar diferentes interpretações dos espectadores.
Acreditamos que a adaptação cinematográfica feita por Luis Fernando Carvalho utiliza várias às passagens do livro de forma literal, isso fica claro quando o segundo capítulo é todo narrado no filme enquanto vemos as cenas de infância do narrador. Essa questão da aproximação da adaptação com o texto original foi uma escolha deliberada do diretor, que fez questão de não criar um roteiro para o filme, para que o texto literário fosse seguido com grande exatidão. Sobre esse aspecto, Gonçalves afirma que:
Nos créditos extras do filme em DVD, o diretor do longa conta como foi a experiência de transformar Lavoura Arcaica em filme. Para Carvalho, usar técnicas de teatro foi a forma encontrada para dar à obra cinematográfica toda importância do livro e transformar cada ator em seu personagem. Para isso, o elenco ficou reunido durante cerca de dois meses na fazenda que serviu de locação para as gravações se integrando e se inteirando de seus papéis (GONÇALVES, Érica, 2015).
Vemos aqui a preocupação do diretor em promover uma aproximação dos atores com seus personagens, o que foi obtido com uma espécie de imersão em uma fazenda do interior de Minas Gerais. Observamos no filme também um cuidado com a fotografia e com o tom poético do filme. Isso fica claro nas longas cenas da infância, dos jantares em família, de Ana com as ovelhas e das danças durante as festas familiares. Além disso, achamos interessante também o uso da luz no filme, o que dialoga com o texto de Nassar. De acordo com Turner:
Pode-se dizer que há dois objetivos principais na iluminação cinematográfica; o primeiro é expressivo – estabelecer um estado emocional, dar ao filme uma “aparência” (…), ou contribuindo para detalhes da narrativa, como caráter e motivação.
(…) O realismo é o segundo objetivo da iluminação. Esta é de longe a meta mais comum e evidente da iluminação cinematográfica. Se for bem sucedida, os atores estarão tão natural e discretamente iluminados que o espectador não perceberá a iluminação como uma tecnologia à parte (TURNER, Graeme, 1997, p. 61-62).
Os aspectos mencionados acima por Turner podem ser vistos nas cenas que mostram a infância de André e Ana, os jantares familiares, a cena inicial da masturbação, entre outras. Ao analisarmos a obra, observamos que no passado a casa era bem iluminada, o sol matinal enchia o quarto de luz e as cortinas eram claras, já depois da fuga, o mesmo ambiente é escuro e soturno. No livro isso é perceptível no trecho:
Era boa a luz doméstica da nossa infância, o pão caseiro sobre a mesa, o café com leite e a manteigueira, essa claridade luminosa da nossa casa e que parecia sempre mais clara quando a gente vinha de volta lá da vila, essa claridade que mais tarde passou a me perturbar, me pondo estranho e mudo, me prostrando desde a puberdade na cama como um convalescente (NASSAR, Raduan, 1989, p. 25-26).
Em contraponto com essa claridade retratada na citação, temos as cenas dos jantares em família. Uma delas é narrada através da técnica de voice-over por André, de forma bastante literal, retirada do livro:
Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto (NASSAR, Raduan, 1989, p. 154).
Era durante os jantares que o pai dava seus rígidos sermões religiosos, entre os temas estavam a negação das paixões e a virtude do trabalho duro:
O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa (NASSAR, Raduan, 1989, p. 54).
Vemos aqui a defesa do pai em relação à moral e os bons costumes, a paixão de André por sua irmã seria assim um ataque à criação estabelecida por seu pai. Interessante notar no que diz respeito à irmã de André, Ana, que apesar de ser uma figura de extrema importância, tanto no livro, quanto no filme, suas cenas são longas e belas, no entanto, ela não possui nenhuma fala.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cuidado do diretor com a produção do filme parece ter sido algo de cunho pessoal, pois Luís Fernando Carvalho se identificou sobremaneira com o livro, chegando a afirmar que tal obra era tudo que ele gostaria de ler, ouvir e assistir um dia. A poeticidade do texto, a arte inovadora e lírica de Nassar, foi ressaltada por Carvalho de uma forma vanguardista e tocante, levando os expectores mais atentos a uma profunda reflexão sobre a condição humana.
Não obstante, o deleite propiciado pelo cinema também não foi deixado em segundo plano, pois através das convenções cinematográficas, como: movimentos de câmera, iluminação, som, mise-en-scène e edição, o diretor presenteia a audiência com um filme belo, causando deleite aos espectadores que apreciam a grandeza de um espetáculo cinematográfico.
Através da análise de trechos da obra Lavoura arcaica e sua comparação com a adaptação feita por Luis Fernando Carvalho, percebemos que o trabalho do diretor foi fundamental para demonstrar as diferentes maneiras em que o cinema pode desenvolver sua narrativa, a partir de obras literárias. Apesar de o romance ser considerado uma obra de difícil leitura, o filme tornou-se um sucesso e tornou-se um clássico do cinema nacional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GONÇALVES, Érica R (2015). Lavoura Arcaica: análise de personagens na literatura e no cinema. Universidade Metodista de São Paulo – UMESP. Disponível em: <http:/www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/6o-
encontro-2008-1/Lavoura%20Arcaica.pdf>. Acesso em: 2 dez. 2015
HUTCHEON, Linda (2013). Uma teoria da adaptação. Florianópolis: ed. Da UFSC.
LISPECTOR, C (1977). A hora da estrela. São Paulo: Civilização Brasileira.
NASSAR, Raduan (1989). Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ROWLING, Joanne Kathleen (2000). Harry Potter e a pedra filosofal. Rio de Janeiro: Rocco.
STAM, Robert (2003). Introdução à teoria do cinema. Trad. Fernando Mascarello. São Paulo: Papirus.
TURNER, Graeme (1997). Cinema como prática social. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Summus.
TOLSTOI, Liev [Leon]. (1995). Anna Karenina. São Paulo: Nova Cultural.
FILMOGRAFIA
ANNA Karenina. Direção: Joe Wright. Reino Unido. Universal Pictures, 2012. 129min. 1 DVD.
HARRY Potter. Direção: Chris Columbus. Produção: David Heyman. Reino Unido, 2001. Heyday Films. 1 DVD.
LAVOUR’ARCAICA. Direção: Luiz Fernando Carvalho. Brasil. Europa Filmes. Rio de Janeiro, 2001. 01 DVD.
ORGULHO e preconceito. Direção: Joe Wright. Produção: Tim Bevan. Estados Unidos, 2005. 127min. 01 DVD.
Bio fornecida pelo palestrante.
Luciano Marcos Dias Cavalcanti
Universidade Vale do Rio Verde – UninCor
Resumo: Chico Buarque surge no cenário cultural brasileiro inserindo-se na tradição do samba, absorvendo de seus compositores iniciais a adesão à voz do desqualificado social e a tendência à crônica da vida popular. Uma presença garantida em sua obra poético-musical é a dos desvalidos, configurada por uma galeria de desqualificados, seja em seu aspecto social ou moral. Uma figura importante relacionada a este mundo humilde é a do trabalhador. Neste texto, deter-nos-emos na figura do pedreiro da canção “Pedro Pedreiro”. O elemento humilde trabalhado pelo compositor também se revela em sua elaboração artística formal, fornecendo-lhe um importante recurso estilístico para sua poética: o despojamento, a redução do poético ao essencial e a aderência à linguagem popular.
Palavras-chave: Música Popular Brasileira, Poesia, Chico Buarque, Pedro Pedreiro.
Abstract: Chico Buarque stands out in the Brazilian cultural scenery because he follows the samba tradition in his lyrics. He integrates in his music the idea of a lumpen proletarian and the tendency in popular music to draw a chronicle of everyday life of simple people. The lyrics in his music frequently describes the subaltern, either in their social or moral aspects. An important element in this lyrical world inhabited by the poor is the urban proletarian. In this article we will examine the figure of the mason in the song “Pedro Pedreiro.” Humbleness is an important topic which is ever present in the composer’s lyrics. It contributes to elaborate the form of the song and to provide it with a stylistic fabric: the music is simple, and poetics is reduced to the essential and approaches popular expression.
Keywords: Música Popular Brasileira, Poesia, Chico Buarque, “Pedro Pedreiro”.
Minicurrículo: Doutor em Teoria e História Literária pelo IEL/UNICAMP, professor do Mestrado em Letras da Universidade Vale do Rio Verde – UninCor.
POESIA E HUMILDADE EM CHICO BUARQUE DE HOLANDA: “PEDRO PEDREIRO” OU “QUEM ESPERA NUNCA ALCANÇA”
Luciano Marcos Dias Cavalcanti
Universidade Vale do Rio Verde – UninCor
Uma presença garantida na obra poético-musical de Chico Buarque é a dos desvalidos, configurada por uma galeria de desqualificados, seja em seu aspecto social ou moral. São exemplares as pessoas pobres, trabalhadores assalariados, como o pedreiro e o operário; as pessoas que não seguem a moral e os bons costumes provenientes da tradição pequeno-burguesa-cristã, como malandros, prostitutas, travestis; além das pessoas humildes, moradoras das favelas e dos subúrbios das grandes cidades, etc..
As reminiscências infantis de Chico Buarque se revelam um importante elemento constituidor da captação do humilde em suas composições. Ligando-se ao movimento Organização de Auxílio Fraterno, o compositor participou algumas vezes de expedições noturnas a lugares como a Estação da Luz, no centro de São Paulo, com o intuito de ajudar moradores de rua que dormiam nas calçadas, como nos conta em uma entrevista:
A gente ia de noite, assim um grupo pequeno, com umas Kombis, à Estação da Luz, levar cobertor. A gente olha hoje, e pode achar bobagem. Mas pra um cara como eu que morava ali na Zona Sul de São Paulo, (…) e que estudou em colégio de menino rico, de repente ter essa missão, duas vezes por semana, era muito importante. Então a gente, ia, chegava com aqueles cobertores e o pessoal, os mendigos, fugiam apavorados. (…) acho que devo um bocado a essa experiência, entende? Ela, pelo menos, me abriu os olhos para esse negócio, porque, normalmente, eu não estaria vendo nada disso (…) e esse contato direto que eu tive naquela época, eu procuro ter sempre. Inclusive, eu comecei a gostar de mantê-los, entende? De conhecer, de ver essa gente, de conversar (HOLLANDA, 11/09/77).
Este contato com o povo, em outro sentido, também será significativo em sua elaboração artística formal, fornecendo-lhe um importante recurso linguístico utilizado em sua obra: aderência à linguagem popular, como também o despojamento poético. Situação que se contrapõe e se contrabalança com a formação do indivíduo proveniente da classe média-intelectual, voltada para leitura literária culta, com a vida e a cultura do povo brasileiro humilde.
A compreensão da “atitude humilde” de Chico Buarque pode ser comparada ao modo como Manuel Bandeira desenvolveu o “estilo humilde” em sua poética. Configurada no despojamento e na redução ao essencial, tanto nos temas quanto na linguagem, esse tipo de atitude pode ser encarada de diversas maneiras. Uma decisiva é a da sua relação com a pobreza. De acordo com Davi Arrigucci,
Trata-se, antes de mais nada, de uma postura depurada do espírito. E também de uma disposição para agir e significar, que acaba implicando um modo específico de conceber o poético e fazer concretamente o poema. Uma atitude estilística, enfim, em que o modo de ser se converte num modo de ver a vida e a poesia, numa concepção do fazer – fundação de uma poética. É este o termo que, na sua acepção do original, parece caber à noção que Bandeira tem do fazer poético: uma atividade do espírito, em momentos de súbita iluminação, concretizada em obras feitas de palavras. E trata-se de uma poética centrada num paradoxo: o da busca de uma simplicidade em que brilha oculto o sublime (ARRIGUCCI, 1983, p.106-7).
De modo semelhante, Chico Buarque também se aproxima dessa “atitude humilde” de Manuel Bandeira ao buscar construir, com extremo cuidado, apuro técnico e economia verbal suas composições, conjuntamente com elementos provenientes da classe pobre e o seu mundo existencial, unindo forma e fundo em um organismo vivo, característica do compositor que fez com que muitas de suas composições recebessem o status de poema.
Essas relações empreendidas tanto por Manuel Bandeira quanto por Chico Buarque com o elemento humilde se tornam constituintes de uma concepção poética, se materializando na construção de suas obras, que, como diz Arrigucci, reportando-se à obra de Bandeira,
(…) corresponde a uma inserção do poeta na existência real, no mundo, no mundo misturado do cotidiano. Ao contrário de que se poderia pensar, o poeta, ao construir o poema, não estará poetizando o cotidiano. (…) Não se trata absolutamente de elevar o que se capta no plano comum do dia-a-dia, mas de desentranhar aqui o poético, junto às circunstâncias em que o Eu se acha situado. A pobreza se revela então como condição real de dar forma ao poema (ARRIGUCCI, 1983, p. 108).
Assim, será da rua e do povo simples que Chico Buarque retirará os elementos essenciais para construção de sua poética, como bem demonstra seus depoimentos e suas várias canções.
Uma figura importante relacionada ao mundo humilde presente nas composições de Chico Buarque é a do trabalhador, a qual pretendemos comentar nesta comunicação, representada pela figura do pedreiro, em “Pedro Pedreiro”[1], composição gravada em 1961, pertencente ao álbum Chico Buarque. Nesta canção, o que percebemos de imediato é a afinidade direta entre nome (Pedro) e sobrenome-função social (Pedreiro) da personagem, estabelecida pelo morfema “pedr” que nos remete à pedra, ao que é fixo, sólido e imóvel, associando-se, assim, à história da canção, que nos fala de um migrante nordestino que pensa sobre sua vida, sugerido pelo neologismo “penseiro”, enquanto espera de madrugada o trem para ir ao trabalho e o aumento de seu salário atrasado há um ano. Pedro é um indivíduo estático, incapaz de qualquer mobilidade social.
Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro Pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem
A repetição presente na construção da canção é um recurso importantíssimo utilizado pelo compositor para nos dar a sensação da espera angustiada de “Pedro”. Ela também reforça a ideia inicial da imobilidade e fixidez da personagem que espera e não encontra nenhuma possibilidade de melhoria de vida:
Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
Para o bem de quem não tem vintém
Pedro Pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também.
Pedro Pedreiro vive o drama das pessoas pobres do Brasil, no qual os trabalhadores só vislumbram a possibilidade de melhora de vida através do carnaval, rito que se caracteriza pela inversão dos papéis sociais, possibilitando, momentaneamente, a troca das posições hierárquicas existentes na sociedade. No carnaval, o pobre pode se fantasiar do que quiser: de rei, nobre, etc., sofrendo uma catarse proporcionada por um momento de liberdade e utopia, característica desse rito.
A festividade do carnaval pode ser considerada um rito nacional por excelência, porque dramatiza valores globais da nação brasileira. No Brasil, o carnaval é generalizado, não pertence apenas a uma cidade ou Estado, mas a todo o país. Neste ritual, a sociedade está orientada para o evento que centraliza toda a atividade nacional, sendo decretado feriado nacional na época da festa; consequentemente, todos os cidadãos abandonam o trabalho e uma grande parte vai “pular” o carnaval. O carnaval apresenta uma particularidade em relação aos demais ritos (como o religioso, o da parada militar, o do dia da independência, etc), ele se realiza preponderantemente de modo informal, sendo caracterizado por uma situação de espontaneidade. O cotidiano massacrante do dia-a-dia é substituído por um momento extraordinário, marcado por transformações no comportamento das pessoas. A rotina maçante é trocada por momentos de alegria e descontração, e a vida diária passa a ser vista como negativa, pois nesta sofre-se, vive-se em uma rotina maquinal, em um mundo hierárquico com comportamentos ditados pelas normas morais vigentes. No desfile carnavalesco, quem participa ativamente das escolas de samba como componentes são as pessoas das camadas mais baixas e marginalizadas da sociedade. Embora as escolas reúnam, além de pobres, milionários, astros do futebol, da televisão, do cinema. Mas o que chama “atenção, nesses desfiles (a inversão constituída entre o desfilante, um pobre, geralmente negro ou mulato) é a figura que ele representa no desfile (um nobre, um rei, uma figura mitológica)” (DA MATTA, 1997, p. 58)
O carnaval talvez seja o único momento em que o pobre marginalizado e desrespeitado pode se sentir importante e respeitado como os astros de TV e as pessoas ricas. Neste momento, através do processo de inversão carnavalesca, o subalterno se iguala aos seus dominadores e passa, mesmo que por um curto período, a não se sentir inferior. Agora, os marginalizados podem ocupar lugares privilegiados, estão altamente conscientes do fato de que nos seus ensaios e durante o carnaval são eles os “doutores”, os “professores”. Com essa possibilidade, podem inverter sua posição na estrutura social, compensando sua inferioridade social e econômica, com uma visível e indiscutível superioridade carnavalesca. Essa superioridade se manifesta no modo “instintivo” de dançar o samba que o senso comum brasileiro considera um privilégio inato da “raça negra” como categoria social. (DA MATTA, 1997, p. 167) Os pobres e os negros marginalizados, que em seu cotidiano costumam portar-se de cabeça baixa, receber ordens, sofrer diversos tipos de preconceitos e humilhações, no carnaval podem se exibir como fazem os ricos com suas roupas, carros importados, etc., mas de maneira mais nobre: eles se exibem com sua capacidade de sambar com extrema habilidade, sensualidade e criatividade.
O Brasil é caracterizado como o país do carnaval. Neste, as posições sociais são invertidas. Em uma sociedade, como a brasileira, marcada pela desigualdade social, pelo preconceito racial velado, o carnaval se torna uma festa nacional de grande importância porque é somente nesta festa popular e, talvez, no futebol (quando a seleção participa de jogos internacionais) que uma grande parcela da nação brasileira, pode-se dizer, se une em uma mesma “corrente” de confraternização.
Pedro Pedreiro representa a condição da vida trabalhadora do povo brasileiro que só pode vislumbrar a saída desta condição por meio da fantasia, do carnaval e sua inversão provisória e momentânea ou no sonho sempre frustrado de ganhar na loteria[2].
O destino de Pedro é trágico e incontornável[3], pois a sua condição de indivíduo estático, sem perspectiva de melhora de sua vida, é transmitida a sua descendência familiar, pois: “(…) a mulher de Pedro/Está esperando um filho/Pra esperar também.”. Os versos revelam a paralisia social de Pedro, aprisionado a mecanismos econômicos que organizam a sociedade brasileira, ordenada pelos proprietários e donos do capital.
Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro Pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Só dá o desespero de esperar demais
Pedro Pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também,
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem.
A repetição utilizada na construção da canção se dá em 60 versos. Além de representar uma grande espera temporal, nos revela também o sentido de angústia, na qual a personagem, após esperar tanto tempo e com tamanho sofrimento, desiste de esperar: “quer ser pedreiro pobre e nada mais/sem ficar esperando, esperando, esperando”. Ao mesmo tempo em que a canção evidencia a fantasia como única válvula de escape (carnaval ou loteria), revela também a aceitação do sujeito, imobilizado pela vida, de sua condição de pedreiro pobre, de fixo na espera contínua. Chico Buarque faz uma crítica à esperança, e deixa o indivíduo no mundo real, onde não há perspectivas de melhora. O compositor também voltará a falar na desesperança em “Bom conselho”, canção que inverte o ditado popular “Quem espera sempre alcança” para “Quem espera nunca alcança”.
Nos quatro últimos versos da canção, Chico Buarque utilizará mais alguns recursos estilísticos enriquecendo poeticamente a sua composição como a aliteração em “p”, reforçando seus efeitos rítmicos. No último verso, que é repetido várias vezes, o compositor se utilizará da onomatopeia, para reproduzir sonoramente a locomoção do trem que “Pedro pedreiro” espera:
Pedro Pedreiro pedreiro esperando
Pedro Pedreiro pedreiro esperando
Pedro Pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)
O substantivo Pedro, além da ideia de imobilidade, de fixação, é também um nome simples, refere-se a pessoas comuns, do povo, sugere a condição social do sujeito como generalização do povo pobre brasileiro, como se todos operários fossem representados por Pedro. Há uma substituição do sobrenome por um apelido comum, associado a uma profissão desprestigiada socialmente. O emprego de Pedro implica o uso da força física e de baixa remuneração, reforçando sua condição humilde. Todos nós sabemos do desprestígio que o trabalho manual sempre teve no Brasil, legado ancestralmente aos escravos. De maneira geral, podemos dizer que a canção revela um “retrato do Brasil” de fortes contrastes, uma sociedade injusta e perversa, que lega para os migrantes do Norte do país um lugar de desprestígio, de exclusão e espoliação. Nesse sentido, o trabalho exercido por Pedro expõe bem os mecanismos de funcionamento de classes no Brasil. Talvez “Pedro Pedreiro” seja o mesmo operário que, em “Construção”, composição de Chico de 1971, do álbum de mesmo nome, sobe na “construção como se fosse máquina”, com “Seus olhos embotados de cimento e lágrima”, se acaba “no chão feito um pacote flácido”, agoniza “no meio do passeio público” e morre “na contramão atrapalhando o tráfego”.
“Construção” trata do tema do trabalhador espoliado com extremo apuro técnico. Toda estrutura da canção é feita por um jogo de palavras (“tijolos”) em que todos os vocábulos finais são proparoxítonos, recurso que impressionou João Cabral, poeta conhecido por sua crença no trabalho racional para a elaboração do texto poético.
Os versos da canção são dodecassílabos, construídos por uma estrutura sintática simétrica, com métrica e rimas regulares (que mudam apenas nas últimas palavras, as proparoxítonas), maneira encontrada pelo compositor para representar formalmente a circularidade da vida do operário, em seu eterno retorno, mecanizado e aprisionado em um ambiente sem saída.
“Construção” conta a história comum de um operário da construção civil que sai para o trabalho até à sua morte, em uma queda do andaime que trabalhava. Diferentemente de “Pedro Pedreiro”, em “Construção” Chico Buarque representa o pedreiro no seu local de trabalho, revelando a condição aviltante a qual o trabalhador urbano, da construção civil está inserido. Este operário nem mesmo é nomeado, o que revela sua invisibilidade. Sem questionar a organização social do trabalho, submete-se como um autômato ao seu labor, portanto, este homem é similar a uma máquina. Sua tristeza profunda, e por fim, à sua morte, não causa nenhuma comoção, é considerado um estorvo à sociedade, pois o término trágico de sua vida apenas atrapalha o trafico, o público e o sábado. Em seu sentido alegórico a canção parece representar o esfacelamento de uma sociedade que destrói o próprio homem que a constrói. A situação a qual o personagem da canção se encontra revela o modo de vida de um mundo insustentável. A maquinização do indivíduo e sua espoliação pelo capital leva-o a uma espécie de transe e/ou loucura, da perda do sentido da realidade, de embriaguez em que, talvez momentaneamente, o trabalhador parece se libertar do mundo opressor, por meio do consumo de álcool. Situação que representa bem o mundo urbano e moderno no qual o trabalhador está inserido: maquinal, ilógico e destruidor. O que também é revelado nas inversões dos vocábulos da canção e em seu ritmo vertiginoso, que mimetiza toda esta situação em seu aspecto sonoro.
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego (…)[4]
Toda opressão do operário de “Construção”, que não encontra uma saída para mudança de sua condição de penúria é confirmada por outra canção: “Deus lhe pague”, que Chico desloca para o final de “Construção”, promovendo a continuidade desta. Em “Deus lhe pague”, evidencia-se toda condição a qual o trabalhador é sujeitado e que, ironicamente, é o que a sociedade ocidental-cristã moderna tem a lhe oferecer: o trabalho excessivo e mal remunerado até a sua morte:
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague
Outro fator que importante há observarmos, o qual reforça ainda mais as condições precárias da “personagem”, é a sua origem: “Pedro pedreiro” é um migrante do norte que mora em um subúrbio, pois tem que esperar o trem para ir ao trabalho. Situação que revela outra esperança não alcançada pela personagem. A do indivíduo que ao migrar do norte para o sul do país almeja sua melhora de vida em uma região mais desenvolvida. Mas o que encontra novamente é sua exclusão ou expulsão do centro e/ou dos bairros nobres da cidade desenvolvida para o subúrbio. Onde vivem os trabalhadores mal remunerados e excluídos do ambiente moderno e do que ele pode lhe proporcionar.
“Pedro pedreiro” é um indivíduo humilde de uma grande cidade, onde se chocam as contradições do desenvolvimento do mundo moderno brasileiro e de seu atraso. O compositor, ao nos revelar esse retrato da pobreza, se solidariza com ela e nos mostra a poesia no “baixo”, onde o sublime se oculta, numa vida humilde e simples. Ao retirar poesia deste meio “baixo”, não “elevado”, o compositor se afasta da matéria da poesia tradicional, na qual o poético significa o nobre e o raro, revelando que esta pode estar presente também no mais humilde cotidiano do homem simples, lição deixada pela tradição do samba e da elaboração lírica modernista de Manuel Bandeira.
Em “Pedro pedreiro”, destaca-se o espaço da cidade moderna, na qual o homem está inserido, em seu cotidiano, em suas ruas, em suas multidões de anônimos, sofrendo as degradações a que o mundo moderno sujeita a todos com suas experiências. Podemos notar que Chico Buarque inspira-se no drama de um João–ninguém e o transforma em uma experiência humana, densa e complexa. Um destino particular é transformado em um valor geral, abstrato e universal do indivíduo angustiado. Na canção, o elemento social não é tomado como um simples engajamento político, mas, ao contrário, a referência ao social revela nela própria algo de essencial, algo que fundamenta sua qualidade poética. Para Adorno, “(…) o conteúdo de um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, [estas] só se tornam artísticas quando, exatamente em virtude da especificação do seu tomar-forma estético, adquirem participação no universal.” (ADORNO, 1980, p. 193). Assim o vemos revelado nos versos da canção que mimetizam a espera angustiada de Pedro, como vimos anteriormente, e que pode ser sintetizada na sonoridade do verso que imita o ruído do apito do trem: “aflita, bendita, infinita/ Do apito do trem”, nas suas rimas internas consoante (ita) e soante (ita/ito). O que também pode ser notado na representação da espera interminável no verso final: “Que já vem/ Que já vem/ Que já vem/ Que já vem/ Que já vem. (etc.)”. Como também na economia vocabular da canção que apresenta poucos substantivos e adjetivos que se repetem, mais o neologismo “penseiro”, onze verbos (em várias flexões), algumas locuções verbais, o verbo “esperar” no gerúndio repedindo-se, entre outras comentadas acima. Toda essa estrutura formal deságua na figura do homem moderno angustiado e em confronto com os valores desse mundo[5].
Chico Buarque nos mostra que é possível encontrar a poesia no mais humilde cotidiano, desentranhada, pela depuração da linguagem, na forma simples e natural da canção. Em sua obra, o compositor reconhece o outro, resgatando a experiência de vida de uma personagem desqualificada socialmente, solidarizando-se com a existência invisível do outro. A figura do homem humilde presente em sua obra é valorizada em sua complexidade, digna de reconhecimento. E essa postura diante do mundo e da poesia se revela em sua canção como uma atitude estética, na recusa ao elevado e a uma linguagem apenas formalista.
A canção de Chico Buarque faz uma análise critica da sociedade e se coloca contra a ideologia oficial, contestando a insensibilidade do sistema para com os humildes. Conforme observa César, o compositor “está consciente de sua função político-social e faz de sua poesia o instrumento de denúncia da realidade, das injustiças e das desigualdades sociais.” (CESAR, 1993, p. 83).
A Moderna Música Popular Brasileira apresenta uma proposta nova dentro da tradição. Historicamente surgida a partir do desenvolvimento da bossa nova, no dizer de Walnice Nogueira Galvão, a MPB tinha o projeto de “dizer a verdade” sobre a realidade imediata e apresentava duas faces:
No plano musical, implica numa volta às velhas formas da canção urbana (sambão, sambinha, marcha, marcha-rancho, modinha, cantiga de roda, ciranda, frevo, etc.) e da canção rural (moda de viola, samba de roda, desafio etc). No plano literário, impõe um compromisso de interpretação do mundo que nos cerca, particularmente em suas concreções mais próximas, brasileiras. Basta arrolar a galeria de personagens: o boiadeiro, o cangaceiro, o marinheiro, o retirante, o violeiro, o menino pobre da cidade, o homem do campo, o nordestino – que vem trabalhar no sul, o chofer de caminhão, o homem da rua, o sambista, o operário etc (GALVÃO, 1976, p. 93).
Para a ensaísta, a nova proposta da “Moderna Música Popular Brasileira” reside no compromisso com uma realidade cotidiana e presente, com o “aqui agora”. Esse compromisso, observa Galvão, a leva “a adotar a desmistificação militante, derrubando velhos mitos que se encarnavam em lugares comuns da canção popular, como a louvação da beleza do morro e do sertão, da vida simples, mas plena do favelado e do sertanejo” (GALVÃO, 1976, p. 93).
Assim, após o período inicial (1958-1962) as músicas da Bossa Nova – de letras que se prendiam a temas intimistas, falando do “mar, amor e luar” – passam a acompanhar a evolução do problema político brasileiro, tendo uma conotação mais popular e participativa no período pré-1964, para finalmente desempenhar uma fase de politização explícita, quase militante, nos anos do regime militar. Neste momento histórico, arte e política andavam juntas, como podemos notar no depoimento de Heloísa Buarque de Hollanda:
Eu me lembro dos hoje “incríveis anos 1960” como o momento extraordinariamente marcado pelos debates em torno do engajamento e da eficácia revolucionária da palavra poética, palavra que, naquela hora, se representava como muito poderosa e até mesmo como instrumento de projetos de tomada de poder (HOLLANDA, 1980, p. 15).
Em 1962, de acordo com o anteprojeto do CPC (Centro Popular de Cultura), havia três posições possíveis para os intelectuais no Brasil naquele momento: o conformismo, o inconformismo ou a atitude revolucionária consequente, das quais a última atitude era a orientação do CPC, que tinha como prerrogativa que “em nosso país e em nossa época, fora da arte política não há arte popular” (HOLLANDA, 1980, p. 17). Mas para a plena existência da “arte popular”, o artista deveria adequar sua linguagem para poderem “exprimir corretamente na sintaxe das massas os conteúdos originais”. (HOLLANDA, 1980, p. 19).
Vem desse tipo de pensamento político e estético o surgimento, em 1963, da coleção Violão de rua, que trazia uma antologia dos poemas mais significativos dos poetas engajados da época. Na introdução de um de seus livros, Moacyr Félix expõe a intenção da poesia do Violão de rua, como obra participante que pretendia ser:
(…) mais um solavanco nas torres de marfim de uma estética puramente formal, conservadora e reacionária, onde a palavra esvaziada de supostos objetivos que a determinam como o pulso onde transita o som e o sangue de toda a realidade, é apreciada por critérios exclusivamente externos (com o seu ritmo aparente, raridade, aplicação exótica) e ressalva sempre para o sentido do “divertissement” e ornamental (apud HOLLANDA, 1980, p. 20).
A canção popular da década de 1960 e 1970 tem um caráter circunstancial, assumindo muitas vezes uma dimensão quase jornalística, passando a refletir diretamente os acontecimentos do dia-a-dia. Ela torna-se veículo de comunicação que diz o que os canais competentes de comunicação não podiam dizer.
Chico Buarque surge no cenário cultural brasileiro inserindo-se na tradição do samba, absorvendo de seus compositores iniciais a adesão à voz do desqualificado social e a tendência à crônica da vida popular – não são poucas as comparações de Chico a Noel Rosa, por exemplo –, da mesma forma que está também inserido no contexto político cultural da década de 1960, que revela tanto a bossa nova, no campo musical, quanto o estado de exceção representado pela ditadura militar brasileira, momento de alerta sobre as tensões sociais. A relação de Chico com o samba ressalta sua musicalidade contestatória, uma vez que o samba, “dono do corpo”, conforme expressão de Muniz Sodré (1988), com o seu ritmo sincopado e provocador, contesta valores morais e sociais burgueses. Não é sem razão que Chico fez “Pedro Pedreiro”, herói da canção, esperar o apito do trem no ritmo contestatório do samba.
Referências
ARRIGUCCI JR., Davi. “O humilde cotidiano de Manuel Bandeira”. In: Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1983.
CESAR, Lígia Vieira. Poesia e política nas canções de Bob Dylan e Chico
Buarque. São Paulo/ São Carlos: Editora UFSC; Estação Liberdade, 1993.
DA MATTA, Roberto da. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
GALVÃO, Walnice Nogueira. “Uma análise ideológica da MPB”. In: Saco de gatos: ensaios críticos. São Paulo: Duas Cidades, 1976.
HOLANDA, Chico Buarque de. Chico Buarque: letra e música. Humberto Werneck (Org.) São Paulo: Companhia das Letras, 1989. (Songbook)
HOLANDA, Chico Buarque de. “Entrevista a Tarso de Castro”. In: Folha de São Paulo,11/09/77.<http://www.chicobuarque.com.br/texto/mestre.asp?pg=entrevistas/entre_11_09_77.htm.> Acesso em 18-08-2016.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde 1960/70. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico: poesia e política em Chico Buarque. São Paulo: Hucitec, 1982.
MORAES, Vinicius de. Antologia Poética. 17ªed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.
PERRONE, Charles A. Letras e Letras da MPB. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1988.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. Rio de janeiro: Mauad, 1988.
SITE OFICIAL de Chico Buarque <http://www.chicobuarque.com.br/>. Acesso em 20-08-2016.
NOTAS AO TEXTO
[1] O tema do trabalhador ocupará um lugar especial na obra de Chico Buarque. Em “Construção” vemos novamente a figura do operário da construção civil, humilhado em suas condições de trabalho. Em “Linha de montagem” aparece novamente o trabalhador, mas nesse momento a figura representada é a do metalúrgico do ABC paulista, que aparece também em “Bom tempo” e “Primeiro de maio”. O trabalhador rural também terá seu espaço garantido nas composições de Chico, são exemplares as canções “O cio da terra”, “Assentamento” e “Levantados do chão”.
[2] É possível perceber um diálogo, no que diz respeito ao desejo frustrado do enriquecimento pelo jogo, de “Pedro pedreiro” com o samba clássico de Wilson Batista e Geraldo Pereira, “Acertei no milhar”: “– Etelvina, minha filha!/ – Que há, Jorginho?/ – Acertei no milhar/Ganhei quinhentos contos/Não vou mais trabalhar (…) mas de repente/ De repentemente/ Etelvina me chamou/Está na hora do batente/mas de repente,/Ai de repente /Etelvina me acordou/(E disse acorda Vargulino)/Era um sonho minha gente/(Mete os peitos pelos fundos/Que na frente tem gente).”
[3] Talvez a única saída para Pedro Pedreiro seria a conscientização de sua condição de explorado e da importância de seu trabalho para a sociedade, como fez o operário de Vinícius de Moraes em O operário em construção, de 1956, poema musicado por Taiguara: “(…) E foi assim que o operário/Do edifício em construção/Que sempre dizia sim/Começou a dizer não.// E aprendeu a notar coisas/A que não dava atenção:/Notou que sua marmita/Era o prato do patrão/Que sua cerveja preta/Era o uísque do patrão/ Que seu macacão de zuarte/ Era o terno do patrão/ Que o casebre onde morava/ Era a mansão do patrão/ Que seus dois pés andarilhos/ Eram as rodas do patrão/ Que a dureza do seu dia/ Era a noite do patrão/ Que sua imensa fadiga/ Era amiga do patrão.// E o operário disse: Não!/ E o operário fez-se forte/ Na sua resolução” (grifos nossos – MORAES, 1979, p. 209-210).
[4] Ver análise detida da canção feita por MENESES, Adélia Bezerra de. In: Desenho mágico: poesia e política em Chico Buarque. São Paulo: Hucitec, 1982 (p.148-158).
[5] Nos anos 1960/1970, a MPB se mostra um veículo de grande importância para o cenário poético e cultural brasileiro. Segundo Augusto de Campos, para estudar a cultura brasileira dessa época, “se quiserem compreender esse período extremamente complexo de nossa vida artística os compêndios literários terão que se entender com o mundo discográfico. No novo capítulo da poesia brasileira que se abriu a partir de 1967, tudo ou quase tudo existe para acabar em disco” (CAMPOS, Augusto de. apud PERRONE, 1988, p. 19). A elaboração artística das letras da MPB se tornou evidente para os críticos literários, chegando alguns a pensar que os poetas desta geração optaram pelo veículo musical (o disco, o rádio, a televisão) devido à superioridade comunicativa dos meios audiovisuais em relação aos meios escritos.
Bio fornecida pelo palestrante.
Daniele Fernanda Feliz Moreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Resumo: O objetivo deste trabalho é discutir as estratégias de performances de grupos marginais após o modernismo brasileiro. Já que, determinados grupos, em períodos distintos, utilizaram-se dos discursos e narrativas literárias do modernismo com objetivos renovadores. Partindo da concepção de John Barth sobre a escrita de Borges, seu texto The Literature of Exhaustion servirá de base para as discussões. Tendo em vista as releituras dos grupos literários, organização e configuração dos mesmos, o trabalho terá como escopo ainda, a análise do texto de Sérgio Vaz e sua ligação com o trabalho de Oswald de Andrade. De modo mais breve, e menos detalhado, será discutido também a atuação dos grupos, perspectivas, organização e como elas conferem legitimidade a essas escritas, uma vez que oferecem releituras com novas perspectivas.
Palavras-chave: Literatura; Marginalidade; Cultura; Modernismo.
Abstract: This paper aims to discuss the strategies of performance of marginal groups after the Brazilian Modernism. Certain groups, at different times, used the discourse and literary narratives of Modernism with renovated goals. This paper will depart from John Barth’s text The Literature of Exhaustion, about Borges’ writings, to base our discussion. Aiming at the reinterpretation of literary groups, their organization and their configuration, this paper will analyse Sérgio Vaz’s text and its connection with Oswald de Andrade ‘s work. It will also discuss the activities of these groups, their prospects, forms of organization and of legitimizing these writings, as they offer readings with new perspectives.
Key-words: Literature; Marginality; Culture; Modernism.
Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ 2011). É especialista em relações etnorraciais e educação pelo CEFET/RJ. Possui mestrado em Relações Étnico raciais pelo CEFET/RJ (2014) com pesquisa em literatura, racismo e ensino. Tem experiência na área de educação, com ênfase em língua portuguesa, suas literaturas e questões culturais. Trabalhou como professora-tutora do curso de Tecnólogo em Segurança Pública e Social pela UFF, atuando principalmente nas disciplinas de Oficina de Texto I e III. É doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente é professora do departamento de Educação da UERJ, leciona disciplinas voltadas para práticas educativas, questões raciais e estudos de Literatura.
LITERATURA MARGINAL: EXAUSTÃO E PLENITUDE
Daniele Fernanda Feliz Moreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
A literatura brasileira persegue de modo constante atualizar-se de acordo com novas formas de expressão, tendo em si a originalidade, o ineditismo e a novidade. Inspirados pelos movimentos de vanguarda europeias, a semana de 1922 assinala uma importante ruptura no campo das artes. No entanto, será que literatura modernista ou pós-modernista serviu como uma reedição da tradição? Será que as promessas inovadoras, incorporaram-se ao sistema e passaram a ser sentidas como “esgotadas” em sua capacidade inovar, surpreender, interessar?
Para refletirmos sobre o panorama literário contemporâneo, em que cada vez mais a pluralidade de escrita assinala seus espaços, é fundamental salientar a relevância do movimento modernista brasileiro. A semana de 1922, para além da congregação de visionárias concepções artísticas, possibilitou uma aproximação entre linguagens até então bem delimitadas no cenário literário brasileiro. O movimento modernista possibilitou uma descentralização de narrativas. A figura do “eu” literário burguês passou a dividir espaços com o elemento indígena e sertanejo, exemplificado nas obras de Mario de Andrade, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Tais obras foram responsáveis por atualizarem a vertente popular sem representarem preconceito, e como afirma Silviano Santiago: “O romancista apenas escuta a produção poética popular.” Ou seja, o escritor, naquele momento, fazia algo que seria decisivo para maior abertura e pluralidade literária no Brasil do século XXI. O escritor compara Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, com as Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos e aponta o caráter duplo da comparação, uma vez que “são obras que navegam tanto em águas europeias quanto em peculiarmente nacionais”. Santiago enaltece ainda o viés positivo e a riqueza literária das expressões populares:
“É neste entrecruzar de discursos, já que é impossível apagar o discurso europeu (…) que se impõe o silêncio do narrador-intelectual (…) é aí que se faz ouvir o conflito entre o discurso do dominador e do dominado. É aí que se constitui o texto-da-diferença, da diferença que fala das possibilidades (ainda) limitadíssimas de uma cultura popular preencher o lugar ocupado pela cultura erudita, apresentando-se finalmente como a legítima expressão brasileira”.
(SANTIAGO, 1982, p. 172)
O popular obtinha espaço na literatura através de intermediários. Os mediadores desempenhavam papel quase que antropológico, seja em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha seus escritores construíram narrativas polifônicas, os enredos eram permeados de diversas vozes. Seus personagens carregavam consigo o sotaque, o gesto e expressões linguísticas típicas de seus lugares de origem. No entanto, a literatura brasileira ainda carecia de narrativas construídas por camadas populares. O sertanejo, o indígena, o negro e o pobre estavam sendo retratados nas obras de arte de modo mais autêntico, porém ainda sem protagonismo enquanto artista, produtor. É sabido que ao longo da história da literatura no Brasil, alguns escritores de grupos marginalizados socialmente conseguiram notoriedade em suas produções literárias, caso de Lima Barreto, Machado de Assis e do poeta Cruz e Sousa, autores negros, mas que de alguma forma estavam inseridos em contextos de prestígio, obtiveram educação burguesa e circulavam na classe média.
O modernismo brasileiro foi uma corrente decisiva na abertura temática literária, porém ainda carregava consigo características do romantismo, uma vez que o conhecimento e a incorporação do popular pela escrita literária ocorriam através do ponto de vista burguês/erudito. De certa forma, e com algumas exceções, repetia os moldes lineares realistas do século XIX nas narrativas, utilizando uma construção psicológica dos personagens pautadas em dados da realidade e construção com começo, meio e fim. Os mecanismos de centralidade eram ainda os eleitos pela elite cultural, ou seja, os critérios para eleger uma obra literária de valor estão ligados aos seus méritos estéticos, sua “literariedade”.
A problemática da questão está situada na noção de literatura, que a princípio é ideológica e está engendrada na burguesia. Portanto, os valores estéticos e culturais que vão atestar essa “literariedade” estão sob a ótica desse grupo. O privilégio de eleger obras literárias está ligado à questão de poder. As escolhas não são arbitrárias, a história da literatura brasileira constata tais interesses. A linguagem, o modo de expressar-se e o acesso a leitura e a escrita são requisitos que preenchem e estabelecem a noção de autor. No artigo “Vale quanto pesa” Silviano Santiago discorre sobre o caráter elitista da escrita no país problematizando o papel do autor, do livro, e sua circulação social. O escritor trata da configuração do meio literário brasileiro, destacando suas especificidades e de como a ficção operava as tendências da cultura erudita. Por definição de cultura erudita e cultura popular, Alfredo Bosi define que:
“Se pelo termo cultura entendemos uma herança de valores e objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso, poderíamos falar em uma cultura erudita brasileira, centralizada no sistema educacional (e principalmente nas universidades), e uma cultura popular, basicamente iletrada, que corresponde aos mores materiais e simbólicos do homem rústico, sertanejo ou interiorano, e do homem pobre suburbano ainda não de todo assimilado pelas estruturas simbólicas da cidade moderna”.
(BOSI, 2009, p. 24)
Ao analisar o panorama literário brasileiro após a semana de 1922 é possível constatar rupturas, mas também muitas permanências. O normativismo e o prescritivismo das formas da arte institucionalizada repercutiram ao longo dos anos. Isto porque, seria preciso uma renovação completa não só no âmbito artístico, mas também social. Para que o modernismo fosse uma estética da reciclagem criativa (BARTH, 1984), seria preciso a reutilização do material literário “esgotado” para novas combinações “originais”, ou seja, a reformulação da arte brasileira, uma vez que está centrada nos anseios burgueses.
É somente em 1960 que uma autora semiletrada, sem qualquer auxílio instrucional para a produção literária, lança-se no meio editorial. Carolina Maria de Jesus tem o seu diário, intitulado Quarto de despejo publicado por intermédio de um jornalista. No entanto, Carolina tinha pretensões que iam além de seu diário, já que inicialmente não tinha como intenção publicar seu diário, mas sim, outros escritos ficcionais. O trabalho de Carolina assumiu diversos lugares de equívocos, seja como testemunho, antropológico ou obra exótica, pouco se explorou seu potencial literário. Sua escrita repercutiu por diversos países, Quarto de despejo, seu livro mais famoso, alcançou números surpreendentes para o mercado editorial da época. E então, trinta e oito anos após a Semana de Arte de Moderna, em que se enaltecia e clamava pelo popular, nacional e originário, uma escritora oriunda da favela tinha seu primeiro livro publicado.
A história da literatura brasileira é um território em constante disputa por conferir e instrumentalizar poder, imprimindo visibilidade cultural e social ao indivíduo e também seu grupo. A escrita de Carolina não é pertencente a movimentos culturais e literários. A escritora foi pioneira em um tipo de literatura associado à produção marginal. Para NASCIMENTO (2009), “Literatura Marginal se tornou uma rubrica ampla que abrange a inserção dos escritores no mercado editorial, as características dos produtos literários, um tipo de atuação literário-cultural, ou ainda, a condição social do escritor.” O termo marginal tem acepções diferentes nos períodos da década de 1970 e mais tarde, nos anos 2000. É utilizado por grupos distintos, porém com algumas aproximações ideológicas, são uma possibilidade para o que Barth denomina o escritor pós-moderno ideal, já que não imita e não repudia nem seus genitores do século XX nem seus avós do século XIX. Ele digeriu o modernismo, mas não o carrega nos ombros como um peso.
Conforme apontado por Barth, os gêneros artísticos são concebidos e desenvolvidos por meio da história da humanidade. Portanto, estão sujeitos à exaustão, a repetição, ao menos no espírito de um certo número de artistas, em certos momentos e em determinados lugares. Ou seja, as convenções artísticas podem ser abandonadas, subvertidas, ultrapassadas ou mesmo retomadas contra elas mesmas, para que se formulem novas formas de expressão mais completas. A literatura marginal pode ser compreendida, a partir da perspectiva dos estudos de John Barth como essa possibilidade de estética de reciclagem criativa. Como cita Helloisa Buarque de Hollanda “se redescobriu (ainda muito bobamente) nossa paisagem social, que andava soterrada nos anos medíocres que se seguiram à Semana de Arte Moderna de 1922. De novo, de um novo ângulo, voltou-se a olhar o Brasil (…) o povo, mal visto, desfocado”.
Surge em 1970 um movimento denominado “literatura marginal”. Movimento que era “marginal” na medida em que suas condições, bem como sua distribuição, eram feitas à margem da política editorial vigente. Segundo Heloisa Buarque de Hollanda, “era um movimento da contracultura e feito pela classe média”. Surgia uma geração que, influenciada pelo Tropicalismo, tinha como meta partilhar e popularizar a poesia. No contexto de ditadura militar, tal movimento burla os mecanismos editoriais comerciais e de censura. No tocante a linguagem, estrutura e temática havia uma rejeição aos padrões literários então vigentes. Heloísa Buarque de Hollanda assinala que:
“(..) faz-se clara a recusa tanto da literatura classicizante quanto das correntes experimentais de vanguarda que, ortodoxamente, se impuseram de forma controladora e opressiva em nosso panorama literário. Num recuo estratégico, os novos poetas voltam-se agora para o modernismo de 22, cujo desdobramento efetivo ainda não fora suficientemente perseguido. Nesse sentido, merece atenção a retomada da contribuição mais rica do modernismo brasileiro, ou seja, a incorporação do coloquial como fator de inovação e ruptura com o discurso nobre acadêmico. Se em 22 o coloquial foi radicalizado na forma do poema-piada de efeito satírico, hoje se mostra irônico, ambíguo e com um sentido crítico alegórico mais circunstancial e independente de comprometimentos com um programa preestabelecido.”
(Hollanda, 1975, p. 56)
Formado por pessoas da classe média, letrados, tendo a literatura como um meio de revolução social, e inspiradas no modernismo brasileiro, esses escritores tinham como instrumento de produção e popularização de seus trabalhos o mimeógrafo, ferramenta primordial para reprodução dos livros. A máquina, além de baratear e dinamizar a reprodução, era totalmente destoante do que se fazia nos meios editoriais industrializados. A linguagem também era instrumento de pertencimento ao grupo, as gírias, expressões coloquiais eram muito utilizadas e tinha como finalidade tornar a poesia um elemento mais próximo do popular, o objetivo era se afastar do formalismo acadêmico e estabelecer uma conexão com a rua.
É no final dos anos 1990 e início de 2000 que se difunde e assume relevância nos grandes meios literários um movimento intitulado por Ferréz de “literatura marginal”. A proposta adquire maior visibilidade a partir de outros dois importantes eventos que marcam o cenário cultural nacional. O primeiro é o livro de Paulo Lins, Cidade de Deus. Sua obra foi publicada em 1997 e obteve relevantes críticas positivas que exaltavam o poder de escrita de seu autor. Em 2002 a obra recebe uma adaptação para o cinema e é aclamada pela crítica, e assim os componentes do livro, dentre eles favela, violência e marginalidade, adquirem espaço e até certo ponto, prestígio em espaços hegemônicos. A produção marginal que surge a partir dos anos 2000 tem muito em comum com essa literatura marginal dos anos 1970. O próprio Ferréz, escritor militante da periferia alega que “O mimeógrafo foi útil, mas a guerra é maior agora, os grandes meios de comunicação estão aí, com mais de 50% de anunciantes por edição, bancando a ilusão que você terá que ter em sua mente”. O termo “literatura marginal” é escolhido por Ferréz como forma de designação de sua escrita. Na introdução do livro “Literatura marginal – talentos da escrita periférica”– o autor assegura que: “A literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo” (FERRÉZ, 2005, p. 5).
O enfoque da palavra ‘marginal’ escolhida pelo autor para justificar seu trabalho serve como destaque para designar minorias raciais ou socioeconômicas. Essa é uma importante característica a ser levada em consideração, já que é um fator de diferenciação desse grupo dos demais autores marginais da história da literatura nacional. Carolina Maria de Jesus, quando escreve, não está amparada por um grupo, um movimento. A formação ideológica, crítica e cultural são elementos fundamentais para a coesão do grupo. Apesar das diferenças sociais e econômicas que estruturam os movimentos literários de 1922, 1970 e 2000 existe um entendimento intelectual-artístico decisivo para a produção do grupo, tanto que os comprometidos com os coletivos de contracultura da década de 1970 e os escritores de periferia dos anos 2000 tomam como exemplo e eixo paradigmático o movimento modernista.
Além das aproximações existentes entre as gerações de literatura marginal de 1970 e 2000, é preciso ressaltar que, o escritor Ferréz não só elogia o movimento predecessor alegando que “O mimeografo foi útil”, como também cita João Antônio, escritor que, de acordo com Alfredo Bosi é “Ora, realismo fervido na revolta pende mais para a margem que para o centro da sociedade”. O trecho que encerra a abertura de Ferréz faz referência ao desdém que a elite letrada tem como o povo:
“Evitem certos tipos, certos ambientes. Evitem a fala do povo, que vocês nem sabem onde mora e como. Não reportem povo, que ele fede. Não contem ruas, vidas, paixões violentas. Não se metam com o restolho que vocês não veem humanidade ali. Que vocês não percebem vida ali. E vocês não sabem escrever essas coisas. Não podem sentir certas emoções, como o ouvido humano não percebe ultrassons.”
(ANTÔNIO, 2001, p. 34)
João Antônio foi um escritor que, além das abordagens temáticas que privilegiasse a boemia e a marginalidade, Antônio era também um crítico de seu tempo: “Assim, grande parte dos escritores que depõem hoje sustenta preocupação vinculada à forma, sob a denominação de um ‘ismo’ qualquer. Lamentável ou incrível. As posições beletristas não mudaram entre nós, sequer um milímetro, nos últimos quinze anos.” Antônio, propõe que haja na literatura uma identificação com a realidade brasileira, já que “(…) carecemos, em essência, é o levantamento de realidades brasileiras, vistas de dentro para fora. Necessidade de que assumamos o compromisso com o fato de escrever sem nos distanciarmos do povo e da terra”. Esse anseio por representação já era indicado desde o Manifesto do Centro Popular de Cultura (CPC), em 1962, quando se alegava que sem a arte política não existiria a arte popular (HOLLANDA, 1992). É um viés artístico que vinha adquirindo espaço, que tinha um compromisso com o popular. É dessa tendência que os escritores marginais dos anos 2000 vão se valer para a construção de seus textos. A escolha de Ferréz não é aleatória ou acidental, ao optar por dialogar com João Antônio, o autor o faz de maneira consciente.
Mesmo com aberturas no setor editorial, publicações alternativas e maior espaço para novos autores, a literatura brasileira ainda é conservadora e reproduz antigos mecanismos de seleção de centralidade. Uma pesquisa feita em 2012 por Regina Dalcastagnè traça o perfil dos escritores e da escrita dos brasileiros. Foram lidos 258 romances, publicados de 1990 a 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco. A pesquisa revelou que os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente). Esses dados só enfatizam o quanto ainda é restrito o campo literário.
Nessa perspectiva, a autora também traçou o perfil dos personagens nos romances brasileiros contemporâneos. Eles são, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). As principais ocupações dos personagens masculinos são escritor (8,5%), bandido ou contraventor (7%) e artista (6,3%). As personagens femininas são donas de casa (25,1%), artistas (10,2%) ou não têm ocupação (9,6%). A questão não é diferente no tocante à cor. Os personagens negros são 7,9% e têm pouca voz: são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. Os brancos são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%). Os negros são bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%). Enquanto a maioria dos brancos morre, na ficção, por acidente ou doença (60,7%), os negros morrem mais por assassinato (61,1%).
É possível perceber a existência de uma literatura que, seja por questões editoriais ou sociais, não é contemplada por esse espaço central e hegemônico. Literatura essa, que não usufrui de prestígio e legitimidade do cânone, já que o mercado editorial está voltado para uma demanda específica que foi ilustrada pela pesquisa. Dos números apresentados por Dalcastagnè e das constatações semelhantes feitas por Silviano Santiago em seu período, é possível refletir sobre o quão restrito é o universo literário no Brasil e o quanto são relevantes culturalmente as produções que infringem as regras pré-estabelecidas desse universo.
III. Exaustão e Plenitude
O trabalho desses escritores tem componentes próprios; atuação política, iniciativa editorial, além de uma condição diferenciada quanto ao lugar de fala. É uma característica que está presente tanto no movimento que teve seu auge em meados dos anos 1970, quanto no dos anos 2000. Na década de 1960 os escritores faziam recitais de poesias nas ruas, em conjunto com operários, as apresentações se davam em locais inusitados, a própria linguagem, a própria poesia era performática, construída especificamente para o povo. “Não há lugar aqui para os ‘artistas de minorias’ ou para qualquer produção que não faça uma opção de público em termos de povo’.” Os objetivos do grupo são desvirtuados quando em 1964 ocorre o golpe militar, e então o projeto de expansão cultural para o teatro e as demais artes fracassa.
Já a literatura marginal dos anos 2000 é periférica, oriunda da favela. Suas formas de atuação priorizam este espaço. Há um deslocamento de objetivo quando essa migra de lugar, isso ocorre, mas, no entanto, seus idealizadores a transformam em estratégica. As formas de atuação artística na periferia são quase sempre em formato de saraus, mas há também dança, representada como confronto de hop-hop e grafiti, expressão gráfica típica das ruas.
Essa atuação pode ser considerada um veículo de visibilidade, já que os saraus, os encontros literários e as edições com selos próprios também foram componentes que estimularam a curiosidade das universidades, editoras e imprensa. A favela é um elemento complexo dessa escrita; buscar o entendimento dessas produções discursivas é dialogar com um contexto social até então novo para a literatura. As favelas são localidades que não estão no centro social, político e cultural dos acontecimentos, no entanto, é dotada de pulsão criadora, e grande fluxo de produção. São esses atores sociais que buscam na cultura territorializada da favela agregarem outros valores a essa condição. Tal mobilização assinala uma importante mudança social, já que a periferia passa a elaborar as soluções para os obstáculos encontrados, fazendo com que se desempenhe autonomia e protagonismo em seu destino. Essa iniciativa é permeada pela valorização do morador da periferia, sua cultura, seus hábitos, musicalidade e formas de expressão. Sérgio Vaz revela que:
“Esse novo artista da periferia é um artista cidadão. Ele não faz a arte só pela arte, ele representa as pessoas que não têm voz, não têm teatro, não têm cinema. É um movimento político apartidário (…). Talvez com menos dinheiro, menos condições, menos espaço. Mas, ainda assim, é uma efervescência cultural. As pessoas se apropriaram dos bares, tem cinema na laje, botecos, becos e vielas”.
(Jornal do Brasil, Cultura, 02/11/ 2012)
O autor destaca uma apropriação do espaço favela como um território possível para a difusão cultural, revelando a importância do artista periférico. Ele trata essa postura como representação do que seria essa renovação de um espaço. O destaque que esses eventos adquirem possibilita um olhar para as regiões que antes eram negligenciadas, como cita Ferréz “mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto.” Os eventos culturais alteraram as rotinas das comunidades, pois os grupos que prestam serviços aos moradores não são somente as ONGs (organização não governamental) de fora, mas sim os próprios cidadãos empenhados na transformação daquele espaço.
É possível perceber que em três momentos históricos distintos, em 1922 com a semana de Arte Moderna, na década de 1970 com os CPCs da Literatura Marginal e nos anos 2000 com a articulação dos moradores de periferia na criação de um movimento cultural artístico-literário há tentativas de reciclagem criativa. Mas, do ponto de vista da efetivação da proposta, somente as literaturas marginais da década de 1970 e dos anos 2000 conseguem pôr em prática tal empreitada. Isso porque, buscam suas bases no Modernismo e o superam, ao menos em seu intuito objetivo. O Modernismo tinha como ideal, além da antropofagia, a popularização da arte no Brasil. Nessa perspectiva imediata, ele fracassa. Da configuração da semana de arte moderna de 1922 até as publicações e manifestos artísticos, nada é de ampla circulação além do universo burguês. A literatura marginal de 1970, idealizada a partir da semana de 1922 obtém alguma aproximação com o público porque encontra na linguagem um meio de mediação artística. Além de fazer do modo de distribuição um recurso de aproximação relevante. Nos anos 2000, analisadas minunciosamente a semana de 1922 e a aprendizagem da poesia popular da década de 1970, a literatura produzida na periferia refaz o manifesto antropófago, de Oswald de Andrade.
Relevante ícone, agitador cultural e escritor, Sérgio Vaz é conhecido por conceber o primeiro Sarau permanente da periferia. Autor do livro Literatura, pão e poesia, propõe uma Semana de Arte da Periferia nos moldes semelhantes à Semana de Arte Moderna de 1922. Conforme Oswald, Sérgio Vaz elabora um manifesto. Intitulado “Manifesto da Antropofagia Periférica”, o texto de Sérgio Vaz recupera os anseios modernistas no que diz respeito à questão da divulgação e valorização da cultura nacional. No entanto, o trabalho de Vaz está centrado na periferia. O primeiro verso do manifesto expressa essa concepção: “A periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.” O escritor se vale do manifesto antropófago de Oswald de Andrade publicado em 1928, ícone da expressão modernista brasileira. “Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”
A noção de antropofagia é fundamental para a compreensão do movimento modernista brasileiro, uma vez que, a ideia de criação cultural recebe um significado muito diferente do até então explorado naquele momento. Oswald de Andrade ao cunhar o conceito de antropofagia estabelece o canibal como agente, como aquele que transforma a cultura alheia e a ressignifica a partir de suas perspectivas culturais e sociais. Oswald reflete sobre a questão de maneira descontraída em seu manifesto antropofágico: “Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”
No fragmento exposto, o autor modernista reitera com ironia a importância do Brasil no estabelecimento do humanismo europeu do século XVIII, baseado nos princípios da “liberdade, igualdade e fraternidade”, que não se consolidaram. Prova disso é a Primeira Grande Guerra com que se inaugura o século XX na Europa. Sendo assim, propõe a Revolução Caraíba, cujo fundamento é a antropofagia cultural de colonizados e colonizadores. A construção de Sérgio Vaz transforma antropofagia em periferia. O ato de se apropriar de outras manifestações culturais e dar um novo sentido a partir de uma ótica singular, também pode ser concebida sob o viés periférico.
Sérgio Vaz exerce a antropofagia a partir do próprio cenário cultural brasileiro. Se a antropofagia pode ser entendida como uma forma de a arte brasileira se apropriar de elementos culturais hegemônicos, como por exemplo as vanguardas europeias, a periferia, na visão de Sérgio Vaz, também pode se mobilizar no sentido de se apropriar desses elementos eruditos e ressignificá-los. Oswald assinala que a antropofagia é um fator de união social, econômica e filosófica. Sérgio Vaz constrói sua proposta a partir do amor, da dor e da cor. Os três eixos selecionados por Vaz são significativos e ajudam a compreender o conceito de periferia estabelecido por ele. Ao citar dor, o poeta se refere à experiência da violência e da escassez enfrentada pela população mais pobre e consequentemente negligenciada socialmente. Essa parcela, constantemente ignorada é composta por maioria negra, ressaltando assim, outro componente fundamental: a questão racial. Mesmo diante da exclusão social causada pela cor, gerando dor, Vaz cita ainda o amor como componente desse núcleo periferia. O amor pode ser entendido como a solidariedade necessária à sobrevivência. Idealizada a partir do movimento modernista de 1922, a Semana de Arte Moderna da periferia, elaborada em 2007, contou com diversas semelhanças e alusões ao primeiro evento paulista elaborado na primeira metade do século XX. Exposições artísticas, danças, manifestações musicais e folclóricas formaram o repertório da Semana Periférica.
Sérgio Vaz afirma se apropriar da ideia de “Semana de arte moderna” com intuito de dar visibilidade às demandas da periferia. Ou seja, Sérgio Vaz tem consciência da apropriação de um significativo e marcante acontecimento da alta cultural brasileira e o transforma com intuito de subvertê-lo e obter visibilidade, reivindicando assim, atenção para a periferia. No manifesto da antropofagia periférica o escritor assinala:
“Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de uma futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade.”
(VAZ, 2011, p. 27)
O escritor atribui à arte uma função social, capaz de combater injustiças e, essa arte só pode vir da periferia, uma vez que, “A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.” O princípio da autonomia é constante no manifesto de Sérgio Vaz. E, a figura central dessa autonomia é o artista-cidadão. Nesse sentido, é possível perceber a influência de Oswald de Andrade no texto de Sérgio Vaz. Oswald critica o sistema, as injustiças e a previsibilidade dos eventos:
“Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. “
(ANDRADE, Ano I, no I, maio de 1928)
Ao ajustar sua crítica ao pensamento oswaldiano e recriá-lo, Sérgio Vaz não só valida a importância do movimento modernista brasileiro de 1922, como o retoma, atualiza-o aplicando a sua realidade. O discurso de Oswald é então melhorado, porque encontra aplicabilidade. Sérgio Vaz também tece uma crítica relacionada aos meios de produção artística, o pouco incentivo governamental, vaidades de indivíduos relacionados com o meio e a mercantilização da arte: “Miami pra eles? “Me ame pra nós!” Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e os eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e da arte privada” (VAZ, 2011, p. 27).
No manifesto antropofágico de 1922, Oswald de Andrade já mencionava algo muito semelhante a essa crítica ao meio artístico. Ao afirmar ser “contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida (…) contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.” O escritor moderno critica a falta de autonomia e condena a repetição das artes e das culturas europeias sem questioná-las ou adaptá-las ao modo brasileiro. Ele afirma: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” A repetição sem adaptação, afastada dos elementos culturais brasileiros parece estúpido na visão oswaldiana. Em consonância a essa postura, Sérgio Vaz estabelece uma intertextualidade pensada, calculada e adaptada a realidade periférica. Vaz consome todo o texto de Oswald de Andrade e o digere de maneira peculiar, sensível e inteligente:
“A periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala […] contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.”
(VAZ, 2011, p. 28)
De acordo com Sérgio Vaz, a cultura é uma importante solução para o problema da marginalização social da periferia. Oswald também acreditava que a democratização cultural era uma questão importante, já que ele idealizava: “A massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico”. As releituras da produção e ideologia modernista ainda encontram eco nas escritas contemporâneas. Para Ihab Hassan a ficção pós-moderna apenas reativaria, num espírito de subversão cultural e anarquia, a criatividade reflexiva e narcisista do Modernismo. Porém, mais do que reativar, o trabalho de Sérgio Vaz se apropria e a cria a partir de Oswald. Barth, ao tratar da exaustão da literatura, aponta principalmente para a estética do alto modernismo, já superada em sua essência. O autor afirma que a literatura não se esgotará jamais não porque um texto literário em particular seja inesgotável, mas sim por conta de sua significação, que está sujeita, por meio dos leitores, ao tempo, espaço e a linguagem.
Bibliografia Consultada
BARTH, John. The Friday Book. Baltimore, John Hopkins University Press, 1984.
BARTH, John. The Literature of the Replenishment. The Friday Book: Essays and Other Non-Fiction. London: John Hopkins University Press, 1984.
BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1984.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2003.
FERRÉZ (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
HASSAN, Ihab Habib. The Postmodern Turn: Essays in Postmodern Theory and Culture. Columbus: Ohio State University Press, 1987.
HUYSSEN, Andreas. Mapeando o pós-moderno. In: Heloísa Buarque de Hollanda. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
HOLLANDA, Heloísa Buarque. 26 Poetas Hoje – Antologia. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
HOLLANDA, Heloisa Buarque. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde:1960/1970. Rio de Janeiro, Rocco, 1992.
NASCIMENTO, Érica Peçanha do. Vozes marginais na literatura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. (Coleção Tramas Urbanas).
SANTIAGO, Silviano. “Vale quanto pesa. (A ficção brasileira modernista)”. In: Vale quanto pesa. Ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. Rio de Janeiro, Global, 2003.
Bio fornecida pelo palestrante.
Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira
Universidade Federal do ABC (UFABC)
Alessandra Teixeira
Universidade Federal do ABC (UFABC)
Resumo: Este trabalho aborda a literatura produzida no ABC Paulista por meio de uma ótica interseccional. Nesse contexto, são considerados processos históricos e estruturais que marginalizaram determinadas identidades – por fatores de “gênero, raça, classe, ideias e nacionalidade” – no âmbito da autoria literária. Além disso, destaca-se a ressignificação recente que atravessa a literatura dessa região.
Palavras-chave: Marginalidade. Literatura. Gênero. Interseccionalidade.
Abstract: This paper discusses the literature produced in the São Paulo industrial area known as “ABC Paulista” through an intersectional perspective. In this context, it will consider the historical and structural processes that marginalized certain identities – based on factors such as “gender, race, class, nationality and ideas” – in the scope of literary authorship. Furthermore, it will point to the recent resignification that the literature of this region went through.
Keywords: Marginality. Literature. Gender. Intersectionality.
Minicurrículos:
Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira é graduada em Letras (Português/Inglês) pela Faculdade IESA. É especialista em Estudos Linguísticos e Literários pelo Centro Universitário Fundação Santo André, professora e escritora.É mestranda no programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (Linha de pesquisa: Comunicação, Cultura e Dinâmica social) e autora de Identidade e diferença em “Mariângela”: a representação literária da mulher e das formas de exclusão, artigo publicado em: SCOTOLO, Irene (org.). A leitura como ofício (São Paulo: Porto de Ideias, 2015).
Alessandra Teixeira é professora adjunta do Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais e do bacharelado de ciências e humanidades da Universidade Federal do ABC – UFABC. Mestre e doutora em sociologia pela USP. Advogada. É autora do livro Prisões de exceção: política penal e penitenciária no Brasil contemporâneo (São Paulo: Juruá, 2009). É também autora, entre outros, do capítulo Mulheres Encarceradas e o direito à Educação: entre iniquidades e resistências, no livro Educação em prisões (Yamamoto, A. (Org.).
Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira
Universidade Federal do ABC (UFABC)
Alessandra Teixeira
Universidade Federal do ABC (UFABC)
Introdução
Quase sessenta anos após o jornalista Audálio Dantas ter acesso aos diários de Carolina de Jesus, que resultaram na obra ícone da literatura feminina marginal, Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), a questão de uma literatura, duplamente marginal, ou multiplamente marginal, posto que atravessadas por diferentes marcadores sociais da diferença e da marginalidade (raça, gênero, classe), ainda se mantém um campo de escassa reflexão teórica e analítica.
Este artigo propõe uma reflexão sobre tal fenômeno, a literatura marginal, a partir de uma abordagem intersecional, abordagem essa que tem sido inovadora no campo das ciências sociais e bastante profícua para a inteligibilidade de fenômenos como desigualdade, discriminação, violência e os modos de promoção de sua invisibilidade. Para tanto, toma-se como referência empírica o contexto geográfico do ABC paulista e como base identitária a autoria feminina produzida nessa região.
O ABC paulista é uma região de contradições. Ao mesmo tempo em que é marginalizada – inclusive geograficamente – produz marginalidades. A literatura desse local ainda hoje é entendida como marginal em relação ao circuito literário nacional, além disso, a produção de conhecimento sobre o assunto é bastante escassa.
Especificamente com relação à autoria feminina, embora seja um fenômeno ainda mais recente, a criação literária de mulheres já possui uma trajetória de mais de meio século nessa região. No contexto atual, novas vozes sociais têm encontrado nessa forma de representação um veículo para a sua expressão, mesmo que para isso seja necessário ressignificar meios de produção e difusão.
Para tratar do assunto, este artigo é dividido em duas partes. Em primeiro lugar, busca-se apresentar a literatura do ABC paulista como um campo a ser explorado. Com um enfoque especial para a produção de mulheres, essa primeira parte discorre sobre os processos históricos da literatura feminina, tomando como parâmetro o contexto nacional; bem como ressalta as lacunas de conhecimento acerca desse assunto.
Em segundo lugar, direciona-se o enfoque para as marginalizações e intersecções que permeiam tal contexto. Na segunda parte, também é tomado como parâmetro um plano mais abrangente, não somente no que diz respeito à literatura, mas também no que se refere às opressões estruturadas – relativas a gênero, raça e classe – que afetam as relações e a vida social de mulheres em diferentes âmbitos.
Tanto no campo da crítica quanto da historiografia e teoria literárias, não há material produzido especificamente sobre a literatura feminina no ABC Paulista. Nas instituições locais de ensino, iniciativas no sentido de introduzir obras de escritoras locais em seus currículos são raras. Obras “eleitas” pelo cânone por serem “exemplares”– a partir de rigorosos critérios – ainda compõem os currículos educacionais.
Embora nos últimos anos muitos esforços no campo da educação tenham sido realizados no amplo sentido da democratização do acesso ao conhecimento, poucas são as instituições que agregam em seu currículo obras da literatura contemporânea, especialmente aquela produzida no entorno de tais instituições.
Um dos sintomas desse distanciamento entre a literatura produzida na região do ABC e o currículo das instituições de ensino, tanto da educação básica quanto do ensino superior, é a escassez de pesquisas sobre o assunto. Trata-se de um tema que raramente permeia as discussões acadêmicas locais.
Alves (2009, p. 8), ao se referir à produção cultural abecedana, alerta para a necessidade de levantamento, organização, sistematização de dados e produção de conhecimento sobre produtos culturais dessa região. Segundo o autor, seria necessário que o Consórcio Intermunicipal – instituição que congrega políticas de desenvolvimento para os sete municípios – e as universidades da região liderassem “um movimento pela recuperação, estabelecimento crítico, sistematização catalográfica e ampliação consorcial do acervo gráfico que compreenda e explique o ABC”.
A literatura seria uma das facetas dessa produção cultural e por isso se torna imprescindível reconhecê-la como um fenômeno inserido num campo de conhecimento que merece ser explorado e cujas informações devem ser popularizadas.
Veras (2000 p. 21) critica o distanciamento entre as universidades locais e a literatura produzida na região. Para ela, em boa parte dos cursos de Letras, as discussões sobre a literatura brasileira se estendem no máximo ao modernismo, como se nada de novo tivesse sido produzido nos últimos anos “em matéria de literatura”. Dalila Veras é uma escritora da região, que desde os anos de 1980, juntamente com outras autoras e autores locais, empenha-se em realizar tal aproximação.
Alguns registros literários, memorialísticos e historiográficos revelam que o ABC conta com uma tradição literária que já remonta pelo menos um século de história. O marco fundador dessa tradição surge com o primeiro veículo de imprensa da cidade. Os poemas Chromo, de Vidal Pessoa e A fábrica de Damasceno Vieira, publicados no jornal O Monitor, no ano de 1904, inauguram a literatura local.
Sobre o poema de Vieira, vale ressaltar que cria uma identidade romantizada do operário, numa região em que a industrialização começa a se instalar e se expandir para fixar um dos maiores polos industriais do país. Segundo Melo (2000), o que Vieira não poderia prever é que no ABC – incluindo Santo André – o operário, distante de qualquer romantização, adquiriria tamanha relevância; tampouco que a ação operária local promoveria lutas políticas que marcaram a história do Brasil.
Os primeiros registros da participação feminina na literatura da região estão datados no início dos anos de 1950 e, desde então, uma profusa participação de mulheres pode ser observada. Neste período, destaca-se a escritora, tradutora e professora, fundadora da primeira biblioteca municipal de Santo André, Nair Lacerda (MELO, 2000).
Outra autora que vale mencionar, em vista do seu engajamento, é Léa Aparecida que, além de poeta, foi operária metalúrgica e vereadora pelo Partido dos Trabalhadores, no município de Mauá, em meados da década de 1980. Diretamente vinculada à militância política, Léa desapareceu tragicamente no ano de 1988. Acerca de sua poética, Veras (2000, p. 15) pontua que assumia a faceta do engajamento, sem, contudo, constituir-se como “panfletária”:
Não foi a condição operária que fez de Léa uma poeta, mas lhe deu material para sua obra, onde o vivenciado sempre dominou. Para exemplificar, comparemos um trecho do poema “A Fábrica”, de Damasceno Vieira, publicado no jornal O Monitor, S. Bernardo, 1904, onde o operário é romanticamente idealizado: “Sem temer as ruidosíssimas provanças/ nem as fadigas da tarefa intensa,/ homens, mulheres e gentis creanças/ sorriem, cantam de alegria immensa!”, com o poema de mesmo nome de Léa Aparecida, onde a fábrica é vista por dentro: “Fundem-se metais desiguais/ Na fuligem a ferrugem que fica/ Em focos de tempo corrido/ (…) Em cada pancada nas prensas/ A pressão dos sentidos (…) Até que plange um apito/ Na tarde dos cansados e oprimidos (op. cit.).
Há pelo menos trinta anos a historiografia literária feminista tem se ocupado de resgatar os escritos que a tradição canônica deixou de lado; em vista de seus rigorosos critérios estéticos que operavam (e ainda operam) a inclusão ou exclusão de autores e autoras no circuito nacional. Entre outras coisas, os estudos dessa área discutem as relações de poder e dominação que promoveram o apagamento da identidade de escritoras ao longo do curso histórico da literatura brasileira (SCHMIDT, 2008, p. 127).
Com isso, surge uma nova visão sobre a literatura que, antes entendida como objeto artístico/estético, passa a ser compreendida como objeto estético/escritural. Essa segunda definição a inscreve como “matéria significante situada no domínio da cultura”, na qual se identificam a expressividade e a coletividade (op. cit.).
Segundo Hollanda (1991, p. 4) o cânone é orientado por um “mito da linearidade da história literária” que produz a ideia de uma tradição que é “única e ininterrupta”, aquilo que não se adequa à lógica dessa tradição é lançado à margem, por razões que não raro são relacionadas a fatores de “sexo, raça, ideias ou nacionalidade”. Além disso, reflete que a tradição criou uma linhagem patrilinear que tem por base “os sistemas da propriedade privada”. Somente os filhos dessa linhagem seriam os “herdeiros legítimos de um patrimônio material, político e cultural” (Op. cit., p. 4).
Entende-se que a instituição de uma identidade universal para o crítico e para o escritor – homem branco, classe média, erudito – além do rigor dos critérios para considerar o valor literário da obra, serviram para que, durante longo tempo, as identidades de determinados sujeitos fossem absorvidas, suas vozes, silenciadas, e sua participação e contribuição para a história da literatura, ignoradas.
A literatura no município de Santo André – enquanto parte representante da literatura no ABC – surge nos mesmos moldes, cultivada no interior das famílias mais abastadas, transmitida sob o mérito da filiação e da herança, difundida pelos veículos de imprensa pertencentes a famílias deste mesmo círculo. Porém, o cenário literário da região é praticamente ignorado nas esferas local e nacional.
Para Veras (2000, p. 9), boa parte da comunidade local desconhece a identidade dos seus escritores. Ela sugere, desde a década de 1990, que “um trabalho de incentivo à leitura desses autores também seria desejável”.
Ao longo da história da literatura andreense, por exemplo, alguns esforços no sentido de atrair olhares para a literatura local não tiveram êxito. Foi o caso dos concursos literários produzidos pela Casa da Palavra, também localizada em Santo André, na década de 1990, em que a maioria dos escritores premiados eram da capital (MELO, 2000).
Outra questão a ser observada é o fato de haver pouca informação sobre as produções literárias para além do município de Santo André. Isso mostra a falta de articulação de entre as políticas públicas de cultura dos municípios, os seus artistas e pesquisadores locais. Especialmente no que se refere ao franqueamento de amplo acesso, fomento à produção, registro e à difusão dos fazeres culturais.
Apesar disso, o cenário atual esboça algumas mudanças. Hoje é mais comum o encontro com/entre escritores e escritoras da região pertencentes aos mais diferentes contextos sociais e econômicos. A ainda embrionária descentralização de atividades como saraus, rodas de conversa e oficinas para os bairros e regiões periféricas têm colocado a população em contato com a literatura produzida no ABC, além de estimular essa mesma população a produzi-la. Nessa dinâmica, as redes sociais são uma ferramenta útil para a difusão de tais atividades, bem como para a divulgação pessoal de escritoras, escritores e suas obras.
Apesar de toda a problemática que envolve a literatura produzida no ABC, observa-se o surgimento de novas vozes sociais e a ressignificação das formas de produção. Os restritos clubes e grupos que marcaram a sua trajetória histórica hoje dividem, literalmente, espaço com coletivos que atuam de forma descentralizada e com a proposta de abarcar múltiplas identidades. Esses também buscam por novas formas de produção e difusão de escritos, inclusive com a retomada de gêneros usuais, como os fanzines e as revistas literárias, essas últimas em formatos impressos e digitais.
“Na nossa fantasia perversa aceitamos que o pobre sonhe com um Nike,
mas não com um Flaubert”
Heloísa Buarque de Hollanda (parafraseando Ferréz)
Para Hollanda (s/d, p. 1) a atuação periférica, no que tange às expressões artísticas, apresenta-se como “a grande novidade” deste século, como forma de resposta ao aumento da intolerância racial e das altas taxas de desemprego; comuns aos países de economia globalizada.
Embora a tradição tenha produzido apagamentos ao longo da história da literatura, faz parte de suas recorrências temáticas as desigualdades sociais e demais mazelas que permeiam o Brasil. O engajamento de cariz social marcou expressivamente as gerações modernistas e tem sido retomado com força na literatura contemporânea, com algumas diferenças, já que os seus atores são outros.
Para Hollanda (s/d, p. 5) novas vozes sociais surgem e, juntamente com essas, uma “democratização de perspectivas”. Obras literárias de relevância tem como autores sujeitos das regiões periféricas, o que modifica também o “desenho” das personagens que se tornam mais verossímeis em relação ao contexto social no qual estão inseridas. Algo que se observa desde Carolina Maria de Jesus, mas que somente se ampliou com os avanços sociais pelos quais passou o Brasil neste início de século.
É dentro desse contexto de mudanças, interseccionado por diversos fatores, que se insere a literatura de autoria feminina produzida no ABC Paulista. Apesar dos processos históricos pelos quais já passou, essa literatura ainda se encontra à margem do circuito nacional. Ao mesmo tempo, somente nos últimos anos, escritores e escritoras de locais mais periféricos têm conquistado espaço nos círculos literários da região; quando não “criam” novos espaços em que possam circular.
Não é novidade a utilização de uma ótica interseccional em estudos que têm como objeto o fenômeno da literatura feminina. Ao analisar a construção do espaço urbano pela perspectiva de autoras negras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, Dalcastagné (2015, p. 299) pontua que o lugar da mulher negra num país como o Brasil assinala um espaço de interseccionalidade. Já que essa ocupa a base da pirâmide social do país, exercendo a maioria das funções subalternas e recebendo, portanto, a menor remuneração para o desempenho de suas atividades profissionais (op. cit., 299).
A noção de interseccionalidade – conforme cunhada pela advogada americana Kimberlé Cremshaw – surge com o objetivo de promover melhor compreensão sobre a existência de diferentes discriminações que operam juntas na vida social e cultural de mulheres. É importante ressaltar que esse debate se insere no campo de estudos sobre identidade.
Cremshaw (1993, p. 1282) justifica que na cultura norte-americana (assim como na cultura brasileira), a desvalorização da mulher negra está relacionada, além de ao machismo e ao racismo, à construção de sua imagem nas formas de representação. Este fato promove a vulnerabilidade de mulheres, expondo-as a diversos tipos de violências, entre as quais o espancamento e o estupro. Isso quer dizer que as categorias já mencionadas se entrecruzam nos mais diferentes contextos e situações, incidindo diretamente sobre a realidade de mulheres.
A intersecção entre gênero e raça é fruto de processos históricos já avançados. Stepan (1994) realiza uma considerável contextualização sobre esse assunto em seu ensaio Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. A autora discute como, por meio de analogias e metáforas, a ciência encontrou justificativas para “racializar” o gênero e as etnias de povos não ocidentais em determinado momento da história. Ao serem consideradas pela ciência como análogas aos “macacos”, as “raças inferiores” e “mulheres” foram destituídas de sua humanidade e consequentemente de seus direitos básicos.
Retomando as considerações de Cremshaw, observa-se que ainda hoje a clássica definição de direitos humanos, baseada na noção de universalismo, não reconhece as especificidades dos indivíduos e grupos sociais e culturais. Ou seja, a concepção universalista de direitos humanos e seu arcabouço jurídico, ao não conceberem as diferenças de indivíduos e grupos sociais enquanto fatores historicamente geradores de opressão, contribui para a invisibilidade das situações de desigualdade, discriminação e violência. Para ela, uma visão tradicionalista faz que os problemas de gênero digam respeito somente às mulheres, os de raça, somente às minorias étnicas, os de classe, aos indivíduos de baixa renda.
Em suas proposições, compreende-se que ao adotar uma perspectiva interseccional, o (a) pesquisador (a) não precisa lidar com grupos distintos de pessoas, mas com grupos “sobrepostos”. Isso porque não apenas os fatores de opressão se entrecruzam, mas também os indivíduos em suas relações sociais. Porém, ela é enfática quanto ao fato de a mulher negra ocupar a base dessa sobreposição de opressões, de forma que tal aspecto deve ser primordialmente ressaltado (CREMSHAW, 2002, pp. 9-10).
Não se pode defender, no entanto, que pelo fato de a literatura no ABC ser considerada marginal em relação ao contexto nacional, todos (as) os (as) escritores (as) atuantes nessa região sejam necessariamente pobres, negros (as), moradores (as) dos subúrbios. As diferenças de classe, de raça e de gênero também se fazem presentes em suas dinâmicas social e cultural.
Trata-se de uma região marginal, à medida em que não dispõe de políticas culturais, com exceção de algumas cidades, sequer semelhantes àquelas implementadas nas grandes capitais; bem como por se situar – geograficamente falando – à margem da capital paulista. Por outro lado, também marginaliza, à medida que em os seus municípios centralizam as políticas de cultura, restringindo-as ao acesso de uma parcela reduzida da população.
Ao se voltar essa perspectiva interseccional para a questão da literatura produzida no ABC Paulista, surgem algumas interrogações:
Dentre as escritoras do ABC há mais moradoras dos centros ou das periferias? Há mais brancas ou mais negras? O acesso aos bens culturais – em que se investiga, produz e difunde a literatura – é equânime a estas mulheres independentemente de sua cor, classe, nível de escolaridade e articulação no meio cultural? Como os fatores de gênero, raça e classe se entrecruzam no contexto em que ocorrem a produção e a difusão dos seus escritos?
Em primeiro lugar, respostas que atendam a tais perguntas requerem uma investigação qualitativa aprofundada sobre o fenômeno da literatura feminina no ABC e suas recorrências. Em segundo, o que se pode afirmar é que a região não está fora do contexto brasileiro, em que as vivências de mulheres ainda são pautadas por papéis de gênero, bem como afetadas por fatores de raça, classe, entre outros que podem acentuar a sua condição desigual na sociedade.
Também é fato que a literatura local tem sido marcada pela diversidade e pela ressignificação dos meios de produção cultural. Os saraus periféricos surgem como alternativas aos eventos centralizados que não atendem amplamente as demandas por cultura. Identidades distintas daquelas comumente esperadas para o escritor ou a escritora também têm se destacado.
É o caso da escritora Ana Paula Costa e Silva, ex-coletora de material reciclável e moradora da cidade de Mauá. A autora ganhou a atenção de um jornal local no início de 2015 por reunir, encadernar artesanalmente e vender seus poemas nas ruas da cidade. No final do mesmo ano, após ter conquistado uma recolocação profissional e certa atenção pública, a sua antologia de poemas passou por uma nova edição, sendo transformada em livro.
Considerações Finais
Para compreender minimamente o ABC Paulista é necessária a atenção a diferentes fatores. Não há como pensar um local que é plural, onde se situam migrantes e imigrantes em busca de oportunidades ou moradia, além de pessoas de diferentes gêneros, orientações sexuais, raças e condições sociais por uma ótica estanque. A história da literatura no ABC, mesmo que de forma desproporcional – entre os mais remediados e os mais periféricos/marginalizados – destaca-se como uma trajetória que tem sido construída por atores distintos.
Num momento como o atual, em que tais diferenças confluem de forma mais nítida na literatura dessa região, a produção de registros, reflexões e discussões sobre o assunto são imprescindíveis, tanto no que diz respeito à produção de conhecimento quanto com relação à necessária aproximação entre pesquisadores locais e fazeres culturais. É papel da academia e da intelectualidade do ABC valorizar a literatura local, reconhecendo a sua importância enquanto expressão da diversidade cultural dessa região e, principalmente, como instrumento de transformação social.
Referências
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COSTA E SILVA, Ana Paula. Jornal ABCD Maior. Disponível em: <http://goo.gl/waFRU6>. Acesso: 10/08/2016.
CREMSHAW, Kimberle. A Interseccionalidade na discriminação de raça e gênero. Revista Estudos Feministas, 2002. Disponível em: <http://goo.gl/cdJ6JU>. Acesso: 15/06/2016.
CREMSHAW, Kimberle. Maping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Colour. Stanford Law Rewiew, 1993.
DALCASTAGNÈ, Regina. Para não ser trapo no mundo: as mulheres negras e a cidade na narrativa brasileira contemporânea. Revista Estudos de Literatura Brasileira contemporânea, n.44. Brasília, julho/dezembro de 2014, pp. 289-302-637. <http://goo.gl/KRernP>. Acesso: 10/07/2016.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Literatura Marginal. (S/d). Disponível em: <http://goo.gl/uHZo2n>. Acesso: 11/09/2016.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil. Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La critica literaria em Latinoamerica”, Ibero-Amerikaniches institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991. Disponível em: <http://goo.gl/7b4dd7>. Acesso: 05/05/2016.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. Ed. Ática. São Paulo, 2014.
MELO, Tarso M. de. História da literatura em Santo André: um ensaio através do tempo. Edição fomentada pelo fundo de cultura do município de Santo André. Santo André, 2000.
SCHMIDT, Rita Terezinha. Centro e margens: notas sobre a historiografia literária. Estudos de Literatura. Brasileira Contemporânea, nº. 32. Brasília, julho-dezembro de 2008, pp. 127-141. Disponível em: <http://goo.gl/g5Oe0a>. Acesso: 15/07/2016.
STEPAN, Nancy Leys. Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Ed. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.
VERAS, Dalila Teles. As artes do ofício: um olhar sobre o ABC. Ed. Alpharrabio. Santo André, 2000.
Jornal ABCD Maior. Disponível em: <http://goo.gl/waFRU6>. Acesso: 10/08/2016.
Bio fornecida pelo palestrante.
Michele Soares Santos
Universidade do Estado da Bahia
Andre Heloy Avila
Universidade do Estado da Bahia
Resumo: Este artigo é um dos resultados do subprojeto de Iniciação Científica Estar no mundo sem ser mundanas”: mulheres pentecostais da Assembleia de Deus, desenvolvido como projeto de iniciação científica. Seu objetivo principal foi identificar os preceitos que a doutrina da Igreja Assembleia de Deus vem estabelecendo, desde sua fundação, para definir o “papel da mulher assembleana, na família e na sociedade”. Em busca do que esta instituição determina como “usos e costumes” adequados às fiéis, recorremos à literatura produzida pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), e, especificamente, às revistas: Lições bíblicas – jovens e adultos. Na análise da literatura religiosa da pesquisa, observamos os elementos doutrinários de persuasão e argumentação que a igreja utiliza para que as fiéis respeitem e sigam o que esta prega como sendo o “papel da mulher”.
Palavras-chave: Assembleia de Deus; “usos e costumes”; gênero.
Abstract: This article represents part of the results obtained by the undergraduate project of ‘Scientific Initiation,’ which was titled Being in the World without being ‘Worldly’: Pentecostal Women in the Assembly of God church. Its main aim was to identify the precepts of the doctrine, since the foundation of this church, while defining the “role of the Assembly woman, in family and society.” We tried to find out what this institution determines as “uses and customs” considered fit to the behavior of the female believers. Therefore, we turned to the literature produced by the Assemblies of God Publishing house (CPAD), specifically the magazine Biblical Lessons – Young and Old. We observed then the doctrinal, persuasive and argumentative elements that this church employs to make its female followers to perform the so called “woman’s role.”
Keywords: Assembly of God church; “uses and customs”; gender.
Minicurrículo: Michele Soares Santos é graduada em História pela Universidade do Estado da Bahia – campus XVIII. Participou do grupo de estudos Cinema e história, no campus XVIII. Foi bolsista de iniciação científica pela PICIN (Programa de Iniciação Científica-UNEB) no projeto de pesquisa: A igreja Assembleia de Deus em Eunápolis: aspectos históricos e das significações de gênero do discurso dirigido às fiéis. Já foi bolsista pela FAPESB (Fundação de Amparo da Pesquisa do Estado da Bahia) atuando no projeto de Pesquisa O cineasta em busca da Brasilidade Perdida: o cinema, os literatos e as representações do cangaço, em continuidade do projeto intitulado História e cinema: o sertão, o cangaceiro e o beato no cinema brasileiro (1950 -1970).
Minicurrículo: André Heloy Avila possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1996), mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (2000) e doutorado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2010). É professor Adjunto da Universidade do Estado da Bahia. Tem experiência na área de Psicologia da Educação, com ênfase em Formação de Educadores e temas relacionados.
CONSTRUÇÃO DO IDEAL FEMININO
NA ASSEMBLEIA DE DEUS
Michele Soares Santos
Universidade do Estado da Bahia
Andre Heloy Avila
Universidade do Estado da Bahia
“Mulher virtuosa quem a achará?”
De acordo com Silva (2003), a Assembleia de Deus (A.D.) é uma das denominações que mais cresce em quantidade numérica de fiéis e em expansão territorial. No Brasil, Alencar (2010) ressalta que o seu crescimento aconteceu de forma desordenada e impressionante, e informa que sua história teve início na década de 1910, quando os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg chegaram à Belém do Pará e instalaram-se no porão de um templo da Igreja Evangélica Batista. Em 1911, os suecos foram expulsos desta denominação, acusados de persuadir os fiéis com as doutrinas pentecostais. Nesse mesmo ano, acompanhados de outros batistas, adeptos do pentecostalismo, iniciaram os primeiros cultos, então realizados em residências, na cidade de Belém do Pará. Logo, as práticas desta nova Igreja, ainda sem nome, atraíram novos fiéis, possibilitando arrecadar fundos e incentivar a sistematização destas práticas.
Com o aumento de fiéis e o interesse da população pela doutrina pentecostal, em 1911, foi construído o primeiro templo desta Igreja, que só foi registrado oficialmente como Assembleia de Deus, em 1918. Em pouco tempo, esta ‘nova’ religião expandiu-se de modo impressionante, em 1920, já se encontrava presente em vários estados do Nordeste, Norte e Sudeste do país. Alencar (2010) atribui o crescimento da A.D. à prática intensa do proselitismo pelos fiéis e a à proposta de participação na realização do culto e consequente proximidade a Deus, sendo esta a característica inicial de sua expansão, no Brasil.
A consolidação da denominação também deve créditos à criação, em 1940, da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) responsável pela publicação de jornais, revistas, entre outras produções que se tornaram eficazes em divulgar as diretrizes da Igreja e alcançaram grande influência na formação espiritual, moral e cultural das famílias que fazem parte da Assembleia de Deus. Desde então, é a partir de publicações como a revista dominical Lições Bíblicas que os representantes religiosos estabelecem valores e padrões que, seguidos, produzem um modo específico dos assembleanos/assembleanas demarcarem sua diferença perante as outras Igrejas.
Ciente do rigor assembleano no que se refere à vestimenta e ao comportamento, sabendo do papel destas publicações em relação a estes aspectos e à expansão da Igreja, em todo o Brasil, conduzimos a elaboração e realização do projeto de Iniciação Científica intitulado: A Igreja Assembleia de Deus em Eunápolis: história e algumas significações de gênero do discurso dirigido às fiéis.
A realização desse projeto de Iniciação Científica (de graduação) objetivou identificar as regras comportamentais e argumentações morais ditadas pela Igreja Assembleia de Deus, em suas publicações, para tal, constituímos um acervo digital com 32 exemplares da revista Lições Bíblicas Mestre e cento e quatorze (114) Aluno, compreendendo um total 197, correspondentes ao período de 1970 a 2014. Esse material do corpus da pesquisa está disponível a interessados sobre o tema, no laboratório do curso de História do campus XVIII da UNEB.
Esta pesquisa envolve estudos na área de gênero e na de religiosidade, tomados aqui na perspectiva histórica e da produção sociocultural de subjetividades.
A igreja Assembleia de Deus enfatiza a bíblia como livro principal e o relacionamento do fiel com o sagrado. A doutrina que a distingue das Igrejas Protestantes históricas diz respeito à crença no batismo com Espírito Santo, manifestação esta que tem como fundamentação bíblica o Novo Testamento (NT). De acordo com Cesar e Shaull (1999), essa experiência religiosa é resultado de cinco estágios considerados essenciais: conversão, fé, obediência às doutrinas e “usos e costumes” da Igreja, renúncia total e oração. A fé da segunda vinda de Jesus à Terra e a obediência à doutrina levam à salvação eterna, a uma vida sem dor, sofrimento e enfermidades.
O batismo com o Espírito Santo é considerado uma conquista individual, adquirida através do relacionamento pessoal do fiel com Deus. Resulta em “manifestações sobrenaturais” e é tida como uma benção. Igrejas adeptas ao fenômeno defendem-no como uma presença total do Espírito Santo nas vidas das pessoas. Conforme Brandt (2005), a doutrina defende que há dons espirituais concedidos por Deus ao fiel, por exemplo, o “falar em línguas”, o dom de cura e o de profecia, significando poder declarar às demais pessoas, a vontade divina. Os que têm esse dom são capazes de interpretar os propósitos de Deus e transmiti-los nas igrejas. O dom de cura é a capacidade de realizar curas milagrosas, desde a uma simples doença a uma mais grave. Segundo Gutiérrez e Campos (1996), o falar em línguas, ou a glossolalia, significa que a pessoa foi batizada e pode desenvolver uma variedade de dons espirituais. Os fundamentos e alicerces seriam encontrados nos textos bíblicos, a partir de uma nova perspectiva cristã, o pentecostalismo.
E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem (Atos 2:1-4).
O dom de falar em línguas é a expressão externa da presença de Deus na vida do crente, esse dom é para edificação pessoal do fiel com Deus. Através da glossolalia ele/ela se comunica com o divino. O dom de interpretação de línguas é quando a pessoa interpreta as línguas faladas por alguém e comunica a mensagem do falante a todos os outros, para que possam entender. Esses são alguns dos dons, existem muitos outros, os quais contribuíram para o crescimento e presença da A.D. no país.
O movimento pentecostal teve início nos Estados Unidos da América do Norte, na cidade de Chicago, em 1901, através da Escola Bíblica Betel, fundada por Charles Fox Parham (1873-1929), que elaborou uma definição teológica do pentecostalismo através dos ensinamentos do livro bíblico Atos dos Apóstolos, como se pode identificar na citação acima. Foi em Los Angeles que Gunnar Vingren e Daniel Berg, os religiosos que incitaram o início da A.D. em Belém do Pará, tiveram contato com o pentecostalismo.
Foi nos EUA que (eles) se conheceram e tomaram contato com a doutrina pentecostal, que tomou grande impulso nesta época em consequência dos movimentos liderados por Charles Parham (em Chicago) e Wiliam J. Seymour (em Los Angeles). Impulsionados por tal doutrina e movidos pelo desejo missionário, Berg e Vingren seguem para o Brasil (FAJARDO, 2012, p. 5).
Os suecos desembarcaram em novembro de 1910 na capital Belém do Pará e se hospedaram num espaço cedido pelo pastor de um templo Batista. Quando chegaram ao país não eram os únicos adeptos ao movimento, já existia em 1910 uma igreja pentecostal, a Congregação Cristã do Brasil (CCB). A Assembleia de Deus foi a segunda a adotar a vertente pentecostal criada no país, a partir dela, o pentecostalismo cresceu de forma impressionante.
Conforme Maxwell Fajardo (2012), o contexto em que Igrejas como A.D., se instalaram, foi propício para a sua expansão, o regime republicano brasileiro desfavorecia os pobres. Regiões como Norte e Nordeste sofriam com o abandono dos governantes, opressão do coronelismo e a seca, diante de tais fatores, o pentecostalismo encontrou um campo fértil para conquistar fiéis, principalmente por seus cultos e templos parecerem mais próximos da realidade da sociedade carente.
O pentecostalismo com suas bases na experiência pessoal e no poder do Espírito Santo, dá a oportunidade aos pobres e excluídos de experimentarem uma vivência mais próxima do sagrado, de certa forma dando ás pessoas a chance de alívio e trazendo uma perspectiva de um sentimento de alívio da pobreza e uma possibilidade de evoluir, assim como uma esperança de uma realidade nova, dando às pessoas uma nova motivação para serem felizes (FAJARDO, 2012, p. 58).
A Assembleia de Deus, Igreja pentecostal, pareceu corresponder mais diretamente à necessidade da população ao enfatizar o relacionamento direto dos fiéis com Deus, ao transmitir uma oportunidade de ter uma experiência com Deus através do batismo no Espírito Santo, ao não cobrar dos mesmos, formação teológica para a realização de certos rituais, como a prática do proselitismo. A oportunidade de anunciar a sua fé, de contar a sua benção, de se expressar no próprio culto, criou nos fiéis um sentimento de pertencimento que, afirma Alencar (2010), colaborou para o rápido crescimento da Assembleia de Deus.
2.1. Assembleia de Deus e as relações de gênero na revista Lições Bíblicas
A igreja pentecostal Assembleia de Deus é conhecida pelo rigor no comportamento e na indumentária dos fiéis. A referida denominação tradicionalmente adota e defende determinados “usos e costumes”, que são colocados como mais fidedignos aos ensinamentos bíblicos e teriam como objetivo conduzir a uma vida regida por uma moral cristã.
Aqui os usos e costumes podem ser vistos como visão de mundo que certamente são utilizados pelos pentecostais para se referir ao rigor legalista, as restrições ao vestuário, uso de bijuterias, produtos de beleza, corte de cabelo e a diversos tabus comportamentais existentes em seu meio religioso (SILVA, 2003, p. 33).
A igreja passou a adotar normas de condutas conhecidas como “usos e costumes” que “enquadram” os fiéis no que a Igreja dita como certo ou errado. Inicialmente, foram criadas proibições quanto ao trajar e aos comportamentos; condenando especialmente qualquer “vaidade” feminina, roupas justas, curtas, de regata, maquiagens, bijuterias, cabelos curtos, sobrancelhas desenhadas, esmaltes, entre outros. Prescreveu-se também aos homens evitar cabelos longos, bermudas, camisetas e a barba crescida. Para além da aparência certa, a doutrina recomendava não frequentar espetáculos “mundanos” e cinema, não assistir TV ou acessar a internet. De modo geral, pregava/prega contra a pornografia, o sexo antes do casamento, palavrões, entre outros. Os líderes da Igreja acompanhando a sociedade contemporânea, vão estabelecendo como os fieis devem se comportar dadas as “novidades” tecnológicas, legais, culturais etc., e, como se pode ver pelo exemplo da internet, a doutrina e as práticas da A.D. também se adaptam ao que não pode vencer.
Na década de 1990, com a criação do Projeto Década da Colheita, os “usos e costumes” passaram por algumas alterações. Divergências interpretativas da Bíblia entre as lideranças consideradas liberais e conservadores causavam transtornos, o clima de tensão e o objetivo do projeto Década da Colheita mostrava-se distante, efeito causado pelo rigor desta Igreja, que consequentemente contribuía para a saída de membros, “migrando” para outras denominações que apresentassem maleabilidade quanto ao trajar, uso de adereços e acesso aos meios de comunicação. Diante das circunstâncias, lideranças chegaram a um consenso e alteraram algumas restrições doutrinárias.
No que se refere às mulheres, o trajar refletindo decoro, decência e o não uso de trajes masculinos continuou sendo cobrado. (…) A proibição para alteração das sobrancelhas foi uma norma extinta. E a permissão do uso de maquiagens e pinturas por parte das mulheres passou a ser introduzida, desde que sem exageros. Outro aspecto desse abrandamento doutrinário está na permissão do corte de cabelo por parte das mulheres (OLIVEIRA, 2014, p. 57).
As modificações foram realizadas de forma a não desagradar líderes liberais e conservadores, com cuidado para não se perder o perfil assembleano, exigência principal dos pastores mais tradicionais. As práticas sociais e a maneira de se trajar deveriam continuar demarcando a diferença dos membros da Assembleia de Deus, dos que não o são. O fim de algumas restrições significou uma maleabilidade feminina quanto ao uso de certos itens, o que veio acompanhado da reafirmação da necessidade de recato, pois, como mostraremos, os assuntos relacionados ao comportamento feminino são constantes alvos das revistas dominicais Lições Bíblicas.
Nos templos, realiza-se a escola dominical que, reunindo os membros para estudarem textos bíblicos das publicações da CPAD, cumpre função primordial na Assembleia de Deus, por ser momento de doutrinação e a partir do qual cada membro pode realizar o proselitismo (Ferreira, 2009). Portanto, as revistas produzidas pela CPAD, constituem instrumento na afirmação doutrinária da Assembleia de Deus para leitores e leitoras, sejam estes estudantes na escola dominical, pastores e membros recentes. Ainda segundo este autor, as revistas contribuíram significativamente para o crescimento e consolidação da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus.
As revistas utilizadas na Escola Bíblica Dominical, Lições Bíblicas, merecem destaque já que, depois da Bíblia, esta é a literatura mais usada pelo grupo, dado o seu caráter doutrinário. Nelas se encontram citações bíblicas referentes à temática de cada lição semanal, para cada dia da semana, sendo que, no domingo, o assunto é debatido em classes diferenciadas por gênero e/ou faixa etária (senhoras, senhores, crianças, adolescentes e jovens). Vale ressaltar que a revista Lições Bíblicas é voltada para os jovens e adultos já que para as crianças e os adolescentes são utilizadas outras revistas (FERREIRA, 2009, p. 17).
A Bíblia orienta também quanto ao modo de vestir do povo salvo. Ela não estabelece um vestuário “uniforme” para os crentes. Cada um pode vestir-se conforme seu gosto e suas posses. Porém, a Bíblia diz que seja com bom senso. Isto quer dizer que os vestidos não devem ser decotados; que as saias devem ser decentes sob todos os aspectos, para servir de bom testemunho cristão. O homem também deve se vestir de um modo digno do evangelho. O crente renovado, seja mulher ou homem que quer agradar o Senhor (Rm 14.18) não aceita a orientação do espírito do mundo quanto à moda. O mundo não tem direito de determinar o modo de trajar do crente. O crente ama a Deus e esse seu amor ele expressa pela obediência à sua Palavra (Jo 14.15, 21, 23) (CPAD, 3º trimestre, 1984, p. 55).
Aqui vemos que as restrições às mulheres ultrapassam as dos homens, para elas são definidas vestes adequadas, que não destacam as formas do corpo. Para os líderes da A.D., a exaltação do corpo incita ao pecado, uma vez que não é preciso consumar o ato sexual, pois desejar ou fantasiar já seria considerado desviar-se. Neste sentido, as publicações mais recentes mostram que não houve muita renovação assim da doutrina, pois a mulher continua sendo considerada como a maior perturbadora da ordem da Igreja, mais vulnerável a desrespeitar ou causar o desrespeito à palavra de Deus. Por exemplo, entre outros, há um longo texto das Lições Bíblicas de 2001, que incorpora como referência trechos bíblicos enaltecedores de valores espirituais femininos.
O texto em apreço torna claro que a real e duradora beleza da mulher brota do seu interior, de onde emana todo o bem, desde que o Espirito habite lá (Rm 8.9): É evidente que a beleza interior da mulher, uma vez que o ser humano é um todo. Não devemos esquecer que a santidade é o fator determinante do equilíbrio do exterior. A verdadeira beleza da mulher não depende de enfeites, adereços ou exibição, mas do atavio de um espírito manso e tranquilo (CPAD, 4º trimestre, 2001, p. 28).
Apesar de não haver uma proibição explícita ao uso de maquiagens, enfeites e adereços, a exaltação dos valores espirituais: a beleza da mulher como natural é evidente nas revistas. Como de praxe, as justificativas para tal fazem referências à bíblia, citando trechos de capítulos e versículos, como de João (Jo 14:15, 21.23), para legitimar o que é pregado para os fiéis. Versículos bíblicos estão citados em todas as páginas de todos os números das Lições Bíblicas, sendo a bíblia inquestionável, referencia-lo nas revistas bíblicas significa provar uma verdade estabelecida. É assim que se determinam as roupas masculinas e femininas, o tamanho do cabelo, os comportamentos, a submissão da mulher ao homem e que se elege um modelo ideal feminino, como o descrito abaixo:
Ao contrário da virtuosa, a vil é desprovida das virtudes. A formosura da mulher virtuosa é de natureza ética; a da vil é de caráter meramente estético. A mulher virtuosa prioriza os valores interiores e faz de Deus a fonte de tudo o quanto ela é e representa. Por isso, a mulher virtuosa é tida por honrada! (CPAD, 4º trimestre, 2013, p. 56).
Publicado em 2013, este trecho traz um perfil feminino construído pela Assembleia de Deus que é constantemente cobrado, nas escolas dominicais e nos cultos; sendo o mesmo vigiado pelos/as próprios/as fiéis, que observam o comportamento e aparência das mulheres, principalmente das mais jovens; pois seu vestir e comportar deve refletir a virtuosidade da mulher cristã. Conforme Ricardo Gondim (1998), o uso do termo vaidade é incorporado pelos líderes da denominação apenas pejorativamente, associado ao “pecado” e aos perigos de a mulher se sentir bonita, e com isto, causar o desejo no homem. Contudo, o alerta sobre a frivolidade das preocupações estéticas, apresenta outra face: ter o cuidado de manter um estilo sóbrio, simples, mas alinhado e asseado, não só evitaria o risco da vaidade para a própria fiel e a “tentação”, também ajuda a manter cada qual (assembleanos/fiéis; autoridades/leigos; homens/mulheres;) em seu lugar/posição. Posição que a Casa Publicadora da A.D. defende desde sua criação e vemos expressa em revista de 1986.
A Bíblia realça o papel da mulher, na família, na sociedade e na Igreja. À luz das Escrituras, a mulher casada deve viver em sujeição a seu marido, amar a seus filhos e em obediência ao Senhor. Tal submissão não a minimiza [sic] diante do marido e demais criaturas, pelo contrário, honra-a e enobrece-a, pois que tudo quanto ela faz, o faz por amor (CPAD, 4º trimestre, 1986, p. 41).
As mulheres são classificadas como donas de casa, mães e esposas, das quais se espera submissão aos seus companheiros e à doutrina, o que é exaltado e defendido como símbolo de nobreza. O papel atribuído a elas reflete a influência de uma sociedade machista que, a A.D. perpetua a desigualdade social, cultural e econômica, fundamentando tal concepção de gênero no sagrado. Nas revistas analisadas, identifica-se uma presença significativa de trechos que se referem ao papel das mulheres como subalterno ao dos homens. O mesmo discurso é repetido:
Segundo a bíblia, Deus criou a mulher para ajudar o homem (Gn 18.20); e para ser a glória do homem (1 Cor 11.7). É seu dever amar seu esposo (Tt 2.4), reverenciá-lo (Ef 5.33), ser-lhe fiel (1 Co 7.3; 5. 10). Os obreiros, especialmente, precisam de esposas ajudadoras. Existem muitas esposas que abandonam suas casas e se esquecem que têm um lar, esposo e filhos para cuidar. A esposa de um obreiro, e de qualquer servo de Deus, não é obrigada a pregar, ensinar, ou ser professora da escola dominical, isto é trabalho de vocação. Em primeiro lugar, o seu dever é cuidar dos seus filhos, se os tem. A mulher cristã deve ser: hospitaleira como a sunamita (2 Rs 4.10); dinâmica e corajosa como Débora, que chegou a ser juíza em Israel (Jz 4.6; 14.5,7). Persistente como Hulda, Mirian, Ana, Maria e as filhas de Filipe (2 Rs 22.14; Êx 15.20; Lc 1.36; At 31.9). Ajudadora como Priscila, a personagem da nossa lição (CPAD, 4º trimestre, 1990, p. 46).
As várias referências a passagens bíblicas, como as acima, objetivam sustentar a lógica binária entre os sexos. Claramente, as mulheres são tidas como ajudadoras e não como iguais, perante aos homens; e isto é defendido como ordem divina/natural. Os deveres domésticos, os cuidados com a família e, especialmente, a obediência ao esposo e à denominação religiosa cabem às mulheres – o que garantiria não só a salvação no reino dos céus, como também condições favoráveis às relações domésticas e sociais. As publicações da A.D., desta forma, também ditam posturas, comportamentos, papéis femininos e masculinos, criando e acentuando desigualdades políticas, de direitos, obrigações, acabando por enfatizar a relação entre o dominador (homem) e a dominada (mulher) como incontestável. Discursos como esses ultrapassam a afirmação baseada no biológico:
As justificativas para as desigualdades precisariam ser buscadas não nas diferenças biológicas (se é que mesmo essas podem ser compreendidas fora de sua constituição social), mas sim nos arranjos sociais, na história, nas condições de acesso aos recursos da sociedade, nas formas de representação (LOURO, 1997, p. 22).
As desigualdades de gênero, as hierarquizações entre homens e mulheres são estudadas e criticadas, pois identificadas como construções sociais a serviço de uma cultura ditada por interesses excludentes, que reforçam desigualdades socioeconômicas propagadas durante séculos e que ainda se encontram presentes na sociedade contemporânea.
Perceber que a ideia do ser feminino e masculino é uma construção social que depende muito de cada cultura e de cada grupo social e que, portanto, está relacionada com o contexto e o universo cultural de que que fazem parte, permite afirmar que os tabus sociais criados e impostos aos homens e principalmente as mulheres independe do biológico ou natural dos sexos.
Discutir a aprendizagem de papéis masculinos e femininos parece remeter a análise para os indivíduos e para as relações interpessoais. As desigualdades entre os sujeitos tenderiam a ser consideradas no âmbito das interações face a face. Ficariam sem exame não apenas as múltiplas formas que podem assumir as masculinidades e as feminilidades, como também as complexas redes de poder que (através das instituições, dos discursos, dos códigos, das práticas e dos símbolos) constituem hierarquias entre os gêneros (LOURO, 1997, p. 24).
No caso da doutrinação vista nas Lições Bíblicas, observamos a determinação de manter as relações de gênero desiguais como forma mesmo dos fiéis produzirem suas identidades singulares e não somente suas práticas ou posturas religiosas. Sendo que isto com certeza impacta a desenvoltura com que seus membros se movem no cenário social, político, econômico e cultural, uma vez que prega a hierarquização entre homens e mulheres. Essa hierarquia vai além, perpassa as relações entre o ideal de “macho”, forte e valente, que se contrapõe à mulher, frágil e indefesa.
Essas desigualdades sociais baseadas no gênero aprisionam homens e mulheres em padrões limitados e limitantes, pois pretendem estabelecer o que é certo ou errado, o que pode e o que não pode, segundo o sexo genital dos sujeitos. Embora o sujeito humano seja mais que um receptor passivo, estamos condicionados pelo que vivemos pelo que é construído socialmente. Dessa forma, o conceito de gênero torna-se imprescindível para entender as relações sociais, em especial, porque os estudos de gênero ajudam a expor os mecanismos de controle sobre os “papeis” de gênero, tal como o exercido pela doutrinação da A.D.
Conforme Joan Scott (1992), gênero é um conceito utilizado por historiadoras que problematizam papéis sociais considerados femininos e masculinos, colocando em xeque desigualdades impostas pelas relações de poder, tais como estabelecidas socialmente. O termo serviu para explicar as construções sociais que delimitam o lugar de cada sujeito na sociedade.
Gênero não se refere somente às ideias, mas também às instituições, às estruturas, às práticas cotidianas, aos rituais e a tudo que constitui as relações sociais. (…) o gênero consiste na organização social da diferença sexual. Este não é decorrente da realidade biológica primeira, mas constrói o sentido dessa realidade (GESSER, 2010, p. 65).
De acordo com estas autoras, as relações de gênero se encontram no cerne da estrutura social, no cotidiano dos sujeitos, suas práticas e vivências, criando desigualdades sociais ao diferenciar os “sexos”. Portanto, presente nas instituições religiosas seja na organização hierárquica formal ou doutrina. Observamos que tais relações sexistas, no que ser refere à Assembleia de Deus, obedecem a diretrizes que estabelecem modelos femininos e masculinos caracteristicamente desiguais, sendo que a denominação combate tudo que represente uma ameaça a esse modelo estabelecido. Nas revistas Lições Bíblicas, há trechos que são explícitos na crítica ao movimento feminista.
Quanto ao papel da mulher atualmente existem muitas ideias, teorias e movimentos que questionam a posição da mulher moderna, procurando coloca-la em pé de igualdade com o homem. Convém que a mulher cristã baseie suas convicções na Palavra de Deus. É uma questão de compreensão apenas. Deus quis escolher o homem para ser o líder da família em virtude de ordenar as coisas e também pelo fato de o casamento envolver duas pessoas. É claro que uma delas tem de ser a responsável direta pela orientação e pelo bom desenvolvimento. A mulher deve submeter-se à liderança do marido assim, como a Igreja é submissa a Cristo (CPAD, 4º trimestre, 1985, p. 41). (Grifo nosso).
No “mundo mundano”, os e as assembleanas convivem com práticas, valores e significações que foram questionados e influenciados pelo feminismo e pela democratização do país, combatendo os efeitos disto, a A.D. voltou-se contra as “ameaças” às relações de gênero e aos costumes ditados por ela, em nome de Cristo. Segundo o que foi observado nas Lições Bíblicas, qualquer repercussão de uma pauta reivindicatória feminista do “mundo mundano” foi combatida por um discurso de exaltação da estrutura familiar e das relações sociais que reafirma a posição de submissão das mulheres aos homens. A defesa da hierarquização entre os sexos é claramente enfatizada.
Em nosso tempo esse princípio tem sido deturpado, porque as mulheres conquistaram um espaço muito grande na sociedade. Tem havido choque entre o ensino bíblico e a filosofia secular puramente humanista, alheia a Deus e à sua palavra. A distinção entre os dois está no fato de que o ensino bíblico tem sua base nos princípios divinos e o pensamento secular é totalmente humano, em que o mundo sem Deus dita os credos, leis e costumes. Deus estabeleceu o princípio da autoridade dentro do lar. As mulheres devem sujeição aos seus maridos, e estes devem ser sujeitos ao Senhor (CPAD, 4º trimestre, 2001, p. 56).
As mulheres assembleanas são advertidas a pautarem sua existência e ações cotidianas, nos ensinamentos cristãos, e a rejeitarem tudo que se contraponha ao defendido pela denominação. Contudo, apesar do papel de ajudadora ser uma ideia do próprio Deus, atualmente, a virtude das mulheres estaria atrelada a uma sobrecarrega de trabalho e de esforço para não se desviar da doutrina, inclusive porque hoje em dia é necessário ajudar financeiramente a família, o que obriga ao convívio com o mundo mundano e, ao mesmo tempo, a manter-se como exemplo para suas filhas e outras mulheres:
As pressões e demandas sociais e econômicas dos últimos tempos têm levado multidões de mulheres a buscar o incremento dos recursos financeiros da família, o que não fere os princípios bíblicos. Porém, isso não isenta da responsabilidade de cumprir as orientações do marido no lar, principalmente na educação dos filhos, além da própria manutenção e bem-estar da família. Por mais que esta mulher disponha de pessoas para executar as tarefas rotineiras do lar, sobre ela recai a responsabilidade final das atribuições de uma mãe de família e dona de casa (CPAD 2º trimestre, 2004, p. 20).
A despeito da admissão da necessidade de atualização dos “usos e costumes” em função de questões econômicas, o espaço privado do lar e o templo tornam-se ainda mais relevantes para observa-se a exaltação de um modelo feminino que exerce uma dupla jornada, sem descuidar da casa, dos filhos, do esposo e da doutrina. Essa sobrecarga que as mulheres vivenciam é combatida pelo movimento feminista, que visa garantir direitos iguais entre homens e mulheres. “Neste sentido, a luta estende-se também pra a superação da “dupla jornada de trabalho” que obriga a mulher a acumular os encargos profissionais e os de dona-de-casa” (PITANGUY, 2015, p. 65-66).
As desigualdades na inserção no mercado de trabalho em si já refletem a hierarquização de gênero, injusta e irracional, que é questionada a partir da noção de direitos humanos. As mulheres recebem menos sempre e têm menos chances de ocupar cargos de comando e, a tal situação, são adicionadas as dificuldades da dupla jornada diária (HIRATA, 2003). Dado que muitas fiéis tinham/têm emprego formal e que, todos os anos, na semana de 8 de março, estas informações são repetidas pela imprensa, a dupla jornada diária é tematizada pela A.D. como algo que dignifica a mulher cristã, mas não significa igualdade entre os gêneros. Em última instância, ao se submeter a preconceitos de gênero, ao se “deixar conduzir” pelo cônjuge, a mulher fiel garantiria tanto a salvação pós-morte, quanto um ambiente familiar pacífico e harmonioso.
Há, claramente, nos artigos das revistas Lições Bíblicas, uma afirmação da divisão sexual do trabalho, a repetição de definições pré-estabelecidas de depreciação do feminino e valorização do masculino caracteristicamente carregado de determinismo biológico e de herança patriarcal. Apesar de não ser ideal, a dupla jornada é tornada absolutamente normal e os esforços doutrinários se voltam ao aconselhamento das mulheres no sentido de agirem de forma a não desagradar seu esposo, mesmo se este não consegue arcar com despesas, pois, a autoridade deste como “cabeça do casal” não emana de questões materiais, mas, sim, de determinação divina. A esposa deve ser “sábia”, portanto, compreensiva, pode desdobra-se e realizar outros tipos de trabalho, contudo, esse serviço extra não pode e nem deve impedir de realizar as obrigações ditas femininas, como deixa claro este trecho citado acima das Lições Bíblicas.
Considerações finais
A Assembleia de Deus defende papéis sociais tradicionalmente sexistas para homens e mulheres como forma de os fiéis conduzirem “uma vida regida pela moral cristã”. Os “usos e costumes” da denominação foram estabelecidos com objetivo de demarcar esta diferença entre assembleanos e os que não seguem a “verdadeira” orientação cristã. Isto a distingue das outras denominações e dos que não pertencem a nenhuma religião (Silva, 2003). Estas prescrições acerca das relações dos fiéis com seus corpos e com as práticas do “mundo mundano”, em especial no tange ao controle do corpo feminino, sempre tratado com desconfiança, remontam à Idade Média, época em que, segundo Le Goff, “a aversão aumentava quando se tratava de suas capacidades sexuais, consideradas as responsáveis pelo pecado e pela a perdição” (MACEDO, 1998, p. 2).
Assim, repetindo advertências de cunho religioso próprias da Idade Média, as mulheres assembleanas são orientadas a se preocupar com os valores espirituais e a deixar em segundo plano os cuidados com aparência física. Porém, embora em suas publicações a A.D. justifique que a vaidade é inimiga da virtude espiritual, a preocupação em inibir a sensualidade feminina e a ênfase na submissão aos esposos não produzem somente a experiência religiosa-espiritual destas mulheres e homens, destes casais e suas famílias.
As Lições Bíblicas contribuem para as desigualdades sociais e para a realização de práticas machistas, dissimuladas como necessárias para a harmonia dentro lar. As lições acabam por reafirmar a lógica binária e desigual entre os “sexos”. A submissão da mulher é enfatizada como um valor, como sinal de honra e alicerce do bem estar da família. As revistas são construídas com a finalidade de que elas, ao lerem, se percebam como ajudadoras dentro do lar e não como iguais e capazes de tomar decisões e dividir tarefas em igualdade. Os artigos das revistas refletem as relações de gênero, observa-se neles:
A imposição de uma sociedade machista, dividida em classes, que inferioriza as mulheres, utilizando-se do discurso dominante como instrumento de disseminação de conceitos e controle. Ao mesmo tempo em que determina que os homens são os sujeitos destinados à atuarem como protagonistas da submissão feminina (SANTOS, 2012, p. 49).
Essa estrutura social é legitimada pela denominação, quando exige principalmente a submissão da esposa para com companheiro como sinal de obediência à ordem divina. As revistas da escola dominical colaboram para a manutenção de uma estrutura familiar que coloca os homens em posição de superioridade e menospreza as mulheres, pois esta seria a vontade de seu Deus, o que também poderia ser observado como uma assimetria natural, biológica. Essa estrutura social é legitimada pela denominação, quando exige principalmente a submissão da esposa para com companheiro como sinal de obediência à ordem divina. As revistas da escola dominical colaboram para a manutenção de uma estrutura familiar que coloca os homens em posição de superioridade e menospreza as mulheres, pois esta seria a vontade de seu Deus, o que também poderia ser observado como uma assimetria natural, biológica. A Assembleia de Deus preza pela manutenção desse modelo, e todo aquele destoe desses papéis é tido como desobedientes, de acordo Ricardo Gondim (1998), disciplina é o termo usado pela Assembleia de Deus como forma de normatização. Observamos que os e as fiéis que são “disciplinados” ficam impedidos de ministrarem a palavra, de evangelizar; eles são separados no banco da disciplina. Uma vez que se senta nesse banco, se está impedido de realizar as mesmas funções de antes, até que se acabe o tempo de disciplina.
Na literatura científico-acadêmica consultada, encontramos também autores/as que mostram que pregar enfaticamente que a desobediência às normas da igreja arrisca a salvação, pressiona o fiel a não infringir as regras ditadas por aquele que “prega a palavra”. Pois,
A salvação para os crentes não é universal; somente uns poucos alcançarão. (…) Ser salvo requer duas coisas: fé em Jesus e obediência à sua palavra. (…) A fé verdadeira ocorre somente quando o homem se humilha, reconhece sua absoluta impotência e submete-se ao total poder salvífico de Jesus (BURDICK, 1998, p. 51).
Conforme Oliveira (2014), a salvação é enfatizada por líderes da igreja Assembleia de Deus com objetivo de pressioná-los a obedecer e respeitar as normatizações. Legitimando as normas de condutas da igreja como necessárias para que os membros assembleanos sejam salvos. A obediência simboliza uma prova de compromisso dos/as fiéis com o divino, quem renegam aos “prazeres do mundo” e às coisas terrestres, se entregam à salvação.
Neste sentido, imaginamos que uma investigação junto a membros desta Igreja será um desdobramento lógico desta iniciativa, uma vez que a religiosidade comporá a produção de subjetividades e, consequentemente, de práticas sociais, mas não a determina.
Referências
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ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. (2015). O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense. (Coleção Primeiros Passos).
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BURDICK, John. (1998). Procurando Deus no Brasil: a igreja católica progressista no Brasil na arena das religiões urbanas brasileiras. Rio de Janeiro: Mauad.
CESAR, Waldo; SHAULL, Richard. (1999). Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs. Rio de Janeiro: Vozes.
FARJADO, Maxwell Pinheiro. (2012), Religião e memória: afirmação da memória institucional da igreja Assembleia de Deus no Brasil, Revista Brasileira de História das Religiões (ANPUH).
FERREIRA. Jean Nela Rocha. (2009). Assembleia de Deus em Feira de Santana: um estudo das representações políticas na “década da colheita”. Monografia (Licenciatura em História). Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana. 66 f.
GESSER, Marivete. (2010), Gênero, corpo e sexualidade: processos de significação e suas implicações na constituição de mulheres com deficiência física. Tese (doutorado em Psicologia). Florianópolis: Universidade de Santa Catarina. 315 f.
GONDIM, Ricardo. (1998). É proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. São Paulo: Mundo Cristão.
HIRATA, Helena. (2003). Por quem os sinos dobram? Globalização e divisão sexual do trabalho. In: Desafios para as políticas públicas: trabalho e cidadania para as mulheres. São Paulo.
LOURO, Guacira. (2011), Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes.
OLIVEIRA, Rok Sônia Naiária de. (2014). O militar de Cristo todo mundo conhece pelo uniforme: a indumentária da neoconvertida assembleana, Milhã-CE (1990-2012). Dissertação (Mestrado em História), Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza – Ceará. 236 f.
ROCHA, Patrícia. (2009). Mulheres sob todas as luzes. São Paulo: Leitura.
SCOTT, Joan. (1989). Gênero: uma categoria útil para análise histórica. Tradução: Christine Rufino Dabat, Maria Betânia Ávila. Recife: SOS Corpo, s. d. [New York, Columbia University Press].
SILVA, Cláudio José da. (2003). A doutrina dos usos e costumes na Assembleia de Deus. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Goiânia: Universidade Católica de Goiás. 139 f.
PERIÓDICOS:
LIÇÕES BÍBLICAS SAL E LUZ: AS MARCAS DO CRISTÃO ATUAL. Rio de Janeiro: CPAD, 4° trimestre, 1996.
LIÇÕES BÍBLICAS: 1 e 2, PEDRO, A ESPERANÇA DO CRISTÃO EM TEMPOS DE ANGÚSTIAS. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 2001.
LIÇÕES BÍBLICAS: FAMÍLIA CRISTÃ, EU E MINHA CASA SERVIREMOS AO SENHOR. CPAD. Rio de Janeiro: 2º trimestre, 2004.
LIÇÕES BÍBLICAS: MORDOMIA CRISTÃ: SERVINDO A DEUS COM EXCELÊNCIA. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 2003.
LIÇÕES BÍBLICAS: SABEDORIA DE DEUS PARA UMA VIDA VITORIOSA: A ATUALIDADE DE PROVÉBIOS E ECLESIASTES. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 2013.
MATURIDADE CRISTÃ. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 1985.
MATURIDADE CRISTÃ. CPAD. Rio de Janeiro: 3º trimestre, 1985.
Bio fornecida pelo palestrante.
Aucilane Santos Aragão
Janaíne Januário
Maria das Graças Santos Correia
Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão
Resumo: Este estudo objetiva analisar a argumentação do personagem Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis (2004), cuja intenção do narrador-personagem é de condenar a personagem Capitu por uma suposta traição. No entanto, focaremos não para a sua condenação, mas para a defesa, analisando as falhas na argumentação daquele. Haja vista que não há provas concretas, reais que a incrimine, pelo contrário, o único parecer sobre a história é exclusivamente do Bentinho que se utiliza da própria imaginação para criar situações que confirmem suas suspeitas. Desta forma, focaremos nos desvios da argumentação de Bentinho a fim de inocentar argumentativamente Capitu, entendo que a narrativa construída pelo ciumento é tendenciosa, uma vez que o livro contém evidências criadas a fim de persuadir o leitor a crer que Capitu realmente o traiu.
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Palavras-chave: Dom Casmurro. Ciúme. Argumentação. Inocência.
Abstract: This study aims to analyze the arguments of Bentinho’s character Dom Casmurro, in Machado de Assis de Assis novel also called Dom Casmurro. The intention of the narrator-character is to condemn the character Capitu for alleged treason. However, we will focus not for his condemnation but for his defense, analyzing the flaws of his reasoning. Given that there is no concrete evidence that incriminates real, however, the only opinion in the story is exclusively Bento who use their own imagination to create situations to confirm his suspicions. Thus, we will focus on deviations of Bentinho’s argument to exonerate arguably Capitu, I understand that the narrative constructed by jealous is biased, since the book contains evidence created to persuade the reader to believe that Capitu really betrayed him.
Keywords: Don Casmurro. Jealousy. Argumentation. Innocence.
Miniscurrículos: Discentes do curso de graduação em Letras na Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão.
ESTRATÉGIAS TENDENCIOSAS DE ARGUMENTAÇÃO DE BENTINHO
PARA CONDENÁ-LA AO ADULTÉRIO
Aucilane Santos Aragão
Janaíne Januário
Maria das Graças Santos Correia
Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão
Considerações Iniciais
Dom Casmurro, de Machado de Assis, pode ser considerado um dos romances mais famosos da Literatura Brasileira. É uma obra dividida em 148 capítulos, narrada em primeira pessoa pelo personagem Bento Santiago, que relata a história de sua própria vida, como se fosse uma biografia de um homem solitário, que não se desprende do passado.
O livro foi publicado pela primeira vez em 1899, sendo considerado uma das grandes obras de Machado de Assis se estendendo sobre toda a sociedade brasileira, a realidade é retratada através da vida de Bentinho, no Rio de Janeiro do segundo reinado (1840 – 1889) e conta sua trajetória desde a infância, adolescência, seminário, estudos até o casamento. A obra é instigante gira em torno do ciúme de Bentinho por sua esposa Capitu, abordada com brilhantismo no livro, provoca polêmicas em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira, Capitu.
A narrativa é em primeira pessoa o que permite manter questões sem elucidação até o final, já que a história conta apenas com a perspectiva subjetiva de Bentinho, ou seja, toda a trama gira em torno das percepções de Bentinho, todo o ciúme que ele sente por Capitu, faz com que ele fique transtornado. Desse modo, não há registros reais que comprovem um suposto adultério, e o único olhar que o leitor tem sobre a história é segundo os sentimentos obsessivos e inventivos de narrador-personagem, não sabendo a percepção de Capitu sobre os acontecimentos. Segundo Santiago os críticos estavam interessados em buscar a verdade sobre Capitu ou a impossibilidade de se ter a verdade sobre Capitu, quando a única verdade é a de Dom Casmurro (2000, p.30). O grande enigma da obra está na dúvida em relação ao adultério de Capitu com Escobar, seu melhor amigo do seminário.
No livro não há nenhuma cena que o comprove o adultério, no entanto, Bentinho relata inúmeros episódios, marcando a obra pela desconfiança com que o leitor vai se enredando ou se desvencilhando das próprias interpretações oferecidas pelo narrador, haja vista, que Bentinho vai convencendo o leitor de que sua esposa lhe traiu. Para Santiago, a qualidade essencial de Machado como escritor reside na “busca, lenta e medida do esforço criador em favor de uma profundidade que não é criada pelo talento inato, mas pelo exercício consciente e duplo, da imaginação e dos meios de expressão de que dispõe todo e qualquer romancista” (2000, p. 28). O “fingere” na obra machadiana esta presente nas persuasões de Bentinho, o fingimento do narrador para assim convencer o leitor da suposta traição.
Bentinho tinha muita imaginação, registrada em toda a obra; segundo o narrador, “A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar” (Assis, 2008, p. 177). A intenção do narrador era fazer o leitor se deixar influenciar, “Também se goza por influição dos lábios que narram” (Assis, 2008, p. 138). O narrador é sincrético e cumpre, ao mesmo tempo, o papel de vítima, fazendo com que Capitu seja a vilã da história a traidora e dissimulada. Apesar de o romance não registre nenhuma prova de que ela tenha de fato cometido o adultério, o narrador do romance tenta persuadir o leitor de que isso realmente aconteceu. Para Santiago, “a obra de machado de Assis como um todo é coerentemente organizada” (2000, p. 27).
Na obra há uma busca da verdade, isto é, do verossímil, para Santiago “a verossimilhança, que, percorrendo o discurso de uma extremidade a outra, constitui a totalidade da arte oratória” (Santiago, 2000, p.43). Na obra, Dom Casmurro narra a versão de sua própria historia e restaura na velhice, os momentos vividos na adolescência ao lado de seu grande amor Capitu, menina que seduzia com seus olhos de ressaca. Machado de Assis escritor único com a publicação da obra “Dom Casmurro”, recebeu muitas de críticas de vários estudiosos. Segundo Zilberman:
A maturidade da obra de Machado e a institucionalização da crítica proporcionaram muitas leituras e debates sobre a obra do autor. É a partir desse momento que começavam a encarar “a literatura como objeto elevado, e não mero passatempo”. O fato de a crítica só ter meios de interpretar Machado quando a obra dele ia avançada repercute sobre o modo de a encarar. Também a circunstância de predominar o foco evolucionista, originário do positivismo, teve efeitos determinados e ainda dominante na recepção daquele escritor (ZILBERMAN, 1989, p. 89, 90).
Em Dom Casmurro, Machado de Assis faz uso de uma comunicação direta com o leitor, ele conduz o mesmo a acreditar em seus preceitos Santiago afirma que “O romance de Machado é antes de tudo um romance ético, onde pede, se exige a reflexão do leitor sobre o todo” (2000,p. 30). Para Antônio Cândido:
Dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida (2004, p. 23).
Sendo assim, a obra de Machado de Assis é dividida em duas partes a fase romântica, que retrata o início do namoro dos dois, e a fase realista, esta após o casamento é uma fase amarga, Bento desempenha o papel de homem patriarcal, assume o comando do relacionamento afetivo, levando-o à destruição de sua família.
I – Estratégias de transferência de Bento
No decorrer da narrativa, o narrador, aproveitando sua formação como advogado e sua estadia no seminário que lhes rederam um poder argumentativo maior, tenta configurar a culpa de Capitu.
Bentinho conta toda a história insinuando um (mau) caráter de Capitu, para justificar a “traição” desta. Valendo-se, às vezes, da opinião de outra pessoa sobre ela, como uma forma de alegar que não era apenas ele que a via como uma pessoa capaz de traí-lo, destacando a acusação de José Dias que ela tem “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Bentinho aceita as críticas e as usa para fundamentar o caráter de Capitu:
Se, de certa maneira, são esses os mecanismos predominantes no modo de raciocinar, e, por conseguinte de convencer, não se deve esquecer de que a retorica do verossímil se espraia, ocasionando a certa compreensão particular do comportamento dos outros. Duas atitudes, entre outras, são típicas de Dom Casmurro, quando analisa os que o rodeiam: a) joga a culpa de toda calúnia nos outros, isentando-se aparentemente de qualquer responsabilidade, colocando-se ainda na qualidade de vitima; b) empresta aos outros contradições entre o que chamaremos por enquanto de interior e exterior (SANTIAGO, 2000, p. 38).
Esta é a estratégia usada por Dom Casmurro, mostrando que Capitu sempre teve um “caráter duvidoso”, desde criança, e por isso pode ter o traído. Esse estratagema de transferir o decorrer da história para mostrar o possível caráter da outra pessoa para justificar que está certo é muito utilizada pelas pessoas que têm ciúme excessivo, como no caso de Bentinho, usando todos os argumentos possíveis para convencer-se e convencer aos outros de que foi traído.
Percebemos que no decorrer da história tem a presença de uma tendência argumentativa, para convencer ao leitor que há uma verdade em suas desconfianças. Para isso, ele apresenta uma espécie de dados acerca da vida de Capitu, e consequentemente da dele. Outra estratégia de argumentação usada é a forma que ele escreve, falando diretamente ao leitor (ou leitora, como ele fala em alguns momentos), isso acontece especialmente nos capítulos: XLV- Abane a cabeça, leitor; LXXIX- Vamos ao capitulo; LXXX- Venhamos ao capitulo; CXIX- Não faça isso, querida. Essa aproximação com o leitor é caracterizada pelas escolhas linguísticas usadas por ele, a escolha de palavras já nos títulos dos capítulos como “leitor”, “querida” sugere uma estratégia do autor em aproximar sua fala do enunciador-leitor, ordenando a essa terceira pessoa discursiva a refletir sobre o que está apresentando na argumentação:
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 39).
Ele fala diretamente ao leitor, numa espécie de desabafo. Tentando mostrar ao leitor que Capitu foi capaz de falar no primeiro filho com naturalidade, coisa que não era comum na época, uma moça de família e solteira falando em ter filhos. Ou seja, passando a imagem de que ela era uma moça que falava e agia de forma diferente das outras da época, sendo assim, era capaz de cometer atos libertinos, como o adultério, com facilidade. Em dados momentos, como no citado, ele fala com o leitor como se estivesse exercendo seu oficio de advogado acusando um réu e em sua argumentação usa alguns momentos da vida.
Porém, ao analisarmos os argumentos de Bentinho percebemos que ele faz uso deles para justificar o ciúme dele colocando a culpa de todos os atos nela. O ciúme de Bentinho faz com que ele crie situações, acredite nelas e crie argumentos para mostrar que está certo. No capítulo XL- Uma Égua, o próprio Bentinho reconhece que “a imaginação foi a companheira de toda a minha existência”:
Em dado momento, Bento interpreta o olhar de Capitu como uma confissão: “Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando: – ‘Mamãe!, Mamãe!, é hora da missa!’, restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada; repetiu as últimas palavras, puxou do filho e saíram para a missa” (cap. CXXXIX) . “A confusão dela fez-se confissão pura” é interpretação de Bentinho. Podemos pensar que ele viu assim. Há algo mais subjetivo (ou projetivo) que a interpretação de um olhar? (NETO,…).
I – A arte da retórica na obra
A imaginação e o ciúme dele fizeram com que ele interpretasse uma suposta confissão de Capitu através do olhar dela, quando o que houve foi apenas fruto da imaginação de uma pessoa ciumenta. Sendo assim, não há nenhuma evidência que comprove de fato uma suposta traição de Capitu, ao mesmo tempo que dá para condenar Capitu só pelo olhar de Bentinho, pois ele se mostrou ciumento desde o princípio, além de fazer uso da retórica para argumentar contra ela. Para Neto:
A retórica. Esta arte tem como intuito proporcionar uma fala persuasiva, manipulando a linguagem para o benefício do falante. Em Dom Casmurro a retórica é a base de construção do romance. Nele, a história de amor e ciúme entre Bentinho e Capitu é contada de forma a convencer o leitor (e ao próprio Bentinho) de que Capitu é a grande culpada na história.
Dessa forma, ao analisarmos a obra percebemos que Bentinho usa a retórica desde o início para mostrar que Capitu é culpada das acusações impostas por ele, quando na verdade o que vemos é a acusação de homem extremamente ciumento, com uma imaginação muito forte e que não há como dizer que ela o traiu tomando como base a argumentação do próprio Bento.
Bentinho criou diversas situações em todo o livro para que o leitor enxergasse Capitu como adúltera, todas essas situações foram criadas em sua imaginação e construídas discursivamente a fim de levar o Outro do discurso à persuasão. Proença (2011) diz que: “uma rede de indícios que, combinados, são interpretados por ele, ciumento, como decisivas evidências de traição”. Isto é, por meio da linguagem, Bento Santiago promove a dúvida no leitor se Capitu foi capaz mesmo de traí-lo, para isso, ele traça um perfil que seria da personalidade dela desde a infância pra compor todas as suas criações imagéticas a respeito da personagem, indiciando-a ao leitor ao adultério em sua relação matrimonial.
Ainda citando Proença (2011), ele diz que Bento Santiago cria “competências” analisando e contando-as ao leitor a fim de comprovar discursivamente a suposta traição, desta forma, o narrador-personagem diz ao leitor momentos em que Capitu agiu de forma perspicaz, quando, por exemplo, quando ela junto com o seu amigo, guardam a segredo de Bento que Capitu economizou dez libras. Nesta cena, o narrador que induzir ao leitor que sua amada e seu amigo trocam confidências as quais ele fica de fora, traço este que ele leva a imaginação de um indicio de traição. Bem como o perfil tanto personalístico de Capitu, de “dissimulada”, “rápida”, “objetiva”, quanto a de Escobar, “reflexivo”, “boa memória”.. Estes traços vão fazendo o leitor acreditar que de fato ambos tinham a “competência” da traição.
Bentinho descreve tão bem as cenas que o leitor e a critica literária de fato acreditaram por muito tempo ser ele o ingênuo, e o traído da situação. Só com a analise da personalidade de um sujeito doente de ciúmes leva a inocentar a personagem, haja vista que a construção discursiva do narrador é detalhada, inteligente, mas de memória falha como ele cita. Memória esta, que é a única fonte de percepção deste para a história, sem provas alguma.
Silviano Santiago (2011, p. 33-34) diz que “Dom Casmurro, como bom advogado que devia ser, toma para si a defesa de Bentinho, arquitetando uma peça oratória onde nos afigura de primeira importância seu aspecto propriamente forense (era escrita por um advogado) e seu aspecto moral-religioso (escrita por um ex-seminarista)”. Desta forma, a construção do seu discurso não será neutro, mas tendencioso, utilizando-se de estratégias argumentativas as quais induzem ao leitor incriminar de fato a personagem.
II – Capitu é inocente
Durante toda a história Dom Casmurro faz uso das características fortes de Capitu, valendo-se inclusive de acusações feitas por terceiros, como de José Dias, por exemplo, que a caracterizou como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, além de mostrar algumas cenas passadas dela para mostrar que ela tinha um caráter duvidoso, e que portanto o traiu sem culpa, pois para ele a traição de Capitu e Escobar era fato.
Apesar de Bento Santiago afirmar que foi traído, não há nenhuma prova de que isso aconteceu de fato. Portanto não há como dizer que Capitu é uma adúltera tomando como base a história contada pelo suposto traído, principalmente, levando-se em consideração que o marido é uma pessoa ciumenta e que já apresentava sinais de um ciúme doentio desde antes de casar com ela.
Ao analisar a obra, observamos que esse traço de ciúme exacerbado de Bentinho começa a aparecer de forma mais concreta a partir do momento em que ele fica muito irritado ao perceber que passou um rapaz a cavalo na rua e olhou para Capitu e ela olhou-o de volta, e com isso já começa a fantasiar várias hipóteses de que eles tinham algo, chegando a pensar em uma frase dita anteriormente por José Dias “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela…” e concluir que o “peralta da vizinhança” se tratava dele de certeza:
A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela…” Era certamente alusão ao cavaleiro. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, levá-lo ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese; mas José Dias, que parara ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 58).
Após concluir o suposto romance da amada com o vizinho, ele se trancou no quarto e teve um momento de surto, jurando nunca mais querer vê-la. No outro dia ele a procurou para pedir explicações e ela explicou-lhe que não tinha nada com o vizinho, alegando que se tivesse não o olharia e sim iria dissimular. Porém, ele ficou convencido quando ela falou que o rapaz ia casar com outra e que desta forma não poderia ter nada com ele. Essa reação de Bentinho, assim como as outras no avançar da obra, é característica do ciúme no terceiro nível, o delirante ou paranoico. Segundo a Psicologia, existem três níveis de ciúme que o sujeito pode apresentar: o normal, o neurótico e o delirante (Paranóico). O normal é aquele que ocorre quando a pessoa amada dá motivo para o parceiro sentir ciúmes; O neurótico é aquele cujo sentimento de angústia é permanente, nesse a pessoa tem consciência de que seu ciúme é exagerado, mas não consegue controlá-lo; E o terceiro caso é visto como o mais grave e de maior preocupação, pois é aquele onde o indivíduo fantasia uma possível traição podendo ser agressivo e até mesmo cometer insanidades contra o parceiro. Como no caso de Bentinho que fantasiou toda a traição de Capitu sem ter prova alguma, chegando a querer envenenar o filho por achar que o menino é o fruto de uma relação com um terceiro.
O ciúme é a manifestação de um profundo complexo de inferioridade de certa personalidade com imaturidade afetiva (Alves, 2001). Ao analisarmos a personalidade de Bentinho percebemos que ele de fato apresenta essas características típicas de uma pessoa ciumenta, pois desde menino, era sempre mimado pela mãe, pelo tio Cosme, pela prima Justina e pelo agregado José Dias. Essa super-proteção tornou-o um indivíduo inseguro e dependente, incapaz de tomar decisões por conta própria e resolver seus próprios problemas, além de ter uma imaginação muito fértil, contribuindo ainda mais para a suspeita de adultério da amada. Para Santos:
Se analisarmos mais detalhadamente o ciúme, podemos perceber, logo de início, que não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas sim voltado para si mesmo, para quem o sente, pois é, na verdade, o medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele. É um sentimento egocentrado, que pode muito bem ser associado à terrível sensação de ser excluído de uma relação (2002, p. 76).
Outra característica do ciúme paranoico é a necessidade excessiva de procurar uma forma de confirmar a suspeita da traição. Na obra percebemos que Bentinho procura de todas as formas provar a traição, que para ele já é certa, de Capitu e Escobar, valendo-se da história deles para mostrar que ela sempre foi dissimulada e com um caráter duvidoso, além da amizade dela com Escobar e, por fim da semelhança do filho com o amigo. Esquecendo-se que Capitu é muito parecida também com a mãe da amiga Sancha mesmo sem ter algum parentesco com ela e que, portanto, as pessoas podem ter semelhanças mesmo sem ter nenhum grau de parentesco. Outro conceito apresentado pela Psicologia é o ciúme mórbido ou patológico, também conhecido como Síndrome de Otelo:
O conceito de ciúme mórbido ou patológico, também chamado de Síndrome de Otelo, em referência ao romance shakeaspereano escrita em 1964 compreende várias emoções e pensamentos irracionais e perturbadores, além de comportamentos inaceitáveis ou bizarros (Leong et al, 1994). Envolveria muito medo de perder o parceiro(a) para um(a) rival, desconfiança excessiva e infundada (ALMEIDA, 2013).
Podendo levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade e desejos de vingança desordenados, assim como Bento faz ao comprar um veneno para tomar e depois tentar fazer o filho tomar, além do desejo da morte de Capitu e do filho como uma forma de vingar a traição. Bem como o sentimento de alivio que ele sente quando mais tarde, mesmo depois de Capitu já está morta, quando o menino morre em Jerusalém com uma febre tifoide.
Segundo a psicanálise é possível afirmar que a Síndrome de Otelo seria na verdade e/ou também o desejo do próprio ciumento em ser infiel, no entanto, por não admitir conscientemente esse desejo, acaba projetando no parceiro, como se pertencesse a ele a infidelidade ou desejo desta. Ou seja, é como se o ciumento pensasse que se ele teve o desejo de trair a parceira certamente o trai. Em Dom Casmurro acontece algo semelhante, pois o próprio Bento sente uma atração por Sancha, que é esposa de Escobar, que ele tem certeza que o trai, e amiga de sua mulher.
A personagem de Bento Santiago é marcada por não possuir um motivo real ou prova e sim a certeza absoluta de infidelidade de Capitu baseado na sua imaginação. No cap. XL, ele diz que “A imaginação foi a minha companheira de existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas correndo.”
Utilizando a imaginação como recurso para provar a infidelidade de Capitu por meio de criações/invenções da sua imaginação. A retórica e a expressão de um caráter que pode comprovar que ele está certo, tentando mostrar que ela é leviana, fútil, a que desde pequena só pensa em vestidos e penteados, a que tinha ambições de grandeza e luxo, e ele um homem rico, de boa família, com formação em direito e que ama a esposa e foi traído por ela. Mas em muitas partes da obra acaba mostrando que ela era uma esposa e mãe dedicada e carinhosa, uma mulher Inteligente, prática, de personalidade forte e marcante, enquanto ele é um homem fechado, solitário e triste que tem um ciúme doentio pela esposa. Fazendo-nos deduzir que não houve traição e que tudo não passou do fruto da imaginação dele.
Considerações finais
A riqueza da obra “Dom Casmurro” estimula nos leitores profunda análise e meditação, bem como o levantamento de hipóteses das intenções do pseudo-narrador da história. Ele traz muitas discussões e interpretações acerca da traição ou não de Capitu. Muitos críticos e leitores em geral acreditam que houve de fato a traição de Capitu e Escobar, enquanto outros acreditam que não e que não há nenhum indicio concreto do adultério, o que há é apenas a imaginação e interpretação de um marido excessivamente ciumento.
A dúvida ou a certeza da traição são frutos do discurso construído pelo narrador a fim de condenar a amada, minuciosamente Bento Santiago se preocupou em criar situações que de fato levassem o leitor a crer que houve traição. A retórica é o ponto chave da trama, visto que, por meio dela o narrador-personagem e nós enquanto sujeitos usuários da lingua(gem) podemos induzir, persuadir, condenar ou inocentar discursivamente outros sujeitos.
A obra conta com inúmeras estratégias que leva o leitor a persuasão, sendo algumas dela, a fala ao leitor na primeira pessoa ao contar a história como um desabafo, induzindo que aquelas situações criadas inventivamente de fato existiram; a descrição da personalidade, das características dos personagens Capitu, Escobar como rápidos, espertos e a de Bento como ingênuo constroem um discurso que leva o Outro a acreditar que tanto Escobar quanto Capitu tinham traços, “competências” que levariam a traição.
Dom Casmurro é uma construção discursiva cujo romance aborda a visão doentia causada pelo ciúme do personagem-narrador para com sua amada, sendo esta tratada na obra como dissimulada e mentirosa. Bento é advogado, ex-seminarista, representante da elite social e econômica, a palavra, o discurso dele é levado ao leitor como a “verdade”, deste modo Capitu é silenciada em toda a narrativa. No entanto, assim como há a possibilidade na interpretação da obra de condená-lo como adultera, há também a possibilidade de enxergar o discurso de Bento como tendencioso, voltado exatamente para retratar Capitu como culpada de algo que não fez. Ambas, retoricamente construídas.
Referências Bibliográficas
ASSIS, J.M.M. de. Dom Casmurro. São Paulo: Ática, 2004.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira, 1601 a Machado de Assis, 1908. Intr. de Heron Alencar. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.
ALMEIDA, Thiago de. Síndrome de Otelo: quando o ciúme se torna patológico. Disponível em: <http://www.thiagodealmeida.com.br/site/files/pdf/artigo9.pdf>. Acesso em: 10 set. 2013.
ALVES, Roque de Brito. Ciúme e crime: crime e loucura. Rio de Janeiro: Forense, 2001.
SANTOS, Eduardo Ferreira. Ciúme e crime: uma observação preventiva, Psic, Cerqueira César, v. 3, n. 2, p.74-77, 2002.
SANTIAGO, Silviano 2000. Retórica da verossimilhança. In: Santiago, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco.
CANDIDO, A. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. 2ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
PROENÇA, Paulo Sérgio de. A construção da competência para a infidelidade, em Dom Casmurro. vol. 7, no 1. Junho, 2011
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. Ed. Ática. São Paulo. 1989.
Bio fornecida pelo palestrante.
Janaíne Januário da Silva
Universidade Federal de Alagoas
Maria das Graças dos Santos Correia
Universidade Federal de Alagoas
RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo identificar a figura feminina na obra “Iracema” de José de Alencar, que foi escrito em 1865. Para tanto, podermos discutir acerca da idealização da mulher no processo construtivo abordado em Iracema. Iremos ressaltar a imagem feminina tratada na obra. A obra retrata a mulher sendo idealizada como uma heroína, guerreira, rápida, forte, inteligente que ficou eternamente conhecida na literatura brasileira como a “virgem dos lábios de mel”. Temos como embasamento teórico Ivo Barbieri “Iracema contemporâneo da posteridade” (2013), Antônio Candido “A personagem de ficção” (1968) e José de Alencar “Iracema” (1865). O artigo visa, descrever a pureza da mulher virgem tratado em Iracema, e também a exaltação da natureza, fauna e flora e a mulher como uma figura natural da pureza nacionalista.
Palavras-chave: Iracema; Idealização da mulher; Romantismo; Indianismo.
ABSTRACT: This study aims to identify the female figure in Iracema work of José de Alencar, which was written in 1865. Therefore, we can discuss about the woman idealization in the construction process addressed in Iracema. We will emphasize the feminine image treated in the work. The work depicts a woman being idealized as a hero, warrior fast, strong, intelligent he was ever known in Brazilian literature as the “virgin honey lips”. We have the theoretical basis Ivo Barbieri “contemporary Iracema of posterity ” (2013), Antonio Candido “The fictional character” (1968) and José de Alencar “Iracema” (1865). The article aims to describe the purity of virgin woman treated in Iracema, and also the exaltation of nature, flora and fauna and the woman as a natural figure of nationalist purity.
Keywords: Iracema; Idealization of women; Romanticism; Indianism.
José de Alencar, nasceu em Mecejana província do Ceará, em 1 de maio de 1829. O autor é considerado o primeiro vulto da literatura nacionalista e indianista. Pode-se dizer que Alencar foi o fundador da literatura brasileira, pois ele descobriu a beleza do nosso país e a trouxe de forma romântica para a literatura, o escritor despertava e transmitia em suas obras, o amor pela pátria, paisagem, natureza, pelas lendas e pelos povos indígenas. Escreveu diversas obras entre romances, teatro, não-ficção. Seus romances abrangiam algumas áreas, pois Alencar escrevia sobre diversos assuntos de caráter social, como em suas obras conhecidas como romances urbanos, destacam-se: A viuvinha (1860); Lucíola (1862); Diva (1864); Senhora (1875). Nos romances regionais podemos destacar: O gaúcho (1870); Til (1872); O sertanejo (1875). E nos romances indianistas, os principais foram: O Guarani (1857); Iracema (1865); Ubirajara (1874). Dentre os romances indianistas, Iracema é considerado o mais importante e é o romance de José de Alencar que abordaremos no presente artigo.
O romance Iracema foi escrito em 1865, contudo, as personagens da história, Iracema e Martin são heróis, Iracema índia guardiã do segredo da jurema e o mistério dos sonhos, e Martin guerreiro branco pelo qual a virgem se apaixona. Após um acidente, Martim é recebido pela tribo dos Tabajaras, onde vivia a jovem Iracema. Na trama, Iracema e Martim se apaixonam e fogem para viverem o amor proibido, juntos levam o guerreiro Pitiguara Poti, amigo que Martim considerava como irmão.
Ao perceberem a fuga, os Tabajaras perseguem os amantes travando um combate sangrento ao encontrá-los. Desesperados, os três vão para uma praia deserta, na qual Martim e Iracema constroem uma cabana. Mas, passando-se alguns tempos, Martim resolve ir guerrear junto com os Pitiguaras e com seu amigo Poti, deixando Iracema grávida na cabana. Antes de Martim voltar para a tribo, Iracema dá à luz a um menino. Após o parto ela fica gravemente debilitada e acaba morrendo. Martim chega logo depois e, ao ouvir o canto triste da Jandaia (ave que sempre acompanhava Iracema), presencia a tragédia. Ele retorna para sua terra natal levando o filho consigo. Porém, quatro anos depois, voltam para o Ceará, onde implantam a fé cristã.
Alencar fazia parte da primeira geração do Romantismo no Brasil. A primeira geração do Romantismo era caracterizada pelo Nacionalista–indianista as obras eram voltadas para a natureza, o regresso ao passado histórico e ao medievalismo, ou seja, o historicismo, a nostalgia de algo distante no tempo, a fuga do “eu” interior. Criava-se um herói nacional na figura do índio, de onde surgiu a denominação de geração indianista. Alencar, como um dos principais autores dessa geração. Nessas obras indianistas o escritor cearense recria o mito do bom selvagem de Rousseau em nosso indígena. Defensor da associação entre o nativo e o europeu colonizador, observa, nesse casamento, inúmeras vantagens para ambos os povos: enquanto aquele oferece a natureza virgem, este lhe dá, em troca a cultura. O produto dessa amálgama seria o Brasil independente.
O nosso Romantismo elegerá o índio como seu herói, entre outras coisas porque este podia ser representado como. O nativo legítimo do Brasil – aquele que desde sempre aqui viveu, e que lutou heroicamente contra os colonizadores estrangeiros. Nada melhor para um movimento literário nacionalista do que um herói que pode ser apresentado como um legítimo produto de nossa terra. (JOBIM, 2003, p. 100).
O presente artigo objetiva identificar o perfil da mulher no romantismo brasileiro, e a construção da identidade feminina. Em seu romance, Alencar nos mostra uma mulher pura e casta, que simboliza a beleza feminina, a honra da heroína que deixa sua tribo e seu segredo por um amor platônico. “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira”. Alencar (1865). Iracema foi o inicio do marco histórico da idealização da figura feminina na literatura brasileira, a mesma representava a cultura indígena e a submissão da mulher ao homem, exercendo papel de esposa e mãe.
Iracema representa a natureza, a colonização do Brasil o nome Iracema quer dizer “América”, ou seja, Alencar construiu um romance ficcional, pois Iracema é uma mistura de lenda com ficção, em que, no texto há a presença de dois heróis, Iracema e Martin. Um amor proibido, que nasce com o fogo ardente dos dois, o livro mistura a realidade à ficção, já que exalta a colonização e a miscigenação de índio e branco.
No Romantismo brasileiro, o Nacionalismo era uma das principais características da primeira geração, em que os autores usavam como tema de suas obras a exaltação da pátria, da nacionalidade. Nessa formação da nacionalidade incluem-se em primeiro lugar os romances que tratam do índio, suas lendas e mitos da terra selvagem e conquistada. Pois românticos da primeira geração entenderam que sua missão era fundar uma identidade brasileira. Constituindo-se, assim, as obras indianistas de José de Alencar e, Iracema como uma das mais importantes.
Durante o Romantismo, a figura feminina foi fonte de inspiração e peça fundamental em muitas obras. Para ressaltar esse caráter puro e majestoso da mulher, muitos autores chegavam até a atribuir características idealizadas à essas damas que remetiam a natureza. A virgindade e o sensualismo também eram bastante valorizados nas obras românticas. Tanto em pinturas quanto na literatura da época, muitas heroínas eram moças virgens e frágeis.
Com o passar do tempo, o modelo de mulher graciosa, delicada, bela, em resumo, perfeita, continuou sendo utilizado e está presente em muitas manifestações culturais contemporâneas, porém nem todos esses valores se mantiveram os mesmos. “A mulher, entre os românticos aparece convertida em anjo, em figura poderosa; inatingível, capaz de mudar a vida do próprio homem”. (PROENÇA, 1978, p. 186).
O Romantismo foi o primeiro movimento literário brasileiro da era nacional. A primeira geração destacou-se pela tentativa de adaptar, de maneira nacionalista, o Romantismo, exaltando a natureza exótica e exuberante do Brasil, bem como a beleza e inocência do indígena; na obra Iracema, Alencar representa essa beleza exótica, “a flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue e tronco onde se enlace” (ALENCAR, 1865. p.15). Neste trecho, o escritor está exaltando a beleza de Iracema comparando-a a uma “flor da mata”, ou ainda exaltando-a como “a virgem dos lábios de mel”. A nação que surgia com a independência buscava seus heróis formadores, os quais diferenciassem o nosso país das origens europeias.
Nem podemos esquecer o caráter sensual que existe no mel, esse grosso liquido tão característico dos trópicos. O mel, viscosos inclusive, pode também ser relacionado ao liquido vaginal, que é a fertilidade e a sensualidade por si mesma, sem vulgaridades, pois a vulgaridade é a malicia que, ao menos por convenção, existe nos homens chamados civilizados, mas o que temos aqui é, ao contrário, algo espontâneo, sem pretensões de o ser e até mesmo sem o perceber sensualidade totalmente relacionada a Iracema, mas não é uma sensualidade provocadora, é algo natural. (SILVEIRA, 2009, p. 77)
Com isso, Alencar enfatiza a beleza e a sensualidade natural da índia Iracema, bem como o sentimento puro e inocente despertado pela virgem dos lábios de mel. Beleza, pureza e sentimento estes que não existiam na população civilizada, como eram chamados os europeus colonizadores.
A índia é bela e formosa por si mesma, sem forçar isso, como prova o momento em que se banha no lago, ao lado de garças e jaçanãs, e as testemunhas do banho, por causa dela, batizam o lugar com o nome de Porangaba, o “lugar da beleza”. É uma sensualidade quase mítica, digna de uma deusa da floresta, aquela que chega até mesmo a estar acima dos fatores naturais, como pode-se perceber no início do romance. (SILVEIRA, 2009, p. 78)
José de Alencar buscou criar no Romantismo indianista uma nova identidade nacional, com isso, buscava suas bases no nativismo da literatura anterior a independência, no elogio á terra e ao homem primitivo. O poeta romântico está sempre buscando modificar a realidade, e a imaginação, criando assim um novo mundo de idealização e escapismo romântico, há o direcionamento em que, o poeta alarga em direção à pátria e o nacionalismo. A personagem Iracema, é a representação do ideal feminino, segundo Antônio Candido (1968, p. 24). A personagem é um ser fictício a imagem como a palavra tem a possibilidade de descrever e animar ambientes, paisagens e objetos. Haja vista, que a personagem de Iracema retrata o perfil da mulher romântica, daquela época, a mulher para casa-se tinha que ser virgem, pura e submissa ao homem. Antônio Candido afirma que:
A força das grandes personagens vem do fato de que o sentimento que temos da sua complexidade é máximo; mas isso, devido à unidade, à simplificação estrutural que o romancista lhe deu. Graças aos recursos de caracterização, isto é, os elementos que o romancista utiliza para descrever e definir a personagem, de maneira a que ela possa dar a impressão de vida, configurando-se ante o leitor. (CANDIDO, 1968, p. 26).
Alencar descreve muito bem a força de sua personagem Iracema, pois quando o leitor faz uma leitura minuciosa desta obra, identifica os traços de realidade existentes em Iracema, todavia, este leitor deve buscar logo a interpretação de maneira sutil, dando vida às personagens históricas, ou seja, que realmente existiram e fizeram parte da História do Brasil. No romance Iracema há a presença de dois gêneros literários, o lírico e o épico, evidenciados no texto, também a exaltação da natureza vegetal, animal e humano, com isso no inicio do romance temos.
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. (ALENCAR, 1865. p.7).
Além da exaltação feminina no romance, Alencar exalta a fauna e a flora típica do cenário romântico, Iracema “Virgem dos lábios de mel”, idealização feminina e representação da natureza, bela e pura igual à fauna brasileira e o idealismo. Iracema pode ser considerada a personagem símbolo da terra que, pelos seus encantos, seduz o estrangeiro que vem ao Brasil a ficar em suas terras.
Martim se apaixona pelos seus encantos e resolve ficar, no entanto, Iracema não poderá ser sua, a virgem filha de Araquém consagrará a sua virgindade ao deus, sendo guardiã do segredo de jurema e o mistério dos sonhos. A índia fabricava para o pajé a bebida de tupã, e o guerreiro que possuísse a virgem de Tupã morreria. O romance de Iracema é contemporâneo da posteridade, pois, é lembrado para sempre e vive na época presente, tornando-se uma obra atual, segundo Barbieri (2013. p. 29) “José de Alencar irrompe na cena literária brasileira de maneira estrepitosa e ativa, sem Alencar não teríamos romance brasileiro”. A mulher na obra de Alencar é vista como um símbolo da natureza, Iracema diferente das obras Lucíola e Senhora únicos livros de Alencar em que a mulher se defronta com homem de forma igual, ambas se destacam pela dignidade feminina.
As conquistas da mulher perante a sociedade foram muito significativas, a mulher daquela época era submissa ao homem, vista que a sociedade tinha preceitos machistas e preconceituosos, devido aos costumes da época, essas mulheres defrontavam a mesma dignidade masculina. Já Iracema, tem um perfil diferente dessas duas mulheres citadas acima, ela é uma heroína, que se prende ao amor que sente por Martin e em consequência desse amor platônico ela acaba morrendo de saudades deixando seu filho, Moacir, fruto desse amor e da miscigenação brasileira.
A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, pôde erguer o filho nos braços e apresenta-lo ao pai, que o olhava extático em seu amor. Recebe o filho de teu sangue nos braços. Era tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhes! Pousada a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu, como a jetica se lhe arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha consumido seu belo corpo; mas a formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá. (ALENCAR, 1865. Pág. 68).
O amor da bela Iracema pelo estrangeiro era tão grande que a saudade acabou-lhe a vida. O romance de Alencar nos mostra a submissão do índio ao branco, a mulher romântica que sente a falta de seu amado e não consegue viver longe desse amor. Diferente das mulheres contemporâneas, que ao longo da história deixaram um pouco de ter essa submissão, e conseguiram a própria autonomia.
Alencar buscou idealizar a figura feminina, e não reproduzi-la. O amor do romancista é angelical, puro, idealizado; a mulher é vista como um ser intocável, um anjo, símbolo da perfeição, a mais bela e virgem, havendo assim, a idealização da figura feminina. “Iracema a virgem dos olhos negros”, para tanto, caracterizando o retrato da figura feminina nas obras literária de Alencar, predomina um estilo romântico a idealização da mulher e do amor em que o autor realça o seu lirismo amoroso, pela mulher.
Segundo Almeida Prado (1968. p. 44), “a obra literária é um prolongamento do autor, uma objetivação do que ele sente possuir de mais íntimo e pessoal”. Sendo assim, o autor é o retrato de sua obra literária, um marco na literatura brasileira. Alencar é reconhecido como maior poeta escritor do romantismo ele se preocupou com o nacionalismo brasileiro.
Ao longo do tempo a mulher foi construindo uma identidade feminina, lutando pelos seus direitos igualitários perante a sociedade. Em suas obras Alencar buscou sempre definir a mulher nesse perfil: guerreira, forte, decidida, heroína que luta pelos seus ideais. Na obra Iracema, ela trai sua família e tribo, para viver um amor com o estrangeiro, amor esse que não era permitido.
As águas do rio banhavam o corpo casto da recente esposa. Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.
Iracema te acompanhará, guerreiro branco; porque ela já é tua esposa. O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem. A filha do pajé traiu o segredo da jurema. (ALENCAR, 1865. p. 34; 37).
Iracema torna-se esposa de Martin traindo seu povo para ficar ao lado do guerreiro. O escritor romântico, enfatiza a decisão da virgem que preferiu lutar pelo seu objetivo, ao se curvar diante de seu povo, a força e a beleza de Iracema representa a mulher. José de Alencar tem como objeto de criação a personagem feminina Iracema, o comportamento dessa personagem não se limita ao de mulheres idealizadas para os padrões morais e intelectuais daquela época, ele buscou sintetizar o nacionalismo através de sua personagem indígena transformando todo seu conhecimento da terra em poesia.
Todavia, a mulher tratada nos romances de Alencar é digna, santa, forte, para Alencar (1865, p.55) “As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã amolece a terra”, nesta citação o autor exalta a mulher, havendo assim duplo sentido, em que a mulher pode conseguir várias coisas com suas lágrimas, o poder de convencimento da figura feminina perante o homem. Alencar idealiza Iracema tornando-a sempre melhor, usando certa superioridade ao compará-la com a natureza nacionalista.
“A virgem dos lábios de mel” representa todo o imaginário indígena, a beleza natural dessa cultura e Martim traz a figura do branco colonizador, que é também guerreiro, assim como o índio, e igualmente forte, se comparado a ele. Havendo assim, uma igualdade entre homem e mulher, não fazendo distinção entre as duas culturas, pois, Iracema é quem toma todas as atitudes de seguir o guerreiro, mulher valente que se disponibiliza a enfrentar tudo, pelo desejo de seu amor.
A sombra de Iracema não esconderá Iracema à vingança de irapuã. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.
O amor de Iracema é como vento dos areais; mata a flor das árvores: suspirou a virgem. E afastou-se lentamente. (ALENCAR, 1865, p. 18).
Assim, Iracema vai construindo uma identidade feminina da mulher protetora guerreira, que não tem êxito em lutar. O amor que a virgem sente, é imenso que chega a ser submissa a Martin, seu esposo.
O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos de sol guarda para seu guerreiro, na taba dos brancos, mel da açucena. (ALENCAR, 1865 p. 19).
Por outro lado, a índia é encantadora e com sua beleza consegue conquistar o coração do jovem guerreiro, Alencar refere-se à Iracema, como ela sendo também sedutora e conduz o homem a cometer certas atitudes em consequência desse amor. Iracema é uma mulher forte, dona de sua vontade, porém, se destrói doente de ciúmes, insegurança e saudades de Martim, o grande amor de sua vida, que por conta disso acaba sua vida, mostrando assim o lado fraco da mulher, que sente falta e depende do marido.
É o ciúme que fala mais alto, é o medo de perdê-lo para outra, ou seja, a insegurança faz com que Iracema deixe de comer e fique fraca e o sentimento à flor da pele quando se deixa abater pelas dores do coração a índia acaba morrendo, e dessa dor nasce seu filho Moacir, primeiro filho de branco e índia.
Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento. A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacir; e desde então a ave amiga unia em seu canto ao nome da mãe, o nome do filho. O inocente dormia; Iracema suspirava. Tua mãe também, filho de minha angustia, não beberá em teus lábios o mel de teu sorriso. A jovem mãe passou aos ombros a larga faixa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rasto do esposo, que há três sóis se partira. (ALENCAR, 1865, p. 63).
A jovem mãe, com angustia de seu amado que não volta, se põe ao desespero, Alencar, defronta uma mulher, guerreira, que luta pelo que considera certo, transformando-a em mulher insegura que fica á espera de seu amado e refém desse amor que acaba por destruí-la. O seu filho é quem sustenta Iracema, até Martin retornar e tomá-lo em seus braços.
Da mesma forma que Iracema se sacrifica pelo amor de Martim, gerando o herdeiro Moacir, e a mulher se sacrifica para o homem no sistema social patriarcal, não apena no Brasil, mas a América Latina como um todo se sacrifica para a Europa. Ela dispõe ao colonizador a fertilidade da sua terra, a diversidade de seus recursos, para que o europeu “sobreviva”, ao mesmo tempo que, a partir desse contato, é formada a civilização, de características especiais, juntando parte das duas culturas. Assim, mais ainda do que louvar a simplicidade do indígena, Alencar representou a fusão dos elementos branco e índio na formação de nossas particularidades. (SILVEIRA, 2009, p.78)
Ou seja, Alencar idealiza tanto a imagem feminina que a personagem Iracema representa, além da sensibilidade e beleza indígena, a própria história do Brasil, da relação europeia/indígena na construção histórica das nações. Até o próprio nome Iracema, representa a palavra América, representando a fusão dos elementos e a formação e caracterização da mistura dos povos indígenas e europeus.
No romance Iracema, de José de Alencar encontramos a influência de dois gêneros literários: o lírico e o épico. O lírico é evidenciado pela prosa poética, com elementos sonoros, com a segmentação das frases e repetição dos sintagmas, das imagens sugestivas, das metáforas delicadas, das comparações entre elementos animais, vegetais e humanos, e também presença de outros recursos retóricos próprios de gênero lírico. Os aspectos épicos do romance estão relacionados com o assunto: o narrador anuncia que está relatando. Esta história é a lenda de Iracema, “a virgem dos lábios de mel”. Tal lenda no seio do povo nordestino a partir da luta pela colonização do Ceará e de outras regiões do nordeste brasileiro, no início do século XVII (D’ONOFRIO, 1990).
Em suas obras José de Alencar, em geral, idealiza a mulher como um ser amável, que busca lutar pelos seus ideais. Iracema luta contra todos e rompe com seus valores familiares para ficar com seu grande amor. Ela descumpre as leis do seu povo, não tem medo de ninguém, enfrentando seu deus e defendendo seu amado, mostrando assim, uma atitude de mulher guerreira e valente. Iracema inovou o perfil feminino daquela época, pois a sociedade antigamente era preconceituosa, as mulheres teriam que ser submissas ao marido e/ou a sua família, e Iracema rompe, com esse tradicionalismo, tornando-se independente para fazer sua própria escolha.
Alencar enfatiza, também, a beleza feminina representada pela bela índia de cabelos longos e negros, ou seja, a mulher representa a natureza, forte, pura, guerreira. Os poetas românticos idealizavam os índios como bons selvagens, cujos valores heroicos tomavam como modelo de formação do povo brasileiro. O conceito de indianismo no romantismo brasileiro seria que, os poetas visavam o índio como modelo ideológico e selvagem, um ser puro sem maldades, sem ambição ou qualquer interesse em adquirir riqueza (JOBIM, 2003), Alencar descreve em suas obras o perfil indianista.
No entanto, ao mesmo tempo Iracema é uma mulher frágil que se apega a esse amor, que sente ciúme e insegurança por medo de perder o grande amor e acaba morrendo de desgosto e saudade ficando apenas seu filho Moacir, “o filho de sua dor”, para seu amado cuidar. Iracema é forte, dona de sua vontade, mas se destrói doente de ciúmes e saudade de Martim, o grande amor de sua vida. É o ciúme que fala mais alto, é o medo de perdê-lo para outra, é o sentimento à flor da pele quando se deixa abater pelas dores do coração ela acaba morrendo tornando-se personagem do romantismo, já, que a mesma sofre por alguma ilusão e em consequência desse sofrimento morre. Por outro lado, Iracema é uma mulher romântica, mas que luta pelos seus ideais e sonhos. Traçando, assim o perfil da mulher idealizada do movimento romântico.
Referências
ALENCAR. José de. Iracema. 5 ed. Jaraguá do Sul-SC: Avenida, 2012.
BARBIERI. Ivo. Iracema contemporâneo da posteridade? São Paulo: Realizações, 2013.
CANDIDO. Antônio. A personagem de ficção. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.
D’ONOFRIO, Salvatore. A época romântica da Era Moderna. In: ______. Literatura ocidental: autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1990.
JOBIM, José Luís. Formas da teoria. 2 ed. Rio de Janeiro: Caetés. 2003.
PRADO. Decio de Almeida. A personagem no teatro. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.
PROENÇA FILHO, Domício. O romantismo. In: ______. Estilos de época na literatura. 5. ed. rev. e aum. São Paulo: Ática, 1978.
SILVEIRA, Cássio. Iracema e a graciosa Ará: as metáforas e comparações entre personagens e natureza em “Iracema”. 2009. 190 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
Bio fornecida pelo palestrante.
Sandra Sacramento
Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus
RESUMO: Pretendo, neste texto, ler as personagens Paraguaçu e Moema da epopeia Caramuru (1781) de Santa Rita Durão e Iracema (1865), de José de Alencar; à luz dos ensaios Dos canibais (1584) de Montaigne, Do contrato social (1762) e Emílio (1762) de Rousseau, em atenção ao delineamento da alteridade do índio no Novo Mundo (em Durão), e em especial da mulher (em Durão e Alencar). Em contraponto, cita-se a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), da escritora Olympe de Gouges, e o feminismo da terceira onda, quando este incorpora severa crítica à tradição ocidental.
Palavras-chave: Personagem feminina; Razão; Alteridade; Santa Rita Durão; José de Alencar.
ABSTRACT: Paraguaçu, Moema and Iracema: reason and forgetfulness has as its main goal the reading of the characters Paraguaçu and Moema, in the poem Caramuru (1781), by Santa Rita Durão, and the novel Iracema (1865), by José de Alencar. The article will be based on the essays Dos canibais (1584), by Montaigne, and Do contrato social (1762) and Emílio (1762), by Rousseau. It draws attention to the otherness of the Indians in the New World (in Durão) and especially the otherness of the woman (in Durão and Alencar). In addition, the Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), by the woman writer Olympe de Gouges will be compared to the feminism of the third wave when it brings a severe criticism to the Western tradition.
Key words: Female character; Reason; Otherness; Santa Rita Durão; José de Alencar.
Minicurrículo : Sandra Sacramento é Doutora em Letras (Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). Atualmente, é professora titular (plena) em Teoria Literária, na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), onde coordenou o Programa em Letras: Linguagens e Representações, aprovado pela Capes, em 2007, e atua como membro efetivo do referido Programa. Desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Poitiers, na França, com a Profa. Dra. Ria Lemaire, em 2012-2013. É membre associé étranger do Centre de Recherches Latino-Américaines – ARCHIVOS, da Université de Poitiers, France, do GT Mulher e Literatura da ANPOLL e da Rede de Estudos Avançados em Leitura – RELER, grupo ligado à Cátedra UNESCO de Leitura da PUC/Rio.
PARAGUAÇU, MOEMA E IRACEMA:
RAZÃO E ESQUECIMENTO
Sandra Sacramento
Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus
A tradição ocidental estruturou-se em bases racionais presos ao modelo da analogia. Diante do Novo Mundo, o europeu, quase sempre, ao lidar com o outro, muniu-se do princípio da similitude que o antecedia, trabalhando para a manutenção da imago mundi, isto é, mapa cartográfico, escrito em 1410, pelo teólogo francês Pierre d’Ailly, sobre o mundo além do continente europeu. Ainda que filósofos como Montaigne e Rousseau tenham escrito em favor da alteridade, esses não ficaram distantes da concepção monística, ou seja, teoria do conhecimento que dissolve os fenômenos, os acontecimentos em um apriorismo, que refuta a multiplicidade e a contingência. Neste texto, persigo os desencontros experimentados entre textos literários e filosóficos frente ao novo e desconhecido, no que diz respeito basicamente à mulher índia. Pelo recorte a que me proponho, essa traz o alcance dos primeiros contatos do colonizador com a terra brasileira e sua gente, em que o sentimento amoroso despertado nas índias Paraguaçu e Moema de Caramuru de Santa Rita Durão e Iracema de José de Alencar, é capaz de se colocar submetido ao domínio cultural trazido pelo forasteiro. O modelo que se faz de pronto é o inspirado na Virgem Maria e depois na mulher burguesa, mãe de família, responsável pela esfera do privado, em eterna imanência; enquanto o homem responde pelo público, pelo político, por estar melhor adaptado segundo sua natureza (ROUSSEAU, 1755).
As índias Paraguaçu e Moema, da tribo dos antropófagos Tupinambá, são personagens da epopeia Caramuru de Santa Rita Durão, que se apaixonam pelo lusitano Diogo Álvares, náufrago na Ilha de Itaparica, no litoral baiano. É composta de X cantos, à maneira camoniana, de cunho propagandístico em louvor às grandes descobertas. No Canto II, ocorre o encontro entre a índia e Diogo. Paraguaçu é uma autóctone, de pele branca com traços finos e suaves. Apesar de não amar Gupeva, está na tribo por ter-lhe sido prometida. Como sabe a língua portuguesa, vai ao encontro de Diogo e apaixonam-se:
LXXXI
Deseja vê-lo o forte lusitano,
Por que interprete a língua que entendia;
E toma por mercê do céu sob’ramo
‘Ter como enteada o idioma da Bahia.
Mas, quando esse prodígio avista humano,
Contempla no semblante a louçania:
Pára um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo.
LXXXII
Só tu, tutelar anjo, que o acompanhas,
Sabes quando a virtude ali se arrisca,
E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Essa de insano amor doce faísca;
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias que nem na morte o tempo risca),
Que houvera de perder-se naquela hora,
Se não fora cristão, se herói não fora
LXXXV
Bela (lhe disse então), gentil menina,
(Tornando a si do pasmo, em que estivera)
Sorte humana não é, mas é divina,
Ver-me a mim, ver-te a ti na nova esfera.
Ela a frase, em que falo aqui te ensina;
Ela, se não me engana o que alma espera,
Um fogo em nos acende, que de resto
Eterno haja de arder, se arder honesto.
No Canto IV, ocorre a guerra entre Tupinambás, liderada por Gupeva, tendo a ajuda de outras tribos, como os Tupiniquis, Viatanos, Poquiguaras, Tumimvis, Tamviás, Canucajaras; contra os Caetés, liderada por Sergipe, tribo de Jararaca, com a ajuda de outras nações, como os Ovecates, Petiguares, Carijós, Agirapirangas e Itatise. Tal contenda se deve ao fato de Paraguaçu se encontrar prometida a Gupeva, mas Jararaca não aceita perder a índia para o último e se torna amigo de Diogo Álvares. O narrador faz elogios explícitos às tribos inimigas aos Tupinanbás, também antropófagas, por sua bravura, e, especialmente, em atenção às mulheres tapuias pela destreza na guerra:
XXVII
Quarenta mil de cor todos vermelha
Conduz ao campo o forte Sapucaia:
Dez mil, que têm furada a longa orelha,
São Amazonas de femínea laia:
É o amor conjugal que lhe aconselha
A descer dos sertões à vasta praia,
Por achar-se nos lances mais temidos
Ao lado, sem temor, dos seus maridos.
XXVIII
Brasa matrona de coragem cheia
A quem o márcio jogo não perturba,
Na forma bela, mas por arte feia,
Vai comandando na femínea turba:
Deram-lhe o nome os seus da grã-baleia,
Nome que, ouvido, os bárbaros disturba,
De namorados uns que a têm por bela,
Mas outros com mais causa por temê-la.
Nesta, Paraguaçu luta e vai acabar salvando o seu amor. Ainda no Canto IV, também Paraguaçu luta contra os Caetés e salva Diogo da morte:
XLVI
Paraguaçu, que de Diogo esposa
(Por que mais Jararaca se confunda)
Ia a seu lado a combater briosa,
Nem teme a multidão que o campo inunda:
Usa com ela a tropa belicosa
Da vulgar seta, do bodoque e funda
Leva a Amazona um rígido colete,
E coa espada de ferro o capacete.
No Canto VI, Diogo participa da guerra, da qual sai vitorioso. Por tal feito, muitos chefes indígenas lhe trazem suas filhas em agradecimento.
II
Muitos deles, dos povos subjugados,
Que o efeito viram da terrível chama,
Outros vinham somente convocados
Das heróicas ações, que conta a fama;
Trazem plumas e bálsamos prezados,
E outra rude opulência, que o povo ama,
E com os dons da americana Ceres
Oferecem-lhe as filhas por mulheres.
Moema é também conduzida:
IV
Tuibaé, dos Tapuias chefe antigo,
Tiapira lhe oferece celebrada;
E com a mão da filha deixa amigo
Uma ilustre aliança confirmada.
Xerenimbó trazia-lhe consigo
A formosa Moema já negada
A muitos principais, por dar-lhe esposo
Digno do trono de seus pais famoso.
Entretanto, Diogo prefere Paraguaçu:
VI
Paraguaçu, porém, com fé de esposo
Parecia estimar distintamente,
Mostrando-lhe no afeto carinhoso
A sincera afeição que n’alma sente:
Amava nela o peito valoroso,
E o gênio dócil, com que à fé consente;
Amor que ocasionou, como é costume,
Em algumas inveja e noutras ciúme.
No primeiro contato que Diogo tem com Gupeva, no Canto II, esse se apresenta solícito à doutrinação religiosa, pois, em uma gruta, reconhece a beleza da Virgem Maria.
XXVII
Mas entre objetos vários a que atende
Nota Gupeva extático a pintura
Que num precioso quadro, que ali pende,
Representava a Mãe da formosura:
Se seja coisa viva não entende,
Mas suspeitava bem pela figura
Digna a pessoa, de que a imagem era,
De ser mãe de Tupá, se ele a tivera.
XXVIII
“Esta (pergunta o bárbaro) tão bela,
Tão linda face, acaso representa
Alguma formosíssima donzela,
Que esposa o grão-Tupá fazer intenta?
Ou porventura que nascesse dela
Esse que sobre os céus no sol se assenta?
Quem pode geração saber tão alta?
Mas se há mãe, que o gerasse, esta é sem falta.”
XXX
Peçamos, pois que é mãe, que nos defenda,
Que te dê para ouvir dócil orelha
E contigo o teu povo recomenda. »
Dizendo o herói assim, devoto ajoelha.
Gupeva o mesmo faz com fé estupenda
E pendente de Diogo, que o aconselha,
Levanta as mãos, como ele levantava,
E, vendo-o lacrimar, também chorava.
No Canto VI, Diogo ergue uma capela em uma gruta, visando à catequese.
VIII
E, estando o sol no seu maior aumento,
Quanto sítio no ardor busca sombrio,
Numa lapa, que esconde alto mistério,
Foi achar para a calma o refrigério
XII
Capela ali se vê de entalho nobre,
Obrado com desenho estranho e vário,
Onde, efigiado em mármore, se cobre
Um natural belíssimo Calvário;
Vê-se a base da cruz, mas nada sobre,
De jaspe ainda melhor que Egízio, ou Pário,
E ao lado um posto em proporção distinta,
Onde a mãe e discípulo se pinta.
XIV
Eis aqui preparado (disse) o templo,
Falta n fé, falta o culto necessário;
E quanto era de Deus, feito contemplo
Tudo o que é de salvar meio ordinário.
Desta intenção parece ser exemplo
Este insigne prodígio extraordinário,
Onde parece que no templo oculto
Tem disposto o lugar e espera o culto.
Ainda no Canto VI, Diogo parte com Paraguaçu para a Europa em um barco francês; e, na saída da nau, as índias que foram preteridas por Diogo Álvares, acorrem ao mar na intenção de acompanhá-lo a nado; mas somente Moema consegue chegar mais perto e declara seu amor ao português:
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
Moema desabafa e clama por um homem que ela não encontra em Diogo, cujo modelo também não é o do indígena:
XXXVIII
“Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Faziam, raios, coriscos, que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco…
Ah que o corisco és tu… raio… penhasco?
XLI
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio… »
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
Não mais resistindo…
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
Mas, ainda brada:
“Ah Diogo cruel!” disse com mágoa,
E, sem mais vista ser sorveu-se n’água.
Tal como Moema, Iracema também morre. Perguntamo-nos se não estaria aí a chave para o entendimento de uma proposta mais equânime para a colonização e, consequentemente, para a relação estabelecida entre o homem/ branco/ europeu e o outro homem/ indígena/ do Novo Mundo; ou entre o primeiro e a mulher/ indígena/do Novo Mundo? No Canto VII, Paraguaçu, ao ser recebida na Corte pelos reis franceses, é batizada e recebe o nome da rainha Catarina de Médici, esposa de Henrique II. No Canto VIII, na viagem de volta ao Brasil, sem antes parar em Portugal, Paraguaçu descreve a Bahia com suas terras, engenhos e fortalezas; e profetiza o futuro do Brasil, as invasões francesa e holandesa, sempre em favor das tropas portuguesas. E, em seguida, a empreitada colonizadora se adensa, confirmando o que já havia sido anunciado nos Cantos II e VI, acerca da catequese e da imposição de um modelo feminino espelhado à luz mariana. A volta do casal encontra-se narrada nos Cantos, VIII, IX e X.
Nestas narrativas, sobressai o imaginário europeu sobre o Novo Mundo, com sua gente e sua natureza, apoiando-se em uma gama de referências, que justificam a empreitada expansionista; ainda que, muitas vezes, ocorra a simpatia por aquela gente chamada de bárbara, diante da antropofagia, ou pelo fato de não identificar sinal de cobiça, entre os índios, como se confirma na estância a seguir, do Canto II.
XXVI
Acesa a luz na lôbrega caverna,
Vê-se o que Diogo ali da nau levara;
Roupas, armas, e entre parte mais interna
A pólvora em barris, que transportara,
Tudo vão vendo à luz de uma lanterna,
Sem que o apeteça a gente nada avara,
Ouro e prata, que a inveja não lhe atiça;
Nação feliz, que ignora o que é cobiça!
Aqui o colonizador, na voz do narrador, louva a ausência de cobiça no índio. Da mesma forma que, em Iracema, de José de Alencar são enaltecidos os valores cultivados pelos índios, mas, em grande medida, o que prevalece é o modelo do colonizador. Em relação à mulher, por exemplo, era esperada a submissão ao homem, (tal como aparece em Emílio, publicado inicialmente em 1762, por Rousseau, acerca do comportamento esperado para Sofia): – Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araquém (p.176); – Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor (p. 184); – O coração da esposa está sempre alegre junto de seu guerreiro e senhor (p.190). O mesmo podemos dizer em relação a ela dentro do casamento, como se confirma nas palavras de Poti:
A felicidade do varão é a prole, que nasce dele e faz seu orgulho; cada guerreiro que sai de suas veias é mais um galho que leva seu nome às nuvens; como a grimpa do cedro. Amado de Tupã é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; ele nada mais deseja senão a morte gloriosa (ALENCAR, 2006, p. 203).
Tais prescrições comportamentais não são as indígenas, como o reconhecimento do homem como senhor de obras, esposa e filhos (BOURDIEU, 2000). Entretanto, a índia, quando comparada à europeia, é colocada como menos casta que aquela: – Martim se embala docemente; e, como a alva rede vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores (2006, p. 161). Montaigne, no ensaio Dos Canibais, de 1580, século XVI, em estilo pouco ortodoxo de lidar com a alteridade, recorre a recursos argumentativos que tendem ao enaltecimento do modus vivendi indígena, vendo o canibalismo como subordinado a um ritual, em que o vencido não era desrespeitado. Aliás, o mesmo posicionamento aparece em Durão, na estância XVIII, do Canto I:
XVIII
Que horror da humanidade! ver tragada
Da própria espécie a carne já corruta!
Quando não deve a Europa abençoada
A fé do Redentor, que humilde escuta!
Não era aquela infâmia praticada
Só dessa gente miseranda e bruta:
Roma e Cartago o sabe no noturno
Horrível sacrifício de Saturno.
Neste passo, o autor faz menção ao canibalismo ocorrido entre os lestrigões e os repártanos, povos da Roma antiga, bem como entre os fenícios e os cartagineses. Montaigne, por sua vez, munido de leituras sorvidas em passagens dos Commentaires de Monluc de 1561, com abonações também de Platão e de outros representantes da Antiguidade e mesmo de comentadores do período românico, não deixa de ressaltar as atitudes pouco humanas dos seus ancestrais conterrâneos anteriores à Idade Média. E, diante dos embates religiosos da Europa quinhentista, se indagava:
J’ai pensé qu’il y a plus de barbarie à manger un homme vivant, qu’à le manger mort; à déchirer par tourments et par genes, un corps encore plein de sentiment, le faire rotir par le menú, le faire mordre et meurtrir aux chiens, et aux pourceaux (comme nous l’avons non seulement lu, mais vu faiche mémoire, non entre des ennemis anciens, mais entre des voisins et concitoyens, et qui pis est, sous prétexte de piété et de religion) que de le rotir et manger après qu’il est trépassé (MONTAIGNE, 2002, p. 366,367).
[Pensei que há mais barbárie em devorar um homem vivo do que assá-lo e devorá-lo depois de morto; em despedaçar suas carnes por tormento e tortura, em um corpo ainda repleto de sentimento, incorporado ao cardápio, mordido e machucado por cães e porcos (como não apenas lemos, mas vimos recentemente, não entre antigos inimigos, mas entre vizinhos e concidadãos, e o que é pior ainda, sob o pretexto de piedade e de religião) (MONTAIGNE, 2002, p. 366, 367) (tradução minha)].
Colocando, assim, em discussão, a suposta racionalidade europeia, tendo sido visto por Lévis Strauss como afeito ao pensamento do que seria a antropologia posteriormente. Por isso, quando se refere ao relacionamento entre os índios com suas mulheres, coloca-os sempre numa dimensão humana, que crê no transcendente. Para os índios, havia dois preceitos sagrados: la vaillance contre les ennemis, et l’amitié à leurs femmes [a vigilância contra os inimigos e a amizade às suas mulheres]. Enquanto os homens se ocupavam da caça, as mulheres permaneciam na tribo e s’amusent cepandant à chauffer leur breuvage, qui est leur principal office [divertindo-se durante a fermentação de sua bebida, cuja elaboração é a sua principal função na tribo] (MONTAIGNE,2002, p. 364). Ao colocar o índio como humano, detentor de valores, Montaigne dá sinais de uma teoria que posteriormente será defendida por Rousseau, o monogenismo, isto é, de que todo ser humano nasce igual, em estado de natureza, apto à perfectibilidade, ao aperfeiçoamento; não sendo a civilização europeia melhor, pois detectavam-se problemas nesta, e chama a atenção para uma humanidade una, entretanto, múltipla em seu desenvolvimento, em seus caminhos escolhidos. Em O contrato social (1762), no capitulo II, Des premières sociétés, logo no início, vai dizer: la plus ancienne de toutes les sociètés et la seule natirelle est celle de la famille (ROUSSEAU, 2011, p.10). E, depois, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da diferença entre os homens (1775) coloca a vontade geral, instância de Liberdade, como corpo soberano dos cidadãos.
(…): o pacto fundamental, em lugar de destruir a igualdade natural, pelo contrário substitui por uma igualdade moral e legítima aquilo que a natureza poderia trazer de desigualdade física entre os homens, que, podendo ser desiguais na força ou no gênio, todos se tornam iguais por convenção e direito (ROUSSEAU, 1762/1989, p. 28) (tradução minha)
Tanto Santa Rita Durão, quanto Montaigne se baseiam em textos publicados anteriormente, de literatura de viagem, como Les Singularitées de la France antarctique de 1557 e Cosmographie Universalle de 1575, ambos de André Thevet; além da Histoire d’un voyage faiten terre de Brésilde 1578 de Jean de Léry. Os dois últimos participaram da expedição de Villegagnon, quando da invasão francesa no Rio de Janeiro. Mas tal raciocínio ocorre pela própria dificuldade enfrentada pelo filósofo em dirimir, basicamente, o interesse, princípio que rege a vida em sociedade. Rousseau, ao afirmar que «O homem (= humanidade) nasce livre, mas por toda parte encontra-se posto a ferros», coloca um dispositivo aplicável a qualquer ser humano e, ao mesmo tempo, limita a escolha por voto, no sistema democrático, a uma minoria, tida como maioria, deixando a maioria, vista como minoria, sempre sem voz, em nome do bem comum; porque o Estado, em síntese, encerra o interesse de todos. Logo, a própria engrenagem política está impossibilitada de atender a todos, instaurando-se assim a alienação, isto é, tornam-se o outro a partir do olhar do mesmo; não havendo possibilidade de intervir na ordem social, experimentando o rechaço, independente do gênero a que pertença. Por isso, feministas como Olympe de Gouges, entre outras, se insurgiram contra a noção rousseriana da vontade geral, porque perceberam que tanto o escravo quanto a mulher encontravam-se submetidos à hierarquização dos pares dicotômicos da razão iluminista; ainda que a República francesa tenha-se utilizado, em bustos, medalhas, moedas e pinturas da Marianne, figura emblemática da mulher do povo, como forma de disseminação representativa do credo liberal; mas, na prática, a mulher foi usurpada da cidadania e restou-lhe somente a sublimação simbólica de uma exclusão de fato (AGULHON, 1979). Assim, a mulher, como outras minorias, foi deixada em posição inalterada, tidas como moralmente neutras (DUMONT, 1966). Hoje, por outro lado, vivemos na era do desencanto em relação a qualquer relato, colocando por terra a crença no progresso, na superação, pois esses não foram alcançados no passado, na medida em que o protocolo de ação encerrava-se no domínio da natureza e de humanos sobre outros humanos. Resta-nos, reivindicar em processo simbólico de negociação, relações de gênero mais equânimes, rumo ao empoderamento, não a partir de um paradigma imposto, à luz de interesses que não nos dizem respeito, como ocorreu no passado com Paraguaçu, Moema e Iracema, mas, em contexto cuja representação de gênero esteja atravessada pelo cognitivo (da razão das sombras), pelo avaliativo (do querer) e pelo afetivo (do psíquico), como fatores psicossociológicos ligados à prática relacional da comunicação, indo muito além do binarismo do ou, ou; como nos fala Butler:
A tarefa crucial do feminismo não é estabelecer um ponto de vista fora das identidades construídas (…). Sua tarefa crucial é, antes, a de situar estratégias de repetição subversiva facultadas por essas construções, afirmar as possibilidades locais de intervenção pela participação precisamente nas práticas de repetição que constituem a identidade e, portanto, a possibilidade imanente de contestá-las (BUTLER, 2008, p. 212).
Portanto, ao entender a agência, como um processo de ressignificação mediada, essa se apresenta de modo contrário ao essencialismo racional e acena, por isso mesmo, com uma outra forma de a mulher estar no mundo. Somente assim, Olympe de Gouges poderá ser atendida em sua Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, de 1791.
Considerações finais:
Os gregos chamavam de bárbaros aqueles que não falavam o grego. Tal comportamento humano coloca em evidência a dificuldade em lidar com a diferença, sempre uma ameaça a uma ordem instituída. Por isso, os povos não europeus foram esquadrinhados à luz de uma racionalidade que se queria eterna, sempre tendo o modelo anterior do que fosse cultura, homem, mulher em analogia ao previamente estabelecido. E não foi sem dificuldade assim o olhar europeu posto sobre o habitante do Novo Mundo. Ainda que Montaigne e Rousseau tenham se colocado, a princípio, como defensores de uma ordem natural, contrária à civilização, esses acabaram endossando a manutenção de papeis hierarquizados prévios como civilizado/bárbaro, homem/mulher. Tal princípio epistemológico-interpretativo estruturou a imago mundi, isto é, a imagem discursiva que se tem do mundo, de que esse deve ser como é, marcada por uma necessidade, por uma lógica interna que elimina a contingência, a multiplicidade; isso porque ocorre a absolutização do espaço, em favor do tempo, em sua perspectiva continuísta. Desse modo, nega-se a possibilidade de ruptura no tecido da tradição, fazendo com que os episódios, os acontecimentos, as histórias se fundam numa única História. Logo, restou às índias Paraguaçu, Moema e Iracema a submissão e a vassalagem na medida em que a primeira teve de se adequar à imposição colonizadora para ser aceita no imaginário estabelecido previamente para ela; enquanto as duas seguintes encontraram a morte como recompensa à empreitada expansionista, em que a relação de gênero estabelecida com o forasteiro esteve, antes, atravessada pelo domínio cultural.
Referências:
AGULHON, M. Marianne au combat. L’imagerie et la symbolique républicaines de 1789 à 1880. Paris: Flammarion, 1979.
AILLY, P. D’. Imago mundi [Reprod.]. Louvain: J. de Paderborn, 1483. Disponível em: <http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb40223090r/PUBLIC> Acesso em: 20 out 2014
ALENCAR, J. Iracema: lenda do Ceará. Cotia (SP): Ateliê Editorial, 2006.
BOURDIEU, P. La dominación masculina. Traducción de Joaquín Jordá. Barcelona: Editorial Anagrama, 2000.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
DUMONT, L. Homo hierarchicus. Essai sur le système des castes. Paris: Gallimard, 1966.
GOUGES, O. Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791). Paris: Mille et Une Nuits, 2003.
MONTAIGNE. Des Cannibales (1584). In: Essais. Livre Premier. Paris: Librairie Générale Française, 2002.
ROUSSEAU, J-J. Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes (1753). Paris: Flammarion, 1971.
ROUSSEAU, J-J. Du contrat social (1762). Livres I et II. Paris: Hatier, 2011.
ROUSSEAU, J-J. Émile ou de l’éducation (1762). Paris: Flammarion, 2009.
SANTA RITA DURÃO. Caramuru (1781). Virtual Book: Formato: e-book/ PDF-Código: VBOCARAMURUPOEMAEPICO© Virtuais Books, 2002.
Bio fornecida pelo palestrante.
Helena Maria Alves Moreira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
RESUMO: Este artigo tem como perspectiva identificar as representações da mulher, seus costumes, suas tradições, seus pertencimentos, através das figuras femininas das personagens que Afrânio Peixoto imprimiu em seus romances. Também são abordados aspectos da educação das mulheres no início do século XX, e sua influência nas transformações socioculturais ocorridas desde então, com ecos na literatura brasileira. O tema desta pesquisa é o estudo da obra literária de Afrânio Peixoto sobre gênero literário – os romances regionais – com um olhar voltado para as personagens femininas de seus romances. É relevante refletir sobre a representação e a valorização da mulher no seu cotidiano feminino naquela e em outras épocas ou regiões do Brasil, para que possamos revisar obras já consagradas pela literatura brasileira, na intenção de reconstruir o passado, numa singela tentativa de identificar a pluralidade da identidade feminina. Este desafio a um tempo nos remete ao passado e o liga ao presente.
Palavras-chave: Afrânio Peixoto; Literatura Brasileira; Representações da Mulher; Século XX
ABSTRACT: This article proposes to identity representations of women, their customs, their traditions, their belongings through the characterization made by Peixoto in his novels. It will also discuss aspects of women’s education in the beginning of the 20th Century and its influence on the social-cultural transformations then occurred which had echoes on Brazilian literature. The theme of this research is the literary work of Peixoto on literary genre – the regional novels – with a special regard to his female characters. It is relevant to think on the representation and empowerment of women and their actions in everyday life in different epochs and regions of Brazil. This enables us to revise the canon of Brazilian literature, in an attempt to reconstruct the past and thus find the plurality of feminine identities. This defy will link the past to the present.
Keywords: Peixoto; Brazilian literature; Representations of Women; Twentieth Century.
Minicurrículo:
AS FIGURAS FEMININAS NAS OBRAS REGIONAIS DE AFRÂNIO PEIXOTO
Helena Maria Alves Moreira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Introdução
No dia 14 de dezembro de 1876, nascia no sobrado de uma casa em Lençóis o futuro médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista e historiador baiano Afranio Peixoto. Exatos 94 anos depois, no mesmo espaço, é instalado um dos mais importantes espaços culturais da Chapada Diamantina: a Casa Afrânio Peixoto. Ele teve uma passagem pela política quando foi eleito deputado federal pela Bahia, ficando no cargo no período de 1924 a 1930. Após, voltou à atividade do magistério sendo professor de História da Educação no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1932. Foi reitor da Universidade do Distrito Federal em 1935 e, após 40 anos de relevantes serviços, aposentou-se. Segundo os sua biografia pela ABL, era dotado de personalidade fascinante, animada e tinha excelente domínio da oratória. Prendia a atenção das pessoas e dos auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Obteve, na época, grande aprovação de crítica e prestígio popular.
A Representação da Mulher no Século XX
Aprisionada numa representação sempre associada à figura materna e dona do lar, às mulheres cabia à vida cotidiana, sem acesso à educação, conforme publicação da Liga de Ensino em 1911, na conferência de mesmo ano sobre a “Educação da Mulher” considerando-a essencial para reger a educação de seus filhos:
É ela que vai encarregar-se da formação do caráter dos nossos filhos, do desenvolvimento racional da saúde, da inteligência, da vontade dos pequeninos seres de hoje, mas cidadãos d’amanhã, responsáveis pelos destinos da pátria (FERNANDES, 1911, p. 1).
A representação da mulher no Brasil no início do século XX era de educadora da primeira infância. As mulheres lutavam de várias maneiras pelo respeito e credibilidade, mas a cultura hegêmonica da época insistia para que essa ideia de mulher frágil e incapaz intelectualmente se perpetuasse como verdade. À luz dessa perspectiva, Peixoto afirma que a mulher devidamente instruída tornaria-se alvo de desejo e respeito perante a sociedade. Um exempo desse pensamento se destava no livro de sua autoria Ensinar a Ensinar:
Sua educação, instruída nas artes e nas ciências, deu-lhe boas ideias e belas palavras, com que abriu a bôca à sabedoria e por isso a aclamam seus filhos, e a louva seu marido, e a admiramos todos nós, e vós, minhas senhoras, vós a deveis invejar e imitar (PEIXOTO, 1937, p. 32).
No livro supracitado, Peixoto faz uma abordagem crítica ao modelo de ensino oferecido no início do século XX no Brasil em função da dificuldade de acesso dos mais humildes a níveis mais elevados de estudos. A educação da época privilegiava apenas os mais ricos dando-lhes oportunidades que nem sempre condiziam com suas reais abilidades.
Os Romances Regionais
Neste trabalho foram analisados três de seus romances: Maria Bonita, Sinhazinha e Bugrinha. As chamadas obras regionalistas mostravam as contradições e conflitos de um Brasil que se queria moderno, urbano e industrializado, mas guardava também traços arcaicos em sua diversidade regional. O Brasil não era composto somente de cidades retratadas comumente pelo homem comum e seus problemas sociais, havia também o campo, dominado por uma sociedade patriarcal em decadência. Assim como os autores da literatura proletária, os autores regionalistas tinham uma preocupação sociológica e documental, distinguindo-se dos modernistas com seu experimentalismo estético.
O mercado editorial do Rio de Janeiro vivia em plena ebulição A vida literária das rodas da sociedade brasileira principalmente na capital eram representadas por obras publicadas, nos periódicos de grande circulação como O Paiz e A Gazeta. Dentre as obras literárias publicadas no início do século XX, destacam-se em 1902, Canaã de Graça Aranha; Os Sertões, de Euclides da Cunha; não podemos deixar de destacar sobre as obras de Aluísio de Azevedo já vinha lançando suas obras naturalistas desde o final do século XIX: O Mulato, em 1881; Casa de Pensão, em 1884, e O Cortiço, em 1890 – somente para citar as principais. Machado de Assis (1839-1908) publicara quase toda sua obra em fins do século XIX, ambientando suas tramas à vida urbana carioca da classe média e tendo sua análise centrada nos aspectos psicológicos das personagens; em 1909, Lima Barreto acabara de fazer sua estreia como escritor ao lançar Recordações do escrivão Isaías Caminha, publicada em Portugal, no qual narra à história de um homem do interior que vem para a capital tentar ser médico e acaba jornalista de onde investe na vida cotidiana da redação e da imprensa.
A análise das obras de um mesmo autor vem sendo uma das estratégias de alguns pesquisadores. Os romances são em sua maioria baseados em recordações e experiências vividas pelo próprio autor, carregados de profundo sentimentalismo, de lembranças remotas, mas que na realidade, são consideradas ficção. Este caráter ficcional, no entanto, expressa relações de poder que buscam definir o que pode ser entendido como um conjunto de possibilidades passíveis de disputas intelectuais sufocadas por um enredo que envolve uma trama complicada, intrincada e complexa em toda sua essência. O que está contido em seu interior percebe-se um conjunto de conceitos e ideias, formadas por um argumento formado de matéria, objeto, questão, temática, que carregam consigo um sentido já que possuem um significado em comum. No entanto, sua total compreensão jamais será feita, na medida em que nenhum sentido pode ser totalmente decifrado, a sua real significação estará sempre permeada de dúvidas. Nenhum compartilhamento de palavras ou de experiências é pleno ou sem conflitos, ainda que pudéssemos compreender pelo outro exatamente como supomos que o outro quisesse se expressar.
Em romance intitulado Maria Bonita, lançado em 1914, Afrânio Peixoto recebe inúmeros elogios pelo também escritor Afrânio Coutinho na introdução de sua obra, principalmente em relação à caracterização das personagens, fazendo-se entender que o lado romântico de escritor de Afrânio Peixoto sobressai ao do médico Afrânio na descrição de suas personagens:
Dos sete romances que escreveu Afranio Peixoto, os do grupo sertanejo superam os da cidade. E deles a obra-prima é Maria Bonita. Sua técnica de caracterização aperfeiçoou-se, o escritor perdendo a rigidez dos fenômenos psicológicos da mulher para adotar uma visão mais equilibrada dos fenômenos psicológicos da mulher (PEIXOTO, 1914, Nota Introdutória).
O romance, denso e consistente, quebra sua austeridade quando descritas as belíssimas paisagens do sertão baiano. Mas como o próprio Afranio aponta nas notas do autor, teve o lugar retratado, um infeliz episódio, quando em 1914 uma cheia diluviana, como descrever, desfigurou completamente a região do rio Pardo afogando e destruindo prósperas fazendas de cacaueiros. Num relato carregado de tristeza, Afranio desabafa,
O Jacarandá quase já não existe, na ruína geral do que o homem plantou e construiu o próprio rio não achou mais o leito secular. Outro, bárbaro e inculto, o Pardo anda agora, a espaços, por alheias paragens, em busca de um perfil de equilíbrio (PEIXOTO, 2002, Notas).
Em Maria Bonita, a personagem principal que dá título ao romance sofre durante toda a vida, o fardo de ser bonita. Detentora de uma beleza que atra^`
s vizinhos, e por vezes havia tanta gente a olhar o padre como a fitar a menina. (…) Perdera (o irmão) já a paciência e não se esquecia de desabafar-se quando chegava em casa:
– Não saio mais com esta lambisgoia! Para toda a gente a vê-la e a lhe dizer uma graça. Parece melado, que todas as moscas procuram. E a sonsa via mostrando os dentinhos… (PEIXOTO, 2002, p. 13).
O romance Maria Bonita difere dos demais pelas inúmeras trovas transcritas ao longo do livro e, cujas autorias são “empréstimos” de cantores famosos da região como Fabião das Queimadas e Manuel Tavares como explica o próprio Afranio, “escusava inventar tipos e lhes atribuir versos alheios, se a realidade me oferecia exemplos e exemplares acabados, dessa genuína arte popular, a que aludi” (PEIXOTO, 2002, Notas).
As trovas geralmente são feitas por repentistas. A presença de repentistas é muito comum em toda Região Nordeste do Brasil. Repentista refere-se em geral a um poeta popular, um improvisador que, a partir de um mote debita espontaneamente um poema em forma de repente. Assim se apresentava outro personagem verídico da história, Terêncio Martins da Silva, apelidado de “o funileiro trovador”.
O livro tem um final surpreendente. O drama psicológico que vive a personagem ao longo da história acaba levando-a a atentar contra a si própria, atormentada pelo pensamento de que tudo era consequência de sua amaldiçoada beleza. De todos os seus romances esse, talvez seja o mais fiel em relação ao lugar onde nasceu na Chapada Diamantina, região dos Lençóis na Bahia, mas é em Sinhazinha que Afranio, além da descrição de suas paisagens, mescla ficção e realidade quando da caracterização de suas personagens.
A comparação entre as cidades de Lençóis e Paris nos permite entender o status que sua cidade natal representa para ele. Percebe-se também, claramente a crítica quanto à exploração de diamantes que são desde muito, extraídos e exportados, degradando a paisagem e explorando os que lá vivem, “Lençóis corresponde-se com Paris: tudo nos vem de lá, e para lá vai o nosso diamante…” (PEIXOTO, 2002, notas).
Assim como as demais personagens femininas, Bugrinha, a personagem principal do livro que leva o mesmo nome é descrita em sua essência como “indócil e geniosa, descrita, pele morena, cabelo e olhos muito negros, dentinhos brancos, indiferente à dor, resistente a dificuldade, insubmissa, às vezes caprichosa…” (PEIXOTO, 2002, p. 41). O sentido de insubmissa não quer dizer, no entanto, que seja desrespeitosa com os pais, mas sim, de uma mulher que acima de tudo sabe o quer e deseja e luta para alcançar seus ideais. Talvez por isso, o romance tenha alcançado tanto sucesso perante as mulheres da época do lançamento deste em 1914.
Quando em Paris, no ano de 1928, Peixoto escreve outro romance de cunho regional, Sinhazinha, que explora o homem simples, do campo. Remonta à história de amor entre a caçula de um grande fazendeiro do interior da Bahia que tinha seu destino traçado a se casar com um indivíduo de uma família rival como acordo de famílias, como era comum aos costumes da época e da própria região. O aparecimento de um caixeiro viajante traz toda uma nova perspectiva à personagem principal. Ao longo da trama, através de sua humilde e de atitudes perseverantes, o caixeiro conquista a amizade e a confiança de todos que estão ao seu redor, principalmente de Clemência, carinhosamente apelidada de Sinhazinha.
Neste romance, Peixoto dedica especial atenção às descrições das paisagens campestres, assim como relata com riqueza de detalhes às festividades populares e todas as superstições que as rodeiam. O enredo é pitoresco quando se trata da relação entre famílias rivais onde as questões de honra são também tratadas como questões de vida e morte. No sertão brasileiro são comuns às rivalidades entre famílias, e por isso surgem inúmeras histórias de ficção baseadas num mesmo enredo. Neste livro, segundo o escritor Fernando Sales, o romance retratado no livro Sinhazinha teve por base um fato verídico:
Afrânio Peixoto ouvindo descendentes dos dois lados, cada qual narrando a sua versão, concebeu a sua Sinhazinha, a seu modo, baseado na vindita entre Mouras e Canguçus, situando sua condição de autor à de ouvinte dos dramas que se sucederam entre as margens do Paraguaçu e do Rio de Contas: “como não pretendi dar sentença – não sou juiz –, nem a causa estava em julgamento –, informei-me e, seguro da minha verdade – que o ódio é mais duradouro do que o amor, pois transmite por gerações – tratei de ser imparcial… (PEIXOTO, 1975, Introdução).
As duas famílias retratadas no livro são figadalmente inimigas marcadas pelo ódio entre as famílias. E, para fugir do destino traçado, a personagem teve a coragem de enfrentar o pai, austero fazendeiro, que já havia prometido o futuro da filha como o trecho a seguir:
(…) no dia em que a filha faz dezesseis anos, fá-la jurar que não casará senão depois que nenhum Moura a pretenda, e eles só a podem pretender pela força. O romance materno será continuado por uma tragédia filial. Ali entrou o amor, mas o ódio continuou e é ele agora que dá pretexto à lealdade. Certo da palavra da filha – se não lha desse, de boamente, de mau modo a tomaria – manda recado aos parentes. Eles têm o direito à vingança: venham buscá-la. Nos mesmos termos. O sacrifício está pronto. É para qualquer dia destes… (PEIXOTO, 1975, p. 82).
Quando da fala “o sacrifício está pronto” as mulheres eram assim comparadas ao pagamento de uma dívida como, uma cabeça de gado, ou entrega de um animal qualquer, no qual seu destino não tivesse a menor importância. A personagem de Dona Emília, matriarca da família, esposa do Coronel que apesar de obedecer e fazer todas as vontades do marido, atitude muito comum às mulheres da época, fazia suas vontades e seus desejos prevalecer, através de um jogo de poder atrelado a um discurso sutil, porém, convincente.
As mulheres das fazendas por se encontrarem mais afastadas dos grandes centros, s tinham suas vidas voltadas para o cuidado os afazeres de “dona do lar”, assim como o cuidado com o marido e os filhos sem, no entanto, receber qualquer elogio ou sequer agradecimento por isso. Os rapazes que frequentavam as cidades e por isso tinham acesso às inovações, a cultura, aos costumes vindos da Europa, conquistavam grande admiração e fascínio entre as mulheres, pois faziam contraste ao homem rude do campo e por isso chamava-lhes tanto a atenção. No cenário mais agreste de seus romances fica a dúvida onde acaba a realidade e começa a ficção.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os romances de Afrânio Peixoto foram mais do que simples histórias para entreter as moças da época, são verdadeiros relatos de como era a vida no interior do sertão baiano no caso dos romances carregados de regionalismo como Maria Bonita e Bugrinha e Sinhazinha. As histórias relatavam os costumes das famílias mais tradicionais, principalmente suas relações com as filhas, cujas protagonistas eram pessoas fortes e decididas capazes de romper barreiras comuns à época como a predestinação aos casamentos arranjados ou à conduta que causavam estranhamento à sociedade ou à comunidade onde viviam. Considerando que às mulheres eram em sua maioria educadas para serem submissas, recatadas e voltadas unicamente para o lar, o acesso às obras literárias onde às mulheres são destemidas e lutam pelo direito de amar e ser feliz era raro mas das mulheres que tinham esse privilégio lhes era permitido ao menos o direito de sonhar.
Através da análise das suas personagens, mulheres que existiram de fato ou foram obra da imaginação do autor, perecebemos, a história das relações familiares, da literatura, da violência, da sexualidade, enfim, dos sentimentos e suas representações. As obras não se contentam apenas em separar as vitórias das derrotas das mulheres e sim, retratar o universo feminino nos seus mais diversos espaços como a zona rural, as sinhazinhas, as burguesas, etc. É compreender que ser um a mulher no Brasil é uma construção de imagens e valores que atravessam os anos, décadas e séculos em diferentes espaços geográficos, dada a diversidade cultural existente em nosso país.
FERNANDES, S. O problema: a Liga do Ensino I, A República, 1911
PEIXOTO, Afranio. Ensinar a ensinar: ensaios de pedagogia aplicada à educação nacional. 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.
PEIXOTO, Afranio. Noções da História da Educação. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942.
PEIXOTO, Afranio. Sinhazinha. São Paulo: Clube do Livro, 1975.
PEIXOTO, Afranio. Bugrinha. São Paulo: Clube do Livro, 1975.
PEIXOTO, Afranio. A Esfinge. São Paulo: Clube do Livro, 1978.
PEIXOTO, Afranio. Maria Bonita. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 2002. (Coleção Prestígio).
Bio fornecida pelo palestrante.
Yls Rabelo Câmara
Universidad de Santiago de Compostela
Yzy Maria Rabelo Câmara
Universidad John Kennedy
RESUMO: Neste trabalho buscamos mostrar a realidade obscura que há por trás da indústria da seca no sertão nordestino. Assim, no levantamento bibliográfico que efetuamos, inicialmente apresentamos os campos de concentração que foram construídos como campos de contenção. Em seguida, voltamos nosso olhar para a contextualização dos mesmos e o reflexo da calamidade da seca em O Quinze (1930), obra-prima desta que é uma das escritoras brasileiras mais importantes de todos os tempos, a segunda mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras: Rachel de Queiroz.
Palavras-chave: Seca, Campos de Concentração, Nordeste Brasileiro, O Quinze.
ABSTRACT: This paper aims to show the dark reality existing behind the drought industry in the Brazilian sertão. Thus, in the bibliographical survey that we reviewed, we first focus on the concentration camps that were built as containment places. Later, our attention is turned to their contextualization and the reflection that the drought calamity had on Rachel de Queiroz’s masterpiece O Quinze (1930). She is one the most important Brazilian writers of all times, and the second woman to be elected to the Brazilian Academy of Letters: Rachel de Queiroz.
Keywords: Drought, Concentration Camps, Northeastern Brazil, O Quinze.
MINICURRÍCULO: Yls Rabelo Câmara é licenciada em Letras Português-Inglês, tem especialização no Ensino de Línguas Estrangeiras – Inglês – pela Universidade Estadual do Ceará, e é Mestra e Doutora em Filologia Inglesa pela Universidad de Santiago de Compostela. Lecionou idiomas em cursos livres no Brasil e na Espanha, e atualmente na graduação e na pós-graduação em universidades do Ceará e do Piauí.
MINICURRÍCULO: Yzy Maria Rabelo Câmara é licenciada e bacharel em Psicologia pela Universidade de Fortaleza e bacharel em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará. É mestra em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará e doutoranda em Psicologia Social pela Universidad John Kennedy, de Buenos Aires. Foi professora em IES cearenses e piauiense e atualmente leciona no Centro Educacional Estácio do Ceará.
A PROBLEMÁTICA DA SECA NO CEARÁ
REFLETIDA EM O QUINZE
Yls Rabelo Câmara
Universidad de Santiago de Compostela
Yzy Maria Rabelo Câmara
Universidad John Kennedy
Tal como afirmam Oliveira (1994) e Silva e Bastos (1986), sempre houve dois “brasis” dentro do mesmo Brasil: um próspero, refinado e litorâneo; o outro, rudimentar, inculto e sertanejo. Conforme Câmara e Câmara (2015), a economia nordestina sempre esteve baseada na agricultura e na pecuária. Infelizmente, tanto uma quanto a outra vêm sendo prejudicadas pelas secas sazonais próprias da região.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, as secas e os flagelados delas surgidos cristalizaram-se na memória dos brasileiros como uma simbiose atrelada à decadência. Em contrapartida, de acordo com Castro (2010), o século XIX, impulsionado pela Revolução Industrial, trouxe consigo ares de modernidade, requinte e cultura para quem não conhecia as agruras da fome causada pela longa estiagem. A cidade de Fortaleza, na época, experimentava, segundo Silva e Bastos (1986), o descompasso que a maioria das demais capitais brasileiras vivenciava: ainda que buscassem a evolução, estavam fincadas na pobreza de uma parcela considerável de sua população e, no caso das capitais nordestinas, dos habitantes do sertão. O atraso socioeconômico era pautado na política oligárquica que reforçava a condição miserável do binômio clientelismo-coronelismo em detrimento do sertanejo, que, quando muito, apenas dispunha da agricultura de subsistência.
Aliada ao sistema hegemônico do governo de então, como defendem Câmara e Câmara (2015), a Igreja atuava na manutenção da ordem, mas se encontrava também em crise naquele momento, mais propriamente desde que se iniciara a projeção de ideologias marxistas, positivistas, liberais e maçônicas, além do fortalecimento do Cristianismo rústico, que incentivava a construção de açudes, cacimbas, cemitérios, capelas e “casas de caridade” através da presença de líderes influentes como Antônio Conselheiro e Padre Cícero.
Diante deste cenário, Farias (1997) afirma que a seca significa para o sertanejo um período de descontinuação. Para aplacar os efeitos drásticos da estiagem, levas de nordestinos migram de seus territórios de origem para outros menos inóspitos em busca de oportunidades de (sub) emprego, fenômeno que provoca desajuste social por impactar negativamente na economia (NEVES, 1995). A famigerada seca de 1877 (que se estendeu até 1879) foi de tal proporção devastadora que provocou o êxodo massivo de sertanejos cearenses, conforme Costa (2010) e Farias (1997), dos mais distantes e diversos municípios até a capital e a pé, com a esperança de melhores condições de vida. Neves (1995) coloca que, diante do crescente número daqueles retirantes, que já contabilizava um número quatro vezes maior do que a população de Fortaleza, o caos se instalou: saques ao comércio local, desordem, epidemias, delinquência e prostituição em troca de comida.
O poder público criou, então, estratégias de enfrentamento. Por trinta e oito anos, foram utilizadas tecnologias simples de distribuição de alimentos em locais reservados aos retirantes, que foram denominados “abarracamentos”. Segundo Neves (1995) e Farias (1997), além do envio de provimentos alimentícios, o governo promoveu ações isoladas e pouco efetivas de movimentos sanitaristas e, com o empenho da Igreja e de membros da sociedade local, buscou a moralização das condutas dos sertanejos. Houve também, por parte do poder público e da iniciativa privada, ações de isolamento, fazendo com que o retirante recebesse passagens para migrar país adentro e assim abandonasse os grandes centros urbanos.
O movimento migratório periódico de retirantes para a capital passou a ser constante nos momentos de intensidade das estiagens, conforme Barreto (1990) e Farias (1997), devido à falta de políticas públicas que dessem aos cidadãos condições mínimas de permanência e sobrevivência em seus territórios de origem. A partir do século XIX, com o fortalecimento de conhecimentos sanitaristas e sociais, passou-se a acreditar que o adoecimento físico e/ou mental estava diretamente relacionado com os miasmas, com os lugares infectos com as águas poluídas, segundo a perspectiva hipocrática do saber médico. Tal revelação provocou a necessidade de criação de mecanismos para conter a população que adentrava os limites da capital cearense à revelia, trazendo, com sua presença, micro-organismos malsãos.
No ano de 1859, Farias (1997) aponta que o engenheiro Adolfo Hebster elaborou a primeira organização urbana de Fortaleza, que comemorava a prosperidade da província e a ausência de três décadas sem o fenômeno da seca. Este movimento coincidiu com o momento histórico em que a capital buscava se inserir no padrão de aformoseamento característico da Belle Époque. Esta marcava o final do século XIX e o início do século XX com a construção de praças, jardins, ruas pavimentadas, transporte público (bondes), iluminação pública e domiciliar a gás, instituições públicas de asilos e hospitais.
Como era próprio do século XVIII e começo do século XIX, os párias sociais eram confinados em espaços de isolamento (Foucault, 2000), como uma tecnologia utilizada pelo poder público, com intervenção militar, para que a classe que estava emergindo não fosse atingida pela desordem dos menos válidos. À luz do que teoriza Castro (2010), os poderes públicos no Brasil se utilizaram de uma estratégia que já era conhecida, o abarracamento, adaptado ao cenário caótico imposto pela seca de 1915. Os retirantes provenientes das mais longínquas localidades cearenses foram abrigados não mais como na seca de 1877, mas amontoados em um espaço exíguo de quinhentos metros quadrados, coberto por cajueiros: o centro de concentração do Alagadiço. Assim sendo, a implementação de campos de concentração de refugiados foi a solução, no que se refere ao controle social, segundo Foucault (1996), encontrada pelo poder público para conter as levas de retirantes que invadiam e saqueavam agora a já aformoseada Fortaleza.
Destarte, conforme Castro (2010), o Presidente do Estado, Cel. Benjamim Barroso, tomou a iniciativa de construí-lo. Este nome deveu-se à distinção dos abarracamentos aleatórios, construídos em diversos pontos da capital pelos governos anteriores a 1915, e que formavam um amontoado de retirantes vulneráveis que expunham suas mazelas à população provinciana moralmente rígida e que para a qual, os miseráveis da seca representavam um fardo social muito pesado: o de fazê-la conviver com seres humanos em estado sub-humano.
O terreno destinado na seca de 1915 para acolher os retirantes foi estruturado para concentrar três mil homens, mulheres e crianças não higienizados e promiscuamente amontoados no Passeio Público, área reservada ao lazer e à sociabilidade na Fortaleza de então. A justificativa adotada para a transferência dos flagelados para uma área nos arredores da capital foi, de acordo com Neves (1995), a de ser uma ação humanitária, onde seriam distribuídos alimentos e socorros diversos, prestados em um ambiente humanizado, pois, acima de tudo, urgia ao poder público, em sua política de controle social, livrar a cidade do enfeamento e da contaminação que vinha com os retirantes, assim como evitar a explosão demográfica deles na capital, trazendo consigo sua miséria para uma população que já se encontrava cultuando o belo e o fútil.
Mesmo havendo estradas de ferro ligando o interior à capital em 1915, construídas anteriormente pelas mãos dos próprios retirantes na estiagem anterior, muitos flagelados escolheram a alternativa de buscar trabalho nas construções da comissão de Obras Novas Contra as Secas, uma das políticas públicas emergenciais de combate à seca e aos problemas a ela relacionados. A construção dos açudes públicos das Obras Contra as Secas concentrava auxiliares técnicos, operários e seus familiares. Castro (2010) afirma que o serviço era difícil e mal pago para os flagelados. Mesmo que se praticasse a caridade cristã, por meio da doação de esmolas, havia, por parte de muitos “cidadãos de bem”, a abominação deste exercício, pois, para eles, a esmola poderia se tornar um vício. A recorrência a esta forma de socorro fazia com que muitos retirantes fossem vistos com reserva, como preguiçosos e aproveitadores.
Segundo Neves (1995) e Castro (2010), ficou confinada no campo de concentração do Alagadiço (um espaço destinado, em teoria, a três mil sujeitos) uma população desvalida de oito mil habitantes, em um vasto campo arborizado de cajueiros e mangueiras, ainda que sem qualquer condição infraestrutural, onde famílias inteiras se abrigavam do relento sob a copa das árvores ou em barracas rudimentares, sem conforto ou privacidade. Neste contexto, as condições sanitárias eram deploráveis e a alimentação, insuficiente. Com estes agravantes, a proliferação de doenças e os desfechos fatais eram constantes.
O memorável farmacêutico sanitarista Rodolfo Teófilo foi o grande ativista contra a construção e permanência de campos de concentração nos arredores de Fortaleza, em especial por sua larga experiência como agente no combate às epidemias urbanas, como a varíola. Conhecedor do fato de doenças infecto-contagiosas serem transmitidas por meio de ambientes insalubres e pouco higiênicos, Teófilo sabia, desde o princípio, que o quadro de explosão populacional no local representaria um risco potencial não apenas para os flagelados, mas também para os habitantes da capital e adjacências. Tentou, em vão, alertar o poder público sobre a precariedade e risco do campo de concentração do Alagadiço para a população citadina, mas seus esforços resultaram em uma luta inglória. Como ele mesmo defendia: “A primeira visita que fiz ao Campo de Concentração deu-me a certeza de que em breves dias teríamos ali um Campo Santo” (TEÓFILO, apud NEVES, 1995, p. 99).
Infelizmente, cumpriu-se seu vaticínio: as péssimas condições sanitárias, o amontoamento de corpos, a promiscuidade, a alimentação escassa, aliada à falta de qualidade da água potável, a proliferação de moscas enquanto agentes transmissores de doenças e a distribuição de leite adulterado para os infantes catalisaram a morte para retirantes em grandes proporções; em especial, os mais vulneráveis (idosos e crianças). Assim, ao invés de ser um campo de assistência aos desvalidos da Seca de 1915, o Alagadiço passou à nossa história como o macabro “Campo da Morte” pela facilidade com que a mesma se fazia presente no local e consigo levou milhares de vidas.
Parte deste cenário desalentador é plasmada com maestria por Rachel de Queiroz em sua obra primeira, O Quinze, publicado em 1930, e que desafiou as sociedades literata e leitora da época porque mostrou um Ceará que o Brasil se negava a enxergar. Sobre este tema versa a seguinte sessão.
Para Câmara et al. (2015), a estiagem no Nordeste é um fenômeno periódico que provoca o êxodo rural que impacta no social. As secas mais avassaladoras, responsáveis pela grande mortandade provocada pela fome e pelas doenças delas advindas, registradas com dor e presentes na memória dos nordestinos da época em que ocorreram e na de seus descendentes, são, em recorte: as de 1877-1879, a de 1915, a de 1934-1936, a de 1979-1985 e a que estamos enfrentando desde 2012.
Dentre estas, a de 1877-1879, afirmam Câmara et al. (2015), ainda no Brasil Império, provocou a migração forçada de parte dos cearenses afetados para a região Norte, mais amena e promissora. Destarte, os filhos do Ceará, junto com outros nordestinos, ajudaram a impulsionar o primeiro Ciclo da Borracha. Na tentativa de solucionar o problema da estiagem, retendo água em reservatórios apropriados, Dom Pedro II investiu na abertura de estradas e no estudo da geografia local por meio de engenheiros brasileiros e ingleses. Concluiu-se que a construção de barragens e açudes poderia ser uma solução cabível e exequível (SCOVILLE, 2011). Foi assim que surgiram projetos que foram executados a posteriori pelos subsequentes governos republicanos, com o Instituto de Obras contra as Secas (atual DNOCS), criado no governo de Nilo Peçanha.
Segundo Câmara et al. (2015), mais do que um problema geográfico-hidrológico, a seca é um problema de cunho político. As verbas destinadas a saná-la, desviadas para as contas bancárias de terceiros, evidenciam o desmando que sempre caracterizou a região Nordeste como berço de corrupção em um país onde, como bem definiu Antônio Delfim Netto: “o braço da justiça não alcança os homens de dinheiro”.
Como explicitamos na seção anterior, a partir da estiagem de 1915 vieram os campos de concentração ou os currais do governo, que objetivaram evitar que os flagelados seguissem ocupando e saqueando a capital cearense. Conforme Câmara et al. (2015), a Seca do Quinze foi o cenário para a implantação do primeiro destes campos, no Alagadiço, a oeste de Fortaleza, com cerca de oito mil pessoas mal alimentadas e mal cuidadas, vigiadas de perto por soldados nada complacentes, que Rachel de Queiroz plasmou n’O Quinze (1930). Repetindo o que ocorrera na Seca do Quinze, na seca de 1934-1936 os campos de concentração seriam novamente cogitados e implantados. Desta vez não somente no Alagadiço e no Pirambu, em Fortaleza, mas estendidos para outras regiões do estado, providas de estações de trem, como Quixadá, São Mateus, Quixeramobim, Ipu, Crato, Senador Pompeu e Cariús. Confinados, os retirantes seriam obrigados a seguir rígidas regras de conduta e não poderiam partir sem autorização (SCOVILLE, 2011). Um aglomerado de aproximadamente setenta e três mil pessoas seria reunido nestes redutos insalubres e, deste total, uma parcela seria utilizada nas trincheiras da Revolução de 1932, em São Paulo.
Podemos afirmar, à luz do que defendem Câmara et al. (2015), que Rachel de Queiroz transfere para O Quinze sua experiência pessoal de fugir com a família do sertão do Quixadá para as cidades do Rio de Janeiro, Belém do Pará, Fortaleza, Guaramiranga e, novamente Quixadá, quando da Seca do Quinze. O feito foi tão impactante para a autora que a levou a plasmar, em forma de livro, a bravura e a impotência do sertanejo frente às adversidades advindas com a seca e que o levavam a tomar atitudes desesperadas como, por exemplo, soltar o gado para morrer de fome e sede na caatinga por não poder-lhe mais dar de comer nem de beber. Pela ótica de Neves (1995, p. 95), podemos afirmar que: “O romance, sem apelar para a sociologia da literatura nem para a teoria literária, é uma representação do real sócio-histórico”.
Inovador por haver sido escrito por uma jovem de vinte anos, culta, desconhecida e transgressora, o livro fixou seu enredo em planos distintos, que tinham como pano de fundo a Seca de 1915, o eixo cidade-sertão e o binômio liberdade-confinamento. Retratando um Brasil que o Brasil desconhecia ou não queria conhecer, Rachel ousou distanciar-se do modelo de romance regionalista que então se produzia na literatura e, utilizando-se de uma linguagem jornalística, destituída de sentimentalismo, reportou ao mundo o drama de seus conterrâneos menos afortunados.
Conforme Andrade (2014), o livro é narrado em terceira pessoa por meio de um narrador onisciente e que não participa da história; a fome está presente em quase todos os vinte e seis capítulos sem títulos e numerados. O Quinze representa a persona do sertanejo sofrido na personagem Chico Bento, que junto à esposa e aos cinco filhos empreendem a marcha forçada de deixar a fazenda onde moravam em busca de sobrevivência, uma vez que Chico fora dispensado de seu serviço porque já não tinha mais como alimentar o gado da fazenda da patroa. O fato de migrar dentro da caatinga parecia-lhe penoso, mas se não chovesse até o dia de São José, 19 de março, este seria o seu destino, como o foi, tal como ocorreu com tantos outros chico bentos não somente no Ceará, mas no Nordeste de maneira geral.
Com algum dinheiro guardado com sacrifício, Chico compra mantimentos e uma burra no intuito de atravessar o sertão; almejava ir para o Norte, extrair látex, como tantos outros conterrâneos seus. Sem ter como embarcar no trem, os planos mudam e a família passa a trilhar o caminho a pé até Fortaleza. No entanto, a sombra do infortúnio os ronda roubando-lhes a esperança e o ânimo: o filho mais novo, Josias, morre envenenado ao comer mandioca crua e o mais velho, Pedro, foge com uns comboieiros de cachaça.
Como bem descreve Andrade (2014), o sertanejo não almeja ser retirante. Se assim se torna é por força das circunstâncias. Mesmo sentindo-se desgraçado, Chico Bento, representando o espírito do homem do sertão, demonstra generosidade, fé e resignação sem que com esta se abata a necessidade que sente de prover sua família. A trama é muito fiel ao espírito do nordestino que mora no sertão, agrário por natureza, e que somente parte em êxodo quando a terra que ama não tem mais nada a lhe oferecer. A família de Rachel de Queiroz, afortunada e abastada, teve como se deslocar de Quixadá para cidades mais amenas. Para fazer um percurso infinitamente mais simples e mais curto, Chico Bento e sua família tiveram que perder três de seus seis membros, passar fome, sede, vergonha e humilhação, bem aos moldes do que acontecia e segue acontecendo quando o assunto é a estiagem.
Tempos depois, com a ajuda de seu cunhado e já no campo de concentração do Logradouro, desvalido e desesperançado, Chico reconhece uma antiga vizinha que ali trabalha como voluntária, Conceição, sua comadre e protagonista de outro plano do romance, que lhe consegue trabalho na construção de uma barragem. À luz de Câmara et al. (2015), Conceição é o alter ego da autora que, morando em uma casa grande no bairro Alagadiço, frequentava o campo de concentração juntamente com as tias, como voluntárias. Além disso, Rachel e Conceição comungavam o gosto pela instrução, pela emancipação feminina e pela falta de identificação somente com a cidade ou somente com o sertão: pertenciam a ambos.
Declinando do casamento e da maternidade, Conceição se oferece para criar o afilhado Duquinha, o filho mais novo do casal. Este é um drama para qualquer mãe sertaneja: o dilema que a seca e a pobreza lhe impõem de ou criar o filho e possivelmente vê-lo morrer de fome ou entregá-lo a outra mulher, para que tenha melhor sina, e não vê-lo nunca mais. Sem escolha, Cordulina o dá à sua comadre porque sabe que com ela ele terá uma vida digna. Vendo a família diminuir e Cordulina desesperançar-se, com o fim da construção da barragem e já sem emprego outra vez, Chico volta a pedir ajuda a Conceição, que o desaconselha a ir para o Norte, mas rumar para São Paulo. Ela consegue passagens de navio para que a família se traslade e inicie ali uma nova história.
Em linguagem simples, Rachel de Queiroz descreve neste seu primeiro livro e, sobradamente, sua obra-prima, um dos mais graves problemas sociais de seu tempo, a Seca do Quinze e, com ela, o descaso do governo para com os retirantes da seca, a corrupção por trás das pseudo ajudas subornadas, a necessidade de evitar que os flagelados alcançassem Fortaleza, a exploração de pessoas miseráveis em trabalhos forçados e tudo à sua revelia, quando o que eles mais queriam era estar em suas terras ou nas terras por eles arrendadas, trabalhando honestamente se não fosse a seca. Rachel toca também em um ponto nevrálgico em O Quinze quando se refere ao sonho dos retirantes em terem uma vida melhor no Norte, trabalhando com a borracha, ou em São Paulo, trabalhando nas fazendas cafeicultoras.
Em outras palavras, a então jovem, inexperiente e já excelente escritora imprimiu sua marca nesta, que é considerada sua obra magna, e legou-nos o retrato cruel do Ceará sedento de chuva e de justiça.
Passado mais de um século desde a seca do Quinze, o cenário político mudou, mas não o suficiente para solucionar o problema das estiagens nordestinas, que inspirou Rachel de Queiroz a escrever seu primeiro romance, nem para acabar com a indústria da seca – corrupta e vergonhosa. Antes, as ações governamentais visavam beneficiar o patrão e encurralar os flagelados e/ou fazê-los trabalhar nas frentes de obras e migrar para outras regiões do país, onde sofreriam o preconceito de haverem nascido no desgraçado Nordeste. Hoje, com a implementação de políticas públicas voltadas para o campo, o cenário é outro, não tão inóspito como outrora, ainda que muito mais poderia ser feito se contássemos com menos corrupção e mais ação. Poderíamos estar em melhores condições, pois nos sobram as boas intenções, mas nos faltam Chico Bentos, Conceições e Racheis de Queiroz.
REFERÊNCIAS
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SILVA, F. de A.; BASTOS, P. I. de A. História do Brasil: colônia, império e república. 2ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Moderna, 1986.
Bio fornecida pelo palestrante.
Beatriz Nascimento Teles
Universidade Federal do Espírito Santo
Resumo: O objetivo deste artigo é confrontar diferentes abordagens de teóricos da cultura e da propaganda a fim de demonstrar de que forma essas abordagens se relacionam com a propaganda fascista na Itália do início da década de 1940. O enfoque será dado à teoria crítica da indústria cultural, confrontando as diferentes perspectivas dos filósofos alemães da Escola de Frankfurt, como Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin.
Palavras-chave: Propaganda. Cinema. Fascismo. Itália
Abstract: The aim of this paper is to compare different theoretical approaches about culture and propaganda to demonstrate how these approaches are related with the fascist propaganda in Italy during the beginning of the 1940s. The focus is on the critical theory of culture industry in order to compare the different perspectives of the German Frankfurt Scholl’s philosophers, such as Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse and Walter Benjamin.
Keyword: Propaganda. Cinema. Fascism. Italy
Minicurrículo: Beatriz Nascimento Teles é mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e orientanda do Prof. Dr. Geraldo Antonio Soares (UFES). Pesquisa os temas: cinema, mídia, Itália, regimes autoritários e totalitarismo. Email: bnteles@gmail.com
O CASO DA ITÁLIA FASCISTA
Beatriz Nascimento Teles
Universidade Federal do Espírito Santo
Introdução
Em outubro de 1922, Benito Mussolini foi nomeado a Primeiro Ministro da Itália pelo rei Vittorio Emanuele III. A partir dessa data, a Itália seria governada pelo chefe do Partido Nacional Fascista, fundado em 1921, pelo próprio Mussolini. De 1928 a 1943, este seria o único partido da Itália.
Nesse contexto político surge a Escola de Frankfurt, termo que designa um grupo de pesquisadores de teoria crítica, associada ao Instituto para Pesquisa Social, fundado em 1923, da Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Alguns dos filósofos dessa escola, entre eles Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin, tiveram como tema de suas pesquisas o funcionamento da indústria cultural, a propaganda, o papel da arte na sociedade e a opinião pública. O objetivo desse artigo é justamente confrontar as diferentes perspectivas desses filósofos e propor o uso da teoria crítica da Escola de Frankfurt para entender o funcionamento da propaganda fascista na Itália.
Primeiramente, será definido o conceito de opinião pública, na perspectiva de Jürgen Habermas, a fim de relacioná-lo com o conceito de indústria cultural.
Em seguida, será feita uma análise do conceito de propaganda, como parte integrante da indústria cultural, na perspectiva de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Será discutida também a crença desses teóricos na vulgarização da arte, sendo que esta, segundo eles, se dissolveu para atender às exigências da indústria cultural, no seu intuito de vender produtos e padronizar comportamentos.
Por último, será analisado o conceito de estetização da política e politização da arte em Walter Benjamin, de forma a confrontá-lo com a crítica de Adorno e Horkheimer. Marcuse, da mesma forma, afirma a capacidade da arte de utilizar os meios de produção e reprodução da indústria cultural de forma subversiva, como veículos de libertação. Por fim, serão aplicados esses conceitos ao caso da propaganda do regime fascista italiano.
Opinião pública
Jürgen Habermas define opinião pública enquanto julgamento ou opinião a respeito de determinado assunto a partir de um grupo social. A esfera pública seria o espaço onde ocorre o confronto de opiniões a fim de se chegar a um julgamento. Apesar dessa definição, opinião pública é um conceito temporal, ou seja, podemos considerá-la enquanto uma tendência historicamente definida. No caso da análise feita por Habermas, a opinião pública se refere aos burgueses, proprietários e com formação educacional, com acesso à esfera pública, de debate de posições a respeito de seus interesses.
A existência da opinião pública depende da comunicação entre dois sistemas de opinião: opiniões informais, pessoais e não-públicas; opiniões formais, públicas. As primeiras se referem à esfera privada, da família e dos amigos. As opiniões formais circulam em meio restrito, não alcançam a massa da população, e incluem discursos e proclamações.
Naturalmente existe uma ligação, por sobre os mass media, entre esses dois domínios, que se dá através daquela publicidade desenvolvida demonstrativa ou manipulativamente, com a ajuda da qual os grupos participantes da execução e equilíbrio político se esforçam por obter do interior do público mediatizado uma disposição plebiscitária de apoio (HABERMAS, 1977, p. 198).
A partir disso, a esfera privada, no âmbito da família, amigos e conhecidos, se relaciona com a esfera pública, no sentido em que esta problematiza e leva a debate suas temáticas. Por outro lado, a esfera privada incorpora os debates da esfera pública, numa autorreflexão. Os meios de comunicação, por sua vez, exercem uma mediação entre seus participantes.
Uma opinião pública no sentido rigoroso do termo só pode formar-se, entretanto, na medida em que os dois domínios da comunicação tenham por mediação aquele outro, da publicidade crítica (…). Na medida em que essas organizações propiciam uma esfera pública interna não apenas no plano dos funcionários e administradores, mas em todos os níveis, existe a possibilidade de uma correspondência recíproca entre a opiniões políticas das pessoas privadas e as daquela opinião quase-pública (HABERMAS, 1977, p. 198).
É interessante nessa abordagem a percepção de que os diferentes domínios, público e privado, da sociedade, se relacionam e se influenciam, em medidas diferentes de acordo com a sociedade analisada. Nesse sentido, na apropriação das temáticas privadas pela esfera pública, é necessária a aprovação da esfera pública em geral.
Por outro lado, Theodor Adorno e Max Horkheimer consideram que os meios de comunicação e a indústria cultural tem papel muito maior na formação da opinião pública do que o de simples mediação. Esse novo ramo industrial é parte do processo de desencantamento do mundo, onde os antigos meios de controle da sociedade, como a religião, se enfraquecem enquanto a tecnologia avança. Assim “o cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto” (1985, p. 99). Um produto da indústria cultural como o cinema não mais se apresenta como arte, mas sim como mais um negócio, faz parte de mais um “modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso”. Nesse sentido, a indústria cultural modela as pessoas no “esquema da reprodutividade mecânica” (1985, p. 105).
Adorno e Horkheimer pensam na relação entre indústria cultural e opinião pública em termos de manipulação, e não como uma via de mão dupla em que os dois âmbitos se influenciam. Nesse contexto, a arte se vulgariza, perde sua função de portar o belo e passa a ser usada para fins de propaganda e manipulação.
Propaganda e sua relação com a indústria cultural
Enquanto ato de tornar pública e propagar determinada informação ou discurso, a propaganda na teoria crítica da Escola de Frankfurt, quase não se diferencia da indústria cultural em seus objetivos.
Tanto lá como cá, a mesma coisa aparece em inúmeros lugares e a repetição mecânica do mesmo produto cultural já é a repetição do mesmo slogan propagandístico. Lá como cá, sob o imperativo da eficácia, a técnica converte-se em psicotécnica, em procedimento de manipulação das pessoas (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 135).
Essa característica da indústria cultural se insere no que Adorno e Horkheimer chamaram de dissolução das fronteiras entre ciência, moralidade e arte. Esta assumiu seu papel de produto, seu lugar na indústria, enquanto, segundo eles, até então tinha um domínio próprio e leis próprias. “As inúmeras agências da produção em massa e da cultura por ela criada servem para inculcar no indivíduo os comportamentos normalizados como os únicos naturais, decentes, racionais” (1985, p. 35).
A respeito dessa estandardização de comportamentos, Walter Benjamin afirma que “a reprodução em massa corresponde efetivamente a uma reprodução de massas”. Ou seja, as técnicas de reprodução da fotografia, do cinema e dos jornais correspondem à tendência de se reproduzir igualmente o comportamento das pessoas (1980, p. 27).
Essa dinâmica pode ser percebida a partir da propaganda fascista na Itália do início da década de 1940. A propaganda, então, tinha a função de disseminar os valores morais do regime fascista que, pelo menos até o ano de 1943, tinha grande identificação e aceitação da opinião pública italiana. Esse cenário só começa a ser alterado de forma ampla quando a a Itália na Segunda Guerra estava caminhando para a derrota.
Até então a propaganda feita pelos jornais italianos ditava a forma como a população se sentia pertencente ao país, o que pensavam a respeito do resto do mundo, principalmente a respeito dos países inimigos durante a guerra, e o que pensavam sobre sua própria realidade. Nesse sentido, a propaganda através da indústria cultural foi uma importante ferramenta de coerção a fim de delimitar as coordenadas de uma existência coletiva alimentada por uma forma comum de ver a realidade e de se comportar.
O rádio, nesse caso, era o porta-voz da Itália. “Ele assume a forma de uma autoridade desinteressada, acima dos partidos, que é como que talhada sob medida para o fascismo. O rádio torna-se aí a voz universal do Führer” (ADORNO; HORKHEIMER,1985, p. 132). Igualmente, era a voz de Mussolini na Itália. Pela repetição cega, a indústria cultural se torna instrumento dos regimes fascistas:
Os senhores fascistas de hoje são menos super-homens do que funções de seu próprio aparelho de publicidade, pontos de interseção das reações idênticas de inúmeros indivíduos (…). Eles representam para esses a plenitude do poder, sem por isso deixarem de ser simples lugares vazios que o poder veio ocupar (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 195).
Nesse sentido, também a arte, em especial o cinema, assume sua posição na política, ao mesmo tempo em que perde sua aura, sua autenticidade, seu caráter único, a partir da sua reprodução em massa. “Desde que o critério de autenticidade não é mais aplicável à produção artística, toda função da arte fica subvertida. Em lugar de se basear sobre o ritual, ela se funda, doravante, sobre uma outra forma de práxis: a política” (BENJAMIN, 1980, p. 16).
Da mesma forma, a política, com os instrumentos da arte, se transforma em espetáculo. Benjamin chama a esse processo de estetização da política.
Estetização da política
No plano da arte, a perda da sua aura, entendida aqui como seu caráter de único, e da sua autenticidade, através das técnicas de reprodução em massa, causaram a vulgarização da arte e a perda de sua independência perante a sociedade. Na política igualmente pode-se constatar mudança no que concerne à forma de sua exposição, o que também depende das técnicas de reprodução da indústria cultural.
A apresentação dos líderes ou governantes sofreu uma transformação juntamente com o processo de crise das democracias liberais. A relação que se mantinha entre governante e parlamento, então seu público, passou a ser uma relação entre governante e aparelho de reprodução de informação, que leva a voz e a imagem do líder a um público mais amplo. A evolução da imagem do governante no âmbito político se transformou assim como a do ator no âmbito da arte. Assim, estadista e ator se aproximam ainda mais do seu público. “Daí a existência de uma nova seleção diante do aparelho: os que saem vencedores são a vedete e o ditador” (BENJAMIN, 1980, p. 17). O povo se sente mais próximo ou mais parecido com o líder do que com seus próprios concidadãos.
Esse processo de estetização da política e o uso da arte na propaganda também é observado por Peter Burke na sua análise das imagens como testemunhas oculares. Ele se refere ao uso da propaganda visual, assumindo o anacronismo do termo, já por Augusto, primeiro imperador do Império Romano, em 27 a. C., que influenciou a forma de se representar governantes em imagens até o século XX. Aponta o uso das imagens pela Igreja Católica também como propaganda, usadas inclusive como objetos de devoção e como imagens de consolo. Durante a Reforma Protestante na Alemanha, o artista Lucas Cranach, amigo de Lutero, produziu impressões de protesto contra a Igreja Católica e para disseminar a mensagem reformista (BURKE, 2004). Da mesma forma, o filme O navio branco, de 1941, dirigido por Roberto Rosselini, exaltava a coragem do exército italiano e convocava o espectador para a guerra a partir de palavras de ordem ditas durante todo o filme.
Nesse sentido, o espetáculo da política não é assunto novo, ao mesmo tempo nunca foi tão atual. O fascismo italiano fazia da guerra um espetáculo. A guerra do Vietnã foi televisionada, e hoje o ISIS divulga vídeos de decapitações, afogamentos e fuzilamentos de seus prisioneiros, com direito ao uso de câmeras GoPro, para que não se perca os detalhes nem a qualidade das imagens. O número de espectadores dos vídeos do ISIS divulgados na internet também não é insignificante e passa dos milhões.
Esses fatos são condizentes com o diagnóstico de Adorno a respeito do triunfo da publicidade na indústria cultural. E a confirmação da estetização da política proclamada por Benjamin.
No desenrolar desse processo, porém, Walter Benjamin e Herbert Marcuse chamam a atenção para uma questão que fica em aberto: a consciência do espectador é convidada a entrar em regiões estranhas da experiência da cognição. Isso quer dizer que a partir do momento em que o espectador tem acesso a determinada imagem ou informação as reações não são idênticas. Não se pode afirmar que a opinião pública é sempre passiva diante das informações que recebe todos os dias. É nesse sentido que a obra de arte, que tem seu papel de mercadoria dentro da indústria cultural, pode ser subversiva:
Sem dúvida, as obras são mercadorias. Mas esse fato, por si só, não altera a sua substância, a sua verdade. A “verdade” em arte refere-se não só à coerência e lógica internas da obra, mas também à validade do que ela diz, das suas imagens, som, ritmo. Elas revelam e comunicam fatos e possibilidades da existência humana (…). Não existe obra que não evoque, em sua própria estrutura, as palavras, as imagens, a música de uma outra realidade, de uma outra ordem repelida pela ordem existente e, entretanto, viva na memória e na antecipação, viva no que acontece aos homens e mulheres, e na rebelião contra isso (MARCUSE, 1973, p. 90).
Marcuse afirma, no contexto da revolução cultural da década de 1960, que a busca por uma linguagem que subverta a ordem estabelecida dependerá do uso subversivo do material tradicional já existente. Além da arte, a tradição popular, impressa na linguagem das palavras, nas gírias e no jargão, enquanto língua dos oprimidos, afina-se com o protesto e com a recusa.
Peter Burke também aponta o caráter subversivo das imagens e da arte no seu conceito de imagens subversivas. As imagens propagam valores, mas ao mesmo tempo em que o uso político das imagens é feito de forma a manipular a opinião pública, não se pode reduzir seu uso a isso. Como exemplo, Burke aponta o uso de caricaturas e desenhos com o intuito de desmistificar o poder e contribuir para o debate político (2004, p. 98).
A propaganda não é onipotente. Deve haver uma identificação por parte do que Habermas chamou de sistema de opiniões informais e não públicas, que afinal é formado por pessoas que tem seu lugar enquanto espectadores e pensantes.
O caso da Itália fascista
Como foi dito anteriormente, a indústria cultural foi um instrumento da racionalidade fascista e tinha a função de fazer os italianos internalizarem os valores morais do regime e de manter a coesão social.
Em 10 de junho de 1942, Mussolini anunciava aos italianos em Roma a declaração de guerra à França e Grã-Bretanha, e afirmava que
Essa luta gigantesca não é mais do que uma fase do desenvolvimento lógico da nossa revolução; é a luta dos povos pobres e de braços numerosos contra os ávidos que detêm ferozmente o monopólio de todas as riquezas e de todo o ouro da terra; é a luta dos povos fecundos e jovens contra os povos estéreis e decadentes; é a luta entre dois séculos e duas ideias (apud CAVALLO, 1997, p. 113).
Nessa passagem estão presentes alguns dos principais valores exaltados por Mussolini durante o regime fascista e especialmente durante a Segunda Guerra: pobreza, fertilidade e juventude. Algo como uma receita para o sucesso da Itália fascista na guerra.
Como num livro de George Orwell, o discurso do ditador ecoa: “A palavra, tal como foi definida pela administração (pública e privada), permanece válida, efetiva, operacional: ela estimula o comportamento e ação desejados” (MARCUSE, 1973, p. 108).
Aldo Valori, radialista italiano, comentava em seu programa Commenti ai fatti del giorno, em 3 de julho de 1940, que a “modesta estrutura econômica” italiana havia evitado que no país se desenvolvesse uma classe de “burgueses gordos”, como aconteceu na França e Grã-Bretanha, resultando num baixo nível moral nesses países, enquanto na Itália a sociedade se manteve coesa e unida o suficiente resultando em que “a diferença de gostos, de hábitos, de costumes, entre as várias classes sempre foi mínima” (apud CAVALLO, 1997, p. 117). Essa especulação tanto não poderia ser provada quanto poderia ser desmentida diante das diferenças tanto econômicas, quanto culturais, especialmente entre regiões diferentes, tema recorrente nas obras neorrealistas do cinema e da literatura, como mais adiante será demonstrado.
Pobreza, juventude e fé, enquanto “coletividade religiosamente sentida” (CAVALLO, 1997, p. 117). Desse conjunto, o slogan da guerra surgia: sangue contra ouro. O sangue dos italianos contra o ouro que França e Grã-Bretanha acumulavam em detrimento do resto do mundo. Para muitos italianos, essa era uma guerra justa.
Era a partir dessa concepção da guerra e desse esquema simbólico que a indústria cultural sustentava a imagem dos países adversários, enquanto estéreis, superficiais, ambiciosos e bárbaros. Imagem que se sustentou pelo menos até 1942, quando o cenário interno e externo à Itália começou a mudar. Mario Appelius, afirmava no jornal Il popolo d’Italia, em julho de 1940, que a guerra contra a Inglaterra deveria assumir
(…) o caráter de uma verdadeira Cruzada (…). Se mais tarde a humanidade quiser resolver, racionalmente, a questão inglesa, será preciso esterilizar pelo menos 2 milhões de britânicos, que irá reduzir cientificamente o volume de sangue bárbaro que ainda circula nas veias da raça branca (apud CAVALLO, 1997, p. 157).
Sobre a União Soviética, Luigi Barzini afirmava, no jornal Il popolo d’Italia, em julho de 1941, que a família, “refúgio de tradição e de fé”, estava destruída naquela sociedade. E que por essas e outras razões, o povo italiano, enquanto fascista, não podia aceitar um país onde a imoralidade tomou forma de governo (apud CAVALLO, 1997, p. 157).
A partir do esquema de oposição entre civilidade/barbaridade, pobreza/riqueza, sangue/ouro, a propaganda sustentava a imagem dos italianos sobre si mesmos. Diante da escassez de armas e ferramentas para os soldados no front, a propaganda colocava em destaque justamente a inferioridade dos meios e recursos para exaltar os valores, a inteligência, o ardor, a capacidade de resistir e de sofrer. No filme O navio branco, de Rossellini, a última cena mostra um grupo de soldados que se recuperam num navio hospital, após serem feridos durante uma batalha naval. Quando o navio em que estavam quando foram atingidos volta a ancorar no porto, onde estavam agora, todos os soldados, mesmo os imobilizados, se levantam com o intuito de ver o navio passar, como prova de superação e dedicação, os principais valores, afinal, que um soldado italiano deveria carregar.
Para Adorno e Horkheimer, a essência da indústria cultural é escravizar a opinião pública, se mostrar como uma máquina de possível realização de sonhos. A única resposta possível da arte à opressão, para ele, seria a alienação.
Contudo, apesar da importância evidente da propaganda para o regime fascista italiano, ela não poderia ser onipotente. Para um amplo acolhimento das palavras do emitente, os ouvintes devem se identificar com aquilo que é dito. E essa relação entre emissão e recepção deixou de ser amplamente harmônica quando a realidade vivida pelos italianos no cotidiano divergia em grande medida daquela realidade informada pela imprensa.
Após uma série de bombardeios aéreos em Torino, em fevereiro de 1943, um cabo da polícia escrevia em carta, referindo-se ao rádio como “o papagaio”:
Meu caro irmão, você ouviu no rádio o que aconteceu, enquanto estávamos na casa daquele brigadeiro, que Torino era bombardeada, que foram os ingleses, e também dessa vez fizeram danos graves mesmo nas vilas vizinhas da cidade com vários mortos e feridos, diferente do que diz o papagaio, que foram poucas vítimas, poucos danos (apud CAVALLO, 1997, p. 298).
Além da descrença da vitória na guerra, em cartas se percebe a crescente denúncia a respeito da falta de bens básicos para a sobrevivência, como alimentos, remédios e roupas, devido ao racionamento feito pelo governo, devido à incapacidade deste de controlar a chegada desses bens para todos italianos, independente da região e da classe social, e devido a isso, o crescimento do mercado negro, especialmente em Napoli e na Sicília, pela máfia Camorra. Sobre isso, em carta enviada de Agrigento, na Sicília, um homem dizia que ali “só há Camorra, nesta feia Sicília, só ladrões e porcos e falsos, e Camorra, em tudo uma vergonha” (apud CAVALLO, 1997, p. 303). Sobre a situação na Sicília, uma carta enviada a Mussolini pela sua filha Edda, é esclarecedora:
Aqui, além da desordem e do bombardeamento, tem a fome, verdadeira, crônica há meses. Penso que seja hora de encontrar um remédio para isso, de considerar a Sicília e especialmente as áreas afetadas, como terras de terremoto nas quais não sobrou nada (…). Eu estive na Albânia e na Rússia, nunca vi tanto sofrimento e tanta dor. E eu mesma tenho a impressão de estar em não sei onde, longe, a mil milhas de distância da Pátria e da civilização. Por agora ainda se diz, o Duce não sabe, agora sabe (apud CAVALLO, 1997, p.358).
Ao fatalismo de Adorno a respeito da relação manipuladora entre indústria cultural e opinião pública, Benjamin prevê a possibilidade da arte, em especial do cinema, favorecer uma crítica das relações sociais e das condições materiais. Essa seria a politização da arte, em resposta à estetização da política. Por outro lado, Marcuse critica a defesa da arte enquanto ferramenta política. Da mesma forma que na propaganda, o uso político da arte, em qualquer sentido, significaria que ela se tornou meramente funcional em favor da racionalização da sociedade. A arte é diferente da realidade, não pode ser confundida. Mas ainda assim é, para Marc Ferro, uma contra-análise da sociedade, é uma segunda história dentro da história (2010). E nessa segunda história, a arte mostra a opressão e a liberdade:
A verdade está na beleza, ternura e paixão das vítimas e não na racionalidade dos opressores. É a síntese de dois níveis antagônicos de realidade: a ordem estabelecida das coisas e a libertação possível ou impossível dessa ordem. O resultado é a criação de um mundo objetal diferente e, no entanto, derivado do mundo existente; mas essa transformação não violenta os objetos, outrossim, fala por eles, dá palavra, som e imagem ao que é silencioso, distorcido, suprimido, na realidade estabelecida (MARCUSE, 1973, p. 96).
Considerações finais
Tendo a teoria crítica como referencial, é indiscutível o fato de que com o desenvolvimento tecnológico e a evolução dos meios de reprodução em massa se observa uma constante transformação da forma como se faz política, arte e como se produz informação. Mas apesar da importância da indústria cultural na estandardização de comportamentos, tanto na sociedade liberal quanto em uma ditadura, a opinião pública não deixa de ser uma construção realizada também por meio da recepção, da forma como as pessoas se sentem representadas e identificadas. Da interação entre os produtos da indústria cultural, o público que as recebem e o contexto em que estão inseridos, não é possível determinar qual será o resultado exato. Pode-se afirmar, porém, que apesar da tendência em normalizar comportamentos, a partir dos instrumentos da indústria cultural é possível surgir também a crítica a essa normalização.
Referências bibliográficas
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. (1985). Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar.
BENJAMIN, W. (1980). A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução. Em: Os pensadores: textos escolhidos – Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas. Trad. José Lino Grünewald. São Paulo: Abril Cultural.
BURKE, P. (2004). Testemunha ocular: história e imagem. Bauru: EDUSC.
CAVALLO, P. (1997). Italiani in Guerra: sentimenti e immagini dal 1940 al 1943. Bologna: il Mulino.
COHN, G (Org.) (1977). Comunicação e indústria cultural: leituras de análise dos meios de comunicação na sociedade contemporânea e das manifestações da opinião pública, propaganda e cultura de massa nessa sociedade. São Paulo: Cia. Edit. Nacional.
FERRO, M. (2010). Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra.
MARCUSE, H. (1973). Contrarrevolução e revolta. Rio de Janeiro: Zahar.
Bio fornecida pelo palestrante.
Daniele Fernanda Feliz Moreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Resumo: O objetivo deste trabalho é discutir as estratégias de performances de grupos marginais após o modernismo brasileiro. Já que, determinados grupos, em períodos distintos, utilizaram-se dos discursos e narrativas literárias do modernismo com objetivos renovadores. Partindo da concepção de John Barth sobre a escrita de Borges, seu texto The Literature of Exhaustion servirá de base para as discussões. Tendo em vista as releituras dos grupos literários, organização e configuração dos mesmos, o trabalho terá como escopo ainda, a análise do texto de Sérgio Vaz e sua ligação com o trabalho de Oswald de Andrade. De modo mais breve, e menos detalhado, será discutido também a atuação dos grupos, perspectivas, organização e como elas conferem legitimidade a essas escritas, uma vez que oferecem releituras com novas perspectivas.
Palavras-chave: Literatura; Marginalidade; Cultura; Modernismo.
Abstract: This paper aims to discuss the strategies of performance of marginal groups after the Brazilian Modernism. Certain groups, at different times, used the discourse and literary narratives of Modernism with renovated goals. This paper will depart from John Barth’s text The Literature of Exhaustion, about Borges’ writings, to base our discussion. Aiming at the reinterpretation of literary groups, their organization and their configuration, this paper will analyse Sérgio Vaz’s text and its connection with Oswald de Andrade ‘s work. It will also discuss the activities of these groups, their prospects, forms of organization and of legitimizing these writings, as they offer readings with new perspectives.
Key-words: Literature; Marginality; Culture; Modernism.
Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ 2011). É especialista em relações etnorraciais e educação pelo CEFET/RJ. Possui mestrado em Relações Étnico raciais pelo CEFET/RJ (2014) com pesquisa em literatura, racismo e ensino. Tem experiência na área de educação, com ênfase em língua portuguesa, suas literaturas e questões culturais. Trabalhou como professora-tutora do curso de Tecnólogo em Segurança Pública e Social pela UFF, atuando principalmente nas disciplinas de Oficina de Texto I e III. É doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente é professora do departamento de Educação da UERJ, leciona disciplinas voltadas para práticas educativas, questões raciais e estudos de Literatura.
LITERATURA MARGINAL: EXAUSTÃO E PLENITUDE
Daniele Fernanda Feliz Moreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
A literatura brasileira persegue de modo constante atualizar-se de acordo com novas formas de expressão, tendo em si a originalidade, o ineditismo e a novidade. Inspirados pelos movimentos de vanguarda europeias, a semana de 1922 assinala uma importante ruptura no campo das artes. No entanto, será que literatura modernista ou pós-modernista serviu como uma reedição da tradição? Será que as promessas inovadoras, incorporaram-se ao sistema e passaram a ser sentidas como “esgotadas” em sua capacidade inovar, surpreender, interessar?
Para refletirmos sobre o panorama literário contemporâneo, em que cada vez mais a pluralidade de escrita assinala seus espaços, é fundamental salientar a relevância do movimento modernista brasileiro. A semana de 1922, para além da congregação de visionárias concepções artísticas, possibilitou uma aproximação entre linguagens até então bem delimitadas no cenário literário brasileiro. O movimento modernista possibilitou uma descentralização de narrativas. A figura do “eu” literário burguês passou a dividir espaços com o elemento indígena e sertanejo, exemplificado nas obras de Mario de Andrade, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Tais obras foram responsáveis por atualizarem a vertente popular sem representarem preconceito, e como afirma Silviano Santiago: “O romancista apenas escuta a produção poética popular.” Ou seja, o escritor, naquele momento, fazia algo que seria decisivo para maior abertura e pluralidade literária no Brasil do século XXI. O escritor compara Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, com as Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos e aponta o caráter duplo da comparação, uma vez que “são obras que navegam tanto em águas europeias quanto em peculiarmente nacionais”. Santiago enaltece ainda o viés positivo e a riqueza literária das expressões populares:
“É neste entrecruzar de discursos, já que é impossível apagar o discurso europeu (…) que se impõe o silêncio do narrador-intelectual (…) é aí que se faz ouvir o conflito entre o discurso do dominador e do dominado. É aí que se constitui o texto-da-diferença, da diferença que fala das possibilidades (ainda) limitadíssimas de uma cultura popular preencher o lugar ocupado pela cultura erudita, apresentando-se finalmente como a legítima expressão brasileira”.
(SANTIAGO, 1982, p. 172)
O popular obtinha espaço na literatura através de intermediários. Os mediadores desempenhavam papel quase que antropológico, seja em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha seus escritores construíram narrativas polifônicas, os enredos eram permeados de diversas vozes. Seus personagens carregavam consigo o sotaque, o gesto e expressões linguísticas típicas de seus lugares de origem. No entanto, a literatura brasileira ainda carecia de narrativas construídas por camadas populares. O sertanejo, o indígena, o negro e o pobre estavam sendo retratados nas obras de arte de modo mais autêntico, porém ainda sem protagonismo enquanto artista, produtor. É sabido que ao longo da história da literatura no Brasil, alguns escritores de grupos marginalizados socialmente conseguiram notoriedade em suas produções literárias, caso de Lima Barreto, Machado de Assis e do poeta Cruz e Sousa, autores negros, mas que de alguma forma estavam inseridos em contextos de prestígio, obtiveram educação burguesa e circulavam na classe média.
O modernismo brasileiro foi uma corrente decisiva na abertura temática literária, porém ainda carregava consigo características do romantismo, uma vez que o conhecimento e a incorporação do popular pela escrita literária ocorriam através do ponto de vista burguês/erudito. De certa forma, e com algumas exceções, repetia os moldes lineares realistas do século XIX nas narrativas, utilizando uma construção psicológica dos personagens pautadas em dados da realidade e construção com começo, meio e fim. Os mecanismos de centralidade eram ainda os eleitos pela elite cultural, ou seja, os critérios para eleger uma obra literária de valor estão ligados aos seus méritos estéticos, sua “literariedade”.
A problemática da questão está situada na noção de literatura, que a princípio é ideológica e está engendrada na burguesia. Portanto, os valores estéticos e culturais que vão atestar essa “literariedade” estão sob a ótica desse grupo. O privilégio de eleger obras literárias está ligado à questão de poder. As escolhas não são arbitrárias, a história da literatura brasileira constata tais interesses. A linguagem, o modo de expressar-se e o acesso a leitura e a escrita são requisitos que preenchem e estabelecem a noção de autor. No artigo “Vale quanto pesa” Silviano Santiago discorre sobre o caráter elitista da escrita no país problematizando o papel do autor, do livro, e sua circulação social. O escritor trata da configuração do meio literário brasileiro, destacando suas especificidades e de como a ficção operava as tendências da cultura erudita. Por definição de cultura erudita e cultura popular, Alfredo Bosi define que:
“Se pelo termo cultura entendemos uma herança de valores e objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso, poderíamos falar em uma cultura erudita brasileira, centralizada no sistema educacional (e principalmente nas universidades), e uma cultura popular, basicamente iletrada, que corresponde aos mores materiais e simbólicos do homem rústico, sertanejo ou interiorano, e do homem pobre suburbano ainda não de todo assimilado pelas estruturas simbólicas da cidade moderna”.
(BOSI, 2009, p. 24)
Ao analisar o panorama literário brasileiro após a semana de 1922 é possível constatar rupturas, mas também muitas permanências. O normativismo e o prescritivismo das formas da arte institucionalizada repercutiram ao longo dos anos. Isto porque, seria preciso uma renovação completa não só no âmbito artístico, mas também social. Para que o modernismo fosse uma estética da reciclagem criativa (BARTH, 1984), seria preciso a reutilização do material literário “esgotado” para novas combinações “originais”, ou seja, a reformulação da arte brasileira, uma vez que está centrada nos anseios burgueses.
É somente em 1960 que uma autora semiletrada, sem qualquer auxílio instrucional para a produção literária, lança-se no meio editorial. Carolina Maria de Jesus tem o seu diário, intitulado Quarto de despejo publicado por intermédio de um jornalista. No entanto, Carolina tinha pretensões que iam além de seu diário, já que inicialmente não tinha como intenção publicar seu diário, mas sim, outros escritos ficcionais. O trabalho de Carolina assumiu diversos lugares de equívocos, seja como testemunho, antropológico ou obra exótica, pouco se explorou seu potencial literário. Sua escrita repercutiu por diversos países, Quarto de despejo, seu livro mais famoso, alcançou números surpreendentes para o mercado editorial da época. E então, trinta e oito anos após a Semana de Arte de Moderna, em que se enaltecia e clamava pelo popular, nacional e originário, uma escritora oriunda da favela tinha seu primeiro livro publicado.
A história da literatura brasileira é um território em constante disputa por conferir e instrumentalizar poder, imprimindo visibilidade cultural e social ao indivíduo e também seu grupo. A escrita de Carolina não é pertencente a movimentos culturais e literários. A escritora foi pioneira em um tipo de literatura associado à produção marginal. Para NASCIMENTO (2009), “Literatura Marginal se tornou uma rubrica ampla que abrange a inserção dos escritores no mercado editorial, as características dos produtos literários, um tipo de atuação literário-cultural, ou ainda, a condição social do escritor.” O termo marginal tem acepções diferentes nos períodos da década de 1970 e mais tarde, nos anos 2000. É utilizado por grupos distintos, porém com algumas aproximações ideológicas, são uma possibilidade para o que Barth denomina o escritor pós-moderno ideal, já que não imita e não repudia nem seus genitores do século XX nem seus avós do século XIX. Ele digeriu o modernismo, mas não o carrega nos ombros como um peso.
Conforme apontado por Barth, os gêneros artísticos são concebidos e desenvolvidos por meio da história da humanidade. Portanto, estão sujeitos à exaustão, a repetição, ao menos no espírito de um certo número de artistas, em certos momentos e em determinados lugares. Ou seja, as convenções artísticas podem ser abandonadas, subvertidas, ultrapassadas ou mesmo retomadas contra elas mesmas, para que se formulem novas formas de expressão mais completas. A literatura marginal pode ser compreendida, a partir da perspectiva dos estudos de John Barth como essa possibilidade de estética de reciclagem criativa. Como cita Helloisa Buarque de Hollanda “se redescobriu (ainda muito bobamente) nossa paisagem social, que andava soterrada nos anos medíocres que se seguiram à Semana de Arte Moderna de 1922. De novo, de um novo ângulo, voltou-se a olhar o Brasil (…) o povo, mal visto, desfocado”.
Surge em 1970 um movimento denominado “literatura marginal”. Movimento que era “marginal” na medida em que suas condições, bem como sua distribuição, eram feitas à margem da política editorial vigente. Segundo Heloisa Buarque de Hollanda, “era um movimento da contracultura e feito pela classe média”. Surgia uma geração que, influenciada pelo Tropicalismo, tinha como meta partilhar e popularizar a poesia. No contexto de ditadura militar, tal movimento burla os mecanismos editoriais comerciais e de censura. No tocante a linguagem, estrutura e temática havia uma rejeição aos padrões literários então vigentes. Heloísa Buarque de Hollanda assinala que:
“(..) faz-se clara a recusa tanto da literatura classicizante quanto das correntes experimentais de vanguarda que, ortodoxamente, se impuseram de forma controladora e opressiva em nosso panorama literário. Num recuo estratégico, os novos poetas voltam-se agora para o modernismo de 22, cujo desdobramento efetivo ainda não fora suficientemente perseguido. Nesse sentido, merece atenção a retomada da contribuição mais rica do modernismo brasileiro, ou seja, a incorporação do coloquial como fator de inovação e ruptura com o discurso nobre acadêmico. Se em 22 o coloquial foi radicalizado na forma do poema-piada de efeito satírico, hoje se mostra irônico, ambíguo e com um sentido crítico alegórico mais circunstancial e independente de comprometimentos com um programa preestabelecido.”
(Hollanda, 1975, p. 56)
Formado por pessoas da classe média, letrados, tendo a literatura como um meio de revolução social, e inspiradas no modernismo brasileiro, esses escritores tinham como instrumento de produção e popularização de seus trabalhos o mimeógrafo, ferramenta primordial para reprodução dos livros. A máquina, além de baratear e dinamizar a reprodução, era totalmente destoante do que se fazia nos meios editoriais industrializados. A linguagem também era instrumento de pertencimento ao grupo, as gírias, expressões coloquiais eram muito utilizadas e tinha como finalidade tornar a poesia um elemento mais próximo do popular, o objetivo era se afastar do formalismo acadêmico e estabelecer uma conexão com a rua.
É no final dos anos 1990 e início de 2000 que se difunde e assume relevância nos grandes meios literários um movimento intitulado por Ferréz de “literatura marginal”. A proposta adquire maior visibilidade a partir de outros dois importantes eventos que marcam o cenário cultural nacional. O primeiro é o livro de Paulo Lins, Cidade de Deus. Sua obra foi publicada em 1997 e obteve relevantes críticas positivas que exaltavam o poder de escrita de seu autor. Em 2002 a obra recebe uma adaptação para o cinema e é aclamada pela crítica, e assim os componentes do livro, dentre eles favela, violência e marginalidade, adquirem espaço e até certo ponto, prestígio em espaços hegemônicos. A produção marginal que surge a partir dos anos 2000 tem muito em comum com essa literatura marginal dos anos 1970. O próprio Ferréz, escritor militante da periferia alega que “O mimeógrafo foi útil, mas a guerra é maior agora, os grandes meios de comunicação estão aí, com mais de 50% de anunciantes por edição, bancando a ilusão que você terá que ter em sua mente”. O termo “literatura marginal” é escolhido por Ferréz como forma de designação de sua escrita. Na introdução do livro “Literatura marginal – talentos da escrita periférica”– o autor assegura que: “A literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo” (FERRÉZ, 2005, p. 5).
O enfoque da palavra ‘marginal’ escolhida pelo autor para justificar seu trabalho serve como destaque para designar minorias raciais ou socioeconômicas. Essa é uma importante característica a ser levada em consideração, já que é um fator de diferenciação desse grupo dos demais autores marginais da história da literatura nacional. Carolina Maria de Jesus, quando escreve, não está amparada por um grupo, um movimento. A formação ideológica, crítica e cultural são elementos fundamentais para a coesão do grupo. Apesar das diferenças sociais e econômicas que estruturam os movimentos literários de 1922, 1970 e 2000 existe um entendimento intelectual-artístico decisivo para a produção do grupo, tanto que os comprometidos com os coletivos de contracultura da década de 1970 e os escritores de periferia dos anos 2000 tomam como exemplo e eixo paradigmático o movimento modernista.
Além das aproximações existentes entre as gerações de literatura marginal de 1970 e 2000, é preciso ressaltar que, o escritor Ferréz não só elogia o movimento predecessor alegando que “O mimeografo foi útil”, como também cita João Antônio, escritor que, de acordo com Alfredo Bosi é “Ora, realismo fervido na revolta pende mais para a margem que para o centro da sociedade”. O trecho que encerra a abertura de Ferréz faz referência ao desdém que a elite letrada tem como o povo:
“Evitem certos tipos, certos ambientes. Evitem a fala do povo, que vocês nem sabem onde mora e como. Não reportem povo, que ele fede. Não contem ruas, vidas, paixões violentas. Não se metam com o restolho que vocês não veem humanidade ali. Que vocês não percebem vida ali. E vocês não sabem escrever essas coisas. Não podem sentir certas emoções, como o ouvido humano não percebe ultrassons.”
(ANTÔNIO, 2001, p. 34)
João Antônio foi um escritor que, além das abordagens temáticas que privilegiasse a boemia e a marginalidade, Antônio era também um crítico de seu tempo: “Assim, grande parte dos escritores que depõem hoje sustenta preocupação vinculada à forma, sob a denominação de um ‘ismo’ qualquer. Lamentável ou incrível. As posições beletristas não mudaram entre nós, sequer um milímetro, nos últimos quinze anos.” Antônio, propõe que haja na literatura uma identificação com a realidade brasileira, já que “(…) carecemos, em essência, é o levantamento de realidades brasileiras, vistas de dentro para fora. Necessidade de que assumamos o compromisso com o fato de escrever sem nos distanciarmos do povo e da terra”. Esse anseio por representação já era indicado desde o Manifesto do Centro Popular de Cultura (CPC), em 1962, quando se alegava que sem a arte política não existiria a arte popular (HOLLANDA, 1992). É um viés artístico que vinha adquirindo espaço, que tinha um compromisso com o popular. É dessa tendência que os escritores marginais dos anos 2000 vão se valer para a construção de seus textos. A escolha de Ferréz não é aleatória ou acidental, ao optar por dialogar com João Antônio, o autor o faz de maneira consciente.
Mesmo com aberturas no setor editorial, publicações alternativas e maior espaço para novos autores, a literatura brasileira ainda é conservadora e reproduz antigos mecanismos de seleção de centralidade. Uma pesquisa feita em 2012 por Regina Dalcastagnè traça o perfil dos escritores e da escrita dos brasileiros. Foram lidos 258 romances, publicados de 1990 a 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco. A pesquisa revelou que os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente). Esses dados só enfatizam o quanto ainda é restrito o campo literário.
Nessa perspectiva, a autora também traçou o perfil dos personagens nos romances brasileiros contemporâneos. Eles são, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). As principais ocupações dos personagens masculinos são escritor (8,5%), bandido ou contraventor (7%) e artista (6,3%). As personagens femininas são donas de casa (25,1%), artistas (10,2%) ou não têm ocupação (9,6%). A questão não é diferente no tocante à cor. Os personagens negros são 7,9% e têm pouca voz: são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. Os brancos são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%). Os negros são bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%). Enquanto a maioria dos brancos morre, na ficção, por acidente ou doença (60,7%), os negros morrem mais por assassinato (61,1%).
É possível perceber a existência de uma literatura que, seja por questões editoriais ou sociais, não é contemplada por esse espaço central e hegemônico. Literatura essa, que não usufrui de prestígio e legitimidade do cânone, já que o mercado editorial está voltado para uma demanda específica que foi ilustrada pela pesquisa. Dos números apresentados por Dalcastagnè e das constatações semelhantes feitas por Silviano Santiago em seu período, é possível refletir sobre o quão restrito é o universo literário no Brasil e o quanto são relevantes culturalmente as produções que infringem as regras pré-estabelecidas desse universo.
III. Exaustão e Plenitude
O trabalho desses escritores tem componentes próprios; atuação política, iniciativa editorial, além de uma condição diferenciada quanto ao lugar de fala. É uma característica que está presente tanto no movimento que teve seu auge em meados dos anos 1970, quanto no dos anos 2000. Na década de 1960 os escritores faziam recitais de poesias nas ruas, em conjunto com operários, as apresentações se davam em locais inusitados, a própria linguagem, a própria poesia era performática, construída especificamente para o povo. “Não há lugar aqui para os ‘artistas de minorias’ ou para qualquer produção que não faça uma opção de público em termos de povo’.” Os objetivos do grupo são desvirtuados quando em 1964 ocorre o golpe militar, e então o projeto de expansão cultural para o teatro e as demais artes fracassa.
Já a literatura marginal dos anos 2000 é periférica, oriunda da favela. Suas formas de atuação priorizam este espaço. Há um deslocamento de objetivo quando essa migra de lugar, isso ocorre, mas, no entanto, seus idealizadores a transformam em estratégica. As formas de atuação artística na periferia são quase sempre em formato de saraus, mas há também dança, representada como confronto de hop-hop e grafiti, expressão gráfica típica das ruas.
Essa atuação pode ser considerada um veículo de visibilidade, já que os saraus, os encontros literários e as edições com selos próprios também foram componentes que estimularam a curiosidade das universidades, editoras e imprensa. A favela é um elemento complexo dessa escrita; buscar o entendimento dessas produções discursivas é dialogar com um contexto social até então novo para a literatura. As favelas são localidades que não estão no centro social, político e cultural dos acontecimentos, no entanto, é dotada de pulsão criadora, e grande fluxo de produção. São esses atores sociais que buscam na cultura territorializada da favela agregarem outros valores a essa condição. Tal mobilização assinala uma importante mudança social, já que a periferia passa a elaborar as soluções para os obstáculos encontrados, fazendo com que se desempenhe autonomia e protagonismo em seu destino. Essa iniciativa é permeada pela valorização do morador da periferia, sua cultura, seus hábitos, musicalidade e formas de expressão. Sérgio Vaz revela que:
“Esse novo artista da periferia é um artista cidadão. Ele não faz a arte só pela arte, ele representa as pessoas que não têm voz, não têm teatro, não têm cinema. É um movimento político apartidário (…). Talvez com menos dinheiro, menos condições, menos espaço. Mas, ainda assim, é uma efervescência cultural. As pessoas se apropriaram dos bares, tem cinema na laje, botecos, becos e vielas”.
(Jornal do Brasil, Cultura, 02/11/ 2012)
O autor destaca uma apropriação do espaço favela como um território possível para a difusão cultural, revelando a importância do artista periférico. Ele trata essa postura como representação do que seria essa renovação de um espaço. O destaque que esses eventos adquirem possibilita um olhar para as regiões que antes eram negligenciadas, como cita Ferréz “mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto.” Os eventos culturais alteraram as rotinas das comunidades, pois os grupos que prestam serviços aos moradores não são somente as ONGs (organização não governamental) de fora, mas sim os próprios cidadãos empenhados na transformação daquele espaço.
É possível perceber que em três momentos históricos distintos, em 1922 com a semana de Arte Moderna, na década de 1970 com os CPCs da Literatura Marginal e nos anos 2000 com a articulação dos moradores de periferia na criação de um movimento cultural artístico-literário há tentativas de reciclagem criativa. Mas, do ponto de vista da efetivação da proposta, somente as literaturas marginais da década de 1970 e dos anos 2000 conseguem pôr em prática tal empreitada. Isso porque, buscam suas bases no Modernismo e o superam, ao menos em seu intuito objetivo. O Modernismo tinha como ideal, além da antropofagia, a popularização da arte no Brasil. Nessa perspectiva imediata, ele fracassa. Da configuração da semana de arte moderna de 1922 até as publicações e manifestos artísticos, nada é de ampla circulação além do universo burguês. A literatura marginal de 1970, idealizada a partir da semana de 1922 obtém alguma aproximação com o público porque encontra na linguagem um meio de mediação artística. Além de fazer do modo de distribuição um recurso de aproximação relevante. Nos anos 2000, analisadas minunciosamente a semana de 1922 e a aprendizagem da poesia popular da década de 1970, a literatura produzida na periferia refaz o manifesto antropófago, de Oswald de Andrade.
Relevante ícone, agitador cultural e escritor, Sérgio Vaz é conhecido por conceber o primeiro Sarau permanente da periferia. Autor do livro Literatura, pão e poesia, propõe uma Semana de Arte da Periferia nos moldes semelhantes à Semana de Arte Moderna de 1922. Conforme Oswald, Sérgio Vaz elabora um manifesto. Intitulado “Manifesto da Antropofagia Periférica”, o texto de Sérgio Vaz recupera os anseios modernistas no que diz respeito à questão da divulgação e valorização da cultura nacional. No entanto, o trabalho de Vaz está centrado na periferia. O primeiro verso do manifesto expressa essa concepção: “A periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.” O escritor se vale do manifesto antropófago de Oswald de Andrade publicado em 1928, ícone da expressão modernista brasileira. “Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”
A noção de antropofagia é fundamental para a compreensão do movimento modernista brasileiro, uma vez que, a ideia de criação cultural recebe um significado muito diferente do até então explorado naquele momento. Oswald de Andrade ao cunhar o conceito de antropofagia estabelece o canibal como agente, como aquele que transforma a cultura alheia e a ressignifica a partir de suas perspectivas culturais e sociais. Oswald reflete sobre a questão de maneira descontraída em seu manifesto antropofágico: “Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”
No fragmento exposto, o autor modernista reitera com ironia a importância do Brasil no estabelecimento do humanismo europeu do século XVIII, baseado nos princípios da “liberdade, igualdade e fraternidade”, que não se consolidaram. Prova disso é a Primeira Grande Guerra com que se inaugura o século XX na Europa. Sendo assim, propõe a Revolução Caraíba, cujo fundamento é a antropofagia cultural de colonizados e colonizadores. A construção de Sérgio Vaz transforma antropofagia em periferia. O ato de se apropriar de outras manifestações culturais e dar um novo sentido a partir de uma ótica singular, também pode ser concebida sob o viés periférico.
Sérgio Vaz exerce a antropofagia a partir do próprio cenário cultural brasileiro. Se a antropofagia pode ser entendida como uma forma de a arte brasileira se apropriar de elementos culturais hegemônicos, como por exemplo as vanguardas europeias, a periferia, na visão de Sérgio Vaz, também pode se mobilizar no sentido de se apropriar desses elementos eruditos e ressignificá-los. Oswald assinala que a antropofagia é um fator de união social, econômica e filosófica. Sérgio Vaz constrói sua proposta a partir do amor, da dor e da cor. Os três eixos selecionados por Vaz são significativos e ajudam a compreender o conceito de periferia estabelecido por ele. Ao citar dor, o poeta se refere à experiência da violência e da escassez enfrentada pela população mais pobre e consequentemente negligenciada socialmente. Essa parcela, constantemente ignorada é composta por maioria negra, ressaltando assim, outro componente fundamental: a questão racial. Mesmo diante da exclusão social causada pela cor, gerando dor, Vaz cita ainda o amor como componente desse núcleo periferia. O amor pode ser entendido como a solidariedade necessária à sobrevivência. Idealizada a partir do movimento modernista de 1922, a Semana de Arte Moderna da periferia, elaborada em 2007, contou com diversas semelhanças e alusões ao primeiro evento paulista elaborado na primeira metade do século XX. Exposições artísticas, danças, manifestações musicais e folclóricas formaram o repertório da Semana Periférica.
Sérgio Vaz afirma se apropriar da ideia de “Semana de arte moderna” com intuito de dar visibilidade às demandas da periferia. Ou seja, Sérgio Vaz tem consciência da apropriação de um significativo e marcante acontecimento da alta cultural brasileira e o transforma com intuito de subvertê-lo e obter visibilidade, reivindicando assim, atenção para a periferia. No manifesto da antropofagia periférica o escritor assinala:
“Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de uma futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade.”
(VAZ, 2011, p. 27)
O escritor atribui à arte uma função social, capaz de combater injustiças e, essa arte só pode vir da periferia, uma vez que, “A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.” O princípio da autonomia é constante no manifesto de Sérgio Vaz. E, a figura central dessa autonomia é o artista-cidadão. Nesse sentido, é possível perceber a influência de Oswald de Andrade no texto de Sérgio Vaz. Oswald critica o sistema, as injustiças e a previsibilidade dos eventos:
“Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. “
(ANDRADE, Ano I, no I, maio de 1928)
Ao ajustar sua crítica ao pensamento oswaldiano e recriá-lo, Sérgio Vaz não só valida a importância do movimento modernista brasileiro de 1922, como o retoma, atualiza-o aplicando a sua realidade. O discurso de Oswald é então melhorado, porque encontra aplicabilidade. Sérgio Vaz também tece uma crítica relacionada aos meios de produção artística, o pouco incentivo governamental, vaidades de indivíduos relacionados com o meio e a mercantilização da arte: “Miami pra eles? “Me ame pra nós!” Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e os eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e da arte privada” (VAZ, 2011, p. 27).
No manifesto antropofágico de 1922, Oswald de Andrade já mencionava algo muito semelhante a essa crítica ao meio artístico. Ao afirmar ser “contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida (…) contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.” O escritor moderno critica a falta de autonomia e condena a repetição das artes e das culturas europeias sem questioná-las ou adaptá-las ao modo brasileiro. Ele afirma: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” A repetição sem adaptação, afastada dos elementos culturais brasileiros parece estúpido na visão oswaldiana. Em consonância a essa postura, Sérgio Vaz estabelece uma intertextualidade pensada, calculada e adaptada a realidade periférica. Vaz consome todo o texto de Oswald de Andrade e o digere de maneira peculiar, sensível e inteligente:
“A periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala […] contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.”
(VAZ, 2011, p. 28)
De acordo com Sérgio Vaz, a cultura é uma importante solução para o problema da marginalização social da periferia. Oswald também acreditava que a democratização cultural era uma questão importante, já que ele idealizava: “A massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico”. As releituras da produção e ideologia modernista ainda encontram eco nas escritas contemporâneas. Para Ihab Hassan a ficção pós-moderna apenas reativaria, num espírito de subversão cultural e anarquia, a criatividade reflexiva e narcisista do Modernismo. Porém, mais do que reativar, o trabalho de Sérgio Vaz se apropria e a cria a partir de Oswald. Barth, ao tratar da exaustão da literatura, aponta principalmente para a estética do alto modernismo, já superada em sua essência. O autor afirma que a literatura não se esgotará jamais não porque um texto literário em particular seja inesgotável, mas sim por conta de sua significação, que está sujeita, por meio dos leitores, ao tempo, espaço e a linguagem.
Bibliografia Consultada
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VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. Rio de Janeiro, Global, 2003.
Bio fornecida pelo palestrante.
Maria Eduarda Pinto Pereira
Silvia Eliane de Oliveira Basso
Adenilson de Barros de Albuquerque
Instituto Federal do Paraná
RESUMO: Este artigo é uma análise do papel do narrador na sociedade atual; da forma como ele introduz sua narrativa, os métodos que usa e a maneira como trabalha em conjunto com a memória a fim de fornecer narrativas que possam transmitir não apenas histórias, mas experiências. Com base no envolvimento do narrador não correspondido pelo ouvinte, que está vinculado diretamente a coisas imediatas, o assunto abordado será relacionado ao romance de Aleiton Fonseca, Nhô Guimarães, o qual instiga uma reflexão a respeito da posição e da importância do narrador em sociedade. A partir da contribuição de autores como Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Pierre Nora e Michael Pollak é feita uma análise a respeito da principal hipótese aqui levantada: se o narrador está ou não à margem da sociedade nos dias atuais.
Palavras-chave: histórias; memória; experiências; ouvinte.
ABSTRACT: This article is an analysis of the role of the narrator in present society. It introduces the narrative, the methods, uses and the way he works them in conjunction with memory, in order to achieve a narrative that can transmit not only stories, but also experiences. It will discuss the case of the narrator that does not correspond with his listener, since the latter is linked only to immediate things, in the novel Nhô Guimarães, by Aleilton Fonseca. It instigates a reflection on the position and the importance of narrator in society. Employing the contributions of From of the contribution of Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Pierre Norra and Michael Pollak, this article will analyse the book having as its main hypothesis raised here whether the narrator is at the margin of society.
Keywords: stories; memory; experiences; listener.
MINICURRÍCULOS: Maria Eduarda Pinto Pereira foi pesquisadora Pibic-Jr, de março de 2015 a fevereiro de 2016, no projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É estudante do Ensino Médio Integrado em Química, no IFPR/campus Umuarama. É membro do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação
Silvia Eliane de Oliveira Basso é docente no IFPR/campus Umuarama. Colaboradora do projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É líder do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação.
Adenilson de Barros de Albuquerque é socente no IFPR/campus Umuarama. ´É coordenador do projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É membro do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação.
NARRADOR E SOCIEDADE: UMA LEITURA DO ROMANCE DE ALEILTON FONSECA NHÔ GUIMARÃES
Maria Eduarda Pinto Pereira
Silvia Eliane de Oliveira Basso
Adenilson de Barros de Albuquerque
Instituto Federal do Paraná
Nhô Guimarães (2006) é um romance de Aleilton Fonseca que retrata, através de uma homenagem a Guimarães Rosa, a vida no sertão. Mantendo a sua maneira característica de escrever, Fonseca dá ênfase ao narrador e às suas histórias vividas. O escritor prende a atenção do leitor graças à sua forma de escrever que reflete alguém experiente. Na sua maneira de desenvolver o texto, ele nos leva para além do personagem, fazendo-o se transformar a cada leitura, criando assim um tipo de identificação tornando-o mais “real”. O escritor reflete em seus escritos experiências de vida. “Isto porque sua vida é o principal alimento da sua escrita” (RIBEIRO, 2009, p. 297). Esta bagagem, que está diretamente ligada ao seu método de contar a história, enriquece a narrativa, aquela que carrega consigo as boas histórias/experiências. Aleilton Fonseca nos impulsiona a novos sentimentos: ele “é capaz de nos fazer enxergar qualidades e valores do ser humano que se fazem cada vez mais raros no nosso quotidiano de simulacros de emoções” (OLIVIERI-GODET, 2010, p. 99). Assim, indo além do fantasioso e transformando o que é dito simples em algo substancial para o leitor, Fonseca retrata, a história da personagem Nhô Guimarães.
Uma narradora personagem, por meio de muitas histórias, tenta repassar suas experiências ao seu ouvinte (semelhante àquele de Grande sertão: veredas), destacando o interesse que a personagem Nhô Guimarães tinha pelo sertão. Fonseca emprega informações obtidas e trabalhadas pelo escritor mineiro Guimarães Rosa e as organiza de maneira que a narradora personagem possa homenageá-lo. Na homenagem a Guimarães Rosa, está conservada a característica do narrador do sertão, que procura não apenas contar uma história, mas torna-a “real” de maneira que o ouvinte possa refletir e se identificar. Outro destaque do texto é o próprio ouvinte, sua postura de atenção silenciosa à narradora. Isso gera uma provocação sobre o tipo de respeito e valor que o meio social atual fornece ao narrador.
Destacada, em linhas gerais, a maneira como a obra de Fonseca retrata a vida no sertão, este artigo, especialmente, está voltado à ação de narrar e à (des)valorização do narrador nos dias atuais. A narradora em Nhô Guimarães valoriza os aprendizados, as experiências que a vida lhe proporciona. A admiração dedicada ao marido que não era um homem estudado, mas que vivia e aprendia as coisas que o sertão lhe oferecia, representa a importância da experiência não somente na história, mas no contexto geral de vida: “Mas ele era difícil de errar as ideias; tinha boa intuição e preparo… Foi um longo tempo de observar de um tudo, aprendendo e ensinando”. (FONSECA, 2006, p. 12).
Ao pensarmos na experiência, devemos ter em conta a maneira como ela pode ser conservada e transmitida através da memória, no trabalho de armazenar e rememorar. Esse processo só é efetivo se exercitado rotineiramente, pois a memória é seletiva: “Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado” (POLLAK, 1992, p. 4). Ao afirmar isso, Pollak chama a atenção para o seguinte: apesar de muito eficiente ainda é dependente do agora, do exercício. Assumi-la é considerar por completo suas características, sendo uma delas estar em função do momento presente: “As preocupações do momento constituem um elemento de estruturação da memória” (POLLAK, 1992, p. 4). Esse fator a torna, em alguma medida, limitada. Atualmente, parece haver a perda da distinção da própria memória que não consegue mais determinar o que é ou não importante, o que deve ou não ser armazenado, já que tudo é muito mais breve e momentâneo. A memória nos tempos de hoje está resiliente e ao mesmo tempo distingue o porquê de sua fácil e passageira adaptação ao efêmero. É como se houvesse uma convenção do não uso da memória. Por mais efetiva que ela seja, há um afastamento das funções que não apenas poderia ou conseguiria exercer, mas, insistimos, deveria exercer.
Apesar das restrições que há sobre a memória, ainda assim “a gente guarda a memória de certos barulhos” (FONSECA, 2006, p. 67). A narradora, em sua fala, remete ao barulho que o cavalo da personagem Nhô Guimarães fazia ao se aproximar, apenas pela forma que cavalgava ela conseguia distingui-lo de qualquer outro cavaleiro que chegava, demonstrando por meio disso uma maneira da memória armazenar as coisas importantes. Entretanto, existe a nossa (in)capacidade de nos prontificarmos a ouvir: “Muita história que se conta nasceu de coisa acontecida, mas fica por si” (FONSECA, 2006, p. 40).
A desvalorização da importância da memória e da experiência em sociedade deve-se às velhas verdades das narrativas trocadas por algo mais imediato e digitalizado. É como se a sabedoria atribuída às experiências perdesse sua vitalidade para o próprio narrador, tornando-se algo descartável e facilmente substituível. Apesar disso, não é como se o narrador tivesse uma parcela de “culpa” pela morte da narrativa. Pelo contrário, a responsabilidade deve ser atribuída em grande medida às características da sociedade atual que, além de desmotivar, gradativamente exclui o narrador de sua dinâmica.
Com base no exposto até aqui, entendemos que a memória é constitutiva, transitando entre ser formadora de indivíduos e formadora de uma cultura. No caso específico deste estudo, as experiências da memória estão constituídas em narrativa.
Na obra de Fonseca, a narradora passa toda a história relembrando e contando ao seu ouvinte inúmeros aprendizados. Ele permanece em silêncio apenas “assuntando”, o que a faz elogiá-lo pela sua facilidade e paciência em apenas ouvir. É isso que a personagem Nhô Guimarães (representação do escritor Guimarães Rosa) fez ao adquirir os conhecimentos com o povo do sertão e “repassá-los” utilizando a ferramenta da escrita. “Nhô Guimarães contou a mesma com palavras outras, umas muito difíceis dá gente saber, porém bonitas” (FONSECA, 2006, p. 48). A relação entre o leitor e as narrativas escritas estende-se à do narrador com o ouvinte: ambos devem estabelecer uma relação fraternal e recíproca porque “o texto só existe quando é lido” (BOMBINI, 2011, p. 5), assim como o narrador só cumpre o seu papel quando há alguém para ouvi-lo. A familiaridade entre escritor e leitor, portanto, pode servir de parâmetro de comparação entre o narrador e seu ouvinte, pois entre leitor e escritor, para que a compreensão seja satisfatória “estabelece-se um elo (…) o qual se fortalece a partir do que é exposto e desenvolvido no texto e compartilhado por ambos” (PEREIRA, 2009, p. 56). De maneira semelhante, se fixa uma relação entre o narrador e seu ouvinte, essencial para que se estabeleça, mediante a história narrada, um elo entre os dois. O narrador pode projetar que tipo de sentimento quer provocar em seu ouvinte ou até mesmo de que maneira a forma de narrar pode prender a atenção de quem escuta.
O narrador deixa espaços vagos (mas não vazios) reservados para que o pensamento do interlocutor explore e acrescente a eles seu tipo de percepção do que é escutado. Por isso, ao se pensar em narrativas, deve-se considerar os narradores e seus interlocutores que desempenham papel fundamental na (re)constituição das histórias.
Apesar da arbitrariedade na comparação entre as narrativas escritas e orais, o trabalho desempenhado pelo ouvinte difere do desempenhado pelo leitor. Ao se colocar em posição de interlocutor, o ouvinte deve prestar atenção redobrada ao narrador de maneira que não se distancie em nenhum momento do que ouve e não perca os detalhes da narrativa. O leitor, quando perde o foco, pode voltar algumas páginas e reler. O ouvinte pode pedir para que o narrador repita, mas a maneira que contou uma vez, mais acentuada do que no ato da leitura, não será igual ao se “repetir”: outro tom de voz, outro humor, outros gestos, outras palavras serão empregados. Somado a “todo aparato circunstancial que engloba o momento da enunciação e audição, o ouvinte aciona sua memória pessoal” (PEREIRA, 2009, p. 60) ao mesmo tempo em que ele precisa se distanciar e ir ao seu mais íntimo para se identificar com o sentimento que lhe é despertado, armazenando o ensinamento que está agregado ao que ouve.
Ao “reapresentar” a história ouvida, o ouvinte se torna um narrador e tem a oportunidade de contar a sua versão e buscar a “autenticidade” na reprodução, tomando cuidado na forma como a reproduz. “É preciso apurar o juízo que as histórias têm sentidos escondidos nos interesses das pessoas” (FONSECA, 2006, p. 53). A narradora personagem de Nhô Guimarães aconselha seu ouvinte ao lhe dizer que nem tudo que é contado é verdadeiro, mas que tudo tem seu valor. Ela – quando se trata de histórias que não lhe “pertencem” – assume que conserva o que lhe contaram, não sabendo se o assunto é verídico. Parece haver mais a ser aproveitado do que excluído. Cabe ao ouvinte também discernir o que ouve.
A importância do narrador, tanto individual como socialmente, está não apenas na pessoa que narra, mas na maneira com que faz uso de sua memória que é formadora de identidades. A memória quando individual se transforma através da narrativa para algo conjunto ao de ouvir. “Quem escuta uma história está em companhia do narrador” (BENJAMIN, 1994, p. 213). A narrativa retrata as memórias de maneira que se permite imaginar a respeito delas, o que o narrador sentiu ao escrevê-las/contá-las. O narrador é peça fundamental na conservação da memória, pois é aquele que consegue fazer a ponte entre as experiências captadas e as memórias armazenadas, transformando-as em narrativas.
Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer a um acervo de toda uma vida (uma vida que pode não incluir apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). (BENJAMIN, 1994, p. 221).
O narrador recorre a um acervo de memórias, de experiências próprias ou alheias, tornando-o ensinamento, narrativa. É o talento do narrador que trabalha com a memória, juntando fatos e transmitindo-os de maneira que prenda a atenção do ouvinte. Essa narrativa rica, formativa de identidades individuais e coletivas, está, contudo, em decadência devido à sociedade pós-moderna que a sufoca.
É importante ressaltar que a morte do narrador, demonstrada por Benjamin (1994), tem relação próxima com a perda recorrente da sensibilidade ligada à memória mencionada por Nora (1993). Memória e narrador caminham juntos, um necessita do outro para que ambos se constituam. Afirmar que o narrador está perdendo seu lugar na sociedade, também é dizer que a importância da memória está se perdendo. Com a falta de narradores que estabeleçam cotidianamente a ponte entre a memória e a narrativa, destacam-se outras formas de manutenção de memórias. Na tentativa de conservá-las, são consagrados lugares, ambientes nos quais se tornaria “mais fácil” o “acesso” à memória. No entanto, “desde que haja rastro, distância, mediação, não estamos mais dentro da verdadeira memória, mas dentro da história” (NORA, 1993, p. 9). Com medidas paliativas, armazenam as memórias em objetos, coisas e lugares. Não obstante, quando há alguma mediação, ela não se habita mais na memória humana, pois se trata mais do trabalho feito pelo narrador. A memória, assim, se torna patrimônio coletivo o que, ironicamente, soa como algo positivo: tudo que é coletivo é de todos. Não se deve esquecer, porém, que antes de coletiva a memória é individual. Cabe primeiramente ao indivíduo “repassá-la”, mantendo ainda sua presença nela. Algo “sacralizado”, arquivado e mediado (por monumentos, lugares e objetos) não se referem mais à memória viva, mas à história. Além de transmitir determinados conhecimentos, a narradora de Nhô Guimarães também nos reporta em sua fala sobre como a memória funciona, evidenciando em sua fala o que foi marcante e memorável para ela.
Naquela noite, foi um assombro como nunca. Ah, nem queira o senhor saber. Tive um pressentimento, fiquei com a imagem da falecida atentando meu juízo. Fiquei mofina de ir me deitar, mas o sono me agarrava. Fui dormir muito tarde, era uma noite de uma lua bem pouca, no alto de mais do céu. Eu estava inquieta, tremia aperreada (FONSECA, 2006, p. 73).
Notamos o quanto a memória é marcante nesta fala. A narradora possuía uma amiga de infância que havia levantado uma calúnia a seu respeito. Em função disso, a antiga amizade se desfez e sua companheira nunca mais foi vista até o dia de seu enterro, no qual a narradora deixa de lado seu ressentimento e vai acompanhá-lo. Ainda de acordo com a narradora, a falecida lhe faz uma breve visita na noite em que não conseguia aquietar sua mente. Ela relembra, detalhadamente, que naquela noite ela havia ido dormir tarde e que a lua era pouca no céu. Não cabe aqui, obviamente, questionar a veracidade dessa fala na narrativa, mas ressaltar esse conjunto de detalhes fornecido pela narradora que dá forma e concretiza uma característica marcante da memória humana: armazenar tudo aquilo que lhe é importante.
A memória, entretanto, não guarda somente imagens ou momentos relevantes. Ela consegue gerar certos mecanismos para além do imaginado, conservando lembranças e determinados sentimentos geradores de esperanças. Esse tipo de função foi outra característica vivenciada pela narradora.
Ah, meu Deus! Por derradeiro, confiro um detalhe. Aqui está: o senhor tem o sinal de minha gente. Agora junto os demais: seu olhar, seus gestos, seu modo de sorrir, seu sentimento. O senhor há de ser gente minha, conforme quero e anseio. Me dou por ciente, satisfeita. Esperei, tive fé: alcancei? O senhor é a revelação? Eu confiro com sua esperança? O que o senhor descobriu? Se for o certo e exato esse quarto arrumado então é seu. Venha a mim, me abrace. Tenho sentido muitas saudades suas (FONSECA, 2006, p. 171).
A narradora que havia perdido seu marido e não tinha notícias do filho há anos, do qual não se lembrava mais como eram as feições, guardava na lembrança seu modo de ser e o que sentia por ele. Ao observar seu interlocutor no desenrolar da narrativa, a narradora personagem conclui sua história questionando se não era ele o neto que há tanto tempo aguardava, que jamais vira e não sabia se realmente existira. Ela se lembra, naquela idade avançada, as características de seu povo, recordando o tipo de sentimento que seu filho despertava nela, deixando transpassar o sentimento que conservara desde a sua partida anos atrás.
Ao se dirigir para um final sugestivo, a narradora, antecipadamente, faz um de seus últimos comentários/ensinamentos a respeito da importância do narrador e da relação com seu ouvinte, do poder que este último (um narrador em potencial) tem em mãos. Ela aconselha: “Pois, se o senhor reunir os causos, escolher as palavras e contar as histórias, saiba que muita gente vai se agradar do senhor” (FONSECA, 2006, 105). Ao deixar um de seus últimos ensinamentos, relembra o que Nhô Guimarães fez ao recontar as histórias, conservando sua autenticidade, mas de maneira que todos se interessassem por lê-las. Além disso, ela chama a atenção não apenas para o ato de contar, mas para o saber contar, a partir do qual o narrador se apoia para dar vida à narrativa. Podemos afirmar ainda que, ao oferecer este ensinamento ao seu ouvinte, a narradora espera que ele vá além do ouvir, usando tudo que aprendeu para recontar a narrativa à sua maneira, pois o desejo do narrador, além do ouvinte, é que a narrativa caminhe e permaneça viva.
O maior problema, contudo, atribuímos à forma como o narrador é visto atualmente na maioria das sociedades contemporâneas: “o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado” (BENJAMIN, 1994, p. 200). A falta de tempo e desatenção às histórias contadas contribuem para constatações como a seguinte: “a arte de narrar está em vias de extinção” (BENJAMIN, 1994, p. 197). Assim, o próprio narrador perde sua força de comunicação social. Devido a isso, Benjamin anuncia a morte do narrador.
A perda do valor encontrado nas relações humanas em comunidade e “mecanização” psicológica gradativa dos indivíduos ajudaram a extinguir modelos de “(…) representantes arcaicos, (…) um exemplificado pelo camponês sedentário, e o outro pelo marinheiro comerciante” (Benjamin, 1994, p. 199). O primeiro, ganha vida com suas viagens, com elas também tira suas experiências, já que elas se estabelecem em relações e situações abundantes. O segundo leva vida estática se comparada ao outro, obtém suas experiências a partir de informações e situações no seu próprio lugar.
A partir dos pressupostos antes citados, relacionando-os às análises do sociólogo Zymunt Bauman (2007), encontram-se neste século novos tipos sociais que podem ser comparados ao narrador da modernidade de Walter Benjamin. Bauman sugere três tipos sociais que vêm ganhando destaque a partir da segunda metade do século XX: o guarda-caças, o jardineiro e o caçador. O guarda-caças, consciente do mundo a sua volta, sente-se ainda satisfeito com sua imobilidade, ele é o responsável por vigiar a caça e pode ser relacionado ao servo do período medieval, o que possui o seu papel definido e faz parte da manutenção da vida, mesmo que não se encontre no topo da pirâmide. O segundo, o jardineiro, tem certa porção de terra e sementes para formar seu jardim diferente do guarda-caças, tem ainda certa medida de escolha do que pode plantar ou cortar, seja o que for decidido de sua vontade. O jardineiro pode ser relacionado ao renascentista, ao iluminista, que até estabelece perspectiva para o futuro, mas faz coisas mínimas para mudá-lo. Por fim, sendo característico de grande parte da população pós-moderna, surge o caçador, que é movido única e exclusivamente pela sede de caçar, sustentando-a mesmo na ausência de caça ou no excesso dela. Para ele, a procura é o que o deixa em movimento e o afasta do que seriam consideradas “intervenções negativas” em sua vida.
Diferentemente dos dois tipos que prevaleceram antes do início de seu mandato, o caçador não dá a menor importância ao “equilíbrio” geral “das coisas”, seja ele “natural” ou planejado e maquinado. A única tarefa que os caçadores buscam é outra “matança”, suficientemente grande para encherem totalmente suas bolsas. (BAUMAN, 2007, p. 105 – grifos do autor).
É nesta interseção, narrador excluso e desvalorizado mediante as novas tendências humanas deste século, que se encontra a narradora de Nhô Guimarães. É ela um exemplo do camponês sedentário, que viveu “(…) sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições” (BENJAMIN, 1987, p. 199). Fundamentou suas experiências nos conhecimentos que aprendeu na infância sobre sua terra e os juntou com o que ouviu ao longo da vida. Atualmente, ela se apresenta como o guarda-caças baumaniano, responsável pela história oral, por guardar suas memórias e transmiti-las em forma de experiências.
Venha ver que a melhor é essa do pote de barro, dos antigos, que ainda tenho. Aprecie. […] A gente pega as influências, que o mundo é uma grande mistura. Nos modos de falar, sou assim: meio de lá, meio de cá, de maneira bem apurada. Faço frases bem feitinhas, assim, nas boas falas. Pois eu lhe digo: tive certo estudo, cultivei minhas leituras, uso a voz da experiência. […] O sertão é meu terreiro; e tudo o que o vento traz. Certas coisas a gente aprende pelo viver, não carece de ensino (FONSECA, 2006, p. 12-15).
A narradora/personagem conserva e valoriza seus aprendizados ao longo da vida Ao pedir ao seu ouvinte que ele se achegasse, ela lhe traria um copo do pote de barro, que, de acordo com sua experiência, possuí um melhor sabor. Ela faz uso da “voz da experiência”, pois o sertão é o seu terreiro.
Contudo, a sociedade contemporânea vem se adaptando a uma forma de vida individualizada. Apesar de saber como fornecer ensinamentos através de seus aprendizados, os narradores são vitimizados pelo imediatismo. O exemplo benjaminiano e o narrador deste século podem ser relacionados ao guarda-caças baumaniano, destituídos de voz no contexto ágil e “líquido” atual do mundo. A imobilidade do guarda-caças não entra na dança do consumismo. Ao possuir propósitos na vida que vão além da incessante busca pela individualização e do seu recorrente poder, por diversas vezes, mesmo com suas experiências, ele é posto de lado. Pois:
Agora somos todos caçadores, ou chamados de caçadores e convocados ou compelidos a agir como tal, sob pena de sermos expulsos da caçada, ou (nem pensar nisso) relegados às fileiras da caça. E o quanto quer que olhemos em volta, provavelmente veremos outros caçadores solitários como nós. […] E precisaríamos realmente nos esforçar para conseguirmos ver um jardineiro que estivesse contemplando algum tipo de harmonia pré-planejada por trás da cerca de seu jardim privado e depois se pudesse a concretizá-la (a relativa raridade dos jardineiros e a crescente profusão de caçadores são o que os cientistas sociais discutem sob o título culto de “individualização”) (BAUMAN, 2007, p. 105).
O caçador, assim, é fruto da sede pela individualização, esta que eterniza o tempo presente de maneira que o futuro é não imaginado, ele corre na direção do “ser supremo e completo” que pode ser comprado e encontrado nas lojas e vislumbrado nas propagandas. Vende-se quase que imperceptivelmente uma vida baseada no consumismo e no ilusório poder agregado a ele. Os vazios são cada vez mais preenchidos pelas compras futuras, pelo tempo diretamente ligado à produtividade. Devido à eternização do futuro no presente, há uma despreocupação com a imagem que irá se construir ao longo dos anos, pois o futuro é o aqui e o agora. O narrador está “morto” não pela ausência de suas experiências, mas pelo ouvinte eternizado no agora, que não se preocupa em aprender a formular a vida tendo-a como princípio o passado. Este é esquecido e o envelhecimento é algo que pode ser evitado aos olhos dos caçadores.
O narrador, precursor de memória, vive à margem, desencorajado pelo meio que o cerca. Porém, afirmar que não há nenhuma memória viva ou que não há narradores suficientes seria mortificar os últimos indivíduos sem que estivessem verdadeiramente mortos. Talvez o narrador não esteja morto, mas apenas repousa e descansa em um sono aguardando novos tempos e novos ouvintes. Ele necessita de pessoas que se disponibilizem a lhe dar atenção, pois “a relação que se estabelece entre ouvinte e narrador é mantida pelo interesse em conservar o que foi narrado” (SANTOS, 2001, p. 121). É através desse interesse gerado que o narrador se agarra no fio de esperança de poder repassar sua história. O nosso narrador descansa, pois nós mesmos o afastamos quando o excluímos, menosprezamos e o trocamos pela imediaticidade das informações efêmeras, a busca pela caça definida por Bauman (2007). Diante disso, não é o narrador quem deveria estar no centro do problema, mas nós mesmos que precisamos nos reeducar, aprender a separar e a valorizar o que realmente nos é importante. O narrador, enquanto vivo, porém menos operante do que gostaríamos, está com a sua arte apenas aguardando que alguém pare e o assunte, para que ele possa exercer com maestria sua função, a exemplo do que é apresentado entre os interlocutores na narrativa viva do romance Nhô Guimarães.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Trad. Carlos A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In. BENJAMIN,W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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RIBEIRO, Carlos Jesus. O território sagrado da alma na obra de Aleilton Fonseca. In. RIBEIRO, C. J. À luz das narrativas: escritos sobre obras e autores. Salvador: EDUFBA, 2009.
SANTOS, Rita A. Coelho. O conto de Aleilton Fonseca: a permanência do narrador. (Posfácio). In. FONSECA, Aleilton. O desterro dos mortos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.
NORA, Pierre. Entre memória e história: A problemática dos lugares. Trad. Yara Aun Khoury, Projetos História. São Paulo, dez. 1993.
PEREIRA, Rafaela C. Maximiano. O ato da percepção: do enfoque dado ao leitor na estética da recepção ao papel do ouvinte na performance da poesia oral, GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL, Londrina, n. 7, jan-jun. 2009.
Bio fornecida pelo palestrante.
Maria José Gomes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
RESUMO: Homero Homem, escritor potiguar e autor do romance Cabra das rocas, é o objeto de estudo desse artigo que tem como um dos propósitos analisar a obra à luz dos Estudos culturais, buscando identificar o sujeito e suas intersubjetividades. O seu livro provoca reflexões acerca do papel da literatura como instrumento de denúncia das incoerências e injustiças sociais, especialmente em comunidades marginalizadas, situadas geograficamente em locais periféricos. A função de Cabra das rocas é também sugerir reflexões políticas com vistas a mudanças de paradigmas incorporados pelo sujeito “marginal” através de uma relação de poder estabelecida pela classe dominante. Para tal, consultamos Raymond Willians, Stuart Hall, Maria Elisa Cevasco, Antônio Candido, entre outros, além do próprio autor da obra analisada, Homero Homem.
PALAVRAS CHAVES: Homero Homem, Estudos culturais, Literatura marginal
ABSTRACT: This article will study the novel Cabra das Rocas, written by Homero Homem, a potiguar Brazilian writer (born in Rio Grande do Norte State). Its purpose is to analyze the work in the light of Cultural Studies in order to identify the subject and point out its intersubjectivities. His book provokes reflections on the role of literature as an instrument for the denouncement of social injustices and inconsistencies, especially in marginalized communities, which are situated in peripheral locations. Cabra das rocas also suggests political thoughts on the paradigms that are incorporated into the idea of a marginal subject due to the relations of power established by the dominant class. For the writing of this article, we consulted Raymond Williams, Stuart Hall, Maria Elisa Cevasco, Antonio Candido, among others, and also the author of the work now analyzed, Homero Homem.
KEY WORDS: Homero Homem, Cultural Studies, Marginal Literature
MINICURRÍCULO: Formada em Letras pela UFRN- Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Especialista em Literatura Luso-brasileira pela mesma universidade, sob a orientação de João Antônio Bezerra Neto, é professora da rede pública do estado do Rio Grande do Norte, poetisa e escritora potiguar com livros publicados e participações em revistas literárias.
HOMERO NÃO ERA UM MERO HOMEM:
A LEITURA DE CABRA DAS ROCAS,
SOB A PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS
Maria José Gomes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Sou (fui) um oceano.
Homero Homem, in Canto do mar
UM DEDO DE PROSA SOBRE O AUTOR
O presente artigo pretende propor uma reflexão frente às situações de desigualdades, fios temáticos analíticos daqueles estudos. O romance tem como ambiente ficcional o bairro das Rocas, subúrbio de Natal, e suas adjacências. O sujeito verossímil, metaforizado em João, um garoto de onze anos que sonha em estudar no Colégio Atheneu, instituição frequentada pelos filhos da elite natalense, é o principal elo que vincula a temática à unidade textual do romance, uma vez que a personagem principal perpassa pelos capítulos narrando a sua história e a dos demais moradores como forma encontrada para denunciar, refutar ou colidir com uma sociedade que exclui.
Poeta nascido das águas potiguares e canguleiro por vocação, Homero Homem de Siqueira Cavalcanti representou significativamente o povo potiguar através de sua lírica acentuada nos textos poéticos e em narrativas que redesenham a realidade social dos que moram no antigo bairro das Rocas, ambiente que inspirou a tessitura do seu romance consagrador: Cabra das rocas.[1]
O escritor segue o fio ancestral de Manuel Mascarenhas Homem, capitão-mor da capitania de Pernambuco e um dos heróis da história da fundação de Natal. Neto do desembargador, jornalista, poeta e ensaísta Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti. Nasceu em Canguaretama, RN, em meio às águas robustas que rodeavam o Engenho Catu, de propriedade de seu pai Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti Filho.
Instalado na capital, junto à família, o poeta lapidava suas expectativas em relação ao modo de viver dos moradores nordestinos, habitantes nativos das Rocas: pescadores, marinheiros, salineiros, mulheres, crianças, idosos, analfabetos, enfim, todos os tipos humanos “marginais”.
A região que delimitava o espaço geográfico onde situavam as Rocas e as comunidades ribeirinhas, às margens do Rio Potengi, “Canto do mangue”, “Limpa” e “Chama-maré”, denominada de parte baixa da cidade, abrigava, com toda a maresia, a falta de estrutura e condições inadequadas de habitação, de moradores ávidos pela chegada da modernização, antecipada com o plano diretor que organizaria a estrutura urbana de Natal. Esse contato com os habitantes da região praieira instigou o pensar criativo, ponto de partida para uma sequência de textos literários que vieram, a posteriori, configurar a obra de Homero Homem.
Em 1954, aos 33 anos, Homero Homem engendrou a sua certidão de nascimento artístico literária com uma prosa poética intensamente lírica: A cidade suíte de amor e secreta esperança, uma obra que acendeu o brilho e a inspiração para a produção de seus escritos, resultando em um conjunto de 15 publicações, número que compõe o acervo homeriano. Após esse, veio o Calendário Marinheiro, obra que lhe rendeu os prêmios Alphonsus de Guimarães, pelo INL – Instituto Nacional do Livro – e Paula Brito. Posteriormente, uma sucessão de prêmios banhava a confluência literária de Homero Homem a caminho dos grandes braços de mar que o poemário da praia permite a quem se diz feito de águas: “Há 51 anos, eu trago em mim o mar”. Afirmou numa entrevista para o Jornal do Brasil, no dia 12 de setembro de 1975.
Não apenas na prosa, mas, sobretudo na poesia, seu primeiro amor, Homero revelou-se poeta lírico e telúrico com a produção dos títulos: Tempo de amor; Um doido e sua canção; O país do não chove; Tábua de marés – ganhador do Prêmio Olavo Bilac; Rei sem sono; Canto nacional e Abecedário da Transamazônica – também premiado, desta vez pelo Ministério dos Transportes – e o Livro de Zaíra Kemper. Este era chamado pelo autor de ‘o livro da minha viuvez’ que abriga poemas produzidos entre 1968 e 1972, cuja linha temática diz respeito ao relacionamento do casal.
O mar é um dos eixos temáticos de sua extensa obra lírica. A sua relação subjetiva e profundamente abstrata com este elemento natural esparrama-se sobre as águas metafísicas que fluem de sua imaginação. “Meu mar é existencial. Aos 11 anos comecei a escrever poesia. E nunca mais parei”, profere o poeta do mar naquela mesma entrevista.
SENTIDOS ENTRE PERIFÉRICO E MARGINAL
Cabra das rocas é o objeto de estudo selecionado para a produção desse artigo por enquadrar-se nas características apontadas pelos Estudos culturais e por ser uma prosa poética com versos profundamente líricos. Além disso, uma obra rica em elementos linguísticos autenticamente potiguares como forma de valorização de um patrimônio cultural intangível: a linguagem.
A razão que nos levou analisa-la sob a perspectiva dos Estudos culturais está pautada na leitura de um personagem que subverteu os padrões sócio-culturais vigentes no contexto existencial do propagonista. Isso porque, João, a figura verossímil, que simboliza a classe oprimida, rompe com o paradigma instituído pelo sistema de classes, que exclui e assola o homem. Essa ruptura ocorre no momento em que ele é admitido como aluno do colégio Ateneu Norte-riograndense cuja acessibilidade era limitada aos filhos da classe burguesa que habitavam o bairro da Cidade Alta.
A divisão de classes imposta pelo sistema estimulava a criação de novos conceitos que delimitavam o espaço urbano caracterizando os seus moradores através das alcunhas de “canguleiros” e “xarias” que, ao modo dos moradores do bairro das Rocas e da Cidade Alta, eram ofensas graves. No capítulo II da narrativa, temos os conceitos ficcionais que designam os termos utilizados durante as demarcações territoriais:
Em nossa cartilha de palavrões, xarias era o supremo xingamento. Designava o morador da Cidade Alta, urbano e próspero, comedor de xaréu, peixe proibido à fome humilde do povo das Rocas […] Na boca dos xarias éramos assim canguleiros, comedores de cangulo.
Podemos suscitar uma analogia utilizando os termos “xarias” e “canguleiros”, respectivamente, para metaforizar a ideia de literatura canônica e não canônica uma vez que essas terminologias possuem sentidos equivalentes na perspectiva histórica dos bairros Rocas e da Cidade Alta.
É possível que Homero Homem ao escrever Cabra das rocas tenha como objetivo tratar os temas apenas como forma de denunciar incoerências e, através da sua singularidade poética, trazer ao avesso disparidades sociais escamoteadas pela classe dominante.
Essa página da realidade dos que habitavam os espaços ribeirinhos e marginais, locais adjacentes ao centro nervoso da capital potiguar, não é virada, pelo contrário, é consubstancializada na narrativa com o sentido intersubjetivo das personagens nas falas em que ocorre um diálogo entre Seu Geraldo e João: “E os outros, seu Geraldo? Eles me chamaram de xarias. – Não, menino, você é mais canguleiro do que eles (…). Você é um canguleiro que vai à aula. Ao passo que os outros, que jamais irão à escola, esses nunca serão canguleiros”.
Nessa conversa, especificamente, nota-se que pela educação acontece a vitória da minoria sobre a condição existencial de pobreza dos grupos menos assistidos pelas políticas públicas nos levando a refletir sobre a importância do conhecimento como propulsor do avanço humano.
Além disso, nada impede de investigarmos a possibilidade do autor inferir os termos “canguleiro” e “xarias” associando-os às terminologias literatura canônica e não canônica, a fim também de instigar o leitor a questionar tais classificações, uma vez que a primeira é obrigatória nas grades de disciplinas das escolas públicas, tornando-se requisito imprescindível nos exames escolares. Seria esta uma outra reflexão a cerca dos motivos que levam a literatura local a amalgamar-se nas estantes das bibliotecas como mero instrumento simbólico?
Essa leitura é feita por enxergarmos em Homero Homem um sujeito conectado com o mundo das letras, não somente do ponto de vista literário, sobretudo no que diz respeito às exigências próprias da sua profissão de jornalista, cargo que exerceu em quase toda a sua vida laboral. É cabível vê-lo como um cidadão que, antes de ser autor, era primeiramente leitor do mundo. Essa condição lhe permitia acessar o universo cultural, no eixo da região sudeste, local onde ocorriam as mais notáveis efervescências artísticas. Logo a realidade para ele era muito mais palpável a ponto de influenciá-lo na criação de uma obra que refletia as condições sociais do seu povo, por isso mesmo, Homero refere-se a esse livro como um trabalho literário regionalíssimo.
A ligação com os Estudos culturais, que tinham como meta promover uma reflexão a respeito dos currículos escolares estabelecidos pela burguesia cuja hegemonia era mantida há séculos, é ponderada pelo fato da obra ancorar-se nas questões humanas urgentes como moradia, saúde e educação.
Um dos precursores dos estudos citados, o professor Raymond Williams, sugeria que a grade de disciplinas contemplasse a classe operária inglesa introduzindo uma literatura capaz de atender as expectativas dos trabalhadores com temas sociais voltados para os problemas da classe.
No caso de Homero, entendemos classe como a população ribeirinha que tem, nas imediações, o rio Potengi, locus periférico e existencial, assim como recordamos Antônio Candido no seu livro Os parceiros do Rio Bonito, uma abordagem sobre a mudança do modo de viver do caipira onde o campo também é o seu espaço periférico, e a análise sobre a sociedade rural inglesa em O campo e a cidade, de Raymond Williams cuja discursão promove a abertura de novos olhares para o homem do campo britânico que, como ocorreu com o caipira paulista, acabou ‘perdendo’ seus aspectos culturais primitivos em detrimento a um modo de vida diferente influenciado pelo processo de industrialização.
O discurso do personagem de Cabra das rocas é congruente com a proposta de valorização do homem oprimido servindo de referência para a construção do universo subjetivo do sujeito por ele apresentado na narrativa.
Na sua tessitura poética vê-se, nitidamente, a preocupação com os seus iguais, especialmente neste romance, cujas temáticas são focos discutidos pelos Estudos Culturais como a desigualdade social, geradora da miséria e da desinformação, e o acentuado preconceito com as minorias.
Seria esta uma literatura periférica denunciadora das incoerências analisadas sob o ponto de vista das produções literárias denominadas marginais? Para isso faz-se necessária a compreensão do conceito de periférico e marginal. Segundo Érica Peçanha do Nascimento, o termo literatura marginal serviu para classificar as obras literárias produzidas e veiculadas à margem do corredor editorial; que não pertencem ou que se opõem aos cânones estabelecidos; que são de autoria de escritores originários de grupos sociais marginalizados; ou ainda, que tematizam o que é peculiar aos sujeitos e espaços tidos como “marginais”.
A primeira característica não se enquadra no perfil de Homero Homem, uma vez que Cabra das Rocas fora publicada por uma editora de renome nacional, cuja divulgação estendeu-se amplamente no eixo Rio-São Paulo. Ou seja, recebeu suporte editorial, tornando-se uma obra conhecida nacionalmente, não se restringindo a um grupo de obras meramente regionalistas.
Do ponto de vista do conceito de periférico, a articulista Rejane Pivetta, em seu artigo “Literatura marginal: questionamentos à teoria literária”, comenta: “Periférico diz respeito à linha que define o limite de uma superfície, demarcando, portanto, a forma e a configuração de um espaço ou objeto” (PIVETTA, 2011, p. 32).
Nesse caso, podemos considerar o ambiente no qual ocorre a construção da teia narrativa como periférico, uma vez que o autor se inspirou no bairro das Rocas, subúrbio de Natal, tornando-o elemento geográfico básico para a edificação do romance.
Vale destacar que a literatura marginal surgiu nas periferias das metrópoles com o intuito de discutir e democratizar temáticas referentes às minorias, principalmente no tocante a grupos sociais marginalizados como os negros, os homossexuais e as mulheres. Portanto, trata-se de uma vereda literária que expressa olhar político sobre as condições de sobrevivência humana. A literatura torna-se não apenas um instrumento estético da arte de escrever, mas um veículo emancipador das ideias comuns.
Hart Preston, Revista Life, época da guerra.jpg [2ª Guerra mundial].
Os conceitos, agora aclarados, nos fornecem subsídios para o argumento de que é possível que a narrativa esteja dentro das perspectivas esperadas pelos Estudos culturais, tendo em vista um corpus artístico literário dotado de marcas analíticas próprias, tais como: versões distintas sobre determinado tema, produção literária com temáticas que dizem respeito às minorias e questões sociológicas, históricas ou geográficas.
Os termos marginal e periférico não são vias de mãos duplas, todavia estão intimamente relacionados. Contudo, o primeiro refere-se àquele que está à margem de posições estabelecidas. No caso da literatura, a oposição se faz ao cânone. O segundo denota o espaço onde àquela literatura se configura, mesmo sendo obra ficcional, especialmente porque, de acordo ainda com a articulista Rejane Pivetta, o texto não é um produto final da atividade criativa, mas um ato de intervenção e participação na vida da comunidade onde ele se produz e circula.
A REDE ANALÍTICA DE CABRA DAS ROCAS
Cabra das rocas foi o primeiro romance de Homero Homem embrionado em meados de 1940. A obra de caráter ficcional inspirada na realidade social do bairro onde passara sua infância e adolescência é a leitura prosaica denunciadora das injustiças, do preconceito, da discriminação com aqueles de classes sociais menos favorecidas, da descrença na capacidade humana de superação, da miséria e do analfabetismo.
Lançado em 1966, a peça literária transitava entre as manifestações sociais de um Brasil em processo de mudanças políticas com a vitória quase unânime de Artur da Costa e Silva, a determinação das eleições indiretas para governadores nos estados e prefeitos nomeados na capital pelo AI3, a decisão compelida ao Congresso para a votação na constituição de Castelo Branco pelo AI4 e os Festivais de Música que classificaram canções de protesto ao sistema ditatorial brasileiro. O mundo efervescia: Indira Gandhi, a primeira-ministra na Índia, a VIII Copa do Mundo de Futebol, na Inglaterra, Ronald Reagan eleito governador da Califórnia e demais fatos que marcaram a história servindo de subsídio para impulsionar a produção laboral jornalista do poeta, especialmente pelo fato de que, neste período, ele trabalhava como redator em jornais cariocas, logo vivenciava os acontecimentos que permearam a década de 1960.
Acervo Sylvio Pedroza, década de 1940.jp
Traduzido para o italiano, em 1977, por Danuza Garcez Ourique e Laura Draghi, com o título Gente delle Rocas, a obra ganhou visibilidade internacional, provocando alegria em alguns e desagrado a outros, como os esquerdistas que destilaram críticas ferrenhas, argumentando que o conteúdo estava conivente com as desigualdades sociais e integração à direita, uma vez que, segundo eles, a ambição do protagonista era uma forma de aceitação do sistema. Magoado, Homero rompeu definitivamente com o seu partido, o PSB. Em carta, endereçada ao escritor potiguar Manoel Onofre Júnior, o autor de Cabra das Rocas, comenta indignado as críticas que lhe foram dirigidas.
Cabra das rocas é um livro regionalíssimo, humilde, potiguar, brasileiro e universal, que não está circulando por todos os idiomas da terra porque me recusei a mudar o seu fim e assassinar o personagem, símbolo da vitória do nosso homem sobre a miséria e o analfabetismo, que não se tratam nem curam literariamente com ideologia (apud PEIXOTO, 2013, p.115).
No seu desabafo Homero expõe as ideias centrais de Cabra das rocas enfocando a miséria e o analfabetismo, umas das temáticas que confluem para a proposta de análise dos Estudos Culturais. A narrativa desde sempre se debruça sobre temas que aludem a graves questões da sociedade brasileira.
O forte lirismo telúrico serve de modelo para o que se discute em termos de literatura marginal, tema relevante para os Estudos Culturais, parte da ciência que se preocupa em propagar uma literatura que dê vez à minoria.
Do ponto de vista intrínseco a tessitura de Cabra das rocas se utiliza de elementos da natureza como o mar, que tece uma malha expressiva conectada com o tecido metafórico bem articulado pelo detalhamento das imagens que se consubstancializam. O mar é a principal simbologia aplicada ao corpus temático no qual toda a obra homeriana se configura.
Tem-se uma narrativa intensa que denuncia as injustiças sociais através do personagem principal, a voz representante do povo das Rocas. Sobre esses assuntos Homero Homem faz um comentário pertinente: “Literatura e política são elos da mesma cadeia que impele o homem a abordar as questões coletivas ou individuais” (apud PEIXOTO, 2013, p. 84).
Mesmo sem pertencer à geração de 45 ou seguir as vertentes literárias estabelecidas pela crítica mais apurada e seletiva, Cabra das rocas possui um olhar regionalista com a inferência do léxico regional, cheio de expressões próprias cunhadas no seio da ancestralidade linguística do povo potiguar.
Segundo Manoel Onofre Júnior, no que diz respeito à estética literária, toda a obra homeriana está impregnada de valores românticos: comunhão com a natureza (o mar, especialmente); exaltação da mulher amada; crítica social e política.
A trama se ambienta em um espaço social humilde tendo o mar de Natal, especialmente as praias adjacentes ao bairro das Rocas, como pano de fundo para a construção do romance que, apesar de ter sido classificado assim, apresenta em sua forma extrínseca, características nítidas do gênero Novela por conter no seu corpo literário capítulos enumerados cujas saídas e entradas dos enredos instigam o receptor a gerar expectativas, em um diálogo interativo entre leitor e texto, definido por Roland Barthes
como texto de prazer: “Texto de prazer é aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura”. (BARTHES, 1987, p. 49).
Em oposição à ideia desse tipo de texto, Cabra das rocas desvirtualiza a reação confortável do leitor a partir do momento em que promove reflexões sobre a natureza político-social enfocada no enredo, provocando nele a reavaliação da realidade. Ocorre, nesse caso, o fenômeno da inversão de papeis que Barthes chama de contra- herói: “Ora, este contra herói existe: é o leitor de texto no momento em que experimenta o seu prazer” (BARTHES, 1987, p. 36)
O leitor ávido e atento lança-se sobre a ficção como os banhistas das praias potiguares ao avistarem, maravilhados, os azuis que se misturam pela extensão do mar. Jogam-se, desprendidos, feito olhar astucioso de menino vislumbrado com o primeiro encontro amoroso.
Os retratos construídos sob o olhar atento do prosador e poeta, não apenas detectam incongruências sociais, como apontam as veredas pelas quais transformam o contexto vivido pelas comunidades que tem a periferia como o seu locus existencial.
O corpo físico da obra é dotado de uma estrutura padrão que obedece a reza da produção de livros na categoria infanto-juvenil, cuja linearidade pauta-se na lógica da unidade linguística, ou seja, um texto coerente e coeso no qual esteja sequenciado o começo, o meio e o fim.
Esse olhar não se restringe apenas à forma, mas, sobretudo à temática na qual os ramos textuais se fundamentam ancorados na figura de um menino que almeja, através da educação, romper os paradigmas perpetuados ao longo da história das sociedades, cujo modelo de conduta divide os homens entre dominantes e dominados, além de discutir questões circundantes nas comunidades onde residem os menos assistidos pelas políticas públicas.
Notamos que a segmentação em capítulos foi o meio pelo qual o autor procurou organizar o pensamento conduzindo-o a um desfecho positivo metaforizando a ruptura com a realidade.
Lúdica e poeticamente, a teia narrativa vai se consolidando de maneira sequenciada através dos capítulos que veremos a seguir: o primeiro é “A inscrição”. Aqui, o leitor tem o contato com o motivo que promove o desenvolvimento da ficção; o desejo de estudar em uma escola da elite. O segundo, “Rocas da frente”. Esse capítulo busca detalhar o ambiente real que serviu como base inspiradora para as ações que se desenrolam ao longo da tessitura. O terceiro é Um homem do mar, onde está descrito o pai de João, referência na formação do caráter do personagem.
Os demais vão amarrando a tessitura de forma que não há como lê-los individualmente.
“As cinco partes do mundo” é o capítulo dedicado aos estudos enquanto mecanismos de reação em prol das mudanças da realidade. É nele que o personagem João se revela um sujeito decidido, com objetivos definidos, focados para o futuro.
Como toda ficção voltada para o público jovem, não poderia deixar de compor o tecido narrativo, “A boca de Dora e Rabicho”, os capítulos sobre as primeiras descobertas amorosas do personagem adolescente. É interessante saber sobre esses capítulos que o texto original de Cabra das Rocas de 1966, especialmente na página onde está detalhada a boca de Dora, há conteúdo sexual, mas que algumas passagens foram suprimidas na versão posterior para adequar à linha editorial da editora que lançara a obra na linha infanto-juvenil.
Após estes se seguem “A briga”, “Xarias e canguleiro” e “Papa ovo”. São essas as partes nas quais o personagem vive momentos ora de tensão, por conta dos desentendimentos comuns entre jovens dessa idade, ora de extrema sensibilidade lírica com a narração detalhada sobre a vida dos animais naquele chão de maresia, sal e mau cheiro.
“A Cerca”, “Correio do mar”, “Carnaval”, “Azul e branco”, “Tatu morrendo de medo” e “Chispa humana” são capítulos que incluem temas sobre as relações sociais entre brancos e negros, o analfabetismo, festas carnavalescas, cultura popular por meio da transmissão oral e os artistas de circos, grupo social também marginalizado.
Como partes que se conectam, a fim de prender a atenção de quem lê, temos “Vintém ou tostão?”, “Um dia muito especial”, capítulo onde se instaura o clímax da narrativa, “Farda cáqui” e “Cabra das rocas”. Esses últimos enobrecem a trama na qual o sentimento de patriotismo se configura com o desejo de ver João, o garoto da periferia do bairro das Rocas, adentrando o ambiente físico sofisticado do Ateneu onde só frequentavam os meninos xarias.
O resumo do corpus nos possibilita uma visão global de Cabra das rocas, mas a leitura intensa e atenta nos permite descobrir muito mais nas entrelinhas a começar pelo lirismo pelo qual o autor se lança elaborando parágrafos como estes:
Alto e robusto, ostentava uma força maciça e lenta de marinheiro. Tinha mãos enormes, duras, servidas de dedos curtos. De tão grossos até pareciam inchados os dedos de meu pai. Recordo bem o seu físico agigantado, mas por mais que me esforce não consigo reter as suas feições. Lembro-me bem dos seus olhos. Eram pardos, de uma tonalidade que nunca vi reproduzida em ninguém mais.
A escrita homeriana, não apenas neste livro, mas nos demais, especialmente na sua obra poética fortemente telúrica, caracteriza-se pela inferência constante de elementos que compõem a sua terra de origem como a linguagem, realçando a variedade linguística nordestina e o cenário natural em passagens como esta:
A noite tombava com a força da copa dos coqueiros. Desci o morro com o primeiro clarão da lua cheia subindo do mar. Minha sombra se destacava na areia frouxa, ainda quente do sol. Lagartos corriam por entre os tufos de cardeiros pontilhados de frutos vermelhos rachados pelo calor da tarde.
O autor apropria-se de recursos poéticos fortes e singulares, como figuras de estilo que dão realce às cenas, predominando a personificação. Influenciado pela estética de vanguarda notamos que em grande parte da narrativa, Homero utilizou esta figura de linguagem com o intuito de aproximar o texto do leitor assim como reza a Cartilha do Movimento modernista, como nesta passagem da narrativa: “(…) jogara seu olhinho amarelo como um pequeno sol triste em cima de mim”.
Além dos vários recursos estilísticos, o autor de Cabra das rocas, talvez como forma de declarar seu amor à terra natal, recorreu ao patrimônio cultural intangível, a linguagem própria do povo potiguar, a fim de tornar a obra autenticamente potiguar. Nota-se um vocabulário “subversivo” em oposição à linguagem clássica literária, como lemos: “Também o bicho era feio mesmo; feio de doer. Até Dona Clara se assustara quando a fera parou à sua frente, roncou forte e fez mungangas, pedindo dinheiro”.
O vocabulário que recheia a narrativa é composto de um universo linguístico próprio que anuncia e conceitua ao mesmo tempo, de acordo com o contexto no qual se insere.
No estudo A construção do pensamento e da linguagem, Vygotsky assegura que signo e significado coexistem, porque se trata de uma ideia que vem do cognitivo. “ Não podemos falar de significado da palavra tomado separadamente. O que ele significa? Linguagem ou pensamento? Ele é, ao mesmo tempo, linguagem e pensamento porque é uma unidade do pensamento verbalizado”. (VYGOTSKY, 2001, p. 10)
Podemos associar essa ideia à palavra Cabra, que faz parte do título deste livro, pois esse termo comporta um significado semanticamente forte com uma conotação abrangente e contextual. Partindo disso, o autor se apropria de um termo que metaforiza o protagonista, sugerindo a constituição de um personagem forte, decidido, capaz de reagir às imposições advindas de um sistema político-social dominante e historicamente perpetuado não se submetendo, portanto, às regras estabelecidas, culturalmente. João, o protagonista, pode ser visto como esse ‘cabra’ resiliente, representante de uma minoria cujo acesso ao universo da elite lhe é ponderado através da visão de mundo difundida pelos ancestrais, de submissão e assolamento.
Todavia, pelo caráter regional e por abranger vários sentidos, tornando-se, pois, uma palavra polissêmica, interpretamos o termo ‘cabra’ levando em consideração os aspectos metafóricos como figura estilística capaz de mostrar antíteses, embora, o personagem João proponha ao leitor a caracterização subjetiva de um sujeito singelo, cordial, generoso e autêntico. Mas, também, corajoso, destemido, certo de suas convicções e, sobretudo, decidido a transformar seu estado social, através da educação.
É um ‘cabra’ também construído sob a ótica da força, não no que se refere à força bruta, mas àquela oriunda das intersubjetividades, das abstrações e dos questionamentos existenciais. Homero é o genitor de um personagem inteligente, reflexivo, questionador, ativo, estudioso, atento, sensível e revolucionário por sair vitorioso nos exames de admissão para cursar o secundário no Ateneu natalense.
A voz verossímil, que se alimenta dessas características para a configuração do personagem principal, é simbolizada por um jovem adolescente de nome João, 11 anos, filho de pescador, morador do bairro próximo ao manguezal e que busca incessantemente tornar-se aluno do Colégio Ateneu, uma instituição que, nas décadas passadas, voltava-se à elite natalense, aos filhos dos provincianos nobres.
Entre rivalidades, bairrismos e ufanismos o personagem é a metáfora mimética da realidade social enredada no tecido narrativo. Essa mesma voz narra e experimenta, por isso a tessitura tem substância, especialmente porque a história possui o foco narrativo ancorado na primeira pessoa. Todavia, há determinadas situações em que o narrador onisciente “salta” do texto, como se estivesse pedindo o direito à voz, como é possível perceber nesse fragmento: “Dona Laura chegou [sic] o bule de flandres, virou o líquido escuro e fumegante na xícara, um quase sorriso se insinuando em seu rosto. Eu me espantava. Aquilo era raro, nela. Talvez fosse alegria pela volta de meu pai”.
Homero Homem escreve como se estivesse saboreando um ensopado de camarão, caminhando pelas ruas do bairro das Rocas ou elaborando trocadilhos com o linguajar próprio do povo potiguar em uma amistosa conversa de calçada que se materializa entre os personagens que dão robustez à narrativa – João e os moradores.
O macrodiscurso solta as amarras do “eu” verossímil dando carta branca à liberdade de ser autêntico, sugerindo que ele navegue pela obra e vislumbre um passeio de jangada sobre as águas verde azuladas do fértil rio Potengi. Esses “eus”, entendidos como vozes que denunciam, mas que também se orgulham da beleza natural da terra estão implícitos nas circunstâncias temáticas que dão corpo à narrativa libertando-os dos vínculos comuns à obras fechadas, ou seja, os micro discursos tem espaço para se desenvolverem no cerne da ficção, mostrando a que vieram, ocupando espaço nas ações e dando os recados propostos pelo enredo. A narrativa torna-se uma obra aberta, repleta de brechas para o leitor explorar dada a variação de ideias e sugestões temáticas.
De acordo com a análise de discurso, o sujeito pode surgir em determinados lugares da obra, dispersando-se e cumprindo com a sua função social e política. Sobre esse aspecto da análise, Eni Orlandi reflete: Ele é atravessado por várias formações discursivas e isso pode ser entendido dizendo-se que, no texto, o sujeito pode aparecer em várias posições (ORLANDI, 1988, p. 112).
Personagens como Seu Brás, pai de João, e Isaura, a madrasta, são algumas das alegorias que podem representa os “eus” verossímeis analfabetos, uma vez que são seres ficionais cujas funções na narrativa mostrarão ao leitor a realidade histórico-social pela qual viviam os moradores do bairro das Rocas e estimular a reflexão sobre possíveis mudanças de paradigmas implantados no inconsciente do homem nordestino de que, por questões de ordem cultural, devem permanecer submissos. A figura metafórica que representa essa submissão é a da Isaura. No seguir percebemos, de imediato, a mulher na condição de subserviviente. Vejamos: “– Como vai, minha velha? Tem rezado muito? / – Por vosmecê, Seu João, por vosmecê”.
Notemos que além do uso da linguagem corrente, sem refinamento, mostrando que a personagem não passou pelo saber sistematizado da escola, a figura feminina se mostra submissa como alegoria importante para a reflexão do paradigma arraigado há séculos. Todavia, não se trata de uma submissão assoladora da figura feminina, mas uma demonstração amorosa, ingênua e comovida da obediência entendida por ela como parte inerente à mulher.
Vimos outro fragmento substancial que rodeia o tema Analfabetismo onde a personagem dona Clara denuncia-se iletrada. A metáfora preenche a proposta do processo criativo de instigar a reflexão acerca da problemática que circunda todo aquele que não sabe decodificar palavras, simbolizado por um “eu” que se angustia perante a sua condição, mas que tem humildade em reconhecer-se daquela forma:
Levantei-me, ganhei o corredor, voltei com o envelope. Pelo caminho, vim lendo. ‘Inselentíssima sinhora Clara dos Santos. Por ispicial obzsequio de mestre Antonho Braz, a bordo do Esperança III’. Entreguei a carta à Dona Clara. Ela olhou o endereço um tempão, virou e revirou o envelope fechado com muito grude, apalpou-o, e de súbito decidiu-se.
– Quer ler para mim, Joãozinho?
O conjunto temático que costura o enredo possui vários pontos de fuga, abrindo uma palha de coqueiro para outras interpretações, logo, Cabra das rocas oferece ao leitor virtual, aquele construído pelo autor, um discurso polissêmico que agrega situações do cotidiano de uma realidade periférica, mas que também representa um contexto social que não se aplica apenas ao localista, ao ambiente onde a tessitura se propõe concretizada, mas se espraia pelo universal.
Ainda considerando o aspecto estrutural e significativo da obra, vale lembrar o que disse Foucault a respeito do sujeito e do texto à luz da análise do discurso: “O sujeito é visto como descontinuidade e o texto como espaço de dimensões múltiplas” (apud FOUCAULT, 1969).
Em sua teoria da identidade cultural na sociedade moderna chamada por ele de modernidade tardia, Stuart Hall aponta três concepções de identidade que definem o homem enquanto sujeito em determinados tempos e espaços históricos: sujeito do Iluminismo, sujeito Sociológico e sujeito Pós-moderno. O primeiro se baseia em alguém individualizado, um sujeito masculino cujo centro essencial do “eu” é a sua identidade. O segundo reflete uma pessoa que entende a relação entre outros sujeitos como necessária para mediar as conexões entre valores, sentidos e símbolos. E o terceiro é o resultado desse processo de mudanças de posturas e de posições dentro da sociedade em que ele vive. Um processo no qual o sujeito passa a ser fragmentado e envolto em várias identidades.
Considerando as definições de Hall, visualizamos em Cabra das rocas um sujeito sociológico capaz de interagir e “passear” entre os vários tipos de sujeitos que consubistanciam entre si no enredo. São personagens de uma mesma realidade ficcional, mas que possuem características sociais peculiares, indispensáveis na construção da narrativa:
A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação com “outras pessoas importantes para ele” que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura- dos mundos que ele/ela habitava (HALL, 1992, p. 11).
Portanto, enxergamos Cabra das rocas como uma narrativa polissêmica tanto do ponto de vista dos sentidos quanto das identidades representadas pelos tipos humanos, muitas vezes sujeitos culturalmente influenciados pela tradição, mas cientes da importância das relações sociais na construção da sociedade, ou seja, uma obra aberta às variadas formas de leituras, especialmente porque se evidencia ou se espera do leitor que ele traga no seu matulão um contexto de experiências outras capazes de alicerçar a interpretação do texto lido.
REFLETINDO O CÂNONE NACIONAL
A literatura canônica está em posição privilegiada sobre a ‘não canônica’ porque existe um sistema editorial que apadrinha, que estabelece, que reforça e que perpetua. Essa posição social, propagada há séculos pelos especialistas e estudiosos, acaba por tolher a possibilidade de literaturas outras, muitas vezes com excelente nível artístico, de receberem a devida atenção de leitores ávidos e de uma crítica independente.
Refletir a superioridade canônica não significa dizer que estamos propondo comparações entre as literaturas. A pretensão é sugerir reflexões acerca da relevância que o acervo canônico exerce sobre aquele que lê. Curiosamente, nem toda obra consagrada pelos parâmetros estabelecidos pelo cânone é acessível, prazerosa e de fácil entendimento. Questões importantes emergem: a sociedade moderna carece de um conhecimento clássico como obrigatoriedade escolar? As obras canônicas não poderiam ser lidas paralelamente às não canônicas? Não seria mais apropriada uma leitura contextualizada, enriquecida por realidades com as quais há identificação sem, contudo, isolar os cânones? A respeito dessa relação contextual Antônio Candido comenta:
Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo (CANDIDO, 2000, p. 6).
Nas instituições escolares é práxis a leitura dos livros que compõem o acervo literário nacional como tarefa obrigatória para quem está disposto a prestar exames vestibulares ou o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Todavia, alguns professores de literatura propõem leituras de outras obras não canônicas, geralmente produzidas em regiões que correspondem ao sul e ao sudeste do país, cujas obras encontram-se nas estantes das escolas, vindas através dos programas do Ministério da Educação como fonte de incentivo à leitura. No entanto, a descontextualização desencanta o leitor, pois em sua grande maioria são jovens de lugares periféricos, estudantes das escolas públicas brasileiras.
O fenômeno ocorre porque o conteúdo foge à compreensão do aluno, uma vez que a realidade que ele conhece é destoante daquela ilustrativa oferecida pela escola, através de uma literatura de cunho exclusivamente didático na qual o estudante deve apenas interpretar o conteúdo (o sentido pelo sentido) e responder aos questionamentos elaborados sem interagir com a obra contra argumentando. Essa prática utilizada pelas pedagogias tradicionais tem sofrido pouquíssimas alterações no decorrer da história educacional brasileira, mesmo com a moda das propostas progressistas ganhando visibilidade neste setor.
Conhecer os cânones universais e nacionais é bastante profícuo, todavia, é imprescindível ler as obras que dizem respeito ao espaço local do aluno. Cabra das rocas, de Homero Homem é um exemplo de que é possível começarmos a introduzir literatura nacional partindo de obras produzidas por autores locais. Como diz o pedagogo brasileiro Paulo Freire: “A primeira leitura deve ser a de mundo”.
É o contato com a sua realidade que propõe ao ser humano essa leitura simbólica que o aluno conhece e que está ao seu alcance, contextualizando, aproximando, propondo releituras, decodificando pensamentos. Antônio Candido se referiu a integridade da obra como a ação que só se concretiza quando texto e contexto se fundem numa interpretação dialeticamente íntegra.
Para o teórico Raymond Willians que preconiza uma literatura abrangente e que atenda às expectativas da classe operária desvirtualizada do universo cultural da elite, os Estudos culturais consistem numa forma de oposição às práticas e disciplinas vigentes. O autor faz referência à cultura comum em detrimento a uma cultura em comum em que haja participação efetiva na construção dos processos de transformação causados pelas mudanças históricas. Segundo ele se a cultura é tudo o que constitui a maneira de viver de uma sociedade específica, devem-se valorizar, além das grandes obras que codificam esse modo de vida, as modificações históricas desse mesmo modo de vida. (Apud CEVASCO, 2003).
Ainda de acordo com Willians Raymond, as formas culturais devem estar à mão de todos os sujeitos sociais, uma vez que essas culturas podem e devem ser renovadas pela participação de todos, ou seja, a necessidade de reinterpretar a realidade pauta-se na ideia de que a cultura não se planeja porque ela advém das intersubjetividades.
Devemos planejar o que pode ser planejado, de acordo com a decisão comum. Mas no que diz respeito à cultura, a atitude certa será a que nos lembre de que uma cultura é, por essência, insuscetível de planejamento. Devemos assegurar os meios de vida e os meios para a comunidade constituir-se. Mas o que será a vivência, com base em tais meios, não podemos conhecer e nem traduzir. A idéia de cultura apóia-se numa metáfora: o velar pelo crescimento natural. E é sem dúvida no crescimento, como fato e metáfora, que se deve colocar a ênfase final. Em nenhuma outra área é maior a necessidade de reinterpretação (Williams, 1969, p. 343).
Entendemos que Cabra das rocas reverencia essa cultura local e aposta no respeito aos valores culturais como bens intangíveis, mas também que assume a função de instrumento denunciador de uma realidade específica capaz de acompanhar as modificações que o processo de globalização proporciona à sociedade contemporânea.
É uma obra que representa toda a pompa que a literatura potiguar deve ter. Parafraseando o mestre Cascudo: “Quando eu viajar, mais cedo ou mais tarde, a Universidade vai acabar comprando dos meus herdeiros a minha biblioteca. Ninguém é tão burro para dispensar livros tão incríveis.” A nossa expectativa é que aconteça o mesmo com a obra de Homero que não era um mero Homem.
REFERÊNCIAS
NOTA AO TEXTO
1 A primeira versão de Cabra das rocas foi publicada em 1966, mas a selecionada para essa análise é a 14ª edição de 2003, que sofreu pequenas alterações por solicitação da editora Ática para adaptá-la à linha temática e editorial da série Vagalume.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rodrigo Conçole Lage
Universidade do Sul de Santa Catarina
Sumário: O objetivo desse trabalho é apresentar uma listagem bibliográfica dos prefácios e demais textos de apresentação publicados pelo escritor Jorge Amado. Com esse objetivo, dêscutimos na primeira parte as limitações das demais bibliografias e o aspecto complementar da que organizamos. Na sequência, apresentamos a nossa bibliografia.
Palavras-chave: Jorge Amado, Literatura Brasileira, Bibliografia, Pesquisa Documental.
Abstract: This paper presentes a bibliographical review of prefaces and other introductory texts written by the Brazilian author Jorge Amado. Firstly, we approach the limitations of the existing bibliographies on this subject, then we discuss the complementary aspect of the one we organized. Lastly, we present our bibliography.
Key-words: Jorge Amado, Brazilian Literature, Bibliography, Documentary Research.
Minicurrículo: Graduado em História pelo Centro Univesitário São José de Itaperuna, é especialista em História Militar pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Tem artigos e resenhas nas áreas de História e Literatura publicados em revistas acadêmicas. Também publicou algumas traduções em revistas acadêmicas digitais e artigos no jornal Poiésis. É professor de História da SEEDUC (Secretaria de Estado de Educação).
OS TEXTOS DE APRESENTAÇÃO DE JORGE AMADO:
UMA LISTAGEM BIBLIOGRÁFICA
Rodrigo Conçole Lage
Universidade do Sul de Santa Catarina
Introdução
O estudo da vida e obra de muitos escritores brasileiros possui um grande obstáculo: a ausência de bibliografias que contenham da forma mais completa possível uma relação de todos os seus escritos. Diante dessa dificuldade, decidimos contribuir nessea área por meio de uma nova bilbiografia de Jorge Amado que trata de uma parte de sua obra que tem recebido pouca atenção, e que não pode ser negligenciada por todos que desejam estudá-lo.
A obra de um escritor não é composta apenas dos livros publicados ou textos de jornais e revistas. Ela inclui tudo o que o autor escreveu (textos inéditos, cartas, rascunhos, anotações, entre outros). Assim, um gênero textual muitas vezes ignorado também faz parte dela: o texto de apresentação. Ele pode estar elaborado, por exemplo, na forma de um prefácio, posfácio, de um apresentação, uma introdução, orelha do livro ou estar na contracapa de um livro ou LP (discos), entre outras formas.
O objetivo de nosso trabalho é apresentar uma nova bibliografia destes textos visando a preencher as lacunas existentes nas que já existiam. A pesquisa em sites da internet como, por exemplo, o Google, Google Books e o da Estante Virtual foram fundamentais para a elaboração dessa bibliografia.
1- Os textos de apresentação de Jorge Amado: um exame da questão
Ao longo de sua vida, Jorge Amado produziu um número desconhecido de textos de apresentação. A falta de uma listagem do próprio autor ou de maiores referências torna impossível saber com exatidão seu número. No livro Jorge Amado: 80 anos de vida e obra (1992) foi publicada uma pequena listagem na qual muitos textos não foram incluídos, inclusive de autores nela presentes. Em 2009, no Catálogo de acervo de documentos da Fundação Casa de Jorge Amado, foi apresentada uma nova listagem na qual constam alguns prefácios que não foram incluídos na anterior (quatro no total), e que foram aqui incluídos. O objetivo dessa nova bibliografia aqui apresentada é complementá-las. Além disso, em acréscimo, indicamos o gênero do texto produzido. Nossa bibliografia é formada, em sua maior parte, de textos publicados no Brasil. Novas pesquisas, em outros países, poderão complementá-la.
A listagem inclui textos para livros de ficção, não ficção, poesia, catálogos de arte e LPS. Ela está organizada na ordem alfabética pelo fato das anteriores terem adotado o mesmo critério. A primeira bibliografia é composta de 163 livros. A segunda repete algumas referências da anterior e acrescenta quatro novos textos, que foram incluídos aqui. A que apresentamos contém 105 novas referências que, somadas aos quatro já citados, possui um total de 109 títulos. Temos, portanto, um acréscimo de pouco mais de 62% em relação aos 167 textos anteriormente conhecidos. Os novos textos se dividem em:
Prefácio: 69
Apresentação: 14
Introdução: 9
Texto de Contracapa: 9
Orelha: 5
Prólogo: 2
Texto sem classificação: 1
Deve-se destacar também o fato de que essa nova bibliografia inclui a apresentação de seis LPs, algo inexistente nas anteriores. Tal fato nos permite conjecturar que outros trabalhos possam ter sido produzidos para eles sem que tenhamos quaisquer referência. Essa possibilidade abre espaço para futuras pesquisas sobre a questão. Portanto, não se pode descartar a idéia de que pesquisas ulteriores poderão complementar o trabalho aqui apresentado. Apresentamos, a seguir, a nova bibliografia.
2- Bibliografia dos textos de apresentação de Jorge Amado
Referências:
FRAGA, Myriam (Org.). Fundação Casa de Jorge Amado: catálogo do acervo de documentos. vol. 1. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2009. Disponível em: <http://www.jorgeamado.org.br/?page_id=172>.
RUBIM, Rosane; CARNEIRO, Maried. Jorge Amado: 80 anos de vida e obra. Subsídios para pesquisa. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1992.
Bio fornecida pelo palestrante.
Sergio Carvalho de Assunção
Universidade Estácio de Sá/UFF/Unifeso
Resumo: Este artigo propõe-se abordar a poesia de tonalidade espiritual em Jorge de Lima e Murilo Mendes partindo do princípio de que suas respectivas experiências poéticas foram potencializadas efetivamente por um estado de estado de crise e inquietude vivenciados pelo sujeito do início do século XX. Embora o fato religioso tenha proporcionado uma transformação que perpassa a esfera ética até o plano estético, suas produções serão abordadas sob a perspectiva do dilaceramento do sujeito, através da tensão entre a negatividade órfica e a espiritualidade cristã, vivenciadas tanto ao nível do corpo quanto no plano da poesia.
Palavras-chave: Poesia; Murilo Mendes; Jorge de Lima; Sagrado; Crise.
Abstract: From Crisis to Metanoia: the Dialectical Tension between the Sacred and the Profane in the poetry of Jorge de Lima and Murilo Mendes proposes to approach the poetry of spiritual tone in Jorge de Lima and Murilo Mendes assuming that their respective poetic experiences were leveraged effectively by a state of crisis and anxiety which are experienced by the subject of the early Twentieth century. Although religion has provided a transformation in their poetry that permeates the ethical sphere until the aesthetic level, their works will be addressed in the perspective of a subject torn off by tension between the Orphic negativity and Christian spirituality, experienced both at body as in poetic levels.
Keywords: Poetry; Murilo Mendes; Jorge de Lima; Sacred; Crisis.
Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2000), mestrado (2002) e doutorado (2008) em Estudos de Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com dissertação sobre o artista Jorge Mautner e tese sobre o poeta Waly Salomão, e concentra linha de pesquisa sobre Poesia, Contracultura, Música e Vanguardas. Atualmente é docente e pesquisador do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá e pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense, com projeto de pesquisa sobre o surrealismo e o sagrado na poesia de Jorge de Lima e Murilo Mendes.
DA CRISE À METANOIA: A TENSÃO DIALÉTICA ENTRE O SAGRADO E O PROFANO
NA POESIA DE JORGE DE LIMA E MURILO MENDES
Sergio Carvalho de Assunção
Universidade Estácio de Sá/UFF/Unifeso
As harpas da manhã vibram suaves e róseas.
O poeta abre seu arquivo – o mundo –
E vai retirando dele alegria e sofrimento
Para que todas as coisas passando pelo seu coração
Sejam reajustadas na unidade
Murilo Mendes
Durante as primeiras décadas do século XX, no auge da modernidade industrial, o ocidente viveu um período de grande euforia desenvolvimentista científica, tecnológica e com os meios de comunicação. Porém, diante das guerras, do colapso socioeconômico e da eclosão do nazifascismo, o sujeito se viu mergulhado em uma crise que o esvaziava psíquica e espiritualmente, na medida em que seu futuro era colocado em cheque, que seu papel social era reduzido a uma função maquínica, e os valores culturais eram transformados em bens de consumo por uma poderosa macroestrutura econômica e sua lógica materialista.
Se por um lado a crise obrigou o sujeito a lidar com os novos meios de produção, reinventando, assim, outros modos e condições capazes de resistir ao utilitarismo e de intervir sobre a lógica cultural massiva, por outro, o avanço técnico e tecnológico possibilitou diversas experimentações e expansões no campo da linguagem e da arte, como o rádio, a fotografia e o cinema, apenas para citar alguns exemplos.
Em meio a essa crise, as potências criadoras eram severamente abaladas pelo materialismo da lógica industrial, promovendo uma descrença e um esvaziamento espiritual, além da liquidação dos sonhos e afetos culminada pelas guerras e pela ameaça atômica. Podemos dizer que o mesmo sujeito que teve a sua experiência cultural empobrecida desde a virada do século XIX para o século XX, consequentemente, teve sua sensibilidade e psiquismo esboroados pelo tédio e pelo desencanto, pela melancolia e pela angústia.
Mais do que uma experiência estética, a poesia moderna assumiu-se como um lugar crítico, proporcionando ao sujeito uma experiência através da linguagem, ao ressignificar e reinventar, efetivamente, sua perspectiva como um ato de resistência e transgressão contra a lógica massiva, utilitarista e alienante da modernidade industrial. Em face dessa realidade, pergunta-se, então, de que maneira é possível pensar essa crise do sujeito através da poesia, enquanto experiência transformadora do sujeito?
A partir dessa questão, propõe-se abordar a poesia de tonalidade espiritual em Jorge de Lima e Murilo Mendes partindo do princípio de que suas respectivas experiências poéticas foram potencializadas efetivamente por esse mesmo estado de crise e inquietude vivenciado pelo sujeito do início do século XX. Decerto que, muito embora o fato religioso tenha proporcionado uma transformação que perpassa a esfera ética até o plano estético, suas produções serão abordadas sob a perspectiva da crise e dilaceramento do sujeito moderno, em meio à tensão permanente entre a negatividade órfica e a espiritualidade cristã, vivenciadas tanto ao nível do corpo quanto no plano da poesia:
A igreja toda em curvas avança para mim,
Enlaçando-me com ternura – mas quer me asfixiar.
Com um braço me indica o seio e o paraíso,
Com outro braço me convoca para o inferno.
Ela segura o Livro, ordena e fala:
Suas palavras são chicotadas para mim, rebelde.
Minha preguiça é maior que toda a caridade.
Ela ameaça me vomitar de sua boca,
Respira incenso pelas narinas.
Sete gládios sete pecados mortais transpassam seu coração.
Arranca do coração os sete gládios
E me envolve cantando a queixa que vem do Eterno,
Auxiliada pela voz do órgão, dos sinos e pelo coro dos desconsolados.
Murilo Mendes (1994, p. 303)
Ao considerar que as experiências poéticas de Murilo Mendes e Jorge de Lima foram deflagradas por esse estado de crise, seja ele existencial, moral e espiritual, vivenciado pelo sujeito do início do século XX, pode-se dizer que o livro Tempo e Eternidade – escrito a quatro mãos em 1934, e logo após a conversão ao cristianismo pelos dois poetas –, além de simbolizar esse momento emblemático da vida pessoal, ele foi determinante para o rumo de suas respectivas poéticas. Este livro tornou-se o ponto divisório na obra de cada um, uma vez que este momento consolidou a busca de ambos pela essência sagrada, analógica e beatífica e compreensão de sua experiência vivencial, como um saber adquirido por meio da poesia.
Em entrevista a Gastão Pereira da Silva, Jorge de Lima comenta sobre o papel do poeta moderno no Brasil:
Veja que apesar dos retrocessos de cultura e civilização em que o mundo periodicamente se debate, a presença da poesia é mais sensível e mais real que os terroristas e as guerras. Nós, os poetas brasileiros, devemos nos integrar na imensa floração espiritual que brotará da terra mais salgada de sangue e de lágrimas; reconciliarmo-nos com a nossa dignidade de poetas, com a nossa força de poetas, com a nossa eternidade de poetas. O nosso passado milenar é tão profundo que não podemos enxergar em nossa trajetória o pequeno episódio dos régulos que impelem os homens a se entrematar. É possível que este continente americano, ou mesmo que esta humanidade brasileira cujo homem fraterno vai adquirindo uma longitude e uma latitude de alma só conseguidas por outros povos com o domínio da força bruta polarizada para o mal, é possível que seus poetas sejam amanhã os eleitos para inaugurar e não para rememorar. Poderemos elevar o nível dos corações, projetar as nossas mãos para consolar o distante companheiro aturdido pelas decepções da vida nos quatro pontos cardeais. Podemos projetar nossas mãos, não com estes gestos tão gratos aos bombardeadores-mores que pretendem sobre os cemitérios imensos plantar a nova desordem, do mundo, mas impor nossas mãos no gesto suave dos primitivos cristãos sobre os ombros e sobre os peitos dos próximos e longínquos companheiros precisados da nossa mensagem como pão de cada dia. Só assim os nossos campos e as nossas minas serão mais férteis e seremos olhados através das cordilheiras e dos antípodas (LIMA, 1997, p. 72).
Percebe-se que a modernidade de suas respectivas poéticas está determinada pela radicalidade expressional que cada um constrói, à sua maneira, segundo suas respectivas soluções formais do sujeito marcado por um estado de permanente tensão. Seja a expressão de inquietude movida pelos instintos que se confrontam com a cultura e com o outro, ou seja ela movida pelo desejo de transcender essa mesma cultura, visando, ao mesmo tempo, consolidar um sentido à existência sob a perspectiva do homem em relação com seu próximo e, ao mesmo tempo, com relação a Deus.
Ainda que Murilo ou Jorge assumissem claramente sua conversão religiosa – o que implicou, consequentemente em uma profunda transformação ética e estética –, em nenhum momento este fato comprometeu o caráter moderno, crítico e experimental de suas poesias, e tampouco assumiu uma expressão ascética ou proselitista. Ao contrário, essa transformação tornou-se evidente na medida em que a perspectiva espiritual se amalgamava à visão crítica diante da degradação humana na era industrial, sobretudo a partir das guerras, e à medida que a consciência artesanal do poeta passou a fundir o tom profético e apocalíptico com a plasticidade surrealista, o que deu às respectivas poéticas sua radicalidade expressional e projetiva da realidade inefável do sagrado.
É preciso falar-se das criaturas,
verdadeiras criaturas animadas,
das vivências totais, arbítrio e tudo,
alma, corpo funesto e essa imortal
perpetuidade além, Deus nas alturas,
nomes de terra e nomes eternados,
anjos, demônios, sonhos acordados
e as profecias, fúrias, posses, tudo
que um poema pode ter: esse clamor,
essa indefinição, esses apelos,
– sonho de rei Nabucodonosor,
que depois de refeito e decifrado
é a condição do bicho: carne, pelos,
e sangue breve do homem desgraçado.
(Jorge de Lima, 1997, p. 678)
Historicamente, é possível afirmar que esta polarização entre a negatividade pagã e a espiritualidade cristã assinala uma profunda cisão no ocidente, e que por sua vez marcou certa linhagem moderna da poesia do romantismo ao século XX, voltada para a gnose, para o ocultismo, e para o agnosticismo. Esta linhagem trouxe à tona o antagonismo cada vez mais evidente entre a negatividade pagã e a transcendência cristã, tal como demonstrou Raul Antelo (s.d.) a partir de um ensaio sobre Murilo Mendes, ao trazer, inclusive, um significativo trecho de uma entrevista do poeta, que alinhou as bases históricas e filosóficas da negatividade profana desde o século XVIII até sua influência no surrealismo francês do século XX.
Com o passar do tempo, a disseminação do gnosticismo no ocidente tomou grande proporção, acentuando a negatividade na poesia moderna em detrimento do cristianismo, que se viu enfraquecido como instituição. Esse processo assumiu proporções substanciais desde o Iluminismo à era industrial, sendo, mais tarde, determinantemente corroborado pelo pensamento de Nietzsche, e pela crítica de Marx, Freud e Durkheim às instituições religiosas, principalmente o catolicismo apostólico romano.
Some-se a esse processo o surgimento de uma mentalidade progressista forjada pela lógica materialista e tecnocrata, o que acentuou ainda mais o estilhaçamento e a descontinuidade do tempo eterno e do espaço infinito, visando desmontar a concepção da existência do sujeito fundada na totalidade metafísica do homem, do mundo e do cosmos em unidade com o sagrado. Eis então que o sujeito se vê deslocado dessa concepção cosmogônica e transcendente do sagrado, ao perceber a existência sob a perspectiva do corpo, pela potencialidade instintiva do desejo e em imanência com o mundo.
Para George Bataille, no momento em que esta totalidade se rompe, o indivíduo se redescobre a partir de uma dupla acepção de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto, quando é separado da natureza e devolvido à imanência das coisas finitas, de maneira que essa percepção o angustia, deixando-o terrificado. Acuado em sua finitude e desespero, o sujeito passa a criar sentido para sua existência integrando-se ao mundo das coisas por meio do trabalho, em tensão com a ordem íntima das coisas que é por onde se passa sua relação com o sagrado.
Em outras palavras, o trabalho e o medo de morrer são solidários, o primeiro implica a coisa e vice-versa. Na verdade, sequer é necessário trabalhar para ser em alto grau a coisa do medo: o homem é individual na medida em que sua apreensão o liga aos resultados do trabalho. Mas o homem não é, como se poderia acreditar, uma coisa porque tem medo. Ele não teria angústia se não fosse o indivíduo (a coisa), e é essencialmente ser um indivíduo o que alimenta sua angústia. É para responder à exigência da coisa, é na medida em que o mundo das coisas colocou sua duração como a condição fundamental de seu valor, de sua natureza, que ele aprende a angústia. Ele tem medo da morte desde que entra no edifício de projetos que a ordem das coisas é. A morte bagunça a ordem das coisas, e a ordem das coisas nos mantém. O homem tem medo da ordem íntima que não é conciliável com aquela das coisas (BATAILLE, 2015, p. 44).
Por outro lado, ainda que o processo de industrialização tenha provocado efeitos irreversíveis na concepção do homem moderno do século XX ao acelerar o tempo e desdobrar os espaços, mantendo-os imanentes e interconectados, a poesia de Jorge e Murilo superou a concepção que reduzia a poesia moderna brasileira a um paradigma que a colocou a serviço da forma, como apenas como ‘produto para consumo’, como uma fragmentação da realidade que visa desmontar a dimensão metafísica, contrapondo-se ao sentimento órfico, antropófago e profano de Oswald de Andrade.
Ao expressar os dramas do homem moderno em busca do sagrado, a poesia de Jorge e Murilo superou o paradigma oswaldiano, ao fundir a imanência e a transcendência, ao expandir a visão culturalista a uma perspectiva sobrenatural e supra real, além de produzir uma poesia de absoluta radicalidade plástica e expressional, além de extremamente crítica, empregando procedimentos formais absolutamente inovadores em suas respectivas linguagens poéticas.
Mais que uma luta entre o desejo de liberdade e reconciliação com Deus em confronto com a instintividade da condição carnal e animalesca que se abre ao pecaminoso, o que se passa no plano de suas poesias é um mergulho na natureza paradoxal humana, tentando alinhar a ordem de intimidade com o sagrado à ordem das coisas, para usar os termos de Bataille, no plano da poesia.
No caso de Jorge de Lima e Murilo Mendes, é sob a perspectiva cristã que suas respectivas poéticas devem ser compreendidas, considerando que, no plano de suas poesias, ao mesmo tempo em que a relação entre o sujeito e o sagrado se eleva a uma perspectiva transcendente e gloriosa proveniente do sobrenatural, essa dimensão é confrontada pela violência que se inscreve ao nível do corpo e dos afetos, como se tais violências configurassem não somente a condição humana em face da finitude terrena, mas, sobretudo, as tribulações pelas quais o sujeito deve vivenciar em seu processo de reconciliação com Deus pela fé, desde a queda adâmica:
Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua parusia.
Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.
Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.
(Murilo Mendes, 1994, p. 255)
Seja sob o tom agônico e escatológico que vai da sensualidade à devoração do outro, seja sob angústia ou desespero humano diante do flagelo da fome ou da guerra, ambos expressam a experiência conflituosa do sujeito que se equilibra entre a negatividade da queda e o desejo de elevação, como se essa tensão consubstanciasse sua experiência sacrificial e, ao mesmo tempo, como algo que só pode ser compreendido na ordem íntima em que se passa a relação de intensidade vivencial com o sagrado.
Segundo Bataille:
O sagrado é essa efervescência pródiga da vida que, para durar, a ordem das coisas encadeia e que o encadeamento transforma em desencadeamento, ou, em outros termos, em violência. Sem trégua, ele ameaça romper os diques, opor à atividade produtiva o movimento precipitado e contagioso de um consumo de pura glória. O sagrado é precisamente comparável à chama que destrói a madeira ao consumi-la. É o contrário de uma coisa, um incêndio ilimitado que se propaga, irradia calor e luz, queima e cega; e aquele que ele queima e cega, por sua vez, de repente também queima e cega. O sacrifício abrasa como o sol que lentamente morre da irradiação pródiga cujo brilho nossos olhos não podem suportar, mas ele nunca está isolado e, num mundo de indivíduos, convida à negação geral dos indivíduos como tais (BATAILLE, 2015, p. 44-5).
Em outras palavras, antes que a relação entre o sujeito e o sagrado possa ser vista apenas pelo ângulo analógico ou beatífico da poesia, considera-se, primordialmente, que a poesia de Jorge de Lima e Murilo Mendes visa substancializar a transformação espiritual (metanoia) no próprio fazer poético (poiesis), tomando-a como uma intervenção real que visa tocar a verdade que se passa na intimidade com Deus pela ordem das coisas.
Assim, na medida em que este estado de crise era trazido à tona, a experiência poética deixava de ser para estes poetas apenas um modo de resistência e intervenção a essa lógica massiva, maquínica e desumana, tornando-se, sobretudo, o meio pelo qual ambos passaram a cultivar a aproximação e busca da unidade com o sagrado como uma experiência ética, substancial e impessoal.
Para Georges Bataille, em A literatura e mal, a poesia moderna é marcada por um paradoxo que corresponde à natureza humana mais profunda, ao expressar a essência dualista e dinâmica de nossa condição, configurada pelo duelo entre o bem e o mal, como ele exemplificou em vários poetas, com destaque para William Blake e Charles Baudelaire.
Segundo Bataille:
O Mal, nessa coincidência de contrários não é mais o princípio oposto de uma maneira irremediável à ordem natural que ele é nos limites da razão. A morte sendo a condição da vida, o Mal, que está ligado em sua essência à morte, é também, de uma maneira ambígua, um fundamento do ser. O ser não está destinado ao Mal, mas deve, se assim pode, não se deixar encerrar nos limites da razão (BATAILLE, 2015, p. 26).
Bataille defende que a significação do Mal se configura a partir de uma autocondenação da própria condição humana, seja na inclinação para a morte, para a guerra ou para o erotismo, o que poderia forjá-lo para um estado de angústia, de raiva e repugnância. O Mal é tomado como um impulso, uma paixão ou uma atração irrefletida, diferentemente de uma intencionalidade calculista, crapulosa e egoísta, como diz Bataille, ao deslocar o Mal de um lugar moral, sujeito à lei, mas sob a espessura humana e passional, já que, segundo ele, “A literatura mais humana é o alto lugar da paixão”, isto é, como se esse embate apaixonado fosse absolutamente necessário ao homem para se reconhecer como sujeito:
Nem por isso a paixão escapa da maldição: só uma “parte maldita” é reservada àquilo que, numa vida humana, tem o sentido mais carregado. A maldição é o caminho da bênção menos ilusória. Um ser altivo aceita lealmente as piores consequências de seu desafio. Por vezes até precisa ir ao encontro delas. A “parte maldita” é a parte do jogo, da álea, do perigo. É ainda a parte da soberania, mas a soberania se expia (BATAILLE, 2005, p. 27).
Diante da evidência de uma existência em crise, a poesia expõe a impotência do sujeito em meio às macroestruturas econômicas e sociais que propiciam seu esvaziamento espiritual e a desvalorização humana, em meio ao progresso industrial e beligerante. Ao mesmo tempo, dentro da ótica de Bataille, é preciso que o sujeito vá ao encontro dessa paixão que o move, e que ao mesmo tempo é sua expiação, aceitando-a como a “parte maldita” que proporcionará sair do lugar comum, ou seja, desse vazio que o imobiliza e o definha.
Mais uma vez, no caso de Jorge e Murilo, essa negatividade humana não deve ser vista apenas sob a perspectiva da instintiva imanência órfica e pagã, ao passo que ela pode ser configurada dentro do contexto adâmico do cristianismo, isto é, da queda e expulsão do Éden. Deste modo, na medida em que a poesia naturaliza a irracionalidade insólita dessa paixão e negatividade trágicas para o nível da vida comum do sujeito, ela visa, dessa maneira, libertar o imaginário do racionalismo materialista e ordinário, lançando-o ao maravilhoso que transcende, isto é, consagrando esta tensão e anseio pela da promessa da vida eterna, sob a égide da natureza infinita de Deus.
O fato é que para Jorge e Murilo, o cristianismo se passa, antes de mais nada, na individualidade do sujeito e de sua prática cotidiana com o outro, independente de uma institucionalização que determine suas ações, desde a leitura do Evangelho até a incorporação do texto pelo sujeito, como uma ética vivenciada no dia a dia.
Sim, creio numa única, imensa, geral e verdadeira revolução: que é a Revolução de Cristo, que apenas começa e em que as outras revoluções sociais sejam elas quais forem, francesa ou russa, serão unicamente minutos dentro dessa eterna revolução, que só terminará no dia do Juízo Final. (…) Trazendo à Humanidade, muitas vezes distante da verdade, atrações momentâneas da vida, a realidade da Dor, a realidade da Morte, que jamais será afastada da realidade de Cristo, que a todo o instante nos espera, no final de todos os momentos (LIMA, 1997, p. 96).
Como disse Jorge de Lima, ao contrário de uma mobilização massiva, a revolução cristã se passa, primordialmente, ao nível da consciência, como uma transformação (metanoia) pela fé, e do próprio corpo, isto é, da própria experiência, ao ampliar sua ação da esfera existencial e pessoal para a esfera social e impessoal com o próximo, isto é, com o outro, sendo ao mesmo tempo transcendente e imanente. Como distingue Eugene Webb:
Uma linha de abordagem que pode nos ajudar a esclarecer esse problema é a que o considera nos termos de seu aspecto experiencial. De acordo com esse ponto de vista, uma das formas pelas quais o teísmo de tipo ortodoxo, o panteísmo e o ateísmo podem ser distinguidos encontra-se em sua relação com o senso do sagrado. Em sua forma hebraica, o teísmo ortodoxo apresenta um grande sentimento do sagrado como algo transcendente; em sua forma cristã, ao menos de maneira ideal, ele vem caracterizado tanto como imanente quanto transcendente, tendo ambos os polos em equilíbrio. O panteísmo, por sua vez, se diferencia por um senso de sagrado preciso, mas com um predomínio relativamente forte do polo imanente; o senso do sagrado transcendental precisa existir em alguma medida – caso contrário, não haveria qualquer sentimento de sacralidade –, mas no panteísmo ele geralmente parece quase eclipsado. Quando totalmente obscurecido, não há mais qualquer senso de sagrado, o que então gera uma perspectiva que pode ser adequadamente chamada de ateísta (WEBB, 2012, p. 294).
Verifica-se, deste modo, que, muito embora a religião cristã tenha sido determinante nas poéticas de Jorge e Murilo, isso não significou que suas poesias adotassem uma expressão puramente panfletária, prosélita ou ascética. Ao contrário, ambas as poéticas se valeram essencialmente do caráter transcendente e da tonalidade metafísica e espiritual, mas sempre colocados sob permanente tensão com a imanência da desordem material da vida cotidiana dos afetos e paixões, vivenciando este acirramento através da experiência poética inscrita ao nível do corpo.
Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,
pousa a mão no teu ombro o Anjo que te proteja.
Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda
o grande e belo Anjo exilado da Luz.
Adiante de ti – perfurada e sangrando,
a mão do Redentor te aponta o caminho certo;
dentro de ti – seres anteriores a ti, – luminosos ou negros
vão contigo e tua sombra.
Quando adormeces e ficas durante o sono – invisível e inocente,
e o livre arbítrio voa de teu cadáver,
a estranha procissão espera que tu te acordes
para prosseguir a marcha.
Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.
Por isso é que andas de costas para o caminho certo.
Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.
Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,
a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.
(Jorge de Lima, 1997, p. 429)
Para o pensador e teólogo cristão Sören Kierkegaard, é justamente tal dinâmica conflituosa que condiciona o sujeito, de modo que este é, por sua vez, movido por uma permanente inquietação diante da vida, constituída de três esferas que se confrontam permanentemente, como a esfera estética, a ética e a espiritual. Segundo ele, a melancolia, a angústia, o desespero e a depressão, que histórica e atavicamente atormentam o ser humano, são apenas fluxos de um processo existencial do sujeito em sua relação com o mundo, de modo que este confronto, isto é, esta crise, deve ser vista como um processo de edificação da sua consciência ética e libertação por meio da fé e elevação espiritual acima da finitude da matéria:
Todo conhecimento cristão, por estrita que seja de resto a sua forma, é inquietação e deve sê-lo; mas essa mesma inquietação edifica. A inquietação é o verdadeiro comportamento para com a vida, para com a nossa realidade pessoal e, consequentemente, ela representa, para o cristão, a seriedade por excelência; a elevação das ciências imparciais, muito longe de representar uma seriedade superior ainda, não é, para ele, senão farsa e vaidade. Mas sério é, eu vô-lo afirmo, aquilo que edifica (KIERKEGAARD, O desespero humano, 1979, p. 189).
Em seu livro O conceito de angústia (2013), Kierkegaard afirma que a origem do pecado se deve a uma escolha consciente do pecado e afastamento de Deus, de modo que a inocência é, por sua vez, tornada uma ignorância. Sendo assim, resta-nos saber que nossa relação original com Deus foi substituída pela consciência histórica de nossa condição humana, fundada pelo pecado e pela ignorância.
Em outras palavras, Kierkegaard não reconheceu a proibição dos instintos como aquela que despertasse a concupiscência e causa a queda, sendo que, tanto na experiência pagã quanto na cristã, o homem sempre fora atraído pelo proibido. Ele admite, sim, que a inocência/ignorância, em seu estado de paz e repouso – uma vez que não há nada pelo que lutar – e em sua ausência de sentido, produz o efeito de vaziez e angústia. Logo, a sensualidade é tornada pecaminosa após a queda, ou seja, quando é tornada consciência, uma vez que se caso Adão não tivesse pecado ou transgredido os limites de Deus, o sexual jamais seria um instinto.
A narrativa do Gênesis sobre o primeiro pecado tem sido, sobretudo em nosso tempo, considerada de maneira um tanto ou quanto negligente como um mito. Isso tem um bom motivo, já que o que foi posto em seu lugar era justamente um mito, e ainda por cima um mito ruim, pois quando o entendimento decai no mítico, raramente daí resulta algo além de conversa fiada. Aquela narrativa é a única concepção dialeticamente consequente. Todo o seu conteúdo está concentrado propriamente nesta proposição: o pecado entrou no mundo por meio de um pecado. Se não fosse assim, o pecado teria entrado como algo de casual, que seria melhor não tentar explicar. A dificuldade para o intelecto constitui precisamente o triunfo desta explicação, sua consequência lógica profunda está em que o pecado se pressupõe a si mesmo, que ele entra no mundo de tal maneira que, ao ser, já é pressuposto (KIERKEGAARD, Temor e tremor, 1979, p. 34).
Em outro livro, O desespero humano, Kierkegaard define o sujeito a partir de uma tensão agônica ou acirramento que produz, dialeticamente o desespero e a liberdade. Segundo ele, se por um lado o sujeito é a síntese entre finito e infinito, entre a possibilidade e a necessidade, desesperamo-nos ou por não querermos ser quem somos, ou por querermos desesperadamente descobrir quem somos, o que nos impossibilita de atingir repouso e equilíbrio. Logo, nos desesperamos pelo que nos tornamos e pelo eu que não deveio. Para Kierkegaard:
O homem é espírito. Mas o que é espírito? É o eu. Mas, nesse caso, o eu? O eu é uma relação, que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo própria. Mais e melhor do que na relação propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade. O eu não é a relação em si, mas sim o seu voltar-se sobre si própria, o conhecimento que ela tem de si própria depois de estabelecida. O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e se eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma uma síntese. Uma síntese é a relação de dois termos. Sob este ponto de vista, o eu não existe ainda (Kierkegaard, O desespero humano, 1979, p. 195).
Ainda segundo Kierkegaard, é possível reconhecer que a angústia e o desespero humanos são parte da natureza e da condição humana, conforme a herança adâmica após a queda do paraíso. Logo, para que o homem não se desespere é preciso aniquilar em si a cada instante essa possibilidade virtual e frequente, evitando que essa virtualidade recaia sobre a realidade psíquica e física. Deste modo, não desesperar é evitar a queda ou, ainda, elevar-se, tomando consciência de nossa natureza agônica da qual deriva nossa essência, já que se fôssemos uma síntese e não uma contradição, não haveria razão para nos desesperar, “e tampouco o poderíamos se esta síntese não tivesse recebido de Deus, ao nascer, a sua firmeza”. E, por último, desesperamo-nos por relegar nossa perspectiva temporal ao agora, sem projetarmos a existência sob a perspectiva da eternidade:
Vem em primeiro lugar o desespero do temporal ou duma coisa temporal, em seguida o desespero de si próprio quanto à eternidade. Depois vem o desafio que é, no fundo, desespero, graças à eternidade, e no qual o desesperado, para ser ele próprio, abusa desesperadamente da eternidade inerente ao eu. Mas é precisamente por se servir da eternidade que esse desespero a tal ponto se aproxima da verdade, e é por estar próximo dela que vai infinitamente longe. Esse desespero, que conduz à fé, não existiria sem o auxílio da eternidade; graças a ela, o eu consegue a coragem de se perder, para de novo se encontrar; pelo contrário, recusa-se a começar por se perder, e quer ser ele próprio (Kierkegaard, O desespero humano, 1979, p. 233-234).
Em suma, Kierkegaard afirma que, após o pecado original, o homem está condicionado à sua natureza animal, determinada pela queda do paraíso (ou afastamento de Deus), e assim luta intensamente para reconciliar-se com Deus, mas para isso, é necessário elevar-se espiritualmente e renunciar ao instinto, sendo que, dessa luta, resulta o seu desespero. O homem não tenta livrar-se da carne, mas deseja ser tocado espiritualmente pelo sagrado e, deste modo, ao ser tocado pelo eterno e imortal de Deus, o espírito prevalece sobre o instinto, e não ao contrário, já que o instinto é devorador e, ao suprir seu desejo, ele revela sua própria vaziez de sentido:
Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna. E de qualquer maneira jamais alguém viveu ou vive, fora da cristandade, sem desespero, nem ninguém na cristandade se não for um verdadeiro cristão; pois que, a menos de o ser integralmente, nele subsiste sempre um grão de desespero (KIERKEGAARD, p. 203).
Enquanto para Freud e a psicanálise a crise do sujeito moderno foi definida pelo signo da repressão e neurose (FREUD, 2006), para Kierkegaard, ela passa pela angústia e desespero. Kierkegaard aponta a crise, ou seja, inquietude, a angústia, ou, mais determinantemente o desespero (porque este enlouquece) como a própria condição humana, uma vez que ele jamais pode ser superado inteiramente, mas só pode ser controlado e suspenso pela fé em Cristo.
Se para a filosofia nietzschiana (2004, p. 87-88), fundada na negatividade pagã, e para a psicanálise de Freud, o sujeito é movido por impulsos instintivos e desejantes, para Kierkegaard, o sujeito cristão é aquele que tem a consciência de que desejar é a essência fulcral da vida, desde que o foco do desejo não seja a satisfação de nossos instintos, mas sim pela busco do sentido primordial sobre nossa condição e existência através de Deus.
Evidentemente que isto implica em um paradoxo, já que a consciência e desejo de uma existência com Deus só pode ser alcançada por um salto sobre, pois, ao mesmo tempo em que se caminha pelo desconhecimento de Deus, é como se para cada passo da consciência fosse necessário um salto inconsciente em direção ao abismo e ao vazio pela fé.
Em outras palavras, só se chega a Deus por um salto sobre a queda do instinto, e sobre o abismo e a vaziez da consciência materialista, ou seja, é um salto sobre a escuridão, movido pela fé e absoluta crença de que este mesmo salto pisará o rochedo mais firme e seguro, ao passo que este vazio da razão angustiada, só pode ser preenchido por Deus. Ao mesmo tempo, este salto exige uma convicção, que é precedida por uma consciência, e que deseja ser transformada pelo poder sobrenatural de Deus:
Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal e o bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos
Não vim para construir a minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.
(Murilo Mendes, 1994, p. 248-249)
O lugar do sagrado que funda a poesia cristã de Jorge e Murilo não se constitui pela suspensão etérea e liberta do desespero, mas sim sob o prisma dramático e conflituoso da existência terrena, vivenciada pelo sujeito a partir de sua consciência diante da negatividade demoníaca e da transcendência divina. Ou seja, para o cristão a queda é, paradoxalmente, como um peso que cada vivente carrega em si até hoje, e que pode nos levar ao abismo do desespero e à angústia do vazio, como o signo de uma crise e condenação, mas que deve, ao mesmo tempo, servir como uma força propulsora a nos mover em direção a Deus pela fé.
Logo, não se trata de uma fé puramente impulsiva e irrefletida, mas de uma fé consciente da decisão espiritual do sujeito e visando a transformação ética ao nível de suas práticas cotidianas, ou seja, a partir de uma metanoia. Do contrário, uma fé sem consciência dessa escolha e decisão seria um mero fideísmo, e os poetas têm plena consciência disso. Em face desse desejo grandioso, a consciência cristã está em saber que tal movimento será posto à prova todos os dias, como modo de fortalecimento da fé pelas tribulações e compreensão de que esta luta engendrada no corpo e na consciência corresponde à nossa própria experiência íntima da ordem de Deus:
O mundo atual, como sempre, é um grande campo de batalha, onde se digladiam constantemente as forças do Mal e do Bem. Muitas vezes pensamos, devido a circunstâncias fortuitas e à curta visão do homem, pensamos que o Mal está ganhando terreno, como atualmente é a impressão que nos dá a imensa tragédia universal dos tempos presentes. Mas não! O Bem está à frente, o Bem conquista, mesmo sem nós percebermos, terreno para o Reino de Deus, dia a dia, hora à hora, minuto a minuto (LIMA, 1997, p. 96).
Decerto, ao colocar Jesus Cristo no centro de sua existência, o cristão deseja que o espaço esvaziado de sua identidade em desespero seja preenchido primordialmente pelo sagrado. Do contrário, a crença e opção pelo cristianismo não tornam o sujeito imune à sua natureza pecaminosa ou isento da malignidade, uma vez que essa é sua natureza terrena e animalesca.
Em outras palavras, o cristianismo é a consciência de uma luta permanente entre o bem e o mal ao nível do corpo e da mente, sob a crença na promessa de libertação e vida eterna de Cristo através do amor. E essa é a perspectiva cristã que compõe a poíesis de Jorge de Lima e Murilo Mendes, ao passo que ambos reconhecem e expressam a condição humana sendo marcada pela dualidade e acirramento entre a negatividade profana, instintiva e devoradora das paixões, e a elevação de uma consciência espiritual cristã que transcende e liberta-se da devoração do outro pelo amor ao próximo e a Deus, acima de tudo, como na Carta de Paulo aos Gálatas 5:13-17:
Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis (Bíblia sagrada, 2011).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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<http://www.cce.ufsc.br/ñelic/boletim8-9/raulantelo.htm>.
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WEBB, Eugene. A pomba escura – o sagrado e o secular na Literatura Moderna. São Paulo: Realizações Editora, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
ARTINÉSIO WIDNESSE SAGUATE
Universidade de São Paulo
Resumo: Este artigo analisa a temática do romance A varanda do frangipani, de Mia Couto, sob o ponto de vista teórico dos debates em torno do pós-colonial no campo cultural. À luz desse quadro teórico, foi possível observar três aspectos essenciais na temática do romance de Mia Couto: a desconstrução da visão colonialista residual na sociedade moçambicana, o resgate das identidades culturais amplamente abaladas pela pesada herança colonial, a crítica contra as práticas da nova elite política pós-colonial.
Palavras-chave: A varanda do frangipani; Mia Couto; temática; cultura; pós-colonial.
Abstract: This article examines the theme of the novel A varanda do frangipani, by Mia Couto, departing from the theoretical discussions around the “postcolonial” in the cultural field. In the light of this framework, we can observe three essential aspects in the theme of this novel by Mia Couto: the deconstruction of a residual colonialist vision in Mozambican society, the rescue of cultural identities which have been widely shaken by the heavy colonial heritage, and the criticism against the practices of the new post-colonial elite policy.
Keywords: A varanda de frangipani; Mia Couto; theme; culture; postcolonial.
Minicurrículo: É doutorando no Programa de Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (2013-2017). Possui Mestrado em Estudos Linguísticos, Área de Análise Linguística, pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – São José do Rio Preto (SP) (2012), Tem Licenciatura em Ensino do Português pela Universidade Pedagógica – Delegação de Nampula/Moçambique (2008), Bacharelato em Ensino do Português pela Universidade Pedagógica – Delegação de Quelimane/Moçambique (2007). Exerceu atividades de docência na Universidade Pedagógica – Delegação de Nampula, entre 2008 e 2009 e em 2012. Tem experiência nas áreas de Linguística/ Sociolinguística e Análise do Discurso, atuando principalmente em temas como ensino do português como língua segunda; variação linguística; política linguística; escrita; letramento; discurso.
PRÁTICAS CULTURAIS E O PÓS-COLONIAL
EM A VARANDA DO FRANGIPANI, DE MIA COUTO
ARTINÉSIO WIDNESSE SAGUATE
Universidade de São Paulo
Introdução
Neste artigo, examino a temática do romance A varanda do frangipani (1996), de Mia Couto. A ideia é demonstrar que essa temática se enquadra dentro de tensões ideológicas que surgem quando da necessidade de, ao mesmo tempo, desconstruir a visão eurocêntrica sobre África e construir/reconstruir as identidades do continente no campo cultural, negativamente afetadas por essa visão.
Para tanto, oriento-me de um quadro teórico ligado a discussões sobre o pós-colonial no chamado “Sul global” (África, Ásia, América Latina), tendo como autores de referência Ella Shohat (1992) e esta e Robert Stam (2013), que defendem práticas discursivas capazes de desencadear aspectos positivamente profundos sobre as identidades dos povos do Sul global, em oposição aos moldes da visão eurocêntrica, caracteristicamente negativos e estereotipados sobre esses povos. Em termos metodológicos, discutirei, portanto, a perspectiva epistemologicamente ideológica do pós-colonial, seguida de uma análise temática do romance.
O termo pós-colonial é ambíguo, conforme reconhece Shohat (1992). Desse modo, para este artigo, deve sê-lo entendido como o antagonismo entre duas visões que se encontram em constantes embates na representação e explicação dos aspectos cosmopolíticas: eurocêntrica e antieurocêntrica. Por visão “eurocêntrica”, se entendem as manifestações discursivas que, por si só, representam de forma positiva o “mundo ocidental” em detrimento ao “mundo não ocidental”, particularmente, a África, incluindo Moçambique. Em oposição, por visão “antieurocêntrica”, se denotam as manifestações discursivas que se posicionam no sentido de desconstruir a visão eurocêntrica sobre o continente. Portanto, a expressão “dimensão pós-colonial” sugerida no título deste artigo diz respeito à inserção da abordagem presente no romance A varanda do frangipani, de Mia Couto, nesse embate ideológico entre o eurocêntrico e o antieurocêntrico, particularmente no campo cultural, por entender que há um entrecruzamento irresistível entre cultura e imperialismo/colonialismo/pós-colonialismo (cf. SAID, 2011).
Em uma entrevista, Shohat (2013, p. 706) defende que o pós-colonial deve ser visto “como um discurso potencialmente policêntrico e aberto, a ser definido por múltiplos lugares e perspectivas”. É neste âmbito que, talvez, ideologicamente, uma análise sobre o pós-colonial deve ter como ponto de partida o período histórico das expedições europeias nos anos 1490. Conforme observa Stam (2013), com as expedições europeias a partir de 1492, começa a conquista da África (incluindo as Américas e parte de Ásia). O discurso ideológico desse período se materializava em atos de “descobertas”, de expulsão dos mouros, em inquisições (Stam, 2013). Entretanto, o pós-colonial “só adquire, enquanto noção, substância conceptual a partir dos anos 1980” (MATA, 2014, p. 27).
Embora não seja um período efetivamente de ocupação colonial em África, o primeiro contato que se estabelece entre os ocidentais e os africanos, particularmente entre os portugueses e os moçambicanos, representa um marco bastante importante para os períodos subsequentes. No período anterior às “descobertas”, a relação que reinava entre os moçambicanos e outros povos (árabes, chineses) era estritamente de trocas comerciais: o chamado mercantilismo. Assim, os portugueses, também se fazendo passar por mercadores, entraram em contato, pela primeira vez, com os moçambicanos.
No entanto, a relação entre os portugueses e os moçambicanos, que parecia pacífica, começou a tomar outros contornos quando aqueles (os portugueses) se empenharam, primeiro, pela monopolização das trocas comerciais (entrando em guerra e expulsando os tradicionais parceiros comerciais dos moçambicanos: árabes e chineses) e, segundo, pela subalternização das relações de poder (através da escravização dos moçambicanos). É a partir dessa relação que se constrõem noções como, por exemplo, “gente superior” versus “gente inferior”, “gente civilizada” versus “gente selvagem”, “culturas superiores” versus “culturas inferiores” etc.
Atualmente, os discursos “pós-coloniais” opostos à visão eurocêntrica são consensuais no sentido de que as noções tradicionalmente usadas para identificar o tipo de sociedades africanas são “ideológicas” (HOUNTONDJI, 2008). Expressões como sociedades “primitivas”, sociedades “arcaicas”, sociedades “tradicionais”, povos “indígenas” etc., são, em si, pouco claras e, portanto, tendenciosas. Portanto, esses discursos antieurocêntricas se esforçam no sentido de explicar exatamente o que essas sociedades são em termos de identidade.
Adicionalmente, essas sociedades têm sido caracterizadas pela visão eurocêntrica como “iletradas”. Em contrapartida, a visão antieurocêntrica tem sinalizado para a necessidade de se prestar atenção aos modos e dispositivos concretos através dos quais o conhecimento é transmitido nessas sociedades sem recurso à escrita tal como ela é usada no Ocidente. Portanto, constitui erro caracterizar negativamente essas sociedades por algo que não possuem: a literacia (HOUNTONDJI, 2008). Por essa razão, autores antieurocêntricos como o linguista francês Maurice Houis (1971) sugerem que essas sociedades devem ser chamadas sociedades de civilizações da oralidade.
Com a expulsão dos árabes e chineses, o mercantismo toma outro rumo, passando a configurar-se num comércio transcontinental de escravos. Nesse período, os discursos sobre os africanos (e, também, sobre os judeus, muçulmanos e indígenas) foram demonizados (STAM, 2013). Aqui, os temas marcadamente dominantes giram em torno do antissemitismo, islamofobia, racismo; sob a justificativa da edificação da civilização cultural, religiosa e do purismo racial.
Esses temas têm seu ponto mais alto nos anos de 1882, através dos acordos de partilha e ocupação efetiva de África, cujos efeitos se resumem no colonialismo propriamente dito. Conforme observa Meneses (2013, p. 45), “a missão colonial de civilizar tornou-se, a partir de meados do século XIX, a peça central da doutrina colonial europeia em relação aos territórios ultramarinos africanos, com as fronteiras da civilização a serem agora estabelecidas a partir dos referenciais europeus de ser e de estar”.
O colonialismo não se traduziu apenas numa ocupação de territórios geográficos, mas, também, num apagamento total ou parcial do tecido social, cultural e cognitivo dos povos colonizados. É nesse âmbito que, após a II Guerra Mundial, começam a emergir, na maioria dos países africanos, organizações nacionalistas, para lutar contra as condições sociais, políticas e, particularmente, culturais em que estavam submetidos. Portanto, conforme destaca Meneses (2013), a luta nacionalista, libertadora, era acima de tudo um ato cultural e um ato de cultura.
De acordo com Cabral (1973, apud MENESES, 2013, p. 46), o estudo da história das lutas de libertação nacional mostra que geralmente essas lutas são precedidas por um aumento da expressão da cultura, consolidada progressivamente através de tentativas com sucessos e insucessos, na afirmação da personalidade cultural dos povos oprimidos, como forma de negociar com a cultura do opressor.
A cultura, nas diversas formas de sua manifestação, ocupa um lugar privilegiado nos discursos do pós-colonial, isto porque, quaisquer que possam ser as condições dos povos, dos fatores políticos e sociais implicados na relação de dominação, é, geralmente, na cultura que se encontram as sementes da oposição, o que conduz à estruturação do desenvolvimento dos movimentos de libertação (cf. MENESES, 2013). Assim, socorrendo-se da herança cultural dos povos que haviam sofrido a violência colonial, esses movimentos apelavam à liberdade da cultura a partir da amplificação da imaginação, da improvisação e da palavra oral, ao mesmo tempo em que questionavam as razões da manutenção da escravatura e do genocídio trazidos pela relação colonial.
É neste cunho que Césaire escreveu o seu manifesto contra o colonialismo (CÉSAIRE, 1978, apud MENESES, 2013, p. 47):
Falam-me de progresso, de ‘realizações’, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios.
Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. (…) Falo de milhões de milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. (…)
Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação (Césaire, 1978 [1955]: 19-21).
Portanto, aqui vemos uma tentativa de construção do conceito de liberdade criativa e a profunda admiração pelos modos de pensar e práticas das sociedades pré-coloniais africanas. Do mesmo modo, o que vemos em Mia Couto é a luta pela possibilidade de combinar saberes e experiências. Portanto, essa luta não se restringe no uso do conhecimento para o desenvolvimento e emancipação dos povos colonizados; visavam também trazer o direito das diferentes formas de conhecimento, a uma existência sem marginalização ou subalternidade por parte da ciência oficial, defendida e apoiada pelo estado colonial.
De acordo com Meneses (2013), esse debate consolidou nos movimentos a importância do ‘retorno às fontes’, para a (re)conquista do poder de narrar a própria história e, portanto, de construir a sua imagem, a sua identidade. Esse processo passou necessariamente por um diálogo crítico sobre as raízes das representações, questionando as geografias e semânticas associadas a conceitos que insistem em manter os países africanos como espaços de atraso. No outro patamar, obrigou a uma reflexão e diálogos sobre a articulação entre os problemas e características locais, africanos, e os projetos nacionalistas globais, nem sempre articulados da melhor forma.
A temática em A varanda do frangipani, quando analisada sob o ponto de vista da abordagem teórica dos autores citados neste trabalho, ajuda a entender o entrelaçamento de alguns aspectos conflitantes no discurso das personagens. É de acreditar que a pesada herança colonial tem e continua a ter consequências nefastas em variadas esferas da vida dos moçambicanos, algumas das quais sem soluções previsíveis a curto, médio ou longo prazo.
No caso desse romance de Mia Couto, os conflitos no discurso das personagens parecem denunciar a prevalência de algumas práticas ideológicas do colonialismo, negativamente contrárias ao próprio do espírito nacionalista inscrito na vontade libertadora do povo moçambicano. Portanto, a temática desse romance parece surgir de uma representação sintomática desses aspectos em conflito, nomeadamente: o novo poder político e o descontentamento social; a tensão entre o poder institucional e a tradição; a “desvinculação” do poder político vigente aos propósitos nacionalistas; a questão da “nativização” do homem; a “ruptura” estética para com a prática literária colonial.
Desse modo, A varanda do frangipani seria um romance de cunho pós-colonial, que, entretanto, se insereria num momento de justaposição entre o colonial e o pós-colonial. Aliás, as diversas tensões inscritas no romance servem de suporte a esse posicionamento, conforme mostram os exemplos a seguir:
(1) Me faltou cerimônias e tradição quando me enterraram (p. 9).
Essa é uma fala da personagem Ermelindo Mucanga, que, longe de sua terra natal, morre e é enterrado sem o cumprimento das “tradições” fúnebres da sua etnia. Em consequência, virou uma alma xipoco, isto é, sem paradeiro, sem um sossego que um defunto merece.
Esse trecho mostra a importância das “tradições” nas culturas africanas e suas consequências quando não elas não forem respeitadas. Por outro lado, o trecho pode constituir uma crítica à ideologia colonial e/ou pós-colonial. Sob o ponto de vista do pós-colonial, o trecho em (1) pode ser analisado fazendo o paralelismo como a tensão instalada no período imediato à proclamação da Independência em Moçambique (em 1975). Nesse período, alguns discursos adotados pelo governo moçambicano giravam em torno do combate ao tribalismo. Contudo, esses discursos foram entendidos, de certa forma, como uma tentativa de “homogeneização” cultural do povo moçambicano – uma continuidade da ideologia colonial –, uma vez que a diversidade das tribos no País significava, ao mesmo tempo, a diversidade cultural.
Porém, o governo parecia estar mais preocupado com questões políticas do que, necessariamente, culturais, pois, no entendimento, era necessário manter e fortalecer a “unidade nacional” dos moçambicanos, considerada a “arma” fundamental para a vitória contra o colonialismo. Essa unidade passava, primordialmente, pelo aniquilamente do tribalismo, que representava perigo de divisões e de conflitos entre os moçambicanos.
Portanto, é possível que o romance de Mia Couto constitua uma crítica a esse entendimento do governo, pois, em parte, o “aniquilamento” das tribos significava, de forma implícita, o aniquilamento das práticas culturais a elas associadas. De fato, o que se depreende nessa passagem pode ser uma tentativa de questionamento sobre esse apagamento das tribos e das tradições mais antigas.
A crítica à ideologia colonial portuguesa relativa à cultura africana, particularmente à moçambicana pode ser também observada no trecho em (2):
Neste asilo, o senhor se aumente de muita orelha. É que nós aqui vivemos muito oralmente (p. 26).
Esse trecho foi produzido pela personagem Navaia Caetano em diálogo com a personagem Inspetor. Durante o diálogo, a personagem Inspector, que usa a escrita para documentar a conversa. Porém, a personagem Navaia desuade no sentido de o Inspetor não usar a escrita, pois, naquele meio, a vida era feita, sobretudo, da oralidade.
Portanto, os trechos em (2) mostram um dos símbolos de identidade cultural moçambicana – a oralidade. Conforme se pode depreender desses trechos, mais do que um simples apelo para a necessidade do uso da comunicação oral, temos a exaltação dessa prática social. Desse modo, a expressão, “é que nós aqui vivemos muito oralmente” (grifo nosso) não significa a ausência do traço escrito na tradição cultural moçambicana, como erradamente os colonos cunharam as línguas africanas como sendo línguas sem escrita; e sim, a predominância da oralidade com relação à escrita.
De fato, na relação entre a oralidade e a escrita, enquanto práticas sociais em Moçambique, a primeira tende a ser mais predominante do que a segunda dentro de eventos comunicacionais. Ademais, nesses trechos, o romance corrobora cientificamente com a ideia de que a relação que se estabelece entre oralidade e a escrita não é uma relação de oposição, nem tampouco de inferioridade e de superioridade. Por conseguinte, não existe uma relação de inferioridade e de superioridade para com as culturas predominantemente associadas a cada uma dessas práticas. Assim, apesar da predominância da oralidade na cultura moçambicana, não significa, de modo algum, inferioridade da cultura moçambicana, relativamente à cultura ocidental que, ao que parece, é relativamente dominada pela tradição escrita.
Vemos, então, que Mia Couto apresenta esta relação de oralidade e escrita no sentido de representar a primeira como igualmente importante quando comparada com a segunda. Além disso, vemos também aqui um esforço no sentido de desconstruir qualquer concepção que considere as culturas tradicionalmente associadas à oralidade como inferiores às culturas tradicionalmente associadas à escrita, apelando-se, desse modo, o respeito para com a diversidade cultural.
A questão do respeito para com os preceitos culturais é também retomada no trecho em (3):
No romance, esse trecho é produzido pela personagem Navaia Caetano, que conta história sobre sua mãe, que dava à luz sempre o mesmo ser. Como tentativa de explicar esse fenômeno, foi evocada a desobediência às leis dos antigos.
Portanto, nesse trecho, pode-se observar um modo particular de organização social e estrutural das comunidades tradicionais moçambicanas. Portanto, o trecho oferece uma pista importante sobre a constituição das relações de poder tradicional nessas comunidades. Como se pode depreender, com base nessa passagem, as relações de poder são regidas pelos antigos, isto é, pelas pessoas mais velhas, pois simbolizam a sabedoria, por conta da experiência ao longo dos tempos. E, uma eventual desobediência aos apelos ou às normas regidas por essa camada social/etária desencadeia castigos, com consequências individuais ou mesmo coletivas.
Esse fato faz com que a questão da memória ocupe um lugar muito importante nas heranças culturais de geração para geração em Moçambique, sobretudo por via oral. Também faz com que se pense na importância das línguas nativas (em relação ao português) na manutenção das comunidades e de suas tradições, já que, geralmente, essas comunidades se comunicam, sobremaneira, através dessas línguas de forma oral, e que essas línguas continuam a desempenhar um serviço importante que o português não pode oferecer, apesar de essa língua ser oficial.
Com relação a esse trecho, vale observar que um aspecto que se verificou no período imediato ao fim do colonialismo em Moçambique foi a tensão social com relação aos portugueses ou seus descendentes que tinham optado em permanecer em território moçambicano, enquanto grande parte optava em regressar a Portugal. Houve, no entanto, alguma percepção errada no seio de alguns moçambicanos que associava todo o indivíduo português ou seus descendentes aos colonialistas. Entretanto, esse problema só foi resolvido através de atos de consciencialização. Assim, o inimigo não era nem a raça, nem a origem dos indivíduos, e sim as práticas neocoloniais de indivíduos, quer brancos, quer negros; quer portugueses, quer moçambicanos etc.
Assim, nesta passagem do romance, encontramos, ao que acreditamos, um reforço a essa consciencialização. Além disso, observa-se aqui então um esforço de “nativização” da identidade; e/ou de afirmação/reafirmação da identidade moçambicana.
Na passagem acima, parece registrar-se certo questionamento quanto aos encaminhamentos sociopolíticos e culturais em que o País vinha conhecendo no período pós-colonial, que se contrastam ou contrastavam com o espírito libertário que se esperava que fosse “efetivo”. Paradoxalmente, parece haver certo “saudosismo” para com o passado colonial. Na verdade, trata-se de um passado que, apesar de situado no período colonial, é alheio ao próprio colonialismo e suas práticas. Portanto, trata-se, em nosso entender, de um passado que não se inscreve na pesada memória colonial, mas aquele passado inscrito nas típicas práticas tradicionais dos moçambicanos; aquele passado que foi capaz de sobreviver à opressão e à imposição coloniais, mas que, paradoxalmente, era destruído ou era colocado em situação de ameaça (no período pós-colonial). Por outros termos, temos aqui um questionamento aos propósitos do próprio espírito libertário que aparece como um dilema para a própria sobrevivência da identidade nacional.
Conclusão
Neste artigoo, tentamos mostrar como a(s) temática(s) apresentada(s) por Mia Couto constitui um verdadeiro embate ideológico no campo cultural. Tomando por base a visão os debates sobre o pós-colonial, foi possível analisar o ideológico do romance, que desencadeia aspectos profundos como, por exemplo, o respeito pelas “tradições” culturais e a (re)construção das identidades igualmente vculturais.
Desse modo, no romance analisado, três aspectos podem ser tomados como pilares de toda uma temática nela presente, quando analisada sob o ponto de vista dos debates pós-coloniais: a desconstrução da visão colonialista residual na sociedade moçambicana, o resgate das identidades culturais amplamente abaladas pela pesada herança colonial, a crítica contra as práticas da nova elite política pós-colonial.
Referências
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Bio fornecida pelo palestrante.
Mariese Ribas Stankiewicz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Abstract: By pointing at an indigenous community fragmented by colonization, Jeannette Armstrong writes about the tension of walking in the city, amid loss and absence. In doing so, the poet recentralizes the idea of what is marginal in order to make the silenced not only to speak, but also to reclaim what has been lost. In the light of Homi Bhabha’s notion of hybridity and Fred Wah’s elaborations on hyphenated identities, this essay presents a brief reading of Jeannette Armstrong’s poetic commitment to reassert her people’s culture and history (the Canadian Okaganan), while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization. Thus, the issue of land/place/placement in her poetry is recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality.
Keywords: Okanagan-Canadian poetry. Historical consciousness. Hyphenated discourse. Cultural hybridity.
Resumo: Observando uma comunidade indígena fragmentada pela colonização, Jeannette Armstrong escreve sobre a tensão em se caminhar na cidade, em meio à perda e à ausência. Ao fazer isso, a autora recentraliza a ideia daquilo que está às margens, para fazer o silenciado não apenas falar, mas também reclamar o que foi perdido. Sob a luz das noções de hibridismo de Homi Bhabha e das elaborações sobre as identidades hifenizadas de Fred Wah, este ensaio aborda uma breve leitura do compromisso poético de Jeannette Armstrong em reafirmar a cultura e a história de seu povo (os Okaganan to Canadá), enquanto vocalizando um discurso hifenizado que pode permitir a re-territorialização. Assim, o assunto de terra/local/posicionamento em sua poesia é recriado a partir de características, tais como raça, religião e etnicidade para se proteger da nacionalidade canadense homogeneizante.
Palavras-chave: Poesia Okanagan-canadense. Consciência histórica. Discurso hifenizado. Hibridismo cultural.
Currículo da autora: Professora Adjunta de Literaturas de Língua Inglesa e de Ensino de Língua Inglesa da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês (USP). Mestre em Inglês e Literaturas Correspondentes (UFSC). Coordenadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência UTFPR-CAPES.
DIFFERENTIATION AND NEGOTIATION IN
JEANNETTE ARMSTRONG’S POETRY: STRATEGIES IN BEHALF OF OKANAGAN CONSCIOUSNESS
Mariese Ribas Stankiewicz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
In the poem entitled “Death Mummer,” by Okanagan writer Jeannette Armstrong, the scenario of a contemporary city reveals the absence of a race: “There are no Indians here”; the good ones are dead, “preserved in alcohol” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), that is, poverty and social exclusion makes them hopeless at finding a way out. They feel useless for the community and are often stereotyped while searching for alcohol as a means of compensation for their unhappiness. Indians are part of memories and of bitter interpretations of a so long different culture. So, “in the million dollar museum / that so carefully preserves / their clothing, their cooking utensils / their food” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), they are far from being real. The remaining traces of their culture, being marginalized, constantly face rupture.
As many others indigenous poets around the world, Armstrong writes about the memories of her own people in permanent contrast to present reality, which is one of the most profound characteristics of multiculturalism. Inside this analytical scope, but stressing a more creative view of this kind of poetic development, this paper addresses a brief reading of Armstrong’s commitment to reassert the culture and the history of her people, while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization, that is, land/place/placement in her poetry and critical material are recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality. In this sense, as this essay also deals with a view of memories and traditions of a people found in the midst of consequences of post-colonialism, some ideas about identity disfiguration (mainly racial, generational, and geopolitical), by Homi K. Bhabha, may be important to help make out that, after so many years, this has still been a question of culture being dislocated to a space called “beyond”.
Armstrong is an Okanagan-Canadian educator, artist, political activist, and author of anthologies, criticism, children’s books, novels, short stories, and poetry. She is best known for her work on education, ecology, and Indigenous rights. However, as she was born and grew up on the Penticton Indian reserve in British Columbia’s Okanagan Valley, much of her artistic work is embedded in her community’s political and social matters, as one can see in poems such as “History Lesson,” “Trickster Time,” or “Bone Game.” Through her literary and critical work, Armstrong claims for the rewriting of her people’s history and for the raising of consciousness of its cultural values: “Our children, for generations, were seized from our communities and homes and placed in indoctrination camps until our language, our religion, our customs, our values, and our societal structures almost disappeared” (ARMSTRONG, 2005, p. 239). In doing so, she brings about material from Native oral tradition and myths as they are still linked with the present situation of her people, also setting forward a hybrid discourse that dispels counterfeit stereotypes of Natives and helps her delineate her people’s heterogeneity.
These discourses produced in resolution of post-colonialism or postmodernity would be related to cultural embattlements implying superposition and displacement in the realm of difference. In this sense, the more a people disfigure their tradition of past generations, the more the differences could be redefined and renegotiated. According to Bhabha, one of the important consequences of this is related to the identity perceptions in our contemporaneity. In a deconstructive way, this may be explained by saying that those perceptions were restricted to binary positions often fixed in modernity, but have found a way to become more fluid and transitory, which are characteristics of a time of mobility of global population.
In discourses of colonialism, hybridity is a depreciative word meaning miscegenation or mixed-breeds, that is, a hybrid, sterile product that resulted from the relationship between the colonizer and the colonized. This issue has to do with hegemony and eugenics, which implies a really strong matter of power relation. On the other hand, this same word “hybridity” occupies a central role in postcolonial discourse. In the light of these views, it has the benefit of the “in-betweeness” state, the overlapping of two cultures and the ability to negotiate the difference. This is part of the discussion promoted by Bhabha about cultural hybridity.
The theoretician has developed his own concept of hybridity from literary studies and cultural theory to define the structure of culture and identity within the circumstances of colonial antagonism and inequity. For Bhabha, hybridity is a way to describe the emergence of new voices exactly because it appears from the relationship between the colonizer and colonized. So it is fertile and challenges the validity and authenticity of any essentialist cultural identity.
In views of this, one can say that every kind of culture is in a continuous process of hybridity and, according to Bhabha, this new transfiguration supplants the established pattern with a “mutual and mutable” representation of cultural difference that is positioned in-between the colonizer and colonized:
For a willingness to descend into that alien territory (…) may reveal that the theoretical recognition of the split-space of enunciation may open the way to conceptualizing an international culture, based not on the inscription and articulation of culture’s hybridity. To that end we should remember that it is the ‘inter’ – the cutting edge of translation and negotiation, the inbetween space that carries the burden of the meaning of culture. It makes it possible to begin envisaging national, anti-nationalist histories of the ‘people’. And by exploring this Third Space we may elude the politics of polarity and emerge as the others of our selves (BHABHA, 1994, p. 56; the author’s italics).
Thus, it is the indeterminate place in between subject-positions that are mentioned to be the location of the disruption and displacement of hegemonic colonial narratives of cultural structures and practices, which Bhabha calls Third Space. So the space inbetween is a third one in relation to the colonizer and the colonized.
On the verge of this thought, indigenous peoples grow their art and culture. Subjected to European colonialism, besides being characterized as inferior, primitive, and unable to constitute suitable political, economic, religious and cultural structures and histories, every Native people of the New World is usually regarded as one large group (Indians), despite their heterogeneity, which, consequently, often sets them apart from progressive contemporary analyses of their particular identity traits. Diverging from this idea, in “The disempowerment of first North American Native peoples and empowerment through their writing,” Armstrong (2005, p. 241) declares: “We, as Native people, through continuously resisting cultural imperialism and seeking means toward teaching co-operative relationships, provide an integral mechanism for solutions currently needed in this country. The author voices the “we” of her people, which expresses the refusal to participate of the Canadian nationalistic aesthetic, indicating an escape from homogenising narratives. In the words of Fred Wah, this stance towards literature can be called “‘alienethnic’ poetics,” which is “often used for its ethnic imprint and frequently originating from the necessity to complicate difference” (WAH, 2000, p. 52). Thus, categorization segments social environment in classes, whose members are considered as equals in reason of their common characteristics, actions, and intentions.
Although her main thematic choices have to do with the history being told from her people’s perspective, as she does in “History Lesson,” or with their oral tradition, as in “Wind Woman,” her poetic discourse can be analysed as a hyphenated one. It is in that Third Space in which happens the “cutting edge of translation and negotiation” (BHABHA, 1994, p. 56), and that is essentially critical of essentialist positions of identity and a conceptualization of original or originary culture. Native art is that space which is a mode of articulation, describing a fruitful, and not merely contemplative, space that creates new possibility. As a means of discourse, I functions as an interruptive and interrogative space of new forms of cultural meaning and production, blurring the existing boundaries between we and them, and calling into question established categorizations of culture and identity.
However, the issue of hyphenated discourses, while concerning Native writers, is complex, because, in Wah’s words, these writers generally “feel a strong need to participate in a tangible community (despite the cries of ‘separatist’) in order to locate the cortex of their own social content without it being conditioned by first-world perceptions” (WAH, 2000, p. 77). On the other hand, Wah agrees that Native works show hybrid features. Thus, although Armstrong’s work is orchestrated with poetic tools used to resist dominant literary culture, such as references to land and genetic inscription, it also presents some traits of that which Wah calls “hyphenated poetics.” According to him, the hyphen “in the middle,” but “not in the centre” of multicultural compound adjectives metaphorically signals “a crucial location for working at hybridity’s implicit ambivalence” (WAH, 2000, p. 73).
In Armstrong poems, the reader may feel every personae in a state of enunciation, transgression, and subversion of binary positions, going beyond the realm of colonial dualistic opposition. The poet provides a spatial politics of inclusion rather than complete exclusion “that initiate new signs of identity, and innovative sites of collaboration, and contestation, in the act of defining the idea of society itself” (BHABHA, 1994, p. 2). The poems selected encode a counterhegemonic idea, in the sense that, when the colonizer shows hegemonic practices, the hybrid in the poetic content opens a space for attempts to negotiate to mean. They have that hybridity potential with their ability to transverse British, Canadian, and Okanagan cultures and to translate and to negotiate affinity and difference within a dynamic of exchange and inclusion that may start being felt in names and naming. The “play” with writers’ names that may reveal and conceal cultural tendencies and histories disturbs straightforward conclusions about most hybrid writers. Ambivalence resides in names, such as her own, “Jeannette Armstrong,” that is visibly English, concealing every Okanagan trace possible at a first sight. Further textual contact may reveal her history and political position, but will always accentuate the ambivalent character of her work.
Furthermore, the use of the English language throughout her critical work, stressing the aspect of her intellectual arrangement, besides dealing directly with cultural values as such, also outlines the chances of integration and cooperation with the dominant culture. The achievement of communication is, in Armstrong’s project, an essential point:
I don’t think I would go very far in a text if I were reading it through a text that had a lot of indigenous terms and words which didn’t have any meaning to me. I couldn’t continue reading it; I would therefore put it down as literature. Now, if I were reading it, and the literature itself was speaking to me, and the words and terms that were being used were not impeding that, then I would read it all the way through (ISERNHAGEN, 1999, p. 149)
In this sense, the use of code-switching is not strong in her work, that is, “the movement between two languages, (…) functions as part of hyphen poetics as it helps to locate (…) the ability to remain within ambivalence without succumbing to the pull of any single culture” (WAH, 2000, p. 82, 83). The use of Okanagan words in her poetry is not a constant, but English and Red English (that represents a linguistic variety) is part of her cooperative project for extending her people’s cultural survival. Thus, many communities may read poems that speak about her roots and identitary traits. On the other hand, the use of Red English and the almost absence of punctuation are strategically devised in a way that warrants shows of displacement and subversion, as it happens in “History Lesson”: “Father mean well / waves his makeshift wand / forgives saucer-eyed Indians” (ARMSTRONG, 2001, p. 8-10).
In poems, such as “Blood of My People,” “Keepers Words,” and “World Renewal Song,” among others, syntax is interrupted with silence, through gaps in the sentences. Wah verifies that the “gaps that punctuate her poem [“Blood of My People”] reflect the nomadic cut and refuse to settle into English placement of expected syntax and, more basically and politically, into both the imaginary nation and its ideological assault on the land” (WAH, 2000, p. 56). In “Keepers Words,” the silence “tells” about the sacred that cannot be changed, but that, somehow, is missing, because it is not remembered:
Her words smooth carved as bone
and so old no one remembered
were placed side by side
in a pattern
fashioned in the beginning
of her kind
(ARMSTRONG, 2001, p. 61)
Here, one cannot avoid associating the breakdown of a cultural system to loss of memories, which can only reconstruct fragmentary realities. Silence makes her discourse fragmentary at the same time that vindicates the vitalizing of her people’s history. “The cannibal monster / who devours himself / because he changes so much” (ARMSTRONG, 2001, p. 61) stands for the amalgamation and transformation of a series of different cultural traces, which coexist and are made homogeneous by globalizing ideologies.
One way out of cultural colonialism would be to teach the keeping of spiritual and tribal resources that are extremely connected to the land, so that the culture of her people can survive. Armstrong understands, however, that stressing the similarities within a category and the differences with the “other” may have dramatic consequences in the plane of behaviours and perceptions. This stance generally gives place to discriminations, to the extent that it is followed by favourable results to the groups to which one belongs, with a tendency to undervalue the groups from which one distinguishes.
Hence, in order to raise consciousness about her people’s culture without breaking through delicate issues about multiculturalism and globalization, her literary project includes principles to promote positive effects in the relationship with the dominant literary traits. In “Let Us Begin with Courage,” by blending contemporary Canadian issues about multiculturalism and Native intellectual traditions to defamiliarize common notions of Native peoples, Armstrong spins out a series of organic principles that, according to her, are essential for understanding that “the knowledge that the total community must be engaged in order to attain sustainability is the result of a natural process of survival” (ARMSTRONG, 1999, p. 1). Those principles are basically cooperation and pacifism, which she says to be natural to the foundation of Native ideologies.
Her key terms include individual, family, community, and land, which are interrelated in a stable chain. The notion of individual is, of course, not that of individualism, that is, the one that recognizes somebody apart from others. The individual is the talented person who must share his or her gifts with the community. As the four elements above constitute a stable chain, all are dependent on one another and cannot coexist separately. Furthermore, the individual is the powerful cell able to transfer cultural information to later generations, which again depends on the family structure. The family may live through many generations and constitutes a strong network able to spread cultural teaching. The community is that which embodies the identity traits of a given people, engaged in maintaining the principles in the land, which sustain all life.
These four elements cited above take part of a project, whose characteristics coexist in the collective environment of multiculturalism. She strives for accentuating cultural consciousness to her own people and for spreading their ideology to those out of her group willing to interact cooperatively and pacifically. This recipe follows the ancient and effective rules of the Bone Game, which was created and developed by Native peoples for deciding quarrels and disputes without hot conflicts, aggression, or war.
In a bone game, everybody participates with an object, which is passed around all members. A power object is chosen among all the objects of the participants involved in the game. Everybody must agree on the chosen power object. The game follows with the power object being passed around the members. The one who is holding that Object at a certain moment makes a proposal, which is listened, and then, approved or rejected. The power object is a kind of bridge linking all those involved in a dispute and every decision must be made based on consensus (BROWN, 2003).
Since she knows that the problem of social conflicts not only comes from the fight for the right to difference (ethnical, racial, or of gender), but from the fact that those phenomena are used for achieving power, the principles embedded in her project, cooperation and pacifism, much rely on the idea of the Bone Game. Negotiating the land, which is the site of political interests and element of disputes, is a slow process that involves the holding of a power object (here represented by her literary art), so that there can be consensus about the possession and use of the land.
In “Bone Game,” the four elements of Armstrong’s project engage wittily to tell that it is the moment to negotiate. The imagery of “the Okanagan” and “creek beds,” in the first stanza, is meaningful: if there was no land to which the persona belonged, or in which she could find her roots, the poem certainly would not express so intense certainty of place and placement. The persona walks the place to reach a powwow,1 in which she will propose something—imagined as an important issue, because she comments: “At the bone game I will wager / with cunning and skill / everything I own” (ARMSTRONG, 2008, p. 17). The poem treats of the individual, who, knowing the land, is going to meet others in a gathering, at the same time that will have a spiritual contact with the trickster Coyote, an indigenous entity that stands for the forces of good and evil: “I will laugh with coyote / […] / Tonight I will stalk / as I sing his song” (ARMSTRONG, 2008, p. 17).
Because the rupture of cultural and social links increases considerably, when the individual loses his or her land (or home), the redefinition of a place to which belong is a necessary measure proposed by an ethnic writer. Being a nomad constantly in search of a land that now is occupied by a different owner is to discover that “‘where you live,’ is also ‘Other,’ a large poetics term particularly attractive to contemporary ethnopoetics” (WAH, 2000, p. 57). In “History Lesson,” Armstrong tells about the white man’s search for a promised land, which, originally, belonged to her people, to try to wager, and possibly to challenge, the idea that the original owners are the best ones, since everything that she considers sacred about the land was devastated and broken:
Somewhere among the remains
Of skinless animals
Is the termination
To a long journey
And unholy search
For the power
Glimpsed in a garden
Forever closed
Forever lost
(ARMSTRONG, 1991 p. 28)
It states much about the issue of language and the attempts to survive through it, while it tries to preserve the myth that lies in the process of making history by deconstructing historical topics in the colonization of the Natives by the British and the French. Speaking about the tools of conquest, ships and guns, Armstrong’s version of the history also includes the journey to a paradisiacal land, when “Civilization has reached / the promised land” (ARMSTRONG, 1991, p. 47). However, the process of colonization comprises destruction and disorganization, which, eventually, make her people wander away in search of home. In Wah’s words, the “nomadology,” a name coined by Deleuze and Guattari, that is:
(…) the figuring out where [the ethnic writer] is, where to go, how to move, not just through language but in the world, is an investigation of place, as well as placement in said place. For some, this is a reclamation project—and who could blame them, the natives (WAH, 2000, p. 56).
Native peoples have developed, and somehow, changed countless times amidst very harsh realities. Fighting for keeping hold of group cohesion in the face of almost overwhelming obstacles and working toward the realization of common goals are among the tasks of conspicuous Native writers. However, one of the greatest tasks has to do with the integration process that develops along with the raising of consciousness of their people’s culture. This integration will perpetually show hybrid aspects in their art. It is the necessary tool so that communication exists. This in-out procedure describes the spread of literary and cultural representations as well as the historical subjection of Native peoples.
In bringing Bhabha’s views to this essay, I would not forget to remind the reader about a general awareness of his neglect to conceive historical and traditional circumstances that reside inside colonial discourses. Despite of that, this author, as many others who bring postcolonial aspects of cultures in their theories, has the merit of being responsive to the global game of strategic negotiations of affinities and differences, which is optimistic but also complex. His theoretical criticism recognizes the postcolonial reality of that game, and describes the fact that who was once the other has a voice in this world now. After all, in this writing, postcolonial does not mean that those who left Great Britain and France towards Canada have returned. Instead, they are there to stay with the Native people. Indeed, all of them are Native people now, with all those similarities and differences around, and therefore the significant requirement of negotiation.
Because of the increase of cultural consumption – many times appropriating dissimilar cultures – and the globalization of its structure in our days, we all have become members of various communities. This myriad of positions makes transformation an everyday experience. Even if we do not change into a cannibal monster, as one in Okanagan mythology, every morning we wake up to find ourselves in completely new roles. One might ask whether it is necessary for a Canadian Euro-descendant who meets an Indigenous Canadian schoolmate to define him/herself by his or her national identity, being first reaction the impulse to exclude, punish, or ignore.
What makes them choose those labels from among the stuffed bag of identity components, rather than the part of the mother playing with her son, the crazy university professor, or the unhappy Brazilian living a chaotic political situation here in Brazil? Are we really to exclude, punish, or ignore those that do not look like the ones of a group or is there a possibility for breaking through the difference-breeding division between “us” and “them”? This latter possibility might not be completely deceptive for the players of this game these days.
REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Jeannette. Bone Game. 2001. Disponível em: http://www.parl. gc.ca/Information/about/people/poet/poem-of-the-week/poems-.htm?param=40. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
ARMSTRONG, Jeannette. Breath Tracks. Stratford: Williams-Wallace/Penticton – Theytus, 1991.
ARMSTRONG, Jeannette. The Disempowerment of First North-American Native Peoples and Empowerment through their Writing. In: GOLDIE, Terry; MOSES, Daniel David. An Anthology of Canadian Native Literature in English. Don Mills, Ont.: Oxford UP, 2005.
ARMSTRONG, Jeannette. Let us Begin with Courage: Ecoliteracy: Mapping the Terrain. 1999. Disponível em: http://www.ecoliteracy.org/publications/pdf/jarmstrong_letusbegin.pdf. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
BHABHA, Homi K. The Location of Culture. London e Nova York: Routledge, 1994.
BROWN, Michael, (Org.). The Bone Game: A Native American Ritual for Developing Personal Power and Group or Tribal Consciousness. 2000. Disponível em: http://www.michaelbrown.org/HTML/BoneGame.htm. Acesso em: 13 abril 2015.
ISERNHAGEN, Hartwig. Jeannette Armstrong. In: Mamaday, Vizenor, Armstrong: Conversations on American Indian Writing. Norman: U of Oklahoma P, 1999.
QUIRK, Randolph. Longman Dictionary of Contemporary English. 3ª ed. Essex: Pearson, 1995.
WAH, Fred. Faking it: Poetics and Hybridity. Edmonton: NeWest Press, 2000.
NOTE
[1] Powwow: “an American Indigenous ceremony (as for victory in war; an American Indian social gathering or fair usually including competitive dancing; a meeting for discussion” (QUIRK, 1995, p. 1104).
Bio fornecida pelo palestrante.
Sávio Augusto Lopes da Silva Junior
Universidade de São Paulo (USP)
RESUMO: Este trabalho pretende analisar o romance norte-americano The Subterraneans, publicado em 1958 e de autoria de Jack Kerouac. O foco deste estudo está na visão que o narrador Leo Percepeid apresenta de sua amante Mardou Fox. A personagem é caracterizada por suas raízes africanas e Cherokee e, além disso, por estar envolvida em uma cultura marginalizada ligada ao bebop jazz.
PALAVRAS-CHAVE: Romance norte-americano; cultura afro-americana; bebop jazz; Jack Kerouac.
ABSTRACT: This paper analyzes the North-American novel The Subterraneans, published in 1958 by Jack Kerouac. It focuses on the perception that the narrator Leo Percepeid presents of his lover Mardou Fox, a character described as having African and Cherokee roots and as also being involved in a marginalized culture linked to the bebop jazz.
KEYWORDS: North-American Novel; African-American Culture; bebop jazz; Jack Kerouac.
Minicurrículo: Doutorando no departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor do romance Deixe a Inglaterra tremer, publicado em 2013 pela editora Novo Século (SP).
A RAPOSA E O PERCEPTIVO:
A MULHER NEGRA CHEROKEE EM
THE SUBTERRANEANS, DE JACK KEROUAC
Sávio Augusto Lopes da Silva Junior
Universidade de São Paulo (USP)
Ao atribuir nomes fictícios às suas personagens, percebe-se que o escritor norte-americano Jack Kerouac (1922-1969) utiliza um jogo de palavras para caracterizar personalidades inspiradas em pessoas reais. Esse é o caso de Sal Paradise, que percorre as estradas em busca do paraíso, e Old Bull Lee, nome dado a William Burroughs, um dos integrantes da geração beat de mais idade – ambas personagens de On The Road. Em The Subterraneans, esse padrão também pode ser percebido. Leo Percepeid, o narrador, é marcado por ser perceptivo e capaz de identificar aquilo que é digno de atenção para o seu relato de memórias em meio ao cenário do bebop jazz, narrativa esta que constitui o próprio romance. Já Mardou Fox, a raposa, remete ao termo foxy, uma mulher descrita como atraente, que é alvo da atenção de Percepeid e, muitas vezes, vista por ele como uma caça.
O romance The Subterraneans, publicado pela primeira vez em 1958, trata do envolvimento do narrador Leo Percepeid – codinome de Jack Kerouac – e Mardou Fox, integrante genuína da cultura do bebop jazz, marginalizada e de origens afro-americana. Em meio ao cenário boêmio de North Beach em São Francisco, Percepeid permeia uma cultura que lhe é estranha, visto que ele é integrante da classe média branca norte-americana. As diferenças sociais e culturais do casal criam uma constante tensão, relacionada à marginalização vivida por Mardou Fox e a cultura a qual ela faz parte.
A relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid é ambígua e marcada pela oscilação entre o amor e o ódio. Em sua primeira impressão de Mardou, Percepeid se sente atraído por sua aparência exótica – em uma forma de fetiche primitivista, conforme aponta Jon Panish (2011). Mardou Fox é uma personagem de origens étnicas africanas e cherokee e integrante genuína da cultura bebop, estilo de jazz muito presente na obra analisada e famoso por sua agilidade que destoa do jazz comercial. A corrente bebop, por muito tempo, foi apreciada por um público muito específico e às margens da cultura oficial norte-americana, criando assim uma forma de cultura de resistência. Ao conhecer Mardou e seu estilo de vida ligado ao bebop, Leo decide conquistar a moça e submergir no universo subterrâneo do qual ela faz parte. Kerouac narra: “But eyeing her little charms I only had the foremost one idea that I had to immerse my lonely being (‘A big sad lonely man,’ is what she said to me one night later, seeing me suddenly in the chair.) in the warm bath and salvation of her thighs (…)” (KEROUAC, 2001, p. 7).
De início, a atração física é o que define o desejo de Leo por Mardou. Percebe-se o fetiche por sua pele negra e pela associação que o protagonista faz de sua ascendência com o imaginário selvagem que a sociedade conservadora norte-americana tem da cultura afro-americana. Contudo, nota-se que, ao aprofundar os níveis de sua relação com Mardou, Percepeid tem uma percepção mais ampla de sua cultura, deixando, em diversos momentos, o fetichismo de lado e envolvendo-a em uma relação de trocas interculturais:
Her little brown hand is curled in mine, her fingernails are paler than her skin, on her toes too and with her shoes off she has one foot curled in between my thighs for warmth and we talk, we begin our romance on the deeper level of love and histories of respect and shame (KEROUAC, 2001, p.19).
É nestes momentos de intimidade que se percebe um crescimento do respeito que Percepeid tem por Mardou – mesmo que este seja oscilante. O estranhamento que Leo sente em relação às suas origens e cultura, contudo, voltam a surgir em diversos momentos da narrativa, demonstrando que a discriminação racial está mais enraizada em sua cultura conservadora do que Percepeid imagina. Leo percebe que Mardou jamais seria colonizada pela vida burguesa de classe média; sua cultura e suas origens étnicas são fatores que impedem a adequação da jovem negra a esse estilo de vida. Esse é o principal motivo de Percepeid ver o seu próprio conforto – tanto no cotidiano, quanto social – ameaçado.
A forma como o amor e ódio se misturam na descrição que Leo Percepeid faz de seus sentimentos por Mardou remete aos conceitos de “sagrado” e “maldito”. Segundo o linguista francês Émile Benveniste (1995), no latim, ambos os termos são designados pela palavra sacer. Dessa forma, há uma ambivalência nesses termos, existente, segundo Benveniste, devido às apropriações culturais feitas do termo no decorrer de sua existência:
(…) na Idade Média, um rei e um leproso eram ambos, ao pé́ da letra, “intocáveis”, mas isso não quer dizer que sacer encerre dois sentidos contraditórios; foram as condições da cultura que determinaram, em face do objeto “sagrado”, duas atitudes opostas (BENVENISTE, 1976, p. 87).
A característica de “intocável” do rei leproso sugere dois sentidos: o de “sagrado”, devido à sua posição privilegiada e relacionada à divindade, por isso, o rei não deveria ser tocado; e a de “maldito”, devido à sua doença contagiosa e nesse caso, também, não deveria ser tocado. Contudo, o exemplo dado não pressupõe dois significados ao termo; foi a cultura em que ele foi usado que criou duas atitudes opostas diante do ser sagrado. Da mesma forma, Mardou também é sagrada e intocável para Leo Percepeid. Por um lado, ela é divina, por ser uma representante da cultura bebop, a qual Leo tanto admira e, por isso, encontra-se em um pedestal e não deve ser tocada. Por outro lado, é uma figura marginalizada, vista pelo senso comum como uma ameaça e por Leo Percepeid como um empecilho para uma vida confortável e, por isso, também não deve ser tocada. Nesses casos, o valor dado ao sagrado também é culturalmente determinado e ambivalente.
Ao colocar em dúvida os valores de Mardou, Percepeid menciona o seu bem-estar (well-being), termo utilizado com frequência no decorrer de The Subterraneans e que remete à qualidade de vida proporcionada pelo American Way of Life da década de 1950. A proximidade com Mardou é um fator que impede o deleite deste bem-estar e, portanto, há necessidade de uma escolha entre os dois universos: a subcultura marginalizada e o prazer da vida estável. Sobre o seu bem-estar e a presença de Mardou, Percepeid relata: “(…) as tho never I was straight with her, but crooked – never away from my chimerical work room and comfort home, in the alien grey of the world city, in a state of WELL-BEING” (KEROUAC, 2001, p. 34). Essa escolha entre o bem-estar e a marginalização implica em constantes avaliações de Mardou, sua cultura e seu caráter. Por esse motivo, ocorrem frequentes oscilações na perspectiva que Leo Percepeid possui da vida ao lado de Fox.
Em um momento de excitação, Percepeid compartilha com Mardou a admiração e o seu afeto por suas raízes africanas e destaca o essencialismo, a pureza existente em sua cultura, mencionando que ela seria a mulher essencial e original:
‘Honey what I see in your eyes is a lifetime of affection not only from the Indian in you but because as part Negro somehow you are the first, the essential woman, and therefore the most, most originally most fully affectionate and maternal’ – there now is the chagrin too, some lost American addition and mood with it – ‘Eden’s in Africa,’ I added one time (…) (KEROUAC, 2001, p. 79-80).
O trecho citado mostra que Percepeid percebe claras distinções étnicas e culturais entre ele e Mardou. Por vezes, ele a rebaixa e a enxerga como uma relação que o comprometeria de levar uma vida normal nos padrões do American Way of Life; em outros momentos, ele exalta essa diferença e a coloca acima de sua própria cultura, como uma forma de essencialismo. Esta menção à pureza da cultura africana e sua comparação ao Éden remete à visão essencialista que escritores afro-americanos contemporâneos à Jack Kerouac, como Amiri Baraka (1934-2014), têm de suas próprias raízes; e que está relacionada à ideia de que o ouvinte branco do bebop, por exemplo, é incapaz de realmente compreender tal expressão artística. Para as personagens de Amiri Baraka (1995) – como Clay, na peça Dutchman – os músicos bebop são reverenciados por muitos brancos de classe média. Contudo, não são compreendidos por estes, que só possuem uma espécie de fetiche primitivista por aquilo que é estranho a eles. Há, segundo essa opinião, a ideia de que o bebop é próprio da comunidade afro-americana e impossível de ser assimilado por alguém que seja externo à ela. O que essa forma de essencialismo não prevê é o papel de desmistificador do American Way of Life que um relato como o de Jack Kerouac pode assumir, ao levar para o centro de sua narrativa a cultura do bebop e o racismo.
É perceptível que as dúvidas em relação ao caráter de Mardou são mais intensas na segunda parte da narrativa, quando Leo demonstra paranoia e ódio intensos pela mulher. Novamente, sua descendência africana e cherokee são determinantes para o sentimento que Leo tem por Mardou, contudo, este é revertido da admiração e fetiche por ódio. Logo em seguida ao seu instante de admiração, em um momento de ciúmes, Leo Percepeid, ao caminhar ao lado de Mardou nas ruas de São Francisco, revela sentimentos de ódio existentes em sua consciência e, neles, ressalta um preconceito racial enraizado na cultura a qual ele abomina, mas não consegue deixar de fazer parte:
(…) but now in my hurt hate turning the other way and so walking down Price with her every time I see a Mexican gal or Negress I say to myself, ‘hustlers’, they’re all the same, always trying to cheat and rob you – harking back to all relations in the past with them – Mardou sensing these waves of hostility from me and silent (KEROUAC, 2001, p. 80).
Mardou aceita a hostilidade em silêncio. É possível reparar, com essa forma oscilante com a qual Percepeid trata Mardou, que há uma relação de imposição do protagonista sobre sua companheira; um posicionamento de Percepeid em relação às etnias marginalizadas nos Estados Unidos nos anos 1950, que remete às relações entre imperialistas e colonizados, conforme apontado no trecho citado acima. Portanto, cabe aqui discorrer um pouco sobre a forma como a geração beat, em especial Jack Kerouac, vê as minorias de seu país e a maneira como eles lidam com o contato junto às culturas que lhe são estranhas. Esse é o caso de grupos citados no trecho acima e que estão muito presentes na literatura beat: mexicanos e afro-americanos, principalmente.
Em seu trabalho intitulado The Transnational Counterculture, Daniel Belgrad aborda a relação entre a contracultura beat e a expressão do realismo mágico no México, e relata as diversas passagens dos beats pelo México, afirmando: “Clearly Mexico was an important literary influence as well as a significant life event in the development of the beat subculture” (BELGRAD, 2004, p. 28). Em sua análise, Belgrad (2004) não descarta a possibilidade de uma relação de déspotas/colonizados entre, respectivamente, beats e México. O autor levanta fontes que interpretam os relatos da presença dos beats em terras mexicanas como uma afirmação do imperialismo, afirmando que William Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg se portavam como déspotas, nessas ocasiões. A partir da análise de suas fontes, o autor afirma:
They praised Mexico for its low cost of living and reveled in the ready availability of teenage prostitutes and illegal drugs (heroin and marijuana), a phenomenon inseparable from Mexico’s political and economic “underdevelopment” in comparison to the United States (BELGRAD, 2004, p. 29).
Contudo, Daniel Belgrad (2004) não considera a teoria anti-imperialista o foco de sua análise, visto que esta desconsidera a relação intercultural entre os beats e a cultura mexicana. Dessa forma, o autor apoia a hipótese de uma relação de trocas entre as duas culturas e considera, tanto a geração beat como o realismo mágico mexicano, formas de oposição ao capitalismo corporativo pós-guerra, que, durante a década de 1950, conquistava cada vez mais espaço nos Estados Unidos e no México. Belgrad afirma: “As part of a transnational counterculture that inherited the mantle of the postwar avant-garde, the beats in Mexico should be understood as cultural allies of the Mexican magic realists, rather than as agents of American imperialism” (BELGRAD, 2004, p. 30).
Cabe frisar, além disso, que a afinidade entre a geração beat e a cultura afro-americana, especialmente o bebop, relatada em The Subterraneans, também promove uma relação intercultural e, conforme já mencionado, criou-se uma expressão literária que se opõe ao imperialismo corporativista norte-americano do século XX. Ao contrário de apreciar a sua suposta posição social superior, Percepeid não é conivente ao racismo e à dominância da cultura de classe média; ao contrário, o racismo existente em níveis profundos de sua consciência é o motivo da sua angústia. Percebe-se, na narrativa de Jack Kerouac, o anseio pela institucionalização de uma comunidade alternativa, uma realidade idealizada, em que a relação de Leo Percepeid e Mardou Fox fosse possível.
Além disso, Leo Percepeid é um protagonista com características de um anti-herói, visto que assume constantemente seus erros, fracassos e arrependimentos. Dessa forma, é possível que Kerouac coloque sua própria contradição na relação de Percepeid e Mardou. Dificilmente Jack Kerouac conseguiria retratar o preconceito vivido por integrantes negros da cultura bebop na década de 1950, caso a relação entre Leo Percepeid e Mardou Fox fosse totalmente harmoniosa e Leo não vivesse em constante conflito entre a cultura mainstream norte-americana e a subterrânea do bebop jazz. Nesse sentido, a ambivalência presente em Percepeid é fundamental para o ideal contra-hegemônico manifestado em The Subterraneans.
Para analisar a relação entre os beats e a cultura mexicana explorada por eles, Belgrad (2004) resgata o termo fellaheen proposto pelo historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), termo esse relacionado a grupos que permanecem infensos aos grandes movimentos históricos e que também é frequentemente aplicado à contracultura situada nas margens sociais que sobrevivem ao impacto da modernização. Segundo Daniel Belgrad (2004), os beats viam os índios mexicanos como uma subclasse de fellaheen e, por esse motivo, identificavam-se com eles. Os fellaheens para Jack Kerouac e a geração beat são aqueles considerados por eles companheiros de marginalização, como, por exemplo, comunidades afro-americanas, mexicanos vivendo nos Estados Unidos, índios norte-americanos, artistas de rua. Em suma, grupos que sobrevivem à opressão da cultura dominante do consumo, mesmo que estes tenham sofrido mudanças no decorrer de suas existências. A geração beat e seus fellaheens muitas vezes compartilham espaços e, dessa proximidade, surge o convívio. Este é o caso de North Beach, região de São Francisco descrita em The Subterraneans, onde diversos grupos marginalizados convivem em um ambiente boêmio.
Em The Subterraneans, esse tipo de identificação ocorre entre Leo e Mardou devido às raízes culturais de Fox e as experiências na estrada de Percepeid; em ambos os casos há a adoção, mesmo que por vontade própria, de um estilo de vida marginalizado que foge aos parâmetros da vida americana e do progresso. Percepeid comenta sobre a forma como ele se identifica com Mardou e suas experiências, o que o levou a entender o que ele tem de semelhante com a companheira:
Concern for her father, because I’d been out there and sat down on the ground and seen the rail and steel of America covering the ground filled with the bones of old Indians and Original Americans. – In the cold grey fall in Colorado and Wyoming I’d worked on the land and watched Indian hoboes come suddenly out of brush by the track and move slowly (…) (KEROUAC, 2001, p. 18-19).
Tendo isso em mente, podemos dizer que Percepeid vê Mardou como uma companheira fellaheen e se identifica com a sua origem – um povo que vive de forma muito distinta do padrão modernizado dos Estados Unidos. Sendo assim, o fato de a personagem conviver e se interessar por culturas que fogem aos padrões do American Way of Life pode ser visto como uma contraposição à cultura dominante. Apesar de Jack Kerouac e seus fellaheens das culturas minoritárias coexistentes nos Estados Unidos na década de 1950 resistirem à intensa instauração do American Way of Life, não se pode dizer que estes se opõem à modernização, conforme aponta Belgrad (2004). Acredita-se que a geração beat vê o contágio das culturas sobreviventes e minoritárias como uma característica da modernização, a qual proporciona oportunidades para que artistas de vanguarda apropriem-se dessas culturas para a criação artística. Dessa forma, através de relatos literários como The Subterraneans, busca-se uma institucionalização desse aspecto da modernização. Além disso, diversos efeitos dessas mudanças são apropriados pela literatura beat de forma a criar expressões como a prosa espontânea, um estilo de escrita moderno por excelência, presente em The Subterraneans.
Outra dimensão marcante na relação de dominante e dominado entre Leo e Mardou é a sexualidade. De acordo com Daniel Belgrad (2004), para os beats, sexo era um símbolo natural de comunhão e cita o exemplo de The Subterraneans, em que Kerouac iguala os conceitos de sexo e comunhão na relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid. Para exemplificar, Belgrad cita o seguinte trecho da obra: “(…) the intimacies of young lovers in a bed, high, facing eye to eye, breast to breast naked, organ to organ, knee to shivering goose-pimpled knee, exchanging existential and lover-acts for a crack at making it (…)” (KEROUAC, 2001, p. 7). Considerando que o sexo é uma forma de comunhão entre Mardou e Leo, novamente, se percebe a imposição de Leo sobre sua parceira. Devido ao fato de Mardou ter passado grande parte da sua vida sexualmente inativa, Percepeid impõe-se de forma a reeducá-la afetivamente e sexualmente, remetendo novamente à sua imagem de déspota. Percepeid relata:
Never did she use the world love, even that first moment after our wild dance when I carried her still on my lap and hanging clear to the bed and slowly dumped her, suffered to find her, which she loved, and being unsexual her entire life (except for the first 15-year-old conjugality which for some reason consummated her and never since) (…) (KEROUAC, 2001, p. 16).
Devido a essa peculiaridade de sua relação, em alguns momentos da história, Percepeid demonstra o desejo de ser o mentor sexual de Mardou, de guiá-la na forma como ela poderia obter prazer na relação. O seguinte trecho exemplifica esse desejo: “We hugged, we held close – it was like love now, I was amazed – we made it in the living-room, gladly, in chairs, on the bed, slept entwined, satisfied – I would show her more sexuality –” (KEROUAC, 2001, p. 32).
Se Percepeid é o mentor de Mardou, no que diz respeito à sexualidade, Mardou, por sua vez, é quem tem o maior entendimento acerca do jazz bebop e o auxilia a compreender o estilo musical. Contudo, por ser membro enraizado nessa subcultura, Mardou não partilha da mesma excitação e atração pelo desconhecido que Percepeid. Pelo contrário, em uma conversa sobre o bebop, a jovem negra demonstra-se indiferente à expressão musical. Kerouac narra: “(…) Mardou, who, impressed, forewarned, understanding everything, makes solemn statements about bop, like, ‘I don’t like bop, I really don’t, it’s like junk to me, too many junkies are bop men and I hear the junk in it’” (KEROUAC, 2001, p. 84). Além disso, Mardou viveu a marginalização ligada ao estilo de vida do bebop, diferente de Percepeid, que tem aquele cenário como uma forma de evasão da vida normativa.
Dessa forma, Mardou é entendedora do bebop e, por isso, não se comove tanto com o estilo. Mesmo demonstrando certo descaso com o estilo, Fox está em posição superior quanto ao entendimento da música e isso a coloca acima de Percepeid no quesito inserção à cultura bebop, visto que ela é uma integrante genuína do meio em que ambos frequentam. É interessante destacar que Mardou compara o bebop ao lixo, que, para Kerouac, é um lixo merecedor de ser coletado e colocado no centro de sua narrativa. Leo Percepeid, ao contrário de Mardou, enxerga o bebop como uma recém-descoberta fascinante e, em resposta ao descaso de Mardou pelo estilo, responde: “(…) ‘But you never like what you come from’ (looking at Mardou). – ‘What do you mean?’ – ‘You’re the child of bop,’ (…)” (KEROUAC, 2001, p. 84).
A visão que Percepeid tem de Mardou e do bebop é de que ambos têm a mesma origem, uma forma de essencialismo que remete às narrativas de Amiri Baraka (1995) sobre o bebop. Devido ao fascínio pela origem de Mardou e por considerá-la “a filha do bop”, Percepeid vê Fox como uma companheira fellaheen e, assim, estabelece um relacionamento de natureza intercultural – semelhante à relação que Daniel Belgrad (2004) analisa entre a geração beat e a cultura mexicana. É através da relação entre Mardou e Percepeid que Kerouac obtém êxito em retratar a geração bebop subterrânea. Ao colocar Mardou e o universo cultural a que ela pertence no centro de sua narrativa – mesmo que haja tantas controvérsias na relação entre ela e o narrador, abordadas anteriormente –, Jack Kerouac cria, assim, um relato que vai além da memória oficial criada pelo imaginário normativo norte-americano; uma memória que busca os descartes dos arquivos oficiais e que tem como objetos principais, nesse caso, Mardou Fox e a cultura do bebop da qual ela faz parte.
REFERÊNCIAS
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BELGRAD, Daniel. The Transnational Counterculture: Beat-Mexican Intersections. In: SKERL, Jennie (Ed.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 27-40.
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Bio fornecida pelo palestrante.
Leandro Nazareth Souto
Universidade Federal de Uberlândia
Resumo: O estudo em questão tem por objetivo apresentar e desenvolver uma análise sobre a performatividade de Antígona, personagem central da maior das tragédias escritas por Sófocles por volta de 400 a.C., apresentar as leituras ou releituras realizadas desta tragédia por Hegel, Lacan e Butler, feitas à luz do seu tempo e fundamentadas em suas teorias, bem como apresentar Antígona como figura literária, mas sobretudo como uma figura histórica extremamente atual.
Palavras-chave: Antígona; Hegel; Lacan; Butler; Literatura Antiga; Filosofia Antiga; Feminismo.
Abstract: The present study aims to present and develop an analysis of the performativity of Antigone, the central character of the greatest tragedy written by Sophocles around 400 BC, to present the readings or rereadings of this tragedy made by Hegel, Lacan and Butler in the light of his time with basis on their theories, but mainly to present Antigone as a literary figure and above all as a historical figure extremely up-to-date.
Keywords: Antigone; Hegel; Lacan; Butler; Ancient Literature; Ancient Philosophy; Feminism.
Minicurrículo: Leandro Nazareth Souto é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia
ANTÍGONA: PERFORMATIVIDADE
DE PROTEÇÃO E LIBERTAÇÃO
Leandro Nazareth Souto
Universidade Federal de Uberlândia
“Vede como, sem que sejam ouvidas as lamentações de meus amigos, como e por que leis sou levada a um covil de pedra, a um túmulo de nova espécie. Como sou infeliz! Nem sobre a terra, nem na região das sombras, poderei habitar, nem com os vivos, nem com os mortos”. SÓFOCLES, Antígona.
O Clamor de Antígona é um grito, muito parecido como uma vocalização de um pássaro que projete seus filhotes. Tomando como base a questão da ave de rapina que protege seus filhotes, é preciso relembrar que a vocalização das aves está entre as manifestações da natureza que mais fascinam o ser humano, e, portanto, essa referência foi bem marcante, os pássaros vocalizam a todo instante, e não rara vezes vemos artistas, músicos e escritores colocando o canto das aves antropomorfizados em beleza, saudade e tristeza, as vezes também são identificados como veículo de interação social, alerta e cortejo, mas aqui nossa referência não fora de um canto belo e suave, mas sim de um grito, um grito que protege, que enfrenta o opressor e que liberta os que presenciam. Um grito de alarme é um fator de demonstração de perigo do indivíduo para ele mesmo, contudo, a “compreensão” que os demais indivíduos têm dessa vocalização faz com que esses também se coloquem em estado de alerta.
A primeira parte desse trabalho falará um pouco sobre a tragédia, pois ela tem sempre algo para nos ensinar, ela traz sempre um fundamentação teórica, ética, necessária. Antígona carrega toda uma historicidade que é importante postularmos, e para isso, é importante lembrar que o que importa em uma tragédia não é sua veracidade histórica, e sim sua verossimilhança, o que importa não é se ela aconteceu, mas sim que poderia ter acontecido, e, por isso, pode nos ensinar.
Antígona era filha de uma relação incestuosa entre Édipo e Jocasta, filho e mãe, que tinham além dela, mais três filhos, Ismênia, Etéocles e Polinice, sendo os dois últimos os personagens coadjuvantes que causam o problema central de toda a trama. Antígona já era considerada uma personagem forte nas outras tragédias de Sófocles, Foi a única filha que não abandonou Édipo quando este foi expulso de seu reino, Tebas, por seus irmãos, Polinice tentou convencê-la a não partir, enquanto Etéocles ficou indiferente com sua partida. Antígona acompanhou o pai até o momento de sua morte, retornando a Tebas posteriormente, vê seus irmãos brigando pelo trono, em um combate singular, onde ambos morrem.
Creonte, tio de Antígona herda o trono, pois é o parente mais próximo da linhagem de Jocasta, mãe de Antígona, e logo após a morte dos sobrinhos, manda fazer uma sepultura com todas as honras para Etéocles, sobrinho preferido, e não só deixa Polinice onde caiu, para que o cadáver ficasse exposto à putrefação e a dilaceração, exposto para que aves ou animais comessem, e proíbe todo e qualquer cidadão de Tebas a não tocar no corpo, proibindo o enterro ou qualquer ato de culto ou ritual fúnebre. Creonte entendia que isso serviria de exemplo para todos os que pretendessem ir contra o seu governo.
Antígona, conhecedora das leis da cidade e dos deuses, e ao mesmo tempo indignada, próprio da sua própria natureza, tenta convencer o novo rei a enterrá-lo, fala diretamente a Creonte de igual para igual, ato raro para um diálogo entre uma mulher e uma autoridade do governo, coloca em cheque questões da morta e da ética, e também da religião, pois, aquele que morresse sem os rituais fúnebres seria condenado a vagar nas margens dos rios do hades, sem poder ir para o outro lado onde estariam os bem aventurados. Mesmo com todos esses argumentos religioso Creonte não sede, Antígona apela sobre as leis da cidade, ele também não sede, logo, não conformada ela rouba o cadáver insepulto que estava sendo vigiado, e enterra Polinice com as próprias mãos, novamente em um ato bruto, natural e de protetora, no entanto, como em toda tragédia, algo trágico acontece, ela é presa enquanto enterra seu irmão.
Neste momento inicia para nós a grande reflexão da personagem Antígona, ela mostra sua voz a partir dos questionamentos sobre a sua desobediência, mesmo sabendo da ordem de Creonte ela deixou claro que não deixará o corpo do irmão sem os ritos sagrados, mesmo que tenha que pagar com a própria vida por tal ação, mesmo ao se orientar com a imã, ela reforça sua força e mostra-se insubmissa às leis humanas por estarem indo de encontro às leis divinas e a própria lei da família.
Creonte ao descobrir que a cobertura do morto não tinha sido obra dos deuses, mas de um ato de desobediência de Antígona, ele se rebela e começa então toda a argumentação e travamento de ideias, de um lado Antígona mostrando sua lealdade a família e a leis divina, do outro Creonte a visão do inquisidor que queria apenas ser respeitado acima de tudo para que sua palavra continuasse firme, rocha.
Creonte apela para uma saída de chamar Ismênia, irmã de Antígona, para ser interrogada sobre o fato, ela arrependida de não apoiado a irmã no início da tragédia, confessa o crime que não cometeu, mesmo confessando, Antígona continua firme em seu posicionamento e não admira a irmã, por este pseudo ato de coragem, e reafirma que é a única e real transgressora. Ambas são condenadas à morte.
Creonte condena a morte Antígona pelo ato, pela desobediência, mesmo sabendo da importância dela para a família e também para seu filho, pois eles iriam se casar, sendo assim é travado um novo diálogo, agora entre Creonte e seu filho Hêmon, porém no diálogo fica evidente o perfil do jovem rapaz, submisso às ordens paternas e sem nenhuma força política e revolucionária, porém, tenta mesmo respeitando muito seu pai, demonstrar ideias em defesa de sua amada, de que os cidadãos comenta pelas ruas que estão de acordo com a ação de Antígona, neste momento Creonte é afrontado pela sua autoridade e questiona o filho que se é por acaso a cidade que tem poder de ordenar o que o Estado deve fazer. O filho então tenta recorrer as honras devidas aos deuses e que o ato não seria prudente, mas o pai se mantém irremediável. A discussão chega ao ponto de Hêmon ameaçar se matar caso o pai não revogue a condenação, Creonte para mostrar seu poder, ignora o filho e manda prender Antígona em uma caverna escavada na rocha, só com o alimento indispensável, para assim ter um fim lento e doloroso, um ato cruel em sua época.
Um novo personagem entra em cena, Tirésias, um adivinho conhecido e respeitado por todos adverte Creonte do mal que irá se abater em sua vida devido a esta ação cega de matar Antígona, por um ato de coragem e de honra aos próprios deuses, ato este que deixaria os próprios deuses enfurecidos. Creonte mantém-se irredutível na frente de Tirésias, mas logo é convencido de que deveria libertar Antígona, sepultar Polinice, porém, como em toda grande tragédia que quer nos ensinar algo sobre ética e moral, Creonte não consegue se redimir, e as diversas mortes acontecem sem sua intervenção, Antígona, seu filho Hêmon, sua esposa Eurídice, e é obrigado ali a viver com o grande peso em sua vida: “o único culpado sou seu, e nenhum outro. Eu, só eu foi quem matou, miserável. Eu, falo a verdade. Já, guardas, levai-me daqui, tirai-me sem demora. Eu não sou nada, sou menos que ninguém. […] Que eu não veja a luz de novo dia. […] Tudo o que tenho nas mãos vacila, e sobre minha cabeça a fatalidade desaba, insuportável (1320-1345).
Uma vez abordada a grande tragédia passaremos a análise de Hegel, Lacan e Butler sobre esta grande personagem. Para Hegel, Antígona é uma grande personagem que traz uma referência de uma discussão sobre a própria ética, ele faz uma trajetória importante a partir da personagem para mostrar a transição da lei do parentesco para a lei do Estado, a primeira com viés particular, singular, e a segunda com viés universal, pública. Creonte representa, em Hegel, a lei do Estado (universal e pública) quanto Antígona, com toda a sua voz e performatividade debatedora, representa a lei familiar (particular e singular). Neste sentido Hegel vê o grande embate em Antígona, da lei familiar com a lei do Estado, embate este sobre valores, princípios morais, normas e justiça.
Para Hegel a ordem social só é inaugurada pela suspensão da ordem singular, seja ela da família (singular e privada) e a da igreja (singular e privada). Para ele, Creonte está defendendo a esfera política, que deve ser regida sempre pela universalidade, simplesmente por ser pública. Hegel associa Antígona a uma lei que não é nem familiar e nem do estado, uma lei do feminino, algo estritamente particular, portanto adverso ao público e universal, e sua condenação se dá por ir contra o Estado em favor de um interesse puramente pessoal e particular. Neste sentido, toda a sua coerência de querer dar um enterro digno ao irmão, em atender os interesses divinos e até mesmo os interesses da família não tem importância, se ela está descumprindo uma lei do Estado, nesta perspectiva vemos claramente na tragédia de Sófocles o que é viver sob as leis.
Para Hegel não há nenhuma justificativa para que Antígona descumpra a lei de Creonte, simplesmente pelo fato da lei que ela invoca seja esta familiar ou divina não pode ser conceitualizada como lei, por ser uma lei não escrita, e, portanto, fora do campo do direito público, ela não tendo razão para descumprir. Lembrando que para Hegel o indivíduo só atinge a sua moralidade no Estado. Entende-se por moralidade aquilo que permite um indivíduo seja um sujeito. Em uma visão bem aristotélica, sujeito é aquele que se faz moralmente pelo conjunto de suas ações. Para Hegel agir moralmente é o agir do discurso, não um agir qualquer, agir segundo uma eticidade, isto é, ações pautadas na liberdade realizada nas crenças e instituições.
Ética para Hegel é o conjunto de relações, familiares, civis, jurídicas, políticas, religiosas e estatais, é a lei do bem, e só se realiza se estiver ligada a um bel maior, para a religião (Deus) para Hegel (Estado). A dualidade entre Estado e Religião é fruto de consequências anteriores ao pensamento de Hegel, para ele o indivíduo poderia ter condutas morais quando está ligado a estruturas como família (particular) e religião (particular), e muito menos condutas éticas se estiver fora do Estado (universal). Em suma, para Hegel “o homem não pode alcançar uma atitude ética e consciente de si autêntica fora do Estado” (Hegel, Fenomenologia do Espírito).
O homem realiza a sua identidade enquanto cidadão, quando sai da esfera familiar para ingressar na esfera pública, no Estado. E quando o indivíduo deixa a esfera pública no ato de sua morte, ele retorna para o ceio de sua família, e, portanto, volta para o particular, esta é para Hegel o grande motivo da luta de Antígona pelo interesse de dar um enterro digno e segundo a lei divina para Polinice, ele pode ter sido inimigo do estado, mas para ela ele continua sendo seu irmão, seu amigo, não importando o que foi para o Estado. Em um determinado momento Creonte afirma que Polinice é inimigo de Tebas, e Antígona logo rebate dizendo que um morto não é inimigo de ninguém.
Um argumento interessante é abordado acerca da visão hegeliana da relação entre irmãos, nesta relação Antígona afirma que essa é a única relação que ela estaria disposta a salvar em sua vida, a de ter um irmão e honrá-lo, a relação de esposa, poderia ter outro marido, mesmo que não fosse o filho de Creonte, abdicaria do papel de princesa, filhos a mesma coisa, com Hêmon, ou com outro marido, poderia ter outro (s) filho (s). Mas com pai e mãe já mortos, lhe é impossível ter outro irmão, por isso a importância da honra e do enfrentamento para salvar sua vida. Nesta perspectiva Hegel enxerga em Antígona um dever sagrado, o de enterrar seu irmão.
Segundo George Steiner o ato de Antígona é o mais sagrado a que uma mulher pode aceder, simplesmente porque há situações em que o Estado não está em condições de abandonar a sua autoridade perante o morto. Há circunstâncias – políticas, militares, simbólicas – em que as leis da polis tornam extensivos ao corpo do morto os imperativos de honra (funerais solenes, monumentos) ou de punição que, de um modo geral, apenas tocam aos vivos. O que tem como resultado uma ruptura máxima e última entre os mundos do homem e da mulher.
Ao questionar Creonte, Antígona se faz cidadã. Neste ponto Hegel no texto Linhas fundamentais da filosofia do direito, postula que Antígona de Sófocles é enunciada como a lei da mulher, subjetiva, sensitiva, tendo assim um apoderamento da lei e da política da mulher. Ao ver a luta de Antígona não dá para não tomar partido, se tomamos o olhar pacífico de Hegel sobre toda a carnificina da tragédia de Sófocles como verdadeiro, nada compreendemos de moral e ética nas relações humanas e políticas, esta é a crítica de Derrida ao próprio Hegel, ele observa que na abordagem de Hegel, “a carnificina da peça de Sófocles é exibida”, mas, repentinamente, o olhar de Hegel foca uma cena totalmente apaziguada, enquanto nós observamos um embate violente de pensamento e de ruptura de postura a todo instante no momento em que a performatividade de Antígona se traveste carregada de proteção e libertação.
O segundo autor analisado será Lacan, este também possui um diálogo com a tragédia de Sófocles, Antígona, sobretudo nos seus estudos de 1959-1960, no seminário, livro 7 do livro A ética da psicanálise, ele irá abordar nesse seminário basicamente o problema ético da tragédia. Ele ao contrário de Hegel, que o governador está apenas defendendo o Estado, para Lacan, a figura de Creonte representa, assim como os muitos modelos políticos do mundo de sua época, algo tirano, sem discernimento e equivocado ao agir por impulso sem respeitar as leis da família, dos deuses e da cidade.
Em Lacan, o Estado não aparece em suas discussões sobre Antígona. Seu foco está no parentesco, ne estética sobre o belo, na análise sobre o desejo, desejo este ponto central de toda a discussão, o desejo em toda as suas esferas, na ordem, na família e no erótico, e também o sacrifício do próprio desejo, somos seres para a morte, toda esta simbologia mais tarde será criticada por Butler, afirmando que em função do simbolismo de Lacan a discussão torna-se “rigorosamente dissociada da esfera do social, apesar de constituir o campo estrutural de inteligibilidade no qual o social nasce”. (Butler, 2014).
Em suma, a dimensão simbólica está separada da dimensão social em Lacan, aquilo que é universal na cultura é entendido como regras simbólicas ou linguísticas, que, a princípio, codificam e sustentam as relações de parentesco. Em Lacan, o domínio da lei universal, abarcando uma regra cultural eterna, é a “base para a noção lacaniana do simbólico e para as tentativas posteriores de separar o simbólico tanto da esfera do biológico quanto do social”. (Butler, 2014).
Sendo o desejo tema central da reflexão de Lacan, e desejo e morte estão estritamente ligados em sua filosofia, temos na tragédia de Sófocles um desejo que é transformado ou levado a uma pulsão, pulsão de morte, por ser uma tragédia que precisa nos ensinar muito sobre ética. Em Antígona vimos na primeira parte do trabalho, todos morrem, com exceção do velho profeta Tirésias e do guarda, a morte triunfal da personagem central e de todos em sua volta pelo erro de Creonte, filho e mãe, mostra bem esta pulsão, de que somos todos seres para a morte.
O mesmo desejo que impulsiona a morte é o desejo que faz com que Antígona enfrenta Creonte, em nome do desejo e a partir de sua decisão em nome da lei da família e dos deuses ele enfrenta a lei do Estado. Ao enfrentar, ao questionar e dar voz a muitos da cidade, ao ponto dos cidadãos nas ruas comentarem da coragem e clareza de suas decisões, Antígona já prefigura a sua morte antes mesmo de morrer, neste sentido, a morte vivida de forma antecipada, em todo diálogo vão, em toda discussão sem perspectiva de mudança, já é uma vida antecipada até a própria sepultura.
Antígona ao reforçar a lei da família, a lei dos deuses em relação ao lei da cidade começa a questionar e mostrar a distinção entre governo e o Estado, um governador causar a morte novamente a um cadáver para ela, para além do sentimento para com o irmão é algo sem fundamento, ela mostra que a exposição do corpo do irmão e a proibição dos ritos de passagem é uma segunda morte, afirma ela “não queiras matar quem já morreu. Que bravura há em exterminar um cadáver”.
Antígona para Lacan é uma personagem ímpar, marcada pelo desejo e desejo que a leva ao extremos, desejo que clarifica a sua própria presença no mundo, afirma ela: “não fui gerada para odiar, mas para amar”, sua trajetória de apoio a Édipo na saída da cidade já prefigura esta existência ímpar e autêntica, esse amor, para Lacan, de forma visível se dá pela proteção e amor pelo irmão, pelo parentesco, e ao mesmo tempo há uma forma invisível, um amor erótico e até mesmo incestuoso, repetindo o ato dos pais, desejo este que leva a uma pulsão de morte e o desejo da própria morte.
Para Lacan, Antígona rompe com todas as barreiras pelo desejo, amor pelo irmão, amor de proteção e de libertação, por este motivo, é vista como gloriosa, atos acompanhados de louvor popular, vista como senhora de sua própria lei, figura máxima do belo, aquela que não sede a lei imposta sem fundamento e contra a sede do seu desejo. Para Laca, a função de todo esse desejo deve permanecer, numa relação fundamental com a morte.
Por fim, entraremos nas reflexões de Butler sobre Antígona e seu debate constante com Hegel e Lacan, autores que abordamos mesmo que de forma sucinta seus pensamentos sobre a tragédia de Sófocles. Simplesmente o título do seu livro já nos chama a atenção sobre as questões que serão postas, O Clamor de Antígona: parentesco entre vida e a morte, o foco principal da obra é mostrar o empoderamento da mulher de sua época, atual, na voz e em toda a performatividade de Antígona, esse empoderamento traz em si o verdadeiro poder da mulher, quando ela se empodera, isto é, toma para si o poder, sua vida e suas ideias são libertadas por si só, sem a necessidade de consentimento ou liberação de outrem.
Na tragédia de Antígona percebemos esse empoderamento já no início do seu debate com Creonte, quando alguém ou principalmente uma mulher está sendo acusada ou recebendo alguma sanção por algo que fez e na sua fala ela diz: “sim, eu confesso!”, esta fala é de quem está se submetendo a autoridade que está agindo sobre ela, ao contrário, quando sob a mesma acusação, ela se empodera e diz: “não negarei o meu feito”, este ato corajoso, ato de proteção e libertação, ela não está se submetendo mesmo não negando o ato do fato acontecido. Do ponto de vista da performatividade, começamos a perceber que Antígona está se revestindo de atitudes, antes presentes só ou quase sempre no universo masculino, seja rebeldia, seja o enfrentamento da autoridade, por mais que percebemos que a inteligência sempre foi percebida nas mulheres, a estas não era dada a voz no discurso de determinadas causas, por exemplo, no discurso político ou até mesmo na defesa de si e dos seus.
Butler ao contrário de Hegel e Lacan, não está fazendo o caminho tradicional de mudança de pensamento, mostrando a personagem recorrendo as leis da família, dos deuses para questionar as leis do Estado, ela não está preocupada em mostrar a incoerência de Creonte com a lei divina, mas, sobretudo, mostrar a sua transgressão em relação a lei de parentesco, seja na vida e na morte, lei reservada a família, e é justamente essa argumentação que desestrutura toda questão de gênero durante a tragédia de Sófocles.
Butler define Antígona como uma figura feminina que desafia o Estado através de uma poderosa sequência de argumentos reflexivos e linguísticos, quer evidenciar esse lado político, deixado de lado nas leituras de Hegel e Lacan, ela não fala apenas em um ato de rebeldia ou loucura, ou de revolta ao Estado (Hegel) ou por desejo/pulsão de morte (Lacan), ela é uma figura política, alguém que desafia Creonte, descontrói seus argumentos, sabendo de todas as implicações e problemas que enfrentaria por tais atos. É uma mulher que está além das discussões tradicionais da passagem da pré-política a política, ela está lutando e dando voz libertadora a uma lei de parentesco, esta como a esfera das condições de possibilidade da política e de reformulação das leis da cidade/Estado.
Butler quer mostrar, sobretudo, a indagação sobre a legitimidade da justiça imposta pelo governante ou Estado, questionar as bases sobre as quais a moralidade e posta na sociedade e como esta cultura histórica influencia na construção e leis em que a figura feminina é cada vez mais marginalizada, silenciada e cercada de vários limites de representação e representatividade. Por isso, é tão importante a questão do empoderamento e da performatividade, no momento em que Antígona sai de sua condição de mulher silenciosa e fala diretamente a Creonte, ela se torna viril, masculina, ou se performativa como tal, ao mesmo tempo, ao dar ouvidos a ela, Creonte, se desmasculiniza, e mais adiante, após refletir sobre a sua incoerência volta atrás e tenta salvar a própria condenada, neste sentido, nenhum dos personagens se mantém nos papéis originais de gênero, a performatividade é protetora quando se fundamento no cuidado, na proteção e na garantia de cumprir os rituais familiares e divinos, mas, sobretudo, sua voz, seu gripo, é libertador, na medida em que desestabiliza todo o jogo de gênero e as leis mal fundamentadas, logo, o grande ato de Antígona não é de ação de enfrentamento e rebeldia cega, mas um ato de linguagem, um ato de raciocínio que desestabiliza o que está posto e que não tem fundamento.
É o afrontamento e a rebeldia que dá voz a ela, mas são seus argumentos, sua linguagem e reflexão que permite que a sua voz seja libertadora e transformadora, ao dialogar com Hegel e Lacan, Butler propõe a resolução questões fundamentais na elaboração das regras/leis, a obediência a elas, bem como as alterações que podem propor no campo simbólico, que, por sua vez, é constitutivo do campo social, precisa haver, segundo Butler uma implicação social de tudo aquilo que é proposto no campo simbólico. E que no ceio familiar, é importante reforçar que o parentesco se dá através da linguagem e discurso e não simplesmente no modelo tradição de pai, mãe, filhos e irmãos.
A grande pergunta que fazemos hoje é: quem são as “Antígonas” de hoje? Com que voz afronta as leis que as marginalizam? Ainda usam de performatividade para serem ouvidas? Em seus discursos e nos tons de suas vozes se transvestem de uma masculinidade para serem ouvidas? Esta voz de hoje depois de toda uma luta do feminismo e das exclusão das deturpações questões de gêneros, ela é ouvida? Pouco ouvida? Ainda incomoda? Ao longo da história e atualmente vemos muitas manifestações das novas “Antígonas”, analisando o tempo histórico e as ações ainda nos perguntamos se suas ações são constituídas de uma performatividade autêntica, feminina e libertadora ou ainda se reveste de todos os trejeitos masculinos para serem ouvidas em uma sociedade machista?
Talvez não tenhamos todas as respostas, talvez enxergamos em alguns exemplos uma performatividade protetora e libertadora estritamente feminina, mas em outras vezes vemos apenas uma “casca” feminina rechegada e travestida de uma masculinidade para ser ouvida. O que importa para nós e para a história, é reconhecer cada uma dessas mulheres fortes que enfrentam as autoridades estabelecidas, sejam elas, autoridades da casa, da sociedade ou da religião, para colocar suas ideias e rompendo com todos os padrões culturais e sociais pré-estabelecidos, isso, no ocidente, no oriente, precisamos de mais “Malalas” para lutar e enfrentar as forças talibãs para dar voz para as meninas que querem o direito de estudar no oriente médio, queremos mais “Dilmas” a fim de lutar contra todo tipo de golpe, opressão e retrocesso político no Brasil e América Latina, precisamos de mais “Hannah´s Arendt´s” para denunciar toda a banalidade do mal e o autoritarismo ainda presente, precisamos de mulheres capazes de ser elas mesmos, imponderadas de autoridade de si, de sua consciência, do seu corpo, da sua linguagem a fim de discursar a favor de uma racionalidade para que possamos superar toda e qualquer questão de gênero que vem sendo posta pelos políticos retrógados, precisamos de homens e mulheres fortes capazes de quebrar com toda a falsa ideação de configuração de família e parentesco, para que as crianças de pais e mães homossexuais possam ser livremente reconhecidos como família, precisamos de mais “Antígonas” para questionar e dar a todos o entendimento de que ninguém, nem instituição alguma, familiar, religiosa ou o Estado tem poder sobre a vida dos indivíduos.
A tragédia fica para trás, mas a história não, os personagens daquele palco, naquele espaço e tempo dão lugar a novos nomes e novas realidades, novas reflexões precisam ser postas, novos confrontos precisam ser traçados, novas autoridades devem ser questionadas, para que nunca nos darmos como mortos ou vencidos. No início da tragédia Antígona já se declara morta, e, mesmo assim, veja tudo o que fez, tudo o que questiona, veja a ressonância que teve a sua voz, o poder que teve suas palavras, sua linguagem e seu discurso. Antígona é, sobretudo, uma personalidade histórica, pois dá força a todas as mulheres que se sentem mortas em suas casas, em seus empregos, em seus relacionamentos abusivos, a todas as mulheres que ainda precisam se esconder atrás de uma figura masculina, seja ela mesma transvestida ou de outrem que pensa ter autoridade sobre elas. Antígona é uma mulher histórica para fazer com que todas as minorias que se sentem marginalizadas e desprotegidas, possam ter em que buscar força e veneração. Depois de Antígona nenhuma mulher pode se contentar em ser enterrada viva ou não ter o direito de enterrar e lutar pelos seus.
Depois Antígona não se pode se contentar com o a expressão recorrente de que tanto faz viver ou morrer. É preciso se apoiar em sua figura forte, protetora e libertadora para que tenhamos sempre forças para lutar, pode-se até morrer, mas esta morte não será em vão, a autoridade pode até permanecer injusta, mas sempre terá espaço para a denúncia da injustiça, para lutar contra a falsa autoridade, e os falsos paradigmas, pode-se tentar calar a voz, mas será precisa sempre o enfrentamento para que não seja em vão todas as lutas de tantas mulheres que fizeram a diferença na humanidade nas mais diversas áreas do saber e do viver.
BIBLIOGRAFIA:
BUTLER, Judith. O Clamor de Antígona: parentesco entre vida e a morte. Tradução André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2014.
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses com a colaboração de Karl-Hetnz Efken. Petrópolis, Vozes, 1992.
LACAN, J. (1959-1960/1988). O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Bio fornecida pelo palestrante.
Sofia Porto Bauchwitz
Universidad Complutense de Madrid/CAPES
Abstract: This paper presents a brief introduction to the image of the artist as an errant who appropriates his Discourse and legitimates it. He defends his discourse as a mapping tool with which the artist draws and activates the map by walking in it himself/herself. The many wanderings and the many projects and works that spring from this wandering are defended by the discourse that the artist invents for himself. This artistic discourse, which is transformed in a travelogue, becomes itself a place, or the map for the artist. This open dialogue that wishes for a dialogue is always in the frontier, and it transforms itself while it goes forward..
Key-words: cartography, discourse, legitimization, wandering,
Resúmen: El artículo hace una breve introducción a la imagen del artista Errante que se adueña de su discurso y se autolegitima. El discurso es defendido como una herramienta cartográfica con la cual dibuja y activa el mapa por el cual anda. Esas muchas errancias, y los muchos proyectos y obras que nacen de la errancia, se defienden con el discurso que el artista inventa para sí. Ese discurso artístico hecho relato de viaje es ya un lugar, el mapa del artista. Fronterizo, es un discurso abierto que desea el diálogo, que se transforma en la medida misma en que anda.
Palabras-clave: cartografía, discurso, errancia, legitimación.
Minicurrículo: Sofia Bauchwitz é artista e pesquisadora. Teve bolsa de Iniciação Científica do CNPq para pesquisa sobre cultura popular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Fez Mestrado em Investigação em Artes e Criação na UCM (Universidad Complutense de Madrid) e Doutorado em Artes (2013-2017) nesta universidade, com bolsa da CAPES. Em 2015 teve residência artística no MAK Center de Los Angeles, no Museu de Arte Vienna, sobre Caminhos coexistentes.
O DISCURSO DO ARTISTA COMO CARTOGRAFIA
Sofia Porto Bauchwitz
Universidad Complutense de Madrid/CAPES
I.
“(…) perdidos somos, y es nuestra condena vivir sin esperanza en el deseo”
Dante Alighieri, Divina comédia, Canto IV,
Ao ver-se iniciada na psicanálise, não como terapeuta e sim como paciente, a artista passa a aproveitar aquela uma hora semanal como uma hora para passear pelos acontecimentos profundos e superficiais de seu cotidiano. Passeia em companhia de uma outra pessoa que aparentemente só escuta. Ao tentar expressar com palavras suas angústias, medos e experiências, a artista percebe as muitas vozes que se manifestam. Como paciente que, em um princípio, apenas acredita estar relembrando, voltando atrás no tempo de sua própria vida, acaba medindo-se pela resposta que poderá ou não receber daquele que escuta. A terapeuta, por outro lado, é em realidade a pessoa que, respondendo ao que ouve, ativa o processo – tão urgente – de empoderamento que a paciente precisa reiniciar. Na minha primeira sessão de psicanálise, depois de falar do dos meus abismos, recebi como réplica não a solução para meus problemas em forma de sentença, senão a ideia que eu deveria perseguir a partir daquele momento para sanar aquilo que eu ainda não sabia verbalizar: “Você precisa encontrar o seu lugar no mundo”.
Defender um discurso é posicionar-se em relação a alguém que escuta ou que quereremos que, escutando, responda. A arte implica tomar partido, defender uma forma, um conceito, uma ideologia. Por isso que a arte é, finalmente, uma experiência dialética. É, hoje, urgente pensar uma volta a essa relação com outro que escutando pode responder, e uma volta, primeiro, às nossas perguntas. Saber por que perguntamos o que perguntamos é cada vez mais importante. Pois, antes de ser um passeio cheio de respostas, o que a contemporaneidade traz consigo e comprova diariamente é que habitamos, cada vez mais e a cada novo dia, ruinas das certezas que tínhamos. A artista é aquela que caminha as incertezas e tenta edificar-se nas perguntas.
Para pensar o discurso artístico como cartografia é necessário relembrar como nas últimas décadas o artista contemporâneo tem perdido sua forma humana para vestir as peles das mais diferentes metáforas. Foi etnógrafo, foi nômade, foi planta. A imagem do artista parece mesmo ter deixado o ateliê para habitar não o espaço, senão o espaço-tempo do movimento, do movimento aventureiro e explorador. É certo que todo aventureiro volta para contar suas experiências, todo etnógrafo precisa afastar-se do objeto que estuda para traduzir o que viu, todo artista precisa encontrar uma forma de relatar seus passeios e devaneios. À diferença do explorador ou do etnógrafo, o artista parte sem ter certeza do que busca e volta, quase sempre, de mãos vazias.
Mãos vazias apenas no que se refere às conclusões tomadas a respeito daquilo que o obriga a andar. Andar e voltar a andar, o artista contemporâneo vive errando. Não só erra quando falha, erra, mormente porque é errático, errante. Dado a errâncias e experimentações. Há artistas que encontram seu caminho com mais facilidade, vão e voltam por ele fazendo poucos desvios. Outros, como eu, pois sou também artista e do tipo errante, não chegam a sentir-se a vontade em nenhum lugar específico. Insatisfeitos com as próprias descobertas não só seguimos andando por caminhos novos, mas também insistimos em caminhos já cruzados, na esperança de, desta vez, voltar algo mais satisfeitos.
Para prosseguir com a imagem do errante e explicar como o discurso funciona como ferramenta cartográfica, é oportuno esclarecer o que se entende aqui por Fronteira, Caminho e Mapa. Fronteiras são lugares onde mudanças ocorrem, é onde dois diferentes (dois territórios, dois países, dois corpos) se encontram. Dois ou mais, claro. Como todo encontro tensiona e vibra nos corpos que se encostam – ainda que muito sutilmente, das fronteiras, das tensões das fronteiras, algo sempre pode vir a ser. Comumente se pensa que a fronteira é a linha que divide os diferentes, mas, se bem se pensa na coisa, é justamente o contrário. Estas linhas tão frágeis que suportam as forças opostas desses dois distintos territórios são a força que juntam os diferentes, mostrando as tensões, permitindo que dessa potência alguma mudança ocorra. Por caminho se entende uma possibilidade espacial que se escolhe caminhar, uma rota pela qual fazemos e desfazemos nossas vidas.
(Material para You Can Touch Whatever is in your Way, 2015)
(Esta imagem é parte do projeto realizado pela MAK Schindler Scholarship Program, do MAK – Austrian Museum of Applied Arts / Contemporary Art, Vienna, em 2015).
Também são linhas, linhas que arrastamos com nossos pés pelo mapa. Mapa, aqui, é a representação metafórica do lugar onde tudo se dá. Um mapa que possui um epicentro e um abismo. Uma força violenta que atrai para o centro, outra força branda, mais silenciosa, que puxa certos corpos em direção à borda. Brevemente, é isso. Com esses simbolismos desenhamos o mundo pelo qual o errante caminha. É por esse mapa, deixando marcas pelo chão, arrastando suas muitas possibilidades como cordas, indo e voltando, aproveitando, não já o trajeto como aventura que visa um fim -e pelo qual ocorre transformações, mas desfrutando do trajeto como o trânsito em constante transformação que não visa nada além do próprio insinuar-se no mapa.
II.
Da mesma forma que os radicantes, essas plantas que avançam no terreno fazendo que suas raízes se territorializem e se desterritorializem, uma e outra vez, assim se comportam os artistas errantes. Fincando suas raízes e traduzindo-se ao novo solo – tradução sendo pensada como “essencialmente um ato de deslocamento”, pois, “provoca que o significado do texto se mova de uma linguagem a outra e põe os tremores associados a ele sobre a mesa.” (BOURRIAUD, 2009, 54). Cada vez mais me parece perceber um discurso vindo dos artistas em tom confiante da própria transdisciplinaridade do fazer artístico e do discurso que dele se faz.
Se hoje é quase impossível reduzir a criação contemporânea a um único meio, disciplina, tema ou área do conhecimento é principalmente porque os fluxos atuais de informação, possibilidades, tesões e pessoas pelo globo terrestre alimentam identidades várias, identidades que vestem as peles das heras e dos morangos, que fincam raízes temporárias por onde passam, e que nisso, não se identificam com esta cultura ou aquele idioma, senão com o constante desencontro que só visa a tradução de si mesmo, de um próprio a um devir-outro. Assumir esse estado transitório é assumir também a capacidade de falar desde diversos estados e diversos lugares. Essa capacidade é legítima e deve ser defendida diariamente.
Thomas Hirschhorn, artista suíço, ao defender para o artista, e desde o lugar do artista, o direito legítimo de decidir os termos e conceitos que falarão de sua obra, faz uma crítica aos discursos viciados e nebulosos que não parecem relacionar-se com nenhum indivíduo:
As an artist I am often surprised by effortless, inexact and empty terms or notions used in order to “explain” an artwork. I am astonished by the repeated and thoughtless use of terms in art critique. As the artist – I refuse to use them myself when I think it is not the right word to describe what I want. I have to invent my own terms and I want to insist with my own notions (HIRSCHHORN, 2010).
O ato discursivo não é e nunca será meramente informativo. A obra de arte e a arte não podem se resumir a esse fim, o de informar. Mais é mais. Não se pode ignorar que a obra responde primeiro ao artista, depois a aqueles que a frequentam. É antes uma pergunta em aberto que o artista se faz e que decide plantar no meio do caminho, como uma pedra (pedra que, no caminho, estará sempre aí – no espaço, para todos). Cada artista tem suas próprias noções e notações e coordenadas. Um acervo cheio delas para usar quando melhor lhe convir. Com elas escreve seu relato pelo mapa, conta de seus encontros e traduz as coisas vistas. Traduz primeiro para si mesmo, torna-se o encontrado. Depois fala da experiência. A própria escrita vai-se adaptando às diferentes peculiaridades que a identidade vai assumindo nesses muitos passeios. É assim como funciona, estamos ensaiando maneiras melhores de falar de nós mesmos, falar da nossa obra, nossas questões abertas. Um ensaio sempre mutante do discurso. É esse relato, que é relato de viagem, o que constitui a obra, finalmente. Relato que é mapa e que é ferramenta cartográfica ao mesmo tempo. É a última ferramenta empoderadora que ainda não foi totalmente incorporada ao mercado da arte. Seja privado ou oficial, é pelo discurso que podemos criar e reinventar os territórios que caminhamos e desenhamos como nossos mapas.
Grande parte do que se ensina superficialmente aos artistas, no desejo que a arte alcance o patamar das ciências, é a tão sonhada profissionalização do artista. Oficinas sobre como escrever um statement, o que por e o que não por numa biografia e em um currículo, como se vender melhor etc acabam sendo o meio pelo qual o sistema manipula o discurso artístico, como parte de uma agenda que tenta, sistematicamente, impor uma narrativa hegemônica nesse único espaço público onde o artista poderia expressar-se livremente. Reduzir o tempo que o artista tem para perguntar-se e para ensaiar suas vozes (processo pelo qual o artista se fortalece!) é a maneira mais eficaz de fragilizar seu verbo e mantê-lo inofensivo.
Machado Pais, sociólogo português, já havia atentado para esse errático e resistente:
(…) toda pergunta é um buscar. E como epistemologicamente método significa caminho e como o caminho se faz ao andar, o método que nos deve orientar é esse mesmo: o de trotar a realidade, passear por ela em deambulações vadias, indiciando-a de uma forma bisbilhoteira, tentando ver o que nela se passa mesmo quando “nada passa” (Pais, 1993, p. 113).
Nessa linha, acho interessante trazer um trecho que considero um bom exemplo de como romper as normas e defender para si, como artista, uma arte vadia do cotidiano. O documento é um statement do coletivo de performance natalense Coletivo ES3, enviando para compor o primeiro volume do projeto Fronteiras e Estados de Sítio. O texto foge completamente da noção comum de que um statement deve ter, quando muito, um pequeno parágrafo de umas quatro linhas sintéticas sobre o trabalho do artista e suas motivações. Com mais de duas páginas, o statement do ES3 veio com força de manifesto, usando e brincando com as palavras que eles escolheram para definir seus anseios. Optei por grifar as partes que dialogam diretamente com as ideias do artista errante.
Somos professores, e como tal somos questionados com frequência: “Para que serve a Arte?”, e, em situações práticas do dia-a-dia, ficamos inclinados a dizer “para nada”, mas nos recusamos.
(…) Basta olhar um pouco mais, de corpo inteiro, não é preciso muito. Buscamos os processos das coisas e esta é a ilha de resistência da arte que fazemos, a busca por processos nas coisas do dia-a-dia, naquilo que mais compreendemos como natural. O momento de contato com um trabalho artístico é o momento de ser afetado por algo usual ou não, mas que nos permite ver o mundo pelos olhos de um outro (corpo, tempo, lugar, mundo)
(…) Nosso corpo em ação é político, é investigador de espaços entre estados, culturas, entre corpos. No calor entre os corpos, no encontro entre um e outro, e na negação de um fechamento da dialética em direção as questões que se processam, inventamos nossa vida em performance. Nossas dinâmicas de criação artística partem de questões micropolíticas, questões que estão nas bocas banguelas, na volta de ônibus para casa, nas mesas dos bares, nas marquises populadas, nos dedos calejados que costuram, nos olhos atentos que desfiam. Pensamos estas micropolíticas enquanto ações em trânsito nas relações cotidianas, mais distantes de uma política partidária e mais próximas de atitudes focadas em questões mais específicas como o gênero, a fome, a impunidade, o direito à educação e à habitação, à ecologia, o amor, enfim, tudo aquilo que nos diz respeito e se entrelaça à vida.
(…) Performamos, instalamos, dançamos, fotografamos, videografamos, desenhamos, escrevemos, ocupamos o que nos toca, o que conosco vive, o que se compõe na paisagem complexa e irredutível de ser/estar aqui-lá-everywhere deste tempo, a excepcional instabilidade das poéticas de morte e vida, a inadequação as formas espetaculares, a inconformidade da gordura e dos músculos afetivos, as indóceis subjetividades, as indisciplinadas intimidades, o extrapolar das epistemologias, a ritualização do indomável dia-a-dia, os buracos negros ao lado das luzes do biopoder, o que diferentemente somos e deixaremos de ser.
(Coletivo ES3, 2014)
Há artistas que se recusam a adaptar-se a essas necessidades, não deixam traços de sua voz em seus portfólios e em suas páginas web. Nenhuma sentença que pareça sair de um corpo, nenhuma declaração que respire. Farão, talvez alguma que outra exceção quando o ofício (e o ofício sempre o faz) assim o exigir, mas, ali onde qualquer um pode ter contato com seus discursos, decidem calar. Uma escolha, é certo, e transgressora, também. Mas me parece que entre uma e outra, entre falar demais e não falar, simpatizo com os tagarelas, que praticam suas identidades nos textos e vozes que articulam em relação ao Outro, o Outro na fronteira.
Se esses discursos são o lápis que desenha o mapa do artista, é pelo discurso que podemos participar de sua travessia. Todos os distintos projetos que, em um começo, podem parecer confusos desde fora, demasiado diversos entre si, estão, pelo contrário, unidos por essas linhas que o artista arrasta com ele ao andar, pertencem, assim, ao mesmo cartógrafo, e configuram um mesmo mapa sempre em expansão. Essa expansão, que pressupõe um movimento, não é sempre do tipo nômade ou migrante. Há também o movimento das plantas, e não só as radicantes. A planta que não para em nenhum momento, cujo movimentar-se foge ao olho humano, que nada vê, e como não vê, dá por inexistente. Outro ritmo, sim. Não poderíamos sequer falar num ritmo mais lento. Para quê comparar? Outro ritmo e ponto. A planta move-se constantemente, crescendo, buscando.
(You Can Touch Whatever is in your Way, 2015)
(Esta imagem é parte do projeto realizado pela MAK Schindler Scholarship Program, do MAK – Austrian Museum of Applied Arts / Contemporary Art, Vienna, em 2015).
O artista errante é este que quer encontrar seu próprio ritmo. Pode não achar. Tentar é gesto político também. Trazendo, ainda, os estudos sobre ritmoanálise de Bachelard (2007), é bom pensar que entre o instante (o fato, o evento, a experiência) e o ritmo (o contínuo do cotidiano) há sempre um entreato, um descontínuo, que é o repouso. Por isso, abrir-se à errância não é só sobre mover-se como quem corre, como quem viaja geograficamente. O movimento está até quando, aparentemente, não está. Errância é habitar esse movimento desde o corpo. E dito isso, é impossível não lembrar-se desse verso, o favorito, de Hector Viel Temperley, o poeta de culto argentino, que em Hospital británico (1984) deixou a máxima: “Voy hacia lo que menos conocí en mi vida: voy hacia mi cuerpo”. Em espanhol é mais bonito. “Ir até o corpo”, “ir em direção ao corpo”, não se compara a esse advérbio de lugar arredondado: hacia. O corpo feito lugar desconhecido e sempre por conhecer. Como um lugar que não habitamos, mas que todos queremos alcançar. O corpo como quase. O corpo como utopia. O corpo como lugar. Talvez como esse lugar que perseguimos e que não conseguimos nomear.
É com grande dificuldade que se consegue falar, a partir de uma crítica institucional, a partir de uma posição de corpo como propriedade inteira, campo de certezas. Discutir o sistema é falar de dentro desse mesmo sistema. Andrea Fraser (2008) deixou isso claro quando defendeu que não há um fora da instituição Arte (como sistema, tecido, máquina), um fora do mapa que podemos habitar – como artistas e agentes artísticos, um fora desde o qual podemos apontar para o dentro e criticá-lo, e transformá-lo. Diz Fraser:
Se não há fora para nós, não é porque a instituição é perfeitamente fechada ou porque existe como aparato em uma “sociedade totalmente administrada” nem sequer porque se tornou algo que tudo abarca, tanto por seu tamanho como por seu campo de investigação – mas porque a instituição está dentro de nós, e não podemos estar fora de nós mesmos (FRASER, 2005, p. 184).
Para realizar uma crítica real, potente, é necessário, como escritores desse relato da Arte, que procuremos nos distanciar dessa ideia de artista como peça de um jogo de poderes, que obedece a normas e repete discursos externos. Dentro do que é possível fazer, que se faça. Falemos mais abertamente, abrindo nossos corpos para a fronteira. Reformulemos os dentro e os fora. Desfrutemos das fronteiras em quebra, arruinadas e reconstruídas.
Bio fornecida pelo palestrante.
Renan Kenji Sales HAYASHI
Universidade Estadual de Campinas
RESUMO: O presente resumo trata de uma análise de um conto do escritor japonês Kenzaburo Oe, tendo como motivação as questões do corpo, sexualidade e a produção de uma narrativa com verdades sobre si. Para tanto, empreendemos uma interpretação da obra com referências ao dispositivo foucaultiano, bem como a visão psicanalítica sobre a sexualidade e o corpo como lugar de práticas de veridição e dispersão do sujeito. Com o presente artigo desejamos tratar a questão atual sobre a intensa produção de verdade sobre o corpo e o sujeito, tendo a sexualidade como o lugar de encontro entre discursos, verdade e poder.
Palavras-chave: Sexualidade; Dispositivo foucaultiano; Literatura Japonesa; Kenzaburo Oe.
ABSTRACT: This article is an analysis of a short tale written by the Japanese writer Kenzaburo Oe, aiming at discussing body, sexuality and the production of a narrative about the self. We carried out an overview of this work with references to the Foucaultian device, as well as the psychoanalytical perspective about sexuality and the body as a place of self-taking practices and dispersion of the subject. By doing this, we wish to discuss the present issue of an intense production of truth about the body and the subject, sexuality being the meeting point between discourse, truth and power.
Keywords: Sexuality; Foucaultian device; Japanese literature; Kenzaburo Oe.
Minicurrículo: Doutorando em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES). Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB). Aluno egresso do Curso de Master in Teaching English as a Foreign Language (TEFL) pela Universidad de Jaén (UJA). Graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB). Docente de língua inglesa.
CORPO, VERDADE E PSICANÁLISE:
O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE NO CONTO
“SEVENTEEN”, DE KENZABURO OE
Renan Kenji Sales HAYASHI
Universidade Estadual de Campinas
“A pele está começando a ficar de uma palidez sombria, típica de masturbadores habituais, pode ser que eu esteja andando pelas ruas e por toda a escola apregoando: sou onanista. Ao me verem, as pessoas talvez percebam de imediato que me masturbo habitualmente. Pode até ser que elas já tenham intuído e digam, (…) ‘olhem, este cara costuma fazer aquilo’” (OE, 2011 [1961], p. 196).
Essa citação pertence ao conto “Seventeen”, do escritor japonês Oe Kenzaburo, o qual narra o conjunto de descobertas de um jovem morador de Tóquio sobre sua sexualidade, sobre a sociedade japonesa do pós-guerra e sobre o discurso político direitista da época. O mencionado conto é particularmente interessante para discussão de questões relacionadas ao dispositivo da sexualidade e sobre a [intensa] produção de verdade sobre si que a modernidade empreende sobre os sujeitos.
No presente artigo, abordaremos a temática do corpo e da sexualidade como elementos de constituição de uma narrativa sobre o sujeito pós-moderno, fragmentado e dividido, tido por Foucault como morto com o fim do sujeito cartesiano centrado. Com efeito, buscaremos problematizar como essas temáticas foram abordadas por Kenzaburo em “Seventeen”¸ para a composição de uma personagem que ver no corpo e nas práticas sexuais motes para a constituição e fragmentação de si, entre o cuidado e o controle, a junção e a dispersão, o alívio e a culpa.
Para tanto, lançaremos mão do conceito de dispositivo sexual, presente na obra foucaultiana, bem como uma proposta de análise da produção de verdade sobre a sexualidade pelo viés psicanalítico, tendo a obra de Kenzaburo como plano de fundo para a problematização da linguagem como lugar de veridição de si, bem como a dispersão do sujeito pós-moderno e sua sexualidade atravessada por discursos.
Sobre a questão do dispositivo na obra foucaultiana, Monique David-Ménard (2010, p. 322) assevera que esse construto pode ser entendido como “uma positividade e uma rede impessoal de atos, de regras, de relações”. Como tal, configura-se como uma análise de elementos dispostos um em oposição ao outro, rompendo uma possível conformação anterior e colocando em evidência as especificidades que compõem esse dispositivo em si. A autora segue afirmando que a definição de um dispositivo foucaultiano só ocorre a partir de transformações singulares nas instituições, na produção de saberes, em condutas e poderes, bem como formas de visibilidade e de discurso.
No tocante específico do dispositivo da sexualidade, Mendelsohn (2010) descreve que, a partir de uma leitura de Foucault, pode-se entender o dispositivo da sexualidade como o conjunto de estratégias de relações de poder que viabilizam a produção de saberes sobre a sexualidade, ao tempo em que se sustentam a partir dela.
Nesse contexto, Mendelsohn (2010) reitera que é precisamente no campo da sexualidade que se identifica um ponto de junção entre verdade, discurso e o sujeito, na medida em que o sexo é, por excelência, um registro de verdade, no qual dizer essa verdade é revelar aquilo que se tem de mais singularmente reconhecível.
À vista disso, o singular é menos o sexo em si, mas, sobretudo, o prazer que lhe é associado. Sendo esse prazer pensado a partir do dispositivo da sexualidade, o qual atua simultaneamente como um mecanismo de controle de práticas sexuais, bem como um mecanismo de veridição subjetiva[i], institui-se nos indivíduos algo do qual sempre estão culpados, quer se queira ou não, quer se saiba ou não, e esse algo é o prazer, na leitura da autora francesa.
Nesse sentido, lançamos mão de um excerto de Kenzaburo que ilustra esse ponto de culpabilidade do prazer na autoconfissão do protagonista que “imaginava que se eu fosse pego me masturbando eu me mataria de tanta vergonha. Isso era o drama genuíno do poder máximo do olhar dos outros e da fraqueza máxima da minha carne, horrorizada de vergonha” (OE, 2011 [1961], p. 234).
Nessa passagem, podemos ver uma produção de verdade sobre si do protagonista e de sua subjetividade enovelada pela sexualidade, notadamente marcada pela culpa e por esse prazer que lhe fora associado.
Sobre isso, Mendelsohn (2010) afirma que é a sexualidade que se apresenta como um ponto de junção entre essa verdade e o discurso. Rosa (2015, p. 185) salienta que “a sexualidade não existe fora de uma rede de enunciados ou de um conjunto de regras que a determinam e do qual fazem parte discursos como o da pastoral cristã, da medicina, da psicanálise” não sendo, portanto, possível separar a realidade fundadora e o discurso, tendo em vista que é por meio desse que a realidade pode ganhar existência.
A passagem que Kenzaburo traz em seu conto – abertura desse artigo – sobre a necessidade do personagem de produzir uma verdade sobre si frente à sua prática particular de busca de prazer – “sou um onanista” – descreve bem essa demanda de dizer o que é mais singular sobre sua existência, ou seja, sua sexualidade.
Posteriormente no conto, o escritor japonês exemplifica mais uma vez essa produção de verdade de si, descrevendo um fluxo de pensamento do personagem sobre seu sexo e uma vislumbrada impotência, no qual o protagonista “visualizando a mim mesmo aos quarenta anos a dizer: ‘tive os primeiros sintomas no meu décimo sétimo aniversário’, com as calças arriadas até os joelhos e exibindo ao psicanalista o meu inhame peludo e impotente. ‘Será que me excedi na prática daquilo, hein…?” (OE, 2011 [1961], p. 211).
Dessa forma, é interessante notar que o escritor descreve uma passagem de devaneio sexual com uma referência ao ato psicanalítico, no qual produz uma verdade sobre si, sobre sua sexualidade e a confessa/indaga a um sujeito da psicanálise que ouve.
Prata (2011) evidencia a relação psicanálise e a sexualidade a partir da hipótese repressiva e das práticas de confissão, questões já trazidas por Foucault nos volumes da História da sexualidade e salientadas pela autora brasileira. Segundo Prata (2011, p. 161), na hipótese repressiva, a psicanálise compreenderia a sexualidade pela via da repressão e da proibição, postura que desembocaria na perspectiva freudiana, relegando ao discurso psicanalítico uma função normativa do desejo e, em última instância, da sexualidade.
Nesse sentido, as práticas da psicanálise seriam marcadas pelo espectro de uma “codificação clínica do fazer falar” (p. 161). Já na prática da confissão, mais notadamente dentro da moral cristã, deve-se confessar incessantemente seus atos e tudo aquilo que se passa em sua mente, produzindo, assim, uma verdade sobre si.
Sobre isso, Foucault (2006 [1978]) assevera que o cristão deve confessar aquilo que ele traz de mais íntimo a alguém que está encarregado de dirigir sua consciência, o pastor, o qual imbuído de um poder individualista, poderá conduzir à salvação esse membro do rebanho que, porventura, tenha se desviado do que se considera a conduta desejada.
À vista disso, cumpre-nos questionar: por que é tão importante falar sobre si? Por que se faz tão necessário produzir verdades sobre si?
Mendelsohn (2010) pontua que dizer de si guarda estreita relação com a passagem da condição de indivíduo para sujeito, na medida em que na constituição da subjetividade, localizado no dispositivo da sexualidade, a passagem para sujeito é viabilizada a partir da existência de práticas discursivas que engajam o reconhecimento da fala como o local de enunciação da verdade, sendo a singularidade exigência da verdade.
Dessa forma, dizer de si, e, mas notadamente, dizer o que é singular de si produz uma verdade e essa exaustiva e constante produção de verdades sobre si se relaciona com a constituição da subjetividade atrelada ao dispositivo da sexualidade.
Contudo, Rosa (2015, p. 187) salienta que a verdade do sujeito está “condicionada ao fato de não dizer do sujeito senão quando submetida a certas circunstâncias ou condições de produção”. Portanto, é preciso dizer de si em condições específicas – consultório, divã, confessionário – e a indivíduos específicos – psiquiatra, psicanalista, padre, etc. A pesquisadora (ROSA, 2010, p. 190) ainda complementa que a produção da verdade pode ser entendida como um efeito de uma dupla insistência em dizer.
A primeira delas diz respeito a um controle exercido sobre o sujeito que o leva a crer que deve dizer exaustivamente de si a indivíduos de suposto saber – psicanalista, médico. Já a segunda, refere-se ao fato de o sujeito que fala crer que algo não está bem, portanto, deve ser “gerenciado” por esse outro indivíduo.
Esse último ponto é interessante e acreditamos que seja facilmente identificável na atualidade. Precisamos constantemente que um outro nos diga o que fazer com isso que acreditamos estar mal. Demandamos um padre que afirme que o que fizemos não é um pecado mortal, mas passível de redenção com um número específico de orações e penitências.
Necessitamos produzir verdades sobre nós ao médico e obter desse sujeito de um suposto saber um lastro de normalidade, semelhante ao que ilustrou Kenzaburo no conto em referência “(…) pensava que masturbação fazia mal à saúde, mas, depois de folhear um livro de medicina sexual numa livraria, soube que o único mal era o de sentir culpa por estar se masturbando” (OE, 2011, p. 194).
Nesse sentido, na modernidade, conforme pontua Rosa (2015), acreditamos na necessidade de constantemente confessar e produzir verdades sobre nós: que estamos acima do peso, que somos usuários de drogas ou que somos depressivos.
Conforme salientado nas subseções anteriores, toda essa produção reverbera sobre nós, pois ao dizermos, produzimos um conjunto de verdades sobre nós que, muitas vezes, não tínhamos conhecimento até o ato de dizê-las. O conto “Seventeen” de Kenzaburo é bastante ilustrativo sobre a questão da sexualidade, verdade e a veridição do sujeito. O trato da questão do sexo conduzida pelo escritor japonês no conto, ora com sutileza, ora com intensidade cortante, nos faz refletir sobre que verdade temos produzido desde nossos seventeen?
Mais que isso, a quem concedemos o espaço do outro que ouve as nossas verdades? A problemática da produção de verdades de si e o dispositivo da sexualidade é, sem dúvidas, um campo de investigação bastante amplo e interessante, tendo sido esse artigo uma investida de análise que tentou combinar a leitura de um autor de literatura japonesa contemporânea, sobre a temática da sexualidade, com uma aproximação da proposta foucaultiana de estudo da produção de verdade e constituição da subjetividade.
Kenzaburo utiliza de maneira magistral o corpo como um lugar de rarefação do sujeito, de esvaziamento de si frente a uma infinidade de discursos que, ora fragmentam ainda mais esse ser que já se encontra demolido, ora incidem e insistem para que a produção de uma verdade sobre sua sexualidade seja, de alguma forma, parte de um processo que tenta reunir pedaços de um todo que não poderá se integrar novamente.
A leitura do conto de Kenzaburo oportuniza uma reflexão sobre um jovem que, numa Tóquio do pós-guerra, se vê às voltas como seus conflitos familiares, com um país com intensa demanda de reconstrução, uma direita partidária que quer se reerguer em meio a um cenário subjetivo de conflitos e irresoluções pessoais que muito mais do que dizer para si, demandam que se diga de si, em jogo com o ponto que une a verdade e o discurso, corpo e o sexo, o ser e o sujeito.
Sem grandes dificuldades, podemos ver esses mesmos conflitos do jovem retratado na década de 1950 no Japão, nos dias atuais na sociedade brasileira, na qual a crise econômica clama por uma solução imediata, a direita ganha força sem precedentes e a produção de uma verdade sobre si e sobre a sexualidade nunca foi tão grande e demandada.
Contudo, diferentemente do desfecho do conto de Kenzaburo, não permaneceremos com nossos seventeen, importando uma tomada de decisão frente a essa exacerbação de situações e essa projeção superdimensionada de um sujeito que pensa que sabe produzir uma narrativa sobre si, mas que na verdade, tem encontrado no corpo e na sexualidade uma forma de esquecimento e dispersão, de apagamento das verdades e construção de grandes contos, mas sem a beleza e a estética de uma história de um certo escritor japonês.
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NOTA AO TEXTO
1 Veridicção é um termo cunhado por Michel Foucault que se refere a uma afirmação que é verdadeira de acordo com a visão de mundo de um determinado indivíduo, e não se tratando tanto de uma verdade universal. É uma visão verdadeira apenas em função do ponto de vista subjetivo do sujeito falante, portanto é uma visão particular dele, e não baseada na verdade objetiva. NOTA DA REDAÇÃO.
Bio fornecida pelo palestrante.
Edelson Geraldo Gonçalves
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Resumo: No presente artigo será feita a análise de como os contos fantásticos de Lafcadio Hearn contidos em livros como Kwaidan e A Japanese Miscellany inserem-se na tradição da literatura japonista, e como também a temática desses contos contribui para inserir seu trabalho ficcional na tradição da literatura gótica.
Palavras-chave: Lafcadio Hearn, contos, japonismo, literatura gótica.
Abstract: This article will analyse how the fantastic tales by Lafcadio Hearn included in books such as Kwaidan and A Japanese Miscellany are part of the Japonist literary tradition. It will also examine how the theme of these stories can allow us to classify his fictional work also in the Gothic literature tradition.
Keywords: Lafcadio Hearn, tales, Japonism, Gothic literature.
Minicurrículo: Edelson Geraldo Gonçalves é doutorando em História Social das relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com bolsa de estudos concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES). Possui também mestrado em História Social das Relações Políticas pela UFES, e experiência no ensino de História nos níveis fundamental, médio e superior.
O JAPONISMO GÓTICO DE LAFCADIO HEARN
Edelson Geraldo Gonçalves
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Introdução
Lafcadio Hearn (1850-1904) é conhecido como uma referência no estudo da cultura japonesa, sendo também um autor de destaque no campo da literatura fantástica, principalmente por seus contos baseados no folclore japonês, sendo os de maior sucesso aqueles que compõem o livro Kwaidan, a mais difundida entre as obras do autor, sendo inclusive o único de seus trabalhos publicado no Brasil.
O presente artigo terá como tema a literatura fantástica desse autor, abordando a forma como essa compõe a tradição o do japonismo da segunda metade do século XIX, assim como parte da tradição da literatura gótica. Para isso faremos uma apresentação do autor e de sua obra, uma exposição sobre a natureza do japonismo e por fim uma análise das características gerais que são comuns nos contos fantásticos de Lafcadio Hearn.
O Autor
Lafcadio Hearn foi um escritor grego-irlandês que fez sua carreira literária escrevendo para o público de língua inglesa; primeiramente como jornalista nos EUA, onde se destacou como tradutor de literatura francesa e também por seus artigos sobre a vida dos afro-americanos de Nova Orleans.
Além de escrever vários artigos e um livro, de grande valor etnográfico enquanto viveu nos EUA até 1890, Hearn também foi romancista e contista, primeiramente com os livros de contos Stray Leaves From Strange Literature (uma coletânea de contos fantásticos originários de várias culturas), de 1884, e Some Chinese Ghosts (uma coletânea de contos chineses de fantasmas) de 1887. Posteriormente publicou os romances Chita (1889), uma história que tem como pano de fundo a chegada do Tufão de Last Island na Louisiana em 1856, e Youma (1890) romance que tem como motivo as revoltas de escravos na Martinica na década de 1840).
Em 1890 Hearn viajou ao Japão, com o objetivo de estudar a cultura e o cotidiano do povo japonês, buscando o coração (kokoro) do Japão em sua tentativa de decifrar e compreender temas como as emoções e espiritualidade desse povo (HEARN, 1910, p. ii).
Para cumprir tal objetivo Hearn passou os últimos quatorze anos de sua vida entre os japoneses, tendo se naturalizado japonês, adotando o nome de Yakumo Koizumi, trabalhado como professor e jornalista e constituído família nesse país.
Dessa forma no intervalo entre 1894 e 1905 foram publicados quatorze livros de Lafcadio Hearn que tiveram o Japão como tema[1], publicações que o marcaram na época e ainda hoje como uma das grandes referências sobre a interpretação da cultura japonesa.
Nesses livros Hearn tratou de vários temas: estudos etnológicos, folclore, religião, política, relatos de viagens, etc. Mas além disso o autor também publicou entre seus escritos vários contos ambientados no Japão, sendo em sua maioria histórias fantásticas de fantasmas e duendes, assuntos que estavam entre as grandes paixões desse escritor, sendo inclusive dentro dessa temática que se localiza seu livro mais famoso (e seu único trabalho publicado no Brasil), Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things[2].
Tais escritos pertencem a um gênero artístico específico, o japonismo, tema que abordaremos no próximo tópico.
O Japonismo
O termo japonismo (japonisme) foi cunhado pelo colecionador e crítico de arte francês Philippe Burty (1830-1890) como o título de um artigo seu na revista La Renaissance artistique et littéraire, na edição de maio de 1872 – fevereiro de 1873, termo esse também traduzido para o inglês (japonism) em um artigo desse autor para a revista inglesa The Academy de agosto de 1875, sendo o conceito de japonismo definido pelo autor como “um novo campo de estudos, artísticos, históricos e etnográficos” como também “o estudo da arte e gênio do Japão” (KUNIYOSHI, 1998, p. 76-77). Contudo o japonismo que aqui abordamos limita-se a produção artística desse período que tem o Japão como tema (literatura, teatro, ópera, pintura, etc.), seja ela produzida por ocidentais, ou mesmo a arte japonesa (como as pinturas de Hokusai) exposta no Ocidente.
No entanto convencionou-se entender por japonismo a influência da arte japonesa no Ocidente, sendo que o interesse inicial pela arte japonesa e que levou a essa influência; manifesta primeiro na pintura e posteriormente em campos como a moda, arquitetura, decoração, espetáculos e literatura. Serão a esses dois últimos campos que daremos ênfase no presente artigo.
O Japonismo na Literatura e Espetáculos
O japonismo alcançou a literatura primeiramente e principalmente em livros do romancista francês Pierre Loti; nom de plume do oficial da marinha francesa Julien Viaud (1850-1923) (KUNIYOSHI, 1998, p. 86); um escritor de tipo notório do período que Hobsbawm chama de “Era dos Impérios”, ou seja um viajante ocidental (soldado, jornalista, administrador colonial, aventureiro, etc.) que escreve sobre um ambiente exótico; figura tornada mais possível e recorrente graças ao maior acesso aos territórios da África e da Ásia no dado período. Logo, Loti é um escritor de um tipo e geração que inclui outros como Joseph Conrad (1857-1924), Rudyard Kipling (1865-1936), Karl May (1842-1921) e mais tardiamente Sax Rohmer (1883-1959) (HOBSBAWM, 2005, p. 119).
A matéria prima do legado literário de Loti foram suas viagens como oficial marítimo, trabalho que possibilitou que escrevesse sobre variadas paragens (Turquia, Taiti, Senegal, Indochina, Japão, Marrocos, Argélia, Palestina, Índia, China e Egito) em seus relatos de viagem e romances. O Japão foi tema de três de suas obras: Madame Chrysanthème (1887), Japoneries d’Automne (1889) e La Troisième Jeunesse de Madame Prune (1905), sendo que o primeiro e terceiro eram romances e o segundo um relato de viagem.
Entre seus três livros sobre o Japão, Madame Chrysanthème foi sem dúvida o de maior destaque, não apenas por ser a obra inaugural da literatura japonista, como também provavelmente a obra de maior sucesso de Loti e talvez o livro de maior notoriedade na época, entre aqueles que tinham a Japão como temática, sendo para muitos leitores ocidentais (quiçá a maioria) a obra que lhes apresentou o país do sol nascente (DANTAS, 2011, p. 23).
De maneira sumária podemos descrever Madame Chrysanthème como um romance semiautobiográfico, em que Loti, após uma estada de dois meses no Japão, (e como em textos passados sobre Taiti, Turquia e Senegal) faz o relato de um relacionamento romântico de um marinheiro francês (Pierre) com uma moça local. Esse relacionamento, que tem a cidade de Nagasaki como cenário, é descrito por Loti como um “casamento”, sendo para o francês uma relação tediosa e decepcionante, contudo, às vésperas de sua despedida, Pierre começa a entender sua noiva, partindo, no entanto, com a certeza de que jamais poderia se tornar realmente afeiçoado a ela (KAWAGUCHI, 2010, p. 118-119).
Esse livro, que veio a impingir nas mentes de seus leitores não iniciados na cultura japonesa a imagem de um país que pode ser descrito quase que exclusivamente por adjetivos predominantemente redutivos e degradantes como “pequeno”, “artificial”, “polido”, “animal”, “monótono”, “frágil”, “velho”, “cerimonioso”, “numeroso”, “servil” e “simples”; palavras que juntamente com seus sinônimos “retornam incessantemente, insistem e terminam por imprimir uma imagem” e pelo “sucesso extraordinário das obras de Pierre Loti, a visão do Japão nessa época passava forçosamente por esse filtro” (DANTAS, 2011, p. 24).
Tão notável quanto o sucesso com o público leigo, foi a rejeição que o livro de Loti sofreu nos círculos efetivamente iniciados na cultura japonesa, e também entre o público japonês leitor de língua francesa. Para o romancista brasileiro Aluísio Azevedo que teve contato com o livro em sua estadia como vice-cônsul no Japão entre 1897 e 1899, a leitura foi uma experiência revoltante, que o encorajou a escrever o seu próprio livro sobre o Japão, uma obra que transmitisse uma visão mais justa do país e pudesse ajudar a sanar os danos causados por Loti a imagem daquela nação (DANTAS, 2011, p. 13, 24). Segundo o encarregado de negócios brasileiros no Japão entre 1901 e 1902, o também brasileiro Oliveira Lima (1997, p. 33); “Não existe livro mais superficial em sua fofice e mais falso em seus arrebiques do que o celebrado romance de Pierre Loti”, que, “contudo, passou e passa ainda entre certos grupos de leitores, e, o que mais é, de viajantes, pela fiel imagem do Japão”. A esses exemplos podemos acrescentar ainda a opinião de um notável estudioso da cultura japonesa do período, o filólogo Basil Hall Chamberlain (1905, p. 69), que tece o seguinte comentário sobre o bestseller de Loti: “[…] sua inexatidão e superficialidade vão contra a corrente [da qualidade da bibliografia na época recente sobre o Japão]”. Acrescentando ainda: “Não obstante, as ilustrações de seu Madame Chrysanthème são muito belas, e sua impressão tipográfica o torna digno de se folhear, embora o volume não possa ser de maneira nenhuma recomendado a moças ou a missionários”.
Contudo, a despeito das opiniões de intelectuais, o sucesso geral da obra de Loti fez com que essa inspirasse o surgimento de outras obras semelhantes, tanto no próprio campo da literatura; com o conto Madame Butterfly de John Luther Long (1861-1927), publicado pela primeira vez na revista nova-iorquina Century Magazine em 1898, quanto no campo dos espetáculos, onde o romance de Loti foi adaptado para a ópera (na França) por André Messager (1853-1929) e Georges Hartmann (1843-1900) em 1893, seguido em 1900 pela adaptação do conto Madame Butterfly de John Luther Long para o teatro, feita por David Belasco (1853-1931), sendo este também adaptado, de maneira célebre para a ópera italiana por Giacomo Puccini (1858-1924) e Luigi Illica (1857-1919) em 1904 (KAWAGUCHI, 2010, p. 118-120, 131-132).
Com sua influência, a Madame Chrysanthème de Loti pode não ter sido a responsável primeira pela migração do japonismo para o mundo dos espetáculos; uma vez que a primeira obra de tema japonista nesse campo foi a ópera inglesa The Mikado da dupla William Schwenck Gilbert (1836-1911) e Arthur Sullivan (1842-1900) [Gilbert & Sullivan], que estreou em Londres em 1885; mas nesse processo ajudou a disseminar e cristalizar tanto a tendência orientalista de erotizar as mulheres do leste do planeta, como consumou a imagem da gueixa como um estereótipo central do comportamento das mulheres japonesas (KAWAGUCHI, 2010, p. 111; LITTLEWOOD, 2006, p. 120-124).
Esse estereótipo (que não foi criado nessa época, embora nela tenha sido reforçado) já se mostrava evidente no musical produzido por George Edwardes (1855-1915), The Geisha, que estreou na cidade de Londres em 1896.
Nesse espetáculo é contada a história de Molly Seamore; a noiva de um oficial da marinha britânica, chamado Reginald Fairfax; que vai até o Japão atrás de seu noivo visando recuperar o seu amor, que foi perdido para a gueixa Mimosa San da casa de chá dos Dez Mil Prazeres, pela qual o marinheiro se apaixonou. Para isso a moça disfarça-se como uma gueixa, chamada Roli-Poli. A parte principal da ação ocorre na resistência a um nobre japonês, que tenta forçar que todas as gueixas da casa de chá sejam vendidas para ele, para comporem seu harém. Ao final todas as dificuldades são superadas e a moça alcança seu objetivo (KAWAGUCHI, 2010, p. 113).
Independente da pouca compreensão ou mesmo consideração que os autores das ficções anteriormente citadas tivessem sobre o Japão e sua cultura (como fica evidente, por exemplo, nos nomes dos personagens dessas obras), essas obras foram de decisiva importância para a formação de uma imagem do Japão no imaginário popular ocidental.
O Japonismo de Lafcadio Hearn
Lafcadio Hearn tinha uma grande admiração pela obra de Pierre Loti, mas também tinha a opinião que suas descrições da cultura japonesa eram inadequadas, apesar da inegável beleza de seus escritos (HEARN, 1915, p. 85-86).
A literatura japonista de Hearn foi ao contrário da de Loti, construída com base sólida em sua longa vivência entre os japoneses, e de suas pesquisas voltadas principalmente para as crenças religiosas e superstições populares desse povo, o que resultou em uma produção ficcional baseada principalmente em histórias de terror.
Para Hearn (1894, p. vi-vii) a religião e as superstições seriam uma chave central para compreender a forma de pensar de qualquer povo, e para compreender tal faceta da cultura do Japão, afastou-se dos japoneses urbanos, que no geral considerava por demais ocidentalizados, concentrando suas pesquisas longe das metrópoles como Tóquio e Yokohama, escolhendo ao contrário vilas do campo e cidades interioranas como Matsue e Kumamoto, nas quais viveu e trabalhou como professor.
Entre seus contemporâneos que estudavam a cultura japonesa, Hearn destacava-se pela atenção que dava ao Shinto (ou Xintoísmo) como um elemento formador não apenas da moralidade japonesa, como também da própria organização social, desde a família até o Estado.
Seus contos de terror foram espalhados pela sua bibliografia, uma vez que raramente escrevia livros que não fossem coletâneas de variados textos (ensaios, memórias, contos, etc.) com pouca unidade temática. Tais trabalhos concentraram-se nos livros Japanese Fairy Tales, In Ghostly Japan, A Japanese Miscellany, Kotto e principalmente, Kwaidan.
Os contos contidos nessas obras são sobre fantasmas (yurei) e duendes (yokai) japoneses, não sendo meras criações do autor, mas sim sua versão de contos fantásticos populares (kaidan) colhidos em suas pesquisas de campo e de antigos livros japoneses, enriquecidos com notas de suas pesquisas históricas e etnológicas em torno desses temas.
Entre seus contos mais famosos podemos destacar A História de Mimi-nashi-Hoishi, Yuki-Onna e A Promessa. Os dois primeiros foram publicados no livro Kwaidan, de 1903, enquanto o terceiro está presente no livro A Japanese Miscellany, de 1901[3].
A primeira história é sobre um músico cego, hospedado em um templo budista. Esse músico é chamado por um samurai para fazer uma apresentação na corte de um nobre, e vai sem saber que estava se dirigindo a uma corte de fantasmas, os espíritos do extinto clã Heike[4] (HEARN, 2007, p. 23-32). A segunda história é sobre um lenhador, que em meio a uma nevasca encontra a Yuki-Onna, uma entidade das neves que mata pessoas em meio ao frio (em outras palavras uma espécie de fada ou duende). No entanto o lenhador é poupado pela aparição, que preserva sua vida em troca da promessa de que nunca revelaria a ninguém o que viu naquela noite; uma promessa que encontraria dificuldades em cumprir (HEARN, 2007, p. 76-80). A terceira história é sobre um homem que no leito de morte de sua jovem esposa promete a ela que jamais se casaria novamente, mas por pressão de seus vizinhos acaba casando-se mais uma vez, e sua nova esposa passa a ser assombrada pelo fantasma da esposa anterior (HEARN, 2007, p. 111-114).
Além de retratar crenças populares ainda em voga entre grande parte dos japoneses do final do século XIX, de forma geral aspectos interpretação que Hearn faz da cultura japonesa em seus ensaios etnológicos e históricos também aparecem nesses contos, como por exemplo em um momento do conto A Promessa, ao pressionarem o protagonista a casar-se os vizinhos argumentam que ele ainda era jovem e sem descendentes, e que por isso precisaria de filhos para no futuro fazer as oferendas e lembrar os ancestrais (HEARN, 2007, p. 112). Nesse trecho Hearn chama a atenção para uma tese central de sua interpretação sobre a cultura japonesa, a de que a principal razão da existência das famílias japonesas, desde a antiguidade, seria justamente a de preservar o culto aos espíritos dos ancestrais, para que não se tornassem espíritos malfazejos (HEARN, 1906, p. 35, 79).
Ainda devemos levar em consideração o fato de serem um reflexo das crenças populares do meio rural japonês da época em que escreveu, como o conto de Yuki-Onna, com o qual teve seu primeiro contato em um festival xintoísta da cidade de Matsue, quando um jardineiro lhe contou sobre ele (HEARN, 1894b, p. 637-638).
Uma característica peculiar dos contos fantásticos japoneses escritos por Lafcadio Hearn é o estilo gótico que o autor atribuiu a eles, não apenas por terem o horror, fantasmas e entidades malignas como tema, mas também pelo fato de seus contos se ambientarem na época dos samurais, comumente tida como uma era feudal, muito semelhante a Europa da Idade Média.
Dessa forma a literatura japonista de Hearn é marcadamente gótica, contendo características clássicas que definem esse gênero segundo Hogle (2002, p. 2), como ambientes arcaicos (à exemplo das ambientações dos três contos aqui citados como exemplo, um templo budista, uma floresta, uma casa de samurais; além do próprio cenário geral do Japão pré-moderno), o passado voltando para assombrar os protagonistas (como os fantasmas dos Heike no primeiro conto, ou as promessas dos dois contos seguintes), a presença de fantasmas e monstros (os fantasmas dos Heike, a Yuki-Onna, o fantasma da esposa morta).
Segundo Sukehiro Hirakawa o amplo contato que Hearn teve com histórias fantásticas de origem camponesa (por intermédio dos criados de sua casa) em sua infância na Irlanda, deram forma ao seu japonismo, e podemos isso com suas referências literárias, como Edgar Alan Poe (1809-1849) e Théophile Gautier (1811-1872), dois de seus autores favoritos (MURRAY, 2005, p. 31, 72).
Dessa maneira podemos concluir que a grande característica do japonismo de Lafcadio Hearn era sua natureza gótica. Essa característica é notável na obra de Hearn sobretudo pelo contraste com os outros autores japonistas de sua época, que preferiam explorar a sensualidade exótica do universo feminino japonês, sobretudo o mundo das gueixas.
REFERÊNCIAS
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MURRAY, Paul. A Fantastic Journey: The Life and Literature of Lafcadio Hearn. Nova York: Routledge, 2005.
NOTAS AO TEXTO
[1] O último livro de Hearn, The Romance of the Milky Way and Other Studies and Stories, é uma publicação póstuma; reúne artigos inéditos do autor.
[2] No Brasil, esse livro foi publicado primeiramente com o título Kwaidan: Assombrações, em 2007, pela editora Claridade, e posteriormente em 2014, no formato digital, pela editora NSP, com o título Kwaidan: Contos do Sobrenatural.
[3] Esses três contos estão presentes na edição brasileira de Kwaidan, publicada pela editora Claridade, que foi a edição consultada para o presente artigo.
[4] Ou clã Taira, derrotado em uma luta pelo poder no Japão na Batalha de Dan no Ura, em 1185.
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA – LITERATURA E CULTURA
janeiro de 2017.
ARNAUD, Marília. Liturgia do fim. São Paulo: Tordesilhas, 2016. 150 p.
Paula Queiroz Dutra
Universidade de Brasília
Em seu segundo romance, a escritora paraibana Marília Arnaud apresenta a história de uma família em uma pequena cidade fictícia chamada Perdição. Com um narrador protagonista masculino, Arnaud retrata as raízes e as consequências de uma sociedade sexista e patriarcal. Narrado por Inácio, o romance relata o retorno desse homem, de vida aparentemente simples, mas que se consome em segredos, para a sua cidade natal, cujo nome já nos dá pistas de que algo se esconde nesse lugar onde ele passou sua infância e juventude. Entre presente e passado, Inácio navega por suas lembranças, às vezes bem amargas, de uma infância em um lar liderado por um pai opressor, uma mãe totalmente submissa e o sofrimento que esse ambiente austero, e por vezes violento, causou nele e em suas irmãs.
Professor e escritor, sempre enveredado pelo mundo dos livros e das palavras, seu refúgio desde a infância, Inácio inicia seu percurso relembrando o dia em que saiu de casa, aos 18 anos, expulso pelo pai. O sofrimento da mãe ante a partida do filho, silenciando sua opinião para não enfrentar o marido, é algo que fica como uma marca na vida de Inácio.
A relação do narrador com o pai, desde o início, foi marcada por enfrentamentos e decepções, afinal Inácio, mais interessado nos livros do que em desempenhar tarefas que o pai considerava mais ‘masculinas’, é constantemente rechaçado pelo pai. Em nossa sociedade, são vários os elementos e as instituições que exercem o que Guacira Lopes Louro (2007) chama de pedagogia da sexualidade, que tenta disciplinar os corpos para que sigam a norma heterossexual compulsória. A escola é, sem dúvida, uma delas, pois permite formas legitimadas de violência entre os próprios alunos, e tem um papel importante no processo de escolarização do corpo e na produção das identidades de gênero e sexual. Aprendemos, através das diversas redes de poder que constituem a sociedade, a classificar os sujeitos pela forma como eles se comportam e como se apresentam corporalmente. De forma semelhante, é na família que essa pedagogia também se exerce e, como vemos no romance, o pai critica e pune frequentemente os filhos com o intuito de mantê-los dentro da norma, do que se espera de homens e mulheres em uma sociedade patriarcal. No entanto, isso não se dá sem violência física, psicológica e emocional, e suas consequências para a vida de todos os membros dessa família são evidentes.
Trinta anos depois, cansado de lutar para esquecer as lembranças e os segredos que fizeram dele um homem triste e com dificuldade para se relacionar com os outros, além de um marido e pai ausentes, Inácio decide retornar para a cidade de Perdição e enfrentar os fantasmas de um passado que ainda hoje o atormenta. Abandona o emprego, a esposa e a filha e, sem data para voltar, viaja para o interior onde reencontra o pai, já velho e debilitado, bem diferente do homem autoritário cuja lembrança o acompanhou durante todos esses anos, e a empregada Damiana, única sobrevivente de uma época marcada por acontecimentos trágicos.
A casa em ruínas que Inácio encontra é palco de lembranças e medos que afloram, junto com muitos questionamentos sobre a própria vida, sua relação com o mundo e sobre o homem em quem se transformou. É também um espelho dessa família que se desestruturou por conta da opressão e do autoritarismo de um pai, silenciando sonhos e possibilidades de esperança e amor. O retorno a Perdição é uma busca por si mesmo, alimentado pelo desejo de recuperar o que se perdeu nesse caminho tortuoso de crescimento e mágoas, e também um reencontro com o pai com o qual talvez seja possível traçar mais semelhanças do que o próprio Inácio almejaria. O retorno é, portanto, reencontro e ruptura, fim e recomeço.
Este rito de fim, de Marília Arnaud, é marcado por um cuidadoso trabalho com a linguagem, o que dá ao texto ritmo e fluidez, transportando o leitor para um lugar remoto, cheio de lembranças por vezes sombrias, outras mais arrebatadas, como a descoberta do amor pelo jovem Inácio, carregado de elementos que caracterizam a obra de uma grande escritora. Através da narrativa de Marília Arnaud somos levados a refletir sobre as relações familiares e suas hierarquias, sobre a violência que ainda é tão comum no ambiente doméstico, sobre suicídio e também sobre a possibilidade de um dia encontrar na vida alguma redenção.
REFERÊNCIAS
LOURO, Guacira Lopes. “Pedagogias da sexualidade”. In: LOPES (Org.) O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 9-34.
Paula Queiroz Dutra é doutoranda em Literatura e Práticas Sociais na Universidade de Brasília e Mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia. E-mail: qpaulad@gmail.com
Bio fornecida pelo palestrante.
Marina da Rocha
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Douglas R. da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Resumo: Sob um viés comparatista, a presente investigação articula as poéticas contemporâneas de autoria de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst, com o aporte crítico dos estudos de gênero. O intento é transitar entre os corpos poéticos produzidos e inseridos no legado literário das autoras. A constituição das noções de corpos poéticos fundamenta-se, sobretudo, nos estudos de subjetivação identitária aliada à revisão bibliográfica de Judith Butler (2004) e J. L. Austin (1990), que discorrem sobre a performance no eixo corpo-linguagem. Face ao exposto, os resultados da pesquisa evidenciam os cenários cuja corporalidade poética descria e inventa inéditas formas corpóreas. Como conclusão, sobreleva-se um escopo poético centrado na “atividade reflexionante”, de acordo com os princípios propostos por Friedrich Schiller (1991).
Palavras-chave: Poéticas Contemporâneas. Corpos. Autoria Feminina.
Abstract: From the perspective of Comparative Literature studies, this article articulates the contemporary poetics of Ana Cristina Cesar and Hilda Hilst, with the critical contribution of gender studies. Its intention is to travel between both poetic bodies produced and inserted in the literary legacy of the authors. The notion of poetic bodies is based, above all, on the studies of identity subjectivity, besides the bibliographical review made by Judith Butler (2004) and J. L. Austin (1990), which discuss performance in the body language segment. The results of the research highlight scenarios in which poetic corporeality undoes or invents new body forms. In conclusion, this article emphasizes that contemporary poetry is centered on “reflective activity,” according to the principles proposed by Friedrich Schiller (1991).
Keywords: Contemporary Poetics. Bodies. Women Writing.
Minicurrículos: Marina da Rocha é Mestranda em Educação no Programa de pós-graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, com bolsa da CAPES. É graduada em Letras – Português e suas respectivas Literaturas. Atua como Professora de Literatura na rede estadual de ensino, no Rio Grande do Sul.
Douglas R. da Silva é integrante do Núcleo de Pesquisa em Gênero – NPG e do Grupo de Pesquisa “Poéticas Contemporâneas”, do CNPq. É licenciado em Letras – Português/Inglês. Atualmente cursa o mestrado em Literatura Comparada no PPGLet/UFRGS.
IMBRICAMENTOS SUBJETIVOS NA TESSITURA POÉTICA – UMA LEITURA DOS CORPOS EM ANA CRISTINA CESAR E HILDA HILST
Marina da Rocha
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Douglas R. da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Poéticas pós-modernas: acerca do rompimento
Com a finalidade de especificar certo eixo temporal e estilístico, é considerado que a produção poética de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst se movimenta inerente a uma perspectiva nomeada de poéticas pós-modernas. Mediante ao exposto, a delimitação dos gêneros, neste período, se torna mais abrangente, híbrida e irrestrita. As poéticas pós-modernas convertem as propriedades de uma obra pós-moderna dentro de uma essência peculiar, uma vez que “uma transgressão tipicamente pós-moderna de limites é previamente aceita” (HUTCHEON, 1988, p. 9).
Parte das reflexões apresentadas em O que é pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos, se encaminham nesta compreensão, complementando-a. A partir das possibilidades e das não-fronteiras exploradas no pós-modernismo, o autor enfatiza que
(…) o pós-modernismo desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades. A des-referencialização do real e a des-substancialização do sujeito, motivadas pela saturação do cotidiano pelos signos, foram os primeiros exemplos. (…) Entendamos ainda que o pós-modernismo é um ecletismo, isto é, mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome. Ele não tem unidade; é aberto, plural e muda de aspecto (…). Inacabado, sem definição precisa, eis por que as melhores cabeças estão se batendo para saber se a “condição pós-moderna” (…). Para dor dos corações dogmáticos, o pós-modernismo por enquanto flutua no indecidível (SANTOS, 1986, p. 19).
Diante da elucidação, o que pode se esperar do tecer poético tanto de Ana Cristina Cesar como de Hilda Hilst – que tiveram produção literária em realce nos anos 70/80, período em que a influência pós-modernista é nítida no âmbito literário – é, no mínimo, um afastamento das convenções consagradas na escrita da poesia, para uma aproximação com aquilo que transitava diante de vontades inerentemente particulares de compor. Na obra das autoras, há o heterogêneo, o enleado, o caos: todos eles, não apenas como expressão da face pós-moderna, mas também como símbolo do identitário de cada uma. Ambas acentuam, na forma e na essência, o avultamento do ser – como um traço temporal e também como traço subjetivo daquela que cria.
Imbricações da subjetividade, corpos poéticos e performance
O filósofo Mikel Dufrenne sinaliza que “o poético define um modo de ser da subjetividade” (1969, p. 10). Em linhas gerais, abre-se a possibilidade para pensar que o envolver-se na escrita é também envolver-se com as totalidades do ser subjetivo, dando a este não apenas a habilidade de expressão, como também a liberdade de ser ressignificado a partir dos olhares daqueles/as que contemplam o fazer-do-corpo-poético.
Em diálogo com as noções encontradas em Dufrenne (1969), pode-se pontuar a ideia de “atividade reflexiva ou reflexionante” abarcada na obra de Schiller (1991), denominada Poesia ingênua e sentimental. Neste livro, o autor discorre sobre o desencadear da reflexão do poeta sentimental, indicando que
(…) o poeta sentimental não apenas reflete, mas também convida o leitor a percorrer o mesmo fio de raciocínio em relação ao objeto. As mesmas operações do espírito do criador têm de ser desencadeadas no espírito do leitor, sem o que não há comunicação (SCHILLER, 1991, p. 27).
Ainda imbricado em Schiller, “[o poeta sentimental] reflete sobre a impressão que os objetos lhe causam e tão somente nessa reflexão funda-se a comoção a que ele próprio é transportado e nos transporta” (SCHILLER, 1991, p. 62). Tal relação denota que a subjetividade poética advém e resulta num processo duplo: leitor-convidado e inventada se fundem na construção mútua da subjetividade a partir da invenção; afinal, de acordo com Dufrenne, “poética é a obra que induz o leitor [espectador] ao estado poético” (DUFRENNE, 1969, p. 101), ao estado de ser e estar subjetivo.
Ao mencionar e referenciar a relação com o corpo e imagem de si, Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst fazem oposição, mesmo que não conscientemente, ao protótipo do corpo e do ideário feminino que é regulado pelo prisma e pensamento predominantemente externo e/ou masculino. As inventadas inventam, desse modo, uma obra poética-corporal que se situa distante das vigências e normas presentes nos contratos sociais.
A partir dos escritos das autoras, é permissível pensar em corporalidades reais, em um feminino originário, em uma ótica do/no corpo da mulher que não está calcada e nem gerenciada pelo olhar da sistemática do patriarcado, o que fornece a inventada o poder de re-invenção: ela não apenas inventa a si como reinventa o olhar que o leitor-convidado tem sobre o ser mulher.
Por conseguinte, a partir da escrita e produção poética de Ana C. e Hilda Hilst, é permissível a invenção de um corpo/essência que se re-inventa e recusa concepções improcedentes e mandatórias, visto que
(…) seu alcance epistemológico supera a ideologia dos mitos e das percepções patriarcais. Em outras palavras, o corpo é um signo usado como uma estratégia ontológica na transformação de paradigmas para que as mulheres possam se imaginar outras e, também, umas com as outras. Uma nova ética da diferença sexual passaria pela liberação do potencial criativo e subversivo dessa memória reinventada (SCHMIDT, 2003, p. 202).
É pertinente destacar que, ao discorrer sobre as corporalidades poéticas, a interpelação realizada considera um corpo ausente de órgãos, zonas erógenas e atributos físicos, posto que a noção corporal aqui explorada está entrelaçada com o aspecto subjetivo de ser. Em Être deux, de Lucy Irigaray, a autora notabiliza um vínculo com o “o outro” que, por conta de paradigmas totalizantes e falocêntricos, se mantém ignoto. À vista disso, tratar do corpo transcendente é uma ação com o intuito de fomentar uma cultura que se ancore, no re-conhecimento e na coexistência das diferenças e das multiplicidades – contrariando, assim, qualquer vestígio de dominação.
Os temas da diversidade e do corpo emergem juntos, porque a diferença mais visível entre homens e mulheres, e a única que temos certeza ser permanente, é de fato a diferença no corpo. Essa diferença tem sido usada como um pretexto para ‘justificar’ o poder total de um sexo sobre o outro’. O estudo da imagem biológica na escrita das mulheres é útil e importante na medida em que compreendemos que outros fatores além da anatomia estão envolvidos. As ideias a respeito do corpo são fundamentais para que se compreenda como as mulheres conceptualizam sua situação na sociedade; mas não pode haver qualquer expressão de corpo que não seja mediada pelas estruturas linguísticas, sociais e literárias. A diferença da prática literária das mulheres, portanto, deve ser baseada (nas palavras de Miller), “no corpo de sua escrita e não na escrita de seu corpo” (SHOWALTER, 1994, p. 35).
Com a finalidade de compreender como o ato performativo se configura no legado poético de Ana C. e Hilda Hilst, busca-se, inicialmente, trazer apontamentos a partir da leitura de J. L. Austin (1990), filósofo da linguagem, para que haja uma revisitação no entendimento acerca dos “atos de declaração” no domínio da fala-ação. Austin salienta que “o papel de uma declaração era tão somente o de “descrever” um estado de coisas, ou declarar um fato, o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso.” (1990, p. 21). Na tese defendida pelo filósofo, é questionável que o proferir da linguagem e/ou ato de declarar esteja restritamente comprometido com a descrição, pois “muitos proferimentos que parecem declarações não têm, ou têm apenas em parte, o propósito de registrar ou transmitir informação direta acerca dos fatos”. (AUSTIN, 1990, p. 22).
Com isso, o autor se dirige a uma compreensão não limitada da função declarativa, alegando que esta pode tanto indicar, inserir e ultrapassar uma realidade a partir do léxico, como também pode relatar, declarar e descrever outra realidade – em cada caso, há uma munição distinta de recursos lexicais, gramaticais e organizacionais.
Por conseguinte, a própria ação de proferir está intimamente encadeada com a ação de fazer, de concretizar. Acerca disso, o filósofo sobreleva que
(…) o termo performativo será usado em uma variedade de formas e construções cognatas, assim como se dá com o termo “imperativo”. Evidentemente, que este nome é derivado do verbo inglês to perform, verbo correlato do substantivo “ação”, e indica que ao se emitir o proferimento está-se realizando uma ação, não sendo, consequentemente, considerado um mero equivalente a dizer algo (AUSTIN, 1990, p. 25).
Qual a relação entre o fazer poético e o fazer performativo? Como já mencionado, se o estado poético está vinculado ao modo de subjetividade do sujeito criador, então a potência da palavra e do ato declarativo faz muito mais do que instaurar no leitor-convidado uma mera percepção. Sua força é capaz de gerar, criar, parir e inventar – sobretudo quando há uma receptividade maior por parte daquele/a que adentra esse estado de ser poético e subjetivo.
O fluido, que é uma particularidade defendida e ampliada nos estudos de performance, em especial em Judith Butler (2003), apresenta vinculação com o ato performativo, já que a ideia de “construções” de gênero nasce de uma vertente tradicional de se pensar filosoficamente as questões sobre o tema, vertente esta que representa, respectivamente, o poder e o não-poder de escolha do sujeito sobre os seus atos performativos.
Acerca disso, Butler (2003) reflete:
(…) o corpo é representado como um mero instrumento ou meio com o qual um conjunto de significados culturais é apenas externamente relacionado. Mas o corpo é em si mesmo uma construção, assim como o é a miríade de “corpos” que constitui o domínio dos sujeitos com marcas de gênero. Não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca do seu gênero; e emerge então a questão: em que medida pode o corpo vir a existir na(s) marca(s) do gênero e por meio delas? Como conceber novamente o corpo, não mais como um meio ou instrumento passivo à espera da capacidade vivificadora de uma vontade caracteristicamente imaterial? (BUTLER, p. 30, 2003).
Os corpos poéticos, que intrinsecamente se relacionam com a formação da subjetividade, formam linha auxiliar para pensarmos que a escrita de Ana C. e Hilda Hilst vivificam a imaterialidade de si, limpando registros outrora impostos e repensando as marcas de “seu” gênero através de suas vivências e experimentos enquanto sujeito. A escrita poética seria, neste sentido, uma das possibilidades de conceber – novamente – o corpo, constatação que responde ao último questionamento expresso pela filósofa na citação acima.
Tessituras poéticas: a invenção da inventada
Cartilha da cura
As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.
(CESAR, 2013 p. 87).
(…) Na hora da minha morte
estarão ao meu lado mais homens
infinitamente mais homens que mulheres.
(Porque fui mais amante que amiga)
(HILST, 1998, p. 400).
Um questionamento que emerge frente ao contato inicial com os inventos de Ana C. e Hilda Hilst é: qual o posicionamento do sujeito mulher frente à sua própria produção? É importante notabilizar que tanto Ana Cristina Cesar quanto Hilda Hilst se apropriaram da palavra para anunciar a experiência da mulher. Isto é, não usaram de subterfúgios outros de escrita, anulando a sua condição intrínseca – muito contrariamente: tanto Ana quanto Hilda ventilam em seus poemas que o sujeito que fala é feminino e não masculino. Logo, temos implicada a questão da voz e da produção intelectual das mulheres, o que garante a compreensão de que o posicionamento das autoras dentro do próprio tecer é um posicionamento criador, engenhoso, lugar único daquela que inventa.
Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quem saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés para amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
Quem é a loura donzela
Que se chama Ana Cristina
E que se diz alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
(CESAR, 2013, p. 151)
VII
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
(HILST, 1998, p. 200)
As tessituras poéticas evocam o interlocutor, fazendo com que ele não apenas receba subalternamente o presente inventado, mas também participe da experiência de criação, moldando-a conforme sua subjetividade. O espaço das autoras é o espaço de encantamento, de deslumbre, espaço reflexivo e indagador que possibilita o encaixe e desencaixe de distintas reações no leitor-convidado. A tessitura poética se torna, portanto, uma tessitura conjunta, dialógica e (di)fundida a partir desse posicionamento de inventora ocupado pelas poetas.
No corpo poético apresentado, é inconcebível não notar o uso do jogo de palavras que as criadoras usam para fazer referência ao sujeito lírico. A preocupação comportamental e uso regrado de etiquetas que se destinam ao meio feminino não são aspectos de relevância na composição de ambas. Há, em especial, certo deboche quando as poetas referenciam termos tais como “louca donzela”, “pura” e “moça”, uma vez que se pressente que ambas estão mais voltadas para a naturalização da experiência do que para um regramento comportamental da mesma.
Exposto isto, é nítido que há se problematiza a relação entre inventora-invento com as questões de identidade e de vivência. As palavras empregadas por Ana C. e Hilda Hilst também se relacionam com o domínio da realidade das poetas e, assim sendo, captam o instante do pensamento do tecer poético que verbaliza o refletir acerca da vida.
Samba canção
Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – tai,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meio-bruxa, meio-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…
(CESAR, 2013, p. 113)
Por que me fiz poeta?
Porque tu, morte, minha irmã,
No instante, no centro
De tudo o que vejo.
No mais que perfeito
No veio, no gozo
Colada entre eu e o outro.
No fosso
No nó de um ínfimo laço
No hausto
No fogo, na minha hora fria.
Me fiz poeta
Porque à minha volta
Na humana ideia de um deus que não conheço,
A ti, morte, minha irmã,
Te vejo.
(HILST, 1980, p. 32)
São infinitas as temáticas e os devaneios, pois todos versam, sobretudo, sobre o instante e o pensamento daquela que inventa. Consequentemente, a invenção toma proporções outras, podendo ser perpassada no campo imagético, político e social. O fluído de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst se encontra justamente na não necessidade de precisar concretizar um vínculo definitivo sobre si, sobre a própria identidade e prática de vida – aqui, a vivência se encaminha justamente para ser palavra poética, para fotografar o anfêmero que pode vir arrematado de uma condicional, de um discernimento, de uma observação:
Sem você bem que sou lago, montanha
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumento o preço.
(CESAR, 2013, p. 92)
E se eu ficasse eterna?
Demonstrável
Axioma de pedra.
(HILST, 1980, p. 51)
A performance das autoras se concentra justamente na força de suas respectivas invenções, que são capazes de recolher fragmentos do devaneio e de transformá-los nesta corporalidade única, condizente com o conceito de “atividade reflexionante” posta em Schiller (1991). Ademais, a subjetividade identitária da inventada e do leitor-convidado atuam mutuamente no fomento destas corporalidades, tornando-as expressivas, originais e significantes, reinventando, assim, o sentido poético. Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst se apresentam cruas, originárias, desafiadoras – re-inventadas por si:
Noite carioca
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não que não tem nenhum segredo.
(CESAR, 2013, p. 83)
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
(HILST, 1998, p. 219-220)
Considerações Finais: inéditas formas corpóreas
Embora o presente trabalho tenha feito a tentativa de focalizar a tessitura poética de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst sob a ideia de corporalidades, é de pleno conhecimento que a leitura das autoras não se encerra aqui – há muito que se explorar e, ainda assim, se acredita que será impossível absorver de modo totalitário aquilo que é dito poeticamente pelas autoras. A intenção deste recorte de pesquisa foi notabilizar como a relação de invenção do ato poético está relacionada também com um sujeito feminino que está desprendido de imposições reguladoras, e que se apresenta como uma possibilidade de pensar novas e diferentes subjetividades identitárias por intermédio dos chamados ‘corpos poéticos’.
As chamadas novas e diferentes formas corpóreas afrontam uma idealização de ser e se encaminham para uma noção do ser que é – inventado, reinventado – a todo instante. As subjetividades identitárias dos/nos corpos poéticos expressos em Ana C. e Hilda Hilst são múltiplas, o que justifica a intenção de exibir formas corpóreas e maneiras de ver/viver o mundo cada vez mais amplas e heterogêneas, fato que retira a poética do plano da abstração e a coloca efetiva, em vida.
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Bio fornecida pelo palestrante.
Dhandara Soares de Lima
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
Resumo: Ana Cristina Cesar (1952-1983) é uma das principais poetas da chamada “poesia marginal” brasileira. Sua obra, ainda que rica e complexa, normalmente é estudada a partir de uma perspectiva historiográfica ou sob a sombra de sua morte trágica (a poeta suicidou-se aos 31 anos). Assim, as comparações tecidas entre ela e outros poetas, de modo geral, condenam sua poesia a estes dois aspectos, simplesmente. Diferentemente, este artigo trata de uma importante parte de sua poética: o metapoema, ou seja, aquele que tematiza a própria produção poética ou o próprio poema em si – característico de sua escrita. O poeta português Fernando Pessoa (1988-1935), por sua vez, também se utilizou da metapoesia como meio de representação. Além de uma possível influência do trabalho de Pessoa nos escritos de Ana C., outros fatores aproximam os dois poetas, como tentaremos demonstrar neste trabalho. O objetivo principal da presente pesquisa é apresentar e refletir sobre os elementos que aproximam e os que distanciam a escrita metapoética do poeta português e a da brasileira, complementando essas análises com alguns textos de crítica literária e ensaios acerca de literatura pertinentes a este trabalho.
Palavras-chave: Literatura Comparada. Poesia Contemporânea. Literatura Brasileira. Escrita feminina.
Minicurrículo: Professora de Língua e Literatura de Língua Inglesa no curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês e Respectivas Literaturas na UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutoranda em Letras (Literatura e Sociedade: Estudos Comparados). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UNIOESTE. Avaliadora oral dos exames internacionais de Cambridge/ESOL. Tradutora e revisora de línguas portuguesa e inglesa.
LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR
E DE FERNANDO PESSOA
Dhandara Soares de Lima
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
O Homem é uma soma heterogênea de solicitações inconscientes, a que uma consciência e uma razão, aquisições recentes da animalidade, presidem como um rei constitucional, que reina, mas não governa. A acção humana é irracionalizável, contraditória, absurda. (…) A mais lúcida e simples das nossas escolhas é inúmera e obscura nas suas origens.
Fernando Pessoa
Como ilustra a citação escolhida para figurar no início deste trabalho, as razões humanas são inúmeras. Uma vez que a literatura é a arte humana que utiliza a linguagem como forma de expressão e também mantendo em mente que a linguagem é uma das mais importantes formas de o humano compreender e refletir sobre o mundo e sobre si mesmo, a razão da produção de uma obra literária nos parece algo complexo demais para ser discutido em poucas páginas. Portanto, o objetivo deste trabalho não se centra na possibilidade (mesmo que bastante provável) de Ana Cristina Cesar, importante poeta brasileira, ter escrito seus poemas por influência da leitura de obras de Fernando Pessoa, grande cânone mundial.
Dessa forma, nossa investigação foi motivada pela similaridade entre os poemas dos dois autores, ainda maior quando nos focamos nos trabalhos metapoéticos dos artistas. Como a obra de ambos é ampla, para a produção deste artigo selecionamos poucos poemas, para que a pesquisa pudesse ser um pouco mais apurada. A proposta, como será perceptível, não foi de realizar uma análise quantitativa, ainda que esta seja uma opção interessante para o futuro. Os poemas de Ana Cristina selecionados fazem parte da antologia póstuma Inéditos e dispersos (1985), organizada por Arnaldo Freitas Filho. A seleção para o corpus de Fernando Pessoa privilegiou os textos metapoéticos mais conhecidos, assim como algumas de suas reflexões sobre arte.
Inicialmente, traçamos um panorama de vida e obra de Ana Cristina Cesar, de caráter introdutório. Então, passamos a alguns comentários sobre Fernando Pessoa e, na sequência, ao confronto entre os poemas e os ideais estéticos perceptíveis nas obras dos artistas em questão.
Sobre Ana Cristina Cesar
Ana Cristina César (1952-1983), ou Ana C., como costumava assinar seus trabalhos, nasceu e viveu no Rio de Janeiro, ainda que tenha viajado por muitos lugares do mundo. Ela escreveu e publicou diversas coletâneas de poemas, assim como livros sobre estudos literários e tradutológicos. Sua vida encontrou um fim talvez prematuro, com seu suicídio, aos 31 anos.
Tendo participado da coletânea 26 poetas hoje, organizada Heloísa Buarque de Holanda (2007), sua poesia ganhou reconhecimento no meio intelectual em sua própria época. Depois disso, publicou seus poemas em edição independente e, no contexto da repressão política em que vivia, devido à ditadura militar, publicou através de uma editora apenas seu último livro, A teus pés (1999). Assim, seu nome é um dos grandes expoentes da chama “geração mimeógrafo”, e sua poesia pertence ao contexto de poesia marginal dos anos 70 do Brasil. Sobre isso, a própria Ana Cristina asserta que
(…) a marginalidade é tomada não como saída alternativa mas sim como ameaça ao sistema, como possibilidade de agressão e transgressão. A contestação é assumida conscientemente. O uso de tóxicos, a bissexualidade, o comportamento exótico são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e portanto assumidos como contestação de caráter político (CESAR, 1999, p. 123).
Contudo, cada vez mais estudos, na atualidade, tratam de como seu projeto poético não se limita aos preceitos “marginais” e como sua obra se diferencia da de outros autores reconhecidos da época. Sobre isso, Ivan Junqueira (1987) afirma que:
(…) enganam-se os que supõem haver desleixo formal ou discursivismo no verso da autora. Tais características são antes atributos da má poesia que escreveram quase todos os seus companheiros de geração. Esse aparente desleixo nada mais é que uma estratégia destinada a impedir que se coagulem a fluência do discurso e o ritmo do verso (JUNQUEIRA, 1987, p. 1).
Como podemos perceber a partir disso, Ana C. reconhecidamente difere-se dos outros de sua época. Mesmo assim, de forma geral sua obra é estudada a partir de dois prismas principais: seu contexto histórico ou sua morte trágica.
Contudo, ainda que tenha, de fato, compartilhado e contribuído com a estética de seus contemporâneos, cada vez mais estudos mostram como sua grande parte de sua obra diferiu da dos outros escritores e artistas de seu tempo. Ana Cristina, portanto, não pode ser tomada apenas como uma representante da época em que escreveu, mas como uma artista que, principalmente, não seguiu nem os modelos clássicos nem unicamente as tendências momentâneas. Estudando a obra de Ana C. e, principalmente, o distanciamento da obra desta das de seus contemporâneos, Marchi e Franchetti (2009) afirmam que:
Diante de uma questão sobre a relação entre a escrita em forma de diário e a expressão de intimidades, a poeta responde: (…) Aqui é fingido, é inventado, certo? Não são realmente fatos da minha vida. É uma construção. Mas há muitos autores que publicam diário. Quando você ler o diário do autor, de verdade, que ele escreveu sem uma intenção propriamente de fingimento, você vai procurar a intimidade dele. Se você vai ler esse diário fingido, você não encontra intimidade aí. Escapa… Então, exatamente o que é colocado como uma crítica é, na verdade, a intenção do texto (CESAR, p. 256 apud MARCHI; FRANCHETTI, 2009). (Grifos nossos).
O “fingimento” de que fala Ana Cristina nos remete imediatamente ao clássico poema de Fernando Pessoa, Autopsicografia, dentro da coletânea Cancioneiro, publicada em 1934:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
É possível compreender, desde esse primeiro momento, que o conceito poético de Ana Cristina se aproxima do de Fernando Pessoa. O modo como essa aproximação se dá e quais são as concepções e os elementos compartilhados pelos projetos estéticos de Pessoa e de Ana C. são o tema das páginas que se seguem.
As aproximações entre os poetas e suas obras
Fernando Pessoa é um poeta que dispensa apresentações. Foi um dos maiores artistas da língua portuguesa e grande conhecedor de literatura. Sua obra, vasta e rica, é ainda discutida e analisada. Tendo vivido entre 1988 e 1935, Ana Cristina Cesar certamente teve acesso à obra desse importante nome da literatura, tendo até se referido a ele em seus poemas.
Como comentado na introdução, o norte desta pesquisa não é a busca por possíveis “fontes e influências” do trabalho de Ana C., relegando-a, assim, a uma posição de poeta “menor”. Dada a leitura de poemas como os que citamos, é perceptível que existe algo que os aproxima. Compreendemos, a partir de nossos estudos, que este “algo” pode ser um projeto estético que compartilhe conceitos – e aí se encontra a pergunta que instigou a presente pesquisa: quais conceitos?
Comecemos pela reflexão de que ambos Ana C. e Pessoa expressaram sua poética tanto em língua portuguesa quanto em inglesa, mesmo que predominantemente na primeira. Ana C., contudo, mistura mais os dois idiomas do que o poeta português. Portanto, não se expressaram apenas na língua materna, demonstrando perícia também em manipular outras formas de linguagem. A manipulação linguística é um dos temas abordados por Pessoa em um de seus vários ensaios. O poeta sintetiza algumas de suas concepções acerca de poesia em um ensaio que escreve em português e em inglês: “um poema é uma impressão intelectualizada, ou uma ideia convertida em emoção, comunicada a outros por meio de um ritmo” (PESSOA, s/n, p. 75).
Além disso, os dois poetas também foram tradutores e estudiosos de literatura, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Parte de suas obras literárias também são dedicadas ao metapoema, ou seja, a poesia que trata exatamente do fazer poético. Essas informações são relevantes quando nos atentamos ao que isso significa: foram poetas que se preocuparam não apenas com escrever bons poemas, mas que pensavam a arte e refletiam sobre a essência da poesia.
Em um estudo anterior (LIMA, 2011), discutimos como Fernando Pessoa se encaixa na definição de poeta “artesão” – termo cunhado por Dufrenne em sua obra O Poético (1987):
Enquanto criadores de um efeito poético, Dufrenne distingue dois grupos nos quais os poetas podem se encaixar: o poeta artesão ou o poeta inspirado. O primeiro é o “artesão da linguagem” (1969, p. 124), que constrói o poema de forma deliberada calculada. O segundo “é menos cioso de seu ato do que propriamente de seu estado” (idem, p. 219), ou seja, ocupa-se do “estado poético” mais do que da construção do poema (LIMA; AISSA, 2009).
Como podemos compreender a partir de vários ensaios, poemas e declarações, Ana Cristina preocupava-se com a qualidade da literatura. Como podemos inferir de um de seus poemas, desconfia da poesia “inspirada”, uma vez que “a gente sempre acha que é / Fernando Pessoa” (CESAR, 1985, p. 182). Podemos inferir a partir desses dados, a poeta questiona sua própria produção, o que nos aponta para uma preocupação com seu fazer poético e mostra uma “desconfiança” da poeta em relação ao verso “fácil” e é um sinal de que podemos classificar Ana C. como uma poeta artesã, em contraponto ao poeta inspirado. Anteriormente, também classificamos Fernando Pessoa como poeta artesão. Este é um dos pontos principais e talvez a maior confluência entre o projeto estético desenvolvido por Pessoa e por Ana C.
Annita C. Malufe (2006) discorre sobre as acepções de Ana Cristina sobre as relações entre a intimidade do poeta (pessoa de carne e osso) e a produção da poesia. Assim, a estudiosa sintetiza alguns conceitos importantes à nossa pesquisa:
(…) para se produzir literatura, Ana C. acredita ser possível partir de uma emoção, um sentimento. Contudo, essa intimidade só é apropriada pelo escritor enquanto uma espécie de material bruto, inicial, sobre o qual será necessário trabalhar, empregando o que ela chama de “olhar estetizante” (MALUFE, 2006, p. 56-7).
Esse conceito de se criar um objeto estético a partir da experiência, ou seja, a necessidade de “lapidar” alguma sensação para, somente então, escrever, é algo também discutido por Fernando Pessoa sendo essencial:
(…) a composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente (PESSOA, s/n, p. 72).
Neste sentido, as concepções de fazer poético de Ana Cristina e de Fernando Pessoa são correspondentes. Assim como para Ana C., a criação do poema, para Pessoa, é um trabalho intelectual e não emocional. A emoção não tem lugar no fazer poético de ambos os poetas. Malufe, interpretando declarações e textos de Ana C., afirma que, segundo esta autora
(…) nesta operação obrigatória para se produzir o texto literário, poético, não há como ser fiel ao sentimento inicial, ainda que assim o desejasse. Neste sentido, não haveria como fugir do fingimento (MALUFE, 2006, p. 56-7).
Assim, o trabalho intelectual é a parte mais importante da criação poética. Dois poemas de Ana C. e de Pessoa ilustram bem essa relação entre sentimento, fingimento e poesia:
POEMA ÓBVIO
Não sou idêntica a mim mesmo
Sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob o mesmo ponto de vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante.
Esse poema de Ana Cristina aponta para um dos aspectos do fazer poético de Fernando Pessoa: a coexistência de diferentes eu-poéticos que se sobrepõem no momento da escritura poética, ou seja, a possibilidade do poeta se expressar através de diferentes “identidades” poéticas – como os heterônimos de Pessoa. O poema Isto, de Pessoa, parece demonstrar a ideia de racionalização da poesia:
ISTO
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
A preocupação com o ritmo também é uma constante no trabalho tanto de Ana C. quanto de Pessoa. O poeta português, dedicou várias páginas à análise da importância do ritmo ao poema:
A linha isolada é uma unidade rítmica. A qualidade rítmica depende, como aliás dependeu sempre, do poeta. (…)
O verso é a prosa artificial, o discurso disposto musicalmente. Não é outra a diferença entre as duas formas da palavra escrita (PESSOA, n/d, p. 78).
Podemos perceber que a musicalidade é algo intrínseco à poesia na concepção de Pessoa. Também para Ana C., a música é essencial à existência do poema, confundindo-se com este:
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.
Para ambos os autores, o ritmo é um dos fatores essenciais do poema, que o caracteriza e sem o qual este não existe.
Conclusão
Neste artigo, procuramos investigar até que ponto podemos considerar próximas as escritas metapoéticas do grande escritor português Fernando Pessoa e da poeta carioca contemporânea Ana Cristina Cesar. Após o estudo de metapoemas de ambos os autores e de alguns de seus principais textos teóricos, tal que parte da fortuna crítica destes, elencamos determinados pontos que consideramos importantes.
A principal semelhança nas concepções de poesia dos poemas em questão é a sua visão de poesia como um produto do intelecto. Assim, mesmo que tenha sua “fonte” seja uma emoção, esta precisa ser “estetizada” ou “racionalizada” para, então, tornar-se uma obra poética.
A importância do ritmo para o poema também aproxima a estética desses poetas, dado que estes consideram a musicalidade um elemento intrínseco da poesia.
As coincidências entre os poetas e suas obras são ainda mais numerosas do que as estudadas nesta pesquisa: ambos foram tradutores, estudiosos de literatura e escreveram em inglês e em português, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Dedicaram poemas ao fazer poético, metapoemas, o que mostra que refletiam sobre seu ofício.
Como dito, esta pesquisa não teve foco quantitativo, ainda que tal perspectiva possa ser um caminho interessante e produtivo. Contudo, esperamos que este trabalho contribua para pesquisas futuras, assim como divulgue a poesia de Ana Cristina Cesar, demonstrando também sua importância para a literatura de expressão em língua portuguesa.
Referências
CESAR, Ana Cristina. A teus pés. São Paulo: Editora Ática, 1998.
CESAR, Ana Cristina. Crítica e tradução. São Paulo: Editora Ática, 1999.
CESAR, Ana Cristina. Inéditos e dispersos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
DUFRENNE, Mikel. O Poético. Porto Alegre, Globo, 1969.
HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2007.
JUNQUEIRA, I. Ana Cristina Cesar: a vocação do abismo. In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 03 jan. 1987.
LIMA, Dhandara Soares de; AISSA, José Carlos. O fazer poético de Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. In: Anais do I CIELLI – Congresso Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Disponível em: <http://www.cielli.com.br/downloads/101.pdf>. Acesso em 10 Ago. 2011.
MALUFE, Annita Costa. Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2006.
MARCHI, Tatiane; FRANCHETTI, Paulo. Ana Cristina Cesar e a poesia marginal. Revista Língua, Literatura e Ensino, v. IV. Maio/2009. p. 385-94.
MORICONI, I. Ana Cristina Cesar: o sangue de uma poeta. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. 1934.
Disponível em: <http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/index.html> Acesso em: 17 Mar. 2011.
PESSOA, Fernando. Páginas de estética e de teoria e crítica literárias. 2ª Ed. Lisboa: Editora Ática, s.n.
Bio fornecida pelo palestrante.
Adalberto Rafael Guimarães
Universidade de São Paulo
Maria Augusta Bernardes Fonseca
Universidade de São Paulo
Resumo: Neste estudo, pretende-se analisar, nas peças Auto da barca de Camiri (1968) e O Verdugo (1969), os pontos que vinculam o teatro de Hilda Hilst à tradição literária brasileira e verificar de que forma a construção de personagens femininas desloca-se na direção de um novo ideal de dramaturgia que rompe com os padrões convencionais do teatro brasileiro do século XX. Nesse sentido, discutiremos de que maneira as personagens femininas criadas por Hilda Hilst representam exemplos de “indecidibilidade”, segundo os conceitos propostos por Jacques Derrida, ao subverterem a noção de poder falogocêntrico, agindo como instrumento ferrenho de denúncia social e política.
Palavras-chave: Hilda Hilst; Teatro; Feminino; Desconstrução.
Abstract: This study aims to analyze the plays Auto da Barca Camiri (1968) and O Verdugo (1969), by Hilda Hilst and examine their link with the Brazilian literary tradition. It also aims to verify how the building of female characters approach a new ideal of dramaturgy which disrupts the conventional patters of 20th Century Brazilian theatre. Therefore, it will discuss how the female characters created by Hilda Hilst represent examples of “undecidability”, according to Jacques Derrida’s concepts, when Hilst subverts the notion of phallogocentric power, which act as a staunch instrument of social and political denunciation.
Keywords: Hilda Hilst; Theater; Female; Deconstruction.
Adalberto Rafael Guimarães – Doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo; Mestre em Letras/Estudos Literários pela Universidade Estadual de Montes Claros (2013) e graduado em Letras Português pela Universidade Estadual de Montes Claros (2011). Membro da Comissão Editorial da Revista Magma, periódico da Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura comparada da USP.
Maria Augusta Bernardes Fonseca – Possui graduação em Letras Português e Inglês pela Universidade Mackenzie (1966); Mestrado em Letras pela Universidade de São Paulo (1977); Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (1985). É professor livre-docente em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (2006), e professor adjunto em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina.
SUBVERSÃO E RUPTURA FEMININA EM AUTO DA BARCA DE CAMIRI E O VERDUGO, DE HILDA HILST
Adalberto Rafael Guimarães
Universidade de São Paulo
Maria Augusta Bernardes Fonseca
Universidade de São Paulo
O meu teatro é como a CASA dentro de cada um de nós.
CASA que não existe para morar, mas para ser pensada.
Hilda Hilst
O superficialismo flagrante em considerável parcela das análises literárias produzidas, atualmente, nas academias brasileiras de letras, articula-se diretamente, aos rumos trilhados pela crítica literária na contemporaneidade. A repetição de assertivas induz, comumente, à associação estrita de importantes escritores brasileiros aos gêneros textuais específicos em que teriam se consagrado, relegando a parcela restante de suas obras à obscuridade. Hilda Hilst não foge à infâmia desta regra, apesar de figurar de modo inusitado neste panorama pintado sutilmente. Reconhecida, principalmente, em virtude de sua poesia sensorial, agonizante e catártica, bem como por sua prosa inovadora, caracterizada pela mescla de gêneros literários, sua produção dramatúrgica encontra-se quase que imersa em águas de descaso e esquecimento. Hilda Hilst não foi somente romancista, por um lado, e poeta, por outro. Ela foi tudo isso ao mesmo tempo e, frequentemente, no mesmo livro, uma vez que sua dramaturgia se apresenta carregada de poeticidade e seus romances e poesias trazem, em evidência, fortes tendências do gênero dramático.
Em certa medida, este silêncio pelo qual o teatro de Hilda encontra-se rodeado talvez derive de sua afinidade com a teoria da desconstrução de Jacques Derrida, uma vez que, se pensadas dentro da linha do teórico, as peças de Hilda Hilst retiram de nossos pés, leitores e espectadores, as bases sólidas sobre as quais a tradição teria construído as noções de verdadeiro ou falso, opondo questões como a da forma e conteúdo. O teatro de Hilda Hilst, diferentemente de grande parte do teatro contemporâneo, não procura criar fundamentos pragmáticos que se configurem como ponto de partida para o leitor/espectador, e opta por deslocar seu ideal de escrita e encenação para uma zona de “indecidibilidade” que exige de quem se aceite a desvendá-lo a consciência de sua instabilidade e incerteza. Bem como a lógica do pensamento dos pensamentos que tremem de Derrida, o teatro de Hilda Hilst pode, em certo grau, ser encarado como uma espécie de terreno movediço em contraponto à fixidez e estabilidade de dramaturgia tradicional.
O conceito de “indecidibilidade” de Jacques Derrida, apesar de ter se originado a partir de da ciência matemática de Kurt Gödel e de seus teoremas da incompletude, é abrangente e pode ser articulado a diversas séries de signos que porventura admitam jogos de contradição e não-contradição, uma vez que a especificidade de seus conceitos repousa, justamente, na premissa de que as ideias não poder ser nem comprovadas nem refutadas, ao mesmo tempo. Na esteira de pensamento de Rodrigues (2008, p. 76), o pensamento de Derrida lança-nos em um jogo entre o que não é nem falso nem verdadeiro, uma vez que o filósofo procura nos deslocar não para um novo lugar, novamente determinando as coisas. Ao invés de nos deslocar, por exemplo, para o cinza, ele nos lança entre os inúmeros matizes existentes entre o preto e o branco. Essas assertivas a respeito do pensamento de Derrida são pertinentes, em nossa discussão pois, ao se analisar o teatro hilstiniano, o que se verifica é a elaboração de um jogo que oscila entre o retorno à tradição, nos mesmos instantes em que a escritura rompe com o convencional, colocando-nos neste entre lugar situado entre o teatro tradicional e o moderno que destrói as algemas dos parâmetros estéticos. Recordando a obra A Escritura e a Diferença, na qual Derrida discute a possibilidade de uma estrutura acêntrica do discurso, percebe-se que o lugar em que o sentido do teatro de Hilda encontra sua efetivação é, justamente, no entremeio: o espaço existente entre as oscilações entre lugar e o não-lugar. Talvez por isso o texto teatral de Hilst poucas vezes tenha sido adaptado para os grandes palcos, sob alegação crítica de que as oscilações entre possibilidade e impossibilidade tornariam sua execução e funcionamento algo incerto.
Na primeira peça em destaque neste estudo, Auto da Barca de Camiri (1968), criação que desde o título alude claramente à tradição teatral dos autos de Gil Vicente, não se encontram referências pormenorizadas de quaisquer aspectos extrínsecos ao texto, constando somente uma rubrica nomeada de “Cenário”, e todo o drama se desenrola em um único ato e ambiente. Hilda Hilst desloca sua escrita da já convencionalizada e o que se sobressai, logo de início, é a presença marcante da adjetivação que intensifica a subjetividade e corrobora a crítica da desigualdade social, que se desenvolverá durante a ação. Hilst chega mesmo a lançar mão da “Nota: Diferença acentuada entre as duas portas. Uma, singela. Outra (a dos juízes) rebuscada, grotesca. (HILST, 2008, p. 185), reforçando a ideia de contraste entre as classes ali envolvidas. O Verdugo (1969), por sua vez, abre-se pondo em destaque o cuidado com as personagens que devem deixar transparecer, primordialmente, suas idades. Preocupações com as características físicas das personagens recorrentes nos textos da época, são excluídas e, em seu lugar, Hilda promove um deslocamento para o interior das personagens logo nas rubricas do texto. Hilda Hilst rompe ao subtrair tais elementos técnicos, caros à execução da peça em um palco, e em seu lugar destacar o moderno, por exemplo, sugerindo a utilização de recursos modernos como slides e linguagem coloquial.
Hipoteticamente, é como se a preocupação estivesse menos pautada na forma como sua mensagem será dita, do que no que está sendo dito. Hilda Hilst quer se fazer ouvida e não importam características detalhadas das personagens ou como suas peças serão adaptadas na realidade em cima de um palco. O que parece ter maior relevância é a mensagem que suas peças constroem, principalmente quando lidas em conjunto. Talvez por isso seu teatro seja repleto de personagens coletivas e haja um deslocamento na escrita de elementos técnicos como cenografia, iluminação ou sonorização. De imediato, a presença de personagens que figuram em mais de um texto faz-se recorrente nas peças destacadas neste estudo. Em Auto da Barca de Camiri e O Verdugo, não somente há a presença de duas personagens representantes do poder identificadas somente pelos epítetos “Velho” e “Jovem”, como também se verifica a repetição da personagem intitulada “Homem”, que em ambas representa a razão condutora de todos os conflitos.
Nas cenas iniciais de Auto da Barca de Camiri e O Verdugo, o que parece haver é uma ruptura com o que Roland Barthes, em Sade, Fourier, Loiola, indica como operações necessárias para a construção de um texto literário: o corte, o isolamento, a articulação e a ordenação. Ambos os textos se abrem com diálogos que revelam inferências de cunho social e político evidenciam o caráter de denúncia e crítica característico do teatro de Hilda Hilst, como se fossemos jogados dentro de uma ação em movimento. Por meio de um trapezista e de uma mulher, figuras emblemáticas dentro do panorama social, a autora alerta para a constatação de que nosso tempo é de desamor e lamento, no qual quem faz as leis são os “sujos”. Vale lembrar que se recorrermos à discussão sobre os fundamentos de questões como a do poder e da lei, elaboradas pelo filósofo francês Michel Focault, em sua História da Sexualidade I, perceber-se-á que a crítica de Hilda Hilst repousa não na complexa rede de estratégias em que esses mecanismos se originam, mas na ação de suas formas terminais: como a soberania do Estado e a maneira como seus representantes a reproduzem. Para Foucault, a temática do poder não se encontra em um local específico, como a personagem do teatro de Hilda parece supor, uma vez que ela circula pela sociedade. Sendo assim, ao considerar a crítica elaborada por Hilda é preciso compreender que todas as práticas sociais são marcadas por relações de poder e não somente aquelas que pertencem aos juízes, na peça.
Auto da Barca de Camiri e O Verdugo partilham de um mesmo fio condutor: a morte do guerrilheiro Che Guevara, retomada em situações análogas. O acontecimento histórico evidencia-se desde o título da primeira peça, que destaca a região boliviana de Camiri, na qual foi assassinado, e a habilidade de Hilda Hilst com a trama entremostra-se mesmo na maneira estratégica com que a autora joga com a ambiguidade do termo “auto”. Seja de ordem processual ou sacramental, verifica-se que esse auto que condena Che Guevara instaura, ao mesmo tempo, sua existência sagrada afirmada na escrita que, insistentemente, assimila Ernesto Rafael Guevara de la Serna à figura de Jesus Cristo. Vale ressaltar que, como o faz Alcir Pécora (2008), organizador da edição do Teatro Completo, o nome de Che Guevara não é mencionado em nenhuma passagem, o que certamente tem a ver não só com a censura da época, mas também com a intenção de extrair do acontecimento, a imagem ideal de homem-cordeiro imolado para a salvação da humanidade.
Em Auto da Barca de Camiri e O Verdugo, a autora critica a corrupção de um sistema que ao invés de legislar e advogar em favor da justiça, faz uso do que bem lhe entende para fazer cumprir suas demandas, como invadir casas de famílias e oferecer suborno em praça pública. Em O Verdugo, os juízes tentam de todas as formas atribuir a culpa de vários assassinatos a Che Guevara que, pelo discurso inflamado teria enlouquecido a todos, para assim obrigar o verdugo a cumprir a ordem de executar o condenado; enquanto em Auto da Barca de Camiri percebe-se a tentativa de apagamento das evidências contidas na memória de cada testemunha interrogada sobre a existência do líder revolucionário. Essas atitudes são elevadas ao ápice da hipocrisia mediante à indiferença dos poderosos que ignoram as incessantes rajadas de metralhadoras que perpassam toda a cena e que, ao final, invadem a corte matando os pobres. A crítica de Hilda às instituições políticas emerge, ainda, por meio das ações dos representantes da Lei que mandam e desmandam conforme suas vontades. Um dos pontos altos da trama é, pois, a passagem em que a lei mostra sua verdadeira face opressora à sociedade, veiculada nas seguintes falas do Juiz Jovem: “Eu posso obrigar o senhor a fazer. Mas não quero”, ou na fala do Juiz Velho que proclama: “Nós somos a lei. Não somos a polícia” (HILST, 2008, p. 393). As falas das personagens denunciam com clareza o que Foucault procura explicitar ao afirmar que as relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com respeito a outros tipos de relações. Sejam relações econômicas ou sexuais, como manifestadas no texto hilstiniano em destaque, já que matando Che Guevara o verdugo receberá grande quantia de dinheiro e fará possível o casamento de sua filha que o pressiona, essas relações entre dominantes e dominados não servem apenas como simples papel de proibição, pois atuam diretamente com o objetivo de produzir algum resultado.
É importante assinar a habilidade de Hilda Hilst de relacionar, em sua linguagem, questões problemáticas que não se ligam somente ao governo. Na cena inicial de O Verdugo, ambientada no espaço doméstico, uma discussão sobre a “Lei” desperta um debate acirrado de cunho feminista, inflamado pela fúria das personagens “Mãe” e “Filha” que reivindicam sua capacidade de participarem das decisões ligadas aos assuntos políticos. No entanto, é curioso notar que essa atitude feminista no posicionamento das personagens não as acompanha durante toda a ação, pois essas personagens assumem, nos termos de Derrida, um caráter de indecibilidade: em certos momentos predomina a fragilidade e o fetichismo, perpetuados pelo senso comum; em outros, atitudes enérgicas nas quais a consciência e necessidade de mudança se instauram na representação da mulher.
Na peça O Verdugo, o casamento da filha somente acontecerá se o pai aceitar o trabalho “imundo” de enforcar o “Homem”, acusado de a todos incendiar com suas palavras de amor e igualdade. Devido a isso, instaura-se um conflito no íntimo do pai que se vê dividido entre: seguir a vontade da filha que o pressiona visando à realização de seu desejo, e o filho que se coloca em defesa do “Homem”. No instante em que se nota essa delimitação do caráter da mãe e da filha que, de início, encontram-se marcadas pela ganância e ambição por melhorias de vida via casamento, Hilda Hilst rompe com a concepção de feminino frágil e subordinado e reescreve essas personagens como determinadas a alcançarem suas metas. Vale citar o episódio em que, à certa altura, a mulher-verdugo indaga a existência de Deus e a ironiza por não haver intercedido na salvação de duas crianças assassinadas brutalmente nas proximidades da residência. A meticulosidade do raciocínio da mulher, que deseja apossar-se do dinheiro que o marido receberá, dirige-se, por fim, para a tentativa de convencer o esposo de que a resistência dos moradores da região à sentença de morte do “Homem” trata-se de mera manifestação de afronta e resistência ao poder e, não, amostra de amor ao próximo. Neste sentido, Hilda Hilst parece ilustrar, em seu teatro, o que a postulação foucaultiana sobre resistência e poder defende. Para Foucault (2005), a resistência não se caracteriza como um subproduto das relações de poder, pois ela não é nem anterior ao poder nem mesmo secundária a ele, pois se assim o fosse não haveria resistência. Para o autor, é necessário que a resistência seja como o poder. Isto é, tão inventiva, móvel e produtiva quanto ele.
Ser produzida e reprimida pelos sistemas jurídicos e, ainda assim, lutar pela emancipação de sua categoria valendo-se dessas mesmas formas de poder é a forma como se pode visualizar a questão feminina a partir da genealogia elaborada por Judith Butler (2003), em seu Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. A partir de relação com a teoria foucaultiana que também visa à elaboração de genealogia da sexualidade, entrevê-se a sugestão do processo de produção de sujeitos fadados a representar os próprios sistemas jurídicos que as criaram. Butler (2003), dessa forma, evidencia a perpetuação negativa envolvida na maneira com que o “poder” forma, define e reproduz a vida dos indivíduos por meio de suas limitações, proibições, regras e, até mesmo, sob a alegação de proteção. Ao colocar em evidência a questão do sujeito feminino, é necessário que se perceba ao longo de nossa literatura e história sua incessante procura pela legitimação de uma linguagem capaz de representá-las e promovê-las à visibilidade política. Além do mais, é preciso, também, permanecer-se alerta para as ambiguidades de uma lei que produz e oculta categorias, como é o caso da mulher, de acordo com suas exigências, na tentativa de excluir a diversidade e, assim, forjar a ideia da existência de um sujeito feminino estável, a errônea noção singular de identidade. Pois, como discute Butler (2003), o gênero nem sempre se constitui de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos e variáveis como modalidades racial, classista, étnica, sexual e religiosa quase sempre foram separadas propiciando a descontextualização da especificidade do feminino.
É justamente com a noção reducionista da contraposição masculino/feminino, construída pelos sistemas de poder, que o teatro de Hilda Hilst procura romper. O patriarcado universal, crença numa hegemonia masculina, em O Verdugo, inverte-se e desloca-se para as mãos da figura feminina que se apropria dos elementos que representam a força masculina para executar o que parece impossível para seu par. O texto hilstiniano corrobora, neste sentido, para o que o texto de Judith Butler (2003) parece apontar como a urgente necessidade para as teorias feministas: a construção da categoria de “mulheres” não mais como sujeito coerente e estável a partir desses elementos que apenas reificam questões de gênero e identidade.
O que se apreende no texto literário de Hilda Hilst é a própria desestabilização da ideia universal de sexo binário macho/fêmea uma vez que nele o próprio gênero se torna um “artifício flutuante” com a consequência de que homem e masculino podem, com igual facilidade, significar tanto um corpo feminino como um masculino, bem como o inverso, valendo-nos da expressão de Butler (2003). Ao constatar a circularidade existente nos estudos a respeito do gênero feminino, a pesquisadora nos oferece um panorama relevante sobre teóricas feministas que assumiram discordantes posições frente a esse debate, na genealogia histórica. Beauvoir, por exemplo, para quem o feminino institui-se como representação do Outro, já que o masculino primordialmente estaria ligado à noção de universalidade do gênero, problematiza ao tomar como ponto de partida a concepção de que a mulher repousaria no estigma de ser uma corporalidade renegada, projetada pelo sujeito abstrato da pessoa masculina.
No texto hilstiniano, a imagem da mulher em determinados momentos pode ser analisada sob a ótica da negação discutida por Beauvoir. Há momentos em que as personagens masculinas, como na peça O Verdugo, negam o potencial feminino. Apesar de incansavelmente procurar afirmar sua força e seu valor, a figura da mulher, no teatro de Hilda Hilst, sofre com a resistência masculina. Na peça em questão, temendo que o marido não cumpra as tarefas que garantirão melhorias nas condições miseráveis em que a família vive, a mulher assume uma posição de poder e declara aos juízes que ela mesma matará o condenado, no lugar do seu marido. Diante dessa surpreendente atitude, os representantes da lei imediatamente negam a mulher sua capacidade para realizar a façanha. Essa negação, no entanto, que inicialmente pode ser percebida na atitude dos homens que desacreditam na força da mulher e que de todas as maneiras tentam evitar a aceitação, termina, por fim, no consentimento mediante à incapacidade do masculino de concluir sua tarefa. Aceitação, esta, que marca a subversão do estigma de fragilidade e inferioridade da mulher que então passa a assumir um novo lugar dentro da escala de poder. Dessa forma, o corpo da mulher transforma-se no instrumento de libertação, conforme preconizado por Beauvoir, e deixa de ser apenas uma instância definidora e deformadora como é visto por correntes que atribuem ao masculino a concepção de Uno.
O corpo feminino, concebido como marcado perante o não-marcado masculino, passa a pelo processo de deslocamento em relação ao modelo falocêntrico e a ideia de Uno, atribuída sempre ao homem, no instante em que a personagem se apropria das vestes de seu marido e socialmente escancara sua não-diferencialidade, aparecerendo publicamente para executar o condenado com suas próprias mãos. Nota-se que o falocentrismo que, de acordo com Butler (2003), eclipsa o feminino passa em certo grau é subvertido no teatro de Hilda Hilst que des-cobre o lugar daquelas que representam o gênero indecidível para Jacques Derrida.
É importante ressaltar, no entanto, que quando se menciona o pensamento da desconstrução, a concepção de “falta” não surge imbuído de valor pejorativo. Diferentemente das teóricas feministas que associam esse “não ser algo” a uma apologia do falocentrismo, Derrida concebe a mulher como aquela que na condição de não-verdade carrega consigo a possibilidade de significação. De fato, a indecidibilidade que permeia o feminino significa a possibilidade de a mulher ser a verdade levando-se em conta que seu pensamento repousa na contradição de a não-verdade ser a verdade. Essa associação entre mulher e não-verdade de Derrida remonta à discussão sobre a oposição binária entre macho-fêmea. Em seu teatro, Hilda Hilst nos revela imagens de personagens femininas que indecidivelmente transitam entre feminilidade e masculinidade. Personagens que ao mesmo tempo apoderaram-se do logos falocêntrico e por outro lado situam-se no lugar de seres dominados e discriminados por uma estrutura representada pela Lei, que as subestima e insiste em enxergá-las a partir do senso comum.
A representação da mulher em O Verdugo de Hilda Hilst, bem como o pensamento de Derrida corroboram com a ideia de uma não instituição de lugares fixos de encarceramento da mulher. Logo, o que aparenta permear a escrita hilstiniana assim como a de Jacques Derrida, quando trazem à tona a questão feminina, parece não ser apenas a intenção de promover uma simples inversão de lugares. Não há fixação nem de identidades nem de lugares exatos em que as mulheres devam figurar, mas deslocamentos que consistem no reconhecimento do valor daquelas que historicamente estiveram rebaixadas. Parafraseando Rodrigues (2008), é como se em seus textos, Hilst e Derrida preferissem pensar a mulher a partir da marca do indecidível: nem feminista nem antifeminista. Ambos procuram situá-las em um novo âmbito que não o do mero verdadeiro/falso, numa tentativa de desorganizar essas oposições binárias cristalizadas, sem chegar a instituir uma solução. Buscam mostrar a mulher que não é nem um ser terrível e incomunicável como Deus, possuidora de divindade que reflete nela todas as graças da natureza e encanta a todos os homens, como Baudelaire a escreve, nem a militante que se propõe a buscar um lugar no alto da hierarquia social deixando o lugar de submissão na sedenta luta por sua instalação no lugar do poder falocêntrico.
É importante deixar claro que o esgotamento de discussões como esta, que elegem como foco de análise questões extensas como as inovações e deslocamentos na escrita de Hilda Hilst e a questão do feminino em sua literatura, é praticamente impossível. Nosso objetivo principal, neste breve ensaio, era o de verificar de que forma a autora desloca sua escrita carregando sua dramaticidade afastando-se e recorrendo a novos ideais poéticos ao mesmo tempo em que constrói personagens femininas diferentes das usualmente vistas em nossa literatura. Se em Gil Vicente, cuja maioria da obra compõe-se de autos, é pelo riso que se corrigem os costumes, Hilda Hilst surge no panorama da literatura dramatúrgica perturbando completamente a ideia do riso estampado na face da lei. Nas peças destacadas, personagens como o Trapezista, o Passarinheiro, o Verdugo e o “Homem” assassinados de forma cruel tornam-se ecos de uma voz autoral que pretende impedir o projeto opressor que a lei revela: “dar ao povo o que ele merece (…) resguardá-lo de toda e qualquer visão” (HILST, 2008, p. 226). Teatro de resistência, do silêncio ou político, independente das classificações que a ele sejam atribuídas, o que se assiste é a tentativa incessante de se pensar de outra maneira não só a questão da mulher, mas de alertar para a cegueira moral e “desmoitar” os coiotes adormecidos; para tanto, é que a voz de Hilda Hilst assume ares perseverantes de ruídos de metralhadora.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loiola. Trad. Maria de Santa Cruz. São Paulo: Martins Fontes, 1979. (coleção signos).
BUTLER, Judith P. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
DERRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. 2ª ed. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. São Paulo: Perspectiva, 1995. (Coleção Debates).
DUARTE, Eduardo Costa. “Hilda Hilst: a poética da agonia e do gozo.” In: Jornal de Poesia, Revista Agulha. ago. 2006, p. 01-19.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 16. ed., 2005.
HILST, Hilda. “Auto da Barca de Camiri”. In: PÉCORA, Alcir (Org.). Teatro Completo. São Paulo, 2008.
HILST, Hilda. “O Verdugo”. In: In: PÉCORA, Alcir (Org.). Teatro Completo. São Paulo, 2008.
POUND, Ezra. “O Artista Sério”. In: A Arte da Poesia. São Paulo: Editora Cultrix: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976. p. 57-76.
RODRIGUES, Eder. O Teatro Performático de Hilda Hilst. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2010. 173 p. (Dissertação de Mestrado em Letras).
RODRIGUES, Carla. “Alianças e tensões: Desconstrução, feminino e feminismo”. In. Mente, Cérebro e Filosofia, ed. n.12. São Paulo: Duetto Editora, 2008.
Bio fornecida pelo palestrante.
A FIGURAÇÃO DO TEMA DA MORTE NA OBRA A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR
Andressa Mariano Gonçalez
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)
Resumo: Neste trabalho iremos fazer uma breve análise da obra A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, publicada em 1969, a fim de identificar como ela figura o tema da morte numa obra destinada ao público infantil. Para isso iremos levantar algumas características presentes nas suas obras, traçando um paralelo com as recorrências presentes tanto na sua literatura voltada para o público adulto quanto na sua literatura voltada para o público infantil, pois em ambas a violência, de um modo geral, está presente em todo o seu trabalho.
Palavras-chave: Clarice Lispector. Literatura infantil. Morte. Violência.
Abstract: In this paper we will present a brief analysis of A mulher que matou os peixes, by Clarice Lispector, published in 1969, in order to identify how the theme of death is configured out in a children’s book. We will point out some features in her works in order to establish a parallel between the stylistic recurrences that appear both in adult literature and in children’s, while considering the theme of violence pervasive in all of Lispetor’s works.
Keywords: Clarice Lispector. Literatura infantil. Death. Violence.
Minicurrículo: A autora é bacharel em Letras – com habilitação dupla em Português e Inglês – pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Atualmente cursa a Licenciatura nessa mesma habilitação dupla. Atua nas áreas de revisão de textos num projeto de pesquisa desenvolvido no Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e tem interesse nas relações entre literatura, sociedade e as outras artes.
ESSA CLARICE… ALÉM DE MATAR, AINDA PEDE PERDÃO!
A FIGURAÇÃO DO TEMA DA MORTE NA OBRA A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR
Andressa Mariano Gonçalez
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)
É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências salvam-nos das grandes.
Clarice Lispector
A fortuna crítica clariciana é vastíssima. Não é de se surpreender já que Clarice Lispector é uma das maiores escritoras brasileiras. A quem goste de sua obra e também a quem não goste. É interessante observar que Clarice Lispector não é, por assim dizer, uma escritora muito “fácil”, tendo em vista a complexidade da sua linguagem, que é delineada por meio de uma escrita, aparentemente, simples. Talvez por isso a resistência por parte daqueles que não admiram o seu trabalho. A obra de Clarice desafia tanto os seus leitores quanto àqueles que se dedicaram a criticar sua grande contribuição à literatura brasileira. Característica esta que a torna, no nosso ponto de vista, muito mais interessante. Analisando suas obras infantis muitos podem dizer que sua literatura pode não ser, necessariamente, indicada para o público mirim. Tal argumento estaria baseado nos temas abordados pela autora, como no caso do tema da violência. Tema este que está presente em toda a sua obra, seja pelo tema em si ou mesmo por conta da sua linguagem transgressora. A maior diferença entre as obras destinadas para o público infantil em relação às obras destinadas para o público adulto se concentrariam na forma como Clarice conduz suas narrativas. Não analisaremos todas as suas obras para tal comparação, mas sim, faremos uma visita às características peculiares a sua estilística como representação da literatura dita adulta a fim de traçar um paralelo com as da literatura infantil presente na obra A mulher que matou os peixes. A pergunta que norteia tal análise reside em como a autora trata da questão da violência, para tentar entender o porquê da abordagem do tema da morte na sua literatura infantil.
Precisamos pensar a nossa língua. A palavra é, na verdade, um ideograma, língua que ainda borbulha, que precisa mais do presente que de qualquer tradição. Cada palavra nova é reflexo de novos aprofundamentos de uma consciência do mundo e de nós mesmos. Cada palavra abre pequenas liberdades, é uma violentação criativa.
Clarice Lispector
Nascida na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920, e registrada em Chechelnik com o nome judeu de Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice pertencia a uma família judia e com menos de um ano de idade vem para o Brasil com seus pais, que fugiam da perseguição dos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1921). Em solo brasileiro, passou a usar o nome de Clarice Lispector, e, adotando o Brasil como sua única pátria, considerava-se pernambucana. Sua família teria mudado para o Recife por volta dos anos de 1930, e aos 17 anos ela partiu para o Rio de Janeiro. Muitas de suas obras, inclusive, possuem um espaço bem delimitado, no caso, a cidade de Recife, que serviu de palco para muitas das suas narrativas nos momentos que rememorava fatos da sua infância – devido as fortes lembranças de quando ainda era uma menina. Assim, a obra de Clarice possui traços de cunho memorialista e autobiográfico. Além de escritora, também foi jornalista.
A obra clariciana é extensa. Ao longo de sua vida Clarice escreveu e publicou suas obras tanto no Brasil quanto no exterior. Foram romances, contos, crônicas, cartas e novelas. Traduções também fazem parte do seu trabalho. Sua literatura não está voltada somente para o público adulto, Clarice também se dedicou a literatura infantil, que é o objeto de maior interesse neste trabalho. Mesmo assim, revisitaremos um pouco sobre sua estilística, elencando alguns dos traços da obra clariciana de forma geral.
Clarice possui uma escrita deveras particular, devido as suas escolhas lexicais. O léxico é fácil, mas suas combinações são paradoxais. Se por um lado muitas vezes as ausências de palavras prejudicam a compreensão do seu texto, por outro, suas definições estão fora do que é considerado senso-comum, pois a junção de certos adjetivos e substantivos quebra a expectativa de simulacros pré-estabelecidos.
Outro diferencial em seu estilo reside no seu olhar, pois este está direcionado a questões rotineiras e cotidianas. Ao longo da narrativa é perceptível um movimento ascendente, pois essas questões vão ganhando uma amplitude e dimensões absurdas. Vale ressaltar que esse movimento não constitui, em si, uma linearidade no texto. A palavra de ordem reside na ideia de efeito. Esta particularidade muitas vezes se dá através das experiências epifânicas vividas pelas suas personagens femininas. Estas são abruptamente tiradas de uma situação que anteriormente era de extrema normalidade para outra completamente transformadora. A realidade passa a não ser mais a mesma. É sempre uma sequência de construção seguida de desconstrução. Muitas são as mulheres na obra de Clarice, o que para alguns críticos sua obra não seria somente feminina, mas sim, feminista.
Outra característica peculiar ao olhar clariciano são as suas relações com os objetos. Muitas vezes seus narradores são considerados solitários, míopes. Nas palavras de Russotto (1989, p. 83), “Se trata de uma mirada que se detiene en lo pequeno, agigantándolo”. A autora possuía um grande interesse em desvendar os mistérios do outro. Seus romances são considerados de empatia, aproximação e contato. Os contos não fogem a essa regra. Suas relações se dão por um processo de aproximação, de reconhecimento e de fusão. Assim, muitas vezes o sujeito se funde com o objeto e vice e versa. Clarice tinha obsessão por tentar atingir o cerne das coisas.
Reversibilidade. A narrativa clariciana também é marcada pelas reversibilidades, ou seja, por jogos de opostos. Os jogos de contrários são sempre atuantes. Podemos apontar também a questão da repetição como sendo própria da sua narrativa. A repetição muitas vezes atua por meio de uma relação polifônica entre forma e experiência, constituindo assim uma função de cunho metalinguístico.
Questões relativas ao mal e a violência também estão fortemente representadas em suas narrativas, inclusive na sua literatura infantil, o que vem a nos interessar e que iremos discutir mais profundamente à frente. Os temas tratados por Clarice podem ser lidos sempre de forma atual por conta da ruptura entre as fronteiras do mundo real e do mundo fictício. É recorrente e característico notar que suas personagens, sempre vitimadas, são constituídas por jovens, crianças, e negros sempre pertencentes às classes desprivilegiadas. Os animais também fazem parte das suas narrativas. Todos estes seres que estão à margem da sociedade são expostos à violência. Além de sofrerem violência, também a praticam. Nem mesmo as crianças fogem a essa regra. O que percebemos é que na narrativa clariciana a naturalização e a banalização da violência são sempre negadas. Por isso sua narrativa é extremamente transgressora. Tudo em Clarice Lispector choca no sentido de confrontar o senso comum. O não dito passa a ser sempre nomeado. Suas narradoras, por exemplo, são famosas por estarem associadas às atividades clandestinas:
Como asociadas a una actividad clandestina, el ámbito de estas heroínas de la narración es la obscuridad, la simulación y el desvío (no olvidemos que succedere es etimológicamente “apartar” y desviar del camino). Y ese acto es asimilado a uma práctica escabrosa, de extraña conspiración y peligrosidad (RUSSOTTO, 1989, p. 85).
Para ser ainda mais pontual e precisa, Russotto ainda diz:
Preservación, seducción, ignorancia, miseria, compasión. Son estas las imágenes de la mujer que narra, según la obra de Clarice Lispector. Imágenes de una transgresión asumida y sistemática. Transgresión que afecta tanto los códigos de la moral como los de la técnica literaria. Transgresión a nível de la historia y transgresión a nivel del discurso (RUSSOTTO, 1989, p. 93).
A ruptura com o senso comum e a transgressão presentes na sua obra – que vem apresentar um olhar de mundo estranhado, tendo em vista o distanciamento que temos para com este universo apresentado pela autora – são mediados pelo uso do recurso estilístico do grotesco, “as representações de grotesco no mundo moderno constituem a oposição mais ruidosa e evidente a toda espécie de racionalismo e a qualquer sistema de pensar” (SÁ, 2004, p. 99).
Aliás, como lembra Rosenbaum (1999, p. 3), a própria autora afirma,
Por que publicar o que não presta? Por que o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão (LISPECTOR).
Assim o grotesco é característico da sua obra. Rosenbaum denomina a obra de Clarice como uma narrativa rebelde e demoníaca:
(…) a literatura de Clarice não rejeita o grotesco, ao contrário, acolhe o que normalmente é monstruoso e obsceno, gerando horror, espanto e nojo. O leitor estremece e se desnorteia, frente a textos de tão crua realidade. Aliás, ela explicitou esse gosto pelo que desequilibra a ideia de beleza clássica, de totalidade harmônica, recusando toda representação literária organizada e arrumada (ROSENBAUM, 1999, p. 3).
Para definir o fazer linguagem clariciano, podemos dizer então que ele é marcado pela desconfiança. Sá lembra que essa desconfiança não seria de ordem teórica:
Sua ontologia da palavra, assim como sua metafísica (o ser) é empírica e vivenciada como escritura, exercício de vida, que ela alimenta de seu próprio sumo e que a realimenta, numa espécie de suplício de Tântalo. Sua “maiêutica” não é feita de um processo racional, para atingir uma verdade que preexista e só se precise encontrar, mas é uma maiêutica do fazer linguagem (SÁ, 2004, p. 234).
Olga de Sá afirma também que Clarice nunca havia gostado de dualismos do tipo fundo/forma, ou mesmo corpo/alma, transcendência/imanência ou matéria/ espírito. As possibilidades de uso das mesmas só seriam contempladas quando estas dilaceravam “seu desejo de unidade e totalidade” (SÁ, 2004, p. 234), já que a realidade é maior que a linguagem. Ainda diz que a autora teria vivido a agonia de escrever. Essa agonia ela não teria vivido sozinha, juntamente com o leitor, este também embarcaria nessa aventura, “empenhando ele também na maiêutica da escritura/leitura” (SÁ, 2004, p. 235):
Em Clarice, escrever era uma forma de compreender a própria vida. Não era a vida que a levava a compreender o escrever. Era escrevendo que ela se compreendia. A palavra para ela tinha a maior importância, porque exorcizava seus fantasmas. Seu leitor é sempre a mão que segura a sua, e isto sustenta a possibilidade de diálogo. A estrutura mínima de sua narrativa. Seu leitor não pode ser reduzido a um ouvido à escuta, mas tem de ser mão que tateia (SÁ, 2004, p. 235).
A palavra escrita para Clarice “passava a ser um instrumental da existência” (SÁ, 2004, p. 238), advinda da sua postura questionadora sobre o ato de escrever já que ela, a partir da escrita, se compreendia.
Foram quatro as obras publicadas para crianças. Seu primeiro trabalho foi O mistério do coelho pensante, publicado em 1967. No ano de 1969, A mulher que matou os peixes seria sua segunda obra. Alguns anos depois, no ano de 1974, Clarice publica A vida íntima de Laura. E por último, Quase de verdade, de 1978.
Matou. Matar. Matar. Matei. Matado. Morte. Morreram. Morrem. Morrer. Matá-la. Morrer. Mato. Morrer. Morre. Morreu. Matar. Mataria. Morta. Morrendo. Matou. Morte. Morte. Matara. Morreu. Morte.
Se fôssemos organizar em um único parágrafo a recorrência do substantivo “morte”, bem como as diversas conjugações do verbo “morrer”, que aparecem ao longo da narrativa de A mulher que matou os peixes, seria esta a sequência transcrita acima. Inclusive, logo de início já temos apresentada, no primeiro parágrafo do texto, três destas ocorrências: “matou”, “matar”, “matar”. Fica evidente que Clarice não poupa de forma alguma o seu público infantil. Não poupa no sentido de não deixar de tratar sobre um assunto que pode não ser considerado próprio para crianças.
A morte é um fato inegável. Se formos pensar a respeito das verdades das quais o ser humano tem a plena certeza, a morte é a única delas. A única certeza que temos no mundo é a de que um dia iremos morrer. E a morte é a maior violência que podemos sofrer, já que ela anula toda a nossa existência enquanto ser. Sendo assim, a violência está impregnada nesta obra, seja por conta do tema ou mesmo pelas escolhas lexicais destacadas. Podemos afirmar ainda, que a violência não reside na morte em si, mas também no ato de matar. Cabe identificar como tal fato é apresentado para as crianças através desta narrativa.
Logo de início a narradora-personagem assume ter ela própria matado os peixes. Mas explica que havia cometido tal ato sem querer. Para conquistar a confiança do pequeno leitor, ela diz que era incapaz de fazer uma criança ou bicho sofrer. Ainda diz que seu coração era doce. Ela também age como uma criança, pois faz rodeios para contar de fato como se deu a morte dos peixinhos. Como toda criança inocente e que tem medo da represália por parte dos adultos, ela também admite não ter coragem para contar tudo de uma vez, mas promete que ao final do livro irá contar toda história. Enquanto o fim não chega, ela segue contando diversos causos para estreitar ainda mais a relação com seu leitor. Ela pretende criar uma cumplicidade com seus leitores, dizendo a eles que irá contar tudo em segredo, e somente eles irão saber tudo o que se passou – já que ela só confia nas crianças. Estas não seriam chatas como os adultos costumam ser. A narradora-personagem espera que assim, ao final do livro, ela seja perdoada.
A primeira história que ela conta é a da gatinha que faleceu em sua última ninhada. Diz que ficou muito triste por ela ter morrido, mas que, com o tempo, a febre que ela sentiu, em função da dor da perda, havia passado. Aqui ela já desmistifica a dor da morte. A morte já não seria tão ruim assim, pois com o tempo tudo passa.
Em certo momento se apresenta. Diz que se chama Clarice. Pergunta qual o nome do seu amiguinho leitor. Pede que ele diga seu nome bem baixinho, estabelecendo a confidencialidade entre eles. E o mais interessante é que ela diz que não haveria problemas em dizer baixinho, pois seu coração iria ouvir de qualquer forma. Desta forma a narradora-personagem já senta os leitores em seu colo e os aconchega.
E não para por aí. Ela diz que as crianças devem ser mais corajosas do que ela, ao admitir que ela tem medo de ratos. Desta forma ela acaba com a hierarquia estabelecida entre adultos e crianças. Ambos estão em pé de igualdade, tanto as crianças quanto os adultos possuem seus medos e ambos precisam ser respeitados.
Várias histórias vão sendo desenroladas ao longo da narrativa. Todas elas são protagonizadas por animais. Aparecem o coelho, o pato, os cachorros, o macaco e até mesmo as baratas. O que as historinhas têm em comum é que em certo momento os animais acabam morrendo. Não se trata da banalização da morte, mas sim, a retratação de um processo que é natural aos seres vivos. É interessante observar que em algumas situações as mortes são até desejadas. Ora porque ela não gosta de tal animal – como é o caso do rato do seu amiguinho e das baratas, que ela havia pagado para alguém exterminar. A morte também pode ser algo engraçado, como no caso das lagartixas. Estas ao terem seus corpos desmembrados, ainda articulam seus membros isoladamente. E por fim, retrata a morte também como algo necessário, como no caso dos mosquitos. Estes seriam comidos pelas lagartixas como sobremesas.
Para sustentar a confiança dos leitores ela sempre afirma que tudo o que conta é verdade. E sabendo que as crianças poderiam ficar tristes com tudo o que está sendo contado, ela também os aconselha como uma mãe que quer proteger seus filhos. A narradora-personagem também agradece por terem acreditado nela, pois ela não gosta de se passar por mentirosa. Ao final, cumpre sua promessa, contando de fato como matou seus peixinhos. O diálogo com os leitores é mantido a todo o momento. Ela questiona se ficaram com raiva dela, pede desculpas novamente, e finaliza pedindo perdão aos seus companheirinhos.
Sensibilidade maternal. Assim podemos definir o olhar de Clarice Lispector para crianças. A narradora-personagem consegue criar uma relação de cumplicidade junto ao leitor por conta do clima aconchegante e acolhedor que ela figura na sua narrativa, através dos diálogos. Essa característica se repete ao longo da narrativa o que a constitui como recurso estilístico. A todo o momento o leitor se sente acolhido, e nunca sozinho, devido aos diálogos permanentes entre eles. O que podemos inferir após toda essa discussão é que enquanto o modo de narrar clariciano, voltado para o público adulto, tem por objetivo deslocar o leitor da sua zona de conforto a partir de um incômodo estranhamento, na literatura infantil temos justamente o contrário. O estilo sádico, como denomina Rosenbaum, que faz com que o leitor se sinta completamente frustrado, pois não encontra em Clarice uma leitura apaziguadora, mesmo quando ele se identifica com certas personagens, passa longe do seu público infantil. A semelhança entre elas é que muitas vezes o leitor se reconhece e caminha com essas personagens nas suas crises mais profundas. Mas enquanto na literatura dita adulta essa parceria não liberta o indivíduo de tamanhas turbulências, pois os leitores são lançados sempre em situações de inquietudes constantes, as quais constituem uma “marca incorrigível de uma narrativa essencialmente transgressora dos padrões estéticos estabelecidos” (ROSEMBAUM, 1999, p. 2), na literatura infantil esta sua particularidade narrativa vem preparar seus futuros leitores para uma futura turbulenta e desafiadora jornada, que será a própria vida, ou seja, na literatura infantil temos uma literatura de formação.
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Bio fornecida pelo palestrante.
Michele Nascimento Kettner
Montclair State University
Resumo: O presente trabalho pretende fazer uma análise comparativa dos personagens Macabéa, de A hora da estrela, de Clarice Lispector, e Conceição, do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz. Ele pretende analisar a função das personagens femininas no diálogo estabelecido por esses romances com a temática da seca e a tradição literária e cultural dela derivada. O diálogo entre esses livros com a tradição regionalista em nossa literatura abre questionamentos referentes não somente à invenção de uma região – segundo a teoria de Albuquerque Jr. –, mas também à criação de estereótipos homogeneizadores dessa literatura regional.
Abstract: This paper intends to make a comparative analysis of the characters Macabéa, from Clarice Lispector’s novel A hora da estrela, and Conceição, from Rachel de Queiroz’ novel O Quinze. It aims to examine the role of these female characters in regards to the dialogue established by the two authors and the Regionalist novels that employ the theme of the drought in the Northeast of Brazil. The dialogue between these books with the regionalist tradition in Brazilian literature establishes discussions regarding not only “the invention of a region,” according to Albuquerque Jr.’s proposal, but also the attempt to create homogenizing stereotypes of this regional literature.
Palavras-chave: Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Regionalismo.
Keywords: Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Regionalism.
Minicurrículo: Michele Nascimento Kettner é coordenadora do programa de português na Montclair State University, onde ministra disciplinas de língua portuguesa e literaturas lusófonas. Obteve o doutorado em Literaturas Hispânica e Luso-Brasileira no Graduate Center da CUNY (City University of New York). Em sua tese de doutorado investigou o tema do Regionalismo Transnacional e a Globalização na América Latina através da comparação das obras de Mario Vargas Llosa e de Milton Hatoum. Seus interesses de pesquisa incluem os temas de regionalismo, globalização, transnacionalismo e migração. Paralelamente a sua pesquisa sobre a literatura latino-americana, Nascimento Kettner foi coautora de um livro sobre música e cultura afro-brasileira, Maracatu de baque virado (2013).
TOADA NORDESTINA: DISSONÂNCIAS DE VOZES FEMININAS NO REGIONALISMO BRASILEIRO
Michele Nascimento Kettner
Montclair State University
Neste trabalho, serão trazidos à luz seca da temática nordestina os romances A hora da estrela e O Quinze, escritos por Clarice Lispector e Rachel de Queiroz, respectivamente. A análise comparativa destes romances centra-se na função estabelecida entre as personagens Macabéa de A hora da estrela e Conceição de O Quinze. Tratando-se de escritoras do gênero feminino, o trabalho pretende analisar como estas personagens femininas atuam dentro da tradição regionalista. A relação estabelecida entre estes livros com a tradição da literatura regionalista do nordeste brasileiro fomenta questionamentos que perpassam discussões sobre a invenção desta região, segundo Albuquerque Jr.[1], e a criação de estereótipos homogeneizadores no regionalismo.
O Quinze está situado dentro da tradição canônica regionalista. Este livro, publicado em 1930, tem por trama a história da grande seca de 1915 e mostra o tema do flagelo que entremeia o relacionamento amoroso entre Conceição e Vicente. Conceição, professora criada no sertão, torna-se uma advogada da causa dos retirantes. Rachel de Queiroz usa o espaço regional e seus símbolos para criar uma obra que pode ser considerada canônica e exemplar do chamado romance regionalista. Uma das grandes contribuições de Rachel de Queiroz para esse romance é sua própria existência como escritora. É notável a grande fascinação de autores contemporâneos de Queiroz, assim como de críticos, como Heloísa Buarque de Hollanda, sobre o fato de Rachel de Queiroz despontar como uma ‘escritora nordestina’ preocupada com o social.[2] Ângela Tamaru afirma categoricamente que:
Rachel de Queiroz não pode ser vista sob o mesmo prisma com que se veem os demais representantes do chamado romance nordestino, porque em suas obras, o fenômeno da região e dos homens aparece filtrado pelo olhar feminino que o atenua, delimitado pela formação característica da mulher da posição destacada no ambiente rural da cana e do gado (TAMARU, Ângela, 2006, p. 66).
Além disso, complementando o pensamento de Tamaru, é válido afirmar que a inovação da autora cearense se reflete na sua protagonista, Conceição. Esta personagem quebra o estereótipo da mulher nordestina que está fadada ao casamento e aos afazeres domésticos. Conceição, ainda que absorva o estereótipo da Virgem Maria/Nossa Senhora da Conceição em socorro dos retirantes nordestinos, é representada de maneira a exercer um papel ativo na sociedade e se destaca por sua inteligência.[3] Em O Quinze, Conceição é representada como a: “carinhosa inteligência (…) superior no meio de outras” (QUEIROZ, Rachel, 1957, p. 30). Ou, ainda, quando Queiroz a descreve como: “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, cria para seu uso ideias e preconceito próprios, às vezes largos, às vezes ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca de casa” (QUEIROZ, Rachel, 1957, p. 7). Maria de Lourdes Dias Leite Barbosa define a personagem dizendo: “Conceição talvez seja, das protagonistas de Rachel de Queiroz, a que mais demonstra preocupação intelectual, pois, além da leitura variada, escrevia poemas e um livro sobre pedagogia e, ainda citava Nordau e Renan” (BARBOSA, Maria de Lourdes, 1999, p. 35).
A inteligência que isola Conceição das outras mulheres nordestinas[4] é a mesma que a isola de Vicente, seu primo por quem se apaixona. A frustração de um final romântico entre Vicente e Conceição em O Quinze quebra esse estereótipo do feminino. Conceição, a normalista inteligente capaz de ler em diferentes línguas e com acesso à literatura universal e até teorias feministas, indaga a capacidade intelectual de Vicente. Rachel de Queiroz pôs em palavras e deu liberdade de ação à Conceição para escolher o seu próprio destino como ser pensante e até superior intelectualmente ao seu amado.[5] Courteau comenta que a introdução do personagem de Conceição faz parte do processo de feminização na literatura regional/nacional. Ao mesmo tempo em que Rachel de Queiroz se insere na tradição regional, a escritora promove uma mudança de perspectiva para esta tradição. Courteau afirma:
Nos romances O Quinze (1930), Caminho de Pedras (1937), e João Miguel (1932), Rachel desestabiliza o ideal de domesticidade borrando aquela imagem de mulher que foi desenvolvida com tanto cuidado no século XIX, mulher como o “anjo do lar”. Conceição, a heroína de O Quinze, ao não encontrar um homem que a merecesse, apesar do seu nome, rejeita o matrimônio e com este a conseguinte maternidade (…). Conceição torna-se mãe ao adotar Duquinha, filho dos retirantes da seca (COURTEAU, Joanna, 2001, p. 749-750).
Em O Quinze, Conceição oferece uma resistência social, e encontra sua independência e liberdade possibilitada pela educação. Sua liberdade social é afincada à realidade nordestina determinada pela seca e seu posicionamento dentro deste contexto.
Por sua vez, em A hora da estrela Macabéa parece situar-se num plano além do social. Ao fazer referência ao conceito de Sperber de resistência orgânica da personagem (em oposição a uma resistência social), Lídia Santos afirma a oposição explícita de Clarice Lispector à literatura realista.[6] Em verdade, mais do que uma oposição à tradição realista com a qual a obra dialoga constantemente, pode-se afirmar que o tema do outro é levado para além da esfera humana como afirma a crítica feminista francesa Cixous:
Lispector cherishes a world that for us, for them, is tenderly and violently other. (…) In Clarice, the chain of the other the violently other, contains a terrifying beggar as well as a brigand, and the psychotic child as well as the cockroach. It is a universe quite removed from the human sphere (CIXOUS, Hélène, 1990, p. 144).
A realidade pesa em Lispector com uma intensidade que vai além dos desejos óbvios da mulher e do homem, e alcança um caráter metafísico. Como disse Giovanni Pontiero, Clarice Lispector:
(…) dismissed the idea that her narratives should have any predetermined form. Moments of insight and their repercussions were allowed to surface and flower as if by an act of nature. Fascinated by what others might consider worthless, incomplete, or simply awkward, Lispector drew inspiration from fleeting sensations, from some word overheard by chance, some trifle without substance or form. Her aim was to touch life rather than become entangled in mere description, and she could scarcely be more lucid in stating her preferences (…) (PONTIERO, Giovanni, 1995, p. 275).
De fato, A hora da estrela, publicado em 1977, representa uma mudança relevante em comparação com a obra anterior de Clarice Lispector e com a tradição literária brasileira. Ainda preocupada com os problemas interiores de suas personagens, Lispector adiciona a discussão sobre um dos temas mais crônicos da sociedade brasileira da época: a imigração de nordestinos para o sudeste do país. Este passo simboliza a entrada de Clarice Lispector na literatura regionalista. O diálogo entre esta obra e questões levantadas por esse tipo de literatura são cruciais para entender a postura da autora sobre a tradição.[7] Debra Castillo defende o envolvimento social de Lispector, considerado inexistente por muitos no início da sua carreira, com o seguinte depoimento da escritora:
Ever since I came to know myself, the social problem has been more important to me than any other issue: in Recife the black shanty towns were the first truth I ever encountered…tend to be straightforward in my approach to any social problem: I wanted ‘to do’ something, as if writing were not doing anything (CASTILLO, Debra 1992, p. 188).
Relacionando este depoimento à obra A hora da estrela, fica claro que escrever sobre a mulher nordestina para Lispector significou se envolver de forma a definir o conceito de Brasil e de sua sociedade.
A mulher nordestina representada no romance de Lispector por Macabéa difere bastante da Conceição de Queiroz, pois se em ambas a conotação social é forte, a representação de sua relação com a realidade difere. Embora as duas personagens sejam órfãs, o que as aproxima de certa forma, ainda há um grande hiato que separa as duas.[8] Enquanto Macabéa se mostra aparentemente alheia à realidade que a rodeia – somente escutando os pedaços de informação que vem da rádio-relógio – Conceição se constitui uma porta-voz para os retirantes da seca. Percebe-se que Macabéa de A hora da estrela não parece corresponder a nenhum estereótipo já trabalhado da mulher nordestina em específico (seja o da ‘mulher-macho’, da mulher mística, ou da submissa) embora na obra encontre-se carregada de estereótipos exacerbados nordestinos.[9]
Na verdade, este processo de exacerbação de estereótipos nordestinos a deixa sui generis, a isola e a singulariza. Clarice Lispector desmonta assim o estereótipo pela própria adoção de seu esquema em um processo de desconstrução. O processo desconstrutivo deste estereótipo é também demonstrado na cena em que Macabéa, isenta de uma cultura formal, foi capaz de sentir mais profundamente uma ópera de Donizetti.
Conceição e Macabéa, ambas nordestinas, distinguem-se mais que nada pelo processo de representação escolhido por suas autoras. Para ajudar a esclarecer o processo de escrita das duas autoras talvez o conceito de Cixous de ‘Realm of Proper’ e “Realm of Gift’ possa ser proveitoso. Sabe-se que, na concepção dessa crítica feminista, estes dois conceitos correspondem respectivamente ao modo de escrever masculino e ao modo de escrever feminino. O masculino seria o resultado do medo da castração, perda, separação e da visão do ato de doação como uma economia de troca. O feminino seria mais espontâneo, simbolizando a generosidade que não quer nada em troca e mais aberta para o diferente, para o ‘outro’. A concepção da diferença, de clara influência derridariana, é entendida por Cixous como uma outra bissexualidade, que seria múltipla e variável, e que fomenta e provoca diferenças. Assim, há uma grande preocupação em acabar com o binarismo masculino/feminino caracterizando a maneira feminina de escrever como ‘bissexual’.[10]
Levando em conta essa teoria, poder-se-ia situar O Quinze, de Raquel de Queiroz, como um livro que representaria uma escrita masculina. Utilizando a maneira de escrever fragmentada e realista masculina, Raquel de Queiroz transforma sua personagem Conceição em uma ativista pela causa da seca. Numa narrativa linear e de linguagem seca, a autora confere a Conceição valores do conhecimento ocidental da escrita e intelectualização. A isto se referiria Cixous ao dizer: “Casi todas las mujeres son así: hacen la literatura de otro –del hombre– y en su inocencia la defienden y le dan voz, creando obras que en realidad son masculinas” (MOI, Toril, 1995, p. 118).
Com as isenções que se merece dar à teoria feminista de Cixous[11], é bem verdade que, ao surgir no campo literário da escrita regionalista, Raquel de Queiroz foi louvada por possuir uma dicção que poderia se confundir com a de um homem. Vejamos as palavras de Graciliano Ramos, reproduzidas por Heloísa Buarque de Hollanda: “O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que a obra de José Américo, por ser livro de mulher. Seria realmente de mulher? Não acreditei. (…) Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado” (HOLLANDA, Heloísa, 2005, p. 15).
Obviamente isto sinaliza a descrença na qualidade de uma mulher escritora na época, mas também sinaliza o uso da “authorial voice” (LANSER, Susan, 1992, p. 15) de caráter legitimador da escrita. Em A hora da estrela, quanto à adoção de um narrador masculino, constata-se que: “Lispector exploits the idea that a male narrating subject would confer a greater degree of credibility and authority on her treatment of a theme more social in inclination that is usually found in her repertoire” (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 93).
Ao adotar um narrador masculino com consciência social, o recurso do “authorial voice” é usado por Clarice Lispector, porém de modo irônico e revelador.[12] O processo de metamorfose de Lispector em Rodrigo simboliza também a diferenciação de Lispector de sua própria literatura considerada sempre como literatura feminina. Utilizando uma escrita mais centralizada e linear em relação às suas outras obras, Lispector simboliza a maneira masculina de escrever principalmente nas descrições de suas atitudes e hábitos.[13]
A adoção do narrador masculino Rodrigo S.M. (iniciais para Sua Majestade, como bem observado por Lídia Santos), também traz à tona o questionamento sobre a capacidade do narrador masculino de perceber o ‘outro’. Segundo Sloan, “Lispector calls into question a masculine narrative strategy that sanctions textual and social practices that do not allow the ‘other’ to be recognized” (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 91). O escritor/narrador, segundo Sloan, é onipotente, mas não onisciente, pois a verdade que ele inventa, não a conhece inteira. Esta voz onipotente está sempre interrompendo o fluxo da história ao mesmo tempo em que desvela o seu poder de construção e destruição das personagens. Rodrigo diz: “Desculpai-me, mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido” (LISPECTOR, Clarice, 1999, p. 15).
A interrupção revela um narrador incapaz de esquecer-se de si mesmo e se enxergar no outro, voltando-se sempre a uma atitude egocêntrica. Neste jogo de gênero narratológico, a frustração da homogeneização e do controle do outro leva Rodrigo a matar Macabéa.[14] O clímax desse jogo de controle é o momento prévio à morte de Macabéa onde Rodrigo se embate com a impossibilidade de sair de uma marginalização e livrar-se do signo de escritura masculina.[15] Por isto, este livro, ao mesmo tempo em que afirma a escrita masculina com sua forma direta e cronológica (com começo, meio e gran finale), mostra uma fluidez de pensamento, constante uso de paradoxos, mistura de gêneros, técnica de cortes semelhante a de Joyce.[16] A apresentação de elementos técnicos diferentes levou Sloan a afirmar:
A hora da estrela, a text replete with contradiction, paradox, and inconsistency, can be read as a text that is wavering, attempting to become something that it is not, that it cannot be. It is a narrative that is unable to cross over from a masculine libidinal economy to a feminine economy and thus underscores Rodrigo’s frustrates attempts to forget himself and to identify, it protagonist and, by extension, between the artist and society (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 99).
Existe em A hora da estrela um processo labiríntico de perspectivas onde o leitor lê o livro sabendo que é a perspectiva de uma mulher sobre um homem. Cixous analisa os títulos opcionais do livro e observa que a assinatura de Clarice Lispector se interpõe como um “ou”. Lispector se desdobra no livro, se metamorfoseia em homem para falar de uma “quase-mulher”. Na dedicatória a autora deixa explícita sua identidade a título enfático: “Dedicatória do autor (Na verdade, Clarice Lispector)” (LISPECTOR, Clarice, 1999, p. 21). Assim Lispector expõe o uso artificial do narrador masculino mostrando a intencionalidade no seu projeto de expor a visão deste ‘tipo’ de narrador e seu olhar sobre o outro.
Lispector utiliza uma escrita que já se caracteriza como pós-moderna e denuncia um outro tipo de relação com o conhecimento criando uma personagem que é símbolo de alteridade e da construção de um conhecimento relativizado. Em A hora da estrela a relativização do conhecimento é representada pela própria construção da personagem Macabéa. A personagem vista sempre com comiseração pelo seu narrador, que se sente culpado por sua situação, é representada como uma ‘ignorante’ dentro de parâmetros do conhecimento ocidental. No entanto, Macabéa mostrou-se capaz de apreciar um produto de cultura alta e também de aprender a mentir para ter tempo livre. Assim, ao mesmo tempo em que Macabéa é descrita como desprovida de conhecimento, sua representação é frustrada pelos próprios fatos da obra. Lispector representa a Macabéa sem correspondê-la à razão ocidental.
Portanto, a frustração do narrador com o fato de não conseguir apreender a personagem pode ser entendido como uma afirmação da distância que há entre a sociedade de valores ocidentais e esse ‘outro’ inalcançável. O ‘outro’, mulher pobre nordestina, é inalcançável não somente para o narrador mas também para a própria autora. Esta perpassa o seu sentimento para o narrador e este para o leitor. Lispector não tenta ser a porta-voz de uma camada social explicitamente alheia a ela.[17] Através da técnica do narrador consegue passar credibilidade a um personagem que não é produto da sociedade diretamente, mas sim da percepção da sociedade de um tipo social corrente. Em A hora da estrela a representação do ‘não grito’ (um dos títulos opcionais do livro) do subalterno aparece sem pretensões de ser ‘verdadeira’, ‘original’ ou ‘homogenia’.[18]
Macabéa assim, de certa forma, nasce numa obra que tenta desomogeinizar a imagem de um representante da região Nordeste. O próprio nome Macabéa faz alusão a revolta dos Macabeus contra a tentativa de um processo de homogeneização/assimilação do povo judeu, desenhando assim um claro paralelismo com o homogeneização que sofre a região Nordeste do país.[19] Esta região, que segundo Albuquerque Jr. foi ‘inventada’, passou por um processo de dizibilidade para o qual escritores e intelectuais contribuíram. Sobre este processo, o historiador afirma: “O Espaço Nordestino vai sendo dotado de uma visibilidade e uma dizibilidade; desenhado por agrupamento de imagens rurais ou urbanas, (…) domadas em sua diversidade pelo trabalho integrativo de poetas e escritores (ALBUQUERQUE JR, Durval, 1999, p. 117).
O trabalho das duas escritoras difere com relação à maneira como elas trabalham com as personagens nordestinas dentro da perspectiva da tradição literária regional. Em O Quinze o espaço novelesco está situado no espaço natural da literatura regionalista: a história se passa no Logradouro[20] ou na fazenda em que Conceição passara toda sua infância.
Em O Quinze, se há uma quebra do estereótipo da mulher, pode-se ver que há bem marcada a visão determinista do clima como principal vetor na formação dos tipos humanos. Rachel de Queiroz muda um aspecto da visão da mulher nordestina; contudo o nordestino em O Quinze, e da região em si, ainda se encontra nas garras do estereótipo construído sobre esta parte da nação. Existe a presença de multidões não individualizadas e a visão idílica e de vitimização do personagem sertanejo. Sobre a formação do estereótipo, diz Bhabha:
O reconhecimento do estereótipo, como um modo ambivalente de conhecimento e poder, requer uma resposta política e teórica que desafia os modelos deterministas e funcionalistas da concepção do relacionamento entre discurso e política e perguntas relativas às posições dogmáticas e moralistas do significado da opressão e da discriminação. Minha leitura do discurso colonial sugere que o ponto de intervenção deve mudar da identificação de imagens como positivas ou negativas para uma compreensão dos processos de subjetividade tornados possíveis (e plausíveis) por meio de discurso estereotípico (BHABHA, Homi, 1991, p. 178).
Os processos de subjetividade de um discurso estereotipado precisam ser repensados através da análise dos processos de subjetividade expostos dentro do discurso e o reconhecimento do poder determinista. É verdade que Rachel de Queiroz inova no campo regionalista ao quebrar um estereótipo da mulher nordestina “do lar”. Porém, Queiroz agrega um outro estereótipo para este tipo de literatura que irá se repetir em suas obras posteriores. Rachel de Queiroz não necessariamente impõe uma análise reflexiva a respeito do papel do escritor na representação de imagens homogêneas do Nordeste. Segundo Benedict Anderson[21], a literatura e, por conseguinte, o escritor tem grande importância na construção imaginativa de uma comunidade. Percebe-se uma atitude consciente da escritora Clarice Lispector sobre o seu papel construtor do estereótipo nordestino. Na obra de Lispector parece haver uma reflexão sobre o tema dentro do palimpsesto de sua obra, pela qual ela resolve expor as camadas da construção de um discurso regionalista.
O cotejo de O Quinze com A hora da estrela permite perceber como a tradição canônica da literatura brasileira regional construiu estereótipos, homogeneizou regiões e criou mitos identitários em nossa literatura. Rachel de Queiroz emprega aquilo que Lanser chama de “authorial voice” como uma forma de dar mais prestígio a sua voz. Esta técnica lhe posiciona entre os melhores do regionalismo brasileiro e lhe permite tornar o caráter da mulher mais múltiplo nesta tradição. Este progresso ocorre às custas de um esvaziamento do tom feminino em suas obras.
Lispector vai aos bastidores desta construção literária nacional para mostrar a impossibilidade de um processo de homogeneização (Macabéa é bastante diferente de Olímpico e de outros tipos de nordestinas). Impossível é tentar abarcar a imagem de um povo ou nação e modelá-la em termos de uma grande massa, representativa de desejos, e expectativas e (pre)conceitos. Se valendo da técnica de um narrador masculino, Lispector avalia o processo masculino de escrita da literatura regional que nomeia e demarca identidades e regiões.
A avaliação das personagens nordestinas dentro deste contexto mostra como se desenvolveu a representação do feminino neste tipo de literatura. Isto remete a uma reavaliação da literatura regionalista como sendo uma literatura que, ao mesmo tempo, quis dar voz ao subalterno, não conseguiu mais que sinalizar simulacros de identidades.
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NOTAS AO TEXTO
[1] O Nordeste, segundo Albuquerque Jr. foi inventado a princípios do século passado como uma paisagem imaginária que substituiu a relação dicotômica norte-sul do Brasil. Seguindo a linha de Foucault, o autor afirma que o Nordeste é um discurso, um topos, mais do que um lugar.
[2] Em uma biografia de Rachel de Queiroz, Heloísa Buarque de Hollanda a escreve quase como um guia para entender/validar sua leitura. A crítica classifica Queiroz como proveniente deste clã de “matriarcas nordestinas” (12) e diz: “O Quinze trazia ainda consigo uma outra novidade não menos desafiadora: ser um livro escrito por uma mulher sobre uma mulher com claras preocupações sociais e autonomia de pensamento e ação.” (15) Há um certo fascínio sobre a escritora cearense que perpassa a crítica de Heloísa Buarque de Hollanda. Este é comum nas críticas feministas sobre escritoras, e também ocorre em Hélène Cixous ao falar sobre Clarice Lispector. Muitas vezes, em sua crítica, Cixous compara a vida das autoras e não de seus personagens, por considerar verdadeira esta relação especular “autora feminina/personagem feminino”.
[3] Em O Quinze, o narrador descreve o “retrato de Conceição, com ar pensativo, que pendia da parede junto do quadro do coração de Jesus.” (58) Conceição se converte na cena em uma Virgem Maria “pensativa”. A obra também explora este jogo de poder da Virgem Maria. Já na primeira página vê-se a frase: “Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria” (5) Deus está assim referido como esposo da Virgem Maria e prenuncia a mulher como figura central no livro.
[4] As outras mulheres da trama são retratadas como passivas. Esta passividade é representada por mulheres que se refugiam na religião ou choro: “Da janela da cozinha, as mulheres assistiam à cena. Chorava, silenciosamente…” (15). Por sua vez, Conceição anda sozinha pelas ruas (fato considerado não aceitável naquele contexto) e exerce um papel ativo na sociedade. A personagem vai de encontro aos padrões sociais que por vezes é representado na própria figura feminina da Mãe Nácia, sua avó. A mulher luta também contra o seu próprio sexo.
[5] Conceição indaga a capacidade intelectual de Vicente e vê que ele não se sente no mesmo nível intelectual de Conceição. Em O Quinze, a exploração do tema da mulher intelectual ou simplesmente superior intelectualmente ao homem vem constituir parte central da trama. O que fora sinalizado antes por Graciliano Ramos em Vidas secas, sobre a capacidade intelectual de Sinhá Vitória, na escrita feminina vem com mais força e ocorre uma exploração mais explícita do tema.
[6] Lídia Santos chama a atenção para esta posição já na dedicatória do livro “E – e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também.” ( Dedicatória de A hora da estrela, 10).
[7] Nesta época, Guimarães Rosa, considerado por Antônio Cândido como o representante do supra-regionalismo, tomava a cena. Lispector se insere neste gênero da literatura brasileira imprimindo seu estilo interior de momentos epifânicos joycianos. Clarice Lispector criada no Nordeste volta o seu olhar para a região em que viveu seus primeiros anos de vida de forma introspectiva.
[8] Maria de Lourdes Barbosa avalia a orfandade como uma maneira de facilitar o processo de independência de Conceição. A orfandade para Macabéa poderia, então, ser vista como um processo que causa dor e que permite o autodescobrimento. É só depois que sua tia falece que Macabéa vai ao Rio de Janeiro e começa a ampliar o processo que existia do seu deslocamento no mundo.
[9] Lispector enfatiza o caráter de Macabéa como uma nordestina. Diferentemente de Olímpico, ao qual por vezes se refere como ‘paraibano’, Macabéa é sempre apontada como a nordestina, e não a ‘alagoana’.
[10] O conceito de escritura feminina em Cixous relaciona-se com o conceito de différance de Derrida, que se opõe ao conceito de estruturalista binário. A análise de Derrida baseia-se na produção de significado que implica uma crítica a toda tradição filosófica ocidental. Os textos femininos dentro deste conceito adaptado por Cixous vão contra a lógica falocêntrica. Porém, é importante destacar a afirmação de Cixous de que a escrita feminina não está necessariamente ligada ao sexo feminino. Segundo a teórica francesa, homens como Joyce, Lautréamont e Genet escrevem de maneira feminina, com fluência e espontaneidade. Mulheres também podem fazer-se valer de uma escrita masculina, caracterizada por uma narrativa mais convencional estruturalmente.
[11] A teoria de Cixous é contraditória, pois lida com a ênfase de Derrida no fato textual, e se distancia da interpretação de literatura como voz, presença e origem. A contradição se constitui pelo fato de ainda utilizar mitos e símbolos da mulher envolvidos no imaginário ocidental. Muito da escritura francesa, inclusive a feminista, parece assumir uma disjunção radical mais ontológica do que socialmente construída entre mente/masculino e corpo/feminino.
[12] Há uma parte da crítica que pensa que Lispector não usa a voz pessoal para evitar que a obra fosse percebida como autobiográfica. Para Sloan, “she wants to portray a mode of discourse that is unlike her own, one that incorporates the practices the phallogocentric discourse. (…) Rodrigo makes it clear he is attempting to write from a position of objectivity and emotional distance. (91)
[13] Rodrigo compara a escrita com a carpintaria. Esta é uma comparação de cunho bem masculino e diferente da comparação da escrita com as outras artes como tinha ocorrido em Água viva. Enquanto a descrição dos outros personagens demarca sua classe social, as descrições de Rodrigo enfatizam seu lado de escritor masculino.
[14] Rodrigo representa o mundo da razão, intelectualidade, imaginação, enquanto Macabéa age por instinto. Ela é o oposto de Rodrigo, uma datilógrafa que ironicamente não nenhum controle conceitual sobre a língua. No entanto, de certa forma, ambos Rodrigo e Macabéa são figuras marginais. Ele, por ser escritor, e ela, uma nordestina. Rodrigo diz que a classe média o despreza, a alta o olha como um monstro esquisito e que a baixa nunca vem até ele.
[15] A invenção do personagem cartomante Carlota seria uma outra forma de controlar a vida de Macabéa, embora seja mais uma tentativa frustrada. Rodrigo e madame Carlota não conseguem realizar seus intentos e apreender o destino de Macabéa.
[16] Clarice Lispector faz uso de vocabulário simples, mas utiliza técnicas de escrita complexas. Sobre o estilo de escrita de Lispector, comenta Fitz: “Additional characteristics of her sentences have to do so with parataxis, that is, a writing style that strings together the members of a sentence without a clear explanation of their connection, and hypotaxis, a style in which the members of a sentence are clearly connected by conjunctions, clauses and subordinate clauses.” (43) Outra figura de linguagem muito usada por Lispector é o paradoxo. Seu trabalho assume uma orientação filosófica e lírica. Fitz acrescenta: “as a poetical writer, however, Lispector turns these apparently contradictory couplings into oxymorons. (…) a conceit that allows a writer to verbalize the inconsistencies, contradictions, and complexities of the human condition at the same instant that he gives credence to the truth of their existence.” (51)
[17] Cixous diz que Clarice Lispector escreve um texto sobre a pobreza, mas o texto não é pobre. Assim, Clarice Lispector mostra que pobreza não é somente um fato mas sim também um conceito ou preconceito. A imagem estereotipada do que é pobreza é desmascarada por um texto denso. Lispector divide bem o que seria pobreza espiritual e pobreza material.
[18] A respeito do personagem Macabéa e a construção da personagem feita por Clarice Lispector, Fitz afirma que Lispector deparou com o mesmo problema de Graciliano Ramos ao trabalhar com um personagem desprovido de educação formal e sem consciência de conceitos intelectuais de linguagem. Analogamente a Graciliano Ramos, que através da secura e comedimento de linguagem, conseguiu representar esse ‘outro’, Lispector consegue-o através de seu narrador masculino. Lispector supera este empasse narratológico com a adoção do narrador masculino em oposição do pretenso narrador assexuado de Queiroz. A validade da representação de Conceição é baseada na relação especular ‘autora/personagem’.
[19] O nome de Macabéa muitas vezes é citado pela crítica como um referência à ascendência judia de Clarice Lispector e a adoção do sufixo “-éa “, tão popular nas camadas pobres do Brasil. É importante saber que Judas Macabeu foi protagonista de uma revolta contra o processo de assimilação helenística iniciado pelo imperador Natíoco IV Epifanes, que queria impor um sistema religioso em detrimento dos judeus. Em 164 a.C., Judas e seus homens conseguem tomar Jerusalém e se ver livres dessa imposição.
[20] Lugar perto de Quixadá onde Rachel de Queiroz costumava passar suas férias quando menina. Percebe-se que a autora também passou por esse processo de ida e volta da paisagem sertaneja.
[21] A definição de nação de Benedict Anderson parece bastante válida em paralelo ao conceito de regionalização, quando afirma: “In an anthropological spirit, then, I propose the following definition of the nation: it is an imagined political community – and imagined as both inherently limited and sovereign. It is imagined because the members of even the smallest nation will never know most of their fellow-members, meet them, or even hear of them, yet in the minds of each life the image of their communion.” (5)
Bio fornecida pelo palestrante.
Ana Paula A. dos Santos
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Resumo: No presente trabalho pretendemos analisar de que forma a tradição feminina do gótico explorou a conflituosa relação entre as personagens mulheres e os seus antagonistas. Para tanto, propomos uma leitura de Úrsula (1859), romance da escritora brasileira Maria Firmina dos Reis, cujo enredo explora o abuso de poder e a opressão gerada pelas leis familiares, e tem, na figura do vilão gótico, um páter-famílias, a principal causa dos horrores da narrativa.
Palavras chave: gótico, gótico feminino, gótico brasileiro, Literatura Brasileira, Maria Firmina dos Reis.
Abstract: This paper aims to analyze in what ways the female Gothic tradition tapped into the conflicting relationships between female characters and their antagonists. To this end, we propose the reading of Úrsula (1859), a Brazilian novel written by Maria Firmina dos Reis, which exploits the abusive power and oppression caused by the family laws, represented by the figure of a Gothic villain, a pater familias who is the main source of the horrors depicted in this narrative.
Keywords: Gothic, female Gothic, Brazilian Gothic; Brazilian Literature, Maria Firmina dos Reis.
Minicurrículo: Ana Paula A. dos Santos é mestranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, bolsista da CAPES e membro do grupo de pesquisa “Estudos do gótico”, fomentado pelo CNPq. É orientanda do Prof. Dr. Júlio França e sua pesquisa se volta para esse tipo de ficção, mais especificamente para o gótico feminino e para as teorias que procuram compreender e analisar a relação existente entre a poética gótica e suas autoras.
ÚRSULA E A VERTENTE DO GÓTICO FEMININO NO BRASIL
Ana Paula A. dos Santos
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Introdução
Publicado em 1859 pela escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, Úrsula pode ser considerado o primeiro romance brasileiro de autoria feminina, e, também, nosso primeiro romance abolicionista (cf. LOBO, 2006, p. 193). Apesar de a obra carregar tão importantes epítetos, é curioso notar o quão pouco estudada ela foi pela nossa crítica e historiografia. O nome de Reis não consta nos nossos manuais de literatura e suas obras permaneceram por longo tempo longe de qualquer apreciação ou análise, a despeito do caráter original que ela possui em comparação a outros escritores contemporâneos à sua época de publicação.
Assim como Reis, outras escritoras tiveram seus nomes obliterados de nossa história. O fato é comentado por Lúcia Miguel Pereira: estudando a produção ficcional brasileira do período de 1870 a 1920, a historiógrafa nota que, “[e]mbora tivesse, ainda no século dezoito, tido em Margarita da Orta e Silva uma precursora, a ficção não conta entre nós, no período aqui estudado, muitas mulheres” (PEREIRA, 1988, p. 259). O levantamento feito por Pereira revela o nome de apenas doze escritoras. Dentre estas, um número ainda menor representa as mulheres cujas obras resistiram ao tempo e conseguiram chegar até nós. Diante destes dados, a historiógrafa alerta para a dificuldade em se estabelecer uma tradição feminina da Literatura Brasileira:
(…) temos que aceitar como definitivo o juízo dos contemporâneos, tácito no silêncio que se fez em torno da maioria dessas escritoras, registradas tão-somente por Sacramento Blake. E mesmo a uma ou outra lembrada pelos críticos do momento, como Adelina Lopes Vieira ou Gorgeta de Araújo, não se pode dar lugar na história (PEREIRA, 1988, p. 259).
No entanto, o conjunto de escritoras brasileiras vem sendo ampliado por conta do empenho que estudos literários mais recentes têm empregado em resgatar esta produção ficcional omitida por tanto tempo da nossa história. Grande parte deste empenho foi realizado pelos trabalhos filiados à linha de pesquisa “Mulher e Literatura”, ativa desde 1986 (cf. GAZOLLA, 1990; MUZART, 2008), que tem defendido a necessidade de se estabelecer uma tradição que contemple as obras de autoria feminina pertencentes à nossa literatura. Desde então, romancistas como Ana Luísa de Azevedo e Castro, Emília Freitas, Júlia Lopes de Almeida, e a própria Maria Firmina dos Reis, entre outras escritoras do século XIX e XX, passaram a despertar um maior interesse dos estudos literários brasileiros.
A crítica feminista encontrou nesta produção ficcional o que foi compreendido como uma resistência aos valores patriarcais que dominavam as regras sociais e morais. Afinal, dentre os assuntos mais frequentemente abordados nessas narrativas, nota-se o inconformismo em relação à opressão gerada pela estrutura familiar e social. Contudo, as análises não se restringiram aos estudos de cunho feminista. A exemplo, romances como A rainha do ignoto (1899), de Emília Freitas, passaram a receber a atenção dos estudiosos não apenas pelo seu caráter de denúncia das dificuldades enfrentadas pela mulher na sociedade, mas, também, pelos aspectos fantásticos e sobrenaturais presentes na obra.
Em verdade, muitas das obras que integram esta produção literária feminina demonstram uma proximidade com uma literatura menos preocupada em seguir convenções realistas e mais voltada para uma poética imaginativa, a saber, o gótico – em especial para a versão setecentista desta literatura, que tornou conhecidas as obras de escritoras inglesas como Clara Reeve, Sophia Lee, Anne Radcliffe e Charlotte Smith.
A pesquisadora Zahidé Muzart (cf. 2008, p. 299) mostra-se surpresa ao notar que, tal como ocorrera na Inglaterra do século XVIII, o gótico foi uma poética que atraiu sobremaneira as mulheres que se dedicaram a escrever romances. Já Maurício Cesar Menon (2007) elenca Ana Luísa de Azevedo e Castro, Maria Firmina dos Reis e Emília Freitas entre o conjunto de escritores que apresentam influxos góticos em suas obras, seja por meio da proximidade das duas primeiras escritoras com o gótico radclifeano, seja pelo clima fantasmagórico e pelos temas do duplo e do espiritismo presentes na obra desta última.
No que concerne a Maria Firmina dos Reis, Luiza Lobo é categórica ao afirmar que o gótico se mostra uma das características basilares da obra da escritora maranhense. Seja em seu romance, em sua poesia ou mesmo em seu diário, Reis apresenta uma tendência às formas e aos conteúdos pertencentes à poética gótica:
Úrsula, escrito no estilo de folhetim romântico, ao gosto de Paul et Virginie, de Bernardin de Saint-Pierre – que, aliás, MFR cita no início do capítulo 13 –, traz descrições de cenas lúgubres no cemitério, de desenganos amorosos e da loucura de Úrsula. (…) São cenas de um romantismo gótico e aguçado que se repetem em diversos poemas de MFR, assim como no Álbum (LOBO, 2006, p. 193).
Partindo de tais considerações, podemos afirmar que o romance de Reis se caracteriza como uma obra gótica em sua totalidade: em primeiro lugar, os cenários sombrios, lúgubres e melancólicos, palcos de situações trágicas, fazem as vezes de loci horribiles. Em Úrsula é a fazenda de Santa Cruz que assume tal função. O local parece corroborar com a proposição de Fernando Monteiro de Barros (2014), para quem as grandes propriedades latifundiárias, as fazendas, as casas-grandes são nossos equivalentes nacionais dos castelos e das magnificentes e aterrorizantes construções góticas, principais loci do gótico setecentista.
Em segundo lugar, na fazenda de Santa Cruz impera o poder de um senhor de terras cuja tirania iguala-se a dos vilões aristocratas que povoam a ficção gótica. O antagonista da obra, o Comendador Fernando P…, possui as características das personagens monstruosas destas narrativas, suas ações se configuram como transgressões morais e sexuais responsáveis por colocar em risco os demais personagens e causar o horror e medo. Tal personagem vilanesco permite à narrativa uma ampla abordagem de situações de violência e assédio, entre outras infrações sociais que visivelmente se sobressaem aos sentimentos virtuosos e edificantes presentes na obra.
Nestes termos, podemos concluir que o enredo se caracteriza por uma forma bastante desencantada de retratar a existência humana, que, acreditamos, seja uma das características fundamentais do gótico. Afinal, tal ficção não parece interessada em retratar a bondade ou a virtude, mas sim o confronto dos sentimentos positivos com o que há de mais sombrio, maligno e cruel em nossa sociedade.
O embate maniqueísta, entre virtude e vício, bem e mal, também foi uma temática privilegiada por duas formas literárias com as quais o gótico dividiu o contexto setecentista, o melodrama e o romance sentimental, gêneros que se valiam de elementos sensacionais e do pathos advindo de situações de perseguição e angústia para suscitar determinados efeitos de recepção em seus respectivos públicos. Porém, os dois gêneros traziam uma preocupação moral visivelmente mais marcante que a ficção gótica: neles, a virtude era recompensada e a vilania punida.
A aproximação com o melodrama e o romance sentimental fez surgir uma vertente do gótico literário visivelmente mais preocupada com questões moralizantes. Tal vertente encontrou respaldo em uma significativa produção ficcional de escritoras que buscaram acrescentar ao “tecido da vida cotidiana – matéria privilegiada do romance feminino – e ao viés sentimental uma dose de ingredientes góticos para satisfazer o gosto do público leitor” (VASCONCELOS, 2007, p. 118). Posteriormente, essa produção ficcional constituiu-se como uma tradição particular da ficção gótica, a saber, o gótico feminino. Podemos considerar, então, o romantismo da obra de Reis como herdeiro dessa tradição, e Úrsula como integrante da linhagem brasileira do gótico literário, mais especificamente da tradição do gótico feminino no Brasil.
A vertente feminina do gótico
Apesar de o gótico setecentista ser compreendido comumente como um conjunto de obras mais ou menos homogêneas, uma análise mais apurada da produção ficcional do período – que se inicia com a publicação de O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, e se estende até as primeiras décadas do século XIX – revela que as obras góticas possuem tantas semelhanças quanto possuem diferenças entre si (cf. PUNTER, 1996, p. 1). No que concerne às obras de autoria feminina, tais diferenças se mostram bastante significativas: o modo como as escritoras se utilizaram da poética gótica e os efeitos de recepção intencionados por suas narrativas originaram uma vertente particular desta ficção, o gótico feminino.
O termo, cunhado por Ellen Moers em 1976, deu margem a uma série de estudos guiados pelo objetivo de especificar as características narratológicas desta tradição do gótico, e, ao mesmo tempo, justificar a separação desta vertente de sua contraparte, o gótico masculino. Para Sandra M. Gilbert e Susan Gubar (cf. 1984, p. xi), a produção ficcional de autoria feminina compartilha entre si certas temáticas, como enredos de perseguição, a opressão da mulher por uma figura paterna, e, também, certas imagens de aprisionamento e clausura, motivo pelo qual seria possível constituir uma vertente do gótico literário propriamente feminina.
Tal como Zahidé Muzart, anteriormente citada, Gilbert e Gubar notam que uma parte considerável da literatura feminina apresenta certa propensão à utilização da poética gótica em suas narrativas. Para explicar esta tendência, devemos levar em conta o contexto de ingresso da mulher no mercado literário na Inglaterra setecentista, sobre o qual Virginia Woolf (cf. 1990, p. 84) tece importantes comentários. Woolf comenta que, à época, as mulheres passavam a maior parte do seu tempo restritas ao interior de suas casas, e, naturalmente, esse fato se reflete em suas obras: a ficção de autoria feminina tem no espaço doméstico o principal locus de suas narrativas, e nos sentimentos e relações pessoais os principais assuntos abordados por elas. Assim, seus romances apresentam frequentemente enredos que retratam o difícil cotidiano enfrentado pelas protagonistas para atender às expectativas sociais e adquirir uma posição social estável. Nem sempre, porém, os desfechos dessas apresentam finais felizes e o triunfo da bondade e da virtude – pelo contrário, a perseguição sexual e os problemas relativos ao âmbito doméstico são temas recorrentes nessas narrativas, revelando o lado mais sombrio do cotidiano da mulher em sociedade.
O gótico mostrou ser uma poética adequada para as escritoras retratarem, ficcionalmente, estes horrores próprios do universo feminino (cf. PUNTER & BYRON, 2004). A afinidade entre a poética e as temáticas deu origem a um viés do gótico literário, que, ao longo da história, explorou situações de horror e terror provenientes da experiência feminina. Nas palavras de Anne Williams (1995, p. 10, tradução nossa.), “[a] versão feminista do gótico (…) tem conscientizado os leitores das possíveis afinidades entre escritoras e uma literatura especializada no medo e nos segredos domésticos monstruosos”.
Nossa hipótese é de que Úrsula se insere nessa tradição ficcional, uma vez que essa narrativa tem como enredo a perseguição de uma jovem órfã por um vilão criminoso, violento e cruel, que não é outro senão seu próprio tio, obcecado em torná-la sua esposa. Ao longo do romance é notável que Reis se dedique a retratar o sofrimento feminino, sobretudo como forma de alertar para uma configuração de mundo em que o domínio de valores patriarcais frequentemente torna as mulheres vítimas da tirania masculina.
O páter-famílias como vilão gótico
Como procuramos defender, os problemas relativos ao âmbito familiar são os mais insistentemente retratados pelas escritoras da vertente feminina do gótico literário. Úrsula não foge a esta regra, afinal, é das relações familiares que surge a principal ameaça que colocará a protagonista de Maria Firmina dos Reis em perigo e fará dela uma damsel in distress – arquétipo comum nas obras góticas, encarnado em personagens jovens, inocentes, frágeis e virtuosas, ameaçadas pela malignidade e pelos desejos sádicos do vilão.
No gótico feminino, este vilão geralmente é a figura mais importante do espaço doméstico, o páter-famílias, um homem em posição de autoridade que deveria zelar pelas filhas, irmãs ou esposas, ou seja, pelas personagens femininas impotentes e desamparadas na configuração de mundo patriarcal. Essa figura de posição privilegiada no âmbito familiar é justamente quem vai subverter sua função e tornar-se a principal ameaça nas narrativas. Como Punter (1996, p. 52, tradução nossa.) ressalta, o universo retratado na vertente feminina do gótico corresponde a “um mundo no qual os homens, como protetores, passam quase naturalmente da gentileza ao estupro”.
Nesse sentido, o Comendador Fernando P…, antagonista de Úrsula e algoz da protagonista do romance, configura-se como um vilão desta vertente do gótico. Este é descrito por Menon (2007, p. 133) da seguinte forma:
De fato, a figuração desse vilão aproxima-se muito àquela esboçada pelo gótico. Vários dos elementos presentes no século XVIII, como a aristocracia, a tirania, a perseguição a parentes, a crueldade e a esperteza da personalidade encontram-se em Fernando P…; unem-se a isso, ainda, alguns elementos nacionais, como o fato de ele ser um senhor/torturador de escravos, as paragens brasileiras por onde se empreendem fugas e perseguições.
O vilão de dos Reis segue o perfil radclifeano de antagonista – cruel, sádico e misógino – ao qual foram adicionadas algumas particularidades dos vilões do gótico brasileiro. O comendador encontra-se em uma posição social privilegiada, protegido por leis institucionais que asseguram o seu domínio sobre as personagens femininas da narrativa. Além disso, assim como Montoni ou Schedoni, os respectivos vilões de Os mistérios de Udolpho (1791) e O Italiano (1797), ele será movido por uma emoção extrema: a paixão obsessiva e incestuosa que nutre pela sobrinha. Esse amor não correspondido será responsável pelos horrores da narrativa e pelo medo suscitado nas personagens e, consequentemente, nos leitores da obra.
Podemos considerar, então, que o principal antagonista de Úrsula se enquadra no arquétipo setecentista de vilão gótico. Da mesma forma, a protagonista também parece seguir o arquétipo de heroína gótica, que, nos termos de Réka Tóth (2010, p. 25, tradução nossa.), encontra-se quase sempre em uma posição “desamparada e desesperançosa diante das labirínticas perseguições do tirânico poder masculino”. Órfã de pai e, posteriormente, também de mãe, segundo as leis sociais Úrsula estaria sujeita ao domínio do Comendador, seu parente mais próximo. Porém, a protagonista não pode confiar a ele a função de páter-famílias, pois ele é uma ameaça para sua virtude e sua segurança, como demonstra o excerto abaixo, que descreve o primeiro encontro entre Úrsula e Fernando:
Esse homem não estava no verdor dos anos; mas sua fisionomia, suposto que severa e pouco simpática, nessa hora crepuscular, que dá certa sombra a toda a natureza, não denunciava a sua idade. A pele sem rugas, os olhos negros e cintilantes, tinham um quê de belo; mas que não atraía. Era de estatura acima da medíocre, esbelto, e bem conformado; e as feições finas davam-lhe um ar aristocrático, que, quando não atrai, sempre agrada.
Malgrado seu, Úrsula começou a sentir-se oprimida pelo olhar do desconhecido, a quem o seu deixava já de dominar, e caiu de novo sobre o assento entalhado no tronco. Era como se esse homem a tivesse magnetizado. A sua vista causava repugnância, queria escapar-lhe; mas as forças abandonavam-na e seus belos olhos cor de ébano estavam sobre ele fixos.
O terror, a desconfiança, a inquietação pintavam-se no rosto pálido e aflito, no olhar fixo e pasmado dessa pobre moça (REIS, 1988, p. 88-9).
Nesse primeiro encontro, Úrsula, que não sabe ainda que está diante de seu tio, percebe o perigo iminente que está correndo. É curioso notar que o personagem do comendador não é desprovido de atrativos físicos. Ele é descrito como belo e esbelto, suas feições são finas, aristocráticas. Portanto, à primeira vista, sua aparência não dá indícios de malignidade alguma. É seu olhar, como o de outros vilões góticos, a principal pista de seu verdadeiro caráter, ele hipnotiza e aterroriza a protagonista, causa-lhe desconfiança e medo.
Tais efeitos de terror serão gradativamente magnificados à medida que Fernando começa a perseguir a sobrinha e colocar a vida e a virtude da protagonista em risco. Úrsula passa a ser assombrada pela figura do tio:
Apareceu a noite rebuçada no seu manto de escuridão, e a donzela supôs encontrar o sossego nas trevas e no sono; mas trêmula e agitada no seu leito, invocava embalde o sono, que o fantasma se erguia mudo e impassível, e a sua mente alucinada dava-lhe movimento e voz, e ele blasfemava, e ameaçava, e sorria-se com sarcasmo. Os olhos chispavam fogo, e os lábios agitavam-se convulsos e os membros e o tronco pareciam cobertos de sangue.
E ela revolvia-se no leito, e o corpo tremia-lhe e o suor corria-lhe, e o peito opresso ofegava: era um pesadelo insuportável!!!!!!!!!!!!!!!!!! (REIS, 1988, p. 94)
Na cena, a descrição do comendador é feita de modo a potencializar os efeitos de horror na narrativa: ele aparece à noite, em meio às trevas, surgindo em meio a uma espécie de pesadelo em vigília experimentado por Úrsula. Sua forma é fantasmagórica, coberta de sangue, com lábios convulsos e olhos que chispam fogo. Em verdade, a passagem parece antecipar os horrores de que o comendador será capaz para tomar posse de Úrsula – como, por exemplo, assassinar friamente o noivo da sobrinha no dia do casamento. A violência da ação tem consequências fatais para Úrsula:
Um mar de sangue tingiu-lhe as mãos e os puros seios! Tinha os olhos fixos e pasmados sobre o doloroso espetáculo, e entretanto parecia nada ver; estava absorta em sua dor suprema, muda, e impassível em presença de tão monstruosa desgraça.
O seu sofrimento era horrível, e profundo, e o que se passava de amargo e pungente naquela alma cândida e meiga foi bastante para perturbar-lhe a razão (REIS, 1988, p. 147-8).
Novamente, Maria Firmino dos Reis vale-se de uma descrição expressiva para suscitar efeitos de horror: o sangue do noivo cobre as mãos e os seios da heroína, que, diante da horrível e monstruosa cena, perde a razão. Sob o domínio do tio, a personagem perecerá aos poucos. Febril, convulsa e louca, ela torna-se a encarnação física dos crimes do Comendador Fernando: “A presença dessa menina era um remorso vivo para o seu coração; seus olhos cerrados, seus lábios entreabertos, sua respiração ofegante pareciam repetir-lhe: – Assassino!” (REIS, 1988, p. 150).
Vale ressaltar que, mesmo no epílogo da obra as transgressões de Fernando não são, em momento algum, punidas pelas leis sociais. Apenas Úrsula parece agir como contraponto da malignidade do antagonista, denunciando, com o estado de loucura ao qual fora reduzida, a vilania do personagem e os atos malignos que ele cometera durante a narrativa.
Assim, ao mesmo tempo em que assume um ponto de visto empático em relação ao sofrimento de Úrsula, a narrativa de Maria Firmina dos Reis parece alertar, por meio do trágico final legado à personagem, quão ineficazes se mostram os seus esforços diante da extensão do poder vilanesco – poder este assegurado pelas instituições reguladoras das normas sociais.
Nesses termos, o romance de Reis coaduna com certa tendência das obras do gótico feminino em conferir desfechos nada otimistas às personagens femininas de suas obras. Acreditamos que este seja o meio pelo qual as escritoras desta tradição procuraram ressaltar a recorrência com que as mulheres tornavam-se vítimas de páter-famílias, cujo poder, infinitamente engenhoso na busca por seus demoníacos objetivos (cf. PUNTER, 1996, p. 9), mostra-se o verdadeiro causador dos perigos e dos horrores do universo feminino retratado neste viés do gótico literário.
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Bio fornecida pelo palestrante.
Daiane Basílio de Oliveira
Universidade Federal de Viçosa
Resumo: A literatura ocupa-se do social e liga-se diretamente a ele. O Romantismo apresentava a discussão sobre a realidade, na qual se inseria a mulher, naquela sociedade patriarcal. O romance Indiana, de George Sand, publicado em 1832, surge como um dos inauguradores do discurso feminista na forma literária, evidenciando a situação da mulher, denunciando as opressões e rompendo com paradigmas da ideologia dominante. Aqui observaremos como esses aspectos se apresentam como traços presentes no caráter e na ação das mulheres nessa obra de modo a idealizá-las.
Palavras-chave: Literatura de autoria feminina, feminismo, mulher, George Sand.
Minicurrículo: Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Letras – Estudos Literários – pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com ingresso em 2015, Daiane Basílio de Oliveira é formada em Letras – Português/Francês (UFV, 2015), possui experiência na área de revisão de textos e no ensino de língua portuguesa, francesa e redação. Atualmente, desenvolve pesquisas no campo literário, sobretudo em literatura francesa e crítica feminista.
MULHERES E SUAS REPRESENTAÇÕES: A IDEALIZAÇÃO DO FEMININO EM GEORGE SAND
Daiane Basílio de Oliveira
Universidade Federal de Viçosa
Introdução
Até o século XIX, a representação da mulher nos cânones literários era marcada pela subserviência. Neste momento, começa-se a emergir a escrita literária feminina, que adentra os portões da arte, colocando em questão as circunstâncias sócio históricas nas quais as mulheres se encontravam.
Nos romances de autoria masculina, assim como no círculo literário, as mulheres ocupavam posição secundária. As personagens femininas se encontravam vinculadas a papéis social e culturalmente construídos, moldados às convenções patriarcais. Zolin (2009) menciona que além de tradicionalmente construídas, as personagens eram “submissas, dependentes, econômica e psicologicamente do homem”, o que muda ao ser retratadas nas obras literárias de autoria feminina, nas quais são “engendradas como conscientes de sua condição de inferioridade e como capazes de empreender mudanças em relação a esse estado de objetificação” (ZOLIN, 2009, p.222).
Neste contexto, em 1832, desponta a francesa George Sand com Indiana, seu primeiro romance, no qual a autora empreende com sensibilidade uma trama repleta de sentimentalismo, estruturada por meio de uma linguagem eloquente e realista, cujo pilar principal é a crítica à sociedade patriarcal, mais notoriamente à forma com que a mulher era tratada no matrimônio. “Romance dentro da história, romance de 1830, Indiana é muito mais que um romance de tese que denuncia a opressão das mulheres dentro do casamento” (BORDAS, 2004, p.147, tradução minha) ¹.
George Sand (1804-1874), pseudônimo masculino de Amandine-Aurore-Lucile Dupin, foi uma das principais representantes da literatura francesa do século XIX. Romancista, crítica e ensaísta, cumpriu um significante papel na vida política de sua época, sobretudo pela representatividade dos ideais feministas em seus romances. A autora é considerada uma das precursoras do movimento pela igualdade de gênero e emancipação feminina no meio artístico.
Nas palavras de Madame de Staël, “a arte é a expressão da sociedade”. Candido (2006) também articula que a estilização da linguagem está disposta para fins de representação, “a arte, e, portanto, a literatura, é uma transposição do real para o ilusório por meio de uma estilização formal, que propõe um tipo arbitrário de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos” (CANDIDO, 2000, p. 47). Concentrados nessas premissas, cabe-nos refletir sobre as conjunturas sócio-históricas como coeficientes deliberativos da produção literária, assíduos em Indiana. Assim, a proposta deste estudo do romance Indiana sob a perspectiva da crítica feminista é analisar a representação da mulher na sociedade de século XIX tendo em vista sua luta pela liberdade e capacidade de alcançar a emancipação.
Indiana, um romance de aprendizado: De mulher-objeto à mulher-sujeito
Inseridos no quadro de produção, a política e a história, elementos constitutivos do romance, oferece-nos a dimensão temporal e o contexto a que a autora prima referir-se, a fim de afirmar aquilo que se passava e como o extrato social acaba por sujeitar os indivíduos àquilo que lhe era de interesse, a exemplo das mulheres. Visto que a autora ocupa-se em discutir questões de ordem social, pode-se afirmar que o contexto político e histórico, na obra referidos, tende a incidir diretamente sobre o comportamento e caráter de cada personagem, ao mesmo tempo em que se torna, também, um dos objetos de crítica dentro da obra.
Antônio Candido (2006) reitera que a dimensão histórica e a construção artística coabitam em união dentro das obras literárias. Versando sobre o âmbito de Indiana, percebemos a expressão de uma época, do século XIX. Narrado com copioso realismo, a realização da escritora enseja alinhar os fatores estéticos e sociais na obra, em tal grau que o elemento social não se configura unicamente como um elemento exterior, mas “como referência que permite identificar, na matéria do livro, a expressão de uma certa época ou de uma sociedade determinada; nem como enquadramento, que permite situá-lo historicamente; mas como fator da própria construção artística” (CANDIDO, 1965, p. 7).
O modelo de estado na França do século XIX, viabilizava e atestava o primado masculino na sociedade. Neste cenário, a mulher era delineada como domesticada e subalterna. O papel das mulheres estava limitado ao círculo familiar, sua existência era totalmente atrelada aos representantes do sexo masculino. Hunt (1991) afirma que o pensamento da época engessava as mulheres em uma estrutura caracterizada por uma suposta debilidade intelectual, eram tidas como o inverso do homem, identificadas por sua sexualidade e corpo.
Faz-se presente, assim, a desconstrução das definições tipológicas das personagens femininas conforme os protocolos sociais e a universalização das experiências das mesmas, as quais, eram, anteriormente, esboçadas em perfis legitimados pelo modelo patriarcal, silenciadas na vida pública e privada e em estereótipos negativos e/ou inferiorizados. Passam a transitar com consciência do estado em que vivem, não sendo mais personagens secundárias, mas heroínas e idealizadas nos romances. Dessa forma, nos ateremos a discutir como são representadas duas das personagens centrais da obra, a protagonista, Indiana, e Laure de Nangy, esposa do amante da figura central, sob o olhar da mulher sobre a mulher, no desvencilhar da forma tradicional de representação do feminino.
A obra de Sand dedica-se a contar a história de Indiana, uma jovem que subsiste em um sistema que é repressor de sua individualidade. O prólogo sobre a protagonista se dá no tecer de sua relação com seu marido, retratada primariamente como “sua mulher” e não em sua identidade individual. Em uma autêntica descrição, apreende-se o propósito da autora em evidenciar a marginalização da mulher, ao passo que sua admissão social deve-se, diretamente, à figura masculina. Sua existência, assim como das demais mulheres da época, só é possível através do laço matrimonial.
Mas suas vagas e passageiras distrações não impediam que o Coronel, a cada tour de seu passeio, lançasse um olhar lúcido e profundo sobre os dois companheiros de sua velhice silenciosa, reportando de um a outro esse olhar atento que cobria há três anos um tesouro frágil e precioso, sua esposa. Pois sua esposa tinha dezenove anos, e si você tivesse a visto afundada sob o manto dessa vasta chaminé de mármore branco com cobre dourado; se você a tivesse visto, toda franzina, toda pálida, toda triste, o cotovelo apoiado sobre o joelho, ela toda jovem, em meio a esse lugar antigo, ao lado de seu velho marido, semelhante a uma flor nascida ontem que cresce em um vaso gótico (…) (SAND, 1991, p. 8-9, tradução minha).2
A beleza, juventude e fragilidade de Indiana são enaltecidas em primeiro nível, todavia, contemplamos em seu silêncio o tédio e a angústia. Criada por um pai violento e bizarro, jamais conhecera a alegria e afeição por parte de outra pessoa para consigo. Apesar do isolamento e da dependência, Indiana é descrita como alguém que possui uma resistência de ferro contra tudo que escopa oprimi-la e uma bondade para com aqueles que necessitam (SAND, 1991). A exposição feita sobre a figura central da obra, tende à percepção da exaltação da mulher, enquanto negligenciada na vida doméstica, mas que discorda do estado de tutela a que está sujeita.
– Eu sei que sou sua escrava e você o meu senhor. A lei desse país vos faz meu dono. Você pode comandar meu corpo, prender minhas mãos, governar minhas ações. Você possui o direito do mais forte, e a sociedade confirma isso; mas sobre minha vontade, senhor, você não pode nada, somente Deus pode a curvar e reduzir. Procure uma lei, um calabouço, um instrumento de suplício que vos dê poder sobre mim! (…) Você pode me impor o silêncio, mas não pode me impedir de pensar (SAND, 1991, p. 221, tradução minha).3
De acordo com Zolin (2009), as obras canônicas, em grande parte, representavam a mulher sob a ótica dos estereótipos culturais, a mulher sedutora e imoral, a megera, a indefesa e incapaz, a mulher como anjo, e outras diversas definições. “A representação da mulher como incapaz e impotente subjaz uma conotação positiva; a independência feminina vislumbrada na megera e na adúltera remete à rejeição e à antipatia” (ZOLIN, 2009, p.226). Embora a obra edifique o estereótipo do homem mais velho, educado e experiente em detrimento da mulher mais jovem, inocente e ignorante, a representação da mulher no romance de George Sand subverte os princípios da ideologia dominante, lançando a figura feminina em um contexto que desmascara as opressões e que lhe atribui superioridade.
Na primeira fase da narrativa, contemplamos uma Indiana, totalmente envolta em um contexto que lhe impunha passividade. No entanto, essa imagem transita no sentido emancipatório da personagem. Indiana é a personificação da mulher como ser social lançada ao silenciamento, é ela a porta voz de um discurso contestador, é por meio dela que se denuncia a condição das mulheres no lar e no meio público, pois ela é a tipificação da mulher do século XIX.
A forma com que a mulher é tratada na sociedade é apenas o alargamento daquilo que ocorre no âmbito doméstico. O que ocorre neste meio privado é ilustrado pelo narrador como prisão que condiciona a mulher à solidão e à obediência cega. Trata-se da insistência do patriarcado em manter a mulher em uma posição subalterna, condição essa que Indiana reconhecia e experienciava, pois era impedida de agir fora dos limites posto sobre si.
Desposando Delmare, ela apenas trocou de dono, vindo morar em Nagny, apenas trocou de prisão e de solidão. Ela não amava seu marido, pela única razão talvez que fazia amá-lo um dever e resistir mentalmente à toda espécie de limitação social havia se tornado para ela uma segunda natureza, um princípio de conduta, uma lei do consciente. Não haviam procurado prescrever à ela outra coisa a não ser a obediência cega (SAND, 1991, p. 79-80, tradução minha). 4
Indiana é uma mulher que não teve opções a seguir, reveladora da vida privada, estava limitada ao ambiente doméstico e à reflexão dos indivíduos que estão alheios à história. É por meio de Indiana que se conta a impossibilidade da participação pública e da identidade histórica e política. “Ela havia sido ensinada por Sir Ralph, o qual havia uma opinião medíocre quanto à inteligência e raciocínio das mulheres (…). Ela sabia somente a história resumida do mundo e toda dissertação séria a sobrecarregava de tédio” (SAND, 1991, p. 235-236, tradução minha)5. Nela, percebemos a mulher que envolta em um contexto que não lhe sugeria outra coisa senão a passividade, quebra com o mesmo através do adultério, o qual alude ao rompimento com o sistema de leis e à queda da moral. Ela não consegue uma fuga física imediata, mas impugna seu matrimônio pelo viés do adultério.
No ideal sandiano, a idealização dos personagens tem muito em comum com a política, Indiana é um tipo, é a mulher carregada de paixões suprimidas pelas leis e moral, com sentimentos e desejos que almejam romper com os limites da civilização. É por esse fato que a protagonista é ímpar na obra, em meio a várias figuras femininas, vemos Indiana como sendo a mais nobre de todas, apesar das limitações sociais, lembrando-nos do que Beauvoir (1980, p. 224) diz sobre a ingenuidade do homem “quando imagina que submeterá facilmente a mulher às suas vontades e a ‘formatará’ como quiser”.
É possível engendrar que o nome Indiana tem seu significado inserido no campo dos desejos e realizações que se encontram na liberdade do sujeito, no viver sem rótulos e demandas sociais. Indiana remete à desconstrução, à alteridade, à autonomia, à descolonização da mente e do corpo, representa a transição do estado de tutela à existência autêntica, pois a mesma, no fim da obra; depois de diversos acontecimentos que incluem o engano do amante, a violência física e simbólica sofrida em seu matrimônio, a morte de seu esposo e uma tentativa de suicídio; retorna à sua terra natal, ilha de Bourbon, colônia da França, e passa a viver distante da civilização em uma existência autentica e libertadora.
De acordo com Zolin (2009), as obras canônicas encarnavam a mulher em meio a repetições de estereótipos culturais, a mulher sedutora e imoral, a megera, a indefesa e incapaz, a mulher como anjo, e outras diversas definições. “A representação da mulher como incapaz e impotente subjaz uma conotação positiva; a independência feminina vislumbrada na megera e na adúltera remete à rejeição e à antipatia” (ZOLIN, 2009, p.226). A representação da mulher na obra de George Sand subverte os princípios da ideologia dominante, lançando a figura feminina em um contexto que desmascara as opressões e que lhe atribui superioridade.
Se pode afirmar-se que há anacronismo na obra de Sand, este se apresenta claramente na figura de Laure de Nagny, esposa de Raymon, a qual é a única dentro do romance que se contrapõe à máquina de opressão misógina, subvertendo o modelo matrimonial e a relação amorosa imposta. Para ela, o casamento é uma necessidade social e a felicidade ilusão. Repleta de bom senso, conhecimento do mundo em que vive, é uma mulher moderna, consciente histórico e politicamente. Segundo Bordas, “Laure de Nagny é a mulher do século, mulher que reúne consciência histórica e política” (BORDAS, 2004, p.43, tradução minha),6 é a possibilidade de ser no mundo, aquela que é independente financeiramente e livre, de certa forma, da opressão masculina, de modo a guiar ao seu bel prazer sua existência, ainda que tenha que responder às convenções sociais.
Menos generosa que Mme Delmare, mas mais inteligente, fria e lisonjeira, orgulhosa e prevenida, era a mulher que devia subjugar Raymon; pois ela era superior nas habilidades que ele mesmo havia tido com Indiana. Ela havia compreendido bem que a cobiça de seu admirador era mais sobre sua fortuna do que por ela. Mlle de Nangy estava resolvida a sofrer o casamento como uma necessidade social; mas ela sentia prazer de usar essa liberdade que lhe pertencia ainda, e fazer com que o homem que aspirava tirá-la sentir sua autoridade. […] Para ela, a vida era um cálculo estóico, e a felicidade uma ilusão pueril, da qual é necessário de defender como de uma febre e do ridículo (SAND, 1991, p. 445-446, tradução minha).7
De acordo com Bourdieu (1998), o corpo é o meio pelo qual nos identificamos desde o nosso nascimento e é onde estão inscritos todos os significados e informações sociais e culturais. É neste ponto que podemos considerar a marca da sujeição e submissão inscritas também no corpo feminino, visto que o romance trata do drama da mulher cuja sociedade onde se encontra produz sobre ela significações que se supõem coerentes com o seu gênero, trata-se do corpo que sofre pelo enfraquecimento e dominação que, segundo Foucault (1988) é o gesto essencial e repressor da história.
As personagens femininas de Sand compreendem essa marca cultural que constitui as referências às suas identidades; no entanto, dessas mulheres emana um discurso interior e inábil que escopa subverter a ordem dominante. O discurso dessas mulheres, que são as porta-vozes da autora, buscam romper com as práticas reguladoras imposta ao corpo pelo poder.
Estamos diante de identidades dispares e deslocadas conforme o senso comum, as personagens aqui analisadas são mulheres abastadas, embora esse status deduza maior acesso ao capital cultural, pondera-se a conjuntura de que o jugo social recaía sobre todas as representantes do sexo feminino.
Considerações finais
As relações de poder entre os sexos são preeminentes nos textos literários canônicos. Considerando-se que essas correspondências são concatenadas em conformidade com a orientação política e do poder, para Zolin (2009: 328) “a crítica literária feminista (…) trabalha no sentido de interferir na ordem social. Trata-se de um modo de ler a literatura de modo confessadamente empenhado, voltado para a desconstrução do caráter discriminatório das ideologias de gênero, construídas, ao longo do tempo, pela cultura.” Dessa forma, a escrita literária feminista transcorre o campo de reivindicações e construção da identidade da mulher como sujeito de sua existência, em uma vivência marcada pela luta pela liberdade e igualdade, assim como os movimentos feministas desde sua primeira onda.
Com o olhar da mulher sobre a mulher, George Sand traça sua crítica à sociedade patriarcal, colocando suas personagens em um contexto que explana a situação de submissão em que vivia, ao mesmo tempo que arquiteta perfis de mulheres conscientes e combativas, diferenciando-as daquelas retratadas anteriormente. As posturas delineadas em Indiana são contra ideológicas, posto que se colocam em oposição à máquina misógina do poder, representando a história da mulher silenciada e outremizada no meio patriarcal a qual rompe com o normatização imposta ao seu corpo e com as estruturas sociais, apoiando-se na descolonização de seu corpo e subjetividade.
Notas ao Texto
¹ Roman dans l’histoire, roman de 1830, Indiana est bien autre chose qu’un roman à thèse dénonçant l’oppression des femmes dans le mariage (BORDAS, 2004, p.147).
² Mais ces vagues et passagères distractions n’empêchaient pas que le colonel, à chaque tour de sa promenade, ne jetât un regard lucide et profond sur les deux compagnons de sa veillée silencieuse, reportant de l’un à l’autre cet œil attentif qui couvait depuis trois ans un trésor fragile et précieux, sa femme. Car sa femme avait dix-neuf ans, et, si vous l’eussiez vue enfoncée sous le manteau de cette vaste cheminée de marbre blanc incrusté de cuivre doré ; si vous l’eussiez vue, toute fluette, toute pâle, toute triste, le coude appuyé sur son genou, elle toute jeune, au milieu de ce vieux ménage, à côté de ce vieux mari, semblable à une fleur née d’hier qu’on fait éclore dans un vase gothique, vous eussiez plaint la femme du colonel Delmare, et peut-être le colonel plus encore que sa femme (SAND, 1991, p. 8-9).
3Je sais que je suis l’esclave et vous le seigneur. La loi de ce pays vous a fait mon maître. Vous pouvez lier mon corps, garotter mes mains, gouverner mes actions. Vous avez le droit du plus fort, et la société vous le confirme ; mais sur ma volonté, monsieur, vous ne pouvez rien, Dieu seul peut la courber et la réduire. Cherchez donc une loi, un cachot, un instrument de supplice qui vous donne prise sur moi! (…) Vous pouvez m’imposer silence, mais non m’empêcher de penser (SAND, 1832, p.221).
4 En épousant Delmare, elle ne fit que changer de maître ; en venant habiter le Lagny, que changer de prison et de solitude. Elle n’aima pas son mari, par la seule raison peut-être qu’on lui faisait un devoir de l’aimer, et que résister mentalement à toute espèce de contrainte morale était devenu chez elle une seconde nature, un principe de conduite, une loi de conscience. On n’avait point cherché à lui en prescrire d’autre que celle de l’obéissance aveugle (SAND, 1991, p.79-80).
5 Elle avait été élevée par sir Ralph, qui avait une médiocre opinion de l’intelligence et du raisonnement chez les femmes […]. Elle savait donc à peine l’histoire abrégée du monde, et toute dissertation sérieuse l’accablait d’ennui (SAND, 1832, p.235-236).
6 Laure de Nangy est la femme du siècle, femme qui réunit conscience historique et sens politique (BORDAS, 2004, p.43).
7 Moins généreuse que Mme Delmare, mais plus adroite, froide et flatteuse, orgueilleuse et prévenante, c’était la femme qui devait subjuguer Raymon ; car elle lui était aussi supérieure en habileté qu’il l’avait été lui-même à Indiana. Elle eut bientôt compris que les convoitises de son admirateur étaient bien autant pour sa fortune que pour elle. Sa raisonnable imagination n’avait rien espéré de mieux en fait d’hommages ; elle avait trop de bon sens, trop de connaissance du monde actuel pour avoir rêvé l’amour à côté de deux. Mlle de Nangy était donc bien résolue à subir le mariage comme une nécessité sociale ; mais elle se faisait un malin plaisir d’user de cette liberté qui lui appartenait encore, et de faire sentir quelque temps son autorité à l’homme qui aspirait à la lui ôter. Point de jeunesse, point de doux rêves, point d’avenir brillant et menteur pour cette jeune fille condamnée à subir toutes les misères de la fortune. Pour elle, la vie était un calcul stoïque, et le bonheur une illusion puérile, dont il fallait se défendre comme d’une faiblesse et du ridicule (SAND, 1991, p. 445-446).
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Bio fornecida pelo palestrante.
A ESCRITA FEMININA LATINO-AMERICANA CONTEMPORÂNEA: EL PAÍS DE LAS MUJERES, DE GIOCONDA BELLI, E A FEMINIZAÇÃO POLÍTICA [1]
Amanda da Silva Oliveira
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Resumo: A partir da pesquisa desenvolvida para a dissertação de mestrado, a análise do texto El país de las mujeres, de Gioconda Belli, representa a construção social do poder feminino na sociedade nicaraguense, evidenciando justamente as características que estereotipam as mulheres como destacados elementos de crítica. Com base no pensamento de habitus, de Pierre Bourdieu, o objetivo do trabalho é a análise interpretativa da sociedade por meio da representação literária, e a significação do texto enquanto utopia social para bandeiras de mundos possíveis.
Palavras-chave: literatura latino-americana; Pierre Bourdieu; poder; gênero.
Resumen: A partir de la pesquisa desarrollada para la disertación de máster, el análisis del texto El país de las mujeres, de Gioconda Belli, representa la construcción social del poder femenino en la sociedad nicaragüense, evidenciando justamente las características que estereotipan las mujeres como destacados elementos de crítica. Con base en el pensamiento de habitus, de Pierre Bourdieu, el objetivo del trabajo es el análisis interpretativo de la sociedad por medio de la representación literaria, y la significación del texto como utopía social para banderas de mundos posibles.
Palabras clave: literatura latinoamericana; Pierre Bourdieu; poder; género.
Minicurrículo: Graduada em Letras Português/Espanhol pela Universidade Feevale, é mestra em Teoria da Literatura pela PUCRS e doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS. Cursa também Ciências Sociais na UFRGS. Atualmente, realiza pesquisa sobre o espaço na literatura feminina latino-americana contemporânea, sob orientação da Profa. Dra. Maria Eunice Moreira.
A ESCRITA FEMININA LATINO-AMERICANA CONTEMPORÂNEA: EL PAÍS DE LAS MUJERES, DE GIOCONDA BELLI, E A FEMINIZAÇÃO POLÍTICA
Amanda da Silva Oliveira
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
“Devemos tomar consciência de nosso poder, mas até agora na América Latina não o tomamos de forma como eu recebi minha feminilidade, que foi como um poder”.
(Gioconda Belli)
A voz relacionada ao gênero muitas vezes é definida sinonimamente como feminina, como se, de alguma forma, a necessidade de expressão do termo pudesse abarcar toda a atmosfera discriminatória da história. A possibilidade de considerar questões relativas ao social com certa naturalidade pode revelar a tendência cultural da relativização, sem, no entanto, encararmos o problema que por traz se esconde. Em um estudo sobre a “dominação
masculina”[2], Pierre Bourdieu afirma justamente essa ideia, ao expressar que a sociedade, através da dominação masculina, é levada a tornar como autêntico e inato os caracteres de diferenciação biológica dos seres masculino e feminino, de forma a evidenciar
certa valorização do primeiro em detrimento do segundo, e que a História dos grandes homens e dos grandes feitos corrobora para essas validades sociais.
Através de uma violência simbólica dos atos dos indivíduos, que reforçam os caracteres de força, hombridade e virilidade – todos adjetivos atribuídos aos homens –, somos levados a crer no predomínio masculino como organizador dos contextos sociais nos quais interagimos, e que a qualidade feminina deve ser não só evitada, como excluída:
A força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe-se como neutra e não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem à legitimá-la. A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior desta, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos (BOURDIEU, 2005, p. 18).
Na justificada opressão masculina de que ela é neutra e superior a qualquer outro discurso que a negue ou a ponha em cheque, a violência simbólica, portanto, inicia-se na naturalização das diferenças pela premissa biológica dos corpos, sendo, assim, a legitimação masculina
dominantemente aceita em processo saudável, válida e socialmente aceita. Pela lógica de sentido do habitus[3], a mulher, como inverso do homem, é vista como vazia – recebe a semente, a fertilização – e superficial – preocupação com a aparência
e com os detalhes –, sensível – dores, tensões, menstruação/menopausa, calores e dores de cabeça – e emotiva – choro, carinho, necessidade de afeto –, características sociais que a discriminam em relação à força de caráter, racionalismo e domínio, traços considerados tipicamente masculinos, tendo a relação sexual o maior exemplo da dominação pelo homem dos atos que regem a vida cotidiana, além de ser o canal central de todas as referências de domínio masculino/inferioridade feminina.
À medida que se estabelecem as relações sociais de dominação, através da construção naturalizada de suas ordens simbólicas de sentido, o habitus define-se no princípio dominante masculino e percebe-se o mundo através desse princípio. É nessa lógica que se organiza o conceito de violência simbólica: a dominação masculina, encontrando todas as condições para seu pleno exercício, possui primazia universal, afirmando-se na “objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e social” (BOURDIEU, 2005, p. 45), o que conferiria aos homens a melhor parte. Para Bourdieu, o habitus, “moldados por tais condições, portanto objetivamente concordes, eles funcionam como matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade, como transcendentais históricos” (BOURDIEU, 2005, p. 45), que, “sendo universalmente partilhados, impõem-se a cada agente como transcendentes” (BOURDIEU, 2005, p. 45).
É no uso das categorias dominantes pelo dominado que este intensifica e naturaliza o poder social delas, fazendo com que a violência simbólica seja aplicável e aplicada. Esse tipo de violência se constitui pela “adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante” (BOURDIEU, 2005, p. 47), quando o indivíduo não a pensa e a segue como classificação natural do ser no mundo. Dessa forma, o domínio é totalmente regido pelos padrões aceitos e regrados pela ótica capitalista (no sentido das elites) e masculina (no sentido da violência simbólica e o gênero) de dominantes sobre dominados, na estrutura social que encontramos nas sociedades tidas como modernas.
Lógicas de sentido se pautam em domínios para sua existência, e são essas relações que estabelecem os símbolos de poder, nos quais os governos se utilizam para organizar socialmente os espaços e os territórios. Através do sentimento de pertencimento, as relações se constituem segundo estratagemas sociais conscientemente pensados e difundidos de modo a serem aceitos inconscientemente e de forma natural em nosso meio. Há que se destacar que só a crítica a esses espaços simbólicos podem trazer à tona essas matizes de organização social, para passar a perceber as posições não mais como simplesmente naturalizadas, mas como poderosamente impostas.
A escrita feminina: o rompimento dos campos de poder masculinos.
Gioconda Belli desempenha, nesse sentido, duplamente, o papel de representação da mulher e de sua visibilidade em espaços de poder, tanto em suas personagens quanto na sua própria postura como ativista política. Afiliou-se ao movimento sandinista na década de 1970 (Frente Sandinista de Liberación Nacional – FSLN), opondo-se à ditadura de Anastasio Somoza. Ainda como organização clandestina, o FSLN tinha como principal objetivo a derrocada da ditadura somocista, e Belli foi, dentre as ações de correio clandestino, transportadora de armas e divulgadora da proposta sandinista, membro da comissão político-diplomática do partido. Após a Revolução Nicaraguense, de 1979, ocupou vários cargos políticos no governo sandinista, mas largou tudo em prol da literatura, em 1986. Mesmo assim, a luta política por uma Nicarágua mais justa não a abandonou; pelo contrário, apenas dirigiu-se para o viés do engajamento literário.
Belli diz que há muito por fazer pela sua Nicarágua, pois, se não o fazemos, deixamos nossa responsabilidade para as futuras gerações. Para ela, há que feminizar
a política[4], trazer o felicismo para a sociedade, e desfazer-se do governo arcaico e
masculino que sempre tivemos. Sua posição é muito próxima da ideologia de El país de las Mujeres que, apesar de revolucionário e sarcástico, representa para ela uma vitória do sentido feminino frente à dominação masculina na política. Mas não é só: para a autora, seu livro é uma mostra de que as mudanças ocorrem segundo ações pequenas no próprio cotidiano, e que esse deveria ser um indício de como mudar efetivamente na vida real.
A própria referência de vida na obra e nas escritas criacionais de Gioconda Belli não são frutos do acaso. Nos anos 80, ela fez parte do grupo Partido de la Izquierda Erótica (PIE), junto com outras mulheres, nome esse baseado em um livro de poemas de Ana María Rodas, que buscava na força do feminino as motivações para as mudanças sociais que naquele contexto revelavam ser necessárias. É esse o partido que ressurge no romance de Belli aqui em questão, o que familiariza o autor com a luta engajada cuja responsabilidade a própria autora atribui a si e sua literatura.
A autora defende que a luta da mulher por um lugar no mundo deva ser feita “com unhas e dentes”, pois acredita que “há uma carga emocional muito grande, há uma dose de sofrimento bastante grande no fato de ser mulher”. Além do grande problema de assumir seu próprio corpo, nós, as mulheres, para a autora, temos que “tomar consciência de nosso poder, mas até agora na América Latina não o tomamos de forma como eu recebi minha feminilidade, que
foi como um poder”[5].
Nesse campo de sentido, a autora evidencia o habitus distinto feminino e entrega-se à luta por uma realidade melhor a seu país. É através da palavra que a formulação de uma realidade possível, ainda que utópica, pode surgir e significar, apesar de a realidade da obra não condizer com a própria realidade de seu país, e o capital simbólico produzido pela obra de Belli corresponde a um caminho, estreito, de liberdade feminina, mas que ainda sim se sustém em função de que é parte de uma cultura, a literatura, e que ela possibilita o envolvimento dos leitores e a crença à ideia através do ato de ler. Gioconda, portanto, estabelece o sentido da literatura como valor simbólico de uma possibilidade da realidade social cuja realização a própria autora busca em sua vida. Ela mesma diz que há uma crise da imaginação, e pensar nisso corrobora a tese de uma realidade material e superficial, em que as relações emocionais dão espaço ao instantâneo e ao espaço virtual. Vivemos presos às tecnologias, e já o espaço de sonhar se desfez em meio às necessidades do vencer o tempo em nosso cotidiano.
Mais que um espaço de interação, o ativismo político de Belli dá espaço a que muitas mulheres, principalmente de seu país, possam falar sobre seus traumas e angústias, além de
refletir sobre as questões de nosso tempo. A Nicarágua, segundo Isabel Soto Mayedo[6],
“foi o sétimo país do continente – depois do México, Costa Rica, Guatemala, Chile, El Salvador e Peru – em definir e condenar os crimes contra a violência à mulher”, em todas suas expressões (físicas, psicológicas, sexuais e trabalhistas). Através da aprovação da Lei nº 779, em 21 de junho de 2012, o número de denúncias de abusos contra as nicaraguenses aumentaram muito. No primeiro ano, “sete mil e quinhentos homens foram acusados por maus tratos – segundo a Corte Suprema de Justiça -, o que supõe o aumento da confiança das mulheres para denunciar seus agressores, uma vez que sabem que têm respaldo legal”. Além disso, a partir da entrada em vigor da referida Lei, pôde ser possível “conhecer com mais clareza a quantidade de assassinatos cometidos contra as mulheres, quase sempre por seus companheiros masculinos, apegados ao conceito machista de que elas devem ser subordinadas a eles em todos os aspectos”.
Motivada pelas inúmeras ideias de como seria um mundo em que as mulheres não fossem subjugadas, Belli percebe que quiçá as ações não seriam difíceis de serem mudadas: são os pensamentos sociais de uma consciência coletiva de dominação organizacional e política que devemos desestruturar e que, se isto não muda, seguiremos acreditando que nossas particularidades biológicas sigam sendo desvantagens de interação e sucesso social.
El país de las mujeres: a literatura como utopía social
Viviana Sanzón é a nova Presidente de Fáguas. Viúva, mãe de uma filha, foi eleita por voto popular, junto com as amigas, que, juntas, fundaram o Partido de la Izquierda Erótica, termo recuperado da organização de mulheres que desejavam melhor condições de vida para todos, nos anos 1980. A conquista dessas mulheres pelo governo de seu país confere um caráter novo na realidade deste, e se deve ao fato de Viviana, apresentadora de um famoso programa de TV, passar a denunciar as ações corruptivas e abusivas dos envolvidos nos anteriores governos. Quando elas sobem ao poder, Viviana e as amigas, Martina Meléndez, Eva Salvatierra, Ifigênia Porta e Rebeca de los Ríos, passam a inverter toda a ordem de domínio masculino pelo feminino: todos os cargos do governo, de ministérios à polícia local, passam a ser chefiados por mulheres.
Os homens, afetados por um desvio hormonal de testosterona, passam a ter que chefiar as atividades domésticas, como casa e filhos, e suas mulheres, liderando os cargos que antes eram puramente masculinos, passam a atuar na vida pública. O caos social se instala: os homens passam a ter medo dessa nova atitude adotada pelas suas mulheres, mas não podem fazer nada em virtude das sensações despertadas pelos baixos índices de testosterona, que explicam ser uma alteração relacionada à erupção do vulcão da cidade. Com a premissa de “cuidar do país”, elas passam a gerenciar os cargos públicos da mesma forma que cuidavam da casa e dos filhos.
É claro que nem todos se mantiveram contentes com essas mudanças todas no governo, e a oposição encontrou espaço de atuação, de forma violenta e na obscuridade. A Presidenta Viviana sofre um atentado, e é internada em coma. Em flashback, o leitor sabe da história do atentado pelo depoimento da testemunha, José de la Aritmética, vendedor de sorvete que tenta salvar a Presidenta, e pelas cenas posteriores ao atentado, quando as amigas passam a tentar chefiar o governo na falta de Viviana, que se encontra em coma no hospital da cidade. Num relato, em primeira pessoa, a voz inconsciente de Viviana, internada no hospital, que rememoramos a história dessas mulheres, até o ponto do atentado.
Com a descoberta de que o atentado foi de responsabilidade da oposição, a Presidenta se salva, mas fica com a bala alojada no crânio. Decide, então, abrir mão da liderança do país, pois não acreditava que, naquele estado, apesar de bem de saúde, podia representar seu país. No entanto, a população pede seu retorno, pois acreditam que essa sequela apenas reforçaria seu desejo de mudança pelo país, e que seguiria lutando pelos direitos de todos. Através do pedido popular, Viviana volta ao poder e segue, ao lado das amigas, seu ideal de melhoria social.
A narrativa de Belli se destaca pelas relações sobre o público e o privado, na dualidade entre esses dois espaços e a reflexão crítica que identifica o pensamento apresentado como feminista. A compreensão dessas duas esferas revela as diferentes implicações que esta fronteira imaginária significa para homens e mulheres. Segundo definiu Carole Pateman (1988), a obra corresponderia a uma exposição “da história não contada da construção da esfera pública e dos direitos individuais na modernidade a partir da posição das mulheres” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 14). Segundo Miguel e Biroli, a esfera pública corresponderia à política, como se o espaço doméstico não o fosse, negando-se, dessa forma, as relações de poder da vida cotidiana, familiar, reduzindo o valor e o poder para “fora de casa”, e “a esfera pública estaria baseada em princípios universais, na razão e na impessoalidade, ao passo que a esfera privada abrigaria as relações de caráter pessoal e íntimo” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 15).
Estando as mulheres no ambiente doméstico, estariam elas reduzidas a uma domesticidade, no seio da casa e da família, dando caráter naturalizado de status a uma posição de comportamento e de papel social. Para os autores, “a preservação da esfera privada relativamente à intervenção do Estado e mesmo às normas e valores vigentes na esfera pública, significou, em larga medida, a preservação de relações de autoridade que limitaram a autonomia das mulheres” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 15). Como “rainha do lar”, a mulher torna-se o ser sinônimo de regência da sistemática do espaço privado, “cujos princípios da justiça não se aplicariam, já que nas relações sociais predominaria o afeto” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 15), o que de certo modo inviabiliza seu papel social dissociável de vida pública. Nesse sentido, não só o homem passa a ter domínio sobre o espaço público, como também é dotado de livre circulação entre os dois espaços. Miguel e Biroli acrescentam:
Não há sociedade justa na qual as relações na família sejam estruturalmente injustas; a democracia requer relações igualitárias em todas as esferas da vida, incluída a familiar. Nesse caso, o compromisso com a universalidade como ideal normativo significa um compromisso com a universalidade como ideal normativo com uma sociedade na qual o fato de se ser mulher ou homem não determine o grau de autonomia e as vantagens/desvantagens dos indivíduos ao longo da vida. O universal opõe-se, assim, ao arbitrário e a uma sociedade que supere o gênero é considerada um ideal adequado para o feminismo (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 17).
Em El país de las mujeres, a cidade fictícia Fáguas serve de espaço geográfico para um governo organizado, liderado e comandando por mulheres. Nesse sentido, a atmosfera literária está marcada pelo rompimento dos paradigmas socialmente imposto pelas mulheres, através da ótica de conquista do espaço pelo reforço do estereótipo.
Após o atentado contra a presidenta, Viviana Sanzón, temos conhecimento, através do processo de rememoração dela num espaço chamado galpão, um entre-lugar entre vida e morte, espaço que sua alma estaria enquanto o corpo encontrava-se em coma no hospital local, do processo de conquista eleitoral do PIE, que explorou, justamente, os estereótipos femininos para renovação da política, num processo de feminização na administração governamental.
A partir da valorização das próprias características que recebem as mulheres como definidoras de seus perfis, ou o lado feminino, a serem desqualificadas socialmente frente à política, ou às decisões e cargos que têm por argumento serem masculinos por conta das características testosterônicas, o manifesto explora justamente esses elementos como o processo de renovação política e organização social através da feminização, menos pelo fato de ser por uma mulher, mas, e principalmente por serem essas características as mais direcionadas ao governo justo e voltado ao cuidado para/com os cidadãos. A ideia do felicismo como proposta política indica exatamente o que Miguel e Biroli definiram como a premissa da característica de julgamento das mulheres como diferenciadoras e benéficas em relação à realizada por homens.
Nesse sentido, Gioconda Belli evidencia seu posicionamento político de escritora, mas, principalmente, de representatividade social de cidadã. Ao abordar na obra todos os estereótipos femininos como o próprio processo de autonomia das mulheres, ela busca exatamente os poderes políticos há muito desejados pelas mulheres. Longe de uma igualdade de gênero, o que ela busca é justamente a valorização das ações e características das mulheres, desenvolvidas no espaço privado, para a área pública dos contextos, sendo as questões relativas à democracia da mulher por ser mulher, e não na afirmação das vantagens masculinas de dominação. A mulher, nesse aspecto, não necessitaria ser homem para ser ouvida, mas apenas utilizar-se das artimanhas das quais foram sempre consideradas elementos opressores. Mais do que igualdade, o que Belli proporciona na obra é a manutenção dos perfis femininos de forma critica e participativa socialmente.
A perspectiva da obra é a construção de um espaço fictício para a renovação e o surgimento de um novo mundo possível, dentro da negação do habitus dominante masculino que há socialmente consolidado e aceito como correto. Na violência simbólica feminina e na sua subalternidade, a mulher, ou a proposta feminina de negação ao masculino, coloca-se como um entre-lugar do que historicamente sempre significou e as possibilidades de mudança frente aos contextos opressores. A cultura valorizaria, nessa obra, o posicionamento feminino, abrindo caminho para a discussão dos elementos que outrora significavam a carga de violência simbólica tratada a/pelas mulheres.
O governo de Fáguas, liderado por uma mulher, passou a exercer mudanças significativas e efetivas na vida de todos. Através das ações políticas adotadas por Viviana e as outras companheiras de governo, a primeira ideia foi a de colaborar com a formação cidadã do povo. Na ação dos “cuidadãos”, “cuja maior inovação foi usar o feminino para o geral e introduzir o conceito de ‘cuidadania’” (BELLI, 2010, p. 37), homens e mulheres tornaram-se agentes da prática de cidadania, ideia essa “pega emprestada” de um grupo de feministas espanholas. Por outro lado, a educação formal também passou a ser mais destinada à formação do sujeito cidadão. Nessa nova didática, defendida pela ministra da educação espanhola, que chegou a fazer um discurso público na cidade sobre a nova proposta, “as crianças de até doze anos estudavam nas escolinhas dos bairros”. (p. 47). “Aprendiam a ler e escrever e, no restante do tempo, faziam o que mais gostavam, qualquer matéria” (p. 48):
Além das disciplinas como gramática e ciências, tinham aulas de “maternidade”, fossem homens ou mulheres. Os homens saíam doutores em trocar fraldas, pôr para arrotar, dar colo e cuidar das crianças. Ensinavam-lhes que não tinham que bater nos filhos e um monte dessas coisas de psicólogos. Não era má ideia (BELLI, 2010, p. 48).
Engajada no discurso feminista de nosso tempo, a proposta de campanha e de governo de Viviana é quebrar o paradigma da visão política, mas também social da mulher, justamente através do reforço do estereótipo feminino de cuidadora, mãe e dona de casa. Nessa premissa, não é só a ideia de exploração do âmbito privado na vida pública de um país, mas no reforço de que são as atividades das internas, que se configuram pela valorização do afeto e das relações humanas, que evidenciaria a mudança nos contextos sociais racionais para contextos mais amigáveis e positivos nas relações interpessoais, e isso não estaria só destinado às mulheres. A abertura do valor do privado para uma atmosfera maior incluiria todos, inclusive os homens. E isso significaria a questão de democracia social:
– – E o que vamos defender? Lavar, passar e cuidar das crianças!
– Vou repetir: lavar, passar e cuidar das crianças não é o problema. O problema é que se menospreze o cérebro por trás disso, que se restrinja essa atitude feminina ao âmbito privado, que não entendam que isso tem de ser feito com todos e entre todos; que cuidar da vida, da casa, das emoções, deste planeta miserável que estamos destruindo é o que todos temos que fazer: trata-se de socializar a prática do cuidado, na qual somos peritas, e nos apresentar como as especialistas, as mais qualificadas para isso (BELLI, 2010, p. 83).
Através da campanha, as mulheres decidiram valorizar e, com a ajuda forte da publicidade, “bendizer seu sexo”, numa referência a um poema de Gioconda Belli. O rompimento da velha forma de fazer política deu lugar à exploração do corpo e da imagem daquelas mulheres como críticas de uma sociedade marcada pelo machismo. Se esse era o principal senso comum de Fáguas, Viviana e as companheiras do PIE, passaram a justamente, no reforço das ideias machistas de que não seria capaz encontrar o combustível necessário para reconfigurar a velha máquina política. Na ânsia por criticarem a postura dessas mulheres, os candidatos homens da campanha esqueceram-se de suas próprias propostas para o governo de Fáguas. Foi dessa forma que elas conseguiram a eleição: trazendo à tona o reforço da realidade existente, e injusta, as mulheres encontraram uma forma de ingressar no poder e dele se sobressairem com suas ideias de mudança efetiva.
O governo das eróticas contribuem para a quebra do paradigma socialmente imposto, no (in)consciente coletivo, do domínio masculino. Em um dos capítulos, destaca-se a nova vida de Petronio Calero, um dos inúmeros maridos que ficam em casa enquanto é a mulher que começa a trabalhar fora:
Como ela organizava essas atividades para se manter ocupada durante os anos que ficou em casa sem trabalhar? Porque não tiveram filhos. A natureza não lhes fez esse favor. Olga não se aborreceu. Tinha espírito de freira: sacrificada, silenciosa. Até na cama era assim. Fazê-la suspirar era uma proeza. Mas era inteligente. Mais inteligente do que ele. Agora ganhava mais do que ele jamais ganhara. Viviam melhor. Viveriam melhor, corrigiu-se, se ele se ocupasse da casa, mas a preguiça o consumia (BELLI, 2010, p. 65).
A evidência machista do texto é clara, e é um dos exemplos do pensamento social naturalizado que o novo governo tem de vencer. Em primeiro, o questionamento de como a mulher consegue fazer os inúmeros serviços domésticos que agora competia ao homem é apenas a constatação de que ela não tinha “preguiça”, e não por talento ou por competência, até porque a inteligência da mulher é justificada pelo fato de ela ganhar mais, e como uma compensação pelos hábitos “de freira” da esposa nos atos sexuais.
Nessa premissa, a comunidade imaginada de Belli é um país no qual se organiza através da mulher, ou da ótica estereotipada ao feminino. Seus entre-lugares são estabelecidos o tempo todo, seja através do espaço não físico em que a personagem
Viviana[7] se encontra enquanto está em coma, seja pela lógica de sentido
transviada que o novo governo estabelece, que passa a refletir o que já foi feito, e negado, pela nova possibilidade de formação de nação, que transgride o passado em um novo modelo de atuação, no entanto, ainda não, de todo, consolidado. As personagens masculinas, no estabelecimento e no desenvolvimento de ações cotidianas próprias das mulheres até então, como cuidar da casa e dos filhos, e as femininas, no assumir dos espaços de trabalho que outrora eram ocupados pelos homens, como os próprios cargos de governo e da polícia, neste espaço utópico, tornam o sentido de nação definível tanto pelo entre-lugar de negar e cambiar, como o de renovar e transformar o habitus consolidado em novas realidades possíveis. Através de sua escrita, a própria autora identifica-se no entre-lugar da sua literatura, pois a representa num duplo de realidade sonhada, portanto realidade possível, e a validade social, e, portanto, vivenciada.
Literatura: espaços de diálogos, espaços de reflexão sociais.
Em O país das mulheres, Viviana Sanzón viverá para o resto da vida com uma bala alojada no crânio, marca viva de um atentado contra não só sua vida, mas principalmente a um ideário igualitário para todos, homens e mulheres. Com um pé em frente ao outro, um passo de cada vez, a cidade de Fáguas pode ter representado o padrão de respeitabilidade entre os seres humanos, independentemente de sua condição biológica de gênero.
Em um espaço onde cada vez mais a mulher tenha que justificar suas posições, delimitar seus espaços e exigir a respeitabilidade que deveria ser obrigatória, as questões relativas ao gênero ainda necessitam de muitos avanços. Muitos dizem serem exagero certas manifestações sociais em que a mulher possa ser subjugada, mas tão naturalizados estão certas condutas que já é difícil as conquistas de espaço simplesmente pelos talentos pessoais.
Na própria narrativa, as mulheres, mais do que divulgar suas ideias, precisam buscar a conquista de espaços específicos para que essas ideias possuam efeito positivo. A campanha do PIE é atacada pelos opositores masculinos, que, esquecem suas propostas em nome das acusações de desprestigio de um governo liderado por mulheres. Homens não precisam reforçar estereótipos masculinos como elementos de dominação e de superioridade, porque seus estereótipos já configuram esses sentidos. Por que as mulheres na narrativa são julgadas não pela possível falta de experiência, mas pelas “ideias descabidas” como propostas de campanha? Como acreditar que as posições sociais entre homens e mulheres são iguais se há justamente uma necessidade de provação das segundas aos julgamentos dos primeiros? No reforço de crenças únicas, somos fadados a seguir óticas machistas e injustas, e a negação disso como crítica já estabelece outros estereótipos.
Na parte final do livro, Viviana Sanzón toma a palavra e narra o que lhe parece válido, após sair com vida do coma. De certezas, apenas que muitas das ideias sociais de ativistas feministas preocupadas com a democracia de gênero puderam ser aplicadas e geradoras de mudanças positivas no país. No mundo possível de Belli, Viviana Sanzón foi a mulher que, junto com toda uma equipe de também mulheres, e de um homem que pôde valorizá-la dentro da igualdade de vê-la como uma companheira de vida e de sonhos, trouxe também um mundo possível para inúmeras personagens que desejavam justiça, dignidade e, acima de tudo, felicidade para viver entre os seus.
Mais que uma experiência de vida, a representação do contexto nicaraguense viabiliza a riqueza que a autora possibilita ao leitor, sendo a responsável pela denúncia de opressão, na busca pela igualdade de todos, pelo respeito e pela identidade. Mais que utopias, a narrativa de Gioconda Belli indica a representação ficcional de um ideário em que homens e mulheres possuem os mesmos direitos, porque são eles, em união, os responsáveis por uma sociedade mais justa. O felicismo proposto pela autora não é sinônimo da antítese homem-mulher, mas da combinação feminino+masculino, porque se vence mais que a batalha de gênero: vence-se a batalha de poucos que tem possibilidades sociais.
REFERÊNCIAS:
BELLI, Gioconda. El pais de las mujeres. Disponível em: http://humweb.ucsc.edu/aaperez/tarea/spss63/pais_mujeres_completa.pdf. Acesso em: maio de 2014.
BELLI, Gioconda. O país das mulheres. São Paulo: Verus, 2011.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 2001.
Gioconda Belli: “Hay que feminizar la política”. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3Y9zqTnpe1I. Acesso em: nov. de 2014.
MIGUEL, Luis Felipe, e Flávia BIROLI. Teoria política feminista: textos centrais. Vinhedo: Editora Horizonte, 2013.
“Mulheres da Nicarágua: avanços contra a violência”. Revista Diálogos do Sul. Disponível em:
http://www.dialogosdosul.org.br/mulheres-da-nicaragua-avancos-contra-a-violencia/06072013/. Acesso em: nov. de 2014.
UNIVERSIDAD COMPLUTENSE MADRID. “Entrevista com Gioconda Belli”. Disponível em: https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero34/giobelli.html Acesso em: nov. de 2014.
NOTAS AO TEXTO
[1] O presente trabalho é uma adaptação da dissertação de mestrado da autora. A versão completa do trabalho está disponível em: http://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/7371?mode=full.
[2] BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
[3] A definição de habitus, segundo o autor, corresponde a “um conhecimento adquirido e também um ‘haver’, um capital (de um sujeito transcendental na tradição idealista) o ‘habitus’, a ‘hexis’ [termo de Aristóteles], indica a disposição incorporada, quase postural” (BOURDIEU, 2001, p. 62), cuja intencionalidade é “a de sair da filosofia da consciência sem anular o agente na sua verdade de operador prático de construções de objeto”. (BOURDIEU, 2001, p. 62).
[4] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3Y9zqTnpe1I. Acesso em: nov. 2014.
[5] UNIVERSIDAD COMPLUTENSE MADRID. Disponível em:
https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero34/giobelli.html. Acesso em: nov. 2014.
[6] Imprensa Latina, de Manágua, Nicarágua, para Diálogos do Sul. Disponível em:
http://www.dialogosdosul.org.br/mulheres-da-nicaragua-avancos-contra-a-violencia/06072013/. Acesso em:
nov. de 2014.
[7] O primeiro capítulo da obra intitula-se “A presidenta”, e o último, “Viviana”. A Personagem, assim como a autora, também vive o entre-lugar das posturas sociais que possui historicamente por ser mulher (mãe, esposa, mantenedora do lar, etc.) e as que buscam conquistar (após a morte do marido, dedicam-se ao jornalismo, à denúncia de atrocidades feitas por políticos, à criação do partido, à eleição e à presidência).
Bio fornecida pelo palestrante.
Diana Navas
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Telma Ventura
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Resumo: O presente artigo objetiva apresentar no romance Fazes-me falta (2002), da escritora contemporânea portuguesa Inês Pedrosa, as especificidades associadas à Escrita Feminina, as quais possibilitam a (des)construção narrativa. Tal propósito constituiu-se a partir da consideração de que a produção literária pedrosina apresenta uma tessitura composicional em renda, permeada por fendas, brechas e lacunas, revelando os procedimentos linguísticos de fragmentação e decomposição textuais contemporâneos, mesmo que enunciados por uma voz lírica característica de toda uma tradição literária portuguesa.
Palavras-chave: Inês Pedrosa; literatura portuguesa contemporânea; Escrita Feminina; (des)construção narrativa.
Minicurrículos: Diana Navas é pós-doutora pela Universidade de Aveiro e doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Atua como professora no Programa de Estudos Pós-Graduados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Suas pesquisas concentram-se nas tendências da literatura portuguesa contemporânea, mais especificamente, nos romances de António Lobo Antunes. Dentre suas produções, destacam-se: Narcisismo discursivo e metaficção – Lobo Antunes e a revolução do romance (2009) e Figurações da escrita (2013).
Telma Ventura é graduada em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É especialista em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e mestranda em Literatura e Crítica Literária por essa mesma Universidade. Pesquisa as Literaturas Portuguesa e Brasileira contemporâneas, com ênfase nos seguintes temas: Erotismo; Prosa Poética; (neo)barroco; Diálogo interartes; literatura fantástica; Psicanálise.
A ESCRITA FEMININA EM FAZES-ME FALTA, DE INÊS PEDROSA: O (DES)TECER NARRATIVO
Diana Navas
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Telma Ventura
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
A Escrita Feminina e a (Des)Construção do texto literário
A desconstrução da composição narrativa engendra a Escrita Feminina, visto que transforma a linearidade da narrativa e a tessitura da linguagem romanesca – esta, marcada pela poeticidade, pelas brechas e fendas textuais, pelo tecer ao redor do vazio e pelo fluxo de consciência, bem como pela autorreflexão em relação à própria estrutura e forma literárias.
Inúmeros são, entretanto, os equívocos relacionados à expressão Escrita Feminina, sendo a maioria associados à ideia de uma escrita “delicada”, ou ainda à ideia de uma escrita produzida unicamente por mulheres. A Escrita Feminina, enquanto modelo discursivo literário, pode apresentar-se, na realidade, tanto em produções escritas por mulheres quanto por homens. Assim posto, fica evidente que o que é compreendido como discurso feminino (ou Escrita Feminina) não deve ser entendido como o discurso da mulher (ou Escrita de Autoria Feminina). Lúcia Castello Branco, psicanalista e crítica literária que estabeleceu as bases para a fundamentação da Escrita Feminina, cita inclusive alguns exemplos de homens-escritores que apresentam este registro, a fim de desconstruir estereótipos: Marcel Proust, James Joyce, Guimarães Rosa e Raduan Nassar, aludindo que suas obras são produzidas no registro do estilo discursivo feminino.
Com o propósito de estabelecer as bases de uma definição da Escrita Feminina, Lúcia Castelo Branco postula que
(…) não se trata de detectar uma anatomia do texto, mas de examinar uma configuração discursiva específica – entendida, a partir de uma série de correlações, como feminina, mas que afinal pode ser concebida tanto por homens quanto por mulheres. (2010, p.12-13)
Abarcando as contribuições da Psicanálise, a Escrita Feminina tem como objetivo pontual a análise do texto literário. Branco afirma que ao estudo desta Escrita pouco importa o sexo biológico do autor do texto (e, em decorrência, o sexo do texto) mas as maneiras pelas quais sua trama se constrói, quais especificidades discursivas podem nele ser pontuadas, a fim de realizar um traçado – uma cartografia:
(…) não propriamente um mergulho nas profundezas do texto, mas um passeio por suas superfícies, um mapeamento, uma cartografia. Nessa viagem se pretende assinalar a dimensão temporal descontínua da memória, as terras da literatura, (…), a materialidade da letra feminina (letra feminina compreendida enquanto discurso feminino), os entrecruzamentos entre a memória e a ficção (1990, p.16-17 – grifo nosso)
O constructo da Escrita Feminina ocorre, destarte, por meio dos processos discursivos nos quais “a linguagem é sempre levada ao paroxismo de seus próprios limites” (BRANCO, 1990, p. 16). Construída em prosa-poética, entremeada por metáforas e apresentando marcas de ritmo e cadência específicas, a Escrita Feminina invariavelmente articula-se a partir de uma linguagem que produz um texto de gozo, na acepção que Roland Barthes confere a este termo:
Texto de fruição [texto de gozo]: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (…), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem. (2013, p. 20-21 – grifo nosso).
A fim de compreender a Escrita Feminina enquanto texto de gozo, faz-se necessário comparar a sua composição à tessitura de uma renda – cujas linhas tanto constituem quanto margeiam os buracos, as fendas, os vazios, mas não os preenchem: “A lacuna desses textos (…) é um elemento estruturante: é em torno do vazio, do buraco, da falta, que a escrita feminina se constrói” (BRANCO, 1991, p.57). Em sendo tessitura, enreda o leitor, por meio de uma linguagem margeante, em sua malha, em sua rede de sentidos; e, em sendo margem, lança a própria narrativa ao precipício, à beira da morte, visto que retira desta todas as certezas e limites, levando-a a extremos de sentidos.
O texto produzido pela Escrita Feminina é tecido e destecido às vistas do leitor, oferecendo-lhe mais dúvidas do que certezas, mais ausência do que presença, e desafiando os limites linguísticos tradicionais. Assim configurada, uma narrativa desta forma produzida invariavelmente espelha e é espelhada por um enredo fragmentado, em uma intermitente tensão entre os polos da continuidade e da descontinuidade (do tecer e do destecer): buscando traçar uma linha narrativa contínua, delineia uma trama intervalar, cujos sujeitos narrativos oscilam entre a presença e a total desconstrução, e cuja voz, mesmo que ancorada na escrita, avulta apenas seu deslocamento.
Produzindo textos que jamais se permitem desvendar por completo e que concedem à lacuna e à falta um lugar privilegiado em sua tessitura, a Escrita Feminina faz uso de uma composição cujo elemento primordial é a Morte – primordialmente enquanto fator de (de)composição da trama linguística, pois que tal figuração “exibe a perda, por apresentar o vazio sem buscar obturá-lo e por fazer desse vazio e dessa perda os motores de produção de sentido e de palavras” (BRANCO, 1991, p.36). Tendo em vista que a morte a tudo desconstrói, a Escrita Feminina, por meio da linguagem, instala o texto em um lugar de desconforto, já que o sentido do escrito nunca está onde o texto se encontra, pois que desconstruído constantemente – e caminhando em direção ao gozo através da morte, já que a lógica do texto de gozo é a abolição dos limites.
Escrita sempre em construção, em movimento, em processo, sempre inacabada, a abolição dos limites linguísticos e a continuidade-descontinuidade narrativa são plenamente refletidas pela e na prosa poética e na linguagem erótico-amorosa, cujas funções sintáticas e semânticas apresentam-se subvertidas em prol do sentido, do ritmo, da cadência e da pulsação textuais. Corroborando esta concepção, Branco (1991) expõe que “o gozo está contido nesse movimento em direção à morte: das vibrações, palpitações e suspiros, que sugerem uma atmosfera evidentemente erótica da linguagem” (p. 53), ao que Barthes (2013) complementa ao salientar que o texto traga – e seduz, violentamente – o leitor para o seu íntimo, ao utilizar-se desta constituição formal.
A narrativa assim engendrada apresenta características discursivas específicas em sua linguagem poética e erótico-amorosa: as lacunas e fendas, a ausência de certezas, a pontuação e a sintaxe singulares, a linguagem em proximidade com a fala, o ritmo sincopado e a (des)tessitura narrativa. Revelando constantemente a precariedade da linguagem, a fragmentação do sujeito, e oscilando entre a existência e a inexistência, o enredo do texto produzido pela Escrita Feminina, por sua vez, se dissipa, encenando suas relações com a morte e a vacuidade do eu, e desenhando um sujeito contemporâneo, fraturado e descontínuo.
Os lugares de Inês Pedrosa
Inês Pedrosa (1962 – ), escritora portuguesa nascida em Coimbra, licenciou-se em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 1984 e, por esta mesma Universidade, doutorou-se em Línguas, Literaturas e Culturas.
Em janeiro de 1983, iniciou sua carreira como cronista, tendo publicado suas crônicas em diversos jornais; a constante crítica às múltiplas formas de discriminação – raciais, de gênero, de acesso à cultura e às injustiças sociais – levou a que suas crônicas fossem laureadas com o Prêmio Paridade, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero. A compilação das crônicas relacionadas à condição da mulher na sociedade portuguesa deu origem ao livro Crónica feminina, publicado em 2005.
Seu primeiro romance, A Instrução dos amantes, foi publicado em 1992 e, em 1997, publicou Nas tuas mãos, romance que recebeu o Prémio Máxima de Literatura, prêmio este que voltou a receber, em 2010, com a obra Os Íntimos. Além de romances, entretanto, Inês Pedrosa também publicou 20 mulheres para o século XX, ensaio composto por um conjunto de biografias de mulheres marcantes do Século XX, dentre as quais figuram Simone de Beauvoir, Agustina Bessa-Luís, Coco Chanel, Frida Khalo, Lou Andreas Salomé, Virginia Woolf. Fica comigo esta noite (2003), por sua vez, caracteriza-se por uma reunião de contos permeados pelas vozes femininas da contemporaneidade que questionam os homens modernos e suas identidades e desejos.
A produção romanesca pedrosina apresenta uma profunda transformação da lógica interna de seus romances, a qual, marcada por uma ordem não linear e por múltiplos cruzamentos de perspectivas narrativas, prima por uma ordem aparentemente desconexa e incoerente, comportando saltos que subvertem o tempo-espaço interno ao texto. O autoquestionamento das personagens principais em relação à sua existência espelha-se nesta (des)construção da escrita, demarcada pela profunda solidão existencial das personagens. Assim, a palavra poética, único procedimento formal capaz de expressar tais vazios e questionamentos humanos, particulariza a escrita pedrosina.
Questionando as mudanças estruturais na sociedade, as obras de Inês Pedrosa também colocam em pauta a mudança das mentalidades, a partir do momento em que sua escrita estabelece o contraponto da voz da autoria feminina – a voz da diferença -, interpelando o discurso ditatorial patriarcal salazarista que se perpetua em Portugal, travestido de androcentrismo. À semelhança de suas antecessoras, utiliza, em algumas de suas composições, a Escrita Feminina a fim de construir narrativas que espelhem o subjetivismo fragmentado do indivíduo contemporâneo.
(Des)tecendo narrativas: A Escrita Feminina de Fazes-me falta
Em Fazes-me falta (2002), Inês Pedrosa encena uma narrativa de vínculos e separações que, entre o amor, a amizade e o desejo, expõe os afetos (in)existentes entre uma mulher morta – a personagem feminina – e um homem vivo – a personagem masculina. Durante o velório do corpo dela, ambos empreendem uma jornada elaborada em monólogos, permeados de desespero e pranto, na tentativa de compreender a ausência definitiva, a partir da qual o enredo se enuncia no romance: a ausência do corpo, a ausência da fé, a ausência dos afetos e vínculos e, principalmente, a ausência que se resume na personagem feminina e que representa a tradição literária contemporânea de Portugal – a ausência de uma narrativa tecida nos moldes literários queirosianos, pois que a presente obra pedrosina apresenta todas as características de um romance desconstrucionista metahistórico português.
Analisando o mundo e a sociedade, a obra pedrosina em estudo demarca a crítica à realidade portuguesa, a qual sofreu grandes transformações a partir da Revolução dos Cravos. O lugar do sujeito, afetado pelas mudanças sócio-político-econômicas do Portugal moderno, participa do novo fazer literário, pois que a narrativa denuncia a alienação dos indivíduos pelo sistema e o vazio provocado por esta situação.
A guerra colonial em África, a angústia dos retornados e as consequências de todas as configurações sócio-históricas de Portugal decorrentes de tais fatos históricos marcam igualmente a narrativa de Fazes-me Falta com o ícone da morte e da ausência. Uma profunda falta de esperança em relação à política nacional, marcada pelo pós-colonialismo, e aos indivíduos que a representa encontra-se delimitada no romance em questão.
A fim de demonstrar, igualmente, a mentalidade misógina da sociedade portuguesa, a qual observa com olhar desacreditado a emancipação e os posicionamentos das mulheres que buscam ações afirmativas que garantam seus direitos legais e sociais, o romance coloca, na voz da personagem feminina, um desabafo: “Tanto insistias. Que eu não me definisse como feminista em público. (…) Que sorrisse em vez de criticar. Ou pelo menos sorrisse enquanto criticava” (PEDROSA, 2003, p.160). Entretanto, é factual que a condição feminina possui ampla proeminência na Literatura Portuguesa, sobretudo nos escritos de autoria feminina contemporânea, iniciada por Agustina Bessa-Luís, Maria Teresa Horta e Natália Correia, como contraponto à ditadura salazarista.
As ideologias, todavia, se estenderam igualmente às delimitações quase ditatoriais impostas à linguagem literária que, em geral, na tradição anterior à revolução pós-salazarista da Literatura, caracterizava-se pela prosa linear, organizadora e mantenedora da instrumentalização social. O romance pedrosino em estudo, em decorrência, subverte esta linearidade ditatorial, rompendo inicialmente, de acordo com Álvaro Gomes (1993), com a estrutura fechada que tentava negar autonomia à produção literária, pois que traz à composição formal a multiplicidade de eus narrativos e propicia, destarte, múltiplos modos de abordagem da realidade, consoante os diversos pontos de vista das vozes narrativas.
O aparente caos narrativo é ainda reforçado pelo fato de Fazes-me falta ser fundado na poeticidade, constituindo um texto em fragmentação, em ruptura e descontinuidade temporais, exibindo o abandono da linearidade e da ausência de fechamento, que marcam a completa destruição do enredo. A obra em questão enuncia uma fala subreptícia, resistente e sempre dissidente, uma poética da perda e da morte, da falta irremediável e do indizível – a linguagem do discurso feminino, a qual se anuncia traçada e tecida, sobretudo, “na perda e na lacuna, (compondo) um viscoso limbo discursivo, onde as palavras explodem, implodem e nada dizem, além desse impossível de dizer” (BRANCO, 1990, p. 341-342). A poética da escritura pedrosina oferece um estilo elaborado, um tratamento exuberante às palavras, a força de uma lírica amorosa ancestral, demarcada na tradição literária portuguesa.
A linguagem poética, lírica, está presente em todo o texto, construindo uma forte imagética permeada de metáforas, visto ser esta a única tessitura possível para expressar os sentimentos das vozes narrativas, pois que as palavras cotidianas, a prosa linear e organizadora, não dão conta de manifestar a ausência e as lacunas constitutivas do relacionamento entre as personagens feminina e masculina de Fazes-me falta as quais, já em suas primeiras falas, exprimem poeticamente a morte e consequente sentimento de ausência:
[Ela] Agora que saí do corpo que fui – para me tornar pólen, poeira nos teus olhos, pura imaginação de mim – imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio ser, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez. (PEDROSA, 2003, p.10)
[Ele] Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus – quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam (PEDROSA, 2003, p. 13-14).
Por apresentar-se enraizada na prosa poética, Fazes-me falta é, da mesma maneira, o lugar de um erotismo, de um texto oposto ao pensamento linear-prosaico, e que se abeira, como a própria poesia, dos limites da linguagem, em um movimento incessante de palavras que exibem nuances e vacuidades. “A poesia é feita de palavras enlaçadas que emitem reflexos, vislumbres e nuances (…), e nos fazem ouvir o inaudito e ver o imperceptível”, assegura PAZ (1994, p. 11). E, ao proferir o imperceptível, a palavra poética, da mesma forma, apresenta uma “festa de linguagem, em seu espetáculo de perda e de desordem, de loucura e de siderações do sujeito” (BRANCO, 1990, p. 434).
Ao considerar-se a Escrita Feminina, a mesma imagem metafórica é observada, pois que o discurso feminino sugere, na verdade, o que não foi dito, de maneira objetiva, no texto, mas o que está presente, presentificado no ilimitado, no indizível, que apenas pode ser concebido por meio da linguagem. Em Fazes-me falta, esta Escrita se constitui, na verdade, em uma desescrita, em uma destessitura da narrativa, explícita nas lacunas e nos abismos da linguagem utilizada, à semelhança de todo processo poético que, levado aos seus limites, aproxima-se desse lugar. O destecer narrativo é pontuado logo no primeiro monólogo da personagem masculina que, ao definir o que o unia à personagem feminina, expressa: “O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam, sei que não voltarás a devolver-me os meus” (PEDROSA, 2003, p. 12). Uma ciência do desaparecimento igualmente ocorre com a própria composição, ao longo da narrativa.
Os fragmentos, os vazios, os bordados no nada, com ritmos entrecortados e respirações ofegantes, compõem uma escrita espasmódica, uma linguagem erótica, permeada por detalhes ínfimos, meticulosidades e minúcias, criando um texto excessivo e desdobrado e, ao mesmo tempo, elíptico, fraturado e lacunar. A personagem masculina, em meio a seu sofrimento, diz que a personagem feminina traz em si um “tecido de mortos” e um “saber de cinzas” (PEDROSA, 2003, p. 65), assinalando a lacuna, a dissipação e a fragmentação da personagem e da narrativa, representadas na Escrita Feminina de Inês Pedrosa. Em Fazes-me falta, tudo está presente, mas quase nada acontece: não existem fatos reais, nem um grande enunciado, ou mesmo uma revelação fundamental; a Escrita Feminina, nesta obra, revela o sujeito através de seu esvaecimento e, em decorrência, uma narrativa enunciada no vazio:
[Ele] O teu corpo é agora alimento da terra (…). E no cheiro do vento, na matéria física dos dias e das noites. Olho para a tua campa e sinto os teus olhos negros a serem devorados pelas larvas, o teu sorriso espelhento apodrecendo a cada instante, as tuas mãos desfazendo-se, desaparecendo para sempre deste mundo que é ainda tão teu (PEDROSA, 2003, p. 156).
A tal tessitura composicional cindida e fragmentária corresponde a poeticidade, uma linguagem que se aproxima da fala, da linguagem oral, “com sua dupla capacidade de fluir com o tempo e de o fazer durar” (BRANCO, 1990, p. 285), a qual, simultaneamente, projeta a narrativa em direção ao futuro, movida pelo passado e, no entanto, paralisada no presente – na morte da personagem feminina. Na prosa poética de Fazes-me falta, urdida no esquecimento, produto de lapsos e omissões, “a linearidade se torce, atropela seus próprios passos, serpenteia: a linha reta (a prosa) deixa de ser o arquétipo em favor do círculo e da espiral (a poesia). Há um momento em que a linguagem deixa de deslizar e (…) move-se sobre o vazio” (PAZ, 1994, p. 13).
No serpentear da linguagem poética, o presente narrativo da obra pedrosina estudada relaciona-se à fala, à voz e ao corpo feminino – morto –, exibindo a angústia da ausência e da descontinuidade, desse lugar de imobilidade e silêncio:
[Ela] De quem é esta morte encenada em caixão? De onde vem esta febre fria que me sela a boca? Luto para fugir desta caixa onde me expõem e me lamentam. Se ao menos soubessem rezar. Pai Nosso, eu não quero já o céu. (…) No lugar do morto, é o medo que enjoa e entontece. O medo que os vivos têm de mim, agora, do futuro que lhes anuncio, vestida para enterrar. Esse medo cria ondas de calor, ondas enevoadas, que a luz das velas, a baba dos sussurros amplia. Meto-te medo, também a ti? Aqui imóvel, de olhos fechados, olhando-te ainda, para não me olhar a mim, para me afastar do cheiro a medo que é talvez o cheiro derradeiro (PEDROSA, 2003, p. 21).
A angústia enunciada em Fazes-me falta, de dupla orientação, funda-se no desejo de negação da morte: “Preciso de me despedir de ti, ou de aceitar a morte, que é a mesma coisa” (PEDROSA, 2003, p. 71), bem como na tentativa de sobreviver à ausência do outro: “Ensina-me a tua morte, que em vida apenas pude surpreender” (PEDROSA, 2003, p. 90), ausência esta que marca o corpo de quem fica com os sinais do corpo ausente: “Esforço a imaginação, estendo-a até aos teus dedos, mas não consigo mais do que um ligeiro roçagar de asas. São os lençóis que agito, bem sei – mas não me concederás a graça de transformar a fímbria do meu lençol na ponta dos teus dedos?” (PEDROSA, 2003, p. 144). Ao sujeitarem-se à ausência, no tempo presente da perda e da angústia, as vozes narrativas a manipulam, transformando, por meio do discurso feminino poético:
(…) a distorção do tempo em vai e vem, (a fim de) produzir ritmo, abrir a cena da linguagem (…). A ausência torna-se uma prática ativa, um atarefamento (que me impede de fazer qualquer coisa); cria-se uma ficção com múltiplos papéis (dúvidas, recriminações, desejos, melancolias). Essa encenação linguageira afasta a morte do outro. (BARTHES, 2003, p.39)
Nesse vai-e-vem narrativo, a poesia recria o objeto amoroso por meio de palavras que, de acordo com Octávio Paz, “sangram pela mesma ferida” (2012, p. 137), ferida aberta pela perda deste objeto, como se pode verificar na seguinte passagem:
[Ele] Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-me agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios. Um deus que me libertasse desta imagem fixa do teu corpo encaixotado (PEDROSA, 2003, p. 11).
Marcada pela força lírica, como também pela Escrita Feminina que, em Fazes-me falta, tece e destece a Morte – morte esta não apenas da personagem feminina, mas de todo o corpo textual da obra –, a narração do corpo morto da protagonista sugere a metáfora central, metáfora esta que institui a cadeia de camadas textuais estabelecidas por esta morte alegórica. Morrendo, a personagem feminina revela o vazio da vida, do saber e da contemporaneidade, visto que principia uma reflexão a respeito da sua (in)existência e assim expõe a incompletude a que o ser humano está fadado na sociedade atual.
A fragmentação, a ausência e as fendas textuais, elaboradas em linguagem lírica, propiciam a manufatura de um texto de gozo, postulado por Barthes (2013) em O prazer do texto, no qual o teórico menciona que “o texto (de gozo) é atópico (…) em sua produção. Não é um falar, uma ficção, nele o sistema está desbordado, desfeito” (pp.37-38). Um texto desfeito, uma narrativa de não-morte, urdida entretanto no desespero, na saudade e na ausência. Tal narrativa, ao mesmo tempo desmedida, inútil e efêmera, e excessiva e sempre adiada em suas grandes verdades, apresenta-se invariavelmente tecida em uma produção de sentidos minúsculos – na exacerbação narrativa dos afetos, das sensações e dos caminhos do desejo.
A tessitura textual exibe, destarte, uma obra que procura algo que lhe falta e sempre faltará, até que esta procura infinita desemboque no único caminho possível – na morte. A dinâmica do desejo de Fazes-me falta, em sua trajetória de texto de gozo, um texto sempre em percurso, compõe-se assim de um desejo já a priori frustrado, visto que o objeto desejante – a personagem masculina – e o objeto desejado – a personagem feminina – jamais se encontrarão novamente, marcando, com este fato, o sentido (im)possível e abismal da narrativa: “Não quero que venhas ter comigo, os mortos não se encontram” (PEDROSA, 2003, p. 182), exorta a personagem feminina, reafirmando a separação eterna entre eles, no gozo da separação e da ausência imutável e infinita.
Considerações Finais
Inês Pedrosa vem construindo, desde meados dos anos 1990, um rico e sólido legado romanesco. Sua obra, vislumbrando aspectos humanos e conflitos existenciais universais da contemporaneidade, seduz o leitor que, mesmo ávido por respostas, não as encontra nos textos pedrosinos; ao contrário, a leitura destas obras apenas faz aumentar a angústia e o sentimento de incompletude humanos, pois que se configuram como espelhos que evidenciam e refletem as ausências vivenciadas na sociedade pós-moderna. Destarte, as narrativas desta autora lançam seus leitores em um abismo de faltas e de lacunas, jamais facilitando ou oferecendo possíveis respostas, uma vez que se configuram como textos de gozo, como postulado por Roland Barthes em O prazer do texto (2013).
Essa sensação de incompletude suscitada pelo romance, associada ao sentimento de projeção ao abismo, instigou o presente artigo. Assim, buscou-se apreender as maneiras pelas quais a narrativa pedrosina se constrói formalmente, bem como a configuração do trabalho com a linguagem que Inês Pedrosa empreende a fim de tecer suas obras de gozo. Para tanto, mostrou-se necessário definir os aspectos composicionais da Escrita Feminina, como concebida por Lúcia Castelo Branco (1991), no intuito de apreender os modos e meios pelos quais a escrita pedrosina (des)constrói as próprias narrativas.
A Escrita Feminina configurou-se como um constructo teórico singular para a análise do romance Fazes-me falta, pois demonstrou que esta obra preza por uma tessitura composicional em renda, ou seja, uma narrativa toda tecida em prosa-poética, a qual demanda a transgressão da sinalética e da sintaxe, alterarando a sequenciação na leitura das frases e imprimindo um fluxo musical e uma cadência instintual de ritmo; ao mesmo tempo, a estilística da obra em estudo subverte a estrutura linguística tradicional do romance, pois que espelha a condição humana na contemporaneidade, entre sentimentos de incompletude e de vida fragmentada.
Fazes-me falta, contrariando os estereótipos associados às obras de autoria feminina, segundo os quais essa literatura revela-se invariavelmente delicada, intimista e introspectiva, revelou-se um texto transgressivo que, em seus silêncios, grita suas fendas e lacunas, conduzindo o leitor à consciência de sua própria violação.
Referências
BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2013.
BRANCO, Lúcia Castello; BRANDÃO, Ruth Silviano. A mulher escrita. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2004.
BRANCO, Lúcia Castello. A traição de Penélope: uma leitura da escrita feminina da memória. Tese de Doutorado. Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais, 1990.
BRANCO, Lúcia Castello. O que é escrita feminina. São Paulo: Brasiliense, 1991.
GOMES, Álvaro Cardoso. A voz itinerante. Ensaio sobre o Romance Português Contemporâneo. São Paulo: Edusp, 1993.
PAZ, Octávio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac-Naify, 2012.
PEDROSA, Inês. Fazes-me falta. São Paulo: Planeta, 2003.
REAL, Miguel. O romance português contemporâneo: 1950-2010. Lisboa: Editorial Caminho, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
Luana Balieiro Cosme
Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes
Resumo: Nesse artigo, foi proposta uma métodologia black/mestiza feminista para pensar a composição textual do texto acadêmico como forma de resistência, principalmente em relação ao imperativo intelectual da Europa. Os textos base que constituíram aportes desta discussão foram Speaking in Tongues e How to Tame a Wild Tongue, da escritora chicana Gloria Anzaldúa. O artigo se compõe dos recursos da linguagem e das percepções sobre a margem ou os sujeitos da margem, e as variações textuais foram minuciosamente escolhidas, ao nível de intervenções. Multiplicam-se os efeitos, fazendo gerar nos leitores sentimentos de repulsa e negação, tendo como importante componente a ideia de descolonização do pensamento e do Outro.
Palavras-chave: Descolonização, Outro, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
Abstract: In this paper, we propose a black/mestiza feminist methodology to approach the textual composition of the academic text as a form of resistance, especially in relation to eurocentrism. The texts that served as basis for this article were Speaking in Tongues and How to Tame a Wild Tongue, by the chicana writer Gloria Anzaldua. The linguistic resources and perceptions of the border and of border subjects constituted a contributions for this discussion and were useful to the writing of this article. Textual variations were carefully chosen at the level of intervention. The effects are multiplied, and they generates feelings of repulsion and denial in the readers implying in the idea of decolonization and of the Other.
Keywords: Decolonization, Other, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
Minicurrículo: Luana Balieiro Cosme é professora, graduada em História (Unimontes) e Pedagogia (Universidade Cruzeiro do Sul), mestre em História (Unimontes). Atualmente está vinculada ao Grupo de Pesquisa Gênero e Violência (Unimontes) e é colaboradora do Projeto de Extensão “Informática básica para mulheres”, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), campus Montes Claros.
MESTIZA: UMA PROPOSTA DE DESCOLONIZAÇÃO
Luana Balieiro Cosme
Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes
Chicanidade, pretanidade, não-branquinidade. As três palavras aparecem com o traço vermelho do corretor ortográfico, não existem no dicionário, tentaram me avisar. As palavras aparentemente desconexas são um propósito para falar sobre alguns estudos não muito recentes que se propõem a descolonizar do pensamento. Este não é um conceito em sua concepção, mas é uma prática constante, quase diária.
A ideia não é inventar novos nomes para velhas discussões, como talvez as palavras não-palavras poderiam sugerir. Percebe-se o termo Latinidade, carregado de sentido, do dicionário e conceitual. Seria a inversão de latinidade a palavra chicanidade? Onde se inverte os sujeitos falantes? A resposta é não/não.
A descolonização não (des)constrói nada, por isso, a aversão imediata. Não se propõe a desconstruir latinidade para construir chicanidade. Esta última se configura uma forma de desestabilizar o texto. Tentar trazer ao leitor um sentimento de perda do norte. As pequenas “não-compreensões” é que vão fazer o método, a escrita ou o modo de viver, compreensíveis.
Uma das autoras que se propõe a pensar a própria escrita dentro do âmbito tido como “culto”, é Gloria Anzaldúa. Em um texto, que sua versão primeira é datada de 1980, ela se dispõe a escrever uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Recorto um trecho: “ainda não me desaprendi as tolices esotéricas e pseudointectualizadas que a lavagem cerebral da escola forçou em minha escrita” (ANZALDÚA, 2000, p. 229).
O movimento sobre si de Anzaldúa para realizar a escrita é uma forma de resistir a uma produção ocidental do conhecimento que opera sobre os sujeitos que utilizam a linguagem para se comunicar. Uma força positiva (incisiva) tenta imperar sobre a escrita acadêmica. A indiana Gayatri Spivak (2010, p. 47) diz que essa situação entre outras é “uma violência epistêmica”, vasta e heterogênea “de se constituir o sujeito colonial como Outro”. Esse projeto, a produção intelectual ocidental, “é também a obliteração assimétrica do rastro desse Outro em sua precária Sub-jetividade”.
Quando somos interpelados pelo que nos é estranho, quando somos interpelados por aquilo que não estamos acostumados ou por aquilo que rejeitamos, provavelmente uma vontade de revolver essa situação surge, com agressividade, com silenciamento, com relativismo, com incorporação forçada, etc. Mas, o Outro[1], o estranho, o diferente não é um problema, então não precisa ser resolvido. Nesse momento, quando nos percebemos nessa situação, somos tomados por um sentimento de desorientação e até mesmo vazio, perda de sentido já que não conseguimos lidar.
Quando você se sente como o Outro, numa tentativa desesperadora de empregar a alteridade não se consegue praticar a descolonização, mas quando você é Outro, a percepção sobre descolonização faz sentido. Perceba a citação de uma fala de Audre Lorde:
I am defined as other in every group I’m part of. The outsider, both strength and weakness. Yet without community there is certainly no liberation, no future, only the most vulnerable and temporary armistice between me and my oppression. [Sou definida como outro em cada grupo que participo. A que está fora (the outsider), entre força e fraqueza. No entanto, sem comunidade não há possibilidade de libertação de um futuro, apenas um vulnerável e temporário armistício entre eu e minha opressão] (LORDE, 2006, p. 2). [2]
Assim, Audre Lorde nos deixa claro o lugar que ocupamos, enquanto pretas e/ou mestiza – “subalternos” para Gayatri Spivak (2010) – na sociedade, não somos os sujeitos que buscam empregar a alteridade, porque nós somos o Outro a que esse termo se refere. Mesmo que Lorde seja norte-americana por nascimento, isso não implica que sua vida não foi marcada por certas invisibilidades. Conforme M. Jacqui Alexander e Chandra Mohanty, explicam que o racismo é um fenômeno acionado em qualquer ambiente da sociedade. E isso inclui os “estudos de mulheres” acadêmicos e os movimentos sociais, segundo as autoras:
However, the specificities of our national and cultural genealogies-being Black and Brown women-and our statuses as immigrants were constantly being used to position us as foreign, thus muting the legitimacy of our claims to the experiences of different racisms. [No entanto, as especificidades das nossas genealogias cultural e nacional – ser mulheres pretas e marrons – e nossos status de imigrantes foram constantemente utilizados para posicionar enquanto estrangeiros, silenciando, assim, a legitimidade de nossas reivindicações para as experiências de diferentes racismos] (MOHANTY; ALEXANDER, 1997, p. xiv).
As autoras complementam que “through a politics of decolonization, we have learned that racial solidarity is necessary, even if that means grappling with the differences between oppositional and relational consciousness”. [através de uma política de descolonização, nós aprendemos que a solidariedade racial é necessária, mesmo que isso signifique enfrentar com as novas diferenças no que refere à consciência opositiva e relacional]. As experiências decorridas do ato de ocupar vários lugares onde o racismo é frequente nos Estados Unidos convenceram as autoras de que devemos entender o local, bem como as manifestações globais de poder e os investimentos discursivos que viabilizam o racismo.
Retornando à fala de Audre Lorde, ela persiste na ideia da situação ser “black woman” [mulher preta] é ser invisível, e se adicionarmos feminista, chicana, lésbica etc são construídas outras possibilidades de invisibilidade. Sobre a tensa percepção sobre identidade é interessante percebemos uma nuance: se você deixar o mundo definir você, porque ele irá, será em desvantagem. Lembrando que para o mundo você é o outro, Lorde diz:
As a Black woman, I have to deal with identity or I don’t exist at all. I can’t depend on the world to name me kindly, because it never will. If the world defines you, it will define you to your disadvantage. So either I’m going to be defined by myself or not at all. [Como uma mulher preta, eu tenho que lidar com a identidade ou eu não existo de qualquer forma. Eu não posso depender do mundo para citar-me gentilmente, porque isto nunca acontecerá. Se o mundo define você, ele irá defini-lo em desvantagem para você. Então, ou eu vou ser definida por mim ou de modo nenhum] (LORDE, 1991, p. 19).
A produção acerca da identidade e sua pluralização, ou projeto de não identificação é uma armadilha se o mundo onde você habita ainda evoca os discursos naturalizadores das identidades. Cuidado.
Em seu leito de morte, ela tenta nos avisar “your silence will not protect you” [o seu silêncio não protegerá você] (LORDE, 2006, p. 13). Eu recebo a dica com carinho e é isto que falo aqui, meu silêncio não é uma escolha mais. É preciso falar.
Se nossas produções do conhecimento são propostas a partir de referenciais universalistas, brancos, ocidentais, etc não é possível tal prática (descolonizadora). Uma voz me diz bem forte: Não precisamos da alteridade dos brancos, somos o outro. E agora?
Perceba as citações retiradas de um texto de Gloria Anzaldúa, “as línguas selvagens não podem ser domadas, elas podem apenas ser decepadas” (ANZALDÚA, 2009, p. 306). Ela cita três frases ditas, respectivamente, pela mãe, pela professora e pelo imaginário mexicano: “I want you to speak English” [Eu quero que você fale Inglês]; “speak ‘American’” [diga: americana]; “El Anglo con cara de inocente nos arranco la lengua” (ANZALDÚA, 1987, p. 75-76; ANZALDÚA, 2009, p. 305-306) [O inglês com cara de inocente nos arrancou a língua]. É nessa visão do trágico-agressivo e não do atenuante que se descoloniza, primeiramente a si mesmo. Desestabiliza e desconforta quando se mescla as línguas, “lenguas”, “tongues”; os gêneros textuais; as variações de textos etc.
Isto é uma poesia?
Eu vi o vídeo.
O vídeo foi visto.
Por quantos brasileiros?
(Poesia inédita, de minha autoria)
Como explicar o/um método mestiza? Primeiramente ele não se propõe a ser explicado. Gloria Anzaldúa e outras chicanas escrevem e misturam poesia, prosa, teoria, autobiografia e narrativas experimentais. A partir disso, conseguimos tentar forjar um método.
É complexo tentar propor uma transliteração de enunciados sobre uma imagem de estar em duas, três, quatro… fronteiras/margens/bordas ao mesmo tempo ou trilhar uma outra rota, diferente e não adversa. Mestiza vive entre culturas com pertencimentos culturais, identitários e geográficos (ou não), múltiplos, e uma “inquietude psíquica”.
A chicana Gloria Anzaldúa defende uma posição plural em detrimento a contraposição, um agir que não seja apenas reagir, um reflexo automático a uma ação. Nesse sentido, quem fala tem um corpo. Este é um incômodo, principalmente se alguém precisa identificá-lo, marcá-lo, pontuá-lo, pois imediatamente o transforma em “outro”.
O trânsito, a translocalidade, o movimento múltiplo agride as teorias, metodologias e epistemologias vigentes e seu deslocamento é uma incômoda mobilidade.
Você viu o vídeo?
Que vídeo?
O “Nasça branca da próxima vez”.
Não vi.
O golpe é maior que tudo isso.
“Nasça branca da próxima vez”.
Ninguém se importa,
com nascimento de ninguém
FIGURA 1 – Um quadrinho de Virus Tropical.
Fonte: POWER, Paola. Virus Tropical. Espanha: Random House, 2013.
“How to Tame a Wild Tongue” (Como domar uma língua selvagem)[3] é o quinto capítulo do livro “Borderlands/La Frontera” (1987), ao olhar o significado no dicionário Oxford para o termo “to tame”, vemos:
Pronúncia: /teɪm/
VERBO
(WITH OBJECT)
1.1Make less powerful and easier to control.
Old English tam (adjective), temmian (verb), of Germanic origin; related to Dutch tam and German zahm, from an Indo-European root shared by Latin domare and Greek daman ‘tame, subdue’ (OXFORD, 2015).
[(COM OBJETO)
[Inglês arcaico tam (adjetivo), temmian (verbo) , de origem germânica; relacionadas com tam holandês e zahm alemão, de uma raiz indo-europeia partilhada pelo latim domare e grego daman ‘cativar , subjugar’]
Ao ler a proposta de significação do dicionário Oxford, “To tame” se tornou um termo muito complexo para traduzir, pois seus possíveis significados são complexos. Nas constantes traduções à “la brasileira” se tem como princípio, e não sei de onde isso vem, atenuar as palavras. A tradução do título do capítulo ficou “Como domar uma língua selvagem”. “Domar” é um termo muito simples para “to tame” que em sua origem latina e grega, remete também a “subdue”, subjulgar.
Apanhar de chicote, em português (brasileiro), equivale a lhe darem uma surra com pluma. Tenho essa sensação quando leio a tradução, apesar de que esta tradução em termos gerais é excelente. E, aqui, eu tenho um problema. Sou a favor da democracia de leitura, mas critico as traduções. Mas não é porque critico a atenuação das palavras que serei contra a popularização de traduções de textos. Eu quero é que possamos ler, em “línguas plurais”.
Um termo se tornou de uso comum entre alguns grupos feministas dos Estados: “speaking in tongues” [falar em línguas]. Sempre que digo isso a alguma pessoa, ela ri. Parece muito engraçado, deve ser. Resguardarei em não traduzir culturalmente o termo agora, não sei se consegui entendê-lo direito, mas daquilo que compreendi, de algum modo tentei aplicar.
“Speaking in Tongues” aparece em vários escritos de feministas de fronteira e um deles é “Speaking in Tongues: A Letter to 3rd World Women Writers” [Falando em línguas: uma carta às mulheres escritoras do terceiro mundo], capítulo de Gloria, publicado à margem, em 1980 – republicado em 1983 – e nele tem uma poesia de Cherríe Moraga, conforme tabela 1:
TABELA 1: Poesia de Cherríe Moraga com tradução simultânea.
| I lack imagination you say | Falta-me imaginação, você diz |
| No. I lack language. | Não. Falta-me linguagem. |
| The language to clarify | Linguagem para clarear |
| my resistance to the literate. | minha resistência para com o letrado. |
| Words are a war to me. | Palavras são uma guerra para mim. |
| They threaten my family. | Eles ameaçaram minha família. |
| To gain the word | Para ganhar a palavra |
| to describe the loss | para descrever a perda |
| I risk losing everything. | Corro risco de perder tudo. |
| I may create a monster | Eu poderia criar um monstro |
| the word’s length and body | comprimento das palavras e do corpo |
| swelling up colorful and thrilling | super colorido e vibrante |
| looming over my mother, characterized. | pairando sobre minha mãe, a caráter. |
| Her voice in the distance | Sua voz na distância |
| unintelligible illiterate. | ininteligível aos iletrados. |
| These are the monster’s words. | Estas são as palavras do monstro. |
Fonte: ANZALDÚA, Gloria, 1980, p. 166.
A poesia de Moraga surge abruptamente dentro do texto de Gloria Anzaldúa (1980, p. 166), como trechos de uma poesia qualquer que também interrompe esse texto. É uma forma não estática de leitura, que desloca o leitor a lidar com variações dentro da escrita/leitura. Mas as intervenções se interligam em um mesmo sentido. Aqui também se tenta fazer essa ligação entre o artigo para uma revista acadêmica, cartuns e trechos de poesias. Para Gloria, o leitor que tentar juntar os fragmentos desse tipo de texto, faz um trabalho análogo àquele que as feministas fazem para decifrar e confrontar a sociedade patriarcal.
Não sei.
Eu vi o vídeo
e não vou esquecer,
mas branca nunca quero/irei nascer.
FIGURA 2 – Sin titulo [Sem título].
Fonte: Yetta (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
Muitos leitores desse artigo irão se perguntar: “Mas a autora não desenvolveu os termos do título direito. Não se prestou a explicá-los”. Um leitor da história ficará repetindo “isso não é história, isso não é história, isso não é história” como se fosse um belo espécime de papagaio (Amazona aestiva) ou quiriri (Brotogeris chiriri). Estas são aves tão singelas e que gosto muito.
Quando me percebo historiadora em uma sociedade, local, nacional ou global, como muitos se prestam a ser, não me agrada, é esta a palavra, o ofício. Talvez, no limite, penso que sou uma historiadora fracassada, como repito para mim mesma em momentos de crise. Quando sou historiadora ocupo “uma identidade” de quem apenas assiste a vida (passado-presente) confortavelmente em uma posição urbana-capitalista que se propõe a escrever e prepotentemente analisar sobre o objeto/o outro. Escrever é, sem sombra de dúvida, uma forma de resistência. Na escritura desse texto não sou historiadora e ao chegar a essa conclusão, e não subjetivação, penso: é uma resistência. É isso, é essa a sensação. O afeto que deixo termina aqui.
To Tame. In: Oxford English Dictionary. Oxford: Oxford University Press, 2015. Disponível em:
http://www.oxforddictionaries.com/pt/defini%C3%A7%C3%A3o/ingl%C3%AAs/tame?q=to+tame&searchDictCode=all. Acessado em 08 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Como domar uma língua selvagem. Tradução de Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão), Cadernos de Letras da UFF, Dossiê: Difusão da língua portuguesa, nº 39, 2009: p. 297-309.
ANZALDÚA, Gloria. How To Tame A Wild Tongue. In: Borderlands/La Frontera. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
ANZALDÚA, Gloria. Speaking In Tongues: A Letter To 3rd World Women Writers. In: ANZALDÚA, Gloria e MORAGA, Cherríe. This Bridge Called My Back: Writings By Radical Women Of Color. 1980.
Disponível em:
https://hamtramckfreeschool.files.wordpress.com/2014/05/anzalducc81a-gloria-this-bridge-called-my-back-dragged.pdf. Acesso em 8 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, jan. 2000. ISSN 0104-026X. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880>. Acesso em 15 set. 2016.
LORDE, Audre. Audre Lorde: Interview. Entrevista por Karla Hammond, Denver Quarterly 16.1. 1981: p. 10-27.
LORDE, Audre. The Cancer Journals: Special Edition. San Francisco: Aunt Lute Books, 2006.
MOHANTY, Chandra Talpade; ALEXANDER, M. Jacqui (Eds.). Introduction: Genealogies, Legacies, Movements. In: Feminist Genealogies, Colonial Legacies, Democratic Futures. New York: Routledge, 1997.
PAOLA, Power. Vírus tropical. Madrid: Random House, 2013. (Selo Reservoir Books).
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
YETTA (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
Disponível em: http://jessicasangoy.com/post/149004303482. Acesso 8 set. 2016.
NOTAS AO TEXTO
[1] Outro será utilizado em inicial maiúscula respeitando a conceitualização de Gayatri Spivak (2010).
[2] Em todo o texto, sempre que houver citação em língua estrangeira, será acrescida uma tradução livre em português, delimitada por colchetes, o que constitui uma forma de escrita dentro da metodologia mestiza.
[3] A tradução desse título do capítulo foi realizada por Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão) (2009) e publicada nos Cadernos de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Bio fornecida pelo palestrante.
Cristina Gutiérrez Leal
Universidad Federal de Rio de Janeiro
Resúmen: La sociedad y la cultura funcionan como reguladores de conducta a partir de modelos y estereotipos: la maternidad es uno de ellos. El propósito de esta investigación es recorrer la poesía venezolana escrita por mujeres sospechando de algunas zonas ocultas que se dicen a contrapelo de los protocolos normalizados de la experiencia materna, ahí donde el “orden” de lo materno es intervenido, atravesado por una lengua que lo nombra – transversalmente. Me interesa pensar cómo la lengua poética logra develar una posición ajena al sentimiento materno “legítimo” –ternura, felicidad, aceptación– como política de experiencia afectiva en la madre. Entre las obras revisadas están las de Miyó Vestrini, María Auxiliadora Álvarez, Márgara Russotto, Maritza Jimenez y Jacqueline Goldberg.
Palabras clave: poesía venezolana, maternidad, protocolo.
Abstract: Society and culture act as behavioral controllers through role models and stereotypes: maternity is simple one of them. The purpose of this article is to survey Venezuelan poetry written by women, trying to locate some hidden zones that may go against normalized protocols of the experience of motherhood. Those in which the ‘order’ of maternity is subverted, pierced by a language that names it transversally. The main aim is to understand how the poetic language allows for the revelation of a position distant from ‘legitimate’ motherhood feelings –tenderness, happiness, acceptation– as a politics for the mother’s affective experience. Among the revised works are those from Miyó Vestrini, María Auxiliadora Álvarez, Márgara Russotto, Maritza Jiménez y Jacqueline Goldberg.
Keywords: Venezuelan poetry, maternity, protocol.
Minicurrículo: Cristina Gutiérrez Leal (Coro, 1988) es licenciada en Educación, mención lengua, literatura y latín (UNEFM-Venezuela), magíster en Literatura iberoamericana (ULA-Venezuela) y fotógrafa aficionada. Sus artículos, fotografías y poemas han sido publicados en diversas revistas digitales. Ganadora de la XX Bienal de literatura José Antonio Ramos Sucre, con el poemario Estatua de sal. Actualmente cursa el Doctorado en Ciencia de la literatura de la Universidad Federal de Rio de Janeiro (UFRJ).
ASQUEANTE ESTADO DE DESGRACIA –
LA MATERNIDAD EN LA POESÍA VENEZOLANA
Cristina Gutiérrez Leal
Universidad Federal de Rio de Janeiro
madre.
DRAE
La familia y las diferentes figuras que la constituyen son presas de rituales y prácticas políticas que no permiten excepciones, desbordes o miradas transversales, pues a veces funciona como espacio que controla y regula tanto el afecto como los modos de manejar los lazos de sangre. La maternidad es un ejemplo: esa suerte de fatum que “naturaliza” esta condición en tanto la convierte de forma obligatoria en algo inherente a la condición femenina, cuando en realidad puede ser también una imposición, un imperativo de la cultura y el poder. Lo que conocemos por maternidad está potencialmente regulado a partir de modelos y arquetipos: “Así pues, las imágenes y representaciones de la maternidad están socialmente construidas” (Daich, 2008:62), y podría pensarse como un protocolo naturalizado de la experiencia (Isava, 2012), es decir, como un conjunto de prácticas que, si bien se asumen como naturales, son el resultado de formas impuestas que producen estereotipos a través de los cuales se circunscribe el hecho de “ser mujer” a la posibilidad de ver en ella el sujeto que garantiza amor incondicional y entrega íntegra hacia los hijos.
De acuerdo a un recorrido que hace Lorena Saletti Cuesta, en Propuestas teóricas feministas en relación al concepto de maternidad (2008), el “instinto materno” se considera una construcción cultural y social basada en el sistema patriarcal, a través del cual se ha creado un discurso que controla y legitima el “amor de madre”. Simone de Beauvoir fue la primera en insistir en la deconstrucción del concepto de maternidad pues, según su perspectiva, representaba la anulación del cuerpo femenino. Es decir que “la maternidad anula a la mujer como persona, ya que los hijos representan un obstáculo para la trascendencia social” (Ibíd, p.175); así pues, estas primeras interpretaciones que el feminismo hace de la maternidad obedecen a la resistencia y rechazo de la dominación patriarcal que relega a la mujer a la función reproductiva. Ser madre es pues visto como una forma de subordinación que hace de la mujer un ente subalterno valorado sólo a través del acto reproductivo para el cual, supuestamente, está naturalmente –esto es, culturalmente– asignada.
En la historia de la cultura latinoamericana la figura del padre tiene numerosas representaciones que la muestran como efigie fundadora de estirpes y naciones. Las madres, en cambio, aparecen como telón de fondo, como figuras periféricas, representativas de “épicas mínimas” y domésticas que también tienen la función de educar a los futuros ciudadanos de la nación. Asimismo, en la tradición occidental son muchos los estereotipos existentes sobre la maternidad. Ésta, en tanto construcción social, es vista desde los ángulos diseñados por los dispositivos de poder que prescriben los modos de actuar en comunidad.
Por ejemplo, la iglesia cristiana introdujo, mediante el relato de la virgen María, el modelo de madre que rige mayormente la idea de maternidad como vocación natural que se tiene en occidente. Virgen e inmaculada, María fue elegida como “madre del mesías” pues no fue hallado en ella pecado alguno; de hecho, la virtud con que había desarrollado su vida la hacía merecedora de llevar en su vientre al hijo de Dios. Entre los atributos que la madre de Jesús debía tener estaba la santidad, el sacrificio y la obediencia. Aun sin haber consumado el acto sexual y reproductivo, María debía aceptar llevar en su cuerpo a quien salvaría a este mundo de sus pecados. Debía sacrificarse, aceptar, obedecer, y sobre todo sentirse privilegiada por haber sido elegida según el mandato de Dios. No quejarse, porque “así estaba escrito”.
Ahora bien, la mitología griega nos ofrece, a través de la historia de Medea, una forma excéntrica de concebir la maternidad. Medea es el contrarrelato de la madre sacrificada; es una madre que puede asesinar a sus hijos –aún amándolos–, matarlos como un acto de “protección”, los libra de las manos vengativas de otros, y con las suyas propias le pone fin a sus vidas y a su maternidad pura. Es ésta otra madre, no la que da la vida por sus hijos sino aquella que los sacrifica a ellos, que practica el amor maternal de forma perversa y monstruosa.
Estas dos breves menciones a la carga cultural que pesa sobre la figura de la madre ponen en evidencia su relación con los protocolos naturalizados de la experiencia, y por consiguiente su vinculación con un rol que establece modos de sentir y actuar de la mujer; sin embrago, a sabiendas de que todo discurso hegemónico, en tanto discurso de poder, excluye lo que puede desestabilizarlo y oculta las zonas donde se producen quiebres y fisuras, me pregunto ¿dónde y cómo localizar un contradiscurso de lo materno? ¿A través de qué modos de expresión se interpelan estas convenciones de la experiencia materna? Pienso con Florencia Garramuño, en la “noción de experiencia siempre mediada por el lenguaje”, propuesta en su libro La experiencia opaca (2011), que permite comprender la poesía como espacio para la representación de una maternidad de excepción, en las antípodas de la convencionalidad, que problematiza y desvía las convenciones que pesan sobre ella. En Venezuela son varias las poéticas que han nombrado a la madre desde la incomodidad y el desasosiego. Durante la revisión de la poesía venezolana escrita por mujeres, en el siglo XX y XXI, me encuentro con algunas poetas que, si bien no desarrollaron en toda su obra el tema de la maternidad, lo introducen al menos groso modo, y esta intromisión colabora con la configuración de una suerte de cartografía donde es posible identificar y ubicar la maternidad dentro de la producción poética venezolana.
En la primera voz que me gustaría detenerme es la de Miyó Vestrini (1938) (pseudónimo de Marie Jose Fauvelles Ripert). Sus textos, escritos desde el desafuero y la confesión, con registros narrativos y lenguaje conversacional, proponen una estética donde temas como el suicidio, lo monstruoso, lo abyecto, son desarrollados desde un “yo” evidentemente fracturado y defectuoso. “No hay complacencia en su mirada sino inconformidad que compromete toda acción políticamente correcta” (Saraceni; 2012:138). Precisamente desde esa inconformidad con el orden se enuncia la figura de la madre en su poesía. Leamos “Los paredones de primavera”, del poemario Pocas virtudes (1986):
No enseñaré a mi hijo a trabajar la tierra
ni a oler la espiga
ni a cantar himnos.
Sabrá que no hay arroyos cristalinos
Ni agua clara que beber.
Su mundo será de aguaceros infernales
y planicies oscuras.
(…)
Lo llevaré a Hiroshima. A Seveso. A Dachau.
Su piel caerá pedazo a pedazo frente el horror
(…)
Tendrá la memoria que no tuvimos
y creerá en la violencia
de los que no creen en nada.
(1995:54)
No casualmente los últimos versos de este poema sirven de epígrafe a Máscaras de familia, de Jacqueline Goldberg, que trata precisamente sobre la maternidad. En este poema, la madre construye para su hijo una idea de mundo asociado al horror y el mal. No hay en ella el gesto protector característico de la mujer hacia el hijo o la intención de salvarlo de lo “real”; al contrario, piensa en acercarlo/someterlo a la contemplación de escenas dolorosas: la guerra, la muerte, la historia que se escribe desde la tragedia. El mundo que esta madre le pronostica –y de alguna forma prepara– a su hijo “será de aguaceros infernales/ y planicies oscuras”; quiere asegurar que su hijo crezca con una memoria abastecida de suficientes grietas como para creer sólo en la violencia del desasosiego. La desesperanza y el cinismo dictan el ritmo del texto y la vida del hijo. La maternidad en Vestrini sólo asegura debacles para el hijo, a quien le espera el vivir desollado “frente al horror”.
En otro poema del mismo libro, donde se recrea el encuentro de un psicoanalista y su paciente, la madre no habla; al contrario, se habla de ella:
Usted está cargada de cosas, ¿entiende?
Cosas rudas. Unas detrás de otras.
Su madre, por ejemplo.
(…)
Su madre la toma por el brazo. (…)
Usted se resiste a ese brazo que
La envuelve toda. ¿Fue entonces
cuando sintió miedo?
(56).
La madre es presentada como un peso, como una carga que habita en la memoria y es dañina, tanto que puede ser la causa de algunos desórdenes. La escena del paseo con la madre como posible origen de los miedos parece nombrar lo traumático asociado a la maternidad, parece presentar a una madre “mala”, a una mujer que al envolver a la hija toda con su brazo también la envuelve con temores que desembocarán en visitas infructuosas al psicoanalista.
En sintonía con esta imagen de “madre dañina”, se encuentra configurado un poema de Márgara Russotto (1946). Leamos “Los años salvajes”, incluido en Viola d´amore (1986):
¿has visto a mamá
caminando sola
sólo ella misma
por la calle?
desenfadada y polvorienta
se ve
toda llena de un goce anónimo
(…)
desentendida de nosotros
(…)
sin tarea alguna que la mantuviera alerta
sin que la preocupación de nosotros pudiera
hincarle el diente
(…)
sublevando miedo
pretendiendo irse
irse
irse
irse
¿qué ancestral ignorancia la hará volver?
¿qué virulento escozor será
lo que
cada noche
nos la devuelve?
(1995:112).
Las voces que enuncian este poema son los hijos que viven azotados por el constante abandono de la madre que quiere “irse/irse/irse”. Ellos empiezan el texto preguntando por mamá, interrogando a un escucha que no ofrece respuesta, es más bien un recurso para tener a quien describirle la escena de la huida y exponer el miedo que les habita ante el desdén de una madre desentendida de ellos. Esta madre está en constante huida, y la emprende “sola, sólo con ella”. La huida le proporciona goce, quizás animado por la libertad de emprender camino en soledad, sin la obligación que al parecer es la familia. La maternidad se presenta también a través del letargo que padece la madre, deambulando sin que ningún pensamiento o preocupación logre “hincarle un diente”, afectarle o recordarle su lugar y compromiso con los hijos. Éstos permanecen a la espera, sólo planteándose interrogantes. Con una intermitente zozobra, tanto por la ida como por el regreso de su madre, nada saben, sólo la contemplan ir y venir; y es que la madre regresa. Lo que nunca se sabe es qué “virulento escozor” la trae de vuelta. Queda en el poema ese misterio sin develar, el lector intuirá, quizás, porque al menos los hijos no pueden ni siquiera intuir, sólo padecer a la madre.
Yolanda Pantin (1954), en su poemario Correo del corazón (1985), incluye el poema “Vitral de mujer sola” en el que explaya las características que guardan en común las mujeres solas, entre las cuales está la certeza de que:
Si tienen hijos hacen de madres
Son tiernas y delicadas
Aunque muchas veces se alteren
Un pensamiento recurrente es
Ya no puedo ni un minuto más
(1995:181)
Estos versos nos recuerdan las premisas teóricas de Adrienne Rich, cuando propone la idea de una maternidad ambivalente, ambigua, donde las emociones que se viven son agridulces. En este caso, las madres-mujeres solas “son tiernas y delicadas” pero también pueden explotar, desesperarse, alterarse y sentir que lo materno es una incomodidad, un peso que no es soportable “ni un minuto más”.
Por otro lado, la maternidad asociada a la soledad es también una manera inédita de concebirla, pues según el pensamiento convencional el hecho de “ser madre” es garantía de compañía. De hecho, las mujeres que socialmente cuentan con cierta estabilidad piensan en ser madres “para no estar solas”. En este poema de Pantin, al igual que en el Russotto, la soledad de la madre es una certeza. En tal sentido, la soledad es también una forma de vivir la maternidad.
Especial mención merece la poética de María Auxiliadora Álvarez, para quien en su poemario Cuerpo (1985), en palabras de Luis Alberto Crespo, “la experiencia de la maternidad se tradujo en (…) diario de reclusa y condenada a ser cuerpo” (1993:9). Lo materno es para Álvarez el suplicio de dar vida incluyendo la parafernalia logística de los hospitales y las salas de parto:
hubiera podido reunirlo
el dinero doctora
vaca amarga castrada que me agrede
para tener mejor asistencia
(…)
si el embarazo durara varios años
a medida que me hubiera ido inflamando
cada arcada
cada pelo que cayese
cada estría
lo hubiera ido guardando (…)
(1993:15)
La puesta en escena de la parturienta con la doctora revela esas zonas de lo cotidiano donde la amargura es ley de vida. Se observa a una madre llena de reproches a la institución, al poder. Muestra cómo la maternidad es un proceso que se enuncia y se sufre desde el cuerpo; y además cómo se convierte en desasosiego la imposibilidad de que el cuerpo fracturado sea suficiente para acceder a los centros que el orden dispone para la llegada a la vida. Si tan sólo cada “estría”, “arcada”, “pelo” pudieran reunirse como el precio pagado por la madre para “tener mejor atención. ¿No ha sido suficiente ya el estropicio corporal? El cuerpo aparece en el poema como ente mancillado, como víctima de una maternidad feroz que lo anula o, peor, lo destruye; y al final, de nada vale.
En otro texto del mismo poemario, el escucha ya no es una doctora “vaca amarga”, sino un doctor para quien no hay adjetivos pero sí se le reprocha el desconocimiento, en tanto hombre, que tiene del acto de parir:
usted nunca ha parido
no conoce
el filo de los machetes
no ha sentido
las culebras de río (…)
doctor no meta la mano tan adentro
que ahí tengo los machetes
que tengo una niña dormida
y usted nunca ha pasado
una noche en la culebra
usted no conoce el río
(1993:19)
Para quienes han dado a luz es fácil reconocer esta escena como el preámbulo al parto: la escena del tacto. Las imágenes propuestas acá están diseñadas para producir el efecto de los machetes, las culebras y el río en el doctor: cortar, mover, chocar; contraponer el desconocimiento del escucha en cuanto al parto a su experiencia como depositaria de machetes y una “niña dormida”. El doctor es una figura intrusa, que invade el cuerpo de la madre con su mano pero es incapaz de experimentar los dolores y exilios del vientre que da a luz.
En Álvarez, también habla el hijo:
mamá es un animal negro
manso
extenso
(…)
cría (…)
no come
no duerme
no ríe
es un espacio oscuro
(…)
mamá es un animal quieto
amarrado
hinchado
habitual
muerto
(1993:24)
El devenir animal de esta madre es enunciado precisamente desde el hijo, quien la observa ahí donde lo materno asiste a su desborde y entra en “una zona de indeterminación, incontrolable e incontrolada donde el ser viviente que es el hombre se excede (…) para dar paso a la emergencia del defecto, del error, de lo monstruoso, de lo animal” (Saraceni, 2012). La madre acá es mirada desde su anomalía. Lo monstruoso ya no se refiere solamente a la subversión del orden, sino que a través del discurso cobra forma precisamente en la figura de la madre como cuerpo padece lo animal, que “no come/ no duerme/ no ríe”; diseñando así una escena lúgubre donde la maternidad es también un espacio oscuro donde se está amarrado, quieto, muerto.
Si la madre se vuelve discurso de animalidad el hijo también es descifrado a través de la palabra, es decodificado en el preciso momento del nacimiento: “entre las piernas/ la humedad de la placenta/ ACHE I JOTA O” (1993:29). En el parto el hijo es deletreado, es traído a la vida como un ente susceptible, como la justificación del cuerpo dolido de la madre.
Hay un texto que pudiera leerse en contraposición a Cuerpo haciendo una justa visión comparativa del hecho doloroso de traer a la vida y el de negarla. Estoy refiriéndome a Hago la muerte (1987) de Martiza Jimenez, donde la maternidad es enunciada fundamentalmente desde su negación: el aborto.
Este poemario posee un carácter narrativo en tanto describe desde el punto inicial y la confirmación del embarazo (“Náusea matinal”) hasta el desalojo del vientre (“como sangre salió”). Si en Álvarez el cuerpo materno es configurado desde el dolor de parto, en Jimenez este cuerpo es un ente pasivo a través del cual el hijo fluye y se anula: “como sangre salió/ y en mi cuerpo dormía” (1993:219). En las primeras escenas del poemario el aborto es para la madre símbolo de feliz desprendimiento: “al despertar/ yo bailaba/ y bailaba/ mi nueva libertad” (219); pero a medida que se va desarrollando la secuencia corporal y emotiva, comienzan a aparecer atisbos que develan el otro lado de la libertad: el vacío, el hijo ausente. Hacer la muerte es también vivirla: “se seca mi seno/ ya no alimenta esta sangre/ muero dos veces/ crepito sin sombra” (220). La mujer que decide no ser madre igual vive otra maternidad, una “llena de ortigas y abismos” (221). Eliminar la posibilidad del hijo no elimina los restos de una experiencia materna dicha desde el vacío y la nada.
El vientre deshabitado observa cómo “por siete días la sangre/ el surco que se abre/ y pasas”; el hijo entra en la muerte sirviéndose de la sangre de su madre como puerta, entonces la madre define a su hijo como “una oquedad/un vértigo” (221), lo conduce a la muerte, lo nombra desde ahí.
Al final del poemario hay una suerte de arrepentimiento:
debiste ser la inundación
colorear las horas y el sentido
dibujar con furia tu pequeño pie
seguir golpeando desde adentro
entonces la muerte
con su traje falso de enfermera
(…)
retiraría espantada
(226)
La madre no se reprocha nada a sí misma, le reprocha al hijo, tal como hemos visto en anteriores poemas: el hijo carga las culpas. Es el chivo expiatorio de madres que o bien viven la maternidad a contrapelo o deciden no vivirla. Algo bastante interesante sucede en el último poema del libro:
(…) tu madre poda en sus cabellos –como metáforas–
el peso de uno, dos
–¿cuántos hijos?–
que encorvan su espalda
(…)
Tu madre frente a la máquina
Desnuda palabras para olvidar
(227).
Acá, en palabras de Julio Miranda, “por una parte nada se ha olvidado; por otra, experiencia se ha convertido en escritura” (1995:217). La madre ratifica su desidia, afirma que su memoria hace esfuerzos por descartar los recuerdos, y que su ser está encorvado por el peso que significan los hijos ausentes, ahora convertidos en una carga mayor, pesan en tanto faltan, y siempre queda la palabra como articuladora de esa nueva subjetividad rota. Es por ella que la maternidad se convierte en discurso y los cabellos de la madre devienen metáforas y el hijo ausente quiere olvidarse frente a una máquina donde la madre “desnuda palabras”.
El hijo que falta aparece también en Casa de pisar duro (2013) de Gina Saraceni (1966).
El hijo no nacido reclama un lugar en la palabra,
Una letra que ocupe el espacio de la falta.
(…)
Que el poema diga el peso de su ausencia
La sangre más secreta
La que corre fuera de las venas
(50).
El hijo imposible sólo encuentra asidero en la poesía. Su reclamo es por hacer visible su ausencia. La lengua poética, en Saraceni, se hace cargo de las culpas y los vacíos que se enfrentan ante un hijo que no ha sido, ante una descendencia coartada, sesgada. Ahora bien, así como Saraceni habla desde el hijo ausente, que no llegó ni llegará, Jacqueline Golberg (1966) hace el movimiento contrario en Máscaras de familia (1988), donde le escribe al hijo que está por nacer. Este libro es fundamental para entender la reflexión sobre la maternidad desde la poesía, constituye uno de los engranajes principales de la poética sobre la madre tanto en la obra de Goldberg como en la tradición literaria venezolana.
Esta poeta propone a través de una lengua breve y contundente, afilada y cruda, una experiencia atormentada por la espera del hijo “vuelto náusea” (2006:265). Máscaras de familia está escrito desde la espera de algo todavía incumplido. En la posibilidad. Es la poética de un hijo por venir, de una rotura y cambio que se aproximan. La voz poética se imagina madre antes de serlo pero, a diferencia de los acuerdos existentes sobre el estado de felicidad y deseo de quien que va a dar a luz, aquí lo que se pone en escena es una mirada sospechosa en relación al “alumbramiento” y sus consecuencias, por el modo como compromete la libertad del sujeto y afecta su cuerpo: “Vendrás/ a clavarme/ tu sangre mía/ a someterme” (Goldberg, 2006: 269). Se advierte la tragedia desde la genealogía. La sangre de su hijo, la suya misma, es precisamente la molestia, lo que se clava. Esta forma de esperar al hijo que va a nacer interrumpe el “archivo de lo sabido”, subvierte la idea de plenitud que debe experimentar una mujer encinta.
La madre es amenazada por su propia sangre e inicia un periplo de dolores y angustias que no alcanzan a revertirse en ningún momento a lo largo del poemario. Lo que permanece constante es el reproche y la queja. En el texto no está expresada la esperanza y las ansias emotivas de las madres por su hijo; están los desvelos, las tristezas, la zozobra. No hay dolor que libere y se atenúe con el nacimiento del hijo sino, por el contrario, su llegada representa la constatación de que su existencia, su estar allí en la cotidianidad de la madre, produce en el sujeto poético ansiedad, reproche y lamento. No hay, a lo largo de este poemario, ninguna similitud a lo que convencionalmente suele asociarse con una madre que acaba de parir: felicidad, plenitud.
Estos develamientos de una maternidad a contracorriente de la convención social se pueden asociar a lo que Freud llamó lo “ominoso”, pues se trata de una forma de experimentar la maternidad desde sus zonas defectuosas, de poner al descubierto las emociones “abyectas” que resultan del embarazo, y que a la luz de la sociedad llena de prejuicios y percepciones consensuadas, serían juzgadas como negativas y perversas.
En Goldberg, la voz que se enuncia madre usa la poesía para ir en contra de este estado, para mostrar cómo el poema es una manera de cuestionar la cultura y las convenciones que sostienen el protocolo de la maternidad: “Tu lengua/ será mortaja/ iré quemándome en ella” (Goldberg; 2006:270); “No insinúo derrotas/ no te culpo de amargar/ mis prisas de amante” (Goldberg; 2006: 296). La maternidad se presenta como ese “combate” de “quien se arriesga en la lucha de lo que no tiene rostro” (Ossott, 2008:826). El riesgo es asumir la afectividad desde una trinchera separada, desrostrificada (Deleuze y Guattari), inexpresable. Pienso en la desrostrificación como la operación que la literatura hace para desmontar la máquina de rostrificación que intenta organizar el poder y sus protocolos de determinada forma, de proporcionales un paisaje ordenado y seguro: un rostro (Deleuze y Guattari. Mil Mesetas 2006: 174-186). El rostro de la maternidad preestablecido socialmente se desfigura en la poesía de Goldberg para producir nuevas significaciones y hablar desde sus zonas defectuosas. El sentir materno convencional, el del “mundo interpretado” que acusa a la madre en caso de cualquier “desorden” o anomalía en el hijo, asiste a su desborde en una poesía que busca lo que en la trastienda de la experiencia se oculta. Este otro modo de lo materno atenta contra el orden que la política de la vida impone en la existencia de los sujetos para controlar su afectividad y sus emociones, y garantizar la regulación social.
A diferencia de la larga tradición poética latinoamericana que propone una versión sublime de la maternidad, Goldberg la plantea como una experiencia de la pérdida, como la paraguaya Renée Ferrer en sus Nocturnos (1987), quien nombra al hijo como “tibio pétalo en arrullo (…) / pequeña y breve flor” (p. 42); o Gabriela Mistral quien es reconocida como la madre de América por su forma de sublimar la maternidad:
Querré perderme
cuando gimas en mi carne
querré llamarte
sombra
muerte
hijo al fin
(Goldberg, 2006: 282)
La muerte es inherente al hijo engendrado, el cuerpo materno no es leído según el lugar común de “dar vida” sino que funciona transversalmente como recinto de oscuridad; al igual que la lengua cuando busca nombrarlo y sólo encuentra un hijo “sombra/muerte” y entonces ensombrece sus códigos. La poética de la maternidad deriva entonces hacia sus zonas más inexpresables, siniestras y ocultas. En la poesía de Goldberg, el monstruo está en la madre.
Hay una puesta en escena el cuerpo encinta desde una mirada que deconstruye la promesa que implica el embarazo y muestra la lesión que significa:
Tu madre
será mujer muy sola
de esas que leen
y gritan
para no morir
Andará por la casa
palpándose
aprendiendo poco a poco
que su cuerpo
no resistirá más goces
que sus senos deberán hincharse
a la hora del descanso
que se acabó la vida
(Goldberg, 2006:294)
La contingencia cotidiana y la casa –espacio asociado al hogar como nido, como amparo del proyecto familiar, a las máscaras de familia– se convierten en escenario de una catástrofe para la mujer que al dar vida a otro ser, pierde la suya. En palabras de Hanni Ossott se trata de un “ejercitarse en la decepción” (2008:831), de una vida que se sustrae a sí misma, que es déficit y muestra un devenir muerte que la palabra poética declara: “que acabó la vida”. Esta maternidad asociada a la muerte una vez más revoca la intención de pensarla en comunión con la idea de trascendencia humana, continuación de la vida, posteridad asegurada. Al contrario: el vientre materno deviene muerte.
En este poema la cotidianidad de la madre no es una láctea cantata a la alimentación. Es el registro de los espacios donde la mujer observa los límites de su cuerpo y sabe que su última salvación es precisamente la palabra, la única coartada “para no morir”. Así pues, el orden, esa forma naturalizada de concebir la realidad, es también subvertido por lo que Bataille, en La literatura y el mal (1957), llamaría “una voluntad decidida de ruptura con el mundo, para abarcar mejor la vida y descubrir en la creación artística, lo que la realidad niega” (2000:39). En Máscaras de familia lo que el orden intenta mantener oculto es traído del espacio íntimo y secreto al colectivo y público a través de la creación poética y es puesto en evidencia ante la escucha del lector, lo cual desestabiliza los protocolos normalizados de ser madre, quien es sometida a la pérdida de algo que sólo la escritura puede compensar. Es la palabra como forma posible para dejar de ser madre o serlo de otro modo.
Entonces, a partir de esta apresurada propuesta cartográfica, es posible pensar la poesía como el lugar de la resistencia a la forma común de maternidad, es un lugar para intervenir los modos consensuados de la experiencia y proponer otros. Estas voces poéticas desenmascaran tales modos para descubrir y mostrar el lado oscuro de esas instituciones normativas de la vida y del deseo que son el soporte de la vida social. Visibiliza aquello que de la maternidad no tiene cabida en la norma establecida sobre este estado de la mujer. Y es que “La poesía es el lugar donde los límites se abren, donde la lengua se excede y se confunde para mostrar “la parte maldita” del ser” (Saraceni, 2012:136), eso que la literatura asume en su espalda, en su renovación estética, en los instrumentos que le da al ser para (re)interpretar el mundo.
Referencias bibliográficas y electrónicas
Álvarez, María A. (1993). Ca(z)a/Cuerpo. Caracas: Fundarte.
Bataille, G. (2000). La literatura y el mal. Ediciones el aleph.com. Disponible en: http://www.slideshare.net/amylesusana/la-literatura-y-el-mal-georges-bataille.
Deleuze, G.; Guattari, F. (1997). “Rizoma”. En: Mil mesetas. Capitalismo y esquizofrenia. Valencia: Pre-textos.
Freud, S. (1919). Lo Ominoso. Obras completas en digital. Disponible en:
www.diamantoro.com.
Garramuño, T. (2011). La experiencia opaca. Literatura y desencanto. Buenos Aires: F.C.E.
Goldberg, J. (2007). Verbos predadores. Poesía reunida 2006/1986. Caracas: Equinoccio. (Serie Papiros. Colección Recorridos).
Isava L. (2012). De las prolongaciones de lo humano: reflexiones en torno a la experiencia y sus inherentes protocolos.
Miranda, J. (1995). Poesía en el espejo. Estudio y antología de la nueva lírica femenina venezolana (1970-1994). Caracas: Fundarte.
Ossott, H. (2008). Obras Completas. Caracas: Bid &Co Editores.
Saraceni, G. (2008). Escribir hacia atrás. Herencia, lengua y memoria. Argentina: Beatriz Viterbo Editora
Saraceni, G. (2012) La soberanía del defecto. Legado y pertenencia en la literatura latinoamericana contemporánea. Caracas: Editorial Equinoccio. USB.
Saletti, L. (2008). Propuestas teóricas feministas en relación al concepto de maternidad. Disponible en:
http://www.ugr.es/~esmujer/pdf/Saletti_Cuesta_articulo_revista_clepsydra.pdf.
Bio fornecida pelo palestrante.
Taiane Santi Martins
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Resumo: O presente artigo se propõe a analisar o romance Ventos do Apocalipse, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, pela perspectiva da construção das vozes dos personagens. A análise identifica quais as vozes que compõem o romance – vozes femininas, vozes dos excluídos e esquecidos, vozes marginalizadas – e de que maneira tal composição leva à construção de identidade e a embates como tradição e modernidade, oralidade e escrita.
Palavras-chave: Literatura Africana, Literatura Moçambicana, Paulina Chiziane, Oralidade.
Abstract: This article aims to analyze the novel Ventos do Apocalipse, by the Mozambican writer Paulina Chiziane, through the perspective of the construction of the characters’ voices. The analysis identifies which voices compose the novel – voices of women, of the excluded and forgotten, or marginalized – and how this narrative raises issues regarding the construction of identity and related to questions such as tradition and modernity, orality and literacy.
Keywords: African Literature, Mozambican Literature, Paulina Chiziane, Orality.
Minicurrículo: Escritora e doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestre em Literaturas Estrangeiras Modernas, com ênfase em Literaturas Francesa e Francófonas, especialista em Literatura Africana de expressão francesa pela mesma universidade (2016). É também formada em História – bacharelado e licenciatura – pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC (2013), e no bacharelado de Letras – Literaturas e Língua Francesa – pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (2013).
VOZES AO VENTO: BREVE ANÁLISE DE VENTOS DO APOCALIPSE, DE PAULINA CHIZIANE
Taiane Santi Martins
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Quero contar-vos histórias antigas, do presente e do futuro, porque tenho todas as idades e ainda sou mais novo que todos os filhos e netos que hão de nascer. Eu sou o destino. A vida germinou, floriu e chegamos ao fim do ciclo. Os cajueiros estão carregados de fruta madura, é época de vindima, escutai os lamentos que saem da alma, KARINGANA WA KARINGANA.
(Ventos do Apocalipse)
KARINGANA WA KARINGANA, a expressão que se traduz por “era uma vez” é a utilizada por Paulina Chiziane [1] para introduzir a narrativa de Ventos do Apocalipse. A autora faz com o leitor um pacto de contação de histórias, assim como o fazem
os escritores de contos de fadas. Mas as histórias de Paulina são contadas ao redor da fogueira, por vozes roucas já cansadas; vozes daqueles que viram muito mais sofrimento do que achavam que podiam aguentar, e mesmo assim ainda têm força para contar histórias à beira do fogo. As histórias de Paulina são contadas por vozes que anunciam ventos mórbidos.
Ventos do Apocalipse, publicado em 1995, é o segundo romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Nele retrata o sofrimento e as mazelas trazidas pela Guerra Civil que se seguiu a Independência de Moçambique proclamada em 25 de junho de 1975. O romance retrata um cenário de violência, de descrença, de fome e de seca, um cenário de enfrentamento e de morte.
A narrativa é construída em três partes. Um prólogo, onde Chiziane conta – como se estivesse ela mesma ao redor da fogueira – três contos: O marido cruel, Mata que amanhã faremos outro e A ambição de Massupai. Os três contos são utilizados pela autora para dar o tom de leitura desejado e seus temas serão, de alguma forma, retomados ao longo da narrativa do romance. Além disso, a escolha por narrar contos antes do início da narrativa do romance ambienta os leitores ao redor da fogueira, voltados para a antiga tradição de se contar histórias ao pé do fogo.
A narrativa propriamente dita é dividia em duas partes. A “I Parte” narra a história de Sianga e Minosse, vivendo na vila de Mananga e sofrendo com a fome, a seca e a possibilidades dos conflitos armados atingirem a vila, o que de fato acontece. A “II Parte” narra a busca dos sobreviventes de Mananga por um local seguro, onde possam de alguma maneira reconstruir suas vidas, após tudo ser tirado de si.
Débora Leite David afirma que assim como na tradição bantu, Paulina Chiziane traz para os leitores essas pequenas referências a contos e provérbios, antes de começar a contar sua história para que a partir do uso destes elementos ancestrais, “a contadora de histórias estabeleça uma relação entre passado e presente, entre a tradição e a modernidade, indicando uma circularidade da vida e das histórias” (DAVID, 2007, p. 6).
É no sentido desta relação entre tradição e modernidade que me proponho a analisar a narrativa de Ventos do Apocalipse. Para isso é primeiro necessário contextualizar de que tradição estou me referindo. O ponto principal desta análise será o da oralidade e o da tradição oral. Ana Mafalda Leite diz que é a necessidade de legitimação de um espaço próprio das literaturas africanas em oposição às literaturas europeias que se leva o estudo da “oralidade” como um “instrumento de detecção da africanidade textual” (LEITE, 2012, p. 16). Isso causa alguns problemas de interpretação. O primeiro é relativo ao reconhecimento de que a literatura africana moderna nasce a partir da introdução da escrita e da língua do colonizador, as línguas europeias. Nesse sentido, pode-se entender que a escrita é europeia, enquanto a oralidade é africana; ou seja, a “natureza” da cultura africana é oral. (LEITE, 2012, p. 19). Essa premissa pode levar a um juízo de valor e a entendimentos um tanto errôneos. O primeiro de que não existia escrita em África antes da colonização europeia, quando estudos apontam a importância da escrita com caracteres árabes desde o século XIII, isso sem se falar na escrita egípcia que é anterior a isso (LEITE, 2012, p. 18-19). Outro é a crença de que devido ao fato de o continente ser fundamentalmente de expressão oral antes da chegada dos europeus não existiria uma literatura estruturada. Segundo o mexicano Brahiman Saganogo a literatura oral em África é de suma importância e constitui a difusão do “saber, da cultura, dos costumes, os usos, o pensamento e a filosofia africanos mediante uma retórica centrada essencialmente na memória, na elocução e na pronuncia” (SAGANOGO, 2008, p. 489). Nesse sentido, pode-se afirmar que a lógica da literatura oral em África é tão complexa quanto à lógica da literatura escrita, segundo os padrões estéticos ocidentais. Ademais, a literatura oral contava com quase todos os gêneros – poesia, teatro, conto. Com exceção do romance/novela por razões ligadas à essência do gênero em questão, como a extensão, e a unidade de composição (MARTINS, 2012, p. 20). É errôneo, portanto, pensar que a introdução da escrita e dos padrões estéticos europeus provoca a passagem da oralidade para a escrita, numa perspectiva evolutiva. Onde a escrita teria mais valor do que a oralidade e onde a oralidade seria abandonada em favor da escrita.
Ana Mafalda Leite afirma, pautada nos estudos de Honorat Aguéssy, que a “oralidade nas culturas africanas é uma ‘característica dominante’ e não a única e exclusiva” (LEITE, 2012, p. 20). Possuir uma tradição oral significa possuir toda uma episteme própria, é uma forma de pensar o mundo. Uma concepção própria de homem, tempo, vida, natureza, e essas concepções não precisam ser abandonadas
com a inserção de uma nova lógica de produção cultural, pautada na
escrita[2]. Talvez seja por isso que Paulina Chiziane nega o estatuto de romancista
dizendo-se, sobretudo, uma boa ouvinte e que a partir das histórias que ouve torna-se uma longa contadora de histórias. Ela diz:
Eu acho que o mundo está habituado a por rótulos em todas as coisas, nós queremos liberdade, mas as pessoas nos rotulam e a partir do momento em que a pessoa é rotulada de alguma coisa tem que pertencer a esse gueto. Romance é algo europeu, (…). Eu sou africana, contacto com o romance sim. Agora, se eu ser romancista, eu tenho que cumprir com as normas do romance. E eu não quero. Eu quero escrever em liberdade aquilo que me dá na cabeça. Porque se eu me apresento ao mundo como romancista, as pessoas vão querer cobrar de mim aquilo que são as regras de um bom romance, estou a fugir das regras. É só isso (CHIZIANE, 2009).
O que significa para Paulina escrever em liberdade, fugindo das regras e normas impostas por um tipo de escrita que não julga ser seu, senão um grito de independência? Uma aclamação de voz? O que Paulina diz ao renunciar o título de romancista é que ela tem voz própria, que ela pode falar a partir de seu lugar de mulher, de africana, de moçambicana, de escritora. Que ela pode falar pautada na sua cultura, nas suas vivências e experiências de vida; utilizando um mecanismo que outrora podia lhe ser estranho, mas que agora é tão seu quanto de qualquer outro, a escrita. É por sua vivência própria que Paulina Chiziane recorre às histórias contadas ao redor da fogueira em seus romances, é por suas experiências na vida que a oralidade está presente em seus textos:
Como me tornei escritora? É algo que não sei responder. Apenas posso dizer que a escrita escolheu-me, da mesma forma que a natureza me tornou mulher. Posso confirmar que a minha vivência também contribuiu para conduzir-me a este caminho.
As minhas memórias mais remotas são das noites frias à volta da lareira, ouvindo histórias da avó materna (CHIZIANE, 2013, p. 201).
É da memória da escritora que vem a familiaridade para contar histórias. Seja talvez pelas lembranças da avó materna que Paulina construa a personagem de Minosse, que depois de velha toma para si o encargo de contar histórias. É a partir da personagem de Minosse que pretendo abordar o primeiro elemento da relação entre tradição e modernidade presentes no romance. Elemento este residente na voz, no poder da fala.
Na literatura chamada tradicional de África se destacam as figuras dos griots, djélis, soras que poderiam ser caracterizados como verdadeiros historiadores tradicionais, são poetas e cantores que se encarregam de contar as façanhas dos heróis locais, histórias genealógicas, narram as lendas e contos maravilhosos onde homens e animais ganham vida (MARTINS, 2012, p. 20). São, pois, os homens quem detém o poder da fala, da contação de histórias. A mulher está resignada ao privado, ao espaço do lar e sua voz só tem vez entre elas mesmas. A própria autora conta que seguia todos os passos de sua mãe e ao fazê-lo observava seus cantos e lamentos, ouvia sua voz e das outras mulheres, mas era a única a fazê-lo:
No rio, enquanto me banhava, a minha mãe cantava e lavava roupas e mágoas. As outras mulheres faziam o coro. Estas cantigas umas vezes eram suspiros e outros murmúrios de angústia. Já em casa ouvia as cantigas de pilar milho e as de pilar amendoim. Eram todas tristes. O que consegui observar é que os homens ouviam-nas com total indiferença. Em momento nenhum da minha vida me recordo de ter ouvido, da boca de um rapaz ou de um homem, estas cantigas de mulher (CHIZIANE, 2013, p. 201).
Enquanto os homens, através da figura dos griots recebiam as glórias de um público atento, o espaço da mulher resigna-se ao das cantigas de lamúrias proferidas no decorrer dos trabalhos “de mulher” e ignoradas pelos homens. Em Ventos do apocalipse, Paulina Chiziane dá voz à mulher através de Minosse, a última esposa de Sianga, longe de ser a preferida, longe de ser a mais bonita, é submissa e infeliz e, ainda assim, é ela uma das grandes personagens do romance. Numa primeira leitura desatenta pode parecer que a autora retrata Minosse sob a mesma lógica da submissão e até inferioridade perante a figura masculina. Assim a descreve: “Esposa dos velhos tempos, ainda preserva as tradições e o respeito dos antigos” (CHIZIANE, 2006, p. 27).
A utilização da expressão “dos velhos tempos” já aponta para uma ruptura com a lógica da dominação masculina. Minosse foi a única das esposas de Sianga que não o abandou, ela sabe que pertence a outros tempos, ela sabe que o tempo mudou. Mas também sabe que mudou junto com o tempo, mesmo que escolha continuar ao lado do marido: “Minosse enfrenta o marido com fúria de fêmea. Os olhos dela são o céu inteiro desabando em catapultas de fúria” (CHIZIANE, 2006, p. 29). Minosse enfrenta o marido e reivindica sua voz, mais do que isso a conquista ao longo da narrativa.
Ela é a única personagem que permanece até o fim da narrativa. Sianga morre, assim como seus filhos e os demais personagens apresentados na primeira parte do romance; mas ela permanece e ganha importância. Enlouquece devido às amarguras da vida, os sofrimentos da guerra e caminhada em busca de uma nova aldeia; mas retorna da loucura e ainda, ao final da vida, reencontra a felicidade e realiza seus sonhos. Adota três órfãos na aldeia do Monte, e lhes chama de filhos, se encarrega ela mesma de lhes ensinar as coisas da vida:
Minosse conseguiu realizar um pedaço do seu sonho. Os meninos órfãos confiam nela. (…) Ensina-lhes as manhas da terra, os segredos da semente, as voltas da água e os movimentos do vento. Ela não pode ensinar mais do que isso. Lamenta o facto de não haver na aldeia uma escola onde possam aprender outros modos de vida porque o mundo moderno tem exigências que ela desconhece. As crianças deliram porque a velha apagou neles o fogo do terror. Quando a noite chega, sentam-se à volta da lareira e contam histórias (CHIZIANE, 2006, p. 227).
Minosse lhes ensina os segredos da terra, lhes transmite seus conhecimentos, conta-lhes histórias, preocupa-se com o futuro dos pequenos e lamenta-se por não poder ensiná-los mais, pois sabe que a sua voz será a única educação que terão, lamenta-se por saber que se trata de novos tempos e por saber que sua voz já não é mais o suficiente. É nesse sentido que a voz é um dos elementos de embate entre tradição e modernidade aportados pelo romance. Pois mesmo que as duas primeiras frases do livro sejam “Vinde todos e ouvi / Vinde todos com as vossas mulheres…”, pressupondo um narrador, um contador de histórias masculino; a grande voz do romance é uma voz feminina.
Inocência Mata, ao tentar conceituar o pós-colonial afirma que alguns entendem o termo como a situação em que viveram, e ainda vivem, as sociedades que recentemente saíram do sistema colonial. Ou seja, o sufixo “pós” do significante “colonial” estaria se referindo a sociedades que começam a agenciar a “sua existência com o advento da independência” (MATA, 2003, p. 45). Nesse sentido, a pesquisadora apoia-se na teoria do historiador Henk Wesseling para afirmar que “o pós-colonial pressupõe uma nova visão da sociedade que reflete sobre a sua própria condição periférica, tanto no nível estrutural como conjuntural” (MATA, 2003, p. 45), já que o processo de descolonização, de passagem ao pós-colonial exige, “um novo método de abordagem e diálogo com o mundo global, porque nessa nova conjuntura impõe-se a ‘lógica do gesto de abrir novos espaços’” (MATA, 2003, p. 46). O que seria, no contexto de Ventos do Apocalipse, abrir novos espaços, senão dar voz àqueles que há muito vêm sendo marginalizados?
Como afirma a pesquisadora Deolinda M. Adão, a grande maioria das personagens de Paulina Chiziane podem ser consideradas, de uma maneira ou de outra, como personagens com identidades marginais. Trata-se de personagens de meios rurais, que vivem na extrema pobreza, com baixo nível de escolaridade ou sem nenhuma, e que ainda vivem numa sociedade que há muito vem sofrendo com as pressões da colonização e da guerra civil (ADÃO, 2007, p. 2).
Inocência Mata ainda afirma que assim como a literatura anticolonial, literatura feita em África até aproximadamente final da década de 1960 – momento das lutas pelas independências da maior parte dos países africanos, mobilizou estratégias contra o discurso colonial – no sentido mais amplo do termo, no intuito de afirmar a diferença cultural e reivindicar a pátria, a atual escrita africana “mobiliza estratégias contradiscursivas que visam à deslegitimização de um projeto de nação monocolor em todos os sentidos” (MATA, 2003, p. 57). Ventos do Apocalipse narra a história daqueles que ninguém quer ver, nem dentro da própria sociedade moçambicana. Narra a história de refugiados de guerra, de pessoas marginalizadas historicamente tanto a nível internacional quanto dentro de suas próprias nações. Narra história de homens que acreditam que “se o homem é a imagem de Deus, então Deus é um refugiado de guerra, magro, e com ventre farto de fome” (CHIZIANE, 2006, p. 184).
Assim, para a supracitada pesquisadora o que romances como Ventos do Apocalipse faz é funcionar como:
(…) uma lógica antiépica que acaba por referenciar os ideais agônicos da revolução e do nacionalismo – e, claro, da cidadania, que nem logrou vingar. E isso através do despertar de vozes silentes e marginais resgatadas da História, descobrem-se as suas sombras, intervém-se na paisagem da cidadania e a nação começa a emergir colorida (MATA, 2003, p. 59).
Não sou, pois, a única a falar em vozes e despertar de vozes. Paulina Chiziane utiliza de outras estratégias para brincar e jogar com as vozes de seus personagens, além da própria escolha deles. Voltando para o campo do estudo da oralidade em si, Ana Mafalda Leite disserta a respeito dessas estratégicas utilizadas pelos escritores africanos para manter em seus textos escritos as marcas da oralidade. E debate as ideias de Alioune Tine que afirma que “a literatura africana se define como uma literatura situada entre a oralidade e a escrita” (TINE, apud LEITE, 2012, p. 28) e afirma ainda que um dos traços que constitui a especificidade da literatura africana é a noção de “oralité
feinte », ou seja, “oralidade fingida”[3].
O conceito de “oralidade fingida” será entendido aqui como estratégias e marcas da oralidade que permanecem nos traços escritos de muitos autores africanos, incluindo Paulina Chiziane. Ou seja, o mesmo modo pelo qual Ana Mafalda Leite entende a oralidade, ou “oralidades” como fala em seu texto, como a maneira pela qual os escritores se relacionam com a textualidade oral e com as línguas, visto que as narrativas são escritas e publicadas nas línguas oficiais, nas línguas do outro. No caso das literaturas africanas de expressão lusófona, a pesquisadora distingue três maneiras de se relacionar com a textualidade oral. A primeira é a tendência de seguir uma norma mais ou menos padronizada, ou “oralizar” de alguma maneira a língua portuguesa. A segunda, refere-se a tentativa de “hibridização” da língua estrangeira através da “recriação sintática e lexical e de recombinações linguísticas” (LEITE, 2012, p. 36) provenientes das línguas locais. A terceira, o que é o caso de Paulina Chiziane, é menos recorrente por ser utilizada apenas por escritores que são de fato bilíngues e que possuem um contato mais próximo com as regiões rurais e se constitui por uma relação de diálogo linguístico. “Essa terceira e última situação, quase de dialogismo, é resultante da interação entre as duas línguas conhecidas, uma africana, e a outra, a língua portuguesa, que tentam como ‘traduzir-se’ mutuamente” (LEITE, 2012, p. 36).
Paulina Chiziane tem tanto a supracitada relação próxima ao
meio rural [4], como também situa os personagens de Ventos do Apocalipse neste meio e faz uso da estratégia apontada por Ana Mafalda Leite. Inclui frases,
nomes e expressões africanas no texto como se fizessem parte da língua portuguesa. Algumas das palavras utilizadas pela escritora estão traduzidas na parte final do romance em um glossário, mas nem todas. Para algumas delas o trabalho de entendimento é do leitor, que precisa prestar atenção no que está sendo narrado para conseguir entender o sentido da palavra estrangeira. Outras permanecem um mistério, até que o leitor busque referências fora do romance como é o caso da expressão “KARINGANA WA KARINGANA”.
Chegamos ao ponto final desta análise, uma análise pautada nas vozes, já me referi às vozes femininas, às vozes dos excluídos e esquecidos, às vozes marginais. Falemos agora do contraste de vozes que o final do romance traz. No penúltimo capítulo de Ventos do Apocalipse, Paulina faz com que as vozes dos novos e dos velhos entrem em disputa.
Na aldeia do Monte, quando a terra acorda e volta a dar vida após tudo ser destruído pela chuva, os homens comemoram e felizes querem dar graças pela alegria do recomeço, pela superação da desgraça. “Alguém sugere que seja feita uma festa aos defuntos à semelhança do mbelele que se realizou em Mananga” (CHIZIANE, 2006, p. 256). É ai que começa o problema, os jovens se opõem ao mbelele, ritual tsonga para fertilidade da terra, e ao culto aos defuntos, enquanto os velhos defendem a tradição.
A primeira parte do romance gira em torno do personagem de Sianga e sua família, e da sua tentativa de voltar a ter algum prestígio perante a comunidade local, através da realização do mbelele, para livrar a aldeia dos tormentos da seca, da fome, do sofrimento. Mas sua tentativa é frustrada, apesar de ter realizado o ritual, a aldeia é atingida pela guerrilha e destruída, a maior parte da população é morta, incluindo os seus dois filhos. Sianga é condenado e punido com a morte no final da primeira parte da narrativa, pela sua ambição em comandar a aldeia. Ao relembrar os acontecimentos sucedidos em Mananga os jovens da aldeia do Monte proclamam:
Velhos, olhemos para a trajectória da nossa vida. Façamos o balanço. Durante séculos ensinaram-nos a adorar os defuntos. Nos momentos de aflição chamamos por eles. Não respondem. Em Mananga, chegámos ao cúmulo de oferecer cabras malhadas, cereais, sacrifícios, pedindo auxílio a esses defuntos cegos e surdos. (…) A resposta foi a guerra, a fome e o sofrimento. Já é tempo de sepultar as crenças antigas. O culto aos antepassados é coisa para os velhos e não para os novos (CHIZIANE, 2006, p. 257).
Paulina traz para as páginas de Ventos do Apocalipse um embate literal entre tradição e modernidade e neste único capítulo, fazendo dele praticamente seu capítulo de tese. Nas seis páginas do capítulo 24, a autora usa da voz dos personagens dos novos e dos velhos para levantar discussões teóricas e filosóficas de maneira bem explícita. O velho Mungoni, representante da voz da tradição, rebate as críticas dos jovens:
Falar dos antepassados é falar da história desde povo, da tradição e não do fanatismo cego, desmedido. Não há novo, sem velho. O velho lega a herança ao novo. O novo tem a sua origem no velho. Ninguém pode olhar para a posterioridade sem olhar para o passado, para a história. (…) Acreditar nos antepassados é acreditar na continuidade e na imortalidade do homem (CHIZIANE, 2006, p. 257).
São belas e tocantes as palavras do velho Mungoni, mas ainda mais bela é a compreensão que ele transmite na sequencia de sua oratória quando compara as tradições novas e antigas por meio das religiões. Todas as religiões têm suas práticas sagradas e seus rituais, “celebram o nascimento e a morte de seus profetas”. E “Todas estas realizações não são mais do que uma nova face do culto aos antepassados. Fazer uma cerimônia dedicada aos defuntos da família, da tribo ou do clã é render homenagem à tradição, à história, à cultura.” (CHIZIANE, 2006, p. 257). O que o velho Mungoni está dizendo é todos temos as nossas tradições, independente da cultura a qual pertencemos e independente da maneira pela qual a coloquemos em prática. Para além disso, o que as palavras do velho fazem refletir é que as tradições não precisam ser algo tão oposto a modernidade, modernidade e tradição não precisam ser elementos tão contrastantes. No final das contas é tudo uma questão de identidade:
A crise existe porque o povo perdeu a ligação com a sua história. As religiões que professa são importadas. As ideias que predominam são importadas. Os modos de vida também são importados. O confronto entre a cultura tradicional e a cultura importada causa transtornos no povo e gera uma crise de identidade. Estamos tão sobrecarregados de ideias estranhas à nossa cultura que da nossa gênese pouco ou nada resta. (…) O jovem que é eleito para a nova liderança leva dentro de si o conflito que irá desencadear a crise no sistema por ele dirigido. (…) Se ele não sabe que é nem de onde vem, logicamente que não saberá por onde deve caminhar (CHIZIANE, 2006, p. 258-259).
No final das contas, é uma questão de ter voz própria, de ter direito a voz. É uma questão de ter direito a tradição, de ter direito a sua cultura própria. A mensagem que Paulina passa pela voz do velho Mungoni é que o que realmente importa é a identidade, o que importa é o direito à voz própria:
Que venham os régulos, rei, ou outros com qualquer outro nome. Que sejam, como agora, estrangeiros à tribo e ao clã. Que sejam espíritos vindos do espaço. O mais importante é que sejam homens de bem que deixem as pessoas viver de acordo com as marcas da sua identidade. Que saibam harmonizar o velho e o novo (CHIZIANE, 2006, p. 259-260).
Não é meu objetivo neste artigo debater teoricamente questões referentes à problemática identitária. Prefiro manter o embate aportado por Paulina nas páginas finais de seu romance no campo da reflexão literária, por este motivo a escolha por longas citações do texto da autora. Da mesma maneira que a escritora moçambicana faz na sua narrativa a escolha de dar voz a personagens que comumente não a teriam, opto por manter na parte final deste artigo a voz de Paulina; que ela possa despertar no leitor deste o mesmo tipo de efeito e reflexões que despertou em mim.
O cenário final de Ventos do Apocalipse é, sob um primeiro olhar, o da desesperança. A aldeia do Monte é engolida pelos cavaleiros do apocalipse e recebe seu batismo de fogo. Mas não se pode esquecer que Paulina começa o romance lembrando aos leitores que a vida é cíclica:
As folhas caem no Outono na ceifa do vento. As águas do rio desembocam no mar, voam para o céu e voltam, enchendo de novo os rios. As estações do ano andam a roda. Até nós, seres humanos, morremos para voltar a nascer. Somos a encarnação dos defuntos há muito sepultados, não somos? A terra gira e gira, a vida é uma roda, chegou a hora, a história repete-se… (CHIZIANE, 2006, p. 22).
O fim da aldeia do Monte não significa o fim da tradição, nem o apagamento da voz de seus aldeões. Assim como Paulina aponta para o movimento cíclico da vida, que este artigo abra a possibilidade de novos pensamentos, de novas reflexões e novas maneiras de se pensar o mundo e compreender as tradições orais.
KARINGANA WA KARINGANA.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CHIZIANE, Paulina. Ventos do Apocalipse. Lisboa: Caminho, 2006.
CHIZIANE, Paulina. Entrevista concedida ao programa A Páginas Tantas. 2009 (33min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yYIwTj7afJA. Acessado em 13.08.2014
CHIZIANE, Paulina. Eu, mulher…por uma nova visão de mundo, Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Niterói, Vol. 5, n° 10, abril de 2013. Disponível em:
http://www.uff.br/revistaabril/revista-10/014_Paulina%20Chiziane.pdf. Acessado em 13.08.2014
COUTO, Mia. E se Obama fosse africano. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DAVID, Débora Leite. O feminino em dois romances de Lídia Jorge e Paulina Chiziane, Revista Crioula, São Paulo, n° 01, 2007. Disponível em:
http://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/52674. Acessado em 13.08.2014.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidade na produção e na crítica literárias africanas. In: Oralidades & escritas pós-coloniais: estudos sobre literaturas africanas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.
MATA, Inocência. A condição pós-colonial das literaturas africanas de língua portuguesa: algumas diferenças e convergências e muitos lugares-comuns. In: LEÃO, Ângela Vaz (Org). Contatos e ressonâncias: literaturas de língua portuguesa. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.
MARTINS, Taiane Santi. De mãos dadas: literatura e história, escrita e oralidade, tempo e memória nas narrativas de Mia Couto e Ahmadou Kourouma. 126f. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação). Universidade do Estado de Santa Catarina – Centro de Ciências Humanas e da Educação. Curso de História. Florianópolis, 2012.
Disponível em:
http://www.pergamumweb.udesc.br/dados-bu/000000/000000000016/00001675.pdf.
NOTAS AO TEXTO
1 “Paulina Chiziane nasceu em 1955 na região de Gaza ao sul de Moçambique. Estreou como escritora com o romance Balada de amor ao vento, em 1990. Seguiram os romances Ventos do apocalipse em 1995, O sétimo juramento em 2000, e Niketche, uma história de poligamia em 2002. Apesar da pequena produção literária até o momento, Paulina Chiziane é considerada pela crítica uma das revelações mais promissoras da literatura moçambicana, além de ser a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. Recebeu, ex-aequo, o Prêmio José Craveirinha de Literatura em 2003 pelo romance Niketche, uma história de poligamia, ao lado de Mia Couto.” (DAVID, 2007, p01)
[2] Não é meu objetivo, neste artigo, abordar profundamente o que é a chamada tradição oral africana, nem as concepções filosóficas aportadas por esta lógica de pensamento. Para maiores informações sugiro a leitura do trabalho: MARTINS, Taiane Santi. De mãos dadas: literatura e história, escrita e oralidade, tempo e memória nas narrativas de Ahmadou Kourouma e Mia Couto. 126f. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação). Universidade do Estado de Santa Catarina – Centro de Ciências Humanas e da Educação. Curso de História. Florianópolis, 2012.
[3] O conceito de Alione Tine é questionado e aceito apenas em parte por Ana Mafalda Leite, isso porque ele poderia levar à ideia de que a literatura africana seria autenticamente africana somente se possuísse traços da oralidade. Não entenderei o conceito desta maneira, primeiramente, pois acredito, assim como Mia Couto (2011), que os escritores africanos compõem romances assim como qualquer outro escritor em qualquer parte do mundo e que, enfrentam as mesmas dificuldades e os mesmos desafios de composição. Segundo, pois, como pesquisadora das literaturas africanas, nego a necessidade de uma suposta autenticidade esperada dos autores africanos. Sabendo que a África foi e continua sendo sujeitada a sucessivos processos de “essencialização” e “folclorização”, além do mais, muito do que se considera como “autenticamente africano” é resultado de invenções feitas fora do continente africano.
[4] “Aos seis anos de idade abandonei o campo com meus pais e fomos viver no subúrbio da cidade. (…) Nas ruas do subúrbio sentia imensas saudades da vida livre e dos passeios nos campos. Para matar a saudade passava o tempo desenhando paisagens na tentativa de restaurar o paraíso perdido da primeira infância” (CHIZIANE, 2013, p.201-202).
Bio fornecida pelo palestrante.
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
Abstract: The writings of the Iranian diaspora, the westbound migratory movement motivated by extreme Islamic regimes and violent conflicts, raise public and scholarly interest especially in regard to their “return narratives”, autobiographical novels by writers moving fluidly between Western and Middle-Eastern spaces, homes, and identities. In this article, I join the academic debate about notions and constructions of women’s subjectivity in one of such works, Azar Nafisi’s 2003 Reading Lolita in Tehran. Supported mainly Susan Stanford Friedman’s theorization on locational feminism and multiple subjectivities in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), I argue that protagonist Azar’s cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances in the narrative.
Keywords: Women’s Literature; Iranian Diaspora; Return Narratives; Hybrid Subjectivities.
Resumo: A escrita da diáspora iraniana, movimento migratório para o ocidente impulsionado por regimes islâmicos extremistas e conflitos violentos, desperta interesse público e acadêmico para suas “narrativas de retorno”, autobiografias de autores que se deslocam fluidamente entre espaços, lares e identidades ocidentais e orientais. Esse artigo visa contribuir com o debate sobre noções e construções da subjetividade feminina em uma dessas obras, Lendo Lolita em Teerã (2013), de Azar Nafisi. Baseada na teorização de Susan Stanford Friedman sobre feminismo locacional e subjetividades múltiplas em Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), proponho que a mobilidade espacial e cultural da protagonista Azar causa a fragmentação e hibridização de sua identidade devido às interações entre constituintes identitários de poder e opressão em diferentes momentos da narrativa.
Palavras-chave: Literatura Escrita por Mulheres; Diáspora Iraniana; Narrativas de Retorno; Subjetividades Híbridas.
Minicurrículo: Marcela de Oliveira e Silva Lemos é mestranda em Literaturas de Língua Inglesa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Licenciada em Inglês por esta universidade, participou na graduação do projeto de pesquisa “Mobilidades culturais, geografias afetivas: espaço e gênero na literatura contemporânea”. É membro do Núcleo de Estudos de Guerra e Literatura da UFMG. Suas linhas de pesquisa são literatura, história e memória cultural e políticas do contemporâneo. Sua dissertação trata da literatura de guerra escrita por mulheres e do efeito da guerra sobre os constituintes identitários de personagens femininas.
Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s
Reading Lolita in Tehran
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
One can be veiled and yet mobile.
Carole Boyce Davies, Black Women, Writing and Identity
In the epigraph, Davies (1994) interprets a Saudi woman’s declaration on television: “I resent not being able to drive an automobile more than I resent having to wear a veil” (p. 2). To Davies, the statement expresses “a layering of resentments, issues to be struggled with, one assuming – for the moment – primacy over the other” (p. 2). One of such issues, determined mainly by religion and gender, is the right to mobility, a contemporary matter implicit in the notion of diaspora. Davies’s discussion about black migratory identities inspires me to look at another moving subject: the Iranian woman. That is because, similarly to diasporic black women’s writings, the works of Iranian female immigrants have become increasingly popular recently.
Since North-American incursions in the Middle-East during the War on Terror led by former U.S. president George W. Bush, Western interest has boosted the publication of autobiographies by authors of Islamic origin, such as Azar Nafisi’s Reading Lolita in Tehran (2003), Azadeh Moaveni’s Lipstick Jihad (2005), Marjane Satrapi’s Persepolis (2007), and Pardis Mahdavi’s Passionate Uprisings (2008). These novels, termed “return narratives” by Jasmin Darznik (2008, p. 56), portray the characters’ departure from Iran to America, and their later return to the native country, where their search for home and identification is often frustrated by changes in the land and within themselves. In this article, I focus on the character Azar Nafisi’s back-and-forth relocations between rigid and liberal, religious and secular, private and public contexts throughout her story. Based on the effects of movement through cultures on subjectivity, discussed by Susan Stanford Friedman (1998), I argue that Azar’s1 cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances.
Reading Lolita in Tehran is Nafisi’s debut novel. Simultaneously the first-person narrator and protagonist, Azar writes in the present time of a “fall day in another room in another country” (2003, p. 6). She recalls memories of pre-revolutionary Iran, schooldays in England, Switzerland, and the United States, and Islamic-ruled Iran. These recollections are organized into four sections, which, owing to Azar’s expertise in literatures in English, are named after Western authors and classics. In each section, Azar discusses events and women’s conditions in relation to those classics. The first part is “Lolita”, in a reference to Vladimir Nabokov’s work that also appears in the title of the novel. It is set in 1995, after Professor Nafisi resigns from teaching Literatures in English at a college in Tehran. She invites her seven best-ever female students to a weekly book club: a private session held at her living room every Thursday morning for two years, in which the class reads, discusses, and writes about occidental literary works banned by the Islamic regime. In the process, the members dive into each others’ problems, create affective relationships, and raise awareness to women’s treatment and roles in society.
The subsequent sections, “Gatsby” and “James”, refer respectively to F. Scott Fitzgerald’s The Great Gatsby, and to the U.S. born author Henry James. Both are chronologically set before “Lolita”. “Gatsby” significantly begins in the United States, where Azar attends graduate school with her first husband, and joins student movements and demonstrations. Following the dreams casted by a popular uprising, she journeys eastward, married this time to Bijan. After seventeen years away, she encounters a different country, where the books she teaches are attacked and forbidden. In “James”, Azar is expelled from the University of Tehran, and lives through the Iran-Iraq war, while female use of veil becomes mandatory. In the final part, “Austen”, the narrative returns to the years from 1995 to 1997, when Professor Nafisi leaves Iran definitively. This is the section in which her private class mostly compares Western and Islamic cultures, especially in regard to their experience as women. To its peculiar structure, polemic themes, and powerful writing, Reading Lolita in Tehran owes both its wide reception and harsh criticism.
As Darznik observes, “an all-out campaign has been launched against Iranian immigrant writers… leading the campaign are US-based Iranian academics who decry these writers’ authority to speak about the experience of ‘real’ Iranians” (2008, p. 55). Two US-based academics critic of Reading Lolita are Hamid Dabashi, in “Native Informers and the Making of the American Empire” (2006), and Fatemeh Keshavaz, in Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran (2007). They claim that “Nafisi substitutes Western hegemonic ideals for Iranian censorship… [and that] redemption in the form of Western cannon can be its own kind of hegemonic prison” (Blumenthal, 2012, p. 253-254). That is, those critics believe that Nafisi endorses worldwide supremacy of Western ideology through her novel’s defense of democracy and admiration for English-language literature. This way, she is regarded as an Orientalist, in reference to Edward Said’s (1978) concept, who propagates patronizing views of the East through cultural translation and commodification to an American audience.
It is rather ironic that US-based Iranian academics question US-based Iranian writers as representative of their “real” people. In this line of reasoning, since both groups are in the same privileged condition of escaping a tyrannical regime and living in a democracy, they are equally distant from and unable to speak about Iranian “reality”. We must remember, moreover, that Reading Lolita in Tehran is a literary work. As such, it does not establish guaranteed allegiances with reality. Indeed, it even unsettles the assumption of truth commonly associated to autobiographies, as the “Author’s Note” acknowledges the inevitable constructiveness of reminiscences: “[t]he facts in this story are true insofar as any memory is ever truthful” (2003, p. 1). Furthermore, by contesting the representativeness of a character’s experience, Nafisi’s critics disregard that, as Joan W. Scott (1991) puts it, “experience is at once always already an interpretation and something that needs to be interpreted” (Motlagh, 2011, p. 417). That is, what Azar narrates is her comprehension of the world and events, which we read against our own backgrounds. Moreover, Rachel Blumenthal argues that “critics must also consider the specificity and nuance” of Azar’s story (2012, p. 257). By attacking this personal interpretation and representation of Iranian, immigrant, Islamic womanhood, scholars may run the risk of silencing voices long unheard.
Amy Motlagh (2011), Darznik, and Blumenthal are attentive to the nuances and difficulties of women’s Eastern and Western lives and writings. The question of authority and authenticity of Iranian-American experience, for instance, is addressed by Motlagh in “Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora”. In her turn, in “The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora”, Darznik observes an adaptation, by Iranian women like Nafisi, of the Western genre of travel literature into return narratives. She also considers a dislocation of the notion of home in relation to those female characters, to whom “[h]ome is… a place at once rooted in Iran and yet mystically beyond place” (2008, p. 60). This idea that the immigrant’s home, signifying the unity of geography, affect, and belonging, is an unachievable desire constantly postponed is further developed by Blumenthal in “Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini”.
Blumenthal argues that diaspora “locates homeland geographically, ideologically, and textually” (2012, p. 251). She affirms that Azar moves to a Western ideological homeland through her opposition to Islamic totalitarian rule and her use of English-language literature, to which the narrator attributes words such as “genuine democracy”, “freedom”, and “courage” (Blumenthal, 2012, p. 252). However, similarly to Darznik, Blumenthal notices Azar’s paradoxical refusal, or perhaps impossibility, to completely divorce herself from “historical, intellectual, and emotional connections to Iran” (BLUMENTHAL, 2012, p. 261). Evidence of this denial, to Darznik, is “the dominance of Iran… [a] gaze steadfastly fixed on Iran” (2008, p. 56), which pervades the narrative through the lingering presence of Iranian settings and Persian cultural elements even when characters engage with Western classics.
Although Darznik and Blumenthal offer interesting considerations about the displacement of home for the Iranian-American immigrant woman, their discussions do not investigate a fragmented, hybrid subjectification as a cause for and consequence of that dislocation. I believe that, in Azar’s movement through cultures, her identity is constantly reconfigured due to the various privileged and oppressed positions she occupies. In this sense, instead of a unitary being unable to find home, Azar is a transcultural, transnational, fragmented, and hybrid subject with different geographical and ideological homelands.
This article’s discussion about the construction of Azar’s subjectivity subscribes to the theoretical apparatus of feminist literary criticism and geographies of identity, as presented by Friedman in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Friedman argues that a locational approach to subjectivity in feminist critical practice is consonant with our postmodern world because it regards identity not as fixed and wholesome, but as fluid and fragmented. This approach traces figurations of the subjects, that is, maps of the social-political locations one occupies in a given context, which together compose the self. In “‘Beyond’ Gender: The New Geography of Identity and the Future of Feminist Criticism,” Friedman names those components of the self, such as gender, ethnicity, and class, axes of identity. She also devises six discourses related to them within locational feminism and geographics: the discourses of multiple oppressions, multiple subject positions, contradictory subject positions, relationality, situationality, and hibridity. Among them, the last two are of special interest to this study.
The discourse of situationality “assumes that identity resists fixity… [and that] it shifts fluidly from setting to setting”, in a way that, if we “change the scene, the most relevant constituents of identity come into play” (Friedman, 1998, p. 23). In this sense, feminist practice following this discourse is concerned with movement and geography in a more literal way, attentive to which axes of a character’s identity are highlighted or minimized in the narrative space and time through which she travels. The discourse of hibridity, in its turn, emphasizes identity as a heterogeneous mixture produced by migrations. Analyses conforming to this discourse focus on the subject’s movement through cultures, which usually, but not necessarily, involves spatial dislocation.
Since Azar transits between Iranian and American land and culture, and even between pre and post-revolutionary societies whose settings and customs profoundly differ, I find situationality and hibridity appropriate bases to discuss her complex construction. Moreover, these two discourses overlap and enrich each other when considered that movement through cultures provides distinct settings and situations, altering the interplay between aspects of subjectivity. With that in mind, I now discuss two narrative moments of different space, time, and socio-political configurations, inserted either in American or Iranian contexts, to see how Azar’s axes of identity interact in each of them.
The first of these narrative moments is set in the late sixties and early seventies in Norman, Oklahoma, to where Azar moves with her first husband to attend a university’s graduate program. Before that, she goes to school in England and Switzerland, and briefly returns to Iran to visit her father in jail. Her father, “the youngest mayor in Tehran’s history… who went into politics despising politicians and defying them almost at every turn” (Nafisi, 2003, p. 45), is arrested for publically sympathizing with the French government. According to Azar, he and the rest of her relatives are “cultural snobs” (Nafisi, 2003, p. 45), who pride “themselves on the fact that as far back as eight hundred years ago… the Nafisis were known for their contributions to literature and science” (NAFISI, 2003, p. 84). From these excerpts and from the fact that her family can afford her foreign instruction, we may conclude that the axes of class and education are sites of privilege of Azar’s identity highlighted in Iranian context, even though her political status as the daughter of a convicted traitor determines her oppression then.
When we change the scene to Oklahoma, Azar’s upper-middle class continues to be an emphasized aspect of her identity. After all, it is because of her social-economic condition that she has access to higher education, while other Muslim women are at times denied any formal instruction. Class is not the only axis of subjectivity underlined in this situation, though. In a Western context, categories that are taken for granted in Iran are brought to the foreground, such as ethnicity, nationality, and religion. As an Iranian Muslim in America, Azar is part of a minority. In this sense, axes that used to ascertain privilege now determine oppression, making her join the Iranian student group at the University of Oklahoma, long for home, and participate in demonstrations “shouting slogans against the US involvement in Iran” (Nafisi, 2003, p. 86).
Paradoxically, the context that causes Azar to feel excluded also empowers her as a woman. That is because, in Iran, gender is a constituent of identity that imposes women’s inferiority in relation to rights, education, freedom and opportunities. In the United States, on the other hand, aside from studying, Azar is allowed to leave and divorce her husband, socialize with other men, express political opinions, and dress however she wishes. All those contradictory subject positions of power and powerlessness might be the reason why the narrator describes this as a “schizophrenic period in my life in which I tried to reconcile my revolutionary aspirations with the lifestyle I most enjoyed” (NAFISI, 2003, p. 85). They are also permanent marks of another culture that affect Azar’s identity even once she returns to Iran.
The narrative moment that mostly contrasts with that in the United States is set in post-revolutionary Tehran. In this context, on the one hand, nationality and ethnicity are once again locations of privilege of Azar’s identity. Religion and gender, on the other hand, determine oppression. When extremist Islamic faith is indissoluble from politics, those of moderate religious views are persecuted by the regime. In spite of her Muslim origins, Azar’s education and transcultural experiences make her critical of the Republic’s use of religion “as an instrument of power and ideology” (NAFISI, 2003, p. 273) that foments hatred and justifies deaths. In addition, Azar stands up to the Islamic rule by reading and teaching Western classics, whose values, like freedom and the right to imagination, are “the exact opposite of those of the revolution” (NAFISI, 2003, p. 107). Because of her reluctant religious and political positions, Azar is confronted by radical male students, has her house searched for illegal books and satellite dishes twice, and is finally expelled from the University of Tehran.
The axis of gender interacts in this situation with religion and political orientation to determine the character’s powerlessness. After living the women’s liberation movement in America, Azar returns to a circumscribed existence in Iran. It is not to say that the West is then the land of gender equality. Indeed, it is during that time that Anglo-American feminism begins to be criticized for its internal reproduction of discrimination. Nevertheless, in Tehran, Azar encounters a strongly unequal scenario: “the government had waged a war against women” (NAFISI, 2003, p. 110). Among rulers’ several impositions on women in this context, the one I would like to further examine is the compulsory use of the veil.
In Reading Lolita in Tehran, Azar narrates a long strife between government and female citizens over veiling, which becomes mandatory in all public spaces around the years of the Iran-Iraq war, supported by the nationalist union the conflict inspires. According to Darznik, return narratives “express the opposition [between Iranian and American selves] through a common symbol: the veil… But at the heart of every return narrative lies a question of not only identity, but of allegiance expressed in terms of veiling” (2008, p. 57). She also considers that it is “as if these folds of fabric have the power to remake not only their bodies, but their personalities” (2008, p. 59). The question of allegiance expressed through veiling is observed in Azar’s defiance of the rule because she thinks “to wear the veil… [is] to compromise” (NAFISI, 2003, p. 203), to be complicit with a tyrannical regime. Even when it comes down to covering herself or going to jail, Azar resists: “I always wore my veil improperly” (NAFISI, 2003, p. 184). The novel also presents the effect of the veil, as pointed by Darznik, on the construction and self-perception of the characters, oppressed and effaced by religion and gender. Azar, for instance, claims that wearing the veil imposes on her a transformation that makes her look at the mirror and hate the stranger she becomes. She feels “irrelevant” (NAFISI, 2003, p. 150), “invisible” (NAFISI, 2003, p. 168), as if, inside the cover forced upon her, her “whole body disappeared” (NAFISI, 2003, p. 167). Such descriptions suggest the veil as a tool of ideological control over women, which alters their public identity so that they become powerless, faceless, deprived of the creative energy that comes from difference, and therefore unthreatening. Privately, however, we notice the unveiling of Azar’s hybrid and complex subjectivity.
The private class held weekly in Azar’s house is “a place of transgression” (NAFISI, 2003, p. 8), where she and the girls can exist in their differences. The learning space created in her living room is itself hybrid, reflecting Azar’s mixed cultural identity. She states that “more than any other place in [her] home, the living room was symbolic of [her] nomadic and borrowed life. Vagrant pieces of furniture from different times and places… created symmetry” (NAFISI, 2003, p. 7). The incongruent, competing fragments compose the harmony of the room and of her subjectivity. On the one hand, Western influence in that space of resistance is verified in the women’s inobservance of the veil, revealing their hidden images, in colorful tones of hair, nail polish, and clothes. It is, naturally, also present through the books, which not only portray different worlds, but bring into discussion themes such as captivity, sexuality, dreams, and even feminism. This way, “every great book read became a challenge to the ruling ideology” (NAFISI, 2003, p. 288), instigating questionings based on occidental thinking. On the other hand, the East composes that space just as much. It is there in the food and drinks consumed, in some students’ unfailing Muslim faith, and in Azar’s childhood stories. It lingers in the Elburz Mountains reflected by the antique oval mirror inherited from her father. That old family mirror inserts in that hybrid space a part of Iran that symbolizes Azar’s roots and a love for the land that, to echo Virginia Woolf in Three Guineas (1938), does not implicate blind sacrifice for the nation.
The different parts of Azar’s class/living room contrastively build that space just like the cultural aspects of her subjectivity compete for and constitute her identity. These aspects and the privilege and oppression they situationally determine are like “two worlds… forever seeking each other out and denying their attraction for each other” (Darznik, 2008, p. 68). That is, they are dialectal fragments, mutually dependent Others that epitomize desire and difference. Each side is dependent on the Other, and does not exist without it, so that, as Darznik puts it, “unit is born of disunity” (DARZNIK, 2008, p. 69) both in the class space and in Azar’s subjectification. So much it is, that she prefers this mixture of influences to any of the parts alone: she declares, “The more attached I became to my class and to my students, the more detached I became from Iran” (NAFISI, 2003, p. 317). Similarly, when away from the meetings and the country, she feels the need to recreate that space, this time, textually.
Blumenthal and Darznik argue that, to the Muslin woman, to write an autobiography is to create a textual space of transgression. That is because this genre is not “compatible with the core values of shame and honor pertaining throughout the Muslim world”, since it “invites a critique of self, family, tribe, or Islam” (Blumenthal, 2012, p. 259). From this statement, we can infer that autobiography and other forms of life writing belong primarily to Western literature and ideology. In this sense, it might be valid to suggest that the Islamic authoress that writes her cultural experience through a Western genre creates not only a textual space of transgression, but of hibridity. This way, we may conclude that Azar’s hybrid, fragmented, and migratory subjectivity is reflected in the very form of Nafisi’s work.
It is possible to extend our analysis, grounded in the discourses of identity within geographics, to other women characters in Reading Lolita in Tehran. Azar’s students, for instance, might as well be considered hybrid subjects, even though some of them never leave Iran, for “the greatest trips can take place without physically moving from one’s habitat” (BRAIDOTTI, 2011, p. 26). Guided by their professor, the girls travel through language and literature, and acquire cultural knowledge and experience. Interestingly, Davies has a view of critical theory similar to Azar’s approach to literature. To her, “theory… ought not to be an impediment to movement but should be an enabling set of discourses” (DAVIES, 1994, p. 25). The feminist critical practice Friedman advocates, locational feminism, allows us to study and understand subjectivity as positionality, thus affected by movement. It also invites us to look closely at literary representations of moving subjects, diaspora, and hibridity, thus acknowledging, for example, the once silenced voices of Iranian women.
Note
Works Cited
BLUMENTHAL, Rachel. Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini, Arab Studies Quarterly 34.4 (2012): 250-265. Access on Web: 1 July 2015.
BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory. 2nd ed. New York: Columbia University Press, 2011.
DABASHI, Hamid. Native Informers and the Making of the American Empire, Al-Ahram Weekly Online (2006). Access on Web: 2 July 2016.
DARZNIK, Jasmin. The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora, MELUS 33.2 (2008): 55-71. Access on Web: 3 July 2015.
DAVIES, Carole Boyce. Introduction: Migratory Subjectivities. In: Black Women, Writing and Identity: Migrations of the Subject. New York: Routledge, 1994. p. 1-37.
FRIEDMAN, Susan Stanford. Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Princeton: Princeton University Press, 1998.
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MOAVENI, Azadeh. Lipstick Jihad: A Memoir of Growing up Iranian in America and American in Iran. New York: Public Affairs, 2005.
MOTLAGH, Amy. Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora, Comparative Studies of South Asia, Africa and the Middle East, 31.2 (2011): p. 411-424. Access on Web: 3 July 2015.
NAFISI, Azar. Reading Lolita in Tehran. New York: Random House, 2003.
SAID, Edward. Orientalism. New York: Vintage Books, 1979.
SATRAPI, Marjane. The Complete Persepolis. New York: Pantheon, 2007.
WOOLF, Virginia. Three Guineas. New York: Harcourt, 1963.
Bio fornecida pelo palestrante.
Dina Maria Martins Ferreira
Universidade Estadual do Ceará
Université Paris V, Sorbonne
RESUMO: Este estudo se configura pela hibridez de áreas de estudos da linguagem, já que leva em conta os estudos linguísticos e literários sobre gênero feminino em torno do mito de Helena, o eterno feminino. Faz-se um percurso analítico desde o século VIII a.C. na Grécia antiga e chega-se ao Brasil contemporâneo. Nessa jornada poética, senão filosófica, discute-se se é pertinente aceitar o conceito de gênero feminino por vozes masculinas, formadores de estereótipos falocráticos, ou se o conceito de gênero feminino se constitui apenas por performatividades da mulher.
PALAVRAS-CHAVE: Feminino; Mito; Estereótipo; Vozes masculinas
ABSTRACT: This study sets the hybridity of areas of language and literature studies, as it takes into account the linguistics and literary studies about feminine gender concerning the myth of Helen, the eternal feminine. It is an analytical survey since the VIII Century B.C., in ancient Greece, until contemporary Brazil. In this poetic journey, we discuss if it is appropriate to accept the notion of feminine gender by male voices, forming phallocratical stereotypes, or if the concept of feminine gender can only consist of women’s performances.
KEYWORD: Feminine; Myth; Stereotype; Male voices
MINICURRÍCULO: Pós-doutora pela Université Paris V, Sorbonne e Unicamp (2010), é graduada pela Universidade de Campinas, Unicamp (2002-2003) e doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ (1995). É docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará; membro pesquisadora do Centre d’Études sur Les Actuels et Quotidien, Université Paris V, Sorbonne. É autora de quatro livros, organizadora de quatro outros, capítulos de livros, artigos nacionais e internacionais.
MÚLTIPLAS VOZES LITERÁRIAS
Dina Maria Martins Ferreira
Universidade Estadual do Ceará
Université Paris V, Sorbonne
Este estudo é resultado de estudos sobre o feminino e mitologemas na literatura greco-latina (BRANDÃO, 1989)[1]. Aparentemente não teria ligação com os estudos atuais sobre o que, por exemplo, Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012) e
Luce Irigaray (1994; 1994) chamam de “feminismo da diferença”, pois, como poderão observar, não vai se travar nenhuma luta ferrenha em prol do feminismo nem tratar especificadamente de escrita feminina. Muito pelo contrário, pois são as vozes masculinas literárias que constroem o feminino Helena.
A escolha do título “O feminino Helena: múltiplas vozes masculinas” vem justamente nos possibilitar viajar não só pelo território geográfico-simbólico de Helena como também pelos territórios das vozes dos poetas-masculinos construindo o feminino “helena”, uma representação do ‘eterno’ feminino no universo mítico masculino, cujas contingências e performatividades são da seara do sistema patriarcal ‒ um devir de helenas que não têm nem início nem fim, habitando as brumas dos mitologemas. Nessa viagem literária de ‘helenas’, mesmo enaltecida ou enegrecida, o que o movimento feminista contemporâneo (século XX e XXI) chama de gênero feminino é apagado, devido não ser construído pela performatividade feminina.
Mesmo que tenhamos a preocupação de ‘localizar’ o geográfico, este local no atlas é de natureza simbólica. Quando me refiro à noção do simbólico estarei no espaço de mitologias gregas, quando o caso, que se constroem na sacralidade do símbolo. E por tal aporte sacralizador torna-se um signo denso e durável, na medida em que está sempre em equivalência com outros sentidos de vida (BARTHES, 1989). Segundo Brandão (1986, p. 38), a própria etimologia do termo símbolo já ratifica sua densidade de sentido, ou seja, o vocábulo grego súmbolon (de sun = junto, com e ballein = atirar, lançar) tem o sentido de
(…) ‘lançar com’, arremessar ao mesmo tempo, ‘com-jogar’. De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitia aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de equivalência (grifo nosso).
Apesar de estarmos aventando ao símbolo um caráter sacralizador, durável e equivalente, ele não está ontologizado no essencialismo; até, muitas vezes, está agregado ao simbólico, pois não se nega à morfologia cultural de cada emergência simbólica. O que se propõe é entender a construção do ‘gênero helena’ pela percepção de que
(…) os símbolos são diversamente vividos e valorizados: o produto dessas múltiplas atualizações constitui em grande parte os ‘estilos culturais’ (…) [e] como formações históricas, essas culturas não são mais intercambiáveis; estando já constituídas em seus próprios estilos, elas podem ser comparadas no nível das Imagens e dos símbolos (ÉLIADE, 1996, p. 173) (grifo nosso).
E Haesbaert (2006, p. 40) nos auxilia a entender porque estamos designando essa viagem de uma geografia simbólico-literária. Para esse autor nada é mais coerente do que tratar território pela vertente cultural ou “simbólico-cultural: [que] prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido”; Ou seja, a dimensão simbólica habita um espaço social organizando-se pela historicidade e geograficidade, quesitos de territorialidade. Vale a observação que historicidade e geograficidade podem ser valores construídos no próprio território ou designados por outro território ‒ neste caso estaremos ainda em viagem, mas já fora da Grécia Antiga, pois os valores da mitologia grega podem ou não ser apropriados por outro território, tal como Itália, Alemanha, Brasil ‒ os territórios que também vamos visitar.
Apresentamos o início de nossa viagem com um guia-atlas: primeiro a localização histórico-geográfica dos poetas masculinos[2], depois o percurso de Helena pela literatura mais antiga. Vale a ressalva de que reduzimos em muito nossa viagem, pois só na literatura greco-romana haveria mais de 34 obras em que Helena se presentifica.
Onde bradam as vozes dos poetas-masculinos gregos:[3]
Figura 1
www.atlas.google.com.br
Legenda:
Geografia das vozes dos poetas e suas obras:
Anatólia, Homero, Ilíada e Odisseia (séc. VIII a.C.)
Ilha de Kíos, Hesíodo, Os trabalhos e os dias e Teogonia (séc.VIII e VII a.C.)
Ilha de Lesbos, Safo, Poemas, L.I (séc. VII a.C.)
Éfeso, Hipônax, Fragmentos (séc. VII a.C.)
Ilhas Cíclades, Semônides
de Amargós, Sátiras às Mulheres (séc. VII e VI a.C.)
Atenas, Ésquilo, Oréstia (séc.V e IV a.C) e
Eurípedes, Andrômaca, Orestes, Medeia, Helena (séc.V e IV a.C)
Peregrinação literário-simbólica de Helena:
Troia
Ilha de Ítaca
Micenas
Esparta
Creta
E já tendo a contextualização geográfico-histórico-simbólico, é na e pela linguagem que se os poetas masculinos constroem as suas helenas, senão os estereótipos de representação feminina. Estamos chamando novamente a atenção para os estereótipos, devido ao fato de não haver performativos femininos nessa caminhada. No entanto, se os estereótipos fossem considerados gêneros, teríamos quatro subgêneros ‒ feminino-deusa; feminino-heroína; feminino-traidora-prostituta; e feminino-em-paz ‒, todos sob a égide do hemistíquio de Ésquilo ‒ “sofrer para compreender”.
3.1. Feminino-deusa
A primeira Helena se constitui em divindade creto-micênica. Sua existência foi comprovada em Atenas e na Ilha de Creta e outros lugares como Rodes etc, conforme atestou o geógrafo Estrabão (63 a.C.-24 a.C., grego da Amaseia, atual Turquia). Era uma deusa ctônica da vegetação, que sempre renascia todo ano. Tanto que Apolo na tragédia euripidiana Orestes confirma a tradição divina de Helena:
Porque, filha de Zeus, ela deve viver como imortal,
E com Cartor e Pólus entará nas profundezas do éter,
como guardiã da vida dos navegantes [4]
(Or.1635-1637)
E Homero a apresenta na Ilíada, quando ela sobe as escadarias em Troia para ser apresentada ao Rei Príamo, pai de Páris, o príncipe de Troia, encantado por sua beleza a sequestra de seu marido Menelau, rei de Esparta:
Não, não é uma nêmesis [“uma punição”] que troianos e aqueus de belas grevas
[sofram tantas desgraças,
há tanto tempo, por semelhate mulher (…)
Quando vista de perto ela se assemelha terrivelmente às deusas imortais …
(Il. III. 156-158)
Esse trecho se refere ao fato de que Zeus engendraria uma filha, Helena, de tal modo que provocasse uma guerra entre atual Ásia e Europa, de modo a trazer o equilíbrio cósmico, os homens mortais estavam em grande alarido. E Helena seria o pretexto para deflagar o conflito e Aquiles agiria. Esta mesma prerrogativa se repete em Helena de Eurípides, não só ratificando o papel do feminino que deve ser punido, como também transformando esse papel punidor em glórias ao masculino (Aquiles):
Além do mais, a estes infortúnios acrescentaram-se
outros desígios de Zeus: a eclosão da guerra entre os helenos
e os desventurados troianos, a fim de aliviar a Mãe-Terra
de uma pletora impertinente de mortais e enaltecer
o mais destemido dos gregos.
(Hel. 36-41)
Helena como a deusa da punição, já constrói a representação estereotípica de que tudo que acontece é culpa da mulher. Não é só o hemistíquio de Ésquilo que compõe o feminino-punição, Eurípedes é insistente nessa prerrogativa na obra Medeia:
De todos os seres viventes e pensantes, somos nós, as mulheres,
as criaturas mais sofredoras. Primeiro, somos obrigadas
a gastar muito dinheiro para comprar um marido
e (além disso, a) dar um senhor ao nosso corpo, mal
ainda mais grave que o primeiro
E vem o problema mais sério: será ele bom ou mau?
Pois é uma vergonha para as mulheres abondonar o marido
sem lhes ser possível repudiá-lo.
(Med. 230-237)
3.2. Feminino-heroína
E, na condição de heroína, mesmo isenta de culpa pelo rei de Troia, Príamo, Homero não deixa Helena livre do sentimento de que merece punição. Helena se amaldiçoa e se julga digna de castigo:
Diante de ti, dileto sogro, sinto-me constrangida e temerosa,
Antes me tivesse levado a morte cruel do que ter seguido
teu filho até aqui, abandonando meu tálamo, meus parentes,
minha querida filha e minhas amáveis companheiras.
(Il. III. 172-175)
Na Odisseia, Helena minora, de um lado, sua culpa de mulher espartana em diálogo com Telêmaco ‒ conta sua experiência em Troia com a entrada de Ulisses e o “cavalo de Troia”, o famoso “presente de grego” ‒, e, de outro, não deixa de glorificar a superioridade masculina:
Nesse tempo, enquanto outras mulheres troianas lamentavam-se em altas vozes,
meu peito, no entanto, se alegrava, pois meu coração já se inclinara
a voltar para casa, e lamentava a loucura em mim,
provocada por Afrodite, quando para lá me arrastou de minha terra pátria,
deixando minha filha, meu tálamo, meu esposo,
que não é inferior a ninguém, quer no espírito, quer na beleza.
(Od. IV. 259-264)
A superioridade masculina também é enaltecida pelo próprio feminino Helena, tanto que na Ilíada, a mulher heroína necessita, para ter tal atributo, de um marido herói, Menelau, já que Páris se enfraquece diante dos horrores da guerra de Troia:
Se os deuses, todavia, nos reservaram estes horrores,
porque, ao menos, não sou mulher de um homem destemido,
capaz de sentir a repulsa e as múltiplas injúrias dos homens?
Páris, no entanto, não tem persistência alguma e jamais aterá.
E creio que, em breve, ele verá as consequências.
(Il. VI, 349-353)
Helena se faz tão heróina que enfrenta Afrodite, acusando-a do feitiço recebido para ter abandonado Menelau, rei de Esparta. Manda Afrodite deitar com Páris:
Vai deitar com ele. Abandona a companhia dos deuses,
deixa de escalar o Olimpo. Aprende a te atormentar por causa dele,
vela por ele, até que o mesmo te faça sua esposa e talvez sua escrava!
(Il. III, 406-409)
Mas Helena-heroína, rapidamente se transforma em anti-heroína por Hesíodo, em Os trabalhos e os dias:
Outros, conduzidos em navios, para além do abismo marinho,
para Troia, por causa de Helena de linda cabeleira,
lá foram envolvidos pela morte que tudo finaliza.
(Trab. 164-166)
3.3. Feminino-adúltera-traidora-prostituta
E de anti-heroína Helena passa a adúltera e traidora, em Andrômaca de Eurípedes:
Nenhuma jovem espartana, mesmo que o desejasse,poderia permancecer virtuosa:
desertando a casa paterna, coxas nuas e peplos esvoaçantes,
participam com os adolescentes
dos exercícios nos estádios e palestras, hábitos a meu ver intolerávies.
É necessário, após isso, admirar-se de não formardes esposas honestas?
(And. 595-601)
Realmente Eurípides não perdoa Helena, porquanto não a isenta de um segundo julgamento que a condena à morte. A impura mulher em Orestes deve ser condenada:
Se nosso punhal se erguesse contra uma mulher honesta,
seria um crime abominável. Helena, todavia, pagará pelaGrécia inteira,
cujos pais matou, cujos filhos fez perecer, cujas mulheres privou de seus maridos.
Erguer-se-á um grito de júbilo e as chamas dos altares
(…)
por termos derramado o sangue de uma mulher infame.
(Or. 1132-1140)
Ésquilo também se insurge contra Helena, na trilogia Oréstia. Aliás é impossível em tragédia salvar alguém, não?
Quem, pois, senão um ser invisível que na sua presciência,
fazendo-nos falar a língua do destino, deu este nome tão verdadeiro
àquela que, objeto de contestação, o esposo reclama, lança na mão,
esta Helena justamente cognominada perdição de navios,
perdição de homens, perdição de cidades
(Agam. 681-688)
Esta mulher traidora ascende a Hesíodo, em Os trabalhos e os dias, pois conclama que /quem confia em mulher está confiando em ladrões/ (Trab. 375), e também na Teogonia:
E quando, em vez de um bem, [Zeus] criou este mal tão belo,
conduziu-a (Pandora) para onde estavam os demais deuses e homens.
(…)
(…) Dela se originou
a espécie maldita das mulheres, flagelo terrível instalado
entre os homens mortais…
(Teog.585-588; 590-592)
E um pouco mais ao sul do continente grego, nas Ilhas Cíclades, Simônides de Amorgós também não perde a vez de satirizar Helena em Sátira às mulheres:
Zeus criou com efeito este imenso flagelo
e a ele nos prendeu com liame indestrutível: o Hades
recebeu, por isso mesmo, os que lutram por causa deuma mulher.
(Sat. mulh. 115-118)
Mas a misogenia alcança o seu épice com Hipônax de Éfeso, cujo ditado popular circula até hoje entre homens machistas:
Há dois momentos em que a mulher nos proporciona um prazer supremo,
no dia do casamento e quando a levamos à sepultura.
(Frag. 29 Bergk)
3.4. Feminino-em-paz
Diante de tanta misogenia, parece-me que até a voz patriarcal-poética se cansa, A este cansaço chamo pelo feminino-em paz, porquanto Eurípedes desvanece Helena em éter:
Todos vós, frígios e aqueus, como sois infelizes. As maquinações de Hera
fizeram que, por minha causa, durante tantos anos morrêsseis
nas margens do Escamandro! Julgáveis que Páris, possuísse
uma Helena e ele no entanto nunca a teve. Agora, após cumprir
durante todo esse tempo o que me foi pelo destino imposto,
retorno para junto de meu pai, nos altos dos céus.
(Hel. 608-613)
Já Goethe a celebra em Fausto (1806 [1981]), nas serenas camadas do Éter, vivendo com Aquiles, na foz do Danúbio, eternamente ditosa na Ilha Branca:
Eu [Helena], como sombras, vinculei-me a ele, outra sombra,
Um sonho foi, dizem-no as próprias palavras;
Desmaio. E sombra torno-me eu, para mim mesma.
(Fausto, Ato III)
Contudo, parece que Helena não descansa no éter da Ilha dos Bem-Aventurados, continua até hoje a provocar pulsões (séculos XIX, XX e XXI), sejam elas misóginas ou não, sejam irônicas, suaves e deleitosas ‒ mas sempre pulsão na voz do masculino. Como diz Brandão (1986, p. 121), “Curioso é que entre muitos poetas modernos Helena continue sua caminhada, às vezes parecendo até que o sangue de Troia nunca foi purgado!”. Continua o hemistíquio esquiliano “sofrer para compreender”!
O poeta neogrego Giorgos Seféris (apud PAES, 1986, p. 169) a transforma em sombra, talvez querendo lhe dar paz ou até culpando-a da guerra, quiçá?:
E em Troia?
Nada em Troia – apenas um fantasma.
Assim os deuses o quiseram.
E Páris se deitou com um sombra, como se ela fosse um ente sólido,
e por Helena durante dez anos fomos massacrados.
(Diário de Bordo III)
Na comédia Abel e Helena (título é um trocadilho) de Artur de Azevedo (1877), Helena tem um rapto diferente. Helena deveria ir para um convento, pois seu padrinho Nicolau (que a pretendia para esposa) a surpreende com o bem-amado Abel. E este, disfarçado de frade, rapta Helena. Na fuga, já no trem em movimento, Abel tira o capuz, os óculos e a barba e grita para a apoplético Nicolau:
Ó Nicolau, triste papel
fizeste em cena:
cá levo Helena…
Eu sou Abel!
(Ato Terceiro, Cena IX)
Já o poeta e ensaísta Gilberto Mendonça Telles, no poema Ubi Troia Fútil, em quatro versos, euripidizou Helena, em Sociologia Goiana (1982, p. 111):
Helena de um
Helena de dois
Helena de trois
Helena de trottoir
Enfim, parece que o feminino se eterniza em mito e poesia, pela voz literária-masculina de Goethe em Fausto:
Têm os filólogos aqui
Enganado a si mesmos como a ti.
Se é mitológica, é única a mulher;
Recria-se o poeta como lhe prouver.
Não envelhece, nem fica madura,
Mais sedutora, sempre, sua figura.
Raptam-na, moça, idosa, ainda é do amor a meta;
Pois basta! Não se atém ao tempo o poeta.
Mas ainda o feminino não é o agente de sua representação, é o Alter masculino que a constrói, seja belamente, seja ironicamente.
Mesmo em uma viagem que se iniciou em tempos primevos, a voz feminina deu o seu brado: Safo, a poetiza da ilha de Lesbos. Talvez um marco para o movimento feminista em que a mulher é agente de suas escolhas. A história de Safo é envolta em lendas e muitas controvérsias devido à Escola para Moças que fundou, onde se ensinava poesia, música e dança somente a mulheres. Safo amava todas as suas “amigas” e não alunas (daí o termo lesbianismo, devido sua homosessualidade), e principalmente seu grande amor e amante Ítis. Safo, diante da escolha de Helena de acompanhar seu amante Páris, elogia sua coragem e destemor:
Uns consideram que as corridas de carros, de infantes ou de navios
são o que há de mais belo na face da negra terra.
Para mim, o que de mais sublime existe é o objeto do amor de cada um.
É muito fácil fazer que todos compreendam esta verdade:
Helena, que pôde comparar a beleza de tantos homens,
escolheu como o mais atranete aquele que destruiria a gloriosa Troia.
Tendo abandonado a filha e os parentes mais queridos,
deixou-se ir, arrastada por Cípris, a fim de amar
um homen de terras longínguas…
(Liv. 1, 27 D, 1-13)
Mesmo que o percurso do feminino pela voz masculina não revele um embate feminista, este estudo não deixa de captar a prerrogativa de Simone de Beauvoir (1949[1973]), quando diz “não se nasce mulher, torna-se mulher”; até porque é uma afirmativa que embuti toda uma noção de performatividade, seja uma suposta Helena um sujeito agente, seja um personagem do universo masculino.
Se pudéssemos ancorar a representação do feminino pela figura de Helena(s), duas categorias são aventadas para a constituição de sua representação social: feminilidade e “feminilitude” (MARTINS FERREIRA, 2009). Na feminilidade, encontramos com a Helena que “alimenta o perfil identitário do senso comum da mulher tradicional, provido por arquétipos do sistema patriarcal” (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 126) ‒ não é à toa a construção que é feito pelos poetas-masculinos. E, na “feminilitude”, encontramos a Helena de Safo que “escolheu”, agiu ‒ enfim esta Helena constrói “ o sujeito-’feminilitude’ [que] precisa afirmar-se no seu meio funcional, adotando elementos que indexem seu posicionamento de força” (MARTINS FERREIRA, 2009, p.127).
Retornando a Simone de Beauvoir (1949[1973]), Helena, a meu ver, torna-se mulher, mesmo sob a égide do falocentrismo, até porque os poetas precisaram da força centrípeta de Helena para compor sagas, comédias e tragédias humanas. Sem Helena, mesmo sendo assinalada com fantasma, cf. Seféris, suas ‘histórias’ literárias não se narrativizariam. Sob o falocentrismo é a mulher punição, precisa “sofrer para compreender”, no entanto o masculino esqueceu que sofrer é ação, é um “tornar-se mulher”, mesmo que, pretensamente, submetida ao alter masculino.
Parece-me que, mesmo insistindo em categorias dicotômicas na construção identitária de gênero feminino, em que o universo ontológico se exacerba, a dicotomia perde sua força hierarquizante. O “tornar-se mulher” beauvoiriano encontra-se com a asserção do filósofo analítico Willard van Orman Quine: “ser é ser o valor de uma variável” (apud Rajagopalan, 2000, p.80). O termo ser pode nos levar ao onto, mas o variável se movimenta, se performatiza, torna-se. Nesse sentido,
Tal assertiva vislumbra o universo multifacetado em que a identidade se constrói, por exemplo, ser mulher é ser o valor feminino de uma rede variável sócio-cultural-ideológica, ou seja, o construído da identidade do feminino mobiliza, situado em espaço social e cultural, sentidos ideológicos (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 127).
A própria Judith Butler (1986, p. 35), uma das grandes representantes do feminismo contemporâneo, afirma que “se há algo de certo na afirmação de Beauvoir de que ninguém nasce mulher e sim torna-se mulher decorre de que a mulher é um termo em processo, um devir, um construir de que não pode dizer com acerto que tenha uma origem ou um fim”.
Não foi isso que aconteceu às helenas (propositadamente no plural) pelas vozes masculinas desde o século VIII a.C. até os XIX, XX e XXI? O “ser mulher” não foi se “tornando mulher” x, y, z, de acordo com o tempo e espaço, de acordo com as gramáticas culturais nas quais emerge?
É preciso também lembrar que a noção de gênero[5] “é um conceito contemporâneo, que surge a partir da ideia de que o feminino e o masculino correspondem
a construções culturais que vão mais além das fronteiras entre os secos de caráter puramente biológico (KUBISSA, 2006, p. 182).
Resta a questão de saber se o gênero feminino é apenas delimitado pela agência do discurso feminino ou pode ser construído pelo masculino.
Se gênero feminino está vinculado ao discurso da mulher, à Helena não aplicamos a noção de gênero, e sim a de um arquétipo feminino construído pelo sistema patriarcal. Se o movimento do “feminismo da diferença” reclama contra a divisão cultural genérica entre masculino e feminino, buscando uma superação de gêneros para uma compreensão unitária do humano (cf. KUBISSA, 2006, p. 183), o nosso estudo sobre o poeta masculino construindo o feminino perde sua razão de ser. Até porque uma “compreensão unitária” é uma linha cultural e sociológica de valoração, mas eliminar as diferenças, parece-me inviável. Para Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012), a linguagem é uma tradução e que qualquer escritor fala através do corpo; e como o corpo feminino é diferente do masculino, logo as literaturas vão construir outros corpos diferentes de acordo com o corpo-escritor. Nesse sentido, Helena não seria um gênero feminino ‘puramente’ feminino já que a escritura é construção do masculino?
Se gênero é uma estilização do corpo, independente de quem o constrói, Helena seria um corpo construído (pelo masculino), estilizado pelo tempo e história em que é construído; mas se depende da própria agência, Helena seria uma fantasma-mulher ou uma personagem feminina segundo a vontade do masculino. Conforme argumentação de Pinto (2002, p. 106) agência/linguagem/corpo é uma rede de contínua intercomunicação, pois “o efeito do ato de fala é operado ao mesmo tempo pelo que é dito, por quem diz e como é dito”, logo, sujeito, fala e corpo estão em relação imbricada. No caso de nossa viagem, teríamos o sujeito e a fala masculina construindo o corpo feminino. Aí o perigo de entendermos gênero como dissociado de quem fala, pois
(…) o dizer do corpo não é um acidente, uma causalidade psico-física-motora do momento da enunciação ligada à intenção do/a falante. O corpo é também ritualizado. Sua ação não é um ato físico não convencional. (…) Suas estilizações fazem parte dos processos de marcação social; a convencionalidade e a repetição definem sua legitimidade e traçam o domínio do possível, do pensável e do executável (PINTO, 2002, p. 107).
E nessa viagem a “convencionalidade” e a “repetição” de helenas-sofrer-para-compreender parecem se deter na categoria feminilidade, sob a legitimação do sistema patriarcal.
Porém, o “domínio do possível, do pensável e do executável” está aí, haja vista a nova imortal da Academia Brasileira de Letras, a pensadora e crítica Rosiska Darcy de Oliveira, que assumiu a cadeira 10 em junho 2013, cujos atributos, “a rebeldia, a irreverência, a defesa do ‘feminino’ e uma ruidosa campanha pela felicidade” (ZAIDAN, 2013, p. 154) constróem o gênero feminino: “O movimento feminista se constrói sobre uma ideia extraordinária ‘nosso corpo nos pertence’. Quer botox? Faça!” (ZAIDAN, 2013, p. 158).
Se o gênero está no “que é dito, por quem diz e por como é dito”, Helena continua um gênero-fantasma. Mas “Fazemos votos que Helena e helenas se libertem dos bárbaros e não sejam raptadas por culpa de Zeus, mancomunado com Momo, Têmis e Plutão, nem tampouco espezinhadas e ameaçadas por algum truculento Diomedes (BRANDÃO, 1989, p. 8).
REFERÊNCIAS
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BERGK, Teodor. Poetae Elegiaci et Iambographi. Lipsiae. In: Aeditus B.G. Teibmero, MCMXIV.
BEAUVOIR, Simone (1949). Le deuxième sexe. Tome I et II. Paris: Gallimard, 1973.
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BRANDÃO, Junito de S. Mitologia grega. Volume I. 2a ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1986.
BUTLER, Judith. Sex and gender in Simone de Beauvoir’s Second Sex, Yale French Studies, Oxford, 72, 1986: p. 35-49.
ÉLIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
GOETHE, Johann W. von. (1806) Fausto. Tradução Jenny Klabin Segall. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. São Paulo: Bertrand Brasil, 2006.
IRIGARAY, Lucy. Thinking the Difference: For a Peaceful Revolution. New York: Routledge, 1994.
IRIGARAY, Lucy. Toward a Culture of Difference. New York: Routledge, 1993.
JEANNET, Fréderic-Yves. Hélène Cixous: Encounters: Conversations on Life and Writing. Trans. Beverley Bie Brahic Malden. Chicago: University of Chicago Press, 2012.
KUBISSA, Luisa P. Diferencia, identidad y feminismo: una aproximación al pensamiento de Luce Irigaray, Anales del Seminario de Metafísica, 39, 2006: p. 181-201.
MARTINS FERREIRA, Dina M. Discurso feminino e identidade social. 2a ed. São Paulo: FAPESP/Annablume, 2009.
PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
PINTO, Joana P. Performatividade radical: Ato de fala ou ato de corpo? Revista Gênero, Niterói, UFF, v. 3, no 1, 2002: p.101-110.
RAJAGOPALAN, Kanavillil. O singular: uma pedra no caminho dos teóricos da linguagem, Cadernos de Estudos da Linguagem, Campinas, Unicamp, 38, 2000: p. 79-84.
TELLES, Gilberto M. Sociologia goiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
ZAIDAN, Patrícia. Pop e, agora, imortal, Revista Claudia, São Paulo, 6, junho 2013: p. 154-158.
NOTAS AO TEXTO
[1] Não poderia deixar de agradecer a Junito de Souza Brandão de me ter permitido, mesmo post mortem, utilizar sua obra Helena, o eterno feminino (1989), do qual fiz parte como compositora do texto grego, praticamente na íntegra, como forma de reescrever o já dito, de modo que este primoroso livro chegue mais perto aos leitores do século XXI.
[2] Também incluímos no mapa a ilha de Lesbos, local da poetisa Safo, como forma de economia de figuras, desordenando um pouco a nossa argumentação.
[3] Em formatos diferentes e em cor vermelha, a legenda indica o local de nascimento dos poetas gregos, o título da obra em que Helena se faz personagem e o período aproximado dessas obras. As formas em turquesa referem-se às passagem de Helena na geografia das obras gregas. Aos outros poetas que se inserem na Grécia Moderna, na Alemanha, com Goethe, e no Brasil, com dois poetas, não recebem figuração em atlas devido à memória recente dos leitores.
[4] As citações de fragmentos foram retiradas da obra de Junito de Souza Brandão, Helena, o eterno feminino (1989), vide nota 1.
[5] Tradução livre da autora; texto original: También el concepto de género, dentro de la elaboración teórica del feminismo, es de cuño contemporáneo y surge a partir de la idea de que lo femenino y lo masculino responden a construcciones culturales, que van más allá de la frontera entre los sexos de carácter puramente biológico.
Bio fornecida pelo palestrante.
Elisa Riffel Pacheco
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a escrita feminina através dos aportes teóricos e metodológicos referentes à beleza feminina contemporânea e sua representatividade presente nos diversos artefatos culturais e midiáticos, incluindo o cinema e a literatura. Tal estudo abrange um conteúdo histórico que ressalta a trajetória do embelezamento feminino ao longo dos séculos, bem como sua importância e repercussão nos dias de hoje. Traz como referência teórica os Estudos Culturais em Educação, que fazem pensar as pedagogias culturais que constroem e dão sentido a um modelo/padrão de beleza feminina que cada vez mais ganha visibilidade através de um corpo que se coloca constantemente em evidência e em espetáculo. Este artigo traz um recorte da minha pesquisa de dissertação de mestrado “Meninas fantásticas e o sonho do universo fashion: entre a beleza, o luxo e o glamour das passarelas, vale tudo para ser uma top model?”, que analisou como muitas meninas sonham em serem modelos e tornarem-se mulheres “fantásticas” no mundo da moda.
Palavras-chave: Estudos Culturais; Beleza; Feminilidade; Corpo.
Abstract: This article aims to analyse the female writing through the theoretical and methodological related to female beauty and its representations existing in the various media and cultural artifacts, including cinema and literature. This study has a historical background that highlights the feminine embellishment over the centuries, as well as today. It employs cultural studies in education as its theoretical reference, which leads to the cultural building of a pedagogy and measures the meaning of a standard of feminine beauty that increasingly gains visibility through a body that arises constantly in evidence and in shows. This article is part of my dissertation research, “Fantastic Girls and the fashion universe: the glamour of catwalks among beauty, luxury and glamour. Is it worth anything to be a top model?” It analysed the dreams of so many girls who dream about being a model and to be “fantastic” women in the fashion world.
Keywords: Cultural studies; Beauty; Femininity; Body.
Minicurrículo: Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Psicopedagoga especialista em Pedagogia da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escritora, poeta, atriz. Possui diversas publicações tanto no campo acadêmico como no campo literário.
ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR
Elisa Riffel Pacheco
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
A beleza tem muitas histórias para nos contar. Hoje, vivemos a idolatria do belo sexo e as antigas atitudes hostis ao amor do corpo já se encontram ultrapassadas. Na contemporaneidade está em vista a indústria da beleza e a coqueteria já não causa repugnância, nem suspeita em relação à aparência feminina. Crescem os desejos de autonomia e realização pessoal e a tendência é amar a si mesmo, agradar-se e agradar aos outros. Melhorar a forma física tornou-se uma atitude legítima. As mulheres podem embelezar-se aos “quatro ventos” e o investimento feminino na aparência é promulgado constantemente. Contudo, nem sempre foi assim. Segundo Lipovetsky (2000, p. 102):
(…) durante a maior parte da história da humanidade, a mulher não representou de modo algum a encarnação suprema da beleza, seus encantos não se beneficiaram nem de uma condição muito elevada nem de um tratamento artístico privilegiado. Lição incomparável do mergulho no passado mais distante: não há nenhuma permanência nem necessidade transistórica do “belo sexo”. Este é um fenômeno inteiramente histórico, uma instituição social, um “construído” cuja origem não remonta a muito além da aurora dos tempos modernos.
Nem sempre a beleza feminina foi reconhecida e apreciada no prisma das exaltações estéticas. Nas sociedades ditas “selvagens” que datam aproximadamente do período da pré-história, não se levava em consideração a supremacia estética do feminino. Nessa época, conforme Lipovetsky (2000, p. 104) “(…) o atributo sublinhado não é a beleza feminina, mas a fecundidade, o poder superior de vida e de morte. A deusa não é celebrada por sua beleza, mas por ser senhora dos animais e das forças incontroladas, poder divino de vida e de morte”.
Nesse sentido, a beleza feminina não era mais admirada que a dos homens nem aparecia como uma propriedade distintiva da mulher. O homem era “(…) o ponto de mira da estética corporal” (Lipovetsky, 2000, p. 104). Assim, por mais ricos e espetaculares que fossem os ornamentos e tatuagens femininos, isso não significava uma religião estética da mulher. O curioso era que na sociedade sem escrita, tanto a beleza masculina como a feminina eram reconhecidas socialmente e cantadas, mas não eram enaltecidas nem personificadas como um dom de superioridade.
O mesmo autor nos explica que essa “recusa” social de sacralizar a beleza feminina não cabe somente às eras “primitivas” da humanidade. A ausência de culto do belo sexo foi também percebida na mentalidade camponesa do mundo rural tradicional. Os antigos provérbios empenhavam-se em desvalorizar e diabolizar a beleza feminina. Ao afirmar que por toda a parte dominava a tendência de depreciação dos encantos femininos, Lipovetsky (2000, p. 105) afirma: “(…) trata-se antes de tudo de prevenir os rapazes contra os atrativos fugidios e perigosos da beleza: ‘não há rosa sem espinho’ (Provença-Languedoc); ‘Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento’ (Albi); ‘Beleza não põe mesa’ (Gasconha)”.
O que sustentava a condição de beleza nas sociedades primitivas era a fecundidade. Dessa forma, a mulher infecunda era desprezada, porque tornava incompleto o dever de descendência. Devido a isso, a beleza não poderia ser beneficiada de homenagens. Em tudo, o homem era considerado superior às mulheres. Embora o lado feminino tivesse poderes reconhecidos, nenhum deles poderia ser nivelado fora da supremacia do homem. Ao destacar que as atividades nobres, o prestígio e as marcas de glória eram propriamente da ordem do masculino, Lipovetsky (2000, p. 106) elucida que “(…) nesse contexto, a idolatria social da beleza feminina não pode surgir, uma vez que liberaria um foco de consagração feminina antinômico com o princípio do monopólio masculino do prestígio e da superioridade social”.
Em nenhum código social a adulação do feminino e a ausência de religião estética das mulheres, estavam associadas à organização do trabalho. Assim, na ordem social primitiva não havia mulheres ociosas. Todas as mulheres, segundo o autor, eram encarregadas de assegurar um papel de produtoras, inclusive as esposas dos chefes, que também participavam das atividades econômicas.
Em meio a todo esse contexto, a valorização da beleza como uma característica distintiva do feminino não ganhava corpo. Para possibilitar-se a idolatria do belo sexo era preciso que surgisse uma divisão social entre as classes ricas e pobres. E foi isso o que aconteceu. Com a separação das classes nobres das classes laboriosas, abriu-se uma condição necessária para uma categoria de mulheres isentas de trabalho. Essas novas condições sociais contribuíram para tornar mais estreita a relação entre práticas de beleza e feminilidade, conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 107), dizendo-nos que, “(…) nas longas horas de ociosidade de que dispõem as mulheres das classes superiores, elas passam a se dedicar a maquiar-se, enfeitar-se, fazer-se belas para se distrair e agradar ao marido”. O autor ainda coloca que desde a antiguidade grega, e depois romana, já se fazia o uso feminino nas pinturas. Porém, essa prática não estava associada à cultura do “belo sexo”, e sim à procura das mulheres pelo próprio embelezamento. O reconhecimento social da beleza feminina entra em uma nova fase com o aparecimento do Estado e das classes sociais.
1.1 O culto da beleza feminina e a invenção do belo sexo
Falar da beleza é também falar do corpo. Para Del Priore (2000, p. 15), “(…) as noções de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura”. Hoje, vive-se uma corrida constante pela beleza, em que todos os corpos devem ser cultuados e bem “cuidados”. Vive-se um “carinho”, um cuidado de si, como afirma Couto (2012, p. 119), onde todos são “(…) convidados a administrar a própria aparência, suprir e redesenhar as formas físicas”. Hoje, o sonho de ser bela democratizou-se e está ao alcance de todos. Sant`Anna (2005, p. 122) diz-nos que:
(…) através das imagens e dos discursos criados com o intuito de embelezar a mulher, segundo os interesses econômicos, os padrões morais e os argumentos científicos de cada época, cruzamos outras histórias paralelas ao sonho de ser bela: no Brasil, em particular, o gesto que embeleza não desenha somente uma fisionomia mais à moda, em detrimento de uma aparência doravante considerada ultrapassada, portanto, feia. Ao fazê-lo, ele também revela as diversas nuanças do antigo sonho de ser moderno e civilizado que há muito persegue as elites desse país.
O que antes era considerado um sonho apenas das elites, tornou-se também um sonho do povo, de uma cultura de massa. Ao afirmar que, para o homem ocidental, o corpo tornou-se o lugar de sua identidade e seu modo de ser, Couto (2012, p. 119) destaca que:
(…) nossa época se rende aos diversos cultos que celebram e festejam a corporalidade. Das práticas esportivas intensas e, muitas vezes, radicais, ao uso proliferado do silicone e das cirurgias plásticas, diversas técnicas e terapias servem para hipervalorizar e pavonear o corpo nas ruas, praias, clubes, páginas de revistas, programas televisivos, filmes publicitários, imagens diversas na internet, passarelas, galerias de arte.
Mas, será que sempre foi assim? Tal pergunta feita por Del Priore (2000, p. 15) coloca que “(…) a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais (…)”. Ela salienta ainda que, “(…) mais do que nunca, a mulher sofre prescrições (…)”.
Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cercam. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. E se, em termos contemporâneos, “(…) o algoz não tem rosto” (Del Priore, 2000, p. 15), somos bombardeados, constantemente, por centenas de imagens que nos ensinam uma cultura feminina das aparências. No entanto, no passado era diferente, deslocavam-se outros critérios de beleza que produziam outros efeitos corporais.
Assim como nos explica Vigarello (2006), cada regra, etiqueta ou receita de beleza está ancorada a sua dinâmica corporal. Albino e Vaz (2008), ao analisarem como Vigarello (2006), organizando sua exposição sobre a história do embelezamento feminino, explicam que no século XVI a beleza foi revelada, no XVII era expressiva, no XVIII era experimentada e no XIX, torna-se desejada. Por volta de 1914 até os anos 2000, os autores apresentam a beleza como democratizada. Época democrática do belo sexo significa, nesse sentido, glorificação sem reservas de seu reino, emancipação da dimensão beleza em relação aos medos e às litanias misóginas, autonomização total no que se refere às conotações morais e religiosas. Fim da ambivalência imemorial dos encantos femininos: com o século XX, triunfa a era da pós- mulher fatal (Lipovetsky, 2000, p. 170).
É ao falar da difusão dos cuidados estéticos em todas as camadas sociais que o autor (2000) nos conta sobre uma era democrática da beleza e da chegada do século XX, que faz com que os produtos e as práticas de embelezamento deixem de ser um privilégio de classe. Para Lipovetsky (2000), ao longo das últimas décadas, ocorreu um deslocamento de prioridades, onde uma nova economia das práticas femininas de beleza instituiu outra relação com o corpo. O autor ainda ressalta que:
(…) a preocupação feminina de parecer jovem não tem nada de fenômeno recente. No entanto, por muito tempo os cuidados proporcionados à aparência foram dominados pela obsessão com o rosto, por uma lógica decorativa concretizada no uso dos produtos de maquiagem, nos artifícios da moda e do penteado (p. XX).
Ao falar de uma cultura feminina das aparências, Del Priore (2000) mostra-nos como era comum buscar a transformação do corpo feminino para dissimular as imperfeições com o uso de pós, perucas, unguentos, espartilhos e tecidos volumosos. A cosmética evoluía. E desde o século XVI, na Europa Moderna, já começavam a circular “livros de receitas”, os chamados “segredos” de beleza. Enquanto os poetas despiam o corpo feminino, a sociedade ditava regras para cobri-lo e transformá-lo. A autora (2000, p. 23) afirma que “(…) a pele azeitonada, a robustez física, as feições delicadas e a longa cabeleira passavam por processos feitos de bens e serviços, utensílios e técnicas, usos e costumes capazes de traduzir gostos e rejeição, preceitos e interditos”. Mas, Lipovetsky (2000) conclui que essa tendência não é mais a nossa. Se por muito tempo, o grande alvo do embelezamento feminino era o rosto, hoje o corpo e sua conservação ganham mais paixão e cuidados estéticos. Del Priore (2000, p. 60), destaca que:
Quanto ao rosto, a moda da fisiognomonia, ou seja, a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços do rosto ditava regras. Trocas fisiológicas entre interior e exterior, relações entre físico e moral, compunham um abecedário de normas para fazer o rosto “falar”: a fronte alta e lisa era denotativa de temperamento dócil e serenidade de alma; sobrancelhas naturalmente arqueadas diziam da franqueza de sua possuidora; olhos negros anunciavam calor e vontade; os azuis, ternura e paixões tranquilas; o nariz não podia ser nem muito pontudo nem muito largo e suas aletas, suficientemente bem recortadas para exprimir “impressões fugitivas”; a boca jamais poderia ter lábios finos pois associavam-nos à mesquinharia.
Hoje, no novo planeta da beleza em que vivemos, a magreza se faz preponderante, mas não está sozinha, pois vem acompanhada da febre da beleza-magreza-juventude, que vem sendo anunciada desde os anos 60, em que a cultura juvenil ganha força através da difusão de modelos estéticos adolescentes. Segundo Lipovetsky (2000, p. 130) “(…) desde a Antiguidade as mulheres utilizam maquiagens e outros unguentos a fim de mostrar-se vantajosamente e mascarar certos desfavores”. Com a chegada do século XX, a palavra “ordem” adquire outra configuração e passa dar valor a um furor que põe em evidência uma aparência jovem, magra e descontraída. O velho e admirável “coroa” burguês perde a sua vez e o que vemos hoje, segundo o autor (2000, p. 137), “(…) exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada às metamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedades modernas de cem anos para cá”. A magreza passa a ser o epicentro dessa espiral de coerções estéticas. O corpo esbelto e firme torna-se uma norma consensual.
Nessa perspectiva, Lipovetsky (2000, p. 137) afirma que, “(…) ao longo de todo o século, as estrelas e as manequins propagaram o ideal estético da mulher moderna, esbelta e esguia”. O autor coloca ainda que o corpo feminino emancipou-se de suas antigas servidões (sexuais, procriadoras e indumentárias), mas cada vez mais se rende às atividades modeladoras e à conquista da beleza relacionada à esbelteza, restrições alimentares e exercícios corporais.
Del Priore (2000) salienta que o corpo feminino passou por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. Por muito tempo “(…) a mulher de forma mais salientosa tendia a ser considerada mais ortodoxamente feminina” (p. 53). A mulher era considerada desejada por ser sexuada e fecunda. Como nos diz a autora (2000, p. 58) “(…) feliz prisioneira dessas formas, ela sublinhava a relação entre sua conformação anatômica e sua função biológica e, ao mesmo tempo, sagrada: reproduzir, procriar, perpetuar”. Lipovetsky explica a extraordinária adesão das mulheres à estética da magreza por suas transformações de sua identidade social:
(…) nas sociedades que nos precederam, a corpulência feminina era valorizada porque era associada à fecundidade, destino supremo da condição feminina tradicional. O desenvolvimento dos métodos contraceptivos e o novo compromisso profissional das mulheres transformaram radicalmente não apenas as condições de vida feminina, mas também, no mesmo passo, sua relação com a aparência (2000, p. 138).
Desde o século VI a.C a coqueteria era considerada como ardes diabólicos e o uso de pinturas típicas do gênero feminino era condenado e visto como trapaças desonestas (Lipovetsky, 2000). O humanismo renascentista deu uma nova significação para a beleza feminina e, assim, estabeleceu-se uma ruptura com sua diabolização tradicional. Uma bela mulher era dita como uma obra-prima de Deus. Tais encantos femininos alimentavam a inspiração de muitos artistas, entre eles, pintores, escritores, filósofos, pensadores e poetas. Assim, tanto nos meios letrados, como nos aristocráticos, a mulher era admirada como a emanação da beleza divina, sendo posta na condição de anjo. Se antes sua beleza era inscrita como a “arma do diabo”, símbolo da malignidade, no século XV e XVI, mulher bela, divina, como nos diz Lipovetsky (2000, p. 114) “(…) instalou-se um processo excepcional de dignificação da aparência feminina, de celebração de sua supremacia estética, do qual somos os herdeiros diretos”. Da mesma forma que a beleza foi acusada, também foi exaltada, com os mesmos hinos ao feminino. Lipovetsky (2000, p. 113) ao contextualizar que a idolatria do “belo sexo” é uma invenção da Renascença, explica que:
(…) de fato, é preciso esperar os séculos XV e XVI para que a mulher seja alçada ao pináculo como personificação suprema da beleza. Pela primeira vez na história, realiza-se a conjunção das duas lógicas que instituem o reino cultural do “belo sexo”: reconhecimento explícito e “teorizado” da superioridade estética do feminino e glorificação hiperbólica de seus atributos físicos e espirituais.
Ainda o que caracteriza a beleza renascentista é a imobilidade, o ócio e a brancura da pele, atributos relacionados à ordem aristocrática, assim como com a função de distinção social. Del Priore (2000, p. 56) informa-nos que “(…) as mulheres brancas eram descritas como possuidoras de um corpo negligenciado, corpulento e pesado, emoldurado por um rosto precocemente envelhecido”. Entre as diversas causas, explica-nos Del Priore (2000) estavam os banhos quentes, o amor à comodidade, o matrimônio e a maternidade precoces, a falta de exercício físicos, entre outros. A autora, ainda nos conta que:
Alguns viajantes atribuíam a palidez e o desmazelo das moças à severidade com que eram tratadas pelos pais e maridos, sendo mantidas muito segregadas da vida social – situação ainda mais grave no interior, onde passavam às vezes muitos meses encerradas entre quatro paredes, sem aparecer às janelas. A sujeira e o desleixo que diziam testemunhar provocavam segundo eles, violentas deformações físicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estúpida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” e por esse motivo pareciam também descoradas e doentes (…) (DEL PRIORE, 2000, p. 57).
Isso faz lembrar a história da “Branca de Neve”, em que a princesa é proibida por sua madrasta de sair do castelo, e por isso não tem o hábito de tomar sol, nem de passear pelo bosque, ora de conhecer o mundo em que vive. Contudo, nos diz Lipovetsky (2000, p. 133) que hoje mais do que nunca, as mulheres combatem com muito empenho “(…) tudo o que parece ser flácido, gordo, mole. Já não basta não ser gorda, é preciso construir um corpo firme, musculoso e tônico, livre de qualquer marca de relaxamento ou de moleza”.
No século XIX começa a surgir a necessidade de uma sensibilidade mais individual, mas isso ainda não é tão visto no cotidiano e demora a se consolidar. Como diz Vigarello (2006), há o nascimento de uma nova sociedade que tenta se opor à antiga, mas que ainda se vê sob a “velha etiqueta aristocrática”. Lipovetsky (2000, p. 128), também nos fala que até o fim do século XIX, “(…) a idolatria do belo sexo se desenvolveu em um quadro social estreito”. O autor, ao salientar que as homenagens artísticas às mulheres e às práticas estéticas quase não ultrapassavam os limites do publico rico e cultivado, destaca que:
(…) fora dos círculos superiores da sociedade, as valorizações poéticas e cosméticas da beleza, assim como as imagens resplandecentes do feminino, têm pouca difusão social. Na sociedade camponesa, até a Primeira Guerra Mundial, as acusações tradicionais contra os encantos femininos superam em muito sua exaltação. Durante quase cinco séculos, a celebração da Bela conservou sua dimensão elitista: é um culto de tipo aristocrático que caracteriza o momento inaugural da história do belo sexo (LIPOVETSKY, 2000, p. 128).
Entretanto, enfim, chega o século XX, onde a beleza é associada ao bem estar feminino. As referências dessa época são as misses e atrizes, das quais as imagens passam a ser usadas como propagandas de cosméticos. Lipovetsky (2000, p. 128) acentua que com a chegada do século XX “(…) a imprensa feminina, a publicidade, o cinema, a fotografia de moda propagaram, pela primeira vez, as normas e as imagens ideais do feminino na escala do grande número”. As estrelas, as manequins, as imagens de pin-up são as personagens principais, modelos superlativos da feminilidade que saem das passarelas e das telas do cinema e invadem o cotidiano. Não é mais sonho, nem raridade, é realidade. Conforme nos diz ainda o autor (2000, p. 129), “(…) as revistas femininas e a publicidade exaltam o uso dos produtos cosméticos por todas as mulheres”. O culto do belo sexo entra em sua dinâmica mercantil e democrática, ganhando uma dimensão social inédita ao invadir a era das massas com o advento da cultura industrial e midiática.
É com relação a esse protagonismo que nasce um novo modo de pensar e viver a beleza, em que “(…) buscar uma singularidade transforma-se em um dever” (Albino e Vaz, 2008, p. 250). Neste sentido, antes de investir no próprio corpo, faz-se necessário descobrir a si mesma, pois neste novo contexto, o corpo representa o que se é interiormente. Neste novo cenário da beleza contemporânea, os modelos tornam-se mais fugazes, uma vez que acompanham a vontade e o estado de espírito das musas. Para Lipovetsky (2000, p. 129) “(…) durante séculos, a glorificação do belo sexo foi obra dos poetas e dos artistas, de agora em diante ela é própria da imprensa, das indústrias do cinema, da moda e dos cosméticos”. Com esse “boom da beleza”, termo utilizado por Lipovetsky (2005):
(…) abriu-se um novo ciclo histórico baseado na profissionalização do ideal estético (estrelas e manequins) e no consumo de massa de imagens e de produtos de beleza. Industrialização e mercantilização da beleza, difusão generalizada das normas e imagens estéticas do feminino, novas carreiras abertas à beleza, desaparecimento do tema da beleza fatal, inflação dos cuidados estéticos com o rosto e com o corpo: é a conjunção de todos esses fenômenos que funda a ideia de um novo momento da história da beleza feminina. Depois do ciclo elitista, o momento democrático; depois do ciclo artesanal, a época industrial; depois do período artístico, a era econômico-midiática. As democracias modernas não fazem declinar a cultura do belo sexo, coincidem com sua apoteose histórica.
Com esse incitamento ao consumo, “(…) a negação metafísica da carne foi substituída por um ativismo funcional do corpo” (Lipovetsky, 2000, p. 141). Os novos discursos de valorização de si mesma não escapam às normas e aos domínios de controle do corpo. Ao falar de uma “teologia da beleza”, por exemplo, Lipovetsky (2000, p. 140) coloca que “(…) a febre contemporânea da beleza feminina é a continuação da religião por outros meios”. Em tempos hipermodernos, o centro é a diabolização do pecado da gordura. Este é o catecismo que culpabiliza as mulheres e hipnotiza e manipula os “fiéis” a renunciarem aos prazeres da gula. De agora em diante, segundo Lipovetsky (2000, p. 140):
(…) as eleitas são as top models e as não-eleitas as mulheres gordas e enrugadas. Como todos os cultos religiosos, a beleza tem seu sistema de doutrinação (a publicidade dos produtos cosméticos), seus textos sagrados (os métodos de emagrecimento), seus ciclos de purificação (os regimes), seus gurus (Jane Fonda), seus grupos rituais (Vigilantes do Peso), suas crenças na ressurreição (os cremes revitalizantes), seus anjos (produtos de beleza), seus salvadores (os cirurgiões plásticos).
Se o sistema contemporâneo da beleza amplia a lógica moderna do consumo, ele também vem acompanhado de um novo sistema de comunicação, do qual a imprensa feminina faz parte e contribui para promover normas estéticas. A profusão das representações da beleza feminina conheceu uma popularidade crescente e, segundo Lipovetsky (2000, p. 155), “(…) tanto as mensagens como as imagens reforçam a definição do feminino como gênero destinado à beleza”.
1.2 A Algumas considerações: ser bela e feliz para sempre?
Ao nos afirmar que a imprensa feminina adquiriu um imenso poder sobre as mulheres ao longo do século XX, Lipovetsky (2000, p. 165) ressalta que “(…) não há muita dúvida de que a imprensa feminina figura entre os agentes mais eficazes da propagação social das normas do corpo esbelto (…). Frente às novas exigências de sedução, surge uma nova mulher que usa a maquiagem e a roupa que quer. Lipovetsky (2000) conta-nos que a partir dos anos 1960, a imprensa feminina dá mais acessibilidade à elegância, tornando-a prática e descontraída. E assim, a mídia passa a valorizar a individualidade e a personalidade, e a beleza, agora, se torna livre. Até um artigo da Vogue de 1968, como destaca Lipovetsky (2000, p. 165) “(…) defende a ideia de que a beleza resulta metade da personalidade, um quarto da maquiagem e outro quarto da natureza”. Dessa forma, a mídia feminina começa a reforçar o poder das mulheres sobre sua aparência física. E que mulher não sonha em ser bela? Ao falar que se difunde uma cultura que favorece a responsabilização individual pelo corpo e o princípio de autoconstrução de si, Lipovetsky (2000, p. 101) coloca que:
É um belo romance, é uma velha história. Lembremo-nos dos contos, das rainhas e de suas inquietações lancinantes: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Ao longo dos séculos, os poetas se maravilharam com os encantos da bela, os pintores e os escultores glorificaram a plástica de Vênus, os livros de “segredos” propagaram as receitas da sedução feminina. Ainda em nossos dias, as fotografias de moda, os institutos e concursos de beleza, os conselhos e produtos cosméticos não cessam de recompor o primado da beleza feminina, de reproduzir a importância da aparência na identidade feminina. Que mulher não sonha em ser bela e que homem não sonha com mulheres lindas? Uma mulher nunca é bela demais: quanto mais o é, mais irradia sua feminilidade. Para os homens, nada de semelhante: a imagem da virilidade não é função da beleza. Hoje como ontem, as expectativas em relação à beleza e ao valor a ela conferido não são equivalentes no masculino e no feminino. Para nós a equação é evidente: segundo sexo e belo sexo, é a mesma coisa.
Esse primado da beleza feminina vem reforçando o sonho de se estar bela desde as nossas infâncias. A importância da aparência ganha palco nas mais diversas circunstâncias sociais. As mulheres são cobradas para adquirirem e manterem uma beleza midiática, a ser consumida e produzida como nos contos de fadas. Muitas meninas, por exemplo, já devem ter sonhado em assumir um estilo Cinderela, Branca de Neve ou Bela Adormecida de ser. Para terem a chance de atingir tais sonhos, elas “abraçam” os conselhos e as dicas que prometem corrigir todos os “defeitos”, alcançando o corpo idealizado. Mas e o que a mídia tem a ver com isso? Conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 167) “(…) a mídia menos produz o desejo feminino de beleza do que o exprime e intensifica”. Mas o que as artistas, as princesas e as manequins têm em comum? Não poderíamos pensar que ambas nos sugestionam ou irradiam uma feminilidade fantástica? Nessa exposição e proliferação de imagens de mulheres realçadas e intensificadas na mídia, não nos inspiramos a querer ser cada vez mais belas e sedutoras? O sonho de ser uma famosa top model não poderia estar de certa forma relacionado com todo esse encantamento literário da beleza feminina? Lipovetsky (2000) nos explica que, por muito tempo, se pendurou o tema da beleza perigosa, que despertava o medo e a desconfiança dos homens. Contudo, com a sagração do belo sexo, houve uma mudança importante e o feminino passou a ser cercado de homenagens enfáticas. Nesse contexto, segundo Lipovetsky (2000, p. 125):
(…) “Cada bela mulher é uma rainha”, diz justamente Balzac: depois de milênios de depreciação, um poder feminino é posto num pedestal, admirado, supostamente igualando ou mesmo superando o poder dos monarcas. O novo reside em que um atributo feminino tornou-se capaz de conferir às mulheres títulos de nobreza, prestígio, riqueza simbólica. Assim, os hinos ao belo sexo não podem ser assimilados pura e simplesmente a um instrumento de alienação do feminino; concretizando um reconhecimento e uma valorização inéditos das prerrogativas femininas, permitiram ao mesmo tempo impulsionar uma promoção social e simbólica das mulheres, ainda que excepcional, a exemplo das Damas de Beleza e outras favoritas do Rei.
E que mulher ou menina não sonha em ter uma beleza de princesa ou de rainha? Que jovem não almeja em ser a dama do rei ou aquela moça da corte cortejada por seu admirado embelezamento? Desde cedo, as meninas aprendem a ser princesas, buscando dicas e conselhos de beleza para o seu aperfeiçoamento físico. Ser considerada como uma “rainha” pode ser um caminho para se chegar às passarelas. As misses ao vencerem um concurso de beleza, usam uma coroa. Tal objeto glorifica a beleza que foi conquistada. Muitos atributos femininos são ensinados nos contos de fadas: comportamentos, modos de agir, de pensar, de vestir, de andar, de acenar, e de cuidar da própria aparência. O trabalho de uma modelo não se distancia muito das aprendizagens consideradas importantes para uma princesa. Rainhas, princesas, misses e atrizes cinematográficas, o que elas têm em comum? Os penteados, as maquiagens, o corpo magro, as medidas, e o nariz arrebitado? Será que todas essas referências não trazem em si o brilho de uma super top model? Elas não deixam de ensinar a importância de uma superprodução para se estar bela. Em um passe de mágica, a Gata Borralheira virou Cinderela. Lipovetsky (2000, p. 181) considera que essas figuras ideais do feminino têm em comum “(…) o fato de sua beleza ser fruto de um extraordinário trabalho de metamorfose”. O autor complementa afirmando que “(…) evidentemente, os artifícios sempre permitiram que as mulheres resplandecessem e parecessem ‘outras’”. Isso nos é mostrado até nas imagens de mulheres representadas nos contos de fadas. E as top models, segundo Lipovetsky (2000), prolongam esse processo de superprodução artificialista. As receitas da sedução feminina estão produzindo um modelo de mulher para ser posto em espetáculo a ser desfilado em concursos de beleza. Conforme ainda nos explica o autor (2000, p. 182):
(…) a fase radiosa da beleza coincide com o momento em que a técnica permite construir belezas vivas mais sublimes que as criações imaginárias, em que o mito da beleza torna-se verídico e as belezas de carne, imagens míticas. Em nossas sociedades, a beleza feminina já não é acusada de produzir o mal, é produzida como uma imagem de sonho para o consumo das massas (…).
Nesse sentido, a beleza maldita foi substituída por uma beleza mercantil, segundo Lipovetsky (2000, p. 182): “(…) uma beleza funcionalizada a serviço da promoção das marcas e do faturamento das indústrias do imaginário”.
As princesas dos contos de fadas, apresentam a figura de uma mulher jovem, loira, alta, magra, com uma cintura de manequim e um rosto delicado. Muitas meninas, por exemplo, se inspiram até hoje na imagem da Cinderela e de seu sapatinho de cristal, cuja história já ganhou algumas adaptações e releituras para o cinema. Isso também inclui a Bela Adormecida, uma princesa romântica, meiga, delicada, de vestido rosa, cabelos feitos da luz do sol e lábios rubros como as rosas vermelhas. Uma jovem que sonha em encontrar seu príncipe encantado e ser feliz para sempre. Nesses contos infantis, as princesas apresentam um corpo feminino perfeito. Essa cultura que cria e ensina gestos, atitudes, valores, maneiras de ver e cuidar de si, difunde-se no campo social, estabelecendo estilos e tendências. Muitas animações, por exemplo, dão fluência a tais discursos legitimando como é ser mulher na atualidade. Uma das mais recentes releituras dos contos de fadas, o longa-metragem – Espelho, espelho meu – faz uma adaptação do filme “A Branca de Neve e os sete anões” da Disney. A rainha má, interpretada pela atriz americana Julia Roberts, mostra os seus métodos e artifícios para manter a aparência de um corpo perfeito. Ao fazer referência a essa personagem, pretendo ilustrar, como a partir de um panorama cultural, as meninas são interpeladas a se tornarem fantásticas desde as suas infâncias. Lipovetsky (2000, p. 181) destaca que “(…) as mulheres manequins, da mesma maneira que as estrelas da tela grande, não são irreais nem fictícias, são recompostas e surreais”. Esse filme, por exemplo, teve uma bilheteria de quase dois milhões de ingressos vendidos no Brasil. Assim, penso que algumas imagens de corpos femininos que circulam e são produzidas na mídia, investem em modelos a serem perseguidos. Nessa constante busca pela aparência perfeita, qualquer técnica de beleza parece ser válida para que bruxas, princesas, artistas, modelos e as mulheres ditas “comuns” adquiram os padrões e transformem-se em “uma linda mulher”.
Referências
ALBINO, B. S.; VAZ, A. F. Uma narrativa histórica por meio da beleza: comentários sobre História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje, de Georges Vigarello, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 29, p. 145-151, 2008.
COUTO, Edvaldo Souza. Corpos voláteis, corpos perfeitos: estudos sobre estéticas, pedagogias e políticas do pós-humano. Salvador: EDUFBA, 2012.
PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA POR LUIZA LOBO
Literatura e Cultura – Janeiro de 2017
SANTOS, William Soares dos. Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro. Pref. Claudio Aguiar. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2016. 180 p. il.
Já tivemos muitos textos em homenagem ou enquadrados na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, como os de Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, crônicas de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, contos de Clarice Lispector, Sérgio Sant’Anna, Rubem Fonseca, Sonia Coutinho, novelas, como A estrela sobe, de Marques Rebelo (Edi Dias da Cruz), e, na música, incontáveis compositores… sem falar em José de Alencar e Machado de Assis. A lista é muito ampla, e poderia desencorajar qualquer um que não fosse William Soares dos Santos. Este guerreiro escritor, pesquisador, oriundo dos bancos da Faculdade de Letras da UFRJ e agora seu professor de italiano, não para jamais. Ano passado publicou rarefeito – poemas, pela mesma editora, Ibis Libris, que agora lança também este livro de contos situados na cidade do Rio de Janeiro. Além destes, ele já publicou livros sobre didática de ensino, em colaboração, e diversos ensaios. Sempre original e múltiplo, William é exímio desenhista e fotógrafo. Ele é também o autor das fotos em branco e preto que ilustram cada um dos contos, marcando o bairro em que se passa a história, sempre apresentando ângulos inusitados.
As epígrafes do livro são em grego (de Menandro) e em italiano (da Divina comédia, de Dante Alighieri), justamente o Inferno, versos 100 a 105 do canto V, que trata do amor. Mas não há qualquer analogia entre os contos e os males do Inferno, de Dante, tanto que a passagem escolhida fala do amor: este “tomou-me pelo seu desejo tão forte, / que, como vês, não me abandona”. Os contos rememoram antes o amor e o encontro que o mal e o desencontro infernais. São doze contos que tratam de “o amor da mãe pelo filho”, do “poliamor”, da divisão “entre dois amores”, “flores de jacinto”, com referência a Virginia Woolf. Os que mais se aproximam do inferno são “ulisses” (p. 169-175), que nos remete à ilha da feiticeira Circe, a qual transformou os marinheiros em animais e quis aprisionar Ulisses para sempre, e “poliamor” (p. 89-103), que parte de uma descoberta de amor poligâmico e termina num cruel inferno.
O conto “flores de jacinto” (p. 57-71), vai na mesma direção que “poliamor”, no sentido de construir contos de amor fora do costumeiro modelo heterossexual. A descrição de uma solteirona “já com mais de 25 anos” (p. 60) está localizada no ano de 1970, e seu estudo num curso de inglês e sua vida são associados à biografia homossexual de Virginia Woolf. Referências a amores homossexuais parecem uma tendência da nova geração, agora liberta de entraves preconceituosos contra todo tipo de amor fora das normas canônicas. Tais preconceitos permanecem, mas, agora, liberados pelo menos na legislação, e relações amorosas tornam-se tema literário não mais reprimido, mesmo que nem em todas as mentalidades.
“O amor da mãe pelo filho” se situa em data ainda anterior: 1961. Foi nessa época que a favela do Pinto foi desalojada para dar lugar a um condomínio de luxo, chamado Selva de Pedra, e outro para baixa renda, numa proposta de dom Helder Câmara de misturar ricos e pobres – prédio que ainda existe no jardim de Alá, na divisa entre Ipanema e Leblon, uma das áreas mais valorizadas da cidade, tendo vista para a praia e para a Lagoa. É talvez o conto mais social – e sua colocação em primeiro lugar no livro dá uma impressão inicial ao leitor de que todo o livro correrá nessa linha… A favela é queimada pelo poder público – recurso constantemente utilizado em São Paulo para retirar moradores recalcitrantes e desocupar terrenos particulares – mas o final é feliz, embora focado num único caso.
William vai percorrendo os bairros – o centro, em “flores de jacinto”, com a confeitaria Colombo, na rua Gonçalves Dias – Copacabana, em “o divórcio” (p. 73-87), com o “divorciando” repetindo o estado de espírito do noivo, anos antes, ao correr em casa atrás do documento de pacto antenupcial esquecido pela estagiária, e exigido pelo tabelião para realizar o divórcio. A corrida pelas ruas de Copacabana serve de ensejo para o personagem relembrar os anos passados no matrimônio que termina. O clima de ansiedade do noivo renovado em “divorciando” é muito bem reconstituído, sem uma atitude maniqueísta de bem ou mal nas cores do passado, mas uma vida transcorrida até ali com felicidade, também. Foi apenas o amor que acabou, abrindo novas possibilidades.
O conto “flores de jacinto” parece preceder cronologicamente “entre dois amores” (p. 49-55), que o antecede nas páginas do livro. Neste há também uma primeira e uma segunda mulher, enquanto no anterior a “flores de jacinto”, intitulado “um amor” (p. 37-48), paira uma sombra triangular ou uma indecisão amorosa num caso amoroso relatado do ponto de vista do homem por um narrador onisciente. “entre dois amores” é também narrado por um narrador onisciente que mergulha no interior do protagonista masculino. Tem final triste, assim como “poliamor”. Antes que tudo há o desencontro, a impossibilidade do amor juntos, como em “o retrato da infanta maria teresa” (p. 159-167).
O amor de Ulisses por Penélope, difícil quando se realiza e cheio de esperança quando reaparece, pode corresponder ao mote de todos os tipos de amor do livro: “(…) ele testificara que o amor não era, necessariamente, o elemento formador da felicidade. Eles não poderiam mais viver juntos, já que o que ela dizia sentir o aprisionava, impedindo-o de viver uma existência plena na qual realizaria os sonhos grandiloquentes de conquista” (p. 171). Esses sentimentos atribuídos a Ulisses podem muito bem ser os do narrador. Digamos que William tenha nos oferecido uma Arte de amar, à la Ovídio, mas uma arte de amar dos tempos pós-modernos, cheios de desencontros, frustrações, indecisões, indefinições, abandonos e morte, sinal de nossa época, em que mergulhamos cada vez mais fundo no eu. Talvez por isso a opção pelas letras minúsculas, infringindo a norma gramatical e a do amor metafísico.
Bio fornecida pelo palestrante.
O ENCONTRO ENTRE O FEMININO BRASILEIRO E O ISLÃ: CAMINHOS E DESENCONTROS
Mônica Peralli Broti
Paulo Roberto Monteiro de Araújo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Resumo: O artigo investiga o encontro entre a mulher brasileira e o discurso tradicionalista da religião do Islã no sentido de como tal aproximação abre à mulher novos significados culturais e existenciais. Partiu-se, da revisão das principais questões de gênero observadas em campo com entrevistas e, consequentemente de suas relações com o contexto da cultura ocidental moderna. Além disso, analisou-se como as considerações dessas mulheres foram interpretadas à luz de autores como Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco, que se dedicaram a descrever as esferas política e social da modernidade.
Palavras-Chave: Tradição, Islã, gênero, modernidade.
Summary: The article investigates the meeting between Brazilian women and the traditionalist speech of Islam, in a way that such approach opens new cultural and existential meanings to these women. It all started from the review of main questions of gender observed in the field throughout interviews, and consequently from the relations with the context of modern occidental culture. Besides all that, it analyzes how the considerations of these women were interpreted by some authors such as Hannah Arendt and Elisabeth Roudinesco who dedicated themselves to describe social a political spheres of modern times.
Keywords: Tradition, Islam, gender, modernity.
Minicurrículos: Mônica Peralli Broti é Mestranda no Programa de Pós-Graduação Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é professora no Colégio São Judas Tadeu. Atua principalmente nas seguintes áreas: História do Brasil e Geral, Cultura Brasileira e Multiculturalismo.
Paulo Roberto Monteiro de Araújo – Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Senso em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua principalmente nas seguintes áreas: Cultura Contemporânea, Arte, Ética e Filosofia Política.
O ENCONTRO ENTRE O FEMININO BRASILEIRO E O ISLAM: CAMINHOS E DESENCONTROS
Mônica Peralli Broti
Paulo Roberto Monteiro de Araújo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Oh! O amanhã é sempre o grande momento
De que amanhã se trata?[1]
Os estudos sistemáticos sobre as desigualdades de gênero[2], colocados no campo da teoria política feminista trouxeram uma situação inédita: mulheres brasileiras que cresceram em meio a costumes ocidentais, manifestam o desejo à conversão ao Islam, e reivindicam o direito ao parentesco como vida privada e à procriação assistida[3]. No Brasil, país marcado por diferenças sociais profundas, onde é patente a luta pela incorporação das mulheres à ordem existente, a partir dos anos 1980 a pluralidade de abordagens sobre as questões femininas – a luta pelo voto, acesso à educação, assim como a exigência de direitos iguais no casamento e do direito ao divórcio, do direito das mulheres à integridade física e a controlar sua capacidade reprodutiva – definiram discussões teóricas no ambiente acadêmico e também na prática política. Apesar da exigência da cidadania igual para os dois sexos, o que aconteceu nos últimos anos para que a mulher considerada inferior tenha desejado não apenas ser reconhecida como cidadã integral, mas encarna o empoderamento da identidade e religiosidade da “nascida muçulmana”? Por que esse desejo de resgate de outra cultura que não a sua?
Para abordar tais depoimentos requer uma rigorosa reflexão sobre o mundo moderno. Ao mesmo tempo, outra atenção deve ser direcionada ao significado desse momento histórico e as implicações sobre a condição humana. No que concerne particularmente a esse contexto político e social, a importância de alguns acontecimentos valemo-nos de duas intelectuais que contribuíram enormemente, cada qual a seu modo, para o debate. Trata-se de Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco.
A condição humana (2015) de Hannah Arendt, permanece fundamental para “pensar o que estamos fazendo” (ARENDT, 2015, p. 25). E o resultado desta análise, o de reconsiderar a condição humana do ponto de vista das mais novas experiências, que faz do texto um parâmetro para a tarefa de compreensão dos motivos e intenções das mulheres brasileiras ao se reverterem[4] às comunidades muçulmanas firmemente arraigadas na tradição.
Muitas das críticas dirigidas ao contexto histórico atual como a perda da autoridade do pai, a precariedade da economia moderna e a própria família desconstruída, partem de Elisabeth Roudinesco. Historiadora da psicanálise, comprometida em efetuar uma leitura da relação entre a sociedade ocidental moderna e o manifesto de homens e mulheres pelo direito aos valores tradicionais, sobretudo do modelo familiar conservador. Em sua obra A família em desordem (2003), Roudinesco resgatou a história da família e suas mutações estabelecidas pelas inovações tecnocientíficas e pela própria economia moderna. Para ela, a família era então contestada, rejeitada, declarada funesta ao desabrochar do desejo e da Liberdade sexual (ROUDINESCO, 2003, p. 8). Contraditoriamente em nossa era contemporânea, marcada pelo veloz desenvolvimento tecnológico tais declarações parecem obsoletas, e hostis à “moral civilizada”[5] em busca de regra e de um “familiarismo redescoberto”[6].
Feita essa breve apresentação sobre a questão do retorno a modelos tradicionais de comportamento, partamos às ideias centrais de Arendt sobre o homem e à história deste bem como às críticas de Elisabeth Roudinesco a questão do comportamento, para a reflexão sobre as considerações e experiências de mulheres revertidas ao contexto islâmico.
O Islã e a Modernidade
Há diversas temáticas relacionadas ao status da mulher entre as comunidades islâmicas que permeiam de forma significativa o imaginário social como a imagem, a discriminação de gênero e corpo, religiosidade e o uso da vestimenta. Para uma maior reflexão a respeito do feminino no Islã, compreender as motivações que levam mulheres brasileiras à conversão e à prática religiosa merece atenção aprofundar e analisar mais esse contexto histórico pós-moderno.
O emprego do termo Islã reporta-se a uma civilização que cresceu e floresceu sob a égide da religião islâmica. Para os seguidores da religião, o termo Islam compreende a submissão e devoção à vontade de Alá (Deus único) e também a paz (Salam) que se efetiva através da aceitação por parte do fiel das verdadeiras palavras e dos mais belos nomes deixados pelo criador.
O islamismo surgiu no ano 622 da era crista na etnia árabe – núcleo e agente difusor do Islã – e foi a última das grandes tradições monoteístas a se consolidar na civilização humana, tendo seu início marcado pelos ensinamentos do Profeta Muhammad[7].
Segundo a crença islâmica Muhammad, reconheceu-se Profeta e Mensageiro depois de uma intensa experiência de meditação em seus retiros anuais, no silêncio do deserto. “Em pouco tempo adquiriu o título de As sadiqul Amin que quer dizer o sincero e fidedigno” (MAZLOUM, 2014:29). Muhammad recebeu a Revelação Divina no ano de 610 d.C. na língua árabe, através do Arcanjo Gabriel. O conjunto das Revelações foi denominada Alcorão (Qu’ran – a Recitação). Esse texto considerado sagrado pelos fiéis é composto de 144 capítulos (suras), foi revelado lentamente, linha por linha e versículo por versículo, num período de 23 anos, “(…) tornou-se um estatuto de vida através do qual se realiza a justiça social, a paz, a harmonia e o bem-estar para toda a humanidade. Disse Allah (o Altíssimo): E não te enviamos senão como misericórdia para todas as criaturas”[8].
As orientações de Muhammad, conhecido como Hadith, é igualmente seguida pelos fiéis. Através dele é transmitido a Sunnah[9] ou a “Tradição” de como o Profeta conduzia seus valores morais. O Islã, como “religião divinamente revelada” (al-Sheda, 2014, p. 13), defende cinco bases de devoção para orientar os seguidores muçulmanos em suas relações com Deus. São as chamadas de Cinco Pilares do Islamismo: o primeiro consiste na profissão islâmica da fé, a Shahada – “Ninguém tem direito de ser adorado além de Alá, e que Maomé é seu servo e Mensageiro”[10]; o segundo pilar recomenda a prática da oração – Sallah – que consiste num conjunto de citações repetidas cinco vezes ao dia; o terceiro pilar é denominado Zakaah, é uma certa porcentagem de dinheiro que o muçulmano rico dá ao pobre necessitado; o quarto pilar trata da participação no jejum – sawn – que acontece no mês do Ramadan, o mês que marca o início da Revelação. A hajj, peregrinação feita pelo muçulmano até a Casa Sagrada de Alá (a Ka’bah), é o quinto pilar da religião. Este pilar do Islam é obrigatório a todo file, homem ou mulher, uma vez na vida, se eles tiverem condições físicas, financeiras e alcançado a puberdade.
Retorno à tradição
Nesse contexto cultural de regras e preceitos frente às exigências das esferas política e social do mundo pós-moderno, mulheres brasileiras assumem suas perspectivas no processo de inserção nas comunidades islâmicas. O Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE – aponta entre 2000 e 2010 um crescimento de 29% dos praticantes da religião no país. Em números cerca de 30 mil brasileiros convertidos, mas a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – FAMBRAS – estima que o número tenha saltado de 600 mil em 2010 para entre 800 mil e 1,2 milhão de fiéis em 2015, esses números distribuídos pelo país, o Estado de São Paulo possui a maior concentração 24% dos muçulmanos contra a segunda maior comunidade de 16% em Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná.
Durante a pesquisa do artigo realizada na Mesquita do Pari – Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil – situada entre esse bairro e o do Brás, mulheres declaradas muçulmanas dispuseram-se a participar de uma entrevista individual, semi-dirigida e de questões abertas, cujo material foi posteriormente analisado com método qualitativo (CRESUSWELL, 2000). As participantes consentiram para a realização da pesquisa e divulgação do estudo. Seus nomes foram substituídos por outros fictícios, de modo a preservar o anonimato e sua identidade.
Quando lhes foi perguntado sobre o sentido da religião muçulmana, tradição familiar, valor da mulher e ainda sobre o matrimônio e o uso do véu – hijab, as respostas foram muito próximas em sentido do desejo pelos valores tradicionais de família, escola, nação e – sobretudo – às críticas ao mundo moderno:
Maria, 52 anos, viúva, pedagoga:
“Há três anos conheci o Islã através de uma amiga e comecei a frequentar a mesquita, estudar o Alcorão e esclarecer as minhas dúvidas com o cheikh [xeque] Rodrigo Rodrigues. Eu era evangélica e sentia que faltava algo. Depois da minha conversão, sou muito feliz, passei a entender que a minha vida aqui na Terra, é apenas passageira, preparo-me todos os dias para a eternidade e não penso mais na vaidade feminina, só com o uso do hijab [véu] sinto-me uma mulher de verdade”.
Para o cheikh [xeque] Rodrigo Rodrigues[11], brasileiro e natural da cidade de Porto Alegre, responsável pelos assuntos religiosos da mesquita do Pari, reconhece que nos últimos anos houve um aumento significativo do número de mulheres que se reverteram ao Islã:
“A desorganização familiar do contexto social atual, as integrações globais através dos meios eletrônicos – mídia e Internet – facilitam o acesso ao relacionamento entre homens, mulheres e jovens brasileiros com países muçulmanos. Outro fato que atrai, foi a exibição, pela Rede Globo, da novela O Clone, em 2001, criou-se o estereótipo do ‘árabe rico’, do ‘árabe gentil e sedutor’, influenciando sobre o imaginário feminino. Muitas mulheres, quando procuram a mesquita, vêm em busca de uma família e tentam resolver suas carências de afeto. Muitas se relacionam com homens que usam do estereótipo criado por elas e vem ao Brasil em busca apenas de um visto. A crise econômica tornou países como Egito, Marrocos, Tunísia, Paquistão, Índia, Iraque e Turquia áreas de risco para mulheres que procuram relacionamentos com estrangeiros ditos ‘árabes’. É comum ouvir dessas mulheres: ‘Eu me converti’; ‘A cada oração me faz melhor’”.
A partir dos relatos das brasileiras convertidas ao Islam é possível perceber a fidelidade à religião nas suas atitudes e condutas do seu cotidiano; fazem do uso do véu uma rotina e os valores da tradição familiar apresentaram-se prioritariamente. Notadamente em todos os depoimentos havia uma postura por parte das mulheres entrevistadas de inquietação, desconforto e distanciamento com os padrões culturais e de comportamento da sociedade pós moderna.
Em um livro publicado em 2004, Elisabeth Roudinesco[12] dialoga com a sede de uma ou várias das grandes interrogações que perpassam nossa época – as transformações na família ocidental, a fragilidade do Estado enquanto instituição, os sistemas de pensamento hegemônicos ou dominantes, a organização dos espaços e o controle da ordem e mostra a crescente insegurança e incerteza que ocupam lugares cada vez mais centrais nos modos de vida contemporâneos, quando o homem passou a ser sujeito de seu destino, de suas escolhas e conflitos.
Espaço público e a construção da identidade
Nessa perspectiva, as transformações da organização da vida atual, desempenharam o papel revelador de uma crise identitária particularmente aguda das sociedades ocidentais da era moderna, em suas relações de trabalho, familiar, cultura e espaço público. A modernidade se caracteriza, contudo, em desconstruir a solidez do Estado e o desmantelamento da ordem tradicional das outras instituições, implicando um permanente recomeço significativo existencial, social e histórico dos seres humanos:
O que se perdeu na era moderna não foi, naturalmente, a capacidade para a verdade ou a realidade ou a fé, nem a concomitante aceitação inevitável do testemunho dos sentidos e da razão, mas a certeza que antes as acompanhava” (ARENDT, 2015, p. 344).
A “desconstrução da família” e a revalorização da sua função paterna foram evocadas de forma unânime nos discursos das brasileiras muçulmanas. As transformações da família conjugal dita “nuclear” nesse mundo em mutação foram severamente criticadas e o “desejo de normatividade” (ROUDINESCO, 2003, p. 11), repousa na tentativa em organizar a desordem do mundo.
Quanto à família, pode-se distinguir três grandes períodos de uma história de evolução. Numa primeira fase, a família na Europa da Idade Média, serve acima de tudo para assegurar a transmissão de um patrimônio. Os casamentos arranjados entre os pais sem que a vida sexual e afetiva dos futuros esposos seja levada em conta. Numa segunda fase, a família “moderna” cujo modelo se impõe entre o final do século XVIII e meados do XX passa a ser fundada no amor romântico. Passa a existir a reciprocidade dos sentimentos e desejos carnais por intermédio do casamento. E a partir dos anos 1960, impõe-se na família “contemporânea” – ou “pós-moderna –, dois indivíduos em busca de relações íntimas ou realização sexual.
Nessa perspectiva, Arendt sublinha a distinção usada na Antiguidade Clássica e ainda na Idade Média entre as esferas privada e pública. O traço distintivo da esfera do lar, do privado (oikos) era que o fato de que nela, os homens viviam juntos para desempenharem as atividades relativas a suas necessidades e carências à manutenção da vida. Baseavam-se nas relações de parentesco como a phatria (irmandade) e a phyle (amizade). A tarefa do homem era considerada como evidente, para fornecer o sustento e o trabalho da mulher era sujeito à procriação e o cuidado e a manutenção da ordem doméstica. O público, ao contrário, era a zona do discurso, do uso da palavra e da persuasão, do aparecimento e da visibilidade e, por conseguinte da política: um espaço reconhecido de opinião e ação.
A tentativa do homem pela compreensão desses espaços público e privado no mundo moderno recai sobre a sacralidade da vida. A razão para a existência humana é encontrada pelas mulheres muçulmanas nos ditos e ensinamentos de Maomé fundamentais para a conduta das suas ações e o credo, na imortalidade da vida individual, o que contribui para liberar as inquietações naturais originadas pela desordem e insegurança da era contemporânea.
Finalmente, a realidade de uma economia de mercado cada vez mais devastadora de um Estado que tem se mostrado distante na garantia das condições necessárias para a segurança da dignidade humana. Família e religião aparecem como as únicas instâncias capazes de darem bases humanas para que os sujeitos possam fazer frente as mazelas provenientes da desordem social. As mulheres brasileiras muçulmanas encontraram na fé, na tradição[13] um estado de alma livre de tensão e desprazer, a maneira transcendental de ver a vida, o mundo e os objetos e a construção da ideia de paraíso e eternidade tornaram-se para elas a forma simbólica de extrair o máximo da felicidade num curto tempo de prazer imposto pela modernidade tardia ou pós modernidade.
Talvez o esforço dessas mulheres na convivência com o mundo pós-moderno esteja apontando para nós a construção de novos caminhos, da perspectiva de diálogos com à imposição contemporânea de normas e sistemas, ou simplesmente busquem responder à pergunta – sempre atual – feita pelo escritor francês Victor Hugo há quase dois séculos: “De que amanhã se trata?”
NOTAS AO TEXTO
[1] “Spectre toujours masqué qui nous suit côte à côte. / Et qu’on nome demain! / Oh! Demain, cést la grande chose! / De quoi demain sera-t-il fait?”, Victor Hugo, “Napoléon II”, Les chants du crépuscule (1835), Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t.1, 1964, p. 838 e 811. [Trad. livre: “Espectro sempre mascarado que nos segue lado a lado. / E que se chama amanhã! / Oh! Amanhã é o grande momento! / De que amanhã se trata?”] (ROUDINESCO, 2004, p.7).
[2] Derivado do latim genus, o termo “gênero” é utilizado habitualmente para designar uma categoria qualquer – classe, grupo ou família – apresentando os mesmos sinais de pertencimento. Em numerosos trabalhos contemporâneos, designa-se por “sexo” o que deriva do corpo sexuado (masculino ou feminino) e por “gênero” o que reporta à significação sexual do corpo na sociedade (masculinidade ou feminilidade) Cf. Joan Scott, “Gente: une catégorie utile d’analyse historique”, Les Cahiers du GRIF, 37-8, primavera 1988, p. 125-53 (ROUDINESCO, 2003, p. 115).
[3] A ideia de que a família é o âmbito primário das relações e, como tal, constitui as práticas relativas à maternidade, ao direito da criança à proteção convencional da esfera doméstica.
[4] Por natureza, no Islã os seres humanos nasceram todos muçulmanos e durante a Chaháda (Testemunho), dizendo: Testemunho que não há outra divindade além de Allah e Muhammad é o Mensageiro de Alá, ao fazer o reconhecimento o homem está voltando a sua origem como muçulmano.
[5] Ibid., p. 9.
[6] Ibid., 9.
[7] Muhammad é traduzido para o português como Maomé. (MAZLOUM, 2014, p. 3).
[8] Ibid., p. 29.
[9] Sunnah, ensinamentos e estilo de vida do Profeta (MAZLOUM, 2014, p. 111).
[10] Ibid., p.109.
[11] O objetivo do presente estudo foi compreender as motivações das mulheres brasileiras se converterem ao Islã, empregando o método qualitativo. Foram aplicadas entrevistas semidirigidas a doze mulheres e a dois Cheikhs da Mesquita Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil e Mesquita São Paulo.
[12] ROUDINESCO, Elisabeth. De quoi demain. Paris: Arthème Fayard e Galilée, 2001.
[13] Entende-se por “tradicionalistas” aqueles que seguem os fundamentos da religião (FERREIRA, 2009, p. 123).
Referências:
AL-SHEHA, Abdurrahman. A mensagem do Islã. Tradução Nibevah Barreiros. São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, Alsofara, 2014.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução: Roberto Raposo, posfácio de Adriano Correia. 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015.
ARMSTRONG, Karen. O Islã. Tradução: Anna Olga de Barros Barreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BRANT, Isadora. 2015. No dia do muçulmano, mulheres explicam como é seguir o Islã no Brasil, Folha de S. Paulo, São Paulo, 12/05/2015.
FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES MUÇULMANAS DO BRASIL. Dados Estatísticos de 2010 a 2015. São Paulo: FAMBRAS.
FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa. 2009. Teatralização do Sagrado Islâmico: a Palavra, a Voz e o Gesto. In: Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 29 (1): p. 95-125.
MAZLOUM, Cheikh Ahmad Osman. O profeta do Islã Muhammad. Tradução: Cheikh Ahmad Osman Mazloum. São Paulo: Publicação da Academia de Investigação e Ciências Islâmicas, 2014.
NASR, Dr. Helmi. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Brasil: Society of the revival of Islamic Heritage, 2014.
ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
ROUDINESCO, Elisabeth. De que Amanhã… Diálogo. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Bio fornecida pelo palestrante.
Angélica Maria Alves Vasconcelos
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Resumo: Apresenta-se neste artigo uma análise fenomenológica do capítulo titulado, “A lição de Siqueleto” da obra Terra sonâmbula (2007), do escritor Mia Couto. Nesta abordagem de crítica literária tem-se como objetivo o estudo da linguagem como a essência do ser, conforme a teoria de Martin Heidegger (1987) em Ser e tempo. O presente estudo aborda, ainda, o conceito de ficção e realidade dentro desta obra literária, utilizando as teorias de Antoine Compagnon (2006) em O demônio da teoria.
Palavras-chave: realidade, ilusão referencial, linguagem, existência, ser.
Resúmen: Este ensayo presenta un análisis fenomenológico del capítulo titulado “Lección de Siqueleto”, de la novela Terra sonâmbula (2007), publicada por el escritor Mia Couto. Este enfoque de la crítica literaria se centra en el estudio del lenguaje como la esencia del ser, según la teoría de Martin Heidegger (1987) en Ser y tiempo. El presente estudio también aborda el concepto de ficción y realidad en esta obra literaria, según las teorías desarrolladas por Antoine Compagnon en O demônio da teoría (2006).
Palabras-clave: realidad, ilusión referencial, lenguaje, existencia, ser.
Abstract: This paper presents a phenomenological analysis of the chapter titled “Siqueleto Lesson,” in the novel Terra sonâmbula (2007), by the Angolan writer Mia Couto. This piece of literary criticism has at its focus the study of language as the essence of being, according to Martin Heidegger’s book Ser e tempo (Being and Time, 1987). It approaches the concept of fiction and reality in the novel through the theory developed by Antoine Compagnon in his book Demônio da teoria (2006).
Keywords: reality, illusion, referential language, existence, being.
Minicurrículo: Angélica Maria Alves Vasconcelos é mestranda em Letras – Literatura e Crítica Literária, pela Instituição Pontifícia Universidade Católica de Goiás, especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira e licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás. Atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiás, Goiânia.
A ESSENCIALIZAÇÃO DO SER POR MEIO DA LINGUAGEM (O ESTUDO DO SER NO DISCURSO LITERÁRIO) – UMA PERSPECTIVA ENTRE REALIDADE E FICÇÃO, NO ROMANCE TERRA SONÂMBULA,
DE MIA COUTO
Angélica Maria Alves Vasconcelos
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Vivemos em um mundo em que a linguagem é focada como fator social, num processo dinâmico vital. Ela está em permanente construção, evolução, deslocamento e transgressão e se coloca como instrumento de identificação, de saber e de poder. É através dela que o ser impõe seu lugar no mundo. A linguagem eleva o homem. É a sua defesa e a sua magnitude. Ela passa por um processo de conhecimento, de humanização e converte o ser em fertilizador, em eloquência transgressora.
As linguagens transcendem e perpassam no tempo, querendo sempre dizer algo de novo a cada época. Sua significância sugere possibilidades para que os indivíduos façam sua busca de afirmação como ser da linguagem, singular e único. As linguagens não se excluem umas das outras, mas se interrompem de diversas maneiras, porque são pontos de vistas específicos sobre o mundo. Elas podem ser confrontadas, podem servir de complemento mútuo entre si, opõem-se umas às outras e se correspondem dialogicamente. Elas vivem, lutam e evoluem no plurilinguismo social.
O crítico literário Riffatterre (apud, COMPAGNON, 2006, p.110) diz que a literatura não tem referência com a realidade e sim com a ilusão referencial, pois a significância está no silêncio do texto. O leitor, com o seu conhecimento idiossincrático, ativado por meio da memória, chega à compreensão.
O romance Terra sonâmbula foi publicado em 1992, tendo como pano de fundo o período da guerra civil em Moçambique, cujo término se deu naquele ano. Moçambique viveu longo período em guerras desde que começou a luta pela sua independência de Portugal, em 1965. Depois de dez anos de guerra contra Portugal, iniciou-se o conflito interno, que durou mais 16 anos. Foram, portanto, mais de 25 anos de luta até se conseguir a paz.
Terra sonâmbula foi considerado um dos melhores romances africanos do século XX. Nesta obra, o autor (que vivenciou o período) mostra, por seus personagens, traços da nação moçambicana em busca de sua unidade.
Assim Couto (2007, p. 9) inicia o livro, descrevendo a paisagem moçambicana:
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Em cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão. Em resignada aprendizagem da morte.
Muidinga (o miúdo) e Tuahir (o velho) são personagens cercados por este cenário, pela estrada morta, pelas cores sujas, em que caminham juntos, sem destino, “em busca do adiante”.
Terra sonâmbula apresenta um linguajar que não é nem brasileiro nem de Portugal. É como se o autor tivesse achado uma nova forma na língua portuguesa local uma forma de mostrar a alma do povo moçambicano, um sentimento que mistura a agressividade da guerra à passividade do sono e que conta duas histórias simultâneas, entremeadas por várias outras.
No primeiro plano se tem a história de Muidinga, o jovem que acompanha o velho Tuahir, fugindo da guerra, até chegarem ao machimbombo completamente queimado, onde eles resolvem se abrigar.
Concomitantemente surge a segunda linha narrativa, após Muindinga encontrar uns cadernos na mala que está ao lado de um homem morto. Esses cadernos encontrados contam a história de Kindzu, que coincidentemente complementam a história de Muidinga. Kindzu, em seus cadernos, narra sua trajetória desde a partida de sua aldeia, após a morte do pai, em plena guerra civil: “qualquer que fosse minha escolha uma coisa era certa: eu tinha que sair dali, aquele mundo já me estava matando” (COUTO, 2007, p. 29).
Assim como Muidinga, também Kindzu foge da guerra e tem como objetivo tornar-se um naparama: espécie de guerreiro tribal vestido de penas, que luta contra a injustiça. Parte para uma viagem, sem destino final, sendo diversas vezes perseguido e atormentado pelo espírito e pelas lembranças do pai morto.
Tuahir e Muidinga são frutos de seu país em guerra, seguem sem rumo certo, desorientados, situação um tanto semelhante com Moçambique, durante a guerra civil.
Terra sonâmbula nos permite imaginar a situação na qual se encontra o país: os relatos do velho Tuahir, de Muidinga, Kindzu e Siqueleto mostram a vida num local tomado pelos horrores da guerra, onde sonhar se torna um meio de fuga da cruel realidade. O livro denuncia a pobreza, o abandono do povo, numa terra sem lei, os efeitos da guerra:
Gentes imensas se concentram na praia como se fossem destroços trazidos pelas ondas. A verdade era outra: tinham vindo do interior, das terras onde os matadores tinham proclamado seu reino. Consoante as pobres gentes fugiam também os bandidos vinham em seu rastro como hienas perseguindo agonizantes gazelas. E agora aqueles deslocados se campeavam por ali sem terra para produzirem a mínima comida (COUTO, 2007, p. 55).
Algo que chama a atenção em Muidinga é sua construção como personagem. Ele não recorda de seu passado. Salvo da morte em um campo de refugiados por Tuahir, só se lembra do que ocorreu a partir daí.
O leitor depara, ao longo do romance, com “acontecimentos” fantásticos, surreais, sobrenaturais, que deixam transparecer a cultura mística do povo:
Numa das seguintes noites, escuras de perder o próprio nariz, tive, quem sabe, um sonho. O mar parava, imovente. As ondas se aplanavam, seu rugido emudecia. Havia uma calma dessas que precederam o nascer do mundo. Então, súbito e inesperado, das profundezas emergiram os afogados. Vinham ao de cimo, borbulhavam em festa. Entre eles estava meu pai, idoso como não o tínhamos deixado. Chamou-me saudou-me sem nenhum afeto (COUTO, 2007, p. 43).
O livro traz uma linguagem poética que caracteriza o estilo de Mia Couto, em que há um cunho social, embora o escritor não use sua obra como panfleto político. Apenas descreve seus personagens de forma coerente ao mundo em que vivem. E ainda assim, oferece ao leitor frases belíssimas, como esta do padre a Farida: “O mundo não tem nenhuma utilidade, disse ele. E conclui: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos mais pobres” (COUTO, 2007, p. 77).
No romance percebe-se um dualismo sonho-realidade, que acompanha a obra como um todo. Em Terra sonâmbula encontram-se trechos que revelam verdades humanas: “A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco” (COUTO, 2007, p. 121).
Mia Couto descreve cuidadosamente cada sofrimento, cada dificuldade e cada momento vivido por seus personagens de forma encantadora, poética. Logo o leitor se vê obrigado a mergulhar junto nessa terra de sonhos e, assim, acaba também fantasiando seus personagens.
O real é a ilusão referencial literária, baseado na relação linguística que estabelece relação entre um signo e outro signo, um texto e outro texto. A ilusão referencial resulta de uma manipulação de signos que a convenção realista camufla, oculta o arbitrário do código e faz crer na naturalização do signo. Barthes afirmava que:
No mais realista dos romances, o referente não tem “realidade” que se imagine a desordem provocada pela mais comportada das narrações, se suas descrições fossem tomadas ao pé da letra, convertidas em programas de operações, e, muito simplesmente, executadas. Em suma (…), o que se chama de “real” (na teoria do texto realista) não é nunca senão um código de representação (de significação) não é nunca um código de execução (COMPAGNOM, 2006, p. 107).
A única maneira aceitável de colocar a questão das relações entre literatura e a realidade é formulá-la em termos de ilusão referencial, ou segundo a célebre expressão de Barthes, como “efeito do real”. A questão da representação volta-se então para o verossímil como convenção ou código partilhado pelo autor e pelo leitor.
A referência não tem realidade: o que se chama de real não é senão um código. A finalidade da “mimesis” é de produzir uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real. Barthes (apud COMPAGNON, 2006, p. 110) diz: “O que existe por trás do papel não é o real, o referente, é a referência, a sutil imensidão das escrituras”.
Assim se manifesta uma nova teoria, a elaboração da sintaxe do texto literário no momento em que uma semântica deveria ser trazida a luz, a intertextualidade, que se apresenta como uma maneira de abrir o texto.
Kristeva (apud COMPAGNON, 2006, p. 111) afirma: “Todo texto se constrói como um mosaico de citações e transformações de um outro texto”. Bakhtin (apud COMPAGNON, 2006, p. 111) no que diz respeito à intertextualidade, designa o diálogo entre os textos no sentido amplo: “é o conjunto social considerado como um conjunto textual”.
Riffaterre reconhece que a única referência que importa nos textos literários é que falam de si mesmos e de outros textos. O intertexto é a percepção, pelo leitor, de relações entre uma obra e outra que a precederam ou se lhe seguram, sendo, um mecanismo para a leitura literária. Ela é a própria literariedade. A referencialidade se dá no texto e no leitor.
Pode-se descrever um fato histórico, preenchendo-o com argumentos, numa relação poética, a partir do momento em que expõe linguisticamente, a constituição de uma determinada história. O autor tenta estabelecer esse caráter poético do trabalho histórico e especificar o elemento figurativo seja ele de metonímia, sinédoque, ironia ou metáfora.
Independente de uma história contar fatos reais, que ocorreram historicamente, a narração desses fatos nunca conseguirá ser exatamente a expressão da realidade do que aconteceu, pois ela é escrita pela ótica do autor, que seleciona pela sua opinião ou pela intencionalidade da obra: “A literatura é uma seriedade prazerosa, isto é, não é a seriedade de um dever ser feito ou de uma lição a ser apreendida, mas uma seriedade estética, uma seriedade de percepção” (WARREN; WELLEK, 1962, p. 26).
Na obra Terra sonâmbula, vários personagens são diluídos, desessencializados, ou seja, há uma desrealização do ser. Eles estão preocupados somente com a sobrevivência e em como se manter vivos. Tudo isso faz parte da cotidianidade e da mundanidade desses personagens, que aparecem na medida em que o seu discurso se intercala na linguagem da obra, simultaneamente com a trajetória de suas ações.
Empregamos aqui, como suporte teórico-filosófico, as ideias de Martin Heidegger, em sua obra Ser e tempo (1988), a qual tem como objetivo investigar o sentido do Ser, começando pela análise do ser que nós próprios somos. Criando uma terminologia própria, Heidegger denominou o “modo de ser” do ser humano, nossa existência, com a palavra DASEIN, cujo sentido é ser-aí, estar-aí. Analisando a vida humana, o filósofo descreveu três etapas que marcam a existência inautêntica do ser:
1 – Fato da existência – o ser humano é lançado ao mundo, sem saber por quê. Ao despertar para a consciência da vida, já está aí, sem ter pedido para nascer;
2 – Desenvolvimento da existência – o ser humano estabelece relações com o mundo. Para existir, projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move uma busca permanente para realizar aquilo que ainda não é.
3 – Destruição do eu – tentando realizar seu projeto, o ser humano sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. O seu eu se dissolve na cotidianidade. Em vez de se tornar o si-mesmo, torna-se o que os outros são.
A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão profunda, isto é, esquecer-se do ser e retornar ao cotidiano, ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.
Surge então um dos temas-chave de Heidegger: o homem pode transcender, o que significa afirmar que ele está capacitado a atribuir um sentido ao ser (CHAUI, in Heidegger, 1996, p. 10).
Distingue Heidegger duas espécies de linguagem, uma original e outra derivada.
A linguagem original exprime diretamente o ser, mostra o ser, revela-o e o traz para a luz. Ela é a fonte primordial do aparecer das coisas. O falar original está na base de todo movimento do universo: ela é a relação de todas as coisas.
O filósofo atribui à linguagem original uma densidade ontológica fundamental: a palavra é aquilo que sustenta o ser em todas as coisas.
A linguagem derivada é a linguagem humana, a qual consta de duas fases, uma da resposta e outra da proclamação. Os mortais falam enquanto correspondem à linguagem, que pode ser de dois modos: percebendo e respondendo. Toda palavra pronunciada é sempre resposta; faz com que o ser humano entre numa “servidão libertadora”, na qual o homem é encarregado de transferir o dizer original que não tem som, para o som da palavra.
Heidegger refere-se à linguagem como forma essencial para cultivar o homem junto à natureza, se posicionar de maneira questionadora e ascender, neste mundo em que o consumismo é prioridade. É preciso ter um diálogo com o todo, ter a sensibilidade para se aproximar da poesia da linguagem. A ciência e o cálculo manipulam e objetam o ser, gerando um descompasso, um desequilíbrio, impossibilitando-o de pensar, refletir e se questionar, não dando a oportunidade ao ser de se transcender em sua existência.
A teoria da linguagem de Heidegger consiste numa desconstrução da ideia de Sujeito, e, portanto, de subjetividade.
A linguagem eleva o homem à sua defesa e à sua magnitude. Ela converte o ser em fertilizador, em eloquência transgressora e revela a supremacia do direito ao humano pela libertação da palavra.
Podemos perceber na análise abaixo o ser humano (Dasein) lançado ao mundo, sem saber por que e ao despertar para a consciência da vida, já esta aí sem ter pedido para nascer. Ele estabelece relações com o mundo (ambiente natural e social historicamente situado). Para existir o Dasein projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move-se em busca permanente para realizar aquilo que ainda não é. Mas mostrará em sua essência. Em outras palavras, existir é construir um projeto.
Vamos tomar um capítulo de Terra sonâmbula, cujo título é “A lição de Siqueleto, para mostrar seus personagens e, pela linguagem, analisar sua trajetória.
Tuahir é um contador de histórias que não sabe ler, e se baseia na tradição oral e em suas experiências cotidianas e espontâneas. Ele pode ajudar Muidinga com seus ensinamentos de vida e restaurar a memória perdida deste. Metonimicamente, esse idoso representa a sociedade primitiva, sem acesso à escrita, mas enriquecido pelos conhecimentos práticos orais recebidos das gerações anteriores. Parte importante dessa cultura, a oratura mítica da ancestralidade, a linguagem de Tuahir, será o elo entre o passado e o presente, entre Muidinga e Siqueleto.
Um velho que se achava sem esperanças, que não via sentido na vida, agora passa a sonhar a partir de seu encontro com Muidinga e os cadernos de Kindzu. Temos o sonho mostrado em uma de suas falas:
Que a nossa terra ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos como nos tempos, roendo caminhos sem nunca mais termos medo.
– Verdade isso? Pergunta o desdentado.
Longe se houve tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde, mas o aldeião já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos” (COUTO, 2007, p. 67).
Tuahir é revigorado no momento que ele introduz sua linguagem ancestral para auxiliar Muidinga a manter contato com o velho Siqueleto, estabelecendo uma ponte entre eles.
Em contraponto temos Muidinga, um menino que fora encontrado por Tuahir em um campo de refugiados, e que, prestes a ser enterrado, é salvo pelo velho. Perde a memória, não se lembra de onde veio e quem é, o que lhe causa mais sofrimento.
O menino recebe os ensinamentos de Tuahir, lê os cadernos de Kindzu, vai recobrando a memória coletiva e descobre que conhece também a escrita. Quando encontra uma mala com cadernos o menino descobre que podia lê-los, o que lhe abre enormes possibilidades.
Tuahir, por seu lado, também acaba recebendo influência dos escritos de Kindzu que vão sendo lidos por Muidinga, em voz alta.
Siqueleto, que aprisionou Muidinga e Tuahir em uma rede, não falava português, comunicando-se apenas na sua língua ancestral. Tuahir traduzia o que Siqueleto falava. Muidinga questiona o velho Siqueleto:
O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto responde o velho: Não é assim a maneira de nossa raça. Antigamente quem chegava era bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos (COUTO, 2007, p. 67).
O velho e o menino, ainda prisioneiros de Siqueleto, “fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumassem o tempo, como se não houvesse rede impedindo-os de sair” (COUTO, 2007, p. 68). Quando, por um buraco da rede, Muidinga consegue retirar um braço, apanha um pau e escreve no chão a palavra “SIQUELETO”, e este observa os escritos: “Que desenhos são esses? – pergunta Siqueleto. – É o teu nome, responde Tuahir. – Esse é o meu nome?” (COUTO, 2007, p. 69).
Como se fosse um ritual sobre algo importante, Siqueleto roda limpando rabiscos em volta da palavra, depois se ajoelha como um ato de agradecimento e sorri para o chão como manifestação de encantamento e contemplação. Logo em seguida cantarola uma canção. Parece interiorizar-se para encontrar o ser que estava em sono profundo. E que, de repente, desperta e compreende que o silêncio da palavra escrita no chão mostra-lhe um possível processo de produção de sentido. Silenciado entende uma dimensão do não dito.
Dessa forma vale dizer que a palavra o remeteu e o transportou numa relação fundamental com o indizível, este recheado de significâncias. Pois o vazio é a ausência de conhecimento. Teve o seu primeiro contato com o desconhecido, aquilo que é sugerido por meio da palavra.
Como não tinha para quem passar suas origens e histórias (era o último habitante da aldeia), Siqueleto consegue enxergar a possibilidade de não ser esquecido. Imediatamente ele busca uma faca e corta a rede libertando os prisioneiros e estes o acompanham: “Frente a uma grande árvore Siqueleto ordena algo que o jovem não entende. – Está mandar que escrevas o nome dele” (COUTO, 2007, p. 67).
No tronco da árvore Muidinga grava, letra por letra, o nome do último habitante da aldeia: SIQUELETO. “Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore” (COUTO, 2007, p. 69).
A partir do nome gravado no sangue da árvore, Siqueleto realiza-se como ser independente, Assim percebemos que o ser só pode ser determinado e deslocado de seu espaço exterior para o interior a partir do seu sentido com ele mesmo, ou seja, um ser autônomo, independente e indefinível: “Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sente o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando até se tornar do tamanho de uma semente” (COUTO, 2007, p. 68).
Assim, sua transformação em semente sugere a perenização do ser pela linguagem.
O que nos interessa é que a palavra poética e filosófica em Terra sonâmbula mostra que a linguagem é distinção fundamental entre o homem referencial e desreferencial, sendo a manifestação do ser do homem na busca de sua existência e identidade, numa perspectiva autêntica, representando a transcendência do personagem, por meio da desalienação diante de si, do outro e para o mundo.
Heidegger (1988, p. 176) nos ensina que “a linguagem é a morada do ser”. É através dela que o ser se manifesta como sentido por meio dele mesmo e com o outro. Ela é o lugar onde o ser acontece, sobretudo porque se trata de um dizer, um determinar, um mostrar, um deixar aparecer, um ver, um sentir. É por ela que se dá a revelação do sentido do ser.
A preservação das espécies se dá por meio do sêmen, do sangue e sempre deixará os seus descendentes para dar continuidade à vida. No caso do homem, além da preservação da espécie como todos os animais, temos a preservação do ser. Esta preservação se dá por meio da linguagem, dos discursos tanto falados como escritos, uma vez que o indivíduo sem linguagem perde a capacidade humana, de percepção do real e da essência verdadeira das coisas.
CHAUÍ, Marilena (1996). Introdução. In: HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Nova Cultural.
COMPAGNON, Antoine (2006). O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Editora UFMG.
COUTO, Mia (2007). Terra sonâmbula. São Paulo: Ed. Companhia das Letras.
HEIDEGGER, Martin (1987). Ser e tempo. Petrópolis: Vozes.
WARREM, Austin; WELLEK, René (1962). Teoria da Literatura. São Paulo: Europa América.
Bio fornecida pelo palestrante.
Angélica Maria Alves Vasconcelos
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Resumo: Com base em uma análise homológica, apresentamos as similaridades de raízes e de estruturas entre a pintura de Juan Miró O Galo e a poesia de Manuel Bandeira O Cacto, e mostramos que a arte literária e a arte pictórica se correlacionam, na interação de convergências, demonstrando essa proximidade entre ambas. Neste trabalho nos fundamentamos no estudo e pesquisa do crítico Agnaldo José Gonçalves em suas obras – Laokoon revisitado (1994) e Transição e permanência Miró/Cabral: da tela ao texto (1989) – além de artigos de outros críticos.
Palavras-chave: similaridades – raízes – homologia – pintura – poesia.
Resúmen: Basándonos en un análisis homológica, presentaremos las similitudes de las raíces y estructuras entre la pintura de Juan Miró, El Gallo (Le Coq, 1940) y la poesía de Manuel Bandeira O Cacto, y mostraremos que el arte literario es correlato al arte pictórico, en la interacción de convergencias, lo que demuestra la cercanía entre ambas. En este trabajo es esencial señalar la contribución fundamental del estudio y de la investigación del crítico Aguinaldo José Gonçalves en sus obras Laokoon Revisitado (1994) y Transição e permanência: Miró/Cabral: da tela ao texto (1989) –así como artículos de otros críticos,
Palabras-clave: similitudes – raíces – homología – pintura – poesía.
Abstract: Based on a homology analysis, in this article we will present the similarities of roots and structures existing between the picture O Galo (Le Coq, 1940), by Juan Miró and the poem O Cacto, by Manuel Bandeira, and demonstrate that literary and pictorial arts are correlated, in an interaction of convergences, due to the closeness that lies between them. We consider essential here to point out the fundamental contribution of the studies and research published by the critic Aguinaldo José Gonçalves in his books Laokoon Revisitado (1994) and Transição e permanência Miró/Cabral: da tela ao texto (1989) – as well as articles from other critics.
Keywords: similarities – roots – homology – picture – poetry.
Minicurrículo: Angélica Maria Alves Vasconcelos é mestranda em Letras, Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira e licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás. Atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiânia, Goiás.
AS ISOTOPIAS DE CONVERGÊNCIAS ENTRE O POEMA O CACTO, DE MANUEL BANDEIRA, E O QUADRO O GALO, DE JUAN MIRÓ, NUMA ANÁLISE HOMOLÓGICA –
UM ESTUDO SEMIÓTICO
Angélica Maria Alves Vasconcelos
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
A imobilidade do pensamento, segundo Proust, capaz de estabilizar todas as coisas que nos cercam, sintetiza o que começamos a considerar. A estabilidade, tantas vezes sugerida, mas não evidenciada em nossos pensamentos, somente vem à tona a partir da instância em que passamos a obedecer a determinados procedimentos distintos, que se inter-relacionam.
Estes procedimentos são responsáveis pela construção da imagem que singulariza o objeto conhecido e podem se dar por relações de continuidade, por similaridade ou pela sobreposição de ambas. É a partir desses procedimentos que podemos falar de relações analógicas, homológicas e associativas.
Para o estudo das relações homológicas entre sistemas artísticos distintos deve-se explicitar: “É perigoso estabelecer simples analogias e também recusar a individualizar certas relações por uma injustificada fobia às analogias, própria dos espíritos simples” (Prof. Dr. Aguinaldo Gonçalves). O problema consiste em reduzir os diversos fenômenos a modelos estruturais mais rigorosos, para neles individualizar não mais analogias, mas homologias de estrutura, ou seja, similares estruturais.
Visando a relação entre obras artísticas distintas, a homologia se integra perfeitamente a qualquer princípio metodológico, que se proponha a estudar as aproximações analógicas.
Buscar as equivalências homológicas entre sistemas distintos é verificar possíveis correspondências entre eles, e, também, verificar as diferenças de operacionalização de recursos oferecidos por cada meio expressivo. Essas possibilidades estabelecem analogias fecundas que conduzem à homologia de estrutura.
A poesia e a pintura modernas são expressões objetivas, especificas e distintas e tratam da questão do movimento abstrato. A primeira é formada pelos signos artificiais e a segunda pelos signos naturais. Assim se comunicam por meio de suas línguas diferenciadas, num entrecruzar-se de produções de sentidos.
Ao ler um poema (e assim nos remete ao que Proust se refere como imobilidade de pensamento), surge na mente uma forma que nem sempre é definida. E quanto menos definido é este desenho mental, mais enriquecedora será a construção de uma figura que expresse um sentido.
É nessa construção dos sentidos, que a mente sugere ao receptor, que está a questão dos limites desses sistemas de signos.
O signo da arte é superior devido ser “material” e, ainda, confere uma verdadeira unidade, no sentido inteiramente espiritual, aproximando-o da essência. E o que o eleva é exatamente essa capacidade de unificar todos os sistemas, independente de seus meios expressivos.
Vale destacar que alguns críticos, entre eles Agnaldo José Gonçalves, Jean Starobinski, Paul Valéry e Northrop Frye, compartilham da idéia da convergência de artes distintas.
Jean Starobinski faz interpretação das relações humanas por meio da obra de arte e toma a pintura como objeto de leitura das relações culturais, em que a imagem visual se conjuga à imagem verbal. Mostra a intensidade da linguagem visual, como fonte de leitura e de interpretação da realidade.
Paul Valéry, pensador semiológico, dispõe das duas formas de expressão e aprendeu, com perspicácia, os fundamentos comuns que conduzem a produção artística de sentidos, extraindo o essencial da arte, e, ainda, mostrando a correspondência indissociável entre forma e conteúdo.
Northrop Frye, no seu ensaio Critica ética, se refere a duas direções básicas que movem nossa atenção no ato da leitura do signo verbal: 1- movimento centrífugo, que é o externo da leitura, cujo signo nos reporta às coisas que significam; 2 – movimento centrípeto, que é o interno, ou seja, dos signos imateriais.
Esse crítico ainda se refere ao princípio de retorno, fundamental a todas as obras de arte: ritmo, quando se desenvolve no tempo e desenho, quando se distribui no espaço.
Todas as artes possuem um aspecto temporal e um espacial. Assim, as obras literárias se movem no tempo, como na música, e se estendem em imagens, como na pintura.
Essa relação tem como base os sentidos e as diferentes formas de expressão, como a continuidade temporal e a simultaneidade espacial, conjugando-se por procedimentos estéticos.
A poesia avançou para as modalidades espaciais devido ao advento do verso livre, que passou a ter uma esfera composicional, resultante dos grandes avanços da modernidade.
As estratégias de motivação do signo se expandiram para as suas relações discursivas. Já não é possível imaginar uma leitura de um poema do nosso tempo, sem adentrarmos em sua estrutura composicional, sua distribuição no espaço, sua dimensão gráfica, bem como as desestruturações de palavras, o universo sonoro, a materialidade do discurso poético.
Dessa forma, os signos do poema são responsáveis por efeitos de sentidos e também de construções de imagens em nossa mente, que jamais seriam conseguidos se fossem mantidos apenas na esfera da temporalidade.
A poesia moderna não dispensa o olho do leitor-observador, exigindo dele que olhe sua organização gráfica, seu desenho, na busca constante de uma iconização ou de uma espécie de diagramação mental, indo de uma sintaxe verbal para a não verbal.
A linguagem da pintura se distribui no espaço bidimensional. Apresenta ao longo da historia peculiaridades conflitantes, para ocupar na modernidade seu lugar próprio no sistema das artes.
A pintura renascentista precisou imitar, por muito tempo, recursos próprios da escultura, para poder ser recebida e respeitada.
A batalha estética da pintura moderna possui características muito próprias, que devem ser consideradas, sem precisar submeter-se aos ditames da ilusão de terceira dimensão. A mais decisiva foi manter sua natureza analógico-espacial e evoluir para as relações temporais, distanciando-se da fotografia.
A pintura foi se impondo como uma forma de manifestação capaz de trazer, na sua esfera de sentidos, a temporalidade. É com a arte moderna, descompromissada com a normatização mimética, que os filamentos do tempo vão se plasmar de modo mais intenso, mais eficaz, pela própria evolução dessa forma de linguagem.
O espectador não percorre de uma só vez toda obra. O olho se constrói, de modo que a cavidade ocular se sustente de trechos sucessivos. Para ajustar-se a um novo fragmento, deve abandonar o fragmento anterior. Assim a obra plástica apresenta o inconvenientemente de não se saber por onde começar, porém o receptor possui a vantagem de poder variar, de modo abundante, a ordem de leitura e tomar consciência da multiplicidade de suas significações.
A pintura e a poesia são como um elemento diagramador do criador. Assim, “uma palavra ou figura resume todo o bloco verbal: movimento”. É pelo movimento que se tem, em cada palavra ou objeto, o resgate no trabalho da arte: o tempo espacializado e o espaço temporalizado.
A linguagem da pintura é a linguagem do olhar, ou seja, o conceito que se tem sobre algo advém de uma manifestação espacial, icônica, numa estrutura verbal ou pictórica. Dessa forma a pintura não existiria como forma de linguagem se não se fizesse linguagem na mente do observador, sendo esta verbal.
É nesse processo que a pintura e a poesia se movem, sendo um movimento circular, que se verte para figuras metafóricas. Estas são questionadas e vivenciadas, levando à produção de sentidos.
Quadro: O Galo, de Joan Miró
Quando se olha para o quadro O Galo de Joan Miró, o olhar do receptor circula o detalhe de cada objeto da tela verificando cada cor, cada traço, linha, forma, para depois olhar o todo.
Dessa forma a metonímia, figura de linguagem que aparece no quadro em questão, se refere às partes compostas na tela, como por exemplo: o sol vermelho, o chão, o céu, o bico aberto, as garras, a cauda sempre afiadas, para depois se olhar um galo todo desreferencializado e deformado. Observa-se a desfiguratização do objeto, que mais aparece no tipo de representação do galo na pintura. Seria uma emergência das experiências ligadas ao modo como os elementos e as partes estão dispersos, com o propósito de interagir entre si para construir o todo.
Dentro da gramática da pintura clássica mostra-se a exuberância técnica da pintura, a imagem da perfeição, da sedução, da beleza, da automatização, da superficialidade, da familiaridade, do habito caracterizado pelo estatismo espacial do olhar, apenas para o centro, para o todo. No galo multicolorido de Miró, numa transfiguração do real, tem-se o efeito de superar o óbvio, trazendo o inédito, que surpreende e espanta. O pintor é guiado pelas forças psicológicas, pois ele busca através de seu ato criador os recursos fundamentais: a anormalidade e a incompreensibilidade, por meio do esquecimento e da inocência.
Miró busca obter a sensação de um galo vivo, ousado, singular, inédito, luminoso, para que em cada espaço do quadro prevaleça um reaprender, um recomeçar, o vigor original.
Um bico aberto, que também sugestiona um sorriso, asas pequenas, um olhar que pode ser para frente, para cima, para o lado, tal qual é o olhar do receptor que observa o galo, não o todo, mas cada parte, cada espaço ou seja, em cada momento um lugar, um objeto, um fragmento, para depois observar o galo extravagante, mas imponente, vivo e atrativo.
Sugere, para quem o olha, um novo cantar, novas perspectivas, novos paradigmas para esta nova proposta de arte.
O Galo de Miró é conduzido, na pintura, através de metáfora que se constrói a partir de que cada enunciação que se apresenta. A medida que o galo é transferido do ambiente renascentista para o moderno, representações se sobrepõem, construindo um agrupamento de transferências entre domínio diferentes.
Estamos falando das metáforas. O galo é preso e emoldurado na pintura renascentista. È aprisionado pela rigorosa lei do ritmo, conduzindo um olhar instantaneamente a um ponto ideal da tela e às três dimensões, à ilusão de profundidade. A metáfora impregnada naquela arte contempla a harmonia, o equilíbrio e a proporção, proposta para ver o que é visível, sem oportunidade de novos caminhos, sufocando o ato criador.
A arte passa da composição do tradicional, das limitações, das convenções, para a arte que está além de toda determinação. Não numa positividade gloriosa, mas na incessante negação de toda positividade, renascendo para um novo plano em que o lado sombrio, deformante, estranho da arte, também pode ser belo, magnífico e reluzente.
Miró pintou Le Coq em Verengelli-sur Mer, uma aldeia na costa da Normandia (França), onde ele se refugiou depois de fugir da guerra civil Espanhola (1936-1939) onde permaneceu até 1940.
O galo é um dos símbolos mais conhecidos na França. Ele representa a luz e a inteligência, pois sabe a hora de avisar, gritar que o dia chegou sem nunca falhar, sendo uma anunciação da chegada dos fios de sol adentrando a aurora. As nações celtas consideravam esta ave como pássaro da manhã sendo sagrada. Tornou-se símbolo da Gália, região que corresponde à parte da Itália e da França. A origem da palavra Gália, segundo alguns autores, seria “gallus”, galo, em latim. Foram encontradas estátuas e esculturas gravadas com a figura do animal nesta região.
O galo também está relacionado ao simbolismo da cor vermelha, que remete a uma significação entre as trevas e a luminosidade, quando ambas se hibridizam no intuito de sempre criar uma transposição do dia e da noite. Isso mostra a metamorfose incompreensível da arte, que pode se dar a partir da cor negra (noite) para o branco ( dia), florescendo e se abrindo para uma nova proposta, um novo belo: grotesco, absurdo, sombrio e deformado como Le Coq.
Este signo, o galo, na tela de Miró, cria imagens de significância na mente do observador, que nos sugere que a arte constrói uma manhã liberta, uma fusão em que a obra plástica nunca se deforma, pois ela revela ser singular, única, infinita e transcendental, pois capta os matizes sutis, inefáveis e apreende as ressonâncias múltiplas e complexas aparências da vida moderna.
O pintor consegue deslocar o objeto para outro ambiente, ou seja, ele desintegra a noção de unidade da tela, não há mais uma subordinação de elementos a um ponto central, organizador e dominante. Em sua pintura tudo se propõe simultaneamente importante, exigindo do espectador uma série de observações sucessivas, um olhar que deve deter a sua atenção em cada setor do quadro; um ambiente que lhe dê liberdade de expressão, que concebe a fantasia, como uma elaboração guiada pelo intelecto, criando uma nova linguagem, de sentido obscuro.
Dessa forma, Miró multiplica quadros dentro de um quadro e obriga o espectador a uma série de atos instantâneos e a uma contemplação descontínua. Ele liberta a pintura tanto de sua moldura quanto de sua paisagem, através de uma estrutura fragmentada e serial, livre de toda predeterminação ou qualquer previsão.
Sua pintura exige um discorrer da atenção sobre a superfície, pois não há mais uma harmonia, uma solução, permitindo uma única visão do quadro. O espectador agora precisa percorrer o olhar por cada região da tela e deter-se no movimento de sua visão, uma ação temporal.
Introduziu um novo modo de fazer pintura tendo como foco a desobjetivação do objeto, no intuito de desorientar, dissolver e gozar da liberdade de misturar todas as imagens, através do absurdo que ocupa essa nova arte.
Do galo que transita na memória da cultura ao galo que o pintor e criador não se cansa de ressignificar, a metáfora ganha estabilidade. O movimento de deslocar o galo da pintura renascentista para a pintura moderna, é o que marca a continuidade dessa figura de linguagem.
Nesse sentido, objetos, temas e idéias, aos serem deslocados de um ambiente para outro ambiente, cruzam e anunciam significações diversas, via metáforas e metonímias, que atestam a mobilidade memorial da pintura. Essa memória sempre móvel se atualiza a medida que cria inferências entre seus materiais, sendo uma forma de integrar uma proposição histórica inventiva para esta arte.
A parte baixa da cabeça do galo sugestiona um leve sorriso, sendo também uma disforia, pois remete um tom sarcástico, irônico e grotesco, que, na verdade é um estranhamento, uma forma transfigurada, longe da inteligência padronizada.
A língua, as unhas, a crista, a cauda do galo se apresentam como garras extremamente afiadas, parecendo evocar forças intensas, no intuito de mostrar um outro lado da criação ainda não percebido.
É sabido, ainda, que naqueles tempos de extremo conflito em terras espanholas, Miró engajou-se na luta pelo restabelecimento do regime republicano na Espanha. Juntou-se, então, a outros artistas que compuseram obras contra o fascismo do General Franco.
As cores empregadas na tela, embora de tonalidades intensas, são poucas, mas suficientes para tornar a pintura radiante: o amarelo vibrante do chão faz uma junção com o azul que remete ao céu, proporcionando um equilíbrio. O preto perde sua função tradicional de representação de sombra e proporciona à tela um contraponto e um contorno às cores vibrantes delimitando as possíveis formas extravagantes e absurdas.
Há uma sintonia entre o vermelho e o verde provocando uma sensação de luminosidade ardente, um vigor que salta aos olhos do receptor, um movimento interno na obra de arte.
É nesse processo que a pintura e a poesia se movem, sendo um movimento circular que se verte para figuras metafóricas e metonímicas. Estas são questionadas e vivenciadas, levando à produção de sentidos.
A pintura também busca a desautomatização e a desconstrução do objeto artístico para atingir sua transcriação. Esta se baseia de um elemento mimético para um elemento não mimético, sendo um transfigurador do real. Isso reforça as relações de isotopias nas construções de sentidos, em um processo de desreferencialização do objeto, na direção centrípeta, explicitando as nuances de euforia e disforia, como transmutação e transubstancialização da arte.
O Cacto
Manuel Bandeira
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua.
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:
– Era belo, áspero, intratável.
A figura de Bandeira também merece destaque, dado seu papel conciliador entre a tradição poética em língua portuguesa e o trabalho de inovação das formas de escrita. Para o poeta pernambucano, a modernização das formas poéticas brasileiras não poderia se dar pelo repúdio puro e simples da tradição, teria que primeiro conhecê-las. Sua concepção poética jamais proporia uma simples substituição de um conjunto de dogmas por outro. Seu repertório de recursos poéticos deveria pautar-se pela ampliação de seu espectro de possibilidades, viessem eles da tradição, do cotidiano ou de outras artes, como a pintura.
Bandeira é um dos autores de mais difícil classificação dentro do modernismo literário em língua portuguesa: se não foi expressionista, sabe incorporar em seus versos poéticos o grotesco e a linguagem cotidiana das ruas.
Outro destaque que deve ser reservado a Bandeira é a parte significativa de sua obra em prosa, seja como critico de arte propriamente dito, seja escrevendo crônicas jornalísticas com temas ligados a pintura, a escultura ou a estética plástica em geral. A música lhe ensinou a bemolização das alterações vocálicas e afinou seu ouvido para o uso das rimas toantes. As artes visuais serviram como fonte de recursos que, transpostos da linguagem visual para verbal, ajudaram a compor seu múltiplo repertório poético.
Tentaremos mostrar os pontos convergentes entre o poema de Bandeira O Cacto (1925) e a tela de Miró O Galo (1940), já mostrado neste trabalho, com o intuito de comprovar que tanto na poesia como na pintura há o absurdo, o insólito, o obscuro, a magia da linguagem e o deformante por meio de imagens mentalizadas pelo observador.
A poesia pertence ao mundo da linguagem, ao universo linguístico e sua multiplicidade interpretativa, mas pode-se referir ao mundo das imagens significativas.
Quando se lê o poema O Cacto, este é transportado para a mente do leitor, por meio de associações de imagens que remetem a um quadro todo desconfigurado, desordenado, cujo caos é uma significância que traduz sentidos ao espectador. É através das palavras do poema que os elementos surgem na mente do leitor, transformando em imaginação toda a diegese da poesia. O real é a fantasia criativa da imagem sugerida na mente do observador.
Existe no poema a busca pela brasilidade da criação imagética: o cacto, símbolo da região Nordeste, refere-se à planta que transcende a seca, alimento que serve para matar a fome da população bovina, em épocas de chuva escassa, sendo uma vegetação que vai além de seu tempo. É intratável e resiste às intempéries da natureza. Por outro lado, o cacto é magnífico e surpreendente, pois de trata de uma planta exótica, estranha, porém bela, que, em épocas menos férteis, sol tremulante e ardente, resgata a beleza efêmera e singular, florindo para sua renovação em seu ciclo virtuoso.
Como se fosse um quadro, o poema O Cacto sugere signos icônicos imagéticos na mente do leitor, pois o olhar vê primeiro as partes: Primeiro, uma escultura de Laooconte e Ugolino sendo comparado a um cacto todo retorcido e deformado. Segundo, um cacto gigantesco e estranho tombado no meio da rua, trazendo malefícios a toda uma cidade. E terceiro um cacto que cria possibilidades de se essencializar e transgredir através do tempo.
As imagens na mente do observador traduzem o discurso poético para um discurso pictórico, pois não existe uma única voz a falar os textos. Temos no mínimo três atuantes: pintor-desenhista, poeta e o leitor, que interagem durante a comunicação artística.
Poesia e pintura permitem combinações: a primeira por meio de palavras, metáforas, sonoridades e musicalidades e a segunda através de cores, formas, traçados. E ambas compostas por uma mistura de citações estruturadoras de um terceiro texto, formado pelo observador analista, criando um recurso móvel de significações e correspondências.
Na poesia, a sequência dos elementos gera a relação de isotopia com a pintura. Os signos e as imagens criam uma rede de ícones referentes às coisas próprias da pintura. Conclui-se que, no poema temos tanto o observador pictural, por meio das palavras que remetem a uma imagem, a um quadro, quanto o leitor de poemas movido pelo calor do texto.
Esse diálogo compreende uma decodificação dos sistemas de signos aplicados, não de forma encerradora, última, mas como ponto inicial para demais ampliações de sentidos; contempla uma prática de investigação e encontros, com soluções, muitas vezes, surpreendentes.
Dessa forma, entendemos que o cacto representa signo da arte moderna, que pode ser lido no poema como metáfora da obra, seja ela poética ou pictórica, envolvendo os espectadores de maneira profunda e modificadora.
O poema O Cacto é composto por três estrofes irregulares de versos livres. Mostra-se inusitado desde sua abertura na 1ª estrofe, que faz duas referências. A primeira é a Laocoonte, sacerdote do templo de Apolo em Troia. É o único a desconfiar do plano de invasão da cidade pelos gregos, escondidos no famoso cavalo de madeira de enormes proporções. Por ter mantido relações sexuais diante de imagens sagradas, é punido pelos deuses, favoráveis aos gregos, sofrendo, juntamente com seus filhos um ataque de serpentes.
A segunda referência, a Ugolino e os filhos esfaimados, diz respeito ao conde pisano Ugolino della Gherardesca. Acusado de traição pelo arcebispo local, seu antigo aliado, é por ele enclausurado, na companhia dos filhos, na torre da fome, onde definham até a morte.
A história de Laocoonte é descrita por Virgilio na Eneida (Livro II, versos 201) e a de Ugolino na Divina Comédia, logo no inicio do canto XXXIII do Inferno.
Ambas as histórias, mencionadas na 1ª estrofe, inferem na poesia o que Riffatterre, citado por Compagnon (2006), em O demônio da teoria, chama de ilusão referencial, pois a única referencia que importa é que nos textos literários falam de si mesmos e de outros textos. Essa ilusão referencial é a percepção pelo leitor, de relações entre uma obra e outra que a precederam. Ela é um mecanismo próprio para leitura sendo a intertextualidade a própria literariedade.
Para Barthes e Riffatterre (COMPAGNON, 2006, p.110) a literatura não tem referência com a realidade e sim com a ilusão referencial, que é produzir uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real. Assim a referencialidade não se dá apenas no texto, ela se dá no leitor também.
O poema O Cacto cita outros textos como a história de Laocoonte e Ugolino, basicamente por duas finalidades distintas:
1) Para reafirmar alguns dos sentidos do texto citado “Aquele cacto lembrava Laocoonte” – aqui podemos associar as imagens na memória do leitor, pois cada um tem a sua visão de mundo que está vinculada a linguagem, está na sua percepção dialógica, nas relações intertextuais, das referências de um texto a outro; depende do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimento literário e de outras manifestações culturais.
Esses conhecimentos de mundo do leitor devem ser ativados durante a leitura para se chegar ao momento da compreensão. Assim por meio dessa competência leitora, o leitor aprende que os textos dialogam entre si por meio de citações, referenciais e alusões.
Podemos recorrer ainda aos elementos eufóricos e disfóricos da imagem de Laocoonte e o cacto. No primeiro podemos ver uma sugestionalidade de imagem de libertação, ou seja, tanto o sacerdote do templo de Apolo quanto os filhos lutam para se livrar da serpente que vai entrelaçando seus corpos e sufocando-os. Mesmo assim esforçam e persistem numa busca da essencialização.
Na imagem do cacto percebemos uma imagem como de Laocoonte que tenta se afirmar através do tempo, passando por um processo de destruição (um tufão furibundo abateu-o pela raiz).
2) Com o intuito de restabelecer como algo que surpreende: “ O cacto era enorme, quebrou beirais, do casario, impediu o trânsito, arrebentou cabos elétricos, e ainda privou a cidade de iluminação e energia”.
Assim os objetos mais insignificantes como o cacto, se mantém intacto, forte e imortal, pois o poeta o buscou na natureza e o transportou de uma forma absurda e deformante como o galo de Miró, todo desobjetivado, para o cenário da vida urbana proporcionando certo desconforto, desprazer, impacto e estranheza na compreensão por parte do leitor.
Por outro lado, paradoxalmente, mostra um cacto que, apesar dos transtornos, é um elemento de se contemplar: – “Era belo, áspero, intratável” – pois sugestiona uma imagem de um cacto que transcende, sendo carregado de valor, de sentido, de vida, de ousadia e ameaçador. Assim o cacto se identifica como uma imagem de um quadro, distorcida e imponente, estimulando na mente do leitor uma nova arte de um encanto agressivo.
O cacto é o elemento metafórico, pois há um deslocamento da natureza figurativa para uma natureza deformante, se mostrando vivo por meio de seus atributos absurdos: áspero e intratável, porém belo, pois ele sobrevive a tudo, podendo ir além do tempo e do espaço, preservando a idéia de perpetuação, de vida palpitante. Ainda que não aparente, pode ser reconhecido como a resistência, a durabilidade; devido até mesmo ao caos relacionando aos fenômenos da seca, ele emerge para sua transcendência.
No poema de Bandeira, constatamos que este cacto é caracterizado com imagens de significações insólitas. Ele é transportado através do tempo e chega à cidade, um espaço turbulento. Sem pedir licença, um tufão o abate pela raiz, fazendo-o tombar atravessado na rua: “Ele impede o trânsito de bondes, automóveis e carroças. Arrebenta os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas, privou a cidade de iluminação e energia.”
Há na mente do leitor uma desconfiguração do elemento, sendo uma inovação de sentido, daquilo que é familiar (o cacto) sobrepõe-se o estranhamento desse novo elemento, através de sua anormalidade, sendo uma nova maneira de se olhar para o poema. Sobretudo trouxe uma inquietação para o observador proporcionando uma avalanche de mudanças em relação a “beleza” que antes se conferia.
Na imagem que temos do cacto é desproporcional no poema e se constitui num refúgio que renuncia cada vez mais à ordem objetiva, lógica afetiva e gramatical da poesia tradicional. E anuncia as forças sonoras das imagens, da fantasia, da magia da linguagem que se deixa impor conteúdos provenientes dos impulsos da palavra, que leva à imaginação.
Dessa forma, a poesia moderna é uma ruptura com a forma tradicional, sugestiona na mente de quem lê uma pintura com imagens e, para que ela seja protegida do banal, deve ser bizarra (estranha) criando um efeito de composição de um quadro.
O absurdo é conteúdo do novo mistério da poesia moderna, possibilitando um sublimar por meio de associações imagéticas. A partir do feio, do disforme e do anormal, o poeta desperta um novo encanto e produz surpresa em um novo poetar moderno.
O conceito de deformação é entendido no sentido positivo, em que reina a força do espírito, num mundo novo, resultante da destruição que desconstrói o real e constrói um mundo irreal. Assim, o maravilhoso privilégio da arte é que o espantoso, expresso com arte, torna-se beleza.
Essa obscuridade nasce do despropósito e do mistério em que está imersa esta nova arte, que desabrocha na luz da escuridão de nossos pensamentos, um excesso de luz espiritual. Suas linguagens são autônomas, pois sua força transformadora reside na fantasia metafórica, a qual produz imagens extravagantes. Assim, nascem estas artes pictoriais e literárias, que instigam o expectador e o leitor a conquistá-las com a razão.
O poeta e o pintor despertam forças que a linguagem cotidiana ignora. Suas formas de expressar consistem em deduzir do conhecimento o desconhecido, do banal o misterioso, do belo o feio, do cheio o vazio, do normal o anormal, do obvio o obscuro. Aqui o real é a fantasia criativa que inflama a forma do pensamento desses artistas, proporcionando imagens dissonantes no expectador.
Para esses artistas há um eterno recomeço do ato criador dessas artes. É a força do trabalho intelectual deles que dá a originalidade em sua arte e que mantém a suas obras sempre vivas.
Assim, tanto na poesia (uma pintura falante) quanto na pintura (uma poesia muda) o processo criativo do receptor e também do autor é o mesmo: obter um dinamismo visual descritivo entre palavras e pintura, com seus deslocamentos, metafórica e metonimicamente, vivos e lúdicos. A pintura e a poesia assemelham-se na criação de imagens que evocam o olhar e a mente do receptor, porém diferenciando o objeto.
Baudelaire (FRIEDRICH, 1978, p.176) fala da legitimidade do absurdo enaltecendo o sonho, porque este evoca o que realmente é impossível, com a lógica espantosa do irreal.
Para João Cabral, as palavras concretas propõem poeticidade e uma visualidade plástica do texto, que remete à arte pictórica.
Constatamos que a imagem é que aproxima essas artes e isso só é possível pelo processo espacial e temporal. A cena do poema é descritiva e seu ritmo lembra a plasticidade de um quadro. Há uma carga de expressividade que permite ao espectador ou leitor identificar Bandeira como poeta-pintor.
Em suma suas obras guardam o frescor, o vigor pela vigência desse vivo. Ela pode romper com a sensibilidade do espectador, formada pelo hábito cotidiano. Nesse sentido, a metáfora contida no poema O Cacto e na pintura O Galo espanta, e, ao mesmo tempo, acorda o receptor para essa sensibilidade adormecida, despertando a capacidade de saborear o inédito em sua própria origem. E que, a partir do esquecimento e da inocência, a arte torna-se criativa, espiritual e transfigurada.
Tanto a poesia quanto a pintura têm o intuito de mostrar a forma. Desagrega a realidade aparente para ordená-la de outro modo como constatamos na análise. É nesse sentido que esses objetos artísticos não nos levam a nada exterior, eles constituem um mundo em si mesmo, de interioridade. É através da desrealização das imagens que poesia e pintura se tornam, propositadamente, obscuras e absurdas. É uma fantasia que decompõe toda a criação, através das palavras e da pintura, isto é, em linguagens, pois o real são as palavras e as formas em sua criação, rompendo as fronteiras entre o dizível e o indizível para, enfim, transcender a obscuridade das coisas.
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POESIS, Rosidelma Fraga. Homologias entre pintura e poesia: Algumas Reflexões.
RESUMEN
Basándose en un análisis homologica, presentamos las similitudes de las raíces y estructuras entre la pintura de Juan Miró, El Gallo y la poesía de Manuel Bandeira O Cacto, y mostramos que el arte literario es correlato a el arte pictórico, en la interacción de convergencias, lo que demuestra la cercanía entre ambas. En este trabajo es esencial señalar la contribución fundamental del estudio y de la pesquisa del crítico Aguinaldo José Gonçalves en sus obras – Laokoon Revisitado, 1994 y Transição e Permanência: Miró/Cabral: da Tela ao Texto, 1989 – y también artículos de otros críticos,
Palavras-chave: similaridades – raízes – homologia – pintura – poesia
Palabras-clave: similitudes – raíces – homología – pintura – poesia.
ANGÉLICA MARIA ALVES VASCONCELOS: Mestranda em Letras, Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira. Licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás, atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiânia, Goiás. E-mail: angelicaguapa5@gmail.com, telefone: (62)8155-6991
Bio fornecida pelo palestrante.
Natália de Campos Tamura
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Resumo: O presente artigo reúne breves histórias de mulheres que vivem na única favela que resta no centro de São Paulo.
Palavras-chave: mulheres, memórias, histórias de vida, favela.
Abstract: This article aims to reflect about women´s life histories. They live in the latest slum located at Central region of São Paulo City.
Keywords: Women, memories, life histories, slum.
Minicurrículo: Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Mackenzie, Especialista em Gestão da Comunicação pela USP e Bacharel em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atuou em Comunicação Corporativa na Indústria Farmacêutica Mantecorp e em Sustentabilidade com Projetos de Voluntariado, Desenvolvimento de Comunidades e Redes de Apoio nas empresas Unimed e Porto Seguro. Hoje é Consultora nas áreas de Comunicação e Sustentabilidade e leciona Responsabilidade Social Corporativa no MBA da Aberje.
HISTÓRIAS DE MULHERES DE UMA FAVELA
Natália de Campos Tamura
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Por que ouvir mulheres de uma favela?
Existe, em nós, uma diversidade de mundos diferentes que nos rodeia. Ainda assim, por mais que sejamos capazes de reconhecer o diferente, talvez, dificilmente o aceitamos como parte da nossa existência, da nossa completude como humanidade. Temos uma capacidade rarefeita de compreender que o outro, mesmo tratando-se de um outro completamente avesso ao que temos por normal, é apenas diferente de nós, não desigual.
Assim, entre todas as imagens que percebemos do mundo, não podemos deixar de considerar que somente temos visões parciais e subjetivas da realidade e que, esta mesma realidade, transcende a visão que podemos ter dela. Como afirma Eclea Bosi,
O nosso círculo de experiência é limitado. O nosso espaço vivido no mundo é pequeno. Embora tenhamos a ilusão de participar intensamente desse mundo único que encerra os seres viventes, conhecemos, na verdade, um reduzido espaço dentro dele, e um caminho familiar pelo qual nos guiamos e onde repetimos nossos passos, entre a infinidade de caminhos oferecida a outros seres (BOSI, 1977, p. 97).
Neste sentido, é tão instigante compreendermos a vastidão do comportamento humano, que sob tantas e diferentes perspectivas influencia e é influenciado por aspectos como a cultura, os estereótipos e preconceitos que transpassam gerações, linguagens verbais e não verbais, memórias, emoções e um dos aspectos que tornam o ser humano único e irreplicável, ao mesmo tempo em que pode o alienar – o cotidiano, como disse Heller (1987).
Dentro deste universo formado por relações complexas, conhecemos algumas pessoas, algumas coisas, alguns pedaços de paisagens, de ruas e alguns livros. Mas não podemos dizer que nosso repertório contempla e testemunha tudo que acontece. Conforme Bosi (1977, p. 97), “presenciamos alguns fatos, mas não a maior parte dos fatos sobre os quais conversamos. Confiamos, porém, nas pessoas que viveram e presenciaram esses fatos”. Com isso, formamos o que a autora chama de confiança social – confiar naquilo que as pessoas contam que viveram – base que forma nossos pensamentos e discursos cotidianos.
Somos formados, assim, da soma de histórias individuais e cada pedaço da cidade tem focos sugestivos que amparam nossa identidade, percepção e memória. Se não podemos dizer que conhecemos a maior parte dos fatos que nos circundam, não podemos afirmar saber como se formam as percepções sociais de pessoas que vivem uma realidade especificamente diferente daquela entendida pela opinião pública, mesmo morando na mesma cidade.
Segundo Milton Santos,
O modelo cívico forma-se, entre outros, de dois componentes essenciais: a cultura e o território. O componente cívico supõe a definição prévia de uma civilização, isto é, a civilização que se quer, o modo de vida que se deseja para todos, uma visão comum do mundo e da sociedade, do indivíduo enquanto ser social e das suas regras de convivência. (…). Quando aceitamos que sejam pagos salários de fome a uma boa parte da população, é certo que estamos longe de possuir uma verdadeira cultura (SANTOS, 1989, p. 5).
No Brasil permanece firme a ideia de que pessoas com menos condições sociais devam ficar à mercê da sociedade. A afirmação, à primeira vista, parece do século passado, mas quando analisamos o significado da configuração geográfica da cidade de São Paulo – lugares centrais e periféricos denotando boa parte da condição econômica das pessoas que ali habitam – entendemos que ela ainda se faz realidade. Ofertas de emprego costumam ditar esta regra nos centros urbanos, em geral, cobiçados, e dando nome às periferias também como cidades- dormitórios. A periferia, costuma denotar um local onde, em geral, estão pessoas menos favorecidas financeiramente, contraponto do centro, local onde os imóveis costumam ser mais caros, por conta de toda infraestrutura pública consolidada.
No centro da cidade de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil temos controvérsias bastante visíveis. Seu centro velho, a parte antiga da região central, compreende entre seus distritos o de Santa Cecília, que, por sua vez, abriga o bairro de Campos Elísios, o primeiro bairro nobre da cidade, onde moraram diversos fazendeiros de café. O bairro, fundado em 1879, e que teve seus tempos áureos e sua elegância, hoje abriga dois grandes problemas crônicos urbanos, indissolúveis, até então, pelos poderes público e privado – em uma das extremidades do bairro a Cracolândia, apelido derivado de crack, dado para uma região onde circulam e até residem, cerca de 2.000 usuários de drogas, além do intenso tráfico delas; e na outra a favela do Moinho, conhecida por ser a única comunidade que resta no centro de São Paulo.
As contradições já começam por tal fato – a cidade de São Paulo, entre as grandes megalópoles do mundo, ser a única que, apesar de ter tantas estruturas culturais interessantes no seu Centro antigo, como Pinacoteca de São Paulo, Museu de Língua Portuguesa, Parque da Luz, Fundação de Energia e Saneamento, Sala São Paulo, o Teatro São Pedro, apenas para citar os mais conhecidos, tem a região abandonada pela falta de segurança e pelo apoderamento da população que evita transitar por medo da violência e da vulnerabilidade a que se sentem expostos. E, por mais que se tenha tentado revitalizar este espaço público, seja por meio de iniciativas públicas de várias instâncias, seja pela privada (impulsionada pelas empresas da região que investem em qualidade de convivência para seu público interno e moradores da região), ainda não se conseguiu vencer o caráter marginalizado e aparentemente abandonado dessa parte de São Paulo.
Ao atravessarmos o Elevado Costa e Silva em direção ao centro da cidade, chegamos a Avenida Angélica que, em seguida, vira alameda Eduardo Prado. Se seguirmos o curso na contramão da via, chegamos a uma rua que parece sem saída, mas dá num trilho de trem da Companhia de Transportes Metropolitanos de São Paulo. Este trilho, que passa embaixo do viaduto Rio Branco, ao ser atravessado, nos leva à porta da comunidade do Moinho, a última favela localizada no centro de São Paulo.
A favela é rodeada por grandes prédios residenciais do bairro de Campos Elíseos, pertencendo ao distrito de Santa Cecília, subdistrito da Sé. O terreno particular foi ocupado, segundo publicações do jornal O Estado de São Paulo em 2002, tendo como área, um pouco mais de 30.000 metros quadrados, o equivalente a três campos de futebol.
A comunidade abriga cerca de 750 famílias (por volta de 2.000 moradores) – onde já moraram mais de 1.200 famílias em 375 imóveis de madeira, conforme os dados da Secretaria de Habitação de São Paulo. O local não tem saneamento básico (água, esgoto ou luz regularizados) e é cenário de diversas vulnerabilidades como a disputa entre a especulação imobiliária e as promessas públicas de regularização fundiária do terreno.
No terreno, em 1949 era inaugurado o Moinho Central, empresa que compunha o grupo Moinho Santa Cruz, também conhecida como Moinho Fluminense, por conta da grande unidade em funcionamento no Rio de Janeiro desde 1887. Segundo a ONG São Paulo Antiga, o Moinho Central, mesmo pouco conhecido do paulistano atual, foi o maior moinho da capital. A empresa operou, segundo relatos da Bunge até meados dos anos 1980. Dos anos 1980 ao final dos anos 1990, nem mesmo o Centro de Memória da Bunge soube nos dizer o que foi feito do terreno desativado. Em 1999, o local foi adquirido por duas empresas particulares durante um leilão da antiga Fepasa (empresa ferroviária paulista). Sem ocupação pelos proprietários, o terreno, em área prevista para ser adensada pela operação urbana, começou a ser invadido por volta de 2002, principalmente após a retirada de moradores da Favela do Gato, localizada nas margens do Rio Tamanduateí.
Entre 2011 e 2012, dois incêndios destruíram centenas de barracos e mataram algumas pessoas – número que ainda gera divergências: a imprensa noticiou duas pessoas, os moradores dizem que foram 30. Apesar da falta de laudos oficiais, esses incêndios são apontados pelos moradores como criminosos que o entendem como um recado para deixarem o terreno.
A favela do Moinho sobreviveu ao adensamento da cidade ao redor. Ainda assim, sentem a força da opinião contrária a sua continuação no terreno em acontecimentos como o citado.
Após o incêndio de 22 de dezembro de 2011, o então prefeito Gilberto Kassab (PSD) disse que todos os moradores seriam removidos para uma Cohab na Vila Leopoldina. No entanto, como o terreno é particular, estudantes de psicologia da PUC, além de promoverem encontros com as mães da comunidade para atendimentos, movem processo para destinar a propriedade aos invasores por usucapião. A prefeitura, impedida de desapropriar a área, durante a campanha para prefeitura de São Paulo de 2012, o então candidato a prefeito Fernando Haddad (PT) propôs a urbanização da região e a regularização fundiária. Há registros gravados pelos moradores da promessa realizada pelo prefeito que não foi cumprida desde então. Para os moradores, o descaso das autoridades também é uma forma de pressioná-los a saírem do terreno.
Uma proposta com mais de dez anos na favela é a Aliança de Misericórdia, uma frente da Igreja Católica, cujos padres construíram diálogo com os moradores e acolheram as crianças em um projeto bem recebido por parte da favela: o Oratório São Domingos Sávio, local de contra-turno escolar que recebe diariamente 120 crianças (60 pela manhã e 60 pela tarde) com atividades culturais, almoço e atendimento psicológico. Além do Oratório, a Aliança de Misericórdia construiu uma creche, fora da favela, em uma das ruas ao lado, e recebe diariamente quase 150 crianças, todas do Moinho, entre zero e cinco anos.
No entanto, os projetos não conseguem beneficiar todas as crianças que moram ali. O público infantil e jovem é quantitativamente expressivo, testemunha diária de experiências carregadas de significados que passam despercebidos pela comunidade do entorno. As crianças são afetadas diariamente por diversos discursos (seus pais ou responsáveis, instituições escolares e religiosas, voluntários, amigos e conhecidos da própria comunidade) e assim vão formando seu “eu”, suas relações interpessoais e seu olhar sobre o mundo.
Também compõe o espaço da favela o tráfico de drogas instalado na região. Crianças e jovens são assediados pelo tráfico de drogas e muitas delas são usuárias desde muito cedo. Outra grande questão é a violência diária que sofrem, muitas vezes de suas próprias famílias, como espancamentos e brigas entre si. Soma-se a tudo isso falta de acesso escolar de qualidade, desvalorização da sua cultura pela sociedade e desconhecimento da riqueza cultural disponível no bairro onde moram.
É nesta favela que moram as mulheres cujas histórias de vida relatamos abaixo. Entrevistei-as entre julho de 2015 e julho de 2016, gravei e transcrevi seus depoimentos, a partir dos quais apresento os textos sobre cada uma:
:
UM POUCO DA FÁ…
Fa não sabe ao certo onde nasceu. Talvez seja mineira, como sua mãe diz, talvez não. Não conheceu seu pai, nem por foto. A figura masculina da sua infância traz breves imagens do seu padastro, caminhoneiro que bebia muito, por isso batia em todo mundo e colocava todos para fora de casa até que viesse a polícia e o levasse. Conhecida como maria macho, quando criança, porque gostava de brincar de bolinha de gude, pipa, rodar peão e brigava feio se precisasse. Não era chegada em encosta de menina não. Brincar de boneca era a coisa mais difícil. Saiu de casa aos nove anos, para dormir fora e passar uns dias longe usando drogas.
Quando caiu de vez na rua, aos 11, sabia que só tinha amigo que não prestava. Drogas já faziam parte do seu dia a dia. Até chegar o momento da prisão. Ficou presa um ano e cinco meses por porte de drogas. Mas a maior surpresa foi se descobrir grávida, de um menino ao qual não sabia quem era o pai. Aí ela resolveu tomar um rumo na vida. A convivência conflituosa com o filho ela traz até hoje, quando deixa claro que o ama, mas não se dá com ele. Tem dia que tem vontade de “encher ele” de porrada.
Lembra dos seus passos na prisão, fazendo paralelos com os acontecimentos políticos. Em 1999 Mário Covas, então governador do estado de São Paulo, inaugura a prisão feminina para as portadoras de HIV. Morre em 2001, um mês antes da Fá deixar a prisão e correr direto de volta às drogas, lembrando somente de deixar seu filho aos cuidados da mãe. Na rua, você sabe quando é dia e noite porque escurece e amanhece. Mais nada te importa. Se você marcar algo com alguém, você fura. Só não se esquece de dinheiro. Resolve um dia, por conta própria, parar de usar drogas. E fica limpa dez anos, de pensão em pensão, até ter uma recaída forte, depois de mais dois filhos nascidos.
Chega ao Moinho indicada por uma amiga. Já havia arrumado tanta briga nos albergues por conta da sua personalidade irritante. Era um cômodo pequenininho, não tinha nem banheiro. Pagou 1.000 reais em prestações de 100 por mês. Hoje, um cômodo no Moinho pode chegar a 10.000. Depois de um tempo, compra o barraco ao lado, faz a parte de cima e constrói dois banheiros.
Nunca teve muita paciência pra morar com homem. Quando eles bebem, ela se enche. Nem pensa em namorar. Hoje não. Um sonho é ir ao programa do Rodrigo Faro e conseguir uma casa. Tira o sustento dos filhos puxando carroça. Às vezes passa “uns apertinho”. E, se o armário fica vazio, pede “pras amiga chique” que tem loja no Bom Retiro. Pedir pra quem tem igual ela não resolve. E tem que pagar direitinho porque senão o povo fala.
Chique é pessoa branca, pessoa bonita, bem vestida. Se fala até que é rica. Se bem que as vezes só parece e não é. Uma das “suas amiga chique” tem uma loja de lingerie no Bom Retiro, quando fez tratamento de câncer ficou careca. Fá rapou o cabelo pra ficar que nem ela – linda. Uma amiga que gosta tanto dela que até a chamou pra ir no aniversário do filho, em Guarulhos. Só que Fá se diz bicho do mato, acha que as pessoas vão ficar olhando, então ela nunca vai. Ela até diz que vai pra pessoa não ficar triste, mas onde ela se sente feliz e bem é com sua carroça.
Medo ela só tem de perder os filhos. De mais nada. Caguetar alguém na favela leva para o debate de quem manda nela. Então, não indique onde alguém mora, mesmo se você souber disso. Em favela a gente tem que saber como agir. A coisa pode estar feia, mas isso não quer dizer que você pode chamar a polícia. Um dos seus filhos disse ter vontade de conhecer a Disneylandia, nos Estados Unidos. Mas nunca foi nem à praia, no Brasil.
SOBRE A D. ZÉ…
Conheceu o pai dos seus filhos, mas logo vieram para São Paulo, onde passou os maiores apertos. Só tinha peixe salgado pra comer quando o marido roubava dos bares, escondendo “nos casco” [dentro de cascos vazios de garrafas?]. Roubava lenha para fazer folha de abóbora pros filhos. Como o marido não arranjava emprego e ela não tinha como trabalhar com 7 crianças, morava um mês em cada lugar para não pagar o aluguel. Quando morava num barraco no Jardim Peri, soube que seu marido estava com outra. Perdeu a cabeça. Expulsou o marido de casa, fez curso e cinco inscrições no “Ticket leite” pra dar pros filhos.
Um dia, tomou umas pinga e foi discutir com o marido na casa da outra. Mas como eles puseram um guarda-roupa na porta, ela não teve forças para entrar. Na semana do Natal ele entrega uma galinha viva pra ela. Ela deu nele com a ave. Ele quase passou com o fusquinha em cima dela, deixando-a toda rasgada, mesmo grávida de um dos filhos dele. Depois de dar queixa na polícia, o marido foi intimado a depositar a pensão dos filhos. A justificativa para ter largado D. Zé é que ela era uma mulher cheia de filho. A vida só com os filhos seguiu bem por um tempo até um dos meninos arranjar treta [arrumar briga] com o pessoal do Jardim Peri.
Quando soube que um dos filhos estava marcado pra morrer, ela foge, carregando seis dos sete filhos do jeito que deu. O mais velho ficou pra trás empinando pipa, o bendito, motivo de desespero de D. Zé por meses até conseguir trazer o filho. Na fuga, D. Zé deixa pra trás os álbuns de fotos dos aniversários dos filhos. Trabalhou em vários lugares temporariamente, mas arrumava treta [briga] porque as mulheres enroscavam com ela. Um dia uma amiga teve a ideia de roubar umas roupas no Brás porque não tinha o que vestir. Foi pegá e apanhou muito.
Algumas vezes foi necessário colocar os filhos pra pedir esmola no farol [sinal de trânsito, em São Paulo]. Às vezes tem que aprender a pedir. Foi parar no Moinho depois de acabarem com a favela no Brás. Boa parte dos filhos arrumou confusão com os donos da favela. Então eles moram longe.
Homens na sua vida, foram só tranqueiras [estorvos]. No começo eles parecem educados, cuidadosos, depois, batem e xingam sem dó. Hoje ela se diz feliz. Tem seu barraco reformado e faz a vida com os cambalachi que consegue. Compra geladeira e TV velha e revende. Conseguiu até ajudar alguns filhos a comprar seus barracos. Mas de todos os filhos, a menina Tá, a caçula, é a que mais merece porque “ajudou ela” a puxar muita carroça. Os outros filhos, apesar “dela” ajudá-los, às vezes roubam dela, ainda mais quando saem sem nada da prisão. Porque roubar da mãe pode. Ela não vai denunciar filho nenhum mesmo. Na verdade já falaram pra D. Zé que os filhos dela não estão todos mortos porque ela vale. E olha que ela não guarda roubo, droga e nem arma. Mas dá pão e café pra quem precisar. Roupa então, boa parte do que ganha manda pra Bahia.
Realizou seu sonho em 2016. Foi embora do Moinho com os três netos que moravam com ela para um pedacinho de terra que comprou num terreno invadido na Zona Sul. Só que perdeu os netos gêmeos para o Conselho Tutelar.
A VIDA DE LÔ…
Lô, não gosta de falar a idade. Com quase quarenta anos, nasceu em Minas Gerais. Sua mãe a colocou pra fora de casa com nove anos. Foi aos 17 que ela foi morar definitivamente na rua porque era dependente química, alcoólatra compulsiva e puta. Não tira a razão da mãe. Lidar com dependente químico 24 horas é difícil.
O primeiro filho nasceu em Minas e foi adotado por um casal. Apesar de ter uma vida muito melhor do que Lô poderia lhe dar, ele é revoltado. Tem tudo que quer, mas reclama muito – e a culpa por tê-lo abandonado.
O segundo filho foi roubado dela no parto. Sob efeito de drogas, ela lembra que a anestesia não pegou e que fizeram a cesária e a costuraram daquele jeito mesmo. Depois disseram que ela não tinha tido um filho. É a máfia que pega crianças, ela diz. Hoje, com 12 filhos, quatro dela e oito que adotou da rua, reza a Deus que alguém cubra seu filho como ela cobre o filho dos outros. Dos filhos de rua que moram com ela todos sofriam abuso ou eram espancados pelos pais e padrastos. Morou muitos anos em uma maloca, debaixo do viaduto da avenida São João onde cozinhava na rua, era louca de tanto cheirar cola e fumar crack e muita gente a chamava de mãe. Nunca passou 24 horas na Cracolândia. Fumava sempre longe dali. Acredita que tinha que respeitar a sociedade pra ser entendida como sociável. Mesmo muito louca, não deixava de cozinhar pra quem tinha fome e abraçar os filhos que precisam de aconchego
Está há 13 anos limpa [sem usar drogas]. É porque o que a gente quer, a gente consegue. O negócio é não ficar reclamando. Homem? Ela viveu mais de 16 anos com o pai de seus filhos e foi muito feliz. Só que ele regrediu – fumou tudo que conquistaram. Homem na verdade só serve pra te dar filho e encher o saco. Não teve infância porque pobre lá tem infância? Não estudou porque não teve cabeça pra isso. E apesar de ter sido muito espancada pela mãe, não tem dúvidas: sua mãe é a mais guerreira das mulheres e a melhor mãe do mundo. Mas não tem contato com ela há anos.
Lô se diz maloqueira [favelada], mas tem facebook e mantém contato com seus irmãos – todos têm estabilidade. Um é professor de hip hop, outro tem carro próprio e tem uma irmã que está se formando. Mas, mesmo seus irmãos indo à igreja, não conseguem dizer aos filhos que os ama, diferentemente de Lô que diz isso a toda hora aos seus. Leva os filhos à Cracolândia e mostra as opções: estudar e ser alguém na vida ou viver naquela escolha.
Ficou presa um ano por comercializar drogas. Depois se envolveu três anos com um portador de HIV. Quase enlouqueceu os agentes do posto de saúde. Todo mês aparecia para fazer os exames e se certificar que não estava bichada. Quando sua filha lhe pediu uma calça de R$ 150,00 – não que ela se importe de comprar no Brás – fez questão de levá-la ao shopping para escolher a que queria. Vaidade? Diz que não. É uma questão que se ela quer, ela pode. Lô tinha duas ratazanas de estimação, quando morava no Moinho. Às 22 horas, bastava chamá-las. Reconheciam a voz da dona. Eram muito inteligentes. Descascavam até banana. Alguém fez maldade e sumiu com o Tico e o Teco.
Outra mágoa é terem vendido seu cavalo. Foi o último marido viciado em drogas que vendeu pra fumar umas. Por isso ela não o perdoa e não volta pra ele. Em um dos projetos do bairro do qual fazia parte, um senhor, de classe, comentou que queria conhecer seus filhos. Quando os apresentou, o homem se surpreendeu com a educação das crianças. Lô, mesmo maloqueira, como se diz, fala com orgulho da educação que deu aos filhos e preza pelas roupas limpas das crianças. Mesmo quando morava debaixo do viaduto, ariava toda semana suas panelas e não podia secar com pano para não perder o brilho. Também trocava roupa de cama e toalhas todos os dias.
Seu sonho é ver os filhos crescerem, se formarem e terem oportunidades melhores na vida do que ela. Sem contar a luta pela moradia digna na qual ela acredita e a motiva a levantar todos os dias. Um dos seus filhos pequenos quer ser policial – pra fazer as coisas certas na vida, como ele diz.
AS MEMÓRIAS DE MI…
Mi chegou ao Moinho quando tinha 18 anos e estava grávida do primeiro filho. Já tinha passado por várias casas na periferia de São Paulo antes de chegar a morar na favela. Ficou um ano trancada no seu barraco porque tinha medo e não sabia como conviver com a nova realidade. Já trabalhou em firma, bar, lavando carro em estacionamento e até com drogas, que ela nunca usou. Por conta disso, foi acusada de coisas que não fez e chegaram até a colocar uma arma na sua cabeça.
Da infância ela não lembra muito. Aprontava bastante na escola e batia nos meninos. Era muito mulher macho. Que ela saiba é filha única e tem enorme apreço pela mãe que batalhou muito para criá-la. Se precisasse daria seu coração pra salvar sua mãe. Pra salvar seus filhos também. Desde que eles estivessem certos. Se estiverem errados…
Mi sente vontade até hoje de ter conhecido o seu pai e ter perguntado por que a abandonou. Não o conheceu nem por foto. Tem quatro filhos, um de cada pai, e nenhum dos pequenos convive com o pai porque [cada] um vale menos que o outro, segundo ela. Para o futuro, ela deseja que os filhos se formem, façam uma faculdade e construam suas famílias depois de estudar. Porque a gente tem que ter uma aprendizagem pelo futuro pra ter uma posição melhor. Namorar agora não dá futuro. Ensina para os quatro filhos homens que em mulher não se bate, nem se ela for a pior puta. É melhor [se] separar. Ela já apanhou muito de homem, mas sempre deu de volta. Já arrancou até dente deles, conta com orgulho.
É feliz onde vive, mas sonha em pagar as dívidas, juntar dinheiro e ir embora dali. Porque quem mora numa favela tem dificuldade até de arrumar emprego. É mal visto. Pra educar os filhos vale tudo. Até quase enforcar o mais velho, ela já tentou. Porque se ela não educar agora, polícia mata ele amanhã. Acredita que ser mãe não é só cuidar e pôr comida ou lavar roupa. Mas é aquela que ensina, que explica e que mostra a realidade pros filhos. É ser dura na hora certa. Dizer não e não e acabou. Acredita em Deus e reza pelas poucas amigas que conta nos dedos.
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Bio fornecida pelo palestrante.
Luiza Lobo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Minicurrículo: Luiza Lobo é professora da pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, e foi professora da UERJ. É membro da ABRAFIL (Associação Brasileira de Filologia) e do Pen Clube do Brasil, e autora de 20 livros. Edita as revistas Literatura e Cultura e Mulheres de Literatura desde a década de 1990.
Resumo: Este ensaio discute o modernismo brasileiro na tendência espiritualista, dentro do contexto mundial, e a inserção do latinista e professor Ismael Coutinho neste movimento, através de duas obras de poesia que deixou inéditas, ao falecer. O ensaio, que foi a introdução do livro reunindo Silhuetas e Bosquejos (Rio, de Janeiro, Botelho, 2014), busca resgatar essas obras de criação poética do professor de latim e português.
Summary: This essay discusses Brazilian modernism in its spiritual trend in the frame of world modernism, in which are inserted two books written by the Latinist and teacher of Portuguese and Latin Professor Ismael Coutinho, who left them unpublished at his death. They are Silhuetas and Bosquejos, and this essay was an introduction to the book in which they were printed together (Rio de Janeiro, Botelho, 2014).
A VOZ ESPIRITUAL DE ISMAEL COUTINHO
Luiza Lobo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
I – O modernismo mundial
Nossa ideia sobre modernismo é de que foi um movimento que revolucionou a linguagem em quase todas as latitudes da Terra onde ocorreu. Pioneiros como Picasso, com o quadro “Les demoiselles d’Avignon”, que lança o cubismo, em 1909, e a norte-americana Gertrude Stein, com “Autobiografia de Alice B. Toklas”, de 1910, esta geralmente não reconhecida como pioneira, abriram o caminho para a arte dos também emigrados norte-americanos Ezra Pound, T. S. Eliot e os que lançaram o fluxo da consciência como nova técnica narrativa: o irlandês James Joyce e a inglesa Virginia Woolf.
O modernismo propôs uma transformação radical na linguagem poética, na prosa ou no verso, voltando-a para a expressão cotidiana, despojada e adotando uma visão de mundo que se identificava com o cosmopolitismo, a rapidez e a mudança social, o espírito revolucionário, em oposição à placidez romântica e o preciosismo parnasiano. No Brasil, sabemos como essa revolução recorreu ao indianismo, em busca do reconhecimento dos valores nacionais das formas nativistas de expressão. Em todo o mundo, o modernismo se afastou da linguagem erudita e adotou a oralidade e a naturalidade da expressão do sentimento, aproximando-se do cotidiano e da forma denotativa e descritiva, como ocorre na linguagem jornalística.
Desde o barroco a poesia se estabeleceu como uma forma refinada e se tornou, ao longo do tempo, uma arte de elite – seja da nobreza, seja do clero. No período da Ilustração o culto da forma e do estilo elaborado chegou ao auge. Surgiu dessa tendência a poesia parnasiana e simbolista, que buscou palavras raras, por vezes obtendo resultados artificiais, como no caso do parnasiano Olavo Bilac, e redundou no afastamento do público-leitor. Sua poesia nada tem a ver com a de Baudelaire ou mesmo de Cruz e Souza, ambos simbolistas – que usam rimas ricas e palavras raras, mas não rejeitam a expressão natural do sentimento.
Já no romantismo, cujo projeto era alcançar uma comunicação mais ampla, a poesia se esmerou em transmitir o sentimento de forma simples e clara, e por vezes recaiu num sentimentalismo subjetivista exagerado, como ocorre em certos poemas de Lamartine, de Heine e, entre os românticos brasileiros, em Casimiro de Abreu. Essa tendência ao sentimentalismo se torna mais acentuada nos poetas do Brasil, pelo caráter tipicamente oral de nossa cultura, numa sociedade pouco letrada e pouco inclinada a uma educação formal.
Na terminologia do formalismo russo, representado pelos críticos Tynianov, Chklovski e Eikhenbaum, o estilo literário nada mais é do que uma mudança da função fática, que é própria da linguagem cotidiana, para um novo uso, estético e mais refinado, da função literária. Segundo esses críticos, há apenas uma tênue separação, mais de intenção ou função do que de conteúdo, entre o discurso comum usado na fala cotidiana e a escrita literária. O que ocorre no modernismo dos anos 1920 é o entrosamento dessa forma fática com o discurso erudito literário, passando-se a empregar a linguagem denotativa e simples na comunicação artística. Bastou deslizar de um contexto (ou função) para outro para se chegar ao uso “modernista” na linguagem literária. Com isso, rompeu-se a aura que sacralizava a literatura e o ato estético, existente até o século XX, que eram antes associados à inspiração sagrada, proveniente das musas ou deuses, ou ligados a um exercício nefelibático, realizado nas altas esferas da sofisticação de escolha de vocábulos, como num Olavo Bilac. Resultou disso um grande artificialismo na poesia, em busca de rima e de métrica perfeitas, obtidas através de inversões sintáticas radicais e busca de palavras incomuns, que nem sempre ecoavam de forma natural e agradável, principalmente aos ouvidos brasileiros, avessos à norma culta herdada de Portugal.
Na rígida língua francesa, considerada sacrossanta, o modernismo não ocorreu de forma tão radical na morfologia e na sintaxe, embora, desde o Romantismo, o estilo tenha se tornado menos rebuscado e com orações menos longas na prosa, em comparação com o estilo do século XVIII.
Em 1924, a revolução promovida por André Breton na prosa foi de cunho mais surrealista, no plano das ideias, visando a uma abertura para o campo do inconsciente, do sonho e do desrecalque, antes do que propriamente uma mudança na linguagem. Ele utilizou seus estudos de psiquiatria, em especial de Charcot, além de psicanálise, de Freud, para criar uma obra como Nadja (1924), livro antológico que identifica a cidade de Paris com a personagem enlouquecida Nadja. Ela era, na verdade, uma paciente psiquiátrica que Breton conheceu durante seu curso de medicina. Ao mesmo tempo em que fez essa identificação metafórica entre a loucura e a urbs caótica, cosmopolita, Paris, Breton rompe com a ideia de uma unidade essencial do indivíduo.
Mais além foi Guillaume Apollinaire, no teatro, em 1917, com sua peça Les mamelles de Tirésias (As mamas de Tirésias), que tem como protogonista um homem tresloucado que perambula pelo palco monologando com um manequim. Entretanto, em ambos os casos, a “revolução da linguagem poética”, na expressão de Julia Kristeva, se deu mais na autocrítica do pensamento que na alteração da linguagem no plano da expressão. Apollinaire antecipou o teatro do absurdo das peças curtas de Ionesco, sendo as mais famosas A cantora careca (1950) e O Rinoceronte (1957). Ionesco foi aceito pelo Colégio de Patafísica, que funcionou de 1948 a 1973, na Biblioteca Nacional de Paris (tendo sido reaberto em 2000), editando livros ousados, como o Pai Ubu, de Jarry, e James Joyce. As obras de Ionesco, romeno naturalizado francês se destacam pelo silêncio (que, cerca de dois anos depois, será utilizado pelo dramaturgo Samuel Beckett) e pela acusação metafórica de temas sociais, provocando um efeito de nonsense. Em geral, não ocorreu na poiesis francesa uma mudança no uso da linguagem, na poesia e na prosa, como no modernismo em língua inglesa ou no Brasil, se excetuarmos a poética revolucionária de Mallarmé, com seu Um lance de dados jamais abolirá o acaso (1897), que rompe com estrofe, métrica e rima, e o seu Livro (póstumo), que poderia ser lido em ordem aleatória (retomado por Cortázar no romance Amarelinha, de 1963).
Já o dadaísmo, que surgiu no período de entreguerras (entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) surgiu na língua francesa como um movimento niilista que introduziu o nonsense como forma de crítica da sociedade e elemento de transformação da linguagem. Ele negava a possibilidade de uma filosofia e uma cultura estruturadas. Esse movimento utilizou o que o futurista italiano Marinetti chamou de “palavras em liberdade”, deixando o pensamento fluir sem censura, e, na poesia, aboliu qualquer uso de estrofe, métrica ou rima, chegando a introduzir desenhos no texto em prosa ou em verso, neologismos, e assim desconstruindo a organização sintática do pensamento. Destacou-se no que se entendia então por “ilógico” ou “irracional” na linguagem, mas que Freud bem definiu como o inconsciente, uma segunda visão, imagem onírica e recalcada, ou a “linguagem esquecida” (dos sonhos, da poesia, da criação artística), no dizer de Erich Fromm.
Efetivamente, o século XX se iniciou com diversos manifestos que denotavam essa procura por uma grande revolução linguística e estilística – paralelamente aos grandes movimentos políticos do século – anarquismo, comunismo, socialismo, integralismo. Seu início deu-se com a Primeira Guerra Mundial, em 1914, e não em 1900, em plena bela época – no dizer de Gilberto Mendonça Teles, em seu importante Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. Havia toda uma admiração pelas buzinas, dos carros e das fábricas, o barulho das ruas da cidade, como centro cosmopolita fervilhante de idéias, em substituição ao ambiente natural, rural e bucólico dos campos, que inspirara a literatura, do Renascimento ao Romantismo. O século XX sentia-se a um tempo horrorizado e fascinado com a revolução industrial iniciada no século XVIII: o automóvel substituía, com seus cavalos-máquinas, a força dos cavalos de carne e osso; a indústria armamentista, ainda com metralhadoras, numa guerra de trincheiras, com soldados e tanques, surgia com toda a pompa na imaginação de F. T. Marinetti. Italiano nascido no norte da África, em Alexandria. Ele saudou a modernidade com um clamor incendiário – até as bibliotecas deveriam ser queimadas! – no seu principal manifesto, o Futurista, de 1909, entre diversos outros. Articulou várias mudanças na forma de expressão: a abolição dos adjetivos e advérbios, visando à força e rapidez da comunicação, como ocorre no jornalismo. Os longos períodos propostos por uma nobreza passadista e em extinção, que escrevia de acordo com ócio de que dispunha, dava, assim, lugar a um discurso rápido, tenso, dos tempos modernos, infelizmente cada vez mais belicosos. Nesse ponto Marinetti anteviu o que viria no século seguinte; não se pode afirmar com toda a certeza se ele percebeu essa tendência à transformação na sociedade que o cercava ou se ele realmente introduziu essa nova perspectiva em seus escritos revolucionários. No entanto, Marinetti se notabilizou apenas como um autor de manifestos, mas que não conseguiu se firmar como escritor de literatura, pelo menos fora da Itália.
II – O modernismo no Brasil
Já o Modernismo brasileiro teve uma forte vertente indianista, que não fora abordada no Romantismo brasileiro, que tratara o indígena de forma fantasiosa, imaginativa e indireta, através das correntes europeias (Montaigne, Rousseau, Chateaubriand) ou norte-americana (James Fenimore Cooper), em lugar de escrever sobre o indígena brasileiro real. (Gonçalves Dias utiliza o termo “manitô”, ou espírito dos mortos, que sequer fazia parte do imaginário indígena brasileiro). Nos anos próximos a 1920, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral se dedicam ao estudo antropológico das sociedades indígenas sob a luz de Freud, para compreender o pensamento dos povos chamados “primitivos”. Essa abordagem inspirou, por exemplo, Raul Bopp na escrita do seu enigmático Cobra Norato, que tenta unir a mitologia indígena à noção de inconsciente. Diversos quadros da grande pintora Tarsila do Amaral, que retirou sua inspiração das cores típicas do interior do Brasil caipira numa visita a cidades de Minas Gerais. Cenas como a de “A Negra” (1923), “Paisagem com touro” (1925), “O Abaporu” (1928) e “Antropofagia” (1928) representam a visão naive da vida interiorana brasileira, com sua mescla de cores vivas oriundas das culturas indígena e africana contrastando o sentido de “racionalidade” social europeia imposta sobre essas visões de mundo sul-americanas. O objetivo de nosso modernismo foi criar um Brasil independente, com suas características culturais tropicais peculiares e consolidar a variante brasileira da língua portuguesa. Em vários textos emblemáticos de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, na prosa e na poesia, e em diversas expressões reveladas na Semana de Arte de São Paulo, como o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, ou a escultura do Cristo de trancinhas, de Brecheret – assim como no primeiro livro de Drummond, Alguma poesia, de 1929, o que representa para nós o modernismo é uma atitude combativa e revolucionária em busca de uma expressão linguística e de uma imagética próprias. E Oswald de Andrade foi quem melhor condensou esse sentimento com seus dois manifestos, Pau Brasil (1924) e Antropófago (1928). No primeiro sugere, com a memorável imagem de um “negro” que gira a manivela do desvio nos trilhos, invertendo a direção de um trem, que se operasse uma mudança histórica na mentalidade colonial brasileira, inclusive incorporando a presença da África aqui, rumo ao Brasil real, não europeu. Com essa imagem quis Oswald mostrar que a cultura no Brasil deveria recuperar todas as suas fontes nativistas, a indígena e a africana, e não continuar a repetir modelos e formas trazidas da metrópole, de forma maquinal, como se fôssemos sua mera continuação do outro lado do Atlântico. Já no segundo manifesto ele propôs a junção das culturas na produção de um novo amálgama linguístico e cultural, resumido no conceito de antropofágico, que antecipa muitos trabalhos do pós-modernismo.
É claro que toda essa ideologia ufanista de pátria autônoma desenvolvida no modernismo se esvaziou um pouco sob o impacto do pós-modernismo, que nos mostrou o equívoco do lema de Pound: “make it new” – seguido no Brasil pelos irmãos Campos, em especial Haroldo de Campos, e por Décio Pignatari. Como renovar completamente uma língua? Escrever e pensar sempre retomam algum ponto na linguagem, uma plataforma pré-existente, pois não se cria a língua do nada, não se inventa ab ovo coisa alguma. Sempre se transforma o que existe, como dizia Lavoisier.
Note-se, no entanto, que, dentro do próprio modernismo brasileiro, há uma linha de escrita menos preocupada com a mudança radical da forma, do tema e do estilo do poema que a dos autores citados acima. Trata-se da poesia modernista praticada por Cecília Meireles e por Darcy Damasceno, na linha espiritualista – compartilhada por Murilo Mendes e Jorge de Lima – que recebeu o epíteto de “poeta cristão”. Nessa autora, captamos a tradição açoriana – por influência da avó, originária dessas ilhas – que ela cultiva através das formas fixas, tais como no Romanceiro da Inconfidência. (Ver, a respeito desse poema, meu artigo in Perspectivas I, Rio de Janeiro, Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ, 1984, p. 109-15). Apesar do uso de um vocabulário despojado, próximo ao cotidiano, na tradição católica e espiritualista, Darcy e Cecília, unem poesia e música, prática não tão distante quanto se possa pensar, da poesia de Mário de Andrade, que segue essa orientação do teórico simbolista René Ghil. A preocupação cristã e espiritualista desses poetas parece remontar ao parnasianismo de Horto, único livro de Auta de Souza, caracterizado pela extrema religiosidade da autora rio-grandense-do-norte. O uso da linguagem cotidiana, imantada pela descrição das cenas de nossa história e vivências, redundou, em Cecília, no belíssimo poema, talvez o seu mais famoso, em que ela revela sua intimidade ao leitor-receptor: “Eu não tinha esse rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro (…)” (“Retrato”, in Retrato natural, 1949). Falta às obras de Ismael Coutinho essa sensibilidade transbordante de emotividade que impregna esse poema de Cecília Meireles.
III – Os dois livros de poesia deixados inéditos por Ismael Coutinho
Vemos, pela leitura de Silhuetas e de Bosquejos,[i] ambos datados pelo autor de 1922, mas escritos entre 1917 a 1925, que Ismael Coutinho é avesso a tais “revoluções da linguagem poética” que caracterizaram o modernismo mundial – com exceção da linha espiritualista. Nesses seus dois livros, que deixou inéditos, esmera-se no uso da expressão refinada da norma culta e na obediência à forma do soneto, na rima e na métrica bem marcadas e num glossário oriundo da poesia clássica. Apenas em algumas composições dramáticas curtas, ou autos, recupera a “linguagem caipira” brasileira, em tom ingênuo ou naif, mas sempre num contexto cômico. Por exemplo, em “Dois roceiros” (ver Coutinho, Bosquejos), os personagens Chico e Mané, que remetem para o teatro de Artur de Azevedo, como em A capital federal, em que se confrontam o ambiente rural e o urbano.
A poesia de Ismael Coutinho não se insere na revolução modernista quer no uso da língua portuguesa, quer na afirmação do nativismo da cultura brasileira. Ao contrário, salvo as exceções apontadas, busca praticar o vocabulário clássico herdado do passado greco-latino e congelado pelo Simbolismo-Parnasianismo, em especial por Olavo Bilac, que o poeta cita como uma de suas fontes de inspiração, ao lado de Casimiro de Abreu, Victor Hugo e Camilo (mas não Fernando Pessoa…). Todo o movimento da poesia de Ismael Coutinho integra-se a sua prática de professor de língua portuguesa e no projeto de conservar a norma culta.
Assim, há, nos dois livros deixados por Ismael Coutinho, um tom de filiação romântico-simbolista-parnasiana, e até epígrafes que se referem aos grandes românticos – Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, poetas maiores – ao lado da busca vocabular de termos raros que nos remete à antologia da Poesia Simbolista, de Andrade Muricy, cujo maior expoente é Olavo Bilac. Há um uso constante, no poeta, da rima e da métrica perfeitas – levando-o a utilizar termos raros, como “travesseira”, para rimar com “ligeira” (ver Bosquejos). Já na apresentação de Bosquejos, desculpa-se com o leitor, afirmando que a obra é pouco pretensiosa, e oferecendo-a apenas à família; no entanto, sua temática, a métrica, a rima e o glossário pouco diferem do outro livro, Silhuetas. Neste apresenta principalmente sonetos, metrificados em decassílabos, heptassílabos e pentassílabos. Apenas os versos são bem mais longos, em geral, e há mais variação nos metros em muitos poemas. Mas ocorre a mesma busca de vocábulos raros que afasta o estilo dos dois livros do modernismo e o aproximam do parnasianismo; já na temática, ambos denotam o mesmo sentimento ingênuo, familiar, religioso e apelam a cenas rupestres próprias do romantismo, que poderiam aproximá-los do modernismo espiritualista.
Seus temas são, prioritariamente, a própria morte e o enterro em cova rasa sob a sombra de um cipreste, que chorará com o poeta, numa subjetividade exacerbada, que corresponde à primeira fase romântica subjetivista, das três fases apontadas por Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira. Não se dedica quer ao indianismo quer ao realismo nacionalista, que são as duas fases seguintes. As referências mais frequentes são à família, Deus, Cristo, a Cruz, o sentimento religioso, o abandono, o terror do sono e da solidão, a “estrada” – termo muito utilizado – ou caminho para a velhice e a morte, ao lado da descrição da natureza, os pássaros, a avó, mas também o pai e a mãe. Todo esse ideário se rege pela forma rebuscada e a correção vocabular, sintática, morfológica, em função da norma culta, como lemos na poesia parnasiana de Machado de Assis – chega mesmo a empregar o termo “taful” – e jamais se afasta da métrica exata e da rima perfeita. Não há versos livres, soltos ou brancos, como pregava René Ghil, visando a uma sensibilidade livre; e nada está mais distante da poética de Ismael Coutinho que o conceito de “palavras em liberdade”, do futurista Marinetti.
Já a forma latina adotada pelas línguas neolatinas, francesa, espanhola e portuguesa, tem cunho suficientemente rígido em si, pelo grande número de vogais que têm e que marcam muito os sons, contribuindo para a monotonia dos versos, que obedecem a uma contagem silábica rígida. Essa monotonia impede maior musicalidade, como era possível na poesia grega e na tradição celta e bárdica anglo-saxônica, presente em Burns e Byron, para não citar a liberdade quase total dos versos de T. S. Eliot em “The Love Song of J. Alfred Prufrock” (1910-1915) ou “The Waste Land” (1922), por exemplo. Este ignora as regras da métrica e da rima e obedece apenas ao ritmo dos pés métricos (marcados musicalmente, ao contrário das sílabas poéticas, nas línguas neolatinas). Essa característica, possível na língua inglesa, foi levada ao ápice por Gerald Manley Hopkins. Paralelamente, os poemas de Eliot apresentam uma crítica filosófica do mundo moderno, ao retomar as grandes questões metafísicas (que já tinham sido tema dos poetas metafísicos ingleses, no barroco), mas aplicando-as ao cotidiano e unindo-as ao nonsense. Para acentuar esse efeito, Eliot acrescenta notas a “The Waste Land” que parodiam as referências a ensaios, mas que na verdade são falseadas, pois retiradas a esmo de livros que encontrou na sala de leitura de um hospício onde ficou internado (com a esposa) por alguns meses. Esse poema sofreu muitos cortes ao ser editado por Pound. Já este, nos Cantos, juntou recortes de notícias de jornal aleatoriamente, em grandes estrofes de versos brancos e livres, que levam ao extremo a proposta de Sousandrade no Guesa (1867-1884), que já havia feito uso desse tipo de material jornalístico nos dois fragmentos em limerick desse seu poema épico. Pound transforma a poesia simbólica e aurática num simples enumerar de fatos pouco importantes retirados da imprensa, num fluxo de palavras denotativas e destituídas de “beleza”, no sentido da estética de Kant e Hegel, mostrando, realmente, um mundo em desencanto (Weber). Por coincidência, Pound também sucumbe ao apelo do integralismo de Mussolini – repetindo a experiência de Marinetti – talvez porque ambos tenham procurado desse modo ordenar ou frear sua ousada revolução das “palavras em liberdade”. Por isso, tratado como traidor pelos Estados Unidos após ser recolhido no campo de concentração de Pisa, ao fim da Segunda Guerra, Pound passou doze anos (de 1945 a 1957) internado no hospício de Saint Elizabeth, em Washington, D.C., prisão psiquiátrica negociada pelos seus admiradores, em troca da cadeira elétrica; por isso são intermináveis os Cantos, chegando a quase mil páginas.
Assim, Ismael Coutinho atravessa o modernismo erguendo o facho parnasiano das belas letras, indiferente a sua desconstrução pelos poetas de seu século. Insiste na fala preciosista do poeta inspirado pelas musas, na subjetividade do poeta em seu caminho solitário e da morte (é a “estrada”, de Dante?), foge a um sentido político coletivo para a poesia. No solipsismo da voz do poeta vemos um silêncio, um basta a todas as ideologias, devido a sua inclinação espiritualista. Em seus poemas, escolhe o tom elevado de uma estética pura, aurificada, nefelibática, e nada semelhante ao heterônimo Ricardo Reis de Fernando Pessoa, que se identificava com Walt Whitman e a destruição dos valores europeus visando ao surgimento de um mundo moderno.
IV – Imagens: Bosquejos
Bosquejos, com seus poemas escritos entre 1919 e 1922, basicamente em Niterói, é praticamente contemporâneo de Silhuetas, cujos poemas são datados de 1922 a 1925, mas se inicia e termina ligeiramente mais tarde, e sempre naquela cidade. Os três poemas que abrem o livro se enquadram na sua dedicatória, feita pelo “Autor” a “seus pais”, a seus “idolatrados irmãos”, evidenciando toda a importância da família no seu imaginário. Em “Meu livro” (datado da cidade de Campelo, 1921), Ismael Coutinho afirma: “Procura outros vergéis, outros palmares” – mostrando sua filiação a Gonçalves Dias e sua romântica “Canção do exílio”. Suas epígrafes também mostram sua filiação ao romantismo. Em “Morrer! Morrer!” a epígrafe é de Castro Alves. Nos poemas seguintes, “Ao meu pai”, a epígrafe é de Lamartine; e em “A minha mãe”, é de Álvares de Azevedo: “Quando partia do teto amado / E que, apressado, / Me dirigia para a estação, / E tua mão / E os olhos teus / Dizerem adeus / De longe via (…) Sinto-te perto, vejo-te em sonho, / Anjo risonho”.
Toda a poética ou teoria da criação em Ismael Coutinho se dirige à vida e à linguagem subjetiva, intimista, platônica, mas também ligada à religião, ao didatismo e moralismo, como em “Ser poeta”, quando afirma que ser poeta é “externar os sentimentos (…) é ser todo ensinamentos; (…) é viver meditabundo”; “viver por entre as flores, / Salmodiando sem ser compreendido” (…) “cantar na frauta amena, / É viver abraçado à sua cruz” (Niterói, 1920).
A maior parte dos poemas exibem uma sensibilidade ligada à casa, à família, ao sentimento religioso mencionado acima – que também se encontra no tom adotado pela corrente espiritualista do modernismo, na figura dos quatro poetas já citados: Cecília, Murilo, Darcy e Jorge de Lima. No entanto, na poesia de Ismael Coutinho, que teve formação religiosa em seminário, embora tenha se desviado da ocupação de padre para a de professor (muito pouca diferença, na verdade), revela-se, explicitamente, o tema cristão católico, como em “O Monge” (Niterói, 7 de setembro de 1920): “Ei-lo, de pé, no cimo do rochedo, / Apenas rompe a aurora e enceta o dia, / A contemplar extático a agonia / Da vaga que se embala no penedo.” Também em “A J… R…” a faceta religiosa é explícita: “Anjos em alas na mansão sagrada / Tiram das liras doce melodia / No ar vibrátil, pálida irradia / A suave luz de eterna madrugada” (Niterói, 1920). A “Visão” (Niterói, 1921) menciona um “anjo da guarda, que te segue ao lado” no “paraíso”, e, mais explicitamente, no poema “Deus”, Ismael Coutinho une a noção de religiosidade cristã com a natureza, outro tema presente na sua poética: “Eu era então imerso em incerteza. / Interrogava a terra, o espaço, os céus, / Buscando ver na bruta natureza / A mansão do supremo ser – que é Deus. // Eu perguntei à brisa que passava / Varrendo as verdes comas vegetais: / ‘Em que lar Deus habita?’ E por resposta: / ‘Ascende mais.’” (Niterói, 1921). Em “Perdão, meu Deus” pede a Ele pelo Brasil e pela humanidade (Niterói, junho de 1921). Há muitos outros poemas explicitamente religiosos, todos escritos no período do seminário em Niterói, como “Hino seminarístico” (abril de 1921); “São João Batista” (22 de novembro de 1919), “Jesus no Calvário” (20 de novembro de 1919), “Perdão, Senhor” (1921), “Queixas” (abril de 1921), “Jesus!” (sem data), “Virgem Maria” (maio de 1921), “A Dom Sebastião Leme” (20 de outubro de 1921); “Rosa branca” anuncia o nascimento de Cristo (junho de 1921).
Os bons sentimentos cristãos imantam o mundo que cerca o poeta, como a figura de “O Ceguinho” esmoler (Niterói, abril de 1921), que aparece em Silhuetas sob a forma de uma mãe mendiga e cega. “Vida e morte” surge quase como um poema didático, sobre a alegria nos lares, os pássaros nos ninhos, as gotas de orvalho e os sinos “a planger finados (…) ao toque da Ave-Maria” (Niterói, 30 de outubro de 1921). “Obrar bem e mal” (Niterói, 31 de outubro de 1921), se inclina na mesma direção didática e reassume um tom próximo dos poemas medievais de Anchieta, que sem dúvida Ismael Coutinho conhecia, com sua imagética simples e ideologia cristã da caridade (obrar bem).
São muitas as referências à natureza, e, como um São Francisco de Assis, pelo menos na alma, Ismael Coutinho povoa seus dois livros com inúmeros animais, em especial pássaros, ao lado de todo tipo de plantas e animais do campo. Em “A rosa e o colibri” surge a ingenuidade romântica de um diálogo entre uma rosa e um pássaro: “Disse um dia uma rosa a um colibri / ‘Por que, malvado, não me vens a mim / Oscular, como fazes às mais flores, / Ao resedá e ao pálido jasmim?’” (Campelo, 1921). Ali, revoam animais alados, ao lado de flores delicadas, para representar o sentimento do poeta, como em “O Pássaro” (Niterói, 1919), “O Canário” (Campelo, 1921) ou em “Saudade” (Campelo, 1921), o qual se refere a uma andorinha que pode ser sua irmã. Os versos de “Minha terra” – “A minha terra é um ninho / De mimoso passarinho, / Igual no mundo não há; / É um jardim de açucenas, / Em que nas tardes amenas / Canta o meigo sabiá” (Campelo, 1921) – ecoam, numa paráfrase, os de Gonçalves Dias e de Casimiro de Abreu, tanto no glossário quanto na abordagem na temática, relacionando o passado com a pureza dos dias remotos, vividos na inocência em meio à natureza. Aliás, a paráfrase não está ausente da obra do autor, como no poema “Se eu tenho de morrer”, que ele anuncia como “Imitando Casimiro de Abreu” (dezembro de 1921). O preciosismo da linguagem rompe, no entanto, com essa visão paradisíaca tão cara aos românticos quando, na sexta estrofe de “Minha terra”, Ismael Coutinho se preocupa com a rima e rompe o pacto de emoção que a poesia deve provocar no leitor, arrebatando-o, ao escrever: “A fauna do meu torrão, / Se lhe falece um leão, / Supera em outro animal; / As searas, mantos de ouro, / Ostentam cabelo loiro / Té na zona tropical.” Na personificação de “A voz do vento” emprega estrofes sobre a natureza para transmitir um sentimento quase sagrado da criação da natureza e dos animais: “Nas quebradas seus gemidos, / Vão morrer como ganidos, / De cão que de fome chora; / E eu transido de espanto, / Não posso dormir, enquanto / O vento geme lá fora” (Niterói, maio de 1921), ou em “À margem de um rio”. Delicados animais confundem-se com descrições da natureza, como em “A lua do sertão”: “A lua desta cidade / Não é a casta deidade / Que vagueia no sertão” (Niterói, 1921).
V – Formas: Silhuetas
Enquanto Bosquejos é apresentado ao leitor como um livro íntimo e pouco pretensioso, quase uma lembrança para a família, parece-me que em Silhuetas Ismael Coutinho procurou esmerar-se ainda mais na forma, utilizando muitos sonetos, e sempre com rima e métrica perfeitamente acordadas. Aqui a temática é mais séria, mais literariamente selecionada. Já o primeiro poema é, mais uma vez, dirigido “A minha mãe” (1922). O mesmo tema se repete em “Minha mãe” (Niterói, 1º de outubro de 1923) e em “O olhar de minha mãe” (Niterói, 2 de outubro de 1923), escrito no mesmo dia que o anterior. Também ao pai dedica “Conselhos paternos”, em cuja voz busca modelo e exemplo para seu futuro (Niterói, 1º de novembro de 1933). “Minha avozinha” é um soneto. Essa figura que conta histórias, cercada de crianças (Niterói, 28 de agosto de 1924), é descrita noutro poema, “A avozinha”, como uma senhora de cabelos brancos que narra histórias à luz da lua que “aclara a varanda”, enquanto “assopra uma aragem branda… / Geme ao longe um noitibó…” (sem local, 1º de outubro de 1925).
Contudo, já o segundo poema do livro envereda por um tema novo, “O Proletário”, que tem perfil social, embora seja tratado do ponto de vista emocional: “Vejo no pranto a mágoa que o consome: / Pois deixa os filhos a gemer com fome / E a esposa sobre o leito agonizando” (Niterói, 3 de maio de 1922). Na mesma linha seguem “O mendigo” (Niterói, 7 de maio de 1922) e “A Esmola” (Niterói, 8 de maio de 1922), sendo os três sonetos. Já “Gratidão” adota os dodecassílabos, numa única estrofe de 24 versos e retoma o tema religioso, no qual Jesus se volta para as “criancinhas pobres” (Niterói, agosto, sem ano). “Rosa e borboleta” surge como um diálogo semelhante à “A rosa e o colibri” de Bosquejos, em 1921, mas aqui só temos o local, Niterói, sem data, que pode ser entre 1919 e 1922.
“O Canarinho” (Niterói, sem data), também se refere a cenas de natureza; este poema tem uma variante, o soneto em decassílabos “Meu canário” (novembro de 1925), enquanto outros retomam o tema religioso, como “O Sacerdote”, homenagem ao Exmo. Sr. Bispo Diocesano (sem data) e “Sta. Isabel” que descreve o milagre efetuado por essa personagem religiosa (Niterói, 29 de agosto de 1924). Em “Ave, Maria!”, belo soneto em decassílabos, afirma, no primeiro terceto: “‘Ave, Maria!’ O velho bronze entoa, / No campanário, e esta sublime loa / E o miserere do final do dia…” (Niterói, 15 de agosto de 1924).
VI – Conclusão: uma vida espiritual
Deduzimos que o cunho religioso da poesia de Ismael Coutinho se deve a sua inclinação monacal, tendo estudado dos 17 aos 26 anos no Seminário São José, de Niterói, a qual não foi cumprida (casou-se, teve sete filhos), mas que se condensou na profissão de professor. Conforme afirma Rosalvo do Valle (UFF), que foi seu aluno no Colégio Brasil, em Niterói (ver “O homem e a obra”, in http://www.filologia.org.br/XV_CNLF/homenageado.htm): “Para ele, o magistério era um sacerdócio, a que se dedicava como um missionário. E o professor, que forma alunos, foi-se tornando o mestre, que forma discípulos.”
Natural de Santo Antônio de Pádua, RJ, onde nasceu em 12 de maio de 1900, segundo filho da família, faleceu em 24 de julho de 1965, de acidente de automóvel, em São Paulo. Ismael Coutinho passou uma infância pobre, pois o pai ficou paralítico e a mãe, muito católica, costurava para fora. Ele a ajudava como vendedor ambulante de pão, no pequeno arraial de Paraoquena, dos poemas de 1919 – que é, assim como Campelo, localidade próxima a Santo Antônio de Pádua, onde nasceu. De 1917 a 1926, sedimentou profundamente seus estudos de latim e grego no seminário. Até então, seus estudos de língua e gramática tinham sido feitos como autodidata, devorando gramáticas; já o latim ele aprendeu no secundário, com o professor José Pinto de Sousa, que o aconselhou a melhorar o manejo da língua através da leitura de bons autores – como os padres Antonio Vieira, Manuel Bernardes e Frei Luís de Sousa. Pela mão de dom Agostinho Benassi, começou o primeiro emprego no magistério, nos anos de 1927 e 1928, no colégio Sílvio Leite, na cidade do Rio de Janeiro, sempre se destacando pela integridade de seu caráter. Em 1929 fixou-se em Niterói. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, dedicou-se ao ensino e a cargo público na Prefeitura de Niterói, como chefe de gabinete (1941-1944), além de outros dois cargos públicos: secretário de Educação e Saúde (1947) e presidente do Conselho Estadual de Educação (1958). Foi fundador da Academia Brasileira de Filologia, em 26 de agosto de 1944 e colaborou na fundação da atual Universidade Federal Fluminense (antes denominada Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).
Afirma Rosalvo do Valle (ver homepage acima), que Ismael Coutinho publicara, em O Município, de Lavras (MG), sonetos e pequenos textos em prosa, às vezes com o pseudônimo de João das Chagas, escritos quando era seminarista em Niterói. Num caderno por ele deixado de “Poemas e artigos publicados”, encontram-se as seguintes criações: a) sonetos: “Minha Mãe”, “Natal”, “Soror Teresinha”, “Retorno” (publicado em Lira, Resende, RJ), “A cigarra” e “Conselhos paternos”; b) em prosa, sob o pseudônimo de João das Chagas: “Ruínas” e “Almas penadas”. C) há cinco poemas manuscritos: “Quando o teu vulto passa”, “A H. L. F.”, “Esfinge”, “Amor e Receio” e um soneto sem título – todos datados de Belo Horizonte, dezembro de 1926), seguidos de outras composições poéticas, datadas (08/05/1927), ou sem data. Talvez o último poema que publicou (Belo Horizonte, 05/02/1957) foi “À minha netinha Branca”, escrito para a neta primogênita pelo “vovô Baé”.
Podemos afirmar que a principal preocupação de Ismael Coutinho, em sua poética, prende-se ao tema religioso cristão aliado ao tom didático, moral, educativo, como no último poema de Silhuetas, o soneto “Meu rosário”: “Este rosário sempre me acompanha, / Acompanha-me sempre pela vida (…) // Hei de guardar, num lindo relicário, / Todas as contas deste meu rosário, / Depois de velhas, entre murchas flores, (…)” (novembro de 1925). A literatura religiosa, após as criações excepcionais da poesia de José de Anchieta, os sermões do Padre Antonio Vieira e a poesia sacra de Gregório de Matos, no barroco, não teve grande repercussão na criação poética brasileira. Surge assim, na vertente espiritualista da poesia modernista brasileira, um autor que exerceu a arte religiosa, inserindo-a na preocupação com a norma culta e no cuidado com a técnica de poetar – arte na qual sobressaiu Cecília Meireles. Nem poderia deixar de ser assim sua poesia, tão esmerada, tendo sido Ismael Coutinho titular de língua e literatura latina na Universidade Federal Fluminense.
1 Este ensaio serviu de introdução à edição das duas obras inéditas de poesia Silhuetas e Bosquejos, de Ismael Coutinho publicadas num só volume (Rio de Janeiro, Botelho, 2014). Por ocasião do lançamento, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fiz uma palestra a respeito do autor no IX Congresso Nacional de Língua e Literatura da ABRAFIL, no auditório do 11º andar daquela universidade, no dia 22 de agosto de 2011. Ismael de Lima Coutinho dá nome ao Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, localizado em São Domingos, em Niterói. Ele foi grande professor de português e latim, além de filólogo que se dedicou a estudar o sistema verbal latino-português.
Bio fornecida pelo palestrante.
“A MORTE DO AUTOR” EM BOUVARD E PÉCUCHET, DE GUSTAVE FLAUBERT
Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Resumo: O presente artigo pretende mostrar a posição do autor na obra Bouvard e Pécuchet de Gustave Flaubert, a partir dos conceitos levantados por Roland Barthes, em seu ensaio A morte do autor. Considerada uma obra às avessas da tradição do romance, Bouvard e Pécuchet traz à tona a imbecilidade humana, através da colagem de idéias alheias, catalogadas e pesquisadas por Gustave Flaubert durante seus últimos anos de vida. Assim, o romance confunde a posição do autor com a posição do leitor, inaugurando uma forma nova, sem precedentes, que Roland Barthes mencionou em vários de seus ensaios e escritos. Assim, Barthes mostra a retirada do autor, o nascimento da linguagem, para além do papel essencial do leitor, que, nesse caso, se mescla com a função autor.
Palavras-chave: Flaubert; Barthes; autor; literatura, Bouvard e Pécuchet.
Abstract: This article aims to present the author’s position in the work Bouvard and Pécuchet, by Gustave Flaubert, departing from some concepts raised by Roland Barthes in his essay “The Death of the Author.” Considered as a work apart from the Romantic tradition, Bouvard and Pécuchet brings about the human imbecility, by pasting other people’s ideas, catalogued and researched by Gustave Flaubert during his last years of life. Thus, the novel confounds the author’s with reader’s position, pointing to the absence of the author, and the birth of a new concept of language, which Barthes mentions in several of his writings and essays.
Keywords: Flaubert ; Barthes ; author; literature, Bouvard and Pécuchet .
Minicurrículo: Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira possui graduação em Letras (2007) e mestrado em Estudos de Linguagem (2013) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Atualmente é bolsista Capes e doutoranda da Pós-Graduação de Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em literatura, atuando nos seguintes temas: literatura comparada, arte e crítica, percepção do texto poético e questões da contemporaneidade.
“A MORTE DO AUTOR” EM BOUVARD E PÉCUCHET,
DE GUSTAVE FLAUBERT
Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Guy de Maupassant (1990) registrou certa vez que Gustave Flaubert, em plena falência financeira, recluso em sua casa e entregue totalmente à escrita, morreu repentinamente em 1880, ao pé de sua mesa de trabalho, deixando em estado de roteiro as duas últimas cenas do capítulo X da mais desafiante de suas obras: Bouvard e Pécuchet.
Tal projeto desconcertou os seus contemporâneos, definindo-o como uma “aberração estranha”, segundo dizeres de Mallarmé (cf. CAMPOS, 1978, p. 13). Essa obra inacabada tinha o intento de provocar os burgueses, confrontar a sociedade da época. Assim:
a escrita é uma realidade ambígua: por uma parte, nasce incontestavelmente de um confronto do escritor com a sua sociedade por outra, dessa finalidade social, ela remete o escritor, por uma espécie de transferência trágica às fontes instrumentais de uma criação (BARTHES, 1974, p. 15).
Flaubert fez as seguintes confissões sobre tal produção, em carta a Mme. Roger Des Genettes, em 1872: “É preciso estar louco e triplamente frenético para empreender um livro como esse!”. Além disso, disse também que “nesse tempo de avacalhamento universal”, que lhe provocava revolta, “vomitarei sobre os meus contemporâneos o desgosto que eles me inspiram, ainda que tenha que romper o meu peito. Bouvard e Pécuchet me obcecam a tal ponto que eu me transformei neles! Sua estupidez é a minha e eu morro dela”.[1]
Assim, para Flaubert, a escrita era um ato de “fabricação”; uma “cerâmica”; uma “joia”; e isso mostra o seu intenso envolvimento com suas produções. Roland Barthes não esconde em seus ensaios sua admiração pelas obras do escritor, e disse que “para Flaubert, o estilo é a dor absoluta, a dor infinita, a dor inútil” (BARTHES, 1974, p. 68).
É esse estilo flaubertiano tão comentado por Barthes que chama atenção. Um estilo peculiar, que não tem somente a intenção de proporcionar prazer, mas também provocar o desconforto. Atentemos a Bouvard e Pécuchet, especificamente. Por que tal obra causa inquietação? O que Flaubert pretendia afinal? Qual é a posição do autor na obra? Qual é o limite do autor/leitor/personagens? Como tal escrita pode mostrar a retirada do autor e talvez mostrar a sua suposta “morte” simbólica como Barthes costumava afirmar?
Discorreremos sobre a posição do autor e a figura do leitor na obra Bouvard e Pécuchet, baseado nos conceitos tratados por Roland Barthes em seu ensaio A morte do autor, podendo durante a análise surgir outros conceitos e autores para dar maior suporte às idéias barthesianas.
Antoine Compagnon, em O demônio da teoria (2006, p. 47) afirma que o ponto de maior controvérsia dos estudos literários é o lugar que o autor ocupa diante da obra. Antigamente, associava-se o sentido da obra do ponto de vista primordial do autor, exposto pela filologia, pelo positivismo, pelo historicismo. Porém, a partir de ideias contemporanêas, como o Formalismo Russo e o New Criticism, o texto tornou-se detentor do sentido, independente das intenções do autor. Não tardou para que nos meados dos 60, Hans Robert Jauss e outros teóricos trouxessem à tona a importância do leitor como agente significante para a obra literária.
A partir dessas vertentes de questionamentos da posição e da importâcia real do autor para obra, Roland Barthes formula a tese ‘A morte do Autor’. Partindo desses conceitos mencionados, a obra não se limita ao autor, e sim, a linguagem; é como foi composta e feita, segundo Barthes. Como formar um estilo através do trabalho árduo de compor uma linguagem artesanal, podendo assim esse autor ver em sua obra o além de si mesmo? Vale ressaltar, que essa “morte” do autor, é uma morte simbólica ; o autor tem sua importância, porém ele não é a mais a figura central e o foco de todas as respostas do texto. Assim, não faria sentido mencionar a fortuna crítica e o trabalho intelectual de Gustave Flaubert. que se pretende abordar é o esvaziamento do espaço desse autor, valorizando o processo de escrita e sua recepção. Sendo assim, “A problemática da autoria surge e ressurge a todo instante na obra, tanto no que concerne aos personagens, quanto ao próprio Flaubert ” (SANTOS, 2013, p. 137).
Para Barthes, a escritura é esse neutro, esse composto, pelo qual o sujeito consegue obter sua fuga e perder sua identidade; seria esse “grau zero da escrita”. Logo, começa o corpo que escreve, não mais o indivíduo propriamente em si. Michel Foucault (2006, p. 295) também teceu pontos de vista (embora sejam por outros vieses), sobre a representatividade do autor em uma obra, dizendo que o autor se apaga para favorecer seu discurso. Logo, esse desaparecimento de quem compõe a escrita, nada mais é que um jogo da função do autor dentro da obra.
Antoine Compagnon menciona Roland Barthes em sua obra O demônio da teoria, dizendo que o escritor:
É aquele para quem a linguagem é problema, que experimenta sua profundidade, não a instrumentalidade ou a beleza”. A literatura é a partir daí plural, irredutível a uma intenção, donde a exclusão do autor. (COMPAGNON, 2006, p. 67)
Bouvard e Pécuchet pretendia mostrar esse jogo; seria a “vingança moral” aos seus contemporâneos. Esses personagenseriam a representação dos burguêses. Enquanto Emma Bovary representava uma figura feminina vazia, envolvida com as leituras românticas e submersa numa atmosfera burguesa falida como o casamento, os dois copistas representam o individuo burguês do século XIX aspirando conhecimento e progresso, em busca do desenvolvimento da civilização. “Este homem civilizado, por sua vez, deveria não somente usufruir da tecnologia, mas também buscar acumular o máximo de conhecimento” (SANTOS, 2013, p. 20).
Para compor a obra, Flaubert leu mais de 1.500 livros com temáticas variadas (como agronomia, jardinagem, fabricação de conservas, anatomia, etc.), como prova que a humanidade tem a necessidade de compreender e dominar o mundo através do saber. Além de autor, Gustave Flaubert era antes de tudo, um leitor. O autor é fundido aos personagens da história e a “colagem” e conceitos alheios recorridos às leituras feitas. Como prova disso, Julia Kristeva diz que “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto (apud SAMOYAULT, 2008, p. 16). Dessa forma, existe uma criação? Tudo se resume a colagens de ideias? Qual é a função do autor que é também um leitor?
Atentemo-nos ao enredo: Bouvard e Pécuchet são dois copistas, que se conhecem por acaso e tornam-se amigos. Certa vez, em conversa informal, ambos confessam que são insatisfeitos com seus ofícios e se pudessem, se dedicariam à pesquisa, à leitura e fariam grandes coisas em diversas aréas do saber. Em determinado momento, Bouvard recebe a herança de um tio e faz a seguinte proposta ao amigo Pécuchet : comprar uma chacará e dedicar todo o tempo aos estudos de diversas áreas, a pesquisa e a prática. Depois de tanto tentarem e e praticarem, fracassam em todos intentos e desistem do sonho. É como se todo conhecimento adquirido fosse posto a prova e descobrisse que tudo não passa de uma farsa e grande estupidez.
Vejamos um exemplo a partir de um trecho do romance, que mostra as contradições que o conhecimento pode acarretar, que no caso, é na área da química especificamente:
Para estudar química, providenciaram o Curso de Regnault, e aprenderam antes de tudo que “os corpos simples talvez sejam compostos”. Dividem-se em metalóides e metais, diferença que “nada tem de absoluto”, diz o autor. O mesmo acontece aos ácidos e às bases, “um corpo pode comporta-se à maneira dos ácidos ou das bases, dependendo das circunstâncias.”
A notação lhe pareceu estapafúrdia. As proporções múltiplas confundiram Pécuchet (FLAUBERT, 2007, p. 93).
Ao final, cansados de fracassarem em seus experimentos e depararem com tantas contradições, os dois homens voltam à posição inicial: de copistas que copiam tudo que leem! Segundo Guy de Maupassant, Bouvard e Pécuchet :
É a história da fraqueza da inteligência humana, um passeio pelo labirinto infinito da erudição com um fio na mão; este fio é a grande ironia de um pensador que constata sem cessar em tudo, a estupidez eterna e universal (MAUPASSANT,1990, p. 38).
Para comprovar essa imbecilidade inerente humana e esse estado de frustração intelectual (e de gasto total da tão estimada herança), cria-se um “Tolicitário”, um Dicionário de ideias prontas que surgiu depois de tanto os personagens tentarem e experimentarem as teorias dos livros. Eles apropriam-se de vocabulários existentes e dão-se novas definições a elas, subvertendo-as. Vejamos alguns exemplos dos verbetes do “Tolicitário”: BUDISMO – “Falsa religião da Índia”. ALCOOLISMO – “Causa de todos os males modernos”. BANQUEIROS – “Todos ricos, árabes e agiotas”. CALOR – “Sempre insuportável! Não beber quando faz calor.” CORTESÃ – “Mal necessário. Salvaguarda de nossas filhas e nossas irmãs. São sempre moças do povo, levadas à devassidão por burgueses ricos”. DOMINÓ – “Joga-se dominó melhor quando se está embriagado”. HOMERO – “Jamais existiu.” No mínimo, tais definições provocam certo estranhamento e riso.
Augusto de Campos afirma, em A margem da margem, que:
Se Bouvard e Pécuchet já desconcerta pela neutralidade da linguagem, sem qualquer brilho aparente, pelo anti-heroísmo dos personagens, e pela reiteração dos movimentos, sucessos e fracassos, o Dicionário atenta definitivamente a ação e os personagens e nos põe em contanto direto com o tema da imbecilidade (que ambiguamente confunde o leitor, autor e personagens, fictícios colecionadores de verbetes). (…) Nessa obra, “personagens se convertem em despersonagens, heróis em anti-heróis, ao passo que o estilo se desistila e se neutraliza, no segundo tomo o autor se retira de vez. O escritor desescreve (CAMPOS, 1978, p. 18-20).
Com essa visão de desconstrução da escrita, Flaubert parece não acreditar mais no romance em si, na literatura como algo detentor de todo sentido e completo, considerando o processo de escrita e artificialidade desse gênero, que não poderia representar a vida em sua verossimilhança e totalidade. Oram segundo Barthes (1974), em O grau zero da escrita, a escrita pode se reduzir a um tipo de modo negativo em que dados sociais ou míticas de uma linguagem comprometida em favor de um estado neutro e inerte da forma.
A questão de autoria/leitor também entra em discussão. Em Bouvard e Pécuchet, quando a cópia se torna o impulso da produção, é possível perceber uma descaracterização da ideia dessa autoria, pois o discurso do texto só é construído a partir de outros discursos e referências, dando fim ao que seja propriedade tanto no “roubo” do que é do outro quanto na construção daquilo que seja próprio. A obra confunde a posição autor/leitor, se retroalimenta, tornando-se fragmentada.
Segundo Barthes (2004, p. 62), ao citar a composição de Bouvard e Pécuchet, diz que o escritor imitará sempre um gesto já existente, já dito, como se a criação fosse algo ilusório, ou seja, jamais original; o poder dessa “entidade” (que é o escritor) é de dar novos sentidos ao “já-dito”, mesclar informações, criar contradições. Ou seja, um livro nada mais é que um retalho de citações anteriormente feitas. Philippe Sollers reforça essa idéia dizendo que “Todo texto situa-se na junção de vários textos dos quais ele é ao mesmo tempo a releitura, a acentuação, a condensação, o deslocamento e a profundidade (apud SAMOYAULT, 2008, p. 17).
Antoine Compangnon, em La seconde main, citado por Tiphaine Samoyault (2008), comenta sobre essa escrita que agrega outros discursos e lhe dá continuidade, ou um novo conceito e entendimento:
O trabalho da escritura é uma reescritura, visto que se trata de converter elementos separados e descontínuos num todo contínuo e coerente […] Reescrever, realizar um texto a partir de seus fragmentos, é arranjá-los ou associá-los, fazer as ligações ou as transições que se impõem entre os elementos presentes. Toda escritura é colagem e glosa, citação e comentário (apud SAMOYAULT, 2008, p. 35).
A autoria aqui parece confundir-se com a leitura, pois, para Flaubert, utilizar aquilo que é de outro, deve-se colocar no lugar de leitor, e, retomando a noção de scriptor, o autor leva este lugar de ação ao extremo ao concretizar este novo texto a partir de outros. Para Barthes, “a linguagem conhece um “sujeito”, não uma “pessoa”, e esse sujeito, vazio fora da enunciação que o define, basta para “sustentar” a linguagem, isto é, para exauri-la” (BARTHES, 2004, p. 60).
A seguir, analisaremos outro trecho da obra Bouvard e Pécuchet, que mostra claramente a colagem de idéias de outros autores, sendo confrontadas e ridicularizadas pelas contradições de argumentos, que coloca em questão a seriedade científica:
(…) O ideal de ambos era Cornaro, o fidalgo veneziano que, graças a um regime rígido, foi muito longevo. Sem chegar a imitá-lo totalmente, poderiam tomar as mesmas precauções, e Pécuchet retirou, da sua biblioteca, o Manual de higiene, do doutor Morin.
Como haviam conseguido viver até então? Os pratos que gostavam eram proibidos. Germaine, confusa, não sabia mais o que lhes servir.
Todas as carnes têm inconvenientes. Os chouriços, as salsicharias, o arenque defumado, os crustáceos e a caça são “refratários”. Quanto maior o peixe, mais contém gelatina e, consequentemente, é mais pesado. Os legumes causam acidez, o macarrão produz pesadelos, os queijos “de um modo geral são difíceis de digerir”, um copo de água pela manhã é “perigoso”. Toda bebida ou todo comestível vem acompanhado de um aviso dessa espécie, ou então destas palavras: “Nocivo! – Cuidado com o abuso! – Não convém a todos!”
Faz mal por quê? Em que consiste o abuso? Como saber se determinada coisa nos convém?
Que problema o almoço! Abandonaram o café com leite devido à sua reputação detestável e, em seguida, o chocolate, por ser “um amontoado de substâncias indigestas”. Restava o chá. Mas “as pessoas nervosas não devem bebê-lo de forma alguma. No entanto, no século XVII, Decker prescrevia vinte decalitros por dia, para limpar as estagnações do pâncreas.
Aquela informação abalou a estima deles por Morin. Além do mais, condenava todas as coisas que cobriam a cabeça – chapéus, bonés e barretes –, exigência que revoltou Pécuchet. Então compraram o Tratado de Becquerel, onde viram que o porco é em si “um bom alimento”, o tabaco, perfeitamente inocente e o café, “ indispensável aos militares”.
Até então tinham acreditado na insalubridade dos lugares úmidos. Nada disso! Casper declara que são menos mortíferos que os outros. Não se toma banho de mar sem antes refrescar a pele. No entanto, Bégin recomenda que se entre nele ainda transpirando. O vinho puro após a sopa é considerado excelente para o estômago. Lévy acusa-o de prejudicar os dentes. Finalmente, o colete de flanela, esta salvaguarda, este protetor de saúde, este paládio, tão caro a Bouvard e inerente a Pécuchet, é desaconselhável pelos autores, sem rodeios, nem medo da opinião, aos homens pletóricos e sanguíneos.
Afinal, o que é a higiene? “Verdade aquém dos Pirineus, erro além”, afirma o senhor Lévy, e Becquerel acrescenta que não é uma ciência (FLAUBERT, 2007, p. 108- 109).
Os personagens, ao depararem com tais absurdos, questionam cada conceito lido: não entendem, tentam pôr em prática e fracassam. Mesmo assim, resta-lhe esperança, pois eles insistem em outras áreas e leituras, até que concluem que tudo não passa de uma ilusão e de uma soma de equívocos intelectuais e científicos que se afirmam hoje e se negam amanhã.
Flaubert compôs essa narrativa, através da colagem de idéias, questionando cada conceito lido, mostrando que a “forma literária pode doravante provocar os sentimentos existenciais que estão atados ao interior vazio de todo objeto, sentido de insólito, familiaridade, repugnância, complacência, uso, homicídio” (BARTHES, 1974, p. 5). Flaubert ao fazer isso, desconstrói a escrita e logo, o papel de escritor no romance, tendo que assumir o caráter dessacralizador da linguagem e de autoria, dando essa liberdade de interpretação e leitura da obra.
Contudo, “Dar ao texto um Autor é impor-lhe um travão (…) é fechar a escritura” (BARTHES, 2004, p. 63). Independente dessa fala feita posteriormente, Flaubert justificou o pensamento barthesiano anteriormente. Guy de Maupassant disse que Flaubert era um “apóstolo da impessoalidade na arte” e que ele não admitia que o autor fosse, em momento algum, um ser vislumbrado, iluminado; que por descuido deixasse transparecer em uma página ou frase, uma articulação de sua opinião íntima como forma de intenção (cf. MAUPASSANT, 1990, p. 72).
Para Fernanda Ferreira Santos, Flaubert tinha essa consciência mencionada por Maupassant:
Toda a folia enciclopédica de Flaubert, todos os discursos que ele apresenta no texto servem pura e simplesmente, segundo Contador Borges, para denunciar o próprio momento de escrever. Isso nos faz pensar acerca da teoria de que o escritor já se preocuparia com a linguagem, de que ela, em seu texto, já aparece como um retorno a si (SANTOS, 2013, p. 32).
Consciente de seu ofício, Flaubert era altamente disciplinado e comprometido; jamais descuidaria em parecer um autor dono de sua obra e de suas verdades.
Gustave Flaubert, ao contrário, procedendo com inteligência e compreensão profundas, muito mais que por intuição, trazia em uma linguagem admirável e nova, precisa, sóbria e sonora, um estudo de vida humana profundo, surpreendente, completo (MAUPASSANT, 1990, p. 29).
Julgava que a personalidade do autor deve evaporar na originalidade da criação de um livro. Esse autor não se “apaga”, mas a escrita “nasce” e é algo aberto, inacabado; essa escrita torna-se atração principal onde o leitor se deleita e interage com o que lê.
Esse Leitor (já disse uma vez Calvino) é aquele que agrega o “não-dito” dentro da obra; que preenche as lacunas, que traz novos entendimentos (cf. CALVINO, 2003, p. 243). Logo, o Leitor torna-se figura essencial para completude de uma obra.
Poderemos citar Umberto Eco (1994) e seu “bosque narrativo”, onde o leitor é convidado adentrar e explorar cada espaço desse lugar. Usando as palavras desse autor, o texto seria uma máquina “preguiçosa”; que não responde a todas as perguntas; essa máquina pede ao leitor que faça o seu trabalho na obra, e por isso, o “passeio no bosque” torna-se mais interessante. Esse tipo de leitor-modelo, definido por Eco, é criado pelo texto em si e dele se torna refém, ou seja, esse leitor-modelo desfruta apenas a liberdade que o texto lhe oferece. Logo, Eco formula o entendimento que o autor/leitor-modelo devem andar juntos, pois
Precisam aparecer juntos porque o autor-modelo e leitor-modelo são entidades que se tornam claras uma para outra somente no processo de leitura, de modo que uma cria a outra. Acho que isso é verdadeiro não apenas em relação aos textos narrativos como em relação a qualquer tipo de texto (ECO, 1994, p. 30).
Se a obra Bouvard e Pécuchet é múltipla diante de quem escreve, ela triplica na mão de quem a lê. Fazer nascer esse leitor é ofuscar o autor (esse “ofuscar” seria valorizar o papel do leitor, não excluir completamente o autor); a voz desse leitor se torna imperceptível enquanto o império de autor prevalece intacto, segundo Barthes. Flaubert era um autor/leitor.
Logo, tanto Flaubert como seus personagens Bouvard e Pécuchet não passam de leitores que tentam reproduzir o que leram, o que torna a obra interminável. “De todos os seus textos é o que mais aponta para o futuro e para o nosso tempo” (CAMPOS, 1978, p. 14). O autor, em carta a Louise Colet, em dezembro de 1852 diz: “Seria necessário que, em todo o livro, não houvesse uma só palavra de minha autoria e que depois de tê-lo as pessoas não ousassem mais falar com medo de dizer instintivamente uma das frases que lá se encontram”.[2] Diante disso, cria-se uma liberdade da recepção, nasce uma obra sem procedentes, provocadora e um autor disposto a “morrer” para sua criação, ou seja, se tornar um ponto neutro; deixa sua obra dizer por si mesma.
Podemos aqui decretar outra “morte” simbólica: a morte do livro. Seria o fim da concepção do livro como algo encerrado, dotado de toda significação, sendo assim na escritura passível de encontrar a inserção do sujeito na internalidade da escrita. Os livros citados e usados em Bouvard e Pécuchet passam por essa morte, pois não carregam plena significação, o que é percebido na leitura que não se concretiza dos personagens. Para justificar tal argumento, Derridá diz que “(…) o fim da escritura linear é definitivamente o fim do livro (…)” (DERRIDA, 2011, p. 108).
Obra pela obra, autor desconstruído, prosa aberta, fragmentada e inclassificável, Flaubert desafiou e provocou quem pudesse presenciar seus dois copistas em suas labutas e desventuras. A obra não se encaixa em nenhum tempo, mas sim, na eternidade. Se as figuras do autor/leitor eram bem demarcadas no romance tradicional, Flaubert fez questão de desconstruí-las, como Barthes já disse posteriormente. Além disso, ele ousou profetizar caso “concluísse” a obra: “Se eu conseguir, será falando seriamente, o ápice da Arte”. Pelo visto, ele conseguiu.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. Novos ensaios críticos: o grau zero da escritura. São Paulo: Cultrix, 1974.
BARTHES, Roland. A morte do autor. In. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
CALVINO, Ítalo. “Apêndice”. In: Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Cia das Letras, 2003.
CAMPOS, Augusto de. O Flaubert que faz falta. In: A margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1978.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria : literatura e senso comum. Trad. Cleonice Paes Barreto Mourão, Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte : Ed. UFMG, 2001.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo : Perspectiva, 2011.
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FOUCAULT, Michel. O que é um autor ? In :Estética : Literatura e Pintura, Música e Cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
MAUPASSANT, Guy de. Gustave Flaubert. Trad. Betty Joyce. Campinas, SP: Editora Pontes, 1990, p. 72
SAMOYAULT, Tiphaine. A intertextualidade. Trad. Sandra Nitrini. São Paulo :Aderaldo & Rothschild, 2008.
SANTOS, Fernanda Ferreira dos. Flaubert, Bouvard e Pécuchet : autor ou leitor? Congresso Internacional da associação de pesquisadores em crítica genética, X edição, 2012. http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/apcg/edicao10/Fernanda.Santos.pdf acessado em 15/01/2016.
SANTOS, Fernanda Ferreira dos. Ler e escrever: Bouvard e Pécuchet e a multiplicação da escrita. 2013, 148f. Dissertação (mestrado)- Departamento de Letras Modernas. Faculdade de filosofia, Letras e ciências humanas da Universidade de São Paulo.
[1] Essas passagens foram retiradas do ensaio CAMPOS, Augusto de. O Flaubert que faz falta. In: A margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1978, p. 17 e 18.
[2] Carta mencionada no ensaio de CAMPOS, Augusto de. O Flaubert que faz falta. In: A margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1978, p. 17 e 18.
Bio fornecida pelo palestrante.
Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina
Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina
Resumo: O presente trabalho almeja analisar o conto “O Horla”, de Guy Maupassant, que apresenta relatos de um homem em progressivo estado de insanidade e incita uma ameaça invisível com relativo grau de realismo psicológico e verossimilhança, e ao decorrer da história, a sanidade de seu personagem e seus sentimentos são questionados, enquanto o personagem invisível, o Horla, aos poucos, domina seus pensamentos. Para a realização desta análise, recorre-se o embasamento teórico aos estudos efetivados por Todorov, Vax, Rodrigues e Roas que possuem obras pioneiras no gênero. Para tanto, será levado em conta o fato de que a busca pelo inexplicável, a magia e o irreal fazem parte do mundo fantástico, um mundo em que a ficção concerne à realidade, e são elementos assim que dominam as obras pertencentes a este gênero, que, há muitos anos, vem despertando no leitor uma necessidade por saber mais.
Palavras-chave: Medo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
Resúmen: El presente trabajo busca analizar el cuento “O Harla”, de Guy de Maupassant, que presenta relatos de un hombre en progresivo estado de insania e incita una amenaza invisible con relativo grado de realismo psicológico y verosímil, y al desarrollar de la historia, la insania de su personaje y sus sentimientos son cuestionados, mientras el personaje invisible, el Horla, a los pocos, domina sus pensamientos. Para la realización de este análisis, se recurre el embasamientos teóricos a los estudios efectuados por Todorov, Vax, Rodrigues y Roas que poseen obras pioneras en el género. Para tanto, será llevado a cabo el hecho de que la búsqueda por lo inexplicable, la magía y lo irreal hacen parte del mundo fantástico, un mundo donde la ficción concierne a la realidad, y son elementos así, que dominan las obras pertenecientes a lo fantástico, el cual, hace muchos años, se ha despertado una necesidad por saber más del lector.
Palabras-clave: Miedo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
Minicurrículo: Caio Vitor Marques Miranda: Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) com a pesquisa em Literatura e Ensino e graduado pela mesma universidade em Letras – Licenciatura em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas (2013). Possui experiência na área de Letras Vernáculas e Estrangeiras Modernas. Atualmente é professor de Espanhol no Colégio Bom Jesus de Rolândia e no cursinho pré-vestibular Prime, e de Literatura Brasileira no Colégio Interativa Londrina e no cursinho Especial da UEL, CEPV. A orientadora do Mestrado é a Profa. Dra. Claudia Critina Ferreira, da Universidade Estadual de Londrina.
O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”,
DE GUY DE MAUPASSANT
Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina
Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina
A literatura fantástica sob o viés da loucura tem traçado seu percurso no decorrer dos anos. Criando cenários sombrios, permeados pela dúvida, a literatura fantástica possibilita a instauração ou a presença da desordem psíquica em um universo paralelo ambíguo e incerto. Normalidade e anormalidade, sanidade e loucura, tudo se confunde. As fronteiras se expandem, esfumaçando ou apagando os limites entre esses binômios.
A presença da loucura em contos fantásticos que abordam a alienação, o delírio ou a demência é temática contemplada na obra contística de alguns escritores, como: Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft ou Ambrose Bierce.
A literatura fantástica rompe com rótulos e explicações racionais, científicas e cartesianas ao possibilitar a presença ou a existência de elementos insólitos e sobrenaturais, convivendo em harmonia com o real. Nesse sentido, a loucura pode ser considerada natural e/ou aceita sem hesitação, enquanto que a sobriedade, questionada.
Dentro deste contexto, faz-se interessante observarmos algumas definições de loucura e termos afins para que possamos compreender melhor a presença e a associação da loucura nesta vertente literária.
Louco, portanto, é aquele sujeito cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais, aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados. A loucura é a doença/distúrbio que o louco possui. No entanto, Foucault, professor e filósofo, em seu livro História da loucura na literatura (2010), define o louco como:
O louco afasta-se da razão, mas pondo em jogo imagens, crenças, raciocínios encontrados, tais quais, no homem de razão. Portanto, o louco não pode ser louco para si mesmo, mas apenas aos olhos de um terceiro que, somente este, pode distinguir o exercício da razão da própria razão (FOUCAULT, 2010, p.186).
Assim, desde tempos remotos, encontramos, na literatura, histórias em que o louco/a loucura se torna um fator relevante do enredo, apresentando suas diversas faces. Num panorama geral, podemos começar nos mitos, nos mais clássicos, como a troiana Cassandra. O deus Apolo concede a Cassandra o dom da profecia, mas como ela não quis ficar com ele, o deus faz com que ninguém acredite no que ela diz. Assim, todos a consideram louca. Ela vive presa numa torre, gritando e sofrendo, pois sabe que as desgraças vão acontecer, mas não pode impedir, pois ninguém acredita nela, todo mundo pensa que suas profecias são mentira. Tendo, assim, um fim trágico.
O herói grego Ájax, por exemplo, que pertence ao ciclo da guerra de Troia, após perder a disputa pelas armas de Aquiles para Ulisses, tem um ataque de loucura e mata vários guerreiros. Depois deste surto, ao descobrir o que fez, ele se mata.
Temos, também, O Alienista, de Machado de Assis, em que o cenário é a casa verde, um tipo de manicômio; o considerável número de contos do Guy de Maupassant, que no final de sua vida, foi diagnosticado com doença mental; a coletânea de contos de Leopoldo Lugones, autor argentino, que com a incursão do fantástico, faz crítica ao cientificismo, ou ainda, a grande obra de Cervantes, El ingenioso Don Quijote de la Mancha.
Entretanto, na literatura, nos deparamos com muitos outros elementos ou fatores chave das narrativas, como o terror, a presença de bruxas e magias, situações inexplicáveis científica ou racionalmente, surreais ou até irreais, provocando, no leitor, uma sensação de medo, mistério ou curiosidade por saber mais. Vislumbrando, neste contexto, a literatura fantástica.
Assim, o presente trabalho almeja realizar uma possível leitura da segunda versão do conto O Horla, de Guy de Maupassant, pelo viés do fantástico, salientando a sensação de medo que o personagem principal sofre durante toda história e ainda o estado de loucura em que se encontra. Como aporte teórico, utilizamos autores pioneiros desta temática, como as ideias de Todorov (2010) presentes no livro Introdução à literatura fantástica e de Roas (2011), presentes no livro Tras los límites de lo real. Una definición de lo fantástico.
Sabemos que na literatura se manifestam tendências inacabadas, que não se concluem em rótulos determinados, visto que o trabalho de criação é renovado através dos tempos, e que a literatura foi e continua sendo uma linguagem aberta, que permite modificar a ideia do que hoje é, ou não, considerado literatura. Assim, ocorre com o fantástico.
O termo fantástico pode significar: “aquilo que só existe na imaginação, na fantasia; o fora do comum; extraordinário, prodigioso” (HOUAISS, 2001). A literatura fantástica tornou-se, sobretudo nas últimas décadas do século XX, um tema recorrente na literatura contemporânea, sendo objetivo de várias análises literárias, que em sua compreensão, o fantástico mantém, em sentido lato, essas mesmas acepções, e delas sucedem traços únicos ou definidores desse gênero incerto, dependendo da proposta de que parte cada estudioso. Várias foram as tentativas de definições do fantástico realizadas por teóricos literários. Para conter o mundo fantástico na literatura, expomos alguns como: Castex (1951), Vax (1965) e Todorov (1975).
Castex (1951), estudioso sobre a literatura fantástica na França, estabelece:
O fantástico não se confunde com as histórias de invenção convencionais, como as narrações mitológicas ou os contos de fadas, que implicam uma transferência da nossa mente para um outro mundo. O fantástico, ao contrário, é caracterizado por uma invasão repentina do mistério no quadro da vida real; está ligado, em geral, aos estados mórbidos da consciência, a qual, em fenômenos como aqueles dos pesadelos ou do delírio, projeta diante de si as imagens das suas angústias e dos seus horrores (CASTEX, 1951, p. 8).
Para esse teórico, o fantástico seria histórias muito próximas à realidade, chocando-se com o impossível, e esta invasão faz com que o leitor entre em conflito com ele mesmo sobre o que é ficção e realidade. É isso que faz do fantástico um gênero único, inconfundível, e caracterizado pelo sobrenatural.
Vax (1965), também francês, é um estudioso e um dos precursores do surrealismo artístico, segundo o qual o fantástico não deve somente fazer uma irrupção no real, mas precisa que o real lhe estenda os braços, consinta com a sua sedução, ou seja, esta sedução pode ser considerada um elemento deste gênero, mas para que este encanto ocorra, o real deve ceder-lhe espaço.
Todorov (1975) foi um dos grandes estudiosos que teorizou sobre o fantástico, destacando-se por ter sido o primeiro a organizar o estudo do fantástico, até então pouco discutido. Todorov em Introdução à literatura fantástica (1992) elabora um estudo mais detalhado e consistente nas características da literatura fantástica, ele retoma as definições dadas pelos especialistas franceses Castex (1951), Caillois (1966) e Vax (1960), e logo no segundo capítulo do livro, ele aborda Alvare, o personagem principal do livro de Cazotte, Le diable amoureux, que vive uma história de ambiguidade até o fim da ficção, e Todorov (2010) consolida:
Somos assim transportados ao âmago do fantástico. Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentimentos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. (…) O fantástico ocorre nesta incerteza; (…) (TODOROV, 2010, p. 31).
Por conseguinte, define o fantástico como sendo “a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 1992, p. 31). Em outras palavras, o fantástico habita a hesitação do leitor diante de fatos insólitos, que vão contra a ordem natural, fazendo com que a dúvida perante estes acontecimentos permaneçam até o fim da narrativa. Esta hesitação do leitor é apontada por Todorov (1992), como uma marca principal do fantástico. Portanto, o autor vê o fantástico como um produto de três fatores que são essenciais em obras desta natureza:
Primeiro, é preciso que o texto obrigue ao leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e hesitar entre uma explicação natural uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica como a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação “poética”. Estas três condições não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita (TODOROV, 1992, p. 39).
Logo, a hesitação provoca no leitor uma espécie de reflexo, uma atitude que rejeite a leitura metafórica da obra, o que terminaria com a hesitação requerida, com uma possível condição, a identificação do leitor com uma personagem. Para que haja esta hesitação, compreensão da narrativa, mais uma vez, há de se fechar os olhos para a realidade, e mergulhar-se para um mundo de possibilidades, fantasias, mistérios, um mundo em que a presença do sobrenatural é habitual.
Caillois (1980), outro escritor francês e compilador de antologias, em uma de suas definições, em 1958, diz que o fantástico é a violação de uma regularidade imutável, e o elemento principal do fantástico é a aparição, ou seja, é o que não pode aparecer, mas aparece, manifestando na narrativa o inadmissível. A definição de Caillois (op.cit.) está próxima à definição de Vax (1960), pois em ambas as definições há uma invasão do inadmissível, um conflito do real com o impossível. O que não poderia/deveria ocorrer em uma realidade racional, acaba ocorrendo.
Lovecraft (2007), escritor norte americano, é outro autor que vê o fantástico a partir da relação que estabelece com seu leitor e da sua reação. Dedicou-se a histórias de terror e medo. Para ele, o fantástico reside no modo como o leitor recebe o texto, no envolvimento da obra com o público. Para que um conto receba o rótulo de fantástico, é preciso que este “suscite ou não o leitor um sentimento de profunda apreensão e de contato com esferas diferentes e forças desconhecidas” (LOVECRAFT, 2007, p. 5-6). Ou seja, há de se fechar os olhos para a realidade, para que haja um envolvimento ou uma interação entre leitor e texto.
“Quando ouço pronunciar a palavra guerra sinto um pavor como se me falassem de Bruxaria, de inquisição, de uma coisa longínqua, abominável, monstruosa, contra a natureza.”
Guy de Maupassant
Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, em Tourville-sur-Arques (França). Estudou no liceu de Ruão, foi colaborador por oito anos dos Ministérios da Marinha e da Instrução Pública. Em 1870, Maupassant foi para Paris e lá se firmou como contista. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais, usando a técnica naturalista.
Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant mais produziu textos, cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como Bola de sebo, O Colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla. Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Mas o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. Em 1892, ele tentou suicídio. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.
Em um de seus textos deixados, O Horla, escrito em 1887, narra a transformação psicológica de seu personagem, um senhor francês, em progressivo estado de insanidade; relata-nos cerca de 4 meses da sua vida por meio de um diário, manifestando todo o sofrimento com a presença de um ser invisível que o persegue por meses, não conseguindo livrar-se dele.
O Horla, conto de cunho realista psicológico que aborda paulatina e progressivamente o inquietante, a loucura, a paranoia, a demência e a obsessão, influenciou outros escritores, como: H. P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu) e Ambrose Bierce (A coisa maldita).
Vale salientar que tal obra possui duas versões. A primeira linear, com narrativa baseada em fatos já ocorridos. A segunda, em ordem cronológica, possui narrador em primeira pessoa, quem relata os acontecimentos com datas precisas (dia e mês exatos), fato que concede maior verossimilhança à narrativa.
No conto, o personagem autodiegético inicia seu relato com os elementos que estão ao seu redor: “8 de maio – que dia lindo! Passei toda a manhã deitado na relva, na frente da minha casa, sob o enorme plátano que a cobre, a abriga e a sombreia por inteiro” (MAUPASSANT, 2006, 239).
A história tem como espaço predominante a casa do protagonista, cenário baseado na casa de seu amigo Gustave Flaubert, que não consegue abandonar por conta das lembranças que guarda da sua infância. Às vezes, este espaço se estende a outras cidades da França. O personagem relata dias normais, feliz com a vida que leva, até que, de repente, de um dia para o outro, ele começa a se sentir doente, e é esta doença que o leva a sentir uma sensação de perigo iminente, tal como um pressentimento.
16 de maio – decididamente estou doente! Eu estava tão bem o mês passado! Estou com febre, uma febre atroz, ou, melhor dizendo, um abatimento febril, que faz minha alma sofrer tanto quanto meu corpo! (MAUPASSANT, 2006, 240).
É durante o período noturno que coisas estranhas passam a acontecer. No quinto dia de seu relato, o senhor francês alega estar estranho, com medo, “um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama” e não consegue se concentrar para dormir. A presença do medo se permeia em todo o conto, e em vários momentos o personagem relata suas emoções, e o medo que sente.
Quando finalmente consegue adormecer, começa a sonhar e sentir que tem alguém se aproximando dele, que o olha, apalpa-o, sobe na sua cama, ajoelha-se sobre seu peito, agarra-o pelo pescoço entre as mãos e o aperta com muita força.
Transcorrido algum tempo, o estado do personagem se agrava cada vez mais. No sétimo dia, ele decide fazer uma pequena viagem para outra cidade. Ao retornar, tudo parece estar bem; entretanto, ele se sente perseguido e começa a pensar que está louco.
Certa noite, algo insólito ocorre. Antes de dormir, bebeu um copo de água e viu que a garrafa estava cheia, mas ao acordar de um pesadelo, observou que a garrafa se encontrava vazia:
Tudo recobrado a razão, senti sede outra vez; acendi uma vela e fui até a mesa sobre a qual estava minha garrafa. Levantei-a, inclinando-a sobre meu copo: nada escorreu. Estava vazia! Estava completamente vazia! (MAUPASSANT, 2006, 245).
O personagem se questiona sobre tal acontecimento, achando que realmente está louco. O roubo da água volta a acontecer, sucessivamente, por vários dias e, novamente, ele decide viajar; uma espécie de fuga, para solucionar os problemas que vinha enfrentando dentro de casa. Lá, ele visita uma prima e presencia um hipnotismo que o deixa perturbado.
No dia que retorna, aparentemente, tudo está normal, até ouvir uma discussão entre seus criados (…) Eles afirmam que alguém quebra os copos, à noite, nos armários. O criado de quarto acusa a cozinheira, que acusa a lavandeira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado. Idiota quem dissesse! (MAUPASSANT, 2006, 252).
Logo, no mesmo dia, vê uma cena muito intrigante. Passeando pelos seus canteiros de roseiras, algo anormal acontece:
(…) Quando parei para olhar uma “gigante das batalhas” que tinha três flores magníficas, eu vi, eu vi perfeitamente, bem perto de mim, a haste de uma dessas rosas dobrar, como se uma mão invisível a entortasse, depois se quebrar, como se a mesma mão a tivesse colhido! Depois a flor se ergueu, descrevendo uma curva que teria feito um braço levantando-a até uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, apavorante mancha vermelha a três palmos de meus olhos (MAUPASSANT, 2006, 252).
A partir daqui, são os elementos fantásticos que dominam o conto. Uma vez mais, o ser invisível bebe sua água e o medo vai possuindo o senhor francês, que já não sabe o que fazer, e aos poucos, vai ficando sem força, não tendo mais controle de certas atitudes.
No trigésimo sexto dia, o senhor francês lê uma notícia de uma revista:
Uma notícia um tanto curiosa nos chega do Rio de janeiro. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa da Idade Média, grassa neste momento na província de São Paulo. Os habitantes apavorados deixam suas casas, desertam de suas aldeias, abandonam suas culturas, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como gado humano por seres invisíveis (…) (MAUPASSANT, 2006, 257).
Após ler e refletir muito sobre a notícia que recebera, percebe a chegada do ser invisível que o persegue, começa a dizer um nome: Horla. É este o nome desta força sobrenatural, do ser que há meses vem sugando a vitalidade do senhor francês.
19 de agosto é o dia em que o senhor francês decide:
(…) Vou matá-lo. Eu o vi! Sentei-me à mesa ontem à noite; e fingi escrever com muita atenção. Eu sabia que ele viria rondar em volta de mim, bem perto que talvez eu conseguisse tocá-lo, agarrá-lo! E então… então eu teria a força dos desesperados; eu teria minhas mãos, meus joelhos, meu peito, minha testa, meus dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, rasgá-lo (MAUPASSANT, 2006, 259).
O Horla foge, e o senhor consegue montar uma armadilha para prendê-lo e livrá-lo de todo aquele tormento. Tranca-se em seu quarto e, quando sente a presença do Horla, começa a caminhar em direção à porta. Sai do quarto, passa a chave na porta, joga todo o óleo no tapete, nos móveis, em toda parte, e ateia fogo.
(…) eu olhava para minha casa e esperava. Como demorou! Eu já achava que o fogo tinha apagado sozinho, ou que Ele o tivesse apagado, quando uma das janelas do térreo explodiu sob a pressão do incêndio e uma chama, uma grande chama vermelha e amarela, comprida, mole, acariciante, subiu pela parede branca e beijou-a até o telhado (…) (MAUPASSANT, 2006, 261).
A convicção/neurose de capturar o Horla era tão grande que o senhor se esqueceu de seus empregados, que estavam dentro da casa. Horrorizado com isso, começa a pedir ajuda, mas já era tarde. A casa já era uma fogueira horrível e magnífica, e que, de repente, veio abaixo. Para ele, o Horla estava morto, mas como matar um ser que não tinha um corpo? Assim, somente a própria morte aparenta ser a única solução para livrar-se do ser invisível e temível, o Horla: “Não… não… sem dúvida… ele não está morto… então… então… vai ser preciso que eu me mate!…” (MAUPASSANT, 2006, 262).
O tormento psicológico vivenciado na casa fez com que o narrador/personagem questionasse sua sanidade e adentrasse o cenário sombrio permeado pela incerteza e pelo insólito, o que o fez progredir da angústia à loucura/demência/obsessão, apresentando-nos um desfecho surpreendente.
Podemos constatar as contribuições da obra de Maupassant para a literatura fantástica mundial. Influenciado por Gustave Flaubert e modelo para muitos outros escritores contemporâneos ou posteriores, Maupassant foi um mestre do relato breve, deixando-nos mais de trezentos contos que devem ser considerados e analisados pelo seu teor qualitativo e não somente quantitativo.
Diagnosticado com distúrbio mental, Maupassant exerceu com excelência a arte da escrita. Sua obra fascina e inspira muitos pelo mundo afora, consagrando-se como verdadeiros clássicos canônicos.
No conto analisado, observamos a presença da loucura como um ingrediente que dá sabor peculiar à obra de cunho fantástico, incitando a imaginação do leitor e enriquecendo ainda mais a leitura.
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FOUCAULT, Michel (2012). História da loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva.
Bio fornecida pelo palestrante.
REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA EM AS VISÕES DE SIMONE MACHARD, DE BERTOLT BRECHT
Lindberg S. C. Filho
Universidade de São Paulo
Resumo: Esse artigo tem por objetivo apresentar uma leitura atenta dos momentos iniciais da peça As visões de Simone Machard (1941-43/1957), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Trata-se de uma análise textual materialista – isto é, um procedimento crítico que busca determinar as relações entre forma literária e processo social – cujo intuito é descobrir de que maneira acontece a seleção e a organização de elementos estéticos para representar os meandros subterrâneos de um momento decisivo da história europeia no século XX: a invasão alemã do território francês e a subsequente implementação de um governo colaboracionista com os nazistas.
Palavras chave: Bertolt Brecht, crítica materialista, representação da história, forma literária, processo social.
Abstract: This article aims at presenting a close reading of the initial moments of the German playwright Bertolt Brecht’s text The visions of Simone Machard (1941-1943 e 1957). It is a materialist textual analysis – that is, a critical procedure that seeks to determine the relations between literary form and social process and to reveal how and which aesthetic elements are selected and organized in order to represent the subterranean meanderings of a decisive moment of European History in the Twentieth century: the German invasion of the French territory and the subsequent implementation of a govern of cooperation with the Nazi.
Keywords: Bertolt Brecht, materialist criticism, representation of History, literary form, social process.
Minicurrículo: Graduado em Letras (Português e Inglês), em 2013 e Mestre em Estudos linguísticos e literários em Inglês, em 2016, ambos pela Universidade de São Paulo. Em 2014 foi pesquisador visitante no departamento de Literatura inglesa do King’s College de Londres e atualmente é doutorando em Estudos linguísticos e literários em Inglês também na Universidade de São Paulo.
REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA EM AS VISÕES DE SIMONE MACHARD, DE BERTOLT BRECHT
Lindberg S. C. Filho
Universidade de São Paulo
Introdução
Escrever sobre o realismo e a contemporaneidade de Bertolt Brecht é uma tarefa, à primeira vista, fácil, pois significa salientar duas características que este autor buscou incansavelmente imprimir em sua obra. Em um segundo momento, no entanto, o que parecia ser simples se revela uma missão de grande complexidade, especialmente porque se trata de um realismo e de uma contemporaneidade bastante particulares e de inúmeras camadas de significação. Isso quer dizer que embora Brecht tenha dedicado a quase totalidade do tempo de seu processo criativo à elaboração de formas estéticas que dessem conta da experiência real da dominação política e social contemporânea – isto é, da realidade moderna sob o regime capitalista -, ele desenvolveu um realismo que, ao mesmo tempo em que bebia, superava as técnicas narrativas de captação da realidade dos movimentos artísticos do fim do século XIX, mais notadamente o naturalismo francês. Não bastava mais reproduzir as contradições do mundo sensível no texto ou na cena; a forma artística tinha que ela mesma produzir uma experiência estética exigente que abrisse a possibilidade de superação subjetiva das contradições presentes na vida real e que levasse em consideração os últimos desenvolvimentos da sociedade atual. Desse modo, Brecht não formulou propriamente uma doutrina ou um método, mas um princípio de construção formal baseado na descrição consciente de processos.
Neste trabalho vamos procurar fazer o exercício de análise do texto da peça As visões de Simone Machard (1941-1943 e 1957) com o objetivo de mapear como acontece a representação da história contemporânea. Além do mais, tentaremos decifrar, sempre através do exame das engrenagens formais do escrito, qual posição ou comentário político é estruturado no ponto de vista da obra. Para tanto, vamos começar por sugerir como quatro elementos constitutivos do texto dramático – tempo, espaço, personagem e enredo – tratam a matéria social e juntos compõem uma opinião do autor implícito, ou, a consciência específica que montou a obra.
A peça As visões de Simone Machard foi escrita entre os anos 1941 e 1943, ou seja, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o exílio de Brecht em Los Angeles nos Estados Unidos. Tal dado – aparentemente extraliterário – tem importância crucial porque se revela um elemento interno decisivo para confecção do texto. Com efeito, o motivo da peça tem por base não apenas uma propaganda antifascista, mas também uma avaliação política a respeito do papel de capitulação das classes proprietárias e das autoridades francesas ao regime nazista já nos primeiros anos da guerra. A “guerra de mentira” – em inglês “phoney war”, em francês “drôle de guerre” e em alemão “Sitzkrieg” – é o primeiro momento da Segunda Guerra Mundial, no qual não aconteceram grandes conflitos terrestres e vai da declaração de guerra dos aliados Reino Unido e França à Alemanha em 3 de setembro de 1939 até o início da invasão do território francês pelas tropas nazistas em 10 de maio de 1940. Este momento de indecisão geopolítica é imediatamente sucedido pelo episódio histórico que ficou conhecido como “Queda da França” e que é retratado pela peça de Brecht. Daí As visões de Simone Machard ter como começo o dia 14 de junho de 1940 – tomada de Paris pelos alemães – e terminar no dia 22 de junho do mesmo ano, quando o marechal francês Philippe Pétain assina um acordo armistício e passa a colaborar com os nazistas.
Faz-se importante notar também que estamos diante da segunda das três peças do dramaturgo alemão a apresentar uma versão dos feitos de Joana d’Arc – as outras duas são A Santa Joana dos matadouros (1929-31/1959) e O julgamento de Joana d’Arc, 1431 (1952) –, pois isto demonstra que além do esforço de reconstrução da história europeia recente, está em jogo aqui uma evidente analogia com outra época. Isto também indica, como veremos mais tarde com maior detalhamento, que Brecht identificou e quis ressaltar dinâmicas sócio-históricas que, por diversas razões, persistiram durante a história da luta de classes na França. Isto por si só já é uma maneira de transcender a ideia de realismo como mera cópia do que pode ser facilmente apreendido, essencialmente porque Brecht parece procurar tornar visível uma dinâmica histórica que escapa à carapaça aleatória dos eventos. Ele organiza o material social e estético de tal modo que as conexões entre as várias esferas da experiência concreta – conexões, diga-se de passagem, escamoteadas pela saturação do cotidiano capitalista reificado – possam ganhar proeminência. Vejamos agora como se dá esse trabalho de seleção e organização.
Fundamentos da estrutura formal de As visões de Simone Machard
Os dois primeiros elementos constitutivos do texto dramático de As visões de Simone Machard que tomamos conhecimento ao começarmos a lê-lo são o espaço e o tempo. Há, desde o início, uma preocupação bastante evidente por parte de Brecht de dar coordenadas espaciais e temporais bastante específicas. Primeiramente ficamos sabendo que a ambientação cênica deve buscar representar “o pátio da hospedaria Au Relais” e, logo em seguida, que “a ação se passa em junho de 1940 na pequena cidade francesa de Saint-Martin, no centro da França, numa estrada principal que vai de Paris ao sul” (Brecht, 1992, p. 15). Além disso, não é de maneira alguma secundário notar que a divisão dos episódios da peça não se dá propriamente por atos, mas por capítulos caracterizados por antecipação de elementos do enredo e dias cronologicamente marcados: a saber, I – O livro: “Primeiro sonho de Simone Machard – Noite de 14 de junho”; II – Aperto de mãos: “Segundo sonho de Simone Machard – Noite de 15 de junho”; III – O fogo: “Sonho acordado de Simone Machard – 20 de junho”; IV – O tribunal: “O quarto sonho de Simone Machard – Noite de 21 de junho”. Estas especificações temporais e espaciais não deixam dúvidas de que apesar de ser um objeto ficcional, a peça pretende emitir uma opinião acerca de acontecimentos bastante reais por intermédio de uma reconstrução cênica particular e informada. Não se pretende aqui abstrair a forma de representação para promulgar uma lei histórica. É nesse sentido que a divisão do texto em capítulos e não em atos faz parte do esforço do teatro épico, ou narrativo, de enfatizar que a representação em questão é uma representação e não a realidade. Dito de outra maneira, diferentemente do caráter fortemente ilusionista do drama burguês cujo objetivo central é mostrar ações como se elas fossem a realidade, o teatro narrativo de Brecht ambiciona contar histórias sempre enfatizando que há um ponto de vista desenhando a representação esteja ele implícito ou explícito.
Já as personagens, outro dispositivo formal de grande importância, funcionam tanto para nos devolver a generalidade do processo em questão através do retrato estético das classes encarnadas em tipos não individuados como “refugiados”, “soldados” e o “povo” quanto a particularidade do episódio pelo emprego de personagens de diferentes graus de caracterização histórica como “Philippe Chavez, prefeito de Saint-Martin (nos sonhos, Rei Carlos VII)” e “Um Comandante Alemão (comandante dos ingleses)”, por exemplo. Em outras palavras, no intuito de não perder a dimensão da dialética entre a parte e o todo, Brecht articula dentro do quadro geral da luta de classes – via personagens genéricos – as imagens das especificidades sócio-históricas que ele busca representar – via personagens individualmente concretos. Mais ainda: em As visões de Simone Machard está presente a característica do teatro épico que denuncia o mito da autoconsciência do drama burguês. Isto é, se por um lado o drama burguês – fortemente alicerçado no diálogo eloquente da personagem individual que toma as relações sociais existentes como dadas – constrói ideologicamente um individualismo que aparece como autossuficiente, por outro lado o teatro épico vai descaracterizar essa concepção de mundo mostrando que só na ação política coletiva e na tomada de consciência da artificialidade das relações atuais é que as personagens podem adquirir alguma autoconsciência individual verdadeira. Trocando em miúdos, as personagens estão formatadas de modo a mostrar que os indivíduos em coletividade objetivam a si próprios; as personagens vão ganhando concretude à medida em que percebem as relações reais nas quais estão inseridas. Nega-se uma interdependência coletiva. Individualidade e coletividade estão de tal maneira entrelaçadas que, do ponto de vista de Brecht, pender somente para um ou outro dos polos é eliminar um traço ímpar da realidade.
Por fim, temos o último dos fundamentos formais do texto que nos propusemos a analisar: o enredo. O que logo de saída chama mais atenção é o método de duplicação. O enredo se bifurca na realidade da Segunda Guerra Mundial durante o começo da invasão nazista e nas passagens dedicadas aos sonhos de Simone que se passam na França do século XV. Tal procedimento, como dito logo acima, tem implicações diretas nas personagens, as quais também se duplicam incluindo a própria Simone que se torna “a virgem de Orleans” nos sonhos. A indicação textual de caracterização das personagens sugere que o figurino seja duplo, ou seja, que ressalte o papel dentro e fora do sonho ao mesmo tempo como acontece com o prefeito “que usa o manto real sobre seu terno” (Brecht, 1992, p. 34) para se tornar o rei Carlos VII nos sonhos. A estas duplicações soma-se a própria ambientação cênica da fronteira entre dois países, o caráter duplo dos proprietários da hospedaria que assume a forma nacionalista para os seus empregados e colaboracionista para os alemães e a repetição de cenas imediatamente anteriores dentro das passagens oníricas. Contudo, o princípio da duplicação está subordinado ao imperativo da unidade dos opostos – como mencionado acima – que a construção estética dialética de Brecht opera a todo instante. A proliferação de duplos, então, serve mais à função de complexificação da experiência do que de fato a de oposição, pois todos os mecanismos não permanecem estáticos e sim em movimento inter-relacional. Os sonhos de Simone são produtos da sua realidade sensível e da sua imaginação e influenciam decisivamente o desenrolar do texto mesmo na narração do “real”. Do mesmo modo, “O Anjo” que diz a ela o que fazer e a ajuda a perceber coisas que ela não havia se atentado antes fora do sonho é o irmão mais velho da vida real – que, pelo visto morreu na fronteira – e a voz do próprio inconsciente de Simone em operação. Realidade e ficção se misturam de forma semelhante com que a peça, como obra de ficção, procura exprimir uma realidade que se situam para além dela.
Figuração da história em As visões de Simone Machard
I
Desde pelo menos o fim dos anos 1920 Brecht tem se debruçado sobre a questão da representabilidade do capitalismo enquanto uma temporalidade da história fundada na produção industrial. Isto, porém, não significa que nosso escritor estivesse interessado em um “realismo fotográfico” (Jameson, 1999, p. 189) nos moldes do naturalismo do final do século XIX. Há de ser dito, então, que a busca de figuração estética exigente nas suas obras não estava dissociada nem da preocupação de ensinar como operam os nexos sociais regidos pelo capital, tampouco da propaganda anticapitalista. Ou seja, o exercício de representar para Brecht pressupunha uma pedagogia em torno do funcionamento dos interesses dominantes que regem o que, como e para quem se representa e uma tomada de posição diante à configuração desses conflitos. De fato, é precisamente este elemento de construção artística que permanece em suas obras e que faz parte do relevo histórico captado pelo texto de As visões de Simone Machard.
Logo no começo da peça há uma conversa entre os trabalhadores da hospedaria que ilustra uma das características centrais da formação social capitalista:
Père Gustave para Robert – Que tal uma partidinha de belote [jogo de cartas francês]?
Robert – Estou com dor de cabeça. Passamos o dia inteiro atravessando colunas de refugiados, transportando os barris de vinho do capitão. Um verdadeiro êxodo.
Père Gustave: Você não percebe que o vinho do capitão é que é o mais importante dos refugiados?
Georges – Todo mundo sabe que esse homem é um fascista. Os cupinchas dele no estado-maior devem ter ouvido falar que alguma coisa não ia bem na frente de novo.
Robert – O Maurice está uma fera. Diz que está cheio de ficar transportando os malditos barris de vinho no meio da mulherada e da criançada. Vou tirar uma soneca. Sai.
Père Gustave – Para o comando de guerra essas colunas de refugiados são a ruína. Os tanques conseguem atravessar qualquer pântano, mas encalham no humano. A população civil mostrou ser o grande estorvo para a guerra. A gente devia levá-la logo a outro planeta desde o começo porque ela só atrapalha. Ou acabamos com o povo ou com a guerra. Não dá para ter as duas coisas (Brecht, 1992, p. 17-18).
A primeira coisa a ser dita é que o processo de individuação das personagens, como pontuado anteriormente, está intimamente ligado à formação de uma consciência mais crítica a respeito das relações sociais; neste caso a respeito dos patrões e da guerra. As personagens trabalhadoras père Gustave, Georges, Robert e Maurice não são idealizadas e tampouco têm o papel de oferecer comicidade, no lugar disso, ganham alguma profundidade psicológica e importância na mesma proporção em que externalizam o negativo não evidente das situações. Ademais, verificamos como é um deles que rapidamente aponta que entre a mercadoria – o vinho – e as pessoas refugiadas não há dúvida de quem tem mais valor do ponto de vista do senso comum da sociedade imersa no fetiche. De fato, Brecht rapidamente condensa um dos primeiros achados críticos marxistas sobre a condição fetichista moderna: “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria” porque “com a valorização do mundo das coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens (Menschenwelt)” (Marx, [1932] 2010, p. 80). O vinho do capitão é colocado como superior aos humanos tanto semântica – as colunas de refugiados são atravessadas e os barris de vinho transportados – quanto sintaticamente – o vinho é o mais importante dos refugiados. Mas, a saída de Robert para tirar uma soneca logo após a crítica ilustra como a mera percepção da contradição não é suficiente para superá-la. A passagem acima ainda faz um breve balanço ao mostrar quem são os mais prejudicados com o momento de exceção e que a guerra não existe para defender a população civil, mas esta última é vista como “estorvo”. Aliás, o trecho da peça em que os proprietários da hospedaria fazem de tudo para não deixar que os refugiados consumissem as provisões demonstra claramente até onde vai o automovimento da acumulação capitalista e expõe as duas grandes guerras do século XX como embates para lidar com a crise de superprodução, a disputa imperialista de mercados e para proteger a propriedade privada da ameaça comunista.
Vale dizer que quem dá o livro sobre a virgem de Orleans para Simone, que diz que a França precisa de uma nova Joana d’Arc é o patrão e que os empregados se revelam muito céticos em relação a qualquer resolução positiva para toda a situação que o país se encontra. Isto pode ser visto tanto como cinismo quanto descrença em soluções idealistas ou metafísicas para os conflitos reais, as quais o patrão parece querer cultivar em Simone. Père Gustave é, durante toda a peça, responsável por desmascarar o patrão, apesar de nunca fazer isso diretamente na frente dele:
Patrão – Chega, Père Gustave! Quero que o senhor reprima o seu cinismo na presença da menina. Deixem-na ler seu livro sem os seus comentários sujos. Ao entrar – só não precisa ser justo durante o trabalho, Simone. Sai.
Père Gustave sarcástico – Não é o cúmulo, Georges? Agora a lavadeira ainda tem que ser educada para ser a virgem de Orleans, e é claro que só nas horas vagas. Entopem nossas crianças de patriotismo. Eles próprios se escondem em guarda-pós. Ou escondem a gasolina açambarcada em certas olarias, em vez de entregá-la ao exército.
Simone – O patrão não comete injustiças.
Père Gustave – Não, ele é o grande benfeitor. Te dá vinte francos por semana, para que tua gente “tenha ao menos isso”.
Simone – Ele me mantém para que o meu irmão não perca o emprego aqui.
Père Gustave – E assim tem uma frentista, uma garçonete e uma lavadeira.
Simone – É porque estamos em guerra.
Père Gustave – E não é nada mal para ele, não é? (Brecht, 1992, p. 21-22).
Desde o início, o texto dá a entender que o papel dos proprietários franceses frente à ocupação nazista foi no mínimo ambíguo. O sarcasmo, o deboche e a informalidade que determinam as falas de père Gustave contrastam com o tom moderado e mais formal que marcam as falas dos seus antagonistas; neste caso, do patrão. A função de desmascaramento é reafirmada no relevo do comportamento linguístico da personagem, isto é, aos poucos ele vai se transformando na voz que faz a crítica política. Tal procedimento vai se consolidando e sua personalidade vai cada vez mais se diferenciando das outras personagens, precisamente porque ele parece estar mais consciente de uma série de coisas que as outras não estão. Uma hipótese interpretativa para a escolha da personagem mais velha como porta-voz pode ser o fato de père Gustave ter vivido mais e, por esta razão, ter sido observador ocular do comportamento recorrente dos pequenos proprietários de seu país. O temperamento ácido da personagem é essencial para continuar a fazer as revelações que Brecht pretende realizar, porque ele normalmente leva as ações e afirmações das autoridades ou das personagens proprietárias até as últimas consequências para verificar a sua validade prática ou veracidade lógica. Por exemplo, além do patrão Henri Sopeau querer tirar vantagens econômicas, aproveitando o estado de emergência para acentuar a exploração de Simone, ele dá o mínimo de comida possível para os batedores do exército francês que batem à porta da hospedaria. Porém, é a inserção estilizada da personagem père Gustave que antecipa e deixa no ar outras possíveis descobertas sobre a situação real dos interesses envolvidos na guerra:
Sargento – Isso é tudo? Que vergonha! Dê só uma olhada no caldeirão mademoiselle. Não está nem pela metade. Esse é o terceiro restaurante onde mandam a gente. Em dois nada e aqui isso.
Simone olha atônita para o caldeirão – Deve haver algum engano. Aqui temos de tudo, lentilha e até toucinho. Eu mesmo vou falar com o patrão. O caldeirão de vocês será enchido. Esperem um instante. Entra correndo.
Georges oferecendo cigarros – O irmão dela só tem dezessete anos. Foi o único voluntário em Saint-Martin. Ela é muito apegada a ele.
Sargento – O diabo que carregue essa guerra, que nem guerra é. Tratam o exército, em seu próprio país, como a um inimigo. E o primeiro-ministro falando pelo rádio “o exército é o povo”.
Père Gustave, que saiu novamente – “O exército é o povo”. E o povo é o inimigo.
Sargento, hostil – O que quer dizer?
Georges olha para o caldeirão pela metade – Por que vocês toleram isso? Chamem o prefeito.
Sargento – A gente conhece os comandantes: não fazem nada.
Simone retorna lentamente, sem olhar para o Sargento – o patrão disse que a hospedaria não pode dar mais – tem muitos refugiados aí.
Père Gustave – A quem não podemos dar nada porque damos tudo à tropa (Brecht, 1992, p. 23).
Aqui já começa a ficar evidente um traço fundamental do quadro político que Brecht quer pintar através de As visões de Simone Machard: foram os trabalhadores que resistiram à invasão nazista, enquanto a pequena burguesia lidou com a guerra como se estivessem encenando uma farsa. O sargento aos poucos percebe que a guerra até então tem sido a “guerra de mentira” ou a “drôle de guerre”, como ficou conhecida, e se mostra irritado e confuso quando père Gustave arremata a discussão afirmando que o povo é o inimigo. Os fatos anunciados nesses dois trechos iniciais – Simone acumular funções e seu irmão mais velho ter ido lutar, e provavelmente ter morrido na guerra – fazem parte da figuração da vulnerabilidade de quem geralmente paga com o suor do trabalho e a vida dos seus jovens em momentos como este: a classe trabalhadora que tem que aumentar a produtividade e fornecer soldados para o esforço de guerra. Vemos também os primeiros delineamentos do alinhamento entre as classes dirigentes e proprietárias para além da mistificação nacional contra o imprevisível resultado que a instabilidade social e política pode causar. As possibilidades de alteração das ordens sociais e políticas proliferam-se rapidamente em um período de exceção como esse. Ainda mais quando no extremo leste do continente europeu o pesadelo bolchevique das desapropriações e dos paredões de fuzilamento se materializaram. Em As visões de Simone Machard somos convidados a refletir não meramente sobre um manual sociológico acerca do comportamento das classes, mas, sobretudo, em relação a instintos de classe. Logo, o povo é visto como inimigo e os arranjos de cooperação econômica se sobrepõem aos culturais ou nacionais.
II
Na segunda parte da peça, Henri Soupeau, o patrão e dono da hospedaria, está aflito querendo fugir com seus caminhões levando seus vinhos, provisões e porcelanas para Bordeaux, já que as tropas alemãs avançam sobre o território francês e há a ameaça de bombardeios. Contudo, seus empregados se recusam a carregar e a dirigir os caminhões porque estão mais preocupados em se refugiar do que continuar a trabalhar, o que o deixa enfurecido. Nesse instante Simone sai sorrateiramente da hospedaria e vai contar ao prefeito os planos de fuga do seu patrão para impedi-lo. Com a chegada do prefeito e policiais e a se ver prestes a ter seus caminhões, mesmo que temporariamente expropriados, ele dispara:
Patrão fora de si – Portanto não existe mais ordem! A propriedade parou de existir, não é? Por que é que você não dá a minha hospedaria aos Machard? Talvez os meus motoristas desejem esvaziar meu cofre? Isso é a anarquia! Gostaria de lembrar, senhor Chavez, que a minha mamãe estava no internato junto com a mulher do governador. E ainda existe telefone.
Prefeito, mais fraco – Henri. Não faço nada além do meu dever.
Da rua vem o barulho de uma multidão. Tocam a campainha da frente do hotel e batem à porta.
Patrão – O que foi? Georges, veja lá o que está acontecendo! (…)
Georges, de volta – Tem um monte de gente aí do ginásio, monsieur Henri. Eles ouviram falar que os caminhos vão ser levados. Estão muito agitados e querem falar com o senhor prefeito.
Patrão, pálido – Aí está o resultado, Philippe. Tudo por causa da Simone! Georges, depressa, tranque o portão. Georges vai fechar o portão. Depressa, depressa! Vai logo! – Eis a consequência de atiçar as pessoas contra os meus pacotes de provisões. A plebe. Aos policiais – Façam algo! Rápido! Você tem que telefonar pedindo reforço, Philippe, isso você me deve. Eles estão aprontando comigo, Philippe. Me ajude! Por favor, Philippe.
Prefeito aos policiais – Fiquem no portão. Ao patrão – Bobagem, não vai acontecer nada a você. Você ouviu que o que eles querem é falar comigo. E já que agora também batem no portão – Deixem entrar uma delegação, não mais do que três.
Os policiais entreabrem o portão e negociam com a multidão. Logo deixam três pessoas passar, dois homens e uma mulher com um bebê.
Prefeito – O que está acontecendo?
Um dos refugiados excitado – Senhor prefeito, nós exigimos os caminhões!
Patrão – Vocês não ouviram que as ruas devem ser mantidas desimpedidas?
Mulher – Para o senhor? E nós decerto devemos esperar pelos bombardeios alemães!
Prefeito aos refugiados – Madame, monsieurs, nada de pânico. Os veículos já foram colocados em segurança. A hospedaria só deseja ainda tirar alguns objetos de valor da ameaçadora apropriação do inimigo.
Mulher indignada – Viram, aí está! Querem levar caixotes em vez de levar a gente.
Ouve-se barulho de avião. (…)
Patrão depois que os aviões se distanciaram – Isso é perigoso demais, tenho que ir.
Vozes de fora – Entreguem os caminhões! – Vocês querem que a gente morra aqui? (Brecht, 1992, p. 41-43).
Antes de tudo, uma breve contextualização precisa ser feita. No sonho de Simone, o anjo a trata como Joana e pede para que ela toque um tambor convocando todo o povo francês “senão, em duas semanas, a grande França irá desaparecer” (Brecht, 1992, p. 30). Isto se traduz no que ocorreu imediatamente antes do que acabamos de ler: Simone chama o prefeito e aparentemente avisa o povo para que ajudem a colocar os caminhões do monsieur Henri à disposição da evacuação de refugiados. Não se pode perder de vista que o grande fluxo de refugiados das regiões fronteiriças entre a França e a Alemanha é tão grande que impede que os reforços do exército francês cheguem ao front.[i] Aliás, o segundo capítulo começa com uma transmissão de rádio do ministro da defesa pedindo para que as pessoas fiquem nas suas casas, algo a que o patrão se refere no excerto acima com a esperança de se apoiar em alguma autoridade ou ordem, a qual naquela hora já havia perdido grande parte da sua consistência.
Fundamentalmente o que vemos aqui é a armação de um conflito dentro da arena do estado de exceção da guerra. Todos os elementos básicos dos conflitos políticos que interessavam a Brecht estão presentes. A saber, o estado (o prefeito e a polícia), o proprietário (patrão) e os trabalhadores. Contudo isso não é tudo, pois existe algo que subjaz à cena e que fornece a ela a tipicidade necessária para a reconstrução histórica mais geral que o dramaturgo está operando. A guerra não é vista como um estado de coisas no qual os conflitos diários são atenuados, como a propaganda belicista prega, mas, pelo contrário. Como já dito anteriormente, é durante a guerra que esse conflito básico se escancara e radicaliza. É na reação verbal e gestual (“fora de si”) de Henri Soupeau que Brecht coloca as palavras-chave que compuseram a crítica ideológica marxista do primeiro capítulo da história da luta de classes moderna naquela mesma França só que em junho de 1848:
A República pareceu algo óbvio. Cada partido a interpretou ao seu modo. Por tê-la conquistado de armas na mão, o proletariado lhe imprimiu o seu selo e a proclamou como República Social. Desse modo, indicou-se o conteúdo geral da revolução moderna, que se encontrava em contradição com tudo o que, nas circunstâncias dadas, podia ser posto diretamente em prática num primeiro momento com base no material disponível e no nível de formação atingido pela massa (…). A Assembleia Nacional, que se reuniu no dia 4 de maio de 1848 em decorrência das eleições nacionais, representou a nação. Ela tomou a forma de um protesto vívido contra as propostas pretensiosas das jornadas de fevereiro e deveria reduzir os resultados da revolução ao parâmetro burguês (…). As exigências do proletariado parisiense eram baboseiras utópicas que deveriam ser detidas. A resposta do proletariado parisiense a essa declaração da Assembleia Nacional Constituinte foi a Insurreição de junho, o mais colossal acontecimento das guerras civis europeias. A república burguesa triunfou (…). Do lado do proletariado parisiense não havia ninguém além dele mesmo. Mais de 3 mil insurgentes foram trucidados após a vitória (…). Durante o mês de junho, todas as classes e todos os partidos se uniram no Partido da Ordem contra a classe proletária, considerada o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Eles “salvaram” a sociedade dos “inimigos da sociedade”. O lema repassado por eles às suas tropas consistia nas palavras-chave da antiga sociedade: “Propriedade, família, religião, ordem”. A sociedade é salva sempre que um interesse mais exclusivo é imposto a um mais amplo. Toda e qualquer reivindicação da mais elementar reforma financeira burguesa, do mais trivial liberalismo, do mais formal republicanismo, da mais banal democracia é simultaneamente punida como “atentado contra a sociedade” e estigmatizado como “socialismo” (Marx, 2011, p. 33-36).
A oposição discursiva entre ordem e anarquia cria um cenário de pânico e de emergência muito funcional à preservação das relações de propriedade de tal maneira que faz com que o prefeito e os policiais passem a tentar a reverter a situação se colocando como contenção da multidão vista aqui como personificação da anarquia. O apelo a uma suposta ordem é um antigo mecanismo para reorganizar forças sociais: vemos isso no texto de Brecht e de Marx. Além disso, vale lembrar que quem vai acabar “salvando” a hospedaria da “anarquia” da multidão enfurecida é o exército nazista. Algo que demonstra o isolamento da multidão excluída em contraposição ao quase instantâneo agrupamento de setores aparentemente distintos em face do perigo maior para a sociedade. Em outras palavras, a propriedade é mostrada como o verdadeiro cimento que liga e que orienta todas as outras relações. Não se trata aqui, no entanto, de especular se Brecht está ou não se referindo ao texto de Marx, porque isso interessa menos do que verificar como ele se apoia em linhas gerais da história moderna, as quais se revelam não apenas nas recorrências amplas ou pontuais de acontecimentos, mas também no manuseio ideológico da linguagem para disputa política. Isso quer dizer que no fundo há uma operação linguística de estigmatização para justificar todo tipo de ação. Na realidade não existe uma oposição rígida e fixa entre ordem e anarquia como os discursos do patrão e do Partido da Ordem querem fazer crer. O que vemos é a busca irracional da manutenção da ordem da propriedade, tal como ela se encontra, contra qualquer outro arranjo e inclusive contra os interesses coletivos. Algo bem mais básico, como a distribuição de mantimentos, é que está posto.
Outra coisa a ser dita é que, para que Brecht conseguisse reproduzir imagens da história recente, ele teve que abandonar uma fórmula consagrada do drama burguês. Ele precisava deslocar as ações da esfera privada para a pública. Os grandes conflitos políticos ganham contornos mais evidentes no espaço público, entre tantas outras razões, porque, principalmente a partir da Revolução Francesa, é nele que uma força social decisiva para alterar os rumos da história se expressa: as massas de excluídos. Há, porém, um detalhe que faz grande diferença. A peça acontece no pátio, ou, entre a hospedaria e a rua. Um ambiente de transição onde as diferenças e as conexões entre dois polos ganham maior visibilidade. Isto é, não estamos nem totalmente no ambiente privado nem no público, mas em mais uma região de fronteira. O texto de Brecht ganha profundidade crítica e de significação justamente porque se por um lado a ideia das fronteiras da comunidade imaginada do estado nação é constantemente alimentada, por outro lado a visão das divisões entre proprietários e não proprietários é cotidianamente escondida pela ideologia da identidade ou integração nacional da qual, diga-se de passagem, o partido nazista se alimentou bastante. Pode-se supor que essa configuração espacial, tanto cênica quanto textual, recoloca um acúmulo político da esquerda alemã sobre o que estava de fato em jogo nos descomunais esforços bélicos da primeira metade do século XX na Europa: “guerras imperialistas pela partilha de mercados” (Loureiro, 2005, p. 43). Não é à toa que essa segunda parte comece com uma multidão que chega a arrombar o portão da hospedaria, seguida da cena da chegada das tropas nazistas à hospedaria e que ela se chame “o aperto de mãos”. A “velha madame Soupeau”, mãe do patrão, intercede no conflito, deixando parte da multidão ser levada nos caminhões e prometendo que todos poderão voltar amanhã para se alimentar com as provisões da hospedaria. O “aperto de mãos” parece estar ligado tanto à política momentânea de conciliação de classes que os Soupeau empregam quanto ao pacto que fazem imediatamente depois com os alemães. O conflito de classe, que chegou a explodir, mas que foi contornado pela aliança nacional celebrada com conhaque e vinho, se encerra com frases do tipo: “vamos erguer um brinde ao futuro da nossa bela França” (Madame Soupeau), “À França. Ao futuro” (Prefeito), “Vamos juntos formar um bloco sólido contra o inimigo comum. Vamos selar isso com um aperto de mãos!” (Patrão) (Brecht, 1992, p. 48). Todavia, logo depois que a “multidão se dispersa” o rádio avisa que os alemães avançam e que podem chegar ainda de noite à Saint-Martin, Madame Soupeau despede Simone e toma a chave das provisões de Simone. Está tudo pronto para o terceiro capítulo da peça, no qual madame Soupeau, o marechal francês e os nazistas selam um pacto: os alemães garantem a segurança da propriedade dos Soupeau em troca dos mantimentos da hospedaria e do combustível da olaria. Afinal, não é precisamente esta afinidade de classe superior, e que teve implicações sócio-históricas da maior importância, que nosso autor busca representar durante toda a obra?
III
A personagem Honoré Fétain (“capitão, um rico proprietário de vinhedos”) estabelece – não somente a partir do próprio nome, mas também de suas ações e classe de origem – um paralelo direto com uma figura real da história contemporânea da França: o marechal Philippe Pétain, chefe de estado do régime de Vichy. Vale lembrar que tanto o Fétain da ficção quanto o Pétain da vida real colaboraram ativamente com o governo nazista. Todavia, isso não é tudo já que, como descrito mais acima, os sonhos de Simone produzem um outro nível narrativo, no qual as mesmas personagens são refuncionalizadas. Fétain também é o “duque de Borgonha” nas passagens dos sonhos de Simone. Chegamos, assim, à triangulação que a peça sugere: Fétain, Pétain e o duque de Borgonha criam, a um só tempo, uma figuração histórica e um ponto de vista político. A combinação da autoridade militar, do rico proprietário e do título de nobreza dentro da mesma personagem coordenada com a evidente analogia da história da França gera a substância de uma determinação histórica que Brecht quer salientar no seu trabalho de figuração estética: um comportamento recorrente da classe dominante francesa. Este procedimento ganha ainda mais relevância e abrangência caso o pensemos em paralelo com mais um episódio da história francesa. A Comuna de Paris (1871) compartilha com a Guerra dos Cem Anos e com o regime de Vichy – e, portanto, com o enredo de As visões de Simone Machard – a capitulação das classes dominantes francesas perante invasores estrangeiros e a organização de uma resistência popular por parte dos trabalhadores. O exército contrarrevolucionário francês contou com a colaboração do exército prussiano para massacrar o proletariado parisiense e acabar com a comuna. É por isso também que Simone, père Gustave, Georges, Maurice e Robert estão vestidos com armaduras medievais para defender a França nos sonhos, já que Brecht procurou salientar o fato dos trabalhadores terem se mantido fiéis aos preceitos nacionalistas.
De modo geral, é possível afirmar que a analogia entre a Joana d’Arc da Guerra dos Cem Anos (1337-1451) e a Simone Machard da “Queda da França” funciona como a figuração de uma realidade sócio-histórica que se “tornou representável de forma tangível” (Jameson, 1992, p. 37). Estamos falando aqui da emergência de uma percepção – e, portanto, da possibilidade de representação ou figuração – de que em momentos de crise e de fortalecimento das condições de luta social de classes subalternas é preferível, do ponto de vista dos interesses dominantes, que uma forma de administração política e social mais extrema e autoritária prevaleça no lugar da dominação mais cotidiana. E também de que apesar dos conflitos dentro do poder estabelecido serem reais (disputas de tronos, territórios, partilhas de mercados), haverá instintivamente um reagrupamento caso surja a oportunidade de uma ordem de coisas alternativa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRECHT, Bertolt. “As visões de Simone Machard”. Trad. Angelika E. Köhnke. In: Teatro completo em 12 volumes. São Paulo, Paz e Terra, 1992. v. 9.
JAMESON, Fredric. “Class and Allegory in Contemporary Mass Culture: Dog Day Afternoon as a Political film”. In: Signatures of the Visible. London, Routledge, 1992.
JAMESON, Fredric. Brecht and Method. London, Verso, 1999.
LOUREIRO, Isabel. A Revolução Alemã [1918 – 1923]. São Paulo, Editora Unesp, 2005.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesuis Ranieri. São Paulo, Boitempo, 2010.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Trad. Nélio Schneider. São Paulo, Boitempo, 2011.
NOTA AO TEXTO
1 Père Gustave: Para o comando de guerra essas colunas de refugiados são a ruína. Os tanques conseguem atravessar qualquer pântano, mas encalham no humano. A população civil mostrou ser o grande estorvo para a guerra. A gente devia levá-la logo a um outro planeta, desde o começo, porque ela só atrapalha. Ou acabamos com o povo ou com a guerra. Não dá para ter as duas coisas (Brecht, 1992, p. 18).
Bio fornecida pelo palestrante.
AS MULHERES EM LUANDA: UMA LEITURA DO FEMININO NA OBRA O TÍMIDO E AS MULHERES, DE PEPETELA
Elaine Cristina Andrade Pereira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Resumo: Este texto tem por objetivo analisar as principais personagens femininas da obra O tímido e as mulheres (2008), do escritor Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos). Tal leitura busca verificar como o ficcionista angolano construiu as suas personagens femininas de maneira a representar a realidade contemporânea da mulher em Angola, tendo como pano de fundo a própria capital Luanda em pleno processo de (re)construção maciça. Para a escrita deste artigo, foram pertinentes os estudos dos pesquisadores Alberto Oliveira Pinto (2006), Maria Aparecida Ribeira (1992), Selma Pantoja (2008) e Tânia Macedo (2008).
Palavras-chave: Mulher. Coisificação. Mulher quitandeira. Luanda.
Abstract: This text aims at analyzing the main female characters of the novel The Timid Man and Women (2008), by the Angolan writer Pepetela (pen-name for Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos). Our reading tries to see how he built his female characters in this novel so as to represent the contemporary reality of women in his country. He uses as his background Angola and its capital Luanda, which is under the process of a massive (re)construction. The writing of this article benefited from the contributions by the researchers Alberto Oliveira Pinto (2006), Maria Aparecida Ribeira (1992), Selma Pantoja (2008) and Tania Macedo (2008).
Keywords: Woman. Reification. Female mobile vendor (stallholder). Luanda.
Minicurrículo: Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa, área de concentração Literaturas de língua africana. Linha de pesquisa Identidade e alteridade na literatura. Mestra em Literaturas de língua portuguesa, área de concentração Literaturas de língua africana. Linha de pesquisa Identidade e alteridade na literatura. Graduada em Letras (Português/Espanhol) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
AS MULHERES EM LUANDA: UMA LEITURA DO FEMININO NA OBRA O TÍMIDO E AS MULHERES,
DE PEPETELA
Elaine Cristina Andrade Pereira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Publicada no ano de 2013, a obra O tímido e as mulheres do autor Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos – o Pepetela – retrata, de maneira irônica e peculiar, o atual cenário da sociedade angolana. O foco da narrativa é a discussão das questões femininas dentro da capital Luanda, o que poderia remeter, até mesmo, a todo o país. A obra gira em torno do protagonista Heitor, um jovem historiador, aspirante na escrita literária que, desde a infância, demonstra uma clara dificuldade particular em se relacionar com indivíduos do sexo feminino. Tal fator teria aumentado quando ele se decepcionou amorosamente com uma moça chamada Tatiana, que o trocou por outro homem, sem aparentar lhe dedicar nenhuma consideração.
Essa evidência parece tornar interessante a maneira dessa personagem lidar e interpretar as várias mulheres que passam por todo o seu caminho ao longo da obra. Heitor, em seu perfil, demonstra ser um jovem curioso e questionador quanto aos principais conceitos sociais acerca do feminino que estão arraigados na cultura angolana.
De acordo com o estudioso Alberto Oliveira Pinto, “a mulher africana foi sempre encarada pelos colonos portugueses tão somente enquanto um instrumento de dominação, sobre os espaços e sobre os homens colonizados” (PINTO, 2007, p. 48). É relevante esta observação do estudioso, uma vez que, tal premissa colaborou para o relativo conceito social angolano, referente a mulher, legando ao gênero feminino o cunho sexual manipulador pejorativo, uma vez que, durante o período colonial do continente, a mulher africana se envolvia sexualmente com os brancos colonizadores europeus com o intuito de gerar filhos miscigenados, como forma de buscar uma ascensão social, o que possibilitaria a sua saída da condição de escrava. Todavia, contrariando as expectativas tradicionais angolanas, as personagens femininas principais na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2014), demonstram não apresentar tais perfis tradicionais, muito pelo contrário, perpassam um senso comum pré-definido e esperado.
No enredo da narrativa em questão, Pepetela, lança mão de várias personagens femininas que circulam pela capital angolana em processo de (re)construção, em movimentos constantes, oriundos do período pós-independente. Para esta análise, foram selecionadas as personagens Marisa e dona Luzitu, pois pela maneira como o autor engendra as histórias cotidianas e corriqueiras dessas mulheres, nos parece possível esboçar, ainda que simbolicamente, as mulheres angolanas que fazem parte do cenário central e periférico do país, colaborando ativamente para com o seu processo de modelamento urbano e social.
A encenação das mulheres de Luanda neste romance (PEPETELA, 2014) aparenta transparecer as muitas tensões que norteiam o cenário público de Luanda, que são marcadas por intensas contradições. De maneira mais intensa, tais paradoxos luandenses aparentam ser indicadas pela personagem Marisa, conforme pontuaremos posteriormente.
Senhora de um temperamento forte e valente, a personagem Luzitu é também dona de uma biografia valente e triste, atrelada a história das guerras de libertação angolana, que lhe ceifaram o marido e dois de seus filhos. Moradora da periferia abastada da cidade, Luzitu desempenha a função de zungueira [vendedora ambulante] para se manter e manter também a sua família, o que a possibilita circular pelos vários espaços suburbanos da capital Luanda. Tal atividade profissional é tradicionalmente angolana, sendo ela herdeira de uma outra atividade feminina denominada quitandeira.
Desde os tempos coloniais as mulheres quitandeiras já se destacavam em Luanda por abastecerem os navios que ali aportavam por meio do comércio de mantimentos e utensílios básicos, e por isso indispensáveis. A aproximação com a multiplicidade da população no país, bem como os navegadores que passavam pelo porto de Luanda, possibilitaram às quitandeiras se tornarem as protagonistas de uma rede de relações dentro do país, como será abordado no decorrer desse texto.
Dessa forma, as mazelas femininas são exploradas e expostas na obra em análise, em uma perspectiva inovadora, como se o autor Pepetela buscasse remeter ao passado, mas se desvencilhando dele para contar a sua narrativa. De fato, a capital Luanda tem um papel importante dentro da história, e consequentemente, dentro da literatura do país, por ter esta cidade acompanhado o processo colonial e pós-colonial de Angola. Sendo assim, nos parece correto afirmar que a escolha do autor Pepetela como ambiente predominante da obra aqui examinada (PEPETELA, 2014) não foi por acaso.
Inspirados, ainda que tardiamente, pelos ecos do movimento Negritude que eclodiram na França em meados da década de 1930, os países africanos de língua portuguesa, perceberam que havia realmente a necessidade de romper, definitivamente, com o colonizador europeu, juntando forças para lutarem, literalmente, pela liberdade tão desejada, se fazendo ouvir de uma vez por todas.
Nesse aspecto, de acordo com Tânia Macedo (2008), o povo africano elegeu a cidade colonial africana como o espaço no qual se daria a batalha fundamental contra o colonialismo europeu, “pois é na cidade colonizada que as contradições são exacerbadas ao máximo e, portanto, o terreno será fértil às mudanças” (MACEDO, 2008, p. 112). Sendo assim, Luanda passou a se impor como modelo e referência na luta pela libertação africana.
Segundo a estudiosa Maria Aparecida Ribeiro (1992), durante a década de 1950, a escrita angolana passou por um processo de conscientização histórica e literária, o que implicaria em, além da busca por uma identidade autêntica, no questionamento de valores culturais. Sendo assim, ainda segundo a pesquisadora, “Luanda surge, então, como metonímia de uma Angola onde secam as mulembas [árvore de frutos comestíveis e de grande porte] e a harmonia cede lugar à tensão” (RIBEIRO, 1992, p. 85).
Nessa perspectiva, a literatura passa a questionar antigos conflitos coloniais, incluindo nesta questão o papel da mulher em Angola, por meio de uma atitude crítica e questionadora aparente, o que proporcionou vários estudos acerca das mazelas femininas:
Signo da cidade em mudança e das mudanças da cidade, a mulher aparece com frequência nos textos. Seguindo as pistas será possível ver, nos desenhos de suas imagens, a terra de que o nativo vai perdendo a posse, o corpo vulnerável, que se torna arma e armadura na defesa de um corpo maior (RIBEIRO, 1992, p. 86).
É interessante observar que, apesar dos conceitos coloniais acerca do gênero feminino terem engessado a mulher angolana dentro de um estereótipo submisso, sensual e não ativo, Pepetela, na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2014), seguindo esta linhagem literária pós-colonial, traz à tona, personagens femininas fortes, independentes, promissoras, capazes e cheias de vida, coragem e determinação, como são os perfis das personagens Marisa e dona Luzitu. Tais personagens lançariam mão dos recursos sociais dos ambientes nos quais viviam, bem como as condições específicas nas quais estão inseridas para fazer a diferença no meio que frequentavam.
Jovem, negra, atraente e muito bem-sucedida, a personagem Marisa esbanja autonomia e consciência humana na obra em questão (PEPETELA, 2014). Dona de uma voz sedutora e uma formação profissional incomum para uma mulher em seu meio, essa personagem se destaca na obra de Pepetela por, além de outras características subjetivas, lançar mão da sua função social para dar voz a mulher angolana. Radialista, Marisa, em seu programa diário, de maneira sutil denunciava irregularidades e excessos dentro da sociedade luandense:
Marisa era jornalista, trabalhava numa rádio. Animava mesmo um programa matinal, com muita conversa, recados vários. Um programa alegre como ela. No entanto, não era despreocupada. E aproveitava de vez em quando para criticar atitudes, comportamentos, situações (PEPETELA, 2014, p. 13).
Apaixonada pela capital Luanda, onde reside com o marido, Marisa é casada com um homem incomum para o conceito popular de marido ideal. Ela se organiza de maneira genial para dar conta do trabalho que adora, e do cônjuge deficiente que aparenta amar sinceramente.
Seu marido é um homem encantador, segundo expressa a própria jornalista. Mesmo sendo mais velho do que a esposa, e portador de uma deformidade física genética que o prendia a uma cadeira de rodas, Marisa demonstra na obra de Pepetela, sentir um amor sincero, uma ternura profunda e um grande respeito pelo marido, que a completava. Tal completude seria referente ao fato de Lucrécio ser um homem com pensamentos libertários, o que talvez, Marisa não teria encontrado nos outros pretendentes que teve em seu país, nos tempos de solteira:
Esse era o fato o seu marido, que se moldou a si próprio, produto de muito estudo e pensamento, como alguns personagens do século XIX que ela encontrara em escritos antigos. Uma pessoa que, nunca poderia ser derrotada, pois não impunha e não se deixava dominar, pelo menos o seu cérebro (PEPETELA, 2014, p. 25).
Essa aparente predileção da personagem Marisa por homens com o intelecto aguçado parece correr na contramão das expectativas sociais, que se ancoram em características críticas e cognitivas menos desenvolvidas do que aquelas apresentadas por Lucrécio, sobretudo ao que concerne a questão da mulher dentro do país. O casal Marisa e Lucrécio morava na parte mais abastada da cidade, o que não impede a jovem de enxergar os problemas aparentes que a capital encena, denunciando-os em seu programa matinal.
Em meio as pautas que elaborava para apresentar seu programa de rádio, Marisa sempre procurava abarcar temas polêmicos, no entanto importantes, para com as questões mal resolvidas em Luanda. Casos de adultério, violência contra a mulher e até mesmo questões políticas ganhavam destaque em suas pautas, ricamente construídas e desenvolvidas por ela mesma. Tal façanha era realizada nas entrelinhas, uma vez que, uma discussão aberta, poderia lhe gerar sérios problemas, especialmente por se tratar de um programa popular de Luanda, que atingia a vários grupos sociais da capital angolana.
Tal premissa poderia ser exemplificada na passagem do texto de Pepetela, em que a radialista expressa a sua artimanha, fazendo assim emergir contradições luandenses. Em meio aos fatos corriqueiros ocorridos em Luanda que deve noticiar involuntariamente, destacaram-se aqueles referentes a“as molengonas das mulheres se arrastando pelas casas” (PEPETELA, 2014, p. 15). Para Marisa:
O termo molengona não só é injusto, pois quem trabalha na cidade como no campo são as mulheres, os maridos se limitando a barafustar no trânsito todo o dia, como me saiu com raiva, pensou a radialista, defensora declarada da igualdade no género, e praticante. Mas assim nos tratam os imprestáveis machões, os burros, que nem percebem quanto os gozos nas entrelinhas (PEPETELA, 2014, p. 15).
Embora muitos duvidassem, Marisa era uma esposa fiel, zelosa e dedicada, que não media esforços para agradar o marido e manter bem e feliz o seu casamento, que lhe era tão importante. Mesmo sendo muito cobiçada pelo público masculino que ouvia o seu programa na rádio, bem como aquele outro grupo que a cercava em seu cotidiano, Marisa não se deixava abalar, mantinha uma postura fiel e discreta frente à toda sociedade luandense, bem como aos olhos do marido Lucrécio, que demonstrava ser bastante seguro com relação a fidelidade da esposa. Todavia, Marisa desenvolvia um comportamento peculiar em companhia de determinados homens que selecionava, em locais reservados, caso não estivesse ninguém olhando.
Tanta beleza e tanta sensualidade renderam à radialista, na obra de Pepetela, algumas situações embaraçosas, e uma fama, dentre os homens, de mulher amoral. A que mais se destaca, e mais se mostra pertinente a esta análise, se refere ao fato dessa personagem ter se tornado, no enredo da narrativa, o objeto de desejo e de curiosidade dos amigos de infância, Heitor, Lucas e Antunes, devido a sua fama de mulher “acendalha” (PEPETELA, 2014, p. 40): “uma substância que arde com o primeiro fósforo e depois fica um tempo largo a se consumir até fazer o carvão todo pegar fogo” (PEPETELA, 2014, p. 40).
De acordo com os estudos de Alberto Oliveira Pinto (2007), a tentativa da mulher negra africana em subir de classe social durante o período colonial, se oferecendo para manter relações sexuais com o colonizador, fez com que a mulher recebesse, desde então o estereótipo de “coisa”, ou seja, algo maleável que poderia ser usado, sem grandes considerações ou mesmo preocupações, dando início a um processo que o pesquisador chamou de “coisificação”.
Ainda segundo Pinto (2007), já era articulado nos espaços coloniais a ideia de subalternização da mulher negra africana e a sua predisposição ao ato sexual eventual. Além disso, os portugueses, teriam usado o sexo como um dos artifícios de colonização, como meio de manipular a população colonizada, o que teria tornado mais dificultosa a relação masculina para com a mulher dentro do continente. Tal premissa perduraria até a escrita literária contemporânea:
Esta concepção, mistificada até à actualidade em sectores relevantes das sociedades portuguesa e angolana veio a marcar os discursos políticos e científicos e a própria literatura colonial portuguesa posterior a 1953 (PINTO, 2007, p. 37).
Sendo assim, o trio de amigos Heitor, Lucas e Antunes parece lançar mão da fama de aventureira da radialista para colocar em xeque a sua moral feminina e, em consequência, a sua fidelidade ao marido Lucrécio, salientado assim, pelo menos de maneira aparente, mais uma contradição da sociedade luandense, sendo ela referente a moralidade da mulher no país. Ou seja, a sociedade cobraria da mulher uma postura correta – a de mulher fiel e submissa – mas a provocaria para que ela se destoasse desse perfil idealizado.
Dessa forma, parece-nos que tal posicionamento das personagens Heitor, Lucas e Antunes, de certa maneira, condiz com o conceito de “coisificação” da mulher em Angola, levantado por Alberto Oliveira Pinto (2007), uma vez que, além de ser mulher, Marisa era esposa de um homem deficiente e mais velho, sendo este perfil masculino o não ideal, pelo menos socialmente falando, para marido. Tais condições poderiam comprometer o seu desempenho sexual masculino, tornando assim a esposa insatisfeita sexualmente, além de tornar um transtorno a vida social de ambos, uma vez que a capital Luanda estava em processo de (re)construção. Este período da cidade dificultaria a locomoção de um cadeirante pela maior parte de sua área: “A cidade não estava preparada para facilitar a vida de ninguém com todas as faculdades, quanto mais a alguém com uma deficiência” (PEPETELA, 2014, p. 72).
Portanto, para o trio de amigos, tudo isso poderia ser mais uma motivação para a possível infidelidade conjugal de Marisa. Antunes, que também era jornalista, sabia bem o que diziam, no meio em que frequentavam, sobre Marisa: “A colega era conhecida como incendiária, punha os homens ao rubro e depois escapava, deixando-os exangues e de língua para fora” (PEPETELA, 2014, p. 40).
Para tentar descobrir se Marisa era realmente infiel ao marido, Antunes e Lucas elaboram o seguinte plano: o primeiro convidaria Marisa para gravar o áudio do livro que Heitor havia escrito, com o intuito de atraí-la até a residência onde o aspirante a escritor se escondia da vida e das decepções femininas que ela lhe trouxe. Dessa maneira, estando longe do marido e do centro da cidade que sempre a observava, Marisa poderia se mostrar como “acendalha”, conforme a crença masculina luandense. Posteriormente, os dois amigos pediram a ajuda de Heitor para concluírem o plano.
Parece-nos interessante observar que, em um primeiro momento, embora, assim como os amigos, desejasse muito Marisa, Heitor duvidou em acreditar na fama de aventureira da sua radialista preferida. Tal verdade comprovaria o seu perfil de homem angolano questionador quanto aos conceitos arraigados na cultura do país, o que o afastaria de uma grande maioria masculina luandense. Para tanto, o protagonista analisou os fatos evidentes, expondo uma possível raiz do emblema que, teria imposto à Marisa, tal fama pejorativa e não comprovada, não esclarecida:
Imagina, uma miúda, casada com um paralítico (…). Paralítico e muito mais velho. Claro, todos os colegas e conhecidos acham, eis a presa fácil. Ela é fiel e afasta-os a todos. Despeitados, inventam essa da acendalha. Pura maldade (PEPETELA, 2014, p. 41).
Ao dar sequência ao plano que concordou em participar com os amigos Lucas e Antunes, Heitor acaba se tornando mais um dos homens que Marisa abandona repentinamente, antes de concluir o ato sexual, o que acabou comprovando a sua fama dentre os homens luandenses. Após ler, seminua, trechos do livro escrito por Heitor para um gravador, deitada na cama do rapaz, a jornalista se deixa envolver pelo jovem escritor, mas vai embora antes de consumar totalmente a relação carnal, deixando Heitor desolado: “Gostaria muito, mas não posso… Desculpa” (PEPETELA, 2014, p. 68), foi a única argumentação que Marisa manifestou antes de partir.
Parece-nos, mais uma vez, interessante salientar a postura da moça, ante a possibilidade de trair o marido Lucrécio, quebrando uma das regras mais sagradas do casamento, em várias culturas, não só na angolana. Além disso, a intenção voluntária da moça de provocar os homens, uma vez que, a sua ida à casa do jovem Heitor para ler o livro do rapaz, tirar a roupa, permanecendo apenas com as peças íntimas e deitar na cama do escritor, já demonstraria uma postura provocativa, audaciosa, enfim, que foge do padrão angolano esperado para uma mulher casada. Mas, qual seria a sua real intenção ao se comportar dessa forma?
Estaria Marisa tentando confrontar o universo masculino por meio da sua postura provocativa? Seria uma maneira da radialista provar, ou mostrar à sociedade angolana que a mulher não se resume a uma “coisa” que pode ser manipulada, usada e descartada simplesmente? De qualquer maneira, nos parece que, ao assediar os homens, mas não aceitar consumar o ato sexual, o que quebraria assim a regra sagrada da fidelidade no casamento, Marisa expressaria aos homens que a “testam”, que a mulher pode sim, também, dar voz a sua vontade, sem se deixar corromper, ou seja, sem burlar com a regra da fidelidade conjugal.
Afinal, ao confrontar os homens por meio da sexualidade, é Marisa quem aparenta manter o controle do jogo, o controle da situação propriamente dita. Tal posicionamento parece que a destoa do conceito de “coisificação” tradicional: “Sou mesmo uma sacana, pensou ela, se vendo a um espelho. Dissimulada, falsa, traidora. No entanto, sabia, amava Lucrécio, ele era o homem da sua vida. Complicado? Para ela, tão evidente” (PEPETELA, 2014, p. 153).
De acordo com os estudos de Tania Macedo (2008), durante os anos finais da década de 1950 e os anos iniciais da década de 1960, a capital Luanda foi o “cenário por excelência dos textos angolanos” (Macedo, 2008, p. 114). Segundo a pesquisadora, neste momento da história de Angola, os escritores se esforçaram, efetivamente, em dar realmente, a um projeto nacionalista, uma forma artística, que iniciava, naquele momento, sua organização política. Tal iniciativa foi enriquecida pelo fato de que, tais autores envolvidos nesse projeto, participaram ativamente, como simpatizantes ou até mesmo militantes, de tal momento político angolano, como é o caso do próprio ficcionista Pepetela.
Esse processo, ao ganhar forma artística, resultou “na criação de um novo espaço ficcional na literatura de Angola. É dessa maneira que, insistentemente na ficção angolana, a partir desse momento, as marcas do imaginário urbano recriado conformam os textos” (Macedo, 2008, p. 114). Dessa forma, de acordo com Tania Macêdo (2008), surge uma Luanda com o perfil de cidade cuja “fronteira do asfalto”, passa a dividir os bairros da Baixa, e os musseques [mocambos], a periferia excluída da cidade. Dentro desse contexto de (re) construção da literatura angolana, personagens reais da história do país passam a ganhar destaque dentro da ficção, como é o caso da mulher quitandeira, que desde o período colonial se faz importante para a história política e social de Angola.
De acordo com a pesquisadora Selma Pantoja (2008), as “quitandas” são espaços tipicamente africanos, embora pudessem (e ainda podem) ser encontradas em outras cidades litorâneas banhadas pelo Oceano Atlântico: “Espalhadas por todo o continente, esses espaços de troca que ficaram conhecidos, na região centro-ocidental da África, e mais especificadamente entre os povos mbundu, como Kitanda” (PANTOJA, 2008, p. 174). Ainda segundo Pantoja (2008), as quitandas se referem a locais de troca, onde os viajantes marítimos e a própria população local se abasteciam com mantimentos e utensílios básicos.
Quem trabalhava nessas quitandas, ou seja, quem comercializava as mercadorias eram mulheres denominadas quitandeiras, sendo elas, em sua grande maioria, negras e pobres que trabalhavam para sustentar suas próprias famílias. A autora Selma Pantoja (2008) ressalta também que, além das quitandeiras que trabalhavam em espaços fixos – no caso as quitandas – havia também as que trabalhavam de maneiras itinerante, ou seja, sem um ponto fixo de trabalho. Estas são denominadas quitandeiras ambulantes, como é o caso da personagem Luzitu, da obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2014), conforme salientaremos a seguir.
Embora aparentam ser espaços agitados devido ao fluxo de pessoas, as quitandas, ainda segundo Selma Pantoja (2008), organizasse em um comércio urbano:
As quitandeiras se dividiam conforme suas especificidades: havia mulheres que só vendiam peixes, outras que ofereciam apenas comidas prontas e as que se dedicavam aos produtos da terra, como amuletos, pemba (argila branca usados em rituais religiosos), liamba (cânhamo) e a macanha (tabaco)”. Além da importância de abastecer a população e navegantes que passavam por Angola, as quitandeiras acabaram assumindo uma outra significância extremamente valiosa para como o país (PANTOJA, 2008, p. 176).
A conquista da independência que acarretou um novo momento angolano, ocasionou um certo desaparecimento das quitandas, e em consequência das quitandeiras. Na nova nação que se almeja construir não caberia essa figura típica dos flagelados, sobretudo pelo fato de que, os espaços nos quais se concentravam as quitandas eram considerados espaços nocivos a sociedade, por serem desagradáveis e mal cheirosos, o que fortaleceu o desejo do seu desaparecimento: “Desde o século XVII, a Câmara de Luanda tentava regulamentar esse comércio, obrigando as quitandeiras a tirar licença e cobrando multas das ilegais. No século XIX, foram erguidos prédios modernos para o funcionamento do pequeno comércio” (PANTOJA, 2008, p 176). Assim, a atividade de quitandeira não se findou aí, permanecendo nos espaços periféricos mais afastados dos grandes centros urbanos.
Ao ser rejeitado pela amada Tatiana, a personagem Heitor, na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2013), acaba se mudando voluntariamente para um local afastado do centro da cidade, como forma de se exilar do mundo: “Heitor largou a cidade, mudou mesmo nesse dia para um mato onde houvera cajueiros, cortados para o fabrico de carvão, fora da periferia construída” (PEPETELA, 2014, p. 27). Ao decidir comprar mudas de mangueira para plantar em um terreno próximo ao seu casebre, acaba conhecendo, durante uma viagem de candongueiro, dona Luzitu, personagem ilustre da obra de Pepetela, que reside justamente na periferia da cidade.
De acordo com os estudos de Maria Aparecida Ribeiro (1992), a literatura angolana ainda não registrava, até o período de reforma artística iniciado no final da década de 1950, uma mulher africana com consciência quanto a necessidade de luta, que almejava o rompimento com a alienação que lhe era imposta há tempos. Uma imagem mais comum e representativa da mulher, dentro da literatura angolana, se refere justamente a mulher quitandeira.
Antes da liberdade nacional, tal figura feminina era vista como apenas “o objeto do desejo de uma poesia que lançava a mulher africana um olhar exótico” (RIBEIRO, 1992, p. 86), quase irreal. A partir de demarcação de um projeto literário identitário, a mulher deixaria de ser em literatura um objeto, passando para a condição de sujeito ativo. Assim, a mulher quitandeira passou a demarcar um perfil bem diferente:
As quitandeiras dos romances, contos, novelas angolanos contemporâneos constituem verdadeiros símbolos do trabalho e da sagacidade, já que são responsáveis, não apenas pelo equilíbrio da vida familiar, pela economia doméstica, mas também pela educação dos filhos (MACÊDO, 2008, p. 126).
Tais considerações nos parecem poder serem atreladas ao perfil de dona Luzitu. Viúva respeitada de um antigo combatente que lutou contra os tugas, na Segunda Região, Cabinda, ela é uma personagem extremamente interessante. Traz em sua história de vida um rastro de tragédias familiares resultantes das guerras civis que assolaram Angola durante anos a fio, pois, além do marido, também havia perdido dois filhos militares em combates internos. Jacinto, o filho mais velho, era tenente, faleceu durante a guerra em Malanje no ano de 1994. Já o sargento Lírio, o seu segundo filho, foi morto em 1998, em Huambo.
De acordo com os estudos de Tânia Macedo (2008), a literatura angolana pós-colonial, passou a apresentar em suas linhas “uma galeria de tipos femininos cuja característica básica é o trabalho” (MACEDO, 2008, p. 125). Nascida na aldeia de Uíje, além de dona de casa e mãe zelosa, dona Luzitu exerce a função de zungueira na obra de Pepetela. Tal ofício se refere àquelas mulheres que praticam a zanga, uma espécie de comércio ambulante de alimentos e bebidas pelas ruas, o que lhe permiti transitar livremente por todas as áreas periféricas da cidade, bem como ter contato com várias espécies de pessoas.
Essa atividade refere-se à função de quitandeira ambulante, conforme pontuou Selma Pantoja (2008) em seu texto. Dona Luzitu é mãe de seis filhos, e procura se dedicar aos quatro que sobreviveram, dando a eles apoio moral e muita força para vencer na vida, mesmo sendo periféricos, excluídos socialmente: “Na moderna Angola, as zungueira são as herdeiras diretas [das quitandeiras], perambulando pelo confuso e variado comércio das ruas” (PANTOJA, 2008, p 176).
Tal personagem parece expor em sua postura e em sua fala, no decorrer da obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2013), força, coragem e consciência política e social não esperadas em uma mulher inserida na sua realidade pós-independente, dona de uma história tão infeliz. Além disso, dona Luzitu por transitar por entre os vários espaços de Luanda – periféricos ou não – aparenta contribuir para com a transmissão de informações, uma vez que, articula bem as ideias relacionadas aos acontecimentos cotidianos sociais e políticos de Angola. Ao dialogar com Heitor, em uma passagem da obra, acerca de uma antiga promessa política de dar casas aos antigos combatentes, a zungueira desabafa:
Olha meu filho. Muitos já morreram, não receberam casa nem nada. Eu, uma viúva, é que vou receber? Eles combateram, ganharam, temos a independência. Os que aproveitam dela já têm muita coisa. Que interessa os que lutaram e não têm nada ou já morreram? (PEPETELA, 2014, p. 119).
Ao descrever o ambiente no qual reside com sua família, dona Luzitu descreve uma união entre os vizinhos do musseque, muitos deles conterrâneos seus da mesma aldeia: “Assim nos sentimos apoiados, se houver alguma coisa. E nos ajudamos, um pouco de sal, tomar conta dos filhos pequenos, se tem um óbito, ajuda assim…” (PEPETELA, 2014, p. 119). Essa aparente pré-disposição em ajudar ao próximo de maneira desinteressada, faz parte do perfil angolano da mulher quitandeira, como bem pontuou Selma Pantoja (2008), pois, segundo ela, as quitandeiras eram solidárias para com o próximo que fosse menos afortunado que elas.
Dessa forma, nos parece saliente a aproximação do perfil da personagem Luzitu, na obra O tímido e as mulheres, com a categorização de “mulher quitandeira”, levantada por Maria Aparecida Ribeiro (1992), Selma Pantoja (2008) e por Tania Macedo (2008). Apesar de se enquadrar aparentemente ao papel tradicional de mulher submissa, com atividades ligadas à família, como casa, marido e filhos, dona Luzitu se destaca, não só por demonstrar uma profunda força de vontade para trabalhar, sustentando assim a sua família, como também por se mostrar aberta e consciente quanto a realidade de Angola, bem como as questões femininas das quais também está submetida, mas não se deixa abalar.
A escrita singela e irônica de Pepetela na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2013) permite a encenação de personagens femininas que se destoam do perfil da mulher antes da independência angolana. Fazendo jus a sua geração de intelectuais pós-independentes e sedentos por novas reflexões, novos olhares nacionais, Pepetela foi muito feliz ao engendrar a sua narrativa, tendo como cenário predominante a capital Luanda.
Tanto Marisa quanto dona Luzitu são mulheres que apresentam perfis comuns, ambas são donas de casa, zelam pelo bem-estar da família e amam as suas rotinas. Todavia, não representam os estereótipos coloniais, questionados pela escrita do país após o rompimento com o colonizador europeu:
As mulheres da ficção da literatura angolana contemporânea caracterizam-se principalmente pela luta incessante pela sobrevivência, por uma profunda ligação à família e aos valores da ética e do trabalho (Macedo, 2008, p. 125).
Marisa, mesmo tendo consciência de que a sua condição humana a denunciarei socialmente em Angola, não se deixou intimidar, estudou e se formou em comunicação para poder dar voz a sua classe marginalizada duplamente pela sociedade, até então pouco ou nada representada no centro da capital. Todavia, não abriu mão de se casar com o homem que escolheu, embora toda a sociedade – inclusive a sua própria família – fosse contrária à sua união com Lucrécio, um cadeirante mais velho que ela.
A jornalista gostava de provocar os homens por meio de uma espécie de jogo de sedução no qual ela mesma ditava as regras. Marisa aparentava lançar mão do desejo sexual feminino, bem como os pensamentos masculinos acerca da mulher, relativos ao conceito de “coisificação”, talvez, para mostrar a eles o contrário. Sendo assim, a mulher poderia, com certeza, ser uma excelente esposa, profissional bem-sucedida, consciente e moralmente feliz, sem se deixar corromper por uma classe que se coloca na condição superior de dominante. Tais considerações parecem dialogar com os estudos de Tânia Macedo (2008), acerca da escrita angolana pós-independente sobre o gênero feminino:
São personagens positivas, e rompem definitivamente com os estereótipos forjados pelo colonizador sobre a lascívia feminina, a partir de um imaginário em que ganha preponderância a nudez dos corpos e uma suposta libertinagem sexual que substitui a inteligência (MACEDO, 2008, p. 125).
Já Dona Luzitu, com todas as suas limitações sociais e humanas, não se deixa abater, luta pela sua sobrevivência, bem como a sobrevivência da sua família, estereotipando um perfil literário de mulher quitandeira, tradicionalmente conhecida na escrita angolana:
Provavelmente, a quitandeira seja a personagem que, de maneira mais completa, encarna a figura materna, articulando as qualidades míticas da Mamã africana em seus aspectos de defesa da prole da família (MACEDO, 2008, p. 126).
Pelos musseques angolanos, dona Luzitu transita fazendo as suas zangas, possibilitando o esboço de uma área marginalizada, mas imensamente rica culturalmente, além de contribuir com o trânsito de informações interessantes aos moradores da capital Luanda:
Assim, por meio da representação literária do musseque como centro da cidade da escrita, assiste-se não apenas a uma escolha estética por parte dos produtores culturais, mas também à construção de um completo modelo ideológico, caracterizando uma imagem do mundo própria, nacional (MACEDO, 2008, p. 122).
E assim a capital Luanda serve de cenário para inúmeras histórias de mulheres nobres, que colaboram para com o seu crescimento de forma ativa e positiva. Não se deixando abalar, nem manipular por velhos conceitos que em nada se aproximam aos novos desejos angolanos, principalmente no que se refere ao papel da mulher dentro da sociedade.
REFERÊNCIAS
MACEDO, Tania. Luanda, cidade e literatura. São Paulo: Editora UNESP; Luanda (Angola): Nzila, 2008.
PANTOJA, Selma. Quitandas e quitandeiras: história e deslocamento na nova lógica do espaço em Luanda, In Atas da III Reunião Internacional de História de África, Lisboa, 2000, p 175-186.
PEPETELA. O tímido e as mulheres. São Paulo: Editora Leya, 2014. [1ª ed. 2013].
PINTO, Alberto Oliveira. O colonialismo e a coisificação da mulher no cancioneiro de Luanda, na tradição oral angolana e na literatura colonial portuguesa. In: MATA, Inocência; PADILHA, Laura Cavalcante (Orgs.). A mulher em África – vozes de margem sempre presente. Lisboa: Colibri, 2007, p. 35-49.
RIBEIRO, Maria Aparecida. A mulher e a cidade: uma leitura da narrativa angolana, Revista Crítica de Ciências Sociais, no 34, fevereiro de 1992, p. 85- 97.
Bio fornecida pelo palestrante.
CONSTRUÇÃO COMPLEXA DA IDENTIDADE INDIVIDUAL EM MEIO Á ESFERA SOCIAL – ANNE FRANK COMO EXEMPLO
Juliane Della Méa
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI – Campus de Frederico Westphalen
RESUMO: O artigo propõe analisar a narrativa ou discurso vinculado pelo filme Escritores da liberdade (EUA, XXX), dentro da temática do reconhecimento e aceitação da identidade e da diferença, através do diálogo entre gerações e socialização entre as diversidades sociais, culturais, religiosas e econômicas. Por ter como aporte obra bibliográfica O diário de Anne Frank (publicado em 1947), memórias de uma garota judia perseguida durante a Segunda Guerra Mundial, o filme identifica a luta de uma professora para decompor teorias curriculares envolvidas na prática docente, a partir das categorias: função da escola, conhecimentos, relação de poder, organização curricular, postura professor/aluno, espaço físico, dentre outras. Assim, reflete sobre questões sociais de liberdade presentes no âmbito educacional, e, portanto, parte da complexidade da identidade criada através da diferença.
Palavras-chave: Identidade. Educação. Análise fílmica.
ABSTRACT: This article analyzes the narrative or discourse employed in the film Writers of Freedom (USA, XXX), which sets it in the context of the subject of knowledge and acceptance of identity and difference. It shows that these are acquired through the dialogue between generations and the socialization among the several existing social, cultural, religious and economic diversities. Having as departing point the book The Journal of Anne Frank, the memories of a girl written during World War II and published in 1947, the film draws a comparison of its theme with the fight of a teacher to contest some curricular theories that rule the practical work of a teacher, according to the following categories: the function of school, the question of knowledge, power relations, curricular organization, the relationship teacher/pupil, the physical space of school, among others. Therefore, the film discusses questions related to freedom that are relevant in the realm of schooling and education, and reflects on the complexity of identity that is created through the notion of difference.
Keywords: Identity. Education. Film analysis.
Minicurrículo: Graduada em Letras Espanhol pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI – Campus de Frederico Westphalen. Professora da rede pública e privada do Estado do Rio Grande do Sul. Especialista em Gestão Estratégica de Pessoas. Especialista em Literatura Brasileira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Letras pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI – Campus de Frederico Westphalen.
CONSTRUÇÃO COMPLEXA DA IDENTIDADE INDIVIDUAL EM MEIO Á ESFERA SOCIAL –
ANNE FRANK COMO EXEMPLO
Juliane Della Méa
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI – Campus de Frederico Westphalen
INTRODUÇÃO
A busca da identidade é um tema de ordem e fator social, cultural e coletivo que envolve identificações externas em um confronto de si com o outro para que a pessoa se reconheça como sujeito uno, desestabilizando quadros de referência que oferecem aos indivíduos um lugar estável e definido em seu meio social. Consequentemente, ocorre um choque entre as representações socialmente definidas e a identificação pessoal do sujeito, o qual é diretamente ligado às alterações sociais e culturais, que provocam seu deslocamento individual.
A fase pueril, dentre as demais na evolução humana, é a mais atingida, pois a criança está mais suscetível às transformações que afetarão a construção e a definição da sua identidade. Essa etapa se concretiza, ao longo da vivência, como uma criação social sensível a mudanças, sempre que a sociedade sofra transformações estruturais amplas, tendo suas definições alteradas. A ideia de infância, surgida apenas por volta dos séculos XVI e XVII, não é a mesma dos dias atuais.
Na Idade Média, segundo Philippe Ariès (2006, p. 99):
“(…) o sentimento de infância não existia, (…) assim que a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante da sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes” (ARIÈS, 2006, p. 9).
À medida que a sociedade cresceu economicamente, a distinção entre adulto e criança surgiu, marcada por vários acontecimentos: o modo de se vestir, a linguagem, a personalização do nome como identidade própria, a expansão da escolaridade, o surgimento da própria literatura e também o modelo de família moderno, a qual foi encarregada de novas funções educacionais e religiosas. Esses fatores criaram uma nova classe social: a infância, detentora de suas características próprias.
Mesmo com toda a evolução social, na contemporaneidade, ainda ocorre a invisibilidade da infância, quando esta se torna projeção de expectativas dos pais, e a criança é vista como incapaz de agir por si própria em um mundo cercado de obstáculos. Sem participação social efetiva, sob o argumento de que a criança necessita de proteção, a velha teoria paternalista é enfatizada, e as crianças passam a ser vistas como seres humanos em miniatura desprovidos de especificidade própria e originalidade.
A aproximação entre o mundo adulto e o mundo infantil é resultado da realidade pós-moderna, na qual vivemos atualmente, como afirmam Steinberg e Kincheloe:
Esta nova realidade brinda os adultos com um problema complexo que poderia ser chamado “O dilema da infância pós-moderna.” O acesso das crianças contemporâneas à cultura infantil comercial e à cultura popular não apenas motivou a se tornarem consumidoras hedonistas, mas também lhes minou a inocência (Steinberg e Kincheloe, 2001, p. 33).
A concepção de infância, para os teóricos citados, é uma criação da sociedade, e está sujeita a mudar sempre que houver transformações sociais e econômicas. Perante essas circunstâncias, a criança busca a definição de sua identidade: ora é parte do universo adulto e autossuficiente, ora é frágil e dependente desse mundo. O jeito de ser infantil, que busca na fantasia e na imaginação a invenção de si, encontra pouco reconhecimento no mundo amadurecido que instiga precocemente a adultização, através da mídia que a bombardeia com publicidades para gerar um consumo desenfreado de bens supérfluos como forma de obtenção de prazer, da cauterização da objetividade, da reprodução de certos conceitos e valores.
A família é a primeira instituição para a qual a criança se reporta, e cabe a ela edificar a responsabilidade sobre a criança como indivíduo autônomo e crítico, buscando estruturar sua adaptação no mundo. Também nesse meio a criança perde suas possibilidades de ser infante quando recebe as projeções dos adultos, que se encontram nos seus anseios e frustrações.
Com menção ao relato de uma garota – O diário de Anne Frank (1947) – que, refugiada durante parte da Segunda Guerra Mundial, num sótão, com a família, por ser judia, demonstra orgulho de sua origem e coragem para seguir enfrentando os desafios impostos pela vida, até serem descobertos. O filme Escritores da liberdade (EUA, XXX), que também existe em forma de livro (EUA, 1999), é uma produção cinematográfica que apresenta as contradições da sociedade contemporânea através da vida da professora Erin Gruwell (Hillary Swank) e sua luta por uma educação mais justa em meio ao caos das relações sociais e humanas, a submissão destas ao capital, as semelhanças e resultados de um sistema educacional ultrapassado com o poder real sobre o desenvolvimento dos alunos e, logo, da sociedade.
A história se passa por volta de 1992, em Los Angeles, em um contexto de guerra urbana nos bairros de periferia, causado por gangues e motivado por tensões raciais, que definiam grupos isolados. A escola é conhecida por ser um local de intolerância, de violência e de diversidade de coligações juvenis que resistem ao ensino tradicional vigente. Estruturalmente, o referido filme se divide em três momentos básicos: o primeiro momento mostra a alegria de Erin Gruwell em poder se dedicar à atividade de docência, após ter estudado e se especializado para ministrar aulas de Literatura, que era um de seus sonhos, sua identidade idealizada, exposta no contexto real. O segundo momento destaca todas as frustrações e desafios pelos quais ela passa na tentativa de realizar um trabalho docente significativo, sua identidade sendo modificada pelo meio e pela identidade dos alunos quando se encontravam, formando seus princípios, valores e diferenças. O terceiro momento enfatiza as conquistas alcançadas com a turma, os alvitres conquistados, diante do seu esforço, os benefícios partilhados quando se respeita e se é respeitado dentro de suas limitações e opiniões, religiões e origens, culturas e credos, onde seu significante maior é a palavra conviver (viver com) o outro), “Quando eu os ajudo a darem sentido a suas vidas, tudo na minha se completa. Quantas vezes se consegue isto?” (Professora Erin Gruwell).
Perfazendo o papel de mediadora, a professora se completa, transfere as conquistas dos seus alunos para si, como complemento e avaliação de sua própria vivência, realçando a importância e nobreza da profissão do educador para com a formação da sociedade em geral, fazendo os incrédulos aceitarem e confiarem em que mudanças são possíveis quando concebidas com delicadeza, reflexão, respeito e amor.
Outro aspecto a ser salientado é que, por meio deste processo educacional (fixação da própria identidade), os educandos passam a serem construtores de conhecimentos e de sua própria história, capazes de realizar as modificações que lhe são possíveis, escolhendo a direção que cada indivíduo quer dar a sua vida.
As produções literárias dos alunos reais resultaram em um livro – O diário dos escritores da liberdade – lançado em 1999, nos Estados Unidos.
COMPLEXIDADE DA IDENTIDADE x EDUÇÃO E LIBERDADE
Com o passar dos tempos é sensato propor a construção e a contribuição de novos aspectos culturais e históricos dentro do meio social em que estamos inseridos. Também é comum a percepção de que os jovens constituem uma geração na medida em que vivem em determinado tempo cronológico, se diferenciando dos demais. A cultura entre os homens se transmite de uma geração a outra pela educação, ou seja, todo contato humano é educativo, se promove o bem e a integração; e é (des)educativo se dele resultam o mal e a desintegração. A educação dissemina a cultura, porém esta vai sofrendo adaptações e mudanças através dos tempos, resultando em conflitos entre as gerações. Certamente que “sobreviventes” dos anos 1970 e 1980, quando, nos Estados Unidos, os automóveis vinham sem cadeirinhas de segurança, a água nem sempre era filtrada, as casas ficavam destrancadas e as crianças iam para a escola sozinhas, não têm os mesmos pensamentos e opiniões dos nascidos no século XXI. No entanto, se valores morais como respeito, prudência, paciência, pontualidade foram repassados, estarão presentes nesta nova geração, o que não evitará divergência de opiniões, mas estas serão encaradas com facilidade. Porém, se o meio não proporcionar esperança de melhoria, de aperfeiçoamento, de crescimento, esses valores serão considerados descartáveis.
A afirmação da identidade e a marcação da diferença implicam, sempre, as operações de incluir e de excluir. Dizer “o que somos” significa também dizer “o que não somos”. A identidade e a diferença se traduzem, assim, em declarações sobre quem pertence a um grupo e quem não pertence a ele, portanto sobre quem está incluído e quem está excluído. Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora. A identidade está sempre ligada a uma forte separação “nós” e “eles”. Essa demarcação de fronteiras, essa separação e distinção, supõem e, ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam relações de poder.
O processo de classificação é central na vida social, o maior, o menor; o educado, o irreverente; o sábio e o ingênuo. Ele pode ser entendido como um ato de significação pelo qual dividimos e ordenamos o mundo social em grupos e em classes econômicas. A identidade e a diferença estão estreitamente relacionadas às formas pelas quais a sociedade produz e utiliza classificações – dividir e classificar significa, neste caso, também hierarquizar; fato apresentado no filme através da divisão das turmas.
Bem como a definição da identidade depende da diferença, seja essa de ordem econômica, ética, cultural, a definição do normal depende da definição do anormal. Aquilo que é deixado de fora é sempre parte da definição e da constituição do “dentro”. A definição daquilo que é considerado aceitável, desejável, natural é inteiramente dependente da definição daquilo que é considerado abjeto, rejeitável, antinatural. A identidade hegemônica é permanentemente assombrada pelo seu “outro”, sem cuja existência ela não faria sentido.
Desta forma, o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles procedimentos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os métodos que tendem a subvertê-la e a desestabilizá-la. Processo semelhante ao que ocorre dentro da escola, quando a hierarquia da direção, nos Estados Unidos, dividindo as turmas pelo poder aquisitivo, rendimento escolar e nacionalidade, faz prevalecer esses valores como mecanismos de ordem social natural e adequada.
Conceber a separação conveniente ao meio – e, por extensão, ao sistema de significação governamental como uma estrutura estável e determinada, desenvolvendo-a, é representar um sistema que negligencia a formação social do cidadão. A identidade e a diferença são estreitamente dependentes da representação, e é por meio desta que se concebe, se compreende e se diferencia, adquirindo sentido. É através das diferenças instauradas que se torna possível pensar na produção de novas e renovadas identidades.
Nessa perspectiva, iniciamos a reflexão complexa e abrangente sobre a identidade individual, visto que a mesma não é homogênea, definitiva e acabada. Ela está diretamente ligada ao outro, ao sistema e ao poder.
Ao analisar o objeto midiático – filme – constata-se, num primeiro momento, que o “outro” já está com um “pré-conceito” formado, ao abordar a turma que é concedida à professora Gruwell para a prática pedagógica que segundo a escola é a pior turma existente, pois a própria instituição educadora que deveria ter a obrigação de proporcionar a inclusão social de forma igualitária, aplica o método de seleção, onde se dividem as turmas entre os melhores e os piores alunos. Isso faz, nos Estados Unidos, com que os latinos, os cambojanos e os negros entrem em conflito cultural constante com os brancos, uma vez que, a instrução incutida na identidade de sobrevivência dos alunos requer o afastamento e discriminação entre si.
De maneira geral a professora não se foca em nenhuma etnia especialmente, mas procura mostrar que todos, ao mesmo tempo em que são diferentes, com culturas diferentes, são iguais como vitimas dos preconceitos, intolerância ou da violência das gangues. Teríamos aqui uma espécie de crise, segundo Arendt:
Uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-formados. Uma atitude (como essa) não apenas aguça a crise como nos priva da experiência da realidade e da oportunidade por ela proporcionada à reflexão (2003, p. 25).
Essa divisão característica da metodologia tradicional e do preconceito vem ao encontro do tradicionalismo exercido na educação da época. Se a professora agisse de forma tradicional como a relação que era apresentada pela escola para com os alunos, contribuiria para o colapso educacional. Porém, a diferença está justamente na prática docente exercida pela professora Gruwell, incutida dos saberes da teoria crítica curricular e aplicada no cotidiano da sala de aula. Mesmo sem o aval da direção, ela busca a emancipação dos seus educandos, como indivíduos críticos, respeitando os saberes pré-existentes de cada indivíduo. Visível na cena em que ela ensina poesia e o conceito de rima interna com uma música de rap, gênero musical apreciado pelos jovens da turma, mostrando, assim, que todos gostam das mesmas músicas, possuem os mesmos discos e enfrentam diariamente os mesmos problemas, independente da sua raça.
É precisamente essa noção que está no centro da conceituação linguística de diferença – a identidade e a diferença têm que ser nomeadas. É apenas por meio de atos de fala que instituímos a identidade e a diferença como tais, pois as mesmas são ativamente produzidas, elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas do mundo cultural e social, somos nós que as fabricamos, nesses contextos. Dizer isso não significa, entretanto, dizer que elas são determinadas pelos sistemas discursivos e simbólicos que lhes dão definição. Ocorre que a linguagem, entendida aqui de forma mais geral como sistema de significação, é, ela própria, uma estrutura instável, e é precisamente isto que teóricos pós-estruturalistas como Jacques Derrida vêm tentando dizer nos últimos anos.
Essa indeterminação da linguagem decorre de uma característica fundamental do signo. O signo é um sinal, uma marca, um traço que está no lugar de outra coisa, a qual pode ser um objeto concreto, um conceito ligado a um objeto concreto ou um conceito abstrato; ele não coincide com a coisa ou com o conceito. Na linguagem filosófica de Derrida, poderíamos dizer que o signo não é uma presença, ou seja, a coisa ou o conceito não estão presentes no signo, mas a natureza da linguagem é tal que não podemos deixar de ter a ilusão de ver o signo como uma presença, isto é, de ver no signo a presença do referente ou do conceito, e é a isso que Derrida chama de “metafísica da presença”. Essa “ilusão” é necessária para que o signo funcione como tal: afinal, o signo está no lugar de alguma outra coisa. Embora nunca plenamente realizada, a promessa da presença é parte integrante da ideia de signo. Em outras palavras, podemos dizer, com Derrida, que a plena presença (da “coisa”’, do conceito) no signo é indefinidamente adiada. É também a impossibilidade dessa presença que obriga o signo a depender de um processo de diferenciação, de diferença. O autor acrescenta a isso, entretanto, a possibilidade do traço: o signo carrega sempre não apenas o traço daquilo que ele substitui, mas também o traço daquilo que ele não é, ou seja, precisamente da diferença. Isso significa que nenhum signo pode ser simplesmente reduzido a si mesmo – à identidade.
Em suma, a identidade e a diferença são tão indeterminadas e instáveis quanto à linguagem da qual dependem: o poder de definir. A identidade e a diferença são o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva. A identidade, tal como a diferença, é uma relação social, isso significa que sua definição – discursiva e linguística – está sujeita a vetores de força, a relações de poder. Elas não são simplesmente definidas; elas são impostas, não convivem harmoniosamente, lado a lado, em um campo sem hierarquias; elas são disputadas.
Apesar de o sistema da época ser marcado pelo regime de poder dominante europeu, com seu currículo rígido e inabalável, no qual a ordem, a relação de autoridade, a submissão, a burocracia e, principalmente, a impessoalidade levam as pessoas a desconsiderarem os jovens nas suas características individuais, ao seguirem estereótipos. No filme Escritores da liberdade, estes alunos questionam exatamente isto, o “porque” de estarem estudando aquilo, para que serve e chegam a afirmar que nada daquilo irá mudar a vida de qualquer um deles ali. O aluno é alienado por a escola impedir a espontaneidade no pensar e no modo de lidar com as coisas desses educandos. O filme destaca a flexibilidade da professora Gruwell ao ministrar suas aulas, tornando-as atraentes, participativas e construtivas dentro de suas habilidades específicas (literatura, leitura e escrita), internalizadas dentro da identidade individual de cada aluno, tornando-o um ser pensante, investigativo, curioso e protagonista de sua própria história. Nessa ótica, todo e qualquer sistema se submete à avaliação alheia e restrita de caráter individual e social, enquanto práticas inovadoras e adequadas recuperam o homem integralmente – razão e sentimento, conhecimento e emoção.
Sem esquecer que a instituição escolar é política e faz parte de um segmento do sistema de poder, esses poderes dentro da escola são hierárquicos – dentro da sala de aula o professor é detentor do domínio supremo. Possuidora de uma clientela peculiar, a professora do filme analisado em momento algum demonstra autoridade; ao contrário, através da reflexão, a educadora se mostra construtivista na relação professor e aluno, aberta ao ponto de vista dos mesmos, propiciando uma troca de saberes e análises conjuntas, criando desta forma uma relação horizontal que mostra uma docente empenhada na prática transformadora, que busca desmistificar e questionar, junto com os alunos, sempre orientando na busca do conhecimento, sem esquecer-se de estreitar vínculos afetivos em meio a tamanho caos.
Segundo Silva:
(…) pedagogia significa precisamente diferença: educar significa introduzir a cunha da diferença (…). É nessa possibilidade de abertura para um outro mundo que podemos pensar na pedagogia como diferença (2000, p. 65).
Este conceito vem afirmar que a instituição escolar é um lugar político e, como tal, rege e é regida por relações de poder. Em outras palavras, a linguagem, as táticas de organização e de classificação, os distintos procedimentos das disciplinas escolares são, todos, campos de um exercício desigual de poder. O currículo, os regulamentos, os instrumentos de avaliação e o ordenamento dividem, hierarquizam, subordinam, legitimam ou desqualificam as pessoas. A meta não é “moldar” os estudantes para que sejam todos desse jeito e não de outro, e sim acolher as diferenças, as diversidades de identidades. Ver e entender o outro como outro, conservando o que lhe é próprio, a sua diferença: o outro é o outro gênero, a outra cor, outra sexualidade, outra raça, outra região, outra nacionalidade, outra religiosidade, o outro corpo… A escola como lugar legítimo de ensino deve procurar estabelecer um currículo que trabalhe essas identidades – construindo um currículo pluri e multicultural, que permita o enriquecimento de saberes.
A ESCOLA E SEU REAL PAPEL SOCIAL
Na concepção teórica de Tomaz Tadeu Silva, a diferença é a marca para o reconhecimento de uma identidade e esta é tanto simbólica quanto social. Um grupo social, cultural, ético, político… apenas existe porque ele é “diferente” em relação aos demais. No entanto, é um tanto frustrante admitir a exclusão para nos “firmarmos” em uma única identidade excluindo elementos de outra. Por conta da globalização, muitas vezes, os valores e culturas se perdem em meio à imensa ânsia do imediatismo em ser ou permanecer a um estereótipo criado e ou idealizado por determinado grupo social (crise de identidade).
Parece difícil que uma perspectiva que se limita a proclamar a existência da diversidade possa servir de base para uma pedagogia que coloque no seu centro a crítica política da identidade e da diferença. Na perspectiva da diversidade, a diferença e a identidade tendem a ser naturalistas, são aceitas como dados ou fatos da vida social diante dos quais se deve tomar posição. Em geral, a posição socialmente aceita e pedagogicamente recomendada é de respeito e tolerância para com a diversidade e a diferença. Segundo José Luis Pardo, “respeitar a diferença não pode significar deixar que o outro seja como eu sou ou deixar que o outro seja diferente de mim tal como sou diferente (do outro), mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu…”. Ou se pode reformular as palavras de Maurice Blanchot, quando falamos de pedagogia como diferença e identidade – saber acolher o outro, com sua diferença, conservando sua afirmação própria.
As afirmações sobre diferença também dependem de uma cadeia, em geral oculta, de declarações negativas sobre identidades. Assim como a identidade depende da diferença, a diferença depende da identidade. Identidade e diferença são, pois, inseparáveis. Em geral, consideramos a diferença como um produto derivado da identidade. Nesta perspectiva, a identidade é a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. Isto reflete a tendência a tomar aquilo que somos como sendo a norma pela qual descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos. Por sua vez, na perspectiva desenvolvida, identidade e diferença são vistas como mutuamente determinadas, numa visão mais radical. Entretanto, seria possível dizer que a diferença vem em primeiro lugar. Para isso seria preciso considerar a diferença não simplesmente como resultado de um processo, mas como o processo mesmo pelo qual tanto a identidade quanto a diferença (compreendida, aqui, como resultado) são produzidas.
Esse aspecto é explicitado no filme, apesar das dificuldades encontradas pela professora Gruwell, que não desiste e se desdobra para alcançar seus objetivos de transformação positiva em seus alunos, mesmo tendo diante de seus olhos o mundo violento. Assim, ela abre portas para a imaginação e criação próprias de oportunidades onde jamais se acreditaria existir.
Ensinar, ou melhor, suscitar a aprendizagem é uma tarefa bastante sutil. Envolve muita sensibilidade para consigo e com o outro, a busca da percepção consciente das dinâmicas da relação e a permissão interna para se relacionar. Relacionar-se com outra pessoa implica entrar em acordos, conflitos, impasses, identificações e ter a vivência de diversas emoções prazerosas, (des)prazerosas e angustiantes, mas, com a possibilidade da realização de um encontro muito maior consigo e com o outro, favorecendo, assim, o auto e o heteroconhecimento. Assim fez Erin, que passou a ver seus alunos com seu próprio olhar, como jovens capazes que precisavam de credibilidade e desafios e não como meras estatísticas. Ela permitiu que a identidade de cada um fosse desenvolvida e ampliada, sem receio, firmando-a dentro do contexto social vivenciado.
Com a identidade restabelecida, a metodologia do “aprender fazendo” promove um sentido de significado ao fato (passeios de estudos, realizados pela turma), de maneira que o educando possa introduzi-lo em seu modo de ser e viver. Esse ambiente desafiador provoca o desequilíbrio, para só depois, então, se dar o autoconhecimento.
É apenas dessa forma que a escola pode contribuir para o social, quando coloca seu aluno como centro do processo e pronto para conduzir para novas experiências, onde é responsável pela autorrealização das mesmas, proporcionando uma construção saudável de cidadania.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A formação de um sujeito ativo e atuante, que luta pelos seus ideais e busca uma formação melhor dentro da sociedade, a partir da teoria critica, está diretamente vinculada à escola. Esta é o local que leva o aluno a refletir sobre a diversidade cultural, promovendo o respeito mútuo e a igualdade entre todos os cidadãos, questionar os padrões sociais e políticos que formam o nosso país, abandonar o preconceito, o comodismo e o medo da mudança. A iniciativa de formar uma escola disposta a mudar a sociedade, voltada com o olhar para a emancipação do indivíduo, uma escola que vai além das experiências dos educando dentro de suas aprendizagens, requer grande trabalho e por sequência batalhas e desafios.
Essa é a primeira identidade capturada, representada e fortalecida no filme, a identidade docente da professora, mulher que lida com múltiplas e complicadas combinações de identidades sociais que estão presentes nas disposição escolar e que fazem parte do currículo, caso se pretenda uma educação que proporcione o convívio, em igualdade, de diversas identidades e diferenças.
Quando a educação for entendida como conservação do legado cultural, ligação entre passado e presente, possibilidade de revolução, no sentido de mudar, de transformar; permitindo-se que estudantes (e professorado) identifiquem suas múltiplas identidades, se conhecendo e tornando o mundo compreensível, em sua complexidade, acreditando fazer parte dessa realidade, que lhe és própria, a educação será a liberdade real buscada por todo ser humano.
Pedagogicamente falando, a teorização cultural contemporânea sobre identidade e diferença, não aborda o multiculturalismo na educação simplesmente como uma questão de currículo, a diversidade é um dado – da natureza ou da cultura. A multiplicidade é um movimento que reafirma o idêntico, o respeito a esse idêntico, não pode significar querer que ele seja igual ou compactue das mesmas atitudes.
Em certo sentido, pedagogia significa precisamente diferença: educar significa introduzir a diferença em um mundo que sem ela se limitaria a reprodução. É nessa possibilidade de abertura para o outro que podemos pensar como diferentes.
REFERÊNCIAS
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
ARENDT, Hannah. A crise na educação. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2003. p. 221-247.
ARROYO, Miguel G. Políticas educacionais e desigualdades: à procura de novos significados, Educação & Sociedade, Campinas, v. 31, 2010.
ARROYO, Miguel G. Indagações sobre currículo – educandos e educadores: seus direitos e o currículo. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007.
XVI Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e III Congresso Internacional de Ciências do Esporte, 2009, Bahia, Anais Escritores da liberdade: A escola contemporânea na linguagem cinematográfica. Bahia: UEM, 2009.
DERRIDA, Jacques. Posições. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
GROSSI, Esther Pillar. A contribuição da Psicologia na educação. In: Contribuições das Ciências Humanas para a Educação: a Psicologia, Em Aberto, Brasília, ano 9, nº 48, out/dez. 1990: p. 45-50.
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Bio fornecida pelo palestrante.
A ONDA QUE NÃO SE DEIXA LER: COMENTÁRIO SOBRE UM CONTO DE CALVINO
Samuel Rezende
Universidade Federal de Minas Gerais
Resumo: Inicialmente, este ensaio discute o conceito de simulacro enquanto resistência a um modelo fixo de representação e identidade. Em seguida, encaminha uma reflexão do filósofo Gilles Deleuze sobre a divisão de Platão, naquilo que contribui para um recalque do simulacro, visto que o intuito de Platão era a seleção da imagem que se assemelha à Ideia. Assim, o simulacro deve surgir enquanto resistência ao semelhante, colocando-se como a própria dessemelhança, cujo movimento nunca é o mesmo, mas sempre diferente. O conceito de simulacro é então ligado ao de eterno retorno, àquilo que, contraditoriamente, sempre se torna outro. Finalmente, tendo como pano de fundo tal reflexão teórica, o artigo comenta o conto de Italo Calvino “Leitura de uma onda”, do livro Palomar.
Palavras-chave: Simulacro; Diferença; Calvino; Deleuze.
Abstract: This essay initially discusses the concept of simulacrum as resisting to the fixed model of represenation and identity. Then, it follows a reflection on the philosopher Gilles Deleuze on the division in Plato, when it contributes to the idea of repression of the simulacrum, given that Plato’s intention was the selection of images similar to the Idea. So, simulacrum must be resist the similar, placing itself as its own dissmilitude, whose movement is never the same, but always diferente. The concept of simulacrum is then linked to that of eternal return, something that, contradictorily, always becomes another. Finally, having these discussions as its background, the article comments the short story “Leitura de uma onda”, from the book Palomar, by Ítalo Calvino.
Key-words: Simulacrum; Difference; Calvino; Deleuze
Minicurrículo: Samuel Rezende é aluno do mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde realiza pesquisa, financiada pela CAPES sobre a poética do mineiro Eloésio Paulo. Graduou-se em Letras pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), onde também realizou pesquisas de iniciação científica, “Mímesis na história: uma proposta de síntese” e “Modernidade e pós-modernidade: uma aproximação”, e conclusão de curso, “Leituras simbólicas do feminino em três poetisas hispano-americanas”.
A ONDA QUE NÃO SE DEIXA LER: COMENTÁRIO SOBRE UM CONTO DE CALVINO
Samuel Rezende
Universidade Federal de Minas Gerais
I – Delineamento teórico
As críticas à metafísica, à verdade, à representação e à identidade são alguns dos temas que, na segunda metade do século XX, ascenderam ao primeiro plano de uma parte da reflexão filosófica. Tais críticas deram ensejos a novas interpretações e lançaram um novo olhar sobre as fundações do pensamento metafísico. Diante desse quadro, o pensamento de Platão, cujo primado é a fixação da verdade e da identidade, tornou-se o ponto de partida de alguns pensadores da filosofia da diferença.
Entre tais pensadores, Gilles Deleuze foi um dos que retornou a Platão, asseverando que “o projeto platônico só aparece verdadeiramente quando nos reportamos ao método da divisão” (DELEUZE, 2011, p. 259), ou seja, a filosofia de Platão não tinha por intenção a divisão dos gêneros em espécies. Na verdade, a teoria das Ideias buscava distinguir o puro do impuro, o verdadeiro do falso:
O objetivo da divisão não é dividir um gênero em espécies, mas selecionar linhagens, ou seja, distinguir o puro e o impuro, o autêntico do inautêntico. A dialética platônica não é da contradição, mas da rivalidade (DELEUZE, 2011, p. 260).
No quadro da metafísica platônica, o mundo inteligível é aquele que se liga à pureza e ao autêntico, e o mundo sensível é aquele que comporta as impurezas e as inautenticidades. Nesse marco divisório, ao sensível, portanto, cabe uma conotação baixa, ou seja, é um mundo onde somente há cópias e aparências, onde as coisas estão sempre em mutação – e é no mundo sensível em que se encontra a poesia. É, portanto, diante dessas cópias e aparências que o método de Platão tratará de selecionar, separando aquilo que possui uma linhagem com relação mais próxima à Ideia, daquilo que se distancia, que escapa à representação ideal, ou seja, o simulacro:
Sob esta condição que a divisão prossegue e atinge seu fim, que é não a especificação do conceito, mas a autenticação da Ideia, não a determinação da espécie, mas a seleção da linhagem. (…) À busca do lado do simulacro e de se debruçar sobre seu abismo, Platão, no clarão de um instante, descobre que não é simplesmente uma falsa cópia, mas que põe em questão a própria noção de cópia e de modelo (DELEUZE, 2011, p. 261).
O simulacro coloca-se como um problema para o método da divisão, pois ele abala a representação entre o modelo e a cópia. Não se liga a nenhum dos dois, não é nem mesmo uma cópia falsa. Ele não visa à imagem semelhante ou à imitação do modelo, ao contrário, produz uma dessemelhança, resistindo à representação. É um elemento que se esvai, que resiste, que não se deixar domar, sendo, portanto, difícil de codificar.
É importante notar que, para Deleuze, na contramão da interpretação tradicional feita do pensamento de Platão, o decisivo não é a separação entre essência e aparência, mas entre cópia e simulacro. É dessa forma que o pensamento de Deleuze se faz original, porque, para ele, a primeira separação é apenas para escamotear a segunda:
A motivação platônica consiste em [trata-se de, sic] selecionar os pretendentes, distinguindo as boas e as más cópias, ou antes, as cópias sempre bem fundadas e os simulacros sempre submersos na dessemelhança. Trata-se de assegurar o triunfo das cópias sobre os simulacros, de recalcar os simulacros, de mantê-los encadeados no fundo, de impedi-los de subir à superfície e de se “insinuar” por toda parte (DELEUZE, 2011, p. 262).
Há, portanto, uma desqualificação do simulacro, uma forte tentativa em derrotá-lo, em mantê-lo submerso no mais profundo. Tal indiferença aparece porque o simulacro não possui, assim como a cópia, uma identidade que o ligue à Ideia. Essa identidade deve pressupor uma imagem certeira entre essência e aparência, modelo e cópia, ou seja, “a cópia não parece verdadeiramente a alguma coisa senão na medida em que parece à Ideia da coisa” (DELEUZE, 2011, p. 262).
Por sua vez, o simulacro quer o objeto, mas não o quer por meio da ideia, ao contrário, o que quer é justamente subverter a imagem semelhante enquanto cópia. Pode-se dizer que o simulacro, enquanto resistência, abre uma fenda no interior da metafísica platônica, pois, o que fazer com algo que é a própria dessemelhança e o próprio desequilíbrio? Enquanto a cópia possui uma imagem que se assemelha à Ideia, o simulacro é justamente a imagem que não possui semelhança:
A cópia é uma imagem dotada de semelhança, o simulacro, uma imagem sem semelhança. (…) O simulacro é construído sobre uma disparidade, sobre uma diferença, ele interioriza uma dissimilitude. Eis porque não se pode nem mesmo defini-lo com relação ao modelo que se impõe às cópias. Modelo do Mesmo do qual deriva a semelhança das cópias (DELEUZE, 2011, p. 263).
A imagem que possui um caráter semelhante tende a ser sempre a mesma, sempre a identidade. A fim de que se mantenha o mesmo, deve-se, portanto, recalcar qualquer traço que destitua a imagem de sua proximidade com o modelo, ou seja, que a distancie de sua essência. Modela-se, assim, a experiência, cuja sensação deverá ser a mesma, nunca diferente. Na imagem semelhante, somente é possível experimentar o modelo, o mesmo que possui um liame essencial com a Ideia.
De outro modo, o simulacro torna-se a imagem da dessemelhança, “imagem sem semelhança”, diz Deleuze. Sua construção é sobre aquilo que difere. Na tentativa platônica de codificar a cidade, o amor e as leis, o simulacro, mais próximo do poético, aparece como o elemento que não se deixa codificar, que resiste a se deixar apreender sob um sistema que pretende o igual. Nesse sentido, apenas a título de exemplo, o choro de Aquiles é o luminar do simulacro. O herói solar, forte e viril, desafiador de reis, vai até Tétis, sua mãe, chorar a prisão de Briseida, por Agamenon. O simulacro corrompe a ideia do mesmo, faz com que o grande guerreiro chore a perda da amada. No interior da imagem do herói, forte e viril, há, portanto, uma dessemelhança, o choro de Aquiles. É essa a diferença que envolve o simulacro, pois ele não permite, de certa forma, que o herói sustente sempre a mesma imagem, que seja sempre igual, porque deve tornar-se outro, sempre:
Em suma, há no simulacro um devir-louco, um devir ilimitado, (…) um devir sempre outro, um devir subversivo das profundidades, hábil a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos ao mesmo tempo, mas nunca igual. Impor um limite a este devir, ordená-lo ao mesmo, torná-lo semelhante – e, para a parte que permaneceria rebelde, recalcá-la o mais profundo possível, encerrá-la numa caverna no fundo do Oceano: tal é o objetivo do platonismo em sua vontade de fazer triunfar os ícones sobre os simulacros (DELEUZE, 2011, p. 264).
Então, se há no simulacro um devir que não possui um limite, ou seja, que continua a se tornar sempre outro, tal conceito não parece distar muito do eterno retorno nietzschiano. Apesar de já se encontrar entre os pré-socráticos, o conceito pressupunha, entre os primeiros pensadores, um caráter cíclico e seria, portanto, por meio de tal movimento que todas as coisas retornariam ao mesmo e ao idêntico. Na visão de Deleuze, a originalidade de Nietzsche está em conceber o eterno retorno enquanto intensidade, cujo movimento é capaz de produzir sempre aquilo que não é mais o mesmo, produzindo sempre o diferente:
O eterno retorno não é um ciclo, não supõe o Uno, o Mesmo, o Igual ou o equilíbrio. Não é o retorno do Todo, não é o retorno do Mesmo, nem retorno ao Mesmo. (…) O desigual, o diferente é a verdadeira razão do eterno retorno. É porque nada é igual e nem o mesmo; o eterno retorno se diz somente do devir, do múltiplo. O eterno retorno constitui a única unidade do múltiplo, a única unidade do que difere (DELEUZE, 2006, p. 163-164).
Alinhado ao eterno retorno, o simulacro ganha força em sua resistência à tentativa de interpretação e de seleção. Não é possível fazer dele um conhecimento, ou ainda, uma experiência que seja universal, pois se reveste de um manto indiscernível às configurações que pretendem à igualdade.
II – A onda que não se deixa ler
O conto “Leitura de uma onda” é uma das diversas histórias que compõem o livro Palomar, de Ítalo Calvino. O título, além de ser o nome do grande personagem dos contos inscritos no livro, é também o nome de um observatório astronômico, que, por muito tempo, conteve o maior telescópio do mundo. A ligação entre os nomes talvez não seja casual, porque remete ao ato de observar. Tal como o observatório, que se fixa nos astros, o senhor Palomar é um observador, que olha atentamente para o mundo. E no conto em questão, ele põe-se a observar e, principalmente, a ler uma onda.
O senhor Palomar encontra-se diante de uma praia e observa as ondas. Ele não as contempla, ou seja, seu olhar não está completamente absorto, porque está seguro quanto ao que se põe a fazer: quer apenas observar. Não pretende observar todas as ondas que surgem e se esvaem no mar. O que o senhor Palomar pretende é selecionar apenas uma simples onda para observá-la:
Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso (CALVINO, 1994, p. 7).
Há a intenção de se fixar um objetivo que, pode-se dizer, vise à seleção da melhor onda. A fim de que o procedimento não seja malogrado, as sensações vagas deverão ser evitadas e o delineamento, então, será estipular os limites precisos para o alcance do objetivo:
Como o que o senhor Palomar pretende fazer neste momento é simplesmente ver uma onda, ou seja, colher todos os seus componentes simultâneos sem descurar de nenhum, seu olhar se irá deter sobre o movimento da água que bate na praia a fim de poder registrar os aspectos que a princípio não havia captado; tão logo se dê conta de que as imagens se repetem, perceberá que já viu tudo o que queria ver e poderá ir-se embora (CALVINO, 1994, p. 8).
A observação pretende tornar-se mais apurada, visto que o observador quer atentar para os detalhes ainda não captados num primeiro momento. A intenção é apreender, ou melhor, é reter uma imagem, o modelo da onda. Pode-se dizer que o grande objetivo do senhor Palomar seria, portanto, buscar a repetição das imagens. Assim que perceber que as imagens se repetem com todos os seus componentes simultâneos, a ideia de onda estará fixada no mesmo, em sua identidade.
Dessa forma, o senhor Palomar busca organizar uma imagem que retenha todos os aspectos em sua totalidade, a fim de que se tenha a ideia de onda. Ler uma onda, para o senhor Palomar, significa congelar uma imagem e, também, uma identidade, por isso, trata de limitar um campo de observação, para que possa “levantar um inventário de todos os movimentos de ondas que ali se repetem com frequência variada dentro de um dado intervalo de tempo” (CALVINO, 1994, p. 9). Não há dúvidas: Palomar quer selecionar a melhor onda dentre todas. Esse movimento de observação almeja a escolha da onda que se furte a qualquer movimento que contradiga a ideia de onda tida por Palomar. Haverá, portanto, uma imagem que deverá sobressair-se, será o modelo mais puro de onda.
Apesar de todo o esforço e determinação do senhor Palomar, em sua tentativa de observação e apreensão da pura imagem, a tarefa de selecionar, isolar, arrastar, separar ou ainda interpretar uma onda não é algo simples.
Isolar uma onda da que se lhe segue de mediato e que aparece às vezes suplantá-la ou acrescentar-se a ela e mesmo arrastá-la é algo muito difícil, assim como separá-la da onda que a precede e que parece empurrá-la em direção à praia, quando não dá até mesmo a impressão de voltar-se contra ela como se quisesse fechá-la (CALVINO, 1994, p. 7).
A excisão que pretende Palomar é árdua porque as ondas com o fluxo contínuo dos movimentos tendem sempre a rejeitarem uma imagem pronta e acabada. Assim, ao ver “uma onda apontar na distância, crescer, aproximar-se, mudar de forma e de cor, revolver-se sobre si mesma, quebrar-se, desfazer-se” (CALVINO, 1994, p. 7), Palomar já não pode apreendê-la. Isto porque é preciso considerar os diversos fatores que contribuem para a formação de uma onda e que devem estar incluídos na leitura de Palomar:
Para se compreender como uma onda é feita, é necessário ter-se em conta esse impulso em direções opostas que em certa medida se contrabalançam e em certa medida se somam, e produzem um quebrar geral de todos os impulsos e contraimpulsos no mesmo alagar de espuma (CALVINO, 1994, p. 9).
Como, no entanto, poderia o senhor Palomar enquadrar a imagem de algo que possui impulsos e contraimpulsos? Seria possível observar o modelo Ideal daquilo cuja força está exatamente em se opor a si mesma? Para se compreender uma onda é necessário entender a própria diferença que há nela mesma. Nesse sentido, parece haver nessa citação uma fina ironia da própria onda em relação ao observador, pois a onda rechaça a compreensão por meio de uma observação que a quer idêntica, por ser formada por impulsos e contraimpulsos. Assim, a onda resiste à interpretação do senhor Palomar, pois seu impulso faz com que assuma o caráter enigmático do simulacro, tornando-se algo que resiste ao domínio da interpretação ou à codificação. A onda, nesse caso, resiste à leitura do senhor Palomar.
A resistência da onda tende a sugerir um verdadeiro jogo de gato e rato em que, a todo o momento, parece haver uma fuga, como se algo escapasse, tornando-se impossível de ser conquistado, apreendido ou ainda territorializado. Sendo assim, para se definir o modelo, haverá sempre alguma consideração a ser feita:
Mas todas as tentativas de definir este modelo devem levar em consideração uma onda que sobrevém em direção perpendicular ao quebra-mar e paralela à costa, fazendo escorrer uma crista contínua e apenas aflorante (CALVINO, 1994, p. 10).
Contudo, “o senhor Palomar não perde o ânimo e a cada momento acredita haver conseguido observar tudo o que poderia ver de seu ponto de observação, mas sempre ocorre alguma coisa que não tinha levado em conta” (CALVINO, 1994, p. 9), ou seja, no instante em que for considerada a direção perpendicular ao quebra-mar e paralela à costa, ainda haverá uma consideração outra, pois a onda resistirá ao modelo e à interpretação da consideração anterior e, portanto, já não será mais a mesma, exigindo que novos elementos sejam avaliados:
Ao mesmo tempo precisa-se considerar as reentrâncias da frente, em que a onda se divide em duas alas, uma que tende em direção à praia da direita para a esquerda e outra da esquerda para a direita, e o ponto de partida ou de chegada dessa divergência ou convergência é aquele ponto em negativo que segue o avançar das alas, mas sempre se mantendo um pouco atrás e sujeita ao sobrepor-se alternando delas, para que não venha a ser alcançada por uma outra onda mais forte embora também esta com o mesmo problema de divergência-convergência, ou talvez por outra ainda mais forte que resolva o impasse rompendo o nó (CALVINO, 1994, p. 8-9).
Apesar de o senhor Palomar não perder o ânimo com a sua observação, sempre surge um novo traço na onda que anteriormente não lhe havia ocorrido. O surgimento desses traços, a todo o momento em que Palomar tenta captar uma imagem, parece revestir as ondas de uma força que as ajudam a resistir a qualquer tentativa de representação. Torna-se, portanto, difícil abarcar uma imagem idêntica de algo que no interior de si mesmo se debate, produzindo impulso e contraimpulso, divergência e convergência. Nessa controvertida ação, a onda ascende à superfície como sendo o próprio simulacro, porque impede a imagem do mesmo, resistindo ao controle da identidade e à ideia mesma de onda:
Em suma, não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles também complexos a que essa dá ensejo. Tais aspectos variam continuamente, decorrendo daí que cada onda é diferente de outra onda; mas da mesma maneira é verdade que cada onda é igual a outra onda (CALVINO, 1994, p. 8).
Cada onda é igual à outra onda em sua diferença interior, porque são formadas por abalos e contra-abalos. Mas as ondas diferem umas da outras porque se assemelham na própria diferença. Cada onda é diferente de outra onda. Nesse sentido, quebra-se a ideia do uno enquanto detentor de todo valor da imagem pura de onda. Se a onda é o simulacro, porque, tal como o “Homem da multidão” de Poe, “não se deixa ler”, então ela se alinha intimamente ao eterno retorno, porque, não se deixando ler, apresenta sempre novos aspectos que continuamente variam e, portanto, não recaem no uno, no mesmo, no igual ou ainda no universal. Assim tendem a ser as ondas do oceano, cujos movimentos escapam à apreensão do observador, porque nunca são as mesmas. As ondas estão sempre a revolverem-se no ir e vir. Elas sempre estão em devir.
Finalmente, para contemplar tamanha multiplicidade, ao senhor Palomar “bastaria não perder a paciência, coisa que não tarda a acontecer” (CALVINO, 1994, p. 11). Palomar frustra-se por não conseguir o retrato ideal da onda, porque “só conseguindo manter presentes todos os aspectos juntos, ele poderia iniciar a segunda fase da operação: estender esse conhecimento a todo o universo” (CALVINO, 1994, p. 11).
Referências bibliográficas:
CALVINO, Italo. Leitura de uma onda. In: Palomar. 2ª ed. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 7-11.
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DELEUZE, Gilles. Platão e o simulacro. In: Lógica do sentido. 5ª ed. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 2011. pp. 259-271.
MACHADO, Roberto. Platão e o método de divisão. In: Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. p. 41-49.
Bio fornecida pelo palestrante.
MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER EM YO NO SOY BONITA, DE ANGÉLICA LIDDELL
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
Resumo: Angélica Liddell (1966) é hoje um dos nomes mais conhecidos do teatro espanhol e europeu. Suas performances, sempre carregadas de um tom violento e autobiográfico, dão ênfase à misoginia e ao machismo. A partir da peça Yo no soy bonita (2004), pretendo evidenciar como a violência no espetáculo narrada e o tom confessional se somam para criar um grito que denuncia a violência contra a mulher e contra a criança-menina.
Palavras-chave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
Resúmen: Angélica Liddell (1966) es hoy uno de los nombres más conocidos del teatro español y europeo. Sus actuaciones, siempre cargadas con un tono violento y autobiográfico, dan énfasis a la misoginia y al machismo. A partir del espectáculo Yo no soy bonita (2004), pretendo mostrar cómo la violencia en el espectáculo narrada y el tono confesional se suman para crear un grito denunciante de la violencia contra las mujeres y las niñas.
Palabras-clave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
Minicurrículo: Ricardo Augusto de Lima é bacharel em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina, onde defendeu a dissertação de mestrado intitulada “Estas três paredes do meu apartamento: intertexto, ruptura da ilusão e autoficção como recursos metateatrais” em O Homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. É doutorando também na UEL em Letras, com pesquisa na área de autoficção, dramaturgia, escritas de si e metateatro. Mantém, como Ricardo Dalai, o blog Reticências.
MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER
EM YO NO SOY BONITA, DE ANGÉLICA LIDDELL
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”
(Clarice Lispector, em A hora da estrela)
Fredric Jameson (1996), ao analisar o conceito de “expressão” a partir do quatro O Grito, de Munch, afirma que existe uma separação entre sujeito interior e exterior e as emoções de cada um: da dor sem palavras do sujeito interior ao momento em que a “emoção é então projetada e externalizada, como um gesto ou grito, um ato desesperado de comunicação, a dramatização exterior de um sentimento interior” (JAMESON, 1996, p. 39, grifo nosso). Na peça Yo no soy bonita (2004), Angélica Liddell finaliza uma confissão com um grito um pouco abafado, mas, ainda assim, um grito: “Y aquella noche vomité” (LIDDELL, 2008, p. 22). Por meio de um discurso confessional e autoficcional, a dramaturga catalã atinge o espectador com o que há de mais violento na relação homem-mulher. Nascida em 1966, em Figueras, Espanha, Angélica nasceu Angélica González, mas assumiu o sobrenome Liddell em homenagem a Alice Liddell, menina que inspirou aquela Alice que cai na toca do coelho. Filha única de pai militar, escrevia pequenas histórias (geralmente trágicas e cheias de personagens) para fugir da solidão e da austeridade do ambiente militar.
Em 1993, fundou, com o amigo Gumersindo Puche, a Companhia de Teatro Atra Bilis. Em 2010, participou pela primeira vez do Festival de Avignon com a peça El año de Ricardo. Hoje, é um dos principais nomes do teatro espanhol e mundial, tendo recebido inúmeros prêmios, dentre os quais o Prêmio Nacional de Literatura Dramática, em 2012, com a obra La casa de la fuerza, e foi a primeira mulher a receber o Leão de Prata da Bienal de Teatro de Veneza, em 2013:
Per la sua capacità di tradurre l’arte performativa sulle scene teatrali. Per il suo teatro di resistenza. Per la qualità della sua scrittura, capace di trasformare i suoi testi in poesia che grida al mondo e alla sua stessa anima. Per il suo impegno come interprete e attrice. Per aver cancellato la linea divisoria tra diversi generi e stili d’arte, facendo sì che la miscela di parole, immagini, suoni, musica, gioco, il drammatico, il divertente e il tragico compongano un tutto. Per essere una delle artiste europee della sua generazione che ha avuto la maggiore diffusione nel mondo delle arti sceniche. Per la sua denuncia e l’attenzione continua alle debolezze dell’essere umano. Per la continua ricerca di comunicazione con il pubblico e per la ricerca della conoscenza di nuove culture e forme (LA BIENNALE, 2013, n.p.).
Suas peças, que escapam de toda dramaturgia convencional, sempre carregam um grito estridente e um tom memorialístico, no qual se recria o passado em cena, presentificando-o. Seu objetivo é evidenciar o podre, como uma poética do negativo ou, ainda, uma poética do mal, como fazia Jean Genet. Desta forma, temas como sexo, poder, loucura, morte, violência e estupro são recorrentes no cruzamento entre mitos clássicos (Édipo, Antígona, Medeia…) e mitos modernos.
A voz de Liddell surge em um momento no qual, segundo Maria Pilar Espín Templado (2011), se percebe a importância da mulher no mundo teatral não como atriz, mas como dramaturga, diretora e produtora, mundo este dominado, até a segunda metade do século XX, pelos homens. E a autora se pergunta:
¿Qué temas llevan a escena las dramaturgas españolas de las dos últimas décadas del siglo XX? ¿Dejan memoria de la sociedad actual, recrean su autobiografía, plantean un teatro comprometido o reivindicativo? ¿Podemos acaso hablar de denuncia y compromiso social en la dramaturgia femenina de finales de siglo XX? ¿Podríamos considerar el teatro de las dramaturgas actuales como testimonio de la desigualdad de género, como un teatro feminista? Y en definitiva: ¿marcan una dramaturgia diferente respecto de los autores masculinos de su generación? (TEMPLADO, 2011, p. 45-46).
O cenário no qual Angélica Liddell entra possui até então poucos nomes de destaque (Lidia Falcón, Carmen Resino, M. José Ragué-Arias, Lourdes Ortiz e Concha Romero são alguns deles). Essas mulheres abrem caminho no meio do contexto ditatorial franquista e encabeçam o boom da presença feminina na dramaturgia em meados da década de 1980 (TEMPLADO, 2011, p. 47).
A autora afirma que existem várias motivações na escrita dramática feminina, que vão desde sistematizar estudos e marcar presença feminina em festivais até, no caso de Liddell, de “una necesidad interior de algo revulsivo”:
(…) Cuando estas autoras optan por temas de carácter metafísico, político o social de amplio significado, su talante femenino en ocasiones se diluye en lo general de los planteamientos o por el contrario se inicia una corriente de ruptura política, caso de Angélica Liddell, cuya obra desarrolla un nuevo teatro político paralelo al de Rodrigo García, cuya marca más característica siempre ha sido la provocación (TEMPLADO, 2011, p. 49).
De uma maneira geral, os trabalhos dessas dramaturgas trazem uma temática ligada com a realidade e comprometida com ela, seja a realidade política, a social ou a individual, que se amplia no palco para atingir e englobar outras esferas. Não se trata, pois, do tradicional realismo teatral, ou seja, de um teatro que se esforça em imitar o real na fala, gestos e tipos de personagens a fim de evidenciar que aquela ação poderia acontecer na vida. Ao contrário, “su escritura surge para contestar a problemas del género humano y de la historia contemporánea como trama que explica la historia pública reciente” (TEMPLADO, 2011, p. 50).
Percebeu-se, desde a primeira aparição de Liddell, um diferencial na escrita dramática feminina em Espanha, assim como toda literatura dita “de minorias”. Anna Caballé, professora do Departamento de Filologia Espanhola da Universitat de Barcelona, afirma que, no caso da escritura autobiográfica, ou de cunho autobiográfico (autoficções, diários, cartas, ensaios, romances autobiográficos, peças de teatro, poemas etc), parece ser evidente a diferença em relação ao cânone masculino, pois as escritoras não se inspiram nos moldes estabelecidos por ele. Segundo Caballé (2001), a aurorrepresentação feminina não é enfática como a dos homens, que querem reivindicar o conceito de sujeito e seu destino histórico. As mulheres tendem a se concentrar em um relato mais detalhado “de acontecimientos o situaciones vitales que han dejado una huella indeleble, una cicatriz. La autobiografía como un punto de salida antes que de llegada, una búsqueda moral, una interrogación a tumba abierta” (CABALLÉ, 2001, p. 6).
Ainda que se afirme, constantemente, a impossibilidade de um drama autobiográfico, José García Barrientos (2014) distingue alguns temas para uma nova modalidade teatral que cresce na contemporaneidade, o chamado “teatro do eu”: um interesse propriamente teatral; um interesse testemunhal, seja sobre a enfermidade, o sexo, a violência política ou de vítimas dos regimes militares latino-americanos; ou um interesse de identidade, do tipo sexual, social, étnico, cultural etc. “Todos los casos coinciden en utilizar lo autobiográfico para hablar de otra cosa, más general, que nos atañe a todos, y de la que el actor es solo un ejemplo” (BARRIENTOS, 2014, p. 134).
Por outro lado, enquanto a autobiografia teatral se apresenta como gênero impossível, a autoficção cênica (ou teatro autoficcional) se evidencia como tendência contemporânea nas Artes Dramáticas em peças que, evocando o passado, mesclam no espaço cênico (ambíguo por excelência) ficção e autobiografia, criando um discurso híbrido e metateatral. Assim, vamos recusar o conceito de teatro autobiográfico para aplicar este, mais maleável, de teatro autoficcional, visto que o espaço teatral e a figura do ator são, concomitantemente, espaço e corpo reais e ficcionais, promovendo um estar-não-estando, justificando por si só que o teatro é, desde sempre, mescla de ficção e real. Em outras palavras, arte ambígua cujo primeiro-motor é justamente a sobreposição das camadas de real e ficcional, ou seja, autoficcional. Desta forma, se anula completamente a necessidade autobiográfica da verdade.
Templado (2011, p. 52) afirma que três temas estão presentes na obra dramatúrgica feminina produzida desde o final do século XX: memória, compromisso e autoficção. Apesar das peças de Angélica tratarem da memória e, consequentemente, da autoficção, o conceito de compromisso nos interessa mais nesse momento, pois podemos entendê-lo de uma forma mais ampla: por compromisso, Templado entende
(…) no sólo el teatro escrito desde una actitud abiertamente comprometida como puede ser la de un teatro feminista, sino también como denuncia de una sociedad muy distante en la consecución de los derechos y de la igualdad de género, en este caso de las mujeres, sin que sus autoras estén afiliadas explícitamente a ningún credo concreto (TEMPLADO, 2011, p. 50).
Angélica Liddell não se liga a nenhum movimento e não se crê uma autora feminista. Não apenas ela, mas outras dramaturgas são reticentes em se ligar a algum movimento feminista, “seguramente por temos a perder oportunidades si se limitaban al gueto feminista” (TEMPLADO, 2011, p. 51).
Por outro lado, a geração de dramaturgas que iniciaram sua escritura dramática na década de 1980 apresenta traços de uma luta pelos direitos da mulher e, segundo Leonard & Gabriele (1996, p. 50):
Es la primera generación que asume de una manera totalmente integrada conceptos como el aborto, la separación, el uso de anticonceptivos, la liberdad sexual, la homosexualidad masculina y femenina, la integración de la mujer en el trabajo, la presencia mayoritaria de la mujer en la universidad… etc. Y el arte es un espacio donde se refleja esa presencia siempre más evidente del elemento femenino.
Algumas delas, como Lidia Falcón, nascida em 1936, são não apenas escritoras, mas também advogadas e militantes. Falcón, por exemplo, funda o primeiro Partido Feminista Espanhol, em 1979, e participa ativamente das Primeiras Jornadas Catalanas de la Dona, em Barcelona, em 1976.
As peças de Angélica Liddell apresentam, também elas, esses três temas, mesmo que a dramaturga não esteja vinculada a nenhum partido ou movimento feminista. Ela trabalha abertamente com material autobiográfico, evocando sua infância, a relação entre pais e filhos, a maternidade e, sobretudo, a posição das mulheres na sociedade diante dos homens. Suas peças são, antes de tudo, um manifesto feminino ao mesmo tempo em que trabalham com questões sexuais traumáticas, pois, como ela afirma em uma de suas peças, “mi cuerpo es mi protesta contra mi generación” (LIDDELL, 2008, p. 9). Assim, podemos chamar seu teatro de autoficcional, pois temos um espaço exclusivamente ficcional, o palco. Entretanto, Angélica, em cena, não é apenas Angélica González, mas é também um ícone, um signo teatral, uma personagem. Ao mesmo tempo, evoca a todo momento a menina de nove anos que foi e que vomitou no final de um dia que parecia comum. Dessa forma, a menina Angélica, a atriz Angélica e a personagem Angélica se convertem em uma persona totalmente nova, inédita, incapaz de existir fora daquele espaço e daquele tempo da cena, mas também incapaz de ser uma ou outra coisa, apenas. Persona híbrida, participante de uma cena também híbrida e ambígua.
A obra Yo no soy bonita trata da natureza monstruosa e animal do homem. Nela, a dramaturga, que também é atriz e diretora, leva um cavalo para o palco, cuja presença é claramente gótica e metafórica: ele representa o homem, o falo gigante que quer penetrar a mulher sem importar-se com seu tamanho, sem razão, só instinto, só desejo.
Originalmente criada em 2004, é a terceira parte da Trilogia da Desobediência, composta por três “confissões”: Lesiones incompatibles com la vida (2003) e Broken Blossomns – lírios partidos (2004). Angélica não enxerga seus espetáculos como peças convencionais, e não o são realmente. Ela os chama de “acciones/ações”, que recusam o formato de ação dramática com começo, meio e fim para expor uma situação-chave, central, e a partir dela conduzir o público à reflexão. São textos curtos, que se modificam em cada espetáculo de acordo com a performance de Liddell.
Yo no soy bonita tem como situação-chave a violência: um abuso sexual ocorrido na infância de Angélica por parte de um soldado que a ajuda a subir em um cavalo. A ferida, não (e talvez jamais) cicatrizada, é exposta de várias maneiras. Usando a primeira pessoa do singular, Angélica conta sua infância sempre buscando a duplicidade: fazer da sua infância a infância de todos.
A primeira frase da ação já denota o medo feminino e a recusa de ser aquilo que a sociedade ordena que a mulher seja: “Yo no soy bonita ni lo quiero ser” (LIDDELL, 2008, p. 19). Entretanto, por não fazer parte da tradicional dramaturgia, o texto é curto (embora as encenações de Yo no soy bonita preencherem, em média, uma hora). Assim, a atriz altera o texto de uma encenação para outra. Um exemplo, em um espetáculo de 2008, disponível no YouTube, a atriz começa: “Yo tengo cuarenta y dos años”, depois de entrar, caminhar pelo palco, acariciar o cavalo, beber uma garrafa dentre as tantas que estão no palco de cerveja e arrotar. Assim, se prender somente ao texto dramático e/ou à encenação pode ser um descuido levando em conta a alta presença da performance espontânea de Liddell em cena. Nela, texto e cena se completam em uma difícil (ou impossível) separação.
Essa performance nasce do oferecimento do seu corpo como objeto de questionamento. A mulher que tem domínio sobre seu corpo e faz dele o que bem entender. Assim, como seu corpo é seu protesto, ela o castiga de diferentes maneiras como uma forma de desobediência, cujo sofrimento gera uma poética da dor e da violência contra a misoginia. Para tanto, o tom confessional/autobiográfico é necessário, pois assim a atriz descontrói qualquer possibilidade de engano e de ambiguidade.
A performatividade se manifesta de várias maneiras. Por exemplo, ela inicia o espetáculo com seis garrafas de cerveja no palco, que serão, todas elas, consumidas até o final da peça. Assim, ela atua enquanto o álcool produz efeito sobre seu corpo, embaralhando seus sentidos, tornando-a um ser mais próximo ao cavalo que está ao lado, e com quem ela interage em vários momentos. O animal, irracional, possui uma “atuação” incerta, instintiva, não previsível.
Em outro momento, inicia uma série de autoflagelação. Ela corta, com uma pequena navalha, suas pernas, criando um pequeno quadro barroco: o sangue vermelho escorrendo pela pele clara. Depois, enxuga o sangue com um pedaço de pão para come-lo logo em seguida. Assim, o sangue regressa ao corpo, movimento inverso à menstruação.
Ou ainda quando ela, já embriagada pela cerveja, ferve um pouco de leite e mergulha sua mão no líquido fervente. O leite, signo duplo de maternidade e esperma, a fere, causando repulsa e relembrando a frase que a atriz inclui em vários espetáculos: “No quiero tener hijos” – que surge como outro protesto em relação à sociedade: ela, mulher, se recusa a ser mãe, papel muitas vezes imposto para a figura feminina em uma sociedade patriarcal. Uma vez bêbada e vestida como bufão, a atriz se aproxima de uma figura grotesca e animal a fim de provocar indignação do espectador. Não quer a beleza da arte e sua contemplação estética. Angélica busca, como já foi afirmado, a poética do mal, do cruel, da desobediência.
Dessa maneira, a atriz inverte os papéis e se inclui em outro nível de representação, acentuando sua vida e seu corpo no espaço ficcional do teatro. O corpo também é palco. O corpo também é texto.
Por exemplo, ao iniciar um diálogo com “el barquero”, Angélica suplica: “No me mates, por favor, no me mates./ ¿Qué le voy a hacer?/ Es un miedo de nacimiento./ Como una marca./ Un privilegio inverso (…). Mira, hacemos una cosa. Primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas” (LIDDELL, 2008, p. 21). Suplica tudo enquanto sua mão direita está entre suas pernas, tocando sua vagina, e fotografias de sua infância são projetadas em um telão. Nesse pequeno trecho podemos perceber que o barqueiro (isto é, o homem) oprime a figura feminina a ponto de ela nascer com medo de morrer e de ser usada. Ser mulher é, então, uma marca, “um privilégio inverso”, pois tal privilégio só dá direito à morte e ao uso por parte do outro: “primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas”.
Essas imagens e esse texto introduzem o trecho, talvez, mais importante da peça, que a dramaturga denomina “Confesión”:
Éramos tres niñas. Teníamos 9 años. Obtenemos el permiso de nuestros padres para visitar las cuadras. Era normal. Frecuente. Los niños y las niñas podíamos visitar las cuadras cuando quisiéramos. Estaban al lado de nuestras casas. Eran las cuadras del cuartel. Vivíamos entre militares y caballos. Aquel día un soldado nos acompañó durante la visita. El soldado preguntó: “¿Queréis subir a algún caballo?” Nosotras contestamos: “Sí, a ése.” Era el caballo más bonito de la cuadra. El soldado aprovechó la situación. Empezó a sudar. Su cara se volvió roja. Soy la primera en subir. Para subirme al caballo el soldado me agarra de una forma extraña. Pone su mano gigantesca bajo mi sexo diminuto mientras me levanta en el aire. Intenta apartarme las bragas. Utiliza sus dedos para separar los labios de mi vulva. Aprieta. Duele. Mantiene su mano entre mis nalgas y el lomo del caballo. Mueve los dedos como gusanos. Noto sus uñas. El soldado aprieta con un solo dedo. Le digo que quiero bajar. El soldado aguanta un poco más. Se ríe. Aprieta mi vagina un poco más. Por fin el soldado me baja del caballo. Se pasa la mano por la nariz. Se huele los dedos. Sube a las otras niñas. Recuerdo la verguenza. Teníamos nueve años. Cuando salimos de las cuadras estábamos serias. Calladas. De repente una dice: “¿A vosotras os ha hecho algo?” Yo digo que no. Me da vergüenza decir que sí. No. No. La otra dice que el soldado le ha hecho daño ahí abajo. Yo digo que no. A mí no me ha hecho nada. Me da vergüenza decir que sí. Nada. No sé. A mí no me ha hecho nada. Me encontraba mal. No se lo conté a nadie. Me marché a casa. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité (LIDDELL, 2008, p. 21-2).
O trecho deixa claro, devido à riqueza de detalhes (o suor do soldado, suas falas, sua mão gigantesca, o sexo pequeno, os dedos, os lábios, a dor, as unhas, a vontade de parar, o riso do soldado, sua força, o ato de cheirar os dedos, a vergonha sentida, o silêncio, o vômito), a lembrança do acontecimento, presentificando e, assim, tornando-o parte do aqui-agora de cena. Nesse ponto, a presença do cavalo vivo em cena corrobora para a presentificação do ato, que “coroa” uma série de infortúnios que Angélica teria sofrido ao longo de sua vida por ser mulher e por ser criança, “una niña”. A memória, embora de um tempo distante, parece estar viva, revelando toda uma infância sendo palco para abusos, como quando ela nos relata que um amigo da família comentou a seu pai que sua filha era uma “puta”. Tais relatos servem para situar a origem da violência contra a mulher, e não apenas a mulher-Angélica, mas todas as mulheres, pois, ao falar de si mesma, a atriz evidencia todo um sistema social patriarcal e misógino. Seu espetáculo surge, então, como uma forma de estabelecer um canal comunicativo entre a dificuldade de ser e de defender uma menina/mulher na sociedade patriarcal.
Nesse momento sua desobediência é necessária: ferir o próprio corpo como protesto à violência real, fora da cena, causada não por si mesma, mas por outro que se acha mais poderoso. Sua desobediência, por fim, pretende acabar com aquela vergonha sentida aos nove anos, que a fez calar. No aqui e agora do palco, a mulher não se cala e tampouco permanece inerte diante do abuso. A atriz se coloca como figura dupla, fiel e oferenda, faca e sacrifício. Ela é ao mesmo tempo aquele que oferece o sacrifício e a própria oferta, pois “en el tiempo de las muertes colectivas es necesario el sacrificio individual como rebeldía o barricada. El arte, sacrificio íntimo en un espacio público, es nuestra rebeldía. Gracias al sacrificio poético recuperamos la identidad que perdemos en el masacre” (LIDDELL, 2014, p. 99). Dessa rebeldia nasce a necessidade da autobiografia. O eu surge então não como narcisismo, mas como desejo: “Con el sacrificio queremos decir YO” (LIDDELL, 2014, p. 99).
Esse desejo de dizer “EU nasce do desejo de atestação de si, como escreveu Ricoeur (1990, p. 34-5): “L’attestation est fondamentalement attestation de soi. Cette confiance sera tour à tour confiance dans le pouvoir de dire, dans le pouvoir de faire, dans le pouvoir de se reconnaître personnage de récit, dans le pouvoir enfin de répondre à l’accusation par l’accusatif: me voici!” (RICOEUR, 1990, p. 34-5).
Nesse sentido, Angélica resgata suas memórias para converte-las em elementos estéticos dentro de sua poética dramática. A cenografia, que ela também assina em Yo no soy bonita, reafirma isso: uma vez diante do palco, o espectador é afetado pela pintura viva na qual ele é convertido.
Pela imagem anterior podemos verificar que os elementos e objetos cênicos aproveitam o espaço horizontal do palco. Da esquerda para a direita, temos: uma pilha de colchoes, quadros, uma cadeira, as garrafas de cerveja, uma pequena mesa com um fogão elétrico, um coelho empanado e o cavalo branco. Assim, a proposta da cenografia é uma primeira comunicação visual com o espectador, que entra na sala e já percebe os elementos do palco. A importância da cenografia e do figurino se mostra também no fato de Angélica ser responsável por isso na maioria de suas peças. Ela escreve:
El espacio escénico debe ser también un espacio de tensión, debe ser despojado del concepto escenográfico-decorativo tradicional, más cercano del ornamento y el mobiliario que de lo realmente expresivo. El espacio escénico se despoja, pues, del diseño, esa trampa o mentira estética, para convertirse en un espacio de tensión moral. Los objetos, fuera de un espacio de tensión, son superficiales, artificiales e inertes, pero en el espacio escénico son las acciones las que dotan al objeto de culpabilidad y responsabilidad. Cuando el objeto y la acción se unen desaparecen el uno y el otro para dejar paso al sentido, es decir, al lenguaje. Se ha creado lenguaje. Nuestra misión es fabricar sentido dándole así la oportunidad a la revelación, haciendo visible lo invisible. Los objetos, enfrentados al espacio escénico, constituyen la anatomía física de la revelación (LIDDELL, 2014, p. 46).
A tentativa de representação autobiográfica aqui reforça a tensão em cena. Para Janaína Leite (2014, p. 86), dramaturga e pesquisadora brasileira influenciada pelo trabalho de Liddell, a ideia do tom confessional aqui nada mais é que “a tentativa de figurar a experiência vivida, sentida, sofrida”, mantendo assim “a tensão com o referencial real que a motivou”. O espaço de tensão, próprio do teatro, é reforçado pelo eu que o personagem diz, eu que é imediatamente reconhecido pelo espectador.
Essa tensão é reforçada pelo palco feito pintura viva, visto que ele aproxima o espectador do contexto em questão, criando aquilo que Boileau chamou de “ilusão referencial”. Em outras palavras, existe uma experiência da qual se pode falar, se deve falar (LEITE, 2014, p. 87).
Janaína Leite afirma que esse movimento de falar sobre si localiza a história passada do sujeito no palco, ao mesmo tempo que re-sente a ferida:
A história pessoal se abre para a experiência das mulheres em sua condição de oprimidas, mas retorna, na performatividade da cena, sempre para ela mesmo já que a artista cria uma cena de autoflagelo […]. É através da história localizada e re-sentida naquele corpo particular, naquela mulher que se encontra diante de nós, é que podemos viver a experiência, não de uma peça de denúncia como tanta as que existem sobre mulheres, mas de uma obra na qual nos tornamos testemunhas de um crime sofrido e para o qual não poderemos ficar indiferentes. A narrativa autobiográfica se atualiza de forma assustadora diante de nossos olhos a partir da performance de Liddell, frente à qual não há como nos posicionarmos como se fôssemos espectadores confortavelmente sentados diante de uma representação, nos colocando como testemunhas diante de um acontecimento (LEITE, 2014, p. 90).
O uso de temas autobiográficos em Angélica Liddell reforça o objetivo do seu teatro: falar da parte tóxica do homem (LIDDELL, 2014, p. 124). Entretanto, isso não quer dizer que seu teatro busque a purificação. Segundo a própria dramaturga, seu teatro busca o reconhecimento, uma união de sensibilidades, uma epifania individual diante de um acontecimento, pois o “teatro responde al concepto de sacrificio, pero no para purificarnos, sino para gozar de las tinieblas” (LIDDELL, 2014, p. 125). Desta forma, ao resgatar suas memórias e traumas, a dramaturga busca atingir o mais sensível de seus espectadores e da natureza humana em geral. Como toda arte de provocação, esse tipo de experiência artística deseja atingir o mais profundo da empatia. Enquanto muitos entendem a provocação como choque, o texto e a cena de Liddell buscam um olhar mais atento para uma experiência pessoal para que essa se converta em um reconhecimento cultural, político e social. Rompe-se os limites da cena para se aprofundar nos sentidos da miséria humana.
Uma vez mesclando vida e arte nessa proposta, se intensifica a tensão dramática e quebra-se a quarta parede teatral, isto é, a separação entre palco e público, criando uma cena metadramática capaz de produzir uma nova espécie de catarse: aquela que nasce da dúvida e do jogo entre real e ficcional e que questiona as noções de verdade, memória, passado, presente e teatro.
BIBLIOGRAFIA:
ALMELA, Margarita et al. (2011). “Prólogo”. In: Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 3-4.
BARRIENTOS, José-Luís García (2014). “Paradojas de la autoficción dramática”. In: CASAS, Ana (Ed.). El yo fabulado. Nuevas aproximaciones críticas a la autoficción. Madrid: Iberoamericana. pp. 127-146.
CABALLÉ, Anna (2001). “Seguir el hilo”. ABC Cultural, 20 jun. 2001: p. 4.
JAMESON, Fredric (1996). Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática.
LA BIENNALE. (2013). Angélica Liddell Leone d’argento per il Teatro. Disponível em: <http://www.labiennale.org/it/teatro/archivio/festival-42/liddell.html?back=true>. Acesso em: 20 fev. 2016.
LEITE, Janaina Fontes (2014). Autoescrituras performativas: do diário à cena. As teorias do autobiográfico como suporte para a reflexão sobre a cena contemporânea. Tese. Universidade de São Paulo.
LEONARD, Candyce; GABRIELE, John. P. (1996). Panorámica del teatro español actual. Madrid: Fundamentos.
LIDDELL, Angélica (2008). La desobediencia, hágase en mi vientre, Pliegos de Teatro y danza, n. 26. Madrid: Aflera Producciones SL.
LIDDELL, Angélica (2014). El sacrificio como acto poético. Madrid: Editorial Continta Me Tienes, colección Escénicas.
RICOEUR, Paul (1990). Soi-même comme un autre. Paris, Editions du Seuil.
TEMPLADO, M. Pilar Espín (2011). El teatro de denuncia social: un compromiso en las dramaturgas españolas de finales del siglo XX (1980-2000). In: ALMELA, Margarita et al. Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 45-64.
Bio fornecida pelo palestrante.
Ana Bárbara Pedrosa
Universidade Federal de Santa Catarina
Resumo: Analisaremos aqui a forma como, em O Encoberto, Natália Correia, centrando-se em D. Sebastião, símbolo da esperança no imaginário português, usa o pessimismo como mote principal para o carácter tragicómico da peça. Neste sentido, reflectiremos ainda sobre a ideia essencial do messianismo, que funcionará como forma de alienação, e a necessidade de que o símbolo da esperança se mantenha caso nele esteja imbuída a hipótese de melhoria.
Summary: This article will analyse the play O Encoberto, by Natália Correia, whose main figure is King Don Sebastian, who is a symbol of hope in the Portuguese imagination. The text employs pessimism as a tragicomic resource. The article will also reflect on the essential idea of messianism as a form of alienation and the need for it to continue as a symbol of hope if it points to the hypothesis of improvement.
Minicurrículo: Doutoranda em Ciências Humanas na Universidade Federal de Santa Catarina, com um projecto de tese sobre as obras das escritoras portuguesas que foram censuradas durante o Estado Novo português, mestre em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pós-graduada em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciada em Línguas Aplicadas pelo Instituto de Letras e Ciências Humanadas da Universidade do Minho.
Palavras-chave: pessimismo, messianismo, esperança, mito
Key-words: pessimism, messianism, hope, myth
O ENCOBERTO: O PESSIMISMO DE QUE SE IMBUI
UM SÍMBOLO DA ESPERANÇA
Ana Bárbara Pedrosa
Universidade Federal de Santa Catarina
Introdução
Iremos aqui fazer referência à obra teatral O Encoberto, de Natália Correia (1923-1993), uma escritora e editora portuguesa que, para além de ter tido uma vasta produção literária, principalmente poética, teve uma vida cultural e política muito activa, tendo ainda sido tradutora, jornalista, guionista e editora. Tendo-se afirmado em todas estas áreas, não espanta que tenha sido uma figura central da vida cultural e intelectual portuguesa nas décadas de 1950 e 1960.
Publicada em 1969, a obra, em que é caricaturizado D. Sebastião, uma das mais emblemáticas personagens do imaginário português, teve a ditadura salazarista como zeitgeist e foi proibida pelos serviços censórios do regime. A ditadura, que durou quase cinco décadas, viria a proibir centenas de obras, fossem estas literárias, filosóficas, políticas ou sociológicas. No que concerne à produção literária de autoras portuguesas, Natália Correia ocupa um lugar de destaque, tendo tido seis obras proibidas, sendo, assim, a autora portuguesa mais censurada pela PIDE (Comunicação, 1959; O Homúnculo, 1965; A antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, 1965; A Pécora, 1967; O Encoberto, 1969; O vinho e a lira, 1969).
Apesar da sua vasta produção literária, a fama de Natália na sociedade portuguesa durante estas décadas devia-se principalmente às suas intervenções políticas. Esta ideia desagradava à autora, que dizia estar na vida política activa pelo valor cultural. Assim como assim, casava política com literatura também na sua obra artística: a sua relação com a literatura foi sempre política e a autora encarou-a como uma forma de intervenção social. Assim, a propensão crítica da sua obra é inocultável: a produção literária tornou-se num lugar de reflexão e, portanto, num lugar onde cidadania e arte se mesclavam.
Ao longo dos quarenta e oito anos da ditadura, o efeito do zeitgeist fez-se sentir na produção literária de forma impactante, conseguindo-se, após o 25 de Abril, com o resgate de várias obras, uma memória da literatura bem sedimentada. Assim, o regime foi matéria de criação de grande parte dos autores: o contexto fez-se várias vezes matéria da criação artística e a criação passou por um olhar crítico. Ao mesmo tempo, havia, por parte da arte, uma posição de confronto relativa à ideologia oficial, levada a cabo por artistas que não queriam compactuar com um sistema que, entre outros, se imiscuía na criação artística.
Os textos de Natália, por isso, exigem uma análise que atente na sua ecuménica subtextualidade. Uma análise que peque por ignorar o subtexto, onde o símbolo se revela, cingindo-se a ser textual, não conseguirá alcançar a significação simbólica do corpus literário. Desta forma, e no caso concreto de Natália, ao partir-se para uma análise, o factor simbólico deve ser primordial: a linguagem simbólica, que oscila entre ser visível e oculta, responsabiliza o leitor no processo comunicativo com a autora: a última trabalha a palavra e apresenta-a ao primeiro, a quem caberá, por sua vez, analisar o subtexto e interpretar o universo onírico, onde se esconde o que permitirá o alcance da significação do texto. As obras da autora, por isso, põem peso na recepção da obra, que nasce já com o intuito de que os alcances das significações sejam tarefa dos leitores.
Para mais, a autora desafia os cânones literários, abalando-os, provocando-os, e reinterpretando os mitos. Ao mesmo tempo, e ainda que dirigindo uma crítica sarcástica ao surrealismo, a autora é conotada com ele, principalmente devido a obras como O Homúnculo ou O Encoberto, em que o palco e as figuras históricas são ressignificadas.
O símbolo da esperança como pessimismo
Publicado em 1968, O Encoberto, modelo de teatro épico-narrativo, foi a décima nona obra de Natália Correia, correspondendo a uma fase madura da sua dramaturgia. Com a sua censura, a autora fechou um ciclo de uma década de grandes confrontos com os serviços censórios, vindo esta a ser a sua sexta obra proibida.
A obra é a terceira parte daquilo a que Armando Nascimento Rosa chamou trilogia dos mitos lusitanos (ROSA, 2010, p. 151), seguindo-se a O Homúnculo (1965) e A Pécora (1967). Este autor encontrou afinidades entre as três obras que lhe pareceram suficientes para irmaná-las, ainda que a autora nunca tenha sugerido nem a nomenclatura nem o agrupamento textual. Nascimento Rosa, contudo, argumenta não só pela proximidade cronológica da publicação das obras, uma vez que foram as três publicadas entre 1965 e 1968, mas também pelas parecenças na concepção estilística dos temas: os títulos das obras, para além de se comporem todos por um artigo definido e um substantivo, referem-se a mitos da história portuguesa. Assim, O Homúnculo orienta-nos para Salazar, A Pécora para as aparições de Fátima (1917) e O Encoberto para o mito sebastiânico. Nas três obras, interroga-se a identidade portuguesa e compõe-se uma visão panorâmica de uma parte relevante do imaginário nacional.
Nascimento Rosa considera que as três obras da trilogia dos mitos lusitanos indicam várias formas de escapar a uma circunscrição geocultural exclusiva e que as três dialogam com arquétipos de recorrência transtemporal tanto na experiência da psique individual quanto na colectiva. Considerando que, em O Encoberto, essa intenção universalizante é levada a uma explicitude no desfecho fantástico da parábola, tornando a peça numa reflexão teatral sobre a pulsão messiânica, o autor considera ainda que também nas duas peças anteriores se notam horizontes com uma grande mundividência (ROSA, 2011, p. 112). De facto, a circunscrição geocultural em O Encoberto remete-nos para a ideia de recorrência transtemporal dos fenómenos, sendo possível paralelizar-se a crise dinástica não só ao regime do Estado Novo mas também a qualquer outra situação, transtemporal e transgeográfica, em que não seja da vontade dos povos que dependem as decisões sobre aquilo que os rege.
Debate-se na obra o papel de D. Sebastião na cultura portuguesa e no imaginário nacional. Tendo em conta o que representa, não é de admirar que a história da literatura portuguesa lhe tenha dado um grande destaque, principalmente a partir do século XIX, com o surgimento do Romantismo e do romance histórico. Assim, os exemplos, na literatura portuguesa, em que D. Sebastião figura como personagem literária abundam e incluem obras como frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, ou O Conquistador, de Almeida Faria.
Assim, O Encoberto tem como cerne da narrativa o mito de D. Sebastião. Não estando historicamente circunscrito à crise dinástica de 1580, que levou ao poder régio a dinastia filipina, usa esta última como paisagem simbólica do drama, que se dilui na intemporalidade do mito. Fazendo-o, coloca perante quem lê a situação de um povo que, privado da sua independência, se vê incapaz de reger-se. D. Sebastião, neste cenário, aparece como a presumível (impossível?) salvação desse povo.
A obra parte, por isso, da derrota portuguesa na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, em cujo campo de batalha D. Sebastião desapareceu, assim como a nata da nobreza portuguesa, e que levou a dinastia filipina ao poder régio português, passando Portugal e Espanha a ter o mesmo rei. O mito que daqui nasceu foi o do retorno de D. Sebastião, o único que poderia restituir a independência ao povo português. A lenda a respeito do rei português começou a ser difundida em finais do século XVI. Dizia-se que este havia sobrevivido à batalha e escapado para Itália, onde se manteria, sob uma identidade falsa, até estarem reunidas as condições para que pudesse voltar para Portugal e reconquistar a independência do seu povo.
O zeitgeist em que a obra de Natália foi concebida não pode ser ignorado: escrita durante o Estado Novo, estaria intrincada no seu tempo, mostrando o contexto como mote para que o mito ressurgisse, já que este havia sido historicamente reconfigurado como símbolo de esperança e de independência de um poder que não pertencia ao povo. Assim, cumprir o mito seria o mesmo que reganhar o direito à vida política e social. Ao mesmo tempo, ter necessidade dele significava um status quo que derivava de um regime autoritário em que as decisões políticas não dependiam das vontades populares. A ideia da restauração da independência, portanto, funcionará como forma de ligar as duas circunstâncias históricas (o Estado Novo e a perda do poder régio para a dinastia filipina). Ao mesmo tempo, a obra não se circunscreve a estes dois episódios históricos, antes alcançando a mundialização do mito, já que a sua carga messiânica o torna passível de ser evocado sempre que os povos se virem omissos de liberdade, tendo, claro, um grande peso na história portuguesa. A mundialização do mito torna a obra intemporal, não a agrilhoando nem na era filipina nem no Estado Novo (o que seria usado, por Natália Correia, como mote para o recuo da censura, numa carta enviada a Marcelo Caetano1), tornando-se, assim, “inaferível pelo cronómetro” (GARCIA, 1990).
Em O Encoberto, a autora explora a ambiguidade, deixando o final em aberto, privilegiando a confusão entre D. Sebastião e o seu duplo. Assim, a peça gira em torno da identidade do actor Bonami, explorando-se a ambiguidade entre vida e teatro, tentando desvendar-se se este é ou não quem afirma ser: D. Sebastião. A acção motiva-se porque Bonami quer levar D. Sebastião para além do palco, fazendo de D. João de Castro um cúmplice. No final da peça, não consegue entender-se se o primeiro é ou não “O Encoberto”. Para mais, a dada altura, a autora satisfaz a vontade da personagem, tornando ainda mais híbridas as fronteiras entre vida e teatro: “A partir deste ponto, Bonami e D. Sebastião são uma e a mesma pessoa pelo que a autora, respeitando o arbítrio da personagem, passará a denominá-la Bonami-Rei” (CORREIA, 1969, p. 25). No decorrer da peça, as personagens afirmam ou desmentem Bonami-Rei, consoante os seus interesses. Filipe, por exemplo, quer condená-lo à morte, já que ele lhe ameaça o trono, e quer que morra enquanto rei. Como diz, “Se o prisioneiro morrer como impostor, D. Sebastião continuará vivo e o génio da desordem teimará em provocar insónias ao poder” (CORREIA, 1969, p. 109). Bonami, por sua vez, vai saltitando entre a identidade de actor e a de rei consoante lhe é mais conveniente. Ao ser espancado por Cristóvão de Moura, naquele que é um episódio tragicómico, confessa-se um actor: “Basta! Basta! Confesso que sou um actor e protesto contra o estilo sofredor desta personagem” (CORREIA, 1969, p. 105). Depois, finge ter sido apanhado desprevenido: “Tirem-me daqui! Que raio de peça é esta?” (CORREIA, 1969, p. 106). Quando acalma, volta a proclamar-se rei: “Sou D. Sebastião. Acudam! Estão a martirizar a própria humanidade” (CORREIA, 1969, p. 106). Ao azorrague de Cristóvão de Moura, volta a desdizer-se e a desdizer-se uma vez mais: “Isto não é coisa que se faça a um pobre actor. (…) Sou D. Sebastião” (CORREIA, 1969, p. 107). Quando quer, finalmente, desfazer a identidade de rei, D. João de Castro, em mais um ímpeto tragicómico, diz-lhe que os revoltosos o matam se ele desfizer a ilusão da identidade (CORREIA, 1969, p. 56) e considera que a vontade de Bonami de dizer que não é mais do que um actor “transtorna a ordem do mundo” (CORREIA, 1969, p. 56). Assim, a acção e a vontade do indivíduo são enformadas pelas expectativas da sociedade e este tem de agir de acordo com o que lhe for mais conveniente. A autora assume no texto, assim, que não havia um caminho viável para que o país saísse da situação em que se encontrava e que restava apenas fazer com que o povo acreditasse num símbolo, por falso que fosse, para que não resvalasse para o absoluto desalento. Afinal, só isso permitiria evitar mais tumultos e acalentar a alegria que a esperança contém, as hipóteses de que se imbui.
As personagens, no decorrer da peça, entram e saem para afirmarem ou negarem a identidade de Bonami. Por exemplo, o coro das Catadeiras de Piolhos, a que estão associados um pessimismo profético e o constante desprestígio de D. Sebastião, revela os factos históricos e diz-se e desdiz-se, afirmando e negando a identidade de Bonami. Afirma que pode ser e pode não ser o monarca, aumentando a ambivalência entre actor e personagem. Ainda que parta do desprestígio, acaba por reproduzir o hibridismo que outras personagens e o desenrolar da história acentuarão.
É Maria de Fátima Marinho quem nota que o cerne do enredo é precisamente “a estrutura em abismo que faz periclitar reciprocamente as duas acções” (MARINHO, 2003, p. 35). Quer isto dizer que o actor Bonami se vai progressivamente transformando em D. Sebastião e que a transformação é feita de tal forma que, como dissemos, a autora cumpre a vontade do actor e começa a tratá-lo por Bonami-Rei (CORREIA, 1969, p. 25). Ao longo do texto, a ambiguidade permanece, actor e personagem confundem-se, o hibridismo nunca cede, antes se adense. A peça gira à volta do messianismo e cabe ao público indagar sobre se o messias existe ou não.
A dualidade é instável. Quem lê desconfia, mas até a desconfiança vacila. O jogo ambíguo da autora não sucumbe: as personagens entram e saem em cena, argumentando, endrominando, sugerindo uma verdade que esteja aos seus serviços. Perante o texto que é apresentado, e uma vez que este não fornecerá respostas em relação à identidade de Bonami, resta ao público leitor a reflexão sobre a questão messiânica e o papel do messias na vida social e no imaginário cultural português. A dualidade serve para pôr a ideia do messias em perspectiva e pouco importará que, no final, não se entenda se Bonami é ou não o rei.
Quando Bonami afirma: “Vejo-me na difícil situação de um actor em que o público acredita” (CORREIA, 1969, p. 53), a ironia atinge um alcance ímpar, não sendo possível, a partir daí, fugir-lhe, ou fugir à ambiguidade. Para mais, é o próprio Bonami-Rei quem diz não ter culpa pelas duas faces da verdade (CORREIA, 1969, p. 92), assumindo que a sua identidade terá de ser sempre volátil. Apresenta, assim, a verdade como uma conveniência e, portanto, as interpretações como formas manipuladas de interesses. É por isso que o facto de ter dito “Pois fica sabendo que somos quem supomos ser” (CORREIA, 1969, p. 85) anula a verdade enquanto fidelidade aos factos: as pessoas, como as personagens, são quem crêem ser e é tendo estas crenças por base que as interpretações irão nascer, também estas sendo dirigidas para o que for mais conveniente aos interpretantes. A ideia de verdade, assim, ou será inútil ou inexistente.
A utilização do absurdo permite que se misture mais eficazmente a realidade com a ficção. Aliás, a autora, ainda que se tenha tentado afastar das conotações com o surrealismo, recupera-o nesta peça para ridiculizar o espírito messiânico (MARINHO, 2003, p. 36) e, entenda-se, são ridicularizados símbolos de esperança, que são apresentados na peça como forma de endrominar ou acalmar os intentos de um povo. Ao mesmo tempo, a ideia da verdade é apresentada tão-só como forma modificável, que varia consoante as conveniências do Estado e o seu interesse em que seja ou não acalentada a ideia da existência de um messias. É neste sentido que, quando Bonami-Rei admite fazer flutuar a sua identidade, e aqui em detrimento das necessidades alheias, querendo dizer ao povo que não passa de um actor (CORREIA, 1969, p. 55), D. João de Castro, depois de lhe ter dito que ele simboliza a liberdade, quer que insista na ideia de que é rei porque esta servirá o interesse comum. Para mais, diz a Bonami-Rei que, se este desfizer a ilusão da identidade, as pessoas irão sentir-se enganadas e matá-lo (CORREIA, 1969, p. 56). Desta forma, tenta que seja reconhecido como rei: “Se este homem não é D. Sebastião, que eu seja condenado por blasfemo e herético” (CORREIA, 1969, p. 22). Contudo, quando a acção passa por uma reviravolta e Bonami é condenado à morte, D. João muda o discurso e pede-lhe que diga que é um comediante. Se morrer enquanto comediante e não enquanto rei, a sua morte pouco simbolizará, não terá a carga simbólica da extinção da esperança. É neste sentido que a ideia essencial do messianismo sobrevive: o símbolo deve ser mantido se nele estiver imbuída a hipótese da melhoria.
Já Filipe II, que tem interesses contrários aos de D. João de Castro, diz a Cristóvão de Moura, que hesitava em relação à identidade do prisioneiro, temendo que este fosse o rei, que seria benéfico que ele morresse enquanto rei, já que, morrendo o mito, morreria também o futuro: “Mete de uma vez para sempre nesses teus miolos de magarefe que a segurança do Estado exige que esse homem seja D. Sebastião e, como tal, será executado a fim de impedir que haja futuro” (CORREIA, 1969, p. 108). Assim, e como o próprio nota, se Bonami morresse enquanto actor, o mito continuaria vivo, o povo continuaria acalentado e o poder estaria sempre sob ameaça: “Se o prisioneiro morrer como impostor, D. Sebastião continuará vivo e o génio da desordem teimará em provocar insónias ao poder” (CORREIA, 1969, p. 109). Assim, dá-se espaço, no decorrer da peça, à confusão em torno do protagonista: o símbolo existirá mesmo ou existirá apenas para que o povo não desespere? Assim como assim, Bonami deve viver para que a esperança exista: se estiver vivo, interessa ao povo. Se morrer enquanto símbolo da esperança, como intenta Filipe II, nada acalentará a esperança do povo.
Neste cenário, o clero apoia o poder, sendo-lhe indiferente as mãos em que se encontra. Belchior do Amaral, por sua vez, simboliza aqui a razão, que, em mais um episódio tragicómico, será fonte do ódio do povo: ao opor-se à campanha de África, alertando o povo para a manipulação de que era alvo, é linchado pela população alienada (CORREIA, 1969, p. 44). Mais tarde, reaparece na forma de um cientista do século XX, retomando o mesmo discurso, e também aí é alvo de maus-tratos. Assim, o mito simboliza ainda uma forma de alienação e, ao mesmo tempo que representa a esperança, funciona como grau último do pessimismo: só pode acreditar no mito quem recusa a razão; se o mito é uma ilusão, não há um caminho viável, a melhoria é impossível.
O mito, portanto, aparece como única forma de salvação do país, reconfigurando a esperança. Que a imagem de D. Sebastião seja precisamente um mito e não uma hipótese viável muito nos dirá sobre o pessimismo inerente à obra: a salvação só é possível pelo cumprimento do mito que não chega, pela existência do que não existe. A salvação, por isso, é impossível: D. Sebastião está evidentemente morto: “D. Sebastião morreu em Alcácer Quibir. Encontraram o seu cadáver crivado de lanças”, diz Belchior do Amaral (CORREIA, 1969, p. 43).
Ao mesmo tempo, neste cenário em que Bonami parece uma farsa, mantendo a sua identidade de acordo com as expectativas e existindo apenas para acalentar um povo, esse povo é mostrado como incapaz e dá-se a ideia de que, faça o que fizer, não conseguirá nunca libertar-se:
“ (…) três Catadeiras de Piolhos, [que] desbastam a cabeça de três imundas crianças. No seu filosófico alheamento do entusiasmo pela vinda do Encoberto, leia-se a conclusão realista de que aconteça o que acontecer, o mundo está coberto de piolhos” (CORREIA, 1969, p. 38).
Neste sentido, contra a vida portuguesa, é usado um símbolo da cultura portuguesa, aquele que no seu imaginário personifica e simboliza a esperança. D. Sebastião salvaria a pátria, restituir-lhe-ia a liberdade, mas aquilo que simboliza resvala em ironia: a esperança assenta num símbolo que, obviamente, não se fará chegar, tornando-se, assim, numa ideia vaga, num caminho sem rumo, numa prospecção sem força material. Só aceitando que apenas a ilusão pode significar a esperança, com toda a ironia que tal ideia acarreta, é que pode aceitar-se a ideia de que “o mundo está coberto de piolhos” (CORREIA, 1969, p. 38).
Assim, também o povo chega a considerar que o símbolo é opressor2, tornando aqui o pessimismo inultrapassável. No início, é-lhe indiferente que Bonami-Rei morra ou não, mas pouco depois concede-lhe o interesse da utopia, o interesse do que poderia ter sido: “Estes heróis só interessam na medida em que podiam ter sido” (CORREIA, 1969, p. 114). Também aqui se vê o grau último do pessimismo: nem no símbolo da esperança pode haver esperança, esta será sempre traída. Por isso, a utopia não pode tornar-se real, valendo apenas pelo que podia ter sido, já que a sua realização traria uma nova opressão. A ironia suprema passa, por isso, por entender-se que o próprio símbolo da esperança é falso e que servirá mais enquanto morto: a esperança não tem razões para existir e os seus símbolos valem tão-só enquanto utopia, jamais enquanto hipótese.
A mensagem última da peça é a da impossibilidade de mudar o que está mal, ao mesmo tempo que se manifesta uma profunda insatisfação com o estado de Portugal, o que o rege e o seu povo, perpassando por toda a obra um concomitante horror ao possível. Daí que a obra, ideologicamente conservadora, portanto, formule a ideia de que todas as revoluções são inócuas, sonegando a esperança que as motivou e tornando todas as situações perfidamente equivalentes. Aliás, é a própria autora quem, na folha de sala da peça, já em 1977, diz que a obra “tem a condicionante de um tempo mas dele se descondiciona na intemporalidade do próprio tema” (CORREIA, 1977, folha de sala3). E é no mesmo documento que contrapõe a irracionalidade do poder que escraviza à irracionalidade do messias, da crença em D. Sebastião como salvação de um povo, como derrota do poder indesejado. Confrontado as duas irracionalidades, é a própria Natália Correia quem admite que a peça representa o insolúvel e que, como tal, tem de derivar em humor. Daí que o sentido tragicómico da contraposição das duas irracionalidades a que autora faz referência perpasse toda a obra e seja um dos seus pilares fundamentais: afinal, como evitar a tragicomédia de uma situação em que o povo tem de acreditar no impossível para vencer o que é possível? O que poderá ser mais pessimista – e, acrescente-se, desesperante – que resgatar o impossível como medida única de combate ao possível? De que forma pode analisar-se as pretensões de que Bonami, ao ser condenado à morte, finja/diga ser um actor que fingia para que a sua morte não represente o fim daquilo que ele queria representar/representava até então, o rei impossível capaz de vencer o possível?
O pessimismo é, assim, o mote principal do carácter tragicómico da peça. No entanto, a peça foi publicada já no pós-PREC e talvez aí tenha parecido estar um tanto fora de tempo. Afinal, veio a cena já depois de tempos convulsos em que não só se havia derrotado uma ditadura que parecia arrastar-se indefinidamente, uma ditadura que soube durar (ROSAS, 2013), como se arriscavam sucessivas tentativas de reorganização da sociedade, que incluíam não só o Verão Quente de 1975, mas também o Golpe Militar de 25 de Novembro do mesmo ano.
Finalmente, nota-se que a ambiguidade se alia à questão do messianismo e, com esta junção, Natália Correia, herdeira da tradição surrealista, recusa a afirmação unívoca da identidade, antes mesclando identidades e optando por uma abordagem ambígua da história. As personagens estão perfeitamente alinhadas, dizendo-se e desdizendo-se, consoante vontades momentâneas e usando da palavra de forma manipuladora, de forma a que este jogo ambíguo possa ser exercido e a que sobreviva a ideia de que a realidade não chega, porque é preciso um símbolo de algo que partiu, que representa o que poderia ter sido, para que a esperança se acalente.
Notas
Referências bibliográficas
ANTUNES, José Freire (prefácio e organização) (1985). Cartas particulares a Marcello Caetano. v. 2. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
CORREIA, Natália (1969). O Encoberto. Lisboa: Galeria Panorama.
GARCIA, José Martins (1990). O “Espaço” dramático em O ENCOBERTO in Letras & Letras, nº 26, Fevereiro.
MARINHO, Maria de Fátima (2003). D. Sebastião entre o Ser e o Parecer (a propósito de O Encoberto)” in Colóquio Natália Correia, 10 anos depois: p. 31-42.
ROSA, Armando Nascimento (2010). Eros, história e utopia: o teatro de Natália, in: Abreu, Maria Fernanda de; Fernandes, Margarida; Goulart, Rosa Maria; Mourão, José Augusto (orgs.) (2010). Natália Correia, A festa da escrita, p.137-153. Lisboa: Edições Colibri.
ROSA, Armando Nascimento (2011). Arcaica e futura: a dramaturgia de Natália Correia: uma leitura d’O Encoberto, in: Teatro do Mundo, vol. 5: p.103-114
ROSAS, Fernando (2013). Salazar e o poder. a arte de saber durar. Lisboa: Tinta-da-china.
Bio fornecida pelo palestrante.
SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA
Lorilei Secco
Graciela René Ormezzano
Universidade de Passo Fundo
Resumo: Este artigo é um recorte de um projeto mais abrangente voltado para a leitura de imagens fotográficas em sítios arqueológicos missioneiros jesuíticos da América Latina, considerando-os vestígios significativos da gestação de todo um sistema de reduções[1] indígenas que facilitou o processo de interculturalidade e a definição de um modelo de evangelização. Trata especificamente do caso da doutrina de Juli no Peru, região habitada pelos Aymaras, onde, com a chegada dos conquistadores, iniciou-se uma profunda transformação e extinção de povos, civilizações e culturas estabelecidas no território andino. Essas populações nativas foram envolvidas numa conquista além de territorial e espiritual, também linguística, pois sem a comunicação, certos avanços não teriam sido possíveis. Num âmbito geral, foi a mestiçagem de toda uma cultura[2] a principal característica do sistema colonial, onde moldaram-se novos costumes, com a integração de comportamentos e elementos de diferentes formações que passaram a conviver em espaços comuns.
Palavras-Chave: cultura andina, idiomas nativos, história latina, jesuítas.
Minicurrículo: Lorilei Secco é graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Luterana do Brasil (1996) e graduanda em Artes Visuais (Licenciatura) pela Universidade de Passo Fundo. É pesquisadora nas áreas de História da Arte na América Latina (tema: Missões Jesuíticas) e Educação Estética como bolsista UPF e Fapergs. Tem experiência artística e docente na área de Artes, atuando em projetos diversos, principalmente nos temas ligados às artes visuais, leitura de imagens, cultura, educação, inclusão social e saúde mental.
Graciela René Ormezzano possui graduação em Professorado de Escultura – Escuela Nacional de Bellas Artes Prilidiano Pueyrredón (1985), graduação em Educação Artística: Habilitação em Artes Plásticas/LP – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992), Mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1996), Doutorado em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2001), Especialização em Arteterapia em Educação e Saúde na Universidade Cândido Mendes, RJ (2002), Pós-doutorado na Universidad Complutense de Madrid (2009), Pós-doutorado na Universidade do Estado de Santa Catarina (2015). Atualmente é professora titular III da Universidade de Passo Fundo. Tem experiência na área de Educação Estética, atuando principalmente nos seguintes temas: leitura de imagens, arteterapia, história da arte, imaginário e desenvolvimento humano.
SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO
DA AMÉRICA LATINA
Lorilei Secco
Graciela René Ormezzano
Universidade de Passo Fundo
Um pouco da História Andina
Os povos andinos não utilizavam a escrita e considerando que boa parte de sua memória cultural foi destruída durante os processos de conquistas de território, o conhecimento atual embasa-se nos estudos de evidências arqueológicas.
Muito antes da “Era dos Descobrimentos”, o espaço andino foi ocupado por diferentes civilizações nativas de nível tribal, com assentamentos pré-históricos que remontam a datas entre 40000 A. C. e 20000 A.C., ainda na Era Glacial. Por volta de 5000 A. C., o clima dessa parte do mundo sofreu uma grande alteração, tornando-se mais árido e obrigando esses homens, que até então viviam como caçadores e coletores nômades, a produzirem seus próprios alimentos. O sedentarismo e o surgimento de uma nova forma de economia, fruto da domesticação de animais, do desenvolvimento da agricultura, de uma maior organização social e especialização do trabalho, resultou num novo contexto cultural que levou o homem andino de uma vida tribal a configuração do Império Tiwanaku.
Tiwanaku[3] existiu entre 1580 A.C.-1172 D.C. e, de uma pequena aldeia, foi
transformando-se lentamente em uma poderosa cidade com quilômetros de extensão e uma população aproximada de 40.000 habitantes. No auge de sua fase de expansão territorial, o império se estendeu até a serra e costa do Peru, norte do Chile, norte da Argentina, vales e selvas da Bolívia, configurando o que se denominou por “Pueblo Aymara”. Assim, define-se esse povo como o conjunto de indivíduos que tem como língua materna o idioma Aymara, geograficamente assentado em diferentes regiões andinas e composto por vários subgrupos étnicos como os Qullas, Lupagas, Qanchis, Carangas, Lucanas, Chocorvos, Chichas. Esse império entrou em colapso bruscamente, tendo como razão fundamental variações climáticas que ocasionaram desastrosas secas por anos consecutivos (ARPASI, 1995).
Depois do declínio de Tiwanaku, surgiram outros estados e senhorios Aymaras independentes e politicamente organizados em comunidades e regiões, fundamentadas nos laços de parentesco, sem a existência de classes sociais. Durante esse período, ocorreu grande crescimento demográfico e cada grupo tratou de consolidar seu território e de expandir o espaço agrícola, inclusive construindo fortificações na intenção de deter a invasão de povos vizinhos. Esses conflitos ficaram registrados na arte rupestre e têxtil com ricos e complexos desenhos coloridos.
Fragmentado e dividido, o povo Aymara foi dominado pelo então nascente Estado inca, que muito além de ser uma nova etnia, era uma mescla de Aymaras e Incas de língua quéchuas Donos de uma enorme capacidade organizacional e militar, em pouco tempo, construíram um dos maiores impérios da história da humanidade e, sem fazer distinção alguma, denominaram a todos os Aymaras por Qullas e o território habitado por eles passou então a chamar-se Qullasuyo. Não existe consenso entre os historiadores sobre a maneira como foi essa conquista. Uns sustentam que os Incas anexaram pacificamente as regiões Aymaras para logo assimilarem sua cultura, outros defendem que ocorreram guerras cruéis e rebeliões durante todo o domínio incaico. O certo, no entanto, é que os Incas respeitaram as crenças desse povo e que não conseguiram impor o idioma quéchua sobre o Aymara (ARPASI, 1995).
Na realidade, o Império inca era herdeiro somente de um exército e, para construir sua própria riqueza, devia conquistar e anexar novos territórios. Com isso, o sistema econômico dos Aymaras, que antes produziam para seu consumo com um mínimo de excedente para o comércio, passou a agregar em seu ciclo produtivo também horas de trabalho para o novo Estado. Isso incluía a construção de templos e caminhos, o serviço militar e trabalhos agrícolas onde as comunidades deviam cultivar as terras dos Incas e do Sol, produzindo uma série de bens, como tecidos em lã e algodão, cerâmicas, cestarias, utensílios domésticos, pescado e carne seca. Em contrapartida, os Incas forneciam outros bens de consumo ou de uso cerimonial, que serviam para fortalecer o controle e as alianças com as comunidades. Os centros administrativos e religiosos foram unidos pela construção do inca promovendo uma melhoria na infraestrutura e nos sistemas de informações.
Este funcionamento permaneceu até por volta do ano de 1528, quando os espanhóis, liderados por Francisco Pizarro e Diego Dalmagro começaram a explorar a costa norte do Império Inca. A conquista veio em seguida, foi violenta e trouxe consigo as piores expressões dos valores humanos devido à quantidade de pessoas que foram cruelmente assassinadas (CHOQUE MARIÑO, 2013). Essa destruição atingiu o seu auge na soma de vários fatores tais como as epidemias trazidas pelos europeus, a falta de uma unidade enquanto nação entre os diversos povos andinos, a colaboração de povos inimigos com o conquistador, a vantagem tecnológica das armas espanholas, a grande diferença entre a guerra ritual andina e a guerra de extermínio europeia. Após o massacre, um novo sistema impôs a dominação e o servilismo ao mundo indígena andino, alterando todo o seu modo de vida.
Com isso, segundo Amestoy (2012), primeiro abriu-se o horizonte geográfico com uma dominação militar e política, que foi seguido por uma “colonização” do imaginário religioso, na medida em que foram aparecendo também a Igreja e as ordens religiosas missioneiras, incumbidas de impulsionar a ocidentalização e a evangelização dos indígenas autóctones.
Para um melhor entendimento, deve-se considerar que o povo Aymara possuía uma tradição milenar dedicada ao pastoreio de lhamas e alpacas e a uma agricultura diversificada, que utilizava técnicas ancestrais de cultivo mediante o uso de terraças. Os que viviam no altiplano possuíam abundantes rebanhos e escassos cultivos, enquanto os da cordilheira produziam nos vales, verduras, frutas e sementes. Entre essas zonas, se realizava um forte intercâmbio não só comercial através das caravanas, mas também da cultura e do idioma, gerando o povoamento dos vales providos de água até o litoral. O lhama se converteu num dos elementos essenciais para o desenvolvimento dessa fase. Os Aymaras destacaram-se em manufaturas como a cerâmica, a metalurgia, os tecidos coloridos e detalhados, a escultura e a arquitetura a partir da construção dos primeiros centros cerimoniais em pedra, com finos acabamentos e tamanhos colossais. Concebiam seu habitat como todo o meio andino que lhe deu origem, numa cosmovisão formada em diferentes épocas, que refletia as grandes mudanças na sua história e onde o espaço era considerado sagrado. Para esses indígenas, submetidos à dominação colonial, foi muito difícil guardar a memória do seu passado e a chegada dos espanhóis representou uma virada tão brusca que, na perspectiva deles, foi comparada a um retorno forçado à Idade da Escuridão[4] (ARPASI, 1995).
A questão do idioma
Desde muito cedo, os espanhóis estavam conscientes da necessidade de resolver o problema do idioma para poder cristianizar e europeizar os nativos. Num primeiro contato, recorreram ao recurso dos gestos, complementados com a troca de presentes e a pronúncia de algumas palavras chaves. Este sistema comunicativo, no entanto, gerou uma série de desentendimentos que provocaram muitos problemas. Constatou-se que seria impossível expandir qualquer idioma instantaneamente, se fazendo obrigatória uma transição gradual.
Como alternativa provisória, utilizaram-se então, de intérpretes meninos que, segundo a opinião dos padres, aprendiam o espanhol com maior facilidade. Ainda assim, não podiam confiar que as traduções fossem realizadas sempre de maneira fiel. Necessitavam buscar formas de comunicação direta com o povo e para tal, tinham de escolher entre aprender o idioma nativo ou ensinar o espanhol.
Criou-se outro impasse, pois, enquanto alguns jesuítas[5] da Companhia de Jesus[6] defendiam o uso do idioma local, outros insistiam que o espanhol seria a melhor opção, apelando para um sentimento patriótico de que quando uma nação culta estendia
suas conquistas, procurava fazer o mesmo com sua língua.
Chegando a um acordo, optaram então pela língua Aymara, pois, parecia mais fácil de ser ensinada a uns poucos missionários já alfabetizados em vários idiomas, ao invés de levar o espanhol a milhares de indígenas analfabetos com professores e recursos insuficientes. Tampouco eles confiavam na capacidade de aprendizagem dos nativos, além de acreditarem que o indígena Aymara deveria ouvir a palavra de Deus em sua língua nativa para assimilar melhor seu conteúdo espiritual.
Partindo disso, desenvolveram um esquema linguístico, em que aplicavam seus conhecimentos de outras línguas, tentando entender a estrutura, a lógica, as conjugações e declinações do novo idioma. Decifrada essa etapa, o classificavam segundo suas características e decidiam se ele poderia ser usado como “idioma geral”, justificando com isso, seu ensino a outros jesuítas. Observavam, principalmente, se esse idioma já era falado pela maioria do povo e se pertencia a nativos tidos como mais civilizados, além de assemelhar-se ao grego ou latim. A língua Aymara era a segunda do Vice-Reino do Peru em importância, depois somente do Quéchua (KING; HISPANA; URBINA, 2011).
Em caso afirmativo, iniciava-se nas escolas seu estudo intensivo, evitando com isso, muitos dos mal entendidos que outras ordens religiosas experimentaram em seus esforços para evangelizar. No entanto, ao limitarem-se num idioma geral, os jesuítas perceberam que teriam de modificá-lo para que se tornasse adequado à evangelização, pois carecia de vocabulário para expressar as ideias cristãs. Se necessário, adicionavam então palavras, derivando-as da língua nativa, inventado-as ou usando-as do vocabulário espanhol. Por outro lado, ressignificavam palavras existentes, iniciando com isso, uma mestiçagem linguística.
Conforme King, Hispana e Urbina (2011), os jesuítas se destacaram linguisticamente das outras ordens por mostrarem interesse em entender profundamente os indígenas, preservando certos aspectos de sua cultura e tentando embasar seu ensino religioso em elementos espirituais já existentes, reconhecendo que o idioma nativo possuía uma força emotiva muito maior. Também o isolamento permitiu a preservação e total domínio do idioma local, pois, sendo o padre o único europeu, não havia necessidade de usar o espanhol com os indígenas. Isso favorecia o sigilo das conversações privadas entre os jesuítas.
No que se refere à postura oficial da Coroa espanhola, refletia-se uma confusão geral sobre o assunto, pois nunca haviam enfrentado uma situação linguística assim. Na Europa não existiam mais línguas desconhecidas e quando chegaram à América, os problemas de comunicação foram tantos e tão inesperados, que demoraram anos para decidirem-se por uma estratégia definitiva.
Quando finalmente chegaram a uma conclusão, estavam firmemente ao lado do ensino exclusivo do espanhol por estar mais próximo do latim, por ser o idioma melhor capacitado para expressar a fé católica, além de ser considerado mais rico em comparação com a “pobre” língua indígena. Desejavam também, uma população nativa hispanizada e obediente à Coroa, tendo o espanhol como língua comum de todo o império, unindo mais os nativos e facilitando seu controle e cristianização.
Na realidade, a questão do uso das línguas nativas ou do espanhol não foi uma simples escolha entre duas alternativas. Foi sim, necessário mesclar os dois idiomas, modificando-os para criar um sistema comunicativo funcional. O resultado dessa mestiçagem linguística seria a explicação para os dialetos latino-americanos, tão diferenciados do espanhol ibérico.
A partir de 1612, foi instalada uma imprensa em Juli de onde saíram gramáticas e catecismos, que reuniram os diversos manuscritos de experiências anteriores, inclusive de padres de outras ordens (KING; HISPANA; URBINA, 2011). A produção textual missionária revela a importância do conhecimento da língua para a compreensão de um novo mundo de idéias e de representações. A necessidade fez com que a Doutrina de Juli fosse a origem de uma verdadeira tradição linguística nos idiomas quéchua e Aymara.
Além de tudo isso, indispensável mencionar que, as escolas de Juli desempenharam um papel fundamental e começaram funcionar pouco tempo depois que os jesuítas assumiram as ditas doutrinas. Os principais, porém não exclusivos beneficiários delas, eram os filhos dos líderes indígenas, que recebiam ensino da escrita, leitura, aritmética, música e dança. Com o passar do tempo, os padres observaram nas crianças locais, uma habilidade intelectual muito maior do que haviam imaginado. São destacados os efeitos multiplicadores da educação escolar nas comunidades, manifestando que os alunos criavam uma barreira muito eficaz contra a feitiçaria, o alcoolismo e o comportamento desonesto no ambiente cotidiano:
La escuela se comenzará a entablar con el favor divino; entiendo que entrarán en ella como doscientos muchachos. Creo que este medio de enseñar estos niños del escuela en costumbres y doctrina, ha de ser para ganar a sus padres y enseñarles el camino del cielo, de lo cual tienen mucha necesidad (ACOSTA, 2013, [s.p.] ).
Educação e evangelização sempre foram ações inseparáveis na experiência jesuítica. Na verdade, a evangelização é, em essência, uma ação educativa, porquse implica na transformação da vida do homem ou de um povo, de um estado cultural para outro. Nesse sentido, Ortiz (2008) destaca que, o representante no Peru da chamada “pedagogia da evangelização” ou “pedagogia missioneira”, foi o Provincial José de Acosta, com uma sólida formação intelectual assimilada das ideias de Ignácio de Loyola, do humanismo e do ratio studiorum. Ao tentar compreender os padrões culturais das populações aborígenes, ele elaborou um modelo pedagógico para executar tanto o processo educativo escolar formal quanto a cristianização da América, de acordo com a realidade do continente. Realizou para tal, um trabalho paciente de recolhimento de dados sobre a vida dos homens autóctones e os submeteu a uma rigorosa análise, o que lhe permitiu distinguir diversos graus de desenvolvimento cultural nas chamadas “nações bárbaras”. Percebeu que, mesmo generalizando o nome de “indígenas” para todos, eles eram bastante diferenciados. Então, diante dessa diversidade se fez necessário o emprego de uma estratégia de evangelização para cada tipo de sociedade, respeitando suas leis e modos de vida que não fossem contrários à fé. Estratégias estas, que iam desde o convencimento por livre decisão, passando pelo paternalismo, até o uso da persuasão.
Os jesuítas colocaram-se contrários ao uso da violência na propagação do Evangelho, conscientes de que, pelo uso da força, fariam com que a religião católica fosse odiada, o que aumentaria o apreço dos nativos pelos seus ídolos de origem. Para eles, era absurdo difundir o evangelho da paz e estender a espada da violência, uma atitude bastante contraditória que atentava contra a liberdade do ser humano. O ponto de partida foi, portanto, a persuasão. Compreender sua cultura, demonstrar simpatia e confiança, dar exemplo de boas maneiras, mostrar-se paciente e humilde, para induzir com eficiência as mudanças desejadas.
Considerações finais
Os julgamentos históricos sobre o trabalho dos jesuítas são quase sempre polêmicos e controversos. No entanto, importa ressaltar seu papel enquanto sujeitos da história da América Latina, com destaque em obras no campo social, educacional, evangelizador, artístico, político e econômico, habilmente manejadas para modificar as condições de vida de conglomerados humanos nativos.
Nas doutrinas de Juli foram realizadas experiências essenciais que serviram de base para a implantação de todo um sistema de reduções, como: a) a manutenção do idioma nativo, onde as doutrinas serviram de seminário das línguas aymara e quéchua; b) a conveniência de produzir um sincretismo religioso e abandonar a simples conversão pelo batismo como havia sido praticado até então; c) a importância dada à educação nas escolas; d) o registro de pormenores da vida em Juli em detalhados diários como forma de multiplicar informações e vivências. Estes são alguns dos aspectos relevantes que mostram a referida doutrina como um verdadeiro laboratório construído em décadas de um trabalho paciente, árduo e cheio de incertezas, que acabou por transformar um assentamento numa redução “embrionária” de considerável influência. Dalí saíram os padres que, em diferentes lugares do sul da América, atuaram como protagonistas do projeto missioneiro.
Esse intercâmbio não se manifestou apenas no campo material, mas conjugado com outros elementos, em quase todas as manifestações culturais do povo Aymara. Salienta-se, porém, que embora os nativos tenham assimilado as novas informações trazidas pelos conquistadores, até hoje é mantido um complexo sistema de crenças. Como prova disso, registra-se que os Aymaras denominam de “costume” às práticas de seus rituais ancestrais e de “religião” aos rituais e símbolos cristãos.
Referências
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Notas
1 Redução é um termo que diz respeito à concentração permanente de indígenas em um povoado, estabelecido por ordem e iniciativa do Estado, e nos quais, os padres constituíam o centro organizador de toda vida espiritual e material; também traz o sentido de reduzir os nativos à civilização (GONÇALVES, 2013).
2 Considerando Cultura como o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Portanto, fazem parte da cultura de um povo, atividades e manifestações como a música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, danças, arquitetura, invenções, pensamentos, formas de organização social e política (CULTURA, 2013).
3 Significa pedra central no idioma aymara (CHOQUE MARIÑO, 2013).
4 Cf. Choque Mariño (2013), na Idade da Escuridão (Tutaypacha), o Deus Thunupa, armado de raio e luz, aniquilou a primeira humanidade, acabou com as trevas, iluminou o mundo, criou novos humanos civilizados, moralizou-os e lhes ensinou a cultura; no final desta Era, este Deus foi seduzido por mulheres sereias e morreu no mesmo Lago Titicaca que lhe dera origem, desaparecendo seu corpo com a promessa de voltar algum dia.
5 Cabe esclarecer que, desde 1577, os padres jesuítas aceitaram encarregar-se da doutrina de Juli, que então compreendia vários pequenos povoados, totalizando aproximadamente 20.000 habitantes (COELLO DE LA ROSA, 2007).
6 Ordem religiosa fundada em 1534 por Ignácio de Loyola, no contexto da reforma católica ou contra-reforma, como movimento reacionário à Reforma Protestante, tendo sido reconhecida por reis e papas; de disciplina rígida, pregaram a obediência total à doutrina da Igreja Católica, sendo seu lema “à maior Glória de Deus”; seus membros são chamados jesuítas, termo derivado do latim que significa “semelhante à Jesus”; caracteriza-se por sua forte ligação ao ensino e à educação, tendo sua experiência pedagógica sintetizada num conjunto de normas e estratégias chamado “Ratio Studiorum” (Ordem de Estudos), que visa a formação integral do homem cristão, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo; em oposição aos luteranos, pregaram que as decorações e a ostentação nas cerimônias do catolicismo deveriam ser acentuadas e abundantes (BN DIGITAL,2011).
Bio fornecida pelo palestrante.
Marie-Ange Depierre – Resenha sobre Rubem Mauro Machado e Borges
RESENHA – LITERATURA E CULTURA
2016 – 2º semestre.
DE UM DUPLO A OUTRO
Borges, Jorge Luis Borges, “La forme de l’épée”. In: Fictions. Paris: Gallimard, 1957. p. 137-143.
Machado, Rubem Mauro. “Deux ennemis”, Dérives, no 37-38-39, 1983: p. 105-108.
Marie-Ange Depierre
Se o tema do duplo aparece com frequência no gênero conto, não é, entretanto, tratado de maneira uniforme. Desse modo, por meio da análise comparativa de dois contos, “A forma da espada” do argentino J. L. Borges e “Dois inimigos” do brasileiro Rubem Mauro Machado, jornalista no Rio de Janeiro e autor de vários livros de histórias curtas, entre eles Jacarés ao sol (publicado em 1976 e que inclui o conto que vamos estudar), tentaremos mostrar as diferenças no tratamento do tema do duplo que aparece em ambos, os diferentes processos de escritura usados e as visões diversas da literatura que ali se revelam.
O título do conto de J. L. Borges, “A forma da espada”, nos remete para um problema de forma. A forma semicircular da cicatriz no rosto do personagem principal, forma semicircular de lua que está presente de modo implícito no nome do personagem, John Vincent Moon, e a forma circular engendrada por um movimento de simetria entre o desenrolar diegético e o desdobramento da narrativa que cria assim uma roda de linguagem que poderia girar infinitamente.
Desde o princípio, a narrativa põe em cena o elemento enigmático, a cicatriz: “Um talho rancoroso lhe cruzava o rosto.” A história secreta dessa cicatriz virá a ser a própria base do relato e é ao contá-la que Moon levará a mudar de opinião o proprietário, que não queria lhe vender suas terras. Narrar a história, qualquer história, é, portanto, um argumento convincente, pragmático, um ato do discurso: da mesma forma a ação da narrativa, qualquer narrativa transforma a realidade, segundo a visão borgiana da ficção. Esse problema de venda das terras é, aliás, um índice da ação infamante que originou a cicatriz no rosto de Moon: a venda de seu amigo.
Neste conto, o leitor tem acesso à verdade, ao caminhar ao longo de uma sucessão de mentiras. Mentira inaugural do narrador que quer nos fazer acreditar que a cicatriz é mais importante que o personagem que a carrega: “Tanto faz seu verdadeiro nome. ” Ora, o nome desse personagem importa tanto que se nos for revelado, não haveria possibilidade do texto, pois, na condição de leitores, compreenderíamos tudo. A expressão “seu verdadeiro nome” sugere de maneira invertida que existe um nome falso, “o inglês da Colorada”, que define dessa forma o protagonista da história, ao passo que seu verdadeiro nome definirá o traidor.
O caráter dúbio e turvo do personagem principal já aparece na sua falsa nacionalidade dupla: ele é chamado de “o inglês”, embora seja irlandês e se utiliza de sua condição de “inglês” num país de América do Sul, o Uruguai.
Todo o texto depende de um jogo de identificações: identificação especular invertida da dupla identidade constituída pelo inglês/Moon; identificação do narrador com Moon quando percebe que ele está bêbado, já que Moon nos fora apresentado com um beberão; identificação do inglês com Borges como narrador na hiponarrativa que constitui a história da cicatriz. Essa identificação resultará na identidade de Moon.
A tempestade que se arma no céu, o segredo que se revela aos poucos na história evoca o que Borges dizia da literatura em “Borges e eu”: “vivo e me deixo viver para que Borges possa urdir sua literatura, e essa literatura me justifica.[1]” Escrever seria então urdir mentiras como as produzidas pelas atividades de Moon.
A explicação que Moon dá para sua cicatriz é pontuada de referências intertextuais: Joyce, sem que seja nomeado, na evocação da Irlanda e de seus traidores, e que nos recorda a visão da história irlandesa por este último em Dedalus, o general Berkeley remetendo para o filósofo do mesmo nome, Shakespeare e Schopenhauer. Essa intertextualidade permite ver que para Borges a História mostra a literatura e que a literatura é um traço ilusório da História, o que leva a uma totalidade da ficção, para não dizer a uma ficção totalitária. Há uma contaminação constante da história e da ficção e essa ficção dá à luz a realidade. Esse primado da ficção se manifesta por meio da linguagem e podemos observar que em “A forma da espada”, a traição é um evento da palavra, que se deixe escutar numa biblioteca, lugar borgiano por excelência.
Moon se faz traidor ao denunciar alguém, mas ao mesmo tempo, torna-se herói da história ao se denunciar. Sua cicatriz serviria então como espelho de uma imagem especular invertida que se manifesta na cadeia paradigmática. Antes da existência dela, Moon é descrito como “invertebrado, covarde, delator”; depois de marcado, se tornará o inglês “enérgico, severo e justo”.
Desse modo, em “A forma da espada”, o tema do duplo aparece numa rede de identificações, de imagens invertidas que podem coexistir, da mesma forma que o texto, na sua duplicidade de ficção-história, pode se utilizar das muitas representações que ele faz surgir ao aceitar sua condição de mentira. Se para Borges o real é uma cópia deficiente das obras de arte, então a forma do duplo importa mais que seu conteúdo. Portanto é o processo mesmo do texto que vai pôr em cena esse duplo num jogo de deformações, transformações e deslocamentos, eles constituem uma combinatória que põe na berlinda o tema da renúncia na narrativa. Esse jogo faz com que será essencialmente pelo trabalho da leitura que vai se concretizar o duplo, acompanhado de perto pelo leitor.
Em “Dois inimigos” de R. Mauro Machado, a narrativa desenvolve uma paródia do duplo que não será mais um reflexo especular, mas um desenvolvimento que conduzirá à unicidade, a duas metades que constituem o Um, a uma unidade física dividida psiquicamente.
Desde o início da história, presenciamos duas identidades com quatro instâncias: “Eu o observo, ele me vigia”, o que já põe em cena dois sujeitos de enunciação, “eu-ele”, e dois sujeitos do enunciado, “eu -ele”, que se enfrentam. O olhar servirá de fio condutor ao longo do conto.
O texto condensado, muito curto, que mal chega a duas páginas e meia, trabalha muito com diferentes tipos de gênero: o gênero meta-ficcional na descrição da preparação para o ato de escrever logo no início, o gênero policial no enigma que nos é colocado a propósito desse personagem misterioso, esse “ele” obsedante, o gênero de aventura quando o narrador começa a descrição da queda do avião.
Essa mistura de gêneros que nunca resulta em nada, que são rapidamente abordados, apenas sugeridos, surpreende o leitor e compõe um conto que se apresenta como um relatório mesclando acontecimentos reais e fantásticos num estilo quase jornalístico.
Não por acaso, o narrador introduz na história o mundo dos jornalistas, a respeito do qual ele se mostra irônico, crítico. Ele os descreve ao mesmo tempo ávidos e simplificadores dos acontecimentos; por fim, mostra a mídia brasileira como mera ficção cientifica.
O mundo da medicina será também parodiado sem piedade. O nome do doutor Kill sugere assassinato, ao mesmo tempo que, por causa de sua profissão, lhe é imputado o poder de curar e livrar da morte. Ele é apresentado como um vaidoso que utiliza seus pacientes para estabelecer uma reputação de herói dos tempos modernos, em que as cirurgias espetaculares tomaram o lugar das provações e proezas do herói clássico. A evocação de seu “primeiro transplante de cérebro” faz dele mais um cientista louco (como o criador de Frankenstein) do que um homem de ciência.
A cadeia paradigmática de suas qualidades parece tão insensata quanto a classificação dos animais que J. L. Borges dá à proposito de certa enciclopédia chinesa: o doutor Kill é obcecado pelo prêmio Nobel, sabe dançar bem a rumba e as mulheres fazem fila para trepar com ele! O narrador golpeia com arte o mito do cirurgião e, implicitamente, levanta o problema da modernização num país em desenvolvimento, modernização essa que produz mais eventos espetaculares do que uma resposta para necessidades vitais, pelo menos na área da saúde. Devemos lembrar que o Brasil é um dos países onde o domínio da cirurgia plástica é dos mais avançados.
Um outro setor da modernidade, a publicidade, será também parodiado. O narrador toma emprestada a retórica do estilo publicitário, enfático, que insiste pesadamente na necessidade da total alegria de viver: “(…) eu que amo o mar e a natureza, eu que sinto dentro de mim a alegria de viver, na inteireza dos meus músculos, porque sou jovem e percebo o pulsar do sangue e do sêmen.” Esse dinamismo imperioso e exibicionista sugere um lugar, uma cidade imensa e trepidante, e um tempo da modernidade voltado para o futuro.
Como em “A forma da espada”, é através de uma hiponarrativa que tomamos consciência do segreda das cicatrizes. Pela leitura, tomamos conhecimento que esse duplo é constituído por duas metades do narrador, vítima de um acidente de avião. “O incrível capricho da lâmina afiada ao me decepar exatamente no meio, ao comprido, de alto a baixo” só pode evocar o mito do andrógino tal como transmitido por Aristófanes no Banquete de Platão. Porém se na narrativa mitológica é a espada de um deus que provoca a divisão, em “Dois inimigos” é mais prosaicamente a lâmina de ferro de um avião destroçado. O destino não é concebível num mundo moderno e não há qualquer traço da tragédia na descrição da sorte do narrador. O acidente aparece como um teatro burlesco: “(…) os bombeiros correndo com as minhas duas metades, ainda vivas, transportadas em cobertores.” A mitologia é também parodiada, porque se Zeus fendeu o andrógino de alto a baixo, o doutor Kill, por sua vez, o Zeus das salas de operação, vai costurar e enxertar as “meias frações, cada uma com sua metade de cérebro, nariz, pulmões, olhos” para chegar ao resultado monstruoso de um ser dividido na sua unicidade (e não pela obtenção exitosa de dois seres distintos como na mitologia): “Feito uma anêmona, as duas metades em poucos meses monstruosamente regeneraram, formando dois seres distintos, dois seres repulsivos que se odeiam, nós dois – eu e ele.”
Todo o processo narrativo joga com essa divisão física de um sujeito fictício e mesmo fantástico, para remeter o leitor a um sujeito psiquicamente dividido, ele mesmo e o outro, que somos todos, o eu e o outro que surgirá , sua parte de sombra que, tal como o inimigo, é “tímido, encolhido, contrafeito, hesitante, (…) não sabe, não consegue, maturar sua personalidade, manipular aquela carga de conhecimento humano e sensibilidade que acabei lhe transmitindo, [e que tem] o olhar baixo de medo e angustia do outro”. No entanto essa cesura corporal, seguida da divisão psíquica de um ser de duas cabeças, parece antes de tudo funcionar como a imagem icônica do corte perpetrado por uma modernização exagerada e fora do controle num mundo de tradição, de culturas diversificadas. O inimigo seria o Outro, o autóctone, o Índio, o recalcado, o arcaico, o imutável que o país deve arrastar com ele para permanecer numa dimensão humana. Do mesmo modo, se em “A forma da espada”, Borges trata do tema do duplo numa dimensão metafisica, se ele usa a história de um país, a Irlanda, à procura da sua identidade como tela de fundo do seu conto, já Mauro Machado retrata uma realidade mais tangível, um corpo humano, e um tempo mais determinado, o advento de um acidente de avião e de uma operação cirúrgica para parodiar o duplo fracassado, produto da tecnologia e da ciência do homem. Mauro Machado faz uma apresentação burlesca e até mesmo grotesco do mundo, do homem, para propor ao leitor o problema da tolerância em relação ao outro, de seu eu dividido, seu lado desconhecido, mas também para propor o problema da modernização nos países que não levam mais em conta suas raízes culturais e etnológicas.
Na reescritura de Borges, é a escritura da História – a guerra, a conspiração e sua produção de heróis e traidores – que alimenta a narrativa, ao passo que na escritura de Rubem Mauro Machado é o cotidiano do homem moderno nos seus aspectos acidentais, porém banalizados que enseja a oportunidade de contar uma história. Uma história ancorada na modernidade: presenças do avião, do hospital, do corpo médico, do grupo de jornalistas, o que nos situa no macrocosmo de uma cidade, para nos introduzir paradoxalmente no microcosmo da vida interior, a história individual de um ser aprisionado nos seus sofrimentos físicos. O desfecho do conto, desvendando a existência de um homem de duas cabeças, produto do desejo megalômano do cirurgião, dá de súbito ao corpo a dimensão de uma narrativa, de uma memória viva, de uma história que se faz transparente.
Assim, uma das diferenças no tratamento do duplo em “A forma da espada” e em “Dois inimigos” seria talvez o fato de que Borges, no seu conto, não utiliza o corpo na sua materialidade, mas antes no seu efeito, através da sua função de continente que permite ao homem pensar, tomar decisões, trair ou tornar-se herói. Já Mauro Machado situa o corpo, desde o início, em todo a sua densidade, com suas cicatrizes, seu olhar de ódio, sua presença, aqui e agora, independentemente de todo tratamento psicológico ou metafisico. Essa densidade como que provoca um efeito de distanciamento por meio de um estilo grotesco.
O conto de Borges está mais próximo do ensaio filosófico, metafísico e literário, ao passo que o conto de Mauro Machado se lê como um texto musical, uma partitura que permite tocar uma gama de estilos narrativos, de níveis de leitura, num ritmo enxuto, feito de rupturas e novidades.
A escritura de Borges brinca com a repetição que gera o mesmo, a mentira verossímil, enquanto a escritura de Mauro Machado recorre ao registro do Outro, ao efeito do novo que gera surpresa, o inacreditável sobre um fundo de verdade. Os dois contos, que tratam de um mesmo tema, o duplo, manifestam, entretanto, dois procedimentos narrativos diferentes, duas utilizações contrarias do mundo referencial e talvez, generalizando, duas visões divergentes da literatura.
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Terapeuta em psicomotricidade, Marie-Ange Depierre é doutora em Literatura Comparada. Sua tese junta dois vieses de pesquisa: o corpo e a psicanalise, o corpo e a escritura. Colabora com diferentes revistas de Québec, é tradutora de espanhol e ensina na École des Interprètes et Traducteurs da Universidade de Ottawa. É autora de coletânea de narrativas curtas publicada pela editora Triptyque: Une petite liberté (narrativas), que inclui seu trabalho “Dire oui à Clarice Lispector”.
Tradução de Stéphane Chao
[1] 1. Jorge Luis Borges, “Borges et moi”. In: L’Auteur et autres textes. Paris: Gallimard, 1965. p. 103-105.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rubem Mauro Machado
Eu o observo, ele me vigia – olhos, nascentes do ódio brotando.
Eu me pergunto o que veio esse sujeito fazer na minha vida, pressinto que jamais vai me libertar de sua horrível presença, ele, o maldito.
Vou fazendo ponta no lápis, o canivete arranca lascas que voam, quebro o grafite, recomeço com mais raiva, mas o exercício é bom e me acalma. Apoio o lápis no tampo da escrivaninha, afino a ponta, o leve pó negro constitui um pequeno monte residual, que assopro.
Ele, durante todo o tempo, assume aquele seu detestável ar contrafeito, sabendo que me incomoda estando ali. Procura evitar o ódio do meu olhar, passa a mão em gesto reflexo pelas feias cicatrizes. Eu o odeio mais pelas cicatrizes.
Sim, boa pergunta, o que veio ele fazer na minha vida, nós que não temos nada, mas absolutamente nada, em comum. Eu sou assim como vocês sempre me conheceram, sou tido, modéstia à parte, como um sujeito simpático, alegre, expansivo, de riso fácil e uma certa sedução a que as mulheres não ficam indiferentes, cortês sem frescuras, terno mas viril. Maldito Doutor Kill, maldita sejas medicina, enquanto os flashes estouram ao redor, triunfo da ciência, não me faça rir, da vaidade isto sim, sejamos sinceros, ele sorria, eu passo a mão nas minhas cicatrizes, eu cultivo meu ódio, não pedi nada a ele e a ninguém, não precisava ter feito o que fez, já era famoso e rico desde o seu primeiro transplante de cérebro, as mulheres fazem fila para trepar com ele, ah, falta-lhe o Nobel, deve ter obsessão pelo Nobel, dizem que dança rumba muito bem.
Ciência, justificativa de todos os crimes e todos os martírios e eu sou obrigado a aturar esse sujeitinho para quem detestável é pouco, um ser tímido, encolhido, contrafeito, hesitante no falar e inepto no agir, que não sabe, não consegue, maturar sua personalidade, manipular aquela carga de conhecimento humano e sensibilidade que acabei lhe transmitindo, embora a contragosto.
Mas não, ele se encolhe em sua carapaça de tatu e eu o odeio ainda mais, eu que amo o mar e a natureza, eu que sinto dentro de mim a alegria de viver, na inteireza dos meus músculos, porque sou jovem e percebo o pulsar do sangue e do sêmen. Este, que ama a música e a alegria sou eu – e quem disser o contrário mente.
E apesar de tudo, como meu inimigo, carrego cicatrizes. E ainda pressinto, como pressenti, o mergulho do avião, o abismo que me engolia, o pavor trancado na garganta, o espanto nos olhos, o choque, a desintegração, ferragens que se rompem e o agudo sentimento da impotência que nos dá na hora tanta raiva, lâminas de fogo a compor quadros que não existem nem na mais enfermiça febre dopada pelo ácido, a dor inconcebível, o incrível capricho da lâmina afiada ao me decepar exatamente no meio, ao comprido, de alto a baixo – o resto eu soube depois, me contaram, li, os bombeiros correndo com as minhas duas metades, ainda vivas, transportadas em cobertores (vi depois esta foto, em preto e branco, premiada, a gente percebe as expressões dramáticas, ao fundo as chamas e os destroços). E a ambulância com seu uivo lamentoso e desesperado furando o tráfego difícil até o hospital. E o célebre Doutor Kill e sua equipe mobilizados, à espera, contando nervosos os segundos e os décimos de segundos, andando pelos corredores esterilizados. E ainda eles curvando-se como um bando de corvos brancos, tentando adivinhar como ainda se podia constatar sobrevivência naquelas duas meias-frações, cada qual dotada de meio cérebro, um olho, meio nariz e um pulmão. E a longa noite, que emendou com a seguinte, de cauterizações, purgações, raspagens, enxertos e transfusões, o lado direito pulsando ao ritmo de um coração artificial que seria depois implantado, ao inflar e desinflar do pulmão único. No saguão de entrada os repórteres tomavam café e dormitavam sentados, revezando-se em plantões cansativos cuja monotonia só era rompida pelo anúncio de mais um lacônico boletim oficial.
O milagre acabou por acontecer. Feito uma anêmona, as duas metades em poucos meses monstruosamente regeneraram, formando dois seres distintos, dois seres repulsivos que se odeiam, nós dois – eu e ele.
Enquanto o gáudio dos jornais berra em manchetes o brilhante feito do sorridente Doutor Kill, agora festivamente chamado “o pai dos incríveis homens-anêmonas”, eu capto num relance o olhar baixo de medo e angustia do outro e me pergunto se não será possível sufocá-lo durante o sono com o travesseiro.
(Do livro Jacarés ao sol – São Paulo, Ática, 1976)
Nota de Rubem Mauro Machado (27-07-2016)
O SEGUNDO ENCONTRO COM BORGES
Conversei certa vez com Jorge Luis Borges em Buenos Aires. Sobre esse encontro inesquecível escrevi crônica publicada no Globo e em vários outros veículos. O que jamais poderia imaginar é que décadas depois meu caminho de alguma maneira tornaria a se cruzar com o de um dos maiores gênios da literatura. Confesso meu assombro ao me deparar com um ensaio crítico, publicado na revista literária francesa -canadense XYZ, em que Marie-Ange Depierre, doutora em literatura comparada, professora da Universidade de Otawa, traça um paralelo entre um famoso conto de Borges, “A forma da espada”, do livro Ficciones, com um conto meu, “Dois inimigos”, publicado inicialmente em 1978 no livro “Jacarés ao sol” (Editora Ática). [Ver este artigo em Resenhas, neste site]. O que une os dois contos, na visão da ensaísta, é que tratam do problema do duplo (da duplicidade), ainda que de maneira completamente diferente. Meu espanto foi ainda maior porque ignorava que meu conto fora traduzido para o francês e publicado na revista literária Dérives, que circula na França e no Canadá, onde aparentemente Marie-Ange o leu. Ao que me consta, é a primeira vez que alguém traça um paralelo entre um conto de Borges e o de um autor brasileiro. A produção literária tem esse dom de fugir do controle de seus autores, para se desdobrar em efeitos surpreendentes. Isso constitui um alento para vários de nós, escritores brasileiros, ignorados pela mídia e desconhecidos do grande público e que temos com frequência a sensação absurda de escrever para ninguém. Devo dizer que “Jacarés ao sol”, apesar das ótimas críticas recebidas na ocasião de seu lançamento e de ter esgotado rapidamente duas edições, nunca mais foi reeditado. Alguns exemplares ainda resistem nos sebos espalhados ao longo deste grande país.
R.M.M.
Bio fornecida pelo palestrante.
Daniele Ribeiro Fortuna
Universidade Unigranrio
Resumo: O artigo realiza uma análise comparativa da literatura e a trajetória das escritoras Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo. Ambas viveram em condição de subalternidade e conseguiram ter voz por meio de sua escrita. O texto busca, ainda, compreender de que forma a literatura das duas escritoras atua como mecanismo de resistência. Por fim, ele se debruça sobre a questão do corpo e da resistência – ambos temas fundamentais na literatura das duas escritoras.
Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistência; corpo; subalternidade
Abstract: This article presents a comparative analysis of both Carolina Maria de Jesus’ and Maria Conceição Evaristo’s literary works and biographies. They both lived in subaltern condition, but succeeded to be ‘heard’ through their writing. This article also tries to understand how their literature acts as a mechanism of resistance. Finally, it discusses the importance of body and resistance in both writers.
Keywords: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistance; body; subaltern.
Minicurrículo: Daniele Ribeiro Fortuna é jornalista (UFRJ), mestre em Literatura Brasileira (UERJ), doutora em Literatura Comparada (UERJ) e Pós-Doutora em Comunicação (UERJ). Atualmente tem uma bolsa de Jovem Cientista do Nosso Estado (2015-2017). É professora do programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes da Universidade Unigranrio. Pesquisa os seguintes temas: autobiografia, corpo, emoção e Estudos Culturais.
DUAS MARIAS: RESISTÊNCIA E CORPO
NA LITERATURA
Daniele Ribeiro Fortuna
Universidade Unigranrio
Introdução
Para falar sobre resistência, Marilena Chauí recorre a Raymond Williams: “A realidade do processo cultural deve ser sempre capaz de incluir os esforços e as contribuições daqueles que, de um modo ou de outro, estão fora ou na margem dos termos da hegemonia específica” (WILLIAMS, 1977 apud CHAUÍ, 1993, p. 23).
Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo estiveram nesse grupo, e representam o que Spivak denominou de “subalterno”, a partir de Gramsci. Elas pertenciam às “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 12).
“Pode o subalterno falar?”, pergunta Spivak. Carolina e Conceição provaram que sim. Para ambas, a escrita tornou-se, mais do que forma, caminho de resistência. Muito as duas Marias têm em comum: negras, nascidas em Minas Gerais, moraram em favelas, em condições precárias e fizeram da escrita, mais do que um alento, um modo de vida.
Carolina Maria de Jesus, a artista da fome
Carolina vencia o cansaço para escrever ou justamente porque estava cansada, escrevia. Ao longo de vários anos, a escritora manteve um diário, no qual registrava seu cotidiano, pensamentos, sentimentos, sonhos, revoltas, angústias e o dia-a-dia da favela. Esse diário foi publicado em 1960 sob o título de Quarto de despejo e se transformou em um dos maiores sucessos editoriais do Brasil, sendo, inclusive, traduzido em vários países. Anos depois, em 1996, outros trechos foram organizados pelos historiadores Robert Levine e José Carlos Sebe Bom Meihy e publicados no livro Meu estranho diário.
A escritora nasceu em 1914, em Sacramento, no interior de Minas Gerais. Estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida. Aos 16 anos, mudou-se com a mãe para a cidade de Franca, em São Paulo, dando início a um período de várias outras mudanças, que culminariam com sua ida para a capital do estado.
Para sobreviver, exerceu várias atividades: faxineira de hotel, auxiliar de enfermagem, vendedora de cerveja, artista de circo e, principalmente, empregada doméstica. Em 1948, Carolina foi morar na favela do Canindé. Naquele período, as favelas começavam a aparecer e se transformariam em uma dura realidade nas décadas que estavam por vir.
Os textos de Carolina, transcritos em seu diário, se constituem em um retrato de alguém que busca resistir a uma realidade dura, marcada pela miséria. A escritora mistura palavras rebuscadas a descrições ácidas de um cotidiano cruel. Embora, muitas vezes, seu diário se dedique a momentos de devaneio, sua escrita é direta, sem subterfúgios.
Até hoje, considera-se como inovadora a obra de Carolina, pois trata-se da fala de alguém que vivenciou a pobreza, a realidade de uma favela. É um testemunho de um personagem ‘de dentro’ de um cenário miserável, e não de um observador externo, como é comum acontecer. De acordo com Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Para Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.
É possível afirmar ainda que a escritora estava entre o que Chauí (1993, p. 140) denomina de os “mais pobres”, isto é, os favelados, com situação empregatícia precária, mal remunerados e quase sem escolaridade. Portanto, Carolina Maria de Jesus conhecia bem o lugar de onde falava, pois era personagem daquele cenário.
Cabe ainda ressaltar que Carolina não se detinha em escrever (e também descrever) apenas sobre a pobreza, mas – principalmente – sobre o pobre. Com isso, Carolina retratava seu cotidiano e o daqueles que a cercavam de forma individual e, portanto, original. Assim, sua escrita é única, já que é originária da força do sentimento próprio de quem é mais do que testemunha, personagem da fome – “nos textos de Carolina, tudo é visual e imediato (…) jamais perdem o conteúdo dramático da vida vulgar, cotidiana (…)” (MEIHY, 2006, p. 347).
O diário de Carolina (publicado nos livros Quarto de despejo e Meu estranho diário) relatam a vida da autora durante o tempo em que esteve na favela. Os trechos são separados por datas e se iniciam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água”. (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Deixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (JESUS, 1997, p. 61).
Um leitor desatento possivelmente terá a expectativa de uma descrição banal de alguém que leva uma vida simples, sem grandes ambições ou pretensões: alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas imediatamente o diário de Carolina ‘frustra’ esse leitor e revela um texto que, de acordo com Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (JESUS, 1997, p. 55).
Neste trecho, Carolina faz ainda uma descrição crua e cruel do lugar onde vive:
Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituiram os corvos (JESUS, 1997, p. 48). [Nas citações do texto de Carolina será mantida a acentuação original].
A escritora revela ainda o testemunho da fome:
27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (JESUS, 1997, p. 39).
Entretanto, Carolina Maria de Jesus buscava formas de resistir à fome e a todos os obstáculos que tornavam sua existência difícil. Para tanto, também tinha em seu corpo outro lugar de resistência. Nos diários da escritora, as referências ao corpo (seu e ao dos outros) são inúmeras: cansaço, fome, indisposição – suas –, sexo, bebedeiras – dos outros – etc. É possível perceber uma tensão constante entre miséria humana e resistência. Contando com o auxílio de sua escrita e de seu caráter raro e forte, seu corpo resistia aos seus problemas individuais e às questões que a incomodavam na favela.
Ao se debruçar sobre sua escrita, o leitor consegue perceber como se dava esse mecanismo de resistência. O corpo de Carolina cambaleava entre o cansaço, o estupor e a necessidade de sobreviver. No dia 19 de maio, Carolina relata em seu diário: “Deixei o leito as 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal” (JESUS, 1997, p. 30). Parece o prenúncio de um dia mais ameno, mas, logo em seguida, ela afirma: “As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (…) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dorme porque deitam-se sem comer”. (JESUS, 1997, p. 30).
Mais adiante, a escritora dá prosseguimento ao seu relato:
Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro:
— Olha o pão doce, que está na hora do café!
Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café. Os favelados comem quando arranjam o que comer. (…)
(…) Eu estou começando a perder o interesse pela existencia. Começo a revoltar e a minha revolta é justa (JESUS, 1997, p. 30).
Já no dia seguinte, 20 de maio, Carolina Maria continua: “O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito. A vera despertou e cantou. E convidou-me para cantar. Cantamos. O João e o José tomaram parte”. Mais uma vez, uma promessa de felicidade que não se concretiza:
Abri a janela e via as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo. Daqui a uns tempos estes palitou que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu, vão ser substituidos por outros. É os politicos que há de nos dar. Devo incluir-me, porque eu também sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo (JESUS, 1997, p. 33).
Com isso, o corpo de Carolina oscila entre a revolta e esperança, buscando, de alguma forma, continuar a luta, resistir. Quando tenta esboçar alguma vaga alegria ou, pelo menos, uma sensação de amenidade, rapidamente a escritora se recorda de onde fala ou algum fato do seu dia-a-dia – como a falta de comida ou de dinheiro para comprar bens de necessidade básica, por exemplo – não a deixa esquecer. E essa recordação também a faz se lembrar que o seu diário é o seu lugar de denúncia e de resistência. Mesmo que os ‘outros’ não a ouçam, porque não têm acesso a seus textos, ainda assim, ela pode escrever, tendo a esperança de um dia ser ‘lida’.
Conceição Evaristo, a artesã das palavras
Conceição Evaristo também nasceu em Minas Gerais, em 1946. Viveu numa favela e conseguiu concluir o curso normal somente aos 25 anos. Trabalhou como empregada doméstica em várias casas de famílias tradicionais em Belo Horizonte.
Alguns anos depois, foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou no magistério e, posteriormente, cursou a graduação em Letras. Tornou-se ainda mestre e doutora em Letras. Escreveu livros, como Ponciá Vicêncio e Becos da memória, além de diversos contos e poesias, que foram publicados em antologias.
Assim como Carolina Maria de Jesus, a escritora faz de sua escrita uma ferramenta de resistência. Sua própria trajetória acadêmica já dá indícios desse papel que a escrita sempre desempenhou na sua vida. A leitura do romance Becos da memória também traz pistas de como se dá tal mecanismo.
Escrito entre 1987 e 1988, foi publicado pela primeira vez em 2006 e relançado em 2013. No texto “Conversa com o leitor”, que abre o livro, Conceição Evaristo revela: “Arrisco-me a dizer (…) que a origem da narrativa de Becos da memória poderia estar localizada numa espécie de crônica, que escrevi ainda em 1968. Naquele texto podia ser apreendida a tentativa de descrição de uma favela” (EVARISTO, 2013, p. 11, 12). Segundo a autora, a crônica a que ela se refere fora escrita como um exercício de redação apresentado no colégio e que foi publicado em dois pequenos jornais posteriormente.
O livro nasceu ainda dos fatos que a tia, Maria Filomena, tinha o hábito de registrar: “datas e acontecimentos importantes, desde fatos relacionados à economia doméstica a acontecimentos sociais ou religiosos” (EVARISTO, 2007, apud Lima 2004, p. 1). Com o tempo, a tarefa passou a ser de Conceição e, mais tarde, esta experiência teria influência decisiva no seu fazer literário (LIMA, 2014).
As memórias da escritora a ajudaram a construir Becos da memória. O personagem Totó e sua última esposa, Maria-Velha, por exemplo, foram baseados nos tios de Conceição Evaristo. O romance conta a história de personagens que moram em uma favela, que está sendo destruída para dar lugar a um hospital ou a uma companhia de gás. Ao longo da narrativa, é possível perceber uma tensão constante entre desânimo e resistência, na qual o corpo tem papel fundamental.
Vida e morte, luta e submissão, vitória e derrota: a narrativa é permeada por estes três binômios antagônicos, que se refletem ainda no corpo dos personagens. Maria-Nova, por exemplo, é uma menina negra, de 13 anos, que gosta de ouvir histórias. O amigo Bondade e seu tio Antônio João da Silva, o Totó, são seus principais contadores.
As histórias contadas por eles vão se confundindo com os fatos que se passam na favela e que culminam com a sua destruição. Passado e presente se alternam, assim como a alegria, o espanto, a tristeza e a dor de Maria-Nova.
A menina é testemunha de várias tragédias, provocadas não apenas pelo fim eminente da favela, mas também pelas condições precárias em que vivem seus moradores. Ao mesmo tempo em que Tio Totó vai narrando sua vida, seu corpo vai se tornando decrépito. Antes risonho e alegre, apesar de todo o sofrimento que viveu (a morte de duas esposas e de filhos), ele vai definhando, se deixando ficar triste e choroso.
Maria-Nova chora com ele, sofre, sente vontade do nada. Em vários momentos, a desesperança toma conta dela:
Era doloroso ver Tio Totó esconder nas mãos o rosto, seus cabelos agora totalmente brancos, sentado, encolhidinho, chorando tanto. A menina se aproximava, na tentativa de consolá-lo, abraçando o velho. E, sem pudor, sem orgulho algum, sem vergonha de serem vistos, os dois libertavam o pranto (EVARISTO, 2013, p. 182).
Até na escola, para onde gostava de ir, agora havia perdido a graça, principalmente, quando uma de suas vizinhas, a Filó Gazogênia, morre triste, sem esperança. A vida parecia não ter sentido para ela também, como já não tinha para Tio Totó.
Tio Totó se sente cansado, sem vontade de viver. Anseia a morte como um alívio. Maria-Nova teme essa morte mas, quando ela acontece, a personagem supera a desesperança: “A dor de Tio Toto significava para ela um compromisso de busca de uma melhor forma de vida para si própria e para os outros” (EVARISTO, 2013, p. 246).
A morte, aliás, permeia toda a narrativa, em uma disputa com a vida. Os personagens e seus corpos estão sempre oscilando neste embate. Cidinha-Cidoca é outro exemplo. Antes uma negra sensual, conhecida pelo seu “rabo de ouro” – “Não havia quem provasse e não se tornasse freguês” (EVARISTO, 2013, p. 36) –, vai enlouquecendo, perdendo o cuidado de si e acaba morrendo dentro do buracão, onde iam parar os dejetos da destruição da favela. Seu corpo bonito tornara-se feio, seco.
Se a desesperança toma conta de Cidinha-Cidoca e a morte vence a luta, para Dora, o movimento é inverso. Apesar de linda – “mulata alta”, “corpo melodioso” (EVARISTO, 2013, p. 127) – e aparentemente feliz, a personagem guarda uma história de perdas e descrença.
Quando engravidou, não quis o filho. Deixou-o com o pai. Não queria se envolver com ninguém nem qualquer tipo de compromisso. Ansiava sempre o prazer, como se o isso a recompensasse por ter sido abandonada pelo pai. Mas a vida de Dora se transforma ao conhecer Negro Alírio, de quem acaba engravidando no final da narrativa e com quem decide continuar e criar a criança.
Negro Alírio – assim como o personagem Bondade – é um dos que buscam a esperança, acreditando que as coisas podem ser melhores. Também negro e pobre, ele faz do trabalho e do incentivo à educação as suas metas. Alírio é quem se encarrega de reunir os moradores para tentar resolver o problema do desfavelamento, buscando sempre conscientizá-los. No final da história, cabe a ele a Bondade o papel de ajudar os vizinhos a encontrar uma solução para o problema do desfavelamento.
Há ainda duas personagens cuja trajetória revela, mais uma vez, a tensão entre derrota e resistência. São Ditinha e a Outra. Ditinha é uma empregada doméstica que é presa por roubar uma joia da patroa, D. Laura. Ela não apenas se lamenta pela miséria em que vive, como parece invejar a beleza de D. Laura, que a faz se sentir feia e envergonhada. De tanto trabalhar, Ditinha estava sempre cansada e tinha o corpo moído.
Ditinha sustentava seus três filhos, seu pai paralítico e a irmã, que não lhe ajudava em nada. Para não ter mais filhos, pede a Maria Cosme, uma vizinha, que lhe ajude de alguma forma. A mulher enfia uma sonda em seu corpo, que a faz sangrar até parar no hospital e ter que retirar o útero.
Quando Ditinha é presa, Beto, seu filho mais velho, toma conta de tudo. Ao ser solta, ela volta para a favela. Mais magra e abatida, começa a beber e não tem vontade de sair de casa. Sente muita vergonha de seus atos. Mas, ao final, resiste e se muda da favela, sendo apoiada pelos vizinhos e com uma ponta de esperança.
A Outra vive com Vó Rita, uma parteira que havia trazido ao mundo várias crianças que moravam na favela. Vó Rita vai, aos poucos, deixando de ser parteira para cuidar somente da Outra. No começo do romance, não se sabe muito sobre essa personagem, apenas que todos a evitam e que ela se esconde. Nem seu filho a quer por perto.
Ela pensa em se matar, mas não o faz, porque sabe que Vó Rita ficaria muito decepcionada. Ao final, seu segredo é revelado: a Outra sofre de hanseníase. Para ela, parece não haver maneira de resistir. Mas, ainda que seu corpo esteja totalmente tomado pela doença, sua esperança é reacendida quando ela e Vó Rita são encaminhadas pelo governo para uma colônia de tratamento – a Outra para se tratar e Vó Rita para trabalhar.
O romance termina com Maria-Nova largando a escola, pois, com o fim da favela, teria que se mudar para longe. O tom, entretanto, não é de derrota:
Havia o medo, o incerto, o imprevisível do amanhã. Mas havia a tenacidade, a força o desejo de vida.
Maria-Nova tinha feito no dia anterior as provas finais, despedido dos professores, dos colegas e amigos. Não voltaria no próximo ano, mas voltaria a estudar um dia (EVARISTO, 2013, p. 255).
Dessa forma, apesar de toda esta tensão entre vida e morte que permeia Becos da memória, a resistência parece ser o fio condutor. Maria-Nova sabe que está deixando para trás um período importante de sua vida, sabe também que a escola é fundamental na sua vida. Mas, mais do que ter esperança, a menina acredita que um dia vai retornar aos bancos escolares.
Considerações finais
Como Carolina Maria de Jesus, Maria Conceição Evaristo parece acreditar que a literatura se constitui em um lugar de resistência. Ambas apostaram nessa crença e conseguiram não apenas resistir, mas existir fora da margem.
Durante algum tempo, Carolina desempenhou o papel de escritora de sucesso: viajou pelo mundo, conheceu pessoas, passou a se vestir bem. Infelizmente, esse período durou pouco e ela voltou a ter uma vida humilde e precária. Depois de Quarto de despejo, seus livros não tiveram o mesmo desempenho comercial ou espaço nos jornais e revistas.
Assim como a personagem Maria-Nova, Conceição Evaristo também foi obrigada a parar de estudar durante um período. Se para Maria-Nova retornar à escola era apenas uma possibilidade, para Conceição, esta esperança transformou-se em realidade e ela não apenas se tornou escritora, como iniciou uma vida acadêmica consistente.
“Pode o subalterno falar?”, recorremos mais uma vez ao livro de Spivak. Sim, é possível. Maria Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus mostraram que sim e que a fala pode ser não apenas uma voz, mais um lugar de resistência. Duas Marias e uma só palavra: resistência.
Referências Bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência – aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Florianópolis: Editora Mulheres, 2013.
JESUS, Carolina Maria de. Meu estranho diário. São Paulo: Xamã Editora, 1996.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1997.
LAJOLO, Marisa. Poesia no quarto de despejo, ou um ramo de rosas para Carolina. In: JESUS, Carolina Maria de. Antologia pessoal. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
LIMA, Omar da Silva. Conceição Evaristo: escritora negra comprometida etnograficamente. Disponível em:
http://150.164.100.248/literafro/data1/autores/43/critica6.pdf Acesso em: 2 mar 2016.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A fala da pobreza: Carolina Maria de Jesus. In: LIENHARD, Martín. Discursos sobre (l)a pobreza. América Latina y/e países luso-africanos. Madrid / Frankfurt: Iberoamericana / Vervuert, 2006.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Bio fornecida pelo palestrante.
Tatiana Pequeno
Universidade Federal Fluminense
Resumo: O presente artigo tenciona cartografar e problematizar algumas das escritoras que buscam, em seus trabalhos poéticos, colocar em pauta o desejo de mulheres por outras mulheres. É de nosso interesse verificar em que medida a locução de uma poesia lésbica admite não apenas uma pulsão desejosa mas assume riscos, enfrenta poderes e desloca as hegemonias da tradição. Esta, confrontada, reexamina e reelabora outros espaços para fora da normatividade, ou, melhor dizendo, da heteronormatividade. Se por um lado será importante apontar a reduplicação de uma condição marginal, na medida em que a sexualidade não-usual é escrita através de uma lírica melancólica, é possível também verificar que as estratégias de humor também serão encontradas, uma vez que tais modos de condução poética parecem ser utilizados como subversão de uma gramática afetiva. Serão utilizados como pressupostos teóricos as obras Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade (2012), de Judith Butler, Um corpo estranho, de Guacira Lopes Louro (2008), bem como outras obras fundamentais da teoria queer que puderem discutir a temática lésbica e suas representações na poesia de língua portuguesa.
Palavras-chave: poesia lésbica, literatura lésbica, estudos de gênero, literaturas de língua portuguesa.
Abstract: This paper aims at mapping and discussing some writers who to seek the desire for other women in their poetic work. It is our interest to verify to what extent the expression of lesbian poetry admits not only a personal drive but also that it takes risks, faces powers and displaces hegemonic tradition. The latter, when confronted, re-examines and re-elaborates other spaces beyond normativity, or rather, heteronormativity. If on one hand it will notice the importance of reduplication of a marginal condition, when unusual sexuality is described through melancholy lyric poetry, on the other hand it is verifiable the existence of humor strategies that instigate new forms of poetry that subvert an affective grammar. This article will employ as its theoretical bases in the works by Judith Buther Problemas de gênero – feminismo e subversão da identidade (2012), by Guacira Lopes Louro in Um corpo estranho, de (2008), and others dealing with queer theory that discuss the lesbian theme and its representations in the poetry in the Portuguese language.
Keywords: poetry, lesbian literature, gender studies, Portuguese-speaking literatures.
Minicurrículo: Tatiana Pequeno é professora do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, onde coordena o grupo de pesquisas: “Corpo, gênero e sexualidades no contexto das literaturas de língua portuguesa”. É doutora, mestra e bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também é autora de dois livros de poesia, tendo publicado Réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014).
NOTÍCIAS DE UMA POESIA LÉSBICA
EM LÍNGUA PORTUGUESA
Tatiana Pequeno
Universidade Federal Fluminense
Mas quem aceita como saber que se difunda
palavra de mulher que, ainda mais, é pesada?
Novas cartas portuguesas
Lidar com a perspectiva de uma literatura lésbica – isto é, uma literatura cuja temática é a representação da homossexualidade feminina – no âmbito luso-afro-brasileiro é significativamente complexo. Primeiro porque as três referências locais anteriormente mencionadas dizem respeito não apenas a um mapeamento geográfico, mas sobretudo porque mencioná-los obriga a uma responsabilidade cultural, isto é, expõe diferenças na própria concepção harmoniosa e bem-intencionada da lusofonia, uma vez que a expressão literária em língua portuguesa exibe uma tensa rede de problemas endógenos nos variados contextos africanos, no contexto brasileiro e no português. Segundo porque mesmo sob o tronco da ideia de Nação, seria inapropriado e inverídico acreditar que a lesbiandade pode ser representada de uma única forma mesmo porque – e aqui já se verifica a terceira dimensão da complexidade dessa representação – especialmente a homossexualidade feminina redobra a marca de silêncio que recai sobre tudo o que compõe a própria história da mulher.
A essa história coube e cabe a posição demérita de estar fora ou articuladamente inapropriada ao universo das epistemologias: a ausência, a anulação ou a diminuição dos papéis femininos nas instâncias que permeiam e fazem a cultura e seus saberes. Judith Butler, em entrevista às holandesas Meijer e Prins (BUTLER, 2002, p. 3), entende tal assujeitamento como uma forma de “viver nas regiões sombrias da ontologia” e que, por essa razão, é chegado o tempo de reelaborar as estratégias discursivas de tratamento do gênero e da sexualidade. Diz a pesquisadora americana:
Meu trabalho sempre teve como finalidade expandir e realçar um campo de possibilidades para a vida corpórea. Minha ênfase inicial na desnaturalização não era tanto uma oposição à natureza quanto uma oposição à invocação da natureza como modo de estabelecer limites necessários para a vida gendrada. Pensar os corpos diferentemente me parece parte da luta conceitual e filosófica que o feminismo abraça, o que pode estar relacionado também a questões de sobrevivência. A abjeção de certos tipos de corpos, sua inaceitabilidade por códigos de inteligibilidade, manifesta-se em políticas e na política, e viver com um tal corpo no mundo È viver nas regiões sombrias da ontologia. Eu me enfureço com as reivindicações ontológicas de que códigos de legitimidade constroem nossos corpos no mundo; então eu tento, quando posso, usar minha imaginação em oposição a essa ideia (BUTLER, 2002, p. 3).
Será, portanto, fundamental, ao menos para este trabalho, verificar em que medida a poesia escrita por mulheres, ao tratar de representar algo que desafia o paradigma da heteronormatividade, pode assumir novos espaços no discurso, bem como protagonizá-lo na sua formulação simbólica crendo numa aposta de reinvenção desses mesmos códigos de inteligibilidade.
Para esta apresentação não pretendo, no entanto, enfrentar tais questões no contexto das literaturas africanas, uma vez que a referida complexidade assumida no início deste texto é potencializada pelos procedimentos culturais de velamento da lesbiandade nas culturas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, o que acaba por exigir uma argumentação mais demorada, o que o tempo da presente oportunidade não pleiteia. A meu ver, entretanto, a poesia de Paula Tavares abriria brechas para um enfrentamento literário desses problemas, por exemplo, mas, aqui, não trataremos de tais procedimentos. Nesse sentido, gostaria de apontar que o presente texto é, também, fruto de meu trabalho de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal Fluminense, cujo objetivo principal é ler criticamente a literatura produzida a partir de 1969 com temáticas de gênero e sexualidades femininas em questão.
Considero 1969 um ano decisivo porque não só é uma consequência cronológica imediatamente ao turbulento ano de 1968 e suas revoluções culturais, mas também porque é o ano de publicação, em Portugal, de Maina Mendes, de Maria Velho da Costa, livro que, dentre outras coisas, ficcionaliza o problema do silêncio no/para o universo feminino e obra que estabelece relação direta com o algo que leio obsessivamente há quatro ou cinco anos: as Novas cartas portuguesas. Entretanto, em conversas com colegas da área de Literatura Portuguesa, costuma aparecer uma pergunta que penso ser delicada: “Mas você não acha que as Novas cartas portuguesas são um texto empenhado demais, o que faria com que a Literatura perdesse espaço para um ativismo exacerbado?”
Mas e as Novas cartas portuguesas? E a poesia que pretendo discutir? Minha proposta teórica é de que a escrita das Novas cartas portuguesas funcionaria, em alguma medida, como texto estruturante no processo reivindicatório do lugar do feminino no universo da literatura luso-afro-brasileira. O que compreendo por inovador e singular nas NCP é exatamente a sua proposição ativista que sugere uma reconfiguração do conceito de literatura a partir de uma escrita reivindicatória no feminino, o que não quer dizer que não se reconheça a monumentalidade de obras de Júlia Lopes de Almeida, Judith Teixeira, Gilka Machado, Noémia de Sousa, Alda do Espírito Santo, Ana Cristina César, Paula Tavares, Luiza Neto Jorge e Conceição Lima e Ana Luísa Amaral, por exemplo, no século XX. De todo modo, o que proponho, é que o livro das “três marias” operacionalizaria uma guinada histórica e objetiva que colocaria em xeque até mesmo o projeto de qualquer Literatura que se queira “Maior”, “Pura”, “Alta” ou “Depurada” ou que pressuponha a hipervalorização do significante em detrimento dos significados. Neste sentido, a importância das NCP se evidencia, pois ela atualiza o lugar da própria literatura no século XX. Ao hibridizar os gêneros em cartas, pequenas narrativas, poemas, textos de caráter ensaísticos ou de manifesto, as três autoras abrem um precedente literário (e inclusive jurídico) para que outras mulheres reivindiquem o local da autoria, estabelecendo um contraponto – um contradiscurso – em relação à especificidade do cânone e seus sentidos de representação.
Essa atitude de reivindicação costuma ser, no entanto, mal recebida. É neste sentido que a americana Annette Kolodny verifica, em seu livro Dancing Through the Minefields: Some Observations on the Theory, Practice, and Politics of a Feminist Literary Criticism (1980), a dificuldade de compreensão da crítica feminina/feminista:
Ao invés de serem bem-vindas ao trem, entretanto, nós temos sido forçadas a negociar em um campo minado (…) se nós somos acadêmicas dedicadas a redescobrir um corpus perdido de textos escritos por mulheres, nossos achados são questionados esteticamente. E se nós somos críticas, determinadas a praticar leituras revisionistas, é dito que nosso foco é muito estreito, e que nossos resultados são apenas distorções de, ainda pior, más interpretações polêmicas (KOLODNY, apud AUAD, 2014, p. 153).
Com efeito, a argumentação de Kolodny demonstra que a crítica tradicional não só desprestigia a crítica feminista (e a crítica queer ou a crítica mais assemelhada aos estudos culturais) pelo fato de estas últimas desativarem o estatuto hegemônico de sua permanência, o que é evidentemente visto com antipatia pela maioria (no sentido sociológico) que o cânone representa: uma cultura ocidentalmente branca, de origem ou influência europeia, masculina e heterossexual, vide o ressentimento apontado por Harold Bloom a respeito do Cânone Ocidental. Ainda que pareça desnecessário dizer isso num ambiente acadêmico, é importante ressaltar que a proposta da crítica feminista/queer e ou da literatura feminista/queer não é a destruição irrestrita e radical da literatura e crítica canônicas. O que se deseja a partir dessas perspectivas de estudos e produções estéticas é questionar a singularidade da voz, isto é, procurar construir espaços mais plurais capazes de receber aquilo que se inscreve pela e/ ou na diferença.
Quantos de nós já ouvimos falar de uma literatura feminina em língua portuguesa que pusesse em xeque a heterossexualidade ou até mesmo as tradicionais concepções de gênero? Seríamos capazes de listar ao menos cinco autoras para quem a dimensão da sexualidade ativasse uma crise ou o seu processo de criação?
Como se sabe, as Novas cartas portuguesas são um livro de constituição híbrida e plural em todos os seus aspectos: a sua concepção enquanto objeto textual evidencia, na autoria, uma construção de seis mãos, na medida em que três são as autoras, além disso, a potencialidade dos gêneros textuais presentes no livro é igualmente diversa. Estas proposições estéticas dialogam contemporaneamente com conceitos importantes do feminismo como o de sororidade, que seria a capacidade de mulheres serem solidárias a elas mesmas. A partir disso, caberia lembrar também que Maria Velho da Costa, Maria Tereza Horta e Maria Isabel Barreno parecem estar decididamente cientes, para o universo feminino, dos conflitos e problemas existentes nas ideias de herança e legado. Cito:
Por que me chamo de rebento extemporâneo e filosófico desta linhagem feminina? Por despeito, por raiva, por impotência? Que fizemos nós todas? Nada. Mariana começou; Mariana veio afirmar seus direitos? Duvido. Mariana apenas rompeu a hipocrisia e dela se queixou. (…).
Não, Mariana nem isto gritou; apenas disse “aqui estou eu, possuída pelo amor”. Levantou-se um murmúrio “que lindo é o amor de mulher, ah! mas porquê escondê-lo debaixo de tanto respeito e conveniência, não convirá mais aproveitá-lo? Quem teme esta mulher, tão à mercê do amor?” Desenhou-se, gigantesca, a figura de Mariana sobrinha; rebento extemporâneo também; onde foi buscar tal saber? Com ela me identifico; e apesar de seu saber e de sua palavra, que outra coisa foi senão mulher, que escreve diário e uma carta? Quanto ao resto bordou e teve filhos; com que solidão. O seu diário é uma rocha; não, é antes única quebra de seu silêncio, único local possível para a sua palavra, mas por isso, pedra. Que dizia ela? “A vida de uma mulher é toda como um parto; acto solitário e doloroso, escondido, arredado dos olhos de todos em nome do pudor. O pudor é uma nostalgia, serve para fingir que estão mortos os vivos demasiado incômodos (BARRENO, COSTA & HORTA, 1974, p. 177-178, negritos nossos).
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É disso que quero tratar. Dessa história da literatura no feminino e em língua portuguesa. É dessa forma que a compreensão do legado deixado pelos “rebentos extemporâneos” anteriores que vai se delineando e se reescrevendo uma nova tradição do feminino que prescinde dos silenciamentos. Creio, dessa forma, que foi só a partir da atividade desenvolvida pelas três figuras vivas demasiado incômodas que até hoje têm seu livro questionado pelos valores estéticos hipoteticamente perdidos que Manuela Amaral, Adília Lopes, Isabel de Sá, Helga Moreira, Maria Sousa, Ana Luísa Amaral e Margarida Vale de Gato, por exemplo, puderam publicar o que escreveram.
E indo ao encontro desta hipótese de legado, é que considero Em nome do corpo, livro de Isabel de Sá, de 1986, em que se verifica uma enunciação interessada em sugerir (às vezes evidenciar deliberadamente) relações entre mulheres, um texto fundamental para driblar as estratégias de construção e definição do cânone. Em outras palavras, estamos diante de uma poesia notadamente lésbica. Ciente da dificuldade dessa expressão em língua portuguesa, Isabel de Sá recorre a outros suportes estéticos para ensejar o seu lirismo lésbico.
Partindo daquilo que considero ser duas epígrafes (uma verbal e outra imagética), encontramos na primeira uma remissão à obra de Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut, Le nouveau désordre amoureux, importante obra de 1977 que discorre sobre as revoluções afetivas e sexuais em curso a partir das revoluções culturais dos anos de 1960. A frase diz: “Hoje em que a pele é o que há de mais profundo, todas as exclusões são pronunciadas em nome do corpo” (SÁ, 1986, p. 7). Esta epígrafe, taxativa em sua proposta de deixar claro que o corpo e a pele serão, neste livro de poemas, de sujeitos excluídos. O que penso haver de mais interessante neste trabalho, para além da coragem de Isabel de Sá, é uma espécie de recado à crítica. Pois a segunda epígrafe desta obra nada mais é que um desenho de Graça Martins. Imagem que, a meu ver, parece querer dizer: “Caso não tenham entendido ainda de que tratará este livro, a ilustração talvez ajude a concluir.” E para finalizar sua introdução, sob o título de “Começar”, aí assinada pela autora, lê-se: “Na penumbra os corpos tocam-se antes da sílaba inaugural. Começar é sempre um escândalo, é desviar a instituição da sua verdadeira finalidade e da sua inocência” (SÁ, 1986, p. 11).
O presente texto, pelos limites da sua extensão, não permite que possamos discutir de maneira mais aprofundada o que parece estar em jogo no prólogo desta poesia mas, de antemão, é digno de nota que o texto aponta para uma prática anterior aos procedimentos de escrita. Trata-se, vamos concluir depois da leitura, de uma escrita bastante consciente de sua relação de desvio da heteronormatividade. Algo, entretanto, me incomoda neste começo, provavelmente porque leio este livro em 2014, 2015 e não em 1986, no contexto de sua produção. Falo sobre “desviar a instituição da sua verdadeira finalidade e da sua inocência” (SÁ, 1986, p. 11). A que instituição Isabel de Sá se refere? À Família? À Literatura, com L maiúsculo? De qualquer forma, fica a pergunta: qual seria a verdadeira finalidade das instituições? (Qual é a finalidade da crítica acadêmica? Por que as Novas cartas portuguesas não seriam Literatura?)
De todo modo, é importante que se diga que as tradições não foram de todo abolidas na poesia de Isabel de Sá. Os textos, organizados a partir da proposta dos poemas em prosa, apontam para uma certa narratividade em que se apresentam três instâncias nucleares que movimentam estas narrativas líricas: um “eu”, um “ela” e o nascimento de uma escrita urgente, capaz de tratar desse encontro fulminante e arrebatador. Como se a escrita estivesse a serviço de uma devoção ao sentimento que, conectada à sua tradição, sabe dos riscos de qualquer sistema de vassalagem amorosa.
Se vimos que em Isabel de Sá o desenho de Graça Martins alude à temática da poesia de Em nome do corpo, é preciso também reconhecer que a resistência da poesia, para lembrar Jean-Luc Nancy, está mantida. Porque apesar destes poemas estarem inscritos a partir de uma certa coloquialidade, aqui evidenciada por conta dessa narratividade lírica, é tensa e rara a dicção dessa arte erótica feminina: “(…) Aproximara de mim o gesto, vigoroso, ao prender-me a mão entre os seus dedos deixando uma impressão de queimadura (…). Ela tomava-me o corpo num abraço voluptuoso, feminino. Eu era a figura ambígua de encontro ao seio onde a palavra renascia” (SÁ, 1986, p. 19).
A rigor, é possível comprovar um lesboerotismo no trecho anteriormente lido? Não sei se a poesia precisa comprovar alguma coisa, mas minha experiência diz que ela se constrói a partir de uma estrutura subjetiva, e portanto pretensamente singular do humano. O abraço voluptuoso do poema é feminino. O que é esse feminino, nesse caso? Seria para caracterizar que neste abraço estão implicadas duas mulheres? Ou para dizer que nesta volúpia esse desejo é marcadamente feminino? De todo modo, o poema reitera de maneira tensa que o gênero é uma questão. “Eu era a figura ambígua de encontro ao seio onde a palavra renascia” (SÁ, 1986, p. 19) não é um final simples. Sugere ao menos duas possibilidades para a minha leitura: ser essa figura ambígua permitiria compreender uma dissociação da representação tradicional com que sujeitos do gênero feminino têm de passividade, doçura, sensibilidade, submissão. Digo isso porque a teoria queer nos ensina que para compreender as sexualidades é fundamental compreender os papéis sociais de gênero. E Isabel de Sá, em 1986, parece um pouco consciente dessas clivagens. A dimensão da ambiguidade aparece em outros poemas do livro, como por exemplo em “Sedução” e “Cumplicidade”, em que diz “Uma rapariga que pelo corte de cabelo e estilo de conjunto parecia um cavaleiro da Idade Média. No olhar foi-me dado entender que ela fazia a vassalagem do amor” (SÁ, 1986, p. 13). A outra possibilidade de leitura que entrevejo na categoria da “figura ambígua” seria exatamente no sentido da angústia da dicção. Como se esta imagem se opusesse ao peito eloquente onde a palavra opera. Neste sentido, a figura ambígua seria marca de um contradiscurso ou de uma subjetividade ainda incapaz de compreender a erótica em questão.
Por outro lado, é importante observar que nessa dificuldade, a poesia insiste. Insiste em tratar do desejo, sobretudo: “Eu morria de tanto desejo contido nesse corpo. Que fazer senão amá-la, expulsar meu desespero, ser mãe e amante na inconsciência total do momento? O poema surpreendia-me. Impossível esconder o rosto ou fugir ao tumulto” (SÁ, 1986, p. 28). Ou seja, verificamos nessa dialética (mostrar o rosto/esconder o rosto/sujar o rosto/dar o rosto) de Isabel de Sá, autora de um livro posterior chamado O avesso do rosto, que a dimensão do lesboerotismo e da homoafetividade lésbica acabam por resolver na tensão da poesia ou só a poesia pode(ria), inicialmente, dizer esta gravidade (ser mãe e amante na inconsciência total do momento) que é subverter a ordem dos discursos sobre a heteronormatividade.
Mas, e no caso da literatura brasileira, sistema que estabelece com a cordialidade um traço predominantemente cultural, em que medida seria possível falar de uma poética capaz de enfrentar a norma da submissão e a ética do pudor a que parte do trecho anteriormente citado das Novas cartas portuguesas nos lembra?
A rigor, seria conveniente apontar que na proto-história de uma poesia lésbica brasileira encontraríamos em A queda para o alto, de Herzer, um texto fundamental para a ativação de qualquer estrutura que deseje considerar o binômio gênero-sexualidade em sua crítica. Para tanto, seria importante lembrar do livro A queda para o alto, publicado pela Editora Vozes em 1982, que pode ser considerado um dos documentos mais relevantes para se pensar a relação entre escrita, gênero e sexualidade periférica no campo das literaturas de língua portuguesa. Isso porque a narrativa – uma autobiografia mesclada com poemas, trechos de cartas e bilhetes-, tem como objetivo principal compartilhar a experiência de Sandra Mara ou Anderson Herzer, escritor@ nascid@ no interior do Paraná, como sobrevivente de um longo e contínuo processo de exclusão. Para ler esta obra, elaborada a partir de uma consciência frágil da sua relevância para se problematizar os dispositivos que garantem a hegemonia e o poder do autor na literatura brasileira. Herzer, cujo sonho eram o livro e a possibilidade de uma quantidade maciça de seres humanos conhecerem a sua versão da história, escrevia poesia que, embora não seja apessoada a uma “Alta Literatura”, obteve muito raramente seu texto lido sob o escrutínio da crítica canônica, especialmente porque seu trabalho, embora escrito em versos, jamais foi alçado ao patamar da dignidade literária. Luiz Mott, importante estudioso da história e dos ativismos gays e lésbicos, no fundamental (ainda que hoje desatualizado) O lesbianismo no Brasil (1987) recupera um panfleto assinado pelo Grupo de Ação Lésbica Feminista de São Paulo na ocasião da morte de Herzer:
Esta carta é dirigida a todos os que repudiam a violência, desde a violência acintosa das ruas e da repressão policial ou a do estupro e espancamento de mulheres, àquela mais insidiosa do preconceito que interiorizamos e que também mata. O preconceito que empurra pessoas de cima das pontes, como empurrou a jovem mulher Sandra Mara Herzer, de um viaduto para a avenida 23 de maio. Sandra Mara amava as mulheres numa sociedade ultramisógina, onde apenas o masculino é positivo e tudo é feito para satisfazer as necessidades e anseios dos homens. Talvez por isso, supondo ser incompatível a força e o feminino, o valor e o feminino, tenha se transformado em Bigode – mas Sandra tinha sua essência no feminino, não o feminino de estereótipo, mas aquele que transcende e não se conforma preferindo até mesmo o suicídio.
Esta carta é dirigida a todos que repudiam a violência, o preconceito. Queremos, através dela, dizer a todas as Sandras Maras que o mundo mulher é lindo, e que continuaremos aqui lutando pelo direito de retirar nossas máscaras e amar a quem quisermos e como quisermos. Continuaremos aqui lutando pelo direito à felicidade, como companheiras solidárias que somos e devemos ser, contra todo tipo de preconceito, porque o preconceito também nos mata (MOTT, 1987, p. 213).
Com o intuito de finalizar esta apresentação, gostaria de sugerir a leitura da obra de Angélica Freitas, poeta de Pelotas publicada pela Cosac & Naify. Gostaria de ter a oportunidade e um tempo mais amplo para desta poesia aqui tratar pois, ao contrário de uma tradição que relaciona o lugar do feminino a imagens de silêncio e melancolia, a obra de Angélica Freitas parece esboçar uma crítica fundamental a despeito de alguns conflitos das mulheres, utilizando o humor como metodologia poética. Seu primeiro livro, Rilke Shake, procura desestabilizar a influência modernista europeia e americana, embora o lugar de fala do sujeito lírico esteja notadamente marcado por um (lugar no/ do) estrangeiro (destaque para o poema “Liz & Lota”). Já seu segundo livro, Um útero é do tamanho de um punho, de 2012, evoca muito mais frontalmente as questões de gênero, procurando subverter de maneira mais ou menos original os lugares comuns da condição feminina, transformando-se numa obra fundamental para a compreensão da lírica feminina e de uma poesia mais ou menos consciente de seu caráter revolucionário no que diz respeito ao tratamento de temáticas lésbicas, contribuindo para uma refrigeração original da poesia brasileira contemporânea.
Para encerrar, gostaria de recuperar Virginia Woolf, no artigo “Profissões para mulheres”, onde a inglesa observa o quanto é difícil matar o fantasma do Anjo do Lar, imagem atomizadora da mulher dócil e subserviente, frágil e passiva. Pois estes textos, apesar de nada garantirem a não ser os seus conflitos e dilemas, realocam as mulheres na participação do desejo e de uma reconfiguração social por meio, inclusive, das novas proposições de entendimento do gênero. O senso comum poderia objetar: “Todo mundo sabe o que é uma mulher.”. Ao que eu responderia: “Talvez o cânone literário (ainda) não saiba”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AUAD, Pedro Henrique T. K. Teoria da Literatura e Teoria do cinema: a crise e o fantasma. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos Literários. Faculdade de Letras, UFMG, 2014.
BARRENO, Maria Isabel; COSTA, Maria Velho da; HORTA, Maria Teresa. Novas cartas portuguesas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974.
MOTT, Luiz. O lesbianismo no Brasil. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
SÁ, Isabel de. Em nome do corpo. Lisboa: Rolim, 1986.
WOOLF, Virginia. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre: L&PM, 2011.
Bio fornecida pelo palestrante.
LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR E DE FERNANDO PESSOA
Dhandara Soares de Lima
UNIOESTE
Resumo: Ana Cristina Cesar (1952-1983) é uma das principais poetas da chamada “poesia marginal” brasileira. Sua obra, ainda que rica e complexa, normalmente é estudada a partir de uma perspectiva historiográfica ou sob a sombra de sua morte trágica (a poeta suicidou-se aos 31 anos). Assim, as comparações tecidas entre ela e outros poetas, de modo geral, condenam sua poesia a estes dois aspectos, simplesmente. Diferentemente, este artigo trata de uma importante parte de sua poética: o metapoema, ou seja, aquele que tematiza a própria produção poética ou o próprio poema em si – característico de sua escrita. O poeta português Fernando Pessoa (1988-1935), por sua vez, também se utilizou da metapoesia como meio de representação. Além de uma possível influência do trabalho de Pessoa nos escritos de Ana C., outros fatores aproximam os dois poetas, como tentaremos demonstrar neste trabalho. Finalmente, o objetivo principal da presente pesquisa é apresentar e refletir sobre os elementos que aproximam e os que distanciam a escrita metapoética do poeta português e a da brasileira. Tentaremos também complementar essas análises com alguns textos de crítica literária e ensaios acerca de literatura escritos pelos autores em destaque neste trabalho.
Palavras-chave: Literatura Comparada. Poesia Contemporânea. Literatura Brasileira. Escrita feminina.
Minicurrículo: Professora de Língua e Literatura de Língua Inglesa no curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês e Respectivas Literaturas na UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutoranda em Letras (Literatura e Sociedade: Estudos Comparados). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UNIOESTE. Avaliadora oral dos exames internacionais de Cambridge/ESOL. Tradutora e revisora de línguas portuguesa e inglesa. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6015422207393688.
LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR
E DE FERNANDO PESSOA
Dhandara Soares de Lima
UNIOESTE
O Homem é uma soma heterogênea de solicitações inconscientes, a que uma consciência e uma razão, aquisições recentes da animalidade, presidem como um rei constitucional, que reina mas não governa. A acção humana é irracionalizável, contraditória, absurda. […] A mais lúcida e simples das nossas escolhas é inúmera e obscura nas suas origens.
Fernando Pessoa
Como ilustra a citação escolhida para figurar no início deste trabalho, as razões humanas são inúmeras. Uma vez que a literatura é a arte humana que utiliza a linguagem como forma de expressão e também mantendo em mente que a linguagem é uma das mais importantes formas de o humano compreender e refletir sobre o mundo e sobre si mesmo, a razão da produção de uma obra literária nos parece algo complexo demais para ser discutido em poucas páginas. Portanto, o objetivo deste trabalho não se centra na possibilidade (mesmo que bastante provável) de Ana Cristina Cesar, importante poeta brasileira, ter escrito seus poemas por influência da leitura de obras de Fernando Pessoa, grande cânone mundial.
Desta forma, nossa investigação foi motivada pela similaridade entre os poemas dos dois autores, ainda maior quando nos focamos nos trabalhos metapoéticos dos artistas. Como a obra de ambos é ampla, para a produção deste artigo selecionamos poucos poemas, para que a pesquisa pudesse ser um pouco mais apurada. A proposta, como será perceptível, não foi de realizar uma análise quantitativa, ainda que esta seja uma opção interessante para o futuro. Os poemas de Ana Cristina selecionados fazem parte da antologia póstuma Inéditos e Dispersos (1985), organizada por Arnaldo Freitas Filho. A seleção para o corpus de Fernando Pessoa privilegiou os textos metapoéticos mais conhecidos, assim como algumas de suas reflexões sobre arte.
Inicialmente, traçamos um panorama de vida e obra de Ana Cristina Cesar, de caráter introdutório. Então, passamos a alguns comentários sobre Fernando Pessoa e, na sequência, ao confrontamento entre os poemas e os ideias estéticos perceptíveis nas obras dos artistas em questão.
Sobre Ana Cristina Cesar
Ana Cristina César (1952-1983), ou Ana C. – como costumava assinar seus trabalhos –, nasceu e viveu no Rio de Janeiro, ainda que tenha viajado por muitos lugares do mundo. Ela escreveu e publicou diversas coletâneas de poemas, assim como livros sobre estudos literários e tradutológicos. Sua vida encontrou um fim talvez prematuro, com seu suicídio, aos 31 anos.
Tendo participado da coletânea 26 poetas hoje, organizada Heloísa Buarque de Holanda (2007), sua poesia ganhou reconhecimento no meio intelectual em sua própria época. Depois disso, publicou seus poemas em edição independente e, no contexto da repressão política em que vivia, devido à ditadura militar, publicou através de uma editora apenas seu último livro, A teus pés (1999). Assim, seu nome é um dos grandes expoentes da chama “geração mimeógrafo”, e sua poesia pertence ao contexto de poesia marginal dos anos 70 do Brasil. Sobre isso, a própria Ana Cristina asserta que
(…) a marginalidade é tomada não como saída alternativa mas sim como ameaça ao sistema, como possibilidade de agressão e transgressão. A contestação é assumida conscientemente. O uso de tóxicos, a bissexualidade, o comportamento exótico são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e portanto assumidos como contestação de caráter político (CESAR, 1999, p. 123).
Contudo, cada vez mais estudos, na atualidade, tratam de como seu projeto poético não se limita aos preceitos “marginais” e como sua obra se diferencia da de outros autores reconhecidos da época. Sobre isso, Ivan Junqueira (1987) afirma que:
(…) enganam-se os que supõem haver desleixo formal ou discursivismo no verso da autora. Tais características são antes atributos da má poesia que escreveram quase todos os seus companheiros de geração. Esse aparente desleixo nada mais é que uma estratégia destinada a impedir que se coagulem a fluência do discurso e o ritmo do verso (JUNQUEIRA, 1987, p. 1).
Como podemos perceber a partir disso, Ana C. reconhecidamente difere-se dos outros de sua época. Mesmo assim, de forma geral sua obra é estudada a partir de dois prismas principais: seu contexto histórico ou sua morte trágica.
Contudo, ainda que tenha, de fato, compartilhado e contribuído com a estética de seus contemporâneos, cada vez mais estudos mostram como sua grande parte de sua obra diferiu da dos outros escritores e artistas de seu tempo. Ana Cristina, portanto, não pode ser tomada apenas como uma representante da época em que escreveu, mas como uma artista que, principalmente, não seguiu nem os modelos clássicos nem unicamente as tendências momentâneas. Estudando a obra de Ana C. e, principalmente, o distanciamento da obra desta das de seus contemporâneos, Marchi e Franchetti (2009) afirmam que:
Diante de uma questão sobre a relação entre a escrita em forma de diário e a expressão de intimidades, a poeta responde: (…) Aqui é fingido, é inventado, certo? Não são realmente fatos da minha vida. É uma construção. Mas há muitos autores que publicam diário. Quando você ler o diário do autor, de verdade, que ele escreveu sem uma intenção propriamente de fingimento, você vai procurar a intimidade dele. Se você vai ler esse diário fingido, você não encontra intimidade aí. Escapa… Então, exatamente o que é colocado como uma crítica é, na verdade, a intenção do texto (CESAR, p. 256 apud MARCHI; FRANCHETTI, 2009). (Grifos nossos).
O “fingimento” de que fala Ana Cristina nos remete imediatamente ao clássico poema de Fernando Pessoa, Autopsicografia, dentro da coletânea Cancioneiro, publicada em 1934:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
É possível compreender, desde esse primeiro momento, que o conceito poético de Ana Cristina se aproxima do de Fernando Pessoa. O modo como essa aproximação se dá e quais são as concepções e os elementos compartilhados pelos projetos estéticos de Pessoa e de Ana C. são o tema das páginas que se seguem.
As aproximações entre os poetas e suas obras
Fernando Pessoa é um poeta que dispensa apresentações. Foi um dos maiores artistas da língua portuguesa e grande conhecedor de literatura. Sua obra, vasta e rica, é ainda discutida e analisada. Tendo vivido entre 1988 e 1935, Ana Cristina Cesar certamente teve acesso à obra desse importante nome da literatura, tendo até se referido a ele em seus poemas.
Como comentado na introdução, o norte desta pesquisa não é a busca por possíveis “fontes e influências” do trabalho de Ana C., relegando-a, assim, a uma posição de poeta “menor”. Dada a leitura de poemas como os que citamos, é perceptível que existe algo que os aproxima. Compreendemos, a partir de nossos estudos, que este “algo” pode ser um projeto estético que compartilhe conceitos – e aí se encontra a pergunta que instigou a presente pesquisa: quais conceitos?
Comecemos pela reflexão de que ambos Ana C. e Pessoa expressaram sua poética tanto em língua portuguesa quanto em inglesa, mesmo que predominantemente na primeira. Ana C., contudo, mistura mais os dois idiomas do que o poeta português. Portanto, não se expressaram apenas na língua materna, demonstrando perícia também em manipular outras formas de linguagem. A manipulação lingüística é um dos temas abordados por Pessoa em um de seus vários ensaios. O poeta sintetiza algumas de suas concepções acerca de poesia em um ensaio que escreve em português e em inglês: “um poema é uma impressão intelectualizada, ou uma ideia convertida em emoção, comunicada a outros por meio de um ritmo.” (PESSOA, s/n, p. 75).
Além disso, os dois poetas também foram tradutores e estudiosos de literatura, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Parte de suas obras literárias também são dedicadas ao metapoema, ou seja, a poesia que trata exatamente do fazer poético. Essas informações são relevantes quando nos atentamos ao que isso significa: foram poetas que se preocuparam não apenas com escrever bons poemas, mas que pensavam a arte e refletiam sobre a essência da poesia.
Em um estudo anterior[1], discutimos como Fernando Pessoa se encaixa na definição de poeta “artesão” – termo cunhado por Duffrene em sua obra O poético (1987):
Enquanto criadores de um efeito poético, Dufrenne distingue dois grupos nos quais os poetas podem se encaixar: o poeta artesão ou o poeta inspirado. O primeiro é o “artesão da linguagem” (1969, p. 124), que constrói o poema de forma deliberada calculada. O segundo “é menos cioso de seu ato do que propriamente de seu estado” (idem, p. 219), ou seja, ocupa-se do “estado poético” mais do que da construção do poema (LIMA; AISSA, 2009).
Como podemos compreender a partir de vários ensaios, poemas e declarações, Ana Cristina preocupava-se com a qualidade da literatura. Como podemos inferir de um de seus poemas, desconfia da poesia “inspirada”, uma vez que “a gente sempre acha que é / Fernando Pessoa” (CESAR, 1985, p. 182). Podemos inferir a partir desses dados, a poeta questiona sua própria produção, o que nos aponta para uma preocupação com seu fazer poético e mostra uma “desconfiança” da poeta em relação ao verso “fácil” e é um sinal de que podemos classificar Ana C. como uma poeta artesã, em contraponto ao poeta inspirado. Anteriormente, também classificamos Fernando Pessoa como poeta artesão. Este é um dos pontos principais e talvez a maior confluência entre o projeto estético desenvolvido por Pessoa e por Ana C.
Annita C. Malufe (2006) discorre sobre as acepções de Ana Cristina sobre as relações entre a intimidade do poeta (pessoa de carne e osso) e a produção da poesia. Assim, a estudiosa sintetiza alguns conceitos importantes à nossa pesquisa:
(…) para se produzir literatura, Ana C. acredita ser possível partir de uma emoção, um sentimento. Contudo, essa intimidade só é apropriada pelo escritor enquanto uma espécie de material bruto, inicial, sobre o qual será necessário trabalhar, empregando o que ela chama de “olhar estetizante” (MALUFE, 2006, p. 56-7).
Esse conceito de se criar um objeto estético a partir da experiência, ou seja, a necessidade de “lapidar” alguma sensação para, somente então, escrever, é algo também discutido por Fernando Pessoa sendo essencial:
(…) a composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente (PESSOA, s/n, p. 72).
Neste sentido, as concepções de fazer poético de Ana Cristina e de Fernando Pessoa são correspondentes. Assim como para Ana C., a criação do poema, para Pessoa, é um trabalho intelectual e não emocional. A emoção não tem lugar no fazer poético de ambos os poetas. Malufe, interpretando declarações e textos de Ana C., afirma que:
(…) segundo ela [Ana], nesta operação obrigatória para se produzir o texto literário, poético, não há como ser fiel ao sentimento inicial, ainda que assim o desejasse. Neste sentido, não haveria como fugir do fingimento (MALUFE, 2006, p. 56-7).
Assim, o trabalho intelectual é a parte mais importante da criação poética. Dois poemas de Ana C. e de Pessoa ilustram bem essa relação entre sentimento, fingimento e poesia:
POEMA ÓBVIO
Não sou idêntica a mim mesmo
Sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob o mesmo ponto-de-vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante.
Este poema de Ana Cristina aponta para um dos aspectos do fazer poético de Fernando Pessoa: a coexistência de diferentes eu-poéticos que se sobrepõem no momento da escritura poética, ou seja, a possibilidade do poeta se expressar através de diferentes “identidades” poéticas – como os heterônimos de Pessoa. O poema Isto, de Pessoa, parece demonstrar a ideia de racionalização da poesia:
ISTO
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
A preocupação com o ritmo também é uma constante no trabalho tanto de Ana C. quanto de Pessoa. O poeta português, dedicou várias páginas à análise da importância do ritmo ao poema:
A linha isolada é uma unidade rítmica. A qualidade rítmica depende, como aliás dependeu sempre, do poeta. (…)
O verso é a prosa artificial, o discurso disposto musicalmente. Não é outra a diferença entre as duas formas da palavra escrita (PESSOA, n/d, p. 78).
Podemos perceber que a musicalidade é algo intrínseco à poesia na concepção de Pessoa. Também para Ana C., a música é essencial à existência do poema, confundindo-se com este:
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.
Para ambos os autores, o ritmo é um dos fatores essenciais do poema, que o caracteriza e sem o qual este não existe.
Conclusão
Neste artigo, procuramos investigar até que ponto podemos considerar próximas as escritas metapoéticas do grande escritor português Fernando Pessoa e da poeta carioca contemporânea Ana Cristina Cesar. Após o estudo de metapoemas de ambos os autores e de alguns de seus principais textos teóricos, tal que parte da fortuna crítica destes, elencamos determinados pontos que consideramos importantes.
A principal semelhança nas concepções de poesia dos poemas em questão é a sua visão de poesia como um produto do intelecto. Assim, mesmo que tenha sua “fonte” seja uma emoção, esta precisa ser “estetizada” ou “racionalizada” para, então, tornar-se uma obra poética.
A importância do ritmo para o poema também aproxima a estética desses poetas, dado que estes consideram a musicalidade um elemento intrínseco da poesia.
As coincidências entre os poetas e suas obras são ainda mais numerosas do que as estudadas nesta pesquisa: ambos foram tradutores, estudiosos de literatura e escreveram em inglês e em português, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Dedicaram poemas ao fazer poético, metapoemas, o que mostra que refletiam sobre seu ofício.
Como dito, esta pesquisa não teve foco quantitativo, ainda que tal perspectiva possa ser um caminho interessante e produtivo. Contudo, esperamos que este trabalho contribua para pesquisas futuras, assim como divulgue a poesia de Ana Cristina Cesar, demonstrando também sua importância para a literatura de expressão em língua portuguesa.
Referências
CESAR, Ana Cristina. A teus pés. São Paulo: Ática, 1998.
CESAR, Ana Cristina. Crítica e Tradução. São Paulo: Ática, 1999.
CESAR, Ana Cristina. Inéditos e dispersos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
JUNQUEIRA, I. Ana Cristina Cesar: a vocação do abismo, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 3 jan. 1987.
LIMA, Dhandara Soares de; AISSA, José Carlos. O fazer poético de Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. In: Anais do I CIELLI – Congresso Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Disponível em: <http://www.cielli.com.br/downloads/101.pdf>. Acesso em 10 Ago. 2011.
MALUFE, Annita Costa. Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2006.
MARCHI, Tatiane; FRANCHETTI, Paulo. Ana Cristina Cesar e a poesia marginal. Revista Língua, Literatura e Ensino, v. IV. Maio/2009. p. 385-94.
MORICONI, I. Ana Cristina Cesar: o sangue de uma poeta. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. 1934.
Disponível em: <http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/index.html> Acesso em: 17 Mar. 2011.
PESSOA, Fernando. Páginas de estética e de teoria e crítica literárias. 2ª ed. Lisboa: Ática, s. n.
[1] LIMA, Dhandara Soares de; AISSA, José Carlos. O fazer poético de Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. In: Anais do I CIELLI – Congresso Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Disponível em: <http://www.cielli.com.br/downloads/101.pdf>
Bio fornecida pelo palestrante.
Denise Maria Soares Lima
Doutoranda da Universidade Católica de Brasília
Minicurrículo: Denise Maria Soares Lima é escritora de contos, poesia e artigos científicos, desde 2010. Publicou nas edições 34, 35 e 37 dos Cadernos Negros (São Paulo) e em revistas científicas nacionais e internacionais, como por exemplo Dialogia e Eccos (SP, Universidade Nove de Julho), Teias (eletrônica, UERJ, Pós-graduação em Educação, ProPed), Interacções (Universidade de Lisboa, Portugal), IberoAmericana de Educación (Madri, Org. de Estados Iberoamericanos), Educere (Mérida, Venezuela), entre outras. Doutoranda e Mestra em Educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB), é bolsista CAPES e membro integrante voluntário da Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade. Tem experiência na área de educação, atuando principalmente nos temas da Educação para as Relações étnico-raciais, Lei Federal n. 10.639/2003, Educação de Jovens e Adultos, educação antirracista e Educação a distância.
Resumo: Este artigo estuda a obra de Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor. A obra centra-se nos deslocamentos e travessias de Kehinde, protagonista, cuja trajetória transcontinental (África e América) permite articular as relações sociais e individuais vivenciadas pela personagem e, ao mesmo tempo, compreender sua experiência na diáspora africana. Focaliza, num primeiro momento, a estrutura da obra: enredo, ambientação, personagens, linguagem, entre outros elementos constitutivos e, num segundo momento, aborda-se como as narrativas constroem sentido às questões sociais suscitadas no romance, conjugando a literatura científica com o corpus literário do romance pesquisado.
Palavras-chave: Gênero e raça; resistência feminina; diáspora.
JOURNEYS AND DISPLACEMENTS IN THE NARRATIVE OF GONÇALVES
Abstract: This article is a study of Ana Maria Gonçalves’ novel, A flaw of color. It is centered on the journeys and displacements of the protagonista Kehinde, whose transcontinental voyage (Africa and America) allows us to understand the articulation of social and individual relationships lived by the character and, at the same time, to comprehend her experiences in the African Diaspora. It focuses, in a first moment, on the structure of the novel: the plot, the setting, the characters, the language, among other constitutive elements and, in a second moment, it discusses how the narrative brings to light social issues raised by the novel, while conjugating a scientific literature with the literary corpus of a book of research.
Keywords: Gender and race; feminine resistance; diaspora.
DESLOCAMENTOS E TRAVESSIAS NA
NARRATIVA DE GONÇALVES
Denise Maria Soares Lima
Doutoranda da Universidade Católica de Brasília
Introdução
Ana Maria Gonçalves é brasileira, nasceu em 1970, em Ibiá, Minas Gerais, região Sudeste do Brasil. Em sua biografia, consta-se que abandonou a carreira de publicitária para dedicar-se à literária. Para isso, mudou-se para a Ilha de Itaparica, na Bahia, onde escreveu seu primeiro romance Ao lado e à margem do que sentes por mim, edição independente lançado em 2002. Em sua bibliografia, destaca-se a obra em estudo, Um defeito de cor, agraciada com o Prêmio Casa de Las Américas na categoria literatura brasileira, em 2007. Em relação à divulgação desta obra a autora relata:
Devo a publicação de Um defeito de cor a algumas serendipidades, a uma boa dose de sorte, à ajuda indispensável e nunca agradecida o suficiente de alguns amigos, à coragem da Record em investir nesse catatau escrito por uma escritora iniciante e desconhecida, mas, principalmente, à blogosfera. Foi o blog que me fez voltar a escrever, foi o blog que me presenteou com leitores e amigos fantásticos, que sempre me incentivaram a continuar. Isso me leva a crer que não temos a real ideia do tamanho e da importância da influência dessa fantástica ferramenta (GONÇALVES, 2014).
Com isso, nota-se também que a autora faz uso das ferramentas disponíveis na internet para divulgar seus livros e artigos. Para isso, mantém um blog, iniciado em 2001 (100 meias confissões da Aninha) e escreve artigos de opinião em redes sociais e blogs. A temática que elege em suas postagens, volta-se para as discussões cotidianas que envolvem racismo, discriminação e preconceitos raciais. Em relação à presença das mulheres negras na literatura, Gonçalves afirma que a mulher negra é sub-representada: “Acredito que haverá um crescimento nos próximos anos, porque pode estar aí um campo ainda não conhecido e explorado, o de algumas histórias que só podem ser escritas por mulheres negras. Se literatura se faz através da experiência, a nossa foi pouquíssimo contada e considerada; há muito por dizer” (GONÇALVES, 2014).
Por fim, Gonçalves representa uma geração de escritores negros, identificados pela crítica especializada como pertencentes à literatura afro-brasileira, cujos autores e autoras são identificados pela temática afro: “o suplemento ‘afro’ ganha densidade crítica a partir da existência de um ponto de vista específico” expresso em múltiplos temas: identidade negra, denúncia às discriminações sociais existentes, revisão crítica do passado, entre outros (DUARTE, 2014). Essa ‘afroindentificação,’ anotada por Duarte, torna Um defeito de cor um aporte para o discurso acerca de raça, como será estudado a seguir.
A obra
Um defeito de cor é uma obra de 947 páginas, no volume publicado pela Record, e, no formato e-book, contém 612 páginas. A obra é dividida em dez capítulos, que sempre iniciam com um provérbio africano e se subdividem em vários subtítulos. No prólogo, Gonçalves (2006) anuncia que a obra é fruto de serendipidade, que, em resumo, significa achados bem-sucedidos descobertos por acaso, geralmente, quando se está em busca de outros feitos. Nessas revelações, aguça a curiosidade do leitor, ao afirmar que há uma mistura de ficção e realidade na trajetória da protagonista. Narrado em primeira pessoa, o romance de Gonçalves, aclamado pela crítica literária, tirou o fôlego de Millôr que analisa a obra com estas palavras: “Em suas 952 páginas, Um defeito de cor não tem hausto, parada pra respirar. É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua “eslava”. Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?,entre os 10” (MILLÔR, 2006).
Tamanha a riqueza de incidentes transcorridos em torno de Kehinde, o número de personagens (em torno de 400) e ambientações, a obra é considerada uma saga da literatura brasileira. A História da protagonista é contada ao lado de outras histórias, que marcaram a História do Brasil e do continente africano, no século XIX, entre os anos de 1810 (nascimento de Kehinde) a 1894 (ano provável de sua morte), caracterizados por lutas abolicionistas e mudanças sócio-políticas. Esse espaço temporal se dá em torno de aproximadamente oito décadas em vários territórios brasileiros e africanos, como indica o fragmento abaixo:
(…) Savalu, Uidá, Ilha dos Frades, São Salvador, Itaparica, São Luís, Cachoeira, São Sebastião, Santos, São Paulo, Campinas, Uidá, Lagos, Era lá em África, que eu deveria morrer, onde tinha nascido. Mas aqui estou, indo morrer no Brasil, na sua terra. Será que posso considerar isso uma última homenagem? Como a única coisa que uma mãe que uma mãe à beira da morte pode fazer por um filho? (GONÇALVES, 2006, p. 588).
Nestes territórios, a voz feminina relata o Atlântico, do tráfico e da diáspora, para dar voz a negritude e revisar, pela ficção, o fenômeno da escravidão e suas vicissitudes.
A protagonista Kehinde
Gonçalves (2014) informa que Luiza, nome brasileiro da protagonista Kehinde, é inspirado em carta e poesia que o escritor brasileiro Luiz Gama escreve sobre sua mãe, como se destaca a seguir:
Nasci na cidade de S[ão] Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da Rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na Freguesia de Sant’Ana, a 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, (Nagô de Nação) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do Dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856, em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas, que conheciam-na e que deram-me sinais certos que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma «casa de dar fortuna», em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Em opinião dos meus informantes que esses «amotinados» fossem mandados para fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores (FERREIRA, 2008, grifo nosso).
O fragmento acima, de fato, coincide com algumas passagens do romance, inclusive com aquela em que, como na carta, Kehinde tem seu filho desaparecido, sendo esta a principal motivação para a narrativa: “Estou guardando comigo todas as cartas trocadas, para que você saiba de tudo que fiz na esperança de te encontrar, meu pequeno Omotunde” (GONÇALVES, 2006, p. 258). “Seu desaparecimento foi pior que a morte do seu irmão, muito pior, porque ele eu sabia onde e como estava” (GONÇALVES, 2006, p. 403). Além das coincidências de datas e lugares citados na obra e na carta, alguns papéis sociais se assemelham aos assumidos por Kehinde, neste percurso: escrava, escrava de aluguel e de ganho, liberta, filha, mãe, avó, irmã, esposa, amante, comerciante (de cookies, de pães, de charutos, de quitutes, de armas), construtora, rebelde, entre outros.
Assim, quem é Kehinde? Africana nascida em Savalu, abruptamente capturada e retirada de sua terra para viver a barbárie da escravidão? Sim, mas também apesar de toda sorte de infortúnios que a protagonista enfrenta ao longo da narrativa – inicialmente, com as mortes violentas de sua mãe e irmão (em África), seguidas das mortes de sua avó e de sua irmã gêmea, a bordo do negreiro até sua própria morte, cega e sem realizar o desejado encontro com seu filho –, Kehinde é a experiência da luta cotidiana, que reflete a trajetória histórica da diáspora e os discursos colonialistas em relação à raça.
A África inteira em um só lugar
“Todos os dias chegava mais gente capturada em muitos lugares da África, falando línguas diferentes e dando várias versões sobre o nosso destino. Perguntei onde ficava o estrangeiro e ela não sabia, mas outra mulher que estava por perto disse que era em Meca” (GONÇALVES, 2006, p. 20). Esse excerto inaugura o discurso sobre a diáspora africana no século XIX. Não sem razão, menciona Meca (importante mercado de escravos), já que uma parcela significativa de africanos migrou para a Ásia, contudo foi o Brasil, um dos maiores importadores de africanos, segundo Ajayi (2010, p.890): “ao longo de todo o período de tráfico negreiro, este país recebeu cerca de 38% do efetivo total de africanos introduzidos no Novo Mundo”.
Além do trecho supracitado, há no decorrer da obra, inúmeras passagens que confirmam essa migração em massa de diferentes pontos do continente africano para o Brasil:
Alguns brancos acompanhavam um ou outro desembarque, mas a grande maioria era de pretos como nós, com tons de pele e aparências tão diferentes uns dos outros que eu imaginava ver uma África inteira em um só lugar, e tinham os rostos tão alegres que até pareciam nos dar boas-vindas (GONÇALVES, 2006, p.39).
Os pretos de São Sebastião eram diferentes dos de São Salvador, por causa da procedência. Para São Salvador iam principalmente os da região de onde eu tinha saído, os fons, os eves, os iorubás e mais outros que, por lá, eram todos chamados de minas, porque embarcavam na Costa da Mina. Para São Sebastião iam os angolas, os moçambiques, os monjolos, os benguelas e mais alguns. Os monjolos tinham marcas ao comprido do rosto, os angolas tinham o rosto fino e eram muito bonitos, e os benguelas usavam cortes de cabelo bastante estranhos, formando desenhos muito trabalhosos, que podiam pegar a cabeça inteira ou apenas o alto, perto da testa, formando um topete com trancinhas. (GONÇALVES, 2006, p. 413).
Essa migração, raramente, ocorreu de modo voluntário, como se sabe. Dessa forma, os africanos, que chegaram ao Brasil, vivenciaram na experiência da diáspora perseguições e adversidades como as reproduzidas na obra, entre outros aspectos: 1) na linguagem: “[…] falou em iorubá que eu tinha que aprender logo o português, pois o sinhô José Carlos não permitia que se falassem línguas de pretos em suas terras” (p. 43); 2) na religião: “Alguém lembrou que o padre também tinha dito que, a partir daquele momento, eles deviam acreditar apenas na religião dos brancos, deixando em África toda a fé nos deuses de lá” (p. 28); 3) nas tradições: “Os capoeiras tinham inventado esse toque para avisar da chegada da polícia quando estavam jogando no meio da rua, o que era proibido” (p. 428); 4) nos costumes: “ Entre outras coisas, naquele dia aprendi que existem talheres, e que eu deveria usá-los para comer, que não podia mais comer com as mãos que era proibido pela sinhá aos escravos que trabalhavam na casa-grande” (GONÇALVES, 2006, p. 46).
Contudo, se essas tentativas de redução do povo africano à alienação foram extremadas pelo colonizador, a hostilidade do meio e estranhamento à terra proporcionaram, por sua vez, uma ‘reação de reserva’, como aponta Munanga (1988, p. 33):
Trata-se da maioria das populações vivendo ainda nos territórios étnicos e das massas espalhadas em todas as cidades de origem colonial. […] Mas, felizmente, continuaram a praticar uma espécie de resistência passiva, funcionando como um bastião, no qual o patrimônio cultural, legado dos ancestrais, continuou a ser transmitido de geração a geração. O povo guardou sua língua, sua arte, maquis que o protegiam das tentações alienantes.
Nesta perspectiva, Um defeito de cor aponta vários momentos de manutenção e aproximações de culturas e produção de novas culturas a partir do legado africano: seja na linguagem: “Ele chegou perto da Verenciana e começou a esfregar uma mão na outra, como se estivesse aquecendo as sementes entre elas, enquanto rezava e cantava em iorubá” (p. 67) ou nos costumes: “Precisando de carregadores, por exemplo, podia-se chamar com certeza qualquer preto usando um corte que deixava um chumaço de cabelo bem na frente […]. Quem fazia esses cortes eram os oficiais barbeiros, que conheciam os costumes de cada nação e trabalhavam nas ruas e nas praças, ou em pontos como o do Omissias (p. 412).
Todavia, segundo Sodré (1988), foi na religião que a intersecção das diferenças e a proximidade dos opostos resultaram em “um jogo de contatos’ a fim de preservar um patrimônio comum, ainda que com rituais diversificados. E assegura: “O patrimônio simbólico do negro brasileiro (a memória cultural da África) afirmou-se aqui como território político-mítico-religioso, para a sua transmissão e preservação” (p. 50), citando como referência o candomblé da Casa Branca, mencionado na obra em estudo: “Fiquei sabendo de uma série de novidades, como uma casa de culto aos orixás, chamada de Casa Branca, que estava sendo aberta por uma ialorixá liberta chamada de lyálusò Danadana” (GONÇALVES, 2006, p. 262). O aspecto religioso é marcante em vários segmentos da obra, como abaixo:
Os nagôs e iorubás eram numerosos e estavam espalhados por toda a cidade, e tinham levado para o Brasil quase todos os orixás que cultuavam em África. Havia casas de pretos da mesma nação que cultuavam apenas um orixá, o da própria tribo, mas também havia casas freqüentadas por muitas nações, onde vários orixás eram cultuados, e por isso recebiam o nome de candomblés (GONÇALVES, 2006, p. 319).
Por fim, vale registrar a ocorrência de processos migratórios e de transformação cultural que envolveram os regressados à África. Quanto a isso, acrescenta Ajayi (2010, p. 903): “Enquanto os africanos desembarcados no Novo Mundo são contados aos milhões, os seus descendentes retornados à África não passariam de alguns”; ainda que em número reduzido, essa experiência de retorno revela-se, com precisão, no fragmento abaixo:
Na verdade, todos os brasileiros, mesmo que não o fossem, eram considerados brancos, porque aos olhos dos africanos, nós agíamos como brancos, morávamos em casas diferentes, tínhamos hábitos diferentes, como o de usar talheres e ter móveis como a mesa e a cama, que não eram usuais em África (GONÇALVES, 2006, p. 498).
Assim, esse “algo no meio”, no dizer de Chambers apud Hall (2013), vivido no decorrer da experiência diaspórica, marca a trajetória daqueles que passaram ou passam – diáspora moderna – por um processo de ruptura com suas raízes. Nessa situação, a volta para ‘casa’ sempre traz o acúmulo de feitos, esses irrevogáveis, e, incapazes de serem abolidos da memória. Portanto, o olhar diferente dos que ficaram em relação aos retornados, e, ao mesmo tempo, a introdução e manutenção deste arsenal (linguístico ou religioso, por exemplo) apreendido no exterior por aqueles que retornam evidenciam segundo Hall (2013) um diálogo de trajetórias, de trocas, que se entrecruzam tanto do colonizador para com o colonizado, como em sentido inverso.
Perfeitos sem defeitos
Segundo Ajayi (2010), a construção das sociedades do Novo Mundo deve-se a presença marcante dos africanos e afro-americanos, como modernamente são chamados seus descendentes. Se hoje esse papel importante do negro é tardiamente reconhecido na História das Civilizações, no período colonialista, negros e negras foram reduzidos, humilhados e desumanizados. Essa desvalorização não se restringiu somente às teorias racistas do século XIX, mas cuidou também de demonstrar na prática cotidiana um conjunto de condutas com intenção de inferiorizar racialmente o indivíduo negro (MUNANGA, 1988). O mesmo autor acrescenta que três elementos compõem esse proceder racista: “descobrir e pôr em evidência as diferenças entre colonizador e colonizado, valorizá-las em proveito do primeiro e em detrimento do último e levá-las ao absoluto, afirmando que são definitivas, e agindo para que assim se tornem” (MUNANGA, 1988, p. 21).
Na obra em estudo, a protagonista Kehinde vivencia inúmeras experiências discriminatórias e preconceituosas em relação à cor, como demostram os excertos abaixo:
Fingi acreditar, mas sabia que, no fundo, ele tinha vergonha de assumir que estávamos morando juntos. Afinal de contas, as pretas serviam para que os brancos satisfizessem os desejos carnais, como a Claudina e a Adeola tinham dito, e raramente eram boas o bastante para chegarem a esposas (p. 226).
A Esméria disse que era assim mesmo, que os homens precisavam estar entre homens, e que no meu caso era ainda pior, por eu ser preta e o Alberto ser branco (p. 233)
Eu queria morrer, mas continuava mais viva que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô José Carlos sobre o meu (…) (p. 108).
Ele então se aproximou e agarrou meu braço com a alça da bengala, quase derrubando o tabuleiro que eu levava na cabeça, falando que eu era uma negrinha que, além de estúpida, devia ser cega (p. 158).
De início tentaram me enxotar enquanto eu dava uma olhada nas prateleiras, dizendo que os produtos que estavam ali não eram para o meu paladar e muito menos para o meu bolso (p. 174).
Mas os comerciantes preferiam os mulatos aos pretos, achando que a mistura de sangue branco fazia deles pessoas mais capazes para os serviços que exigiam inteligência. E sempre homens; acho que nunca vi mulheres atrás dos balcões ou cuidando dos livros de contas (p. 154).
Nos trechos acima, predominam dois registros de racismo identificados por Hall (2013): o racismo biológico e a discriminação cultural, presentes, quase sempre, segundo o autor, de modo simultâneo, ou seja, incorporam-se a esses indivíduos todos os defeitos em razão da cor – um coletivo anônimo –, ao mesmo tempo em que tudo o que lhes pertence, valores materiais e imateriais – é retirado, ridicularizado ou proibido. Diante disso, afirma Munanga (1988, p. 23): “(…) Jamais se caracteriza um deles individualmente, isto é, de maneira diferencial. (…) Colocado à margem da história, da qual nunca é sujeito e sempre objeto, o negro acaba perdendo o hábito de qualquer participação política ativa, até o de reclamar”.
Entretanto, ainda que silenciados pela força e desestabilizados psiquicamente em um período marcado pela exploração da mão de obra escrava, muitos foram os mecanismos de resistência individual e coletiva. Em um defeito de cor, há menção a quilombos, reconhecidamente territórios de resistência negra: “O Jacinto então falou da última rebelião da qual tinha participado, depois de ter se juntado a uns pretos no Quilombo do Urubu (GONÇALVES, 2006, p. 179). Contudo, a Revolta de Malês encontra espaço privilegiado na narrativa para descrever minuciosamente esse movimento de luta armada ocorrida na cidade de São Salvador no ano de 1837, desde o planejamento, seus mentores até a emboscada, que resulta em morte dos rebeldes, como a seguir: “Isso era bem verdade, pois eu já tinha ouvido várias pessoas dizendo que os muçurumins, que alguns chamavam de malês [Malê: corruptela de imole, que em iorubá significa muçulmano, ou preto islamizado, o muçurummim] (GONÇALVES, 2006, p. 264); “Era sobre isso que os muçurumins tanto conversavam, e o Fatumbi disse que estavam muito próximos de um acordo entre eles, para depois começarem a planejar uma rebelião” (GONÇALVES, 2006, p. 277); “Foi naquele mesmo dia que o Fatumbi me contou que já tinham escolhido a data da rebelião, ia ser durante as festas de entrudo do próximo ano, no fim de fevereiro” (GONÇALVES, 2006, p. 315); “A denúncia de que uma rebelião estava para começar foi feita no início da noite de sábado por um nagô liberto, que também se chamava Domingos” (GONÇALVES, 2006, p. 334).
Finalmente, pode-se afirmar que o deslocamento continental (África-Atlântico-Brasil-Atlântico-África-Atlântico) descrito pela protagonista e vivenciado por ela, kehinde, é fruto de uma trajetória que opera entre dois opostos: opressão e resistência, não necessariamente em equilíbrio, em medidas iguais. Na verdade, porque polos tão díspares, sempre instáveis, conquanto sempre consequência da experiência humana.
Considerações finais
A análise da biografia da personagem permitiu uma visão mais aguçada acerca da histórica luta que se dá a partir das rupturas com o instituído. No caso de Kehinde, as vicissitudes da escravidão e a opressão em relação à negritude demandam processos constantes de apropriação que vão desde a língua do colonizador à conversão religiosa, mas que, na personagem, não conduzem à assimilação e sim à emancipação política e econômica de uma mulher negra e africana.
Por fim, vale dizer que Um defeito de cor traz em seu nome uma provocação que remete a um texto de Munanga (1988:79), que resume a ideia título: “os negros não foram colonizados por que são negros, ao contrário na tomada de suas terras e na expropriação de sua força de trabalho, com vista à expansão colonial, é que os negros tornaram-se pretos”.
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Bio fornecida pelo palestrante.
CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM ÚRSULA E UM DEFEITO DE COR
Alana Yasmim dos Santos
Universidade Federal do Piauí – UFPI
Resumo: Neste trabalho realizou-se análises acerca das construções identitárias da mulher negra nas obras Úrsula (2004), de Maria Firmina dos Reis, e Um defeito de cor (2013), de Ana Maria Gonçalves. Através da dialogicidade entre as autoras de épocas distintas, buscou-se analisar como foi descrito os processos de construções identitárias das personagens negras escravizadas no Brasil: Susana (Úrsula) e Kehinde/Mahin (Um defeito de cor). Para tanto, foram analisadas passagens e situações narrativas relativas ao lugar de memória como instrumento de construções identitárias e do discurso como espaço interacional no qual o indivíduo se faz sujeito.
Abstract: In this essay the building of black women identities is analyzed in the works Úrsula (2004), by Maria Firmina dos Reis, and Um defeito de cor (2013), by Ana Maria Gonçalves. Through the dialogue between these authors from distinct times, an analysis is proposed to explain how the identity of the characters, two black women slaves in Brazil, was built: Susana (in Úrsula) and Kehinde/Mahin (in Um defeito de cor). An analysis of some passages and narrative scenes is presented in relation to memory as a tool for identitary construction and to discourse as an interational space in which the individual becomes a subject.
Palavras-chave: Úrsula. Maria Firmina dos Reis. Memória. Construção identitária.
Key-words: Úrsula. Maria Firmina dos Reis. Memory. Identity construction.
Minicurrículo: Graduanda do curso de Letras-Português pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), participou da Iniciação Científica Voluntária (2014-2015) como integrante do Projeto de Pesquisa Teseu, o labirinto e seu nome, vigente na Universidade Federal do Piauí. Neste projeto de pesquisa, desenvolveu o trabalho Úrsula e Um defeito de cor: prefácios à literatura afroamericana, que deu suporte para a construção deste artigo. Além disso, possui interesse em pesquisas sobre Literatura Fantástica e o Mal na Literatura, tendo desenvolvido o trabalho de conclusão de curso nesta área.
CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM ÚRSULA E UM DEFEITO DE COR
Alana Yasmim dos Santos
Universidade Federal do Piauí – UFPI
INTRODUÇÃO
Neste trabalho, Memória e discurso em Úrsula e Um defeito de cor serão apresentadas as análises acerca das construções identitárias nas obras Úrsula (2004) e Um defeito de cor (2013), a partir das personagens Preta Susana em Úrsula (2004) e Kehinde/Mahin em Um defeito de cor (2013). Essas duas personagens possuem voz para contar a sua própria versão dos fatos históricos, do ponto de vista de quem sofreu com todas as torturas físicas e psicológicas de não se sentir pertencer mais a sua terra e nem mesmo a si, ao serem escravizadas no Brasil.
Segundo Duarte (2010), na historicidade da literatura afro-brasileira muitas vozes foram silenciadas e escritos não publicados, e a pouca divulgação de textos afrodescendentes “[…] impediu que a maranhense Maria Firmina dos Reis viesse a constar dos manuais clássicos de nossa historiografia literária” (DUARTE, 2010, p. 20). Mott (1989), em Escritoras negras: resgatando nossa história, pontua que a recuperação dos escritos de matriz negra feminina é um trabalho de muita dificuldade, devido a pouca preservação desses textos durante a história. Segundo Campos (2008), na literatura brasileira, a mulher negra tem sido representada negativamente a partir da visão dos escritores brancos. Quando não é silenciada e oprimida, a mulher negra é retratada a partir do corpo como objeto de abuso e violência. Além disso, segundo Campos (2008), a mulher negra não é representada como uma heroína ou romântica, e nem são explorados seu sentimento, pensamento e sofrimento como sujeito escravizado. A construção da mulher negra, na literatura brasileira canônica, se resume a uma valorização do corpo como objeto de apropriação, de prazer de outrem.
Nas obras Úrsula (2004) e Um defeito de cor (2013), a mulher negra conta a sua história desde o tempo livre na terra África, a travessia do Atlântico e a vida como vítima da escravização no Brasil. Nessas obras, não há a representação da mulher negra do ponto de vista do sujeito branco, e sim a mulher negra enunciadora, sendo explorados suas vivências, seu sofrimento quanto sujeito exilado e escravizado. Neste trabalho, analisou-se as contruções identitárias de Preta Susana e Kehinde através dos discursos memorialísticos, passagens e situações narrativas relativas ao lugar da memória como instrumento de construções identitárias.
DESENVOLVIMENTO
Úrsula (2004) é o primeiro romance abolicionista e primeiro escrito por uma mulher no Brasil, no ano de 1859. Maria Firmina dos Reis foi uma escritora mestiça, maranhense e abolicionista que debateu e refletiu sobre a escravidão no XIX. A pioneira, Maria Firmina dos Reis, publicou o romance Úrsula (2004) dez anos antes do conhecido poema de Castro Alves, “Navio Negreiro”. Há pouco reconhecimento da obra de Maria Firmina dos Reis, devido alguns motivos, como a publicação distante do centro cultural e ser de autoria de uma mulher negra. Além disso, essa obra deu ao negro uma visão diferenciada do que era visto até então na literatura: “a de ser humano privilegiado, portador de sentimentos, memória e alma” (MENDES, 2011, p. 79).
Úrsula (2004) é um expoente do Romantismo e narra o amor entre Tancredo e Úrsula. O romance possui três personagens negras e escravizadas são elas: Túlio, Preta Susana e Antero. Estas personagens, diferentemente de outras obras da época, possuem voz e podem contar a sua história. Segundo Mendes (2011), Maria Firmina dos Reis “adota posicionamento explicitamente antiescravagista, diferente de Joaquim Manuel de Macedo, em As vítimas algozes; Bernardo Guimarães, em A escrava Isaura” (MENDES, 2011, p. 79).
No capítulo IX de Úrsula (2004), Preta Susana relata a dura travessia no navio negreiro para Túlio. Este capítulo é dedicado a narração de Preta Susana, o que configura uma inovação, pois “até onde se sabe, na literatura, o negro não era concebido como ser humano” (MENDES, 2011, p. 83). Diferentemente de obras que exploraram a mulher negra pelo viés da sexualidade, ou seja, que reduziram a mulher negra à um objeto sexual e de desejo dos homens brancos, Preta Susana é caracterizada como uma mulher idosa, de memórias sofridas e duras por ter sido arrancada do berço-mãe: África. Mendes (2011) aponta Preta Susana como “porta-voz da verdade histórica” (MENDES, 2011, p. 83). Susana fala da sua terra-mãe, a África, baseando seu discurso nas suas memórias e ancestralidade africana. Em Úrsula (2004), o negro passa de objeto a sujeito do discurso, acentuando que:
(…) a existência da literatura negra se dá a partir do momento em que o negro deixa de ser somente tema, deixa de ser objeto para uma literatura alheia e passa a criar a sua própria, assumindo o papel de sujeito. Para ela, [Luiza Lobo] essa mudança de posição, de papel, define o surgimento da literatura negra no Brasil. (EVARISTO, 2010, p. 134).
A fim de apresentar à Túlio a verdadeira liberdade, Preta Susana, em um discurso memorialístico, conta sua história, desde a sua vida na terra africana, onde “tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país” (REIS, 2004, p.115) até a sua vinda para o Brasil, como migrante nu. Segundo Glissant (2005), o migrante nu é o indivíduo transportado à força para um novo continente. Esse indivíduo é retirado de sua nação, de sua família, de sua cultura, de sua língua, e reconstrói-se no novo continente a partir de vestígios da memória a fim de estabelecer aproximação com suas origens identitárias e culturais. O migrante nu “recompõe, através de rastros/resíduos, uma língua e manifestações artísticas” (GLISSANT, 2005, p.19). Esse resgate das antigas tradições, por meio da memória, é uma maneira que o escravizado encontrou para se reterritorializar no Brasil, pois “a lembrança tem sempre uma função de reterritorialização” (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p. 80). Sendo possível, dessa maneira, reconstruir a cultura africana “que se desteceu pelos caminhos, recolher fragmentos, traços, vestígios, acompanhar pegadas na tentativa de reelaborar, de compor uma cultura de exílio refazendo sua identidade de imigrante nu (EVARISTO, 2010, p. 132).
A desterritorialização, segundo Deleuze e Guattari (1997), é o movimento de saída/abandono de um território e a reterritorialização é o movimento de construção de um território. Sendo assim, os dois processos são indissociáveis, pois “todo movimento de desterritorialização carrega consigo elementos de reterritorialização” (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p.01). A desterritorialização dos africanos trazidos pelo tráfico de escravos para o Brasil possui raízes bem profundas, pois o sujeito negro perdeu o direito a liberdade – sendo transformado em objeto -, perdeu a sua casa, sua família, sua vida, sua cultura e sua língua, sem a chance de retornar para a terra-mãe.
Segundo Schimitt e Turatti (2002), o parentesco e o território constituem a identidade do homem, pois “os indivíduos estão estruturalmente localizados a partir de sua pertença a grupos familiares que se relacionam a lugares dentro de um território maior.” (SCHIMITT e TURATTI, 2002, p. 4). Ao chegarem ao Brasil, os africanos não se reconheciam, não se sentiam pertencidos a essa terra que os acolheu tão cruelmente. Por isso, para combater essa desterritorialização, os negros escravizados foram além da necessidade de um espaço territorial para si, mas buscaram desenvolver uma identidade cultural e simbólica baseada nas heranças africanas, para que recriassem a vida com base no que se identificam e se sentem pertencer.
O teórico Maurice Halbwachs (apud FERREIRA, 2013, p. 19) reflete a memória sob a ótica da sociologia e da história. Memória é construção coletiva, ou seja, o que é lembrado por um indivíduo não é somente uma lembrança dele, mas sim de um meio em que viveu e partilhou com outros indivíduos as mesmas vivências e lembranças. Na literatura afro-brasileira, segundo Evaristo (2008, p. 6), é perceptível “o caráter pessoal e coletivo da memória como possibilitador de construção de uma identidade”.
Logo, através da memória coletiva, há a recuperação/reconstrução de pessoas, sentimentos, sensações, acontecimentos, e, principalmente, da identidade. Em Úrsula (2004), Preta Susana é a voz de uma realidade de abusos e violências do povo africano no Brasil; é a voz da identidade africana sobrevivente na memória dos que sofreram com a diáspora. Sendo assim, segundo Indursky e Campos (2000),
(…) a memória é um referencial vivo na construção das identidades, pois, em sua capacidade de filtrar e manter o sentido, atua por meio de seus processos e efeitos, os quais podem ser tanto de lembrança, de redefinição e de transformação quanto de esquecimento, de ruptura e de negação do vivido e do já dito. Se a memória é, portanto, um fator inerente a construção de identidade, o discurso é o espaço de conhecimento e de interação através do qual o ser humano se faz sujeito, inscrevendo-se no campo da prática social, que é eminentemente histórica. (CAMPOS, INDURSKY, 2000, p. 12)
A recuperação das memórias é fator fundamental para a recuperação de uma identidade africana na terra de exílio na obra de Maria Firmina dos Reis. A memória é uma maneira de manter viva informações, costumes, tradições, e ao mesmo tempo, as mesmas são atualizadas e reconstruídas durante a história de uma sociedade. As tradições africanas possuem base oral, transmissiva, logo, a memória é fonte de manutenção da identidade do povo africano que foi sequestrado de sua terra, de sua família. Nascimento (2006) confirma que:
A memória, faculdade tantas vezes negada aos escravos e seus descendentes (lembremo-nos que eram considerados sem alma, portanto sem humanidade, consequentemente, sem memória – cadeias de subtrações a forjá-los pelo signo da falta), a memória, repetimos, será a mola impulsionadora dos textos das escritoras afro-brasileiras. Recuperação de reminiscências relegadas ao avesso do afresco histórico das representações brasileiras (NASCIMENTO, 2006, p.78).
Na obra, Preta Susana resgata lugares de memória para explicar ao jovem Túlio o que é liberdade. O lugar de memória foi um conceito construído pelo historiador francês, Pierre Nora, para definir lugares que possuem uma memória, uma função, um significado simbólico, como museus (lugares topográficos), aniversários (lugares simbólicos) ou autobiografias (lugares funcionais) (LE GOFF, 1990, p. 473). Os lugares de memória presentes no discurso de Preta Susana se referem a um passado repleto de significado e simbologia: é a lembrança de uma felicidade genuína, de um lugar que se sentia pertencer, lugares que dividiu com companheiras, lugares topográficos que guarda na memória quando ia “em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias” (REIS, 2004, p. 115). Sem esse resgate ancestral através dos lugares de memória, não há a reconstrução identitária da personagem Preta Susana.
O discurso sobre a diáspora e sobre a escravização de Preta Susana procura desmistificar a visão que se tinha de que o negro não possui história, identidade ou cultura, e de romper com a ideia de um negro escravizado passivo. A memória afro-brasileira é uma forma de resistência e sobrevivência do sujeito negro; é fonte de reconstituição identitária. A literatura negra, segundo Bernd (apud FONSECA, 2006, p. 28), seria uma “tentativa de preencher vazios criados pela perda gradativa da identidade determinada pelo longo período em que a ‘cultura negra’ foi considerada fora-da-lei […]”.
A militância contra a estereotipificação do indivíduo negro é um dos motivos que fazem da obra de Maria Firmina dos Reis tão importante na literatura afro-brasileira. A personagem Preta Susana utiliza a memória para reconstruir a sua identidade cultural, que sofreu dolorosas interferências e mudanças durante a travessia, além do sofrimento por não ser mais livre e não estar em sua terra. A mesma militância está presente também na obra contemporânea Um defeito de cor (2013) da escritora Ana Maria Gonçalves.
A história de Um defeito de cor (2013) é construída, segunda a autora, a partir de cartas que encontrou casualmente em uma visita a Ilha de Itaparica. Essas cartas, muitas amareladas, rasuradas e até mesmo perdidas, contavam a história de uma escrava alfabetizada chamada Kehinde (que no Brasil passou a ser chama Luísa Mahin) e que estavam destinadas ao seu filho desaparecido, Luís Gama, que é considerado o fundador da literatura afro-brasileira. Ana Maria Gonçalves tem em mãos a tarefa de reescrever essas cartas e completar os espaços vazios que existem nesta história, sendo possível recontar a história do negro escravizado no Brasil, a partir da vida de Kehinde. Apresentar a obra como consequência de uma descoberta acidental é apontado por Zilá Bernd (2012) como um artifício literário já utilizado por outros autores, como J.J. Rousseau e C. De Laclos, pois isto confere a obra um poder enunciativo à protagonista.
Segundo Bernd (2012), “é a partir de vestígios (traces), de cartas consideradas sem nenhum valor e semidestruídas, que a narrativa constitui importantes acontecimentos ocorridos na Bahia, como a Revolta dos Malês (1835)” (BERND, 2012, p. 31). A noção de traces de Derrida (1967) resulta que “a origem nos movimentos de desconstrução implica uma não-origem, um vestígio, um rastro (trace) antes de outro suposto vestígio” (DEANGELI, 2008, p. 176). Sendo assim, o rastro é renovado constantemente, ao longo de novas experiências, sendo impossível encontrar uma origem definitiva.
Segundo Bernd (2014, p. 18 apud Viart, 2008, p. 79-101), o romance francês atual têm se preocupado com a temática ancestral resultando em um romance memorial, o qual Viart (2008) denomina romance de filiação. Esse romance “articula-se a partir de vestígios (objetos da casa paterna, cartas, fotos) ou da falta (pais ausentes, transmissão imperfeita).” (BERND, 2014, p. 19). Kehinde constrói sua trajetória pessoal e histórica a partir das suas vivências, das suas lembranças, e ao transformar essa memória em texto escrito, põe no papel o desejo de contar ao filho sobre suas origens, ou seja, transmitir a herança africana ancestral, e ao relembrar sua história reconstitui sua identidade africana, pois como bem salientou Bosi (1994) a memória é um trabalho de reconstrução.
Em Um defeito de cor (2013), a personagem Kehinde faz três travessias pelo Atlântico. Na primeira travessia, há a desterritorialização de Kehinde, que é obrigada a aprender a língua portuguesa e passa a ter um novo nome (Luísa Mahin). Usurpado o direito de viver livre em sua terra, Kehinde juntamente com sua irmã gêmea e avó são trancafiadas em um navio negreiro, conhecido também como tumbeiro. A protagonista descreve de maneira realista e sofrida a vivência dentro do navio, descreve a partir da visão de quem sofreu a violência do tráfico:
Durante dois ou três dias, não dava para saber ao certo, a portinhola no teto não foi aberta, ninguém desceu ao porão e estava quase impossível respirar. Algumas pessoas se queixavam de falta de ar e do calor, mas o que realmente incomodava era o cheiro de urina e de fezes (GONÇALVES, 2013, p. 48).
Após o falecimento da avó, Kehinde passa a refletir sobre a morte, o futuro incerto na terra hostil e a dor de se estar longe de casa, longe do conhecido, do familiar: “Não estava mais na minha terra, não tinha mais a minha família, estava indo para um lugar que não conhecia (…)” (GONÇALVES, 2013, p. 61). Também no primeiro capítulo da narrativa memorial de Kehinde, ela relembra com ternura lugares de memórias de sua infância, momentos de danças que compartilhou com sua mãe e irmã gêmea e que compõem uma identidade cultural ancestral do povo africano: “Ela dançava e as pessoas colavam cauris em sua testa, e quando eu e a Taiwo éramos pequenas, colavam ainda mais, pois a minha mãe dançava com nós duas amarradas ao corpo” (GONÇALVES, 2013. p. 21).
Bernd (2012) observa que o romance possui três características que também estão presentes no fazer poético da escrita feminina contemporânea na literatura afro-brasileira: a primeira delas é a de procurar os “guardados da memória” (BERND, 2012, p. 31), por meio dos traços e fragmentos deixados pela herança ancestral; a segunda é que a construção identitária se baseia na procura das origens, e a terceira seria o “resgate da memória transatlântica” (BERND, 2012, p. 31). A respeito da memória, há a presença da memória histórica, que é o resgate da história do negro no Brasil, e a memória familiar, ou seja, as sabedorias, ensinamentos que o negro africano adquiriu com sua família em terra africana. A crença nos orixás africanos e a lembrança viva de sua família (principalmente mãe, irmã e avó), que estão enraizadas na memória, são o que fazem Kehinde suportar as dores, as violências e os abusos da escravização. Além disso, Kehinde carrega consigo a força ancestral de sua avó:
Então, mesmo que não fosse através dos voduns, ela (a avó) me disse para eu nunca esquecer da nossa África, da nossa mãe, de Nanã, de Xangô, dos Ibêjis, de Oxum, do poder dos pássaros e das plantas, da obediência e respeito aos mais velhos, do culto e agradecimentos. (GONÇALVES, 2013, p. 61).
Essas lembranças que se ligam a rituais, elementos ritualísticos, comemorações, bem como ensinamentos que são transmitidos, fazem parte de uma memória cultural ou transmissão do sentido, que compõem, juntamente com a memória mimética, memória dos objetos e memória comunicacional as quatro dimensões da memória externa, segundo Assmann (apud BERND, 2014, p. 16). Ao chegar ao Brasil, Kehinde inicia um processo de reterritorialização, com os escravizados que passa a ter contato e que serão sua nova família. A fim de reconstituir os tecidos da memória ancestral, Kehinde encontra no terreiro da Casa de Minas uma forma de relembrar as tradições e rituais africanos, que por muito tempo foram silenciados e oprimidos pela imposição da religião católica. Relembrar esses rituais, essa memória cultural, é uma maneira de construção identitária da personagem Kehinde, tornar a se ligar aos ensinamentos da avó, tornar vivo os rastros da memória.
O resgate memorialístico de Kehinde formam a dupla reconstruir e transmitir, pois sem a memória ancestral não é possível a reconstrução identitária (BERND, 2014, p. 21) e sem a transmissão de geração para geração dessas tradições e vivências não há a memória cultural (HUYSSEN, apud BERND, 2014, p. 16). Assim como em Úrsula (2004), Kehinde representa o indivíduo africano que foi “tirado à força, de forma brutal e bestial, de sua terra natal, foi animalizado e classificado como objeto, coisa (…)” (Mendes, 2006, p.169). As duas personagens utilizam a memória como um instrumento de resgate e aproximação da herança cultural africana.
O discurso memorialístico de Kehinde, que escreveu a história da sua vida aos 80 anos de idade, traz toda a dor do negro escravizado e o sentimento de não ser livre e de não pertencer a nenhum lugar. Assim como Preta Susana, o discurso versa sobre o sonho de voltar para a liberdade que um dia conhecera. O Oceano Atlântico separava o indivíduo africano da verdadeira liberdade. São denominadas memórias transatlânticas aquelas que no mar originam o chamado Atlântico Negro, que é uma “estrutura rizomórfica e fractal da formação transcultural e internacional” (GILROY, apud BERND, 2012, p.35). Em Um defeito de cor (2013), há passagens do livro que fazem os descendentes dos ex-escravizados sentirem orgulho, como as formas de resistências, como a descrição da formação dos quilombos, a preservação da cultural oral, mas também traz momentos que deveriam ser esquecidos, como os castigos, os abusos sexuais e a privação da liberdade (BERND, 2012).
CONCLUSÃO
Úrsula (2004) e Um defeito de cor (2013) evidenciam a identidade afro-brasileira e a construção identitária do indivíduo negro através do discurso das personagens. Em Úrsula (2004), Preta Susana é a enunciadora do seu próprio discurso e narra a sua vida na terra livre, a África, para Túlio, que, segundo ela, não conheceu a verdadeira liberdade. O discurso de Preta Susana é forte e libertador, pois evidencia que, mesmo tendo uma alforria em mãos, Túlio jamais seria livre, pois só há liberdade quando se está em sua terra, com sua cultura, com sua história.
Em Um defeito de cor (2013), Kehinde é arrancada da terra África com sua irmã gêmea e avó. As duas morrem no tumbeiro, devido às más condições durante a viagem. Ao chegar ao Brasil, Kehinde não é mais a mesma, o cruel processo de desterritorialização faz com que ela busque na memória lembranças da África, dos momentos bons em que estava livre com sua mãe, avó, irmã. A partir da memória, Kehinde consegue aos poucos tecer sua identidade cultural africana em um processo de reterritorialização.
Nos dois discursos, de Preta Susana e Kehinde, é perceptível a função da memória como resgate da identidade afrodescendente. Durante a diáspora, o negro africano sofreu duras interferências em sua identidade, tanto na travessia, dentro do navio, como no Brasil, onde foi subjugado ao sistema cruel da escravização. Nas duas obras, a memória é um instrumento de reterritorialização do sujeito africano, através de readaptações e resgates da cultura de matriz africana.
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Bio fornecida pelo palestrante.
NO SILÊNCIO DE CLARICE: A PRODUÇÃO DE SENTIDOS A PARTIR DA OBRA ÁGUA-VIVA
Danielly Christina de Souza Mezzari
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
Rafael Siqueira Guimarães
Universidade Federal do Sul da Bahia
Resumo: Este artigo é composto de uma análise e reflexão acerca da obra Água-viva, de Clarice Lispector. A literatura desta autora pode nos ajudar a vislumbrar a importância do papel ativo do sujeito no que diz respeito à interpretação e à própria produção das informações, relatos e experiências que nos chegam, seja por meio da mídia, de livros, internet ou do contato com outros sujeitos. Realizamos uma pesquisa cartográfica com o intuito de analisarmos como se dá o processo de produção de sentidos na obra já citada da autora. Consideramos que a literatura de modo geral se apresenta como uma forma de resistência à linguagem estereotipada e enrijecida do cotidiano
Abstract: This article proposes an analysis and a reflexion about Clarice Lispector’s novel Água viva. Her work will help us to glimpse at the importance of the subject’s active role when it comes to the interpretation and the production of information, the stories and experiences that are divulged either by the media, books, the internet or the contact with other people. It will produce a cartographic research aiming at analysing how this literary work produces an effect on the senses. It considers literature in general as representing a form of resistance to the daily stereotypes of stiff language.
Palavras chave: Clarice Lispector, sentidos, silêncio.
Keywords: Clarice Lispector, senses, silence.
Danielly Christina de Souza Mezzari: Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual do Centro-Oeste, de Irati/PR. Mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, de Assis/SP e membro do Grupo de Pesquisa GEPS – Grupo de Estudos e Pesquisas em Sexualidades, da UNESP/Assis.
Rafael Siqueira de Guimarães: Psicólogo, performer e produtor cultural. Doutor em Sociologia pela Unesp/Araraquara, Professor Adjunto na Universidade Federal do Sul da Bahia, Líder do Grupo de Pesquisa ETC – Estéticas, Tecnologias, Criações e Etecetera – além de membro do Coletivo Artístico Elenco de Ouro.
NO SILÊNCIO DE CLARICE: A PRODUÇÃO DE SENTIDOS
A PARTIR DA OBRA ÁGUA-VIVA
Danielly Christina de Souza Mezzari
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
Rafael Siqueira Guimarães
Universidade Federal do Sul da Bahia
Introdução
É pela palavra, mal dita (maldita?) palavra, que ousamos trilhar um caminho absurdo feito de falhas, de espaços em branco, nos quais nos expressamos de modo mais aproximado daquilo que na verdade buscamos dizer. “Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários, criados, de cada vez, para revelar a vida nas coisas” (DELEUZE, Gilles, 1993, p. 13). O que será que há no processo de escrita que o ultrapassa a ponto de fazer com que, muitas vezes, seja apenas no que se julga ser o seu contrário, no silêncio, que esteja presente a possibilidade de nos fazermos sentir naquilo que realmente nos interessa? Como será que, pela palavra, surge a palavra ao avesso e nela construímos uma híbrida relação que não se presta a diferenciar o que é o corpo-leitor do que é o corpo-autor ou corpo-livro?
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente (LISPECTOR, Clarice,1976, p .21).
Ao lermos os textos de Clarice temos a impressão que a autora luta o tempo todo para rasgar a palavra e dela (quem sabe atrás ou ao lado dela) fazer aparecer o que realmente se pretendia anunciar. “Fracasso e falha parecem ser o alvo de Clarice que, no momento em que constata a distância do que desejava falar e do que fala, transforma esse fracasso no próprio tema e meta a serem perseguidos” (BITENCOURT, Anderson, 2011, p. 89).
Surge desta luta constante uma angústia proveniente da tentativa de “captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 09). É nesta característica da palavra, expressa por Clarice Lispector, de ao mesmo tempo ser fonte e limite da possibilidade de alcançar o real das coisas que procuraremos nos debruçar, direcionar e aprofundar o nosso olhar e análise. Como se dá este processo de buscar pela palavra superar a abstração que lhe é inerente? A partir daí, quais os subsídios que a escrita da autora pode proporcionar na direção de produzir sentidos, e não de os encontrar? Acreditamos que o desenvolvimento desta pesquisa se justifica e se sustenta devido à importância de se pensar na construção de sentidos. Temos, hoje, uma disseminação de informações que cria e impõe ao sujeito sentidos já prontos e que, portanto, não necessitam da participação deste no que diz respeito à criação e desenvolvimento de suas próprias atribuições a partir de suas vivências e experiências.
A literatura de Clarice Lispector pode nos ajudar a vislumbrar a importância do papel ativo do sujeito no que diz respeito à interpretação, interação e à própria produção das informações, relatos e experiências que lhe chegam seja por meio da mídia, de livros, internet ou do contato com outros sujeitos. Inúmeras são as possibilidades de compreensão acerca do que pode vir a ser o sentido e quais são as melhores formas de tentar captá-lo. Silveira Bueno (2007) em seu minidicionário da língua portuguesa fornece algumas conceituações para a palavra “sentido”, tais como “cada uma das formas de receber sensações, segundo os órgãos destas”, “faculdade de sentir ou apreciar”, “juízo”, “bom senso”, “significação”. Ou seja, o sentido nos remete geralmente a sensações ou a significados.
No entanto, ao nos depararmos com a literatura de Clarice Lispector alguma coisa fica por ser dita. Ela não dá respostas, não há um caminho, não há nenhum significado estabelecido nas suas linhas. As suas palavras se decompõem e se rearranjam de acordo com os olhos, com o corpo todo por fim, de quem as lê. É quando o leitor se deixa tocar, ou quando alguma coisa no texto encontra alguma coisa no leitor, que se produz um sentido, ou qualquer outra coisa, para o que foi lido. Não há nada para ser encontrado nas palavras tecidas pela autora. É a possibilidade de produção de sentidos que nos é apresentada.
Tendo em vista o objetivo da presente pesquisa, consideramos pertinente trabalharmos com o método cartográfico proposto por Guilles Deleuze e Félix Guattarri (1995). Nas palavras de Roberta Carvalho Romagnolli (2009, p. 169) “(…) mais do que procedimentos metodológicos delimitados, a cartografia é um modo de conceber a pesquisa e o encontro do pesquisador com seu campo” (ROMAGNOLI, Roberta, 2009, p. 169).
O método aparece como uma nova proposta para reencontrar o saber que está em crise. Sendo assim, a cartografia é um método, já que não parte de um modelo pré-estabelecido, como nos diz a autora, mas sim os questiona a partir de uma fundamentação própria. Não há passos a serem seguidos ou normas a serem cumpridas para que se possa trabalhar a partir deste viés. É principalmente na criatividade e nos afetamentos produzidos no processo que uma produção poderá se tornar possível.
O papel do pesquisador adquiri uma importância singular já que o entendimento da produção no contexto desta pesquisa é pensado como sendo construída: “(…) a partir das percepções, sensações e afetos [do pesquisador] vividos no encontro com seu campo, seu estudo, que não é neutro, nem isento de interferências e, tampouco, é centrado nos significados atribuídos por ele” (ROMAGNOLI, Roberta, 2009, p.170).
Gilles Deleuze e Félix Guattarri (1995), ao descreverem os seis passos necessários para se pensar o rizoma, opõem o mapa da cartografia ao decalque. O mapa, segundo os autores, está voltado para a experimentação, a abertura, a conexão, o desbloqueio. Ele pode ser moldado, revertido, refeito. Pode-se, através do mapa, realizar conexões com as mais diversas formas e nos mais diversos formatos: “Um mapa tem múltiplas entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’. O mapa é uma questão de performance, enquanto que o decalque remete sempre a uma presumida “competência” (DELEUZE, Gilles, GUATTARRI, Félix, 1995, p. 21).
A questão, no entanto, não diz respeito a uma invalidação de tudo aquilo que é do âmbito do decalque. As estruturas, as “competências”, o que já foi duramente significado também fazem parte do processo e compõem o rizoma, o mapeamento. Se os rizomas e mapas, como nos afirmam os autores, possuem múltiplas entradas, então que se possa entrar também pelo viés do decalque, das ‘árvores-raízes’. “No coração de uma árvore, no oco de uma raiz ou na axila de um galho, um novo rizoma pode se formar” (DELEUZE, Gilles, GUATTARRI, Félix, 1995, p. 23). É na relação que se desenvolverá entre pesquisadora e texto que a produção será possível. É, portanto, uma produção única dentre as infinitas possibilidades de construções. Única, já que se delineia a partir de um determinado lugar e referencial, de alguns olhares e de alguns sujeitos.
A partir do que já foi exposto, dos referenciais e afetamentos que inevitavelmente atravessam esta pesquisa, como podemos pensar esse processo almejado por Clarice Lispector de, pela palavra, superá-la e ir além do que ela propõe? Ou seja, como pode um mesmo texto abrir portas para tantas interpretações, para tantos sentidos? Orlandi (1995) nos diz que o silêncio é condição para a produção de sentidos. Ele não é vazio, sem sentido, pelo contrário, é o indício de uma totalidade significativa.
Sendo o silêncio condição para a produção de sentidos, é ele também condição para o movimento necessário para a criação. É no silêncio que a palavra se assenta e é por ele que a palavra se torna infinita. Infinita porque é inesgotável. Inesgotável porque o seu alicerce é o indizível. Indizível que se pluraliza e se multiplica, paradoxalmente, através da palavra e do que pode fazer com ela aquele que a lê:
É isso… o silêncio… Única palavra à altura do impensado. Mas, para poder ouvir o silêncio, é preciso dispersar toda identidade, abrir mão de toda morada estável, abandonar a fé no poder da palavra. Esse silêncio é uma palavra para além do mundo, um eco distante, mal perceptível, uma inesgotável interrogação, o sinal de uma escrita que abomina toda resposta (MALDONATO, Mauro, 2004, p. 87).
Maldonato aponta, no trecho acima, a indiferença do silêncio em relação a uma produção específica, ou seja, ao silêncio não compete uma direção, um encaminhamento, uma resposta. O silêncio diz da produção de possibilidades, de conexões, de relações que muitas vezes transgridem, que subvertem o efeito esperado por quem escreveu. Orlandi (1995) nos diz que o silêncio diz da possibilidade de se trabalhar a contradição constitutiva do próprio sujeito. Para ela todo discurso se produz, reproduz, se desloca de forma a remeter a outros discursos que lhe dão realidade significativa.
O silêncio, portanto, remonta à unidade, à completude de um todo que a palavra quebra e mobiliza na tentativa de poder apontar para alguma parte deste todo e se referir a ela de alguma maneira. “O ato de falar é o de separar, distinguir e, paradoxalmente, vislumbrar o silêncio e evitá-lo” (ORLANDI, 1995, p. 29). É pela palavra que temos a possibilidade de vislumbrar relances de um todo que ela não dá conta de fazer aparecer. É só na palavra que este silêncio constitutivo se manifesta e se esconde e cria espaços de possibilidades outras que a palavra não consegue dizer.
E o sujeito? Sujeito-leitor, sujeito-autor, sujeito-produtor. Qual é o seu papel em meio a tanto silêncio e tanta palavra? O que dele é demandado para que, nele e por ele, se crie algo que extrapole os limites das linhas de um texto?
Ricardo Goldenberg, em sua palestra apresentada no programa café filosófico e intitulada “A utopia do autoconhecimento” nos diz que não há a possibilidade da construção de qualquer tipo de conhecimento que não passe pelo outro. Para que possamos saber algo acerca de nós mesmos é necessário, para o psicanalista, que passemos, que atravessemos o outro. É através do olhar do outro que nos construímos, assim como é só na interação com outros sujeitos que nos desenvolvemos. Para Doel: “O sujeito humano é sempre um corpo pleno a advir; ele perdura sem jamais existir como tal. Ser é devir. Em outras palavras, o sujeito perdura por meio de um contínuo romper-se” (2001, p. 81).
Rompemo-nos uns nos outros, uns através dos outros, através das coisas. E é o rompimento que possibilita a abertura, a criação, a possibilidade de transbordarmos para além de nós mesmos.
É também no contato com um livro, com uma letra, enfim, com tudo aquilo que compõe o mundo exterior que um sujeito se cria e se transforma. “E o sujeito seria, portanto, o espaço de conexão ou de montagem, contínua pré-posição, uma dobra do exterior” (SILVA, Tomaz, 2001, p. 122-123). A dobra, para o autor, que dialoga com Deleuze, tem como finalidade nos levar a um caminho aberto, de fluxos ou “linhas de força” que surgem das conexões entre objeto e objeto, objeto e sujeito, sujeito e espaço. O sujeito é aquele que, em conexões múltiplas e que circulam intensidades, cria e se produz a partir dos seus agenciamentos, de suas multiplicações, dos seus outros. “Agora o problema já não seria tanto perguntar-se sobre que tipo de sujeito é produzido, mas que pode fazer o ser humano, que capacidade de afectar e ser afectado tem em um dispositivo concreto” (SILVA, Tomaz, 2001, p. 129).
Quais são as possibilidades de produção que podem ser criadas por um sujeito em conexão com um livro em seus múltiplos agenciamentos e metamorfoses? A escritora sozinha não pode dar conta de transmitir o que quer que seja. É só pelo outro que suas palavras ganham vida e relevância. É através do outro que um texto pode ganhar um direcionamento e uma aplicação. Cabe ao leitor produzir, a partir daquilo que é seu, do seu olhar e experiências, novas possibilidades, novos caminhos e interpretações. O que se construirá a partir daí, passa a não ter mais um responsável, um autor. É algo novo que se criou a partir de uma relação única estabelecida entre autor, texto e leitor.
Água-viva
Na água vive o movimento. O vívido da queimadura que se espalha, que se espelha pela água. A água-viva que envolve e marca com seu frágil corpo o corpo daquele que ousa tocá-la, que inadvertidamente a toca. A água-viva com sua beleza de água. A água na sua profundidade discreta. A discrição daquilo que não se vê, mas se sabe, que não se vê, mas se sente. É que a água não diz o que nela se mostra, pela água eu não sei o que posso encontrar. Na fluidez da água que se pode captar… Captar o que? “Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 13-14).
De que fala Clarice em sua obra? Fala dela mesma? Fala de um outro? De que trata água-viva? De sua própria vida, de sua autobiografia? No fluxo próprio da escrita de Clarice Lispector há algo como que um nunca chegar lá. Paira sobre sua obra, na nossa leitura, uma sensação de impotência, de insucesso, diante do seu próprio exercício, do ato de escrever. Àquilo a que se destina a escrita, na verdade não lhe compete. Escrever é justamente não chegar lá:
A escrita é sempre solitária, visto que nada revela, nada fala, nada transmite a ninguém. Escrever é deixar calar a própria voz, é apagar o eu e tornar-se um desconhecido aos próprios olhos. Em lugar do eu se insinua o vazio, o ele, o impessoal. Aquilo que não pode ser dito e, no entanto, não cessa de tentar se inscrever. O escritor deve abandonar seu eu a fim de poder captar o irredutível silêncio da obra. Este secretamente se anuncia nos livros, no entanto, das palavras sempre escapa. O silêncio será sempre a promessa de um dia deixar-se capturar (OLIVEIRA, Danielly, 2000, p. 88).
Escrever é deixar o eu de lado. É se abster de si próprio enquanto um ser individual para que a vida possa surgir de uma nova maneira, de modo que o vazio se manifeste e prolifere pelas letras criando o espaço necessário para a criação. Deixar o eu de lado, principalmente nas obras de Clarice, pode ser fruto de um estranhamento do mundo, de um tomar consciência, de uma epifania. De repente o comum, o corriqueiro perde o sentido, tira o chão e o óbvio não nos é mais nem sequer compreensível, apreensível. Então o que resta é buscar “a face terrível da vida, a matéria orgânica que pulsa”. (OLIVEIRA, Danielly, 2000, p. 88-89).
Surge destes momentos epifânicos um vislumbre do real, que é imprevisto, indizível, desestruturante. O eu não suporta. É preciso alcançar o “it”, o impessoal. “O it vivo é o Deus (…). Deus é o mundo. A prece profunda é uma meditação sobre o nada. É o contato seco e elétrico consigo. Um consigo impessoal” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 34). Clarice se experimenta nas palavras e experimenta o que delas não consegue fazer aparecer. Se no ato do discurso e da escrita o eu se desfaz, se atrapalha, se desorganiza, é também por essa via que ele se cria.
Mais uma vez, de que fala Clarice? O que é esse “it”? Pode a leitora captá-lo? Caso ela possa, o que é captado com este impessoal? Villari (2000) afirma que havia até pouco tempo uma via de mão única no que diz respeito à relação entre psicanálise e literatura. A psicanálise servia de base, de resposta, para os enigmas da literatura, o que pressupôs a noção de “inconsciente do texto literário”. No entanto, como nos diz o autor, o equívoco estava em considerar que o próprio texto possuía um inconsciente sem se atentar para a figura do leitor, para a questão de que o “texto diz na medida em que é lido” (VILLARI, Rafael, 2000, p. 4). A partir daí, podemos pensar que, na verdade, o texto em si não fala, não diz nada, quem diz é a leitora através do texto, na sua relação com ele. “Estou dando a você a liberdade. Antes rompo o saco de água. Depois corto o cordão umbilical. E você está vivo por conta própria” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 39). O leitor está vivo na obra. Ele é ativo, é criador, criativo. Dele dependem os possíveis sentidos que a obra pode assumir. É dele também o movimento no qual a obra se desenvolve. É no leitor que a obra fala. É por ele que ela se cria.
Para podermos pensar sobre a criação é necessário que exploremos um pouco mais a experiência. O que é experienciar um livro, uma palavra, uma paisagem? Como, da experiência de Clarice, podemos fazer surgir algo novo, algo nosso, a nossa experiência? Walter Benjamim (1994) nos diz que o narrador é aquele que retira da sua experiência ou da experiência de outras pessoas o material necessário para a construção das suas narrativas. Para além disso, o narrador incorpora à sua história a experiência dos seus ouvintes. Diferentemente da informação que, como o próprio nome já supõe, deseja tão somente informar, trazer dados, notícias sobre algum acontecimento, a narrativa pede uma experiência daquilo que se ouve, que se é contado. O sujeito que narra uma história inevitavelmente se apropria dela e a preenche de si próprio. A história é dele na medida em que ele está nela, impregnado dela, impregnando os seus contornos. E os ouvintes, quando forem narrar esta mesma história para outras pessoas, mergulharão nela também. Quanto mais recontada for, mais pessoal, original e carregada de experiências ela será. “Ela [a experiência] mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele” (BENJAMIN, Walter, p. 205, 1994). A experiência do narrador, portanto, se encontra na coisa que vai se impregnar das experiências de todos aqueles que a recontarem e se apropriarem dela.
Maria Rita Kehl (2009) acredita que a segurança fornecida pela eficácia da técnica desmoraliza a experiência. Para ela, a imaginação é o que sustenta a experiência e o que permite que cada um se coloque e coloque um pouco de si nas histórias narradas, naquilo que nos foi transmitido. Ao perdermos estas referências, continua a autora, esta capacidade de usar e aplicar a imaginação, ficamos vazios de sabedoria e disponíveis para qualquer coisa que nos seja oferecida ou imposta. Maria Rita Kehl advoga a delicadeza como parte essencial do ser humano. Seu valor consiste na possibilidade de frear a máquina de poder e de concentração do capital e na possibilidade de trazer à tona aquilo que tende a se perder dentro dessa lógica. O demorar-se nas coisas, o olhar um pouco mais. Deixamos a experiência de lado na nossa relação atual com o tempo. Priorizamos a informação, a rapidez, a impessoalidade. Quanto mais destrinchada e cheia de sentidos já prontos a informação, o texto, a imagem, ou seja lá o que for, melhor. A informação nos dá a sensação de completude, como se nela já estivesse dito tudo que há para se dizer. Ela não precisa da nossa intervenção, da nossa criação, da nossa experiência. A delicadeza consiste justamente no contrário disso. Ela exige a nossa intervenção, a nossa criação. Ela pede um pouco mais de corpo, um pouco mais de toque, um pouco mais do olhar. Ela subverte a nossa relação com o tempo porque se a lógica dos nossos dias afirma que o tempo é dinheiro, na lógica da delicadeza “o tempo é o tecido de nossa vida” (CANDIDO, Antônio, apud. KEHL, Maria, 2009, p. 454).
No que diz respeito à produção literária Almeida e Junior (2010) afirmam que existe uma tensão entre a compreensão de literatura enquanto conceito e enquanto experiência. Para eles a conceitualização da literatura estaria do lado do aprisionamento, da significação, da essencialização e sistematização dos saberes enquanto que a literatura entendida como experiência diria respeito a um acolhimento, a um encontro, à intensidade, à criação, ao devir. Para os autores, um escrito literário não é produzido sobre as coisas, mas sim com as coisas. O escrever sobre diria respeito à memória, à significação e representação. Já escrever com é escrever com as coisas, é explorar as possibilidades de transgressão na linguagem. “O escritor escreve com o escrever. Ele mergulha no turbilhão da experiência para se perder em sua tarefa de construção de sentido, através da escrita” (ALMEIDA, Leonardo JUNIOR, p. 139, 2010).
E o que a experiência tem a ver com a obra clariceana? Parece-nos que para ler Clarice é necessário que se a experiencie. Que se experiencie suas letras, suas fugas, suas brechas, suas deixas. E, para além disso, que se experiencie neste processo. Que se sinta no corpo o corpo da autora, de modo que um terceiro corpo se crie. Para ler Clarice acreditamos ser preciso delicadeza. Delicadeza para que se acalme um pouco no tempo das coisas. Para que se permita sentir as palavras roçando na pele e para se desvencilhar da busca incessante por um sentido já dado, por um sentido escondido. Não há nada escondido, não há nada por trás das letras de Clarice. O sentido só se cria pelo leitor, pelo seu olhar. O sentido não é. Ele se faz, se produz, se transforma. “O verdadeiro pensamento parece sem autor” (LISPECTOR, 1976, p. 108). Desimportante atribuí-lo a alguém. Desimportante porque ele foi feito, lapidado e desenvolvido pelos agenciamentos que lhe foram possíveis, impossíveis. Porque ele se criou nas suas infinitas conexões. Porque ele foi composto e impregnado de vários outros sujeitos, de várias outras palavras:
Não se perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significante, não se buscará nada compreender num livro, perguntar-se-á com o que ele funciona, em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades, em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos sem órgãos ele faz convergir o seu (DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, 1995. p. 18).
Perguntar-se-á, em Clarice, com a autora, o que dela nos encontra, o que nela nos diz respeito. Perguntar-se-á não o que está dado em sua obra, mas o que naquilo que há pode se fazer, o que se pode criar a partir do que temos na relação com o que ela compôs. Não há o que ser desvendado, porque não há nada para se revelado, para ser apreendido em sua obra. O que há é o contato da experiência da leitora com o livro. O que há é a relação que, de acordo com Boaventura de Souza Santos (2008), é mais real do que os próprios sujeitos.
No que diz respeito à criação que a literatura possibilita Almeida (2009), a partir de Deleuze e Guatarri, nos aponta duas formas de uso da língua: a majoritária e a minoritária. A primeira estaria associada às palavras de ordem, à rigidez do dia-a-dia, aos estereótipos, que culminariam na dominação, enquanto que a segunda implicaria em um modo de resistência a esta rigidez e padronização que a linguagem impõe. A literatura é entendida nesta perspectiva como uma forma de resistência à rigidez das palavras de ordem, que dão forma à linguagem majoritária:
(…) como diz Proust, aquela [a literatura] traça nesta [a língua] uma espécie de língua estrangeira, que não é outra língua, nem um patois reencontrado, mas um devir-outro da língua, uma minoração dessa língua maior, um delírio que a transporta, uma linha de feiticeira que se escapa do sistema dominante (DELEUZE, Gilles. 1993, p. 16).
Contrapondo-se à linguagem do poder, a literatura seria a linguagem sem poder, estando do lado da inutilidade (ALMEIDA, Leonardo, 2009). Inutilidade esta que é constitutiva, já que o que conta é a experiência. De acordo com o autor, a literatura não dita regras, pelo contrário, o que ela faz é proporcionar a elaboração de uma experiência intensa em que o sentir e o sentido se misturam, se colam, se interpenetram. “É como se fazer literatura fosse enlouquecer a escrita, subverter, desmoronar, romper, transgredir, contestar os limites impostos pela própria linguagem” (ALMEIDA, Leonardo, 2009, p. 100).
No processo de criação e escrita de Clarice Lispector a fuga da palavra nos parece ser um fenômeno almejado pela autora. Essa fuga, no entanto, só pode ser possível através da própria palavra. Podemos nos perguntar em meio a este processo: de que foge Clarice? O que há com a palavra que, sendo o seu ponto de apoio é também do que ela busca se libertar? Clarice procura dizer o indizível. “Mas como dizer o indizível? Como pensar o impensável? Como levar a linguagem e o pensamento além de seus limites?” (DINIS, Nilson, 1998, p. 98). Parece-nos que Clarice cria pontos de fuga, de desterritorializações da palavra. Se ela busca apossar-se do “é da coisa” e se a palavra é sempre abstração, representação e se, no entanto, é o seu único recurso, é preciso subverter a sua lógica, subverter a relação, subverter a própria linguagem enfim:
É como se a escrita literária fosse uma escrita insolente que sabotasse a linguagem. Ela faz as palavras se metamorfosearem, tecendo relações intensas e, às vezes, incomuns, que proporcionam uma ruptura com os usos costumeiros da linguagem. Por isso, sua decifração será somente posta em jogo na própria experiência literária (ALMEIDA, Leonardo, 2009, p. 100).
Se é preciso uma nova forma de linguagem, se se faz necessário uma outra relação com a palavra, é necessário também uma nova forma de pensamento. É necessário uma nova forma de produção de sentidos que vá além dos sentidos já convencionados para cada palavra. É preciso que a leitora se liberte da própria autora que nos afirma que o que ela diz “deve ser lido rapidamente como quando se olha” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 17). Deve ser lido de forma livre, desprendida e leve. O que há é a possibilidade e não a confirmação, não a sujeição ou a certeza. Não mais o pensamento lógico, racional, mas sim “um pensamento que invade as entranhas do narrador, que aguça sua inquietude, violenta o seu corpo até manifestar-se” (DINIS, Nilson 1998, p 90). Um pensamento que, como nos diz Nilson Fernandes Dinis, é exercício pleno de liberdade, que não tem autor, não tem sujeito nem função preestabelecida. “Mas sou caleidoscópica: fascinam-se as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 38). Caleidoscopicamente se produz, se escreve. Porque em suas muitas faces se inscrevem muitos outros corpos. Nas suas muitas faces Clarice carrega as marcas de muitas outras imagens, pessoas, avisos, olhares. Escrever é despir-se de si própria, de certa forma, é abdicar da estrutura e procurar os seus desvios, as suas fugas. Escrever é viver, é tentar fazer viver. “O que estou te escrevendo não é para se ler – é para se ser” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 42). Escrita e vida se confundem, se apropriam uma da outra de maneira que a escrita se mescla na vida e a vida transborda na escrita. No entanto, se escrever nunca dá conta de dizer tudo o que é preciso, tudo o que na vida e pela vida se cria, se a escrita não consegue captar o “instante-já”, então a saída…: “(…) é desistir de uma cópia fiel do instante, uma cópia ícone, e celebrar a cópia simulacro. O simulacro é o mundo do diferente, do feio, do tortuoso, do grotesco, do imprevisível pelo qual o autor realiza sua opção” (DINIS, Nilson, 1998, p. 68-69).
Se a cópia fiel diz de uma reprodução autêntica e eterna o simulacro abre espaço para o torto, o desarticulado, o mutável. Se escrever é uma forma de tentar viver, então que se escreva. Que se escreva mesmo sem objetivo, sem objeto. Que se escreva mesmo no improviso, no improvável, no repentino. E que se leia despido das possíveis amarras do texto. Que se deixe levar por si próprio e pelos encantamentos produzidos no encontro com as letras. Que se permita sentir o que do texto nos diz respeito, o que dele nos chega. “Das palavras deste canto, canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente?” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 55). Se em Clarice percebemos uma busca incessante de, pela palavra, ir para além da abstração que lhe é inerente e alcançar o silêncio que por ela sutilmente escapa, percebemos também em água-viva principalmente uma abdicação da busca pelo que há de mais concreto, de mais despido de atribuições. Percebemos, na escrita da autora, uma minoração da língua que se caracterizaria pela produção de “uma forma de crítica à língua materna, maior e dominante, cavando vias de escoamento com o intuito de transgredir os limites impostos pela linguagem” (ALMEIDA, Leonardo, 2009, p. 102). Clarice abdica da sua necessidade de desvendar o que se insinua pelas palavras e aceita o mistério que é inerente à existência. “É-se. Sou-me. Tu te és” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 32). O texto já não possui um autor, não é de ninguém. Ele é de quem o leu, de quem o escreveu, de quem o pensou e de tudo que participou da sua produção.
Referências Bibliográficas
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Bio fornecida pelo palestrante.
DO MALLEUS PARA EASTWICK: ONDE O FEMINISMO É CONSIDERADO BRUXARIA
Isabelle Rodrigues de Mattos Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Resumo: O objetivo deste trabalho é investigar a relação entre o feminismo e a bruxaria e de que maneira essa relação transparece na obra As bruxas de Eastwick, que se utiliza do estereótipo da bruxa para expor uma visão negativa da mulher feminista. Para tanto, é realizada uma análise da caracterização das bruxas de acordo com o famoso tratado do século XV, o Malleus maleficarum, ressaltando-se as semelhanças entre o estereótipo ali descrito e o estereótipo da mulher considerada feminista.
Palavras-chave: mulher, feminismo, bruxaria.
Abstract: The purpose of this work is to investigate the relation between feminism and witchcraft and how that relation appears in the novel Witches of Eastwick, which uses the architype of the witch in order to expose a negative view of the feminist woman. In order to do so, I will analyze how witches are described in the famous Malleus maleficarum, a manual from the 15th century, bringing to light the similarities between the archetype of the witch and the architype of the feminist woman.
Keywords: woman, feminism, witchcraft.
Currículo: Mestre em Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e graduada em Letras – Inglês/Literaturas de Língua Inglesa pela mesma universidade. Atualmente trabalha na Secretaria de Estado de Educação e pesquisa sobre as diferentes figurações da bruxa em obras literárias, principalmente no âmbito das literaturas inglesa e norte-americana.
DO MALLEUS PARA EASTWICK: ONDE O FEMINISMO
É CONSIDERADO BRUXARIA
Isabelle Rodrigues de Mattos Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
O mais famoso tratado em prol da caça às bruxas, o Malleus maleficarum (1486), também conhecido como O martelo das feiticeiras, foi escrito por inquisidores católicos, que consideravam a mulher inferior ao homem e portanto mais propensa a se aliar ao diabo, pois como era supostamente mais fraca tanto de corpo quanto de mente, também era mais fraca para preservar a fé em Deus. Apoiando-se nesse argumento, o Malleus procurava justificar porque as mulheres eram mais dadas à bruxaria do que os homens – já que historicamente o número de mulheres acusadas de bruxaria e condenadas superou o de homens.[1]
Entre as ideias disseminadas pelo Malleus destacava-se a relação entre as bruxas e a sexualidade, pois, de acordo com o manual, toda bruxaria deriva da luxúria carnal, que é insaciável nas mulheres, e as pessoas com maior inclinação para a bruxaria seriam as mulheres infiéis, ambiciosas ou luxuriosas. Para eles, as bruxas eram obcecadas pelo excesso de amor carnal, e nenhuma vergonha era capaz de persuadi-las a desistir de tais atos, estando inclusive dispostas a deitarem-se com demônios para satisfazerem seu apetite carnal.
O modelo vitoriano de ideal de mulher, o “anjo da casa”, pregava a imagem da mulher como boa mãe e esposa, dócil e submissa. Segundo esse ideal, a mulher deveria ser passiva e assexuada, sendo frequentemente caracterizada como quase etérea e de uma pureza contemplativa, além de, obviamente, obediente à ordem patriarcal.
Em Idols of Perversity (1986), Bram Dijkstra, professor de literatura inglesa da Universidade de Califórnia, estabelece uma oposição dualística: de um lado, a mulher idealizada na figura do “anjo da casa”, e do outro, a perversa, que configura uma ameaça ao ideal de mulher. Dijkstra analisa as representações de mulheres entre os séculos XIX e XX, procurando justificativas para o sentimento antifeminista percebido na vida social e nas obras literárias e artísticas. Segundo ele, mulheres com características consideradas tipicamente masculinas, como agressividade, anseio por poder e sexualidade exacerbada, sofriam preconceito por não se submeterem ao papel esperado delas, fosse desrespeitando a vontade do pai ou do marido, ou ainda rejeitando os deveres de mãe. Desse modo, a mulher que fugia ao padrão e se mostrava demasiadamente assertiva era mal vista pela sociedade, que considerava que esta estaria procurando usurpar privilégios masculinos em vez de se deixar subjugar ao papel feminino esperado dela.
Tendo isso em vista, percebemos que a figura da bruxa representa essencialmente uma mulher perversa, destoante do ideal “anjo da casa”. Uma breve análise de relatos históricos da caça às bruxas revela que muitas mulheres acusadas de bruxaria entre os séculos XV e XIX possuíam uma personalidade considerada conturbada: falavam palavrão, questionavam os outros e defendiam sua opinião, fosse discutindo com o marido ou com autoridades; enfim, eram mulheres de personalidade forte, que não se sujeitavam ao papel submisso que se esperava delas (KARLSEN, 1998, p. 310).
Tendo o Malleus malleficarum como contrapartida, verificamos que o tipo de mulher que Dijkstra chama de “perversa” correspondia justamente ao estereótipo da bruxa, pois as mulheres com maior probabilidade de serem acusadas eram justamente as mulheres que fugiam às normas da sociedade, mostrando-se demasiadamente assertivas ou agressivas: mulheres que discutiam com o marido ou os vizinhos, falavam palavrão ou de outro modo portavam-se de maneira desagradável, mostrando-se invejosas ou mal-humoradas. Segundo o Malleus, “(…) a mulher perversa é, por natureza, mais propensa a heresitar na sua fé e, consequentemente, mais propensa a abjurá-la – fenômeno que conforma a raiz da bruxaria” (KRAMER; SPRENGER, 2014, p. 117).
Se analisarmos as características da mulher perversa de Dijkstra, percebemos que elas não destoam da figura da mulher feminista, pois quem mais procurava contestar a ordem patriarcal e “usurpar” privilégios até então masculinos, buscando a igualdade de direitos entre os sexos? Desse modo, não é surpreendente que muitas mulheres que foram acusadas de bruxaria nos séculos passados hoje em dia poderiam ser consideradas feministas.
Como afirma Joanne Hollows, o movimento feminista busca explicar e modificar a relação de poder entre homens e mulheres (2000, p.3), sendo tradicionalmente dividido em três momentos, chamados de ondas: a primeira, marcada pelo sufragismo, que ocorreu nos séculos XVIII e XIX; a segunda, que abarca as décadas de 60 a 80; e a terceira, que diz respeito à época contemporânea.
Entre as reivindicações das feministas da segunda onda estavam a igualdade no acesso à educação e ao mercado de trabalho, igualdade de salários entre homens e mulheres e independência legal e econômica. A questão da liberdade sexual e a possibilidade de as mulheres usarem métodos contraceptivos ou mesmo terem acesso ao aborto também foram importantes reivindicações desse momento. Partindo do preceito que o sexo feminino era subjugado pelo masculino, muitas dessas feministas consideravam “(…) femininity as inferior to masculinity: that is, that equality between men and women might be achieved if women rejected feminine values and behaviour in favour of masculine values and behavior” (HOLLOWS, 2000, p. 10), o que nos lembra o estereótipo da mulher perversa, que era considerada uma ameaça à sociedade justamente por usurpar características masculinas. Não surpreende assim que uma imagem estereotipada da mulher feminista evoque aspectos antes atribuídos à mulher perversa: a típica feminista passa a ser considerada uma mulher masculinizada e que rejeitava apetrechos femininos: “The figure of the bra-burning, mannish and fanatic feminist has dominated popular representations of feminism (…) Moreover, the figure of the unattractive bra-burner also cemented into the public’s mind the perception of feminism as anti-feminine” (GENZ; BRABON, 2009, p. 22), sendo por vezes também considerada uma mulher que não se depila, usa o cabelo curto, odeia os homens e se mostra agressiva e irritada: ou seja, uma mulher nada feminina.
Alguns teóricos, como Kimberly Ann Wells, identificam similaridades entre a caça às bruxas e o movimento feminista por ambos denotarem alguma forma de opressão ao sexo feminino. A bruxa, contudo, não se assemelha à feminista apenas por ser oprimida, mas principalmente pelo seu desejo de equiparar-se ao homem, por se rebelar contra a opressão e exigir seus direitos. Desse modo, a bruxa se mostra um símbolo forte para o movimento feminista: “Characteristically, women writers have seen in the witch a figure of all that women could be were it not for patriarchy […] To be recognized as a witch is to be recognized as free and independent” (PURKISS, 2010, p. 22). Para Wells, é notável
(…) how strongly connected the concept of independent woman and our modern concept of witch has been ever since. Both feminist and witch are scapegoated as evil, with evil meaning those who endanger society’s family values and therefore who must be punished for exercising powers that patriarchy defines as more rightly belonging to men: independence, outspoken belief in oneself, sexual freedom, education, and choice in occupation. Both groups are women who struggle with patriarchy and power (WELLS, 2002, p. 7).
Assim sendo, não surpreende que as feministas sejam atraídas pela figura da bruxa, que popularmente é representada como uma mulher que transgride as normas sociais e ameaça causar mudanças no sistema: que é justamente o que as feministas desejam. Dito de outro modo, a figura da bruxa é essencialmente ligada ao feminismo, pois se refere à figura da mulher empoderada: a bruxa transgride convenções ao mostrar comportamentos considerados inadequados e reclamar para si poderes que não deveria possuir.
Justyna Sempruch, pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais da Polônia, por sua vez, chama atenção para o fato de que
As a radical feminist identity, the ‘witch’ strategically represents both the historical abject figure subjected to torture and death, and a radical fantasy of renewal in the form of a female figure who desires (and articulates) a cultural transformation ‘that has not happened yet’ and also the one who already marks that transformation. Thus, the feminist witch succeeds in subverting her own (abject) identity by converting it into a political fantasy (…) (SEMPRUCH, 2004, p. 115).
Tendo em vista as similaridades entre a figura da feminista e a da bruxa, não é difícil identificar tais relações no romance As bruxas de Eastwick, de John Updike – publicado em 1984, a estória se passa no final da década de 1960, que, como sabemos, foi o período correspondente à segunda onda do movimento feminista. Assim, não surpreende que a questão feminista esteja muito presente na obra: a própria escolha do cenário (a cidade de Eastwick, em Rhode Island) é muito sugestiva, pois o autor revela que Anne Hutchinson, uma puritana que presidia debates sobre questões espirituais, fora banida para lá no século XVII, pois, por ser uma mulher num papel de liderança espiritual, Anne desagradou as autoridades e acabou sendo banida da colônia de Massachusetts. Ao citar Anne Hutchinson, o autor acaba criando uma analogia entre sua transgressão e a das bruxas que habitam Eastwick, igualando as bruxas à Anne ao tratar ambas figuras como marginais.
As bruxas de John Updike sem dúvida apresentam muitas das características descritas no Malleus maleficarum. Alexandra, Sukie e Jane são mesquinhas e egoístas, como as típicas bruxas citadas no manual, e possuem estranhas protuberâncias pelo corpo, os mamilos de bruxas, que se acreditava ser por onde os Espíritos Familiares alimentavam-se. As três também usam sua magia para fazer malefícios e punir pessoas que de algum modo as incomodassem.
De acordo com o manual, as bruxas eram capazes de invocar tempestades e relâmpagos, que é o que Alexandra faz quando está na praia com seu cachorro e quer expulsar as pessoas que a chamaram de megera pelas suas costas. Consta no Malleus que as bruxas também podiam preparar um unguento de acordo com as instruções do diabo, que usariam para untar uma cadeira ou vassoura em que poderiam voar. Sabemos que pelo menos Jane podia voar, pois
‘Ontem à noite’, disse ela, ‘fiquei tão chateada e com raiva disso tudo que não consegui dormir, e acabei acordando e me esfregando inteira com capuz-de-fradinho e creme para as mãos Noxema, com um tiquinho só daquela cinza fina que fica depois de colocar o forno na função de limpeza automática, e saí voando até a mansão Lenox. Foi maravilhoso! (UPDIKE, 2010, 278).
Não podemos esquecer que o diabo também era frequentemente mencionado no Malleus maleficarum, aparecendo como condição necessária para a existência da bruxa, pois lhe daria poderes sobrenaturais caso ela fizesse um pacto com ele, que deveria ser selado pela assinatura da bruxa em um livro. Assim, a associação do diabo com a bruxa é notável, e também está presente na obra de John Updike, embora de maneira velada: em nenhum momento o autor afirma que o personagem Darryl van Horne se tratava de fato do diabo, mas faz diversas alusões irônicas, que ficam ainda mais explícitas na adaptação cinematográfica, em que Darryl chega a adquirir uma forma monstruosa e com chifres. O próprio nome do personagem sugere que se trata do diabo disfarçado: “Darryl” possui uma sonoridade parecida com “Devil”[2] e “Horne” poderia tanto se referir aos supostos chifres (horns, em inglês) quanto ao caráter sexual do diabo (horny[3]), uma vez que Darryl é um personagem altamente sexualizado. De acordo com o Malleus, o diabo mantinha relações sexuais com as bruxas durante o “sabá”: momento em que as bruxas se reuniam na floresta numa espécie de congregação para adorar ao diabo. John Updike faz uma releitura do sabá, adaptando-o para o século XX: no romance, as bruxas criaram o hábito de se encontrarem com Darryl em sua mansão, onde jogavam uma partida de tênis e depois iam para a banheira, onde bebiam, fumavam maconha e, é claro, tinham relações sexuais – série de eventos que repetia quase ritualisticamente toda quinta-feira.
Até mesmo a caracterização de Darryl evoca aspectos diabólicos, pois sua temperatura é mais fria que o comum e não era muito agradável para as bruxas fazerem sexo com ele: nos relatos históricos, muitas mulheres acusadas de bruxaria, ao confessarem terem tido relações sexuais com o diabo, afirmavam que sua temperatura era mais fria do que a de um homem normal, e ainda que as relações não eram prazerosas (ROPER, 2004). Também é interessante reparar que quando estava na banheira, Alexandra sentira um ímpeto de beijar as nádegas de Darryl, o que é no mínimo curioso se considerarmos que em muitas descrições do sabá “(…) in place of the kiss of peace in the Mass, they had to kiss the Devil’s anus” (ROPER, 2004, p.113), numa forma de demonstrar sua adoração por ele.
Além disso, o interior de sua mansão fede a enxofre, odor que “Van Horne não pareceu notar, pois aquele era o seu elemento” (UPDIKE, 2010, p. 100), e também se afirmara que um dos talentos de Darryl era “fazer as pessoas assinarem pactos” (UPDIKE, 2010, p. 346), numa referência ao pacto demoníaco da bruxa ou mesmo ao pacto faustiniano,
Pois Van Horne havia lhes garantido solenemente que Thumbkin [a gata de estimação de Darryl], por baixo de sua forma felpuda, era a alma reencarnada de um advogado setecentista de Newport que havia desviado dinheiro do seu escritório (…) e que, para salvar a si mesmo da prisão e a família da desgraça, vendera seu espírito após a morte para os poderes das trevas (UPDIKE, 2010, p. 278).
Apesar de o autor sugerir que este personagem se trata do diabo, o objetivo de Darryl na obra não fica muito claro: além de envolver-se sexualmente com as três mulheres, sabemos por exemplo que ele procurava incentivar a criatividade delas: queria que Alexandra melhorasse suas esculturas e fizesse exposições em Nova York, tocava música com Jane e sugerira diversas vezes que Sukie escrevesse um romance. Daryl incentivava tanto as inclinações artísticas quanto a prática de bruxaria, que pareciam interligadas[4], uma vez que “O dom da escultura havia surgido junto com seus outros poderes (…)” (UPDIKE, 2010, p. 24-25). Talvez a presença do diabo nessa obra servisse apenas para acentuar a condição de bruxa dessas mulheres, além de seu caráter devasso, uma vez que se envolviam sexualmente com o diabo:
Stories of this kind were at the heart of the witch craze. The witch was a human who had sex with the Devil. This was what made her “his”, sworn to harm all other Christians (…). Intercourse with the Devil was the physical counterpart of the pact with him – and it was sex with the Devil which many accused witches talked about at length, rather than the pact which, according to demonological theory, actually made them Satan’s own. (ROPER, 2004, p. 84).
Como bruxas, e principalmente como mulheres livres (sem maridos), elas podiam fazer sexo com quem bem quisessem, ao contrário das outras mulheres da cidade, que ainda estavam agrilhoadas ao papel tradicional de esposa e mãe. Contudo, antes de se mudarem para Eastwick, Alexandra, Sukie e Jane eram donas de casa que desempenhavam seus papéis de esposa e mãe, mesmo que odiassem ou ficassem deprimidas por fazê-lo: “(…) anos antes, quando, ainda tentando fazer as coisas que se esperava de uma esposa, acompanhara Ozzie a um concerto” (UPDIKE, 2010, p. 16). Ao libertarem-se de tais papéis, libertam-se então da escravidão das convenções sociais, que ditavam como uma mulher deveria portar-se: Alexandra para de se pesar na balança o tempo todo, enquanto Jane se recusa a usar maquiagem.
Assim, nessa obra, ao tornarem-se bruxas, as mulheres se veem “recém-liberadas das amarras do trabalho doméstico” (UPDIKE, 2010, p. 25), de modo que Alexandra, Jane e Sukie, ao passo em que iam descobrindo seus poderes e tornando-se bruxas, deixaram de desempenhar seus papéis de esposa e mãe: “(…) esses instantes maternais lhe ocorriam cada vez mais raramente à medida que ela ia adquirindo controle sobre si própria, uma semideusa maior e mais austera do que qualquer dos usos que os outros pudesse ter para ela” (UPDIKE, 2010, p. 122). Tarefas domésticas, como cozinhar e cuidar do jardim, parecem um martírio que elas evitam ao máximo e do qual se ressentem:
Quando Ozzie e eu nos mudamos para Eastwick, eu sempre fazia geleia com as frutinhas das roseiras’.
‘Você e Oz eram mesmo uma gracinha.’
‘Era patético. Eu era tão dona de casa.’ (UPDIKE, 2010, p.329).
Como consequência, elas passam a não querer cozinhar para os filhos, preferindo comprar comida congelada ou dar-lhes biscoitos, e seus quintais são desorganizados por falta de cuidados: o quintal dos fundos de Alexandra precisava ter a grama cortada e parecia uma selva descontrolada; Jane também não tinha jeito para jardinagem, e seu jardim consistia em um “abandonado emaranhado de rododentros, hortênsias, tuias, berberes e buxinhos em volta dos alicerces da casa” (UPDIKE, 2010, p. 27).
Percebemos então que nesse romance, o papel de dona de casa e esposa é incompatível com o da bruxa, assim, os maridos obrigatoriamente devem sair de cena, como se um fator automaticamente excluisse o outro: toda divorciada deve ser uma bruxa, e uma bruxa não pode ser casada:
Seu próprio ex-marido, Oswald Spofford, repousava dentro de um vidro com a tampa de rosca bem fechada em uma prateleira alta da cozinha, reduzido a um pó multicolorido. (…) Quando eles de fato se divorciaram, seu antigo mestre e senhor se transformara em pó (…) que ela havia varrido e guardado de lembrança dentro de um vidro. As outras bruxas haviam passado por transformações semelhantes em seus casamentos; o ex-marido de Jane Smart, Sam, estava pendurado no porão da casa de fazenda dela, em meio às ervas secas e poções, sendo ocasionalmente salpicado em algum filtro (…) e Sukie Rougemont havia plastificado o seu e o usava como jogo americano (UPDIKE, 2010, p.11-12).
Quanto aos filhos, caíram numa espécie de esquecimento, sendo largados sozinhos em casa, famintos e encardidos. As protagonistas são diversas vezes chamadas de péssimas mães, e sua devassidão também não passa despercebida, passando a noite com vários homens ao longo dos anos. Para elas, “Ser mulher e divorciada em uma cidade pequena era mais ou menos como jogar Banco Imobiliário, depois de algum tempo, você acaba caindo em todas as casas” (UPDIKE, 2010, p. 32). Por rebelarem-se desse modo contra as normas sociais, essas mulheres escandalizaram a cidade, sendo alvo de fofoca dos outros habitantes: “(…) não sei por que essas mulheres se dão ao trabalho de continuar vivendo, são umas putas que vão para a cama com metade da cidade e sequer são pagas por isso. E aqueles coitados daqueles filhos delas, todos abandonados, é mesmo um crime” (UPDIKE, 2010, p. 150). Outro aspecto que parece ter influenciado o ponto de vista negativo com que essas mulheres eram vistas é o fato de elas trabalharem – por não possuírem um marido para sustenta-las, Alexandra, Sukie e Jane tinham que ingressar no mercado de trabalho para conseguirem dinheiro.
As protagonistas apresentam às vezes uma postura deveras feminista. Alexandra, por exemplo, vestia-se com roupas de homem e também apresentava um andar masculinizado, espelhando o estereótipo da feminista e da mulher perversa, que, como já discutimos, eram consideradas mulheres masculinizadas. Seu discurso também evocava um certo criticismo:
Alexandra cada vez mais achava as roupas masculinas confortáveis; primeiro começou a comprar sapatos e luvas de homem, depois calças (…) por que eles deveriam ficar com todo o conforto enquanto nós nos martirizamos com saltos agulha e todas as outras modas escravizantes que veados sádicos inventam para nós? (UPDIKE, 2010, p. 258).
Jane, por sua vez, tinha opiniões mais agressivas: “Homens são violentos (…). Até os mais gentis. É biológico. Eles são cheios de raiva porque são apenas acessórios para a reprodução” (UPDIKE, 2010, p. 184). No romance de John Updike, o feminismo parece intrinsicamente ligado à bruxaria: as mulheres divorciadas (autossuficientes e assertivas) só poderiam ser maléficas e poderosas. Assim, percebemos que o fato dessas personagens parecerem feministas era justamente o que as tornava mal vistas para a comunidade de Eastwick – o fato de trabalharem e de não serem casadas gerava diversos comentários maldosos, como se não estivessem cumprindo seu papel de mulher, além, é claro, de a sua liberdade sexual escandalizar os outros habitantes da cidade.
As bruxas de Eastwick são personagens perversas porque, de acordo com a obra, uma bruxa deveria sê-lo, enquanto que demonstrar um pouco mais de humanidade – como quando Alexandra confessou estar sentindo culpa por terem enfeitiçado Jenny, as outras a acusaram de estar “perdendo seu temperamento de bruxa” (UPDIKE, 2010, p. 303), como se uma bruxa não pudesse sentir compaixão ou arrependimento pelos seus atos maléficos.
Segundo Wells, o sentimento antifeminista transparece claramente nas páginas de John Updike, que se utiliza do típico estereótipo da bruxa para atacar o feminismo: “In his portrayal of three modern witches who mouth feminist rhetoric, and his setting of the novel retroactively during the “birth” of second wave feminism, he critiques women and the feminist movement quite deliberately (…)” (WELLS, 2002, p. 231-232).
As bruxas de Eastwick apresentam muitos aspectos estereotipados pelo Malleus maleficarum e surgem como uma resposta ao movimento feminista, exibindo mulheres que transgrediam as normas sociais e portanto eram mal vistas pela sociedade a sua volta. A relação entre o feminismo e a bruxaria fica clara no romance ao relatar que Alexandra, Sukie e Jane, ao se tornarem bruxas, rejeitam seu papel como dona de casa, desfazendo-se dos maridos e abandonando os filhos em casa enquanto saem para cuidar das próprias vidas. Desse modo, o romance nos mostra claramente um sentimento antifeminista.
Como afirma Margaret Atwood, o que uma cultura tem a dizer sobre bruxaria tem muito a ver com suas visões a respeito de sexualidade e poder, e principalmente de que maneira o poder é dividido entre os sexos (ATWOOD, 1984). E por ter sido escrito nos anos oitenta, época dominada pelo discurso feminista, não é a toa que, de acordo com o romance, as mulheres que se tornavam livres do papel tradicional de mãe/esposa e, portanto, poderosas, automaticamente representariam um perigo para a sociedade a sua volta.
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Notas ao texto
[1] De acordo com Carol Karlsen, professora da Universidade de Michigan que realizou um estudo demográfico sobre os casos de bruxaria nas colônias americanas, cerca de 80% dos acusados entre 1620 e 1725 eram do sexo feminino (Cf. KARSEN, 1998).
[2] “Diabo”, em inglês.
[3] Horny, em inglês, é frequentemente utilizado para indicar que alguém está sexualmente excitado.
[4] É interessante reparar que as bruxas de Eastwick possuem inclinações artísticas, pois Alexandra é escultora, Jane musicista e Sukie jornalista – a única cuja ocupação talvez não possa ser considerada exatamente artística, embora devamos reconhecer que seu trabalho exigia certa criatividade e estilo, não sendo de todo destoante. A relação entre a bruxaria e as Artes também não escapa aos olhos de Wells, para quem o poder da mulher é definido ao se colocar criatividade, feminismo e poder na mesma categoria (WELLS, 2002, p. 9).
Bio fornecida pelo palestrante.
Adonay Custódia dos Santos Moreira
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria
Ana Isabel Mendes Rosa Marques
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria[1]
Resumo: Toni Morrison é uma aclamada escritora afro-americana cujas obras evidenciam a problemática da construção da identidade da mulher afro-americana em opressivos contextos histórico-culturais que interligam índices raciais, sexuais e de classe. Esta comunicação examinará, em particular, o modo como os papéis sexuais condicionam o processo de construção da identidade da mulher afro-americana na obra Sula. Especial relevo será dado à personagem Sula, que subverte as dicotomias que subjazem a essa organização social. O seu processo de autodefinição constitui uma reflexão acerca da necessidade sempre premente de transpor obstáculos de sexo, raça e classe de modo a manter uma identidade íntegra numa sociedade pouco receptiva a alterações na estrutura de poder.
Palavras-chave: patriarcado, género, raça, identidade.
Abstract: Toni Morrison is an acclaimed African American writer whose works highlight the problem of identity construction for African American women who live under oppressive historical and cultural contexts, at the intersection of race, gender and class issues. This paper will examine in particular how gender roles affect the process of identity construction for African American women in the novel Sula. Special emphasis will be given to the character “Sula”, who subverts the dichotomy female/male underlying this social organization. Her process of self-definition is a reflection on the ever pressing need to overcome obstacles of gender, race and class, in order to maintain a full identity in a society that is not receptive to changes in the power structure.
Key words: patriarchy, gender, race, identity.
Minicurrículos: Adonay Custódia dos Santos Moreira é doutora em Tradução pela Universidade de Vigo (2010) e mestre em Estudos Anglo-Americanos pela Universidade de Coimbra (1998). É professora-adjunta do Departamento de Ciências da Linguagem da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria, onde lecciona desde 1995. Foi docente da licenciatura em Tradução aí ministrada. Foi membro de uma equipa de tradução, com trabalho publicado em Theoretical Issues and Practical Cases in Portuguese-English Translations (1996) e a sua tese de doutoramento – Terminologia e tradução: criação de uma base de dados terminológica do turismo baseada num corpus paralelo Português-Inglês (2010) – foi publicada pela Universidade de Vigo. Actualmente, integra o centro de investigação CICS.NOVA.IPLeiria (Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais).
Ana Isabel Marques é doutora em Línguas e Literaturas Modernas na especialidade de Ciências de Tradução, pela Universidade de Coimbra. É professora-adjunta do Departamento de Ciências da Linguagem da Escola Superior e Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria, onde lecciona desde 1995. Foi docente da licenciatura em Tradução aí ministrada. É autora de Paisagens da memória. Identidade e alteridade na escrita de Ilse Losa (2001) e As traduções de Ilse Losa no período do Estado Novo – Mediação cultural e projecção identitária (2015). Actualmente integra o centro de investigação CICS.Nova.IPLeiria (Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais).
BREAKING SOCIAL STRUCTURE
IN TONI MORRISON’S SULA
Adonay Custódia dos Santos Moreira
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria
Ana Isabel Mendes Rosa Marques
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria[2]
Toni Morrison is a widely-acclaimed African American writer whose works highlight the problem of identity construction for African American women who live under oppressive historical and cultural contexts, at the intersection of race, gender and class issues. In a patriarchal and racist society, whose hierarchical power structure determines the behavior and the construction of identity for both men and women, women are not powerless victims in the perpetuation of this structure, but essential agents of its reproduction.
This paper will examine in particular how gender roles affect the process of identity construction for African American women in the novel Sula (MORRISON, 1973). [3] Special emphasis will be given to the character “Sula”, who subverts the dichotomy female/male underlying this social organization by refusing normative roles and also by questioning two patriarchal institutions: religion and family. Her process of self-definition is a reflection on the ever pressing need to overcome obstacles of gender, race and class, in order to maintain a full identity in a society that is not receptive to changes in the power structure.
Thus, we start this presentation by reading an extract from a dialogue taken from Toni Morrison’s novel Jazz (1992, p. 242) [4]:
‘What’s the world for if you can’t make it up the way you want it?’
‘The way I want it?’
‘Yeah. The way you want it. Don’t you want it to be something more than what it is?’
‘What’s the point? I can’t change it.’
‘That’s the point. If you don’t, it will change you and it’ll be your fault cause you let it. I Let it. And messed up my life.’
These words take us to a key issue in Morrison’s work: the way individuals lead their lives in relation to cultural norms or, as Philip Weinstein sums up, “[…] the drama of the subject in culture […]” or “[…] the drama of identity formation” (1996, p. xx; xxvii). In an interview to Jane Bakerman (1978, p. 60), Morrison herself states that the fundamental issue of her novels comes down to maintaining a full identity in a world that weakens us at some moment:
But I think that I still write about the same thing, which is how people relate to one another and miss it or hang on to it…or are tenacious about love.
About love and how to survive – not to make a living – but how to survive whole in a world where we are all of us, in some measure, victims of something. Each one of us is in some way at some moment a victim and in no position to do a thing about it. Some child is always left unpicked up at some moment. In a world like that, how does one remain whole – is it impossible to do that?
Starting from the premise that cultural norms underlie the process of identity formation of every individual, and facing the latter as someone always pressed by social roles, we seek to analyze how these roles or norms seem to appear as “natural”, and hence inescapable, realities. Over time, women’s reproductive power has been put at the service of the social organization and the reproduction of unequal gender roles, which make up the core of patriarchy. In this regard, Gerda Lerner (1986, p. 20) explains that women’s participation in building this limiting system dates back to the need for survival of primitive people. The author argues that it became essential to the group’s survival for women to devote most of their energies to motherhood and childcare. However, although necessity created a division of labor, over the centuries this hierarchical power structure has been culturally reinforced. The patriarchal reasoning resembles that of colonization, for it entails the acceptance of power asymmetries, with evident political consequences. The psychological relationship with power is imbedded in the subconscious of individuals, influencing their future decisions. In other words, the traditional hierarchical structure that values men and women differently comes to be considered as natural and inevitable. Ultimately, patriarchy prevails because its reproduction mechanisms are deeply rooted in both men and women. Both men and women contribute to prevailing representations of masculine and feminine, through their behavior and the image they convey of themselves in social interactions (AMÂNCIO, 1993, p. 127). Shere Hite (1995, p. 95), in her report on the family, comes to the conclusion that hierarchical separations are aimed at the maintenance of male domination in family and society and that, in a society less obsessed with establishing gender roles, it is likely that values usually associated with the terms “feminine” and “masculine” are chosen by individuals of both sexes.
In the novel Sula, gender roles are exposed and subverted, namely the deeply-rooted principle of Western culture that all women naturally possess maternal instincts. In this work, black mothers are measured in relation to paradigmatic images of motherhood – that do not include feelings such as hatred, resentment, fear, disappointment or erotic pleasure – and suffer its devastating effects. When Hannah confronts Eva with questions about her love for her children (“‘Mamma, did you ever love us?’” (S, 67), Hannah shows her the intensity of her love by saying she remained alive for her children when it would have been a relief to die.
Eva criticises Hannah, for the latter seems to judge her mother more severely than others: “‘Everybody all right. ‘Cept Mamma. Mamma the only one ain’t right. Cause she didn’t love us.’” (S, 68). Eva’s sharp remark denounces the general social tendency to blame the mother and to consider as unnatural the non-display of maternal affection in terms of smiles and play. Hannah does not apprehend the economic and emotional pressure her mother was subjected to, when, in 1895, she was abandoned by her husband with three children to support, and judges her harshly, when her first priority was survival: “‘No time. They wasn’t no time. Not none’” (S, 69). This daughter is unable to recognize the inapplicability of socially disseminated ideals of motherhood, idealized for white women, and hence views her mother as a failure.
Sula and Nel, in their turn, try to stay away from their mothers in order to create an independent identity. Sula, after hearing her mother say she loves her, but does not like her, confirms that “(…) there was no other that you could count on” (S, 118-119). The sense of separation is obvious when Sula watches her mother die, marveling at the spectacle of movement and light that radiates from her mother’s body engulfed in flames. Nel decides to be different from her mother after seeing her smile at the train inspector that had humiliated her: “It was on that train, shuffling toward Cincinnati, that she resolved to be on guard – always. She wanted to make certain that no man ever looked at her that way. That no midnight eyes or marbled flesh would ever accost her and turn her into jelly” (S, 22). Although she admires her mother in the family sphere, Nel is ashamed of her inferiority as a black woman in a public sphere dominated by racism and sexism. Determined never to submit to male oppression, Nel refuses to be defined as Helene’s daughter, by saying “‘I’m me. I’m not their daughter. I’m not Nel. I’m me. Me.’” (S, 28). These words show an utter fear of an identity as vulnerable as the mother’s.
Thus, Sula and Nel, using “(…) each other to grow on” (S, 52), seek to transcend the relations with their mothers: Sula, in an attempt of self-creation (“I want to make myself” (S, 92); Nel, by claiming an independent identity (“I’m me.” (S, 28). However, even as children, they both realize they are confined to a widely accepted patriarchal doctrine that ranks people. Sula and Nel quickly discover “(…) they were neither white nor male, and that all freedom and triumph was forbidden to them” (S, 52). This awareness of power asymmetries associated with skin color and sex translates into a negative self-definition, by what they are not – neither white nor male. However, Sula rebels against this order by leaving Bottom and coming back ten years later with the strong conviction she will not marry or have children, while Nel, like Eva and Helene, accepts the security of a conventional identity, fully identifying herself with the roles of wife and mother and putting her husband and children at the center of her life. Unlike Sula, that “(…) had no center, no speck around which to grow” (S, 119) and only submits to the will of the “I”, as predicted in her dream of a knight galloping a white and grey horse, wandering in search of a soulmate, Nel, abandoned by Jude, is devastated by the emptiness of her life without “Prince Charming” to whom she had previously entrusted her identity: “She didn’t even know she had a neck until Jude remarked on it, or that her smile was anything but the spreading of her lips until he saw it as a small miracle” (S, 84). Being brought up under a strict control that suppresses her individuality, Nel uses the moral values of her traditional education as a shelter from life’s hardships and her desperate and obsessed desire to merge with her children becomes a remedy for her loss. Nel resigns to the principle that the “maternal” is incompatible with the “individual.” Likewise, Eva, when confronted with degrading economic and emotional conditions, chooses to live for her children and self-mutilates to receive insurance money, in order to guarantee their survival.
But let us take up Sula’s analysis, in particular, the way she rejects the patriarchal model by breaking loose from all conventional emotional supports – religion, family and motherhood.
In terms of religion, there are several episodes that illustrate the way Sula defies biblical laws or despises those who subscribe to these laws. Sula arouses the anger of community women by going to their church dinners without underwear or refusing to eat their food: “She came to their church suppers without underwear, bought their steaming platters of food and merely picked at it – relishing nothing, exclaiming over no one’s ribs or cobbler. They believed that she was laughing at their God” (S, 115). Sula, in fact, laughs at this God when arguing with Eve, discrediting a God that was going to “magically” lift them up from reality. (S, 160). When Eva turns to the authority of the biblical text to criticize Sula – “Bible say honor thy father and thy mother that thy days may be long upon the land thy God giveth thee” (S, 93) – Sula not only challenges the monolithic version of good and evil that society at large subscribes, but also questions God’s power: “‘Mamma must have skipped that part. Her days wasn’t too long.’ (…) ‘Which God? The one watched you burn Plum?’” (S, 93). By questioning religious dogma, that is, by questioning the basis of our ethical system, that separates good from evil, Sula creates a state of moral ambiguity that Morrison well-defines in the phrase: “Sometimes good looks like evil – you never really know what it is” (STEPTO, 1979, p. 216). Thus, Morrison restores the necessary complexity to concepts that are normally seen as hermetic and often prevent us from knowing our true selves. A conventional morality seems to be insufficient to understand the natural complexity of human beings.
Apart from crossing the barrier of good and evil, Sula breaks the dichotomy “female/male” by adopting an alternative identity that Bell Hooks calls “radical black female subjectivity” (1992, p. 48). In her quest to create this radical identity, Sula does not let herself be repressed by patriarchal norms of behavior and lives in an experimental way, at the mercy of her freedom and amorality. She leaves Bottom for 10 years to see the world, contrary to what is expected of the normative female role, that is, to stay attached to family responsibilities. And Sula expresses once again her libertarian character, by diluting differences between men and women with the following response to Nel: “‘You say I’m a woman and colored. Ain’t that the same as being a man?’” (S, 142). Sula rejects this dichotomous convention; she adopts social male behavior and is only responsible for herself. However, this choice remains an insult to women like Eve and Nel, who devoted their entire lives to others, as Morrison points out in one of her interviews. According to Morrison, Sula’s adventurous masculinity is an outrage in the thirties and forties (STEPTO, 1979, p. 227).
In short, the “I” becomes the center of Sula’s life, as she wishes to create herself and utterly refuses to follow the path of mothers who forgo their wishes for their children. Sula rules over her world, acquires the coveted existential freedom and reinforces her dissociation from socially imposed feminine roles.
Sula’s radicalism also extends to motherhood, with the rejection of a mother’s role. “I don’t want to make somebody else” (S, 92) is the statement that expresses her rebellion against the role of women who merely defined themselves through motherhood and family bonds. It is the assertion that culminates her long process of identity formation. Sula looks for a genuine identity that isolates her from maternal and community connections, a seclusion that can be considered as negative according to Morrison, since the author believes in the importance of ancestors for the formation of personal identity.
In spite of breaking free from all family and cultural bonds, Sula cannot survive on her own.[5] In fact, the greatest drama of Sula’s identity lies in this ambivalence, as Sula wants total freedom, but she also needs a rewarding human contact in order to feel whole.[6] Although Sula challenges a patriarchal ideology that identifies women as mothers, a deeper analysis reveals the patriarchal paradigm is not completely thrown out.[7] This “(…)new world black and new world woman (…),” as Morrison (1989, p. 25) defines her, seeks to endorse a different world that seems to answer Violet’s question in Jazz – “‘What’s ‘the world for if you can’t make it up the way you want it?’” (J, 242). In fact, at first glance, Sula seems to get from the world what she looks for, but ends up showing a terrible fear of the feminine by rejecting Hannah, Eva and the community of women. Sula refuses to communicate with her mothers, judges them by the same Manichean system she intended to eradicate and sees them as limited, but she only looks for the “how” and not the “why” and does not learn to unite her story to theirs.
In conclusion, this character lives at the mercy of a powerful will that blurs conventional gender roles and brings down the dichotomy good versus evil. However, by fighting for self-definition alone and by distancing herself from the collective condition of black women, Sula reveals a deeply-embedded patriarchal fear of a maternal inheritance. In fact, Sula’s identity, based on total subversion and challenge of conventional rules, is neither sustainable nor steady. After having confronted stereotypes and shaken community traditionalism, Sula dies alone and Bottom quickly returns to its conventional values.
Somehow, her endeavor failed, because Sula not only wanted to create herself as if it was possible to build an identity in a cultural void, but was also unable to acknowledge how racism, sexism and poverty distort all family ties, affecting the identity formation of each individual. Building a balanced identity seems to come precisely from the confrontation of a past and a present of oppression, so that we can, as Morrison affirms, “to survive whole in a world where we are all of us, in some measure, victims of something” (BAKERMAN, 1978, p. 60) or for the world to be “something more than what it is” (J, 242). If we do not try to find out the “why”, the assumption that oppression is a “natural” matter of fate will go on and we will remain “(…) wishing [we were] somebody else” (J, 242), like Violet, in the novel Jazz.
References:
AMÂNCIO, L. (1993). Género – representações e identidades. Sociologia – problemas e práticas, 1993, 14, p. 127-140.
BAKERMAN, J. (1978). The Seams Can’t Show: An Interview with Toni Morrison. Black American Literature Forum, Summer 1978, 12.2, p. 56-60.
HIRSCH, M. (1990). Maternal Narratives: ‘Cruel Enough to Stop the Blood’. In: GATES JR., H. L. (Ed.), Reading Black – Reading Feminist. New York: Meridian, p. 415-430.
HITE, S. (1995). Relatório Hite sobre a família: crescendo sob o domínio do patriarcado. Trad. M. C. Fernandes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
HOOKS, B. (1992). Black Looks: Race and Representation. Boston, MA: South End Press.
LEE, D. H. (1984). The Quest for Self: Triumph and Failure in the Works of Toni Morrison. In: EVANS, M. (Ed.), Black Women Writers (1950-1980): A Critical Evaluation. Garden City: Anchor Books, p. 346-360.
LERNER, G. (1986). The Creation of Patriarchy. New York: Oxford University Press.
MORRISON, T. (1992). Jazz. New York: Penguin Books.
MORRISON, T. (1973). Sula. London: Pan Macmillan Publishers Ltd., 1990.
MORRISON, T. (1989). Unspeakable Things Unspoken: The Afro-American Presence in American Literature. Michigan Quarterly Review, Winter 1989, 28.1, p. 1-34.
PAGE, P. (1995). Dangerous Freedom: Fusion and Fragmentation in Toni Morrison’s Novels. Jackson: University Press of Mississippi.
STEPTO, R. B. (1979). ‘Intimate Things in Place’: A Conversation with Toni Morrison. In: HARPER, M. S. & STEPTO, R. B. (Eds.), Chant of Saints: A Gathering of Afro-American Literature, Art, and Scholarship. Urbana: U. of Illinois P., p. 213-229.
WEINSTEIN, P. M. (1996). What Else But Race? The Ordeal of Race in Faulkner and Morrison. New York: Columbia University Press.
Notes to the Text
[1] Pode aceder-se ao Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Pólo de Leiria em: http://www.cics.nova.fcsh.unl.pt/polos/cics-nova-ipleiria.
NOTES TO THE TEXT
[2] Pode aceder-se ao Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Pólo de Leiria em: http://www.cics.nova.fcsh.unl.pt/polos/cics-nova-ipleiria.
[3] Hereafter, this novel will be referred to by its abbreviation; the page number cited will in parentheses.
[4] Hereafter, this novel will be referred to by its abbreviation; the page number cited will in parentheses.
[5] See PAGE, P. (1995). Dangerous Freedom: Fusion and Fragmentation in Toni Morrison’s Novels. Jackson: University Press of Mississippi, p. 74.
[6] See LEE, D. H. (1984). The Quest for Self: Triumph and Failure in the Works of Toni Morrison. In: EVANS, M. (Ed.), Black Women Writers (1950-1980): A Critical Evaluation. Garden City: Anchor Books, p. 350.
[7] See HIRSCH, M. (1990). Maternal Narratives: ‘Cruel Enough to Stop the Blood’. In: GATES JR., H. L. (Ed.), Reading Black – Reading Feminist. New York: Meridian, p. 424.
Bio fornecida pelo palestrante.
Aline Menezes
Universidade de Brasília
Resumo: Este artigo apresenta reflexões iniciais sobre a poesia de Sylvia Plath, considerando alguns estudos da produção de sua autoria. O objetivo é apontar elementos constitutivos do trabalho poético da escritora norte-americana – ainda conhecida muito mais pelos dramas de sua vida e pela tragédia de sua morte do que pela sua poesia – e discutir o método utilizado por Plath para a construção de seu projeto literário, na condição de mulher que revela a voz individual e particular da artista, inscrita em um mundo onde a fala feminina parece sempre estar sufocada. Para este trabalho, portanto, iremos nos orientar com base na leitura e interpretação de poemas selecionados do livro Ariel.
Palavras-chave: literatura, estudos de gênero, poesia feminina, voz poética.
Abstract: This article presents initial reflections about Sylvia Plath’s poetry, considering some studies about her production. The objective of this paper is to point constituent elements inside the poetic work of the American writer – still known more by the dramas of her life and the tragedy of her death rather than her poetry – and to discuss the method used by Plath to build her literary project over the condition of women, which reveals the individual content and particularly the artist’s voice, registered in a world where the female speech always seems to be stifled. For this work, thus, we will orient ourselves based on the reading and interpretation of selected poems of the book Ariel.
Keywords: literature, gender studies, women’s poetry, poetic voice.
Minicurrículo: Aline Jesus de Menezes é jornalista, mestre em Literatura e Práticas Sociais e doutoranda na mesma área pelo Programa de Pós-graduação em Literatura (PósLit) da Universidade de Brasília (UnB), sob a orientação da professora dra. Cíntia Schwantes. Com experiência docente nas disciplinas de Literatura Brasileira, Estudos Literários, Língua Portuguesa, assim como Leitura e Produção de Textos, atualmente pesquisa na linha de estudos de gênero, crítica literária feminista, escrita de autoria feminina e literatura contemporânea.
SYLVIA PLATH E A VOZ INDIVIDUAL FEMININA NA ESCRITA E NA LITERATURA
Aline Menezes
Universidade de Brasília
(…) a vida é solidão…
Sylvia Plath
Na conhecida obra de crítica literária feminista The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth Century Literary Imagination1, publicada em 1979, as autoras Sandra Gilbert e Susan Gubar analisam escritoras do século XIX que conquistaram um lugar na literatura, até então predominantemente masculina e patriarcal. Para Gilbert e Gubar, as narrativas de Jane Austen, Emily Dickson e as irmãs Brontë, por exemplo, evidenciam a experiência de opressão vivida pelas mulheres dos séculos anteriores:
(…) se as mulheres contemporâneas tentam pegar a caneta com energia e autoridade, elas só podem fazê-lo porque suas predecessoras dos séculos dezoito e dezenove lutaram em um isolamento que parecia uma doença, alienação que parecia loucura, obscuridade que parecia paralisia, para superar a ansiedade de autoria que era endêmica em sua subcultura literária (GILBERT e GUBAR, s/n).
A ansiedade de autoria à qual Gilbert e Gubar fazem referência no ensaio é parte da vivência de escritoras que se sentiam aprisionadas em um universo que – de vários modos – silenciava suas vozes, reprimindo-as. Não por acaso, Virginia Woolf escreveu em Um teto todo seu sobre a necessidade de que mulheres escritoras tivessem espaço no qual elas pudessem, finalmente, dedicar-se ao trabalho de escrever ficção. Liberdade econômica, inclusive, é relevante para esse processo de empoderamento feminino e artístico.
A hipótese aqui é de que – na obra de Sylvia Plath – é possível compreendermos como a poetisa apropriava-se do ato de escrever como forma de resistir às imposições de um mundo onde a fala feminina parece sempre estar sufocada e no qual essa ansiedade de autoria revela o seu trabalho poético na mais completa manifestação de sua experiência e identidade literárias:
Seu esforço literário para encontrar sua voz, ainda que para isso fosse preciso modulá-la ao sabor dos perfis impostos pelo mercado editorial de sua época, sem dúvida contribuiu para que ela fosse pouco a pouco construindo uma identidade literária distinta, cuja presença haveria de chegar, inconfundível, até os dias de hoje, sobretudo na constante mistura que realiza entre os modos poéticos e narrativos (CARVALHO, 2003, p. 46).
O processo de construção dessa identidade literária na obra plathiana apresenta-se de maneira bem particular. Para Ana Cecília Carvalho (2003), autora do livro A poética do suicídio em Sylvia Plath, a poetisa concentrou o seu esforço na “tentativa de transformar seu mundo subjetivo em material literário” (p. 168). Material este que – até os dias de hoje, passadas cinco décadas após sua morte – rendeu a Plath o seu reconhecimento no cânone literário. No entanto, a escritora ainda é relativamente mais conhecida pelos dramas de sua vida e pela tragédia de sua morte do que pela sua poesia.
Na opinião do professor José Luís Araújo Lima (1987), a norte-americana é “uma estrada para a apreensão e aprendizagem do real sob o ponto de vista do aprofundamento do eu, dos seus contornos e dos seus mistérios” (p. 196). Além disso, ele escreve que “a sua poesia é um combate feroz pelo descobrimento da identidade, em que avança até os limites da linguagem e da vida” (idem, ibidem). Nessa perspectiva, Ana Cecília Carvalho comenta que encontraremos na poesia de Plath “as marcas da indissociação entre a experiência interna e a escrita”2.
Sylvia Plath apresenta um trabalho de tratamento da linguagem, no qual ela obsessivamente procura construí-la artisticamente. Nesse sentido, José Lima discute os limites desse empreendimento da escritora, tomando como poema inicial “Edge” (tradução em português, “Ponto-limite”), publicado no livro Ariel, de Plath. Para ele, o título desse poema é implacável, uma vez que “anuncia de imediato a experiência dos limites”.
E mais: “Edge” aponta “o contato com as margens da vida e os extremos da linguagem”. Assim como é possível apreender o real à medida que o “eu” aprofunda-se em Sylvia Plath, segundo Lima, também se pode observar o seu recolhimento, conforme acontece em “Edge”. Em “Words” (“Palavras”), há o movimento em que o eu se aprofunda e se recolhe.
Essas e outras reflexões neste artigo são iniciais e não pretendem encerrar a discussão sobre o trabalho poético da escritora norte-americana. O objetivo é dar início a questões que consideramos fundamentais para analisar o processo de construção do trabalho artístico plathiano, que integrará tese de doutoramento, buscando evidenciar a superação da ideia de que a morte trágica da autora é o elemento maior capaz de explicar a sua produção, como se a sua voz não pudesse ser ouvida muito além das angústias e dramas particulares estigmatizados “do ser mulher com depressão”.
Evidentemente, o debate sobre a escrita poética produzida por Plath precisa ser feito de forma a pensar na experiência humana vinculada à literária, porém, mais do que isso, é necessário pesar até que ponto a voz individual feminina na literatura – na condição de mulher escritora – encontra uma recepção capaz de compreendê-la artisticamente, não apenas como “testes projetivos para compor um diagnóstico de sua personalidade supostamente esquizoide”, conforme aponta Carvalho.
Sylvia Plath morreu prematuramente, aos 30 anos de idade, no auge de sua produção literária. Se considerarmos que há um dilema comum a todo poeta, que seria conseguir uma voz própria, “inconfundível e inovadora” por meio da linguagem ou “da prática textual”, como nos diz Rodrigo Garcia Lopes (2007), é válido identificarmos de que maneira a escrita plathiana tenta resolver esse dilema, uma vez que ele exige do(a) autor(a) o esforço para encontrar na linguagem a forma estética que representa a experiência/existência humana, suas contradições e suas relações com o mundo.
Aprisionamento doméstico
Ao examinar a poesia de Sylvia Plath, Jeannine Dobbs (1977) percebe a relação que a poetisa faz às alusões sobre casamento e maternidade. Para Dobbs, a norte-americana explora o que significa ser mulher em termos do conflito tradicional entre família e carreira, assim como outras escritoras contemporâneas. Segundo essa crítica literária, a poesia de Plath apresenta forte resistência com a perspectiva de aprisionamento doméstico como esposa e mãe.
Ainda de acordo com Dobbs, portanto, a vida doméstica parece ser preocupação fundamental nos poemas da escritora, que também apresentam doença, ferimento, tortura, loucura e morte. Ela lembra que a vida de Plath e das pessoas de seu convívio diário foi marcada por dramas: amputação da perna e depois morte do pai, úlcera crônica da mãe, morte da avó e seus próprios problemas de saúde.
Jeannine Dobbs aponta como exemplo da ambivalência da poetisa a personagem Esther, do romance The Bell Jar, único publicado pela escritora. A metáfora central do romance seria a representação literária deste dilema: carreira ou casamento:
Several incidents in The Bell Jar illustrate Plath’s linking of suffering and sin. Bad-girl Doreen flaunts her sexuality (and perhaps, in Esther Greenwood’s eyes, does worse) and gets drunk-sick… (…) Plath’s letters to her mother and her novel both make it explicitly clear that Plath was confused and frustrated by the necessity of defining herself as a woman3 (DOBBS, 1977, p. 11 e 12).
Ainda no ensaio ‘Viciousness in the Kitchen’: Sylvia Plath’s Domestic Poetry, Dobbs comenta que – ao ingressar na universidade – Plath passou a ver a maternidade como uma maneira de ampliar a experiência da vida. Ela conheceu Ted Hughes em 1956, com quem casou-se e teve dois filhos: Frieda e Nicholas:
Plath’s work suggests that the attempt to resolve these feelings failed. Her suicide may have been, to some degree, a final acting out of her belief in punishment, vengeance, of the self on the self, for this failure4 (DOBBS, 1977, p. 3).
The Colossus foi o primeiro livro de poesias de Plath, escrito em 1959 e publicado em 1960. Em Ariel, reúnem-se os principais poemas da escritora. Em ambas as obras, há referências a mulheres dominadas, subjugadas e manipuladas, de acordo com a observação de Jeannine Dobbs. Sexualidade, gravidez e paradoxo também são parte dessa “atmosfera” criada pela produção poética de Plath. Além disso, há “jogo metafórico e imagens nos poemas”. Sobre isso, Dobbs afirma que – raramente – Sylvia Plath é vista como se houvesse “sentimentalismo e fofura” em seus poemas. E conclui seu ensaio dizendo que a ambivalência de Plath em relação aos homens, ao casamento e à maternidade explica o grau em que os seus poemas estão associados ao sofrimento:
She is more often accused of excess hostility, of hysteria. Most of her poems about maternity exhibit these characteristics.
(…) They reflect not only her perception of outer reality, but they project her inner reality as well5 (DOBBS, 1977, p. 9 e 13).
No caso do ensaio de Dobbs, a existência de Plath está vinculada ao aprisionamento doméstico, aos conflitos da mulher que escreve com aquela que é mãe, esposa e “precisa” cumprir os “rituais” comuns ao seu “destino”. Essa perspectiva é uma das interpretações possíveis da produção da escritora norte-americana. Sob outra análise, no entanto, há palavras e sentidos nos poemas selecionados para este trabalho que são indicativos de uma expressão poética que marca a sua voz particular e individual.
Influência e expressão poéticas
De acordo com Eileen Aird (1979), Sylvia Plath recebeu influência de escritores como Robert Lowell, Anne Sexton e Theodore Roethke, nomes aos quais a poetisa rendia admiração e respeito. No entanto, sua fala é a expressão poética própria, criada para ser capaz de afirmar-se como autônoma e única.
Para Aird, os poemas intitulados “Poem for a Birthday” e “Three Women: a Poem for Three Voices”, por exemplo, marcam um período de rápida mudança e desenvolvimento na poesia de Plath. A ensaísta comenta que esse momento é “caracterizado não apenas pelo movimento de escrita” que vai até a construção de “poemas dramáticos que precisam ser falados em voz alta”. Na opinião de Aird, portanto, tal movimento era consciente, o que demonstra o trabalho empreendido pela poetisa:
Sylvia Plath said of her artistic method: ‘I think that personal experience shouldn’t be a kind of shutbox and mirror-looking narcissistic experience. I believe it should be generally relevant to such things as Hiroshima and Dachau and so on.’ The relevance of this to the late poetry is abundantly clear but the process begins with ‘Poem for a Birthday’ where private experience–breakdown and the reasons for it, clinical treatment, pregnancy–is extended through the images which accumulate layer upon layer until it becomes a metaphor for suffering throughout the natural and the human world6 (AIRD, 1979, s/n).
Em “Poem for a Birthday”, Aird identifica a influência de Roethke na estrutura apresentada. Nesse caso, Plath teria aprendido com o poeta americano sobre a possibilidade de capturar a realidade e transformá-la, liberando “o drama interior”:
The poems which Roethke collected in Praise to the End are the most direct influence on Sylvia Plath’s poem which has the same structure of short sections connected by theme and imagery. More importantly Plath’s subjects–madness, loneliness, sexual identity, family relationships, growth and searching–are very close to Roethke’s in poems such as “Dark House”. Sylvia Plath acknowledges Roethke as a major influence in a letter to her mother on 2 February 1961: ‘Ted and I went to a little party the other night to meet the American poet I admire next to Robert Lowell – Ted [for Theodore Roethke]. I’ve always wanted to meet him as I find he is my influence.’ Her debt to Lowell and Sexton is acknowledged later in October 1962 and is a much more general recognition of an exciting mode, a developing convention. For all its raw immediacy, its deliberate assault on the reader’s sensibility, Ariel has a dramatic focus and personae which are pared away by Lowell and Sexton7 (AIRD, 1979, s/n).
Segundo Aird, “Poem for a Birthday” inicia o período de transição que termina com “Three Women”, ambos poemas longos que se juntam para dar a ver o tema da gravidez e do nascimento, “apresentação realista que se funde com uma oposição simbólica entre criatividade e destrutividade”:
Escritura plathiana
Do ponto de vista formal, Sylvia Plath revela uma estrutura variável e hermética no conjunto de poemas reunidos em Ariel, que é constituída de dísticos (“The Night Dances”), tercetos (“Gulliver”), septilhas (“Tulips”), assim como estrofes irregulares (“Getting There”). Em “Words”, ela apresenta quatro quintilhas, formando um agrupamento de 20 versos no total. Considerando que as suas primeiras produções poéticas apresentam dicção tipicamente modernista, a sua fortuna crítica indica a influência que ela recebeu da literatura norte-americana representada, por exemplo, por Ezra Pound e T. S. Eliot.
Nesse sentido, o uso de versos livres, brancos e de estrofação não convencional, que são conquistas do Modernismo, também fez parte da formação de Plath. No entanto, mesmo que tais aquisições literárias se apliquem a outros poetas posteriores a Pound e Eliot, compreendemos que – no caso da escritura plathiana – a poetisa conseguiu sua voz própria, capaz de fazê-la distinta em meio a outros nomes de sua geração.
Em se tratando de Plath, a sua expressão poética preserva, ainda, estruturas de algum modo fixas: em todos os poemas de Ariel, há o emprego de letras maiúsculas iniciando cada um dos versos. Esse aspecto formal não pode e não deve ser desconsiderado na avaliação de sua poesia, uma vez que demonstra preocupação na linguagem:
A seguir, confira íntegra do poema “Words” (1963) e a tradução de Maria Fernanda Borges:
| Words Axes After whose stroke the wood rings, And the echoes! Echoes travelling Off from the center like horses. The sap Wells like tears, like the Water striving To re-establish its mirror Over the rock That drops and turns, A white skull, Eaten by weedy greens. Years later I Encounter them on the road — Words dry and riderless, The indefatigable hoof-taps. While From the bottom of the pool, fixed stars Govern a life. |
Palavras Machados, Após cada pancada sua a madeira range, E os ecos! São os ecos que viajam Do centro para fora como cavalos. A seiva Brota como lágrimas, como a Água a esforçar-se Por recompor o seu espelho Sobre a rocha Que pinga e se transforma, Uma caveira branca Comida pelas ervas daninhas. Anos mais tarde Encontro-as no caminho — Palavras secas e indomáveis, Infatigável som de cascos no chão. Enquanto Do fundo do charco estrelas fixas Governam uma vida. |
Nesse poema e em outros, Plath faz com que o leitor ouça o seu texto (cf. CARVALHO, 2003, p. 126). A própria escolha dos signos linguísticos realiza essa tentativa: machados, pancada, madeira que range, ecos, cavalos… Estendendo a perspectiva de interlocução para o poema “Palavras”, há um tom muito agressivo e, talvez, violento, a exemplo dos machados (Axes) (“Machados, / Após cada pancada sua a madeira range”) que parecem representar o interlocutor do poema.
Esses machados provocam ecos “que viajam do centro para fora como cavalos”. Ou, em outros termos, repetidos sons que viajam de dentro do eu lírico para fora, na rapidez ou nos movimentos equivalentes aos galopes de um cavalo. As palavras são essencialmente violentas, brutas e pesadas. “Machados”, “pancadas”, “ervas daninhas”, “caveira branca”, “cascos no chão”… todas elas juntas compõem uma atmosfera densa, tensa e mórbida. No poema, são “estrelas fixas” que “governam uma vida”.
A atmosfera criada por Plath em “Words” é mórbida, e sua imagem de “uma caveira branca” sendo “comida pelas ervas daninhas” conduz o leitor para outra imagem: a de vermes sobre um corpo em putrefação. Plath constrói um poema com referências a corpo (“caveira branca”), sangue (“A seiva/ brota como lágrimas”), putrefação (“ervas daninhas”). As “palavras secas e indomáveis” que a poetisa encontra no caminho ou no processo de criação de seu próprio poema transformam-se em palavras pesadas e violentas. O poema está centrado na morbidez e na violência dos termos e expressões: morbidez e violência condensadas na linguagem poética.
Em Sylvia Plath, o que ela encontra pelo caminho são as “palavras secas e indomáveis”. O seu poema demonstra a estranheza da linguagem, o hermetismo, este como uma das principais características da poesia plathiana, tornando seus escritos ambíguos e subjetivos, como já disse Garcia Lopes. Não sem razão, ele chama a atenção para o fato de que a escrita de Plath não estava limitada ao seu material autobiográfico, como muitos críticos equivocadamente escreveram. Para Lopes, não se pode desprezar o método utilizado pela escritora:
Sylvia Plath não se limita a usar em sua poesia material autobiográfico em estado bruto. Seus poemas são um delírio lapidado por um método. Restringir a leitura de seus poemas ao que a vida da poeta teve de trágico e curioso é desprezar seu método de escrita que tinha, com um de seus paradigmas, o controle absoluto sobre a linguagem (LOPES, 2007, p. 119).
Considerações finais
A escritora norte-americana Sylvia Plath (1932-1963) apresenta em seus poemas certos dilemas da experiência poética enquanto fenômeno de expressão da linguagem e, em outro sentido, as tensões do poeta na condição daquele que depara com as (im)possibilidades e limites da própria criação literária. Além disso, a independência ou relativa liberdade do poeta – no caso de Plath – demonstra, talvez, a sua capacidade de transformar o mundo externo em material elaborado artisticamente e que revela imaginação, criatividade e talento literários.
Nas palavras de Julia Kristeva, o refúgio ao qual Sylvia Plath fora submetida anuncia a “despedida silenciosa da vida” da poetisa. Nesse sentido, a sua morte trágica vai sempre suscitar especulações quanto à criação de seus poemas serem elementos projetivos de seu estado mental. Um exemplo disso é a avaliação possível do poema “Words”, analisado neste trabalho com base na metodologia do close reading, que julgamos ser o tipo de análise mais interessante para este momento.
Em “Words”, a presença de termos e palavras abstratas indica o esvair-se da própria vida. A seiva (sangue) nasce ou surge como um líquido (lágrimas, água) que se esvai ou evapora. Surge como algo cristalino, cujo esforço é no sentido de criar uma condição de reflexo, ainda que seja um reflexo sobre a rocha. Possivelmente, não é somente “a água” no poema da escritora americana que busca recompor o seu espelho, mas a própria voz da mulher que tenta reorganizar sua experiência no mundo, no qual o esforço é encontrar os signos que melhor representem o dissipar ou desfalecer da vida.
Não por acaso, a professora Ana Cecília Carvalho comenta que a poesia de Plath nos mostra “que o fascínio pela morte ocupa o eu e instala-se no próprio centro da fonte da criação literária” (CARVALHO, 2003, p. 231), acrescentando que essa criação, “como qualquer produção do pensamento, provém do trabalho, no sentido técnico do termo, e da elaboração psíquica, que põem em jogo a complexidade dos processos do inconsciente” (idem, p. 176).
Referências
DOBBS, Jeannine (1977). ‘Viciousness in the Kitchen’: Sylvia Plath’s Domestic Poetry, Modern Language Studies, Vol. 7, nº 2, Autumn, 1977: p. 11-25. Disponível em: http://www.sylviaplath.de/plath/dobbs.html. Acessado em ago. 2015.
CARVALHO, Ana Cecília (2003). A poética do suicídio em Sylvia Plath. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
EILEEN, Aird (1979). ‘Poem for a Birthday’ to ‘Three women’: Development in the Poetry of Sylvia Plath, Critical Quarterly, Vol. 21, No. 4, 1979: p. 63-72.
LIMA, J. L. Araújo (1987). Uma linguagem de limites ou os limites da linguagem: o último poema último de Sylvia Plath, Revista da Faculdade do Porto, II Série, IV, p. 173-198, 1987. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2556.pdf.
LOPES, Rodrigo Garcia (2007). Sylvia Plath: delírio lapidado. In: PLATH, Sylvia. Poemas. Organização, tradução, ensaios e notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. 2ª ed. 2ª. reimp. São Paulo: Iluminuras, 2007.
PLATH, Sylvia. Ariel (1996). Tradução Maria Fernanda Borges. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1996.
PLATH, Sylvia. The Bell Jar (2005). New York: Harper Pernnial, 2005. (Harper Perennial Modern Classics).
PLATH, Sylvia. The Collected Poems (2008). Edited and with an Introduction by Ted Hughes. New York: Harper Perennial, 2008. (Harper Perennial Modern Classics)
III. Obras gerais
GILBERT, Sandra; GUBAR, Susan (1979). Infection in the Sentence: The Woman Writer and the Anxiety of Authorship. Disponível em:
http://firstyear.barnard.edu/legacy/modernism/womanwriter. Acessado em 15 out. 2015.
KRISTEVA, Julia (1986). About Chinese Women. In: The Kristeva reader. Ed. Toril Moi. Translation Margaret Walter. New York: Columbia University Press, 1986, pp. 89-136.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu (1929). Tradução Vera Ribeiro. São Paulo: Editora Nova Fronteira. Disponível em: http://brasil.indymedia.org/media/2007/11/402799.pdf. Acessado em: 25 out. 2015.
25.25 out. 2015.
NOTAS AO TEXTO
1 Conforme tradução livre de C. Schwantes para o português: A louca no sótão: a mulher escritora e a imaginação literária do século XIX.
2 Na opinião de Ana Cecília Carvalho, é importante esclarecer que tal dissociação não deve ser tomada como se os textos de Plath fossem “testes projetivos”.
3 “Alguns incidentes em The Bell Jar ilustram a ligação que Plath faz entre sofrimento e pecado. A garota Doreen ostenta sua sexualidade (e talvez, aos olhos de Esther Greenwood, faça ainda pior) e se embriaga e adoece. As cartas de Plath a sua mãe e o seu romance, ambos deixam claro que Plath estava confusa e frustrada pela necessidade de se definir como mulher” (tradução minha).
4 “As obras de Plath sugerem que a tentativa de resolver esses sentimentos falhou. Seu suicídio pode ter sido, em algum grau, o ato final – contra si mesma – de sua crença em punição e vingança por essa falha” (tradução minha).
5 “Ela é mais frequentemente acusada de hostilidade excessiva ou histeria. A maioria dos seus poemas sobre maternidade exibe essas características. (…) Eles refletem não somente sua percepção da realidade exterior, mas também projetam sua realidade interna” (tradução minha).
6 “Sobre o seu método artístico, Sylvia Plath disse: ‘Eu penso que a experiência pessoal não deve ser uma experiência narcisística de uma caixa fechada ou de se olhar no espelho. Acredito que deva ser relevante para tais coisas como Hiroshima e Dachau e assim por diante’. A relevância disso para sua poesia posterior é abundantemente clara, mas o processo começa com Poem for a Birthday, onde a experiência particular – o colapso e suas razões, tratamento clínico e gravidez – é estendida por meio de imagens que acumulam camada sobre camada até que se torne uma metáfora para o sofrimento natural e humano” (tradução minha).
7 “Os poemas coletados por Roethke em Praise to the End são as influências mais diretas sobre os de Sylvia Plath, os quais têm a mestra estrutura de seções curtas ligadas pelo tema e imagens. Os assuntos mais importantes na obra dela – loucura, solidão, identidade sexual, relacionamentos familiares, crescimento e busca – são muito próximos aos de Roethke, a exemplo de “Dark House”. Em uma carta escrita para sua mãe em 2 de fevereiro de 1961, Sylvia Plath reconhece Roethke como sua principal influência: ‘Ted e eu fomos a uma pequena festa na outra noite para encontrarmos o poeta americano que eu mais admiro além de Robert Lowell – Ted [para Theodore Roethke]. Eu sempre quis encontrá-lo porque reconheço sua influência’. Seu débito a Lowell e Sexton é reconhecido posteriormente em outubro de 1962 e é muito mais um reconhecimento geral de um modo emocionante, uma convenção que se desenvolvia. Por toda sua imediação crua, e ataque deliberado sobre a sensibilidade do leitor, Ariel tem um foco dramático e personagens que são colocados lado a lado por Lowell e Sexton” (tradução minha).
Bio fornecida pelo palestrante.
Mariana Chaves Petersen
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Resumo: Em A redoma de vidro, a personagem principal e narradora, Esther faz críticas ao papel atribuído às mulheres nos EUA dos anos 1950, enquanto passa por um colapso que culmina em uma tentativa de suicídio. O romance foi objeto de diversas leituras críticas feministas, sendo mais recente seu enfoque como estudo de caso. Neste trabalho, faço um diálogo entre essas duas possibilidades de leitura, relacionando feminismo e trauma. Em A redoma de vidro, Esther perde sua capacidade de ler e de escrever, fato que está ligado não só a suas críticas a um mundo patriarcal como também a certos acontecimentos que desencadeiam essa perda. Partindo disso, estabeleço paralelos com dois contos de Plath: “Línguas de pedra” e “Mães”, os quais trazem situações que podem ser relacionadas a experiências pelas quais Esther passa, além de fomentarem discussões quanto à perda da linguagem, presente no romance.
Palavras chave: Sylvia Plath; A redoma de vidro; contos; linguagem.
Abstract: In The Bell Jar, the main character and narrator, Esther, criticizes the role attributed to women in the US in the 1950s, while she is going through a breakdown that culminates in a suicide attempt. The novel has been the object of several feminist criticisms, the most recent being those that interpret it as a case study. In this article I aim at establishing a dialogue between these two forms of reading, while relating feminism to trauma. In The Bell Jar, Esther loses her ability to read and write, a fact that is connected not only to her critical view of patriarchal society, but also to certain events that led to her loss. Having this in mind, I intend to make a parallel between Plath’s novel and two of her short stories: “Tongues of Stone” and “Mothers.” These bring about situations that can be related to the experiences that Esther experiences in the novel and promote a discussion on the loss of the power of expressing oneself that is referred to in the novel.
Keywords: Sylvia Plath; The bell Jar; short stories; language.
Minicurrículo: Mariana Chaves Petersen é licenciada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é mestranda em Letras (Estudos de Literatura) pela mesma universidade, sendo bolsista da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Tem experiência nas áreas de literaturas estrangeiras modernas, literatura comparada e teoria literária, com especial interesse em estudos de gênero e na obra de Sylvia Plath.
A PERDA DA LINGUAGEM NA NARRATIVA
DE SYLVIA PLATH: A REDOMA DE VIDRO,
“LÍNGUAS DE PEDRA” E “MÃES”
Mariana Chaves Petersen
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Introdução
O romance A redoma de vidro foi publicado com o nome de Sylvia Plath em 1971, não mais com o pseudônimo Victoria Lucas, conforme a primeira edição, em 1963 (Londres, Heinemann, 258 p. Ver também 1966 na Inglaterra e 1971 nos Estados Unidos). Na obra, a personagem principal e narradora, Esther Greenwood, faz fortes críticas ao papel das mulheres nos Estados Unidos dos anos 1950, ao mesmo tempo em que está passando por um colapso, que culmina em uma tentativa de suicídio. Esther é uma graduanda em Inglês, em uma faculdade de prestígio, onde só tira notas A. No começo da narrativa, ela vai a Nova Iorque depois de ganhar um concurso de uma revista feminina. Lá, faz um estágio, conhece pessoas, mas também passa por experiências desagradáveis, como por exemplo com Marco, descrito como “misógino” (PLATH, 2014, p. 120), que tenta estuprá-la. Enquanto em Nova Iorque, Esther se vê como separada, como uma observadora outsider, mas é evidente que sente o que acontece com ela. Ao retornar para casa após a viagem, em Londres, descobre que não foi aceita em uma oficina de criação que teria lugar durante as férias. É então que sabemos de acontecimentos do passado e do momento narrado por Esther, os quais podem ser relacionados a seu colapso: suas experiências com um namorado anterior, a morte prematura de seu pai, suas expectativas em relação ao futuro e sua relação conturbada relação com sua mãe. Ela vai então a um psiquiatra, mas após uma sessão traumática de eletrochoque decide não mais voltar. Acaba tentando suicídio e sendo levada a um hospital psiquiátrico. Lá, tendo uma psiquiatra, Dra. Nolan, em quem parece confiar, Esther é capaz de passar pelo eletrochoque novamente de forma menos (apesar de ainda) traumática. No fim da narrativa, tudo está pronto para Esther sair do hospital, mas fica a sensação de que ela está de certa forma melhor, mas não “curada”; que ela ainda tem sobre sua cabeça a redoma suspensa.
A redoma de vidro foi tema de diversas leituras críticas feministas, como as de Marjorie G. Perloff (1972) e E. Miller Budick (1987). Budick faz uma leitura mostrando como, de acordo com ela, a narrativa traz um discurso feminino e uma proposição de uma linguagem feminina em oposição ao que seria a masculina. Para a autora, a descoberta de Esther da linha narrativa de um discurso feminista é o que a faz sair da redoma:
(…) ela [Esther] descobre a linha mágica que é tanto a fonte de sua criatividade interna quanto sua ligação com o mundo.
Essa linha leva para fora da redoma de vidro, para fora do quarto todo seu, (…). É uma linha poderosa, um umbílico capaz de assimilar a energia masculina, de convertê-la por dentro do espaço interior da feminina em uma próspera, pulsante vida, e então carregar essa questão para fora, no mundo, como uma expressão única do self. Essa é a linha do discurso feminista (…) (BUDICK, p. 883-884, tradução minha).
Já Perloff discute mais o estado mental de Esther. Apesar de sua leitura da personagem como tendo uma personalidade esquizoide, seu enfoque é no mundo habitado por Esther e em como as situações vividas por ela propulsionam sua doença mental, de forma que podemos questionar se realmente há diferença entre aqueles diagnosticados como “doentes” e os outros ditos “normais”:
O foco de Sylvia Plath em A redoma de vidro não é na doença mental em si, mas na relação entre a psicose privada de Esther e sua situação social maior. De fato, seu dilema parece ter muito a ver com ser uma mulher em uma sociedade cujas diretrizes para as mulheres ela não consegue aceitar nem rejeitar (PERLOFF, 1972, p. 518, tradução minha).
Qualquer que seja a extensão da predisposição congênita de Esther à loucura, o mundo louco em que ela habita certamente intensifica sua condição (PERLOFF, 1972, p. 518, tradução minha).
[Plath sugere que] a distinção externa ou oficial entre loucura e sanidade (…) é largamente ilusória (PERLOFF, 1972, p. 520, tradução minha).
O arranjo dos incidentes sugere que toda doença deva ser vista como parte do mesmo espectro: a enfermidade, seja mental ou física, é um índice da incapacidade humana de lidar com uma situação impossível de se viver (PERLOFF, 1972, p. 520-521, tradução minha).
Mais recente é o enfoque no romance como estudo de caso, como faz Tsank (2010). A autora comenta abordagens críticas anteriores e situa a sua:
Muitos críticos veem A redoma de vidro como um símbolo das limitações sufocantes da sociedade e das mensagens misturadas e confusas que aprisionam a heroína de Sylvia Plath, Esther Greenwood, dentro de sua cúpula de vidro. No entanto, outra realidade frequentemente negligenciada é que o físico, embora metafórico, sufocamento induzido pela redoma de vidro é uma representação direta do sufocamento mental de Esther pela fixação inevitável da depressão sobre sua psique e que essa circunstância altera muito a forma segundo a qual todo o romance pode e deve ser percebido (TSANK, 2010, p. 166, tradução minha).
Tsank lembra que a perspectiva de Esther, estando sob a redoma, é instável (TSANK, 2010, p. 166). No entanto, a autora parece fazer leituras práticas demais em termos de causa-efeito, ou afirmações muito categóricas: “O desenvolvimento de Plath desse personagem fisicamente ausente [o pai de Esther] ilustra a dor subjacente que resulta da morte prematura do pai de Esther” (TSANK, 2010, p. 167, tradução minha); “Esther pode ser claramente apontada como um indivíduo depressivo” (TSANK, 2010, p. 175, tradução minha). Será que podemos fazer tais afirmações de forma tão categórica? Finalmente, Tsank conclui sua análise dizendo que a escrita de Plath é um estudo de caso: “Plath escreve, na voz de Esther – aquela de uma depressiva, vindo de uma autora e poeta a quem a doença não era estranha e que é capaz de fornecer uma das prescrições de bem-estar mais precisamente penetrantes – um estudo de caso impiedosamente realista” (TSANK, 2010, p. 176, tradução minha). A crítica acaba deixando de lado um fato essencial: o de que Esther é, apesar de semelhanças com a vida de Plath, uma criação literária, não podendo ser tão facilmente diagnosticada como se fosse uma paciente em uma sessão de análise.
Partindo disso, proponho meu primeiro objetivo com este trabalho: fazer um diálogo entre essas duas possibilidades de leitura — repensando as relações entre sociedade, depressão e trauma. Para isso, farei uma reflexão teórica sobre as relações possíveis entre tais esferas, partindo de Laura S. Brown (1995), Andrea Nicki (2001), Luce Irigaray (1974, 1990), Cathy Caruth (1996, 2006), entre outras. Além disso, trago um segundo objetivo: o de relacionar essa discussão a dois contos de Plath, intitulados “Línguas de pedra” (1955) e “Mães” (1962).
Trauma, gênero e A redoma de vidro
Para Laura S. Brown (1995), parâmetros sociais são usados para definir o que é ou não trauma. Partindo de seu contexto – Brown é terapeuta –, a autora ressalta que, ao se patologizarem alguns comportamentos, não se está questionando as estruturas sociais por trás deles. Ela diz que deve haver um foco nessas estruturas e não nas vítimas como se elas estivessem desconectadas da sociedade (BROWN, 1995, p. 106). De acordo com ela, “devemos, se temos alguma moralidade, questionar uma sociedade que sujeita muitos de seus habitantes a estressores traumáticos” (BROWN, 1995, p. 108, tradução minha). Ela vê dois posicionamentos possíveis frente ao trauma: “Agimos como servos do status quo, dizendo que aqueles já doentes sofrem de toxicidade cultural? Ou nomeamos como venenosas aquelas instituições da sociedade que podem envenenar qualquer um?” (BROWN, 1995, p. 110, tradução minha). Brown vê ainda uma necessidade em se mudar a percepção do que é visto como “humano”: “uma análise feminista do trauma psíquico requer que nós mudemos nossa visão do que é ‘humano’ para uma imagem mais inclusiva e vai nos mover em direção a uma revisão radical de nosso entendimento da condição humana” (BROWN, 1995, p. 110, tradução minha). De forma semelhante, Andrea Nicki tenta validar diferentes estados mentais, reconhecendo o comportamento de pessoas que sofreram diversas formas de opressão; para isso, deveria ser rejeitado o paradigma de humanidade enquanto autocontrolada, agradável, conformista e em conformidade com normas de gênero (NICKI, 2001, p. 82). Ela defende que “a análise cultural e social da doença mental é importante, uma vez que fatores culturais e sociais contribuem para o desenvolvimento e para a prevalência de grande parte da doença mental em membros de grupos desfavorecidos” (NICKI, 2001, p. 82, tradução minha). Nicki não nega que haja casos em que a doença mental tenha principalmente uma causa bioquímica ou física, mas é evidente que os grupos oprimidos formam um alto percentual dos doentes mentais (como mulheres e homossexuais) (NICKI, 2001, p. 91). Ainda segundo a autora, tratando especificamente das mulheres, quando elas se dão conta das normas femininas de dependência e desamparo, ao tentarem escapar dos papéis femininos, elas tornam-se mentalmente doentes (NICKI, 2001, p. 83). Dessa forma, vemos como fatores sociais não só levam a doenças mentais como também a própria definição do que é doença mental é socialmente excludente. Como propõem as autoras, esse é um espaço para se repensar o que é a normalidade, o que nos leva ao questionamento do que é o humano e de por que alguns comportamentos são aceitáveis enquanto outros não o são. Esther está passando por um momento no qual decidirá sua vida futura: é então que se depara com desigualdades de gênero que a revoltam, comportamento que hoje podemos dizer “normal”. Também é evidente que a “redoma” a acompanha há algum tempo e a leva ao suicídio; por isso, é interessante pensar as situações traumáticas passadas por ela, relacionando estudos de gênero e trauma.
Apesar de falarem de diferentes lugares, Luce Irigaray e Cathy Caruth dão especial atenção à linguagem, que pode ser tanto silenciadora quanto transgressora. Em je, tu, nous: Toward a Culture of Difference (1990) (je, tu, nous: por uma cultura da diferença), Irigaray diz que a diferença sexual não pode ser reduzida a um fator extralinguístico da natureza, uma vez que “[e]la condiciona a natureza e é condicionada por ela”; “determina o gênero das palavras e sua divisão em classes gramaticais: “Está situada na junção da natureza e da cultura” (IRIGARAY, 1993, p. 20, tradução minha). No entanto, tendo o patriarcado reduzido o valor do feminino, “em vez de permanecer um gênero diferente, o feminino se tornou o não-masculino, ou seja, uma realidade abstrata não-existente” (IRIGARAY, 1993, p. 20, tradução minha). Seguindo Irigaray, a linguagem, enquanto supostamente neutra, é, na verdade, masculina, falocêntrica, e, assim, exclui o feminino. Em “Toute théorie du sujet aura toujours été appropriée au masculin” (“Toda teoria do sujeito já foi apropriada pelo masculino”), como já diz o título, Irigaray discorre sobre como toda teoria do sujeito já foi apropriada pelo masculino. Nesse contexto, as mulheres são objetificadas no discurso, por serem mulheres, ou reobjetificadas, quando se identificam como o sujeito masculino (IRIGARAY, 1987, p. 165). Em relação a esse sujeito uno, os outros não são realmente “outros”, pois sempre estiveram a serviço do mesmo, do logos (IRIGARAY, 1987, p. 167). A mulher, assim, não é o “outro”; é o ausente, o inexistente. Ela estaria impossibilitada de falar, “[e]ximida das próprias palavras que se esperam dela nesse palco inventado para escutá-la” (IRIGARAY, 1974, p. 174, tradução minha). Seu discurso é reprimido, interdito, fora da história atual, a não ser que ela entre nos “jogos” metafóricos masculinos, se converta a um discurso que nega seu prazer (IRIGARAY, 1974, p. 174). Podemos aproximar essa reflexão de como Esther se sente quando não é aceita na oficina de criação: a ela é negado o uso da linguagem. Após esse evento, ela não consegue escrever nem ler literatura, perdendo seu interesse pelas palavras: “As palavras, embora ligeiramente familiares, estavam todas retorcidas, como rostos numa sala de espelhos, e passaram sem deixar impressão alguma na superfície vítrea do meu cérebro” (PLATH, 2014, p. 140). Isso acontece quando Esther está também frustrada pelos papéis femininos impostos a ela enquanto mulher: ao se tornar adulta, ela se dá conta do quão falocêntrico o mundo é. Referindo-se a um comentário feito por sua ex-sogra – “o homem é uma flecha rumo ao futuro e a mulher é o lugar de onde essa flecha parte” (PLATH, 2014, p. 82), Esther menciona:
Essa é uma das razões por que nunca quis me casar. A última coisa que eu queria da vida era ‘segurança infinita’ ou ser o ‘lugar de onde a flecha parte.’ Eu queria mudança e agitação, queria ser uma flecha avançando em todas as direções, como as luzes coloridas de um rojão do Quatro de julho (PLATH, 2014, p. 95).
Esther também não quer aprender taquigrafia, pois odeia servir aos homens, queria ditar suas próprias cartas (PLATH, 2014, p. 87); vê uma vida gasta na domesticidade como “uma vida melancólica e desperdiçada para uma garota com quinze anos seguidos de notas A”, mas ela sabia que “os casamentos eram assim” (PLATH, 2014, p. 96).
Para Irigaray, para enfrentar as dificuldades de se entrar o mundo cultural entre homens, quase todas as mulheres precisam renunciar a suas identidades femininas e a relações com mulheres; ela diz que as tradições patriarcais destruíram os traços de genealogias mãe e filha (IRIGARAY, 1990, p. 21, p. 17). No que tange à Esther, sua relação com sua mãe é claramente problemática. Além disso, apesar de ela ter amigas mulheres, é incapaz de estabelecer laços reais, sempre tentando manter distância delas. Quanto a essas relações, Bainbridge (2008) resume o pensamento de Irigaray:
Sem meios para uma autodefinição autônoma, a mãe é consumida pelo papel materno. As garotinhas não têm imagens do feminino com as quais se identificar. A mãe é sujeitada ao Nome-do-Pai e a padrões de troca; ela abre mão do nome de seu pai para receber o nome do marido: ela não tem nome/identidade própria(s) (BAINBRIDGE, 2008, p. 23, tradução minha).
Essa é uma das reclamações feitas por Esther em A redoma de vidro: ela quer ter sua própria identidade, não viver a vida de um outro (um marido), mas a sua própria. Enquanto ainda jovem, ela denuncia o desgaste das mulheres pela maternidade, a qual geralmente vê de forma negativa; quando se deparar com mães e seus bebês, fica apreensiva. Esther, à sua maneira, parece estar entre denunciar e aceitar o Nome-do-Pai – aceitar se pensarmos que, no presente da narrativa, ela escreve do lugar que anteriormente criticava.
Luce Irigaray mostra uma relação paradoxal com a linguagem: enquanto afirma que ela não é neutra, que é falocêntrica e então exclui o feminino, ela também precisa usá-la como o meio para dizer isso e lutar contra o falocentrismo. Cathy Caruth apresenta um caso similar tratando de trauma: “A demanda em se achar uma linguagem para o trauma é, assim, uma obrigação paradoxal em falar sem enterrar o silêncio na alma da história, em achar uma linguagem que traga consigo a força silenciadora do evento, sem se submeter a ela” (CARUTH, 2006, p. 2, tradução minha). É por meio da linguagem que o trauma pode ser parcialmente “curado”[1] e se tornar parte da história assim como é por meio da linguagem que as mulheres deveriam se expressar pala serem ouvidas e romperem com o falocentrismo. Em A redoma de vidro, Esther é capaz de fazer isso: apesar de, quando nova, perder o interesse pelas palavras e sentir-se incapaz de escrever um romance, anos mais tarde, a narradora, já adulta, consegue contar suas memórias e, assim, não é silenciada.
Em Unclaimed Experience: Trauma, Narrative and History (1996), (Experiência não-reivindicada: trauma, narrativa e história), Cathy Caruth discute o texto Além do princípio do prazer (1920), de Sigmund Freud, no qual o autor trata da repetição traumática. Analisando argumento de Freud sobre Gerusalemme liberata, Caruth faz um paralelo: assim como Tancredo não escuta a voz de Clorinda antes de machucá-la pela segunda vez, “o trauma não é localizável no simples evento violento ou original no passado de um indivíduo, mas antes na forma como sua própria natureza não-assimilada – a forma como foi precisamente desconhecido na primeira instância – retorna para assombrar o sobrevivente mais tarde” (CARUTH, 1996, p. 4, ênfase no original, tradução minha). Em outro texto, Caruth chama isso de “[a] temporalidade do trauma – o atraso do evento que sempre retorna em outro lugar, em outro local e em outro tempo” (CARUTH, 2006, p. 2, tradução minha). Voltando a A redoma de vidro, pelo menos dois paralelos são possíveis quanto à temporalidade do trauma. O primeiro é quanto à narradora: uma Esther já mãe está discutindo os acontecimentos traumáticos de sua vida de jovem adulta. Se a violência dos eventos do romance é conhecida apenas tardiamente, como Caruth sugere, requer discussão mais aprofundada, mas acredito que a Esther adulta está, de certa forma, precisando repassar suas lembranças. Outro paralelo importante é sua relação com a morte de seu pai: apenas anos depois, ela consegue passar por seu luto – é como se o evento não tivesse sido assimilado por ela e, por isso, retornasse para assombrá-la mais tarde. De fato, essa percepção é comentada pela narradora: “Minha mãe não nos deixou ir ao enterro porque éramos muito pequenos na época. Como ele morreu no hospital, aquele cemitério e até mesmo sua morte sempre pareceram irreais para mim” (PLATH, 2014, p. 185). Parece um trabalho de luto não concluído – segundo os parâmetros de Freud em Luto e melancolia (1917). Podemos especular o que serviu de gatilho para a tentativa de suicídio de Esther, tendo em mente que ela já não estava bem desde o começo. Teria sido a recusa para a oficina de criação? Talvez a tentativa de estupro sofrida por ela? Ambos os acontecimentos parecem levar a mudanças no comportamento de Esther, mas não creio que seja possível apontar com exatidão uma “causa”.
Quanto à luta pela linguagem e à relação entre vida e morte, Caruth resume: “A luta pela (e dentro da) linguagem é também, como Dori Laub sugere, uma luta nas fronteiras entre morte e vida, o estabelecimento de uma nova relação entre o que define a própria natureza da sobrevivência” (CARUTH, 2006, p. 3, tradução minha). Isso fica claro no caso de Esther: ao longo de A redoma de vidro, temos a sensação de que ela está em uma linha tênue entre morte e vida. Além disso, a impossibilidade de Esther de escrever (sua maior conexão com a linguagem) está ligada a sua tentativa de suicídio; sua luta pela linguagem é uma luta entre a vida e a morte.
“Línguas de pedra”, “Mães” e a perda da linguagem
De forma semelhante ao romance A redoma de vidro, o conto “Línguas de pedra” (1955), narrado em terceira pessoa, traz uma personagem (sem nome) que está em um hospital psiquiátrico; ela é apenas referida como “a rapariga” (PLATH, 2013, p. 276). Ela passa uma tarde sozinha, “levando um livro de contos que não leu porque as palavras não passavam de negros e defuntos hieróglifos, que ela já não conseguia traduzir em imagens coloridas” (PLATH, 2013, p. 277). O problema não é só a incapacidade de ler como também de pensar: “Pouco importava que os seus olhos fossem agora janelas vazias e cegas, pois não conseguia ler nem pensar” (PLATH, 2013, p. 281); era como se seu cérebro estivesse paralisado: estava “sentindo definhar o cérebro morto como um morcego pardacento e paralisado na escura caverna do seu crânio vivo” (PLATH, 2013, p. 279). Analogamente a A redoma de vidro, essa garota não vê propósito em mudar as roupas ou lavar o cabelo: “Não valia a pena mudar de roupa, porque todos os dias transpirava ao sol, encharcando a blusa de algodão aos quadrados, e a cada dia que passava o seu cabelo, comprido e preto, ia ficando mais oleoso” (PLATH, 2013, p. 278); sente-se paralisada: “Nada no mundo conseguia alcançá-la. (…) estava morta por dentro” (PLATH, 2013, p. 281). Em A redoma de vidro, antes de sua internação, Esther comenta: “Eu não tinha lavado minhas roupas ou o cabelo porque aquela me parecia uma ideia estúpida. (…) Eu achava estúpido lavar algo num dia para no dia seguinte ter que lavar de novo” (PLATH, 2014, p. 144); ela sente-se sem razão para levantar: “enterrei o rosto sob a escuridão do travesseiro, fingindo que ainda era noite. Eu não via motivo para me levantar. / Eu não ansiava por nada” (PLATH, 2014, p. 133). Conforme vimos, no conto, o cenário se assemelha fortemente ao do hospital psiquiátrico de A redoma de vidro, e há também grande ênfase na perda das capacidades linguística e cognitiva em geral. Com escrita que antecede a publicação de A redoma de vidro em quase uma década, “Línguas de pedra” traz o embrião do que depois seria melhor desenvolvido no romance. Há passagens muito semelhantes em ambos — tanto a rapariga do conto quanto Esther se imaginam sufocando suas mães:
As últimas noites antes do colapso passara-as a rapariga deitada, sem dormir, escutando o fio ténue da respiração da mãe, na ânsia de se levantar e de abafar a vida daquela garganta frágil, para pôr fim, de uma vez por todas, ao processo de lenta desintegração que a saudava com um sorriso de caveira, para onde quer que se virasse (PLATH, “Línguas de pedra”, 2013, p. 280)
O quarto se iluminou e me perguntei onde a noite tinha se enfiado. Minha mãe deixara de ser um tronco de árvore nebuloso e se transformara numa mulher adormecida de meia-idade, a boca ligeiramente aberta, um ronco escapando de sua garganta. Aquele barulho suíno era irritante, e por um momento me pareceu que a única maneira de silenciá-lo seria pegar a coluna de pele e tendões de onde o som brotava e esganá-la com as minhas mãos (PLATH, A redoma de vidro, 2014, p. 138-139).
Similarmente, a maternidade é importante – senão o tema principal – no conto “Mães”, que também traz uma personagem chamada Esther. Ela tem uma filha e está grávida de novo. Toda a história, narrada em terceira pessoa, está centrada na Obra das Mães de uma cidade pequena, Devon, na Inglaterra. Esther vai a uma de suas reuniões, na igreja. Ela é nova em Devon: uma norte-americana que quer ser aceita ao mesmo tempo em que é uma outsider. Durante a reunião, Esther aparentemente simpatiza com Mrs. Nolan, que, como ela, não conhece ninguém na cidade. Mais tarde, descobrimos pelo pastor que Mrs. Nolan não é bem-vinda na Obra das Mães, por ser divorciada. Esther fica revoltada com isso, mas depois passa a agir como cúmplice da exclusão de Mrs. Nolan; enquanto a última segue sozinha, Esther acompanha Rose, uma mãe aceita na comunidade, em seu caminho de casa. De acordo com Jo Gill, Mrs. Nolan é “o óbvio bode expiatório”: “Sua iniciação [de Esther] neste mundo vem com sua aparente traição, ou sacrifício, de Mrs. Nolan no final da história” (GILL, 2008, p. 90, tradução minha). De forma semelhante a A redoma de vidro e “Línguas de pedra”, cuja rapariga se isola das outras pessoas, também não há uma genealogia feminina em “Mãe.”. Nesse conto, um evento em que as mulheres deveriam supostamente criar laços é atentamente observado pelo pastor, e as mulheres de lá estão conectadas porque são casadas, mães e não divorciadas. As que não se encaixam, como Mrs. Nolan, não são bem-vindas.
O nome Esther tinha aparentemente um significado especial para Sylvia Plath. Uma recente biografia cita uma amiga de Plath, Janet Salter, a qual fala sobre os nomes que elas usavam para si: “se nós estivéssemos em uma situação onde não queríamos que as pessoas soubessem que estávamos nos referindo a nós mesmas, usávamos nomes bíblicos – eu me chamaria Ruth, e Sylvia gostava de usar Esther” (SALTER cit. em WILSON, 2013, p. 290, tradução minha). Além disso, as duas Esthers presentes na narrativa de Plath aparentemente têm mais em comum do que o nome. Apesar da de A redoma de vidro se sentir melhor no final, podemos relacionar esse fato à sua aceitação em viver em um mundo masculino que ela antes recusara para agora poder deixar o hospital: o fato de ela ficar “melhor” parece deixá-la sob uma espécie de torpor como após uma sessão de eletrochoque. De forma similar, a Esther do conto se assimila a uma sociedade ainda mais conservadora, centrada na Igreja Anglicana. Ela se define como mãe e esposa, que serve ao trabalho de seu marido em vez do seu; quando a perguntam o que ela fazia em Devon, Esther responde: “Oh, eu tenho o bebé. (…) E passo à máquina uma parte do trabalho do meu marido” (PLATH, 2013, p. 115). Ademais, as narrativas parecem ter mais em comum do que apenas uma personagem, uma vez que “Esther” não é o único nome de A redoma de vidro a aparecer em “Mães”: a presença de Dra./Mrs. Nolan como alguém com quem ambas simpatizam pode ser importante. Isso embora a repetição de nomes não ser incomum na narrativa de Plath: “Esther” aparece apenas como protagonista em A redoma de vidro e em “Mães.”[2]
Partindo dessas considerações, acredito que as possíveis relações entre experiência feminina e trauma no romance podem ser iluminadas caso tracemos paralelos entre as duas Esthers. A situação em que se encontra a personagem de “Mães” pode ser comparada à da adulta Esther de A redoma de vidro, que escreve suas memórias. Dessa maneira, a Esther do conto pode ser vista como representando a perda completa da linguagem, iniciada no romance, de forma que podemos especular se “Mães” funcionaria como uma espécie de posfácio de A redoma de vidro, ao trazer a situação atual da Esther da narrativa longa. A personagem do conto não escreve mais; apenas taquigrafa os escritos de seu marido – o que a jovem Esther se recusava a fazer. Além disso, a personagem de “Mães” não é capaz de escrever sua história como a outra Esther faz: o conto é narrado em terceira pessoa, o que podemos ver como mais um indício de que ela perdeu sua conexão com as palavras. É como se Esther tivesse aceitado os jogos metafóricos masculinos de que fala Irigaray; aceitado fazer parte de um discurso que a nega mesmo enquanto Outro.
REFERÊNCIAS
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GILL, Jo. The Cambridge introduction to Sylvia Plath. New York: Cambridge University Press, 2008.
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NOTAS AO TEXTO
1 Não há consenso quanto a se o trauma pode ser “curado” ou não. Discutindo Testimony [Testemunho], de Shoshana Felman e Dori Laub, Elissa Marder conclui: “a mais urgente e essencial reivindicação de Testimony é mostrar que, por mais que não nos ‘recuperemos’ de nosso passado traumático, nem possamos ‘curá-lo’ ou ‘superá-lo’, ou mesmo entendê-lo completamente, nós podemos e devemos ouvi-lo e sobreviver a ele ao ouvir seus efeitos conforme são transmitidos a nós pelas vozes de suas testemunhas e sobreviventes” (MARDER, 2006, p. 4, ênfases no original, tradução minha).
4 Existe outra Esther em “Os nossos mortos queridos”, mas ela é uma personagem menor, apenas mencionada pelos outros.
Bio fornecida pelo palestrante.
THE SINGING LESSON BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS
Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo
Resumo: Este ensaio considera personagens e enredo psicológicos como uma marca poética presente na obra de Katherine Mansfield. É uma característica que se desenvolve com o humor psicológico sobre o gênero conto. Seu trabalho dá ao leitor a mesma impressão de quando as pessoas vêem a imagem de um quadro impressionista, por exemplo. Parece como um momento capturado. O conto escolhido foi a aula – The Singing Lesson. O objetivo deste trabalho é descobrir como a personagem principal, Miss Meadows, pode ser entendida. Isso significa que por trás dela, há muitas coisas que outras mulheres já fizeram antes. Este ensaio indica que é possível fazer uma comparação entre Miss Meadows e a deusa grega Deméter, por meio de símbolos e da complexidade de suas ações. que merece um romance de verdade, por causa de sua complexidade.
Abstract: This essay considers psychological characters and plot as a mark of poetic present in the work of Katherine Mansfield. It’s a feature that develops within the psychological mood on the genre short story. Her work gives the reader the same impression as when people see an impressionist painting, for example. It looks as an imprisoned moment. The chosen short story was The Singing Lesson. The aim of this paper is to discover how the main character, Miss Meadows, may be understood. It means that behind her, there are many things that women have always done before. This essay indicates that it is possible to make a comparison between Miss Meadows and the Greek goddess Demeter, through symbols and the complexity of her actions.
Palavras-chave: Katherine Mansfield, “A lição de canto”, conto, Demeter.
Key words: Katherine Mansfield, “The singing lesson”, short story, Demeter.
Minicurrículo: Luana M. A. Teixeira é mestranda em Estudos da Tradução pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. É secretária executiva na Universidade Federal do ABC desde 2009, com atuação na área de comunicação, ensino de inglês e português para estrangeiros e tradução. É terapeuta floral do Sistema Joel Aleixo e escreve sobre autoconhecimento e desenvolvimento humano.
THE SINGING LESSON BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS
Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo
“Salomon said: There’s no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembrance, so Salomon gave his sentence that all novelty is but oblivion.” Francis Bacon, Essays, LVIII
Introduction
We intend to show how the mood is created in the shot story “The singing lesson” by Katherine Mansfield and the importante of the character Miss Meadows into it, through an analysis of the symbols that appear along the text.
The characters are middle class people, who, because of their visceral mediocrity, could cause nothing but indifference. So after evoking in few lines a whirlwind of sensations, the author hurries in dismantling that effect, as if she wanted to apologize because of the impact she had caused. With this, however, she adds more vigor to the narrative, as if the strength of the text had been born just from its delicacy.
Plot
The plot is very simple. A despairing singing teacher, Miss Meadows, has to stard her class, but she has just received a letter from her bridegroom, Basil. This letter makes her thing their relationship was ended. So, the teacher changes what she had prepared for the classes and obliges the students to sing the saddest song of their books, while she plays the piano.
Soon a telegram from Basil is sent to Miss Meadows, asking her to apologize him. The teacher comes back to the class smiling and asks for the students sing another song, happy and sweet, without explanations, as if nothing had happend.
Starting the narration
The mood has to sustain the soul’s excitement for a certain time, so, the short story starts this way: “With despair – cold, sharp despair…”. It creates a tension atmosphere. Then there are words wich remind death, like this simile: “buried deep in her heart like a wicked knife”.
The setting starts with: “cold corridors that led to the music hall”. The corridors are like a labyrinth when she felt in a prison, confused, bitterly lonely and auloved. It’s an autumn morning, nevertheless, it’s as cold as winter.
A sound from the stair case announces that something is going to happen. It’s when the conflict begins. A bell had just ringed, like a bad sing. It’s a psychological plot. There are descriptions of the environment only when it’s according to what is happening with the characters.
Miss Meadows versus The Science Mistress
A secondary character , the Science Mistress, is described through this imagery: “sweet, pale, like honey”. She has yellow hair. This color is disagreeing with what Miss Meadows feels, so this disturbs her.
There’s no physical descriptions of Miss Meadows. We just know she wears “cap and gown” and handles “ little baton”. When she talks to the Science Mistress, “hugging the knife”, there’s no real knife. It’s a wedged letter on her throat, a metaphor about how she feels in her heart.
There’s an opposition between them. The Science Mistress has a “sugary smile”, while Miss Meadows is “frozen”, grim. The first one has blue eyes. That’s the first complication that Miss Meadows will have with the blue color.
Starting the class
The students are making noise and get silent when Miss Meadows arrive. She brings apprehension with her. Mary Beazley, her favorite student, “was turning the music stool”. That turn symbolizes the turn fo the world, which stops. It’s as if Miss Meadows had power to rule nature and to change the things’ course. This is how her inner tempest will become an environmental tempest.
She beats the baton asking for silence. The baton is a sign of her power, like a magician’s stick or a magic wand. The girls wear a “sea of coloured flannel blouses” and they get silent, as if the colours had to be stagnated.
The singing teacher remembers the letter she had received from her bridegroom. He had written: “I’m not a marrying man”. She was feeling “bleeding to death, pierced to the heart”. The red colour represents as the love as the rage Miss Meadows feels when her pride is injured.
The bridegroom’s symbology
The bridegroom’s name is Basil, which may be associated with the mythological creature basilisk, that is an unbelievable kind of snake. “People have been surprised enough that she had get engaged. (…). She was thirty. Basil was twenty-five”. It had been a miracle that Basil appeared, like the basilisk, that is able to kill with its breath, stare or physical contact, like Basil could hurt just using words of a letter.
Basilisk is also an ancient cannon of a piece of artillery, that can cause damage. It represents hardness, insensibility. The same insensibility Bad used when he wrote the letter: “ and the word ‘disgust’ was scratched out lightly and ‘regret’ written over the top”.
Basil demonstrates he didn’t have greatness enough to understand love and to be selfless. Either he didn’t have mental structure to be engaged or he didn’t have enough maturity. He might have been confused, in addition, he was impulsive and selfish.
The last time Miss Meadow had seen Basil, he “had worn a rose with his buttonhole. How handsome he had looked in that bright blue suit, with that dark red rose”. That’s the contrast between blue and red, while she heard the melancholic voices of the contraltos, the deepest and lowest female voices.
The colour light red is an image of heath and wealth, beauty and youngness, Eros free and triumphant. Red is everlasting the place of the battle – or dialects – between heaven and hell. A sumptuous red, more mature, becomes the emblem of power. Expressed, red becomes dangerous as the instinct of power. When not controlled, it gets selfishness, hate, blind passion, hellish love. In this colour, the two deepest human impulses are linked: action and passion, liberation and oppression. The dark red is associated to death. It’s a sign of sadness, like dead soldiers in a war. The purple oceans of Greeks and the Red Sea are tied to the same symbolism: they represent the womb, where death and life transmutes to each other.
According to Kandinsky, the deepness of blue has a solemn seriousness, above earth, that evokes the death idea. The Egyptian considered it the colour of the truth. Blue is the colour of the bliss bird, inaccessible though so close. Entering in blue is to do like Alice, from Wonderland, passing through the other side of the mirror. This colour symbolizes the exact pure and cold, as Basil, like Basil, because maybe he was innocent for having not perceived what he could cause with his actions. It seems a little inconsequent and childish.
Miss Meadows remembers when Basil said: “You know, somehow or other, I’ve got fond of you”. And he “had taken hold of the end of her ostrich feather boa”. In Egypt, the ostrich feather was a symbol of justice, equity, truth. Miss Meadows demonstrates she had believed in her bridgroom, so how could he had changed his mind so much?
The yellow chrysanthemum
The student Mary Beasley gives the teacher a “yellow chrysanthemum”. It was a ritual that was part of the class, like opening the piano. This time, Miss Meadows doesn’t thank for the gift. She just ignores it, with its regular and radiating petals arrangement, wich is a symbol essentially solar, associated with ideals of longevity and even of immortality, but Miss Meadows love is dead now.
From Japan to China and Vietnam, many homophonies give the chrysanthemun a hole of mediator between heaven and earth, associating it also to notions of plenitude, totality. This flower becomes a symbol of perfection, and so, joy for the eyes. Therefore, it’s and unpleasant sight to Miss Meadows, like the solar aspect of the Science Mistress.
In Europe and Asia the chrysanthemum was as autumn flower, the season of a peace life after carrying out the meadows obligations. That’s the flower which, among all, hides and avoids the world. Miss Meadows bring meadows in her name. She’s the chrysantemum owner. Ther aspect of mediator remids the power of the teacher over the students.
Mood: The lament and the environment
When Miss Meadows doesn’t answer the girl’s greeting, Mary Beasley’s eyes get filled with tears. The teacher orders the girls to sing “a lament”. The sing with “mournful voices”. The teacher contaminates them with her state of spirit. The music is like a mantra, magic words of a goddess and their inner sides are changed to winter. The lyric of the music is like that moment of life the character was passing:
Fast! Ah. Too Fast Fade the Ro-o-ses Pleasure;
Soon autumn yields unto Wi-I-inter Drear.
Fleetly! Ah. Fleetly Mu-u-sic’s Gay Measure
Passes away from the Listening Ear.
Tension is growing. “Every note was a sigh, a sob, a groan of awful mournfulness”. The situation is almost unsustainable. While she’s creating such an external disorder, Miss Meadows, in her internal chaos, wonders about what could have happened to Basil as he had that attitude. On his last letter she had been very happy. That’s how we may realize how dependent she is from external events and from her relationship with her bridegroom.
The Lament” goes on. “The willow trees, outside the higs, narrow windows, waved in the wind”. The willow is a tree associated to the idea of death, of sadness. “ They had lost half their lives. The tiny ones that clung wriggled like fishes caught on a line”. The comparison gets the impression of a whole death. It looks as if all the leaves wanted to fall down. The narrow windows, suffocating, cause anguish, as the singing lament. The setting agrees perfectly with the creation of a gloomy, morbid mood by Miss Meadows.
“The Lament” is like a funeral march. Miss Meadows gets a dark aspect – of waning moon – darkening the environment as well. She says: “Make that Drear sound as if a cold wind were blowing through it. Dre-ar!”
Mary Beazley “wriggled her spine”. The atmosphere is already heavy enough when Miss Meadows says: “you must begin to die… to fade… until de Listening Ear is nothing more than a faint whisper…” It sounds like Miss Meadows wanted to express all the misery seh was feeling, because living on a happy world would be a martyrdom for her at that moment.
“The voices were silent; the piano waited”. There’s a pause. Everybody remains blockaded, stagnant, languid and Miss Meadows retakes, much more vehemently, her metamorphosing class. The rhythm grows up, the tension is raised. Some of the girls are “crimson” – the red colour again. One of them starts to cry. “Big spots fo rain blew against the windows, and one could hear the willows whispering”.
All that brain storm flows into a real rain of tears and drops mixed each other, blowing up. An effect like that also occurs in a short story of the North American writer Kate Chopin (1851-1904). It’s “The Storm”. The character Calixta has a sexual awakening during a tempest. The story deals openly with female sexuality. Calixta, a happily married woman, is nevertheless attracted to another man. Daring for it’s time, Chopin’s story ends happy for all the characters and no disastrous consequences attend Calista’s passionate encounter with the man, Alceé.
In both stories, “The singing lesson” and “The storm”, the environment is like a mirror that reflects the emotions of the characters. It’s the pain exceeding the body’s walls, transcending it. The ritual is performed, near of a climax, like an alchemic transformation. “Soon Autumn yields unto Winter Drear”
A deeper analysis of Miss Meadows
Miss Meadows, as the gods of Olympus in Greek mythology, has human attitudes and defects. She’s susceptible to suffer with the changes of fortune in life and she can make use of her power indiscriminately against the weaker and more vulnerable people to overflow her pain, hate or jow. For the gods, the weaker is the human being. In this short story, the girls are under Miss Meadows’ inclement mood.
Basil is her object of value, so his absence causes sadness. When he comes back, nature smiles again. It’s like the myth of the goddess Demeter, who rules the seasons of the year according to the absences and presences of her daughter Persephone.
Furthermore, among primitive people, the name is inseparable of both thing and subject designated. That’s the prime care and respect they dispense with it, attributing it a magic meaning, a holy value. Meadows means fields, greenland. That’s the kingdom of Demeter, who is the material goddess of earth, harvests, seasons and fertility. She is usually represented beside a snake – it might be related to the basilisk of the short story.
It has been said that Persephone was kidnapped by Hades, god of the hells. He fell in love with the young one and kidnapped haer, taking advantage of the exact moment when she was quietly picking flowers up in company of the Nymphs. When Zeus ordered Hades to give Persephone back to her mother, it was impossible, because the had eaten a pomegranate seed in the hells and it was sufficient to keep her indissolubly linked to that place.
For softening the grieving of Demeter, Zeus decided that Persephone would divide her time between the subterranean and the alive worlds. Then, during the time when mother and daughter are separated, the ground remains sterile, infertile. It’s autumn and winter. However, when they are joined together again, nature smiles and blooms. It’s spring and summer. So, the cycle goes on. Demeter’s humour is reigned by contentment and also Miss Meadows acts like this.
The end of the story
Miss Meadows “would have to leave the school, too”. She would have to hide herself, like the chrysanthemum that, among all the flowers, avoids the world.
“The voices began to die, to fade, to whisper… to vanish…”. The reader would think that now death is going to reign utterly, when “suddenly the door opened”. A girl enters “in blue (…) and twisting the silver bangle on her red little wrist”. She’s a woman called Monica and brings the contrast between blue and red once more. She says that Miss Wyatt, the principal of the school, wants to see Miss Meadows on her room.
There’s a moment of expectation and apprehension when Miss Meadows cross the cold, silent corridors. An apologetic telegram had been sent to her by Basil. “He had commited suicede, decides Miss Meadows”. The idea of his death is a relief to her – despite she misses him – because it might take away from her the heaviness of the responsability of being abandoned. She wouldn’t have the guilt and could blame just the lack of motives to be alive, the despair that makes someone kills himself.
Happily Basil was not dead. On his telegram he asks her no to mind his letter because he was mad. Miss Meadows “blushed”, the hot colours were coming back. Miss Wyatt says that is forbidden to receive telegrams “in school hours, unless in case of death (…) or a very serious accident or something to that effect”.
The situation is the opposite. Miss Meadows received some news that gives her life back, like when Persephone comes back to Demeter. “On wings of hope, of love, of joy, Miss Meadows sped back to the music hall”. She crosses the corridors again. Like a labyrinth that carries to death or life, the corridors are an intermediary plane, a stay yonder. They are the way that take to heaven or hell, both represented by the music hall, where the music of life is developed.
Miss Meadows comes back to that room, picks up the chrysanthemum and raps with her baton. She retakes the ritual of another season. Now it’s another page of the songbook, time to another song:
We come here Today with Flowers o’erladen
With Baskets of Fruit and Ribbons to boot
To-oo Congratulate…
That’s the climax, an apex, a zenith. It’s spring now. Everything has to regain its agility, becoming eager. Miss Meadows says: “Use your imaginations”. She “beamed at the girls”, since the sun is shining inside her. The air, the voices, the sound and all the rest become light. The girls are manipulated, influenced bey the teacher, who tries to touch them with her joy. It’s the end of the nightmare. “Don’t look so doleful, girls. It ought to sound warm, joyful, eager”.
Miss Meadows seems to be filled with an instinctive, impulsive, spontaneous infatuation. She recovers motion, impetuosity, fervor, frenzy, moved by her satisfied desire. “And this time Miss Meadows voice sounded over all the other voices – full, deep, glowing with expression”. At this point she demonstrates her place at the hierarchy, the goddess that she really is. She recovers the full moon aspect, Demeter, mother, wife.
The moon shines only illuminated by the sun, so she is manipulated too. It’s not self sufficient, but it doesn’t mean it can’t be happy just because it’s submitted. It may put to use the good moment to have some fun. Then Miss Meadows leaves the labyrinth corridors, like a cemetery. Eros instinct substitutes Thanatos instinct.
The only way to avoid delusion could be, like Buddhism says, having no wishes, which cause dissatisfaction. Notwithstanding, Miss Meadows, without wishes, would lose verisimilitude with the human condition, considering the story is fiction.
The title
The title “The singing lesson” has double sense. It may mean either a classe where people learn how to sing or a lesson that is singing itself, as if it was alive. Life follows the music. Maybe music played according to life. Music is like an iced fragment that transmits the impression of a certain moment, like an impressionist painting.
Social criticism
The social criticism of the text denounces the society of that age, not explicitly, with vestiges of Victorian moral. The hypocrisy is present at the school environment with a piece of irony and sarcasm. There’s a subtle feminist denunciation against the yoke/oppression on women and, consequently, on children.
A psychological analysis of Miss Meadows
According to the typology described by Jung, Miss Meadows seems to be the kind of person sentimental-introverted, which specially appears on women. People like this use to be quiet, difficult approachable, often behind a childish or banal masque. They have also a melancholic temperament. Generally they don’t have neither a great appearance nor make the other notice themselves in special. They are leaded by feelings oriented subjectively, and their motives are kept, usually, unkown.
A person like this abstains from all manifestations and contracts an impassioned deepness that covers the misery of the whole world as she is astonished by it. In its excess, this kind of personality may even overflow explosively because of a disconcerting fact, as regards neither the subject nor the object can find the exact proportion.
The introverted feeling is specially determined by subjective facts, since it’s subordinated to these preliminary conditions and only is attached to objective facts secondarily. So it’s common this kind of person shows herself less and when she does it, uses to be misunderstood.
Final considerations
Katharine Mansfield work was envied by Virginia Wool. D. H. Lawrence was a friend of hers. Her talent consisted in change the reality into fiction until taking out all the realism of the scenes and give to what have passed a dream character.
The denunciations narrated in her short stories refer specially to the exploration of women and children, expressing the inexpressible from her condition of being a woman. We can see it along the short story “The singing lesson”. We could realize how wondrous is Mansfield work, since the analysis we can make about it are unfinished. The author uses highly symbolic elements, contributing to our ontological narrative, bringing universal archetypes to everyday situations.
Biblioagraphy
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Bio fornecida pelo palestrante.
JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA NA LITERATURA INGLESA
Janaina Cardoso de Mello
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Resumo: Jane Austen foi uma escritora inglesa que obteve sucesso com seus romances, publicados no século XIX. Neles, faz uso da ironia em sua construção narrativa. Nascida em 1775, Jane Austen é uma mulher do seu tempo e como tal sua escrita não está imune a ele. Ao escrever para as mulheres oitocentistas sobre o modo de vida delas, fazendo-as enxergar sua realidade através do espelho literário, promove um ato de desconstrução de ideias ou pelo menos de questionamento de perspectivas vigentes na sociedade.
Palavras-chave: Jane Austen; ironia; romance; costumes.
Abstract: Jane Austen was an English writer who published successful novels in the 19th century. They make use of irony in their narrative construction. Born in 1775, Jane Austen is a woman of her time, therefore her writing is not exempt from it. While writing to her contemporary women about their way of life, she made them realize their reality as if seen through a literary mirror. Thus, she promotes an act of deconstruction of ideas, or at least questions some perspectives existing in her time and society.
Keywords: Jane Austen; irony; novel; customs.
Minicurrículo: Janaina Cardoso de Mello é doutora em História Social (UFRJ), professora do Mestrado em História (PPGH-UFAL) e do Mestrado em Ensino de História (ProfHistória – UFS).
JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA
NA LITERATURA INGLESA
Janaina Cardoso de Mello
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
“She opened her mouth with wisdom and in her tongue is the law of kindness”[1]
(James Edward Austen-Leigh, 1871)
Nascida em 16 de dezembro de 1775, no condado de Hampshire, Jane Austen foi uma escritora inglesa responsável por romances de sucesso que fizeram uso da ironia em sua construção narrativa. Foi ainda representante da época georgiana, que defendia o romance como um gênero literário e de qualidade (KELLY, 1992, p.3-35).
Para Ian Watt (2001) o “renascimento do romance” nesse período ocorre em razão do momento de transição dos códigos de amor da Corte (institucional, estilizado, aristocrático) para códigos românticos de amor da classe média (individual, particularizado, burguês). Além disso, a classe média enquanto receptora/leitora de obras literárias não possuía a mesma erudição da nobreza (domínio do latim e do grego), deixando de lado a bibliografia clássica.
Jane Austen era a sétima filha de um pastor anglicano, George Austen. Ela e sua irmã Cassandra eram as únicas meninas da prole de oito irmãos. A educação das duas, fora da tutela do pai, residiu numa breve estada na casa da Sra. Cawley, em Southampton, e posteriormente, entre 1785 e 1786, num internato em Reading. Recusou duas ofertas de casamento e viveu em grande parte de sua vida com os proventos da comercialização de seus escritos. Morreu em Winchester aos 41 anos, em 1817, solteira.
A obra de Jane Austen se dedicou a descrição da sociedade rural do período da Regência de George IV, príncipe de Gales, durante a enfermidade de seu pai – o rei George III. Foi um momento histórico-político de turbulências à exemplo das Guerras Napoleônicas (1804–1815), da expansão do colonialismo, das campanhas de abolição da escravidão, da reforma das prisões, de críticas à ausência de uma justiça social, da defesa de políticas de bem-estar social por intelectuais (HIBBERT, 1973).
Sendo a educação das crianças feita nas escolas dominicais ou fornecida por tutores, no caso das famílias mais abastadas, Jane Austen apresenta em seus romances um discreto clamor por uma educação liberal para a mulher. Dentre suas obras destacam-se Sense and Sensibility (1811), Pride and Prejudice (1813), Emma (1815) e Persuasion (iniciado em 1815, mas só publicado após sua morte, em 1817).[2]
Seguindo essa tendência, as escritoras inglesas Charlotte Brontë (1816-1855) e Anne Brontë (1820-1849), autoras de Jane Eyre e Agnes Grey, obras publicadas em 1847, também integraram o cenário literário oitocentista que usou o romance como uma porta para denúncias sociais da opressão do mundo feminino cujo foco muitas vezes centrou-se na solidão e melancolia de professoras e governantas (SOUSA; DIAS, 2013, p.149).
Ressalte-se que alguns dos mais relevantes escritos protofeministas produzidos por iluministas inglesas como Mary Wollstonecraft, Mary Hays e Mary Robinson foram publicados entre 1792 e 1799. Assim, “A Vindication of the Rights of Woman”[3], de Wollstonecraft, reivindicando que a mesma Educação destinada aos homens fosse concedida às mulheres. Amiga íntima de Wollstonecraft, Mary Hays publicou em 1798 o tratado “Appeal to the Men of Great Britain in Behalf of Woman”[4], no qual refutava a ideia de inferioridade das mulheres em relação aos homens e também propunha a inclusão das mulheres num sistema educacional mais amplo. Mary Robinson, atriz e poeta na Inglaterra setecentista, affair de George IV, escreveu seu tratado “Letter to the Women of England on the Injustice of Mental Subordination”[5], de 1799, abordando a opressão feminina e suas possibilidades concretas de emancipação (MIRANDA, 2013, p.1-4). Talvez alguns ares dessa atmosfera tenha sido respirado por Jane Austen, mesmo que Edward Austen-Leigh (1871) tenha propalado seu isolamento.
Os estudos da intertextualidade nas obras de Jane Austen, à exemplo de Steiner (2016), buscando as referências citadas em seus romances, contrariam a assertiva de Austen-Leigh e apontam a leitura de obras de: Fanny Burney, Maria Edgeworth, Ann Radcliffe, Daniel Defoe, Henry Fielding, Laurence Sterne, e Samuel Richardson; ensaistas como Joseph Addison e Richard Steele, e contos de poetas como William Cowper e George Crabbe, demonstrando seu interesse em autores que tergivessavam suas obras.
Alguns críticos consideraram Jane Austen como um símbolo do “antifeminismo”, uma vez que as personagens de seus romances são “moças casadoiras” em busca do “príncipe encantado” bonito, charmoso e rico, atribuindo seus escritos à uma chick-lit, ou “leitura de mulherzinha”.[6] Mas se sua obra não é um tratado reivindicatório ou uma bandeira militante direta, ao escrever para as mulheres sobre o modo de vida delas, fazendo-as enxergar através do espelho literário sua realidade, promove um ato de desconstrução de ideias ou pelo menos de questionamento das perspectivas vigentes na sociedade. Observa-se que
(…) the Regency conduct book tended to judge a woman by how she conducts herself – that is, by how she acts, by how she seems. The novel, by contrast, was concerned with what women are really like, admitting – perhaps for the very first time – that women too have a fulsome interior life, with thoughts and feelings that are as crucial to get right as the actions that follow from them… And Jane Austen was at the forefront of it all, presenting to the Regency world a host of real women – so determined to do so, indeed, that she invented her very own narrative style, which gives the reader almost unrestricted access to the internal life of her female characters (MURPHY, 2014, p. 4).[7]
É provável que Jane Austen tenha tomado conhecimento da história pessoal de Mary Wollstonecraft, cujo ativismo contundente em prol da Educação das mulheres levou-a a receber inúmeras críticas, incluindo de seu marido, que publicou uma biografia póstuma relatando infidelidades e comportamentos sociais vistos como inadequados naquele tempo e maculando a reputação da escritora. Buscando proteger a si mesma, é possível que Austen tenha adotado uma estratégia literária distinta, mais sutil.
Quiçá a ironia mais perfeita de Jane Austen seja a forma como concebeu a escrita de sua obra, cuja aparência para muitos remeteria à tradição, conformismo e limites do feminino, quando para leitores sagazes as “entrelinhas” possam dizer muito mais da época, da autora e de seus pensamentos. Conforme afiança Beth Brait, a ironia romântica carrega consigo
(…) a ideia de contradição, de duplicidade como traço essencial a um modo de discurso dialeticamente articulado; o distanciamento entre o que é dito e o que o enunciador pretende que seja entendido; a expectativa da existência de um leitor capaz de captar a ambiguidade propositalmente contraditória desse discurso (1996, p. 29).
Jane Austen escolhe abordar, em seus romances, poucas famílias dos vilarejos do interior da Inglaterra, o que torna a leitura mais centrada em poucos mas densos personagens, permitindo à autora desenvolvê-los em seus relacionamentos sociais, suas complexidades internas e dramas do período. Embora não ocorra uma preocupação em delimitar datas e fatos históricos, o ambiente retratado em suas minúcias deixa claro as posições hierárquicas, as ocupações militares, a aquisição de fortunas, as tipologias de mobilidade social conferindo uma carga de historicidade as obras.
Jane Austen é uma mulher do seu tempo e como tal sua escrita não está imune a ele. A religiosidade esteve presente em sua formação, os ditames sociais patriarcais dos séculos XVIII e XIX preconizavam moças ingênuas, responsáveis, virtuosas e fiéis.
Entretanto, os costumes sociais da sociedade inglesa são tratados de forma cômica, agressiva e ácida ao mesmo tempo como se pode observar em Sense and Sensibility, nas palavras da personagem Marianne sobre a idade das mulheres para o casamento:
Uma mulher de vinte e sete anos (…) não pode mais esperar sentir ou inspirar amor, e se sua casa não for confortável ou se suas posses forem modestas, acho que deva oferecer os serviços de enfermeira, em troca de sustento e da segurança de uma esposa. Casar com uma mulher assim, portanto, nada teria de inadequado. Seria um pacto de convivência, e a sociedade ficaria satisfeita. A meu ver, não seria absolutamente um casamento, não seria nada. Para mim, seria só uma troca comercial, em que cada um pretende lucrar à custa do outro (AUSTEN, 2012, p. 29-30).
A “sociedade de corte” inglesa possuía cores muito liberais nesse período, levando a valsa para seus salões, apreciando as composições de Mozart, Bach, Beethoven, Paganini, Rossini e Schubert, reforçando o contraste entre o glamour da nobreza e a pobreza dos outros segmentos sociais. Nesse contexto, os romances de Jane Austen abordam sua própria experiência de vida como mulher pertencente à baixa nobreza, a classe nomeada como gentry. Conservadora e patriarcal, a sociedade inglesa destinava às mulheres a invisibilidade na sombra do marido, por isso
A ironia é uma das características mais importantes de Austen e ela faz uso de tal recurso para criticar a sua sociedade contemporânea. Através da narrativa, além da ironia, outros aspectos da obra são ressaltados, tais como, o senso de humor que permeia as descrições no romance, comentários ou atitudes das personagens e a constante preocupação com o bom senso, a conveniência e a moralidade (SONEGO, 2015, p. 1).
Essa perspectiva está presente no capítulo 8 da obra Pride and Prejudice, na conversa entre o Sr. Darcy, o Sr. e a Sra. Bingley sobre as mulheres serem “prendadas”. Para Charles Bingley, todas as mulheres pintavam mesas, forravam biombos e faziam bolsas se malha, tendo a oposição de Darcy que não concordava com essa avaliação generalista das mulheres, afirmando que não podia dizer conhecer mais de meia dúzia de mulheres realmente prendadas. Elizabeth Bennet o confronta dizendo que deveria ser muito exigente quanto as mulheres. Ao que é replicada por Darcy que além do conhecimento de música, canto, desenho, dança, idiomas modernos, era essencial que a mulher “prendada” mantivesse “o cultivo da inteligência pelas amplas leituras”. Logo, Elizabeth mostra sua ironia fina, dizendo estar surpresa que ele conhecer “tantas” mulheres assim (referindo-se às seis mencionadas antes) e afirma nunca ter visto uma mulher assim que juntasse bom gosto, capacidade, aplicação e elegância como ele descrevera (AUSTEN, 2012, p. 259).
Ao mesmo tempo, a própria personagem de Elizabeth Bennet é descrita como uma “boa leitora”, preferindo os livros ao jogo de baralho, ocupando sua mente com instrução como deleite e não obrigação. Essa mesma mulher, em vários momentos coloca em xeque a autoridade masculina e os comportamentos de subserviência femininos que lhes são exigidos. Desse modo, como afirma Camila da Silva Alavarce
(…) o estudo da ironia exige o reconhecimento de um sentido literal e de outro figurado, uma vez que esse “recurso” se constitui de um significante para dois significados contraditórios ou incompatíveis. Aquele que pratica a ironia qualifica o enunciatário, pois o julga capaz de perceber os índices que sinalizam esse procedimento, participando, assim, da construção da significação irônica (2009, p. 29).
Grosso modo, o termo “ironia” provém do grego antigo εἰρωνεία (transl. eironēia), significando “dissimulação”, presente no cotidiano como uma arte capaz de provocar distintas reações.
A percepção da ironia envolve certa complexidade, pois há diferentes tipos de ironia, sendo necessário ter atenção ao desdobramento da construção narrativa, pois “irony depends on context since it springs from the relationships of a word, expression or action with the whole text or situation” (MATEO, 1995, p. 172).[8] Em sua obra, Jane Austen utiliza a ironia como um recurso para criticar as frivolidades da sociedade burguesa do período. Assim:
(…) uma construção de linguagem dotada de subjetividade e liberdade criativa, manifestada pelo autor enquanto consciente do poder de agir, refletir e produzir. É, ainda, uma manifestação do coletivo histórico enquanto percebida a relação entre sujeitos, a interação e o contexto sócio-histórico em que é criado (reinterpretado) o discurso (SANTOS, 2009, p. 2).
Em Persuasion a autora descreve em detalhes a sociedade inglesa do século XIX, usando a ironia para discutir pontos comuns a época, como o preconceito, a elitização e o desnível social. Assim, logo no capítulo 1, o personagem de Sir Walter Elliot dispõe da leitura de uma única obra – o Baronetage – onde encontra “consolo para as horas amargas” contemplando a biografia com elogios à antiga nobreza e encontrando ali mesmo a sua própria história (AUSTEN, 2012, p. 471).
A vaidade que reduzia o homem ao bem que possuía e o definia por sua condição social, por seu status, por seu sucesso econômico e seu prestígio político. Características que ordenavam os casamentos, destruíam amores e postergavam ressentimentos perpétuos. Embora os personagens de Persuasion busquem a felicidade, é ao contrário a tristeza que confere a profundidade de suas vidas:
No caso de Austen, a “agressão cômica” pode ser de três tipos: social, que envolve os diferentes modos de revidar os limites impostos pela vida em sociedade; interpessoal, que apreendemos nas situações de conflito entre duas personagens; e interno, quando o conflito é internalizado por uma personagem e sua invectiva se dirige a si própria (VASCONCELOS, 2014, p. 146-147).
Desse modo, é possível observar a agressão cômica social na fala de Marianne em Sense and Sensibility, a agressão cômica interpessoal nos diálogos entre Sr. Darcy e Elizabeth Bennet em Pride and Prejudice e a agressão cômica interna no autoelogio de origem por parte de Walter Elliot na obra Persuasion. Evidentemente, outras personagens ao longo das três obras assumem essas características de forma distinta, não tornando-as uma exclusividade de um só livro (VASCONCELOS, 2014).
O casamento, ambicionado por moças e seus familiares, se no plano romântico se constitui como o triunfo do amor, no plano real retrata o jogo de interesses, acordos, competição social e dependência feminina numa sociedade patriarcal e excludente.
Na obra “A sociedade de corte”, o autor Norbert Elias (2001, p.27), ao retratar as tramas em torno do antigo regime e a formação burocrática dos Estados nacionais, chama a atenção para as alianças e rivalidades familiares, as amizades e inimizades pessoais que permeavam assuntos de governo e demais momentos oficiais. Os demais extratos da sociedade buscavam refletir-se no espelho de suas dinastias, recriando em seus microcosmos os comportamentos sociais da vida nobre almejada, mesmo que na maior parte das vezes terminassem por constituir-se como simulacros distorcidos do modelo original.
Se Norbert Elias (2001) estuda pelo viés sociológico o estudo da corte dos reis franceses entre Francisco I e Luís XIV, em seus códigos de etiqueta, rituais de ostentação e interdependência social, Jane Austen em seus romances expõe os vícios, as intempéries e contradições da sociedade inglesa georgiana com a mesma maestria, todavia, através da linguagem literária de um romance irônico e inserido em seu contexto de produção.
Mas afinal, qual o valor do romance como gênero literário? O que é o romance? Nascido de de estilos híbridos, como o romance medieval, narrativas orais, epístolas e textos de retórica, apresenta-se sobre a forma de uma narrativa ficcional em prosa, apresentando grande flexibilidade tanto no número de páginas quanto na longevidade de alcance de seus personagens muitas vezes retratados no percurso de várias gerações. Cronologias e linearidades são flexíveis em sua disposição.
O acesso à alfabetização de pessoas à margem das classes privilegiadas criou uma demanda por narrativas “mais fáceis” na Europa do setecentista. Se outrora, as epopéias e tragédias compunham as bibliotecas das famílias abastadas, o romance alcançou públicos mais amplos dada a disseminação das obras pela imprensa e a profissionalização dos autores.
De acordo com Mikail Bakhtin, a representação dialógica entre autor e personagens personificam a “imagem da linguagem de outrem e de sua visão de mundo, que é representada ao mesmo tempo em que representa, é extremamente típica do romance” (1998, p. 367).
Como afiança Hannon (2016), os personagens dos romances de Jane Austen se permeiam de características como autocomando e senso de propriedade [decoro], mas estas não são suficientes para compor uma narrativa atraente, pois a elas devem ser acopladas mente e línguas rápidas, senso de humor, boas maneiras e uma vontade forte, como se pode observar em Elinor, Elizabeth Bennet (Pride and Prejudice) e Anne Elliot (Persuasion).
Através de uma leitura de mundo semiótica, nas obras de Jane Austen a realidade e a linguagem se fundem numa relação de intersubjetividade na qual:
(…) “la réalité” correspond au monde empirique à travers sa phénoménalité, (…) par opposition, “le réel” se réfère au monde tel qu’il est construit, structuré, par l’activité signifiante de l’homme à travers l’exercice du langage en ses diverses opérations de nomination des êtres du monde, de caractérisation de leurs propriétés, de description de leurs actions dans le temps et dans l’espace et d’explication de la causalité des ces actions (CHARAUDEAU, 2007, p. 50-51).[9]
Por isso a leitura das obras de Jane Austen requer acuidade na percepção das armadilhas discursivas, ambiguidades e sutilezas da enunciação nas narrativas desenvolvidas. Nada em seus escritos é ingênuo ou insípido.
À mulher britânica do século XIX estava destinado o “reino doméstico”, a dependência financeira, as qualidades servis, dóceis e talentosas para satisfazerem ao patriarca na relação matrimonial. Era essa a premissa cultural construída para orientar corpos e mentes. Jane Austen, vivendo nesse cenário, escreveu sobre isso de modo inteligentemente crítico, usando a ironia como capa protetora para alfinetar uma sociedade que tentava colocá-la nas margens como escritora e como mulher. Seus romances ora dramáticos, ora cômicos, revelavam o modo de ser e de sentir da sociedade inglesa, bem como as brechas encontradas para fugir aos arquétipos de dominação do masculino sobre o feminino.
Mais do que a imagem de “Cinderelas frívolas”, assoladas pela passionalidade, as protagonistas dos romances de Jane Austen evidenciavam em suas falas mordazes a racionalidade feminina que compreendia seu lugar naquele mundo e buscava usar os próprios códigos de cerceamento para negociar sua sobrevivência com algum luxo, afinal, “todo homem solteiro, rico e bonito, naquela época, também precisava de uma esposa para ser bem quisto na sociedade vigente”, não é mesmo?
Referências
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NOTAS AO TEXTO
[1] “Ela abria a boca com sabedoria e sua linguagem exibia a lei da bondade” (tradução livre).
[2] “Razão e sensibilidade”, “Orgulho e Preconceito”, “Ema” e “Persuasão” (tradução livre).
[3] “Uma defesa do direito das mulheres” (tradução livre).
[4] “Apelo para os homens da Grã-Bretanha em favor da mulher” (tradução livre).
[5] “Carta para as mulheres da Inglaterra sobre a injustiça de subordinação mental” (tradução livre).
[6] Talvez por isso a obra de Jane Austen, apesar do apelo junto à um grande número de leitores, tenha sido por anos sistematicamente negligenciada nos Departamentos de Inglês das universidades, como informa Patrice Hannon (2016).
[7] “O livro de conduta da Regência tendeu a julgar a mulher pela forma como ela conduz a si mesma – isto é, pela forma que ela age, pela forma que ela parece. O romance, por outro lado, estava preocupado com o que as mulheres eram realmente, admitindo – talvez pela primeira vez – que as mulheres também têm uma vida privada excessiva com pensamentos e sentimentos que são tão cruciais para obter direito como as ações que decorrem destes… E Jane Austen estava na vanguarda de tudo isso, apresentando para o mundo regencial uma série de mulheres reais – tão determinada a fazê-lo, na verdade, que ela inventou seu próprio estilo de narrativa, o que dá ao leitor acesso quase irrestrito ao vida interna de seus personagens femininos” (tradução livre).
[8] “Ironia depende do contexto, uma vez que brota das relações de uma palavra, expressão ou ação com todo o texto ou situação” (tradução livre).
[9] A “realidade” corresponde ao mundo empírico por meio de sua fenomenalidade, (…) por oposição, “o real” refere-se ao mundo tal qual ele é construído, estruturado, por atividade significante do homem através do exercício da linguagem em suas diversas operações de nomeação dos seres do mundo, de caracterização de suas propriedades, de descrição de suas ações no tempo e no espaço e de explicação da causalidade dessas ações” (tradução livre).
Bio fornecida pelo palestrante.
MME CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930
Maria de Lourdes da Silva
Helena Maria Alves Moreira
Luciana Maria da Conceição Vieira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
RESUMO: Mme Chrysanthème é o pseudônimo de Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos (1869-1948), figura pouco conhecida dentro do próprio país. Fez de suas crônicas espaço de defesa das causas femininas, escreveu para os mais importantes periódicos do Brasil entre fins do século XIX e as primeiras décadas do XX. Dentre eles, destacamos O Correio Paulistano, objeto desse artigo que procura investigar como as crônicas da autora apresentavam seus conselhos às mulheres, desenhando uma ética própria para o comportamento feminino, negociado a partir das convicções construídas nas alianças que fez ao longo da vida com a Igreja, a elite letrada conservadora e a oligarquia paulista.
PALAVRAS-CHAVE: Mme Chrysanthème; Cecília Moncorvo Bandeira de Mello; Correio Paulistano; feminismo; Década de 1930.
ABSTRACT: Mme Chrysanthème was the pen name adopted by Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos (1869-1948), a literary figure little known even in Brazil. She took advantage of her newspaper chronicles to defend women’s causes. She published in the main Brazilian newspapers between the end of the 19th century and the first decades of the 20th, especially the Correio Paulistano. This will be the object of this article, examining the advice the author gave to women, while drawing ethics to their behavior, based on her religious convictions learned from the Church, the conservative literate elite and the São Paulo oligarchy.
KEYWORDS: Mme Chrysantheme; Cecília Moncorvo Bandeira de Mello; Correio Paulistano; feminism; the 1930’s.
MINICURRÍCULOS: Maria de Lourdes da Silva é Professora Adjunta da História da Educação na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Helena Maria Alves Moreira é Mestranda do Programa de Pós-Graduação de Ensino em Educação Básica do Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Luciana Maria da Conceição Vieira é Graduanda do Curso de Pedagogia na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
MME. CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930
Maria de Lourdes da Silva
Helena Maria Alves Moreira
Luciana Maria da Conceição Vieira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Durante a leitura do manual infantil História de São Paulo (1926)
[1], chamou-nos a atenção neste romance, não somente o tom pedagógico da obra e sua história memorialista do estado de São Paulo contada às crianças, como também a fidelidade demonstrada pela autora à oligarquia paulista e a exaltação desta, no momento em que cresciam, nacionalmente, as críticas às bases de sustentação da política do café-com-leite e do poder oligárquico. Decidimos, então, investigar sua contribuição no periódico Correio Paulistano, para verificar se havia como verificar esta hipótese e se era possível identificar as motivações da aproximação desta carioca ao grupo paulista.
Dos mais de vinte anos que escreveu para o referido jornal, selecionamos para este estudo, as crônicas publicadas entre os anos de 1929 e 1930, porque representam o período que antecede a derrocada da oligarquia paulista. Ela escreveu, ao todo, 58 crônicas para o jornal Correio Paulistano nestes dois anos. O contexto histórico aqui retratado, também retirou fatos noticiados nas mesmas páginas onde as crônicas da autora foram publicadas para entender a permeabilidade desta aos eventos de seu cotidiano. Geralmente publicadas entre as páginas 2, 3 e 4, suas crônicas figuravam entre as notícias sobre os despachos políticos dos presidentes da república e da província de São Paulo e o cotidiano de eventos protagonizados por políticos e ilustres da época aliados a esse grupo de oligarcas.
Nas crônicas deste periódico, constatamos que nossa autora mantém o tom de exaltação aos paulistas, para os quais fala, muitas vezes, de modo pejorativo sobre a Capital Federal e suas gentes, incluindo a elite carioca, da qual faz parte. Tais crônicas mostram uma autora absolutamente conservadora, voltada à defesa dos valores dos grupos e instituições que defende abertamente: a Igreja, seus amigos intelectuais de matiz conservador e a oligarquia paulista.
Dada às dificuldades de trabalhar como jornalista e romancista, considerando ser o universo literário dominado, essencialmente, por homens, nossa autora conseguiu estabilidade e longevidade no ofício, muitas vezes, escrevendo para mais de um periódico ao mesmo tempo. Assim como as crônicas que escrevia, seus romances eram recebidos com cautela e sob críticas, principalmente, pela escolha de seus temas e pela caracterização de suas personagens, as quais, em sua maioria, apresentavam o lado decadente e “desglamourizado” da sociedade carioca, Capital Federal. Suas crônicas no jornal paulista informavam àqueles sobre os modos de vida desta “metrópolis”, como ela costumava referir-se à Capital Federal. Mas havia nelas, ainda, um desejo de agradar aos editores e de reafirmar a superioridade do estado produtor de café e de sua gente, já retratados como heróis pela autora no manual citado.
Ou seja, o que está no centro da análise é o próprio agir da autora e a forma que dá a sua arte. Pensando que este agir, que institui a autora enquanto sujeito, é de todo modo relacional e resulta na construção negociada do sentido, observando como a composição instituinte da identidade de Chrysanthème atende à tríade necessária e condicionante do estar do ser no mundo, o eu para mim, o eu para o mundo e o outro para mim. Dessa forma, acompanhando Bakhtin, entendemos que só é possível se formar um “eu” entre outros “eus”, porque o sujeito se define a partir do outro e elabora sua singularidade diante do outro. Ainda e necessariamente é o outro no essencial que condiciona a identidade à dialogia e à atitude responsável e responsiva de cada sujeito.
Portanto, não é possível pensar o sujeito sem pensar o contexto instituinte do sujeito e sem considerar o princípio dialógico que orienta a elaboração do discurso e seus interdiscursos. A situação social e histórica concreta dos sujeitos é a matéria que conforma a realidade matizada de seus discursos por seus valores. Assim, o agir do sujeito é resultado de uma decisão ética, tomada a partir da forma como elabora, interage e constitui os outros e o eu próprio
[2]. Este eu individual se manifesta no discurso e no estilo autoral, mas
Todo estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e às formas típicas de enunciados, ou seja, os gêneros do discurso. Todo enunciado – oral e escrito, primário e secundário e também em qualquer campo da comunicação discursiva – é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve) isto é, pode ter estilo individual (BAKHTIN, 2011, p. 265).
Pela filosofia bakhtiana, o enunciado reflete a individualidade de quem o profere, mas o essencial dele é ser capaz de organizar o seu discurso através de decisões inteligíveis. Com isso, queremos dizer que Chrysanthème é, como todo ser permeada pelo seu tempo, mas seu registro desse tempo resulta das decisões tomadas ao longo da vida ora mais numa direção, ora noutra. Assim, como as mudanças também nos caracteriza e humaniza, pois não nos constituímos pelo imperativo categórico transcendente, mas pelas inúmeras experiências no mundo, podemos ver o conjunto de seus atos discursivos pelo filtro dos valores que os orientaram.
Chrysanthème era o pseudônimo da escritora Cecília Moncorvo Bandeira de Mello, carioca da freguesia de São José – capital do Rio de Janeiro, nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1869; filha do casal, Dr. Jeronymo Bandeira de Mello e Emília Moncorvo Bandeira de Mello, também jornalista e escritora que se apresentava pelo pseudônimo de Carmem Dolores – uma notável escritora do período da Belle Époque brasileira.
Aos 19 anos, em 10 de abril de 1888, casou-se com o bacharel em línguas, professor Horácio Rebello de Vasconcellos, passando, então, a assinar como Cecília Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos. Desta união, nasce o único filho do casal, Henrique Rebello de Vasconcellos, em 1889.
Sua primeira crônica de que temos registro foi para o jornal A Imprensa no ano de 1907. Ela começou a escrever não muito jovem. Temos indicativos de que isto ocorre após a viuvez, mas ainda não conseguimos confirmá-lo. Na época em que enviuvou, em 1907, aos 38 anos, ainda não havia aposentadoria para o funcionalismo público[3] e, portanto, supomos que o marido não tenha deixado pensão ou pecúlio confortável. E mesmo que tal provento não fosse a única renda da família, a ausência do provedor da família, aliada ao exemplo da mãe, certamente a impulsionaram a iniciar nas letras.
Assim como outras escritoras da época e da própria mãe, ela também fez uso de um pseudônimo – um artifício necessário em um período em que as mulheres eram discriminadas pela sociedade por exercer alguma profissão que não a de professora. Os pseudônimos funcionavam como uma proteção à verdadeira identidade destas autoras. Era prática internacional as escritoras adotarem nomes masculinos para depois provarem que o exercício da escrita literária também cabia às mulheres. Cecília opta por um nome que não contraria sua identidade de gênero. Ao adotar como pseudônimo o nome do livro de Pierre Loti, “Madame Chrysanthème”, ela já mostra sua disposição para polêmicas mediadas pela pena, provocando os contemporâneos. Este livro, que fez enorme sucesso na virada do século XIX ao XX, tem como mote o casamento do autor, um oficial da marinha francesa, com uma “gueixa” japonesa. Um casamento arranjado, muito comum no Japão da época, cuja narrativa está focada nas reflexões sobre a vida enfadonha do militar durante os três meses que viveu no Japão. Madame Chrysanthème, a esposa negociada de Loti, é o arquétipo da submissão e, enquanto “gueixa”, abarca os devaneios ilimitados dos desejos masculinos.
Apesar desta ironia inicial, as crônicas da autora no jornal Correio Paulistano, publicadas nos anos selecionados para esta pesquisa, são farto material de cultivo da opinião dos leitores no sentido mais conservador do termo. Seus escritos, quando versavam sobre os dilemas femininos, expunham a faceta da conselheira polêmica por não ter medo de criticar as novidades, a modernidade e tudo o que considerava exemplo de decadência nos costumes, na mentalidade e que expunham a mulher às armadilhas da falta de decoro e compostura, próprias do modo de adesão das cariocas aos novos tempos. É certo que tal posição é fruto de sua trajetória de vida. Oriunda de uma família distinta, culta, pertencente à alta sociedade carioca, ela cresceu entre os ilustres, frequentou desde sempre os salões letrados e conviveu com as elites política e econômica de seu tempo. Sobretudo, cresceu entre os escritos também eles ácidos e irônicos da mãe, no ambiente irreverente da produção literária da virada do século, pelo qual circulou, fez amigos e desenvolveu seu estilo de escrita.
A obra de Cecília não sobreviveu ao tempo, mas em sua época, fim do século XIX e primeiras décadas do século XX, suas crônicas e romances conseguiram agitar leitores e pares, provocar acalorados debates, conseguindo, inclusive, retorno dos leitores, que escreviam aos jornais[4]. Diz-nos Maria de Lourdes Melo Pinto, que suas crônicas são irônicas e mordazes, pois esta autora comentava, com larga franqueza, sobre diversos assuntos[5]. Supomos que Melo Pinto refira-se às crônicas da escritora mais jovem, certamente mais audaciosa do que as crônicas com as quais nos deparamos no Correio Paulistano no período mencionado. Adiante, retornaremos a este ponto.
Em função disto, nossa hipótese arrisca que seu apagamento progressivo tenha resultado, além da ação da história, sobre quem, em seu inexorável processo, mostrou estar equivocada em muitos aspectos, mas também pela ajuda não casual dos mediadores da política cultural de seu tempo, com os quais Chrysanthème colaborou com suas crônicas. Afinal, uma autora que escreve com tamanha liberdade sobre os costumes de seu grupo social, denunciando sem meias palavras suas vilanias, vícios, inescrúpulos e amoralidades é geradora de muitos incômodos. Chrysanthème parecia ser do tipo que perdia o amigo, mas não a boa oportunidade da crítica. Junte-se a isso textos de baixo apreço estilístico, uma personalidade que receita moralidades sem economia e cerimônia, que dispara juízos e valores católicos contra os costumes da vida moderna e talvez possamos entender algumas das motivações para lentamente silenciar seu trabalho e sua voz.
Isto porque, à Chrysanthème jovem ou madura, ninguém intimidava. Não é que seus valores e posições políticas fossem progressistas ou de vanguarda. Falando da Chrysanthème das crônicas do jornal Correio Paulistano nos anos 1929-30, vemos que suas defesas são bastante antiquadas até para os seus dias e seu estilo de escrita, além de monótono e enfadonho é ultrapassado. Mas, certamente, não foi graças a estas posturas que a autora foi relegada à obscuridade, assim como tantas outras escritoras que não estão arroladas nos registros literários oficiais. Cremos mesmo, que sua contribuição não a qualifica a estar no panteão dos grandes talentos. A crítica, contemporânea da autora, tratou de sublinhar seus limites como é exemplo o livro Crítica (1933), de Humberto de Campos[6] e, até mesmo, ignorá-la por completo, como em História da literatura brasileira (1931) e Panorama da literatura brasileira (1940); ambos de Afrânio Peixoto. Sua predileção pela crítica dos costumes de seu grupo social de origem talvez tenha sido um dos fatores a contribuir para o seu apagamento do cenário literário brasileiro. É provável que suas alianças com setores conservadores da sociedade, tenham dificultado sua sobrevivência na “nova ordem” varguista. Contudo, é quase certo que a estilística de qualidade duvidosa e pouco apreciada de seus escritos tenha determinado a fortuna de sua obra.
Não obstante, Chrysanthème sobreviveu na vida pública do país através de sua arte por longo tempo – ficou ativa na imprensa e no mercado editorial por quase quarenta anos consecutivos. Tal longevidade parece sustentar-se menos pela forma dura e direta com que critica os comportamentos da sociedade e mais por suas posições políticas, graças as quais, consegue o emprego no diário Correio Paulistano, um jornal que era, sabidamente, a mídia oficial do PRP, Partido Republicano Paulista, o qual autora defende e divulga:
Como sempre enquanto traço essas linhas para a colunna dominical deste jornal, outros periódicos esvoaçam sobre o papel que escrevo. É a Gazeta de Notícias com seu feitio irônico e curioso zombando da oposição em phases e desenhos sarcásticos. E o Correio Paulistano, combativo, vigoroso e certo do triunpho final da causa que tão bem defende… e são outros e outros que se agitam ao vento como borboletas trazendo notícias, vários annuncios, muitos annuncios sobre suas asas abertas (O PAIZ, 29/09/1929).
É bastante curiosa sua trajetória na vida literária, porque, ao apontar as mazelas das elites, a não temer criticar os seus pares, ela revela o que poucos queriam ver exposto nos diários. Cecília pôde, como poucas, falar sobre as coisas que elegeu. Ela expôs as vísceras dos costumes que considerava vis de seu grupo social, especialmente o das mulheres, embora não poupe os opróbrios das mulheres pobres. Sua defesa é a da mulher educada, tenha ela que posição social tiver, nutrida pelos altos valores da moralidade cristã, que saiba resistir aos atrativos pouco decentes e prejudiciais da vida moderna. Por isso, não perdoa o ócio, a futilidade, a vaidade inconsciente e as torpezas femininas.
Consideramos que seu maior legado é o registro contínuo, sistemático, incansável, ao longo dos quase quarenta anos dedicados à escrita dos costumes da cidade e às suas personagens. Seu destemor ou desprezo por certo conjunto de condutas sociais e seu olhar tão aguçado quanto a sua pouca disposição para seguir composturas as quais não acreditava, tornam sua obra um conjunto documental primoroso de narrativas sobre a Capital Federal e seus habitantes, escrito por uma mulher que o tempo curvou e domesticou. A Chrysanthème destas crônicas não lembra a escritora de outrora, crítica e desafiadora. Nestes aspectos, aliados à longevidade de sua permanência na imprensa, reside a maior potência de seus escritos. Neles, vemos com clareza suas alegrias e vaidades, sua mágoa, sua ira, seu deboche, sua tristeza, sua derrota. Essa marca é seu diferencial e sua obra reflete uma mulher solitária defendendo seu ponto de vista, empenhando todos os seus esforços para contribuir à nova ética social com o personalismo de seus pressupostos morais, adequados aos projetos de grupos político-econômicos aos quais se alinhou.
Apesar de sua vasta produção literária, seus escritos não tiveram reedições. Os exemplares sob a guarda dos arquivos públicos que tivemos acesso, aparentam pouco manuseio e estão se perdendo pela ação do tempo. Chrysanthème deixou um acervo bibliográfico de aproximadamente 1.500 crônicas, e, ao menos, 26 livros computados, sendo alguns, reunião dos folhetins originariamente escritos para os diários (Pinto, 2006), como era comum à época[7]. Seus escritos conformam, pois, um conjunto etnográfico singular sobre o Brasil e seu povo, porque resultado do olhar de uma mulher que tratava de temas que não se esgotam, mas que são mediados pelas questões do tempo ao qual pertence e com o qual interage com decisões e opiniões que nos permitem ver o contraditório das críticas que enceta, sem que caiamos no anacronismo. Chrysanthème apoia a oligarquia paulista e é pouco permeável às novidades estilísticas em ebulição na literatura. Embora os temas de seus romances sejam picantes e desconcertantes, sua narrativa envelhece, seu ponto de vista é mantenedor do status quo, suas defesas políticas são derrotadas e a força dos escândalos que provocava com seus romances fenece, apesar da nova ética do(a) cidadão(ã) trabalhador(a) da Era Vargas, mas este é um assunto para outro artigo. Nestas linhas, nos limitaremos a analisar seu ocaso juntamente à República Velha por seus escritos no Correio Paulistano entre 1929 e 1930.
Nossa escritora falece em 22 de agosto de 1948, aos 79 anos. Em sua certidão de óbito[8] consta como profissão “doméstica”, não tendo reconhecimento do cargo que exerceu como jornalista, ou da profissão de escritora, reduzindo e apagando os seus feitos na tradição da história literária do país em razão, talvez, da “(…) franqueza, talvez perigosa, que ponho em todos os meus artigos(…)”, como a própria supunha (Chrysanthème, O Paiz, 1924).
Primeiro diário da então província de São Paulo e o terceiro do Brasil, o Correio Paulistano, foi fundado pelo tipógrafo Joaquim Roberto de Azevedo Marques e circulou de 1854 a 1930, e depois, com intervalos, até 1963. Este jornal, que, ao ser lançado, prometeu total imparcialidade aos seus leitores, estava destinado a fazer história na imprensa paulista. (…) A partir de 1855, e em seguida a uma de suas numerosas crises financeiras, o Correio passou a atuar como órgão oficial de partidos políticos em troca de patrocínio, a despeito de sua promessa inicial de “oferecer uma Imprensa Livre”. (Arquivo Público do Estado de São Paulo).
Ainda nos tempos da Monarquia, o jornal foi um grande formador da opinião pública. Divulgou cartas do leitor na sua “seção livre”, participou da abolição da escravatura, lutou pela construção da Estrada de Ferro Santos⁄Jundiaí, e defendeu a Proclamação da República. Logo após tomar posse, em 1930, Getúlio Vargas ordenou o fechamento das instalações do jornal. Depois disso o Correio Paulistano permaneceu por quatro anos sem ser publicado. Ao retornar, manteve sua ligação, inclusive financeira, com o Partido Republicano Paulista, até 1955. A última publicação do periódico foi em 31 de julho de 1963 (Arquivo Público do Estado de São Paulo).
Chrysanthème trabalhou para o Correio Paulistano de 1920 a 1930. Em 1934, encontramos duas crônicas suas. Uma intitulada “Modas e modos”, publicada na página 5, na qual se não distingue uma temática específica, e uma segunda, “Vida moderna”, na página 10, que, sob o título genérico de “Página Feminina”, publica matérias sobre moda, decoração, comércio de sapatos etc. Definitivamente, o lugar de honra no jornal havia sido perdido.
As crônicas que analisamos no presente artigo foram escritas por uma mulher madura, entrando na casa dos 60 anos, em 1929. Embora este não seja o foco deste artigo, convém pontuar nossa percepção de uma sensível mudança no tom e no teor das críticas que profere no jornal Correio Paulistano, quando comparamos tais crônicas com aquelas escritas nos anos 1910, por exemplo.
Seu olhar acompanha o da oligarquia que, voltado para fora do país, empreende esforços para colocar o Brasil entre “as grandes nações”, ignorando quase sempre os demais estados e a população. Em nenhum dos artigos deste período, ela se ocupa das questões do povo. Ela escreve em paralelo também para o Jornal O Paiz, onde, entre 1914 e 1930, ininterruptamente, dedica-se à coluna A Semana. Mas neste jornal, ela aparece mais ousada. Na crônica escrita para a esta coluna no dia 29/09/1929, ela faz uma crítica à falta de apoio do governo aos estudantes de pouco poder aquisitivo. Também critica os outros jornais por noticiarem fatos policiais que chocam. Já na crônica do dia 21/04/1929, ela fala da proximidade do dia dos encarcerados (28/04) relatando, após uma visita sua à penitenciária, as condições insalubres em que vivem os encarcerados, sem água e sem esgoto, e o fato de pessoas doentes dividirem os espaços com pessoas sãs. Chrysanthème faz uma súplica ao então presidente Washington Luiz para intervir na reforma das penitenciárias cariocas, assim como fez em São Paulo. No jornal Correio Paulistano, ela aparece mais comedida.
Na crônica intitulada “O Dia da Cidade”, publicada em 26/01/1930, no Correio Paulistano, ela conta aos paulistas sobre a derrubada do Morro do Castelo. Nele, lamenta que os brasileiros não preservem sua memória e história, resgata a importância “da colina” nas conquistas portuguesas, que contaram com o protagnismo dos índios – convencidos do acerto de lutar em prol dos portugueses na expulsão dos franceses –, lastima a demolição da igreja sede da Companhia de Jesus, e ignora, completamente, o despejo criminoso das famílias pobres que ali moravam, destacadamente, imigrantes portugueses e italianos, sem que lhes tivesse sido dada qualquer opção decente de moradia.[11]
Embora mantenha sua disposição para polêmicas, a Chrysanthème sexagenária, que acompanhou as bruscas e profundas mudanças pelas quais passou o mundo nos anos 1910 e 1920, inclusive, pela Grande Guerra, era católica fervorosa, ferrenha crítica dos modismos modernos e seu seus indicativos de etiqueta às mulheres possuíam um tom antiquado para sua época, mas que resistiu ao tempo e hoje constela na complexidade de questões que envolvem os debates feministas, como exploraremos adiante.
Nesses anos que aqui estudamos, 1929-1930, ela viveria ainda outros eventos de magnitude mundial e importância histórica profunda, como o crack da bolsa de Nova York, o crescimento das ideologias nazi-fascistas e a Revolução de 1930. As crônicas destes anos, neste jornal, nos apresentam uma escritora endurecida, nem mesmo o gosto pela ironia mantém o vigor de antes. Sua crítica agora é rascante e seu humor curto. Seu envolvimento com os eventos políticos assumem um sentido metafórico que exige mais sagacidade da autora e mais conhecimento da parte dos leitores de suas técnicas de escrita.
3.1 As Crônicas
As crônicas de Chrysanthème publicadas no jornal Correio Paulistano cumprem a função de apresentar aos paulistas o cotidiano da Capital Federal. Porta-voz do cotidiano fluminense, aos paulistas, quase sempre, ela maldiz a capital, apontando as falências da modernidade, os incômodos da rotina da cidade, os percalços que vão desde o clima à convivência com suas gentes. Quase sempre começa retratando a situação climática através de descrições sobre o estado do sol, do vento ou da chuva. Não é uma exaltação à exuberância da natureza da cidade, trata-se de um estilo de introdução ao qual recorre quase sempre; outras vezes, constitui uma forma de trazer a onipresença divina como testemunha dos eventos por entre o céu, o firmamento, o horizonte. Nas crônicas intituladas “Canícula” e “Canto da chuva em Petropólis”, publicadas respectivamente em 26/01/1930 e 05/02/1930, a autora mostra, na primeira, como o calor da capital e a movimentação de suas gentes torna-a insuportável e, na segunda, conta como é confortável e diferente a chuva da cidade serrana se comparada a chuva das metrópolis, pois “Em Petropólis, a chuva é símbolo de frescura, limpeza e poesia”.[12]
Até o início de 1930, a autora ainda ensaia investidas nos assuntos políticos, sempre em defesa das instituições republicanas, do governo e seu sucessor, acusando a oposição de “inveja e despeito contra o belo estado de São Paulo”[13], de traição, de mentir e enganar o povo com promessas que jamais poderá cumprir. Para responder aos ataques da Aliança Liberal, em diferentes crônicas conclama o mais puro civismo e patriotismo, especialmente às mulheres, para que se possa continuar na ordem e na paz que o governo do “glorioso governo do Dr. Washington Luis”[14] impigiu ao país, além de tudo fazer para que o Brasil pudesse figurar entre as grandes nações. Ao longo do ano de 1929 e ainda no início do 1930, ela arriscava crônicas com algumas investidas sobre a situação política do país, como na crônica “Opinião de mulher”, publicada em 19/02/1930, na qual comenta o atentado sofrido pelo vice-presidente em Montes Claros, Minas Gerais, por ocasião da campanha presidencial. Ela ataca ferozmente a oposição, a quem acusa de ultrapassar “os limites da educação e da lógica” recorrendo a “pedras e balas que ferem e matam” e, como sugere o título da crônica, opina:
Se as mulheres, no Brasil, ainda não têm direito ao voto, elas possuem – pelo menos as que escrevem – direito a emitir sua opinião sobre um fato que manchou o caráter nacional, dando à luta política uma forma negra e lamentável de covardia resguardada e protegida (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 19/02/1930, p. 2).
Convém mencionar que o evento de Montes Claros contou com a participação ativa de D. Tuburtina Andrade Alves, esposa de João Alves, aliancista e organizadora, junto com este, do evento de campanha em que o atentado ocorreu. Tuburtina recebeu grande atenção na imprensa, tendo sido acusada de mandante do atentado. Sobre ela, Chrysanthème nada disse. Na crônica seguinte, do dia 22/02/1930, intitulada “O crime passional”, ela comenta as declarações do psiquiatra Henrique Roxo quanto à insanidade momentânea que por vezes acomete os criminosos passionais e ao fato de este tipo de crime ser mais individual do que social. Discordando do “sábio Dr.”, afirma que “ninguém mais admite a contrariedade e a dor como se estes não fizessem parte integrante de toda existência humana” e que o criminoso é escravo do ambiente onde respira e imitador do semelhante. E pergunta: “Qual a profilaxia a usar nessa época de atentados, ditos, passionais, e tornados tão banais que jamais espantam?” e conclui, adiante: “E nessas horas de rebelião às vontades de Deus, o mal e a dor humanos aumentam todo dia como nocivas sementes jogadas por eles no seio maldito de uma terra sem Messias”.
Esse tom de incredulidade perante as atitudes de uma gente que não segue os mandamentos católicos atravessa as crônicas dos anos estudados. Mas sua defesa da Igreja vai além da adoção de uma compreensão dos fatos pelo viés religioso. Ela faz propaganda da Igreja. Suas crônicas pontuam as festas religiosas: carnaval, quaresma, semana santa, natal e dias santos, além de dedicar crônicas às personagens santificadas. Divulga livros de escritores católicos e defende a Igreja das críticas, como na crônica do dia 26/03/1930, “A Igreja e as modas”, na qual defende os padres por repreenderem as mulheres que não se vestem adequadamente para ir à missa, condenando os excessos modernos e “a moda feminina tão abusiva e excêntrica”, que deixa à mostra pernas e braços de mulheres e meninas. Diz tratar-se de uma “crise de caráter” e conclui afirmando que as mulheres estão confundindo “o esporte, a higiene e a saúde com excessos de maneiras livres”.
Além da defesa da Igreja e da oligarquia paulista, condena as novidades que põem em risco a família. Na crônica “Os soi disant perigos do feminismo na Inglaterra e alhures”, de 11/01/1929, onde comenta uma carta encaminhada à agência americana, onde Peter Street lamenta os rumos e os caminhos trilhados pelas mulheres inglesas, que não se contentam em desafiar os homens pregando a igualdade com ele, mas ainda ridiculariza o casamento e a sua concepção. E finaliza: “e a mulher, aqui, ao contrário da inglesa, combate os homens e os casamentos de palavras, mas ama os primeiros subservientemente e realiza os segundos… inconscientemente…”.
De fato, mesmo considerando suas ousadias n’O Paiz, Chrysanthème mudou ao longo dos anos. Como já mencionamos neste artigo, as crônicas desta autora no periódico e no período sob estudo, em nada lembram a autora de outras épocas. Veja-se o exemplo do trecho de um artigo da autora falando sobre a situação das mulheres na sociedade:
(…) gritam os homens, no seu patriotismo de cinema (…), que nós, mulheres, nada temos que ver com esses acontecimentos sérios do mundo e que o nosso papel na vida é preparar-lhes xícaras de camomila (…), talvez assim fosse há alguns anos passados; agora, entretanto, em todas as partes da Europa, a mulher venceu o homem, pela sua energia no trabalho (jornal O PAIZ, Palestra Feminina, A Paz, 30/06/1919, p. 4).
E esta outra crônica, intitulada “Ainda e sempre os Concursos de Beleza”, publicada no Correio Paulistano, onze anos depois:
Tudo o que a mulher atual alcançou de prerrogativas e de privilégios termina e esbarra numa linha: a sua feminilidade, que põe restrições a certos exageros, a excessivas originalidades. Entre a xícara de camomila que ela não mais quer preparar para o marido e o “maillot sem mangas”, há uma determinada estação em que ela deve parar e refletir. (Chrysanthème, Correio Paulistano, 13/03/1930, p. 4).
A despeito do que disse no artigo d’O Paiz, acima, ela antagonizou com as lutas feministas do início do século, como o encetado pelo grupo de Berta Lutz[15], além de outras feministas da época[16]. Lima Barreto, com quem também antagonizou, afirma, que ela queria “a plena liberdade do seu coração e dos seus afetos para as mulheres”[17], uma espécie de liberdade emocional que a livraria dos martírios do amor, seu principal infortúnio. Tal aspecto parece ter sido preservado entre as crenças da autora, pois em outra crônica do Correio Paulistano, intitulada “Onde está a felicidade?”, de 26/04/1930, ela afirma que “felicidade para as mulheres é o amor. Sem ele, muda de nome”. Apesar do tom “libertário” de outra ou da denotação “libertina” que dá no avançado da idade à ideia da ausência de controle da mulher sobre os próprios sentimentos, persiste a vontade de poder da mulher sobre si própria.
A linha tênue que Chrysanthème sugere às mulheres não ultrapassarem, constitui o núcleo do seu argumento acerca da condição e do papel da mulher na sociedade em que vive. Segundo ela, as mulheres estão sendo vítimas das liberalidades frouxas da modernidade, que em nada ajudam na formação da mulher moderna. Antes, lhe têm feito perder o rumo da elegância, decência e do caráter. A autora é muito rígida com relação às mulheres, não lhes perdoando vulgaridades e inconsciência quanto às implicações de suas atitudes.
Tema recorrente entre suas crônicas, os concursos de beleza merecem atenção especial. Percebemos em suas avaliações sobre os concursos de beleza um tom de ponderação necessário e um contraponto sensato à euforia pouco lúcida que envolvia as argumentações daquelas que promoviam tais eventos. A defesa do que considera feminino ao invés da filiação ao chamado feminismo, revela uma concepção do papel da mulher moderna conservador para os seus dias, mas que está presente hoje na articulação dos valores organizadores da educação das mulheres. Na crônica “Como na Grécia Antiga…” de 25/04/1929, ela afirma que a única superioridade alcançada pela mulher brasileira, à semelhança, da Grécia, era a da beleza, enquanto as mulheres de outros países já eram ministras e governadoras. Na crônica do ano seguinte, publicada em 13/03/1930, “Ainda e sempre os Concursos de Beleza” ela declara novamente porque é contrária aos concursos: “certames pejorativos para o sexo de delicadeza e pudor que é o nosso”, pois considera indecorosa e aviltante a exposição das mulheres nestes concursos ao julgamento público: “Para as donzelas familiares, para aquelas que são educadas a fim de serem esposas e mães, essas superioridades esgazeadas não convém de maneira alguma”. E respondendo às organizadores que se defendem das críticas alegando inveja e despeito, responde:
Sem cair no feminismo enragé que tantos lares tem destruído e desgraças tem causado, glorifico a dma que trabalha, que auxilia a sua família na dura luta pelo pão cotidiano, mas combato continuamente aquela que, mesmo nessa conquista, tenta igualar-se ao homem que ela menospreza, esquecendo a missão para que foi criada (CORREIO PAULISTANO, 13/04/1930, p. 4).
Quando fala de educação, fala de condutas numa perspectiva moral. Sua única crônica do ano de 1930 que toca no tema da educação escolar, comemora o retorno do ensino religioso às escolas, mas o tom metáforico deixa ver uma melancólica ironia pela derrubada da oligarquia paulista. Sob o título de “Therezinha, a Eleita!”, este foi último artigo da cronista no ano de 1930, publicado no dia 03/10/1930, quando já marchavam, rumo à capital, os tenentes vindos do Rio Grande do Sul para tomar o poder, entre eles Getúlio Vargas. Em sua curta crônica da 01 de março de 1930, dia das eleições presidenciais, intitulada “As Urnas”, ela conclama as mulheres, que não podiam votar, a se fazerem presentes no coração e na mente dos homens, guiando-os ao acertado voto em Júlio Prestes, esse homem que “conserva a mentalidade e o espírito que fazem desses homens os chefes indispensáveis” e continua:
Na hora exata, no momento preciso, lá estaremos em mente, e justo às urnas, como o coração repleto de patriotismo, sugestioraremos esse nosso povo, uma mínima parte, felizmente, si abrasada pelas frases retóricas da Aliança – do que ele deve fazer para que a Pátria o reconheça como o seu salvador e o seu servo útil e devotado. Às urnas, pois senhoras, pelo coração e pelo patriotismo, auxiliando o nosso irmão na escolha do homem que nos defenderá do mal e do maligno (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 01/03/1930, p. 2).
Sem questionar o fato de as mulheres não poderem votar, ela não reivindica esta pauta ao governo. Somente encontra um meio de afirmar que as mulheres, mesmo impossibilitadas de chegarem às urnas, ainda têm poder para intervir no destino do país como mães e esposas:
As mulheres, esses espíritos guiadores e que a Natureza dotou de sugestão poderosa cabe agora demonstrar aos homens, qual a segura e verdadeira estrada a seguir, o leme a obedecer, a luz a vislumbrar.(…). E embora sentimentaes e poéticas, elas compreendem melhor a gratidão, o reconhecimento e o que se deve a um governo que lhes deu paz, nos lares, a harmonia no existir, a garantia no porvir. Elas não são eleitoras, mas sempre, em todos os tempos, as damas, em segredo ou às claras, conduziram os seus companheiros à vitória, tendo melhor do que eles a compreensão do judicioso, do bem e do indispensável. (Chrysanthème, Correio Paulistano, 01/03/1930).
Chrysanthème assumiu um caráter responsável e compreensivo sobre as questões da mulher, de sua profissionalização, saúde, família, valores. Sempre advogando pela melhoria de sua condição, desde que considerada a diferença que guarda com relação ao homem tanto biológica, quanto político-cultural. A educação feminina e sua profissionalização era um dos temas principais de que Chrysanthème se ocupava, pois, para ela um dos caminhos mais promissores para a mulher alcançar a sua libertação era o mercado de trabalho, mas nega que isto seja uma postura feminista, conforme afirma na crônica “O trabalho feminino ou o credo moderno”, de 24/07/1930: “não dou o título de feminismo a essa natural e necessária disposição das damas modernas, porquanto, os tempos mudaram, e elas tiveram que mudar com eles”. Para ela, o trabalho é um antídoto contra a preguiça, os vícios, a ociosidade e enervações mórbidas. Adiante afirma:
Sou adepta da lei bolchevista que ao ente que nada produz e que em nada contribui para o bem da sociedade de que faz parte, o direito de viver, visto como ele sempre será um corpo morto a impedir o luminosos desenvolvimento dos outros entes (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 24/07/1930, p. 3).
A Madame Chrysanthème que escreve no Correio Paulistano nos anos 1929 e 1930 é diferente daquela que acompanhamos nos anos 1910 no jornal O Paiz. Comedida nas polêmicas e provocações, católica fervorosa, ela se torna, a partir de meados do ano de 1930, indiferente aos dilemas políticos que vivia a sociedade, em suas crônicas neste jornal. Em seu papel de quadro ideológico do PRP, atuava com função formadora das mulheres leitoras do jornal, investindo na defesa da família, da tradição e dos proprietários paulistas. Seletiva quanto à modernidade, criticava o que julgava inadequado às mulheres e lhe corrompia a essência delicada, pois defendia a desigualdade essencial entre homens e mulheres, sem que isto implicasse em subordinação destas àqueles.
Em plena efervescência dos debates em torno da institucionalização do voto feminino, suas crônicas defendem a mulher que trabalha para conquistar sua autonomia, sem abandonar sua missão nobre de mãe e esposa, sem se deixar perverter pelas falsidades do modernismo, que ela tanto criticava, contornando aquele impedimento como se fosse dificuldade menor.
Chrysanthème negocia com a oligarquia até onde pôde e pagou o preço. De fins de outubro de 1930 até outubro de 1933, ela não escreveu para jornal algum e nem publicou qualquer romance.
Arquivo Público do Estado de São Paulo.
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NOTAS AO TEXTO
[1] SILVA, M. L.; Moreira H.M.A,;Vieira, L. M. C. Movimento Feminista e Educação no “manual” História de São Paulo, de Mme. Chrysanthèe. Trabalho apresentado no VIII Seminário Internacional As Redes Educativas e as Novas Tecnologias- Movimentos Sociais e Educação – UERJ – De 08 a 11 de junho de 2015.
[2] Sobral, A. 2013, p. 21-5.
[3] A aposentadoria como a conhecemos hoje tem uma história muito recente no mundo. No Brasil, os fundos de pensões privados e montepios nasceram antes do estatal, graças às iniciativas dos trabalhadores. No que diz respeito ao funcionalismo público, os funcionários dos Correios foram os primeiros a terem este benefício, através da organização do Fundo de Pensão da categoria, ainda no século XIX. Somente a partir de 1923, com a Lei Elói Chaves, este benefício foi estendido às outras categorias – são os primeiros passos da Previdência Social. In: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/30344-31376-1-PB.pdf
[4] Pinto, MLM. 2006.
[5] Pinto, MLM. 2006.
[6] Este ponto foi comentado no texto “Diálogo sobre a mulher entre Madame Chrysanthème e Afrânio Peixoto na década de 1930 – fronteiras”. Revista Educação/Unisinos, 2016.
[7] Por alguns títulos de seus romances, tais como Flores modernas (1921); Enervada (1922); Gritos femininos (1922); Uma paixão (1923); Memórias de um patife aposentado (1924); Mãe (1924); Vícios modernos (1926) Almas em desordem (1928); entre outros, pode se observar o caminho escolhido pela autora para conduzir a suas questões sobre a mulher e o feminino. Mas Madame Chrysanthème escreveu literatura infantil – Contos para crianças (1906) e Contos azuis (1910), além dos romances históricos e manuais pedagógicos – História de São Paulo (1926); Minha terra e sua gente (1929); e A infanta Carlota Joaquina (1937).
[8] Pinto, MLM. 2006 p.113 – Memória de autoria feminina nas primeiras décadas do século XX: a emergência da obra periodística de Chrysanthème.
[9] Thalassa, A. 2007, p. 12-14.
[10]http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CORREIO%20PAULISTANO.pdf
[11] Claudia Miriam Quelhas Paixão informa: “Um documento da Coleção Carlos Sampaio no IHGB, indica que em setembro de 1921 havia no morro do Castelo 408 prédios onde habitavam 4200 pessoas”. Sobre o destino da população afirma que seus moradores foram expulsos para barracões na Praça da Bandeira, construídos de improvisos e sem infraestrutura alguma. (Anais ANPUH-Rio,2006).
[12] “Canto da Chuva em Petrópolis”, Correio Paulistano, 05/02/1930, p. 2.
[13] “Lições de Civismo”, Correio Paulistano, 21/03/1930, p. 3.
[14] “A Gratidão da Pátria”, Correio Paulistano, 21/08/1930, p. 3.
[15] A luta das mulheres pelo direito ao voto ganha força com a chegada do exterior da bióloga Bertha Lutz. Ela foi uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que fez campanha pública pelo voto, tendo inclusive levado, em 1927, um abaixo-assinado ao Senado, pedindo a aprovação do Projeto de Lei, de autoria do Senador Juvenal Larmartine, que dava o direito de voto às mulheres. Direito este que foi conquistado em 1932, quando promulgado o Novo Código Eleitoral brasileiro. Fonte: Pinto, C.R.J. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v.18, n.36, p. 15-23, jun. 2010
[16] Lopes, MM. 2008, p. 79.
[17] Rosso, M. 2014.
Bio fornecida pelo palestrante.
VIOLETTE LEDUC: A AUTORA DESERTO
Naná DeLuca
Universidade de São Paulo
Resumo: Em sua trilogia autobiográfica, Violette Leduc desestabiliza as fronteiras entre o ficcional e a escrita de si. Para além disso, percorrem por toda a sua obra problemáticas ligadas ao gênero e às sexualidades, categorias com as quais entra em conflito constante. O presente artigo, à luz dos estudos feministas, propõe uma análise da obra de Leduc que parte das desestabilizações literárias para investigar os corpos e gêneros inscritos em seus textos, bem como as relações firmadas entre as duas esferas.
Palavras-chave: Violette Leduc, literatura francesa, crítica feminista, estudos de gênero
Abstract: Violette Leduc’s autobiographical trilogy disturbs the border between fiction and the writing on the self. Questions on gender and sexual categories traverse all of Leduc’s work in a conflicted manner. This article proposes, in the light of gender and feminist studies, to analyse Leduc’s literary project and to take into consideration these instabilities in order to investigate the bodies and genders incorporated in her texts, as well as the relation built between them.
Keywords: Violette Leduc, french literature, feminist criticism, gender studies
Minicurrículo: Possui graduação em Letras Português/Francês pela Universidade de São Paulo. Realizou duas pesquisas de iniciação científica que se concentraram no estudo das autobiografias francesas escritas por mulheres. Atualmente, é mestranda da área de Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês, da Universidade de São Paulo, desenvolvendo uma dissertação sobre a obra autobiográfica de Violette Leduc.
VIOLETTE LEDUC: A AUTORA DESERTO
Naná DeLuca
Universidade de São Paulo
O deserto, os monólogos
Violette Leduc, em correspondência com Simone de Beauvoir, afirmou: “eu” é um deserto que monologa (LEDUC, 2007, p. 207). Sua trajetória enquanto escritora, iniciada ao fim da Segunda Guerra Mundial com o romance L’Asphyxie, é narrada em sua trilogia autobiográfica, cujo primeiro tomo, La Bâtarde, foi seu livro de maior repercussão crítica e de público, narrando a vida desde a infância até o término da guerra em 1945. La folie en tête e La chasse à l’amour são os outros tomos da trilogia, sendo o último de publicação póstuma. Tal como linha e agulha que costuram retalhos a fim de torná-los um conjunto único, a trilogia autobiográfica cita, reescreve e revisa os romances publicados anteriormente, tomando-os para si. A narradora personagem autobiográfica, Violette, afirma-se recorrentemente enquanto autora, complementando e desdobrando os romances L’Asphyxie, Ravages, L’Affamée e, em alguma medida, problematizando a própria escrita de si. Como um deserto que se expande, desertificando tudo ao redor, a trilogia marca estes romances anteriores como partes integrantes, e os desloca de sua posição inicial – ficção. Em La Bâtarde, por exemplo, de súbito a narrativa é interrompida e a narradora afirma que agora, enquanto personagem, irá encontrar o homem com quem mais tarde se casaria:
Arcanjo, fui injusta com você em Ravages. É um romance, nosso romance, é romanceado. Arcanjo, logo você terá sessenta anos. Arcanjo, eu não acredito que você roubava dos cofres das igrejas. Espero que me odeie. Pode odiar, você foi imperfeito (LEDUC, 1964, p. 133).
Gabriel, o personagem da autobiografia, é assim revelado enquanto Marc, o personagem de Ravages. Estes momentos de ruptura demarcam não só este deslocamento dos romances enquanto também autobiográficos, mas momentos de revisão – fui injusta com você – e pequenos postulados sobre o próprio processo criativo. Afinal, Ravages fora romanceado. Ainda adiante:
Ceder… Ceder, que significa isso de ceder? Não tornar a ver o sangue, engordar até uma criança saia de dentro de você, caia na sarjeta com você. Após tal lição, seria impossível o erro, eu estava prevenida. Minha mãe tinha-se superado em coragem, em energia, em magnanimidade, quando deixou a casa de André. Não perdoava os homens o que fizera por um só. Aliás, já me referi a isso de outro jeito em Ravages e L’Asphyxie. Misturei verdade com romance (LEDUC, 1964, p. 15).
Mais uma vez ocorre a citação explícita dos romances publicados como ficcionais, e reafirma-se as autobiografias enquanto um processo de reescrita destes. Ao embutir os romances em suas narrativas autobiográficas, coloca-os em patamar ambíguo; lá – na ficção – se misturou a verdade com o romance, cá – na autobiografia – fala-se a verdade pura. E, no entanto, os episódios narrados são similares. A narradora dá, assim, as chaves de leitura com as quais se devem adentrar sua obra, alterando aquela inicialmente proposta para os romances. Desta forma, esta trilogia está no centro da teia que é o complexo projeto literário de Leduc, proporcionando passeios pela vida da escritora, sem jamais perder de vista sua vida de escritora, atuando como uma revisitação deste percurso. A narradora-autora convida sem cerimônias seu leitor a percorrer este trajeto; estendendo a ele abertamente a mão: “Leitor, siga-me. Leitor, caio a seus pés para que me siga” (LEDUC, 1964, p. 229). Se ler a obra de Violette Leduc é atravessar o deserto, esta travessia não é feita em solidão; a voz autoral ecoa daquela que escreve para aquele que a lê.
As imagens unidas por Leduc para falar de sua autoria, o deserto e o monólogo, são um ponto de partida para pensar as problemáticas presentes em sua obra. A primeira relação possível entre ambas está na ideia da solidão e do isolamento – o deserto é uma extensa área inóspita, onde sobrevivem poucas formas de vida e que, de alguma maneira, replica infinitamente a si mesmo: não há nada no deserto senão o próprio deserto. O monólogo, por sua vez, é o ato discursivo que não possui um interlocutor direto ou explícito e é associado à introspectividade. Assim, é possível pensar que Leduc enxerga sua literatura como um deserto que é somente a si mesmo e que fala somente de si: seus escritos seriam a resposta para a pergunta O que falaria o deserto se falasse sobre o deserto?
Este deserto monologante, contudo, não escapa às contradições. O segundo livro publicado por Leduc, L’Affamée, narra a paixão da narradora, nomeada somente pelo pronome Eu – Je – por aquela que chama somente Madame ou Ela-Elle. Sobre isso, a crítica Mireille Brioude afirma: “O verdadeiro paradoxo de L’Affamée não reside, portanto, no fato de que o pronome “ela” é a máscara de Simone de Beauvoir – isto não foi segredo para ninguém desde a aparição do livro – mas no fato de que o pronome ‘eu’ é o signo de uma enunciação obcecada por si mesma” (BRIOUDE, 2000, p.55).
L’affamée possui, assim, um stAatus flutuante: embora não possa ser chamado de autobiografia em termos estritos ou formais, como sublinha Brioude, não foi lido em nenhum momento como ficcional. A crítica Catherine Viollet, ao construir uma tabela1 na qual classificou e organizou a obra de Leduc em relação ao período biográfico e o gênero de cada livro, não classificou L’Affamée nem como autobiografia, nem como romance e tampouco como ficção; sublinha somente que o texto trata da paixão por Simone de Beauvoir. Esta ideia do eu obcecado por si mesmo, no entanto, corresponde com a imagem do deserto monologante. Há, contudo, a criação de um paradoxo: em L’Affamée, a narradora não se limita a monologar sobre sua paixão, mas abre, em diversos momentos, diálogos com Madame:
Deixe-me chama-la [lhe chamar] Madame no papel… O respeito me embriaga. O respeito é um velho cassis. (…) Acabo de te deixar. Como estava desfigurada neste café provisório, já que seu café habitual está fechado. Talvez esperasse alguém (…). Não quero que espere. Tudo deve estar pronto para você (LEDUC, 1948, p. 56).
No caso de La Bâtarde, por exemplo, a postura de diálogo com o leitor perpassa toda a narrativa, dando força à voz da escritora que não se deixa parecer ausente de seu texto e indo contra a própria ideia do monólogo. Contudo, também elucida a presença deste leitor no vácuo que Leduc cria entre ela que escreve e aquele que a lê. Em meio ao relato que se centra, sobretudo, no abandono e isolamento da personagem e narradora, Violette, por parte daqueles que a cercam – a mãe, a avó, as amantes, o marido, o amigo, todos estes que possuem em La Bâtarde aurora e crepúsculo, partindo e deixando sós narradora com narrativa – a autora Leduc estabelece forte relação com seu leitor, o único personagem que permanece, do encontro inicial “Meu caso não é único: tenho medo de morrer e estou aflita por estar no mundo” ao desértico desfecho “É fogo que a solidão pousa em minha boca.”. É esta frase final que afirma o absoluto isolamento enquanto importante condutor e que traz à luz o leitor enquanto antítese da solidão, pois é o leitor e somente ele que está ao término do relato. Ora, se o caso de Violette não é único, existem, então, outros desertos que têm medo de morrer e aflição de estar, contrariando a ideia de singularidade e isolamento proposta pela imagem do deserto que elegeu.
Em diversos momentos da narrativa, a narradora anula o tempo (BEAUVOIR, 1986, p. 29) dedicando-se a escrever sobre o ato de estar escrevendo aquilo que se lê: por vezes, descreve onde está, seu caderno, sua posição, a caneta que usa para desenhar palavras no papel quadriculado, o sol ou as nuvens sobre sua cabeça, em outros momentos concisamente explicita o próprio ato da criação literária que sabe estar fazendo: “Meu Deus, fazei com que eu escreva uma bela frase, uma só” (LEDUC, 1964, p. 29). Há, portanto, um eu extremamente ativo na escrita de Leduc, que não se limita a realizar o movimento de retorno autobiográfico, mas que se faz ecoar e notar enquanto integrante do tempo presente:
Súbito ela compreendeu que a criação literária poderia ser-lhe a salvação. “Escreverei, abrirei os braços, abraçarei as árvores frutíferas, vou dá-las a minha folha de papel”. Falar a um morto, a surdos, a coisa, é um jogo duro. O leitor cumpre a síntese impossível da ausência e da presença. “O mês de agosto hoje, leitor, é uma rosácea de calor. Eu a ofereço a você, de presente”. Ele recebe tal presente sem alterar a solidão do autor. Escuta seu monólogo, não o escuta, mas o justifica (BEAUVOIR, 1986, p. 6).
O presente oferecido ao leitor é, de fato, o reconhecimento da narradora da presença deste leitor, que está ali, em La Bâtarde. Leduc não procura disfarçar-se ou esconder-se entre suas linhas, ao contrário, firma-se incessantemente como dona de sua voz, como escritora de seus escritos; autora.
A palavra autora não está aqui sendo usada levianamente ou sem levar em consideração as discussões sobre este conceito que surgiram nos anos 1970, notadamente com os textos A morte do autor, de Roland Barthes, e a conferência O que é o autor? de Michel Foucault, posteriormente publicada na forma texto. O impasse oriundo da discussão crítica e teórica sobre o que seria a noção de autor (e, considerando Barthes, se sequer haveria uma noção de autoria ainda a ser discutida) e a proposta barthesiana de que a crítica não mais deveria centrar-se no chamado autor, mas naquele que o recebe, o leitor2 torna-se ainda mais complexa se sobre ela nos inclinarmos pela lente das questões de gênero e produção literária. Quando se fala em autoria feminina estamos também falando da condição da mulher enquanto Sujeito na sociedade, ou seja, de sua capacidade (bem como viabilidade) de produzir e criar em um mundo regido pelas desigualdades de gênero no qual certeiramente está em desvantagem e do qual foi fatalmente excluída ao longo da História. A mulher ocupou, ao longo de séculos, somente os ambientes privados da família e teve por muito tempo seu acesso negado à educação básica, tornando sua participação na cultura não só eventual como frequentemente ignorada pela justificativa de que trata-se de uma mulher3. Devido a um estudo sobre a (não) participação da mulher na literatura, após coletar uma diversa bibliografia em que homens falavam sobre mulheres, Virginia Woolf escreve:
Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. (…) Eis porque tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se. Isso serve para explicar, em parte, a indispensável necessidade que as mulheres tão frequentemente representam para os homens. E serve para explicar o quanto se inquietam ante a crítica que elas lhes fazem, o quanto impossível é para a mulher dizer-lhes que esse livro é ruim, este quadro é fraco, ou seja lá o que for, sem magoar muito mais e despertar muito mais raiva do que um homem formulando a mesma crítica. É que, quando ela começa a falar a verdade, o vulto no espelho encolhe, sua aptidão para a vida diminui (WOOLF, 1985, p. 48-49).
Mais adiante, os argumentos posteriores à Woolf elaborados por Simone de Beauvoir no livro O segundo sexo elucidam ainda mais intensamente a desigualdade de gênero:
Os antifeministas extraem da história dois argumentos contraditórios: 1º) as mulheres jamais criaram alguma coisa de grande; 2º) a situação da mulher jamais impediu o aparecimento de grandes personalidades femininas. Tais afirmações são eivadas de má-fé; os êxitos de algumas privilegiadas não compensam nem desculpam o rebaixamento sistemático do nível coletivo; e o fato de serem esses êxitos raros e limitados prova precisamente que as circunstâncias lhes são desfavoráveis. Como o sustentaram Christine de Pisam, Poulain de la Barre, Condorcet, Stuart Mill, Stendhal, a mulher nunca teve suas possibilidades em nenhum terreno. Eis porque reclamam elas hoje, em grande número, um novo estatuto; e, mais uma vez, sua reivindicação não consiste em serem exaltadas em sua feminilidade; elas querem que em si próprias, como no resto da humanidade, a transcendência supere a imanência. Elas querem que lhes sejam concedidos, enfim, os direitos abstratos e as possibilidades concretas, sem a conjugação das quais a liberdade não passa de mistificação. (…) A História mostrou-nos que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter a mulher em um estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como o Outro (BEAUVOIR, 1997, p. 172-179).
Dessa forma, quando discutimos autoria feminina não estamos somente discutindo o conceito autor tal como visto pela teoria literária. Mesmo que se pense nas definições foucaultianas em que falar sobre autoria4 diz respeito marcadamente a uma função social e discursiva, esta função operaria de maneiras muito distintas para a autoria feminina, já que sua produção representa uma conquista ao mesmo tempo histórica, social e cultural. De alguma maneira, para a teoria literária feminista, matar o autor (ou não mais se voltar a ele criticamente) é um luxo que ainda não pode ser dado, tendo em vista o imenso retardo da produção literária e teórica de mulheres acerca de mulheres. A autoria feminina se mostra fenômeno recente em termos diacrônicos, não podendo ser ainda extinta para que se pensem as intersecções entre mulher e literatura. A proposta de Elaine Showalter, fundadora da chamada ginocrítica, exibe esta cisão entre a teoria literária feminista e a própria teoria literária; seria preciso primeiro “o estudo das mulheres enquanto escritoras, e seu foco [da ginocrítica] são a história, estilos, temas, gêneros e estruturas de escrita de mulheres; a psicodinâmica da criatividade feminina; a trajetória individual ou coletiva da carreira da mulher; e a evolução e leis da tradição literária feminina” (SHOWALTER, 1986, p. 248). Embora esta diferenciação possa parecer radical, ela se faz necessária para que haja um resgate e, em alguma medida, um realce, daquilo que foi escrito por mulheres. Sobre isto, a teórica feminista brasileira Sylvia Paixão, escreve que não é possível tratar das relações de gênero na literatura sem antes abordar a questão do cânone literário, tendo em mente as relações de poder que resultam na construção de um cânone, onde indivíduos detentores deste poder dão ou tiram valor literário de um texto (PAIXÃO, 1997). Neste sentido, dada a posição de inferioridade social da mulher, a autoria feminina foi sumariamente excluída quando não ignorada e, tendo isto em vista, a construção desta voz autoral nos escritos autobiográficos de Violette Leduc ganha força, ao mesmo tempo que literária, também política:
Tendo roubado o lugar e a pulsão dos homens, ela se torna o único verdadeiro homem; ela se fantasia com o poder procriador masculino. Falando da escrita, Leduc se descreve tal como um deus criando um mundo (EVANS, 1982, p. 28-92).
Leduc assume, assim, o papel de Sujeito reservado ao homem socialmente. Lembrando da análise de Gilbert e Gubar, que apontam a caneta do escritor enquanto um falo, já que foi o homem colocado como único ser detentor do poder da criação, a narradora autobiográfica de Violette Leduc subverte esta lógica, por exemplo, quando afirma:
Escrever. O amor e depois o amor. Eu me curvava, eu me endireito: meu desejo de escrever melhor. Se você soubesse o quanto me falta a seriedade quando me aplico, quando me pego. Eu faço malabarismo com os achados. Meu caderno fechado, me acuso de viver. Morrer escrevendo. O estilo. O hermetismo do estilo. A clareza do estilo. As liberdades de um estilo. Lhe dar minha pele, ao estilo. Escrevo, não tenho futuro, abandono-me na página de meu caderno (LEDUC, 1970, p. 166).
O que quero realçar é a maneira como Leduc atenta, sobretudo, para seu processo de criação e não para a criação em si; um está embutido no outro. Não coloca-se, assim, como um criador onipotente, mas exibe as fragilidades e impasses em sua escrita; o ofício passa, assim, a ser também personagem de sua trilogia autobiográfica, sendo seus livros não somente o resultado de um processo de criação, mas o relato deste processo. Vida e escrita estão interligadas de maneira indissociável: as autobiografias demarcam a existência, pois o caderno da narradora a acusa de viver ao mesmo tempo em que compassam a vida que transcorre finita: ela quer morrer escrevendo. Quando cita conceitos críticos como estilo – seu hermetismo em oposição à sua clareza – também fala de imprimir nele sua pele, seu corpo; corpo este que não tem futuro, senão aquele presente no caderno. Corpo e texto são, assim, também inseparáveis.
O corpo do deserto
Em vida, Leduc conheceu a censura com a narrativa Ravages, desta foram excluídos o princípio, dedicado à narrativa do caso amoroso entre a narradora e Isabelle, uma colega de pensionato que é também personagem em La Bâtarde5. A supressão deste episódio foi a condição dada pela editora Gallimard para a publicação do romance. A narrativa autobiográfica La chasse à l’amour se inicia logo que Violette, a narradora personagem autora, tem Ravages censurado; este início é o relato da insanidade6 gerada pela ideia de ter cortado seu livro:
Chamava-se Ravages. Está morto, não é verdade? Diz-me ao ouvido. Chamavas-te Ravages, meu pobre pequeno. Eles separam-te de ti próprio, separam-me de ti. São tristezas que me atravessam a cabeça com movimentos ondulatórios. Não me curarei de nossa amputação (LEDUC, 1974, p. 18).
Violette sente ter seu texto censurado, cortado, como uma amputação – trata da questão como se tivesse uma parte de seu corpo retirada. Hélène Cixous, em O riso da medusa, elabora as relações entre texto e corpo quando falamos da autoria feminina. Para ela, que mulheres assumam o papel de escritoras está além da transição entre ser o Outro, o esquecido, para tornar-se Sujeito, aquele que rege; escrever simboliza uma retomada do corpo que antes não a ela pertencia. A cultura patriarcal realiza um trabalho sistemático de objetificação do corpo da mulher, que desde a infância é, sutil ou agressivamente (quando não ambos) ensinada de que seu corpo não é, de fato, seu, mas um objeto direcionado ao outro, que independe de sua vontade ou individualidade. Para Cixous, a mulher que se assuma dona de um discurso próprio e que afirma possuir uma voz a ser ouvida reivindica para si este corpo:
Individualmente, ao escrever a si mesma, mulheres irão retornar ao corpo que foi mais do que dela confiscado, que tornou-se o incomum estranho a mostra – o doente ou o morto, que tão frequentemente se revela ser o nefasto companheiro, a causa e lugar das inibições. Censurar o corpo é censurar respiração e discurso ao mesmo tempo (CIXOUS, 1998, p. 1.457).
Quando a narradora de La Bâtarde tem seu primeiro texto crítico publicado em uma pequena revista, exibe imenso fascínio pela ideia de ter sua assinatura estática junto à uma criação própria. Para além disso, seu foco se centra, sobretudo, em seus leitores potenciais, afirmando que saem comigo, passeiam comigo, me apertam no calor das axilas (LEDUC, 1964, p. 341). Há uma continuidade recorrentemente afirmada entre os textos da narradora autora e seu corpo. Contudo, esta relação entre texto/corpo e corpo/texto não se dá de maneira sempre harmônica. No prefácio escrito para La Bâtarde, Simone de Beauvoir afirma:
Nos diálogos que escreve transparece sua impossibilidade de se comunicar. Os interlocutores falam um junto ao outro e não conversam; cada qual tem uma linguagem própria, não se compreendem. (…) Sartre narra em As Palavras que, embebido pelo Littré, estas lhe apareciam como precárias encarnações do nome. Para Violette Leduc, ao contrário, a linguagem está nelas (nas coisas), e o escritor é que corre o risco de traí-las. “Não assassine esse calor no alto de uma árvore. As coisas falam sem você, contenha-se, sua voz poderá abafa-las” (BEAUVOIR, 1986, p. 3-7).
Assim, há neste texto-corpo flutuações, que o faz se modificar e performar sem aviso prévio. Perpassam por toda a narrativa de Leduc diálogos que se mostram incompreensíveis e momentos em que subitamente surgem longas frases (a mais notável se derrama por três páginas) sem pontuação gráfica alguma, explicitando em sua forma esta impossibilidade ou limitação da comunicação a qual de Beauvoir faz referência:
Violette eles morrem de rir os moleques da capital meu nariz meu osso e minha carne com sofrimento eu o pinçava com o pregador de roupa meu pregador de roupa com dezesseis anos dezesseis anos o oceano me pedia a caridade dezesseis anos minhas entradas no pôr-do-sol ah rosto sexo do espelho ah espelho no qual homens e mulheres são todos putos eu lhe agrado Gabriel ponto de interrogação tenho pés pequenos minha mãe diz a Hermine olhe ela tem pés de criança sou a multidão será que multidão me segue um vidraceiro no redemoinho isso está mal construído isso exibe seu ofício cale-se com seus pequenos cemitérios sobre suas costas é inevitável senhor o verificador são meus túmulos antes de nascer será preciso que falemos disso com Gabriel cale-se (…) (LEDUC, 1964, p. 189).
Este trecho foi retirado de um destes momentos de ruptura performática em La Bâtarde; assim como destaquei este excerto, sem início ou fim lógicos, poderia tê-lo feito em qualquer outra parte desta sentença de três páginas, sem pontuação gráfica ou unidade. Este momento foi escolhido, no entanto, pois mostra o desconforto da narradora com seu físico, além de colocar em antítese Gabriel e Hermine, os dois amantes, sempre em antítese. Aparece a reflexão sobre o que se escreve, isto está mal construído; e de alguma forma, a narradora mais uma vez se expressa enquanto autora: isto exibe seu ofício, a ruptura no texto torna evidente o exercício literário. É importante destacar que a narrativa em questão não é escrita em capítulos, mas em espécies de blocos narrativos que não estabelecem entre si necessariamente uma ligação cronológica ou de ação. A narrativa segue os movimentos de seu texto-corpo; se este corpo-texto possui perturbações da ordem da linguagem, este texto-corpo as sofrerá também.
Miragens
A passagem destacada acima não desponta no texto sem motivo. Violette encontra-se tensionada entre Gabriel e Hermine; o primeiro já pontuado anteriormente como o homem que conhecera jovem e que mais tarde seria seu marido. Com ele, Violette estabelece uma relação violenta e conflituosa. Gabriel dispensa à ela o tratamento que daria a um homem: chama-a de rapaz em diversos momentos (não há nada a explicar, rapaz) e mostra repulsa por tudo aquilo que é feminino em sua figura. A narradora-personagem, assim, vê em Gabriel um espelho, entende que ele é, de alguma maneira, seu reflexo distorcido e não percebe a relação de ambos como aquela estabelecida entre um homem e uma mulher, mas dois homens. Isto se torna tão evidente ao longo da narrativa que quando decidem se casar,
Pedi a Gabriel que me amasse como um homem ama outro homem. O pânico, o terror sagrado da pequena cruz ao lado da data sobre o calendário? No primeiro plano, sim. No segundo plano, refletindo trinta anos depois, é a verdade. No segundo plano o desejo de um casal de homossexuais sobre a minha cama (LEDUC, 1964, p. 309).
Violette expressa abertamente que ao lado de Gabriel possui a identidade de gênero masculina. E, para além disso, quer o sexo de um homem com outro homem, pois quer que ela e Gabriel sejam dois homossexuais, denunciando uma fluidez também em sua orientação sexual. Com Hermine, por outro lado, o conflito é absolutamente oposto. Se de um lado há Gabriel que a masculiniza, do outro Hermine torna uma missão feminizá-la: “‘Eu preferia você com um chapéu, os cabelos mais compridos. Um chapéu-sino.’ Ela quer uma mulher com um chapéu-sino” (LEDUC, 1964, p. 189). Hermine e Violette se conhecem no pensionato onde Violette estudara; mas ao contrário de Isabelle, Hermine não era uma colega da escola, mas a professora de piano, demitida uma vez que se torna público seu caso com a aluna. Quando Violette decide voltar a Paris e deixar o colégio, as duas optam por morar juntas; é a partir desta decisão que Hermine traz recorrentemente seu desagrado com os aspectos masculinos de sua parceira, insistindo sempre (quando não obrigando) que Violette compre roupas em determinadas lojas, arrume seus cabelos de determinados jeitos e comporte-se de outras maneiras em algumas situações. Esta tensão entre o gênero masculino e feminino, onde Violette é a corda em um cabo de guerra que pende ora para Gabriel e ora para Hermine7, eclode nesta sentença de três páginas, em que o grande questionamento seria qual gênero, qual espelho, deve ser levado em conta:
Hermine vigia o recreio Gabriel se sacia de sono Hermine Gabriel me esquartejam recomeça pra ver Hermine e Gabriel me esquartejam (…) eu escolhi Hermine Gabriel está aqui na ponta dos meus cílios (…) qual gênero é verdade (…) (LEDUC, 1964, p. 189)
A perturbação no texto é, portanto, reprodução direta de uma outra perturbação: a de gênero. Novamente retorna ao texto o vocabulário do corpo: Hermine e Gabriel me esquartejam – no texto original o verbo utilizado é écarteler que designa um método medieval de punição: amarrar os membros de um indivíduo a quatro cavalos distintos e, assim, mutilá-lo com a força bruta dos animais; a tensão de gênero imposta pelos amantes faz sentir como se o corpo fosse brutalmente dilacerado, ora pelo feminino, ora pelo masculino.
A narradora personagem de Ravages, Thérèse, chega a afirmar em dado momento a seu amante: Eu não sou uma mulher. Se a narradora do romance nega o status de mulher, a narradora autobiográfica explicita ainda mais esta problemática, aprofundando-se abertamente nos conflitos em relação à sua identidade de gênero, sexualidade e expressão de gênero:
Em outras palavras, atos, gestos e desejo produzem o efeito de uma essência interna ou substância, mas produzem estes efeitos na superfície do corpo, através do jogo de ausências significantes que sugerem, mas nunca revelam, o princípio organizador da identidade como causa. Tais atos, gestos, atuações, geralmente construídos, são performáticos no sentido de que a essência ou identidade que tencionam expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas através de signos corporais e outras vias discursivas (BUTLER, 2003, p. 194).
É impossível ignorar que a narradora-personagem, Violette Leduc, do ponto de vista da teoria queer, realiza constantemente este movimento performativo ao qual Butler se refere; abordando abertamente o gênero e a sexualidade como efeitos¸ construções culturais as quais o indivíduo não está preso, mas passível de transitar por. Quase como quem brinca (nem sempre sorrindo) em um balanço que ignora as leis da Física, indo para cima, para baixo, lados, diagonais, círculos, Violette perambula por feminino/masculino/andrógeno, homem/mulher/transgênero, heterossexual/bissexual/homossexual. Ora as recusa, ora as aceita, ora abertamente se põe a manipular e citar estas classificações em função de seus desejos. Sua tensão qual gênero é verdade, de fato, só faz tornar evidentes que não há, para ela, um gênero verdadeiro.
Em La chasse à l’amour, após meses de internação em um sanatório, Violette ganha o direito de passar uma noite na cidade ao lado de amigos. O programa escolhido pelos companheiros é um show de travestis em Paris. Violette descreve minuciosamente cada umx delxs, até que percebe que, por baixo de seus trajes, havia um membro de homem e, por fim:
Vocês queriam ser mulheres e serem rainhas, no Carrossel. Foram-no. (…) Violette só pensava nela, só se via a si. Repudiada, impunha-se. O vestido, o creme, a depilação com cera, a maquilhagem cor de malva, o traço do lápis verde pálido, o gesto precioso, o bater de pálpebras estudado significavam um membro caído em desgraça, um pobre pequenito no asilo por baixo do cetim. O seu órgão: o veneno de seus artifícios. (…) Os homens na sala devoravam-na [Coccinelle] com os olhos. O falso ultrapassava o verdadeiro. (…) Tinham-me salvo de um naufrágio lento (LEDUC, 1974, p. 114).
É neste momento, após contemplar as apresentações das travestis, que a narradora Violette desperta de seu torpor. É após esta experiência que decide abandonar o sanatório e tentar retomar seu cotidiano. Ao observar as travestis, vê a si. As performances teatrais drag, parodísticas do gênero ressoam com as suas próprias: seus acessórios, sua própria maquiagem e trajes representam para ela o mesmo que o membro escondido das travestis: o veneno dos artifícios. Quando se vê em um espaço no qual o falso ultrapassa o verdadeiro, a personagem se liberta da dor que a perseguia após a censura de seu livro, em um momento de epifania, pois as travestis e ela própria revelam que “as superfícies corporais são impostas como o natural, elas podem tornar-se lugar de uma performance dissonante e desnaturalizada, que revela o status performativo do próprio natural” (BUTLER, 2003, p. 210) .
O deserto monologante é, assim, criador e criatura de uma performance que se estende e multiplica não só em sua identidade de gênero ou sua sexualidade, mas também na própria imagem autoral que é construída, desconstruída e exibida. Para retomar o vocabulário do deserto, as performances criam o efeito de miragens, possíveis de serem deslumbradas e perseguidas em meio a travessia, mas inconstantes, perenes. O caráter fluido da identidade da narradora escorre para o local de autoria que ela mesma delimita, abertamente desestabilizando sua própria obra e, em última instância, apontando a performance que foram seus romances e que são suas autobiografias.
Se lembrarmos da passagem onde despontam os questionamentos sobre o gênero verdadeiro e a afirmação de que a perturbação textual exibe o ofício, podemos enxergar na obra de Leduc dois pilares performativos: um denunciador do gênero não enquanto essência, mas busca – construção. Como afirma Teresa de Lauretis, o gênero, por si só, é a representante de uma Relação social, pois mostra o indivíduo enquanto pertencente de uma classe (LAURETIS, 1994, p. 211). Esta Relação, no caso de Leduc, será flutuante, pois é abertamente expressa a maneira como o gênero não é fixo. Por outro lado, explicitar o processo da escrita é uma inscrição no texto da constituição fluida e instável da criadora deste próprio texto – esta entidade autora construída pela narradora personagem. Assim, o deserto monologante é ele próprio uma miragem e é também povoado por muitas outras.
NOTAS
Referências Bibliográficas
1- Bibliografia de Violette Leduc
L’Asphyxie. Paris: Gallimard, 1946.
L’Affamée. Paris: Gallimard, 1948.
Ravages Paris: Gallimard, 1955.
La Bâtarde Paris: Gallimard, 1964.
Thérèse et Isabelle Paris: Gallimard, 1966.
La Folie en Tête Paris: Folio, 1970.
La Chasse à L’amour Paris: Gallimard, 1973.
Thérèse et Isabelle (versão integral) Paris: Gallimard, 2000.
A Bastarda. Tradução: Vera Mourão. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.
Caça ao amor. Tradução: Manuela Daupiàs. Rio de Janeiro: Portugália, 1974.
2- Bibliografia geral
BARTHES, Roland. A morte do autor In: O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
BEAUVOIR, Simone de. Prefácio. In: La Bâtarde. Tradução: Vera Mourão. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1997
BRIOUDE, Mireille. Violette Leduc: La mise en scène du “Je”. Amsterdã: Rodopi, 2000.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero – feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003
CIXOUS, Helène. Le rire de la méduse. In: The Critical Tradition. Nova York: Bedford Books, 1998.
EVANS, Martha. La mythologie de l’écriture dans La Bâtarde, de Violette Leduc, Littérature, nº 46, 1982. Graphies.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? São Paulo: Passagens, 1992.
GILBERT, Sandra; GUBAR, Susan. The Madwoman in the Attic: The Women Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination. London: Yale University Press, 1984.
KOLODNY, Anette. Dancing Through the Minefield: Some Observations on the Theory, Practice and Politics of a Feminist Literary Criticism. In: The Critical Tradition. Nova York: Bedford Books, 1998.
LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: Tendências e impasses. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
PAIXÃO, Sylvia. A Literatura Brasileira e o cânone. In: RESENDE, Beatriz (Org.), Revista Tempo Brasileiro, As aporias do cânone. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, no 129. Abril-junho de 1997.
SHOWALTER, Elaine. Toward a Feminist Poetics:Women’s Writing and Writing About Women. London: Croom Helm, 1979.
VIOLLET, Catherine. Violette Leduc, de Ravages à La Bâtarde. Paris: Item [online], 2006.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rosália Milsztajn
A tarde é uma mulher recém-saída do banho
pingos de chuva em sua pele lisa
como as calçadas nuas e escorregadias
escorre um recomeço verde
revelado nesta luminosidade
frescor de folhas estalando
coisa de florescer
eu e a tarde
suspensas no tempo fotográfico
num canto das folhagens
nos lábios vermelhos do sol – um sorriso
vários verdes desfilam como vestidos
o que guarda esta paisagem
um encontro
um amor?
Rosália Milsztajn
Afternoon is a woman who has just come out of bath
Raindrops sprinkled on her smooth skin
such as naked and slippery sidewalks
a green beginning flows
revealed in this luminosity
a freshness of crispy leaves
a flourishing thing
The afternoon and me
suspended in this photography flash
in a corner of leaves and
in the sun’s red lips – a smile
all greens parade in dresses
what keeps this scenery is
an encounter
a love?
De Este recorte, Rio de Janeiro, Patuá, 2014.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rosália Milsztajn
Que vocabulário poderei usar contigo
já que és eterno e a palavra efêmera
se dilui no prazer de dizer
e tudo mais se evapora na formosura da forma – mera ilusão
aparência sem reverberação e consciência de ti que amo
e repito: eu te amo para sempre
e assim não resiste ao desgaste
ao embate fixo da palavra que imobiliza
e no silêncio me sinto em comunhão contigo
que vibra em tudo que cala
e que é escuridão ainda
Rosália Milsztajn
What words can I say to you
You who are eternal while words are so ephemeral
and dissolve in the pleasure of saying them
everything else drifts in the beauty of form – mere illusion
appearance without reverberation and your consciousness that I love
So, I repeat: I love you forever
my words will not resist wearing out
and the constant opposition of words that immobilize
it is silence that I feel in unison with you
you who vibrate in everything that silences
and is darkness yet.
De Este recorte, Rio de Janeiro, Patuá, 2014.
Bio fornecida pelo palestrante.
Cristina Susigan
UPM – SP
Resumo: Este artigo tem o intuito de refletir sobre a escrita no feminino e neste caso como a autora empodera a sua personagem, também uma figura feminina dando voz num período, a Holanda do século XVII, onde a muher era invisível. Através do romance de Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, pretendemos fazer uma reflexão de alguns dos elementos que constituem o chamado “romance de formação” (Bildungsroman) feminino, uma vez que assistimos à evolução da personagem principal e narradora da história, à perda gradual da sua inocência, à conquista da liberdade e ao seu crescimento extraordinariamente rápido, feito de várias rupturas afetivas, mas também da concretização de alguns sonhos impossíveis e o olhar feminino que desconstroi a mulher como objeto da narrativa.
Palavras-chave: Tracy Chevalier, feminino, romance de formação, mulher-sujeito.
Abstract: This paper is intented to reflect about writing in the feminine and in this case as the author powers your character, also a voicing female figure in a period, the Dutch seventeenth century, when the women was invisible. Through the novel by Tracy Chevalier, Girl with a Pearl Earring, intend to reflect some of the elements that constitute the so-called “novel of formation ” (Bildungsroman) female, since witnessing the evolution of the main character and narrator of the story, the gradual loss of innocence, the conquest of freedom and its extraordinarily rapid growth , made several emotional ruptures, but also of achieving some impossible dreams and the feminine look that deconstructs the woman as the narrative object.
Keywords: Tracy Chevalier, female, novel of formation, woman-subject.
ROMANCE NO FEMININO: TRACY CHEVALIER DIALOGANDO COM JOHANNES VERMEER
Cristina Susigan
UPM – SP
Introdução
O romance de Tracy Chevalier pretende traduzir em palavras o mundo pictórico de Vermeer, através de descrições de forte sugestão visual e simbólica, ao descortinar as preferências do autor e tentar perceber o fio condutor da sua produção artística. Chevalier soube captar/capturar de um modo raro e preciso o universo intimista de Vermeer. Ao desfiar-lhe as múltiplas cores, cambiantes, tons, tintas lavadas e coadas de que o livro é feito, na habilidosa mistura com a escrita. Abordagem das emoções continuadamente prometidas e sempre adiadas, da entrega a uma sensualidade permanentemente suspensa mais tátil. Mostrando-se e recusando-se, jogando com as palavras e com as imagens, que se enovelam e acrescentam.
Ainda que de maneira superficial não podemos deixar de referir o fato de que seja uma mulher a autora do relato, com o qual estaríamos, por assim descrevê-lo de um modo um tanto simbólico, ante a transmissão de uma história através do prisma da mulher. Uma história, não esqueçamos, que tem seu ponto de partida no olhar masculino, o de Vermeer. Mas não é nossa intenção detalhar aqui um compêndio de características do relato feminino em contraposição ao relato masculino, nem tampouco meditar sobre como seria o resultado tratando-se de um autor homem. Seja como for, pensamos que no olhar feminino há uma maior tendência ao intimisno, ao deter-se em análises psicológicas que tratam de dar resposta ao porque de determinadas ações, e isto só resolve-se, por mais paradoxo que pareça, de forma intuitiva, em estreita dependência de sensações mais que de argumentos racionais.
O livro contém todos os elementos de um romance histórico, possibilitando uma revisitação de um período de tempo particularmente ativo na vida do pintor Vermeer, na segunda metade do século XVII. A autora constroí uma narrativa linear, com as mesmas personagens do começo ao fim. Produz um romance no sentido tradicional, em que um único enredo conduz toda a trama. A originalidade do livro prende-se com a circunstância de o ponto de vista adotado ser de uma criada. A escritora expõe os recônditos sentimentos de uma moça na Delft do século XVII, chamada Griet, suposta criada, que mais tarde também é elevada à categoria de assistente e musa/modelo do pintor, que observa e descreve o trabalho do mestre ao mesmo tempo que partilha com o leitor uma etapa crucial do seu crescimento e da sua formação.
Vermeer pintou a mulher de notório silêncio, com os olhos voltados para baixo. Michelle Perrot (2005) observa que esse silêncio comum das mulheres, essa ausência de fala consistia em disciplina das famílias, dos corpos e da sociedade. De fato, no século XVII as mulheres holandesas eram submissas ao pai e posteriormente ao marido, sempre absorvidas pelos trabalhos domésticos, com o cuidado e educação dos filhos, portanto, o silêncio das mulheres de Vermeer não consistia apenas na ausência de fala, mas também de expressões, gestos, uma vez que a postura dessas figuras femininas era de escuta, espera, sem queixas, sem confidências. Chevalier em seu romance, transfere o poder para uma criada, na escala da sociedade, a mais silenciosa e invisível, empoderando-a.
Feito de transparências e de misteriosas obscuridades, de pequeníssimos detalhes e luminosidades súbitas. Um romance de cores e odores, textura onde subitamente se abrem rasgões de claridade, que logo se tolda e adensa. Um texto banhado por uma velada luz intimista, que, vinda dos interiores da casa que descreve e onde as personagens vivem, se escapa, indo-se recolher no atelier de Vermeer, que a toma e trabalha até a fazer parte visceral da sua pintura. Onde, ora se mostra resplandecente: em vermelho laca e amarelos ocres. Ora se mergulha a si própria na sombra: num branco de chumbo tingido de negro de ossos, num indizível verde seco, ou cinzento. História onde está abolida qualquer esperança para a criatividade feminina, que vemos anular-se a cada passo. Texto comovente na sua entrega à inocência, de que invoca a queda e por fim a perda. Enquanto nos dá a ver da genialidade artística, a solidão absoluta.
Se Vermeer colocava todo o seu interesse no real, na mulher escrevendo uma carta, vertendo leite ou pesando pérolas, Chevalier esforça-se em fornecer um retrato, realista das relações entre a incipiente burguesia e o mundo dos trabalhadores. A ação pertence a Griet, assim como a voz narradora da história. É a Moça com Brinco de Pérola – único dos quadros de Vermeer a explorar alguma dose de sensual e enigmático erotismo – que se movimenta.
Outra questão teórica, particularmente relevante para a análise de Moça com Brinco de Pérola, é da metaficção historiográfica, termo cunhado por Linda Hutcheon em A poética do pós-modernismo: História, Teoria, Ficção, e retomado em The Politics of Postmodernism, livros nos quais a crítica canadense argumenta que história e ficção são construtores discursivos, representações narrativas, ambas com seus poderes e limitações. Para Hutcheon, “A história, como relato narrativo, é inevitavelmente figurativa, alegórica, fictícia; ela é smpre já textualizada, sempre já interpretada” (1990, p.143) outro importante conceito de Hutcheon é do papel exercido pelo personagem marginal ou marginalizado, silencioso e silenciado, membro de qualquer uma das diversas minorias, habitante das margens da cultura dominante, personagem ao qual ela dá o nome de “ex-centric”. Hutcheon mostra como a literatura pós-moderna tem trazido para o centro narrativo esse personagem marginalizado, dando-lhe uma voz própria e um posição de sujeito de sua própria história (1990, p. 60-62).
Esses conceitos teóricos nos são extremamente úteis no exame de Moça com Brinco de Pérola. Nesse romance, Chevalier, usando tanto do seu conhecimento das obras e da vida de Vermeer como das fontes históricas sobre a Holanda do século XVII; utilizando uma sensibilidade refinada em relação ao mundo e à arte da pintura; e mostrando uma especial empatia com a busca da identidade e o desenvolvimento de uma subjetividade feminina, produz uma obra maravilhosa e precisamente evocativa do passado mas, também e principalmente, de forte e poética atualidade.
A existência real de documentos históricos e sua simultânea sujeição a regimes de signos cambiantes reúne-se, em aliança, com a brutalidade do real só apreensível por meio de textualização, ou, de sistemas significantes, na visão pós-estruturalista com a qual nos afinamos para construir nosso olhar sobre os objetos artísticos.
Na linha de abordagem pós-moderna tal como defendida por Linda Hutcheon, o que importa é perguntar como podemos nos relacionar com o que se deu no passado. Segundo Hutcheon, em A poética do pós-modernismo: História, Teoria, Ficção, especialmente em “Historicizando o pós-moderno: a problematização da história” (1990, p. 120-40): “Quanto a disciplinas dedicadas a outros objetos, estamos nos referindo às neurociências cognitivas, tratadas em outros capítulos, e mencionamos apenas para marcar que o tema não se resume ao passado e à presença diante de um objeto ou acontecimento”. Em relação ao passado, vai se desenvolver a questão de como formular a relação entre a reconstrução histórica (construção de fatos históricos) e a reconstrução literária (de ficções artísticas) dos acontecimentos, objetos, documentos e relíquias, colocando em jogo a noção de verdade. É justamente da colocação em jogo, ou dinamização, ou ainda diálogo, e não do cancelamento desta, e de outras noções tradicionais, que trata nossa construção de objeto.
Na linha de discussão desenvolvida por Hutcheon, o que importa é a revisão problematizante da relação que queiramos estabelecer com a referência e não a eliminação desta noção. Uma negação do acesso ao referente não implica a negação da sua existência empírica, apenas sua inapreensibilidade. Um vasto material teórico é colocado em discussão, resgatando a historicidade dos argumentos que, em um momento, reuniram e, depois, apartaram a escrita histórica da escrita literária. Dentre eles, encontra-se uma figura da linguagem, a ekphrasis (representações de representações visuais)” – e considerá-la como: descrições verbais de imagens visuais capazes de gerar efeito de vida (HUTCHEON, 1990, p. 158-160).
Hutcheon se dedica especialmente a um tipo de romance que define como metaficção historiográfica, no qual Moça com Brinco de Pérola não se inclui, em termos narrativos, uma vez que não interrompe o fluxo ilusionista para denunciar seu artifício, mas sim em termos da intertextualidade entre arte e historiografia a partir da qual, e pela maneira pela qual, a narrativa se constrói, sob o ponto de vista da noção pós-estruturalista de discurso.
O romance de Chevalier, nasce como intertexto pela apropriação que faz da pintura já em seu título, na reprodução da imagem na capa, sublinhada pela imagem de outro quadro do pintor (uma vista da cidade de Delft, onde habitava), enquanto embalagem de seu texto, mas também por meio narrativa propriamente dita: se não pela forma, pelos elementos da criação da realidade artística que insere, por meio da linguagem verbal, na tessitura da trama.
No âmbito mesmo da abordagem de Hutcheon, i.e., da poética do pós-moderno, não há mais hierarquia entre textos e para-textos ou contextos: a intertextualidade se dá como deslocamento da ilusão de um referente para a multiplicação ou deslocamento de referencializações. Nesses termos é que defendemos que o objeto artístico não seja visto apenas na forma da narrativa literária ou no aspecto temático mais banal do envolvimento amoroso. A materialidade do romance envolve, em sua temática e em sua trama, elementos técnicos da pintura como: a elaboração das tintas, os nomes, a compra e a manipulação das substâncias dos pigmentos, efeitos de luminosidade sobre a modelo e sobre a base da tinta na tela, mostra a redução em perspectiva por meio de um objeto ótico da época. Isto é parte da trama porque é constitutivo das relações entre as personagens e da intertextualidade ou metamidialidade da narrativa em relação à pintura. Tanto quanto podem ser consideradas as descrições da intervenção do cotidiano sobre a criação artística e vice-versa, quando o pensamento que rege a observação se associa a um regime que rompe as fronteiras entre arte e vida.
Se não há ruptura do ilusionismo realista na tessitura verbal da narrativa, há na narrativização do processo pictórico que descreve a feitura de uma pintura histórica. Ao dar aos dois elementos passíveis de abordagem indicial, em uma leitura iconográfica, o tratamento de objetos casualmente eleitos para resolver um problema de ordem técnica, a narrativa se torna metalingüística em relação à linguagem pictórica da qual extrai sua fonte de inspiração.
A pérola e o pano que envolve a cabeça da moça, reais no objeto histórico (imagem pictórica), são requisitados pela personagem literária do pintor, apenas, para resolver problemas do processo de pintura, ao invés de decorrer da caracterização social da personagem ou do seu possível envolvimento amoroso. Ao contrário, uso do brinco de pérola, que intitula o quadro, só termina por conduzir ao desfecho da narrativa porque o pintor o solicita para equilibrar a composição, com um efeito de luminosidade.
Vermeer literário mostra à moça o efeito da luz sobre o pendente quando usado por sua esposa, causando-lhe estranhamento, gera conflito e exige concessões de outras duas personagens: da moça, porque não tem a orelha perfurada e permitir perfurá-la lhe trará dor física e uma marca que implica problemas sociais, como uma metáfora de desvirginamento; e da sogra, porque deve extrair o brinco da caixa de jóias da filha, que as mantém sob vigilância e já está sendo enganada sobre a convivência entre a moça e o marido.
O torso com véu que envolve a cabeça da moça nasce da necessidade que o pintor sente de ver o rosto encoberto pela touca que ela usa. È um tecido dentre outros materiais que guarda no quarto de despejo e que serve de mediação entre a solicitação dele de ver o rosto para poder pintá-lo e o limite dela, em não poder admitir deixar os cabelos à mostra: outra solicitação do processo de criação artística que proporciona uma cena de intimidade entre pintor e modelo, na transformação da moça em pintura.
A narrativa denuncia a imagem visual da qual constrói a ekphrasis, não como realidade histórica, mas como realidade da criação artística. E este é um procedimento que simultaneamente ilude com seu efeito de real e mostra a desreferencialização de uma imagem artística por meio de um uso metalingüístico da narrativa sobre a criação da imagem pictórica: lugar em que também se situam os procedimentos metaficcionais da poética pós-moderna defendidos por Hutcheon.
Tomando outra categoria festejada pelo pós-moderno – e incorporada pelas artes cênicas contemporâneas, por serem artes do movimento e do efêmero – para explicitar a riqueza dessa operação, podemos dizer que o romance se desenvolve como ekphrasis, não de uma pintura, mas, do work in progress de uma pintura, ou como Renato Cohen, no seu Work in Progress na Cena Contemporânea (1998), prefere, por vezes, adaptar a expressão cunhada pela arte contemporânea, substituindo o segundo termo por – process, (processo).
A descrição verbal não é do resultado, da imagem pictórica, mas do processo de nascimento, desenvolvimento e finalização de uma obra pictórica, até sua partida para o endereço de seu solicitante: o mecenas. È quando também é bruscamente interrompida a vida da moça na casa do pintor, na condição de objeto artisticamente processável, na condição servil à família, à arte, e ao seu sentimento por seu criador. Na narrativa, assim como a história rejeitou essa personagem em sua inscrição, a vida social a teria rejeitado: objetos rejeitados pelo social também são objetos desejáveis à poética pós-moderna.
Uma pintura, que é um documento histórico anterior ao romance em três séculos, tem, por meio da voz silenciosa da personagem-título, o desenvolvimento de uma narrativa que transcorre de modo absolutamente realista, assim como a narrativa desenvolvida pelo olhar neutro da câmera cinematográfica. Mas uma diferença entre essas duas mídias traz mais um elemento metalingüístico a ser notado no romance.
No momento do desfecho, a esposa em crise, revoltada por ter sido enganada pela mãe e pelo marido, e enciumada, pergunta ao marido porque ele pinta a moça e não ela. Ele diz à esposa que ela não entende, e ela se revolta ainda mais, por isto implicar que a moça entenda e ela não. Para explicitar o absurdo que vê na resposta dele ela diz em relação à moça: “(…) ela não sabe ler!” (CHEVALIER, 2002, p. 182).. E, em um romance em primeira pessoa, podemos dizer que seja uma provocação metaliterária ao realismo que o caracteriza.
Novamente, na interface entre obra e referencialidade, aí está uma disjunção que o texto de Chevalier desafia. Estamos diante de uma forma narrativa escrita do testemunho em primeira pessoa. Mas, de uma personagem analfabeta do século século XVII, e construído por uma escritora americana do século XXI. Embora, como dissemos, a escritora não dissimule sua identidade, o gênero do romance se inscreve no cânone do testemunho, o que propicia à intertextualidade com as questões literárias que se estabelecem em torno dele, e com o que o debate contemporâneo lhe oferece.
É exatamente na problematização constituída entre objeto histórico, vestigial – que afirma que um passado extratextual realmente existiu – somado a uma contextualização histórica compatível – que, no entanto, não afirmam que esse passado extra-textual que existiu seja aquele narrado –, pela textualização literária e fílmica, que se encontra a ruptura pós-moderna, em relação à dicotomização entre a narrativização ficional e aquela historiográfica.
É nesse lugar de fronteiras rasuradas entre literatura e história, de ter acontecido ou não no passado, que Moça com Brinco de Pérola se insere respondendo à pergunta pela apreensão do passado que: seja na literatura, seja na história, embora com comprometimentos distintos, tudo o que temos são reconstruções imaginativas a partir de textualizações de objetos, registros, relíquias ou arquivos do passado.
Uma das estratégias narrativas mais características da literatura pós-moderna é a apropriação, releitura, e re-escritura de textos canônicos da literatura e da arte ocidental. Essa estratégia narrativa é de especial importância para o estabelecimento de uma literatura feminina de sobrevivência, de resistência, de subversão, e de imensa criatividade pois desafia os pressupostos e os vieses de cânones artísticos e literárias, estabelecidos a partir de critérios hegemônicos que privilegiam a cultura dominante, de cunho patriarcal.
A coisa mais impressionante sobre este romance é que ao mesmo tempo que é uma história absorvente, ela também faz uma interseção entre os dois predominantes pilares da teoria feminista. O discurso da “imagem da mulher”, que é um dos fundamentos básicos dos estudos sobre a mulher como nós conhecemos hoje, aqui se releciona com o tema apresentada da “mulher como artista”. Não é necessariamente curioso, pois estes dois pilares do discurso feminista tratam a mulher como objetos e sujeitos. Precisamente o que Chevalier faz no seu romance é transformar a mulher enquanto objeto em sujeito: “(…) mas ele era meu mestre. E eu tinha que fazer o que ele dizia” (CHEVALIER, 2002, p. 60). Ironicamente é dada a Griet uma identidade através da qual supõe-se um papel ativo no objeto da pintura.
Esta não é a história de uma feminista antes do seu tempo, pois Chevalier segundo o artigo de Cibelli:
(…) não tem o caráter de derrubar estereótipos femininos ou transcender sua classe social. Chevalier discute o interesse nascente de Griet na arte sem igualá-la à Vermeer ou de mulheres artistas holandeses como Judith Leyster ou Rachel Ruysch. Ns mãos de Chevalier, Griet é uma persona fictícia dotado de valores protofeministas. (2004, p.589).
Como já foi dito anteriormente, nos últimos anos o trabalho de Vermeer tem sido objeto de mais de um livro. Muitas das pinturas do mestre holandês retratam mulheres nas suas tarefas domésticas. O romance de Chevalier pode não ter sido o único a dar vida a um dos quadros de Vermeer, mas é a mais rica e complexa narrativa do que uma mulher poderia ter sido no seu tempo. Moça com Brinco de Pérola transforma o objeto de uma pintura em mulher humana, que respira, e é esta visão que, ao reimaginar um mundo de igualdade, torna este trabalho primordial.
Em relação às artes visuais a representação não pode ser considerada uma atividade politicamente neutra. A questão da representação se situa entre o feminismo e a arte. Argumenta-se a forma pela qual a repetição inerente às imagens culturais tem a função particularmente ideológica de apresentar e posicionar a subjetividade “feminina” ou “masculina” como estável e fixa.
A decisão de Vermeer de pintar Griet – fazendo dela o objeto da sua pintura – paradoxalmente transforma Griet de um objeto – uma criada – em um sujeito: “Eu vou pintá-la como eu a vi pela primeira vez, Griet. Apenas você” (190). Carregada de simbolismo, pois envolve as rígidas convenções de representação da época, se desenvolve entre Vermeer e Griet: a pose do corpo, o virar do rosto para o pintor, o mostrar da orelha, o entreabrir dos lábios, a retirada da touca e – o pedido final – usar os brincos de pérola.
Através do seu olhar fixo, Griet torna-se mais do que apenas uma jovem criada; ela torna-se conhecida como algo de uma dimensão profunda, imortalizando-se. A criada – uma pessoa silenciosa, que faz o trabalho de forma a ser invisível, para que a casa funcione – aqui torna-se visível. A transformação de Griet de criada em uma jovem mulher faz-se gradualmente. Num primeiro momento ela senta-se (um luxo na sua condição de criada). Depois ele pede que ela tire sua touca e mostre o seu cabelo. Chocada, Griet recusa o pedido de Vermeer e reflete: “… Eu nçao podeira mostrar a ele o meu cabelo. Eu não sou este tipo de garota que deixa seu cabelo solto” (192). A resistência de Griet é uma marca da sua própria subjetividade, a confiança em si mesma é maior, vai além de ser simplesmente um objeto para ser pintado.
Referências Bibliográficas
CHEVALIER, Tracy. Moça com brinco de pérola. São Paulo: Betrand Brasil, 2002.
CIBELLI, Deborah H. “Girl with a Pearl Earring: Painting, Reality, Fiction.” Journal of Popular Culture 37.4 (2004): 583-592.
COHEN, Renato. Work in Progress na Cena Contemporânea. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004
HUTCHEON, Linda. A poética do pós-modernismo: História, Teoria, Ficção. Rio de Janeiro:Imago Editora, 1990.
PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da História. Tradução: Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSP, 2005.
Bio fornecida pelo palestrante.
Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina
Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina
Resumo: O presente trabalho almeja analisar o conto “O Horla”, de Guy Maupassant, que apresenta relatos de um homem em progressivo estado de insanidade e incita uma ameaça invisível com relativo grau de realismo psicológico e verossimilhança, e ao decorrer da história, a sanidade de seu personagem e seus sentimentos são questionados, enquanto o personagem invisível, o Horla, aos poucos, domina seus pensamentos. Para a realização desta análise, recorre-se o embasamento teórico aos estudos efetivados por Todorov, Vax, Rodrigues e Roas que possuem obras pioneiras no gênero. Para tanto, será levado em conta o fato de que a busca pelo inexplicável, a magia e o irreal fazem parte do mundo fantástico, um mundo em que a ficção concerne à realidade, e são elementos assim que dominam as obras pertencentes a este gênero, que, há muitos anos, vem despertando no leitor uma necessidade por saber mais.
Palavras-chave: Medo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
Resúmen: El presente trabajo busca analizar el cuento “O Harla”, de Guy de Maupassant, que presenta relatos de un hombre en progresivo estado de insania e incita una amenaza invisible con relativo grado de realismo psicológico y verosímil, y al desarrollar de la historia, la insania de su personaje y sus sentimientos son cuestionados, mientras el personaje invisible, el Horla, a los pocos, domina sus pensamientos. Para la realización de este análisis, se recurre el embasamientos teóricos a los estudios efectuados por Todorov, Vax, Rodrigues y Roas que poseen obras pioneras en el género. Para tanto, será llevado a cabo el hecho de que la búsqueda por lo inexplicable, la magía y lo irreal hacen parte del mundo fantástico, un mundo donde la ficción concierne a la realidad, y son elementos así, que dominan las obras pertenecientes a lo fantástico, el cual, hace muchos años, se ha despertado una necesidad por saber más del lector.
Palabras-clave: Miedo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
Minicurrículo: Caio Vitor Marques Miranda: Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) com a pesquisa em Literatura e Ensino e graduado pela mesma universidade em Letras – Licenciatura em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas (2013). Possui experiência na área de Letras Vernáculas e Estrangeiras Modernas. Atualmente é professor de Espanhol no Colégio Bom Jesus de Rolândia e no cursinho pré-vestibular Prime, e de Literatura Brasileira no Colégio Interativa Londrina e no cursinho Especial da UEL, CEPV. A orientadora do Mestrado é a Profa. Dra. Claudia Critina Ferreira, da Universidade Estadual de Londrina.
O MEDO E A LOUCURA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”,
DE GUY DE MAUPASSANT
Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina
Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina
A literatura fantástica sob o viés da loucura tem traçado seu percurso no decorrer dos anos. Criando cenários sombrios, permeados pela dúvida, a literatura fantástica possibilita a instauração ou a presença da desordem psíquica em um universo paralelo ambíguo e incerto. Normalidade e anormalidade, sanidade e loucura, tudo se confunde. As fronteiras se expandem, esfumaçando ou apagando os limites entre esses binômios.
A presença da loucura em contos fantásticos que abordam a alienação, o delírio ou a demência é temática contemplada na obra contística de alguns escritores, como: Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft ou Ambrose Bierce.
A literatura fantástica rompe com rótulos e explicações racionais, científicas e cartesianas ao possibilitar a presença ou a existência de elementos insólitos e sobrenaturais, convivendo em harmonia com o real. Nesse sentido, a loucura pode ser considerada natural e/ou aceita sem hesitação, enquanto que a sobriedade, questionada.
Dentro deste contexto, faz-se interessante observarmos algumas definições de loucura e termos afins para que possamos compreender melhor a presença e a associação da loucura nesta vertente literária.
Louco, portanto, é aquele sujeito cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais, aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados. A loucura é a doença/distúrbio que o louco possui. No entanto, Foucault, professor e filósofo, em seu livro História da loucura na literatura (2010), define o louco como:
O louco afasta-se da razão, mas pondo em jogo imagens, crenças, raciocínios encontrados, tais quais, no homem de razão. Portanto, o louco não pode ser louco para si mesmo, mas apenas aos olhos de um terceiro que, somente este, pode distinguir o exercício da razão da própria razão (FOUCAULT, 2010, p.186).
Assim, desde tempos remotos, encontramos, na literatura, histórias em que o louco/a loucura se torna um fator relevante do enredo, apresentando suas diversas faces. Num panorama geral, podemos começar nos mitos, nos mais clássicos, como a troiana Cassandra. O deus Apolo concede a Cassandra o dom da profecia, mas como ela não quis ficar com ele, o deus faz com que ninguém acredite no que ela diz. Assim, todos a consideram louca. Ela vive presa numa torre, gritando e sofrendo, pois sabe que as desgraças vão acontecer, mas não pode impedir, pois ninguém acredita nela, todo mundo pensa que suas profecias são mentira. Tendo, assim, um fim trágico.
O herói grego Ájax, por exemplo, que pertence ao ciclo da guerra de Trios, após perder a disputa pelas armas de Aquiles para Ulisses, tem um ataque de loucura e mata vários guerreiros. Depois deste surto, ao descobrir o que fez, ele se mata.
Temos, também, O Alienista, de Machado de Assis, em que o cenário é a casa verde, um tipo de manicômio; o considerável número de contos do Guy de Maupassant, que no final de sua vida, foi diagnosticado com doença mental; a coletânea de contos de Leopoldo Lugones, autor argentino, que com a incursão do fantástico, faz crítica ao cientificismo, ou ainda, a grande obra de Cervantes, El ingenioso Don Quijote de la Mancha.
Entretanto, na literatura, nos deparamos com muitos outros elementos ou fatores chave das narrativas, como o terror, a presença de bruxas e magias, situações inexplicáveis científica ou racionalmente, surreais ou até irreais, provocando, no leitor, uma sensação de medo, mistério ou curiosidade por saber mais. Vislumbrando, neste contexto, a literatura fantástica.
Assim, o presente trabalho almeja realizar uma possível leitura da segunda versão do conto O Horla, de Guy de Maupassant, pelo viés do fantástico, salientando a sensação de medo que o personagem principal sofre durante toda história e ainda o estado de loucura em que se encontra. Como aporte teórico, utilizamos autores pioneiros desta temática, como as ideias de Todorov (2010) presentes no livro Introdução à literatura fantástica e de Roas (2011), presentes no livro Tras los límites de lo real. Una definición de lo fantástico.
Sabemos que na literatura se manifestam tendências inacabadas, que não se concluem em rótulos determinados, visto que o trabalho de criação é renovado através dos tempos, e que a literatura foi e continua sendo uma linguagem aberta, que permite modificar a ideia do que hoje é, ou não, considerado literatura. Assim, ocorre com o fantástico.
O termo fantástico pode significar: “aquilo que só existe na imaginação, na fantasia; o fora do comum; extraordinário, prodigioso” (HOUAISS, 2001). A literatura fantástica tornou-se, sobretudo nas últimas décadas do século XX, um tema recorrente na literatura contemporânea, sendo objetivo de várias análises literárias, que em sua compreensão, o fantástico mantém, em sentido lato, essas mesmas acepções, e delas sucedem traços únicos ou definidores desse gênero incerto, dependendo da proposta de que parte cada estudioso. Várias foram as tentativas de definições do fantástico realizadas por teóricos literários. Para conter o mundo fantástico na literatura, expomos alguns como: Castex (1951), Vax (1965) e Todorov (1975).
Castex (1951), estudioso sobre a literatura fantástica na França, estabelece:
O fantástico não se confunde com as histórias de invenção convencionais, como as narrações mitológicas ou os contos de fadas, que implicam uma transferência da nossa mente para um outro mundo. O fantástico, ao contrário, é caracterizado por uma invasão repentina do mistério no quadro da vida real; está ligado, em geral, aos estados mórbidos da consciência, a qual, em fenômenos como aqueles dos pesadelos ou do delírio, projeta diante de si as imagens das suas angústias e dos seus horrores (CASTEX, 1951, p. 8).
Para esse teórico, o fantástico seria histórias muito próximas à realidade, chocando-se com o impossível, e esta invasão faz com que o leitor entre em conflito com ele mesmo sobre o que é ficção e realidade. É isso que faz do fantástico um gênero único, inconfundível, e caracterizado pelo sobrenatural.
Vax (1965), também francês, é um estudioso e um dos precursores do surrealismo artístico, segundo o qual o fantástico não deve somente fazer uma irrupção no real, mas precisa que o real lhe estenda os braços, consinta com a sua sedução, ou seja, esta sedução pode ser considerada um elemento deste gênero, mas para que este encanto ocorra, o real deve ceder-lhe espaço.
Todorov (1975) foi um dos grandes estudiosos que teorizou sobre o fantástico, destacando-se por ter sido o primeiro a organizar o estudo do fantástico, até então pouco discutido. Todorov em Introdução à literatura fantástica (1992) elabora um estudo mais detalhado e consistente nas características da literatura fantástica, ele retoma as definições dadas pelos especialistas franceses Castex (1951), Caillois (1966) e Vax (1960), e logo no segundo capítulo do livro, ele aborda Alvare, o personagem principal do livro de Cazotte, Le diable amoureux, que vive uma história de ambiguidade até o fim da ficção, e Todorov (2010) consolida:
Somos assim transportados ao âmago do fantástico. Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentimentos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. (…) O fantástico ocorre nesta incerteza; (…) (TODOROV, 2010, p. 31).
Por conseguinte, define o fantástico como sendo “a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 1992, p. 31). Em outras palavras, o fantástico habita a hesitação do leitor diante de fatos insólitos, que vão contra a ordem natural, fazendo com que a dúvida perante estes acontecimentos permaneçam até o fim da narrativa. Esta hesitação do leitor é apontada por Todorov (1992), como uma marca principal do fantástico. Portanto, o autor vê o fantástico como um produto de três fatores que são essenciais em obras desta natureza:
Primeiro, é preciso que o texto obrigue ao leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e hesitar entre uma explicação natural uma explicação sobre natural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica como a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação “poética”. Estas três condições não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita (TODOROV, 1992, p. 39).
Logo, a hesitação provoca no leitor uma espécie de reflexo, uma atitude que rejeite a leitura metafórica da obra, o que terminaria com a hesitação requerida, com uma possível condição, a identificação do leitor com uma personagem. Para que haja esta hesitação, compreensão da narrativa, mais uma vez, há de se fechar os olhos para a realidade, e mergulhar-se para um mundo de possibilidades, fantasias, mistérios, um mundo em que a presença do sobrenatural é habitual.
Caillois (1980), outro escritor francês e compilador de antologias, em uma de suas definições, em 1958, diz que o fantástico é a violação de uma regularidade imutável, e o elemento principal do fantástico é a aparição, ou seja, é o que não pode aparecer, mas aparece, manifestando na narrativa o inadmissível. A definição de Caillois (op.cit.) está próxima à definição de Vax (1960), pois em ambas as definições há uma invasão do inadmissível, um conflito do real com o impossível. O que não poderia/deveria ocorrer em uma realidade racional, acaba ocorrendo.
Lovecraft (2007), escritor norte americano, é outro autor que vê o fantástico a partir da relação que estabelece com seu leitor e da sua reação. Dedicou-se a histórias de terror e medo. Para ele, o fantástico reside no modo como o leitor recebe o texto, no envolvimento da obra com o público. Para que um conto receba o rótulo de fantástico, é preciso que este “suscite ou não o leitor um sentimento de profunda apreensão e de contato com esferas diferentes e forças desconhecidas” (LOVECRAFT, 2007, p. 5-6). Ou seja, há de se fechar os olhos para a realidade, para que haja um envolvimento ou uma interação entre leitor e texto.
“Quando ouço pronunciar a palavra guerra sinto um pavor como se me falassem de Bruxaria, de inquisição, de uma coisa longínqua, abominável, monstruosa, contra a natureza.”
Guy de Maupassant
Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, em Tourville-sur-Arques (França). Estudou no liceu de Ruão, foi colaborador por oito anos dos Ministérios da Marinha e da Instrução Pública. Em 1870, Maupassant foi para Paris e lá se firmou como contista. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais, usando a técnica naturalista.
Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant mais produziu textos, cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como Bola de sebo, O Colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla. Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Mas o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. Em 1892, ele tentou suicídio. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.
Em um de seus textos deixados, O Horla, escrito em 1887, narra a transformação psicológica de seu personagem, um senhor francês, em progressivo estado de insanidade; relata-nos cerca de 4 meses da sua vida por meio de um diário, manifestando todo o sofrimento com a presença de um ser invisível que o persegue por meses, não conseguindo livrar-se dele.
O Horla, conto de cunho realista psicológico que aborda paulatina e progressivamente o inquietante, a loucura, a paranoia, a demência e a obsessão, influenciou outros escritores, como: H. P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu) e Ambrose Bierce (A Coisa Maldita).
Vale salientar que tal obra possui duas versões. A primeira linear, com narrativa baseada em fatos já ocorridos. A segunda, em ordem cronológica, possui narrador em primeira pessoa, quem relata os acontecimentos com datas precisas (dia e mês exatos), fato que concede maior verossimilhança à narrativa.
No conto, o personagem autodiegético inicia seu relato com os elementos que estão ao seu redor: “8 de maio – que dia lindo! Passei toda a manhã deitado na relva, na frente da minha casa, sob o enorme plátano que a cobre, a abriga e a sombreia por inteiro” (MAUPASSANT, 2006: 239).
A história tem como espaço predominante a casa do protagonista, cenário baseado na casa de seu amigo Gustave Flaubert, que não consegue abandonar por conta das lembranças que guarda da sua infância. Às vezes, este espaço se estende a outras cidades da França. O personagem relata dias normais, feliz com a vida que leva, até que, de repente, de um dia para o outro, ele começa a se sentir doente, e é esta doença que o leva a sentir uma sensação de perigo iminente, tal como um pressentimento.
16 de maio – decididamente estou doente! Eu estava tão bem o mês passado! Estou com febre, uma febre atroz, ou, melhor dizendo, um abatimento febril, que faz minha alma sofrer tanto quanto meu corpo! (MAUPASSANT, 2006, 240).
É durante o período noturno, que coisas estranhas passam a acontecer. No quinto dia de seu relato, o senhor francês alega estar estranho, com medo, “um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama” e não consegue se concentrar para dormir. A presença do medo se permeia em todo o conto, em vários momentos, o personagem relata suas emoções, e o medo que sente.
Quando finalmente consegue adormecer, começa a sonhar e sentir que tem alguém se aproximando dele, que o olha, apalpa-o, sobe na sua cama, ajoelha-se sobre seu peito, agarra-o pelo pescoço entre as mãos e o aperta com muita força.
Transcorrido algum tempo, o estado do personagem se agrava cada vez mais. No sétimo dia, ele decide fazer uma pequena viagem para outra cidade. Ao retornar, tudo parece estar bem; entretanto, ele se sente perseguido e começa a pensar que está louco.
Certa noite, algo insólito ocorre. Antes de dormir, bebeu um copo de água e viu que a garrafa estava cheia, mas ao acordar de um pesadelo, observou que a garrafa se encontrava vazia:
Tudo recobrado a razão, senti sede outra vez; acendi uma vela e fui até a mesa sobre a qual estava minha garrafa. Levantei-a, inclinando-a sobre meu copo: nada escorreu. Estava vazia! Estava completamente vazia! (MAUPASSANT, 2006, 245).
O personagem se questiona sobre tal acontecimento, achando que realmente está louco. O roubo da água volta a acontecer, sucessivamente, por vários dias e, novamente, ele decide viajar; uma espécie de fuga, para solucionar os problemas que vinha enfrentando dentro de casa. Lá, ele visita uma prima e presencia um hipnotismo que o deixa perturbado.
No dia que retorna, aparentemente, tudo está normal, até ouvir uma discussão entre seus criados (…) Eles afirmam que alguém quebra os copos, à noite, nos armários. O criado de quarto acusa a cozinheira, que acusa a lavandeira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado. Idiota quem dissesse! (MAUPASSANT, 2006, 252).
Logo, no mesmo dia, vê uma cena muito intrigante. Passeando pelos seus canteiros de roseiras, algo anormal acontece:
(…) Quando parei para olhar uma “gigante das batalhas” que tinha três flores magníficas, eu vi, eu vi perfeitamente, bem perto de mim, a haste de uma dessas rosas dobrar, como se uma mão invisível a entortasse, depois se quebrar, como se a mesma mão a tivesse colhido! Depois a flor se ergueu, descrevendo uma curva que teria feito um braço levantando-a até uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, apavorante mancha vermelha a três palmos de meus olhos (MAUPASSANT, 2006, 252).
A partir daqui, são os elementos fantásticos que dominam o conto. Uma vez mais, o ser invisível bebe sua água e o medo vai possuindo o senhor francês, que já não sabe o que fazer, e aos poucos, vai ficando sem força, não tendo mais controle de certas atitudes.
No trigésimo sexto dia, o senhor francês lê uma notícia de uma revista:
Uma notícia um tanto curiosa nos chega do Rio de janeiro. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa da Idade Média, grassa neste momento na província de São Paulo. Os habitantes apavorados deixam suas casas, desertam de suas aldeias, abandonam suas culturas, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como gado humano por seres invisíveis (…) (MAUPASSANT, 2006, 257).
Após ler e refletir muito sobre a notícia que receberá, percebe a chegada do ser invisível que o persegue, começa a dizer um nome: Horla. É este o nome desta força sobrenatural, do ser que há meses vem sugando a vitalidade do senhor francês.
19 de agosto é o dia em que o senhor francês decide:
(…) Vou matá-lo. Eu o vi! Sentei-me à mesa ontem à noite; e fingi escrever com muita atenção. Eu sabia que ele viria rondar em volta de mim, bem perto que talvez eu conseguisse tocá-lo, agarrá-lo! E então… então eu teria a força dos desesperados; eu teria minhas mãos, meus joelhos, meu peito, minha testa, meus dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, rasgá-lo (MAUPASSANT, 2006, 259).
O Horla foge, e o senhor consegue montar uma armadilha para prendê-lo e livrá-lo de todo aquele tormento. Tranca-se em seu quarto e, quando sente a presença do Horla, começa a caminhar em direção à porta. Sai do quarto, passa a chave na porta, joga todo o óleo no tapete, nos móveis, em toda parte, e ateia fogo.
(…) eu olhava para minha casa e esperava. Como demorou! Eu já achava que o fogo tinha apagado sozinho, ou que Ele o tivesse apagado, quando uma das janelas do térreo explodiu sob a pressão do incêndio e uma chama, uma grande chama vermelha e amarela, comprida, mole, acariciante, subiu pela parede branca e beijou-a até o telhado (…) (MAUPASSANT, 2006, 261).
A convicção/ neurose de capturar o Horla era tão grande, que o senhor esqueceu-se de seus empregados que estavam dentro da casa. Horrorizado com isso, começa a pedir ajuda, mas já era tarde. A casa já era uma fogueira horrível e magnífica, e que de repente, veio abaixo. Para ele, o Horla estava morto, mas como matar um ser que não tinha um corpo? Assim, somente a própria morte aparenta ser a única solução para livrar-se do ser invisível e temível, o Horla: “Não… não… sem dúvida… ele não está morto… então… então… vai ser preciso que eu me mate!…” (MAUPASSANT, 2006: 262)
O tormento psicológico vivenciado na casa fez com que o narrador/personagem questionasse sua sanidade e adentrasse o cenário sombrio permeado pela incerteza e pelo insólito, o que o fez progredir da angústia à loucura/demência/obsessão, apresentando-nos um desfecho surpreendente.
Podemos constatar as contribuições da obra de Maupassant para a literatura fantástica mundial. Influenciado por Gustave Flaubert e modelo para muitos outros escritores contemporâneos ou posteriores, Maupassant foi um mestre do relato breve, deixando-nos mais de trezentos contos que devem ser considerados e analisados pelo seu teor qualitativo e não somente quantitativo.
Diagnosticado com distúrbio mental, Maupassant exerceu com excelência a arte da escrita. Sua obra fascina e inspira muitos pelo mundo afora, consagrando-se como verdadeiros clássicos canônicos.
No conto analisado, observamos a presença da loucura como um ingrediente que dá sabor peculiar à obra de cunho fantástico, incitando a imaginação do leitor e enriquecendo ainda mais a leitura.
REFERÊNCIAS
COSTA, Flávio Mreira da (2006) Os melhores contos fantásticos. Rio de Janeiro: Nova fronteira.
Eudave, Cecilia (2008).Sobre lo Fantástico Mexicano. Orlando: Letra Roja..
ROAS, David.Tras los límites de lo real: Una definición de lo fantástico.(2008) Madrid: Páginas de Espuma.
TODOROV, Tzvetan (1981). Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva.
VAX, Louis (1983). A arte e a Literatura Fantástica. Lisboa: Arcádia, 1983.
CESARINI, Remo. (2006) O Fantástico. Trad. Nilson Cezar Tridapalli. Curitiba:UFPR, 2006.
CHIAMPI, Islemar (1980). O realismo Maravilhoso. São Paulo: Perspectiva, 1980.
FOUCAULT, Michel (2012). História da loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva.
Bio fornecida pelo palestrante.
DANILO SILVA PAES LANDIM
UNICAMP
RESUMO: O presente ensaio procura articular as configurações familiares encontradas no romance A maçã no escuro, de Clarice Lispector (1961), a uma reflexão sobre a representação feminina. Mesmo em meio a uma série de paradoxos visíveis nas personagens principais, é possível ver certa diferença de valores que as separam. A oposição entre o eixo exogâmico identificável no engenheiro Martim e o eixo incerto e pouco delimitado das primas Vitória e Ermelinda será colorida da seguinte forma: Martim seria representante de valores estabelecidos na cultura, e também, possivelmente, de um pensamento pretensamente universalista e neutro – figuração tradicionalmente masculina –, e o núcleo das primas seria um possível contraponto, que convida a pensar sobre a especificidade da representação feminina de fecundo potencial crítico em relação a qualquer universalismo.
PALAVRAS-CHAVE: estudos claricianos, representação feminina, família, A maçã no escuro.
ABSTRACT: This essay aims at articulating the family configurations found in the novel The Apple in the dark by Clarice Lispector (A maçã no escuro, 1961), to a reflection about the female representation. Even among a series of visible paradoxes in the main characters, it is possible to figure out certain value differences that separate them. The opposition between the identifiable exogamic axis in the engineer Martim and the uncertain and not so well delimited axis of the cousins Vitória and Ermelinda will be colored in the following way: Martim would be representative of the given values of the culture, and he would also be representative of a supposedly universalist and neutral thinking – traditionally male figuration –, and the cousins nucleus would be a possible counterweight that invites to think on the female representation’s specificity which brings great critical potential in relation to any universalism.
KEYWORDS: Clarice Lispector studies, female representation, family, The apple in the dark.
MINICURRÍCULO: Mestrando em Teoria e História Literária no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP desde 2015. Graduado em Letras (Português / Francês) pela USP em 2012, tem experiência em Literaturas Estrangeiras Modernas, tendo trabalhado, em sua iniciação científica, com o romance Malone morre, de Samuel Beckett. Atualmente se interessa por questões ligadas à imaginação, à hermenêutica crítica e ao feminino na literatura. Estuda o romance A maçã no escuro, de Clarice Lispector, sob esses vieses.
REPRESENTAÇÃO FEMININA SOB O ÂNGULO DE MODELOS
DE FAMÍLIA EM A MAÇÃ NO ESCURO, DE CLARICE LISPECTOR
DANILO SILVA PAES LANDIM
UNICAMP
Introdução
Apesar das relações familiares não ocuparem lugar central no romance A maçã no escuro (1961)1, de Clarice Lispector, podemos concebê-las como pano de fundo da paisagem mais visível da obra. As dinâmicas familiares inscritas no enredo são, como se verá na análise aqui presente, reforçadoras de problematizações e de elementos que a crítica já pôde depreender da obra, além de revelarem outras problematizações mais ligadas à situação das mulheres. A partir da consideração das formações familiares e de suas reverberações na narrativa, tentaremos articular elementos já estudados como constitutivos do romance – alguns dos quais são a obsessão por apreender instantes fugazes, as dimensões ocultas e inquietantes de situações aparentemente banais, além das percepções de um estágio humano anterior ao pensamento organizado, racional e universalista – com outros elementos que identifico como associados à situação da mulher. Pretendo aqui mostrar, incorporando alguns dos temas já explorados pela crítica, que há dois polos familiares que se põem em atuação na obra e que, ao se encontrarem, provocam choques mútuos e propiciam mudanças no modo de ser das personagens principais – e que convocam a reflexão sobre a subjetividade feminina e a representação feminil.
Para facilitar a compreensão das características desses dois ramos familiares colocados no romance, faremos uma breve explanação do enredo: o engenheiro Martim foge após supostamente ter cometido um crime – ele teria matado a mulher. Ele dorme num hotel, mas o medo de ser flagrado o afasta daquele lugar. Perambula e divaga em contato com a natureza, e o tempo todo também foge da própria ideia de crime. Seu ato criminoso e que ele dificilmente reconhece como tal provoca uma busca por autoconhecimento, que parece ocorrer justamente por ele ter rompido com as normas sociais e ter se distanciado das alteridades que dificultariam a tarefa de encontrar o que em si não é um outro. Assim, independente de normas, ele procura encontrar sua própria inteireza. A busca tem acidentes e perdas à medida que vai tendo contato com pessoas e vendo seus traços se confirmarem ou se invalidarem, agonicamente. As primeiras pessoas que ele encontra estão numa fazenda, onde ele procura trabalho. A dona da fazenda se chama Vitória, e junto dela mora a prima Ermelinda. Como resume bem a filósofa Gilda de Mello e Souza:
A chegada de Martim perturba o isolamento em que as mulheres vivem e, aos poucos, o ritmo pacato da vida de Vitória e Ermelinda se modifica – a presença inquietante do homem pondo em relevo os problemas pessoais de cada uma. Levado pelo instinto, Martim uma tarde acaba possuindo a mulata e, logo mais, cedendo ao cerco de Ermelinda, torna-se seu amante. Para Vitória, também apaixonada pelo estranho, o amor se revela sob a forma de tortura, tortura que impõe a Martim através de tarefas cada vez mais duras, e a si, pela renúncia2 (SOUZA, 1964, p. 86-87).
Vitória e Ermelinda são primas, e em alguns momentos Martim suspeita que as duas sabem que ele está envolvido num crime. Efetivamente, apenas Vitória sabe do crime, e seu amor torturante por Martim a leva a hesitar entre deixar as coisas como estavam ou denunciá-lo à polícia. Como tinha uma rigidez moral que a impedia de admitir até para si mesma o amor que tinha pelo engenheiro, resolveu denunciá-lo e o romance termina com a prisão de Martim.
Exogamia e endogamia
Como esboçamos há pouco, inscrevem-se nas relações postas no romance A maçã no escuro dois núcleos familiares em conexão um com o outro. A antropologia estrutural lévi-straussiana pode ser levada em conta aqui para contrapor esses núcleos familiares, num esforço que poderíamos empreender no sentido de concebê-los como estruturas, em que pese o fato de estarmos lidando com uma realidade ficcional. Assim, apenas com um intuito meramente sugestivo para alargar a compreensão do romance, gostaria de propor a seguinte divisão nesses grupos familiares: há, primeiramente, o grupo representado pelas primas Vitória e Ermelinda – que vive um certo isolamento, e apresenta virtualmente uma tendência à sua própria destituição, já que elas não têm filhos que as possam suceder. Desse modo, apesar de ser fruto de relações exogâmicas, as primas não criam vínculos exogâmicos favoráveis à formação de subnúcleos familiares. O outro grupo, representado por Martim, sua mulher e seu filho, tem um destino claramente exogâmico. Já no primeiro contato entre esses dois núcleos, do qual emerge alguma tensão, percebe-se a tentativa por parte de Vitória de marcar seu poder para não sucumbir, poderíamos interpretar, ao possível triunfo da exogamia representada pelo histórico familiar de Martim. Há a desconfiança natural de um primeiro contato, evidentemente, mas também vemos certa hostilidade que persiste não só no diálogo entre os dois e o empregado Francisco, mas também ao longo da relação entre eles na narrativa:
– O que é que o senhor deseja. (…) / – Eu estava olhando, respondeu sem pudor. (…) / – Disso eu sei, disse a mulher do alpendre. (…) / – Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim (…) / – Já bebi, disse este com alguma candura (…) / – Que o senhor bebeu eu também sei. / – Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus (LISPECTOR, 1992, p. 56).3
Os valores atribuídos a essas personagens – maior sociabilidade na figura de Martim, e a rispidez na figura de Vitória – podem ser vistos como reflexos do valor sociocultural imputado aos diferentes tipos de família. Com base nas análises da antropologia estrutural expostas sobretudo nas Estruturas elementares do parentesco (1949), de Lévi-Strauss4, podemos depreender que o paradigma da família exogâmica é hegemônico e efetivamente propulsiona o arranjo de novas famílias, pela famosa tese da “troca de mulheres” entre diferentes clãs e formações familiares. Tendo sido esse o modelo responsável pela perpetuação da espécie humana em proporções abundantes, em contraposição ao modelo endogâmico, cuja expansão ocorre no interior de um mesmo clã ou unidade familiar e é mais limitada pelo número menor de parcerias sexuais propiciadoras de reprodução possíveis (de acordo com os estudos de Lévi-Strauss, há restrições à formação de parcerias sexuais mesmo para os sistemas endogâmicos), então podemos efetuar uma contraposição de valores entre esses dois modelos familiares. O valor positivo atribuído à exogamia vem de seu poder normativo coercitivo e pela adesão social em larga escala desse modelo; da mesma forma, igualmente entendemos que o modelo reverso, o endogâmico, é a contraparte negativa da exogamia por não promover em proporções tão elevadas a expansão do número de ramificações humanas, e também por ser culturalmente interdito como uma possibilidade abjeta da existência humana, que deve ser evitada a qualquer custo. O costume condena ao ostracismo aqueles que ousam se aventurar por esse caminho, inibindo o incesto.
Desdobramentos da contraposição de modelos familiares
Em consequência dessa contraposição, dentro da qual reconhecemos certo maniqueísmo que logo será desmontado ou visto por um outro ângulo, identificamos em Martim uma positividade, e nas duas primas uma negatividade, ainda que incorramos numa validação pura e simples de valores muito arraigados da cultura, que se confirmam, se reiteram e se promovem justamente pelo tabu às formações familiares endogâmicas ou sem destino claramente exogâmico – basta ver como a cultura valora negativamente mães solteiras ou mesmo mulheres que não pretendem ter filhos. De todo modo, Martim faz parte de uma configuração familiar atrelada a valores normativos e socialmente esperados nos costumes, por ser casado e ter um filho, ao passo que o espaço da fazenda de Vitória e de sua prima agregada Ermelinda pode ser concebido como o continente residual do esfacelamento das unidades familiares em que as duas personagens encontravam amparo em seu passado e com as quais, num certo momento, as duas romperam (Ermelinda talvez parcialmente o tenha feito, por ainda, como veremos, repetir um modo de ser que era seu paradigma existencial com a unidade familiar com a qual vivia em seu passado).
O trabalhador ali instalado, Francisco, tendo feito sua aparição inicial nos trechos do diálogo que descrevemos a propósito da entrada de Martim na fazenda, é um potencial agente para a formação de uma nova configuração familiar – exogâmica – naquele ambiente, mas em nenhum momento se coloca como pretendente das duas personagens femininas – e a recíproca é igualmente verdadeira (ou o olhar do narrador está tão ancorado no impacto da chegada de Martim à fazenda e nas reverberações que ele produz na existência das primas que a existência de Francisco é quase invisibilizada).
Vitória está nos seus cinquenta anos e é solteira. Por meio de Martim, nos momentos finais da narrativa, ela revê seu passado e percebe em sua própria história uma lacuna de relacionamentos românticos. É na conversa que ela tem com ele que ela se dá conta de que teria amado muito pouco ou teria deixado de lado a possibilidade de ser amada. Ela se recorda, na ocasião dessa descoberta, de uma história que poderia ter sido de amor, mas que não ocorreu concretamente, e tal lembrança serve de escudo para se proteger do constrangimento decorrente da percepção dessa falta de vínculos românticos em sua história, já que ela queria se desembaraçar da sugestão dada por Martim de que ela deveria encontrar um amor. A lembrança de Vitória consistia na visão que ela teve, quando jovem, de um rapaz armando uma fogueira e que demonstrou alguma inclinação em relação a ela, mas a história se interrompe aí e nada mais acontece. Apenas o “não-amor” acontece:
– Era a primeira vez que eu pisava neste sítio, e nunca pensei que ele terminaria sendo meu, continuou ela insistindo na nota da coincidência. Eu estava de férias e vi um rapaz acendendo uma fogueira no descampado. Fiquei de pé olhando, tinha um menino olhando também! exclamou garantindo a veracidade do fato, esse menino até já morreu, disse rouca. Vi o rapaz acendendo a fogueira, a poeira quente das folhas voava, esquentava – esquentava uma pessoa. (…) E eu… estava ali – eu, muito moça, muito linda, louca oh louca que eu era e ninguém sabia (…) eu era tão idealista! Eu estava de pé, assim mesmo, e eu – eu amava esse rapaz, eu amava esse rapaz e amava essa fogueira que ele acendia. Ele não disse uma só palavra! uma só palavra.
(…)
– E foi esse então o seu amor? – perguntou Martim com uma delicadeza de que ela não o julgara capaz.
– É, disse um pouco decepcionada, enxugando o suor. Esse também foi o meu amor.
– Durou tanto quanto a fogueira, disse Martim (…) ele não sabia como poupá-la de encarar a pobreza de sua história de amor (LISPECTOR, 1992, p. 268-269).5
Assim como os detalhes que ela traz para a sua história empobrecida de fatos e de transformações pessoais reforçam o vazio de sua existência, ela também se refere a outros momentos de sua vida enfatizando impressões dos espaços pelos quais ela circulou, dos objetos que ela viu, das sensações que ela teve e a menção que ela faz a pessoas é sempre circunstancial. É como se as alusões que ela fizesse não trouxessem uma dimensão realmente vital de sua subjetividade, o que acaba por enfraquecer o efeito perlocutório que seu discurso poderia surtir em seu interlocutor Martim – ou é esse o máximo de convencimento que ela consegue alcançar, é o máximo que sua posição de sujeito pode atingir, por conta da rarefação de relações sociais em sua história: é como se os objetos que tivesse visto fossem o cenário principal de sua vida, e as pessoas fossem secundárias, relegadas a segundo plano. Esse isolamento social pode tê-la impedido de aprender a selecionar os fatos que pragmaticamente são esperados nas comunicações correntes. É com essa disposição e essa comunicação fora dos esquemas convencionais e que não a promovem perante os outros que ela menciona a visita de alguns parentes ao Rio de Janeiro, onde ela morava antes de se instalar na fazenda. Ao tentar narrar essa experiência, também vemos um esvaziamento de sentido e uma saturação sensorial que ela julga importante trazer à baila, mas que é constrangedor e incompreensível ao homem, como vemos a seguir:
– Mas nesse tempo, continuou a mulher com o rosto de repente clareado pelo prazer e pelo inesperado acesso a um ideal inatingível, nesse tempo vinham em pratos enormes as costeletas de porco cheias de gordura, e quando eu saía do restaurante, via que as frutas nas quitandas se esborrachavam e então… (…) Não sei, disse enxugando penosamente o suor, mas era como se eu visse que as coisas são muito mais que a casca seca, o senhor por acaso me entende? Era como se eu visse que, se antes sentira nojo, era porque já então eu sabia que o perigo estava sob a secura (…) era horrivelmente maduro, sabe como é? E eu me sentia tão cansada como se fosse adoecer.
(…)
A mulher via que ele não entendia (LISPECTOR, 1992, p. 263).6
É com relutância, aliás, que ela admite o vazio de histórias amorosas e com mais dificuldade ainda admite a interpretação de Martim segundo a qual ela é medrosa. Vitória, apesar de muito resistente à interpretação sugerida por Martim e reiterada pelo narrador, dá alguns sinais de que seu movimento existencial mais espontâneo não consistia em tal isolamento, selado no deslocamento que ela realizou de uma grande cidade como o Rio para ir se instalar numa fazenda em meio a um descampado. Ao ser questionada a respeito das motivações que a levaram a se instalar na fazenda, ela responde (depois muitas idas e vindas em seu raciocínio difícil): “Fui eu mesma que quis vir para cá. Sei, sei que foi um erro, não precisa dizer.” Logo depois, ela diz:
Suponho […] que eu imaginava poder encontrar na fazenda aquilo tudo [aqui ela menciona aquelas frutas e comidas gordurosas já aludidas e que talvez tenham dado a ela, por contraste imagético, a ideia de que vivia sob certa superficialidade, pouco amadurecida pessoalmente] Mas depois […] me confundi um pouco” (LISPECTOR, 1992, p. 262).7
Como diz o narrador, ela escolheu corajosamente seguir pelo caminho do medo. Poderíamos explicar que essa coragem um tanto estranhamente colocada – já que se inverte a convenção semântica que opõe coragem ao medo – tem sua razão de ser no fato de que ela está associada ao fato de que, ao ter uma coragem ancorada no medo, assume-se um risco que também é pressuposto nos atos corajosos convencionalmente reconhecidos como tais, com sua positividade facilmente identificável. Escolher ter medo seria, do ponto de vista do narrador, um ato igualmente corajoso – ainda que polêmico: é um autossacrifício, uma martirização, é a aniquilação do sujeito, o apagamento pessoal, o esvaziamento de si. O título do romance nos sinaliza a centralidade desse gesto de aniquilação do desejo para a narrativa em si, no sentido de que o fruto proibido edênico seria a encarnação da inibição do desejo transferida para as personagens femininas encerradas em seu isolamento existencial.
A situação de Ermelinda guarda algumas semelhanças com a da prima Vitória. Encontramos igualmente um vácuo no âmbito de suas relações sociais, e seu ingresso na fazenda em certa medida agrava seu isolamento, embora outros indícios apontem para uma maior sociabilidade de Ermelinda em comparação com Vitória. A narrativa também não se detém muito nos detalhes do passado de Ermelinda, mas colhe-se a informação de que ela tinha sido casada antes de ir à fazenda de Vitória. Podemos pressupor, com algum risco por estarmos nos baseando puramente nas omissões da narrativa, que ela não exercia atividades remuneradas, e também possuía poucos vínculos sociais – ainda que mais convencionalmente moldados do que os de Vitória. Assim, mesmo num cenário que a coloca num “destino exogâmico”, com uma sociabilidade maior, vemos uma negatividade e o vazio na ausência de projetos e na subordinação a uma relação conjugal que não a emancipa como sujeito. No capítulo inicial da segunda parte do livro (“Nascimento do herói”), momento em que Martim passa a se sentir seduzido por Ermelinda depois de tantas investidas por parte dela – abandonando o silêncio que até então ele vinha fazendo em relação à aproximação da moça –, ele faz um comentário que contribui para a caracterização do isolamento de Ermelinda: depois dela ter sugerido que ele a julgava “doida”, ele nega tê-la visto dessa forma, dizendo: “você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta (…)” (LISPECTOR, 1992, p. 120).8
Convém considerar a figura de Ermelinda e a de outras personagens femininas de A maçã no escuro sob o arcabouço conceitual apresentado por Simone de Beauvoir em O segundo sexo9: algumas ideias da filósofa se amalgamam com as formulações tecidas sobre os gêneros no romance. Explico: para não ameaçar o protagonismo masculino na vida pública, Ermelinda, respeitando sua condição de mulher casada, evita sair do seu confinamento doméstico e acredita estar sendo beneficiada por esse modelo de vida – de fato, há benefícios no sentido dela ter garantida sua sobrevivência material, mas eles são proporcionados às expensas do marido e por meio da renúncia a uma atuação na esfera pública. Findo o casamento por conta do falecimento do esposo, Ermelinda, desamparada financeiramente para prover seu próprio sustento, aceita viver como agregada na fazenda de Vitória, e sua dependência em relação a outrem perdura – sua condição objetal perdura: ela parece ter dificuldade para fazer luto de sua antiga condição de casada, e isso a encerra numa condição de contínua subalternidade tanto em relação aos próprios desejos, quanto em relação à Vitória – replicando assim o esquema de sua vida de casada precedente, dentro do qual ela se acomoda e assegura uma existência de poucos desejos possíveis, pois não implica uma nova ordem que exigiria dela o trabalho de romper gradativamente com os laços de sua existência objetal do passado. De certa forma, Vitória se beneficia, como o antigo marido de Ermelinda, dessa assimetria de poderes: portando-se ativa e agressivamente, para iludir-se com a posse de um poder que, pelos elementos elencados há pouco, podem ser apenas encobridores de seu próprio vazio, reina em sua propriedade e autoritariamente manda e desmanda em todos os que a cercam na fazenda, e ela tem essa conduta também em relação à Ermelinda. Ou seja, é uma relação de senhora e escrava, que é equilibrada pela aparente força de Vitória e a aparente fragilidade de Ermelinda, se concebermos as duas como integrantes de um sistema familiar, em que as deficiências de um membro asseguram a estabilidade e o equilíbrio de todo o conjunto familiar, seguindo um certo modo de conceber as dinâmicas familiares.10
Também uma articulação possível que se pode fazer sobre as personagens femininas e “a situação existencial” das mulheres destrinchada pela filosofia beauvoiriana se vislumbra nas alusões que se faz, no romance, à figura feminina a partir do olhar masculino: a mulher é, sob esse ponto de vista, a outra que confirma o homem. Já se pode perceber esse olhar nos pensamentos que são expostos na ocasião do contato que Martim tem com a “mulata”, ao final da primeira parte primeira parte do livro – pouco antes dele ter se interessado por Ermelinda –, cujo título, “Como se faz um homem”, anuncia uma espécie de explicação generalizante da constituição da subjetividade masculina. Nesse sentido, as percepções e impressões que Martim vinha recebendo e elaborando a partir da tentativa de recusar o expediente da linguagem verbal e os códigos de uma lógica convencional – e, paradoxalmente, expressas verbalmente pelo narrador – pareciam indicar a mulher como a alteridade que confirma o homem:
“(Ele) pareceu entender para que nascem mulheres quando uma pessoa é um homem. (…) Como se seu corpo por si mesmo não bastasse. Era o desejo, sim, ele bem se lembrou. Lembrou-se de que mulher é mais que o amigo de um homem, mulher era o próprio corpo do homem. Com um sorriso um pouco doloroso, acariciou então o couro feminino da vaca e olhou em torno: o mundo era masculino e feminino” (LISPECTOR, 1992, p. 102).
Essa ideia de uma entidade que confirma a subjetividade masculina será desdobrada nas seções seguintes, que vai tentar delinear linhas de força recorrentes no romance e que parecem apresentar uma ideia sobre os gêneros a partir da ideia do fruto proibido edênico.
O fruto proibido como chave interpretativa
Entendemos que a chegada de Martim à fazenda desestabiliza o quadro de poderes ali colocados. Há uma saturação simbólica no romance que autoriza leituras muito diversificadas e talvez até antagônicas, e, portanto, nosso ângulo de observação e análise das relações em jogo no romance será uma escolha entre muitas possíveis. De todo modo, nossa leitura é encorajada pela temática do pecado original que o romance convoca, já no título. Acreditamos produtiva a consideração a algumas significações do fruto proibido edênico, da tradição judaico-cristã, sobretudo nos desdobramentos da expulsão das criaturas humanas do paraíso. Essa é uma das várias formas claricianas de retorno a uma verdade original, anterior à constituição do sujeito, tão bem delineada no texto “Menino a bico de pena”11.
Vejamos então como o retorno à tal verdade transcendental poderia estar organizado em A maçã no escuro. Uma vez que a desobediência que acarretou a interdição ao paraíso afastou os seres humanos da divindade una, da fusão harmônica com um mundo ao qual, após nos separarmos dele, apenas podemos fazer referência pela mediação da linguagem e não pelo acesso direto aos fenômenos e aos referentes, instaura-se uma falta fundamental nos sujeitos. Expulsos do paraíso, é como se tivéssemos perdido nossa inteireza viva – somos seres a quem falta algo. Temos no fruto proibido, portanto, o significante do inacessível pelo qual nossa inteireza poderia ser restituída. A propósito dessa volta, não posso deixar de mencionar uma leitura muito fecunda de Rodolfo Piskorski12, e que está resumida no artigo “O significante fálico em A maçã no escuro”, de cuja linha argumentativa faremos uso parcial para mostrar a reverberação de certas noções ligadas ao fruto proibido ao longo do texto clariciano. A partir do conceito de suplemento, de Derrida, usado para compreender o que é a significação, Piskorski entende que
(…) somente através do suplemento, que é esse elemento que sempre já é definido como secundário, instrumental e desnecessário, é possível que se construa a ideia da origem e do elemento inicial como algo completo, pleno e presente a si. O suplemento, apesar de ser o ‘mal necessário’ que ameaça substituir e desfigurar quando é chamado apenas para completar e auxiliar, é na verdade o responsável por retroativamente criar o estado originário que deveria, por definição, ser perfeito e acabado (PISKORSKI, [2012? 2013?], p. 2).
Ou seja, há um dúbio caráter no suplemento: ele nos dá acesso à imagem fiel da origem, mas o processo falha por não dar acesso direto a ela, por demandar intermediação, tornando-a cópia do original, e, portanto, infiel. Ora, Martim perambula pelo mundo tentando ancorar sua identidade em algum lugar depois de ter supostamente tentado matar sua esposa. Se pensarmos na articulação da temática do pecado original com a trama do romance, desliza-se facilmente para a noção de que Martim estaria repetindo o pecado original, para poder se reumanizar, e vive uma ilusão de plenitude ao não sentir as consequências do seu ato enquanto estava na condição de fugitivo da lei, pois só uma entidade divina estaria a salvo da lei, só ela teria essa inteireza. Ele confirma por vezes ser portador de uma verdade transcendental, que ele tenta registrar por escrito, mas não consegue – no capítulo 8 da segunda parte (“Nascimento do herói”) –, pois é tão humano como os outros e só tem acesso à realidade pela linguagem convencionalmente instituída pelos humanos para suplantar a falta de um acesso direto ao real. Mas a consequência do crime se consuma no fato da sua prisão, adiada para o desfecho da narrativa, como se houvesse, pela postergação de uma consequência inevitável da humanidade, a sugestão de que a lei é um imperativo insuperável e irrenunciável, mesmo que seus efeitos não se façam sentir de modo imediato. O fracasso que se abate sobre Martim quando ele tenta registrar a sua verdade transcendental – se é que ela existe – já prenuncia que só conseguimos expressar aquilo que é “alcançável”, só conseguimos representar os fenômenos, e jamais somos apresentados diretamente a eles. Tal queda também é possível de ser visualizada e se impõe pela emblemática tentativa de um homem aniquilar a mulher. Nesse sentido, a leitura de Piskorski a partir da noção de suplemento reforça esse dado simbólico que pode ser aproveitado para vermos como a dualidade entre masculino e feminino importa para o romance: na origem bíblica, ao homem (Adão) foi concedida a presença de uma auxiliar, a mulher (Eva). E é esse caráter auxiliar da mulher que Martim quer extirpar de seu horizonte ao tentar matar sua esposa, se aceitarmos a mesma radicalização de leitura proposta por Piskorski. Martim triunfaria, com esse assassinato, em voltar (imaginariamente, claro) a ter acesso direto, sem suplemento, ao real. A divisão sexual nos moldes do Gênesis bíblico seria um dos emblemas da falta de todos os seres humanos – nenhum gênero é capaz de alcançar, por si só, os referentes e as fontes originais de qualquer discurso.
O fruto proibido como chave de leitura do romance consegue implicar as personagens principais do romance numa lógica sistêmica que articula tanto a negatividade das limitações sociais e existenciais das duas primas – e talvez, de forma pouco profunda, da mulata – quanto a positividade atribuída a Martim. Em outras palavras, poderíamos compreender que é colocado em jogo pelo romance uma representação do vazio feminino, reforçado ainda mais pelo caráter subalterno e auxiliar da mulher no ato da criação divina e que se replica abundantemente na obra clariciana. Tal vazio se camufla sob o manto da saturação simbólica e dos paradoxos com que o feminino é figurado – a negatividade dos paradoxos podem ser a formalização do vazio de que estamos falando (as rosas da personagem Laura, do conto “A imitação da rosa”13, por exemplo, podem ser lidas como um vazio, já que fulguram uma beleza efêmera e são alvo da retórica clássica do carpe diem – “colher o dia que passa”; tal beleza atrai a personagem mas também sabemos que elas provavelmente a fazem mergulhar em depressão ou a entrar em estado de loucura; tal vazio é, ademais, patente nas duas primas de A maçã no escuro, como vimos com um pouco mais de detalhes). Ao mesmo tempo, a contraparte desse vazio é a plenitude viril ilusória encarnada por Martim, legitimada, diríamos, pela pretensa universalidade e neutralidade do homem – ao contrário da não-universalidade e não-neutralidade da mulher –, buscando alguma forma de se agarrar às coisas em si sem auxiliar, sem suplemento, sem instrumentos de mediação entre ele e o mundo, autossuficientemente.
Imaginação como desconfiança
Até o presente momento, as linhas de força que pudemos apontar de certa forma não se desviam muito de um imaginário muito comum sobre a subjetividade masculina e feminina. É como se, até agora, o romance estivesse simplesmente reforçando os valores existentes e os pensamentos prontos. Entretanto, acredito igualmente poder ver nele focos de resistência aos modelos estruturais e míticos aqui analisados: primeiramente, o fato do elemento masculino positivo estar fora das normas que ele se arroga conhecer ao expor as fragilidades comunicativas e sociais das duas mulheres já se revela como um desvio da rota que estava validando os dados já conhecidos da cultura – que atribuem ao homem a universalidade e o pensamento conceitual. Além disso, as mulheres supostamente vazias e ignorantes das regras da vida são justamente aquelas que representarão uma ameaça real a esse mesmo homem, por poderem denunciá-lo à polícia e igualá-lo na condição limitante e de sujeição antes reservada apenas ao feminino – são os dois gêneros que estão impedidos de acessar diretamente a realidade e os dois gêneros também estão sujeitos à mesma lei e sem os delírios de plenitude com que o homem antes sonhava. Martim engendra sua própria humanidade quando se vê subsumido às leis existentes e, portanto, é um ser a quem também a falta é inerente à sua condição.
O fato das mulheres poderem ser vistas como porta-vozes da crítica à pretensa universalidade do homem no romance me parece um momento importante na obra, no sentido de mostrar que, se o feminino existe, não é como simples suplemento validado pelo mito do pecado original, mas sim para se afirmar como vertente crítica do pensamento, como vertente que suspeita, que desconfia desse lugar tão seguro que fora reservado aos homens. Assim, a busca de inteireza de Martim, ancorada nos valores que já estão dados, se fragiliza diante da suspeita e da denúncia que Vitória lança sobre ele, que o conduzem à prisão tanto no plano simbólico quanto no plano literal.
Considerações finais
Um romance da dimensão de A maçã no escuro mereceria, evidentemente, mais espaço para análise, a partir de outras chaves interpretativas. No entanto, acredito que pensar num vazio que se transmuta em excesso simbólico não só nesse romance, mas nas obras claricianas de modo geral, me faz acreditar que tentar destrinchar o maior número de leituras possíveis é também cair nas armadilhas de uma retórica que sempre pende para um excesso infindável.
Ademais, um estranhamento de leitura pode ter sido causado pela completa ausência de considerações ao pai de Vitória no romance. Não ignoro que a presença dele como ser doente pode ser bastante significativa. Entretanto, também não acredito que se deva atribuir o vazio em que a personagem se encontra ao pai. O preço a se pagar, talvez, para podermos visualizar um contorno mais amplo e menos particularizado da figura de Vitória – com a potência transgressora da suspeita e da crítica – e que possa ser compreendida como momento de resistência crítica ao pensamento universalista, é ver no pai dela um detalhe que a constitui, mas que não a resume. Desse modo, ela pode adquirir o estatuto de representante feminino clariciano capaz de opor força a um conjunto de dados culturais que sempre reservam ao feminino o vazio e a mudez.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo (1949). São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967. v. 1, Fatos e mitos. v. 2, A experiência vivida.
LÉVI-STRAUSS, C. Estruturas elementares do parentesco (1949). São Paulo: Vozes, 2013.
LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro (1961). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
LISPECTOR, Clarice. A imitação da rosa, em Laços de família (1960). Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. Menino a bico de pena, em A descoberta do mundo (1984). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
MANDELBAUM, Belinda. Psicanálise da família. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008. (Coleção Clínica Psicanalítica).
PISKORSKI, Rodolfo. O significante fálico em A maçã no escuro (2012? 2013?). Acesso em 10/12/15, às 20h: www.priberam.pt/DLPO/defaut.aspx/?pal=f%C3%A1lico. p. 1-10.
SOUZA, Gilda de Mello e. O vertiginoso relance (1963), em Exercícios de leitura. (Coleção O Baile das Quatro Artes). São Paulo: Duas Cidades, 1980, p. 79-91.
NOTAS
[1] LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
2 SOUZA, Gilda de Mello e. “O vertiginoso relance”, em Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades, 1980, p. 86-87. (Coleção O Baile das Quatro Artes).
3 LISPECTOR (1992), p. 56.
4 LÉVI-STRAUSS, C. Estruturas elementares do parentesco. São Paulo: Vozes, 2013.
5 LISPECTOR (1992), p. 268-269.
6 LISPECTOR (1992), p. 263.
7 LISPECTOR (1992), p. 262.
8 LISPECTOR (1992), p. 120. Grifos meus.
9 BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967. v. 1, Fatos e mitos. v. 2, A experiência vivida.
10 MANDELBAUM, Belinda (2008, p. 44) alude a uma corrente de estudos acadêmicos da família que tinha essa perspectiva sistêmica para fins de aplicação clínica, a partir da década de 1950, em Palo Alto, na Califórnia.
11 LISPECTOR, Clarice. “Menino a bico de pena”, em A descoberta do mundo (1984) Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 240-243.
12 PISKORSKI, Rodolfo. O significante fálico em A maçã no escuro, em www.priberam.pt/DLPO/defaut.aspx/?pal=f%C3%A1lico (2012? 2013?, p. 2).
Bio fornecida pelo palestrante.
Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida
Universidade Estadual de Montes Claros
RESUMO: A escritora mineira Lúcia Miguel Pereira iniciou sua carreira literária nas primeiras décadas do século XX. Foi também uma das pioneiras mulheres a investir na crítica literária brasileira e ser reconhecida pela sua atuação nessa área. Enquanto ficcionista, Lúcia Miguel-Pereira não teve o mesmo reconhecimento que enquanto crítica literária, ainda que tenha publicado várias obras: quatro romances direcionados ao público adulto, intitulados Maria Luísa, Em Surdina, Amanhecer e Cabra-cega e outros quatro voltados para o público jovem: A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde. Fica evidente, tanto em sua crítica quanto em sua ficção, que a autora se preocupa com a condição social da mulher no Brasil dos primeiros cinquenta anos do século XX. Esse aspecto pode ser exemplificado quando trata da viagem das personagens Maria Aparecida e Sônia como sendo estratégia de libertação, na obra Amanhecer, escrita em 1938.
PALAVRAS-CHAVE: mulher, libertação, viagem, ficção.
ABSTRACT: The writer Lúcia Miguel-Pereira was born in Minas Gerais and began her literary career in the first decades of the twentieth century. She was one of the first women to become a female Brazilian literary critic and to be recognized by her performance as such. Lúcia Miguel-Pereira did not have the same recognition as a fiction writer, although she published four novels directed to adult readers, entitled Maria Luísa, Em surdina, Amanhecer and Cabra-cega; another four were aimed at young readers: A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos and A filha do Rio Verde. One can notice her concern for the social status of Brazilian women either in her criticism or in her fiction during the 1950s. This becomes evident in her introduction of travels by the characters Maria Aparecida and Sônia in the novel Amanhecer (1938) as a strategy for women’s liberation.
KEYWORDS: woman, liberation, travel, fiction.
Minicurrículo: EDWIRGENS A. RIBEIRO LOPES DE ALMEIDA é mestre em Literatura Brasileira pela UFMG, doutora em Literatura pela UNB e doutora em Literatura espanhola pela USP. Autora dos livros Por trás do véu e da espada: o disfarce subjacente à representação das personagens cervantinas, O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira: escritos da tradição, Crítica, poética e relações de gênero: uma releitura de Memórias de um sargento de milícias, organizadora dos livros Diálogos literários: a ficção do século de ouro espanhol e as literaturas brasileira, francesa e inglesa, Nas margens do fato – escritos sobre as Novelas de Cervantes; e Relendo Dom Quixote. É escritora integrante do Dicionário Miguel de Cervantes – o sagrado direito de sonhar, dentre outros. Professora/pesquisadora do Departamento de Comunicação e Letras e do Mestrado em Letras da UNIMONTES. Membro da ABH e da Asociación Cervantes.
A VIAGEM COMO ESTRATÉGIA DE LIBERTAÇÃO FEMININA EM AMANHECER,
DE LÚCIA MIGUEL PEREIRA
Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida
Universidade Estadual de Montes Claros
Longo ou curto, narrando um episódio ou toda uma existência, o romance tem que penetrar fundo nos mistérios da vida, ter um sentido de busca, de tentativa de compreensão. Sem isso, nada vale, seja embora bem realizado como obra de arte.
Lúcia Miguel-Pereira
Sendo considerada uma das primeiras mulheres a investir do campo da crítica literária, Lúcia Miguel Pereira teve logo o reconhecimento por sua atuação na escrita de jornais e revistas, além de biografar, coerentemente, dois grandes nomes da literatura brasileira: Machado de Assis e Gonçalves Dias. A profícua atividade no campo das letras ao longo dos primeiros 1950 anos do século XX, a escritora, nascida em Minas Gerais, também fez um breve percurso pelos campos da ficção quando empreendeu a escrita de quatro romances Maria Luísa, Em Surdina, Amanhecer e Cabra-cega destinados ao leitor adulto e outros quatro A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde, que procuravam conquistar os pequenos leitores.
Desse legado deixado por Lúcia Miguel Pereira, a ficção para adultos revela uma autora preocupada com a condição social da mulher naquele contexto dos anos 30 e nas décadas seguintes até o falecimento da autora em 1959. Para Lúcia Miguel, a literatura era uma forma ativa de demonstrar a ocupação relegada à mulher e as possibilidades que as mesmas poderiam galgar. Essa discussão pode ser facilmente percebida tanto em seus textos de ficção quanto em seus textos críticos publicados em jornais e revistas para os quais a autora, fertilmente, contribuiu. Tendo em vista essa inquietação que percorreu a trajetória da escritora, nesta breve exegese, demonstraremos como a mesma utiliza a estratégia da viagem de Maria Aparecida, personagem da obra Amanhecer, publicada em 1938, para metaforizar uma forma de libertação feminina.
Frente ao exposto, pode-se relatar que, pelo trecho acima citado como epígrafe, escrito por Lúcia Miguel Pereira para a Revista do Brasil dois anos após a publicação de Amanhecer, indica a preocupação com o conteúdo da ficção, sobretudo com a sua função na existência das pessoas. No mesmo artigo, Lúcia avança no sentido de explicar que o papel do romance, mais acessível que o drama e a poesia, pode satisfazer “à necessidade, numa época como a nossa [o final da década de 30], praticamente sem padrões morais, de pôr em equação todos os problemas, de procurar soluções para os conflitos humanos” (PEREIRA, 1992, p. 126).
Talvez por essas preocupações, pela ação do romance sobre o indivíduo que pode influenciar a desordem evidente no contexto, a artista construa um enredo bastante contraditório, porém, que faz um chamamento a pensar. Traduzindo essa complexidade do tempo, principalmente no plano ideológico, ela põe em evidência no romance Amanhecer, duas distintas personagens, Maria Aparecida e Sônia. A primeira, embora seja a protagonista, narradora de suas próprias memórias, divide atenção com a coadjuvante Sônia, que passa a ocupar lugar privilegiado na cena ficcional. Uma é o oposto da outra. Enquanto Maria Aparecida é a representação da tradição, através de seu discurso religioso, embora um pouco místico também, sonha com um casamento por amor e sua completa realização através dele, enquanto Sônia é emblemática da modernidade. Moradora da cidade grande, sem muitas crenças e superstições, namoradeira, não segue os protocolos e os padrões morais da família tradicional.
Para a protagonista, o encontro com Sônia está previsto em sua imaginação fantasiosa. Também a chegada da nova moradora da Casa Verde põe Aparecida diante da possibilidade da realização de seus sonhos, como o casamento com um burguês, o exercício do trabalho, a mudança para a cidade grande. Talvez aqui seja indicada a inevitabilidade do contato com as novas posturas, com a modernidade, traduzida na oportunidade da realização pessoal e profissional da mulher, o que, ironicamente, configura outra frustração da protagonista. De certa forma, é a viagem tanto de uma quanto da outra que começa a operacionalizar as transformações na vida das duas. É através da viagem de Sônia para o lugarejo de São José que Aparecida tem contato com novas ideologias e novas práticas, do mesmo modo que Sônia, naquele lugar, trava contato com uma nova realidade e, a partir dali, passa a buscar novos objetivos para sua vida. É, ainda, com a viagem para o Rio de Janeiro que se dá a concretização da transformação de ambas.
Se o embate que nutriu esse escrito se revela bem condizente com uma crítica aos pressupostos patriarcais, Sônia era o símbolo da desordem, da liberdade, enquanto Aparecida realça os parâmetros da regrada educação patriarcal. Nádia Batella Gotlib (1998) esclarece que as personagens de Lúcia Miguel apresentam alguns traços da religiosidade católica possuídos pela autora. Do lado da autoria, Antonio Candido acrescenta que, nos registros de Lúcia, há a preocupação com o espiritual. “Trata-se de uma católica preocupada em ver a sociedade resolver os seus graves problemas à luz de uma transformação espiritual marcada pela fidelidade aos princípios religiosos” (CANDIDO, 2004, p. 130). Consoante nossa explicação, mesmo que revele a preocupação com a presença de Deus, através da religião católica na ficção, a autora não deixa de criticar algumas posturas de religiosos. Falando ainda dessa presença nos textos da década de 30, Candido prossegue: “Para Lúcia, havia no panorama do seu tempo uma esterilidade e um dilaceramento que a faziam tender à busca da unidade pela fé” (CANDIDO, 2004, p. 130).
Do plano da ficção, essa educação, sobretudo religiosa adquirida num colégio de freiras, era, para Sônia, uma falta de civilização: “– Você está muito cheia de baboseiras… quando formos para o Rio, há de ir passar uns tempos comigo para se civilizar” (PEREIRA, 1938, p. 38). Sob uma ótica irônica, as palavras da personagem Sônia indicam que as crenças, superstições e costumes daquele lugar eram entendidos como ‘baboseiras’ e a vida que levava no Rio de Janeiro, ‘cassinos e grills’, festas, passeios ‘de baratinhas com os namorados’, eram para ela práticas de uma pessoa civilizada. A viagem para o Rio de Janeiro era, para Aparecida e, também pela visão de Sônia, uma forma daquela se libertar de uma série de ‘preconceitos’. A religião passa então a ser uma forma de libertação. Também, para Aparecida que, no final da história, acredita-se sem fé, é a Nossa Senhora da Aparecida, a quem ela recorre na última frase do livro.
Apesar de vislumbrar algumas mudanças e certa liberdade, Aparecida tinha consciência da diferença existente entre as duas. Explica a protagonista que “sentia-a mais livre, mais dentro da vida do que, mais capaz de gozar, de aproveitar tudo. Sônia era um animalzinho novo e feliz, obedecendo sempre ao capricho do momento, fazendo tudo que lhe passava pela cabeça” (PEREIRA, 1938, p. 34). A vida regrada da educação recebida por Aparecida é para ela um afastamento dos prazeres da vida, procurando então aproximar-se de Sônia para alcançar também a sua liberdade. Apesar dessa constatação e dessa aspiração, a protagonista, parece não concordar com a amiga que achava um ‘absurdo que a mulher dependesse do casamento para conhecer a vida’. O destaque a este pensamento é bem providencial para fazer pensar as mulheres e, a sociedade de modo extensivo, sobre a ocupação e a conduta estigmatizada da mulher ainda naquele momento. Contraditoriamente e, estrategicamente sarcástico, após abandonar a vida desregrada e passar a obedecer alguns protocolos do tempo, sobretudo no plano espiritual, Sônia se sente mais livre e feliz que a protagonista. E, é com base nessa transformação também que Sônia atribui à religião o final infeliz de Aparecida mostrando isso quando esclarece: “– Antônio matou a sua fé, por isso é que você não é feliz, apesar de estar com ele” (PEREIRA, 1938, p. 228).
A expressão ‘conhecer a vida’ assume significados diferentes para cada uma. Para a ingênua Aparecida, isto representava viver como as heroínas dos romances românticos, enquanto para Sônia, o termo adquire sentido da prática sexual. Apesar da ingenuidade, a narradora de Amanhecer consegue definir bem a questão. “Sem deixar de invejar a liberdade de Sônia, eu sabia que não seria capaz de imitá-la. Viver era para ela uma coisa e para mim outra. Bem diferentes. Às vezes achava Sônia uma desmiolada, uma leviana. E prometia a mim mesma afastar-me dela” (PEREIRA, 1938, p. 35). O enunciado da narradora põe em destaque o conhecimento da ação transformadora de uma sobre a outra. Como buscava mudanças para sua vida, Aparecida mostra ainda uma incerteza se essa transformação seria benéfica para si, assim como se comportavam grande parte das mulheres diante do rompimento e da transformação de suas práticas. Neste sentido, o final desencantado da protagonista parece culminar na punição da mesma por ter tentado. Ao longo da narrativa, é-lhe permitido, em vários momentos, refletir sobre sua decisão. A constatação feita no trecho acima, por exemplo, não foi realizada após a desilusão da mudança, mas no presente dos acontecimentos. Então, ela mesma tinha consciência da incerteza das consequências de seus atos.
Essa criticidade presente na romântica personagem a faz sentir também mais parecida com a mãe da amiga, pois ela “não tinha as teorias esquisitas da filha, vivia no mesmo mundo que eu. Era do Apostolado da Oração, cosia para os pobres todas as sextas feiras. Queria muito que Sônia se casasse” (PEREIRA, 1938, p. 36). Podemos localizar na explicação de Aparecida a chamada de atenção para a existência de mundos diferentes, em consequência disso também a existência de escolhas a serem feitas. Se as teorias são esquisitas se deve ao fato de não serem condizentes com a realidade daquele que a contata, logo improcedentes para uma personagem ‘sonhadora’ como Aparecida, vivendo numa sociedade ficcional que assume para si um tempo de desagregação de valores e de constante vigilância das ideias e das práticas no plano histórico. Do mesmo modo em que a sociedade daqueles tempos agregava distintas formas de tratamento para a mulher burguesa, camponesa ou proletária, a sociedade ficcional assume essa dinâmica e constrói dois universos incompatíveis entre si, o mundo de Aparecida e o mundo de Sônia. O clima de desencanto em que a obra é finalizada parece comprovar a dificuldade de integração entre ambos.
Esse descompasso entre os mundos de Sônia e de Aparecida pode ser notado quando se refere ao trabalho. Como burguesa, essa ocupação não faz parte dos planos de Sônia, enquanto para Aparecida, incentivada por Tia Josefina e por Antônio, o trabalho é entendido como forma de libertação. Porém, Aparecida não segue os conselhos da Tia se tornando professora em São José, ela deseja um emprego como datilógrafa no Rio de Janeiro. Enquanto o pai vê no trabalho uma forma de ‘humilhação parecer não poder sustentá-la’, a mãe indica os perigos do trabalho feminino que levam à perdição. Há aqui mais uma ousadia feminina, isto é, o caminho da subversão tomado por Aparecida que, de certo modo, se não a conduz ao desencanto final, também não é suficiente para a sua plena realização. Com uma iniciativa rara nas protagonistas dos romances de Lúcia, a protagonista põe em prática as ideias de Antônio que ela mesma considera ‘esquisitas’, com isso, rompe com o futuro previsto para uma menina na sua condição, ser professora.
No modo de ver historiográfico, Guacira Lopes Louro (1997) empreende que a sociedade semipatriarcal, ainda nesses tempos, acreditava que toda atividade da mulher fora do lar poderia representar um risco. Para justificar o trabalho da mulher como professora, algumas vozes argumentavam que estas possuíam natural inclinação para o trato com as crianças, sendo elas as primeiras educadoras. “Se o destino primordial da mulher era a maternidade, bastaria pensar que o magistério representava, de certa forma, ‘a extensão da maternidade’, cada aluno ou aluna vistos como um filho ou uma filha ‘espiritual’” (LOURO, 1997, p. 450), completa Guacira Lopes Louro. Por este lado, o trabalho passava a ser visto como uma extensão da maternidade, portanto da ocupação ‘por excelência’ da mulher. Também nesse discurso se inclui os baixos salários oferecidos à mulher o que permitia ao homem o provimento da família, já que “o trabalho externo para ele era visto não apenas como sinal de sua capacidade provedora, mas também como um sinal de sua masculinidade” (LOURO, 1997, p. 453). No ferir a ‘capacidade provedora e a masculinidade’ está a ‘humilhação’ temida pelo pai da narradora de Amanhecer e, mais uma vez o discurso literário, com ironia, critica as regras ao mesmo tempo em que se mostra condizente com o discurso histórico, criando, assim, a ilusão da verdade.
Intentando irromper a condição de submetimento feminino e alcançar a esperada liberdade, o que almeja Aparecida é ir para a cidade exercer o seu trabalho para, assim, fomentar o seu sustento. Embora já houvesse número significativo de mulheres engajadas nos trabalhos como os das fábricas, do comércio ou dos escritórios, essas mulheres ainda eram marginalizadas e essa prática considerada uma fatalidade. Sob essa questão, a ficção põe diante do leitor, a partir da percepção da própria protagonista, que é impossível a tranquilidade para quem faz certas escolhas. Tendo em vista que a posição crítica da autora concorre para acentuar os contrastes e interpretações da ficção, convém comentar a afirmação de Cristina Ferreira Pinto de que Lúcia Miguel Pereira “é partidária da ideologia que defende o direito da mulher ao trabalho, sem restrições de atividades” (PINTO, 1990, p. 50). Desperta atenção essa afirmativa já que, a autora, em texto escrito para a Revista A Ordem, em 1933, já mencionado anteriormente, confirma essa vertente histórica de que a mulher deveria trabalhar em atividades que não ferissem as suas ‘sensibilidades’ femininas e nem as ‘impedissem de exercer as suas atividades domésticas’. Esse pensamento é condizente com aquele do feminismo bem comportado daquela época, do qual Lúcia nega ser complacente, porque, pensava nas mulheres de elite que já haviam alcançado o direito ao voto, o ingresso às universidades, alguma ocupação social. Como esclarecia Bertha Lutz, dois anos antes da publicação de Amanhecer (1938), o envolvimento da mulher com as atividades da educação, do trabalho ou da política daria melhores condições para exercerem o compromisso de mãe e esposa, já que, no lar, ela precisava tomar decisões que eram estabelecidas a partir dessas instituições.
Na instância literária, através da criatura de papel é criticada essa trajetória feminina, pois, negando o trabalho como professora que legaria ‘sua independência’ e a aproximaria das ‘atividades femininas’, a protagonista opta pelo serviço na cidade grande no qual, de toda forma, não consegue alcançar a sua total liberdade, mas fica também exercendo trabalho de datilógrafa para Antônio. Quem a conduz para este trabalho é o ‘mentor’ das ideias ‘dispersivas’ e esse trabalho, como esclarecido, não é bem visto para uma mulher.
Se estudasse, como diz Antônio, a menina poderia virar gente através do trabalho, renuncia ao casamento, tornando-se apenas amante, à maternidade e “torna-se mera colaboradora de Antônio” (BUENO, 2006, p. 518), conforme diz Luís Bueno. Ela mesma conclui sua infelicidade, mediada pela total subserviência e aceitação quando relata “eu serei sua amante, Antônio, sua criada, sua escrava. Serei o que você quiser, contanto que você me dê um lugarzinho na sua vida” (PEREIRA, 1938, p. 213). Nesse momento, o romance ironiza e expõe o risco da mulher ingênua que almeja a liberdade, mas continua submissa ao masculino. Nem o relacionamento com aquele, nem o trabalho é, para ela, fator de libertação, mas de aprisionamento, é o argumento utilizado para viajar para o Rio de Janeiro e dedicar-se a ele, sem pedir nada em troca. São o trabalho e o afeto concorrendo para a escravidão consciente da protagonista. Por conseguinte, a nosso ver, como um mecanismo de mostrar que as mulheres devem vislumbrar mais do que já conseguiram, a personagem é vencida pela sociedade semipatriarcal, pois o que impera no desfecho da trama é o ‘vazio’ desse tipo de vida que ela leva agora em comparação com aquela estabilidade que almeja.
A desagregação ideológica, política e moral, cuja influência se evidencia nos aspectos da vida coletiva são entrevistos, mormente, no seu reflexo literário. Essa desagregação afeta a vida de todos os personagens que passam de uma condição a outra ou de um modo de pensar a outro. Os três romances dessa autora, publicados na década de 30, revelam a desarticulação provocada pelas ‘ideias novas’ em contraposição à chamada ‘velha ordem’. Inclusive a fé católica de Aparecida é perdida após o contato com o modo de pensar e as práticas de Antônio. Explica a protagonista: “não me faz falta a fé, como a entende Sônia; queria sim, que Antônio não tivesse matado a minha alma, a minha personalidade” (PEREIRA, 1938, p. 228). Aparecida que antes acreditava em Deus passa a substituí-lo em sua vida por Antônio. Enquanto Sônia, que antes queria ser livre, após o episódio do ataque do negro, em que acredita ser punição de Deus pelo aborto e pela vida desregrada, de liberdades, o assume para si e finaliza o livro fazendo um esclarecimento para Aparecida: “– De nós duas, a mais livre sou eu… Deus exige muito, mas dá tudo. Antônio quer tudo de você, sem dar nada” (PEREIRA, 1938, p. 232).
Veja-se que as mudanças operacionalizadas nas personagens são intensas, capazes de conduzir o curso da trama e permitir o chamamento de uma reação feminina diante da passividade e do anonimato da mulher frente à sociedade. A postura de Antônio revela a vulnerabilidade de seus posicionamentos comunistas levando o leitor a duvidar de sua crença em suas próprias ações. Ainda assim, Antônio não muda, termina a narrativa do mesmo modo que começou nem mais nem menos feliz. Assim, a narrativa conclama ao leitor a pensar sobre a parcialidade dos discursos. Enquanto ele prega o princípio da liberdade, o resultado de sua ação sobre Aparecida é de aprisionamento. Se, como diz Antônio, o único trabalho que degrada é o do escravo, a vida de Aparecida é degradada porque ela termina vivendo em função dele e lhe servindo como datilógrafa, sem receber nada em troca, apenas com a recompensa de que “a história registrará o seu nome como minha colaboradora” (PEREIRA, 1938, p. 229), como completa Antônio.
A nosso ver, vale lembrar também que a condição social concorre para o final desencantado da narradora. Sônia deixa sua vida burguesa, de ‘modernismos’, para acreditar e seguir os princípios da fé católica. Para ela, isso a faz mais feliz que Aparecida, pois esta agora, descrente de tudo em que acreditava antes, começa a viver como amante de Antônio, servindo-lhe com seus trabalhos de datilografia, sem, como ela mesma diz: “um nome, um lar, uma situação estável” (PEREIRA, 1938, p. 230). A frase acima citada por Aparecida ratifica o desejo dela pela manutenção daqueles protocolos dos quais ela vai se afastando à medida que se aproxima das ‘novas’ ideias e faz a sua viagem. Nome, lar, situação estável traduz e inspira situação semelhante ao que se prega com “Deus, pátria e família”. Pensando no trabalho feminino como uma preocupação moderna, este é visto com certos receios, uma vez que contribui para a perdição da protagonista. Através dele, a mesma busca alcançar a liberdade, o que configura a sua dupla perda: da liberdade e do outro caminho, aquele constituído numa condição patriarcal. Nem de um modo nem de outro são plenamente realizadas. Trocando suas próprias experiências, como se trocassem de papel, Sônia e Aparecida veem o fracasso da opção feita pela outra.
A protagonista termina no meio termo, pois além de não alcançar a liberdade, não rompe com as regras tradicionais porque mesmo não se casando se submete aos mandos masculinos. Como uma perfeita romântica, embora não realize o casamento contratual, Aparecida se dedica a essa ‘união’ porque o sentimento que mantém por ele é maior que as razões para se afastar. Por esse lado parece que, mais uma vez, Amanhecer, embora critique as normas, reflete o pensamento falocêntrico quando põe em primeiro plano o lado emocional feminino sobre o racional. Sem escolha satisfatória, o estilo de vida desestabilizadora que encontra Aparecida possui para ela muitas implicações negativas. Se, de um lado, a viagem para Aparecida significa o encontro com o ‘novo’, para Sônia, ela simboliza o encontro com a tradição, com a religião e com as convenções de uma vida patriarcal. Também nesse ponto, quem parece ter um final satisfatório para aquele contexto é a mãe de Maria Aparecida que, sendo muito nova, após enviuvar, casa-se com o ex-pretendente da filha quando ainda morava em São José atinge o final ‘feliz’, se não feliz, pelo menos o esperado pelo discurso predominante, embora a contragosto da protagonista.
Com essas trajetórias femininas percebidas na ficção de Lúcia Miguel-Pereira, Luís Bueno (2006) observa que as mulheres são convidadas mais à renúncia que à ação. Trabalhado artisticamente ao longo de todo o enredo até se decantar em vários sentidos para o leitor, vê-se que o conteúdo histórico que a obra ficcionaliza não funciona aqui como pano de fundo, mas como elemento trabalhado a fim de compor a razão de ser da narrativa. Dessa forma, a viagem empreendida pelas duas personagens são vistas aqui como estratégias adotadas por cada uma a fim de conceberem a sua libertação, no entanto, ainda assim essas mulheres continuam sendo aprisionadas pelo mesmo sistema que as condicionaram, deixando em evidência o motivo central de sua submissão: o ser mulher.
NOTA: Para um estudo mais alentado sobre a ficção de Lúcia Miguel Pereira ver O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira – escritos da tradição, de minha autoria, publicado pela Editora Mulheres.
REFERÊNCIAS
BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Campinas: Editora da Unicamp, 2006.
CANDIDO, Antonio. Lúcia. In: O albatroz e o chinês. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004. p. 127-132.
GOTLIB, Nádia Batella. A literatura feita por mulheres no Brasil. In Boletim do GT ANPOLL/MULHER E LITERATURA, 1998.
LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das mulheres no Brasil. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1997. p.443-481.
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia Miguel. Amanhecer. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1938.
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. A leitora e seus personagens: seleta de textos publicados em periódicos (1931- 1943), e em livros. Prefácio, Bernardo de Mendonça; pesquisa bibliográfica, seleção e notas, Luciana Viégas- Rio de Janeiro: Grafia Editorial, 1992.
PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990.
[1] Para um estudo mais alentado sobre a ficção de Lúcia Miguel Pereira ver O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira – escritos da tradição, de minha autoria, publicado pela Editora Mulheres
Bio fornecida pelo palestrante.
Marcelo Franz
Universidade Técnica Federal do Paraná – UTFPR
Resumo: Analisa-se neste artigo a representação da figura feminina na obra Memorial do convento (1982) discutindo as particularidades do trato de José Saramago a essas figuras e como essa representação se articula com os interesses ideológicos evidentes em sua obra. Além disso, pretendemos vincular as declarações manifestadas pela figura pública do escritor, retiradas da obra Palavras de Saramago, para confrontarmos essas informações com as personagens de Memorial do Convento com o objetivo de mostrar a construção e a relevância das personagens analisadas.
Abstract: This article analyzes the representation of the female figure in the novel Memorial do convento (1982). This representation is articulated with the ideological interests evident in Saramago’s work. In addition, our intention is to link the statements expressed by him as a public figure in the book Palavras de Saramago, and to confront them with the characters in his novel Memorial do Convento in order to evince their model of construction and their overall relevance.
Palavras-chave: Saramago; Memorial do convento; Feminino.
Key-words: Saramago; Memorial do convento; Feminine.
Minicurrículo: Marcelo Franz é professor de Literaturas de Língua Portuguesa e de Teoria da Literatura do Curso de Letras da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Tem mestrado em Literatura Brasileira (pela UFPR) e doutorado em Literatura Portuguesa e Pós-doutorado em Teoria da Literatura, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).
A PERSONAGEM FEMININA NA OBRA
MEMORIAL DO CONVENTO: COMO
“FORJAR UMA NOVA FORMA DE HUMANIDADE”
Marcelo Franz
Universidade Técnica Federal do Paraná – UTFPR
O pessimismo como motor das transformações
Como escritor, José Saramago afirmava estar comprometido com a vida até os últimos dos seus dias, e não separava o escritor do cidadão. Segundo ele, sua literatura reflete de alguma forma, as posturas que ideologicamente assumia, sem, no entanto, transformar os seus livros em meros panfletos. Para isso, não encontrava outro remédio senão fazer o que fazia e dizer o que dizia:
Auschwitz não está fechado, está aberto, e suas chaminés continuam soltando a fumaça do crime que se comete a cada dia contra os mais frágeis. E (…) eu não quero ser cúmplice, com a comodidade do meu silêncio, de nenhuma fogueira (Aguilera, 2010, p. 352)
Assim, literariamente encontramos um Saramago inserido em suas obras:
Onde estou nos romances? Ali, sim, estou. Mas um leitor não deve perder tempo a procurar a minha vida nos romances porque ela não está ali. O que está nos romances não é a minha vida, mas a pessoa que eu sou, o que é algo muito diferente (AGUILERA, 2010, p. 206).
A literatura não é a vida e também não é uma imitação da vida. Nada do que entra num livro vem de outro lugar que não seja este mundo, mas o romance ao achar-se feito entra ele também a influir na vida (AGUILERA, 2010, p. 182).
Um dos traços mais marcantes da personalidade pública de José Saramago era o seu caráter pessimista em relação a uma humanidade que, segundo ele, jamais foi humanizada. Para o escritor português estamos todos condenados: este mundo não tem solução, não merecemos a vida, a humanidade jamais foi educada para a paz, mas sim moldada espiritualmente para o conflito.
Em Aguilera (2010, p. 142), Saramago afirma: “Como se pode ser otimista quando tudo isto é um estendal de sangue e lágrimas? Nem sequer vale a pena que nos ameacem com o inferno, porque inferno já o temos. O inferno é isto”. Ateu, Saramago via o elemento divino como uma invenção humana e produto da imaginação. O que chamam de mistério é simplesmente o que não se sabe. A partir do momento em que há uma explicação científica (ou lógica), deixa de ser mistério. Logo, esse produto da imaginação humana que chamamos de divino, assim como muitas outras criações humanas, a certa altura toma as rédeas e passa a condicionar os seus inventores:
Levamos o diabo e Deus dentro de nós; aí nasceram e aí continuam vivendo. O bem e o mal são obra humana. Não posso acreditar num Deus que não existe ou que nunca se apresentou. Eu não necessito de Deus. Nunca tive nenhuma crise religiosa. Vivi meu ateísmo numa tranquilidade total. E digo a mim mesmo: nasceste, estás vivendo, morrerás, e acabou (AGUILERA, 2010, p. 127).
Portanto, ao afirmar que não acreditava e não precisava de Deus, o remédio para os males que afligem o mundo, na ótica de Saramago, estaria apenas no plano terreal. Por outro lado, o próprio Saramago, afirma, paradoxalmente, que sem Deus a sua literatura perderia o sentido.
Não há como negar que nas construções literárias do autor, muitos dos alicerces estão sustentados, justamente, na polêmica luta em afirmar que Deus é uma criação humana. Para se ter ideia de tamanha inquietação, no ano de 1991, Saramago publica a sua obra mais controversa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, um romance que conta a história humanizada de Jesus Cristo, desconstruindo as verdades canônicas da Igreja. No evangelho de Saramago, Jesus Cristo não nasceu de uma Maria virgem, mas sim de uma relação carnal. José é acusado de ser cúmplice da matança dos nascituros ordenada pelo rei Herodes e, ainda, Jesus estaria envolvido em uma relação amorosa com Maria Madalena.
Diante desses relatos, a Igreja Católica portuguesa como instituição não reagiu, preferiu ignorar oficialmente o livro. No entanto, Saramago não ficou isento das críticas de algumas figuras do alto clero. Assim, o arcebispo de Braga proferiu uma homilia classificando o livro como blasfemo e adjetivando Saramago como um “ateu confesso, um comunista impenitente, que escrevera uma obra desrespeitosa à identidade do povo português”. O Evangelho segundo Jesus Cristo, vendeu mais de 100 mil exemplares em Portugal e outros 40 mil no Brasil.
Mas Saramago sofreu um duro golpe: em uma sociedade autoproclamada democrática, sua obra seria alvo de censura imposta pelo próprio governo. A decisão da Secretaria de Estado da Cultura vetaria a inclusão dessa obra na lista de concorrentes ao Prêmio Literário Europeu.
Não obstante, ainda que estejamos em um mundo condenado e sem um Deus para nos socorrer, Saramago afirmava que há a necessidade de um olhar pessimista, pois é somente esse olhar que pode mudar o mundo:
Os pessimistas são pessoas insatisfeitas com o mundo. Em princípio seriam as únicas interessadas em alterar a rotina, uma vez que, para os otimistas, é razoável como está. Mas, ultimamente, gosto de dizer outra coisa: eu não sou pessimista, o mundo que é péssimo. Com isto transfiro a culpa para a realidade (AGUILERA, 2010, p. 141).
Olhando as marcas deixadas na pavimentação da estrada literária de Saramago, notamos que a crítica social do autor vai ganhando traços e contornos que irão culminar com a representação da perda da razão na humanidade, notória no romance alegórico Ensaio sobre a cegueira, de 1995. Nesse texto, o uso desumanizado da razão (que é metaforizado na epidemia de cegueira) conduziu os personagens aos extremos da violência, da crueldade, uma irracionalidade que, segundo Saramago, reflete o horror contemporâneo do mundo real, no qual o homem não está em condições ainda de se ocupar das relações com os outros seres humanos. Estamos cada vez mais cegos, porque cada vez menos queremos ver. Fato é que Ensaio sobre a cegueira afirma que todos nós estamos cegos da razão. No entanto, vale lembrar que a personagem identificada significativamente como “a mulher do médico” é uma espécie de fio de esperança que atravessa toda a narrativa sem ser contaminada por uma epidemia que cega a espécie humana do exercício da razão.
Todavia, se estamos cegos da razão e transcendentalmente não temos o que buscar, será que ainda há esperança? As palavras de Saramago dizem que sim, não com o sim, e sim com o não:
Embora não sejamos donos da verdade, pois isso não existe, somos os que dizem a palavra “não”. O “sim” é da rotina, está sempre por aí. Devemos sempre introduzir um “não” para confrontar o “sim” que é o consenso hipócrita em que estamos mais ou menos vivendo (Aguilera, 2010, p. 379).
Mas onde estaria essa voz negativa? Reiteradamente, na literatura samaraguiana essa voz ganha vida nas personagens femininas:
Se algum dia uma personagem minha ficar na memória das pessoas, será a de uma dessas mulheres, e não é porque eu predetermine sua maneira de ser ou atue mediante estratégias prévias. O caráter dessas mulheres nasce naturalmente, no meio da situação concreta que estou a narrar. Em certa ocasião, alguém me perguntou: Mas por que sempre escolhe uma mulher? E eu respondi: Acredita que tudo que essa mulher fez um homem faria? Claro que não. Sempre há uma mulher a sustentar cada um de meus romances: Lídia em O ano da morte de Ricardo Reis, Blimunda em Memorial do Convento, Maria Madalena em O Evangelho segundo Jesus Cristo […] (Aguilera, 2010, p. 265).
Durante séculos a mulher foi vista como subserviente e dominada pelas prerrogativas masculinas nas sociedades patriarcais, e porque não dizer, até os dias de hoje. Basta direcionar o nosso olhar para algumas culturas do mundo árabe que ainda insistem em manter a mulher submissa em relação ao sexo masculino dominante, utilizando como ferramentas repressoras o poder do Estado e práticas religiosas ortodoxas e ultraconservadoras que acabam limitando muito o papel da mulher nessas sociedades. Há também, nas sociedades ocidentais a transformação da mulher em objeto da satisfação sexual masculina.
Na ânsia de romper com esse legado, na segunda metade do século XIX o feminismo político começa a se organizar, particularmente nos Estados Unidos e Inglaterra, em busca da igualdade legislativa, pois, a partir desse direito, se descortinaria um novo horizonte de ampliação dos direitos da mulher. Todavia, foi nessa época, na Inglaterra, que a mulher foi amplamente discriminada, conforme observamos em Bonicci e Zolin:
A mulher que tentasse usar seu intelecto, ao invés de explorar sua delicadeza, compreensão, submissão, afeição ao lar, inocência e ausência de ambição, estaria violando a ordem natural das coisas, bem como a tradição religiosa […] a condição de subjugada da mulher deve ser tomada como sendo de vontade divina. (BONNICI & ZOLIN, 2004, p. 220-221).
No entanto, assim como em algumas sociedades, será que na literatura as personagens femininas também possuem algum estereótipo ou papel previamente definidos? Para isso vamos recorrer novamente a um pronunciamento de Bonnici e Zolin:
As críticas feministas mostram como é recorrente o fato de as obras literárias canônicas representarem a mulher a partir de repetições de estereótipos culturais, como, por exemplo, o da mulher sedutora, perigosa e imoral, o da mulher como megera, o da mulher indefesa e incapaz, e entre outros, o da mulher como anjo capaz de se sacrificar pelos que a cercam (BONNICI & ZOLIN, 2003, p. 226).
A inquietação com a distinção da personagem feminina nas obras de Saramago se deve às recorrências de um rompimento com os estereótipos e papéis da mulher na literatura:
Não me agradam as grandes frases nem a retórica das ações. Mas é verdade que nos meus romances aparecem personagens, sobretudo mulheres, dotadas de um heroísmo discreto, natural, como uma emanação de sua personalidade. São mulheres, inclusive, dispostas ao sacrifício por compaixão, compadecer-se com o outro, um sentimento que tem haver com piedade, não com a grandiloquência. Nesse modelo de mulher que se repete de livro em livro, com nomes diferentes e em épocas diferentes, se está a forjar uma nova forma de humanidade, uma forma distinta de ser humano (Aguilera, 2010, p. 265).
Nos pilares de sustentação da literatura samaraguiana estão excepcionais figuras femininas, presentes em seus romances como fulgurantes encarnações do melhor da condição humana já que, na visão de Saramago, a esperança para a mudança de um mundo desumanizado estaria na sensibilidade da mulher. Diante disso, nossa proposta é analisar a representação da figura feminina na obra Memorial do convento, lançada em Portugal em 1982.
O feminino em Memorial do convento
Com mais de dez edições e 50 mil exemplares vendidos em apenas dois anos, foi Memorial do convento que consagrou definitivamente o nome de Saramago no panorama literário português e na cultura internacional. O impacto dessa obra acabou alavancando as obras de Saramago no cenário internacional. Apenas para termos noção de tal êxito, Memorial do convento obteve uma tiragem inicial de 5 mil exemplares e a obra seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (1984), impulsionado pelo sucesso de Memorial, vendeu 20 mil exemplares em um período de três meses. Esses números evidenciam a força que o nome Saramago ganha no cenário internacional e que conduzem o autor para o restrito espaço do cânone.
Para o crítico literário Álvaro Pina, analisando a obra em algumas páginas da revista Colóquio-Letras, Memorial do Convento, por mais interessante que pareça ser não atinge a condição de romance, não passa de uma composição epidérmica que romanceia fatos históricos (AGUILERA, 2010, p. 11).
Todavia, contrapondo Álvaro Pina e reforçando a importância de Saramago no cenário ocidental recorreremos às palavras do crítico Harold Bloom. Professor de literatura das universidades de Yale e Nova Iorque, autor das obras O cânone ocidental e Gênio, Os 100 autores mais criativos da História da Literatura, Harold Bloom é considerado um dos críticos literários de maior relevância no Ocidente. Sobre Saramago, Bloom afirma:
Saramago é extraordinário, quase um Shakespeare entre os romancistas. Não há nenhum ficcionista vivo nos Estados Unidos, na América do Sul ou na Europa que tenha a sua versatilidade. Dir-se-ia tão divertido quanto pungente. Sei que é um marxista, mas não escreve como um comissário [Komintern] e opõe-se aos impostores da Igreja católica. O seu trabalho ultrapassa tudo isso (HAROLD BLOOM, 2001 apud AGUILERA, 2010, p. 12).
Em nossa proposta de análise serão comparadas as personagens femininas, Dona Maria Ana Josefa e Blimunda Sete-Luas dentro da obra Memorial do Convento.
Em Memorial do convento, somos conduzidos ao século XVIII em Portugal, no período de construção do convento de Mafra, durante o reinado de D. João V. Saramago organiza o romance em três núcleos narrativos: o projeto de construção do convento de Mafra, no espaço da monarquia; a história de amor entre uma feiticeira e um soldado maneta mutilado na guerra; a construção da passarola arquitetada pelo padre Bartolomeu Lourenço.
Nesses três núcleos os conflitos sociais ganham uma força e uma voz crítica contra a Igreja e o Estado, voz essa que ganha vida não apenas nas personagens femininas. Valendo-se da revisitação ao passado, Saramago ficcionalizou as personagens históricas do casal real, D. João e Dona Maria Josefa, do padre Bartolomeu Lourenço e de Domênico Scarlatti, entre outros de menor destaque. Para completar o elenco, Saramago cria as figuras ficionalizadas do casal Blimunda de Jesus e Baltazar Mateus e as suas respectivas famílias. Segundo o autor:
Se não ligasse meu trabalho à História não faria qualquer trabalho. (…) o que eu quero escrever liga-se aos fatos e aos homens passados, mas não em termos de arqueologia. O que eu quero é desenterrar homens vivos. A História soterrou milhões de homens vivos (AGUILERA, 2010, p. 253).
O romance inicia-se com um narrador em terceira pessoa relatando a dificuldade da rainha D. Maria Ana Josefa em dar infantes à coroa portuguesa. Passados mais de dois anos desde a sua chegada e até o momento não havia engravidado:
Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, […] que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, […] Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais (SARAMAGO, 2011, p. 11).
Na ficção ocorre um silenciamento de D. Maria Ana Josefa. As poucas ocorrências de falas suas ficam restritas às suplicas a Deus por um filho. A liberação dos seus desejos sexuais ganha vida somente nos sonhos:
Em Memorial do convento temos a representação do casamento de aparências, na qual a missão da mulher é dar herdeiros ao rei para glória do reino, afinal, na monarquia a sucessão do trono ocorre de forma hereditária e vitalícia, salvo se não houver herdeiros.
A rainha é o símbolo do papel da mulher da época: submissa, procriadora, objeto da vontade masculina que cumpre o seu dever:
Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canônica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total (SARAMAGO, 2011, p. 11).
O papel de rainha, desempenhado por D. Ana Maria Josefa, é de uma personagem plana. A condição de majestade distancia a personagem da condição de mulheres comuns, pois não cabem em um mesmo corpo a coroa e a mulher:
Farta estou eu de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha, Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus, são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem (SARAMAGO, 2011, p. 112).
Paralelamente à ação dos nobres e das intrigas palacianas a que se dão, encontra-se uma ação que envolve a história de amor de Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, representantes da plebe que se conheceram em um auto-de-fé cuja vítima era a mãe de Blimunda, considerada bruxa:
E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa, está o Rossio cheio de povo duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé (SARAMAGO, 2011, p. 48).
(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, (…) Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu (…),e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele (…). Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis (SARAMAGO, 2011, p. 51).
Blimunda de Jesus, de alcunha Sete-luas, diferentemente da mãe, não possui a capacidade de enxergar o futuro; seu poder está no olhar que permite visualizar aquilo que está por debaixo da pele: a vontade humana. Para isso, basta que Blimunda esteja em jejum.
É importante salientar os significados da visão na ação de Blimunda. Ela representa a mulher que vai além da simples ação de ver. Mais do que isso, ela enxerga com seus próprios olhos, diferentemente das demais personagens femininas na obra que veem por meio do Santo Ofício, de um catolicismo que cega.
Seu papel será decisivo na construção da invenção do Padre Bartolomeu, a passarola, visto que o combustível para que a máquina possa alçar voo está justamente nas vontades humanas vistas por Blimunda. Essas vontades são capturadas no momento em que há a separação do corpo e do espírito quando as pessoas estão à beira da morte.
Além disso, Blimunda é a representação da concretização dos desejos oprimidos. Seu comportamento é marcado pela transgressão aos ditames de uma sociedade cristã e conservadora. Conforme observamos no diálogo entre o padre Bartolomeu Lourenço e Balatasar: “Tens dormido com ela, Vivo lá, Repara que estão em pecado de concubinato, melhor seria casarem-se” (SARAMAGO, 2011, p. 62).
Diferentemente da rainha, os seus desejos são concretizados sem qualquer ressentimento de pecado. Em concubinato com Baltasar, acaba infringindo um dos mandamentos da Igreja Católica.
Ao compararmos os casais representativos da nobreza e da plebe, observamos que D. João V e D. Ana Maria Josefa, os monarcas, têm muitas coisas em comum, ambos têm o título de nobreza, estão no topo da pirâmide social. Entretanto, eles não se completam, a troca de alianças entre o casal representa apenas o cumprimento de um dever religioso e a manutenção de uma tradição dinástica:
Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. (…) Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para a conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários, discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das meninas, e não podendo estas uniões ser feitas à ligeira, nem à porta do talho, onde grosseiramente se diz que são combinados os amiganços, só agora, quase um lustro passado, se fará a troca das princesas, uma a ti, outra a mim (SARAMAGO, 2011, p. 288).
No caminho inverso, representando o povo, temos o casal Baltasar e Blimunda, que estão na base da pirâmide social. Como bem diz o narrador, nem parecem pessoas daquele século:
Há também outros simples e rústicos prazeres, como lavarem Baltasar e Blimunda os pés na água, ela levantando as saias até à curva da perna, melhor será que as desça, porque para cada ninfa que se banha há sempre um fauno espreitando, e este está perto e arremete. Blimunda foge da água rindo, ele agarra-a pela cintura, ambos caem, qual de baixo, qual de cima, nem parecem pessoas deste século (SARAMAGO, 2011, p. 263).
A aliança entre Baltasar e Blimunda é de sangue, acordada no primeiro ato sexual entre ambos. O casamento ocorre em uma cerimônia breve durante um jantar. Aqui não temos as pompas da nobreza, porém o enlace é feito em corpo presente, diferentemente da nobreza da época que tinha o costume de se casar por procuração:
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. (…) Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezenove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus (SARAMAGO, 2011, p. 54).
Em alguns trechos da obra Saramago quer ressaltar a representação da figura da mulher e seu papel na História como condutoras e não como conduzidas: “Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres”. (SARAMAGO, 2011, p. 17); “Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu” (SARAMAGO, 2011, p. 113).
Logicamente que a construção dessas personagens tem uma razão de ser: ironizar e questionar os poderes instituídos, a nobreza com suas convenções e sua opressão à mulher (sinalizada no drama do silenciamento da rainha), a Igreja (que persegue as “heresias” dirigindo especial violência ao que considera “bruxarias”, praticadas preferencialmente por mulheres) e o Estado por meio das vozes das personagens que representam uma grande parcela da humanidade que é ignorada nos registros da História.
Referências Bibliográficas
AGUILERA, Fernando Gómez. As palavras de Saramago: catálogo de reflexões
pessoais, literárias e políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia O. (Org.). Teoria Literária. Abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2003.
SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a egueira. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
SARAMAGO, José. Memorial do convento. São Paulo: Companhia da Letras, 2011.
Bio fornecida pelo palestrante.
KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS
Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
Resumo: O presente artigo tem por objetivo uma leitura metafórica em poemas da poetisa Cora Coralina. Tecem-se, aqui, algumas considerações sobre essa figura de linguagem, recurso tão usado pelos poetas, assim como por Cora Coralina. Nesta análise, além de se identificarem as metáforas utilizadas pela poetisa, apresenta-se uma visão crítica do homem e das relações sociais, sem perder de vista toda a magia da poesia. Sabendo-se que o tema da metáfora nos leva a um campo de estudo muito vasto, delimitou-se o mesmo à investigação na língua portuguesa.
Palavras-chave: leitura, investigação, análise, linguagem.
Abstract: This article aims at a metaphorical reading of the poems of the poet Cora Coralina. It will propose some considerations on this figure of speech as a resource employed by poets, as Cora Coralina. This analysis will identify the metaphors present in the poet’s texts and evince a critical view of man and social relations without losing focus on the magic of poetry. Since the theme of the metaphor can open up to a very wide field of study, this study wil be limited to the Portuguese language.
Keywords: reading, research, analysis, language.
Minicrrículo da autora: Graduada em Letras pela FECLITA, pós-graduada em Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira. Professora da Rede Pública Municipal de Itapuranga e da Faculdade Itapuranga – FAI. Mestranda do Programa de Mestrado em Letras – Literatura e Crítica Literária da Pontifica Universidade Católica de Goiás, Goiânia-GO.
A MÉTAFORA NO TEXTO POÉTICO: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE A TEORIA E UMA APLICAÇÃO
EM POESIA DE CORA CORALINA
KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS
Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
Este artigo propõe-se à realização de um breve estudo da metáfora, evidenciando a utilização desta figura na poética de Cora Coralina1. Será evidenciado a metáfora como um elemento não apenas com a função de emocionar mas também de propor ao leitor um novo e diferente modo de interpretação, bem como explorar preconceitos e as questões sociais pungentes.
Ao submeter palavras do cotidiano a um arranjo poético, os poemas passam a ter duplo sentido e deixa para o leitor a tarefa de compreender as relações estabelecidas entre suas palavras e suas intenções em todas as possibilidades, descobrindo assim, o real significado das mesmas. Esta reflexão se faz necessária, pois do contrário, as palavras agrupadas simplesmente não teriam a autenticidade de um texto poético.
É por meio das leituras que perceberemos como a figura de linguagem, metáfora, é bastante importante tanto para o leitor quanto para o escritor. Figura esta que expressa uma certa maneira de instigação e até mesmo um recurso maior de valorização do contexto proposto. A mencionada figura é muito utilizada, até mesmo quando não percebemos falamos por metáfora e com os poetas não é diferente.
As citações utilizadas colocarão o leitor a pensar, refletir e dessa forma as reflexões evidenciarão que o uso da metáfora é uma busca de conhecimentos e descobertas do cotidiano, valorizando o significado e o significante de cada conceito.
A atenção será voltado para uma investigação poética que será tratada nos poemas da autora goiana, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas – Cora Coralina. A escritora, como todos os poetas usam desse recurso para retratar a realidade vivenciada ou não por eles.
A metáfora, palavra grega (meta = mudança + força = transporte), que significa translação, mudança e consiste em atribuir a uma pessoa ou coisa uma qualidade que não lhe cabe logicamente. Essa transferência de significado de um termo para outro baseia-se na semelhança de características que o emissor da mensagem encontra entre os dois termos comparados. Portanto, é uma comparação de ordem subjetiva.
A comparação é uma espécie de metáfora que estabelece que estabelece uma associação mais limitada de sentidos. É indispensável observarmos que se usarmos os elementos de comparação, não termos metáfora e sim a própria comparação. Isso significa que para entender a metáfora e preciso perceber a comparação subentendia.
Se pretendemos compreender a metáfora além da comparação e da semelhança ou da supressão de partículas de comparação é necessário remetê-las ao que diz Lopes (1987, p.33) “a metáfora emerge em dado foco, mas afeta o sentido do quadro inteiro do seu enquadramento, sentido esse que ela desvia no rumo de uma outra isotropia, um outro plano de conteúdo contextual.”.
De acordo com Lopes o valor conotativo de uma palavra depende do contexto onde ela se encontra. Por exemplo: na palavra “fogueira” Seu rosto foi consumido pela fogueira das minhas recordações”, neste enunciado o significante fogueira exprime ardor, exaltação, entusiasmo. Enquanto que em “faça uma fogueira com o máximo cuidado”, o significante fogueira exprime lenha ou outro material combustível. Com isto temos a ideia de que na metáfora certas palavras adquirem novos significados.
É necessário compreender a palavra dentro do contexto, pois metáfora pertence exclusivamente à esfera do uso. Ela não tem significado especial, varia de acordo com o enunciado. Sendo assim, não podemos interpretar ao pé da letra a metáfora, isto, porque ela não existe em estado do dicionário. Esta figura de linguagem não é apenas um recurso de que se lança mão por falta de expressão adequada, mas também um meio de caracterização pitoresca.
Em síntese didática, pode-se definir a metáfora como figura de significação (tropo) que consiste em dizer que uma coisa (A) é outra (B), em virtude de qualquer semelhança percebida pelo espírito entre um traço característico de A e o atributo predominante, atributo por excelência de B, feita a exclusão de outras secundárias por não serem convenientes à caracterização do termo próprio A.
A experiência e o espirito de observação nos ensinam que os objetos, seres, coisas presentes na natureza, fonte primacial das nossas impressões impõe-se aos sentidos por certos traços distintivos. Pela intersecção Lopes, esclarece:
As somas intersectoras (sic) constituem o fundamento da metáfora; pelo fato de serem possuídos por A e B, eles funcionam como conectores de isotopia, abrindo para vários planos de conteúdo do discurso, cada um dos quais é suscetível de se transformar a qualquer instante, na leitura num texto autônomo (1987, p. 29).
De acordo com o ponto de vista de Lopes recorremos à intersecção para compreendermos melhor como se figura o processo metafórico no plano real, quer dizer, elemento A, a ideia nova a ser expressa ou definida. O segundo, o plano imaginário ou poético, o elemento B, aquela em que a imaginação do emissor percebeu alguma relação ou semelhança com o elemento A.
O ponto de interseção entre os dois elementos justifica a metáfora, pois é neste que situa a possibilidade de aproximar diretamente os termos envolvidos na comparação. Temos uma metáfora onde o comparado A e o comparante B, pertencem a dois paradigmas diferentes /humano/ e /planta/, incompatíveis na mesma construção. Porém, assim construídos passam de algum modo a compartilharem os paradigmas.
Os textos metafóricos colocam o leitor a sonhar e a interpretar tais textos. Para isto se faz necessário usar a imaginação e esquecer as inúmeras regras gramaticais que para a metáfora não tem valia. Sabemos que para uma leitura se realizar é necessário que haja interpretação entre o texto e o leitor, assim como para compreender uma metáfora além de leitura, requer comparação de semelhanças e similaridades, para não se distanciar por demais do termo ou do sentido pretendido.
Uma metáfora nos faz notar certa semelhança, frequentemente uma semelhança nova ou surpreendente, entre duas ou mais coisas. Essa observação trivial e verdadeira leva, ou parece levar, a uma conclusão concernente ao significado das metáforas. Assim, podemos considerar a semelhança ou similaridade comuns: duas rosas são similares por partilharem da propriedade de ser uma rosa, duas crianças são similares em virtude de sua infância, ou mais simplesmente por serem cada uma delas criança.
A metáfora depende de significados novos ou estendidos, ela certamente, depende de algum modo, dos significados originais; uma explicação adequada da metáfora deve admitir que as significadas primárias e originais das palavras permaneçam ativas em cenário metafórico.
Talvez, então, possamos explicar a metáfora como um tipo de ambiguidade. No contexto da metáfora, certas palavras têm um significado novo ou um significado original, e a força da metáfora depende da nossa incerteza ao vacilarmos entre dois significados. A ambiguidade da palavra, se é que existe, é devido ao fato de ela significar uma coisa no contexto metafórico, não os hesitemos, necessariamente, quanto ao seu significado. Quando hesitamos de fato, é usualmente, para decidir sobre qual dentre o número de interpretações metafóricas aceitaremos; raramente temos dúvida de que se trata de uma metáfora.
Segundo Karsten Harries (apud SACKS, 1992, P. 89), apesar da analogia entre a poesia e a metafísica, não devemos ignorar a maneira bem diferente em que os textos poéticos, por um lado, e os textos filosóficos, por outro, exigem ser lidos. A partir daí, percebemos que apesar de ambos serem textos, devem ser analisados de formas diferentes, tais como, as metáforas parabólicas e metáforas poéticas, as quais são interpretadas de forma diversificada.
Para que compreendamos o estudo metafórico e poético é importante nos prepararmos, estarmos disponíveis e abertos ao entendimento das obras metafóricas. Percebe-se que os poetas metaforizam a obra, colocando-nos a questioná-la, mesmo sabendo que a linguagem enfatizada pelo escritor nunca será igual à usada pelo leitor. A metáfora pode ser universalizada por ter o domínio maior da palavra, embora a escrita seja capaz de exprimir ideias metafóricas com grande clareza. O estudo teológico é bastante amplo e notável nas escrituras do Novo Testamento, onde Jesus em seus ensinamentos usava o poder das parábolas para convencer os povos daquela época a se transformarem espiritualmente e moralmente. Como por exemplo a parábola do ovelha perdida (Lc15.3-7) onde Jesus com o uso da metáfora “ovelha” ressalta o mistério do amor do pai que se alegra em acolher o pecador arrependido ao lado do justo que persevera.
Na verdade a metáfora é utilizada há bastante tempo e é um meio de melhor esclarecer os estudos propostos. Para entender a metáfora no sentido geral, na linguagem deve-se antes entender a conceituação verbal do tema.
Segundo Don R. Swanson (apud SACKS, 1992, p. 164), uma metáfora é um convite obrigatório à descoberta. O que deve ser descoberto são as inúmeras alusões ou atributos em comum entre a metáfora e a verdade subjacente à qual ele remete. O autor deixa explícito que, para haver a descoberta, é necessário que o leitor tenha entendimento, satisfação e prazer pelo que está lendo; assim descobrirá sozinho os erros, criando sua própria versão da verdade metafórica.
Sobre verdade e mentira, no sentido intramoral (sic), Nietzsche afirma:
Nunca ele (intelecto) é mais exuberante, mais rico, mais orgulhoso, mais hábil e mais tinerário (sic): com prazer criador ele entrecruza as metáforas e desloca as pedras limites das abstrações, de tal modo que, por exemplo, designa o rio como o caminho em movimento que transporta o homem para onde ele, do contrário, teria de ir a pé (1987, p. 37).
Com este pensamento percebemos a mesquinhez da existência humana, a qual diferencia de todos os outros seres, o intelecto proporcionando o pensamento, que às vezes demonstra ser maior que os outros seres, neste momento ele cai no engano e não percebe ser um grande miserável, querendo ser superior nas suas defesas de verdade e mentira. O autor questiona sobre a verdade e não podemos dizer ao certo de onde ela provém, pois a sociedade estabelece uma obrigação para que exista, sendo ele o de proferir sempre a verdade, ou seja, de usar as metáforas usuais, isto é, mentir segundo uma convenção sólida tornando assim um estilo obrigatório para todos. Com essa mentira às vezes inconsciente pode-se chegar ao sentimento da verdade. Portanto, a metáfora é a possibilidade de reelaboração do real a partir do real e a partir da linguagem.
Nietzsche vê a metáfora como estrutura cognitiva, pois as diferentes línguas expressam como cada povo reconta sua realidade. O significado é um tijolo no prédio do conceito, ao evoluir no processo de formação de conceitos o homem aprende a generalizar e a degeneralizar. A insatisfação com a realidade estimula a sua reorganização, o homem recusa o senso comum ao produzir metáforas, ao fazer poesia. Nietzsche usa de metáforas para falar sobre metáforas, humanidade, vaidade, seu trabalho é poético.
Voltando a atenção para o uso da metáfora nos poemas, teremos que reforçar que deve ser levado em consideração o foco, o enquadramento e o contexto em que se dá a construção do poema:
(…) quando o poeta cria a metáfora original o que ele inventa são os termos, não a relação: encarna uma forma antiga numa substancia nova. (…), a figura de invenção não é original na forma, mas apenas nos termos novos em que o gênio do poeta soube encarná-la (COHEN, 1996, p. 41).
Segundo Cohen, o estudo da metáfora vem de longa data e ocupa lugar de destaque na criação poética. É uma figura de linguagem que tende a encontrar os que se propõem a compreendê-la, especialmente quando se pretende descobrir a relação existente entre as metáforas poéticas e as metáforas de uso corrente, pois neste momento, percebe-se que a imaginação aliada à inteligência está acima do conhecimento real e da verdade crua.
Cora Coralina, em seu fazer poético, manteve uma capacidade crítica, acreditando em si, em sua causa e denotando sempre um sentimento por sua terra e sua gente, sem com isso deixar transcrever os limites do regionalismo. A poetisa deu novas formas de significados plurais a temas do cotidiano, usando tanto a metáfora que, isolada, fora do contexto e, por si só, não seria capaz de expressar os sentimentos da autoria em sua plenitude.
Por essa razão, entre nomes e obras pertencentes ao acervo da Literatura Goiana em particular, depara-se com a poesia de Cora Coralina, uma mulher que fez da própria história a matéria prima de seus poemas, exigindo por isso, uma análise profunda, se pretendemos que o nosso juízo alcance de modo suficiente a compreensão das visões ideológicas, registradas pela poesia em meio ao lírico emprego da metáfora.
Ao analisarmos o poema “Todas as Vidas”, percebe-se que a metáfora ocupa um lugar importante no fazer poético de Cora Coralina. A autora prova o quanto se comovia com cada uma das mulheres ali presentes e caracterizadas, deixando claro que também sua vivencia era feita com toda aquela sorte de experiências e dificuldades.
A poetisa inicia todas as estrofes do poema com o verso “Vive dentro de mim”. Em consulta ao minidicionário Aurélio (2001, p. 715), encontramos as seguintes definições do verbo viver: ter vida, estar com vida, existir, durar, gozar a vida, residir, coabitar, conviver, dentre outros.
Conforme Jean Cohen: “A linguagem é um simples intermediário codificado da própria experiência. De modo que a comunicação verbal supõe duas operações inversas: a codificação que vai das coisas às palavras; a decodificação que vai das palavras às coisas” (1965, p. 32).
De acordo com Cohen, o poema resgata a complexidade existencial da mulher brasileira para celebrar, através de um discurso aparentemente simples o viver de todas elas no sensível poema. A poetisa utilizou seus poemas metaforizando cada vida vivenciada por ela no lugar onde viveu. Todas as mulheres elencadas não “habitam” em Cora Coralina, entretanto, no poema todas elas coabitam seu ser, trazendo assim ao leitor toda uma realidade existente, essas mulheres ora é benzedeira, ora mulher da vida, todas fortes e até porque não, corajosas.
Bem linguaruda… o termo “linguaruda” é uma metáfora gasta, que por ser muito utilizada passou a fazer parte de nosso vocabulário. Independente de repertório de leitura que o leitor possua irá entende-la como faladeira.
Ao utilizar o termo “casca grossa”2, possibilita-nos uma leitura na qual a mulher é comparada a uma árvore, não para coisificá-la, mas para conceder-lhe a condição de um ser firme, plantada, enraizada em seus afazeres e em sua identidade. É uma metáfora pouco utilizada, mas também faz parte do vocabulário cotidiano. Seu significado varia de acordo com o enunciado, portanto, o leitor precisa decodificar a mensagem codificada.
Segundo Lopes:
“A metaforização tem, como todo fato de estilo uma origem paradigmática, mas essa origem tem uma manifestação sintagmática –ela se manifesta num espaço de localização e enquadramento de dimensões muito variadas, mas sempre no eixo sintagmático da fala” (1987, p. 32).
De acordo com esse pensamento, averiguamos que se descontextualizarmos uma palavra metafórica, ela deixa de ser metáfora e passa a ser uma palavra de grau zero, igualando-se com os demais vocábulos do dicionário da Língua Portuguesa.
Para Cohen (1992), a poesia é a realização de todas as combinações possíveis da linguagem. Cora faz todas as combinações quando fala da mulher lavadeira do Rio Vermelho, no verso em que evoca “sua coroa verde São Caetano”3, ao assim proceder entendemos que a poetisa possa não estar apenas se referindo ao sofrimento, neste caso segundo a Bíblia, o sofrimento de Cristo, mas também a sua redenção, até porque podemos dar outra acepção à palavra “coroa” como áurea de luz. Todas essas combinações são utilizadas para definir a mulher lavadeira. Nesse sentido, compreendemos que a poetisa coloca-a num outro plano, ou seja, a lavadeira lembra Cristo, lembra sofrimento, mas também sua vitória diante das situações vividas.
São Caetano é uma planta que segundo a sabedoria popular é utilizada como alvejante de roupas, utilizava-se a planta que era esfregada juntamente com o sabão sobre a roupa, tendo ela o mesmo efeito dos alvejantes fabricados nos dias atuais.
Ao falar da mulher lavadeira, pensamos na função social da obra de Cora Coralina, posto que ao falar de todas essas vidas dentro dela, fala de pessoas reais, de mulheres que eram de certa forma escravizadas e ao mesmo tempo ignoradas.
Ao caminhar pelo poema, deparamo-nos com a mulher cozinheira, pois na expressão “cacheada”, a poetisa utiliza a personificação, pois os versos passa-nos a impressão de que a cozinha fosse gente, pois cacheada lembra cabelo de pessoas. Já no verso “pisando alho-sal”, recorremo-nos ao dicionário, a significação de pisar, e encontramos: por o pé sobre, calçar, magoar, andar sobre, atravessar. Pela nossa experiência culinária, sabemos que alho e sal não se pisam, logo entendemos que no verso, esta expressão quer nos remeter a macerar, esmagar. Com a “pedra pontuda”, a mulher cozinheira esmaga o alho e sal como se quisesse esmagar o sofrimento, as dores e o preconceito.
Ao dizer que dentro dela vive a mulher do povo, vê-se a dimensão do compromisso da poetisa com as coisas que passam pela vida sem que a elas sejam dadas a devida importância.
Essa mistura de esferas é verificada no decorrer de toda a poesia, à media que Cora Coralina vai descrevendo e caracterizando a cabocla velha, a lavadeira do Rio Vermelho, a mulher cozinheira, a mulher do povo, a mulher roceira e a mulher da vida, vai demonstrando uma ponta de angustia e sofrimento misturada ao desejo de transformar esta realidade. E no momento em que a poetisa consegue trabalhar as situações corriqueiras e o vocabulário simples de sua gente, dando outras perspectivas a estes aspectos, esta transformação acontece, pois agora representam a poesia e a arte.
O recurso encontrado pela poetisa, assim como pelos poetas em geral, para deixar vazar seus sentimentos, é a quebra de linguagem óbvia e o uso da metáfora. As vidas são tão bem desenhadas no poema que se estendem também às vidas escondidas, às sonhadas, a todas as vidas reprimidas, enfim, impedidas de serem vividas. E assim, a autora transforma todo esse inventário em poesia, usando um jogo de palavras que se materializam na medida em que são compreendidas pelo leitor.
A poetisa parece revelar-nos o seu repúdio contra as pressões ideológicas com as quais convivia. Estas descrições denunciam o retrato do tempo em que viveu na cidade de Goiás. Numa espécie de ladainha, a poetisa traça o perfil daquelas mulheres que ficaram marcadas de algum modo em sua memória. Isto mostra a forte ligação da poetisa e sua gente, afinal é de si e de sua origem que está falando.
A crítica social pulsa no poema, a discriminação social principalmente da mulher. Admitir essa sociedade é legitimar o reino das injustiças e violências, onde as diferenças sócias e econômicas procuram nivelar a maioria pelo padrão de valores de uma minoria. Houve ainda no poema, uma mistura de saudade e presente, demonstra que tudo o que a autora viveu e vivenciou continua a fazer parte de sua vida e de sua personalidade.
O processo metafórico da obra é rico. A estrutura frasal anuncia matizes coloridas de imagens, que atesta relevante flexibilidade semântica, que autoriza o vocábulo a refletir valores inesperados. E isso, sem dúvida, implica processo criativo, na elasticidade de sentido que ele dá às palavras dentro de clara valorização estética.
A leitura e a análise nos permitem evidenciar o uso da metáfora na construção poética dos poema, assim como as pesquisas realizadas mostram que a metáfora se revela como figura de linguagem integrante do universo dos poetas, capaz de tornar ponte entre a realidade e o sonho. Cainhando pela poesia, vemos o real significado da metáfora, principalmente porque pela primeira leitura muitas vezes nos perdemos quanto ao verdadeiro sentido apresentado pelos escritores, sendo assim, percebemos a necessidade de descobrir, interpretar e imaginar, conforme as ideias propostas pelos poetas.
Diante disso, buscamos uma visão crítica do mundo e do homem, contextualizando seus poemas à época em que foram escritos e comparando-os com o presente, pode-se afirmar que a arte transcende o tempo, através da consciência do fazer poético. A inovação coloca o leitor diante de um desafio em codificar a própria língua, sendo assim, notamos que a metáfora se faz presente em vários momentos da vida, não só do leitor como também do escritor. Em tese, a metáfora é um recurso não só usado para que haja mais eficácia na comunicação mas também para expressão mais artística.
Referências
COHEN, Jean. Estrutura da linguagem poética. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.
CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 14ª ed. São Paulo: Global, 1977.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O minidicionário da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2001.
LOPES, Edward. Metáfora: da Retórica à Semiótica. 2ª ed. São Paulo: Atual, 1987.
NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. 4ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
SACKES, Sheldon. Da metáfora. São Paulo: EDUC/Pontes, 1992.
Notas
1 Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu em 20 de agosto de 1889 na Cidade de Goiás (GO). Começou a escrever muito jovem, porém só publicou o seu primeiro livro – Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais – aos 76 anos de idade. Considerada uma das principais escritoras brasileiras, Cora Coralina foi uma mulher simples, doceira de profissão, mãe de 6 filhos. Vivendo longe dos grandes centros urbanos produziu uma obra rica em motivos do cotidiano brasileiro, mais precisamente dos becos e ruas da Cidade de Goiás.
2 Vive dentro de mim/a mulher do povo. / Bem proletária/.Bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos,/de casca-grossa,/de chinelinha,/ e filharada.
3 Vive dentro de mim/ a lavadeira do Rio Vermelho, /seu cheiro gostoso/ d’água e sabão. / Rodilhada de pano. /
Trouxa de roupa, /pedra de anil. /Sua coroa verde de São-Caetano.
Bio fornecida pelo palestrante.
Mônica Peralli Broti
Mestranda – Universidade Presbiteriana Mackenzie
Paulo Roberto Monteiro de Araújo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Resumo: O artigo investiga o encontro entre a mulher brasileira e o discurso tradicionalista da religião Islã no sentido de como tal aproximação abre à mulher novos significados culturais e existenciais. Partiu-se, da revisão das principais questões de gênero observadas em campo com entrevistas e, consequentemente de suas relações com o contexto da cultura ocidental moderna. Além disto, analisou-se como as considerações dessas mulheres foram interpretadas a luz de autores como Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco que se dedicaram a descrever as esferas política e social da modernidade.
Palavras-chave: Tradição, Islã, gênero, modernidade.
Summary: The article investigates the meeting between Brazilian women and the traditionalist speech of Islã, in a way that such approach opens new cultural and existential meanings to these women. It departs from the revision of the most basic questions of gender observed in the field throughout interviews, and consequently from the relations with the context of modern Western culture. Besides, it analyzes how these women were interpreted by some authors, such as Hannah Arendt and Elisabeth Roudinesco, who dedicated themselves to describe social and political spheres of modern times.
Keywords – Tradition, Islam, gender, modernity.
Mônica Peralli Broti – Mestranda no Programa de Pós-Graduação Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é professora no Colégio São Judas Tadeu. Atua principalmente nas seguintes áreas: História do Brasil e Geral, Cultura Brasileira e Multiculturalismo.
Paulo Roberto Monteiro de Araújo – Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Senso em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua principalmente nas seguintes áreas: Cultura Contemporânea, Arte, Ética e Filosofia Política.
ISLÃ: CAMINHOS E DESENCONTROS
Mônica Peralli Broti
Paulo Roberto Monteiro de Araújo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Oh! O amanhã é sempre o grande momento / De que amanhã se trata?”[1]
Os estudos sistemáticos sobre as desigualdades de gênero[2], colocados no campo da teoria política feminista trouxeram uma situação inédita: mulheres brasileiras que cresceram em meio a costumes ocidentais, manifestam o desejo à conversão ao Islã, e reivindicam o direito ao parentesco como vida privada e à procriação assistida[3]. No Brasil, país marcado por diferenças sociais profundas, onde é patente a luta pela incorporação das mulheres à ordem existente, a partir dos anos 1980 a pluralidade de abordagens sobre as questões femininas – a luta pelo voto, acesso à educação, assim como a exigência de direitos iguais no casamento e do direito ao divórcio, do direito das mulheres à integridade física e a controlar sua capacidade reprodutiva – definiram discussões teóricas no ambiente acadêmico e também na prática política. Apesar da exigência da cidadania igual para os dois sexos, o que aconteceu nos últimos anos para que a mulher considerada inferior tenha desejado não apenas ser reconhecida como cidadã integral, mas encarna o empoderamento da identidade e religiosidade da “nascida muçulmana”? Por que esse desejo de resgate de outra cultura que não a sua?
Para abordar tais depoimentos requer uma rigorosa reflexão sobre o mundo moderno. Ao mesmo tempo, outra atenção deve ser direcionada ao significado desse momento histórico e as implicações sobre a condição humana. No que concerne particularmente a esse contexto político e social, a importância de alguns acontecimentos valemo-nos de duas intelectuais que contribuíram enormemente, cada qual a seu modo, para o debate. Trata-se de Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco.
A Condição Humana (2015) de Hannah Arendt, permanence fundamental para “pensar o que estamos fazendo” (ARENDT, 2015, p.25). E o resultado desta análise, o de reconsiderar a condição humana do ponto de vista das mais novas experiências, que faz do texto um parâmetro para a tarefa de compreensão dos motivos e intenções das mulheres brasileiras ao se reverterem[4] às comunidades muçulmanas firmementes arraigadas na tradição.
Muitas das críticas dirigidas ao contexto histórico atual como a perda da autoridade do pai, a precariedade da economia moderna e a própria família desconstruída, partem de Elisabeth Roudinesco. Historiadora da psicanálise, comprometida em efetuar uma leitura da relação entre a sociedade ocidental moderna e o manifesto de homens e mulheres pelo direito aos valores tradicionais sobretudo do modelo familiar conservador. Em sua obra A Família em Desordem (2003) Roudinesco resgatou a história da família e suas mutações estabelecidas pelas inovações tecno-científicas e pela própria economia moderna. Para ela, a família era então contestada, rejeitada, declarada funesta ao desabrochar do desejo e da Liberdade sexual (ROUDINESCO, 2003, p.8). Contraditoriamente em nossa era contemporânea, marcada pelo veloz desenvolvimento tecnológico tais declarações parecem obsoletas, e hostis à “moral civilizada”[5] em busca de regra e de um “familiarismo redescoberto”[6].
Feita essa breve apresentação sobre a questão do retorno a modelos tradicionais de comportamento, partamos às ideias centrais de Arendt sobre o homem e à história deste bem como às críticas de Elisabeth Roudinesco a questão do comportamento, para a reflexão sobre as considerações e experiências de mulheres revertidas ao contexto islâmico.
Islã e a Modernidade
Há diversas temáticas relacionadas ao status da mulher entre as comunidades islâmicas que permeiam de forma significativa o imaginário social como a imagem, a discriminação de gênero e corpo, religiosidade e o uso da vestimenta. Para uma maior reflexão a respeito do feminino no Islã, compreender as motivações que levam mulheres brasileiras à conversão e à prática religiosa merece atenção aprofundar e analisar mais esse contexto histórico pós-moderno.
O emprego do termo Islã reporta-se a uma civilização que cresceu e floresceu sob a égide da religião islâmica. Para os seguidores da religião, o termo Islã compreende a submissão e devoção à vontade de Allah (Deus único) e também a paz (Salam) que se efetiva através da aceitação por parte do fiel das verdadeiras palavras e dos mais belos nomes deixados pelo criador.
O Islãismo surgiu no ano 622 da era crista na etnia árabe – núcleo e agente diffusor do Islã – e foi a última das grandes tradições monoteístas a se consolidar na civilização humana, tendo seu início marcado pelos ensinamentos do Profeta Muhammad[7].
Segundo a crença islâmica Muhammad, reconheceu-se Profeta e Mensageiro depois de uma intensa experiência de meditação em seus retiros anuais, no silêncio do deserto. “Em pouco tempo adquiriu o título de As sadiqul Amin que quer dizer o sincero e fidedigno” (MAZLOUM, 2014:29). Muhammad recebeu a Revelação Divina no ano de 610 d.C. na língua árabe, através do Arcanjo Gabriel. O conjunto das Revelações foi denominada Alcorão (Qu’ran – a Recitação). Esse texto considerado sagrado pelos fiéis é composto de 144 capítulos (suras), foi revelado lentamente, linha por linha e versículo por versículo, num período de 23 anos, “[…] tornou-se um estatuto de vida através do qual se realiza a justiça social, a paz, a harmonia e o bem-estar para toda a humanidade. Disse Allah (o Altíssimo): E não te enviamos senão como misericórdia para todas as criaturas”[8].
As orientações de Muhammad, conhecido como Hadith, é igualmente seguida pelos fiéis. Através dele é transmitido a Sunnah[9] ou a “Tradição” de como o Profeta conduzia seus valores morais. O Islã, como “religião divinamente revelada” (al-Sheda, 2014, p.13), defende cinco bases de devoção para orientar os seguidores muçulmanos em suas relações com Deus. São as chamadas de Cinco Pilares do Islãismo: o primeiro consiste na profissão islâmica da fé, a Shahada – “Ninguém tem direito de ser adorado além de Allah, e que Muhammad é seu servo e Mensageiro”[10]; o segundo pilar recomenda a prática da oração – Sallah – que consiste num conjunto de citações repetidas cinco vezes ao dia; o terceiro pilar é denominado Zakaah, é uma certa porcentagem de dinheiro que o muçulmano rico dá ao pobre necessitado; o quarto pilar trata da participação no jejum – sawn – que acontece no mês do Ramadan, o mês que marca o início da Revelação. O Hajj, peregrinação feita pelo muçulmano até a Casa Sagrada de Allah (a Ka’bah), é o quinto pilar da religião. Este pilar do Islã é obrigatório a todo file, homem ou mulher, uma vez na vida, se eles tiverem condições físicas, financeiras e alcançado a puberdade.
Retorno à tradição
Nesse contexto cultural de regras e preceitos frente às exigências das esferas política e social do mundo pós-moderno, mulheres brasileiras assumem suas perspectivas no processo de inserção nas comunidades islâmicas. O Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE – aponta entre 2000 e 2010 um crescimento de 29% dos praticantes da religião no país. Em números cerca de 30 mil brasileiros convertidos, mas a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – FAMBRAS – estima que o número tenha saltado de 600 mil em 2010 para entre 800 mil e 1,2 milhão de fiéis em 2015, esses números distribuídos pelo país, o Estado de São Paulo possui a maior concentração 24% dos muçulmanos contra a segunda maior comunidade de 16% em Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná.
Durante a pesquisa do artigo realizada na Mesquita do Pari – Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil – situada entre esse bairro e o do Brás, mulheres declaradas muçulmanas dispuseram-se a participar de uma entrevista individual, semi-dirigida e de questões abertas, cujo material foi posteriormente analisado com método qualitativo (CRESUSWELL, 2000). As participantes consentiram para a realização da pesquisa e divulgação do estudo. Seus nomes foram substituídos por outros fictícios, de modo a preservar o anonimato e sua identidade.
Quando lhes foi perguntado sobre o sentido da religião muçulmana, tradição familiar, valor da mulher e ainda sobre o matrimônio e o uso do véu – hijab, as respostas foram muito próximas em sentido do desejo pelos valores tradicionais de família, escola, nação e – sobretudo – às críticas ao mundo moderno:
Maria, 52 anos, viúva, pedagoga:
“Há três anos conheci o Islã através de uma amiga e comecei a frequentar a Mesquita, estudar ao Alcorão e esclarecer as minhas dúvidas com o Cheikh Rodrigo Rodrigues. Eu era evangélica e sentia que faltava algo. Depois da minha conversão sou muito feliz, passei a entender que a minha vida aqui na Terra é apenas passageira, preparo-me todos os dias para a eternidade e não penso mais na vaidade feminina, só com o uso do hijab sinto-me uma mulher de verdade”.
Para o Cheikh Rodrigo Rodrigues[11], brasileiro e natural da cidade de Porto Alegre, responsável pelos assuntos religiosos da Mesquita do Pari, reconhece que nos últimos anos houve um aumento significativo do número de mulheres que se reverteram ao Islã:
“A desorganização familiar do contexto social atual, as integrações globais através dos meios eletrônicos – mídia e Internet – facilitam o acesso ao relacionamento entre homens, mulheres e jovens brasileiros com países muçulmanos. Outro fato que atrai, foi a exibição, pela Rede Globo, da novela ‘O Clone’, em 2001, criou-se o estereótipo do ‘árabe rico’, do ‘árabe gentil e sedutor’, influenciando sobre o imaginário feminino. Muitas mulheres quando procuram a Mesquita vem em busca de uma família e tentam resolver suas carências de afeto. Muitas se relacionam com homens que usam do estereótipo criado por elas e vem ao Brasil em busca apenas de um visto. A crise econômica tornou países como Egito, Marrocos, Tunísia, Paquistão, Índia, Iraque e Turquia áreas de risco para mulheres que procuram relacionamentos com estrangeiros ditos ‘árabes’. É comum ouvir dessas mulheres: ‘Eu me reverti’; ‘A cada oração me faz melhor’”.
A partir dos relatos das brasileiras convertidas ao Islã é possível perceber a fidelidade à religião nas suas atitudes e condutas do seu cotidiano; fazem do uso do véu uma rotina e os valores da tradição familiar apresentaram-se prioritariamente. Notadamente em todos os depoimentos havia uma postura por parte das mulheres entrevistadas de inquietação, desconforto e distanciamento com os padrões culturais e de comportamento da sociedade pós moderna.
Em um livro publicado em 2004,[12] Elisabeth Roudinesco dialoga com a sede de uma ou várias das grandes interrogações que perpassam nossa época – as transformações na família ocidental, a fragilidade do Estado enquanto instituição, os sistemas de pensamento hegemônicos ou dominantes, a organização dos espaços e o controle da ordem e mostra a crescente insegurança e incerteza que ocupam lugares cada vez mais centrais nos modos de vida contemporâneos, quando o homem passou a ser sujeito de seu destino, de suas escolhas e conflitos.
Espaço público e a construção da identidade
Nessa perspectiva, as transformações da organização da vida atual, desempenharam o papel revelador de uma crise identitária particularmente aguda das sociedades ocidentais da era moderna, em suas relações de trabalho, familiar, cultura e espaço público. A modernidade se caracteriza, contudo, em desconstruir a solidez do Estado e o desmantelamento da ordem tradicional das outras instituições, implicando um permanente recomeço significativo existencial, social e histórico dos seres humanos.
O que se perdeu na era moderna não foi, naturalmente, a capacidade para a verdade ou a realidade ou a fé, nem a concomitante aceitação inevitável do testemunho dos sentidos e da razão, mas a certeza que antes as acompanhava” (ARENDT, 2015, p. 344).
A “desconstrução da família” e a revalorização da sua função paterna foi evocada de forma unânime nos discursos das brasileiras muçulmanas. As transformações da família conjugal dita “nuclear” nesse mundo em mutação foram severamente criticadas e o “desejo de normatividade” (ROUDINESCO, 2003, p. 11), repousa na tentativa em organizar a desordem do mundo.
Quanto à família pode-se distinguir três grandes períodos de uma história de evolução. Numa primeira fase, a família na Europa da Idade Média, serve acima de tudo para assegurar a transmissão de um patrimônio. Os casamentos arranjados entre os pais sem que a vida sexual e afetiva dos futuros esposos, seja levada em conta. Numa segunda fase, a família “moderna” cujo modelo se impõe entre o final do século XVIII e meados do XX. Passa a ser fundada no amor romântico, passa a existir a reciprocidade dos sentimentos e desejos carnais por intermédio do casamento. E a partir dos anos 1960, impõe-se na família “contemporânea” – ou “pós-moderna -, dois indivíduos em busca de relações íntimas ou realização sexual.
Nessa perspectiva Arendt sublinha a distinção usada na Antiguidade Clássica e ainda na Idade Média entre as esferas privada e pública. O traço distintivo da esfera do lar, do privado (oikos) era que o fato de que nela, os homens viviam juntos para desempenharem as atividades relativas a suas necessidades e carências à manutenção da vida. Baseavam-se nas relações de parentesco como a phatria (irmandade) e a phyle (amizade). A tarefa do homem era considerada como evidente, para fornecer o sustento e o trabalho da mulher era sujeito à procriação e o cuidado e a manutenção da ordem doméstica. O público (pólis), ao contrário, era a zona do discurso, do uso da palavra e da persuasão, do aparecimento e da visibilidade e, por conseguinte da política: um espaço reconhecido de opinião e ação.
A tentativa do homem pela compreensão desses espaços público e privado no mundo moderno, recai sobre a sacralidade da vida. A razão para a existência humana é encontrada pelas mulheres muçulmanas nos ditos e ensinamentos de Muhammad fundamentais para a conduta das suas ações e o credo, na imortalidade da vida individual contribui para liberar as inquietações naturais originadas pela desordem e insegurança da era contemporânea.
Finalmente, a realidade de uma economia de mercado cada vez mais devastadora de um Estado que tem se mostrado distante na garantia das condições necessárias para a segurança da dignidade humana. Família e religião aparecem como as únicas instâncias capazes de darem bases humanas para que os sujeitos possam fazer frente as mazelas provenientes da desordem social. As mulheres brasileiras muçulmanas encontraram na fé, na tradição[13] um estado de alma livre de tensão e desprazer, a maneira transcendental de ver a vida, o mundo e os objetos e a construção da ideia de paraíso e eternidade tornaram-se para elas a forma simbólica de extrair o máximo da felicidade num curto tempo de prazer imposto pela modernidade tardia ou pós modernidade.
Talvez o esforço dessas mulheres na convivência com o mundo pós-moderno esteja apontando para nós a construção de novos caminhos, da perspectiva de diálogos com à impostura contemporânea de normas e sistemas, ou simplesmente busquem responder à pergunta – sempre atual – feita pelo escritor francês Victor Hugo há quase dois séculos: “De que amanhã se trata?”
NOTAS
[1] “Spectre toujours masqué qui nous suit côte à côte. / Et qu’on nome demain! / Oh! Demain, cést la grande chose! / De quoi demain sera-t-il fait?”, Victor Hugo, “Napoléon II”, Les chants du crépúscule (1835), Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t.1, 1964, p. 838 e 811. [Trad. livre: “Espectro sempre mascarado que nos segue lado a lado. / E que se chama amanhã! / Oh! Amanhã é o grande momento! / De que amanhã se trata?”] (ROUDINESCO, 2004, p. 7).
[2] Derivado do latim genus, o termo “gênero” é utilizado habitualmente para designar uma categoria qualquer – classe, grupo ou família – apresentando os mesmos sinais de pertencimento. Em numerosos trabalhos contemporâneos, designa-se por “sexo” o que deriva do corpo sexuado (masculino ou feminino) e por “gênero” o que reporta à significação sexual do corpo na sociedade (masculinidade ou feminilidade) Cf. Joan Scott, “Gente: une catégorie utile d’analyse historique”, Les Cahiers du GRIF, 37-8, primavera 1988, p. 125-53 (ROUDINESCO, 2003, p.115).
[3] A ideia de que a família é o âmbito primário das relações e, como tal, constitui as práticas relativas à maternidade, ao direito da criança à proteção convencional da esfera doméstica.
[4] Por natureza, no Islã os seres humanos nasceram todos muçulmanos e durante a Chaháda (Testemunho), dizendo: Testemunho que não há outra divindade além de Allah e Muhammad é o Mensageiro de Allah, ao fazer o reconhecimento o homem está voltando a sua origem como muçulmano.
[5] Ibid, p. 9.
[6] Ibid, 9.
[7] Muhammad é traduzido para o português como Maomé (MAZLOUM, 2014, p. 3).
[8] Ibid, p. 29.
[9] Sunnah, ensinamentos e estilo de vida do Profeta (MAZLOUM, 2014, p.111).
[10] Ibid, p.109.
[11] O objetivo do presente estudo foi compreender as motivações das mulheres brasileiras reverterem-se ao Islã, empregando o método qualitativo. Foram aplicadas entrevistas parcialmente dirigidas a doze mulheres e a dois Cheikhs da Mesquita Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil e Mesquita São Paulo.
[12] ROUDINESCO, Elisabeth. De quoi demain. Paris: Arthème Fayard e Galilée, 2001.
[13] Entende-se por “tradicionalista” aqueles que seguem os fundamentos da religião (FERREIRA, 2009, p. 123).
Referências:
AL-SHEHA, Abdurrahman. A mensagem do Islã. Tradução: Nibevah Barreiros. São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, Alsofara, 2014.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução: Roberto Raposo, posfácio de Adriano Correia. 12 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015.
ARMSTRONG, Karen. O Islã. Tradução: Anna Olga de Barros Barreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BRANT, Isadora. 2015. No dia do muçulmano, mulheres explicam como é seguir o Islã no Brasil. São Paulo: Folha de S. Paulo. 12/05/2015.
FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES MUÇULMANAS DO BRASIL. Dados Estatísticos de 2010 a 2015. São Paulo: FAMBRAS.
FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa. 2009. Teatralização do Sagrado Islâmico: A Palavra, a Voz e o Gesto. In: Religião e sociedade, 29 (1): pp. 95-125. Rio de Janeiro.
MAZLOUM, Cheikh Ahmad Osman. O profeta do Islã Muhammad. Tradução: Cheikh Ahmad Osman Mazloum. São Paulo: Publicação da Academia de Investigação e Ciências Islâmicas, 2014.
NASR, Dr. Helmi. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Brasil: Society of the revival of Islãic Heritage, 2014.
ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã… Diálogo. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
NOTAS
[13] “Spectre toujours masqué qui nous suit côte à côte. / Et qu’on nome demain! / Oh! Demain, cést la grande chose! / De quoi demain sera-t-il fait?”, Victor Hugo, “Napoléon II”, Les chants du crépúscule (1835), Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t.1, 1964, p. 838 e 811. [Trad. livre: “Espectro sempre mascarado que nos segue lado a lado. / E que se chama amanhã! / Oh! Amanhã é o grande momento! / De que amanhã se trata?”] (ROUDINESCO, 2004, p. 7).
[13] Derivado do latim genus, o termo “gênero” é utilizado habitualmente para designar uma categoria qualquer – classe, grupo ou família – apresentando os mesmos sinais de pertencimento. Em numerosos trabalhos contemporâneos, designa-se por “sexo” o que deriva do corpo sexuado (masculino ou feminino) e por “gênero” o que reporta à significação sexual do corpo na sociedade (masculinidade ou feminilidade) Cf. Joan Scott, “Gente: une catégorie utile d’analyse historique”, Les Cahiers du GRIF, 37-8, primavera 1988, p. 125-53 (ROUDINESCO, 2003, p.115).
[13] A ideia de que a família é o âmbito primário das relações e, como tal, constitui as práticas relativas à maternidade, ao direito da criança à proteção convencional da esfera doméstica.
[13] Por natureza, no Islã os seres humanos nasceram todos muçulmanos e durante a Chaháda (Testemunho), dizendo: Testemunho que não há outra divindade além de Allah e Muhammad é o Mensageiro de Allah, ao fazer o reconhecimento o homem está voltando a sua origem como muçulmano.
[13] Ibid., p. 9.
[13] Ibid., 9.
[13] Muhammad é traduzido para o português como Maomé (MAZLOUM, 2014, p. 3).
[13] Ibid., p. 29.
[13] Sunnah, ensinamentos e estilo de vida do Profeta (MAZLOUM, 2014, p.111).
[13] Ibid., p.109.
[13] O objetivo do presente estudo foi compreender as motivações das mulheres brasileiras reverterem-se ao Islã, empregando o método qualitativo. Foram aplicadas entrevistas semi-dirigidas a doze mulheres e a dois Cheikhs da Mesquita Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil e Mesquita São Paulo.
[13] ROUDINESCO, Elisabeth. De quoi demain. Paris: Arthème Fayard e Galilée, 2001.
[13] Entende-se por “tradicionalista” aqueles que seguem os fundamentos da religião (FERREIRA, 2009, p. 123).
Bio fornecida pelo palestrante.
Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo
Resumo: Este ensaio considera personagens e enredo psicológicos como uma marca poética presente na obra de Katherine Mansfield. É uma característica que se desenvolve com o humor psicológico sobre o gênero conto. Seu trabalho dá ao leitor a mesma impressão de quando as pessoas veem a imagem de um quadro impressionista, por exemplo. Parece com um momento capturado. O conto escolhido foi A aula de canto (The Singing Lesson). O objetivo deste trabalho é interpreter o sentido da personagem principal, Miss Meadows. Isso significa que há muitas coisas que outras mulheres já fizeram antes dela. Este ensaio indica que é possível comparar Miss Meadows com a deusa grega Deméter por meio de símbolos e da complexidade de suas ações.
Palavras-chave: Katherine Mansfield, “A lição de canto”, conto, Demeter.
Abstract: This essay considers psychological characters and plot as a mark of poetic present at the work of Katherine Mansfield. It’s a feature that develops to the psychological mood on the genre short story. Her work gives the reader the same impression when people see an impressionist painting, for example. It looks as an imprisoned moment. The chosen short story was The Singing Lesson. The aim of this paper is to discover how the main character, Miss Meadows, may be understood. It means that behind her, there are many things that women have always done before. This essay indicates that is possible to make a comparison between Miss Meadows and the Greek goddess Demeter, through symbols and the complexity of her actions.
Key words: Katherine Mansfield, “The singing lesson”, short story, Demeter.
Minicurrículo: Luana M. A. Teixeira é mestranda em Estudos da Tradução pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. É secretária executiva na Universidade Federal do ABC desde 2009, com atuação na área de comunicação, ensino de inglês e português para estrangeiros e tradução. A autora se especializa em terapia floral.
THE SINGING LESSON, BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS
Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo
“Salomon said: There’s no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembrance, so Salomon gave his sentence that all novelty is but oblivion.”
Francis Bacon: Essays, LVIII
Introduction
We intend to show how the mood is created in the shot story “The Singing Lesson” by Katherine Mansfield and the importante of the character Miss Meadows into it, through an analysis of the symbols that appear along the text.
The characters are middle class people, who, because of their visceral mediocrity, could cause nothing but indifference. So after evoking in few lines a whirlwind of sensations, the author hurries in dismantling that effect, as if she wanted to apologize because of the impact she had caused. With this, however, she adds more vigor to the narrative, as if the strength of the text had been born just from its delicacy.
Plot
The plot is very simple. A despairing singing teacher, Miss Meadows, has to stard her class, but she has just received a letter from her bridegroom, Basil. This letter makes her thing their relationship was ended. So, the teacher changes what she had prepared for the classes and obliges the students to sing the saddest song of their books, while she plays the piano.
Soon a telegram from Basil is sent to Miss Meadows, asking her to apologize him. The teacher comes back to the class smiling and asks for the students sing another song, happy and sweet, without explanations, as if nothing had happend.
Starting the narration
The mood has to sustain the soul’s excitement for a certain time, so, the short story starts this way: “With despair – cold, sharp despair…”. It creates a tension atmosphere. Then there are words wich remind death, like this simile: “buried deep in her heart like a wicked knife”.
The setting starts with: “cold corridors that led to the music hall”. The corridors are like a labyrinth when she felt in a prison, confused, bitterly lonely and auloved. It is an autumn morning, nevertheless, it is as cold as winter.
A sound from the stair case announces that something is going to happen. It is when the conflict begins. A bell had just ringed, like a bad sing. It is a psychological plot. There are descriptions of the environment only when it is according to what is happening with the characters.
Miss Meadows versus The Science Mistress
A secondary character , the Science Mistress, is described through this imagery: “sweet, pale, like honey”. She has yellow hair. This color is disagreeing with what Miss Meadows feels, so this disturbs her.
There is no physical descriptions of Miss Meadows. We just know she wears “cap and gown” and handles “ little baton”. When she talks to the Science Mistress, “hugging the knife”, there is no real knife. It is a wedged letter on her throat, a metaphor about how she feels in her heart. There is an opposition between them. The Science Mistress has a “sugary smile”, while Miss Meadows is “frozen”, grim. The first one has blue eyes. That is the first complication that Miss Meadows will find in the blue color.
Starting the class
The students are making noise and get silent when Miss Meadows arrive. She brings apprehension with her. Mary Beazley, her favorite student, “was turning the music stool”. That turn symbolizes the turn fo the world, which stops. It’s as if Miss Meadows had power to rule nature and to change the things’ course. This is how her inner tempest will become an environmental tempest.
She beats the baton asking for silence. The baton is a sign of her power, like a magician’s stick or a magic wand. The girls wear a “sea of coloured flannel blouses” and they get silent, as if the colours had to be stagnated.
The singing teacher remembers the letter she had received from her bridegroom. He had written: “I’m not a marrying man”. She was feeling “bleeding to death, pierced to the heart”. The red colour represents as the love as the rage Miss Meadows feels when her pride is injured.
The bridegroom’s symbology
The bridegroom’s name is Basil, which may be associated with the mythological creature basilisk, that is an unbelievable kind of snake. “People have been surprised enough that she had get engaged. (…). She was thirty. Basil was twenty-five”. It had been a miracle that Basil appeared, like the basilisk, that is able to kill with its breath, stare or physical contact, like Basil could hurt just using words of a letter.
Basilisk is also an ancient cannon of a piece of artillery, that can cause damage. It represents hardness, insensibility. The same insensibility Bad used when he wrote the letter: “ and the word ‘disgust’ was scratched out lightly and ‘regret’ written over the top”.
Basil demonstrates he did not have greatness enough to understand love and to be selfless. Either he didn’t have mental structure to be engaged or he did not have enough maturity. He might have been confused, in addition, he was impulsive and selfish.
Last time Miss Meadow had seen Basil, he “had worn a rose with his buttonhole. How handsome he had looked in that bright blue suit, with that dark red rose”. That’s the contrast between blue and red, while she heard the melancholic voices of the contraltos, the deepest and lowest female voices.
The colour light red is an image of heath and wealth, beauty and youth, a free and triumphant Eros. Red is the everlasting place of the battle – or dialectics – between heaven and hell. A sumptuous red, more mature, becomes the emblem of power. When it is expressed, the color red becomes dangerous as an instinct of power. When it is not controlled, it leads to selfishness, hatred, blind passion, hellish love. In this colour the two deepest human impulses are linked: action and passion, liberation and oppression. Dark red is associated to death. It’s a sign of sadness, like dead soldiers in a war. The purple oceans of Greeks and the Red Sea are tied to the same symbolism: they represent the womb, where death and life transmute into one another.
According to Kandinsky, the deepness of blue has a solemn seriousness, above earth, that evokes the death idea. The Egyptian considered it the colour of the truth. Blue is the colour of the bliss bird, inaccessible though so close. Entering in blue is to do like Alice, from Wonderland, passing through the other side of the mirror. This colour symbolizes the exact pure and cold, as Basil, like Basil, because maybe he was innocent for having not perceived what he could cause with his actions. It seems a little inconsequent and childish.
Miss Meadows remembers when Basil said: “You know, somehow or other, I’ve got fond of you”. And he “had taken hold of the end of her ostrich feather boa”. In Egypt, the ostrich feather was a symbol of justice, equity, truth. Miss Meadows demonstrates she had believed in her bridegroom, so how could he had changed his mind so much?
The yellow chrysanthemum
The student Mary Beasley gives the teacher a “yellow chrysanthemum”. It was a ritual that was part of the class, like opening the piano. This time, Miss Meadows doesn’t thank for the gift. She just ignores it, with its regular and radiating petals arrangement, wich is a symbol essentially solar, associated with ideals of longevity and even of immortality, but Miss Meadows love is dead now.
From Japan to China and Vietnam, many homophonies give the chrysanthemun a hole of mediator between heaven and earth, associating it also to notions of plenitude, totality. This flower becomes a symbol of perfection, and so, joy for the eyes. Therefore, it’s and unpleasant sight to Miss Meadows, like the solar aspect of the Science Mistress.
In Europe and Asia the chrysanthemum was as autumn flower, the season of a peaceful life after carrying out the meadows obligations. This flower, among all others, is the one that hides and avoids the world. Miss Meadows bring meadows in her name. She is the chrysanthemum owner. Its aspect of mediator reminds one of the power of the teacher over the students.
Mood: The lament and the environment
When Miss Meadows doesn’t answer the girl’s greeting, Mary Beasley’s eyes get filled with tears. The teacher orders the girls to sing “a lament”. The sing with “mournful voices”. The teacher contaminates them with her state of spirit. The music is like a mantra, magic words of a goddess and their inner sides are changed to winter. The lyric of the music is like that moment of life the character was passing:
Fast! Ah. Too Fast Fade the Ro-o-ses Pleasure;
Soon autumn yields unto Wi-I-inter Drear.
Fleetly! Ah. Fleetly Mu-u-sic’s Gay Measure
Passes away from the Listening Ear.
Tension is growing. “Every note was a sigh, a sob, a groan of awful mournfulness”. The situation is almost unsustainable. While she’s creating such an external disorder, Miss Meadows, in her internal chaos, wonders about what could have happened to Basil as he had that attitude. On his last letter she had been very happy. That’s how we may realize how dependent she is from external events and from her relationship with her bridegroom.
The Lament” goes on. “The willow trees, outside the higs, narrow windows, waved in the wind”. The willow is a tree associated to the idea of death, of sadness. “ They had lost half their lives. The tiny ones that clung wriggled like fishes caught on a line”. The comparison gets the impression of a whole death. It looks as if all the leaves wanted to fall down. The narrow windows, suffocating, cause anguish, as the singing lament. The setting agrees perfectly with the creation of a gloomy, morbid mood by Miss Meadows.
“The Lament” is like a funeral march. Miss Meadows gets a dark aspect – of waning moon – darkening the environment as well. She says: “Make that Drear sound as if a cold wind were blowing through it. Dre-ar!”
Mary Beazley “wriggled her spine”. The atmosphere is already heavy enough when Miss Meadows says: “you must begin to die… to fade… until de Listening Ear is nothing more than a faint whisper…” It sounds like Miss Meadows wanted to express all the misery seh was feeling, because living on a happy world would be a martyrdom for her at that moment.
“The voices were silent; the piano waited”. There’s a pause. Everybody remains blockaded, stagnant, languid and Miss Meadows retakes, much more vehemently, her metamorphosing class. The rhythm grows up, the tension is raised. Some of the girls are “crimson” – the red colour again. One of them starts to cry. “Big spots fo rain blew against the windows, and one could hear the willows whispering”.
All that brain storm flows into a real rain of tears and drops mixed each other, blowing up. An effect like that also occurs in a short story of the North American writer Kate Chopin (1851-1904). It’s “The Storm”. The character Calixta has a sexual awakening during a tempest. The story deals openly with female sexuality. Calixta, a happily married woman, is nevertheless attracted to another man. Daring for it’s time, Chopin’s story ends happy for all the characters and no disastrous consequences attend Calista’s passionate encounter with the man, Alceé.
In both stories, “The singing lesson” and “The storm”, the environment is like a mirror that reflects the emotions of the characters. It’s the pain exceeding the body’s walls, transcending it. The ritual is performed, near of a climax, like an alchemic transformation. “Soon Autumn yields unto Winter Drear”
A deeper analysis of Miss Meadows
Miss Meadows, as the gods of Olympus in Greek mythology, has human attitudes and defects. She’s susceptible to suffer with the changes of fortune in life and she can make use of her power indiscriminately against the weaker and more vulnerable people to overflow her pain, hate or jow. For the gods, the weaker is the human being. In this short story, the girls are under Miss Meadows’ inclement mood.
Basil is her object of value, so his absence causes sadness. When he comes back, nature smiles again. It’s like the myth of the goddess Demeter, who rules the seasons of the year according to the absences and presences of her daughter Persephone.
Furthermore, among primitive people, the name is inseparable of both thing and subject designated. That’s the prime care and respect they dispense with it, attributing it a magic meaning, a holy value. Meadows means fields, greenland. That’s the kingdom of Demeter, who is the material goddess of earth, harvests, seasons and fertility. She is usually represented beside a snake – it might be related to the basilisk of the short story.
It has been said that Persephone was kidnapped by Hades, god of the hells. He fell in love with the young one and kidnapped haer, taking advantage of the exact moment when she was quietly picking flowers up in company of the Nymphs. When Zeus ordered Hades to give Persephone back to her mother, it was impossible, because the had eaten a pomegranate seed in the hells and it was sufficient to keep her indissolubly linked to that place.
For softening the grieving of Demeter, Zeus decided that Persephone would divide her time between the subterranean and the alive worlds. Then, during the time when mother and daughter are separated, the ground remains sterile, infertile. It’s autumn and winter. However, when they are joined together again, nature smiles and blooms. It’s spring and summer. So, the cycle goes on. Demeter’s humour is reigned by contentment and also Miss Meadows acts like this.
The end of the story
Miss Meadows “would have to leave the school, too”. She would have to hide herself, like the chrysanthemum that, among all the flowers, avoids the world.
“The voices began to die, to fade, to whisper… to vanish…”. The reader would think that now death is going to reign utterly, when “suddenly the door opened”. A girl enters “in blue (…) and twisting the silver bangle on her red little wrist”. She’s a woman called Monica and brings the contrast between blue and red once more. She says that Miss Wyatt, the principal of the school, wants to see Miss Meadows on her room.
There’s a moment of expectation and apprehension when Miss Meadows cross the cold, silent corridors. An apologetic telegram had been sent to her by Basil. “He had commited suicede, decides Miss Meadows”. The idea of his death is a relief to her – despite she misses him – because it might take away from her the heaviness of the responsability of being abandoned. She wouldn’t have the guilt and could blame just the lack of motives to be alive, the despair that makes someone kills himself.
Happily Basil was not dead. On his telegram he asks her no to mind his letter because he was mad. Miss Meadows “blushed”, the hot colours were coming back. Miss Wyatt says that is forbidden to receive telegrams “in school hours, unless in case of death (…) or a very serious accident or something to that effect”.
The situation is the opposite. Miss Meadows received some news that gives her life back, like when Persephone comes back to Demeter. “On wings of hope, of love, of joy, Miss Meadows sped back to the music hall”. She crosses the corridors again. Like a labyrinth that carries to death or life, the corridors are an intermediary plane, a stay yonder. They are the way that take to heaven or hell, both represented by the music hall, where the music of life is developed.
Miss Meadows comes back to that room, picks up the chrysanthemum and raps with her baton. She retakes the ritual of another season. Now it’s another page of the songbook, time to another song:
We come here Today with Flowers o’erladen
With Baskets of Fruit and Ribbons to boot
To-oo Congratulate…
That is the climax, an apex, a zenith. It’s spring now. Everything has to regain its agility, becoming eager. Miss Meadows says: “Use your imaginations”. She “beamed at the girls”, since the sun is shining inside her. The air, the voices, the sound and all the rest become light. The girls are manipulated, influenced bey the teacher, who tries to touch them with her joy. It’s the end of the nightmare. “Don’t look so doleful, girls. It ought to sound warm, joyful, eager”.
Miss Meadows seems to be filled with an instinctive, impulsive, spontaneous infatuation. She recovers motion, impetuosity, fervor, frenzy, moved by her satisfied desire. “And this time Miss Meadows voice sounded over all the other voices – full, deep, glowing with expression”. At this point she demonstrates her place at the hierarchy, the goddess that she really is. She recovers the full moon aspect, Demeter, mother, wife.
The moon shines only illuminated by the sun, so she is manipulated too. It’s not self sufficient, but it doesn’t mean it can’t be happy just because it’s submitted. It may put to use the good moment to have some fun. Then Miss Meadows leaves the labyrinth corridors, like a cemetery. Eros instinct substitutes Thanatos instinct.
The only way to avoid delusion could be, like Buddhism says, having no wishes, which cause dissatisfaction. Notwithstanding, Miss Meadows, without wishes, would lose verisimilitude with the human condition, considering the story is fiction.
The title
The title “The singing lesson” has a double sense. It may mean either a classe where people learn how to sing or a lesson that is singing itself, as if it were alive. Life follows the music. Maybe music played according to life. Music is like an iced fragment that transmits the impression of a certain moment, like an impressionist painting.
Social criticism
The social criticism of the text denounces the society of that age, not explicitly, with vestiges of Victorian moral. The hypocrisy is present at the school environment with a piece of irony and sarcasm. There is a subtle feminist denunciation against the yoke/oppression on women and, consequently, on children.
A psychological analysis of Miss Meadows
According to the typology described by Jung, Miss Meadows seems to be the kind of person sentimental-introverted, which specially appears on women. People like this use to be quiet, difficult approachable, often behind a childish or banal masque. They have also a melancholic temperament. Generally they do not have neither a great appearance nor make the other notice themselves in special. They are leaded by feelings oriented subjectively, and their motives are kept, usually, unkown.
A person like this obtains from all manifestations and contracts an impassioned depth that covers the misery of the whole world as she is astonished by it. In its excess, this kind of personality may even overflow explosively because of a disconcerting fact, as regards neither the subject nor the object can find the exact proportion.
The introverted feeling is specially determined by subjective facts, since it’s subordinated to these preliminary conditions and only is attached to objective facts secondarily. So it’s common this kind of person who shows herself less, but when she does it, she is usually misunderstood.
Final considerations
Katharine Mansfield work was envied by Virginia Wool. D. H. Lawrence was a friend of hers. Her talent consisted in change the reality into fiction until taking out all the realism of the scenes and give to what have passed a dream character.
The denunciations narrated in her short stories refer specially to the exploration of women and children, expressing the inexpressible from her condition of being a woman. We can see it along the short story “The Singing Lesson”. We could realize how wondrous is Mansfield work, since the analysis we can make about it are unfinished. The author uses highly symbolic elements, contributing to our ontological narrative, bringing universal archetypes to everyday situations.
Bibliography
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Nota da revista: Há tradução do conto por Luiza Lobo pela Ediouro (Rio de Janeiro).
Bio fornecida pelo palestrante.
Maria Célia Martirani Bernardi Fantin Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Resumo: A vasta trajetória que Lygia Fagundes Telles tem percorrido como romancista, contista e militante ativa nos embates teóricos e políticos, que envolvem o ofício literário, sempre privilegiou a afirmação do feminino, enfrentando, com pertinência, o tema dos preconceitos que se travam contra a mulher. O presente estudo busca enfatizar os procedimentos narrativos de que a autora lança mão para que tal intento se configure.
Abstract: The vast trajectory that Lygia Fagundes Telles has traveled as a novelist, short story writer and active militant in the theoretical and political clashes involving the literary craft always favored women’s affirmation. She pertinently faced the prejudices that weigh on women. This study seeks to emphasize the narrative techniques that the author employs for this purpose. Palavras-chave: Lygia Fagundes Telles; afirmação do feminino; bildungsroman; procedimentos narrativos. Key-words: Lygia Fagundes Telles; women’s affirmation; bildungsroman; narrative techniques.
Minicurrículo: Maria Célia Martirani Bernardi Fantin) é Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela F.F.L.C.H. – USP. Foi professora de Língua e Literatura Italiana do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná. Atualmente, é Pós-Doutoranda da Universidade Federal do Paraná (Programa de Estudos Literários), instituição em que desenvolve pesquisa relacionada à Literatura e Cinema, especialmente às representações cinematográficas italianas contemporâneas, que tematizam a condição dos imigrantes e refugiados, à luz das teorias pós-coloniais.
LYGIA FAGUNDES TELLES
E O BILDUNGSROMAN FEMININO
Maria Célia Martirani Bernardi Fantin
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
O nome de Lygia Fagundes Telles está, inevitavelmente e não sem razão, associado ao dos grandes escritores da literatura brasileira, ao dos famosos “imortais” da ABL. Não surpreende, pois, que a autora venha sendo lembrada – mais recentemente – como forte candidata ao Prêmio Nobel de Literatura, a ser entregue neste ano.
A vasta trajetória que tem percorrido como romancista, contista e militante ativa nos embates teóricos e políticos que envolvem o ofício literário nos faz dirigir um olhar mais que atento ao conjunto de sua obra, que vem ganhando consecutivas reedições, ampliadas e comentadas. Naturalmente, acompanhando o movimento crescente dessa pluralidade ficcional, há também, um rico acervo de estudos a respeito de sua criação. Além da acurada crítica de Fabio Lucas — tido, talvez, como dos mais habilitados leitores especializados na obra de Lygia — deparamo-nos com análises muito valiosas, tais como as de José Paulo Paes e Silviano Santiago, publicadas na edição de março de 1998 dos Cadernos de literatura brasileira, do Instituto Moreira Salles, todo dedicado à autora. Assim, Paes, por exemplo, percebe a grandeza de um percurso literário em que, especialmente os romances Ciranda de pedra (1953), Verão no aquário (1962) e As meninas (1973) se alinhariam como típicos romances de formação[i].
Guardando as particularidades e as tramas de cada um, é possível, com efeito, perceber que a sucessão de desencontros sofridos pelas protagonistas — respectivamente Virgínia, Raíza e Lorena — apontam para um núcleo de desrazão e absurdo nos assuntos do mundo. Aqui, os traços específicos do bildungsroman estariam concentrados no fato de que suas heroínas precisam enfrentar uma série de conflitos, deixando-se marcar por eles, integrando, em seu caráter, as experiências pelas quais vão passando.
Interessa notar que, originalmente (Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe, é de 1795-96), o protagonista desse tipo de romance era sempre um jovem do sexo masculino, uma vez que às mulheres não era possível, à época, a liberdade de movimentos que permitia ao herói o contato com as múltiplas experiências sociais, decisivas no percurso do autoconhecimento.
A dicção discursiva de afirmação do feminino em Lygia, ao eleger, com frequência, como centros gravitacionais de seus enredos, mulheres, busca de certo modo equilibrar as forças, numa sociedade em que as relações de poder eram mantidas pela imposição do masculino. Sem ser “feminista” no sentido literal do termo, ao tratar das dificuldades e conflitos de uma geração de mulheres que, especialmente a partir da década de 50, precisava lutar por igualdade de direitos em meio às tradições reacionárias machistas, a autora enfrentou com pertinência o tema dos preconceitos que se travavam, então, contra a mulher.
Inseridas, pois, no amplo leque dos chamados romances de formação, há que perceber o quanto as mencionadas obras da autora jogam com duas tendências fundamentais: por um lado, a necessidade de expressar o mundo concreto, por outro, a necessidade de superá-lo. Da tensão entre a realidade e a possibilidade, entre o real presente e um alternativo resulta o caráter particularmente híbrido desse tipo de romance.
Com efeito, em Ciranda de pedra, temos Virgínia, lidando com as desavenças de um mundo familiar, fechado e rígido, em que não consegue ser aceita. O título remete às estátuas dos cinco anões que enfeitam a fonte da mansão do suposto pai da heroína, mansão onde passa a viver após a morte de sua mãe adúltera e o suicídio de seu verdadeiro pai. Ali é tratada com irritada condescendência pela governanta alemã de suas duas meias-irmãs e se sente excluída da roda de amigos delas, a que sonha pertencer. Essa roda é simbolicamente representada pela ciranda dos cinco anões: “a resistência dos dedos de pedra” deles não permite o ingresso de Virgínia.
Diante do conflito doloroso da rejeição, ela acaba criando para si mesma a alternativa de ficar interna em um colégio, inclusive no período de férias. A partir do afastamento — com tudo de aprendizado que a ruptura dos vínculos aparentes possa comportar —, Virgínia adquire condições de voltar à mansão da família, vendo-a, agora, com novos olhos. Nesse processo de autoconhecimento, na viagem que deve fazer no sentido da própria maturação individual, ao final, consegue ler criticamente aquela hipócrita ciranda familiar, a qual não vale a pena querer pertencer.
Depois de cumprida essa trajetória, a via-crúcis de heroína em crise, a ex-menininha de unhas roídas conclui:
O mal maior foi (ela, Virgínia) não estar nunca presente, não ver de perto as coisas que assim de longe se fantasiavam como num sortilégio. Teria visto tudo com simplicidade, sem sofrimento. (…) Os semideuses eram apenas cinco criaturas dolosamente humanas (TELLES apud PAES, 1998, p.76)
Em síntese, Ciranda de pedra aborda uma profusão de temas que vão desde o adultério, a loucura e o homossexualismo feminino até a impotência masculina, a falta de perspectivas profissionais e o trauma da ausência do pai, tudo costurado sobre o pano de fundo da decadência de certa estrutura familiar e do processo de formação de uma personalidade (no caso, a de Virgínia).
De modo análogo, o segundo romance de Lygia, Verão no aquário, também tem por protagonista uma jovem, Raíza, cujos conflitos existenciais estão basicamente centrados no relacionamento perturbado com a mãe, Patrícia. Aqui, a simbologia do verão muito quente, traduzido em termos da opressão exercida pela mãe, associado à estreiteza protetora e artificial do aquário/redoma onde a moça se sente como que confinada, revelam um tipo de aprisionamento do qual Raíza busca se libertar.
Se, no primeiro romance, a situação concreta que é preciso superar é a da rejeição, representada por meio da impenetrabilidade no círculo familiar feito de pedra, aqui a superação precisa se dar contra o sufoco (comparado ao calor escaldante de certos verões) da presença racional da mãe, muito ocupada com as questões do mundo prático e, em contrapartida, a ausência de um pai idealizado, obsessivamente lembrado e associado a um espaço mágico e lúdico.
É assim que a jovem descreve o tipo de mal-estar que se estabelece entre as duas: “Há um germe que se instalou em nós, mas agora resolvi reagir, não quero mais esse vazio, não quero mais esse desespero, quero fortalecer a minha vontade”. (TELLES apud PAES, 1998, pp.76, 77)
Outra vez, o problema concreto e a necessidade de superação.
Enfim, o retrato da adolescente quebrando as paredes de vidro do pequeno mundo em que se sente obrigada a viver, buscando um mundo alternativo, por meio do autoconhecimento, à procura de uma identidade: “Estou me despedindo do meu aquário, mamãe, estou me preparando para o mar, não percebe?”. (TELLES apud PAES, 1998, p.77)
O romance As meninas, de 1973, assim como os dois anteriores, traz à cena três protagonistas tão jovens como Virgínia e Raíza. Os projetos de vida de Lorena, Lia e Ana Clara tipificam os caminhos ou descaminhos com que se defrontava a juventude universitária dos anos 60-70, quando o regime militar se impôs de modo violento e absoluto. Nesse caso, porém, substituem-se os grilhões circunscritos às cirandas familiares pelos amplos conflitos do mundo, datados num tempo fortemente marcado pela repressão.
Os desencontros existenciais que nesse romance se verificam poderiam ser assim resumidos: Lorena se mortifica com uma virgindade que insiste em manter, numa época de total liberação sexual; Lia encarna visceralmente o ideal revolucionário, junto a Miguel, seu amante e companheiro de militância, com quem viaja para a Argélia; Ana Clara, obstinada em enriquecer por meio de sua beleza de modelo profissional — alternativa de superação de uma infância feita só de miséria, violência e degradação —, acaba morrendo por overdose de cocaína.
A superação dos conflitos, aqui, no processo de formação de cada uma delas, será catalisada pela figura central de Lorena. Como bem observa José Paulo Paes:
No desenlace da efabulação de As meninas, a figura de Lorena ganha um relevo que lhe dá redondez ficcional. É ela que garante a Lia os meios de ir ao encontro do amado na Argélia; é ela quem toma as medidas necessárias para tornar menos ignóbil a morte de Ana Clara, evitando um escândalo cuja repercussão iria arruinar as inocentes freiras que lhes davam abrigo. Sua intervenção ativa em situações do mundo mostram que, dentro da delicada concha de ordem, limpeza, requinte e supérfluo em que se compraz em viver, há mais do que aquela “intelectual burguesa podre de chique” a que faz referência Ana Clara num momento de despeito (PAES, 1998, p. 79).
Segundo Lukács (2000), é no romance de formação, síntese entre o idealismo abstrato e o romance de desilusão, que a forma adquire sua melhor possibilidade. Daí porque esse tipo de romance possibilite o que ele denomina “experiência compreensiva” ou “reflexão polêmica”. Não parece ser outra a estratégia de Lygia, ao investir magistralmente nos fluxos introspectivos do monólogo interior de seus personagens, numa narrativa que se volta aos estados mentais, ainda que não descuide dos acontecimentos históricos e sociais.
Narrativas de subjetividades, essas três obras, fundamentais no corpus ficcional da autora, elegem o processo, o percurso, a viagem do eu atormentado em seus embates com o mundo e as formas reflexivas da introspecção do narrar como tônica dominante.
Se Ciranda de pedra, Verão no aquário e As meninas focalizavam a fase juvenil da construção do feminino, o romance As horas nuas (1989) se volta para sua fase outonal. As questões do envelhecimento e da solidão roubam a cena, num processo de desnudamento da atriz Rosa Ambrósio, mulher de meia-idade atormentada pelos efeitos do tempo sobre seu corpo, revelados em forma de memórias, que ela registra num gravador. Enquanto se desnuda diante do leitor — o que justifica o título — e também do gato voyeur Rahul, Rosa tece, ao longo da narrativa, um exame de consciência ou balanço de vida, num ritual de mea culpa bastante recorrente na voz de outros protagonistas da autora.
A inexorabilidade do tempo, contra o qual a atriz tenta lutar em vão, é descrita de modo sagaz pelo gato, que presencia tudo, na cena bizarra em que ela aparece tingindo os pelos pubianos:
Não sei por que esses bandidos tinham que nascer brancos, resmungou ela. Já estava de luvas quando mergulhou mais uma vez a escova na tintura do copo. Inclinou-se para frente. Abriu as pernas e bem devagar foi passando a tinta nos pelos do púbis. Com a mão livre, abriu a caixa rosada no tampo de mármore e dela tirou um lenço de papel para limpar o fio de tinta negra que lhe escorria pela coxa, Ô! Meu Pai!… (TELLES, 1989, p.30, 31).
É o gato quem a observa e narra, num tom de sensual ironia, que, por mais que as luzes daquele dia sejam indício de primavera, para Rosona — cuja imagem madura se reflete nua no espelho — inicia-se o outono:
Aperto os olhos feridos. Quando volto a abri-los, Rosona está posando de estátua diante do espelho coroado, os braços languidamente erguidos para prender os cabelos no alto da cabeça. Está sorrindo para a própria imagem que parece filtrar uma certa luz cálida, Sou o Outono, diria a imagem nua que se imobilizou no instante de perfeição. Não fora o triângulo do púbis todo borrado de tinta negra, travessura de algum moleque obsceno que passou lambrecando as estátuas do parque. (TELLES, 1989, p.31)
A velhice e tudo que ela comporta é um dos temas recorrentes na obra da autora, que jamais a concebe de modo tranquilo e natural. Ao contrário, o processo da passagem dos anos e as limitações que isso impõe chegam, no discurso reflexivo e confessional de seus personagens, ao limite do desespero.
É o que se dá no conto Boa noite, Maria, um dos mais fascinantes de A noite escura e mais eu, cuja primeira edição é de 1995. Aqui, a rica senhora Maria Leonor de Bragança, que, devido às fragilizações impostas pela idade busca ser apenas Maria, encontra um homem bem mais jovem, Julius Fuller, num aeroporto, ao voltar de uma viagem.
O enredo vai sendo tecido com a precisão e a maestria de quem sabe que um passo em falso, quando se trata de narrativas curtas como o conto, pode por tudo a perder. Aos poucos, vamos tomando conhecimento de que o que Maria busca — no desespero de seu envelhecimento solitário — é tão somente a presença de um amigo que a ajude a morrer. E o que poderia ser extremamente dramático e sinistro, na narrativa de Lygia, transforma-se num ritual poético de profunda delicadeza nas lides com a morte.
Como acontece em muitas de suas narrativas curtas, o recurso à ambiguidade bem construída dilui o pathos que esse tipo de tema, inevitavelmente, carrega. O que se tem como resultado é a abordagem de uma questão seriíssima, traduzida — pelos modos do narrar — em sublime desfecho.
Os mesmos problemas em relação ao passar dos anos, acenados em As horas nuas, nesse conto são retomados de modo pungente, tocando num dos temas mais polêmicos da atualidade, o da eutanásia assistida, também conhecida como suicídio passivo ou “doce morte”:
Sem saber como, a verdade é que estava só e precisando apenas de alguém que a ajudasse a viver. E a morrer quando chegasse a hora de morrer. Uma morte sem humilhação e sem dor. A morte respeitosa — mas era pedir muito? Precisava de um amigo e não de um assassino, ela concluiu e achou graça. Baixou a cabeça. Tamanho horror pelas doenças aviltantes que deixam a boca torta e o olho vidrado. E a fralda, Ah! Senhor, a fralda não! O amigo tem que amar esse próximo como a si mesmo, se ainda é possível o amor. Permitir que esse próximo amado fique indefinidamente num estado miserável não é cruel? E a compaixão? Seria um simples gesto de compaixão, a morte por compaixão. Vida vegetativa? Mas que vida vegetativa se os vegetais viviam e morriam limpos, sem a baba, sem os cheiros (TELLES, 2009, p. 54).
Quando Julius decide acompanhá-la, o sinuoso trajeto que os dois cumprem num táxi, do aeroporto até o apartamento dela, na primeira metade do conto, gera, no leitor, uma série de suspeitas em relação àquele estranho aventureiro que poderia, por exemplo, aproximar-se da elegante senhora para explorá-la, roubá-la e até — como bem previsível em narrativas contemporâneas à la Rubem Fonseca —, a sangue frio e com requintes de sádica violência, assassiná-la.
Mas as desconfianças ao redor do comportamento do belo homem de cabelos cor-de-palha e intensos olhos verdes vão se dissipando, na andadura ardilosa de um narrar que se contém a princípio, para afinal atingir o clímax, fechando com o prêmio tão almejado pela protagonista e tão inesperado pelo leitor: ele se revela, de fato, confiável como o bom amigo, que lhe trará a redenção da doce morte. (TELLES, 2009, pp.41-56)
Enfrentando, a partir de diversos temas, a contraditória complexidade humana, Lygia, em sua prolífera produção de contos, demonstra excepcional habilidade. Alguns deles, muito comentados, analisados e elogiados pela crítica, reeditados em diferentes antologias ou adaptados para a televisão e o cinema, são já conhecidos do grande público. Vejam-se, a exemplo, o sucesso de Venha ver o pôr do sol, Seminário dos ratos, As formigas, Pomba enamorada (considerado por Saramago uma verdadeira obra-prima), Herbarium, A estrutura da bolha de sabão, As pérolas, Um chá bem forte e três xícaras e A caçada, entre tantos outros. Seja em qualquer dos ângulos da existência sobre a qual a autora incida seu olhar, de fato, ela é capaz de fazer o recorte justo e preciso, exigido pela narrativa que não pode se demorar, que não pode vacilar.
Percebemos nos procedimentos adotados pela autora, nesse caso, aquele alto grau de exigência já anunciado por Edgar Allan Poe ao afirmar que todo conto bem realizado deve surtir um “efeito único”, atingido por um movimento interno de significação, que aproxime parte com parte, além de um ritmo e um tom singulares que só leituras repetidas — se possível, em voz alta — serão capazes de encontrar[ii].
Se pensarmos na construção do sinistro em Venha ver o pôr do sol, esse efeito único, obtido desde o primeiro passo sorrateiro em direção à presa, dá-nos a impressão exata do bote bem armado do animal que, ardiloso e dissimulado, confere liberdade de ação à vítima, apenas para, ao final, desferir o golpe certeiro, com toda a precisão exigida, a fim de que se cumpra seu intento. De saída, desde o primeiro parágrafo, insinua-se o cenário de total abandono daquela tarde:
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde (TELLES,1986, p. 159).
Ela é Raquel, a presa que será vítima do bote de Ricardo, seu ex-namorado que, por ciúme, convida-a para um reencontro amigável a um passeio num cemitério (local insuspeito, em que ninguém os veria juntos), acabando por trancá-la e abandoná-la atrás das grades de um jazigo antigo. Ele é o animal que se camufla, camaleão adestrado a adquirir diferentes nuances de pele, em meio ao exuberante silêncio verde dos ciprestes, a cada alteração de claro-escuro, acompanhando os jogos de luz e sombra no gradual entardecer daquele lugar abandonado. Desde o início, fragilizada, acreditando piamente no contar mentiroso daquele que a seduz, Raquel nem de longe desconfia de que acabará sendo vítima de tamanha atrocidade.
Mais do que o precioso recurso à quebra de expectativa, e não só em contos que gravitam em torno de situações sinistras (como As formigas, O jardim selvagem, Dolly, Anão de jardim etc.), o expediente estratégico de que lança mão a contista é o da excisão, melhor dizendo, o do afastamento, de um desvincular entre o plot narrativo, o cerne do que se está por narrar e os modos sinuosos pelos quais essa matéria vai se configurando, num jogo dialético de aproximação/distanciamento.
A excisão, segundo esclarece o escritor argentino Ricardo Piglia, em Teses sobre o conto e Novas teses sobre o conto é o que justifica o caráter duplo da forma do conto. Para o autor, em suas tentativas de teorizar o gênero, um conto, na verdade, revela sempre duas histórias: uma secreta, oculta; outra explícita. (PIGLIA, 2004, pp.89-114)
Essa aparente dissonância — a deslocar Raquel para longe do sinistro que está por vir, numa credulidade ingênua, facilmente capaz de conduzir a presa, que não deixa de ser também o leitor, às malhas finas da armadilha, da qual não conseguirá escapar — é revelada pelo caráter de ambiguidade inerente aos modos de narrar da autora. Ambiguidade que só é alcançada por conta do desvincular entre o que se quer contar (o secreto) e as artimanhas da linguagem tecidas para tanto (o que se explicita).
Depois de tudo bem armado, a presa/leitor sucumbe ao bote preciso:
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda (TELLES, 1986, p. 169).
De modo análogo ao anterior, mas numa ambientação totalmente diversa, é que se estrutura o conto Segredo (em A noite escura e mais eu, o livro de contos favorito da autora, cuja primeira edição é de 1995, tendo sido reeditado em 2009 pela Cia das Letras). A trama se desenrola diante do impasse de uma menina de quase dez anos que precisa entrar num bordel, para pegar uma bola que lá caíra.
No início, o cenário de uma cidade interiorana descreve a tal Rua da Viúva, que era preciso evitar, da mesma forma que se evitavam os leprosos em pequenos bandos e que “mendigavam sacudindo as moedas que faziam blim-blim nas canecas de folha”. Embora as escolhas lexicais reflitam tempos de outrora, em que o preconceito contra as prostitutas era exagerado, o conto não cai no narrar excessivamente datado que poderia restringi-lo a um retrato de época. Ao contrário, sempre pautada pelo princípio do desvincular a história oculta da outra que se explicita, a voz narrativa instaura a tensão entre a menina assustada que atravessa um corredor até chegar ao quintal onde está a bola e a prostituta loira que a conduz.
Nesse ritual de perda de inocências por parte da menina, há um segredo que precisará ser mantido entre as duas: o de que ela não conte a ninguém que esteve lá. A história oculta, apenas sugerida, dá a entender que o pai da criança é um dos clientes daquela mulher, um dos frequentadores da casa; daí o porquê da necessidade do segredo.
O que se explicita é a situação de timidez, num misto de curiosidade e constrangimento por parte da menina, ao ir tomando contato com aquele universo tão proibido, e com a gentileza da prostituta loira que a ajuda, comovida com a presença que evocaria a de uma sua própria filha, já morta. Mais uma vez, arma-se, senão o bote contra o animal acuado, o momento preciso da surpresa que se intensifica por meio desses ardis do narrar. (TELLES, 2009, pp. 57-64)
Tratando de um dos temas mais instigantes da criação literária, nos 14 contos de Invenções e memória (obra vencedora do Prêmio Jabuti em 2001), Lygia investe na representação das imbricações entre memória e ficção. Em entrevista concedida a Edla van Steen, ela pergunta: “A invenção fica sendo verdade quando se acredita nela?” (TELLES apud SANTIAGO, 1998, p.100). E a resposta que ela mesma nos dá, por meio do que escreve, é que a memória é matéria tão ficcional que se torna impossível tentar estabelecer qualquer fronteira entre as duas instâncias. Em depoimento feito ainda em 1993 na Sorbonne, em Paris, ela esclarece:
Vejo minha vida e obra seguindo trilhos tão paralelos e tão próximos e que podem (ou não) se juntar lá adiante. (…) Mas quando me estendo demais nessas respostas, pulo de um trilho para outro, misturo a realidade com o imaginário e acabo por fazer ficção em cima da ficção… (TELLES, 1993).
Num dos contos desse livro, Que se chama solidão, uma menina presencia o cenário da morte de Leocádia — uma de suas pajens de infância —, que, para se livrar da gravidez indesejada, provoca o aborto, não conseguindo se salvar. Importa notar o quanto, nesse caso, a memória (da infância) invade a invenção, até o fantástico desfecho da narrativa: “Chão da infância. Algumas lembranças me parecem fixadas nesse chão movediço, aquelas minhas pajens”. E continua, registrando a voz da mãe, diante do ocorrido:
Enfiou a agulha de tricô tão lá no fundo, meu Deus, meu Deus… — a voz sumiu para voltar mais forte. Grávida de quatro meses e eu sem desconfiar de nada, ela era gordinha, engordou um pouco mais, pensei. Então, Leocádia? Eu perguntei e ainda me reconheceu (…)
Em dezembro tinha quermesse. Minha mãe e tia Laura foram na frente porque eram as barraqueiras, eu iria mais tarde com a Custódia que ficou preparando o peru. Quando passei pelo jasmineiro no quintal (anoitecia), vi o vulto esbranquiçado por entre os galhos. Parei. A cara úmida de Leocádia abriu-se num sorriso, colhia jasmins. A quermesse, vamos? Convidei e ela recuou um pouco, Não posso ir, eu estou morta (TELLES, 1998, p.62).
Qualquer tentativa de análise que queira abranger, com detalhes, uma obra do porte da que vem realizando Lygia Fagundes Telles seria vã. Melhor ouvir o que tem a dizer a mocinha que coleta folhas vegetais para o primo botânico que se hospeda por curto tempo na sua casa, no conto Herbarium: “era preciso fazer render o instante em que (o primo) se detinha em mim, ocupá-lo antes de ser posta de lado como as folhas sem interesse, amontoadas no cesto. Então (eu) ramificava perigos, exagerava dificuldades, inventava histórias que encompridavam a mentira”. (TELLES, 1988, p.61)
Que possamos nós, leitores, tal como o privilegiado primo, continuar demorando prazerosamente nessa ficção, em que o contar mentiroso sabe que a verdade, muitas vezes, é tão banal quanto a folha de uma roseira (TELLES, 1988, p. 62).
NOTAS
[i] A propósito, gostaríamos de remeter ao brilhante ensaio Ao encontro dos desencontros (pp.70-83), em que José Paulo Paes se dedica à análise minuciosa dos principais romances da autora, aqui mencionados. O estudo é um dos que compõem o volume: Lygia Fagundes Telles – Cadernos de Literatura Brasileira, editado pelo Instituto Moreira Salles, número 5, em março de 1998.
[ii][ii][ii][ii] A “teoria da unidade de efeito” do conto foi proposta por Edgar Allan Poe na Review of Twice Told-Tales, um dos textos da Graham’s Magazine em 1842 e 1847. Em tais reflexões teóricas, analisa a coletânea de contos de Nathaniel Hawthorne e defende a ficção breve. Também sustenta que a narrativa deve ser lida de uma só assentada, do contrário “os interesses do mundo que intervêm durante as pausas da leitura modificam, desviam, anulam, em maior ou menor grau, as impressões do livro” (POE, 2004, p. 3).
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TELLES, Lygia Fagundes. Que se chama solidão. In: ANGELO, Ivan; CABELLO, Maria Eugênia Longo; CALIL, Carlos Augusto; DOS SANTOS, Tatiana Longo; HILST, Hilda; LUCAS, Fábio; PACHECO e CHAVES, Anesia; PAES, José Paulo; PRADO, Adélia; RÉGIS, Sônia; SANTIAGO, Silviano; SARAMAGO, José; SCLIAR, Moacyr; VAN STEEN, Edla; WEINTRAUB, Fabio. Lygia Fagundes Telles. Cadernos de Literatura Brasileira, São Paulo: Instituto Moreira Salles, número 5, março 1998; 1ª reimpressão: janeiro, 2002. p. 59-62.
Bio fornecida pelo palestrante.
Mariese Ribas Stankiewicz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
Resumo: Observando uma comunidade indígena fragmentada pela colonização, Jeannette Armstrong escreve sobre a tensão em se caminhar na cidade, em meio à perda e à ausência. Ao fazer isso, a autora recentraliza a ideia daquilo que está às margens, para fazer o silenciado não apenas falar, mas também reclamar o que foi perdido. Sob a luz das noções de hibridismo de Homi Bhabha e das elaborações sobre as identidades hifenizadas de Fred Wah, este ensaio aborda uma breve leitura do compromisso poético de Armstrong em reafirmar a cultura e a história de seu povo, enquanto vocalizando um discurso hifenizado que pode permitir a re-territorialização, ou seja, o assunto de terra/local/posicionamento em sua poesia é recriado a partir de características, tais como raça, religião e etnicidade para se proteger da nacionalidade Pcanadense homogeneizante.
Abstract: By pointing at an indigenous community fragmented by colonization, Jeannette Armstrong writes about the tension of walking in the city amid loss and absence. In doing so, the poet recentralizes the idea of the marginal in order to make the silenced not only speak, but to reclaim what has been lost. In the light of Homi Bhabha’s notion of hybridity and of Fred Wah’s elaborations on hyphenated identities, this essay addresses a brief reading of Armstrong’s poetic commitment to reassert her people’s culture and history, while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization. Therefore, the issue of land/place/placement in her poetry is recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality.
Palavras-chave: Poesia okanagan-canadense. Consciência histórica. Discurso hifenizado. Hibridismo cultural.
Keywords: Okanagan-Canadian poetry. Historical consciousness. Hyphenated discourse. Cultural hybridity.
Currículo da autora: Professora Adjunta de Literaturas de Língua Inglesa e de Ensino de Língua Inglesa da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês (USP). Mestre em Inglês e Literaturas Correspondentes (UFSC). Coordenadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência UTFPR-CAPES.
JEANNETTE ARMSTRONG’S POETRY: STRATEGIES IN BEHALF OF OKANAGAN CONSCIOUSNESS
Mariese Ribas Stankiewicz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
In the poem entitled “Death Mummer,” by Okanagan writer Jeannette Armstrong, the scenario of a contemporary city reveals the absence of a race: “There are no Indians here”; the good ones are dead, “preserved in alcohol” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), that is, poverty and social exclusion makes them hopeless at finding a way out. They feel useless for the community and are often stereotyped while searching for alcohol as a means of compensation for their unhappiness. Indians are part of memories and of bitter interpretations of a so long different culture. So, “in the million dollar museum / that so carefully preserves / their clothing, their cooking utensils / their food” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), they are far from being real. The remaining traces of their culture, being marginalized, constantly face rupture.
As many others indigenous poets around the world, Armstrong writes about the memories of her own people in permanent contrast to present reality, which is one of the most profound characteristics of multiculturalism. Inside this analytical scope, but stressing a more creative view of this kind of poetic development, this paper addresses a brief reading of Armstrong’s commitment to reassert the culture and the history of her people, while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization, that is, land/place/placement in her poetry and critical material are recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality. In this sense, as this essay also deals with a view of memories and traditions of a people found in the midst of consequences of post-colonialism, some ideas about identity disfiguration (mainly racial, generational, and geopolitical), by Homi K. Bhabha, may be important to help make out that, after so many years, this has still been a question of culture being dislocated to a space called “beyond”.
Armstrong is an Okanagan-Canadian educator, artist, political activist, and author of anthologies, criticism, children’s books, novels, short stories, and poetry. She is best known for her work on education, ecology, and Indigenous rights. However, as she was born and grew up on the Penticton Indian reserve in British Columbia’s Okanagan Valley, much of her artistic work is embedded in her community’s political and social matters, as one can see in poems such as “History Lesson,” “Trickster Time,” or “Bone Game.” Through her literary and critical work, Armstrong claims for the rewriting of her people’s history and for the raising of consciousness of its cultural values: “Our children, for generations, were seized from our communities and homes and placed in indoctrination camps until our language, our religion, our customs, our values, and our societal structures almost disappeared” (ARMSTRONG, 2005, p. 239). In doing so, she brings about material from Native oral tradition and myths as they are still linked with the present situation of her people, also setting forward a hybrid discourse that dispels counterfeit stereotypes of Natives and helps her delineate her people’s heterogeneity.
These discourses produced in resolution of post-colonialism or postmodernity would be related to cultural embattlements implying superposition and displacement in the realm of difference. In this sense, the more a people disfigure their tradition of past generations, the more the differences could be redefined and renegotiated. According to Bhabha, one of the important consequences of this is related to the identity perceptions in our contemporaneity. In a deconstructive way, this may be explained by saying that those perceptions were restricted to binary positions often fixed in modernity, but have found a way to become more fluid and transitory, which are characteristics of a time of mobility of global population.
In colonialist discourses, hybridity is a depreciative word meaning miscegenation or mixed-breeds, that is, a hybrid, sterile product that resulted from the relationship between the colonizer and the colonized. This issue has to do with hegemony and eugenics, which implies a really strong matter of power relation. On the other hand, this same word “hybridity” occupies a central role in postcolonial discourse. In the light of these views, it has the benefit of the “in-between” state, the overlapping of two cultures and the ability to negotiate the difference. This is part of the discussion promoted by Bhabha about cultural hybridity.
The theoretician has developed his own concept of hybridity from literary studies and cultural theory to define the structure of culture and identity within the circumstances of colonial antagonism and inequity. For Bhabha, hybridity is a way to describe the emergence of new voices exactly because it appears from the relationship between the colonizer and colonized. So it is fertile and challenges the validity and authenticity of any essentialist cultural identity.
Therefore, one can say that every kind of culture is in a continuous process of hybridity and, according to Bhabha, this new transfiguration supplants the established pattern with a “mutual and mutable” representation of cultural difference that is positioned in-between the colonizer and colonized:
For a willingness to descend into that alien territory (…) may reveal that the theoretical recognition of the split-space of enunciation may open the way to conceptualizing an international culture, based not on the inscription and articulation of culture’s hybridity. To that end we should remember that it is the ‘inter’ – the cutting edge of translation and negotiation, the in-between space that carries the burden of the meaning of culture. It makes it possible to begin envisaging national, anti-nationalist histories of the ‘people’. And by exploring this Third Space we may elude the politics of polarity and emerge as the others of our selves (BHABHA, 1994, p. 56; his italics).
Thus, it is the indeterminate place in between subject-positions that are mentioned to be the location of the disruption and displacement of hegemonic colonial narratives of cultural structures and practices, which Bhabha calls Third Space. So the space inbetween is a third one in relation to the colonizer and the colonized.
On the verge of this thought, indigenous people grows their art and culture. Subjected to European colonialism, besides being characterized as inferior, primitive, and unable to constitute suitable political, economic, religious and cultural structures and histories, every Native people of the New World is usually regarded as one large group (Indians), despite their heterogeneity, which, consequently, often sets them apart from progressive contemporary analyses of their particular identity traits. Diverging from this idea, in “The disempowerment of first North American Native peoples and empowerment through their writing,” Armstrong (2005, p. 241) declares: “We, as Native people, through continuously resisting cultural imperialism and seeking means toward teaching co-operative relationships, provide an integral mechanism for solutions currently needed in this country. The author voices the “we” of her people, which expresses the refusal to participate of the Canadian nationalistic aesthetic, indicating an escape from homogenising narratives. In the words of Fred Wah, this stance towards literature can be called “‘alienethnic’ poetics,” which is “often used for its ethnic imprint and frequently originating from the necessity to complicate difference” (WAH, 2000, p. 52). Thus, categorization segments social environment in classes, whose members are considered as equals in reason of their common characteristics, actions, and intentions.
Although her main thematic choices have to do with the history being told from her people’s perspective, as she does in “History Lesson,” or with their oral tradition, as in “Wind Woman,” her poetic discourse can be analysed as a hyphenated one. It is in that Third Space in which happens the “cutting edge of translation and negotiation” (BHABHA, 1994, p. 56), and that is essentially critical of essentialist positions of identity and a conceptualization of original or originary culture. Native art is that space which is a mode of articulation, describing a fruitful, and not merely contemplative, space that creates new possibility. As a means of discourse, it functions as an interruptive and interrogative space of new forms of cultural meaning and production, blurring the existing boundaries between we and them, and calling into question established categorizations of culture and identity.
However, the issue of hyphenated discourses, while concerning Native writers, is complex, because, in Wah’s words, these writers generally “feel a strong need to participate in a tangible community (despite the cries of ‘separatist’) in order to locate the cortex of their own social content without it being conditioned by first-world perceptions” (WAH, 2000, p. 77). On the other hand, Wah agrees that Native works show hybrid features. Thus, although Armstrong’s work is orchestrated with poetic tools used to resist dominant literary culture, such as references to land and genetic inscription, it also presents some traits of that which Wah calls “hyphenated poetics.” According to him, the hyphen “in the middle,” but “not in the centre,” of multicultural compound adjectives metaphorically signals “a crucial location for working at hybridity’s implicit ambivalence” (WAH, 2000, p. 73).
In Armstrong’s poems, the reader may feel every persona in a state of enunciation, transgression, and subversion of binary positions, going beyond the realm of colonial dualistic opposition. The poet provides a spatial politics of inclusion rather than complete exclusion “that initiate new signs of identity, and innovative sites of collaboration, and contestation, in the act of defining the idea of society itself” (BHABHA, 1994, p. 2). The poems selected encode a counterhegemonic idea, in the sense that, when the colonizer shows hegemonic practices, the hybrid in the poetic content opens a space for attempts to negotiate to mean. They have that hybridity potential with their ability to transverse British, Canadian, and Okanagan cultures and to translate and to negotiate affinity and difference within a dynamic of exchange and inclusion that may start being felt in names and naming. The “play” with writers’ names that may reveal and conceal cultural tendencies and histories disturbs straightforward conclusions about most hybrid writers. Ambivalence resides in names, such as her own, “Jeannette Armstrong,” that is visibly English, concealing every Okanagan trace possible at a first sight. Further textual contact may reveal her history and political position, but will always accentuate the ambivalent character of her work.
Furthermore, the use of the English language throughout her critical work, stressing the aspect of her intellectual arrangement, besides dealing directly with cultural values as such, also outlines the chances of integration and cooperation with the dominant culture. The achievement of communication is, in Armstrong’s project, an essential point:
I don’t think I would go very far in a text if I were reading it through a text that had a lot of indigenous terms and words which didn’t have any meaning to me. I couldn’t continue reading it; I would therefore put it down as literature. Now, if I were reading it, and the literature itself was speaking to me, and the words and terms that were being used were not impeding that, then I would read it all the way through (ISERNHAGEN, 1999, p. 149).
In this sense, the use of code-switching is not strong in her work, that is, “the movement between two languages, (…) and that] functions as part of hyphen poetics as it helps to locate (…) the ability to remain within ambivalence without succumbing to the pull of any single culture” (WAH, 2000, p. 82, 83). The use of Okanagan words in her poetry is not a constant, but English and Red English (that represents a linguistic variety) is part of her cooperative project for extending her people’s cultural survival. Thus, many communities may read poems that speak about her roots and identitary traits. On the other hand, the use of Red English and the almost absence of punctuation are strategically devised in a way that warrants shows of displacement and subversion, as it happens in “History Lesson”: “Father mean well / waves his makeshift wand / forgives saucer-eyed Indians” (ARMSTRONG, 2001, p. 8-10).
In poems such as “Blood of My People,” “Keepers Words,” and “World Renewal Song,” among others, syntax is interrupted with silence, through gaps in the sentences. Wah verifies that the “gaps that punctuate her poem [“Blood of My People”] reflect the nomadic cut and refuse to settle into English placement of expected syntax and, more basically and politically, into both the imaginary nation and its ideological assault on the land” (WAH, 2000, p. 56). In “Keepers Words,” the silence “tells” about the sacred that cannot be changed, but that, somehow, is missing, because it is not remembered:
Her words smooth carved as bone
and so old no one remembered
were placed side by side
in a pattern
fashioned in the beginning
of her kind (ARMSTRONG, 2001, p. 61)
Here, one cannot avoid associating the breakdown of a cultural system to loss of memories, which can only reconstruct fragmentary realities. Silence makes her discourse fragmentary at the same time that vindicates the vitalizing of her people’s history. “[…] The cannibal monster / who devours himself / because he changes so much” (ARMSTRONG, 2001, p. 61) stands for the amalgamation and transformation of a series of different cultural traces, which coexist and are made homogeneous by globalizing ideologies.
One way out of cultural colonialism would be to teach the keeping of spiritual and tribal resources that are extremely connected to the land, so that the culture of her people can survive. Armstrong understands, however, that stressing the similarities within a category and the differences with the “other” may have dramatic consequences in the plane of behaviours and perceptions. This stance generally gives place to discriminations, to the extent that it is followed by favourable results to the groups to which one belongs, with a tendency to undervalue the groups from which one distinguishes.
Hence, in order to raise consciousness about her people’s culture without breaking through delicate issues about multiculturalism and globalization, her literary project includes principles to promote positive effects in the relationship with the dominant literary traits. In “Let Us Begin with Courage,” by blending contemporary Canadian issues about multiculturalism and Native intellectual traditions to defamiliarize common notions of Native peoples, Armstrong spins out a series of organic principles that, according to her, are essential for understanding that “the knowledge that the total community must be engaged in order to attain sustainability is the result of a natural process of survival” (ARMSTRONG, 1999, p. 1). Those principles are basically cooperation and pacifism, which she says to be natural to the foundation of Native ideologies.
Her key terms include individual, family, community, and land, which are interrelated in a stable chain. The notion of individual is, of course, not that of individualism, that is, the one that recognizes somebody apart from others. The individual is the talented person who must share his or her gifts with the community. As the four elements above constitute a stable chain, all are dependent on one another and cannot coexist separately. Furthermore, the individual is the powerful cell able to transfer cultural information to later generations, which again depends on the family structure. The family may live through many generations and constitutes a strong network able to spread cultural teaching. The community is that which embodies the identity traits of a given people, engaged in maintaining the principles in the land, which sustain all life.
These four elements cited above take part of a project, whose characteristics coexist in the collective environment of multiculturalism. She strives for accentuating cultural consciousness to her own people and for spreading their ideology to those out of her group willing to interact cooperatively and pacifically. This recipe follows the ancient and effective rules of the Bone Game, which was created and developed by Native peoples for deciding quarrels and disputes without hot conflicts, aggression, or war.
In a bone game, everybody participates with an object, which is passed around all members. A power object is chosen among all the objects of the participants involved in the game. Everybody must agree on the chosen power object. The game follows with the power object being passed around the members. The one who is holding that Object at a certain moment makes a proposal, which is listened, and then, approved or rejected. The power object is a kind of bridge linking all those involved in a dispute and every decision must be made based on consensus (BROWN, 2003).
Since she knows that the problem of social conflicts not only comes from the fight for the right to difference (ethnical, racial, or of gender), but from the fact of those phenomena are used for achieving power, the principles embedded in her project, cooperation and pacifism, much rely on the idea of the Bone Game. Negotiating the land, which is the site of political interests and element of disputes, is a slow process that involves the holding of a power object (here represented by her literary art), so that there can be consensus about the possession and use of the land.
In “Bone Game,” the four elements of Armstrong’s project engage wittily to tell that it is the moment to negotiate. The imagery of “the Okanagan” and “creek beds,” in the first stanza, is meaningful: if there was no land to which the persona belonged, or in which she could find her roots, the poem certainly would not express so intense certainty of place and placement. The persona walks the place to reach a powwow, 1 in which she will propose something—imagined as an important issue, because she comments: “At the bone game I will wager / with cunning and skill / everything I own” (ARMSTRONG, 2008, p. 17). The poem treats of the individual, who, knowing the land, is going to meet others in a gathering, at the same time that will have a spiritual contact with the trickster Coyote, an indigenous entity that stands for the forces of good and evil: “I will laugh with coyote / (…) / Tonight I will stalk / as I sing his song” (ARMSTRONG, 2008, p. 17).
Because the rupture of cultural and social links increases considerably, when the individual loses his or her land (or home), the redefinition of a place to which belong is a necessary measure proposed by an ethnic writer. Being a nomad constantly in search of a land that now is occupied by a different owner is to discover that “‘where you live,’ is also ‘Other,’ a large poetics term particularly attractive to contemporary ethnopoetics” (WAH, 2000, p. 57). In “History Lesson,” Armstrong tells about the white man’s search for a promised land, which, originally was her people’s, to try to wager, and possibly to challenge, the idea that the original owners are the best ones, since everything that she considers sacred about the land was devastated and broken:
Somewhere among the remains
Of skinless animals
Is the termination
To a long journey
And unholy search
For the power
Glimpsed in a garden
Forever closed
Forever lost (ARMSTRONG, 1991 p. 28)
It states much about the issue of language and the attempts to survive through it, while it tries to preserve the myth that lies in the process of making history by deconstructing historical topics in the colonization of the Natives by the British and the French. Speaking about the tools of conquest, ships and guns, Armstrong’s version of the history also includes the journey to a paradisiacal land, when “Civilization has reached / the promised land” (ARMSTRONG, 1991, p. 47). However, the process of colonization comprises destruction and disorganization, which, eventually, make her people wander away in search of home. In Wah’s words, the “nomadology,” a name coined by Deleuze and Guattari, that is,
(…) the figuring out where [the ethnic writer] is, where to go, how to move, not just through language but in the world, is an investigation of place, as well as placement in said place. For some, this is a reclamation project—and who could blame them, the natives (WAH, 2000, p. 56).
Native peoples have developed, and somehow, changed countless times amidst very harsh realities. Fighting for keeping hold of group cohesion in the face of almost overwhelming obstacles and working toward the realization of common goals are among the tasks of conspicuous Native writers. However, one of the greatest tasks has to do with the integration process that develops along with the raising of consciousness of their people’s culture. This integration will perpetually show hybrid aspects in their art – It is the necessary tool so that communication exists. This in-out procedure describes the spread of literary and cultural representations as well as the historical subjection of Native peoples.
In bringing Bhabha’s views to this essay, I would not forget to remind the reader about a general awareness of his neglect to conceive historical and traditional circumstances that reside inside colonial discourses. Despite that, this author, as many others who bring postcolonial aspects of cultures in their theories, has the merit of being responsive to the global game of strategic negotiations of affinities and differences, which is optimistic but also complex. His theoretical criticism recognizes the postcolonial reality of that game, and describes the fact that who was once the other has a voice in this world now. After all, in this writing, postcolonial does not mean that those who left Great Britain and France towards Canada have returned. Instead, they are there to stay with the Native people. Indeed, all of them are Native people now, with all those similarities and differences around, and therefore the significant requirement of negotiation.
Because of the increase of cultural consumption – many times appropriating dissimilar cultures – and the globalization of its structure in our days, we all have become members of various communities. This myriad of positions makes transformation an everyday experience. Even if we do not change into a cannibal monster, as that one of Okanagan mythology, every morning we wake up to find ourselves in completely new roles. One might ask whether it is necessary for a Canadian Euro-descendant who meets an Indigenous Canadian schoolmate to define him/herself by his or her national identity, and the first reaction being the impulse to exclude, punish, or ignore.
What makes them choose those labels from among the stuffed bag of identity components, rather than the part of the mother playing with her son, the crazy university professor, or the unhappy Brazilian living a chaotic political situation here in Brazil? Are we really to exclude, punish, or ignore those that do not look like the ones of a group or is there a possibility for breaking through the difference-breeding division between “us” and “them”? This latter possibility might not be completely deceptive for the players of this game these days.
REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Jeannette. Bone Game. 2001. Disponível em: http://www.parl. gc.ca/Information/about/people/poet/poem-of-the-week/poems-.htm?param=40. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
ARMSTRONG, Jeannette. Breath Ttracks. Stratford: Williams-Wallace/Penticton – Theytus, 1991.
ARMSTRONG, Jeannette. The Disempowerment of First North-American native peoples and empowerment through their writing. In: GOLDIE, Terry; MOSES, Daniel David. An Anthology of Canadian Native Literature in English. Don Mills, Ont.: Oxford UP, 2005.
ARMSTRONG, Jeannette. Let us Begin with Courage: Ecoliteracy Mapping the Terrain. 1999. Disponível em: http://www.ecoliteracy.org/publications/pdf/jarmstrong_letusbegin.pdf. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
BHABHA, Homi K. The Location of Culture. Londres e Nova York: Routledge, 1994.
BROWN, Michael, (Org.). The Bone Game: A Native American Ritual for Developing Personal Power and Group or Tribal Consciousness. 2000. Disponível em: http://www.michaelbrown.org/HTML/BoneGame.htm. Acesso em: 13 abril 2015.
ISERNHAGEN, Hartwig. Jeannette Armstrong. In: Mamaday, Vizenor, Armstrong: Conversations on American Indian Writing. Norman: U of Oklahoma P, 1999.
QUIRK, Randolph. Longman Dictionary of Contemporary English. 3ª ed. Essex: Pearson, 1995.
WAH, Fred. Faking it: Poetics and Hybridity. Edmonton: NeWest Press, 2000.
NOTE
[1] Powwow: “an American Indigenous ceremony (as for victory in war; an American Indian social gathering or fair usually including competitive dancing; a meeting for discussion” (QUIRK, 1995, p. 1104).
Bio fornecida pelo palestrante.
Raquel Alves dos Santos Nascimento
Universidade de São Paulo
RESUMO: Esse trabalho visa a examinar o potencial da recepção, na Alemanha, do livro Quarto de Despejo (traduzido como Tagebuch der Armut) de Carolina Maria de Jesus, valendo-se para tanto de resenhas de jornais alemães publicadas sobre a obra e a autora. A moldura teórica para a presente pesquisa fundamenta-se nos Estudos Descritivos da Tradução e o trabalho com o corpus que tem por base a Linguística de Corpus. Esta última viabilizou a identificação de palavras-chave nos textos estudados, que nos permitiram mapear possíveis eixos temáticos, a partir dos quais apontamos aqui algumas condicionantes da recepção da obra, tanto em uma perspectiva sincrônica ao examinar cada texto em particular, quanto diacrônica ao estudar a evolução de conceitos no tempo.
PALAVRAS-CHAVE: Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, Estudos Descritivos da Tradução, Linguística de Corpus, recepção de Literatura Brasileira.
ABSTRACT: This paper aims to examine the potential and the impact of the reception of Carolina Maria de Jesus’s diary Quarto de despejo (translated as Tagebuch der Armut) in Germany. It will resource to German newspaper reviews published about the work and the author, to try to find the elements that alow us to understand how and by which resources and agents, the translation of Quarto de despejo had seven editions in that country. The theoretical framework for this research is based on Descriptive Translation Studies and works with a corpus that is based on Corpus Linguistics. The latter enabled the identification of key words in the studied texts, which allowed us to map out possible themes, from which we point out some conditions for the work’s reception, both in a synchronic perspective, examining each text in particular, and in a diachronic one, studying the evolution of the concepts in time.
KEYWORDS: Child of the Dark, Carolina Maria de Jesus, Descriptive Translation Studies, Corpus Linguistics, reception of Brazilian literature in Germany.
MINICURRÍCULO: Mestranda do programa Estudos da Tradução do Departamento de Letras Modernas, FFLCH, Letras, USP. Possui bacharelado e licenciatura em Letras Português/Alemão pela Universidade de São Paulo (2011). Além da pesquisa acadêmica, é professora de alemão e trabalha com traduções e revisões acadêmicas e comerciais. Sua pesquisa atual concentra-se nos seguintes temas: Carolina Maria de Jesus, tradução, recepção, paratextos e literatura.
RECEPÇÃO DE CAROLINA MARIA DE JESUS NA ALEMANHA: ASPECTOS DE UM RECONHECIMENTO A PARTIR DA ANÁLISE DE PARATEXTOS
Raquel Alves dos Santos Nascimento
Universidade de São Paulo
INTRODUÇÃO
Como entender o sucesso de Quarto de Despejo, primeiro livro de Carolina Maria de Jesus na Alemanha, um país tão distante culturalmente e geograficamente do Brasil?
Traduzido para o alemão por Johannes Gerold, o livro teve sete edições no período de 1962 a 1993. A primeira tradução foi realizada em um momento em que outros diários de cunho político-social estavam sendo traduzidos, como os diários de Erwin Behrens (Diário de Moscou), de Thilo Koch (Diário de Washington) e de Josef Müller-Marein (Diário do Oeste), revelando certa tendência da época por literaturas voltadas para esse viés.
O objetivo deste trabalho é apresentar alguns traços da recepção de Carolina Maria de Jesus e sua obra na Alemanha a partir de resenhas de jornais da época, escritas depois da publicação do livro.
Falar de recepção é pensar primordialmente em todas as condicionantes que envolvem a publicação da obra no país que o recebe: cultura, momento histórico, textos sobre o livro e no livro – os quais o teórico Genette (1987) chama de epitextos e peritextos respectivamente e ambos de paratextos –, agentes literários, público-alvo e outros. Do mesmo modo, devemos pensar sobre o potencial de recepção é que diz respeito às motivações e finalidades da tradução da obra para aquela determinada cultura.
O estudo sobre a recepção da obra de Carolina Maria de Jesus na Alemanha começa na recepção dela no país de origem, o Brasil. Como ela foi apresentada e representada naquele país e que direcionamentos de leituras foram exercidos sobre ela. Desse modo não há como não citar Audálio Dantas, jornalista que publica e escreve o prefácio da obra. Se pensarmos nos processos de reescritura e manipulação propostos por Lefevère. Leia-se:
(…) (re)escrita é manipulação, realizada a serviço do poder, e em seu aspecto positivo pode ajudar no desenvolvimento de uma literatura e de uma sociedade. As reescritas podem introduzir novos conceitos, novos gêneros, novos recursos, e a história da tradução é também a história da inovação literária, do poder formador de uma cultura sobre outra. Mas a reescrita também pode reprimir a inovação, distorcer e controlar, e em uma época de crescente manipulação de todos os tipos, o estudo dos processos de manipulação da literatura, exemplificado pela tradução, pode nos ajudar a adquirir maior consciência a respeito do mundo em que vivemos (Lefevère, 1992: vii).
Podemos dizer que o prefácio da obra feito por Audálio Dantas teve a função de direcionar os leitores da obra para o viés, embora mais sociológica e, talvez, menos literário. Para Perpétua (2014):
Os textos introdutórios – o da orelha, assinado por Paulo Dantas, e o da apresentação, por Audálio Dantas – ampliam a antevisão dada na intitulação ao conceder, por meio de um discurso persuasivo, uma direção de apreensão do sentido do diário para a área sociológica.
E ainda:
O objetivo de Audálio Dantas, ao pretender [em seu prefácio] a presentificação de Carolina, é o de enfatizar o valor sociológico do texto para que seja lido como testemunho real da miséria, escrito por quem a viveu, pessoa da classe mais desprotegida da sociedade.
Nuances desse direcionamento são percebidas também na Alemanha onde, além de sofrer adequações para o público alemão, constatamos a exaltação à leitura sociológica da obra. O pósfácio do tradutor é um exemplo claro disso quando diz: “As anotações de Carolina Maria de Jesus devem ser lidas menos como uma obra literária, mas contar muito mais como um documento humano único e autêntico…”
Assim como o prefácio, reescrituras como os paratextos – textos que conforme Genette (1987) falam sobre o livro – também podem servir para direcionar a recepção de determinada obra e formar/manipular opiniões sobre ela. Também a tradução da obra já pode imprimir traços de manipulação no sentido de adequar o produto, o livro traduzido, à sua cultura-alvo e às intenções do meio que a publica, suas tendências e crenças.
Ao pensar em adequações, pensamos também em um conjunto de regras de um polissistema literário que segundo Even-Zohar é específico em cada país ou cultura. Para o teórico o sistema literário é ligado a uma rede de sistemas que regem uma sociedade como culturais, econômicos entre outros, prefere chamar de polissistema:
(…) um sistema múltiplo, um sistema de vários sistemas com intersecções e superposições mútuas, que usa diferentes opções simultâneas, mas que funciona como um todo estruturado, cujos membros são interdependentes (EVEN-ZOHAR 1999 a: 6).
Dentro deste sistema heterogêneo, há espaço para as literaturas canônicas localizadas ao centro do sistema e para as não canônicas, situadas na periferia. Sobre elas, Even-Zohar faz o seguinte esclarecimento e distinção:
(..) “por ‘canonizadas’ entendemos aquelas normas e obras literárias (isto é, tanto modelos como textos) que nos círculos dominantes de uma cultura se aceitam como legítimas e cujos produtos mais sobressalentes são preservados pela comunidade para que formem parte da herança histórica desta. ‘Não canonizadas’ quer dizer, pelo contrário, aquelas normas e textos que estes círculos recusam como ilegítimas e cujos produtos, em larga escala a sociedade esquece com frequência, (a não ser que seu status mude)” (Even-Zohar, 1999a: 10).
Ao contrário das obras canonizadas, que estão no centro do sistema, podemos entender como não canonizadas a literatura regionalista, panfletária, infantil e traduzida, as quais se localizam, via de regra, na periferia do polissistema. As tensões entre periferia e centro é que permitem que obras canonizadas saiam do centro e por vezes, também, que obras da periferia se desloquem para lá. Isso explicaria o fato de a literatura traduzida vir a fazer parte, de modo representativo, no polissistema literário de outra cultura, quando existem lacunas para que isso aconteça. Nas palavras de Even-Zohar:
(…) quando um polissistema ainda não está cristalizado, a saber, quando uma literatura é ‘jovem’ este processo de construção; quando uma literatura é ‘periférica’ (dentro de um amplo grupo de literaturas inter-relacionadas), ou ‘fraca’, ou ambas as coisas; e quando existem pontos de inflexão, crises ou vazios literários em uma literatura (EVEN-ZOHAR 1999b: 84).
A partir disso, Quarto de despejo teria se localizado, então, na periferia do polissistema literário alemão. No entanto, a pergunta que se faz é: o que poderia ter interessado tanto aos alemães que os fizessem ter necessidade de inserir essa obra em seu sistema literário?
Podemos dizer de início que o sucesso nacional e internacional da obra somado ao interesse da já extinta editora Christian Wegner, detentora dos direitos de tradução de Quarto de despejo, na tradução de diários de cunho político-social, contribuiu bastante para a inserção de Carolina no sistema literário alemão. No entanto, não seriam talvez fatores suficientes para ocasionar as outras sete publicações existentes.
É nesse contexto de insuficiência de informações que buscamos o aporte teórico dos Estudos Descritivos da Tradução (EDTs), na tentativa de tentar responder essa pergunta e compreender melhor o processo tradutório no contexto da recepção, uma vez que os EDTs colocam o foco, até então depositado no processo tradutório e no texto original, no texto traduzido, em seu público alvo e na recepção, marcando, assim, uma mudança na maneira de estudar e compreender a tradução de literatura na década de 1970.
Somado a isso buscamos também na teoria dos paratextos de Gerard Genette (1982, p. 8) uma forma de analisar essa recepção a partir de textos, mais precisamente, de resenhas de jornal escritas sobre a obra na época. Genette define o lugar do paratexto como sendo “o lugar privilegiado de uma pragmática e de uma estratégia, de uma ação sobre o público” e, ainda, “aquilo que por meio de um texto se torna livro e se propõe como tal a seus leitores, e de maneira mais geral ao público” (1982, p. 9-10). Nas palavras do teórico paratextos são:
Título, subtítulos, intertítulos; prefácios, preâmbulos, apresentação, etc.; notas marginais, de rodapé, de fim; epígrafes; ilustrações; dedicatórias, tira, jaqueta [cobertura], e vários outros tipos de sinais acessórios, (…) que propiciam ao texto um encontro (variável) e às vezes um comentário, oficial ou oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado à erudição externa nem sempre pode dispor tão facilmente quanto ele gostaria e pretende (p.10).
Amparada nessa afirmação, abordaremos brevemente as capas de três edições alemãs e respectivos títulos e passaremos para a análise de três resenhas publicadas em 1962.
CAPAS DAS EDIÇÕES ALEMÃS
Para fins unicamente demonstrativos, sem pretensões de maiores aprofundamentos, serão apresentadas as capas publicadas em 1968 pela Fischer Bücherei em Frankfurt, em 1979, pela Reclam em Leipzig e em 1983 pela Lamuv Göttingen:
Em uma primeira análise, podemos conjecturar que a primeira capa, publicada no lado oeste da Alemanha, então dividida, apelava para identificação visual, compondo a imagem de Carolina em uma capa amarela vermelha e preta, cores da bandeira alemã. Levando em consideração que as capas, entre outras funções, também tem fins mercadológicos, podemos dizer que poderia ter havido a tentativa de instigar o interesse alemão pelas cores e pela própria composição da imagem com uma mulher negra.
A segunda capa traz imagens em preto e branco e apresenta um apelo mais social e talvez familiar. Há a presença de crianças pobres em frente a um barraco de madeira e uma mulher adulta (Carolina) a olhar por elas. Essa capa já prenuncia um pouco mais a temática do livro e poderia instigar o interesse alemão oriental que vivia sobre regime comunista pela evocação de uma certa condição de precariedade.
Publicada 20 anos depois da primeira edição, a terceira capa traz a imagem de uma Carolina em uma posição de bem estar ao fundo e coloca em primeiro plano um dos filhos, com aparência saudável, prenunciando talvez um presente e um futuro melhor.
Passando a observação dos títulos que segundo Genette (2009, p. 73) apresentam funções de identificar as obras, seu conteúdo e valorizá-lo, observamos primeiramente que também diferem entre si. O primeiro: “Diário da Pobreza, anotações de uma negra brasileira”, o segundo somente “Diário da Pobreza” e o terceiro “Diário da Pobreza, a vida em uma favela brasileira”.
Percebemos que o primeiro título coloca o livro como algo mais intimista de Carolina, sua perspectiva e vivência “anotações de uma negra brasileira”, ao mesmo tempo em que faz questão – como o título em português – de deixar claro o pertencimento de raça da autora; o segundo título busca a neutralidade. Não caracteriza a autora e despersonifica o relato como sendo o “Diário da Favela” e não mais somente de uma negra brasileira; por fim o terceiro, assim como o segundo despersonifica o relato e também o generaliza. Não é mais o relato de pobreza de uma negra brasileira, mas também a descrição da “vida em uma favela brasileira”. Podendo ser somente o Canindé, qualquer outra favela, ou todas.
Estas breves observações já nos permitem obter informações sobre algumas perspectivas de um público alvo em relação a uma obra, bem como da adequação necessária para cativa-los. No caso dos nossos três exemplos, estas seriam: caracterização mesmo que indireta do povo alemão pelas cores da bandeira, o apelo social caro às ideologias socialistas e o bem estar e esperança sentimentos talvez caros a um povo quase as vésperas da reunificação em 1990.
Buscando avançar um pouco mais na análise, observemos agora as resenhas de jornal publicadas na época sobre a obra. Segundo Genette elas seriam classificadas como epitextos, um dos desdobramento dos paratextos, caracterizado como o discurso do mundo sobre o livro e também:
Todas as mensagens que se situam, pelo menos na origem, na parte externa do livro: em geral num suporte midiático (conversas, entrevistas) ou sob a forma de uma comunicação privada (correspondências, diários íntimos e outros) (GENETTE 2009: 12).
É exatamente nesse âmbito que nossa pesquisa vai centrar sua observação. Como mencionado anteriormente, observaremos a seguir alguns aspectos de recepção da obra em questão na Alemanha, tendo como exemplo alguns excertos das três primeiras resenhas publicadas sobre o assunto.
AS RESENHAS DE JORNAL
As resenhas as de jornal sobre Quarto de despejo e sua autora Carolina Maria de Jesus foram escritas entre 1962 e 1996. Oito destes artigos foram conseguidos no Instituto para Pesquisa Jornalística de Dortmund (Institut für Zeitungsforschung – IZF) e os demais foram fornecidos pelo professor Klaus Küpper, autor da Bibliographie der brasilianischen Literatur. Prosa, Lyrik, Essay und Drama in deutscher Übersetzung (Bibliografia da literatura brasileira. Prosa, Lírica, Ensaios e Drama em tradução alemã). Eles foram publicados em jornais de média e grande veiculação na Alemanha. Os exemplos apresentado a seguir são das primeiras resenhas publicadas em 1962.
Iniciando a observação pelos títulos de cada uma das resenhas já podemos obter as primeiras informações sobre o conteúdo do texto, já que como vimos anteriormente, um título entre outras funções serviria para “identificar o conteúdo e valorizá-lo” (Genette, 2009: 73). Eles são:
Passando rapidamente os olhos por todos os títulos podemos perceber a referência à mitologia grega em “Augias”, a identificação de Carolina como poetisa, a associação de Carolina a personagens importantes da literatura alemã e, por fim, o direcionamento para as questões sociais brasileiras apresentadas ou não na obra.
Resenha 1
Os primeiros trechos foram retirados da primeira resenha publicada depois do lançamento da obra em 1962 em um jornal conservador alemão Rheinischer Merkur:
Bonn, 20.04.1962 – Die “Dichterin des Kehrichts” – Tagebuchblätter aus den brasilianischen Elendsvierteln (Poetisa do lixo – diário de um bairro de miséria brasileiro), Guillermo Baumfeld:
Há 46 anos nasceu Carolina em Sacramento, frequentou a escola por dois anos e aos nove começou a trabalhar como empregada doméstica. Quando tinha dezoito anos, casou-se e com vinte já era moradora da favela do Canindé em São Paulo. Sua existência resumiu-se em manter a vida de seu marido doente e de seus três filhos e, durante vinte e seis anos, levantar ao alvorecer.
(…)
Mas o livro não é somente um documento, também se destacam nele, em meio a toda realidade cruel, passagens de lírica suave e intensidade dos sentimentos humanos universais. Ela mesma, que se denomina poetisa do lixo diz: “A voz dos pobres não têm poesia”.
(…)
Seria Carolina de Jesus uma poetisa ou faria ela parte das descobertas que, como cometa, aparecem, escrevem um livro impressionante e depois desaparecem na escuridão? Há cem anos Harriet Beecher Stowe incitou à libertação dos escravos com A cabana do pai Tomás e “acordou“ o mundo para refletir. Hoje, seus outros livros são esquecidos mas essa obra a tornou imortal.
(…)
Carolina é uma poetisa, além de ser também alguém que denuncia.
Partindo do título da resenha – “Poetisa do lixo – diário de um bairro de miséria brasileiro” –, já podemos tecer algumas considerações. Se levarmos em conta as palavras “poetisa” e “lixo”, podemos inferir a mescla de noções vindas dos eixos temáticos que definimos inicialmente para esta pesquisa: poetisa (eixo literário) e lixo (eixo político-social). O subtítulo define, então, o tipo de texto e sua origem.
No primeiro trecho destacado, podemos perceber que o autor se ocupa em caracterizar Carolina primeiramente como alguém que “deu voz aos pobres, até então mudos”, para, em seguida, caracterizar a autora como uma mulher sofrida e de muita força, que luta para dar a seu “marido doente e a seus três filhos” o parco sustento.
Intrigante nessa afirmação, contudo, é o fato de ela estar equivocada. Não é possível reconstruir, na fortuna crítica sobre Carolina, esse mesmo perfil de mulher: a autora nunca foi casada e muito menos teve um marido doente. Por ser a primeira resenha escrita sobre a autora, não é possível saber de onde essa informação foi tirada. No entanto, as conjecturas nos levam a pensar que se trata aqui de uma tentativa, embora baseada em dados equivocados, de moldar e caracterizar uma Carolina que os alemães se interessariam em ler.
Outro ponto interessante é que o jornal em que foi publicada a resenha é de vertente conservadora da época e hoje é um suplemento extra do Die Zeit, jornal de grande circulação na Alemanha. Nesse caso, parece ser importante que Carolina, tendo filhos, tenha também um marido. E como esse marido não aparece na narrativa, é possível que o articulista tenha inferido o fato de ele ser doente.
Analisando a partir da perspectiva alemã, o caráter exótico da vida de Carolina, bem como o fato de o livro ser um diário (um registro autobiográfico, portanto), do qual ela é a autora, e se considerarmos, ainda o fato de que ela mesma pode ser também vista como um personagem do livro, é possível que o resenhista tenha se sentido autorizado a recriar sobre os fatos da vida da autora.
O segundo trecho faz referência ao caráter mais literário da obra: “Mas o livro não é somente um documento, ao contrário, em meio a toda a realidade cruel, destacam-se passagens de lírica suave e da força de sentimentos humanos universais”. A afirmação leva Carolina de um extremo a outro: do relato documental e jornalístico da autora-personagem à dimensão da lírica, da prosa poética e da literatura. Nesse sentido, o trecho em questão confirma os dois eixos em torno dos quais gira o potencial de recepção do livro e busca compensar o caráter documental da obra com a alusão à sua manifesta literariedade.
Resenha 2
O segundo exemplo é de uma resenha publica no mesmo ano alguns meses depois em um jornal socialdemocrata alemão, Vorwärts:
Leipizig, 16.05.1962 – Augias in Sao Paulo – Tagebuch einer Negerin aus den Slums wurde Beststeller (Augias em São Paulo – Diário de uma A partir do título: “Augias em São Paulo – Diário de uma negra da favela torna-se bestseller”, podemos perceber uma referência ao deus grego Augias dos estábulos imundos, o que pode apontar para uma rede associativa passível de ser estabelecida por um público leitor alemão de formação clássica. Por outro lado, percebemos também certo descrédito ao mérito literário de Carolina, já que a ênfase do título parece denotar a surpresa de que tal diário pudesse se tornar um bestseller.
Publicada um mês depois da primeira resenha, em um jornal cujos leitores são basicamente os membros do partido socialdemocrata alemão (SPD), nesta resenha o autor se atém mais ao livro do que à Carolina. Importam aqui, a informação sobre o sucesso do livro, seu tema e a forma como os fatos foram contados: “de forma tão drástica quanto como acontece na realidade”.
O articulista não se preocupa, portanto, em traçar um perfil de autora que os alemães se interessariam em ler, mas em dar ênfase à temática e à forma como é expressa no livro, seu processo de publicação e, é claro, o fato de ele ,surpreendentemente, ter se tornado um bestseller em tão pouco tempo. Assim, tem-se a impressão de que o fato de o livro ser escrito por uma ex-favelada, negra e brasileira, fica em segundo plano. Aqui também não se tenta traçar qualquer perfil, seja ele real ou fictício da autora:
Resenha 3
O terceiro exemplo também do mesmo ano de um jornalista brasileiro que escrevia também para o jornal cristão liberal-conservador alemão, Christ und Welt.
Bonn, 13.07.1962 –, Die Schwarze Mutter Courage aus Canindé – Zu den Tagebüchern der Maria Carolina de Jesus (A mãe coragem preta do Canindé – sobre os diários de Maria Carolina de Jesus), Leo Gilson Ribeiro:
Com uma reação fulminante, a elite brasileira – intelectuais, imprensa e televisão, professores e estudantes, ministros e deputados – recebeu o choque elétrico deste desmascaramento de um mundo, que representa nas capitais do planeta um problema social de dimensões catastróficas.
(….)
O jornal fortemente conservador ”O Estado de São Paulo“ fala sobre um dos melhores livros brasileiros deste século“, o ”Diário de Notícias“ considera a obra um tapa sonoro na cara do governo brasileiro.
(….)
Em suas anotações Carolina escreve: “Há pessoas que duvidam da vida e só pensam na morte como solução. Eu lutei constantemente contra isso enquanto escrevi meu diário”. Como um eco distante soam as palavras de Kafka: “Na escrita existe um consolo estranho, enigmático, talvez perigoso, talvez salvador… Talvez a literatura nos leve a orar…” O livro da brasileira é testemunho de uma crença semelhantemente absoluta na transcendência da palavra, na sua força de transformar o meio circundante tal como lhe foi permitido vivenciá-lo concretamente. Como um “Negro Spiritual”, este livro amargo contém, ao lado de tanta tristeza, uma faísca de consolo, quando Carolina diz: “O homem não nasce nu – a esperança o veste.”
Iniciando novamente a análise pelo título: Die Schwarze Mutter Courage aus Canindé – Zu den Tagebüchern der Maria Carolina de Jesus, consideremos primeiramente “Die Schwarze” e “Mutter Courage”. Começando por “die Schwarze”, vemos aqui mais uma vez a tentativa de evidenciar a cor da autora, evocando com ela todas as redes associativas sociopolíticas aí implícitas, como escravidão e pobreza, por exemplo. Além de marcar uma diferença estereotípica em relação a Mutter Courage de Brecht, Anna: “a mãe Coragem de quem falamos aqui é preta (schwarz)!”.
Já “Mutter Courage”, além de fazer associação direta à célebre personagem de Brecht, Anna, comerciante que sai a trabalho com seus três filhos, dois meninos e uma menina (assim como Carolina), em meio a guerra dos trinta anos, faz alusão também à crítica feita por Brecht de que a guerra não melhora ninguém, pelo contrário. Segundo PEIXOTO (1991) Brecht teve influências do Romance Simplicissimus, de Jacob Christian Grimmelshausen, autor alemão do século XVII, que afirmava que a “guerra torna os homens piores e não melhores” (p. 192). Também Carolina faz uma afirmação que vai ao encontro da crítica de Brecht: “Os pobres são tratados tão mal que são obrigados a abrir mão de sua bondade…”.
Voltando a Anna, a Mãe Coragem de Brecht, na verdade o que vemos não é uma mãe como todos esperavam, que faz de tudo pelos filhos (como Carolina), mas uma mãe que, na guerra, se preocupa em ganhar seu dinheiro mesmo perdendo seus filhos. Nas palavras de PEIXOTO (1991): “o dinheiro faz Coragem perder os filhos” (p. 192). Ou seja: a guerra, a pobreza “faz homens piores”, tira a sua “bondade”. No entanto, Carolina mostra que para escapar à regra, basta querer e fazer diferente. E nesse ponto, as duas obras se encontram novamente. Para PEIXOTO (1991), a peça de Brecht deixa claro ao público que qualquer uma das personagens poderia ter agido de outra forma se quisessem. Carolina Maria de Jesus dá testemunho disso com sua escrita.
O articulista faz ainda uma referência ao imperador Marco Aurélio, que se dedicou à filosofia estoica. Na passagem destacada pelo autor do artigo, quando Carolina relata sobre o racismo dizendo que “o homem está no mundo de passagem e deveria se preocupar em viver em paz e não odiar seu próximo durante sua viagem na terra”, parece mesmo haver um diálogo com o estoicismo, que tinha como um de seus preceitos aceitar escravos como “iguais aos outros homens, porque todos os homens são igualmente produtos da natureza” (RUSSELL, 2004: 253)
Outro ponto importante é a relação feita aqui entre o papel existencialista da escrita de Kafka e a de Carolina Maria de Jesus. Segundo o articulista, ambos usam a escrita como uma forma de se manterem vivos. Para isso, Gilson Ribeiro utiliza uma citação de Carolina, que diz: “Há pessoas que pensam na morte como solução. Eu lutei constantemente contra isso enquanto escrevi meu diário”. Como contraponto de comparação, ele utiliza a seguinte citação de Kafka: “Na escrita existe um consolo estranho, enigmático, talvez perigoso e talvez salvador…”1. Em outras passagens ele declara em cartas que seria a escrita o que o manteria vivo.
Em sua tese de doutorado “Die Tagebücher von Franz Kafka, ein literarisches Laboratorium 1909 – 1923” [Os diários de Franz Kafka, um laboratório literário 1909 – 1923], Andrea Rother apresenta de forma pormenorizada um estudo sobre os diários de Kafka e a importância deles na vida do escritor. Juntamente a isso são apresentadas algumas considerações sobre o gênero diário que talvez venham reforçar a nossa análise: “O diário é um lugar de transição. A vida é transformada lá em escrita… escrever pode dar moldura à vida e, assim, servir de apoio” (p. 4).2
Carolina também encontra na escrita uma saída para sua realidade dura e é nos papeis catados no lixo que encontra a matéria prima para o que chamaria de seu alimento: a escrita. O articulista reconhece essa característica, busca na literatura alemã um paralelo e o encontra em Kafka. Da mesma forma, conforme comentamos acima, ele busca outros correlatos em figuras exponenciais, canônicas para características de nossa autora, e os encontra em Bertold Brecht e até mesmo no imperador romano Marco Aurélio.
Relevante ainda é o fato de o articulista ser brasileiro, crítico literário renomado, que morou na Alemanha e escreveu para jornais alemães. Gilson Ribeiro aproxima Carolina ao viés literário e compara sua trajetória, sua escrita e sua reflexão à de personagens da literatura alemã – Mãe Coragem e Cinderela –, associando-a, assim, não apenas a autores canônicos como Brecht e Kafka, mas também a personagens ligados a uma forte tendência da literatura alemã expressa nos Märchen, ou contos de fada.
Últimas Considerações
A breve observação das capas, títulos e uma análise um pouco mais aprofundada de alguns trechos de resenhas sobre Quarto de despejo e sua autora Carolina Maria de Jesus, foi capaz de nos fornecer os primeiros indícios de recepção da obra na Alemanha.
Nesse sentido, temos que a recepção de Quarto de despejo pode estar inserida prioritariamente no viés político-social da obra, atrelado ao caráter exótico de um contexto político-social diferente contado em primeira pessoa.
Os trechos selecionados mostraram-nos que, cada articulista dá a seu artigo uma ênfase peculiar motivada tanto por suas próprias convicções, e sua leitura singular da obra, quanto pelo jornal para o qual escreve. Fica clara, nos poucos casos analisados, a tentativa de atrair para a obra a atenção do leitor alemão, o que ganha corpo na caracterização da autora, de forma até mesmo arbitrária, e também na caracterização da forma de escrita e aproximação de Carolina a personagens e autores consagrados da literatura alemã. No entanto, em alguns trechos há a presença de adjetivações e caracterizações desnecessárias o que pode caracterizar a perplexidade de constatar como uma negra favelada consegue sucesso no mundo da literatura.
Sendo este artigo parte de uma pesquisa de mestrado que se encerra deixando abertas portas para o surgimento de novas pesquisas, podemos dizer, em suma, que além de contribuir para a divulgação da literatura brasileira na Alemanha a tradução da obra teve também a função de desviar o interesse alemão pelo Brasil do plano da exuberância da natureza para relatos relacionados a condições de injustiça social.
Referências Bibliográficas
EVEN-ZOHAR, Itamar (1979). Polysistem Theory. In: Poetics Today, vol. 1: 1-2.
Teoria de los polissistemas, disponível em:
http://www.tau.ac.il/~itamarez/works/papers/trabajos/EZ-teoria-polisistemas.pdf. Acesso: 01/07/2014
GENETTE, Gérard (2009). Paratextos Editoriais. Tradução de Álvaro Faleiros. São Paulo. Editora Atelie.
KAFKA, F. (1992). Nachgelassene Schriften und Fragmente II. Kritische Ausgabe. Frankfurt a.-M.: Fischer Verlag.
LEFEVERE, André (1977) Translating literature: the German tradition from Luther to Rosenzweig. Amsterdam: Assen.
LEFEVERE, André (1990). Translation, History and Culture. London, New York: Pinter Publ.
MUNDAY, Jeremy (2001). Introducing Translation Studies. Theories and Applications. London: Routledge.
PEIXOTO, F. (1991) – Brecht, vida e obra. São Paulo: Paz e Terra.
PERPÉTUA, Elzira (2014) – A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus. Belo Horizonte: Ed. Nandyala.
SINCLAIR, John (2004). Trust the Text – language, corpus and discourse. London & New York: Routledge.
NOTAS
1 Kafka, Franz. Briefe 1902 – 1924. Org. v. Brod. P. 28
2 “Das Tagebuch ist ein Ort des Übergangs. Leben wird dort in Schrift transformiert… Schreiben kann dem Leben einen Rahmen verleihen und damit Halt geben.”
Bio fornecida pelo palestrante.
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
Resumo: Angélica Liddell (1966) é hoje um dos nomes mais conhecidos do teatro espanhol e europeu. Suas performances, sempre carregadas de um tom violento e autobiográfico, dão ênfase à misoginia e ao machismo. A partir da peça Yo no soy bonita (2004), pretendo evidenciar como a violência no espetáculo narrada e o tom confessional se somam para criar um grito que denuncia a violência contra a mulher e contra a criança-menina.
Palavras-chave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
Resúmen: Angélica Liddell (1966) es hoy uno de los nombres más conocidos del teatro español y europeo. Sus actuaciones, siempre cargadas con un tono violento y autobiográfico, dan énfasis a la misoginia y al machismo. A partir del espectáculo Yo no soy bonita (2004), pretendo mostrar cómo la violencia en el espectáculo narrada y el tono confesional se suman para crear un grito denunciante de la violencia contra las mujeres y las niñas.
Palabras-clave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
Minicurrículo: Ricardo Augusto de Lima é bacharel em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina, onde defendeu a dissertação de mestrado intitulada Estas três paredes do meu apartamento: intertexto, ruptura da ilusão e autoficção como recursos metateatrais em O Homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. É doutorando também na UEL em Letras, com pesquisa na área de autoficção, dramaturgia, escritas de si e metateatro. Mantém, com o nome de Ricardo Dalai, o blog Reticências.
MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER EM YO NO SOY BONITA
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”
(Clarice Lispector, em A hora da estrela)
Fredric Jameson (1996), ao analisar o conceito de “expressão” a partir do quatro O Grito, de Munch, afirma que existe uma separação entre sujeito interior e exterior e as emoções de cada um: da dor sem palavras do sujeito interior ao momento em que a “emoção é então projetada e externalizada, como um gesto ou grito, um ato desesperado de comunicação, a dramatização exterior de um sentimento interior” (JAMESON, 1996, p. 39, grifo nosso). Na peça Yo no soy bonita (2004), Angélica Liddell finaliza uma confissão com um grito um pouco abafado, mas, ainda assim, um grito: “Y aquella noche vomité” (LIDDELL, 2008, p. 22). Por meio de um discurso confessional e autoficcional, a dramaturga catalã atinge o espectador com o que há de mais violento na relação homem-mulher. Nascida em 1966, em Figueras, Espanha, Angélica nasceu Angélica González, mas assumiu o sobrenome Liddell em homenagem a Alice Liddell, menina que inspirou aquela Alice que cai na toca do coelho. Filha única de pai militar, escrevia pequenas histórias (geralmente trágicas e cheias de personagens) para fugir da solidão e da austeridade do ambiente militar.
Em 1993, fundou, com o amigo Gumersindo Puche, a Companhia de Teatro Atra Bilis. Em 2010, participou pela primeira vez do Festival de Avignon com a peça El año de Ricardo. Hoje, é um dos principais nomes do teatro espanhol e mundial, tendo recebido inúmeros prêmios, dentre os quais o Prêmio Nacional de Literatura Dramática, em 2012, com a obra La casa de la fuerza, e foi a primeira mulher a receber o Leão de Prata da Bienal de Teatro de Veneza, em 2013,
Per la sua capacità di tradurre l’arte performativa sulle scene teatrali. Per il suo teatro di resistenza. Per la qualità della sua scrittura, capace di trasformare i suoi testi in poesia che grida al mondo e alla sua stessa anima. Per il suo impegno come interprete e attrice. Per aver cancellato la linea divisoria tra diversi generi e stili d’arte, facendo sì che la miscela di parole, immagini, suoni, musica, gioco, il drammatico, il divertente e il tragico compongano un tutto. Per essere una delle artiste europee della sua generazione che ha avuto la maggiore diffusione nel mondo delle arti sceniche. Per la sua denuncia e l’attenzione continua alle debolezze dell’essere umano. Per la continua ricerca di comunicazione con il pubblico e per la ricerca della conoscenza di nuove culture e forme (LA BIENNALE, 2013, n.p.).
Suas peças, que escapam de toda dramaturgia convencional, sempre carregam um grito estridente e um tom memorialístico, no qual se recria o passado em cena, presentificando-o. Seu objetivo é evidenciar o podre, como uma poética do negativo ou, ainda, uma poética do mal, como fazia Jean Genet. Desta forma, temas como sexo, poder, loucura, morte, violência e estupro são recorrentes no cruzamento entre mitos clássicos (Édipo, Antígona, Medeia…) e mitos modernos.
A voz de Liddell surge em um momento no qual, segundo Maria Pilar Espín Templado (2011), se percebe a importância da mulher no mundo teatral não como atriz, mas como dramaturga, diretora e produtora, mundo este dominado, até a segunda metade do século XX, pelos homens. E a autora se pergunta:
¿Qué temas llevan a escena las dramaturgas españolas de las dos últimas décadas del siglo XX? ¿Dejan memoria de la sociedad actual, recrean su autobiografía, plantean un teatro comprometido o reivindicativo? ¿Podemos acaso hablar de denuncia y compromiso social en la dramaturgia femenina de finales de siglo XX? ¿Podríamos considerar el teatro de las dramaturgas actuales como testimonio de la desigualdad de género, como un teatro feminista? Y en definitiva: ¿marcan una dramaturgia diferente respecto de los autores masculinos de su generación? (TEMPLADO, 2011, p. 45-46).
O cenário no qual Angélica Liddell entra possui até então poucos nomes de destaque (Lidia Falcón, Carmen Resino, M. José Ragué-Arias, Lourdes Ortiz e Concha Romero são alguns deles). Essas mulheres abrem caminho no meio do contexto ditatorial franquista e encabeçam o boom da presença feminina na dramaturgia em meados da década de 1980 (TEMPLADO, 2011, p. 47).
A autora afirma que existem várias motivações na escrita dramática feminina, que vão desde sistematizar estudos e marcar presença feminina em festivais até, no caso de Liddell, de “una necesidad interior de algo revulsivo”.
(…) Cuando estas autoras optan por temas de carácter metafísico, político o social de amplio significado, su talante femenino en ocasiones se diluye en lo general de los planteamientos o por el contrario se inicia una corriente de ruptura política, caso de Angélica Liddell, cuya obra desarrolla un nuevo teatro político paralelo al de Rodrigo García, cuya marca más característica siempre ha sido la provocación (TEMPLADO, 2011, p. 49).
De uma maneira geral, os trabalhos dessas dramaturgas trazem uma temática ligada com a realidade e comprometida com ela, seja a realidade política, a social ou a individual, que se amplia no palco para atingir e englobar outras esferas. Não se trata, pois, do tradicional realismo teatral, ou seja, de um teatro que se esforça em imitar o real na fala, gestos e tipos de personagens a fim de evidenciar que aquela ação poderia acontecer na vida. Ao contrário, “su escritura surge para contestar a problemas del género humano y de la historia contemporánea como trama que explica la historia pública reciente” (TEMPLADO, 2011, p. 50).
Percebeu-se, desde a primeira aparição de Liddell, um diferencial na escrita dramática feminina em Espanha, assim como toda literatura dita “de minorias”. Anna Caballé, professora do Departamento de Filologia Espanhola da Universitat de Barcelona, afirma que, no caso da escritura autobiográfica, ou de cunho autobiográfico (autoficções, diários, cartas, ensaios, romances autobiográficos, peças de teatro, poemas etc.), parece ser evidente a diferença em relação ao cânone masculino, pois as escritoras não se inspiram nos moldes estabelecidos por ele. Segundo Caballé (2001), a aurorrepresentação feminina não é enfática como a dos homens, que querem reivindicar o conceito de sujeito e seu destino histórico. As mulheres tendem a se concentrar em um relato mais detalhado “de acontecimientos o situaciones vitales que han dejado una huella indeleble, una cicatriz. La autobiografía como un punto de salida antes que de llegada, una búsqueda moral, una interrogación a tumba abierta” (CABALLÉ, 2001, p. 6).
Ainda que se afirme, constantemente, a impossibilidade de um drama autobiográfico, José García Barrientos (2014) distingue alguns temas para uma nova modalidade teatral que cresce na contemporaneidade, o chamado “teatro do eu”: um interesse propriamente teatral; um interesse testemunhal, seja sobre a enfermidade, o sexo, a violência política ou de vítimas dos regimes militares latino-americanos; ou um interesse de identidade, do tipo sexual, social, étnico, cultural etc. “Todos los casos coinciden en utilizar lo autobiográfico para hablar de otra cosa, más general, que nos atañe a todos, y de la que el actor es solo un ejemplo” (BARRIENTOS, 2014, p. 134).
Por outro lado, enquanto a autobiografia teatral se apresenta como gênero impossível, a autoficção cênica (ou teatro autoficcional) se evidencia como tendência contemporânea nas Artes Dramáticas em peças que, evocando o passado, mesclam no espaço cênico (ambíguo por excelência) ficção e autobiografia, criando um discurso híbrido e metateatral. Assim, vamos recusar o conceito de teatro autobiográfico para aplicar este, mais maleável, de teatro autoficcional, visto que o espaço teatral e a figura do ator são, concomitantemente, espaço e corpo reais e ficcionais, promovendo um estar-não-estando, justificando por si só que o teatro é, desde sempre, mescla de ficção e real. Em outras palavras, arte ambígua cujo primeiro-motor é justamente a sobreposição das camadas de real e ficcional, ou seja, autoficcional. Desta forma, se anula completamente a necessidade autobiográfica da verdade.
Templado (2011, p. 52) afirma que três temas estão presentes na obra dramatúrgica feminina produzida desde o final do século XX: memória, compromisso e autoficção. Apesar das peças de Angélica tratarem da memória e, consequentemente, da autoficção, o conceito de compromisso nos interessa mais nesse momento, pois podemos entendê-lo de uma forma mais ampla: por compromisso, Templado entende
(…) no sólo el teatro escrito desde una actitud abiertamente comprometida como puede ser la de un teatro feminista, sino también como denuncia de una sociedad muy distante en la consecución de los derechos y de la igualdad de género, en este caso de las mujeres, sin que sus autoras estén afiliadas explícitamente a ningún credo concreto (TEMPLADO, 2011, p. 50).
Angélica Liddell não se liga a nenhum movimento e não se crê uma autora feminista. Não apenas ela, mas outras dramaturgas são reticentes em se ligar a algum movimento feminista, “seguramente por temos a perder oportunidades si se limitaban al gueto feminista” (TEMPLADO, 2011, p. 51).
Por outro lado, a geração de dramaturgas que iniciaram sua escritura dramática na década de 1980 apresenta traços de uma luta pelos direitos da mulher e, segundo Leonard & Gabriele (1996, p. 50),
Es la primera generación que asume de una manera totalmente integrada conceptos como el aborto, la separación, el uso de anticonceptivos, la libertad sexual, la homosexualidad masculina y femenina, la integración de la mujer en el trabajo, la presencia mayoritaria de la mujer en la universidad… etc. Y el arte es un espacio donde se refleja esa presencia siempre más evidente del elemento femenino.
Algumas delas, como Lidia Falcón, nascida em 1936, são não apenas escritoras, mas também advogadas e militantes. Falcón, por exemplo, funda o primeiro Partido Feminista Espanhol, em 1979, e participa ativamente das Primeiras Jornadas Catalanas de la Dona, em Barcelona, em 1976.
As peças de Angélica Liddell apresentam, também elas, esses três temas, mesmo que a dramaturga não esteja vinculada a nenhum partido ou movimento feminista. Ela trabalha abertamente com material autobiográfico, evocando sua infância, a relação entre pais e filhos, a maternidade e, sobretudo, a posição das mulheres na sociedade diante dos homens. Suas peças são, antes de tudo, um manifesto feminino ao mesmo tempo em que trabalham com questões sexuais traumáticas, pois, como ela afirma em uma de suas peças, “mi cuerpo es mi protesta contra mi generación” (LIDDELL, 2008, p. 9). Assim, podemos chamar seu teatro de autoficcional, pois temos um espaço exclusivamente ficcional, o palco. Entretanto, Angélica, em cena, não é apenas Angélica González, mas é também um ícone, um signo teatral, uma personagem. Ao mesmo tempo, evoca a todo momento a menina de nove anos que foi e que vomitou no final de um dia que parecia comum. Dessa forma, a menina Angélica, a atriz Angélica e a personagem Angélica se convertem em uma persona totalmente nova, inédita, incapaz de existir fora daquele espaço e daquele tempo da cena, mas também incapaz de ser uma ou outra coisa, apenas. Persona híbrida, participante de uma cena também híbrida e ambígua.
A obra Yo no soy bonita trata da natureza monstruosa e animal do homem. Nela, a dramaturga, que também é atriz e diretora, leva um cavalo para o palco, cuja presença é claramente gótica e metafórica: ele representa o homem, o falo gigante que quer penetrar a mulher sem importar-se com seu tamanho, sem razão, só instinto, só desejo.
Originalmente criada em 2004, é a terceira parte da Trilogia da Desobediência, composta por três “confissões”: Lesiones incompatibles com la vida (2003) e Broken Blossomns – Lírios partidos (2004). Angélica não enxerga seus espetáculos como peças convencionais, e não o são realmente. Ela os chama de “acciones/ações”, que recusam o formato de ação dramática com começo, meio e fim para expor uma situação-chave, central, e a partir dela conduzir o público à reflexão. São textos curtos, que se modificam em cada espetáculo de acordo com a performance de Liddell.
Yo no soy bonita tem como situação-chave a violência: um abuso sexual ocorrido na infância de Angélica por parte de um soldado que a ajuda a subir em um cavalo. A ferida, não (e talvez jamais) cicatrizada, é exposta de várias maneiras. Usando a 1ª pessoa do singular, Angélica conta sua infância sempre buscando a duplicidade: fazer da sua infância a infância de todos.
A primeira frase da ação já denota o medo feminino e a recusa de ser aquilo que a sociedade ordena que a mulher seja: “Yo no soy bonita ni lo quiero ser” (LIDDELL, 2008, p. 19). Entretanto, por não fazer parte da tradicional dramaturgia, o texto é curto (embora as encenações de Yo no soy bonita preencherem, em média, uma hora). Assim, a atriz altera o texto de uma encenação para outra. Um exemplo, em um espetáculo de 2008, disponível no YouTube, a atriz começa: “Yo tengo cuarenta y dos años”, depois de entrar, caminhar pelo palco, acariciar o cavalo, beber uma garrafa dentre as tantas que estão no palco de cerveja e arrotar. Assim, se prender somente ao texto dramático e/ou à encenação pode ser um descuido levando em conta a alta presença da performance espontânea de Liddell em cena. Nela, texto e cena se completam em uma difícil (ou impossível) separação.
Essa performance nasce do oferecimento do seu corpo como objeto de questionamento. A mulher que tem domínio sobre seu corpo e faz dele o que bem entender. Assim, como seu corpo é seu protesto, ela o castiga de diferentes maneiras como uma forma de desobediência, cujo sofrimento gera uma poética da dor e da violência contra a misoginia. Para tanto, o tom confessional/autobiográfico é necessário, pois assim a atriz descontrói qualquer possibilidade de engano e de ambiguidade.
A performatividade se manifesta de várias maneiras. Por exemplo, ela inicia o espetáculo com seis garrafas de cerveja no palco, que serão, todas elas, consumidas até o final da peça. Assim, ela atua enquanto o álcool produz efeito sobre seu corpo, embaralhando seus sentidos, tornando-a um ser mais próximo ao cavalo que está ao lado, e com quem ela interage em vários momentos. O animal, irracional, possui uma “atuação” incerta, instintiva, não previsível.
Em outro momento, inicia uma série de autoflagelação. Ela corta, com uma pequena navalha, suas pernas, criando um pequeno quadro barroco: o sangue vermelho escorrendo pela pele clara. Depois, enxuga o sangue com um pedaço de pão para comê-lo logo em seguida. Assim, o sangue regressa ao corpo, movimento inverso à menstruação.
Ou ainda quando ela, já embriagada pela cerveja, ferve um pouco de leite e mergulha sua mão no líquido fervente. O leite, signo duplo de maternidade e esperma, a fere, causando repulsa e relembrando a frase que a atriz inclui em vários espetáculos: “No quiero tener hijos” – que surge como outro protesto em relação à sociedade: ela, mulher, se recusa a ser mãe, papel muitas vezes imposto para a figura feminina em uma sociedade patriarcal. Uma vez bêbada e vestida como bufão, a atriz se aproxima de uma figura grotesca e animal a fim de provocar indignação do espectador. Não quer a beleza da arte e sua contemplação estética. Angélica busca, como já foi afirmado, a poética do mal, do cruel, da desobediência.
Dessa maneira, a atriz inverte os papéis e se inclui em outro nível de representação, acentuando sua vida e seu corpo no espaço ficcional do teatro. O corpo também é palco. O corpo também é texto.
Por exemplo, ao iniciar um diálogo com “el barquero”, Angélica suplica: “No me mates, por favor, no me mates./ ¿Qué le voy a hacer?/ Es un miedo de nacimiento./ Como una marca./ Un privilegio inverso (…). Mira, hacemos una cosa. Primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas.” (LIDDELL, 2008, p. 21). Suplica tudo enquanto sua mão direita está entre suas pernas, tocando sua vagina, e fotografias de sua infância são projetadas em um telão. Nesse pequeno trecho podemos perceber que o barqueiro (isto é, o homem) oprime a figura feminina a ponto de ela nascer com medo de morrer e de ser usada. Ser mulher é, então, uma marca, “um privilégio inverso”, pois tal privilégio só dá direito à morte e ao uso por parte do outro: “primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas”.
Essas imagens e esse texto introduzem o trecho, talvez, mais importante da peça, que a dramaturga denomina “Confesión”:
Éramos tres niñas. Teníamos 9 años. Obtenemos el permiso de nuestros padres para visitar las cuadras. Era normal. Frecuente. Los niños y las niñas podíamos visitar las cuadras cuando quisiéramos. Estaban al lado de nuestras casas. Eran las cuadras del cuartel. Vivíamos entre militares y caballos. Aquel día un soldado nos acompañó durante la visita. El soldado preguntó: “¿Queréis subir a algún caballo?” Nosotras contestamos: “Sí, a ése.” Era el caballo más bonito de la cuadra. El soldado aprovechó la situación. Empezó a sudar. Su cara se volvió roja. Soy la primera en subir. Para subirme al caballo el soldado me agarra de una forma extraña. Pone su mano gigantesca bajo mi sexo diminuto mientras me levanta en el aire. Intenta apartarme las bragas. Utiliza sus dedos para separar los labios de mi vulva. Aprieta. Duele. Mantiene su mano entre mis nalgas y el lomo del caballo. Mueve los dedos como gusanos. Noto sus uñas. El soldado aprieta con un solo dedo. Le digo que quiero bajar. El soldado aguanta un poco más. Se ríe. Aprieta mi vagina un poco más. Por fin el soldado me baja del caballo. Se pasa la mano por la nariz. Se huele los dedos. Sube a las otras niñas. Recuerdo la vergüenza. Teníamos 9 años. Cuando salimos de las cuadras estábamos serias. Calladas. De repente una dice: “¿A vosotras os ha hecho algo?” Yo digo que no. Me da vergüenza decir que sí. No. No. La otra dice que el soldado le ha hecho daño ahí abajo. Yo digo que no. A mí no me ha hecho nada. Me da vergüenza decir que sí. Nada. No sé. A mí no me ha hecho nada. Me encontraba mal. No se lo conté a nadie. Me marché a casa. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité (LIDDELL, 2008, p. 21-2).
O trecho deixa claro, devido à riqueza de detalhes (o suor do soldado, suas falas, sua mão gigantesca, o sexo pequeno, os dedos, os lábios, a dor, as unhas, a vontade de parar, o riso do soldado, sua força, o ato de cheirar os dedos, a vergonha sentida, o silêncio, o vômito), a lembrança do acontecimento, presentificando e, assim, tornando-o parte do aqui-agora de cena. Nesse ponto, a presença do cavalo vivo em cena corrobora para a presentificação do ato, que “coroa” uma série de infortúnios que Angélica teria sofrido ao longo de sua vida por ser mulher e por ser criança, “una niña”. A memória, embora de um tempo distante, parece estar viva, revelando toda uma infância sendo palco para abusos, como quando ela nos relata que um amigo da família comentou a seu pai que sua filha era uma “puta”. Tais relatos servem para situar a origem da violência contra a mulher, e não apenas a mulher-Angélica, mas todas as mulheres, pois, ao falar de si mesma, a atriz evidencia todo um sistema social patriarcal e misógino. Seu espetáculo surge, então, como uma forma de estabelecer um canal comunicativo entre a dificuldade de ser e de defender uma menina/mulher na sociedade patriarcal.
Nesse momento sua desobediência é necessária: ferir o próprio corpo como protesto à violência real, fora da cena, causada não por si mesma, mas por outro que se acha mais poderoso. Sua desobediência, por fim, pretende acabar com aquela vergonha sentida aos nove anos, que a fez calar. No aqui e agora do palco, a mulher não se cala e tampouco permanece inerte diante do abuso. A atriz se coloca como figura dupla, fiel e oferenda, faca e sacrifício. Ela é ao mesmo tempo aquele que oferece o sacrifício e a própria oferta, pois “en el tiempo de las muertes colectivas es necesario el sacrificio individual como rebeldía o barricada. El arte, sacrificio íntimo en un espacio público, es nuestra rebeldía. Gracias al sacrificio poético recuperamos la identidad que perdemos en el masacre” (LIDDELL, 2014, p. 99). Dessa rebeldia nasce a necessidade da autobiografia. O eu surge então não como narcisismo, mas como desejo: “Con el sacrificio queremos decir YO” (LIDDELL, 2014, p. 99).
Esse desejo de dizer “EU nasce do desejo de atestação de si, como escreveu Ricoeur (1990, p. 34-5): “L’attestation est fondamentalement attestation de soi. Cette confiance sera tour à tour confiance dans le pouvoir de dire, dans le pouvoir de faire, dans le pouvoir de se reconnaître personnage de récit, dans le pouvoir enfin de répondre à l’accusation par l’accusatif: me voici!” (RICOEUR, 1990, p. 34-5).
Nesse sentido, Angélica resgata suas memórias para converte-las em elementos estéticos dentro de sua poética dramática. A cenografia, que ela também assina em Yo no soy bonita, reafirma isso: uma vez diante do palco, o espectador é afetado pela pintura viva na qual ele é convertido.

Pela imagem anterior podemos verificar que os elementos e objetos cênicos aproveitam o espaço horizontal do palco. Da esquerda para a direita, temos: uma pilha de colchoes, quadros, uma cadeira, as garrafas de cerveja, uma pequena mesa com um fogão elétrico, um coelho empanado e o cavalo branco. Assim, a proposta da cenografia é uma primeira comunicação visual com o espectador, que entra na sala e já percebe os elementos do palco. A importância da cenografia e do figurino se mostra também no fato de Angélica ser responsável por isso na maioria de suas peças. Ela escreve:
El espacio escénico debe ser también un espacio de tensión, debe ser despojado del concepto escenográfico-decorativo tradicional, más cercano del ornamento y el mobiliario que de lo realmente expresivo. El espacio escénico se despoja, pues, del diseño, esa trampa o mentira estética, para convertirse en un espacio de tensión moral. Los objetos, fuera de un espacio de tensión, son superficiales, artificiales e inertes, pero en el espacio escénico son las acciones las que dotan al objeto de culpabilidad y responsabilidad. Cuando el objeto y la acción se unen desaparecen el uno y el otro para dejar paso al sentido, es decir, al lenguaje. Se ha creado lenguaje. Nuestra misión es fabricar sentido dándole así la oportunidad a la revelación, haciendo visible lo invisible. Los objetos, enfrentados al espacio escénico, constituyen la anatomía física de la revelación. (…) (LIDDELL, 2014, p. 46).
A tentativa de representação autobiográfica aqui reforça a tensão em cena. Para Janaína Leite (2014, p. 86), dramaturga e pesquisadora brasileira influenciada pelo trabalho de Liddell, a ideia do tom confessional aqui nada mais é que “a tentativa de figurar a experiência vivida, sentida, sofrida”, mantendo assim “a tensão com o referencial real que a motivou”. O espaço de tensão, próprio do teatro, é reforçado pelo eu que o personagem diz, eu que é imediatamente reconhecido pelo espectador.
Essa tensão é reforçada pelo palco feito pintura viva, visto que ele aproxima o espectador do contexto em questão, criando aquilo que Boileau chamou de “ilusão referencial”. Em outras palavras, existe uma experiência da qual se pode falar, se deve falar (LEITE, 2014, p. 87).
Janaína Leite afirma que esse movimento de falar sobre si localiza a história passada do sujeito no palco, ao mesmo tempo que re-sente a ferida:
A história pessoal se abre para a experiência das mulheres em sua condição de oprimidas, mas retorna, na performatividade da cena, sempre para ela mesmo já que a artista cria uma cena de autoflagelo (…). É através da história localizada e re-sentida naquele corpo particular, naquela mulher que se encontra diante de nós, é que podemos viver a experiência, não de uma peça de denúncia como tanta as que existem sobre mulheres, mas de uma obra na qual nos tornamos testemunhas de um crime sofrido e para o qual não poderemos ficar indiferentes. A narrativa autobiográfica se atualiza de forma assustadora diante de nossos olhos a partir da performance de Liddell, frente à qual não há como nos posicionarmos como se fôssemos espectadores confortavelmente sentados diante de uma representação, nos colocando como testemunhas diante de um acontecimento (LEITE, 2014, p. 90).
O uso de temas autobiográficos em Angélica Liddell reforça o objetivo do seu teatro: falar da parte tóxica do homem (LIDDELL, 2014, p. 124). Entretanto, isso não quer dizer que seu teatro busque a purificação. Segundo a própria dramaturga, seu teatro busca o reconhecimento, uma união de sensibilidades, uma epifania individual diante de um acontecimento, pois o “teatro responde al concepto de sacrificio, pero no para purificarnos, sino para gozar de las tinieblas” (LIDDELL, 2014, p. 125). Desta forma, ao resgatar suas memórias e traumas, a dramaturga busca atingir o mais sensível de seus espectadores e da natureza humana em geral. Como toda arte de provocação, esse tipo de experiência artística deseja atingir o mais profundo da empatia. Enquanto muitos entendem a provocação como choque, o texto e a cena de Liddell buscam um olhar mais atento para uma experiência pessoal para que essa se converta em um reconhecimento cultural, político e social. Rompe-se os limites da cena para se aprofundar nos sentidos da miséria humana.
Uma vez mesclando vida e arte nessa proposta, se intensifica a tensão dramática e quebra-se a quarta parede teatral, isto é, a separação entre palco e público, criando uma cena metadramática capaz de produzir uma nova espécie de catarse: aquela que nasce da dúvida e do jogo entre real e ficcional e que questiona as noções de verdade, memória, passado, presente e teatro.
BIBLIOGRAFIA:
ALMELA, Margarita et al. (2011). “Prólogo”. In: ALMELA, Margarita et al. Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 3-4.
BARRIENTOS, José-Luís García (2014). “Paradojas de la autoficción dramática”. In: CASAS, Ana. (Ed.), El yo fabulado. Nuevas aproximaciones críticas a la autoficción. Madrid: Iberoamericana. pp. 127-146.
CABALLÉ, Anna (2001). “Seguir el hilo”. ABC Cultural, 20 jun. 2001. p. 4.
JAMESON, Fredric (1996). Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática.
LA BIENNALE. (2013) “Angélica Liddell Leone d’argento per il Teatro”. Disponível em: <http://www.labiennale.org/it/teatro/archivio/festival-42/liddell.html?back=true>. Acesso em: 20 fev. 2016.
LEITE, Janaina Fontes (2014). Autoescrituras performativas: do diário à cena. As teorias do autobiográfico como suporte para a reflexão sobre a cena contemporânea. Tese. Universidade de São Paulo.
LEONARD, Candyce; GABRIELE, John. P. (1996). Panorámica del teatro español actual. Madrid: Fundamentos.
LIDDELL, Angélica (2008). La desobediencia, hágase en mi vientre. Pliegos de Teatro y danza n. 26. Madrid: Aflera Producciones SL.
LIDDELL, Angélica (2014). El sacrificio como acto poético. Madrid: Editorial Continta Me Tienes, colección Escénicas.
RICOEUR, Paul (1990). Soi-même comme un autre. Editions du Seuil.
TEMPLADO, M. Pilar Espín (2011). “El teatro de denuncia social: un compromiso en las dramaturgas españolas de finales del siglo XX (1980-2000)”. In: ALMELA, Margarita et al. Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 45-64.
Bio fornecida pelo palestrante.
Sandra Sacramento
Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus – BA
RESUMO: Pretendo, neste texto, ler as personagens Paraguaçu e Moema, da epopeia Caramuru (1781), de Santa Rita Durão e Iracema (1865), de José de Alencar; à luz dos ensaios Dos canibais (1584) de Montaigne, Do contrato social (1762) e Emílio (1762), de Rousseau, em atenção ao delineamento da alteridade, acerca do indígena do Novo Mundo, em especial da mulher indígena, trazendo, em contraponto, a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791) de Olympe de Gouges e o feminismo da terceira onda, que apreseta severa crítica à tradição ocidental.
PALAVRAS-CHAVE: Personagem feminina; Razão; Alteridade; José de Alencar.
ABSTRACT: The present article, Paraguaçu, Moema and Iracema: reason and forgetfulness, has as its main goal to present a reading of the characters Paraguaçu and Moema from Caramuru (1781), by Santa Rita Durão, and Iracema (1865), by José de Alencar. This reading will be based on the essays Dos canibais (1584) by Montaigne and Do contrato social (1762) and Emílio (1762), by Rousseau. It will draw attention to the otherness of the indigenous populations of the New World, especially the otherness of the woman. It will also employ the Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), by Olympe de Gouges, and the feminism of the third that offers severe criticism to western society.
Key words: Female character; Reason; Otherness; José de Alencar.
MINICURRÍCULO : SANDRA SACRAMENTO: Doutora em Letras (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). Atualmente, é professora titular (plena) em Teoria Literária, na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, onde coordenou o Programa em Letras: Linguagens e Representações, aprovado pela Capes, em 2007 e atua como membro efetivo do referido Programa. Desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Poitiers, na França, com a Profa. Dra. Ria Lemaire, 2012-2013. É Membre Associé Étranger do Centre de Recherches Latino-Américaines- ARCHIVOS, da Université de Poitiers:France, do GT Mulher e Literatura da ANPOLL e da Rede de Estudos Avançados em Leitura. – RELER, grupo ligado à Cátedra UNESCO de Leitura- PUC/Rio.
A tradição ocidental estruturou-se em bases racionais presos ao modelo da analogia. Diante do Novo Mundo, o europeu, quase sempre, ao lidar com o outro, muniu-se do princípio da similitude que o antecedia, trabalhando para a manutenção da imago mundi, isto é, mapa cartográfico, escrito em 1410, pelo teólogo francês Pierre d’Ailly, sobre o mundo além do continente europeu. Ainda que filósofos como Montaigne e Rousseau tenham escrito em favor da alteridade, esses não ficaram distantes da concepção monística, ou seja, teoria do conhecimento que dissolve os fenômenos, os acontecimentos em um apriorismo, que refuta a multiplicidade e a contingência. Neste texto, persigo os desencontros experimentados entre textos literários e filosóficos frente ao novo e desconhecido, no que diz respeito basicamente à mulher índia. Pelo recorte a que me proponho, essa traz o alcance dos primeiros contatos do colonizador com a terra brasileira e sua gente, em que o sentimento amoroso despertado nas índias Paraguaçu e Moema de Caramuru de Santa Rita Durão e Iracema de José de Alencar, é capaz de se colocar submetido ao domínio cultural trazido pelo forasteiro. O modelo que se faz de pronto é o inspirado na Virgem Maria e depois na mulher burguesa, mãe de família, responsável pela esfera do privado, em eterna imanência; enquanto o homem responde pelo público, pelo político, por estar melhor adaptado segundo sua natureza (ROUSSEAU, 1755).
As índias Paraguaçu e Moema, da tribo dos antropófagos Tupinambá, são personagens da epopeia Caramuru de Santa Rita Durão, que se apaixonam pelo lusitano Diogo Álvares, náufrago na Ilha de Itaparica, no litoral baiano. É composta de X cantos, à maneira camoniana, de cunho propagandístico em louvor às grandes descobertas. No Canto II, ocorre o encontro entre a índia e Diogo. Paraguaçu é uma autóctone, de pele branca com traços finos e suaves. Apesar de não amar Gupeva, está na tribo por ter-lhe sido prometida. Como sabe a língua portuguesa, vai ao encontro de Diogo e apaixonam-se:
LXXXI
Deseja vê-lo o forte lusitano,
Por que interprete a língua que entendia;
E toma por mercê do céu sob’ramo
‘Ter como enteada o idioma da Bahia.
Mas, quando esse prodígio avista humano,
Contempla no semblante a louçania:
Pára um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo.
LXXXII
Só tu, tutelar anjo, que o acompanhas,
Sabes quando a virtude ali se arrisca,
E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Essa de insano amor doce faísca;
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias que nem na morte o tempo risca),
Que houvera de perder-se naquela hora,
Se não fora cristão, se herói não fora
LXXXV
Bela (Ihe disse então), gentil menina,
(Tornando a si do pasmo, em que estivera)
Sorte humana não é, mas é divina,
Ver-me a mim, ver-te a ti na nova esfera.
Ela a frase, em que falo aqui te ensina;
Ela, se não me engana o que alma espera,
Um fogo em nos acende, que de resto
Eterno haja de arder, se arder honesto.
No Canto IV, ocorre a guerra entre Tupinambás, liderada por Gupeva, tendo a ajuda de outras tribos, como os Tupiniquis, Viatanos, Poquiguaras, Tumimvis, Tamviás, Canucajaras; contra os Caetés, liderada por Sergipe, tribo de Jararaca, com a ajuda de outras nações, como os Ovecates, Petiguares, Carijós, Agirapirangas e Itatise. Tal contenda se deve ao fato de Paraguaçu se encontrar prometida a Gupeva, mas Jararaca não aceita perder a índia para o último e se torna amigo de Diogo Álvares. O narrador faz elogios explícitos às tribos inimigas aos Tupinanbás, também antropófagas, por sua bravura, e, especialmente, em atenção às mulheres tapuias pela destreza na guerra:
XXVII
Quarenta mil de cor todos vermelha
Conduz ao campo o forte Sapucaia:
Dez mil, que têm furada a longa orelha,
São Amazonas de femínea laia:
É o amor conjugal que lhe aconselha
A descer dos sertões à vasta praia,
Por achar-se nos lances mais temidos
Ao lado, sem temor, dos seus maridos.
XXVIII
Brasa matrona de coragem cheia
A quem o márcio jogo não perturba,
Na forma bela, mas por arte feia,
Vai comandando na femínea turba:
Deram-lhe o nome os seus da grã-baleia,
Nome que, ouvido, os bárbaros disturba,
De namorados uns que a têm por bela,
Mas outros com mais causa por temê-la.
Nesta, Paraguaçu luta e vai acabar salvando o seu amor. Ainda no Canto IV, também Paraguaçu luta contra os Caetés e salva Diogo da morte:
XLVI
Paraguaçu, que de Diogo esposa
(Por que mais Jararaca se confunda)
Ia a seu lado a combater briosa,
Nem teme a multidão que o campo inunda:
Usa com ela a tropa belicosa
Da vulgar seta, do bodoque e funda
Leva a Amazona um rígido colete,
E coa espada de ferro o capacete.
No Canto VI, como Diogo participa da guerra, da qual sai vitorioso. Por tal feito, muitos chefes indígenas lhe trazem suas filhas em agradecimento.
II
Muitos deles, dos povos subjugados,
Que o efeito viram da terrível chama,
Outros vinham somente convocados
Das heróicas ações, que conta a fama;
Trazem plumas e bálsamos prezados,
E outra rude opulência, que o povo ama,
E com os dons da americana Ceres
Oferecem-lhe as filhas por mulheres.
Moema é também conduzida:
IV
Tuibaé, dos Tapuias chefe antigo,
Tiapira lhe oferece celebrada;
E com a mão da filha deixa amigo
Uma ilustre aliança confirmada.
Xerenimbó trazia-lhe consigo
A formosa Moema já negada
A muitos principais, por dar-lhe esposo
Digno do trono de seus pais famoso.
Entretanto, Diogo prefere Paraguaçu:
VI
Paraguaçu, porém, com fé de esposo
Parecia estimar distintamente,
Mostrando-lhe no afeto carinhoso
A sincera afeição que n’alma sente:
Amava nela o peito valoroso,
E o gênio dócil, com que à fé consente;
Amor que ocasionou, como é costume,
Em algumas inveja e noutras ciúme.
No primeiro contato que Diogo tem com Gupeva, no Canto II, esse se apresenta solícito à doutrinação religiosa, pois, em uma gruta, reconhece a beleza da Virgem Maria.
XXVII
Mas entre objetos vários a que atende
Nota Gupeva extático a pintura
Que num precioso quadro, que ali pende,
Representava a Mãe da formosura:
Se seja coisa viva não entende,
Mas suspeitava bem pela figura
Digna a pessoa, de que a imagem era,
De ser mãe de Tupá, se ele a tivera.
XXVIII
« Esta (pergunta o bárbaro) tão bela,
Tão linda face, acaso representa
Alguma formosíssima donzela,
Que esposa o grão-Tupá fazer intenta?
Ou porventura que nascesse dela
Esse que sobre os céus no sol se assenta?
Quem pode geração saber tão alta?
Mas se há mãe, que o gerasse, esta é sem falta. »
XXX
Peçamos, pois que é mãe, que nos defenda,
Que te dê para ouvir dócil orelha
E contigo o teu povo recomenda. »
Dizendo o herói assim, devoto ajoelha.
Gupeva o mesmo faz com fé estupenda
E pendente de Diogo, que o aconselha,
Levanta as mãos, como ele levantava,
E, vendo-o lacrimar, também chorava.
No Canto VI, Diogo ergue uma capela em uma gruta, visando à catequese.
VIII
E, estando o sol no seu maior aumento,
Quanto sítio no ardor busca sombrio,
Numa lapa, que esconde alto mistério,
Foi achar para a calma o refrigério
XII
Capela ali se vê de entalho nobre,
Obrado com desenho estranho e vário,
Onde, efigiado em mármore, se cobre
Um natural belíssimo Calvário;
Vê-se a base da cruz, mas nada sobre,
De jaspe ainda melhor que Egízio, ou Pário,
E ao lado um posto em proporção distinta,
Onde a mãe e discípulo se pinta.
XIV
Eis aqui preparado (disse) o templo,
Falta n fé, falta o culto necessário;
E quanto era de Deus, feito contemplo
Tudo o que é de salvar meio ordinário.
Desta intenção parece ser exemplo
Este insigne prodígio extraordinário,
Onde parece que no templo oculto
Tem disposto o lugar e espera o culto.
Ainda no Canto VI, Diogo parte com Paraguaçu para a Europa em um barco francês; e, na saída da nau, as índias que foram preteridas por Diogo Álvares, acorrem ao mar na intenção de acompanhá-lo a nado; mas somente Moema consegue chegar mais perto e declara seu amor ao português.
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
Moema desabafa e clama por um homem que ela não encontra em Diogo, cujo modelo também não é o do indígena:
XXXVIII
« Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Faziam, raios, coriscos, que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco…
Ah que o corisco és tu… raio… penhasco?
XLI
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio… »
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
Não mais resistindo…
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
Mas, ainda brada:
« Ah Diogo cruel! » disse com mágoa,
E, sem mais vista ser sorveu-se n’água.
Tal como Moema, Iracema também morre. Perguntamo-nos se não estaria aí a chave para o entendimento de uma proposta mais equânime para a colonização e, consequentemente, para a relação estabelecida entre o homem/ branco/ europeu e o outro homem/ indígena/ do Novo Mundo; ou entre o primeiro e a mulher/ indígena/do Novo Mundo? No Canto VII, Paraguaçu, ao ser recebida na Corte pelos reis franceses, é batizada e recebe o nome da rainha Catarina de Médici, esposa de Henrique II. No Canto VIII, na viagem de volta ao Brasil, sem antes parar em Portugal, Paraguaçu descreve a Bahia com suas terras, engenhos e fortalezas; e profetiza o futuro do Brasil, as invasões francesa e holandesa, sempre em favor das tropas portuguesas. E, em seguida, a empreitada colonizadora se adensa, confirmando o que já havia sido anunciado nos Cantos II e VI, acerca da catequese e da imposição de um modelo feminino espelhado à luz mariana. A volta do casal encontra-se narrada nos Cantos, VIII, IX e X.
Nestas narrativas, sobressai o imaginário europeu sobre o Novo Mundo, com sua gente e sua natureza, apoiando-se em uma gama de referências, que justificam a empreitada expansionista; ainda que, muitas vezes, ocorra a simpatia por aquela gente chamada de bárbara, diante da antropofagia, ou pelo fato de não identificar sinal de cobiça, entre os índios, como se confirma na estância a seguir, do Canto II.
XXVI
Acesa a luz na lôbrega caverna,
Vê-se o que Diogo ali da riait levara;
Roupas, armas, e entre parte mais interna
A pólvora em barris, que transportara,
Tudo vão vendo à luz de uma lanterna,
Sem que o apeteça a gente nada avara,
Ouro e prata, que a inveja não lhe atiça;
Nação feliz, que ignora o que é cobiça!
Aqui o colonizador, na voz do narrador, louva a ausência de cobiça no índio. Da mesma forma que, em Iracema, de José de Alencar são enaltecidos os valores cultivados pelos índios, mas, em grande medida, o que prevalece é o modelo do colonizador. Em relação à mulher, por exemplo, era esperada a submissão ao homem, (tal como aparece em Emílio, publicado inicialmente em 1762, por Rousseau, acerca do comportamento esperado para Sofia): – Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araquém (p.176); – Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor (p. 184); – O coração da esposa está sempre alegre junto de seu guerreiro e senhor (p.190). O mesmo podemos dizer em relação a ela dentro do casamento, como se confirma nas palavras de Poti:
A felicidade do varão é a prole, que nasce dele e faz seu orgulho; cada guerreiro que sai de suas veias é mais um galho que leva seu nome às nuvens; como a grimpa do cedro. Amado de Tupã é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; ele nada mais deseja senão a morte gloriosa (ALENCAR, 2006, p. 203).
Tais prescrições comportamentais não são as indígenas, como o reconhecimento do homem como senhor de obras, esposa e filhos (BOURDIEU, 2000). Entretanto, a índia, quando comparada à europeia, é colocada como menos casta que aquela: – Martim se embala docemente; e, como a alva rede vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores (2006, p. 161). Montaigne, no ensaio Dos Canibais, de 1580, século XVI, em estilo pouco ortodoxo de lidar com a alteridade, recorre a recursos argumentativos que tendem ao enaltecimento do modus vivendi indígena, vendo o canibalismo como subordinado a um ritual, em que o vencido não era desrespeitado. Aliás, o mesmo posicionamento aparece em Durão, na estância XVIII, do Canto I:
XVIII
Que horror da humanidade! ver tragada
Da própria espécie a carne já corruta!
Quando não deve a Europa abençoada
A fé do Redentor, que humilde escuta!
Não era aquela infâmia praticada
Só dessa gente miseranda e bruta:
Roma e Cartago o sabe no noturno
Horrível sacrifício de Saturno.
Neste passo, o autor faz menção ao canibalismo ocorrido entre os lestrigões e os repártanos, povos da Roma antiga, bem como entre os fenícios e os cartagineses. Montaigne, por sua vez, munido de leituras sorvidas em passagens dos Commentaires de Monluc de 1561, com abonações também de Platão e de outros representantes da Antiguidade e mesmo de comentadores do período românico, não deixa de ressaltar as atitudes pouco humanas dos seus ancestrais conterrâneos anteriores à Idade Média. E, diante dos embates religiosos da Europa quinhentista, se indagava:
Je pensé qu’il y a plus de barbarie à manger un homme vivant, qu’à le manger mort; à déchirer par tourments et par genes, un corps encore plein de sentiment, le faire rotir par le menú, le faire mordre et meurtrir aux chiens, et aux pourceaux (comme nous l’avons non seulement lu, mais vu faiche mémoire, non entre des ennemis anciens, mais entre des voisins et concitoyens, et qui pis est, sous prétexte de piété et de religion) que de le rotir et manger après qu’il est trépassé (MONTAIGNE, 2002, p. 366,367).
Pensei que há mais barbárie em devorar um homem vivo do que assá-lo e devorá-lo depois de morto; em despedaçar suas carnes por tormento e tortura, em um corpo ainda repleto de sentimento, incorporado ao cardápio, mordido e machucado por cães e porcos (como não apenas lemos, mas vimos recentemente, não entre antigos inimigos, mas entre vizinhos e concidadãos, e o que é pior ainda, sob o pretexto de piedade e de religião) (MONTAIGNE, 2002, p. 366, 367) (tradução minha).
Colocando, assim, em discussão, a suposta racionalidade europeia, tendo sido visto por Lévis Strauss como afeito ao pensamento do que seria a antropologia posteriormente. Por isso, quando se refere ao relacionamento entre os índios com suas mulheres, coloca-os sempre numa dimensão humana, que crê no transcendente. Para os índios, havia dois preceitos sagrados: la vaillance contre les ennemis, et l’amitié à leurs femmes [a vigilância contra os inimigos e a amizade às suas mulheres]. Enquanto os homens se ocupavam da caça, as mulheres permaneciam na tribo e s’amusent cepandant à chauffer leur breuvage, qui est leur principal office [divertindo-se durante a fermentação de sua bebida, cuja elaboração é a sua principal função na tribo] (MONTAIGNE,2002, p. 364). Ao colocar o índio como humano, detentor de valores, Montaigne dá sinais de uma teoria que posteriormente será defendida por Rousseau, o monogenismo, isto é, de que todo ser humano nasce igual, em estado de natureza, apto à perfectibilidade, ao aperfeiçoamento; não sendo a civilização europeia melhor, pois detectavam-se problemas nesta, e chama a atenção para uma humanidade una, entretanto, múltipla em seu desenvolvimento, em seus caminhos escolhidos. Em O Contrato Social (1762), no capitulo II, Des premières sociétés, logo no início, vai dizer: la plus ancienne de toutes les sociètés et la seule natirelle est celle de la famille (ROUSSEAU, 2011, p.10). E, depois, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da diferença entre os homens (1775) coloca a vontade geral, instância de Liberdade, como corpo soberano dos cidadãos.
(…): o pacto fundamental, em lugar de destruir a igualdade natural, pelo contrário substitui por uma igualdade moral e legítima aquilo que a natureza poderia trazer de desigualdade física entre os homens, que, podendo ser desiguais na força ou no gênio, todos se tornam iguais por convenção e direito (ROUSSEAU, 1762/1989, p. 28). (Tradução minha)
Tanto Santa Rita Durão, quanto Montaigne se baseiam em textos publicados anteriormente, de literatura de viagem, como Les Singularitées de la France antarctique de 1557 e Cosmographie Universalle de 1575, ambos de André Thevet; além da Histoire d’un voyage faiten terre de Brésilde 1578 de Jean de Léry. Os dois últimos participaram da expedição de Villegagnon, quando da invasão francesa no Rio de Janeiro. Mas tal raciocínio ocorre pela própria dificuldade enfrentada pelo filósofo em dirimir, basicamente, o interesse, princípio que rege a vida em sociedade. Rousseau, ao afirmar que «O homem (= humanidade) nasce livre, mas por toda parte encontra-se posto a ferros», coloca um dispositivo aplicável a qualquer ser humano e, ao mesmo tempo, limita a escolha por voto, no sistema democrático, a uma minoria, tida como maioria, deixando a maioria, vista como minoria, sempre sem voz, em nome do bem comum; porque o Estado, em síntese, encerra o interesse de todos. Logo, a própria engrenagem política está impossibilitada de atender a todos, instaurando-se assim a alienação, isto é, tornam-se o outro a partir do olhar do mesmo; não havendo possibilidade de intervir na ordem social, experimentando o rechaço, independente do gênero a que pertença. Por isso, feministas como Olympe de Gouges, entre outras, se insurgiram contra a noção rousseriana da vontade geral, porque perceberam que tanto o escravo quanto a mulher encontravam-se submetidos à hierarquização dos pares dicotômicos da razão iluminista; ainda que a República francesa tenha-se utilizado, em bustos, medalhas, moedas e pinturas da Marianne, figura emblemática da mulher do povo, como forma de disseminação representativa do credo liberal; mas, na prática, a mulher foi usurpada da cidadania e restou-lhe somente a sublimação simbólica de uma exclusão de fato (AGULHON, 1979). Assim, a mulher, como outras minorias, foi deixada em posição inalterada, tidas como moralmente neutras (DUMONT, 1966). Hoje, por outro lado, vivemos na era do desencanto em relação a qualquer relato, colocando por terra a crença no progresso, na superação, pois esses não foram alcançados no passado, na medida em que o protocolo de ação encerrava-se no domínio da natureza e de humanos sobre outros humanos. Resta-nos, reivindicar em processo simbólico de negociação, relações de gênero mais equânimes, rumo ao empoderamento, não a partir de um paradigma imposto, à luz de interesses que não nos dizem respeito, como ocorreu no passado com Paraguaçu, Moema e Iracema, mas, em contexto cuja representação de gênero esteja atravessada pelo cognitivo (da razão das sombras), pelo avaliativo (do querer) e pelo afetivo (do psíquico), como fatores psicossociológicos ligados à prática relacional da comunicação, indo muito além do binarismo do ou, ou; como nos fala Butler:
A tarefa crucial do feminismo não é estabelecer um ponto de vista fora das identidades construídas […]. Sua tarefa crucial é, antes, a de situar estratégias de repetição subversiva facultadas por essas construções, afirmar as possibilidades locais de intervenção pela participação precisamente nas práticas de repetição que constituem a identidade e, portanto, a possibilidade imanente de contestá-las (BUTLER, 2008, p.212).
Portanto, ao entender a agência, como um processo de ressignificação mediada, essa se apresenta de modo contrário ao essencialismo racional e acena, por isso mesmo, com uma outra forma de a mulher estar no mundo. Somente assim, Olympe de Gouges poderá ser atendida em sua Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, de 1791.
Considerações finais:
Os gregos chamavam de bárbaros aqueles que não falavam o grego. Tal comportamento humano coloca em evidência a dificuldade em lidar com a diferença, sempre uma ameaça a uma ordem instituída. Por isso, os povos não europeus foram esquadrinhados à luz de uma racionalidade que se queria eterna, sempre tendo o modelo anterior do que fosse cultura, homem, mulher em analogia ao previamente estabelecido. E não foi sem dificuldade assim o olhar europeu posto sobre o habitante do Novo Mundo. Ainda que Montaigne e Rousseau tenham se colocado, a princípio, como defensores de uma ordem natural, contrária à civilização, esses acabaram endossando a manutenção de papeis hierarquizados prévios como civilizado/bárbaro, homem/mulher. Tal princípio epistemológico-interpretativo estruturou a imago mundi, isto é, a imagem discursiva que se tem do mundo, de que esse deve ser como é, marcada por uma necessidade, por uma lógica interna que elimina a contingência, a multiplicidade; isso porque ocorre a absolutização do espaço, em favor do tempo, em sua perspectiva continuísta. Desse modo, nega-se a possibilidade de ruptura no tecido da tradição, fazendo com que os episódios, os acontecimentos, as histórias se fundam numa única História. Logo, restou às índias Paraguaçu, Moema e Iracema a submissão e a vassalagem na medida em que a primeira teve de se adequar à imposição colonizadora para ser aceita no imaginário estabelecido previamente para ela; enquanto as duas seguintes encontraram a morte como recompensa à empreitada expansionista, em que a relação de gênero estabelecida com o forasteiro esteve, antes, atravessada pelo domínio cultural.
Referências:
AGULHON, M. Marianne au combat. L’ imagerie et la symbolique républicaines de 1789 à 1880. Paris: Flammarion, 1979.
AILLY, P. D’. Imago mundi ([Reprod.]). Louvrain: J. de Paderborn, 1483. Disponível em: <http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb40223090r/PUBLIC> Acesso em: 20 out 2014
ALENCAR, J. Iracema: Lenda do Ceará. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2006.
BOURDIEU, P. La domonación masculina. Traducción de Joaquín Jordá. Barcelona: Editorial Anagrama, 2000.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
DUMONT, L. Homo hierarchicus. Essai sur le système des castes. Paris: Galimard, 1966.
GOUGES, O. Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), Paris: Mille et une nuits, 2003.
MONTAIGNE. Des Cannibales (1584). In: Essais, Livre Premier. Paris: Librairie Générale Française, 2002.
ROUSSEAU, J-J. Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi leshommes (1753).Paris: Flammarion, 1971.
ROUSSEAU, J-J. Du Contrat social (1762).Livres I et II. Paris: Hatier, 2011.
ROUSSEAU, J-J. Émile ou de l’éducation (1762). Paris:Flammarion, 2009.
SANTA RITA DURÃO. Caramuru (1781). Virtual Book: Formato: e-book/ PDF-Código: VBOCARAMURUPOEMAEPICO© Virtuais Books, 2002.
Bio fornecida pelo palestrante.
Sávio Augusto Lopes da Silva Junior
Universidade de São Paulo (USP)
RESUMO: Este trabalho pretende analisar o romance norte-americano The Subterraneans, publicado em 1958 por Jack Kerouac. Este estudo focaliza a visão que o narrador Leo Percepeid apresenta de sua amante Mardou Fox, personagem caracterizada por suas raízes africanas e indígena Cherokee que, além disso, está envolvida em uma cultura marginalizada ligada ao jazz bebop.
PALAVRAS-CHAVE: romance norte-americano; cultura afro-americana; jazz bebop; Jack Kerouac
ABSTRACT: This paper aims to analyze the North-American novel The Subterraneans, published in 1958 by Jack Kerouac. This study focuses on the vision that the narrator Leo Percepeid presents of his lover Mardou Fox, a character that is described as having African and Cherokee roots and that is also involved in a marginalized culture linked to bebop jazz.
KEYWORDS: North-American Novel; Afro-American culture; bebop jazz; Jack Kerouac.
MINICURRÍCULO: É doutorando no departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É bacharel em Comunicação Social – Jornalismo – pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor do romance Deixe a Inglaterra tremer, publicado em 2013 pela editora Novo Século.
A MULHER NEGRA CHEROKEE EM THE SUBTERRANEANS, DE JACK KEROUAC
Sávio Augusto Lopes da Silva Junior
Universidade de São Paulo (USP)
Ao atribuir nomes fictícios às suas personagens, percebe-se que o escritor norte-americano Jack Kerouac (1922-1969) utiliza um jogo de palavras para caracterizar personalidades inspiradas em pessoas reais. Esse é o caso de Sal Paradise, que percorre as estradas em busca do paraíso, e Old Bull Lee, nome dado a William Burroughs, um dos integrantes da Geração Beat de mais idade – ambas personagens de On The Road. Em The Subterraneans, esse padrão também pode ser percebido. Leo Percepeid, o narrador, é marcado por ser perceptivo e capaz de identificar aquilo que é digno de atenção para o seu relato de memórias em meio ao cenário do bebop jazz, narrativa esta que constitui o próprio romance. Já Mardou Fox, a raposa, remete ao termo foxy, uma mulher descrita como atraente, que é alvo da atenção de Percepeid e, muitas vezes, vista por ele como uma caça.
O romance The Subterraneans, publicado pela primeira vez em 1958, trata do envolvimento do narrador Leo Percepeid – codinome de Jack Kerouac – e Mardou Fox, integrante genuína da cultura do bebop jazz, marginalizada e de origens afro-americana. Em meio ao cenário boêmio de North Beach em São Francisco, Percepeid permeia uma cultura que lhe é estranha, visto que ele é integrante da classe média branca norte-americana. As diferenças sociais e culturais do casal criam uma constante tensão, relacionada à marginalização vivida por Mardou Fox e a cultura a qual ela faz parte.
A relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid é ambígua e marcada pela oscilação entre o amor e o ódio. Em sua primeira impressão de Mardou, Percepeid se sente atraído por sua aparência exótica – em uma forma de fetiche primitivista, conforme aponta Jon Panish (2011). Mardou Fox é uma personagem de origens étnicas africanas e cherokee e integrante genuína da cultura bebop, estilo de jazz muito presente na obra analisada e famoso por sua agilidade que destoa do jazz comercial. A corrente bebop, por muito tempo, foi apreciada por um público muito específico e às margens da cultura oficial norte-americana, criando assim uma forma de cultura de resistência. Ao conhecer Mardou e seu estilo de vida ligado ao bebop, Leo decide conquistar a moça e submergir no universo subterrâneo do qual ela faz parte. Kerouac narra: “But eyeing her little charms I only had the foremost one idea that I had to immerse my lonely being (‘A big sad lonely man,’ is what she said to me one night later, seeing me suddenly in the chair.) in the warm bath and salvation of her thighs (…)” (KEROUAC, 2001, p. 7).
De início, a atração física é o que define o desejo de Leo por Mardou. Percebe-se o fetiche por sua pele negra e pela associação que o protagonista faz de sua ascendência com o imaginário selvagem que a sociedade conservadora norte-americana tem da cultura afro-americana. Contudo, nota-se que, ao aprofundar os níveis de sua relação com Mardou, Percepeid tem uma percepção mais ampla de sua cultura, deixando, em diversos momentos, o fetichismo de lado e envolvendo-a em uma relação de trocas interculturais:
Her little brown hand is curled in mine, her fingernails are paler than her skin, on her toes too and with her shoes off she has one foot curled in between my thighs for warmth and we talk, we begin our romance on the deeper level of love and histories of respect and shame (KEROUAC, 2001, p. 19).
É nestes momentos de intimidade que se percebe um crescimento do respeito que Percepeid tem por Mardou – mesmo que este seja oscilante. O estranhamento que Leo sente em relação às suas origens e cultura, contudo, voltam a surgir em diversos momentos da narrativa, demonstrando que a discriminação racial está mais enraizada em sua cultura conservadora do que Percepeid imagina. Leo percebe que Mardou jamais seria colonizada pela vida burguesa de classe média; sua cultura e suas origens étnicas são fatores que impedem a adequação da jovem negra a esse estilo de vida. Esse é o principal motivo de Percepeid ver o seu próprio conforto – tanto no cotidiano, quanto social – ameaçado.
A forma como o amor e ódio se misturam na descrição que Leo Percepeid faz de seus sentimentos por Mardou remete aos conceitos de “sagrado” e “maldito”. Segundo o linguista francês Émile Benveniste (1995), no latim, ambos os termos são designados pela palavra sacer. Dessa forma, há uma ambivalência nesses termos, existente, segundo Benveniste, devido às apropriações culturais feitas do termo no decorrer de sua existência:
(…) na Idade Média, um rei e um leproso eram ambos, ao pé́ da letra, “intocáveis”, mas isso não quer dizer que sacer encerre dois sentidos contraditórios; foram as condições da cultura que determinaram, em face do objeto “sagrado”, duas atitudes opostas (BENVENISTE, 1976, p. 87).
A característica de “intocável” do rei leproso sugere dois sentidos: o de “sagrado”, devido à sua posição privilegiada e relacionada à divindade, por isso, o rei não deveria ser tocado; e a de “maldito”, devido à sua doença contagiosa e nesse caso, também, não deveria ser tocado. Contudo, o exemplo dado não pressupõe dois significados ao termo; foi a cultura em que ele foi usado que criou duas atitudes opostas diante do ser sagrado. Da mesma forma, Mardou também é sagrada e intocável para Leo Percepeid. Por um lado, ela é divina, por ser uma representante da cultura bebop, a qual Leo tanto admira e, por isso, encontra-se em um pedestal e não deve ser tocada. Por outro lado, é uma figura marginalizada, vista pelo senso comum como uma ameaça e por Leo Percepeid como um empecilho para uma vida confortável e, por isso, também não deve ser tocada. Nesses casos, o valor dado ao sagrado também é culturalmente determinado e ambivalente.
Ao colocar em dúvida os valores de Mardou, Percepeid menciona o seu bem-estar (well-being), termo utilizado com frequência no decorrer de The Subterraneans e que remete à qualidade de vida proporcionada pelo American way of life da década de 1950. A proximidade com Mardou é um fator que impede o deleite deste bem-estar e, portanto, há necessidade de uma escolha entre os dois universos: a subcultura marginalizada e o prazer da vida estável. Sobre o seu bem-estar e a presença de Mardou, Percepeid relata: “(…) as tho never I was straight with her, but crooked – never away from my chimerical work room and comfort home, in the alien grey of the world city, in a state of WELL-BEING” (KEROUAC, 2001, p. 34). Essa escolha entre o bem-estar e a marginalização implica em constantes avaliações de Mardou, sua cultura e seu caráter. Por esse motivo, ocorrem frequentes oscilações na perspectiva que Leo Percepeid possui da vida ao lado de Fox.
Em um momento de excitação, Percepeid compartilha com Mardou a admiração e o seu afeto por suas raízes africanas e destaca o essencialismo, a pureza existente em sua cultura, mencionando que ela seria a mulher essencial e original:
“Honey what I see in your eyes is a lifetime of affection not only from the Indian in you but because as part Negro somehow you are the first, the essential woman, and therefore the most, most originally most fully affectionate and maternal” – there now is the chagrin too, some lost American addition and mood with it – “Eden’s in Africa,” I added one time (…) (KEROUAC, 2001, p. 79-80).
O trecho citado mostra que Percepeid percebe claras distinções étnicas e culturais entre ele e Mardou. Por vezes, ele a rebaixa e a enxerga como uma relação que o comprometeria de levar uma vida normal nos padrões do American way of life; em outros momentos, ele exalta essa diferença e a coloca acima de sua própria cultura, como uma forma de essencialismo. Esta menção à pureza da cultura africana e sua comparação ao Éden remete à visão essencialista que escritores afro-americanos contemporâneos à Jack Kerouac, como Amiri Baraka (1934-2014), têm de suas próprias raízes; e que está relacionada à ideia de que o ouvinte branco do bebop, por exemplo, é incapaz de realmente compreender tal expressão artística. Para as personagens de Amiri Baraka (1995) – como Clay, na peça Dutchman – os músicos bebop são reverenciados por muitos brancos de classe média. Contudo, não são compreendidos por estes, que só possuem uma espécie de fetiche primitivista por aquilo que é estranho a eles. Há, segundo essa opinião, a ideia de que o bebop é próprio da comunidade afro-americana e impossível de ser assimilado por alguém que seja externo à ela. O que essa forma de essencialismo não prevê é o papel de desmistificador do American way of life que um relato como o de Jack Kerouac pode assumir, ao levar para o centro de sua narrativa a cultura do bebop e o racismo.
É perceptível que as dúvidas em relação ao caráter de Mardou são mais intensas na segunda parte da narrativa, quando Leo demonstra paranoia e ódio intensos pela mulher. Novamente, sua descendência africana e cherokee são determinantes para o sentimento que Leo tem por Mardou, contudo, este é revertido da admiração e fetiche por ódio. Logo em seguida ao seu instante de admiração, em um momento de ciúmes, Leo Percepeid, ao caminhar ao lado de Mardou nas ruas de São Francisco, revela sentimentos de ódio existentes em sua consciência e, neles, ressalta um preconceito racial enraizado na cultura a qual ele abomina, mas não consegue deixar de fazer parte:
(…) but now in my hurt hate turning the other way and so walking down Price with her every time I see a Mexican gal or Negress I say to myself, ‘hustlers’, they’re all the same, always trying to cheat and rob you – harking back to all relations in the past with them – Mardou sensing these waves of hostility from me and silent (KEROUAC, 2001, p.80).
Mardou aceita a hostilidade em silêncio. É possível reparar, com essa forma oscilante com a qual Percepeid trata Mardou, que há uma relação de imposição do protagonista sobre sua companheira; um posicionamento de Percepeid em relação às etnias marginalizadas nos Estados Unidos nos anos 1950, que remete às relações entre imperialistas e colonizados, conforme apontado no trecho citado acima. Portanto, cabe aqui discorrer um pouco sobre a forma como a Geração Beat, em especial Jack Kerouac, vê as minorias de seu país e a maneira como eles lidam com o contato junto às culturas que lhe são estranhas. Esse é o caso de grupos citados no trecho acima e que estão muito presentes na literatura beat: mexicanos e afro-americanos, principalmente.
Em seu trabalho intitulado The Transnational Counterculture, em que aborda a relação entre a contracultura beat e a expressão do realismo mágico no México, Daniel Belgrad relata as diversas passagens dos beats pelo México e afirma: “Clearly Mexico was an important literary influence as well as a significant life event in the development of the Beat subculture” (BELGRAD, 2004, p.28). Em sua análise, Belgrad (2004) não descarta a possibilidade de uma relação de déspotas/colonizados entre, respectivamente, beats e México. O autor levanta fontes que interpretam os relatos da presença dos beats em terras mexicanas como uma afirmação do imperialismo, afirmando que William Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg se portavam como déspotas, nessas ocasiões. Analisando suas fontes, o autor afirma:
They praised Mexico for its low cost of living and reveled in the ready availability of teenage prostitutes and illegal drugs (heroin and marijuana), a phenomenon inseparable from Mexico’s political and economic “underdevelopment” in comparison to the United States (BELGRAD, 2004, p. 29).
Contudo, Daniel Belgrad (2004) não considera a teoria anti-imperialista o foco de sua análise, visto que esta desconsidera a relação intercultural entre os beats e a cultura mexicana. Dessa forma, o autor apoia a hipótese de uma relação de trocas entre as duas culturas e considera, tanto a Geração Beat, como o Realismo Mágico mexicano, formas de oposição ao capitalismo corporativo pós-guerra, que, durante a década de 1950, conquistava cada vez mais espaço nos Estados Unidos e no México. Belgrad afirma: “As part of a transnational counterculture that inherited the mantle of the postwar avant-garde, the Beats in Mexico should be understood as cultural allies of the Mexican Magic Realists, rather than as agents of American imperialism” (BELGRAD, 2004, p. 30).
Cabe frisar, além disso, que a afinidade entre a Geração Beat e a cultura afro-americana, especialmente o bebop, relatada em The Subterraneans, também promove uma relação intercultural e, conforme já mencionado, criou-se uma expressão literária que se opõe ao imperialismo corporativista norte-americano do século XX. Ao contrário de apreciar a sua suposta posição social superior, Percepeid não é conivente ao racismo e à dominância da cultura de classe média; ao contrário, o racismo existente em níveis profundos de sua consciência é o motivo da sua angústia. Percebe-se, na narrativa de Jack Kerouac, o anseio pela institucionalização de uma comunidade alternativa, uma realidade idealizada, em que a relação de Leo Percepeid e Mardou Fox fosse possível.
Além disso, Leo Percepeid é um protagonista com características de um anti-herói, visto que assume constantemente seus erros, fracassos e arrependimentos. Dessa forma, é possível que Kerouac coloque sua própria contradição na relação de Percepeid e Mardou. Dificilmente Jack Kerouac conseguiria retratar o preconceito vivido por integrantes negros da cultura bebop na década de 1950, caso a relação entre Leo Percepeid e Mardou Fox fosse totalmente harmoniosa e Leo não vivesse em constante conflito entre a cultura mainstream norte-americana e a subterrânea do jazz bebop. Nesse sentido, a ambivalência presente em Percepeid é fundamental para o ideal contra-hegemônico manifestado em The Subterraneans.
Para analisar a relação entre os beats e a cultura mexicana explorada por eles, Belgrad (2004) resgata o termo fellaheen proposto pelo historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), que se relaciona com grupos que permanecem não afetados pelos grandes movimentos históricos e que, também, facilmente se aplica à contracultura situada nas margens sociais que sobrevivem ao impacto da modernização. Segundo Daniel Belgrad (2004), os beats viam os índios mexicanos como uma subclasse de fellaheen e, por esse motivo, identificavam-se com eles. Os fellaheens para Jack Kerouac e a geração beat são aqueles considerados por eles companheiros de marginalização, como, por exemplo, comunidades afro-americanas, mexicanos vivendo nos Estados Unidos, índios norte-americanos, artistas de rua. Em suma, grupos que sobrevivem à opressão da cultura dominante do consumo, mesmo que estes tenham sofrido mudanças no decorrer de suas existências. A geração beat e seus fellaheens muitas vezes compartilham espaços e, dessa proximidade, surge o convívio. Este é o caso de North Beach, região de São Francisco descrita em The Subterraneans, onde diversos grupos marginalizados convivem em um ambiente boêmio.
Em The Subterraneans, esse tipo de identificação ocorre entre Leo e Mardou devido às raízes culturais de Fox e as experiências na estrada de Percepeid; em ambos os casos há a adoção, mesmo que por vontade própria, de um estilo de vida marginalizado que foge aos parâmetros da vida americana e do progresso. Percepeid comenta sobre a forma como ele se identifica com Mardou e suas experiências, o que o levou a entender o que ele tem de semelhante com a companheira:
Concern for her father, because I’d been out there and sat down on the ground and seen the rail and steel of America covering the ground filled with the bones of old Indians and Original Americans. – In the cold grey fall in Colorado and Wyoming I’d worked on the land and watched Indian hoboes come suddenly out of brush by the track and move slowly (…) (KEROUAC, 2001, p.18-19).
Tendo isso em mente, podemos dizer que Percepeid vê Mardou como uma companheira fellaheen e se identifica com a sua origem – um povo que vive de forma muito distinta do padrão modernizado dos Estados Unidos. Sendo assim, o fato de a personagem conviver e se interessar por culturas que fogem aos padrões do American way of life pode ser visto como uma contraposição à cultura dominante. Apesar de Jack Kerouac e seus fellaheens das culturas minoritárias coexistentes nos Estados Unidos na década de 1950 resistirem à intensa instauração do American way of life, não se pode dizer que estes se opõem à modernização, conforme aponta Belgrad (2004). Acredita-se que a Geração beat vê o contágio das culturas sobreviventes e minoritárias como uma característica da modernização, a qual proporciona oportunidades para que artistas de vanguarda apropriem-se dessas culturas para a criação artística. Dessa forma, através de relatos literários como The Subterraneans, busca-se uma institucionalização desse aspecto da modernização. Além disso, diversos efeitos dessas mudanças são apropriados pela literatura beat de forma a criar expressões como a prosa espontânea, um estilo de escrita moderno por excelência, presente em The Subterraneans.
Outra dimensão marcante na relação de dominante e dominado entre Leo e Mardou é a sexualidade. De acordo com Daniel Belgrad (2004), para os beats, sexo era um símbolo natural de comunhão e cita o exemplo de The Subterraneans, em que Kerouac iguala os conceitos de sexo e comunhão na relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid. Para exemplificar, Belgrad cita o seguinte trecho da obra: “(…) the intimacies of young lovers in a bed, high, facing eye to eye, breast to breast naked, organ to organ, knee to shivering goose-pimpled knee, exchanging existential and lover-acts for a crack at making it (…)” (KEROUAC, 2001, p.7). Considerando que o sexo é uma forma de comunhão entre Mardou e Leo, novamente, se percebe a imposição de Leo sobre sua parceira. Devido ao fato de Mardou ter passado grande parte da sua vida sexualmente inativa, Percepeid impõe-se de forma a reeducá-la afetivamente e sexualmente, remetendo novamente à sua imagem de déspota. Percepeid relata:
Never did she use the world love, even that first moment after our wild dance when I carried her still on my lap and hanging clear to the bed and slowly dumped her, suffered to find her, which she loved, and being unsexual her entire life (except for the first 15-year-old conjugality which for some reason consummated her and never since) (…) (KEROUAC, 2001, p. 16).
Devido a essa peculiaridade de sua relação, em alguns momentos da história, Percepeid demonstra o desejo de ser o mentor sexual de Mardou, de guiá-la na forma como ela poderia obter prazer na relação. O seguinte trecho exemplifica esse desejo: “We hugged, we held close – it was like love now, I was amazed – we made it in the living-room, gladly, in chairs, on the bed, slept entwined, satisfied – I would show her more sexuality” (KEROUAC, 2001, p. 32).
Se Percepeid é o mentor de Mardou, no que diz respeito à sexualidade, Mardou, por sua vez, é quem tem o maior entendimento acerca do jazz bebop e o auxilia a compreender o estilo musical. Contudo, por ser membro enraizado nessa subcultura, Mardou não partilha da mesma excitação e atração pelo desconhecido que Percepeid. Pelo contrário, em uma conversa sobre o bebop, a jovem negra demonstra-se indiferente à expressão musical. Kerouac narra: “(…) Mardou, who, impressed, forewarned, understanding everything, makes solemn statements about bop, like, ‘I don’t like bop, I really don’t, it’s like junk to me, too many junkies are bop men and I hear the junk in it’” (KEROUAC, 2001, p.84). Além disso, Mardou viveu a marginalização ligada ao estilo de vida do bebop, diferente de Percepeid, que tem aquele cenário como uma forma de evasão da vida normativa.
Dessa forma, Mardou é entendedora do bebop e, por isso, não se comove tanto com o estilo. Mesmo demonstrando certo descaso com o estilo, Fox está em posição superior quanto ao entendimento da música e isso a coloca acima de Percepeid no quesito inserção à cultura bebop, visto que ela é uma integrante genuína do meio em que ambos frequentam. É interessante destacar que Mardou compara o bebop ao lixo, que, para Kerouac, é um lixo merecedor de ser coletado e colocado no centro de sua narrativa. Leo Percepeid, ao contrário de Mardou, enxerga o bebop como uma recém-descoberta fascinante e, em resposta ao descaso de Mardou pelo estilo, responde: “(…) ‘But you never like what you come from’ (looking at Mardou). – ‘What do you mean?’ – ‘You’re the child of Bop, (…)’” (KEROUAC, 2001, p. 84).
A visão que Percepeid tem de Mardou e do bebop é de que ambos têm a mesma origem, uma forma de essencialismo que remete às narrativas de Amiri Baraka (1995) sobre o bebop. Devido ao fascínio pela origem de Mardou e por considerá-la “a filha do bop”, Percepeid vê Fox como uma companheira fellaheen e, assim, estabelece um relacionamento de natureza intercultural – semelhante à relação que Daniel Belgrad (2004) analisa entre a Geração Beat e a cultura mexicana. É através da relação entre Mardou e Percepeid que Kerouac obtém êxito em retratar a geração bebop subterrânea. Ao colocar Mardou e o universo cultural a que ela pertence no centro de sua narrativa – mesmo que haja tantas controvérsias na relação entre ela e o narrador, abordadas anteriormente –, Jack Kerouac cria, assim, um relato que vai além da memória oficial criada pelo imaginário normativo norte-americano; uma memória que busca os descartes dos arquivos oficiais e que tem como objetos principais, nesse caso, Mardou Fox e a cultura do bebop da qual ela faz parte.
REFERÊNCIAS
BARAKA, Imamu Amiri. Dutchman. In: KLAUS, Carl H.; GILBERT, Miriam; FIELD JR., Bradford S. (org.). Stages of Drama: classical to contemporary theater. New York: St. Martin’s Press, 1995. p. 1030-1041.
BELGRAD, Daniel. The Transnational Counterculture: Beat-Mexican Intersections. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 27-40.
BENSTON, Kimberly W. Ellison, Baraka, and the Faces of Tradition. 1978. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/302327>. Acesso em: 20 out. 2013.
BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral. Tradução de Maria da Glória Novak e Luiza Neri. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1976.
BERENDT, Joachim E. O Jazz: do rag ao rock. Tradução de Júlio Medaglia. São Paulo: Editora Perspectiva, 1987.
GINSBERG, Allen. Uivo e outros poemas. Porto Alegre: LP&M, 2006.
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______. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
HOLTON, Robert. “The Sordid Hipsters of America”: Beat Culture and the Folds of Heterogeneity. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 11-26.
KEROUAC, Jack. Essentials of Spontaneous Prose. In: CHATERS, A. The Portable Beat Reader. New York: Viking, 1992.
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PANISH, Jon. Kerouac’s The Subterraneans: A Study of “Romantic Primitivism”. 1994. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/467875>. Acesso em: 18 fev. 2016.
STARR, Clinton R. “I Want to Be with My Own Kind”: Individual Resistence and Collective Action in the Beat Counterculture. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 41-54.
Bio fornecida pelo palestrante.
Susana Ynés González Sawczuk
Universidad Nacional de Colombia, Sede Medellín
Resúmen: Se parte de las reflexiones de Giorgio Agamben, en Infancia e historia, sobre la experiencia muda de la infancia comprendida como experiencia originaria, aferrada al aprendizaje de un padecer, y la imaginación como médium, por excelencia, del conocimiento. Se problematiza, entonces, en torno a la relación infancia/experiencia siguiendo las misivas en Memoria por correspondencia, de Emma Reyes, que más allá de cierta confesión afectiva, son relatos de la infancia que, como cifra de una génesis dolorosa, nos invitan a sumergirnos en los procedimientos de la mediación del lenguaje en el padecer, en la palabra, ante el intento por asir y dar cuenta de la experiencia de la aflicción.
Palabras-clave: infancia, experiencia, lenguaje, aflicción
Abstract: This paper departs from the reflections of Giorgio Agamben, in Infancy and History, about the silent experience of childhood understood as an original experience that clings to the learning of suffering, and basically links to imagination as a medium of knowledge. It problematizes the relation between childhood and experience according to the letters of Emma Reyes in Memoria por correspondencia. Beyond emotional confessions of these stories of childhood, they represent the genesis of pain and invite us to submerge in the proceedings of the mediation of language in pain, and in the Word, aiming at understanding the experience of grief.
Keywords: childhood, experience, language, grief.
Minicurrículo de la autora: Doctora en Letras de la Universidad de São Paulo (Brasil). Profesora Titular del Departamento de Estudios Filosóficos y Culturales, de la Facultad de Ciencias Humanas y Económicas, de la Universidad Nacional de Colombia, sede Medellín. Los intereses temáticos abarcan la literatura latinoamericana, retóricas del cuento, ficción y crítica, ficción y memoria, espacios de subjetividad.
LA EXPERIENCIA MUDA DE LA INFANCIA EN
MEMORIA POR CORRESPONDENCIA, DE EMMA REYES
Susana Ynés González Sawczuk
Universidad Nacional de Colombia, Sede Medellín
En abril de 2012 se publica Memoria por correspondencia, de Emma Reyes (Bogotá, Colombia, 1919 / Burdeos, Francia, 2003), artista plástica que hizo su carrera en Europa. Son veintitrés cartas escritas entre 1969 y 1997 dirigidas a su querido amigo, Germán Arciniegas. Textos breves que superan el registro íntimo de la correspondencia individual, de un sí mismo amarrado a una autorreflexión muchas veces tediosa y, al contrario, atrapan difuminando sentidos de una época. Más allá de cierta confesión afectiva, son relatos de la infancia que, como cifra de una génesis dolorosa, nos invitan a sumergirnos en los procedimientos de la mediación del lenguaje, en el padecer, en la palabra ante el intento por asir y dar cuenta de la aflicción.
Dos aspectos pueden delimitar una primera apreciación. Uno atiende a la modalidad de escritura, las cartas que, con registros de una novela de formación, sostienen en el relato una temporalidad progresiva y, más, ante la ausencia de las respuestas del interlocutor se hace misteriosa y extraña aquella dimensión unidireccional que puede sellar con tanta fidelidad los dos extremos de las misivas, porque no hay hiatos, ni vacíos en el relato, sino susurros de una profunda confesión que parece no necesitar su confirmación. Quien escribe y, por ende, su destinatario, quien lee, lo hacen en un presente suspendido que diluye también el espacio, las distancias de continentes se pierden y la palabra presentifica la amistad. En ese artificio se replican significantes e imágenes de una vivencia dolorosa y de inmenso abandono que enmarca los tiempos de la infancia de la narradora. Así, se refuerza un pacto de lectura; alguien da cuenta, tal vez, de cierta promesa atesorada hace tiempo -la autora tiene 50 años en la primera misiva- y se dispone, ante un amigo, a cumplirla y saldar en la escritura los momentos decisivos de cualquier tiempo humano: la niñez y adolescencia. En las breves cartas, se abren tensiones que estructuran una historia de vida signada por la pobreza y la falta de afecto en su Colombia natal; el encierro en sus años de niña y adolescencia en el convento, típico modelo de internados de época que definen espacios de control y disciplina, siempre sesgados por la lógica de la productividad; la displicencia y desidia que tiene, ante los niños, una sociedad parroquial, hipócrita y pacata que los maltrata, los esconde y esclaviza; la corrupción y la doble moral de una burguesía política; y no otra cosa que el prejuicio y la falta de oportunidades de la mujer, en esos tiempos. En fin, se condensan sentidos en una trama, que podríamos denominar binaria, contraste de variantes opuestas que sobredeterminan una modalidad para significar experiencias demasiado adversas y tan distantes de una subjetividad, que no deja de auscultarse y medirse en esos tramos de la vida, que transita como una viajera obsesiva por encontrar las cifras de su existencia.
El otro aspecto, más sorprendente, abre una reflexión sobre la construcción del yo narrativo que emerge, desplazado en el tiempo, por la escritura, para dislocarse y pasar de sujeto de la enunciación a testigo que entrecorta su monólogo interior e interpela tanto a un escucha como a sí misma, se cuestiona y desconfía del lenguaje, demasiado movedizo para una narradora nada impertinente. Parto de este camino de lectura que atraviesa como principio axial el calvario del relato y me refiero a la inmersión, siempre esquiva, que provocan escrituras privadas dolorosas que, en este caso, como ejercicios de memoria vuelven a traer la relación infancia/experiencia. Para lo cual, parto de las reflexiones de Giorgio Agamben, en Infancia e historia, sobre la experiencia muda de la infancia (como experiencia originaria, aferrada al aprendizaje de un padecer), y la imaginación como médium, por excelencia, del conocimiento.
La “experiencia muda” de la infancia
Conocemos por Walter Benjamin la inmensa soledad que provocan las experiencias traumáticas ante la imposibilidad de compartirlas, de traducir esa incapacidad –en tránsito incomprensible- en un conocimiento que, como blindaje individual, nos cobije en nuestros semejantes. Quizás sea ésta la razón por la cual Emma Reyes necesitó pasar los cincuenta años de vida para decidir capturar, en la escritura, su padecer, transformarlo en relato que se pueda comprender y, así, compartir. Sólo algunos tramos de las primeras misivas son suficientes para situarnos en una infancia miserable. Siendo muy niña comparte, con su hermana Helena, el encierro en una casucha, en Bogotá, con una temerosa, Sra. María, de “enorme mata de pelo negro” (REYES, 2012, p. 18) y un niño, “el piojo”. Y necesitó pocos párrafos para impactar al lector, en una escena que, sin golpes bajos, cifra toda su experiencia de formación: el abandono como destino inexorable. Así, a partir del “piojo”, Eduardo, parecería que intercambiado por dinero, se suman las ausencias con otro posible hermanito (dejado en la puerta, de cualquier convento), castigo que, sin ninguna piedad, les llegaría a ambas, a Emma y a su hermana, perdidas en una estación de trenes de un pueblo, cuyo nombre no pueden recordar. Y es en la elección de ese acontecimiento, como frontera y punto de partida de una vida, que asistimos, como una epifanía, a la pura experiencia originaria que, al decir de Agamben, “lejos de ser algo subjetivo (…), antes del lenguaje: [es] una experiencia muda (…), una in-fancia del hombre, cuyo límite justamente el lenguaje debe señalar” (p.64). Prueba que se fija como impronta de una vivencia traumática donde los ecos no tienen lugar y el silencio, la ausencia de palabras para significar, se impone. Así, la infancia es el espacio de reconocimiento del lector y no otra cosa que soledad invade a la narradora quien, como presagio ante la escena del abandono del “piojo”, nos aclara que “en ese momento (…) nació entre Helena y yo una especie de pacto secreto y profundo; un sentimiento inconsciente de que éramos solas y que sólo nos pertenecíamos la una a la otra” (REYES, 2012, p. 27). Esa es la fuerza en el relato que parece sólo sostenida por la tenacidad de quien busca, en soledad, en la minucia y en los detalles, recuperar esos hechos innombrables, despojados de sentencias, a partir de la voz entrecortada de una niña. En esos hechos estaría cifrada toda su infancia, son como mojones en el relato, tan contundentes y definitivos como despojados de cualquier mediación inteligible. En los tres episodios de abandono, asistimos como tramo doloroso a “un aprender únicamente a través y después de un padecer [páthei], que excluye toda posibilidad de prever; es decir, de conocer algo con certeza [máthos]” (AGAMBEN, 2001, p. 17). La clave está en la fuerza de la infancia muda porque es la niña Emma quien nos habla, por eso, hay cierto encantamiento del lector que confía y da crédito a la memoria de cada misiva. Aunque esa narradora (que nos encanta), en los momentos más angustiosos de sus vivencias, se desdobla temerosa porque duda y apela a su interlocutor, padece y requiere su aprobación para seguir.
Nada más conmovedor que acompañar ese movimiento del lenguaje que agoniza por no encontrar la certeza, en la palabra. Y entonces, ese aprendizaje, esa materia de conocimiento (máthos) que, como tal, puede transformarse en experiencias compartibles, se hace insegura, repito, en particular, en los momentos más decisivos y angustiosos de su vida, provocando, al contrario de lo esperado, un efecto de realidad que sella más el pacto de lectura, tal vez, por espejarnos en esa agonía.
Así, se intercalan registros entre un auténtico sujeto de la experiencia pura (páthei) de esa niña, Emma, “Nené, bizca y feita” como se recuerda en los relatos ajenos, que sólo puede hacer experiencia sin tenerla, es decir, sin asirla, sin comprenderla; pasando a esta narradora, sujeto del conocimiento, que condenada a la pérdida de la experiencia, sólo puede transmitirla y hasta mostrarse en su inseguridad; como se expresa en el relato del segundo abandono del llamado “Niño, José sin sal”, en la carta 8, que representa otro de los momentos de clímax. En breves páginas, se asiste a esos desdoblamientos de la voz narrativa. Al comienzo, sin intuir lo peor, la niña acepta su desdicha con estoicismo y nos informa, “sólo una cosa nueva se produjo en nuestra vida y es que la Srta. María tomó la costumbre de pegarnos y (…) decidió que no importaba cuál había cometido la falta, ella nos pegaba a las dos” (REYES, 2012, p. 59). Y esa niña que, desconociendo lo que iba a ocurrir, será testigo del abandono de quien más ama, ante la impotencia cierra el episodio con la lucidez que brinda el monólogo interior. Incluso, antes de informarnos que se quedó muda por tres días, tal como lo recuerda, “creo que en ese momento aprendí de un solo golpe lo que es injusticia y que un niño de cuatro años puede sentir el deseo de no querer vivir más y ambicionar ser devorado por las entrañas de la tierra. Ese día quedará sin duda como el más cruel de mi existencia” (p. 62).
Ahora bien, parecería que acompañamos, en la misma lectura, una escritura cuyo telos no es otro que alcanzar y, por ende, transmitir en el lenguaje, una comprensión. Un volver a traer lo que no se podía nombrar, por padecerlo sin entenderlo. Y aunque resulte extraño no quedar preso en esa ambigüedad, los lectores se dejan llevar por la narradora, en ese viaje hacia la infancia y se instituye, siguiendo a Agamben, aquel entramado misterioso que enlaza la Infancia con el lenguaje y la verdad, porque “infancia y lenguaje parecen así remitirse mutuamente a un círculo donde la infancia es el origen del lenguaje y el lenguaje, el origen de la infancia. Pero tal vez sea en ese círculo donde debamos buscar el lugar de la experiencia” (p. 66). Y bien, a pesar de haber logrado significar esa experiencia traumática, la narradora sale del soliloquio y se remite a su interlocutor, necesita el amparo de un escucha y así lo expresa en su conmovedora despedida de esta breve carta: “sumercé, estoy triste porque esta carta no me salió como yo hubiera querido, pero no me siento capaz de repetirla. Besos para toda la familia y no me olviden. Emma. París, Octubre/69” (REYES, 2012, p. 62). La dificultad se muestra en esos intercambios, la experiencia queda bloqueada ante el lenguaje, por eso titubea ante la escritura de una de las misivas, si bien más duras, también más claras y precisas, y reflexiona como sujeto del conocimiento, como si la narradora niña se hubiese extraviado. En síntesis, toma distancia, incluso parecería que cobra conciencia en el mismo relato, de haber llegado a la experiencia en estado puro, al límite del lenguaje como origen de la infancia, que es el misterio, sabiendo que sólo se sale por el conjuro de la palabra, porque “así como la infancia destina el lenguaje a la verdad, así el lenguaje constituye la verdad como destino de la experiencia” (AGAMBEN, 2001, p. 71). Y como duda de haber restituido su verdad, nos coloca, siguiendo al filósofo, ante esa escisión que se da en la infancia entre lengua (lo semiótico) y discurso (lo semántico), reflexiones recuperadas a partir de los aportes de Benveniste, separación que define e instituye al lenguaje adulto (AGAMBEN, 2001, p. 71-76).
La narradora queriendo transmitir la experiencia de aquella niña que fue, siente que quedó atrapada en el discurso. Emma se angustia y se despide, hasta excusándose, es un ser histórico, no se reconoce en ese intento por transmitir una comprensión aunque, repito, el efecto que provoca sea, precisamente, lo contrario. Lo que la paraliza es la puesta al día del balance de su vida, tal vez desconoce que encontró su verdad, con su libro. Ahora bien, si el procedimiento de apelación a un escucha refuerza el diálogo como marca de la modalidad epistolar, por eso también lo encontramos en otras misivas más animadas, igual resulta imperiosa la necesidad de mostrar ese plus, de constatar que alguien espera la continuidad del relato, de interpelar su atención y así buscar su aprobación. Aunque, en esos tramos se llega al nodo de esa soledad y al silencio, ante el desconcierto y dolor de una niña por semejante desprotección que produce el abandono y el maltrato que la espera, también hay otro trabajo con la escritura, y la fantasía se impone (de nuevo cobra fuerza la infancia muda) y también la ironía, y hasta el temple, la serenidad, de quien tiene la capacidad de desdoblarse y salir del padecer y dejarse llevar por el lenguaje.
Por eso, no hay angustia, no es un relato que asfixie, no ahoga al lector ni lo desespera con hechos escabrosos. Sí lo sumerge en alguna turbulencia, pero lo rescata con humor y con cierta inocente malicia. Incluso, aunque algunas convenciones quedan claras de entrada, como lo hace en la primera misiva donde prepara al lector para lo que debe atenerse, condensa su existencia en la precisa definición de quien reconoce su vida de privación, porque “en esos medios uno nace sabiendo lo que quiere decir hambre, frío y muerte” (REYES, 2012, p. 21). Interesante manifestación de quien, sin tener oficio en la escritura, demuestra que sí cumple, a cabalidad, con el reconocimiento de ser una fabuladora incomparable. A pesar de esa sentencia en la primera carta, que bien podría ser el epígrafe de una de las puertas del infierno, no se esperan relatos que linden con la obscenidad, al contrario es una invitación a escuchar, se podría pensar que al lenguaje en estado puro, es decir, “como el lugar donde la experiencia debe volverse verdad” (AGAMBEN, 2001, p. 70). Y esa verdad adquiere contundencia, ante el recuerdo del tercer episodio de abandono, cuyas víctimas serán Emma y Helena, en la carta número 10. En la misma, la fidelidad que da el tránsito de experiencias angustiosas se resuelve en los detalles, en la descripción de los lugares y personas1, como si el tiempo se hubiese congelado y el dolor fijara la experiencia en la voz de la niña. Incluso, esa veracidad se refuerza hasta en la angustia por la pérdida de una palabra, en el olvido de ambas hermanas -todavía incomprensible para Emma, a pesar del paso del tiempo- del nombre del pueblo, donde estaba la estación de trenes, donde no las esperaron y las dejaron abandonadas2. Y, otra vez, se replica la infancia muda. Para significar la aflicción se necesitaron más de cinco referencias al silencio, en estas breves páginas para capturar la experiencia, así nos relata las peripecias de ese infortunio, “como cuando abandonamos al Niño, me quedé muda” / “nuestro llanto se volvió mudo” / “nosotras seguíamos mudas” / “nosotras seguíamos sin hablar” / “ninguna de las dos hablaba” (REYES, 2012, p. 72-78). Pero sí pudo hablar y pasar el umbral y salir al mundo.
Finalmente, texto que nos deslumbra, más que por la extraordinaria templanza de haber logrado sortear la desesperanza y cimentar una existencia, por adentrarnos en recorridos tan sinuosos sin perder la ternura, el humor y la maravillosa pulsión de vida.
BIBLIOGRAFÍA CITADA
AGAMBEN, G. (2001). Historia e infancia. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora
REYES, E. (2012). Memoria por correspondencia. Bogotá: Fundación Arte Vivo Otero Herrera. Laguna Libros.
NOTAS
1 Interesante salto temporal en el relato de quien recupera el presente suspendido, que facilitan las epístolas, y se remite directamente a su interlocutor, con la siguiente reflexión, “a ti te parecerá extraño que yo pueda contarte con detalle y con tanta precisión los acontecimientos de esa época tan lejana. Yo pienso como tú, que un niño de cinco años que lleva una vida normal no podría reproducir con esa fidelidad su infancia. Nosotras, tanto Helena como yo, la recordamos como si fuera hoy y la razón no te la puedo explicar. Nada se nos escapaba, ni los gestos, ni las palabras, ni los ruidos, ni los colores, todo era ya claro para nosotras” (REYES, 2012, p. 74).
2 La narradora vuelve a interrumpir su descripción y demuestra su desconcierto ante el olvido: “es curioso que ninguna de las dos se acuerda del nombre del pueblo donde se tomaba el tren. Recordamos la estación, el hotel y la iglesia, pero ninguna calle” (REYES, 2012, p. 75).
Bio fornecida pelo palestrante.
Terezinha Taborda Moreira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG)
RESUMO: Este artigo analisa a relação entre silêncio e trauma na obra O alegre canto da perdiz, da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Parte da hipótese de que o silêncio assume, na escrita da autora, uma dupla função: ser a resposta que a personagem oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta na sociedade em que vive, a qual é de ordem patriarcal, falocêntrica, mas também racial e de classe; e projetar, na escrita literária da autora, uma resistência a essa tradição literária que tenta impor à escritora a mesma condição de subalternidade, com a qual ela não se identifica e com a qual pretende dialogar.
Palavras-chave: Silêncio. Trauma. Escrita literária. Paulina Chiziane. Literatura moçambicana.
Abstract: This article analyzes the relationship between silence and trauma in the novel O alegre canto da perdiz, by the Mozambican writer Paulina Chiziane. Our initial hypothesis is that silence assumes, in the author’s writing, a double function: to be the answer the character offers to a condition of subalternity imposed on her in the society in which she lives, which is patriarchal, phallocentric, but also based on race and class; and to resist, in the author’s literary writing, to this literary tradition which tries to impose on the writer the same condition of subalternity, with which she does not identify herself but wants to dialogue with.
Keywords: Silence. Trauma. Literary writing. Paulina Chiziane. Mozambican literature.
Minicurrículo: Professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora CNPq-Nível 2. Este trabalho é parte das reflexões desenvolvidas no âmbito das atividades do Grupo de Pesquisa “África e Brasil: repertórios literários e culturais”, e do Projeto de Pesquisa “Linguagem e trauma na escrita literária angolana”, desenvolvido com o apoio do CNPq.
SILÊNCIO E TRAUMA NA ESCRITA LITERÁRIA
DE PAULINA CHIZIANE
Terezinha Taborda Moreira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG)
A palavra silêncio tem uma origem latina que é uma determinação de fazer cessar o barulho. Conforme registra o dicionário Caldas Aulete, dentre outros, silentium, ii significa “1. Ausência de som ou de barulho. 2. Estado de quem permanece calado. 3. Privação, voluntária ou não, de qualquer tipo de comunicação escrita ou oral.”1[1] Ainda de acordo com o mesmo dicionário, o mutismo associado ao silêncio pode ter dupla intencionalidade: pode resultar de um “estado de tranquilidade, calma, paz” ou ser indicativo de uma atitude que revela “mistério, sigilo, segredo”.
Mônica Santos informa que, no pensamento mítico, o silêncio é identificado com o caos: é anti-história (SANTOS, 2015). Na esteira dos estudos de Vladimir Jankélévitche e John Cage sobre a música, Santos afirma que o tempo é silencioso e abstracto, e o ruído está ligado à presença humana e relaciona-se com o movimento: “O devir dos eventos e ocorrências no tempo faz ruído. O ruído, ao se opor ao silêncio, torna-se criação, representação do mundo, símbolo da vida” (SANTOS, 2015). Por isso, a música nasce do silêncio e retorna a ele. Assim como a palavra.
A premissa lançada por Monica Santos nos permite vincular silêncio e realidade. No significado da palavra silêncio encontramos a dualidade calar/falar, a qual traduz a tentativa incessante do homem de significar e, simultaneamente, comunicar a vida – oralmente ou por escrito. Nesse sentido, Susan Sontag lembra-nos que “o ‘silêncio’ nunca deixa de implicar seu oposto e depender de sua presença: [por isso] é necessário reconhecer um meio circundante de som e linguagem para se admitir o silêncio” (SONTAG, 1987, p. 18 – destaque da autora). Assim, em um espaço pleno de discursos como é o texto, por exemplo, o silêncio pode ser a estratégia para um dizer poético que recusa “o peso da acumulação histórica” que recai sobre a linguagem, impondo-lhe “significados de segunda ordem”, que “a oneram, a comprometem e a adulteram” (SONTAG, 1987, p. 22). Pleno de sentidos, o silêncio seria a abertura dialética do texto para dizer do que é provável, daquilo que a linguagem não diz, mas que a circunda. Afinal:
Quando nada, porque a obra de arte existe em um mundo preenchido com muitas outras coisas, o artista que cria o silêncio ou o vazio deve produzir algo dialético: um vácuo pleno, um vazio enriquecedor, um silêncio ressoante ou eloquente. O silêncio continua a ser, de modo inelutável, uma forma de discurso (em muitos exemplos, de protesto ou acusação) e um elemento em um diálogo (SONTAG, 1987, p. 18).
Abertura dialética da linguagem para dizer do que é provável, daquilo que ela não diz, mas que a circunda: assim será pensado o silêncio na obra O alegre canto da perdiz, da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Nela o silêncio caracteriza a personagem feminina Maria das Dores, protagonista do enredo. No movimento de construção da personagem e de seu enredo encontramos aquilo que Santiago Kovadloff, em seus estudos sobre poesia e silêncio, chama de “silêncio da epifania” (KOVADLOFF, 2003, p. 25). Para Kovadloff, o silêncio da epifania é aquele da significação excedida que, com sua irredutível complexidade, “subtrai o homem do solo petrificado do óbvio: o liberta” (KOVADLOFF, 2003, p. 24). O silêncio da epifania não deve ser entendido como aquele dos significados convencionais. Ele resulta de um ato criativo que retira o poeta de seu lugar usual de compreensão “pelo impacto não de um novo significado (uma vez que este só surgirá mais tarde, sob a forma de sua obra), mas de uma presença luminosa e inesperada – a do real subtraído de seu jugo ao previsível” (KOVADLOFF, 2003, p. 30).
Paulina Chiziane cria sua personagem por meio de um uso poético da palavra. Na tecitura narrativa da autora, o silêncio é a resposta que a personagem Maria das Dores oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta, a qual é de ordem patriarcal, mas também racial e de classe. No contexto narrativo da obra, é pelo silêncio que a personagem resiste a essa condição. Ao mesmo tempo, o seu silêncio projeta, na escrita literária da autora, também uma resistência a uma tradição literária patriarcal, racial e de classe que tenta impor à escritora uma condição de subalternidade com a qual ela, no entanto, não se identifica. Assim, neste estudo, o silêncio será pensado como o recurso por meio do qual a personagem protagonista do romance resiste à subalternidade. Para além disso, pretende-se evidenciar como ele se torna, também, a estratégia por meio da qual a escrita literária da autora se opõe à intimidação paralisante e silenciadora de uma tradição literária com a qual ela dialoga.
I
O retorno às águas do rio é a estratégia da voz narrativa para tecer a trama discursiva da personagem Maria das Dores no romance O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane. Qual Vênus emergindo das águas[2]2, a personagem Maria das Dores é apresentada ao leitor nua na solidão das águas do Rio Licungo:
Um grito colectivo. Um refrão.
Há uma mulher nua nas margens do rio Licungo. Do lado dos homens.
– Ah?
Há uma mulher na solidão das águas do rio. Parece que escuta o silêncio dos peixes. Uma mulher jovem. Bela e reluzente como uma escultura maconde. De olhos pregados no céu, parece até que guarda algum mistério.
– Quem é ela?
Uma mulher negra, tão negra como as esculturas de pau-preto. Negra pura, tatuada, no ventre, nas coxas, nos ombros. Nua, assim, completa. Ancas. Cintura. Umbigo. Ventre. Mamilos. Ombros. Tudo à mostra (CHIZIANE, 2008, p. 11).
Dois aspectos chamam a atenção na descrição da personagem feita pela voz narrativa. A primeira refere-se ao fato de ela encontrar-se na margem que fica “do lado dos homens”. A segunda diz respeito à maneira como ela se porta em sua nudez: “Parece escutar o silêncio dos peixes”.
Nua, envolta em mistério e aparentemente exilada, Maria das Dores emerge na narrativa saída das águas do rio em uma atitude de transgressão que desestabiliza a ordem que regula o comportamento das mulheres e dos homens do lugar. A atitude da personagem é transgressora porque, ao banhar-se no lugar privado destinado aos homens, ela quebra todas as normas do local e, além disso, sua nudez, segundo as crenças da comunidade, ameaça as crianças, que podem ficar cegas e as mulheres, que podem passar a ser usadas e abusadas pelos homens. No entanto, ela responde à reivindicação de reestabelecimento da ordem, que lhe é dirigida pelas mulheres, por meio da linguagem que aprende com os peixes do rio: “Ela responde com a linguagem dos peixes do rio. Sorri. Olha para o chão. Para o céu. Com brandura. Com candura. Os olhos emanam muita luz e uma miríade de cores” (CHIZIANE, 2008, p. 15).
A linguagem dos peixes, essa linguagem outra, que a faz sorrir, mirar o chão, o céu, com brandura, candura e muita luz, lhe dá acesso ao outro lado do mundo, onde ela se posta e de onde mira a multidão “com os olhos no limbo” (CHIZIANE, 2008, p. 13). Alojada nessa linguagem outra, em relação à linguagem do lugar somente lhe resta o silêncio. Até porque é essa linguagem outra que lhe permite desafiar a ordem local, banhar-se no lugar privado destinado aos homens, mirar a multidão de mulheres do outro lado do mundo enquanto balança os olhos entre o céu e o horizonte “na visão clarividente dos poetas” (CHIZIANE, 2008, p. 13), superar as ameaças com um sorriso e impor seu corpo e sua nudez como a presença que diz de si, em detrimento de uma identidade que a enquadraria a partir de
Projecções fantásticas das histórias à volta da fogueira, as meninas bonitas, bondosas, obedientes, trabalhadoras casam-se com príncipes dourados, têm muitos filhos e vivem felizes para sempre. As meninas maldosas, mentirosas, desobedientes e preguiçosas, no final da história são castigadas, não arranjaram marido, nem filhos, vivem solteironas e infelizes para sempre, e acabam enlouquecendo. Crenças. De dádivas e destinos. Pragas. Profecias. Castigos (CHIZIANE, 2008, p. 19).
Por meio da linguagem dos peixes a personagem assume uma identidade outra, diferente dessas projeções, que lhe possibilita fugir de sua condição de “animal ferido por todas as coisas” (CHIZIANE, 2008, p. 17), “borboleta incolor, disforme”, “aquela que ninguém vê” (CHIZIANE, 2008, p. 18). Nessa identidade outra se cumpre seu destino de água, “Sempre correndo em todas as formas, umas vezes nascente, outras vezes rio. Outras vezes suor e outras lágrimas. Dilúvio. Gota de orvalho na garganta de um passarinho” (CHIZIANE, 2008, p. 17). Como água, o movimento é a sua eternidade. Cumprindo seu destino, Maria das Dores cruza o presente, o passado e o futuro, unindo os tempos para trazer, para as mulheres e os homens do local, uma mensagem de liberdade. Por isso, para a mais velha do lugar, a mulher do régulo, Maria das Dores é “uma canção que recordava às mais novas todas as coisas antigas, dos princípios dos princípios, no conto do matriarcado” (CHIZIANE, 2008, p. 21). Canção que projeta, no presente narrativo, os mitos da cultura tradicional moçambicana:
Era uma vez…
No princípio de tudo. Homens e mulheres viviam em mundos separados pelos Montes Namuli. As mulheres usavam tecnologias avançadas, até tinham barcos de pesca. Dominavam os mistérios da natureza e tudo… eram tão puras, mais puras que as crianças numa creche. Eram poderosas. Dominavam o fogo e a trovoada. Tinham já descoberto o fogo. Os homens ainda eram selvagens, comiam carne crua e alimentavam-se de raízes. Eram canibais e infelizes. Um dia, um homem jovem tentou atravessar o rio Licundo, para saber o que havia. Ia afogar-se quando aparece a linda jovem, sua salvadora, que meteu o homem no seu barco. Como houvesse frio a jovem tentou reanimar o moribundo com o calor do seu corpo. O homem olhou para o corpo dela, completamente aberto, u m antúrio vermelho com rebordos de barro. Ali residia o templo maravilhoso, onde se escondiam todos os mistérios da criação. E depois… (CHIZIANE, 2008, p. 21).
Diferentemente desse passado que emerge no presente narrativo a partir da linguagem-canção mítica trazida por Maria das Dores, o passado histórico do país é relido pela mulher do régulo como uma tentativa de propor, para as mulheres do lugar, um outro olhar sobre si mesmas, que as insira em sua realidade com a consciência da unidade que as aproxima em sua condição feminina:
Éramos de Monomotapa, de Chagamire, de Makombe, de Kupula, nas velhas auroras. O poder era nosso. (…) Unimo-nos aos changanes, aos ngunis, aos ndaus, nhanjas, senas. Guerreámo-nos e reconciliámo-nos. Fomos invadidos pelos árabes. Guerreados pelos holandeses, portugueses. Lutámos. As guerras dos portugueses foram mais fortes e corremos de um lado para outro, enquanto os barcos dos negreiros transportavam escravos para os quatro cantos do mundo. Vieram novas guerras. De pretos contra brancos, e pretos contra pretos. Durante o dia, os invasores matavam tudo, mas faziam amor na pausa dos combates. Vinham com os corações cheios de ódio. Mas bebiam água de coco e ficavam mansos e o ódio se transformava em amor. As mulheres se parecem com coco, não acham? As mulheres violadas choravam as dores do infortúnio com sementes no ventre, e deram à luz uma nova nação. Os invasores destruíram os nossos templos, nossos deuses, nossa língua. Mas com eles construímos uma nova língua, uma nova raça. Essa raça somos nós (CHIZIANE, 2008, p. 23-24).
Ao associar o corpo feminino ao coco, cujas águas os homens bebem e cujo interior abriga as sementes da nova nação, a mulher do régulo, sob a inspiração da linguagem-canção mítica de Maria das Dores, recorda às mulheres que a nudez da personagem às margens do rio Licungo as assusta porque inscreve, em sua própria memória e na memória da nação que lemos no contexto da narrativa, algo que apenas pela nudez da estrangeira pode ser recuperado: a sua condição de corpos femininos e negros, lugar de sua identidade feminina e de origem da nação mesma.
Assim, vemos que o corpo define a condição feminina da personagem Maria das Dores. É ele o seu espaço de enunciação. Talvez por isso, ao apresentar-se nas margens do rio Lucungo ela o faça na posição de lótus, que lhe permite colocar em evidência a fala-corpo que a caracteriza e que dá visibilidade ao “seu interior desabrochado, como um antúrio vermelho com rebordos de barro”, a suas tatuagens no ventre de mulher madura, a seu “corpo esguio, pequeno, recheado à frente, recheado atrás” (CHIZIANE, 2008, p. 12).
A construção da personagem por meio do recurso a seu corpo-discurso decorre do fato de que ela será submetida, na narrativa, a um processo de sequestro de sua subjetividade, resultado das perdas que acumula ao longo da vida e decorrente de sua condição de mulher negra num país regido por uma história marcada pela colonização, pelo falocentrismo e pelo racismo:
Mas tudo começou no dia em que o pai negro partiu para não mais voltar. Tudo começou quando o pai branco amou a sua mãe. Tudo começou quando nasceu a sua irmã mulata. Tudo começou quando a sua mãe vendeu a sua virgindade para melhorar o negócio do pão. Tudo começou com uma relação que envolvia sexo e amargura. Filhos e fuga. Torpor e ausência. Escalada de uma montanha. Soldados brancos na defesa do império de Portugal. Dinheiro e virgindade. Magia. Fortuna.
Lembra-se de tudo, da terra e do mundo. Onde a cultura dita normas sobre homens e mulheres. Onde o dinheiro vale mais que a vida. Onde o mulato vale mais que o negro e o branco vale mais que todos eles. Onde a cor e o sexo determinam o estatuto de um ser humano (CHIZIANE, 2008, p. 27).
Cada perda se inscreve no corpo-discurso da personagem Maria das Dores conformando o silêncio com o qual, gradativamente, ela ocupa seu lugar no mundo. Para a personagem o silêncio não significa uma renúncia. O silêncio de Maria das Dores lhe permite elaborar a linguagem outra pela qual ela desafia tudo aquilo que sequestra sua subjetividade. Pelo silêncio ela elabora a linguagem e a identidade outra que lhe permitem escapar dos padrões culturais de significação dominantes em Moçambique, a partir dos quais a mulher negra é socialmente projetada em signos que a vinculam a imagens da escravidão negra e da submissão do corpo feminino à imposição racial e de gênero.
A expressão da renúncia da personagem Maria das Dores em assumir as representações sociais inferiorizantes que a sociedade moçambicana projeta para a mulher pode ser lida em sua recusa às roupas que lhe cobrem aquilo que ela elege como signo de sua identidade-discurso-enunciação: o seu corpo nu, por meio do qual ela pode recuperar sua condição feminina e negra:
Quem sou eu? Uma estátua de barro, no meio da chuva. Odeio as roupas que me limitam o voo. Odeio as paredes das casas que não me deixam escutar a música do vento. Eu sou a Maria das Dores. Aquela que desafia a vida e a morte a busca do seu tesouro. Eu sou a Maria das Dores, e sei que o choro de uma mulher tem a força de uma nascente. Sei com quantos passos de mulher se percorre o perímetro do mundo. Com quantas dores se faz uma vida, com quantos espinhos se faz uma ferida. Mas não tenho nome (CHIZIANE, 2008, p. 18).
Recusar as roupas é, para Maria das Dores, resistir a um discurso de dominação de origem colonial, patriarcal e racial, como também a tudo que decorre desse discurso. É regressar a um estado de pureza, de transparência, em que “o nu de uma [mulher] se reflete no corpo da outra [mulher]” (CHIZIANE, 2008, p. 33) para lembrar que os tempos podem se misturar, os povos podem se misturar, os costumes podem se misturar, mas o ventre da mulher “é o único ponto de partida para todos os caminhos do mundo” (CHIZIANE, 2008, p. 34).
Na redefinição do corpo feminino negro como ponto de origem encontramos a redefinição da identidade feminina da personagem. Encontramos, também, a reinserção de Maria das Dores em condições sociais que lhe foram suprimidas, as quais ela reivindica pela nudez: a de filha, a de irmã, a de esposa e a de mãe:
Sorri. Finalmente pode regressar a casa e retomar o penteado de Jacinta que ficou por terminar. Pode voltar a conversar com o centauro, esse cavaleiro de diamante, com corpo de homem e cabeça de cavalo. Pode voltar e arrumar os livros que deixou abertos sobre a mesa há mais de vinte e cinco anos. Abraçar a boneca na cama da infância. Voga no espaço, voa até se transformar numa mancha, num ponto, num germe pronto a ser de novo incubado pelo ventre da mesma mãe. Sente a vertigem da leveza e tenta desesperadamente buscar um alicerce que a sustente no grito de libertação: – Minha mãe, minha mãe, minha mãe! (CHIZIANE, 2008, p. 319).
Sua nudez transgressora reencena, na narrativa de Paulina Chiziane, os questionamentos postos por Teresa de Lauretis em relação às representações do feminino. Para Teresa de Lauretis, essas representações precisam ser pensadas a partir de um “outro lugar”, de um ponto de interseção que nos coloque dentro dos discursos de gênero e, simultaneamente, fora dele. A estudiosa esclarece que
(…) esse “outro lugar” não é um distante e mítico passado, nem uma história de um futuro utópico: é o outro lugar do discurso aqui e agora, os pontos cegos, ou o space-off de suas representações. Eu o imagino como espaços nas margens dos discursos hegemônicos, espaços sociais entalhados nos interstícios das instituições e nas fendas e brechas dos aparelhos de poder-conhecimento. E é aí que os termos de uma construção diferente de gênero podem ser colocados – termos que tenham efeito e que se afirmem no nível da subjetividade e da auto-representação: nas práticas micropolíticas da vida diária e das resistências cotidianas que proporcionam agenciamento e fontes de poder ou investimento de poder; e nas produções culturais de mulheres, feministas, que inscrevem o movimento dentro e fora da ideologia, cruzando e recruzando as fronteiras – e os limites – das(s) diferença(s) sexual(ais) (LAURETIS, 1994, p. 237).
Para a estudiosa, “as mulheres se situam tanto dentro quanto fora do gênero, ao mesmo tempo, dentro e fora da representação” (LAURETIS, 1998, p. 218). O situar-se dentro e fora do gênero joga por terra as noções dualistas de representação baseadas apenas na oposição entre o feminino e o masculino.
Assim, a redefinição do espaço ocupado pelo corpo feminino na sociedade moçambicana, proposta pela personagem, contrapõe-se a noções dualistas de representação baseadas em oposições valorativas que excluem o feminino e o negro, com privilégio do masculino e do branco. Nem enquadrando-se no gênero, nem excluindo-se dele, mas gendrando e en-gendrando (LAURETIS, 1994) o corpo e o discurso, a voz narrativa conduz Maria das Dores ao encontro de sua condição feminina sequestrada, a fim de que ela possa ocupar seu lugar no mundo e viver o gênero evidenciando suas contradições, ideologias e as relações de poder a partir das quais ele se representa.
II
A relação entre a mulher e o silêncio tem sido assinalada pela crítica feminista há já algum tempo. Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, por exemplo, em sua obra The madwoman in the attic (2000)[3]3, que retomo a partir das considerações e análises desenvolvidas por Aparecido Donizete Rossi (2011/2016), ao associarem a pena ao falo estabelecem alguns pressupostos importantes para a reflexão sobre a situação da mulher no universo patriarcal que lhes significa na literatura canônica ocidental. As estudiosas apontam para o silenciamento que essa literatura impõe à mulher quando perguntam: “Is a pen a metaphorical pennis? [É a pena um pênis metafórico?]” (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 3). Respondendo afirmativamente à pergunta com base nos estudos de Anne Finch, Gilbert e Gubar observam que a pena, por ser uma ferramenta essencialmente masculina, pode ser pensada como um falo metafórico, o que as leva a afirmar que escrever, ler e pensar são, em si mesmas, atividade masculinas no contexto da literatura canônica ocidental.
A partir da associação entre gênero, literatura e poder, Gilbert e Gubar evidenciam a ausência da voz da mulher no espaço da escrita literária canônica ocidental, fato que, segundo elas, pode ser comprovado pelas representações da mulher nessa literatura. Essas oscilam entre duas imagens matriciais que espelham a projeção que a sociedade patriarcal e falocêntrica faz da mulher ao longo dos séculos: a de anjo, à qual estão associados os atributos da beleza, pureza, bondade, passividade, entrega aos afazeres domésticos, aos filhos e aos maridos; e a de monstro, representada pela bruxa, pela louca histérica, pela femme fatale, pela sereia, pela vampira, enfim, a ela associando-se uma autonomia inconciliável com a dependência feminina pressuposta pelo universo patriarcal e falocêntrico. Para Gilbert e Gubar, nos estereótipos do anjo e do monstro a literatura ocidental fixa os paradigmas a partir dos quais a mulher é lida e representada. Nas duas situações, resta à mulher uma condição de silenciamento. Seja ela leitora ou escritora, o silêncio é aquilo que a sociedade patriarcal falocêntrica lhe impõe e que espera dela, visto que sua possibilidade de expressar-se fica circunscrita à incorporação das máscaras com as quais ela é falada.
Intensificando o debate sobre a relação entre mulher e silêncio, Gayatri Chakravorty Spivak incorpora à discussão as diferenças de raça e de classe, observando como, no contexto do itinerário obliterado do sujeito subalterno, apesar de tanto o homem quanto a mulher serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurgência, a construção ideológica de gênero mantém a dominação masculina. Para a estudiosa, a violência epistêmica do imperialismo restringe ao sujeito subalterno a possibilidade de uma episteme. Porém, para Spivak, “se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (SPIVAK, 2010, p. 64).
A análise da obra de Paulina Chiziane que estamos fazendo neste estudo, embora superficial, ilustra a relação entre gênero, literatura e poder proposta por Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, como também as diferenças entre raça e classe acrescentadas ao debate por Gayatri Chakravorty Spivak. A moçambicana Paulina Chiziane é uma escritora negra que produze sua obra em um espaço com história de colonização. Por isso, vale a pena investigarmos como sua criação estética se constrói diante da constrangedora limitação que lhe impõe a relação entre gênero, literatura e poder e da restrição à possibilidade de fala com que se depara o sujeito subalterno feminino no contexto da produção colonial.
Segundo Gilbert e Gubar, como a pena pode ser associada ao falo, ao apropriar-se dela para escrever a mulher está, na verdade, de maneira inconsciente, apropriando-se de um objeto socialmente circunscrito ao masculino. A ausência, em seu corpo, de um órgão sexual que corresponda ao ato/poder de criar, que a leva a apropriar-se da pena/falo, gera na mulher um embate psíquico inconsciente, que, muitas vezes, encontra expressão na escrita das autoras quando elas produzem obras de caráter metatextual, discutindo o ato de escrever em suas narrativas. Esse embate psíquico, associado com a circunscrição da mulher aos estereótipos do anjo e do monstro definidos pela tradição literária patriarcal e falocêntrica, gera o que Gilbert e Gubar tratam como sendo a “angústia da autoria” (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 49) para mostrar como o tornar-se escritora é, para a mulher, uma experiência traumática.
Gilbert e Gubar associam a noção de angústia da autoria à de angústia da influência proposta por Harold Bloom. A angústia da influência diz respeito à construção da autoria, ao fato de que tornar-se escritor implica construir-se a si mesmo a partir do outro, da influência que se recebe de toda uma tradição de autores precedentes que deve ser apropriada, a qual, por sua vez, também se apropriou de toda uma tradição autoral que a precedeu. Implica, ainda, encontrar uma maneira de superar os predecessores, tornando-se um autor forte por renovar, de alguma maneira, a literatura precedente.
Para Gilbert e Gubar, no caso da escritora essa situação se complica, pois a tradição autoral que precede a escrita da mulher é masculina, patriarcal e falocêntrica. Além disso, essa tradição enquadra a mulher pelos estereótipos do anjo e do monstro, priorizando o anjo e repudiando o monstro. Tal constatação leva Gilbert e Gubar a concluírem que a tradição autoral que as mulheres encontram quando decidem tornar-se autoras não lhes fornece modelos nos quais elas possam inspirar-se, ou com os quais possam romper em seu processo de autoafirmação. Por isso, o que resta à mulher que deseja tornar-se autora é, na perspectiva aberta por Gilbert e Gubar, procurar uma precursora (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 49) que, longe de representar uma ameaça a ser contestada ou destruída, comprove a possibilidade de uma insurreição contra a autoridade literária patriarcal. À mulher que pretende tornar-se escritora resta, então, procurar uma tradição autoral feminina que lhe permita opor-se à autoria/autoridade literária patriarcal. Essa tradição literária autoral feminina é encontrada por Gilbert e Gubar em textos de várias escritoras inglesas dos séculos XVIII e XIX, tais como Jane Austen, Mary Shelley, Emily Brontë, Emily Dickinson, dentre outras.
Gilbert e Gubar informam que as obras dessas escritoras apresentam várias estratégias por meio das quais procuram desarticular e/ou subverter o patriarcado. A primeira estratégia elencada é o palimpsesto, por meio do qual as escritoras criaram uma tradição literária feminina que se configura por meio de uma simultânea relação de conformidade e subversão dos padrões literários patriarcais. A segunda estratégia é a evasão e a dissimulação, pelas quais as escritoras buscam, de maneira velada, dissimulada, reexaminar as imagens de mulheres herdadas da literatura masculina e definidoras das polaridades do anjo e do monstro, rejeitando os valores e pressuposições da sociedade que os criou e criando outras personagens que, por suas características monstruosas, sangrentas, invejosas, furiosas, insanas, funcionam como um duplo das escritoras e projetam, na escrita literária, sua prória raiva autoral. A terceira estratégia alia paródia e ambiguidade como resultado do fato de que, sendo a personagem louca um duplo de sua autora, ela pode ser vista como uma paródia tanto da autora quanto das mulheres monstruosas criadas pela literatura patriarcal. Por isso, a paródia permite às escritoras instalar, em suas narrativas, uma ambiguidade essencial, por meio da qual expressam e camuflam a crítica que propõem à literatura patriarcal. A quarta e última estratégia é a construção espacial presente nas escritas dessas mulheres, que é marcada pelo signo da reclusão, da clausura, do isolamento, da morte, refletindo o espaço social habitado pela própria mulher autora, ou seja, o da casa ou doméstico. As mulheres projetam a angústia sobre a clausura em sua arte a partir do espaço da casa, fundindo as angústias sobre a maternidade com as da criação literária. A partir daí, Gilbert e Gubar propõem que o útero, comumente associado à casa, também seja visto como espaço dominado por angústias. Nessa perspectiva, ele se torna espaço da loucura, da morte, mas também, forma de comunicação, de expressão da voz feminina, de seu discurso, de seu texto. O útero é proposto, então, pelas estudiosas, como espaço do impulso criativo feminino. É um desdobramento da pena que possibilita às mulheres a estratégia do palimpsesto. Por meio de uma série de associações as autoras mostram que o texto escrito pelo útero/pena não corresponde à “nulidade” ou à “vacuidade” (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 9) sugeridas pela cultura patriarcal, mas se caracteriza, antes, como enigma, mistério que coloca em xeque não apenas a literatura patriarcal, mas também o próprio Logos.
As observações de Gilbert e Gubar, inclusive relativas à existência de um cânone literário autoral feminino e de uma estética que lhe corresponda, nos permitem indagar sobre como devem proceder as mulheres negras que pretendem tornar-se escritoras e que produzem suas obras em contextos com história de colonização, como é o caso de Paulina Chiziane. A tradição autoral feminina sugerida por Gilbert e Gubar, composta por escritoras inglesas, burguesas e brancas dos séculos XVIII e XIX, poderia ser considerada como precursora pelas mulheres negras que se tornam escritoras? Existiria uma tradição autoral feminina que permitisse às escritoras negras insurgir-se contra a autoridade literária patriarcal, falocêntrica, racial e de classe? Existiria uma tradição autoral feminina negra na literatura ocidental? Existiria na literatura moçambicana?
Essas indagações nos permitem verificar como o tornar-se escritora é, para a mulher negra, e em nosso caso específico, para a mulher negra moçambicana, uma experiência ainda mais traumática. Aliás, com relação à literatura moçambicana, é preciso lembrar, antes de mais nada, que o próprio ato de assumir a língua portuguesa na escrita literária foi, para os escritores de maneira geral, traumática, uma vez que sua presença nos países africanos se dá por legado e imposição do processo de colonização europeu. Assim, apenas na segunda metade do século XX os escritores africanos assumem a língua portuguesa como pertença individual e coletiva. De qualquer forma, é preciso assinalar que grande parte da escrita literária moçambicana, como também africana de língua portuguesa, é essencialmente masculina. A literatura moçambicana espelha a exclusão das mulheres do espaço da escrita literária. Nela predominam vozes masculinas.
Laura Padilha atesta a ausência da produção de mulheres nas literaturas africanas de língua portuguesa chamando a atenção para o fato de que “o acesso ao texto verbal lhes era duas vezes barrado: por serem mulheres e africanas” (PADILHA, 2002, p. 171). Segundo a pesquisadora,
Encher de palavras o silêncio histórico foi para elas uma árdua e difícil conquista. Mesmo depois das independências, quando as nações se constituíram como comunidades políticas imaginadas – territorialmente limitadas e organizadas de modo soberano (ANDERSN, 1989, p. 14) –, o acesso das mulheres à condição de produtoras textuais não foi facilitado. A formação canônica em tais nações submeteu-se aos mesmos aparatos ideológicos e aos mesmos mecanismos de dominação cuja meta, como se sabe, é elidir as diferenças, sobretudo no que concerne a questões como as de raça e gênero (PADILHA, 2002, p. 171).
Destacando o papel importante do Boletim Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império – CEI –, editado entre 1948 e 1964, em Lisboa, na formação de um cânone literário africano de língua portuguesa, Padilha mostra que, embora a presença de escritores seja eminentemente masculina, as mulheres tomam parte dele, propondo duas imagens que se fazem recorrentes em suas produções: “a da mulher e a de seu duplo, a terra, significando esta o lugar de nascimento, a pátria” (PADILHA, 2002, p. 173 – destaques da autora). Para Padilha, a recorrência a imagens de mulheres se torna comum nas publicações da CEI, aparecendo, inclusive, em produções masculinas. Ressalta a pesquisadora que a imagem da mulher aparece sempre vinculada a uma metáfora genesíaca, “pois a mulher é sempre vista em África como fonte primeira da vida individual e clânica” (PADILHA, 2002, p. 173-174). Porém, nos textos femininos, além da vinculação metafórica à terra, a representação adentra a metonímia, por meio da qual, na esteira de Inocência Mata, Padilha afirma que a figuração da mulher põe em cena um “indivíduo com as suas dores e frustrações pessoais, as suas esperanças e desejos. E nessa dualidade (como indivíduo e como entidade político-cultural: a mátria) a figura da mulher emerge com facetas humanas” (MATA apud PADILHA, 2002, p. 174).
Ressaltando a participação das mulheres no Boletim Mensagem, Laura Padilha informa sobre a presença de três mulheres: Alda Lara, de Angola; Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe; e Noémia de Sousa, que escreve utilizando também o pseudônimo Vera Micaia, de Moçambique. Para esta reflexão, interessam-nos mais diretamente as observações de Padilha sobre a poética de Noémia de Sousa, em razão dos questionamentos que levantamos há pouco sobre a configuração de uma tradição de escrita feminina negra na literatura moçambicana.
Para Padilha, o principal traço significante da escrita de Noémia de Sousa é a sua feminilidade. Assim, “mesmo, muitas vezes, sem assumir marcas discursivas explícitas de um sujeito-mulher, sua poesia irrompe em forma de um feminino convulsionado pela revolta e por uma inadiável ânsia de libertação” (PADILHA, 2002, p. 183). Esse movimento do eu lírico projetado na voz em feminino de Noémia de Souza resgata uma tradição oral que se transforma na escrita, “daí o fato de o sujeito negar-se a ficar solitário, exigindo a presença de outras vozes, o que faz do seu um canto coletivo” (PADILHA, 2002, p. 183). Esse canto coletivo, para Padilha, coloca na cena poética as vozes dos “seres vitimados de sua terra; os torturados corpos marcados ‘pelos chicotes da escravatura’ dentro e fora da África, enfim, os negros de todo o mundo” (PADILHA, 2002, p. 183, destaque da autora). Por isso, a estudiosa conclui que o canto de Noémia de Sousa se desdobra como um canto coletivo.
Em oposição a essa vertente política da produção poética feminina apresentada no Boletim Mensagem, Padilha identifica, na literatura angolana, entre os anos 1950 e 1960, uma outra figuração do corpo feminino que ganhou as páginas dos jornais que funcionavam como espaço de circulação dessa produção poética em seus inícios, na época colonial. Essa figuração era proferida por uma voz “assimilada” (PADILHA, 2002, p. 221), construída a partir de um modelo que tinha a mulher branca e europeia como paradigma, mesmo travestida de africana, e que lançava, para o corpo feminino negro, um olhar externo que destacava nele o exótico e o sensual. Porém, como a pesquisadora informa, essas vozes “mergulham em uma espécie de limbo, praticamente se calando” (PADILHA, 2002, p. 221).
Estudando outras poetas africanas, Padilha vai mostrar que, da mesma forma que em Noémia de Sousa, a encenação do corpo feminino se faz a partir dos “mitos bantos de origem, sempre organizados em torno do feminino” (PADILHA, 2002, p. 204). Esses estudos mostram o comprometimento da figuração do corpo feminino com o corpo coletivo da nação, num entrelaçamento sígnico mulher/terra que se tornará um dos vetores da formação das chamadas modernas literaturas africanas produzidas em português. A esse respeito, Maria Nazareth Soares Fonseca chama a atenção para o fato de a construção de uma voz coletiva ser uma estratégia eficaz para aproximar a poeta de inúmeras mulheres exploradas pelo sistema colonial e afirma que “Esse mesmo recurso, em vários poemas de Noémia de Sousa, mostra prostitutas e magaíças como vítimas de um mesmo processo de exploração, como metonímias do sistema de opressão que a poeta condena” (FONSECA, 2004, p. 290).
Todavia, como adverte Maria Nazareth Soares Fonseca, “a adesão às causas coletivas não consegue dar voz aos anseios próprios de um segmento também marginalizado e submisso, o das mulheres” (FONSECA, 2004, p. 290). Daí, para a estudiosa, justificar-se a pouca presença de escritoras a figurarem nas antologias de poesia de autores africanos de língua portuguesa. Percebemos, assim, que a tentativa da voz feminina de Noémia de Sousa, como a de outras poetas das literaturas africanas de língua portuguesa, de romper o silêncio imposto para a mulher e subverter as leis da invisibilidade de seu corpo vai se confundir com o rompimento do silêncio imposto ao próprio corpo moçambicano/africano. No entanto, ao realizar esse intento por meio da projeção de uma voz coletiva feminina no espaço da literatura, essas mulheres, e entre elas Noémia de Sousa, vão “silenciar as manifestações próprias à feminilidade” (FONSECA, 2004, p. 291). Em função disso, analisando a produção poética mais recente de algumas autoras africanas, Fonseca classifica o lugar de fala dessas mulheres como “desconfortável”, “incômodo”, observando, porém, que é apenas a partir dele que elas podem “acolher as vozes dos excluídos com os quais (…) guardam fortes semelhanças” e, ao mesmo tempo, afastar-se “de algum modo, do compromisso com um projeto de luta” para inserir-se, pela escrita literária, em “um ritual de passagem para outras travessias” (FONSECA, 2004, p. 291) que deixem mais evidentes as pulsações do corpo feminino.
É nesse lugar “desconfortável”, “incômodo”, que a poética de Paulina Chiziane se insere. Por isso, acredito que a condição traumática em que Paulina Chiziane produz sua escrita literária se materializa na personagem protagonista de seu romance O alegre canto da perdiz como projeção dos limites contra os quais se debate o sujeito feminino negro em sua busca para expressar-se. A recusa da personagem por uma expressão que não lhe permite dizer de si, sua busca por uma linguagem outra, seu silêncio, encenam as estratégias pelas quais a escritora assume o desconforto e o incômodo como condição da/para a escrita e, consequentemente, para a construção de uma tradição autoral feminina que permita às escritoras moçambicanas – e africanas de língua portuguesa – negras insurgirem-se contra a autoridade literária patriarcal, falocêntrica, racial e de classe que as representa pelo silêncio, deslocarem-se de projetos coletivizadores que as esvaziam de si mesmas e
assumir[em] uma escrita que deixa espaço para a expressão da intimidade do eu, para a escuta de sugestões mais comprometidas com o universo de mulheres que, ainda silenciadas por fortes tradições, motivam a escrita de textos que transitam no espaço da literatura, procurando não se fechar às inter-relações com outros campos em que o corpo desenha diferentes coreografias, ainda quando só pode ser observado no desempenho de obrigações cotidianas (FONSECA, 2004, p. 295).
Referências
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PADILHA, Laura Cavalcante. Corpo e terra: um entrecruzamento simbólico em falas poéticas de mulheres africanas. In: PADILHA, Laura Cavalcante. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre literaturas luso-afro-brasileiras. Porto Alegre: EDIPUCS, 2002. p. 219-228.
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WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-philosophicus. Tradução e apresentação de José Arthur Giannotti. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968.
NOTAS
[1] Disponível em: http://www.aulete.com.br/silêncio. Acesso em 07 de setembro de 2015.
[2] Não nos parece inadequado sugerir que a cena dialoga com a tela O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. A pintura está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália. É provável que tenha sido feita em 1485. No quadro, a deusa clássica Vênus emerge das águas em uma concha, sendo empurrada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolo das paixões espirituais, e recebendo, de uma Hora (as Horas eram as deusas das estações), uma manto bordado de flores. Alguns especialistas argumentam que a deusa nua não representaria a paixão terrena, carnal, e sim a paixão espiritual. O efeito causado pelo quadro foi de paganismo, já que foi pintado em época em que a maioria da produção artística se atinha a temas católicos. Na antiguidade clássica, a concha do mar era metáfora para vagina. (Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Nascimento_de_Vênus).
[3] Não é objetivo deste texto explorar a fundo as importantes reflexões de Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, motivo pelo qual remetemos para as elucidações, considerações e análise crítica da obra das autoras feitas por Aparecido Donizete Rossi em sua Tese de Doutorado Segredos do sótão: feminismo e escritura na obra de Kate Chopin, defendida na FCL-Ar/Unesp em 2011, salientando sua contribuição para a leitura que apresento neste artigo. Disponível em: http://base.repositorio.unesp.br/handle/11449/102372. Acesso em 25 de janeiro de 2016.
Bio fornecida pelo palestrante.
Maria Cecilia Casini
Universidade de São Paulo (USP)
Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti
Universidade de São Paulo (USP)
Resumo: O texto apresenta o caso exemplar da escritora italiana Sibilla Aleramo, que no começo do século XX, com a publicação de seu primeiro livro, Una donna, tornou-se personagem de referência da questão da mulher na Itália, tema de debates e discussões na época, culturais, políticas e sociais; e, em particular, na literatura feminina italiana, para qual a autora apontou direções e modalidades de escrita, reconhecendo-lhe uma especificidade própria, que a distanciava do modelo masculino.
Palavras-chave: Literatura italiana; mulher; Literatura feminina; Sibilla Aleramo
Abstract: This article presents the model case of the Italian writer Sibilla Aleramo from the beginning of the twentieth century. The publication of her first book, Una donna, became a reference in the Woman Question in Italy, the subject of cultural, political and social debates and discussions; and, particularly, in the feminine Italian literature The writer indicated directions and modalities of writing by recognizing its specificity, which differentiated it from the masculine model.
Key-words: Italian Literature; women; Feminine Literature; Sibilla Aleramo
Minicurrículo: Maria Cecilia Casini é formada em Letras pela Universidade de Florença (Itália). É doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH/USP, com Pós-Doutorado na Universidade “L’Orientale” de Nápoles (Itália). É docente de Literatura Italiana no Departamento de Letras Modernas da FFLCH/USP. Desenvolve pesquisas sobre a Literatura Medieval e Renascentista italianas; a literatura clássica e a formação do cânone literário; a história da língua literária italiana; a literatura comparada. Dirige o grupo de pesquisa “A tradição literária italiana”, voltado ao aprofundamento do estudo das relações interculturais entre Brasil e Itália. É membro da ABPI (Associação Brasileira dos Professores de Italiano); da AIPI (Associazione Internazionale dei Professori di Italiano) e do Comitê Diretivo da SILFI (Società internazionale di Linguistica e Filologia Italiana).
Minicurrículo: Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti é formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Culturas Italianas nessa mesma universidade, onde desenvolve um projeto de pesquisa sobre Italo Svevo sob orientação da Profa. Dra. Maria Cecilia Casini. É membro dos grupos de pesquisa “A tradição literária italiana” e “Literatura Italiana e Outras Artes”.
OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA FEMININA NA ITÁLIA:
UNA DONNA, DE SIBILLA ALERAMO
Maria Cecilia Casini
Universidade de São Paulo (USP)
Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti
Universidade de São Paulo (USP)
Introdução
Nos anos setenta a televisão italiana exibiu uma minissérie inspirada na obra principal de Sibilla Aleramo (1876-1960), Una donna, cujo inesperado sucesso impeliu milhares de jovens e adolescentes a procurar e ler um livro escrito no começo do século por uma escritora não exatamente conhecidíssima, desatualizada do ponto de vista político, totalmente superada em termos estilísticos. Tratou-se verdadeiramente de um fenômeno popular de vulto, em decorrência do qual houve até a momentânea inclusão do texto da autora nos programas escolares oficiais. Estávamos, talvez, no período de maior pico da recrudescência internacional do movimento feminista, tendo-se deslocado o foco da luta para o direito ao voto a reivindicações de ordem geral, visando ampliar o leque dos direitos civis aos quais as mulheres ambicionavam; mas era a sexualidade que ocupava o centro de todas as lutas do movimento feminista, agora sim fortemente presente em cada desdobramento da sociedade civil, da educação à saúde, da cultura à política, da arte à religião. Era portanto o momento certo para a volta da escandalosa Sibilla à cena cultural italiana, depois do esquecimento que se seguiu a sua morte. Em 2002, os prêmios atribuídos pelo juri do Festival do Cinema de Veneza ao filme Un viaggio chiamato amore, sobre o relacionamento entre Sibilla e o poeta Dino Campana, reacenderam o interesse pela obra da escritora, fazendo com que a maioria de suas obras fossem reeditadas, incluindo algumas de difícil fruição.
De fato, trata-se de uma obra extensa[1], quase integralmente doada por disposição testamentária à “Fondazione Istituto Gramsci”, de Roma. A “Fondazione” estrutura-se como o arquivo histórico do Partido Comunista Italiano, além de estar voltada desde seu nascimento (em 1949) para a história das mulheres: além do “Fondo Aleramo”, possui o arquivo “Camilla Ravera”, rico em material referente à memória e à escritura feminina. O “Fondo Aleramo” é composto por todas as principais edições dos livros de Sibilla (excluindo o manuscrito original de Una donna, na “Biblioteca Nazionale Centrale” de Florença); por várias primeiras edições autografados de textos representativos da época (inclusive uma preciosíssima dos Canti orfici de Dino Campana, com anotações do próprio punho do poeta de tudo que tinha sido publicado a respeito na imprensa); pela maior parte da correspondência, por fotografias da escritora e de outros, por retratos de Sibilla feitos por vários artistas (Viani, Conti, Guttuso, Cascella, Pieraccini, Lamberti); por uma massa imensa de folhetos, anotações, rascunhos, pró-memória etc; existe ainda um “Fondo Aleramo” no Arquivo de Estado de Florença, basicamente composto por cartas de e para a escritora.
No entanto, a fama de Aleramo na Itália é ligada quase somente a seu primeiro livro, Una donna, escrito em um período particularmente difícil de sua vida (a separação do marido e a consequente perda dos direitos familiares sobre o filho pequeno), publicado em 1906. Essa e outras circunstâncias fazem de Sibilla Aleramo um caso único no panorama cultural italiano do começo do século XX, mesmo no âmbito da história dos movimentos de reivindicação e de autodeterminação feminina, que na época encontravam-se em seu pleno desenvolvimento. Em um país ainda bastante conservador como a Itália, ainda não acostumado à participação ativa das mulheres em setores sempre mais amplos da sociedade; o fato de uma mulher decidir abandonar o lar para ir viver more uxorio com outro homem (o escritor Giovanni Cena), dedicando-se à literatura e a trabalhos sociais de vários tipos (a causa feminista, certamente; mas, também, a implementação de escolas de alfabetização para os paupérrimos camponeses do Agro romano[2]; ou a ajuda prestada às vítimas do terrível terremoto de Messina, na Sicília, de 1908); tornando-se, em seguida, amante de muitos dos intelectuais italianos mais importantes da época; aderindo, já velha, ao Partido Comunista; constituiu um escândalo sem proporções. Não foi suficiente que, no livro, a autora relatasse os fatos que a levaram, depois de quase dez anos de casamento, à decisão de deixar o marido e o filho (a desagregação de sua família de origem; o estupro sofrido pelo então namorado, com quem depois foi obrigada a casar; o ciúme doentio deste; as contínuas violências, físicas e morais, às quais era sujeita em casa): durante toda sua vida, Sibilla foi cercada por uma aura de escândalo, e pela fama quase mítica de mulher sedutora, devoradora de homens, insaciável (além de tudo, era muito bonita).
De qualquer forma, desde seu primeiro livro, de grande sucesso de público e de crítica[3], até à última produção, de teor mais íntimo e privado (os diários), a reflexão que está no cerne de toda a obra da escritora concentrou-se sempre na possibilidade da existência de um tipo (gênero?) de escrita tipicamente feminina, e nas especiais modalidades de sua criação e de sua prática. Tal reflexão habilita, de fato, Sibilla Aleramo, a ficar entre as pioneiras italianas da teorização de uma genealogia feminina em literatura, capaz de participar, junto da masculina, da construção de um passado comum; e, consequentemente, de propor a criação de um novo cânone literário aberto às dinâmicas da perspectiva da mulher.
A questão da mulher na Itália
A questão da mulher explode na Itália nas últimas décadas do XIX século. Já em 1861 (ano da unificação da Itália), Marco Minghetti, ministro do interior do primeiro governo unitário, tinha formulado a primeira proposta para o sufrágio feminino – sem sucesso; de fato, as mulheres italianas obterão o direito de voto somente em 1946 -, na onda das celebrações pós-unificação. Determinante para o movimento das reivindicações femininas é a entrada maciça de mulheres nas fábricas, embora em condições de inferioridade com relação aos homens (recebendo salários mais baixos), e instrumentalizadas pelos donos das fábricas, que as opõem às massas masculinas, já sindicalizadas. São fundadas as primeiras revistas e jornais, visando definir um modelo de mulher engajada e consciente; são organizadas as primeiras greves de mulheres; é criado o primeiro sindicato feminino de categoria, o das bordadeiras (1883). A presença feminina no corpo docente das escolas do Reino aumenta significativamente, consequência direta da melhora do nível da escolarização feminina e dos baixos salários dos professores. Entre 1870 e o fim dos anos Noventa são abertas associações, ligas, círculos; textos fundamentais são traduzidos em italiano (entre outros, A sujeição da mulher, de John Stuart Mill; Casa de boneca, de Henrik Ibsen; A mulher e o socialismo, de August Bebel). Graças à ação de divulgação dos instrumentos da imprensa, as associações femininas italianas conseguem manter-se em estreito contato com as iniciativas e as atividades das ligas e das organizações estrangeiras, publicando as atas dos congressos e encontros que acontecem em vários lugares da Europa e enviando representantes próprias. Os trabalhos de pesquisa no campo – enquetes sobre a sexualidade, o divórcio, a educação dos filhos, o voto, a alfabetização das massas etc –, aumentam consideravelmente. A 1890 remonta a famosa palestra Il monopolio dell’uomo[4], de Anna Kuliscioff, reivindicando iguais condições políticas, jurídicas, econômicas. Em 1892 nasce o Partido Socialista Italiano: o que parecia ser motivo de esperança para a causa feminina retumba em clamoroso desapontamento, já que os socialistas receiam que, favorecendo o acesso ao voto para as mulheres – em geral mais atingidas pelo analfabetismo, pela ignorância popular e pela influência clerical –, criariam um eleitorado hostil, pondo em risco seu próprio sucesso político; tendem portanto a absorver a questão feminina na operária, equiparando a mulher ao trabalhador homem e privilegiando a luta social às suas reivindicações. Essa falta de sensibilidade para com a mulher resulta em rachas fatais dentro dos próprios movimentos emancipacionistas: em 1907, depois do golpe da recusa do Partido Socialista de levar adiante a questão do voto feminino, pode-se dizer que o movimento das mulheres na Itália já tinha concluído sua primeira estação, definindo-se decididamente segundo diretrizes de ‘normalização’, à espera de momentos mais adequados. Isso leva a um progressivo esvaziamento de sua carga revolucionária e, pelo menos até o fim da Segunda Guerra Mundial, orienta a ação das participantes em termos da mera filantropia de conteúdo vagamente social, ou do simples suporte à ação masculina. Todas essas temáticas estão presentes na obra de Sibilla Aleramo, acompanhando o desenvolvimento do movimento feminista, italiano e internacional.
A literatura feminina na Itália
Mas, falando mais especificamente em literatura, como se dá a presença feminina na Itália, entre o final do século XIX e o começo do XX? Existem mulheres que saibam, colhendo a herança já codificada das letras, enveredar por um caminho literário próprio, de criação e estética autônoma, alcançando resultados originais? Na verdade, se por um lado nunca faltaram na história literária italiana escritoras e poetisas[5], em sua famosa Storia della letteratura italiana[6] o grande crítico Francesco De Sanctis se esquece quase completamente delas, realizando, em plena época moderna, uma supressão “drastica, e a lungo definitiva, della soggettività femminile dalla memoria storica della tradizione italiana”[7] (ZANCAN, 1998, p. XIII).
Mais ou menos no mesmo período, Benedetto Croce, nas páginas da revista La critica, trava uma polêmica com a forma de escrever da mulher, destinada a marcar durante muito tempo a historiografia oficial. Se por um lado Croce retoma e supera De Sanctis, enquanto é obrigado, diante da realidade histórica que vê as mulheres sempre mais presentes no campo literário da época, a abrir pela primeira vez uma reflexão sistemática sobre a subjetividade feminina e a forma de escrita com que essa se expressa; por outro o faz, em uma ação algo autoritária na definição da esfera de atividade reservada às mulheres, segundo uma diretriz de pensamento crítico já bastante estruturada e codificada, que vê e quer a mulher autora exclusivamente na esfera íntima dos sentimentos. O que Croce agrega à definição da escrita feminina reafirma a substancial esquizofrenia inerente, segundo ele pensa, a cada forma de escrita desse tipo, intrinsecamente imperfeita enquanto cindida entre um conteúdo de valor próprio e uma forma que substancialmente não lhe pertence, por estar historicamente ligada a uma outra cultura (a masculina): admitindo então por de lado a preocupação pela forma, o filósofo dirige sua atenção exclusivamente ao conteúdo da escrita, da qual sublinha o valor ético-moral, unicamente decorrente das altas qualidades humanas do texto. Em seu ‘batismo’ historiográfico, o olhar crítico codificado pela tradição parece carregar a escrita das mulheres como que de uma sina de nascença, que lhe nega direito de cidadania entre as formas de arte verdadeiramente relevantes, destinando-a a “narrare in tono minore la parzialità della realtà sentimentale”[8] (ZANCAN, 1998, p. XV); condenando-a, portanto, a uma condição inapelável de invisibilidade e esquisitice.
De fato, é em termos de “pericolo roseo”e “gaietto sciame”[9] (FOLLI, 2000, p. 11) que o escritor e jornalista Luciano Zuccoli expressa-se a propósito das mulheres que, no começo do século XX, agitam a cena literária italiana. E não menos severos com suas colegas escritoras demonstram ser Renato Serra, Giovanni Boine, Giuseppe Antonio Borgese; sem falar em Croce, embora o constante tratamento do tema pareça revelar a inadiabilidade de enfrentar, em sede crítica, uma realidade de fato já mais do que atuante. Mesmo se ainda com certa dose de complacência, quem melhor se confronta com o problema de um diferencial expressivo que ainda não teria encontrado o seu nome é Giuseppe Antonio Borgese, que justamente com Sibilla Aleramo entretém uma troca de escritos durante a qual, em uma tentativa de definição do “libro di donna” e, para tal, aceitando fazer-se “anche un po’ lettrice”, reconhece à escritora, provida de “passione intelligente”[10] (FOLLI, 2000, p. 12), plena paridade com o escritor homem.
Já nas primeiras décadas do século XIX, há na Itália algumas vozes femininas de certa relevância, entre as quais Maria Giuseppina Guacci, Rosina Muzio Salvo, Enrichetta Caracciolo, Caterina Percoto, Cristina Trivulzio di Belgioioso; de pouco anteriores a Sibilla, Marchesa Colombi, Emma, Bruno Sperani (pseudônimo de Beatrice Speraz), Neera, Regina di Luanto, Contessa Lara, Annie Vivanti, Matilde Serao, Donna Paola, Willi Dias, Anna Franchi, Clarice Tartufari; praticamente coetâneas de Aleramo, Amalia Guglielminetti, Leda Rafanelli, Carolina Invernizio, Maria Messina, Ada Negri, e Grazia Deledda (que em 1926 ganhou o Nobel).
É, portanto, nessa ‘tradição’ de escritoras, que Sibilla Aleramo agrega seu caso exemplar: nascida em 1876, ela pertencia àquela geração de mulheres do final do século que maior lucidez alcançaram na investigação da especificidade feminina; e que, pelo menos em parte, exerceram seu ofício intelectual menos condicionadas por pertencer a um dado sexo, a partir de uma condição de menor submissão, historicamente mais aptas a reconciliar a ruptura entre vida e prática da escrita. A produção literária sibilliana configura-se como percurso de formação em ato, aproximando-se da única experiência de Bildungsroman feminino provida de valor original, o da tradição inglesa, que tem em Jane Austen, George Eliot, nas irmãs Brontë suas fundadoras, evitando cuidadosamente cair na armadilha da “supplenza simbolica”[11] (MORETTI, 1999, p. XV) já exercida pelas formas da escrita feminina codificadas (“romanzo familiare”; “romanzo del matrimonio”; “romanzo dell’adulterio”)[12] (MORETTI, 1999, p. 8). Nesse sentido, ela representa bem – principalmente em Una donna e Il passaggio – uma modalidade de constituição da cultura humana, isto é, uma ‘forma simbólica’[13] da modernidade, permanecendo ainda hoje legitimamente central na reflexão sobre a identidade literária feminina. A partir de sua primeira obra, o autobiográfico Una donna, Sibilla entra no âmago do próprio conceito de emancipação, indicando de maneira inapelável a impossibilidade expressiva da mulher, decorrente de seus deveres de esposa e de mãe na estrutura familiar e social da época, ao mesmo tempo em que individualiza e principia desenvolvendo alguns núcleos temáticos sobre escrita de mulheres.
Una donna, de Sibilla Aleramo
Una donna foi publicado pela editora STEN em 1906; e tornou-se imediatamente um caso, que ia além de seu valor artístico, e que, alimentando polêmicas acirradas, já parecia anunciar o ‘jeito Sibilla Aleramo’ de ser. Contando em forma de biografia romanceada, ficcional, sua própria experiência de vida, Sibilla inovou, tanto pelo tema, quanto pela maneira extremamente franca com que o tratou, tanto no plano estilístico quanto de conteúdo. Não que esse tivesse sido, na literatura italiana, o primeiro texto a retratar a triste sorte da mulher malcasada e inconformada, impedida de expressar sua individualidade; nem que a exigência de se manter fiel à verdade fosse inovação absoluta de Sibilla: cabe pelo menos citar Un matrimonio in provincia, de Marchesa Colombi (1885); e a literatura de Caterina Percoto, cujos textos eram constantemente reprovados sob alegação de ‘excesso de realidade’ (embora o ambiente fosse o do Verismo), que mal condizia com o “scritto di donna” clássico: isto é, de fantasia[14] (MORANDINI, 1980, pág.77). Mas Una donna é o primeiro texto que, juntando o tema feminino com a forma autobiográfica, de teor quase confessional; e narrando em primeira pessoa, para obter o máximo efeito de identificação entre autor e personagem – na medida em que elimina qualquer nome identificador dos personagens -, permite chegar a um nível inusitado de abstração e de universalização do tema, levando o leitor a seguir o processo de revelação e descoberta da protagonista até às últimas consequências; e, ao mesmo tempo, proporcionando-lhe um altíssimo grau de percepção da realidade. Foi justamente esse acréscimo de realidade ‘real’, essa forte e não capciosa ‘verdade’ do texto, que consagrou Una donna junto à crítica e ao público.
Em um certo sentido, Una donna agiu como um divisor de águas no mundo cultural italiano daquele começo do século: ao lado das inúmeras reações positivas, que conquistam para a autora a estima e o respeito de muitos representantes das letras, na Itália como na Europa; o livro provocou também reações adversas, suscitando a rejeição de intelectuais, menos afinados com as reivindicações femininas; e até de certa parte do feminismo histórico italiano, que já a essa altura, como vimos, frente às dificuldades que a questão da mulher tinha para emplacar de vez na pauta do debate sócio-político, estava começando a regredir em suas ambições emancipacionistas e a ajustar-se em uma vertente mais geralmente social. Em particular, o final do livro – o abandono do filho por parte da mãe – causou escândalo, senão franca rejeição, até em amigas de Sibilla[15], como Ersilia Maino (que foi a única, junto com Cena, a ter acesso aos manuscritos originais; e que vinha expressando à amiga suas opiniões, à medida que o trabalho procedia): as duas esfriaram os contatos, depois da troca de correspondência que acompanhou toda a elaboração do texto e das várias tentativas, todas frustradas, do marido de Ersilia, advogado, para obter a guarda do filho para Sibilla (BUTTAFUOCO; ZANCAN, 1988, p.153).
Sem dúvida, há em Una donna os elementos típicos e facilmente reconhecíveis da literatura folhetinesca – e já feminina ‘clássica’ – da época, herança direta do imaginário romântico popular: uma bem calculada mistura entre drama familiar, psicologismo, temas da atualidade, evidentes intenções educativo-formativas: expressados em uma linguagem amplificada e passional, muitas vezes enfática e repetitiva. Mas a autora agrega a eles uma sinceridade absoluta, deslocadora, radicalmente fora dos padrões dessa mesma convenção literária; o que de alguma maneira subtrai o livro à mecanização do modelo de referência e o torna obra única, autenticamente original, provida de aura própria. Sibilla inovou sobretudo nisso e, dentro do estilo engessado das convenções codificadas da época, conseguiu passar o frescor de sua proposta em termos de novidade vivificante.
Ecco, anzitutto, un libro profondamente, compiutamente sano. Concetto qualche volta frainteso è questo della sanità letteraria. Certi libri (…) che toccan piaghe terribili (…) son quelli ch’io dico sani, perché ammettono e ispirano la fede in un possibile rimedio. Qualunque convinzione taluno possa essersi fatto sulla indifferenza necessaria all’arte, cade di fronte alla sincerità grande dell’autrice, sincerità che subito si rivela, e diviene tosto un elemento di vitalità estetica, e la traduce in espressione viva; e così, mentre credevamo di uscir dall’arte per la propaganda, ci avvediamo che il calore di questa ci ha sempre mantenuto nelle alte sfere di quella. (BONTEMPELLI, “Una donna”, em Il Grido del Popolo).
Pochi romanzi moderni io ho letti, che racchiudano come questo un dramma così grave e profondo nella sua semplicità, e lo rappresenta con pari arte, in una forma così nobile e schietta, con tanta misura e tanta potenza (…) il romanzo è chiuso da una breve perorazione, da un appello al figlio lontano. L’intendimento estraneo all’arte si scopre troppo palesemente; e l’arte ne soffre. È il solo punto, a parer mio, in cui l’autrice non abbia saputo padroneggiare la realtà come fin qui aveva fatto, meravigliosamente, in tutta la narrazione. (PIRANDELLO, “Una donna”, em Gazzetta del Popolo).
Finalizando, reproduzimos, entre tantos outros, esses dois trechos das resenhas dedicadas ao livro por dois dos principais intelectuais da época, Massimo Bontempelli e Luigi Pirandello[16]; que, mais sensíveis ao problema da renovação literária, souberam vislumbrar na obra de Sibilla Aleramo aquele fundamental aspecto da ‘sinceridade’, enquanto o elemento estrutural de uma forma nova de fazer literatura na Itália.
Bibliografia:
ALERAMO, Sibilla. Uma mulher. Trad. de Marcela Mortara, prefácio de Maria Antonietta Macciocchi e posfácio de Emilio Cecchi. São Paulo: Marco Zero (coleção Ciranda do Mundo, ed. Maria José Silveira, Mércio Sousa, Felipe Lindoso), 1984.
ALERAMO, Sibilla. Una donna. Prefácio de Maria Corti. Milão: Feltrinelli, 1993.
BUTTAFUOCO, Annarita; ZANCAN, Marina. Svelamento. Sibilla Aleramo: una biografia intellettuale. Milão: Feltrinelli, 1988.
FOLLI, Anna. Penne leggere. Neera, Ada Negri, Sibilla Aleramo. Scritture femminili fra Otto e Novecento. Milão: Guerini, 2000.
MORETTI, Franco. Il romanzo di formazione. Turim: Einaudi, 1999.
CASSIRER, Ernst. Filosofia delle forme simboliche. Milão: Sansoni, 2004.
MORANDINI, Giuliana. La voce che è in lei. Antologia della narrativa femminile italiana tra ‘800 e ‘900. Milão: Bompiani, 1980.
ZANCAN, Marina. Il doppio itinerario della scrittura, Turim, Einaudi, 1998.
NOTAS
[1]Da qual podemos citar os textos mais representativos: Momenti, 1920; Trasfigurazione, novella (lettera non spedita), 1922; Amo dunque sono, 1927; Poesie, 1929; Il passaggio, 1932; Il frustino, 1932; Sì alla terra, 1934; Orsa minore (note di taccuino), 1938; Dal mio diario (1940-1944), 1945; Selva d’amore, 1947; Il mondo è adolescente, 1949; Aiutatemi a dire, 1951; Russia alto paese. Prose e poesie, 1953; Gioie d’occasione e altre ancora, 1954; Luci della mia sera, 1956; Diario di una donna. Inediti 1945-1960, 1978.
[2] Entende-se por Agro romano a vasta região campestre fora dos muros de Roma; até pelo menos a década de Trinta, tratava-se de terras desoladas, imensas, assoladas pela malária, de propriedade das mais ricas famílias romanas, que as destinavam à coltura extensiva ou ao pasto; para lá dirigiam-se os ‘guitti’, espécie de retirantes das regiões mais pobres do Lazio, Abruzzo e Campania, para trabalhar por estação, junto da população local, em regime de vergonhosa exploração por parte dos latifundários proprietários das terras. Em 1904 Anna Fraentzen Celli, esposa do cientista e expecialista em malária Angelo Celli, criou uma escola para os camponeses do Agro, junto à secção romana da “Unione femminile”, graças ao apoio do inspetor do Ministério da Pública Instrução, Alessandro Marcucci. A escola, que combinava a impostação pedagógica de Maria Montessori com as teorias sobre arte popular de Maksim Gorki, apresentava-se ao mesmo tempo como instrumento de resgate educativo e de inclusão social para os camponeses.
[3] No exterior também: na França, Anatole France o aconselherá a Calman-Lévy, que o publicará em 1908; na Alemanha, sairá em 1909, com prefácio de Georg Brandes. Além do francês e do alemão, o livro será logo traduzido em muitos outros idiomas, como o inglês, o russo, o espanhol, o sueco, o polonês; no Brasil será traduzido por Marcella Mortara em 1984.
[4] O monopólio do homem.
[5] Conforme testemunham obras catalogadoras do século XVIII (como os Componimenti poetici delle più illustri rimatrici d’ogni secolo, de Luisa Bergalli, publicados em Veneza em 1726; ou Della storia e della ragione d’ogni poesia, editado em Bolonha por Francesco Saverio Quadrio entre 1739 e 1752); ou, ainda, segundo atestam obras mais recentes (como a Biblioteca femminile italiana raccolta posseduta e descritta dal conte Pietro Leopoldo Ferri Padovano, de 1842; e o Indice storico bio-bibliografico de Carlo Villani – em particular, a seção intitulada Stelle femminili, editado em Nápoles em 1913).
[6]A mais bela história de uma literatura nacional jamais escrita, segundo René Wellek, a Storia da literatura italiana foi composta por De Sanctis nos anos 70 do século XIX.
[7]“drástica, e por muito tempo definitiva, da subjetividade feminina da memória histórica da tradição italiana”.
[8] “narrar, em tom menor, a parcialidade da realidade sentimental”.
[9] “Perigo cor-de-rosa”; “enxame multicolorido”.
[10] “livro de mulher”; “também um pouco leitora”; “paixão inteligente”. Mas ressalte-se que ponto de partida da análise de Borgese é a obra de Colette, La vagabonde.
[11] “Suplência simbólica”.
[12] “Romance familiar”; “romance do casamento”; “romance do adultério”.
[13] Conforme a teoria das formas simbólicas formulada por Ernst Cassirer (2004).
[14]“Escrita de mulher”.
[15] Em geral, a leitura que as mulheres fizeram de Uma donna foi sujeita às exigências do debate e das lutas políticas daqueles anos, e, em geral, bem mais severa para com às teses da escritora que a de seus colegas homens. Comentários pouco positivos, se não francamente negativos, foram os de Gina Lombroso, Virginia Olper Monis, Bruno Sperani (Beatrice Speraz).
[16]“Aqui está, antes que mais nada, um livro profundamente, absolutamente sadio. Conceito às vezes equivocado, este da saúde literária. Alguns livros (…) que tratam de males terríveis (…) são aqueles que eu defino sadios, pois admitem e inspiram a fé na possibilidade de uma cura. Qualquer ideia que possamos ter formado acerca da indiferença necessária à arte, ela desaparece, frente à sinceridade da autora; sinceridade que revela-se imediatamente, tornando-se um elemento de vitalidade estética, traduzida em viva expressão; assim, enquanto pensávamos de poder sair da arte com os meios da propaganda, nos demos conta de que o calor desta sempre nos manteve nas altas esferas daquela” (trad. nossa).
“Poucos romances modernos eu li, que representem, como esse, um drama tão grave e profundo, em sua simplicidade; e que o descrevam com arte igual, em uma forma tão nobre, e franca; com tanto equilíbrio, e força (…) o romance acaba com uma breve peroração, um apelo ao filho perdido. A intenção, estranha à arte, revela-se com excessiva evidência; e é a arte que padece disso. É este o único momento, segundo me parece, em que a autora não tenha sabido dominar a realidade, como até então tinha feito, maravilhosamente, em toda a narrativa” (trad. nossa). (BUTTAFUOCO; ZANCAN, 1988).
Bio fornecida pelo palestrante.
Miriam Adelman e Renata Senna Garraffoni
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Resumo: Análise do movimento beat de mulheres e de artigos referentes ao tema neste número de Mulheres e Literatura.
Currículos:
Miriam Adelman é socióloga, escritora e tradutora. Nascida nos EUA, mora no Brasil desde 1991. Obteve seu M. Phil. em Sociologia da New York University (1991) e seu Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC (2004) com a tese A voz e a escuta: encontros e desencontros entre a teoria feminista e a sociologia contemporânea (Blucher, 2008). Desde 1992 é professora de sociologia da UFPR. Atualmente leciona no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e no Programa de Estudos Literários nessa instituição.
Renata Senna Garraffoni é historiadora, formada pela Unicamp em 1997, mestra (1999) e doutora (2004) em História na mesma instituição. É professora no Departamento de História e do Programa de pós-graduação em História da UFPR. Atua na área de História Antiga (Império Romano) e trabalha em uma perspectiva interdisciplinar entre História, Literatura e Arqueologia. Sua paixão pelas múltiplas formas de escrita, tradução e literatura a atraiu ao estudo da geração beat há mais de uma década. Em 2011, como tutora do PET-História da UFPR, coordenou uma pesquisa coletiva sobre a geração beat, momento em que estabeleceu a parceria com Miriam Adelman, realizando várias atividades com alunos e alunas de graduação e pós-graduação na UFPR e com a comunidade.
FORA E DENTRO DO CIRCULO –
ESCRITORAS E O MO(VI)MENTO BEAT
Miriam Adelman e Renata Senna Garraffoni.
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Resumo: Análise do movimento beat de mulheres e de artigos referentes ao tema neste número de Mulheres e Literatura.
Nas primeiras décadas do século passado, a escritora inglesa Vírginia Woolf, preocupada com a questão da participação das mulheres na vida cultural e intelectual da modernidade europeia, lançou para seu público uma pergunta sobre os efeitos que uma exclusão histórica – a ‘falta de uma tradição’ literária na qual se inserir e se espelhar – teria tido sobre elas. Poderiam as mulheres valorizar sua própria voz, suas percepções, suas experiências? E quais as condições necessárias para que uma mulher se tornasse escritora – as simbólicas, mas também as materiais, o que neste caso quer dizer as básicas, como ter ‘um teto todo seu’, dinheiro para se alimentar e para viabilizar seu uso do tempo para uma finalidade artística ou literária? Para Woolf, numa incisiva discussão que mais tarde seria retomada por outra pioneira, Simone de Beauvoir, a tradição literária e filosófica ocidental teria se constituído claramente como espaço e província masculinos, funcionando como aparato de poder que atribuía capacidades e privilégios: o poder de criar, de incitar e permitir a fala, de sustentar ou de silenciar discursos. Uma visão, afinal, que hoje poderíamos chamar de ‘generizada’, sobre cultura, discurso e poder, e que de certa forma antecipa os muito acolhidos insights de um homem da segunda parte do século, o filósofo francês Michel Foucault.
Três décadas mais tarde, do outro lado do Atlântico, um grupo de mulheres que frequentava a ‘boemia’ e os espaços de uma nova vanguarda cultural norte-americana teve que enfrentar a ação destes mecanismos de exclusão sobre suas próprias vidas e opções de inserção social. Conforme elas mesmas chegaram a explicitar, estas jovens, nascidas na década de 1930, tinham aspirações que as colocavam numa batalha cotidiana com os costumes e a moral do seu tempo, aspirações que constantemente ameaçavam ser frustradas. E o custo existencial e emocional seria altíssimo. Espelhar-se na vida das suas mães ou curvar-se diante das expectativas hegemônicas de uma época em que um ‘discurso oficial’ tentasse restituir e reforçar a ideologia vitoriana da domesticidade feminina não lhes era concebível, e resistir, uma necessidade que vinha de algum lugar muito profundo dentro de si; o caminho à construção de outra forma de viver, ainda um incógnito a enfrentar, com ousadia, inteligência, desapego.
Os avanços das mulheres no mundo do trabalho, na política e na educação em décadas anteriores (cf. Thébaud, 1995), não podiam ser deletadas da história. Mas o clima do pós-guerra, que trouxe a guerra fria, o macarthismo e o engodo de uma sociedade que oferecia uma pletora de bens e confortos a camadas amplas da população, em proporção e extensão nunca antes vistas, afincou na sociedade um renovado conservadorismo e disseminou intensas tentativas de convencer as mulheres a aceitar as restrições e convenções de uma época passada. Ou de ensiná-las a desejar uma vida ‘segura e pacata’, trocando os desafios do mundo público pela proteção de um marido no padrão do ‘bom provedor’ – e de um Estado que garantisse a riqueza e hegemonia americana no mundo. Às mulheres, e em particular às da classe média branca norte-americana, o papel de ‘dona de casa’ se impunha com mais força normativa do que antes, encontrando poderosos aliados nos meios de comunicação que ganhavam um público maior do que nunca. Por meio da televisão, difundiam-se os ideais do governo e de uma nova ‘sociedade do consumo’ diretamente para o interior das casas das pessoas. Contudo, o mal-estar provocado por uma subordinação socialmente imposta, e igualmente, autoimposta, também foi se difundindo, ficando famosamente registrado e analisado um pouco mais tarde por Betty Friedan no seu livro The Feminine Mystique, publicado originalmente em 1963. Era isto o que de alguma ou outra forma pairava sobre a vida das jovens que viriam a frequentar o círculo dos rebeldes culturais como os do movimento da geração beat.
De fato, havia dissidência de muitas formas sob a superfície pacificada do ‘sonho americano’ do final dos anos 1940 e os anos 1950 nos EUA e o mundo da arte e das vanguardas intelectuais e culturais era um dos seus ‘lugares de produção’ mais significativos. Escritores, cineastas e mesmo alguns cientistas sociais criticavam o ‘conformismo das massas’ ou ironizavam as estreiteza das pessoas ‘enquadradas’ (Adelman, 2008); finalmente, não seria tão difícil que alguns homens que adotassem uma postura de rebeldes pudessem adquirir em torno de si uma aura heroica, que embora chocasse alguns, fascinasse outros, mesmo porque era possível construir laços ou uma linhagem entre tal rebeldia e alguns dos mitos mais caros à sociedade norte-americana, de free thinkers e libertários[1].
Contudo, tal tipo de romantismo não funcionaria da mesma forma para as mulheres, sobre as quais o peso da moral e das normas de gênero agia de outra maneira. Os ‘homens rebeldes’ reproduziam, em grande parte, atitudes de controle e desqualificação das mulheres parecidas com as propagadas pela cultura hegemônica, preferindo tê-las como musas, auxiliares e viabilizadoras do que como verdadeiras ‘companheiras de estrada’.
Ou, pelo menos, são esses sentimentos de frustração que reverberam nos escritos das mulheres que frequentavam o círculo beat. Joyce Johnson, que foi a primeira delas a chegar a publicar um romance (Come and Join the Dance – “Venha dançar conosco” – publicado pela primeira vez em 1961), escreveu, mais tarde um dos mais interessantes livros de memória da época, cujo próprio título, Minor Characters [Personagens Menores] resume tudo: as complexas dinâmicas que ela explora ao longo do livro, que produzem e reproduzem a relegação das mulheres a uma situação de coadjuvantes, enraizada na cultura e convenções de um ‘papel social’. A falta de outros modelos de mulher, de exemplos ou mesmo de (re)conhecimento de uma tradição, bem à maneira que o colocava Vírginia Woolf, é apontada por ela como ponto de partida de um difícil caminho à descoberta de si:
As que entre nós empreendíamos o voo para fora não achávamos modelos utilizáveis para aquilo que fazíamos. Não queríamos ser nossas mães ou professoras solteironas ou mulheres profissionais duronas como elas eram retratadas na tela. E ninguém tinha nos ensinado como ser escritoras ou artistas. Sabíamos um pouco sobre Virginia Woolf mas não a achávamos relevante. Os privilégios que ela tinha nos desencorajavam, nascida como era num meio literário, e de conexões e riqueza. O “teto todo seu” do qual ela escrevia pressuponha que seu habitante tivesse uma pequena renda familiar. Com nossos cursos superiores, a gente poderia datilografar até fazer uns $50 dólares por semana – apenas o suficiente para comer e pagar o aluguel para um pequeno apartamento em Greenwich Village ou North Beach, sobrando pouco para sapatos ou pagar a conta de luz. Nada sabíamos sobre a romancista Jean Rhys, quem numa época anterior também tinha fugido da respeitabilidade, boiando perigosamente na Boemia Parisiense da década de 1920. Talvez tivéssemos nos identificado com sua falta de confiança naquilo que escrevia ou tomássemos como uma alerta a passividade corrosiva das suas relações com os homens. Mesmo assim, nenhuma alerta teria nos parado, com toda essa fome que tínhamos de abraçar a vida e tudo que fazia parte da realidade. A própria dureza da vida era algo para saborear (Johnson, 1983: xxxii nossa tradução).
Vinha ao encontro das atitudes dos homens jovens com suas colegas e namoradas, quem a Joyce, aliás, não culpa. Muito pelo contrário, o que ela aponta, em primeiro lugar – e que de certa forma configura o grande tema de toda sua produção literária posterior, tratava-se de um complexo jogo de subjetividades, no qual tanto mulheres quanto homens ficavam presas e presos aos padrões culturais que os e as moldaram. E rompê-los era difícil, seria esse o desafio que daria sentido à época, à vida:
Naturalmente, nos apaixonávamos por homens que eram rebeldes. Caíamos muito rapidamente, acreditando que nos levariam junto nas suas viagens e aventuras. Não esperávamos ser rebeldes por conta própria; não contávamos com a solidão. Uma vez que encontrávamos nossos parceiros masculinos, uma fé cega nos impedia de desafiar as antigas regras do masculino e feminino. Éramos muito jovens e tínhamos dado um passo maior do que a perna. Mas sabíamos que tínhamos feito algo que exigia coragem, algo quase inédito. Éramos as que ousaram sair de casa (Johnson, 1983: xxxiii: nossa tradução).
Não foram poucas as mulheres que tiveram uma passagem pelos círculos literários beat e o mundo boêmia ou no meio ‘alternativo’, com epicentros em Nova Iorque e na Califórnia. Inclusive discute-se, na literatura crítica (Johnson & Grace, 2002; Knight, 1996) em que medida que elas devem ser consideradas realmente como ‘beat’. Eis uma questão interessante que não deixa de nos interessar, afinal, por meio dela, pode ser descoberto conexões e alianças, história e genealogias, inovação estética e assim por diante. Não podemos, neste pequeno espaço que nos cabe aqui, adentrar muito no assunto, mas devemos levantar a questão do que, afinal definiria a identidade ‘beat’. Múltiplos critérios são possíveis, por exemplo, um estilo literário comum e semelhanças estéticas, ou o pertencimento a um grupo de avant garde cultural com uma identidade particular e que cultivava relações de amizade, amor, colaboração concreta (performances, leituras, publicações), convívio? Este último elemento é enfatizado por Grace & Johnson (2002), na sua análise das mulheres no beat: face à heterogeneidade do movimento e a dificuldade de definir critérios de ‘pertencimento’, elas ressaltam os de ‘camaraderie and community connection to identify artists’ affiliations’ [camaradagem e conexão com uma comunidade para identificar as afiliações das artistas] (p. 3-4), sugerindo também a vantagem de critérios que abrem o círculo em lugar de restringí-lo.2
Ainda mais, como Johnson & Grace também comentam, a tentativa de definir ‘quem é beat’ que tanto gerou e continua gerando controvérsia, chega até a concentrar energias analíticas que poderiam ser melhor empregadas na leitura e apreciação crítica da obra de mulheres que algo teriam a ver com o tempo e o espaço da beat (Johnson & Grace: 11). Johnson & Grace afirmam “… women beats were there, and they gave beat literature a transformative character, rending speech from their socially mandated silence, presence from their invisibility of gender, and literary works from their subordinated status as literature’s objects” [(…) as mulheres beats estavam lá, e deram à literatura beat um caráter transformativo, extraindo a fala do seu socialmente imposto silêncio, presença da sua invisibilidade de gênero, e obra literária de seu status subordinado como objetos da literatura] (p. 7). A riqueza literária e existencial da poesia de Jones e Di Prima, ou o que se apreende sobre um momento histórico, e sobre as lutas que continuam, das memórias de Jones e Johnson, junto com o puro prazer da construção de belos e comoventes textos de prosa e poesia que descobrimos nos textos de todas elas – incluindo aqui escritoras como também Leonor Kandel, Bonnie Bremser e Joanne Kyger – merecem não só a nossa atenção atual senão uma inserção mais plena nos ‘cânones’ que tantas vezes só serviram para propagar exclusões baseadas em gênero.
A presença vigorosa das figuras femininas centrais do beat como produtoras de discursos literários se deu também por meio de décadas de trabalho e evolução. Uma boa parte delas sobreviveu aos homens (amigos, companheiros, maridos, parceiros de trabalho, muitas vezes levados por uma morte precoce vinculados à propensão dos beats, e ainda mais os homens beat, de fazer aquilo tão poeticamente evocado na expressão de língua inglesa, burning your candle at both ends e várias das mais importantes continuam vivas até hoje (Joyce Johnson, Hettie Jones, Bonnie Bremser, Joanne Kyger, Diane di Prima; também Diane Wakoski, a prolífica poeta californiana segundo a Poetry Foundation, autora de mais de 60 livros[2] – e que é muitas vezes
associada ao grupo, sem ter sido do círculo mais íntimo). O trabalho literário delas continuou desdobrando-se, beneficiando-se também do clima cada vez mais favorável à criação das mulheres (fenômeno claramente vinculado à revolução feminista na academia que se deu em estreita relação com a segunda onda e seus posteriores desdobramentos, inclusive os que reivindicavam vozes femininas diversificadas, a escrita de mulheres de cor, a literatura lésbica e queer etc). No caso de Joyce Johnson, a temática histórica, geracional e cultural da geração beat continuou sendo seu foco, o que percebemos claramente nos livros de diversos gêneros publicados por ela (entres eles, uma biografia de Kerouac e as cartas que ela trocou com ele entre 1957 e 1958, dois livros de memórias – Missing Men & Minor Characters e vários romances). Bonnie (Brenda Frazer) publicou um livro de memórias (2007; 1ª ed.1969) que tem sido comparado estilisticamente com On the Road de Kerouac, embora não tenhamos registro de qualquer publicação posterior a este surpreendente relato da sua experiência no México (país que figurou como tropo de um ‘outro lugar’ nos relatos de viagens de vários escritores beats; cf. Adelman p. 49). As várias coleções de poesia (1998, 2003, 2007) que Hettie Jones publicou muitos anos depois de sua convivência íntima com o grupo beat refletem aquele momento, mas também uma longa vida na qual o compromisso político e existencial com um mundo conturbado e profundamente desigual tematizando, entre outras coisas, a solidariedade possível entre as mulheres.
Acreditamos, então, que muitas das escritoras passaram suave, quase espontaneamente de sua posição como ‘protofeministas’ beat (onde eram também herdeiras de uma primeira onda de fortes lutas pelos direitos das mulheres) a uma nova situação, de participantes das ondas que se seguiram: segunda, terceira. Nos parece fundamental ressaltar aqui, antes de mais nada, que eram mulheres que ousaram viver e participar e escrever num momento muito pouco hospitaleiro para a produção e voz das mulheres; elas persistiram, e mais do que teimar com questões identitárias – no sentido de reivindicar para sim um rótulo, como beats ou mesmo como
‘feministas’[3], juntaram-se com outras mulheres de outras gerações na construção dessa
elusiva ‘tradição’ (por assim voltar à preocupação de Woolf) de escritoras, que hoje podemos entender como algo que viabiliza e convida, como história e presente. Receberem e promoveram influencias filosóficas diversas, como o budismo na obra de Kyger, a espiritualidade New Age que celebra arquétipos do feminino no poema épico de di Prima, Loba, ou o compromisso político de Jones, que ela reafirma ao dar oficinas de escrita criativa para detentas nova-iorquinas que tampouco hesita a evocar na poesia que ela escreve. Figuram entre as pioneiras da segunda metade do século XX, e as lutas que condicionaram e caracterizaram sua juventude se transformaram, em vários casos, em carreiras literárias parecidas com mulheres das gerações que as seguiram, para as quais elas também com certeza contribuíram, abrindo caminhos e legitimando o que a Woolf uma vez chamou de feminine sentences e se tornou, na segunda metade do século, um amplo campo de criação literária onde mulheres diversas encontravam voz e vozes.
É também neste sentido que nosso esforço de trazer sua história e sua produção literária para um ‘presente brasileiro’ adquire importância enorme. A partir de uma experiência acadêmica, uma primeira disciplina sobre a geração beat ministrada por nós duas para alunos e alunas dos cursos de graduação em História e Ciências Sociais da UFPR e, posteriormente, uma disciplina exclusivamente focada nas ‘esquecidas’ escritoras por Miriam, no curso de pós-graduação em Letras da UFPR, com uma ampla bibliografia de obras delas em língua inglesa, a urgência deste novo trabalho de pesquisa e debate a veio à tona. Assim, buscando divulgar parte desse trabalho complexo, em abril de 2015 organizamos uma leitura e discussão de seus poemas e escritos em um café da cidade de Curitiba uma primeira versão de parte do material que segue no dossiê. Com as traduções encaminhadas e discutidas, percebemos que tínhamos em mãos um rico material para compartilhar, dando origem ao dossiê que se segue, que, é importante assinalar, configura a fruição de esforços crítico-analíticos de algumas das alunas que cursaram a disciplina de pós-graduação.
As escritoras escolhidas para o dossiê foram Joyce Johnson, Diane di Prima, Hettie Jones e Elise Cowen e os artigos a seu respeito exploram uma série de temas que entrecruzam as experiências de vida dessas singulares mulheres: debatem a questão do cânone, analisam a circulação das mulheres nos grupos boêmios, suas vicissitudes e suas conquistas, ampliam os conflitos sociais do período com seus olhares aguçados sobre o contexto histórico em que viveram e, por fim, exploram suas formas de viver e suas múltiplas formas de constituição de subjetividades libertárias, em especial suas leituras e trânsito entre passado e presente.
O primeiro artigo, de Joana Darc Pupo, abre as discussões apontadas a partir de considerações sobre biografia, autobiografia e escrita feminina. A partir da obra Missing Men, de Joyce Johnson, lançada recentemente e ainda sem tradução para o português, como muito dos textos que fazem parte desse dossiê, Joana Pupo explora a narrativa de Johnson e o significado mais amplo da escrita memorialista de várias mulheres que circularam entre os poetas da geração beat. A maneira como Johnson apresenta seus desafios com o mundo que a cercava e sua relação com os homens é instigante, pois com suas idas e vindas entre passado e presente reconstitui, sob um olhar feminista, fios de sua vida e nos inspira a pensar sobre as nossas. O que Pupo busca discutir é, portanto, exatamente essa linha tênue entre passado, presente e subjetividade, como narrar suas experiências de vida em um outro contexto e época pode ser um poético encontro consigo mesma e uma reflexão sobre os papéis femininos na modernidade.
Emanuela Carla Siqueira escreve o segundo artigo do dossiê e discute o pouco que restou da obra de Elise Cowen. Como Elise cometeu suicídio aos vinte e oito anos, em 1963, e a família destruiu todos os seus cadernos de escrita, o que restou contém poemas de seus últimos anos de vida. Explorando os laços afetivos a partir das memórias de suas amigas escritoras, como Joyce Johnson, por exemplo, Emanuela Siqueira apresenta ao leitor e à leitora uma reconstituição de sua vida e seus escritos, traduzindo alguns de seus poemas. Mais do que expressar somente os momentos de dor antes de sua partida, os poemas de Elise falam sobre vida e, de certa forma, sobre as maneiras de ser mulher e suas lutas por afirmar sua paixão pela escrita.
A seguir o artigo de Isaura Maria Rigitano de Limas, retoma a escrita memorialista, mas explora as narrativas de Diane di Prima. Essa, talvez, seja a escritora dessa geração mais conhecida do público brasileiro, pois sua obra Memoir of a Beatnik (Memórias de uma Beatnik) foi traduzida ao português. Isaura Limas retoma essa questão e vai além, trazendo aspectos de sua vida, seus embates políticos anarquistas, presença forte em seus poemas de juventude, assim como suas reflexões sobre as múltiplas formas de ser mulher. A radicalidade política de seu pensamento atrelada as suas percepções místicas e religiosa de vida, ora pelo budismo, ora pelas tradições indígenas norte-americanas, nos proporciona uma narrativa variada, em prosa ou poesia, trabalhando literariamente temas que ainda hoje são polêmicos como maternidade, escolhas, sexo, prazer, liberdade. Os textos variados, com traduções bastante cuidadosas de Isaura de Limas, nos trazem uma Diane inquieta, ativista e sonhadora que seguramente surpreenderá a todos que a conhecem somente pelas suas Memórias.
Encerrando o dossiê, o artigo de Priscila Finger do Prado traz uma contribuição bastante original que entrecruza os temas trabalhados anteriormente. A partir da obra Drive, de Hettie Jones, publicado mais tardiamente, e reflexões de teóricas feministas e da escrita de mulheres, Priscila Prado discorre sobre a relação mulher e o volante. Tema do universo masculino e ícone da rebeldia na estrada, o volante, ressignificado por Hettie Jones e discutido por Prado, nos proporciona insights sobre a relação das mulheres com a vida e a escrita. Como discutido por Prado, a metáfora do volante é poderosa, pois permite Hettie – e por extensão as mulheres – a assumir o próprio destino, construir sua própria história de vida no contexto conflituoso do American way of life, quando os papéis de gênero estavam tão bem definidos. Dirigir não seria, portanto, somente uma ação emancipadora masculina, mas também de empoderamento feminino e uma possibilidade de subversão dos papéis de gênero.
O presente dossiê se deteve em apenas quatro escritoras, mas é um começo de uma viagem nos seus trabalhos. Nosso esforço em trazer à tona está relacionado a potência criadora dessas mulheres. Cada autora a seu modo questionou valores e buscou suas formas estéticas de expressão, conviveu com homens que não aceitaram muitas normas impostas, algumas nos deixaram, outras seguiram seus caminhos. O que chama a atenção em suas obras é, sem dúvida, a firmeza na realização de suas convicções e paixão pela escrita: lendo seus textos, percebendo suas dificuldades e conquistas, sente-se ainda hoje latente a força de suas formas de viver e sentir. Algumas delas receberam prêmios, tiveram suas obras publicadas e comentadas, mesmo mais tardiamente, e seguem nos inspirando ainda hoje. Cada artigo desse dossiê busca um diálogo com o passado dos anos de 1950 e 1960, auge da geração beat, os desdobramentos desses encontros e desencontros de Joyce, Diane, Elise e Hettie, analisa essas vozes femininas, inserindo-as no Brasil do século XXI e nos desafia! Sim, desafia a escrever, a ler, a pensar, a não se curvar diante das normas e do conservadorismo, seja eles qual forem e quais formas assumam em nossa sociedade. Uma boa leitura a todos/as!
Referências
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Melnick, Lynn (2015). “I Would Have to Wake Up Young Again: On “Bay of Angels,” Personal Mythology, and the Enduring Badassery of Diane Wakoski” Los Angeles Review of Books. March 10th.
https://lareviewofbooks.org/essay/wake-young-bay-angels-personal-mythology-enduring-badassery-diane-wakoski.
NOTAS AO TEXTO
[1] Cf Barbara Ehrenreich (1983) ao respeito. Para ela , os homens Beat percebiam que havia nesses conteúdos historicamente construídos elementos que poderiam ser aproveitados e explorados, na elaboração de poderosas ‘narrativas de sí’.
[2] http://www.poetryfoundation.org/bio/diane-wakoski
[3] A poeta e crítica norte-americana Lynn Melnick oferece uma discussão interessante sobre a relação explícita e implícita de Wakoski com o feminismo, examinando tanto o contéudo da poesia dela, suas afirmações ao público leitor e aos críticos, e os paradoxos da recepção da obra dela ao longo de sua carreira, particularmente por parte de críticos literários de sexo masculino (Melnick, 2015)
Bio fornecida pelo palestrante.
Priscila Finger do Prado
Universidade Federal do Paraná
Universidade Estadual do Centro-Oeste
MINICURRÍCULO: Priscila Finger do Prado é graduada em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria. É especialista em Literatura Brasileira pelo Centro Universitário Franciscano, Mestre em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria e Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Professora do departamento de Letras da Universidade Estadual do Centro-Oeste.
ABSTRACT: Hettie Jones is a Beat woman writer that is not well known in Brazil yet. However, her work could be a good way to think about female metaphors. Hettie Jones, in her book Drive, analyzes how the act of driving can work as a metaphor for womanship and femininity. This article points out to some interesting data on beat writers, especially Hettie Jones. It argues that it is possible to think Jones’ literary production as part of a beat project, which an aspect of the beat generation that should attract our attention.
KEY-WORDS: Hettie Jones, Drive, female metaphor, Beat generation.
A VALORIZAÇÃO DO VOLANTE COMO FORMA DE SIGNIFICAR O FEMININO EM DRIVE, DA
ESCRITORA BEAT HETTIE JONES
Priscila Finger do Prado
Universidade Federal do Paraná
Universidade Estadual do Centro-Oeste
e portanto, mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:
sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para me comover até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção
(Hettie Jones, trad. Miriam Adelman)
Considerações iniciais
Minhas reflexões sobre o trabalho de Hettie Jones, escritora do círculo Beat, parte de um artigo de divulgação da professora Miriam Adelman, que se intitula “Metáforas de autoria feminina”. Ele foi publicado na Revista Contemporartes em 2014, na coluna “Planetário”. Interessa-me a representação do “ser mulher” ou do “feminino” destacada pela autora na obra de Hettie Jones, a partir da metáfora da “mulher ao volante”.
No artigo de Adelman, a autora parte do debate sobre o significado de ser mulher e de ser escritora. Para ela, esse debate deve alongar-se ainda por muito tempo, uma vez que mudam as relações entre as mulheres e seu papel na sociedade. Adelman baseia sua reflexão no livro Literature after Feminism (2003), de Rita Felski, o qual aborda o “teimoso debate com críticos literários de tendências variadas que defendem ou reproduzem a convicção de haver uma oposição entre preocupações estéticas e políticas na análise e avaliação de obras literárias.”. Segundo a leitura que Adelman faz de Felski, não deveríamos ver as relações entre estética e ideologia como opostas ou excludentes, já que “há sempre em toda produção literária conteúdo político”.
Como “metáforas de autoria feminina”, Adelman busca a reflexão de Felski, a qual identifica três metáforas “que condensam abordagens utilizadas pela crítica feminista contemporânea”, como forma de “interpretar o ser e fazer das mulheres dentre as complexas teias-tramas de relações sociais e históricas”. A primeira teria a ver com a loucura, vista como uma resposta à negação de voz para a mulher na sociedade, caracterizando a metáfora “loucas no sótão” (madwomen in the attic). Esta metáfora parte da leitura do trabalho crítico de Sandra Gilbert e Susan Gubar, sobre as obras Jane Eyre, de Charlotte Bronte, e The yellow wallpaper, de Charlotte Perkin. A segunda metáfora, intitulada “mulheres mascaradas” (masquerading women), teria a ver com a quebra nos estereótipos do feminino e do masculino e teria como principal característica a ambiguidade na representação da mulher, a partir da análise do conto “The Hidden Woman”, de Colette. A terceira metáfora seria a das “meninas de casa” (home girls), a qual apresentaria a representação de mulheres de comunidades raciais ou étnicas marginalizadas, cujo lar seria visto como refúgio.
É importante destacar que nem Felski nem Adelman pensam essas categorias como forma de engessar a produção literária feminina ou a crítica literária feminista. Elas devem ser pensadas como uma possibilidade de leitura das obras de autoria feminina ou que apresentam personagens femininas.
Na sequência de seu artigo, Adelman busca, na produção da escritora Beat, uma nova possibilidade de metáfora para a autoria feminina. A autora destaca a obra Drive, de Hettie Jones, cuja metáfora central seria a da “mulher ao volante”: “Os poemas evocam constantemente a capacidade das mulheres de pegar a estrada, ou de fazer a estrada. Tematizam, nesse empreendimento, tanto a relação como eu quanto como outro”. E este seria o ponto que me interessa de sua análise, outra representação para o “ser mulher”, aquela que dirige sua vida, seu carro, bem como a vida daqueles que a rodeiam.
Meu objetivo com este trabalho seria, então, buscar verificar como se constroem as metáforas da “mulher ao volante” na obra de Hettie Jones – Drive. Cumpre destacar como entendo o termo “metáfora” neste trabalho. Segundo o Dicionário de Filologia e Gramática (1968), de Joaquim Mattoso Câmara Jr, metáfora “é a figura de linguagem que consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu” (1968, p. 236). A relação entre a significação própria e a figurada seria subjetiva, dada a partir do “trabalho mental de apreensão” (idem, ibidem). Contudo, para este trabalho, o conceito de metáfora é mais abrangente, a relação não se dá entre termos essencialmente, mas entre uma figura linguística e uma série de usos que são interpretados por essa figura. No caso da metáfora da “mulher ao volante”, literalmente teríamos uma mulher que dirige um veículo, mas metaforicamente podemos ter a ideia de direção ligada à vida de uma mulher. A metáfora da “mulher ao volante” seria uma possibilidade de “metáfora de autoria feminina”, na esteira do que foi pensado por Rita Felski, uma forma de representar o “ser mulher” em obras de autoria feminina. Essa ideia pode estar presente em várias sequências linguísticas distintas, como procuraremos demonstrar a seguir, com a análise dos poemas.
Antes da análise, contudo, é importante destacar o lugar da fala dos enunciadores, uma vez que não há obra sem autor, e que não há autor sem o contexto da sociedade que o rodeia e constitui. Assim, partirei de uma exposição do contexto Beat como um todo, para, então, apresentar a autora e a obra escolhida, enfocando a metáfora antes mencionada.
As mulheres e a geração beat
Quando se fala em Geração Beat, os nomes que costumeiramente nos vêm à cabeça são os de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs. Isso quer dizer que, conforme as palavras de Nancy Grace e Ronna Johnson, no artigo “Visions and revisions of the Beat Generation” do livro Girls who Wore Black (2002), só parte dessa geração vem sendo estudada. Além disso, é comum uma maior ênfase na vida dos seus componentes do que na sua própria obra. Contudo, o principal ponto destacado pelas estudiosas é o “esquecimento” do papel das escritoras deste período. Para elas, “a exclusão das escritoras Beat diminui o entendimento sobre o movimento literário e cultural dos Beat, e distorce visões da era durante e depois da Segunda Guerra Mundial, quando o movimento emerge” (2002, p. 2, minha tradução).
Mas o que seria afinal a escrita Beat? Para as autoras, podemos buscar uma estética Beat, mas as concepções seriam tão divergentes que não formariam fator único para uma definição. Definir o momento pelo que ele tem de social, em relação a drogas e sexo livre, por exemplo, não seria um caminho viável, já que os Beat compartilham essas características com os demais boêmios anglo-americanos do século XX. Para elas, o que seria distintivo dos Beat seria o momento histórico e o contexto social em que essa iconoclastia foi praticada, bem como as comunidades específicas nas quais a práxis Beat tomou forma: o modo como os habitantes do pós-guerra rejeitaram as paranoias da Guerra Fria, as conformidades de corporações button-down, a cultura de consumo, a repressão social e a violência contra os gays da era McCarthy (2002, p. 2).
Sobre a configuração do movimento Beat, Allen Ginsberg o denomina como um grupo de amigos que trabalharam juntos na poesia, na prosa e numa consciência cultural. Um conceito aceitável para os conhecedores do movimento. Contudo, na leitura de Grace & Johnson (2002), quando o autor elenca nomes dos “amigos” que trabalharam juntos, somente cita o nome de duas mulheres: Diane Di Prima e Joanne Kyger. E é esse o ponto discutível na opinião das autoras, essa elipse que marca a condição das escritoras Beat. Embora o movimento, assim como outras estéticas “irmãs”, preconizasse liberdades e contracultura, a ideia de mulher e sua participação na cultura não se alterou. Conforme Grace & Johnson (2002), na medida em que os escritores beat, como Ginsberg, só reconheciam Diane Di Prima, seu lugar se marcava pela exceção, de forma que essa concessão sinaliza a falha dos Beats, que perpetuam o conceito patriarcal de indivíduo excepcional, como meio de limitar o reconhecimento de pessoas marginais à norma hegemônica do homem branco.
Apesar do que circula, é notável a participação de várias escritoras no grupo dos beat. Na leitura de Grace & Johnson (2002, p. 5), esse considerável número de mulheres escritoras fazia parte de uma comunidade ainda obscura ou ignorada, daí a importância do livro que organizam. O que se destaca, ao olharmos para a produção feminina do círculo beat, é um movimento de vanguarda, que antecipa a segunda onda feminista. A escrita das mulheres Beat oferece outras referências de leitura, outras representações do feminino, outro olhar sobre um movimento que, em si, chamou tanto a atenção do mundo, por apresentar uma visão de inconformidade com o mundo vivido e, em especial, com a época vivida. Para Grace & Johnson (2002, p.7-8), o que chama a atenção sobre o movimento Beat e o tardio reconhecimento da produção feminina é a posição ambivalente dos envolvidos: os homens, porque defendiam liberdades, mas mantinham as mulheres como objeto literário, não as vendo como protagonistas do movimento; e as mulheres, porque aceitaram sua própria marginalização no movimento: “Algumas escritoras Beat aceitaram a marginalização das mulheres explicitamente ou então promovendo o trabalho dos homens ao invés do seu” (2002, p. 8, minha tradução).
Contudo, ao recuperarmos o trabalho dessas escritoras, recuperamos também uma parte da história do movimento que faltava. Conhecer o trabalho das Beat é reconhecer o movimento em sua inteireza, pois, através disso, podemos ver que não é só com uivos e estradas que se constrói essa estética, mas também com beatniks ao volante. A escrita das autoras ligadas ao movimento Beat é em grande parte feita de memórias, como se se propusessem a expor os “bastidores” do movimento, mas não só a isso se presta. A escrita dessas autoras, como falamos, oferta-nos novos pontos de referências, novas metáforas para o ser mulher, para a autoria feminina, além disso, complementa uma imagem que já tínhamos sobre o movimento Beat, o que nos permite o conhecer mais plenamente.
A produção feminina do movimento Beat, que é destacada pelo livro de Grace & Johnson, apresenta artigos críticos sobre a obra de Helen Adam, Diane Di Prima, Joyce Johnson, Hettie Jones, Elise Cowen, Joanne Kyger, Janine Pommy Vega e Anne Waldman, pela leitura de vários estudiosos, inclusive Ronna Johnson e Nancy Grace, as organizadoras. Das escritoras destacadas, este trabalho pretende apresentar alguns poemas do livro Drive, de Hettie Jones, buscando analisar como se constrói a metáfora da “mulher ao volante”.
Drive, de Hettie Jones, e o volante como metáfora para o ser feminino
Quando se fala em Hettie Jones, possivelmente a primeira obra que vem à cabeça é o livro How I became Hettie Jones, que ainda não possui tradução para a língua portuguesa. Nesse livro de memórias, a autora conta como foi sua vida de Beat, como o movimento foi decisivo para seu crescimento pessoal e intelectual. A mudança de nome constitui uma mudança frente ao mundo, e o fator dessa mudança – quem lhe concede o “Jones” – é o poeta Amiri Baraka (antes Everett Leroy Jones), com quem foi casada.
Sobre esse livro de Jones, Barrett Watten propõe um estudo, intitulado “What I see in How I became Hettie Jones”, partindo do questionamento entre possibilidade de conhecimento advindo da poesia. Em estudos de Teoria e Crítica literárias, é comum a questão sobre se há ou não equivalência entre forma e conteúdo. O conhecimento para a poesia seria aquele advindo do estranhamento que ela proporciona, “deslocando” aquilo que sabemos, para, posteriormente, realocá-lo. A proposta do artigo de Watten, no entanto, é diversa. Ele se propõe explorar outro lugar para o pensamento da relação entre forma e conteúdo. Sua proposta é o estudo da possibilidade de ver a poesia como prática materialista nos escritos de Hettie Jones e de LeRoi Jones/Amiri Baraka. A obra analisada envolve uma questão central, que é a divisão entre público e privado. Ora, o título da obra de Hettie Jones é How I became Hettie Jones, o qual, para ser bem entendido, necessita da informação adicional de que a autora tinha como nome de solteira Hettie Cohen, e que a troca do nome para Hettie Jones tem a ver com seu casamento com Everett Leroy Jones. Essa troca além de oficializar seu estado de mulher casada, também legitima, de certa forma, sua participação no círculo Beat, seu envolvimento com o movimento. Essa questão da mudança de nomes também é importante aqui, porque seu então marido vai se renomeando a partir de novas proposições ideológicas para sua poesia, passando de Everett Leroy Jones para LeRoi (no início da carreira), depois para Imamu Amiri Baraka (na fase Nacionalismo negro), e finalmente para Amiri Baraka (na fase do “Terceiro Mundo Marxista”).
Porém, a relação entre Hettie Jones e Amiri Baraka é um pouco mais complexa. Assim como muitas mulheres da época, a autora dedicava mais tempo à obra de seu marido do que a sua; ele, por sua vez, acreditava que essa vontade de escrever, sem de fato fazê-lo, advinha de uma extrema falta de confiança. Além disso, os escritos de Hettie Jones não condiziam com aquilo que Baraka pensava sobre a poesia. Para ele, o conhecimento da poesia deveria ser simbólico, ao passo que a escrita de Hettie Jones namorava a materialidade do cotidiano: “Set against the grande histoire of the cold war and the rise of the civil-rights movement, her narrative details a micropolitics of literary culture in material rather than symbolic terms[i]” (2002, p. 104). Assim, para Watten, se a poesia apresenta algum conhecimento, no caso de How I became Hettie Jones, essa poesia ocorreria não no lugar original de gênio, mas como um fato material em um discurso construído entre sujeitos (2002, p. 110).
No caso de Drive, não seria diferente. Para Watten (2002, p. 111), a irredutibilidade das circunstâncias materiais seria um dos principais focos do livro. Quando o sujeito lírico apresenta os vários carros que já teve, por exemplo, não há nada de transcendental nessa apresentação, há a circunstância material de que eles servem para levar pessoas de um lado para o outro, de que eles fazem parte do dia-a-dia desse eu lírico feminino que dirige.
Drive é um livro de poemas que foi publicado em Nova York, em 1998. Um livro recente, se pensamos Hettie Jones a partir do Movimento Beat. Este livro, composto de sessenta e sete poemas, apresenta um momento de maturidade da autora, com poemas de épocas diversas de sua carreira como escritora. Há um viés feminista aqui que ultrapassa o que nos propôs as análises vanguardistas de Virgínia Woolf, com Um teto todo seu (1991), e Simone de Beauvoir, com seu O segundo sexo (2009).
Podemos dizer que os escritos de Virginia Woolf constituem um ponto de partida histórico importante para pensarmos o lugar social da mulher, principalmente quando ligada à literatura. Quem pode escrever? Quando o que uma mulher escreve vai ser considerado literatura? Como é vista uma mulher que escreve? Já o estudo de Beauvoir, hoje considerado um clássico, leitura básica para o estudo do feminismo, apresenta sua importância pelo questionamento do que é ser uma mulher, biológica e culturalmente. Pela leitura da autora, a discussão sobre o feminino ganhou novos argumentos. A partir disso, pudemos pensar o feminino como um construto social, e que a demarcação de diferenças entre homens e mulheres, cabendo às segundas a fragilidade e a falta, serve como forma de dominação e manipulação. Diferente perspectiva apresenta a filósofa Judith Butler (2010). Para ela, não é só o gênero que deve ser levado em conta ao estudar o feminino e suas representações, mas outras categorias como raça e classe social. A esta perspectiva a estudiosa Rita Felski afirma ter maior afinidade. Ela busca tratar com cuidado as relações entre Literatura e gênero, mesmo sabendo do papel primordial da Crítica feminista diante dos estudos recentes em Literatura. Em seu livro Literature after Feminism, Felski propõe esclarecer como o feminismo tem transformado o modo de as pessoas pensarem a Literatura. Para ela, aspectos culturais e estéticos não se excluem, mas se complementam, quando se trata do estudo da Literatura. Quando dizemos que o viés feminista que aparece em Drive difere do de Woolf e de Beauvoir, é por que Hettie Jones apresenta uma seleção de poemas em que a tradição e a modernidade andam entrelaçadas, tanto nos aspectos formais quanto temáticos, de modo que as problemáticas femininas que se destacam nos poemas são apresentadas de modo individualizado, fugindo a generalizações ou determinismos no que diz respeito à representação do feminino.
Drive, como dissemos, é um livro de uma Hettie Jones madura. Segundo Adelman, este foi o primeiro livro de poesia publicado por Jones, que reuniu em um volume o trabalho de muitas décadas: “A obra foi premiada e seguida por mais dois belos livros de poesia desta mulher que, nascida em 1934, continua na ativa, construindo pontes entre pessoas que, a partir de suas singularidades e diferenças, procuram também as bases da aproximação” (ADELMAN, 2014).
Quando destaca a poesia de Hettie Jones, Miriam Adelman (2014), na esteira do estudo de Rita Felski sobre literatura e feminismo, apresenta, conforme já apontamos, a metáfora da “mulher ao volante”. Nesse sentido, a proposta de Adelman (2014) parece divergir da de Watten (2002), antes apresentada, porém essa divergência é apenas aparente, uma vez que o autor destaca o caráter materialista da obra de Hettie Jones, mas é esse mesmo caráter materialista que possibilita novas metáforas para o ser feminino, como a do volante, por exemplo. O volante, no livro de Jones, tem a ver tanto com a ideia de carro quanto com a ideia de vida. Essa “mulher ao volante” dirige seu carro, sua escrita, sua vida, bem como a vida dos que a rodeiam. Conforme Adelman (2014), a metáfora da “mulher ao volante” pode condensar o impulso poético que subjaz o livro Drive:
(…) a poeta nos convoca a brincar com a convergência de metáforas de escrita e de autoria de vida. Assim, a mão ao volante é a mesma que sustenta a caneta (ou digita no teclado), e o carro deixa de ser máquina objeto, máquina significando apenas veículo impessoal (ou mesmo representando a tecnologia, da qual por vezes se imagina o distanciamento das mulheres) tornando-se veículo prenhe de desejos articulados no feminino.
Na leitura de Adelman (2014), é possível pensar a noção de “mulher ao volante” na tensão criativa entre o literal e o metafórico: “Ela nos convida a conduzir, a encontrar nosso movimento (cultural, individual, social e coletivo), ultrapassar barreiras sociais e culturais”. A mulher que dirige não é mais aquela que precisa de “um teto todo seu” para escrever, ainda assim ela continua batalhando por um teto todo seu. A mulher que dirige é o segundo sexo na sociedade, mas o primeiro em sua vida, em suas decisões e ações.
Essas diferentes visões da “mulher ao volante” aparecem na organização da obra. O livro se divide em quatro partes, sendo cada uma centrada em um sentido de “dirigir”: [1] “A mulher no carro verde” (The woman in the green car), [2] “Bem-vindos à nossa multidão” (Welcome to our crowd), [3] “A lista semi-permanente de Gate” (The Semipermanent Gate List) e [4] “Sendo ela” (Having been her, minha tradução). O sentido de dirigir, como destacado por Adelman, abarca o literal e o metafórico, destaca-se a mulher que dirige o carro e passa a ter com ele uma relação diferente da apresentada imageticamente pelo homem que dirige; mas também se destaca a mulher que dirige sua vida, com tudo o que isso implica, como a perda da mãe, o divórcio, a relação com a escrita, a compaixão por outras mulheres, o cuidado com os filhos…
Há um total de onze poemas sob o primeiro subtítulo, “A mulher no carro verde” (The Woman in the Green Car): “Hard Drive”, “The Woman in the Green Car”, “She”, “Paleface”, “All the Beautiful Days”, “Ode to my Car”, “5:00 P.M., eastern stand time, November”, “Racing with the Moon”, “Good Old Paint”, “In memoriam” e “Ruby my Dear”. O sentido de direção aqui está ligado ao volante, destacando-se poemas que apresentam a relação da mulher com o carro, uma relação historicamente recente, mas que passa a ser cotidiana, intensa e até afetuosa.
O poema “Direção” (Hard Drive), que abre o livro Drive, de Hettie Jones, apresenta uma linguagem coloquial, próxima à da prosa, com temas cotidianos. Uma mulher sai de carro por aí. E de tudo o que vê, algo lhe chama a atenção e ela chora. O eu lírico desse poema dirige e chora ao mesmo tempo. E dessa cena, ela elabora uma máxima, que colabora para a metáfora da “mulher ao volante” como possibilidade de representação da mulher:
e portanto, mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:
sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para me comover até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção (trad. Miriam Adelman)
A metáfora da “mulher ao volante” condiz com a representação de uma mulher contemporânea, sendo que os limites entre o que são ações femininas ou masculinas são “testados”. O final do poema revela esse “teste”. Seria “coisa de homem” dirigir seu carro em qualquer direção, seria “coisa de mulher” se emocionar “por motivos tolos”, e o que o eu lírico faz é interpretar sua ação como um dilema solucionado, o que nos faz pensar que, cotidianamente, já não deve ser visto como dilema quando um homem ou uma mulher realiza alguma ação que não seja esperada para seu gênero. Note que o vocativo aqui presente é “jovens mulheres”, possivelmente aquelas a quem ainda cabe aprender essa lição, mas a consequência desse aviso interessa a todos, pois resolve o falso dilema de ações que deveriam ser especificamente femininas como chorar (lembremos o dito popular “homem não chora”) ou especificamente masculinas como dirigir (lembremos o senso comum sobre mulheres e direção, quando alguma imprudência é cometida: “tinha que ser mulher!”). A proposta de apontar uma narração de ações, com linguagem prosaica, na forma de um poema é uma técnica modernista, contudo, não faltam, nos poemas de Jones, elementos estéticos comuns à poesia tradicional como recursos sonoros e expressivos como o enjambement, as rimas internas, as aliterações, entre outros.
Ainda sobre o tema da direção, como relação contemporânea entre a mulher e o carro, podemos apresentar o poema “A mulher no carro verde” (The Woman in the Green Car), cujos recursos expressivos se destacam, em especial a disposição das palavras nos versos, as repetições sintáticas e as aliterações:
A mulher no carro verde
não sabe onde está indo
então ela vai obstinadamente
veja seu pequeno pé vigoroso no pedal
como ela pressiona
por tempo
como ela
acelera (minha tradução)
Neste poema, temos outro eu lírico que dirige, uma mulher em um carro verde. Observamos a disposição dos versos correlatas ao sentido apresentado: o vai-e-vem de alguém que dirige rapidamente sem saber ao certo seu destino. A velocidade, comumente relacionada a práticas masculinas, faz parte desse sujeito. Ainda que não saiba o destino, ela vai obstinadamente, e essa fome de direção pode ser interpretada como uma fome de vida, de alguém que sabe qual o fim, mas que precisa viver o máximo possível. A metáfora da “mulher ao volante” se aplica aqui literal e figurativamente, numa linha de pensamentos que aparece em outros momentos do livro, o lugar do carpe diem. Dirigir a vida equivale aqui a aproveitar a vida, a viver com intensidade, por isso a necessidade de velocidade. Ou seja, temos o encontro da tradição com o contemporâneo, os poemas de Hettie Jones apresentam como sujeito lírico uma mulher pronta, de um momento em que o feminismo apresenta nova pauta. Essa mulher pode desfrutar de ações antes proibidas, como a ação de dirigir um carro. E o interessante é que essa liberdade, essa independência encontra lugares-comuns da literatura como o do carpe diem, como se apropriação da tradição também fosse uma conquista, uma ação que não é mais “proibida” ou “inibida”.
Outro poema que merece destaque desse primeiro momento de “Drive”, por contribuir para a metáfora da “mulher ao volante” é “Ode ao meu carro” (Ode to my Car). Nesse poema, a relação da mulher com o carro é apresentada em outros termos. O eu lírico homenageia seu carro, declara-se para ele, como se fosse um ente querido:
Não é como se você fosse o primeiro.
Antes de você eu amei, um por um,
O Plymouth cinquenta e três, em sessenta e cinco,
Os vagões, todos três, o Ford e ambos
Ramblers, o Valiant, o Chevy cinquenta e seis
Roubado em Newark em sessenta e nove, e ultimamente
O bom e verde Maverick, que correu de verdade
Até morrer e me trazer pra você,
Meu querido Honda azul, você (minha tradução)
Nesses versos, percebemos algumas expressões comuns a relacionamentos amorosos como “como se você fosse o primeiro” (e por isso marcante), “antes de você eu amei”, “me trazer para você”, “meu querido”. Essas expressões denotam afeto e colocam a relação do eu lírico com o(s) carro(s) como importante, intensa, de convívio. Além disso, os carros apresentados como “amores antigos” recebem nomes próprios (nome de série ou marca), alguns adjetivados com o ano de fabricação. Em outro fragmento do poema, percebemos razões para essa relação afetiva com o carro, suas utilidades na vida do eu lírico:
Meu casulo amado, meu ovo. Leve-me, amigo,
Por vias convidativas de vida, dobre-me em
Seu pequeno e espaçoso corpo, suportando minha bagagem,
Meus mantimentos, meus filhos preciosos. Leve-me
De forma certa ao lugar onde estou agora, nesses perfeitos
Arredores silenciosos, nessa mesa de mulheres,
Escrevendo. Por causa de vocês nós podemos, e nós fazemos (minha tradução).
Notamos nesses versos as imagens de casulo e ovo, recorrentes na literatura para apresentar as ideias de nascimento, origem, acolhimento e transformação. Nesse caso, o objeto que proporciona conforto, acolhimento é o carro, visto como abrigo em relação ao mundo. As utilidades do carro são destacadas como favores concedidos, o carro é personalizado, ganha um “pequeno e espaçoso corpo”, “suporta” a bagagem, carrega os mantimentos e os filhos do eu lírico. Esses atributos humanos concedidos ao carro nos fala dessa relação apresentada entre mulher e veículo: ele não serve só para transporte, mas para acolhimento, segurança. Ao final, é destacada a independência que a ação de dirigir traz à mulher, mulheres que escrevem, mulheres que dirigem, mas propriamente, mulheres que podem escrever porque são independentes, inclusive, para ir e vir com o carro: “Por causa de vocês nós podemos, e nós fazemos.” Interessante destacar aqui também esse “nós” que aparece em vários poemas do livro, esse “nós” conclama todas as mulheres, cria identificação entre as leitoras e o eu lírico, à maneira de uma irmandade.
No segundo subtítulo, “Bem-vindos a nossa multidão” (Welcome to our Crowd), tem-se 14 poemas: “Words”, “Sonnet”, “Saladin crossing the desert”, “Rabbits rabbits rabbits 2/1/80”, “Freddie, in memoriam”, “The third poem”, “Three little Love Songs”, “One hundred Love Poems for Lisa”, “As if”, “my friend”, “Forgiving the Traveler”, “Adultery – Kandahar, Afghanistan 1996”, “how will it be” e “Welcome to our crowd”. O sentido de direção nesse grupo de poemas está ligado a caminhos possíveis na sociedade, um sentido mais social, mais altruísta, de um volante coletivo. Apresentam-se situações cotidianas, como no poema “Rabbits rabbits rabbits* 2/1/80”, “Quando eu deixei vocês esta manhã// eu fui para a clínica”, mas também eventos mais dramáticos, como a morte por apedrejamento de um casal que serve como tema para o poema “Adultery – Kandahar, Afghanistan 1996”.
No poema que abre o subtítulo, “Palavras” (Words), a ideia de direção foca a relação com a linguagem. Contudo, a direção aqui não é de autoria do eu lírico. Nesse sentido, por mais que alguém se disponha a lidar com as palavras, nunca terá total domínio sobre elas:
Palavras
São chaves
Ou suportes
Ou pedras
Te dou minha palavra
Você a embolsa
E fica com os trocados
Eis aqui a palavra
Na ponta da minha língua: amor
Eu lhe dou abrigo
Ela sonha ir embora (trad. Miriam Adelman)
A metáfora da “mulher ao volante” nesse poema ganha outra conotação, há algo que as mulheres não dominam, que os homens também não dominam, os sentimentos e a linguagem. São direções que se prestam como guias, mas que não são definitivas. Eu posso usar a palavra “amor”, mas isso não quer dizer que ela vai se prestar a funcionar como eu quero. Nesse sentido, a ideia de direção como poder é questionada, é preciso ter poder sobre as coisas para dirigir a própria vida? Dirigir um carro, a vida, não seria uma forma de se deixar dirigir, ao pensar na instabilidade dos seres, da linguagem, dos sentimentos? Sabe-se que o uso da razão como forma de controle é uma arma que tem sido usada de forma contínua e insistente na política, na ciência, desafiar a ideia de direção como controle é de alguma forma ofertar outras possibilidades de convívio e manejo do mundo, inclusive das palavras.
No terceiro subtítulo, “A lista semipermanente de Gate” (The Semipermanent Gate List), são 16 poemas: “Mother America”, “Two portraits”, “A history of war in five acts”, “Look at how we live, look at how we die”, “A day at a Time”, “Poem for Rashid”, “Albert Ayler’s Flowers”, “Lunch Poems”, “HOME: deep, to the”, “on the fifth of December a Rose”, “You are what you eat”, “The semipermanent Gate list”, “Sin Songs”, “Elegy for Allen”, “Manhattan Special” e “Subway Poem”. Nesse conjunto de poemas, o sentido social iniciado no segundo subtítulo é intensificado. O sentido de direção aqui é o de caminhos da humanidade, apresentados a partir de algumas histórias exemplares. O poema que dá nome ao subtítulo, por exemplo, apresenta visões sobre uma penitenciária e sua rotina, ou melhor, como uma lista pode preservar ou não uma vida. Contudo, a ideia de vida, o locus do carpe diem aparece aqui também. A metáfora da “mulher ao volante” perpassa a ideia de que, apesar dos conflitos, é preciso viver, e viver de forma plena, como aparece no “Poema no metrô” (Subway Poem):
Poema no metrô
Ei, Primavera!
Precisamos de tempo baby,
Precisamos de tulipas, violetas,
Dentes-de-leão, rosetas
E de sua bunda a silhueta (minha tradução).
Este poema apresenta um apelo à vida, mas não qualquer vida, uma vida bonita. Aparece aqui um “nós” recorrente no livro, um chamamento às pessoas para viver, para ver belezas, para sentir o contato com as pessoas. O chamamento inicial retoma o locus da primavera como o período de vida, de renascimento, de reprodução. A natureza se renova na primavera, então o chamamento à primavera aliado ao uso do pronome pessoal em primeira pessoa, nós, propõe um carpe diem urbano. O título do poema pode tanto remeter à urbanidade do momento em que se pede o carpe diem, o que constitui uma atualização do locus, mas também a ideia de um chamamento coletivo, já que o metrô é um meio de transporte que possibilita o embarque de muitas pessoas, e que possibilita também o contato físico, mesmo que indireto, entre elas.
No quarto e último subtítulo, “Having been her”, tem-se vinte e seis poemas: “In answer to your question”, “Lottie and Oscar”, “What my uncles taught me”, “Finally Narcissa”, “By the beatiful sea”, “This man I met, he said”, “Homage to Frank O’Hara’s personal poem”, “Having been her”, “Self-portrait”, “Civil war”, “Atlanta Death 1981”, “For my daughters”, “In the eye of the beholder”, “A little light verse for Helene”, “This kind of Kaddish”, “The pause that refreshes/or climbing back on the roof again and taking off the rag”, “The empty nest syndrome”, “They’re not heavy, They’re my sisters”, “From Four Hetties”, “Dresses: four of mine for Naima Belahi”, “Mother Moon”, “Emine and Hamide”, “Hotter than July, 1982”, “Birthday presents, 1989”, “Seven songs at sixty” e “Aftertune”. O sentido social permanece presente nesse grupo, que apresenta alguns poemas mais específicos de chamamento a um grupo: as mulheres como coletivo. A partir de casos isolados, tem-se a procura pela união, pois o que se espera do mundo é semelhante, e o que se rejeita do mundo também. Há um eu lírico que se identifica com seus interlocutores, que se compadece deles, que os chama para si.
O poema “Sendo ela” (Having been her) é bem elucidativo desse senso de compaixão que aparece no quarto subtítulo de Drive.
Sendo ela
No ônibus
De Newark para New York
O bebê vomita
No colarinho de raposa
Do único casaco dela
Ela limpa o colarinho
E o tenro rosto do bebê
Então pega sua cria
Pela mão
E ruma para o metrô
Onde a cria
Dorme
No joelho dela
E ela
Ela mesma
Fita
Pela janela
Por cima da cabeça
Do adormecido bebê
Ela tem vinte e sete
E está exausta
Deixe-me sempre
Apoiá-la
Sendo ela,
Ampará-la (minha tradução).
O poema fala de uma mulher que poderia ser qualquer uma. O que aparece nesse subgrupo de poemas, e em especial neste, é o detalhamento de um caso individual de forma a torná-lo geral. A mulher que leva o filho no ônibus, que se cansa, representa o fardo de muitas mulheres. Não é o senso de maternidade que se destaca aqui, mas esse cansaço e essa resiliência, ou seja, esse adaptar-se a uma rotina cansativa, esse viver que não é só pra ser aproveitado, mas pra ser resistido. A metáfora da “mulher ao volante” implica também aqueles casos em que a direção é solitária e cansativa, como o da mulher apresentada no poema. Frente a isso, o sujeito lírico se solidariza, deseja amparar essa mulher – cansada, mas que resiste -, a ideia, como a princípio se afirmou, é a de um senso de grupo que emerge, a ideia de uma irmandade.
A metáfora da “mulher ao volante”, que se constrói no livro Drive, de Hettie Jones, abarca vários sentidos para o dirigir, a direção. Evoca-se a relação de independência e afetividade que se instala entre a mulher e o carro; evoca-se a relação de não-dominação que pode caber na ideia de direção, contrapondo o lugar-comum da direção como controle ( até porque nem tudo se pode controlar, e é mais fácil viver quando se entende isso); evoca-se os retratos das mulheres e homens que dirigem suas vidas apesar das adversidades; evoca-se a compaixão pelo outro, capaz de formar um senso de irmandade entre as mulheres, senso esse que parece já existir entre os homens que, como ilustra um poema de Hettie Jones, se chamam de mano e se cumprimentam “pat pat”. A metáfora da “mulher ao volante” traz à cena novos argumentos para um feminismo necessário, que envolve novas pautas, mas também a manutenção de direitos conquistados e a convivência com as injustiças que ainda existem.
Considerações finais
Meu objetivo com este trabalho foi buscar verificar como se constrói a metáfora da “mulher ao volante” na obra de Hettie Jones, Drive, e como ela contribui para a representação do “ser mulher”. Primeiramente, busquei alguns dados contextuais sobre o movimento Beat, a produção feminina desse movimento e o trabalho de Hettie Jones. Depois, me detive na análise da obra, sua estrutura e poemas, para buscar como se deu a construção da metáfora da “mulher ao volante”.
Esse trajeto metodológico me leva a algumas considerações mais gerais sobre a contribuição de Hettie Jones, e das escritoras que se envolveram de alguma forma com o movimento, que, ao que me parece, está para além de um conhecimento de época ou de mero arquivo. A escrita dessas mulheres propõe novas formas de significar o feminino e, com isso, novas possibilidades de significar o masculino também. Uma vez que a mulher passa a dirigir, uma vez que o carro passa a ser uma necessidade também feminina, os homens precisam buscar novas ações e novas necessidades. Passa a ser possível romper binarismos, pois, há tempos, descobrimos que a questão de gênero está para além da biologia, e que a cultura é a principal responsável pela bipolarização dos seres humanos. E a literatura segue sendo um caminho possível para mudanças culturais…
Referências bibliográficas
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ADELMAN, Miriam. “Estradas da vida II. Mulher ao volante”. in. Coluna Planetário. Revista Contemporartes. Disponível em: http://www.revistacontemporartes.com.br/2014/10/estradas-da-vida-ii-mulher-ao-volante.html. Acesso em: 02 de março de 2015.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática. Referente à língua portuguesa. Rio de Janeiro: J. Ozon Editor, 1968.
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FELSKI, Rita. Literature after feminism. Chicago: University of Chicago Press, 2003.
JONES, Hettie. Drive. New York: Hanging Loose Press, 1998.
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.
1 “Situada entre a grande história da Guerra Fria e a ascensão do movimento dos direitos civis, sua narrativa detalha uma micropolítica de cultura literária em termos materiais ao invés de simbólicos” (minha tradução).
Bio fornecida pelo palestrante.
Joana d’Arc Martins Pupo
Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná
Resumo: A escrita autobiográfica, as memórias e as histórias de vida foram os primeiros gêneros literários escritos pelas mulheres. As escritoras Beats também praticaram intensamente estes gêneros literários. O objetivo deste artigo é analisar o livro de memórias Missing Men de Joyce Johnson focalizando, primordialmente, a dimensão relacional através da qual a autora constitui essas memórias. Esta característica relacional se opõe aos moldes em que as autobiografias de autoria masculina são tradicionalmente construídas. A obra também revela a capacidade de construção de uma identidade feminina de escritora Beat emancipatória que está em consonância com os objetivos políticos dos estudos feministas da autobiografia.
Autoria: Joana d’Arc Martins Pupo é professora assistente do Departamento de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Ponta Grossa e Doutoranda no Programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Paraná.
A ESCRITA DE SI E DO OUTRO EM
“MISSING MEN – A MEMOIR”, DE JOYCE JOHNSON
Joana d’Arc Martins Pupo
Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná
Introdução
Os gêneros textuais memorialísticos como diários, biografias, autobiografias, memórias e histórias de vida informaram e informam, de modos diversos, as mais diversas pesquisas nas Ciências Humanas, desde a antropologia, a historiografia, a sociologia, e os estudos literários.
Andreas Huyssen, em Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory (2003), afirma que a emergência da memória como uma preocupação política e cultural nas sociedades ocidentais foi um dos fenômenos políticos e culturais mais surpreendentes dos últimos anos, configurando-se como “uma virada para o passado que se coloca em forte contraste com o privilégio do futuro tão característico das primeiras décadas da modernidade do século XX” (HUYSSEN, p. 11). Para este historiador cultural e crítico literário, a obsessão pela memória é um sintoma significativo de nosso presente cultural. Para ele, “Nós precisamos tanto do passado como do futuro para articular nossos descontentamentos com o estado presente do mundo”1, ideia que também podemos identificar em muito das preocupações dos estudos feministas e, particularmente, na escrita autobiográfica feminista.
A autobiografia continua sendo um gênero literário central para a escrita contemporânea de mulheres por possibilitar o questionamento de vários aspectos “em relação ao valor e às limitações desta tendência em direção a autorrevelação literária” (FELSKI, 1989, p.86). Segundo Rita Felski, em On Confession (1989), este “ato de confissão” funciona como libertador ao revelar as dimensões que são políticas da experiência pessoal, por questionar as ambiguidades e contradições dos papéis sociais de gênero, ao mesmo tempo em que revela um importante sentido de identificação e solidariedade feminina, tão afim às demandas da práxis feminista.
Este artigo tem como objetivo discutir no romance de Joyce Johnson, Missing Men, a narrativa memorialista em relação com a construção da identidade libertadora de escritora Beat. Este artigo está subdividido em três partes. Primeiramente, discutirei sucintamente características particulares das autobiografias de autoria feminina. A seguir, procurarei situar o papel do gênero literário memorialista para as escritoras da geração beat. E, finalmente, procurarei demonstrar, em Missing Men, a característica relacional que essas memórias de Joyce Johnson assumem. Para tanto, utilizei três paratextos que compõem a obra: a epígrafe de Nabokov e o breve prefácio que antecedem a narrativa e, por último, o título que abre a o último capítulo do livro, Negative Space. Encerro, então, com breves considerações finais.
A autobiografia na escrita de mulheres
As mulheres dedicaram-se inicialmente mais à escrita de cadernos e diários episódicos uma vez que, historicamente, sua condição social e cultural de confinamento à esfera privada, sempre sob a tutelagem de uma figura masculina, não possibilitava que desenvolvessem uma tradição na escrita autobiográfica aos mesmos moldes daquela produzida por homens. Privadas do “motivo central de uma autobiografia – o desejo de sintetizar, de ver a vida de alguém como um todo orgânico, de olhar para trás em busca de um padrão” (FELSKI, 1989, p. 86), e ainda sem ter as bases para assumir o individualismo radical de um eu masculino, que ocupava o lugar de representante da humanidade de modo universalizante – outra característica que marcava os fundamentos da emergência deste gênero literário –, as mulheres ao narrarem suas vidas produziram obras muito particulares e a serviço de suas próprias experiências, aspirações e valores.
Em primeiro lugar, portanto, como bem nos lembra Fatmagül Bertay2, no artigo Writing and Reading Autobiographies (1992, s/p.) pensar as autobiografias escritas por mulheres envolve “uma revisão de nossas crenças na verdade, no conhecimento, no eu e na linguagem – crenças que se originaram no Iluminismo e ainda são frequentemente tomadas como certas e que têm servido a cultura ocidental”. Há muito as teorias feministas, juntamente com outras teorias críticas, denunciaram a falência do sujeito uno cartesiano, cujo eu estável, permanente e volitivo acedia ao conhecimento da verdade através da razão. Mas não menos importante para a desconstrução dos arranjos de gênero, tarefa primeira de qualquer perspectiva da crítica feminista, é também a ideia da linguagem como transparente e neutra que subjaz e fundamenta tais concepções.
Assim, os estudos da literatura de cunho confessional produzidas por mulheres a partir da perspectiva da crítica feminista e dos estudos de gênero partem de insights e exigências muito diversos das teorias tradicionais de estudos das biografias e autobiografias, uma vez que estas “foram desenvolvidas dentro de um viés totalmente masculino e, muitas vezes, são de pouca serventia para a discussão de uma tradição autobiográfica de mulheres” (FELSKI, 1989, p.86).
Outro aspecto que é preciso considerar na leitura e interpretação das autobiografias de mulheres é que a distância que já existiu entre o tipo de autobiografias “públicas e sequenciais” escritas por homens e aquelas “desarticuladas e subjetivas” escritas por mulheres, diminuiu tremendamente devido a “uma subjetivização dos textos literários, originando-se de uma ruptura com normas genéricas” (op. cit., p. 87). Deste modo, as autobiografias contemporâneas, tanto de homens quanto de mulheres neste caso, ganharam formas que rompem os limites entre a ficção e a autobiografia, sendo o gênero autobiográfico hoje visto mais “como parte da esfera da literatura em vez de ser uma subcategoria da biografia histórica, como havia sido anteriormente visto” (SPENGEMAN, apud FELSKI, 1989).
Da perspectiva dos estudos de gênero, o que interessa no estudo da autobiografia é, particularmente, a relação que se coloca entre a experiência pessoal das mulheres e os objetivos políticos do feminismo. São inúmeras e diversas as implicações da prática da escrita memorialística de mulheres que vão desde os aspectos da produção – forma, estilos, conteúdo – até os aspectos dos modos de recepção das obras, tanto pela crítica especializada quanto pelo público leitor. Entre algumas dessas especificidades, está o fato de que a individualidade da mulher carrega um traço relacional muito forte. Ou seja, enquanto as autobiografias masculinas são marcadas por um ‘eu’ individual isolado, solitário, as autobiografias e memórias escritas por mulheres são construídas através de narrativas cujo foco oscila constantemente de suas vidas pessoais para a vida dos outros a sua volta. E este será um dos aspectos que exploraremos em nossa análise de Missing Men – a Memoir, de Joyce Johnson e que nos possibilita vislumbrar de que modo, ao narrar a si mesma, Johnson constrói uma clara visão da natureza relacional na construção das subjetividades e, principalmente, das identidades de gênero.
As escritoras beat e a escrita autobiográfica
Em se tratando da Geração Beat, as obras mais conhecidas são aquelas de autoria masculina dos ícones do movimento, como Howl (1956) de Allen Ginsberg, On the Road (1957) de Jack Kerouac ou Naked Lunch (1959) de William S. Burroughs. O fato é que durante este mesmo período, os ambíguos anos 1950, e pertencente a esta mesma geração, um grupo de mulheres não só compartilhava com estes autores as inquietações emergentes dos tempos de Guerra Fria como também experimentações literárias que pudessem traduzir seus anseios e visões da época. Ao estarem revolucionando suas vidas pessoais, elas antecipavam a segunda onda do movimento feminista que explodiria, juntamente com outros movimentos sociais pelos direitos humanos, nos anos 1960. Em sua maioria, eram mulheres brancas oriundas de famílias de classe média, algumas judias, que gozavam da estabilidade e prosperidade proporcionada pela posição econômica alcançada pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Sem se importarem com as comodidades e privilégios que perderiam, saíram de casa ainda muito jovens para viver experiências de liberdade inéditas para as mulheres de então. Escrever foi uma de suas ousadias libertárias. E o fizeram com altíssima qualidade.
As escritoras beats produziram os mais diversos gêneros literários, desde poesia, prosa, relatos ficcionais e não ficcionais, mas, segundo a Ann Waldman (apud MLAKAR, 2007), o gênero mais fortemente praticado foi as memórias. A quantidade de obras memorialísticas beat é tão grande que este passou a ser considerado um subgênero desta literatura. Estas obras vêm sendo produzidas por elas desde o final dos anos 60 e, dado que muitas dessas autoras continuam na estrada, prosseguem nos oferecendo novas perspectivas para compreendermos o chamado movimento beat. Sua autoria possibilita reinterpretarmos a natureza do movimento a partir de uma ótica mais abrangente e inclusiva, de um olhar para as relações de gênero, cujos estudos, com certeza, não deixaram incólumes os paradigmas que até então têm definido o movimento como tal.
Para as escritoras da geração Beat, as memórias, porque menos regulamentadas em sua forma e estilo do que as autobiografias, ao proporcionarem maior abertura e flexibilidade, se mostram mais adequadas à narrativa de suas experiências e de uma escrita que se projeta para o futuro. Entre as obras mais conhecidas estão Memoirs of a Beatnik de Diane DiPrima, publicada em 1969; Troia: Mexican Memoirs, de Bonnie Bremser do mesmo ano; Minor Characters – The Romantic Odyssey of a Woman in The Beat Generation, de 1983, e com o qual Joyce Johnson ganhou o National Book Critics Circle Award, entre outras.
Missing Men – a Memoir (2004) é uma das mais recentes obras de cunho autobiográfico publicada por Joyce Johnson e que pode ilustrar de que modo a escrita memorialística de autoria de mulheres é capaz de associar de maneira ideal a história pessoal e história social de uma dada comunidade. Mas, uma vez que qualquer discussão sobre história e trajetória de vida toca diretamente a questão da memória e da construção da identidade, este será o foco principal deste trabalho nesta obra de Johnson.
A Escrita de Si e do Outro em “Missing Men – a Memoir”
Missing Men – a Memoir é o segundo livro de memórias de Joyce Johnson. Escrito pelo menos vinte anos depois de Minor Characters, suas primeiras memórias, Missing Men é curiosamente por ela dedicado a Peter Pinchbeck, seu segundo marido e de quem se divorciara passados trinta anos de sua escrita. Fato que talvez já nos indique o lugar que a autora escolhe reservar para os homens que, de uma forma ou de outra, se transformaram em ‘ausência’, mas paradoxalmente nunca deixaram de estar presentes durante toda sua vida posterior.
A epígrafe de Vladimir Nabokov escolhida pela autora para abrir o livro: “A busca de (…) padrões temáticos através da vida de alguém deveria ser, acredito, a verdadeira finalidade de uma autobiografia”3 (NABOKOV, apud JOYCE, 2004, p. 36) sugere que a realização de Missing Men significa a busca de Johnson pelos motes e recorrências que a constituíram e determinaram suas escolhas para uma reconciliação, presente e futura, com o outro e consigo mesma. Não é de um estatuto de verdade que se trata, mas de uma busca por coerência que a construção de sentidos através da narrativa memorialista possibilita. E isso exige um trabalho árduo.
As palavras de Nabokov lembram a sugestão de que “o verdadeiro trabalho da memória (…) não se limita à caça aos fatos, mas se dedica a explicar, a compreender, por meio de que engrenagens tudo aconteceu” (RICOUER, 2005, p. 2), e para quem a compreensão não impede de condenar ou louvar, mas “liberta as paixões da sua obsessão, que condena a memória a uma piedade imóvel” (RICOUER, 2005, p. 2). Há condenação e há perdão em Missing Men, portanto, mobilidade.
Piedade e perspicácia, cuidado e malícia, solidariedade e individualismo, compaixão e razão, desentendimento e tolerância parecem ser parte da rememoração que Joyce Johnson realiza em Missing Men, tendo os outros, particularmente os homens de sua vida, como referência. O que não quer dizer que as memórias das mulheres da família não ocupem aí um lugar também vital. Na primeira parte da obra, a narrativa revela que sua compreensão do lugar social e cultural reservado à avó, às tias, e à mãe na sociedade marcadamente patriarcal da época possibilita que Johnson se coloque no presente como contraponto às posições que essas mulheres ocuparam. Mas a Joyce adulta que rememora e narra o faz em duplicidade, conservando-se fiel às impressões da menina e adolescente Joyce e permitindo-se completar as lacunas da memória com referenciais adquiridos de suas experiências posteriores.
Ao mesmo tempo em que a dor do passado se reatualiza na dor em recordar o passado, narrar o que se recorda do passado traz a possibilidade de reinventar não a dor, mas um entendimento daquilo que pode já não doer mais. O título da obra traz a ausência, a falta, o vazio e, na maior parte do tempo, trata-se de uma narrativa suave e densa, mas melancólica. Coerente talvez com um texto que fala da morte. Todavia, o vazio deixado pela(s) morte(s) não desespera a mulher que conta. Não é a voz de quem não tem mais nada, mas a voz de uma mulher que segue em direção à vida, conseguindo, de certa forma, superar as perdas ou conviver com elas, transformá-las em outros caminhos para seguir na estrada.
Na continuação deste trabalho, restringiremos nossa leitura da obra tomando mais dois de seus paratextos4 como guia de nossa interpretação, a saber: o curto prefácio que inicia a obra, e, finalmente, o título Negative Space do último capítulo, momento narrativo em que o passado narrado se aproxima mais estreitamente ao presente vivido da memorialista. Esta escolha está relacionada à nossa compreensão da importância da estrutura da obra para o que acreditamos seja o significado da própria ideia de memória presente em Missing Men.
O prefácio que abre as memórias inicia com a intrigante expressão “Certa vez tive um marido”, expressão que imediatamente nos remete ao início das estórias infantis, passadas em tempos longínquos e lugares distantes, que tanto pode nos sugerir a ficcionalização desta memória quanto a desimportância do que se vai contar para este tempo, momento em que a narração se realiza. Entretanto, ao finalizarmos a leitura de tão breve prefácio, concluímos seu grande valor.
Certa vez tive um marido que começou a pintar quadrados obsessivamente _ três quadrados em relações cambiantes entre si no que aparecia uma base plana, um vazio colorido. Ele me explicou que o espaço negativo em seu trabalho era tão importante quanto o positivo, que cada um recebia sua forma do outro. O que o interessava era principalmente a tensão entre eles. Lembro-me de ter ficado fascinada com seu conceito de espaço negativo, apesar de que o termo negativo pareceu-me a palavra inadequada para algo que tinha uma presença tão importante.
Eu ainda era muito jovem então, muito jovem para olhar para minha história e ver o quanto minha vida foi ela mesma moldada por ausências _ primeiramente por acaso, ao final, talvez por escolha (JOHNSON, 2005, p. 39. Minha tradução5).
A autora faz um paralelo entre a pintura e o desenvolvimento de sua vida, apontando assim o tema central da construção de sua subjetividade. Os espaços positivo e negativo na pintura transformam-se em presença e ausência em sua experiência de vida. E podemos entender a interdependência entre os espaços da tela como a interdependência que se estabelece nas relações pessoais nos níveis tanto afetivo-emocional como no nível da natureza dialética da constituição dos sujeitos, a dependência do outro para a formação do eu – “cada um recebia sua forma do outro”. Por isso, podemos considerar, ainda, a imagem uma boa metáfora para a própria questão da memória na medida em que não há memória individual que não esteja imbricada seja na memória de outrem ou em uma memória social ou cultural. As relações entre os quadrados são também descritas como “cambiantes”, como será cambiante o significado dessas presenças e ausências na vida da autora.
A ideia de espaço negativo será retomada pela autora na parte final da obra, já presente no próprio título do Capítulo três Negative Space, trazendo de volta, desse modo, esta ideia de complementaridade. O espaço negativo é aquele necessário para compor o positivo. Mas apesar das memórias na obra seguirem certa linearidade cronológica, esta linearidade é constantemente entrecortada por observações e análises que se intercalam em idas e vindas no tempo. São memórias de outras épocas, outros lugares, outras pessoas, memórias que se interconectam e que vão revelando o funcionamento da narrativa, não como uma mera descrição de fatos passados, mas como a própria tessitura do passado, sua própria criação no presente.
A primeira parte da obra intitulada Samuel Rosenberg’s Daughters traz as origens de sua trajetória. É onde conhecemos a história da família materna, desde a chegada do avô, poeta e intelectual judeu, cujo suicídio aos trinta e sete anos, provocou a primeira e profunda ausência masculina na vida não só de sua mãe, mas na vida da própria Joyce Johnson. Deste avô, a autora herdará o talento literário e, ao tornar-se escritora, realizará aquilo de que o avô fora privado, cumprindo este mandato geracional. Este primeiro capítulo trouxe ainda a segunda grande ausência na vida da autora: a morte de seu pai, David Glassman, cuja vida fora igualmente marcada por ausências masculinas, com as mortes trágicas e prematuras do irmão e do pai.
A segunda parte, Red, White, and Black, narra a vida de Johnson, depois do fim da relação com Jack Kerouac, e seu primeiro e breve casamento com o pintor James Johnson, interrompido abruptamente com a morte precoce do pintor, tornando-se esta outra grande ausência masculina. Entretanto, ao manter o sobrenome Johnson por toda sua vida, Joyce reescreve permanentemente esta ausência em presença numa demonstração do quanto este outro também compõe sua identidade.
A terceira e última parte de Missing Men é a rememoração de seu segundo casamento, com Peter Pinchbeck, também pintor, época em que realiza o desejo de ser mãe, independentemente da franca oposição dele. A vida de Peter, outrossim, marcada tanto por uma mãe negligente quanto pela ausência completa do pai, indica a mesma recorrência da falta, do vazio. Johnson avalia estas causas como sendo decisivas para tê-lo tornado um homem esquivo a aproximações pessoais mais intensas e a relações afetivas mais profundas. Traço que, segundo ela sugere, talvez tenha colaborado para seu divórcio, somente cinco anos depois. Entretanto, Joyce permaneceria continuamente ligada Peter, ainda que de modo totalmente distinto do que ficara em relação ao primeiro marido. O primeiro parágrafo do capítulo logo nos permitirá vislumbrar tal situação.
Naquela primeira semana de setembro havia um ar diferente. O céu tornou-se de um azul imoderado, sem nuvens, sob um fundo ainda mais cinza. A luz derramava-se sobre o jardim evanescente, dourando as folhas que repentinamente tornavam-se secas, glorificando as samambaias que escureciam, tornando cada vermelho ou roxo ou amarelo cádmio resolutos e definitivos. Estava quente o bastante em Vermont para se sentar à varanda, e me lembro de quanto meus pensamentos se voltavam para Peter quando eu estava lá fora _ Peter em sua varanda em Catskills na minúscula casa da qual havia me mandado fotos em julho. Eu o imaginava, sentado, hipnotizado pela luz, observando-a iluminar, escurecer, iluminar. Por toda aquela semana, de um modo curioso, ele parecera presente, silenciosamente muito perto de mim. Talvez por esta razão eu tivesse perdido a noção de que ele deveria estar de volta a Nova York. À medida que os dias se passaram sem nenhum telefonema dele, não me ocorrera perguntar por que (JOHNSON, 2004, p. 2610).
É ao final da introdução desta terceira fase de suas memórias, ao narrar as típicas visitas de Pinchbeck a sua cabana de veraneio em Vermont, que encontramos a autora, na maturidade da vida – sensivelmente simbolizada na descrição da chegada do outono _ gozando a solidão e a liberdade de uma solteirice conquistada e agora escolhida. Surpreendemo-nos, então, com a constatação de Johnson, que fala então de outro tempo e lugar, de que teria sido capaz de compartilhar com Peter o tempo que lhes restaria da vida:
Voltando para casa pelas estradas de terra, eu sentava ao lado dele no escuro, mergulhada no cheiro salgado e de fumaça que era seu, e parecia encher o carro, repreendendo-o algumas vezes por ir muito rápido com tantos cervos nas florestas, soando para todo o mundo como se fosse sua verdadeira esposa, exceto que, uma vez em minha casa, íamos para nossos quartos separados, nossas camas separadas, e aquilo que efetivamente éramos um para o outro ficava claro uma vez mais. Eu ficava acordada, recostada aos travesseiros e o ouvia tossir ou virar ou mudar de posição, esperava então apagasse a luz. Eu ficava acordada, imaginando se o que eu sentia era o fantasma do desejo, decidindo com alívio que não era o caso. Talvez quando nós formos realmente velhos, eu pensava às vezes, Peter e eu terminaremos vivendo juntos, depois de tudo (JOHNSON, 2004, p. 2634. Negrito meu).
E havia reciprocidade neste sentimento ambíguo que se apresenta entre um desejo antigo e uma amizade que se constrói entre ambos no presente:
“Eu gostaria muito que você viesse aqui.”
Fico ouvindo com frequência estas últimas palavras de Peter. Elas pairam no ar como a fumaça de seu charuto cujo cheiro, às vezes, acredito sentir quando saio à varanda em Vermont. Não havíamos sido feitos para sermos marido e mulher, mas apesar de nossa separação insolúvel, eu sei que houve entre nós uma boa medida de reconhecimento e ternura (JOHNSON, 2004, p. 3619).
Considerações Finais
Em Missing Men – a Memoir, como quem fotografa6 a própria vida, a autora regula o foco de seu olhar, ora distanciando, ora aproximando o foco sobre si mesma. Ora apresentando-se como protagonista, ora escolhendo a posição de um minor character. Ao narrar as suas memórias entrelaçadas às memórias vividas dos outros, Joyce Johnson nos ensina que o espaço negativo é aquele necessário para constituir o positivo, dando-nos a clara evidência da constituição dialética e relacional dos sujeitos.
Ao relatar não só as experiências conjugais de uma Joyce mais jovem, mas tendo narrado sua infância, a vida da mãe, das tias e da avó, também cria o panorama social que a moldara mulher. Entretanto, a autora não se limita a falar do passado, nos revela, do mesmo modo, a Joyce em idade mais avançada, madura e experiente, capaz de transformar a forte herança familiar de perdas e frustrações em um legado de relações não estereotipadas, de realizações pessoais e profissionais.
Contudo, ao rememorar como, mesmo próximo à morte, Peter não desistira de sua arte e de fazer planos para o futuro, a autora se obriga a pensar em sua própria solidão e finitude:
Ainda me pergunto se ele sabia que estava morrendo naquele verão. Primeiramente, a ideia de que ele sabia era insuportável para mim. Eu não parava de pensar que ninguém estava com ele, e na sua solidão eu vi a minha própria. Mas então, quando Daniel e eu estávamos vasculhando seus papéis, encontramos um recorte de jornal que ele tinha, obviamente, arquivado para referência futura em uma pasta marcada ‘Bungalow Deal’. Era um artigo sobre uma casa no deserto do Arizona construída a partir de materiais reciclados e de terra e de vidro, com um teto translúcido inclinado que trazia o céu ocidental para dentro. O interior – 25 x 100, como loft de Peter na Greene Street – estava atraentemente vazio, como que esperando para ser preenchido com inúmeras telas. Penso em Peter ali, naquele espaço, como quando trabalhava na mesa em seu bangalô, portas escancaradas em sua mente aberta para tudo o que ele pintaria a seguir.
Ele morreu antes de sua imaginação. Qualquer artista deseja tal fim. Eu gostaria de ter a sua sorte e a sua coragem (JOHNSON, 2004, p. 3.619. Negritos meus).
Na última página dessas memórias, Joyce Johnson fecha o círculo, consciente de que a morte é, também, o espaço negativo da vida, e acaba por confirmar que segue fiel a sua escolha: o que importa é fazer-se sujeito e seguir imaginando e escrevendo.
A coragem é dela. A sorte é nossa.
BIBLIOGRAFIA
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SMITH, Sidonie & WATSON, Julia (Eds.). Women, Autobiography, Theory: a Reader. The University of Wisconsin Press, 1998.
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NOTAS AO TEXTO
1No original: “We need both past and future to articulate our political, social, and cultural dissatisfactions with the present state of the world.” (HUYSSEN, 2003, p. 6). Todas as traduções dos trechos das obras em inglês são de minha autoria e responsabilidade.
2Diretora do Women’s Studies Research Center (KSAUM) e Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de Istanbul, autora de Being a Woman, Living and Writing (1992) e Woman and Religion (1998).
3No original: The following of… thematic designs through one’s life should be, I think, the true purpose of autobiography” (NABOKOV, apud JOYCE, 2004, p. 36).
4Trabalhamos em realidade a partir de três paratextos, o primeiro tendo sido a epígrafe de Nabokov, comentada anteriormente.
5No original: “I once had a husband who started obsessively painting squares – three squares in shifting relationships to each other on what appeared flat ground, colored emptiness. He explained to me that the negative space in his work was as important as the positive, that each took its form from the other. What interested him most was the tension between them. I remember being fascinated by his concept of negative space though negative seemed the wrong word for something that had so much presence.”
I was still young then, too young to look at my history and see how my life has shaped itself around absences – first by happenstance; ultimately, perhaps, by choice” (JOHNSON, 2004, p. 39).
6É importante lembrarmos que a obra é inteiramente ilustrada com fotos do arquivo da família de Joyce Johnson, num total de vinte e nove fotos.
Bio fornecida pelo palestrante.
Isaura Maria Rigitano de Limas
Tradutora
“O autor não cria simplesmente um texto; em vez disso um texto – ou mais precisamente uma forma particular de ler o texto – cria um autor” (Rita Felski).
Resumo: A escritora e poeta beat Diane Di Prima possui uma extensa lista de publicações, mas no Brasil ela é praticamente desconhecida, pois só um livro de sua autoria foi publicado. Este artigo tem como objetivo divulgar Diane Di Prima ao leitor brasileiro por meio de seu livro de memórias e iniciar um diálogo entre a sua produção criativa e as diversas fases da sua vida, refletindo sobre como a poeta reagia criativamente ao que acontecia no seu contexto social e em sua vida pessoal. Para esse propósito, lancei mão de outras obras escritas por ela no mesmo período em que relata suas memórias, buscando referenciais, inquietações e eventos relacionados.
Palavras chave: escritoras, Geração Beat, Di Prima, feminismo, poemas.
Abstract: The beat poet and writer Diane Di Prima has an extensive file of publications, but she is unkown in Brazil due to the fact that only one of her books had been published. This paper aims to bring Diane Di Prima to light for the Brazilian reader through her memoir book, and to initiate a dialogue between her creative production and different stages of her life, speculating how creatively the poet reacted to what happened in her social context and in her personal life. For that purpose, excerpts from her memoir and other poems published on several works were interspersed, on a search for references, concerns and related events.
Key words: Writers, Beat Generation, memoirs, feminism, poems.
Currículo: Isaura Maria Rigitano de Limas é bacharel e licenciada em Dança pela PUC-PR. Professora da ESL e tradutora.
RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN
COMO SER MULHER E BEAT
LIVRO DE MEMÓRIAS DA POETA BEAT
DIANE DI PRIMA
Isaura Maria Rigitano de Limas
Introdução
O pós-guerra consolidou os Estados Unidos como líder global nos anos 1950. Internamente, foi um período próspero, marcado pela busca por conforto e bens materiais. A mídia reforçava o “estilo americano de vida” para distinguir a sua opção capitalista em oposição ao bloco socialista. Mas nem todos os americanos concordavam com o American way of life.
Inseridos na contracultura, os escritores da geração beat se opunham a esse modelo de vida. Entre eles, Di Prima incorporaria a esse movimento a sua experiência familiar que ia contra os valores sociais de então. Ela conviveu desde criança com os princípios do anarquismo.
Pierre J. Proudhon, um dos precursores do anarquismo, comenta sobre esses ideais:
“Ser governado é ser observado, inspecionado, espiado, dirigido, regimentado, numerado, regulado, registrado, doutrinado, controlado, revisado, estimado, avaliado, censurado, ordenado por homens que não têm direito, sabedoria nem virtude para fazê-lo” (Proudhon,1969, p. 294).
Viver em plena liberdade física, social e econômica. Mas como fazê-lo sendo mulher e vivendo sua juventude no pós-guerra dos anos 1950? Diane Di Prima parece ter conseguido. Ela vivia sob essa premissa. Desde muito jovem conviveu com o seu avô, o imigrante italiano Domenico Mallozzi, um ativo militante anarquista.
Di Prima nutria por ele grande admiração e respeito. Eles ouviam ópera juntos, dividiam xícaras de café expresso. Ele lia Dante Alighieri para ela. O avô disse que a levaria à Itália, mas morreu antes do fim da guerra. Di Prima recorda um de seus primeiros contatos com os ideais anarquistas:
“Eu estou no parque com o meu avô, e é noite. Eu quase nunca saio de casa à noite, e eu adoro. Amo a cidade à noite, as luzes e os sons. Cheira a mistério. No parque, Bronx River Park, as estrelas aparecem claramente. Elas são bem brilhantes, elas queimam. Há algum tipo de reunião. Um ‘comício’ é a palavra. Meu avô me levou com ele. E eu sei de alguma forma que é sem a permissão de meus pais. Eles não estão lá para contestar, eu fui visitar meus avós sem eles. Tem um comício no parque – não tenho certeza que tipo de comício. Era de fato uma ocasião particular – talvez um protesto contra a guerra iminente? (Isto deve ter sido no final dos anos 1930). Era rotina? Uma reunião anarquista? Eu não conhecia essa palavra então, é claro, somente que havia muitas pessoas, a maioria delas homens, e a maioria delas não era jovem. (…) Em um certo momento meu avô começa a falar. Todo mundo fica parado para escutar. Isso se passa por um certo tempo, as pessoas falam e outras ouvem, mas essa hora eu escuto também – é o meu avô. Não tenho certeza sobre o que ele está falando, e aí então no fim eu tenho certeza. No fim ele está falando sobre amor” (Di Prima, 2001, p. 13).
Apesar da influência anarquista do avô, foi através do íntimo contato com a avó, Antoinette, que ela obtém suas primeiras percepções do universo feminino.
“Minha primeira percepção do que significa ser mulher foi aprendida com minha avó Antoinette Mallozzi, no seu colo. Era uma casa de iluminação escura e branda, como se houvesse lâmpadas de querosene, mas em minha lembrança havia luz elétrica, como em todo lugar… Havia um ar de mistério sutil. A luz recaía sobre as mãos da minha avó, enquanto ela sentava se balançando, rezando o seu rosário. Ela cheirava a limões e óleo de oliva, alho e cera e ervas misteriosas. Eu amava tocar a sua pele” (Di Prima, 2001, p. 1).
O universo feminino no pós-guerra, quando Di Prima era adolescente, se restringia a alguns estudos controlados pelos pais e, por volta do ensino médio, encontrar um “bom partido” para constituir família. As mulheres viviam às voltas com os afazeres domésticos e dificilmente tinham outro destino. E os imigrantes, como a família de Di Prima, restringiam seu círculo de relacionamento entre os seus. Mantinham suas tradições como um lugar à parte, as regras de conduta norte-americanas contavam pouco. Ela descreve no seu livro de memórias sua experiência aos 12 anos nesse universo:
“Como mulher, como filha, segurando a raiva no limite – a dos homens, a nossa própria. Mantendo a alegria no ar. A alegria de viver da família italiana, os homens me apalpando enquanto dançávamos, as mulheres apertando meus seios sob o pretexto de elogiar meu ‘desenvolvimento’” (Di Prima, 2001 p. 53).
Esperava-se das mulheres submissão às regras de uma sociedade controladora e baseada na centralização do poder masculino. E isso refletia intimamente nelas, que de alguma forma reagiam. E se se revoltassem, poderiam ser presas, encarceradas em instituições. Essa realidade foi descrita por Phyllis Chesler em seu livro Women and Madness:
“Desde que clínicos e pesquisadores, e também seus pacientes e sujeitos concordem com um padrão masculino de saúde mental, mulheres por definição são vistas como psiquicamente comprometidas – enquanto aceitem ou rejeitem o papel feminino – simplesmente porque são mulheres. Dado a esse fato, não surpreende que muitos estudos reportem maiores ‘neuroses’ ou ‘psicoses’ femininas do que masculinas” (2015, p.173).
Era esperado das mulheres um comportamento padrão na sociedade. Diane Di Prima quis mais. Ou melhor, quis diferente. Quis ser livre e viver a sua verdade, como o grande ideal anárquico. Ela descreve em seu livro de memórias o que vivenciou e observou do ponto de vista de uma mulher nos círculos boêmios dos anos 1950 e 1960.
Narra com detalhes a construção de sua identidade como escritora e poeta, o que suas escolhas significaram para ela, como era vista pelos demais e como isso influenciava em sua produção criativa. A sua experiência pessoal nos primeiros anos da formação escolar no Brooklin fez com que Di Prima começasse a construir sua subjetividade de uma forma peculiar.
Esse artigo tem como objetivo oferecer à leitora e leitor brasileiros uma primeira aproximação do extenso material produzido pela escritora e poeta Diane Di Prima por meio de seu livro de memórias e de iniciar um diálogo entre a sua produção criativa e as diversas fases de sua vida. Também tem a finalidade de demonstrar como a escritora transformava em produção criativa o que acontecia no seu contexto social e em sua experiência pessoal.
Para tais propósitos, utilizo trechos traduzidos por mim de seu livro de memórias e intercalo com outros poemas e contos publicados em diversas obras de sua autoria, traçando assim um diálogo entre eles. Procurei ressaltar pontos marcantes da sua trajetória, com o objetivo de mostrar as várias facetas de sua personalidade.
Escritoras beat: mais do que um acessório
Como aconteceu com outras escritoras que fizeram parte dos ciclos beat, como Joyce Johnson, Hettie Jones e Bonnie Bremser, Di Prima também rompeu com os laços familiares. Ela deixou os estudos no último ano da faculdade e saiu da casa dos pais em busca de autonomia para escrever, quebrando o paradigma da menina branca de classe média. Chegou até mesmo a morar nas ruas, a dividir moradias precárias com outros jovens que também aspiravam uma vida dedicada às artes e à liberdade.
Os ícones da geração beat, que era formada quase sua totalidade por homens, como Kerouac, Ginsberg e Burroughs, viviam de forma a desafiar os costumes da época. Negavam sua participação no “ideal americano”, considerado falso por eles. Tinham como premissa a autonomia, a independência e a liberdade que os permitiam experimentar a vida até o limite. No ir e vir da estrada, cruzavam o país e assim acumulavam experiências que eram transmitidas através de seus escritos.
E as mulheres? Elas também estavam lá, construindo suas trajetórias, lidando com o preconceito ou mesmo o papel secundário que lhes era sutil ou abertamente imposto por parte de seus colegas escritores. Décadas depois, Di Prima seria frequentemente questionada sobre essa condição acessória:
“Lendo um dos poetas dos anos 50, seu prefácio para uma antologia, o que ele inadvertidamente revela, eu percebo que existia realmente essa comunidade determinantemente masculina de escritores à minha volta nos anos 50. Eu sou constantemente questionada sobre isso, como: ‘Como você sobreviveu? Onde estavam as mulheres?’ Era realmente essa conspiração masculina: vaidosa, competitiva, glorificando em pequenas aclamações. Postura de ‘Um Homem É O Que Ele Faz’ (Charles Olson)” (Di Prima, 2001 p. 107).
E como ela lidava com a tensão do relacionamento entre os gêneros, mesmo dentro de um grupo que era supostamente regido pela quebra de paradigmas, pela liberdade?
“Eu via esses caras, eu e os outros, como artistas simplesmente. Todo o esforço era pelo Trabalho, e eu os amava por isso. Eu os amava pelo seu melhor, e além do seu melhor como grandes companheiros da Estrada. Minha escolha: ignorar sua supremacia, sua eterna necessidade de estarem certos. Ou eu levava isso como algo sem importância. Uma menor parte dos seus Atos” (2001, p. 107).
Viver e escrever como poeta mulher e rebelde naquela época era quase como ser definida como um homem. Mas a negação do padrão de binarismo então vigente não incomodava Di Prima. Ela não pretendia estar inserida em nenhuma categoria. Não se prendia a rótulos. Preferia estar às margens, como uma “outsider”. Talvez porque o que mais importasse em sua trajetória era viver. Viver a experiência, a estrada.
“Amava-os ainda. Queridos amigos e companheiros da arte sagrada – a sagrada tarefa de empurrar o contêiner: até que distância ele irá, a língua, a forma, a mente? As possibilidades inseridas no sonho? Como a teoria da bolha da física. Até onde irá sem quebrar, isso o que somos? O quanto conseguimos esticar o corpo, esticar o espírito? Com drogas, com arte, com visão, sexo ou amor. Com risco à nossa própria saúde, além da rima ou razão” (2001, p. 108).
A expressão criativa diante das questões sociais
Diane Di Prima passou por grandes revoluções sociais americanas e isso se refletiu em seu trabalho como escritora. Segundo Anthony Libby, ela é a rebelde que estava imersa nas três maiores revoluções culturais americanas do século:“O modernismo, através de sua associação com Pound, os Beat dos 50 e começo dos anos 60, e então a explosão do LSD e os protestos dos anos 60 e 70, quando o romantismo chega às ruas. Três revoluções, com polaridades políticas descontroladamente diferentes, cada uma criou o futuro em uma forma diferente; poucos escritores ou figuras públicas duraram tanto quanto Di Prima no difícil terreno da contracultura sem se queimar” (Johnson e Grace, 2002, p. 45). No auge da Contracultura e da Guerra Fria, em 1971 ela publicou a sua primeira versão de Revolutionary Letters (Cartas Revolucionárias), que tinham um grande apelo social, ressaltando seu caráter anárquico, uma das mais marcantes características da sua escrita. Posteriormente, foi acrescentando mais e mais cartas e poemas, com sua última versão publicada em 2007, com mais 23 poemas políticos escritos nas últimas duas décadas. Carta Revolucionária n°19Para a campanha dos pobres se o que você quer é empregospara todos, você ainda é o inimigo,você ainda não pensou direito, claramenteo que isso significase o que você quer é moradia, indústria (GE na reserva Navaho)carro para todos, garagem, refrigerador, TV, mais encanamento, via rápidas científicas, você ainda é o inimigo, você escolheu sacrificar o planeta por poucos anos de uma utopia de ficção científica , se o que você querainda é, ou pode ser, escolasonde todas as crianças podem ser moldadas de uma só forma, são ensinadas que é melhor ser americano do que negroou indiano, ou japonês ou porto-riquenho, onde Dick e Jane se tornaram e são o sonho, você se parece como o pai do Dick? não acha que seu filho secretamente desejaria que você fossese o que você quersão clínicas onde a Associação Médica Americanapode te encher de pílulas pra te manter acordado, ou estéril, injetar germes nos seus filhos, enquanto a Merck e Companhia enriquecese o que você queré ajuda psiquiátrica para todosonde terapeutascafetões dessa decadência, podem fazerflorescer para nós, se você quiserse você ainda quer um pedaço um pequeno pedaço do subúrbio, grama verdeespalhada pelo metro quadradoTV a cores, onde a energia radiantemata as células do cérebroonde mensagens subliminaresfazem lavagem cerebral nos seus filhoslevaram seus sonhostítulos de universidades que não são nada além do que senhorios da pocilga, pias purulentas de mentiras, para que você possa ir em frente e mentir para outros em algum campo esverdeadoENTÃO VOCÊ AINDA É O INIMIGO, você está se subestimando, lembre que vocêpode ter o que pedir, peça tudo.
Esse poema mostra a interpretação de Di Prima sobre a sociedade de classe média americana da época, e de como sua visão a levava a pensar que o crescimento social acarretava em uma série de consequências destrutivas para as relações sociais e para a natureza em geral.Segundo Anthony Libby, por baixo da superfície de libertina existia nela o puritanismo tradicional. Em suas primeiras prosas, ela parece ter dúvidas sobre a sua visão de que o universo é basicamente bom, de que a fertilidade é natural, o ritmo do sexo é natural, que são características do puritanismo. O texto a seguir foi publicado no livro Dinners and Nightmares e retrata como, em uma sociedade distópica pós-apocalíptica, as pessoas perdiam o que lhes era de mais humano, a especificidade da espécie em si. “Sem Título (2003, p. 131)
Eles falam dela como a era do ouro, e existem muitos que não acreditam no conto. Eles dizem que naqueles dias, todos os homens eram feitos iguais. Seus membros eram os mesmos em número e moldados da mesma forma, e eles andavam eretos sobre dois deles. Alguns dizem que quase todos podiam falar e andar, e que suas peles eram inteiras e nenhuma parte de seus corpos se torcia e enrugava no nascimento.Muitos não entendem essas coisas. No meu país cada criança é examinada ao nascer por fraquezas e deformações. Existem algumas que são completamente retorcidas e inúteis e essas são deixadas pra morrer.Quando eu era jovem eu não conseguia entender essa lei. Chorei sobre minha irmã recém-nascida e lutei contra os lobos por ela. Finalmente fiquei exausta e dormi, e aqueles do meu vilarejo vieram suavemente e me carregaram para casa. Quando acordei, meu pai me olhou tristemente e falou, e eu concordei e aceitei as regras e o jeito amargo da minha tribo.Meu pai me fez entender que essas leis são necessárias se a tribo quiser permanecer. Cuidamos dos parcialmente cegos, dos coxos e dos muitos que não podem falar, mas aqueles que não serão capazes de fazer nada devem morrer. É a única maneira.Foi então que meu pai me falou da lenda. Ele disse que os anciãos tinham ouvido de um tempo quando todos os homens eram eretos, e as mulheres a se admirar. Não era como hoje quando os líderes da tribo são os que podem falar e ouvir as palavras ditas e ver além. Naqueles dias todos os homens podiam fazer essas coisas. E a terra toda podia suportar o cultivo, meu pai me disse. Não existia o Solo Negro para trazer a morte àqueles que andassem sobre ele, e nem crianças condenadas por aqueles que chegassem muito perto.
Essas pessoas bonitas cresceram em força e entendimento. Elas chamavam nosso Solo Negro de Mãe Terra e cruzaram o grande oceano. Eles entendiam de todas as coisas, mesmo na distância das estrelas brancas. Mas, eu não entendo como aconteceu. Eles ficaram com medo. E os líderes se reuniram e destruíram todas as pessoas bonitas. E a terra se tornou o Solo Negro, e aqueles que sobreviveram à grande destruição apareceram das cavernas e esgotos e tiveram crianças. E as crianças eram retorcidas e estranhas, e muitas morreram.E agora existe uma lei tribal que nos faz sustentar as crianças, embora muitos delas alimentem os lobos. Estamos exaustos, e acasalamento não é uma alegria pra nós. Mas meu pai diz que a tribo deve continuar, porque somos diferentes de outros animais: alguns de nós podem falar, e isso é um dom dos deuses.” A maternidade como metáforaA exemplo de suas manifestações de forte conotação revolucionária, Diane Di Prima tratava de questões do universo feminino de forma direta e pontual. A maternidade era para ela uma consequência natural da evolução do ser. Quis filhos, e quando os quis, os teve.Em uma entrevista concedida a Toni Moffeit, em 1989, ela disse: “Eu decidi que queria um bebê, mas eu não queria nenhum homem por perto.” Ela se opunha fortemente a todas as formas de controle de natalidade, e quando foi questionada sobre como sustentar uma criança, respondeu: “Consiga pensão, pare de trabalhar, fique em casa, fique chapada e transe” (2002, p. 106).Seu tom era sempre provocador. Quando soube que estava grávida da sua primeira filha, Jeanne, que depois até morou na rua com ela por um período, Di Prima escreveu o seguinte poema, publicado no livro Dinners and Nightmares, em 2003.
Canções para Baby-O, ainda não nascido (2003, p. 126) CorpoDe quem é carneQue cruzou meu destino?Qual noiteComum ou abençoadaSe forma agoraA andar pela terra?
CorpoQual mão Abriu o soloPara aquela cabeça romper?Nos olhosBrotando à vistaQuem eu vou ver?
CorpoSegredo em vocêNasceu esse choro da carne
Agora conto o conto
QueridaQuando você chegar encontraráUma poeta aquiNão bem o que alguém escolheria.
Não prometoQue você nunca sentirá fomeOu que nunca ficará tristeNesse evisceradoQuebradoGloboMas posso mostrar a você BabyAmor suficiente Para partir seu coração Pra sempre. No poema ela exprime como, apesar de não saber e nem se importar quem era o responsável pela paternidade, o desejo de gerar um filho se fazia presente. Sua visão de como deveriam ser as relações afetivas e sociais antecipava o movimento que surgiu na década seguinte, do amor e sexualidades livres, enfatizando quão transgressor era o seu comportamento. Depois de Jeanne Di Prima, nascida em 1957, Diane Di Prima ainda teve outros quatro filhos, Dominique Di Prima, Alex Marlowe, Tara Marlowe e Rudi Di Prima. Ela vivenciava a ideologia da “maternidade natural”, que embora tivesse elementos românticos – como se vivesse em uma outra época na qual algum tipo de ‘comunidade orgânica’ fosse possível – elevava a sexualidade feminina livre a um lugar central. As relações afetivas e a produção criativaNos primeiros anos após deixar a casa dos pais, Di Prima conviveu com todo tipo de gente: pintores, atores, escritores, viciados, cafetões. Muitas vezes ela os sustentava e em outras ocasiões era sustentada por eles. Formavam grupos e se dissolviam a todo momento. Os papéis sociais se modificavam à medida da necessidade. Moravam todos juntos e acolhiam a todos que necessitassem. Era o ideal de liberdade plena: “Aqueles primeiros anos em Manhattan foram repletos de fanfarronice e ludicidade. Aprender as leis da sobrevivência ou inventá-las. Antigos e novos amigos entravam e saíam da minha casa. Frequentei a escola. Estudei grego agora, como queria, e cálculo, teoria e números. Estudei italiano e existencialismo. Li insaciavelmente, escrevi quase todos os dias” (2001, p. 109). Alguns desses amigos se transformaram em material para sua produção criativa. Um desses exemplos foi Bret Rohmer, que Di Prima acolheu em seu apartamento em 1955.“Bret era um amigo um pouco recente, um ator infantil que cresceu para se tornar um pintor. Ele estudava agora na Liga de Alunos de Artes e pintava às tardes em frente ao fogo. Ele cobriu nossas paredes com unicórnios e estranhas donzelas no estilo Matisse” (2001, p. 128). Amigos da estrada acabavam se tornando fonte de inspiração para seus escritos. Por meio de seus poemas ela também resolvia conflitos nos relacionamentos, externava seus descontentamentos e explorava suas relações afetivas. O poema a seguir foi escrito depois de um conflito com Bret Rohmer, o amigo pintor. “Conto para um unicórnio (2003, p. 145)Era uma vez uma poeta e um unicórnio que viviam em uma cidade horrível. Eles eram amigos por muito tempo.Agora para entender sobre poetas e unicórnios, você deve saber que eles pertencem ao reino mítico, que é diferente do reino animal. Todas as criaturas no reino mítico podem se ver mesmo quando são invisíveis à outras espécies e isso faz deles muito ligados entre si.Agora a poeta era uma poeta muito boa, e ela fazia café, tomava pequenas pílulas, e sempre recebia unicórnios e outras criaturas míticas como uma poeta deveria fazer. Entretanto, ela tinha uma falha não muito poética que não deixava os unicórnios muito felizes. A poeta tinha cãibras.Isso acontecia porque ela não dormia muito. Às vezes ela tinha uma cãibra no joelho, ou no seu dedo, o que não era tão ruim, de fato o unicórnio nem ligava quando ela tinha cãibras no pescoço, mas de vez em quando ela tinha cãibras no seu cérebro, e isso deixava o unicórnio realmente muito triste, porque ele não sabia o que fazer para ajudar com tais cãibras, e nem queria, especialmente.(Se você já viu uma poeta com cãibras no cérebro, você entende como o unicórnio se sentiu. Uma cãibra no cérebro de um poeta não é uma coisa com que qualquer um saiba lidar.)Agora, uma noite eles estavam passeando de carro com outros membros dos reinos mítico e animal e a poeta, que estava realmente muito cansada, teve uma cãibra em seu cérebro sobre os amigos do unicórnio. Na verdade, os amigos do unicórnio eram na maioria muito legais, exceto pelo fato de que alguns deles eram híbridos, e pertenciam parcialmente ao reino animal e parcialmente ao reino mítico. Tais criaturas tinham o hábito de aparecer e desaparecer no mundo de uma maneira muito impertinente, e isso aborrecia a poeta, que como todos os poetas pensava que o jogo mítico de reconhecimento secreto era sagrado e não deveria ser interferido.(Poetas tem certas particularidades e na maioria das vezes eles levam coisas muito a sério e outras coisas despreocupadamente, mas sempre todas as coisas invertidas.)De qualquer forma, nesta noite em particular, como eles estavam indo da Terra da Segurança, que eles chamavam de lar, para a antiga Terra da Aventura, que tinha sido assolada na longa guerra entre os reinos animal e míticos, e que ainda usava o nome arcaico de Greenwich Village, a poeta, que tinha uma grande cãibra em seu cérebro, começou a provocar e repreender o unicórnio sobre seus amigos híbridos e sobre um em particular, que eles iriam encontrar naquela mesma noite.Agora unicórnios, qualquer que sejam suas falhas, são criaturas leais, e o unicórnio em questão ficou muito magoado e então muito brabo quando ele ouviu um de seus amigos repreendendo o outro. Enquanto ele ficava mais brabo ele começou a olhar para frente e manteve sua cabeça bem alta, e os músculos da sua mandíbula de sobressaíram, o que é um sinal certo para um unicórnio de que ele estava Realmente Muito Brabo.Entretanto, a poeta, que tinha uma cãibra extraordinariamente grande, disse a si mesma que não se importava e quando todos saíram do carro ela foi pisando forte rua abaixo, com aquela caminhada peculiar que é uma marca característica dos poetas.E o unicórnio, levantando a cabeça mais alto que nunca, saltou para longe através da noite.E muitas horas mais tarde, quando a poeta chegou em casa, com a cãibra não mais em seu cérebro, se sentiu muito triste e arrependida, e muito tola. Tentou pensar em como se desculpar com o unicórnio, mas ela sabe que poetas são orgulhosos e unicórnios são orgulhosos e que desculpas não funcionariam mesmo. Então ela escreveu esse conto.” No Conto para um unicórnio, Di Prima se utiliza da metáfora sobre seres míticos para externar sua visão sobre papel do artista na sociedade e de como se sentia pertencente a uma outra “categoria”, como se sentia diferente dos demais.
Uma “Outsider”Anthony Libby entende que a força de Di Prima vem em valorizar a experiência que rompe com as categorias comuns. Ela valoriza uma concepção do “self” (eu) que rompe com as formas de “agrupamentos” habituais. Entende a mentalidade de grupo como limitada, estreita, como na identidade política tribal, implícita em qualquer forma de nacionalismo.Por essa razão, ela preferia estar às margens, longe das formas de agrupamentos da sociedade tradicional. Apesar de ser considerada uma das heroicas precursoras da segunda onda do feminismo, sua solidariedade era primariamente direcionada às excluídas, como uma irmandade das “outsiders” (Johnson e Grace, 2002, p. 49).A escrita de Di Prima é contraditória e sagaz, nem sempre politicamente correta e muitas vezes mescla conteúdo político e sexual. Logo que se torna independente e ganha as ruas, sua percepção do forte poder sexual feminino e em como isso se reflete nas mulheres à sua volta é recebida por ela como o rompimento de um paradigma, como uma libertação: “Foi mais ou menos nessa época que tomei o que penso como minha decisão de não ser bonita. Na verdade, eu não tinha a menor ideia de como eu aparentava. Muitos anos da programação cansativa nas mãos de Dick, Emma me deixaram cega de mim no espelho. Eu simplesmente não conseguia ver o que havia lá. Mas o que eu sabia era que obtinha resposta dos homens, na maioria homens, enquanto eu quisesse ou não. Eu havia observado o fardo que a beleza era para as mulheres e as garotas à minha volta. Observado como elas se viam, capturadas em um corredor de espelhos onde era difícil ver o fundo das coisas, para possuir a sua paixão. Capturadas em um tipo de auto amor. Via como elas eram observadas por seus amigos e amantes, e então que elas não eram vistas, não verdadeiramente presenças, mas as pinturas, filmes, estátuas do sonho de alguém. Uma peça da mobília. Eu não estou falando aqui somente de objetificação, embora era parte disto. Não somente o ‘eu não sou um objeto sexual’ que nós ouvimos tanto nos últimos dez ou vinte anos. Mas havia uma coisa mais, um véu de gaze, um verniz, entre os homens e mulheres verdadeiramente bonitos em meu mundo, entre eles e o mundo por si só. Formou-se uma barreira entre elas e os eventos das suas vidas. Seus sentimentos. A crueza da amizade ou do amor. Havia uma postura que elas nunca abandonavam.E também, não importando o quão verdadeiramente elas eram amadas, elas nunca eram verdadeiramente amadas. Ou então era o que parecia para mim. Talvez fosse minha cegueira. Minha necessidade de renegar toda e qualquer parte de mim que me levava o meu pai, tios, os homens da minha família a se comportar como faziam. Minha necessidade de renegar qualquer coisa que tivesse feito Emma chorar quando eu coloquei aquele primeiro batom. Talvez o que vi na vida dessas mulheres não foi nada além de projeção, minhas próprias neuroses, mas até hoje eu sinto alguma verdade nisso. Não importa o quanto elas eram amadas, elas nunca eram amadas” (2001, p. 114). Considerações finaisA trajetória de um escritor muitas vezes toma direções contrárias à sua vontade ou intenção. Muitos escritores beat acabaram “seguindo outra estrada”. Alguns encerraram suas vidas precocemente, por excessos ou simplesmente por falta de administração pessoal. Diane Di Prima não traçou seu caminho conscientemente, em busca de fama e reconhecimento. Mas tinha em mente a clareza de seu papel significativo no mundo como escritora, que seria influência para jovens e mulheres ao longo da vida. Que faria a diferença. E ela ainda segue fazendo. E escrevendo: “Quando falo, como às vezes o faço, para os outros sobre a minha vida, quando eles perguntam, ou buscam descobrir o que significou para mim decidir naquela época ser uma poeta e então como isso seguiu, me tornar ‘Uma Escritora’, eles normalmente dizem, ‘Bem, sem dinheiro, é claro, mas a fama, a fama precoce deve ter sido uma recompensa’. E eu olho pra eles estranhando, penso o que eles veem, como eles imaginam aqueles primeiros apartamentos, quartos vazios, caixas como mesas e cadeiras, e eventualmente um bebê em algum canto. Fama, eu digo hesitantemente, havia fama? Não sei, acho que não” (2001, p. 101). O objetivo deste artigo foi oferecer à leitoras e leitores brasileiros uma primeira aproximação do extenso material produzido por Diane Di Prima, uma das mais prolíficas escritoras da geração beat, já que apenas um dos seus 34 livros foi publicado no Brasil. Também almejei iniciar um diálogo entre a sua vida pessoal e a sua produção literária, através do seu livro de memórias e de vários contos e poemas de outras publicações. Para esse propósito, busquei nessas publicações referencias, inquietações, eventos que pudessem estar relacionados aos relatos no livro de memórias. BibliografiaCHESLER, Phyllis. Women and Madness. New York: Palgrave Macmillan. 2005.Di PRIMA, Diane. Dinners and Nightmares. Last Gasp of San Francisco. 2003.Di PRIMA, Diane. Recollections of My Life as a Woman: The New York Years. New York: Viking Press, 2001.Di PRIMA, Diane. https://theanarchistlibrary.org/library/diane-di-prima-revolutionary-lettersFELSKI, Rita. Literature after Feminism. Chicago: University of Chicago Press, 2003JOHNSON, Ronna and GRACE, Nancy M. Girls Who Wore Black: Women Writing the Beat Generation. New Brunswick: Rutgers University Press, 2002.PROUDHON, Pierre Joseph. General Idea of the Revolution in the Nineteenth Century. New York, Haskell House, 1969.
Bio fornecida pelo palestrante.
Emanuela Carla Siqueira
Universidade Comunitária Regional de Chapecó, SC
Resumo: Elise Nada Cowen foi poeta entre os anos de 1950 e começo dos anos 1960. Circulou pelo grupo chamado de Geração beat e cometeu suicídio aos vinte e oito anos, em 1963. As fotos de Elise são raras. Seus escritos foram queimados pela família ou a seu mando, restando apenas um caderno com oitenta poemas. Elise poderia ter recebido a mesma atenção que Allen Ginsberg, ou mesmo Sylvia Plath, que cometeria suicídio apenas um ano depois, mas ficou relegada a poucas homenagens depois de sua morte, com publicações póstumas de poemas, alguns, inclusive, modificados. O presente artigo pretende situar Elise Cowen no espaço e no tempo da contracultura daqueles anos, além de pensar sua biografia e subjetividade através de seu único caderno deixado – reproduzido e comentado pelo pesquisador Tony Trigilio – memórias de amigos próximos, principalmente as relatadas pela amiga e contemporânea Joyce Johnson em seu livro Minor Characters, de 1983. Além disso, este artigo pretende reconstruir os laços afetivos – até mesmo os inconscientes – que existiram entre as escritoras que circularam entre os beats durante o período estudado, reconstituindo assim o contexto literário e feminista em que essas escritoras viveram.
Minicurrículo: Emanuela Carla Siqueira é graduada em Letras-Inglês e Literaturas pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó, SC.
O INDIZÍVEL NOS CADERNOS DE ELISE COWEN
Emanuela Carla Siqueira
Universidade Comunitária Regional de Chapecó, SC
O contexto da geração beat
O que se conhece como Geração Beat hoje é um dos mais importantes movimentos contraculturais do século XX, um embrião para os movimentos como o hippie e o punk, por exemplo. Mas como aponta Cláudio Willer, no livro introdutório Geração beat, a aceitação e definição do termo pelo seu círculo não foi tão simples assim. Ele considera como definitiva a versão apontada por Allen Ginsberg em 1996 (ver Willer, Claudio, 2009, p. 7). Nesta, a expressão beat generation se tornou famosa em 1948, em uma conversa entre os escritores Jack Kerouac e John Clellon Holmes numa discussão sobre a natureza das gerações de escritores. Ambos não sentiam pertencer à lost generation e, na tentativa de nomear o grupo de que faziam parte, Kerouac aceitou a denominação de que eram uma “geração beat”, sem dinheiro, que vivia e escrevia de forma espontânea.
No fim da década de 1940, a geração beat já vivia uma certa consolidação, e escrevia sobre temas como a estrada, sexo, a não conformidade com o American way of life e empregavam a escrita espontânea. Esses temas já faziam parte do vocabulário que percorria entre o underground do Village, em Nova Iorque, e a boêmia, em San Francisco.
Os beats foram uma espécie de vanguarda que estabeleceria relações com alguns grupos hippies nos anos 1960 e outros projetos de hipsters nas décadas posteriores. Barbas, camisas xadrez, declamações de poesia, saraus e reuniões em cafés baratos eram facilmente identificados e apontados como influências vindas de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, a santíssima trindade. Mas é olhando de forma mais atenta para as fotos da época que se encontram figuras femininas, que, embora sempre presentes nas narrativas dos homens, como amantes, nessas imagens são apenas mulheres de preto, trajando calças e cabelos curtos, outras usando vestidos e cabelos bem arrumados, mas sempre estão em segundo plano, sinalizadas apenas como acompanhantes, coadjuvantes de contextos, cenários de uma história que parece ter sido escrita apenas por mãos grossas, revestidas de pelos e testosterona à flor da pele.
Apesar das afirmações dos próprios homens do meio beat (Joyce Johnson, 1983, p. 79), de que uma verdadeira organização artística só podia ser formada por homens, havia mulheres em seu meio. Muitas eram inconformadas com seus papéis desempenhados nessa nova sociedade, recém-saída da segunda grande guerra, em que os homens retornavam para o lar em busca apenas de sossego, uma vida em família e “normal”: longe das armas e conflitos. Percebiam que nada era como antes, pois o mundo poderia entrar em colapso a qualquer momento. E nesse contexto de incertezas, os jovens eram os primeiros a questionar o tradicional.
O Barnard College, por exemplo, famosa escola nova-iorquina dedicada à educação para moças, era um verdadeiro celeiro para as jovens questionavam a repetição dos velhos papéis impostos às mulheres. A própria convivência entre as moças provocava novos conflitos, que se refletiam diretamente em suas ações fora da universidade, e elas terminavam por se opor às tradições familiares, a fugir de casa ou a resolver tomar decisões sobre sua própria vida e seus corpos.
Em Minor Characters (1983), Joyce Johnson define de forma primordial o que sentiam as garotas quando decidiam sair construir uma vida sem ter nenhum exemplo anterior para seguir, tornando-se verdadeiras transgressoras protofeministas:
Those of us who flew out the door had no usable models for what we were doing. We did not want to be our mother or our spinster schoolteachers or the hard-boiled career women depicted on the screen. And no one had taught us how to be women artists or writers. We knew a little about Virginia Woolf, but did not find her relevant. She seemed discouragingly privileged, born into literature, connections and wealth. The “room of one’s own” that she wrote about presupposed that the occupant had a small family income. Our college educations enabled us to type our way to fifty dollars a week – barely enough to eat and pay the rent on a tiny apartment in Greenwich Village or North Beach, with little left over for shoes or the electric bill (Johnson, 1983, p. 22-23).
Essas pequenas revoluções que se criavam nas principais universidades para garotas eram inspiradas, e em alguns casos simplesmente análogas, à universidades maiores mistas ou apenas para garotos. Bem se sabe que a Universidade de Colúmbia – onde estudaram os principais homens da Geração Beat – eram levados não como locais de obtenção de conhecimento, mas como um lugar onde receitas de tradições eram apenas passadas de geração em geração, moldando mentes que apenas repetiam o eco que ouviam dos intelectuais do passado. No filme Kill your Darlings (2013), do diretor John Krokidas, no qual é relatado o famoso episódio do assassinado de David Kammerer por Lucien Carr e encoberto por Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, são mostradas várias cenas em que alunos como Allen Ginsberg, tomados por um espírito vanguardista, questionam as aulas da Universidade de Columbia que não ensinam Walt Whitman ao invés de Shakespeare, tão distante do tempo deles.
A escritora Diane Di Prima, que frequentou durante um ano e meio a Swarthmore College, relata um ambiente menos movimentado, porém pleno de inconformismo, em Memórias de uma beatnik (2013):
Após a liberdade alegre e um tanto surreal da escola secundária em Manhattan, a faculdade havia sido, de modo geral, uma decepção absoluta: um lugar de estereótipos masculinos e femininos de suéter de caxemira, e festas ruidosas e desagradáveis, regadas a cerveja. Lugar de um corpo docente infeliz com olhares de soslaio para virgens lascivas de Little Rock. Um lugar de partidas de bridge intermináveis, de festas superficiais, de um tédio que se espalhava feito praga por um campus muito bonito e por cada canto e fenda dos prédios cobertos de marfim. Um bom lugar para um assassinato, certamente, em que, em vez disso, ocorria uma média de três suicídios por semestre (Di Prima, 2013, 57).
O final dos anos 1940 foi uma época ideal para a maturação de um movimento vanguardista que rompesse com as tradições e redefinisse o sentido de contracultura. A geração, constituída em sua maioria de homens, pegaria a estrada durante essa década e a próxima e seria uma inspiração para algumas garotas que iriam conquistar não as rodovias norte-americanas, mas sua liberdade de ir e vir pelas ruas de metrópoles, pagar aluguéis baratos em lofts com seu próprio trabalho e assim adquirir um teto próprio sob o qual poderiam repensar os seus valores, os limites de seu corpo e a forma que teria sua arte teria.
Escritoras na geração beat
“Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram, elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava trancá-la. Houve casos, eu as conheci, algum dia alguém escreverá a respeito” (Gregory Corso).
Se os nomes de Kerouac, Ginsberg e Burroughs ecoam até hoje é porque a geração beat desenvolveu um papel importante tanto como movimento contracultural, colocando os valores sociais da época em cheque, quanto como movimento literário, promovendo a poesia, a escrita espontânea, os saraus e a boêmia, característica já importante naquele momento para os que escolheram estar na oposição aos bons costumes. Mas, se houve homens, também houve mulheres muito além das conhecidas musas Carolyn Cassady, Joan Kerouac e Edie Parker.
É um trabalho de dedicação encontrar registros e trabalhos das mulheres da época. Toda a produção literária, cartas, diários e imagens, é bastante escassa. Onde quer que se procure “Women of the beat generation” seguida da busca pelo nome de cada escritora, o resultado será pequeno, apenas baseado em poucas fotos de época e em obras publicadas depois dos anos 1990, pelo esforço de pesquisadores que foram acrescentando os nomes delas aos da produção masculina. Diane Di Prima – a escritora ligada ao grupo e mais comentada – parece ter recebido mais atenção graças a seu envolvimento posterior com a cena hippie e os grupos de San Francisco antes do que em sua vivência inicial no cenário literário de Nova Iorque. Hettie Jones, que circulava muito pelo grupo beat – era casada com o único poeta negro do movimento e é primorosamente citada por Joyce Johnson em Minor Characters. Há poucas fotos de sua juventude, e posou para as câmeras só após seus cinquenta anos, pelo menos. Vale salientar que escritoras como Joyce Johnson, Hettie Jones e Elise Cowen – mesmo com seus cadernos queimados – já mostravam bons indícios de produção antes ou durante o mesmo período, proporcionalmente às grandes publicações masculinas de Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Na introdução ao livro de Cowen, Minor Characters (1983), a pesquisadora Ann Douglas procura enumerar alguns motivos para que a autoria feminina do movimento ficasse em segundo plano diante do protagonismo masculino, sem perder o desenvolvimento da sororidade entre elas e descoberta de suas próprias subjetividades como mulheres e escritoras:
Minor Characters records the cost the beat generation exacted of its most gifted women. Joan Burroughs and Elise Cowen didn’t survive, in part because they internalized their male Beat models too intimately; Hettie Jones postponed her own public career as poet to further that of LeRoi Jones (later Amiri Baraka), then her husband. Yet, as Barbara Ehrenreich has argued, the male beats provided an example of liberation for the feminists of the next decade, and Minor Characters tell us how a number of beat women found themselves in each other, discovering in the cultural ground their male peers cleared the space for their own self-expression (p. 16).
No Brasil, Claudio Willer – provavelmente o principal pesquisador dos Beats por aqui – cita o envolvimento de algumas mulheres com o grupo, em Geração beat (2009). Mas, apesar de se ter conhecimento de mulheres escritoras circulando entre os Beats, praticamente não houve interesse editorial pelo trabalho delas. Isso nem da parte de editoras que visavam o mercado, nem tampouco os divulgadores e tradutores que apresentavam esses escritores em pequenas publicações como zines e revistas independentes.
Foi nos anos de 1990 que surgiram as primeiras tentativas de colocar as mulheres dentro do mapeamento de trabalhos da geração beat. A confusão em tratá-las apenas como amantes, amigas ou companheiras não tornava o trabalho simples e fácil para quem as pesquisasse. Claro que algumas foram figuras atuantes dentro do grupo, mesmo que o mercado editorial, os jornalistas literários e os próprios escritores, as omitisse. Diane Di Prima, por exemplo, sempre fora citada junto aos nomes masculinos. Poeta desde os anos 1950, ela foi associada mais como um membro honorário do que uma figura realmente pertencente à boêmia do momento. Afinal, para a época, não era cabível uma moça ser boêmia, escritora e independente ao mesmo tempo. Se é difícil definir o que, ou quem, foi a geração beat, é ainda mais complicado associar essas mulheres ao grupo. Como se sentir parte de algo que sempre a colocou como coadjuvante?
O trabalho de Ronna C. Johnson, Nancy M. Grace, Ann Douglas, e outras que se dedicaram a divulgar a autoria feminina dentro da geração beat foi fundamental para que finalmente essas escritoras tivessem representatividade. E é refazendo o percurso dos homens, dessa vez sob uma ótica das mulheres que viveram o momento, que se percebe que eles, mesmo sendo transgressores, destituídos da moral e dos bons costumes, vivenciando a bissexualidade e alheios às cobranças da sociedade, ainda assim mantinham uma visão conservadora a respeito da representação feminina.
Para essas mulheres os atos transgressores podem parecer mais levianos e simplórios se colocados em comparação às viagens de carona em beiras de estrada, ao trabalho braçal feito em plantações de algodão ou à busca de um lugar para dormir e um prato de comida enfrentados pela trupe masculina. O fato de apenas sair da casa confortável de seus pais, abandonando o sonho familiar de casamento e submissão, era um dos maiores atos de rebeldia enfrentado pelas mulheres da época.
Boa parte delas acabaram publicando um pouco tardiamente quando comparadas a Allen Ginsberg, por exemplo, um dos maiores influenciadores de escritores de qualquer gênero, na época. Mas, em qualquer pesquisa sobre essas mulheres, nota-se que elas já eram arrematadas escritoras, memorialistas e poetas. No único caderno que sobrou de Elise Cowen, já é possível traçar um panorama dos doze meses em que escreveu suas poesias e anotações, e nele notar uma voz latente e uma série de figuras que se repetem em sua poesia, legitimando um estilo na sua escrita. Como bem definem Ronna C. Johnson e Nancy M. Grace (2002) sobre a importância de se compreender a construção dessas escritoras como sujeitos da geração beat nas suas condições na época:
(…) understanding the female subjects inscribed in their writing and restoring this writing to the Beat canon is essential project that illuminates postwar sexuality and discourse the masculine and feminine in Beat culture and literature as well as in those of the mainstream. Beat women writers bring to Beat literature women-centered subjects and themes from the domestic to the sexual to the existencial and by this modification to beat’s exclusionary masculinism expand what it means to be beat (Johnson, Grace, 2002, p. 11).
ELISE COWEN E O QUE SOBROU DE SEUS CADERNOS
Elise
Pegou um Greyhound.
Sabotou
alguns relógios
na cidade
me deixou o resto,
e um destino
de um eterno chop suey,
uma cópia surrada d’O Idiota
Ela não tinha muito.
Quando as portas fecharam
e o ar-condicionado ligou,
a estrada de couro negro
a levou.
Seus amigos
celebraram sua ida
com cerveja e punhos cerrados.
Seus pais
em sua impenetrável sala de estar
cerraram as cortinas.
(Joyce Johnson)
Her middle name was Nada – a name of such bleak prophecy it’s astonishing to think of anyone inflicting it upon an infant daughter. (Mine, for example, was Alice, conjuring up the looking-glass child, teas in pinafores on lawns). “Literally it means Nothing – Nothing and Nothingness,” Elise said with a certain melancholy pride (Joyce Johnson, Minor Characters, 1983, p. 54).
Não é difícil ter empatia, ou mesmo um interesse latente, por Elise Cowen apenas olhando para as poucas fotos que restaram, principalmente uma que parece esboçar um sorriso na imagem que ilustraria seu passaporte, nunca usado. Os óculos de bibliotecária, tão comuns nos anos 1950, lhe conferiam uma certa personalidade, uma firmeza indescritível no olhar. Não diferente das descrições feitas por Joyce Johnson em Minor Characters, Elise era tão decidida e impulsiva que podia levar quase tudo ao limite, deixando de lado a autoestima e a capacidade de controlar as situações.
Pouco sobrou de Elise Nada Cowen, de sua produção apenas oitenta e três poemas escritos entre o outono de 1959 e a primavera de 1960, período de pouco menos de dois anos antes do seu suicídio. O restante do que deixou, como cartas, diários, cadernos e anotações foram queimados logo após sua morte por parentes próximos e vizinhos do apartamento de seus pais, de onde pulou de uma janela fechada do sétimo andar após passar por uma série de situações com que não conseguiu lidar, no auge dos seus vinte e oito anos.
Joyce Johnson e Leo Skir foram os primeiros a falar de Elise com maior profundidade, apesar de que foi Allen Ginsberg que usou de sua influência para publicar alguns poemas que ficaram com Skir. Segundo os relatos de Skir e Joyce Johnson, nos respectivos Women of the Beat Generation e Minor Characters, ambos não conviviam muito com Elise que flanava entre espaços, sempre silenciosa e impetuosa.
Joyce Johnson conheceu Elise na Barnard College e por cerca de dez anos ambas mantiveram contato, em uma amizade as vezes distante mas muito afetuosa. Pelas descrições de Johnson em Minor Characters, Cowen era bastante cuidadosa com a amiga, aparecendo as vezes para contar alguma situação, tomar um café ou apenas desabafar, sem nunca deixar de pedir que Joyce fosse feliz. O trecho que Johnson relata o primeiro encontro das duas é moldado por um certo tom onírico e saudosista, mostrando que talvez as lembranças do momento sejam mais suntuosas do que ele em si. Mas algo é certo, Joyce jamais esqueceu da amiga e dos pequenos detalhes e cartas trocadas:
I did not want to how Elise Cowen, who clearly was not collegiate and whom I could tell at a glance was even beyond the effort of trying. She introduced herself in such low voice I had to ask her to repeat her name. But her eyes insisted, “I do know you. We have been to the same places. And I isn’t it ridiculous for us to be here?” And all the while, in my plaid and lamb’s wool, I’d hoped I blended in so perfectly (Johnson, 1983, p. 51).
O livro Women of the Beat Generation (1998), editado por Brenda Knight, traz uma carta de Leo Skir – o qual, junto com uma prima de Elise, é um dos poucos que teve acesso ao único caderno deixado por ela – em que ele conta, em forma de relato, como conheceu Elise Cowen e acompanhou sua trajetória durante os anos em que se relacionou com Ginsberg e Caroline Hiller, mudou-se para San Francisco, sofreu um aborto perigoso, frequentou clínicas psiquiátricas como Bellevue e Hillside e como em um dia aleatório recebe uma ligação de Caroline sobre a morte de Cowen.
O pesquisador americano Tony Trigilio é atualmente o mais dedicado a divulgar o que sobrou da vida e obra de Elise Cowen. Responsável por editar Poems and Fragments (2014), livro composto por todos os poemas do único caderno que sobrou, com comentários, notas e trechos fac-símile do original.
Nascida em 1933, Cowen vinha de uma família de classe média judia, que vivia no simpático bairro de Washington Heights, em Nova Iorque. Como qualquer mulher de sua época, o pós-guerra esperava dela apenas calma e procriação, aguardava-se um futuro incrível para a pequena Elise: uma excelente educação, passando pela faculdade para garotas Barnard College, um posterior bom casamento e a vida que seguia em bom tom. Mas contrariando todo tipo de expectativa Elise detestava as aulas em Barnard, frequentava lugares onde se encontravam todo de tipo de grupo boêmio da época, tais como beats, artistas, músicos de jazz e inconformado com o velho e falido sonho americano.
Aos treze anos Elise teve um acidente assando brownies para colegas de escola, sendo que boa parte do cabelo e sobrancelhas foram perdidos, depois disso nunca mais se achou bonita e tinha dificuldades em aceitar a sua aparência. Talvez foi nesse momento que surge nela uma certa autopiedade e obsessão em relação à parceiros(as) e como ela deveria se comportar de forma submissa em relação ao outro, fosse como amiga ou amante.
Quando entrou em Barnard aos dezoito anos ela já não tinha intenções de alimentar a figura de moça comportada esperada por sua família. Engatou um relacionamento com o jovem professor de filosofia Donald A. Cook, que iludido com a vida adulta praticava alguns experimentos psicoterapêuticos com seus alunos, os confortando com versos do poeta William Butler Yeats. Como bem descreve Joyce Johnson sobre Elise e Donald (no livro com a alcunha de Alex Greer) “Of course she fell in love with him” (Johnson, 1983, p. 58).
Elise via em Donald uma figura de rapaz mais velho e inteligente, diferente dos garotos que conhecia nos grupos de jovens judeus, nas festas que ambos frequentavam, conta Skir em Women of the beat generation. Donald sabia aproveitar o que Elise tinha para oferecer, estava em um casamento falido e tinha um filho para criar. Elise se saia muito bem como ajudante, fosse na cama ou na cozinha de sua casa. Mais tarde ele iria dar um novo rumo para ela, apresentando Allen Ginsberg, que havia sido seu colega de classe em Columbia, se tornando uma figura recorrente na poesia de Elise.
A POESIA DE ELISE COWEN
“And Isn’t amazing that suicide is illegal when society is so indifferent to human life?” (Johnson, Minor Characters, 1983, p. 65).
Elise Cowen sai da casa dos pais com apenas dezenove anos, idade que na época era comum uma garota estar preparando seu próprio casamento, além de estar finalizando o curso superior. Foi também nesse período que aconteceu o primeiro “acidente” de tentativa de suicídio. Quando questionada pela amiga Joyce Johnson sobre o ocorrido, Elise afirma que teve um acidente com cacos de vidro na banheira e, indignada sobre o médico achar que foi uma tentativa de suicídio, ela afirma: “Não é interessante que o suicídio seja ilegal em uma sociedade tão indiferente à vida humana?” (Minha tradução, Johnson, 1983, p. 65).
O caderno deixado por Elise Cowen tem o estilo de um bloco de notas comum. Tony Trigilio descreve-o como pequeno. Na reprodução do texto, o organizador faz o possível para usar a harmonia escolhida pela poeta e em alguns poucos casos reproduz um fac-símile das páginas do caderno.
O caderno não contém apenas poemas, mas possui ainda algumas anotações, tais como fragmentos de possíveis cartas para pessoas próximas como a Betty Gibbs, mãe do amigo Keith Gibbs, e Leah, sendo essa última carta apenas um rascunho riscado. Elise também copia fragmentos, como um trecho de uma poesia de Emily Dickinson, uma de sua maiores influências e figura presente não apenas na estética/forma dos seus poemas, mas também nos temas que envolvem sentimento e natureza. A própria Dickinson figura em duas ou três poesias, como em “Emily White Witch of Amherst”.
“Sonho” é o segundo poema do livro de Cowen e um dos poucos que brinca com a prosa. O poema remete ao estilo espontâneo dos beats, principalmente de Allen Ginsberg, talvez bastante influenciada por Kaddish, obra que ela datilografou para Ginsberg durante o ano de 1959, justamente quando iniciava a escrita desse caderno. Nesse poema existem muitos paralelos com Kaddish: além da forma, a temática perturbada e suicida de Elise, muito próxima da da mãe de Ginsberg, que é o principal tema do livro dele.
Elise já havia realizado algumas tentativas de suicídio, e sua rebeldia incentivava os pais judeus a a colocarem em clínicas psiquiátricas. O conteúdo onírico, sendo praticamente um pesadelo, deixa clara a relação difícil de Elise Cowen com os pais, bem descrita por Joyce Johnson em Minor Characters: “Sonho” destaca uma característica que se torna marcante após a leitura de todos os oitenta e três poemas: a forma com que Elise costuma atuar ou performatizar a questão do gênero na sua poesia. Ela abusa das metáforas e figuras de linguagem com o fito de representar a ambiguidade do órgão sexual. Usando a palavra “gash”, é possível tanto se referir a uma fenda aberta quanto a uma conotação grosseira para vagina.
Todos os poemas abaixo têm minha tradução:
Sonho (p. 4)
Não consigo lembrar de tudo.
Ar bem limpo. Estou com Mamãe &
Papai. Estão me levando ao médico
já que estou doente, neurótica. Estão
enojados de mim, cansados durante todo
o sonho, especialmente Papai como na
vida (?) real. Depois de falar com o médico,
cujo rosto não lembro, ele, o
médico, senta na cama & retira uma
atadura de sua longa perna, mostrando
uma fenda a secar.
“Quero vestir e sair” também possui uma lírica ao estilo beat. O poema tem ritmo, o famoso “tudoaomesmotempoagora” proposto por Jack Kerouac. Mas o que mais encanta nesse poema simples é forma como Elise passeia por dois assuntos muito caros a sua poesia: a liberdade, a busca de autonomia como mulher e a morte. Há um episódio narrado tanto por Joyce Johnson como por Leo Skir, em que Elise havia conseguido um bom emprego como datilógrafa em um estúdio conhecido. Em uma fase boêmia, ela se atrasava e às vezes chegava bêbada ou drogada, até que foi demitida do emprego. Inconformada com a situação, afinal não morava mais com os pais, Cowen chegou cedo na empresa no dia seguinte, sentou-se imponente diante da máquina de escrever e exigiu uma resposta sobre a demissão, o que resultou em ter de sair do local escoltada pela polícia.
Quero me vestir e sair (p. 9)
Quero me vestir e sair e subir em um ônibus pegar um cheque e registrar um
seguro desemprego
Corpo, porque esse sentimento engraçado – pavor
De quê –
Morte? Morte tão desejada?
“Morte da mente” – paz – não, a dissolução a sete palmos
A morte é um assunto frequente na poesia de Elise Cowen, pelo menos foi um tema recorrente durante o ano que manteve esse caderno publicado por Tony Trigilio. Alguns dos poemas mais conhecidos de Cowen – os que mais circulam na internet, como “Sem Amor” e “Morte, estou chegando” – tem imagens sobre a morte tão potentes que geralmente são associados como os derradeiros poemas de Elise. Como era uma grande adepta de escrever quase diariamente em seu caderno, é praticamente impossível que o poema em que se despede das pessoas mais próximas seja o último.
Joyce Johnson também relata que Elise, sem salário fixo, acabava por viver muitas vezes em em lugares de condições precárias e pouco iluminados. Referências a uma masmorra, escura e fria podem ser associadas aos períodos de depressão, mas também aos ambientes em que Elise acabava por viver. Nota-se, por exemplo, uma sequência de poemas sobre baratas, quase kafkianos, no quais ora as colocava como dispositivos de divagação, ora as aproximando como companheiras, tratando-as de forma afetuosa, enquanto, em outros momentos, apenas questionando as motivações que levariam uma barata a sobreviver nesse mundo.
Às vezes em minha masmorra há algo que rasteja (p.12)
Em algum lugar nesta masmorra
Algo rastejante
Uma lagarta eriçada
Uma vir-a-ser borboleta
Ficará desapontada
Se não houver dia para ver?
Se tornar-se uma mariposa?
Que triste visão
Pois não há nada além dessas paredes
Sou o único clarão
Morte, pequena mariposa cinza (p. 13)
Morte, pequena mariposa cinza
Obrigada pela corrente curta e gelada
Olhos fechados
Frio
Tentei (p. 39)
Tentei
Tenho tentado
Tentarei de novo
Apesar da fraqueza do meu ser
Não há nada digno
Além de Deus & você
E deus foi dormir
Morte, estou chegando (p. 105)
Morte, estou chegando
espere por mim.
Sei que estará
Na estação de metrô
Equipada com galochas, capas, guarda-chuva, vovó
e sua única e simples resposta
para cada sentido
Instituição incorruptível
Desmancha-prazeres cautelosa de sinais
Ouça o que ela diz
“Há uma passagem através das cabanas brancas”
Sem Amor (p. 116)
Sem amor
Sem compaixão
Sem inteligência
Sem beleza
Sem humildade
Vinte e sete anos são suficientes
Mãe – tarde demais – anos de mesquinhez – me desculpe
Papai – O que houve?
Allen – Me perdoe
Peter – Jovem rosa sagrada
Betty – Tal bravura feminina
Keith – Obrigada
Joyce – Garota tão bela
Howard – Querido se cuide
Leo – Abra as janelas e Shalom
Carol – Faça acontecer
Me deixem agora por favor –
– Por favor me deixem ir
Uma barata (p. 14)
Uma barata
Rastejou para dentro
Do meu sapato
Gostou da fragrância da escuridão
Uma barata
Escalou
Meu sapato
Longe do frio & luz
Arrasto minha mão
A
Seguindo
Barata
O melhor que posso fazer por você
É compará-la a o bronze
E judeus
Não é bem-vinda
a usar o meu sapato
Como descanso de viagem
Óbvio
Da sombra da minha mão
Você sempre volta
pelo chão
Mais? – olhe –
Você perdeu uma antena
Eu trato você
seriamente afetiva como um bebê
Em Poems and Fragments Elise faz referências a outros(as) amantes, mas a figura mais predominante é a de Allen Ginsberg, provavelmente pela proximidade dos períodos em que ela escreveu o caderno e o em que conviveu com ele. Em “Sentada com você na cozinha” ela basicamente faz um carinho, um momento de ternura em meio ao turbilhão de sentimentos que vivia. Relata uma cena na cozinha, um sentimento de saudade e não deixa de brincar com os gêneros. No inglês usa o artigo ‘The’ como “a beautiful, regal, perfect word” para reforçar o indefinível, como se talvez se tratasse dela e de Allen, algo sem definição, fora dos padrões.
Sentada com você na cozinha (p.23)
Estar com você na cozinha,
Conversando tranquilamente sobre qualquer coisa
Tomando chá
Amo Você
“O/A” é bela, suntuosa, palavra perfeita
Oh, queria seu corpo aqui
Com ou sem poemas barbados
Na introdução de Poems and Fragments, Tony Trigilio relata todos os pormenores do seu trabalho tentando editar a poesia de Elise Cowen e um deles foi que ele acreditava que Leo Skir era o único detentor dos últimos poemas de Cowen. É inegável a importância de Leo na divulgação da obra poética da escritora, graças a ele muitas poesias de Elise – que nunca mostrava para ninguém o seu trabalho – foram publicadas logo após a sua morte. Mas por outro lado Leo fazia modificações estranhas aos poemas e um deles foi “O corpo é uma coisa humilde” modificado para “A mulher é uma coisa humilde” (Body versus Lady). Ambas as palavras dão uma conotação forte ao poema que dá o tom – de maneira tão certeira e rápida – sobre noção de lugar/espaço e corpo da mulher no fim dos anos 1950, em um momento protofeminista e necessário.
O corpo é uma coisa humilde (p. 25)
O corpo é uma coisa humilde
Feito de morte & água
A moda é vesti-lo simples
E que a mente seja o molde
CONCLUSÃO
If you wished to live free, you could not also expect to live wel. (Joyce Johnson, Minor Charcaters, 1983, p. 63).
Quando se sabe que o que sobrou da obra de Elise Cowen é apenas um caderno pequeno, com anotações e oitenta e três poesias pode-se muito bem pensar que o estudo se esgota rápido e se fecha no curto ciclo da vida da escritora. Seria um engano trabalhar com tal afirmação pois a obra de Elise e a sua misteriosa vida de vinte e oito anos são um material vasto e prolífico.
Escrevendo e fazendo tentativas de tradução sobre apenas dez poemas escolhidos de Poems and Fragments é inegável sentir que seria possível passar anos se debruçando por uma obra tão repleta de indícios e ousadia sobre a subjetividade feminina na literatura. Os poemas de Elise são profundos e certeiros como de qualquer poeta da época como, por exemplo, a contemporânea Sylvia Plath. Assuntos como família, sexualidade e posição diante de uma sociedade são visíveis e profundamente tratados em versos curtos. Elise Cowen ainda tem muito para mostrar ao mundo mesmo através dos seus cadernos. Resta saber se alguém está disposto a ouvi-los ou lê-los.
REFERÊNCIAS
Cowen, Elise (2014). Poems and Fragments. Boise: Ahsahta Press.
Di Prima, D. (2013). Memórias de uma beatnik. São Paulo: Campos.
Grace, N. & Johnson, R. (2001). Girls who Wore Black; Women Writing the Beat Generation. New Brunswick: Rutgers University Press. [2003]. [2002].
Johnson, J. (1999). Minor Characters. Introd. Ann Douglas. New York: Penguin. [1983].
Knight, B. (1996). Women of the Beat Generation. Berkeley, Calif.: Conari Press.
Skir, Leo (1996). Elise Cowen: a Brief Memoir of the Fifties. In: Women of the Beat Generation: the Writers, Artists and Muses at the Heart of the Revolution. Ed. By Brenda Knight. Berkeley, Calif: Conari Press.
Willer, C. (2009). Geração beat. Porto Alegre: L&PM.
Bio fornecida pelo palestrante.
Isabelle Rodrigues de Mattos Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Resumo: O objetivo deste trabalho é explorar o conceito da mulher perversa, conforme defendido por Bram Dijkstra em Idols of Perversity (1986), assim como estabelecer um paralelo entre a mulher perversa e a figura da feiticeira. Desse modo, analisaremos de que maneira as personagens Circe, da Odisseia de Homero, e Jadis, de As Crônicas de Nárnia, podem ser consideradas mulheres perversas: além de serem feiticeiras, as duas possuem características tipicamente masculinas e transgridem os papéis tradicionais da mulher. Além disso, estão ligadas aos instintos básicos: se Circe transformava os homens em animais, Jadis comandava um mundo habitado por animais, como se sua própria natureza bestial lhe permitisse reinar sobre eles. Investigaremos, portanto, as semelhanças entre essas duas personagens.
Palavras-chave: Mulheres perversas, feiticeiras, Circe, Jadis.
Currículo: Mestranda em Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e graduada em Letras – Inglês/Literaturas de Língua Inglesa pela mesma universidade. Atualmente trabalha na Secretaria de Estado de Educação. Recentemente publicou o artigo “O espaço e a assombração: o gótico de Shirley Jackson em The Haunting of Hill House” na revista Versalete (ISSN: 2318-1028).
MULHERES PERVERSAS: A CARACTERIZAÇÃO
DAS FEITICEIRAS CIRCE E JADIS
Isabelle Rodrigues de Mattos Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Bram Dijkstra, professor de literatura inglesa da Universidade de Califórnia, Estados Unidos da América, analisou em Idols of Perversity (1986) as representações de mulheres entre os séculos XIX e XX, procurando justificativas para o movimento antifeminista percebido não só na vida social, mas também nas obras literárias e artísticas. Para ele, o preconceito contra a mulher originava-se de alguns preceitos difundidos na sociedade, dentre os quais se repudiava a mulher que mostrasse características tipicamente consideradas masculinas, como agressividade, anseio por poder e sexualidade exacerbada – essa mulher assertiva, que se recusa a aceitar o papel submisso imposto pela sociedade, ele denomina de “mulher perversa”.
Dijkstra estabelece uma oposição dualística: de um lado, a mulher idealizada e do outro, a perversa. O “anjo da casa” era um modelo[1] que vigorou na era vitoriana, idealizando a imagem da mulher como boa mãe e esposa, dócil e submissa. Segundo esse ideal, a mulher deveria ser passiva e assexuada, sendo frequentemente caracterizada como quase etérea e de uma pureza contemplativa, além de, obviamente, obediente à ordem patriarcal.
A mulher perversa então era considerada o oposto do anjo da casa, incorporando aspectos assertivos e tipicamente considerados masculinos. Configurava desse modo uma ameaça ao ideal de mulher, e, portanto, um monstro cultural: para Dijkstra, a recusa dos direitos do homem sobre ela transformava a mulher num predador poliândrico (DIJKSTRA, 1986, p. 334), uma espécie de monstro feminino que aterrorizava a sociedade. Assim, figuras assertivas eram frequentemente caracterizadas como mulheres monstruosas e vilanescas, enquanto a heroína geralmente era representada como dócil e passiva. Não raro, essas figuras predadoras eram caracterizadas também como mulheres masculinizadas ou figuras andrógenas, representando as características “masculinas” que supostamente buscavam usurpar.[2]
A figura da feiticeira – que frequentemente aparece como vilã – representa essencialmente uma mulher perversa, destoante do ideal anjo da casa. Historicamente falando, muitas mulheres acusadas de bruxaria entre os séculos XV e XIX possuíam uma personalidade considerada conturbada: falavam palavrão, questionavam os outros e defendiam fortemente sua opinião, fosse discutindo com o marido ou com autoridades; enfim, eram mulheres de personalidade forte, que não se sujeitavam ao papel submisso que se esperava delas (KARLSEN, 1998, p. 310). Por exemplo, em Northamptonshire, em 1612,
This Joane Vaughan, whether of purpose to give occasion of anger to the said Mistris Belcher, or but to continue her vilde, and ordinary custume of behaviour, commited something either in speech, or gesture, so unfitting, and unseeming the nature of woman-hood, that it displeased the most thar were there present: But especially it touched the modesty of this Gentlewoman, who was so much mooved with her bold, and impudent demeanor, that shee could not containe her selfe, but sodainely rose up and strooke her […] taking disdainefuly and beeign also enraged (as they that in this kind having power to harme, have never patience to beare) at her going out told the Gentlewoman that shee [Joane Vaughan] would remember this injury, and revenge it (…) (GIBSON, 2000, p. 163).
Algum tempo depois, Belcher adoeceu e Joane Vaughan foi acusada de bruxaria. Muitas outras mulheres de personalidade forte eram frequentemente acusadas. Para Keith Thomas, “uma grande, talvez incomensurável, proporção dos que foram acusados formalmente de bruxaria no período manifestara algum tipo de malevolência para com os vizinhos […] um resmungo, uma maldição proferida entredentes ou uma sutil ameaça velada” (THOMAS, 1991, p. 416).
Se consultarmos o Malleus maleficarum[3] (1486), veremos que se acreditava que as mulheres perversas possuíam maior inclinação à bruxaria. Segundo o tratado, o maior número de praticantes de bruxaria pertencia ao sexo feminino porque a mulher era mais propensa à malícia, e “(…) a mulher perversa é, por natureza, mais propensa a heresiar na sua fé e, consequentemente, mais propensa a abjurá-la – fenômeno que conforma a raiz da bruxaria” (KRAMER; SPRENGER, 2014, p. 117).
Desse modo, essas mulheres perversas, mais dadas à cólera e à inveja, buscariam através das artes mágicas o poder de vingarem-se daqueles que despertassem sua ira, o que não seria incomum, uma vez que “(…) em virtude da deficiência original em sua inteligência (…) por causa da falha secundária em seus afetos e paixões desordenados” (ibid, p. 118), as mulheres perversas odiavam tão intensamente quanto eram capazes de amar, indo de um extremo ao outro com muita facilidade devido às suas emoções inconstantes.
Consta no Malleus ainda que “(…) a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidencia pelas suas muitas abominações carnais (…)” (ibid, p. 116), e que
(…) três parecem ser os vícios que exercem um domínio especial sobre as mulheres perversas, quais sejam, a infidelidade, a ambição e a luxúria. São estas, portanto, mais inclinadas que as outras à bruxaria, por mais se entregarem a tais vícios. Como desses três vícios predomina o último, por serem as mulheres insaciáveis etc., conclui-se que, dentre as mulheres ambiciosas, as mais profundamente contaminadas são as que mais ardentemente tentam saciar a sua lascívia obscena (…) (ibid, p. 121).
Percebemos então que, segundo o Malleus, a perversidade e a luxúria estavam intimamente ligadas, o que dialoga com o estudo de Dijkstra, para quem a mulher que demonstrasse uma sexualidade exacerbada (ao contrário da frígida dona de casa vitoriana) era considerada perversa – um monstro cultural que recusa seu papel feminino (submisso) ao demonstrar características tradicionalmente masculinas. Para ele, tais mulheres não eram consideradas completamente civilizadas, pois pareciam não ter se adequado às condições modernas da sociedade, já que rejeitavam a subordinação feminina ou os deveres de mãe. Para a sociedade então, essas mulheres subversivas, que procuravam usurpar privilégios masculinos, passaram a ser vistas como criaturas degenerativas e maléficas.
Percebemos então que as mulheres perversas eram na verdade mulheres assertivas e sexualmente ativas, o que escandalizava a sociedade como um todo e fazia com que os outros as considerassem figuras ameaçadoras, pois ameaçavam a ordem patriarcal e todos os costumes sociais que se conhecia.
O Malleus maleficarum considerava a cobiça carnal insaciável nas mulheres (KRAMER; SPRENGER, 2014, p. 121), e acreditava que a bruxaria se originava dessa luxúria. Assim, as feiticeiras eram consideradas duplamente lascivas (por serem mulheres perversas e por praticarem magia), e acreditava-se que estavam dispostas a ter relações sexuais com demônios para aplacarem sua lascívia.
O Malleus destaca ainda sua capacidade de despertar a luxúria através de feitiçaria e obscurecer a razão: eram “(…) capazes de contaminar a mente dos homens pela paixão desenfreada (…) inflamando de tal forma seus corações, ao ponto de persistirem nesse amor, a despeito da vergonha ou do castigo (…)” (ibid, p. 129).
Bram Dijkstra ressalta que essa necessidade de explorar prazeres bestiais delegava às mulheres perversas uma condição incivilizada, uma vez que cediam aos instintos animais em vez de agir conforme se considerava apropriado pela sociedade – a mulher perversa então era associada à condição animal, ao passado primitivo onde os instintos governavam, pois a bestialidade[4] simbolizava sua não-domesticidade (a recusa em assumir um papel passivo).
Como mencionamos anteriormente, não é de estranhar que a literatura represente essas mulheres assertivas como figuras ameaçadoras – poderosas feiticeiras que agiam como vilãs, perturbando a ordem e ameaçando a sociedade. Consideremos a figura de Circe, por exemplo, que é uma das mais antigas feiticeiras a aparecer na literatura[5]. Durante a viagem de regresso à Ítaca, após o fim da Guerra de Tróia, Odisseu e seus companheiros chegam à ilha de Circe, onde são recebidos por ela – que lhes oferece um banquete para em seguida transformá-los em porcos. Somente Odisseu permanece imune à sua magia, pois o deus Hermes o havia ensino como resistir aos encantos de Circe, assim, ela ameaça matá-la com a espada, e Circe cede, implorando por sua vida.
Se considerarmos a situação de Circe antes da chegada de Odisseu, verificamos que ela não possuía marido ou qualquer tipo de companhia masculina: era uma mulher autossuficiente, senhora de seu próprio castelo, que não necessitava de homem algum para sobreviver. Poderosa e independente, Circe era capaz de subjugar qualquer um que dela se aproximasse: “There were wild mountain wolves and lions prowling all round it- poor bewitched creatures whom she had tamed by her enchantments and drugged into subjection” (HOMER, 2007, p. 122).
Assim, ela parecia ser uma mulher dominadora que se divertia com o poder que possuía, escarnecendo dos homens que cruzassem sem caminho, humilhando-os ao reduzi-los à condição de animais.[6] Circe pode ser considerada então uma mulher perversa, pois transgride os limites de gênero, apropriando-se do poder e independência tipicamente masculinos na ausência de um marido. Por não se mostrar uma figura passiva, mas sim autossuficiente, ela usurpa o poder tipicamente masculino, sendo capaz de dominar qualquer homem que dela se aproximasse e aprisioná-los numa condição submissa, como se transferisse para eles a passividade que deveria pertencer a ela.
Se para a sociedade a mulher deveria ser submissa e, portanto, dominada, através da magia ela consegue impor-se como figura dominante, sendo capaz de empregar seus poderes sobrenaturais para fazer qualquer coisa que desejasse. A feiticeira, portanto, é uma mulher poderosa, capaz de subjugar os homens com sua magia. A dominação que Circe exercia era tamanha que não podemos deixar de mencionar a dominação sexual ali implícita.[7] Para subjugá-la, o deus Hermes havia aconselhado Odisseu da seguinte maneira:
When Circe strikes you with her wand, draw your sword and spring upon her as though you were goings to kill her. She will then be frightened and will desire you to go to bed with her; on this you must not point blank refuse her, for you want her to set your companions free, and to take good care also of yourself, but you make her swear solemnly by all the blessed that she will plot no further mischief against you, or else when she has got you naked she will unman you and make you fit for nothing (HOMER, 2007, p. 124).
A mudança da figura dominadora de Circe para uma mulher dominada é muito interessante, pois enquanto mulher perversa, ela permanecia invencível: uma feiticeira poderosa capaz de dominar qualquer homem. Somente após ser sobrepujada por Odisseu é que ela deixa de mostrar-se hostil e passa a portar-se como uma boa anfitriã.[8] Era como se Odisseu usurpasse sua condição dominante (o papel masculino que até então ela detinha) e impusesse-lhe um papel passivo (tipicamente feminino).
De perversa à boa anfitriã, ao assumir um papel submisso, Circe deixou de ser uma ameaça para Odisseu ou qualquer outro homem, mostrando-se desde então como uma mulher dócil, que prezava a companhia de Odisseu:
Circe, who knew that we had got back from the house of Hades, dressed herself and came to us as fast as she could (…). Then Circe took me by the hand and bade me be seated away from the others, while she reclined by my side and asked me all about our adventures (HOMER, 2007, p. 148).
De certo modo, Odisseu a “civiliza” ao negar-lhe a condição dominadora, colocando-a no “devido lugar” que uma mulher deveria ocupar: servindo e agradando um homem dominante. Sobrepujada, Circe é derrubada de seu trono e passa a atender as necessidades de Odisseu como uma típica dona de casa.
Jadis, a Feiticeira Branca, é outra figura caracterizada como mulher perversa, muito semelhante à Circe: é descrita como uma feiticeira que encanta as terras de Nárnia, fazendo com que sempre seja inverno, mas que o Natal nunca chegue. Além de serem feiticeiras, ambas possuem características tipicamente masculinas: Jadis, principalmente, pois é muito alta e possui imensa força, o oposto da imagem idealizada da mulher fraca e frágil que necessita da proteção de um homem. Autossuficiente, não só era capaz de se proteger, mas mostrava-se incrivelmente violenta, atacando qualquer um com quem se indispusesse: ela facilmente arrancou uma barra de ferro de um poste em Londres e a usou como arma para bater em policiais.
Tanto Jadis quanto Circe transgridem os papeis tradicionais da mulher. Circe, por governar sozinha numa ilha à época da sociedade extremamente patriarcal que era a Grécia antiga: como afirma Evelien Bracke (2009, p. 91), os homens é que eram encarregados de cantar, e por isso as mulheres não poderiam jamais cantar em público. Por aparecer cantando na Odisseia, Circe adotava um papel de gênero incerto – justamente por não ser humana, e por viver sem a companhia de um homem, é que ela adotava essa prática que de outro modo seria mal vista – como se sua independência e autossuficiência a tornasse de certa forma andrógina, apropriando-se de ocupações masculinas na ausência de homens.
Para Bracke, Circe transgride os limites entre gêneros ao apropriar-se de ocupações tipicamente masculinas da Grécia Antiga, como o canto e seu conhecimento herbário, que a tornam extremamente perigosa:
I am not denying Circe’s destructive and fearsome behaviour in the first part of the episode: her danger, however, derives from her transgression of gender-related boundaries rather than from her abilities themselves (…) It is because she is female that her pharmaceutical and singing abilities are dangerous, not because she uses pharmaka and song per se. (BRACKE, 2009, p. 94).
Já a feiticeira Jadis, quando foi a Londres, escandalizou as convenções sociais de por vestir-se de maneira inadequada à época: “– Asneira! – disse tia Lera, virando-se depois para a feiticeira. – Saia desta casa imediatamente, sua sirigaita! Ou eu chamo a polícia! – Achava que a feiticeira era artista de circo e, além disso, não consentia braços nus” (LEWIS, 2002, p. 36). Além do traje inadequado, o comportamento de Jadis dissonava completamente do das damas inglesas:
Fiz o que pude para mostrar-lhe certas normas de civilidade. E qual foi a minha recompensa? A senhora assaltou – repito a palavra –, assaltou um distintíssimo joalheiro. Levou-me a obsequiá-la com um almoço excessivamente oneroso, para não dizer luxuoso, embora para isso eu tivesse de empenhar meu relógio. E, fique sabendo, minha senhora, nossa família não peca pelo hábito de frequentar casas de penhor, a não ser meu primo Eduardo, quando serviu como voluntário da Cavalaria. Durante aquela indigesta refeição, seu comportamento e sua conversação atraíram a desfavorável atenção de todas as pessoas presentes. Sinto que estou socialmente arruinado. Jamais poderei mostrar o meu rosto outra vez naquele restaurante (LEWIS, 2002, p. 44, grifo nosso).
E em outro momento, quando enfrentava uma turba de pessoas e policiais com violência, o tio de Digory novamente chamou-lhe a atenção para seu comportamente socialmente inaceitável:
A feiticeira deu-lhe um chute de calcanhar, atingindo-lhe a boca. Com a dor, lábio cortado, a boca cheia de sangue, Digory soltou o pé de Jadis. De algum lugar próximo chegou-lhe o grito tremido de tio André:
– Minha senhora… minha boa senhora… por favor… por favor… comporte-se (ibid, p. 41).
Circe e Jadis, como mulheres perversas, têm sua alteridade marcada ainda pelo fato de não serem exatamente humanas: Circe descende dos Titãs e Jadis dos gênios e gigantes. O fato de não serem humanas destaca ainda mais sua caracterização desviante, pois apesar de parecerem humanas, não o são, portanto não se comportam como mulheres normais.
Além de sua altura e força fora do comum, a personalidade de Jadis também não correspondia ao que se esperaria de uma mulher: ela era orgulhosa, ambiciosa, cruel, violenta e sedenta de poder: desejava governar todo lugar ao qual ia. Ela disputara o governo de Charn (seu país de origem) com a irmã, preferindo destruir aquele mundo e todos os seus habitantes do que deixar sua irmã ser a rainha. De fato, seu desejo de governar parecia aliado à sua sede de destruição, sugerindo que ela era incapaz de viver em um reino pacífico:
Foi quando soou a voz da feiticeira, clara como um toque de sino e mostrando que, naquele momento pelo menos, ela estava próxima da felicidade.
– Canalhas! Hão de pagar muito caro por isso quando eu tiver conquistado este mundo. Não deixarei pedra sobre pedra nesta cidade. Vou fazer como fiz com Charn, com Felinda, com Sorlois, com Bramandin. (LEWIS, 2002, p. 41).
Jadis era indiferente “à alegria, à justiça e ao perdão” (ibid, p. 69): Lewis tentara descrever sua frieza como simples praticidade: “As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas. São de um espírito prático implacável” (ibid, p. 34).
Apesar da personalidade forte, assim como Circe, Jadis possuía incrível beleza: “(…) uma mulher muito alta (…) com um olhar tão aterrador e soberbo que quase tirava o fôlego. Apesar disso, era bela. Muitos anos depois, já velho, Digory chegou a dizer que nunca vira mulher mais bela em toda a sua vida” (LEWIS, 2002, p. 25). A beleza parece uma característica essencial a essas feiticeiras cruéis, pois como mulheres perversas, são também mulheres sensuais: “Como a feiticeira não estivesse com ele [o tio de Digory] na mesma sala, já se esquecera do quanto ficara aterrorizado, passando a pensar no quanto ela era deslumbrantemente bonita. Ficou repetindo para si mesmo: ‘Que mulher! Que mulher! Que criatura impressionante!’” (LEWIS, 2002, p. 35).
No conto “O sobrinho do mago”, Digory fora enviado por Aslam para colher a maçã da eterna juventude, que seria plantada para proteger Nárnia. Mas, ao chegar à árvore, Digory encontrou a feiticeira, que já havia comido o fruto e, semelhante à Eva na passagem bíblica, tentou convencer Digory a comer a maçã ou levá-la para sua mãe doente, seduzindo-o com suas palavras. Outra vítima da sedução de Jadis foi Edmundo Penvensie. Ela ofereceu-lhe manjar turco encantado (para ele sempre querer comer mais) e prometeu fazê-lo príncipe caso levasse seus irmãos até ela. Para persuadi-lo, ela afirmou jamais ter visto um menino tão inteligente e bonito quanto ele, e disse que se fosse príncipe poderia comer todo o manjar turco que desejasse.
Já a figura de Circe, como já mencionamos, exalava certa dominação sexual, e tentara apaziguar Odisseu oferecendo-lhe seus favores sexuais. Como afirma Evelien Bracke, “Circe’s characterization is construed purely in terms of scatological and carnal pleasure, and she is polarized as dominatrix and whore (BRACKE, 2009, p. 156-157).”
Segunda ela, a figura sexualizada de Circe foi sendo reinterpretada ao longo dos anos, e
One might wonder how the figure of Circe came to be connected with pleasure. This element was present in the Odyssey, but I propose that the subsequent tradition misinterpreted – or rather, reinterpreted – the Homeric narrative. (…) while she did have a sexual relationship with Odysseus in the Odyssey, it was not elaborated on or rendered in romantic terms, as was the case with Calypso. The development in Circe’s representation, however, did not occur in a vacuum: indeed, from the sixth century BCE onward, 281 scholars/philosophers who started interpreting the Homeric epics symbolically – started “allegorizing” – interpreted the encounter of Circe and Odysseus as a battle between Odysseus as “reason”, and Circe as “pleasure”. Socrates was the first (in extant literature) to suggest that Odysseus avoided being turned into a pig because of his self-restraint; his crew, in contrast, were transformed on account of their gluttony, since they were unable to resist the food which Circe offered them (…) For Diogenes – as presented by Dio Chrysostom – Circe symbolizes “pleasure” in all its facets: indeed, her drugs are the ultimate temptation. Men who are weak are reduced to animals, trapped by the pleasures they pursued; only strong, temperate men such as Odysseus can withstand the temptation.
(BRACKE, 2009, p. 160-161).
Já chamamos atenção para o fato de que Jadis e Circe não se comportavam como as outras mulheres da época,[9] o que fazia com que parecessem de certa forma incivilizadas, pois eram incapazes de se adequarem às normas vigentes na sociedade. Esse traço incivilizado transparece ainda em diversos aspectos: a ilha de Circe, por exemplo, era selvagem como ela, pois havia muitas árvores por todo lado e a terra não era cultivada (domesticada) como se encontrava nos campos gregos. Assim, o espaço à volta de Circe refletia sua própria condição indomada. Jadis, por sua vez, governava as terras de Nárnia, habitada por animais e outras criaturas místicas, como gigantes, ninfas e minotauros, mas não humanos. Ou seja, o local a sua volta também era um ambiente incivilizado que refletia sua própria condição:
– Que mundo medonho! – exclamou a feiticeira. – Temos de fugir imediatamente. Prepare a magia.
– Estou perfeitamente de acordo, madame! – falou tio André. – Que lugar mais desagradável! Sem qualquer civilização! (LEWIS, 2002, p. 43).
Detestando aquele lugar, ela tenta agredir Aslam, que acaba de criar aquele mundo, atirando a barra de ferro em cima dele. Como ele não mostra sinais de que ficou abalado com o ataque, ela corre para longe dali, como se não suportasse permanecer na presença do leão.
É curioso reparar que Jadis chegara à Nárnia no momento de sua criação, mas não fora capaz de conquistá-la naquele momento: Aslam coroou um homem e uma mulher como rei e rainha de Nárnia, e pedira para Digory plantar uma árvore que manteria a feiticeira afastada por muito tempo:
E vocês, narnianos, cuidem, antes de tudo, desta árvore, que é o seu escudo. A feiticeira de que lhes falei fugiu para o norte do mundo. Lá viverá e ficará mais forte em magia negra. No entanto, enquanto esta árvore florir, jamais voltará a Nárnia. Não ousará aproximar-se cem quilômetros da árvore, pois seu perfume, que é alegria, vida e saúde para vocês, é morte, horror e desespero para ela (LEWIS, 2002, p. 68).
Durante esse tempo – em que a árvore floria e Nárnia possuía seres humanos[10] – a feiticeira não pôde conquistar suas terras. Somente quando os humanos desaparecem de Nárnia é que Jadis retorna e toma o poder, dominando os animais. De igual modo, seu reinado só chega ao fim quando os humanos novamente vão para Nárnia.
Ao escolher que um homem e uma mulher reinassem, Aslam procurava de certo modo civilizar aquela terra, como se os animais, sozinhos, não pudessem fazê-lo. Centenas de anos depois, quando a feiticeira conquista Nárnia e se autointitula sua rainha, não existiam mais humanos por lá, e os animais sequer se lembravam de que já haviam existido, por isso quando os penvensies aparecem em Nárnia, muitos narnianos e a própria feiticeira não os reconhecem como humanos, perguntando que espécie de criatura se tratavam. É interessante reparar que a feiticeira só pudesse reinar enquanto não houvesse humanos em Nárnia: havia uma profecia de que Jadis só seria derrotada quando quatro humanos chegassem à Nárnia para governá-la, pondo fim “à aflição” (LEWIS, 2002, p. 100), ou seja, um lugar incivilizado, governado por uma mulher selvagem, só poderia ter paz se fosse governado por seres humanos, que o civilizariam. Assim, se os humanos eram inimigos da Feiticeira, então a civilização também o era, e Jadis só teria poder em Nárnia enquanto este permanecesse um país incivilizado.
Embora fosse Aslam, o grande leão, quem de fato matou Jadis, ele sozinho não era capaz de enfrentá-la – e a feiticeira somente seria derrotada chegada dos humanos: “Uma velhíssima tradição de Nárnia já anunciava que, quando dois Filhos de Adão e duas Filhas de Eva se sentarem nos quatro tronos, então será o fim, não só do reinado da feiticeira, mas da própria feiticeira” (LEWIS, 2002, p. 100).
Podemos concluir que Aslam, apesar de seu imenso poder e força, não poderia derrotar a feiticeira sozinho porque sua destruição estava atrelada ao advento da civilização em Nárnia, e, “(…) como sabem, ele é selvagem. Não se trata de um leão domesticado (LEWIS, 2002, p. 132, ênfase do autor), portanto Aslam era incapaz de civilizá-la, necessitando da ajuda dos penvensies.
Jadis, como mulher perversa, só permanecia uma figura dominadora enquanto soberana num local dominado pelos instintos animais. A partir da chegada dos humanos, ela perde sua soberania, como se não pudesse sobreviver num mundo habitado por seres humanos – ou seja, os animais eram a condição de seu reinado. Circe, por sua vez, permanecia senhora do seu castelo (e de sua ilha) transformando os homens em animais, que poderia dominar mais facilmente – a dominação exercida por essas mulheres transparece então em seu poder de transfiguração: se Circe transformava os homens em animais, Jadis transformava os animais em estátuas, que deixava espalhadas ao redor de seu castelo, como se fossem peças decorativas celebrando seu poder.
Outro aspecto comum entre Circe e Jadis que deve ser mencionado é que ambas possuem varinhas mágicas: um objeto que canaliza e direciona seu poder mágico. Pelo seu formato fálico, e principalmente por se tratarem de mulheres perversas, podemos interpretá-las como símbolo do poder masculino que essas mulheres usurpavam (em outras palavras, simbolizavam o órgão masculino que lhes faltava na apropriação do outro gênero). Como um objeto mágico, a varinha simbolizaria o poder masculino: ação (ao contrário de passividade), força, potência etc.
Considerando a varinha como centro do poder da feiticeira, anular o poder da varinha (seja destruindo-a, separando-a da feiticeira ou simplesmente neutralizando-a, como faz Odisseu ao carregar ervas que o tornavam imune à magia de Circe) seria o mesmo que anular o poder usurpado pela feiticeira – destruindo assim a ameaça representada por ela e por extensão neutralizando seu papel dominador ao tornar sem efeito o símbolo do poder masculino usurpado por elas: em outras palavras, é como se castrassem essas feiticeiras, relegando-as novamente à condição de passividade feminina. No caso de Jadis, esta se mostrava impossível de ser derrotada enquanto de posse da vara mágica:
Foi tudo obra de Edmundo, Aslam! – disse Pedro. – Se não fosse ele, estávamos derrotados. A feiticeira ia petrificando as nossas tropas. Nada havia que a detivesse. Edmundo, lutando sempre, conseguiu abrir caminho entre os ogros e chegar ao local onde ela acabava de transformar um leopardo em pedra. Ele teve o bom senso de arrebentar a vara mágica com a espada, em vez de atacar diretamente a feiticeira, como os outros vinham fazendo, em vão. Quebrada a vara, começamos a ter alguma chance (…) (LEWIS, 2002, p. 130, grifo nosso).
Quanto a Circe, só foi sobrepujada por Odisseu porque ele mostrou-se imune ao toque da sua varinha mágica que, não surtindo efeito, deixou Circe indefesa, ao que Odisseu rapidamente explorou, dominando-a com sua força física.
Se a mulher perversa é considerada incivilizada e associada aos instintos animais, essas mulheres poderosas deixam de ser dominadoras no momento em que são “civilizadas”, quando perdem o poder que detinham e são subjugadas em papéis passivos, geralmente impostos por figuras masculinas (no caso, Odisseu[11] e Aslam) e pelo advento da própria civilização, que é levada à Nárnia pelos quatro Penvensies.
REFERÊNCIAS
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THOMAS, Keith. Religion and the Decline of Magic. London: Penguin, 1971.
NOTAS AO TEXTO
[1] A partir do século XVIII, a imagem idealizada da mulher era um símbolo de passividade e feminilidade, que na época configurava sinônimos para frigidez sexual. Foram escritos vários manuais de etiqueta normatizando determinados comportamentos (casta, delicada, modesta, gentil), assim como obras ficcionais que representavam esse ideal de mulher idealizada.
[2] As Weird Sisters de Macbeth, por exemplo, possuíam barbas.
[3] O mundialmente famoso tratado em prol da caça às bruxas, que foi utilizado como manual em vários tribunais. Escrito por inquisidores católicos, defendia a ideia de que a mulher era inferior ao homem, sendo mais fraca no corpo e na mente, portanto mais impressionável pelo diabo, tendo em vista sua dificuldade em preservar a fé.
[4] Acreditava-se ainda que essas mulheres perversas, por serem lascivas, despertavam a bestialidade no homem, provocando-lhe instintos animais através de sua sexualidade.
[5] Acredita-se que a Odisseia tenha sido escrita por volta do século VIII a.C.
[6] Seu palácio era cercado por animais que ela transformara ao longo dos anos, como se de certo modo ela os “colecionasse”, mantendo-os à sua volta para continuar escarnecendo deles e assim satisfazer o seu sadismo.
[7] Se a mulher perversa despertava instintos animais no homem, no caso de Circe isso ocorreria inclusive literalmente, pois com sua magia ela obrigava os homens a assumirem uma forma animal.
[8] Ela banha Odisseu e lhe oferece um banquete, além de seus favores sexuais.
[9] Circe, como já mencionamos, não se comportava como se esperava de uma mulher na Grécia Antiga. Quanto a Jadis, em O sobrinho do mago, ela fere as normas sociais da Londres do final da era vitoriana (o conto se passa por volta de 1900), época em que as normas sociais eram ainda muito importantes. O outro conto em que Jadis aparece, O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, se passa durante a segunda guerra mundial, momento em que a mulher começava a deixar o ambiente doméstico para ingressar no mercado de trabalho para suprir a mão-de-obra vaga devido à ida dos homes para o front de batalha. Foi um momento de imensa polêmica, pois muitos alegavam que ao assumir serviços tipicamente masculinos (operando máquinas em fábricas, por exemplo) a mulher estava se masculinizando.
[10] O rei e a rainha coroados por Aslam naquela ocasião tiveram muitos descendentes, e a feiticeira não retornou por centenas de anos.
[11] Como já mencionamos, quando Circe é incapaz de transformar Odisseu em um animal, ela perde sua soberania, passando a mostrar-se submissa ao homem que a domina.
Bio fornecida pelo palestrante.
Priscila Campolina de Sá Campello
Pontifícia Universidade Católicas de Minas Gerais (PUC Minas)
Sumário: O presente trabalho pretende analisar o conto “Aeroporto”, da escritora egípcio-estadunidense Pauline Kaldas, tendo como ponto de partida as motivações que levaram os dois protagonistas a consentirem em um casamento arranjado, como também as expectativas e justificativas que eles vão apresentando para isso ao longo do texto. Essa análise toma como base as teorias que permeiam a escrita de imigrantes, pois é nessa condição, do imigrante como um ser movente e fluido, que se verifica a necessidade de negociação e adaptação, tanto pelo indivíduo que ainda vive no seu país de origem, quanto por aquele que está a caminho e passará por várias experiências novas e desafiadoras. Nessa discussão, pretende-se também refletir sobre a estrutura do texto de Kaldas, no qual a justaposição de duas histórias vai, aos poucos, revelando os dois polos/indivíduos que serão eventualmente unidos e desvelados ao longo do texto.
Palavras-chave: Casamento. Diáspora. Literatura árabe-estadunidense. Pauline Kaldas.
Abstract
This paper aims to analyze Pauline Kaldas’ short story “Airport.” It will take into consideration the motivations that led the two protagonists to consent to an arranged marriage, as well as the expectations and how they justify themselves throughout the text. This analysis is based on the theories that permeate immigrant writing, since it is in this moving and fluid condition that it appears the need for negotiation and adaptation by the individual who lives in his country of origin as the one who is on his way and will face many challenging and new experiences. It also reflects on the structure of Kaldas’ text, in which the juxtaposition of two stories gradually reveals the two poles/individuals that will eventually be united and unveiled throughout the text.
Keywords: Marriage. Diaspora. Arab-American Literature. Pauline Kaldas.
Minicurrículo: Priscila Campello é formada em Letras – habilitação Inglês – pela UFMG. Cursou o mestrado em Literaturas de Língua Inglesa e o doutorado em Literatura Comparada, ambos na UFMG, e realizou o doutorado sanduíche na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. É professora adjunta de literaturas em língua inglesa desde 2001 na PUC Minas, onde é colaboradora do Programa de pós-graduação em Letras. Desenvolve pesquisa na área de literatura feminina, com foco nas literaturas de imigrantes, principalmente a árabe-estadunidense.
O QUE ESPERAR DE UM CASAMENTO ARRANJADO ENTRE SUJEITOS DIASPÓRICOS,
EM “AEROPORTO”, DE PAULINE KALDAS
Priscila Campolina de Sá Campello
PUC Minas
Uma das práticas mais comuns nas culturas árabes, e amplamente retratadas na literatura de autores de ascendência árabe, nos Estados Unidos, é a do casamento arranjado entre jovens. As razões para isso vão desde a manutenção dos mesmos valores e costumes entre as famílias até a necessidade de se realizar uma união com um indivíduo de uma condição financeira melhor e, assim, garantir um certo status social e também um futuro tranquilo. Além disso, a questão religiosa também é relevante para esse arranjo, pois o casamento constitui “o único canal legítimo para a sexualidade e a reprodução” (SHERIF-TRASK, 2003, p. 135).
No conto “Aeroporto”,[1] da escritora egípcio-estadunidense Pauline Kaldas, apresenta-se uma narrativa que se desenvolve a partir das perspectivas de dois jovens egípcios, Samir e Hoda, que se casarão nos Estados Unidos, celebrando uma união viabilizada por meio de um arranjo estabelecido entre seus parentes. A história se desdobra a partir da memória dos noivos, enquanto o rapaz está em Boston, no aeroporto, à espera da moça, e ela, por sua vez, no Egito, arrumando suas malas para a viagem. Devido à diferença de fuso horário, desenrola-se a produção de duas narrativas paralelas, que apresentam as expectativas e a trajetória dos nubentes antes de se encontrarem no destino final da moça.
Assim, começo essa análise a partir da apresentação dos dois personagens principais. Primeiramente, depara com Samir, um rapaz egípcio de 30 e poucos anos, cujos últimos anos foram vividos nos Estados Unidos. Sua saída do Egito deve-se às poucas possibilidades profissionais oferecidas pelo seu país e ao fato de que, mesmo se tivesse conseguido um diploma universitário, como, inicialmente, se propôs, ao entrar na faculdade de agricultura, acabaria tornando-se um vendedor de cigarros em um quiosque qualquer. Temendo esse malfadado destino, inscreveu-se na “loteria” pelo green card e, por um golpe de sorte, acabou recebendo a licença e mudando-se. Ao chegar ao país hospedeiro, Samir encontra bastante dificuldade em se adaptar, devido ao seu deficiente conhecimento linguístico, baixa escolaridade, pouca disponibilidade financeira e uma enorme insegurança em lidar com as novas situações. Ele, por exemplo, prefere comer sempre no mesmo restaurante e pedir o mesmo prato para não ter que lidar com a possibilidade de não entender o cardápio ou não poder pagar alguma outra escolha.
Abro aqui um parêntese para ressaltar a necessidade que o imigrante tem de encontrar elementos de identificação em meio às novidades e diferenças. Ao repetir, ocasionalmente, o pedido por comidas fritas, no restaurante chinês, conforme aprendera com colegas de trabalho, em uma ocasião em que saíram juntos após o expediente, Samir está recorrendo, justamente, a elementos que lhe são muito familiares, como o gosto e o cheiro de frituras que sua mãe preparava e que lhe trazem sentimentos de segurança, identificação e pertencimento. Segundo Michel de Certeau e outros, em A invenção do cotidiano,
(…) quando alguém é forçado ao exílio pela conjuntura política ou pela situação econômica, o que subsiste por mais tempo como referência à cultura de origem é a comida, se não para a refeição cotidiana, pelo menos para os dias de festa. É uma maneira de mostrar a pertença a outro solo (DE CERTEAU, 2008, p. 250).
Dessa forma, Samir mantém o vínculo com a sua terra natal e sua família e reafirma sua condição de sujeito deslocado.
A vida de Samir, no entanto, toma uma guinada mais positiva e promissora a partir do momento em que seu patrão, no restaurante onde lavava pratos, descobre sua habilidade para consertar objetos com defeitos. Ao ser indicado para trabalhar em uma loja especializada em consertos, Samir passa a levar uma vida menos sacrificada, além de estar fazendo algo de que gostava e sabia de fato executar. Há aí uma injeção de confiança em sua autoestima, afinal, havia “achado seu nicho nesse país que podia fazer tantas coisas, mas não sabia como consertar o que quebrava” (KALDAS, 2009, p. 24).
Em paralelo, apresenta-se também Hoda, uma jovem egípcia, de, aproximadamente, 25 anos, mestranda em química, que não está disposta a se casar com qualquer rapaz escolhido por sua família e que deseja trabalhar e ser diferente daquelas mulheres egípcias, cujas vidas se resumem a serem apenas esposas, mães, donas de casa.
Não era que ela não quisesse se casar. Ela sempre teve esperanças de que sua vida seria com um parceiro, e em algum momento ela esperava ter filhos. Mas sabia que não queria a vida que via ao seu redor. Mulheres arrastando seus afazeres como correntes, limpando a casa, lavando roupas, cozinhando, tudo para os outros. Ela havia visto amigas se casarem com 18 e 19 anos, às vezes até com homens de sua própria escolha a quem amavam. No primeiro ano, a vitalidade delas dissolvia-se como cristais de açúcar em água. Prever sua vida desse modo a amedrontava, seus dias preenchidos com os cuidados da casa e da família, seu corpo ficando pesado com a inatividade de seu cérebro (KALDAS, 2009, p. 24).
Para ambos, o casamento havia-se tornado uma necessidade. E suas famílias trataram de arranjar os devidos parceiros para os dois. Samir explicitou ao irmão, no Egito, que “precisava de alguém que pudesse ficar nesse mundo ao seu lado, talvez até guiá-lo um pouco”. Ele necessitava de “uma mulher que tivesse estudo, que soubesse bem inglês, que quisesse trabalhar; uma mulher que pudesse nadar em águas profundas” (KALDAS, 2009, p. 25). Já Hoda não queria ser uma solteirona e despertar “pena ou desconfiança”, portanto, casar-se com um homem como Samir seria sua chance de “conseguir um emprego de verdade, fazendo pesquisa, trabalhando com alguém que a levaria a sério (…)” (KALDAS, 2009, p. 25). Se, por um lado, observa-se um protagonista que vive, há anos, distante do seu país de origem e que já está relativamente adaptado ao país hospedeiro, por outro, há uma noiva que está à frente da sociedade conservadora e patriarcal de seu país de origem e aceita essa união por perceber nela a oportunidade de poder realizar os seus desejos e ideais “modernos” e avançados para aquela sociedade.
É possível afirmar que o casamento arranjado resolve questões importantes na vida desses personagens. A primeira delas é, em termos gerais, a que se refere à necessidade de se casar, tanto para o homem, que precisa de uma mulher para cuidar dele e da casa, para lhe dar filhos e continuidade à sua linhagem, como para a mulher, que, em uma sociedade patriarcal, machista e conservadora, não é bem vista como solteira e independente. A segunda questão, considerando que se trata de dois personagens que, de certa forma, fugiram à regra, em seu país de origem (um homem que foi em busca de condições de vida melhores e uma mulher que não quer ser mais uma dona de casa, esposa e mãe), remete à necessidade de reduzir os problemas advindos da diferença cultural. Casar-se com uma pessoa da mesma cultura, mesmo que ela não tenha sido escolhida pelas próprias partes interessadas, em uma união arranjada pelo interesse de suas famílias, minimiza possíveis desencontros e conflitos que possam surgir entre pessoas de diferentes culturas. É um obstáculo a menos a ser enfrentado e menos trabalhoso para ambos os lados. Claro que nada impede o surgimento de problemas de incompatibilidade, como ocorre com tantos outros casais, mas, ao considerar que ambas as partes possuem a mesma origem cultural, linguística, e uma proximidade de valores e costumes, a fase de adaptação e conhecimento cultural possivelmente será bem mais curta e menos problemática. Uma terceira questão ainda a ser considerada, nesse caso, é a da aceitação do modo de ser do outro.
Para Samir, havia a necessidade de encontrar uma mulher independente, estudada, fluente em inglês. Assim, ele não precisaria cuidar dela e ensinar-lhe tarefas básicas, uma vez que Hoda já apresentava desenvoltura suficiente, por ser culta, ocidentalizada, aberta para o novo e resistente a algumas tradições/costumes de seu país de origem. Embora uma mulher com o perfil desejado por Samir pudesse também ser uma fonte de problemas, conforme a opinião de seu irmão, devendo, com essas características, permanecer solteira, Samir não queria ninguém diferente: “Seu irmão argumentou que ele estava procurando confusão, que esse tipo de mulher deveria permanecer solteira. Mas Samir foi insistente e disse que não aceitaria outra coisa” (KALDAS, 2009, p. 25).
Já para Hoda, Samir indicava ser um homem menos conservador e tradicional, por já estar fora do Egito há um certo tempo. Ele já estava relativamente ocidentalizado e aberto a uma mulher que não fosse tradicional, que desejava ser independente, trabalhar e não reproduzir o papel/lugar destinado às mulheres nas culturas árabes. E, além disso, Hoda resolveria uma questão pessoal que era o seu próprio estado civil. Ao se casar com Samir e poder trabalhar, ela não iria fazer exatamente o que mais temia: “cair no padrão repetido por outras mulheres” egípcias (KALDAS, 2009, p. 25).
Desse modo, é possível afirmar que, embora o encontro deles se dê por meio de um casamento arranjado, carregado do que há de mais tradicional e mecânico em uma relação entre dois indivíduos, em que o amor não é a base inicial, é exatamente essa união que funcionará como a salvação de suas condições contraditórias e não convencionais e que também possibilitará que eles se posicionem como seres hifenizados e ansiosos por expressarem suas “reais” identidades.
Ao final do texto, quando Hoda está terminando de fazer suas malas, ela resolve levar apenas metade de tudo que possuía, tanto em relação às peças de roupa quanto aos outros itens pessoais. É justamente nesse ato de separar apenas a metade dos seus pertences que se explicita a divisão interna desse sujeito. Deixar metade para trás demonstra o lugar onde Hoda se encontra, entre dois países, duas vidas, duas culturas, duas línguas, duas experiências. Para Nubia Hanciau (2005, p. 135), o sujeito hifenizado “(…) é alguém que está in/conscientemente situado entre pelo menos dois mundos, duas culturas, duas línguas e duas definições de subjetividade, constantemente mediando entre elas (…)”. A arrumação das malas aponta para um possível comportamento de negociação que Hoda pretende adotar e que lhe ajudará a mediar seu processo de adaptação na nova terra.
Acredito que seja a partir dessa mediação entre os dois mundos, em que o sujeito não rompe definitivamente com a sua origem e o seu passado, que se configurará a sobrevivência de Hoda no novo lugar. E o mesmo ocorre com Samir, ao querer casar-se com uma mulher egípcia com características mais ocidentais. Edward Said afirma que
(…) o exilado vive num estado intermediário, nem de todo integrado ao novo lugar, nem totalmente liberto do antigo, cercado de envolvimentos e distanciamentos pela metade; por um lado, ele é nostálgico e sentimental, por outro, um imitador competente ou um pária clandestino” (SAID, 2005, p. 56).
Uma mulher egípcia seria a ligação de Samir com o seu mundo pré-exílio, sua família, língua, origem, e quem sabe até mesmo com as comidas fritas que sua mãe fazia, ou seja, a representação do lado nostálgico e sentimental a que Said se refere. Já a mulher estudada e que queria trabalhar apela para o lado do “imitador competente”, principalmente em uma cultura (no caso, a estadunidense), em que as mulheres já estão concorrendo em pé de igualdade com os homens.
Com fundamento nessas observações feitas até aqui, pode-se dizer que o texto de Pauline Kaldas se constrói à medida que se apresentam, de forma justaposta, os personagens. Os parágrafos se intercalam, ora Samir está em evidência, ora Hoda. Gradativamente, o leitor é apresentado aos personagens, por meio de suas histórias e suas versões, mesmo que em uma narrativa em terceira pessoa. O que chama a atenção é que, em várias passagens, os sentimentos (de dúvida, preocupação etc) e as ações dos noivos se assemelham, demonstrando, assim, que a expectativa e a ansiedade são mútuas, parecidas e até universais. Reforço aqui o caráter universal e humano dos sujeitos diaspóricos, independentemente do caminho a ser trilhado – seja em direção ao país hospedeiro, ou ao país de origem – do tempo no exílio e do objetivo do seu deslocamento geográfico.
Há duas passagens que valem a pena serem citadas para ilustrar o paralelismo e a simultaneidade do que estava ocorrendo com os personagens e que sinalizam para a expectativa que a viagem de Hoda e, consequentemente, o início da vida a dois geravam. A primeira passagem narra o dia da chegada da noiva aos Estados Unidos. Samir acorda cedo para buscá-la e demonstra estar bastante ansioso com a aproximação da hora de ver Hoda. No aeroporto, inclusive, resolve apenas beber uma xícara de café, pois temia que algum outro alimento revirasse seu estômago. O parágrafo assim se inicia: “Eram onze horas da manhã de domingo. Ele havia acordado cedo, um pouco antes das seis, apesar de ter ficado até tarde limpando seu pequeno apartamento”. E assim se fecha: “Estava muito quente para beber, então ele apenas podia ficar sentado, os sons do aeroporto se misturando até que se tornaram um murmúrio constante em sua cabeça” (KALDAS, 2009, p. 20). Hoda também passa pelo mesmo processo, mas sua noite anterior havia sido uma noite de despedidas. “Eram onze horas da manhã de sábado. Ela havia acordado cedo, um pouco antes das seis, apesar de ter ficado até tarde se despedindo de amigos e parentes”. Esse mesmo parágrafo a respeito da noite de Hoda termina assim: “(…) fez uma xícara de café apesar de raramente o beber. (…) Sentou-se na cozinha quase em transe até que seus ouvidos tornaram o barulho do lado de fora em um murmúrio constante em sua cabeça” (KALDAS, 2009, p. 21). O murmúrio na cabeça dos dois reproduz o turbilhão de emoções que a mudança que estava prestes a acontecer estava causando a eles.
Vê-se que, embora em países e culturas diferentes, os dois estavam reagindo da mesma forma diante dos fatos que estavam por vir. As poucas horas de sono, a escolha da mesma bebida, o murmúrio na cabeça, tudo isso ocorre aos dois, independentemente de onde se encontram, do gênero, da idade, da profissão. O fato de optarem pelo café, uma bebida originária da África, mas difundida pelo mundo, por meio do Egito e da Europa, e de grande importância para o mundo árabe, também sinaliza para o fato de recorrerem a algo familiar, aconchegante e protetor, especialmente Samir, que está distante de sua terra natal. Segundo Gláucia Gonçalves, muitos dos personagens retratados por escritores contemporâneos de origem árabe nos Estados Unidos “se agarram à comida [aqui, no caso, à bebida também] (…) como forma de equilibrar a ambivalência de suas próprias existências híbridas” (GONÇALVES, 2010, p. 158).
Um segundo exemplo da simultaneidade e do paralelismo que unem as histórias de Samir e Hoda é a dúvida sentida por ambos em relação a esse outro que estão prestes a encontrar. Como não se conhecem, o texto demonstra que a expectativa passa também pelo medo e desconhecimento, não só diante da situação, mas também desse sujeito que agora fará parte da vida de cada um deles. Samir reflete:
Ela estaria no avião? Foi o irmão dele que havia escrito com as informações do voo. Ele havia recebido uma carta dos pais dela, aceitando seu pedido e dando sua bênção. Todo o resto, assinar os papéis do casamento, processar os documentos da imigração, havia sido feito por seu irmão. E havia demorado mais tempo do que o esperado, quase dois anos preenchendo formulários, apresentando provas disso e daquilo, até que ele sentiu que sua vida havia sido transformada em uma pilha de papéis. De vez em quando, ele se esquecia do propósito por trás de tudo isso, que isso finalmente o levaria a se casar com alguém que ele não conhecia. Às vezes, o medo perpassava pelo corpo de Samir. Talvez ele devesse ter ouvido quando seu irmão havia insistido para que ele retornasse para o Egito, para ele próprio escolher uma esposa” (KALDAS, 2009, p. 21).
Talvez, o trecho mais simbólico dessa passagem seja o fato de que Samir não tenha escolhido Hoda sozinho, mas que tenha sido uma escolha do irmão, conforme as suas especificações. O medo e o desconforto, portanto, passam pelo fato de que ele tenha delegado essa tarefa. Assim, que garantia ele teria que ela estaria naquele avião? Que garantia ele teria que aquilo daria certo?
Hoda, por sua vez, também compartilha da mesma dúvida:
Ele estaria lá? O que ela estava fazendo indo para outro país para se casar com um homem que nem conhecia? Seus pais haviam ajudado a convencê-la de que isso seria o melhor para ela. “Ele vem de uma boa família e, além disso, está na América e não são muitas pessoas que conseguem ir para lá”. “Além disso”, seu pai continuou, “essa tal de América é mais apropriada à sua natureza independente”. “Sim”, sua mãe complementou, em um tom resignado, “e lá eles gostam de pessoas com estudo”. (…) “Você tem um diploma universitário”, argumentaram os pais, “e está com 21 anos agora. Procure por um marido. Está na hora de se acomodar” (KALDAS, 2009, p. 22).
Os argumentos dos pais de Hoda são uma forte evidência da necessidade de se aceitar esse casamento, mesmo que seja com um desconhecido e em um outro país. Para Hoda ser livre e poder ser quem ela gostaria de ser, ela teria que se submeter a esse arranjo e, necessariamente, distanciar-se fisicamente daqueles que a oprimem (correndo o risco, evidentemente, de Samir reproduzir sua cultura, nos EUA). Essa passagem aponta também para a forma como as mulheres são vistas no Egito. Não há lugar para mulheres independentes e estudadas ali. Além de a reputação feminina ser julgada pelo estado civil, o excesso de independência e o grau de escolaridade também eram mal vistos naquela sociedade.
Desse modo, verifica-se que o movimento diaspórico permite a esses sujeitos que se posicionem entre dois polos, sejam eles linguísticos, culturais, geográficos, e até intelectuais. O casamento, para Samir e Hoda, passa a ser o passaporte para que eles possam realizar-se mais plenamente, mesmo que ele se dê pela via dos interesses de seus familiares. Ambos os personagens encontram, nessa instituição e um no outro, a âncora para a sua sobrevivência em um mundo (e, especialmente, em uma cultura) que demanda e pressiona que as pessoas se casem.
Como se viu, o texto de Kaldas expõe o percurso dos seus dois protagonistas, que se estão preparando para o encontro, que se dará, primeiramente, no saguão de um aeroporto, espaço que, por excelência, reúne sujeitos em trânsito, cheios de expectativas e esperanças no que está por vir. Embora, para Samir, seja bizarro o fato de um país utilizar-se de uma loteria para tomar suas decisões relativas à imigração, tanto ele quanto Hoda apostaram, como em um jogo, que suas vidas poderiam ser melhores a partir de um encontro arranjado entre dois desconhecidos.
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[1] O título e os excertos do conto aqui analisado foram traduzidos pela autora do artigo.
Bio fornecida pelo palestrante.
Suely Leite
Universidade Estadual de Londrina
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo discutir as representações femininas e suas bases discursivas no conto “Gertrudes e seu homem”, da escritora Augusta Faro. Em tempos pós-modernos, a autora nos apresenta uma personagem construída sobre bases do pensamento patriarcal e que vem acompanhada de elementos insólitos, o que nos proporciona uma reflexão acerca das condições femininas fundadas em conceitos extremamente cristalizados socialmente e que nos parecem, hoje, estranhos.
Palavras-chave: representações de gênero; conto; autoria feminina; Augusta Faro.
Abstract: This paper aims to discuss the female representations and their discursive bases in the story “Gertrudes e seu homem”, by Augusta Faro. Writing in the post- modern mode, this author presents a character built on the foundations of patriarchal thinking, but she brings in some unusual elements that make us reflect on women’s conditions. These are based on social concepts that are crystallized to such a point that they appear to us as insolit.
Key-words: gender representations; tale; female authors; Augusta Faro.
Minicurrículo: Suely Leite é professora adjunta do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina e docente do Programa de pós-graduação em Letras da UEL, com doutorado na área de Letras e pesquisas em literatura feminina e análise do discurso. Atua nas disciplinas de Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Vozes femininas na literatura de autoria feminina. É coordenadora do projeto de pesquisa “Relações de gênero e representações literárias na literatura de autoria feminina” e líder do projeto de pesquisa cadastrado no CNPq, intitulado “Legado intelectual e produção literária de autoria feminina na América Latina”.
A IDEALIZAÇÃO DO AMOR EM “GERTRUDES E SEU HOMEM”, DE AUGUSTA FARO.
Suely Leite
Universidade Estadual de Londrina
A escrita feminina contemporânea tem muitos motes, entre eles a questão da condição e da identidade feminina. No rol dessa temática destaca-se a obra de Augusta Faro. Em prefácio escrito pelos organizadores da obra Augusta Faro: contemplações críticas encontramos a seguinte afirmação:
Apesar da escritora goiana ter iniciado na poesia e na literatura infanto-juvenil é indiscutível que sua contística reunida em A Friagem (1998) e em Boca benta da paixão (2007) repercutiu no campo literário ao ponto de extrapolar as fronteiras regionais e ser reconhecida por uma parcela da crítica como uma das linhas de força da literatura de autoria feminina contemporânea (Carvalho Brito; Anjos, 2014, p. 7).
De fato, a autora tem despertado o interesse sobre sua obra, que percorre os meandros do universo fantástico e da temática sobre as mulheres. Obra lírica e ao mesmo tempo política, seus textos apontam para uma escrita e estilo próprios que fazem de sua ficção contemporânea o terreno próprio do insólito e das discussões sobre gênero.
O conto escolhido para esse trabalho intitula-se “Gertrudes e seu homem”, e foi publicado na antologia 25 Mulheres que estão fazendo a literatura hoje (2004) de Luís Ruffato. (As demais citações serão feitas a partir desta edição). Em 2012, a cineasta Adriana Rodrigues produz o curta homônimo ao conto e ganha a premiação da Mostra Curta Goiás, festival que contava, naquele ano, com doze edições.
Em “Gertrudes e seu homem” o discurso feminino se constrói na relação conturbada que a protagonista tem com as mulheres de sua pequena cidade. Como costureira, Gertrudes recebe muitas clientes em casa e vai, aos poucos, construindo uma imagem de mulher sensual muito amada pelo marido. Tal configuração desperta nas clientes a curiosidade de conhecer o tal marido, o homem amado, amante. A primeira referência que temos sobre a influência desse amor idealizado sobre Gertrudes e as outras mulheres da cidade é uma alusão à vivacidade. Algo existia em Gertrudes e seus tecidos, com vivas cores. Denis de Rougemont, em seu livro O amor no ocidente (1988, p. 15), afirma que o ideário amoroso é uma expectativa na vida de todos nós, é uma promessa “de vida mais viva”. Assim é Gertrudes, encantada pela vida, pelas cores e o grande responsável por essa alegria de viver é Romão.
Partimos do princípio de que esse texto nos permite descortinar a construção das identidades femininas, pelo viés das imagens, símbolos e valores representados na narrativa ficcional. O primeiro parágrafo apresenta a personagem como um ser amargurado, sorriso de penumbra e com um olhar de profunda solidão. A expectativa despertada no leitor é de se confrontar com uma estória triste que descortine dores e apresente uma condição feminina instaurada em decepções e sofrimentos. Porém, o que segue é o relato da mudança de Gertrudes para uma cidadezinha na qual ela monta seu ateliê de costura e começa a tecer uma imagem de mulher prosa, mergulhada na grandeza do amor de seu homem. Mas ainda assim, o narrador alerta o leitor que “as amarguras de Gertrudes iam atrás dela” (p.127), embora apenas narrador e leitor tenham consciência dessa presença triste por trás da mulher amante e amada.
Gertrudes marca sua presença no mundo pela imagem associada a do marido Romão: “todo mundo, que frequentava o ateliê de costura, sempre ouvia as estórias de Romão, esse nome sempre envolto em onírico mistério ruidoso, palpável e, sobretudo, impenetrável” (p.128). A relação entre os dois é sempre descrita por Gertrudes como a mais idealizada possível: são amantes, companheiros, atenciosos um para com o outro. A presença de Romão é marcada por mistério e erotismo, que o narrador faz questão de frisar: “sempre um presente acompanhava o retorno daquele rapaz, escalavrado de vítrea aura impermeável, e que sufocava o ambiente com um perfume de macho saudável, vigoroso e quase satisfeito plenamente” (p.128).
Podemos observar que a representação do feminino é centrada na vida familiar. Gertrudes possuía um exímio talento para plantar, cozinhar, rendar, bordar e arrumar, ou seja, atividades relativas ao lar. As ações de Gertrudes buscam sempre recriar um ambiente doméstico de perfeita harmonia. A relação entre Gertrudes e Romão é uma relação de sujeição. A subordinação da figura feminina diante da masculina é apresentada pelo narrador em dois momentos: um primeiro momento e de maneira sutil, a desigualdade aparece nos papéis sociais em que os dois ocupam. Romão era viajante e não tinha porto, condição que ressalta o lugar do homem na esfera pública e da mulher na esfera privada. Gertrudes era costureira, tinha um atelier em casa e se dedicava em cumprir o seu papel de rainha do lar “e Gertrudes fazia bolo e broa, peta e biscoitos, rocamboles com frutas cristalizadas, tão perfumadas, e abarrotava de quitutes o guarda-comidas” (p. 128).
Sendo assim, a figura de Romão se impõe na narrativa como uma figura dominadora, que transforma sua virilidade física em virilidade simbólica. A imagem que Gertrudes constrói de Romão é embasada na necessidade de o homem se mostrar forte, soberano e competitivo, mas ao mesmo tempo, precisa corresponder ao padrão romântico, idealizado pela mulher: “revelava as noites de amor com aquele potro de legítima gentileza e incansável ternura” (p. 129) legitimando seu papel nas figuras do marido e do amante. A idealização do masculino em Romão pode ser vista com maior clareza quando o narrador descreve a mortalha que Gertrudes bordou em noites de espera pelo marido:
(…) inteiramente de vidrilhos cor de água, cor de espuma, em desenhos e arabescos geometricamente riscados e que, olhadas de longe, imitavam uma biga com sete cavalos e um cavaleiro, como aquelas antigas que corriam nos primórdios dos tempos cristãos, na cidade de Roma (p. 129).
A referência à figura do cavaleiro, ao tempo cristão e a cidade de Roma remete a origem da família centrada na figura masculina. A masculinidade, como todas as identidades, é social e historicamente construída em cada sociedade. O discurso falocêntrico coloca a hegemonia do poder masculino na sociedade relacionada à potência sexual. O corpo é a materialização da dominação, é o locus do exercício do poder. De acordo com Oliveira (2002) coragem e força física eram elementos importantes na constituição do ideal de masculinidade e estavam sempre relacionados com a iniciativa e ousadia, elementos presentes na virilidade masculina.
Romão é apresentado na narrativa como personagem que se destaca por sua beleza, força física, astúcia e ousadia, é portador de uma imagem apolínea. Ele traz para si a figura do cavaleiro calcado nos modelos tradicionais e dos predicativos da personalidade do homem, qual seja, machista, viril e heterossexual, ou seja, um homem bem mais próximo dos modelos do cavaleiro medieval, do guerreiro oitocentista e dos grandes soldados, ao passo que agrega também os novos modelos de masculinidade pautados na ternura, compreensão, companheirismo; “ama o lar, mas a profissão o consome” (p. 128).
Já a personagem feminina é construída sobre os arquétipos de uma suposta natureza feminina, pautada em domesticidades, fragilidades, submissão, sentimentalismos, emoções e sensibilidades exacerbadas, movida pela paixão. Contudo, Gerusa também agrega outros aspectos que tem a ver com a multiplicidade de identidades femininas que compõe a sociedade contemporânea. É ela a responsável por proporcionar uma intranquilidade danada no espírito dos homens de todas as idades e um contentamento esfuziante no espírito das mulheres, ao apresentar tecidos de cores primorosas e narrativas de noites apaixonadas junto ao seu homem: “a sociedade amou rapidamente aquela mulher, que dizia com a boca benta da paixão: “meu marido chegou de viagem tarde da noite, afora dorme” (p. 128).
Interessante é perceber que mesmo após várias descrições do estado de paixão que arrebatava Gertrudes, da sua felicidade em deixar a casa arrumada à espera do marido que sempre estava de volta, temos no texto a recorrência do narrador em marcar as amarguras de Gertrudes:
Ninguém nunca conseguira explicar o porquê da desatinada amargura que emanava sempre e constantemente da costureira Gertrudes, estando o nobre amo e senhor presente ou estando em suas obscuras ausências de ambulante (p. 130).
Gertrudes é apresentada ao mesmo tempo como submissa a Romão, mas também entregue a paixão que esse homem lhe desperta. Para ele todos os cuidados de uma casa bem arrumada, uma mesa bem-posta, o silêncio para não o despertar de seu momento de descanso e ao mesmo tempo a mulher fogosa, dominada pela paixão “às vezes, quando a ausência da viagem era maior, Gertrudes caía de cama, inapetente, pálida e todas as tardes chorava inclementemente” (p. 130). Ela exibe o perfil de uma ideologia calcada nos moldes patriarcais. Sonhadora, volta-se para a busca de um amor perfeito.
Podemos observar no texto o perfil de mulher voltada para o matrimônio. A escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir em seu O segundo sexo (1980) nos diz que o destino socialmente proposto à mulher é o casamento, é através dele que a mulher passará a integrar a coletividade, se não se casa, transforma-se socialmente em resíduo, o casamento, portanto (antes, durante e depois) é radicalmente diferente para os dois sexos, a mulher se torna praticamente a vassala do homem, é ele o chefe da família, é dele que ela recebe um nome e é assim vista aos olhos da sociedade. É dessa forma que a mulher tem no casamento a justificativa social de sua existência. Uma vez inserida dentro dos padrões preconizados pela sociedade é que ela se volta à imanência, ou seja, assume o papel da perpetuação da espécie e manutenção do lar. Diante disso é que o casamento faz da mulher dona de um lar, tendo como destino a educação dos filhos e os cuidados domésticos. Sua completude estaria no casamento, discurso que reproduz a estrutura social vigente.
A trajetória da protagonista é marcada pela angústia vivida entre o ideal e o real. Gertrudes encontra-se aprisionada por um ideal de vida que internalizou para si mesma. O conflito vivido entre o desejo do ideal e o fracasso de não o ter alcançado, leva a personagem a construir uma realidade sobre si mesma e sobre sua vida, em busca de uma adequação social. No conto, o universo feminino, representado além de Gertrudes, pelas moças e mulheres da cidade, é estruturado na idealização da figura de Romão, o homem que possui uma esposa dedicada, realizada e feliz: “a agitação interior das meninas costumava provocar câimbras nos pensamentos delas, as coitadas, ouvintes das confidências pesadas de tão reais” (p. 130).
Elódia Xavier (1991) menciona que, historicamente, a figura feminina foi sendo associada aos cuidados domésticos e familiares, herança de uma sociedade patriarcal, tornando-a, assim, inferior dentro da hierarquia familiar e sacrificando nesta perspectiva sua própria identidade, pois de tanto ser obrigada ideologicamente a viver sob a máscara da aceitação dos valores hegemônicos, perdia-se de si mesma. Gertrudes assim é representada: feliz e perdida na idealização dessa felicidade.
Uma outra situação presente na narrativa é a incompatibilidade entre maternidade e sexualidade. A beleza física, sexualmente atraente, apesar de objeto de desejo masculino, não condiz com a figura materna que este mesmo masculino constrói. Assim, a narrativa sugere que beleza e virtude são incompatíveis, na medida em que uma mulher que provoca desejo sexual não demonstra ser confiável para exercer o papel de mãe e educar os filhos. Por isso, Gertrudes e Romão não tem filhos:
A curiosidade de vê-lo era atiçada, fora de toda compreensão, quanto mais casos Gertrudes contava de Romão. De como o conhecera, do dia do casamento, do filho que lhe morreu na barriga, porque um jacaré imenso apareceu rolando limpo no chão (p. 131).
Segundo Susana Funck (1999), o paradigma narrativo a partir da década de 1960 será a morte figurada da mãe; esta será a forma de expressão usada pelas escritoras para eliminar os valores tradicionais que ela representa; característica esta que está evidente neste conto. A figura sedutora e misteriosa de Gertrudes é indubitavelmente associada a uma série de imagens femininamente marcadas, como a tentação. A sensualidade de Gertrudes coloca-a como um sujeito que exprime e realiza suas vontades, colocando-se em uma posição contrária à feminilidade ideal, onde as mulheres são apenas objetos contemplados pelo olhar masculino. Na medida em que não aceita se submeter, a mulher está automaticamente ferindo este princípio, o que a exclui, mas não a livra dos efeitos dos mecanismos de dominação.
Gertrudes, símbolo de várias identidades, representa a ideologia do patriarcado que leva as mulheres a crerem no homem enquanto imprescindível para sua felicidade, herança da tradição cultural ocidental que castra na mulher a possibilidade de construir uma vida própria, centrada nos seus próprios desejos e propósitos. Podemos observar que Gertrudes conquista um espaço na cidade em que vive pela figura de Romão. Ela é conhecida pelas estórias que conta de marido. É respeitada por ser sua esposa. A imagem construída perpassa fragmentações e identidades múltiplas. A esposa é a mulher feliz, a que se dedica ao lar e aos cuidados para com o homem amado, é também ao mesmo tempo, aquela que exerce a sua sexualidade nas noites quentes de amor com o marido; todo esse universo feminino acaba por encantar as outras mulheres da cidade, que na ânsia de preencherem seus espaços vazios, se alimentam da imagem de Gertrudes, de suas histórias e da imagem daquele homem, sonhado, idealizado e desejado por todas. O relacionamento do casal passa a ser o assunto da cidade e a curiosidade das mulheres em conhecer aquele homem alimenta a rotina da pacata vila.
Passado mais de um ano, as mulheres decidem invadir a casa no momento da ausência de Gertrudes e se deparam com o corpo apolíneo de Romão coberto por um lençol de linho branco “o resfolegar da serpente interior das fêmeas mugia solene naquela manhã calorenta e pasmada até a raiz das nuvens” (p. 131). A ânsia dessas mulheres em constatar a virilidade de Romão as leva a uma triste constatação: Romão não existe, é apenas um boneco autômato, fruto do desejo de Gertrudes em ter o seu homem, o seu deus grego.
Depois da descoberta e dos atos estranhos das mulheres ao beijar as partes quebradas do boneco e levá-las para casa, o narrador enuncia que “as trevas vieram em forma de aguaceiro sem nome, sem tempo e provocou mediante enchente, lambendo pontes e pinguelas” (p. 132).
O texto de Augusta Faro não se estrutura sobre um evento fantástico, mas nele instaura-se uma aura de mistério, sobretudo, através das personagens que oscilam entre o ser e o parecer, a existência e inexistência. O fantástico aqui aparece infiltrado na representação do cotidiano que substitui o efeito do medo pelo o da inquietude.
Segundo Flávio Garcia (2007), é lícito opor o insólito ao natural, e ao ordinário, pois os acontecimentos insólitos são aqueles que não ocorrem com frequência, contrários às práticas sociais diárias, logo, causam estranheza. O que se observa no conto é a presença de um viés insólito. O cotidiano real, com personagens aparentemente normais, é atravessado por acontecimentos fora da ordem, mas vivenciados como se fizessem parte dela. Aqui, o insólito flui livremente, pois o narrador apresenta no primeiro momento situações totalmente normais para só no futuro proporcionar ao leitor um cenário sobrenatural.
Podemos afirmar que o conto em questão, desperta no leitor esse estranhamento por relatar fatos insólitos: a alternância entre a condição aparente de felicidade de Gertrudes e sua real condição de amargura, a confecção de um boneco para dar vida à imagem idealizada de um homem, a fúria das moradoras da cidade ao perceberem a inexistência desse homem, a resistência em aceitar a realidade a ponto de quebrar o boneco para dividi-lo entre elas, a morte inexplicada de Gertrudes, a condição em que foi encontrada, “perfeita como viva”, suas aparições e sua condição de alguém que mesmo morta, possuía o frescor dos vivos” (p. 133).
Quando o texto se encaminha para o final, entende-se toda a insistência do narrador em marcar a amargura da personagem diante da vida. Gertrudes desaparece, e não se sabe se isso aconteceu no exato momento da destruição do boneco. A imagem de Romão desaparece e o status de mulher casada da personagem também.
No conto, pode-se supor que não é apenas a perda do marido que assusta a personagem, e sim o status de mulher casada. Subjacente a essas noções encontra-se a ideia de que a mulher apenas se realiza para e por um homem, já que se acredita que uma mulher não consegue realizar-se sem marido e filhos. As amarguras de Gertrudes, marcada no texto pela voz do narrador, em pelo menos três ocasiões, tem sua origem em dois motivos: primeiro por um sentimento de frustração diante da inexistência de Romão, o ideal criado e imposto culturalmente pela sociedade, e em segundo, pela completa impossibilidade de romper as amarras que a mantém prisioneira a esse perfil feminino, que condiciona à felicidade da mulher à presença de um homem.
Gertrudes não consegue romper a estrutura patriarcal, a ponto de forjar a sua própria existência. O narrador não deixa claro como a personagem morreu:
Ninguém nunca esclareceu, se a senhora Gertrudes teria morrido na hora exata que descobriram e violentaram seu sagrado segredo, ou se o aguaceiro lhe havia roubado a flor da vida (…). O fato é que até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente (p. 133).
A morte simboliza a impossibilidade da libertação da protagonista, pois o narrador afirma que uma semana depois a personagem foi encontrada “na prainha, bem abaixo do matadouro… perfeita como viva” e ainda há a afirmação:
(…) a alma de Gertrudes foi vista mais de uma vez; às vezes, tomava forma de pomba sempre esperta e triste” e mais: “até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente (p. 133).
A narrativa caminha para o final pelo viés do insólito. Percebe-se então que o texto traz para a cena a questão da loucura e da solidão, temáticas tão presentes na escrita feminina. Para o leitor, fica explícito o modo como essa literatura feminina contemporânea tenta suprir a necessidade da mulher de uma referência do seu próprio ser, a busca da construção de sua identidade social. Enfim, são vozes que se entrecruzam na longa caminhada de um discurso feminino, discurso esse que reúne várias perspectivas e possibilidades de construções identitárias.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, de Simone. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1980.
BRITTO, Clóvis Carvalho; ANJOS, José Humberto R. dos (Org). Augusta Faro: contemplações críticas. Goiânia: Gráfica e Editora América. 2014.
FARO, Augusta. Gertrudes e seu homem. In: RUFFATO, Luiz (Org). 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Record. 2004. p. 125-133.
FUNCK, Susana. Representações da maternidade e paternidade na literatura feminista contemporânea. In: Falas de gênero: teorias, análises, leituras. Florianópolis: Mulheres, 1999.
GARCÍA, Flávio. A banalização do insólito: questões de gênero literário – mecanismos de construção narrativa. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2007. p. 12-23.
OLIVEIRA, Pedro Paulo Martins de. A construção social da masculinidade. Tese de Doutorado em Sociologia. Universidade de São Paulo (USP), 2002.
XAVIER, Elódia. Reflexões sobre a narrativa feminina. In: XAVIER, Elódia (Org.). Tudo no feminino: a presença da mulher na narrativa brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.
Bio fornecida pelo palestrante.
Fabrizio Rusconi
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
RESUMO: Este ensaio apresenta uma leitura histórico-comparativa da poesia épica com foco na obra do escritor italiano Torquato Tasso intitulada Discorsi del poema epico. No ensaio são apresentados criticamente os principais conceitos elaborados por Tasso sobre o poema épico a partir de uma tradição (Aristóteles e a Poética) sobre a qual, em parte, Tasso fundamenta seu discurso. Ela é comparada às transformações que interessaram o imaginário da épica, desde Milton até a obra inovadora de Sousândrade.
RIASSUNTO: Il presente saggio tenta una lettura storico-comparativa della poesia epica, indagando l’opera dello scrittore italiano Torquato Tasso intitolata Discorsi del poema Epico. Nel saggio vengono presentati criticamente i principali concetti elaborati da Tasso, sul poema epico a partire da una tradizione (Aristotele e la Poetica), sulla quale Tasso struttura il suo discorso e che viene comparata alle trasformazioni che interessano l’immaginario dell’epica, da Milton all’innovatrice opera di Sousândrade.
Minicurrículo: Fabrizio Rusconi é doutorando da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem experiência na área de Letras, particularmente em Literatura Italiana. Seu projeto de doutoramento versa sobre o escritor italiano Carlo Emilio Gadda e focaliza a problemática da escrita. Em fevereiro de 2016 foi publicado na Itália o livro Guido Morselli, un gattopardo del nord, contendo participação sua, entre outros autores.
AS TRANSFORMAÇÕES DO IMAGINÁRIO ÉPICO: UMA LEITURA DE DISCORSI DEL POEMA EPICO DE TORQUATO TASSO
Fabrizio Rusconi
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
“Os tempos primitivos são líricos, os tempos antigos são épicos, os tempos modernos são dramáticos. A ode canta a eternidade, a epopeia soleniza a história, o drama pinta a vida” (V. Hugo, p. 40).
No ensaio intitulado Discorsi del Poema Eroico (1594), Torquato Tasso retoma a história do gênero épico através da grande operação sistemática realizada por Aristóteles na Poética. A reflexão de Tasso apresenta um notável interesse para o estudioso contemporâneo porque, enquanto documento fiel de um momento histórico peculiar em um contexto de grandes transformações políticas e sociais, mostra quanto mudou a natureza dos problemas em campo e as repercussões no sistema dos gêneros da modernidade. Retomamos, portanto, neste estudo, os pontos mais interessantes da reflexão tassiana sobre o gênero épico à luz da poderosa recodificação ocorrida na literatura com o advento do romance burgês e com a sobrevivência espúria e contaminada, daquele que para Tasso era o gênero mais alto e nobre no panorama literário: justamente o poema épico.
No século XX, a épica sobrevive não mais como gênero puro, nem como gênero ao centro da instituição literária, mas como um timbre, como uma sugestão – às vezes em forma parodiada e irreconhecível –, sobrevive em determinadas soluções, em algumas figuras, como também naqueles textos que têm a ambição de dar voz a um novo epos comunitário e nacional, num contexto no qual as palavras “comunidade” e “nação” tinham se tornado extraordinariamente ambíguas no sentido e pretensiosas no uso. Portanto, um estudo genético do gênero épico conduzido sobre uma base histórica, partindo pela tentativa de redefinição/recodificação feito por Tasso, pode resultar precioso para reconhecer, hoje, os signos e as permanências de um gênero hoje desaparecido.
I Discorsi del poema eroico, publicados em 1594, tiveram grande ressonância em uma Europa que se encaminhava rumo a sua plena modernidade. Os dissídios, até dilacerantes e trágicos, na consciência de Tasso, como homem de fé firme e como poeta, são também os do seu século. O cisma no cristianismo – com a divisão agora inconciliável entre católicos e protestantes – impôs a Tasso uma enorme cautela na direção a ser tomada pelas suas escolhas narrativas e estilísticas. A Contrarreforma (1534-1549) tinha declarado guerra a tudo aquilo que se considerava inconveniente e impuro.
Métrica e estilo
Na Gerusalemme Liberata, Tasso emprega a dúctil e plástica oitava, certamente a forma mais difundida na tradição lírica italiana, típica em particular do poema narrativo. Escreve Tasso, pregando a escolha da oitava para a composição do poema épico: “Ma ne la stanza d’otto versi d’undici sillabe è maggiore uniformità e maggior gravità e maggior costanza e stabilità: la quale non è propia de la scena, ma conviene ai poemi eroici, come dice Aristotele medesimo nei Problemi” (TASSO, Torquato, Discorsi del poema eroico. De agora em diante a obra referida será indicada apenas como: “Tasso, edição digital”. A referência é naturalmente à obra em italiano, portanto a tradução é sempre minha). Tasso destaca também a importância que o endecasillabo tem para fornecer ao poema épico toda sua magniloquência e força: “Ma fra i versi nostri, quel d’undici sillabe è atto al parlar magnifico, ed è quello che riceve maggior ornamento”. A longa tradição de poemas épicos compostos em ottava rima é um motivo suficiente para demostrar a bontade de seu raciocínio:
Scelgasi dunque la stanza, o l’ottava che vogliam dirla, per attissima al poema eroico, oltre tutti gli altri modi di rimare che son propri e naturali de la favella toscana; e seguasi non sol la ragione, ma l’autorità di coloro che l’hanno adoperata in materia d’amore e d’arme: perché, dopo il Boccaccio, in questo verso Luigi Pulci scrisse il Morgante; e il fratello Ciriffo Calvaneo; ed Angelo Poliziano (uomo di gran dottrina e di gran giudizio in quei tempi) l’amore e le giostre di Giuliano dei Medici; e il Boiardo Orlando Innamorato; e l’Ariosto Orlando Furioso; Pietro Aretino Angelica innamorata (…) e il Tasso l’Amadigi (…)” (TASSO, Torquato, ed. dig.)
A lista é longa e continua com outros exemplos. Nomes e títulos que se for lícitos de serem citados como modelos de estilo e versificação, não o são no que concerne aos conteúdos, decididamente licenciosos e carnais. Neste aspecto, a intriga de amor – principal ingrediente da épica fantástica de Ariosto – deixa lugar à paixão em Cristo. Goffredo di Buglione é escolhido por Tasso como herói sem mancha, virtuoso e corajoso, pronto ao sacrifício para reconquistar as terras sagradas aos infiéis.
Seguindo a argumentação típica do tratado aristotélico, que em forma sistemática/silogística alcança o particular partindo de um plano categorial mais genérico, Tasso aborda a pergunta sobre a natureza da poesia épica, tentando responder antes sobre a natureza da poesia em geral: “La poesia ha molte spezie; e l’una è l’epopeia, l’altre la tragedia, la commedia, e quelle che si cantano con la cetera e con le pive o con le sampogne o con altri strumenti pastorali, le quali tutte convengono nell’imitare” (TASSO, Torquato, ed. dig.).
A imitação em versos é súbito enucleada qual o traço caracterizante de toda a poesia. Para uma ulterior separação entre os gênero de poesia, todos imitativos, Tasso tem que proceder a uma distinção, começando pelos conteúdos desta imitação; isso é feito indicando diferenças no tipo de ações que podem ser imitadas: “sendo muitas as espécies de ações, muitas serão as espécies de poemas”. Tasso recorre aos exemplos literários da tradição grego-latina, mas também àqueles renascentistas em língua vulgar. Sua vasta erudição lhe permite fundar sempre os seus argumentos sobre exemplos reais fornecidos pelas obras e pelos grandes nomes da literatura (como quando diz que “o exemplo de Homero e dos trágicos é concentrar todo o esforço da oração para o deleite”) .
Em suma, seguindo um método argumentativo indutivo, que do exemplo deduz uma regra, uma constante, o autor da Gerusalemme Liberata, chega, por graus, a esta definição de épica:
Io dico che il poema eroico è una imitazione d’azione illustre, grande e perfetta, fatta narrando con altissimo verso, a fine di giovare dilettando [educar por meio do deleite], cioè a fine che il diletto sia cagione ch’altri leggendo più volentieri non escluda il giovamento (TASSO, ed. dig.).
Contudo, se o fim é a vantagem, ou seja, a educação moral oferecida pelo grande exemplo, este passa necessariamente pelo deleite, isto é, “o mover as almas com a maravilha”. Tasso discute neste ponto aquilo que tem que se entender com “maravilha”, já que “a nenhuma outra espécie de poesia tanto convém o mover maravilha quanto à epopeia”.
Naturalmente, cada aspecto desta definição é essencial, vital, mesmo para as consequências históricas que esta reflexão terá na poética ocidental. Ao enuclear os aspectos salientes, se vê que o poema heroico não imita quaisquer ações, mas apenas aquelas ilustres e virtuosas. Passando da teoria à prática, esta ação “ilustre, grande e perfeita”, na Gerusalemme, é posta nas mãos de um herói imaculado, Goffredo da Buglione. A ação é representada através da narração: isso significa que não é dramática, mas que é indispensável a presença de um narrador – o cantor – que organiza a matéria e a elabora em “altissimo verso”. Este é tradicionalmente o hendecassílabo: uma escolha métrica que se conforma melhor do que outras à hexâmetro latim, cuja força imprime à matéria um vigor retórico excepcional.
A função da métrica na épica de Homero em diante é instrumental, deve ser posta em correlação com os processos da memorização e da prática da transmissão, de geração em geração, próprias das culturas orais; mas também, nas civilidades da escritura, em que os processos da memorização se tornam secundários. É mais um recurso disponível para provocar comoção e maravilha, graças à sonoridade, o ritmo e obviamente a rima.
Explica Tasso: “podem os poemas heroicos serem cantados com aquela espécie de música que é perfetíssima, como foram cantados os poemas de Homero; e na nossa língua particularmente o poema heroico tem a rima, a qual é mesmo uma harmonia natural” (TASSO, ed. dig.).
A épica, também a tassiana, seleciona aquilo que é memorável, organizando-o através da forma métrica em um discurso altamente formalizado e portanto passível de memorização, mas também “cantado” e fruído em formas musicais.
Veremos como justamente a alta exemplaridade da história, que propõe na arte o preceito da moral, isto é, da “historia magistra vitae”, venha destituída de sentido pela civilização burguesa, interessada mais ao presente do ganho e ao futuro da especulação; é por isso que seu “memorável” baseia-se no caso privado, individual, ou, no máximo, familiar. Enquanto a música, seguindo o destino dos saberes cada vez mais especializados e distintos, separou-se da poesia lírica ou épica, para recortar para si um espaço autônomo e um público já burguês.
Épica e história
A épica e a história não são dois campos separados e distintos. Para Tasso, os materiais com que a épica constrói seus enredos têm que ser de preferência tomados da história, já que esta guarda em si todas as ações dignas de memória. Escreve Tasso:
Os outros que seguiram Homero e ao imitá-lo, todos eles fundaram o poema sobre a história, porque não se pode fazer diversamente, sendo até agora escritas todas as ações memoráveis: portanto aquelas que não são escritas não pareceram ter a dignidade da história (TASSO, ed. dig.).
A história, ou seja, a grande história clássica – mais do que a crônica que registra até mesmo acontecimentos menores, irrelevantes, na ótica de uma história dos heróis – seria para Tasso um tesouro do qual o poeta épico deve possuir a chave. E isso traz um discurso sobre os limites e as sobreposições dos respectivos âmbitos: historiografia e poesia.
Não obstante a diferença entre a historiografia e a poesia, traçada por Aristóteles na Poética, Tasso não é categórico ao considerar os dois campos incomensuráveis. “(…) se na arte dos historiadores tiver alguma influência o número e os ornamentos e as figuras de linguagem, quem não sabe que estas coisas foram quase emprestadas pelo poeta ao orador?” (TASSO, ed. dig.).
Tasso, em suma, reconhece a operação linguística comum, comum tanto ao poeta quanto ao historiador, operação que tem seu centro na retórica, nos tropos, nas figuras da linguagem, na ligação das partes entre si, na coerência textual, que resulta de uma construção, ou seja de uma convenção, de um artifício. Tudo isso vai ao encontro de nosso discurso: a historiografia, também, se constrói a partir de um ponto de vista, de uma ideologia, de uma tropologia, de uma construção de enredo, que segue determinadas estruturas oferecidas pela arte ao discurso histórico .
Ademais, temos que reconhecer que a evolução dos gêneros e das artes na época em que Tasso viveu não conhecia uma clara distinção no campo das humanidades entre historiografia e outras formas de discurso – narrativas ou imitativas que fossem: “na época moderna, num primeiro momento, literatura como corpo de escritos corresponde a um conceito amplo de humanidades, abrangendo, pois, a produção escrita em geral – filosofia, eloquência, história, ciência, carta, prosa ficcional, poesia” (dizionario termos literarios). Além disso, já a antiguidade atribuia à historiografia os recursos de uma construção retórica, a qual não necessariamente envolvia uma distinção radical entre realidade e ficção: “Ver ficção como história ou vice-versa não surpreenderia os antigos, uma vez que Cícero considerava a história uma opus oratorium, não uma ciência” (LOBO, Luiza, 2013, ed. dig.). Tasso reconhece o valor superior da história, isto é, seu poder no que concerne à verdade e ao “ammaestramento de la vita”. No Proêmio da Gerusalemme Liberata, Tasso, após ter invocado a Musa para que, como é na tradiçaõ épica, ela “spir[i] al petto” do poeta “celesti ardori” e “rischiar[i] il [suo] canto”, em seguida, o poeta pede perdão “s’intess[e] fregi al ver s’adorn[a] in parte/ d’altri diletti, che de’ tuoi, le carte” (v. 13-16). É esta uma declaração de poética precisa. A história é assunto sagrado – já que, em uma ótica cristã, ela é parte de um quadro de redenção e salvação ultraterrena. O poeta tem que se desculpar perante às Musas do belo canto, as quais, agora plenamente cristianizadas, não podem admitir uma “falsificação” da história, mas no máximo permitir o “condimento” dos “molli versi” para uma finalidade de deleite que mova a persuasão . A transição da verdade histórica à verossimilhança dá-se como consequência e escolha da operação do poeta épico. O verossímil, já enunciado por Aristóteles como objeto da tragédia, é reafirmado ser um conceito irrenunciável para a grande épica:
(…) ao poema heroico se convém fazer seu fundamento no verdadeiro; e primeiro, devendo o épico procurar em muitas partes o verossímil, não é verossímil que uma ação ilustre, como são aquelas por ele tratadas, não seja escrita e passada para a memória da posteridade graças à pena de qualquer historiador; e os grandes e sortudos acontecimentos não podem ser desconhecidos (TASSO, ed. dig.).
Portanto, entre histórico e épico se registra uma continuidade, cuja fonte é a escrita. A diferença, entre os dois âmbitos ou disciplinas, não é formal. É uma diferença propriamente poiética, não técnica. Assim, lembrando Aristóteles, Tasso escreve que não é o verso a fazer a poesia, especialmente porque “ao fazer-se em versos a história de Heródoto, não seria menos história”. A distinção entre a história e a poesia é teorizada no conhecido assunto aristotélico, segundo o qual a poesia considera “as coisas não como foram, mas nas formas e modos em que poderiam ter sido, visando justamente mais ao universal do que à verdade daquilo que é particular”. No entanto, como sempre, em uma civilidade fortemente hierarquizada e regulada, aquilo que distingue e separa tem natureza prática: uso, função e destinação são fatores caracterizantes. Neste sentido, o fim da poesia deve ser o deleite, o prazer estético. Deste vai nascer “il giovamento” [benefício] e “l’ammaestramento cortese” [a educação cortês]. Expressão de um ethos aristocrata, porem não ainda individualista. Os “molli versi”, o apelo às Musas, o canto inspirado e alto, são meios empregados para nobilitar uma matéria às vezes árida e cruenta, isto é, a que sai da pena do historiógrafo: meios necessários, mas não suficientes para operar esta separação entre história e épica.
Uma outra diversidade não insignificante entre a narração histórica e a épica reside na relação entre fabula e discurso – duas categorias pertencentes à narratologia e que, obviamente, Tasso não conhecia: ignorância que no entanto não influiu na articulação de seu pensamento. O poeta épico pode, aliás deve, para produzir um certo efeito no leitor, intervir na linearidade da fabula. O historiador, diversamente, deveria antes seguir a ordem “reta e natural em que narram-se as coisas que vieram antes”. Escreve Tasso, no que concerne à poesia épica:
(…) algumas dentre as primeiras tem que ser ditas primeiramente, outras adiadas, outras no tempo presente têm que ser deixadas de fora e proteladas a um momento melhor, como ensina Horácio. Em primeiro lugar, devem ser ditas aquelas sem as quais não se teria algum conhecimento do estado das coisas presentes; porém, podem-se calar muitas, as quais diminuem a expectativa e a maravilha (TASSO, ed. dig.).
Imitação e realidade
Há na época de Tasso uma controvérsia sobre o sujeito mais adequado que a imitação em poesia deve visar. A controvérsia centra-se na adequação à noção de realidade histórica ou de verossimilhança, que o poeta tem que respeitar na criação poética, ou da qual pode-se afastar inventivamente. Escreve Tasso, em polêmica com um seu antagonista literário:
Muito menos verdadeiro é aquilo que diz o Mazzone, que a poesia mais perfeita é a fantástica imitação: já que esta imitação é a das coisas que não são e que nunca existiram; porém a perfeitíssima poesia imita as coisas que são, que foram ou que poderão ser: como existiu a guerra de Troia, e a ira de Aquiles, e a piedade de Eneias, e as batalhas entre Troianos e Latinos, e outras que ocorreram ou que poderão ocorrer (TASSO, ed. dig.).
A posição de Tasso marca decididamente a passagem a uma épica na qual o campo do fantástico e do imaginário parece reduzido, enquanto assistimos à consolidação progressiva do dado realístico ou histórico:
Ao longo dos séculos, contudo, foram ocorrendo mudanças profundas no modelo da epopeia clássica e, progressivamente, o dado histórico foi substituindo o maravilhoso na arquitetura narrativa e na configuração do gênero épico. A trajetória percorrida pela epopeia latina, pela epopeia medieval e pela epopeia renascentista ilustra, de maneira bastante nítida, o processo de afirmação do componente histórico em detrimento do maravilhoso (TROUCHE, André, 2006, p. 34).
“Porém, os Centauros, as Harpias e os Ciclopes não são o sujeito principal ou adequado da poesia, nem os cavalos voadores e outros monstros dos quais são cheias as fábulas dos romances”, escreve Tasso restringindo o campo do que é lícito usar poeticamente. Fogem, estas entidades, a uma noção de realidade comumente aceita. No entanto, é necessário se interrogar sobre esta noção em um homem da renascença qual era Tasso. Para ele o conceito de realidade inclui entidades e possibilidades que no mundo hodierno são quimeras. Seu imaginário é a expressão de uma realidade em que ainda não tinha se realizada a separação entre real e fantástico:
Pense-se na menção, no Messaggiero tassiano, à luz como elemento em que mergulham os deuses, e também à afirmação de que os demônios são necessários porque o ar está “adornada” de elementos vitais, não sendo suficientes os pássaros, que no ar não descansam; ou a repetir o conceito neoplatônico e ficiniano do universo como “grande animal vivente” à guisa do homem (ULIVI, Ferruccio, 2015, p. 16).
Neste sentido, a Gerusalemme Liberata estende evidentemente a noção de realidade às entidades e a seres como Belzebu, Satanás, magos e magias, jardins encantados, ninfas, arcanjos combatentes e “exércitos celestiais”, com os respectivos homólogos no “concilio orrendo” dos demônios. A própria noção cósmica universal em Tasso é ainda estritamente aristótelico-tolemaica, portanto medieval e geocêntrica, embora a época tardo-renascentista trouxesse à maturação novas sensibilidades. A cosmogonia tassiana, ainda intocada pela mão reguladora da ciência, pode dar forma a um universo em que a épica dos heróis esteja conforme com a épica dos anjos. Como no Paraíso perdido de Milton, “sob o Eterno e sob os céus, regrados pelas antigas divindades, se estende a terra com o oceano, as montanhas, os “abismos cegos” (ULIVI, Ferruccio, 2015, p. 13).
Gêneros entre Contrarreforma e modernidade
Mais uma vez, enfatiza-se a importância que o texto tem em relação aos seus leitores. Pode-se dizer, sem receio de parecer anacrônicos, que tanto o horizonte de expectativas , quanto o lado da recepção, já eram fatores determinantes na organização de um gênero. De fato, numa época fortemente normativa como a em que Tasso escreveu suas obras: “As noções de gênero são fundamentalmente concebidas como critérios úteis para julgar a conformidade de uma obra a uma norma, ou melhor a um conjunto de regras” (PAPPALARDO, Fernando, 2009, p. 77). Em um horizonte altamente prescritivo como é o da Contrarreforma, cada gênero encontra sua finalidade, sua função, sua disciplina; portanto os discursos, os gêneros e as obras que contradizem este sistema são censurados e eliminados.
As escolhas retóricas e formais são inteiramente limitadas e conformam-se necessariamente às finalidades do discurso e à destinação do gênero: “um dos mecanismos-chave para a estruturação de mensagens e ações dentro das formas culturais é o gênero” (BAZERMAN, Charles, 2007, p. 19); e até mesmo dentro do gênero, as partes que o constituem são diversamente finalizadas para gerar o resultado desejado. Então, com Homero, Tasso escreve: “Opinou [Homero] que a licença dos poetas tivesse três partes: a história, a fábula e a disposição; e que o fim da história é a verdade; o da disposição, a expressão; o da fábula, o deleite” (TASSO, ed. dig.).
Muito tem evidentemente mudado na literatura desde então. No horizonte do gênero épico encontra-se uma categoria de fruidores homogêneos para cultura e valores. Eram príncipes, humanistas, bispos e prelados e, em geral, cortesãos. Eram eles que através da épica tinham que se instruir e conhecer o valor dos grandes feitos. Hoje parece absurdo definir um gênero com base em uma finalidade qualquer. A épica não resistiu à dissolução de uma arte comprometida com seus leitores, tomados como grupos ou como representantes de uma nação. Foram as consequências de eventos poderosos que revolucionaram a cultura humana e seus modelos. No que concerne ao plano técnico e econômico, a Revolução Industrial inglesa, que, num segundo momento se estendeu a outras nações; no que concerne à cultura, Iluminismo e Romantismo determinaram mudanças importantes. Movimentos que exprimiam novas sensibilidades, redesenhando a épica em conformidade com as novas exigências sociais emergentes. Iluminismo e Romantismo em que predomina uma instância irônica, a qual não podia evidentemente não condenar a épica a uma transformação radical, dissolvida e corroída pela paródia ou pela nostalgia (Nietzsche fala da dissolução que afetou a arte trágica, mas talvez poderia ter incluído também a heroica, isto é, a épica: irrenunciável, como veremos, a teoria de Lukács que descreve a transição da épica à civilidade do romance burguês).
A épica evidentemente não pôde prosperar em um cultura, a romântica, em que “a relação entre signo e significado é descontinua, alterna, envolvendo um princípio alheio” (DE MAN, Paul, 1975, p. 267). No Romantismo é no máximo o romance; e o drama, no teatro, a tomarem conta da descontinuidade entre signo e significado, a tematizá-la. Portanto, “é tentador seguir Lukács, ao fazer do romance o equivalente (na história dos gêneros literários) da própria ironia” (in DE MAN, 1975, p. 267). Por outro lado, entre romance e épica parece existir uma certa continuidade, embora seja plausível diferenciá-los com Vico: a épica pertence ao “período dos herois” que é naturalmente poético; o romance pertence à civilidade burguesa e prosaica. Lukács lembra que foi de fato Hegel que definiu o romance “epopeia burguesa”; o romance “na sociedade burguesa faz o papel do epos na sociedade antiga” (LUKÁCS, Gyorgy, 1976, p. 137).
Nesta tempérie romântica, irônica e paródica, inscrevem-se dois poemas de Byron, Childe Harold, que encena a risível viagem de volta à Grécia, no modelo originário da épica odisseica; e Don Juan que faz do protagonista um anti-herói: isto é, o mentiroso, sedutor, perverso libertino (cf. RANCIÈRE, Jacques, 1995, p. 119-121). Este anti-herói declarado se situa aos antípodas comparado à épica tassiana, cujos efeitos dependiam da nobreza e da coragem do herói, no caso, Goffredo da Buglione. O carácter específico do romance burguês, justamente, alertava Lukács, estaria na impossibilidade de encontrar e representar um “herói positivo”.
No entanto, embora as diferenças que o desenvolvimento das sociedades produziu no imaginário coletivo e nas formas de fruição, épica e romance têm a mesma origem. Escreve Lukács, revelando o traço que une épica e romance: “o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente, para a qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática, mas que ainda assim tem por intenção a totalidade”; ademais, em nota de rodapé, o estudioso húngaro lembra a célebre definição de “Hegel [que] concebe o romance como epopeia burguesa”, a qual, acrescenta, “tem seus antecedentes. Pelo menos, desde Blankenburg, o romance é tomado como herdeiro da antiga epopeia” (LUKÁCS, Gyorgy, 2000, p. 55). Porém, Lukács parece ignorar aquilo que Tasso escreveu sobre a épica, dando ele, muito antes das fontes citadas por Lukács, uma contribuição decisiva para a teoria dos gêneros, ao reconduzir o romance – gênero relativamente novo – ao tronco comum e mais antigo da épica. Por meio de uma argumentação rigorosa e consequente, Tasso reconhece que entre os dois modelos literários não há diferença no que concerne aos pontos relevantes, os quais, seguindo de perto o argumento aristotélico, são três. Escreve Tasso:
Apenas três são as diferenças especificas na poesia, como dissemos anteriormente no Discurso: as diversidades das coisas imitadas; a diversidade da imitação; e a diversidade dos instrumentos com as quais se imita. Por estas razões, os épicos, os cômicos, os trágicos são diferentes (TASSO, ed. dig.).
No que concerne às “coisas imitadas”, de fato, tanto o romance quanto a épica têm como objeto as ações ilustres e heroicas. Pelo menos, isso era verdade na origem do romance, que era o de cavalaria, embora como vimos não seja mais assim na época burguesa. Em relação ao segundo aspecto discutido, a “diversidade da imitação”, ela não subsiste, já que tanto a épica quanto o romance imitam em formas narrativas, diegéticas e não dramáticas, as quais implicam a presença de um cantor ou de um narrador. O terceiro ponto, “a diversidade dos instrumentos com os quais se imita”, intende na reflexão tassiana o emprego de “verso nudo”, ao qual não parece necessário nem o ritmo, nem a harmonia, usados na tragédia e na comédia. Com base nestes argumentos, é possível reconhecer a extensão das mudanças, algumas radicais, que interessaram o romance ao longo dos séculos.
Maravilhoso e verossímil
Tasso sanciona o dever que tem o poeta épico de manter juntos “verossímil e maravilhoso”, duas qualidades que parecem discordantes. Ademais, reconhece a relatividade histórica desses dois conceitos. Aquilo que no passado era considerado verossímil, não o é mais na época em que Tasso escreve e organiza sua reflexão. O mesmo pode ser dito do “maravilhoso”, uma vez que, naturalmente, com o mudar dos tempos, mudam os hábitos dos homens, as crenças, o imaginário.
Um uso correto do maravilhoso, faz com que se produza o estupor do leitor, isto é, a maravilha e o deleite, sem os quais qualquer efeito de leitura enfraquece ou se ausenta e, com ele, o benefício que o leitor obtém segundo o preceito clássico e humanista do prodesse e delectare. Para ter sucesso na árdua tarefa, deve-se escolher como matéria épica “a história de um século ou de uma nação longínqua, já que, sendo aquelas coisas sepultadas de tal forma na antiguidade, que permanece delas uma obscura e débil memória, pode o poeta mudá-las e remudá-las, e narrá-las como ele gosta” (TASSO, ed. dig.). Com a história estamos, de fato, no campo do “docere”, conforme ao preceito da historia magistra vitae. Quanto ao “delectare”, a matéria histórica pode se contaminar inventivamente desde que os eventos escolhidos sejam remotos o suficiente para despertar maravilha, graças a um exotismo de maneira que já preanuncia a estética barroca. O afastamento no tempo e no espaço suscitará no leitor aquele necessário estranhamento capaz de preparar a alma à maravilha.
Ademais, como evidenciado pela passagem citada, o poeta pode organizar a própria matéria em um discurso para que se produza aquela “maravilha” que é esperada pela sua atividade, e também pode preencher as lacunas da história através da invenção criativa (poiesis). Finalmente, se a tragédia, como se lê em Aristóteles, é imitação de homens mais excelentes, seria difícil abraçar tal excelência no medíocre tempo presente. À poesia épica aplica-se o mesmo preceito, segundo o Tasso, porque essa ocupa, ao lado da tragédia, a posição mais elevada no sistema dos gêneros. As ações que se mostram mais convenientes para a épica e nas quais são reconhecíveis as virtudes da coragem e da abnegação, são enunciadas por Tasso: essas são “l’eccelsa virtù militare”, “il magnanimo proponimento di morire”, “la pietà”, “la religione”. Esta poética da excelência possui um lado censório, que pode parecer para nós, hoje, muito questionável. Assim, Tasso resulta categórico em excluir do campo da épica, “todas as coisas baixas, todas as populares, todas as desonestas, como na novela da Fiammetta e a do Dottore” (referindo-se naturalmente ao Boccaccio, do qual nem sequer pronuncia o nome para indignidade).
Depois de Jerusalém
Exemplar em conferir forma inventiva à épica pré-barroca com a sua Gerusalemme Liberata, mas também grande teórico e organizador do modelo épico cristão, Tasso será um autor fundamental para as épocas futuras. Antes de tudo, sua Gerusalemme marca a superação do modelo ariostesco e a retomada de preceitos aristotélicos:
A instabilidade na criação epopeica provocada pelo modelo épico-cavaleiresco de Ariosto foi substancialmente dominada a partir da publicação (1581) e consagração europeia da Jerusalém Libertada (Gerusalemme Liberata) de Torquato Tasso e dos textos sobre teoria da epopeia do mesmo autor. Com efeito, a partir da década de 1580 em Itália, logo seguido noutros países, dá-se o declínio da influência de Ariosto na produção e na teoria épicas, substituído pelo padrão agora dominante do poema de Tasso. Com este autor, o Humanismo renascentista conseguiu o produto mais próximo do ideal nutrido ao longo de três séculos e, particularmente, a assimilação mais consagrada da épica ariostesca aos modelos greco-romanos. Atinge-se o maior equilíbrio possível entre as narrações da guerra e da errância (virgilianas), por um lado, e do amor (cavaleiresco), por outro, tudo subordinado ao herói perfeito (Godofredo de Bulhões) e à unidade de acção aristotélica. Esta recodificação foi decisiva e, na generalidade, permanente até ao Romantismo (Hélio Alves, in: E-dicionário de Termos Literários).
O novo imaginário épico que inaugura-se com a Gerusalemme consegue juntar “le donne, i cavallier, l’arme, gli amori, le cortesie e l’audaci imprese” de ariostesca memoria, com o emprego eficaz e bem sucedido da religião e da simbologia cristã. Aspectos ainda demasiadamente pagãos, se tomados individualmente, são consagrados para uma missão santa e justa, ou seja, inscritos em um percurso de redenção histórica válido para todo o ecúmeno cristão.
Os efeitos da cristianização do gênero épico circulam por uma Europa culta, que dialoga em latim e tem como interlocutores os clássicos da tradição latina, grega e judia. Paraíso perdido, do poeta protestante John Milton, é uma épica religiosa cristã, que abrange a inteira história humana, empregando a simbologia bíblica, em uma releitura muito pessoal do Gênesis: da expulsão dos anjos rebeldes do Paraísoà queda dos progenitores míticos devido à obra do tentador Satã ao desenho providencial de Deus em que o sacrifício de Cristo se torna necessário para redimir a humanidade.
Apenas com o Romantismo, por razões que são tanto estéticas quanto políticas, o gênero épico como foi teorizado e praticado por Tasso e Milton entra em crise. Não é possível neste contexto articular um discurso exaustivo sobre as razões desta crise. Basta dizer que no plano estético o Romantismo desmantela a unidade dos gêneros, a conveniência entre estilo e matéria, conferindo plena libertade e autonomia ao artista enquanto gênio. A épica sobrevive em formas híbridas, tocada pela paródia e contaminada pela negação irônica. Luiza Lobo escreve justamente destacando a função autocrítica própria ao Romantismo e reconhecendo já em Victor Hugo, no célebre Prefácio ao Cromwell, a enunciação da “dissolução dos limites dos gêneros” (LOBO, Luiza, 2005, p. 79), que levará a épica a várias formas de contaminação.
Sob o perfil político, as razões universalizantes e ecumênicas, válidas pelo menos até Milton, cedem frente ao surgimento de uma consciência nacional e de um ethos dos povos. Evidentemente esta transformação afeta as formas da arte e seu imaginário. Nascem portanto épicas nacionalistas antes que cristãs. Toda uma simbologia precisa ser adaptada aos novos ideais, muitas vezes laicos e liberais. Assim, em Byron, no Canto I do Childe Harold, “empregou a figura do abutre para representar o mal, e a de uma águia como símbolo da Coroa Espanhola” (LOBO, Luiza, 2005, p. 85); deve notar-se que a mesma figura foi usada por Milton com um significado puramente religioso, “imagem da “ave da rapina” per rappresentare il demonio “com sua “mandíbula devoradora” (“ravenous maw”)”.
As consequências do calor político sobre a épica são tão intensas que fazem com que nela penetrem novos conteúdos e ideais. A história abre-se à utopia revolucionária e se contamina com as paixões da contemporaneidade. O cenário histórico característico da épica, isto é o “passado absoluto” (BAKHTIN, Mikhail, 2001), que a tornava impermeável a qualquer contaminação com o presente, selando-a num passado remoto, vem sendo substituído por épicas que lidam com acontecimentos mundiais inéditos e atuais e que faz agir seus personagens em contextos e ambientes pertencentes cada vez mais ao “incompiuto presente” do qual fala o próprio Hegel. Neste sentido, o Romantismo levou à obsolescência o preceito tassiano segundo o qual a épica teria que ser fundada “sobre a história”, uma vez que é nela que se condensam as ações memoráveis. O tempo absoluto característico da épica clássica e classicista, é gradualmente substituído por um presente que mantém com as épocas históricas passadas relações de continuidade.
Também, no que diz respeito à figura do herói assistimos a transformações profundas e radicais, em comparação com a teoria contida nos Discorsi. O heroísmo puro e abstrato de um Goffredo da Buglione, apto a se sacrificar pelos ideais da cristiandade universal, é substituído por ideais nacionalistas, às vezes com objetivos e argumentos concretamente políticos. São várias as encarnações épicas deste novo herói byroniano e politicizado. Encontra-se um exemplo significativo também no outro lado do Atlântico, em Sousândrade, um sinal da penetração global dos novos conteúdos épicos. O herói, neste caso, chama-se Guesa: “o Guesa é um personagem romântico, como o Childe Harold, de Byron, um rebelde que deseja um governo mais liberal para as nações modernas” (LOBO, Luiza, 2005, p. 94). O perfil do novo herói épico sousandriano é decididamente excêntrico. Há, mesmo neste sentido, inúmeras implicações políticas e ideológicas introduzidas na épica pelo Romantismo:
O Guesa era uma criança roubada aos pais e destinada a cumprir o destino místico de Bochica, deus do Sol. Educado no templo do deus até os 10 anos, deveria então repetir as peregrinações rituais para, afinal, aos quinze anos, ser sacrificado à divindade. Numa praça circular, atado a uma coluna, o Guesa era morto a flechadas por sacerdotes (xeques). Seu coração era arrancado em oferenda ao sol e o sangue recolhido em vasos sagrados. Sousândrade identifica o seu destino pessoal de poeta com o fadário de um novo Guesa. Mas, para além deste drama individual de poète maudit, explicável pelo mal de siècle, há uma forte motivação histórico-social: o poeta hipostasia seu destino no do índio americano explorado pelo conquistador branco (CAMPOS, Haroldo de, 2013, p. 173).
Nesta sucinta síntese da personagem e da sua vida são evidenciados os símbolos do martírio. Em um sincretismo complexo e dinâmico, em que as lendas dos índios misturam-se à mitologia greco-latina e à cristandade, pois o herói do poema, o Guesa, pode ser interpretado como um moderno Prometeu, como um Cristo, como um São Sebastião, mas também como um poeta, um artista, sacrificado à falta de poesia do mundo burguês e em fim, reconhecendo o verdadeiro valor da componente político-ideológica, que simpatiza e identifica-se ao destino dos vencidos, o Guesa é exemplar da tragédia de toda uma cultura, a índia-americana, destruída pelos colonizadores europeus.
Naturalmente à novidade do herói épico Guesa corresponde a novidade do estilo. Assiste-se também no nível estilístico à decisiva ruptura com a teoria enunciada em Discorsi: “i versi alti” de Tasso, adequados a veicular a matéria exemplar da épica e enobrecê-la, são empregados para novas exigências expressivas, para novos conteúdos:
“Essa ousada mistura de tons entre o baixo, da comédia, o médio, do prosaico, e o elevado, do épico, em plena epopeia, configurou-se como uma criação de grande impacto e absoluta originalidade no seu tempo, em toda a literatura mundial (…)” (LOBO, Luiza, 2012, p. 13).
Afinal, a novidade formal e temática desta obra fez de Sousândrade um precursor do Modernismo (também europeu) (cf. LOBO, 2012). Composta em um período de algumas décadas (1867-1884), ela mostra que o destino do gênero épico, não somente na Europa – como foi teorizado por Tasso – se tornou unicamente objeto de estudo acadêmico. A épica, no cânone literário da modernidade e da pós-modernidade, pode aspirar a um espaço seu só se se contaminar, se se hibridizar, se finalmente souber negar ou parodiar sua proveniência nobre e exemplar.
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WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EdUSP, 2008.
Bio fornecida pelo palestrante.
Caique Franchetto
Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP)
Resumo: A emancipação da leitura nos séculos XVIII e XIX fez com que os autores franceses buscassem alternativas para que seus livros fossem publicados. O jornal, símbolo da leitura de massa, foi a chave para a divulgação da literatura do oitocentos: o folhetim abriu as portas para Dumas, Sue e Alencar publicarem e serem lidos, e os “anúncios” nas “Variedades” divulgavam novas obras e best-sellers editados por livreiros que viam no jornal a publicidade de seus negócios. Com o avanço da produção e da circulação de livros e folhetins, o respaldo nos jornais cariocas foi intenso, revelando efetivas práticas culturais de leitura. Com base nessas informações, este trabalho pretende colaborar com o mapeamento da recepção de folhetins e anúncios do século XIX no jornal O Mercantil, referenciando-se nas leituras sobre a circulação transatlântica de impressos e ideias, sobre a constituição e influência do gênero folhetim e, por fim, sobre as relações entre literatura e imprensa na Europa e no Brasil do século XIX.
Palavras-chave: Imprensa literária; variedades; França e Brasil; século XIX.
Abstract: Culture and Literary Press: French Feuilleton and Advertisement on The “Variétés” of the newspaper O Mercantil (1844-1845) deals with the emancipation of reading on 18th and 19th centuries lead the French writers to look for alternatives in order to publish their books. The newspaper – massive reading symbol – has been the key for the promotion of eighteenth century literature. The feuilleton opens the doors to Dumas, Sue and Alencar. Its advertisement and variétés promoted their new best-sellers, enhancing their business. With growing production and circulation of books and feuilletons, there was an intense support on the part of the cariocas to newspapers. Based on these information, this research intends to contribute to the mapping of the reception of feuilletons and advertisement during the 19th century in the newspaper O Mercantil. It will employ as reference the readings about the transatlantic circulation of printed material and ideas, about the constitution and influence of the genre feuilleton and, at last, about relationship between literature and the press in Europe and in Brazil in the 19th century.
Keywords: Literary press; variétés; France and Brazil; 19th century.
Currículo da autora: Mestrado em andamento em Teoria e História Literária pelo IEL/UNICAMP. Graduação (2011-2015) em Letras (Português/Francês) pela EFLCH/UNIFESP. Desde 2011 tem experiência como professora de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Regular da rede pública e privada de ensino de São Paulo. Atualmente é professor particular de Língua Francesa, pesquisador na área de Teoria e História Literária, Literatura Francesa e Brasileira, circulação e recepção literária (livros e ideias) entre Europa e Brasil no século XIX, e Romantismo e Natureza (Filosofia, História e Literatura) e revisor editorial do periódico acadêmico “De Letra em Letra” do Departamento de Letras da UNIFESP.
CULTURA E IMPRENSA LITERÁRIA: FOLHETINS E ANÚNCIOS FRANCESES NAS “VARIEDADES”
DO JORNAL O MERCANTIL (1844-1845)
Caique Franchetto
Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP)
Introdução
– E por que se entregar ao sofrimento? O que nos custa nossa vida, o assunto que, durante as noites estudiosas, destruiu nosso cérebro. Todas essas incursões pelos campos do pensamento, nosso monumento construído com nosso sangue torna-se para os editores um mau ou um bom negócio (Diálogo entre Lucien e Lousteau, in: BALZAC. Ilusões perdidas, 2010, p. 323).
Abro esse texto a partir da epígrafe acima que retirei das Ilusões perdidas, de Balzac, pois, ela é o ponto de partida do que será tratado ao longo dessas linhas. Antes dos historiadores do livro, Balzac já havia percebido agudamente as relações de circulação do livro entre a imprensa periódica e o sistema editorial. Conservador, ele aponta a mecanização da “aura” da literatura, mas, essas relações entre a imprensa literária e o sistema editorial nos relevam como um livro era produzido, da sua criação até sua circulação e recepção, e revelam também práticas de leitura entre as sociedades ocidentais durante à ascensão burguesa.
No Brasil, boa parte dos romances franceses que influíram na formação da nossa literatura no oitocentos circulou em jornais dentro das rubricas de “Variedades” e de “Folhetim”. Machado de Assis no célebre conto “A missa do galo” (1899) é um desses registros literários. No conto, o narrador lê ebriamente um romance-folhetim, os “Mosqueteiros” do Sr. Dumas, em uma “velha tradução creio do Jornal do Comércio” (ASSIS, 1985, p. 240), o mais importante jornal brasileiro do oitocentos que publicou folhetins e anúncios franceses, além d’A Moreninha, de Macedo, gênese do nosso romance romântico .
Nessa esteira desses autores, esse artigo tem como objetivo a colaboração com o mapeamento da recepção de folhetins, anúncios e outras variedades francesas nos periódicos fluminenses do século XIX, por meio de um estudo e levantamento de dados no jornal O Mercantil em busca de textos franceses e anúncios de livros publicados em seu primeiro ano, entre 1884 e 1845, período no qual se ascendeu a publicação da imprensa literária e a circulação transatlântica de livros entre a França e o Brasil. O estudo dessa circulação além de proporcionar um levantamento de textos literários, permite também que se identifique quais eram os costumes literários no Brasil oitocentista, além de mapear a circulação de livros franceses e suas traduções em língua portuguesa.
Imprensa literária: cultura letrada à francesa e circulação no Brasil oitocentista
Segundo o historiador da imprensa Christophe Charle (2004), a partir das Revoluções de 1789 e 1830, estava presente na França uma política liberal que libertaria a imprensa periódica. Essas “novas formas culturais” (as tipologias da imprensa) pretendiam “todos os tipos de leitores”, difundindo os “saberes” reinventados pela burguesia. O “sucesso social da imprensa” deu-se pelas “rubricas transversais”, que estarão geograficamente em “variedades”, como o “folhetim” ascendendo a “imprensa popular” (CHARLE, 2004, p. 12-15). A partir da imprensa de massa, a “função primeira dos jornais” é democratizar o acesso ao “espaço público” (CHARLE, 2004, p. 20), que ao baratear cada vez a produção e consumo do jornal, possibilita a interação do público com o cotidiano e as novidades culturais, pois, ao possuir um jornal, o leitor poderia ter acesso às “variedades” e aos “anúncios” diversos, inclusive os de livreiros.
Marlyse Meyer (1998) nos diz que, apesar do negativo juízo dos pensadores da estética marxista, o “gênero folhetinesco” (romance-folhetim, fait divers e crônica) dão lugar “às classes laboriosas”, cujo sujeito é “leitor/ouvinte” e lhe é dado “o direito de interpelar o autor e interferir na conduta da ação e dos protagonistas” (MEYER, 1998, p. 124-125). Ou seja, é a primeira vez, e foi possível pela imprensa burguesa, que há uma ideia de “democratização da cultura”, além de que, no caso brasileiro,
Rastrear as Variedades pela imprensa brasileira da primeira metade do século XIX significa tanto ir ao encalço das primeiras manifestações da ficção, como de um espaço livre à criação e à transformação do jornal (MEYER. 1998, p. 127).
Em outro importante escrito de Meyer (2005), folhetim deriva do termo afrancesado do inglês feuilleton, que significa “folha de papel”. No caso da imprensa literária, é uma parte da folha do jornal ou periódico reservada ao final da página, isto é, no “rés-do-chão”, no “rodapé”, ocupando de uma a três páginas, oriundo da antiga rubrica variétés (variedades). Segundo Meyer (2005), o folhetim constitui-se desde o espaço reservado a ele, cuja “liberdade de recriação e recreação” (feuilletes tout court) permitiu que fossem publicados romances, ensaios, crônicas, piadas, relatos, receitas, críticas, esboços, etc., até em um gênero com características estruturais e temáticas específicas: a novela-folhetim, o romance-folhetim e a crônica-folhetim:
(…) inventado pelo jornal, e para o jornal, o feuilleton-roman (…). Nasceu na França, na década de 1830, concebido por Émile de Girardin, que percebeu, na época de consolidação da burguesia, o interesse em democratizar o jornal, a chamada grande presse, e não mais privilegiar só os que podiam pagar por caras assinaturas. Para aumentar o público leitor havia, pois, que barateá-lo (…). Havia já, desde o começo do século, o feuilleton, ou rodapé, tradicionalmente de tom e assunto mais leves que o resto do jornal, muito cerceado pela censura. Podia ser dramático, crítico, tornando-se cada vez mais recreativo. O folhetim vai ser completado com a rubrica ‘variedade’ que é a cunha por onde penetra a ficção, na forma de contos e novelas curtas. O passo decisivo é dado quando Girardin, utilizando o que já vinha sendo feito para os periódicos, decide publicar ficção em pedaços. (…) na origem, e assim vai ser pelo romantismo afora (época em que o romance é o gênero literário dominante), o romance-folhetim é essencialmente uma nova concepção de lançamento de ficção, qualquer que seja seu autor e o campo que abranja. (…) A almejada adequação ao grande público, a necessidade de corte sistemático num momento que deixe a atenção em ‘suspense’ levam não só as novas concepções de estrutura (…) como a uma simplificação na caracterização dos personagens (…). Verifica-se, além disso, genial adaptação à técnica do ‘suspense’ e ao rápido e amplo ritmo folhetinesco dos grandes temas românticos (…) (MEYER, 2005, p. 30-31).
Os romances, novelas e crônicas em folhetim traziam ao leitor temas populares do cotidiano social (público) e familiar (privado); ou seja, o “mundo folhetinesco”, cuja temática girava em torno do crime, da miséria, da prostituição, dos perseguidores e perseguidos, de atrocidades e da História, temas triviais e citadinos, como diria Machado de Assis em suas crônicas. É por meio do folhetim – literatura de baixo custo do jornal – que há a ascensão da leitura de massa; o prazer da leitura de romances-folhetins vem pela representação de ícones da História, como nos romances de Dumas, ou de “tipos” do povo, como Les Mystères de Paris, de Eugène Sue:
Mas o próprio caráter comercial haveria de beneficiar os autores: o jornal é uma plataforma permanentemente aberta aos jovens que querem tentar a carreira literária e experimentar o gênero moderno por excelência que é então o romance (MEYER, 2005, p. 63).
O folhetim é, em primeiro momento espaço, o rez-de-chaussé ou rodapé; depois torna-se um gênero, cuja estrutura é baseada em cortes sistemáticos, diversos núcleos narrativos permeados pelo suspense, e diálogos ligeiros dando ritmo a essa narrativa; por fim, consolida-se como tema, o “folhetinesco”, bebendo da influência do drama romântico e do fait divers, destinado “ao entretenimento” e à “criação imaginativa” da literatura.
Assim como nos lembra Antonio Candido (2006) na Formação da Literatura Brasileira, a burguesia literária se fixa, no Brasil, a partir da “ampliação do público leitor, devida à participação mais efetiva do povo na cultura”, que desenvolve movimentos democráticos como a “imprensa periódica” e a “indústria do livro” (CANDIDO, 2006, p. 430). O romance é a síntese desse desenvolvimento que revela o pensamento romântico que circulava, na maioria dos casos, nos folhetins espalhados pelas páginas dos periódicos:
(…) a intensidade dos folhetins traduzidos diminuiu no momento em que se define a produção local: isto significaria que ela tomou em parte o seu lugar e viria corresponder a necessidade do meio. (…) Os livros traduzidos pertenciam, na maior parte, ao que hoje se considera literatura de carregação; mas eram novidades prezadas, muitas vezes, tanto quanto as obras de valor. (…) Na maioria, franceses, nos títulos o gênero que se convencionou chamar folhetinesco: Quem sabe quais e quantos desses subprodutos influíram na formação do nosso romance? Às vezes, mais do que os livros de peso em que se fixa de preferência atenção (CANDIDO, 2006, p. 439-440).
No Brasil, o interesse pelo romance estava relacionado ao próprio ideal romântico de formação da identidade cultural, artística e literária. Por meio da “importação” do modelo francês, autores como Macedo e Alencar começaram a produzir a “nova narrativa”. Ainda na esteira de Candido (2006), o gênero romance só se fixou no Brasil por conta de Alencar relacionado, justamente, às primeiras manifestações românticas e ao desenvolvimento do jornalismo.
Na primeira metade do oitocentos brasileiro, o preço baixo do jornal e dos romances “pós-folhetim” atraiam leitores de diversas classes sociais. No jornal, esse romance “cortado e seriado” interage com as demais notícias e com os anúncios dos livreiros que divulgavam suas listas de acervo e de chegada de novos romances (traduções ou edições europeias) que se tornariam os best-sellers do século XIX. Surgem, então, sobretudo no Brasil “afrancesado”, novos tipos de espaços e novos gêneros narrativos a serem publicados: as “Variedades” que publicavam textos diversos de e/ou sobre literatura; o folhetim que estrutura o gênero romance-folhetim; os suplementos que publicavam notícias extras e outros romances-folhetim ao mesmo tempo; e, por fim, a rubrica de “Anúncios” que divulgava, como o caso que estudaremos a seguir, livros clássicos e edições traduzidas dos mesmos romances que estavam sendo publicados em folhetim, um ou duas páginas atrás no mesmo jornal. Essa transformação da técnica de produção literária e de mentalidade de apropriação cultural expande o mercado editorial e livreiro, atingindo assim diversas camadas sociais, inclusive o proletariado. Os avanços do jornal e da facilidade de acesso ao livro contribuíram para a ascensão da leitura e da estética moderna.
Folhetins, variedades e anúncios n’O Mercantil
Essa longa contextualização que veio sendo trabalhada até então nos permitiu vislumbrar quais foram as situações nas quais a imprensa francesa e se formou, bem como os gêneros literários vinculados a ela, e como e em quais circunstâncias ela se tornou a matriz importada pelo Brasil em plena formação intelectual, cultural, sócio-política e, sobretudo, literária. A partir da Imprensa Régia, o jornal brasileiro passa por constantes transformações e são fundados diversos títulos para emancipar o mercado editorial e difundir os ideais políticos da cultura letrada formada pela elite vigente no período. Assim como nas pesquisas e nos levantamentos sobre circulação transatlântica de impressos no século XIX, a transição dos anos 1844 e 1845 no jornal O Mercantil apontou a predominância de folhetins e variedades de origem francesa, que eram publicados periodicamente, além de inúmeros anúncios de livros, sobretudo romances franceses, brasileiros e de outras nacionalidades já em traduções em português.
O jornal escolhido nessa pesquisa foi O Mercantil, derivado e fundado pelos mesmos editores-impressores do Correio Mercantil. Herdeiro de um dos principais jornais fluminenses do período, o Mercantil foi imprenso entre os anos de 1844 e 1848, quando deixa e volta a ser intitulado como Correio Mercantil. Independente do título com o qual circulava, o Mercantil era um dos principais concorrentes do Jornal do Commercio, este que era o maior periódico do país até então cujo posicionamento político era o conservador e monarquista. Assim como a problemática e contraditória política brasileira, que se dividia entre dois partidos: os monarquistas a favor do Imperador, e os liberais, estes que se subdividiam entre os republicanos democratas e os socialistas, o Mercantil defendia o liberalismo e o abolicionismo, contudo, não poderia ser considerado um jornal “socialista”, pois, ainda estava ao lado da elite liberal-republicana contra a monarquia. Para Morel & Barros (2003), o jornal revela seu perfil de público leitor, isto é, uma elite que constitui a “opinião pública”:
Dessas proposições, emerge o perfil de um público – se não o existente, pelo menos o desejado: o espelho de uma identidade ao mesmo tempo cultural, social e política. Um público ilustrado e poderoso, integrado por sábios, homens instruídos, lado a lado com ricos proprietários – isto é, um conjunto de cidadãos e leitores ativos (MOREL; BARROS, 2003, p. 39).
Pensando a imprensa como o principal espaço de divulgação e discussão dos assuntos políticos e citadinos da sociedade oitocentista – assim como hoje, ao lado das demais mídias televisivas e digitais – o jornal comum e geral do período equilibrava, entre os editais e rubricas, notícias políticas e de costumes e o folhetim (que poderia ser ficção ou resenhas, sobretudo as teatrais) nas duas primeiras páginas, as “Variedades” e notícias do porto na terceira e, por fim, na quarta página, os anúncios, além dos “Suplementos” ou edições especiais com mais páginas dando enfoque em determinadas notícias e acontecimentos importantes, sobretudo os intensos debates sobre a continuidade ou não do Império independente. Menos político do que o Correio…, o Mercantil era um jornal menor, com apenas quatro páginas, e que dava mais espaço aos folhetins, às variedades e aos anúncios; nesse âmbito, concorria cabeça-à-cabeça com o Jornal do Commercio, publicando concomitante os best-sellers AlexandreDumas e Eugène Sue, nos rodapés e nas colunas em meio às suas páginas.
Dentre os franceses, o principal romance publicado foi Os Mistérios de Paris, de Sue. Retomo mais uma vez o que Meyer (2005) tem a nos dizer quanto ao seu anúncio:
(…) finalmente, chegam ao rodapé, em português, os tão esperados Mistérios de Paris. A data é 1º. de setembro de 1844, tradução de R. (Joaquim José da Rocha). Salvo uma ou outra interrupção, “vem à luz” todos os dias e ocupa praticamente o suplemento dominical inteiro. (…) e ocupa quatro rodapés até o FIM, em 20 de janeiro de 1845. Mas, nem um mês depois de iniciada a publicação, em 1º. de outubro de 1844, sai, pela primeira vez na história do jornal, um reclame enorme, com tipos garrafais, ocupando toda a sua largura, em rodapé: “ACHAM-SE à venda em casa de J. Villeneuve & Cia., rua do Ouvidor, 65, OS MISTÉRIOS DE PARIS. Primeira Parte – um volume – nítida edição – 1$00” (MEYER, 2005, p. 283).
O relato da autora é referente ao … Commercio; no entanto, o mesmo padrão é percebido no Mercantil, conforme o Quadro I, abaixo:
TÍTULO
AUTOR MÊS – ANO DIAS DE PUBLICAÇÃO
O monte do diabo ou o aventureiro E. Sue Setembro – 1844 16, 17, 20, 22, 23, 26, 27, 28, 29
O monte do diabo ou o aventureiro E. Sue Outubro – 1844 2, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 12, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 28, 29, 30, 01 (de Novembro)
Safia, ou os mysterios de Veneza R. de Beauvoir Novembro – 1844 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 14, 15, 16, 18, 19, 20, 21, 22, 24, 25, 26, 27, 29, 30
Os trez mosqueteiros A. Dumas Dezembro – 1844 1, 2, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 12, 13, 14, 16, 17, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 27, 29, 31
Os mysterios de Paris
(em “Suplemento”, caderno à parte do folhetim) E. Sue Dezembro – 1844 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29
Os mysterios de Paris E. Sue Janeiro – 1845 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 (suplemento), 12
Ramalhet das damas
(resenha do anúncio de peça teatral escrita) Torquato e Eleonor Janeiro – 1845 6
Amory A. Dumas Janeiro – 1845 12, 16, 19, 20 [em variedades], 26 [em variedades]
Gérolstein ————- Janeiro – 1845 12
Os trez mosqueteiros A. Dumas Janeiro – 1845 19, 20**, 26, 27, 28, 29, 30
Os trez mosqueteiros A. Dumas Fevereiro – 1845 2, 3, 6, 10, 17, 25, 28
Os trez mosqueteiros A. Dumas Março – 1845 1, 2, 3, 5, 7, 9, 11, 12, 14, 15, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24
Quadro I. Levantamento de folhetins publicados entre setembro de 1844 e março de 1845.
Enquanto o …Commecio iniciava em setembro de 1844 os Mistérios, o Mercantil iniciou, quase diariamente, e por dois meses, a publicação de uma novela do mesmo Sue, O Monte do Diabo ou O Aventureiro, que se estendeu por dois meses, até, enfim, ser publicado no “Suplemento” do mesmo, diariamente, entre dezembro de 1844 e janeiro de 1845. Antes de iniciado os Mistérios de Sue, outros “mistérios” eram publicados: Os mistérios de Veneza, de Beauvoir, revelando a imensa força da “mania dos mistérios”, que fez “pipocar” no curto período de uma década, inúmeros folhetins com o mesmo título, como bem podemos lembrar dos Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco, o Mistérios do Brasil e Mistérios do Rio, publicado no … Commercio entre 1847 e 1854 (MEYER, 2005, p. 285). Seria uma manobra publicitária dos editores do Mercantil publicar os Mistérios de Beauvoir? Estou tentado a dizer que sim, pois, publicou este enquanto não possuía um outro folhetim de força como Os três mosqueteiros, cujo início é a partir de dezembro de 1844 concomitante aos Mistérios de Sue que inicia em 23 de dezembro de 1844 no “Suplemento”.
A transição de Sue para o “Suplemento” permite que seja publicado mais de um romance-folhetim ao mesmo tempo, no caso, o início de outro best-seller, os Mosqueteiros de Alexandre Dumas, que sob pequenas interrupções, domina o rodapé de 1 de dezembro de 1844 até seu fim em 24 de março de 1845. Encerrado os Mistérios, o espaço e a atenção voltam-se a Dumas, publicando, como veremos a seguir, no “Folhetim” e nas “Variedades” a novela Amory junto aos Mosqueteiros.
Enquanto o “Folhetim” estava convenientemente preenchido por Sue e Dumas, as “Variedades” do Mercantil eram mais incertas. Ora elas apareciam ora não, dependendo da demanda de publicações. Para (2005), as “Variedades” eram os espaços para os textos diversos, e esse caráter de liberdade repetia-se no Mercantil, publicando pequenos textos literários, como podemos observar no Quadro II.
TÍTULO AUTOR MÊS – ANO DIAS DE PUBLICAÇÃO
Amory A. Dumas Outubro – 1844 20, 29, 30.
Amory A. Dumas Novembro – 1844 1, 11, 14, 17, 19, 22, 23, 25, 27, 28
Uma viagem de duas mil léguas C. Lagrange Novembro – 1844 12
Amory A. Dumas Dezembro – 1844 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 16, 19, 22
Amory A. Dumas Fevereiro – 1845 7,14, 17
O assassínio. (conto moral) P. Méry Março – 1845 24
Um acto de desespero P. Méry Março – 1845 25, 26
Quadro II. Levantamento das variedades publicadas entre setembro de 1844 e março de 1845.
Devido ao caráter “menos político” do Mercantil, era de se esperar que as “Variedades” fossem preenchidas, em seu primeiro ano, exclusivamente pelo texto literário, no caso, pequenas novelas que caminhavam ao mesmo tempo em que grandes romances-folhetins eram publicados. Com a força do “Folhetim”, o espaço de “Variedades” aparenta ser apenas o “preenchimento” do jornal, logo, sua publicação é permeada de inúmeras interrupções. Um motivo para esse padrão incerto é que o romance no jornal é um triplo negócio: para o autor, que vê na imprensa a oportunidade de publicar e de se profissionalizar; para o leitor, que se alimenta dessa ficção histórica ou realista e assim começa a construir sua visão de mundo; e, por fim, para o editor, que ganha com as vendas do jornal e “o negócio se estende à republicação em volumes” (MEYER, 2005, p. 288) posteriormente.
Como vimos no Quadro I, enquanto era publicada a novela de Sue, Amory preenche as “Variedades” e a “ânsia” de ficção narrativa exigida pelos leitores e editores famintos, até ser publicada concomitantemente aos Mosqueteiros. O Mercantil era nitidamente forrado por Dumas que, pela diversidade de seus escritos, ia do romance histórico à aventura de um herói romântico, atraindo um público leitor mais amplo:
Alexandre Dumas, na esteira de Walter Scott, com as artimanhas do excelente dramaturgo que é, cavouca segredos da alcova e mexericos de outros tempos, ressuscita espadachins e suas bravatas, ministros, rainhas, lançando o caudal do folhetim histórico, aquele que para muitos de nós fez as vezes da verdadeira História (MEYER, 2005, p. 67).
Enquanto não retomava os Mosqueteiros depois do fim dos Mistérios, o “Folhetim” foi preenchido pela novela Amory, de Dumas. Voltando o romance-folhetim, a novela migra novamente às “Variedades” até acabar em 17 de fevereiro de 1845. Encerrada a novela de Dumas, mas ainda ao mesmo tempo dos Mosqueteiros, são publicados dois pequenos contos: O assassínio (conto moral) e Um ato de desespero de Paul Méry, autor pequeno, esquecido atualmente, mas, um autor de “carregação” como diria Candido (2006), muito lido em seu tempo. As “Variedades” do Mercantil estavam ocupadas por ficção, contudo, um fato curioso foi encontrado e percebido em meio às páginas de março de 1845: a rubrica “Litteratura”. Podemos considerá-la uma extensão das “Variedades”, espaço que publicou a então “crítica” e “resenha” como afirmou Meyer (1998) como no Quadro III.
TÍTULO
AUTOR DATA DE PUBLICAÇÃO
Torquato Tasso. Ariosto – Virgílio – Homero Hellum 15 – Março – 1845
Luminares do séc. XIX – Napoleão, Chateaubriand e Bolívar [anônimo] 20 – Março – 1845
Quadro III. Textos publicados no espaço “Litteratura” em março de 1845.
Os dois textos publicados revelam as paradoxais dicotomias entre Antigos e Modernos do Romantismo: o primeiro texto é uma análise comparativa de Torquato Tasso com as obras de Virgílio e Homero, referências clássicas que ainda estavam presentes e faziam parte das práticas de leituras no oitocentos. Já o segundo, é uma análise dos feitos de grandes homens que influenciaram o que o autor anônimo chama de “era moderna”, a partir de seus atos políticos, como Napoleão, e artístico-literários, a partir do Romantismo francês com René-François de Chateaubriand.
Pensando o conceito de best-seller e a lista de títulos mais impressos e pedidos realizada por Martin Lyons (1987), esses nomes que estavam na rubrica “Litteratura”, bem como os demais nos “Anúncios”, eram os mesmos tanto na França como no Brasil.
Uma seleção de best-sellers de longa duração coloca em evidência as estruturas mentais profundas da sociedade francesa moderna. Estas obras representam os gostos literários tradicionais que teriam perdurado; é a sociedade mesma que os haviam designado como representativos de sua própria cultura. Os títulos que se acham em nossas listas de best-sellers sugerem que essa cultura havia sido profundamente marcada pelo classicismo do século XVII e, em menor escala, pelas Luzes do século seguinte (LYONS, 1987, p. 95).
Entre os Clássicos ainda presentes, a audiência era bem dividida com os românticos, como os próprios Chateaubriand e os folhetinistas.
Preenchido devidamente os espaços ficcionais e críticos do Mercantil, eis que podemos avançar para mais um de seus capítulos: a rubrica “Anúncios”, onde também estavam presentes esses best-sellers. Com base no trabalho de Heineberg (2004), percebe-se que os anúncios de livros deste período entre O Mercantil e o … Commercio eram semelhantes, apesar da pequena diferença de quatro meses dos primeiros anúncios dos Mistérios no … Commercio em setembro, e o primeiro anúncio do mesmo romance e edição em volume no Mercantil em 18 de janeiro de 1845, enquanto caminhava para o fim sua publicação em folhetim, conforme podemos ver no Quadro IV.
TÍTULO
AUTOR DATA DE PUBLICAÇÃO
Os mysterios de Pariz E. Sue 18/01/1845
Os três mosqueteiros A. Dumas 25, 26, 27, 28, 29, 30/01/1845
Os três mosqueteiros A. Dumas 04, 06, 08,09, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 26, 27, 28/02/1845
O perigo das paixões Madame d’Uncy
[tradução portuguesa de A. M. Couto] 15/02/1845
Rosa encarnada A. Dumas 15/02/1845
Os Natches Chateaubriand 20/02/1845
Os três mosqueteiros A. Dumas 03, 04, 05, 06, 07, 08, 09, 10, 11, 14, 16, 17, 19, 20, 21, 23, 24, 30, 31/03/1845
Quadro IV: Anúncios de publicados entre janeiro de 1845 a março de 1845 de obras francesas
No Mercantil não havia indicação precisa dos livreiros anunciantes, porém, os endereços das instituições onde poderiam ser encontrados os exemplares eram os mesmos mencionados nos demais jornais anunciantes, bem como os anunciantes eram as tipografias das ruas da Quitanda e do Ouvidor, sobretudo da tipografia de Villeneuve .
O mais curioso dos anúncios, além da publicação acirrada ao mesmo tempo dos folhetins, é que todas as edições anunciadas eram traduções portuguesas ou brasileiras, impressas na França, em Portugal e, inclusive, no Brasil. Não apenas os Mistérios de Sue, mas os Mosqueteiros de Dumas foram anunciados ao mesmo tempo em que eram publicados em folhetim, sobretudo a partir de janeiro de 1845, em que o Mercantil era completamente dumasiano.
Assim como nos lembra Alencar em Como e porque sou romancista, suas preferências de leitura eram esses romances anunciados e publicados em folhetim: “acabei o volume de Balzac; e no resto li o que então havia de Alexandre Dumas e Alfredo de Vigny, além de muito de Chateaubriand e Victor Hugo” (ALENCAR, 2005, p. 40). Das obras de Dumas, sabemos bem o que Alencar lia: os Mosqueteiros e outras novelas publicadas; de Chateaubriand, os Natchez e os Martírios, que circularam assiduamente entre os nossos românticos.
Nesse clima de leituras francesas nas tipografias e nos folhetins, surge no final do ano de 1844 o marco inicial do romance romântico brasileiro: A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, anunciado em todos os jornais fluminenses, inclusive no nosso querido Mercantil, em fevereiro de 1845 e, depois, anunciado constantemente durante o mês de março de 1845. A novidade que o romance de Macedo causa na cultura literária brasileira é tamanha e perceptível quando observamos outras chamadas do mesmo livro publicadas diariamente em março de 1845 fora dos ‘Anúncios’, espalhadas pelos avisos e páginas do jornal, conforme houvesse espaço disponível:
A MORENINHA
Acha-se no prelo, e sairá brevemente à luz, este romance com 5 lindíssimas estampas; subscreve-se na rua da Quitanda n.77, S. José n.64, Ouvires n.127 e largo do Rocio n.64, a 2$rs. por exemplar.
Está iniciado o “tímido” romance no Brasil, entre os modelos romance-folhetim, romance-histórico e romance-realista, permeados pelos costumes franceses, junto à ascensão da imprensa periódica que dominará as práticas culturais dos leitores do século XIX à atualidade.
Considerações finais
Nesse interim, podemos encaminhar algumas reflexões e conclusões. O objetivo desse trabalho não era apenas expor uma série de dados de um levantamento realizado em um jornal brasileiro do século XIX, mas era também retomar discussões que ainda são temas na teoria literária, como o embate da estética e a democratização da cultura. Como vimos em Charle (2004), entre os séculos XVIII e XIX, a transformação social que a Revolução Francesa exige que a nova demanda de produtores e consumidores de cultura criem suportes, gêneros e temas de leitura. Para uma sociedade analfabeta, o jornal torna-se, talvez, a única ferramenta de práticas de leituras, de executar a recém alfabetização obrigatória, além de ser um bom negócio para autores e editores que almejavam enriquecer à custa da “técnica da escrita” em pleno capitalismo. Ainda que massifique, a literatura no jornal nos revela muito mais do que os grandes cânones, como o início da formação e, posteriormente, ampliação de público leitor; formação da estética e temática romântica, bem como foi a possibilidade de acesso à leitura por meio do baixo custo do jornal. Se em Balzac, o mercado editorial aniquila a “aura” literária, em Machado e nos jornais fluminenses, ele revela como os livros franceses chegaram e foram aclimatadas no Brasil. Fazer esse movimento é compreender os processos de formação cultural e literária antes dos livros se tornaram edições canônicas.
O nosso caro O Mercantil não estava atrás de outros jornais como o Jornal do Commercio. Salvo com alguns atrasos e interrupções, esse pequeno jornal nos mostra que o processo de recepção de livros franceses dependia apenas do tempo de viagem rumo ao Brasil, período no qual, o romance era traduzido no navio, pronto para circular imediatamente em sua chegada nas livrarias, bibliotecas, gabinetes de leitura e jornais que estavam nesse “afã” pelo alimento da ficção. Para o bem ou para o mal, jornais como O Mercantil cumpriram seu papel em seu devido momento histórico, democratizando o acesso à informação, à cultura e à literatura a partir das suas questionáveis “missões” e “empreendimentos” civilizadores, como publicou Le Siècle em 1º. de julho de 1836, em Paris.
Referências
ALENCAR, José de. Como e porque sou romancista. 2ª ed. São Paulo: Pontes, 2005.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos 1750-1880. 10ª ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.
CHARLE, Christophe. Le siècle de la presse (1830-1939). Paris: Seuil, 2004.
HEINEBERG, Ilana. La suíte au prochain numéro: Formation du roman-feuilleton brésilien à partir des quotidiens Jornal do Commercio, Diário do Rio de Janeiro et Correio Mercantil (1839-1870). 2004 (Thèse de Doctorat). Université de La Sorbonne Nouvelle – U.F.R. d’Études Ibériques et Latino-Américaines, Paris.
LYONS, Martin. Le Triomphe du Livre: Une histoire sociologique de la lecture dans la France du XIXe siècle. Paris: Promodis, 1987.
MEYER, Marlyse. As mil faces de um herói canalha e outros ensaios. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.
MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
MOREL, Marco; BARROS, Mariana Monteiro. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
Bio fornecida pelo palestrante.
CARTA DE BABEL: UMAVIAGEM LITERÁRIA
NO CAMPO DAS MIGRAÇÕES
Francisco Pereira Smith Junior
Universidade Federal do Pará
Jocélio Jorge Mácola Rente
Universidade Federal do Pará –
Programa de Pós-Graduação Linguagens e Saberes na Amazônia
Resumo : Neste artigo, objetivamos analisar o movimento migratório humano, por meio da obra literária Carta de Babel, de Luiz Galdino, na qual o autor aborda a experiência vivida por um imigrante, revelando a difícil situação de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo, que são obrigadas a mudar-se do seu local de origem em busca de melhores condições de vida, deixando para trás sua família, sua comunidade e suas características culturais.
Palavras chave: Migração, Literatura, Identidade.
Abstract: In this article we want to discuss the human migration through the literary work The Babel Letter, by Luiz Galdino. In the latter, the author presents the living experience of an immigrant, and reveals the plight of thousands of people around the world who are forced to move out of their place of origin in search of better living conditions, leaving behind their family, their community and their cultural characteristics.
Keywords: Migration, Literature, Identity.
Minicurrículos: Francisco Pereira Smith Júnior é professor Adjunto II da Universidade Federal do Pará, atuando no programa de pós-graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPGLSA).
Jocélio Jorge Mácola Rente é mestrando do Programa de pós-graduação Linguagens e Saberes na Amazônia, especialista em educação ambiental escolar pela Universidade do Estado do Pará – UEPA; é especialista em educação para as relações étnico-raciais pelo instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará – IFPA – e especialista em Saberes Africanos e Afro-brasileiros na Amazônia, desta universidade.
CARTA DE BABEL: UMAVIAGEM LITERÁRIA
NO CAMPO DAS MIGRAÇÕES
Francisco Pereira Smith Junior
Universidade Federal do Pará
Jocélio Jorge Mácola Rente
Universidade Federal do Pará –
Programa de Pós-Graduação Linguagens e Saberes na Amazônia
Introdução
O processo migratório faz parte da vida humana desde que o ser humano surgiu na terra e isso contribuiu para que diversas populações vivessem diferentes estágios de desenvolvimento. Foi a constante busca de novos espaços que em um primeiro momento garantiu sua sobrevivência e em um segundo, lhe proporcionou estabilidade e bem-estar, contribuindo para que o mesmo fosse paulatinamente alargando seus horizontes. Portanto, escrever sobre imigração é tratar de um tema complexo pois envolve um processo dinâmico das sociedades em se reinventar na presença do outro.
Não se pode escrever inocentemente sobre a imigração e sobre os imigrantes; não se pode escrever sem se perguntar o que significa escrever sobre esse objeto, ou, o que é o mesmo, sem interrogar-se acerca do estatuto social e científico desse mesmo objeto (SAYAD, 1998, p. 21).
Desde a primeira diáspora do continente africano para outras partes do mundo, por meio de diferentes rotas migratórias, que a adaptação humana vem ocorrendo de acordo com as condições de clima, relevo, alimentação entre outras. Desse modo, a história humana é marcada por intensa mobilidade populacional, como por exemplo: na fuga do povo hebreu do Egito para a “Terra Prometida”, do fluxo comercial no Mar Mediterrâneo, das expedições de Marco Polo, da expansão marítima pelo Oceano Atlântico, a chegada de Colombo ao “Novo Mundo” e o atual processo de globalização. Esses eventos levaram o ser humano a se aventurar na conquista de novos espaços. Foi essa inquietação que nos fez chegar a outros planetas. Por razões como essas torna-se tão difícil teorizar esse fenômeno visto que o mesmo deve ser observado em uma totalidade, mas também nas particularidades que levam a esses povos contar sua própria história.
Com o avanço do capitalismo, a partir da idade moderna, milhares de trabalhadores imigraram em busca de novas possibilidades de trabalho. Na contemporaneidade, o processo migratório é crescente, levando milhares de pessoas a saírem de seus países por questões políticas, religiosas, econômicas, conflitos bélicos, surtos epidemiológicos, fome, miséria, desemprego etc., obrigando pessoas a se lançarem por diferentes lugares em busca de melhores condições de vida, principalmente nos países mais ricos que recebem enormes contingentes de refugiados, que se sujeitam a viver em condições subumanas, causando uma crise humanitária em todo o mundo.
No Brasil, a situação do migrante não é diferente. Há tempos a população nordestina sai do interior do seu estado para as metrópoles urbanas fugindo da seca, pobreza e miséria. Na região norte, embora com menor intensidade, a população amazônica também se desloca entre os municípios e para a capital em busca de estabilidade.
Nesse sentido, percebemos que as pessoas só deixam seu lugar de origem por não encontrar nele os elementos essências a uma vida digna. Se elas tivessem opção, permaneceriam em suas comunidades ao invés de mudar-se de sua cidade, sem rumo, até desaparecer na poeira da estrada, inviabilizados no turbilhão das ruas dos grandes centros urbanos.
Na ficção, o fenômeno migratório está presente na literatura, na música, na pintura, no cinema. Como podemos observar no romance Os Sertões, de Euclides da Cunha, na música O Estrangeiro, de Caetano Veloso, na tela Os Retirantes de Candido Portinari e no filme Gaijin, caminhos da liberdade, de Tizuka Yamazaki.
Estudo das migrações: Abordagens teóricas
O fenômeno migratório, apesar de antigo, está presente em diferentes estudos, como na Arqueologia, Demografia, Sociologia entre outros. Segundo Braga (2011), A história da humanidade é marcada decisivamente pela mobilidade de indivíduos e coletividades no espaço e no tempo. De fato, as migrações são determinantes para o desenvolvimento de diversos eventos de natureza econômica, social e demográfica que definiram a ocupação e domesticação do espaço. De acordo com Sayad (1998), a imigração é, em primeiro lugar, um deslocamento de pessoas no espaço, e antes de mais nada no espaço físico.
Nesse sentido, para iniciar nossas reflexões acerca do que levam as pessoas a mudar de um lugar para outro é necessário nos apropriar de dois conceitos fundamentais: imigração e emigração. Desse modo:
(…) a imigração é o movimento de pessoas que entram em um país para fixar residência e a Emigração é o processo pelo qual pessoas deixam um país para residirem em outro, combinando-se para gerar os padrões de migração global que ligam os países de origem aos países de destino. GIDDENS (2005, p. 215).
Segundo esse autor, os padrões de migração mundiais podem ser vistos como um reflexo dos laços econômicos, políticos e culturais que estão em rápida mudança entre os países nos séculos XX e XXI. Assim, observamos que os fluxos migratórios pelo mundo, aumentam a cada década, ocasionando inúmeros problemas de ordem global. O autor estima que, na década 1990, a população migrante do mundo foi mais de 80 milhões de pessoas, 20 milhões das quais eram refugiadas. Esse número parece prestes a aumentar nos primeiros anos do século XXI, induzindo alguns estudiosos a rotularem essa época como a “era da migração” (CASTLES e MILLER, 1993, apud GIDDENS, 2005, p.215).
Com base nesses conceitos, Giddens (2015), identifica quatro modelos de migração que descrevem os principais deslocamentos globais. São eles: o modelo clássico, o modelo colonial, o modelo de trabalhadores-visitantes e os modelos ilegais. Este último é o mais característico de nossa década, criando novos fenômenos de deslocamentos globais que exigem estudos mais atualizados, a fim de propor sugestões de enfrentamento a esse novo modelo de Diáspora, muito mais intenso do que as primeiras rotas migratórias do início da história humana.
Desse modo, para entendermos melhor como ocorreu e ocorrem esses modelos de migração, nos apropriaremos do conceito de diáspora:
O termo diáspora refere-se à dispersão, em áreas estrangeiras, de uma população étnica que provém de uma terra natal, ocorrendo, na maioria das vezes, de uma maneira forçada ou sob circunstancias traumáticas. Geralmente, fazem-se referencias às diásporas Judaica e africana para descrever a forma como ocorreu a redistribuição dessas populações pelo globo. Embora os membros de uma diáspora sejam, por definição, espalhados geograficamente, eles se mantêm unidos por fatores como uma história em comum, uma memória coletiva da terra natal ou uma identidade étnica comum que é nutrida e preservada (GIDDENS, 2005, p. 216).
Esse conceito nos leva a pensar sobre este fenômeno, que de acordo com os estudos de Giddens (2005), tomando como base o conceito elaborado por Cohen (1997), no qual sustenta que as diásporas acontecem de diversas formas, embora os exemplos citados com maior frequência sejam aqueles que ocorrem involuntariamente como resultado de perseguição e violência.
Considerando essa discussão, Giddens (2005) apresenta cinco categorias diferentes de diásporas identificadas por Cohen, na obra Global Diasporas (1997), são elas: de vítimas, imperial, de mão de obra, de comercio e cultural. E ressalta que: Apesar de sua diversidade de formas, todas as diásporas possuem determinados aspectos-chave em comum e sugere que todas as diásporas possuem os seguintes critérios:
Um movimento forçado ou voluntario de uma terra natal para uma nova região ou novas regiões; uma memoria compartilhada sobre a terra natal, um compromisso em relação à sua preservação e a crença na possibilidade de um retorno final; uma forte identidade étnica que ultrapassa os limites do tempo e da distancia; um senso de solidariedade com os membros do mesmo grupo étnico que também moram nas áreas da diáspora; um grau de tensão em relação às sociedade-anfitriãs; o potencial de contribuições valiosas e criativas para sociedades-anfitriãs pluralistas (COHEN, 1997, apud GIDDENS, 2005, p. 219).
O autor em tela apresenta ainda novos padrões mundiais de movimentos migratórios que nos levam a examinar quatro tendências que irão caracterizar os padrões de migração nos próximos anos:
Aceleração – A migração através de fronteiras está ocorrendo em números maiores do que já ocorreu anteriormente. Diversificação – Atualmente, a maioria dos países recebe imigrantes de muitos tipos diferentes, ao contrario de antigamente, quando predominavam formas específicas de imigração, como a imigração ou dos refugiados. Globalização – A migração tornou-se mais global por natureza, envolvendo um número maior de países como emissores e receptores. Feminização – Um número crescente de migrantes é formado por mulheres, o que faz com que a migração contemporânea seja bem menos dominada pelo sexo masculino do que foi em épocas anteriores (CASTLES e MILLER, 1993 apud GIDDENS, 2005, p. 215).
Nesse modelo, no tópico sobre Feminização, ressaltamos o papel da mulher nos fluxos migratórios, uma vez que:
O aumento do número de migrantes mulheres está intimamente relacionado a mudanças no mercado de trabalho global, incluindo a demanda cada vez maior de trabalhadoras domésticas, a expansão do turismo sexual e do “tráfico de mulheres”. (CASTLES e MILLER,1993 apud GIDDENS, 2005, p. 215).
Esse enfoque merece uma discussão a parte, já que nos apresenta um novo estudo sobre a questão de gênero no processo migratório, nos possibilitando analisar um novo paradigma sobre o papel da mulher na condição de mantenedora do sustento da família. No Brasil, nas regiões norte e nordeste ainda são comuns verificar meninas, trabalhando em casa de família como “babas” em troca de casa, comida e possibilidade de estudo. Essas necessidades básicas fazem com que essas crianças deixem a família e a comunidade em direção as metrópoles em busca de melhores condições de vida.
Cartas de Babel: A presença do fenômeno da migração na Literatura Brasileira
O drama de milhares de pessoas obrigadas a mudar de seu lugar de origem, aguçou a criatividade e o interesse de artistas que sensibilizados com a saga das vitimas do desterro, encontraram o mote para a criação de suas obras, como podemos verificar nos exemplos a seguir:
a) Na prosa de Fernando Pessoa:
“E como as viagens as leituras, e como as leituras tudo… Sonho uma vida erudita, entre o convívio mudo dos antigos e dos moradores, renovando as emoções pelas emoções alheias, enchendo-me de pensamentos contraditórios na contradição dos meditadores e dos que quase pensaram, que são a maioria dos que escreveram. (…)”.
“O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir – não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer – aldeia ou ermo – que tenha em si o não ser este lugar (…)”.
b) Nas composições de Milton Nascimento e Fernando Brant:
(…) Todos os dias
É um vai e vem
A vida se repete
Na Estação
Tem gente que chega
Pra ficar
Tem gente que vai
Pra nunca mais
Tem gente que vem
E quer voltar
Tem gente que vai
E quer ficar
Tem gente que veio
Só olhar
Tem gente a sorrir
E a chorar (…)”
c) De Caetano Veloso, O Estrangeiro:
“O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara.
O compositor Cole Porte adorou as luzes na noite dela
(…)
O antropólogo Claude Levy- Strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela”.
d) De Chico Buarque de Holanda, Assentamento:
e)
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não manda mais em mim
Francisco Serafim
Vamos embora
f) E de Arnaldo Antunes, Inclassificáveis:
Aqui somos mestiços, mulatos
Cafuzos, pardos, mamelucos, sararás
Crliouros, guaranisseis e judárabes
Orientupis, orientupis
Ameriquítalos, luso, nipo, caboclos
Orientupis, orientupis
Iberibárbaros, indio, ciganagôs
Somos o que somos
Inclassificáveis
Podemos verificar no exemplo acima, que o modelo de diáspora global intensifica o processo de miscigenação étnica por todo planeta, contribuindo para a transculturação e o hibridismo da identidade cultural na contemporaneidade.
Nesse contexto, fazendo um paralelo conceitual entre ficção e epistemologia, iremos analisar trechos do conto Cartas de Babel de Luiz Galdino (2007), tendo como base o referencial teórico de Haesbaert (2005), Ianni (2004), Sayad (1998) e Hall (2006): “Meu pai, como tem passado? Estava mesmo pra lhe escrever, responder sua carta tão plena de anseios e cuidados” (GALDINO, 2007, p. 25).
Nesta frase, percebemos que a carta é o elo de comunicação entre o migrante e a família, tornando-se o espaço pelo qual ambos se encontram para matar a saudade, constituindo-se em um “reduto” de resistência. Desse modo, fica evidente que:
É no campo simbólico ou das representações que o migrante pode melhor se “segurar” a fim de manter um mínimo da territorialidade perdida, no decorrer do seu deslocamento espacial – “geografias imaginárias” (HAESBAERT, 2005, p. 37).
“Mas nos relógios daqui os ponteiros endiabrados disparam sem que a gente se dê conta” (p. 25). O relógio, instrumento característico do sistema capitalista de produção, é o grande ditador do tempo nos grandes centros urbanos, no qual milhares de trabalhadores tem sua vida controlada. Segundo Ianni (2005): Note-se que grande parte da vida do migrante desenvolve-se na cidade, muitas vezes na grande cidade. Diferente da vida no campo, onde o tempo é marcado pelos ciclos sazonais determinados pela natureza, criando um ambiente mais tranquilo. “Sou pássaro ferido que perdeu o rumo na tempestade, bicho acuado que há de viver sofrendo” (GALDINO, 2007, p. 31).
O reconhecimento frustrado pela busca de uma vida melhor, fora do seu lugar de origem, leva os viandantes ao sofrimento e a angustia de não se encontrar na sociedade de destino:
São múltiplas as causas que presidem o ato de emigrar, não se deve perder a dimensão da imigração como fato social no qual trajetórias individuais são contempladas. Nesses deslocamentos que tiveram como pano de fundo a expansão capitalista, foram múltiplas as razões relacionadas com a emigração-imigração, levando a que o “outro”, o de nacionalidade distinta se integrasse de maneira diferenciada na região que os acolheu (SAYAD, 1998 apud EMMI, 2008, p. 108).
“Quero voltar pra junto dos morros com peito de meia-lua, para o meu rio com curvas de mulher madura, pra minha serra com cheiro de alecrim. Quero voltar lá pra Oiticica ” (GALDINO, 2007, p. 31).
Os valores indenitários de um povo, também estão presentes no seu lugar de origem, visto que estes vivenciam seus traços culturais de acordo com o grupo no qual estão inseridos. E a saída de sua comunidade, muitas vezes contribui para a formação de identidade hibrida.
A assim a chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referencia que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social (HALL, 2006, p. 7).
“Deixa voltar pra junto das coisas que conheço, que eu amo, porque só assim terei salvação” (GALDINO, 2007, p.32). Neste apelo, fica evidente o anseio pelo retorno, muitas vezes marcado pelo insucesso de uma viagem imposta por diferentes razões.
Alguns alcançam a ascensão social, realizam-se, chegam a sentir-se vitoriosos. Outros, muitos, a grande maioria, dissolvem-se no meio da multidão solitária que povoa as grandes cidades. (IANNI, 2004, p. 95)
O medo pelo fracasso é algo presente nas comunidades imigrantes, retornar “pior do que saiu” torna-se uma opção desastrosa para esses indivíduos. No entanto, essa última opção torna-se uma tábua de salvação quando não há mais nada a ser feito para sobreviver no país de imigração, pois muitas dessas pessoas preferem retornar para a sua nação, acreditando que “sofrer” somente terá sentido se for próximo de seus semelhantes e de sua história de vida.
Conclusão
As reflexões apresentadas neste artigo nos levam a busca de um desafio, analisar a situação vivida por milhares de migrantes pela ótica ficcional, considerando relevante pensar sobre o processo migratório como um fenômeno mundial da contemporaneidade, no qual há Instabilidade econômica, terrorismo e as incertezas em relação ao futuro de alguns países asiáticos e africanos, contribuindo para uma verdadeira crise humanitária de refugiados em direção ao países do continente europeu e norte-americano.
O reconhecimento da existência dessa problemática tem sido o mote de muitos autores que veem no drama pessoal dos viandantes a inspiração de suas obras. Desse modo, buscamos analisar com base no referencial teórico sobre esta temática, a saga de milhares de pessoas que no vai e vem de suas andanças, buscam “um cantinho de seu pra poder descansar”. Para isso, foram usadas reflexões interdisciplinares, pois as mesmas mostram de que forma todas as formas de expressão artística e cultural veem esse problema e tentam trazer à tona um tema tão importante como o das migrações. Diante disso, pensa-se que estamos longe de esgotar as discussões sobre o tema, no entanto, esperamos que esta breve analise tenha provocado inquietações para que futuros trabalhos venham a somar as reflexões apresentadas neste ensaio.
REFERÊNCIAS
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Holanda, Chico Buarque de. As Cidades. Assentamento. Faixa 07. BMG. s/d 1 CD-ROM.
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Nascimento, Milton; Brant, Fernando. Encontros e despedidas. Faixa 08. Nº 62724509. PolyGram. s/d 1 CD-ROM. Estrangeiro. Caetano Veloso. O Estrangeiro. Faixa 01. Nº 63627014. Philips. s/d 1 CD-ROM.
EMMI, M. F. Italianos na Amazônia (1870-1950): pioneirismo econômico e identidade. Belém: EDUFPA, 2008.
GALDINO, Luiz. Carta de Babel. In: RUFFATO, Luiz. Entre nós. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. p. 25-31.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artimed, 2005.
HAESBART, Rogerio. Migração e desterritorialização. In: NETO, Helion Póvoa e FERREIRA, Ademir Pacelli (Org.). Cruzando Fronteiras Disciplinares: Um panorama dos estudos migratórios. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 37.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. p.
IANNI, Otávio. Capitalismo, violência e terrorismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 95.
Antunes, Arnaldo. Inclassificáveis. In: Matogrosso, Ney. Faixa 13. Nº 0800033. EMI. s/d 1 CD-ROM.
PESSOA. Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 275, 296.
SAYAD, A. A imigração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: EDUSP, 1998.
Bio fornecida pelo palestrante.
Raquel Beatriz Junqueira Guimarães
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
RESUMO: A escritora Bruna Beber tem, em seu livro Balés, a síntese da expressão estética pautada no diálogo entre as várias artes, em especial a dança, a música e a literatura. A poesia de Beber se materializa, desde o título, como movimento, e, ao ser lida, manifesta-se como sonoridade, mostrando a um só tempo os passos de dança e a música que os possibilita e orienta; tudo isso sem negligenciar o necessário trabalho com a palavra. Neste artigo, pretende-se desenvolver uma reflexão na qual se observa a aproximação dessas três artes na obra mencionada de Bruna Beber. Isso será feito na procura de evidenciar ritmos, temas, formas e concepções de Beber, que podem ser vistas em seus Balés.
PALAVRAS-CHAVE: poesia brasileira; música; dança, Bruna Beber.
RESÚMEN: La escritora Bruna Beber tiene, en su libro Balés, la síntesis de la expresión estética que se basa en el diálogo de varias artes, especialmente, la danza, la música y la literatura. La poesía de Beber presentada como danza se materializa, desde el título, como movimiento, y, cuando leída, se manifiesta como sonoridade, mostrando a un sólo tiempo los pasos de danza y la música que los posibilita y los orienta; todo sin negligenciar el necesario trabajo con la palabra. En este artigo, se pretende desarrollar una reflexion en la que se observa el acercamiento de esas tres artes en la obra de Bruna Beber. Para tanto, se pretende revelar ritmos, temas, formas y concepciones presentes en los Balés de la escritora.
PALABRAS-CLAVE: poesia brasileña; música; danza, Bruna Beber.
Minicurrículo: Raquel Beatriz Junqueira Guimarães é professora de Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Em seu trabalho acadêmico dedica-se aos estudos da interface Literatura e Jornalismo e, no campo da poesia, acompanha as manifestações literárias contemporâneas em seus diversos suportes. Entre suas publicações destacam-se a organização da revista Scripta (v. 18, n. 35, 2014), publicação do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros e do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas, cujo tema foi Escritas de mulheres, e os livros Pedro Nava, Leitor de Drummond (2002) e Rastros da leitura, trilhas da escrita: o leitor em Pedro Nava e Graciliano Ramos (2012).
POESIA, DANÇA E MÚSICA EM BALÉS, DE BRUNA BEBER
Raquel Beatriz Junqueira Guimarães
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
A poesia, pra mim, é quando o ordinário se manifesta em qualquer tom, sublime ou coloquial. Eu procuro poesia em todas as coisas, às vezes vejo, às vezes não, mas sei que ela é onipresente (Bruna Beber, 2009).
Bruna Beber é uma escritora carioca, nascida em 1984, na cidade de Duque de Caxias, um dos municípios da baixada fluminense. Vive, atualmente, em São Paulo e teve seu primeiro livro publicado aos 21 anos. Tem tido presença constante em sites, antologias e blogs dentre os quais Escritoras suicidas, Antonio Miranda, e o seu próprio chamado didimocolizemos, numa alusão ao grupo humorístico Os trapalhões.
Suas opiniões podem ser conhecidas por meio de entrevistas, como a que foi dada ao programa Entrelinhas, da TV Cultura, exibido em 27/12/09. Segundo a autora, em 2001 e 2002, ela criou um blog para “mostrar o que escreve” e, a partir daí, passou a encontrar outros escritores que também publicavam em meio eletrônico e seus poemas começaram a ser conhecidos.
Segundo ela, suas publicações eletrônicas a levaram a conhecer poetas de vários lugares e esses contatos possibilitaram que seus poemas fossem publicados em antologias no México, na Argentina e que fossem traduzidos para o alemão e o italiano. Por meio de suas entrevistas pode-se acompanhar suas reflexões sobre o fazer poético e conhecer suas preocupações com a experimentação estética. Pode-se, ainda, observar que a escritora parece ser adepta do que podemos chamar de escrita sem pressa. Exemplo disso, a nosso ver, está nos processos de escrita dos seus livros Balés e Rua da padaria. Ao descrever como preparou a edição de Balés, a autora salienta que, depois de acertada a publicação com a editora Língua Geral, o livro demorou um ano para ser publicado. A autora afirma que ficou todo esse período “mexendo no livro”. Ela diz:
Eu ficava lendo alto pra mim mesma, porque eu queria saber como que era, como que estava o livro. Eu comecei a gravar, eu gravei todos os poemas. Eu ouvia separado, ouvia junto e se tivesse uma palavra que me incomodava eu mudava. Só que eu comecei a ficar meio obsessiva com isso. Eu comecei a colar uns poemas nas paredes que eu mais passo aqui em casa. (…) Um dia eu cheguei e falei, não, eu preciso escolher uma ordem só e fechar esse livro” (BEBER, Bruna, 2009, transcrição nossa).
Essa declaração já demonstra a preocupação da escritora com um trabalho mais sistemático de criação. Destacam-se procedimentos como gravar os poemas, lê-los em voz alta, o que pode ser a evidência de uma preocupação com a sonoridade do texto e, ainda, com a precisão lexical. Outro procedimento aqui registrado é o de colar poemas em paredes. Assim, eles mudam de suporte e a autora passa a lê-los como uma espécie de mural e a ouvi-los como se fossem de outrem. Lidos e ouvidos fora do livro, fora de uma sequencia pré-determinada efetua-se uma mudança de suporte e de contexto editorial dos textos o que oferece ao escritor, agora leitor, uma outra possibilidade de percepção daquilo que está escrevendo. Assim, a escritora torna-se leitora e ouvinte de si mesma e em situações diferentes daquelas experimentadas pelos outros leitores. O processo de escrita é realizado, nesse caso, não só pelo silêncio do momento de escrever, mas também pelo som das palavras gravadas e pelas sensações provocadas quando do encontro dos olhos com o poema na parede.
Situação semelhante ocorre com o modo de criação de seu quarto livro A rua da padaria, composto por 26 poemas. Ao descrever o trabalho de criação dessa obra, em entrevista concedida durante a XI Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP 2013), Bruna Beber afirma que demorou quatro anos para escrevê-lo:
Esse livro eu demorei quatro anos para escrever. Alguns poemas eu musiquei, outros poemas amigos musicaram, eu apliquei esses poemas em objetos, li os poemas em vários lugares, outras pessoas leram, eles foram dissolvidos em artes plásticas. Eu gravei muitos desses poemas, que é uma coisa que eu fazia desde os Balés. Tive bastante tempo para pesquisar (BEBER, Bruna, 2013. Transcrição nossa).
Essa é mais uma evidência de que a autora tanto se preocupa com uma escrita sem pressa, conforme já dissemos, como inclui no processo de escrita elementos da música, tão próprios da tradição poética, desde o século XIX.
Em outra entrevista, concedida a Angélica Castilho, Bruna ainda acentua que, pelo menos no início de sua carreira, a internet era “seu meio de comunicação primordial”. Outro assunto sempre muito relevante para a autora em suas entrevistas é a que estabelece com outros autores. Nessa entrevista, a entrevistadora pergunta sobre o fato de ela já ter declarado que Clarice Lispector não era uma referência para sua escrita, para o que Bruna responde:
Na época da entrevista, eu só tinha lido A hora da estrela. E gostei muito. Depois de tantos anos, já li outros livros. Mas não gosto, não me toca. Reconheço o valor literário e histórico, mas a mim não diz muita coisa. Eu citei Clarice como exemplo por perceber, na época, que várias escritoras que eu conhecia tinham a Clarice como referência principal. E isso me incomodava um pouco, pois eu notava que os discursos estavam ficando muito parecidos. (…) Não sei o que seria de qualquer escritor sem os escritores que ele leu (isso também serve pra todas as artes), a influência é natural. Eu acho que é importante tentar construir uma linha própria de pensamento, mas sem a ingenuidade de achar que está fazendo algo predominantemente novo, quase tudo já foi dito. O jeito agora é dialogar com o que já está feito, e criar a partir disso. Quero dizer que nenhum trabalho artístico vem do “nada”. Mas isso que estou dizendo vai soar óbvio. BEBER, Bruna (In CASTILHO, Angélica, 2012).
Assim, Beber confirma sua condição de leitora, e a importância, para o escritor, da proximidade com a literatura já existente. Pode-se, perceber, ainda, que embora saiba que “tudo já foi dito”, a escritora procura uma dicção própria, fugindo, por isso, dos “discursos muito parecidos”.
Ainda nessa entrevista a Angélica Castilho, Bruna confessa que, além de escrever, é também mobilizada por “ ouvir música e viajar. Atribui as referências musicais presentes em sua obra ao convívio familiar. Segundo ela, em casa sempre teve muita música e de todo tipo. Cresceu ouvindo Roberto Carlos, Martinho da Vila, Rock nacional, Benito de Paula, dentre outros.
Pelas declarações de Beber, encontramos uma autora preocupada com o resultado estético de sua poesia, atenta aos processos de criação e a seus efeitos, adepta da escrita sem pressa e aberta ao trânsito entre as diferentes artes. Demonstra-se, também, antenada ao que está ao seu redor com um “olhar curioso e inventivo” a procura das “coisas mínimas”, sua matéria de poesia, presente em Balés, livro que aqui se procura analisar.
Os ritmos binários e ternários em Balés
Balés é composto por 38 poemas, escritos em estrofes de dois, três ou quatro versos, com um predomínio de poemas constituídos por tercetos e dísticos. Assim “ludíbrio”, “galerie”, “barragem”, “dorsal”, “jardim”, “festa”, dentre outros, são poemas com estrofes de 3 versos; já “março”, “caixinha de música”, “anéis”, “rifa”, “notícia”, “pares”, trazem estrofes com dois versos (BEBER, Bruna, 2009). A autora, nesses e em outros poemas, experimenta a dimensão melódica e rítmica dos versos e, por meio da junção desses dois elementos cria imagens fortes, surpreendentes que irrompem do texto como que desenhadas pelas palavras. Suas estrofes binárias ou ternárias, e mesmo as quadras presentes em alguns poemas formam um conjunto harmônico, leve e preciso como a dança sugerida pelo título. Com a construção de imagens, os versos se apresentam livres de amarras sintáticas e semânticas, principalmente pelo pouquíssimo uso da pontuação, pela escrita lacunar que os caracterizam e pelo inusitado da composição das cenas poéticas como se vê em:
março
atrasado pela tempestade
de lixo
finalmente nosso encontro
em praça pública
à paisana toda lágrima
e todo cuspe
fomos felizes
para sempre (BEBER, Bruna, 2009, p.18).
Em uma quase narração de um encontro, o poema se materializa em quatro dísticos constituídos por imagens como “tempestade de lixo” e “lágrima à paisana”. Traz, ainda, o paradoxo de registrar uma felicidade já vivida, aparentemente efêmera (fomos felizes), ainda presente e perene (para sempre). Tudo isso sem nenhuma pontuação entre os versos, flashes do cotidiano coletados pelo olhar do observador atento que registra momentos da vida.
Numa perspectiva semelhante, o poema “sentido sem título” nos põe diante de uma confissão em três tercetos que nos possibilitam pensar em um olhar lírico perverso e maroto a um só tempo:
sentido sem título
quando penso que queria
que caísse sobre nós
a pedra da gávea
dou aquela risadinha
maligna em seguida
aquela choradinha
invisível, atravessada
entre o olho e a garganta
nem piscando passa (BEBER, Bruna, 2009, p. 20).
O modo de escrita do poema potencializa os efeitos da ausência de pontuação, relativiza as cesuras e os silêncios possíveis. Na passagem da segunda para a terceira estrofe, por exemplo, a ausência da pontuação é que oferece os sentidos possíveis do verso “maligna em seguida” que, sozinho, parece não ter sentido, mas ao ser lido a partir das possibilidades sugeridas pelos versos que o antecedem e o seguem criam-se muitas possibilidades como se demonstra a seguir: dou aquela risadinha/maligna, em seguida,/aquela choradinha; ou: dou aquela risadinha maligna/ em seguida, aquela choradinha; ou ainda: dou aquela risadinha maligna/ em seguida aquela choradinha [invisível].
A partir dessas possibilidades, o sujeito lírico parece ser perverso ou maroto, como dissemos, e ainda irônico ou discreto, de acordo com o ritmo que o leitor escolher para compor o encadeamento dos versos. Tudo isso porque o ritmo da leitura dos versos, sem as amarras proporcionadas por uma pontuação pré-definida pela escritora, faz o sentido oscilar, como se demonstrou ao apontar essas variações. Esse recurso, usado em vários poemas de Balés, possibilita que os textos ganhem novas coreografias a partir de cada leitor. O texto é, portanto, o corpo que dança (e feito para dançar) nesta obra de Beber.
Nessa perspectiva, ganha especial relevância o poema “ultimo tango (BEBER, 2009, p. 33). Tal como a dança e a música portenhas, o poema é repleto de elementos dramáticos. Os amantes se procuram “desolados”, a aventura amorosa é uma “história de terror”, é “o galho que quebra a sombra da lua”. Nesse medo e desespero realiza-se o encontro de “nomes que não eram nossos próprios nomes”. O tango, dança dramática e intensa, desdobra-se em quatro estrofes que, de certo modo, glosam o que está na epígrafe. A imagem inusitada de dar à mulher o “aspecto de plaza de província” se desdobra em “nos procuramos/ em parágrafos onde os hóspedes dormem/ sobre travesseiros de fronhas azuis”, ou ainda em “ao redor da fogueira alguém se amedronta/ com o urso o galho que quebra a sombra da lua”. Essas imagens inusitadas cadenciam a dança de maria e seu par acelerando-os progressivamente.
Os movimentos dos bailarinos do último tango estão conformados por versos com palavras polissílabas como “desolados”, “parágrafos”, “travesseiros”, na primeira estrofe e cadenciados por versos relativamente longos, considerando o conjunto da obra.
A primeira estrofe parece expressar a caminhada dos bailarinos, espécie de passo básico do tango argentino. Essa é a cadência das duas primeiras estrofes, em crescendo, e, na terceira, nota-se o corte realizado no nono verso do poema (que estalam com o fogo). Mais uma vez, a nosso ver, expressa-se a dança de que se fala tanto pela interrupção repentina do verso, quanto pela imagem que emana de suas palavras – a intensidade própria da paixão. Por esses caminhos, os poemas trazem para o baile o encontro casual em praça pública (sentido sem título) e a desmesura da paixão (último tango), transformados em passos de balé pelo olhar inventivo de Bruna Beber.
Sons de Balés
Junto à captura imagética do cotidiano, aqui transformado em passos de dança, em em Balés, ouve-se um conjunto musical sólido fazendo do texto o corpo que dança, como dissemos anteriormente, e o instrumento que ressoa a música que a orienta. Poemas como “caixinha de música” e “sonata” são a evidência do trabalho de aproximação entre palavra e música. Mas não só nesses poemas essa aproximação se dá. Conforme verificamos pela entrevista da autora, ela recorre, frequentemente, a métodos de composição que valorizam os aspectos sonoros como gravar os poemas para ouvi-los posteriormente, lê-los para si mesma, e a confissão de que ela se pauta em algumas referências musicais para compor. Cabe aqui lembrar da aproximação entre Bruna e Bandeira feita no texto, sem autoria identificada, da orelha do livro em análise:
(…) encontram-se diversos aspectos díspares em Balés: o clássico e o popular, o tradicional e o renovador, o tom contido e o exagerado, entre muitos outros. Daí a possibilidade de a sua obra também remeter os leitores à poesia de Manuel Bandeira e de Mário de Andrade. (Grifo nosso)
Nesse trecho da apresentação da autora, ela é aproximada a dois ícones do modernismo. Sobre a aproximação com Mário de Andrade há um gesto autoral que o realiza, pois é desse autor paulista a epígrafe de Balés: “E dizem que os polichinelos são alegres”, verso retirado de Tristura, de Paulicéia Desvairada. No que diz respeito à remissão do leitor a Manuel Bandeira a relação já não é tão evidente, pois não se pode antever, antes de entrarmos detalhadamente nos poemas-danças presentes em Balés, os motivos que levam a essa aproximação. Mas ao lermos os textos presentes no livro vamos percebendo alguns elementos que a justificariam. A nosso ver, isso se dá, dentre outros motivos, pela musicalidade dos poemas de Bruna e pelo modo como essa musicalidade se apresenta. Retomemos as palavras de Bandeira sobre seu desejo de incursão pela música:
Não há nada no mundo de que eu goste mais do que de música. Sinto que na música é que conseguiria exprimir-me completamente. Tomar um tema e trabalhá-lo em variações ou, como na forma sonata, tomar dois temas e opô-los, fazê-los lutarem, embolarem, ferirem-se e estraçalharem-se e dar a vitória a um ou, ao contrário, apaziguá-lo num entendimento de todo repouso… creio que não pode haver maior delícia em matéria de arte. Dir-me-ão que é possível realizar alguma coisa de semelhante na arte da palavra. Concordo, mas que dificuldade e só para obter um efeito que afinal não passa de arremedo (BANDEIRA, Manuel, 1986, p. 50).
Como já dissemos em artigo escrito anteriormente (GUIMARÃES, 2015), parece que Bandeira abre mão de tentar compor sua “forma sonata”. Bruna Beber, diferentemente do que fez Bandeira, escreve sua “sonata”:
sonata
não me emociona o heroísmo
o que arranha as unhas nas paredes
do precipício deixo cair
a saudade que se sente,
o faz de conta, aquela fantasia
não me emocionam mais
meu coração parou de bater e agora
o que você chama de amor
eu não atendo mais (BEBER, Bruna, 2009, p. 40).
Embora receba o nome de sonata, nesse poema observam-se variações de um mesmo tema, o afastamento amoroso, que vem desenvolvido em três perspectivas, uma em cada estrofe: o heroísmo, a evasão, a emoção. Todas essas perspectivas dadas ao afastamento amoroso são negadas pelo eu lírico que declara a dissonância, ou separação, dos amantes: “o que você chama de amor/ eu não atendo mais”. Observa-se, portanto, que não é exatamente uma ‘forma sonata’, forma que se constitui pelas oposições, pela disputa entre dois temas, e pela força dos silêncios que dessa disputa irrompem. Definida frequentemente como oposição de temas breves e fáceis de serem memorizados, a forma sonata é também um diálogo entre o feminino e o masculino. O primeiro tema é considerado masculino, e o segundo, mais doce e melódico é considerado feminino. Esse poema parece ser a confissão de um único sujeito que percebe o momento em que o desencontro amoroso se consolida. Diferente de Bandeira, portanto, Beber se arrisca, burla a forma convencional de sonata e lança para o público seu poema-sonata a procura de sua dicção pessoal.
Ainda nesse poema, chama-nos atenção a procura das aliterações que ecoam em palavras como “emociona”, “heroísmo”, “chama”, “amor”; ou em “arranha as unhas”; “saudade que se sente”. Outros poemas também exemplificam o jogo sonoro desenvolvido pela autora. É o caso de “vestidos” onde se vê as seguintes escolhas lexicais: “transparentes”, “teia”, “túnica”, “tarrafa”, “mosquiteiro”; ou ainda em “trident melancia”, em que se lê/vê/ouve: “perfumar a fumaça”, “faço festa”, “tinta preta”. Já em “anéis” o leitor é envolvido pelos jogos sonoros, mas também pelo tom do texto: “quero alegria pro poema/ mas os versos saem em mi”.
Balés se apresenta, portanto como a junção da literatura, da dança e da música para desenvolver temas cotidianos num cuidadoso trabalho estético da autora, valorizando o movimento, a sonoridade e a construção imagética. Não se trata de um jogo pelo jogo. A poesia de Bruna Beber, em Balés, parece mesmo ser a manifestação do ordinário em tons sublimes ou coloquiais, conforme ela mesma disse. Essas são as danças de Balés: as relações amorosas (meu amor perdeu/ todos os dentes/ não pode mastigar os cacos/ de vidro da dor) metaforizadas no caos aéreo (caos aéreo/ tchup tchup tchuru); o movimento da vida urbana (os véus transparentes/ colocados nos edifícios em construção); os sons inventados no dia a dia, (pleqpleqpleqpleqpleq); jogos rotineiros, como as rifas, objetos simples como os cata-ventos, e acontecimentos prosaicos como as notícias, e, claro, a reflexão sobre o fazer poético (escrever é dedicar/ os dedos à marcenaria/ de qualquer jardim). E, por fim, cabe dizer que os versos musicais de Bruna não deixam de ser confessionais na medida em que a escrita o permite: canto para esquecer/ a grande confusão das coisas simples// não sei de que material seco são feitas/ as perdas. Todos esses elementos fazem parte da poesia de Bruna Beber, que a vê em todo lugar, afinal, para ela “a poesia é onipresente”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARNOLD, Denis (1988). Sonata. Dictionnaire encyclopédique de la musique. Université d’Oxford. Paris: Robert Laffont. Tomo I.
BANDEIRA, Manuel (1986). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.
BEBER, Bruna (2009). Balés. Rio de Janeiro: Língua Geral.
BEBER, Bruna. (2009). Entrelinhas. Entrevista concedida a Paula Picarelli. Disponível em http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas.
BEBER, Bruna. (2013). Festa Literária Internacional de Paraty. Entrevista. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=DPtkN44uLZM.
CASTILHO, Angélica (2012). Bruna Beber: Literatura contemporânea em foco. Disponível em http://mcfaculdadeccaa.blogspot.com.br/2012/12/bruna-beber-literatura-contemporanea-em.html?view=sidebar.
GUIMARÃES, Raquel (2015). “Bandeira e Drummond e a nova poesia brasileira”. Comunicação apresentada durante o V SIMELP. Itália: Lecce. Resumo disponível em http://simelp.it/node/84#simposio19. (Texto completo inédito).
Bio fornecida pelo palestrante.
Gilberto Santos da Rocha
Psicanalista
Minicurrículo: GILBERTO ROCHA é psicólogo/psicanalista, autor do livro A introdução da Psicanálise no Brasil, é mestre em Filosofia-PUC/RJ e doutor em Saúde Coletiva/UERJ.
“Eu e o Hélio somos amadores do berro. Sim, o Hélio tem a tendência da ópera e alguém já disse, talvez eu mesmo, que ele é a própria ópera. O poeta vira-se para mim e, com a ênfase de um dó-de-peito, faz-me esta acusação horrenda: –
–“Reaça!”. Tremo em cima dos sapatos” (RODRIGUES, 1997, p. 80).
É acreditando que o autor interpreta o mundo social à sua volta e que é possuidor de um simbolismo que cria representações acerca de uma cidade, a obra do autor dramático Nelson Falcão Rodrigues é um referencial para a literatura nacional. Pelo fato de escrever sobre a condição trágica do ser humano frequentemente em seus romances, contos e peças teatrais, aproximou-se de temas tratados pela psicanálise.
A sexualidade no universo rodrigueano é onipresente. Através de temas como a interdição do incesto, paixões, homossexualismo, taras, ménage à trois, romances familiares, curras, intrigas e castração, ela está sempre presente.
Universo que revela o problema da insegurança e da autoflagelação masculina, motivadas pela falência dos valores morais do pater familias no mundo moderno. A sua primeira peça teatral A mulher sem pecado (1941), já contém todos os principais ingredientes de sua obra: declínio do poder paterno, traição e incesto. O tema declínio da figura paterna fazia parte de sua dramaturgia desde o início, transformando-se em tema de discussão da intelectualidade nacional anos depois. “Traição” é o tema que durante dez anos pontuou todos os 2.000 folhetins escritos para a coluna “A vida como ela é” para o jornal Última Hora, enquanto o tema incesto era banalizado em suas histórias.
Nelson Rodrigues é considerado o fundador do moderno teatro brasileiro, autor polêmico, contraditório, reacionário e defensor da ditadura militar instalada a partir de 1964 no Brasil. Sua obra teatral é dividida em três partes: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. Por escolher temas que envolviam a deterioração do conceito de família era censurado. A peça teatral Álbum de Família, por exemplo, levou mais de vinte anos para ser liberada pela censura.
Para ele, a angústia gerava culpa, clamava por punição e se aninhava quando o sujeito se opunha a um mundo em desencanto. Contraditoriamente acreditava que a salvação e o encanto da existência encontravam-se no amor.
Apesar de considerado reacionário, há na estilística rodrigueana uma forma singular de pensamento político em relação aos excluídos sociais brasileiros, como o pobre e o negro. O exemplo abaixo diz respeito ao pobre brasileiro e recebeu do autor o nome de Humildade (RODRIGUES, 1997, p. 81):
O que tem sido o brasileiro desde Pero Vaz de Caminha? Vamos confessar a límpida, exata, singela verdade histórica: o brasileiro é um pau-de-arara. Vamos imaginar esse pau-de-arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica. Sem falar nos piolhos que o devoram, e nas brotoejas que o perseguem. E ainda querem que ele seja humilde! Mas a humildade é um defeito de reis, príncipes, duques, rainhas. O justo, o correto, o eficaz é que disséssemos ao pau-de-arara: “Tudo, menos humildade! Seja arrogante! Erga a cabeça! Suba pelas paredes! Ponha lantejoulas na camisa!”
Para a antropóloga Adriana Facina, o modelo rodrigueano é baseado em histórias de fundo moral baseada no modelo gilbertiano:
Embora as famílias que aparecem na dramaturgia rodriguiana não sejam patriarcais, a dramatização da ruína da hierarquia familiar, com ênfase na perda do poder do pater familias e no rompimento de interdições – como o incesto e a traição – nas relações interpessoais, coloca o modelo descrito por Freire como uma espécie de pano de fundo moral das histórias (FACINA, 2004, p. 107).
Os textos rodrigueanos eram geralmente ambientados no subúrbio carioca, lugar que para suas tragédias fazia mais sentido, pois era onde ainda se cultivavam valores morais mais tradicionais e onde o amor ainda era capaz de produzir tragédias no cotidiano:
Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saens Pena. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte (RODRIGUES, 1997, p. 181).
Os valores sociais do subúrbio carioca eram diferentes do centro da cidade e da beira-mar, lugares onde a cultura do indivíduo balizava as relações sociais e onde já existia certo relativismo moral. De acordo com Facina, o dramaturgo encontrava-se inserido num momento de passagem de valores tradicionais para a assunção de valores mais modernos:
Nelson Rodrigues fala de um momento em que a desagregação da família patriarcal, fruto de um processo histórico de modernização, colocou em xeque valores tradicionais. Essas famílias em cena traduzem o dilaceramento dos indivíduos num mundo onde esses valores não foram substituídos por algo que pudesse nortear as suas vidas (FACINA, 2004, p. 25).
O crepúsculo do patriarca
Para enfocar a majestade perdida pelo homem na obra rodrigueana selecionamos os seguintes textos: sua primeira criação teatral, A mulher sem pecado, o conto A dama do lotação e o romance Asfalto selvagem – Engraçadinha e seus pecados.
No drama em três atos, A mulher sem pecado (RODRIGUES, 1981), podemos observar que o motivo que vai caracterizar o enfraquecimento da autoridade do “chefe de família” é a insegurança de um amor doentio retratado no ciúme sem limite do protagonista, Olegário, que logo nas primeiras páginas da peça, no diálogo travado com a empregada Inésia e o motorista Humberto, tem seu perfil desenhado pelo autor:
Olegário (com maior interesse):
– Hum! Voz de mulher, mesmo? (Aproxima-se). Tem certeza que não era voz de homem disfarçada?
Inézia (hesitante) – Não. Pelo menos, não parecia. Não, era voz de mulher,
Olegário – Você perguntou quem queria falar com ela?
Depois, repete o mesmo questionamento com o motorista:
Olegário (embolsando o telegrama) – O que é que há? A senhora saiu, aonde foi?
– Umberto (mascando qualquer coisa). – Saiu depois do almoço. Mais ou menos umas duas horas. Voltou às cinco horas.
Olegário – E você viu o quê? (com desconfiança). Eu acho que você me esconde as coisas! Eu pago para obter informações! (noutro tom) – Ela foi aonde? (RODRIGUES, 1981, p. 48).
O ciúme de Olegário era justificado de três maneiras: pela ameaça de descontrole sexual de sua mulher gerado por sua impotência, pelas idéias modernas representadas pela autarcia psicológica e sexual feminina e pela desconfiança de incesto da esposa, com o irmão de criação dela, Maurício. Idéias que por sinal, sua mulher não possuía e com as quais ela entrou em contato graças às inseguranças, confusões e pelo fracasso das idéias delirantes do protagonista.
Em A mulher sem pecado, Olegário encontra-se no centro do conflito familiar, ameaçando com expurgo econômico sua mãe, Lídia sua mulher, a mãe de Lídia, o irmão de criação dela e três empregados caso eles se insurgissem contra suas incertezas e autoridade.
Imerso num mundo que defendia a repressão dos valores modernos, Olegário, sem conseguir extravasar suas emoções e ansiedades, punia a si mesmo simulando uma paralisia inexistente. Fingia ser paralítico desde quando começou, há cerca de sete meses, com a idéia de testar a fidelidade de sua esposa, perseguindo-a com desconfianças. Acreditava que tinha nascido nela o desejo de trair. Pois, se ele próprio apreciava uma bela mulher, porque ela não apreciaria a beleza masculina? “Lídia (sardônica) – Um marido dizendo essas coisas! Sugerindo! Metendo coisas na cabeça da mulher. Eu acabo, nem sei!” (RODRIGUES, 1981, p. 59).
As informações obtidas e requeridas por Olegário, principalmente de Inezia, a criada, e de Umberto, o motorista, sobre com quem Lídia se relacionava ou o que fazia, demonstram a fragilidade psicológica do chefe dessa família. Fragilidade denunciada também por admoestações morais de caráter repressivo sexual, como a de uma frase retirada de um diálogo travado entre Olegário e Lídia, quando ele, discutindo, diz para a mulher: “O fato de você mesma olhar o próprio corpo é imoral. Só as cegas deviam ficar nuas…” (RODRIGUES, 1981, p. 55).
Quando Lídia comenta seu desconhecimento sobre as coisas do amor, afirma que sua passagem no colégio interno foi mais proveitosa para saber sobre o amor entre duas pessoas do que seu casamento. Nelson Rodrigues parece nesta passagem representar na personagem Lídia uma mulher comum daqueles dias, oprimida pelo universo masculino e pelos valores morais do seu casamento, considerados na atualidade, antigos, abusivos e patriarcais.
O desfecho do drama em três atos se aproxima quando o protagonista finalmente se convence de que Lídia não o traía. Tarde demais… a esposa, cansada depois de tantas humilhações sofridas, aceita o assédio de Umberto, o motorista, e em sua companhia corta as amarras que a ligava a um casamento que para ela tornou-se frustrante, repressivo e fonte de mal-estar. Imprensado entre a razão e a desrazão, arrasado pela culpa, sem forças para enfrentar a situação que fora criada por ele mesmo, Olegário comete suicídio.
Os 112 capítulos do romance Asfalto selvagem – Engraçadinha seus amores e seus pecados foram escritos originalmente para o jornal carioca “Última Hora” de agosto de 1959 a fevereiro de 1960. Foram publicados em livro pela primeira vez em 1961 em dois volumes: livro 1, Engraçadinha dos doze aos dezoito e livro 2, depois dos trinta (1994)). Este livro foi um dos dois romances em que Nelson Rodrigues não usou o pseudônimo costumeiro de Suzana Flag ou de Myrna. Neste romance ele retoma o tema do abandono / suicídio / declínio da autoridade paterna, logo nas primeiras páginas do primeiro capítulo, através da discrição de dois personagens suicidas e de um outro personagem que se intimidava com a própria mulher. Nelson Rodrigues deixa logo entrever a inquietude masculina diante da iminência da independência feminina.
O primeiro suicídio foi motivado pela mulher que abandonou o marido levando os filhos. O segundo foi cometido por um homem bem-sucedido e respeitável, orador, advogado e deputado possuidor de valores arcaicos. Declarou certa vez na tribuna da Câmara Estadual do Espírito Santo que havia casado virgem (coisa que o dramaturgo sarcasticamente menciona argumentando que tal declaração do deputado não se propunha ser uma declaração de bens, tal como a virgindade era para as mulheres). Zózimo, o outro personagem, tem sua fraqueza demonstrada pelo vício da bebida e pela sua maneira de amar. Tinha medo e insegurança de sua bonita esposa protestante indiferente e sem paixão, dona Engraçadinha, pela qual ele, seu marido, se remoia por não ter com ela a menor intimidade conjugal.
Em sua obra, Nelson Rodrigues usa diversas vezes da dramaticidade do suicídio, para demonstrar o nefasto sentimento de desamparo sentido por seus personagens “chefes de família”.
No conto A dama do lotação, o tema da traição feminina no casamento retorna. A insegurança masculina novamente se instala pela via da traição, mas desta vez tem motivo de existir. Originalmente este conto tinha 130 linhas e havia sido publicado na coluna “A vida como ela é” do jornal Última Hora. Foi adaptado para o cinema em 1977 tendo Rodrigues ajudado no roteiro do filme criando situações e personagens novos.
Por causa de uma fatalidade, surpreendida traindo com os pés sob a mesa de um jantar, Solange transforma-se aos olhos de Carlinhos, seu marido. Transforma-se de uma recatada mulher aliada ao regime patriarcal, numa mulher com independência sexual e afetiva do casamento. Após interrogatório e confirmado as suspeitas de que o homem com quem sua esposa o tinha traído era o Assunção, amigo de infância de ambos, Carlinhos enraivecido grita:
“Vou matar esse cachorro do Assunção! Acabar com a raça dele!”
A mulher, até então passiva e apenas espantada, atracou-se com o marido, gritando:
– Não, ele não!
– Agarrado pela mulher, quis se desprender, num repelão selvagem. Mas ela o imobilizou, com o grito:
– Ele não foi o único! Há outros!” (RODRIGUES, 1992, p. 221).
Na família de nossa dama brasileira, “havia de tudo: médicos, advogados, banqueiros e, até, ministro de Estado”. Solange via no lotação o cenário perfeito para a quebra da monotonia de sua vida e da prática de sua tara sexual, que consistia em todas as tardes pegar o lotação e capturar um macho para a satisfação de seus desejos sexuais:
Sem excitação, numa calma intensa, foi contando. Um mês depois do casamento, todas as tardes, saía de casa, apanhava o primeiro lotação que passasse. Sentava-se num banco, ao lado de um cavalheiro. Podia ser velho, moço, feio ou bonito; e uma vez – foi até interessante – coincidiu que seu companheiro fosse um mecânico, de macacão azul, que saltaria pouco adiante. O marido prostrado na cadeira, a cabeça entre as mãos, fez a pergunta pânica:
– Um mecânico?
Solange, na sua maneira objetiva e casta, confirmou:
– Sim” (RODRIGUES, 1992, p. 222).
Para Carlinhos, seu marido, os desconhecidos não o preocupavam. O que lhe amofinava mesmo de verdade, eram os conhecidos:
Mecânico e desconhecido: duas esquinas depois, já cutucara o rapaz: “Eu desço contigo”. O pobre diabo tivera medo dessa desconhecida linda e granfa. Saltaram juntos: e esta aventura inverossímil foi a primeira, o ponto de partida para muitas outras. No fim de certo tempo, já os motoristas dos lotações a identificavam a distância; e houve um que fingiu um enguiço, para acompanhá-la. Mas esses anônimos, que passavam sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos. Além do Assunção, quem mais? Começou a relação de nomes: fulano, sicrano, beltrano… Carlinhos berrou: “’Basta! Chega!”. Em voz alta, fez o exagero melancólico: a metade do Rio de Janeiro, sim senhor! (RODRIGUES, 1992, p. 222).
Não conseguindo conviver com a dor da traição, Carlinhos nega a situação, afirmando ter morrido para o mundo e entrando num estado de catatonia e autoflagelação, que requeria a atenção de Solange. Todavia ela não se deixa levar pela chantagem emocional que poderia advir com a “morte” de Carlinhos e após a noite e a manhã passada, dedicada junto à cabeceira do marido, escapole à tarde para passear de lotação, retomando o seu rosário horas depois, resignadamente, a fim de continuar “o velório do marido vivo” (RODRIGUES, 1992, p. 223).
Ele é um dos autores que captou em sua literatura uma mudança nas formas de existência baseada na autoridade paterna. Sua obra está imersa em um momento em que a utilização de explicações de cunho psicológico aumentaram significativamente. Período em que a produção de subjetividade foi abalada, enfraquecida e destituída, devido aos avanços do sistema capitalista, junto com a figura do pai autoritário e da repressão sexual.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
FACINA, A. Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
ROCHA, G. S. Entre fronteiras: estudo das relações entre a psiquiatria e a psicanálise. Tese de doutorado em Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social/UERJ, 2005.
RODRIGUES, N. A vida como ela é… O homem fiel e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
RODRIGUES, N. Asfalto selvagem: Engraçadinha seus amores e seus pecados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
RODRIGUES, N. Flor de obsessão: as mil melhores frases de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
RODRIGUES, N. Nelson Rodrigues – Teatro completo. Peças psicológicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. v. 1.
Bio fornecida pelo palestrante.
DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO
Luiza Puntar Muniz Barreto
Universidade Federal Fluminense
RESUMO: A contemporaneidade trouxe, devido à aceleração da globalização e ao aprimoramento das tecnologias, mudanças estruturais no modo como percebemos o tempo e o espaço. Nossa relação com o mundo torna-se cada vez mais imediatista, o mundo parece cada vez menor, as fronteiras parecem se diluir. Nessa conjuntura, vemos aumentar o número de sujeitos em trânsito, cujas identidades plurais estão também em deslocamento. A questão da migração tem sido tema recorrente na literatura contemporânea, que problematiza, especialmente, a relação dos indivíduos migrantes com os espaços por onde transitam. No romance Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa, a personagem Vanja é uma menina de apenas 13 anos quando decide emigrar do Brasil para os EUA em busca do pai. Sua trajetória evidenciará a experiência de trânsito do sujeito contemporâneo, passando pelo estranhamento e pelo desafio que representam as relações afetivas na perspectiva estrangeira.
Palavras-chaves: deslocamento, migração, estrangeiro, identidade
ABSTRACT: The acceleration of globalization and enhanced technology brought, in contemporary times, structural changes in the way we perceive space and time. Our relationship with the world became increasingly immediate: the world seems smaller, the boundaries seem more diffuse. There is a growing number of individuals in transit, whose plural identities are also on the move. The issue of migration has been a recurrent theme in contemporary literature that discusses especially the relationship of migrant individuals and the spaces where they transit. Adriana Lisboa’s novel Blue Crow (2010) presents the character, Vanja, who is only 13 when she decides to emigrate from Brazil to the US to search her father. The course of her life will illustrate the experience of contemporary displacement and the affectionate relationships in a foreign perspective.
Keywords: displacement, migration, foreign, identity
CURRÍCULO: Luiza Puntar Muniz Barreto é formada em Letras – Português/Literatura pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em 2014. Atualmente cursa o Mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense, sob a orientação da Prof. Drª Stefania Chiarelli, tendo como temas da pesquisa as questões da migração, desterritorilização e deslocamento na contemporaneidade, com a defesa da dissertação prevista para março de 2017. Seus objetos de estudo são o romance Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa e o filme Terra estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas.
DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS
DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO
Luiza Puntar Muniz Barreto
Universidade Federal Fluminense
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo investigar os deslocamentos e experiências pelas quais passam os sujeitos em trânsito. Ao migrar, no âmbito do deslocamento espacial, o indivíduo passa por um processo de estranhamento em relação ao lugar e ao Outro; porém, como veremos, tal experiência externa acaba se refletindo internamente.
Nesse contexto, o sujeito migrante revela um desajuste tanto em relação ao espaço quanto à cultura desse novo lugar em que tenta fixar-se, passando por uma experiência de desabrigo e solidão, frutos não só do estranhamento, mas também da dificuldade de se firmar subjetivamente nesse espaço e, portanto de nele reconhecer-se.
As relações dos sujeitos migrantes com seus espaços de trânsito, o descentramento subjetivo e o desenraizamento pelo qual passam são os temas em torno dos quais se desenvolve a narrativa de Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa, que será nosso objeto de estudo. No romance narrado em primeira pessoa, a personagem narradora, Vanja, vivencia esse duplo deslocamento experienciado pelo sujeito em trânsito.
Adriana Lisboa é uma escritora brasileira, que já viveu na França, no Japão e hoje mora e leciona nos Estados Unidos. É, portanto, uma, dos muitos escritores, que integraram o grande contingente de sujeitos migrantes na contemporaneidade. Tal experiência, logicamente, se reflete nas obras desses autores. Dado o seu papel de crítica, discussão e debate acerca das questões sociais e políticas de seu tempo, não é de surpreender que os sujeitos deslocados migrantes e os espaços pelos quais transitam sejam os grandes temas da literatura em todo o mundo nesse início do século XXI.
Como salienta Sandra Regina Goulart, os escritores da fase pós-colonial, principalmente no início do século XXI, passaram a refletir a tendência deslocada e descentrada da contemporaneidade, modificando a ideia que se têm hoje de literaturas nacionais. Dessa forma,
(…) as escritoras e escritores que fazem do espaço transnacional seu território enunciativo desestabilizam esse centro trazendo para o bojo desse espaço um olhar de alhures, de outros espaços nacionais e outras localidades, prefigurando um espaço de traduções culturais ou um espaço literário transnacional (GOULART, 2013, p. 69).
As narrativas desses autores, autobiográficas ou não, aparecem, grande parte das vezes, em primeira pessoa e partilham o caráter autorreflexivo, quase confessional de um indivíduo centrado no Eu, que, de tão descentrado em si, tão refletido, misturado e ao mesmo tempo tão inacessível ao Outro, busca (re)construir sua identidade através de seus relatos.
A essa postura parece corresponder Adriana Lisboa em Azul corvo, com a construção da personagem Vanja. A narrativa em questão se inicia quando Vanja, então com 13 anos, perde a mãe. Morando de favor com a irmã de criação de sua mãe, Elisa, a menina decide viajar para os Estados Unidos, lugar onde nasceu e viveu até os 2 anos de idade, à procura do pai biológico que nunca conhecera. Para realizar tal empreitada, a menina conta com a ajuda de Fernando, ex-marido de sua mãe, que lhe oferecerá abrigo em sua casa no subúrbio de Lakewood, na cidade de Denver, Colorado.
Acompanhando a narrativa, fruto do relato de Vanja feito nove anos mais tarde, tomamos conhecimento de que a personagem, em seu processo migratório, acaba encontrando muito mais do que pretendia: outra cultura, outra paisagem, um outro homem com quem desenvolve o afeto paternal e a si mesma.
No presente artigo, pretendemos investigar a condição do estrangeiro a partir do olhar de George Simmel, a (re)construção identitária, operada pela convivência com outra cultura e possibilitada pelas relações afetivas travadas pelos sujeitos em trânsito, será analisada com base nas teorias sociológicas de Stuart Hall, já as dificuldades de relação com os espaços por onde transitam os sujeitos migrantes, serão abordadas à luz da teoria de Marc Augé a respeito dos não-lugares.
DESLOCAMENTO ESPACIAL E INDETITÁRIO-AFETIVO
O espaço contemporâneo tem estado em voga entre muitos estudiosos e parece ser um dos elementos que mais passa por modificações e maiores implicações traz nessa época de grande trânsito mundial de massas e de informações. É no intercruzamento desse espaço multifacetado e do tempo, cada vez mais acelerado, que se formam, nas palavras de Homi Bhabha, “figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão” (2007, apud GOULART, 2013, p. 66).
É em meio a essa conjuntura de dualidades que ocorrem as migrações no século XXI. Diferentemente das migrações de exílio por motivos econômicos ou políticos, os sujeitos em trânsito dessa época experienciam a errância e o desenraizamento em nível também subjetivo, resultado da constante sensação de não pertencimento que acompanham os seus deslocamentos espaciais.
Nesse contexto, como consequência da desestabilização de centralidade em relação ao espaço, podemos verificar também um descentramento referente ao próprio sujeito, que deixa de possuir uma subjetividade construída em torno de referenciais culturais únicos e passa a ser composta de forma tão plural e dialógica quanto os espaços pelos quais transita.
Tal sensação de transitoriedade subjetiva aparece logo nas primeiras páginas de Azul-corvo: “Eu parecia me transformar lentamente em outra coisa, como se estivesse passando por uma lenta mutação.” (LISBOA, 2010, p.12), diz Vanja ao relatar a sua chegada à cidade de Denver, Colorado.
Depois da morte da mãe, Vanja perde suas referências identitárias e afetivas, ficando totalmente desabrigada. A menina nunca conhecera o pai, no entanto, sabia que este morava nos Estados Unidos e que ela, nascida nesse mesmo país, havia sido fruto de uma relação a qual sua mãe não quis levar adiante. Por isso, voltaram para o Brasil quando tinha apenas dois anos.
Passando por uma luta interna a respeito de como encarar os fatos e seguir com a vida depois desse acontecimento, Vanja decide viajar para os Estados Unidos com o objetivo de procurar o pai. A menina deixa claro ainda que sua viagem não é de entretenimento, nem de fuga, mas de busca. Tal busca visa preencher as lacunas afetivas e identitárias deflagradas pela sua orfandade, e, com efeito, delineará um caminho para uma (re)construção subjetiva, a qual, vale lembrar, soma-se ao fato de Vanja ser uma adolescente.
Não demora muito para que Vanja nos revele o constante desconforto que sente em relação a Denver, paisagem estranha com a qual se vê obrigada a dialogar, sem conseguir, contudo, acessá-la com êxito. A paisagem natural, o clima e a arquitetura da cidade aparecem como primeiras fontes de estranhamento e inquietações:
Plana, lisa, seca, tediosa, poeirenta, contínua, constante, chata, sem graça: essa seria minha primeira impressão da planície, nos meses por vir. O que existia ali era uma ditadura do espaço, uma infinidade de chão para a direita, uma infinidade de montanhas para a esquerda, uma infinidade de céu encapotando tudo (LISBOA, 2010, p. 22).
A incapacidade de compreensão desse espaço implicará também numa inacessibilidade dos códigos desse novo ambiente que consequentemente a conduzirá a uma incomunicabilidade tanto com o espaço como com as pessoas: uma solidão imposta pelo espaço, dirá a menina, que, com efeito, se encontra situada no entrelugar do sujeito que procura fixar-se numa terra estrangeira, num espaço estranho.
Essa nova categoria de migração é fortemente marcada por um efeito de flutuação, pelo lugar entre que os sujeitos em trânsito ocupam nas culturas, nos países, na identidade, nas relações afetivas, seguidos de uma incessante e eterna busca pela identidade. Vanja evidencia ao longo da narrativa toda a duplicidade desse migrante, que se insere, como aponta George Simmel, tanto na disposição do “mover-se” quanto na do “fixar-se” e, portanto, trava uma relação igualmente dupla com esse espaço do Outro a que se tenta acessar.
Para Simmel, o estrangeiro irá refletir a composição antitética e plural do espaço contemporâneo na medida em que se destaca como um estranho por não pertencer, ao menos de imediato, a esse novo espaço, uma vez que não partilha de sua cultura e códigos; também não sendo possível nele se inserir por meio das qualidades que traz de seu lugar de origem, evidenciando uma condição “transfronteiriça”:
(…) embora não siga adiante, ainda não superou completamente o movimento do ir e vir. Fixo dentro de um determinado raio espacial, onde a sua firmeza transfronteiriça poderia ser considerada análoga ao espaço, a sua posição neste é determinada largamente pelo fato de não pertencer imediatamente a ele, e suas qualidades não podem originar-se e vir dele, nem nele adentrar-se (SIMMEL, 2005, p. 265).
Nossa protagonista aparece como um sujeito migrante que se fixa, ou ao menos tenta se fixar, nessa terra estrangeira, mesmo que num movimento alongado de passagem, já que sua migração, em princípio temporária para os Estados Unidos, é norteada por uma busca que, em sua própria natureza, já representa transitoriedade.
Podemos afirmar que a narrativa de Azul corvo, se desenha em torno de dois grandes momentos: o de total estranhamento e desabrigo provocados pela nova paisagem e pela cultura do Outro, e o momento de negociação entre a identidade cultural de origem de Vanja e a cultura daquele novo espaço, e, por conseguinte, a (re)construção de sua própria identidade, o que, como veremos, somente se torna possível a partir do desenvolvimento de relações afetivas.
O primeiro momento se revela logo no início dos relatos da menina, nos quais fica claro o seu estranhamento com a paisagem e com o clima do lugar, sempre revelado em contraponto com a geografia de sua terra natal, o Rio de Janeiro:
(…) eu olhava pela janela e via a imensidão do céu cutucado pelas montanhas a oeste, Havia algum verde, sim, mas era tão pouco que pra mim não contava. No meu entender, verde ou era exuberante e denso, ou não era verde. Eu desconsiderava aquelas plantinhas raquíticas do deserto […] Antes eu estava habituada a caminhar por baixo das árvores. Atravessava as ruas estreitas e sujas de Copacabana e suas calçadas esbugalhadas com telhados de árvores presentes o ano inteiro. Agora, naquela cidade semiárida, as ruas eram largas e limpas e sem sombra (LISBOA, 2010, p. 18).
O Rio de Janeiro, mais especificamente Copacabana, irá aparecer durante quase toda a narrativa como ponto de referência em que Vanja pudesse, de alguma forma, se sentir abrigada e pertencente, já que lá, ainda que carente dos referencias paternos, a menina possuía uma identidade e podia situar-se em relação ao restante do mundo. Assim, a evocação da paisagem marítima, que aparece a todo o momento cortando os relatos da narradora, equivale a um apelo para a superação do desconforto provocado pela paisagem desértica, pelo clima seco e pelos hábitos estranhos que a menina reconhece em Denver. Essa constante evocação estabelece, ao longo da narrativa, um marcante contraste com Lakewood, que irá se configurar antes como um lugar transformado em não lugar pela experiência migratória.
Os não lugares se configuram como espaços tipicamente de passagem, onde os sujeitos não são capazes de experienciar senão a própria individualidade e a solidão por ela causada. Tais espaços de trânsito, além de se apresentarem como solitários, ainda se revelam extremamente inóspitos, dificultando o desenvolvimento das relações afetivas entre os sujeitos que por eles transitam. Em Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade, Marc Augé afirma que: “Se um lugar pode se definir como identitário relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, definirá um não lugar” (AUGÉ, 2012, p. 73).
Mais do que um lugar meramente de passagem consideramos que Lakewood se configura para Vanja como algo semelhante ao que Augé chama de “o não lugar como lugar”, aquele que nunca chega a existir por completo sob uma forma pura, já que está em constante transformação, sendo incessantemente recomposto por outros lugares, tornando dialógica a relação entre lugar e não lugar, que, nas palavras do antropólogo, “são, antes, polaridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se realiza totalmente – palimpsestos em que se reinscreve, sem cessar, o jogo embaralhado da identidade e da relação” (AUGÉ, 2012, p. 74).
A tentativa de superação do desconforto operado por aquela nova paisagem seca e desértica se dará via memória. Na expectativa de encontrar algum abrigo nesse espaço que para ela se apresenta tão hostil, a narradora opera um constante retorno ao passado, do qual emergem lembranças e imagens sensoriais que, de forma evanescente, parecem formar um caminho que irá norteá-la nesse espaço.
Nessa narrativa orientada pelo passado, vemos confrontadas as imagens de duas paisagens que se apresentarão como diametralmente opostas pela a narradora: o mar de Copacabana e o deserto do Colorado. A paisagem marítima, evocada sempre de forma afetiva a partir das memórias de sua infância, remete a um ambiente mágico, onde Vanja se sente confortável, onde é possível fixar-se, sonhar e ser feliz.
O aspecto mais expressivo da desterritorialização pela qual passa a personagem, irá consistir, portanto, nessa oposição mar/deserto, que irá concretizar a dicotomia lugar/não lugar e revelar a crise subjetiva da personagem principal. Se, nas palavras de Stefania Chiarelli, “o mar surge como presença concreta ou miragem do passado[…], o deserto, espaço da busca paterna, fala de uma incontornável ausência como móvel das narrativas.” (CHIARELLI, 2016).
A praia de Copacabana aparece, portanto, como o lugar em que ela se localiza afetiva e identitariamente e que, para além da imagem, ao evocar cheiros, sabores e sons, se configura como um lugar místico, onde a narradora pode encontrar abrigo e segurança, não obstante sua natureza móvel. Desse modo, a paisagem marinha representava para a narradora um lugar passível de se encontrar, de dialogar: “Toda uma outra vida, outro registro, mas era possível, mesmo para um ser humano, nadar entre eles (…)” (LISBOA, 2010, p. 29), em oposição ao não lugar que irá se revelar o deserto do Colorado.
Ao descrever a arquitetura da cidade de Denver, Vanja ironiza a existência de tantos arranha-céus, mansões e campos de golfe que tentam, de forma frustrante, conferir alguma vida “no meio de uma aridez de quase deserto” (LISBOA, 2010, p. 22). O termo aridez aqui empregado vai além de uma nomenclatura aplicada ao clima, ele representa a hostilidade, a falta de suavidade e de brandura, e o desabrigo presentes nesse espaço.
É nesse cenário desértico e hostil, que nossa protagonista começa a experienciar a solidão e a se dar conta da perda das referências nas quais costumava pautar sua identidade. Depois de mencionar a solidão imposta por aquele espaço, Vanja completa: “Você perde um pouco a certeza de si mesmo quando confrontado com isso” (LISBOA, 2010, p. 23).
Aqui, é importante lembrar que a falta do pai é a motivação da viagem de Vanja, cujo objetivo, como sabemos, é a busca não somente dele, mas das referências identitárias e afetivas que representa. Ao rememorar o episódio em que decide partir, a menina analisa: “Seria preciso coragem, isso sim, para ficar parada onde eu estava, ponto fixo no espaço, acalentando como a um animalzinho doente a ideia de que nada tinha mudado, de que nada era diferente, caminhando pelas mesmas ruas, alimentando os mesmos hábitos, me fingindo” (LISBOA, 2010, p. 65, itálicos nossos).
Fica, portanto, evidente a necessidade do trânsito para que Vanja encontre não somente o pai, mas a si mesma. Nesse contexto de deriva e de busca, a viagem da personagem se dá justamente para um espaço desértico. Podemos associar, portanto, a intensificação da sensação de perda e deriva sentidos pela narradora ao chegar em Denver com a categoria incorpórea, aporética e inóspita evocada pelo deserto (CHIARELLI, 2016).
Reafirmando esse caráter transitório e desfavorável às relações afetivas, próprio dos não lugares a que parece corresponder a paisagem desértica de Denver, Vanja faz a seguinte reflexão:
Existe algo de intermediário nos desertos. Muitos viajantes disseram isso. É como se eles não fossem destinações, mas caminhos apenas. Grandes paisagens inóspitas onde você não se demora, que você apenas percorre entre um e outro ponto mais afável do mapa (LISBOA, 2010, p. 147).
Mongin (1991, apud CHIARELLI, 2016) reitera a importância da conquista do deserto para conferir “um pouco de substância e de vigor ao vazio de dentro”. A conquista desse espaço parece corresponder ao preenchimento de suas lacunas, ao ato de dar uma forma ao caos interno de um indivíduo em constante redefinição de si próprio e de suas percepções em relação ao mundo e aos lugares, como é o caso do indivíduo contemporâneo, mais especificamente, do viajante. Tais características se agudizam ainda no caso de Vanja que, vale lembrar, empreende uma viagem de busca.
Essa conquista do deserto de que fala Mongin somente se torna possível, ainda que parcialmente, para a narradora de Azul-corvo a partir das relações afetivas que ali se delineiam. A superação do vazio afetivo encarado pelos sujeitos em trânsito aparece, portanto, como um possível caminho para uma reterritorialização, fenômeno a partir do qual os (não) lugares, que se revelam os espaços de migração, possam abandonar, pelo menos em parte, sua categoria inóspita, se configurando como um lugar acolhedor e seguro, ainda que eternamente plural e em constante (re)construção.
Quando Vanja consegue travar relações afetivas, sua relação com o espaço também se modifica. Assim, aquela paisagem caótica de Lakewood, se transforma em um “lugar antropológico”, definido por Merleau Ponty “como um espaço ‘existencial’ como lugar específico de uma experiência de relação com o mundo de um ser essencialmente situado ‘em relação com o meio’” (AUGÉ, 2012, p. 75).
Para Michel de Certeau, o lugar é um espaço praticado. O ato de praticar esse espaço consiste em “repetir a experiência jubilosa e silenciosa da infância: é, no lugar, ser outro e passar ao outro” (1990, apud AUGÉ, 2010 p. 78). Assim, o espaço até então tão vazio de práticas próprias e tão lotado de outras práticas, se torna um lugar na medida em que Vanja consegue enxergar o outro em contrapartida a si mesma, ainda que numa relação dialógica de permanente reescritura de sua identidade e da alteridade.
Vanja encontra o caminho da reterritorialização através dos laços afetivos que forma com Carlos, o menino com quem constrói uma relação de irmão que nunca teve e, principalmente, com Fernando, o pai que (não) esperava encontrar.
É assim que nossa narradora vai, aos poucos, preenchendo seus vazios, (re)formando sua identidade:
Era o tempo de eu me remodelar, quem sabe eu também tinha (devia ter) aquele interior mole e albino de inseto entre um e outro esqueletos externos. Era preciso pegar aquela gosma e, depois de ter conseguido protegê-la da fulminante piedade alheia, moldá-la agora em algum formato com o qual eu me reidentificasse (LISBOA, 2010, p. 78).
A apropriação do espaço do Outro, no entanto, nunca se dá de forma completa. Como assinala Simmel, o estrangeiro irá aparecer como alguém de natureza essencialmente móvel que, embora se revele enquanto sujeito por meio de contatos específicos, não chega a se vincular organicamente a nada e a ninguém (SIMMEL, 2005, p. 267).
Ao longo da narrativa, Vanja se mostra uma mistura de brasileira e norte-americana. É americana na certidão de nascimento e quando consegue, sem maiores tropeços, aderir ao cotidiano daquele lugar: ir à escola, contar aos colegas sua história e ser cool; mas é brasileira demais para pronunciar os fonemas do inglês com a perfeição suficiente de modo a não denunciar o seu estrangeirismo, é brasileira demais para comemorar o dia de ação de graças ou para encarar com naturalidade a enxurrada de abóboras vendidas juntamente com instrumentos para esculpi-las no mês de outubro.
Dessa forma, constatamos que fica reservado à Vanja o lugar entre dos estrangeiros: entre culturas, entre fronteiras, “entre parênteses”, como aponta ela. Habitar esse lugar significa estar em um constante e permanente processo de negociação com todos esses elementos que flutuam em torno do sujeito migrante, de modo que este se encontra com uma perna fincada em cada um dos lados, configurando o que Stuart Hall chama de nova diáspora pós-colonial.
Podemos afirmar que na época pós-colonial, como Hall define o tempo em que vivemos, não há mais um centro difusor de cultura e identidades, como ocorreu durantes os séculos de colonização. Graças à globalização, vemos surgir uma nova ideia de identidade nacional. Uma ideia não soberana, na qual os países colonizados encontram espaços para negociar suas culturas de origem com a cultura absorvida por seus colonizadores, num processo dialógico de transculturação, em que consiste a experiência Diaspórica dos estrangeiros de que fala Hall:
(…) é importante ver essa perspectiva diaspórica de cultura como uma subversão dos modelos culturais tradicionais orientados para a nação. Como outros processos globalizantes, a globalização cultural é desterritorializante em seus efeitos. Suas compressões espaço-temporais, impulsionadas pelas novas tecnologias, afrouxam os laços entre a cultura e o ‘lugar’ (HALL, 2008, p. 36, grifo nosso).
Trazendo a experiência diaspórica das culturas colonizadas para o âmbito subjetivo, é correto afirmar que o estrangeiro se vê obrigado a negociar sua identidade cultural e suas referências identitárias próprias com aquelas encontradas nesse novo espaço, desestabilizando, no plano concreto, a ideia de nação e, no plano subjetivo, sua identidade e seu pertencimento. O sujeito migrante opera, portanto, o que Hall chama de “tradução cultural”, dissolvendo as fronteiras físicas e culturais e apontando para uma interpenetração desses elementos a nível global.
Ao relatar o primeiro momento de sua experiência de migração, percebemos o apagamento das referências de seu lugar de origem: “Um fenômeno curioso acontece quando você passa muito tempo longe de casa. A ideia do que seja essa casa – uma cidade, um país – vai desbotando como uma imagem colorida exposta diariamente ao sol. Mas você não adquire logo outra imagem para pôr no lugar” (LISBOA, 2010, p. 70).
Diante do desajuste em relação àquele novo ambiente e àquelas novas pessoas, com os quais não é capaz de se reconhecer, a narradora deixa transparecer um desesperado desejo de pertencer: “Tente: aja como, vista-se como, fale como as pessoas ao seu redor. Use as gírias, frequente os lugares mais frequentados, se esforce para compreender os espaços políticos[…] Faça tudo isso, aja como” (LISBOA, 2010, p. 70).
Nesse processo de tradução cultural, o que vemos ocorrer é antes uma coexistência dos referenciais culturais e identitários que uma mera substituição desses, resultando numa paradoxal manifestação do sentimento de pertencimento: o sujeito em trânsito não irá mais se identificar completamente com o seu lugar de origem, nem conseguirá pertencer plenamente ao novo espaço, que, sempre se apresentará como estranho para ele em alguma medida:
Depois que você passa tempo demais longe de casa, vira uma interseção entre dois conjuntos, como naqueles desenhos que fazemos na escola. Pertence aos dois, mas não pertence exatamente a nenhum deles. Você passa a ter uma memória sempre velha, sempre ultrapassada de casa (LISBOA, 2010, p.72).
Podemos concluir, que Vanja, tal qual o estrangeiro de que fala Simmel e o sujeito traduzido de Hall, procura equilibrar-se na corda bamba da identidade/alteridade, se revelando como um sujeito híbrido, impuro, e plural; experienciando um paradoxal sentimento de (não)pertencimento ao lugar para onde migra, que não é bem um lugar, antes uma interseção na qual “duas coisas inteiramente distintas dão a impressão de se encontrar” (LISBOA, 2010, p. 72), sem, contudo, encontrar-se de fato.
Essa promessa de não realização do encontro pleno, no entanto, não impede que Vanja dê continuidade à sua vida plural, de subjetividade híbrida, e faça daquele espaço uma espécie de lugar na qual consegue, em certa medida, encontrar o que precisava: “Depois, descobri que a vida fora de casa é uma vida possível. Uma, dentre muitas vidas possíveis” (LISBOA, 2010, p. 72).
CONCLUSÃO
Waldenfels, em Topographie de l’étranger (1997), aponta o lugar como uma característica indispensável ao sujeito, que só manifesta a sua subjetividade a partir de um ponto de referência através do qual possa diferenciar-se do Outro, que para ele, apresenta-se como um estranho.
Tal lógica da alteridade baseada na diferença permanece válida nos dias atuais, porém, como já sabemos, a ideia de lugar é outra. Se o lugar onde se insere o sujeito determina quem é o estranho, na medida em que superamos a centralidade – da ideia de nação, de sujeito e de cultura das quais fala Stuart Hall em Identidade cultural na pós-modernidade – todos passam a ser estranhos e, ao mesmo tempo, evidenciam um potencial de não mais o serem em sua totalidade. Vemos, desse modo, relativizarem-se as referências sobre as quais se fundaram, desde o início da história humana, o Eu e o Outro.
O fenômeno da migração nos permitiu olhar com mais cuidado para a questão do estrangeiro como estranho, tradicionalmente considerado ameaçador por viver sobre outras normas que não a do Eu, por dele destoar. No entanto, ao compreendermos que a unidade desse Eu é uma ilusão, percebemos que, como afirmou Freud, somos estranhos a nós mesmos; ao constatar que a subjetividade só se forma em contato dialético com o Outro, passamos a enxergar esse Outro não mais como um estranho que nos coloca em perigo, mas como uma fonte de descobertas construtiva, com um valor positivo.
Adriana Lisboa constrói, conforme observamos, uma personagem que sintetiza em sua narrativa de trânsito essa experiência de redescoberta do Outro e de sua própria subjetividade a partir da vivência de uma migração. Para além da história pessoal dessa personagem, Lisboa nos conduz à uma reflexão a respeito do importante papel que a nova diáspora protagonizada pelos sujeitos migrantes do século XXI tem no enfraquecimento dos centros difusores de poder e cultura, bem como na desconstrução da ideia de nação.
Pudemos constatar também que o resultado desses processos, em instância subjetiva, reforça o descentramento do sujeito contemporâneo, que se apresenta cada vez mais plural, multifacetado e híbrido, sempre flutuando entre duas (ou mais) fronteiras, línguas, culturas e hábitos. Vanja é a encarnação desse sujeito do entrelugar, no qual fundem-se de forma paradoxal a sensação de nunca pertencer totalmente a lugar algum: não mais ao de origem e nem ainda ao de destino.
Entre deslocamentos espaciais e identitário-afetivos, há sempre um sujeito, em maior ou menor grau, desajustado. A pesonagem Vanja representa magistralmente a experiência desses sujeitos migrantes de nosso século que, mais do que nunca, evidenciam uma condição existencial transfronteiriça e uma identidade híbrida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 9ª ed. São Paulo: Papirus Editora, 2012.
CHIARELLI, Stefania. Forasteiras – Adriana Lisboa e Paloma Vidal, percursos itinerantes na ficção contemporânea. No prelo, EDUFF, 2016.
FIGUEIREDO, Eurídice. Desterritorialização na narrativa brasileira do século XXI. In: Representações de etnicidade: perspectivas interamericanas de literatura e cultura. Rio de Janeiro: 7letras, 2010. p. 251-262.
Hall, Stuart. Da diáspora: identidade e mediações culturais. 2ª reimpr. rev. Trad. Adelaine Garcia Resende et al. Belo Horizonte: EdUFMG, 2008.
Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.
LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
VIDAL, Paloma. De baratas, moluscos e peixes. Sobre Azul-corvo, de Adriana Lisboa. In: CHIARELLI, Stefania; DEALTRY, Giovanna; VIDAL, Paloma (Org.) O futuro pelo retrovisor: inquietudes da literatura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
SIMMEL, George. O estrangeiro. Trad. Mauro Guilherme Pinheiro KOURY, RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção/Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia da Emoção da Universidade Federal da Paraíba. Paraíba, vol. 4, nº 12, dezembro de 2005, João Pessoa: GREM, 2005. p.350–357. Disponível em;
http://www.cchla.ufpb.br/rbse/RBSEv4n12dez2005.pdf. Acesso em 24/08/2015.
Bio fornecida pelo palestrante.
O VAMPIRO DE CURITIBA ENTRA EM CENA: A DRAMATURGIA NO TEXTO DE DALTON TREVISAN
José Luiz Matias
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Resumo: Com acentuado tônus dramático, a obra de Dalton Trevisan tem sido alvo constante do interesse de encenadores, que se apropriam dos seus textos com a finalidade de desenvolverem transcriações mediadas por representação teatral. Os exemplos mais expressivos nos quais ocorrem esta performance são as montagens de Mistérios de Curitiba e de Ademar Guerra; No ventre do Minotauro e Pico na veia, de Marcelo Marchioro. Tais realizações ampliam o universo midiático (MÜLLER, Adalberto, 2012, p. 169) do texto trevisaniano, abrindo-lhe novas perspectivas de fruição estética.
Palavras-chaves: dramaturgia; Dalton Trevisan; representação teatral.
Abstract: Dalton Trevisan’s work has an intensive dramatic tone, and has received a well-deserved interest on the part of theater directors who adapt his stories into dramas. The most important examples are the plays Mistérios de Curitiba, by Ademar Guerra, and No ventre do Minotauro and Pico na veia, by Marcelo Marchioro. These plays expand the media aspects (MÜLLER, Adalberto, 2012, p. 169) present in Trevisan’s work while they open new perspectives for an aesthetic enjoyment.
Keywords: drama; Dalton Trevisan; theatrical performance.
Minicurrículo: José Luiz Matias é Doutor em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde defendeu a tese Interconexões da literatura e do cinema em Dalton Trevisan e Joaquim Pedro de Andrade. É professor contratado para ministrar cursos de Pós-Graduação na Associação Educacional Dom Bosco (AEDB), em Resende-RJ.
O VAMPIRO DE CURITIBA ENTRA EM CENA:
A DRAMATURGIA NO TEXTO DE DALTON TREVISAN
José Luiz Matias
Universidade Federal Fluminense (UFF)
No proscênio: os mistérios de Curitiba
No abrangente artigo Visões de Curitiba em cena, Marta Morais da Costa oferece um amplo panorama das encenações que têm a cidade como tema, mostrando a diversidade de perspectivas com que tem sido levada à cena teatral, indo desde o ufanismo amoroso à mais severa crítica do seu modus vivendi (COSTA, 1998, p. 37). Nos contos reunidos na coletânea Mistérios de Curitiba, de Dalton Trevisan, e em outros de semelhante teor, os encenadores encontram o apelo dramático permeado pela visão crítica do autor.
É com amargura e negatividade que Dalton Trevisan desliza do horizonte limitado pelas adjacências de onde mora e extrapola seu voo literário para um radical estranhamento do provincianismo de Curitiba, materializando-a bem distante da fama de Cidade Humana pela qual é conhecida. A própria figura do autor, solitária e enigmática, lhe rende o epíteto de Vampiro de Curitiba. A cartografia da cidade não se restringe a funcionar como pano de fundo para o enunciado dos contos, mas dele participa em tensão visceral com o autor e sua escrita. Daí a iniciativa desta abordagem em selecionar três textos mediante os quais os encenadores criam suas representações no palco, formando um painel memorável sobre a cidade. Inicialmente se estendem os versos irônicos de Curitiba revisitada, para depois destroçar a cidade, lançando-a num caos amaldiçoado com as Lamentações de Curitiba e, por fim, a leitura nostálgica com Em busca da Curitiba perdida.
Os versos de Curitiba revisitada representam uma crônica em que o narrador desmitifica a imagem criada em torno da cidade civilizada, amplamente gabada por candidatos a prefeitos e por marqueteiros durante a propaganda eleitoreira, tal como ocorre nas seguintes estrofes:
Curitiba alegre do povo feliz
esta é a cidade irreal da propaganda
ninguém não viu não sabe onde fica
falso produto de marketing político
ópera bufa de nuvem fraude arame
cidade alegríssima de mentirinha
povo felicíssimo sem rosto sem direito sem pão
dessa Curitiba não me ufano
não Curitiba não é uma festa
os dias da ira nas ruas vêm aí
TREVISAN, Dalton, 2007, p. 143; grifos do autor
O desmascaramento da Curitiba ideal mostra seu avesso, como se fosse um produto falso a ser impingido a crédulos admiradores (Curitiba alegre do povo feliz), cujos grifos demonstram ironicamente o discurso oficializado que não se coaduna com a visão flagrada pelo narrador. Os versos, dispostos sem nenhuma pontuação, derramam frases aos borbotões, sem suportar qualquer contestação. O narrador rebate o clima de otimismo pelo esboço de um retrato sem retoques do povo “sem rosto sem direito sem pão” e, por isso, sem razão alguma para possuir a felicidade a ele atribuída – ou talvez empurrada abaixo por sua goela, pois na verdade não há nada a festejar, uma vez que “Curitiba foi, não é mais” (TREVISAN, 2007, 143, 149). Nota-se, no verso final da segunda estrofe (“os dias da ira nas ruas vêm aí”), uma preparação para o próximo episódio na composição deste painel, como num filme seriado.
Em Lamentações de Curitiba o clima é apocalíptico, com a chegada do Senhor para derramar sobre a cidade o juízo final, mediante um cataclismo que varre toda a população, lhe infligindo um sofrimento dantesco, pois
No dia de suas aflições, os vivos serão levados pela mão dos mortos para a morte horrível. Da cidade não ficará um garfo, aqui uma panela, ali uma xícara quebrada, ninguém informará onde era o túmulo de Maria Bueno. (…)
O que fugir do fogo não escapará da água, o que escapar da peste não fugirá da espada, mas o que escapar do fogo, da peste e da espada, esse não fugirá de si mesmo e terá morte pior (TREVISAN, 1974, p. 70).
A alegoria do Deus vingador mesclado com São Miguel Arcanjo, empunhando a espada justiceira com que extirpará os pecados curitibanos, aproxima o enunciado da dicção messiânica dos beatos do sertão brasileiro, à maneira de Glauber Rocha em Deus e o diabo na terra do Sol. Por evocar uma crença das mais temidas da cristandade – o juízo final –, quando o fiel será chamado a prestar contas à divindade de seus feitos terrenos, o narrador se esmera em esboçar um cenário de ruínas com o horripilante destino dos curitibanos. “Este é o povo que morreu de espada: cento e noventa e sete mil almas e mais uma; todas as almas perdidas numa hora e sem um só habitante” (TREVISAN, 1974, p. 70).
Nesta instância, a catarse do narrador não se perfaz apenas nestas cenas de horror explícito, mas também veicula uma chave humorística, quando visualiza que “os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados como roupa secando no arame” e, logo adiante, “de assombro as damas alegres da Dinorá atearão fogo ao vestido gritando nas janelas o fim dos tempos” (idem). Note-se que os enforcados terão sua performance justamente na praça intitulada Tiradentes, num viés metonímico para transformar o vulto histórico em patrono dos enforcados, os quais, por sua vez, estarão “como roupa secando no arame”, panorama até certo ponto idílico na rotina de uma cidade, mas totalmente inusitado na cena aterrorizante. Já as prostitutas atingem a sacralidade ao atear fogo às vestes, como fazem os monges tibetanos em protesto. O amálgama do sagrado com o profano revela um paradoxo que remete as prostitutas à santidade.
Para arrematar, o golpe final: “A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais” (TREVISAN, 1974, p. 72). Portanto, o juízo final na concepção trevisaniana provém de uma atuação cirúrgica da divindade, pois o narrador tranquiliza os municípios vizinhos – São José dos Pinhais e Colombo. Haveria de ser hecatombe circunscrita a Curitiba, como a reedição da maldição bíblica lançada com chuva de enxofre e fogo apenas sobre Sodoma e Gomorra, não atingindo outras cidades da região.
Mas nem tudo se resume à terra arrasada da combalida Curitiba, tão castigada pelo oráculo de sua desgraça planetária. O idealizado fascínio da cidade surge no conto hibridizado em crônica Em busca da Curitiba perdida. Por meio dele o narrador se propõe a viajar por ela, redescobrindo seus arrabaldes. Mostra-se agora seduzido pela possibilidade de vê-la de maneira intimista e afetuosa, na tentativa de desvendar seus mistérios. Para isso, despe-se de qualquer animosidade e se posta num ângulo nostálgico, porém procura visualizá-la no seu perfil mais autêntico, apartado de um anverso plasmado pelo artificialismo do discurso oficial e ufanista.
Para Sueli de Jesus Monteiro, na concepção deste conto Curitiba ficaria dividida em duas: a convencional e a marginal. “Dalton Trevisan declararia viajar a primeira e ser viajado pela segunda. Estrangeiro o autor em sua terra, os textos lamentariam uma cidade que se perdeu nas malhas do discurso oficial” (MONTEIRO, Sueli, 2012, p. 106). Como antes, não lhe interessa o olhar embotado pela hipocrisia do pitoresco, pois intenciona se deparar com a “Curitiba que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja” (TREVISAN, Dalton, 1974, p. 139).
A Curitiba provinciana, mas ao mesmo tempo fagueira, é desejada pelo narrador e será por ela que seguirá viagem. A Curitiba do bom-mocismo é renegada, pois o narrador não encontra em seu modus vivendi a suficiente motivação para caracterizá-la: “Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a do Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo” (TREVISAN, Dalton, 1974, p. 140-141). Esta é a cidade dos parnasianos radicais, do ufanismo patriótico e do beletrismo inócuo; daí não lhe interessa percorrê-la. Valendo-se da inspiração transmutada em viagem é que Dalton Trevisan vai encontrar a “Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar – esta Curitiba e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo” (TREVISAN, Dalton, 1974, p. 141). A nostalgia desta descrição, mediante sua paisagem e habitantes pitorescos, convive com a execração de suas instituições falso-moralistas, num manifesto sentimento contraditório de amor e repulsa.
Foi com base em textos como os mencionados que Ademar Guerra (1933-1993) vinha encenando a peça Os mistérios de Curitiba. O encenador reconheceu a densidade dramática do texto trevisaniano, coletou aqueles que mais se alinhavam à mensagem e os deixou fluir livremente pela interpretação visceral de seus atores. A crítica teatral dá conta de que o ator, ao interpretar o personagem Nelsinho, se desnudou completamente diante do público enquanto recitava sua fala (PELLANDA, 2014). A impactante presença do corpo desnudo no palco passa pela constatação de que “o corpo no discurso ficcional é uma construção simbólica. Por isso mesmo, cada vez mais tem sido um observatório privilegiado dos imaginários” (NUNES, 2011, p. 31). Esta Curitiba que se quer representada precisa ser um “caleidoscópio movente” (NUNES, 2011, p. 29) que se apresente com todas as facetas, sem pudor ou acanhamento, e não apenas exiba aquelas faces calcadas na imagística artificiosa da propaganda oficial.
Percorrendo o labirinto no ventre do Minotauro
Esta peça foi primeiramente montada por Marcelo Marchioro, em 2001, empreendendo uma tradução cênica, cujo ponto de partida foi o conto Orgias do Minotauro, no qual o protagonista é o advogado enfeitiçado pela cliente – uma “macieira iluminada em flor suspirosa de abelha” (TREVISAN, 2007, p. 96). O Minotauro do conto é uma paródia do mito grego, perdido no seu labirinto de paixões, que tenta com muita lábia conseguir os favores sexuais da cliente, pois “toda família curitibana tradicional […] tem um louquinho preso no porão (…). Ó maldito Minotauro uivando e babando no próprio labirinto” (TREVISAN, 2007, p. 103). Se o Minotauro da lenda exigia sete virgens e sete rapazes para se alimentar com sua carne, o do conto trevisaniano precisa apenas de uma jovem para aplacar seu desejo, por meio de troca de carícias e outras eventuais possibilidades.
Repetindo o tema constante nos contos trevisanianos, o narrador daqui se confunde com o personagem e, por meio de um diálogo que vai minando pouco a pouco a resistência da interlocutora, o Minotauro avança no labirinto do seu corpo: desde a mão até outras partes mais íntimas. A desvairada comparação de partes da anatomia feminina com o ato de comer e beber reforça o erotismo antropofágico da cena:
Me achego e beijo a face – sem pintura, que maravilha. Fagueira penugem de nêspera madurinha.
– De uma [mulher], o seio raso da taça de champanha. De outra, bojudo copo de conhaque para aquecer a palma da mão.
– Uma empadinha recheada de camarão e premiada com azeitona preta.
Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas (TREVISAN, Dalton, 2007, p. 95; 97; 98; 99; 100 – grifos nossos).
Essa metaforização fescenina evidencia a intenção do narrador-personagem. Nesta conotação hibridizada Marcelo Marchioro se inspirou para selecionar 40 contos de Dalton Trevisan, dos quais retirou pequenos textos ou segmentos, e os organizou na versão teatralizada de No ventre do Minotauro, em forma de esquetes, representados com a destacada participação de Mário Schoemberger. Este ator foi fundamental para o sucesso do espetáculo durante cerca de um ano e meio nos teatros paranaenses, pois soube mais que ninguém captar o verdadeiro sentido a ser transmitido ao público durante a temporada: “Os contos se situam sempre no registro entre Eros e Tânatos. Essa dualidade aparece o tempo todo em seus contos” (SCHOEMBERGER, apud Estadão Digital, 2014).
Segundo a crítica, “a cenografia da peça (criação do grupo Usina das Artes) é simples e evocativa: cabideiros feitos de pinho estão espalhados na cena, numa referência também à imagem dos numerosos pinheiros que revestem a paisagem da região Sul do País” (Estadão Digital, 2014). A observação procede, pois a metáfora dos pinheiros remete à percepção de que os dramas se desenrolam na capital paranaense, entre os personagens são caracterizados tal como estão no texto trevisaniano. Neste caso, Marchioro produziu a sequência de diálogos para lhe imprimir a dramaticidade pretendida, num alcance muito maior que a evidenciada Curitiba, pois, à medida que procuram enfatizar o grotesco das situações, passam a ocupar “um entrelugar categorial, reconhecido por propriedades não consistentes, voltadas para a sugestão de um ser, cujas características encontram-se além do alcance da linguagem, ou seja, numa esfera afim à da representação e à da visão de mundo melodramáticas” (DIAS, 2013, p. 22-23 – grifo da autora).
Nos cabideiros é posta uma variedade de chapéus com os quais o ator compõe o figurino de cada personagem a ser representado, portanto, com um cunho universal. As sucessivas transformações são feitas diante do público, requerendo muita versatilidade do ator, em virtude da gesticulação e a entonação das falas, que têm de ser reatualizadas a cada mudança de papel. Assim, No ventre do Minotauro se aproxima da estética do melodrama mesclado à farsa, à medida que o monólogo desfiado por Schoemberger descamba para o exagero cuja intencionalidade sublinha o desempenho destacado do ator (BENTLEY, 1967, p. 188).
E para finalizar: um pico na veia
Conforme se constata até aqui, é inesgotável o potencial de teatralização do texto de Dalton Trevisan. Embora Roland Barthes considere que a teatralidade seja “o teatro menos o texto”, que submerge diante da exterioridade dos “corpos, dos objetos, das situações”, o crítico não deixa de reconhecer ser qualidade presente “desde o primeiro germe escrito de uma obra, pois ela é um dado de criação” (BARTHES, 2009, p. 58).
De fato, a estética de Dalton Trevisan se funda no exagero melodramático, indo às raias da transgressão do politicamente correto, com a intenção de fazer emergir os conflitos que se querem recônditos entre as copas do cinismo da sociedade. O autor permite seja desvendada em sua escritura as diversas nuances que a credenciam como congênere do modo melodramático, como os textos selecionados no livro Pico na veia, justamente por apresentar uma coletânea de micronarrativas cuja propensão cênica se assemelha a esquetes de representação teatral. São minicontos e haikais, numerados de 1 a 205 com uma economia bem definida desde o texto nº 3: “Um bom conto é pico certeiro na veia” (TREVISAN, 2008, p. 9), frase-síntese que poderia ser apropriada como epígrafe de toda sua obra.
Já no texto nº 204 são mencionadas apenas duas frases: “Lição de estilo: o último bilhete do suicida. Lição de vida: um pedaço de papel em branco – o último bilhete” (TREVISAN, 2008, p. 238). O último bilhete do suicida é a alegoria da idealização característica do autor, conhecido pela disposição obsessiva em estar sempre reescrevendo seus textos em busca da melhor expressão. Revela, na iminência da morte, o desejo de capturar o definitivo, a última palavra, sem abrir mais qualquer oportunidade à contestação. O esgar do escritor suicida intui o simulacro da pseudoverdade definitiva que, entretanto, acaba contrariada pela própria finitude acarretada pela morte, pois o sonho com a morte elimina qualquer compromisso com o real, pois ele está prestes a apagar a existência.
Daí, a última encenação, antes de cair o pano, faz com que o escritor suicida esteja à beira do abismo e se jogue no precipício, mas logo retornará como um Sísifo redivivo, fadado a reiniciar a trama em cada texto a ser (re)produzido. Assim, a reprodutibilidade de seu texto se tornará bastante previsível com o déjà vu ficcionalizado das peças populares, nas quais as tramas se resumem aos conflitos conjugais, à angústia amorosa dos namorados, ao crime anônimo das ruas, coonestando o próprio cotidiano atribulado do leitor.
Ao encenar Pico na veia (2005), Marcelo Marchioro se propõe a exibir manifestamente o teor dramático dos textos trevisanianos, com sua consistência compacta, resumida, enxuta, porém impressa com cores indeléveis no receptor, trazendo as marcas de uma representação que questionam a indecibilidade das relações humanas no seio da sociedade. Para isso, o encenador atribui a seus atores o papel de narradores-protagonistas de suas histórias e, ao mesmo tempo, a função de espectadores. Embora o título do espetáculo se identifique com o mesmo de um dos livros mais pungentes de Dalton Trevisan, Marchioro se valeu de outros textos do autor, proporcionando uma performance convincente de seu elenco: “São os atores que dão corpo e voz às micronarrativas de Trevisan, formando a ponte e o texto e o olhar através do jogo, tornando visível o universo verbal do contista, transposto para uma nova experiência estética coletiva” (CAMATI, Anna, 2006, p. 61, 63).
Para alcançar tal resultado, Marchioro se apropria de textos viscerais como o nº 2, no qual se desenvolve o monólogo de uma jovem usuária de crack. No relato, ela atua como doublée de personagem e narradora, revelando que perambula pelas ruas da cidade para assediar as demais pessoas, a fim de exigir uns trocados ou lhes aplicar golpes, cujo produto é todo destinado aos alucinógenos: “Isso não é roubo, é viração” (TREVISAN, 2008, p. 6). A personagem naturaliza sua condição de genuína credora da ajuda alheia, construindo uma lógica sui generis, pois para ela pedir seria uma humilhação e roubar é uma justa apropriação de algo que lhe é negado, mas que também lhe pertence.
Esta personagem representa um indivíduo cuja anomia alcança o universo de usuários de droga entregues à própria sorte, desintegrados num processo de abjeção que é o espaço da dessemelhança e da não-identidade (VILLAÇA, 2008, p. 181). Assim, no discurso fragmentado da jovem não há elementos que possam estabelecer sua identidade, senão os qualificativos autoproclamados de “doidona”, “zoada”, “chapada”, “viciada”, “adoidada”, “louca” e “pirada”. A breve história de sua vida também exterioriza, com cores sinistras, um percurso macabro: “Comecei com cigarro, benzina, maconha, cola, éter. Depois pedra. Se dá, pico na veia. Foi por safadeza mesmo e pra vingar do puto do pai. Só queria fazer sacanagem. A pedra não é o mal. O mal é as pessoas mesmo” (TREVISAN, 2008, p. 7). Como se deduz, trata-se de texto cuja concepção já traz embutida uma intensa carga melodramática, por isso o elenco precisa contribuir com a dosagem certa na interpretação, a fim de não cair na armadilha da pieguice. Aquilo que consegue arrecadar canhestramente nas ruas a personagem canaliza para a droga que, pouco a pouco, corrói sua existência, enquanto tem os momentos da agonizante clarividência dos moribundos: “Entrei nessa de babaca. Se quisesse, tava numa boa (…). Fui eu que ferrei com minha vida. Acho que a pedra me comeu a cabeça” (TREVISAN, 2008, p. 8).
O monólogo perfaz uma retórica patética em que sentimentos contraditórios emergem à flor da pele, levando à plateia as sensações plasticamente concretizadas (BROOKS, 1995, p. 41) mediante a exteriorização pungente de tudo que tem a revelar, numa intensa “compulsão confessional” identificada como característica fulcral dos personagens rodrigueanos (DIAS, 2013, p. 25). Mais que a autoexpiação da culpa, o monólogo revela o conflito psíquico provocado pela configuração do reprimido mediante o sacrifício do próprio corpo da personagem (BROOKS, 1995, p. XI). A personagem jaz ancorada à indecidibilidade, e soterrada no conflito entre viver ou se submeter à degradação física e moral. Pontifica neste monólogo a revelação da jovem que se autoimola no incerto mundo da euforia transitória, enredada numa trama em que cada dia é uma aventura autofágica.
Ao direcionar o foco da narrativa para a jovem usuária que recita seu monólogo em meio ao palco da vida, fica impresso na cena o denominado “caráter sinestésico” de sua visualidade, provocando o desconforto do mal-estar acarretado pelo convívio com a miséria do mundo, tornando-se conivente dela, embora este sentimento não chegue a sensibilizar muitos que ainda permanecem atrás do confortável escudo da indiferença, ao preferir não ouvir, nem ver, nem falar sobre este dilema (CAMATI, 2006, p. 71).
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Bio fornecida pelo palestrante.
O CORPO/TEXTO TATUADO NO LIVRO DE PRAGA, DE SÉRGIO SANT’ANNA
Sara Cristina Pagotto
Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
RESUMO: Apresenta-se, neste artigo, uma abordagem crítico literária de um capítulo que se intitula “O texto tatuado” na obra O livro de Praga, de Sérgio Sant’anna. O estudo se concentra no conceito da transgressão da linguagem, precisamente na questão erótica. Através de um belo corpo apresentar-se-á um texto tatuado, cuja autoria é do poeta e escritor Franz Kafka. Deste modo conduziremos esta análise por meio do belíssimo “Prefácio à Transgressão”, teorizado por Foucault, como também o erotismo abordado por Georges Bataille.
PALAVRAS-CHAVE: Corpo, Tatuagem, transgressão, linguagem
ABSTRACT: The article The tattooed body and The Book of Praga, by Sérgio Sant’Anna, presents a literary-critical approach of a chapter called “The Tattooed Text” in this novel by Sérgio Sant’Anna. The article focuses on the concept of transgression of language, in which, through a beautiful erotic body it is presented a tattooed text whose author is the poet and writer Franz Kafka. We will base this analysis on the beautiful “Preface to Transgression”, theorized by Michel Foucault, as well as on the approach on eroticism by Georges Bataille.
KEYWORS: Body, tattoo, transgression, language
RESÚMEN: El cuerpo/texto tatuado en El libro de Praga, de Sérgio San’Anna, presenta un enfoque de la crítica literaria de un capítulo llamado “El texto Tatuado” en la novela El libro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. Este trabajo se centra en el concepto de transgresión del lenguaje, donde a través de un hermoso cuerpo erótico se enseñará un texto tatuado, cuya autoría es el poeta y el escritor Franz Kafka. Llevamos a cabo este análisis por medio del belísimo “Prefacio a la transgresión”, teorizado por Foucault, así como del estudio del erotismo por Georges Bataille.
PALABRAS CLAVE: Cuerpo, tatuaje, transgresión, lenguaje.
CURRÍCULO DA AUTORA: Mestranda em Letras – Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Católica de Goiás. Especialista em Ensino de Língua Espanhola pela Faculdade Ávila. Licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás e atua como professora de língua portuguesa e língua espanhola na rede estadual de ensino de Goiás, Goiânia.
O CORPO/TEXTO TATUADO NO LIVRO DE PRAGA,
DE SÉRGIO SANT’ANNA
Sara Cristina Pagotto
Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
O presente estudo consiste em uma abordagem crítica literária de um capítulo da obra O livro de Praga de Sérgio Sant’anna, que se denomina “O texto tatuado”. Partiremos do conceito da transgressão, teorizado por Foucault, bem como de erotismo, abordado por Bataille.
Trataremos inicialmente sobre o termo transgressão enquanto elemento que move o processo criador na narrativa deste capítulo/conto na obra de Sérgio Sant’anna, O livro de Praga.
A transgressão é a marca para o ato narrativo quiçá criativo que vai quebrando e ultrapassando os limites para possíveis diálogos com a arte contemporânea, cheia de volúpia e dissoluta, arte essa é a literatura, movida de sutilezas eróticas e transgressivas que dialogam com o corpo, um corpo tatuado, metamorfoseado na narrativa em Praga.
Antes de adentrar na análise propriamente dita sobre o objeto de estudo, o capítulo “O texto tatuado”, relataremos sobre a obra em si no qual é uma reflexão sobre a arte, isto é, a arte interagindo com outras artes – interartes.
Esta obra evidencia e nos apresenta a arte em estreita relação com a experiência do amor e do sexo. E ao mencionar o sexo, nos deparamos com o corpo o qual é tratado de maneira inapelável, de forma transgressiva, acionando múltiplas possibilidades de gerar prazer e dor. O apelo ao corpo, nesta obra enfatiza a experiência artística no contexto dos novos meios de comunicação de massa com o intuito de sensibilizar os leitores para a compreensão da arte.
Na obra O livro de Praga cada capítulo enfatiza experiências com as várias modalidades artísticas: a música, a escultura, o teatro e a própria literatura, invoca-se o corpo para um verdadeiro confronto com o objeto artístico. Afirmamos que o elemento corpo transgride em todos os sentidos para ultrapassar os limites de compreensão da arte.
De acordo com Foucault,
“(…) a transgressão é um gesto relativo ao limite: é aí, na tênue espessura da linha, que se manifesta o fulgor de sua passagem, mas talvez também sua trajetória na totalidade, sua própria origem. (…) A transgressão leva o limite até o limite do seu ser: ela o conduz a tentar para a sua desaparição iminente, a se reencontrar naquilo que ela exclui, a sentir sua verdade positiva no movimento de sua perda. E, no entanto, nesse movimento de pura violência, em que direção a transgressão se desencadeia senão par o que a encadeia em direção ao limite e aquilo que nele se acha encerrado” (FOUCAULT, 1963, p. 32).
A transgressão está ligada pelo limite de forma espiral, ou seja, um movimento progressivo, construtivo e que transpõe. Logo, o corpo tatuado com um texto inédito de Kafka será um instrumento que conduzirá a compreensão da arte “tatuada” de forma a ultrapassar as barreiras do limite.
Neste capítulo é construída uma narrativa erótica e intensa. Antônio Fernandes é um escritor e apreciador de arte, que, estando em Praga chega até Jana, uma moça com o corpo tatuado por um texto inédito supostamente escrito por Kafka, por meio de seu irmão gêmeo Peter.
O personagem Peter “encontra” Antônio Fernandes em um bar chamado “A Dançarina”, neste local, dialogam a respeito do trabalho de Jana e a trajetória da história a respeito do texto de Kafka tatuado no corpo pelo professor e amante de Jana. O irmão gêmeo de Jana é uma espécie de dândi (ser passante, que conhece os pontos e lugares da vida urbana, bem como a cultura e as artes e nesse caso, na obra propriamente dita, Peter conhece a noite e seus movimentos) contemporâneo, que conduz Antônio até sua belíssima irmã, detentora do texto de conteúdo amoroso e erótico impresso em seu belo corpo. O texto havia sido tatuado em letras impressas fosforescentes.
O corpo expressa linguagem e na arte contemporânea, o artista é simultaneamente sujeito e objeto de sua obra, eis que o objeto de estudo “O texto tatuado”, suposto texto inédito de Kafka tatuado no belo corpo da atriz Jana, episódio este que contempla a linguagem por meio do corpo de modo a expressar e comunicar performaticamente a arte.
O corpo humano, desde muito, é tema privilegiado para as artes, no entanto, a partir da década de cinqüenta do século XX, deixa de ser uma simples representação para a arte e passa a ser expressão de si mesmo. Mais do que a representação de um ideal de beleza, as ações performáticas empreendidas por diversos artistas colocam em evidência o corpo que passa a ser explorado como suporte para experimentos de diferentes linguagens.
Ao estudar a obra de Sérgio Sant’anna observamos esse movimento inovador na estética do corpo que é apresentado pela personagem Jana, esta personifica a literatura em forma de texto, um texto escrito (tatuado) em seu corpo.
Interessante notar que sendo o corpo objeto de arte, o artista contemporâneo em ações performáticas propõe a diluição desse objeto artístico e, conseqüentemente cultural, na corporeidade biológica, empreendendo experimentações fomentadas por representações do pensamento simbólico que levantam questionamentos de um corpo híbrido, produtor de imagens invariantes da conduta humana como comportamento simbólico em confluência com suas possibilidades e limitações físicas.
A performance é uma linguagem artística enquanto o artista se serve do corpo para levantar questionamentos sobre fatos sociais bem como expressar-se artisticamente, no contexto de nossa análise, Jana, representa performaticamente e eroticamente o suposto inédito texto de Kafka.
O cenário erotizado através de um corpo que apresenta o texto tatuado nos remete ao que nos explica Bataille sobre o erotismo “é a dança, propriamente humana, que se dá entre este dois pólos: o do interdito e o da transgressão”. Essa transgressão é o ápice do humano e o erotismo é a experiência interior: do segredo e da ruptura que está exposta e nua.
Ainda segundo Bataille, “o erotismo é, de forma geral, infração à regra dos interditos: é uma atividade humana. Mas, ainda que ele comece onde termina o animal, a animalidade não deixa de ser o seu fundamento”.
Durante a encenação há um diálogo erótico entre os dois personagens onde Jana inicia a encenação falando/recitando o texto de Kafka em francês, nesta cena até a voz é alterada com características ora masculinas ora femininas, ou seja, incorporando com muita propriedade o tema do texto em seu corpo, ou melhor, o corpo-texto.
Jana inicia a sua fala, na língua francesa, com uma voz próxima do masculino, sem dúvida uma voz que representava a de Kafka.
Observamos esse recurso na estética da obra de Sérgio Sant’anna onde um texto narrativo está tatuado no corpo desta jovem que teatraliza, ou melhor, contracena, sutilmente essas sensações e confidências eróticas do próprio Kafka à sua amante “como as notas de uma composição que gostaria de talhar em teu corpo, que está a me dizer”.
E logo, Jana muda a voz para um gracioso tom feminino: “Ah, nossos lábios e línguas que se misturam, num desses raros beijos de conhecimento que não devem se repetir continuadamente para não se tornarem um hábito vazio. Melhor, então, depois, explorar outras partes muito sensíveis do meu corpo”. Na sequência voz e expressão tornam-se sensuais:
“(…) tua língua áspera em meus seios, sentindo os seus grãos minúsculos, e repara que, à simples menção disso, os bicos destes seios, que também deves morder de leve, se tornaram durinhos… E há também os lábios de baixo, onde sinto palpitações, e deves trazer aqui a tua língua e teus próprios lábios no meu sexo úmido, e sentirás também outros grãos e um gosto único, e quem sabe poderás decifrar neles, como na leitura dos cegos, a inscrição: labirinto do amor. Ou escolhe outras palavras, obscenidades, por que não?” (SANT’ANNA, 2011, p. 117).
Interessante notar como essa linguagem transgressora vai ultrapassando os limites e extasiando o seu receptor, o conduzindo ao prazer erótico da narração. Octavio Paz define muito bem a relação entre linguagem e erotismo:
“A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota idéias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora” (PAZ, 1994, p. 12).
Observamos que a abordagem desta linguagem erótica além de seduzir o receptor, Antônio Fernandes também o leva a querer praticar o ato descrito. “Seu poder de convencimento era tal que me ergui e já quase me ajoelhava para praticar o que estava marcado no texto, mas ela estendeu a mão para que eu me detivesse: – Aqui é a linguagem que comanda tudo, só a linguagem”. Vemos aqui que o corpo representa o texto que vai comunicar eroticamente na voz ora feminina e ora masculina da personagem Jana.
Além do corpo-texto aqui analisado, pontuamos a posição do homem, que “sentado”, representa um estado passivo, mas que quer assumir a posição ativa (do ato sexual), ele se “levanta” para assumir a posição ativa de homem, mas o corpo-linguagem o impede.
Logo a seguir notamos que a narração do texto e a exibição de Jana para Antônio Fernandes mudam de posição, o corpo vai representar a linguagem erótica do texto posicionando-se de forma passiva: “(…) pois foi ela, Jana, quem se ajoelhou diante de mim, estando eu de pé”.
Bataille nos explica que,
“A passagem do estado normal ao de desejo erótico supõe em nós a dissolução relativa do ser constituído na ordem descontínua. Esse termo, dissolução, corresponde à expressão familiar vida dissoluta, ligada à atividade erótica. No movimento de dissolução dos seres, o parceiro masculino tem em princípio um papel ativo, a parte feminina é passiva. É essencialmente a parte passiva, feminina, que é dissolvida enquanto ser constituído” (BATAILLE, 1994, p. 41).
Embora a ação de ajoelhar-se seja passiva, a linguagem do corpo se torna ativa, representando assim eroticamente o texto tatuado. Observamos explicitamente neste trecho do capítulo no qual a personagem Jana diz a Antônio Fernandes: “– Já que falarei como que com tua virilidade em minha boca, prefiro a língua alemã para o som deliciosamente obsceno de uma mulher falando com um pau em sua boca, para o êxtase dela e de seu homem”.
Logo, o personagem Antônio Fernandes usa a sua linguagem obscena em resposta à representação de Jana: “Assim você me mata de desejo de gozar dentro de sua garganta, viu, sua puta obscena?”, mas ao chamá-la dessa maneira “puta obscena”, comparando-a a uma puta, Jana retruca afirmando que o corpo não é a mercadoria e sim o texto tatuado. A puta vende o corpo, Jana está vendendo o texto que está tatuado no seu corpo.
Antônio Fernandes questiona e duvida da autoria do texto tatuado: “Kafka? Como saber? Kafka jamais desceu ao pornográfico. E fiquei em dúvida se você não inventava tudo na hora”.
Segundo Jana, o texto é um amor emergencial escrito por Kafka em um sanatório de tuberculosos para ser enviado a sua namorada, Julie. Jana ainda menciona que Kafka nunca o leu para os amigos no café Arcos nem mesmo o mostrou a Max Brod.
A seguir a personagem continua a recitar o texto de amor emergencial de Kafka:
“Atravessas o meu corpo que é igual a um corredor de castelo, ou de um museu, em que estão dependurados pedaços de sonhos, quadros vivos, com cenas em que sou o objeto de desejo e prazer, e também eu sinto o prazer e a delicia de ser penetrada nessa cópula da carne e das palavras. Um corredor ébrio em que se ouvirão gemidos e suspiros e se verão letrinhas talhadas que são como insetos ou vaga-lumes na escuridão vagando sobre mim, nua. E conheço segredos que retardam ao máximo o gozo de um homem, meu sexo que te envolve com a textura aveludada das flores úmidas e te ensinam os segredos das sacerdotisas desse templo do amor em que se ouve uma música quase silenciosa, e te deixas levar, teu corpo teu corpo e teu espírito, o concreto e o abstrato, e é isso, principalmente que tenho a te oferecer, e fodo com as palavras e sou fodida por elas” (SANT’ANNA, 2011, p. 119).
Atrevo-me a afirmar que nessa passagem, até as palavras servem como espécie de corpo de linguagem, são penetradas e penetram saciando assim o desejo dos amantes como também erotizando o corpo-texto de Jana o qual recepciona Antônio Fernandes.
A cena continua e Jana, dá dois passos para trás e senta-se em uma poltrona negra, as letras tatuadas continuam visíveis em seu corpo. Segue o texto de Kafka:
“E eis que tu entras em mim e sentes os meus seios como se fossem teus, e assim também o meu sexo, e te tornas um dos raros homens a conhecer em si o que é o prazer feminino sem limites, o que é ser mulher, tu desaparecendo em mim, estás sentindo? E sou capaz de pronunciar palavras que de hábito não poderia pronunciar, mas também as palavras cruas, mete em mim, Franz, o teu pau se perde em meu interior, essa febre dos tísicos que te toma, esse arrepio que te acaricia, o meu perfume único entre todos os perfumes, e nossos tremores como que agônicos, esse desfalecer, essa pequena morte” (SANT’ANNA, 2011, p. 119).
Para Bataille, o ser humano é um ser descontínuo. Nasce só. Morre só. O paradoxo é que se, por um lado, queremos sempre conservar essa descontinuidade (tememos a morte), por outro, sentimos falta da continuidade perdida ao nos percebermos como ‘indivíduos’ (desejamos a morte).
Considerando que o erotismo é sagrado e divino, porque possuem, em sua base, a violência e a intensidade do erótico, ambos participam do mesmo impulso, desta forma, essa “pequena morte” representa para o teórico Bataille o “orgasmo”, o “gozo”. O diálogo com a arte acontece, portanto, na liberdade que resulta da consciência, e mesmo da vivência, desse erotismo.
De volta à narrativa, notamos que possivelmente esse foi o último trecho do texto tatuado de Kafka encenado pela atriz Jana. Podemos observar que a personagem representa também esse “desfalecer” e a “pequena morte” da mesma maneira do texto representado em seu corpo. Segue parte da narração do conto que nos permite ilustrar a cena:
“(…) e de repente ela ficou em silêncio, ressonava suavemente abandonada na poltrona e perguntei-me se ela não teria mesmo tomado drogas no banheiro com Peter. O texto devia ter terminado ali, ou não, mas o certo era que ela se calara e dormia, e a luz do refletor fora desligada e procurei Peter com os olhos e só pude ver sua sombra no sofá e ele também parecia dormir de rosto virado para a parede” (SANT’ANNA, 2011, p.119-120).
A linguagem erotizada que observamos ao longo das citações do corpo-texto nos remete a Foucault, que afirma a sexualidade como experiência contemporânea. Essa sexualidade,
“(…) encontrou uma verdade natural, somente hoje nossa perspicácia positiva permite decifrar. Essa erotização, jamais teve um sentido mais natural e sem dúvida só tenha conhecido como “felicidade de expressão”, isto, no mundo cristão dos corpos decaídos e do pecado” (FOUCAULT, 1963, p. 28).
Ainda de acordo com Foucault, “a mística e espiritualidade provam que não podiam absolutamente dividir as formas contínuas do desejo, embriaguez, penetração, êxtase, extravasamento, porque faz desfalecer”.
Estes movimentos pareciam conduzir sem interrupção nem limite ao centro de um amor divino do qual eles eram o último extravasamento e a fonte, neste caso o princípio.
A sexualidade moderna, mencionada por Foucault, não foi ter encontrado de Sade a Freud, a linguagem da razão ou da sua natureza e sim a violência dos seus discursos.
A linguagem, na violência do discurso, é corrompida, ou melhor, como aplica Foucault “desnaturalizada”. Ela é “lançada a um espaço vazio, onde ela só encontra a forma tênue do limite”.
Não liberamos a sexualidade, mas a levamos, exatamente, no limite: limite de nossa consciência, já que ela dita finalmente a única leitura possível, para a nossa consciência, de nossa inconsciência: limite da lei, conteúdo universal do interdito, limite de nossa linguagem.
Nada é negativo nessa linguagem transgressiva, a transgressão afirma o ser limitado, levando-o a existência.
O olho de Bataille, em sua novela, “História do olho”, define o espaço de vinculação da linguagem e da morte, lá a linguagem descobre seu ser na transgressão dos seus limites.
A arte tatuada neste corpo é um suposto texto de Kafka. Como sabemos a tatuagem sempre existiu na cultura humana. Antes, de forma ritualística em alguns povos e tribos, para diferenciar castas sociais ou o poder hierárquico. Hoje, em nossos tempos modernos, como uma atitude. Para alguns, como moda; para outros, como um estilo de vida. A questão é que, independente das razões ou motivos, ter no corpo impressos – por meio da tatuagem – desenhos, signos e até textos nos leva a ver o corpo como um livro que conta uma experiência, um modo de ser, de ver e sentir o mundo.
Neste capítulo da obra de Sérgio Sant’anna, o elemento corpo transgride as perspectivas vigentes normativas, pois o corpo da personagem é inteiramente tatuado, considera-se que são matizes da arte, mergulhados em sentimentos e sentidos que interpretamos como corpos maculados e marginalizados devido suas intervenções textuais cravadas na pele.
A cada nova experiência, seja ela de amor, dor, aprendizagem, representação (como encenou Jana para Antônio Fernandes) ou mesmo, pelo viés da estética, o corpo assume cores tantas com textos e imagens capazes de transcender meros dizeres de sentimentos e sensações. Enquanto exibe seu corpo nu e recita para Antônio o texto kafkiano que tem impresso no corpo, Jana coloca em evidência o caráter teatral, encenado – estamos aqui em pleno domínio da representação – de sua performance literária e dramática.
A pele passa a se tornar uma epiderme, o corpo/texto metamorfoseado por Jana nada mais representa a própria arte, ou melhor, o texto de Kafka tatuado em sua pele que desperta em seu receptor sensações e desejos eróticos de possuir esse corpo linguagem.
A transgressão, conforme Foucault, não opõe nada a nada, não triunfa sobre os limites que ela apaga, ela afirma o ser ilimitado abrindo-o à existência. A transgressão é pensada como a ultrapassagem de limites históricos. O limite está dentro do jogo da lei. A transgressão derruba o limite e a lei, não gira em torno deles. É no movimento do limite e transgressão, onde a resistência entrará nesse jogo, que num dado momento algo é perdido, o limite fica para trás, e, diante do ser ilimitado que se abre, a transgressão movida pela resistência cria um novo limite, um novo assujeitamento, e assim incessantemente.
Bezerra nos anuncia em seus estudos:
“O corpo que transgride seus limites através da pele, dando-lhe possibilidade de vislumbrarmos painéis vivos como se fora um corpo-grafite, é senão, um corpo que reiventa-se para continuar sua caminhada subvertendo as ações cotidianas do sentir e fazendo-o parar a partir da escrita cravada na pele. Esta arte que modifica a pele e a deixa viva salta aos olhos dos outros e se faz significar” (BEZERRA, 2014, p. 6).
Interessante notar que há uma imersão do sujeito no social. Bataille nos afirma que “A transgressão organizada forma com o interdito um conjunto que define a vida social.” Intitulamos de organizada por serem pictografias com sentido coletivo. Bezerra (2014) ainda acrescenta que não se tatua em qualquer lugar, qualquer signo e para qualquer um ver. Constatamos tatuagens que têm sentidos muito íntimos e abriga verdades compartilhadas por determinados sujeitos.
Desse modo, o corpo-arte, ou seja, o corpo tatuado da personagem Jana desvincula-se de culpas e assume diversas possibilidades artístico-discursivas com variados significados.
Transgredimos pelo prazer. No objeto de estudo “O texto tatuado” observamos que o jogo da arte está acontecendo, o gozo, essa transgressão, ou seja, a arte se criando.
Há um desejo de intimidade com o universo que lança o excesso a seu ponto de fuga. Tudo acontece como se, no limite, as ações devassas do narrador respondessem a uma exigência superior, a insaciabilidade da devassidão por parte de Antônio Fernandes seria uma passagem desse ser social e animal, humano e desumano que ao projetar-se além recria de maneira incessante.
Não apenas o capítulo estudado como também O livro de Praga possibilitam uma fruição artística que deixa efetivamente marcas – de uma tatuagem no corpo – na sensibilidade do receptor.
Refletindo sobre o objeto “O texto tatuado”, e como aponta Nascimento,
“(…) o autor da obra (Sérgio Sant’anna) ousadamente transita nos dois reinos, o real e o irreal. Todavia sensível ao belo e à modernidade cambiável e fluída, ele transgride profundamente tudo o que o impede o aparecimento de um novo ser artístico (…) a transgressão é o compasso para o ato narrativo mais criativo, pois sensível ao fato de a obra de arte se circunscrever a determinados empecilhos que a separam da realidade mesma do ser humano, Sérgio Sant’anna a inscreve em seu texto espaço” (NASCIMENTO, 2015, p. 3).
O autor hábil criador literário seduz o leitor com sua narrativa enxuta e ágil e ao mesmo tempo constrói um conto intrigante e fascinante. Busca arte, não apenas dentro de um museu, mas sim na rua, em um pub, em lugares subterrâneos, às vezes com pouca luz, como no cenário do conto estudado, o qual Peter conduz Antônio Fernandes à encenação/performance do corpo-texto. Dessa forma leva o leitor a situações reais e irreais, dá voz ao narrador que flana nas ruas de Praga em busca da arte para escrever um livro.
Nessa interartes a obra dialoga com outras artes: música, escultura, teatro, literatura; enfim nos conduzindo a um caminho cheio de transgressões que se consolida na construção da arte, onde nesse transgredir exercitamos a plena liberdade enquanto ser pensante na literatura.
O corpo, no conto “O texto tatuado” é um livro para ser lido e contemplado por dentro e por fora, devemos sair do tradicional e ver o mundo às avessas. A arte que não provoca estranhamento não é arte.
Tal qual Sade, “O texto tatuado” possui uma relação visceral com a arte. Essa arte representada como a literatura e o corpo como espécie de linguagem nos apresenta supostamente um inédito texto de Kafka, ou seja, a arte – literatura que está tatuada no corpo- linguagem. Essa linguagem que fala, estala, encena e transmite eroticamente, loucamente, ultrapassa o racional, o real pra projetar o irreal, o irracional. Atrevo-me a citar Bataille, “sendo inorgânica, a literatura é irresponsável. Nada pesa sobre ela. Pode dizer tudo”.
BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
BATAILLE, Georges. História do Olho. Tradução de Eliane Robert Moraes. São Paulo; Cosac Naify, 2003.
BEZERRA, S. Josenildo. Corpo-arte, Corpo-sentido, Corpo-linguagem. A constituição da sociedade/ sujeitos transgressores a partir de tatuagens. Actacientifica.servicioit.cl/biblioteca/gt/GT26/GT26_SoaresBezerra.pdf, 2014.
FOUCAULT, M. “Prefácio à transgressão”. In Ditos e escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1963. V. III.
NASCIMENTO. Maria Teresinha Martins do. Estética contemporânea como transgressão aos cânones literários tradicionais. (texto). 2015.
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Trad. Wladir Dupont. São Paulo:
Siciliano, 1994.
SANT’ANNA, Sérgio. O livro de Praga – narrativas de amor e de arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 102-122.
Bio fornecida pelo palestrante.
O SOCIAL E O PSICOLÓGICO NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO, DE VIDAS SECAS
Gabriela Pacheco Amaral
Universidade Federal de Minas Gerais
RESUMO: O objetivo deste trabalho é compreender como a personagem principal, Fabiano, do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, sofre pela constante alternância de identidade, uma vez que o mesmo está sempre em busca de estabelecer para si uma identificação, ora com um animal, ora com um homem. Com a intenção de reconhecer como Fabiano realiza uma imagem de si na narrativa, identificaremos algumas categorizações que ocorrem ao longo da narrativa a partir dos pressupostos de Lorenza Mondada e Danièle Dubois (2003) e Bakhtin (1992). Além disso, discutiremos teoricamente como Vidas secas aborda tanto os aspectos sociais quanto os psicológicos, com base nos pensamentos de Candido (2006) e Cristóvão (1986), dentre outros.
Palavras-chave: Social e Psicológico; Identidade; Categorização; Vidas secas; Graciliano Ramos.
ABSTRACT: This study aims to understand Fabiano, the main character of Graciliano Ramos’ novel Vidas secas, and how he suffers to identify himself either with an animal or with a human being, while striving to get an image of himself. We will envisage some categorizations in the novel departing from Lorenza Mondada and Danièle Dubois (2003) and from Bakhtin (1992). We will present a theoretical analysis of the novel employing the approach by Candido (2006), Cristóvão (1986), and others, in order to see how this narrative deals with social and psychological aspects.
Key-words: Social and Psychological; Identity; Categorization; Vidas secas; Graciliano Ramos.
Currículo da autora: Mestranda em estudos linguísticos, na área da Análise do Discurso, pela Universidade Federal de Minas Gerais. A pesquisa de dissertação busca analisar os conflitos ideológicos e as formações discursivas nos pensamentos, nas ações e principalmente no silenciamento do protagonista do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos. Graduada em Licenciatura Plena Português/Inglês pela Universidade Estadual de Minas Gerais em 2014. Como trabalho de conclusão de curso realizou uma monografia intitulada “O ethos nos conflitos de Fabiano em Vidas secas: uma perspectiva discursiva da identidade”, no qual dialogou entre os estudos literários e os estudos linguísticos, e, mais especificamente, na Análise do Discurso.
O SOCIAL E O PSICOLÓGICO
NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO,
DE VIDAS SECAS
Gabriela Pacheco Amaral
Universidade Federal de Minas Gerais
INTRODUÇÃO
Ao ler a narrativa, percebemos a complexidade de como a identidade da personagem de Fabiano é construída no enredo. Em alguns contextos sociais do protagonista ao longo da obra, torna-se possível notar o discurso de identidade percorrendo a trama narrativa, atribuindo um tom especifico à dicção do sertanejo. Tais pressupostos são considerados a partir de uma leitura do romance em que percebemos a relação de Fabiano com a sociedade. Essa relação pode ser construída através de diversas injustiças e desigualdades sociais que perpassam a vida do sertanejo e de sua família. Nossa hipótese de pesquisa é que essa relação conflituosa de Fabiano com o seu meio social acarreta em diversas identificações e nuances de identidade.
O livro tem 13 capítulos e alguns deles foram publicados inicialmente como contos e depois reunidos no romance. Por esse motivo Rubem Braga, citado por Antonio Candido, conceitua a obra de Graciliano como um “romance desmontável”, com a justificativa de não existir elo entre os capítulos já que eles foram publicados separadamente (CANDIDO, 2006, p. 63). Diante desse posicionamento de Braga, Candido utiliza de uma metáfora para argumentar sobre o discurso contínuo do romance, independente da sequência ou da publicação dos capítulos. Nesse sentindo, ele considera Vidas secas um “anel de ferro”, “anel” porque o último capítulo se encontra com o primeiro, e “ferro”, pois, o enredo mostra como a sociedade “esmaga” a vida da família de retirantes. A característica da narrativa em que o último capítulo encontra com o primeiro cria um desenho circular em Vidas secas. O romance inicia com uma fuga e termina em outra. Por decorrência desse círculo, em consonância com Candido, notamos que Fabiano e sua família voltarão para a mesma situação de fuga da seca e serão incessantemente “sufocados pelo meio” (idem, p. 67). Em razão dessa característica, o estudioso estima em Graciliano Ramos uma “poderosa visão social”, em face do “desenho geral” do romance permitir enxergar o mundo opressivo diante de uma “visão dramática”.
Fernando Cristóvão também utiliza de uma metáfora para explicar os capítulos de Vidas secas. Segundo o qual, o romance é um “jogo de dominó”, pois se houvesse uma combinação diferente dos capítulos haveria também outras formas de interpretar a vida da família de retirantes. Nesse raciocínio, com o capítulo Mudança e Fuga nos extremos da obra, adquire-se uma articulação que cria um “sentido lógico” e uma “linha temporal contínua” na narrativa (CRISTÓVÃO, 1986, p. 97).
Similarmente, Luís Bueno (2006, p. 650) acredita na continuidade e na unidade do romance, mesmo os capítulos não tendo uma sequência na construção da narrativa. Segundo esse autor, não existe somente uma ligação entre o primeiro e o último capítulo, há que se considerar também outras ligações na narrativa. A título de exemplo temos Cadeia e O Soldado Amarelo. Em Cadeia, acontece a prisão de Fabiano, em O Soldado Amarelo, ocorre a finalização do conflito de Fabiano com o soldado amarelo. Nos pressupostos de Bueno, os capítulos se relacionam como pares na construção do romance em que um corresponde ao outro. Em suma, qualquer outra ordem dos capítulos “destruiria” o movimento da narrativa, assim como a unidade da obra. Desse modo, não é possível considerá-lo como sendo um “romance desmontável”, mas sim como um “romance cuidadosamente montado” e com perfeição de elaboração de “suas peças” (idem, p. 658).
O DRAMA DE FABIANO
Fabiano é um homem “esmagado” tanto pela sociedade quanto pela natureza, não é como Paulo Honório, em São Bernardo, e Luís da Silva, em Angústia, que “pensam, logo existem”: “Fabiano existe, simplesmente” e sofre tanto pela fome quanto por sua existência. O “eu” interior do protagonista é “nebuloso”, na mesma medida o primitivo do homem é “puro” em Fabiano (CANDIDO, 2006, p. 63). Nessa linha de raciocínio de Antonio Candido, percebemos como a identidade de Fabiano está em debate. Visto que o autor distingue Fabiano dos demais protagonistas das outras obras de Graciliano Ramos. O protagonista de Vidas secas, não tem muita habilidade para se expressar verbalmente com as pessoas. Porém não é somente a falta de comunicação que silencia essa personagem na trama narrativa. Podemos notar que o ambiente opressivo ao qual ele é submetido pode contribuir tanto para o seu silenciamento quanto para os seus conflitos internos. Essa última consideração faz parte do objetivo dessa pesquisa em analisar o “eu” interior de Fabiano e sua relação com o meio.
Vidas secas, de acordo com Antonio Candido (2006, p. 66), corresponde ao entrosamento do sofrimento humano vinculado ao tormento que a natureza proporciona. A similaridade do sofrimento geográfico com o problema social perpassa no romance e adquire significado pela “elevada qualidade artística” que Graciliano deu a sua narrativa. A “seca lucidez” de Vidas secas possibilita uma das abordagens “mais honestas” na nossa literatura sobre o homem e a vida (CANDIDO, 2006, p. 99). Com base nesses pressupostos de Candido, acreditamos que os sofrimentos de Fabiano não são ocasionados somente pela seca, mas sim por um conjunto de injustiças, desigualdades e desrespeitos ao qual ele é submetido ao longo de sua vida no enredo do romance. Devido à esses fatores podemos perceber dimensões de identidades discursivas do protagonista sendo formadas ao longo da narrativa que possivelmente são acarretadas por essas circunstâncias sociais.
Para Fernando Cristóvão (1986, p. 132), o principal na narrativa é o sociológico e o psicológico. Essas duas tendências literárias são perceptíveis logo no título da obra, pois “vidas” apresenta um significado “metaforicamente” indicado para um estudo psicológico. Ao passo que, por intermédio do termo “secas”, temos um significado de punho sociológico que indica um romance realista regionalista. Desse modo, é possível identificar como Vidas secas abrange essas duas tendências, visto que aborda tanto o social quanto o psicológico (CRISTÓVÃO, 1986, p. 38).
Como bem abordado por Candido e Cristóvão, o enredo do romance se baseia em uma fusão dos problemas sociais com as questões psicológicas das personagens (dentre outras possíveis dimensões de leituras). Uma das hipóteses dessa pesquisa é a relação da sociedade com a construção da personagem na narrativa. Em suma, não é somente o fator da seca que torna Vidas secas uma obra que pondera a respeito do homem e a sua existência. Outros aspectos como a escassez da linguagem, falta de convivência com a sociedade dentre outros, tornam possíveis as leituras em torno do íntimo da personagem. Como também levamos em consideração a razão de Fabiano incessantemente desejar estabelecer sua identidade. Salientamos que essas não são as únicas peculiaridades da obra, várias outras chaves de leituras podem ser feitas na narrativa. Como exemplo disso, podemos citar o desejo de Sinhá Vitória em ter uma cama; a humanização de Baleia; a imagem do governo e da sociedade capitalista dentre diversas outras possibilidades de observação na narrativa. Tendo isso vista, notamos o posicionamento de Candido ao afirmar que Vidas secas é uma visão distinta do homem e a da vida. Pois, o âmago de cada personagem na obra é abordado de forma a se compreender a dimensão íntima e social de suas vidas.
O SILÊNCIO E O NARRADOR
Outra singularidade do romance: a linguagem é feita a partir do silêncio das personagens. Diante da falta de diálogo e comunicação na narrativa, Antonio Candido explica que Graciliano Ramos foi capaz de mostrar sua “força” artística ao criar um forte discurso a partir das personagens que não sabem se comunicar (CANDIDO, 2006, p. 145). Nessa linha de reflexão, Fabiano não conversa muito com sua família nem com outras pessoas, se tenta fazê-lo raramente obtêm sucesso, visto que ele se comunica através de gestos e poucas palavras. No decorrer da narrativa não existem diálogos, não existe conversa, não existe comunicação. Por essa característica, Candido ressalta o aspecto silencioso de Vidas secas. Se é possível perceber os sentimentos e os pensamentos das personagens, deve-se ao fato do narrador obter o papel de mostrá-los aos leitores. Nessa circunstância, o foco narrativo da terceira pessoa e o discurso indireto livre suprem a deficiência linguística das personagens; cabe ao narrador “falar” por elas.
O silêncio, na perspectiva da Análise do Discurso, adquire sentido de implícito, partindo do pressuposto de que o que não foi dito, por isso mesmo, diz. Ao optar por não dizer algo, o silêncio possibilita diversas alternativas de sentidos e interpretações. Segundo Eni Orlandi, ele pode indicar que o sentido pode ser outro, como podemos observar em:
Este [o silêncio] pode ser pensado como a respiração da significação, lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. É o silêncio como horizonte, como iminência de sentido. Esta é uma das formas de silêncio, a que chamamos silêncio fundador: silêncio que indica que o sentido pode sempre ser outro. Mas há outras formas de silêncio que atravessam as palavras, que “falam” por elas, que as calam (ORLANDI, 2001, p. 83).
Seguindo nesse pensamento, notamos que Vidas secas adquire uma linguagem do silêncio, e isso como Orlandi explica, tem significado. Nesse sentido, a construção do silêncio no romance adquire possíveis dimensões de interpretações, uma delas é sob o ponto de vista de Maria Celina Novaes Marinho (1997). Segundo a qual, Fabiano tem o conhecimento de sua carência do domínio da linguagem oral, com isso ele se coloca em posição de uma pessoa que é observada e julgada por essa deficiência. Por conseguinte, ele sente-se censurado ao tentar comunicar com outras pessoas, pois leva-se em consideração a possibilidade do erro e do não entendimento. De acordo com Marinho, no pensamento de Fabiano a linguagem não o pertence, ela cabe somente aos homens, e diante de Fabiano não se ver como um homem, a linguagem não o compete, não faz parte de sua existência (MARINHO, 1997, p. 251).
Ainda nos pressupostos de Marinho, um dos recursos utilizados para expressar os sentimentos e os pensamentos de Fabiano é o uso do discurso indireto livre e o discurso direto. Conforme a autora, “a voz reprimida e abafada” do protagonista se manifesta na voz do narrador com o uso do discurso indireto livre. Em algumas situações, o discurso direto representa a exteriorização dos pensamentos da personagem.
Quando Fabiano fala, é para si mesmo ou em voz baixa. O uso desses recursos, de acordo com Marinho (1997, p. 255) representa a tentativa de Fabiano em estabelecer sua identidade. No momento em que Fabiano sente a necessidade de se sentir como um homem ele deseja falar alto, matar o soldado amarelo e pensa em até entrar para o cangaço (inferimos nessa situação o uso do discurso direto livre). Já, quando ele se identifica como um bicho, permanece em silêncio e fala em voz baixa (observarmos nesse contexto o uso do discurso indireto livre). Marinho ressalta que esse desejo interno não é direcionada a nenhuma outra pessoa, fica somente nos pensamentos e no interior de Fabiano (Idem). Pretendemos relacionar tais recursos linguísticos com a construção da imagem discursiva de Fabiano na narrativa.
Assim sendo, em Vidas secas, o narrador de terceira pessoa possibilita uma leitura em dois pontos de vista: um parte de uma visão mais ampla da sociedade – o narrador nos apresenta um contexto de exploração financeira e política –, o segundo mostra o interior das personagens, nas quais são narradas os seus pensamentos (MARINHO, 1997, p. 252). Esse aspecto da obra permite realizar uma possível relação de como o contexto social pode influenciar no íntimo das personagens, haja vista a dialética do foco narrativo em apresentar o social e o psicológico. Sob essa reflexão, notamos que o narrador apresenta o contexto social juntamente com os pensamentos e sentimentos das personagens.
OS CONFLITOS E A CATEGORIZAÇÃO DE SI
Levaremos em consideração os pressupostos de Lorenza Mondada e Danièle Dubóis (2003, p. 20 – 22). Segundo as autoras, a categorização é uma atividade humana, cognitiva e linguística que estrutura e atribui sentido ao mundo. O sujeito realiza as categorias por meio das atividades sociais ao qual ele está inserido. Além do mais, há uma multiplicidade de categorizações que permitem identificar uma pessoa, um objeto e assim por diante, portanto, geralmente são instáveis, variáveis e flexíveis. As categorizações são formadas na interação do indivíduo com o mundo e variam conforme o contexto e o ponto de vista de sua produção. Ainda nesse sentido, em consonância com Luiz Antônio Marcuschi (2007, p. 88), compreendemos que a categorização é um dos processos básicos que possibilitam a reflexão humana.
Para a análise as categorizações em Vidas secas adotaremos as abordagens citadas acima, como também as considerações de Mikhail Bakhtin sobre a palavra. Segundo o autor, a palavra é um “signo neutro” que obtém significado de acordo com o seu contexto, além disso, a palavra é transformada e sofre alterações de sentido na evolução histórica (BAKHTIN, 1992, p. 79). Desse modo, buscaremos verificar a possível significação da palavra e as transferências de sentido para as categorizações de Fabiano.
A categorização é uma atividade reflexiva do sujeito quanto à nomeação ou referenciação de algo do mundo. Geralmente as categorias são mutáveis e dependem do seu contexto de produção. Desse modo, associamos esses conceitos para a análise das categorias interligadas a Fabiano em Vidas secas.
Iremos, pois analisar alguns enunciados mais representativos como: “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”; “Você é um bicho, Fabiano.”; “Um bicho, Fabiano”; “Você é um bicho, Baleia” e “Um homem, Fabiano”. Estas nomeações que o protagonista faz de si estão no segundo capítulo do romance, Fabiano, que narra os pensamentos do protagonista quanto a sua própria existência. Ele busca definir sua identidade, seja tentando se identificar com animais ou com homens.
As palavras “homem” e “bicho” – utilizadas nas produções das categorizações – no contexto social de Fabiano, vão além do significado biológico que elas possuem, abrangendo uma significação moral e simbolizando a representação do papel social da personagem na sociedade. Tal consideração é justificada por intermédio das análises das situações em que Fabiano se vê obrigado a passar devido à seca. Ele sente que seu papel perante sua família e o mundo não é de um homem capaz de sustentar e criar seus filhos, mas sim de se ver forçado a viver como bicho, fugindo da seca e escondendo em matos e casas abandonadas. Respaldamos essa reflexão no ensinamento de Mikhail Bakhtin (1992). Como já vimos, segundo o autor, a palavra é um signo neutro, de modo que ela adquire sentido dependendo do contexto social e histórico de sua produção.
Nesse sentido, podemos perceber que as categorizações com as palavras “homem” e “bicho” podem ser um recurso utilizado no processo mental de Fabiano para se autorreferenciar no mundo. Essa tentativa de se reconhecer pode ser uma forma de Fabiano projetar a imagem que ele tem de si através das referenciações produzidas.
De acordo com Stuart Hall (2006) a identidade está sempre em processo de formação e depende do contexto social em que o indivíduo está inserido. Além disso, a identidade é construída por intermédio da identificação que o sujeito realiza com algum referente no mundo, ou seja, o indivíduo constrói sua identidade realizando um processo de analogia com esse referente externo.
Desse modo, realizamos um diálogo entre a categorização e o processo de identificação com um referente. Tal diálogo, nós o justificamos pela razão de que, se Fabiano usa a nomeação – mesmo que inconscientemente – como recurso para estabelecer qual a sua identidade, esta acontece por intermédio da identificação que ele faz com um referente.
Partiremos agora para a análise das categorias, a primeira pode ser percebida em:
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.
Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se fumar regalado.
– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
RAMOS, 2010, p. 18. (Grifo nosso).
Nessa passagem da obra, podemos observar que Fabiano faz uma retrospectiva dos últimos acontecimentos. Ele se lembra da situação da seca, da caminhada no mato sem alimentação e de quando eles chegaram na fazenda. Ao relembrar dessas circunstâncias, Fabiano percebe que agora ele e sua família estão em um lugar seguro.
Associando esse contexto juntamente com o ensinamento de Hall, em que a identidade do sujeito depende do seu contexto social, inferimos que o referente de identificação para Fabiano, nessa situação, é o “homem”. Como vimos, o termo “homem” é carregado de significados que depende do seu contexto de produção. Nesse aspecto, a simbologia dessa palavra pode significar uma posição social de prestígio para a personagem. Uma vez que nessas circunstâncias Fabiano tem um emprego e encontra-se hábil para sustentar sua família e adiar a morte. Portanto, Fabiano se vê como um homem na sociedade.
Analisando a estrutura da sentença, nota-se que o termo “Fabiano” é colocado em primeiro lugar e depois é usada uma vírgula, essa estrutura sintática possui a função vocativa. Percebemos assim, que Fabiano chama sua própria atenção para afirmar que ele é um homem. Ele tenta impor para si mesmo sua identidade, uma vez que a partir daquele momento ele tem uma casa, pode cuidar da esposa e filhos e não precisa fugir constantemente da seca como um animal. A explicação do narrador, “exclamou em voz alta”, permite inferir que Fabiano fala em voz alta com a tentativa de afirmar veementemente sua identidade de homem nesse contexto. Nessa situação, ele tem segurança e certeza quanto ao seu papel social diante de sua família. Essa afirmação que a personagem realiza no discurso direto acarreta na sua seguinte reflexão:
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
– Você é um bicho, Fabiano.
RAMOS, 2010, p. 18. (Grifo nosso).
Como se vê, o discurso indireto livre apresenta as reflexões de Fabiano, pois ele não consegue se comunicar com as outras pessoas e não tem habilidade na linguagem, com isso, fica por conta do narrador contar quais são os pensamentos de Fabiano através do uso do discurso indireto e indireto livre. Quando se é usado o discurso direto como em “– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”, trata-se de uma exteriorização dos seus pensamentos. Nessa fala de Fabiano, percebe-se como ele precisa afirmar para si mesmo que ele é um homem. Tal consideração pode ser realizada através do argumento que quando alguém diz algo em voz alta significa tentar impor o seu discurso. Isso, observamos na fala de Fabiano, pois ele tenta estabelecer para si mesmo a sua identidade.
Porém, depois dessa tentativa de se afirmar como homem, o uso do discurso indireto livre distorce essa possibilidade, como nota-se em: “E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.” Desse modo, identificamos que o conflito interno de Fabiano é mostrado essencialmente pelo uso do discurso indireto livre. O dilema interno vivido por ele se dá na procura de tentar se identificar como homem ou como bicho. Diante disso, seus pensamentos e autorreflexões buscam essa solução de identidade.
Ao realizar sua identificação como um “homem”, em voz alta, Fabiano mostra-se arrependido e considera que sua afirmação é uma “frase imprudente”. Nos pensamentos narrados, a personagem repensa sobre seu enunciado e chega à conclusão de que ele não é um homem. O argumento que o leva a essa dedução refere-se ao fato de que a casa e os animais os quais ele está cuidando não são dele. Além do mais, ele se acha inferior em relação aos outros homens. Diante dessa reflexão sobre seus status, ele muda seu referente de “homem” para “bicho”. Vale acrescentar que ao contrário da categorização anterior proferida em voz alta, essa é apenas murmurada, ou seja, se Fabiano tinha a certeza de sua identidade agora nem tanto assim.
Um aspecto interessante nessa transição de uma autonomeação para a outra, é a maneira como as características fisionômicas de Fabiano são apresentadas. Conforme vimos anteriormente, os aspectos físicos da personagem sofrem um contraste de cor fria e quente, respectivamente, azul e vermelho. Estas cores podem remeter a um conflito entre o interno e o externo de Fabiano, já que consideramos que a cor dos olhos podem sugerir o âmago da personagem, ao passo que a vermelhos pode representar às injustiças sociais.
Essa inserção da fisionomia nesse contexto em que Fabiano está em conflito quanto a estabelecer sua identidade, consideramos ser associada às aflições da personagem. Desse modo, quando o narrador mostra as características de Fabiano, podemos inferir que o protagonista desenvolve uma reflexão sobre sua imagem. A personagem pode até ter os mesmos aspectos físicos que os outros homens, todavia ela se vê como um bicho.
Voltemo-nos para a análise da categorização “- Você é um bicho, Fabiano”. Nela, notamos que a personagem muda de ideia quanto ao seu papel diante da sociedade. Fabiano não se considera mais um “homem”, mas sim um “bicho”. Logo após essa afirmação, ele faz a seguinte reflexão: “Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha” (Idem, p. 19). Nesse aspecto, percebemos que a palavra “bicho” ganha outra significação, a transferência de sentido para “bicho” se dá como forma positiva. Para Fabiano, “bicho” equivale a ter força e determinação para vencer os obstáculos. Essa identificação torna-se motivo de orgulho para ele, pois um bicho é capaz de passar por situações difíceis e insuportáveis. Em seguida, a personagem reflete novamente sobre a representação simbólica do termo “bicho” relacionada com sua identidade. Isso podemos observar em:
– Um bicho, Fabiano.
Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se de desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
RAMOS, 2010, p. 19. (Grifo nosso).
Nessa categorização, “– Um bicho, Fabiano”, a transferência de significados para a palavra “bicho” equivale às condições subumanas as quais Fabiano se encontrava, já que ele viu-se obrigado a invadir uma casa alheia e alimentava-se de raízes e sementes. Essa identificação com um bicho não provoca orgulho como na nomeação anterior, mas sim um sentimento de tristeza e desgosto para Fabiano. Essa analogia com o bicho faz com que o protagonista reflita sobre algumas de suas condições, como por exemplo, o fato de não dispor de casa e nem condições de providenciar alimentação adequada para sua família.
Em suma, percebemos que Fabiano tem um dilema interno quanto a estabelecer sua identidade. Essa última consideração pode ser entendida na perspectiva que a construção da identidade do protagonista é influenciada pelo modo como ele se vê diante do mundo. Quando ele reflete sobre as situações em que ele se viu obrigado a enfrentar, como a falta de alimento, moradia, água, estudo e principalmente respeito, ele não se vê como um homem diante da sociedade, mas sim como um bicho.
Relacionando essas três referenciações que Fabiano faz de si, analisadas até o momento, podemos perceber uma degradação quanto à extensão das frases: “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”; “Você é um bicho, Fabiano” e “Um bicho, Fabiano”. Segundo Marcel Cressot (1980), as frases longas podem remeter a sensações de doçura ou fluidez, ao passo que as frases curtas possivelmente apontam para uma fragmentação quanto as informações apresentadas, elas também são mais secas e objetivas. Observando a primeira categorização, “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”, notamos que sua estrutura é maior em relação às outras. Do mesmo modo, identificamos que ela foi produzida em contexto no qual Fabiano pensava nas coisas boas do seu presente. Já na segunda, “Você é um bicho, Fabiano”, o termo “Fabiano” é trocado de posição. Na primeira, a ênfase do enunciado está em “Fabiano”, nessa última o realce está em “Você é um bicho”. Atentando para a terceira, “Um bicho, Fabiano”, identificamos que ela perde os termos “Você” e “é”, tornando-se um enunciado mais seco e objetivo.
Associamos essa última reflexão com o contexto da personagem, constatamos que Fabiano está triste ao refletir sobre sua semelhança com um bicho. Nesse sentido, inferimos que os sentimentos de Fabiano são alternados quanto à produção dessas categorizações de si. Nas duas primeiras, ele faz uma identificação positiva com os referentes “homem” e “bicho”, porém, na terceira, seu referente “bicho” assume simbolização negativa. Por conseguinte, percebemos que os sentimentos de Fabiano são ajustados quanto ao estilo das produções das categorias.
Retornamos para as análises das categorizações de Fabiano. Nesse sentido, reparemos em:
[Fabiano] Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se:
– Você é um bicho, Baleia.
Vivia longe dos homens, só se dava com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias.
RAMOS, 2010, p. 20. (Grifo nosso).
Como observamos, as três categorizações analisadas eram direcionadas diretamente para a figura de Fabiano. Todavia, em “Você é um bicho, Baleia”, em um primeiro momento podemos acreditar não haver ligações entre essa com as anteriores.
Contudo, inferimos que enquanto as outras referenciações estavam associadas ao contexto social, histórico e econômico de Fabiano, essa última está relacionada com seus aspectos físicos e comportamentais. Como também identificamos ser possivelmente uma categorização implícita do protagonista. Ou seja, quando Fabiano categoriza a cachorra Baleia, o narrador apresenta algumas semelhanças de Fabiano com animais. Isso percebemos pelo fato de serem tecidas algumas informações a respeito dos comportamentos e os aspectos físicos da personagem que são equivalente aos dos animais, como a dificuldade em se comunicar com as outras pessoas e a maneira cambaleante de andar.
Nossa reflexão sobre a categorização pode ser relacionada com a produção da identidade de Fabiano, ao qual identificamos o processo de incluir e excluir semelhanças com algum referente. Para isso, podemos atentar à explicação posterior da categorização, visto ser realizado o processo de inclusão de características animalescas na corporalidade de Fabiano, como em: “Montado, confundia-se com cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem”.
Ao final do capítulo, Fabiano volta a pensar na seca e na possibilidade de sua extinção. Em seguida, ele teme o retorno da seca e de sua morte. O protagonista não deseja morrer, pelo contrário, seu desejo é viver muito e tornar-se um homem capaz de andar de cabeça erguida. Isso podemos observar nas seguintes reflexões:
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queira morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
– Um homem, Fabiano.
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
RAMOS, 2010, p. 24. (Grifo nosso).
Averiguando esse fragmento, podemos notar o desejo de Fabiano em viver, uma vez que o enunciado “Não queria morrer” é utilizado duas vezes no primeiro parágrafo, alcançando-se assim uma ênfase de expressão. Além do mais, o protagonista sente o desígnio de conhecer pessoas importantes e sentir-se como um homem. Desse modo, a autonomeação utilizada “Um homem, Fabiano” pode representar sua vontade em ter sua identidade equivalente à de um homem.
Não obstante, após ter bons pensamentos sobre seu futuro, ele chega à conclusão de que provavelmente ele continuaria se identificando como um “bicho”. Esse pensamento é construído na consciência de Fabiano quando ele tem a percepção sobre sua condição de subordinado aos outros homens. Nesse sentido, seu contexto social de retirante, ao qual não lhe permite ter uma casa, um emprego fixo, educação, alimentação adequada e assim por diante influencia no modo como ele constrói a imagem de si.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, é possível observar como as categorizações podem funcionar como um recurso de processamento psicológico da personagem Fabiano, no qual ele identifica um referente externo e realiza um reconhecimento de si através do significado simbólico desse referente. Por conseguinte, ao se autorreferenciar, o protagonista, possivelmente, arquiteta sobre alguns aspectos de sua identidade.
Outra consideração a ser feita a respeito das categorizações é que elas são apresentadas na narrativa na forma do discurso direto, ao passo que as reflexões na mente de Fabiano estão no discurso indireto livre. A relação entre essas duas formas discursivas na narrativa permite perceber que os conflitos internos de Fabiano são representados pelo uso desses dois recursos. Geralmente, quando o protagonista fala por meio do discurso direto ele apresenta uma certeza quanto à sua identidade, porém são nos pensamentos dele que as dúvidas, as incertezas e os conflitos surgem. Estes que são apresentados para os leitores por meio do narrador com o recurso do discurso indireto livre.
Enfim, podemos perceber que os aspectos sociais influenciam, em certa medida, no psicológico, e consequentemente, nas identificações que Fabiano faz de si. Assim há uma constante dialética entre o social e o psicológico no âmago da personagem, que influencia em seus pensamentos e ações. Dessa forma, podemos ver que Vidas secas é uma obra que retrata muito mais além do que a seca nordestina.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. (V. N. Volochínov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. 6ª ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Edusp/Campinas: Ed. Unicamp,
2006.
CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
CRESSOT, Marcel. O volume da frase. In: O estilo e suas técnicas. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 260-271. (Coleção Signos).
CRISTÓVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Atividades de referenciação, inferenciação e categorização na produção de sentido. In: Cognição, linguagem e práticas interacionais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 82-104.
MARINHO, Maria Celina Novaes. Transmissão do discurso alheio e formas de dialogismo em Vidas secas, de Graciliano Ramos. In: BRAIT, Beth. Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. p. 249-259.
MONDADA, Lorenza; DUBOIS, Danièle. Construção dos objetos de discurso e categorização: uma abordagem dos processos de referenciação. In: CAVALCANTE, Mônica Magalhães (Org). Referenciação. São Paulo: Contexto, 2003. p. 17-52.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 3ª ed. Campinas: Pontes, 2001.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 114ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Bio fornecida pelo palestrante.
VOO 147: DEUSES E HOMENS EM O JOGO DA AMARELINHA, DE JULIO CORTÁZAR
Leonardo Mendes Neves Félix
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo: Este trabalho objetiva analisar detidamente o capítulo 147 do romance O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar. Procuramos dialogar com o crítico Jaime Concha e averiguar sua afirmação de que nesse capítulo estaria contida a “filosofia da história” de seu romance. Embora a constatação do crítico se confirme, os métodos em que baseia seu julgamento ideológico destoam do tipo de conhecimento defendido pelo romance. Nesse sentido, nosso percurso se concentra em explorar a alternativa cortazariana ao conhecimento conceitual, fincado no paradigma da escrita, e ao impasse a que nos levou. É nesse sentido que deve ser compreendido o afastamento dos homens em relação aos deuses, mitológicos ou ontológicos, operado por sua literatura.
Palavras chaves: Conceito, literatura, homens, deuses.
Resúmen: Este trabajo tiene el objetivo de analisar detenidamente el capítulo 147 de la novela Rayuela de Julio Cortázar. En diálogo con el crítico Jaime Concha, tratamos de determinar su afirmación de que en este capítulo estaba contenida la “filosofía de la historia” de su novela. Aunque se confirmó el hallazgo del crítico, los métodos en los que embasa su juicio ideológico desentona con el tipo de conocimiento preconizado por la novela. En este sentido, nuestro curso se centra en la exploración de la alternativa cortazariana al conocimiento conceptual, atrapado en el paradigma de la escritura, y al callejón sin salida al que nos ha llevado. En este sentido hay que entender la separación de los hombres en relación con los dioses, mitológicos o ontológicas, operado por su literatura.
Palabras clave: Concepto, literatura, hombres, dioses.
Currículo do autor: Leonardo Mendes Neves Félix é graduado em Licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mestre em Letras (Estudos Literários) pelo PPGL/UFES e desenvolve a tese de doutorando intitulada “Distantes dos deuses erramos pela Rayuela” no programa de pós-graduação de Ciência da Literatura da UFRJ, em Teoria Literária, sob orientação do professor Titular Eduardo de Faria Coutinho.
VOO 147: DEUSES E HOMENS EM
O JOGO DA AMARELINHA, DE JULIO CORTÁZAR
Leonardo Mendes Neves Félix
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Por que tão longe dos deuses? Talvez por perguntá-lo.
E daí? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto, as perguntas afastam-nos vertiginosamente das respostas. Que epifania podemos esperar se estamos nos afogando na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo é preciso lançar a janela e nós com ela” (CORTÁZAR, 1987, cap. 147 p. 505).
Como medir a distância entre nós e os deuses? A resposta levanta a hipótese de que a pergunta seja a medida. Essa designação genérica, a pergunta, descreve a face abstrata, a face universal contida pelo pronome neutro “lo”. Disto se conclui que não se trata da pergunta em si, mas da feita num momento anterior, distante no tempo apenas por poucas palavras. O pronome “lo” posto no fim da frase frustra a esperança por uma reposta, pois retorna ao início, quando a distância já está pressuposta, assim como o sentido da busca está predeterminado em direção à causa.
A segunda dessas duas pressuposições que formam a pergunta é a causadora da contradição entre as duas primeiras frases do capítulo 147 de O jogo da amarelinha, pois a apresentação da causa não estabiliza o movimento da pergunta, desde logo por ser afrouxada pelo advérbio “talvez”, que adianta toda a imprecisão da resposta. Somado a isso o verbo pronominal inverte o sentido da pergunta em direção a ela mesma. O pronome é como a ponta do rabo do escorpião, onde pesa o veneno sobre o próprio corpo com um rabo cuja ponta possui um veneno concentrado no pronome neutro “lo”, que lança o leitor para trás antes de poder retomar o curso da leitura. É uma construção espiralar, já que não se pode voltar à pergunta com a mesma desatenção de outrora. É também uma estrutura reflexiva, um escorpião encalacrado (ver ARRIGUCI JR., 1973), um parafuso.
O verbo “perguntar” abstrai toda particularidade da ação da frase anterior que não seja a interrogação, enquanto o pronome neutro retém o movimento generalizante. A pergunta ganha uma completude que encerra em si mesma a resposta. Ela possui um princípio e um fim em si mesma, ela espera ser olhada como quem se demora diante de um enigma, diante da esfinge ou do parafuso. Essa interrogação que se encerra em si, que crava em sua pele as unhas que pode, é a causa e a consequência da resposta especular, pois ao mesmo tempo em que se inclina sobre a resposta sofre um efeito retroativo.
A virtualidade da interrogação refletida em sua representação dialética nega o anseio de se dissipar a potência da pergunta na resposta, nega, por assim dizer, sua natureza, para lhe conceder sua autossuficiência, contraditoriamente. Se o leitor aceitasse esse caminho percorrido nas duas frases, haveria de concordar que tal representação altera o representado, ajuda a perdê-lo, a distraidamente negá-lo.
Existe uma resistência da resposta causada pela organização da própria pergunta. As duas se abordam em uma relação de necessidade. Basta permutar “por que” por “quando” ou “em que” para dimensionar a diversidade dos desdobramentos. A causa se esgueira entre as letras e desaparece diante dos olhos do leitor. Sua potência se insinua e se desdobra nessas duas frases, até retornar ao início. As palavras são o movimento em direção ao Outro em que a causa se dissipa sem se mostrar e retorna à sua existência potencial. Mas esse retorno não é ao mesmo.
A duração da pergunta subverte a suposição de uma causa fora dela mesma. Cortázar abre brechas no muro rígido da linguagem para possibilitar ao leitor essa demora e a sua imersão no texto. Há um grande esforço para comunicar a falta primordial de um fim, de um fundo, de um único ponto de chegada que eliminasse a mediação, a parcialidade ou a incurável alienação do homem na linguagem.
Davi Arrigucci Jr. constrói uma analogia entre a imagem do escorpião encalacrado, retirada do capítulo 28 de O jogo da amarelinha, e a série de técnicas empregadas na sua própria construção. A tensão entre o crítico e o escritor é o principal causador desse efeito, que ameaça a realização do projeto, qual seja, a escrita cortazariana, morelliana. O crítico desloca engenhosamente essa imagem para lançar luz à sintaxe de O jogo da amarelinha, contorcida sobre si mesma. Seu comentário é preciso:
A descontinuidade sintática concretiza a destruição da linguagem lógico-discursiva da ficção tradicional e instaura um novo tipo de coerência interna, em função da lábil organização dos segmentos. Com a espacialização da estrutura, que daí decorre, torna-se evidente a relação de conformidade entre o tratamento da linguagem e a visão da realidade: um princípio fundamental do universo cortazariano, sua indeterminação (a porosidade ambígua que põe em contacto os seres mais heterogêneos), se consubstancia no próprio nível sintático, como uma forma de abertura para a combinação poliédrica e simultânea de significantes e significados (ARRIGUCCI JR., 1973, p. 295).
A correção e universalidade do comentário, no entanto, levam a perder muitas vezes a materialidade do texto de Cortázar. Por isso, a precisão do comentário, que pode ser verificada em muitos níveis da obra, carece de uma demonstração que não paire pela aura fetichizada de Cortázar, ilhando o sentido do texto no autor, pior, em sua consciência fora do tempo e inalcançável ao leitor, tal como os pensamentos do napolitano diante do parafuso.
O napolitano contado por Morelli, contado por Horácio no capítulo 73 de O jogo da amarelinha, se demorou diante do parafuso e negou a ligação entre sua forma e sua função, retirou-o de “la gran costumbre” para torná-lo símbolo da paz. Libertou o parafuso do seu destino como utensílio. A demora diante de um objeto tão utilitário aguça a curiosidade dos vizinhos, provoca conjecturas, fofocas, desejo; de modo que após a morte do napolitano o objeto está perdido na opacidade de sua atitude contemplativa, que não deixa de ser ativa na medida em que produz algo novo: “Do parafuso a um olho, de um olho a uma estrela… Por que entregar-se ao Grande Costume? É possível escolher a tura, a inveção, ou seja, o parafuso ou o automóvel de brinquedo” (CORTÁZAR, 1987, cap. 73, p. 338). A real efetividade do parafuso é alterada. É claro que a prova dessa alteração só pesa de fato quando e porque o parafuso é roubado e, portanto, se evidencia sua nova cifra resultante da pequena opacidade compartilhada pelos vizinhos.
Poderia se supor que algo no napolitano ou no parafuso aconteceu de extraordinário para provocar essa atitude, mas isso nós não sabemos, nem tampouco os vizinhos, que, aliás, se colocam como mediadores da recepção do objeto pelos leitores, recepção do parafuso e do napolitano entrelaçados. A caracterização de um ou de outro é nula, eles são totalmente e somente presença na demora.
A intenção do napolitano permanece obscura, está para sempre perdida, como a intenção do autor. Mas é justamente este vazio, o oco de sua atitude, que possibilita ao narrador do capítulo 73 a passagem do parafuso a um olho, de um olho a uma estrela e à cidade de Paris, que destrói nosso herói Horácio vagarosamente.
Não se pode afirmar nada de substancial sobre o napolitano ou sobre o parafuso, a não ser que a esse se agregou uma dimensão reflexiva enquanto àquele foi concedida toda sua singularidade. A demora em poder sair da pergunta inicial do capítulo 147, como uma primeira volta do parafuso, corrói as formas gregárias para transcender a determinação da língua, sobretudo a determinação de que haveria uma única causa para que nos tenhamos distanciado dos deuses.
O movimento da representação dialética (“perguntar/lo”) retira a obviedade dos elementos que compõem a pergunta. A transformação simbólica de toda a pergunta acaba por justificar a resposta, já que seu anseio em se realizar em um outro não ocorre. Mas esse retorno nunca é ao mesmo. A pergunta deixa de ser ela mesma para se desdobrar na realidade do afastamento dos deuses.
O aspecto generalizante da palavra perguntá-lo se concretiza na definição de homem com que se inicia o parágrafo subsequente, em uma sentença cuja certeza destoa da dúvida instalada pelo advérbio “talvez”: “E daí? O homem é o animal que pergunta”. Antes da definição há um dar-se de ombros que indica certa impaciência com o impasse inicial. Esse incômodo é o que precipita a frase seguinte. Podemos observar a instalação de uma impaciência tal como aquela de Horácio, ao ver-se desenhado por seu próprio pensamento.
Até o fim desse período o clima impessoal impera com a utilização de três frases nominais e da oração atual em que o sujeito é determinado e universal, “o homem”, ou seja, não representa um indivíduo contingente. Dito de outra maneira, o sujeito nega qualquer aqui e agora. Apenas na oração seguinte aparece a primeira pessoa do plural, embora estivesse pressuposta na definição do homem por conta de a sentença ser escrita com uma linguagem manipulada por nós mesmos. O artigo definido, que precede o substantivo “homem”, marca a generalização da espécie, caracterizada pelo substantivo “animal” a que se agrega a faculdade de perguntar.
Embora a definição de homem como “animal que pergunta” concentre a explicação da causa na diferença humana em relação aos outros animais, a estrutura reflexiva da pergunta impede a aceitação passiva da organização da frase categórica. Isso porque ela é dependente da pergunta inicial em tudo. De tal maneira que sua imagem nos é concedida através desse meio reflexivo. É como se além de se refletirem mutuamente, essas duas frases permitissem um olhar para fora, como quem olha através do vidro de uma janela e além do reflexo consegue enxergar o lado de fora.
A precariedade da asserção universal se justifica pelo delineamento do conteúdo difuso da pergunta e da reposta iniciais numa palavra: o homem, o sujeito dessa oração que se projeta no predicado, que por sua vez retoma a breve cadeia da pergunta. É outra volta do parafuso. O que essa volta agrega é o movimento em direção ao conceito e a inclusão do gênero animal, ou a imersão da espécie humana nesse gênero. Nessa taxonomia a pergunta é o que singulariza o homem, que é o animal mais distante dos deuses por simplesmente perguntar. Mas, pelo avesso da universalidade, as perguntas determinadas realizadas pelo homem durante a história são as responsáveis pelo afastamento em relação aos deuses, que poderia ser superado por uma correção, bastante presunçosa mas não desnecessária.
O capítulo 86 de O jogo da amarelinha reproduz uma citação que destaca um ascpecto muito importante para a correção aludida. Trata-se do fato de o binarismo da linguagem limitar o pensamento humano por meio das classificações entre sim e não, entre positivo e negativo. Embora o intuito do romance seja muito claro em superar esse binarismo, tal tarefa é extremamente difícil se levarmos em conta as opções binárias de leitura do próprio romance, a oposição entre França e Argentina, marcada pelas duas primeiras seções do livro, ou mesmo as opções que nos são apresentadas diante da janela: a morte ou o voo. Ao afirmar que essa característica é inerente à linguagem, parece haver apenas um caminho, ir de encontro a ela para descobrir o que há entre o sim e o não, entre o Yin e Yang. A própria citação nos apresenta uma outra forma de abordar a questão:
Para consegui-lo, deveria mudar de estado, seria necessário que outras máquinas, diferentes das usuais, começassem a funcionar no cérebro, que o racioncínio binário fosse substituído por um consciência analógica que assumisse as formas e assinalasse os ritmos inconcebíveis dessas profundas estruturas (CORTÁZAR, 1987, cap. 86, p. 365).
A análise por nós empreendida pretende mostrar como o próprio capítulo 147 de O jogo da amarelinha é um exemplo dessa substituição, com a construção da analogia entre a tarefa a que se propõe o romance e a imagem das janelas. Cortázar aproxima poesia e analogia em seu texto “Para uma poética”, a referência à poesia se aproxima de uma experiência antropológica bastante distante da existência de um ocidental, o que descartaria, de início, a homônima figura moderna.
O mago e o shamán são figuras engajadas diretamente com a estrutura da comunidade de que participam, e por isso possuem uma posição de destaque, muito diversa do poeta moderno, que caminha em direção à autonomia da obra de arte. Deixando momentaneamente de lado a precisão histórica dos termos empregados nessa comparação, a análise do texto crítico de Cortázar justifica a ligação feita por Saúl Yurquievich entre a O jogo da amarelinha e a poesia. Como vemos na seguinte citação:
Os fatos são simples; de certo modo a linguagem inteira é metafórica, autenticando a tendência humana à concepção analógica do mundo e validando o ingresso (poético ou não) das analogias nas formas da linguagem […]. Essa direção analógica do homem, superada pouco a pouco pelo predomínio da versão racional do mundo, que no ocidente determina a história e o destino das culturas, persiste em estratos e com graus distintos de intensidade em todo indivíduo.
O que está em jogo, portanto, é a restauração de uma capacidade humana enturvada pelo predomínio da razão e pela configuração do conhecimento científico. A duras penas somos encurralados a rejeitar toda sorte de associações que não se enquadrem na versão racional do mundo e com isso toda a competência analógica e metafórica se esconde numa retórica impotente, incapaz de sair do restrito campo individual. Isto é, a metáfora e a analogia aparecem como adornos à linguagem, e não como fundadoras dessa mesma linguagem; o que nos leva a crer erroneamente que existe um uso metafórico, não raramente atribuído ao poeta, e um uso prosaico, mais próximo ao referencial.
Essa contraposição, no entanto, não se sustenta se nos concentrarmos em O jogo da amarelinha. A literatura de Morelli se esforça profundamente para nos levar a este estado de competência criativa diante do mundo, e esse esforço exige a todo o tempo a reflexão, não apenas do autor na construção do texto, mas também do leitor no apodrecimento da linguagem. O personagem escritor se vê impulsionado pelo desejo de compartilhar a ponte, ou a passagem, que o deslocou para uma construção diversa da realidade. É o movimento de ir ao outro.
A motivação desses coágulos que captam as experiências com imagens inteligíveis não é a causalidade, ou o encadeamento lógico. Como na maioria das definições de poesia da vanguarda, as negações e os contrastes são mais volumosos do que propriamente as proposições e afirmações.
A pergunta, ensimesmada, não é suficiente para garantir o diálogo prometido ou profetizado por esse texto que bem poderíamos atribuir a Cortázar, a Morelli ou a Horácio: “Por ahora las preguntas nos alejan vertiginosamente de las respuestas”. Como encarar a hipótese dessa voz do capítulo 147 de O jogo da amarelinha segundo a qual são as próprias perguntas que nos distanciam das respostas, e que respostas são essas? Há uma correspondência entre os deuses, as respostas e a “epifania” que aparece logo na frase seguinte. Esse conjunto de referências aponta para alguma cosmologia mítica, mesmo que seja a dos novos deuses erigidos pelo pensamento científico, ou para o objeto perdido que poderia estancar o movimento do desejo humano. A busca (ou pergunta) pelo sentido do mundo, por sua ordenação numa sintaxe, é a tarefa a que se presta o logos diante do cosmos, é o impulso comum à mitologia e às ciências.
Razão e pergunta poderiam se opor apenas se fossem tomadas separadamente, como certeza e dúvida, mas podem ser facilmente compreendidas como etapas de um mesmo acontecimento, como a resposta que sucede à hipótese na pesquisa científica. O problema da razão e do racionalismo é ter se imposto como meta-discurso, subtraindo seu lugar de emissão, isto é, a ligação entre as condições de produção de sentido e as formas cristalizadas dos enunciados proferidos. Em última instância, o racionalismo não levou a razão às últimas consequências por medo de ferir as bases do mundo onde obtiveram conforto.
O efeito devastador desse caminho tomado inicialmente pelos europeus e depois imposto ao restante do mundo é sentido pela barbárie institucionalizada como cultura e civilização. O massacre da colonização, o capitalismo, a bomba atômica são frutos de uma razão inaceitável. Não há negociação possível com essa forma de pensamento, por isso faz-se necessário um novo instrumento de verdade. Podemos conjecturar que o sintagma “que pregunta” queira resgatar um sentido mais radical ou originário da razão e se afastar dos que se prenderam a determinada interpretação e práticas dela derivada da definição de homem como animal racional.
A sutura do sulco (“hendidura”) aberto pela razão grega, a que se refere Jaime Concha, de fato caracteriza a “filosofia da história” de O jogo da amarelinha. Observemos a fala do crítico:
(…) Por estas fórmulas simples: Novum organum de verdade, o homem é o animal que pergunta, pode-se inferir sem dificuldade a filosofia da história subjacente ao Jogo da Amarelinha. De acordo com ela, o mal havia começado na Terra Santa, ou em Atenas, ou em algum ponto próximo. A razão grega produziu um sulco no mundo, da qual este ainda não se recuperou.
O intento de restaurar a unidade nunca se cumpre no romance de Cortázar, embora esteja presente na nostalgia do reino milenar e do éden perdido, que atestam certo parentesco entre deuses e homens. O jogo da amarelinha não é nem mesmo um livro único.
Com o lado animal daquela dialética do homem concorre o lado mais distante e diferenciado, aquele que aponta necessariamente para a insatisfação diante da ausência de explicação, aquele que pergunta e exige narrativas, lógicas, razões, que nega a inessencialidade do contingente. Jaime Concha passa incólume ao fato de que a humanidade do homem é fruto da fissura entre si mesmo e o mundo; caso não fosse assim seria impossível a existência da pergunta.
A promessa não se cumpre nem tampouco para aquele personagem que procura a unidade, o centro; o metafísico que quer se apoderar do romance que lhe concede existência. Etienne afirma: “Até agora, pelo menos, não há grande coisa de matafísica em Morelli, a não ser que você, Horácio Curiácio, seja capaz de encontrar metafísica numa lata de tomates” (CORTÁZAR, 1987, cap. 99, p. 401). Vasta é a resistência que o texto oferece a essa dominação do personagem e à sua ideia fixa na unidade, a começar pela expressa negação do fetiche da individuação moderna sintetizada na imagem da literatura de Morelli e que em grande parte é executada pelo romance de Cortázar. Em última instância a radicalidade do romance consiste no apagamento do ponto de onde jorrasse seu significado.
O significado, ou mesmo a ordenação dos capítulos, não é propriedade de ninguém. O leitor é chamado a tomar o seu lugar, pleno de direitos, pois ele é o único personagem que realmente importa. Apesar de identificar um movimento muito importante do texto, Jaime Concha perde sua dialética, perde as contradições que se abrem, como fendas, à inserção do leitor. Ele iguala as fórmulas (“Novum Organum de verdad, el hombre es el animal que pregunta”) sob a égide do simples, sem se dobrar à diferença de cada aparição singular; subestima a filosofia da história de O jogo da amarelinha, é quem melhor não a compreende.
O texto de Concha possui a qualidade inestimável de tomar o romance como um problema ético, e não estético, como a maioria dos críticos, que apenas assinalam o aspecto extraliterário, reduzindo-o a uma contingência vanguardista. É como se a destruição da literatura almejada pelo romance O jogo da amarelinha fosse apenas uma atualização do que os surrealistas e dadaístas haviam feito algumas décadas antes.
A mudança de tom operada pela inserção da primeira pessoa do plural no capítulo 147 de O jogo da amarelinha ganha destaque quando se observa a crítica feita à maneira como os homens perguntamos, causa da ausência de diálogo. A crítica interna age em favor da alteração de tom da narrativa, que se torna mais pessoal. Embora a inserção da primeira pessoa ainda permaneça totalizante, a voz narrativa se aproxima do leitor, se acerca como quem quer ser seu camarada. Poderia se objetar que essa alteração da voz narrativa apenas maquia o fato de que tanto a oração de terceira pessoa do singular quanto a de primeira pessoa do plural se referem a um mesmo ente, portanto, a diferença seria meramente formal. A forma, por assim dizer, é um momento de localização, de aproximação paulatina a este conteúdo: o homem. Não é possível se chegar a ele a despeito da estrutura reflexiva da pergunta e reposta iniciais, experimentadas com este conteúdo ainda precário, deduzido frouxamente pela oposição aos deuses. Não se pode deixar falsear o movimento dialético do texto, tomando como fixas as diferenças entre as categorias antitéticas, sem se compreender o momento de verdade de cada uma delas.
A diferença aparente entre as duas sentenças pode indicar formas distintas de construir afirmações sobre o homem, ou ainda, formas diversas de conhecimento. A configuração do conhecimento abstrato alterou as perguntas, as respostas e o destino dos indivíduos envolvidos em tais ordenações da realidade. Sua pré-história pode ser acompanhada desde as primeiras fixações do mito, e a negociação entre homens, semideuses e deuses até nas práticas de discurso laico das assembleias deliberativas de guerreiros, que deixou a abstração como herança permanente para a democracia, pois que os interesses individuais deveriam ser abandonados em prol de um bem comum.
Entre o auge do mito e a época crítica, tendo como ponto de comparação a possessão da verdade, a organização do discurso passou de uma linguagem fortemente pessoalizada a uma mais objetiva, com a expulsão dos deuses e antropomorfismos do mito em prol das categorias ontológicas. O texto de Cortázar opera um caminho inverso ao real desenvolvimento do conhecimento no Ocidente; ele começa com sentenças impessoais para depois partir para dentro da pessoa, com a aproximação ao gênero humano, até desembocar no entrelaçamento de imagens que de maneira afirmativa e cifrada são a ponte para a saída do atoladeiro em que estamos metidos.
Se, por um lado, a pergunta nos afasta dos deuses e define o campo humano, por outro, não garante eficácia na busca pela liberdade e pela comunicação. A promessa de diálogo está condicionada ao abandono da dialética judaico-cristã na construção das perguntas, tarefa árdua à qual o romance O jogo da amarelinha se entrega e nos presenteia com passagens para outros lados. A sequência do capítulo 147 é uma passagem da definição abstrata do homem para uma imagem que quiçá condense muito mais elementos significativos para a busca por si, que deve se realizar com e nos outros, do que a linguagem abstrata e alienada de sua proximidade consigo. A esterilidade da frase abstrata consiste na limitação do espaço de criação do leitor, seu campo de ação é limitado, já que se concentra nos estratos menos contraditórios do espírito humano, menos ambíguos. A grande eficácia dos escritos de Morelli está justamente no inverso, em potencializar a ambiguidade de tal maneira que seus leitores sintam na carne suas consequências.
A definição dialética do homem como animal que pergunta é clara, objetiva, taxonômica, ocorre com a síntese da base comum que nutrimos com a natureza, “animal”, e do que nos diferencia em relação a ela, “que pergunta”. Ela não possui as sombras que resistem à estagnação, como as imagens dos passos necessários para se partir desde a dialética até à janela. Se se agrega a esta constatação toda a mudança operada pela primeira pessoa do plural, a certeza da asserção categórica sobre a essência humana é mais abalada, e pode ser considerada fruto de uma pergunta mal feita. A rigidez da definição universalizante é estremecida, além do mais, pela rejeição à dialética judaico-cristã. As palavras do excerto não sucedem rapidamente em uma direção linear, como impõe a sintaxe; elas atraem rapidamente as projeções de sentido anteriores a uma avaliação severa.
Eis os primeiros caminhos a serem percorridos: “(…) é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua”. Isto porque apesar de jogar as janelas fora, as possibilidades que se abrem ao se lançar ainda se apresentam em par, “es la muerte, o salir volando”. A progressão vertiginosa da imagem sugere o suicídio ao leitor que executasse os comandos do romance, alguém que levasse muito a sério a “momentânea suspensão da incredulidade” diante de um texto literário. Entretanto, a morte só seria inevitável se desconsiderássemos de todo a possibilidade de se aprender a voar.
O primeiro passo para construirmos perguntas corretas é a destituição do que possuímos, é um esvaziamento paulatino do interior desse ambiente conectado ao exterior pelas janelas; até que possamos enfim nos desfazer delas e de nós mesmos e chegar à indiferença entre interior e exterior. Esse intuito é identificado pelos membros do Clube da Serpente como caro à obra de Morelli: “(…) [Morelli] Parecia propor – embora jamais chegasse a formulá-lo – um caminho que se iniciasse a partir dessa liquidação externa e interna” (CORTÁZAR, 1987, cap. 124, p. 453).
As etapas sugeridas nesse procedimento não devem ser subestimadas, nem tampouco parece ser possível serem puladas. O primeiro comando, “(…) é preciso (…) lançar tudo para a rua”, basta para imaginarmos a dificuldade do desafio, apesar de ser o de mais fácil visualização em nossa era cibernética. Desfazer-se dos objetos adquiridos até o presente requer um desapego quase franciscano, pois com eles vão todo o esforço empregado em sua conquista e muito dos afetos condensados em coisas que nos remetem a pessoas ou experiências que julgamos serem formadoras do que somos. Por essa via, o último passo, lançar-mo-nos pela janela, parece ocorrer simultaneamente ao primeiro, deixando de levar os comandos ao pé da letra. Seria a memória suficiente para manter viva a imagem de si? Ao menos está-se sem dúvidas abdicando da autoconservação, como atesta o terceiro comando: o suicídio. A imagem unificada de nós mesmos deve ser abandonada desde sua base num passado que determine o presente, como o erro trágico, a hamartia.
A abertura ao presente, o tempo possível da liberdade, exige o abandono das representações conhecidas e o confronto com o que ainda não fora simbolizado. O grande desafio é manter as contradições imprescindíveis ao movimento do saber, dificultar a compulsão à repetição e à identidade. O passado não deve pesar como pedras no estômago de um presente que se arrasta cegamente para seu destino. É a esse saber a que se presta a literatura de O jogo da amarelinha, como um campo de investigação do humano.
Referências bibliográficas
ARRIGUCCI JR., Davi. O escorpião encalacrado: a destruição poética em Julio Cortazar. São Paulo: Perspectiva, 1973.
CONCHA, Jaime. “Criticando Rayuela”. In: CORTÁZAR, Julio. Rayuela. Edición crítica: Julio Ortega y Saúl Yurkievich (Coordinación). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1994.
CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.
CORTÁZAR, Julio. Obra crítica/2. 2a ed. Jaime Alazraki (Coordinación). Buenos Aires: Alfaguara, 2014.
YURKIEVICH, Saul. “La pujanza insumisa”. In: CORTÁZAR, Julio. Rayuela. Edición crítica: Julio Ortega y Saúl Yurkievich (Coordinación). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1994.
Bio fornecida pelo palestrante.
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS
Jaqueline de Oliveira Brandão
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP – ASSIS)
RESUMO: As conexões históricas e culturais entre Portugal, Brasil e África cada vez se estabelecem mais, e o resultado contribui para a construção de um sentido eminente através da literatura. Na expectativa de cooperar com mais um diálogo possível no âmbito da literatura, faz-se necessário pensar em Eça de Queirós (1845-1900), sobretudo na obra A correspondência de Fradique Mendes (1900), na qual foi instaurado um produtivo intertexto por intermédio da personagem Fradique Mendes. Esta nos leva a refletir sobre a permanência desse escritor nos romances contemporâneos, principalmente aqueles que retomam a personagem Carlos Fradique Mendes. Tal recuperação caracteriza-se pelas relações intertextuais e a possibilidade de transitar na literatura comparada, para asseverar, a partir das obras selecionadas Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, de José Eduardo Agualusa (1997) e O manuscrito perdido, de José Barahona (2012), a subsequência predominante da personagem principal, Fradique Mendes.
PALAVRAS-CHAVES: Fradique Mendes; Intertextualidade; A correspondência de Fradique Mendes; Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes; O manuscrito perdido.
ABSTRACT: The cultural and historical connections between Portugal, Brazil and Africa are increasingly established and literature has an outstanding contribution in this process. In order to contribute to it we propose a possible dialogue with a productive intertextuality through the character Fradique Mendes, by Eça de Queirós (1845-1900), especially in his work A correspondência de Fradique Mendes (1900). It leads us to reflect on the permanence of this writer in contemporary novels, especially those who have recovered Carlos Fradique Mendes as their character. Such recovery is characterized by intertextual relations and the possibility of displacement in the field of Comparative Literature, as we can assert, from the two selected works Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, by José Eduardo Agualusa (1997) and O manuscrito perdido, by José Barahona (2012), which both employ Queiroz’s protagonist Fradique Mendes.
KEYWORDS: Fradique Mendes; Intertextuality; A correspondência de Fradique Mendes; Nação crioula: A correspondência secreta de Fradique Mendes; O manuscrito perdido.
Currículo da autora: Professora contratada na rede estadual paulista de ensino de línguas portuguesa, inglesa e espanhola e aluna de Letras com habilitação em espanhol na Universidade Estadual Paulista – UNESP/Assis. Mestranda em letras na Universidade Estadual Paulista – UNESP-Assis.
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS
Jaqueline de Oliveira Brandão
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP – ASSIS
Um escritor que não ensina outros escritores não ensina ninguém (BENJAMIN, 1994, p. 132).
Através das obras de Eça de Queirós, em especial A correspondência de Fradique Mendes, a qual este trabalho está voltado, percebemos que ele se incumbe da tarefa de propagar seus ideais a cerca de temas sociais. Sempre preocupado com temas existenciais e principalmente coletivos, ele utiliza-se da personagem Fradique Mendes para transpor suas aspirações e assim difundi-las.
Carlos Fradique Mendes é uma personagem criada no ano de 1868-69 por Jaime Batalha Reis, Antero de Quental e Eça de Queirós. De acordo com Simões, tal conjunto explicou a criação da personagem da seguinte forma: “pensamos em suprir uma das muitas lacunas lamentáveis criando, ao menos, um poeta satânico. Foi assim que apareceu Carlos Fradique Mendes” (SIMÕES, 1978, p. 181) no jornal lisboeta, Revolução de setembro, com alguns poemas satânicos reunidos e denominados Lapidárias.
Sua primeira aparição foi em uma das cartas do romance policial, O mistério da Estrada de Sintra, de autoria conjunta de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão em 1870. Após alguns anos desaparecida, esta personagem é retomada em 1888 por Eça de Queirós, para efetivar seu ideal a partir da veemência em fazer dela uma personagem real e não ficcional. Para tanto, planeja reunir as cartas de Fradique e, a partir delas, revelar as incríveis reflexões do seu (suposto) autor após a sua morte, fazer com Fradique Mendes o que era de costume fazer com as grandes personalidades que haviam morrido: publicar suas cartas particulares. Desta maneira A correspondência de Fradique Mendes foi esboçada.
Primeiramente Carlos Fradique Mendes pode ser visto como uma personagem literária, que ganhou identidade e, posteriormente, foi considerada uma grande personalidade da época, a partir desse ponto de vista foi colocada em prática à intenção de Eça de Queirós de dar propriedade a tal personagem, fazendo com que Fradique Mendes fosse visto como um homem real, no ponto de vista físico, e ideal, em relação às suas infindáveis qualidades: “Assim, a personalidade de Fradique Mendes ganha uma consciência ideológico-cultural que o coloca numa posição diversa da que é própria das personagens dos romances ou dos contos”. Pondera Reis (2005, p. 35), além de Simões:
Carlos Fradique Mendes não é propriamente uma criação novelística, nem tão pouco uma personalidade real: a idealização de um certo conceito de humanidade. (…) Fora um ‘grande homem’ e um grande homem só pode ser retratado maior que o natural (SIMÕES, 1978, p. 185).
Ramos (1945) evidencia em seus estudos tal caráter criador e idealizador de Eça de Queirós em relação à sua personagem em que o próprio Eça comunica parte do segredo a um amigo: “Fradique não existe; é uma criatura feita de pedacinhos dos meus amigos. A robustez física, por exemplo, tirei eu do Ramalho” (p. 38). Contudo conclui que “n’A correspondência de Fradique Mendes não estão apenas os seus amigos, está o próprio Eça” (p. 9).
Ao chegarmos a este ponto, também há de se comentar sobre as aproximações entre criador e criatura, ou seja, entre Eça de Queirós e Fradique Mendes. Pois não há como desconsiderar alguns conceitos a respeito da heteronímia de Eça em Fradique, o que nos leva às reflexões feitas por Fradique em suas cartas que correspondem aos ideais de Eça, nos fazendo acreditar que o autor “se escondia por detrás do disfarce ideal do seu herói” (Da Cal, 1969, p. 63), no caso Fradique, há de se notar a presença de Eça, principalmente ideológica, em suas obras, contudo sua compleição em A correspondência de Fradique Mendes é praticamente física, pois ao longo da obra percebemos essa invasão, como pondera Da Cal:
Este ideal inatingível, esta vã tentativa de lograr uma forma “tão dúctil, penetrante, transcendente, que pudesse modelar o invisível e dizer o indizível”, é a meta que Eça se propunha, consciente da sua impossibilidade de alcançá-la. O drama psicológico de sua impotência diante deste ideal está obliqua e dolorosamente expresso na atitude de Fradique, que, desejando criar “uma prosa que ainda não há”, desiste de escrever (DA CAL, 1969, p. 63).
As semelhanças ideológicas arraigadas aos valores sociais relacionados à cultura e aos costumes da nação entre Eça e Fradique reflete a trajetória do próprio Eça de Queirós, revelando sua voz no discurso textual e como o objetivo deste era criar um ser que não fosse confundido com uma personagem de ficção, o que realmente ocorre, Fradique ganha personalidade e identidade próprias e assim difunde seus ideais:
Fradique aproxima-se, de facto, do estatuto e da linguagem de heteronímia, tendendo a ser um outro, autônomo em relação a quem o criou e não confundível com uma personagem de ficção; com isso, Fradique assume uma autonomia ideológica que permite dizer dele que possui um pensamento próprio: chamamos precisamente fradiquismo a esse pensamento e podemos entendê-lo como mais um dos ismos que proliferam na nossa cultura e na cultura europeia de fim de século. O facto de este ismo pode ser motivado por um proposito crítico, relativamente a essa prolixidade de movimentos e modas culturais, não lhe retira legitimidade; por outro lado, o fradiquismo pode ser entendido como alternativa ideológica ao pensamento da geração de 70, de que o Eça dos anos 80 se ia distanciando, sem assumir claramente esse distanciamento como ruptura: em certa medida, é ao fradiquismo que cabe cumprir essa função (REIS, 2005, p. 94).
Em A correspondência de Fradique Mendes, a personagem principal tem sua existência circunscrita num período marcante, que é durante as décadas finais do século XIX, o que o transforma num personagem finissecular, além de aproximá-lo das tendências dos homens deste período, que se caracteriza por ser arraigado a um sentimento de pessimismo, além do Dandismo, que de certa maneira substitui à boêmia, a qual os criadores da personagem, por volta de 1869, vivam os efeitos.
Hauser (1972) esclarece que em um dandy não é seu exterior marcado pelos trajes elegantes e modos requintados que realmente interessa, mas sim sua “superioridade íntima e a independência, a inobjetividade prática e o desinteresse da vida e da ação”. Para isso utiliza-se das explicações de Baudelaire para evidenciar as singularidades da filosofia do dandismo:
Para Baudelaire, o dandy é a acusação viva de uma democracia estandardizada. Reúne em si todas as virtudes do cavalheirismo ainda hoje possíveis; está sempre a altura de qualquer situação e nada o assombra; nunca é vulgar e conserva sempre o sorriso frio e estoico. O dandismo é a última manifestação do heroísmo numa época de decadência, um acaso, o último feixe de luz radiante do orgulho humano (HAUSER, 1972, p. 1.087).
Além disso, Medina (1974) confirma a obsessão por esse sentimento de decadência no país, evidenciando o anseio e preocupação de Eça e outros intelectuais em utilizar-se de tal sentimento de declínio:
A obsessão da decadência nacional, dum progressivo e inelutável declínio de todo o País, complexo de morbos, reações, profecias e desesperos que poderíamos resumir na expressão de miséria portuguesa, atravessa todas as grandes obras literárias da segunda metade do século XIX português (MEDINA, 1974, p. 33).
E faz uso das palavras de Antero de Quental, quando este se refere às condições de Portugal, de forma simbólica e metafórica, ao dizer que a nação portuguesa encontra-se doente em tal período:
Portugal é uma nação enferma do pior gênero de enfermidade, o langor, o enfraquecimento gradual, que sem febre, sem delírio, consome tanto mais seguramente quanto se não vê órgão especialmente atacado, nem se atina com o nome da misteriosa doença. A doença existe, todavia. O mundo português agoniza, afetado de atonia, tanto na constituição íntima da sociedade, como no movimento, na circulação da vida política (Antero de Quental, Portugal perante a revolução de Espanha – 1868 (Apud João Medina. Eça político. Lisboa: Seara Nova, 1974, p. 33).
Portanto, Eça de Queirós utiliza-se da personagem Fradique em A correspondência de Fradique Mendes, numa época em que a Europa passava por uma crise, mas a situação de Portugal atingia matizes ainda mais acentuados, pois era o último país da Europa, por seu atraso e ineficácia em todas as instituições, talvez por esse motivo a personagem ganha características físicas, mas principalmente ideológicas conforme o momento histórico vigente, assim como elucida Simões:
Em maio de 1888 já se vislumbravam os primeiros sintomas de uma decadência que, se não atingia a virilidade estilística do grande romancista, pelo menos lhe afetava seriamente o desassombro e a irreverência críticas. Com efeito, por essa altura concebia Eça de Queiros a Correspondência de Fradique Mendes, primeiro passo para a entronização da figura agora, por assim dizer, o avesso da personalidade modelada pelo Cenáculo (SIMÕES, 1945, p. 77).
Tal período também culmina com a última fase da vida literária de Eça de Queirós, segundo Miguel Real (2006) em “O último Eça”. É como se Eça revisitasse e revisasse, com intenção de melhorar, toda sua criação literária, para isso passa a alicerçar sua estratégia discursiva em três pontos centrais, basicamente voltados à: revisão subjetiva das impressões psicológicas; revisitação de cada momento e tema e, por fim, se vale do método comparativo.
Deste modo, podemos notar que A correspondência de Fradique Mendes não privilegia apenas a realidade social exterior, como a fase realista de Eça, mas sua realidade interior, adotando principalmente o método comparativo, que conforme Miguel Real é “a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entre fases diversas de uma mesma civilização” (REAL, 2006, p. 133).
Dentre suas características, podemos destacar que Fradique Mendes é uma pessoa totalmente civilizada, elegante, possuidor de grande fortuna e de uma vasta inteligência, por isso sofisticado e intelectual, além de ser extremamente culto e inovador em todos os aspectos, mas principalmente por seus ideais revolucionários pela época.
Por ser um viajante incansável, sempre por onde quer que ele fosse, ou seja, em todo e qualquer país que visitasse, ele se adaptava e era bem recebido, tornava-se parte integrante e atuante, quase nativo dos lugares que visitava, um verdadeiro cosmopolita.
Fradique é perfeito em seus atos, nunca deixa a desejar ou exagera, mas sua tendência ao perfeccionismo não permite que ele publique seus escritos, portanto ele se recusa a demonstrar suas elucubrações, muitas vezes por considerar não ter propriedade para dedicar-se a tão nobre atividade.
Carlos Fradique Mendes não é só um modelo de homem e cidadão para os demais de sua geração, como intencionava seu criador a princípio, mas por ter preocupações de ordem sociais, também se torna um paradigma atemporal pela sua capacidade de percepção crítica, sendo um chamariz para outros escritores quando estes anseiam fazer da arte uma expressão da sociedade, interessados dessa forma, nos problemas existenciais de ordem social.
Por ser essa personagem tão singular e representar uma provocação à apatia da sociedade, Fradique Mendes mexe com o imaginário de escritores, especialmente por criarem a partir da possibilidade de existir outras cartas, artifício adotado por eles, fazendo com que se apropriem dessa personagem significativa de Eça de Queirós para, assim como ele, criarem obras expressivas e, portanto, eternizar tanto o criador (Eça de Queirós), quanto à criatura (Fradique Mendes).
Deste modo, a construção de obras como Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido nada mais é do que a (re)apropriação significativa principalmente da personagem, ou seja, os diálogos existentes entre as três obras literárias possuem a princípio e explicitamente a personagem Fradique Mendes, como eixo de suas produções.
Como marca característica nas literaturas do século XIX, o intento em reconstruir a identidade nacional, ou pelo menos reafirmá-la faz com que os escritores retomem antigos paradigmas para engendrar e recuperar elementos da cultura contidos pelos fatos históricos recorridos neste período.
Há, portanto, a necessidade de elucidar um dos recursos de que José Eduardo Agualusa e José Barahona se valem, que é a intertextualidade, de tal modo empregada, acaba por revelar a relação existente entre as literaturas portuguesa, angolana e brasileira.
Tais intertextos estabelecidos com a obra A correspondência de Fradique Mendes, nos faz elucidar o conceito de intertextualidade, que conforme Julia Kristeva, a qual aclarou as definições propostas por Mikhail Bakhtin e concluiu que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de um outro texto” (KRISTEVA, 1974, p. 64).
Kristeva ainda complementa dizendo que o texto literário nunca é uma produção pronta e acabada, mas sempre se refere a outro. Sendo assim é: “um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras: do escritor, do destinatário (ou da personagem), do contexto cultural atual ou anterior” (KRISTEVA, 1974, p. 62).
Nesta mesma vertente, explica José Luiz Fiorin (1999, p. 29) que “a intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”, desse processo resulta a literatura, visto que ela se realiza através de diálogos constantes de textos, ou seja, a literatura contemporânea é o fruto das obras anteriores, portanto a intertextualidade revitaliza a literatura.
Ao entendermos que a intertextualidade é a presença de um texto em outro, percebemos que esse evento ocorrido contribui para o enriquecimento e até mesmo o enobrecimento tanto do hipotexto (texto fonte) quanto do hipertexto (texto derivado), ao estabelecer novas e diferentes interpretações.
Sendo assim, é através da intertextualidade que são elucidados elementos que Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido evocam de A correspondência de Fradique Mendes, contudo também é necessário demarcar a importância de mais um procedimento crucial para o estudo, que é a literatura comparada, visto que ela trata das interrelações entre duas ou mais literaturas.
Dentre as inúmeras vertentes da Literatura Comparada, aqui será dada ênfase, sobretudo, ao estético, ou seja, aos elementos estruturais das obras analisadas e suas noções históricas, pois como explica Carvalhal:
A literatura comparada permite que ampliem os horizontes do conhecimento estético, (…) leva-nos para o amplo jogo dos discursos e faz-se também leitura do texto na História. Eis a dimensão que a literatura comparada reintroduz nos estudos literários de hoje: a da historicidade contextual (CARVALHAL, 2003, p. 5).
Além de ser uma eficiente estratégia de leitura e forma eficaz de investigação ao confrontar textos, a literatura comparada é um recurso que possibilita uma exploração apropriada nos estudos literários, assim como pondera Carvalhal:
Pode-se dizer, então, que a literatura comparada compara não pelo procedimento em si, mas como recurso analítico e interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo literário uma exploração adequada de seus campos de trabalho e o alcance dos objetivos a que se propõe. Em síntese, a comparação mesmo nos estudos comparados, é um meio, não um fim (CARVALHAL, 1992, p. 7).
Deste modo, é através dessas duas vertentes que alcançamos uma análise mais significativa e singular a respeito das revisitações da obra de Eça de Queirós A correspondência de Fradique Mendes, principalmente em relação ao personagem principal e outros elementos da narrativa e dos aspectos sociais, que nortearam as produções de José Eduardo Agualusa e José Barahona, fazendo reviver e dialogar a tradição literária, a partir de revisitações de temas, traços culturais e históricos, além de algumas particularidades de estilo.
Dentre muitos elementos em comum nas três obras, o realce primordial está na personagem Fradique Mendes, também há de se destacar outras características que culminam, como por exemplo, a preferencia pelo gênero epistolar, além da temática que demonstra sempre um pensamento voltado às questões sociais.
Através do diálogo entre literatura e história em que as obras são construídas, percebemos esta retomada do passado para recontá-lo a partir de outros vieses, abordando o colonialismo português, a escravidão, o tráfico negreiro, aludidos, em especial, em Nação crioula.
Já em O manuscrito perdido, entramos em contato com o resultado de todo este processo para a formação da sociedade brasileira, que hoje convive com os resquícios deste período, como o que sobrou das aldeias indígenas, o estado lamentável em que os descendentes de escravos africanos se encontram, além da necessidade de se formar um movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST).
Tais relações explícitas de intertextualidade nos põem a par das reconstruções da memória cultural dos espaços percorridos por essa personagem tão significativa, que é Fradique Mendes, a partir destas novas inserções das cartas em espaços angolanos e brasileiros, dá-se um diálogo com a história de vida do imortal Carlos Fradique Mendes e nos permite legitimar o transito intertextual relacionado ao contexto, ao tempo e ao espaço em que se dão os fatos narrados nas três obras.
A correspondência de Fradique Mendes, em relação a sua estrutura, foi dividida em duas partes: a primeira, considerada introdutória, denominada “Memórias e notas” é uma espécie de biografia idealizada, engendrada numa situação narrativa testemunhal, comum de gênero de relato. Ramos pondera a respeito de tal parte do livro:
Ora o livro traz o seguinte subtítulo, muito significativo: Memórias e Notas, que aproxima-nos de um memorialista de ideias, de impressões literárias e de gostos estéticos (…) trata-se agora de fazer principalmente a biografia intelectual de Carlos Fradique Mendes, “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível” (RAMOS, 1945, p. 181).
A segunda parte é composta pelas cartas particulares escritas por Fradique, ou seja, o que sobrou dele, nas quais ele expõe muitos de seus pensamentos a respeito de fatos da época, os quais ele mostrava suas inquietações diante do esfacelamento da sociedade lusitana causada pelas constantes transformações políticas e sociais, chegando a criticar seu país e tudo o que lhe pertence, ao dizer, logo em sua segunda carta: “Tudo tende a ruína num país de ruínas” (carta a Madame de Jouarre, p. 49), além de tecer considerações sobre religião e literatura, por exemplo.
Agualusa em Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes também evidencia a mestiçagem entre a narrativa ficcional e a narrativa histórica. A obra corresponde ao autêntico gênero epistolar, pois se estrutura apenas por cartas, através das quais conhecemos, além de ideologias de Fradique em relação ao sistema escravocrata, seus ideais a respeito do movimento abolicionista e também se aprofunda numa vertente mais romântica, ao por em destaque a relação amorosa entre o protagonista e a personagem, também expressiva, Ana Olímpia.
Fradique Mendes de Agualusa, agora inserido num novo contexto, faz parte de uma ficcionalização de acontecimentos históricos referentes ao último navio negreiro que zarpou de Angola rumo ao Brasil, de extrema relevância estabelecida pelo diálogo do contexto histórico de Angola, Brasil e Portugal.
Notamos, ainda, que o subtítulo da obra Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes faz referência evidente ao título da obra primeira do autor Eça de Queirós A correspondência de Fradique Mendes, apenas com o acréscimo do adjetivo “secreta” conferindo, desta maneira, um tom de mistério a respeito da vida de Fradique Mendes, que Eça de Queirós não teve acesso, por isso não incluiu em sua obra.
Através da leitura da correspondência que antes era secreta, descobrimos novos pensamentos de Fradique através das cartas remetidas aos seus destinatários, inclusive o próprio Eça de Queirós, transformado, desta forma, em personagem, portanto com essas novas cartas conhecemos um outro lado de Fradique que ainda não nos havia sido apresentado.
Sendo assim, tanto A correspondência de Fradique Mendes quanto Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes representam a realidade do contexto em que são inseridas e as memórias da personagem principal. Ambas as obras dialogam com a história, já que contextualizam determinados acontecimentos factuais.
Já o livro O manuscrito perdido é uma adaptação do documentário da mesma forma intitulado, que conforme seu criador afirma, foi idealizado a partir das obras de Eça de Queirós e José Eduardo Agualusa. Ao ser transcrito em livro também remete ao romance epistolar por ser uma troca de correspondência entre o cineasta e o escritor angolano, autor de Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes.
José Barahona evidencia a utilização do gênero epistolar e também sua inspiração para a criação do livro a partir da sigla P.S. expressão latina “post scriptum”, que significa depois de escrito, usada comumente em finais de cartas para acrescentar informações não contidas no corpo da carta:
P.S.
Este livro foi adaptado do filme “O Manuscrito Perdido”, que por sua vez foi livremente inspirado nos livros “A correspondência de Fradique Mendes”, escrito por Eça de Queirós, e “Nação crioula, a correspondência secreta de Fradique Mendes”, escrito por José Eduardo Agualusa (BARAHONA, 2012, p. 99).
Contudo, a intenção agora é de percorrer o caminho feito no Brasil por Fradique de Eça de Queirós e Agualusa, ou seja, do final do século XIX, porém nos dias de hoje, em busca de um manuscrito perdido, que continha reflexões acerca da origem da sociedade brasileira e questões sociais, como a escravidão e a luta dos índios, entretanto, nessa busca Barahona entra em contato com o resultado desse período anterior e relata para seu destinatário, José Eduardo Agualusa.
Portanto, tais intertextualidades enfatizam a permanência de Eça de Queirós e confirmam a atualidade de sua criação, concretizando, desta forma, sua imortalidade, pois ele se faz presente ao conseguir manter sua obra permanentemente na memória dos leitores e por conservar a personagem Fradique Mendes viva no universo literário.
A presença de Eça de Queirós é constante em seus legatários, por isso este olhar voltado à influência de tal escritor nas obras supracitadas de Agualusa e Barahona, levando em conta a personagem que Eça, Batalha e Antero de Quental criaram transita entre o mundo transato e o contemporâneo, comprovando, deste modo, que a permanência de A correspondência de Fradique Mendes através das revisitações desta obra queirosiana por escritores contemporâneos, ratifica sua perpetuidade.
A correspondência de Fradique Mendes nos permite inferir, ainda, uma nova perspectiva de compreensão das condições sociais do período discutido, mas ao ser intensamente revisitada nos proporciona uma ampliação de elementos fundamentais presentes em obras como Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido e assim como o legado deste ínterim na atualidade, também porque coloca em evidência as intrincadas relações das obras com a escravidão, a sociedade e outras questões históricas e existenciais relevantes.
Sendo completamente possível legitimar a afirmativa de que Eça de Queirós é uma das expressões maiores na literatura de língua portuguesa, principalmente ao que se referem às suas produções, em especial A correspondência de Fradique Mendes, que podem ser consideradas fontes de estudos, recriações e inspirações para seus sucessores, pois através de suas obras entramos num mundo do qual não nos apetece sair, visto que aproxima nações, recupera o passado e instaura bons caminhos para o futuro, especialmente no campo cultural.
NOTAS
AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula – a correspondência secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.
BARAHONA, José. O manuscrito perdido. São Paulo: Tordesilhas, 2012.
BENJAMIN, Walter, Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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SIMÕES, João Gaspar. Eça de Queirós – a obra e o homem. 3ª ed. Lisboa: Arcádia, 1978.
SIMÕES, João Gaspar. Eça de Queirós – o homem e o artista. Lisboa: Dois Mundos, 1945.
Bio fornecida pelo palestrante.
LONDON AND THE ROMANTIC POETRY OF BLAKE AND WORDSWORTH
Sophia Celina Diesel
Pontifícia Universidade Católica (PUC – RS)
Summary: The present essay compares and contrasts the treatment of the city of London in two classic poems of the English literature – London, by William Blake, and Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1803, by William Wordsworth. Rather than focusing solely on the writers’ attitudes towards the city, I concentrate on the formal end technical elements of their approaches and on the relationship between the experience of the city and the modes and styles of authorial engagement with it.
Key words: William Blake, William Wordsworth, London, English Literature
Sophia Celina Diesel has a degree in English, Portuguese and respective literatures at PUC-RS, completed in 2010, Specialization in Brazilian Literature, also at PUC-RS, completed in 2012 and a Master’s degree in English Literature – Victorian pathway – at Loughborough University, UK, completed in 2013. At present she is taking a Master’s degree at PUC-RS in Literary Theory, supervised by Professor Dr Pedro Theobald, to be finished in 2016. Her research project focus on English Literature in the Victorian period, with emphasis on the works by Charles Dickens, George Gissing, the Bronte sisters, and George Elliot, among others.
LONDON AND THE ROMANTIC POETRY
OF BLAKE AND WORDSWORTH
Sophia Celina Diesel
Pontifícia Universidade Católica (PUC) – RS
London is a place that can be seen from many different perspectives. It is impossible to define it as one kind of city; there are so many representations of it that we end up with an uncountable number of ‘Londons’ that coexist or antagonise each other. London is that kind of place everybody knows, even if they have never been there in their whole lives. It happens because the representations of the city reach so far and such a number of people that its corners are explored from every place in the world. In modern terms, we have TV, movies, literature and many other kinds of media with their eyes in the city. But if we go back in time, more precisely to the Romantic period I intend to discuss in this essay, around the end of the eighteenth and the beginning of the nineteenth-century, we can see that literature played an extremely important role in creating these many different images of the city that was the first metropolis in its proportions.
There was anything like London before. Growing in an amazing speed, by the fourteenth century it was the triple size of Bristol, the second largest city in England, in 1520 London was ten times as large as Norwich and by 1600 London’s population surpassed that its ten rival combined together. Ten per cent of the population of England and Wales lived in London around 1750 and from then on numbers continued to increase impressively (MANLEY, 2011, p. 6).
The fascination towards the city that seemed to grow almost as a living organism inspired artists throughout the centuries. And in their attempts to understand it and convey to their public the image they had of London, writers brought many versions of the city to life, which remain in the imaginary of the entire world. The most illustrious writers who had London as their subject, like William Blake, Lord Byron, Charles Dickens, William Wordsworth, Oscar Wilde and George Gissing among others, wrote a city that was always in movement, ‘a city in the act of becoming’, ‘always in the process of self-transformation’ that, as we know, became the economic and cultural centre of the world in the nineteenth century (WOLFREYS, 1998, p. 7).
In this essay I intend to explore a little of two of the most famous poems that possess the characteristic of depicting the city through the eyes and feelings of their authors. London by William Blake and Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1803 by William Wordsworth are two important bricks in the construction of the imagery of London; image which was not simply of a large metropolis, but also of a place where Romantic principals were challenged. The natural world was contrasted with a totally man-made place. It is the way Blake and Wordsworth deal with this ‘unnatural’ world that is my main focus here. I want to think of how they were able to make of London, the city of stone and multitude, a subject of their Romantic literature.
William Blake was born in London in 1757. He lived with his family in a house on Broad Street from where he had a god view of the sun rising above the dome of St Paul’s and declining westwards into Kensington Gardens (ACKROYD, 1999, p. 5-6). Since his childhood he was found of solitary walks and made of the institutions near his house – the overcrowded parish workhouse, a school of industry for indigent children and an infirmary – recurring subjects in his poetry. He had a very strong sense of place and his whole life was strongly connected with the city. His urban sensibility sets him, beside Dickens and Turner, as one of the great artists of London (ACKROYD, p. 18-9). He knew the streets and he saw the living conditions of its people.
The poem London follows this attitude. Blake’s description of the city cannot be detached from the people who lived there. Social injustice and other urban problems were a reality and shaped its context. London was composed between 1789 and 1793 and although it seems an accessible poem requires a careful approach in order not to fall for a literal reading, which according to E. P. Thompson, is a mistake because it ‘does not fit the poem’s meaning’ (THOMPSON, 1993, p. 181). I will mention more of Thompson’s criticism during the analysis.
London
William Blake
I wander thro’ each charter’d street,
Near where the charter’d Thames does flow,
And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.
In every cry of every Man,
In every Infant’s cry of fear,
In every voice, in every ban,
The mind-forg’d manacles I hear.
How the Chimney-sweeper’s cry
Every black’ning Church appalls;
And the hapless Soldier’s sigh
Runs in blood down Palace walls.
But most thro’ midnight streets I hear
How the youthful Harlot’s curse
Blasts the new-born Infant’s tear
And blights with plagues the Marriage hearse.
(BLAKE, 1970, p. 150)
In the first stanza a simple walk through the streets of London the narrator encounters charter’d streets and a charter’d Thames. The repetition is a strong characteristic of the whole poem as it emphasizes the tone of indignation towards the way the people of London have been suffering the consequences of the current economic model. The word charter’d, refers to a clear definition of the spaces in London, as each part of it seems to be owned by someone. Even the river, which more than anything else is a natural and should not belong to anybody, is limited and confined by its definition (MANKOWITZ, 1979, p. 132). According to Simon Korner, the word chater’d is loaded with a critical sense, repeated to sharpen the ironic point to suggest the oppressive nature of early capitalism. Differently from the politically empty dirty used in the original version, Korner affirms that this meaning would have been easily understood by Blake’s contemporary readers. The following repetition of the word mark, highlights how ‘Londoners are branded with visible signs of sickness and misery’. It also brings the narrator closer to these people with the introduction of I (KORNER, 2013).
The marks of despair are emphatically spread through every soul and every action in the city culminating in the mind-forg’d manacles the narrator hears in the second stanza. Such a strong image not only reinforces the idea of suffering, but also suggests that the charter’d quality is also due to a certain psychological predisposition. To illustrate the ‘interdependent misery’ of Londoners, Wolf Mankowitz points to the fourth and last stanza where the curses and diseases inherited from generation to generation through prostitution enters the ‘respectful’ family’s home carried by unfaithful husbands (MANKOWITZ, p. 132).
Back to the third stanza, we have the emblematic figures of the chimney-sweepers and the hapless soldiers, related consecutively to the church and the palace walls. According to Korner, these relations are more complex than they seem in a first look. The well-knows boy sweeps were controversial figures in the streets of London. They were in the lowest kind of child exploitation and often turned to crime and begging. The Church here does not work as an institution that saves these children, but also exploits them. The criminal sweeps end up being a more a menace to the Church than the Church to the sweeps. The soldiers who should be strong and brave are hapless and sigh. The reference to blood down palace walls probably refers to protests involving the suffering of these soldiers who lived in terrible physical and psychological conditions (KORNER, 2013).
The last stanza, as mentioned before, culminates in how all the suffering of Londoners is connected through corrupt institutions that not always are a pure act of the government, but involve people’s corrupted behavior in the city. The Harlots present their babies with diseases that plague even the bosom of the middle class and upper class in a vicious circle. The strong image of the marriage hearse provokes a consideration on how marriage and family are undermined by London life.
William Wordsworth was born in Cockermouth, Cumberland, in the English Lake District in 1770 (GILL, 2003, p. x). He is one of the most important writers in terms of mapping London through his writing and contributing in the search for the city’s identity. The question of identity in London was always a matter of great concern among writers of the city. Julian Wolfreys mentions a certain phobia London generates in some writers due to its ‘constant mutability, states of upheaval and change’. This insecurity, manifested by Wordsworth himself in Book VII of The Prelude: ‘Residence in London’, is caused by the loss of control over identity that happens when imagining the city (WOLFREYS, 95-100). In Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1802, Wordsworth imagination and anxiety are exercised in a way that would never come to him again. The poem conveys a serene London, apparently asleep, quiet and still.
Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1802
William Wordsworth
Earth has not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres, and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendour, valley, rock, or hill;
Ne’er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! the very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!
(WORDSWORTH, 1995, p. 320)
Although perfectly aware of London as a metropolitan heart, through which the life of the land circulates, he describes the city as if it were in some sort of suspended animation. This stillness may lead to a parallel to the poet’s frequent connection between extreme quiet and death in his poetry (ALEXANDER, 1987, p. 121). The appreciation of the calmness in the metropolis may also remind us of the poet’s profound Romantic soul that sees nature and the natural world as a true symbol of perfection. The city could only be seen in a positive angle by Wordsworth when he is able to make this link to what he truly treasures.
Surprisingly the poem starts with a rather polemic verse in which the beauty of London can not only be compared to natural beauty, but surpass it. The city is appreciated from Westminster Bridge in a fair morning when the silence fits it like a garment. In the second verse Wordsworth lists what is in his sight. Being on Westminster Bridge, his vision was privileged because he had a wide view of many of the main buildings, but on the other hand he was very far from the majority of them, so the building’s tops were what best distinguished each one. Apart from the ships that were spread along the Thames, all the towers, domes, theatres, and temples end up in the sky and in the smokeless air. Due to this smokeless air, only possible while the city sleeps, the sun comes wonderfully in the third verse bringing images of nature, but still all the splendor and calm is superior in the city. The personification of London takes place in moments like when its garments are mentioned and in the fact that it seems to be asleep. To Carl Woodring, the spontaneous expletive Dear God! secures a deeper analogy with nature because it sounds like as a prayer. (WOODRING, 1965, p. 166-7) The river here glideth at his own will before the houses and the mighty heart awake. The stillness of the city is actually the stillness of the people. When the inhabitants of London are awake the city is spoiled and even the river loses his free will (charter’d Thames?). Interestingly the presence of same hands that made all that beauty superior to any other are responsible for transforming it each day into an ugly and noisy place. Perhaps Wordsworth was not interested enough in people to go to them (as Blake does in his poem) and see that the true city is made by its people. The sight of an empty or asleep London does not seem to match to what the city really is. The poet humanizes it and makes it feels like a living organism, but at the same time this organism would never ‘live’ without its inhabitants.
Comparing both poems we notice the difference in terms of optimism towards the City. In his London, Blake does not like what he sees because he does not limit himself to what his eyes catch. He wanders in the physical streets, but he sees beyond them. Blake feels the suffering of the people who surround him. He knows they are tied up in a kind of living that leaves few possibilities of improvement and of having a good life. The population lives at the mercy of early capitalism, which exploits the poor and marginalizes them. Wordsworth never gets as close as that in his Composed Upon Westminster Bridge. The distance he is from the city he is describing prevents the viewer to see the reality of the streets. Even the lack on motion he notices is not necessarily true. Since he cannot really see whether most of the streets are empty or not, he may be simply think they are empty while workers and other people who are up early already circulate. His distance from the crowd prevents him of thinking of them and idealization is much stronger.
The idea of the observant poet narrating what he sees from an apparent detached point of view is a typical figure of the Eighteenth century. Blake actually starts his poem in a similar way, although he eventually gets very much involved as it develops. Through the modifications he made, for instance the one I already mentioned of substituting dirty for charter’d implies that he got more politically involved with the passage of the time. For Wordsworth, the detachment is kept until the end and we do not seem to feel the same passion. J. H. Alexander calls our attention to what kind of poet Wordsworth was: ‘Much of Wordsworth’s poetry seeks repose, an extreme quietness, which approaches a timeless nirvana, and which may strike some readers as sepulchral’ (ALEXANDER, p. 4). However, he argues that in some of the poet’s best works energy and repose coexist and are experienced simultaneously rather than successively. The energy found in Wordsworth’s poem is different from Blake’s in terms of where it is concentrated. He focuses on the architecture and the amazing group of man-made beauty and sees it as something that could have a life of its own.
There is another poem by William Wordsworth that is considered a counterpart to William Blake’s London, written a decade later, as a passage in Book VII of The Prelude lost:
Amid the moving pageant, ’twas my chance
Abruptly to be smitten with the view
Of a blind beggar, who, with upright face,
Stood propped against a wall, upon his chest
Wearing a written paper, to explain
The story of the man, and who he was.
My mind did at this spectacle turn round
As with the might of waters, and it seemed
To me that in this label was a type
Or emblem of the utmost that we know
Both of ourselves and of the universe,
And on the shape of this unmoving man,
His fix’d face and sightless eyes, I looked,
As if admonished from another world.
(WORDSWORTH, 1995, p. 815)
Now here we have a very similar reaction in relation to the horrors of seeing things from a closer point of view. The blind beggar is like the harlot in Blake. He is the symbol of a social reality sent from heaven as a warning. “Stopped in his tracks by a visual short-circuit, the poet is ‘admonished from another world’ for his inability to read past his own blindness, into the lives of others and into the story of the beggar” (SHARPE, 2011, p. 124). In the end both poets are not contrary to one another.
London and Composed Upon Westminster Bridge show different perspectives of the city, but not necessarily opposite ones. Although Wordsworth’s city seems much calmer and inviting, people will eventually wake up in the morning, crowd the streets like they always do and break all the magic he describes. Blake is there in the middle of this crowd and points the shameful marks of misery he sees with a more critical and sharp language. Both poets contributed to the many layers created during the centuries that produced the London ‘everyone’ knows and visits even without being there personally. Their words do not define the city, which no one could ever do, but are part of it, like the very buildings, streets and the river.
REFERENCES
Primary Texts
BLAKE, William. London. In: Songs of Innocence and Experience. Oxford: Oxford University, 1970. p. 150.
WORDSWORTH. William. Book Seventh: Residence in London. In: The Collected Poems of William Wordsworth. London: Wordsworth editions, 1995. p. 815.
WORDSWORTH, William. Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1802. In: The Collected Poems of William Wordsworth. London: Wordsworth editions, 1995. p. 320.
Secondary Texts
ACROYD, Peter. Blake. London: Vintage, 1999.
ALEXANDER, J. H. Reading Wordsworth. London: Routledge, 1987.
GILL, Stephen. Wordsworth Chronology. In: The Cambridge Companion to Wordsworth. Stephen Gill (Ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. x-xiii.
KORNER, Simon. William Blake’s London. In: 21st Century Socialism. Available at <http://21stcenturysocialism.com>. Accessed on: 12 Mar. 2013.
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Bio fornecida pelo palestrante.
DE LA PASSANTE AU CYGNE :
UNE ANALYSE DES VEUVES DE BAUDELAIRE
Thaïs Chauvel
Universidade do Estado de São Paulo (USP)
Resumo: Este artigo apresenta uma análise contrastiva dos poemas “À une passante” e “Le Cygne”, nos quais Charles Baudelaire descreve duas viúvas em meio à cidade de Paris. Autor do célebre ensaio intitulado “O pintor da vida moderna”, Charles Baudelaire trabalhou em alguns de seus poemas mais admirados o motivo da vida urbana, e as transformações sociais resultantes da metamorfose de uma metrópole do século XIX. Apoiando-se na perspectiva apresentada pelo crítico Antoine Compagnon, autor de Baudelaire, l’Irréductible (2014), em que argumenta que a obra baudelairiana exibe ricas contradições irredutíveis à categorização, este artigo propõe analisar algumas das contradições, tanto de forma quanto de conteúdo, apresentadas em ambos os poemas que retratam viúvas, com o objetivo de entender de que maneira elas são reveladoras da poesia de Baudelaire.
Palavras-chave: Baudelaire; poesia; modernidade; luto.
Currículo: Franco-brasileira, a autora Thaïs Chauvel tem diploma de Bacharelado francês em Literatura, obtido com menção honrosa em 2009. Formada em Letras, habilitação em língua e literatura francesas pela Universidade de São Paulo, atualmente é mestranda do programa de pós-graduação em estudos linguísticos, literários e tradutológicos em francês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
DE LA PASSANTE AU CYGNE :
UNE ANALYSE DES VEUVES DE BAUDELAIRE
Thaïs Chauvel
Universidade do Estado de São Paulo (USP)
Charles Baudelaire, dont les ambitions littéraires étaient nombreuses, avait sans doute l’intention d’écrire une oeuvre bien plus vaste que celle qu’il a légué à la postérité. De ses projets de romans et de drames, il ne reste que de brefs commentaires éparpillés dans sa correspondance ou mentionnés dans les fragments de Mon coeur mis à nu et des Fusées. Toutefois, ce poète pour qui le Travail était une véritable difficulté, laisse une oeuvre hétéroclite qui réunit des écrits critiques sur l’art, tel que le célèbre essai « Le Peintre de la vie moderne », des poèmes en prose publiés à sa mort sous le titre de Spleen de Paris, et son recueil intitulé Les Fleurs du mal, publié en 1857. Ces « fleurs maladives » dedicacées à Théophile Gautier, chef de file du cénacle Parnassien, démontrent de façon exemplaire toutes les tensions qui feront de Baudelaire ce poète « irréductible », pour reprendre l’expression d’Antoine Compagnon. En effet, ce poète chrétien ne cesse de parler de Satan, il prône la forme épurée tout en mélangeant les registres et convoque la tradition classique afin de rechercher la modernité, tout cela au nom d’une seule « déesse » : la Beauté qui exècre la nature au nom de l’artificiel – mais pas toujours.
Il semblerait donc inutile de tenter de réduire ce flâneur qui échappe obstinément aux catégories critiques, telles que romantique, ou encore réaliste. Si l’on ne veut pas ignorer les contradictions de la poésie baudelairienne il faudrait, au contraire, tenter de les dévoiler au grand jour ; telle est la finalité de cet article, qui propose une lecture analytique contrastive de deux poèmes issus de la session des « Tableaux Parisiens » des Fleurs du mal à savoir « Le cygne » et « À une passante ». Dans un premier temps, ces deux poèmes (dont la reproduction intégrale est disponible en annexe) seront présentés afin de souligner les tensions qui opèrent au sein de leur construction : le souci de la forme classique, comme le sonnet, et le thème moderne de la foule en mouvement dans la métropole. Ou encore, la convocation des mythes traditionnels de la littérature occidentale, comme Andromaque, et le motif urbain – radicalement moderne – de la ville de Paris en plein changement. Dans ces deux poèmes, la forme traditionnellement fixe et classique rencontre un registre de langue familier dans un « bric à brac confus ». Ensuite, on s’interrogera sur la représentation de ces deux veuves du « Cygne » et de « À une Passante ». Cette lecture analytique repose sur les interprétations de Walter Benjamin, Erich Auerbach et Antoine Compagnon afin de mieux suivre la passante, et compte sur celles de Dof Oehler, Jean Starobinski et Karlheinz Stierle pour éclairer le cygne et le signe.
Le poème intitulé « À une passante » est un sonnet, forme poétique traditionnellement attribuée à Pétrarque qui l’utilisait volontiers pour faire l’éloge de la femme aimée dans sa poésie lyrique. Baudelaire reprend ici le sonnet de Pétrarque pour que le moi poétique puisse proclamer son admiration pour une femme endeuillée qu’il a apperçue dans la rue. De ce fait, si la forme poétique choisie est belle et bien classique – car les romantiques ne s’en servaient guère, douze vers ne suffisant pas à exprimer le cri du coeur de cette génération –, le motif sur lequel se construit le poème est radicalement moderne. Il s’agit bien de la foule, nullement mentionnée de façon explicite d’ailleurs, surlaquelle repose néanmoins tout le développement du poème, comme le remarque Walter Benjamin. En effet, ce dernier observe que “a visão que fascina o habitante da cidade grande – longe de ele ter na multidão apenas uma rival, apenas um elemento hostil –, lhe é trazida pela própria multidão” (BENJAMIN, 1995, p. 117). Ainsi, la veuve qui passe dans la rue et attire l’attention du flâneur se donne à voir grâce à la foule, mais est aussi perdue de vue à cause de celle-ci – ce qui constitue l’ambivalence du mouvement de cette « rue assourdissante ». Walter Benjamin conclut son commentaire par une formule désormais célèbre selon laquelle « o encanto desse habitante da metrópole é um amor não tanto à primeira quanto à última vista » (BENJAMIN, 1995, p. 117).
Pour Antoine Compagnon, « Baudelaire a crée, ou definitivement consacré, l’un de grands mythes féminins modernes, la femme inconnue, inaccessible, apperçue hâtivement dans la foule et perdue de vue aussitôt » (COMPAGNON, 2014, p. 69). Ce critique argumente qu’il s’agit là d’un « fantasme moderne », puisque la « société, autrefois, n’était pas anonyme ». La « déperdition de l’identité dans les grandes métropoles » est donc un thème moderne retravaillé par Baudelaire dans une forme classique : il se sert d’un canon traditionnel pour faire l’éloge de la femme admirée disparue aussitôt dans la précipitation de la rue, qui est selon Walter Benjamin « uma despedida para sempre, que coincide, no poema, com o momento do fascínio » (BENJAMIN, 1995, p. 117). Ce sonnet est tout ce que le poète a pu fixer de cette « fugitive beauté » qui correspond bien à la définition de moderne selon Baudelaire dans Le Peintre de la vie moderne, où il affirme que la modernité, « c’est le transitoire, le fugitif, le contingent, la moitié de l’art, dont l’autre moitié est l’éternel et l’immuable » (BAUDELAIRE, p. 11). Toutefois, aussi fugitive que soit la beauté de la passante endeuillée, « sa jambe de statue » pétrifie le mouvement, tranformant la femme moderne en statue classique que Baudelaire loue dans « l’éloge du maquillage » dans lequel ce-dernier affirme que la poudre de riz « rapproche immédiatement l’être humain de la statue, c’est-à- dire d’un être divin et supérieur » (BAUDELAIRE, p. 24).
La dicotomie entre le classique et le moderne se retrouve aussi dans le poème « Le cygne », dedicacé à Victor Hugo, chef de file du cénacle romantique. Observons que Baudelaire construit ce poème en deux parties et en vers alexandrins dans lesquels il évoque « la lointaine et mythique Andromaque » (STIERLE, 2004, p. 531), l’épouse et veuve d’Hector, personnage épique d’Homère, certes, mais aussi d’Eurypide, de Virgile, et de Racine. Il s’agit donc d’une référence à la fois mythique et littéraire appuyée sur la tradition classique. Toutefois, il faut convenir que « Le Cygne » est avant toute chose un poème urbain, car bien qu’il fasse appel à Ovide, le poète ici n’est « qu’un seul flâneur » (STIERLE, 2004, p. 537) qui décrit dans ces vers la ville de Paris en proie aux travaux du Second Empire qui remplacent les rues médiévales par des boulevards Haussamannien. Karlheinz Stierle, s’interroge sur « le chemin qui conduit de la conscience de la ville à Andromaque, puis au cygne » ; d’après celui-ci, c’est « avec le souvenir des flaques d’eau » qui intervient comme « élément minimal de corrélation qui se reproduit dans sa mémoire » en rapprochant l’image de l’antique veuve d’Hector à celle du cygne évadé de l’ancienne ménagerie. La constatation des transformations de la ville de Paris déclenche une réflexion (ne pourrait-on pas dire aussi réflection ?) sur la perte, qui replace des personnages mythologiques et allégoriques dans le contexte urbain de la métropole moderne.
Or, cette tension entre le classique et le moderne dans le « Cygne » se prolonge au delà du fond et de la forme fixe par le biais du mélange de style : au sein du registre classique, se trouvent des expressions familières, telles que « tout ce camp de baraques » (v. 9), « ces tas » (v. 10) et les « gros blocs » (v. 11), ou encore le « bric-à-brac » (v. 12). La formule lyrique « je pense à » dont Baudelaire se sert à quatre reprises tout au long du poème, se situe selon Karlheinz Stierle « encore dans la tradition de Pétrarque ». Ce-denier aurait compris le pensare « comme unité de la perception, du souvenir, de la pensée et d’une émotion inconsciente antérieure à la pensée » qui était pour Pétrarque « à la fois l’objet et l’accomplissement du poème lyrique où s’exprimait un moi entré en conflit avec lui-même » (STIERLE, 2004, p. 530). La formule apparaît à la fois dans l’apostrophe emphatique du premier vers – « Andromaque, je pense à vous !» – et dans l’invocation énigmatique de la deuxième partie – « Je pense à la négresse ». Ainsi, la symétrie qui s’impose par la répétition de la formule pétrarquienne réunit l’antique Andromaque de Virgile et de Racine, à la négresse « amaigrie et phtisique,/ piétinant dans la boue » (p. 41-42) contemporaine de Baudelaire.
Il convient à présent de s’interroger sur la figure d’Andromaque qui, pleurant la disparition de son époux Hector, devient une « grande figure de remémoration, de la douleur du deuil et de l’exil » (STIERLE, 2004, p. 538). Selon l’interprétation de Karlheinz Stierle, le poème propose une « image mnésique idéale d’Andromaque en exil qui, dans la douleur profonde d’une remémoration passionnée », se libère de l’opprobre de l’exil imposé par la « concentration dans l’Un et l’Absolu, Hector » par laquelle naît le sublime du poème (STIERLE, 2004, p. 539). En outre, ce critique explique que l’épisode auquel Baudelaire fait allusion est extrait de L’Enéïde de Virgile, ne manquant pas de remarquer que « l’immense majesté de vos douleurs de veuve » (v. 3) est non seulement « un écho de la formule par laquelle Racine définit l’essence du tragique, elle évoque en même temps la « tristesse majestueuse » de l’Andromaque racinienne » qui, pour Racine, fait « tout le plaisir de la tragédie » (STIERLE, 2004, p. 528). Aussi, dans ce poème de Baudelaire, Andromaque peut-elle être « vil bétail » (v. 38) tout en incarnant la figure exemplaire de la mémoire endeuillée de la mémoire collective occidentale (STIERLE, 2004, p. 539).
L’image de cette veuve mythique représentée dans « Le Cygne » correspond à un commentaire des Fusées XVI dans lequel Baudelaire définit la beauté ainsi: « Je ne prétends pas que la Joie ne puisse pas s’associer avec la Beauté, mais je dis que la Joie est un des ornements les plus vulgaires, tandis que la Mélancolie en est pour ainsi dire l’illustre compagne ». De ce fait, le poète associe la Beauté à la Mélancolie au point où celui-ci ne peut concevoir « un type de Beauté où il n’y ait du Malheur ». Cette constatation de Baudelaire permet de comprendre pourquoi la figure de la veuve, en tant que femme endeuillée dont la disparition de l’époux provoque une « tristesse majestueuse », est reprise maintes fois dans ces poèmes. En effet, la Passante de Baudelaire correspond bien à sa definition du Beau : « c’est quelque chose d’ardent et de triste, quelque chose d’un peu vague, laissant carrière à la conjecture », qu’il applique à un objet sensible, à savoir, la femme.
Cet objet sensible apperçu au deuxième vers de « À une passante » définit comme « longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse » (v. 2) ne devient sujet qu’au dernier vers du poème : « ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais ! ». Alors que le premier hémistiche pose la passante comme l’objet complément direct par le biais de l’utilisation du pronom relatif « que », la passante devient objet aimée dans le dernier hémistiche du poème, lorsque le pronom relatif « qui » la transforme en sujet. D’autrepart, le parallélisme de l’expression marqué par l’anaphore « ô toi » emphatise le douloureux contraste entre le concept iréel du passé, souligné par le subjonctif plus-que-parfait « eusse aimée » – de nature déréalisante –, et la certitude de l’imparfait « savait ». Selon Antoine Compagnon, ce dernier vers réduit l’observateur « au désir et à la nostalgie ». Pour ce critique, la passante de Baudelaire « annonce (…) les femmes du roman de Proust, qualifées d’êtres de fuites, à jamais impossible à fixer » (COMPAGNON, 2014, p. 70).
Antoine Compagnon analyse le statut historique des veuves à l’époque, qui seraient les seules « femmes libres » qui constituent « un fantasme qui traverse toute la littérature du siècle », celui de « la jeune veuve vivant sa vie comme elle l’entend (…) ; elle a des désirs, et elle jouit de son indépendance » (COMPAGNON, 2014, p. 71). De plus, la veuve « en grand deuil » (v. 2) porte l’habit noir que Baudelaire considère comme « la pelure du héros moderne » dans le Salon de 1846. Toutefois, Antoine Compagno remarque encore que le noir est aussi la couleur de la nouvelle tenue des hommes sur les boulevards. Dans ce sens, « il y a donc quelque chose de masculin, de viril, chez les veuves » : leur indépendance (COMPAGNON, 2014, p. 71).
Cette analyse contribue à la compréhension de la veuve contemporaine à Baudelaire dans son poème « À une passante », néanmoins, elle ne pourrait guère s’appliquer à l’Andromaque du « Cygne », identifiée ci-dessus comme la figure mythique de la mémoire endeuillée. Sur ce point, le critique allemand Dolf Oehler propose une interprétation qu’il convient de présenter ici. Ce-dernier analyse la « relação dialética entre opressão e libertação constitui o cerne de O cisne » (OEHLER, 2004, p. 111). Son premier argument repose sur la dédicace à Victor Hugo, exilé depuis le coup d’État de Napoléon III, et qui « não cessava de menoscabar em prosa e verso o imperador Napoleão III, le petit » (OEHLER, 2004, p.111). Ensuite, Dolf Oehler rapelle que Baudelaire a vécu deux révolutions en soutenant les révoltés. De ce fait, « as correspondências entre o cisne e a revolução remetem inequivocamente às lutas fracassadas de junho de 1848 ». (OEHLER, 2004, p. 112). Le commentateur prend l’exemple du vers 18, où les pieds palmés du cygne « frottant le pavé sec » feraient allusion à l’expression « être sur le pavé » qui désignait la misère. S’appuyant sur le principe baudelairien de « a exatidão matemática das metáforas poéticas » (OEHLER, 2004, p. 113), Dolf Oehler affirme que “as imagens monádicas do cisne e de Andrômaca surgem agora como partes de uma série de estandartes e emblemas revolucionários; » (OEHLER, 2004, p. 113).
Andromaque, butin de guerre de Pyrrhus, est léguée à Hélénus, frère cadet d’Hector, étant ainsi contrainte d’épouser son ancien beau-frère, cette séquence « faz pensar na genealogia do bonapartismo » (OEHLER, 2004, p. 113). De plus, Louis-Napoléon arrache la république des mains de Cavaignac qui : « conhecido por sua arrogância e de fato um superbe Pyrrhus, teria chamado os massacrados de “vil bétail”» (OEHLER, 2004, p. 114). D’autrepart, Dolf Oehler souligne encore que « La République figurava nas representações alegóricas como uma mulher majestosa», ainsi, « Andrômaca é a mulher forçada a se casar – é notável, aliás a semelhança entre a cadência e a fonética de République e Andromaque » (OEHLER, 2004, p. 114). Afin de renforcer la métamorphose de la France/la Répulique/Andromaque, le critique expose du matériel complémentaire, mais extérieur au poème qui ne sera pas présenter ici. Toutefois, l’intérprétation qu’il donne de la négresse convient d’être mentionné : elle rapellerait le postulat de la révolution de 1848 qui proclamait l’égalité universelle et l’abolition de l’esclavage, de cette manière : « Também a negra está entre os órfãos da república, também ela é filha de Andrômaca, e também para ela, como para todos os órfãos da França, a dor foi mãe adotiva » (OEHLER, 2004, p. 116). Enfin, le commentateur explique cette métamorphose politique d’Andromaque évoquant « o mascaramento de conteúdos políticos sob formas mitológicas ou zoológicas é parte do método da retórica republicana-socialista, que se refinou continuamente depois das leis de censura » (OEHLER, 2004, p. 118).
Les deux veuves représentées dans « À une passante » et « Le Cygne » se revêtent ainsi de significations différentes. D’une part, la « fugitive beauté » apportée et emportée par la foule de la métropole moderne, d’autre part, la figure mnésique de la mémoire endeuillée, interprétée par Dolf Oehler comme la personnalisation de la République déchue. Cependant, malgré leurs divergences, toutes deux réunissent la tension fondamentale de la poésie baudelairienne, à savoir la dicotomie entre le classique et le moderne, à l’oeuvre sur le fond et la forme dans ces poèmes. En outre, le concept de la veuve, qui porte sur elle la mort, se rapproche de la conception du Beau de Baudelaire qui exclame dans l’Hymne à la Beauté que « L’amoureux pantelant incliné sur sa belle/ A l’air d’un moribond caressant son tombeau ». De ce fait, la mort et la beauté semble intrinsèquement liées chez Baudelaire, qui conclut ses Fleurs du mal dans « Le Voyage » en invoquant la mort, ce « vieux capitaine, il est temps ! levons l’ancre ! », afin de « plonger au fond du gouffre (…)/ Au fond de l’Inconnu pour trouver du nouveau !».
ANNEXES
« À une passante »
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité ?
Aillleurs, bien loin d’ici ! Trop tard ! Jamais peut-être !
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !
« Le Cygne »
À Victor Hugo
I
Andromaque, je pense à vous ! Ce petit fleuve,
Pauvre et triste miroir où jadis resplendit
L’immense majesté de vos douleurs de veuve,
Ce Simoïs menteur qui par vos pleurs grandit,
A fécondé soudain ma mémoire fertile,
Comme je traversais le nouveau Carroussel.
Le vieux Paris n’est plus (la forme d’une ville
Change plus vite, hélas ! que le coeur d’un mortel) ;
Je ne vois qu’en esprit tout ce camp de baraques,
Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts,
Les herbes, les gros blocs verdis par l’eau des flaques,
Et, brillant aux carreaux, le bric-à-brac confus.
Là s’étalait jadis une ménagerie ;
Là je vis, un matin, à l’heure où sous les cieux
Froids et clairs le Travail s’éveille, où la voirie
Pousse un sombre ouragan dans l’air silencieux,
Un cygne qui s’était évadé de sa cage,
Et, de ses pieds palmés frottant le pavé sec,
Sur le sol raboteux traînait son blanc plumage.
Près d’un ruisseau sans eau la bête ouvrant le bec
Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre,
Et disait, le coeur plein de son beau lac natal :
« Eau, quand donc pleuvras-tu ? quand tonneras-tu, foudre ? »
Je vois ce malheureux, mythe étrange et fatal,
Vers le ciel quelquefois, comme l’homme d’Ovide,
Vers le ciel ironique et cruellement bleu,
Sur son cou convulsif tendant sa tête avide,
Comme s’il adressait des reproches à Dieu !
II
Paris change ! mais rien dans ma mélancolie
N’a bougé ! Palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,
Et me chers souvenirs sont plus lourds que des rocs.
Aussi devant ce Louvre une image m’opprime :
Je pense à mon grand fygne, avec ces gestes fous,
Comme les exilés, ridicule et sublime,
Et rongé d’un désir sans trêve ! et puis à vous,
Andromaque, des bras d’un grand époux tombée,
Vil bétail, sous la main d’un superbe Pyrrhus,
Auprès d’un tombeau vide en extase courbée ;
Veuve d’Hector, hélas ! et femme d’Hélénus !
Je pense à la négresse, amaigrie et phtisique,
Piétinant dans la boue, et cherchant, l’oeil hagard,
Les cocotiers absents de la superbe Afrique
Derrière la muraille immense du brouillard ;
À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve
Jamais, jamais ! à ceux qui s’abreuvent de pleurs
Et tettent la Douleur comme une bonne louve !
Aux maigres orphelins séchant comme des fleurs !
Ainsi dans la forêt où mon esprit s’exile
Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor !
Je pense aux matelots oubliés dans une île,
Aux captifs, aux vaincus !… à bien d’autres encor !
BIBLIOGRAPHIE
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Bio fornecida pelo palestrante.
Universidade de São Paulo
Resumo: O presente artigo delimita as nuances semânticas do conceito literacia (tradução do inglês literacy) a fim de compreender seu constante uso dentro do campo da Comunicação e Educação. Para tanto, mapeia o uso do termo no perímetro epistemológico da Literatura e dos Estudos Culturais desde o final do séc. XIX até a década de 1980. É possível esboçar que Literacia leva em seu gene etimológico um leque semântico, o qual se encaixa em suas atribuições de sentidos atuais com designações próximas aos conceitos de alfabetização e letramento, porém em um sentido mais interdisciplinar e afirmativo em relação ao desenvolvimento humano.
Palavras-chaves: Literacias, Alfabetização e Letramento, Estudos Culturais, Nuances Semânticas.
Abstract: This paper defines the semantic nuances of the concept of literacy (originally an English word) in order to understand its constant use in the Communication in the Educational field. To this end, it maps the use of the term in the epistemological area between Literature and Cultural Studies from the end of the 19th Century until the 1980s. It is possible to sketch that literacy contains a wide semantic range in its etymology, which can adapt to its current uses in Portuguese. Those relate to concepts that approach the designation of literacy and reading learning, but which are employed in a more interdisciplinary and humanistic sense.
Key Words: Literacies, Reading learning, Cultural Studies, Semantic Nuances.
Currículo: É natural de São Paulo e aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – PPGCOM/ECA/USP. Graduada em Artes Visuais e Mídia pelo Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia – IArte/UFU. É pesquisadora associada do Observatório da Cultura Digital do Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Escola do Futuro da Universidade de São Paulo – NACE – EF/ECA/USP. Tem experiência nas áreas de Comunicação e Educação, Ensino Especial, Educação Artística e Fotografia.
UMA RETROSPECTIVA DO USO DO TERMO LITERACIA: SENTIDOS ATRIBUÍDOS E DERROTADOS ENTRE O FINAL DO SÉCULO XIX E MEADOS DO SÉCULO XX
Beatrice Bonami Rosa
Universidade de São Paulo
Introdução
A palavra literacia, em sua origem na língua inglesa (final do século XIX), denotava alfabetização/letramento. Em sua associação com a mídia, a informação e a tecnologia, o termo foi estendido para definir habilidades e competências envolvendo a busca, a seleção, a análise, a avaliação e o processo da informação, considerando os meios, contextos e ambientes em que se encontra e se produz o conhecimento. Historicamente, foi um conceito associado ao crescimento e à evolução das sociedades, mas somente em meados do século XX, acadêmicos se interessaram pelo real sentido da palavra. Ela não mais denotou um sentido vinculado somente ao “letramento”, mas foi associada a um processo educacional mais amplo, que envolve práticas sociais e culturais.
A questão “O que é literacia?”, tanto é difícil de se perguntar quanto de se responder. As discussões sobre o conceito se tornaram comuns desde a década de 1960 e chegou a se colocar que o número de definições da palavra é diretamente proporcional à quantidade de usuários. Na educação, ideias como novas literacias, múltiplas literacias, multiliteracias, entre outras, proliferaram no discurso do professor e no discurso literário. Por ser um termo amplo e interdisciplinar, é preciso defini-lo para não se tornar vago.
Literacias no Contexto Cultural
O termo tem sido abordado no Brasil nos últimos anos na área da “Comunicação na Educação” para designar novas habilidades desenvolvidas pelo sujeito exposto às novas mídias, informações e tecnologias. Comumente articulada a outros conceitos, literacia se torna um termo composto, tal como: literacias digitais ou literacias em mídia e informação. Na língua portuguesa, a palavra “literacy” (do inglês) é oficialmente traduzida como letramento ou alfabetização, sendo assim ligada ao campo da pedagogia e da literatura.
Em referência aos termos compostos também no inglês – “digital literacy” e “media and information literacy” – surgiram expressões tais como: letramento informacional, alfabetização informacional, habilidade informacional e competência informacional. No entanto, existe uma tendência em utilizar no lugar dessa tradução, uma expressão mais literal, daí o uso da palavra “literacia”. A tradução literal abarca a abrangência do radical da palavra original, já que o conceito, desde seu uso mais primórdio, já contemplava habilidades para além do letramento (escrita e leitura), mas também noções de interpretação e produção relativas à área da literatura e da cultura.
É aberto um leque semântico em relação à palavra, e essa amplitude é fruto do desenvolvimento do termo desde o final do século XIX até a década de 1980. Foram selecionados três autores que investigaram e delimitaram conceitualmente o radical. O primeiro, Raymond Williams, foi propositor de um procedimento metodológico para investigação semântica de palavras em que usou e pontuou o termo “literacy” dentro da história. Além dele, Richard Hoggart e Eric Donald Hirsch foram autores selecionados pelo extensivo uso do termo aplicado na área da cultura, uma virada semântica importantíssima, pois o termo era primordialmente associado a noções de alfabetização.
Raymond Williams (1921-1988), acadêmico, crítico e novelista galês, publicou em 1977 o livro Key-Words (traduzido no português como Palavras-chaves, São Paulo, BoiTempo, 2007). Em sua publicação, Williams relaciona os processos de construção semântica das palavras ao longo da história. Sua motivação para a escrita do livro foi a sua volta do serviço militar na Segunda Guerra Mundial, evento que interrompeu seus estudos em Cambridge. Ao seu regresso, detectou alguns termos articulados de maneira diferente e empregados em outros círculos sociais, em especial a palavra “cultura”. Passou a investigar esses processos de construção de sentido dentro da língua britânica.
Seu propósito era articular conceitos de linguagem que apresentassem os limites e as pressões das ações humanas, já que toda palavra é subordinada ao uso e contexto sociais. Desse ângulo, ao longo de cada verbete, é preciso entender quais foram as opções de sentido derrotadas, quais foram impostas e a serviço de quê. Apesar da estrutura (e do posicionamento na ala de Referências da Biblioteca), o livro não consiste de um dicionário ou glossário de um assunto acadêmico específico. Trata-se de uma investigação a respeito de um vocabulário que percorre o perímetro entre duas palavras: cultura e sociedade.
Naturalmente, nem todas as questões semânticas são entendidas por simples análises de palavras, valendo-se da descrição do contexto, bem como de fenômenos históricos associados com conceitos que elucidem o verbete. Contudo, o significado não pode dissolver-se nesse contexto, apesar da palavra não ser autônoma e estar no processo social da língua.
Algumas palavras, verbetes por assim dizer, são interessantes destacar como “comunicação” que somente no século XX passou a se referir à mídia (ou meio); ou então a palavra “indivíduo” em que atribui o seu significado do resultado de pensamentos científicos, políticos e econômicos, pois originalmente, seu significado seria “indivisível” ou aquilo oposto ao “geral”. Exemplos à parte, como o objetivo deste estudo é a investigação do uso do termo “literacias”, foi dirigida a atenção ao verbete de “literatura”.
Literatura correspondia aos significados de “literacy”, originalmente traduzido como “letramento”, uma palavra nova do final do século XIX. O termo literacy significava tanto a capacidade de ler quanto a condição de ser muito lido (em outras palavras, de ser culto). Literacy (letramento) e illiteracy (analfabetismo) tornaram-se conceitos cruciais em uma perspectiva muito mais ampla.
Desde o século XVIII, o termo “analfabetismo” indicou a incapacidade geral de ler e escrever, enquanto “letramento” foi uma palavra usada para expressar a obtenção e a posse de competências vistas como, cada vez mais, gerais e necessárias. Segundo Williams, “literacy” comporta uma abrangência em seu significado, abrindo um leque referente a quais competências o indivíduo poderia desenvolver, mesmo que no campo da literatura.
Não obstante, o autor atribui uma perspectiva libertária à literacia, pois, uma vez que o indivíduo aprende a ler, ele passa a compreender seu contexto. Quando um sujeito se torna letrado, ele atribui sua habilidade de acordo com a demanda que lhe convier. Como exemplo, em outro livro (Television: Technology and Cultural Form, 1975), Williams expõe que na Revolução Industrial Britânica, primordialmente, só se ensinava o indivíduo a ler, e não a escrever, para absorver os significados culturais, bem como instruções escritas no trabalho e ensinamentos morais religiosos pela Bíblia. No entanto, sem poder reproduzi-los através da escrita, fator considerado irrelevante em sua educação, já que raramente os trabalhos demandavam a palavra escrita. Mas, segundo o autor,
There was no way to read the Bible which did not also enable him to read the radical press. A controlled intention became an uncontrolled effect. Yet the acquisition of literacy, then as now, almost always involve submission to a lengthy period of social training – education – in which quite other things than literacy or similar skills were taught” (WILLIAMS, 1975, p. 131)[1].
Em confluência com esse tema apontado por Wiliams em um de seus verbetes, pode-se citar HOGGART (1957). Richard Hoggart (1918-2014), acadêmico e sociólogo britânico, escreveu o livro “The Uses of Literacy” (1956) traduzido para o português como “As Utilizações da Cultura: aspectos da vida cultural da classe trabalhadora” (Lisboa, 1957). Em seu livro, Hoggart faz uma análise dos aspectos culturais da vida do proletariado desde o final da década de 1910 (após a Revolução Russa de 1917), observando as mudanças significantes traduzidas pela cultura de massa e pelos novos meios de comunicação: o rádio e a televisão. Primeiramente, ele define quem é esse “povo” à que a cultura de massa está direcionada e como é a vida do povo (a posição do gênero, a família, a comunidade e a religião). Depois, passa-se à análise literária das publicações populares:
Deve-se tentar ver, para além dos hábitos, aquilo que os hábitos representam, ver através das declarações e respostas o que estas realmente significam (significado que pode ser oposto a essas próprias declarações), detectar os fatores emocionais subjacentes às frases idiomáticas e observâncias ritualísticas” (HOGGART, 1957, p. 20).
O autor dispõe que a linguagem é de grande importância no desenvolvimento cultural da população e, por conseguinte, as produções em literatura:
Uma vez que o ensaio estuda a modificaçã cultural[ii] interessa sobretudo outros aspectos mais sutis do estilo de vida que caracteriza o proletariado. A linguagem será de grande utilidade, e em particular o conjunto das frases de uso comum. As maneiras de falar, os dialetos, sotaques e entoações, sejam provavelmente mais úteis” (HOGGART, 1957, p. 25).
Notas
1 Não há maneira de ler a Bíblia sem que isso permita o indivíduo ler a imprensa “radical”. Uma intenção de controle assume um efeito incontrolável. Além disso, a aquisição do letramento, agora como antes, quase sempre envolve submissão a um longo período de estágio social – educação – no qual outras coisas além da alfabetização ou habilidades são ensinadas. (Tradução livre).
2 Sendo modificação cultural tradução equivalente ao termo “literacy” na obra de Hoggart (1957).
No livro, o termo “literacy” é associado ao termo “cultura” ligado ao campo da literatura (já que a expressão literária é um fator importante na composição cultural de um grupo comunitário). Além disso, a competência cultural (literacy) está mais próxima ao literário do que ao linguístico, assumindo uma definição generalizada que permite o livre arbítrio entre expressões, observações e pensamentos relevantes na literatura.
A correspondência entre “cultura” e “literacy” é exata quando se refere à multiplicidade e amplitude que ambos os termos empregam. Essa representação é encarada nesse estudo como uma virada semântica importante na construção do termo literacia. Tal associação ainda é próxima do termo “Cultural Literacy” cunhado pelo acadêmico e crítico literário Eric Donald Hirsch (nascido em 1928 nos Estados Unidos) em seu livro “Cultural Literacy: what every american needs to know” (Literacia Cultural – o que todo americano precisa saber – Boston, 1987). Na publicação, Hirsch cunha o termo “cultural literacy” (que em português foi traduzido como alfabetização cultural) referindo-se à habilidade de compreender e participar em uma cultura, e não só ser fruto dessa:
English teachers by profession are committed to the ideology of literacy. They cannot successfully avoid the political implications of that ideology by hiding behind the skirts of methodology and research. Literacy implies specific contents as well as formal skills. Extreme formalism is misleading and evasive” (HIRSCH, 1987, p. 161).[1]
O termo é uma analogia à “literacy proper” (linguística apropriada – que foi exposta pelo autor como a habilidade de ler e escrever cartas) definindo, não uma pessoa alfabetizada/educada que saiba o suficiente de língua, gramática e vocabulário, mas uma pessoa culturalmente alfabetizada/educada que saiba propriedades linguísticas e semióticas (signos e símbolos) da cultura ao qual se identifica, tais como linguagem, dialetos, histórias, costumes etc. Segundo o autor, ao final do ensino uma pessoa deveria já ter adquirido essas habilidades e competências necessárias para se viver em sociedade e participar ativamente da cultura.
A associação entre Hoggart e Hirsch desloca o termo “literacy” do campo literário e o realoca em um contexto educacional mais amplo, que não se restrinja à capacidade de leitura e escrita. Foi parte do início dos questionamentos dos currículos escolares, que antes da década de 1960, consideravam o estudante parte de uma cultura e, a partir de então, o consideravam um integrante ativo, como ele cita “Literacy is not just a formal skill; it is also a political decision. The decision to want a literate society” (HIRSCH, 2002, p. 162)[2].
Talvez, a correspondência entre o termo na literatura e na cultura é porque “Knowledge of words is an adjunct to knowledge of cultural realities signified by words, and to whole domains of experience to which word refer” (HIRSCH, 2002, p. 159)[3]. Esse breve relato descreve um importante “turning point” (ponto de inflexão) da semântica do termo “literacy”: que antes era referente à literatura e passou a se referir à cultura como um todo. E pode ser ilustrada pelo testemunho de Hoggart no “Journal of Basic Writing”, quando alega:
We all need literacy, imaginative and intellectual literacy; because it is an essential part of our movement towards greater critical self-awareness brought to bear on our own lives and on what society offers us as the desirable life. We all need the continued nourishment, which can be given by contact with other, finer, minds” (HOGGART, 1980, p. 80).[4]
A década de 1970, foi um período chave em que a informação e a mídia foram repensadas dentro do quadro social. Assim, começou a profunda investigação sobre quais conjuntos de habilidades eram necessários para o uso da informação e dos meios de comunicação.
A transição, de uma visão canônica de letramento às múltiplas formas de expressão aplicadas à convergência das mídias em um contexto multicultural, trouxe novas investigações sobre as literacias. Porém, para entender os impactos e aplicações do termo, não se pode se restringir às teorias ou mesmo à pedagogia. É preciso compilar diferentes documentos, discursos, vozes e pesquisas sobre como ter uma experiência significativa ao se conectar com os meios de comunicação, sejam eles digitais ou analógicos. Sem essa síntese, as questões acerca da palavra serão incompletas.
Novas Literacias
Não existe uma teoria sobre literacias e sim várias delas, mas de maneira geral se leva em consideração seu contexto sociocultural além do contexto educacional. Essa perspectiva tem sido presente por décadas:
Some may argue that this treatment reflects the relative ‘newness’ of the acceptance of sociocultural perspectives on literacy development; however, sociocultural and sociolinguistic theories on literacy development and practice have been influential for decades” (PERRY, 2012, p. 51).[5]
Essa abordagem sociocultural é uma coleção de teorias relacionadas que incluem contextos sociais e culturais nos quais as literacias são trabalhadas. As maiores perspectivas teóricas estão relacionadas à literacia como prática social e como conjunto de várias habilidades.
A literacia, uma vez compreendida como conjunto de práticas sociais e não apenas como simples e específica habilidade cognitiva, depende de uma série de recursos, tais como: artefatos físicos (livros, revistas, jornais, periódicos, computadores); conteúdo relevante sendo transmitido por esses meios; habilidades apropriadas, conhecimento e atitudes por parte do usuário; e tipos mais adequados de suporte social e da comunidade” (PASSARELI, 2010, p. 74).
Isso contribui para uma constelação de termos compostos como: literacia sociocultural, literacias digitais emergentes, multi-literacias, literacias de mídia e informação com implicações que vão além do perímetro escolar e dos artigos acadêmicos:
Metaphors for literacy do not stand on their own. They are part of a particular view on literacy that has implications for how we think about learners, how we think about what they ought to learn and how this could be achieved” (PERRY, 2012, p. 52).8
A perspectiva sociocultural é derivada do contexto sócio linguístico, já que a língua (idioma, fonética, símbolos e significados) é parte fundamental de uma cultura. Naturalmente, a linguagem tem bagagens como: as relações sociais; os modelos culturais; e as dinâmicas econômicas e políticas de uma sociedade. No contexto das literacias, elas envolvem ações e competências abarcadas na prática cultural, como por exemplo a expressão escrita da pessoa.
Perry em seu artigo “What is Literacy? – A critical overview of sociocultural perspectives” (O que é literacia? Um panorama crítico das perspectivas socioculturais) publicado em 2012, sugere as literacias como práticas em contexto social (coletivo) referentes aos diferentes domínios da vida. Algumas delas se tornam mais dominantes dependendo dos ambientes de aplicação.
É importante perceber como é sua construção histórica em uma perspectiva macro (sociedade) e micro (focada no indivíduo) percebendo os eventos envolvendo literacias (onde elas podem ser observadas) e práticas que as envolvem (onde é preciso inferir sua utilização). A perspectiva das literacias como práticas sociais não explica como o sujeito aprende ou se engaja em conteúdos, porém, Perry (2012) afirma que ela ajuda a descrever quais tipos de conhecimento são necessários para realizá-las como atividades.
Quando se compreende as diversas maneiras que diferentes pessoas fazem uso de suas literacias, é possível melhor entender o processo educativo e de construção do conhecimento como um todo. Naturalmente, toda teoria, ou conjunto de teorias tem limitações e controvérsias, por exemplo, o fato da própria palavra “literacia” ser, por vezes, somente associada ao sentido de “letramento”.
Devido à convergência com os significados de letramento, competência e alfabetização é preciso de cautela em associar esses conceitos dentro do campo da Comunicação e da Informação. Por exemplo, ao empregar a palavra “alfabetização” em situações que os sujeitos sejam letrados ou já tenham completado os ensinos básicos de educação, pode-se atribuir um sentido pejorativo, sugerindo que o indivíduo seja um “analfabeto informacional”. O mesmo acontece ao se referir à “competência”, abrindo a sugestão de que, quem não as desenvolve se tornaria um “incompetente informacional”. As literacias em seus termos compostos dispensam essas divergências ou mesmo conflitos em relação ao sentido empregado das palavras, e propõem uma posição afirmativa do sujeito que aprende essas novas habilidades e competências sem diminuir seu histórico escolar tradicional.
Os estudos a consideram muito mais ampla e por vezes desvinculada do próprio campo literário ou da alfabetização. Deve sim ser aproximada ao campo educacional, mas na perspectiva de “conscientização” e de “desenvolvimento”. A palavra é tão ampla, que se encontra no limiar de se tornar sem significado, e por isso é preciso ser criterioso em seu uso. Contudo, ela pode ser definida como “any form of communication/thinking” (PERRY, 2012, p. 64)9.
O que precisa ser compreendido é como o desenvolvimento das discussões acerca do termo ocorre em uma gama de contextos – sendo a educação formal apenas um deles, pois todo ambiente tem também sua parcela educativa.
O desenvolvimento do radical como conjunto de habilidades e competências praticado e desenvolvido pelo sujeito em contextos educacionais e socioculturais leva à questão de como se relacionar com conteúdos, informações e mídias, partes tão importantes do convívio social. Ainda, como esses fatores influenciam o processo educativo já que a cultura de massa tem um alcance exponencial devido às novas tecnologias.
Considerações Finais
A constante articulação do termo “literacia” em pesquisas relacionadas à Comunicação e à Educação foi a motivação desse trabalho. Por vezes, essa abordagem parece ser construída como uma simples substituição ao termo “alfabetização informacional”. Por outro lado, é também encarada como uma criação de uma nova tendência nesse mesmo perímetro epistemológico. Não obstante o conceito foi revisado em seus diferentes vértices com a Literatura e a Cultura. Foi observado que o termo tem em seu gene etimológico um caráter amplo e flexível, apropriado ao seu emprego nas atuais pesquisas. A construção semântica ganha notoriedade na década de 1980, enfatizando o processo cultural e social sobre a pesquisa de novas mídias e as novas maneiras de se pensar a informação. Os estudos em comunicação, educação e tecnologia as observam dessa maneira, como um mediador e não como um agente. O agente transformador é o sujeito exposto a elas que desenvolve as habilidades necessárias para praticar as múltiplas ações exigidas pela rede contemporânea. Junto com as novas tecnologias se acopla a convergência das mídias e também das informações.
A perspectiva das literacias tem se difundido e consolidado de tal forma, que a United Nation of Educational, Scientific and Cultural Oraganization (UNESCO) já há algum tempo discute o tema, reconhecendo-o como um direito humano fundamental, devido ao seu caráter construtivo e afirmativo tão necessários nos processos linguístico e educacional. A tradução literal para o termo “literacy” se emprega justamente por essa flexibilidade da palavra ao se movimentar e integrar novas associações. Para além do triângulo informação, tecnologia e mídia, há uma vasta gama de literacias emergentes desenvolvidas na sociedade da informação.
Os estudos no campo estão em desenvolvimento e carecem de pesquisas sobre o tema tanto para delimitar as nuances conceituais, quanto para definir aplicações práticas no contexto educacional brasileiro. Não obstante, esse artigo pretende incentivar novas pesquisas na área, bem como integrar um referencial teórico em construção.
3 Professores de línguas eficientes estão comprometidos com a ideologia da alfabetização. Eles não conseguem evitar eficazmente as implicações políticas da ideologia oculta nas saias da metodologia e da pesquisa. Alfabetização implica conteúdos específicos, bem como as competências formais. O formalismo extremo é enganador e evasivo. (Tradução Livre).
4 A alfabetização não é somente uma habilidade formal, é também uma decisão. A decisão de se querer uma sociedade alfabetizada. (Tradução Livre).
5 O conhecimento das palavras é um complemento ao conhecimento das realidades culturais significadas pelas palavras, e também a todo o domínio da experiência a que se refere a palavra. (Tradução Livre).
6 Todos nós precisamos de literacias, letramento imaginativo e intelectual, porque é uma parte essencial do nosso movimento em direção a uma maior autoconsciência crítica exercida sobre nossas próprias vidas e sobre o que a sociedade nos oferece como vida desejável. Todos nós precisamos do alimento contínuo, que pode ser dado pelo contato com outras mentes. (Tradução Livre).
7 Alguns podem argumentar que este tratamento reflete a “novidade” em relação à aceitação de perspectivas socioculturais no desenvolvimento das literacias; no entanto, as teorias socioculturais e sociolinguísticas sobre o desenvolvimento das literacias e suas práticas foram influentes ao longo de décadas. (Tradução Livre).
8 Metáforas para a literacia não se levantam por conta própria. Elas fazem parte de uma visão particular que tem implicações na forma como pensamos sobre os alunos, como pensamos sobre o que eles devem aprender e como isso pode ser alcançado. (Tradução Livre)
9 Qualquer forma de comunicação/pensamento. (Tradução Livre).
Bio fornecida pelo palestrante.
LEITURA LITERÁRIA E MEDIAÇÃO: DESAFIOS DOCENTES
Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima
Universidade Estadual de Feira de Santana/
Universidade Federal da Bahia
Dinéa Maria Sobral Muniz
Universidade Federal da Bahia
RESUMO: Neste artigo, buscamos discutir se há efetiva contribuição por parte dos cursos de formação inicial (graduações) para a aproximação dos discentes com os objetos culturais de leitura e, especificamente, na formação de leitores e de mediadores de leitura. Hoje sabe-se que o aprendizado da leitura não se limita ao ato de aprender a ler, uma vez que ele se insere numa prática social e cultural. Nele relatam-se práticas de leitura por meio da metodologia dos Círculos de leitura e da prática de contação de histórias como estratégias de aproximação dos alunos à leitura literária. Apontam-se os desafios existentes e a forma de criar estratégias de mobilização, de incentivo, de oferta de vivências leitoras e de práticas culturais de leitura, visando a uma formação leitora plena e sólida, propiciando práticas atraentes, significativas e mobilizadoras de novas aprendizagens.
Palavras-chave: Leitura literária; práticas culturais de leitura; formação de leitores; círculo de leitura; mediação.
ABSTRACT: In this article we discuss if the undergraduate courses effectively contribute to prepare students to teach and make them aware of the importance of the cultural aims of reading, and most specifically to the formation of readers and reading teachers. We all know that reading goes beyond this simple act but that it is inserted in a social and cultural frame. This article presents practices of reading through the methodology of Reading Circles and that of story-telling as effective strategies to make students get used to literary reading. It also discusses the present challenges and proposes mobilization strategies to stimulate and offer new reading practices within a cultural frame, aiming at the preparation of students.
Key-worls: Literary reading ; cultural practices of reading; formation of readers; reading circle; mediation.
Currículos:
Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima é Mestre em Educação e Contemporaneidade pela UNEB, Professora Assistente do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), membro do Núcleo de Leitura Multimeios da UEFS, Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem – GELING/UFBA.
Dinéa Maria Sobral Muniz é Doutora em Educação e Professora Associada do Departamento de Educação II da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), é membro do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem – GELING/UFBA.
LEITURA LITERÁRIA E MEDIAÇÃO:
DESAFIOS DOCENTES
Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima
Universidade Estadual de Feira de Santana/
Universidade Federal da Bahia
Dinéa Maria Sobral Muniz
Universidade Federal da Bahia
Introdução
“Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver”.
Tzvetan Todorov
Para início de conversa queremos dialogar com Todorov, mais especificamente com sua obra A literatura em perigo, quando este nomina um de seus capítulos com o título “O que pode a Literatura?”. Esta questão tão instigante nos remete a pensar se esta tem sido mote de reflexão e análise nos espaços institucionais de formação de leitores. Para Todorov,
A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. (…) ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro (TODOROV, 2012, p.76).
Se a literatura pode tanto a ponto de nos alegrar, nos entristecer, nos mobilizar a viajar por entre tempos, culturas, linguagens, por que efetivamente ainda não possui um lugar assegurado, respeitado e valorizado nos processos formativos tanto dos alunos quanto dos professores?
Na história da leitura muitos são os exemplos de tentativa de restringir o acesso à leitura às mulheres, à grande massa, pois se reconhece que a leitura pode inspirar desejos, reflexões, análises, empoderar as pessoas e transportá-las para lugares e posições incontroláveis.
Historicamente, tem sido reservada ao espaço escolar certa prioridade ou exigência de ensinar aos sujeitos o ato de ler. Entretanto, todos nós sabemos que a prática da leitura é uma prática social e cultural; logo, acontece de forma contínua e frequente nos mais variados espaços.
Portanto, formar leitores proficientes deve ser encarado como responsabilidade da escola, mas, considerando as múltiplas práticas de leitura que permeiam o contexto sociocultural, não cabe apenas à instituição formal assumir tal responsabilidade. Emilia Ferreiro, na década de 80 do século XX, já afirmava que nossas crianças não nos pedem licença para aprender a ler. Logo, é possível perceber que as vivências cotidianas, os encontros variados com os materiais impressos e com as várias linguagens impõem aos sujeitos, desde muito cedo, o exercício de seu poder criativo e curioso para desvelar os mistérios oferecidos diuturnamente.
Essa temática ainda nos mobiliza nos dias atuais. Mesmo com todos os avanços nos estudos e nas pesquisas que tematizam as práticas de leitura e a formação de leitores, percebemos a necessidade de focar o olhar para brechas oriundas do processo formativo nos espaços das universidades, locus privilegiado de formação docente. Tanto quanto à necessidade de sensibilização para a formação do professor leitor de textos de literatura quanto para a ampliação dos repertórios literários oferecidos aos graduandos dos cursos de licenciaturas no seu percurso formativo.
Neste artigo, buscamos discutir até que ponto os cursos de formação inicial (graduações) vêm efetivamente contribuindo para a aproximação dos discentes com os objetos culturais de leitura e, especificamente, se tem contribuído na formação de leitores e, consequentemente, na formação de mediadores de leitura.
Muitos são os teóricos e as pesquisas que discutem na atualidade as práticas culturais de leitura, as histórias de leitura e as políticas públicas de leitura. Entretanto, pesquisar sobre o impacto e/ou contribuição dos cursos de formação inicial, especificamente os cursos de licenciaturas de Universidades Públicas na Bahia, na formação de leitores, constitui o foco deste trabalho, haja vista ser este o locus de nossa atuação como docentes.
O ambiente escolar como espaço privilegiado de encontro com a Literatura
“Ler é evitar que a alma enfarte”
Jorge de Souza Araujo
Os espaços de aprendizagens em uma sociedade globalizada como a nossa vêm se alargando a cada dia. Assim, cabe à universidade, como instituição formadora, trazer para o seio do debate as questões que envolvem e circundam os processos formativos dos seus discentes/professores. Algumas questões são pertinentes para nos ajudar a pensar sobre o lugar da Universidade na formação, e mais precisamente, analisar se os cursos de formação de professores têm oportunizado práticas de aproximação e sensibilização para a leitura literária? Que lugar a literatura vem assumindo no planejamento pedagógico dos professores? Sala de aula e literatura: é possível estabelecermos uma relação de complementaridade? A que literatura estamos nos referindo?
Sabemos que a década de 90 do século XX foi marcada pela busca por formação inicial oferecida nos espaços acadêmicos. Assim, visando atender aos pleitos legais, muitas parcerias foram instituídas entre as prefeituras municipais e as Universidades, com vistas a qualificar o quadro docente e atender as exigências expressas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Lei nº 9.394/96.
Desse cenário, surge uma importante questão que é compreender até que ponto a universidade tem efetivamente contribuído na formação de professores mediadores de leitura? As práticas leitoras oferecidas/desenvolvidas nos cursos de licenciaturas têm sensibilizado os graduandos para o encontro com a literatura?
Se “o pleno exercício da democracia representativa impõe a completa inexistência de cidadãos de segunda classe, de excluídos sob qualquer natureza ou determinação. Logo, todos temos direito assegurado constitucionalmente à informação, à leitura, ao debate, à participação na vida coletiva”, como afirma Araújo (2006) então, o curso que tem como papel maior a formação de professores não pode prescindir dessa responsabilidade.
Aliado a essas reflexões não podemos desconsiderar o fato de que muitos currículos dos cursos de licenciaturas não oferecem disciplinas que tenham como foco a leitura literária e as práticas com a Literatura. A ausência de disciplinas com este propósito nos currículos vem sendo analisada como um equívoco teórico-epistemológico, pois, se nós desejamos formar discentes leitores e professores mediadores de leitura, precisamos em primeiro lugar garantir aos professores a oportunidade também dessa formação, pois só conseguiremos despertar e sensibilizar o gosto pela leitura, se nós também tivermos gosto, desejo e competência em ler. As consequências dessa formação lacunar podem ser referendadas quando Aguiar afirma:
Na verdade, a escola preocupa-se em transmitir ensinamentos sobre literatura e não em ensinar a ler. A educação formal tem por objetivo repassar dados sobre a história dos autores e das obras, cobrar exercícios de análise de textos para emissão de juízos, buscando fazer de todo leitor um conhecedor de literatura. O resultado, em nosso contexto, é o fracasso: o aluno não se torna um especialista nem se converte em leitor (AGUIAR, 2013, p. 76-77).
E assim, presenciamos, mais uma vez, um grande fosso entre os discursos e as intenções presentes na academia e as práticas cotidianas com a literatura no ambiente escolar. Para apimentar ainda mais essa análise, como dito em outro texto, “desconfiamos que, não raramente, a escola costuma ser muito medrosa quando se trata de arriscar, de experimentar novidades, ou melhor, de mudar” (MUNIZ, 2014, p. 111).
É importante salientar que muitos dos nossos discentes, dos cursos de licenciaturas, já são professores em efetivo exercício da docência, ou seja, já atuam na Educação Básica, seja na educação infantil ou nos anos iniciais do ensino fundamental. Portanto, atuam com o público que desejamos que se tornem leitores. Assim sendo, tratar da articulação universidade e Educação Básica é hoje uma discussão necessária e instigante.
Pensar o papel da leitura, e mais detidamente, o papel da leitura literária na formação/sensibilização/encantamento dos sujeitos que lidam ou lidarão na formação de outros tantos sujeitos, é uma questão emergente. Afinal,
O processo de leitura pressupõe, portanto, a participação ativa do leitor, que não é mero receptor de uma mensagem acabada, mas ao contrário, interfere na construção dos sentidos, preenchendo os vazios textuais de acordo com sua experiência de leitura e de vida. Isso se dá porque a obra fornece pistas a serem seguidas pelo leitor, mas deixa muitos espaços em branco, nos quais ele não encontra orientação e precisa mobilizar seu imaginário para continuar o contato (AGUIAR, 2013, p. 153).
Portanto, compreender a leitura como uma prática social, cultural, individual e coletiva, ou seja, tratá-la numa perspectiva formadora e formativa é reconhecer um novo momento e um desafio atual para a escola como agência de letramento. Acerca deste desafio, salienta Cordeiro:
Recuperar a leitura literária no espaço escolar é uma tarefa de construção de novas formas de lidar com a literatura e de desconstrução de amarras e regras que a pedagogia teima em prescrever e rotular segundo a classificação das obras em escolas e gêneros literários, sem falar nas fichas de leitura, nos velhos exercícios de interpretação e nos breves comentários sobre o autor, a obra, seu tempo e a escola literária à qual pertence (CORDEIRO, 2006, p. 92).
Assim sendo, cabe a nós como professores formadores e como mediadores de leitura, responsáveis em muitos casos pelo encontro do discente com a leitura literária, oportunizar e criar situações que possam provocar neles o desejo, o gosto, a vontade de ouvir, de manusear livros, de continuar a leitura para além do espaço da sala de aula.
A recente pesquisa Retratos da leitura no Brasil revelou que há um decréscimo do nível de leitura quando os sujeitos concluem suas trajetórias estudantis, seja na educação básica ou nível superior. Estes dados revelam a forte relação do ato de ler às obrigatoriedades das tarefas escolares. É necessário, portanto, refletirmos sobre os objetivos das práticas de leitura e as vivências leitoras oportunizadas nos espaços escolares, posto que as pesquisas têm revelado que estas tem sido encaradas apenas como práticas escolares e, consequentemente, não tem sido agregadas à vida sociocultural dos estudantes quando estes finalizam seus processos formativos nas instituições formais de ensino.
Frente a essa constatação e ao nos darmos conta de que as experiências de leitura vivenciadas na academia têm sido majoritariamente voltadas para as exigências didático-pedagógicas, secundarizando as leituras literárias, leituras de fruição, de entretenimento, leituras consideradas “despretensiosas”, verificamos estar, pois, diante de um desafio, que não é pequeno. Repensar as práticas, as concepções de formação de leitor e, quiçá, contribuir para provocar as mudanças necessárias nos próprios currículos dos cursos de formação de professores. Pois, se na universidade, lugar privilegiado de formação desses professores, a leitura literária acaba sendo, muitas vezes, negligenciada, como então exigir desse profissional um trabalho diferenciado com a leitura literária nos seus espaços atuais ou futuros de atuação? Acaba sendo, no mínimo, uma exigência questionável.
É responsabilidade da escola, logo dos professores, garantir aos alunos o acesso ao livro, como afirma Paiva (2012, p. 19) ao defender que “… é na escola que a maioria das crianças e jovens brasileiros terá contato com o texto literário e, por conseguinte, cabe a essa instituição garantir o acesso a esse bem cultural: o livro”. Se assim entendermos, então, precisamos criar modos e práticas de encontros e aproximações do aluno com a literatura. E uma alternativa encontrada, por alguns docentes no ensino superior, tem sido a inclusão, em seus planejamentos, da prática dos círculos de leitura ou da contação/leitura de histórias, contos, crônicas como procedimentos para a aproximação desses discentes do mundo da literatura.
O Círculo de leitura se configura como uma metodologia de trabalho em que o leitor-guia lê em voz alta textos previamente selecionados, para o grupo, fazendo, geralmente, leituras literárias. A leitura é compartilhada e o diálogo, após a leitura, logo se estabelece. Segundo Yunes (2012, p. 120), a realização dos círculos de leitura “precisa de um leitor que seja o guia, uma espécie de líder do encontro. É esse leitor-guia que vai apresentar o texto para seus convidados, um texto de que ele goste (muito!) e que ache que vai interessar (muito!) aos participantes do círculo – seus convidados”. Yunes ainda defende (2012, p. 123) que “O diálogo sobre o texto lido ou contado é a alma de um círculo de leitura!”. Por isso é que do leitor-guia são requeridos cuidados no momento da preparação dos círculos.
A prática de contação/leitura de histórias vem sendo compreendida como um dos caminhos possíveis de aproximação das crianças, jovens e adultos com o texto literário. Segundo Gregório Filho (2002, p. 136),
Somos aquilo que vamos adquirindo ao longo da vida. Os primeiros jogos, as brincadeiras, as cantigas, os contos vão imprimindo em nós um pouco daquilo que vamos ser quando adultos. Não somos passivos às experiências e, a cada uma aprendida, incorporamos informações, transformamos, acrescentamos parte de nossa própria experiência e vamos construindo nosso jeito de olhar a nós mesmos e ao mundo.
E, foi acreditando nessa possibilidade, que começamos a trazer para o espaço da academia, a prática de contar/narrar histórias. Como afirma Gregório Filho (1998, p. 83), “a contação de história não vem substituir as leituras dos livros. Ao contrário, está comprovado que funciona como estimuladora, incentivadora para que as pessoas busquem conhecer aquelas histórias que ouviram e muitas outras (…)”. Assim, passamos a garantir a presença do texto literário no espaço da sala de aula. E o que é melhor, de forma leve, sedutora, envolvente.
Narrando histórias, formando leitores… relato de uma prática
“A literatura faz viver as experiências singulares”
Tzvetan Todorov
A experiência dos Círculos de Leitura e da contação/leitura de histórias nos cursos de formação de professores na UEFS e na UFBA tem rendido bons frutos, contrariando, felizmente, as expectativas de Benjamin (2012, p. 213) quando este afirma que “a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente”. Na tentativa de aproximação dos licenciados com a literatura, foram organizados muitos banquetes literários com objetivo de atrair e seduzir os discentes para o encontro com os livros. Cada dia um livro, um autor, uma história a ser contada. Assim, muitos já povoaram o espaço/lugar nas aulas dos licenciandos: Eduardo Galeano, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Câmara Cascudo, Bartolomeu Campos Queirós, Francisco Gregório Filho, Marina Colassanti, Cora Coralina, Clarice Lispector, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Conceil Corrêa da Silva, Daniel Munduruku, Rubem Alves, Mem Fox, e muitos outros.
Segundo a discente Tânia (aluna do curso de Pedagogia, da UEFS) “eu fazia de tudo para não me atrasar, pois sabia que a história que seria lida com certeza me emocionaria”. Em outras oportunidades de conversas informais com a turma, muitas discentes relatavam que o texto lido em sala ganhava outro tom. Essa sensação pode ser expressa com a fala da discente Diana (professora já em exercício) que revelou sua surpresa após a escuta do texto Felicidade clandestina de Clarice Lispector “eu fiquei encantada, primeiro porque eu já conhecia o conto, mas parece que estava ouvindo pela primeira vez. Acho que eu lia sem dar sentido e entonação correta”. Outros sentidos, outras marcas e entrecruzamentos de vida e ficção ocorreram após a leitura do livro “A moça tecelã” de Marina Colasanti. Em uma das turmas, formada majoritariamente por mulheres, ao escutar esse conto, as discentes teceram inúmeras análises, comparações, analogias e revelações. A discente Ana Cláudia desabafou “A personagem da história fez o que eu sempre quis fazer: destecer as coisas que me machucam, me fazem sofrer, mas ainda não tenho coragem. A vida é assim pró – não é fácil, é preciso ter coragem e estrutura para mudar”. A discente dialoga com o conto de Colasanti, a partir de sua própria experiência e se sente motivada a expressar desejos de mudanças na sua história. Percebemos como a literatura empodera, faz pensar e arriscar mudanças de comportamentos, mudanças de rota e tomadas decisões.
Essa declaração nos ajuda a arriscar que ao oportunizarmos e envolvermos os discentes no mundo da leitura literária estamos contribuindo não apenas para a ampliação do repertório literário, mas sem dúvida, provocando-os a sentir e viver emoções, ou como afirma Todorov (2012, p. 77) “viver as experiências singulares”.
As experiências possibilitadas pelo encontro do leitor com o texto são singulares. Cada leitor estabelece relações e conjecturas a partir das suas próprias vivências. Para Cosson (2012, p. 27). “O bom leitor, portanto, é aquele que agencia com os textos os sentidos do mundo, compreendendo que a leitura é um concerto de muitas vozes e nunca um monólogo. Por isso, o ato físico de ler pode até ser solitário, mas nunca deixa de ser solidário”. Assim, cabe ao professor mediador de leituras oportunizar situações significativas de aproximações entre os alunos e as leituras. Segundo Yunes (2003, p. 10) “quem lê o faz com toda a sua carga pessoal de vida e experiência, consciente ou não dela, e atribui ao lido às marcas pessoais de memória, intelectual e emocional”.
Reconhecendo que a formação docente requer não apenas os saberes didático-pedagógico, saberes humanos e saberes da competência técnica, a autora Graça Paulino (2004) defende a inclusão dos saberes literários como saberes necessários à docência, posto que
(…) se entendemos a formação de professores de modo mais amplo, em sua produção histórica e social que envolve, além de competências cognitivas stricto sensu, também sensibilidade, emoções, ligações afetivas, interações, transformações pessoais, temos de pensar na possibilidade de que um desses saberes seja de natureza literária (PAULINO, 2004, p. 57).
Desse modo, se defendemos a formação de docentes numa perspectiva de mediadores de leitura não podemos prescindir na formação dos professores da inclusão dos saberes literários como saberes próprios à docência. Com esta inclusão amplia-se ainda mais o espectro de saberes necessários à docência, pois para o escritor canadense Tardif (2003) os saberes dos professores emanam de variadas fontes sociais, ou seja, da família, da escola primária, dos vários espaços/estabelecimentos de formação dos professores, da prática do ofício, entre outros, ou seja, o professor constrói o corpus da profissão quando articula as suas várias experiências e saberes elaborados e acumulados nas suas multirreferencialidades.
Sendo a leitura uma prática individual e também coletiva faz-se necessário a diversificação dos materiais de leitura na perspectiva de ampliação dos acervos pessoais e coletivos. No compartilhamento de leituras cada sujeito mobiliza e faz “emergir a biblioteca vivida, quer dizer, a memória de leituras anteriores e de dados culturais” como afirma Goulemot (2001, p. 113). Desse modo, no espaço da sala de aula as múltiplas formas e modo de ler precisam ser acolhidos, pois na intimidade com o texto coletivo, no prazer de ouvir outras pessoas lendo, imprimindo uma entonação peculiar, percebemos o poder do encantamento e da sedução que o livro provoca. O importante é que a escola assuma, para si, a responsabilidade na formação de leitores, ou seja, que a escola traga para dentro de seus muros, para dentro das suas salas de aula a prática da leitura e o prazer de ler.
A contação de história pode ser um dos caminhos possíveis para entrecruzar universidade e literatura na perspectiva de formação de leitores. Segundo Pennac (1993, p. 84) “aquilo que lemos de mais belo deve-se, quase sempre, a uma pessoa querida”. Portanto, não há dúvida do papel primordial que a família e a escola (como instituições de formação) podem desempenhar no processo de aproximação, formação do gosto e encantamento das crianças/jovens/adultos com os livros. Principalmente, se admitirmos que muitas crianças, hoje em dia, não têm mais no ambiente familiar as ricas experiências de ouvir histórias, da presença de um adulto lendo em voz alta, ou seja, de experiências que os aproximem do mundo letrado.
A condição sine qua non para o contador de histórias é gostar de histórias, gostar de ler, é participar do pacto ficcional que toda história exige, ou melhor, precisamos educar, ensinar, sensibilizar e encantar nossos alunos e convidados para a leitura.
Afinal, a aprendizagem da leitura, do gosto e do sabor de ler um livro pode resultar de práticas que precisam ser ensinadas. Pois, assim como os livros, as histórias precisam do leitor para ter vida, ganhar sentido, as crianças, os jovens/adultos precisam dos contatos prazerosos, das vivências sedutoras e da intimidade cotidiana com a leitura. E esse papel também é nosso!
Mediar leituras, formar leitores: desafios docentes
“De tudo o que conto aqui daquela época, minha única mentira, se existe, é ter erigido meus sonhos em realidade, não ter confessado logo que fui, pela força das coisas, desde a primeira infância, um sonhador acordado e impenitente”.
Jean Marie Goulemot
Atuar no cenário educacional nos dias atuais vem exigindo dos docentes muitas habilidades e saberes múltiplos. Ao docente não basta apenas ter conhecimentos dos conteúdos previamente selecionados para ministrar suas aulas. É preciso dominar sim os conteúdos escolares, mas é preciso também se apropriar cada vez mais dos saberes literários, das tecnologias da informação e da comunicação, das informações veiculadas nos meios de comunicação, dos conteúdos e interesses próprios às faixas etárias, que cada vez é mais precoce.
Segundo Márcia Abreu (2006, p. 59),
A avaliação estética e o gosto literário variam conforme a época, o grupo social, a formação cultural, fazendo que diferentes pessoas apreciem de modo distinto os romances, as poesias, as peças teatrais, os filmes. Muitos, entretanto, tomam algumas produções e algumas formas de lidar com elas como as únicas válidas. E aí reclamam porque o brasileiro não lê e não tem interesse pela cultura (…).
É justamente neste cenário que reside um dos nossos desafios, ou seja, ao presenciamos avolumar nas prateleiras das livrarias, supermercados e bancas de revistas muitos best seller estrangeiros, novas séries de autores que seduzem cada vez mais nossos adolescentes, nós, professores, precisamos nos equipar teoricamente e nos desvencilhar de certos preconceitos e ou concepções limitadas do que é ser leitor.
Afinal, se a leitura é prática sociocultural, é interação e construção conjunta de texto/sentido, então, cada texto fomenta e mobiliza reações, desejos, conhecimentos, saberes e sabores muito singulares. Dessa forma, o que precisamos não é coibir, cercear, discriminar e estabelecer o que é dito como certo ou como errado. Nosso desafio é possibilitar aos nossos alunos/leitores que a cada leitura construam/produzam sentidos, ou seja, novos textos e que se tornem autônomos para buscar outros livros que atendem as suas variadas expectativas, pois como afirma Chartier (1999, p. 19) “Cada leitor, cada espectador, cada ouvinte produz uma apropriação inventiva da obra ou do texto que recebe”.
Mas, cabe à escola investir em situações didáticas que primem pelo trabalho com a leitura numa perspectiva da competência leitora crítica. Para Silva (2009, p.28) “as competências de leitura crítica não aparecem automaticamente: precisam ser ensinadas, incentivadas e dinamizadas pelas escolas para que os estudantes, desde as séries iniciais, desenvolvam atitudes de questionamento perante os materiais escritos”. Sem dúvida, esse é o grande desafio docente.
É desafio docente também criar diferentes estratégias de mobilização, de incentivo, de oferta de vivências leitoras e de práticas culturais de leitura, posto que se queremos colaborar para uma formação plena e sólida dos nossos alunos, então faz-se necessário propiciar práticas atraentes, significativas e mobilizadoras de novas aprendizagens. Pois como afirma Todorov:
É por isso que devemos encorajar a leitura por todos os meios – inclusive a dos livros que o crítico profissional considera como condescendência, se não com desprezo, desde Os três mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilizam a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas (TODOROV, 2012, p. 82).
E para arrematar os fios tecidos ao longo do texto na tentativa de articular leitura literária e mediação docente, reafirmamos a ideia de que o maior importante é tornar nosso aluno leitor, independentemente das suas escolhas, dos seus gostos ou preferencias. O desafio está lançado e aceitá-lo cabe a todos nós professores.
REFERÊNCIAS:
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AGUIAR, Vera Teixeira. O saldo da leitura. In: DALVI, Maria Amélia; REZENDE, Neide Luzia de; FALEIROS, Rita Jover (Orgs.). Leitura de Literatura na escola. São Paulo: Parábola, 2013.
ARAÚJO, Jorge de Souza. Letra, leitor, leituras: reflexões. Itabuna: Via Litterarum, 2006.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.
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CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do livro ao navegador. Trad. Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo 1999.
COLASANTI, Marina. A moça tecelã. São Paulo: Global, 2004.
CORDEIRO, Verbena Maria Rocha. Escritores e leitores. In: CARVALHO, Maria Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena (Orgs.). Práticas de leitura e escrita. – Brasília: Ministério da Educação, 2006.
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GOULEMOT, Jean Marie. O amor às bibliotecas. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
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PAIVA, Aparecida (Org.). Literatura fora da caixa: o PNBE na escola – distribuição, circulação e leitura. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.
PAULINO, Graça. Saberes literários como saberes docentes, Presença Pedagógica, v. 10, nº 59, set./out. 2004: p. 55-61.
PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
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TARDIF, Maurice. Saberes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro, DIFEL, 2012.
YUNES, Eliana & OSWALD, Maria Luiza (Orgs.). A experiência da leitura. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
YUNES, Eliana; REZENDE, Nilza (Orgs.). Almanaque do agente de leitura. Rio de Janeiro: Compostela Comunicação, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA
Shirley Maria de Jesus
Universidade Federal de Minas Gerais/FALE
RESUMO: Este artigo pretende ressaltar na obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade (1998), que em sua lírica pessoal a exterioridade apresenta-se como depositário de memórias que carregam conteúdo social, cultural e histórico. Estas, consoante Charaudeau & Maingueneau (2012), representam um reinvestimento de imagens (internas e externas), levantadas na leitura dos poemas, e refletem aspectos estéticos, retóricos e ideológicos. A partir desses autores, de Mendes (2010) e outros, far-se-ão análises de alguns poemas a fim de possibilitar o acesso aos discursos e suas imagens. Nossa hipótese será de que a preocupação do autor (1998) era tão profunda que ele vivenciou o eu do outro de um modo totalmente diferente do que vivenciou seu próprio eu. De uma maneira geral, o autor “absorve” o mundo externo e por, às vezes, não saber quem é, será vários: Carlos, José, Robinson Crusoé… mas gauche.
Palavras-chave: Antologia poética; Carlos Drummond de Andrade; lírica pessoal; reinvestimento.
ABSTRACT: This article aims to highlight, in the work Poetic Anthology, by Carlos Drummond de Andrade (1998), in its lyrical aspects, stressing that exteriority is a repository of memories carried with social, cultural and historical meanings. According to Charaudeau & Maingueneau (2012), while reinvestments of images (external and internal), raised in the reading of the poems, reflect aesthetic, rhetorical and ideological aspects. The analysis of some poems will enable access to discourse and images, based on the above authors and Mendes (2010), among others. This study will consider the hypothesis that the author’s preoccupation (1998) was so profound that he experienced the I of the other in a totally different way that he experienced his own self. In general, the author “absorbs” the external world, and sometimes not knowing who he is, decides to be several: Carlos, José, Robison Crusoe… always as a gauche.
Keywords: Antologia poética; Carlos Drummond de Andrade; personal lyric; reinvestments.
Currículo: Doutoranda em Linguística do Texto e do Discurso pela UFMG (FALE) em 2013, é bolsista da CAPES. Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2002). Graduada em Letras por esta universidade em 1999. Tem pós-graduação em Consultoria Empresarial pelo Centro Universitário Newton Paiva (2006). Suas áreas de atuação são Gramática Tradicional, Língua Portuguesa, Linguística do texto e do discurso, Leitura e Produção de Textos, Literaturas de Língua Portuguesa, Teoria Literária, Comunicação Oral e Escrita, Comunicação Empresarial, Metodologia Científica.
ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA
Shirley Maria de Jesus
Universidade Federal de Minas Gerais/FALE
Introdução
O presente trabalho pretende destacar na obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade (1998), como o autor transforma sua lírica não somente em memória pessoal, mas também em reinvestimento de captação (MAINGUENEAU, 2012) de imagens (internas e externas) que, em seus poemas, refletem tanto ressonâncias pessoais quanto coletivas. Segundo Maingueneau (2012, p. 94): “A captação consiste em transferir para o discurso reinvestidor a autoridade relacionada ao texto ou ao gênero fonte: o pregador cristão que imita uma parábola, o slogan que imita um provérbio ou o gênero proverbial.” O reinvestimento, portanto, sugere que o destinatário perceba sempre da mesma maneira o discurso fonte já que o texto / gênero inscrito na memória é portador de autoridade.
Em Antologia poética, o poeta (1998), ao falar do cotidiano e do presente-passado, utiliza linguagem lúdica, mas puramente artesanal e, portanto, que não se fixa em uma corrente estética apenas. Para demonstrar essas questões, far-se-á análises de alguns poemas de forma crítica a fim de possibilitar o acesso à linguagem dos discursos, considerando, às vezes, aspectos estéticos e ideológicos. Alguns teóricos a serem utilizados nesta pesquisa são: Aumont (2012), Charaudeau & Maingueneau (2012), Mendes (2010), dentre outros.
Após esse preâmbulo, propomos algumas considerações sobre a exterioridade na lírica de Carlos Drummond de Andrade (1998).
2 A exterioridade na lírica drummoniana
Ao observarmos a organização da obra Antologia poética, percebemos que ela reflete as principais linhas de força da poética drummoniana. As partes intituladas “Um eu todo retorcido”, “Uma província: Esta” e “A família que me dei” enunciam algumas dessas linhas: a apresentação do poeta (1998) enquanto sujeito histórico empenhado em materializar, na escrita, o universo familiar-patriarcal e seus reflexos no autor enquanto reinvestimento de captação. A exterioridade na lírica pessoal de Drummond (1998) apresenta-se como depositário de imagens, principalmente, familiares, fato que se torna evidente mediante o trabalho com a memória do autor (1998), que será uma das pedras de toque de sua poesia e / ou uma pedra “no meio do caminho”. E essa memória pessoal no poema drummoniano, enquanto reinvestimento de captação (MAINGUENEAU, 2012) de imagens (interna e externa), carregam conteúdo social, cultural e histórico. Esses conteúdos apontam-nos, por exemplo, que o poeta gauche, ao falar de si, chega à autonegação provocada pelo sentimento de culpa e de limitação, cujo remédio é a automutilação, conforme podemos perceber no poema “A mão suja”:
Minha mão está suja.
É preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
(…)
Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 22-24)
Esse poema revela a expressividade externa que o autor (1998) percebe a partir da sensação interna e revela-nos que o processo de captação opõe uma espécie de resistência ao imaginar-se “de dentro”, em categorias de valores totalmente diferentes – meu eu que ama, quer, sente, vê, conhece – e que não são diretamente aplicáveis a nossa expressividade externa: “Minha mão está suja. / É preciso cortá-la”. Não se trata de subversão no sentido de “(…) desqualificar a autoridade do texto ou do gênero fonte”, no caso, o poema. (MAINGUENEAU, 2012, p. 94) Mas do fato de a percepção interna e a própria vida parecem se inserir no “eu” que imagina e vê, não no “eu” imaginado e visto. É, portanto, um reinvestimento de captação de imagens internas e externas carregadas de uma memória interior e que, às vezes, entra em choque com a memória exterior.
Drummond (1998) apresenta, ainda, um sentimento de repulsa por fazer parte daquilo com que não concorda e por achar vil o mundo em que vive. Revela que seu papel como intelectual deve ser o do crítico voltado para a arte e essa deve estar a serviço do povo e não da política em si. Sua arte, portanto, revela-se também enquanto reinvestimento de captação de imagens que carregam conteúdo social, cultural e histórico partilháveis. Como artesão das palavras não abre mão do maior valor: o pensamento. Seus poemas, portanto, reinvestem tanto o que o poeta defende quanto o que não defende.
Fala (1998) também de si e, ao fazê-lo, fala de nós mesmos, criando um reinvestimento de captação de vários ‘eus’ – um eu-autor, um eu-leitor, mas que já é outro eu-autor (transfigurado) e outro eu-leitor (transfigurado também). Ao desentranhar reinvestimentos nos quais os vários ‘eus’ entram em contato – mediante a memória, a saudade e ao descobrir elementos de um mundo em expansão –, o eu-autor não é ele e sim o reinvestimento de alguém que ficou no passado, mas que emerge na contemporaneidade através das palavras nesse seu passado-presente. Nesse processo de reinvestimento, o autor (1998) nos revela sua multiplicidade e nos impele a descortinar as camadas de ‘eus’ que estão dentro de cada eu-autor.
3 Antologia poética e sua ficcionalidade
Antologia poética está inserida no gênero poesia. Conforme Mendes (2010, p. 201): “(…) no interior de cada gênero, há um entrelaçamento de efeitos de real, efeitos de ficção e efeitos de gênero.” Para a autora (MENDES, 2010, p. 200), a ficcionalidade, que é definida como “a simulação de um mundo possível”, pode ocorrer de três modos: a) de maneira constitutiva, quando é inerente ao fenômeno; b) de modo colaborativo, quando participa da constituição de algum gênero, mas não altera seu estatuto de real; c) de maneira predominante, quando o gênero possui estatuto ficcional, havendo, desse modo, maior ocorrência de simulações de mundos possíveis.
Dentro dessas possibilidades de simulações, nota-se, na poesia de Drummond (1998), que de maneira predominante, ele faz recortes da realidade – de diferentes épocas – vivenciada por ele desde criança, simulando / reinvestindo em sua obra mundos possíveis. Sua arte, portanto, instaura, em seu repertório pictórico, memórias, ideologias e a busca de uma nova construção estética e, às vezes, social. Isso nos remete ao conceito de realismo que, segundo Aumont (2012, p. 106), trata-se de um “conjunto de regras sociais, com vistas a gerir a relação entre a representação e o real de modo satisfatório para a sociedade que formula essas regras”. O efeito de realidade designa o efeito produzido no destinatário pelo conjunto de índices de analogia mediante imagens representativas que os poemas suscitam. Isso quer dizer que existe um “catálogo de regras representativas que permitem evocar, ao imitá-la, a percepção natural” (Aumont, 2012, p. 113). Desse modo, Antologia poética, enquanto retrato pessoal, que faz aflorar, inclusive, os reflexos do universo familiar-patriarcal no eu-autor, apresenta-se como uma obra com efeitos de real, em busca de reflexão sobre a existência humana. Ou ainda, de acordo com Maingueneau (2012), trata-se de uma captação no sentindo de nos remeter, mediante a poesia drummoniana, a uma realidade material do mundo por intermédio da ilusão de realismo criada pelo poeta (simulação do mundo possível). O que implica dizer que o eu-leitor acredita que o que “vê” – já que o discurso do eu-autor suscita imagens que articulam o real e a ficção – existiu ou pode existir.
Vejamos, agora, o fazer poético de Drummond (1998), a partir da perspectiva de Bystrina, citada por Guimarães (2003, p. 1), que declara que é imprescindível dizer o indizível por intermédio da criatividade e que
(…) para sua sobrevivência psíquica, o homem constrói sobre a estrutura da primeira realidade sensível, predeterminada biofisicamente, uma outra realidade, operada pela cultura. Essa “segunda realidade”, concebida pela criatividade, imaginação e fantasia humana, tem um caráter sígnico e é essencialmente narrativa (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1).
Se retomarmos o pensamento de Maingueneau (2012) acerca do reinvestimento de captação e o associarmos ao de Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1), podemos notar que o eu-autor ao usar a criatividade, a imaginação, para fundir o “vivido e o inventado” em Antologia poética enquanto criação literária, pelo viés da sobreposição / reinvestimento de captação das realidades (percepção natural / percepção coletiva), elabora um fazer poético “que têm caráter sígnico”, consoante Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1), ao carregar imagens que também refletem conteúdo sócio-histórico-cultural narrados por um autor (1988) que reflete as próprias experiências, ou seja, sua primeira realidade sensível.
A partir das considerações de Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1) e de Maingueneau (2004), retomamos Mendes (2010) a fim de afirmar que a ficcionalidade na obra de Carlos Drummond de Andrade (1998) é construída também de modo colaborativo uma vez que a obra participa da constituição do gênero poesia, mantendo simulações de mundos possíveis, inclusive, com o mundo retratado pelo eu-autor – temos nela, portanto, efeitos de real e de ficção. As imagens que o autor (1998) cria através de suas palavras se definem como objetos produzidos em um determinado dispositivo para transmitir a seu leitor, sob a forma simbolizada, um discurso sobre o mundo “real” (mesmo valendo-se de aspectos ficcionais) ou sobre um aspecto da realidade.
O reinvestimento de captação, na poesia de Drummond (1998), portanto, parece supor a relação entre imagens externas e internas (imagens de lembranças, de memórias, imagens de impressão visual armazenadas pelo autor, imagens que fomentam outras imagens vistas ou simplesmente imaginadas). E ao fazer intervir o saber prévio, o destinatário da poesia de Drummond (1998) pode ser capaz de suprir o não representado, as lacunas da representação em todos os níveis. Isso nos permite perceber uma nova relação na qual poema e destinatário são parecidos na medida em que pensamos que há um paralelismo entre o “trabalho” do “fabricante” das imagens e o “trabalho” do poema.
Assim, se abordarmos a exterioridade na lírica drummoniana, ou seja, os aspectos físicos, certamente, nos perguntariam como o autor (1998) vive o próprio aspecto físico e como vive o aspecto físico do outro. A expressividade do nosso corpo e nosso aspecto físico são vividos por nós internamente. Assim, é somente como fragmentos díspares, ligados a nossa percepção interna, que nossa exterioridade – e a do eu-autor -– é captada no campo das nossas sensações externas e, acima de tudo, no campo da nossa visão. Mas essas sensações externas não representam a nossa última instância, mesmo quando acontece de nos perguntarmos se se trata realmente do nosso próprio corpo, e a resposta só nos é fornecida por nossa percepção interna que assegura também a unidade das imagens fragmentárias que temos da nossa expressividade externa e as traduz em linguagem interna. De acordo com Bakhtin (2000, p. 48), essa percepção emerge na “fronteira do mundo” no qual o eu-autor se insere.
Mediante o exposto, Antologia poética deixa entrever a percepção do eu-autor acerca das fronteiras exteriores que configuram o ser humano. Essa percepção é indissociável do aspecto físico: registra uma relação com o homem exterior e com o mundo exterior que engloba e circunscreve o homem no mundo. Entretanto, a consciência vive suas próprias fronteiras exteriores de uma maneira diferente, vive-as numa relação consigo mesma, portanto, apenas o outro pode, de maneira convincente, no plano estético (e ético), fazer o poeta viver o finito humano, ou seja, viver sua materialidade empírica delimitada.
4 O fazer poético de Carlos Drummond de Andrade
O fazer poético de Drummond (1998) traduz-se, ainda, em profunda indagação / captação do mundo, de sua infância, de seus medos, sobre o tempo, sobre sua vivência nas cidades de Itabira e Rio de Janeiro, sua família (sobre a figura paterna principalmente), sobre seus amigos poetas (Mário de Andrade, Manuel Bandeira…) e daqueles que lhe chamaram a atenção (Charlie Chaplin, García Lorca…). Sua poesia torna-se contemplativa e nela parece desconfiar de si e de sua maneira de ver o mundo. O autor (1998), aos poucos, nos revela que buscou dialogar com o velho e com o novo e indagar sobre a própria poesia. É um poeta em ação: luta sempre com a expressão e não espera passivamente. E, por isso, ele deixa transparecer que se deve penetrar “surdamente no reino das palavras” conforme percebemos no poema O lutador:
O lutador
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos mal rompe a manhã.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 182-185)
No poema Conclusão, percebemos que Drummond (1998) revela que “estar-no-mundo”, mediante o uso da captação, pode significar, inclusive, o desencantamento com a própria indagação sobre seu ofício e, portanto, sobre o fazer poético:
Conclusão
(…)
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
(ANDRADE, 1998, p. 190)
Nesse seu trabalho com as palavras, percebemos que Drummond (1998) transitou do uso gramatical esteticamente correto ao uso desordenado da sintaxe proposta pelos modernistas para nos atingir com uma linguagem excepcional, como percebemos em “Os materiais da vida”.
Dris? Faço meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em clavilux
camabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx
(ANDRADE, 1998, p. 192)
Já em outros momentos, como “Prece de mineiro no rio”, sendo usuário da língua, não procurou defender nada, a não ser o direito de poder dizer o indizível com ela mesma.
Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão da cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça […]
(ANDRADE, 1998, p. 56)
Nesse poema, o poeta nos revela, mediante o reinvestimento de suas memórias pessoais – ao nos remeter a sua “pertença” ao estado de Minas Gerais – sua necessidade de conservar em si parte do que foi um dia em Itabira. Para isso, materializa, em suas palavras, o “Espírito de Minas”. Entretanto, faz questão de declarar que o fazer poético não se trata de atividade sem preparo técnico e intelectual:
Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos (ANDRADE, 1944, p. 1.344).
Como se pode depreender da citação, Drummond (1944) faz esforço para realizar uma poesia bem construída. O poema, para ele, é um artefato e não obra de puro lirismo ou inspiração. Portanto, encontrará poesia não só nas grandes coisas, mas também em notícias de jornais – “Desaparecimento de Luísa Porto” (ANDRADE, 1998, p. 129-134) e “Morte do leiteiro” (ANDRADE, 1998, p. 134-137). Irá trabalhar com o cotidiano a partir de um prisma onde predominam a emoção e a sensibilidade. E ao fundir / reinvestir o vocabulário com o tema, o autor (1998) acaba guardando sua dimensão coloquial, levando o gênero, antes apenas jornalístico, a ultrapassar os próprios limites se ingressando nos domínios da literatura. E, por isso, o poeta tem a necessidade de refletir e questionar a própria atitude poética para compreender a si e a humanidade ao reinvestir tanto imagens do mundo real quanto do ficcional conforme notamos no Poema-orelha:
Poema-orelha
(…)
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 189-190)
Abordaremos, agora, a importância da terra natal na poesia drummoniana (1998).
Ao falar de Itabira, o eu-autor fala também de todo o estado de Minas Gerais, evocando / captando cenários e hábitos mineiros, conseguindo exprimir o elemento humano e universal, o telurismo e a revelação da pasmaceira de uma “Cidadezinha qualquer” do interior, focalizando o chão brasileiro sem ufanismos e idealismos, que envolvem o destinatário. Faz, inclusive, uma “Romaria” reinvestindo o barroco ao caráter arrependido.
Romaria
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 44-46)
Drummond (1998), ausente de sua terra natal, sabe que traz o lugar reinvestido dentro de si e na parede é apenas uma fotografia… enquanto captação de uma época da vida do eu-autor, “Mas como dói”. Chega ao reconhecimento de que “o hábito de sofrer, que tanto me diverte, / é doce herança itabirana”. Deslocado espacialmente de sua terra, tenta recuperar o tempo passado, vencer a distância que o separa das terras mineiras, na medida em que percebe que o passado se torna presente pelo reinvestimento de lembranças e através da herança legada pela terra onde nasce conforme percebemos na Confidência do itabirano.
Confidência do itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 46-47)
Herança que o poeta (1998) carrega como parte constitutiva do seu ser e que tem suas raízes nos ancestrais longínquos, cujos retratos foram carcomidos pelo tempo. Tempo que “Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava / que rebentava daquelas páginas.”
5 Considerações finais
Em um mundo que lhe é exterior, o outro se oferece por inteiro à visão de Drummond (1998), enquanto elemento constitutivo deste mundo. A cada instante, ele vive distintamente todas as fronteiras do outro, podendo, dessa maneira, captá-lo, reinvesti-lo por inteiro com a visão, o tato e as imagens compartilhadas pelo eu-autor e pelos destinatários mediante as ressonâncias coletivas. No mundo exterior, o outro parece se mostrar por inteiro à sua frente e sua visão / captação pode esgotá-lo enquanto objeto entre os outros objetos, sem que nada venha ultrapassar o limite de sua configuração, venha romper sua unidade plástico-pictural, visível e tangível. E ao percebemos em Drummond (1998) a consciência histórica, a capacidade de abranger toda uma pauta de sentimentos e a catolicidade, podemos dizer que encontramos os atributos de um verdadeiro clássico.
Com muitas veredas do conhecimento humano, nosso poeta (1998) atinge, com sua poesia, o homem (esse sonhador incansável), o mundo e seu peso, o humor, a sátira, a ironia, a mensagem social, o clã familiar, o amor à terra natal, a crítica a um presente que valoriza a máquina, enfim, um conjunto que seria impossível, talvez, a qualquer outro autor. E para que tudo isso? Para chegar à demonstração de que o homem é apenas homem, coisa inexplicável e sem perspectivas de definição. Um ser que se caracteriza por um contínuo desajustamento entre a sua realidade e a realidade exterior de acordo com o poema Especulações em torno da palavra homem:
Especulações em torno da palavra homem
(…)
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
(ANDRADE, 1998, p. 215-219)
Carlos Drummond de Andrade (1998), lido e relido por décadas, pode ser considerado o poeta que ultrapassa gerações. Ele adota, em sua poesia, desde o humor até o pessimismo e nos mostra que não deixou de ser o intelectual preocupado com a difusão da arte. Mostra-nos também que vivencia o eu do outro de um modo totalmente diferente daquele como vivencia seu próprio eu ao valer-se do reinvestimento de captação. Trata-se de uma distinção essencial para a estética. Basta lembrar o princípio da disparidade dos valores entre eu e o outro do ponto de vista da moral cristã: não se deve amar a si mesmo, mas deve-se amar ao outro; não se deve ser indulgente consigo mesmo, mas deve-se ser indulgente com o outro. De uma maneira geral, deve-se aliviar o outro de seus fardos e assumi-los para si mesmo. E ao assumir esses fardos e por não saber, às vezes, quem é, será vários: Carlos, José, Robinson Crusoé … gauche.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1998.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 1944.
AUMONT, Jacques. A imagem. Trad. Estela dos Santos Abreu e Cláudio C. Santoro. 16ª ed. Campinas: Papirus, 2012.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. 3ª ed. Coordenação da tradução Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2012.
GUIMARÃES, Luciano. As cores da mídia. A organização da cor-informação no jornalismo. São Paulo: Annablume, 2003.
MAINGUENEAU, D. Diversidade dos gêneros de discurso. In: MACHADO, I. L. & MELLO, R. (Orgs.). Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004.
MENDES, Emília. Publicidade e imagem: uma proposta de estudo. In: Fórum Internacional de análise do discurso, 2, 2010, Rio de Janeiro, Anais do II Fórum Internacional de Análise do Discurso – discurso, texto e enunciação. Homenagem a Patrick Charaudeau. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010, p. 91-102.
NATIVIDADE, Cláudia; PIMENTA, Sônia. A semiótica social e a multimodalidade. In: LIMA, C. H.; PIMENTA, S. M. O.; AZEVEDO, A. M. T. (Orgs.). Incursões semióticas: teoria e prática da gramática sistêmico-funcional, multimodalidade, semiótica social e análise crítica do discurso. Rio de Janeiro: Livre Expressão Editora, 2009. p. 21-29.
Bio fornecida pelo palestrante.
TECER CRIATIVO POÉTICO
NO POEMA CERÂMICA, DE DRUMMOND
Carila Aparecida de Oliveira
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
RESUMO: Sob a égide intencional de interpretar uma das mais belas obras de Drummond, Cerâmica, este artigo faz uma peregrinação entre alguns conceitos de poesia e de poema, além de outras questões que se espiam, numa imbricação simbólica que conversam com a arte. A literatura drummondiana se posiciona com liberdade inventiva, tendo sua base estruturante própria, mas supera os obstáculos do processo de tessitura de criação. A originalidade abre passagem para o imaginário de sua significância poética.
Palavras-chave: Cerâmica (poema). Criativo poético. Originalidade. Significância.
ABSTRACT: Weaving creative poetic in the poem Ceramic, by Drummond, discusses one of the most beautiful poems by Carlos Drummond de Andrade, titled Ceramics. The analaysis wanders among some concepts of poetry and the poem which symbolically interact with art. Drummond’s writing affirms itself with creative freedom and has its own structure, which supersedes all the usual obstacles related to the creative process. Originality opens the way to the imaginary and poetic significance.
Keywords: Ceramic (poem). Originality. Poetic creation. Significance.
Currículo da autora: Mestre em Letras-Literatura e Crítica Literária pela PUC Goiás e bolsista da CAPES, em 2015. Graduação em Pedagogia pela FAESP, em 2015 e em Letras/ Português/ Inglês pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, em 2013. Atuou como monitora voluntária e participou do Projeto de Iniciação à Docência como bolsista PIBID/CAPES, durante a Graduação em Letras pela PUC-Goiás, por um ano. É revisora de livros, periódicos e trabalhos em geral.
TECER CRIATIVO POÉTICO
NO POEMA CERÂMICA, DE DRUMMOND
Carila Aparecida de Oliveira
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Cerâmica
Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
Ela nos espia do aparador.
Carlos Drummond de Andrade
Diante da imensurável importância da biografia do escritor modernista Carlos Drummond de Andrade, seus leitores ficam desnorteados pela sua significação na literatura brasileira, be como na mundial. Este trabalho procura interpretar a arte do poeta sem vincular autor e obra, seguindo parâmetros da crítica. Um dos poemas mais belos do artista, na sua gama sígnica imagística, sem se esquecer das outras imagens da sua poética, é Cerâmica. Neste poema, vemos que “Poesia é conhecimento, poder, salvação, abandono. Operação capaz de transformar o mundo” (Otávio Paz, 1982, p. 15),
Poesia é uma palavra que se origina do grego poèsis, de poien, que significa criar. Na poesia lírica, seu objeto é o eu. É um exercício espiritual e um método de libertação interior. Revela esse mundo, ao mesmo tempo em que cria outro. Trilha a senda da epifania, presença; súplica do vazio. Dialoga com a ausência e a condensação do inconsciente. É fruto do cálculo, jogo, visão, musicalidade, símbolo, fazendo-se um caracol por onde ressoa música do mundo. Contudo, há poema sem poesia da mesma forma que esta pode existir sem poema.
Drummond, pela sua originalidade, cria uma obra além dessas aparentes distinções. Seu poema se faz no antilirismo. O entremeio modernista nem se prende ao eu, nem se centra no prosaico do não eu, mas pende para ambos os lados. A obra vê a si mesma e também contempla o outro ser. O tecer da obra é feito de forma consciente, nada é por acaso. Assim, os signos funcionam como cacos que são colados para formar outra coisa, isto é, o ser estranho que é a arte não nasce para imitar ou representar apenas um objeto criativo, pois, se assim o fosse, a nova criação não seria concebida como arte.
O poético drummondiano acontece no mosaico onde ocorre a condensação do acaso ou uma cristalização de poderes e circunstâncias alheias à vontade de criação do poeta, mas trabalhadas pela artista. O poema pode ser considerado como um organismo verbal vivo que contém, suscita ou emite poesia, porém, não limitando sua criação a si mesmo.
Em seu cultural estilístico, o artista condensa a forma e a substância da arte, que são vistas como a mesma coisa, mas cada poema é único, irredutível e irrepetível, feito com uma técnica que morre com o autor, pois ela não é repassada ou transmissível como uma receita. Dessa feita, é invenção apenas de seu criador e também para ele. Destarte, há um estilo que confina com a técnica, fazendo emergir uma época, uma cultura, um indivíduo ou grupo que sugerem ser vistos ali, naquela forma de apresentação da arte.
A poesia prolonga e exercita em nossos tempos a obscura e imperiosa angústia de posse da realidade, essa licantropia inserta no coração do homem que não se conformará jamais – se é poeta – com ser somente um homem. Por isso o poeta se sente crescer em sua obra. Cada poema o enriquece em seu ser. Cada poema é uma armadilha onde cai um novo fragmento da realidade. (…) a imagem é forma lírica da ânsia de ser sempre mais, e a sua presença incessante na poesia revela a tremenda força que (…) atinge nele a urgência metafísica de posse (CORTÁZAR, 1993, p. 101).
Quando um poeta adquire um estilo, passa fazer seus artefatos literários; o artista representa um tempo, mas modifica esses materiais, fazendo uma obra única. Tais estilos não são daquele que cria a arte, mas de sua época, sendo, portanto, históricos, e o poeta se alimenta deles. “Os estilos nascem, crescem e morrem. Os poemas permanecem e cada um deles constitui uma unidade autossuficiente, um exemplar isolado, que não se repetirá jamais” (PAZ, 1982, p. 21).
O poema parte da palavra que é um ser dotado do significante com seus múltiplos significados. Os silêncios ou lacunas poéticas estão povoados de signos: “No discurso as palavras aspiram a se constituir em significado unívoco” (…) Cada palavra (…) encerra uma pluralidade de sentidos. Assim, a atividade do prosador se exerce contra a natureza própria da palavra” (PAZ, 1982, p. 25). A linguagem tem sua originalidade primitiva recuperada no poema. Em liberdade, a palavra mostra as suas entranhas totalitárias com seus múltiplos sentidos e alusões.
Como a operação da poesia moderna é contrária à manipulação técnica tradicionalista, o poeta trabalha o universo das palavras, pondo em liberdade sua matéria prima. A palavra poética torna-se ritmo, cor, significado, imagem: ela converte as coisas em imagens. O poema está além da linguagem, mas só consegue ser assim por meio dela. Um quadro será poético se estiver além da linguagem pictórica. Poema é algo histórico ao mesmo tempo em que nega a história. Então, poesia é o jogo de tempo e ritmo perpetuamente criador.
O círculo se torna renovador, fazendo o homem se ver inseparável das palavras, pois é um ser de palavras, feito por elas, tornando-se sem elas inapreensível. Não há pensamento sem linguagem, nem tampouco objeto de conhecimento. O que ignoramos é o inominado, pois até no silêncio há preenchimentos ou espaços repletos de signos, por isso ele nos diz alguma coisa. Assim, indicação, emoção e representação são elementos presentes na linguagem. “Sem uso” são termos que retratam esses aspectos.
Por meio da palavra, o homem como qualquer coisa torna-se uma metáfora em si mesmo. Drummond é um especialista nisso: “A criação poética se inicia como violência sobre a linguagem. O primeiro ato dessa operação consiste no desenraizamento das palavras. (…) O segundo ato é o regresso da palavra” (PAZ, 1982, p. 47). O poema é feito de palavras, não quaisquer umas, mas as necessárias e insubstituíveis. Como não há sinônimos, cada palavra do poema é única e irremovível. Daí ser impossível ferir uma delas sem ocorrer o mesmo com todo o poema, como também mudar uma vírgula sem transtornar todo o edifício ou ato criativo da obra. O poema é uma totalidade viva, feita de elementos insubstituíveis.
O universo verbal do poema é feito da comunidade, para se ter vozes vivas. O poema se vale do mesmo caráter complexo e indivisível da linguagem, como suas partículas celulares, como a frase. Entretanto, o poema é formado para ser uma totalidade encerrada dentro de si mesma – é formação e condensação do todo. A expressão se faz de unidades compactas e inseparáveis. A célula ou núcleo do poema é a frase poética. A unidade da frase que o constitui é o ritmo. A criação poética consiste também nessa utilização sedutora ritmada. Esta é tempo original com uma direção, um sentido, está dentro de nós, é visão do mundo, estando o próprio silêncio inferido no ritmo presente na obra.
Como exemplo disso, “O silêncio de Mallarmé nos diz nada, que não é o mesmo que nada dizer. É o silêncio anterior ao silêncio” (PAZ, 1982, p. 67-68). O tempo do poema é arquetípico. O poeta lírico convoca o passado que é o futuro, fazendo tempo vivo. No poema, toda forma verbal se manifesta plenamente, sendo sua condição. As origens da poesia bem como seu fim se confundem com a linguagem. O poema se apresenta como uma ordem fechada ou esférica, voltando-se para si mesmo, repetindo e se recriando de forma circular. Tal recriação é ritmo, por isso, fluxo e refluxo rítmico. Entretanto, há outros aspectos figuradores dele, como a analogia, por exemplo. A palavra serve como música própria à poesia, daí ela ser canto:
Todo poeta parece ter sentido sempre que cantar um objeto (um “tema”) equivale a apropriar-se da essência dele; que só seria possível ir em direção a outra coisa e ingressar nela por via da celebração. O que um conceito conota e denota é, na esfera poética, o que o poeta celebra e explica liricamente (CORTÁZAR, 1993, p. 98, grifos do autor).
A riqueza de artes se dialogam num poema, já que a conversa vertical e/ou horizontal é celebrada na essência do poético. Nas direções apontadas pela arte, que parecem desencontrar o que seus signos trazem à baila em seu discurso, a poesia depara com o conhecimento, mas não se faz meio de conhecimento, pois o poeta não “perde tempo” em comprovar o seu conhecimento, nem se detém a corroborá-lo. A comprovação possível das suas vivências não tem sentido algum para ele:
O poeta é aquele que conhece para ser; todo o acento recai no segundo, na satisfação existencial, em face da qual toda complacência circunstanciada de saber se aniquila e dilui. Por esse conhecer se vai ao ser; ou melhor, o ser da coisa apreendida (…) poeticamente, irrompe do conhecimento e se incorpora ao ser que o anseia. (…) o poeta é o que anseia ser. (Em termos da obra: o poeta é o seu canto.) (…) Magia (…) é concepção fundamentalmente assentada na analogia, e suas manifestações técnicas apontam para um domínio, para uma posse da realidade (CORTÁZAR, 1993, p. 100).
Poesia é posse: o poeta agrega ao seu ser as essências do que canta: por isso e para isso há o canto. Ao avaliar o alcance da inspiração e da composição do poeta, entendendo-se pela primeira o crédito que Poe (apud CORTÁZAR, 1993) concedia aos produtos poéticos nascidos de uma intuição pura, e pela segunda, a estrutura minuciosamente articulada de elementos escolhidos, inventados, preferidos, que integrariam um poema. Originar consiste em combinar cuidadosa, paciente e compreensivamente. O conjunto dos signos da obra compõe-se de metáforas que formam a totalidade de sua significância. A metáfora do ser se concretiza no mistério do homem.
Nessa perspectiva discursiva, as categorias metafóricas são vistas pelas imagens das palavras e expressões linguísticas. O termo cerâmica do grego κέραμος é entendido como argila queimada ou κεραμικὀς, translit. Keramikós, de argila. A própria estrutura do todo de uma cerâmica é de ser um fragmento, da mesma forma que a palavra cacos. “Cerâmica. Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara” (DRUMMOND).
A palavra cerâmica pode ser compreendida como a arte ou técnica de produção de objetos em que se usa a argila como matéria prima. Esta é entendida como qualquer classe de material sólido inorgânico, não metálico, que seja submetido a temperaturas acima de 540 °C na manufatura. Normalmente, o elemento cerâmica é óxido metálico, boreto, carbeto, nitreto, ou mistura que pode incluir aniões. Ela se divide no grupo da cerâmica tradicional ou da avançada. Nessa análise, a cerâmica do poema é artística, bem como os cacos que são colados, isto é, trabalhados pela matéria prima da palavra.
Uma das características mais intrigantes da poesia de Drummond é a vitalidade de sua manipulação das palavras. O intuito é de extrair o máximo de significação de cada uma delas. Essa habilidade com o objeto da poesia é assumida pelo poeta. Ele penetra em seu universo para lidar com a máquina de sentidos, sendo também uma máquina que cria. A palavra, ao ser trabalhada, volta às suas origens, como se regressasse a sua pureza. Isto é arte.
Nessa performance interpretativa, a palavra pode ser originária ou derivada, assim como a vida humana é formada pela sua história individual e coletiva. Cada ser carrega a essencialidade do todo ou a essência da espécie, como também a sua singularidade ou individualidade que o faz ser único, apesar das semelhanças. “Os cacos da vida, colados, formam…”. A junção dos cacos não basta, é preciso estarem colados, imbricados, como se um ser só fosse. A mistura não se torna uniforme, mas estranha, pois os cacos “formam uma estranha xícara” (DRUMMOND).
O estranhamento proposto por Victor Chklovsky conversa com a literatura drummondiana. A xícara criada a partir de cacos ou fragmentos, assim como a arte, não tem função de uso. Ela apenas espia, sem funcionalidade de nada expiar ou fundir no outro que é o leitor. Ela não procura mudar a época tradicional nem se tornar um tradicionalismo para as épocas vindouras. Entretanto, a arte faz o homem se reconhecer, convidando a viver. Sua posição perpassa a sua espacialidade para outros lugares e temporalidades. “Sem uso. Ela nos espia do aparador”. Além dos diálogos entre artes, o poema se relaciona vertical e horizontalmente com a tessitura da obra.
A metáfora metamorfoseante está na personificação da imagem da xícara, aparecendo como um estranhamento afrouxado da vida e das ações que dela decorrem. Assim, estranhar significa substituir o simples pelo singular, pelo desvio do comum, do normal, é desautomatização da percepção: construir circunstâncias singulares de percepção. A arte é construída com um significado próprio, sem estar presa ao do referente, é autônoma no universo deste; cria-se “uma sintaxe que gera uma semântica interna ao texto criativo que se revigora nas próprias estruturas insólitas que nele se produzem” (FERRARA, 2009, p. 35).
O poema se mostra pela sua criação estrutural semântica. A base é metaforizada pelo signo do aparador. Isto é, aquilo que apara, que se coloca entre o antes e o depois, entre o alto ou o porvir e antevir. O centro é o cerne da modernidade literária. A poética de Drummond apresenta-se em forma de poema, sem formalidades fixas ou tradicionais, sem rimas confluentes. Mas sua poesia se transcende em pluralidades sígnicas, em torno de si mesma. O aparador é um objeto que se encontra no meio do caminho das artes, ao mesmo tempo em que ele é base para a estrutura moderna.
Pela sua simbologia de se colocar no meio, no entre, o poema tem poesia completa. O ser da obra espia a si mesmo e o outro. Seu posicionamento privilegiado pode analisar o antecedente e consequente. O entrelugar também vê e desnuda o entretempo. A obra assim se eterniza no vazio, no nada. A arte se forma neste nada. Mas este está completo de significado e significante, perfurando a significância que vai além de sua simples estrutura da obra. A ação de espiar, “xícara que espia”, não é um estado de lentidão ou estagnação diante do visível, mas, pelo contrário, é uma atitude de busca centrípeta e centrífuga.
A imagem é a realização de uma atividade imaginativa. A interação do real com o mundo simbólico que acontece por meio das palavras. Trata-se de deixar o texto falar. Bachelard (2013), ao colocar a imagem antes da percepção, provoca uma inversão ontológica. Muda o ser da imagem. Imaginar será uma função do irreal. O filósofo afirma que a expressão literária tem vida autônoma. Mudando a funcionalidade do sonho, a teoria bachelardiana acusa Freud, Jung e Sartre de intelectualistas, pois eles teriam sequestrado a força criadora e libertadora da imaginação.
Assim, como a vida, as possibilidades de leitura de uma obra são efêmeras e amplas de cada instante de luz ou de signo contemplativo. O olhar não está limitado ao setor do mundo visível, sendo o corpo, numa percepção esférica da matéria, considerado como um ícone que é visível, que abre o interior para o visível (MERLEAU-PONTY, 2009). Assim, a obra parece instaurar os reflexos daquilo que é natural ou real, para dissimular a própria crítica da metalinguagem de sua expressão significativa. A xícara vê, estando à exposição, para também ser vista. ”Ela nos espia do aparador” (DRUMMOND).
O poder do poeta transcende e incorpora a obra. A poesia se transforma de objeto do poeta a uma vivência própria de quem a lê. Isso pode ser encarado como a teoria da recepção iseriana. Ela transcende ao autor, às épocas, à história e à abrangente receptividade do leitor, que participa da obra no momento da leitura, simplesmente cumprindo o seu papel de ser arte. Sem interpretação única, clara e denotacional de sentido.
A engenhosidade pertence ao poeta e transcende na e da obra poética. O artista se imerge no reino das palavras e, através do seu árduo trabalho transpirante, a obra imerge e vive com capacidade independente do seu criador e cumpre sua função de ser exposta de forma única, e puramente arte, mas ao mesmo tempo ela é universal, complexa, pois dá margem a diferentes interpretações no tocante ao tempo, ao lugar. Assim, o romantismo artístico, no cortejo da obra drummondiana, propõe mudanças da forma da arte e suas relações com os tempos históricos, num diálogo das formas artísticas variadas, contemporânea e não tradicional, entre as idades, num espaço de desrealização da arte que figura a imposição de formas.
Diante dessas caracterizações, a compreensão da obra poética se refere justamente a não rotulá-la, não interpretá-la como uma arte que explica alguma coisa por tais efeitos linguísticos de sentidos, porque isso leva a uma semantização estática de compreensão. O que vale numa crítica é simplesmente se deixar refratar pela obra, com uma análise relacionada ao significando da obra com sua própria desconstrução do real.
Num conceito realístico de interpretação complexa, nem mesmo o autor sabe interpretar sua obra, pois ela o transcende numa significação do nada. Por isso, não cabe ao crítico procurar a estática fórmula de saber o que tal autor quis dizer. Entretanto, é necessário considerar que o nada não retrata o vazio, mas um esvaziamento conceitual do ser, para uma transfiguração do existir da obra. Esse nada se enche de sentidos desmembrados ou separados dos conceitos da realidade que, na verdade, independe do lugar e do tempo.
Assim, o papel do crítico não é de procurar interpretar uma obra, mas de coparticipá-la numa interatividade transcendente no dialógico do conotativo discursivo. É evidente que os elementos históricos, os geográficos, entre outros, são importantes, mas a poética de Drummond se relaciona com outros contextos epocais. Assim como o poeta, também o crítico enfrenta obstáculos das circunstâncias narrativas, mas se deve colocar como “grego e troiano”, para não estaticizar as marcas da literariedade poética.
O poeta de Itabira entende a poesia segundo seus próprios poemas, olha-a a partir da preferência pelo irônico, pelo antilirismo intencional, acrescido de uma exploração dos elementos materiais da palavra. Os objetos transpostos pela palavra são simples, conhecidos por todos. O poema em análise tem por signos substantivados os termos: cerâmica, cacos, vida, xícara e aparador. Num primeiro momento, os verbos são vistos pelas derivações: formam, espiam e usam. Este referente pode ser classificado com o artigo, formando “o uso”, portanto, transformando-se em substantivo. Ou ainda sendo adverbalizado pelo termo sem uso, isto é, os cacos formam algo sem funcionalidade para ser usado; é estática do advérbio. Nesse jogo transcendente de sentidos, os cacos são colados e sem uso. Nessa metamorfose, os cacos se transformam em xícara. Esta é vista como imagem centralizadora da arte poética. Ela se personifica, adquirindo sentidos, como a visão; “(…) uma estranha xícara. (…) Ela nos espia do aparador” (DRUMMOND).
Num bailar poético, autor e obra têm uma relação dialógica num ritmo semelhante, e se entrelaçam intimamente, numa aventura consciente, no subconsciente freudiano, como numa viagem clandestina, enfrentando as peripécias de um pirata, com um enfoque de mesmo interesse nessa influência da engenhosidade da obra. Drummond, semelhante a Poe (apud CORTÁZAR, 1993), imerge em sua própria poesia, que é feito rio. A concavidade da xícara serve para ser preenchida:
Por mais que às vezes nade contra a corrente, Poe não pode sair do rio da sua própria poesia. Sua poética é como que uma tentativa de negar o tronco da arvore e afirmar, ao mesmo tempo, seus ramos e sua folhagem; de negar a irrupção veemente da substância poética, mas aceitar suas modalidades secundárias. (…) admitirá na sua poética e nos seus poemas, julgando-as fruto da imaginação e do pensamento, as modalidades que nele vêm do irracional, do inconsciente: a melancolia, a noturnidade, a necrofilia, o angelismo e a paixão desapaixonada (…) determinada morta, por alguém que já não pode ameaçá-lo deliciosamente com a presença temporal (CORTÁZAR, 1993, p. 114).
Os traços gerais desse tipo de poética tornam-se precisos, Poe os chamou de princípio poético. O poema exalta ou eleva a alma do leitor. Esse princípio psicológico elementar demonstra que a exaltação não pode ser mantida por muito tempo. É preciso, pois, condicionar o poema à capacidade de exaltação; o tema e a forma devem submeter-se a essa principiologia. O poema breve exaltará a alma, ao fazê-la entrever a beleza extraterrena, ao dar-lhe, por via estética, um desses vislumbres de eternidade:
O poema é coisa estética, seu fim é a beleza. (…) Se o belo é naturalmente verdadeiro e pode ensinar algo, tanto melhor; mas o fato de que possa ser falso, isto é, fantástico, imaginário, mitológico, não só não invalida a razão do poema, mas também, quase sempre, constitui a única beleza verdadeiramente exaltadora (CORTÁZAR, 1993, p. 115).
O poema visa, por via da beleza, a mostrar ao homem o paraíso perdido, a entreabrir as portas que a vida terrena mantém fechadas. A poesia é a criação rítmica de beleza: a definição é funcional, pragmática, artística. O indefinido é um elemento da verdadeira poiesis. A beleza é o território do poema. Baudelaire (apud Cortázar, 1993, p. 168-169) diz que a poesia tem intenções: “se todo poeta é um estranho, nem todo estranho é um poeta na acepção genérica do termo”. A gênese do poético nasce de um estranhamento.
Para Poe (apud MORENO, 1987), a poesia aspira ao belo e conduz ao sentimento. Já conforme Massaud Moisés (1973, p. 36) “uma poesia lírica (…) não pode ser meramente lírica, mas sim participa em modos e graus diferentes de todos os outros gêneros. Apenas uma primazia do lírico nos obriga a chamar líricos os versos dessa poesia”. Em espécies, a poesia se divide em lírica e épica. O lírico desdobra-se para dentro de si, numa autocontemplação solitária. Moisés diz que a poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical, é a expressão natural dos mais violentos modos de emoção pessoal.
Por meio do olhar, acontece a construção poética, assim se dá a passagem de um mundo interior para o exterior, e deste para aquele. Simbolicamente, também, ocorre a aproximação do leitor com a obra, através da fruição da leitura. Mais profundamente ainda, como diz Cortázar (1993), é como se a obra já existisse e estivesse de pronto esperando pelo escritor, para se concretizar ou se materializar por meio das palavras ou signos não expressos ou totalmente verbalizados. É o que diz Drummond no poema Procura da poesia: o poeta “penetra surdamente no reino das palavras”. Assim a xícara se faz o ser que já era e está no mundo, que se formou pela genialidade de sobreposição da sua essencialidade. Esta é tão estranha quanto a sua própria formação; como os cacos da vida podem formar uma xícara?
Na higidez da própria matéria, os cacos são semelhantes aos fragmentos momentâneos da vida humana. No entanto, essa aparente proximidade de sentidos é meramente um jogo performático da arte poética encontrado na obra Cerâmica. Esta faz bricolagem com seu próprio sentimento de pensar, e o leitor se vê ali nas entrelinhas, por isso se sente como um daqueles cacos que formam o todo. Sua vida também está implícita, juntamente com a dos outros seres.
A aparência lógica é de que só o ser humano tem a capacidade de ver. Mas o poema se coloca no entre a esse pensamento tão tradicional. Ele vê além do homem com sua simples espacialidade e temporalidade. A criação se concentra em uma época, mas não se prende a ela, transcendendo-se no além do instante, conversando com o passado e o futuro que aparenta o inimaginário. Daí sua eternização pela sua própria significância plurissignificativa com sua forma estrutural.
O sujeito se constrói pelas suas experiências durante as colagens proporcionadas pelos atos da vida. O poeta contempla ideias particulares, subjetivas, em certo sentido universais e verdadeiras: o ‘eu’ descreve uma curva e regressa ao ponto de partida, o próprio ‘eu’. O exterior aparece no poema de forma interiorizada, isto é, o eu procurando a própria imagem refletida na superfície do mundo: “a poesia é a expressão do eu pela palavra, quer dizer, a expressão duma situação em que o eu torna-se espectador e ator ao mesmo tempo, ou, por outra, sujeito e objeto simultaneamente” (MOISÉS, 1973, p. 50).
No tecido literário, “o que fica por dizer é muito mais do que o que fica dito: um simples lembrete, espuma evanescente dum imenso mar de sensações inefáveis e desencontradas” (MOISÉS, 1973, p. 51). O poema é uma soma de signos que o poeta usa para se comunicar. É uma constelação de metáforas ou uma polimetáfora. O poema é um reservatório de signos em que a poesia é conduzida para preservá-la de esvair-se.
Por isso, a força da arte está naquilo que não se vê, no que está desmembrado da realidade, nas lacunas e ausências, já que a arte não se liga ao real, mas ao irreal, à abstração. Depois de ser considerada como acabada, a arte deve ser exposta para a apreciação que lhe dá vida. “Ela nos espia do aparador” (DRUMMOND). Com o passar o tempo a obra continua como se fosse recém criada, parecendo úmida, pois a cada época social, pessoal, histórica, psicológica a obra se movimenta sem sofrer alteração de sua essência, mantém seu aspecto e papel de ser arte.
De modo descontínuo, que é a forma de linhas cortadas em versos, ou contínuo, que é a forma de linha inteira, a poesia drummondiana mantém sua expressão metafórica do eu que dialoga com o não eu, tanto em verso quanto em prosa. Pessoas e objetos dividem o mesmo plano de importância. Coisas são personificadas: “a xícara”. Através das palavras toda representação criativa pode acontecer. Palavras são signos, que são imagens, que formam o ícone unívoco da obra com suas plurívocas significações; eixos se articulam para formar o todo.
No contexto do modernismo brasileiro, o poeta mineiro consagra sua obra pelas suas formas de apresentação e ação. Com metáforas tão literárias, os jogos formam o conjunto ou a grande metáfora do todo, isto é, o ícone completo da obra. Com signos que representam múltiplas coisas, pela sua significância, as figuras de linguagem, como a aliteração do “s”, dão ao ritmo poético um som sibilante paradisíaco pelos cortes advindos dos referentes que seguem o ziguezaguear do poema.
O poeta enfrenta o sobe e desce de reflexão. Os cacos são metáfora de pedra que cria obstáculos. Há conflitos do poeta consigo mesmo, com os outros, com o tradicionalismo da forma, com seu próprio objeto, que é a palavra. Nesse processo de construção, tem uma “pedra no meio do caminho”. Mas ao mesmo tempo que ela se porta no entre, a criação literária também ali está. A existência de ambas se faz necessária. É pela posição do tradicional que o contraste do moderno mais se ascende e transcende sua eternização.
O poeta precisa e sente a necessidade de se precipitar num tempo e espaço como se fosse uma boca enorme, cheia de dentes ativos. Serve-se de suas garras elementares da raiva ducassiana, para se movimentar com refinamento, ao mesmo tempo delicado e ligeiro. Para agarrar, é preciso estar vivo. A garra é a pata, é também o bico, como o da águia que rasga. Nessas linhas de ação, uma natureza profunda comanda os desejos de ações especificas que são os fantasmas. A produção de tudo isso se dá pela imaginação motora, sendo a criação de uma brutalidade o verbo de violência.
Ocorre uma explosão semântica, o verbo destruidor de Lautréamont e dos surrealistas é feito mais para ser desejado em sua alegria de decidir. Drummond imerge no universo surdo das palavras. É uma desconstrução do simples significado para a construção da plurissignificação. Sua significação é compreendida pela indução ativa e nervosa induzidas. A poesia tem “uma tendência quase invencível a retornar à vida, na vida, a viver docilmente o tempo continuo da vida” (BACHELARD, 2013, p. 75). O artista permanece isolado no mundo da arte, afastando-se das habitualidades da vida própria, para que a obra de gênio seja antítese da realidade.
A poesia comanda a vida, comunicando-se ela cria o novo, misturando a beleza com a forma, faz o ser contido e pertencente à obra seduzir o outro. A vivência do humano está repleta da causa formal, que é de ordem energética. A poesia se configura em espécies, sendo cada uma destas um destino, com sensibilidade humana. O homem deseja um porvir, por isso, o belo artístico deve ser produzido. Assim, “a poesia cumpriria a função de despertar o leitor ou ouvinte para a contemplação da beleza absoluta entrevista por seu criador” (MOISÉS, 1973, p. 308):
A poesia prolonga e exercita em nossos tempos a obscura e imperiosa angústia de posse da realidade, essa licantropia inserta no coração do homem que não se conformará jamais – se é poeta – com ser somente um homem. Por isso o poeta se sente crescer em sua obra. Cada poema o enriquece em ser. Cada poema é uma armadilha onde cai um novo fragmento da realidade. (…) a imagem é forma lírica da ânsia de ser sempre mais, e a sua presença incessante na poesia revela a tremenda força que (…) atinge nele a urgência metafísica de posse (CORTÁZAR, 1993, p. 101).
Usando imagens simples, Drummond escolhe as coisas e objetos temáticos cotidianos. A obra alarga horizontes, mas, ela é em si propriamente contemplativa e cheia de significação de um instante. Sendo oferecida ou exposta para os que a contemplam, seu sal afugenta a interpretação fechada e acabada, mas tempera e permeabiliza os contrastes, pois a obra carrega em sua essência as múltiplas infinidades de possibilidades de ser interpretada,/lida. A arte moderna contém muita agudeza de detalhes ao tocar o sentimento e a imaginação do ser humano.
Observando isso, deduzimos que a arte, independentemente de sua forma, compõe-se, essencialmente, da abstração com seus ícones de valores artísticos dos objetos representados por seu signo totalizante: a obra. A incógnita da arte comporta-se como aquilo que merece contemplação, movimentando a mente do observador que a contempla sem descobrir se há princípios ou quais princípios a adotar para sua interpretação, porque as possibilidades de leitura são infinitas. “A arte é única enquanto ser de linguagem, (…) nos limites do icônico que cria uma mera possibilidade de significado nas características sintáticas engendradas na linguagem” (FERRARA, 2009, p. 118).
A arte, mesmo considerada perfeitamente acabada, dá a impressão de que sempre poderia ser ainda aperfeiçoada, mas sugestivamente a obra se vale por si mesma. Mas ninguém poderia tentar aperfeiçoá-la sem destruir sua linha de nascimento. Era como se ela só pudesse se aperfeiçoar por si mesma, se isso fosse possível. Essa é a liberdade inventiva de que a obra é autônoma ao autor, parecendo ser feita de misturas que sequer foram apalpadas, sentidas ou imaginadas por seu assinado criador.
Assim, no meio do caminho, ocorre a transparência superativa dos obstáculos. As palavras são trabalhadas como objetos que, ao serem colados um ao outro, formam seu grande signo ou metáfora. Qualquer vocábulo ou palavra torna-se objeto, que ganha imagem sígnica proposicional. Assim, xícara e homem veem, mas a arte se movimenta pelo estranhamento que almeja o estranho com seus sentidos, transcende a sua simples forma. A retomada do centrífugo pelo centrípeto abre passagem para o imaginário do ato criativo drummondiano, marcando sua originalidade e tessitura poética.
Referências
AGUIAR, Vera Teixeira. O saldo da leitura. In: REZENDE, Maria Neide Luzia de; FALEIROS, Rita Jover. Leitura de literatura na escola. São Paulo: Parábola, 2013.
ARISTÓTELES. Poética. Disponível em: <www.domíniopublico.com.br>. Acesso em: 10 out. 2014.
BACHELARD, Gaston. Lautréamont. Tradução de Fábio Ferreira de Almeida. Goiânia: Ricochete, 2013.
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1993.
FERRARA, Lucrécia D’Aléssio. A estratégia dos signos: linguagem/espaço/ambiente urbano. São Paulo: Perspectiva, 2009.
GONÇALVES, Aguinaldo José. Signos (em) cena: ensaios. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2010.
MOISÉS, Massaud. A criação literária: introdução à problemática da literatura. 6ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1973.
MORENO, Armando. Biologia do conto. Coimbra: Livraria Almedina, 1987.
PAZ, Otávio. O arco e a lira. 2ª ed. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
TODOROV, Tzvetan. Teorias do símbolo. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
Bio fornecida pelo palestrante.
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO: O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES
Lucimar Simon
Universidade Federal do Espírito Santo
Resumo: Trata-se de uma análise simples e resumida sobre aspectos da Música Popular Brasileira e a histórica e conturbada carreira do músico capixaba Sérgio Sampaio, artista caracterizado como um dos “malditos” da MPB. Nesse texto buscamos destacar dentro da trajetória pessoal do cantor e compositor capixaba uma assimilação com o momento histórico brasileiro no que tange alguns aspectos gerais da música a partir da década de 1960.
Palavras-Chaves: Sérgio Sampaio, Música, Cultura, Política.
Resúmen: Es un análisis simple y breve de aspectos de la Música Popular Brasileña (MPB) y la histórica y conturbada carrera del cantante Sérgio Sampaio, artista destacado como uno de los “malditos” de la MPB. En este texto se busca resaltar dentro de la trayectoria personal del cantante y compositor de Estado de Espíritu Santo (capixaba) una asimilación con el momento histórico de Brasil y con algunos aspectos generales de la música desde la década de 1960.
Abstract: This is a simple and brief analysis of some aspects of Brazilian Popular Music (MPB) and the historic and troubled career of the musician Sérgio Sampaio, born in Espírito Santo State (capixaba), an artist considered as one of the “damned” in MPB. In this text, we try to highlight the personal story as singer and songwriter of Sampaio and his assimilation of some aspects of Brazilian history since the 1960s.
Currículo: Lucimar Simon nasceu em Linhares – Estado do Espírito Santo em 1977 e vive em Vitória desde 2001. Possui, pela Universidade Federal do Espírito Santo, graduação (Licenciatura e Bacharelado) em História em 2011; graduação (Licenciatura) em Letras – Português e Espanhol – em 2015; pós-graduação lato sensu, em nível de Especialização, no curso Ensino e Interdisciplinaridade – História e Literatura: Texto e Contexto, em 2013 e pós-graduação lato sensu, em nível de Especialização, em Artes Corporais para Educação Integral, em 2014.
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO:
O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES
Lucimar Simon
Universidade Federal do Espírito Santo
Introdução
Desde o final dos anos 50 o Brasil lutava para se libertar do complexo de “país de segunda classe”. Nossas culturas, populares e musicais resultantes de miscigenação das culturas europeia, africana e indígena estavam tomando seus primórdios caminhos ao reconhecimento nacional e internacional. De fato a música é considerada uma expressão artística que contém um forte poder de comunicação, principalmente quando se difunde pelo universo urbano, alcançando ampla dimensão da realidade social.
Se de fato essas condições, já identificadas são reais e se estabelecem dessa maneira, aparentemente a música poderia constituir-se em acervo importante para se conhecer melhor ou revelar zonas obscuras das histórias do cotidiano dos diversos segmentos sociais. A música pode ser encarada como uma rica fonte para compreender certas realidades da cultura popular e desvendar a história de setores da sociedade pouco lembrados pela historiografia.
Todavia, tais investigações raramente têm ocorrido e por diversas razões os trabalhos historiográficos que tratam de desvendar as relações entre história, música e produção do conhecimento enfrentam uma série de intermináveis dificuldades. Estas são a dispersão das fontes, a desorganização dos arquivos, a falta de especialistas e estudos específicos, escassez de apoio institucional, por isso, as pesquisas, não raro, acabam resumindo-se a trabalhos individuais de campo e de arquivos isolados de investigações sistemáticas e de longa duração.
Com relação à música popular urbana moderna, os problemas ganham nova e grave dimensão, ampliando e dificultando em todos os sentidos o desenvolvimento das pesquisas. As universidades e agências financiadoras tradicionalmente menosprezaram as pesquisas em torno dessa temática. Ao cederam espaços às investigações sobre a música popular, sempre o fizeram quando havia relações ou com a música erudita ou a folclórica, delimitando-se estas exclusivamente a esses respectivos departamentos e núcleos.
Infelizmente, a bibliografia da história da música, como mais um elemento da história da arte, de modo geral apenas reforçou essa postura e pouco contribuiu para ultrapassar esses limites e restrições. Ao contrário, suas linhas e tendências predominantes quase sempre serviram para reforçar limitações e preconceitos. O universo popular, por exemplo, geralmente é esquecido pela historiografia da música, e quando se refere a ele, reforça apenas as perspectivas românticas, nacionalistas ou folclóricas.
Isto ocorre porque, de modo geral, ela está fortemente marcada por um paradigma historiográfico tradicional, normalmente associado àquela concepção de tempo linear e ordenado, em que os artistas, gêneros, estilos e escolas sucedem-se mecanicamente, refletindo e reproduzindo, assim, uma postura bastante conservadora no quadro da historiografia contemporânea.
Momento histórico
A canção é porta-voz do Brasil, tão importante como a História, a Literatura, o Teatro, o Cinema e as Artes plásticas. A música brasileira tem recebido alguns estudos e análises, embora a escassez de títulos venha sendo revertida ultimamente e a maioria deles priorize a biografia de cantores e compositores. A música nos dias atuais tem sido objeto de estudo de cientistas políticos, historiadores, sociólogos entre outros grupos de atuação. É com esse empenho que ela chega a uma verdadeira reformulação com objetivo de concretizar-se e harmonizar-se entre os diversos campos dos saberes.
O sucesso da bossa nova com aceitação internacional e outras conquistas de afirmação nacional fizeram da década de 60 um período de grande exacerbação de nacionalismo. Além disso, também aumentou o grau de conscientização política dos problemas e carências do povo brasileiro acirrando as disputas ideológicas entre os vários segmentos da população. Após o desastre da administração do presidente Jânio Quadros e com a ascensão de João Goulart em 1961 aumentaram os conflitos sociais, resultando no golpe militar de 1964.
Historicamente, 1964 foi um ano profundamente marcante para o Brasil. O golpe militar de 31 de março anularia de vez o sonho modernizante que vinha do governo Juscelino Kubitschek e as possibilidades de reformas sociais que foram propostas na época por João Goulart. O país deixava de olhar o futuro e passava a acompanhar o ritmo soturno da Ditadura Militar que se prolongaria por mais de 20 anos.
No início, o general Castelo Branco deu surpreendentes concessões aos setores culturais, permitindo assim que as vanguardas pipocassem e formidáveis arranjos artísticos se realizassem. Em 1968 é o ano mais importante da década de 60 e um período divisor de águas para o século 20. Nesse período, a juventude do Ocidente passava a exigir mudanças, rupturas e atitudes arrojadas. Em maio de 1968, milhares de pessoas saem às ruas de Paris, em protestos que misturavam política, ideologias e traçavam novos rumos de pensamentos.
A cultura musical brasileira
A cultura musical brasileira acompanhou todas as mudanças ocorridas no país, com a afirmação da bossa nova e o surgimento das músicas de cunho social apresentadas principalmente nos “Festivais de Música Brasileira”, principalmente os da TV Excelsior e TV Record surgiram composições de diversos artistas como Sérgio Ricardo, Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Torquato Neto, Heraldo do Monte, Hilton Acioli e muitos outros. Marcos Napolitano afirma que
Apesar de combatida pelos críticos mais exigentes, a música popular, cantada ou instrumental, se firmou no gosto das novas camadas urbanas, seja nos extratos médios da população, seja nas classes trabalhadoras, que cresciam vertiginosamente com a nova expansão industrial na virada do século XIX para o século XX (NAPOLITANO, 2005, p. 16).
Compositores não engajados nos movimentos sociais também passaram a compor músicas de cunho social em função da censura imposta pelos governos militares da época. A grande divulgação de cantores americanos de rock através do cinema e gravadoras ajudou também para o nascimento do rock brasileiro que contou com ampla divulgação da mídia nos anos 60.
Um dos principais incentivadores, o compositor e radialista Carlos Imperial fundou em 1958 o Clube do Rock, no Rio de Janeiro, onde se apresentavam e se reuniam os amantes do rock; nesse clube iniciaram suas carreiras Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A parcela de público que preferia músicas oriundas do rock passou a ter seu espaço musical com programas específicos na televisão cujo ápice foi o programa “Jovem guarda” iniciado em 1965 com Roberto, Erasmo e Vanderleia permanecendo no ar pela TV Record durante vários anos.
Sob a influência da Jovem guarda e dos Beatles nasceu em 1967 o Tropicalismo, movimento de vanguarda liderado por Caetano Veloso, Rogério Duprat, Gilberto Gil, Júlio Medaglia e outros; suas principais composições foram “Tropicália”, “Domingo no parque” e “Alegria, alegria” onde era incentivada a universalização da música brasileira inclusive com utilização de guitarras elétricas e absorção de vários gêneros musicais: pop-rock, música de vanguarda, frevo, samba, bolero, etc.
Assim na década de 60 três novas grandes vertentes musicais podem ser identificadas: “Bossa nova, músicas sociais de festivais e rock da jovem guarda”; evidentemente músicas com ritmos tradicionais como samba, samba canção, músicas de carnaval e músicas regionais continuaram a ter seu espaço, mas com menos divulgação e menor sucesso que as três citadas.
Os representantes
A música popular brasileira também reservou aos cantores e compositores ditos “marginais” os capítulos mais interessantes de sua história. Donos de carreiras irregulares e, não raros, com existências trágicas, os “artistas malditos” sempre estiveram no acostamento do sucesso. Embora o folclore que os cerca sirva para torná-los figuras ímpares, quase míticas, a realidade para esses artistas não teve o mesmo lirismo que se costuma creditar a eles:
A uma certa altura da década de 70, virou lugar-comum chamar de “maldito” todo artista com aura de louco e contestador, de comportamento extravagante, fora dos padrões, apresentando um trabalho hermético, “difícil”, anticomercial. Lutávamos dentro da ditadura. Nossas palavras, atitudes e nossas músicas nos levaram a um ponto que a indústria fonográfica não sabia como catalogar. Maldito naquela época era elogio. O Brasil era um país amaldiçoado (MOREIRA, 2003, p. 206).
O carioca Jards Macalé foi um dos agraciados com o rótulo de maldito. Junto a ele acrescenta-se Tom Zé, Sérgio Sampaio e outros como Luiz Melodia e Jorge Mautner.
Sérgio Sampaio
Sérgio Sampaio foi um desses artistas, ditos “malditos”. Marginalizado pelas gravadoras, pelo público e, talvez, até por ele mesmo, chegou a passar fome. Mas, se não conseguiu sucesso e reconhecimento imediatos, ao menos Sampaio agregou em torno de si, poucos, mas fervorosos seguidores que ainda hoje carregam seu nome e suas músicas.
Assumindo uma postura de “maldito” numa época em que nomes importantes da MPB estavam no exílio, trabalhando sob o impacto esmagador da extraordinária geração surgida nos festivais de canção da segunda metade dos anos 1970, Sérgio Sampaio estreou com um álbum que combinava samba, rock e marcha-rancho, entre outros gêneros, e que resumia com perfeição o clima de baixo-astral do momento histórico.
Embora a faixa-título tenha sido o único sucesso obtido pelo autor em toda sua carreira, “Eu quero é botar meu bloco na rua” contém um punhado de canções notáveis, como “Filme de terror”, “Pobre meu pai” e “Eu sou aquele que disse”. Elas retomam alguns dos principais temas do momento, o elogio da loucura, a sensação de marginalidade, a paranoia generalizada, o estranhamento entre as gerações:
Antes de sua morte prematura, Sérgio Sampaio ainda pôde lançar dois outros discos, deixando inacabado um quarto, lançado postumamente; mas sua obra-prima é sem dúvida seu trabalho de estreia, de importância fundamental para a compreensão do período da história da nossa música popular entre o fim da era dos festivais e a eclosão do rock – Brasil dos anos 1980 (BRITTO, 2009, p. 96).
Houve um ápice na obra e na carreira do cantor e compositor Sérgio Sampaio (1947-1994), mas quase tudo acabou sufocado pelo sucesso estrondoso da marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”, lançada em 1972. Avesso à superexposição e às exigências da indústria fonográfica, Sampaio meteu os dois pés na jaca e, às margens da fama do conterrâneo Roberto Carlos e do parceiro Raul Seixas, construiu uma carreira pouco sólida, embora muitíssimo rica e feita de canções que tratavam sem meias-palavras das angústias, dos amores, dos desafetos, dos desejos e das frustrações que o artista capixaba colecionou em 47 anos de vida.
Uma delas, “Eu sou aquele que disse”, dá nome ao livro que celebra os 60 anos de nascimento deste botafoguense fanático que fez troça da própria loucura, desprezou tanto a ditadura militar quanto a luta armada que se propunha a derrubá-la, Sérgio Sampaio, elegeu o “desbunde” como solução política e existencial num mundo paranoico e destrutivo:
Sérgio experimentou uma grande identificação com o estilo de vida dos poetas românticos do século XVIII, que viviam intensamente a arte, o amor e as madrugadas a céu aberto, e morriam jovens quase sempre de tuberculose. Ele até mesmo acreditava que morreria jovem como eles. Mas tarde, seriamente interessado em literatura escreveria seus próprios contos, herméticos e kafkianos, de difícil interpretação. Fazia uns contos que ninguém entendia (MOREIRA, 2003, p. 23).
Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947-Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro e, no dizer do cantor Lenine, um nome marginalizado que equipara a Tim Maia e Raul Seixas. Como um dos “malditos” da música popular brasileira. Suas composições permeiam vários estilos musicais, indo dos folclóricos samba e choro, ao rock’n roll, blues e balada.
Sobre a poética de suas composições presenciamos elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, autores que ele lia e apreciava. Declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento:
A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea (NASCIMENTO, 2007, p. 41).
Filho de Raul Gonçalves Sampaio, dono de uma tamancaria e maestro de banda, e de Maria de Lourdes Moraes, professora primária, era primo do compositor Raul Sampaio Cocco (autor de sucessos na voz do conterrâneo Roberto Carlos). Assistiu o pai compor a canção “Cala a boca, Zebedeu”, quando tinha 16 anos e que veio a gravar mais tarde. Tocando violão, era um artista nato que buscava mostrar seus trabalhos. Segundo João Moraes Machado, Sérgio Sampaio estava sempre sedento para mostrar suas músicas, precisava de uma orelha e nunca fez doce para tocar entre os amigos:
Sempre que posso aplico alguém no mundo Sampaio, sempre que deixam, ou não, toco suas canções. Vivo redescobrindo sua obra e lembrando de tempos já escorridos na vazante da história, nossa história de família e de amizade. Lembro do bar do Auzílio, do Sérgio lendo Kripta, Kafka e Alan Poe, no quartinho dos fundos da velha casa em Marataízes, das muitas canções compostas em minha casa, o velho gravador, a risada e os olhos sem mais tamanho (MACHADO, 2007, p. 7).
Aficcionado pelos programas de rádio, onde acompanhava os cantores da época como Orlando Silva, Sílvio Caldas ou Nelson Gonçalves, que o inspiravam, veio a tornar-se imitador de radialistas como Luiz Jatobá e Saint-Clair Lopes, conseguindo trabalho numa emissora da cidade natal, a XYL-9. Em 1964 tentou trabalhar no Rio de Janeiro na Rádio Relógio, retornando para sua cidade natal após quatro meses.
Em fins de 1967 muda-se definitivamente para o Rio, inicialmente para tentar a carreira como radialista, embora não tenha conseguido firmar-se em nenhum trabalho por frequentar a vida boêmia carioca, atraído pela música e a bebida; morou em pensões baratas e até na rua, chegando a mendigar comida. Sérgio tinha passado a cantar na noite, em bares, até que em fevereiro de 1970 demite-se da Rádio Continental para dedicar-se integralmente à música.
Nos primeiros anos na cidade maravilhosa Sérgio Sampaio viveu intensamente as noites cariocas. Tão intensamente que não se firmou em emprego nenhum, por “nunca recusar um convite, a qualquer hora do dia ou da noite, para um programa envolvendo música e bebida” (MOREIRA, 2003, p. 26). Sérgio Sampaio sempre pautou sua força criativa na palavra. Escrevendo em primeira pessoa, fazia de suas letras uma espécie de crônica musicada do seu mundo, visto a partir de um olhar lírico, melancólico, irônico, crítico, revoltado.
Enfim, um olhar diferenciado, de um artista indócil que jamais se encaixou em rótulos e em modelos preestabelecidos, no fundo, a obra de Sérgio Sampaio gravita em torno do amor e de suas desventuras. Fazia-o ao seu modo, sem sentimentalismo, porém com intensidade, humor, originalidade. E o ritmo e ou gênero musical funcionavam, para ele, como veículos para expressar seus sentimentos em forma de canção; daí a razão pela qual jamais se prendeu a um único estilo, passeando pelo choro, samba, marcha-rancho, rock, blues etc.
A trajetória errática do capixaba Sérgio Sampaio sempre desafiou explicações. Depois de sacudir o país em 1972 com a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”, um sucesso estrondoso, que realmente marcou época, o compositor viu pouco a pouco sua carreira estagnar.
Difícil de entender porque um artista de evidente talento, melodista sensível, poeta inspirado, expressivo cantor, violonista competente acabou por não alcançar, em seu tempo, a popularidade e o prestígio devidos. Há quem diga que o sucesso foi da música, não do cantor e compositor, uma análise um tanto simplista, mas não desprovida de certo fundo de verdade.
Apesar de suas músicas primarem pela simplicidade harmônica e suas letras pela linguagem cotidiana, Sérgio nunca conseguiu popularizá-las. Essa culpa o perseguiu durante toda a vida: “Quem faz um Bloco na Rua só pode ser povão”, dizia ele, um típico homem do povo que podia ser visto nos botecos, tomando em pé a sua pinga (Moreira, 2003, p. 79). O rótulo de “maldito” que as gravadoras e a mídia pregaram-lhe na testa acabou atravancando sua carreira, antes mesmo que ela pudesse realmente começar.
Na verdade, é a partir do Festival Internacional da Canção de 1972 que Sérgio Sampaio vislumbra seu ingresso no clube fechado da MPB. Feita em dezembro de 71, a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua” acabou sendo, segundo Rodrigo Moreira, “uma síntese artística e existencial de tudo o que o compositor viu e viveu; uma projeção de anseios tão pessoais quanto identificados com a coletividade naquele momento histórico”. Vale lembrar que o Brasil atravessava seu pior momento político nas mãos do regime militar.
Conclusão
O altar da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, não é habitado apenas pelo trono do rei Roberto Carlos. Existe outro importante nome da música popular brasileira, que reina como o mais maldito entre os malditos da MPB. O capixaba Sérgio Sampaio foi daqueles artistas não reconhecidos, ou melhor, não adequadamente avaliados em seu tempo. Em plena ditadura Médici, estourou nacionalmente com “Eu quero é botar meu bloco na rua”, histórica marcha-rancho, considerada um dos mais eloquentes protestos da MPB contra a ditadura. Ainda jovem e imaturo demonstrou toda sua categoria e versatilidade como cantor e compositor, mas parecia estigmatizado por aquela música tão marcante. Viva Sampaio!
Em síntese, as questões realçadas no texto alcançaram pelo menos três aspectos relevantes para a reflexão do pesquisador que pretende trabalhar com a canção popular: a linguagem da música, a visão de mundo que ela incorpora e traduz, e, finalmente, a perspectiva social e histórica que ela revela e constrói. Essas questões, levantadas de modo introdutório, também servem, de certo modo, para recolocar alguns temas na discussão das relações entre história e música, literatura e música entre outros pontos de abordagens gerais.
E, tentando ultrapassar a tradicional concepção de estudo sobre a história da música procuramos refletir e organizar alguns elementos para compreender melhor as múltiplas relações entre a música popular e o conhecimento histórico, pois é bem provável que as músicas possam esclarecer muitas coisas na história contemporânea que às vezes se supõem mortas ou perdidas na memória coletiva.
Referências
BRITTO, Paulo Henriques. Eu quero é botar meu bloco na rua. De Sérgio Sampaio/Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. 96 p.
MACHADO, João de Moraes, Eu sou aquele que disse. João Moraes Machado (Org.). Vitória: PPGL/MEL, 2007. 103 p.
MOREIRA, Rodrigo. Eu quero é botar meu bloco na rua: a biografia de Sérgio Sampaio. 2ª
NAPOLITANO, Marcos. História e Música: história cultural da música popular. 2ª ed. rev. pelo autor. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 117 p.
NASCIMENTO, Jorge Luiz do. Lugares suspeitos, terras de ninguém: alguns territórios de Sérgio Sampaio. In: MACHADO, João de Moraes. Eu sou aquele que disse. João Moraes Machado (Org.). Vitória: PPGL/MEL, 2007. p. 31-49.
Bio fornecida pelo palestrante.
POESIA, MAGIA E ENCANTAMENTO: A SEDUÇÃO POÉTICA NAS LETRAS DE CARLOS VENTTURA
Claudia Vanessa Bergamini
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) / Assis
Resumo: Este artigo apresenta considerações acerca da composição musical de Carlos Venttura, músico brasileiro. Trata-se de letras de canções nas quais se evidencia uma forte essência poética no trato da mulher e das sensações inerentes ao amor. Com delicadeza e maestria, o compositor constrói imagens sensuais de extrema beleza, contribuindo para a elaboração de uma poesia de melopeia (melodia) e de fanopeia (imagem), dentro dos moldes pensados na Antiguidade. O corpus que compõe este artigo debruçou-se sobre duas de suas composições, a saber: Primavera e Sedução. O estudo permitiu delinear um conjunto de palavras empregado pelo compositor para se referir à mulher. Conjunto este que fez das letras, aqui analisadas, verdadeira exaltação do universo feminino.
Palavras-chave: construções imagéticas; mulher; amor; poesia.
Abstract: Poetry, Magic and Charming: The Seduction in Poetic Lyrics of Carlos Venttura presents considerations about musical composition of Carlos Venttura, a Brazilian musician. The lyrics of his songs evince a strong poetic essence while dealing with women and sensations inherent to love. The composer builds skillfully and delicately sensual images of extreme beauty, contributing to the development of poetry melopoeia (melody) and fanopeia (images) following the modelo of Antiquity. The corpus proposed here consists of two of his compositions, namely Spring and Seduction. The study allows to outline a set of words used by the composer to refer to women, which consist a true exaltation of the feminine universe.
Keywords: imagetic constructions; woman; love; poetry.
Currículo da autora: Doutoranda em Letras em Estudos Literários (UNESP/ASSIS), Mestre em Literatura Brasileira-Letras (UEL), autora de material didático sobre Literatura Brasileira para cursos de Letras e Ensino Médio.
POESIA, MAGIA E ENCANTAMENTO:
A SEDUÇÃO POÉTICA NAS LETRAS
DE CARLOS VENTTURA
Claudia Vanessa Bergamini
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) / Assis
Não é novidade dizer que música e poesia convivem de forma amalgamada. O encontro desses dois gêneros, cuja origem direciona o olhar para a Antiguidade e, por conseguinte, leva a valorizar os elementos orais que os perpassam, há muito que vem sendo estimado por estudiosos da Literatura. O crítico português Hernani Cidade (1959) apresenta com maestria esta relação, ao se voltar para as cantigas medievais e encontrar nelas toda essência poética e musical.
De igual maneira, podem ser citados os aspectos melopaicos que compuseram poemas de períodos distintos da Literatura. A exemplo, cita-se toda a musicalidade dos poemas árcades de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, os quais valorizaram sobremaneira a mulher em seus textos, em especial o último, para quem a musa foi sua grande inspiração para compor a obra prima, Marília de Dirceu, obra poética do século XVIII. Pode-se ainda citar o Modernismo Brasileiro, cujas composições de poetas como Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes deram à poesia um ritmo cotidiano e doce, por meio do qual a mulher e o amor foram valorizados sobremaneira.
Há entre música e poesia uma relação tênue, a qual não se perdeu com as propostas vanguardistas que chegaram ao Brasil com o Modernismo Brasileiro. Tais propostas voltaram-se à desconstrução do modelo clássico (rimas, métrica, preferência por formas fixas como o soneto) e enfatizavam os versos livres, brancos e os poemas assimétricos. É por meio dessa forma que os modernistas e, por conseguinte, os poetas e compositores que os sucederam, valeram-se de recursos outros para compor textos nos quais a imagem e a melodia marcavam a construção de uma poesia delicada e significativa.
De igual maneira, pode-se afirmar que as composições de Carlos Venttura também apontam para a construção dessa poesia de fanopeia (imagem) e melopeia (ritmo), por meio dos quais ele direciona seu interlocutor a vivenciar o que é apresentado em cada canção.
Com vistas a demonstrar como isso ocorre nas suas letras, analisam-se as composições de Venttura: “Primavera” e “Sedução” (ver Anexo).
Em tempos nos quais a figura feminina tem sido tão depreciada em letras de gêneros musicais diversos, encontra-se em Carlos Venttura um compositor dedicado à valorização da mulher. Grande parte de suas composições falam dela, exaltando-a e a colocando como grande musa na vida do eu-lírico que se apresenta nas letras. O resultado são imagens delicadas, construídas por meio de metáforas que não ficam somente na delicadeza, haja vista que, muitas vezes, ganham ares de sensualidade acentuada.
Em ‘Sedução’, o interlocutor depara com uma metáfora que ventila duas ideias: a da sedução da boca feminina e, ao mesmo tempo, permite a construção fanopaica de um eu encantado com a beleza dessa mulher.
A sua boca poderosa rosa,
Me conduz, e me seduz.
Descortinando os brancos dentes num sorriso luz,
Lábio tom rosa carmim.
VENTTURA, CARLOS, Sedução
Nota-se que ocorre uma rima rica emparelhada entre o segundo e o terceiro versos; porém, esta rima não ganha sequência nos demais versos, fato que não é empecilho para que o compositor construa sua poesia melopaica, visto que a escolha lexical de palavras como ‘rosa’, que na estrofe tem dois significados – cor da boca e o fato de a própria boca ser uma rosa – e ‘carmim’ contribuem para a imagem poética da mulher descrita.
Na sequência, verifica-se a preferência por palavras soltas que sugerem todo o encantamento do eu diante da nudez feminina e ocorre também a sugestão da intimidade.
Pele,
Nuca,
Costas,
Bunda.
Pernas a serpentear,
Na selva dos lençóis da cama,
Ama, ama, ama…
E me leva a sonhar.
(E vive a Sonhar)
(VENTTURA, CARLOS, Sedução)
Mais uma vez é preciso destacar a riqueza da escolha lexical ao se referir aos movimentos serpenteantes embaixo dos lençóis, ao amor e ao fato disso tudo levar o eu ao sonho. A delicadeza dessa construção permite ao interlocutor construir uma imagem bela e sugestiva do ato sexual e nem mesmo a nudez retratada nos primeiros versos da estrofe diminui a mulher, ao revés disso, valorizam-na ainda mais.
Em ‘Primavera’, uma vez mais para se referir à mulher é construída uma imagem ligada à flor, desta vez a preferência foi pelo perfume do jasmim:
Amanheceu luz do Sol,
No ar um cheiro de Jasmim.
Quanta beleza ao meu lado.
Pensei que era sonho,
Mas estava acordado.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
Faz-se mister destacar que a imagem feminina se faz por meio do perfume e, na sequência, o interlocutor tem construída a imagem do sonho, já que a beleza da mulher é algo que coloca o eu em dúvida sobre a realidade.
Nos versos posteriores, tem-se uma imagem sensual apresentada:
Anjo, Mulher, Quimera,
Esfinge me devora.
Não decifrei quem era,
Pudera.
Dormi e acordei com a primavera.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
As rimas tomam a estrofe, sendo elas alternada, nos versos 1 e 3, e emparelhada em 4 e 5. No entanto, o compositor não deixou de se valer de outros recursos. No primeiro verso ocorre a gradação, tendo em vista que a mulher é colocada como ‘anjo’, algo intocável, ‘como ‘mulher’, algo real, por fim, como ‘quimera’ que, na mitologia grega, é concebida como uma fera, uma figura mítica de forma similar a um dragão. Nessa construção, observa-se que a mulher passa por estágios que a colocam como surreal (anjo), real (mulher) e mito (quimera). Para finalizar a estrofe, mais uma vez ocorre a relação entre mulher e flores, já que essa é retomada como ‘primavera’, a sugerir uma bela imagem sinestésica da mulher. A sinestesia inclusive é um recurso que segue na canção:
E é só fechar os olhos pra sentir,
Seu doce perfume. Impregnado em mim.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
Observa-se a sinestesia logo no primeiro verso, em que a sensação é aguçada pelo olhar e pelo paladar, haja vista que ao fechar os olhos o eu é capaz de sentir o doce perfume. Cabe lembrar que a sinestesia consiste na produção de duas sensações diferentes. Neste caso, o olfato e o paladar.
Toda vez que se cria uma relação entre letra e melodia tem-se uma canção. No cotidiano, estar-se-á sempre a relacionar som e palavra. No entanto, enquanto a fala é passageira, a canção eterniza uma imagem, uma melodia e as relações que com elas se estabelece.
Diante da leitura e da audição das letras/músicas de Carlos Venttura, fica evidente que as relações entre palavra e voz são ínfimas a permitir a posteridade daquilo que é cantado. Especificamente, pode-se dizer que o compositor tem dileção pela construção de relações que colocam a mulher em estado de idealização. Nota-se que ela é comparada a flores, cujo perfume, por mais suave que seja como o é o das rosas, é raro. De igual maneira o jasmim, de aroma marcante e único. Outro aspecto que permite pensar na mulher idealizada é a presença de imagens oníricas.
Em ‘Sedução’, tem-se o verso “E me leva a sonhar”, para se referir ao efeito que a mulher tem sobre o eu. Outra sugestão nessa letra se encontra em: “Pensamento voa”, em que se pode vislumbrar se tratar o ato sexual somente uma divagação do eu.
Já em ‘Primavera’, tem-se: “Sonhar depois foi minha inspiração”, ainda que os versos estejam colocados depois da afirmação do eu de que acordou com a primavera, ou seja, com a mulher, acredita-se ser possível uma imagem onírica uma vez que a mulher é anjo e quimera, palavras que sustentariam tal interpretação.
Ainda é possível destacar a preferência pelo compositor pelo perfume para identificar esta mulher. Nesse sentido, entende-se que, tal qual a leveza das flores, essa mulher intocável só permite que seu olor fique no ambiente.
As construções poéticas são capazes de expressar, de forma singular, momentos selvagens de intimidade. O olhar de Venttura para tais momentos é especial, haja vista que consegue converter, em poesia, instantes únicos de prazer, sejam eles simulacros ou reais.
Neste trecho de ‘Sedução’, pode-se observar tal característica do compositor:
O seu misterioso olhar vem me revelar,
Como é tão bela.
Seu universo em verso e prosa,
Orvalhada rosa,
A me tentar.
Tão fascinante o seu gozar.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
A metáfora que chama a atenção constrói-se com a rosa, neste caso, a orvalhada rosa sugere o êxtase feminino, o que se sustenta com a colocação do último verso em que há fascínio no eu ao ver a mulher em instante mágico. Percebe-se que a construção poética, marcada por rimas que se acentuam com a presença da vogal ‘a’, ganha ares refinados e delicados para tratar de algo que, comumente, vem sendo mencionado de forma rebaixada por alguns estilos musicais.
A esse respeito, não se pode deixar de retomar aqui as ideias de Ítalo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio (1990), acerca da leveza nos textos literários. Para o italiano, a leveza está relacionada à capacidade do compositor/autor permitir ao leitor/interlocutor que vivencie a sensação que se busca construir com as palavras. Para tanto, valendo-se de elementos linguísticos, da precisão na linguagem, com vistas a estimular, sobretudo, a percepção, por meio de metáforas e outras figuras que permitem essa sugestão verbal.
Nas composições de Carlos Venttura, a leveza é elemento preponderante e, com êxito, o compositor constrói imagens e ritmos que, de fato, estimulam a percepção do interlocutor.
À guisa de concluir as considerações aqui tecidas a respeito das composições de Carlos Venttura, cabe retificar as características que foram suscitadas, a saber: a construção de metáforas imagéticas ligando a figura feminina a flores; a construção de sinestesias sugerindo o tato e o paladar também por meio das flores; a presença de algumas rimas que dão ao texto leveza e dinamismo, corroborando o conjunto delicado de letra e música.
Por fim, ressalta-se que neste estudo somente foi possível destacar duas dessas canções, mas o conjunto composicional de Carlos Venttura reforça a ideia de que se trata de um compositor marcado pela leveza na hora de tematizar a mulher. Suas composições, para além de músicas que são verdadeiras poesias, contornam-se por elementos de magia e encantamento do eu em relação ao ser feminino.
REFERÊNCIAS
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Trad. Ivo Cardoso. São Paulo: Companhia das letras, 1990.
CIDADE, Hernâni. Lições de Cultura e Literatura Portuguesas. Lisboa: s. ed. 2 vol. 1933, 1959.
VENTTURA, Carlos. Sedução. Disponível em: http://letras.mus.br/carlos-venttura/1673779/ Acesso 11 nov. 2015.
VENTTURA, Carlos. Primavera. Disponível em: http://letras.mus.br/carlos-venttura/1599460/. Acesso 11 nov. 2015.
ANEXOS
SEDUÇÃO
Carlos Venttura
A sua boca poderosa rosa,
Me conduz, e me seduz.
Descortinando os brancos dentes num sorriso luz,
Lábio tom rosa carmim.
Pele,
Nuca,
Costas,
Bunda.
Pernas a serpentear,
Na selva dos lençóis da cama,
Ama, ama, ama…
E me leva a sonhar.
(E vive a Sonhar)
O seu misterioso olhar vem me revelar,
Como é tão bela.
Seu universo em verso e prosa,
Orvalhada rosa,
A me tentar.
Tão fascinante o seu gozar.
Bicos,
Peitos,
Fartos,
Jeitos,
Aquarelas de amor.
Seu cio,
Um rugir leoa,
Pensamento voa.
Mais uma noite de Amor…
PRIMAVERA
Carlos Venttura
Amanheceu luz do Sol,
No ar um cheiro de Jasmim.
Quanta beleza ao meu lado.
Pensei que era sonho,
Mais estava acordado.
Anjo, Mulher, Quimera,
Esfinge me devora.
Não decifrei quem era,
Pudera.
Dormi e acordei com a primavera.
Sonhar depois foi minha inspiração,
Pra delirar, talvez numa canção.
Poema imensurável,
Meu Dilema,
Com versos carregados de emoção.
E é só fechar os olhos pra sentir,
Seu doce perfume. Impregnado em mim.
Anjo, Mulher, Quimera,
Esfinge me devora.
Não decifrei quem era,
Pudera.
Só sei que acordei,
Com a Primavera
Bio fornecida pelo palestrante.
Adelia Miglievich-Ribeiro
Universidade Federal do Espírito Santo
Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres
Universidade Federal do Espírito Santo
RESUMO
Este artigo, ao examinar a literatura de Clarice Lispector, elege o debate sobre as relações de gênero e os sujeitos femininos a fim de identificar na narrativa e nos personagens clariceanos o mote crítico para pensar as identidades transitórias e as performances de gênero em detrimento de um discurso moderno que impôs identidades monolíticas e acabadas. Analisa a personagem Cidinha, protagonista do conto A Língua do “P”, do livro A via crucis do corpo (1991), no diálogo com o pós-estruturalismo e o pós-colonial, a fim de pensar “entre lugares” e hibridez, observa os fluxos de identidades, a sexualidade e a subalternidade, transgressão e deslocamentos, que permeiam a história da professora e viajante performática.
Palavras-chave: Clarice Lispector. Relações de gênero. Identidades transitórias. Performances.
RESÚMEN
En este artículo, al examinar la literatura de Clarice Lispector, elige el debate sobre las relaciones de género y los sujetos femeninos para identificar en la narrativa y en los personajes clariceanos el lema crítico para pensar las identidades transitorias y performances de género en detrimento del discurso moderno que impuso identidades monolíticas y acabadas. Analisa el personaje llamada Cidinha, protagonista del cuento A Língua do “P”, presente en el libro A via crucis do corpo (1991), por medio del diálogo con el postestructuralismo y el postcolonial, para pensar “entre lugares” y hibridez, observa los flujos de identidades, la sexualidad y la subordinación, la transgresión y desplazamientos, que impregnan la historia de la professora y viajante performática.
Palabras-clave: Clarice Lispector. Relaciones de género. Identidades transitorias. Performances.
ABSTRACT
This article chooses the debate on gender relations and female subjects in Clarice Lispector’s Literature and it has as main aim identify within narrative and Clarice’s characters the critic motto to think over temporary identities and performance of gender in detriment of a modern discourse which imposes monolythics and finished identities. It analyzes Cidinha, main character of the tale The Language of “P”, from the book The via crucis of the body (1991), in dialogue with the post-structuralist movement and post-colonial critic, for the purpose of thinking “in-between places” and hibridity, observe stream of identities, the sexuality and the subordination, transgression and displacements, which permeate the story of the performer teacher and traveler.
Key-words: Clarice Lispector. Gender relations. Temporary Identities. Performances.
CIDINHA, DE PROFESSORA A PROSTITUTA: PERFORMANCES NO CONTO A LÍNGUA DO “P”, DE CLARICE LISPECTOR
Adelia Miglievich-Ribeiro
Universidade Federal do Espírito Santo
Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres
Universidade Federal do Espírito Santo
Um conto de Clarice Lispector, presente no livro A via crucis do corpo, possibilita-nos identificar o fluxo de identidades na personagem que o protagoniza, bem como o poder da performance na (des)construção da personagem. Trata-se do conto A língua do “P”. O livro que o guarda é composto por 13 narrativas, mais uma explicação, através da qual a autora justifica a produção da obra.
Esta foi, das obras de Clarice Lispector, a que sofreu mais críticas, à época, dado o teor erótico das narrativas. Abarca um período de sua escrita literária entendido por alguns como de adesão ao “mau gosto”, à literatura ao rés do chão, conforme nos mostra Cunha (2012). A própria Clarice Lispector (1991), na Explicação, pontapé inicial da obra revela a postura dos refratários à sua obra: “Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo” (LISPECTOR, 1991, p. 20). O trecho citado marca ainda a consciência que a escritora tem da complexidade de seu texto, mas também de sua importância no cenário literário brasileiro.
Do ‘lixo’ Clarice retira as fantasias eróticas que alimentam os sonhos incomunicáveis de seres criados à sombra das repressões; do ‘mundo cão’ ela colhe os fantasmas sexuais que assombram as consciências quando assaltadas repentina e inesperadamente pelos desejos mais recalcados, transformando a vida das pessoas em verdadeiras correntes cujas argolas podem, a qualquer momento, se romper, dada fragilidade da resistência, frente aos apelos sedutores de uma carne que reclama prazer e liberdade (LUCCHESI, 1991, p. 8).
É desde um contexto que inibe a sexualidade feminina, que delimita padrões de comportamentos que Clarice Lispector age de modo subversivo, trazendo à tona os desejos, as carências e as experiências femininas invisibilizadas por trás do véu do pudor e tabu social. Ao conto A língua do “P” nos dedicaremos a partir das próximas linhas.
O conto A língua do “P” conta a história de Maria Aparecida, apelidada de Cidinha. Uma professora que vivia em Minas Gerais, segundo o narrador. Tratava-se de uma moça remediada, não era rica, mas tampouco era pobre. O foco narrativo na terceira pessoa vem recheado de fluxos de consciência, o que permite que os pensamentos dos personagens cheguem ao leitor. A personagem empreende uma viagem para o Rio de Janeiro, ponto de partida para outra viagem maior, pois de lá iria para Nova Iorque, com o intuito de aperfeiçoar o inglês. A viagem de trem que a leva para o Rio muda o seu destino a partir do encontro e da tradução da língua do p. O vagão em que se instalou a professora estava vazio, só tinha uma velhinha, até que:
Na próxima estação subiram dois homens que se sentaram no banco em frente ao banco de Cidinha. O trem em marcha. Um homem era alto, magro, de bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca. Eles olharam para Cidinha. Esta desviou o olhar, olhou pela janela do trem (LISPECTOR, 1991, p. 87).
A atenção dos homens logo se voltou para Cidinha, jovem, bonita. A moça também notou que estava sendo olhada e, portanto, que era alvo do desejo daqueles homens. Esta situação modificou o ambiente do vagão e fez com que a jovem refletisse sobre sua condição:
Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade? (LISPECTOR, 1991, p. 88).
Apresentando-se numa condição de fragilidade, o sujeito subalterno feminino que é Cidinha pensou logo no próprio corpo e no signo de sua pureza diante da sociedade de cunho patriarcal, a sua virgindade. Observamos, nesse contexto, o reflexo do controle da sexualidade, neste caso, feminina; a fim de criar o corpo disciplinado de que nos fala Foucault (2008). A importância dada pela sociedade para a preservação da virgindade feminina, condição sine qua non para definir a mulher honrada, digna do respeito social, expressava um comportamento geral de controle do corpo feminino.
Com a entrada dos homens no trem, Maria Aparecida sentiu-se ameaçada em seu íntimo. Para completar, os homens falavam de modo estranho, mas que lhe soara familiar, embora não lembrasse ao certo. Até que “de repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do ‘p’” (LISPECTOR, 1991, p. 88). Este conto apresenta-nos traços de crueldade justamente por ter uma brincadeira infantil introduzida na obra, fazendo com que uma invenção inocente de crianças, do seu mundo secreto de aventuras, passasse a servir para a realização de atos perversos pelos adultos. Conhecer a língua que partia de seu opressor fez com que Cidinha pudesse pensar em alternativas para fugir de sua condição subalterna. Eles falavam assim: “– Vopocêpê reperaparopoupu napa mopoçapa boponipitapa? – Jápá vipi tupudopo. Épé linpindapa. Espestapa nopo papapopo. Queriam dizer: você reparou na moça bonita? Já vi tudo. Está no papo” (LISPECTOR, 1991, p. 88). Apesar de compreender o que os rapazes diziam, a personagem sabiamente finge nada entender e monitorando a conversa deles descobre as suas verdadeiras intenções:
– Queperopo cupurrapar apa mopoçapa. Epe vopocepê?
– Tampambempem. Vapaipi serper nopo tupunepel.
Queriam dizer que iam currá-la no túnel… o que fazer? Cidinha não sabia e tremia de medo. Ela mal se conhecia […].
Se resistisse podiam matá-la. Era assim então […].
Matá-la com um punhal. E podiam roubá-la (LISPECTOR, 1991, p. 89).
O que fazer diante de tal situação? Cidinha, temendo a real possibilidade do estupro, pensou também em falar que não era rica, apesar de parecer. No entanto, tinha consciência de que qualquer atitude sua poderia antecipar o seu próprio fim. A solução veio através da urgência:
Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.
Então levantou a saia, fez trejeitos sensuais – nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida ela era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra. Os homens de súbito espantados.
(…)
Está doida, queriam dizer (LISPECTOR, 1991, p. 89).
Maria Aparecida encontrou uma saída para seu problema através da performance, ou seja, por meio de sua transformação de moça recatada em prostituta, sedutora e dona de sua sexualidade. Pouco a pouco essa nova identificação foi sendo descortinada dentro dela. Havia a professora e a prostituta na mesma mulher.
Ao trazermos para a análise a questão da performance, lembramo-nos da pós-estruturalista feminista de Judith Butler (1998) quando postula a teoria da performatividade aplicada à conceituação do gênero. De acordo com a estudiosa, é o discurso que acaba por formatar o nosso corpo, assim como as identidades. Haveria uma reiteração constante entre gênero e corpo que acaba por desencadear atos performativos que, por sua vez, reiteram de um conjunto de normas.
Hacer, dramatizar, reproduzir, parecen ser algunas de las estructuras elementales de la corporeización. Este ir haciendo el género no es meramente, para los agentes corporeizados, uma manera de ser exteriores, a flor de piel, abiertos a la percepción de los demás. La corporeización manifiesta claramente un conjunto de estratégias, o lo que Sartre hubiera tal vez llamado um estilo de ser, o Foucault “uma estilística de la existencia” (BUTLER, 1998, p. 300).
Através do ato performático é que a prostituta Cidinha vai ganhando corpo em detrimento da professora Maria Aparecida:
E ela a se requebrar que nem sambista de morro. Tirou da bolsa o batom e pintou-se exageradamente. E começou a cantarolar.
Então os homens começaram a rir dela. Achavam graça na doideira de Cidinha. Esta desesperada. E o túnel? (LISPECTOR, 1991, P. 89).
Percebendo a reação de estranhamento, depois de “gozação” da parte dos homens, a personagem vai intensificando sua dramatização ou, podemos também dizer, embasados em Stuart Hall (2014)[i], que trouxe à tona uma de suas múltiplas identidades, nenhuma essencial ou verdadeira em oposição à falsa, mas todas performáticas e apenas situacionalmente encobertas ou reveladas, elementos fluidos de identidades que se constituem mutuamente indefinidamente. Afinal, o autor supracitado explicita que o sujeito, compreendido anteriormente como portador de uma identidade única e estável, está se fragmentando, ou seja, tal sujeito passa a compor-se de identidades que podem ser inclusive contraditórias e não resolvidas. Hall (2014), chama a nossa atenção para o surgimento do sujeito pós-moderno, aquele que não possui identidade fixa, essencial ou permanente, ao contrário disso, ele (o sujeito) passa por um processo de formação e transformação de acordo com os sistemas culturais a sua volta. Nesse sentido, as sociedades que compõem o que o autor chamou de modernidade tardia acabam produzindo várias “posições do sujeito” ou “identificações”, através delas é que poderemos obter uma melhor explicação a respeito das identidades na pós-modernidade.
Cidinha toma para si o protagonismo de sua sexualidade e do seu corpo, que foge ao estereótipo da disciplina. Desse modo, ao tomar posse do falo, do desejo, a personagem inverte a colonialidade do poder (QUIJANO, 2013), desestabiliza os sujeitos à sua volta, haja vista que não esperavam tal atitude dela e, por isso, chamaram-na de louca.
Cabe, neste momento uma reflexão sobre o conceito de colonialidade exposto. O colonialismo, enquanto sistema de conquista, aculturação e dominação de povos e espaços, pode ter acabado, porém, a colonialidade continua presente no dia-a-dia do cidadão contemporâneo. Disto fala o sociólogo peruano Aníbal Quijano (2013, p. 1) ao propor sua reflexão sobre a colonialidade do poder, do saber e do ser. Para o autor, “a colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial de poder capitalista”, que incorpora ainda critérios de base racial/étnica, que teve como berço e se divulgou a partir das Américas. Ao aprofundar a ideia de diferenciação (hierarquização), relacionando-a ao universo do trabalho, à raça e ao gênero, o capitalismo consolidou um método eficaz de manutenção de seu poder mediante o papel central exercido pela colonialidade. Assim, podemos compreender como faz Maldonado-Torres (2013), que a “[…] ‘colonialidade do poder’ é um modelo de poder especificamente moderno que interliga a formação racial, o controle do trabalho, o Estado e a produção do conhecimento” (p. 29). Novamente, nas palavras de Quijano:
(…) o poder, nesta perspectiva, é uma malha de relações de exploração/dominação/conflito que se configuram entre as pessoas na disputa pelo controle do trabalho, da “natureza”, do sexo, da subjetividade e da autoridade. Portanto, o poder não se reduz às “relações de produção”, nem à “ordem e autoridade”, separadas ou juntas. E a classificação social refere-se aos lugares e aos papéis das gentes no controle do trabalho dos seus recursos (incluindo os da “natureza”) e seus produtos; do sexo e seus produtos; da subjetividade e dos seus produtos (antes de tudo o imaginário e o conhecimento); e da autoridade, dos recursos e dos seus produtos (QUIJANO, 2013, p. 46).
Assim como as relações de poder, o campo epistemológico ganha contornos de colonialidade, fazendo com que a produção do conhecimento seja favorável à manutenção do status quo, daí a hierarquização entre ciência e senso comum cujos efeitos se dão na criação e manutenção de relações sociais desiguais, já que aquele que tem seu saber subestimado também é ele próprio (pessoa, comunidade) rebaixado. Maldonado-Torres (2013, p.32) revela, então, que “a relação entre poder e conhecimento conduziu ao conceito de ser”.
Este ser-colonizado emerge quando poder e pensamento se tornam mecanismos de exclusão (…). É verdade que o ser-colonizado não resulta do trabalho de um determinado autor ou filósofo, mas é antes o produto da modernidade/colonialidade na sua íntima relação com a colonialidade do poder, com a colonialidade do saber e com a própria colonialidade do ser (MALDONADO-TORRES, 2013, p. 32).
No hibridismo que desloca as tradições, Maria Aparecida pede socorro à Virgem Maria que lhe dá o nome, fazendo menção à religião, símbolo do controle da sexualidade feminina, para conseguir uma saída para seu desespero. A saída vem pela desinibição no uso do corpo que a liberta da fantasia da castração, de maneira que, como propõe Magali Mendes (2014), inspirada em Derrida (2014), tem-se a produção de subjetividades ilimitadas que ultrapassam os papéis sexuais dicotômicos: “Desse modo, falar de uma différence é falar de algo que não nasce da dualidade, mas que irrompe com um determinismo ontológico, com armaduras que possam, desse modo, fixar papéis” (MENDES, 2014, p. 2-3).
Ao analisar a mulher na obra de Nietzsche, Derrida (2014) observa três condições: a primeira se refere à mulher condenada, humilhada, entendida como potência de mentira; já na segunda, a condição de condenada persiste, mas agora a mulher ganha ares de verdade. Enquanto na terceira condição, que supomos mais próxima da performática Cidinha, pode-se dizer que:
La mujer es reconocida, más allá de esta doble negación, afirmada como potencia afirmativa, disimuladora, artista, dionisíaca. No es que sea afirmada por el hombre, sino que se afirma ella misma, en ella misma y en el hombre.
En el sentido que decía antes, la castración no tiene lugar. El anti–feminismo es a su vez invertido. Condenaba a la mujer sólo en la medida en que se encontraba y respondía al hombre desde las dos posiciones reactivas (DERRIDA, 2014, p. 56).
Através da mímica, Cidinha consegue desviar a atenção dos homens que ali estavam, provocando-os no processo de “(…) se-dar-para desarticular as fronteiras, promovendo para cada termo a desapropriação de uma identidade definida” (CONTINENTINO, 2002, p. 84). É também o que nos diz Bhabha:
(…) a visibilidade da mímica é sempre produzida no lugar da interdição. É uma forma de discurso colonial que é proferido inter dicta: um discurso na encruzilhada entre o que é conhecido e permitido e o que, embora conhecido, deve ser mantido oculto, um discurso proferido nas entrelinhas e, como tal, tanto contra as regras quanto dentro delas (BHABHA, 2013, p. 152).
Assim, ela, sujeito subalterno[ii] (SPIVAK, 2010) que era, ocupante de uma posição inferior em relação ao sexo masculino assume uma postura protagonista, o que provoca estranhamento nos homens, que também perdem sua identidade pré-definida, já que não esperam uma atitude dessas por parte da moça do vagão. A relação dominador-dominado é desestabilizada. Mas, não só os que os potenciais estupradores que pretendiam currá-la são afetados por sua ação, de pronto as autoridades do trem apareceram e a mulher é recriminada:
Apareceu o bilheteiro. Viu tudo. Não disse nada. Mas foi ao maquinista e contou. Este disse:
– Vamos dar um jeito, vou entregar ela pra polícia na primeira estação.
E a próxima estação veio.
O maquinista desceu, falou com um soldado por nome José Lindalvo. José Lindalvo não era de brincadeira. Subiu no vagão, viu Cidinha, agarrou-a com brutalidade pelo braço, segurou como pôde as três maletas, e ambos desceram (LISPECTOR, 1991, p. 90).
A polícia aparece como elemento repressor, é um dos agentes da cerca apresentada por Foucault (2008) e tem por objetivo manter a disciplina. No caso de Cidinha, sua atitude fez com que ela fugisse à regra, destoando do estereótipo do corpo dócil. A repressão demonstra o receio social em torno dessa mulher e lembramos mais uma vez de Bhabha (2013) que nos fala do medo que o colonizador também tem do sujeito colonizado.
A imagem da prostituta, apesar de presença comum em todas as cidades, é indesejada porque incômoda, a sexualidade não dissimulada, não reprimida gera constrangimentos e reprimendas: “Na pequena estação pintada de azul e rosa estava uma jovem com uma maleta. Olhou para Cidinha com desprezo. Subiu no trem e este partiu” (LISPECTOR, 1991, p. 90). Assim como a mulher de burca, no contexto argelino descrito por Bhabha (2013) – ao tratar da obra de Fanon – precisa ser vigiada, a mulher que se traveste de prostituta e ousa mostrar-se assim num espaço público também. Maria Aparecida, enquanto prostituta, conseguiu ameaçar aqueles dois homens e os funcionários do trem, imaginemos o que faria ela se descobrisse a força quem têm? Ela é o sujeito colonizado que ainda não descobriu totalmente a sua força perante o colonizador, não conseguiu perceber o medo que este tem de que aquele sujeito se rebele. Nesse contexto, o olho da vigilância recai sobre ela:
Cidinha não sabia como se explicar ao polícia. A língua do “p” não tinha explicação. Foi levada ao xadrez e lá fichada. Chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias. Deixavam-na fumar. Fumava como uma louca, tragando, pisando o cigarro no chão de cimento. Tinha uma barata gorda se arrastando no chão (LISPECTOR, 1991, p. 90).
A personagem livrou-se de um destino cruel que consistiria na violação de seu corpo, no entanto, teve de experimentar a reclusão e as ofensas. Na cadeia, passou por um processo de transformação, reassumia a identidade anterior: “(…) Tinha lavado a cara, não era mais prostituta” (LISPECTOR, 1991, p. 90). Quando pôde sair da cadeia, pegou um novo trem para o Rio de Janeiro. Neste momento, um pensamento a preocupava: “(…) quando os dois haviam falado em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa” (LISPECTOR, 1991, p. 90). Cidinha percebeu que não existia somente uma identidade dentro de Maria Aparecida, a virgem, professora, recatada, com ares de rica, podia conviver com a mulher ousada, dona de sua sexualidade, representada pela prostituta. No entanto, o peso moral ainda a deixa cabisbaixa.
Mal tinha se dado conta do grande perigo de que se livrara, justamente por fazer uso de uma imagem marginalizada. Ela se deu conta, por acaso, vagando por Copacabana, lamentando a sua “desgraça”.
Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal O Dia. Não saberia dizer por que comprou.
Em manchete negra estava escrito: “Moça currada e assassinada no trem”.
Tremeu toda. Acontecera, então. E com a moça que a desprezara (LISPECTOR, 1991, p. 91).
Cidinha sentiu-se mal, sequer quis saber os detalhes do acontecido. Fora salva por pouco: sua destreza, o conhecimento da língua do “p” e a performance. Mal sabia a jovem que a olhou com desprezo na estação, que a reprimiu, que o destino lhe seria “implacável” e que aquela viagem acabaria mal.
Entretanto, para Maria Aparecida o saldo foi positivo. Ela deu lugar às múltiplas identidades dentro dela, descobriu que poderia ser agente de sua história, de seu corpo e de sua sexualidade. Fez uso dos artifícios e da força que o colonizado tem diante de seu opressor, revelando que a passividade não é característica inerente e definitiva do sujeito subalterno. Ela agiu, de modo a ser vista, garantindo a sua sobrevivência e existência no mundo.
REFERÊNCIAS
BHABHA, Homi K. O local da cultura. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
BUTLER, Judith. Actos performativos y constitución de género: un ensayo sobre fenomenología y teoría feminista. Debate Feminista, 1998, pp. 296-314. Disponível em: www.debatefeminista.com. Acesso em: julho de 2014.
CONTINENTINO, Ana Maria Amado. Derrida e a diferença sexual para além do masculino e feminino. In: DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar (org.). Às margens: a propósito Derrida. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002.
CUNHA, Betina Ribeiro Rodrigues da (org.). Clarice: olhares oblíquos, retratos plurais. Uberlândia: EDUFU, 2012.
DERRIDA, Jacques. Espolones los estilos de Nietzsche. Disponível em: www.uruguaypiensa.org.uy Acesso: agosto/2014.
ESCOSTEGUY, Ana. Os Estudos Culturais. Disponível em: PUC/RS. Acesso: 07/06/2015.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 35ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.
LUCCHESI, IVO. A paixão do corpo entre os fantasmas e as fantasias do desejo. In: LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.
MALDONADO-TORRES, Nelson. A topologia do ser e a geopolítica do conhecimento. Modernidade, Império e Colonialidade. In: SANTOS, Boaventura de Sousa, MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul (livro eletrônico). São Paulo: Cortez, 2013.
MENDES, Magali. Um texto no Feminino atravessado pela Diferença: uma leitura de Nietzsche através de Derrida. Disponível em: ASAFTI. Acesso em: agosto/2014.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa, MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul (livro eletrônico). São Paulo: Cortez, 2013.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
[i] Stuart Hall é um dos expoentes dos Estudos Culturais. Esta consiste numa área de estudos em que diferentes disciplinas interatuam e tem como objetivo o estudo dos aspectos culturais da sociedade. Seu surgimento, mais organizado, situa-se, segundo Ana Escosteguy (2015), no final da década de 1950, vinculada ao Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS). Para saber mais sobre o tema consultar clique aqui.
[ii] Um estudo importante para pensarmos a noção de sujeito subalterno é a produção de Gayatri Chakravorty Spivak. Em Pode o subalterno falar? (2010), a autora reflete sobre a representação do ser colonizado, identificado por ela como subalterno. Esse sujeito colonial é identificado como um ser sem voz ativa, pois geralmente são os intelectuais que falam por eles e são quem os constituem como o outro. Spivak (2010) chama especial atenção para a condição da mulher em meio a essas relações de subalternidade, que além de estar submetida ao sistema, vive sob a égide do sujeito masculino, subalterno ou não.
Bio fornecida pelo palestrante.
Nonato Gurgel
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço
(Ana C., “Cenas de Abril”)
Resumo: Estudo sobre a obra de Luiza Lobo, composta de contos e ensaios. Com base em Homi Bhabha, Stuart Hall e aspectos da literatura contemporânea brasileira, o texto estuda as diferentes facetas imagéticas da autora.
Palavras-chaves: Luiza Lobo – Antiviagens – Estranha aparição – contos – globalização.
Summary: A study on Luiza Lobo’s essays and short stories based on Homi Bhabha, Stuart Hall and some aspects of Brazilian contemporary literature, taking into account the several dimensions of the imagery employed by the author.
Key-words: Luiza Lobo – anti-travels – Strange Apparition – short stories – globalizat-ion.
Minicurrículo: Nonato Gurgel tem doutorado em Ciência da Literatura na UFRJ, onde participou do SPTC – Seminário Permanente de Teorias Contemporâneas – UFRJ/CNPq e trabalhou como consultor literário da Biblioteca Virtual de Literatura do PACC-UFRJ. Publicou o livro Gênero e representação na Literatura Brasileira, Belo Horizonte, UFMG, 2002; e textos nas revistas Acervos Literários (UFOP), Odisseia (UFRN), Terceira Margem (UFRJ) e Ipotesi (UFJF) e em jornais, como O Galo (RN) e Suplemento Literário (MG).
Nonato Gurgel
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Na leitura deste texto, parto de uma “antiviagem” na qual o navio do poema de Ana C. simula a própria narrativa que se deseja recuperada, enquanto o espaço no qual esse navio deseja ancorar é aqui lido como metáfora do espaço de inscrição de quem narra.
Afogada e dissolvida a grande “metáfora da navegação” que engendrou a narrativa épica, partimos de uma pergunta: qual seria nesta leitura, nesta “antiviagem”, a dificuldade encontrada pelo navio – a narrativa – para ancorar no espaço de sua inscrição? Esta, a indagação norteadora deste texto. Sei, de antemão, não existir uma única resposta para nomear essa dificuldade. No entanto, uma possível senha pode ser colhida em “Antiviagens”[1] – ensaio de Luiza Lobo no qual a autora propõe “uma leitura textual a partir da noção de antipériplo, antiépica ou de uma antiviagem ou viagem ao revés”. Referindo-se à desconstrução do gênero épico e sua travessia do epos, canto “coletivo e melódico” de um povo, para uma “produção” individualizada, a autora situa essa transformação épica numa história que ostenta o seguinte roteiro:
…uma história cada vez menos totalizadora e universal, porque dedica menos espaço ao sobrenatural, ao mitológico, e mais importância aos acontecimentos factuais e à forma como são vividos, tornando-se mais fragmentária e existencial…
Assumindo colher na leitura da modernidade de Walter Benjamin sua senha, Luiza nos dá um possível ponto de partida para a “antiviagem” empreendida a partir daquela indagação inicial: qual a dificuldade da narrativa para ancorar – inscrever-se – no espaço da escrita? Uma outra possível resposta para esta dificuldade pode estar na leitura das relações entre o espaço e a escrita, sugeridas no conto “O chupador acadêmico”[2] – o sexto dentre os dez textos que compõem o volume de Estranha Aparição. Nesse conto Luiza Lobo estetiza uma pesquisadora acadêmica, cujas “narinas de fera sanguinária” farejam as empoeiradas páginas de uma antiga biblioteca universitária. Em seu “passeio lodoso pelas catacumbas do saber”, essa narradora contata um velho professor que está escrevendo uma enciclopédia, e vivifica.[3]
…um universo linguístico de quando a literatura era a rainha do mundo e único instrumento de lazer, uma era dourada anterior ao rádio, ao cinema, à televisão e ao vídeo, à história em quadrinhos e ao telefone.
Acrescente-se a esses suportes materiais o computador. Com base neste cenário maquínico e virtual e naquela história fragmentada – na qual a noção de totalidade perdeu o sentido – inscreve-se a escrita da geração de Luiza. Neste cenário circula um sujeito órfão dos “valores mítico-históricos e heróicos da Idade Média”[4], dos ideais humanísticos herdados do Renascimento e das ideias de representação e de produção do sentido cultivadas pela modernidade.
Se aos modernos coube a releitura dos valores transcendentes e a representação da cena do assassinato divino, à geração da autora restou uma simulação meio “portátil”: questionar a construção dos modernos valores metafísicos e transplantar o céu – antigo espaço de leitura do conhecimento – para a tela luzidia do computador. Um “céu” no qual, convenhamos, anjos, demônios e “chupadores” virtuais “navegam” por cenários em ruínas inscrevendo o mal-estar da civilização, da pós-modernidade.
É a partir deste espaço mutante – problematizado pela intensificação da ação da letra nele “ancorar”, ou seja, inscrever-se – que se projeta a escrita contemporânea. A leitura dessa escrita pode ser ouvida no registro de uma voz representativa da própria geração da autora: “Luiza Lobo lançou um muito belo livro de contos”[5]. Com essa frase, a poeta Ana Cristina Cesar encerrava uma carta de 1976 para Cecília Londres – sua ex-professora de Letras na PUC –, que se encontrava na Europa.
O livro ao qual a poeta de A teus pés faz referência intitula-se Por trás dos muros. Depois dele Luiza lançou, além de vários textos ensaísticos, Vôo livre (1982), Maçã mordida (1992), Sexameron (1997) e Estranha aparição (2000).[6] Na orelha deste quinto livro de ficção, o poeta Sebastião Uchoa Leite ressalta uma letra erótica que incursiona por zonas de estranhamento e indefinição, recorrendo freqüentemente ao humor. Mas, segundo o poeta de A ficção Vida , é de uma certa “mescla cultural” “que Luiza Lobo retira a súmula do seu poder inventivo”.
Esse “poder inventivo” da autora pode ser aferido já no conto “As ostras do sexo” que abre o volume de Estranha aparição. No referido texto estão presentes alguns dos procedimentos estéticos dos quais a autora lançará mão nos contos seguintes. Dentre esses procedimentos destaca-se a predileção por uma escrita que possui na visibilidade um dos principais sentidos de sua inscrição. Plugado numa dimensão sensorial que aciona inusitadas comparações, o referido texto é fortemente centrado no sentido da visão, no “efeito da cor sobre a carne”.
Mas em Estranha aparição – conto homônimo ao título do volume – a ação do olhar parece se fazer ainda mais visível. Constrói-se no referido texto uma espécie de didática do olhar atestada no uso de lexias[7], como: “dardejado um olhar”, “chegado ao olho mágico”, “olhos eram de louco”, “os olhos lhe perfurando o cérebro”, etc. Essa ação óptica presente no livro Estranha aparição define, em textos como “As ostras do sexo”, a utilização de um recorte vocabular voltado para artes imagéticas como a fotografia e o cinema (cena, off, Setting, flashback, luz branca vazada, the end, ending…). Além disso, destaca-se em vários contos do mencionado volume o repertório da referida “mescla cultural”, como atesta o vasto intertexto histórico e literário tecido pela autora.
A predileção de Luiza Lobo pela linguagem visual é também visível em sua produção ensaística, como lemos no texto “Globalização e ideologia”[8]. Neste ensaio, a autora reflete acerca das mutações ocorridas nos espaços da arte e da cultura, a partir das mudanças de percepções acionadas pela reprodutibilidade técnica, cuja inscrição se dá com base na recepção óptica de Walter Benjamin e na dialética da negatividade de Theodor Adorno. Segundo Luiza,
… a linguagem visual e cinematográfica apresenta a simultaneidade de sons, falas, movimentos, que se intercalam numa ordem aparentemente aleatória e numa velocidade impressionante.
Com base nessa linguagem, o conto “As ostras do sexo” apresenta – como numa montagem cinematográfica – imagens que se multiplicam na memória, sugerindo vários epílogos possíveis no decorrer da própria narrativa. Nesta inscreve-se uma letra que possui no intertexto com Stern, Drummond, Mário de Andrade, Marx e Mallarmé, dentre outros, sua base. A autora sabe que “a literatura pós-moderna se constitui de antipériplos, intertextualidades e antiviagens”[9].
Além desses autores com os quais Luiza aciona o procedimento da intertextualidade, dois poderosos mitos passeiam de mãos dadas neste espaço textual: Eros – promotor da vida e da desordem, e Mnemosyne – a deusa da reminiscência. Mas é aqui imperativo ressaltar a incompletude memorialística (“ostras boiando na memória apagada”), e a vivência de uma afetividade e uma sexualidade que geralmente descambam para o espaço dos questionamentos existenciais. Isso é notório na conclusão do citado conto, “As ostras do sexo”, onde a narradora cala e seu discurso interrogativo compartilha com o leitor a palavra final: “Não haveria um limite, um princípio, uma medida, uma causa, um enredo, afinal? Sorvia o café e não atinava com a resposta”[10].
A indagação final da pesquisadora parece reportar à própria dificuldade de inscrição da letra num espaço no qual as noções de “medida” e “limite” foram destruídas pelas vanguardas. Podem, sobretudo, remeter aos princípios dos paradigmas artísticos e culturais desconstruídos pelo Estruturalismo e à releitura identitária acionada pelos estudos culturais; nestes, o espaço de inscrição da identidade passa a ser enquadrado a partir do “espaço da escrita” e não mais do “campo de visão” do sujeito. Ou seja: para Homi Bhabha importa “o lugar discursivo e disciplinar de onde as questões de identidade são estratégica e institucionalmente colocadas”[11]. Com base nessa revisão histórica, esses estudos se voltam para o passado relendo a cultura não como viagem de retorno, mas como produção sintonizada com um devir; o que possibilita indagar o que poderemos fazer com nossa tradição e não o que ela, a tradição, poderá fazer conosco (Stuart Hall). Neste olhar para a cultura e a tradição, vislumbra-se também a releitura dos valores que fundamentam o cânone literário – um dos itens mais abordados no nível temático de textos como ”O chupador acadêmico”.
Podemos imaginar ainda que a falta de respostas e as indagações conclusivas da narradora de “As ostras do sexo” traduzem um tempo no qual a utopia parece debilitada e o sujeito cata uma causa, uma ideologia a partir da qual possa elaborar algum trajeto político e/ou existencial. Da narrativa tecida a partir desta problemática – os limites formais das vanguardas, a desconstrução canônica, a perda do sentido, a releitura identitária e o vazio ideológico – não restou mais do que uma viagem via linguagem. Uma “antiviagem”. Ou, como diz o “Chupador Acadêmico”, existe apenas “um simulacro de mistura de enredos”.
Ancorando o navio no espaço
É justamente neste conto – “O chupador acadêmico” – onde talvez possa ser vislumbrada, com mais nitidez, uma resposta àquela indagação inicial – a dificuldade encontrada pela escrita contemporânea para “ancorar” no espaço de sua inscrição. No referido texto Luiza utiliza-se, dentre outros, dos mesmos procedimentos entrevistos em “As ostras do sexo”: o repertório da “mescla cultural”, a mixagem de imagens visuais, a inscrição de Eros e Mnemosyne como mitos a partir dos quais o discurso da narradora se constrói e o intertexto literário.
Além da intertextualidade, em “O chupador acadêmico” – como o próprio título sugere – predominam procedimentos artísticos de apropriação da escrita e de vampiragem estética, como a simulação, a colagem e o “mosaico de citações” (Walter Benjamin). A partir disso, tornam-se audíveis no texto de Luiza as vozes de, dentre outros, Castro Alves, Olavo Bilac, Jane Austen, Machado de Assis, Shakespeare e Borges.
Essas vozes são audíveis num espaço no qual à escrita impressa imprime-se forte polifonia, e à letra virtual resta a releitura do nosso vasto arquivo de formas. Com a mesma desenvoltura, a narradora transita pelo polifônico espaço físico da página e da biblioteca e pelo imagético espaço da virtualidade. É interessante confrontar as diferenças entre esses espaços pelos quais ela circula. Enquanto os espaços da página e da biblioteca se prestam a um “passeio lodoso pelas catacumbas do saber”, ao virtual cabe a seguinte descrição[12]:
A cultura lépida e ‘clean’ da informática puritana tinha colocado em desuso velhos ranços da tradição parnasiana acadêmica, com seus lápis, canetas e fitas de máquina que borravam as mãos e deixavam os dedos rançosos de manuscritos herdados de velhos eremitas.
Neste asséptico espaço da cultura lépida e clean, uma nova escrita se inscreve. Ela se produz sob as bênçãos do computador – um “novo deus Thot” (o antigo deus da escrita), possibilitando a produção de um pensamento “de forma vulcânica, não aristotélica, pós-cartesiana e não dicotômica”[13]. Assim ocorre no conto “O chupador acadêmico”: a interação entre a escrita e o espaço físico, a página literária e o espaço virtual se dão de forma eminentemente sincrônica.
Ao imergir no espaço da escrita persuasiva de Jane Austen[14], a narradora tem a “ideia” “tétrica e delirante, mas também prática e atraente” de permanecer trancada por uma noite no deserto subterrâneo da biblioteca. Desse espaço de imersão – nas entranhas da biblioteca e depois na página de Jane Austen – a pesquisadora salta para o espaço da virtualidade, ao “ouvir um cicio como de uma cobra ou de um drive sujo de algum computador com problemas de hardware”[15]. É aqui que os três espaços da escrita – delineados pela movência de quem narra e sua sensorial demanda corporal – se articulam: o físico, o literário, o virtual.
Rastreemos, pois, o roteiro espacial da narradora, após adentrar os subterrâneos bibliotecários. Mergulhada no espaço do texto de Austen, ela colhe na página literária a senha para a sua permanência no espaço físico – o subterrâneo deserto da própria biblioteca; daí ela alcança o espaço da virtualidade onde contata o “Chupador acadêmico”, sua fome intelectual de recarga e sua predileção pelos clássicos. Após ouvir o “ruído estranho” que a colocaria em interação com o “Chupador…”[16], a personagem sentiu-se
…envolvida num manto de esquecimento, como se o seu corpo tivesse desaparecido, e apenas os olhos vermelhos e empoeirados penetrassem nas páginas das obras, numa imensa web, sem comandos de sua parte.
Sem comandos de sua parte… Enquanto no espaço físico da biblioteca e no espaço da página literária a narradora comandava, de certa forma, os atos de ler e refletir, no espaço virtual ela passa a ser dirigida pelo “Chupador”. Nestes dois primeiros espaços físicos – a biblioteca e a página do livro –, o diferencial operado pelos sentidos comanda as ações e as reflexões da pesquisadora; enquanto no espaço da virtualidade essas ações passam a ser delineadas e traçadas pelo “Chupador acadêmico” – presença virtual sem a qual a personagem assume não mais conseguir viver.
Apesar disso, é nos personagens literários das “páginas empoeiradas dos livros”, que a pesquisadora busca a sensual “presença” daquele que “constantemente” suga sua mente, suas forças. No espaço da página escrita ela tenta diariamente contatar o “Chupador acadêmico”. Ou seja: para “ancorar” no espaço de sua inscrição, o “navio” da narrativa contemporânea requer a sincronia entre vários e diferenciados tempos e espaços. Principalmente o espaço da página escrita – espaço a partir do qual Luiza inscreve a letra de sua Estranha aparição.
Referências bibliográficas
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CÉSAR, Ana Cristina. Correspondência incompleta. Freitas Filho, Armando; Holanda, Heloísa Buarque de. (Orgs.). Rio de Janeiro: IMS/Aeroplano, 1999.
CÉSAR, Ana Cristina. A teus pés. 6ª ed. São Paulo: Brasiliense, s/d.
LOBO, Luiza. Estranha aparição. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
LOBO, Luiza. “Globalização e ideologia”. In: Globalização e literatura. Discursos Transculturais. Vol. 1. LOBO, Luiza. (Org.). Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
LOBO, Luiza. “Antiviagens”. In: Revista Terceira Margem. Viagens & Outros ensaios. Revista da Pós- Graduação em Letras da UFRJ. Ano IV/V, 1997-1998: nº 5-6.
LOBO, Luiza. “A der(rota) na metáfora da navegação, de Jorge de Lima a Ana Cristina Cesar”. In: Perspectivas – Modernidades. Rio de Janeiro: UFRJ, 1988.
SANTOS, Roberto Correia dos; SZKLOS, Gilda Salém. “Leitura em fragmentos”. In: Perspectivas 2. Ensaios de Teoria e Crítica. Rio de Janeiro: UFRJ, 1985.
[1] Lobo, L. in Terceira Margem. 1997-8. p. 80. Daqui por diante referido como TM.
[2] Lobo, L. “Estranha aparição”. In: LOBO. Estranha aparição, 2000. p. 83-101. Daqui por diante referido como EA.
[3] Lobo. EA, 2000. p. 94.
[4] Lobo. TM, 1997-8. p. 80.
[5] Cesar. “Correspondência incompleta”. 1999. p. 133.
[6] Em 2011, publicou o romance de nova história Terras proibidas: a saga do café no vale do Paraíba do Sul (Rio de Janeiro, Rocco, 2011, 494 p.). [Nota da redação de Literatura e Cultura, revista on-line].
[7] Aqui lida como espaço de possibilidades para a construção do sentido.
[8] Lobo. “Globalização e literatura”. 1999. p. 39.
[9] Lobo. TM, 1997-8. p. 84.
[10] Lobo. “Estranha Aparição”. EA, 2000. p. 32.
[11] Bhabha. “O local da cultura”. 1998. p. 81.
[12] Lobo. EA 2000. p. 91.
[13] Lobo. Op. Cit. 1999. p. 40.
[14] Da autora da Ilustração inglesa, Luiza traduziu o romance Persuasão (Rio de Janeiro, Francisco Alves).
[15] Lobo. Op. Cit. 2000. p. 95.
[16] Lobo. Op. Cit. 2000. p. 99.
Bio fornecida pelo palestrante.
Resumo: Este artigo se propõe a descrever aspectos relacionados à arte de representar e cantar na cidade carioca, evidenciando a exclusão das mulheres das artes, bem como apresentar a inclusão de atores negros nas apresentações públicas, uma vez que a arte de representar não era almejada pelos bem-nascidos socialmente. Nesse período que compreende os séculos XVIII e XIX, esse grupo étnico pintava o rosto de branco e se travestia de mulheres, inclusive usando perucas loiras, para representar personagens brancas. A mulher negra neste período quebrou preconceitos da sociedade patriarcal, ao se inserir nas representações teatrais e musicais. E neste contexto, abordaremos sobre a cantora lírica negra Joaquina Maria da Conceição, conhecida no mundo artístico como Joaquina Lapinha. A referida artista foi reconhecida nos teatros lusitanos pelo seu imponente canto lírico e presença de palco, ganhando assim notoriedade no mundo das representações artística.
A contribuição dos negros na arte de representar e cantar na cidade carioca: Joaquina Lapinha quebra barreiras no universo artístico lírico
Cristina da Conceição Silva
José Geraldo da Rocha
Introdução
Navegar no universo das concepções e concretização do carnaval é uma verdadeira imersão em um grande laboratório literário. Isso de certo modo ressignifica o nome “escola” presente em todas as agremiações que fazem o carnaval carioca desde os desfiles na Intendente Magalhães até os desfiles na avenida Marquês de Sapucaí.
Este artigo surgiu a partir da divulgação do enredo da Escola de Samba Inocente de Belford Roxo de 2014, intitulado O triunfo da América: o canto lírico de Joaquina Lapinha. Joaquina Lapinha foi uma cantora lírica negra que venceu preconceitos, ou seja, uma joia de raro talento para o século XVIII, e que pode ser considerada emancipadora da mulher no mundo das artes de representação teatral e do canto lírico. Logo, ao ouvirmos os refrãos do samba-enredo, composição de Altamiro / Tico do Gato / Vinicius Ferreira / Claudinho / Chiquinho do Bar / Manelão / Abilio Mestre Sala / Paulo / Juruna Zona, que descreve Joaquina Lapinha assim:
Desfrutando talento, venceu preconceito / Cobrou seu direito, superou desafio / Seguiu seu destino, mostrando ao mundo / O valor de uma mulher (aplaudida de pé)… / Lisboa aplaudiu o sonho brilhou / O príncipe ouviu a notícia ecoou / Oh! Negra mulher…
E foi no furor dos festejos de momo, que nos encantamos pela personagem e vislumbramos investigar literaturas que abordassem a respeito da cantora lírica, todavia, falar do negro para nós é uma questão identitária. Logo, as literaturas que descrevem acerca da cantora nos enveredaram para o papel do negro no universo teatral e musical, e assim, percorremos os caminhos dos homens e mulheres negras no universo artístico carioca. E nesse universo observamos que os negros de uma forma jocosa, foram inseridos pelo branco no contexto teatral e pelas entidades religiosas na música de cunho religioso. Todavia, esse papel era destinado aos gêneros masculinos, mas a mulher negra adentrou nesse mundo masculino e abriu as portas para as mulheres brancas nas apresentações e representações artísticas nos séculos posteriores. Na atualidade identificamos que tanto homens como mulheres negras, são submetidos a cotas para serem inseridos no mundo das representações e quanto arte musical especialmente a lírica, poucos são os afro-brasileiros que são representados nesta modalidade musical.
Assim sendo, este artigo visa percorrer o caminho de homens e mulheres negras nas artes musicais e de representações, e como destaque desse grupo étnico, abordaremos sobre o sucesso da mulher negra Joaquina Lapinha, nas artes de representar e cantar.
Leeuwen (2009) observa que a cidade do Rio de Janeiro nos meados período setecentista, conhecida no período como cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, tornou-se capital do vice-reino do Brasil, substituindo a cidade de Salvador na Bahia. E que a partir deste momento ocorre um processo de desenvolvimento e renovação da geografia, fato também intensificado por conta do declínio da exploração da mineração em Minas Gerais.
Para a autora é importante ressaltar que muitos estudos apontam a importância do Rio de Janeiro, após a chegada da família real no ano de 1808, logo, a produção historiográfica da cidade no período setecentista é bastante escassa. Neste contexto, Cardoso (2006) identifica que a vida social e cultural da cidade do Rio de Janeiro, passa a ter mais visibilidade com a presença da nobreza que se fixou na cidade neste período, ao contrário de Salvador que foi a primeira capital e de Minas Gerais que apresentava glamour em função da descoberta do ouro. A cidade carioca era uma geografia por onde passavam mercadorias, era local de grande comércio e espaço geográfico onde se carregava todo o tráfico da América e se descarregava todo o peso do governo de Minas Gerais e São Paulo. No primeiro quinquênio do século XVIII, a vila do Rio de Janeiro, passa a ter importância militar, mas, também pelo porto que passa escoar preciosos minerais para a Europa e passa a ser o centro de abastecimento das regiões minerais.
E por conta desse desenvolvimento, declara Cardoso (2006) que a produção artística da cidade, mesmo se comparada à de Minas Gerais, foi muito significativa no que se refere à musicalidade carioca, com a chegada da corte portuguesa. A música passa a fazer parte da cultura da cidade, no período oitocentista, e se elevou acima do que se apresentava anteriormente, o que ocorria nos desfiles de batalhões ou nos entreatos das dramaturgias nos teatros. Logo, a música começa a circular na boca do povo, em canções populares e animando as danças nos salões e nas ruas da cidade, a música era também era executada nas igrejas nas comemorações aos santos de devoção popular e nas residências das famílias cariocas. A banda dos barbeiros, orquestra composta por negros que eram músicos, se fazia presente nas quermesses católicas. Os choros cariocas, e outras modalidades musicais passam a ser contemplados em grandes templos artísticos e festas religiosas da cidade do Rio de Janeiro. A partir destas práticas festivas, observasse a presença da música em inúmeros eventos da cidade carioca, desde os mais nobres aos populares, ocorrendo desde eventos religiosos aos denominados profanos e na dramaturgia, segundo LEEUWEN (2009) e CARDOSO (2006).
Embora Recife e Salvador fossem geografias de grandes tradições culturais, o Rio de Janeiro ganhava espaço neste quesito, tendo em vista a chegada dos monges-músicos e de bons músicos de importantes centros urbanos de Minas Gerais. Pacheco (2006) aborda que, ao longo do século XVIII, o Rio de Janeiro sofre muitas mudanças em função de sua expansão urbana. Logo alguns espaços do Centro da cidade apresentam novas configurações, com o surgimento de inúmeras edificações religiosas. Declara ainda o autor que as alterações urbanas da cidade carioca não paravam de ocorrer, e que no período setecentista foi construído o Passeio público, segundo plano de Mestre Valentim, e a casa da Ópera, fundada por Manuel Luís Ferreira. Assim, surgem as primeiras referências de espaços de representações dramáticas, e com isso se manifesta a presença da música de outros gêneros, embora a música religiosa fosse a de maior relevância para a sociedade carioca:
Lembramos que, como herança portuguesa, as relações entre a Igreja católica e o Estado no Brasil se deram pela instituição do padroado, assim, identificamos o monarca português como o verdadeiro chefe da Igreja. Dessa forma, em 1808, Dom João foi o responsável pela criação da Capela Real do Rio de Janeiro. (LEEUWEN, 2009, p. 42).
Cardoso (2008) menciona que a música na cidade do Rio de Janeiro apresentava manifestações em espaços populares e religiosos e que diferentes gêneros musicais e danças ofereciam aos estrangeiros que chegavam na cidade uma variedade de experiências sonoras. Entre tais experiências estavam os ritmos da modinha e do lundu, presentes tanto na cultura popular quanto na música palaciana no Brasil e em Portugal. Esta interculturalidade entre metrópole e colônia, que se difundia nas ruas e nos salões aristocráticos, revelou circularidade cultural estabelecida através das revelações musicais europeias e africanas. Fato que levou ao surgimento de novos gêneros reconhecidos como tipicamente brasileiros: o lundu e a modinha.
Após a chegada da corte portuguesa, identificamos a Real Câmara como a principal responsável pela produção da música de câmara, que incluía a execução de serenatas e cantatas entre outras, em locais como o Paço de São Cristóvão – também chamado Real Quinta da Boa Vista, residência habitual de Dom João VI, e a Real Fazenda de Santa Cruz. (LEEUWEN, 2009, p. 45).
Aponta Leeuwen (2009) que o teatro e a igreja eram pontos obrigatórios de encontros sociais, e que esses espaços difundiram a música e deram visibilidades a cantores e músicos, além de transforma prática musical pública, e não mais restritas aos ambientes privados.
A prática musical no Rio de Janeiro setecentista e nos primórdios oitocentistas surge com novas roupagens da cidade carioca, a exemplo: crescimento populacional, acolhidas de missões (especialmente a Missão Artística Francesa), visitas de estrangeiros à cidade e expansão econômica intensa. Logo, com todos estes aspectos surgem as demandas culturais e, assim, os palcos improvisados, em terrenos abandonados, praças e ruas da cidade, os quais surgem como espaço de representação artística. Tempos depois, esses espaços utilizados pela massa popular passaram a ter local próprio para expressão artística, com a efetivação do teatro público. No século XIX, surge o Teatro Padre Ventura, que acolheu óperas e teatros de marionetes. Todavia, existem autores que apresentam divergências sobre os títulos das óperas apresentadas no Rio de Janeiro nesse período. Tais desencontros também aparecem quanto à nomenclatura do teatro; entretanto, o que é comum nos relatos entre diversos estrangeiros que pela cidade passaram, é que o referido espaço separava homens e mulheres nas acomodações, evidenciando a diversidade entre os gêneros, identifica Leeuwen (2009).
A educação feminina, aponta Leeuwen (2009), no final do período colonial no Brasil, era voltada para a liderança doméstica, ou seja, nas atividades da costura, bordados, pois geralmente as mulheres não aprendiam a ler e escrever e a contar. Logo, a educação recebida pelas mulheres era prioritariamente para economia doméstica e para criar os filhos. Pacheco (2006) identifica que os dogmas da igreja católica confinavam as mulheres, especialmente as casadas, para diferenciá-las das solteiras e mundanas, apresentando o discurso do pecado da luxúria e valorizando o papel do casamento. Em virtude deste pensamento moral, que assolava os costumes da sociedade na época, era questionável a presença feminina nas artes de interpretar, bem como na música em apresentações públicas no Brasil oitocentista. A presença feminina, especialmente as de tez negra ou descendentes de negros na música não era de agrado para a sociedade carioca do século XIX, mas elas se entregaram à arte de cantar, dançar e representar.
Pacheco (2006) aponta que a história da música apresenta uma postura conservadora, em que a participação das mulheres era ínfima, o que denota a conspiração do universo masculino, que ignorava a presença feminina no mundo musical no Brasil colônia, bem como em outras artes.
A participação das mulheres públicas na música, que participavam de confrarias, ocorria na função de copistas, ofício esse que necessitava de grande conhecimento teórico e prático no século XIX, e era pequena a expressão do grupo feminino que exercia essa função. Todavia, Pacheco (2006) identifica a relevante atuação da cantora Joaquina Lapinha nesse período, além de observar a participação de outras duas mulheres no ambiente musical do Brasil colonial e imperial. Nesse universo, Pacheco (2006) também destaca Dona Mariana, uma senhora de fino trato do Rio de Janeiro, que obtinha grande habilidade no piano e que compôs belas modinhas. Assim também, a Sra. Gardiner, filha de médico e esposa de professor de química da academia militar do Rio de Janeiro, era exímia pianista.
O papel da mulher atuando como profissional na música era restrito à separação de raça e classe social. Assim sendo, encontravam-se nos concertos privados as fidalgas, geralmente ao piano ou como cantoras. Na atuação nos teatros, encontravam-se as mulheres públicas, ou seja, as não pertencentes às famílias de fino trato da cidade e as afrodescendentes. Pacheco (2006).
No século XIX além da separação por gênero no teatro, alguns viajantes que pelo Brasil passaram identificam a grande presença de mulatos, que cobriam suas faces com maquiagem branca e vermelha, e as mulheres públicas, que representavam um vil objeto. Fato que, segundo Pacheco (2006), caracterizava a presente percepção sexualmente carregada do homem europeu sobre a mulher brasileira. Assim sendo, tais demonstrações sobre a figura feminina denotam que a mulher de carreira artística não tinha uma boa reputação, o que restringia à função desse ofício às mulheres de cor.
Contudo, relata Pacheco (2006), que as mulheres afrodescendentes tinham no ofício artístico uma forma de ascensão social, ao se apresentarem nos palcos e salões da corte. Elas, através do oficio da música, criaram uma ambiguidade no seio da sociedade. Sociedade essa que as ignorava e não as respeitavam; porém, com o oficio da música e da arte, passam a serem consideradas verdadeiras divas, e serem aceitas e notadas como artistas. Desse modo, elas não eram mais vistas como um vil objeto, mas sim reconhecidas pelos locais públicos por onde frequentavam como pessoas famosas.
Para essas mulheres, que viviam em uma sociedade patriarcal, elevar-se na sociedade como artista era sair da invisibilidade para a visibilidade, e nessa conjuntura a mulher “negra” atingia seu status social (SANTOS, 2002). Neste contexto o autor acredita que a mobilidade social do afrodescendente pela participação no meio artístico foi um acontecimento que aproximou negros e brancos, fato que não aconteceu com os afrodescendentes que não pertenciam ao universo da música e da dramaturgia.
De certa forma o que assistimos desde o período colonial é uma certa manipulação das ideias através de um vocabulário, que classifica grupos na sociedade através de castas com pigmentação diferente, dando a falsa ideia de quanto mais clara for a pigmentação, mais próximo estarão do dominador (SANTOS, 1998, apud LEEUWEN 2009, p. 65).
Neste sentido, Cardoso (2006) relata que a questão da pigmentação da pele é bastante complicada, pois, mesmo que os mulatos se aproximem dos brancos pela sua atuação artística, percebe-se que o “defeito da cor” não deixou de estar presente. Entretanto, o autor supõe que a presença da “mulatice” nos espetáculos devia-se ao aumento de mulatos na população brasileira da época colonial, conforme atestam documentos do início de século XVIII. A participação da figura dos mulatos nas apresentações teatrais, como também de músicos, era de certa forma uma elevação social deste grupo marginalizado pela sociedade carioca (SANTOS, 2004).
O fenômeno do mulatismo, segundo Santos (2004), e a ascendência do mulato na prática musical foi um advento que aconteceu nos meados dos anos setecentistas, período que ocorreu à inclusão dos negros nas igrejas católicas. Evento que devesse a reforma pombalina, que era fundamentada na eliminação de preconceito de raça e que visou incorporação de gente da terra nas estruturas dogmáticas e administrativa da religião católica. Todavia, a inclusão do mulato na música não foi concedida, mas sim conquistada, pois esse grupo étnico sempre estivera sujeito a preconceitos e discriminação pela cor da pele.
Leeuwen e Hora (2012) observam que, frente a esse cenário, o pudor que implica na separação de gênero no período setecentista quanto à presença da mulher nas apresentações teatrais foi transgredido pela presença das mulatas nas representações teatrais e musicais, e isso foi um avanço da categoria feminina. Isso porque o Brasil vivia sob a administração portuguesa e que em Portugal durante o governo de Maria I era proibida a presença feminina nos palcos portugueses.
No Brasil, em cidades como Cuiabá e Salvador, persistiram os gostos e práticas teatrais da primeira metade do século XVIII, ou seja, com a apresentação exclusivamente de homens nas representações. Da mesma forma, evidenciam Leeuwen e Hora que no Rio de Janeiro havia interpretações com um elenco fundamentalmente masculino. Eles também possuíam uma boa casa da ópera, onde comumente se representava ópera duas vezes por semana, assim como nos feriados. Nessas ocasiões não se apresentavam mulheres no palco, e elas eram representadas por homens, de forma muito desajeitada em suas ações artísticas (Leeuwen e Hora, 2012).
Esses atores de pele escura, observa Santos (2011), muitas vezes se apresentavam de perucas loiras, e as peças eram mal traduzidas, mal ensaiadas e repetitivas; portanto, mal representadas, segundo os paramentos de uma cena frontal e centrado no bom falar do texto, o que denotava amadorismo. Isso também se dava em virtude de o branco, especialmente os bem-nascidos, entenderem que a função de ator não tinha futuro; daí a aceitação dos mulatos e mulatas na atuação como atores.
Declara Machado Neto (2008) que a presença das mulheres mestiças nas apresentações nas colônias está relacionada aos ideais iluministas, que eram contrários a personagens travestidos em apresentações. E o mesmo ocorre com a inserção dos mulatos nas práticas musicais das igrejas católicas, no que se refere à não discriminação de raças, exigida pelo Marquês de Pombal.
A participação feminina, segundo Leeuwen e Hora (2012), foi marcada pela presença das mulatas: as cômicas Violante Monica, Anna Joaquina, Joanna Maria e Antônia Fontes, entre outras no território nacional. Entre estas, também, a importante Joaquina Maria da Conceição, a Joaquina Lapinha, a única cantora brasileira de tez negra, de que se tem notícia na época, a ter atuação internacional em realizações de concertos no Porto e em Lisboa, entre 1795 e 1796.
Segundo Leeuwen e Hora (2012) a cantora e atriz dramática de origem brasileira atuou tanto no Brasil quanto em Portugal, no período que compreende o final do século XVIII e início do século XIX. De acordo com os escritos de Leuween e Hora, Joaquina Maria da Conceição, conhecida como Joaquina Lapinha, é a única intérprete feminina, negra e brasileira de que se tem conhecimento de atuação artística originária da então colônia portuguesa, o Brasil. No que se refere às origens de Joaquina Lapinha, não se tem grandes informações, porém, em virtude de o período do vice-reino de Salvador ter se deslocado para o Rio de Janeiro, e do declínio da mineração, que trouxe muitos músicos de Minas Gerais para a cidade carioca, acredita-se que Joaquina Lapinha fazia parte desse grupo de músicos mineiros, que para a cidade carioca vieram em virtude da falência do território mineiro. Quanto às evidências da participação da cantora nos elencos dos teatros cariocas setecentistas, as fontes utilizadas são secundárias. Outras referências sobre a atuação de Lapinha no Rio de Janeiro são encontradas somente a partir de 1808, devidamente documentadas, como é o caso dos manuscritos musicais de obras profanas de Nunes Garcia. Nesses escritos ele identifica a apresentação de Lapinha como intérprete e em um coro no ano de 1808, nos dramas Ulisseia e O triunfo da América, ambas compostas em 1809 (Leeuwen e Hora, 2012).
Lapinha participou nos palcos portugueses por seis meses, em um primeiro momento, em concertos vocais pelo país lusitano. Logo após ser autorizada a participação de mulheres nos palcos portugueses, todavia, ela retornou a Portugal em outras ocasiões para representar sua arte (Leeuwen, 2009).
Segundo Cardoso (2008), os comentários acerca das três mulheres autorizadas pela realeza a se apresentarem se voltam para Lapinha, quando atestam que entre as mulheres uma era natural do Brasil. E que, sendo ela filha de uma mulata, tinha pele escura, porém que esse inconveniente foi remediado com cosméticos, mas que, fora isso, era uma figura imponente, com boa voz e muito sentimento dramático. Segundo o autor, Lapinha participou em obras musicais de autores europeus, a exemplo de La modista raggiratrice, Il fanatico in Berlina, La Molinara ou l’amor contrastato e Il Barbiere di Siviglia, de autorias de Paisiello, entre outras obras de autores diversos.
Leeuwen e Hora (2012) destacam a existência de documentos que possibilitam, ao menos, situar o período em que a cantora brasileira permaneceu em Portugal, confirmando sua participação no elenco português. Ou seja, pelos pedidos para que fossem emitidos licença ou passaporte, necessários para o trânsito entre Brasil e Portugal, podemos inferir que Lapinha esteve na metrópole entre os anos de 1791 e 1805. Esses documentos, presentes no Arquivo Ultramarino, em Lisboa, são:
Ofício do Secretario de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, ao Vice-Rei do Estado do Brasil, conde de Resende, D. José Luís de Castro, comunicando que fora concedida a licença solicitada por Maria da Lapa e sua filha Joaquina Maria da Conceição [Lapinha] para irem ao Reino. 1791, Maio, 16. [P-Lahu/AHU_ACL_CU_017, Cx. 141, D. 11029, rolo 159]; Oficio de Tomé Barbosa a José Manoel Plácido de Moraes, solicitando Passaporte para o Rio de Janeiro para Maria da Lapa e sua filha Joaquina Maria Lapinha, duas libertas Eva e Inacia [6 de agosto de 1805]21 [P-Lahu/AHU_ACL_CU_017, Cx. 229, D. 15673, rolo 23] (LEEUWEN, 2012, p. 8).
Observam Leeuwen e Hora (2012) que os documentos confirmam sua ida a Portugal e retorno ao Brasil, acompanhada de sua mãe e de duas escravas libertas. Tais deslocamentos entre os dois países nesse período levam os autores a admitir que Lapinha e sua mãe desfrutavam de uma condição econômica abastada.
Ainda sobre as apresentações de Lapinha em terras lusitanas, Leeuwen e Hora (2012) apontam que notícias da Gazeta de Lisboa sobre concerto realizado no Teatro de São Carlos fazem elogios a Joaquina Maria da Conceição Lapinha. Ali foi noticiado que em 6 de fevereiro de 1795 que a harmoniosa execução do seu canto excedeu a expectativa de todos, e que Lapinha recebeu muitos aplausos, e que sua voz firme e de sonoridade agradável foi reconhecida pelo público presente. O mesmo jornal, afirmam os autores, em 2 de fevereiro de 1796, informa que, devido ao grande público que compareceu ao teatro para assisti-la, a cantora se viu obrigada a voltar para contemplar aqueles que não tinham conseguido lugar no teatro para admirar tão bela apresentação.
De volta ao Rio de Janeiro, Lapinha deu novo impulso ao teatro. Além dela, havia as cantoras Francisca de Paula, Maria Jacinta, Genoveva Inês e Maria Cândida; entre os cantores, Manuel Rodrigues Silva, Ladislau, Luiz Inácio e Geraldo, músico excelente. E o célebre baixo João dos Reis. Com esta companhia foram à cena Semíramis, Romeu e Julieta, O barbeiro de Sevilha, Ouro não compra amor e Louco em Veneza, entre outras (Leeuwen e Hora, 2012).
O seu talento como atriz em terras cariocas – declaram Leeuwen e Hora (2012) – se apresentou no Theatro de Manoel Luiz, frequentado pela melhor sociedade da época. Nele Lapinha apresentou danças como a desnalgada, e sapateando a fofa, o lundum, o sarambeque, o arrepia, o oitavado e outras. A cantora e atriz Joaquina Lapinha também participou de concertos privados, como consta na Gazeta do Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1809, na residência de Madama D’Aunay, cômica e cantora que se apresentava nos teatros de Paris e Londres.
Ainda no Rio de Janeiro, Lapinha se apresentou como primeira atriz, em 1811, no Teatro Régio, dirigido por Manoel Luiz Ferreira. Seu grande sucesso era em Erícia ou A Vestal, tragédia de Dubois Fontenelle, traduzida do francês pelo poeta português Manuel de Barbosa du Bocage, no ano de 1805 (ver Andrade, 1967).
Nos anos setecentistas e oitocentistas, a cantora e atriz se fez presente em obras musicais e representações teatrais, algumas devidamente comprovadas por libretos e outras apresentadas por circunstâncias com poucas comprovações, conforme declaram Leeuwen e Hora (2012).
Considerações finais
Considerando o papel do negro nas artes musicais e de representações teatrais, nos séculos XVII e XIX, remetemos nossas observações à situação atual, pois nos meados do século XX e na virada do século XXI mudou o cenário da atuação desse grupo étnico nas representações teatrais.
Assim sendo, entendemos que este papel de ator era destinado à figura do mulato, conforme apontam as fontes citadas nesse artigo, porque a arte, para as famílias abastardas, não oferecia futuro para os seus jovens. Na atualidade, percebemos que existe uma necessidade de se destinarem cotas para que os negros e mulatos tenham acesso, especialmente na arte de representar. No que se refere ao espaço musical, o negro tem no samba o maior espaço de representação musical, perfil menos observado na música clássica no território brasileiro.
Ao trazermos em evidência a história de Joaquina Lapinha, observamos que os pesquisadores aqui citados, para obterem dados sobre o papel de Lapinha na arte, contaram com libretos de teatros, recortes de jornais e documentos ultramarinos para descrever a importância da mesma na história da música e do teatro.
Essa brasileira, mulher afrodescendente, que atuou e mostrou seus atributos vocais em composições líricas de sucesso, só teve sua história acessível ao público de classe popular brasileira, devido à grande cultura de origem africana na cidade do Rio de Janeiro. Tenha-se em vista que foi através do samba de enredo da Escola de samba Inocentes de Belford Roxo que esta personagem brasileira afrodescendente foi homenageada na avenida Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2014. Foi através desse evento popular que Joaquina Lapinha passou a ser conhecida no Brasil e em vários países que assistiram os desfiles carnavalescos, como cantora de repertório soprano e atriz que levou para o continente europeu no século XVIII a diversidade brasileira.
É neste contexto que enaltecemos a cultura do Carnaval das Escolas de samba, pois é através de seus enredos que surgem algumas curiosidades, que nos levam a nos debruçar na busca de informações sobre fatos e personagens do nosso território brasileiro. É por conta dessa curiosidade que nos provocou esse enredo sobre Joaquina Lapinha que surgiram outras evidências acerca da participação do negro na cultura teatral do Rio de Janeiro e a exclusão das mulheres do ambiente artístico, espaço que foi conquistado pelas mulheres afro-brasileiras.
REFERÊNCIAS
Andrade, Ayres de. Francisco Manuel da Silva e seu tempo: 1808-1865: uma fase do passado musical do Rio de Janeiro à luz de novos documentos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967. 2 v.
Cardoso, André. A música na corte de D. João VI: 1808-1821. São Paulo: Martins Editora, 2008.
Leeuwen, Alexandra van. A cantora Joaquin Lapinha. Sua contribuição para o repertório de soprano coloratura no período colonial brasileiro. Campinas, SP: UNICAMP, 2009.
LEEUWEN, Alexandra van; HORA, Edmundo Pacheco. LAPA, Joaquina Maria da Conceição da [conhecida por Joaquina Lapinha]. In: Dicionário biográfico Caravelas, Núcleo de Estudos da Historia da música luso-brasileira. Belo Horizonte, fevereiro 2012. Em www.caravelas.com.pt. Acesso em 23/01/2015.
MACHADO NETO, Diósnio. Administrando a festa: Música e Iluminismo no Brasil colonial. São Paulo: USP, 2008. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/>. Acesso em julho de 2014.
PACHECO, Alberto José Vieira. O canto antigo italiano: uma análise comparativa dos tratados de canto de Pier Tosi, Giambattista Mancini e Manuel P. R. Garcia. São Paulo: Annablume, 2006.
Santos, Antônio Carlos dos. O timbre feminino e negro da música antiga brasileira (séc. XIX). In: Encontro de Musicologia histórica, 5, 19-21 jul. 2002, Juiz de Fora, MG. Anais… Juiz de Fora, MG: Centro Cultural Pró-Música, 2004 .
SANTOS, Adriana Patrícia dos. Atores negros e atrizes negras: das companhias ao teatro de grupo Florianópolis. Florianópolis, SC: UESC, 2011.
Nota da revista Literatura e Cultura: Assim como não chamamos chineses de amarelos, ou indígenas de vermelhos, gostaríamos de utilizar o termo afrodescendente ou afro-brasileiro, mas respeitamos o texto como está, segundo determinação dos autores.
Bio fornecida pelo palestrante.
Carlos Calenti
Doutorando em Comunicação e Cultura, UFRJ
Resumo: Esse artigo discorre sobre o conto Bloodchild, da autora norte-americana Octavia Butler, pensando em como a obra reflete e problematiza a experiência dos excluídos do mundo, ao mesmo tempo em que aposta no encontro com o outro e na celebração da diferença para a construção de novos mundos possíveis. O artigo também procura refletir sobre como a ficção científica, gênero escolhido pela escritora em questão, é um meio privilegiado para pensar sobre os problemas sociais e políticos da contemporaneidade e para experimentar novas formas de estar junto.
Palavras-chave: Octavia Butler – devir – política – ficção científica.
Abstract: This article discusses the short story Bloodchild, by the North-american writer Octavia Butler, taking into account the ways in which the story reflects the experience of the excluded in our world at the same time that it affirms the Other and the difference as possibilities for the construction of new possible worlds. This paper also considers science fiction as a privileged genre to think about new ways of being together and to think about the political and social problems of today’s world.
Key-words: Octavia Butler – the future – politics – science fiction.
Minicurrículo: Carlos Calenti é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo e é Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ. Atualmente cursa o doutorado nesta instituição e escreve uma tese sobre a obra do autor norte-americano William Burroughs, particularmente seu livro Almoço nu, na qual reflete sobre questões políticas das Sociedades de Controle, assim como formas de subjetivação encontradas na obra de Burroughs. Também pesquisa temas relacionados à literatura de ficção cientifica, principalmente suas vertentes feminista, queer e afro-futurista.
Produção de mundo e experimentação política: uma análise do conto Bloodchild,
de Octavia Butler
Carlos Calenti
Doutorando em Comunicação e Cultura, UFRJ
Esse artigo se propõe a analisar o conto Bloodchild, da autora norte-americana Octavia Butler, para explorar algumas questões importantes que perpassam a obra dessa escritora feminista e afro-futurista e que, acreditamos, refletem também problemáticas fundamentais para o entendimento do nosso mundo contemporâneo. Antes de entrarmos em contato direto com o conto de Octavia Butler, no entanto, gostaríamos de tecer algumas considerações rápidas sobre a forma como pretendemos trabalhar o gênero da ficção científica e por que o consideramos importante nessa reflexão.
Ficção-científica e experimentação
A ficção científica é um campo privilegiado de investigação das questões contemporâneas por explorar, intrinsecamente, as relações cada vez mais híbridas entre o homem e a técnica, o homem e a ciência. Nesse sentido, a ficção científica se revela uma moldura artística pronta para explorar a técnica, o futuro e as diversas possibilidades de estar e viver no mundo que o homem pode engendrar na sua relação com essas transformações. Assim, retomando a relação íntima do gênero com o futuro, consideramos a ficção científica como uma prática investigadora de devires. Não se trata de exercício de futurologia. Trata-se – como no próprio objeto de reflexão fundador do gênero, a ciência – de especulação. Em Bergson encontramos uma noção de tempo que não é mais linear, mas de um passado, uma memória, que está sempre no presente nos jogando para o futuro. A memória é “co-extensiva” (abrangente), simultânea a toda a nossa vida e à nossa percepção. Ela se mantém virtual até que uma experiência nos faça atualizar alguma(s) de suas imagens, que nos fornecerão, então, ferramentas para lidarmos com o que nos acontece. Ao intervalo entre a ação que nos afeta e a nossa reação, Bergson chama zona de indeterminação. Essa zona de indeterminação se abre ao futuro, à criação do novo, a partir, é importante ressaltar, do arcabouço que são as imagens da nossa memória. Maria Cristina Franco Ferraz nos diz: “(…) para Bergson a memória do homem – ser dotado de preciosa capacidade de hesitar – consistia no manancial inesgotável de novos futuros possíveis” (FERRAZ, 20/12/2013). E é exatamente nesse ponto que queríamos chegar – acreditamos na ficção científica como forma peculiar de articular as relações complexas entre passado, presente e futuro, ao especular, agenciar, transformar em arte esses futuros virtuais, não com intuito de prevê-los, mas de refletir sobre as potencialidades latentes do nosso próprio tempo e mundo histórico.
De forma parecida, recorremos a Deleuze para pensarmos, nietzscheanamente, na “nuvem não-histórica” que acompanha a história. A história seria uma compilação dos devires que se atualizaram e se tornaram estados de coisa. Nesse processo, o que ela perde dos acontecimentos, o que lhe escapa, são todos os devires que o acontecimento pôs em circulação, todas as experimentações possíveis de estar no mundo que não se atualizaram. Deleuze afirma:
Nietzsche fala do que se faz, do acontecimento mesmo ou o devir. O que a história capta do acontecimento é sua efetuação em estados de coisa, mas o acontecimento em seu devir escapa à história. A história não é experimentação, ela é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa à história. Sem a história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a experimentação não é histórica (DELEUZE, Gilles, 1992a, p. 210).
Apostamos, então, na ficção científica como um campo de narrativas que se filia mais ao devir que à história, que coloca em jogo as potencialidades do nosso tempo, e, ao articular suas linhas de forças e possibilidades de subjetivação, experimenta, especula, investiga. Assim, ficção científica não é metafórica ou alegórica. Essa é uma noção que perpassa parte da teoria voltada ao gênero. Acreditamos, sim, que a ficção científica articula questões que circulam no nosso mundo, que são contemporâneas à sua produção – mas não apenas através de metáforas ou alegorias, e sim através das relações complexas que essas obras estabelecem com o mundo ao seu redor, através dos afetos que colocam para circular em suas páginas. A ficção científica não emula o nosso mundo, ela produz outros mundos a partir dos devires que circulam no nosso. Ela não reproduz, ou representa, ela experimenta. Assim, consideramos a ficção cientifica como uma prática criadora de mundos possíveis. A teórica feminista Donna Haraway utiliza o termo worlding para falar exatamente da prática de fazer mundos nos textos de ficção cientifica (e extrapola o termo para pensar, por exemplo, a construção de mundos baseados nas relações inter-espécies, para além de qualquer humanismo). Ressaltamos o conceito de Haraway, pois o que a autora articula aqui é uma ideia de construção de mundo que está sempre se fazendo. Daí ela usar a palavra mundo, world no gerúndio, –ing, no sentido especulativo, em constante experimento.
Não é apenas a ficção científica que explora as virtualidades do nosso tempo e cria mundos nesse processo. De fato, Deleuze nos lembra, esses são atributos que as melhores obras de arte compartilham. Acreditamos, no entanto, que, ao lidar diretamente com a tecnociência, parte inextricável do desenvolvimento do capitalismo desde a modernidade, e ao se orientar constantemente para o futuro, para o porvir, a ficção cientifica tem uma forma peculiar de misturar política e criação artística que nos instiga a embarcar em suas reflexões e participar de seus processos de subjetivação.
Bloodchild
E então chegamos finalmente ao conto de Octavia Butler, Bloodchild, ganhador dos prêmios Hugo e Nebula, as mais importante laureações da ficção cientifica mundial, como melhor conto em 1985. Ela é uma autora feminista e afro-futurista; seus trabalhos geralmente tematizam questões de gênero, raça e classe, sendo ela uma escritora negra num campo largamente dominado por homens brancos. Bloodchild é certamente um conto eminentemente politico, explorando algumas dessas questões com muita destreza. A narrativa se passa num futuro indeterminado, em um planeta distante, onde humanos, chamados aqui de terranos, vivem confinados na Reserva, dominados pelos alienígenas nativos, os Tlics. Donna Haraway, falando sobre a autora, deixa claro:
Todo o trabalho de Butler como uma escritora de ficção científica é fixado na questão da destruição e do difícil florescimento – não apenas sobrevivência – no exílio, diáspora, abdução e transporte – o dom e o fardo terreno dos descendentes de escravos, dos refugiados, imigrantes, viajantes e dos indígenas também (HARAWAY, Donna, 2013a, p. 140).
Certamente essas são temáticas que atravessam Bloodchild – o exílio, a desterritorialização e as complexas possibilidades de reconstrução. A obra da autora constantemente se volta para esses dilemas, seja em romances como Kindred, em que uma mulher negra contemporânea volta no tempo para a época da escravidão norte-americana, ou na trilogia Lilith’s Brood, em que uma mulher negra deve se reproduzir com alienígenas para repopular uma Terra destruída pela guerra nuclear. Mas as narrativas de Butler não são marcadas apenas pelo desespero, também se ancorando na relação com o outro, com a diferença, como formas de buscar soluções e construir mundos novos, contradizendo assim seus cenários desesperadores com os afetos que faz circular, com as complexas relações que cria.
Bloodchild é narrado em primeira pessoa pelo jovem Gan, um terrano. Ele e sua família têm uma relação muito próxima com T’Gatoi, uma política da raça alienígena Tlic. Foi o pai de Gan quem gestou T’Gatoi dentro de si. Nessa sociedade, híbrida entre terranos e Tlics, os corpos humanos, masculinos ou femininos, são perfeitos para a gestação dos ovos alienígenas. Na sua geração, Gan foi o escolhido entre as irmãs para gestar os ovos de T’Gatoi. A particularidade é que essa escolha se deu antes mesmo de ele nascer. Ela participou da sua criação e envolveu-se ainda mais com a família durante o crescimento do garoto, algo relativamente novo no universo do conto e, na verdade, o trunfo político de T’Gatoi. Antes de T’Gatoi e sua facção política dominarem, os Tlics utilizavam qualquer terrano como hospedeiro e, através dos ovos, que têm efeitos alucinógenos e afrodisíacos, juntavam casais aleatoriamente para que se reproduzissem, garantindo assim futuras gerações de incubadores dos seus filhotes. T’Gatoi mudou as regras do jogo ao supervisionar a união de famílias, protegendo a Reserva da avidez Tlic.
T’Gatoi era perseguida do lado de fora. Seu povo queria mais de nós disponíveis. Apenas ela e sua facção política estavam entre nós e as hordas que não entendiam o motivo da Reserva – porque nem todo terrano pode ser cortejado, pago, selecionado, estar de alguma forma disponível para eles. Ou eles entendiam e, em seu desespero, não se importavam. Ela nos entregou em parcelas para os desesperados e nos vendeu para os ricos e poderosos em troca de apoio político. Desse modo, éramos ao mesmo tempo necessidades, símbolos de status e um povo independente. Ela supervisionou a união de famílias, colocando um fim no que restava do sistema anterior de dividir as famílias terranas para satisfazer a impaciência dos Tlics (BUTLER, 2005, p. 5).
O que Octavia Butler articula aqui, através das manobras politicas de T’Gatoi, são princípios claros de gestão biopolítica. O biopoder, típico das sociedades modernas, é um poder que age sobre a espécie, “no corpo-espécie, no corpo transpassado pela mecânica do ser vivo e como suporte dos processos biológicos” (FOUCAULT, 1988, p. 152). E sobre esse corpo-espécie, o biopoder cuida de processos como nascimentos e mortalidades, da saúde da população (doenças e epidemias, por exemplo), da longevidade etc. O biopoder é a gestão da vida como um todo, técnicas de poder sobre o biológico, que vira central nas discussões políticas. Modificá-lo, transformá-lo, aperfeiçoá-lo são objetivos do biopoder, e, é claro, produzir conhecimento, saber sobre ele, para melhor manejá-lo. Ora, organizar os corpos terranos, distribuí-los no espaço (a Reserva), em busca de um processo de reprodução mais eficiente, em nome da sobrevivência da própria espécie Tlic, são ações biopolíticas por excelência. Michel Foucault diz que, nas sociedades capitalistas modernas, cabe ao biopoder “distribuir os vivos em um domínio de valor e utilidade” (FOUCAULT, 1988, p. 157), exatamente como T’Gatoi e os Tlics fazem.
Além disso, o mundo que Bluter constrói é um mundo de prisões, pelo menos para os terranos. Temos, primeiramente, a maior prisão de todas, a Reserva. A Reserva é um lugar de proteção, que separa os humanos de Tlics mais ávidos por suas capacidades reprodutivas, mas também de confinamento. Qui, o irmão mais velho de Gan, além do próprio Gan, reconhece: na situação em que se encontram não há meios ou lugares de fuga. Ele diz: “Sim. Estúpido. Fugindo dentro da Reserva. Dentro de uma jaula”. E não é só aí que a ideia de aprisionamento se manifesta: a família de Gan é proprietária de um criadouro de animais locais, cujas peles vendem, e o fundo de sua casa está cheio de jaulas (“Eu fui em direção às jaulas, do lado de fora, e atirei no maior achti que pude encontrar”). A própria relação dos membros da família com T’Gatoi está marcada pelo signo da jaula. Os Tlics são alienígenas com corpos segmentados, longos, e em cada segmento há dois pares de membros. T’Gatoi gosta de sentir o calor dos terranos contra o seu corpo e para isso os faz deitar ao seu lado e os aprisiona com as patas: “Eu sempre achei confortável deitar-me dessa forma, mas, exceto por minha irmã mais velha, ninguém da família gostava. Eles diziam que os fazia se sentir enjaulados”, diz Gan em determinado momento.
Tudo isso, as práticas biopolíticas, os signos de aprisionamento, nos fazem supor uma sociedade distópica, onde os terranos são apenas dominados, onde não há escapatória. É importante ressaltar, no entanto, que as relações tlicenses-terranas são de mútua dependência – não que não haja poderes, hierarquias, dominações em jogo, mas há também colaboração, produção de novos sentidos e novas formas de dividir e construir o espaço. T’Gatoi diz, por exemplo:
“Os animais que nós usávamos começaram a matar quase todos os nossos ovos depois da implantação, muito tempo antes dos seus ancestrais chegarem”, ela disse calmamente. “Você sabe dessas coisas, Gan. Porque o seu povo chegou nós estamos reaprendendo o que significa ser um povo saudável, próspero. E os seus ancestrais, fugindo do seu planeta natal, da sua própria espécie, que os teria matado ou escravizado – eles sobreviveram por nossa causa. Nós os vimos como pessoas e os demos à Reserva quando eles ainda tentavam nos matar como vermes” (BUTLER, 2005, p. 25).
Além disso, há o fato de a relação de Gan e T’Gatoi ser uma experiência, em que a política o escolhe ainda na barriga da mãe e participa do seu desenvolvimento, de uma nova forma de conexão Tlic-terrana que ela tenta disseminar, um embaralhamento de fronteiras que tem como norte o bem-estar, ou pelo menos um avanço no bem-estar, das duas espécies. Só esses fatores já complicariam uma tese unicamente baseada no poder como dominador, punitivo, quando, Foucault nos ensina e Butler também parece afirmar, o poder é negativo ao mesmo tempo que é positivo; ele produz relações que não passam apenas e necessariamente pela repressão.
Mas é, de fato, na relação complexa entre Gan e T’Gatoi que vamos encontrar ainda mais razões para uma leitura não distópica do conto. Gan sabe há muito o que o futuro lhe reserva. O conto começa com uma cena familiar, mais ou menos tranquila. A mãe, o irmão e as irmãs do garoto estão sob o efeito dos ovos narcóticos, Gan está deitado com T’Gatoi, e tudo parece correr bem. Até que um N’Tlic (um terrano “grávido” de um Tlic) aparece na vizinhança da casa, passando mal, em pleno trabalho de parto. É essa contingência que atropela a aparente calma do cenário e coloca a relação de Gan e T’Gatoi em dúvida. Gan tem que ajudar T’Gatoi na operação e acaba presenciando toda a dor, o sangue e as vísceras do ato sobre o qual, descobre, ele não sabe tanto quanto imaginava. Ele vê as larvas que nascem, que comem as cascas de seus ovos e estão prontas para comer a carne do hospedeiro caso não sejam retiradas a tempo (“Toda vez que fechava os olhos eu via larvas vermelhas rastejando em carne humana mais vermelha ainda”). Gan fica abalado e dividido. Por um lado ele está completamente assustado, pela primeira vez entendendo o escopo do poder que se investe sobre o seu corpo; por outro… ele ama T’Gatoi.
Butler constrói essas afecções a partir do próprio corpo de Gan. Aqui temos um ponto importante: Octavia, como a mulher negra que é, entende que é sobre os corpos que o biopoder se investe e também que os corpos possuem capacidades de resistência e subjetivação que dobram esse poder. Por toda a narrativa de Bloodchild Gan percebe as coisas com o seu corpo antes de entendê-las intelectualmente (não muito diferentemente da própria definição de afeto dada por Deleuze). Antes de voltar ao cômodo onde o parto acontecia, Gan narra: “Por vários segundos fiquei parado em frente à porta fechada, perguntando-me o porquê daquele súbito medo”. Depois que a operação é concluída, ele vai vomitar do lado de fora: “Quando acabou me levantei tremendo, lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não sabia por que eu estava chorando. Mas eu não conseguia parar”. E, nesse sentido, a palavra amor não é jamais mencionada, mas percebemos, ao longo do conto, o quanto a relação entre Gan e T’Gatoi é baseada numa simbiose profunda. De novo, é no corpo e na forma como Gan percebe o corpo de T’Gatoi que essa ligação é melhor demonstrada. O garoto a observa, fascinado:
Ela tinha ossos – costelas, uma longa espinha, um crânio, quatro conjuntos de ossos dos membros a cada segmento. Mas quando ela se movia daquele jeito, torcendo-se e lançando-se em quedas controladas, correndo junto ao chão, ela parecia não apenas invertebrada, mas aquática – algo nadando no ar como se ele fosse água. Eu amava observá-la se mover. (BUTLER, 2005, p. 9).
E chega um momento em que Gan tem que escolher. A irmã mais velha de Gan, Xuan Hoa, sempre quis ser a escolhida para carregar os filhotes de T’Gatoi; a política, quando percebe o efeito que os eventos da noite tiveram sobre Gan, exige que ele escolha se quer manter o combinado ou se ela deve procurar Hoa. E Gan escolhe a simbiose com T’Gatoi. A princípio, ele se convence de que o faz para proteger a irmã, mas logo reconhece diante de T’Gatoi que esse não foi seu único motivo: “‘Mas você veio a mim. Para salvar Hoa’. / ‘Sim’. Eu encostei minha testa nela. Ela era veludo frio, enganosamente macia. ‘E para manter você para mim’. Eu disse. Era isso. Eu não entendia, mas era isso” (BUTLER, 2005, p. 30). T’Gatoi implanta os ovos em Gan nessa mesma noite e Octavia descreve o ato sexual em detalhe, o acoplamento dos corpos terrano e Tlic, humano e alienígena: “Eu senti a picada familiar, narcótica, levemente prazerosa. Então a sondagem cega do seu ovipositor. A punção era indolor, fácil. Era tão fácil. Ela ondulou lentamente contra mim, seus músculos forçando o ovo do seu corpo até o meu” (idem).
O que o conto opera, a nosso ver, é a construção de um mundo que aposta na diferença, no encontro com o outro, mas não elimina os problemas, as linhas de força que perpassam esses encontros. Elas não se resolvem facilmente e o conto, inteligentemente, deixa suas questões em aberto. Acreditamos que a relação simbiótica entre Gan e T’Gatoi, os afetos que circulam entre os seus corpos, constroem um outro mundo. São, de fato, worlding. Inclusive, como já ressaltamos, por ser uma relação-experimento, está pronta para ser difundida para outros Tlics e terranos. Donna Haraway, em seu famoso Manifesto Ciborgue, diz que o manifesto “é um argumento em favor do prazer da confusão de fronteiras, bem como em favor da responsabilidade em sua construção” (HARAWAY, 2013b, p. 37). E aqui a verve feminista de Butler se mostra também em seu prazer e responsabilidade: o conto subverte posições naturalizadas em nossa sociedade ocidental moderna (é o garoto que engravida; na espécie Tlic são as mulheres que se envolvem em política. são os alienígenas com aparência animal que utilizam os humanos, por causa das suas funcionalidades), deslocando assim o foco do Homem (branco, heterossexual, ocidental etc.) e apostando na diferença, no encontro com o Outro como produtor de novas realidades, novas formas de estar no mundo. Mas ela não se limita a celebrar o encontro, também o problematiza.
Nesse sentido, não enxergamos Bloodchild nem como utópico, nem como distópico. Recorremos aqui ao filósofo italiano Antonio Negri, cuja noção de desutopia constitutiva nos parece particularmente interessante para pensar a ficção científica que mais nos interessa. A desutopia manteria a luta em aberto, não a fecharia numa teleologia, num fim determinado: “uma desutopia, ou seja, o sentido de uma atividade constitutiva, intensa como a utopia, mas sem ilusões, plena de materialidade” (NEGRI, 2002, p. 27). A desutopia entende que os desejos da multidão (a figura política por excelência do pensamento negriano) e sua luta com o poder constituído nunca terminam, mas sempre se rearticulam, enfrentam limites, os ultrapassam, para então encontrar outros limites mais à frente. Para nós o conto de Butler se coloca exatamente nesse lugar, nem a utopia de uma sociedade perfeita nem a distopia de um fracasso total, mas uma constatação das possibilidades de transformação que o encontro com o outro proporciona e os limites a ainda serem ultrapassados no processo.
O conto de Butler nos apresenta, a princípio, uma cena familiar, de aparente tranquilidade, para então desmontar toda a familiaridade através do incidente com o N’Tlic que eles têm que socorrer. Gan tem que desconfiar de toda a visão de mundo que lhe era dada, tem que enxergar tudo como alienígena para que sua escolha fosse realmente sua e não algo que lhe foi imposto. E que ele decida por T’Gatoi, pelo salto no escuro, pela abertura ao desconhecido, é o que nos faz acreditar em Bloodchild como um conto repleto de positividade. E de amor. Gan entende também a sua responsabilidade, agora que ele sabe. Por isso ele exige de T’Gatoi um tratamento horizontal (“‘Se nós não somos seus animais, se essas são questões adultas, aceite o risco. Há riscos, Gatoi, em lidar com um parceiro’”) e ainda insemina em T’Gatoi, ao mesmo tempo em que ela implanta seus ovos nele, a ideia de que todos os humanos merecem saber, entender os riscos que correm e assim poder decidir com clareza. Gan também se torna político nesse momento mais pessoal. Fronteiras são transpostas, enquanto outras continuam latentes e novas se apresentam. E é uma aposta no encontro com a diferença, na abertura, no devir, que Octavia Butler nos exige em sua desutopia.
Nada está resolvido, é preciso continuar lutando.
Referências bibliográficas
BUTLER, Octavia. Bloodchild. In: Bloodchild and other stories. Nova Iorque: Seven Stories Press, 2005.
DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992a.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1988.
FERRAZ, Maria Cristina Franco. Tecnologia, memória e esquecimento: da modernidade à pós-modernidade. In:
http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/famecos/article/viewFile/439/366. Acesso em 20/12/2013.
HARAWAY, Donna. Sowing Worlds: a seedbag for terraforming with earth others. In: GROBOWICZ, Margret, MERRICK, Helen (Orgs.). Beyond the cyborg: adventures with Donna Haraway. Nova Iorque: Columbia University Press, 2013a.
HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013b.
NEGRI, Antônio. O poder constituinte: ensaio sobre as alternativas da humanidade.
Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
Bio fornecida pelo palestrante.
Cláudia Luna
Universidade Federal do Rio de Janeiro
RESUMO: Durante a tarefa de resgate da participação feminina nas lutas pela independência do Brasil, nos deparamos com a figura ímpar de Bárbara de Alencar. Matriarca do Crato e ativa na Revolução de 1817, será considerada inimiga do Rei pela historiografia oficial. No entanto, sob o viés do imaginário popular e regional, será progressivamente enaltecida e valorizada como heroína. Neste trabalho, apresentaremos uma visão geral das obras literárias em que foi representada, destacando alguns processos de construção do mito, a partir da figura da mártir cristã e da transculturação com figuras-chave do imaginário de matriz africana. Ao mesmo tempo, destacaremos alguns elementos do diálogo entre discurso historiográfico e relato ficcional, em especial o romance de extração histórica.
PALAVRAS-CHAVE: Bárbara de Alencar – independência –- poder – imaginário – literatura e história
ABSTRACT: Searching for women participation in the fights for the independence of Brazil, we find the unique figure of Bárbara de Alencar, a matriarch from the city of Crato, in Ceará, who participated in the Revolution of 1817 and was considered the King’s enemy by the official historiography. However, with time she became appreciated as a heroine by the popular and regional imaginary. This paper will present an overview of her representation in Brazilian literature and will analyze some processes of the construction of her as a myth, through her association with the Christian martyrs and by the transculturation process with the African imaginary. It will also present some elements of the dialogue between the historiographic discourse and some literary works, especially novels with historic impregnation.
KEYWORDS: Bárbara de Alencar – independence – power – imaginary – literature and history
MINICURRÍCULO: Cláudia Luna é Professora Associada do Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Coordena o Diretório de Pesquisa MAR (Modernidade/alteridade/representação), certificado pelo CNPq. Tem artigos publicados em periódicos como Gragoatá, Ipotesi, Excavatio, Anuario de Estudios Hispánicos, Versus, entre outros. Publicou (em coautoria com Suely Reis Pinheiro) o livro Do riso e da luta: ensaios sobre Manuel Scorza; tem capítulos em livros do Brasil e do exterior. Participa como pesquisadora da REDE DE ESTUDOS ANDINOS e do CEMHAL (Lima); é membro do GT Mulher e Literatura, da Anpoll.
BÁRBARA DE ALENCAR, DE INIMIGA DO REI A HEROÍNA NACIONAL: PERCURSOS DA IMAGINAÇÃO HISTÓRICA E MODELOS DE REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA
Cláudia Luna
Universidade Federal do Rio de Janeiro
O SOLDADO: Sob as ordens do Rei, Senhora, o Capitão-Mor impõe-vos prisão por alta traição.
DONA BÁRBARA: Do que seja traição não tendes noção. Se traí, sim, ao Rei, não traí à Nação.
O SOLDADO: Pouco importa, Senhora, vossa austeridade: Sofrereis punição por lesa-majestade!
Álvares Aquino
Um dos mais férteis campos de estudo, atualmente, tem sido o do resgate da participação feminina em momentos chave da história, revisando os padrões da historiografia oficial, que as relegava a figurantes. Entre 1809 e 1825 se tornaram independentes as principais nações do continente latino-americano. De nossa independência, emergem algumas “heroínas”, como Joana Angélica ou Maria Quitéria, figuras de exceção num universo masculino.
No entanto, outras mulheres tiveram participação ativa nas lutas de emancipação do Brasil, embora sua atuação tenha ocorrido em outras trincheiras. Neste trabalho vamos examinar a figura de Bárbara de Alencar, as formas como passou à posterioridade, na historiografia, e como tem sido representada em termos literários. Matriarca do Crato (Cariri) participou na Revolução de 1817, no Nordeste brasileiro, um movimento que antecipava os anseios de libertação da metrópole, preconizando o modelo republicano em pleno período colonial. Como analisa o historiador Denis Bernardes:
Ao quebrar um dos pilares secularmente construídos da identidade portuguesa, o da tradicional fidelidade dos vassalos de sua Majestade Fidelíssima, 1817 foi a mais ousada e radical tentativa de enfrentamento até então vivido pela Monarquia portuguesa em toda a sua história (2006, p. 205).
Funda-se uma nova soberania em solo real, e “uma parte importante da monarquia funda uma outra soberania e lança-se no crime de separar-se do corpo do Rei, de não ser mais simbólica e praticamente, parte dele” (ibidem, p. 205). Por esta razão, embora a República tenha durado poucos dias, sua repressão durou cerca de quatro anos e a “consequente restauração da ordem monárquica” somente se fecha em 1821, com a revolução do Porto.
Em 1817, Bárbara, já viúva, administrava os negócios da família e tinha grande influência na vida política e cultural da região do Cariri. Portanto, seu apoio ao movimento terá grande repercussão. Trazido por seu filho, José Martiniano, o movimento rebelionário proclamará a República, no Crato, em três de maio, com adesão de parte do clero e da elite local. No entanto, em poucos dias a repressão avança sobre a região, liderada pelo Capitão-mor José Pereira Filgueiras, inimigo político da família Alencar. Primeiramente são presos os filhos de Bárbara; dias depois, ela é aprisionada e levada para o calabouço do Forte, em Fortaleza. Daí, penará em prisões de Recife e Salvador. Libertada em fins de 1820, somente em inícios de 1821 os tribunais declaram nula a devassa contra os insurgentes.
Em nossas pesquisas sobre a personagem, não encontramos documentos de sua lavra. No entanto, vários estudiosos fazem referência a seu letramento e cultura, como Irineu Pinheiro, um dos principais historiadores cearenses, que comenta sobre correspondência trocada entre Bárbara e o filho; ao mesmo tempo, é sabido que ela tinha contato estreito com o padre maçom Manuel de Arruda Câmara e com os ilustrados pernambucanos, em Olinda. Talvez a queima dos documentos no Crato, logo após as prisões, para impedir a devassa (o que, afinal, permitiria o perdão real, anos depois), tenha destruído material importante de sua autoria. De toda forma, como observa Ariadne Araújo, “De rica, com prestígio moral e político, Bárbara de Alencar retorna envelhecida, sem os bens que herdara e comprara e com a alcunha de traidora da pátria” (2002, p. 33). Além disso, seus inimigos políticos começam a acusá-la de adúltera.
Em 1824, ocorre a Confederação do Equador, da qual participará novamente a família Alencar, com o saldo de nove mortos, dentre eles seu filho Tristão Gonçalves. Com a abdicação de Pedro I, em abril de 1831, partidários da Restauração lideram revolução violenta no Nordeste, liderada pelo caudilho Pinto Madeira, inimigo pessoal dos Alencar. Dona Bárbara, temendo a violência que costumava rondar a família nos períodos de turbulência política, abriga-se no Piauí, mas não resiste às agruras da viagem e morre, em 1833.
Em suma, a participação de Bárbara é registrada em diversos documentos, lembrada e reivindicada por muitos de seus parentes, descendentes e correligionários. Evidentemente a notável carreira política do filho fará com que a família mantenha íntima relação com a vida pública do país. Afinal, José Martiniano, pai do autor de Iracema, foi presidente da Província do Ceará e Senador do Império, considerado o político de maior prestígio em todo o Nordeste, segundo Capistrano de Abreu. É certo que a presença dos Alencar e dos Araripe se estende até hoje no país, incluindo políticos e intelectuais, artistas e pesquisadores. De certa forma, poderíamos associá-los a uma vertente da historiografia brasileira que não foi a vitoriosa, nos inícios do IHGB, ao contrário do projeto de Varnhagen, baseado nos grandes feitos dos grandes homens. Como já vimos, se vincula a outra linhagem, à de Capistrano de Abreu, que propõe um modelo de história que contempla o regionalismo e a diversidade, acolhendo a memória oral e as culturas populares.
Se a voz do povo é, afinal, a voz de Deus, será através deste viés que se perpetuará dona Bárbara de Alencar. Como lembram Raquel de Queiroz (uma de suas descendentes) e Heloisa Buarque de Hollanda, no já mencionado estudo: “A Corte não perdoou a ousadia de Bárbara. Durante cerca de quatro anos, ela, bem como os filhos, andou presa, algemada, constantemente transferida de uma capital para outra, do Ceará à Bahia. (…). A matriarca, avó do escritor José de Alencar, morreu na década de 60 do século XIX” ( QUEIROZ, s/d).
O emprego do termo não é casual. Se investigamos a figura da matriarca e sua linhagem chegamos à matriz bíblica. No Antigo Testamento, mais precisamente, no Pentateuco, utilizam-se com frequência os termos “patriarca” e “matriarca” como referência aos ancestrais fundadores. Como explica John Baldoch, “devido às repetidas promessas dadas por Deus às matriarcas de que seus filhos se tornariam ‘uma grande nação’, as histórias das matriarcas provêm das origens genealógicas dos grupos tribais e nações que povoaram o Oriente Médio” (p. 22). Ao mesmo tempo, algumas das maiores matriarcas, como Sara, Rebeca e Raquel eram estéreis, e somente concebem por atos da vontade divina.
É notório que o Nordeste brasileiro é uma região marcada por intensa religiosidade e por uma grande influência cultural de modelos populares advindos da Península Ibérica, como os autos ou festas populares. Ao lado da cultura letrada, grandes manifestações populares e um extenso calendário religioso se processam. Da mesma forma, pode-se imaginar a leitura da Bíblia como ato coletivo, unindo as famílias e agregados, após as lides do dia. Pois o modelo retórico ali está, repetidamente. Trata-se de dado de identificação pessoal, através da genealogia. O recurso é quase uma constante, por exemplo, nos artigos da Revista Itaytera, publicação do Instituto Cultural do Cariri, e nos prólogos de alguns das obras aqui analisadas.
Da Bíblia também podemos recolher os primeiros relatos sobre as mártires. Em Macabeus (BALDOCK, p. 186) há referência a uma mulher martirizada pelo governador selêucida Antíoco IV, que combatia os judeus e ataca Jerusalém no século II A.C. Ante a recusa da mulher e de seus sete filhos em profanar sua religião, mesmo após tortura, o governador executou seis de seus filhos na frente da mãe. Quanto ao último filho, ele propôs a ela que o convencesse a renunciar a sua religião, mas ela, ao contrário, o encorajou ao sacrifício. Furioso, o governador ordena que mãe e filho sejam trucidados de forma cruel. Temos, portanto, também, o padrão retórico da mãe valente, da mãe coragem, que não se intimida ante o sacrifício de seus filhos.
Examinando a santidade feminina na Antiguidade e na Idade Média, delineiam-se alguns perfis, como as duas Macrinas, a Velha, viúva caridosa, e a Nova, modelo de virgem consagrada. Finalmente, o da rainha santa, cujo modelo fundador foi a da imperatriz Elena, mãe de Constantino. Explica a medievalista Miriam Impellizieri Silva que “são três os papéis da mulher, não apenas na sociedade, mas também na santidade. Virgem, viúva, mãe.” (ibidem, p. 179-180). Sob este prisma, podemos perceber o quanto a figura de Bárbara assimila diversos aspectos destes modelos hagiográficos, associando-se a personagens e situações bastante comuns ao universo popular.
O certo é que em 1917, quando se comemorou o Centenário da Revolução de 1817, organizaram-se festas cívicas em Belém, das quais participou o autor José Carvalho, com o drama “D. Bárbara”. Em artigo de 1920, para a Revista do Instituto do Ceará, Carvalho refuta as críticas à honra de Bárbara, assegurando sua virtude através do testemunho de sua própria bisavó: “D. Luísa, que sempre conviveu com D. Bárbara, foi toda a vida, no seio da família, uma calorosa defensora das austeras virtudes de sua sogra” (CARVALHO, 1920, p. 297). No decorrer do século XX o nome de Bárbara de Alencar será reivindicado como modelo e exemplo de mulher guerreira, símbolo da resistência e luta pela liberdade.
Nos anos setenta do século passado, o poeta Caetano Ximenes de Aragão publica o Romanceiro de Bárbara, conjunto de poemas em que exalta a heroína da liberdade, obra que dialoga claramente com o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Um dos mais belos poemas é “Dia da libertação”, onde canta que:
“(…) pelas vertentes da noite/ a manhã já se fazia/ quando Iansã abriu as grades/ das cadeias da Bahia/ pra ver Bárbara passar/ por dentro da luz do dia// dia pleno de orixás/cavalgando a ventania/Ogum Oxum Olorun/ vento alvo alvenaria/ de cabelos cor de cal/ que de seu rosto escorria// do corpo dos encantados/ a noite se fez em dia/ tocaram todos os sinos/ das igrejas da Bahia/ pra ver Bárbara passar/ por dentro da luz do dia” (1975, p. 66).
Percebemos aqui, outro tópico que colabora na construção do mito Bárbara de Alencar. Trata-se do processo de transculturação que ocorre entre a pernambucana e duas homônimas: Santa Bárbara e Iansã. A hagiografia da santa, expressa em autos, como o Auto de Santa Bárbara, de Afonso Álvares, se detém nos martírios e vexames que sofre a donzela por sua fidelidade ao nascente Cristianismo. Quanto a Iansã, Orixá dos raios e das tormentas, era divindade africana do Rio Niger, que chega ao Brasil nos navios negreiros.
Os exemplos de transculturação estão presentes em diversas manifestações culturais, como na arte santeira, onde ocorre a representação de imagens dos ibeiji com anatomia de anjos barrocos, ou peças articuladas de madeira, onde ocorre o sincretismo entre a figura africana e a católica. Tais elementos ocorrem na maioria das obras em que será retratada e representada, nas artes plásticas (como o belíssimo quadro “Bárbara de Alencar: heroína do Ceará/ Mãe da Independência e da República do Brasil”, de Oscar Araripe) ou no cancioneiro popular (vide a canção “Passeio Público”, do compositor Ednardo), entre outras manifestações.
Em termos literários, pudemos encontrar uma série de obras que transitam entre o histórico e o literário, o biográfico e o ficcional. Sua biografia será apresentada em diversos gêneros, que têm em comum o caráter laudatório, e busca do efeito de fidelidade histórica, através das listagens bibliográficas que finalizam a maioria delas; ou a vinculação da heroína a um dos estados brasileiros do Nordeste. Ela será reivindicada em Pernambuco, onde nasceu; no Ceará, onde viveu os grandes episódios revolucionários e foi presa; no Piauí, onde se abrigou no final da vida e morreu. É evidente ocaráter de resgate que tais obras apresentam, reivindicando para o panteão nacional dos heróis da pátria a figura de Bárbara, o que, aliás, se concretizou há poucos anos, a partir de projeto de lei de Ana Arraes.
Dentre tais obras, destacaríamos algumas.No MemorialdeBárbaradeAlencar, de Alves Aquino, escrito trinta anos após o Romanceiro, de Aragão, o autor faz sua sequencia simbólica, associando elementos intertextuais com a dramaturgia, em especial Morte e vidaSeverina, de João Cabral de Mello Neto, e a estética da cinematografia de Glauber Rocha, em especial, DeuseoDiabonaTerradoSol, com quem dialoga nos poemas de sua “Glauberiana” (2011, p. 91-92). O Memorial consta de 64 poemas, em que o autor enfatiza o sofrimento nas prisões, como no poema 38, em que Bárbara fala aos insetos: “Irmãos de exílio e de gueto/ Sabei que vos tenho afeto:/não difere em nada quem/ se sente inseto também” (p. 54); ou no poema 48: “1-2 passos e a baliza./ 1-2 passos e barreira./ (Tão circunscrita a fronteira/ quanto a mente monarquista)” (p. 60).
Em 1992 é publicado O romance de Bárbara, de Luciana Barbosa Nobre. Nele, através do recurso ao onírico, a narradora dialoga com a própria Bárbara que lhe narra a história, relatando sua luta e os ideais que movia seu grupo. No dizer da personagem: “não era a Coroa que nos seduzia, mas a possibilidade de podermos escolher livremente os nossos mandatários” (NOBRE, 1992, p. 30). Ao final da narrativa há bibliografia, atestando a veracidade dos dados ficcionalizados.
Quanto ao romance Bárbara de Alencar, a guerreira do Brasil (2001), de Roberto Gaspar, merecem destaque dois episódios. Um deles é a versão para a queima dos documentos, que teria sido feita por Dona Mathilde Teles, antiga inimiga e senhora do sítio Miranda, que, no entanto, acolhe Bárbara em sua fuga e manda recolher os documentos: “Meu filho, diz Mathilde, traga estes documentos: os Proclamas, os Decretos e a Ata assinada por todos os presentes àquela sessão. Não quero que ninguém do Crato seja morto por causa desses papéis” (GASPAR, 2001, p. 48).
O outro é o relato do nascimento de Bárbara: “O silêncio da noite foi quebrado por um choro muito fraco de criança. Uma estrela vermelha brilhou no céu, ofuscando o dia. Haveria em tudo isso uma predestinação?” (p. 72). Batizada Bárbara em homenagem à Santa, “Bárbara ou Barbinha, chorava, sem grandes chances de sobreviver, mas, resistiu e sobreviveu” (p. 72). O narrador relata o ataque dos índios Açus liderados por Itamaragibe à fazenda Caiçara, local onde se situara no passado a taba de seus antepassados. A casa de taipa foi incendiada, mas o bebê foi resgatado por Maria Preta, que fugiu com Teodora. Posteriormente os fazendeiros derrotaram os índios, e “no local da casa de taipa da fazenda Caiçara, ergueu-se uma casa de pedra, com paredes colossais, resistentes ao fogo, à bala e até, ao próprio tempo, a fim de que servisse de testemunha secular às gerações vindouras” (p. 73).
Outro texto a mencionar é o libreto BárbaradeAlencar (avódoromancistaJosédeAlencar): vida e mortenosertãodoPiauí, impresso em 2011, na cidade de Fronteiras. O padrão retórico aqui é o bíblico, como já vimos. Na obra se exalta a heroína, ressaltando seu exílio forçado no Piauí, no fim da vida, e sua morte na cidade de Fronteiras. Ao mesmo tempo, destaca a grande descendência ali deixada: Alencar, Arraes e Antão, em suas palavras, uma “prole imensurável”. Exalta-a como grande guerreira, grande heroína, grandiosa Nordestina, orgulho local.
Neste poema narrativo apresenta o relato da vida da heroína e seus feitos, sob modelo épico. No caso, o regional, o Cariri. Constam os seguintes tópicos: a luta pela independência em relação a Portugal; a figura do herói perseguido e sofredor; a passagem da glória à execração e à solidão. O narrador assume a função de um justiceiro, do vate popular, que resgata para a história a figura da heroína. Insere-se claramente no modelo do cancioneiro popular: trata-se de relatos paralelos à história oficial. Pode-se observar a semelhança, por exemplo, com o CantoGeneral, de Neruda.
Finalmente, em fevereiro de 2014 é publicado o romance Semíramis, da escritora Ana Miranda. Podemos considerá-lo uma narrativa de extração histórica. Nela, o romancista José de Alencar torna-se personagem do relato da personagem-narradoraIriana. Através das cartas trocadas entre esta e sua irmã, Semíramis, recria-se a trajetória romanesca de Alencar, ali tratado como o Cazuzinha, que Iriana conheceu ainda no berço. A autora estabelece diálogo tanto com a série literária, no caso, os romances de Alencar, como com outros gêneros discursivos, como as cartas e os diários. Na verdade, a estrutura da obra dialoga com os processos de verossimilhança típicos do romance do século XIX: o efeito de fidelidade e o efeito do real. A obra elabora versões para a gênese de alguns romances, em um processo de espelhismo em que se simula dissolver as fronteiras entre história e imaginação, revelando a invenção dentro da invenção.Iriana, a mediadora entre os acontecimentos e o leitor, destaca atenção especial a uma certa figura: dona Bárbara de Alencar, caracterizada como figura de poder na região e objeto da devoção de seu avô, para desgosto da avó da menina. Através do olhar enternecido e respeitoso do avô, desenha-se a homenagem da autora.
Neste cenário em que “as lembranças ainda galopavam pelas ruas, dando tiros” (p. 15), mencionam-se a chegada de Arruda Câmara à vila do Crato, em 1810, e fragmentos de sua carta testamento. Destaca-se a bravura e o caráter excepcional da matriarca: “Dona Bárbara flanava num mundo de grandes tramas” ou “Dona Bárbara estava acima de qualquer desdita política” (MIRANDA, 2014, p. 15). Representante da “aristocracia guerreira” local,é descrita como afável e seca, franca e impressiva; capaz, experimentada, rude e corajosa. Nada acontecia na região sem passar por seu crivo. O perfil idealizante se acentua: “Dona Bárbara não era só poderosa na região; ela atraía, tinha uma força estranha” (ibidem, p. 29).
Seguramente a figura da pernambucana tem canalizado o interesse de escritores e intelectuais do Nordeste Brasileiro, servido de referencial para perseguidos políticos e movimentos de resistência ao longo do século XX e no presente. Nesse cenário, ocorre um de diálogo permanente entre os documentos históricos, os relatos orais e as memórias familiares, formas da cultura popular e textos de perfil literário. Cada um deles contribui, a seu modo, para a exaltação da personagem histórica e a construção do mito Bárbara de Alencar.1
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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TROUCHE, André. América: história e ficção. Niterói: EdUFF, 2006.
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NOTA
1 Neste artigo apresentamos um recorte de nossa pesquisa de Pós-doutorado na USP sobre “Mulheres Independentes/mulheres nas independências: representação e poder em Carlota Joaquina e Bárbara de Alencar”, com supervisão de Maria Lígia Coelho Prado.
Bio fornecida pelo palestrante.
Cristiane Lira
Universidade da Geórgia
Resumo: Este artigo propõe uma leitura comparativa entre dois contos, “Cambio de armas”, de Luisa Valenzula e “A imitação da rosa”, de Clarice Lispector. Nestes, a subjetividade e a linguagem apresentam-se como uma forma de herança. Elas são fabricadas pelos usos sociais e normativos para se incorporarem a um falso discurso prévio que circunda os ideais de casamento e a maneira como as duas personagens principais tentam fugir dessas definições hegemônicas. O encarceramento é a metáfora utilizada para descrever a condição das protagonistas. Embora os meios sejam diferentes, os mecanismos de tentativa de escape são os mesmos. No primeiro texto, Laura é torturada, e no segundo, Laura foge da realidade.
Palavras-chave: Valenzuela e Lispector – “Cambio de armas” – “A imitação da rosa” – cárcere – libertação.
Abstract: This article presents a comparative reading of “Cambio de armas”, by Luisa Valenzula, and “A imitação da rosa”, by Clarice Lispector. In the two short stories, subjectivity and language are inherited. They are fabricated by social and normative usages to become incorporated into an already existing, albeit untruthful, body of reality surrounding marriage and the way the two main characters try to escape from these hegemonic definitions. Entrapment is the metaphor used to describe both protagonists. The means are different, but the escape mechanisms are not. On the first short story, Laura is tortured, on the second Laura flees from reality.
Keywords: Valenzuela – Lispector – “Other weapons”, “The imitation of the rose” – entrapment – liberation.
Minicurrículo da autora: Cristiane Lira está cursando o Doutorado na Universidade da Geórgia, onde escreve sua tese a respeito da representação das mulheres guerrilheiras que lutaram contra o regime ditatorial no Brasil e na Argentina desde a década de 1960 até a de 1980. O corpus analítico com o qual está trabalhando inclui narrativas literárias, fílmicas, testemunhos e poesia. Além dos estudos pós-ditatoriais, ela também se interessa pela relação entre memória e gênero, e a representação da mulher na literatura brasileira e latino-americana contemporânea. Ela tem artigos publicados na Revista Karpa, da Universidade Estadual da Califórnia, Revista Carandá, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Revista Crioula, da Universidade de São Paulo, entre outros periódicos. (Currículo completo disponível em: http://www.rom.uga.edu/directory/cristiane-lira).
Cárcere e libertação:
Uma leitura comparativa de
“Cambio de armas” de Luisa Valenzuela e
“A imitação da rosa” de Clarice Lispector
Cristiane Lira
Universidade da Geórgia
“– Pai, o que é isso que dentro da minha cabeça não para nunca?
– Chama-se pensamento, é como uma maquininha atrás da testa fabricando as palavras: nuvem, cadeira, mãe. Então por um tempo imaginei que eram as palavras que produziam as coisas. Palavras tomavam a palavra e tinham voz, falavam acenando com franjas e beiradas de segredos para quem soubesse escutar.
Tudo existiria primeiro dentro de cada um, antes de se montar externamente com objetos, paisagens, cores e cheiros.”
(LUFT, 2002, p. 30)
O trecho acima do romance de Luft questiona, diante do olhar de uma criança – recuperada pela memória de uma pessoa adulta –, uma das condições da linguagem: trata-se de algo estabelecido. O pensamento, portanto, responsável por “fabricar as palavras”, pode ser compreendido como uma reprodução do que já existe, das normas e regras sociais que antecedem o processo de aquisição da linguagem. Nesse sentido, a linguagem é parte de um corpo já existente com os seus valores e pressupostos e sua aquisição dá-se por um mecanismo de reprodução. O trecho supracitado demonstra que este processo de aprendizagem consciente se dá com o amadurecimento da criança, contudo revela também que havia uma crença inicial, relacionada ao universo particular, àquilo que reside dentro de cada um – sua subjetividade, identidade – para transformar, mais tarde, em objetos. Esse processo de aprender fundado na linguagem, a sua relação com os objetos e coisas, além dos elementos comuns entre “Cambio de armas” (1981), de Luisa Valenzuela e “A imitação da rosa” (1960), de Clarice Lispector são os aspectos que exploramos neste estudo.
Em “Cambio de armas”, temos a história de Laura. A protagonista é construída através de elementos de surpresa e a existência de um segredo que vai sendo desenvolvido e revelado à medida que a própria personagem vai percebendo os arredores dela. Quase ao final do texto, tomamos conhecimento de que Laura é uma espécie de guerrilheira e que era a potencial assassina do coronel Roque. O mesmo Roque que, como sabemos, é desenvolvido na história como o esposo de Laura, além de ser, de alguma forma, seu algoz, posto que a submete à violência física, além da psicológica por meio da presença de um chicote nos momentos de envolvimento sexual.
Em “A imitação da rosa” de Clarice Lispector, a personagem central também se chama Laura. A narração é construída de maneira também a nos apresentar um segredo que vai sendo revelado pouco a pouco. A história se concentra nos detalhes que parecem evidenciar a mentalidade organizada e sensível de Laura, destacando o seu prazer em ter tudo no seu devido lugar e ser a esposa perfeita, ter o marido perfeito, a relação perfeita, culminando na impossibilidade de se saber possível de alcançar tal perfeição. Além disso, o texto sugere uma possível loucura, haja vista que a personagem estivera hospitalizada e exerce suas funções domésticas sempre com a lembrança de que deve seguir rituais específicos para que aquilo que lhe aconteceu previamente, do qual não somos plenamente conscientes, não volte a acontecer. Ao final, porém, vemos que o estágio anterior ao do momento do conto retorna.
Cabe, agora, destacar as razões para o estabelecimento de um diálogo entre estes dois textos, “Cambio de armas” e “A imitação da rosa”. Além do nome das protagonistas ser o mesmo, Laura, compreendemos as duas narrativas como tentativas de libertar, em alguma medida, os gritos reprimidos das vozes femininas. Isto ocorre através da proposição de liberdade dentro do próprio cárcere discursivo, ou seja, é uma escritura de mulher que vai em busca de criar rupturas no discurso hegemônico. Em outras palavras, valendo-nos das observações de Luisa Valenzuela, em “So-called Latin American Writing” (1993), ao falar sobre Clarice Lispector, através da linguagem e das tentativas de fazê-la tomar forma e renascer, vê-se a criação de pérolas, mas, também, de monstros. Ainda segundo Valenzuela, “[i]t is mainly for the sighting of such monsters that we write, and it is because of them that we withhold writing during long and painful periods of time, in the struggle of trying to say what resists being said” (VALENZUELA, 1993, p. 211-12). Logo, trata-se de uma escrita que se faz reveladora, justamente, pela necessidade de trazer à tona os bastidores, os elementos relegados da história, tratando de incorporá-los, permitindo, assim, em alguma medida, a sua libertação.
No caso dos dois textos analisados, o processo de fragmentação e conexão pelo qual as histórias são narradas lembra, certo modo, um mosaico (sobretudo em “Cambio de armas”). Assim, somente a justaposição dos elementos, na tentativa de recompor os objetos, criando uma atmosfera que faça algum sentido, parece tornar possível a compreensão do todo. No caso de “A imitação da rosa”, embora o texto não apresente na sua corporalidade uma divisão, é possível observarmos em sua tessitura, a tentativa de reconstruir os sentidos através de um itinerário que tanto a protagonista desconhece quanto nós leitores. Logo, podemos dizer que o texto trabalha com uma espécie de segredo e o tecer narrativo trata de desenvolver um percurso possível de revelação.
O conto de Lispector, logo no princípio, estabelece a ideia de que o percurso a ser desenvolvido no presente está relacionado a um passado recente, afinal, “[m]as agora . . . ela estava de novo ‘bem’” (LISPECTOR, 1998, p. 34), impondo, portanto, a pergunta: quais acontecimentos antecederam o estágio aqui reconhecido como mau? Com o desenrolar dos fatos, temos também a noção de que ela, Laura, de “A imitação da rosa”, estava de volta, sugerindo, em um primeiro momento, que ela estivera em outro lugar. Contudo, sabemos, com o encerramento do texto, que algo “[v]oltou” (LISPECTOR, p. 52). Com isso, tomamos consciência de que o percurso estabelecido por Laura é o de alguém que teve uma espécie de surto, evadindo-se da realidade, voltara através de tratamento e, agora, em casa, retoma a vida, tentando com certo desespero e muita ansiedade, não fugir de si mesma novamente.
Em “Cambio de armas” a via-crucis do segredo é explorada no corpo da personagem e no corpo do texto. A narrativa vai se desenvolvendo em um tom de suspeita, mas, tal e qual a personagem, quase kafkiana, desconhece o poder que a oprime, em vista de ter a memória em frangalhos, também os leitores são conduzidos sem o saber. O texto, como já dissemos, é dividido em partes e vai se encaixando até que temos a revelação plena ao final. Em alguma medida, em decorrência da escolha do desenvolvimento, o texto permite que vejamos a questão da esfera do poder em mais de um nível. Embora seja um texto que evidentemente critica o regime militar, não o faz somente no campo político e social, senão através do olhar para a instituição do matrimônio, desenvolvendo a crítica a essa relação autoritária no âmbito do privado.
Ainda com relação ao segredo, em ambos os textos a voz narrativa se vale de um símbolo para circundá-lo. Trata-se da figura de um gato que invade o texto. Em “A imitação da rosa” temos, “[c]omo um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando” (LISPECTOR, 1998, p.34). Este trecho é relativo à construção da volta de Laura. Ela se compara ao gato e, com isso, é possível que o leitor vá se preparando para a revelação. Em um primeiro momento, fica evidente a noção de fugacidade. Laura, personagem de Lispector, é aquela que “passou a noite fora” e que depois, “como se nada tivesse acontecido” volta para casa e ainda encontra o alimento à sua espera.
Além disso, se pensarmos na noção de cárcere discursivo, a utilização do gato não nos parece inocente. Segundo Chevalier e Gheerbrant, “o gato é associado à serpente: indica o pecado, o abuso dos bens deste mundo” (2007, p. 462 grifos no original). Logo, se ampliarmos esta noção à condição de Laura em “A imitação da rosa”, podemos ler a tentativa da voz narrativa de denunciar os mecanismos do poder atuando sobre Laura, porque ela estabelece uma análise de si mesma calcada em um símbolo fugidio, pecador, tal e qual a construção da mulher que não segue – evade-se – dos pressupostos discursivos impostos pelo patriarcado.
Com relação ao modo como foi utilizado o mesmo símbolo na revelação do segredo em “Cambio de armas,” vemos que a fugacidade da imagem é trazida ao texto na própria conotação da lembrança, que surge desviada, isto é, um movimento leva a outro, em alguma medida reinventando a linguagem ou ressignificando-a. No momento em que Roque, depois de ter feito os nervos de Laura entrarem em choque, ao mostrar el rebenque para ela, temos: “[E]l pidiendo disculpas, algo inimaginable pero así es: discúlpame, cálmate, ron ron, casi dice él como un gato y la idea de gato la envuelve a ella con tibieza y detiene de manera instantánea sus convulsiones. Ella piensa gato y se aleja de él” (VALENZUELA, 1982, p.131-2). Logo, o gato se transforma em uma espécie de conexão entre o presente da protagonista e o seu passado. O animal, pois, não só liga os fragmentos da memória como é o rompante que lhe traz a presença do ser amado e faz com que ela se dê conta de que ele está morto. O discurso que é cárcere por reproduzir movimentos de dominação e poder indiretos (“A imitação da rosa”) é resgatado como despertar da consciência, fulcro de conexão e caminho para a liberdade e o conhecer (“Cambio de armas”).
Notamos, então, que “A imitação da rosa” e “Cambio de armas”, embora distintos, mantêm um diálogo muito aproximado. Os objetos concretos, em ambas narrativas, adquirem a noção da realidade, como se fossem a única forma de conservar as personagens conectadas ao espaço e ao tempo no qual se encontram sem que passem por um processo de evasão completa. Situação, porém, almejada por todos ao redor das protagonistas, pois em “Cambio de armas” faz-se um imenso esforço na criação de uma família visando que Laura não recupere a memória que ela não tem consciência plena de ter perdido. Como vemos, por exemplo, no trecho, “[l]a foto está alli para atestiguarlo, sobre la mesita de luz. Ella y él mirándose a los ojos con aire nupcial, ” (VALENZUELA, 1982, p.116) que, ao final, revela a criação da fotografia para atestar uma verdade inventada.
Já em “A imitação da rosa” esta estrutura aparece, sobretudo, nas palavras do médico de Laura, “[a]bandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade” (LISPECTOR, 1998, p. 36). A tentativa é, portanto, de que ela faça um esforço em lembrar que precisa esquecer. O ato de lembrar, associado a um saber prévio, torna-se uma ameaça que precisa, constantemente, ser rechaçada do cotidiano.
Para que o esforço de manter a sanidade (“A imitação da rosa”) e o controle (“Cambio de armas”) seja alcançado, as protagonistas são mantidas no lar, impelidas a uma espécie de prisão da qual não parecem ter completo conhecimento. Neste espaço, que deveria representar proteção e segurança, vemos que ambas estão em situações que refletem perigo. Em decorrência das circunstâncias nas quais se encontram, posto que desconhecem a verdade – conhecendo, somente, uma verdade construída por aqueles que detêm o poder –, elas desenvolvem específicos mecanismos de defesa para se protegerem do (des)conhecido.
No caso de “A imitação da rosa,” o processo de defesa desenvolvido pela protagonista dá-se através da repetição de específicos rituais. O texto, aliás, apresenta-os enumeradamente como representação do pensamento de Laura. Além disso, reforça que ela tem “gosto minucioso pelo método” (LISPECTOR, 1998, p. 35). Destaca-se, com isso, que a própria forma como a protagonista pretende manter a sanidade é reveladora de uma aproximação com a loucura. Contudo, este estado que é visto por Laura como uma maneira de não atingir o que é esperado socialmente dela, isto é, a sanidade, não lhe parece completamente terrível. Trata-se, antes, de um abismo que a atrai. Estar louca, nessa situação de limbo, é uma forma de ela se refugiar do próprio mundo que não consegue habitar por já não se sentir parte, por não suportar o teatro diário de viver.
Além disso, vemos que a sanidade está ligada ao controle, aproximando-se de “Cambio de armas”, ao mesmo tempo em que o controle neste está relacionado, justamente, à não recuperação da memória, em alguma medida também sanidade, de Laura. Portanto, as duas protagonistas se aproximam no diálogo da subjugação e submissão a outrem, sendo desenhadas como fruto, certo modo, de uma experiência traumática – que deve ser esquecida ou não recordada, cuja alteração é fotografada na maneira como utilizam a linguagem.
De acordo com Kalí Tal, ao falar sobre uma leitura da literatura de trauma, “[t]raumatic experience catalyzes a transformation of meaning in the signs individuals use to represent their experiences” (1996, p.16). No caso dos textos analisados, acreditamos que esta modificação é capturada por meio da representação da linguagem. Betina Kaplan, em sua leitura de “Cambio de armas,” propõe que “para Laura las palabras están vacías de significado. Este quiebre del signo le da una percepción de su entorno en estado de desconstrucción” (KAPLAN, 2007, p. 69). As palavras da crítica embasam a ideia que exploramos aqui, apresentadas desde a epígrafe, da existência da necessidade de uma justaposição das palavras para que, em alguma medida, seja possível o resgate ou a tentativa de construção de algum significado relevante para ela.
Ampliando as observações de Kaplan acerca de “Cambio de armas” para “A imitação da rosa”, cremos ser possível notar o mesmo vazio de significado no texto através da ritualística empreendida por Laura. Além disso, talvez uma forma de vermos os arredores de Laura em seu estado de desconstrução, ainda de acordo com Kaplan, seja através do silêncio capturado através da presença de inúmeras reticências no texto. Algumas delas, aliás, seguidas pela sugestão de um “salto” na realidade propiciado pelo sonhar acordada, “[m]as, como ela ia dizendo, de marrom com a golinha… – o devaneio enchia-a com o mesmo gosto que tinha em arrumar gavetas” (LISPECTOR, 1998, p. 42). A voz narrativa apresenta a noção de devaneio, sugerindo a criação de um mundo à parte, ao qual nós, leitores, não temos acesso e só é sugerido pela presença das sentenças cortadas, “‘ele’ me disse que eu não me esforce por conseguir, que não pense em tomar atitudes apenas para provar que já estou…” (LISPECTOR, 1998, p. 45). Como leitores, por antecipação, esperamos um desfecho. A narrativa, porém, vai nos negando as explicações à medida que o texto vai se desenvolvendo, convidando-nos a intervir e propor alguns percursos de leituras possíveis.
Ainda a respeito da questão do trauma, debruçando-nos especificamente sobre “Cambio de armas,” é possível destacar o proposto por Elaine Scarry em The body in pain de que “[p]hysical pain does not simply resist language but actively destroys it, bringing about an immediate reversion to a state anterior to language, to the sounds and cries a human being makes before language is learned” (SCARRY, 1985, p.4). Durante a leitura, há vários momentos em que esse processo de insufiência linguística é trazido à tona pela voz narrativa através da descrição da dor da personagem. Veja-se, por exemplo, o momento em que Roque mostra el rebenque para Laura e “ella se pone a gritar desesperada, a aullar como si fueran a destriparla o a violarla con ese mismo cabo del talero” (VALENZUELA, 1982, p. 131). A dor que o objeto, sem ao menos tocá-la, é capaz de despertar nela, revela a experiência do trauma que passa por um processo de desvio metonímico do qual o objeto se torna, mesmo na sua inutilidade – não fora usado por Roque naquele momento – um instrumento de tortura psicológica que implica a memória da dor física.
Partindo disso, propomos uma leitura que recupera as observações de Kaplan de que, “[l]a violencia es considerada por las lecturas feministas desde la década del [19]70 como el lugar privilegiado en el que se ponen en evidencia los mecanismos del control patriarcal sobre las mujeres” (KAPLAN, 2007, p. 6). Nos contos analisados, a violência é o motor pelo qual se exerce o poder. Todavia, nos textos, a representação desta é divergente. Enquanto no conto de Valenzuela ela se dá como um grito em construção – à medida que vamos, nós leitores, desvendando os andros e meandros da história – na narrativa de Lispector, a violência é silenciosa, apresentando-se nos interstícios do próprio discurso que se vai tecendo.
O grito em construção em “Cambio de armas” surge, como já mencionamos brevemente, através da maneira como se articula o desenvolvimento da revelação dentro do conto. A narrativa explora, em um crescendo, o desmantelamento da instituição matrimonial, apresentando-a como uma performance. Em alguma medida podíamos, aliás, utilizar a metáfora que Lispector esculpe para seu livro de contos, Laços de família – do qual “A imitação da rosa” faz parte – de que os mesmos laços que juntam são aqueles que sufocam, isto é, aquilo que une também é o que aprisiona. Com o emblema de esposo, Roque, em “Cambio de armas,” utiliza-se do corpo de Laura para satisfazer-se sexualmente. Ela, por outro lado, tem o corpo penetrado e posto em evidência, amparado pelo arcabouço do patriarcado, afinal, foi construída como a esposa dele no texto. Conforme aponta Kaplan, valendo-se das contribuições de MacKinnon, “en el sistema patriarcal las relaciones sexuales consensuales son un mito para las mujeres, ya que no tienen libertad de elección.” Assim, “la violación se transforma en una metáfora de las relaciones sexuales bajo el patriarcado” (KAPLAN, 2007, p.24). Observamos, porém, que, uma vez que Laura se encontra neste espaço de limbo, chamado por ela de el pozo, no qual ela desconhece a sua relação exata com Roque, a narrativa não se nega à descrição do seu prazer. Com isso, parece-nos que ela subverte a ânsia de Roque de adestrá-la, pois, uma vez que não tem consciência, como pode o regime de torná-la obediente ser, de fato, eficiente?
Como sabemos, no momento da revelação, Roque diz a Laura que as ações dele estão fundadas no desejo que ele tinha de interromper a vontade dela, de transformá-la, pois ela, supostamente, era a sua potencial assassina. Assim, ela, que o odiava, passou por um processo de aprendizagem para que fosse obrigada a querê-lo, dependendo dele como uma recém-nascida, assumindo, ainda, que estes eram os seus dispositivos de poder, as suas armas (VALENZUELA, 1982, p. 144-5). Portanto, no caso de “Cambio de armas” vemos as observações de Rodolfo Franconi sobre quando a atividade sexual não funciona como ato erótico – isto é, enquanto caminho a uma realização plena através do prazer sexual – mas reduz-se a mero instrumento do poder (FRANCONI, 1997, p. 32). Violentar o corpo de Laura é a maneira que Roque encontra para executar o seu poder.
Ocorre, porém que, se por um lado é possível dizer que Roque obteve o poder desejado sobre o corpo de Laura, por outro, uma vez que ela vivia em um espaço de limbo, ele nunca a possuíra completamente. Sua intenção, de certa forma, aparece desviada. Embora tenha destruído a linguagem de Laura e a sua conexão com o passado, deixando-lhe, somente, entre um e outro, fragmentos e a imensa cicatriz nas costas, além de ter penetrado o seu corpo, sua incapacidade de penetrar-lhe a alma, o que lhe é mais intrínseco, também é apresentada no texto, haja vista, por exemplo, o trecho: “[e]s esa la voz que a veces la llama sin poder penetrar su cáscara” (VALENZUELA, 1982, p. 139). De certa forma, isto nos faz pensar na questão do grande fracasso do discurso do patriarcado e do poder. Ainda que as marcas se inscrevam nos corpos dóceis, como propõe Foucault[1], sempre é possível a criação de um espaço exterior para que seja possível o refúgio[2].
Com relação ao texto “A imitação da rosa,” acreditamos que este espaço de limbo também existe e se trata daquele reservado à loucura, isto é, o lugar de onde a protagonista, aparentemente, voltou, e tenta organizar a vida no seu cotidiano cheio de certezas, para que não rompa o espaço concreto da casa e retorne ao que, em “Cambio de armas” a voz narrativa nomeia como “la nebulosa en la que transcurre su vida” (VALENZUELA, 1982, p. 113). As tentativas de Laura de manter a sanidade, de pertencer, as atividades de ser dentro do teatro do patriarcado são os motes que geram a violência silenciosa dentro do texto de Lispector.
O conto inicia já com o desejo de recuperar um imaginário existente, “[a]ntes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente” (LISPECTOR, 1998, p. 34). Aqui temos a pintura da mulher esperando o homem, a figura máxima da submissão, cujo sentido da vida dá-se em gravitar em torno do homem. Esta figura dialoga com as observações de Raimunda Bedasee, de que “Laura é a atriz que procura representar com perfeição o papel que já se confundiu consigo mesma enquanto pessoa: Laura não é Laura. Laura é ‘a esposa perfeita’. A Perfeição a atrai. Na busca dessa perfeição ela se perde e se encontra, na saída do pequeno mundo de dona de casa competente e de esposa satisfatória” (BEDASEE, 1999, p. 40). Dessa maneira, o esforço de Laura de se encaixar ao modelo de esposa ideal, típico dos pressupostos e esforços sociais que ela mesma se impõe, castiga-a e retira todas as suas forças, ao ponto em que ela não consegue mais representar, invadindo um espaço paralelo.
A violência de ser perfeita, de atingir a sua melhor nota na performance de viver, de se aproximar do divino, “Cristo era a pior tentação,” (LISPECTOR, 1998, p. 36) sufocam-na de maneira tão firme que Laura não resiste e vai espalhando as suas imperfeições ao lado do tom confessional que se estabelece com a voz narrativa – em quase fusão – apresentando as suas falhas. De um lado, “[p]or acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera?” (LISPECTOR, 1998, p. 35). Por outro, a sensação plena da falha: “[e]la, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem, reencontrava grata sua parte diariamente falível” (LISPECTOR, 1998, p. 37). Laura é, então, uma personagem em tensão. Seu desequilíbrio é gerado, exatamente, da constante consciência de ser falha, incompleta, de não conseguir pertencer completamente ao elenco da família perfeita, com a sua “insuficiência ovariana” (LISPECTOR, 1998, p. 41) e a impossibilidade de completar o quadro da performance[3] patriarcal. Desse modo, a violência é gerada no e pelo discurso, metaforizando a casa de Laura como o seu cárcere.
Em ambos os textos, o signo casa surge invertido. O lar que deveria ser sinônimo de lugar seguro converte-se em uma prisão. Se pensarmos, porém, em uma das possíveis definições do termo, de acordo com o Dicionário de símbolos, veremos que “[a] casa significa o ser interior” (2007, p. 197). Assim, a tentativa das duas personagens se refugiarem em um universo à parte do que habitam talvez possa ser lida como uma libertação psicológica apesar do aprisionamento físico.
Em “Cambio de armas,” à medida que vamos sendo conduzidos na narrativa, temos acesso ao interior da casa e, também, às limitações da personagem. Num determinado momento acessamos a consciência da personagem e a sua sensação de estrangeirismo, “[e]xtraña es como se siente. Extranjera, distinta” (VALENZUELA, 1982, p. 118). Laura sente que não é parte daquela encenação na qual vive. As reflexões que vai estabelecendo em torno da disposição das coisas na casa vão apontando isso, “[s]entada ante la ventana con una estéril pared blanca frente a los ojos y vaya una a saber qué oculta esa pared” (VALENZUELA, 1982, p. 124). Ela reconhece, e através do olhar dela também os leitores, que aquele lugar no qual ela está é a fantasia de uma casa, mas, por trás do véu do teatro, trata-se de uma cadeia.
Com Laura de “A imitação da rosa,” o processo não é muito distinto. Ainda que não existam limites definidos para ela, vemos que a situação de exílio é algo que Laura cria para si mesma, “[s]entou-se no sofá como se fosse uma visita na sua própria casa que, tão recentemente recuperada, arrumada e fria, lembrava a tranquilidade de uma casa alheia” (LISPECTOR, 1998, p. 37). Para Laura, portanto, é necessária a sensação de não-pertencer, de transitar sentindo um incômodo que ela mesma cria, como fruto da punição de não fazer parte do novelo pelo que ela tanto anseia: o teatro do patriarcado.
Ainda com relação ao espaço da casa, cabe ressaltar que é nesta localidade onde ocorrem as atrocidades. Sob a fachada de lar, em “Cambio de armas” temos a violação praticamente cotidiana de Laura que se transforma em uma espécie de escrava sexual de Roque. Vale ressaltar, porém, que tanto quanto Laura, só adquirimos conhecimento dessa condição à medida que ela toma ciência do fato. Em “A imitação da rosa,” de acordo com o que já mencionamos, a atrocidade surgirá nos intervalos e não de maneira física. A imposição de seguir um modelo que Laura parece impossibilitada de alcançar, transforma a casa em um ambiente hostil: passar as camisas de Armando, arrumar a casa, comprar a carne, “com o mesmo gosto que tinha em arrumar gavetas, chegava a desarrumá-las para poder arrumá-las de novo,” (LISPECTOR, 1998, p. 42) na tentativa de medir, de alguma forma, as habilidades dela de ser mulher.
Em decorrência dos processos sofridos pelas inscrições discursivas em seus corpos dóceis, as personagens adquirem, junto aos leitores, ciência da sua fragmentação. Em um primeiro momento, através da progressão da consciência delas de que talvez sejam uma terceira pessoa, “[e]n cuanto a ella, le han dicho que se llama Laura pero eso también forma parte de la nebulosa en la que transcurre su vida” (VALENZUELA, 1982, p. 113) em “Cambio de armas” ou “Carlota se surpreenderia com a delicadeza de sentimentos de Laura, (…) [n]esta cena imaginária e aprazível (…), ela chamava a si mesma de ‘Laura’, como a uma terceira pessoa” (LISPECTOR, 1998, p. 44) em “A imitação da rosa.”
Mais tarde, através das metonímias que delimitam a capturação do corpo de Laura no espelho enquanto Roque se satisfaz no seu corpo, “ella va descubriendo el despertar de sus propios pezones, ve su boca que se abre como si no le perteneciera pero sí, le pertenece, siente esa boca, y por el cuello la lengua que la va dibujando le llega hasta misma boca pero sólo un instante” (VALENZUELA, 1982, p. 123) vemos o afastamento entre o corpo que sente e a mente que problematiza o toque. Com isso, a fragmentação da personagem torna-se quase física, existe um espaçamento entre o ser e o estar. O corpo que está não é o mesmo corpo que é.
Em “A imitação da rosa” temos também o mirar-se no espelho, que assinala, conforme proposto por Benedito Nunes, “o desdobramento do sujeito, que se vê como um outro, objetivo e impessoal” (1989, p. 107 grifos no original). Assim, “[s]eu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher” (LISPECTOR, 1998, p. 35). O processo de distanciamento e fragmentação, aqui, dá-se entre a mulher que olha e aquilo que ela vê. Inicialmente, temos acesso ao quanto ela se afasta do modelo da amiga, Carlota. Depois, vemos que as partes mencionadas de seu corpo relacionam-se ao tom marrom[4]. Em alguma medida, é como se o que ela visse pelo espelho assumisse uma única tonalidade, quase sem vida, lembrando, ainda, os próprios tons pastéis mencionados em “Cambio de armas” como sendo a cor das paredes, “con sus tonalidades pastel que no pueden haber sido elegidas por ella aunque ¿qué hubiera elegido ella?” (VALENZUELA, 1982, p. 119). A fragmentação ocorre dentro de um processo de ordem, de uniformização, na quase tentativa de não chocar, apresentando-se quase transparente no cotidiano.
A noção de ser cindido, em “A imitação da rosa” parece se tornar ainda mais forte diante da tensão existente entre a personagem Laura e a sua amiga Carlota. Em alguma instância, a ansiedade que Laura sente em ser mestre no papel de mulher entra em atrito com o fato de que Carlota parece não ter a mesma ânsia. Assim, a maneira como Carlota reage gera instabilidade para Laura, pois ela não compreende a forma como a outra atua. Ainda que tente apresentar uma visão crítica de Carlota, o narrador, que parece adquirir o olhar de Laura, julga a outra, entretanto, ao invés de criar no leitor a noção de uma mulher vulgar, cuja marca é ser totalmente diferente de Laura, cria a noção de uma inveja intrínseca. Além disso, demonstra que Laura não se sente bem porque, embora critique Carlota, intimamente deseja ser como ela. Quando Laura pensa a respeito do marido e o quanto ele podia ser malicioso (LISPECTOR, 1998, p. 41), a protagonista imagina, “Carlota ficaria espantada se soubesse que eles [Laura e o esposo] também tinham vida íntima e coisas a não contar” (p. 41). A ponte entre o ser Laura e o querer ser Carlota é, assim, o poço no qual se encontra Laura.
De certa forma, este embate no qual se encontra a personagem ressoa as questões dos papéis de mulher. Laura, ao desejar e, ao mesmo tempo, refutar o jeito de ser da amiga, coloca em xeque a questão de que talvez seja impossível a coexistência das duas em uma só. Logo, uma mulher que serve aos ideais do patriarcado de esposa e mãe, por exemplo, não pode ser realizada sexualmente, ou, ao menos, não pode falar sobre estes assuntos que são tabu. Em alguma medida, portanto, dialoga com o apresentado por Susana Pravaz em Três estilos de mulher: a doméstica, a sensual, a combativa de que “desde as origens da estrutura social em que vivemos existiram mulheres-para-fazer-filhos, mulheres-para-fazer-amor, mulheres-para-lutar, enclausuradas em categorias que as especializam com as vantagens e desvantagens consequentes” (1981, p. 19). Laura reproduz os ecos das inscrições de controle do discurso hegemônico através da clausura que ela se impõe.
Em via oposta, porém, no texto de Valenzuela é possível capturarmos uma convivência aparentemente harmônica entre os diversos papéis estipulados à mulher. Em decorrência da maneira como o texto é estruturado, sugere-se que Laura tem acesso aberto à própria sexualidade, desprovida de tabus. Ao mesmo tempo também é a esposa que aparece na foto com ar conjugal, ou seja, leva em seu escopo a inscrição de dois papéis que parecem ser contrastantes. Em nosso ponto de vista, todavia, a tessitura narrativa apresenta, já desde o princípio, algumas pistas que sugerem os motivos pelos quais é possível o flagrante de certa estabilidade, ainda que seja falsa. Uma vez que temos, “[n]o le asombra para nada el hecho de estar sin memoria, de sentirse totalmente desnuda de recuerdos” (VALENZUELA, 1982, p. 113), como a frase que abre o conto, lemos como hipótese que um dos caminhos possíveis para a convivência entre as atividades contrastantes que podem constituir o sujeito feminino é, justamente, o desnudar-se de recordações. Entendendo-se por recordações, sobretudo, as inscrições corporais feitas ao longo do desenvolvimento histórico. Prova-se, com isso, que é necessário o esquecimento dos discursos anteriores e a aprendizagem de novos discursos, jamais vistos como próximos, posto que eram automaticamente colocados em sentidos opostos. Ainda que não seja uma proposta embasada em completo sucesso, haja vista que Laura consegue transitar harmonicamente pelos dois papéis contrários em decorrência de não ter memória, é possível afirmar que “Cambio de armas,” em alguma medida, apresenta uma sugestão para a cura da ansiedade de Laura em “A imitação da rosa”.
Além dos diálogos que apresentamos aqui entre os textos analisados, acreditamos que há ainda um ponto de contato entre eles que é o mais perene. Trata-se da presença da planta/rosas nos contos. Em “Cambio de armas” a planta surge como uma espécie de recuperação do desejo. Laura, que já não desejava, na sua nebulosa constante, quer algo. A planta se torna, como apresentado por Kaplan “el único objeto que Laura pide, funciona como uma metáfora para Laura” (2007, p. 69). Assim, o ser inanimado é uma extensão física de Laura e denota o seu próprio movimento de “flor amarilla, tiesa, muy bella, que se fue marchitando por suerte, como corresponde a una flor por más tiesa y más bella que sea,” (VALENZUELA, 1982, p. 120) revelando a condição de efemeridade da vida e a força que o ambiente exerce sobre ela. Também captamos a questão de que, uma vez tomada como metáfora de Laura, quando ela se conscientiza da quase artificialidade da planta, “la planta parecía artificial pero estaba viva y crecía y la flor iba muriéndose y esto también era la vida, sobre todo eso, la vida: una agonía desde el principio con algo de esplendor y bastante tristeza” (VALENZUELA, 1982, p. 121-2) parece demonstrar que está ciente, por extensão, da sua própria artificialidade. A vida de Laura, ainda que seja uma espécie de subvida – não tem memória, não reconhece o ambiente, sente-se estrangeira – ainda é algum tipo de vida.
Laura, de “A imitação da rosa,” também mantém uma relação aproximada com as rosas. Como Kaplan menciona a respeito de “Cambio de armas,” as rosas no conto de Lispector também são, em alguma medida, uma metáfora de Laura. Ao menos, na forma de perfeição que ela gostaria de alcançar sem, contudo, fazê-lo. Além disso, Laura, ao mesmo tempo em que observa a beleza, “[e]ram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo,” (LISPECTOR, 1998, p. 43) tem ciência de que a perfeição, em alguma medida, não é um aspecto completo da natureza, afinal, “[e]ram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais! Disse em surpresa” (LISPECTOR, 1998, p. 43). Ser perfeito, portanto, parece apontar a desconfiança de ser artificial, o natural é, assim, imperfeito e não pode conter em si tamanha beleza.
Este embate entre o ser e o não ser, tão perene em todo o conto, alcança o nível mais alto enquanto Laura observa as flores e decide dá-las à amiga Carlota. Esta decisão, porém, resulta em um novo contraste, afinal, por que dá-las a alguém quando eram tão lindas, únicas e somente dela? As rosas, assim, funcionam como o motivo detonador, a claridade dentro das certezas que havia em torno de Laura, a delicada membrana da sanidade, diante de tamanha perfeição e a constatação da impossibilidade de alcançá-la sugam Laura para o outro lado, ou seja, ela adentra a nuvem, alcança a sua paz na loucura, num “trem. Que já partira” (LISPECTOR, 1998, p. 53). A chegada do marido, ao final do conto, atesta a distância de Laura. Ela ainda tem tempo de dizer para ele que “[v]oltou, Armando. Voltou,” (LISPECTOR, 1998, p. 52) mas não se trata da volta dela, senão da volta do estado de nuvem, seu poço interior havia, novamente, engolindo-a. Lá estava “ela sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável” (LISPECTOR, 1998, p. 53). O silêncio entre ambos, quando o marido se aproxima, sugere a ideia da linguagem penetrando um território que está além daquele do presente. Em alguma medida, em sua mudez, “[e]nvelhecido, cansado, curioso,” (LISPECTOR, 1998, p. 53) Armando compreende a partida de Laura. Com isso, vemos que embora exista o esforço dos ecos da perfeição – calcados no discurso do patriarcado – eles são impedidos de exercer quaisquer forças sob Laura, pois ela partiu. Invadiu um espaço especial que é, para esses ecos, inalcançável.
Com relação a “Cambio de armas” vemos que a planta conscientiza Laura da sua condição, mas não é a responsável pelo momento de iluminação da protagonista. A epifania, pelo contrário, ocorre com a destruição da linguagem dela quando ela vê el rebenque. Assim, tanto quanto as rosas, em “A imitação da rosa,” são um motivo detonador da fina membrana de uma verdade inventada e frágil, em “Cambio de armas” a imagem de el rebenque faz esse papel. Aliás, a narrativa menciona que el rebenque é como “un detonante,” (VALENZUELA, 1982, p. 133) que, de certa forma, torna-a mais alerta da sua própria condição, observando o fato que Uno y Dos estão sempre à porta, por exemplo. Logo, embora na dor extrema, “en un rincón como animal herido,” (VALENZUELA, 1982, p. 131) Laura passa por um momento de iluminação que faz com que ela comece a conectar elementos nomináveis com a experiência incompreensível da qual ela não tem memória.
Aproximando-nos do fim desse diálogo entre as narrativas que nós nos dispusemos a analisar, acreditamos que foi possível observar muitos momentos nos quais os textos, embora tão distantes no tempo e no espaço, reconhecem-se e trabalham, de alguma forma, com as mesmas temáticas, sobretudo com o exercício da violência agenciada pelo poder. As marcas do poder aparecem em suas diversas formas: tanto nos ecos de um discurso historicamente construído sobre os papéis de mulher e a necessidade de ser perfeita para que se possa atuar no teatro do patriarcado quanto como ato de erotismo deslocado, transformando o sexo em uma arma que inscreve no corpo do outro a violência. Dessa forma, ainda que os textos apresentem a noção de cárcere através do aprisionamento das protagonistas a um sistema fechado, cujas saídas aparentemente não existem, sugerem, também, que mesmo diante de uma impossibilidade física é possível criar um universo paralelo que não só serve de refúgio como também significa libertação. Esta libertação dá-se por meio dos recursos da própria linguagem desenvolvida pelas autoras para denunciar a violência silenciosa experienciada por suas protagonistas, como através da atuação das personagens no corpo do texto que não permitem um desfecho catártico para as narrativas. As duas Lauras, assim, evadem-se do espaço que as aprisiona, seja por meio da sugestão e ambiguidade na cena final de “Cambio de armas”, seja pela entrada “na nuvem” em “A imitação da rosa”.
Referências Bibliográficas
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NOTAS AO TEXTO
[1] Ver Vigiar e punir: história da violência nas prisões (1987).
[2] Através da análise proposta por Betina Kaplan em seu livro, Género y violencia en la narrativa del Cono Sur (1954-2003) é possível notar a existência deste espaço de limbo como uma sugestão a um espaço dedicado exclusivamente à resistência aos aparatos do poder. Veja-se, por exemplo, dentre as obras que a autora analisa, o caso de Los vigilantes de Diamela Eltit (1994).
[3] Quando tratamos de performance estamos nos voltando às observações de Judith Butler em Gender Trouble ao discutir a construção dos paradigmas que modulam a identidade feminina. Para a autora, “acts, gestures, and desire produce the effect of an internal core or substance, but produce this on the surface of the body, through the play of signifying absences that suggest, but never reveal, the organizing principle of identity as a cause. Such acts, gestures, enactments, generally construed, are performative in the sense that the essence or identity that they otherwise purport to express are fabrications manufactured and sustained through corporeal signs and other discursive means. (…) This also suggests that if that reality is fabricated as an interior essence, that very interiority is an effect and function of a decidedly public and social discourse, the public regulation of fantasy through the surface politics of the body, the gender border control that differentiates inner from outer, and so institutes the “integrity” of the subject (BUTLER, 2008, p. 185-186, grifos do original). Laura, portanto, reproduz o que pensa ser seu desejo, mas é o eco da construção do discurso do patriarcado em seu corpo. Nesta medida, estar no limbo é, também, evadir-se dessa estrutura.
[4] Lembramos ainda que a cor marrom é mencionada muitas outras vezes no texto de Lispector, “o vestido marrom combinava com seus olhos e a golinha de renda creme dava-lhe alguma coisa de infantil, como um menino antigo” (1998, p. 40) e “e ela castanha. Ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser” (1998, p. 41). Além disso, logo depois de comentar sobre as paredes em tom pastel, também se menciona o marrom no texto de Valenzuela, “[t]onos más indefinidos, seguramente, colores solapados como el color del sexo de él, casi marrón de tan oscuro” (VALENZUELA, 1982, p. 119). Parece-nos que a recorrência da cor sustenta uma atmosfera de mesmice, repetição, marcada pelo tédio. Além disso, trazendo as observações de Chevalier e Gheerbrant de que o castanho “faz lembrar também a folha morta, o outono, a tristeza. É uma degradação, uma espécie de casamento rebaixador das coisas puras,” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2007, p. 198) podemos compreender o marrom como uma extensão das próprias personagens. Conforme exploramos mais tarde em nosso trabalho, tanto em “Cambio de armas” com a presença da planta, quanto em “A imitação da rosa” com a presença das flores, acontece uma fusão entre as protagonistas e esse ser que, embora inanimado, é repleto de vida.
Bio fornecida pelo palestrante.
Fernanda Aparecida Ribeiro
Universidade Federal de Alfenas
Kátia Rodrigues Mello Miranda
Universidade Estadual Paulista
RESUMO: Um dos propósitos do romance histórico atual latino-americano é a releitura crítica do fato histórico com o motivo de preservar ou recuperar a(s) identidade(s) de América, por meio da problematização da reinterpretação de seu passado. O romance Malinche (2005), da escritora mexicana Laura Esquivel (1950-), considera tanto a história da mulher na expedição dos espanhóis em terras mexicanas como a função de problematizar as relações de literatura e história por meio da voz feminina, convertendo-se no que Magdalena Perkowska (2008, p. 42) nomeia de “histórias híbridas”: outras possibilidades, outros discursos a partir da releitura crítica dos relatos de viagem da Conquista.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura e História – Literatura e Mulher – Laura Esquivel – Malinche.
RESÚMEN: Uno de los propósitos de la novela histórica actual latinoamericana es la relectura crítica del hecho histórico con el motivo de preservar o recuperar la(s) identidad(es) de América, por medio de la problematización de la reinterpretación de su pasado. La novela Malinche (2005), de la escritora mexicana Laura Esquivel (1950-), considera tanto la historia de la mujer en la expedición de los españoles en tierras mexicanas como la función de problematizar las relaciones de literatura e historia por medio de la voz femenina, convirtiéndose en lo que Magdalena Perkowska (2008, p. 42) llama de “historias híbridas”: otras posibilidades, otros discursos a partir de la relectura crítica de los relatos de viaje de la Conquista.
PALABRAS-LLAVE: Literatura e Historia – Literatura y Mujer – Laura Esquivel – Malinche.
Minicurrículo: Fernanda Aparecida Ribeiro é professora adjunta na Universidade Federal de Alfenas, no conjunto das disciplinas de literatura hispano-americana. Doutorou-se em Letras na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e tem experiência na área de Literatura, com ênfase em literatura latino-americana, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura latino-americana, romance histórico contemporâneo e literatura escrita por mulher.
Minicurrículo: Kátia Rodrigues Mello Miranda é professora assistente doutora da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), no conjunto das disciplinas de língua espanhola. Tem experiência na área de Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de professores de língua, ensino e aprendizagem de língua estrangeira (espanhol) e literatura no ensino de espanhol como língua estrangeira.
As histórias híbridas em Malinche:
uma viagem ao passado
Fernanda Aparecida Ribeiro
Universidade Federal de Alfenas
Kátia Rodrigues Mello Miranda
Universidade Estadual Paulista
Publicado em 2005, Malinche é o último romance da escritora mexicana Laura Esquivel (1950-). Trata-se de uma narrativa ficcional de tema histórico; uma viagem ao passado por meio da literatura, em que se sobressaem a reinvenção das crônicas de conquista e colonização, resgatando as aventuras de Hernán Cortés na viagem à América, e posterior Conquista do México, e a atuação da indígena Malinche, considerada como a “culpada” pela vitória dos espanhóis frente aos indígenas.
Na América em meados do século XX, quando a problematização da reinterpretação do passado latino-americano leva os escritores do continente a procurarem recursos literários que traduzam a memória e a visão de história que possuem, que é muito distinta da visão otimista e positivista da Europa do século XIX – quando nasceu o romance histórico, segundo Lukács (1977) – encontram-se várias singularidades, como a intertextualidade, a ficcionalização dos personagens históricos e a releitura crítica – e algumas vezes conflitiva – da história, com o objetivo de proporcionar uma nova perspectiva da interpretação do passado.
Muitos são os estudos sobre a relação da literatura e história na América Latina, de modo especial na segunda metade do século XX; contudo, de todos os aspectos delineados pelos críticos sobre o romance histórico contemporâneo, acredita-se que um dos principais seja aquele que Magdalena Perkowska aponta na introdução de seu livro Historias híbridas (2008, p. 42):
(…) los novelistas dibujan un nuevo mapa para el concepto de la historia y su discurso. Vista desde esta perspectiva, la novela histórica latinoamericana no cancela la historia sino que redefine el espacio declarado como “histórico” por la tradición, la convención y el poder, postulando y configurando en su lugar las historias híbridas que tratan de imaginar otros tiempos, otras posibilidades, otras historias y discursos.
Talvez essa seja a principal finalidade dos autores latino-americanos: a realização de uma leitura atenta, pormenorizada e crítica da história, não com o objetivo de anular seu discurso ou propósito, mas sim de recolocar a história em um espaço em que se permitem outros tempos, várias versões e diversos discursos que contribuem na interpretação do passado.
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, em seu texto “La verdad de las mentiras” (1990, p. 7), faz uma defesa de como a ficção (tida como “fingimento”, “invenção”) colabora para a interpretação do passado: “En efecto, las novelas mienten – no pueden hacer otra cosa – pero esa es solo una parte de la historia. La otra es que, mintiendo, expresan una curiosa verdad, que solo puede expresarse disimulada y encubierta, disfrazada de lo que no es”.
Assim, pode-se notar que os romancistas manuseiam a ficção como uma forma de acercar-se à realidade e de expressar a sua leitura própria, a chamada “curiosa verdade” apontada por Vargas Llosa. Concordando com o escritor peruano, Mercedes Giuffré (2004, p. 23-24) também informa que no romance histórico não há mentira e que a narrativa é simplesmente “una forma de pensar el pasado y de repensar la escritura de la historia. No miente sino que interpreta, e intenta comprender el presente que resulta del pasado, valiéndose de las herramientas que aporta la imaginación”.
Um dos propósitos do romance histórico latino-americano atual é a releitura crítica do passado histórico com o motivo de preservar ou recuperar a(s) identidade(s) da América, por meio da problematização da interpretação do seu passado. André Trouche (2006, p. 44) declarou que esse tipo de literatura provoca o diálogo com a história de forma “transgressora”, pois implica novas visões e versões sobre o discurso instaurado. Nesse contexto, encontramos o romance Malinche, que oferece um novo olhar para a viagem de Cortés à América, resgatando as aventuras da Conquista do México através do olhar da personagem principal, que dá nome ao livro.
Laura Esquivel evidencia o relato da vida da mulher indígena que participou dos acontecimentos históricos como intérprete do conquistador espanhol. Contudo, a visão oferecida pela autora não será a mesma de muitos escritores que tratam Malinche como a traidora de seu povo. Existe, assim, uma ideologia que permeia todo o romance de Esquivel e que pode ser analisada a partir dos princípios básicos da Crítica Feminista, que discute a posição e a representação da mulher nos textos literários escritos tanto por homens como por mulheres e que problematiza as causas da opressão feminina frente ao patriarcado, debatendo o espaço a que a mulher é relegada na sociedade e desconstruindo a oposição homem/mulher.
Conforme sistematiza Lúcia O. Zolin (2005, p. 189), a Crítica Feminista tem sua origem com a publicação de Sexual Politics, de Kate Millet, em 1970, uma obra que “traz à tona discussões acerca da posição secundária ocupada pelas heroínas dos romances de autoria masculina, como também pelas escritoras e críticas literárias”. Em sua tese, Millet parte da discussão de que o patriarcado gera a opressão feminina por meio de um rígido sistema que distingue os papéis sexuais, em que tudo o que se refere ao papel masculino é “universal” e “oficial”, oprimindo o lado feminino. A Crítica tem como um de seus objetivos desmascarar a repressão dos papéis femininos legitimados pela ideologia dominante na sociedade e pela literatura canônica.
Dos três enfoques feministas atuais – o britânico, orientado pelas teorias marxistas; o francês, que se baseia na psicanálise; e o norte-americano, que é essencialmente textual – destaca-se aqui o último, por ter o foco no texto literário. Uma importante representante é Elaine Showalter, que analisa os textos de escritoras inglesas do século XIX, em “A Literature of Their Own” (1986), e propõe uma classificação das fases históricas dessas subculturas literárias escritas por mulheres dos Estados Unidos: feminine, feminist e female.
A primeira, que se pode traduzir por “feminina”, é o momento em que as autoras seguem o padrão e os modelos da tradição da literatura dominante (leia-se: masculina). A segunda, traduzida como “feminista”, é uma fase de protesto, de sublevação frente à condição subordinada da mulher na sociedade e na sua representação na literatura. Já a última fase, muitas vezes traduzida para o português como “da mulher” (em espanhol, “autodescubrimiento”), aponta para uma identidade e autonomia feminina, na qual as mulheres adquirem o conhecimento de si mesmas e dos problemas em questão, e o interesse se volta para os textos escritos por elas mesmas. Essa classificação pode ser válida para literaturas escritas por mulheres de outros países, como Brasil e América Hispânica.
Ao resgatar o passado, principalmente uma figura feminina cuja interpretação histórica tem tanto um lado positivo como um negativo, Esquivel reivindica a possibilidade de mostrar uma versão a partir do olhar da mulher, buscando uma interpretação para as ações da personagem histórica.
Malinche era uma indígena que foi escravizada por algumas tribos, até que foi dada como “presente” a Hernán Cortés. Logo, descobriu-se que ela falava as línguas maia e asteca, e, junto com Aguilar (um europeu náufrago, que aprendeu a língua maia), participou de uma rede de comunicação entre espanhóis e índios, tornando-se a intérprete de Cortés.
O nome da personagem histórica provavelmente era Malinalli ou Malintzin; após o batismo cristão, foi nomeada de doña Marina, mas o nome que a tornou conhecida foi Malinche. No livro de Esquivel, a personagem sempre será nomeada como Malinalli, mas aqui na nossa exposição, a trataremos de Malinche, que é o nome mais conhecido.
O signo de “traidora de seu povo” provém dos discursos nacionalistas do século XIX, em especial do autor Carlos María de Bustamante, que desqualifica Malinche e a culpa por trair seu povo no episódio de Cholula – quando revela a Cortés que os indígenas estariam armando uma cilada para os espanhóis. Assim, segundo esses discursos, Malinche estaria a favor dos conquistadores e seu conhecimento sobre o universo indígena teria sido um fator decisivo para a vitória dos espanhóis. Tais discursos foram frequentes nessa época e eram difundidos nas escolas e livros de história.
Já no século XX, aparecem outros autores, que contestam a versão de Malinche como traidora de seu povo e, principalmente, de que a vitória dos espanhóis tenha se dado por causa da indígena. Nessa esteira, Cristina González Hernández (2002, p. 34) insiste que “el triunfo de los españoles sobre la hegemonía de Tenochtitlán se debió a la debilidad del propio sistema, a los enfrentamientos internos y a la insumisión de los pueblos tributarios que el mal llamado imperio azteca no había conseguido dominar de manera efectiva.”
Muito já se discutiu sobre o descobrimento da América que, segundo González Hernández (2002, p. 25-26), que afirma que “se encuadra en una perspectiva renacentista, marcada por la curiosidad y el afán de dar cuenta, de narrar los acontecimientos y las novedades, que busca nuevos espacios y configura otra imago mundi”.
González Hernández (2002, p. 25-26) ressalta, ainda, que a sociedade espanhola se destacava por “la religiosidad, el espíritu de aventura y la mentalidad nobiliaria, características impregnadas de medievalismo que quedarán reflejadas en la Conquista de México”. Tais características podem ser observadas em Cortés, que, em suas Cartas de Relación (1519), deixa explícito o espírito de Santa Cruzada, comparando os índios aos mouros.
O romance de Esquivel toma tanto a história de Cortés como a de Malinche com o objetivo de problematizar as relações de literatura e história por meio da voz feminina, convertendo-as em “histórias híbridas”, conforme a nomenclatura de Magdalena Perkowska (2008, p. 42). Para obter esse resultado, Esquivel utiliza Malinche como foco narrativo eixo da narração, apresentando ao leitor um romance de formação, segundo a terminologia de K. Morgenstern, comentada por Carlos Ceia. [Conferir o verbete de Bildungsroman no e-dicionário de Termos Literários]: “Ao centrar o processo de desenvolvimento interior do protagonista no confronto com acontecimentos que lhe são exteriores, ao tematizar o conflito entre o eu e o mundo, o Bildungsroman dá voz ao individualismo, ao primado da subjectividade e da vida privada.”
Assim, a história de Malinche inicia com o nascimento da protagonista – descrito com muitos símbolos, especialmente o da água, como sinal de vida –, retrata sua infância ao lado da avó, que deixou os principais ensinamentos para sua vida, relata sua experiência com os espanhóis ao longo de todo o percurso da Conquista, e, por fim, narra os últimos anos de sua vida. É possível traçar a transformação da personagem no decorrer da narração e perceber que o romance tenta representar a visão da mulher sobre a Conquista do México, e, principalmente, o romance se apresenta como uma versão do que Malinche poderia ter pensado/falado, já que não há registro histórico do que a personagem histórica pensava/acreditava sobre os espanhóis e a Conquista.
Por se tratar de uma narrativa escrita por uma escritora feminista, a representação da protagonista terá características específicas, como a demonstração de uma consciência nítida sobre sua condição de mulher dentro da sociedade, bem como a intenção de modificar a situação opressora em que vive. Como os pensamentos e sentimentos de Malinalli são o cerne do enredo, o romance propõe, através desse recurso, um questionamento do mito de traidora de sua pátria. Assim, por meio da ficção, o narrador oferece uma versão da vida de Malinalli que não está contemplada na história oficial:
Malinalli estaba en total desacuerdo con la manera en que ellos [los indígenas] gobernaban, se oponía a un sistema que determinaba lo que una mujer valía, lo que los dioses querían y la cantidad de sangre que reclamaban para subsistir. Estaba convencida de que urgía un cambio social, político y espiritual. (ESQUIVEL, 2006, p. 24).
Tendo em vista essas reflexões, acreditamos que a intenção do romance Malinche não é simplesmente recontar a versão dos cronistas ou reafirmar o mito de traidora de sua pátria, conforme os discursos nacionalistas do século XIX. Ao contrário, a narrativa tem como finalidade apresentar uma interpretação diferente para a história da personagem, desconstruindo os discursos apresentados ao longo dos séculos.
Para lograr tal objetivo, o narrador apresenta as convicções de sua personagem sobre os espanhóis e o seu desejo de liberdade: “A Malinalli le urgía tanto el regreso del señor Quetzalcóatl – principal opositor de los sacrificios humanos – que hasta estaba dispuesta a creer que su dios tutelar había elegido el cuerpo de los recién llegados a estas tierras para que ellos le dieran forma a su espíritu” (ESQUIVEL, 2006, p. 24).
Para superar a dupla opressão sofrida (de ser mulher e de ser escrava), Malinalli começa a acreditar que os espanhóis são os (enviados dos) deuses que o povo indígena esperava. Se ela estivesse certa, como queria, eles trariam a libertação para o seu povo. Assim, a narrativa começa a justificar a atitude de Malinalli em ser a informante dos espanhóis, pois ela estaria servindo aos deuses e nada lhes podia negar nem ocultar.
A narrativa descreve que Malinalli, durante o convívio com os espanhóis, vai adquirindo a consciência de que eles não são os (enviados dos) deuses que ela e seu povo tanto aguardavam, mas preferiu calar, conforme o trecho a seguir, quando soube dos temores de Moctezuma (o imperador dos astecas) sobre o fim de seu império:
Malinalli podía impedir que esto sucediera, podía proclamar que los españoles no eran enviados de Quetzalcóatl y en un segundo serían destruidos…, pero ella sería asesinada junto a ellos, y no quería morir como esclava. Tenía muchos deseos de vivir en libertad, de dejar de pasar de mano en mano, de llevar una vida errante. (ESQUIVEL, 2006, p. 74).
Assim, a protagonista realiza uma viagem de formação, em conflito consigo mesma e com o contexto em que está inserida, intervindo consciente e ativamente no encontro de dois mundos distintos, contundindo-se a cada instante com os acontecimentos, mas descobrindo-se cada vez mais como mulher, como participante de um momento único da história de seu povo. Atinge o discernimento a cada sofrimento que passa, fortalecendo suas ideias próprias e, principalmente, buscando a sua identidade em meio a vários grupos sociais dominados pelo homem. Assim como no romance de formação, “o seu encontro consigo mesmo significa também uma compreensão mais ampla do mundo”.
O romance de Laura Esquivel compreende várias viagens em uma única história: a viagem ao passado, resgatando os acontecimentos históricos da Conquista do México; a viagem dos espanhóis e de Malinche pelo território mexicano e, principalmente, a viagem de formação da protagonista, que se destaca na narrativa por ser uma pessoa de palavras e atitudes – diferentemente do que ocorreu nos registros históricos, quando a mulher teve sua voz silenciada. O que prevalece na narrativa é o intuito de reaver a memória de um povo através da recriação do passado histórico, convertendo-se em outras possiblidades, outros discursos a partir da releitura crítica dos relatos de viagem da Conquista.
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*Esse texto foi apresentado em forma de comunicação oral no Encontro Internacional Viaxeiros: do Antigo ao Novo mundo, nos dias 3 a 13 de junho de 2015, em Santiago de Compostela.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARLOS CEIA: s.v. Bildungsroman. e-Dicionário de Termos Literários (EDTL). Coord. de Carlos Ceia. Retirado de <http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_
mtree&link_id=150:bildungsroman&task=viewlink>. Acesso em: 28 maio 2015.
ESQUIVEL, Laura. Malinche. Buenos Aires: Alfaguara, 2006.
FIGUEIREDO, Vera F. de. Da alegria e da angústia de diluir fronteiras: o romance histórico hoje na América Latina. Cânones e contextos: Anais do 5º. Congresso ABRALIC. Rio de Janeiro, ABRALIC, 1998, vol. 1. p. 479-486.
GIUFFRÉ, Mercedes (Org.) En busca de la identidad (La Novela Histórica en Argentina). Buenos Aires: Ed. del Signo, 2004.
GONZÁLEZ HERNÁNDEZ, Cristina. Doña Marina (La Malinche) y la formación de la identidad mexicana. Madrid: Ediciones Encuentro, 2002.
LUKÁCS, Georges. La novela histórica. Trad. Jasmim Reuter. 3. ed. México: Era, 1977.
PERKOWSKA, Magdalena. Historias híbridas: la nueva novela histórica latinoamericana (1985-2000) ante las teorías posmodernas de la historia. Madrid: Iberoamericana; Frankfurt am Main: Vervuert, 2008.
SHOWALTER, Elaine. A Literature of their Own. In: EAGLETON, M. (Ed.). Feminist Literary Theory: a Reader. Cambridge, Mass: Blackwell, 1986. p. 11-15.
TROUCHE, André Luís G. América: história e ficção. Niterói: EDUFF, 2006.
VARGAS-LLOSA, Mario. La verdad de las mentiras. In: La verdad de las mentiras. Ensayo sobre literatura. 2. ed. Barcelona: Seix Barral, 1990. p. 7-18.
ZOLIN, Lúcia Osana. Crítica feminista. In: BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. (Org.) Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2. ed. Maringá: Eduem, 2005. p. 181-203.
Bio fornecida pelo palestrante.
Severino Antônio
Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL
Resumo: Este artigo traz algumas considerações sobre a obra e a vida de Ruth Guimarães (1920-2014), em diálogo com diferentes autores, dentre os quais Antonio Candido e José Paulo Paes, que ressaltam a relevância da autora, primeira escritora negra de reconhecimento significativo na literatura regionalista do modernismo brasileiro, tanto em sua ficção – romance, contos, crônicas e histórias infantis – como em seus estudos de cultura popular e folclore. O artigo reitera também a importância das histórias para a formação de leitores, para a educação da sensibilidade e da imaginação.
Palavras-chave: Ruth Guimarães – literatura – regionalismo – cultura popular.
Abstract: This article discusses the work and life of Ruth Guimarães (1920-2014), in dialogue with different authors, among which Antonio Candido and José Paulo Paes. These highlight the relevance of the author, the first of all black writer to achieve with significant recognition in regionalist literature of Brazilian modernism, both in his fiction – novel, short stories, chronicles and children’s stories – as in his study of popular culture and folklore. This article also reaffirms the importance of reading stories in the formation of readers and for the education of their sensitivity and imagination.
Keywords: Ruth Guimarães; literature; regionalism; popular culture.
Minicurrículo: Professor do Mestrado em Educação Sociocomunitária na Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL-SP). Doutor em Educação pela UNICAMP, é Conselheiro do Instituto ALANA. Há quarenta anos trabalha com ensino de Redação e Leitura, Literatura, Filosofia, e também com formação de professores. Escreveu vários livros, dentre eles: Constelações – uma escuta poética da infância (Adonis, 2014); Poetizar o pedagógico (Biscalchin, 2014); Uma pedagogia poética para as crianças – com Katia Tavares (Adonis, 2013); Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento (Paulus, 2009); O visível e o invisível (Verus, 2008).
RUTH GUIMARÃES – UMA VOZ DE MUITAS VOZES
Severino Antônio
Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL
Introdução
De modo constelar, este artigo faz considerações sobre algumas dimensões da obra de Ruth Guimarães, a partir de diálogos com alguns de seus textos e com autores que escreveram sobre o seu trabalho literário e cultural, de muitas vozes, e sobre sua dimensão humana.
Por que escrever sobre Ruth Guimarães, sua obra, sua vida?
Mais de duzentos milhões de habitantes. Mais de sete milhões de universitários matriculados no Ensino Superior. Tiragem média de um livro de literatura brasileira: os que conseguem ser publicados, em sua imensa maioria, têm edição de mil a dois mil exemplares.
Um breve andar pelas livrarias ou um olhar de sobrevoo às listas dos livros mais vendidos já evidenciam o domínio da lógica da última novidade do mercado de best sellers, geralmente lançados em todo o mundo, de modo semelhante à maquinaria da industria do cinema comercial.
A extensão dessa miséria amplia-se pela permanente crise de leitura, dentro e fora das escolas. Ao término do Ensino Fundamental, e mesmo do Ensino Médio, quantos são os alunos capazes de ler compreensivamente um texto lógico expositivo um pouco mais elaborado, com raciocínio mais complexo? E a leitura das entrelinhas e das palavras criadoras de sentido, e de mais sentidos, do texto literário?
Exatamente por isso, é imprescindível o trabalho de formação de leitores, que não se separa da formação de professores – que leiam e que chamem seus alunos a ler, que despertem o desejo e o gosto pela leitura. Para esse despertar, as histórias são fundamentais, pelos seus poderes de empatia, de identificação dos leitores com os personagens e os enredos, assim como pela capacidade de desenvolver curiosidade e imaginação, que ampliam as margens da vida. A convivência com a literatura revela-se, assim, experiência de educação da sensibilidade, em ambos os sentidos inscritos etimologicamente na palavra educar: conduzir na vida, na cultura, na sociedade; extrair, despertar e desenvolver, de dentro para fora, potencialidades humanas.
Este artigo reitera também a necessidade da descoberta e redescoberta de autores do patrimônio cultural, tanto brasileiro como da humanidade. Dentre esses autores, é significativo o conhecimento – e o reconhecimento – de vozes pioneiras, como a de Ruth Guimarães, primeira escritora negra a ocupar espaço significativo na literatura modernista, e que traz, tanto em sua ficção como em seus ensaios, as vozes dos deserdados da terra, vozes raramente escutadas.
Uma tessitura de vozes
Poucos dias depois da morte de Ruth Guimarães, Antonio Candido escreveu:
Com a morte de Ruth Guimarães, a vida cultural do Brasil perde uma de suas grandes damas, o que ela de fato era, no sentido pleno das palavras. À capacidade intelectual e fidelidade à vocação, juntava uma distinção rara, realçada pela serena reserva.
Dois anos mais velho do que ela, e sendo crítico literário do Diário de São Paulo, pude comentar a sua estreia brilhante, com o romance Água funda.
(…)
Nem sempre os escritores são, como pessoa, tão relevantes quanto os seus textos. De Ruth Guimarães pode se dizer que era. A sua integridade, a sua distinção pessoal, o corte sóbrio de sua conduta na República das Letras faziam dela uma personalidade respeitada e encantadora (CANDIDO, 2014, s. p.).
No dia mesmo da morte da escritora, Noemi Jaffe assim expressou-se, em artigo para o jornal Folha de São Paulo (on line), com a colaboração de Cesar Soto, artigo de que são recolhidos alguns excertos:
A escritora Ruth Guimarães morreu às 14h desta quarta (21), aos 93 anos, em Cachoeira Paulista, cidade onde nasceu. (…) Como com Guimarães Rosa, para quem “o sertão é o mundo”, também para ela “ser caipira” era uma condição antes espiritual e ontológica do que exclusivamente regional. (…) foi amiga pessoal de Mário de Andrade e a primeira escritora negra a obter repercussão nacional, em 1946, com o romance Água funda (…).
Assim é que a autora (…) misturava a Grécia a sacis, perfazendo uma literatura cronística, poética e romanesca, sem deixar de ser “contação de causos”, recuperação de nossas raízes negras (…). Ruth Guimarães teve nove filhos, escreveu romances, contos, poesia, palestras sobre educação, política, cultura, fez crítica literária, escreveu para alguns dos jornais mais importantes do país –publicou crônicas semanais para a Folha durante os anos 1960 – e era membro da Academia Paulista de Letras. Mas, para muitos, permanece anônima, principalmente nas grandes cidades. Certamente não no Vale do Paraíba, onde é um nome fundamental. É um caso a se pensar e, mais ainda, a reparar. Ela deixa quatro filhos e quatro netos (JAFFE, 2014).
Fabio Lucas, confrade da escritora na Academia Paulista de Letras, assim se expressou:
Ruth Guimarães projetou-se, desde cedo, como personalidade ímpar na literatura brasileira. Pesquisadora do folclore, desvendou organizadamente um dos pilares da formação da nacionalidade, até então ofuscada pelo preconceito. Ficcionista, levou à criação o cerne de nossa origem. Pedagoga, ofertou às crianças os encantos e a massa crítica do mundo maravilhoso (LUCAS, 2014, p. 130).
Quase sessenta anos antes, em 1956, no lançamento de Grande sertão: veredas, o criador de Riobaldo e Diadorim escreve-lhe como dedicatória:
A Ruth Guimarães,
– parenta minha; e uma das pessoas mais simpáticas que já encontrei na vida; e que escreve como uma Fada escreveria –, com o grato apreço e a amizade do Guimarães Rosa (Rio, 11.VII. 56).
A questão da linguagem e da literatura regionalista
Uma obra vasta e plurívoca, de mais de quarenta volumes, de diferentes gêneros, com muitas dualidades: ao mesmo tempo regionalista e cosmopolita, feminina e universalista. Uma obra multifacetada, mas com uma concepção unitária de cultura e de literatura, que permanece coesa pela existência inteira.
Uma das mais expressivas dualidades pode ser assim apresentada: de um lado, a romancista de Água Funda, escrito aos vinte e um anos, e publicado em 1946, por Edgard Cavalheiro, autora que se reconhece e reitera sua identidade no pertencimento à literatura regionalista, à cultura caipira do Vale do Paraíba; de outro lado, a tradutora erudita, a latinista que faz uma admirada tradução de O asno de ouro, de Apuleio, estudada em diversas universidades, tradutora também de autores clássicos franceses, como Balzac e Daudet, assim como autora de um dicionário de mitologia grega, adotado em muitas faculdades.
Mesmo no campo específico de sua narrativa, há fecundas polaridades, faces diferentes e complementares, nunca dicotômicas, que propiciam chaves interpretativas que ampliam o diálogo e o reconhecimento da complexidade de sua criação. Uma das chaves é a que reconhece a dualidade de sua linguagem, unidade da diversidade, em oculta harmonia: a contadora de histórias do Vale do Paraíba, em especial de Cachoeira Paulista, traz a linguagem caipira, a fala viva das personagens; traz também, quase sempre na voz dos narradores, uma linguagem de feição clássica da língua portuguesa, que se espelha e inspira em Machado de Assis – não nas digressões, mas na concisão machadiana, autor que é a referência maior no cânone da autora, que leu Dom Casmurro aos nove anos de idade, do começo ao fim, “embalada pela música de suas frases”.
De muitos momentos possíveis, seguem dois, respectivamente representativos dessas duas faces inseparáveis da linguagem de Ruth Guimarães. Primeiramente, a voz das personagens caipiras:
– Não, Irmã. Ela não está trabalhando. Eu sei. Percebo quando chega. O passo é leve, mal escuto. Entra em todas as peças da casa, sem sossego. Depois vai ficando vagarosa, pesada, parece que dá um passo e pensa, dá mais outro e pensa. E aí chega perto de mim e fala qualquer coisa, ligeiro, por comprazer. Outra hora escuto, longe, no terreiro, ou na sala, a batida de quem dança. Fala comigo sem paciência. Não, Malaquias; já vou Malaquias. Eu já não disse, Malaquias? Correu duas vezes, antonte, foi ficar na porta. Ficou um tempo. Quando voltou, perguntei: Foi enterro? E ela falou com um jeito desacorçoado: Também, Malaquias, a gente aqui nesta lonjura… (…) – peguei um passarinho na arapuca. – A voz do homem estava cansada e distante. – Coração dele ficava batendo na palma da minha mão. Única coisa que ele queria era escapar. Inda ’trodia, Maria se aprontou. Ia pro emprego. Tudo igual a todo dia, mas não sei o que tinha ficado diferente. “Espera um pouco, Maria, quero ver você.” Eu disse. Passei a mão no ombro dela. (…). Então dei um empurrãozinho nela e disse: “Vai que é tarde.” “Vou, sim.” E ficou parada um tempão. A freira esperou. Cego Malaquias também. No fim de uma expectativa um pouco ansiada, ele contou: – passei a mão no cabelo dela. Tinha uma flor (GUIMARÃES, 1996, p. 7 e 8).
E a voz do narrador, concisa, substantiva, de frases curtas e coordenadas: “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez” (GUIMARÃES, 1946).
É necessário lembrar sempre que a contadora de histórias, que escreve desde dentro da vida e da linguagem caipira, convive, o tempo inteiro, com a pesquisadora de folclore e de cultura popular, autora de obras como o pioneiro Os filhos do medo, de 1940, só publicado em 1950, lido nos originais por Mario de Andrade, que se torna amigo e uma espécie de mestre permanente da jovem escritora, e como Calidoscópio – a saga de Pedro Malazarte, vasta pesquisa feita por muitos anos, finalmente publicada em 2006, em volume de mais de trezentas páginas.
Em estudo para uma edição especial da obra O mundo cabloco, de Valdomiro Silveira, Ruth Guimarães escreve palavras que poderiam ser ditas sobre a sua condição de escritora e a sua própria literatura regionalista:
Refere-se a homens da terra pã-anímicos, sendo a expressão de uma experiência restrita, no campo da civilização, expressão do primitivo, visto de dentro para fora, revelado por si mesmo. (…).
Vamos dizer que logo se pôs um subproblema e era usar a língua na sua integridade gramatical e ortográfica, ou ao contrário empregá-la tal como a emprega o primitivo. Primitivo neste assunto e audacioso para o momento, sumamente perfeccionista no estilo em que vivia e escrevia, Valdomiro Silveira rompeu cânones a usar (pela primeira vez se usava) a linguagem dos mestiços do subtrópico em geral, e a do paulista em particular. Ou o valeparaibano, caipira, ou o santista, caiçara. Em Os Caboclos compareceu a linguagem falada do caipira (GUIMARÃES, 1974, p. xxii).
Ruth Guimarães sempre reivindicou sua condição de caipira, seu pertencimento à literatura regionalista caipira, o que é acompanhado de estruturas clássicas de narrativas, tanto na organização do enredo como na apresentação das personagens. Essa identidade é reconhecida por muitos dos seus leitores críticos, como José Paulo Paes. Em resenha publicada no jornal O Estado de São Paulo, a respeito do livro Contos de Cidadezinha, de 1996, ele escreve:
Ruth Guimarães continua praticando a narrativa de tipo tradicional. compraz-se em contar histórias com começo meio e fim e (…) a fala acaipirada de seus personagens e a miúda vida interiorana sobre que ela amorosamente se debruça denunciam-lhe logo a filiação a um regionalismo dado como irremediavelmente morto pela crítica de plantão. (…). Em comum com Costa Dantas, tem Ruth Guimarães o mesmo gosto coloquial e a mesma capacidade de descobrir, no dia a dia da gente mais simples, as raízes da humana condição. (…). Seja como for, o importante é a maestria de fatura e o poder de convencimento da arte narrativa de Ruth Guimarães, bem como a variedade de soluções a que recorre para dar interesse aos seus textos (PAES,1996).
Mais de cinquenta anos antes, quando do lançamento do romance Água funda, o então jovem crítico Antonio Candido resenhou o livro para o jornal Diário de São Paulo. Nela, já reconhece que a jovem autora unia “o português clássico à linguagem da gente humilde”. Ao final da resenha, afirma: “(…) não há dúvida que o seu romance (se for romance) encanta pelo equilíbrio da narrativa e o puro sabor das coisas naturais. Quem começa desta maneira irá, certamente, muito alto na carreira de escritor” (CANDIDO, 1946).
Na edição de 2003 de Água funda, Antonio Candido faz o prefácio da obra, em que assevera:
Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa afiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. (…). O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico (CANDIDO, 2003, p. 7 e 9).
A imagem de si mesma
Ruth Guimarães não se tornou conhecida do grande público, apesar de ter feito inclusive reportagens para revistas de elevada tiragem, como Realidade e como Quatro Rodas, e apesar de ter publicado centenas de crônicas, como no jornal Folha de São Paulo em que, na década de 1960, alternava-se com Cecília Meireles e Carlos Heitor Cony.
Ao ler os textos a respeito de sua obra, uma outra questão emerge: o que a autora fala sobre si mesma, sobre sua condição de mulher, escritora, negra, pesquisadora, com uma vida singular, que raros romances seriam capazes de conceber e imaginar?
A condição de órfã desde cedo, de irmã que cuida dos irmãos; o casamento com o primo, o fotógrafo José Botelho Neto, casamento de mais de cinquenta anos, que nunca separou vida e literatura; a mãe de nove filhos, três dos quais com graves limitações provocadas pela síndrome de Alport; a romancista aos vinte anos; a estudante de letras clássicas, nos tempos da fundação da USP, aluna de Fidelino de Figueiredo e de Roger Bastide, dentre outros; a professora de português, por trinta e cinco anos, em escolas públicas do estado de São Paulo; a professora universitária em muitas faculdades no Vale do Paraíba; a animadora cultural, criadora de museu de folclore, diretora e secretária de Cultura em muitos municípios do Vale; a participação na Academia Paulista de Letras em que, com oitenta e oito anos, assume a cadeira vinte e dois…
Uma vida de muitas vidas. Ruth Guimarães pouco escreve e pouco fala de si mesma. Em uma das raras vezes em que se expressa diretamente sobre sua condição de mulher negra e escritora, em 1982, em entrevista a Heloneida Studart, para a revista Manchete, afirma: “Não é fácil ser mulata. (…). Esse louvor gratuito à mulata é coisa do Rio, de Copacabana, divertimento de intelectuais. A realidade é outra. Em qualquer ponto do país, a mulata é vítima do sistema duas vezes: como mulher e como negra” (GUIMARÃES, 2014, p. 49).
Em 2008, é eleita para a Academia Paulista de Letras. No discurso de posse, em 18 de setembro, faz breve menção a si mesma, a sua história vivida: “Eu não tinha ainda dezoito anos e vim para São Paulo, para abrir caminho na vida. E isto me palpitava obscuramente escrever. Sozinha. Arranjei trabalho modesto de datilógrafa correspondente, do outro lado do Arouche” (GUIMARÂES, 2014, p. 125).
Há uma passagem muito significativa que revela a imagem da autora sobre si mesma, sobre sua condição de mulher e de escritora, sobre sua concepção de literatura, sobre o seu processo de criação: trata-se do texto de abertura da obra Contos de cidadezinha. Um prefácio, chamado Duas palavras, um texto síntese de sua visão. Neste prefácio, enuncia algumas indagações fundamentais:
Escrevo para quê, afinal?
Indago de mim mesma e encontro inúmeras respostas, possivelmente nenhuma correta: Para obter honra e glória? Para poder dizer tudo o que penso? Para me aproximar do meu semelhante? Para tentar derrubar o muro que separa um ser de outro ser? Para apreender o sortilégio da vida, que de outro modo não alcanço? Para justificar essa minha existência? Para deixar impresso no mundo o traço da minha passagem? (GUIMARÃES, 2006, p. 3 e 4).
Responde a essas questões com uma prosa poética:
Ah! Eu conto histórias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim. Quem me dera escrevesse com suficiente profundeza, mas claramente e simplesmente, para ser entendida pelos simples e ser o porta-voz dos seus anseios (GUIMARÃES, 2006, p. 4).
Imagens expressivas da autora sobre si mesma poderiam ser encontradas em seus poemas. Mas eles ficaram praticamente inéditos. Alguns foram reunidos em um número especial da revista Ângulo, de homenagem póstuma à autora. Os poemas são um outro continente, uma espécie de face oculta da criação literária de Ruth Guimarães. Não pertence à linhagem regionalista. São textos de temática existencial. Revelam-se como uma voz feminina, em enfrentamentos que não cessam – com dilemas, determinações e finitudes – em um mundo também assinalado de anunciações, mas sem transcendência. Escreve ela:
Itinerário
Pelos corredores do tempo/eu fui, / como se soubesse o caminho./Como se distinguisse o caminho./ Como se houvesse um caminho./E, sem saber de mim,/ continuadamente/ retorno ao ponto de partida (GUIMARÃES, 2014, p.100).
O texto a seguir, poema em prosa de que foi retirado um fragmento, traz um campo de imagens marítimas, imagística estranha ao mundo das personagens das pequenas cidades e das montanhas de passagem para Minas Gerais, espaço geográfico e existencial das suas narrativas:
Um dia eu serei marinheira no mundo, quando não sei, por que não sei. Há barcos de muito jeito. E se não for de outro modo, vou no barco do esquecimento, marinheira no mundo, nesse mesmo eu vou. Talvez entre algas, talvez entre luas e plumas. Os peixes passarão diante dos meus olhos abertos. E oceanos de silêncio se erguerão de todos os lados intransponíveis. Estarei viajando para onde ninguém me alcança, marinheira no mundo (GUIMARÂES, 2014, p. 24).
Retornando à questão do seu pertencimento à cultura caipira e à necessidade de trazer a voz genuína das personagens, Ruth Guimarães sempre discorda do processo de invenção de palavras na literatura. Para a autora, a palavra é criação comunitária e social. Se inventada, torna-se artificial, sem vida. O ficcionista precisa de enraizamento, não somente na linguagem, mas na existência.
Aos noventa e três anos, em entrevista para o jornal da União Brasileira de Escritores (UBE), assim discorre:
A minha literatura é regionalista, porque eu sou caipira. O escritor regionalista tem que ser uma pessoa do povo, que vive o que o povo vive, e que tenha burilado sua linguagem a ponto de ser capaz de transmitir com fidelidade e apuro linguístico a maneira de pensar e de viver do homem do povo. Eu sou caipira. Eu vivi a cultura da cidade pequena, e contei uma história( no romance Água funda, de 1946) que respeita o pensamento e a linguagem caipira. E não só isso, mas respeitando a maneira do caipira de contar uma história, a sua maneira de pôr a linguagem (GUIMARÂES, 2013, p. 14).
Sobre a necessidade de convivência com histórias e personagens mitopoéticas do folclore e da cultura popular, Ruth Guimarães sempre reiterou energicamente a implicação pedagógica da literatura, como forma genuína e insubstituível de educação, tanto no sentido do acesso ao patrimônio cultural, como no sentido do enriquecimento da sensibilidade e da imaginação. Já no prefácio ao seu primeiro livro infantil, o Lendas e fábulas do Brasil, de 1972, escreveu:
Os contos de encantamento obram, pois, outras maravilhas: sonhos do homem acordado, são também o aflorar do subconsciente, esse laboratório de alquimia da alma, onde cada um resolve os mistérios da sua própria vida. O viver continua encantado e miraculoso. E enigmático. E desconhecido. Contando às crianças os contos encantados, nós as ajudaremos a solver os seus mistérios, sem choques e sem ansiedades.
Ouvindo essas estórias de contar à noite, as crianças dormirão no embalo dos cavalos alados, dos prinspos e prinspas, do papagaio que virou gente, de madrinhas que transformam abóbora em carruagem. Trata-se de restos de ilusões do homem que, nesta era tecnológica e maquinal, no seu sentido mais terrível, maquinático e maquinâmico, perdeu a fantasia e a capacidade de criar novos desejos. (…). Dá pena saber que há crianças que nunca ouviram casos narrados assim (GUIMARÃES, 1972, p. 2 e 3).
Nas duas últimas décadas de sua longa vida, pensava um romance, sempre por escrever, sempre inacabado – O livro da bruxa, que poderia ser interpretado como uma metáfora, como um símbolo da sua condição, ela que afetuosamente era chamada de bruxa por muitos de seus amigos, inclusive por seu conhecimento de plantas medicinais.
Décadas depois da publicação de Lendas e fábulas do Brasil, retoma a publicação de contos de base folclórica – Histórias de onça; Histórias de jabuti – que mesclam pesquisa e criação, para leitores de todas as idades. Sobre essas histórias, que comporiam um conjunto de nove livros, afirma:
Que continuemos, pois, a contar, ler e narrar contos folclóricos universais, pois que pertencem indestrutivelmente também a uma universalidade do ser. Mas que conheçamos as histórias brasileiras, que nos integrarão à nossa cultura, ao nosso pensar, agir, sentir e fazer de brasileiros. Elas constituem lições profundas, verdadeiras e indispensáveis de brasilidade (GUIMARÂES, 2008, p. 5).
Na época de seus noventa anos, organizava uma outra pesquisa: conversas, com pessoas mais velhas de Cachoeira Paulista e de outras cidades do Vale do Paraíba, sobre a memória das histórias que ouviam e que liam quando crianças.
Uma dificuldade física tornava-se dramática. Ruth Guimarães sempre escreveu os seus textos diretamente em uma antiga máquina de escrever. Com o tremor das mãos, a dificuldade de datilografar era cada vez maior. Muitas vezes ela se recusava a gravar ou a ditar os textos. Reiteradamente explicava que suas mãos é que pensavam, elas é que criavam os textos.
Considerações finais
Mesmo aqueles que não se identifiquem com a literatura regionalista e com a concepção de linguagem e de cultura de Ruth Guimarães, também eles podem reconhecer a fecundidade de sua leitura, da escuta de suas múltiplas vozes, como uma experiência literária, cultural e humana.
A voz da jovem negra, que cria os irmãos. A voz da mãe de nove filhos. A voz da contadora de histórias – em romance, contos, crônicas, que trazem as vozes de homens e mulheres raramente escutados. A voz da tradutora de clássicos do latim e do francês. A voz da pesquisadora de folclore e cultura popular. A voz da professora de português e literatura. A voz da animadora cultural. A voz da discípula de Mario de Andrade, parenta de Guimarães Rosa, amiga de Antonio Candido.
Uma voz de muitas vozes, para quem se pode dizer o que Manuel Bandeira escreveu a Mario de Andrade: sua vida continua na vida que você viveu.
Referências Bibliográficas
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CANDIDO, Antonio (1946). Notas de crítica literária: Água funda, jornal Diário de São Paulo, 18 set. 1946.
GUIMARÃES, Ruth (1946). Água funda. Rio de Janeiro: Globo.
GUIMARÃES, Ruth (1950). Filhos do medo. Rio de Janeiro, Globo.
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GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de onça. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.
GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de jabuti. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.
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GUIMARÃES, Ruth (2014). Discurso de posse na Academia Paulista de Letras, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.
GUIMARÃES, Ruth (2013). Leitura e brasilidade – entrevista para o jornal O Escritor, da UBE (União Brasileira de Escritores), nº 13, abril 2013.
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JAFFE, Noemi (2014). Morre Ruth Guimarães, da Academia Paulista de Letras, aos 93 anos, in Folha de São Paulo, 21/05, Folha on line.
LUCAS, Fábio (2014). Depoimento sobre Ruth Guimarães in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.
PAES, José Paulo (1996). Uma contista do interior revive sua fala, in Caderno Especial, jornal O Estado de São Paulo, 15 set. 1996.
Bio fornecida pelo palestrante.
Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs
Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE, PR) e
Faculdade de Administração e Economia (FAE, PR)
SUMÁRIO: Este artigo tem como objetivo a análise da inconstância como traço característico das obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo. Com base na ginocrítica (termo criado por Elaine Showalter) e nos estudos de Teresa de Lauretis, Susana Funck e Jane Flax, este estudo adota o método comparativo e privilegia textos e telas, sob a perspectiva do diálogo interartes e das questões de gênero e identidade.
PALAVRAS-CHAVE: literatura – pintura – feminino – inconstância.
ABSTRACT: This article aims at presenting inconstancy as a characteristic of works by Hilda Hilst and Frida Kahlo. It is based on the term gynocriticism, created by Elaine Showalter, and on studies by Teresa of Lauretis, Susana Funck and Jane Flax. This article adopts the comparative method and analyzes texts and painting which contemplate an interartistic dialogue and themes related to “gender” and “identity”.
KEYWORDS: literature – painting – feminine – inconstancy.
Minicurrículo da autora: Verônica Daniel Kobs é doutora em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), professora do curso de Mestrado em Teoria Literária do Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE, Paraná), professora do curso de Graduação de Letras da Faculdade de Administração e Economia (FAE, PR), consultora de Língua Portuguesa e Linguagens da RPC TV (Rede Globo, PR) e membro de grupos de pesquisa credenciados junto ao CNPq. É autora de diversos artigos sobre Literatura e Estudos Interartes.
O FEMININO OSCILANTE NAS OBRAS DE HILDA HILST E FRIDA KAHLO
Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs
Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE, PR) e
Fundação de Assistência ao Estudante (FAE)
Introdução
Nos textos literários de Hilda Hilst e nas telas de Frida Kahlo, o feminino é representado de diversas maneiras. Essa multiplicidade é resultado dos inúmeros papéis atribuídos ao gênero feminino, o que é inerente à identidade contemporânea[1], daí a impossibilidade de se resumir a função da mulher a um perfil apenas. Os críticos referem-se a essa pluralidade como uma “inconstância”, espécie de subterfúgio para a revisão do gênero feminino, tal como é definido pela visão patriarcal, e para o forjamento de novos papéis associados a ele: “A inconstância é força criativa, na medida em que significa a recusa, por parte da mulher, em se deixar fixar ou silenciar e significa sua insistência numa maneira própria de ser” (TELLES, 1999, 328-9). Esse processo revela-se complexo, pelo fato de a mulher ter sido “gendrada”[2] de um modo a corresponder a um perfil atribuído ao gênero feminino. Isso começa a ser alterado, com a inserção das mulheres nas artes, não mais como aquelas que são representadas (criaturas), mas como sujeitos de boa parte dessas representações (criadoras).
De acordo com a ginocrítica[3] essa transformação possibilitou a expansão da arte, que passou a ser vista como objeto de estudo da sociedade e das relações entre os gêneros. É como se a arte feita por mulheres servisse, a partir de então, como crítica e como História, na medida em que se faz simultânea e paralelamente à arte produzida por homens. Elaine Showalter classifica a ginocrítica como a segunda fase da crítica feminista. Susana Funck menciona algumas propriedades desse período: “Esta segunda fase (…) teve o grande mérito de mapear um território até então desconhecido (…). E é a partir daí que começa a criar corpo o conceito de uma estética feminina (…)” (FUNCK, 1994, 18). Veremos neste artigo como a inconstância refletida na reescrita do universo feminino é o ponto comum entre as obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo, de modo a relacionar a visão tradicional dos gêneros com a recepção crítica das autoras.
Afirmação e recusa do gendramento[4]
Elaine Showalter considera a arte das mulheres “um ‘discurso de duas vozes’ que personifica sempre as heranças social, literária e cultural tanto do silenciado quanto do dominante” (SHOWALTER, 1994, 50). Para a autora, essa posição “inconstante”, volúvel e aparentemente contraditória não é mera característica da produção artística feminina; ela é inevitável e possibilita o engendramento de uma nova perspectiva da questão dos gêneros. A “primeira voz” é responsável pela retomada dos estereótipos, e, no momento seguinte, a “segunda voz” encarrega-se de subvertê-los, em uma clara crítica às qualidades e às funções que a sociedade patriarcal associa ao feminino e ao masculino. Frida Kahlo, em O ônibus, exemplifica bem esse processo. Em meio aos passageiros retratados na tela, três mulheres chamam a atenção. Seus perfis são totalmente diferentes e, da esquerda para a direita, relacionam-se às seguintes representações: dona de casa, mãe e socialite.
O ônibus (1929), de Frida Kahlo[5]
É inegável a conformidade das representações femininas de Frida Kahlo em relação ao gendramento. No entanto, a pintura separa o que a convenção costuma agregar em um mesmo perfil, investindo na contradição da expectativa ufanista de que a mulher deve, obrigatoriamente, desempenhar com perfeição todos os papéis que lhe são impostos pela sociedade. A separação proposta no quadro não deixa de celebrar a multiplicidade, mas acrescenta a importância da individualidade e da liberdade de ser e talvez até de deixar de desempenhar por convicção, interesse, e até mesmo por temperamento, um dos papéis geralmente atribuídos ao gênero feminino.
Hilda Hilst, trabalhando as mesmas questões, carrega no tom cômico e critica mais fortemente o gendramento. Em Fluxo-floema, há vários exemplos da paródia dos comportamentos atribuídos ao feminino e ao masculino. O primeiro é perceptível nos perfis dos protagonistas, Osmo e Mirtza: “Aí, eu falava, falava, e nas primeiras noites ela ouvia […], depois ela queria fazer amor e eu fazia amor direitinho e tudo o mais, mas eu queria continuar falando depois. […]. Aí, ela não me ouvia mais. Comecei a compreender que a Mirtza só me ouvia antes de fazer amor, e então pensei: essa mulher é uma vaca […]” (HILST, 1970, 75). Nesse trecho, a característica de falar demais, geralmente associada às mulheres, é dada ao homem. Dessa forma, os papéis se invertem e, no jogo da sedução, não é mais o homem, mas a mulher que ouve, apenas por obrigação, tudo o que o homem diz, a fim de alcançar sua tão esperada recompensa: o sexo.
Em outro texto do mesmo livro, Hilda Hilst desconstrói o mito da beleza feminina, ao apresentar o desabafo de uma personagem que revela o quanto era difícil estar sempre bonita, alegre e saudável, diante do parceiro. Em sua revolta, ela fala: “[…] que vontade enorme de soltar a barriga, […] de dizer que eu tenho flebite (ah, é?) e que as minhas pernas doem quando eu faço o amor” (HILST, 1970, 128). Esse trecho demonstra bem as obrigações impostas pelo gendramento, bem como evidencia o cansaço e a dificuldade de o personagem feminino obedecer a elas. A inversão dos comportamentos masculino e feminino é enfatizada também em Bufólicas, mais especificamente em Filó, a fadinha lésbica. O jogo que a escritora faz, ao descrever o personagem, atende à ambivalência de Filó, que era mulher, biologicamente, mas agia como homem: “Mas à noite… quando dormia… / Peidava, rugia… e… / Nascia-lhe um bastão grosso” (HILST, 2014c).
Assim como Hilda Hilst, Frida Kahlo apresenta uma inversão do clichê feminino, com a tela Autorretrato de cabelos cortados. A crítica e a desconstrução da visão tradicional do papel da mulher ficam evidentes quando o quadro em questão é comparado a um autorretrato da artista, que ela deu de presente a Trotski, um de seus amantes, no ano de 1937. Na tela de 1940, Frida faz uma representação feminina masculinizada. Um dos símbolos da feminilidade, os cabelos longos, são cortados e os vestidos coloridos dão lugar a um terno escuro e austero. Na parte superior do quadro, há o seguinte texto: “Mira que si te quise, fué por el pelo, Ahora que estás pelona, ya no te quiero.”[6] A tela relaciona feminilidade e desejo. No entanto, há total ausência de submissão da mulher ao homem, já que a mulher do retrato, a própria Frida Kahlo, ainda está com a tesoura na mão, depois de cortar os cabelos. Foi dela a escolha de se masculinizar e de, consequentemente, afastar-se de seu amante. Esse retrato, pela forma masculina que a pintora confere a si mesma, em nada lembra o colorido esfuziante e a extrema feminilidade evidenciados na tela de 1937.
Autorretrato (1937) e Autorretrato de cabelos cortados (1940), de Frida Kahlo
É sabido que a questão dos gêneros deve ser abordada no âmbito relacional, já que os gendramentos atendem a uma expectativa que opõe masculino e feminino, a partir de determinados comportamentos. Por isso, Sônia Missagia Matos, em seu artigo Repensando o gênero, faz referência à teoria de Marilyn Strathern, ao associar a alteridade à ativação da sexualidade: “[…] uma pessoa elicita na outra uma forma sexual correspondente. Assim ele é totalmente masculino (all male), ou ela é totalmente feminina (all female) em relação a aquele outro” (MATOS, 1999, 51-2). Porém, quando não há tal ativação, segundo a autora, predomina o estado que ela chama “cross-sex”, que prevê, no mesmo indivíduo, características atribuídas, convencionalmente, ao masculino e ao feminino. Nas obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo aqui analisadas, o desequilíbrio entre alteridade e sexualidade privilegia o “cross-sex”, o que garante a crítica e a revisão do gendramento.
Casamento, maternidade, ego e alter
Se o “cross-sex” resulta do desequilíbrio da relação entre os gêneros, os papéis de esposa e mãe necessitam do equilíbrio entre as partes, já que são as relações de alteridade que os determinam. De acordo com a visão androcêntrica, no casamento, sobretudo, há a necessidade da oposição extrema. Essa perspectiva desconsidera particularidades e retoma a equação que Teresa de Lauretis usa para explicar uma das limitações da Psicanálise: “mulheres = Mulher = Mãe” (LAURETIS, 1994, 230). Essa fórmula social não permite escolhas e está em conformidade com o que a mesma autora problematiza neste trecho: “Agora pergunto, isto não é o mesmo que dizer que a letra F assinalada no formulário grudou em nós […]? Ou que, embora pensássemos estar marcando o F, na verdade era o F que estava se marcando em nós?” (LAURETIS, 1994, 220).
O mesmo não se dá em exemplos como este, que investe na dissociação e na crise gerada por papéis radicalmente opostos e muito bem delineados: “Aflição de ser eu e não ser outra. / Aflição de não ser, amor, aquela / que muitas filhas te deu, casou donzela / e à noite se prepara e se adivinha / objeto de amor, atenta e bela” (HILST, 2014b). Nesse poema, é perceptível o relevo dado às “obrigações da mulher casada”, de acordo com a concepção androcêntrica, de modo que os versos revelam, além do aspecto relacional, o de dominância, que caracteriza a questão dos gêneros e que Susana Funck menciona nesta passagem: “Aliada de seu desejo e sem o controle de seu corpo, a mulher aparece como objeto erótico do prazer masculino, perpetuada e aprisionada em papéis dicotômicos de amante submissa ou de perigosa devoradora de homens” (FUNCK, 2014). Um pensamento de Catherine MacKinnon, o qual Jane Flax considera redutor, ajuda a reforçar a disparidade entre masculino e feminino que é apresentada no poema de Hilda Hilst e na citação de Susana Funck, configurando a relação de dependência: “Socialização de gênero é o processo através do qual as mulheres passam a se identificar como seres sexuais, como seres que existem para os homens” (FLAX, 1992, 244).
A mesma ideia de dependência e passividade perpassa o poema Dez chamamentos ao amigo, da coletânea intitulada Hilda Hilst. Nele, o eu-lírico, ligado a terra, elemento feminino e perene, busca a mutabilidade da água, do masculino, para a satisfação plena de seus desejos: “Entendo que sou terra. Há tanto tempo / espero / que o teu corpo de água mais fraterno / se estenda sobre o meu. […]” (HILST, 2014a). Os versos servem para ilustrar a relação entre os gêneros, tanto no casamento quanto na maternidade, já que, na visão patriarcal, toda união deve resultar em filhos, além do fato de a maternidade ser tratada como condicionante para a felicidade feminina, como se, sem ela, a mulher não se realizasse totalmente. Hilda Hilst, de modo acentuadamente irônico, reproduz essa postura androcêntrica neste trecho de Fluxo-floema: “Olha como anda a tua mulher, […], nunca mais sorri, se parece às nossas mulheres? […]. Essa minha, […] olha o brilho do olho, olha o ventre crescido. A tua teve dois, é pouco, a minha seis e o sétimo que vem, essa aqui teve dez, e olha o cobre da pele, vê que contente, que limpa” (HILST, 1970, 184).
Na tela Raízes, Frida Kahlo também representa uma mulher que, em decorrência do gendramento, ressente-se por não poder ter filhos. No quadro, a mulher retratada é a própria pintora, que teve abortos sucessivos. O que aproxima a imagem do quadro daquela apresentada pelos versos de Hilda Hilst é a relação entre a mulher e a terra, pela simbologia de fertilidade desse elemento. No entanto, em Raízes, as folhas verdes que parecem brotar do corpo da mulher, sobretudo do ventre, entram em contradição com o solo árido, infértil e em tom pálido, que a cerca, conflito que simboliza o desejo e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de ser mãe.
Raízes (1943), de Frida Kahlo
Na tela acima, percebe-se um flagrante desequilíbrio, o qual, por sua vez, impede que a mulher corresponda a um papel que lhe é imposto pela sociedade. Sendo assim, nesse caso, o desejo e a impossibilidade de ser mãe, somados ao poder do gendramento, são impositivos e contrariam não apenas uma expectativa social, mas também um ideal de realização pessoal (ideal esse também formado pelo gendramento), sobretudo considerando o fato de que Frida Kahlo era mexicana, cultura que tem muito bem delineados os papéis correspondentes aos gêneros masculino e feminino.
Considerações finais
Por meio das análises das obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo, foi possível discutir a construção e a reconstrução do gênero como representação. De acordo com Norma Telles, essa inconstância chega mesmo a ser imprescindível no fazer artístico, por seus aspectos social e crítico, razão pela qual, com base nos estudos de Nelly Richard, as obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo podem ser relacionadas à “feminização”, “que se produz a cada vez que uma poética […] extravasa o marco de retenção/contenção […], para desregular a tese do discurso majoritário” (RICHARD, 2002, 133).
Embora, em nenhum momento, Hilda Hilst e Frida Kahlo assumam o “discurso combativo” das feministas (o que eliminaria a insconstância), as análises aqui apresentadas demonstraram que as produções de ambas desafiam “a constituição ideológica dos modos predominantes de representação” (RICHARD, 2002, 136) e é essa postura de ruptura e continuidade que delineia a contribuição social da arte dessas duas autoras: “[…] uma prática da diferença interrompe o sistema da identidade e da repetição oficiais” (RICHARD, 2002, 136). Sem dúvida, tal interrupção representa um avanço nos estudos de gênero e também está em conformidade com os estudos de Teresa de Lauretis, para quem o afastamento da base androcêntrica é o ponto zero da revisão das representações de gênero.
Referências bibliográficas
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NOTAS
[1] Stuart Hall (2001) refere-se a isso a partir do termo “identidade pós-moderna”, caracterizado por ele como múltipla e fragmentada.
[2] Teresa de Lauretis (1994) usa esse termo para se referir à contribuição dada pelos discursos institucionais e artísticos, entre outros, à perpetuação dos estereótipos que definem e diferenciam masculino e feminino.
[3] Termo criado por Elaine Showalter (1994) e que designa o estudo de textos literários escrito por mulheres.
[4] Termo que se relaciona à palavra “gendrada”, usada por Teresa de Lauretis.
[5] Todas as telas de Frida Kahlo reproduzidas neste trabalho são digitalizações das ilustrações contidas no livro Frida Kahlo, de Christina Burrus.
[6] Christina Burrus sugere esta tradução para o trecho citado: “Lembre-se de que se a amei, foi por seu cabelo. Agora que está careca, já não a amo mais” (BURRUS, 2010, 73).
Bio fornecida pelo palestrante.
Fabiano Dalla Bona
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Josiane Rodrigues Neves
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / CAPES
Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas,
vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos:
Pensem bem se isto é um homem…
(LEVI, 1988, p. 9)
Resumo: A memória alimentar foi um importante elemento de autopreservação e de esperança aos prisioneiros dos Lager (depósitos) nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Falar de comida, trocar e escrever receitas, simular grandes banquetes, e até sonhar com comida, de certo modo, contribuiu a resgatar aquele pouco de identidade/humanidade dos prisioneiros “animalizados” pela violência alemã. O corpus do presente artigo compõe-se de relatos de deportadas tchecas do campo de Theresienstadt, In Memory’s Kitchen, e podemos observar que, para essas mulheres, a alimentação é um traço identitário e cultural muito importante que nem mesmo o sofrimento nos campos de extermínio conseguiu apagar ou cancelar.
Palavras-chave: In Memory’s Kitchen – livro de receitas – memória alimentar – memórias de guerra – holocausto
Abstract: Food memory was an important element of self-preservation and hope to prisoners of Nazis’ Lager (warehouses) during World War II. Speaking of food, exchanging and writing recipes, simulating large banquets and even dreaming about food in a way helped to rescue that little prisoners’ identity/humanity “animalized” by German violence. The corpus of this paper consists of reports of Czech deportees to Therensienstadt published under the title In Memory’s Kitchen. As we can see, for these women food is a very important cultural and identitary trait that not even the suffering of extermination camps could erase or cancel.
Keywords: In Memory’s Kitchen – cookbook – food memory – war memories – Holocaust.
Minicurrículo: Fabiano Dalla Bona é mestre em Letras de Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo (2003) e Doutor em Letras Neolatinas em Literatura Italiana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor adjunto do Departamento de Letras Estrangeiras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desenvolve pesquisa relacionada ao tema Literatura e gastronomia, com ênfase na produção literária italiana do século XX e XXI. Publicou artigos em conceituadas revistas científicas brasileiras e também em revistas especializadas em gastronomia. É vice-presidente da Associação Brasileira de Professores de Italiano (ABPI). Atua também como parecerista ad hoc de revistas científicas, dentre as quais a Revistas Letras da UFPR e Interfaces da UFRJ.
Minicurrículo: Josiane Rodrigues Neves é mestranda do Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bolsista da CAPES, sob a orientação do Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona. Desenvolve a pesquisa de dissertação de Mestrado intitulada Il cibo caldo e i visiamici: fome e memória alimentar em Primo Levi.
Palavras da fome: notas sobre um livro de receitas escrito em Theresienstadt
Fabiano Dalla Bona
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Josiane Rodrigues Neves
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / CAPES
O que queremos saber, através da leitura de documentos de prisioneiros e de sobreviventes do holocausto: como era a vida nos campos de extermínio? Como era viver provisoriamente, à beira da morte iminente? Como os prisioneiros lidavam com as demandas conflitantes de conviver com a penúria e se esforçar para estender sua sobrevivência por pelo menos mais um dia?
Por muito tempo a memorialística de guerra foi considerada um gênero menor na produção literária. Títulos significativos foram impressos na maior parte dos casos por pequenas editoras, muitas vezes as custas do próprio autor. Mesmo Primo Levi (1919 – 1987) sofreu esse tipo de problema por parte de grandes editores, e após a publicação de É isto um homem? (1947) e de A Trégua(1963), convenceu-se de ter exaurido o dever de testemunhar sobre aquilo que a sociedade dele esperava.
Mas o problema do testemunho é também um problema de gênero. Privilegiou-se, durante certo tempo, as narrativas de vítimas do sexo masculino. Segundo Lillian Kremer (1991, p. 1-2) um dos obstáculos para o pouco interesse verificado pelas representações literárias femininas sobre a Shoahaté algumas décadas atrás, é determinado pelo gênero das testemunhas, derivado da opinião corrente que, separando as vozes femininas daquela coletiva – masculina – arriscava-se abrandar a potência de um único coro de testemunhas, e que se arriscava-se, enfim, diminuir a importância da “unicidade do evento” segundo a tese defendida por Lawrence Langer, além de estabelecer uma “hierarquia dos sofrimentos”.
Lucamente (2007, p.78), sempre sobre a questão do gênero, adverte que
Marginalidade e escasso interesse conotaram, em geral, a figura da deportada e sobrevivente hebraica, e essa postura em relação a elas alinha-se ao vetor interceptado pelo discurso historiográfico sobre a Shoah, articulado essencialmente ou ao redor do homem como promotor ou vítima de eventos históricos, ou do ser humano mais genericamente, sem distinções. Se as mulheres constituíam um ingentíssimo número de vítimas da Shoah, e, portanto, eram importantes no interior da coletividade oprimida por tal tragédia, as vozes delas, as experiências delas audíveis através dos seus escritos, ficaram, ao invés, inauditas por muito tempo.
Nas últimas duas décadas, porém, a historiografia e a crítica literária fazem uma tentativa de recuperar o terreno perdido, e a memorialística e a narrativa de testemunho vem ganhando vigor e espaço, oferecendo uma série de interessantíssimas vozes. Nesse âmbito, um dado interessante revela-se aquele da publicação de vozes femininas, principalmente nos Estados Unidos, Itália e França. Paralelamente surgem obras incomuns, muito diferentes dos livros de memórias, de autobiografias e biografias, e de relatos de ex-deportados de campos de concentração nazistas.
Falamos aqui de livros de cozinha escritos nos campos de concentração. Imediatamente o leitor perguntar-se-á: como é possível que livros dessa natureza tenham sido escritos em campos de extermínio onde, como bem se sabe, os prisioneiros morriam de inanição? De fato é surpreendente, mas abordaremos uma obra que despertou a atenção de estudiosos, de sionistas, jornalistas e de leitores comuns sobre a temática da Shoah: In Memory’s Kitchen: Alegacy from the Women of Terezín, publicado nos Estados Unidos em 1996.
Trata-se de textos clandestinos, produzidos no escuro dos alojamentos, escritos em minuta caligrafia sobre pedaços de papel reaproveitados de calendários, cantos não impressos de jornais, páginas rasgadas de livros, e que, milagrosamente conseguiram sobreviver e ultrapassar as cercas de arame eletrificado dos campos após a sualiberação. Tal testemunho é uma prova desesperada para quem, como qualquer homem livre que vive hoje em paz e harmonia; parece-nos ingênuo, e nem sempre somos capazes de compreender porque exatamente tal tipo de obra fora escrita.
Hirsch e Spitzer (2007, p. 143) sugerem que os objetos materiais, a memorabília, aqueles fatos ou objetos dignos de serem rememorados e que se guardam na lembrança ou como lembrança (desenhos, cartas, livros, roupas, móveis, etc.), que pertenceram às vítimas ou sobreviventes do Holocausto, são documentos de primordial importância e dignos de uma análise cuidadosa, e quetais documentos podem nos ajudar a reconstruir um passado “opaco e inimaginável”.
In Memory’s Kitchen é o resultado do trabalho coletivo de mulheres deportadas no campo de Terezín ou Theresienstadt, na antiga Tchecoslováquia, legado por Mina Pachter (1872 – 1944), judia residente em Praga, deportada em 1941 ou 1942 com o restante dos judeus remanescentes do gueto da capital tcheca, aos 67 anos de idade. Graças às privações sofridas naquele lager (depósito), com a saúde bastante debilitada, a ex-matrícula nº 5651573, faleceu de inanição naquele campo no dia de Yom Kippur, o Dia do Perdão, do ano judaico de 5704 ou 1944, aos 72 anos de idade.
Todavia, antes de sua morte deixou sob a custódia de um amigo, também prisioneiro, um pacote e o pedido que o mesmo fosse entregue à sua filha, que na época, residia na Palestina Britânica(atual Israel). Começa, então, a epopeia do referido pacote. Após a liberação do campo de Theresienstadt, em abril de 1945, o pacote estava nas mãos do amigo Arthur Buxbaum, negociante de antiguidades de Teplice, Tchecoslováquia; ele sabia que o destinatário era a filha de Mina, Anny, que morava em Israel, mas não tinha ideia de como aquilo chegaria às mãos da mulher. Certa ocasião, em 1960, Buxbaum recebeu a visita de uma prima, de partida para Israel: confiou-lhe, então o pacote, indicando o seu destinatário. Uma vez em Israel, a mulher procurou por Anny Stern, filha de Mina Pachter e logo soube, através de amigos dela, que ela havia partido para os Estados Unidos. De volta aos Estados Unidos, a prima de Buxbaum não encontrou Anny; após esse episódio, não se sabe em mãos de quem o pacote foi parar. Finalmente, uma década depois, em 1969, um estranho procedente de Ohio desembarcou em Nova York à procura de judeus tchecos, conseguiu localizar Anny, na época com 62 anos de idade, e entregou-lhe o pacote.
“A primeira vez que abri o livro e vi a caligrafia de minha mãe, precisei fechá-lo”, disse Anny sobre o dia em que recebeu o pacote. “Guardei-o e somente muito mais tarde tive coragem de olhar, meu marido e eu tínhamos medo dele. Era algo sagrado. Após todos esses anos, era como se a mão fosse estendida para mim desde muito tempo atrás” (SILVA, 1996, p. 22).
O embrulho continha cartas jamais enviadas, poemas sobre as companheiras de Mina e sobre o campo e um caderno costurada à mão, com frágil linha e uma capa de papelão onde estava escrito Kochbuch, livro de receitas. Tratava-se de uma reunião de receitas escritas por diversas mãos além daquelas de Mina. Obviamente não eram receitas a serem preparadas no próprio campo por tratarem-se de sofisticadas iguarias da tradição tcheca, preparadas por aquelas mulheres antes de sua deportação. Famintas e na iminência de serem mortas, aquelas mulheres tentaram manter seus espíritos aliviados através das memórias da boa cozinha antiga, cozinhando simbolicamente.
Segundo o historiador alemão Rüsen (2009, p. 167-168),
A memória pode ser classificada de acordo com diferentes critérios, incluindo o modo pelo qual o passado é representado. Em um sentido tipológico ideal há duas possibilidades: responsiva ou construtiva. A memória responsiva é acionada pela intensidade de uma experiência específica que grava a si mesma nas mentes das pessoas, por assim dizer. A memória fere e uma força quase autônoma compele as pessoas a reagir, a interpretá-la e superá-la. Esse tipo de memória imprime-se no espírito trazendo o passado para o presente como uma imagem poderosa e persistente. Um dos mais relevantes exemplos dessa memória é o Holocausto. O conceito dominante para analisar esse modo de experiência na memória histórica é o conceito de trauma. No modo construtivo, o passado rememorado é matéria para discursos, narrativas e uma comunicação contínua. Aqui, a memória moldou o passado em uma história significativa e aqueles que lembram parecem ser os mestres de seu passado na medida em que eles colocam a memória em uma perspectiva temporal com a qual podem articular suas expectativas, esperanças e medos.
Nasce aqui, espontaneamente, uma pergunta: por que toda essa atenção voltada para um simples livro de receitas, já que existe toda uma vasta literatura sobre o holocausto, certamente muito mais importante e muito mais descritiva?
Livros como esse tornam-se escritos imbuídos de mensagens edificantes, mostrando que mesmo em tempos extremamente árduos, as pessoas tentam se agarrar à normalidade, e a memória é uma componente importante nesse tipo de operação. O manuscrito, hoje conservado no Museu do Holocausto de Washington, nos Estados Unidos, não trata de uma heroica história de resistência ideológica, mas prova que mesmo em condições extremas aqueles seres humanos procuravam agir como qualquer outro ser humano livre, em uma espécie de (quase) normalidade. É o que nos dizem Hirsch e Spitzer (2007, p. 139) sobre o livro:
Como um livro de receitas, criadas e trocadas entre mulheres, legadas de mães para filhas, In Memory’s Kitchen nos convida a pensar sobre como atos de transferência podem ser gerados e gerar leituras feministas. As receitas incorporam e perpetuam as tradições e práticas culturais evidentes das mulheres, tanto no seu conteúdo como no comentário que acompanha algumas delas. Mas, em um livro sobre comida escrito em um campo de concentração, as considerações de gênero também rapidamente desaparecem da vista quando consideramos a vontade nazista de exterminar todos os judeus, e destruir a memória de sua própria existência.
É um livro que fala diretamente às mulheres, pois é uma história de e sobre mulheres, e porque cozinhar, colecionar e redigir/copiar receitas também é uma atividade familiar às mulheres. O melhor que aquelas mulheres puderam fazer foi lembrar e registrar suas memórias para a posteridade. Pois, como nos relata Primo Levi (1990, p. 43)
A desnutrição, a privação e os outros sofrimentos físicos, que é tão fácil e econômico provocar e em que os nazistas eram mestres, são rapidamente destrutivos e, antes de destruir, paralisam; ainda mais quando são precedidos por anos de segregação, humilhação, maus-tratos, migrações forçadas, dilaceramento dos laços familiares, ruptura dos contatos com o resto do mundo.
Todavia na opinião do psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905 – 1997), sobrevivente do campo de Bergen-Belsen, na Alemanha e criador da Logoterapia, “não se deve provocar o organismo com essas imagens de iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele [o prisioneiro] já conseguiu, em termos, adaptar-se às reduzidíssimas rações e quantidades de calorias”. (FRANKL, 2008, p. 46) Ele ainda nos dá o seguinte relato:
Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a “regressão” da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal. Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de trabalho, num momento em que estão sendo tão vigorosamente vigiados. A primeira coisa de que começam a falar é de comida. Imediatamente alguém começará por perguntar ao colega que trabalha ao seu lado na vala, qual seu prato favorito. Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidar-se mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em casa. (FRANKL, 2008, p. 45)
Foi através da memória alimentar que a esperança de salvação e de liberdade aflorou entre as detentasdeTheresientadt. Escrever e narrar são lenitivos para superar o trauma. Para Rüsen (2009, p.195),
Ao destruir os conceitos efetivos de sentido como sistemas de orientação, o trauma é um obstáculo para a vida prática. Aqueles que tiveram uma experiência traumática precisam lutar para superá-la. Eles tentam dar-lhe nova forma de um modo que faça sentido novamente, isto é, que se insira em padrões eficazes de interpretação e compreensão: omitem ou suprimem o que ameaça a efetividade e validade desses padrões. Pode-se falar em um estranhamento ou falsificação da experiência, de modo a que se concilie com ela. Todos estão familiarizados com essa distorção e com essa alienação. Isso ocorre habitualmente quando se tenta falar sobre uma experiência única e profundamente perturbadora para a própria mente daquele que fala. Isso é verdade não somente para experiências negativas com qualidade traumática, mas também para experiências positivas. Aqueles que têm essas experiências são levados além dos limites de suas vidas cotidianas, de sua visão de mundo e autocompreensão. Todavia, sem palavras, um evento de qualidade perturbadora não pode ser mantido no horizonte da memória e da consciência identitária. É no terreno da linguagem que os envolvidos precisam se haver com tais eventos. Mesmo na jaula escura da supressão, essas experiências tendem a encontrar expressão: se as pessoas não podem falar sobre elas, elas são forçadas a substituir a carência de linguagem e pensamento por atividades compulsivas, por falhas e lacunas em seus modos de vida. Tais falhas, lacunas e atividades precisam ‘falar’ sobre tais pessoas nessa ‘linguagem além das palavras’, simplesmente porque essas experiências se tornaram parte deles e eles precisam se conciliar com este fato.
Na opinião da linguista americana Linde (1993, p.114),as narrativas unem pessoas, pois, contar histórias cria um sentimento de pertencimento ao grupo e de solidariedade entre seus membros. Em tempos de incerteza e de ansiedade, elas funcionam como canais de interpretação da realidade ao tentar domesticar e disciplinar a estranheza e a inteligibilidade. Em outras palavras, Mina e as outras detentas de Theresientadttentam reconstituir o sistema de significados e de representações que dava sentido ao mundo, ajudando-asa superar a aporia aberta pela crise.
Tal posição é compartilhada por Ross (2002, p. 305) que sustenta que “as narrativas são especialmente relevantes para grupos e indivíduos presos em situações de grande incerteza e alto estresse”. Quando os indivíduos se encontram desorientados, prossegue Ross, eles tentam dar sentido àquilo que experimentam sensorialmente. As narrativas coletivas reafirmadas dentro da coletividade ajudam-nos a encontrar consolo e a lidar com a ansiedade. Por essas razões, as narrativas “não saem de um mesmo saco”: elas têm de estar ancoradas em experiências e em anseios interpretados seletivamente para que possam ter ressonância na coletividade.
No prefácio de In Memory’skitchen, Michel Berenbaum (1996, p.10), diretor do United States Holocaust Research Intitute, fala sobre a importância desse manuscrito:
Para alguns, a maneira de lidar com esta fome era reprimir o passado, e viver apenas no presente, pensar só no hoje, nem no ontem nem no amanhã. Não foi assim para a mulher que compilou este livro de receitas. Elas falaram do passado, atreveram-se a pensar em comida, naquilo que lhes fazia falta – potes e panelas, uma cozinha, casa, família, convidados, refeições, entretenimento. Portanto, este livro compilado por uma mulher em Theresienstadt, por mulheres famintas em Theresienstadt, deve ser visto como mais uma manifestação de desafio, de uma revolta espiritual contra a dureza das condições que lhes eram dadas. É um voo da imaginação de volta ao passado, quando havia alimentos, quando as mulheres tinham casas e cozinhas e podiam oferecer uma refeição aos seus filhos. A fantasia deve ter sido dolorosa para as autoras. Recordar receitas foi um ato de disciplina que as obrigava a suprimir a fome atual e pensar no mundo comum antes dos campos – e, talvez, ousar a sonhar com um mundo depois deles.
E nada poderia demonstrar melhor o poder dos alimentos como um marcador de identidade, e seu uso como uma potente forma de resistência psicológica, uma forma de arrancar força, e para reforçar quemse é, enquanto a própria cultura está sob o julgo inimigo e em perigo de ser destruída. A escrita carrega as tradições de suas autoras, como elas mesmas não puderam fazê-lo, demonstrando um extraordinário poder de constância e de fortaleza, repleto de relevância histórica e contemporânea, deixando-nos uma marca indelével. Essa marca da identidade é reforçada por Goldenberg (2003, p. 164) ao afirmar que
No contexto do Holocausto, a comida tem um peso simbólico e emocional, especialmente em relação às mulheres. A comida, tradicionalmente influencia a autodefinição das mulheres e de seu status e, na cultura judaica, a reputação delas como balabusta (dona-de-casa). A mesa/tish de uma mulher era a evidência de sua criatividade, de sua generosidade e do valor de suas habilidades femininas.
As receitas no livro evocam lembranças de dias melhores: o strudelde ameixas servidono Rosh Hashaná, com instruções para fazer umstrüdel “alto e belo”; Gesundheitskuchen Pachter, ou bolos da “boa saúde” de Pachter, tradicionalmente consumidos pelas mães de recém-nascidos, a Linzertorten servida durante a Jause, o café da tarde em Viena e Praga, e mazelokich, um pão ázimo em camadas com sobremesa de frutas, tipicamente servido pelos judeus tchecos durante os dias de Pesach, a Páscoa.
É importante observar que, no contexto de Theresienstadt, onde a arte só era permitida se servisse aos propósitos da propaganda nazista, escrever um objeto clandestino, principalmente tratando-se de um livro de receitas, foi um gesto de recusa e ato de clara resistência à autoridade nazista.
Cara de Silva, jornalista, estudiosa da alimentação e organizadora da obra, na Introdução, faz o seguinte questionamento: “Nascido do abismo, é um documento que pode ser compreendido apenas nos confins da mente? Anotar receitas teria trazido conforto em meio ao caos e a brutalidade? Será que isto trouxe a esperança para alguém de preparar novamente uma refeição a partir delas [as receitas]?” (SILVA, 1996, p. 21)
As folhas de papel amareladas são frágeis como as folhas de outono que caem das árvores, relembrando a poesia de Eugenio Montale; a mudança de caligrafias vacilantes de página para página, em um marrom esmaecido, são quase indecifráveis. As receitas, certas vezes, são imprecisas e faltam medidas exatas e ingredientes, lacunas são preenchidas com ilustrações dolorosas sobre as condições de vida em Theresienstadt. Sobre essas imprecisões na composição das receitas, comentam Hirsch e Spitzer (2007, p. 139):
Memory’s Kitchen, por exemplo, carrega poderosos significados pessoais, históricos, culturais e simbólicos que excedem em muito o seu conteúdo aparentemente comum, extraído do mundo doméstico cotidiano de suas autoras. Não podemos cozinhar a partir das receitas deste volume – a maioria delas deixa de fora os ingredientes ou modos de fazer, ou refletem o racionamento dos tempos da guerra apelando para o uso de sucedâneos (para a manteiga ou café, por exemplo), ou por usar ovos opcionalmente. Mas certamente podemos usá-las para tentar imaginar uma vontade de sobreviver, o compromisso determinado com a comunidade e a colaboração que produziu este livro extraordinário.
Certamente Mina jamais pode imaginar que um dia aquele singelo manuscrito encadernado à mão pudesse ser impresso por uma editora, ganhar as páginas dos principais noticiários pelo mundo afora e, inclusive, ter suas receitas preparadas, quiçá, pelas mãos de outras tantas mulheres.
Portanto, seria lógico perguntar aqui: poderia um objeto/testemunho da Shoah falar por si só, sem algum intérprete humano? Hirsch e Spitzer (2007, p. 159) afirmam que
As receitas de Terezín, assim, tornam-se mais do que microcosmos e emblemas dos campos nos quais foram produzidas – são emblemas para o próprio processo de leitura de gênero no contexto da catástrofe. Como ponto de memória, elas de fato, provocaram uma visão penetrante que atravessa o tempo e o espaço – a incongruência de gênero e Holocausto, sua oscilação entre primeiro e segundo plano, a sua legibilidade e ilegibilidade.
E concluímos com as palavras de Rego (2006, p. 17):
Escrever implica, pois, repetição e ausência. A escrita é algo ausente que pode vir a ser, que remete ao futuro, e, porque tratar-se de vestígios, nunca é completamente representacional. Este vestígio é uma marca, uma cicatriz na matéria. A escrita apresenta a língua como uma série de marcas físicas que operam na ausência do autor e devem ser legíveis mesmo na ausência de um leitor. Traços que unem espaço e duração, e questionam o movimento teleológico do querer-dizer. O sentido de um escrito não se reduz ao que quer dizer o autor, nem ao que quer entender o leitor. A significação da escrita ocorre nesse espaço entre um e outro.
Em meio à massa desventurada de cento e quarenta e quatro mil Häftlinge (inimigos) que passaram pelo campo, onde quase todos tinham a mesma aparência, o mesmo cheiro, sentiam a mesma fome e desespero, Mina Pachtertentou preservar a sua identidade escrevendo e coletando receitas de cozinha. Ela deixou de ser simplesmente um número e com a publicação de seu trabalho ganhou status de protagonista da história. Gagnebin (2006, p. 47) postula que a história atual, tal qual asmemórias de Mina Pachter, precisa “transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados”.
REFERÊNCIAS
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FRANKL, Viktor Emil (2008). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25ª ed. Trad. de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. São Leopoldo: Editora Sinodal.
GAGNEBIN, Jeanne Marie (2006). Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34.
GOLDENBERG, Myrna (2003). Food Talk: Gendered Responses to Hunger in Concentration Camps. In: BAER, Elizabeth R. e GOLDENBERG, Myrna (Org.). Experience and expression: Women, the Nazis and the Holocaust. Michigan: Wayne State University Press. p. 161-179.
HIRSCH, Marianne; SPITZER, Leo (2007). Testimonial objects: memory, gender and trasmission. In: BARONIAN, Marie-Aucle; BESSER, Stephan; JAWSEN, Yolande (Org.) Diaspora and memory: figures of displacement in contemporary literature, arts and politics. Amsterdam-New York: Editions Rodopi, p. 137-164.
KREMER, Lillian (1999). Women’s Holocaust writing: memory and imagination. Lincoln: University of Nebraska Press.
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LEVI, Primo (1990). Os afogados e os sobreviventes. Trad. de Luiz Sérgio Henriques. São Paulo: Paz e Terra.
LINDE, Charlotte (1993). Life Stories: the Creation of Coherence. Oxford: Oxford University Press.
LUCAMANTE, Stefania. Non soltanto memoria: la scrittura delle donne della Shoah dal dopoguerra ai giorni nostri. In: SPEELMANN, Reinier et alii (Org.) Scrittori italiani di origine ebrea ieri e oggi: un approccio generazionale. Italianistica Ultraiectina 2. Utrecht: Igitur, Utrecht Publishing & Archiving Services, 2007, p. 77-95.
ROSS, Marc Howard (2002). The Political Psychology of Competing Narratives: September 11 and beyond. In: CALHOUN, C.; PRICE, P; TIMMER, A. Understanding September 11. New York: New Press. p. 303-320.
RÜSEN, Jörn (2009). Como dar sentido ao passado: questões relevantes da meta-história. História da historiografia. Ouro Preto, nº 2, março, p. 163-209.
SILVA, Cara de (Org.) (1996). In memory’s kitchen: a legacy from the woman of Terezín. Lanham: Rownan& Littlefield Publishers.
Bio fornecida pelo palestrante.
Davi da Silva Oliveira
Centro Universitário Adventista de São Paulo-Engenheiro Coelho (UNASP-EC)
RESUMO: O presente artigo faz uma referência histórica a respeito da presença da mulher na literatura, privilegiando as manifestações populares no mundo do cordel, dando destaque a três repentistas: Chica Barrosa, Rita Medeiros e Maria Tebana, dedicando um espaço maior à primeira. Acrescente-se que esta, além de carregar o “jugo” de ser mulher, é também negra. Mesmo assim navegou contra a maré do machismo e outros preconceitos, adquirindo fama no ambiente artístico-literário.
Palavras chave: Literatura – cordel – afrodescendente – Chica.
ABSTRACT: This paper makes a historical reference to the presence of women in Brazilian oral string literature (cordel), giving special attention to the literature of Chica Barrosa, Rita Medeiros, and Maria Tebana. Its focus falls upon the former, not only because she was a female black author but because she also fought misogyny and racial prejudice, becoming famous as an artist who championed women’s cause against chauvinism and discrimination.
Keywords: Literature on a string – cordel – Afro-Brazilian woman – Chica.
Minicurrículo: Davi da Silva Oliveira é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, professor de literatura no UNASP-EC.
DAVI DA SILVA OLIVEIRA
Centro Universitário Adventista de São Paulo-Engenheiro Coelho (UNASP-EC)
INTRODUÇÃO
Apesar de ter acontecido por trás da cortina do remoto tempo, a Inquisição reencarna-se nas obras contemporâneas, quando, na década de 1980 os romances que alcançavam largo sucesso traziam no seu bojo a temática da violência inquisicional. Como este episódio tomava por base o delito da opinião, algumas obras vieram à tona órfãs, como uma blindagem de segurança para seus progenitores.
Já livres do poder nefasto da Inquisição, no século XIX, Camilo Castelo Branco assume a paternidade de obras como Cavar em ruínas, A caveira do mártir e, adicione-se que o autor de Amor de perdição edita um poema de António Serrão de Castro: Os ratos da Inquisição. Por estas obras, corre o sangue nas veias das palavras que descrevem o poder demoníaco dos agentes inquisitórios (sic).
Na ênfase do lastro pelo qual se manifestam as marcas da Inquisição, encontramos as obras O físico prodigioso, A casa do pó e o Memorial do convento, respectivamente de Jorge de Sena, Fernando Campos e José Saramago, todas paridas no berço do século XX. A leitura dessas obras atua como uma releitura da História de Portugal, História ressuscitada e relida, com a liberdade do romancista de apresentar a sua verdade livre das algemas do poder repressor e cruel do Santo Ofício.
MULHER VERSUS HISTÓRIA
Com o passar do tempo, apagadas luzes pouco a pouco se acendem, erguendo a mulher através de alguns movimentos, outorgando-lhe algum papel na sociedade. Daí, já a encontramos atuando no expediente de contar histórias ou em alguma atividade religiosa, dentro dos limites da família. Isto, com a observação dos homens da casa: pai, irmão e marido. O papel destes era fazer uma triagem prévia, uma espécie de censores que selecionavam a atividade ou o texto apropriado para uma mulher. No campo da religião, ela atua no gênero das rezas, porque exercer algum papel literário não seria moral ou ético.
Sob a tutela do marido, do pai ou da sociedade, à mulher era negado o direito de estudar e de ler, porque, segundo era alegado, isso poderia lhe conferir um saber que ameaçaria a sociedade. Era, de certa forma, como cortar o mal pela raiz. A mulher do século XIX e início do século XX condicionava-se a ser uma dona de casa, tendo em reino a obrigação de cuidar dos filhos e do marido. Fora isso, as atividades, entre elas a intelectual, eram vistas como uma rebeldia e ameaça, porque não deveria fazer parte da formação feminina.
Disto resultou a ausência da mulher nos meios intelectuais de então, inclusive na literatura de cordel. Daí que, por ser considerada uma inconveniência uma autoria feminina, o registro dela como assinando algum folheto, no caso da literatura de cordel, é inexistente ou, quando muito, nebuloso.
MULHER VERSUS LITERATURA
Nesse ligeiro apanhado, consideramos que a mulher da história também adentrou no espaço da literatura, as marcas da presença feminina marginalizada na história passaram para a mulher esquecida e anonimada na literatura, inclusive de cordel. No entanto, na literatura dita clássica, as mulheres obtiveram seu merecido espaço.
Algumas vezes, uma mulher produzia alguma obra como poesias verbalizadas oralmente pelos seus pais ou maridos, ou também, que a mesma tenha atribuído a autoria ao esposo. Fora isso, ela aparece como leitora, lendo silenciosamente ou em voz alta no seio da família.
Sobre o papel das mulheres na literatura de cordel, Santos (2008, p. 16) declara:
(…) contudo, elas cantavam e produziam suas poéticas da maneira mnemônica da tradição, a exemplo daquelas que com suas violas em punho desafiaram o paradigma a elas imposto, caso das cantadoras cujos nomes ficaram gravados na memória dos nordestinos: Zefinha do Chamocão, Chica Barrosa, Terezinha Tietre, Maria de Lourdes, Vovó Pangula, entre outras.
Uma pergunta precisa ser elaborada: por que as mulheres contavam suas histórias e estas eram impressas por algum cordelista homem? Elas teriam condições de escrever o seu próprio folheto? A compreensão para este fato vem da formação da sociedade feminina, onde a presença do homem, diga-se do machismo, seria um bloqueio para que se materializasse a composição explícita de folhetos produzidos pela mulher.
Seria um escândalo vermos uma escritora circulando por gráficas e feiras tentando levar avante um projeto de escrita ou venda de folhetos. Pais e maridos seriam alvejados com os mais menosprezados adjetivos. No passado, muitas mulheres também eram analfabetas.
É bom sabermos que, com embrionária aceitação do folheto de cordel, alguns escritores eram os responsáveis pela impressão e venda de suas obras. Vale registrar o nome de Leandro Gomes de Barros, que foi o primeiro cordelista que passou a viver exclusivamente dos seus folhetos.
Nesse jogo de escritor e proprietário (editor) do folheto, encontramos o palco da marginalização da mulher no mundo da literatura de cordel. O proprietário da gráfica tinha o direito de imprimir o folheto e também de abstrair o nome do escritor, passando a autoria do folheto a ser conhecida não atribuída a quem o escreveu, mas ao editor. Segundo declara Abreu (1999, 102), o proprietário “(…) adquiria também o direito de suprimir o nome do autor dos folhetos publicados ou mesmo substituí-los por seu próprio.”
Para corrigir esse absurdo, alguns editores acrescentavam a expressão “editor-proprietário”. Neste ínterim, supõe-se que as mulheres poderiam ter escrito alguns folhetos, mas teriam passado o direito de autoria a algum editor homem. Isto é uma “oficialização” materializada do exercício masculino na autoria da literatura de cordel.
Citemos como exemplo o caso da poetisa Maria das Neves Batista que, em 1938 publica o folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade. Neste folheto, não encontramos o nome dela. Em lugar disso, registra-se o pseudônimo Altino Alagoa, que era o apelido do seu esposo. O fato de se esconder atrás de um pseudônimo remete ao resguardo de se expor.
Veja o depoimento da cordelista registrado por Queiroz (apud SANTOS, p. 2009, p. 8): “Todos os folhetos que foram vendidos na livraria de meu pai ou que foram impressos, tinham nome de homem, eram homens que faziam, não existia naquele tempo, folheto feito por mulher, e eu, para que não fosse a única, né?, meu nome aparecesse no folheto, não fosse eu a única, então eu disse:
– Eu não vou botar meu nome.
Aí meu marido disse:
– Coloque Altino Alagoano.”
Para termos um vislumbre da discrepância entre o número de homens cordelista em relação ao de mulheres, veja no quadro de Queiroz (2006, p. 17) a os dados numéricos dos títulos e as autorias femininas:
Acervos de Literatura de Cordel pesquisados
| Período Jun/2004 a Nov/2005 Instituição/Órgão | Localização | No.de títulos de cordel | Títulos autoria feminina |
| USP/IEB | São Paulo (SP) | 1.555 | 5 |
| Fundação Cultural de São Paulo | São Paulo (SP) | 3.500 | 14 |
| A B L C | Rio de Janeiro (RJ) | 4.000 | 6 |
| FUNARTE | Rio de Janeiro (RJ) | 6.000 | 10 |
| Fundação Cultural da Bahia | Salvador (BA) | 5.000 | 37 |
| UFBA/PEPLP | Salvador (BA) | 50 | 10 |
| Fund.Casa J.Américo | João Pessoa (PB) | 1.000 | 5 |
| UFPB | João Pessoa (PB) | 4.000 | 8 |
| UFCG | Campina Grande (PB) | 6.000 | 25 |
A mesma autora (idem) apresenta-nos outro quadro, desta feita, com um fator positivo em meio ao caos, ou seja, um registro de 70 cordelistas encontradas num universo de 170 títulos. Vejamos o quadro:
RELAÇÃO DE CORDELISTAS POR REGIÃO
| Período da coleta: jun/ 2004 a nov/2005 ESTADO | No DE AUTORAS | TÍTULOS DE CORDEL |
| ALAGOAS | 1 | 4 |
| BAHIA | 6 | 13 |
| CEARÁ | 29 | 91 |
| GOIÁS | 1 | 3 |
| MINAS GERAIS | 1 | 1 |
| PARAÍBA | 13 | 34 |
| PERNAMBUCO | 1 | 1 |
| RIO GRANDE NORTE | 5 | 5 |
| RIO DE JANEIRO | 7 | 8 |
| SERGIPE | 1 | 1 |
| SÃO PAULO | 3 | 5 |
| SEM IDENT.REGIÃO | 2 | 4 |
| TOTAL | 70 | 170 |
Tenho em casa dois volumes produzidos pela ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel –, onde, evidentemente, estão registrados os melhores cordelistas, segundo aquela instituição. São exatamente 31 escritores e nenhuma escritora. Isto não quer dizer que não haja mulheres que escrevam cordel, mas, creio que, mesmo existindo cordelistas, não foram contempladas pela oportunidade de serem reconhecidas.
Numa pesquisa aleatória, causa surpresa a maioria esmagadora de escritores e uma ausência congelante de mulheres escritoras. Isso foi pacificamente aceito. Pior, ainda hoje, não se questiona muito, apesar das reivindicações em prol da inserção da mulher no mercado.
Segundo relata Santos (2009, p. 8): “No site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel a exclusão das mulheres também é visível, são homens os vinte e sete poetas apresentados como os grandes cordelistas dos séculos XIX, XX e XXI. O quadro acadêmico, composto por quarenta cadeiras, nenhuma grafada com nomes de poetisas, também não se mostra receptivo às mulheres, elegendo apenas cinco para fazer parte do grupo seleto.”
Resumindo as palavras de considerações da “participação” da mulher na literatura de cordel, poderíamos dizer que foi imposto um silêncio histórica à mulher nos folhetos, relegada ao esquecimento. A participação delas fica restrita às folhas onde é descrito todo o ranço da masculinidade. Somente no século XX é que há um emergir de escritoras femininas assinando a produção da literatura cordelista.
Merece a nossa atenção as palavras de Santos (2009, p. 207), numa matéria sob o título: Cantadoras e repentistas do século XIX: a construção de um território feminino: “Foi somente na transição entre os séculos XX e XXI, no ano 2000, que uma das mais importantes obras sobre a produção de autoria feminina na literatura brasileira do século XIX, organizada por Zahidé Lupinacci Muzart, veio à tona, e por uma editora de mulheres. Até então, quase nada sabíamos sobre essas mulheres que, apesar de a crítica literária as ter excluído do seu cânone, escreveram e publicaram no seu tempo, a exemplo de Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Idelfonsa Laura César, entre tantas outras.”
A citação acima é um registro do que constatamos na prática, ou seja, a abstinência autoral de mulheres na literatura, mormente, de cordel, onde a imperiosa marca masculina merece menção.
De pais escravos alforriados, ele se chamava João Francisco dos Santos e a mãe, Josefa da Conceição Silva, ambos nascidos no quilombo de Mãe d’Água. Como o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, os irmãos de Chica Barrosa não tinham pendor para o repentismo.
Sabe-se que a viola era para Chica Barrosa uma peça sagrada, devido ao uso constante e diferenciado que a repentista dedicava a este instrumento. Dizem até que, mesmo quando a pombalense estava bebendo, nunca deixava a sua companheira ao léu.
Chica Barrosa, Francisca Barrosa ou Francisca Maria da Conceição faz parte de uma sociedade de pessoas de cor que habitaram a região nordestina, hoje conhecida como o município de Pombal, no estado da Paraíba.
Chica destaca-se pela habilidade do improviso, sendo uma genialidade em pessoa. Nasceu em 10 de julho de 1897, data em que aquela comunidade já havia passado da categoria de vila a cidade. A repentista foi assassinada na mesma localidade por José Pedro da Silva exatamente no dia 3 de outubro de 1916. Tudo indica que a motivação do assassinato foi passional. Diz-se que a repentista havia discutido com o futuro assassino num baile. Este lhe desferiu alguns golpes de faca, podando a vida da mais conhecida repentista mulher de então.
Medeiros (2009, p. 54) registra a opinião de estudiosos da época sobre Chica Barrosa: “(…) grande cantadeira sertaneja, gabada como a primeira lutadora do seu sexo que enfrentou os nomes mais ilustres da cantoria. Era alta, robusta, mulata, simpática, bebia e jogava com qualquer boêmio, e tinha voz regular. Paraibana, seus desafios correm mundo, despertando aplausos. O seu combate mais célebre foi com o cearense Manuel Martins de Oliveira, conhecido como Neco Martins, de São Gonçalo do Amarante. Mesmo quando vencida, a mulata improvisara magnificamente, deixando forte impressão entre os cantadores. Com Manuel Francisco de Pombal, bateu-se longamente, vencendo-o, assim como ao cantador José Bandeira. Chica Barrosa assim se autodefinia: “A negra Chica Barrosa é faceira e é dengosa.”
A fama de Chica Barrosa foi além dos limites do município de Pombal, ou mesmo da Paraíba. A história do seu talento correu pelos torrões da Paraíba, Ceará e do Rio Grande do Norte.
Certamente, precisaríamos de mais espaço para citar alguns versos marcantes na carreira da repentista. No entanto, registremos ao menos alguns, citados por Irani Medeiros:
Num proverbial embate entre Chica Barrosa e Neco Martins, veja como a repentista se saiu de uma enrascada:
Canta Neco:
Ô BARROSA, me responda,
Seja por mal ou por bem:
Em cima daquela serra
Quantos pés de capim “tem”?
Então, Chica Barrosa responde:
Se a seca não matô
Ou os bichos não comeu,
Em riba daquela serra,
Tem os capim que nasceu! (apud SANTOS, p. 12).
Mais poesia do embate.
Barrosa
Me danei numa certa ocasião,
Fiz água do mar parar o açoite,
Fiz o dia nascer à meia-noite,
Transbordando a noite num clarão.
Fui ao céu escanchada num trovão,
Um corisco me vendo, se escondeu;
Um raio ia descendo, não desceu!
Fiz, da lua, um planeta vagabundo…
Coloquei quatro rodas neste mundo,
Mandei a terra correr, ela correu! (apud SANTOS, p. 111).
Resposta de Neco:
Pra enganares os tolos deste mundo,
Uma bela mentira tu constaste:
O açoite do mar, tu não paraste,
Que o mar é incrível, iracundo!
O abismo dos céus é tão profundo,
Que, num simples trovão, é inatingível!
Nascer o Sol à meia-noite é impossível!
Segundo as leis da física celeste:
Fica, assim, pois, desfeito o que fizeste,
De ninguém dar-te crédito, estás passível (apud SANTOS, p. 112).
Segundo o relato de Medeiros (2009, p. 54), a plateia que assistia ao embate pedia um palavreado mais apimentado. Isso favorecia a Chica Barrosa, por ser dotada de uma capacidade acima do normal para o improviso. Neste contexto, dizem que ela foi merecedora de mais aplausos, o que deixou o Neco em situação desfavorável, levando-o a apelar para a violência, sacando mão de uma “marca” para desferir seus projéteis palavrórios sobre a repentista. Claro que, não esperando por tempos ruins, a repentista não teve outra saída a não ser correr.
Passado o calor do momento, a repentista desponta com um improviso de despedida:
Nesta nossa cantoria,
Estremeceram-se os céus;
Até os mortos ouviram
No fundo dos mausoléus;
Com o abalo, acabou-se
A raça dos fariseus,
Com o destino, findou-se
A raça dos prometeus!
Só o mundo tem liberdade,
E o infinito tem Deus!
Colega Neco Martins,
Aceite meu triste adeus (apud SANTOS, p. 112).
Cognominada de “a rainha negra do repente”, Chica Barrosa é uma das representantes pontualmente relatadas na literatura de cordel. A princípio, seria de bom senso atualizarmos o termo “negro” para não incorremos em interpretações dúbias. Segundo (Giddens, 2005, p. 207): “A palavra ‘negro’ era um rótulo pejorativo atribuído aos afrodescendentes por brancos.” Foi somente na década de 1960 que os norte-americanos e os britânicos de origem africana “reclamaram” o termo e aplicaram-no a si mesmos de modo positivo. A palavra “negra” tornou-se uma fonte de orgulho e de identidade, em vez de um estigma racial, nos Estados Unidos.
Sendo materializada como negra, sabe-se que os cantadores que a enfrentavam estavam diante de duas premissas. A primeira, mesmo cristalizado o preconceito de cor, os cantadores a aceitavam como uma repentista talentosa. Em segundo lugar, eles reconheciam que a marginalização da negra cantadora estava mais por conta da história do que por parte deles mesmos.
De acordo com Santos (2009), há necessidade de um estudo mais acurado sobre a presença do negro na literatura de cordel, tendo em vista que, sempre que se adentra neste estudo, percebe-se a presença do homem de cor atuante nas cantorias e nos cordéis.
Merece destaque, conforme Santos (2009, p. 227), o contexto do encontro entre Neco e Chica: “Segundo depoimentos do ilustre conterrâneo e intelectual de saudosa memória, Dr. Adolfo Barbosa Pinheiro, e ratificado pelo Sr. João de Paula Gomes, coletor de São Gonçalo do Amarante, Ceará, e pela senhora Francisca Eulália de Sousa Morais, era Manuel Martins de Oliveira (Neco Martins) rico fazendeiro, político e cantador, residente em São Gonçalo do Amarante. Neco Martins, segundo essas testemunhas, jamais recebeu qualquer pagamento por suas cantorias. Além de entregar ao companheiro todo o dinheiro da contribuição dada pelos ouvintes, ainda completava com o de seu bolso, caso a arrecadação fosse pequena. Neco, aproximadamente no ano de 1910, foi o genial repentista desafiado pela famosa negra cantadeira paraibana, Francisca Maria da Conceição, conhecida por ‘Chica Barrosa’, para não dar a conhecer o fato à sua esposa, dona Filomena, que se opunha a esse tipo de atividade, escolheu como local do duelo sua fazenda Suíte, distante duas léguas de São Gonçalo. Disse à esposa que nessa fazenda iria vender umas vacas paridas a um amigo de Fortaleza. Na qualidade de homem branco e membro de uma das melhores famílias do Ceará, Neco disse, em menoscabo a sua rival:
Eu, agora, estou ciente,
Que nego não é cristão:
Pois a alma dessa gente
Saiu debaixo do chão,
E lá na mansão celeste,
Não entra quem é ladrão!” (MEDEIROS, 2009, p. 58)
O embate culmina com duas magistrais estrofes, uma de cada repentista.
Me danei numa certa ocasião,
Fiz a água do mar parar o açoite,
Fiz o dia nascer à meia-noite,
Transformando-se a noite em clarão,
Fui ao céu escanchada num trovão,
Um corisco me vendo se escondeu,
Um raio ia descendo não desceu!
Fiz, da lua, um planeta vagabundo…
Coloquei quatro rodas neste mundo,
Mandei a terra correr, ela correu! (MEDEIROS, 2009, p. 111)
Uma bela mentira tu contaste:
O açoite do mar, tu não paraste,
Que o mar é irascível, iracundo!
O abismo dos céus é tão profundo,
Que, num simples trovão, é inatingível!
Nascer o Sol à meia-noite é impossível!
Segundo as leis da física celeste;
Fica, assim, pois, desafio o que fizeste,
De ninguém dar-te crédito, estás passível (MEDEIROS, 2009, p. 112).
Branco é filho de Deus,
E mulato é enteado,
O cabra não tem parente,
Negro é filho do diabo.
Homens e mulheres afrodescendentes, tanto como cantadores quanto como criadores do “eu” lírico das poesias marcam o cenário cordelista. Entre os cordelistas, podemos citar Inácio da Catingueira, Preto Limão, Manuel Caetano, Fabião das Queimadas e a Negra Francisca (Chica) Barrosa. Eles figuram como estrelas deste céu afro-brasileiro.
Tão pálida é a importância dada às mulheres cordelistas que a existência de algumas delas é colocada em cheque. Veja o que diz (Almeida e Sobrinho, 1978, p. 179) em seu Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada, (apud Francisca Pereira, 2010, p. 239) sobre Rita Medeiros: “(…) certamente, pelo menos como cantadora ou emboladora de coco, Rita Medeiros nunca existiu”. Se existiu como mulher, virou personagem musical. Em Sertão Alegre, os autores fazem referência à Rita Medeiros ou Medero, como o zé-povinho a chamava, sem nada acrescentar às vagas informações correntes sobre ela.
O contraponto desta afirmação é registrado por Luís Wilson, em Roteiro de velhos cantadores e poetas populares (apud Pereira, 2006, p. 239): “(…) do sertão, fala que Rita Medero ou Mêdera existiu e residiu no Retiro da Boa Esperança, município de Barras, Estado do Piauí, era casada com Henrique Medeiros, ‘marido complacente que permitia que abandonasse o lar durante semanas e semanas ou que a fossem tirar de casa, alta noite, para festas e fuçanatas”. Segundo Wilson (1986, p. 108), essa mulher que era ‘bonita, bebia como um gambá, era pornográfica e os versos dela ninguém repete, morreu sexagenária em 1901 ou 1902”. Novamente aparece a figura do cantador do século XIX como um boêmio, perfil recorrente, que vale tanto para os homens quando para as mulheres.
Palidamente, Rodrigues de Carvalho registra a vida da repentista desta forma: “(…) fazia as delícias dos apreciadores da trova do povo, cantando admiravelmente e tocando viola, acompanhada de um cortejo de admiradores de chapéu de couro e cacete” (CARVALHO, 1967, p. 340).
O mesmo Carvalho faz uma referência a Maria Tebana num embate com Manuel do Riachão na obra Cancioneiro do Norte (2002, p. 137):
Do cabelo pixaim,
Primita Nossa Senhora
Bacaiau seja o teu fim!
Do cabelo pixaim
Queria que ocê dissesse
Que dinheiro deu pra mim…
Do cabelo pixaim,
Primita Nossa Senhora
Bacaiau seja o teu fim! (Maria Tebana e Manuel do Riachão, apud Mota, 2002a, p. 137-9).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Deduz-se das rarefeitas citações acima a existência bibliográfica das mulheres cantadoras ou repentistas que desfilaram na literatura de cordel. Lembramos ainda que estas mulheres apresentavam suas poesias oralmente, no entanto, ouvintes e observadores registraram seus versos. Acreditamos, devido a algumas circunstâncias, entre elas, o imperioso domínio machista, uma operação de proposital abstinência na lista de mulheres escritoras na literatura de cordel.
Materializamos o citado acima quando percebemos o diminuto espaço dedicado, principalmente às duas últimas mulheres, mencionadas neste artigo que já nos leva a inferir sobre a pouca importância dada a elas na produção e pesquisa sobre as mesmas.
Quer o anonimato, quer o pálido surgimento de um ou outro nome feminino entre os cordelistas, não quer dizer, de forma alguma, que a qualidade literária dos versos produzidos por estas mulheres marginalizadas está aquém daquelas de autoria masculina.
Demos ênfase a apenas três dessas mulheres e, dentre elas, privilegiamos o nome de Chica Barrosa, mas, certamente, há tantas outras que o tempo e os pesquisadores haverão de ressuscitar das cinzas do preconceito para a glória literária no Nordeste e do Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ALMEIDA, Átila Augusto F. de e SOBRINHO, José Alves (1978). Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada. Tomo I e II. João Pessoa: Editora Universitária – UFPB.
ALMEIDA, Átila Augusto F. de e SOBRINHO, José Alves (1978). Cantadoras e repentistas do século XIX: a construção de um território feminino. s. l., s. ed.
BATISTA, Otacílio; LINHARES, Francisco. Antologia Ilustrada dos Cantadores. 2ª ed. fortaleza: Imprensa Universitária, 1982.
CARVALHO, Rodriguez. Cancioneiros do norte. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1967.
CASCUDO, Câmara. Vaqueiros e Cantadores. São Paulo: Ediouro, s/d.
GIDDENS, Anthony (2005). Sociologia. Porto Alegre: Artmed.
MARTINS, Neco. Biblioteca de cordel. Introdução e Seleção: Gilmar de Carvalho. São Paulo: Hedra, 2002.
MEDEIROS, Irani. Chica Barrosa – a rainha negra do repente. João Pessoa: Ideia, 2009.
MOTA, Leonardo (2002a). Cantadores poesia e linguagem do sertão cearense. 7ª ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora.
MOTA, Leonardo (2002b). No tempo de Lampião. 3ª ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora.
QUEIROZ, Doralice Alves de. Mulheres cordelistas: percepções do universo feminino na literatura de cordel. (Mestrado Literatura Brasileira) – Faculdade de Letras da UFMG, Belo Horizonte, 2006. Disponível em:
www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/ALDR-6WEK7J – 10k.
Acesso em 28/10/2014.
QUEIROZ, Julio de. Salma Ferraz (org.) A mulher na humanidade. Florianópolis: FAPESB: Blumenau: Edufurb, 2014.
RIBEIRO, Luís Filipe. Mulheres de papel. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. [1ª ed. Niterói, EdUFF, 1995].
SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na sociedade de classes: mito ou realidade. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1979.
SANTOS, Francisca Pereira. Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel. Cariri: SESC, 2008.
SANTOS, Francisca Pereira. Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel. Cariri: SESC, 2008.
VASCONCELOS, Normando. Cantiga de viola. Maceió: Arte-Digital, 1966.
Bio fornecida pelo palestrante.
Camila Marchioro
Universidade Federal do Paraná/CAPES
RESUMO: O objetivo deste ensaio é discutir três contribuições de Cecília Meireles para a revista Festa ainda não analisadas pela crítica literária. Pretende-se mostrar como tais publicações consistem em um importante corpus de textos que compreendem uma fase (1927 a 1935) anterior à publicação de Viagem (1939), e revelam um amadurecimento da poetisa em relação à estética e temática de seus primeiros poemas publicados. Com efeito, visa-se evidenciar que tais textos, usados na forma, demostram que Cecília Meireles investiu em um tratamento diferente do tema da mística, que passa a ser abordado de modo mais intenso futuramente. Sendo uma das poucas vozes femininas do grupo espiritualista, os textos publicados pela poetisa dão espaço para a representação da mulher num âmbito ainda não muito explorado pela literatura brasileira: a ascensão espiritual.
PALAVRAS-CHAVE: Cecília Meireles, revista Festa, mística, simbolismo.
ABSTRACT: This essay intends to discuss three contributions of Cecília Meireles to the Festa magazine which have not yet been reviewed by the critics. It is intended to show how these publications are inserted in an important text corpus which covers a previous poetic phase, from 1927 to 1935, before the publication of Viagem (1939). These texts unveil a process of maturity on the part of the poet in relation to the aesthetic and thematic of her first published works. Thus, it is intended to demonstrate that in the selected texts, each in a distinct form, Cecília Meireles handled differently the mystical theme, which happens to be addressed more intensely in the future. One of the few women’s voices among the spiritualist group, the texts published by the poet lay a space for the representation of women in a context not much exploited by Brazilian literature: the spiritual ascension.
KEYWORDS: Cecília Meireles, Festa magazine, mysticism, Symbolism.
Minicurrículo: Camila Marchioro possui bacharelado em Letras pela Universidade Federal do Paraná e é Mestre pela mesma instituição com a dissertação Cecília Meireles e os símbolos do Absoluto. Contribui para o projeto da revista Versalete como parecerista. Desde 2014 cursa o doutorado em Letras também pela UFPR e é bolsista de doutorado sanduíche pela CAPES, pelo que atualmente encontra-se na Universidade do Porto, Portugal, em pesquisa para sua tese: Caminhos do Oriente: a água e o tempo na poesia de Cecília Meireles e Camilo Pesssanha.
Uma mulher em Festa: mística e simbolismo
em três publicações pouco conhecidas
de Cecília Meireles
Camila Marchioro
Universidade Federal do Paraná/CAPES
Introdução
Cecília Meireles é, dentre as mulheres de nossa poesia, um dos nomes mais conhecidos Brasil afora. Prezando pelos ideais de não violência, a poetisa jamais vinculou-se a movimentos feministas, uma vez que julgava que, à época, estes pregassem a segregação sexual, o que contrariava seus princípios espiritualistas de comunhão e respeito universais. Tal posicionamento da poetisa faz com que tenhamos a notícia de que nos anos 20 do século passado Cecília Meireles não fosse a única voz feminina a manifestar-se no meio artístico e literário brasileiro. Embora abafadas pelo estrondo do modernismo, não foi pouca a produção feminina e feminista daquele período:
Não que não tivéssemos escritoras naquele tempo. Havia – tanto poetas, dramaturgas, como ficcionistas –, mas por um motivo ou outro, não receberam convite. O sucesso literário tem dessas coisas: é preciso acertar o timing, estar no lugar certo na hora certa; e, principalmente, olhar na mesma direção. Se relacionamos as escritoras mais produtivas daquela década, verificamos como elas estavam distantes do projeto modernista tal como ele foi elaborado, e o quanto estavam envolvidas em um outro projeto – não necessariamente estético – mas principalmente ideológico, visando à emancipação da mulher (DUARTE, 2011, p. 45).
Por destoar tanto dos ideais feministas quanto dos ideais do grupo modernista, a autora foi pioneira em seu caminho poético e ainda hoje é difícil situá-la no panorama modernista da literatura do século XX. Acabou por entrar de fato para o cânone da literatura brasileira, o que infelizmente não se deu com outras profícuas escritoras da época. Cecília Meireles recebeu reconhecimento primeiramente em Portugal, e, pelo seu livro Viagem (1939), foi a primeira mulher a receber prêmio da Academia Brasileira de Letras. Aderiu, assim, ao grupo formador da revista Festa, mas, também por não concordar com certos aspectos ideológicos do grupo, acabou por desvincular-se em meados da década de trinta. Como ela mesma disse em seu poema “Beira Mar”: “porque isto é mal de família, / ser de areia, de água, de ilha…” a sua natureza “insular” a fez seguir sozinha pelo seu caminho. A sua poética tem como um dos traços mais fortes a aceitação da possibilidade de ser eterna diante de um mundo material e a tentativa de equilibrar-se ante a vida mesquinha dos homens da Terra e a vastidão do Mar Eterno.
Desse modo, a autora apresentou-nos uma proposta mística em sua poesia, se entendermos por misticismo/mística como sendo a busca da comunhão com o Absoluto (divindade, verdade espiritual) através da união direta, intuição, instinto ou insight. Em grego mustikós significava mistérios, em especial relacionava-se aos “mistérios de Elêusis”. Foi o Pseudo Dionísio Areopagita quem modificou o significado do termo. A nova acepção foi fixada na Idade Média e consagrada pelos místicos cristãos posteriores. Com efeito, o sentido original, e que vigorou por longo tempo, do termo mística e de seus derivados diz respeito a uma forma superior de experiência, de natureza religiosa, ou religioso-filosófica, que se desenrola normalmente num plano transracional – não aquém, mas além da razão – mas, por outro lado, mobiliza as mais poderosas energias psíquicas do indivíduo. (VAZ, H. apud BRANDÃO, 2007, p. 153).
Portanto mística e mistiscismo em Cecília Meireles podem ser entendidos como a busca ou a união com algo que está além das razões humanas, ou seja, o divino. A fim de facilitar a compreensão, chamaremos aqui este “divino” de Absoluto. Na busca por desvelar o mistério da vida, a autora deparou com um conhecimento compartilhado e desabrochado nas mais diversas culturas ao longo de séculos, notadamente com a ideia de que há uma verdade perene e eterna que a tudo subjaz, há algo que está em tudo, que tudo gera, mas não é gerado, algo a que pertencemos e não é pertencido, criador de si mesmo e do qual tudo emana. Foi no Oriente que Cecília teve contato com um conhecimento místico ainda vivo e ao qual ela mais se vinculou simbolicamente.
Dada a sua vertente espiritualista, a poetisa encontrou no grupo Festa um lugar para divulgar sua poesia. Assim, para este ensaio foram selecionados três excertos de contribuições da poetisa na supracitada revista com o intuito de verificar, dado o teor da publicação, como é retratada a espiritualidade nesses excertos. Estes escritos não foram ainda analisados pela crítica especializada e caíram no esquecimento dado o fato de não terem sido publicados posteriormente em livro. Os textos são de 1927 e 1928 e, na esteira de seus primeiros livros. Em 1927 a autora já havia publicado Espectros, Nunca mais… e Poema dos poemas e Baladas para El-Rei – livros que foram excluídos por ela mesma quando da organização de sua Obra poética (1958) e da Antologia poética (1963). Trazem um forte apelo místico, todavia com uma abordagem diversa: os temas colhidos por Cecília Meireles na filosofia indiana, por exemplo, estão presentes em Festa e são abordados com a mesma maturidade que só se consolidaria poeticamente, para o grande público, na publicação de Viagem, em 1939.
O grupo de jovens escritores que originaram a revista Festa era formado em especial por católicos que “defendiam a renovação de nossas letras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico” (DAMASCENO, 1967, p. 11). Cecília Meireles jamais se comprometeu doutrinariamente com algum grupo, todavia essa vinculação, segundo Darcy Damasceno, demonstrava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo. Os postulados da corrente eram: velocidade da expressão (surpreender), totalidade (o artista permeando por todas as realidades a fim de recriá-las em sua arte), brasilidade (valorizar principalmente a realidade brasileira) e universalidade (compreender o Brasil como integrado na realidade universal).
Representado principalmente por Tasso da Silveira e Andrade Muricy, os valores do grupo contrariavam a liberdade de ideias do movimento modernista paulistano. Diferenciava-se ainda pelo fato de os espiritualistas não se preocuparem em romper com formas literárias anteriores. Segundo Darcy Damasceno, a renovação do grupo Festa dava-se mais no plano ideológico e, no que diz respeito à métrica, julgavam válidos os instrumentos herdados, unidos ao verso livre decadentista, cujas qualidades rítmicas eram diversas daquelas propostas pelos modernistas de Klaxon. Assim, mesmo utilizando metros tradicionais, Cecília Meireles foi apontada como exemplo das novas possibilidades de que a corrente espiritualista se julgava dotada (DAMASCENO,1967, p. 13).
O grupo espiritualista retomava a escola simbolista, congregando-se em torno de uma visão mística. A revista teve duas fases, a primeira em 1927-1928 e a segunda em 1935. A autora contribui para as duas, tanto com poemas e prosa quanto com desenhos e ilustrações. Entre 1930 e 1933 Cecília Meireles dirigiu, no Diário de Notícias, a página de educação, onde começou a publicar suas opiniões sobre a Escola Nova. Em meados da década escreveu para A Nação e a Gazeta, desvinculando-se, assim, com o fim da revista Festa, do grupo espiritualista. Uma vez que era a favor da Escola Nova, a autora passou a criticar a obrigatoriedade do ensino religioso, pois era adepta do ideal de uma educação laica, universal e plural. Aponta-se este como um dos motivos da sua desvinculação do grupo, já que os demais prezavam pela obrigatoriedade do ensino do catolicismo nas escolas.
Cecília Meireles tinha uma compreensão diferente da universalidade. Enquanto os católicos brasileiros se apropriavam das ideias de universalidade a fim de justificar uma união nacional (nacionalista), a autora não promovia os limites nacionais. Pelo contrário, buscava uma unidade humana acima de qualquer nacionalidade, raça ou religião; provavelmente por isso não se ligou nem a grupos estéticos nem a grupos religiosos.
Uma mulher rumo ao Absoluto
O primeiro trecho escolhido para análise dos aspectos místicos que já se esboçavam na sua poética naquela época é, do ponto de vista da forma, bastante peculiar. No corpo do texto há uma denominação como “poema”, mas sua forma é híbrida, o que nos leva a uma prosa poética. Há aí, portanto, uma demonstração da consciência da poetisa no que diz respeito à forma ou à concepção de “poema”. Todavia, a estrutura do “poema” é de conto e há, inclusive, um personagem principal: um menino poeta que não compreende o valor e a utilidade dos presentes que recebe. Há, portanto, um profundo questionamento sobre o próprio fazer poético. Dados outros escritos de Cecília Meireles, sabemos de sua visão humanista do poeta, por isso permito-me, neste conto, reconhecer o menino como símbolo para o próprio poeta e os presentes como símbolos do dom ou dádiva a serem usados pelo poeta para falar da “verdade”. Assim, entramos naquilo que é a “mística”, ou o sagrado. O fazer do poeta é posto como similar ao ofício do profeta, tal qual encontramos em Petrarca e Camões, por exemplo. Por tal motivo, o “poema” abaixo retoma a história de Jesus e de Osíris:
O teu brinquedo novo tem a forma da Terra
e é cortado de paralelos roxos, vermelhos, azuis…
O teu brinquedo novo é o retrato do mundo,
e as tuas mãozinhas, guardando-o, têm o egoísmo
e o domínio da mão de um conquistador. (…)
(…) Este foi o terceiro brinquedo que o Paizinho te trouxe: um brinquedo com pernas, braços, cabeça… Um homenzinho de celuloide…
E martirizaste-o todo… Abriste-lhe a cabeça, arrancaste-lhe os braços, rebentaste-lhe as pernas…
Pobre homenzinho de celuloide, inteiramente sacrificado por ti! Brinquedo reduzido a nada para alegria do teu capricho efêmero! Pensar que um dia, quando cresceres, verás desses brinquedos símbolos por toda parte… E verás sacrifícios assim, totais e inúteis para a infância, para a vida, para a morte – três coisas transitórias – como esse teu primeiro capricho.
Um dia, meu menino, quando puderes ler este poema, eu te contarei o mistério de Osíris, a crucificação de Jesus… (MEIRELES, 1928, p. 2).
Os presentes são muito sugestivos: um é representativo do mundo, o segundo é um urso e o terceiro representa o homem. O menino poeta, egoísta, perdido nos seus desejos, destruiu seus brinquedos a fim de realizar seus caprichos. Não compreendendo nem o mundo, nem o animal, nem o homem, distorceu seus brinquedos a seu bel prazer e acabou sacrificando-os, inutilizando-os. Nesse poema o místico se confunde com o esotérico, “quando puderes ler este poema”, um conhecimento não revelado e que demanda um amadurecimento do menino. Antes, para conhecer “o mistério de Osíris”, o menino terá de se livrar do seu egoísmo (“e as tuas mãozinhas, guardando-o, têm o egoísmo”) e da sua mão conquistadora, que acabou por destruir os brinquedos. Aparece, nesse poema, uma das primeiras menções que liga as mãos aos desejos, e tal simbolismo será muito profícuo em toda a sua posterior poesia.
Desse modo, o menino não consegue lidar com os brinquedos que recebe. Expandindo para a interpretação do menino como poeta, é o poeta que não sabe o que fazer com o seu dom de escrita. Todavia, foquemos esta análise nas questões místicas que são mais evidentes.
Osíris foi um dos deuses mais populares da mitologia egípcia. Relacionado à vida no Além, era o responsável por julgar os mortos. A ele estavam relacionados mistérios, como o próprio mistério da vida após a morte. Em De Iside et Osiride, um dos aspectos referidos por Plutarco é o caráter misterioso dos cultos a Osíris e Ísis. Osíris estava relacionado à ideia de morte e ressurreição, representados pelos ciclos naturais tanto da vida humana quanto dos elementos da natureza terrestre. Osíris, portanto, também era tido como um deus ligado à natureza, especialmente à agricultura. Nas suas representações, sua pele poderia ser verde ou negra, cores que os Egípcios associavam à fertilidade e ao renascimento.
Na mitologia egípcia (recontada em livros como o de Plutarco, no texto das pirâmides e também no texto dos sarcófagos e no Livro dos Mortos), Osíris é esquartejado em quatorze pedaços por seu irmão Seth. Ísis, sua esposa e irmã, o traz novamente à vida, mumificando-o e o ressuscitando por meio da magia. A partir daí Osíris passou a governar o mundo dos mortos.
A ideia presente nos mistérios egípcios de que a semente enterrada no solo geraria uma vida nova, fez com que o homem antigo comparasse seu destino com o da semente. Sob esse aspecto, a morte do corpo seria o começo de uma nova existência. Essa reflexão explicaria a associação de Osíris com o grão por meio do mistério da sua morte e renascimento, fazendo com que os iniciados acreditassem que o seu conhecimento sobre tais mistérios garantia sua imortalidade. Assim, pode-se dizer que o mito de um deus sofredor que dá a vida vencendo a morte era considerado a principal característica dos cultos de mistério. Da mesma forma, Cristo ressuscitou dos mortos, portanto, no texto de Cecília Meireles, estão similarmente colocados como aqueles que venceram a morte, que estão além dos mistérios desta e da vida. A relação entre as duas figuras citadas e os três brinquedos recebidos pelo menino poeta, interpreta-se aqui, está justamente no fato da transcendência dos limites da própria vida, do sofrimento gerado por ela. Apegado aos modos da existência, o menino ainda não está preparado para compreender o que está por trás do destino ao qual ele está fadado: a morte (representada pelo homenzinho de celuloide), assim o homem de celuloide, à semelhança de Osíris, é esquartejado e martirizado pelo menino.
Já o primeiro brinquedo, o retrato do mundo, representa o desejo de conquista do menino e de domínio sobre a matéria, a Terra. O menino cuida do brinquedo para que não se perca, a poetisa simboliza desse modo o apego pela vida corpórea. O segundo é um urso amarelo pelo qual o menino demonstra carinho e quer cuidá-lo tanto que não pode largá-lo. Esse brinquedo pode representar os próprios desejos do menino, anseios estes relacionados ao âmbito dos sentimentos, não pertencentes ao mesmo nível que o da matéria, mas ainda consistindo em impedimentos para a superação da morte. Ao jogar com cada brinquedo o menino se prende aos estados da existência que o impedem de conhecer o Absoluto.
Cecília Meireles foi leitora ávida, como já dito, da filosofia hindu, em especial do Vedanta. Por esse motivo, tomemos como base o conteúdo do Bhagavad-gita (livro sagrado hindu, que reproduz, em forma épica, os princípios filosóficos e éticos dos Upanishads, que foram lidos por Cecília Meireles) para evidenciar a relação do poema com a filosofia. Neste último livro hindu, Krishna explica a Arjuna sobre a natureza do Absoluto e os modos da existência material. Assim o deus lhe afirma que todos os estados de existência – sejam eles bondade, paixão ou ignorância – manifestam-se por sua energia e que, num certo sentido, ele é ao mesmo tempo tudo e independente de tudo, não estando assim sob a influência dos modos da natureza material. Aquele que está iludido pelos três modos não pode conhecer o Absoluto, que está acima dos modos e é inesgotável (PRABHUPADA, 2011, v. 12, p. 379, v. 13, p. 381).
Nesse sentido, os três modos estão representados no poema pelos três brinquedos, e o menino só estaria pronto para conhecer o Absoluto quando fosse capaz de “ler o poema”, ou seja, superar os modos da existência e assim poder compreender o mistério de Osíris e a crucificação de Cristo. A Compreensão desses dois significaria, no texto de Cecília Meireles, ser capaz de superar a própria morte. “Ler o poema” leva-nos, mais uma vez, para a metalinguagem em que o poema surge como locus da revelação da verdade, e assim como no renascimento, a poetisa coloca as humanae literae ao lado das sacrae literae. O sagrado, para Cecília Meireles, é entendido não apenas como sendo do âmbito divino, mas como algo que é, também, digno de respeito:
(Porque estes orientais têm pela Poesia um respeito análogo ao que se costuma ter pela religião. A Poesia não é um versejar fútil: é uma espécie de iluminação interior, uma espécie de santidade e profetismo. A palavra do Poeta não é uma habilidade superficial, um diletantismo, – e sim um exemplo, uma revelação, um ensinamento através de sons e ritmos… Que alegria, respirar num país onde ainda se pensa desse modo! Que esperança de vida! Que renovação de fé na humanidade!) (MEIRELES,1999, p. 266).
Em número anterior da mesma revista a autora publicou um conto que relata a personagem despindo-se do eu e dos modos da natureza material, chegando à união total com o Absoluto, reconhecendo a sua própria natureza divina, imperecível e suprema. A personagem, de certa forma, ainda que por instantes, supera o medo da morte, identificando-se com o Absoluto. Interessante é notar que a voz feminina ceciliana não é rara na poesia, mas constituiu numa pérola inigualável quando o assunto é a experiência mística. Talvez o texto que se segue, ainda que suposta ficção, seja um dos poucos a retratar a experiência mística do ponto de vista de uma mulher. A poetisa abre espaço para retratar a ascensão e iluminação de uma mulher:
(…) Sinto-me tão vasta… Cheia de vozes, de fisionomias, de gestos.
Acordo às vezes da minha monotonia: e encontro em mim, continuando a viver, as imagens que a vida em mim refletiu… São tantas… São todas! (…)
Vejo-me, assisto-me… Sou tudo. Tenho tudo comigo.
Caminho para lá da infância… Prossigo para lá da morte… Saio da minha … própria vida… Continuo no que vive em torno. (…)
Abriu os braços na sombra. E o vestido aberto escorregou-lhe pelos ombros e caiu. Silenciosa: o silêncio do seu corpo: o grande silêncio antigo do seu espírito em que a vida pusera a ilusão das palavras e dos pensamentos falando…
Vinha da noite um presságio ardente de morte. E as aparências todas se desvaneciam; todos os contornos se diluíam; todas as coisas com existência recuavam… Ficava apenas a intenção do primitivo milagre: o sentido que as formas esconderam e esqueceram.
Era a ruína, em torno. Era uma transfiguração.
— Mas, então os seus olhos nunca tinham visto?
E o que a sua boca dissera…
Tudo o que ouvira a si mesma.
E a sua vida… (Mas, onde, a vida?). E era o infinito silêncio de tudo a aguardá-la, a absorvê-la, — e um medo vago de não se encontrar mais naquele silêncio, e a certeza de ir sendo lentamente, fortemente impelida…(…) (MEIRELES, 1927, p. 4-5).
Pode-se entender este conto como um relato do exato momento da comunhão com o Absoluto. O ser humano sendo sem predicados, desvencilhando-se do “eu” e afastando-se da superfície das formas para penetrar no seu mais profundo. “Vejo-me, assisto-me… Sou tudo. Tenho tudo comigo” (idem), nesse ponto a personagem (voz que às vezes se mescla à do narrador) contempla-se na sua completude, começa a entender-se enquanto ser, sente-se ligado a algo maior que os contornos do “eu”. Há uma profunda identificação com o todo, o sujeito sente-se ligado às multidões, sente que elas moram nele. Depois, a personagem identifica-se com a própria morte e tudo que tem existência recua, para dar lugar ao Nada e ao princípio de toda a criação, ao formador de todas as formas.
A personagem se despe não apenas do vestido, mas de si própria, das suas categorizações do mundo e do ego. “Vinha da noite um presságio ardente de morte” (idem), esta frase anuncia a morte do próprio “eu”. “E as aparências todas se desvaneciam; todos os contornos se diluíam; todas as coisas com existência recuavam… Ficava apenas a intenção do primitivo milagre: o sentido que as formas esconderam e esqueceram” (idem). Aqui as categorizações vão se desfazendo para restar apenas a forma pura, o puro silêncio, o puro ser.
A personagem começa a lembrar de si e assim desfaz-se de seu ego compreendendo que nunca havia deixado de ser, mas estava perdida em si mesma crendo nos seus olhos e nas suas palavras, que eram, na realidade, o desvio do verdadeiro sentido. Finalmente o silêncio. E a personagem depara-se com aquilo que é ela mesma, tattvamasi (“aquilo que és tu”), como fora dito no texto hindu Chandogya Upanishad. No final, a personagem contempla-se no espelho diante de um dilema que é o dilema que perpassa toda a poesia ceciliana: a prisão na condição humana em oposição a liberdade encontrada na sua natureza divina. O “eu” estava retornando, mas há algo de diferente, então, com um sorriso sobre-humano, a personagem aceita sua condição, que é ser humana (na prisão do “eu” e do corpo material), todavia com a recordação da sua essência divina: Absoluta.
Outra contribuição interessante é o seguinte poema:
Eu fui a terra nua de uma idade sem data
E as minhas árvores têm medidas que não param,
Crescendo sempre pelas raízes e pelas frondes…
Eu sou essa mata indômita,
Mar magro e farfalhante
E impenetrável… (MEIRELES, 1928, p. 3-4).
Este poema é relativamente diverso daqueles que a consagraram como a poetisa que foi. Pode-se dizer que está muito próximo de uma poesia como a de Walt Whitman, poeta que também foi identificado como influência para Cecília Meireles. O trecho reproduzido acima serve como exemplo desse diálogo. O eu-lírico, nesse caso, está identificado com a natureza, sentindo-se parte do todo, está além do tempo e além das formas. Há, no poema, um eu-lírico que se dissolve em imagens, que é tudo, gigantesco e que a tudo penetra, mas ainda repousa impenetrável. Pode-se verificar, portanto, a profundidade mística dos textos de Cecília Meireles e a sua busca poética pelo Absoluto presente já nos escritos de Festa, mais de dez anos antes da publicação de Viagem.
Conclusão
Embora ainda não revisados pela crítica e não constituindo em elemento crucial para a compreensão da poética ceciliana, os excertos aqui analisados mostram alguns aspectos importantes do período em que Cecília Meireles não publicou nenhum livro. Nota-se que o amadurecimento que está em Viagem estava sendo moldado já em 1927, mais de dez anos antes. Outro aspecto é o cariz místico dessas publicações, enquanto em seus primeiros livros a experiência mística estava porta por meio do desejo de união com um amado (casamento místico) deixava explícitas as influências literárias da autora (Verlaine, Augusto dos Anjos, RabindranathTagore) tornando seu estilo uma mescla dessas influências, em Festa já temos uma emancipação autoral na qual Cecília Meireles começa a trabalhar o tema que lhe é caro a seu próprio modo, modelando uma nova estética, nesse momento ainda muito experimental, mesclando prosa e verso, mas que parece de extrema relevância para a criação de uma poética que dominou o verso livre como poucos poetas o foram capazes de fazer. Assim, revela-se a riqueza desses e dos demais escritos cecilianos de Festa, revista que caiu no esquecimento dado o estrondo de Klaxon e dos modernistas paulistas. Mais um ponto que se revelou na análise dessas publicações foi a abordagem de algo que é de rara recorrência tanto nas humanae literae quanto nas sacrae literae: a possibilidade de uma mulher alcançar uma elevação espiritual. Tal tratamento do texto ceciliano aproxima a autora de poetisas com Santa Teresa d´Ávila, no Ocidente, e Mira Bai, no Oriente, mas, sobretudo, aproxima-a do pioneirismo das mulheres do século XX, que abriram espaço tanto para uma nova atuação da mulher na sociedade, quanto para uma nova representação desta na literatura. Desse modo, Cecília Meireles ajudou a abriras portas para uma renovação da figuração da mulher na poesia do Ocidente, insistindo em simbolizá-la no âmbito onde talvez fosse mais difícil uma mulher fazer-se ouvir.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRANDÃO, Bernardo. Só em direção ao só: considerações sobre a mística de Plotino.
Horizonte (Belo Horizonte), v. 6, p. 15-160, 2007.
DAMASCENO, Darcy. Cecília Meireles: o mundo contemplado. Rio de Janeiro: Orfeu, 1967.
DUARTE, Constância Lima. A literatura de autoria feminina no modernismo dos anos 30. In: ZOLIN, Lúcia O.; GOMES, Carlos M. (Orgs.). Deslocamentos da escritora brasileira. Maringá: Eduem, 2011. p. 45-62.
HUXLEY, Aldous. A filosofia perene. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 19717
LOUNDO, Dilip. Cecília Meireles e a Índia: viagem e meditação poética”. In: Ensaios sobre Cecília Meireles. São Paulo: Humanitas; Fapesp, 2007, p. 129-178.
MEIRELES, Cecília. Cecília Meireles: Poesia completa. Antonio Carlos Secchin, org. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
_____. Três brinquedos do menino poeta”. Festa, Ano I, 1928, nº 12, p. 2.
_____. Aceitação. Festa, Ano I, 1927, nº 6, p. 4-5.
_____. Sem título. Festa, Ano I, 1928, nº 8, p. 3-4.
PRABHUPADA, A. C. BhaktivedantaSwami. Bhagavad-gita como ele é. São Paulo: The Bhaktivedanta Book Trust, 2011.
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O texto deste ensaio faz parte da dissertação Cecília Meireles e os Símbolos do Absoluto (2014), todavia foi revisado, adaptado e expandido para a publicação na revista.
Bio fornecida pelo palestrante.
Davi Pinho
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Resumo: O presente ensaio parte da discussão de Julia Kristeva sobre o suicídio feminino em Des Chinoises (1974) para confrontar o uso que ela faz do suicídio de Virginia Woolf como resultado da impossibilidade de um sujeito feminino na linguagem. Em um diálogo com o movimento conhecido como écriture féminine, percorreremos a obra de Virginia Woolf para identificarmos os momentos de vida que afirmam a experiência feminina na linguagem, o que nos dará acesso ao que ela chama de androginia. Virginia Woolf não quer não ser, como formula Kristeva. Ela quer ser muitos, todos; ela quer ser.
Palavras-chave: androginia; écriture féminine; suicídio; Virginia Woolf.
Abstract: This essay departs from Julia Kristeva’s discussion on female suicide in Des chinoises (1974) to confront her use of Virginia Woolf’s suicide as a result of the impossibility of a feminine subject in language. In dialogue with the écriture féminine movement, we will survey Virginia Woolf’s oeuvre in order to identify the moments of life that affirm women’s experience in language, which will grant us access to what she calls androgyny. Virginia Woolf does not want not to be, as Kristeva formulates. She wants to be many, everyone; she wants to be.
Keywords: Androgyny; écriture féminine; suicide; Virginia Woolf.
Minicurrículo: Davi Pinho é professor adjunto de literatura inglesa do Departamento de Letras Anglo-germânicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor de Imagens do feminino na obra e vida de Virginia Woolf (Curitiba, Appris, 2015). Foi pesquisador visitante da Birkbeck College, University of London (2012-2013), e trabalhou nos manuscritos de Virginia Woolf na British Library e na University of Sussex no mesmo período.
Virginia Woolf: do suicídio feminino em Julia Kristeva à androginia
Davi Pinho
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
I meant to write about death, only life came breaking in as usual. I like, I see, to question people about death. I have taken it into my head that I shan’t live till seventy. Suppose, I said to myself the other day, this pain over my heart suddenly wrung me out like a dish cloth and left me dead? – I was feeling sleepy, indifferent, and calm; and so thought it didn’t much matter, except for L. Then, some bird or light I daresay, or waking wider, set me off wishing to live – wishing chiefly to walk along the river and look at things.
Virginia Woolf, de seu diário, 17/02/1922
Eu quero não ser: é assim que Julia Kristeva intitula o quinto capítulo de seu polêmico Des Chinoises (1974), no qual discorre sobre o suicídio feminino. Contundente em sua formulação, esta que seria continuada no célebre Le temps des femmes (1979), Kristeva delimita a crise do sujeito da representação no que tange as possibilidades linguísticas para um sujeito feminino dentro da linguagem que a crítica francófona de seu tempo qualifica como falocêntrica. O resultado está em seu título: para a mulher, a única possibilidade de subjetificação dentro da linguagem historicamente masculina seria o lugar do não, da transgressão final, da morte. O não ser feminino adviria do impasse da mulher moderna no que tange ocupar um lugar de sujeito. Kristeva diz que ela, a mulher, se vê presa entre concretizar a falta de Freud a partir da linguagem – o que significaria se tornar sujeito nomeador e objetificador como o pai, reafirmando o phallus –, e o misticismo que apenas o tempo do sujeito matrilinear imporia. Esse, para Kristeva, seria o impasse de Virginia Woolf, para o qual a resposta seria o não. O propósito deste ensaio é apresentar a obra de Woolf como uma outra resposta, a do sim, da vida, da volta à linguagem.
Em seu processo de subjetificação, Kristeva diz que a mulher seria chamada a uma identificação com a mãe, mas se perderia na palavra do pai, no mundo da linguagem comunicativa. Em seu desespero para se identificar no tempo linear, no tempo histórico, na ordem dos nomes do pai que lhe daria um lugar na esfera pública, essa mulher seria levada à loucura de se saber Outra do mundo. Desse lugar Outro viriam as múltiplas vozes, a dissolução “primeiro do superego, depois do ego”, até que a “própria vida não consiga segurar-se: a morte silenciosamente adentra” (KRISTEVA, 1974, p. 15.[1]
Destarte, os suicídios de Sylvia Plath, Maria Tsvetaeva, e, claro, o de Virginia Woolf são idealizados aos moldes da resistência da antiga mulher oitocentista, cuja única saída para o sujeito era o não ser – cuja escolha era a de negar-se ser.
Quando um homem se mata, ela insinua em suas comparações, “é para provar que sua vontade é maior que a de Deus” (KRISTEVA, 1974, p. 158). Mas o suicídio feminino tenta negar Deus, a palavra, para então negar a posição Outra de um sujeito feminino. A morte da suicida seria então uma constatação da impossibilidade de um sujeito feminino dentro da linguagem corrente para Kristeva, um movimento que ansiaria, a partir da potência de não, por “dissolver o próprio ser, livrá-lo da palavra, do self, de Deus” (KRISTEVA, 1974a, p. 158). Dessa forma, não nos surpreende que Kristeva visse no movimento liderado por Hélène Cixous, a écriture féminine, ou escritura feminina, um encerramento nos tempos cíclicos e monumentais; ou seja, um matrilinearismo que poderia resultar em um certo misticismo religioso[2], o que, para ela, reafirmaria uma das muitas visões do sujeito masculino sobre o feminino.
A obra de Kristeva sempre aponta para uma terceira possibilidade, uma mulher que conseguiria em vida realizar o que o suicídio feminino realizaria – aquela morte do sujeito masculino e a afirmação da diferença feminina como um sujeito possível, ou melhor, um Outro possível. Seu prognóstico, no entanto, parece desconsiderar o que Cixous, Irigaray e Clément enxergavam como a qualidade da nova escrita feminina: as múltiplas vozes, os múltiplos olhares, o que já havia sido antecipado por Woolf. Ou seja, a possibilidade de se viver a loucura que Kristeva vê silenciosamente adentrar no feminino que se quer sujeito. Elas insinuariam assim, diferentemente de Kristeva, que não se trata da morte do sujeito masculino, mas do nascimento de um novo sujeito dentro do mundo da linguagem, do nome do pai, que se recuse a repetir o pacto da subjetificação, e que assim crie um terceiro caminho.
Woolf concorda que, até seu momento histórico, a mulher ainda não conseguira usar da linguagem masculina para se tornar sujeito se não por meio de imitação, ódio, ou riso da linguagem vigente. As mulheres, em sua crítica, aparecem atreladas à demanda masculina, refletindo a relação do homem com ele mesmo e com o mundo.[3] No entanto, as imagens do feminino na obra de Virginia Woolf, mesmo que presas ao mundo objetal, escondem um outro valor. Seja ao tentar remontar uma perspectiva que contribua para o tempo da história e um outro tipo de conhecimento, como Lily Briscoe ao pintar seu quadro em To the Lighthouse (1927); ao tentar acessar uma linguagem diferente da linguagem comunicativa do mundo público, como o poema espontâneo de Terrence Hewet ao ouvir Helen e Rachel em The Voyage Out (1915); ou ao apontar para as muitas perspectivas que inundam a visão individual, como faz Bernard no monólogo final de The Waves (1931), sempre há nas personagens de Virginia Woolf uma vontade de conciliar o privado e o universal, o feminino e o masculino culturalmente construídos, para além de uma posição estável, uma posição de sujeito homem ou mulher. Tal desejo aponta para a possibilidade de uma vida outra, de uma outra linguagem que não se revela totalmente, mas que tem como princípio um enclave do sujeito que vê e daquilo que é visto ao/no mesmo tempo; uma linguagem que quer fazer do silêncio poético um modo de refletir todas as perspectivas de outros indivíduos.
Logo, ao trazer o suicídio de Woolf como uma resposta para o dilema da mulher no mundo da linguagem, Kristeva esquece as possibilidades de vida em sua obra. Lembro-me de Mrs. Dalloway (1925) e o embate final entre a morte e a vida que fecha o romance, ao qual Virginia Woolf faz referência em nossa epígrafe retirada de seu diário. Na famosa festa que serve de fio condutor da narrativa de Woolf, Clarissa Dalloway sente a chegada de uma intrusa insólita, a morte. Quando ela se retira para um quarto vazio para pensar sobre a história que acabara de ouvir acerca do suicídio de Septimus Warren Smith, sentimos a narradora tentando compreender o impulso da mulher tanto quanto nós, leitores. Septimus, o veterano de guerra que durante o dia, em vida, transitara pelas mesmas ruas que Clarissa mas nunca conseguira contato, agora, na morte, torna-se um intruso na festa, e seu suicídio parece comunicar alguma coisa a Clarissa. O que nós, leitores, recebemos são imagens: Clarissa Dalloway à janela sozinha, como se pronta para repetir o ato de Septimus e jogar-se rumo ao concreto. Dali ela vê uma idosa que primeiramente a olha diretamente nos olhos, mas logo caminha lentamente em direção à cama em um apartamento oposto à sua casa. O contraste entre a vida que borbulhava em sua festa, o suicídio de um jovem veterano de guerra, e a senhora que agora apagara a luz para dormir, parece significar alguma coisa que nem a narradora nem os leitores podem tocar, mas que dá à Clarissa a vontade de delimitar um lugar que afirme a festa, a vida.
Ainda à janela, a narradora nos diz que o relógio continuara martelando, “um, dois, três,” e com esse tempo martelando ela não poderia ter pena de Septimus, pois Clarissa parece ver em Septimus a vontade de viver o tempo individual, do privado, como se a morte fosse seu desafio derradeiro para achar o centro, a unidade, um lugar dele e só. As batidas do relógio formam círculos ao entorno de Clarissa que vão se dissolvendo: ela observa a luz que se apaga no apartamento da anciã, pensa na coragem de Septimus, mas decide que precisa descer. “Ela precisa reunir”, nos diz a narradora (WOOLF, 1925, p. 158).
Reunir parece ser uma palavra-chave: Clarissa precisa, com seus convidados, montar, coligar, passar do tempo privado para o público, e achar, mesmo que com as batidas do relógio devorador, uma maneira de achar um lugar na vida, na festa. O suicídio parece figurar aqui como a rebeldia desse mundo particular em querer negar o lugar do sujeito da representação, em querer permanecer incomunicável. No entanto, a última imagem do romance é a da afirmação da festa, do se pôr no mundo em rebeldia ao tempo que bate. Peter, ao se sentir em êxtase, percebe que é a imagem de Clarissa, seu retorno à festa, que o leva a um momento de arrebatamento, com o qual a narradora termina o romance: “pois lá estava ela” (WOOLF, 1925, p. 165). É com a mera existência de Clarissa, com seu ali estar, que Virginia Woolf nos deixa, não com a resposta de Kristeva. Clarissa vai criar uma nova forma de vida, dentro da linguagem, pois a linguagem é a sua única chance de criar uma imagem para si mesma no mundo. Woolf, seja a ensaísta ou a romancista, não quer não ser; pelo contrário, ela quer ser muitos.
Sempre que Virginia Woolf discute um mundo que escape da visão de apenas um sujeito, ela parece apontar para a possibilidade de um sujeito múltiplo, formado de outros sujeitos, que não tenha um objeto fixo por oposição. Em outras palavras, ela revela uma posição para além de sujeito e objeto, uma posição que afirma os outros muitos sujeitos no sujeito que vê, o que é pura afirmação de multiplicidade. Assim, em toda sua obra, a vida da mulher é afirmada, pensada, intuída como resposta aos modos de subjetificação masculinos.
Mrs. Ramsay, o farol de To the Lighthouse (1927), cujo primeiro nome nunca descobriremos, que é apenas a mãe de James à janela, ou esposa de Mr. Ramsay, é representante de um tipo de conhecimento que Lily precisa trazer para o mundo através de seu quadro. Rachel, de The Voyage Out (1915), cuja linguagem quebrada parece unir Hewet à natureza das folhas que ele amassa entre os dedos, é símbolo do silêncio que o permitiria criar um romance inovador sobre o conhecimento que jaz nas coisas não ditas. Clarissa Dalloway, que tenta ininterruptamente remontar sua vida durante a tarefa prosaica de organizar uma festa, quase sucumbe aos poderes da morte ao perceber que tivera apenas tomado parte na ordem das coisas, nos nomes que recebera (esposa/mãe), mas volta à festa por perceber que sua existência, estar lá, sua outra perspectiva, poderia dar um outro significado ao mundo. Ela volta à linguagem, ao ser. Também Bernard em The Waves (1931), cujas vozes são masculinas e femininas, que viveu tomado pelo olhar de dois outros homens, e três outras mulheres, parece querer dizer que há um espaço, no silêncio da imagem poética, para uma linguagem que transcenda a representação do corpo, o sexo.
Em toda a obra de Woolf fica então a questão de como alargar essa posição de sujeito, e a questão é: como quebrar a própria palavra, os nomes. Em “Men and Women” (1920), ela repete a frase de Bathsheba, que no romance de Thomas Hardy[4] diz ter os sentimentos de uma mulher, mas a linguagem de um homem. A questão então é “testar as formas aceitas, descartar as inadequadas, e criar outras mais adequadas” (WOOLF, 1920, p. 67). Em “Women Novelists” (1918), ela imagina que os pseudônimos das escritoras vitorianas fossem não somente para ter julgamento justo, mas para que lembrassem da tirania do sexo, e rissem. E afirma que algumas escritas parecem conseguir escapar dos limites dessa linguagem destruidora que cristaliza posições de sujeito e objeto, o que em 1924, em seu artigo para a Vogue, “Indiscretions”, ela chama de uma escrita sem sexo. Fica claro, assim, que o percurso crítico de Woolf, que culmina nesse trânsito do sexo para o sem sexo, da mulher para o que ela chamaria de andrógino em A Room of One’s Own (1929) e Three Guineas (1938), quer transcender os limites epistemológicos de seu tempo e achar a quebra ontológica que uniria os fragmentos e nos permitira todos ser, para além de sujeito e objeto. O feminino culturalmente construído parece, assim, ser uma outra instância dessa linguagem que quer ser reavaliada e usada na obra de Woolf.
Em vinte de abril de 1937, enquanto Virginia Woolf fazia pesquisa para o seu Three Guineas, ela concede uma entrevista para a BBC intitulada “Crafsmanship”, parte de sua série simbolicamente chamada “Words Fail Me”. [5]
Na única amostra existente de sua voz, a escritora parece calma, mas decisivamente afirmar a liberdade que jaz na palavra, que para ela tem que ser entendida para além de craftsmanship: uma brincadeira com a palavra craft, que no inglês pode significar tanto criar coisas úteis, como no substantivo artesanato, quanto astúcia, engano, magia. Para ela, as palavras estão para além de seu sentido utilitário, para além da pretensão daqueles que tentam encaixá-las para anular as múltiplas realidades. As palavras, quando usadas em sua liberdade, mostram o que querem, ou seja, mostram todo e qualquer leitor, todos magica e arduamente condensados em uma posição de Um constante. Em suma, a prática de “fechá-las em um sentido, em seu sentido prático” é o motivo pelo qual Woolf diz não existir um grande poeta, um grande crítico, ou um grande escritor em seu tempo (WOOLF, 1937, p. 154). Woolf, assim, pensando este como o momento de Three Guineas, mostra que a prática de domar as palavras para que elas tenham apenas um sentido, representem apenas um sujeito, quando poderiam apresentar vários, é um problema que a mulher terá que profanar na escrita.
A posição da mulher entre as posições de sujeito e objeto, que parecia ter sido uma escolha entre o demônio e as profundezas do mar para Woolf, [6] entre a vida e a morte, transforma-se em um terceiro caminho para mulheres e homens. Ao final de sua jornada de ensaios em busca do lugar da mulher na literatura, Woolf conclui que há de se viver entre o demônio e as profundezas, no pensamento: “think we must” (WOOLF, 1938, p. 243). A mente andrógina que Woolf imagina é a possibilidade de uma mente que esteja para além da afirmação do mesmo, e negação do outro, e nesse sentido ela é uma afirmação, ou efetivação, da diferença. Ela é livre de seu sexo, sua nacionalidade, dos nomes antigos. É significativo que tanto Hélène Cixous, na década de 70, quanto Woolf, na de 30, enxerguem em Shakespeare essa habilidade de se retrair e nutrir, de entrever um mundo literário que seria como um ventre sempre produtivo, de onde nascem seres humanos dos mais diversos cujas perspectivas seriam afirmadas em suas diferenças. [7]
Ventre, aqui, é metáfora para um novo lugar da escrita; uma afirmação daquilo que que antes era puramente feminino, inerente ao corpo, enquanto possibilidade na linguagem, na escrita de todos.
Dizemos ser significativa a referência a Shakespeare porque a imagem se desprende do corpo feminino, e mostra como a androginia de Woolf é cultural, e simbólica, como também é a écriture féminine de Cixous. Quando Woolf declara que “enquanto mulher, eu não tenho país”, e continua, “enquanto mulher eu não quero país. Enquanto mulher, meu país é o mundo inteiro” (1938, p. 313), ela ressalta o porquê da mulher ser a porta-voz da mudança, o porquê de Cixous chamar a escrita de feminina décadas mais tarde. Diferentemente mesmo de Shakespeare, nem mesmo a um país pertenciam as mulheres, o que as desligava de mais um dever que aprisiona a mente: o patriotismo. Esse seria apenas um dever pater, já que até mesmo uma nacionalidade estável era negada à mulher pelas leis de seu tempo. Como Rachel diz para Hewet em The Voyage Out, a mulher gozava de uma certa liberdade por não ser representante do progresso. É em sua diferença, no legado silencioso do Anjo do Lar, que a mulher agora encontra uma nova possibilidade de subjetificação, o lugar do andrógino.
Androginia – aberta em Woolf, uma mente que não é informada por seu sexo, que permite uma infinidade de perspectivas, poética, silenciosa, e ao mesmo tempo uma possibilidade visível de resposta para os problemas da mulher e do homem no mundo, um preso na semelhança, e outro na diferença – parece mesmo estar para o que Cixous e Irigaray pensariam. O exercício da mente andrógina é o de reabrir a linguagem, de testar a memória das palavras. “E esta é uma das principais dificuldades de escrevê-las hoje – que elas estejam tão amontoadas de sentidos, de memórias, que elas tenham adquirido tantos casamentos famosos”, diz Woolf sobre a dificuldade de ressignificar as palavras (1937, p. 157). Sua questão é, desse modo, criar uma nova forma que desse às palavras sua liberdade para lembrar todos os seus sentidos, sem negar nenhum, mas criando novos sentidos em novos casamentos de palavras, o que as impediria de perpetuar os antigos casamentos, pois “combinar novas palavras com velhas palavras é fatal para a constituição da frase” (WOOLF, 1937, p. 157). Cixous, quando escreve seu prefácio para o The Hélène Cixous Reader (1994), organizado por Susan Sellers, diz a mesma coisa em palavras surpreendentemente parecidas:
Nós somos os cuidadores sabidos ou ignorantes de várias memórias. Quando eu escrevo, a língua lembra sem o meu conhecimento ou mesmo com o meu conhecimento, lembra a Bíblia, Shakespeare, Milton, toda a literatura, cada livro. Então, eu que escrevo, eu inscrevo uma memória adicional na língua (…) (CIXOUS 1994, p. xxi).
Ou seja, essa nova écriture quer promover novos, diversos, casamentos de palavras, o que significa adicionar uma nova memória à linguagem. Quando alguém fala, ambas apontam, a língua lembra. Trata-se de uma escolha entre perpetuar as combinações conhecidas dos nomes – mãe-privado-imanência contra pai-público-transcendência – ou de uma reorganização da linguagem em que todas as possibilidades de conexões seriam exploradas. Escrever, então, seria achar outros sentidos, outras conexões para além das combinações cristalizadas na linguagem.
Logo, se usadas em sua liberdade, as palavras podem dizer para além dos discursos vigentes. Isso significa dizer que há possibilidade de várias mensagens quando uma só palavra é escrita, e assim a palavra fala “em nome de ninguém”, o que significa dizer que o sujeito se dissolve nele mesmo através dos diálogos que tem os outros em si mesmo. [8]
A écriture féminine é então uma efetivação dessa posição de outro, só que agora um outro que fala; este que é um, sem ser ninguém; que é um Outro. Trata-se de um “embaçar os espelhos”, como Cixous diz em seu First Names of No One (1974a, p. 33), de uma afirmação dos elos pré-linguísticos entre o self and m/other. A analogia de Cixous é entre o lugar da escrita e a mãe, esse Outro-mãe, lugar que enquanto ventre permite uma experiência de sermos dois em um, experiência esta explorada em seu livro The Newly Born Woman (1975), escrito em parceria com Catherine Clément. Ali, ela define écriture féminine como um lugar que
(…) não está economicamente ou politicamente em dívida com toda a vileza e o pacto. Que não é obrigado a reproduzir o sistema. Que é escrita. Se há um outro lugar que consiga escapar dessa infernal repetição, ele está nessa direção, onde ele[9] escreve ele mesmo, onde ele sonha, onde ele inventa novos mundos (CIXOUS, 1975, p. 79).
Ou seja, essa escrita é um lugar que permite que as palavras mostrem as múltiplas relações possíveis entre sujeitos, que passam a ser chamados de Outros, pois se misturam e se desconstroem. Esse lugar não promove na diferença entre esses Outros uma relação de poder, mas sim o que ela é: diferença. É a própria escrita, como lugar, que tem o poder de se criar, se inventar, se sonhar, e não o escritor ou escritora. Um universo de perspectivas possíveis em que nenhuma delas é negada, a escrita feminina é um mundo de milhares de imagens. Écriture féminine é assim uma afirmação da diferença, a subjetificação a partir da afirmação dessa outra experiência, culturalmente feminina.
O pacto para o qual Cixous aponta na citação, a vileza, é o acordo velado que todo sujeito faz ao se afirmar em oposição ao outro. É contra a constatação de Freud de que “todo o progresso da sociedade repousa sobre a oposição entre gerações sucessivas” (FREUD, 1909, p. 298) que Cixous vislumbra uma escrita que seja pura afirmação da diferença, já que a linguagem nunca é neutra,[10] mas múltipla, e que promova a efetivação dos tempos cíclicos e monumentais apontados culturalmente como femininos. Efetivar o tempo do corpo feminino, em oposição ao tempo do progresso, significa perceber que tanto o masculino quanto o feminino contribuem para o tempo da história. É por perceber que o feminino culturalmente construído está mais próximo dessa escrita possível – escrita que ela enxerga claramente em Shakespeare, como vimos, mas também em Clarice Lispector[11]–, que ela propõe que a mulher efetive essa escrita das múltiplas vozes, uma escrita louca que, na contramão do argumento de Kristeva quanto ao suicídio feminino, faz da arte o lugar para a afirmação desse novo sujeito múltiplo. Ou seja, ao mantermos os antigos discursos lineares, do tempo do progresso, em que um conhece o outro ao se estabelecer em oposição a ele, mantemos a ideia de um sujeito que objetifica outro – ideia que se perpetua quando usamos as palavras em seus antigos casamentos: pai/alma/poder, mãe/corpo/submissão. A questão aqui é como conhecer o outro sem ter que possuí-lo, e consequentemente, destruí-lo.
Da sanidade à afirmação da loucura, essa também é a afirmação de Woolf: quero ser muitos, ao mesmo tempo, em círculos, todos em mim. A própria forma do romance que Woolf revigora metaforiza esse tempo feminino, cíclico e monumental. O fluxo de consciência pode ser entendido como uma tentativa de quebrar o tempo masculino com o feminino, como uma nova combinação temporal. Se o tempo da história se define, culturalmente, como o tempo dos grandes desbravadores, dos conquistadores, do progresso, esta outra temporalidade se define como objeto desse tempo, o tempo da permanência. O tempo matrilinear foi definido culturalmente por seu lugar fora da história, e à mulher então afixou-se o tempo cíclico – que metaforiza-se corriqueiramente pelo ritmo biológico feminino –, e o monumental – tempo resultante do cíclico, que dá à eterna repetição dos ciclos femininos uma aura mística, como se ela sempre ficasse, se renovasse, permanecesse. [12]
O tempo do romance modernista tenta remontar esse tempo cíclico e monumental, culturalmente feminino, como ondas que nos passam por muitos outros de nós mesmos, mas que ainda assim organizam uma história. A escrita de Woolf faz da arte, da escritura de vida e obra, um lugar de possibilidade para um novo sujeito e seu novo tempo, nem masculino nem feminino.
Cixous aponta essa escrita como a “passagem, a entrada, a saída, a morada dos outros em mim – os outros que eu sou e não sou, não sei como ser, mas que eu sinto passando, que me fazem viva – que rasga-me, me perturba, me muda, quem?” (CIXOUS, 1975, p.86). Écriture féminine, então, é uma ultrapassagem tanto da linguagem masculina quanto da feminina; é reconhecer o nutrir da escrita – nutrir, que antes se opusera à linguagem no binário corpo/alma. Está aqui a imbricação da escrita feminina com a androginia de Woolf. O escritor da écriture féminine, ao escrever, sabe que toma parte de uma tradição milenar, que as palavras têm um passado, e as combina como em uma pintura, permitindo que todo seu passado se abra, que vários mundos sejam refletidos. Esse reconhecimento da possibilidade de Outros, da validade de outras visões e experiências que não se pode eliminar para afirmar a visão individual, só é acessado quando o feminino é efetivado em uma linguagem que é em sua gênese masculina. O verbo que no princípio era, era o verbo do pai. Os escritores agora exercitam o verbo da mãe, que é a possibilidade de todos os verbos. Assim, através dessa escrita de outros, nasce a mente andrógina.
Orlando (1928) é, nesse sentido, a grande imagem da androginia na obra de Virginia Woolf. Seu romance, que se quer a biografia de um ser humano que nasce menino no Renascimento Inglês, vive por quase 400 anos sem envelhecer mais que trinta e seis anos, muda de sexo ao acordar de um de seus transes, e fecha sua história como uma mulher casada e mãe de um filho à espera de seu marido, é um exercício dessa mente andrógina no mundo. Orlando pode ser lido como uma declaração do poder da escrita enquanto ressignificação da linguagem vigente. A vontade de Orlando é a de escrever, mas escrever seu poema, The Oak Tree, leva quase quatrocentos anos, pois ele/a precisa viver a experiência tanto do menino inglês, quanto da cigana nas montanhas da Turquia, e por fim da mulher moderna. Ele/a é todos ao mesmo tempo, e seu corpo acompanha sua mente: ele/a nasce homem, transforma-se em mulher, e termina andrógino. A preocupação de Woolf é então revelar o humano de Orlando, para além de suas posições enquanto sujeito da representação.
Somente em seus escritos derradeiros Woolf nos dará sua visão organizada, sem medo de chamá-la de sua filosofia. Ela escrevia o que seria uma coleção de memoirs quando se entregou ao rio Ouse em 1941, aos 59 anos, quando exercitou sua potência de não ao cometer o suicídio. Moments of Being, momentos de vida/ser, foi publicado em 1974, quando Kristeva começava a discutir o suicídio de Woolf. Esses momentos de ser são momentos de conexão, momentos em que a superfície é perfurada e que as profundezas são aventadas. Como em um tecido que revela seus pontos quando observado de perto, Woolf nos diz que esses momentos pareciam dar a ela uma noção de que somos constituídos por conexões para além de nosso entendimento, para além da representação do corpo.
Ou seja, como Orlando, somos muitos. Tais momentos vêm em choques, nos diz Woolf, novamente como os de Orlando, que conectavam a escritora com uma outra temporalidade, com outros corpos e mentes, e a permitiam, podemos acrescentar, a androginia de Shakespeare. Em meus percursos pelas imagens da obra de Woolf, percebi que seus momentos de vida são aqueles nos quais a prosa do dia a dia é tomada pela obscuridade da poesia; momentos de troca entre êxito prosaico e fracasso poético. Chamarei então aqui esses moments of being de momentos andróginos, que acontecem entre o demônio e as profundezas do mar, para usar as palavras da autora. Eles são momentos que desafiam o Eu, o Outro, e que agrupam toda a experiência humana em um aglomerado de experiências diversas, como as múltiplas possibilidades no palco que é o mundo, como uma abertura no fechamento. Enfim, Woolf quer ser muitos, não quer não ser, pois aprende em choques que
(…) por trás da lã de algodão está escondido o padrão; que nós – quero dizer todos os seres humanos – estamos ligados a ele; que o mundo inteiro é uma obra de arte; que somos partes da obra de arte. Hamlet ou um quarteto de Beethoven é a verdade sobre esta vasta massa que chamamos de mundo. Mas não há Shakespeare, não há Beethoven; certamente e enfaticamente não há Deus; somos as palavras; somos a música; nós somos a própria coisa (WOOLF, 1978, p. 84).
Referências Bibliográficas
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[1] As traduções no presente ensaio são minhas.
[2] “Certain contemporary thinkers consider […] that modernity is characterized as the first epoch in human history in which human beings attempt to live without religion. In its present form, is not feminism becoming one?” (KRISTEVA, 1979, p. 200).
[3] Cf. A Room of One’s Own (1929) e Three Guineas (1938).
[4] Far From the Madding Crowd (1874).
[5] Publicada postumamente como um ensaio em Death of the Moth and Other Essays (1942).
[6] “Simply, you reply, that we, daughters of educated men, are between the devil and the deep sea. Behind us lies the patriarchal system; the private house, with its nullity, its immorality, its hypocrisy, its servility. Before us lies the public world, the professional system, with its possessiveness, its jealousy, its pugnacity, its greed” (WOOLF, 1938, p. 90).
[7] “There was that being-of-a-thousand-beings called Shakespeare. I lived all the characters of his worlds: because they are always either alive or dead, because life and death are not separated by any pretense, because all is stunningly joined to nothing, affirmation to no, because, from one to the next, there is only one kiss, one phrase of bliss or tragedy, because every place is either abyss or summit, with nothing flat, soft, temperate. There man turns into woman, woman into man – a slaveless world: there are villains, powers of death. All the living are great, more than human” (CIXOUS, 1974b, p. 98).
“For though we say that we know nothing about Shakespeare’s state of mind, even as we say that, we are saying something about Shakespeare’s state of mind. The reason perhaps that we know so little about Shakespeare […] is that his grudges and spites and antipathies are hidden from us. (…) All desire to protest, to preach, to proclaim an injury, to pay off a score, to make the world the witness of some hardship and grievance was fired out of him and consumed. Therefore, his poetry flows from him free, unimpeded. If ever a human being got his work expressed completely, it was Shakespeare. If ever a mind was incandescent, unimpeded, (…) it was Shakespeare’s mind” (WOOLF, 1938, p. 63).
[8] Cf. CIXOUS, 1974a, p. 28.
[9] Do inglês it: o lugar se inventa, se sonha.
[10] Neutro é uma palavra de interessante uso. Poderíamos dizer que os sexos, os gêneros e as nacionalidades, como tudo mais, se neutralizam na escrita da diferença, já que não existe um olhar sobre o outro, mas entreolhares, apenas outros. A escrita não é neutra porque não é indiferente a tais olhares, mas afirma a possibilidade de todos. Cixous tem um livro intitulado Neutral (1972), um de seus primeiros grandes escritos, em que discute, em prosa, poesia, ensaios e crítica, que é “impossível pensar o um sem o outro e sem tanto o um quanto o outro: o apropriado aqui empalidece, o coração escurece” (1972, p. 8). Ou seja, a escrita é ao mesmo tempo um trabalho de neutralização e desneutralização. De neutralizar, anular, tornar imparcial, o acesso ao mundo da linguagem, e ao mesmo desneutralizar, afirmar, a diferença.
[11] Em seu ensaio “The Apple in the Dark: The Temptation of Understanding”, de sua coletânea sobre suas leituras das obras de Lispector, Reading with Clarice Lispector (1990), ela diz: “Clarice does not lose herself in the silliness of sublimation. She stays where love stories take place, near the body and the unconscious. Two beings never reach each other in the way of Tristan and Isolde. In Clarice, protagonists burn themselves while en route; they fall down and do all the kinds of things that signify: I do not want to. The more one wants, the more one does not want to. That is what Clarice signals. Otherwise, there would be neither love nor desire” (p. 81-82).
[12] Para uma discussão sobre matrilinearismo, conferir Stabat Matter, de Julia Kristeva (1986).
Bio fornecida pelo palestrante.
Marta Francisco de Oliveira
Universidade do Estado de São Paulo/Assis –
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Resumo: Este artigo traz à cena a obra de uma escritora essencial da literatura brasileira, Clarice Lispector, considerando como seu fazer literário desenvolve uma poética da percepção empregada em outros sistemas semióticos, com destaque para a linguagem cinematográfica. De fato, ler os textos clariceanos é um convite à análise da produção literária de uma mulher que, ousando romper com padrões tradicionais de gênero e escritura, soube inscrever seu nome entre os grandes escritores brasileiros, numa época em que este ainda era um espaço predominantemente masculino, sem dever nada aos considerados ‘grandes mestres’. Sua escritura, textos em prosa repletos de imagens poéticas, exige uma postura participativa dos leitores em uma abordagem de leitura de aproximação dos textos clariceanos com as técnicas empregadas em outros sistemas semióticos, resultando em belas ‘pinturas com palavras’.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura, mulher, Clarice Lispector, cinema.
Resúmen: Este trabajo pone de relieve la obra de una esencial escritora de la literatura brasileña, Clarice Lispector, buscando comprender como su creación literaria desarrolla una poética de la percepción empleada en otros sistemas semióticos, destacándose el lenguaje cinematográfico. De hecho, leer los textos de esa escritora es una invitación al análisis de la producción literaria de una mujer que se atrevió a romper los patrones tradicionales de género y escritura, subscribiendo su nombre entre los más grandes escritores brasileños aún cuando la escritura era comprendida como un territorio dominado por hombres, haciéndolo con la misma calidad que los llamados ‘grandes maestros’. Su escritura, prosa narrativa llena de imágenes poéticas, exige de los lectores su participación y un abordaje de lectura que pueda acercar sus textos a las técnicas empleadas en otros sistemas semióticos, resultando en hermosas ‘pinturas con palabras’.
PALABRAS-CLAVES: Literatura, mujer, Clarice Lispector, cine.
Minicurrículo: Marta Francisco de Oliveira é professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, atuando no curso de Letras do campus de Coxim, nas áreas de literatura, teoria literária e língua espanhola. É autora do livro: “Que quer dizer cultura? Uma leitura de A hora da estrela, de Clarice Lispector”, publicado em 2014 pela Editora UFMS. Atualmente é doutoranda em Letras, área de concentração Estudos Literários na Unesp/Assis, onde pesquisa a obra de Clarice Lispector. Possui mestrado em Estudos Literários pela UFMS/CPTL, e teve sua dissertação publicada. Possui especialização em Língua, Literatura e Cultura Espanhola e o título de Experto em Língua e Literatura Espanhola, outorgados pela Agencia Española de Cooperación Internacional, órgão vinculado ao Ministério de Educação e Cultura da Espanha.
POÉTICAS INTERSEMIÓTICAS: UM OLHAR CLARICEANO
NA RELAÇÃO LITERATURA E CINEMA
Marta Francisco de Oliveira
Universidade do Estado de São Paulo/Assis –
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
A obra e o fazer ficcional de Clarice Lispector colocam em primeiro plano o feliz resultado do trabalho literário de uma mulher que rompeu padrões estéticos tradicionais e inscreveu seu nome entre os grandes escritores da Literatura Brasileira, angariando também destaque e reconhecimentos internacionais. Ao procurar estabelecer um diálogo entre o fazer ficcional literário de Clarice e as relações intersemióticas que se apresentam em outras artes, com destaque para o cinema, este artigo atualiza a leitura de obras produzidas entre as décadas de 1940 e 1970, destacando a modernidade da literatura de Clarice Lispector, bem como os aspectos inovadores que servem de inspiração para muitos escritores contemporâneos. Com vasta fortuna crítica, parece-nos válido destacar os comentários de críticos que fazem referência ao modo como a escritora se vale da linguagem para apresentar a seus leitores palavras com grande poder de evocar imagens, mas imagens incomuns, pouco usuais, distantes da ideia simples ou simplista de figuração, retrato ou paisagem. Mas em Clarice parece que repetidas vezes o leitor se posiciona diante de uma imagem, ora congelada como uma pintura, ora com leves movimentos que permitem perceber suas nuances.
O diálogo profícuo da literatura clariceana com a pintura já é bastante conhecido. Não obstante, a questão da imagem literária é mais complexa, pois extrapola os limites da inércia de uma imagem criada pela fotografia. Claro está, a imagem da pintura tem outro estatuto, bem como a fotografia moderna, tomada como arte. No entanto, é válido recordar como Roland Barthes, em 1984, empenhou-se em analisar a evolução da imagem (da fotografia), a partir de sua apreensão, pois de certo modo fundou uma base para o estudo literário moderno da mesma. Através da captação da luz por meio das lentes da objetiva de uma câmara, o homem eterniza uma imagem que, espera, eternize o instante fugidio de sua apreensão. Assim, daquele ‘momento’ emoldurado, é possível proceder o tratamento da imagem e criar novas e modernas formas de se relacionar com sua captação. Nesta linha de raciocínio, portanto, um diálogo entre artes abarca também a arte cinematográfica, o emprego da imagem em movimento, aliada a todos os demais recursos que se podem apreender em uma tomada ou numa sequência, como os sons, o próprio movimento, rápido ou lento, e as variações da mesma imagem. E, considerando como a mídia explora cada vez mais e de variadas formas a imagem na atualidade, a crítica da argentina Beatriz Sarlo torna-se bastante relevante para pensarmos como uma cultura imagética vem sendo desenvolvida desde a década de 1940 no Brasil, estendendo-se para além da década de 1970, período de plena produção literária da escritora ucraniana naturalizada brasileira. Sarlo (1997) analisa como a vida ‘pós-moderna’ se constrói através da criação e veiculação de imagens que promovem tipos e comportamentos individuais e coletivos, muitas vezes ilusórios, mas pautados na estimulação dos desejos. ‘Pisando no momento atual’, para empregar uma expressão bem clariceana, qualquer pessoa, munida de um dispositivo eletrônico, como um celular, e da internet, pode se converter em autor de imagens e cenas que em questão de minutos serão visualizadas, repetidas, comentadas e compartilhadas por milhões de pessoas ao redor do globo.
Portanto, no âmbito da literatura, a imagem é também um recurso valioso e amplamente empregado. Em contraste com outros sistemas semióticos, a arte literária exige maior abstração e participação intelectual e emocional do que a maioria das outras manifestações artísticas, fato que a coloca em risco de perder leitores mais atentos, posto que a atenção de muitos destes agora se volta para outras formas de fruição artística com maior apelo visual, sonoro, interativo. Entretanto, o que Clarice Lispector propunha já nos anos 1940 era uma leitura mais dinâmica, a um só tempo poética e plástica de palavras em um texto desenhado sobre o papel, uma narrativa na qual o olhar atua em suas múltiplas funções de percepção de sentidos, texturas, sensações, cores e lentos e complexos movimentos de linhas e curvas ao perambular por entre palavras que se revestem de poder evocativo de grande intensidade. Seu texto é uma matéria em metamorfose, uma proposta de ruptura que escapa às ideias mais ou menos definidoras de arte, literatura, gênero.
Ana Cristina de Rezende Chiara, na apresentação da nona edição de O lustre, em 1995, pela Francisco Alves Editora, menciona que “ler Clarice… significa deixar-se guiar, pela maestria da mão que escreve, num mundo de estranha beleza e cruel realismo” (CHIARA, 1995, p. 1). A obra aqui destacada foi publicada em 1946, sendo o segundo romance da escritora, e é considerada, por muitos críticos, um momento de continuidade e ruptura de um percurso circular da autora, rompendo com a apresentação de personagens com fortes características individuais, ao mesmo tempo em que dá continuidade a um projeto de enfoque no sujeito, conforme aponta Regina Pontieri (2001). Assim, O lustre é uma continuidade do projeto literário clariceano iniciado com Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, de 1943, mas é também uma ruptura com o que Clarice desenvolverá depois. Apesar de certo silêncio da crítica sobre a obra na época de seu lançamento, principalmente depois de aclamar o primeiro romance, O lustre é uma peça importante na trajetória literária de Clarice Lispector, exigindo um olhar mais atento. É um convite a um passeio pelo campo da ficção que permite desfrutar da ‘estranha beleza’ que se desvenda aos olhos do leitor.
De fato, Regina Pontieri busca dar maior destaque ao papel do olhar na ficção clariceana. A plasticidade que se faz presente no texto é o ponto de conexão entre a literatura e outros sistemas semióticos, promovendo uma experiência estética que podemos aproximar do cinema. O olhar exerce protagonismo, embora muitas vezes deslocado, hora colado à personagem, portanto interno, hora exteriorizado porque adere à voz narrativa; mas seguir a leitura das palavras é evocar mentalmente as imagens criadas e captar a perspectiva e a percepção do olho por trás da ‘objetiva’. Tanto em cenas estáticas, como as descrições de objetos, como naquelas que transcorrem como sucessão lenta ou abrupta de quadros, a técnica empregada confere ao leitor (ou dele exige) a cumplicidade compartilhada com o espectador.
Mas o olhar desperta a sensação. A estreita relação entre essas percepções pode explicar nosso interesse na imagem e como esta alcançou o protagonismo que tem nas sociedades atuais, na maioria das quais já não basta ver as imagens filmadas por outros, mas fazer-se autor de algo que muitos outros também poderão acessar. Está em voga a possibilidade de produzir, que não suprime a necessidade e a curiosidade de ver as produções feitas por outros. Por isso é relevante analisar como as obras de Clarice Lispector se aproximam da linguagem empregada no cinema, principalmente quando nos remetemos a um contexto de escrita dos anos de 1940 e 1950, que abarca tanto o Brasil como países estrangeiros, uma vez que Clarice esteve dezesseis anos fora do Brasil, entre a Europa e os Estados Unidos.
Avellar (2007), ao aproximar as linguagens literária e cinematográfica, destaca que para fazer poesia seria conveniente passar – passear, vaguear, diria eu – os olhos pelo cinema; sem querer contestar a afirmação, relevante para as considerações do estudioso, neste artigo preferimos destacar o oposto, sem dúvida mais profícuo para o cinema, pois este só tem a lucrar e se engrandecer com a leitura da literatura, seja para fazer adaptações ou não. Questões clássicas relacionadas às duas artes não parecem pertinentes neste momento, pois não tratamos de adaptação ou fidelidade, termos caros ao processo de transição de uma linguagem para outra. Nosso interesse se concentra em analisar como Clarice consegue estabelecer uma relação intersemiótica no texto, de tal modo que possa ser compreendida pelo leitor. Sem o auxílio da câmera literal, do objeto que captura a imagem em movimento, o texto em si apresenta o vaguear do olhar conforme a obsessão cinematográfica de acompanhamento da cena: a objetiva é o próprio olhar que, ao passar pelas linhas do texto escrito, projeta a imagem em sequência na mente: a imagem é mental, mas nem por isso sem a ilusão de real e de proximidade que o cinema conseguiu criar e desenvolver, ainda mais se nos referimos ao que chamam de ‘experiência’ 3D nas salas de projeção cinematográfica.
Para além das influências cinematográficas perceptíveis em seu texto literário, empregados também em obras como A cidade sitiada e A maçã no escuro, a escritora demonstrou como o cinema passou a ter um papel de protagonista nas grandes cidades quando o coloca em evidência na novela A hora da estrela. Nesta obra de 1977 é o local em si, no espaço físico em que o público se posta diante da grande tela que a personagem miserável Macabéa sente uma espécie de conexão com o mundo e tem certa noção do outro como possível exemplo para si mesma. A jovem alagoana frequenta ‘cinemas poeira’ e se conecta com as atrizes Greta Garbo e Marilyn Monroe, numa menção explícita ao cinema hollywoodiano e sua propagação pelo mundo, em um processo que não manteve imunes nem mesmo as classes mais baixas da sociedade. O acesso à sala escura era um luxo permitido às vezes até mesmo para alguém que passava fome. No entanto, a fome cultural nascida e desenvolvida sob a égide da sétima arte também precisava ser saciada, talvez até com mais urgência do que a fome física, literal. E o desejo, criado e nutrido via filmes com as estrelas internacionais, era justamente o de ser Marilyn, pois a ‘altiva Greta Garbo’ parecia muito distante para Macabéa, sempre humilde e subserviente. Ainda assim, o mundo dos sonhos de Hollywood parecia ser real, e diante do espelho do escritório talvez seu rosto se metamorfoseasse para deixar de refletir aquele rosto magro e cheio de manchas brancas, os ‘panos’, marca de saúde fragilizada da subnutrida nordestina.
Em contrapartida a essa menção explícita ao cinema, nas obras do período até 1960 a aproximação se dá pelos modos de produção artística. O que queremos destacar é o que Pontieri chama de uma poética do olhar, que é perpassada pela ideia de Tadié (1994) de um relato poético, porque se constrói como narrativa subjetiva, poetizada e reveladora da capacidade do texto literário clariceano de captação de vários elementos sonoros, visuais, sensoriais, fazendo-os conviverem na mesma cena, propiciando a fruição que o cinema conseguiu conferir de modo mais pleno ao espectador, como uma exigência a mais ao leitor para o uso do suporte da imagem mental.
Se a ação da câmera poupa a abstração, o esforço imaginativo de criação mental dos objetos, paisagens e conceitos, apresentando-os como dados factuais da realidade ficcional, também restringe a percepção, embora as imagens mantenham uma importante e vasta carga de informações sugeridas. Mas por vezes a restrição é essencial, sobretudo no que se refere à Clarice Lispector. Alguns estudiosos nos auxiliam a pensar em como as artes se relacionam, e é possível fazer o exercício de aproximação das linguagens literária e cinematográfica de modo a chegar à conclusão de que há pouca diferença entre as imagens conceituais que a linguagem verbal evoca e os conceitos provocados pela imagem não verbal. Aliado a isso, ambas se baseiam em uma forma de narratividade, sobretudo o cinema, no qual esta se converte em traço hegemônico. Na contramão, talvez a procura da ausência da narratividade convencional seja perceptível na ficção clariceana, como se esta priorizasse a imagem em seu lento desfilar diante dos olhos, sem ações, apenas insinuando os contornos, as cores, as formas e suas implicações, como se tentasse eliminar o suporte narrativo para trazer para o primeiro plano o suporte descritivo mas estanque, como quadros sem o fio condutor na narração que os conecta uns aos outros; todavia, o ponto de contato reside no destinatário, projetado em sua mente e em seu imaginário.
Para exemplificar o exposto acima com a ficção da autora, tomemos O Lustre, obra de 1946, iniciada no Brasil e concluída na Europa. O título já remete a um objeto de descrição bastante complexa, que por sua vez tem seu uso diretamente ligado à luz, essencial para a imagem em sua nitidez. A capacidade de ver está a ele intrinsecamente relacionada, e é crucial a observação do lustre na sala da casa de Granja Quieta, território da infância de Virgínia, para a compreensão da personagem. Uma descrição lenta e detalhada é preterida em favor de uma condensada, restrita à metáfora, ao campo conceitual que a relaciona ao aracnídeo cheio de olhos, remetendo ao episódio da caixa de aranhas de Daniel, o irmão de Virgínia, responsável por seu olhar estrábico, ‘vesgo’. É essa descrição que permite o vaguear dos olhos e a percepção de como aquele objeto posicionado no centro da sala é revelador, cena que funcionaria bastante bem numa filmagem cinematográfica, guiando as lentes da câmera: não mera imagem estática, mas em movimento para abarcar o todo, os detalhes, aproximando-se, distanciando-se. Assemelhando-se a uma pintura, independente, capaz de evocações que tocam diretamente os reinos incomunicáveis do espírito, a linguagem desejada pela autora tenta transformar sonhos, sensações e evocações em pensamento, comunicar sensações tão particulares, individuais, a ponto de existirem por conta própria.
Porém, é recurso da linguagem trabalhada pela autora a busca de apoio em elementos que a fazem criar imagens sugestivas. Como resultado, em O lustre a descrição da escada, da sala vazia e do próprio objeto ‘lustre’ reveste-se de uma beleza plástica, pictórica, captada através do jogo de luz, sombras, cores e movimento do olhar se dirigindo àquilo que o momento de apreensão deve capturar:
Os degraus subindo sinuosos alcançavam uma graça firme tão leve que Virgínia perdia a sua percepção quase ao possuí-la e interrompia-se à sua frente vendo apenas madeira empoeirada e veludo encarnado, degrau, degrau, ângulos secos. Sem saber por quê, detinha-se no entanto, abanando os braços nus e finos; ela vivia à margem das coisas. A sala. A sala cheia de pontos neutros. O cheiro de casa vazia. Mas o lustre! Havia o lustre. A grande aranha escandecia. Olhava-o imóvel, inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo. Uma vez! Uma vez a um relance – o lustre se espargia em crisântemos e alegria. Outra vez – enquanto ela corria atravessando a sala – ele era uma casta semente. O lustre. Saía pulando sem olhar para trás (LISPECTOR, 1995, p.14,15).
Observando as considerações mais específicas sobre a relação cinema/literatura, podemos olhar o texto clariceano com base nos conceitos e técnicas de montagem que deslocam o olhar do diretor e da câmara como algo externo para dar lugar à percepção que o próprio personagem possa ter do mundo ficcional, o que faz com que o narrador desapareça. No texto, essa informação é apresentada de modo complexo, pois há uma voz aparentemente em terceira pessoa que se confunde com a da personagem. A sequência de frases é como uma montagem, por vezes em aparente desconexão entre o que se apresentaria como sendo a lógica da narrativa e a cena descrita. Porém, com o uso de técnicas de montagem cinematográfica, as peças desconexas poderiam, não encontrar seu elo de ligação, que certamente existem, mas demonstrar como a imagem e a percepção (da personagem e do leitor/espectador) se aliam: “degrau, degrau, ângulos secos”; “ela vivia à margem das coisas”; a sala cheia de pontos neutros”; “a grande aranha escandecia”.
Há uma espécie de ‘montagem’ operada com a sucessão rítmica das imagens, congregando outros recursos que fornecem a percepção geral dos elementos narrados, mas sempre direcionados por um olhar a um só tempo interno e externo. Além disso, é muito emblemático que a própria protagonista tenha um certo defeito no olhar, pois em Clarice Lispector o olhar se converte em elemento essencial para sua estética. No texto da escritora brasileira, o exercício da leitura é realizado a partir do vaguear dos olhos pelas cenas que se desenvolvem – mas não se desenvolvem em ações –, para delas extrair uma interpretação. A autora, sem dúvida, se destaca ao criar as imagens que farão a ponte entre mundo real e mundo ficcional invocado na imaginação leitora, numa forma própria de uso da estética cinematográfica e ao tudo-imagem, tomando uma expressão de Barthes (1984), que esta propicia. O olhar do leitor, então, também foge ao convencional, pois de outro modo a primeira impressão de estranheza do texto literário não permitiria a apreciação de todas as suas nuances. A forma de olhar deve, portanto, assemelhar-se ao olho de Virgínia, após espiar a caixa de aranhas de Daniel, em mais um dos jogos cruéis de seu irmão, quando ameaçava com a abertura da caixa a qualquer desobediência de sua parte. Uma primeira vez Virgínia espiou a caixinha, entretanto “recusou enojada. Mas terminou colando um olho no buraco da caixinha e nada vendo senão movimentos vagarosos na escuridão.” (LISPECTOR, 1995, p. 37). Somente depois de mencionar que um dia a caixa afogou-se na água da chuva que invadiu o esconderijo e Daniel decidiu se desfazer de suas aranhas, o narrador nos informa que
(…) o olho com que ela espiara as aranhas doía. Durante dias lacrimejara torto, caído e de manhã ela não podia abri-lo até que o calor do sol e de seus próprios movimentos acordava-o. Inchou depois, insensível e sem sangue. Quando tudo passou, já não era o mesmo, tornara-se imperceptivelmente vesgo e menos vivo, mais lento e úmido, mais amortecido que o outro. E se escondia com uma mão o olho são, via as coisas separadas dos lugares onde pousavam, soltas no espaço como numa assombração (LISPECTOR, 1995, p. 37, 38).
A partir de então, o modo como Virgínia vê o mundo é meio distorcido, levemente irreal, fantasmático, o que pressupõe uma nova experiência com o real e com sua representação, sugerida pela autora. O olhar, sempre requisitado, pode ser o dos personagens ou do próprio leitor, não importa; importa acompanhar o vaguear dos olhos da voz narradora, que não narrará os quadros vistos como se os representasse tal como são, mas conforme se descortinam diante de sua subjetividade, prenunciando experiências mais radicais com o real que, no contexto de 1940, ainda estavam por vir, tanto no campo literário como nas experimentações do cinema.
Quanto à obra A cidade sitiada, ainda o olhar se destaca, trazendo o cenário para o primeiro plano, pleno de imagens e exíguo de ações (enquanto acontecimento e sucessão de fatos, ações, cenas). A maçã no escuro, obra iniciada em 1952 e terminada em 1956, apresenta um protagonista masculino que se encontra na impossibilidade de dominar a realidade circundante, e é a ela submetido através do exercício de sua reconstrução, uma reconstrução da realidade que acarreta uma relação com o espaço no qual se desenvolve. Aliado à vontade de se desvencilhar do passado, do mundo anterior, para Martim era também necessário buscar refúgio e paz, e essa busca prossegue até o fim da narrativa, mesmo que seja uma busca não exterior, mas interna e em si mesmo:
Mas para encontrar essa paz, teria que esquecer os outros. Para encontrar esse refúgio, teria que ser ele mesmo: aquele ele mesmo que nada tem a ver com ninguém. Mas tenho direito a isso!, reivindicou cansado, que diabo! Que tenho a ver com os outros! Há um lugar onde, antes da ordem e antes do nome, eu sou! E quem sabe se esse é o verdadeiro lugar-comum que saí para encontrar? Esse lugar que é nossa terra comum e solitária, e aí é apenas como cegos que nos apalpamos – mas não é só isso o que queremos? Eu te aceito, lugar de horror onde os gatos miam contentes, onde os anjos tem espaço para na noite bater asas de beleza, onde entranhas de mulher são o futuro filho e onde Deus impera na grave desordem da qual somos os felizes filhos (LISPECTOR, 1998, p. 319, 320).
As considerações da voz narrativa deixam entrever outro ponto de contato da narrativa literária com a fílmica, na qual a intertextualidade é bastante aplicável, numa sucessão de citações quase infinitas em suas possibilidades, alimentando-se da própria arte, incorporando outras formas artísticas e gerando uma multiplicidade de significados. Incorporar habilmente os elementos de outras linguagens artísticas permite compor mais ou menos sutilmente os caracteres que se desejam apresentar aos espectadores. A narratividade é recurso inesgotável da cinematografia, e neste ponto está em conexão com a literatura, seja em prosa ou em verso, mas que também se utiliza deste recurso. Não se negam as grandes diferenças entre a página escrita e a tela do cinema, entre a percepção descrita em palavras e aquela feita através de imagens em movimento ou mais ou menos estáticas. Mas em ambos os casos o imaginário é acionado, quase sempre acompanhado de sentimentos, de sensações, o que era tão caro a Clarice Lispector. Hoje em dia, as mídias se alimentam incessantemente de todas as variadas formas artística e da intertextualidade, tornando corriqueiro o fluxo entre as artes, apesar dos sistemas semióticos serem distintos. Porém, ambas tocam o público e seus recursos se assemelham ora em modo ora em resultado. Por isso, parece acertado analisar e aprofundar a questão dos modos de fazer que remetem à busca do tudo do cinema – para além da imagem – no que chamamos de captura do olhar ou uma poética intersemiótica na obra de Clarice Lispector.
Devido ao fato de que a escritora antecipava, em sua ficção, elementos que mais tarde se converteriam em cenas cotidianas da vida nas sociedades ocidentais, a leitura de sua obra contém uma chave de leitura para a percepção do processo de valorização da imagem e seu deslocamento para a própria constituição da contemporaneidade. A relação intersemiótica entre duas linguagens com tanta penetração na vida diária do homem ocidental – e mesmo oriental, funda as bases essenciais para a compreensão da vida social, bem como para qualquer análise atualizada da configuração das sociedades humanas. Projeto árduo e ambicioso, sem dúvida, para os estudiosos da obra de uma autora que se contentava em olhar poeticamente para o mundo aparente das imagens, para daí extrair a percepção do invisível.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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LISPECTOR, Clarice. O Lustre. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
LISPECTOR, Clarice. A cidade sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Francisco Alves,1993.
PONTIERI, Regina . Clarice Lispector – uma poética do olhar. Cotia: Ateliê Editorial, 2001.
SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e vídeo-cultura na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.
TADIÉ, Jean-Yves. Le récit poétique. Paris: Gallimard, 1994.
Bio fornecida pelo palestrante.
Ana Beatriz Affonso Penna
Universidade Federal Fluminense
RESUMO: O presente artigo intenta contribuir com os estudos de poesia contemporânea através da perspectiva de gênero pela leitura e análise das obras de Adília Lopes e Sylvia Plath, investigando a escrita lírica enquanto um jogo de significação contínuo que se faz em confrontação, apropriação e reconstrução com as forças intra- e extralinguísticas.
Palavras-chave: Adília Lopes; Sylvia Plath; poesia contemporânea; gênero.
ABSTRACT: The present paper intends to contribute to contemporary poetry studies by analyzing Adília Lopes’s and Sylvia Plath’s work with a gender perspective. In order to better understand the relationship between poetry and gender, this essay investigates poetry writing as a multi-layered practice that is continuously produced by appropriation, reconstruction and confrontation with intra and extra linguistics forces.
Key words: Adília Lopes; Sylvia Plath; contemporary poetry; gender
Minicurrículo: Ana Beatriz Affonso Penna é doutoranda em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense e professora credenciada do Programa de Formação de Professores do curso de Língua Inglesa da Universidade Federal do Amazonas. No momento sua pesquisa está destinada ao estudo da poesia portuguesa e inglesa contemporâneas, tendo como foco a problematização da relação entre poesia, cânone e gênero.
Adília Lopes e Sylvia Plath:
uma língua mutilada
Ana Beatriz Affonso Penna
Universidade Federal Fluminense
Poeta contemporânea que começa a publicar na metade da década de 1980, Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, é, como uma significativa parcela de poetas portugueses contemporaneíssimos, uma poeta da zona de cruzamento entre a esfera da tradição poética e a da realidade reificada, com suas referências à cultura pop, publicidade, seus cortes cinematográficos, linguagem radicalmente coloquial e/ou popular e motivos aparentemente banais. Todavia, chama-me atenção que em Adília o tratamento poético dos diferentes discursos que intersectam a linguagem social parece perpassar necessariamente pelo lugar de fala de mulher enquanto posição subjetiva, linguística e social em seu texto/corpo, sugerindo-me uma espécie de esforço ético tanto para questionar os “saberes discursivamente consignados”[1] da posição discursiva de mulher, conforme afirma Rosa Maria Martelo em seu artigo “Adília Lopes: ironista”, como também para experimentar as condições do discurso feminino no gênero lírico. Preocupação essa que parece irmanar-se com a de, confessadamente, uma de suas grandes influências poéticas: a poeta americana Sylvia Plath.[2]
Tal como Adília, Sylvia Plath ficou conhecida pelo seu investimento num aparente pacto biográfico, principalmente naquilo que concerne à aderência entre a imagem da autora mulher às suas personas poéticas. Seu suicídio em 1963 foi convertido por determinada crítica adepta ao biografismo em evento significador de toda sua obra poética, reatualizando o que em Plath era procedimento estético: a criação de personas literárias – agora vendida como selo de verdade. De igual maneira, vê-se em Adília a arquitetura de uma série de personas ou vários outros que, já na escolha da autora pelo uso de um pseudônimo, se manifestam. Esta configuração da poesia enquanto um corpo misto onde nele não se distinguem claramente as fronteiras entre estética e vida parece apontar para uma consciência de ambas as poetas sobre a não possível total coincidência entre autor e eu-lírico.
A percepção do eu-lírico enquanto um lugar necessariamente linguisticamente formulado dá-nos a impressão de expandir-se nas poetas para uma consciência do registro discursivo feminino também como construto: um construto densamente habitado por imagens e definições do “ser” mulher. No entanto, deve-se atentar que tal percepção do eu-lírico e do registro discursivo feminino enquanto artificio não é acompanhada de uma redentora liberdade criativa total, pois perceber-se enquanto prática discursiva leva também à consciência de que o discurso não se dá em um vazio, uma vez que todo ato discursivo é minunciosamente regulamentado dentro de uma comunidade discursiva. Um enunciado para significar precisa constituir-se a partir de possibilidades discursivas socialmente reconhecidas, ainda que seja para delas distanciar-se. Assim, dizer enquanto mulher em poesia implica pensar tanto em como expectativas e ideologias de produtores e consumidores desse gênero literário influenciam na determinação de formas verbais poéticas legítimas como em quem tem o direito de falar o que e de que maneira. E quando digo mulher logo gostaria de atentar para o entendimento de voz feminina enquanto uma expressão linguística semantizada por um sujeito não essencialmente definido, que possui as suas condições de discurso atravessadas por manifestações sociais, históricas e ideológicas (FOUCAULT, 2009), evitando-se assim qualquer compreensão que sugira propriedades imutáveis ao ser socialmente reconhecido como mulher. Para melhor fazer compreendida minha preocupação quanto à imutabilidade do feminino, detenho-me um pouco mais sobre a disputa pela não-essencialidade do gênero.
Nascido no início dos anos 70, o movimento teórico conhecido como écriture féminine notabilizou-se por sugerir uma analogia entre a existência de uma autora mulher e a produção de uma escrita inerentemente “feminina”. Entretanto, ainda que essa linha teórica tenha sido responsável por abordagens de relevante significância para os estudos literários e de gênero, a corrente de modo geral não pensa enquanto problema que uma abordagem que parte do princípio da essencialidade feminina só pode devolver aos estudos de gênero a consagração de uma já existente imagem social de mulher. Afinal, tendo em vista a diversidade de contextos econômicos, culturais e psicológicos nos quais a posição mulher se insere, o único denominador comum ao qual se poderia recorrer para ancorar a essencialidade dessa posição seria o discurso fisiológico. No entanto, uma visão exclusivamente biológica da existência do gênero não é suficiente para descrever o processo de criação da mulher como categoria social, conforme já alertava a existencialista Simone de Beauvoir: “Uma sociedade não é uma espécie: nela a espécie realiza-se como existência (…). Não é enquanto corpo, é enquanto corpos submetidos a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza” (BEAUVOIR, 1970, p. 56-57).
A proposta pelo “eterno feminino”, com uma dinâmica de funcionamento similar aos conceitos de “alma negra” e o “caráter judeu” (BEAUVOIR, 1970, p. 8), tem-se mostrado às mulheres uma armadilha que apenas pode oferecer-lhes o que elas já possuem como seu, uma vez que o discurso da essencialidade feminina pode servir ao reforço de estereótipos do tipo mulheres melhor cuidam dos outros, ou homens são viris e dominadores, perdendo-se assim um espaço valioso para a experimentação do gênero. Dessa maneira, procuro no conceito de categoria sexual de Monique Wittig um recurso alternativo para pensar a existência social e textual do gênero feminino.
Coleção dos ensaios de maior destaque da teórica feminista Monique Wittig, The Straight Mind and Other Essays (1992) constitui um marco para a questão lésbica e o feminismo materialista. Apesar de controverso em vários pontos de análise, o texto abre caminho para pensar a mulher enquanto categoria sexual. Por categoria sexual, Wittig entende um grupo com interesses que diferem de outros grupos no interior da sociedade devido à posição que ocupam dentro de um regime produtivo de heterossexualidade pautado na reprodução. Aproximando-se do conceito de classe marxista, Wittig afirma que a ideologia de diferenciação sexual não está no terreno do biológico, mas sim do sócio-histórico, uma vez que é a opressão que cria o sexo e não o contrário (WITTIG, 1992, p.2). Segundo a autora, as características comuns que as mulheres partilham são resultado da repressão que sofrem enquanto categoria e não de uma essencialidade feminina, sendo importante para a teórica salientar a mulher enquanto um produto de relações sociais que gera uma formação imaginária (WITTING, 1992, p.14). Esta concepção da mulher como uma classe social e histórica que rompe com o ideário de “eterno feminino” significa para minha pesquisa um importante investimento teórico na formulação de uma hipótese acerca da voz lírica na poética de Adília Lopes e Sylvia Plath.
Passo então a compreender o registro discursivo feminino na obra literária de Lopes e Plath enquanto uma prática textual que envolve gestos de confrontação, apropriação e reconstrução com o sistema linguístico e suas forças sociais e subjetivas, ou seja, como uma prática que confronta a formação imaginária e social do feminino enquanto consequência de uma repressão estrutural comum, impactando e integrando assim o processo de escrita. Ainda a refletir nos modos de relação das forças sociais, subjetivas e do sistema linguístico na composição da linguagem poética, penso em como formalmente tais manifestações sociais do gênero organizam-se na lírica das poetas, assim como na maneira pela qual suas obras trabalham com as expectativas discursivas para o feminino. Ao explorar a criação de personas, a inserção de vozes dialogantes na tessitura do poema e os efeitos da marcação do gênero na escrita, seja pelo uso da desinência e suas flexões gramaticais ou pela escolha vocabular, Lopes e Plath deparam com a difícil tarefa de pensar e fazer o corpo textual feminino nas tensões de sua enunciação. Dessa forma, ouso postular que para Adília e Sylvia dizer um eu declaradamente feminino em poesia implica enfrentar os discursos corriqueiros das esferas sociais como também a tradição literária ocidental, tanto feminina como “neutra”[3], para, através das feridas abertas por esse confronto, encontrar uma forma outra de relocar sentidos que seja eticamente fiel à sua condição de um corpo que escolheu ser mulher em linguagem.
A fim de dar prosseguimento a essa análise, leio primeiro o terceiro poema do livro de Lopes A pão e água de colónia, de 1987, o qual pode nos servir como uma espécie de arte poética, onde Adília fala-nos de sua Musa e da relação sacrificial que esta lhe impõe. Transcrevo-o integralmente:
A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprender a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra (LOPES, 2014, 30).
O recurso que me salta à primeira leitura é o uso das repetições como dispositivo de sentido. “A minha Musa” do primeiro verso já no segundo, apesar de idêntica na repetição nominal, não mais possui o mesmo referente. Antes de cortar-lhe a língua, “a minha Musa” era outra coisa que não “a minha”, pois o gesto que realiza o pertencimento é o corte sacrificial. No entanto, ainda que o eu-lírico nos situe diante de duas Musas – uma minha pelo sacrifício e outra anterior ao pertencimento, a Musa não própria só existe textualmente enquanto “a minha”. Penso nos discursos prosaicos e nas vezes em que contei aos amigos, por exemplo, sobre o passado da minha cachorra antes dela ser minha. Minha ela aparece na fala, pois todo o seu passado não pertencido, após tornar-se parte minha, só pode ser lido através do seu pertencimento. Este pertencimento obviamente pode passar-se pelo viés autoritário da propriedade, em que a posse faz-se apenas em uma direção – apenas eu tenho a cachorra, ela não me tem – entretanto, há a possibilidade que ele faça-se pelo afeto, em que, da mesma forma que eu tenho a cachorra, a cachorra me tem, como acontece aos namorados, os quais, para que sejam nossos, precisamos ser deles. Dessa maneira, abre-se ao poema a possibilidade de ler a relação do eu-lírico com a Musa tanto como uma relação autoritária, em que apenas uma das partes detém a outra, ou como uma relação de afetos recíproca, em que ambas as partes se possuem. Opto por ler de maneira atravessada, pois percebo que uma relação de afetos, ainda que em certa medida possa ser reconhecidamente recíproca, possui graus de reciprocidade e relações de poder não balanceadas em seu interior. “A minha Musa é cruel” e para cantar, para que a Musa se realize enquanto “minha”, ela “custa uma língua”.
Para Roland Barthes, a língua, mesmo quando proferida “na mais profunda intimidade do sujeito” (BARTHES, 1997, p. 10), é um objeto em que se inscreve o poder, sendo, portanto, “sua expressão obrigatória” (BARTHES, 1997, p. 15). Assim, em vista da necessária condição da escrita enquanto código transfigurativo e constrangedor de uma determinada representação de real, para Barthes o sujeito que emerge da linguagem não poderia ser concebido enquanto uma pessoa/autor dado que não existe um sujeito para além da enunciação, para além do código (BARTHES, 1987, p. 58). No entanto, contra aquilo que a língua obriga a dizer, Barthes postula sua ideia de literatura enquanto lugar de trapaça, competindo a essa um deslocamento sobre o fascismo da língua (BARTHES, 1997, p.15) Nessa leitura, ao escritor apenas caberia “manter ao revés e contra tudo a força de uma deriva e espera” (BARTHES, 1997, p.16) no entrecruzamento do “imenso halo de implicações, de efeitos, de repercussões, de voltas, de rodeios, de redentes” que consiste a língua (BARTHES, 1997, p. 17). “Cantar”, portanto, seria nos termos do poema e de Barthes exigente de um desfazimento da língua pessoal. Porém, percebe-se no desfazimento do poema tons de crueldade, perversão e autoritarismo a fim de que “Musa” e “cantar” pertençam-se: o preço a se pagar na carne contém um misto de prazer e dor.
Não é a primeira vez que na poética de Adília recorre-se ao tema da proibição e transgressão moral, os quais são frequentemente relacionados à sexualidade. Basta lembrar de poemas como “Desobediência castigada” ou a segunda parte do livro O decote da dama de espadas, intitulada “As meninas exemplares”. A ideia de castigo é recorrentemente resgatada, associada aos contos infanto-juvenis ou à literatura historicamente reservada às mulheres, com o intuito de separar as más das boas meninas, ainda que muitas vezes haja no poema uma contestação desse julgamento. Esta contestação que se dá a priori como já malograda não deixa de conter uma forma de prazer masoquista que se excita com o castigo ou proibição destinados à transgressão e, posteriormente, com o malogro da contestação, o qual dimensiona uma ideia ainda maior de justeza para a transgressão. A falar de castigos, é sintomático que no poema analisado se pague com o corpo a transgressão, tendo em vista o significado do corpo para a questão da constituição de gênero e o problema da desigualdade, uma vez que se convencionou na lógica heterossexual binária ser o corpo a marca natural de gênero. Mas por que compactua o eu-lírico com o jogo perverso da Musa, por que entra ele no circuito masoquista de prazer?
Lembro-me de Sylvia Plath, mais especificamente do poema “The Courage of Shutting Up” de seu livro Ariel. Começo a pensar que a dobra perversa, pois desviante, que Lopes opera não lhe é exclusiva. Transcrevo o poema de Plath:
The courage of the shut mouth, in spite of artillery!
The line pink and quiet, a worm, basking.
There are black disks behind it, the disks of outrage,
And the outrage of a sky, the lined brain of it.
The disks revolve, they ask to be heard —
Loaded, as they are, with accounts of bastardies.
Bastardies, usages, desertions and doubleness,
The needle journeying in its groove,
Silver beast between two dark canyons,
A great surgeon, now a tattooist,
Tattooing over and over the same blue grievances,
The snakes, the babies, the tits
On mermaids and two-legged dreamgirls.
The surgeon is quiet, he does not speak.
He has seen too much death, his hands are full of it.
So the disks of the brain revolve, like the muzzles of cannon.
Then there is that antique billhook, the tongue,
Indefatigable, purple. Must it be cut out?
It has nine tails, it is dangerous.
And the noise it flays from the air, once it gets going!
No, the tongue, too, has been put by,
Hung up in the library with the engravings of Rangoon
And the fox heads, the otter heads, the heads of dead rabbits.
It is a marvelous object—
The things it has pierced in its time.
But how about the eyes, the eyes, the eyes?
Mirrors can kill and talk, they are terrible rooms
In which a torture goes on one can only watch.
The face that lived in this mirror is the face of a dead man.
Do not worry about the eyes—
They may be white and shy, they are no stool pigeons,
Their death rays folded like flags
Of a country no longer heard of,
An obstinate independency
Insolvent among the mountains (PLATH, 2007, p. 24).
Já na primeira leitura, percebem-se como abundantes são as imagens corporais relacionadas à violência no poema. A língua, “the line pink and quiet, a worm, basking”, encontra-se imobilizada. Foi cortada fora e agora, junto a prêmios de caça, está pendurada numa biblioteca, um espaço de institucionalização e desvitalização. Reprimida, busca outras vias. Ousa inscrever-se nas imagens de um corpo exibicionista e escandaloso, como o de uma celebridade hollywoodiana, sem, no entanto, esconder o que no fetiche da femme fatale é violência. A exuberância por vezes exagerada de suas imagens (“silverbeast”, “darkcanyons”, “foxheads” etc) corrobora para a construção de uma ideia disruptiva de beleza que partilha com a violência a noção de corte. A dor e a coerção de sua manifestação são pervertidas no prazer “Of a country no longer heard of,/Na obstinate independency / Insolvent among the mountains”. O silêncio, que tradicionalmente foi ligado a uma ideia de submissão, na escrita do poema revela-se uma prática resistente ao demonstrar que esse nunca foi ausência de expressão e que nele existe uma coragem. E é também sintomático que o título inicial “The Courage of Quietness” tenha sido mudado para “The Courage of Shutting Up”, agregando uma noção de agência e agressividade não existente no vocábulo “quietness”.
Volto ao poema de Adília: para o eu-lírico não existe outra Musa que lhe seja de conhecimento. Penso então na Musa enquanto o Simbólico e nas sucessivas teses sobre o locus da mulher nos modos de Simbolização através da linguagem. Em resposta a Lacan que declarou que “não há Simbolização para mulher enquanto sexo” (LACAN, 1996, p. 176)[4]e discutiu a possibilidade de um gozo para além da Simbolização, como também em resposta a Julia Kristeva, a qual estabeleceu o conceito de chora como uma estrutura pré-edipiana, portanto anterior ao patriarcado do Simbólico, Judith Butler postula a ideia do gênero feminino enquanto uma prática discursiva contínua, aberta a intervenções e ressignificações, que necessariamente precisa fazer-se no interior das relações de poder existentes, uma vez que:
Se a sexualidade é construída culturalmente no interior das relações de poder existentes, então a postulação de uma sexualidade normativa que esteja “antes”, “fora”, ou “além” do poder constitui uma impossibilidade cultural e um sonho politicamente impraticável (BUTLER, 2003, p. 55).
Assim, Butler sugere-nos que, sendo a sexualidade e poder coextensivos, não há a possibilidade de postulação de uma sexualidade subversiva ou emancipatória que possa estar livre da lei. A escrita que se volta contra o espaço masculino e hegemônico do Simbólico obrigatoriamente precisa operar seu deslocamento pelo seu interior, pelas suas arestas. Se para Adília a Musa cruel cobra na carne o preço que é uma língua, o canto impõe à Musa um deslocamento. Da mesma forma, em Plath, o eu-lírico encontra na violência contra um corpo seu lugar de expressão. A transgressão masoquista, ao permitir ao eu-lírico a visão simultânea de um sujeito e objeto, consegue perverter a lógica objetificadora da violência patriarcal ao encontrar um ponto de viragem em que o objeto, ao ver-se violentamente desejado, violentamente deseja. Assim, se a estratégia de corporização dos sujeitos para fins de exploração ou extermínio promoveu um colamento do corpo ao sujeito, garantindo um maior controle sobre populações minoritárias, hoje tal movimento de identificação é espaço de confluência para a articulação de uma luta que ancora na experiência corpórea, portanto na experiência política e histórica, a escrita de um tempo e sujeito.
Referências bibliográficas
BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. António Gonçalves. Lisboa, Edições 70, 1987. [Le Bruissement de la Langue, 1984].
BARTHES, Roland. Aula. 7ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Fatos e mitos (v. 1). 4ª ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
KRISTEVA, Julia. Revolution in Poetic Language. Trans. by Margaret Waller. New York: Columbia University Press, 1984.
LACAN, Jacques. On Feminine Sexuality, The Limits of Love and Knowledge, 1972-1973. The Seminar of Jacques Lacan XX, Encore. Tradução de Bruce Fink.New York: W. W. Norton, 1998.
LOPES, Adília. Dobra: poesia reunida. Lisboa, Assírio & Alvim, 2014.
MARTELO, Rosa Maria. Adília Lopes – ironista. SCRIPTA, Revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Cespuc, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, v. 8, nº 15, 2º semestre de 2004, p. 106 -116.
PLATH, Sylvia. Ariel. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo. São Paulo: Verus, 2007.
WITTIG, Monique. The Straight Mind and Other Essays. Boston: Beacon Press, 1992.
NOTAS AO TEXTO
[1] Expressão retirada do artigo “Adília Lopes: ironista” de Rosa Maria Martelo, publicado no oitavo volume da revista Scripta em 2004.
[2] Em 2004, a revista Relâmpago realizou um dossier em torno da pergunta “Como se faz um poema?” Entre os dezoito poetas que responderam a este inquérito encontrava-se Adília Lopes, a qual, ao abordar o processo de sua criação poética, também mencionou suas influencias literárias: “As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia [de Mello Brayner], Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler” (LOPES, 2004).
[3] E aqui lembro que o registro discursivo masculino enquanto regra só pode estar no lugar da não-marcação e o feminino enquanto diferença.
[4]Tradução minha: “There is no symbolization of woman’s sex as such” (LACAN, 1993, p. 176).
NOTAS AO TEXTO
[1] Expressão retirada do artigo “Adília Lopes: ironista” de Rosa Maria Martelo, publicado no oitavo volume da revista Scripta em 2004.
[1] Em 2004, a revista Relâmpago realizou um dossier em torno da pergunta “Como se faz um poema?” Entre os dezoito poetas que responderam a este inquérito encontrava-se Adília Lopes, a qual, ao abordar o processo de sua criação poética, também mencionou suas influencias literárias: “As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia [de Mello Brayner], Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler” (LOPES, 2004).
[1] E aqui lembro que o registro discursivo masculino enquanto regra só pode estar no lugar da não-marcação e o feminino enquanto diferença.
[1]Tradução minha: “There is no symbolization of woman’s sex as such” (LACAN, 1993, p. 176).
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 516 p.
Patricia Maria dos Santos Santana
UFRJ/CAPES
Minicurrículo da resenhadora: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas.
Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana contemporânea que se tornou bastante conhecida após a sua participação na música “Flawless” da cantora norte-americana Beyoncé. Escreveu obras como Hibisco roxo (2003), Meio sol amarelo (2007), mas Americanah (2013) destaca-se por toda inquietação e denúncia que a obra carrega. O romance de 516 páginas, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, tem como pano de fundo uma história de amor para desenvolver e debater assuntos polêmicos.
Nos anos 1990, os então jovens Obinze e Ifemelu vivem um caso de amor. Nesse tempo, a Nigéria passa por momentos difíceis devido ao duro governo militar que possui. Assim, Ifemelu precisa partir e deixar o namorado nigeriano do colegial para tentar viver uma vida digna em outro continente. As greves acadêmicas devido à ditadura militar colocavam em risco a formação universitária de jovens nigerianos e aqueles que conseguiam visto para estudar em outros países eram considerados pessoas de muita sorte. Ifemelu é uma dessas pessoas agraciadas com o visto norte-americano. A garota foi morar com sua tia e primo que já residiam na América e, depois do episódio de 11 de setembro, tornou-se impossível um reencontro para o jovem casal. O amor que construíram com base numa grande cumplicidade é consumido pela distância. Nos Estados Unidos, Ifemelu consegue se formar tornando-se uma mulher vitoriosa financeiramente. Mas ao longo do processo, tudo traz muito sofrimento à moça, um sofrimento relacionado à sua situação como imigrante e também ao fato de ser mulher e negra. O livro toca intimamente em questões universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero. As primeiras folhas da obra se encarregam em mostrar ao leitor a cultura americana pelo olhar do estrangeiro, ou seja, a árdua tarefa que o indivíduo que deixou seu país precisa passar ao entrar em contato com uma cultura diferente e agressiva, impregnada de racismo, velado ou não.
Ainda nos Estados Unidos, a personagem mostra o desejo de voltar definitivamente para seu país de origem, deixando incrédulos todos que tomavam conhecimento de sua vontade. Quando descobriam que nem mesmo oferta de emprego ela tinha na Nigéria, as pessoas ficavam ainda mais admiradas. Por que Ifemelu, que se tornara cidadã americana formada em comunicação e mestranda em Princeton, com uma vida promissora nos EUA, desejava morar num país africano paupérrimo e abandonar definitivamente a América? A impressão que temos ao longo da obra é a de que existe um tom autobiográfico e nostálgico na escrita de Adichie. A autora estudou Medicina na Universidade da Nigéria por um ano e meio. Com 19 anos, Adichie deixou a Nigéria e mudou-se para os Estados Unidos. Depois de estudar Comunicação e Ciência Política na Universidade de Drexel, na Filadélfia, ela foi transferida para Eastern Connecticut State University para morar mais perto de sua irmã, que tinha um consultório médico em Coventry. Recebeu diploma de bacharel de Leste, onde se formou summa cum laude em 2001. Em 2003, ela completou o mestrado em Escrita Criativa na Universidade Johns Hopkins. Em 2008, recebeu a titulação de Master of Arts em Estudos Africanos pela Universidade de Yale. Em 2008, Adichie foi premiada com a MacArthur Fellowship. Ela também foi premiada com uma bolsa nos anos de 2011 e 2012 pelo Instituto Radcliffe de Estudos Avançados da Universidade de Harvard. Hoje, a autora divide o seu tempo entre a Nigéria, onde ensina oficinas de escrita, e os Estados Unidos. Assim, Adichie aproveita o romance para mexer com questões pessoais, ressaltando a todo momento problemas de gênero e raça para discussões nas linhas da obra. São questões latentes que não conseguem se dissociar do ser. Antônio Pierucci salienta que a mulher negra carrega em um único corpo dois traços impossíveis de serem disfarçados ou apagados. Esta sobreposição raça/gênero traz dois pesos, representando: “dois processos diferentes, perfeitamente individuáveis em seus efeitos, mas irredutíveis um ao outro, cada qual com sua própria lógica, em constante tensão e contínua transformação, não raro se enfrentando em conflitos insolúveis apesar de entrelaçados para sempre” (PIERUCCI 1999, p.136).
O termo “americanah” é uma gíria usada por Ifemelu e seus amigos para se referirem aos nigerianos que voltavam de temporadas nos Estados Unidos. Esses que retornavam acabavam por forçar um sotaque para ostentar a viagem realizada e, assim, parecerem superiores, uma vez que representava status social viajar e passar um tempo em países como os EUA e a Inglaterra.
Ifemelu retorna à sua terra natal após quinze longos anos e encontra um país diferente a seus olhos. Também decide rever e retomar seu caso com o antigo amor de juventude. E se ela apresentava uma enorme vontade de se mudar de vez para a Nigéria quando ainda estava nos Estados Unidos, a situação muda bastante quando ela chega em sua antiga terra. Por dentro de Ifemelu parece existir curiosamente o impasse do não-lugar também em sua cidade natal. Ela que já tinha se deparado com o problema crucial de despertencimento, ou seja, de não-lugar nos Estados Unidos, ironicamente o sente também na Nigéria. Nos Estados Unidos, a moça não é vista ou aceita como uma cidadã americana e a repulsa da sociedade é mostrada com vigor no que tange à rejeição de imigrantes no seio social americano, principalmente no caso de imigrantes vindos de países pobres, não europeus. Em seu país, por conta de tanto tempo imersa na cultura americana, sua cidadezinha Lagos também causa estranheza e certa repulsa na personagem. É que o estrangeiro aos poucos se naturaliza e absorve, muitas vezes inconscientemente, os modos nativos do lugar onde está. Assim, Ifemelu vive uma eterna tentativa de achar-se no mundo. E talvez por causa disso o livro seja tão fascinante porque ele tem na mulher a sua principal figura. Virginia Woolf em Um teto todo seu relata esse eterno ‘sentir-se estrangeira em relação ao mundo’ pelas mulheres. Woolf diz que a presença das mulheres na literatura, nas artes em geral e nas ciências ocorre mais como tema e não como autora. Woolf conclui que todas as obras do espírito humano (as ciências, as artes, as leis) foram feitas pelos homens. Se a história humana é androcêntrica, cabe às mulheres mudá-la, seja como for e Adichie encontra seus meios particulares de enfrentamento.
O livro é bastante irônico e apresenta uma escrita fluida com muita crítica social. Parece ter sido escrito com o propósito de incomodar. Os personagens são frutos de uma história de preconceito possível de ser vista em muitos lugares. Ademais, a obra lança perguntas no ar: será que o estrangeiro pode mesmo retornar para casa? Será que existe uma casa para a qual ele realmente possa voltar?
REFERÊNCIAS
PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença. São Paulo: Ed. 34, 1999.
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.1
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA
RODRIGUES, Sérgio. O Drible. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 224 p.
Patricia Maria dos Santos Santana
UFRJ/CAPES
Minicurrículo da resenhadora: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas.
A paixão que o futebol desperta no brasileiro é imensa e foi a partir desse envolvimento que o escritor Sérgio Rodrigues decidiu escrever as linhas de seu último livro. Diz a sabedoria popular que o homem pode trocar de camisa, de profissão, de nacionalidade e até de mulher, mas não troca o seu time do coração. Nos mais remotos locais deste país, sempre há alguém que tenha uma bandeira, um escudo ou a camisa de seu time. Nas tardes de domingo, existem rádios sintonizados no jogo da vez, esperando por um grito de gol do locutor. O futebol é conhecido como “o esporte bretão”, pois, oficialmente, nasceu na Inglaterra, Londres, em 1863, quando representantes de dez clubes definiram suas regras e criaram a The Football Association, mas foi no Brasil que ele ganhou lar. Quando ouvimos que o futebol tem a cara do Brasil, consideramos o fato de que a prática do mencionado esporte, ao contrário da prática de outros esportes como o tênis, o golfe ou o ciclismo, não exige altos recursos, nem mesmo equipamentos caros ou áreas especiais para se jogar. Com duas pedras, dois tijolos ou um par de chinelos já se tem o espaço do gol formado. Os garotos brasileiros aprendem a jogar descalços no asfalto, na areia ou na terra batida.
O autor Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé, Minas Gerais, no ano de 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, crítico literário e jornalista, ele é autor também dos romances Elza, a garota (2009) e As sementes de Flowerville (2006). O Drible (2013) é o terceiro romance do autor. Foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras e tornou-se o grande vencedor do 12o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, o mais importante do país. No livro, Murilo Filho é um famoso cronista esportivo que, aos oitenta anos, descobre portar uma terrível doença e se vê à beira da morte. Ele rememora os acontecimentos da época de ouro do futebol enquanto tenta se reaproximar de seu único filho, Neto, com quem brigou e rompeu relações há mais de vinte anos. Toda semana, em pescarias dominicais, Murilo Filho procura preencher com interessantes histórias de craques do passado o enorme abismo que o separa do filho já cinquentão. Neto, por sua vez, é um medíocre revisor de livros de auto-ajuda obcecado pela cultura pop dos anos 1980, que leva uma vida sem graça colecionando quinquilharias e conquistando mulheres que trabalham no pequeno comércio perto de sua casa, situada no bairro carioca da Gávea. Desde os cinco anos, quando a mãe se suicidou, sente-se desprezado pelo pai famoso e o culpa pela morte precoce da genitora. O pai ganhou fama nos anos áureos do Jornal dos Sports, era celebridade da praia e da noite do Rio de Janeiro, foi companheiro de redação de Nelson Rodrigues e parceiro de Millôr nos jogos de praia. A tentativa de reconciliação de Murilo acaba sendo falha e, assim, Neto descobre um terrível segredo de família enterrado nos porões da ditadura militar.
Em O Drible, temos como núcleo do romance um problema familiar mal resolvido, um ajuste de contas do passado que o filho se encontra obrigado a fazer com o pai. O texto é construído através dessa tensa história entre pai e filho abrindo brechas para a magia futebolística na história de Peralvo, relembrado nas linhas do livro pelo narrador Murilo Filho como um jogador fenomenal que teria todas as habilidades possíveis para se tornar um ídolo maior e melhor que Pelé caso não morresse de forma precoce e trágica. O cronista esportivo vai recordar a sua própria trajetória e a carreira de Peralvo ao longo do livro: torcedor do América, Murilo Filho chega ao Rio em 1960 e vai trabalhar no Jornal dos Sports, comandado por Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que também escrevia no jornal. Peralvo é da mesma cidade de Murilo, Merequendu, e chega à cidade dois anos depois para jogar justamente no América. O garoto é craque e, com a ajuda das empolgadas reportagens de Murilo, rapidamente passa a ser comparado a Pelé.
A memorável cena do drible que Pelé deu no goleiro uruguaio Mazurkiewicz na semifinal da Copa de 1970 é utilizada por Sérgio Rodrigues para retomar antigas questões sentimentais. A citada cena é vista e revista por pai e filho num antigo aparelho de TV, para explicar décadas de um problema familiar. Desse jeito, a trama estabelece novos sentidos narrativos para a palavra “drible” no livro. Como menciona o antropólogo Roberto Da Matta no clássico ensaio intitulado “Futebol: ópio do povo ou drama de justiça social?”, o futebol pode ser tomado como uma metáfora da própria vida, por meio da qual “nossa sociedade fala, apresenta-se, revela-se, exibe-se, deixando-se descobrir” (1986, p. 105). De um acontecimento real, ou seja, de um drible dado em um jogo por Pelé, temos a oportunidade de ver o desenrolar de ideias e do próprio romance, concluindo o jogo de criação do autor. O livro coloca, de forma particular, o futebol como um dos personagens da história. Um personagem bastante decisivo.
O autor prova que é possível criar ficção lidando com os valores e com as tradições, com os absurdos e com as memórias, com a arte e com a imaginação que o futebol deposita em cada um dos brasileiros. Sua construção é feita através das pitadas do real (Pelé, Jornal dos Sports etc), do imaginário (Peralvo, o craque que nunca existiu, mas que seria maior que Pelé) e da história do Brasil (o regime militar) que se imbricam para formar o todo. Também podemos observar na obra uma crítica profunda à mídia, na análise de que o futebol brasileiro deve muito de sua evolução ao hábito do forjar, ou seja, na afirmação de que existe uma falta de veracidade ou uma mania de exagerar nos fatos sobre a realidade daquilo que acontecia em campo pelas narrações de futebol feitas no rádio. A proposta levantada se baseia, exatamente, no esforço que muitos jogadores tiveram de fazer para ficar à altura dos exageros que os radialistas diziam, corroborando a seguinte afirmação de Michel de Certeau: “algo na narração escapa à ordem daquilo que é suficiente ou necessário saber e, por seus traços, está subordinado ao estilo das táticas” (1994, p.154). Era, então, a tática da exaltação como estratégia de vitória além dos gramados, adentrando também nas locuções e nas redações futebolísticas.
Apesar de ser considerado o país do futebol, o tema é ainda raro na literatura brasileira e ler o livro significa mergulhar nos últimos quarenta anos da história do Brasil e da crônica esportiva. O Drible procura ressaltar, de um jeito todo seu, a nossa cultura.
REFERÊNCIAS
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano 1: as artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
DA MATTA, Roberto. “Futebol: ópio do povo ou drama de justiça social?”. In: DA MATTA. Explorações – ensaios de sociologia interpretativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
Bio fornecida pelo palestrante.
Vivian Leme Furlan
Universidade Federal de São Carlos
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos
RESUMO: Este artigo pretende fazer uma breve leitura do romance Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane, a partir de reflexões sobre o ex-cêntrico e subalterno, pela necessidade de se refletir, em meio as grandes contemplações poéticas da obra, sobre o ser (e estar) da mulher como sujeito na sociedade, especialmente quando a tradição foi potencializada pelas estruturas pós-coloniais. As considerações que tentaremos alcançar, embora se façam presentes no contexto problemático tratado no romance, superam os limites da poligamia na cultura africana, mas apresentam-se em diversos contextos e estratos sociais em que a mulher sofre subalternidade.
Palavras-chave: Mulher; Subalternidade; Tradição; Pós-colonial.
ABSTRACT: This article intends to read Paulina Chiziane’s novel Niketche: A Tale on Polygamy from an ex-centric and subordinate perspective, having in mind the importance of reflecting, among the novel’s great poetic contemplation, what it means to be a woman, as an individual, in society, especially in one where tradition was enhanced by post-colonial structures. Our considerations will try to go beyong the problematic context treated in the novel, to overcome the limits of polygamy in African culture, and to present conclusions in relation to different contexts and social strata in which women suffer subordination.
Keywords: Woman; Subordination; Tradition; Post-colonial society.
Minicurrículo: Miriam Leme Furlan é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFSCar (PPGlit), fomentada pela CAPES/ ProPG-UFSCar.
Minicurrículo: Jorge Vicente Valentim é professor do Departamento de Letras da UFSCar, Coordenador do PPGLit (Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura) / UFSCar, Coordenador do GELPA (Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos) / UFSCar e Bolsista Pós-Doutorado Sênior (CAPES/Universidade do Porto/2013).
A MULHER EX-CÊNTRICA E SUA SUBALTERNIDADE:
UMA LEITURA DE NIKETCHE
Vivian Leme Furlan
Universidade Federal de São Carlos
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos
INTRODUÇÃO:
A sociedade e também a cultura, de uma maneira geral, são presumidas em torno de um centro homogêneo e hegemônico (masculino, heterossexual, branco, ocidental), caracterizando tudo que está à parte disto como marginal. Neste sentido, a mulher pode ser considerada ex-cêntrica, subalterna (e o termo subalterno é aqui referido também pela perspectiva de pessoas e grupos que estão fora do poder desta estrutura hegemônica). Linda Hutcheon (1991, p. 96) define ainda como ex-cêntrico o “ficar na fronteira ou na margem, ficar dentro e apesar disto, fora”. Um (não) lugar que se assemelha muito ao que ocupam as mulheres de Niketche. No romance, temos a história de uma mulher moçambicana, Rami, e a descoberta da vida poligâmica de seu marido, Tony, depois de muitos anos de um casamento monogâmico e cristão. Rami, no começo da narrativa, demonstra uma proximidade muito grande com a ideia de família tradicional, no desejo de reconquistar o amor do marido. Entretanto, ao descobrir que Tony possui diversas amantes, Rami parte em busca dessas mulheres, e além da grande hipocrisia velada de seu marido, ela encontra não inimigas, mas mulheres como ela, de diferentes espaços, mas todas também vítimas de uma sociedade desigual, onde homens e mulheres não têm os mesmos direitos.
Assim como a teórica e crítica Gayatri Chakravorty Spivak (2010), faz-se necessário também o questionamento sobre a fala da mulher enquanto sujeito subalterno. É evidente que Paulina Chiziane, enquanto romancista e mulher, dá voz e cria um espaço à mulher africana, porém como fazê-lo diante do sujeito que é socialmente emudecido e como criar esse lugar que é incômodo? Os questionamentos de Spivak (2010) em Pode o subalterno falar? remetem justamente à preocupação em teorizar como intelectuais e críticos podem exprimir o sujeito subalterno, já que ele mesmo não pode ao menos ocupar uma categoria monolítica, pois esse sujeito é irredutivelmente heterogêneo. Spivak (2010) irá afirmar que, por ser o discurso do subalterno um discurso obliterado, e a mulher negra e pobre encontra-se em uma posição ainda mais periférica devido aos problemas inerentes ao gênero e as condições que enfrenta:
Pode o subalterno falar? O que a elite deve fazer para estar atenta a construção contínua do subalterno? A questão da mulher parece ser a mais problemática nesse contexto. Evidentemente, se você é pobre, negra e mulher, está envolvida de três maneiras (SPIVAK, 2010, p. 85).
As mulheres de Niketche, coexistemcomo vítimas de violência física e moral, em um ambiente em que a tradição foi potencializada pelo (pós) colonialismo em África. Mulheres afetadas por uma tradição impregnada no cotidiano. A mulher negra, aqui, é duplamente oprimida, pois sofre o peso de sua condição de gênero e racial, e também as consequências da exploração que a colonização gerou em seu país. O horizonte de luta e enfrentamento da mulher africana está calcado em um país onde “não há estrada, nem emprego, nem perspectivas. As pessoas nunca viram um carro nem luz eléctrica. O mais importante é procriar. Quanto mais filhos, melhor, morrem uns tantos, mas sobram outros para apoiar na velhice” (CHIZIANE, 2004, p. 313).
Tendo em vista que o pós-colonial é muito mais uma questão epistemológica do que cronológica, o contexto de Niketche supera os limites do período pós independência, pois é um romance retratado quase trinta anos após a independência do país, não obstante a subalternidade, principalmente a feminina, é ainda muito viva. O explorador já não é mais o estrangeiro. A tradição está incrustada no cotidiano africano. As caravelas do passado foram embora, mas ainda clamam-se mudanças:
No passado os homens deixaram-se vencer pelos invasores que impuseram culturas, religiões e sistemas a seu bel-prazer. Agora querem obrigar as mulheres a rectificar a fraqueza dos homens. No regime cristão, as mulheres são educadas para respeitar um só rei, um deus, um amor, uma família, por que é que vão exigir que aceitemos o que nem eles conseguem negar? Negar não é gritar: é olhar a lei, mudar a lei, desafiar a religião e introduzir mudanças (CHIZIANE, 2004, p. 93).
Os atuais estudos culturais e literários intentam por introduzir transformações através do desvelamento dos meandros dos padrões e pensamentos hegemônicos. Linda Hutcheon (1991) dirá ainda sobre a necessidade em refletir sobre aquilo que chama de ex-cêntrico, pois o pós-modernismo questiona esses sistemas centralizados, “totalizados, hierarquizados e fechados” (HUTCHEON, 1991, p. 65), contudo, não os destrói. Ora, essas questões se fazem presentes no contexto Moçambicano retratado em Niketche, principalmente no período posterior a independências das colônias, que como vemos, não significou uma ruptura total com os padrões repressores, gerando um esgotamento da antiga utopia de liberdade colonial, e, atrelado a isso, uma extrema dificuldade em se definir a identidade de um povo de tempo e culturas fronteiriças. Inocência Mata (2003), em seus estudos sobre o pós-colonial, ao dizer sobre esse processo de descolonização afirmará que:
Ora, sendo a descolonização um processo (e não um estado) essa reconstituição identitária não tem que pressupor uma ruptura com os discursos hegemônicos, mas um agenciamento das estratégias discursivas que visem contribuir cumulativamente para esse novo código (MATA, 2003, p. 55).
A proposta de Inocência Mata (2003) pode ser tratada, principalmente em romances de escritores como Paulina Chiziane, como ela mesma propõe, pelo “agenciamento tanto da catarse dos lugares coloniais como as tensões pós-coloniais” (MATA, 2003, p.59), onde, ao invés de haver a invenção de um lugar totalmente novo, a proposta que surge é de deslocamento radical dento de um mesmo lugar. Essas estratégias, novos códigos, poderão ser notados em Niketche, quando mulheres, partindo de um contexto de subalternidade, reagem positivamente através da união de forças. Além disso, esse aspecto é notado pela evolução das personagens femininas e pela maneira que Chiziane conduz a narrativa, indicando um percurso e também uma evolução, partindo de mesmo lugar que é o matrimônio confuso da poligamia velada por Tony. As ações de Rami, em ir à procura das amantes do seu marido, incentivá-las a autonomia, e ainda oficializar o matrimônio de Tony com todas elas, demonstram um diálogo entre o que já estava estabelecido (o hegemônico) e o que podia ser transformado. Ou seja, a hegemonia pode até permanecer, mas readaptada, agenciada por Rami, através das estratégias do texto.
Além disso, a poligamia, mesmo que signifique uma subordinação, é tida como solução para algumas mulheres que vivem em condições de extrema pobreza e, falta de esperanças, sem perspectiva nenhuma. Esse estado parece nítido na fala de algumas mulheres de Niketche: “E disse-me: eu sou pobre. Sem país, nem emprego, nem dinheiro, nem marido. Se não tivesse roubado o teu marido, não teria nem filhos, nem existência.” (CHIZIANE, 2004, p.66-67). Portanto, por mais subalternas que sejam, as situações do romance demonstram uma constante busca da vitalização da presença feminina, mesmo andando lado a lado com a tradição, uma procura igualmente constante e universal pela reconfiguração da identidade nacional no cenário histórico e cultural de Moçambique.
O romance pode ser lido por múltiplos olhares, ora pelo exemplo de união da força feminina, ora pela representação multicultural de representação da identidade da nação, mas também por um olhar totalizante dos gêneros pelo poder feminino. Linda Hutcheon, apoiada em Derrida, apontam uma perspectiva descentralizadora onde masculino e feminino não devem se opor, mas formarem “um pseudo todo que o pós-modernismo contesta por meio de sua valorização do ex-cêntrico e do envolvimento que dá à diferença” (DERRIDA, 1984,89apud HUTCHEON,1991, p.95). As mulheres de Niketche podem representar esta retórica pluralizante, pois no desfecho, mesmo dentro de um contexto totalmente desfavorável, ex-cêntricas, todas elas mostram-se capazes de se sobreporem ao homem e lutarem pela independência financeira e amorosa. Rami despertará o sentimento de poder andar ao lado do homem e não a sua sombra. Entretanto, este olhar pode muitas vezes ser interpretado como utópico, embora seja o caminho textual escolhido por Chiziane, talvez objetivando cumprir a tarefa de valorização feminina e criação deste “pseudo todo” dos gêneros. Em diversos momentos as personagens femininas demonstram isso, como em uma das falas de Rami:
Atravessaremos o mar com a nau dos nossos olhos porque saberemos navegar até ao além-mar e levaremos a mensagem de solidariedade e fraternidade às mulheres dos quatro cantos do mundo. Ensinaremos aos homens a beleza das coisas proibidas: o prazer do choro, o paladar das asas e patas de galinha, a beleza da paternidade, a magia do ritmo do pilão a moer o grão. Amanhã, o mundo será mais natural, e os nossos bebés, tanto meninas como rapazes, terão quatro a hora de nascer, as meninas serão também recebidas com cinco salvas de tambor, no tecto do lar paterno e na sombra da árvore dos seus antepassados. Marcharemos ao lado dos homens, como soldados fardados de suor e lama, na machamba, na mina, na fábrica, na construção, e levaremos um beijo de mel à boca de cada criança. Seremos mais ricas de pão e de paixão. Olharemos para os homens com amor verdadeiro e não para as cifras das notas de banco que pendem nos bolsos das calças. Ao lado dos nossos namorados, maridos e amantes, dançaremos de vitória em vitória no niketche da vida. Com as nossas impurezas menstruais, adubaremos o solo, onde germinará o arco-íris de perfume e flor” (CHIZIANE, 2004, p. 294).
As personagens femininas de Niketche, em muitos momentos deste processo de evolução apresentado pelo enredo, fazem um mesmo “percurso espiralar” (MATA, 2003, p. 50) que é proposto por Inocência Matano contexto da nação moçambicana e do movimento diacrônico dos sonhos da nação. A teórica suscita a ideia de que a nação, no percurso de descolonização, passa por momentos de utopia, distopia, atopia e heteropia, onde há primeiramente uma esperança e euforia frente ao projeto de liberdade colonial, seguindo de uma desilusão com o momento do pós-independência, caracterizado pelo desencantamento perante a não ruptura com as tradições coloniais, pelas muitas guerras civis pelo poder, e assim, emergindo para uma “amarga lucidez e angústia do desencontro com a história” (MATA, 2003,p.50). Para o sujeito subalterno, esse percurso suscitou em conflitos diversos, pois agora, além de conviver com as opressões a própria tradição impõe, o sujeito ex-cêntrico vive uma espécie de “descolonização colonizada”.
A independência esgotou o anterior filão e, em consequência, arrastou outras temáticas mais ajustadas às novas realidades. Os temas em voga são agora outros. O combate é muito diferente. A ameaça já não está no colonizador, na falta de afirmação de uma identidade nacional, mas na necessidade de criar uma nova utopia. Uma sociedade mais justa, baseada na igualdade de oportunidades e de direitos. A renúncia da corrupção tornou-se uma necessidade imperiosa e foi ganhando expressão crescente. (FRADE, 2007, p. 16).
O combate não está mais no colonizador, mas a ressonância da colonização continua forte no pós-independência. A religião também é reflexo disso. Rami está presa não a Tony, mas ao cristianismo como um todo, que sufoca ainda mais a mulher e o sujeito subalterno na sociedade. O cristianismo vibra como insígnia do colonialismo ainda presente:
A igreja e os sistemas gritaram heresias contra essas práticas [alongamento das genitais], para destruir um saber que nem eles tinham (…). Até a escola de ballet eu fiz – imaginem! Aprendi todas aquelas coisas das damas europeias, como cozinhar bolinhos de anjos, bordar, boas maneiras, tudo coisas da sala. Do quarto, nada! (…). Por que é que a igreja proibiu estas práticas tão vitais para a harmonia de um lar? (…). O colonizador é cego. Destrói o seu, assimila o alheio, sem enxergar o próprio umbigo (CHIZIANE, 2004, p. 44-45).
A mulher é silenciada por uma forte herança cristã, salientando ainda mais sua subalternidade enquanto sujeito. Mas este silenciamento tem raízes mais profundas que o cristianismo, pois a opressão feminina é realidade em diferentes contextos de subalternidade.
Chiziane, em uma entrevista diz: “Eu nasci no chão, eu venho do chão, então é o chão que eu conheço, mais nada, e é esse chão que eu vou escrever” (LEITE, 2012, p. 185), demonstrando a cumplicidade que tem com a escrita, e muito mais, demonstrando ser parte dela. É como se, para ela, escrever fosse algo natural, apenas um exercício de tradução do que seus olhos e seus pés passaram. A autora, agente intelectual e conhecedora da crítica pós-colonial, está longe de estar em uma posição de cumplicidade silenciadora, como a que ocorre com muitos intelectuais e é criticada por Spivak (2010). Segundo ela, a tarefa do intelectual pós-colonial é criar espaços para que o sujeito subalterno possa falar, e que quando o faça ele possa ser ouvido (SPIVAK, 2010, p. 85). Chiziane está bem próxima da tarefa de agenciadora entre falante e ouvinte, onde reproduz as experiências do sujeito subalterno que, segundo ela mesma, é fruto do chão que ela conhece.
Além do mais, Paulina Chiziane aproxima-se, com muita cumplicidade da voz feminina, e embora faça questão de se distanciar de um discurso feminista, possui um olhar agudo e sensível do lugar da mulher, que está muito longe da posição, muitas vezes impositiva e institucionalmente privilegiada do intelectual citado por Spivak (2010). Chiziane (2002) deixa muito claro o lugar que exerce na escrita, afirmando que:
Eu sou uma mulher e falo de mulheres, então eu sou feminista? é simplesmente conversa de mulher para mulher, não é para reivindicar nada, nem exigir direitos disto ou daquilo, porque as mulheres têm um mundo só delas e é isso que eu escrevi, e espero que isso não traga nenhum tipo de problemas, porque há ainda pessoas que não estão habituadas e não conseguem ver as coisas com isenção (Paulina Chiziane, Entrevista ao Maderazinco, 2002).
Niketche insere o leitor ao “mundo só delas” (CHIZIANE, 2002) através de uma linguagem muito peculiar, que é ao mesmo tempo oral e lírica, como se realmente fosse instaurada uma conversa entre mulheres, mas com espaços para adentrarmos ao universo íntimo dos pensamentos da mulher Rami. Transita-se, ao mesmo tempo, por uma certa indignação pela personagem que deseja e ama Tony, um homem infiel e grosseiro, e pela admiração que surge pela força advinda desta mesma personagem, que consegue reverter uma poligamia velada, enxergando a beleza de todas as “rivais”, evoluindo com e através delas, desagregando assim, muitos padrões sociais perturbadores e conceitos patriarcais que foram potencializados pela estrutura do período pós colonial.
Inocência Mata, grande reconhecedora dos meandros pós-coloniais em narrativas africanas e defensora da necessidade de uma “descolonização sobretudo téorica”, (MATA, 2014, p. 34), afirmará sobre a autora:
Paulina Chiziane trouxe para a ficção moçambicana uma visão feminina da realidade, melhor, uma visão dos meandros invisíveis, mas extremamente presentes no mundo tradicional que determinam a vida da mulher na sociedade tradicional (…). Paulina Chiziane nomeia o lugar incômodo da mulher em relação ao casamento, ao adultério, à poligamia, enfim, a condição feminina numa sociedade em que os limites da mulher estão traçados com as margens das proibições. De facto o que Paulina Chiziane diz fazer na sua obra é escrever “a realidade do seu mundo com todos os seus prazeres, mágoas, tristezas e frustrações (MATA, 2000, p. 136).
A grandiosidade e importância para a escrita feminina de Paulina Chiziane não está somente com o romance Niketche, mas também em seus outros romances, como em Balada de amor ao vento, pela sua maneira de escrever a realidade. Através da construção de personagens fortes, em sua maioria femininas, que transitam por temas problemáticos, Chiziane questiona a as relações marcadas pela tradição intensificada pela ideologia colonial .
Spivak (2010), ao abordar o espaço inquietante e silenciado da mulher no contexto pós-colonial, dirige um apelo final as mulheres intelectuais (como Paulina Chiziane por exemplo), pois afirmará que a elas cabem a tarefa de criarem espaços e condições de autorrepresentação e questionamentos, além de referenciarem o seu próprio lugar de enunciação e sua cumplicidade com esses questionamentos, como intelectual que são:
O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído a “mulher” como um item respeitoso nas listas das prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual, como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio (SPIVAK, 2010, p. 126).
É com olhar sensível frente às tradições que a mulher e intelectual Paulina Chiziane nunca rejeita esta tarefa, mas ao contrário, está sempre iluminando esta abertura pela voz (e porque não grito?) feminino.
ÁLVARES, Cláudia. Teoria pós-colonial, uma abordagem sintética. Revista de Comunicação e Linguagens, Tendências da Cultura Contemporânea, J. Bragança de Miranda e E. Prado Coelho (Orgs.), Lisboa, Relógio de Água, 2000.
CABRAL, João Pina. Crises de fraternidade: literatura e etnicidade no Moçambique pós-colonial. Horiz. antropol.,v.11 no 24, Porto Alegre, July/Dec. 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832005000200011&script=sci_arttext.
Acesso em: 15/05/2014.
CHIZIANE, Paulina. Niketche. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
CHIZIANE, Paulina. Ser escritora é uma ousadia!!!. Entrevista ao Maderazinco. Revista Literária Moçambicana, [http:www.maderazinco.tropical.co.mz], 2002.
FRADE, Ana Maria Duarte. 2007. A corrupção no Estado pós-colonial em África. Duas visões literárias. Porto: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Disponível em: http://www.africanos.eu. Acesso em: 15/05/ 2014.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Stuart Hall e Liv Sovik (Orgs.). Tradução Adelaine La Guardia Resende et alii. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
HALL, Stuart. A questão da identidade cultural. Textos didáticos. São Paulo: IFHC/Unicamp, 1998.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo – História, teoria, ficção. Tradução Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LEITE, Ana Mafalda, CHAVES, Rita & APA, Lívia (Orgs.). Entrevista com Paulina Chiziane. Literatura e Vida. In: Nação e narrativa pós-colonial II: Angola e Moçambique, Entrevistas. Lisboa: Colibri, 2012.
MATA, Inocência. A condição pós colonial das literaturas africanas de língua portuguesa: algumas diferenças e convergências e muitos lugares comuns. In: Contatos e ressonâncias literaturas africanas de língua portuguesa. Angela Vaz Leão (Org.). Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.
MATA, Inocência. Paulina Chiziane: uma colectora de memórias imaginadas. In. Metamorfoses 1. Lisboa: Cosmos, 2000, p. 135-142.
MATA, Inocência. Estudos pós-coloniais: desconstruindo genealogias eurocêntricas. Dossiê Diálogos do Sul. Civitas, Porto Alegre: v. 14 no 1, p. 27-42, jan./abr. 2014 Disponível em:
http://revistaseletronicas.pucrs.br/civitas/ojs/index.php/civitas/article/view/16185/10957
SHOHAT, Ella. Crítica da imagem eurocêntrica. Tradução: Marcos Soares, São Paulo: Cosac Naify, 2006.
SHOHAT, Ella. Notes on the “Post-Colonial”. Social Text, no 31/32, Third World and Post-Colonial Issues, Duke University Press, p. 99-113, 1992. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/466220.
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Bio fornecida pelo palestrante.
Nina Barbieri Pacheco
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Minicurrículo: Nina Barbieri Pacheco é doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.
Resumo: Entrevista com um músico natural de Niterói da atualidade.
Palavras-chave: Sérgio Tannus – música contemporânea – contexto luso-brasileiro
Summary: Interview with a contemporary Brazilian musician.
Key-words: Sérgio Tannus – contemporary music – luso-Brazilian context
ENTREVISTA COM O MÚSICO SÉRGIO TANNUS
Nina Barbieri Pacheco
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Sérgio Tannus é um músico multi-instrumentista natural de Niterói que reside em Santiago de Compostela há quase uma década. Em sua carreira na Europa ele faz parcerias com galegos e músicos de vários países lusófonos. No CD Son Brasilego, lançado em dezembro de 2012, Sérgio explora essas relações e misturas em uma riqueza musical enorme.
O caldo cultural lusófono e a relação com o galego (para muitos, parte da comunidade de língua portuguesa por direito) é o enfoque desta entrevista. Na cultura contemporânea, de mundo globalizado e relações transnacionais, a língua galega e a cultura popular que ela carrega ganham vida e espaço. E a música deste brasileiro pode ter um papel de peso nessa jornada.
Entrevista:
Sérgio Tannus – Eu tomei conhecimento em Niterói, quando a cidade promoveu um encontro que se chamava Niterói encontra Espanha. Nesse evento promoveram um intercâmbio cultural e vieram muitos artistas espanhóis: literatura, baile, pintura e, é claro, música. E foi ali, nesses concertos, onde havia grupos vindos de várias partes da Espanha, que conheci (hoje meus grandes amigos) a Uxía, Fran Perez, Pepe Sendón e Marcos Teira. Foi através deles que me interessei e apaixonei especialmente pela música, língua e cultura galega.
Sérgio Tannus – Ser brasilego é sentir-se brasileiro, mas com a alma já com um jeitinho galego. Não cheguei por ali com a intenção de propagar somente a tão conhecida e respeitada musica brasileira. Cheguei com o intuito de trocar ideias, aprendizados, escutar coisas novas, buscar novas sonoridades e tentar reproduzir isso na minha música. Forjar em forma de música o elo que liga essa irmandade que poucos sabem que existe. E por esse motivo fui adotado musicalmente e pessoalmente por essas bandas. Hoje, no meu meio e círculo de amizades, a cada dia me sinto mais brasilego.
Sérgio Tannus – Uxía para mim é como uma irmã e madrinha ao mesmo tempo. Nossa relação começou com a admiração mútua (nos meus dois primeiros anos ali) até chegarmos a tocar realmente juntos. Ela me apresentou estilos, bandas, ritmos, instrumentos etc. Um dia sentamos, ensaiamos umas coisinhas, vimos que a química era boa e que poderíamos criar algo bonito juntos. Nos encontros, fomos misturando essas influências e estilos dos nossos países e chegamos a um resultado super interessante, de total mistura. Formamos um duo galego-brasileiro. Então, em janeiro de 2011, gravamos o Meu Canto nos estúdios Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, e desde então me tornei o seu produtor musical, músico de palco e parceiro de produção e composição em inúmeros projetos daqui. Então, não tenho dúvidas de que ela, por sua influência e importância na música galega, mais sua enorme capacidade de receber e agregar as pessoas como eu ao seu redor, teve grande influência e “culpa” no êxito da minha vida artística e musical por essas bandas galegas.
Sérgio Tannus – Aparece em forma de total fusão sonora. O Son Brasilego foi justamente o resultado dos seis anos (na época) de convivência com a cultura e com a música galega. Esse convívio me inspirou e levou a colocar instrumentos típicos da música galega em ritmos e canções brasileiras. Todos os artistas que convidei a cantar ou a tocar nesse projeto (e foram 43), em algum momento estiveram no palco ou gravando comigo. Então essa brasileguidade surgiu naturalmente, pouco a pouco e está estampada no som do cd e nos concertos que faço hoje. Baião junto a uma gaita de fole, um samba acompanhado por um violino, um rock pop com um vibrafone e assim por diante.
Sérgio Tannus – A proximidade é maior do que muitos imaginam. A língua galega (me desculpem os portugueses e livros que não dão muito ênfase a esse fato) é a nossa real língua mãe. O português de Portugal e do Brasil são filhos diretos da mesma mãe… que já existia há algumas centenas de anos antes de existir o reino de Portugal. A língua é tão próxima que muitos galegos dizem que entendem melhor os brasileiros do que os portugueses que vivem ali ao lado…e vice versa. Muitos brasileiros também comentam diversas vezes que entendem melhor os galegos e os portugueses do norte, do que o português falado em Lisboa, por exemplo. Creio que a proximidade é enorme, pouco proporcional ao número de pessoas que têm o conhecimento disso. O galego-português deveria ser muito mais divulgado e valorizado do que foi e é até hoje.
Sérgio Tannus – Penso nesse CD como uma PONTE. Como diz a letra de Lula Queiroga e Lenine: uma ponte que não é para ir nem para voltar… que é somente para atravessar. Minha intenção ao gravá-lo foi juntar tudo que vivi e aprendi na Galiza com esses talentos lusófonos e construir essa ponte. Juntar e botar para gravar juntos, sem barreiras ou preconceitos, artistas galegos, portugueses, africanos e brasileiros em torno das canções de um brasilego foi como botar o concreto dessa ponte. Me sinto muito agradecido e honrado por ter sido o idealizador e engenheiro dessa alegre e original ponte imaginária e real.
Sérgio Tannus – Até eu chegar aqui e conhecer a Uxia e a força que tem essa música e cultura, não. Com o tempo vi que a força desse povo e da sua língua supera fronteiras. Vi a grande influência do Zeca Afonso na luta e sonhos dos galegos. Vi os inúmeros projetos musicais de mistura, especialmente um que promove a Uxía, chamado Cantos na Maré, que acontece todos os anos e que sempre conta com um representante de cada país da lusofonia. No concerto fazem duos, trios e terminam a noite todos juntos no palco cantando numa só língua. A música foi e sempre será decisiva na função de estreitar essa relação.
Sérgio Tannus – Creio que a cultura galega, por meio desses grandes artistas e incansáveis impulsionadores que mencionei antes, ganhou mais representatividade e espaço no meio musical da Espanha e do exterior. Mas por questões políticas e históricas, não o suficientemente na Espanha, que ainda guarda muita resistência em aceitar e incentivar distintas línguas e culturas dentro de seu próprio território. Tenho tocado com a Uxía muito fora do país. Portugal, Bélgica, Holanda, Argentina, Brasil, e no momento estamos programando uma turnê pela África, entre outros lugares, onde antes seria impossível chegar. Além disso, o mercado destinado ao público infantil cresceu muito aqui na Galiza pela iniciativa desses mesmos artistas e editoras locais. Eu mesmo produzi ou colaborei musicalmente em mais de oito CDs infantis cantados em língua galega nesses últimos seis anos. Aqui há um movimento de editar livros-discos (que normalmente leva um conto acompanhado de um CD de áudio), que certamente está incentivando as crianças a escutarem mais músicas em galego e, como resultado, a falarem mais a sua língua mãe no dia a dia. Junto a esses livros-discos também existe um incentivo dado por um órgão chamado Política Linguística, que financia os concertos infantis desses projetos – em média 40 num período de três meses – com grupos tocando ao vivo nos colégios e auditórios das pequenas e grandes cidades, para essas crianças. Tenho certeza de que essa iniciativa vai criar ainda mais visibilidade à língua e uma nova geração de falantes de galego.
Sérgio Tannus – Acredito totalmente que quanto mais se estreitem esses laços, mais alcance teremos para difundir a língua. Mas é claro que, na minha opinião, as melhores iniciativas são aquelas que são feitas com respeito a todos os outros idiomas e culturas. A ideia é agregar e somar… nunca impor e separar. Esse movimento de intercâmbio é importante para chamar a atenção do mundo em geral, mas principalmente dos países da lusofonia, de que é possível juntarmos nossas vozes e forças sem perdermos a nossa própria identidade cultural e linguística. Falta muito ainda para se cumprir, mas acho que estamos no caminho correto. Portugal, Galiza, Brasil, alguns países da África e de todo o mundo lusófono, já estão dando os primeiros passos nessa direção desejando que essa total aproximação se realize em breve.
Sérgio Tannus – O meu mais novo projeto, Alegría – que em galego tem acento (risos) –, considero um filho e resultado de tudo que mencionei acima. Exatamente como o Son Brasilego, a minha intenção foi de aproximar as nossas culturas, mostrar na prática que é possível estabelecer naturalmente essa irmandade. Ele é fruto de todo o meu percurso e desejo que essa língua seja escutada e valorizada como merece. Foram 40 anos de ditadura onde o galego foi proibido, mesmo dentro das suas próprias casas. Escrevi um conto sobre “Alegra” (uma lagarta) que queria descobrir o segredo da felicidade. E que para isso saiu a caminhar pelo mundo, perguntando às pessoas que encontrasse no caminho o que as fazia felizes. No final ela descobre que a felicidade não tem uma fórmula, que dentro das diferenças existiam inúmeros caminhos para ser feliz. Cada um a sua maneira, o que importa é se nos dedicamos ou não aos nossos sonhos com verdade e amor, desenvolvendo o sentido da tolerância, amor ao semelhante e respeito às diferenças. Ao descobrir isso, ela ficou tão feliz que um dia voltando da sua viagem dormiu numa folha e acordou borboleta. Resumindo: a beleza não foi o motivo que a fez alcançar a felicidade. Mas a sua felicidade incondicional foi o que a tornou bela. Então encaro esses projetos infantis como uma grande oportunidade para dar bons exemplos, mostrar que as diferenças fazem da vida algo belo e único. Falar e cantar em galego a ALEGRÍA é tentar reverter toda a injusta situação anterior de proibição e repressão, plantando pouco a pouco nessa nova geração o orgulho de serem galegos. Mostrando na prática que hoje todos nós podemos falar, cantar, alegremente e sem preconceitos, no nosso idioma original.
Obrigado, Nininha, pela oportunidade e a todos que estarão lendo e refletindo sobre esse assunto tão interessante e apaixonante.
Bio fornecida pelo palestrante.
Vagner Leite Rangel
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Real Gabinete Português de Leitura
Resumo: Este artigo objetiva apresentar a notação crítica da sensualidade nesta obra de Machado de Assis e explorar a sugestão de erotismo e sensualidade em Ressurreição (1872), o primeiro romance do autor. Para tanto, priorizará o terceiro capítulo desta obra, intitulado “Ao som da valsa”, visando a observar que a recepção coeva ao livro, feita sob a forma de censura à obra, é prova da presença do erotismo nas páginas do romance. Nossa hipótese é de que a sugestão de sensualidade em Ressurreição, como presente num ensaio publicado na imprensa em 1872-1873 censurando de modo explícito tais páginas, evidencia uma das lições de Antonio Candido em Formação da literatura brasileira a respeito da mundivisão do Romantismo brasileiro: a união entre literatura e moral.
Palavras-chave: Século XIX – Machado de Assis – romance – erotismo.
Abstract: This paper aims to present the existing criticism of sensuality and eroticism in relation to Ressurreição (1872), the first novel published by Machado de Assis. It presents the idea that the novel contains a suggestion of eroticism and sensuality. To prove it, this paper priorizes the third chapter of Ressurreição, titled “Ao som da valsa”. As a conclusion, it is discussed the relation between a book review published in the press in 1872-1873 criticizing eroticism in Ressurreição and Antonio Candido’s statement in Formação da literatura brasileira about the Weltanschauung of Brazilian Romanticism: to unite literature and moralism.
Keywords: 19th century – Machado de Assis – novel – eroticism.
Minicurrículo: Vagner Leite Rangel é Mestrando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Pesquisador Júnior do Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), sob os auspícios da Fundação Calouste Gulbenkian. Publicou alguns artigos sobre Machado de Assis (ver bibliografia).
A imprensa como tribunal
e a literatura como moral:
Ressurreição e a figuração feminina
Vagner Leite Rangel
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Real Gabinete Português de Leitura
INTRODUÇÃO
Não se costuma associar o erotismo à literatura de Machado de Assis. Costuma-se, ao contrário, tomá-la como exemplo de comedimento e submissão às formas canônicas. E há razões para tal costume, tanto na prosa de ficção quanto na poesia, há inúmeros exemplos de referências à moral e aos bons costumes. Por conseguinte, O Dicionário de Machado de Assis, de Castelar Carvalho, na seção temática, nos explica no verbete “Erotismo” que “Essa presença do erotismo na literatura já se faz sentir nas narrativas românticas de José de Alencar, mas em um autor recatado como Machado de Assis pode causar estranheza ao leitor” (CARVALHO, 2010, p. 261). E nós concordamos, porque, embora o autor de Dom Casmurro seja reconhecido por diversas facetas, – tanto em termos de gêneros praticados quanto em termos de temas explorados – nenhuma delas é erótica. Ao mesmo tempo, caberia investigar a razão de ser de tal ausência – não é outro o nosso objetivo. Do contrário, não entenderemos por que erotismo e Machado de Assis são antinomias. Quer dizer: a faceta erótica de Machado de Assis não tem sido explorada, o que explica o sentimento de estranheza. Contribuir para diminuir este sentimento é um dos objetivos deste artigo.
Retornando ao verbete do Dicionário de Machado de Assis e à explicação de Carvalho (2010, p. 261), lemos: “Mas não nos esqueçamos de que Machado era mais propriamente dissimulado do que recatado e, desde os primeiros romances e contos, percebe-se forte presença do erotismo em sua obra de ficção.” Com efeito, e a dissimulação em Machado de Assis tem estado presente nas análises de seus intérpretes, mas, como dito, a dissimulação tem sido explorada em termos de despiste – a personagem Capitu ilustra tal exploração hermenêutica. Portanto, o exemplo mais ilustrativo talvez seja Dom Casmurro. O que reforça o exposto: dissimulação e sensualidade não têm sido amplamente exploradas na ficção machadiana. Entre as faces deste autor de mil e umas facetas, a erótica permanece, em comparação com as outras, à margem. Por esta razão, a informação a respeito do erotismo na literatura de Machado de Assis termina por causar estranheza e parece ser um contrassenso, sobretudo porque a palavra erotismo remete à sensualidade e ao corpo – palavras incomuns na fortuna crítica a respeito da obra de Machado de Assis.
MACHADO DE ASSIS, UM GRANDE SENSUAL?
Em relação aos intérpretes de Machado de Assis, Lúcia Miguel Pereira “foi quem, pela primeira vez, chamou a atenção para os aspectos sensuais presentes na ficção machadiana” (CARVALHO, 2010, p. 261-2). O autor do Dicionário de Machado de Assis está se referindo ao clássico Machado de Assis: estudo crítico e biográfico, publicado pela primeira vez em 1936, de L.M. Pereira. O subtítulo demonstra a metodologia empregada pela intérprete: a crítica biográfica. Nele, encontramos a seguinte explicação: “É verdade que, com o seu ar sonso e frio, Machado de Assis foi, no fundo, um grande sensual” (PEREIRA, 1988, p. 239).
É difícil concordar com a assertiva crítica, pois não podemos saber se ele foi ou não foi um grande sensual ou sonso. A dificuldade provém da leitura das obras: pode-se optar tanto pela negativa quanto pela afirmativa: há quem ateste a fidelidade de Capitu, apesar de algum atributo da personagem, e há quem ateste o contrário. É uma questão de ponto de vista. E, como ficou dito, o da autora é biográfico – o que parece levá-la à conclusão de que o autor era no fundo um sonso e grande sensual. Observando a sugestão do aspecto sensual na literatura de Machado de Assis, importa destacar, para além da referida dificuldade, o feito crítico da autora: chamar a nossa atenção para a faceta que objetivamos explorar: “as passagens em que se destacam as descrições (ou insinuações) de partes do corpo feminino, como lábios, língua, olhos, seios, cabelos, braços, olhares, meneios de corpo, descrições sempre impregnadas de sutis intenções eróticas” (CARVALHO, 2010, p. 262, citando L. M. Pereira).
Para tanto, exploraremos a sugestão de erotismo em Ressurreição (1872), que é o primeiro romance do autor, sendo o último Memorial de Aires (1904). Do primeiro ao último romance, são vinte e dois anos de distância. Margem de tempo que deve ser levada em consideração, quando se quer empreender a análise do tema da sensualidade, uma vez que Ressurreição foi a obra publicada no período mais próximo da juventude do autor (1872), quando o Romantismo brasileiro perdera a força mas não a influência sobre o sistema literário nacional. A prova desta influência encontra-se na recepção crítica de Ressurreição, que apontou a ausência de cor local deste romance como defeito, sendo esta uma marca do Romantismo pós-alencariano, evidencia-se a vigência do Romantismo.[1] Para nossa análise do romance, priorizaremos o terceiro capítulo, intitulado “Ao som da valsa”, buscando situar a sugestão de sensualidade e erotismo nessa obra do autor.
CAPÍTULO III – AO SOM DA VALSA
Os dois capítulos que precedem “Ao som da valsa” intitulam-se: “Capítulo I – No dia do ano bom” e “Capítulo II – Liquidação do ano velho”. Resumidamente, o leitor é apresentado, no primeiro capítulo, ao herói do romance:
Félix entrava então nos seus trinta e seis anos, idade em que muitos já são pais de família, e alguns homens de Estado. Aquele era apenas um rapaz vadio e desambicioso. A sua vida tinha sido uma singular mistura de elegia e melodrama; passara os primeiros anos da mocidade a suspirar por coisas fugitivas, e na ocasião em que parecia esquecido de Deus e dos homens, caiu-lhe nas mãos uma inesperada herança, que o levantou da pobreza. Só a Providência possui o segredo de não aborrecer com esses lances tão estafados no teatro.
Félix conhecera o trabalho no tempo em que precisava dele para viver; mas desde que alcançou os meios de não pensar no dia seguinte, entregou-se corpo e alma à serenidade do repouso. Mas entenda-se que não era esse repouso aquela existência apática e vegetativa dos ânimos indolentes; era, se assim me posso exprimir, um repouso ativo, composto de toda a espécie de ocupações elegantes e intelectuais que um homem na posição dele podia ter (ASSIS, 1962, I, p. 115).
Abastado e avesso à ideia de união estável, Félix tem os predicados do galanteador. Mal comparando, é um dândi da capital do Rio de Janeiro da metade do século XIX que se opõe ao padrão de relacionamento burguês: primeiros encontros, namoro, noivado e casamento – são costumes que aborrecem Félix, que se considera um bon vivant. Na contramão da tradição, Félix, no segundo capítulo, põe fim ao seu relacionamento com Cecília, jovem apaixonada por ele – e por outros, é verdade, pois representa o exemplo de mulher a não ser seguido pela leitora. O leitor tem acesso, portanto, ao perfil do personagem no segundo capítulo:
– Eu te digo, respondeu Félix; os meus amores são todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para meu coração um ano é uma eternidade. Não há ternura que vá além de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento – mau hóspede (ASSIS, 1962, I, p. 121-2).
Terminara o relacionamento com Cecília porque o amor só lhe apraz como um capítulo curto. No ano novo, Félix está solteiro – e o leitor, com base nos dois primeiros capítulos do romance, pode deduzir que o próximo relacionamento do herói não será diferente. No terceiro capítulo, participando de uma festa na casa do Coronel Morais – casa de família, diga-se de passagem – Félix encontra Lívia. Acresce que o leitor entenderá que a casa de família representa os valores da tradição. Nela, símbolo da moral, os valores são seguidos à risca. E a filha do coronel, a virgem Raquel, é exemplo de moralidade. É como se Raquel fosse o antídoto contra a possível influência negativa de Cecília. Conforme a configuração dos capítulos antecedentes e o terceiro, o nosso dândi oitocentista está na presença de personagens representativas de uma tradição bem específica e delimitada nas páginas iniciais de Ressurreição: a moral e os bons costumes do Brasil da época. O conflito entre as personagens acontecerá posteriormente. O leitor, porém, já tem acesso ao princípio desta desarmonia entre a mundivisão das personagens:
Lívia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma coisa semelhante à tranquilidade da força. Nenhum gesto seu revelava o amor-próprio geralmente inseparável das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma razão de harmonia e de ordem nas coisas terrestres. Afear as suas graças, parecia-lhe um crime; tirar orgulho delas, frivolidade (ASSIS, I, 1962, p. 128).
Note-se que ela, mesmo tendo uma beleza estonteante, não é vaidosa. Tem consciência de sua singularidade física, porém, age de modo diametralmente oposto aos modos de Félix, cuja beleza o narrador põe em xeque: “Não direi que fosse bonito, na significação mais ampla da palavra; mas tinha as feições corretas, a presença simpática, e reunia à graça natural a apurada elegância com que vestia” (ASSIS, I, 1962, p. 115). O contraste de caracteres está desenhado. O dândi, então, encontra a despojada jovem alucinante de vinte e quatro anos:
Félix examinou-lhe detidamente a cabeça e o rosto, modelo de graça antiga. A tez, levemente amorenada, tinha aquele macio que os olhos percebem antes do contato das mãos. Na testa lisa e larga, parecia que nunca se formara a ruga da reflexão; não obstante, quem examinasse naquele momento o rosto da moça veria que ela não era estranha às lutas interiores do pensamento: os olhos, que eram vivos, tinham instantes de languidez; naquela ocasião não eram vivos nem lânguidos; estavam parados.
Sentia-se que ela olhava com o espírito (ASSIS, I,1962,p. 128).
A passagem destaca a beleza de Lívia, “modelo de graça antiga”, aos olhos do moderno Félix, cujo olhar observa o rosto, os olhos, mas a voracidade do olhar não o deixa perceber as “lutas interiores do pensamento” (ASSIS, I, 1962, p. 128), pois é o narrador que frisa tal detalhe: “quem examinasse naquele momento o rosto da moça veria que ela não era estranha às lutas interiores do pensamento” (ASSIS, I, 1962, p. 128). Não sabemos o motivo do pensamento, mas sabemos que ela está absorta. Enquanto Lívia olha “com o espírito”, o parágrafo seguinte especifica o tipo de olhar empregado por Félix:
Félix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim; o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína. Félix recompôs na imaginação a estátua toda, e estremeceu. Lívia acordou da espécie de letargo em que estava. Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão. Félix apressou-se a apanhar-lho.
– Obrigado, murmurou ela distraída (ASSIS, 1962, I, p. 128).
O olhar de Félix mirou o rosto de Lívia, os olhos, o corpo e as curvas acentuadas pela vestimenta, o busto volumoso e os braços descobertos em contraste com o vestido escuro – todo o corpo da jovem, mas não percebe a referida luta no semblante de Lívia por uma razão: a volúpia. Toda a descrição assinala o erotismo do olhar de Félix, cujo corpo de Lívia, objeto deste olhar, é, de fato, descrito como voluptuoso. O contraste entre a pele de Lívia e a cor do vestido sugere a imagem de “um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína” (ASSIS, 1962, I, p. 128) a Félix, que, imaginando a estátua em toda a sua corporeidade material, sente ainda mais a volúpia do corpo feminino – sobretudo pela sugestão da nudez do corpo. A sensualidade de Lívia não só desperta o olhar dele como também o seu desejo. A beleza, embora não seja supervalorizada por ela, acaba sendo aos olhos de outrem, neste caso Félix – posteriormente por Luís Batista e Moreirinha.
Retornando à descrição anterior, após a imaginação de Félix completar a imagem fragmentada pela vestimenta de Lívia, o corpo do herói responde à imagem recomposta na imaginação: o estremecimento do herói evidencia a volúpia ensejada pelo erotismo da cena, que se completa quando Lívia parece responder da mesma forma: “Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão” (ASSIS, 1962, I, p. 128). Se antes não sabíamos em que ela estava pensando, temos agora uma sugestão. A sugestão do erotismo do olhar, que influencia a imaginação, criando a imagem erótica da personagem por completo em sua mente tal como uma estátua, e a resposta física com o estremecimento dos dois personagens parece ratificar a referida sugestão. Como se nota, a sensualidade é bem sutil. Ou, para usar a palavra corrente na fortuna crítica, dissimulada. Mas o verbo-chave deste mistério é estremecer: o corpo responde quando os costumes prescrevem o silêncio. Lívia, que parecia alheia ao olhar de Félix, responde, em alguma medida, ao olhar libidinal do herói.
Da sugestão narrativa da resposta física de Lívia ao olhar libidinal de Félix, o parágrafo seguinte parece não deixar dúvida de uma resposta positiva de Lívia, porque nele observaremos que ela se recompõe. Ora, se ela parecia ter estremecido, a recomposição afirma a alteração, isto é, resposta física ao olhar ambicioso de Félix. Em outras palavras, o desejo de Félix foi correspondido por Lívia. Em termos simples, o erotismo dos corpos veio à tona e a vergonha expressa por Lívia, no parágrafo seguinte, pode ser o significante do referido significado:
Depois, parecendo envergonhada daquele longo silêncio, pretextou um incômodo nervoso; levantaram-se e dirigiram-se ao salão. Ali, no meio da conversa e do bulício, readquiriu ela o império de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria. A viúva era um pouco sarcástica, mas daquele sarcasmo benévolo e anódino, que sabe misturar espinhos com rosas. Pela primeira vez Félix a conhecia, porquanto apenas a tinha visto duas vezes, e não basta ver uma mulher para a conhecer, é preciso ouvi-la também; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a não conhecer jamais (ASSIS, 1962, I, p. 128).
Ao recuperar o império de si Lívia recompõe-se, isto é, comporta-se de acordo com a expectativa moral, o que reforça a resposta corporal – a sugestão de erotismo dos corpos. E vale recordar que ela está no lar dos Morais. Ou seja, a presença de personagens principais e partícipes de uma cena erótica na casa de família.
Como vimos, o erotismo em Ressurreição não ultrapassa os limites da sugestão. A prerrogativa libidinal parece ser masculina, visto que o narrador faz torneios linguísticos para representar ficcionalmente o desejo feminino. Sugere-se o desejo em lugar de afirmá-lo. Por isso, o verbo estremecer torna-se a chave de afirmação da sugestão. Considerando a forma empregada para representar o desejo masculino, pode-se inferir que até mesmo esta representação está eivada de certa visão negativa da libido. Ou seja, se o desejo masculino é mal visto, na metade do século XIX, podemos imaginar a situação do feminino. Esta, no que tange a libido, parece interdito pela moral em voga, tanto do ponto de vista da ficção, porque, como dito, o autor emprega formas que informam de modo dissimulado – “Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão” (ASSIS, 1962, I, p. 128) e “parecendo envergonhada daquele longo silêncio” (ASSIS, 1962, I, p. 128). Negação dupla: a moral parece não legitimar este tipo de representação ficcional, e o modelo de representação literária parece corresponder à expectativa do status quo, pois, o autor, consoante com os dois primeiros elementos da equação, utiliza-se de formas que dizem de modo oblíquo. O resultado é claro: a personagem, ao responder ao desejo corporal e ao desejo de outrem, sente-se envergonhada, sendo então necessário o ato seguinte: “readquiriu ela o império de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria” (ASSIS, 1962, I, p. 128) – o emprego do prefixo “re” (readquiriu) com o verbo adquirir no passado afirma, às avessas, o que o corpo sentira mas o que os bons modos oitocentistas, o comportamento oficial feminino, negavam. O desejo é seguido de reparação.
MORAL, IMPRENSA E CENSURA
Das nove resenhas jornalísticas dedicadas ao livro publicado em 1872, apenas um dos leitores coevos do primeiro romance de Machado de Assis, José Carlos Rodrigues, notou que o que chamamos de sugestão de erotismo e desejo corporal interdito – pelo menos para a figura feminina – estava bem claro à época e, por esta razão, deveria ser combatido.
O artigo crítico de Rodrigues foi publicado originalmente em O Novo Mundo, em 23 de dezembro de 1872, em Nova Iorque. Rodrigues, crítico e proprietário do jornal, registrou que “O final da página [de Ressurreição] é imperdoável; a estátua do final da página […] bem podia ser omitida” (RODRIGUES, 2003, p. 91). O censor não explica os motivos pelos quais censura a referida sugestão de erotismo no romance. Considerando a Formação da literatura brasileira, no entanto, encontramos algumas explicações dignas de consideração para o nosso estudo: em primeiro lugar, “todo o período romântico foi de consciência aguda de fundação da nossa literatura; logo, de justificação da sua existência, proclamação da sua originalidade, etc.” (CANDIDO, 1993, p. 304, ênfase no original). Ressurreição é posterior ao auge da moda romântica – note-se que é posterior ao auge e não posterior ao fim da moda romântica. Portanto, o horizonte de expectativa da literatura feita à época estava sob a influência da razão de ser do Romantismo. Opor-se ao propósito romântico, é opor-se à justificativa romântica. Logo, a crítica romântica tem a prerrogativa de exigir que o aspirante à posição de escritor legítimo da literatura brasileira corresponda ao padrão estabelecido. Notamos o caráter deste padrão legitimador do autor de literatura brasileira em outra lição considerável da Formação, que também serve como explicação da justificativa romântica: “Acresce ainda, no Brasil, a circunstância de o Romantismo não ter aparecido como ruptura, mas, de um lado, como continuação; de outro, como início de um período auspicioso, logo incorporado à ideologia oficial, nas formas moderadas e transicionais com que surgiu” (CANDIDO, 1993, p. 306). Como se vê, o resenhista é mais do que um crítico proferindo um determinado juízo sobre o romance. É um censor da moral, e a imprensa é uma espécie de tribunal do Romantismo nacional.
Pode-se argumentar que só a posição de Rodrigues não seria o suficiente para propor a analogia entre imprensa e tribunal romântico, até mesmo por que ele não era crítico literário, mas sim dono e editor de O Novo Mundo. Na época, o posto de editor e a pena de jornalista eram condições suficientes para que um articulista tivesse voz no sistema literário oitocentista, pois a crítica ainda não era profissional, mas sobretudo impressionista. Críticos como Quintino Bocaiúva, José de Alencar, e o próprio Machado de Assis, reclamaram deste amadorismo, e exigiram uma crítica imparcial. “O ideal do crítico” (1865), de Machado, é testemunho histórico desta reclamação. Segundo João Roberto Faria (1989; 2004), este não seria mais do que a expressão da ideia de um Quintino Bocaiúva, que, em 1857, publicara Estudos críticos e literários: lance d’olhos sobre a comédia e a sua crítica. De 1857 a 1865, autores e críticos posicionarem-se contra o impressionismo crítico, o que prova a presença e – o pior – a aceitação do amadorismo. É por esta razão que a simples publicação de opiniões impressionistas, por mais que fossem destituídas de fundamentos teóricos, como alega Machado naquele texto, era o suficiente para a glória ou derrocada de um autor. Ser editor e/ou chefe de um jornal era, em alguma medida, a obtenção de passaporte para participar ativamente do sistema literário nacional. Lembramos aqui que a inserção do jovem Alencar se deu a partir das cartas que escreveu contra A Confederação dos Tamoios – obra que tinha o apoio de D. Pedro II –, quando Alencar não passava de um aprendiz de escritor. Independentemente da condição alencariana à época, o fato é que a oposição à obra de Magalhães lhe conferiu nomeada, que lhe ajudou a divulgar O Guarani (1857). Daí a analogia entre imprensa e tribunal. No caso brasileiro, em relação à Ressurreição, pesa ainda outra circunstância: o Romantismo brasileiro era um movimento em favor da moral e dos bons costumes e, como tal, não tolerava obras com sugestões eróticas. Logo, a oposição de um resenhista, por mais que este não fosse um crítico na acepção da palavra, não parece ser algo que se pudesse ignorar. Por fim, outro dado extraliterário parece comprovar a possível influência de José Carlos Rodrigues, no sistema literário nacional, é a futura atuação dele como diretor do Jornal do Comércio – “Jornalista e advogado, emigrou para os Estados Unidos em 1867, após uma tentativa de fraude contra o Estado. Em Nova Iorque, fundou e dirigiu O Novo Mundo, revista que durou de 1872 a 1879. De volta ao Brasil, tornou-se um homem influente e de prestígio, dirigindo o Jornal do Comércio durante 25 anos” (MACHADO, 2003, p. 89).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As páginas precedentes parecem subsidiar a seguinte conclusão: da resenha de Ressurreição à censura do erotismo nas páginas do romance, Rodrigues parece estar autorizado a desempenhar o papel de crítico e censor da literatura brasileira, visto que, com base na relação de continuidade entre Romantismo e tradição brasileira oitocentista (CANDIDO, 1993) – que não foi um movimento cultural de oposição mas sim de afirmação do status quo cristão – a presença do erotismo nas páginas de Ressurreição é duplamente contrária ao padrão estabelecido: afeta a justificativa do Romantismo brasileiro e opõe-se ao decoro exigido pelo crítico. Talvez por isso o crítico sinta-se à vontade para afirmar que o final do capítulo é imperdoável e deve ser omitido numa próxima edição. É por esta razão que se afirmou que a imprensa oitocentista, tomando como exemplo a configuração do sistema literário brasileiro e a resenha de Rodrigues no Novo Mundo, funcionou, para Ressurreição, como tribunal do Romantismo brasileiro, visto que o resenhista sugere a retificação do terceiro capítulo do livro. Pelo avesso, o veto do tribunal à presença da sugestão de erotismo nas páginas de Ressurreição admite tal presença, pois, para negá-la, foi preciso admitir a presença, ainda que sugestiva.
Chegamos, assim, perto de outra conclusão: considerando os romances posteriores da primeira fase, não estaria aí uma possível explicação para a ausência do erotismo, ou a sua presença dissimulada? Um crítico machadiano aponta, Ivan Teixeira (1987), – e outros concordam –, no que tange à primeira fase, que os romances posteriores – A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) –, se comparados com a experimentação feita em Ressurreição, são mais convencionais, uma vez que se encaixam nos moldes do romance ortodoxo, o romance brasileiro pós-alencariano, e nós perguntamos: não teríamos aqui alguns indícios desse retorno ao modelo de romance vigente? Afinal, é verdade, de A mão e a luva até Iaiá Garcia, dos personagens, que se mesclam através do encontro entre classes sociais distintas, até a afirmação da moral, que se acentua de modo espantoso, a partir de A mão e a luva, percebe-se que o autor opta pelo caminho batido pela tradição. Por isso, fica a pergunta, já que esta é outra história…
REFERÊNCIAS
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PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis: estudo crítico e biográfico. 5ª ed. Rio de Janeiro, 1988.
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< http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25481/27227> Acessado em 29 ago. 2015.
FARIA, João Roberto. “Machado de Assis, leitor e crítico de teatro”. Estudos avançados. [online]. 2004, vol.18, n.51, pp. 299-333. ISSN 1806-9592. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n51/a20v1851.pdf> Acessado em 29 ago. 2015.
MACHADO, Ubiratan. Machado de Assis: roteiro da consagração (crítica em vida do autor). Rio de Janeiro: UERJ, 2003.
RANGEL, Vagner Leite. “Do triângulo literário à república das letras: os prefácios rumorejantes”, in Nau Literária (UFRGS), v. 11, p. 1-12, 2015.
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RODIGUES, José Carlos. Um romance fluminense. In: MACHADO, Ubiratan. Machado de Assis: roteiro da consagração (crítica em vida do autor). Rio de Janeiro: UERJ, 2003, pp. 89-92.
TEIXEIRA, Ivan. Apresentação de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
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NOTA AO TEXTO
1Sobre a recepção de Ressurreição, recomenda-se a leitura de Machado de Assis: roteiro de consagração (crítica em vida do autor), de Ubiratan Machado (2003).
[1]
Bio fornecida pelo palestrante.
Thaís dos Santos Souza
Universidade Federal de Uberlândia
RESUMO: O propósito deste trabalho é analisar à luz da leitura literária a intervenção da leitura na vida do personagem Mario Ruoppolo, o carteiro do filme O carteiro e o poeta, dirigido por Michael Radford. É neste contexto que se pretende analisar a formação e a experiência do personagem leitor, observando de que modo a produção de leitura do leitor é representada no filme, isto é, os modos de se chegar à leitura e os modos de ler do personagem em questão.
Palavras-Chaves: Leitura literária – formação de leitor – filme O carteiro e o poeta – Mario Ruoppolo.
ABSTRACT: The purpose of this paper is to analyze, in the light of Literary Reading, the intervention of reading in the life of the character Mario Ruoppolo, the postman in the film Il Postino, directed by Michael Radford. It in this context that the formation and experience of this reading character will be examined. It will be observed how the production of the act of reading on the part of this character is represented in the film, so that we can point what are the ways of reading of this character.
Keywords: Literary reading – formation of the reader – film The Postman and the Poet – Mario Ruoppolo.
Minicurrículo: Thaís dos Santos Souza é graduanda em Licenciatura plena em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia e Bacharelanda em Direito pela Universidade de Uberaba. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua portuguesa, literatura e linguística.
A INTERVENÇÃO DA LEITURA NA VIDA DO PERSONAGEM MÁRIO, O CARTEIRO
DO FILME O CARTEIRO E O POETA
Thaís dos Santos Souza
Universidade Federal de Uberlândia
O carteiro e o poeta foi um dos grandes sucessos do cinema europeu (1994). Dirigido por Michael Radford, ele aborda uma forte amizade entre dois homens separados por diferenças, que são quebradas por um diálogo mediado pela poesia.
Após se exilar de seu país, Pablo Neruda migra para a ilha italiana do Mediterrâneo, onde Mário habita. A maioria dos homens que vivem nessa ilha são pescadores, porém Mário não se conforma em seguir a mesma vida de seu pai, um velho pescador, e, por isso, procura outro emprego. Dessa forma, Mário encontra uma vaga de carteiro para um único endereço, que é a do grande poeta recém-chegado à ilha.
No início, o contato entre o carteiro e o poeta é pouco efetivo, reduzindo-se apenas à entrega de cartas. Contudo, a curiosidade de Mário sobre a Poesia acaba rompendo essa barreira de contato entre eles, e, aos poucos, vão se tornando grandes amigos.
Diante disto, faremos um estudo acerca do personagem Mário, o carteiro, retratando suas experiências de leitura, abordando os modos que chegou à leitura, seu modo de ler e o quanto a leitura interfere em sua vida, procurando abordar, também, o conceito de leitura literária, tentando discorrer sobre a produção do que seja leitura literária e como ela é representada no filme.
“Para formarmos leitores, precisamos ter prazer; o prazer da audição, de se encontrar consigo mesmo, de ser ator e espectador, mesmo que [ela] ainda não [se] saiba ler”. É a partir dessa assertiva de Ana Paula Maranhão1 que iniciaremos nosso estudo sobre a experiência de leitura e sua interferência na vida do personagem Mário, do filme O carteiro e o poeta.
Como bem afirma Ana Paula Maranhão, para a formação de leitores é necessário que o sujeito tenha prazer de ler, mas fica a seguinte questão: Como se faz nascer esse prazer de ler? A resposta está bem relatada nas palavras de José Morais, em seu livro A arte de ler, no qual ele afirma que “Os prazeres da leitura são múltiplos. Lemos para saber, para compreender, para refletir. Lemos também pela beleza da linguagem, para nossa emoção, para nossa perturbação. Lemos para compartilhar. Lemos para sonhar e para aprender a sonhar…”2
Dessa forma, observamos que, para nascer esse prazer de ler, é preciso que o sujeito encontre um interesse no que está lendo, ou seja, é preciso que ele ouça suas emoções; como raiva, tristeza, medo, alegria, liberdade, entre muitas outras sensações. E é por meio das histórias que o leitor irá fazer frutificar esse prazer, abrindo-lhe caminhos novos, fazendo com que ele explore, por meio da leitura, os perigos do mundo, como defende Bruno Bettelheim3. Segundo esse autor, as histórias literárias ajudam o leitor a explorar os perigos do mundo num nível simbólico, não oferecendo regras simplistas ou enigmáticas, mas encorajando o leitor a confiar e a desenvolver seu sistema natural de proteção, seus próprios instintos, suas emoções.
Assim, por meio das emoções se formarão seres pensantes, capazes de estabelecer pontes entre o imaginário e o possível, proporcionando, assim, um conhecimento acerca de nossos sentimentos mais íntimos. Dessa forma, para uma leitura chamar atenção de um leitor, ela deverá despertar essas emoções. Contudo, para isto, ela deverá despertar principalmente a sua curiosidade e imaginação.
Posto isto, passemos a observar esses aspectos relatados no personagem Mário Ruoppolo, homem semianalfabeto, nativo de uma ilha italiana, que se recusa a seguir o mesmo destino de seu pai; um pobre pescador. Ele é um dos personagens-protagonistas do filme O carteiro e o poeta, de Michael Radford. No desenrolar do drama, ele consegue um emprego temporário como carteiro de um único endereço, o de Pablo Neruda, poeta chileno (Prêmio Nobel de Literatura) que chega à ilha em 1953, após ser exilado de seu país por ser comunista.
O contato que passa a ter com o poeta acaba encantando Mário, despertando-lhe a vontade de se tornar poeta também. Mas, no inicio, esse contato não é muito forte. Entretanto, tal relação vai se desdobrando de uma forma significativa, criando-se um laço de amizade muito forte entre o carteiro e o poeta Neruda.
Esse rompimento de barreira de comunicação entre o poeta e Mário é fruto da curiosidade do pobre carteiro acerca da Poesia. Dessa forma, ao perceber o interesse de Mário por poesia, Neruda ensina-lhe um recurso textual bastante presente na poesia, que são as metáforas. Neruda explica para Mário que as metáforas são um recurso verbal/textual, no qual se dirá algo por meio de outra expressão, com forte característica visual, o que enriquece o texto poético. A partir daí, Mário fica encantado com a beleza da linguagem e começa elaborar e refinar seu pensamento literário criando metáforas.
Assim sendo, diante de todo esse novo aprendizado sobre a linguagem e sobre o gênero literário poético, Mário depara com um novo sentimento, que fará florescer ainda mais seu prazer pela leitura literária. Esse novo sentimento é despertado quando Mário conhece a jovem Beatrice, por quem ele irá se apaixonar perdidamente. (Lembre-se aqui que Beatriz é a musa de Dante Alighieri…).
Essa nova paixão fará com que o humilde carteiro se desdobre por meio dos poemas por ele criados, com a ajuda de Neruda, para conquistar a jovem moça. Tal conquista se dá por intermédio de metáforas construídas por Mário e de poemas escritos por Neruda.
Com isso, percebe-se o quanto a leitura literária mudou a vida do humilde carteiro, uma vez que o florescimento do prazer de ler despertou em Mário os prazeres mais belos e profundos que existem, que são a paixão e o amor. Esses sentimentos ajudaram Mário a enriquecer e aperfeiçoar sua linguagem literária.
Diante de tudo isso, Mário foi se tornando um leitor frequente/habitual, rompendo as fronteiras entre as palavras, fazendo com que compreendesse e utilizasse melhor as figuras de linguagem. Com isso, o nível linguístico e literário do carteiro foi aumentando, dando-lhe a oportunidade de observar e descobrir o universo da leitura pela voz, pela entonação e pelo sentido das coisas ao seu redor, frutificando os subsídios cognitivos e linguísticos.
Percebe-se que Mário se encaixa no chamado “nível afetivo”, que, segundo Ana Paula Maranhão, “é o nível no qual o leitor descarrega todas as suas emoções e seus sentimentos, sempre lhes dando um novo significado”4. Nesse momento, ele consegue compreender a função social da leitura, sendo, assim, considerado um leitor formado.
Parafraseando uma passagem de Maria Dinorah, professora e escritora, o livro literário tem o poder de desenvolver no sujeito leitor a criatividade, a sensibilidade, o senso crítico, a sociabilidade e a imaginação. No caso de Mário, a paixão pela poesia e o encantamento pela figura literária desenvolveram nele essa criatividade, essa sensibilidade, esse senso crítico, essa sociabilidade e a imaginação que tanto defende Maria Dinorah.
Dessa forma, ainda nas palavras de Maria Dinorah, para formar um verdadeiro leitor, um leitor no mundo que o rodeia, deve-se ler para aprender a ler, a escrever e a interpretar. E isso que é retratado no filme O carteiro e o poeta, como já dizia Cecília Meireles, confirma que “A literatura melhor é a que o sujeito lê com prazer”.
Foi possível observar que, para a formação de um leitor, é necessário que haja prazer e, mais, que o texto literário provoque uma curiosidade no leitor a ponto de fazê-lo se surpreender e se encantar no decorrer da leitura. Esse prazer nos ajuda a compreender o que seja leitura literária, uma vez que é por meio dela que florescem as emoções discutidas até então, fazendo com que desperte no leitor a imaginação, criatividade e os sentimentos diversos que a leitura literária lhe proporciona.
Assim, fica clara a importância da leitura literária em nossas vidas, uma vez que é por meio dela que é feita a elaboração de um pensamento crítico e coerente que nos permite superar o senso comum. É isso que proporciona ao leitor informações culturais e novas oportunidades. Uma delas é a de conhecer o mundo em que se vive de uma maneira diferente, através das palavras. A leitura literária alimenta à imaginação do sujeito leitor, oferecendo conforto e liberdade, e despertando, assim, o desejo e o prazer de ser um verdadeiro leitor.
Por meio deste estudo, percebemos o poder que as palavras evocam: as metáforas trazidas pelo texto poético propiciam ao leitor um melhor entendimento do mundo. Essas diversas palavras poéticas fazem com que o leitor saboreie as diversas palavras retratadas por meio das figuras de linguagem, recriando, assim, um olhar de mundo totalmente diferente da realidade, o que irá encantar o leitor, palavra por palavra.
A história do carteiro não se prende à tela do cinema, nem às páginas dos livros; ela está presente em nossa realidade, pois convivemos com uma multidão de leitores, que apresentam as mesmas características de Mário. Este, aos poucos, foi conhecendo o ato de ler, o fazer poético, o que fez com que a leitura interferisse totalmente em sua vida.
REFERÊNCIAS
ALIARDI, Fabiana Sana; ROCHA, Marcelo da Silva. A representação da ideologia na obra O carteiro e o poeta. Disponível em: <http://facos.edu.br/publicacoes/revistas/e-lato_sensu/outubro_2012/pdf/a_representacao_da_ideologia_na_obra_o_carteiro_e_o_poeta.pdf>.Acesso em: 22 de jun. 2014.
BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. 11ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. Disponível em: <http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/apsicanalisefadas.pdf>. Acesso em: 24 de jun. de 2014.
LINO, Vitor Ferreira; VILELA, José Henrique. Análise do filme O carteiro e o poeta (Il Postino). Programa Especial de Graduação (PEG 2009). Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais. Orientação: Professora Rosemary DoreHeijmans. Belo Horizonte, maio de 2009. Disponível em:
<http://www.fae.ufmg.br/setimaarte/images/pdf/O%20carteiro%20e%20o%20poeta.pdf>. Disponível em: 22 de jun. de 1014.
MARANHÃO, Ana Paula. Formação do leitor. Disponível em:
< http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=623> . Acesso em: 24 de jun. de 2014.
MORAES, José. A arte de ler. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora UNESP, 1996. p.12.
SCORSOLINI-COMIN, Fabio; SANTOS, Manoel Antônio dos. Poesia mediada: dialogismo, linguagem e comunicação do filme O carteiro e o poeta. Disponível em:
< http://legacy.unifacef.com.br/rec/ed04/ed04_art03.pdf>. Acesso em: 22 de jun. de 2014.
TURCHI, Maria Zaira; SILVA, Vera Maria Tietzmann. Leito formado, leitor em formação. Leitura literária em questão. São Paulo: Cultura acadêmica; ASSIS, SP: ANEP, 2006.
NOTAS
[1]MARANHÃO, Ana Paula. Formação do Leitor. Disponível em:
<http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=623> . Acesso em: 24 de jun. de 2014.
2 MORAES, José. A arte de ler. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora UNESP, 1996. p.12.
3BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. 11ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. Disponível em: <http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/apsicanalisefadas.pdf>. Acesso em: 24 de jun. de 2014.
4MARANHÃO, Ana Paula. Formação do Leitor. Disponível em:
<http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=623>. Acesso em: 24 de jun. de 2014.
Bio fornecida pelo palestrante.
Angela Cristina Dias Rego Catonio
Universidade Católica Dom Bosco – MS
Resumo: Este artigo faz um estudo inicial sobre a apresentação da paisagem natural e cultural de Mato Grosso do Sul em sua produção poético-literária, estabelecendo relações e diferenças entre o espaço geográfico e o modo como estes se inserem no contexto da geopoética, à luz da fenomenologia bachelardiana. Busca-se ainda evidenciar a elaboração imagética do ambiente geográfico e fronteiriço, natural e cultural, na produção poética sul-mato-grossense, mediante a realização de análises fenomenológicas de poemas construídos por poetas do Estado, com enfoque na perspectiva geopoética. Almeja-se também realizar a análise da produção poética do MS em seu aspecto transfronteiriço, no tanto em que se ressalta a vinculação entre a poesia e o espaço, isto é, no seu viés geopoético, revelado na linguagem dos poetas, na fotografia que seus versos fazem dos diferentes tipos de paisagens, naturais e culturais, da região.
Palavras-Chave: Geopoética. Poesia sul-mato-grossense. Fenomenologia. Cultura.
Minicurrículo: Angela Cristina Dias do Rego Catonio é graduada em Letras, mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e doutoranda pela UNESP/Assis em Literatura e Vida Social. É professora nos cursos de Letras, Licenciatura Geral e de pós-graduação da Universidade Católica Dom Bosco e coordenadora no Programa de Educação e Diversidade da UCDB. Atua também, nessa Universidade, como coordenadora da UCDB Idiomas. Atualmente, tem desenvolvido estudos e pesquisas em literatura, comunicação e linguagem.
DO CHÃO À POESIA:
UMA GEOPOÉTICA SUL-MATO-GROSSENSE
ANGELA CRISTINA DIAS DO REGO CATONIO
Universidade Católica Dom Bosco – MS
INTRODUÇÃO
O Estado de Mato Grosso do Sul é conhecido pela peculiaridade de seu espaço geográfico e exuberância da fauna e flora. O Pantanal, um dos mais importantes sistemas ecológicos do mundo, ocupa uma imensa planície que, em sua maior porção, estende-se pelos Estados brasileiros de Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso, espraiando-se pelos vizinhos países da Bolívia e Paraguai, até a Argentina.
Considerado a maior reserva ecológica do planeta, na qual convivem milhares de espécies da fauna em meio a uma flora exuberante, sua importância internacional foi consagrada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, que declarou Patrimônio da Humanidade o Complexo de Conservação do Pantanal, agrupamento de quatro áreas protegidas com uma área total de 187.818 hectares.
Na construção poética da região são frequentes alusões sobre a terra e a natureza vibrante, em uma tentativa de figurar o Pantanal como um espaço privilegiado. As paisagens naturais e manifestações culturais são fonte de inspiração para os poetas que as moldam em palavras e as transformam em imagens poéticas, fruto de uma postura imaginativa-figurativa do ambiente advindas da imaginação e experiências pessoais de cada autor.
Investigar esta geopoética, inserção do espaço geográfico e caracterizações culturais derivadas da relação espaço-homem na poesia, é o foco deste estudo e, mais além, de que maneira o conceito de ambiente adentra o espaço literário da poesia sul-mato-grossense.
IMAGENS POÉTICAS
A linguagem poética transcende a esfera real e concreta da vida cotidiana em que cada indivíduo se insere. A inter-relação dos elementos linguísticos, sociais e do ambiente contidos na poesia favorecem seu entendimento e significado, em que o conhecimento transcende as barreiras do geral para o que é mais particular e subjetivo. Por isso, o fenômeno da imagem poética emerge da consciência mais profunda do ser na sua atualidade, ou seja, a “fenomenologia da imaginação” (BACHELARD, 1978, p. 184).
É assim que os interlocutores promovem as mais diversas possibilidades expressivas, cujos significados são os mais variados possíveis, envolvendo os diversos aspectos que envolvem a cognição, fato que determina como cada um constrói o sentido com base em seus conhecimentos e experiências, que por sua vez derivam do ambiente em que se insere:
A imagem, em sua simplicidade, não precisa de um saber. Ela é a dádiva de uma consciência ingênua. Em sua expressão, é uma linguagem jovem. O poeta, na novidade de suas imagens, é sempre origem de linguagem. Para especificarmos bem o que possa ser uma fenomenologia da imagem, para frisarmos que a imagem existe antes do pensamento, seria necessário dizer que a poesia é antes de ser uma fenomenologia do espírito, uma fenomenologia da alma (BACHELARD, 1978, p. 185).
Desse modo, a proposta apresentada por Bachelard (1978) é a de que o fazer poético e a imagem poética se relacionam às questões ontológicas muito mais do que a um ato racional.
A observação dos vínculos que se estabelecem entre poesia e geografia, entre a linguagem poética e a figuração espacial, faz com que os olhares sobre obras literárias, sejam elas romances, contos ou poemas, estejam passando por modificações no sentido de apreensão da paisagem nos estudos mais recentes, conforme esclarecem Gustavo Menegusso e Nelci Müller (2011, p. 109), acrescentando que:
A inserção da geografia no meio literário acarreta transformações, principalmente, no domínio da estética e da identidade cultural. Nos últimos anos, têm se acentuado os estudos sobre a importância do espaço na narrativa, e um objeto geográfico vem conquistando a atenção de pesquisadores de diferentes áreas: a paisagem.
A partir dessa vinculação, tem-se elaborado o conceito de geopoética, que, nas palavras de Ronaldes de Melo e Souza (2009, p. 1), autor da tese que gerou o livro A geopoética de Euclides da Cunha, a geopoética é “a poética da terra”.
A seu turno, o método fenomenológico da imagem investiga a imagem a partir da consciência individual e seu processo de figuração subjetiva e transubjetiva, uma vez que não se pode ter uma noção imagética pelo simples ato de descrição objetivo: “a imagem poética é essencialmente variacional.” Nesse sentido, vale destacar que a relação entre o pensamento e a palavra deve ser um processo dinâmico, a conexão entre esses dois elementos não foi previamente formado no indivíduo ao nascer, mas, sim, na sua vivência de vida e no decurso de suas experiências:
Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
E fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
Frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.
(Manuel de BARROS, 2004, p. 45)
Falar em significado dos fenômenos remete necessariamente a Edmund Husserl, filósofo que formulou o método da fenomenologia, considerada uma ciência de essências, a qual busca investigar como as experiências se formam no indivíduo e como se manifestam e repercutem no campo da consciência. Com essa noção, Husserl abre as portas para a concepção de que é possível apreender o abstrato do concreto, reconhecer o caráter intencional e privilegiado da consciência na formação das próprias experiências. Embora os estudos fenomenológicos tenham a preocupação de mostrar os fenômenos, não fazem uma análise explicativa deles, uma vez que
(…) a significação intencionada não se prende às palavras pronunciadas, não faz parte das significações ligadas por elas de uma maneira rígida e geral. Ora, como não podemos abrir mão do fato de que o sentido do enunciado unitário reside no ato global do visar que eventualmente o fundamenta – quer ele se estampe plenamente em palavras, em virtude de suas significações gerais quer isso não aconteça – teremos que admitir, ao que parece, que a percepção, trazendo para a intuição um estado de coisas que o enunciado exprime em forma de juízo, presta sua contribuição para o teor de significação desse juízo. (HUSSERL, 1975, p. 26)
Para Husserl, a concepção de intencionalidade estabelece a relação entreo que é subjetivo e objetivo, pois o sentido e a significação, impulsionados pela consciência, conferem ao objeto a razão de sua existência. Com isso, podemos afirmar que a linguagem poética está liberta dos liames da imposição convencional e restrita da concretização de signos. Ela se faz no tecido das relações humanas, intimamente ligada ao contexto cultural e temporal de uma sociedade, constituindo um momento de apreensão do exterior, captado pela consciência, incapaz de alcançar intelectualmente a plenitude de sua essência.
Em seu livro Investigações filosóficas, Ludwig Wittgenstein (2012) usa a expressão “esboço de paisagem” para explicar o que se tornou a “teoria da significação”. Conforme a acepção desse filósofo, as formas de percepção visual podem ser também consideradas como jogos de linguagens. Assim como as palavras não são capazes de apreender a integralidade dos objetos a que se referem, nós também não vemos as coisas como são; apenas observamos determinados aspectos que variam conforme a nossa própria perspectiva. A conexão entre os vocábulos (nomes) e seus significados (referentes) determina a associação mental entre palavra e objeto e enseja as práticas em que o emissor enuncia as palavras e o receptor reage de acordo com elas, cada qual segundo a compreensão que desenvolveu a seu respeito.
Quando Bachelard propõe sua fenomenologia da imaginação e Wittgenstein adota a expressão “esboço de paisagem”, têm por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento. O leitor produz os sentidos conforme os valores e conhecimentos adquiridos dentro de um contexto sócio-histórico-cultural. Assim se observa nos versos extraídos do poema “Autorretrato falado” (BARROS, 2010, p. 324), em que o poeta sul-mato-grossense se apresenta descrevendo o ambiente em que cresceu como herança de suas preferências pessoais:
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Na referência a uma produção de sentidos numa travessia fenomenológica, pode-se afirmar com Gratão que:
(…) esse vínculo afetivo ou relacionamento primordial Homem e Terra como base de existência; relação seminal. Geopoética, porque é uma geografia do interior; que brota de dentro do ser; o lado humano de criação, de arte, do sentimento além do pensamento; das demarcações da liberdade; do ser; inserção do homem no mundo. Uma geografia concebida pelos caminhos fenomenológicos. Uma geografia que alia o rigor da ciência à observação pessoal e poética (GRATÃO, 2006, p. 179).
São as experiências individuais que determinam as diferentes formas de leitura e de sentidos compreendidos no texto, uma vez que os fatores que envolvem o entendimento de um texto dependem do conhecimento linguístico, dos esquemas cognitivos, da bagagem cultural e circunstâncias em que o texto foi produzido e lido: são os contextos de produção e de uso. A capacidade de construir o sentido do texto se faz pela observância de vários aspectos que determinam a compreensão da leitura. O primeiro deles é o conhecimento da língua; o segundo, a situação mediata, fatores adjacentes às condições sócio-político-culturais e, por último, o contexto cognitivo dos interlocutores, os conhecimentos adquiridos pelo indivíduo e que precisam ser ativados no momento da leitura. Conforme Bakhtin (2002, p. 16) explica, a palavra é indissociável do social, de forma que a enunciação, compreendida como uma réplica do diálogo social, constitui um discurso interior (diálogo consigo mesmo) ou exterior. Ela é de natureza social, portanto ideológica. Não existe fora de um contexto social, já que cada locutor tem um “horizonte social”. O signo e a situação social estão indissoluvelmente ligados.
Seguindo também por outro viés, mas não conflitante com as ideias já apresentadas, o conceito de espaço geográfico pode estar carregado de significados, uma vez que estão inseridas aí as relações entre o homem, sociedade e ambiente natural. “Considerada em si mesma, a paisagem é apenas uma abstração, apesar de sua concretude como coisa material. Sua realidade é histórica e lhe advém de sua associação com o espaço social” (SANTOS, 1999, p. 87). Daí entender-se que a percepção de espaço está associada à experiência que os homens têm da sua terra, forma pela qual eles a modelam e constroem sua identidade social.
A caracterização do Pantanal e sua beleza no poema “Pantanais”, da poetisa Raquel Naveira, traz à tona o sentimento de pertença a terra, destacando a sensação, ou seja, a imagem intuitiva e emocional com a realidade do ambiente pantaneiro,
Quem poderá esquecer esses carandazais,
Que abanam com seus leques o rio Paraguai?
Quem poderá esquecer esses canais
Que se abrem entre camalotes e lodaçais?
[…]
Quem, estando longe ou perto,
Poderá esquecer o que não se esquece jamais?
(NAVEIRA, 2001, p. 90)
A ambiência geográfica da poesia inúmeras vezes se espraia na produção de Raquel Naveira (1993) com conotações históricas que traduzem a violência sofrida na construção das fronteiras em muitos versos dos poetas regionais:
LEÃO BRITÂNICO
“O leão ruge,
Impera,
Domina,
Quer o mundo a seus pés,
Usa as garras,
A força,
A violência…”
GUERRA ENTRE IRMÃOS
Os homens do Paraguai estão mortos,
Restaram meninos e velhos,
Onde a virilidade?
A força?
Os homens do Paraguai estão mortos
As casas vazias e tristes
(Como são tristes e vazias as casas sem pai, sem marido!)
Como povoar esta terra,
Reconstruir a Pátria,
Enorme útero úmido?”
É nesse contexto da interação (mar de possibilidades) entre a literatura e a geografia que a geopoética se insere como forma de representação de um povo, cultura ou região. A investigação do apelo imagético e da representação da paisagem da pantaneira pelo viés literário envolve a exploração criativa das potencialidades da linguagem poética dos autores da região.
Sendo assim, este trabalho se justifica pela relevância de estudos que investiguem a manifestação da literatura sul-mato-grossense sob o prisma da caracterização do espaço como fonte de inspiração e identificação de um povo mestiço e, que além de receber influências da grande imigração dos mais variados estados brasileiros, assimilou também aspectos das culturas de seus países vizinhos, Paraguai e Bolívia. Portanto, pesquisar a relação entre literatura e geografia significa desvendar os liames de tão complexo cenário do espaço literário do Mato Grosso do Sul.
Podemos observar essas imbricações culturais no poeta Douglas Diegues que em sua produção literária mistura o português, espanhol e o guarani em uma linguagem denominada por ele mesmo de “portunhol selvagem” que“…brota de las selvas de loskuer postriple fronteros, se inventa por si mismo, acontece ou non…” (DIEGUES, 2002, p. 9) e se plasma em poemas candentes:
burguesa patusca light ciudade morena
el fuego de la palavra vá a incendiar tua frieza
ninguém consigue comprar a sabedoria alegria belleza
vas a aprender agora com cuanto esperma se hace um buen poema
esnobe perua arrogante ciudade morena
tu inteligência burra – oficial – acadêmica – pedante
y tu hipocondríaca hipocrisia brochante
son como um porre de whiski com cibalena
postizasonriza Barbie bo-ro-co-chôciudade morena
por que mezquina tanto tanta micharia?
macumba pra turista – arte fotogênica
yalo ensinaram Oswald – depois Manoel – mas você no aprendeu – son como [desinteria
falsa virgem loca ciudade morena
vas a aprender ahora com quanto esperma se faz um bom poema.
O soneto faz alusão à capital Campo Grande, conhecida carinhosamente por seus habitantes – devido à sua terra vermelha – por “Cidade Morena”, porém apresentada neste poema em tom ácido e irônico. O sujeito poético apresenta Campo Grande como uma cidade fútil e leviana “esnobe perua arrogante”, de “inteligência burra” e “pedante”, relacionando a verve do eu-lírico com o “El fuego de la palavra” como solução à frieza “brochante” da cidade.
Assim como defende Antonio Candido (2006, p. 39), que “o eixo do trabalho interpretativo é descobrir a coerência das produções literárias, seja a interna, das obras, seja a externa, de uma fase, corrente ou grupo”, levando-se em conta que para o autor a “coerência” está ligada a fatores como meio, vida, ideias, imagens, etc., formando uma diretriz que explicaria a obra como fórmula, resultado da produção do autor.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mato Grosso do Sul – assim como Tocantins – é fruto da divisão do Estado de Mato Grosso, por isso ainda está em fase de construção de sua identidade, o que o faz carecer de uma imagem que o caracterize de forma plena e distintiva perante os outros Estados no cenário nacional. E é por isso que ao investigar as possibilidades de hibridismos na poesia sul-mato-grossense, em seus processos complexos e multifacetados, tem-se um amplo painel dos traços da poesia pantaneira e, por extensão, da sua cultura.
Na produção poética da região, percebe-se o flagrante cruzamento da perspectiva geográfica do Estado evidenciada em uma fenomenologia de representação imagética do ambiente, de forma a manifestar seu aspecto transfronteiriço e o destaque à vinculação entre a poesia e o espaço, isto é, no seu viés geopoético, revelado na linguagem dos poetas, na fotografia que seus versos fazem dos diferentes tipos de paisagens, naturais e culturais, da região.
Sendo assim, estas linhas não encerram os estudos da geopoética do MS, bem pelo contrário, abre um horizonte imenso para os estudos literários sob o prisma da caracterização cultural como fonte de inspiração e identificação de um povo mestiço que recebeu influências de inúmeros povos e culturas por meio das internalizações migratórias de contingentes de outros países e de outras regiões brasileiras. Entender como a poesia do Estado se arquiteta figura-se de relevante importância para entender um povo e perceber como se arranja a tessitura da produção poética sul-mato-grossense.
REFERÊNCIAS
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1978.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 2002.
BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: São Paulo: Record, 2004.
BARROS, Manoel de. In: Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos. 8ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2006.
DIEGUES, Douglas. Dá gusto andar desnudo por estas selvas – sonetos salvajes. Curitiba: Travessa dos Editores, 2002.
GRATÃO, Lúcia Helena Batista. Da projeção onírica bachelardiana, os vislumbres da
geopoética. In: OLIVEIRA, Lívia et al. Geografia, percepção e cognição do meio
ambiente. Londrina, Humanidades, 2006.
HUSSERL, Edmund. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
MENEGUSSO, Gustavo; e MÜLLER, Nelci. A geopoética na literatura gaúcha: uma leitura da paisagem nos romances Ana Terra e Ana Sem Terra. In R. Língua & Literatura. Frederico Westphalen v. 13 n. 20 p. 109-123 Ago. 2011.
NAVEIRA, Raquel. Guerra entre irmãos. Campo Grande: Edição independente, 1993.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
SOUZA, Ronaldes de Melo. A geopoética de Euclides da Cunha. 2009. Disponível em: <http://www.casaeuclidiana.org.br/artigos-exibe.php?artId=20>. Acesso em: 19 jan. 2013.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. 7ª ed. São Paulo: Editora Universitária São Francisco, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
Dayane Mussulini
(Doutoranda em Letras – UNESP/Assis)
RESUMO: “Ernesto de tal”, “As bodas de Luís Duarte” e “O relógio de ouro” são produções de Machado de Assis integradas à sua segunda coletânea de contos, Histórias da meia-noite, de 1873. As três narrativas apresentam como temática o casamento, abordado em três momentos distintos: a primeira narra o namoro; a segunda, a celebração do matrimônio e a última, um episódio conflituoso na vida de um casal. A presente leitura dessas histórias, sendo assim, visa a um flagrante na sociabilidade burguesa do período, desvendada a partir da crítica do autor fluminense sobre a concepção romântica do casamento. Com essas questões, é possível observar um escritor sempre atento às questões literárias e culturais de seu país.
Palavras-chave: Machado de Assis; narrativas; casamento; sociabilidade burguesa.
ABSTRACT: “Ernesto de tal”, “As bodas de Luís Duarte” and “O relógio de ouro” are short stories by Machado de Assis included in his second collection, Histórias da meia-noite, published in 1873. All three narratives have marriage as their main theme, which comes up in three different moments: the first one narrates courtship; the second, a wedding celebration, and the last one, an episode of conflict in the life of a couple. Therefore, our reading of these stories seeks to present a glimpse of the bourgeois sociability of the period, unveiled by the author’s critical view of the romantic conception of marriage. Our purpose is to observe Machado as a writer who is very thoughtful of the literary and cultural matters of his country.
Keywords: Machado de Assis; narrative; marriage; bourgeois sociability.
MINICURRÍCULO: Dayane Mussulini é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras “Literatura e Vida Social” da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP. Defendeu sua Dissertação de Mestrado em março de 2015, intitulada Uma ponte entre o Brasil e a França: Histórias da meia-noite, de Machado de Assis, em que analisa a presença da literatura e da cultura francesas na construção de sentido das narrativas da segunda coletânea de contos de Machado de Assis. Atualmente estuda, também sob orientação da Profª. Drª Daniela Mantarro Callipo, a importância da crítica literária francesa do século XIX na elaboração de uma escritura crítica de Machado de Assis.
O CASAMENTO E A SOCIABILIDADE BURGUESA EM HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, DE MACHADO DE ASSIS
Dayane Mussulini
(Doutoranda em Letras – UNESP/Assis)
INTRODUÇÃO
Histórias da meia-noite é a segunda coletânea de contos de autoria machadiana, publica da em 1873. As seis narrativas ali inseridas foram todas publicadas, originalmente, no Jornal das Famílias (1863-1878), importante revista mensal que tinha como principal programa o ensinamento moral e o entretenimento das famílias burguesas do Rio de Janeiro, sobretudo das mulheres.
Para cumprir o propósito do periódico, os volumes eram compostos de várias histórias com forte caráter moral e, em alguns casos, religioso, sendo Machado de Assis um de seus principais colaboradores. No entanto, recentes pesquisas acadêmica[1]
apontam para um caso de subversão do autor fluminense, pois, na medida em que ele atendia algumas das propostas da revista, o fazia de modo diferenciado. Isto é, embora seja possível perceber certo tom de moralidade em suas narrativas, elas contêm ambiguidade e ironia, quando não humor, capazes de desassociar a ideia de moralidade com aquela de correção de vícios e indicando apenas uma observação dos costumes da sociedade contemporânea. Esse traço característico da produção machadiana pode ser encontrado nas obras dos moralistas franceses, como La Rochefoucauld, por exemplo, que denunciava os hábitos da população, não com o intuito de ensinar uma maneira de corrigi-los, mas de possibilitar a reflexão sobre eles.
Um dos temas frequentes nos textos de Machado pertencentes à revista de Garnier era o matrimônio, motivo pelo qual essas narrativas foram consideradas, durante muito tempo, românticas e de pouco proveito para o cânone da literatura brasileira. A partir de um novo olhar sobre a produção machadiana, contudo, essa perspectiva preconceituosa passa a ser redirecionada, dedicando-se, então, a uma análise minuciosa de seus detalhes, que revelam a preocupação do autor fluminense em discutir os problemas da sociedade contemporânea por meio de seus escritos.
É preciso considerar que as histórias publicadas no Jornal das Famílias, todavia, fazem parte dos anos de formação de Machado de Assis, sendo um espaço muito profícuo para a prática de sua escritura. Sonia Brayner (in BOSI, 1982) denomina esse espaço de laboratório ficcional, pois é onde ele desenvolveria a sua escrita. Sílvia Azevedo (1990), nesse sentido, chama a atenção para a imensurável importância da revista para o processo de amadurecimento do gênero conto dentro da ficção machadiana e, até mesmo, nacional, tendo em vista que, naquela época, o gênero era pouco praticado em nosso meio. Por isso, é comum que os primeiros enredos tenham dificuldades de ser considerados contos. Na verdade, opta-se pelo termo narrativas e, somente a partir da coletânea Papéis avulsos (1882), é possível enquadrá-los no gênero com mais facilidade. Porém, embora haja essa problemática na classificação dos textos, não se pode deixar de lado a sua importância para a construção da literatura brasileira[2].
Pensando nessas questões, o presente artigo tem como objetivo apresentar três narrativas de Histórias da meia-noite, “Ernesto de tal”, “As bodas de Luís Duarte” e “O relógio de ouro”, a partir da temática do casamento, discutindo o seu papel fundamental para a manutenção da sociedade burguesa do século XIX brasileiro. Os três textos também carregam marcas de intertextualidade com a literatura e a cultura francesas, o que auxilia na discussão da própria literatura e cultura nacionais, dada a importância da França como centro irradiador da cultura ocidental.
O namoro em “Ernesto de tal”
Dividido em seis capítulos, “Ernesto de tal” estampou as páginas do Jornal das Famílias nos meses de março e abril do mesmo ano de 1873, quando foi inserido em Histórias da meia-noite, com a mesma divisão, marcada por algarismos romanos. A história gira em torno da personagem homônima, um jovem disposto a todos os riscos para se unir a Rosina, moça loureira que, por sua vez, deseja sobretudo casar-se.
Alguns capítulos do enredo dão conta de apresentar, cada um, as personagens que compõem o triângulo amoroso. Ernesto, sendo assim, está em foco na primeira parte, momento em que o narrador heterodiegético cria um clima de mistério ao fazer uma série de suposições sobre a identidade do protagonista e, dessa forma, estabelece, também, uma relação íntima com o leitor, em uma espécie de tête-à-tête. Na segunda subdivisão, é a vez de Rosina aparecer no centro das atenções, por meio de uma descrição física, em especial de seus olhos e de seus rápidos movimentos, denunciando o seu espírito namoradeiro. O rapaz de nariz comprido, por seu turno, presente desde o segundo capítulo, porém, com a sua personalidade levada mais a fundo apenas no quarto.
Enquanto as personagens entram em cena, os conflitos vão, de igual modo, surgindo e intensificando a tensão da narrativa. Tendo como objetivo principal o matrimônio, “as intenções de Rosina, leitor curioso, eram perfeitamente conjugais. Queria casar, e casar o melhor que pudesse […] e havia uma coisa pior que casar mal, que era não casar absolutamente” (ASSIS, 1977, p. 135)[3]. Por isso, a donzela acumulava pretendentes, a fim de que seus planos, de algum modo, fossem consumados.
Armava encontros concomitantes com Ernesto e o rapaz de nariz comprido, o que alimentou as desconfianças de ambos os namorados sobre a infidelidade da moça, logo comprovada e vingada conjuntamente pelos dois. No entanto, ela conseguiu se redimir com Ernesto e, no desfecho da história, o narrador nos informa que eles se casaram e o rapaz de nariz comprido tornou-se amigo íntimo do casal.
Em um outro artigo[4], discutimos a possibilidade de “Ernesto de tal” ser lido como uma paródia da comédia francesa Le barbier de Séville,
de Beaumarchais. A ideia parte da escolha do nome Rosina, visto ser incomum em território brasileiro e, também, uma forma aportuguesada do epíteto Rosine, protagonista da obra francesa em questão. A partir de então, a intertextualidade se sustenta com a aproximação incontestável de ambos os enredos, a qual, aliás, é estendida com relação às semelhanças formais. A prosa machadiana contém características próprias do gênero dramático; por exemplo, a divisão em capítulo, assim como são os atos e cenas das peças teatrais, e a dinâmica da narrativa por meio dos constantes diálogos e mudanças de cenários, traço também pertencente ao drama. A paródia se confirma, portanto, devido às diferenças fundamentais de um texto para o outro, apontando a presença da comédia francesa como uma tentativa de memória da literatura. Ou seja, o narrador machadiano escolhe esse intertexto para elucidar que a literatura se (re)cria por meio de si mesma. No caso, defendemos a hipótese de que a partir de outras literaturas, inclusive estrangeiras, torna-se possível a construção da literatura nacional.
Essa intertextualidade, entre outras coisas, permite uma interpretação do significado do matrimônio, não apenas na opinião de Rosina, como também na de grande parte da – senão na de toda – população brasileira oitocentista burguesa. O casamento, sendo assim, instala-se como possibilidade de solução para os seus desejos, uma vez que a moça “não era inteiramente avessa aos impulsos do coração e à filosofia do amor; mas tinha ambição de figurar alguma cousa, morria por vestidos novos e espetáculos frequentes, gostava enfim de viver à luz pública” (idem, p. 131). Isto é, para que pudesse participar da sociabilidade burguesa da época, era preciso ter o título de esposa. Nesse sentido, o casamento tornava-se mais urgente que a posição econômica. Embora tenha tido o cuidado de tentar atender ambas as questões – motivo pelo qual preferia o rapaz de nariz comprido, que tinha condições financeiras um pouco superiores àquelas de Ernesto –, não obteve sucesso nas duas empreitadas, já que o rapaz de nariz comprido era mais difícil de ser enganado que Ernesto, considerado pela própria donzela um palerma.
Outro aspecto presente na citação acima é o descompasso entre o matrimônio e o sentimento amoroso, confirmado com consciência por Rosina. Amor e casamento, como sabemos, fazem parte de uma combinação do século XIX, que o Romantismo fez questão de cultivar. Embora a produção inicial de Machado de Assis seja classificada de romântica, raros são os casos em que vemos o amor como o centro das decisões das personagens. Rosina, nesse sentido, seria a representação da união conjugal enquanto contrato social, basilar para a manutenção da sociedade tal e qual e, consequentemente, para que tivesse um papel a ser desempenhado naquele ambiente. Ernesto, por outro lado, ainda está preso às concepções românticas do casamento, uma vez que é um jovem ingênuo, desejoso sobremaneira da tranquilidade amorosa por meio de sua união com a moça namoradeira.
Com perspicácia, Rosina se aproveita do espírito e do sentimento de seu namorado para obter sucesso em sua empreitada, fingindo sofrer com o rompimento deles. As características da jovem compõem uma personagem muito distinta daquelas criadas em nosso meio literário oitocentista, uma vez que não carrega em si a ingenuidade e a crença no amor idealizado. Ao contrário, apesar de estar ciente de sua posição naquela sociedade, é ela quem arquiteta os planos para ter suas ambições alcançadas. A sua preocupação, portanto, era com o status e a vida pública, razões pelas quais desejou sobremaneira o matrimônio como forma de concretizar esses anseios.
A dissimulação de Rosina, no entanto, permite a construção de uma personagem ambígua. De um lado, a aversão pelo seu comportamento loureiro e pelas vezes que enganou seus namorados, sobretudo Ernesto. Neste aspecto, o narrador contribui com a empatia pelo protagonista, utilizando adjetivos como “pobre”, “mísero” e “desgraçado”, por exemplo, para caracterizá-lo. O que também estaria expresso no título da narrativa, tendo em vista que o pronome “tal” sugere, ao menos, duas ideias antitéticas: uma de peculiaridade, como na expressão coloquial “aquele cara é o tal”, denotando a sua superioridade; e a outra, o oposto, significando falta de especificidade, como em “fulano de tal”. De outro lado, a heroína machadiana pode ser percebida como modelo da mulher moderna, capaz de ter o total controle sobre o seu amado.
O matrimônio é notado, portanto, a partir de uma ótica irônica, que aponta para a falácia do casamento por amor. Rosina, tendo consciência desse fato, busca uma maneira de casar o melhor que pode, respeitando os contratos sociais e, mais do que isso, querendo neles se inserir.
A celebração de “As bodas de Luís Duarte”
Acertados os detalhes do consórcio, é chegado o momento de sua celebração. Assim, “As bodas de Luís Duarte”, também publicadas em 1873 no Jornal das Famílias, nos volumes de junho e julho e inseridas no final do mesmo ano em Histórias da meia-noite, narram os preparativos e a festa de casamento entre Carlota e Luís Duarte.
O início da história, dando-se in media res, coloca em foco José Lemos, pai da noiva, ocupado com a decoração da casa para recepcionar os convidados. Desde então observa-se o seu pedantismo, ao fazer questão de dar aparência de um erudito sem realmente sê-lo. Exemplo disso é a escolha que faz dos quadros para enfeitar a casa: a Morte de Sardanápalo e a Execução de Maria Stuart. A primeira pintura foi criada por Eugène Delacroix, em 1827 e é baseada na obra de Lord Byron que, por sua vez, conta a história do antigo rei da Babilônia, Sardanápalo, cuja ameaça de queda levou a ordenar o assassinato de suas mulheres. A tela, por meio de suas cores vibrantes, com a proliferação do vermelho e do dourado, bem como de seus contornos que dão movimento ao quadro, foi considerada uma afronta aos modelos neoclássicos, pois rompia com essa estética. Embora D. Beatriz aponte para a incoerência das pinturas com respeito às bodas, há a preocupação de José Lemos em se mostrar um erudito, um conhecedor da História e, igualmente, um admirador das belas artes, de modo que pouca relevância tinha o conteúdo dos quadros em relação à festa. O que importava, de fato, era a aparência de conhecedor da alta cultura. Já a segunda pintura poderia estar representada em várias telas, dentre as quais La mort de Marie Stuart, do francês Abel Pujol e Execution of Mary, Queen of Scots, do escocês Robert Inerarity Herdman. Apesar dessa indefinição, o tema do quadro seria o mesmo, trazendo em cena o dia da execução de Maria Stuart, que fora rainha da França e depois da Escócia e, tendo sido retirada de seu trono por conspiração, pediu ajuda à sua prima, rainha Elizabeth da Inglaterra, que se sentindo ameaçada, ordenou a prisão e, anos mais tarde, a morte de Mary Stuart.
Apesar dos quadros indicarem incoerência temática com respeito à festa nupcial, o que foi notado por D. Beatriz, eles apontam para o jogo de poder, também encenado no ambiente dessa narrativa, onde cada personagem desempenha um papel que lhe é próprio dentro da sociedade burguesa do século XIX brasileiro. Dessa forma, então, percebemos que a escolha do narrador não é gratuita, uma vez que os quadros impõem à história esse alerta.
Ao longo da narrativa aparecem cenas e personagens que dão sucessão à sociedade de aparências, preocupada, sobretudo, com o efeito de seus atos, deixando de lado a essência dos acontecimentos. Com uma espécie de câmera cinematográfica, sendo assim, o narrador machadiano percorre todas as personagens presentes na cerimônia, tecendo comentários sobre elas ou flagrando algumas de suas ações. A intenção é de apresentá-las de modo irônico e ambíguo, causando humor na leitura.
O narrador, contudo, por meio de um discurso jocoso e dissimulado, faz-se de desentendido ao dar a falsa impressão de que as características levantadas das personagens são definidas por terceiros. Dessa maneira, embora compactue com essas opiniões, gostaria de se ausentar de sua responsabilidade, de forma a mostrar que não é ele o autor de maliciosos comentários, sendo apenas o responsável por torná-los de conhecimento do leitor.
As descrições caricaturais, todavia, são mais sutis em relação às personagens femininas. Com a exceção das moças, o narrador utiliza o pronome de tratamento “Dona” para as demais senhoras, sendo que os homens são apenas chamados pelos seus nomes próprios – exceto Dr. Valença que era advogado e, em alguns momentos, quando opta por chamar José Lemos de Sr., quase sempre na tentativa de ironizar este tratamento mais formal, pois condizia com a superficialidade da personagem que tratava a filha com formalidades no momento em que era necessário um comportamento mais íntimo. Com isso, o narrador aponta para a questão social da mulher, ou seja, qual seria o seu papel representado naquela sociedade. Se à mulher cabia a submissão ao marido, pelo menos se vista de fora, no ambiente interno pode ser que tivesse um pouco mais de “autonomia”, por falta de melhor expressão. D. Beatriz, por exemplo, foi a responsável em dar as ordens aos escravos da família, enquanto o marido se incumbia de decorar, ele próprio, a casa. Também, o narrador deixa claro era D. Beatriz quem decidia muitos assuntos dentro de casa (ASSIS, 1977, p. 106):
O pai da noiva inclinava-se a que o casamento fosse celebrado depois do jantar, e nisto era apoiado pelo jovem Rodrigo, que com uma sagacidade digna de estadista, percebeu que, no caso contrário, o jantar sairia muito tarde. Prevaleceu entretanto a opinião de D. Beatriz.
A possibilidade de a mulher mandar e desmandar no ambiente doméstico, sendo a dona da(e) casa, explica o pronome de tratamento empregado para indicá-la. Essa “autonomia”, entretanto, é restringida ao espaço doméstico, uma vez que os assuntos externos, como a política e a economia, eram responsabilidades exclusivas do marido. Pela primeira vez em Histórias da meia-noite, o narrador traz em cena o núcleo familiar burguês do século XIX completo, com o homem, a mulher e sua prole, sem deixar de aludir, em raros momentos, à extensão da família, ocupada pelos criados, que assim como na narrativa, ficavam à margem da estrutura familiar do período.
Em meio a tantas personagens e situações, o leitor, ansioso pelo caso de romance que o título sugere, frustra-se ao perceber que Carlota e Luís Duarte não ocupam senão o mesmo espado que as outras personagens. A intenção do texto, portanto, está direcionada na representação de uma festa de casamento, bem como dos preparativos da mesma, de forma que o ponto de vista do narrador seja de cima, isto é, de alguém que observa esse evento social, dando atenção igual a todos os presentes, sejam eles os noivos, os pais, os padrinhos ou os outros convidados. Como em uma narrativa de costumes, o importante é trazer em cena o passo a passo de uma cerimônia essencial para a manutenção daquela sociedade. Para tanto, o narrador opta por oscilar entre as cenas e os sumários, na medida em que ora assume a sua posição de contador da história, ora permite que as personagens sejam mostradas por si; porém, sem nunca abandonar o seu posto de editor do texto. Convidados e noivos são, destarte, igualmente importantes: “Passava o tempo, e nem o noivo, nem o tenente Porfírio davam sinais de si” (ASSIS, 1977, p. 110), posto que, aos olhos de José Lemos, tanto o “orador de sobremesa” quanto o noivo eram, da mesma maneira, imprescindíveis para a realização da cerimônia.
Acreditamos que a narrativa tece uma crítica, não em relação ao matrimônio de maneira ampla; entretanto, ao apresentar um enredo em que o casamento, já expresso no título, não aparece senão como pano de fundo, o narrador tem como intuito criticar a união conjugal excessivamente idealizada pela escola romântica. Embora ironizada, e até levada ao ridículo, em muitos aspectos, a família não é de todo satirizada. A censura aos costumes familiares só existe ao passo que há a prevalência do parecer em oposição ao ser. O que pode ser explicado a partir da atuação vazia e superficial de José Lemos com sua filha, em contrapartida, a relação terna e sincera de D. Beatriz com a moça.
A celebração, assim sendo, que parece ter começado com impaciência e tédio por parte dos convidados, termina com um “animadíssimo” baile, “que durou até às três da manhã”, regado a champagne e a vinho. Para o narrador, todavia, a história se encerra com a mesma ironia que se principia: “Mas o verdadeiro brinde dessa festa memorável, foi um pequerrucho que viu a luz em janeiro do ano seguinte, o qual perpetuará a dinastia dos Lemos, se não morrer na crise da dentição” (idem, p. 122). Dessa forma, parece estar claro que a ideia não é abominar o matrimônio, mas sim a idealização do mesmo que não se efetiva na prática. Além disso, ao sugerir uma possível “crise de dentição”, o narrador elucida um aspecto realista – sem deixar a ironia de lado – presente em seu texto. O mesmo tom de realismo, aliás, encontra-se nos pormenores descritivos, tanto os dos preparativos da festa quanto os das personagens e suas ações, permitindo, assim, afirmar que a narrativa é uma espécie de flagra na sociedade burguesa do Oitocentos brasileiro.
O flagrante também ocorre no que concerne à presença francesa, dado a sua importância no contexto fluminense daquele tempo. Tanto a personagem como o narrador dão, desse modo, mostras de sua erudição por meio de objetos oriundos da cultura francesa.
O casamento em “O relógio de ouro”
Após a festa das bodas é que o casamento se inicia, de fato. “O relógio de ouro”, neste sentido, responsabiliza-se por trazer ao livro um fato ocorrido na rotina de um casal que, até então, desfrutava a mais perfeita e invejável vida conjugal, ao menos se vista de fora. O conto, aparecendo pela primeira vez no Jornal das Famílias nos números de abril e maio de 1873, é a penúltima narrativa de Histórias da meia-noite.
O tom de mistério, já existente nas outras narrativas da coletânea, é praticado de modo mais enfático em “O relógio de ouro”, dado que o enigma move toda a trama e apenas se desfaz nas linhas finais da história. É, então, o enredo com maior contenção e tensão em sua estrutura, aproximando-se das definições clássicas do gênero conto praticado ao longo do século XIX.
O narrador onisciente começa a história dando pistas da sua autoridade enquanto organizador da narração, ao mesmo tempo em que parece querer estabelecer uma ligação com os textos anteriores, dando ideia de sequência. Mais uma vez, assim sendo, o leitor acredita que pode confiar nesse narrador quando ele não sabe dar todas as informações sobre as personagens. É preciso, contudo, estar sempre atento, já que este é o responsável pelo andamento da narrativa e, por conseguinte, pelas conjeturas que aquele pode realizar durante a sua leitura. O narrador, portanto, tem o domínio sobre os dados que escolhe tornar conhecidos do leitor. Luís Negreiros, dessa forma, ao chegar em sua casa e se deparar com um relógio masculino que não era seu, interroga a sua mulher diversas vezes e, não obtendo respostas, faz uma série de considerações, que podem ser as mesmas realizadas pelo narratário. Leitor e personagem, então, têm o conhecimento das mesmas coisas e desvendam juntos o mistério.
Luís Negreiros é o típico marido burguês oitocentista brasileiro. É o provedor da casa e, por esse motivo, o chefe da família. Passa parte do dia fora, trabalhando em seu escritório. Clarinha, por seu turno, é a esposa-modelo dessa sociedade; obediente e portadora de cândidos traços e trejeitos, responsável pelo cuidado com o lar. Notamos o furor de Luís Negreiros aumentar ao passo que Clarinha recusava-se a colaborar com o interrogatório proposto por ele. Mergulhada em uma aparente indiferença, levou o marido a gestos brutos com ela. Foi durante a discussão que se deu o aparecimento de Meireles, pai da moça, que habitualmente ia jantar na casa da filha.
A presença de Meireles é muito importante para a estrutura e o desenvolvimento narrativo, pois lhe dá movimento e faz com que o leitor, pela primeira vez, desvie sua desconfiança de Clarinha para Luís Negreiros. Em primeiro lugar, o sogro relembrou ao genro de que no dia seguinte seria o seu aniversário, de modo que este encontrasse aí a explicação para o tal enigma. Em segundo, após a entrada de Meireles, o narrador faz uma breve digressão para apresentar a vida de solteiro de Luís Negreiros, mostrando-o um galanteador, amante das noitadas e da vida mundana. É então, a partir da inserção desses detalhes, que o narrador chama a atenção do leitor sobre um passado que poderia comprometer a resolução dos acontecimentos presentes.
Essa digressão permite, de igual forma, que se conheça um pouco mais dessa sociedade fluminense. Observa-se que Meireles tinha receio da infelicidade da filha ao aceitar o seu casamento com Luís Negreiros, uma vez que conhecia os “costumes pouco austeros” do rapaz. Por insistência da moça, porém, o pai acabou cedendo e consentindo no matrimônio, também com a promessa de que o “leão impetuoso” se tornaria um “pacato cordeiro”. Ademais, o próprio Meireles havia sido um “marido pouco exemplar”, de sorte que essa revelação possibilita um panorama da sociabilidade exercida no período. Ainda que os homens pareçam não apresentar um perfil para a monogamia, assim como estava prescrita na Constituição do país, eles precisavam da união conjugal com uma mulher para dar continuidade aos interesses e à própria manutenção da burguesia. O casamento, dessa maneira, era a peça chave para os jogos de poder da época e, por isso, na maioria dos casos, sobretudo dentre a classe mais alta da sociedade, ele não se realizava por amor, mas sim por convenção social. Para a satisfação do prazer carnal, no entanto, era comum que os homens tivessem amantes. Algumas vezes, esses relacionamentos adúlteros tinham como fruto filhos bastardos.
Como vimos em outras narrativas, as mulheres, muitas vezes, tinham o conhecimento dessa prática e, ainda assim, desejavam o matrimônio, tendo em vista que gostariam, também, de desempenhar o seu papel nessa sociedade. Se continuassem solteiras não teriam nenhum tipo de autonomia, nem mesmo a doméstica, tal como representa D. Beatriz, em “As bodas de Luís Duarte”. Além do mais, elas foram criadas para o casamento, daí a importância de revistas como O Jornal das Famílias, fundamentais para a reafirmação desses hábitos.
Em “O relógio de ouro”, portanto, encena-se mais um exemplo do consórcio enquanto manutenção dos interesses da sociedade burguesa oitocentista. O amor, se existisse, seria um item acessório e não teria nenhuma relação com a paz conjugal. Clarinha e Luís Negreiros, sendo assim, viviam um casamento, aparentemente, perfeito, cuja tranquilidade foi interrompida devido ao aparecimento de um objeto que denunciava o adultério. Este, por sua vez, pode até ser consentido, desde que escondido, pois quando trazido às claras fica mais difícil de ignorá-lo.
Como o marido não conseguia tirar nenhuma informação de sua esposa, achou necessário tomar uma atitude decisiva. Luís Negreiros, assim, realizou uma série de conjeturas, de modo a resumir o comportamento de sua mulher, que ora a mostrava vítima, ora culpada. O recurso narrativo é interessante pois convida o leitor a fazer as mesmas suposições. A carga dramática da história, dessa forma, chega ao seu ápice no momento em que o homem está prestes a ameaçar Clarinha de morte, caso ela não resolvesse o mistério. A mulher, por fim, entregou ao marido uma carta que viera acompanhada do relógio, na qual revelava ser este um presente de aniversário para Luís Negreiros de sua amante.
Cabe ressaltar o tom irônico e ambíguo empregado pelo narrador na construção de seu enredo. Algumas vezes, contou também com certo humor, por exemplo, ao descrever a reação do marido ao descobrir o objeto desconhecido: “Luís Negreiros gostava de charadas, e passa por ser decifrador intrépido; mas gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpáveis ou cronométricas, e sobretudo sem conceito, não as apreciava Luís Negreiros” (ASSIS, 1977, p. 184).
Brincando com os trocadilhos que as palavras permitem, o trecho ilustra não um caso isolado da dificuldade em lidar com a traição, mas sim como essa questão era problemática para aquela sociedade, desde que a desconfiança do adultério recaísse sobre a mulher. A ambiguidade do narrador, assim sendo, foi necessária para manter a expectativa do leitor, sendo a ironia capaz de ampliá-la e de possibilitar um desfecho surpreendente, ao mesmo tempo em que catártico.
O narrador, entretanto, já revelava a posição de cada personagem diante da infidelidade conjugal a partir da escolha de seus nomes. Clarinha, de um lado, é o diminutivo de Clara, cuja origem latina remete ao significado de brilhante, ilustre. O nome adjetivo é também usado com a intenção de mostrar algo transparente, sereno e sem ambiguidade, bem acentuado. É nesse sentido, então, que o nome Clarinha prefigurava a sua condição de vítima, no que é auxiliada com o uso do diminutivo, trazendo a ideia de fragilidade. Luís Negreiros, por outro lado, possui um sobrenome relativo à cor negra, ao que é obscuro e escondido, indicando, assim, o oposto daquilo que é claro, tendo em vista que a ausência de luz impossibilita de se enxergar com clareza. O nome Luís Negreiros, portanto, pressupunha a sua responsabilidade no ato adúltero. Não obstante as designações transparentes das personagens, o narrador lança mão de estratégias narrativas na tentativa de confundir o leitor, indiciando em diversas vezes o comportamento suspeito de Clarinha, ao mesmo tempo em que absolvia Luís Negreiros em sua empreitada angustiante na solução do mistério.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As três narrativas analisadas, entre outras coisas, têm como semelhança a temática do casamento, cada uma ocupada em narrar um momento distinto desse acontecimento social. Se, durante muito tempo, esse tópico foi encarado com depreciação por parte da crítica machadiana, já há algumas décadas, os pesquisadores se esforçam para mostrar a sua relevância. Com a tese de Doutorado da professora Sílvia Maria Azevedo (1990), neste sentido, começou a ser percebida a subversão do narrador machadiano na composição de suas personagens femininas. Como a maioria de suas narrativas, nesse período, eram destinadas ao Jornal das Famílias, a subversão fica ainda mais evidente como maneira de “desautomatizar” as leitoras, até então acostumadas com leituras românticas amenas, produzidas a partir de um modelo esquemático pronto, oriundo, sobretudo, dos folhetins melodramáticos franceses.
Tivemos o intuito de mostrar como Machado de Assis reagia sobre a concepção do matrimônio e de sua importância para a manutenção da sociedade burguesa daquela época. Para isso, foi preciso tecer personagens femininas capazes de buscar um espaço, ainda que mínimo, nesse ambiente, colaborando, também, para a dissociação do casamento com o sentimento amoroso.
Ao colocar em cena essas histórias, percebemos que as mulheres não se iludiam com o casamento, uma vez que tinham consciência do seu real significado: a possiblidade de participar da sociabilidade burguesa de seu tempo. Ao constituir uma família, teriam um papel a desempenhar; sem ela, dificilmente o fariam. Por isso, suportariam o adultério, entretanto, não conseguiriam conviver com ele às claras, por questões que vão além dos hábitos de uma ou de outra época.
As primeiras narrativas machadianas, portanto, embora abordem o tema das bodas, não o fazem de maneira romântica. Ao contrário, fazem criticando, justamente, a concepção romântica idealizada do matrimônio, que não existia em meio à burguesia, preocupada em manter os seus privilégios. A crítica, sendo assim, também não se dirige ao casamento enquanto contrato social, mas apenas à tentativa de escondê-lo atrás de uma fantasia romântica.
Com isso, Machado de Assis coloca em foco questões fundamentais para a manutenção da sociedade na qual vivia, de modo a pode ser considerado um formador de leitores e leituras atuantes, ainda que com a aparência de amenidades.
REFERÊNCIAS
ASSIS, Machado de. Histórias da meia-noite. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
AZEVEDO, Silvia Maria de. A trajetória de Machado de Assis: do Jornal das Famílias aos contos e histórias em livro. Tese (Doutorado em Letras). São Paulo: USP, 1990.
BARTHES, Roland. O efeito de real. In: Idem. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 158-65.
BOSI, Alfredo et al. Machado de Assis: antologia e estudos. São Paulo: Ática, 1982.
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Trad. Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. Org. Haroldo de Campos e Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Perspectiva, 2006.
CRESTANI, Jaison L. Machado de Assis colaborador do Jornal das Famílias: da periferia do Romantismo para o centro da literatura brasileira. Dissertação (Mestrado em Letras). Assis: UNESP, 2007.
MUSSULINI, Dayane. Uma ponte entre o Brasil e a França: Histórias da meia-noite, de Machado de Assis. Dissertação (Mestrado em Letras). Assis: UNESP, 2015.
SAMOYAULT, Tiphaine. A Intertextualidade. Trad. Sandra Nitrini. São Paulo: Hucitec, 2008.
NOTAS AO TEXTO
[1] Como exemplo disso, ressaltamos a leitura de AZEVEDO, Silvia Maria. A trajetória de Machado de Assis: do Jornal das Famílias aos contos e histórias em livro. Tese (Doutorado em Letras). São Paulo: USP, 1990. E de CRESTANI, Jaison L. Machado de Assis colaborador do Jornal das Famílias: da periferia do Romantismo para o centro da literatura brasileira. Dissertação (Mestrado em Letras). Assis: UNESP, 2007.
[2] Vale lembrar que nessa época a maioria da população era analfabeta, sendo as narrativas publicadas em periódicos imprescindíveis para a criação de um público leitor e, consequentemente, da própria literatura.
[3] Em todas as citações, respeitamos a grafia original das palavras.
[4] O artigo aludido chama-se “A intertextualidade em ‘Ernesto de tal’: a presença de Le barbier de Séville como memória da literatura”, a ser publicado no número 5 da revista Non Plus, ISSN: 2316-3976.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rosa Maria SANTOS – UEMS
Danglei de Castro PEREIRA – UnB
Resumo: O artigo discute a obra A estrela sobe (1938), de Marques Rebelo, pseudônimo de Edi Dias da Cruz. A ideia central é valorizar a obra do autor e, neste percurso, comentar aspectos específicos de sua produção ao abordar os limites do cânone literário nacional quanto à diversidade do romance e heterogeneidade de produções no século XX. Acreditamos ser pertinente considerar aspectos da configuração feminina na tradição literária brasileira e refletir sobre o lugar de Leniza Mayer nesta tradição e, na medida do possível, apresentar um autor pouco conhecido ao público leitor não especializado ao comentar aspectos específicos de sua obra por meio da discussão de nosso corpus.
Palavras-chave: Rebelo. Marques Rebelo. Modernismo. Revisão do cânone.
Abstract: This article aims to discuss the novel A estrela sobe (1938, The Star Rises), by the Brazilian writer Marques Rebelo, pen name for Edi Dias da Cruz. Its central idea is to trace the author’s form of work and to comment on specific aspects of his production in order to understand the boundaries of the literary canon of the Brazilian novel in the 2oth century in terms of its diversity and heterogeneity. We think that it is suitable to the corpus of our research to consider the place of Leniza Mayer in the female configuration of the Brazilian literary tradition. Furthermore, this article will try to present to the non-specialized reader Marques Rebelo, as he is an author generally speaking little known, by commenting on certain specific aspects of his work.
Keywords: Rebelo. Marques Rebelo. Modernism. Canon revision.
INTRODUÇÃO
É comum encontrarmos referências às obras e autores do Modernismo brasileiro e nestas percebermos a ausência de apreciação crítica mais detida da obra de Marques Rebelo. São escassos os trabalhos científicos de maior fôlego que focalizem a obra do autor e, quase sempre, as referências às obras de Marques Rebelo compreendem aspectos temáticos associados a sua produção, deixando implícita a qualidade estética de seus textos.
A abordagem do romance A estrela sobe (1938), em nosso ponto de vista, garante a possibilidade de focalizar a diversidade de obras na tradição literária brasileira no século XX, fato importante para o amadurecimento de questões em torno da formação do cânone literário e, mais especificamente, o mapeamento da produção literária de autores como Marques Rebelo no contexto modernista no Brasil.
Nosso objetivo, neste estudo, é apresentar a trajetória diegética de Leniza Mayer, tendo como pano de fundo a representação da figura feminina no romance A estrela sobe, corpus específico da discussão.
MARQUES REBELO E A FIGURA FEMININA: UMA PROBLEMÁTICA
Marques Rebelo (pseudônimo de Edi Dias da Cruz) nasceu em 1907, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Viveu parte de sua infância em Vila Izabel e no Trapicheiro, bairros cariocas e, posteriormente, em Barbacena/MG. Morreu em 1973 no Rio de Janeiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e produziu diversas obras, dentre as quais, destacamos: Oscarina (1931); Três caminhos (1933); Marafa (1935); A estrela sobe (1938); Stela me abriu a porta (1942); O espelho partido I (1959), O trapicheiro (1959); O espelho partido II (1963); A Mudança (1963); O espelho partido III (1969) e A guerra está em nós (1969).
Neste estudo focalizaremos o romance A estrela sobe. Esta obra aborda a trajetória de Leniza Mayer, moça humilde, que sonhava alcançar o sucesso como cantora de rádio, mas que vê seus sonhos diluídos ao longo de uma trajetória marcada pela convivência, nem sempre harmônica, com uma sociedade machista e preconceituosa. Entendemos que a trajetória de Leniza estabelece uma tensão em relação a personagens representativas da tradição literária brasileira no que se refere à representação da figura feminina, o que focalizaremos de maneira mais detida ao longo do estudo.
Um exemplo do que podemos denominar trajetória paradigmática da representação da figura feminina é a construção da musa romântica. Na caracterização da personagem Cecília em O guarani, por exemplo, prevalece o caráter idealizado e sentimental em muito sob a influência da figura feminina descrita como casta e submissa aos padrões patriarcais, o que compreende um dos paradigmas sociais esperados da figura feminina na sociedade brasileira no século XIX com desdobramentos nos dias atuais.
Vejamos como Alencar materializa em seu romance a personagem Cecília:
Caía a tarde.
No pequeno jardim da casa de Paquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente numa rede de palha presa aos ramos de uma acácia silvestre, que estremecendo deixava cair algumas de suas flores miúdas e perfumadas.
Os grandes olhos azuis, meio cerrados, às vezes se abriam languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavam de novo as pálpebras rosadas.
Os lábios vermelhos e úmidos pareciam uma flor de gardênia dos novos campos, orvalhada pelo sereno da noite; o hálito doce e ligeiro exalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco (sic) de algodão, tingia-se nas faces de uns longes cor-de-rosa, que iam, desmaiando, morrer no colo de linhas suaves e delicadas. (ALENCAR, 1998, p. 32-33).
A fragilidade e pureza da sonhadora Cecília se confirmam no decorrer do romance de José de Alencar. A jovem que tem os lábios como “uma flor de gardênia dos novos campos” e uma “perfeição admirável” assume uma representação frágil e dócil, sendo objeto de desejo de personagens masculinos como Álvaro, Peri e Loredano. Não fosse a proteção de seu pai, Dom Antonio de Mariz, de Álvaro, espécie de herói medieval deslocado para o interior do Brasil inexplorado, e do índio Peri, que arrisca a própria vida para defendê-la inúmeras vezes no romance, Cecília sucumbiria à mercê de Loredano, anti-herói de O Guarani.
A personagem Aurélia, de Senhora, também de José de Alencar, possui, como Cecília, características frágeis que indicam a idealização romântica. Esta personagem, no entanto, traz certa ambiguidade que não impede sua ternura e ingenuidade; sob a égide do enlace passional que organiza a composição do romance:
O coração de Aurélia não desabrochara ainda; mas virgem para o amor, ela tinha não obstante a vaga intuição do pujante afeto que funde em uma só existência o destino de duas criaturas e, completando-as uma pela outra, forma a família.
(…)
Como todas as mulheres de imaginação e sentimento, ela achava dentro de si, nas cismas do pensamento, essa aurora d’alma que se chama o ideal, e que doura ao longe com sua doce luz os horizontes da vida. (ALENCAR, 2005, p. 87).
Após sofrer com o abandono do amado e receber uma herança do avô, Aurélia cria um plano para casar-se com Seixas e, com isso, “o ideal” de pureza da personagem parece ser questionado em uma trajetória diegética que se orienta, preliminarmente, por uma vingança:
A riqueza que lhe sobreveio inesperada, erguendo-a subitamente da indigência ao fastígio, operou em Aurélia rápida transformação; não foi, porém, no caráter, nem nos sentimentos que se deu a revolução; estes eram inalteráveis, tinham a fina têmpera (sic) do seu coração. A mudança consumou-se apenas na atitude, (…), dessa alma perante a sociedade. (ALENCAR, 2005, p. 213 – 114).
Inferimos que na descrição de uma permanência da “fina têmpera (sic) do seu coração” o narrador dá indícios de que não permitirá que Aurélia perca suas características frágeis de mulher submissa e casta para assumir a visão enigmática da musa realista com a qual sua trajetória diegética flerta. Na condução de seu plano de vingança e na forma distanciada e severa com que lida com Fernando Seixas e seu tutor ao longo de grande parte do romance, Aurélia vislumbra a independência por meio de uma aparente manipulação dos personagens masculinos.
Ao final do romance, apesar da decepção sofrida pelo abandono do amado em um primeiro momento, Aurélia perdoa Fernando Seixas e, inclusive, ajoelha-se diante dele:
A moça travara das mãos de Seixas e o levara arrebatadamente ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo ajoelhado a seus pés a cruel afronta:
– Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando teu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma.
Seixa ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara a seus pés; os lábios de ambos se uniam já em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou no espírito do marido. Ele afastou de si com gesto grave a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza.
– Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre.
A moça desprendeu-se dos braços do marido, correu ao tocador, e trouxe um papel lacrado que entregou a Seixas.
– O que é isto, Aurélia?
– O meu testamento.
Ela despedaçou o lacre e deu a ler a Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido e o instituía seu universal herdeiro.
– Eu o escrevi logo depois do nosso casamento; pensei que morresse naquela noite, disse Aurélia com um gesto sublime.
Seixas contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas.
– Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver meu Fernando. É o meio de a repelires. Se não for o bastante, eu a dissiparei. (ALENCAR, 2005, p. 237-238).
Entendemos, no entanto, que ao planejar a vingança e direcioná-la a Fernando Seixas Aurélia demonstra, mesmo que de forma sutil, um questionamento à submissão à figura masculina. O desfecho de Senhora revela, novamente, Aurélia como uma figura feminina submissa e casta diante do herói romântico “de longe seus olhos encontraram os de Aurélia, que fugiram para voltar tímidos e submissos” (ALENCAR, 2005, p 94). A trajetória de Aurélia anuncia, timidamente, um questionamento à submissão ao paternalismo descrito como um dos paradigmas na representação da figura feminina na tradição brasileira.
Esse perfil questionador, apenas vislumbrado na trajetória de Aurélia, encontra em Capitu, em Dom Casmurro, uma possibilidade de reconfiguração para trajetória da figura feminina dentro da tradição literária brasileira. Descrita de forma mais objetiva e irônica Capitu confronta os traços helênicos de Cecília e a submissão de Aurélia. O aspecto moreno e a ambiguidade psicológica de Capitu encontram na representação ambígua da personagem uma forma irônica de expressão das transformações sociais pelas quais passa o Brasil ao final do século XIX, aspecto apenas anunciado em Aurélia:
Que tem, tem – interrompeu Capitu. – E, se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?… Ele é atendido; se, porém… É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
– Teimo; hoje mesmo ele há de falar.
– Você, jura?
– Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha me lembrado da definição que José Dias dera deles: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada. (ASSIS, 1995, p. 50).
A personagem machadiana pode ser entendida como questionamento à submissão da figura feminina perante as convenções sociais do século XIX, mas demonstra na busca pelo matrimonio com Bentinho uma das poucas possibilidades de reorganização da trajetória individual de uma personagem feminina ao final do século XIX.
Ao apresentar uma inquietação diante dos valores da sociedade burguesa/aristocrática que fazem, muitas vezes, da mulher um objeto de desejo e/ou contemplação, Capitu impõe sua vontade de cigana dissimulada ao jovem Bento e, com isso, contribui para o questionamento da submissão e passividade relacionada à figura feminina. A personagem de olhos de “cigana oblíqua e dissimulada” enfrenta Bentinho o impelindo a agir e a assumir as rédeas de sua vida, chegando a ordenar que o namorado, inseguro e ingênuo, “teime” com José Dias em busca de sua liberdade e, metonimicamente, de um novo caminho para sua trajetória na narrativa.
Este aspecto de imposição de uma forma de pensar, em nosso entendimento, possibilita uma aproximação entre a construção da personagem Capitu e Leniza, personagem central do romance A estrela sobe, de Marques Rebelo. Capitu, como demonstraremos em seguida, e Leniza são personagens que refletem as mudanças na sociedade no final do século XIX, indicando novos paradigmas para as primeiras décadas do século XX em relação à representação da figura feminina neste contexto.
Ressaltamos que não é objetivo do estudo estabelecer uma comparação minuciosa entre Capitu e Leniza; antes discutir a relação destas personagens com o contexto histórico do qual emergem e, com isso, valorizar aspectos específicos da constituição da personagem feminina no romance A estrela sobe, objeto de nossa discussão.
Feitas estas considerações preliminares sobre aspectos da representação de algumas personagens femininas na tradição literária brasileira iniciamos, na próxima sessão deste estudo, a focalização da personagem Leniza.
LENIZA: CIGANA DISSIMULADA?
Leniza pode ser entendida como representação das tensões sociais que envolvem a mulher real na primeira metade do século XX. Descrita como uma mulher que não vê no casamento uma saída e não hesita em usar seus dotes físicos e sexuais para alcançar seus objetivos a personagem inaugura um caminho distinto para a mulher brasileira no início do século XX. Ao se tornar uma cantora de sucesso e desejar a liberdade, Leniza torna-se uma personagem contraditória diante da submissão feminina descrita há pouco como paradigma na representação da figura feminina em um contexto paternalista como o do Brasil; mesmo nos dias atuais.
Lembremos que Leniza Mayer rejeita a situação de amante e o matrimônio e, com isso, busca o equilíbrio econômico através de ações individuais, o que demonstra o traço contraditório em relação às expectativas geralmente associadas à figura feminina no século XIX e início do século XX:
Um médico, Dr. Oliveira, que ela visitara muitas vezes e com quem fizera boa camaradagem, falara claro, de olhos untuosos, pegando-lhe na mão, que lhe montaria casa, lhe daria criados, automóvel…
– O que mais?
Ele não percebeu a zombaria:
– Jóias, vestidos, tudo.
– Não acredita?
– Talvez acredite, mas não me interessa agora. Pode ser que um dia…
– Sabida!
– Acha? – fez ela, arregalando os olhos, com ar muito moleque.
Da mesma espécie, recebera outra proposta. Era um médico também gordo, velhote, antipático. Fora feroz, gritando quase para que a ouvissem na sala de espera cheia:
– Por que não propõe isso à sua irmã? (REBELO, 2001, p. 19-20).
Conforme o excerto, a protagonista, deixando implícito que não deseja ser amante de nenhum homem, pelo menos “agora”, rejeita a condição de amasia, mesmo manifestando sentimentos afetivos ao longo da narrativa por Oliveira.
Fica implícito que Leniza entende que a situação de amante e protegida implica no abandono do sonho de conquistar seu próprio espaço na sociedade e, ingenuamente, vê na carreira artística um caminho para este objetivo. Em um diálogo tenso com Oliveira que sentencia: “– engana a você mesma. Por que, afinal, que é que você quer? Que é que você espera da vida?”. Sua postura diante da consideração de Oliveira é contestadora e evidencia que seu desejo é algo distinto à condição de mulher amada e dócil ao afirmar que espera “– (…) muito, ora! Mais do que supões. Quero ser livre, Oliveira! Dispor de mim, você não compreende? Dispor de mim. Fazer o que entender” (REBELO, 2001, p. 23).
Oliveira insiste em unir-se a ela que sentencia: “– Não sei o que quero, Oliveira. Sei é que não quero o que você me tem proposto” (REBELO, 2001, p. 21). Diferentemente de Cecília, Aurélia e, mesmo, Capitu; Leniza não deseja a proteção masculina e/ou o casamento para atingir a condição de equilíbrio social por entender que ao aceitar o casamento, no caso a concubinagem, estará desistindo de si mesma e de seus sonhos. Ao contrário, o que a personagem deseja é a “liberdade”, materializada na passagem “quero ser livre, Oliveira! Dispor de mim”.
Entendemos que a trajetória de Leniza é importante na representação da personagem feminina na tradição brasileira no que se refere a um questionamento à submissão da figura feminina em termos históricos no Brasil. Sua trajetória no romance, no entanto, reflete a marginalidade da mulher nessa sociedade, aspecto materializado na narrativa pela forma com que a personagem é penalizada pelas escolhas que faz ao longo da diegese. Em outros termos: ao escolher a liberdade Leniza deve aceitar as consequências impostas pela narrativa, entre elas, o sofrimento financeiro, a humilhação e, em alguns casos, as cenas que beiram a prostituição em uma utilização consciente do próprio corpo como moeda de troca.
Podemos dizer que o título do romance A estrela sobe é irônico e a trajetória da personagem e sua atitude contestadora indica uma não adesão do narrador ao percurso escolhido pela personagem, o que configura um traço irônico no interior da narrativa. A ironia está na apresentação de um percurso narrativo de ascensão de Leniza; mas que tem como focalização a queda e a punição da personagem. Temos, então, um narrador onisciente que, paradoxalmente, apresenta um percurso de esperança à personagem; mas demonstra ao leitor o preço que as opções da personagem geram em sua trajetória individual.
A ironia do narrador não permite que a liberdade almejada Leniza signifique tranquilidade e harmonia, o que entra em consonância com a linha paternalista presente na sociedade brasileira, em linhas mais gerais. Exemplos deste percurso irônico na narrativa de Marques Rebelo é apresentado na focalização das demais personagens femininas que compõe a trama de A estrela sobe. A focalização de vedetes de rádio novela, cantoras e mulheres da noite que, naquele período, tentavam romper as regras impostas pela sociedade e acabam vivendo de aparências ao passar de mão e mão, como Nair e Dulce, e, posteriormente, Leniza são metonímias de uma trajetória de decadência para mulheres que ousam deixar a proteção paternalista.
Descritas como mulheres vulgares, até mesmo na fala de Dona Antônia, Nair e Dulce são exemplos de comportamentos “perigosos” associados à trajetória feminina:
– Seiscentos bagarotes, me disseram. Que mina heim!… Não queres saber mais de outra vida, não é? (e pensava: esta aí está na vida)
Mas Leniza pediu desculpas, ia entrar, estava muito cansada do ensaio, (Dona Antônia comentava o tal “cansaço do ensaio” ao seu modo: – que vaquinha! Também nunca se enganara com ela… Era só ver aquela cara…) Depois, com calma, vira contar tudo. Era o que Dona Antônia pedia, exigia: tudo! Queria saber tudo! Diziam que este negócio de rádio, lá dentro é uma pouca vergonha, uma grossa bandalheira. Nunca acreditara, nunca! Só acreditava no que via. Levantava piedosamente os olhos para o céu: Deus é testemunha. Agora tinha a prova. Ela que era uma menina direita (carregava no “direita”), não se iria meter lá dentro se fosse como diziam.
– Falam muito, Dona Antônia – (Que bandida! Era de se escarrar na cara!) (REBELO, 2001, p. 56).
Percebemos o tom de preconceito quanto à profissão de cantora de rádio “que vaquinha”. O narrador, através de sua onisciência, se mostra preconceituoso ao induzir o leitor a criticar o comportamento das mulheres que cantavam no rádio no que descreve como um espaço de “bandalheira”.
A busca individual por liberdade de Leniza esbarra, então, na representação que a sociedade faz de sua condição de órfão e pobre em um espaço de trabalho que tende à promiscuidade. Ao invés de reforçar a liberdade individual da personagem, o narrador parece compactuar com a descrição de decadência moral associada a sua profissão, o que acabará por destruir Leniza, nas palavras do narrador, “antes era uma menina direita” (REBELO, 2001, p. 56).
A trajetória de Leniza representa a de muitas mulheres trabalhadoras do início do século XX que eram e, ainda hoje, são tratadas com inferioridade e à mercê de alguns homens inescrupulosos. Na fábrica de balas, por exemplo, Leniza é assediada pelo responsável da “seção, a antipatia em pessoa, era um rapaz de costeletas e bigodinho caprichado, ‘O Irresistível’. Só admitia uma maneira de justiça: fossem gostoso com ele. Moça nova que entrasse tinha que se submeter aos seus ataques de ternura” (REBELO, 2001, p. 14). No laboratório de especialidades farmacêuticas, segundo emprego da personagem, as funcionárias eram obrigadas a “servirem de cobaias para as novas fórmulas de seus depurativos e fortificantes” (REBELO, 2001, p. 14).
Como forma de fugir a este espaço agressivo, Leniza vale-se de suas qualidades: a inteligência e a beleza. A personagem vale-se de sua condição de mulher inteligente e bonita para ascender socialmente; mas também para sobreviver em um contexto de precariedades sociais. Fica implícita a intenção machista e preconceituosa do narrador, mas ao descrever a trajetória da personagem o foco narrativo apresenta uma forma inusitada de representação da figura feminina na literatura brasileira ao tangenciar a submissão da personagem e evidenciar as consequências desta opção na trajetória da personagem.
Leniza, nesse sentido, foge à submissão e torna-se algo distinto do que se espera da figura feminina na primeira metade do século XX, ou seja, a esposa correta e dedicada, aparentemente feliz, de acordo com padrões sociais vigentes no período. Esta trajetória parece encontrar em Dona Manuela, mãe de Leniza, que “aprendeu a ler, a escrever, a contar, trabalhos de agulha, trabalhos domésticos” (REBELO, 2001, p.11) um paradigma irônico, pois o que ela consegue é revelar-se “uma extraordinária cozinheira”.
A trajetória de Leniza é, por isso, um caminho possível: optar pela individualidade e liberdade em suas ações. Esta opção, porém, traz, metonimicamente, o sofrimento e as dificuldades enfrentadas pela mulher no início do século XX.
LENIZA: “ESTRELA QUE CAI”
Ao iniciar a obra descrevendo Dona Manuela como “mestiça disfarçada” que ficou órfã aos seis anos de idade e fora criada por um coletor federal para, por fim, ser transformada numa “excelente cozinheira”; o narrador deixa uma pista de sua linha de representação irônica diante da trajetória da personagem Leniza. Esta observação é ampliada pela forma com que o narrador apresenta o lugar que pobres e mestiços, principalmente mulheres, ocupam nas primeiras décadas do século XX na sociedade:
Viúva, sem filhos, que alugava cômodos. A casa ficava numa ladeira da Saúde. Estreita, iluminada a gás, um lampião aqui, outro lá em cima, a ladeira era iluminada à antiga, com grandes pedras desiguais, que um capim raquítico parecia separar. Quando chovia um pouco mais, transformava-se numa cascata, que impossibilitava o acesso. Não tinha saída. Terminava junto ao corte a prumo da pedreira. A casa era exatamente a última do lado direito, quase colada à pedra, velha, maltratada, um forno! Comprimiam-se as três no quarto da comadre, porque os outros estavam alugados (REBELO, 2001, p. 11).
Neste excerto, percebemos que o narrador faz questão de apresentar detalhes da pobreza do lugar em que as personagens viviam. Leniza, Dona Manuela, a comadre, o porteiro, Seu Alberto e os outros hóspedes da pensão eram agrupados como animais em um espaço de precariedades. Mais adiante, ao apresentar a costureira Judite, outra moradora do bairro, como uma mulher que se deu mal na vida. Judite evidencia as consequências de transgredir as regras sociais, dando mostras dos perigos que rondam as mulheres em seu enredo, metonimicamente, na sociedade: “Judite, uma vizinha que fora desencaminhada com promessas de casamento (…)” (REBELO, 2001, p. 15).
Outro detalhe em relação a ironia do narrador é o preconceito com que apresenta as personagens. O percurso estilístico é alinhar características físicas a profissão e cor de pele dos personagens. Por exemplo: “A enfermeira – uma mulatinha magra, simpática, mas de guarda pó impecavelmente limpo (…)” (REBELO, 2001, p.52). A primeira vez que o Julinho, pianista da rádio, é citado na obra é chamado de “mulatinho do piano” (REBELO, 2001, p. 53). Em outro trecho, o narrador faz questão de colocar “o mulatinho mostrou a dentadura – dente sim, dente não” (REBELO, 2001, p. 60). Estes detalhes “guarda pó impecavelmente limpo”, “tocador de piano”, “dente sim, dente não”, entre outros evidenciam um narrador preconceituoso que também direciona o olhar face às inovações sociais das primeiras décadas do século XX a uma hierarquização social de origem étnica de difícil solução, mesmo nos dias atuais.
Fica implícito que apesar de os personagens adquirirem certa cultura e aprenderem a ler, escrever, “tocar piano” e “cantar”, o que determina sua trajetória social não são suas qualidades intelectuais, antes o lugar em que se encontram na estratificação social. No caso da figura feminina, este espaço parece ter uma possibilidade de alteração em linha positiva, qual seja, a adesão a uma proteção social, ou seja, encontrar um homem que fosse responsável por ela; no caso de Dona Manuela, mãe de Leniza, o coletor federal e o marido morto:
A filha tinha, então, seis anos, e a família do coletor federal aceitou-a para criar, Aprendeu a ler, a escrever, a contar, trabalhos de agulha, trabalhos domésticos. Revelou-se uma extraordinária cozinheira. Quando o advogado de maior prestígio na cidade foi eleito deputado federal e transferiu-se para o Rio com a família, o coletor, por chaleiramento, fez questão que a trouxessem como cozinheira (REBELO, 2001, p. 11).
Fica implícito pelo encadeamento narrativo que a trajetória de Leniza e sua mãe é determinada pela morte do patriarca ainda na infância da menina. A primeira, Dona Manuela, aceita seu destino de viúva pobre, enquanto Leniza parece lutar contra esta trajetória. Para sobreviver, Dona Manuela tem que lavar roupas para os hóspedes. Esta situação de empregada dos hóspedes, todos homens, mostra o nível de relacionamento entre homem e mulher na narrativa. A convivência com os hóspedes na juventude da menina Leniza é um dos índices da rebeldia da personagem, mais uma vez, denunciando o tom pejorativo na focalização do romance, pois para o narrador, esta visão “impura do mundo” é provocada pelo contato com o cortiço, o que determina, prematuramente, “rasgaram-se (…) muitos dos mistérios da vida” (REBELO, 2001, p.12).
A personagem perde a ingenuidade da donzela frágil e indefesa aos moldes de Aurélia e Cecília e começa a descobrir os perigos e os prazeres de ser mulher e viver próxima de muitos homens, pois “via-os constantemente nus, nos quartos de portas abertas, de propósito ou não, no chuveiro e latrina comuns; ouvia as suas conversas livres, seus ditos pesados, suas anedotas bocagianas” (REBELO, 2001, p.12).
O aspecto irônico, nesse percurso, é mostrar que a saída mais tranquila para Leniza é permanecer na submissão e aceitar a corte de Oliveira. Ao focalizar uma personagem em busca de novos paradigmas como é o caso de Leniza e evidenciar, nas entrelinhas, as regras da sociedade, o narrador apresenta a vida miserável de mulheres abandonadas como, por exemplo, o caso da comadre, que após a morte do marido fica sozinha, esquecida por todos.
Esta mesma projeção negativa é feita à Leniza e sua mãe, o que, em parte, parece justificar a trajetória da protagonista do romance. O resultado, no entanto, é apresentado, metonimicamente, na decadência de Nair e Dulce, espécie de antecipação da trajetória lacônica de Leniza ao final da narrativa:
Não a abandonei, mas, como romancista perdi-a. Fico, porém, quantas vezes, pensando nessa pobre alma tão fraca e miserável quanto a minha. Tremo: que será dela, no inevitável balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado de suas vaidades (REBELO, 2001, p. 115)?
Notemos que, no final deste romance, o narrador não explicita o desfecho para Leniza e, com isso, deixa implícita sua visão negativa diante da personagem que, para salvar-se, deve aceitar uma luz vinda do céu “que ilumine o outro lado de suas vaidades”.
O romance apresenta algumas inovações formais que alinham o romance ao espírito inovador do Modernismo. Uma destas inovações é a focalização em cortes espaciais e digressões temporais que interrompem o fluir da leitura, criando lacunas no enredo. As interrupções criam espaços vazios no relato, fragmentando o enredo e abrindo caminhos para as inferências metonímicas como a inevitável decadência da personagem ao final da narrativa.
Um exemplo deste processo é o momento em que Leniza discute com Oliveira pondo fim ao estranho relacionamento entre os personagens. O corte temporal é apresentado como cisão da ingenuidade de Leniza que, sem nenhuma explicação por parte do narrador, no próximo parágrafo, aparece na cama com Mário e “vende” sua virgindade em troca da indicação de um “lugar” como cantora:
Não há luz, nem estrelas no retângulo negro da janela. A luz do abajur põe o quarto numa penumbra vermelha, reles e suspeita. O elevador sobe, desce, desce, sobe… Vem o quebrar das ondas fracas contra o cais, vem o chiado das ondas vencidas, fugindo por entre as pedras. Vem o vento do mar que balança, leve, as cortinas, que arrepia, leve, os corpus nus suando. Vem a dor do amor que leva Leniza da terra para o céu, numa vertigem (REBELO, 2001, p. 70 – 71).
Com a descrição eufêmica do “elevador que sobe e desce” e a “dor do amor que leva Leniza da terra para o céu”, o narrador quebra o último fio que liga Leniza à ingenuidade. O prolongamento é, ao mesmo tempo, a fama e a liberdade e, posteriormente, a dor e o sofrimento. Temos a sensação de que o narrador quer mostrar que ela escolheu o caminho difícil ao invés de ficar com o mais “fácil” , aproximar-se de Oliveira e ser sustentada por ele na condição de amasia.
Ao fugir à trajetória de sua mãe e buscar a “liberdade”, Leniza delimita sua trajetória de decadência, algo já previsto pela condição de órfã e de difícil solução na construção da personagem. Marques Rebelo ao focalizar a presença da mulher no mercado de trabalho, a chegada do rádio, a industrialização e a movimentação das pessoas nas ruas apresenta o contraste entre a pobreza e a riqueza ao focalizar, segundo Bernd (2011), trajetórias narrativas dos que eram excluídos e formam a diversidade social brasileira ao serem objetos de focalização em muitos dos romances do século XX.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo apresentamos aspectos da construção da personagem Leniza no romance A estrela sobe, de Marques Rebelo. Nossa reflexão considerou a importância de autores como Rebelo na renovação temática em nossa ficção literária. Ao confrontarmos a personagem feminina de Marques Rebelo com outras personagens femininas na tradição literária brasileira percebemos que a submissão da mulher perante a figura masculina permanece de forma irônica no romance, o que, para nós, é o legado do romance.
Entendemos, por isso, que a ironia do romance é aspecto estrutural da narrativa ao revelar que, mesmo em personagens femininas que tentam enfrentar o mundo como Leniza, a trajetória libertadora a ser construída implica em sofrimento e dificuldades. Como reflexão final deste estudo, esperamos contribuir para o avanço da fortuna crítica de Marques Rebelo e evidenciar, sobretudo, a qualidade estética de sua produção, aspecto entendido como relevante no estudo de sua obra.
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XXXTELES, G. M. Vanguarda europeia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1977.
TODOROV, T. A literatura em perigo. 4ª ed. Trad. MEIRA, Caio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
NASCE UMA POETISA
GILBERTO ROCHA
Psicanalista
Minicurrículo: GILBERTO ROCHA é psicólogo/psicanalista, autor do livro A introdução da Psicanálise no Brasil, é mestre em Filosofia-PUC/RJ e doutor em Saúde Coletiva/UERJ.
Resumo: Biografia e citações de poemas da saudosa psicanalista Marialzira Perestrello, recentemente falecida.
NASCE UMA POETISA
GILBERTO ROCHA
Psicanalista
Meus versos são humildes
eu tão orgulhosa.
Meus versos são generosos
eu tão egoísta.
Meus pobres versos são ricos
Às vezes choram e gemem,
às vezes cantam e dançam.
Meus versos, quem são vocês? (1)
Marialzira Perestrello
Jardim de Palermo, Buenos Aires, 1962. Uma mulher observa as árvores. A cena toca de modo particular sua sensibilidade. Quarenta e seis anos, cabelos castanho-escuro fartos, olhos amendoados, pouca pintura no rosto, nem magra nem gorda, sobriamente vestida. De súbito, sentiu uma necessidade de escrever entre aquelas árvores despidas de folhas. Veio aquela vontade inesperada de escrever no papel todos aqueles sentimentos de uma maneira estética, um consolo para quem estava se sentindo desvitalizada pela morte da mãe em 1959 aos sessenta e três anos.
Estas árvores desconsoladas de Palermo,
é bem dentro que me fazem mal.
Estes braços angustiados ao céu,
estes gritos,
o lamento dos leprosos…
Oh! estas árvores ermas de Palermo! (2)
Seus primeiros poemas eram quase todos para ela, poemas de elaboração de luto. (3) Marialzira orgulhava-se em dizer que sua mãe, Maria Beatriz Pontes de Miranda, juntamente com Berta Lutz e outras senhoras da sociedade, participaram das discussões para defender o voto feminino, que nesta época era proibido no Brasil. Essas pioneiras se uniram na luta para mudar a legislação eleitoral brasileira, finalmente reformulada em 1933. (4)
A mãe de Marialzira era filha do político Tomaz Cavalcante Albuquerque, deputado federal pelo Ceará. Durante a segunda guerra mundial, Maria Beatriz foi enfermeira voluntária, prática que mais tarde a motivou a cursar enfermagem e entrar para a Cruz Vermelha. Posteriormente foi eleita presidente da Escola de Enfermagem dessa instituição(5). Na criação de suas filhas, Maria Beatriz influenciou-as sempre no sentido de todas concluírem o curso superior e cultivarem o espírito independente. Tomaz Cavalcante de Albuquerque, seu pai, possuía um sítio em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Gostava de plantar pés de frutas, muitas nordestinas, que trazia de sua terra natal. Esse sítio era o local onde a família de muitos tios e primos se encontravam nos domingos e feriados, e onde as brincadeiras aconteciam, deixando na lembrança de Marialzira, filha mais velha de uma prole de quatro meninas, boas recordações de seu tempo de garota. O fato de ter sido criada por sua mãe, sem ajuda de governantas ou babás, era uma recordação acalentadora. A dedicação com que cuidava das filhas não foi esquecida pela primogênita, que o relembra. Com Maria Betriz aprendeu que a educação melhora o ser humano.
Foi no Jardim de Palermo que a psicanalista brasileira começou a traçar seu caminho na trilha da poesia. Só restou um único verso solto, escrito em 1959, de uma experiência poética anterior. O tempo transforma, e o sol aos poucos apareceu cada vez mais. Era o fim do inverno em Buenos Aires, e a pessoa a quem podia imediatamente mostrar seus primeiros poemas era Marie Langer:
Aquelas duas portas
me vêm, às vezes,
tão vivas.
Eu, tímida, olhando.
Tu, compreensiva,
sorrindo.
Da porta da rua
por que não joguei
um beijo?
E tu, de tua porta,
não me acenaste
com a mão?
Evitei o braço.
Mas adiei
o adeus! (6)
Marie Langer, psicanalista austríaca, veio contribuir com a Associação Argentina de Psicanálise, motivada pelas condições geradas pela Segunda guerra mundial, na Europa:
Vejo-te
olhos cerrados.
Falo-te
em diálogos calados.
Amo teu olhar belo demais
teu sorriso quase lágrimas
tu que não és tu
tu além de ti mesmo
tu algo de mim mesma
tu… (7)
Inicialmente, Marialzira fez sua análise com Pichon Rivière. Em seguida, quatro reanálises nos anos de 1958, 1962, 1969 e 1970, sempre com Marie Langer. Antes disso, elas já haviam cruzado seus caminhos duas vezes. A primeira, quando a psicanalista austríaca foi sua professora na formação psicanalítica em Buenos Aires e a segunda, por ocasião de uma visita ao Brasil. Nessa visita, Marialzira foi escolhida para acompanhá-la em sua permanência no Rio de Janeiro. O que motivou a escolha de Marie Langer para fazer suas reanálises foi principalmente a admiração que nutria pela cultura humanística da psicanalista radicada na Argentina.
Após voltar de sua segunda reanálise, ao comentar com seu filho Sigmund e o marido Danilo que nessa estada em Buenos Aires havia escrito poemas, serviu como motivo de troça. Achavam que sua verve poética era episódica. Timidamente, nada mais comentou sobre seus poemas nem os mostrou a mais ninguém. Não tinha intenção alguma de publicá-los. Funcionavam como uma válvula de escape. Sentia um enorme prazer em planejá-los e construí-los. Além disso, a poesia neste momento já a havia ajudado a elaborar o luto pela morte de sua mãe, como podemos perceber em vários poemas, publicados em seu primeiro livro de poesia.
Mãos macias, assim,
nunca vi, nunca senti, nunca tive.
Mas teu sorriso encontro em mim.
E, tristemente, sorrio teu sorriso,
O sorriso, as mãos,
lembranças suaves e boas,
cinzentas de saudades,
tão próximas, tão vivas,
tão distantes,
tão mortas. (8)
Contudo, o acaso se fez, e numa recepção encontrou com o poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca (mais ou menos dez anos após o inverno no Jardim de Palermo), e ele ficou sabendo, casualmente, que ela também escrevia poesia. Interessou-se. Após ler vários de seus poemas, incentivou-a a publicá-los e indicou alguns caminhos para viabilizar a publicação, em 1972, do seu primeiro livro de poesia, Há um quadrado de céu que não viram. Nesse ano, Marialzira Perestrello já havia participado da fundação da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, escrito vários trabalhos sobre a teoria e técnica psicanalítica, além de ter participado de vários congressos e encontros internacionais e nacionais de Psicanálise.
Dirceu Quintanilha, Roberto Martins e Sergio Paulo Rouanet são alguns que escreveram sobre os dotes camaleônicos da psicanalista/escritora, e continuaram em dúvida se ela era uma psicanalista com sensibilidade poética ou uma poetisa com sensibilidade psicanalítica. Na carta do Pen Club do Brasil, em que é comunicado a Marialzira sua eleição para a galeria dos seus titulares (lugar que seu pai Francisco Cavalcante Pontes de Miranda já havia ocupado), novamente são enaltecidos os dotes intelectuais da escritora: “A poesia e o ensaio científico é conjunção de valores bem pouco frequente num mesmo escritor”:
Pai, faz um verso bonito,
um verso fácil
só para mim.
Destes que a gente canta, contente,
que a gente chora baixinho. (9)
Marialzira contava que Pontes de Miranda recebia muitas visitas em casa. Intelectuais, jovens desejosos de receber alguma orientação, cientistas, médicos, como o inventor da abreugrafia, Manoel de Abreu, e o psiquiatra Juliano Moreira, escritores e artistas. Nenhuma das quatro filhas do destacado jurista quiseram fazer a faculdade de Direito. Porém, todas elas seguiram carreiras profissionais que ele admirava: dos cientistas, matemáticos e artistas. Seu pai começou a escrever livros aos dezenove anos e vários deles foram e são adotados nos cursos de Direito. Foi seu gosto pelos amigos cientistas, o que fez com que Marialzira optasse inicialmente por fazer um curso em Manguinhos. Ela morava no “deserto” de Ipanema, e naquela época a distância entre sua casa e Manguinhos, na então longínqua Avenida Brasil, fez com que desistisse de fazer esse curso de ciências. Mais tarde, encaminhou-se para o de Medicina, sem saber ao certo que especialidade iria seguir. Em 1940, logo após tê-lo completado, foi para Bogotá, pois seu pai foi nomeado embaixador do Brasil na Colômbia. Lá chegando, estudou e trabalhou em Fisiologia. Regressando, depois de algum tempo, casou-se com Danilo, seu colega da faculdade de Medicina.
Anos mais tarde, foi novamente a poesia que iria ajudá-la a elaborar outro luto, dessa vez de seu marido Danilo Perestrello, conhecido psicanalista carioca, que ficou durante treze anos enfermo, antes de falecer:
Vejo-te como dantes,
por vezes, por engano;
tu forte, tu protetor.
Eu a perguntar, escutar,
vejo-te como dantes.
Às vezes, um instante.
Mas desperto sem Deus:
Tu fraco, indagando.
Eu fraca, a proteger. (10)
Danilo Perestrello foi outra figura marcante na vida da psicanalista/poetisa. Quarenta e oito anos de casamento e um relacionamento mais antigo ainda. Os dois já se conheciam desde o útimo ano do primário, no colégio Benett. Tinham ambos onze anos de idade. Anos depois, voltaram a encontrar-se casualmente num bonde na Praia Vemelha, aos dezessete anos, quando ambos se preparavam para o exame de admissão ao curso de Medicina. Os dois foram aprovados. Cursaram a mesma faculdade, na mesma turma. Tempos depois, deram início ao namoro. Após terem concluído o curso de Medicina, em 1939, Marialzira separou-se de Danilo durante seis meses. Esse período foi o tempo determinado por seu pai para ver se o amor dos dois resistiria.
Aproveitando-se do fato de que iria mudar-se com a família para Bogotá, o jurista Francisco Pontes de Miranda, estava determinado a levar junto com ele sua filha primogênita: “Mas papai e mamãe não via com bons olhos esse namoro. Em nossa casa, iam muitos jovens advogados, jovens juízes… Com certeza ele queria que um daqueles jovens encarreirados para genro e não um colega de turma da faculdade que não era ninguém!” (11)
Seis meses depois, voltou de Bogotá e, após muitas dificuldades, casaram-se em 2 de janeiro de 1941. Somente no civil, em cerimônia para os mais íntimos. Seu pai não pode comparecer, pois ainda residia no exterior.
Inicialmente, a vida de casal impôs à Marialzira a necessidade de trabalhar. Como concursos para médicos não surgiam com frequência (e não queria usar o prestígio do pai para conseguir colocação em algum emprego), foi trabalhar fora da Medicina, no laboratório do Departamento de Compras do Instituto de Tecnlogia, analisando papéis e tecidos fornecidos para o governo.
Após o parto de uma criança morta, a gravidez de Sigmund foi cercada de grande cuidado. O nascimento dele fez com que ela adiasse seus projetos profissionais. Seu marido, assistente da cadeira de clínica médica e já interessado na Psiquiatria, fazia plantões em hospitais psiquiátricos e iniciava os estudos para o concurso do Serviço Nacional de Doenças Mentais. Marialzira acompanhava o movimento de Danilo, atentamente.
Em 1945, Arnaldo Rascoviski, psicanalista argentino, proferiu uma palestra no Rio de Janeiro intitulada A formação psicanalítica. Esta palestra motivou várias pessoas da platéia a pensar em fazer uma formação psicanalítica na Argentina, como Walderedo Oliveira, Alcyon Bahia e o casal Perestrello.
A jovem médica fez sua formação psicanalítica de 1946 a 1949 e se tornou membro em 1952 da Associação Psicanalítica Internacional, tornando-se a primeira mulher no Rio de Janeiro a ser qualificada pela associação.
Os primeiros movimentos para a criação da Sociedade Brasileira de Psicanálise coincidiram com a adolescência do filho único do casal Perestrello, Sigmund. E por essas coincidências que ninguém consegue explicar (nem Freud), também se tornou psicanalista. Publicado em 1998, Cartas a um jovem psicanalista é a ele dedicado. Em estilo epistolar, a psicanalista faz uma analogia com o livro de Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. O seu Cartas a um jovem psicanalista descreve algumas situações vividas pela psicanalista em seus mais de quarenta anos de experiência clínica e enfatiza a importância da pluralidade das técnicas: “Em meu trabalho de analista uso também uma visão artística, literária e não somente científica, e dentro da técnica, penso (e digo aos meus alunos ) que cada paciente ‘indica’ a técnica a empregar”. (12)
Atravessando a década de seus oitenta anos, Marialzira trabalhava três horas por dia em consultório, dava cursos, palestras, seminários clínicos e ainda tinha tempo para outros interesses. Sua família, poemar, estudar alemão e escrever trabalhos, são alguns exemplos. Existem inúmeros outros, como a Casa Branca, sua casa na bucólica ilha de Paquetá, que tão bem rima com seus versos, era considerada pela escritora seu canto predileto. Depois de tantos anos, depois de tantas mudanças, lá continuava sendo o seu cantinho. Canto de reflexão, onde a Serra dos Órgãos e as águas da baía de Guanabara testemunharam uma mulher amadurecer, envelhecer, tornar-se mais tolerante e benevolente. Uma mulher que ambicionava fazer poesia de sua própria vida. “Vivo sozinha, mas não sinto solidão; estou sempre acompanhada dos livros e da música. Escrevo e estudo ouvindo música, e a poesia me acompanha”. (13)
O interesse profundo pelo outro, como tão bem percebeu José Paulo Moreira da Fonseca, somado à grande sedução que as palavras sempre exerceram sobre ela, surgem como os principais motivos para a parceria composta por ela entre o exercício teórico e prático da Psicanálise com a poesia.
Médica, psicanalista, mãe, professora, escritora e poetisa. (14). Em seus poemas, podemos reconhecer a alma curiosa e inquieta da autora. Ora apaixonada pela vida, ora revoltada, ora esperançosa. Quando em sua poesia celebra a vida, é possível imaginar a vida pulsando nela como no poema dedicado a sua neta, “Bênção”. Bella Josef, na introdução do livro A música persiste, de Marialzira, comenta que ao traçar sua geografia pessoal, a perda era um dos temas que mais se manifestava na emergência da sua poesia. Reconhece-se nos versos da autora uma necessidade de superar os sentimentos de perda que a vida lhe impôs através da palavra. Em alguns versos, a dor é o fio condutor que direciona as palavras em Elegia II, ou no poema dedicado a sua filha morta prematuramente, em que a dor chega às raias do insuportável. Quando Marialzira se refere a Paquetá, a Casa Branca, suas palavras adquirem, como na poesia XXII em Há um quadrado de céu que não viram, contornos nostálgicos, mas que de modo algum a impediam de viver o HOJE, pois até na morte ela desejava seguir vivendo, conforme escreve em Encontro com a vida (1997) (15): “Eu queria morrer de repente, morrer lúcida! e sobretudo morrer viva…”.
NOTAS AO TEXTO
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA
Eliezer Moreira, Florência diante de Deus. São Paulo, Patuá, 2015. 215 p. ISBN 978-85-8297-164-2.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
O original livro de Eliezer Moreira, Florência diante de Deus (2015), que é o seu segundo, chama a atenção pelo título “religioso” nesses tempos pós-modernos em que tanta gente procura em seitas e cultos uma resposta linear e harmônica para o desconcerto do mundo atual. No entanto, o aspecto religioso é por ele tratado de forma agnóstica, não só na voz do narrador externo quanto na perspectiva da própria personagem, Florência. Há um anjo no enredo, já anunciado logo no primeiro capítulo, mas a ênfase na novela – não ousaria chamá-la de romance, direi por que depois – está mais na relação entre as personagens e o eco de suas ações e da biografia da protagonista na pequena cidade. Apesar de Jair Ferreira dos Santos, em seu percuciente posfácio, escrever que o enredo poderia “acontecer em qualquer época e lugar”, inclino-me a imaginar o livro transcorrendo na cidade de Juazeiro da Bahia ou em Januária (citada na epígrafe), no médio São Francisco, cidade de Minas a apenas 150 km da Cocos natal de Eliezer. Referências ao rio São Francisco permeiam o texto, a epígrafe e a própria estrutura do livro.
Seja como for, creio que o arcabouço da literatura do Nordeste, com seus cordelistas e cantadores, tão presentes até recentemente, até o advento da televisão, está no cerne da concepção da obra. O enredo é linear, como uma forma simples – segundo nos foi apresentada por André Jolles em seu famoso livro As formas simples. Isso não vem em demérito do livro, mas sim como característica de seu enredo: inicialmente nos é apresentado um problema. Haverá um anjo ou Deus que possa intervir diretamente no desfecho da vida humana? Em seguida este mesmo tema ou hipótese é perseguido página a página, até o final, sem intervenção de outros fatores a não ser a atuação das personagens da cidadezinha onde se dá a trama. Já um romance teria de introduzir diferentes núcleos e intrigas, peripécias, clímax, novos temas e lugares, incursões até mesmo no passado, através da memória, possivelmente maior impregnação do imaginário, até chegar a um desfecho por vezes desconectado com as páginas iniciais. O romance corresponde, até certo ponto, ao que chamamos de novela, nos seriados de televisão: um encadeado de novellas, como a de Boccaccio, interligadas pelas personagens em comum. Tanto é assim que a forma do romance não está incluída no livro clássico de Jolles, já que o romance é uma forma complexa. Desse modo, eu chamaria Florência diante de Deus de novela, não a da televisão, mas uma novella enquanto forma oriunda do período medieval-renascentista, em que um jongleur, jogral ou menestrel relata histórias extraordinárias nos castelos ou nas feiras populares. Exatamente o que foi transplantado para o Nordeste do Brasil, entre cantadores e contadores de histórias, e que está na raiz da composição que Eliezer Moreira empregou aqui. Ao mesmo tempo, a história de Florência tem tudo a ver com a fábula, tão próxima da literatura oral, uma das principais formas simples estudadas por Jolles.
Oriundo de Cocos, na Bahia, não é à toa que Eliezer mostra sua admiração por Jorge Amado logo na epígrafe: “A Jorge Amado, grande e sempre vivo”, e que no posfácio Jair Ferreira dos Santos mencione A morte e a morte de Quincas Berro d’Água como fonte ou inspiração para a escrita deste livro. A tradição oral está presente em Jorge Amado, dadas as suas vivências desde a infância numa cultura oral tão forte quanto a que existe na Bahia, pois nasceu numa fazenda em Ferradas, distrito de Itabuna. É preciso notar que o enredo de Quincas (1959), também uma novela, se dá inteiramente post-mortem, como no caso do genial romance de Machado de Assis Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). Já em Florência o enredo é prévio à morte, e nada sabemos sobre o seu desenlace no além.
Roteirista e especialista em cinema – trabalha atualmente na Unitevê, canal universitário da Universidade Federal Fluminense – Eliezer não se mostrou isento da técnica oral, performativa e teatral do in media res que constitui a base do gênero dramático, apresentando sua história no presente do indicativo, cena a cena. Nada mais condizente com a tradição literária oriunda dessa literatura popular nordestina. Impossível criar histórias ligadas ao passado se a memória oral não pode acumular tantos fatos quanto o texto escrito possibilita; e daí a ênfase no dramático e na representação do atual, do presencial e do fato presente.
Eliezer Moreira não está sozinho nesta rica tradição oriunda da literatura oral brasileira, que data pelo menos da tradição sertaneja do Romantismo, com José de Alencar, Bernardo de Guimarães, Simões Lopes Neto e, no romance de 1930, com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, e, posteriormente, Jorge Amado e até mesmo, em alguns aspectos, João Guimarães Rosa. Tradição reforçada pelas obras de Câmara Cascudo e Mário de Andrade e que se tornou um pouco abandonada nos nossos tempos urbanos e pós-modernos, em que o interior agrícola do país foi abandonado e a população se acumula em aglomerados citadinos e megalópoles centopeicas, com forte reflexo na literatura, onde já não entram cavalos e carroças, mas sim automóveis, motocicletas e aviões. A novela dialoga mais com o público mais velho e menos ligado às maquininhas da vida urbana, tais como o celular e o computador, como bem lembra o posfaciador, que fala em arcaísmos e eruditismos do texto, isso porque o interior do Nordeste – como também o de Minas Gerais, Goiás e dos dois Matos Grossos – guarda ainda algumas estruturas frasais e modos de dizer de antanho.
Enfim, todo esse comentário permite igualmente traçar uma correspondência com Gabriel García Márquez e sua literatura do realismo mágico, como bem lembrou Jair Ferreira dos Santos. A obra se liga, assim, à tradição latino-americana, não na linha de Miguel Angel Asturias, Alejo Carpentier e Nélida Piñon, que elaboraram extremamente sua linguagem, ou como Guimarães Rosa, mas na forma essencialmente típica de García Márquez que sempre foi fiel às histórias que ouvia contarem na infância ao longo de toda a carreira, mantendo-as na sua autêntica linearidade, como um verdadeiro contador de histórias.
Parabéns a Eliezer, por este segundo livro, que continua o sucesso de A Pasmaceira (Rio de Janeiro, Record, 1990), ganhador do prêmio Graciliano Ramos, da União Brasileira de Escritores.
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA
Reflexos & reflexões, Gringo Carioca (pseud. de Marco Alexandre de Oliveira), Rio de Janeiro, Oito e meio, 2014. 87 p. ISBN 978-85-63883-60-5.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
É inegável a impregnação concretista, neste Reflexos & reflexões (2014), de Marco Alexandre de Oliveira, que o publica com o pseudônimo de Gringo Carioca, e nem poderia deixar de ser. Em seus trabalhos em congressos e na própria tese de Doutorado estudou bastante a poesia de base concretista, em suas idas e vindas entre os Estados Unidos e o Brasil. Brasileiro, mas educado nos Estados Unidos, há alguns anos decidiu aventurar-se e fixar-se aqui, o que lhe rendeu a confortável posição de bilíngue.
O livro de poesia, se não me engano o seu primeiro, surpreende pela maturidade do autor – embora tal surpresa não devesse ocorrer, dada a quantidade de estudos que este aluno de “honours” nos EUA já realizou. Chegando ao Brasil, logo desbravou os espaços do ensino, saltando do IBEU para a PUC, como quem vai e volta até a esquina.
O livro se abre muito inventivo, trazendo definições dicionários de reflexo e de reflexão, seguindo o modelo modernista de Eliot, no Waste Land, que nos preparou boas armadilhas em forma de boutade com supostas fontes utilizadas no seu The Waste Land. Mas aqui Marco segue à risca a ideia de reflexo, em que a verossimilhança entre objeto e imagem é estilhaçada, o que nos leva à reflexão.
Passado o susto inicial, deparamos com um índice – realmente índice, indício de palavras-guias, e não sumário, a rigor – de três páginas, que são um primor de súmula do pós-moderno. A maior parte dos títulos tem uma ou duas palavras, por vezes artigo e substantivo. Já este “índice” indica a linha concretista paródica e crítica escolhida pelo jovem autor: um corte seguro nas palavras e na realidade cotidiana levando a metáfora a tal extremo que esvazia a poesia de todo substrato sentimentalóide que em geral permeia a poesia contemporânea. Menos Drummond, nos seus momentos mais piegas, e mais Cabral, Augusto e Haroldo de Campos, ou Décio Pignatari nas suas fases mais cortantes.
Este corte no senso comum fica evidente em títulos como “sem zen”, “senso (in)comum”, “só lido”, “zazen” etc. Para completar o espírito de criatividade, o rapaz ainda faz uma intertextualidade com os dois sumários de Guimarães Rosa em Tutameia, que apresenta diversos jogo com as letras do alfabeto, seja nos sumários, seja no nome das personagens. Assim, os poemas vão de a a z, e todos os títulos vêm em minúsculas.
O famosíssimo Poema de sete faces, de Alguma poesia (1929), de Drummond, Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida, tão parodiado, inclusive na conhecida versão de Torquato Neto, ganha aqui uma inventiva releitura carioca, intitulada “poema de 7 caras”, que começa: “Quando nasci, um anjo malandro / desses que vivem na Lapa / disse: Vai, gringo! ser carioca na vida.” Engenhoso também na sua penúltima estrofe, quando apresenta este auto-retrato: “Mundo mundo vagabundo / se fosse profundo / seria até bacana, não seria esse lixão. / Mundo mundo vagabundo / mais vago que nem palavrão. // Eu devo acrescentar / que esse sol / que esse sotaque / deixam a língua enrolada como outra” (2014, p. 57).
Mas há outras páginas menos paródicas com relação à poesia lírica modernista, mesmo que ainda tenham um travo do “para que tantas pernas, meu Deus?” da última estrofe do Poema de sete faces: “Eu não devia te dizer / mas essa lua /
mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo” e que mergulham mais profundamente no concretismo, como o “para poesia pura”: para que poesia, / poesia para quê? // para poesia, / “poesia para” // poesia que para, / para que poesia // para poesia, / “poesia pura” (2014, p. 52).
Já noutros momentos a opção concretista é um fato – mas que não perde o sentido de mensagem, o que às vezes desaparecia no excessivo afã visual, na poesia concretista. É o caso do poema “perguntas”, título que aparece no índice, mas que na pág. 55 tem apenas ao alto sete pontos de interrogação; o poema se compõe exclusivamente de pontos de interrogação formando um enorme ponto idem. O recurso da interrogação tem uma variante cujo título, no índice, é “charadas”, mas que na pág. 31 surge apenas como vários pontos de interrogação em negrito sugerindo diversas perguntas, enigmas ou charadas.
“Tão alone” (2014, p. 79) é um poema bilíngue que diz tudo com muito pouco: “tão alone / So só”, no qual duas palavras são em português, tão e só, e duas em inglês, alone e so – que por acaso também significa tão, o que reduz a estrutura desse poema a dois versos redundantes, misturando línguas. “Zazen” (2014, p. 85), o último poema da mostra, joga com as letras z e a palavra zazen na forma de uma pessoa meditando e faz jus ao título do livro, reflexos & reflexões.
O espelhamento de sílabas, ecos, indagações, palavras, na sua unidade mínima, nos despertam, neste livro, para o vazio do sentido da maior parte de nossas ações diárias, e nos remete para a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida. Isso talvez responda ao verso do poema “para poesia pura” (2014, p. 52) “poesia para quê”. É o próprio poeta que nos responde, no poema visual “por q” (2014, p. 61): ainda uma interrogação dentro de um ovo contém a palavra “quê”, que nada mais é senão um óvulo. Aí está tudo que é um nada. Palavra precisa e certa. Excelente livro.
Bio fornecida pelo palestrante.
EL CUADERNO GRANATE, Maryse Renaud. Buenos Aires, Corregidor, 2009. 144 p. ISBN 978-950-05-1857-4.
Luiza Lobo
Rio, março 2015
Maryse Renaud resolveu escrever este seu primeiro romance, El cuaderno granate (2009), numa das línguas que domina perfeitamente, o espanhol, sua língua natal, pois é natural da ilha de Martinica, como um desafio, pois sempre morou na França. Foi professora titular de língua e literatura espanhola na Universidade de Poitiers. Trata-se, assim, de uma primeira experiência na área criativa da ficção, como uma viagem sentimental pela língua e a memória da infância, havendo várias referências, no livro, à “ilha”.
De qualquer forma, a epígrafe é retirada de Balzac: “No existe, o mejor dicho, raras veces existe, criminal que seja totalmente criminal”.
Nos primeiros capítulos nos familiarizamos com a protagonista, Clarysse, e o olhar do narrador mergulha no seu interior e acompanha os seus gestos pela casa. À página 21, capítulo 3, somos apresentados ao nó do enredo: Clarysse se sente alijada do núcleo familiar, imaginando que seu marido, Edgar, que é médico, e seu filho, Miguel, advogado de 39 anos, viveram em “mundos paralelos” ao seu e apartados dela. Pior: o pai teria inculcado no filho reserva e aversão à mãe. Ela, pintora, sente que vivera encerrada num mundo estético cheio de Leonardos da Vinci, telas e tintas, e sem tempo para alterar essa situação ou capacidade para despertar mais interesse da parte dos outros dois. Quando a obra se inicia, ela enfim se dá conta de quanto o afastamento é profundo, e conclui que é tarde demais para repará-lo.
A relação cúmplice (“criminosa”?) entre pai e filho é engenhosamente trabalhada através de uma grande metáfora que se estende por diversos capítulos: a batalha de Aníbal, nas segundas guerras púnicas, quando o cartaginês resolveu avançar pelos Alpes com seus elefantes, tentando derrubar Roma. Ao mesmo tempo, Aníbal sempre fora excessivamente temeroso e cegamente obediente à figura paterna e patriarcal de Amílcar, seu pai. Clarysse transforma, assim, o seu sentimento individual de alijamento familiar num grande sentimento do mundo contra o patriarcalismo e o autoritarismo presentes nas famílias em geral, e mostra que mesmo entre guerreiros há lugar para o sentimento de covardia e submissão do filho em relação ao pai autoritário.
Ao mesmo tempo, desde o início do romance travamos contato com “a Escandalosa”, Emma, sua cunhada, que era meio-irmã de Edgar, “la hija adulterina de su padre, a quien la família Granval había tenido que aceptar a regañadientes” (cap. 4, p. 23). Na ilha (presume-se que da Martinica), a Escandalosa fora amante por cinco anos de um médico mulato, e ambos correram de norte a sul fazendo propaganda contra os abusos neocoloniais dos grandes terratenentes. Nem sequer se casaram, pensa Clarysse, com despeito. Logo Emma foi expatriada para a França pela família Granval, de grande riqueza e prestígio na ilha, pois esta já não suportava mais os escândalos de seu comportamento pouco convencional.
No capítulo 6, “Revelaciones”, lemos o confronto entre Emma e Clarysse, na casa da primeira, nos “altos de Montmartre”. Clarysse vai visitá-la, e já desconfia de uma relação incestuosa entre Emma e o sobrinho, ou seja, seu filho Miguel. Nesse encontro, Emma lhe conta sobre o mundo secreto do filho, revelando que ele saía frequentemente com ela para visitar cinematecas e exposições, que ficara até mesmo noivo de uma holandesa, e que abandonara a profissão de advogado e se desligara de tudo, pois “Miguel se había hartado de la hipocresía burguesa, del mercantilismo actual que lo corrompia todo, hasta el amor. Aspiraba a algo más que a um vulgar erotismo de pacotilla. Se había forjado una filosofia para su uso personal, no pretendia difundirla, ni grabarla en el mármol, pero se la había expuesto más de una vez y dureza era reconocer que no carecia de gracia” (2009, p 29-30). Ao perceber que a tia e seu filho são amantes, desmaia. Neste encontro, Emma lhe passa o caderno grená, que é um diário confessional do filho, que partira para o México, deixando este encargo a Emma.
Este o núcleo do conflito do livro El cuaderno granate. Um drama de família que não se esgota no familiar, mas se estende à questão das convenções sociais e do preconceito racial, dos conflitos metrópole-ex-colônia e do capitalismo e a hipocrisia burguesa em contraste com o desejo de um tipo de vida mais livre e espontâneo.
O romance é bem urdido, utiliza um estilo e um vocabulário refinados. Entre os fiapos do cotidiano o leitor vai percebendo os conflitos das duas personagens femininas, cada uma a seu modo. Emma, mais livre, espontânea, e Clarysse, sensível, pintora, mas ainda apegada à tentativa inútil de salvar um casamento que desde o início se mostrara impossível. A narrativa é sempre construída a partir do olhar feminista de uma narradora externa que penetra no âmago das duas personagens femininas principais, em diversos triângulos conflituosos em relação basicamente a Miguel.
Numa espécie de libertação a três para seguir o próprio destino, o desfecho do livro é romântico e um voto de esperança na coragem para as pessoas seguirem seu próprio caminho. O México, em lugar das Antilhas, sugere o novo, a América, o mundo latino e mais livre das convenções. Nomes, lugares, planos no novo continente apontam para o imaginário que se distancia dos caminhos já traçados no passado francês e europeu.
Maryse Renaud já publicou dois outros romances, La Mano en el canal, também pela Corregidor de Buenos Aires, e este ano de 2015 Junglas, este pela editora Verbum, da Espanha. Pelo visto emprega na ficção a mesma disciplina que demonstrou na sua vida acadêmica. Personalidade vulcânica, instintiva, afirmativa, vai abrindo caminhos pela selva das letras, pois para ela não há obstáculos.
Bio fornecida pelo palestrante.
RESENHA
Francisco Venceslau dos Santos, Os anos da juventude (um romance). Rio de Janeiro, Caetés, 2014. 150 p. ISBN 978-85-86478-88-8.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
Francisco Venceslau, professor de Teoria Literária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nascido em Francisco Santos, Piauí – cidade que tem quiçá nome de um antepassado seu – e emigrado na capital do seu estado e, desde 1963, no Rio de Janeiro – lançou-se, neste romance Os anos de juventude (2014), à difícil tarefa que é transformar em ficção o que é lembrança, memória, sentimento difuso, vida. A carpintaria exigida para esta metamorfose passa pela transformação de fragmentos, trapos, escórias, lembranças difusas, em matéria nobre, clara, inteligível, escorreita, e a transformação de imagens vagas, fotografias apagadas, em fotogramas gráficos, vivos e presentes. O método empregado por Venceslau foi recuperar a história, mais cultural que cronológica e política, no seu caso, através da descrição minuciosa da geografia das ruas, casas, praças, bares e lugares da cidade, não só pela pesquisa na Internet, que contém mapas, roteiros, informações das mais diversas, como pelo recurso à memória pessoal ligada à cultura dos anos 1960. Contudo, ele não se limitou a essas fontes, pois baseou-as num enredo, o que é fundamental para a criação da narrativa ficcional, e nele inseriu Augusto, o protagonista e seu alter-ego, que vive momentos de luta cotidiana ao lado de Linda, Janice, o poeta Caetano, entre outros amigos daquele tempo memorialístico.
No reino das recordações, a mais forte é a presença da música da década de 1960: “Ele voltou-se para os neons coloridos do bar (…) pediu uma Coca-Cola. Tocava Please, Please, dos Beatles” (2014, p. 78). Ou: “‘oi, Augusto, vamos dar as boas-vindas às ondas curtas que estão chegando’, e todos fizeram um círculo entre as prateleiras de discos e cantaram When I got Troubles (1959), de Bob Dylan” (2014, p. 16). Venceslau exagera aqui ao dar a data da música de Bob Dylan – e não o faz em relação à dos Beatles ou outras. Mas pontua o texto com detalhes de época, como beber uma Coca-Cola e as tais “ondas curtas” que devem se referir ao rádio – mas não sei como interferiram na vida dessas personagens que ouvem Bob Dylan.
Outra forte referência no texto é o cinema. Enquanto Linda, nessa mesma página 16, aparece “com o seu vestido rosa solto no corpo de vizinha da rua Simplício Mendes”, “Ali perto, na rua Barroso, aproximava-se, como uma atriz de nouvelle vague, a prima Silvana, olhos vivos, o vestido de organdi (…)” (2014, p. 16). Na página seguinte toca Celly Campello cantando “Tomo banho de lua” e um jingle anuncia as qualidades do Leite de Rosas (2014, p. 17).
Por vezes Francisco Venceslau exagera na descrição de detalhes sobre elementos que caracterizam a época, o cenário ou os acidentes geográficos, como por exemplo na pergunta da jovem Raquel, que enfatiza essa tendência: “‘Por que não ir tomar banho no rio Parnaíba?’” (2014, p. 10). Ora, o nome do rio deveria ser informado pelo narrador externo, uma vez que a pergunta assim elaborada pela personagem se torna muito artificial. Enfim, quantos rios passam por Teresina? O rádio que abre o romance é marca Sharp (2014, p. 9) – e assim por diante. Contudo, em contraste com a menção de praças, ruas, bibliotecas, colégio, não nos é informado o nome da cidade onde se encontram todos os logradouros: “Acertou com Joachim um encontro na varanda do café O Sol, na movimentada esquina da rua Paissandu com a praça Pedro II” (2014, p. 18). O leitor (brasileiro) imagina que se refira à capital, Teresina, mas isso só lhe é confirmado no início da parte II: “‘Alô, é o Augusto, acabei de chegar de Teresina, queria saber se posso dar um pulo aí’” (cap. 1, 2014, p. 47).
Minucioso ao extremo na referência e descrição das casas onde habitou, na localização das livrarias, pontos de encontro, ruas e bibliotecas, no entanto essa cuidadosa enumeração de pormenores e minúcias, típicas da preocupação didática do professor de literatura, muitas vezes quebra o encanto da memória, que transparece no esmerado manuseio da linguagem literária, como nesta passagem:
“De repente ele não teve dificuldade de acreditar que na década de 1960, no Brasil, havia pessoas que amavam outras pessoas, mas se aproximava a hora como num filme deslembrado. Desde o início, ele pressentiu o inesperado na montagem daquela cena, em 1964; uma tesoura invisível cortara a película, deixando-a esquecida na estante de uma cinemateca qualquer, e o desejo do eterno retorno do reencontro com o amor” (2014, p. 79).
São muitas as referências a obras literárias e políticas importantes, de autores como Blake, Donne, Allen Ginsberg, Drummond, Marx, Alencar, Eça, Lispector, ao lado de cantores de música popular da época e figuras importantes do cinema, entre atores e diretores: Fellini, Antonioni, Rita Hayward, James Dean, Nathalie Wood, Casablanca etc.
A Parte II se inicia na página 47, também por referências indiretas ao cenário da cidade do Rio de Janeiro: “No Flamengo, usou o telefone da União Nacional dos Estudantes, ligou para Janice, a garota que residia na praia de Botafogo” (Parte II, cap. 1, 2014, p. 47).
A memória urbana nem sempre é fácil de recuperar, como no trecho em que a personagem de Augusto, alter-ego do autor, “deu um salto de cabrito montês, na avenida Rio Branco, em frente ao palácio Monroe e ao obelisco” (2014, p. 49). Creio que os bondes entravam pela praça Mahatma Ghandi. Contornando o Passeio Público, e portanto um tanto distante do palácio Monroe e o obelisco, que lhe ficava em frente – demolido, hoje existe um grande chafariz, ali. Também passavam pela rua Santa Luzia, cortando do Passeio Público rumo à avenida Nilo Peçanha, mas não me consta que passassem pela praia diante da avenida Rio Branco, em frente ao obelisco e ao antigo palácio Monroe:
“O trajeto inicial foi da curva do antigo Teatro Lírico [no largo da Carioca], subindo a rampa da rua Senador Dantas, rua do Passeio, cais da Lapa, Russell e Flamengo e, entravam nas oficinas da Companhia na rua Dois de Dezembro”
(http://diariodorio.com/bondes-no-rio-de-janeiro-antigamente, acesso em 18 mar 2015).
Creio que nunca houve trilho de bonde na avenida Rio Branco, uma vez que ele vinha pela Glória, onde perto batia o mar, antes da criação do Aterro do Flamengo, entrava pelo Passeio Público, seguia pela calçada do cinema Odeon e quem sabe pela rua Senador Dantas para chegar à estação no Tabuleiro da Baiana, grande estação terminal, bem no centro do largo da Carioca, como explicita a citação acima. Na Avenida Rio Branco, via de luxo e grandes prédios da Paris tropical que foram postos abaixo, corriam os carros elegantes, lotações e ônibus, e até a década de 1950 existiam os canteiros centrais.
É certo, conforme lemos na página da Internet indicada acima, que os bondes existiram no Rio até setembro de 1962 e 21 de maio de 1963, com exceção de algumas linhas que duraram até 1965, 1966 e 1967, trafegando até o Alto da Boa Vista e Cascadura, sendo que a linha de Santa Teresa resistiu até 27 de agosto de 2011. O livro de Francisco Venceslau refere-se ao “fim de 1963”, algumas páginas pouco adiante (p. 56), o que está correto. Também a imagem de Augusto pulando do bonde e deixando de pagar a passagem refere-se a fato comum na época – e bastante revoltante para as mulheres, que não andavam nos estribos e não saltavam dos bondes, às vezes em movimento – sendo que o próprio trocador registrava muito menos passagens do que o dinheiro que efetivamente arrecadava nas viagens. (Roubar parece um hábito profundamente arraigado na sociedade brasileira, talvez porque aqui o capitalismo ainda seja uma forma política incipiente, “para inglês ver”).
Francisco cria uma elegia da cidade, que foi capital até 1960. Prende-se à vida e ao trabalho do herói, Augusto, cuja voz não se mistura ao do narrador externo da obra:
“Contornaram a orla do mar, chegaram a Copacabana, no posto seis, desceram quase em frente ao Forte, atravessaram a pista; sentaram em torno de uma mesa, na calçada, ao lado da saída da galeria Alaska, depois seguiriam para o Michel. (…)” (2014, p. 74).
Por vezes o narrador se torna interno, para melhor se voltar ao dia a dia das personagens, ao prazer, à sensualidade, música, trabalho, passeios e, sempre, descrever a maneira de vestir-se, em geral das mulheres:
“Agora é fevereiro, sente o cheiro de 68, nos bares, nas ruas, nas salas de aula, e ainda não é março, quando 68 chega realmente ao Brasil. Neste instante sagrado, veste uma calça Lee e uma camisa vermelha, e Linda, uma blusa branca, uma saia plissada azul-claro, andam sob o sopro do vento que vem do mar com suas ondas de sonho.
Na cantina do Ministério da Fazenda (até o AI-5 era território do subterrâneo insurgente), aqui a conversa gira em torno da estreia de Roda viva, Linda conta para todos: ‘Em Paris, os jovens querem ter o direito de livre circulação de moças e rapazes, nas residências estudantis’” (2014, Parte II, cap. 19, p. 121).
À ditadura, não faz muitas referências, senão vagas, como no trecho acima, a Marighela (não Maringhela, p. 105). Nos capítulos finais do livro, que se passa na Paris de maio de 1968, voltam as cenas da época da ditadura, no Rio: a morte do estudante Edson Luís, no Calabouço, restaurante estudantil localizado no final do Aterro do Flamengo, próximo à Faculdade de Filosofia, e de Carnaval. Continua a vida de sonhos relativos ao cinema e ao trabalho com editoras de Augusto; mas a ação interrompe-se abruptamente, entre a promessa de um road movie sobre uma viagem ao deserto da América – imagino que seja o de Atacama, no norte do Chile e parte da Argentina. O script é deixado em aberto, como a Obra aberta de Umberto Eco, que é de 1962, e bem ao gosto da década de 1960. O romance termina em suspense ou em suspenso, sem se encerrar o difícil salto entre a pesquisa histórica e a criação de uma história ficcional.
Creio que todos apreciarão esse voo pelo passado.
Bio fornecida pelo palestrante.
Denise Maria Soares Lima
Universidade Católica de Brasília
Resumo: Este artigo propõe uma reflexão acerca da representação da mulher moçambicana na obra Niketche: Uma história de poligamia, de Paulina Chiziane. A análise centra-se na resistência feminina que emerge nos discursos da protagonista Rami, cujas estratégias de luta diante dos infortúnios, adversidades e violências inauditas são construídas e reconstruídas ao longo da ficção, que elege a poligamia para discutir as condições sociopolíticas da mulher africana em diferentes territórios.
Palavras-chaves: Paulina Chiziane, Rami, mulher moçambicana, poligamia
Abstract: This article proposes a reflection about the representation of Mozambican women in the work Niketche: A History of Polygamy, by Paulina Chiziane. The analysis focuses on the feminine resistance that emerges in Rami’s discourses, the protagonist whose fighting strategies in the face of misfortunes, adversities and unprecedented violence are constructed and reconstructed throughout her fiction, which elects polygamy to discuss the sociopolitical condition of African women in different territories.
Keywords: Paulina Chiziane, Rami, Mozambican Women, Polygamy
Minicurrículo: Denise Maria Soares Lima é escritora de contos, poesia e artigos científicos, desde 2010. Publicou nas edições 34, 35 e 37 dos Cadernos Negros (São Paulo) e em revistas científicas nacionais e internacionais, como por exemplo Dialogia e Eccos (SP, Universidade Nove de Julho), Teias (eletrônica, UERJ, Pós-graduação em Educação, ProPed), Interacções (Campo Grande, MS, Univ. Católica Dom Bosco), IberoAmericana de Educación (Madri, Org. de Estados Iberoamericanos), Educere (Mérida, Venezuela), entre outras. Doutoranda e Mestra em Educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB), é bolsista CAPES e membro integrante voluntário da Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade. Tem experiência na área de educação, atuando principalmente nos temas da Educação para as Relações étnico-raciais, Lei Federal n. 10.639/2003, Educação de Jovens e Adultos, educação antirracista e Educação a distância.
RAMI: A MULHER, A REALIDADE E A TRAJETÓRIA NA NARRATIVA DE PAULINA CHIZIANE
Denise Maria Soares Lima
Universidade Católica de Brasília
Introdução
Paulina Chiziane é moçambicana, nasceu em 1955, em Majacaze, província de Gaza, região sul do país. Primeira escritora em seu país a publicar um romance, nomeado Balada de amor ao vento, em 1990. Em sua bibliografia, destaca-se a obra em estudo Niketche: uma história de poligamia com a qual foi agraciada com o Prêmio José Craveirinha, em 2003, instituído pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Em suas obras, Chiziane aborda questões femininas e a cultura moçambicana. Em relação à escrita literária, assim declarou a autora em entrevista:
O fato é que sou uma mulher e escrevo sobre temas que me tocam nessa minha condição. O que me incomoda é que, quando é o homem escrevendo, as pessoas não o chamam de machista e nós, mulheres, quando escrevemos, somos chamadas de feministas. É verdade que eu escrevo muito forte sobre o feminino, sobre as questões que interessam de perto às mulheres (DIOGO, 2010, p. 174).
Dessa forma, a autora contesta o estigma de feminista, entretanto afirma, na mesma entrevista, que em Niketche sua intenção era colocar mulheres para falarem sobre sexo, além de problematizar os sistemas monogâmico e poligâmico dominantes em Moçambique.
Nascida no período colonial, Chiziane inicia a publicação de suas obras no período pós-independência de Moçambique, que data de 1975. Como outros autores moçambicanos, suas publicações são em língua portuguesa. Quanto a isso, Lopes (2000) observa que a tradição oral ou acústica, como a designa, marcante em Moçambique, não impediu que a produção literária se desenvolvesse com forte influência da língua do colonizador, no caso, o português. Essa mescla do tradicional com o novo, da escrita com a oralidade, para o autor, se harmoniza e traz modernidade às literaturas africanas. Chiziane, certamente, contribui para essa fruição, como se observará no presente ensaio.
Quanto à obra, Niketche: Uma história de poligamia, contém quarenta e um capítulos, todos narrados em primeira pessoa. O cenário que permeia todo o romance ocorre no dia-a-dia urbano de Moçambique, contudo o espaço geográfico apresentado não está circunscrito à cidade. De norte a sul, de leste a oeste, a obra percorre todos esses limites e tradições das terras moçambicanas para expor, refletir e compreender suas diferenças culturais, cujos marcos divisórios são pontuados em toda a narrativa. Quanto ao espaço temporal, o parágrafo inaugural anuncia: “Um estrondo ouve-se do lado de lá. Uma bomba. Mina antipessoal. Deve ser a guerra a regressar outra vez” (CHIZIANE, 2004, p. 1), há, neste trecho, indícios de que as ações militares, que sucederam à independência em 1975, ainda é uma ameaça, pois, nesta visão, podem regressar.
Nesses espaços de tensão, o enredo se estrutura em torno da história contada por Rosa Maria, Rami. Esta mulher moçambicana, casada, se desloca à procura das demais mulheres de seu marido, Tony. Essa peregrinação, que inicialmente é uma caça em busca de presas, vai ao longo da história assumindo novos contornos, e as rivais vão adquirindo novos papéis sociais: amigas, sócias, confidentes. Cada mulher, uma realidade, uma trajetória, um território moçambicano a ser examinado e compreendido, onde comportamentos são explorados, principalmente em relação à organização familiar no que diz respeito à ocupação da figura feminina nestes ambientes dando ensejo para discutir as sociedades matriarcal e patriarcal, a poligamia, o lobolo, a tradição e a modernidade. Desse modo, a narrativa íntima e reflexiva de Chiziane é um convite a compreender as relações de gênero em África, quase sempre invisíveis nos estudos ocidentais.
Rami: desejos e desígnios
Quem é Rami, a protagonista? A trajetória da narradora-personagem é um conjunto de desejos e desígnios, dos quais ela busca incessantemente questioná-los e projetá-los. Reconstruída a cada sequência, a personagem torna a reflexão sua tônica discursiva: “Derrotada? Não. Nunca combati. Depus as armas antes de as empunhar. Sempre me entreguei nas mãos da vida. Do destino. Nunca mexi um dedo para que as coisas corressem de acordo com os meus desejos. Mas será que algum dia tive desejos?” (p. 18). Segue-se a esse pensamento, em três parágrafos seguintes: “Desperto inspirada. Hoje quero mudar o meu mundo. Hoje quero fazer o que fazem todas as mulheres desta terra” (p. 19).
Esse movimento íntimo que marca a fala da personagem consigo mesma é representado e estabelecido ao longo do romance utilizando o artificio do espelho: “Vou ao espelho descobrir o que há de errado em mim. (…). De quem será esta imagem que me hipnotiza e encanta?” (CHIZIANE, 2004, p. 15). Há, assim, diversas passagens onde o diálogo reflexivo com a imagem é realizado: “Corro para meu espelho e desabafo.” (p. 48). Contudo, não se trata apenas de um monólogo, neste embate Rami projeta-se, declina-se, ergue-se. Segundo Palo (2008, p. 30), em Niketche: “A imagem é roubada pelo espelho e, no afã de tentar considerar-se o Outro, coloca a experiência espetacular, entre a percepção e a significação, além do verbal. Aqui a voz poética assume a memória e a profecia”. Neste encontro, ao transformar seu irreal em confessor e julgador, Rami dota a imagem de poderes, poderes especiais: a imagem-Rami é testemunha de conflitos, dissabores e desejos, ao mesmo tempo em que desmascara a realidade existente e, por vezes, cria uma Rami existente apenas na imagem.
No entanto, as reflexões de Rami são apenas parte do conjunto da obra; à Rami reflexiva soma-se a Rami que se coloca em ação, que transita da voz passiva para ativa, em busca de respostas acerca de sua posição feminina perante a mulher, o homem, a família, as tradições, a religião, o estado e a cultura e da superação de conflitos vivenciados individuais e coletivos.
Rami, suas mulheres e Tony: o hexágono amoroso
Ao discorrer sobre as relações desiguais e conflitivas entre homens e mulheres, Touraine (2011), sugere, hipoteticamente, que se o homem é o mantenedor e beneficiário das desigualdades de gênero, combatendo-o, dar-se-ia um basta à dominação masculina e ponto final. Contudo, acresce que não só essa premissa é falsa como o argumento: hoje, as mulheres têm interesses não apenas centrados em justar posições, mas em “(…) recompor numa totalidade os elementos que por muito tempo foram separados” (CHIZIANE, 2004, p. 82). Essa construção de consciência feminina coletiva, na obra em estudo, se dá a partir de disputas individuais que permitem às personagens femininas discutirem seus papéis sociais, confrontando-os. Esses confrontos são promovidos pela personagem principal, que de modo inusitado vai ao encontro de suas rivais. Ao fim do quinto capítulo, Rami declara:
O coração do meu Tony é uma constelação de cinco pontos. Um pentágono. Eu, Rami, sou a primeira dama, a rainha mãe. Depois, vem a Julieta, a enganada, ocupando o posto de segunda dama. Segue-se a Luísa, a desejada no lugar de terceira dama. A Saly, a apetecida, é a quarta. Finalmente a Mauá Sualé, a amada, a caçulinha, recém-adquirida. O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso (CHIZIANE, 2004, p. 58).
Dentre as oposições marcadas na narrativa, destaca-se a cena quando o privado torna-se público. A personagem principal ao se dar conta da existência das demais mulheres na vida de Tony, seu marido, aproxima-se destas e propõe:
Cada uma de nós é um ramo solto, uma folha morta, ao sabor do vento – explico. –Somos cinco. Unamo-nos num feixe e formemos uma mão. Cada uma de nós será um dedo, e as grandes linhas da mão a vida, o coração, a sorte, o destino e o amor. Não estaremos tão desprotegidas e poderemos segurar o leme da vida e traçar o destino (CHIZIANE, 2004, p. 82).
A partir de então, uma nova família legalizada é reformulada, neste novo perfil familiar, as mulheres Julieta, Luísa, Saly e Mauá Sualé são incluídas, assim como seus filhos. Há um “ciclo de lobolos” para esse ajuste social, contudo, essa família é reconstruída em torno de Rami e suas mulheres – como provoca o subtítulo acima – pois é ela que expõe publicamente o que era privado: “– É verdade que reuniste todas as mulheres, à vista de toda a gente? – Sim. – Graças a Deus! Não foi só a tua vontade, minha vontade, Rami. Os antepassados guiaram os teus passos para a reunião da grande família, no grande dia. És uma grande mulher” (CHIZIANE, 2004, p. 114).
Desse modo, desde os primeiros capítulos, Rami toma ciência da existência das demais mulheres e das posições que cada uma ocupa. O lar polígamo é, então, o pretexto para discutir diferenças culturais, sejam de gênero, de origem ou de religião. A poligamia é censurada, defendida e combatida: “As culturas são fronteiras invisíveis construindo a fortaleza do mundo. Em algumas regiões do norte de Moçambique, o amor é feito de partilhas. Partilha-se mulher com o amigo, com o visitante nobre, com o irmão de circuncisão” (CHIZIANE, 2004: 39). “Nunca ninguém me disse a origem da poligamia. Por que é que a igreja proibiu estas práticas tão vitais para a harmonia de um lar? Por que é que os políticos da geração da liberdade levantaram o punho e disseram abaixo os ritos de iniciação? É algum crime ter uma escola de amor? (…). O colonizador é cego. Destrói o seu, assimila o alheio, sem enxergar o próprio umbigo” (CHIZIANE, 2004, p. 45).
Nesses fragmentos, a tradição das famílias matriarcais, ao norte, se opõe ao projeto unificador dos políticos da geração da liberdade (Frente de Libertação de Moçambique, FRELIMO), impondo a família monogâmica, na qual o marido é o chefe de família. De acordo com Pinho (2012), nessa nova ordem política, o poder masculino passa a representar a modernidade e o progresso, portanto, condenando quaisquer manifestações de base matrilinear. A voz narrativa pontua essas diferenças: “Conheço um povo sem poligamia: o povo macua. (…). Conheço um povo com tradição poligâmica: o meu, do sul do meu país. Inspirado no papa, nos padres e nos santos, disse não à poligamia (…). Praticam uma poligamia do tipo ilegal, informal, sem cumprir os devidos mandamentos: um dia dizem não aos costumes, sim ao cristianismo e à lei. No momento seguinte, dizem não onde disseram sim, ou sim onde disseram não” (CHIZIANE, 2004, p. 92).
Quanto à organização familiar das terras do norte e do sul, no que diz respeito à representação feminina, há nítidas diferenças na narrativa: “Na minha aldeia, o amor é solenemente partilhado em comunhão como uma hóstia” (CHIZIANE, 2004, p. 82). “Muito me espanta esta cultura do sul! – conclui Mauá. – Para nós, o amor e o prazer são muito importantes. Quando um desses elementos falha, mudamos de parceiro. Para que sofrer?” (p. 174). “No sul as mulheres são exiladas no seu próprio mundo, condenadas a morrer sem saber o que é amor e vida” (p. 175). Esses contrastes são evidenciados em relação à sexualidade: “– Eu tenho magia no corpo inteiro (…) comecei a ter lições de amor a partir dos oito anos” (p. 177). “És virgem, apesar dos teus cinco filhos. (…). – O que me aconselhas? – Faz um alongamento genital, que é bom. Esta prática, que muitos condenam sem conhecer, traz mais soluções que problemas” (p. 180). Tais práticas de sedução com fins eróticos e estéticos não foram incorporadas ao projeto modernizante da FRELIMO, conforme observa Pinho (2012, p. 972):
Ao arrepio da pregação cristã e da moral revolucionária da Frelimo, demonizava-se a sexualidade da mulher e via-se, por exemplo, nas prostitutas, especialistas da ars erótica, a imagem incorporada da devassidão e degradação moral do colonialismo.
Touraine (2011, p.130) afirma que “A sexualidade é inteiramente desejo, relação com o outro e construção de si. Ela cria uma identidade e, principalmente, uma vontade de construir a unidade sempre ameaçada entre o erotismo e a fecundidade”, em Niketche sexualidade é uma experiência integrada: aproxima o feminino, cria uma identidade coletiva em torno do sujeito masculino, busca o conhecimento de si e do outro, e, particularmente para Rami é a superação de conflitos entre a moral instituída e o desejo. É a possibilidade de correr riscos, de vivenciar o hexágono amoroso.
Rami e Vuyazi: princesas insubmissas
No conjunto da obra, como já exposto, há contextos antagônicos que expõem tanto a fragilidade como a força determinantes na construção das relações individuais e sociais. Essas manifestações, geralmente estereotipadas em masculino=força e feminino=fragilidade, assumem orientações que subvertem o instituído, dois desses momentos na obra ocorrem nas narrativas míticas de Vuyazi e Niketche. O primeiro é apresentado em um contexto em que o marido, Tony, queixa-se aos familiares mais velhos (conselho de família) da má conduta de suas mulheres. Na sequência, uma anciã inicia: “Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza mas tinha o coração de pobreza. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a natureza” (CHIZIANE, 2004, p. 157). Então, discorre sobre Vuyazi, que foi castigada por desobediência aos costumes e descumprimento de obrigações impostas às mulheres. E finaliza:
É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua. É a Vuyazi, estátua de sal, petrificada no alto dos céus, num inferno de gelo. É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez por mês, apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi (CHIZIANE, 2004, p. 157).
O segundo momento ocorre quando conversam acerca da fragilidade flagrante de Tony: “– Podemos usar nossa nudez para assustá-lo, torturá-lo, arrepiá-lo até a medula e à medida da sua maldade” (CHIZIANE, 2004, p. 160). Nesse instante, uma das mulheres, Mauá, envolve as demais de curiosidade, ao falar sobre Niketche: “– Uma dança do amor, que as raparigas recém-iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Estamos prontas para vida” (CHIZIANE, 2004, p.160). Assim, enquanto a liberdade da insubmissa Vuyazi se deu pela opressão, Niketche é a expressão da liberdade no combate à opressão pela arte; em ambos os casos, força e fragilidade são atitudes de resistência, que compõem o coletivo feminino na narrativa. Atitudes essas que estão presentes na personagem Rami, que diante dos infortúnios cria mecanismos de luta, que mesclam tolerância, vingança e aquiescência. Diante desses comportamentos discrepantes e, muitas vezes, inusitados, tal qual a princesa Vuyazi, que coloniza a lua (CHIZIANE, 2004, p. 293), Rami, a insubmissa tem uma trajetória singular: decide a própria existência, na qual “escreve e ler as linhas nosso destino (…). Com as nossas impurezas menstruais, adubaremos o solo, onde germinará o arco-íris de perfume e flor” (CHIZIANE, 2004, p. 294).
Conclusão
A obra Niketche: Uma história de poligamia retrata a experiência humana, diante do inesperado. A personagem Rami descobre-se traída. A partir desse evento, vai lidar com seu destino de modo inusitado. Rami poderia se adaptar ao fato de ser mais uma mulher do seu marido e seguir a tradição? Sim, contudo, a protagonista, assente a poligamia para questioná-la (eis o paradoxo da obra!). Assim, provoca uma mudança de comportamento em todas as personagens, mobilizando-as, principalmente o elenco feminino, que passa a se dar conta de sua capacidade de empoderamento – superando a dependência socioeconômica e buscando a emancipação individual. Desse modo, a narrativa articulada de Pauline Chiziane marca a presença dos sujeitos (femininos), dos lugares de onde vêm (África), e do tempo em que se encontram (colonialismo/pós-colonialismo) sob múltiplos enfoques.
Referências
CHIZIANE, P. (2004). Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras.
DIOGO, R. E. G. (2010). “Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino”, Scripta, Belo Horizonte, 14 (27), p. 173-182.
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TOURAINE, A. (2011). O mundo das mulheres. Petrópolis (RJ): Vozes.
Bio fornecida pelo palestrante.
María Antonia Miranda González
Orientadora: Nancy Rita Ferreira Vieira
Resumo: O objetivo do artigo é refletir sobre as potencialidades que a literatura traz para ampliar o significado do conhecimento situado, que abarca o entendimento da objetividade e do subjetivo, como experiência válida para a produção de uma teoria feminista que dialoga com a escrita das mulheres. Está baseado no romance de Nélida Piñon, A República dos Sonhos (1984), e utiliza como os principais referenciais teóricos os aportes de Boaventura de Sousa Santos (2008) e da Donna Haraway (1991).
Palavras-chave: objetividade, subjetividade, posicionamentos, memória, política.
Minicurrículo: María Antonia Miranda González possui graduação (2004) e mestrado (2009) em Sociologia na Universidade de Havana. É formada no Centro de Formação Literária Onelio Jorge Cardoso (Cuba, 2004). Foi professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Havana em 2004-2007. Pesquisadora do Instituto Cubano de Investigações Culturais – ICIC. Foi colaboradora do Centro Félix Varela e da Revista Digital Cubaliteraria (2008-2011). É uma das autoras do livro intitulado: Convergencias en género, apuntes desde la sociología, lançado em 2011. Atualmente realiza estudos de doutorado no Programa de Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, gênero e feminismo – PPGNEIM – da UFBA.
Minicurrículo: Nancy Rita Ferreira Vieira é Doutora em Letras pela UFBA e Professora Adjunto do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da UFBA. É Professora do Membro do Programa de Pós-graduação de Literatura e Cultura – PPGLitC do Instituto de Letras da UFBA e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo – PPGNEIM.
Encaixar a memória: o conhecimento situado da
República dos Sonhos
María Antonia Miranda González
Nancy Rita Ferreira Vieira
Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a autoorganização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.
(Boaventura de SOUZA SANTOS).
O argumento fundamental é que a ação humana é radicalmente subjetiva.
(Boaventura de SOUZA SANTOS).
Começo a escrever desse lugar, na verdade, um entre-lugar que se perde, às vezes, nas leituras sociológicas, nas leituras das ciências humanas e no literário como fonte, e com A República dos sonhos (PIÑON, 1984) aberta em uma página qualquer à minha frente, talvez pedindo para ser julgada como arte, ou será que todos esses fantasmas que pulam dentro dela concordam com meu ato de trazer essa leitura que se anima a declarar que: “os objetos têm fronteiras cada vez menos definidas; são constituídos por anéis que se entrecruzam em teias complexas com os dos restantes objetos, a tal ponto que os objetos em si são menos reais que as relações entre eles”1 (SOUZA SANTOS, 2008, p. 56).
Começo a escrever desse lugar e trago essa ideia de Boaventura de Souza Santos (2008) porque já me resulta difícil avançar por um texto sem a admiração que me provocam certas interdependências, inclusive apagamentos de limites, como aqueles que são manejados por Piñon (1984), quando escreve sobre a conformação de um Brasil a partir do alimento dos mitos que lhe chegaram de fora, através da travessia pelo Atlântico. Os mitos de Sobreira, contados pelo Xan, os de Dom Miguel passados para a filha Eulália, ou aqueles recortados pelos sonhos de Venâncio, formando uma mistura compacta que acabaria “nas mãos” da personagem que mais me fascina, a Breta2.
Essa travessia inconclusa simbolicamente conforma uma “república dos sonhos”. Esta ainda pode ser sonhada por todos/as os que, de alguma forma, se preocupam com os roteiros da América. Há aí vários aspectos enriquecedores para o entendimento da polêmica da objetividade que preocupa as feministas e os estudos sobre o feminismo. Isto porque, sobretudo, segundo Breta, “Falar é também um método de luta” (PIÑON, 1984, p. 264).
E, como acredito que a teoria feminista, em sua perspectiva acerca da objetividade do seu conhecimento3, poderia dialogar de forma fecunda com fontes como a escrita das mulheres, para ampliar o que tem se sedimentado como espécie de conclusão sobre a temática, e que tem a ver, na maioria dos casos, com uma defesa da teoria do lugar e mais recentemente com o debate sobre as posicionalidades4:
As análises feministas são inerentemente avaliativas e não podem, portanto, pretender uma simetria que é metodologicamente impossível (porque todo conhecimento e toda análise é sempre situada) e politicamente indesejável (porque é preciso identificar e denunciar as assimetrias de poder associadas ao gênero) (GARCIA, 1999, p. 52 – minha tradução).5
Assim nos adentramos na ideia de “conhecimento situado”, a partir dos distintos lugares em que se coloca a fala das personagens, como um conceito que faz referência à postura epistemológica, acunhado por Donna Haraway (1991), na sua obra Ciência, cyborgs e mulheres: a reinvenção da natureza, inscrita dentro da epistemologia pós-moderna, que nasce da crítica à epistemologia feminista do “ponto de vista feminista”. Com este conceito, ela se propõe a falar dos objetos de estudo colocando em evidência o lugar desde o qual se parte, insistindo em que todo mundo parte da sua própria subjetividade, assim como do seu contexto cultural (seja ou não consciente disso).
Nesta ordem e participando de uma lógica como a anterior, posso ter dois caminhos à minha frente, ou tentar enquadrar, nesse pressuposto, minha análise dos fantasmas que pulam e dialogam com a Sociologia, ou tentar me desviar, em algum sentido, que atenue o enquadramento, sem renunciar à denúncia do assimétrico, mas permitindo à literatura uma conceitualização aberta e por que não “diferente”? E a diferença radica em tornar líquido, no sentido de fluido como gosta de escrever Bauman (2009)6, os conteúdos que tentam preencher a categoria “do situado”. Por esse motivo, achei válido destacar, para resolver este ponto, o fato de que na República dos sonhos, encontramos a personagem Eulália, que dispõe de caixas para arquivar o passado, num sentido que me remete à ideia de lugar construído ou da criação de um lugar privilegiado para a “subjetividade”.
Nessa posição, “a caixa” confunde sua dimensão física com sua função dentro do relato e passamos a interagir com um objeto volátil que não mostra seu verdadeiro conteúdo, no entanto, se refere constantemente às afetações e implicações que ele tem, impedindo-nos do exercício de imaginá-lo com exatidão. Por isso mesmo, nos oferece essa liberdade criativa que a imagem literária provoca. Por outro lado, é uma liberdade que se compromete, com a tarefa de desenhar, a partir de suas “minúcias”, alguns dos fios soltos para restituir o que, na figura do personagem Venâncio7, se ressalta como utópico. Ao se tratar de recipientes habilitados para guardar um tecido único composto pelos fios que emaranham as experiências dos sujeitos da história da narrativa com os acontecimentos da política formal, cada uma dessas caixas se torna testemunha de fatos que imbricam “realidades” arrancadas à América, ao Brasil e à humanidade dos seres de carne e osso que as alimentaram. A metáfora se explica a partir da violência que esses seres enfrentaram, e a partir do fato da realidade ser uma construção social, coletiva.
Não obstante, começando pelo ato da denúncia, queria primeiro apontar que, a manifestação “subjetiva”8 de “situações-posições” das mulheres recriadas na obra da romancista brasileira, em resumidas palavras, obedece a uma reacomodação paulatina de papéis que se explicam sempre através dos relacionamentos que as personagens mantêm com os/as outros/as: Eulália, Odete, Antônia, Esperança, Breta. O mecanismo que selecionei, por achar pontos nodais e de conflito, passa pelas relações entre Eulália mãe-esposa, encarnando a mulher-anjo, vinda da própria Europa, com valores religiosos e saúde fraca, sempre precisando de cuidados. Da mulher negra Odete, vinda da África, que se constitui como outridade, com a tarefa do serviço e o cuidado, e que passou a vivenciar a experiência unicamente através do corpo e sentimentos da dona branca, desistindo de uma história pessoal, como instrumento. As duas, todavia, igualadas no momento em que, nessa hierarquia doméstica, são circunscritas ao espaço da casa e praticamente ao quarto. Produzem, porém, essas personagens, conhecimento? Ou devemos entendê-las como arquétipos de um conhecimento legitimado que aponta dados sobre a estrutura social dessas mulheres que são confrontadas entre si?
Como falam as caixas de Eulália do despertar à condição imposta desde “fora”, produto de classificações segundo um gênero, uma classe, uma geração? Estamos conscientes das estruturas objetivas dentro das quais vivemos e nos desempenhamos – o questionamento é meu a partir da expressão de Mies (1998, p. 97)? Ou será do modo como escreve Boaventura de Souza Santos (2008, p. 36), que: “os seres humanos modificam o seu comportamento em função do conhecimento que sobre ele se adquire”. A consciência é reconvertida num lugar compartilhado socialmente. E, se esse é um sitio compartilhado, formado e definido pelas relações, representações sociais, normas, tipos ideais, que a atravessam, não estará igualmente esse conhecimento em múltiplos sítios, ressituado constantemente como um fluxo, e como um fluxo, deslocado?
Nesse sentido, uma das primeiras preocupações gira em torno de discutir se a escrita das mulheres, como no caso de Nélida Piñon, trabalha com a promessa de ter algo novo a dizer sobre a construção da subjetividade e consequentemente também alguns detonantes imprevistos na objetividade e nos pontos de partida? Se, em algo concordo, é com a afirmação de que “o novo que essa escrita tem a dizer” começou pelo fato de evidenciar o omitido, o silenciado, fazendo críticas e expondo a violência material9 sobre os corpos das mulheres, pondo à vista os desafetos e as partes abjetas da maternidade, casamento e das instituições como a própria família, montada sobre a égide dos valores e normas patriarcais. Essa escrita em varias ocasiões também se preocupou em deslocar e ressignificar as mulheres.
Penso que não é por acaso que Piñon (1984) começa sua República com uma Eulália moribunda, mas com um plano almejado para esse momento:
Eulália começou a morrer na terça-feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. À cabeceira, Madruga presidia os festejos e os hábitos implantados na casa desde sua chegada à América (PIÑON, 1984, p. 7).
Eulália está morrendo no início da República dos sonhos, mas por que a história dessa América deve começar com uma mulher pronta para morrer? É como se a autora colocasse num nível de fala invisível uma postura que altera as mortes femininas de tantas personagens de autores homens, que de modo geral se apresentam como mortes nos finais, punitivas, de escarmento, as lições finais para as heroínas, essas figuras dissonantes com o meio social. Uma morte, no começo da história, muda a panorâmica exemplaridade que se prepara para as transgressoras. Assim sendo, todas as personagens massacradas estão no leito de Eulália, que se prepara para morrer uma morte tranquila. Não há a intenção do terrível e sim a conquista de uma outra morte: essa que desde o espaço do silêncio fala, para construir paralelamente outros sonhos e intencionar deste modo novos referentes e significantes da política.
Aparece certo jogo, em que a autora doa uma característica pouco usual à personagem, a possibilidade de produção de uma forma de conhecer, de aceder ao conhecimento. O interessante é que de repente isto aparece como um ato liberatório que desmancha as paredes e proporciona um alcance maior para esta personagem angelical. Ela é recolocada como uma arquiteta da memória, e seu desejo é deixar a memória como herança: “Vamos, Eulália, fale de uma vez com quem vai ficar a minha história? E para onde vão seguir os sonhos, que tanto prezas?” (PIÑON, 1984, p. 20).
Fabricar um senso de memória é o ponto de partida do texto, relacionando esse conceito à própria fabricação da história pessoal conectada com a história de um país. E relativiza, ao mesmo tempo, a estabilidade ilusória do termo situar, introduzindo um paradoxo entre a impossibilidade de cristalizar, fixar as experiências e, simultaneamente, lhes outorgar uma materialidade concreta no lugar dos objetos acumulados sob sua perspectiva.
Os filhos, uma filha, e a neta estão prontos para receberem as caixas com seus nomes. São as caixas da mãe (e avó) que veio da Espanha para fazer a América junto com o esposo, Madruga10. Na sua dupla situação, a personagem Eulália não vai falar de si, no entanto, parece que só é dela que fala, no ato de catar as lembranças que fazem sentido para ela, no que seria o material, a partir do qual os outros, os filhos e a filha, conseguiriam dar continuidade ao relato da identidade olhando para o passado, se encontrando com sua história, porém sempre alheia, construída pelo olhar materno:
Eulália dispunha de cinco dessas caixas, todas distintas entre si. Cada qual correspondendo a um filho, e a que só ela tinha acesso. Sem que Madruga jamais se questionasse sobre o que havia dentro. Um material que no futuro permitiria aos filhos contarem suas histórias por meio de fatos ali armazenados11 (PIÑON, 1984, p. 183).
Trata-se de histórias que não conformam um espelho com a capacidade de representá-los e sim de provocar se sentirem estranhos ou confrontados por elas (como imagens que se olham umas às outras em forma de réplicas desfiguradas). Há um poder, nesta presença subjetiva que se afirma a si mesma, e sinaliza uma ruptura com os limites impostos à sua condição-posição, já que “Ultimamente Eulália observava Madruga como se lhe pesasse o encargo de partilhar o cotidiano com o marido” (PIÑON, 1984, p. 8). Esta ótica de Eulália coloca as mulheres não só como espectadoras do que acontece ao seu redor, senão como as principais fabricantes da memória12.
Nesse ato de acumulação de objetos pessoais, Eulália queria oferecer aos filhos/as uma oportunidade de materialização do “real”, restituir a legitimidade de vidas que aconteceram no entremeio das identidades nômades. Evidencia o caráter bifurcado e transitório da “identidade” como “entidade” trabalhada durante a penosa jornada de se apegar aos objetos que sinalizem pertença ao entorno, começando pela apropriação do nome. Do mesmo modo, Eulália outorga ao espaço da caixa a capacidade não só de configurar um sítio para o íntimo, mas também a erige como performance do espaço que se converte em lugar de fala. Um espaço no qual o íntimo é reaberto a cada instante. Não se trata de uma intimidade como uma ideia fechada ou enterrada que descansa em algum resquício do inconsciente coletivo, é um íntimo que se sacode e remove, respeitando a ordem do seu poder de manipulação. Então, se abre como proposta de um território de domínio oposto à dominação oficial, mas em diálogo com ela, para prosseguir com suas analogias e também para desacreditá-las.
Esse objeto instalado na caixa também insinua faltas e ausências que enaltecem o que foi selecionado como substituição tangível do momento que fugiu, para voltar emergindo dentro de novas conotações discursivas. É o vazio dessa filosofia existencial que preenche os espaços entre os objetos, o lugar no qual os personagens criam as perguntas sobre eles/as mesmos/as e conseguem acomodar multíplices possibilidades de percepção: “Acaso sou invejoso, padrinho? A quem invejo nesta casa? (…) Não sei, Tobias, também eu tenho perguntas difíceis a me fazer” (PIÑON, 1984, p. 676).
É o ato de sair coletando pedaços da realidade, os restos da existência, a maioria deles resgatados do lixo, convertidos em objetos de lembrança através da construção simbólica –
partes de frases, bilhetes com pequenos discursos – que Venâncio colocava no berço de Tobias, e iam parar no fundo da sua caixa para serem digeridos com justiça no futuro, o que conforma o entendimento de uma história que se conta a partir do fato da recopilação.
Essa recopilação fala da construção do lugar e do posicionamento que estão assim atrelados – como no caso da personagem Eulália – a interesses e problemáticas relativas ao poder. Essa problemática que nos permite falar da ação de situar, porque “Ninguém quer perder sua cota de poder, ainda que reduzida” (PIÑON, 1984, p. 157). Esse trecho parece confirmar o argumento de que esse lugar, esse ponto de vista, que a Haraway (1991) sinaliza como “a subjetividade”, não é um lugar só, ou simplesmente uma zona a percorrer com limites definidos. O subjetivo goza de multiplicidade, de mudanças, de conflitos, é tão contraditório quanto fragmentado, daí seu caráter parcial e relativo, potencializa a validez do pós-moderno para operar nos recortes dos objetos, nas formas de conhecer “o real”13. É essa Eulália que, desde o umbral da morte, detém as provas da existência dos personagens, e cada um deles dá um jeito de se desfazer do conteúdo das caixas, como uma virada para a ênfase na subjetividade e como a negação dos limites dos encaixamentos da experiência e da própria produção dos sujeitos, numa dialética que simultaneamente nega e reconstrói a memória:
Os netos já lhes rondavam a casa, prontos a devorar as lembranças ingenuamente acumuladas nos anos de América. Não tinha importância. Há muito os objetos vinham-lhe pesando. E depois queimar retratos, documentos, bilhetes, era a tarefa inadiável dos sobreviventes, pensou com certa angústia (PIÑON, 1984, p. 15).
Não lhe disse que a memória é ingrata? O que se vive uma vez é sepultado para sempre, disse Eulália, uma frase aliás constantemente repetida (PIÑON, 1984, p. 69).
E Piñon escreve: “A gente só pode esquecer, se inventa depressa, para nada ficar faltando” (1984, p. 80). O fato de trazer, como exercício da consciência, uma seleção de elementos da experiência pessoal para justificar o lugar de onde se fala, exclui, seguramente, outros elementos dessa mesma experiência, e, simultaneamente, os modifica, porque são recriados através dos discursos. Isso aparece de modo explícito na narrativa como uma advertência: “Cuidado, Eulália, desconfie das palavras. Elas tanto afirmam quanto desdizem” (PIÑON, 1984, p. 14). E continuo com as perguntas: quem decide os aspectos importantes para situar o conhecimento? Essa escolha é ingênua? Bento, um dos filhos de Eulália, coloca os objetos recordados em envelopes para serem abertos depois da sua morte. Ele exacerba o significado de morte e perda, porém, dentro do contra-jogo às formas de silenciamento tradicionais, fortalecendo a ideia de objeto arqueológico preparado para ser rastreado, e com uma força bem antiga, a da intenção de transcendência dos sujeitos. De certa forma, seu desejo é prolongar a missão que Eulália arquitetou, a de legado. Então, essa narrativa se explica paralelamente como a oportunidade de criação de uma fonte explicativa, não necessária em termos racionais logofalocêntricos, e sim em termos da conjunção de poética e política, que recoloca as mulheres, talvez, num referente diferenciado de sujeito histórico.
Esse potencial literário, de conexões intersubjetivas, fala de uma política que não fica no pessoal (no que vive uma pessoa na suposta esfera íntima-privada), assume a ambiguidade do “de adentro e o de fora”, a intersubjetividade, que representa e recria, é o pessoal feito público, o público feito pessoal, portanto, a intersubjetividade é política. Trata-se também da política da imaginação, da utopia do possível, já que “a potencialidade também tem uma certa realidade” (MORIN, 2008, p. 131), o que Piñon acompanha com as frases de seus personagens: “Não se pode conviver com a justiça social sem uma clara visão poética da realidade (…). E repito ainda: fora do estabelecimento de regras poéticas com que pautar o mundo, sobrevém a perdição e o escárnio público” (PIÑON, 1984, p. 130).
Com esse conjunto das caixas no armário repousando num silêncio desestabilizador, acho possível o resgate da dimensão imaginação-ficção, porque as caixas anunciam que nós, como os personagens, não estamos e não existimos, unicamente dentro de posições inteligíveis, visíveis, senão também em outras, invisibilizadas, susceptíveis de interpretação e tradução, porque cada posição é um palimpsesto de superposições, interseccionalidades, de imbricações, entre variáveis como gênero, classe, raça e geração, e outras, como a profissão, relação com a história de antepassados, sistema de crenças, religião, ideologia, expectativas, e o acesso às oportunidades, Neste ponto, trago uma autora que repara como:
A imaginação deixa de ser negativa e a realidade material já não deve ser a única referência na enunciação de si, da mesma forma que, para além do pensamento racional, o que é sentido, e muitas vezes não chega sequer a ser posto em palavras, todo campo da afetação e dos movimentos desejantes, passa a ser necessariamente reconhecido como fundamental na experiência que cada um pode ter de si mesmo e da relação com o outro (CUNHA, 2009, p. 68).
Não por acaso cada personagem manifesta seu temor diante do que vai encontrar como objeto de lembrança:
A mãe nada mais fez que selecionar memórias e guardá-las nesta caixa. Mas por que não me consultou antes, para saber se eu estava de acordo? Tinha a mãe o direito de colecionar fragmentos da minha vida, da mesma forma como se colecionam mariposas espetadas com um alfinete na cortiça? (PIÑON, 1984, p. 647).
A partir daí, começa a necessária autorrelativização do observador, que pergunta “quem sou eu?”, “onde estou eu?” (MORIN, 2008, p. 21). Será que nós não temos como fugir, que nós não temos como situar fixamente, que, como lembra Berman (1986), “tudo que é sólido desmancha no ar”? De onde vem a necessidade de situar, justificar, o que conhecemos, e como o conhecemos?
Há muitas pessoas que consideram essas perguntas um convite ao relativismo. Reformulando-as em seus próprios termos favoritos, elas nos perguntam se gostaríamos de dar à falsidade os mesmos direitos que à verdade, ou se gostaríamos que sonhos fossem tratados com a mesma seriedade que relatos de realidade (FEYERABEND, 2011, p. 99).
Entretanto, como esta escrita de Piñon me permite assinalar, não existe uma relação direta causal, linear, entre posição, situação e nosso arsenal cognitivo (ainda que sejam simultaneamente tanto objetivas como subjetivas). Isto porque, como o próprio desenvolvimento da história debate-se em diversas dialéticas, nossa história pessoal não está isenta desse conflito.
As cinco caixas de Eulália na República dos sonhos me remetem à necessidade de localizar a objetividade dos posicionamentos na construção das identidades para, ao final, trazer uma lição maravilhosa, mesmo que venha do discurso da ficção: essa necessidade de materialização fixa poderia não fazer mais sentido, e sim o ato de entender sua dinâmica que pode ser preservada através da construção do próprio discurso, que cada personagem renova sobre si, inseridos em seus conflitos de poder.
Portanto, me permito finalizar dizendo que o conhecimento é situado, mas não é somente situado, também ele é ressituado, recolocado, traduzido, translocalizado, construído nos espaços de entre-lugares e entre-tempos. E que o literário encerra potencialidades de visualizar as mulheres como protagonistas da sua própria história, a saber, com seus constructos tanto objetivos como subjetivos: o qual se faz evidente em Nélida Piñon quando declara, como outras tantas autoras das Américas, que “narra porque é mulher”.
NOTAS
1 Esta ideia discute, assim, as noções de objetividade ligadas ao “real”.
2 Breta é a personagem escritora do romance, jornalista e neta de Eulália. Breta representa um novo paradigma de mulher e, ao mesmo tempo, é a responsável pela escrita da história de Madruga, como uma história que se confunde com o mito de fundação do Brasil e da própria América.
3 El conocimiento ya no es una “representación” o un “reflejo” de la realidad, una actitud de creencia y aceptación de un contenido proposicional; sino una relación, una interacción concreta entre los agentes del conocimiento y sus objetos de estudio (GARCIA, 1999, p. 48).
4 Alguns de nossos pontos nodais (COSTA, 2002), isto é, identificações que servem em uma situação concreta para unirmos na consecução de fins políticos que dão coerência aos movimentos (neste caso, feministas), não é condição suficiente para situar, de uma vez por todas, o conhecimento. Porém, ele apareça como situado nesse momento, mas esse processo não responde a toda objetividade para “o feminismo”. Senão há uma estratégia política como no caso da teoria do standpoint e do essencialismo estratégico.
5 Los análisis feministas son inherentemente evaluativos y no pueden, por tanto, pretender una simetría que es metodológicamente imposible (porque todo conocimiento y todo análisis es siempre situado) y políticamente indeseable (porque es preciso identificar y denunciar las asimetrías de poder asociadas al género) (GARCIA, 1999, p. 52).
6 Zygmunt Bauman (1925), sociólogo polonês escritor de diversas obras sobre pós-modernismo, entre elas, Vida líquida (2005) e Tempos líquidos (2006).
7 Venâncio é o amigo de Madruga, personagem que o acompanha na travessia pelo Atlântico no sonho de fazer a América, também seu alterego. Madruga delegou nele a capacidade de sonhar.
8 O subjetivo é objetivo num entendimento dialético da relação O-S, que defendo desde a postura marxista de sua compreensão. Para começar, concordo com que “existe uma ligação inaudita entre a intersubjetividade e a objetividade” (MORIN, 2008, p. 42). E aproveito para revelar que a minha postura, neste ponto, é principalmente marxista, porque acredito na presença do subjetivo no objetivo, e vice-versa, como unidades inseparáveis que caracterizam nossos modos de produção e reprodução, como seres sociais. Neste sentido, de se colocar frente à problemática da relação objeto-sujeito, também encontramos o consenso da objetividade presente nos feminismos, sobretudo quando se fala e se defende que o conhecimento é situado.
9 E também sutil, simbólica, da dominação masculina nos termos do sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002).
10 A saga de Madruga é uma narrativa constante sobre a alteridade e seus dilemas pessoais que colocam os indivíduos num cenário que às vezes é usurpado pela falta de legitimidade social que provoca a migração como uma marca.
11 Como se, de algum modo, inexplicável pudessem se armazenar os fatos.
12 Essa imagem remete ao outro romance de Piñon, Vozes do deserto (2004). Podemos destacar esta ideia como uma preocupação da autora por posicionar as mulheres diante da memória como recurso que lhes outorga poder político nesse sentido neste romance de 2004 ela resgata a personagem de Scherazade.
13 “Não é dar a receita que fecharia o real numa caixa, é fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto – o idealismo –, que crê que o real se pode deixar fechar na ideia e que acaba por considerar o mapa como o território, e contra a doença degenerativa da racionalidade, que é a racionalização, a qual crê que o real se pode esgotar num sistema coerente de ideias” (MORIN, 2008, p. 140).
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Bio fornecida pelo palestrante.
Wellington Alves Toledo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo: Ao logo de diversas leituras e releituras de poemas de Fiama Hasse Pais Brandão, principalmente os que compuseram sua antologia Âmago (2010), constatamos que a transfiguração e a transcrição da imagem através de um olhar poético marcavam presença em sua obra. Porém, longe de uma pura e simples representação narrativa e/ou descritiva da natureza, sua escrita se nos apresentou permeada de cenas do cotidiano pessoal, captadas em seus aspectos mais complexos. Diante da presença do objeto depurado, a autora buscou dar forma às coisas através de um olhar em constante suspensão, colocando a metáfora representativa da paisagem lírica sempre em um estágio de deslocamento, não de condensação. Tudo isso sem esterilizar a temática da herança literária e cultural portuguesa.
Palavras-chave: imagem; grafiama; tradição; tradução.
Abstract: Throughout many readings and re-readings of the poems by the Portuguese poet Fiama Hasse Pais Brandão, especially those included in her anthology Âmago (Cern, 2010), we concluded that she performs a transfiguration and a transcription of images through her poetic look, in a movement that is typical of her work. However, far from presenting a simple narrative or a descriptive representation of nature, she presents a writing that is impregnated by her personal experience of everyday scenes, although she catches them in their most complex aspects. When confronted with reality, she presents objects through a most refined shape, looking at things in a state of constant suspension. As a result, her lyrics are represented by metaphor in a moving atmosphere, and objects are never allowed to condensate. Besides, this is done without letting the cultural heritage of Portuguese literature sterilize.
Key-words: image; grafiama; tradition; translation.
Minicurrículo: Wellington A. Toledo é formado em Letras e trabalha como professor concursado na rede pública de ensino da Prefeitura de Magé. Atualmente conclui o curso de Mestrado em Literatura Portuguesa pela UFRJ, sob a orientação da Professora Doutora Gumercinda Nascimento Gonda, com o tema da problemática da forma e de gênero em Mensagem, de Fernando Pessoa. Além da finalização de sua dissertação, também está envolvido com a publicação de um livro de poesia.
FIAMA: A IMAGEM DE ESCRITA E A IMAGEM DESCRITA
Wellington Alves Toledo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Introdução
Buscando nas frinchas do cotidiano escrever o extraordinário da realidade ou o real imaginado, a imagem do mar mítico português e os traços culturais da nação ainda não foram esvaziados na poética intra e intertextual de Fiama Hasse Pais Brandão. Persiste em seu trabalho um convívio harmonioso de receber, conceber e imitir imagens da representação teatral do espetáculo do mundo através de seus resíduos com o constante ato de leitura e escrita da tradição, num processo que perpassa pelo Medieval ao Moderno. A escritora portuguesa procura na captação daquilo que se insere entre os ecos de cultura ocidental e da natureza vertentes para o seu ofício de escritu(o)ra.
As imagens, duplas e únicas, transfiguram para Área branca (1978) do papel, em seu duplo de penumbra e de sombra, a necessidade perene da autora de interpretar, autointerpretando-se, a cultura literária de Portugal e de replicar Toda a natureza que lhe coube nas pupilas.
Há mesmo no que escreve um deliberado espaço de resistência ao hábito, à ordem, ao senso comum, à mesmice. Até o tratamento dado aos mitos que configuram o imaginário da pátria dá-se de maneira enigmática, cabendo ao decodificador encontrar os traços implícitos nas cavidades das palavras grafiamadas. Suas menções, embora epigráficas, principalmente com relação à figura camoniana, seu poeta mais revisitado, não são gratuitas. Portanto, contrastando a primeira espera, os temas de natureza histórica ou os mitos da nacionalidade portuguesa são abordados sob um novo prisma, quase sempre crítico, nunca se deixando seduzir pela gramaticidade mítica ou pela obrigação intertextual. Seu diálogo em (re)visita não é análogo puro e simplesmente. Não é transladando os ossos de Camões para o corpus textual ou se encenando na coterie pessoana que Fiama irá buscar a redenção com o passado. Interessa-nos, então, objetivar o uso que a poeta faz da herança literária, de como ela traduz esses mitos para os seus mitos pessoais, numa espécie de jogo de tradição e tradução, e de como, a partir do âmago desse arquivo mitopoético, são presentificados, no corpo dos textos, a memória cultural dos livros e a memória do humano.
Sua leitura não atua “como”, atua, sobremaneira, “com” os “fantasmas” poéticos, também responsáveis por sua formação, transformando em forma a metamorfose de sua obra e, de certa forma, (de)formando-se em um ser que escreve, inscreve-se e se (re)edita no abismo do mar mítico. Interpenetrando nos interstícios das histórias sublimadas pelo inconsciente português, o Ultramar, Camões e seus Os Lusíadas, a ditadura, o 25 de Abril.
Sua poética está em sincronia com o “Desconcerto”, com o “Desassossego” e com o “Testemunho”. Espécie de lírica do “Acompanhamento” e/ou do “Pertencimento”. Uma poética que é excludente por incluir e que inclui na exclusão. Está em constante deslocamento, em suspensão, fazendo-nos (con)viver as metáforas com a linguagem do cotidiano, mas nos obrigando a conferir nos dicionários a sua veracidade. Mostra-nos, de uma forma didática, pedagógica até, que o lugar cativo da escrita moderna não é o da memória, mas o da suspeita. E, assim como Mallarmé experimentou no fim do século XIX, em “Um lance de dados”, a tentativa extraordinária de criar um poema, utilizando-se de átomos/moléculas/resíduos/palavras a partir do nada, a escritora irá se valer do residual, dos resquícios, do resto que lhe resta por se filha dos heróis do mar.
A trajetória da sua poesia se inscreve de maneira muito interessante, fincando-se de forma singular e bem excêntrica. Tecendo uma cadeia de textos bastante hermética, estruturada numa depuração formal e num rigor sobremaneira influenciado pelos movimentos de vanguarda, Fiama se detinha numa renovação da linguagem poética por meio do retorno ao significante e do sentido em sua camada de carne mais profunda, com uma preocupação latente de ressaltar a palavra isolada ou em sintagmas mais minimalistas, tais como propugnava a poesia Concreta, que se caracterizava por ser antidiscursiva, evidenciando o signo linguístico quase sempre de maneira sintética ou isolada.
Exercendo no ato da escrita um controle das emoções, seu texto se nos apresenta afastado do lugares comuns da metáfora sacralizada. Fiama busca uma escritura impessoal, sem marcas autobiográficas, uma copilagem formal econômica em sua grandeza. Assim, encontramo-nos diante de uma poesia com pouca transitividade interpretativa, mas não de interpretações. Espécime de criptografia linguística, no qual o signo poético não se deixa decodificar numa primeira investida do leitor, mas que depois se liquefaz em um mar aberto a se buscar. O sujeito se torna cada vez mais acidental, porém, comumente à poesia da década de 60, não se verifica um sujeito que se subjetiva, mas sim um sujeito que se reescreve obliquamente.
O que há em Fiama é um exercício diário. Quase um jogo ascético em seu esteticismo. Um compromisso assumido entre leitor e leitura. Como Drummond dizia O que muda na mudança / se tudo em torno é uma dança? (ANDRADE, 2005, p. 123), as palavras, na escrita brandoniana, obedecem a uma lei atômica, microscópica e, por vezes, macroscópica, na qual o poema realiza uma ideia de “visão nuclear” da poesia; cada verso e cada palavra se relacionam umas com as outras numa cadeia infinita de possibilidades, palavras no campo do acaso e da necessidade, atômicas.
Embora tenha se pautado sempre por construir uma de poesia sem confessionalismos, a impessoalidade e o distanciamento não anularam a matéria-vida da qual os poemas estão impregnados, sobretudo das imagens extraídas da natureza e sua dinâmica, configurando uma belíssima síntese de um saber da poesia como forma de acesso ao real. Ao ser retida no subconsciente da memória afetiva, a imagem capturada vai se interseccionando com a primeira memória e uma outra que se vai efetivando em efervescência, transformando-se num de esplendor que se punge por debaixo desse tríplice tudo.
Fiama diz e mostra a importância da visualidade, situando-a em todos os níveis de construção discursiva. Sua obra dá-nos uma das mais elaboradas meditações sobre a relação entre poesia e imagem. A poetisa reconhece na natureza o dom de replicar as imagens, de transformá-las, a partir do lodo, em licor cristalizado em seu modo de estar na natureza e se de ler a cor que se transfigura e, desculpem-nos o trocadilho, de escrever a partir do seu modo de “ler cor”.
Ela vai atuar no método dos impressionistas de estar presente no momento das pinceladas, capturando aquela imagem no exato instante, muito mais como um processo de visão do que de memória. Mas essa imagem não se apresenta estagnada. Uma imagem gera sempre um desfilar de imagens profusas se interpenetrando, uma tensão entre atual e virtual que se faz num itinerário que vai das retinas à pena da mão, num processo que necessariamente induz uma leitura ativa por parte do leitor. Como Monet pintou a fonte de seu jardim em diferente luminosidade ou falta dela, a poesia de Fiama irá restringir a imagem em um plano fixo, mas simultaneamente replicando-o e multiplicando-o, nunca restringindo o que é visível num só plano. São imagens que atravessam, dúplices, cujas figuras, personalíssimas, estão à contraluz, entreabertas entre o imaginado e o verdadeiro. Como se atesta em Cenas Vivas (2000) em:
Ao Raiar do Sol, ainda dormia,
ouvi bater de leve, de fora da janela,
no chão de tojo e fetos, a enxada
Abri os olhos e vi riscos de luz
cruzarem as paredes, como sempre
(…)
Quando, enfim, levantada, abri a porta
diante do Sol universal límpido,
duas figuras curvas, a contraluz
compunham uma imagem silenciosa
(…)
Água lhes trouxe apenas, da Sombra
(…)
da porta imaginada e verdadeira.
E, como imagem vem atrás de imagem,
à tarde, ao apagar do Sol ouvi calar
por fim o som de enxadas e dos passos.
E só meus olhos recolheram a oferta
(FIAMA, 2010, p. 139)
É incontável a semanticidade da palavra imagem. Por um lado, porque a noção de imagem tem uma abrangência extremamente vasta que se prende com a própria historicidade do termo, com o seu uso em diferentes disciplinas e por referência a diferentes campos das artes. Segundo Michel Collot, em seu Do Horizonte da paisagem ao horizonte dos poetas (2010), a paisagem é definida num percurso que vai desde o elemento depreendido pelo olhar num determinado espaço-temporal limitadamente físico, que é o horizonte humano, até um campo de visão muito mais subjetivo, que perpassa a priori pela depuração desse horizonte objetivo até o que Collot classifica como sendo o horizonte dos poetas.
A paisagem, subjetiva ou não, é delineada por contornos definidos por certos pontos de vista. Assim, ela se afigura como um mosaico aberto, preenchido às vezes por metáforas visuais, mitos, suposições e por elementos responsáveis pela (re)construção da linguagem, desde as mais remotas origens humanas até a escrita contemporânea.
De acordo com o filósofo francês, não existe paisagem sem horizonte. Assim, o horizonte se apresenta como a fronteira que permite ao ser se apropriar da paisagem, correspondida pelo observador como sendo apenas uma parte do país em que ele se encontra. Desta maneira, a paisagem passa a ser não apenas vista, mas, sobretudo, habitada. E acrescenta:
O que os poetas modernos pedem ao horizonte quase não é mais que o acesso a um Outro mundo, mas a revelação de que nosso mundo é diferente do que se crê, pois ele recebe uma reserva inesgotável de novas perspectivas; não é mais a imagem semelhante de uma identidade própria, mas a distância interior de uma íntima alteridade (COLLOT, 2010, p. 217).
A eleição que um ser faz de um determinado horizonte implica automaticamente na busca de si próprio. O olhar para o horizonte é o percurso que a visão faz rumo a um precipício chamado futuro, através de um universo infinitamente subjetivo. A paisagem, refém da limitação da visibilidade humana, torna-se um espaço estruturalmente incompleto. Ora, cabe aos poetas e aos seres que possuem o viés artístico, por intermédios de uma nova semanticidade, preencher as lacunas deixadas pelo campo de visão restritivo da objetividade. Por ser poético o horizonte, a paisagem conclama a ele a todo instante para ser recriada. Afinal, parafraseando Borges n’Esse ofício do verso (BORGES, 2000, p. 11), o que é paisagem senão somente ocasiões para a poesia?
Fiama não se exprime só com palavra, mas também com imagens, transferido delas para o papel em branco o âmbito, o contorno, as fronteiras, conformando os objetos em sua singularidade, em sua individualidade, apresentando-os, encenando-os, duplicando-os. Vejamos:
Na casa antiga, cada um de nós levava
consigo um candeeiro, com que arrastava
o seu duplo de penumbra e de sombra.
A chama do petróleo ardia junto à boca,
Podíamos devorar a própria luz.
(FIAMA, 2010, p. 142)
Como sendo um ser capaz de descer a níveis mais profundos do absurdo humano, faz emergir, por meio de imagens, elementos constituintes do Imaginário; no caso aqui tratado, a escritora portuguesa procede de modo a equacionar e problematizar fenômenos e objetos que a circundam, numa atitude filosófica, detendo-se com mais atenção e com muita propriedade sobre questões ontológicas e estéticas. O objeto passa a frequentar a imagem da imagem do objeto. Uma superposição de imagens. E, nessa aventura por imagens platônicas, a poeta vai, através de um amor total à cena presenciada, impercebendo o perceptível, algo apenas equacionável pelo olhar da linha tênue do Chão dos olhos.
Amor um olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.
(FIAMA, 2010, p. 140)
Ao tecer a imagem para Área Branca (1978) que se apresenta em um quarto vazio do intelecto, o poema meio que devolve às palavras a força original de ter sido arte pictórica, de ter sido ícone, antes de se tornar um código sistematizado, verbalizado e viabilizado, formado por signos abstraídos de forças ou elementos advindos da natureza contemplada e vivenciada pelos nossos antepassados. Como Jorge de Sena e de sua caça abatida nas cavernas antes mesmo de ser caça.
Ao fazer sempre essa ponte entre a palavra (metáfora) e a imagem, ou até mesmo quando busca cindir a imagem pura e a palavra (ametaforizada), acaba criando um intrincado estilo, na verdade sem uma dicção propriamente sua que a seguisse em toda sua trajetória poética. Fiama parece estar sempre se modificando, sempre buscando um(ns) modo(s) de escrever, pois via a poesia como processo vivo, humano e pulsante.
Ela está sempre na área corrosiva entre a imagem que cresce e sua criação dentro do texto. Está entre o cosmo e o caos. Está no limbo entre a morte e o desfalecimento. Está na doença. Está num ponto em que seus olhos perscrutam o derredor, com seus objetos estáticos ou com a dinamicidade que a tudo preside, lenta ou ligeira. No espaço intervalar é onde o seu sentido poético se produz. Assim sendo, o hipotético atua como realidade do literário, pois, embora seu campo de visão seja ilimitado e panorâmico, ele não se torna totalizante, antes, pelo contrário, atua de forma fragmentada e se dispõe em telas repartidas em ângulos assimétricos.
Sua poética prefere respirar a atmosfera caótica da sua experiência autêntica (LOURENÇO, 2009, p. 133) a sucumbir ao mimetismo pronto, ou seja, prefere atuar em cenas estéreis a fertilizar o campo arado. Dessa forma, converte o objeto captado em uma imagem interior e a transforma em texto. Mas não com uma mimesis da natureza percebida, mas se recriando a partir do seu ponto cego. Dessa natureza, não pretende extrair o grito nem o silêncio, mas um restolho de eco, ecoado na terceira / fala, mensageiro sem início. E, através de uma sintaxe nova, que se expande entre a economia e o excesso, ela quer recolher em escrita o pungente “terceiro tom” que O simples dom de ver que o olhar emite ou colhe.
Atuando quase sempre em um espaço intervalar, intercalado entre o doméstico e o exterior, entre o macrocósmico e o microcósmico, seus olhos arcados, deglutidores de paisagens que atravessam a cavidade do texto, irão sorver e transpor para a área em branco da palavra, a tonicidade mais soturna da noite. Irão figurar nas cenas vivas do universo particular o lado mais pungente da morte, denotando um sujeito em constante formação e reformulação, descentralizado de um corpus poético pronto. Tudo isso intercalado com o compromisso de não esterilizar o passado cultural português herdado. Mesmo que para tal intento tenha que calçar os pés anfíbios de uma literatura que do mar retorna à terra e hoje escreve em seu território de lodo.
Considerações finais
Ao tecer-se como uma voz de um sujeito / que imagina o pensamento dessa figura / comparada a uma ruína, seu corpo se confunde com a própria coisa avistada. A partir de então, a imagem que se particulariza através da partícula, torna a paisagem pública em privada, através daquilo que só o olhar do poeta consegue privatizar como seu. Um olhar que teme a revelação que busca, mas que, amando o sentido da visão e os sentidos múltiplos revelados pelos olhos, alcança, enfim, o jubilo silencioso de mais um verso escrito a se reescrever.
Referências
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ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2001.
BENJAMIN, Walter. A origem do drama barroco alemão. Rio de Janeiro, Brasiliense: 1984.
BENJAMIN, Walter. Magia, técnica, arte e política. Rio de Janeiro, Brasiliense: 2004.
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Âmago: antologia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Obra breve: poesia reunida. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.
COLLOT, Michel. Do Horizonte da paisagem ao horizonte dos poetas. In: ALVES, Ida Ferreira e FEITOSA, Márcia Manir. Literatura e paisagem: perspectivas e diálogos. Tradução de Eva Nunes Chatel. Niterói: EdUFF, 2010. p. 191-217.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A: 2001.
LOURENÇO, M. S. Os degraus do Parnaso. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.
MARTELO, Rosa Maria. Em parte incerta – estudos de poesia portuguesa moderna e contemporânea. Porto: Campo das Letras, 2004.
SILVEIRA, Jorge Fernandes da. Lápide & versão: o texto epigráfico de Fiama Hass Pais Brandão. Rio de Janeiro, Bruxedo: 2006.
SILVEIRA, Jorge Fernandes da. Verso com verso. Coimbra: Ângelus Novus: 2004.
Bio fornecida pelo palestrante.
Tiago Barbosa da Silva
Doutorado em Teoria Literária
– Universidade Federal de Pernambuco
Resumo: As composições de Elizabeth Bishop refletem uma atitude que caracteriza os lugares por onde transitou como não-lugares; fragmentos do espaço nos quais não há uma relação forte entre o espaço e o sujeito (SÁ, 2006), que vive marcado pela constante sensação de não pertencimento. Com base em Hall (2006), pode-se dizer que isso é típico do sujeito traduzido, marcado pela ausência de uma fixação identitária ao lugar, o que pode, em nível interpessoal, originar-se da imposição de um poder colonizador sobre o indivíduo (QUIJANO, 2005). Nesse trabalho, observaremos como se dá essa relação, definindo não-lugar a partir das discussões de Augé (1995), para assim revelar como a obra de Bishop representa essa relação diferenciada com o espaço.
Palavras-Chave: Elizabeth Bishop, espaço, não-lugar, descolonização de si.
Abstract: Elizabeth Bishop’s compositions depict an attitude that characterizes the places she has been to as non-places; spaces of transience that do not hold enough significance to attach individuals (SA, 2006). To Hall (2006), translated subjects endure this particular relation with space as they lack the sense of belonging. In interpersonal level, this may be a result of ‘colonizing forces’ acting over individuals (Quijano, 2005). In this paper, we define non-place after Marc Augé (1995) and analyze how Elizabeth Bishop represents it in her work.
Key words: Elizabeth Bishop, space, non-place, decolonization of the self.
Minicurrículo: Possui graduação em Letras – Língua Inglesa pela Universidade Federal de Campina Grande (2008), graduação em Direito (2009) e mestrado em Desenvolvimento Regional (2012) pela Universidade Estadual da Paraíba. Atualmente, é professor de língua inglesa no Instituto Federal de Sergipe e aluno no Programa de Pós-graduação em Letras, com foco em Teoria Literária, da Universidade Federal de Pernambuco, onde tem se dedicado ao estudo das representações do não-lugar nas literaturas de língua inglesa contemporâneas, atuando na linha de pesquisa Literatura, Sociedade e Memória.
O NÃO-LUGAR EM ELIZABETH BISHOP: ESPAÇO E DESCOLONIZAÇÃO DE SI
Tiago Barbosa da Silva
Doutorado em Teoria Literária
– Universidade Federal de Pernambuco
Introdução
Em seu Non-lieux, Marc Augé (1995) trata da supermodernidade e de suas três principais características: a superabundância de eventos, a superabundância de espaço e a individualização das referências, sendo o nosso tempo marcado pelo excesso desses três elementos, que produzem, em certo sentido, não-lugares. Na versão inglesa de seu livro, o título em francês, non-lieux, foi traduzido por John Howe como non-places, reforçando a ideia de que lugar é onde o sujeito se sente em casa, já que place é coloquialmente utilizado para substituir home. Essa ampliação do sentindo de lieu ajuda a entender o não-lugar – um fragmento do espaço com o qual não se forma uma relação histórica, relacional e identitária, sendo, portanto, oposto aos lugares antropológicos. Em razão disso, instaura-se uma pulsão permanente pelo deslocamento. Esse trabalho defende a tese de que a vida e a obra de Elizabeth Bishop refletem uma relação com o espaço assim, constituída ainda muito cedo, quando de sua remoção para os Estados Unidos, onde não compartilhava os modos e práticas culturais que regiam a forma de habitar, revelando uma identificação recorrente com elementos marginais, com pessoas externas ao núcleo familiar, com espaços vazios e com um espaço do afeto ausente e diferente. Assim, passou a ocupar uma posição gauche e a habitar a viagem; comportamento/característica reforçada por deslocamentos constantes que sobrepuseram novas espacialidades a sua original – Great Village, alçada a condição de grande referência, a partir da qual dava sentido a sua movimentação e ao mundo ao redor. A posição gauche ou queer que ocupou no mundo é também uma forma de revolta individual contra a ordem instituída, contra o padrão de poder prevalente, contra, em nível interpessoal, o ‘poder colonizador’ que normaliza os sujeitos e os insere dentro de um sistema, cuja marca principal é a inferiorização de alguns.
Espaço, lugar e não-lugar
Para Santos (1988, p. 10), o conceito de espaço só pode ser encontrado a partir de relações com outras realidades, já que ele é um conjunto indissociável composto, de um lado, por objetos geográficos, naturais e sociais e, por outro, pela “vida que os prende, que os preenche e os anima”; cada elemento do todo maior, cada forma presente no espaço contém e ao mesmo tempo está contida nele (SANTOS, 1986). O espaço, obviamente, não é uniforme, nem acabado, podendo ser compreendido como um processo permanente de “tornar-se”, uma “espacialização” que existe enquanto processo de confluência, interrupção e coagulação de fluxos para a qual não existe uma “última instância” (Haesbaert; Bruce, s/d). Brandão (2007) apresenta uma distinção entre espaço e lugar. O primeiro seria uma espécie de universo indeterminado no qual estão inseridos os lugares; já o segundo diz respeito às referências contextualizadas responsáveis pela atribuição de concretude às personagens. Em outras palavras, o espaço se configuraria como um todo maior no qual as realizações humanas aconteceriam e que, em razão das pressões exercidas em diferentes níveis, se fragmentaria em partes menores, em lugares, criando diferenças individuais, culturais, sociais, históricas etc.
É nas pequenas partes dessa fragmentação, construídas a partir de relações sociais, que se realiza o vivido, que se garante a constituição de uma rede de significados e sentidos originados do processo histórico e cultural, que se cria a identidade homem-lugar. Por conseguinte, o lugar “se define, inicialmente, como a identidade histórica que liga o homem ao local onde se processa a vida” e é nele que se “manifestam os desequilíbrios, as situações de conflito e as tendências da sociedade” (CARLOS, 2007, p. 22). Para Walter (2012, p. 140):
(…) a maneira como as pessoas habitam um lugar – seu imaginário, episteme cultural, língua, gestos, maneira de falar vestir, etc – é determinada por este lugar: o que é verdade/realidade num lugar e para um determinado grupo necessariamente não o é para outro.
Essa relação com o lugar, contudo, nem sempre é tão forte, já que pode-se estar em um fragmento do espaço e não necessariamente assentir com sua episteme, com seu jeito de habitá-lo. Para Augé (1995), somente alguns fragmentos do espaço apresentam essa característica: os lugares antropológicos, que são identitários, históricos e relacionais. Aqueles que não apresentam, característicos da supermodernidade, são não-lugares, pois pressupõem um desligamento do sujeito com o espaço imediato e não permitem a vinculação/fixação da identidade com o lugar em que a pessoa se encontra, já que esse tem um caráter transitório. Para Sá (2006), o lugar e o não-lugar se configuram a partir da relação que cada indivíduo mantém com o fragmento do espaço; o não-lugar, assim, também compreende posturas e atitudes individuais do sujeito. São essas posturas e atitudes individuais que acredito estarem representadas na obra de Elizabeth Bishop, cuja vida foi marcada por deslocamentos constantes.
Aos oito meses de idade, perdeu seu pai. Alguns anos depois, sua mãe foi outra vez internada em um manicômio, de onde nunca mais saiu. Até os cinco anos de idade, Elizabeth morou em Great Village, Nova Escócia, Canadá, com os avós maternos, sendo posteriormente removida para Worcester, Massachusetts, para a casa dos pais de seu pai. Esse período é objeto de alguns textos de memória escritos quando viveu no Brasil, como The Country Mouse, no qual fala de sua mudança ‘forçada’ para os Estados Unidos e sobre suas primeiras experiências nesse novo fragmento de espaço.
A casa dos avós paternos, por sua localização em uma antiga área agrícola, não compunha o cenário urbano, nem o rural – uma casa estranha, explorada pela narradora como uma gata – sorrateira, silenciosa e solitária. Na maior parte do tempo, ocupava a sala da frente, seu cômodo preferido, raramente utilizado pelos outros membros da família; via-se como uma outcast; uma exilada que não participava do núcleo familiar. A casa é vista como um lugar triste, escuro, velho e grande, com alterações em sua arquitetura original que desconsideravam seu estilo colonial pré-revolucionário, formando uma espécie de Frankenstein arquitetônico, preservado a todo custo assim como os dentes do avô. Sua relocalização nesse fragmento do espaço, do qual não compartilha o imaginário, a episteme cultural, o jeito de falar a língua, o jeito de se vestir, pode ser responsável por sua inserção em um mundo de não pertencimento, já que não se estabelece uma relação direta entre sua memória e a experiência vivida.
A partir do que revela em The Country Mouse, pode-se dizer que Bishop manteve uma conexão muito mais forte com a casa dos avós maternos; com os erres invertidos dos canadenses de Nova Escócia; com a simplicidade desse lugar e com o olho de vidro de sua avó materna. A casa de Great Village faz parte de seu cotidiano enquanto ausência, como o lugar em que gostaria de estar, sendo portanto her place; aquele fragmento do espaço com o qual mantinha uma relação histórica, relacional e identitária. Podemos dizer, então, que é a partir dele que significa as movimentações de sua vida e com o qual estabelece uma identificação mais forte, construída através de relações sociais concretizadas no plano do vivido e que garantiram a constituição de uma rede de significados e sentidos tecidos por sua história e cultura.
Reencontrar esse lugar tornou-se uma questão representada de forma recorrente em sua obra. Se tomarmos o caranguejo desgarrado de Strayed Crab como exemplo disso, os versos das primeiras linhas do texto poderiam ser expressões da pequena Elizabeth: “This is not my home. How did I get so far from water? It must be over that way somewhere”.1 O caranguejo não se sentia parte do espaço imediato no qual está inserido, uma superfície macia e estranha. Seu desconforto é o de quem está perdido e busca encontrar seu lar: “But on this strange, smooth surface I am making too much noise. I wasn’t meant for this. If I maneuver a bit and keep a
sharp lookout, I shall find my pool again. Watch out for my right
claw, all passersby”.2 Contudo, não há como saber onde é casa desse eu que, para Sperling (2012), habita o deslocamento; é essencialmente desgarrado, como pode ser mais uma vez visto na última estrofe de Questions of Travel (Questões de viagem):
| Continent, city, country, society:the choice is never wide and free. And here, or there… No. Should we have stayed at [home, wherever that may be? |
Continente, cidade, país: não é tão sobejaa escolha, a liberdade, quanto deseja. Aqui, ali… Não. Teria sido melhor ficar em [casa, Onde quer que isso seja? |
Além dessa incompletude permanente, Bishop empreende, ao longo de sua vida, deslocamentos espaciais recorrentes, representado uma pulsão constante, um desejo invencível de migrar. Assim, graças à herança que recebeu de seu pai, passou boa parte da vida viajando. Em uma apreciação dos títulos dos poemas reunidos em seus livros, pode se perceber que a geografia, a viagem, o ser diferente, de tipo gauche (queer), são motivos recorrentes em suas composições. Em North and South, livro publicado em 1946, temos: The Map (O Mapa); The Imaginary Iceberg (O Iceberg Imaginário); Florida (Flórida); Paris, 7 a.m. (Paris, 7 da Manhã); The Man-Moth (O homem mariposa); The Weed (A Erva), a erva daninha. No livro Questions of Travel (Questões de viagem), publicado em 1965, além do poema que dá nome ao livro, temos: Arrival at Santos (Chegada em Santos); Brazil, January 1, 1502 (Brasil, 1º de Janeiro de 1502); e referências a bichos esquisitos e seres humanos excêntricos, no sentido de fora do centro, como The Armadillo (O Tatu); Manuelzinho; The Riverman (O Ribeirinho) e The Burglar of Babylon (O ladrão da Babilônia).
Em Crusoe in England (Crusoé na Inglaterra), fala de um pesadelo no qual infinitas ilhas surgiam e se somavam a sua ilha solitária, nem redescoberta, nem rebatizada. As ilhas se multiplicam, como ovos de sapos se transformando em girinos, diante de um sujeito ciente de que teria que viver em cada nova ilha, registrando sua fauna, flora e geografia. Essa era sua “sina3”, viver por muitas eras, na condição de forasteira. Há, apesar do distanciamento e descrição que a poeta sempre fez questão de manter, um reconhecimento de sua condição de ser em deslocamento. Sua relação com a viagem é tão marcante que em, Edgar Allan Poe and the Juke-Box (2006), que reúne textos não concluídos datados entre 1911 e 1979, a editora Alice Quinn usa a geografia como critério de classificação das composições; além de períodos de tempo, menciona as cidades das quais a poeta fala. Assim, as composições escritas no período do Brasil, aparecem agrupados da seguinte forma: 1951-1956 – Brazil, Seatle, New York. Nos textos, referências geográficas e a outros deslocamentos aparecem frequentemente.
Já em One Art (Uma arte), publicado no livro Geography III (Geografia III), representa uma tomada de consciência de sua condição de desenraizada, que precisa desfazer-se, de tempos em tempos, de sua própria vida. Esse desfazer-se transcorre com dificuldade em alguém que perde três casas, duas cidades, dois rios, reinos, e, até mesmo, um continente. Para o eu do poema, as coisas já contêm em si o intento de serem perdidas, ou retiradas dela, que não se acostumou com o pertencer, mas com a viagem. Assim, comprou uma casa em Ouro Preto, uma “casa de brincar” (MARTINS, 2006), nomeada de Casa Mariana, em homenagem à poeta Marienne Moore, e que representa seu último vínculo com o Brasil, enquanto dividia-se entre Ouro Preto, o Rio de Janeiro e Seattle, onde começou a dar aulas no final de 1965.
Em cartas, Bishop revela que aceitou o convite para lecionar por sentir que tinha que ir embora. Vai, então, morar em São Francisco, Califórnia, de onde escreveu para uma velha amiga (apud BRITTO, 2012): “O apartamento é bem grande, claro e ensolarado. Mas, meu Deus, como tenho saudades do Brasil!” e reconheceu que, apesar de São Francisco ser uma cidade muito bonita, “depois de morar em Samambaia e no Rio, nunca mais vou achar graça em paisagem nenhuma”. Contraditório, no entanto, perceber que desde o início de sua estada no Rio de Janeiro sempre demonstrou seu desagrado por essa cidade, descrita por ela como um lugar de muita bagunça, debilitante, “uma mistura de cidade do México e Miami” (ibid).
Em 1969, regressa para sua terra natal, a região de Boston, passa a morar em Cambridge e torna-se poeta residente da Universidade de Harvard. Lá, conhece Alice Methfessel, sua última companheira, e reassume suas raízes na região da Nova Inglaterra, Estado de Massachusetts. Desse novo fragmento do espaço, outro passa a ser referência permanente – o Brasil, particularmente, o Rio e Samambaia, espaços que, juntamente com a figura de Lota nunca estão muito longe e, assim, passam a representar outro espaço-tempo do afeto e do pertencimento perdido.
Estigma e resistência: por uma descolonização do ser
Nem todos os sujeitos se submetem voluntariamente a uma nova ordem, particularmente uma ordem opressiva e que empurrava alguns para à ribeira. Num contexto assim, não pertencer, ocupar a margem é uma alternativa viável frente à exclusão, já que há uma redução da liberdade e há uma discrepância em termos de poder e de participação entre os indivíduos, que, oprimidos, desejam evadir das más “condições de existência (as relações sociais, o meio ambiente, as assimetrias do poder, o acesso à esfera pública de participação, a liberdade dos seres humanos etc)” (CAVALCANTI, 2007, p. 10). Nesse sentido, a resistência a assimilação das regras e valores excludentes é um tipo de oposição, uma oposição ao lócus opressor, um sinal que aponta para um outro lugar e tempo, poderoso para a formação política (ibidem) e consequentemente para a desarticulação do estigma.
Resistir à assimilação é lutar contra o peso simbólico negativo que é atribuído, em determinado contexto, a uma característica do sujeito. Para Goffman (1963, p. 12), o efeito dessa atribuição é o de reduzir o sujeito a uma de suas características, posicionando-o como “pessoa estragada e diminuída”. Isso acontece em razão da nossa tendência de “inferir outras imperfeições a partir de uma imperfeição original” (ibidem, p. 15). Resistir, no entanto, não significa eliminar a pressão estigmatizadora, já que “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias” (ibidem, p. 11), que funcionam como gaiolas ou prisões que são, constantemente, impostas a sujeitos que buscam, constantemente, escapar.
A partir do que e de como narra em The Country Mouse, pode-se perceber que Elizabeth resistiu e ‘adotou’ a margem como seu lugar. Na casa dos avós paternos, nunca tinha seus desejos e necessidades reconhecidos e as coisas trazidas da Nova Escócia com as quais se identificava, até seus erres invertidos, eram rejeitados pelos novos familiares, de quem pouco sabia. Essa interpretação da realidade a configura como um sujeito marginal, queer, um tipo gauche e excêntrico; por um lado, afastada do centro familiar/social, deslocada e desenraizada, e, por outro, incompatível com o meio sociocultural (MARTINS, 2006), como pode ser visto no fragmento a seguir:
I had been brought back unconsulted and against my wishes to the house my father had been born in, to be saved from a life of poverty and provincialism, bare feet, suet puddings, unsanitary school slates, perhaps even from the inverted r’s of my mother’s family. With this surprising extra set of grandparents, until a few weeks ago no more than names, a new life was about to begin. It was a day that seemed to include months in it, or even years, a whole unknown past I was made to feel I should have known about, and a strange, unpredictable future (BISHOP, 2011, p. 89).4
Em outra passagem, demonstra como suas bonecas foram tidas como velhas e inadequadas pela avó e substituídas por bonecas novas; uma destas foi vestida pela avó com roupas monocromáticas escuras e nomeada com o nome Drussilla, tão desagradável para a garotinha que a própria Bishop chamava-a apenas de the doll. Desse modo, não conseguia simplesmente ser/pertencer e desfrutar disso, como é explicitado no fragmento abaixo:
Yes, I was beginning to enjoy myself a little, if only Grandma hadn’t had such a confusing way of talking. It was almost as if we were playing house. She would speak of “grandma” and “little girls” and “fathers” and “being good” – things I had never before considered in the abstract, or rarely in the third person. In particular, there seemed to be much, much more to being a “little girl” than I had realized: the prospect was beginning to depress me. And now she said, “Where’s your doll? Where’s Drussila?”5 (BISHOP, 2011, p. 88).
Em razão dessa ‘opção política’, simbolizada na recusa do nome da boneca, Bishop escolhe o mundo como casa e transforma-se em permanente estrangeira, reduzindo as escalas, proliferando imagens e referências, a partir de deslocamentos constantes, significando sua movimentação a partir de dois lugares: Nova Escócia, o lugar do afeto e do acolhimento, e Samambaia, no Rio de Janeiro, o lugar do amor romântico. Nesse sentido, transformou-se em ser diaspórico, mantendo vínculos com um lugar prévio de forma suficientemente forte a resistir ao desmantelamento por meio de processos normalizadores como o esquecimento, a assimilação e o distanciamento (CLIFFORD, 2011).
Ao mesmo tempo em que transfere novas regras e valores, o processo de educação ao qual foi submetida reforça o seu não pertencimento e insatisfação. A incompreensão dos padrões culturais desse novo lugar, que lhe eram transferidos de forma muito abstrata, pareciam-lhe construir uma autoimagem deficitária, incompleta e inadequada frente ao que era esperado dela pela avó. Assim, sem saber onde era o seu lugar, projeta-se em um movimento de prospecção de um outro, um bom-lugar, sempre ausente. Partindo de Quijano (2005), seus deslocamentos são importantes para a reconfiguração do “padrão de poder” existente em seu fragmento de espaço imediato, já que desarticula as formas de controle e a hegemonia que imperam e reduzem um ser e sua forma de habitar a algo inferior.
Considerações finais
Nesse ensaio, partimos do pressuposto de que a obra e a vida da escritora Elizabeth Bishop revelam um processo típico do nosso tempo – uma relação com o não-lugar. Impossibilitada de negociar os termos e condições de vida da casa em que morou a partir dos cinco anos de idade, adotou a margem como posição primeira e passou a habitar a viagem. Essas escolhas são também um gesto político, que a liberta do peso de viver estigmatizada em uma ordem em que as práticas de poder, em certo sentido, também colonizadoras, impunham-lhe um condição de inferior. Para Hall (2006), adota a condição de ser ‘traduzido’; de ser transferido entre fronteiras, já que seu processo de formação identitário é atravessado por várias culturas, várias casas, vários lugares, que permanecem, mesmo ausentes, interferindo em suas relações com o espaço-tempo presente.
A partir dos cinco anos de idade, em suas inúmeras mudanças e viagens, Bishop, como representou em suas composições, viveu construindo e desconstruindo agenciamentos com novos e recorrentes espaços-tempos. Em certo sentido, a expansão de seu espaço, ou a sobreposição de uma nova espacialidade àquela anteriormente conhecida, reduz o seu lugar, Great Village, a uma referência. Retomando Marc Augé (1995), a expansão do espaço do homem, simbolizado pelos primeiros passos da humanidade no espaço sideral, reduz o nosso próprio espaço a um ponto infinitesimal, provocando uma mudança de parâmetros perceptível na própria mudança de escala. Em outros termos, ao expandir seu espaço, Bishop se percebeu diferente dos novos outros e a vila canadense deixou de ser o centro de sua experiência vivida, permanecendo, no entanto, como espaço afetivo, histórico, relacional. Suas obra e vida são, portanto, marcadas por reações de estranhamento; como se fosse forasteira em cada nova situação – a garotinha da Nova Escócia posta, novamente, em um mundo que não é seu.
NOTAS
1Quando não indicado em nota de rodapé, a tradução será, como essa, de Paulo Henriques Brito (2012): “Aqui não é a minha casa. Como fui parar tão longe da água? Deve ser para lá.”
2Mas nessa superfície estranha, lisa, faço barulho demais. Não fui feito para isto. Se eu manobrar um pouco e ficar de olho atento, hei de reencontrar minha poça. Cuidado com minha garra direita, passantes!
3A palavra sina é utilizada na tradução de Britto (2012).
4Tradução nossa: Eu fui levada de volta sem ser consultada e contra a minha vontade para a casa na qual meu pai havia nascido, para ser salva de uma vida de pobreza e provincialismo, uma vida de pés descalços, de pudins de sebo, de escolas insalubres revestidas de pedras de ardósia, talvez, para ser salva, até mesmo, dos erres invertidos da família de minha mãe. Com esse surpreendente par de novos avós, poucas semanas atrás não mais que um par de nomes, uma vida nova estava prestes a começar. Era um dia que parecia incluir meses dentro dele, ou até anos, todo um passado desconhecido que eu me fiz sentir que devia conhecer, e um estranho, imprevisível futuro.
5Tradução nossa: Sim, eu começava a me divertir um pouco; se ao menos vovó não tivesse um jeito confuso de falar. É quase como se nós estivéssemos brincando de boneca. Ela falava de “vovó” e de “garotinhas” e de “pais” e de “ser boa” – coisas que eu nunca tinha considerado em abstrato antes, ou raramente na terceira pessoa. Em particular, parecia existir muito, muito mais em ser uma garotinha do que eu podia perceber: a expectativa começava a me deprimir. Então ela disse: – Onde está sua boneca? Onde está Drussila?
Referências
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BISHOP, Elizabeth. (2006). Edgar Allan Poe and the Juke-box: uncollected poems, drafts, and fragments. Editado por Alice Quinn. New York: Farrar, Straus and Giroux.
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http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/issue/view/97/showToc. Acesso em 28 de agosto de 2013.
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Bio fornecida pelo palestrante.
Tatiana Pequeno da Silva
Universidade Federal Fluminense
RESUMO: O objetivo do presente trabalho é discutir e problematizar a produção poética de mulheres a partir de um recorte que leva em consideração as literaturas de língua portuguesa numa perspectiva comparada. Com efeito, pretende-se trazer à leitura a poesia de duas autoras tanto brasileiras (Mônica Menezes e Rita Santana) quanto portuguesas (Maria Sousa e Margarida Vale de Gato) e ainda as vozes de Paula Tavares e Odete Semedo como eco de muitas Áfricas representáveis. Para tanto, serão utilizados materiais teóricos que (re)pensem o feminino e a ideia de menoridade literária enquanto temática e autoria, a partir do que propõem Deleuze & Guattari em Kafka: para uma literatura menor e Gayatri Spivak em Pode o subalterno falar?, dentre outros.
PALAVRAS-CHAVE: gênero; Literaturas de língua portuguesa; literaturas africanas, literatura brasileira.
ABSTRACT: This text intends to discuss and to question the poetic production of women in Portuguese literature from a comparative perspective. It proposes two readings by two Brazilian poets, Monica Menezes and Rita Santana; two Portuguese poets, Maria Sousa and Margarida Vale), and the writings of Paula Tavares and Odete Semedo as representative voices of African literature. In order to do (re)think the female as theme and as authorship it will employ theories by Deleuze and Guattari and by Gayatri Spivak, among others.
KEYWORDS: Gender; Portuguese literature; African literatures, Brazilian literature.
Minicurrículo: Tatiana Pequeno da Silva nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É Professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense (Niterói/ RJ, Brasil) e membro da equipe brasileira de investigação do projeto internacional “Novas Cartas Portuguesas – 40 anos depois”, liderado pela Professora Ana Luísa Amaral, da Universidade do Porto. Possui graduação, mestrado e doutorado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e é autora do livro de poemas Réplica das urtigas (Rio de Janeiro, Oficina Raquel, 2009).
NOVAS CARTAS E DEPOIS: AINDA CONTRA A PERIFERIA DO FEMININO
Tatiana Pequeno da Silva
Universidade Federal Fluminense
O legado deixado por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa não consiste apenas na concretude da obra reificada em livros. Antes, a herança que nos chega é a de uma concepção revolucionária do discurso feminino diante de um cenário aceito, àquela época, como distópico porque autocrático, totalitário e intolerante. Muitos poderiam objetar que as Novas Cartas Portuguesas são um livro datado. Aliás, sobram lugares comuns quando o assunto é a leitura de um lugar feminino na e para a literatura, certamente porque este ponto, nem de longe pacífico, desloque pressupostos simbólicos e reificados de poder frente ao cânone masculino, eurocêntrico e heterossexual.
Pensar, quarenta anos depois, numa obra de língua portuguesa que estabeleça diálogos ou simplesmente reverbere os sinais daquele fogo epistolográfico assinado pelas três autoras é confirmar a necessidade de discussão sobre a permanência de um discurso que não se institui como exercício a pretexto de vingança ou de nostalgia, como se verifica na primeira carta. Com ela, iniciamos esta pequena reflexão: “E de nós, o que faremos?” (NCP, p. 9). O que foi feito e o que fizemos de nós nestes quarenta anos que nos distanciam do projeto político denominado Novas Cartas Portuguesas? Decididamente, há o que comemorarmos em tempos de recorrentes feminicídios? O que é um corpo como o de Eliza Samúdio, dessacralizado e dado aos cães, por exemplo? Quantas Marias da Penha tiveram suas colunas e os seus eixos quebrados para que enfim uma lei que as protegesse fosse promulgada? Quantas travestis, transexuais e outro@s quaisquer com identidade de gênero feminino precisarão sucumbir para que ser, estar ou sentir-se mulher não seja algo menor? Em que medida a literatura repercute as implicações do gênero no seu discurso?
Contemporaneamente poderíamos observar na obra de duas poetas portuguesas uma enunciação que, embora não esteja mais conectada ao princípio revolucionário ou reivindicatório das lutas femininas, necessariamente assume uma reflexão sobre este gênero. Neste sentido, os livros de poemas de Maria Sousa e Margarida Vale de Gato tratam de um enfrentamento cujo principal cenário evoca, desde os seus títulos, uma diferença (e, portanto, uma nomeação) de locução. Mulher Ilustrada e Mulher ao Mar são, respectivamente, livros de poesia que reelaboram um discurso que rediscute os sentidos e os efeitos da crise, conforme se verifica no poema de Maria Sousa:
a mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo
é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia
(SOUSA, 2013, p. 26)
A poesia, nesse caso, é um espaço no qual a linguagem flui, espécie de fonte por meio da qual o exercício de uma potencialidade lírica se desdobra, dando azo a uma vida interior que deve não apenas “organizar” as sombras para não formalizar seus escuros como também acessa a “prudência” nos embates diante do silêncio crescente e difícil. Assim, no poema a seguir, de Margarida Vale de Gato, intitulado “Coping”, é possível também encontrar como matéria poética uma reflexão sobre os lugares previsíveis atribuídos ao feminino:
Ficar quieta é técnica que já
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.
Creio que começou quando cedeu
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo.
Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva.
Iniciei-me então nos barbitúricos
e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes da apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,
diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não
há como acordar um corpo mudo.
Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído a buscar outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia
e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi
sorte saber da lamela – eia, pois,
advogada nossa – dormir serena.
(GATO, 2010, p. 39-40).
De sintaxe difícil, o poema cogita uma ladainha em que a oração católica “Salve Rainha” intervém na docilização do corpo que Foucault já investigava no Vigiar e Punir. Neste caso, para além de uma certa ironia adiliana, há também uma verticalização no tratamento de duas tópicas muito caras aos estudos de gênero: as relações do feminino com o doméstico e com a passividade. O sujeito lírico feminino pouco ou nada – talvez valha aqui um destaque à trapaça irônica que já identificamos – subverta o cenário para o qual a semântica deste poema se dirige, isto é, para o encontro com o sono e com o alheamento conforme se verifica nos belos versos: “diluo-me com os objectos, tudo/ me toca mas nada dá por mim, tão/ imóvel que me ignora a dor, não/ há como acordar um corpo mudo.”
Mais afeita à melancolia pode ser a lírica de Maria Sousa que, comprometida com o propósito de ilustrar a (in)definição da mulher, acaba por circunscrevê-la a uma dicção de enfrentamento da perda ou daquilo que Conceição Evaristo tão bem captou com o poema “A Noite não adormece nos olhos das mulheres”. A reiteração das abstrações na poesia de Maria Sousa pode ser estratégia para nominalizar o que, afinal, é falta ou objeto inominado. Portanto, quando a voz lírica do poema informa “sei que falar de ausência é chamar-te para o poema” (SOUSA, 2013, p. 33) esta evocação sinaliza a partilha difícil da “mulher que escreve” e “Ritualiza gestos em palavras e responde com/ perguntas onde os pássaros se encostam”.
Embora Margarida Vale de Gato e Maria Sousa tragam em seus títulos referências claras a uma perspectiva e de uma locução feminina, nítido fica que para ambas a experiência do feminino é com certeza bem menos engajada e combativa, como demonstra o poema “Ressabiadas”, da primeira: “Talvez lá no fundo acredite/ que os seres humanos são todos sensivelmente/ os mesmos em toda a parte, mas então/ necessariamente as mulheres são mais.”
Para efetuar a ultrapassagem das fronteiras seria interessante ouvir a formulação da indiana Gayatri Spivak que no importante Pode o subalterno falar? sentencia: “Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade.”. Para problematizar a questão da subalternidade feminina no contexto (pós)colonial é interessante exemplificar a poesia de autoria feminina com nomes contemporâneos que discutam, em alguma medida, a condição feminina mais ou menos expressa do ponto de vista do conteúdo na cena editorial. Para tanto, serão abordadas duas poetas baianas contemporâneas: Mônica Menezes e Rita Santana.
A poética de Mônica Menezes, publicada pela primeira vez sob o selo das Cartas Bahianas – edições comprometidas em lançar autores contemporâneos como Ângela Vilma e Kátia Borges, por exemplo –, pode ser pensada a partir de uma estética do mínimo que acaba por valorizar não apenas a singeleza estrutural de versos curtos, por exemplo. Por meio de seus pequenos Estranhamentos recorre-se a uma economia de afetos que orienta o “Amor, os territórios do desejo e uma nova suavidade”, a partir de uma singeleza que não abdica do vertical: “Poema quase seco: o extenso rio da minha infância/ tornou-se/ lama/ entre/ meus/ dedos” (MENEZES, 2010. P. 22).
Ainda que geminada a princípios orientais (do haikai e de certa poesia chinesa), a escrita de Mônica Menezes parece buscar a limpidez e a justeza como formas enquanto a temática convoca na sua perspectiva feminina um certo compromisso com um novo tipo de devir-mulher. Félix Guattari identifica esta necessidade a partir da recolha feita por Suely Rolnik em Cartografias do desejo:
A “nova suavidade” faz parte desse tema que estamos discutindo o tempo todo, que é o da invenção de uma outra relação com o corpo, por exemplo –, relação esta presente nos devires animais. Sair de todos esses modos de subjetivação do corpo nu, do território conjugal, da vontade de poder sobre o corpo do outro, da posse de uma faixa etária por outra, etc. Portanto, para mim, a nova suavidade é o fato de que, efetivamente, um devir-mulher, um devir-planta, um devir-animal, um devir-cosmos, podem inserir-se nos rizomas de modos de semiotização, sem por isso comprometer o desenvolvimento de uma sociedade, o desenvolvimento das forças produtivas e coisas assim. Quero dizer que, antes, as máquinas de guerra, as máquinas militares, as grandes máquinas industriais eram a única condição para o desenvolvimento. Era a força física, a força militar, a afirmação dos valores viris que funcionavam como garantia da consistência de uma sociedade. Sem elas, a devastação era total. Isso existe ainda na Rússia, em todos os países fascistas, nos EUA, etc. Mas hoje em dia as margens, as novas formas de subjetividade, também podem se afirmar em sua vocação de gerir o mundo, de inventar uma nova ordem social sem que, para isso, tenham de nortear-se por esses valores falocráticos, competitivos, brutais. Elas podem se expressar por seus devires de desejo (ROLNIK, 2005, p. 341-342).
Assim, investindo na poesia como território em que a prática do desejo acessa uma subjetividade menos assertiva porque atenta à brandura, ao trânsito e ao singelo, Mônica Menezes também repensa o feminino como condição. Vejamos o poema “Mulher”:
quis para mim a graça
do sonho de ser tua
e penteei meus cabelos
e pintei minha boca
e escolhi no espelho
meu melhor olhar de mulher
mas tuas mãos não são livres
teu coração já tem dona
e eu voltei para casa
menina
trazendo a máscara na mão.
(MENEZES, 2010, p. 16)
Semelhante à narradora do conto “Restos do Carnaval” de Clarice Lispector, o sujeito lírico do poema assinala que mesmo diante de uma identidade de gênero mais ou menos definida (que se verifica no título do poema), é possível operar devires outros que o uso da máscara operacionaliza. Não obstante, o verso “meu melhor olhar de mulher” liquefaz qualquer previsão sobre um feminino monolítico. Nesta poesia e mulher é, sobretudo, movência do desejo.
Na poesia de Rita Santana, entretanto, encontramos outros ecos que harmonizam identidades de força a partir do que pode ser entendido como uma poesia negra feminina: “Quilombola tecendo/ o algodão doce/ das dúvidas/ dos dias.” Nesse sentido, o título do livro aqui sugerido coincide com uma busca que parece ser consequência bem recente de liberdades conquistadas: Alforrias. Com efeito, os poemas de Rita Santana encenam um permanente estado de luta que não diz respeito apenas às identidades negra e alforriada, mas realoca os sentidos de um feminino resistente:
A noite acortinou-se sobre o meu sorriso
E nada mais seria, desde então:
Comunhão de corpos, inclusão de membros,
Festejamento de carnes,
Nem mesmo amplidão de águas.
Vi-me no falecimento das ânsias
A sangrar sobre o vinhaço.
Corria mansidão sobre o meu desespero
E em tempos desiguais o querer perdeu-se
No despenhadeiro da distância.
O gosto perverso da separação
Ventilou minha boca de mulher que ama.
Ninguém viu o sabor na língua.
Ninguém viu o sofrer dos dentes.
(SANTANA, 2012, p. 27)
Certamente a reflexão sobre o feminino não cede a espaços de periferia na poesia de Rita Santana, apesar de ser possível verificar em seu texto uma “Agrestidade” que recolhe para o poema uma tensão natural que necessariamente cria uma mudança, uma passagem. Esta “Agrestidade” ou “Acridez” são, com isso, elementos dissolvidos pela experiência poética que pulveriza qualquer indício de ressentimento, uma vez que à metade do poema a própria voz lírica areja o trabalho do luto, reelaborando a linguagem da falta: “O gosto perverso da separação/ Ventilou a minha boca de mulher que ama.”.
É importante destacar que a poesia de Rita Santana, marcada a partir de uma prática discursiva que reivindica lugares de fala, poderia autenticar certos lugares comuns que costumam negativizar quaisquer tentativas de empoderamento por parte do feminino, questão insistentemente pensada por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa nas Novas cartas portuguesas:
E nesta volta do amor à história e à política veio a visita de fundo ao nosso intercâmbio; porque desentulhamos o que de assustador temos para nós – e porque não “pacto com o demónio”, se dessacralizado, desmistificado, se soubermos “o diabo que temos na mão”? – e o que de assustador, monstruoso, equívoco, nos cometerão os outros – lembremo-nos, sim, que um negro extremista é já respeitável, mas que uma feminista é vituperada, assustadora do ainda indiscursível, incómoda, ridícula, mesmo para os cavaleiros bem pensantes de toda a libertação – talvez seja o primeiro caminho para desmontarmos nossas circunstâncias históricas e políticas (BARRENO, COSTA, HORTA, p. 108).
Rumo à África, uma das autoras que merece o nosso destaque é Odete Semedo, nascida em Bissau. Uma das obras mais relevantes da poeta é, sem sombra de dúvida, o “cantopoema” (p. 15) No fundo do canto (SEMEDO, 2007). Já no prefácio podemos encontrar elementos importantes a respeito dessa poética marcadamente testemunhal, apesar do tom lírico, às vezes (anti)épico:
Não será épica a minha poesia, pois não cantarei nem as armas nem os barões. Lírica? Se nem do passado consigo me lembrar nesta kambansa, e nem me despedi antes de partir por ser este momento tão macabro. Voltei para trás, voltei para dentro de mim, para encontrar algo que me fizesse entender o mundo de outras terras que não o da minha, voltei para trás tentando encontrar uma explicação para tudo aquilo que eu não conseguia entender naquele momento. Por que tudo isso? Qual o porquê destas páginas que se abrem ante os meus olhos? (SEMEDO, 2007, p. 15).
Intimista, portanto e testemunhal é o fundo do canto de Semedo que abdica do épico tradicional enquanto valoriza o detalhe, a compleição e o subjetivo em detrimento da grandiloquência, muito embora esta poesia seja fundamentalmente seja imagem da partilha do terror: “um grito/ um grito/ retumbante/ escancarou as janelas/ e eu chorei/ mais pelas mulheres/ que pelos segredos da vida (…) / irrompeu revoltado/ sem pedir licença (…) era fúria/ injúria/ raiva/ (sobre)vivência/ pobreza/ ódio/ ganância/ miséria/ Como são largos os passos do vaticínio” (SEMEDO, 2007, p. 58).
Na obra de Odete Semedo, quase sempre a pátria violada é imagem para a qual também se compreende o feminino. Tal procedimento parece importante de ser assinalado uma vez que se pensamos, conforme sugere o livro de Moema Parente Augel, em certa literatura guineense como um desafio a partir dos escombros e da ruína, talvez fosse conveniente analisar como o feminino aí opera e resiste:
Bissau não quis acreditar
no que via
no que estava a sentir
Bissau despediu-se de seus filhos
nua deitou-se de bruços
para receber chicotadas
para receber açoite
com ramos espinhosos
de nhára-sikidu
Bissau não quis acreditar
(SEMEDO, 2007, p. 49)
Por meio dos frutos lentos, a dicção feminina em língua portuguesa vai assumindo a partos largos as vertentes de quem pode falar e evocar as memórias amargas do corpo. Como sentencia Inocência Mata no prefácio da edição brasileira de Amargos como os frutos: “A figuração do feminino gera uma iluminação em que a escrita se transforma em iniciação à vida plena, para neutralizar o vazio que, no meio das vivências femininas, tem tendência a crescer insondável” (TAVARES, 2011, p. 12). Ou seja: é no alcance da escrita e na potencialização da voz lírica que a mulher ressignifica o mundo e seus territórios, aproveitando-se de tal experiência para elaborar a dialética entre silêncio e locução, livrando-se progressivamente dos vários assujeitamentos políticos por que passa.
O corpo que se imprime na poesia de Ana Paula Tavares é também uma cartografia telúrica da mulher que “esconde muito tímida/ o cerne encantado” (TAVARES, 2011, p. 41), onde a iniciação da palavra recorre aos corpos frutados mas não doces, de formas e cores que remetem sempre ao caroço, à origem da “Frágil vagina semeada/ pronta, útil, semanal/ Nela se alargam as sedes// no meio/ cresce/ insondável/ o vazio” (TAVARES, 2011, p. 31). Nesse sentido, enquanto aguardam as cerimónias de iniciação para cair, os frutos se sustentam por um caule gramatical cuja seiva irriga a ultrapassagem da palavra puramente comunicacional para aquela cuja língua é imagética, plural e insubmissa porque inapreensível:
Mukai (1)
Corpo já lavrado
Equidistante da semente
É trigo
É joio
Milho híbrido
Massambala
Resiste ao tempo
Dobrado
Exausto
Sob o sol
Que lhe espiga
A cabeleira.
(TAVARES, 2011, p. 89)
Ainda que não possamos categorizar tais textos escritos por mulheres como práticas excelentemente feministas (o que também exigiria pensar as diversas diferenças a partir de outras especificidades como o feminismo latino-americano, feminismo negro e um pós-feminismo que vem sendo configurado a partir de meados da década de 1990), pode-se afirmar que diante de uma história e de uma prática de silenciamentos, a própria constituição de uma poesia de autoria feminina valida o desfazer dos fios da espera. A escrita, neste sentido, reúne uma comunidade de mulheres. Possivelmente sem conhecer a máxima llansoliana que afirma serem leitura e escrita um chamamento ao combate, estes diversos nomes empenhados na transmissão de uma escrita marcadamente feminina porque orientadas por uma preocupação ontológica do feminino:
Seja qual for o meu destino, aí selei um contrato com o vivo, e dei o passo irreversível que tanto hesitei em dar para um texto capaz de conferir uma expressão actual a gritos humanos e não-humanos, abafados pelo “assim é” da história, do mundo, do poder de espezinhar.
Não quantas vezes sentada na minha cadeira a ouvir as discussões, dificuldades e dúvidas, senti finalmente que outros, a seu modo, entravam por uma porta não muito diferente da por onde eu entrara. Senti que se procurava a chave sob a maçã, o mistério não é o medo que tolhe os passos, mas a servidão que trazemos acorrentada às mãos e nos impede de tactear a chave sob a impotência e o júbilo de viver, senti-me estranhamente bem, sem o peso de carregar sozinha uma escrita que fez de mim um ser com aura, permitindo-me reatar o meu caminho para o humano, de ser alguém de único entre únicos também, únicos não querendo significar especiais nem revelados, mas tão-só responsáveis pelo dado indiscutível de que cada um é irrepetível, quer goste quer não. a perseverança dos outros deu-me coragem vi que não era uma singularidade vã.
(LLANSOL, 2002, p. 323)
Por meio de seus tão diferentes lugares-litorais do mundo, estas vozes procuram uma chave sob a maçã que não nos aparte da potência da diferença. Maria Gabriela Llansol, ainda que não seja uma escritora empenhada, entende que a literatura, a manifestação dessa voz é fundamentalmente interventiva no Mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Kafka – Para uma literatura menor. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.
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GUATTARI, Félix & ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias del Deseo. Madrid: Traficantes de Sueños, 2006.
LLANSOL, Maria Gabriela. O Senhor de Herbais. Lisboa: Relógio d´Água, 2002.
MENEZES, Mônica. Estranhamentos. Salvador: P55 Edições – Cartas Bahianas, 2010.
SANTANA, Rita. Alforrias. Ilhéus: Editus – Editora da UESC, 2012.
SOUSA, Maria. Mulher ilustrada. Coimbra: Edição: do lado esquerdo, 2013.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: EDUFMG, 2010.
TAVARES, Paula. Amargos como os frutos. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.
Bio fornecida pelo palestrante.
Patricia Gonçalves Tenório
Universidade Federal de Pernambuco
Resumo: O presente estudo é fruto das disciplinas Bases da Teoria (2014-1), ministrada pela Prof. Dra. Lucila Nogueira, e Metodologia da Pesquisa Literária (2013-2), ministrada pelo Prof. Dr. Antony Bezerra no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Faremos uma aproximação entre os contos Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield e Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, utilizando os conceitos de conotação, tratado por Roland Barthes em S/Z e de figura, trabalhado por Erich Auerbach em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental.
Palavras-chave: Katherine Mansfield, Clarice Lispector, conotação, figura.
Abstract: This study is derived from the disciplines Bases of Theory (2014-1), taught by Prof. Dr. Lucila Nogueira, and Methodology of Literary Research (2013-2), given by Prof. Dr. Antony Bezerra, in the Post-graduate Program of Linguistics and Literature of Federal University of Pernambuco, Brazil. Here we will approach the short stories Bliss, by Katherine Mansfield, and “Felicidade clandestine” (Clandestine Happiness), by Clarice Lispector, employing the concepts of connotation, as used by Roland Barthes in S/Z, and figure, employed by Erich Auerbach in Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature.
Keywords: Katherine Mansfield, Clarice Lispector, connotation, figure.
Conotação e Figura em Katherine Mansfield e EM Clarice Lispector
Patricia Gonçalves Tenório
Universidade Federal de Pernambuco
Sobre Katherine Mansfield
Kathleen Beauchamp Mansfield nasceu a 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zelândia, terceira filha entre os seis descendentes do casal inglês Sir Harold Beauchamp, comerciante e banqueiro abastado, e Annie Burnell Dyer, dona de casa. Em 1893, a família se mudou para Karori, próximo a Wellington, onde Kathleen vai adquirir belas recordações que serão utilizadas na sua futura obra.
Desde cedo foi reconhecida a sua vocação para a escrita, quando aos nove anos venceu um prêmio da escola com um texto chamado The Sea Voyage. Em 1903, mudou-se para estudar com as duas irmãs mais velhas em Londres, e, entre idas e vindas da Nova Zelândia, terminou por convencer os pais a firmar moradia na capital inglesa e aí viver até o fim de sua vida, aos trinta e quatro anos (1923), vítima de tuberculose.
Inquieta, inteligente e extremamente criativa, ao mesmo tempo dotada de uma personalidade muito forte, teve muitos problemas de relacionamento. Aos treze anos apaixonou-se por Arnold Trowell, violoncelista, o que a fez ter aulas de música com o pai de Arnold, fato que pode ter influenciado na cadência rítmica de seus contos. Aos vinte anos, em três semanas, conheceu, casou-se e separou-se no outro dia do primeiro marido, George Bowden.
Em 1908, após uma gravidez indesejada e um aborto espontâneo, foi rejeitada por sua mãe, Annie Dyer, que a excluiu do testamento por causa do comportamento sexual da filha. A partir de então, Kathleen Mansfield passa a ser conhecida por Katherine Mansfield, por sentir que precisava se afastar da família e da terra natal para se transformar numa escritora de verdade. Conheceu John Middleton Murry em 1908, com quem veio a casar-se em 1918, sendo ele o responsável pelos direitos autorais de sua obra após a sua morte.
Foram 88 contos escritos por K.M., como costumava assinar na revista The Athenaeum, editada pelo marido John Middleton Murry. Publicou três livros: In a German Pension (1911), Bliss (1920) e The Garden Party (1922). Os contos de K.M. vão de encontro aos padrões dos contos clássicos vigentes na época, que consistiam na preocupação com o enredo de ação e o tema principal, enquanto os dela utilizavam a linguagem poética na narrativa, eram narrados sem enredo, prevalecendo o tratamento da epifania, o que os aproximava da prosa poética. Por esses e outros fatores foram considerados contos modernos.
Ricardo Piglia, em Formas breves (2004), ao diferenciar o conto moderno do conto clássico, considera que na Modernidade, após a Revolução Industrial, há a fragmentação da “unidade da vida”, e, consequentemente, fragmentação da “unidade da obra”, que passa do enredo com o início, meio e fim do conto clássico para um enredo “sem ação principal”, em que “os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros”. O conto “abandona o final surpreendente e a estrutura fechada”, trabalhando “a tensão entre as duas histórias, sem nunca resolvê-las”: a história que poderíamos chamar de aparente, no primeiro plano, e a história secreta, no segundo plano.
Sobre S/Z
S/Z foi escrito por Roland Barthes no intuito de analisar a novela de Honoré de Balzac, Sarrasine (1830), a partir de um “ouvir dizer”, ou melhor, “ouvir ler” de um estudo de Jean Reboul sobre ela, sendo que “sua própria escolha era devida a uma citação de Georges Bataille”. A utilização de S/Z para analisar os contos Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield, e Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, também se deveu a esse jogo de escolhas sem fim e à coincidência de citações e títulos quase homônimos de alguns contos de Mansfield e Lispector.
Sarrasine narra a história do escultor com este nome, narrada por um jovem diante de sua amada em uma festa. As camadas de história se repetem em abismo e, ao significar a camada mais profunda – o segredo do escultor –, o narrador, a amada, e nós leitores vamos nos significando e transmitindo um para o outro o mesmo estranhamento: a castração de Zambinella, amor proibido de Sarrasine.
Trazendo a novela de Balzac “de frente para trás”, Roland Barthes nos apresenta, frase por frase, a estrutura do texto. Utiliza cinco códigos na análise – hermenêutico (enigmas), sema (sentido), proiarético (ações seriadas), simbólico (profundidade e segredo) e cultural (citações de uma ciência ou de uma sabedoria). Construindo os conceitos de tecido das vozes, antítese, conotação e denotação, ironia, paródia, personalidade, figura, (…) entre tantos outros, ao mesmo tempo em que os aplica no texto Sarrasine, Barthes, no seu “fazer-fazendo” de S/Z, aos poucos desvenda os segredos da ficção e nos fornece instrumentos para que nós mesmos desvendemos, aqui, os segredos do conto Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield, além de colocá-lo em contato com Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector.
Felicidade (Bliss) de Katherine Mansfield foi provavelmente escrito entre 1915 e 1919, e foi publicado na revista The English Review e posteriormente no livro Bliss and other stories (1920). Trata-se da estória de Bertha Young, uma jovem esposa e mãe de família de classe média alta da Londres do início do século XX que, certo dia, sente-se tomada por um sentimento indefinível, que não consegue nomear. Poderíamos dizer que o conto narra a estória do encontro de Bertha com ela mesma, inédito nessa jovem mulher acostumada com os pequenos momentos de felicidade proporcionados por acontecimentos exteriores, de fora para dentro, e que agora pareciam estar sendo vivenciados de dentro para fora. Talvez seja esse o motivo do conto se chamar Bliss, Êxtase, em português, e não Happiness, que indicaria uma felicidade externa. A “felicidade” de Bertha é provocada pelo encontro com a amiga Pearl Fulton, que guarda o segredo da própria traição com o marido de Bertha, Harry.
Conotação e denotação
Roland Barthes assim define os conceitos de conotação e denotação em S/Z:
Estruturalmente, a existência de dois sistemas considerados diferentes, a denotação e a conotação, permite ao texto funcionar como um jogo, pois cada sistema reenvia para outro, de acordo com a necessidade de criar uma certa ilusão. Ideologicamente, por fim, este jogo assegura vantajosamente ao texto clássico uma certa inocência; dos dois sistemas, denotativo e conotativo, um deles evidencia-se: o da denotação; a denotação não é o primeiro dos sentidos, mas finge ser; sob tal ilusão, ela não é, finalmente, senão a última das conotações (aquela que, simultaneamente, parece inaugurar e fechar a leitura) (…). (BARTHES, 1970, p. 15).
Aplicando os conceitos de conotação e denotação em Felicidade (Bliss) encontramos metáforas que apontam, relacionam, anunciam, prefiguram um acontecimento futuro a partir de um acontecimento presente, ou seja, conotam o que virá (ainda) a acontecer. Podemos tomar como exemplo dois trechos elencados da dissertação de mestrado de Patrícia Peter dos Santos Zachia Alan, “A tradução da prosa poética de Katherine Mansfield em português: um estudo comparado” (2011, UFRS) quando trata da tradução de Bliss por Ana Cristina César e dois outros trechos por nós elencados na tradução de Maura Sardinha:
Um gato cinzento, arrastando-se pelo chão, atravessou furtivamente o gramado, seguido por um gato negro, como se fosse a sua sombra. A passagem dos dois gatos, tão precisa e rápida, provocou em Bertha um estranho arrepio.
“Gatos são coisas aflitivas!” (MANSFIELD, in CÉSAR, 1999, p. 314).
E então ela partiu, Eddie atrás, como o gato negro seguindo o gato cinzento. (MANSFIELD, in CÉSAR, 1999, p. 322).
Patrícia Alan considera que os personagens Eddie (escritor) e Pearl (amiga de Bertha e amante de Harry) são o preenchimento da configuração anteriormente anunciada nos gatos negro e cinzento que rondavam o jardim da enigmática pereira de Bertha Young.
Seguem agora os trechos elencados por nós com o mesmo sentido de conotação/denotação explicitado por Roland Barthes em S/Z:
Havia tangerinas e maçãs, coloridas com o rosa dos morangos. Algumas peras amarelas, macias como seda, umas uvas verdes cobertas por fina camada prateada e um grande cacho das vermelhas. Estas últimas tinham sido compradas para combinar com o novo tapete da sala de jantar. Sim, isso parecia um pouco exagerado e absurdo, mas foi a real razão de tê-las comprado. Pensara na loja: – Preciso de umas vermelhas para trazer o tapete para a mesa. – E isso lhe parecera bastante sensato na ocasião (MANSFIELD, 1997, p. 9).
Eram queridos – queridos – e ela adorava tê-los ali, a sua mesa, oferecendo-lhes deliciosos vinhos e comidas. Na verdade, ansiava por lhes dizer como eram encantadores, e que grupo decorativo formavam, como pareciam realçar um ao outro e como a faziam lembrar de uma peça de Tchecov! (MANSFIELD, 1997, p. 22).
As frutas decorativas anunciam, prefiguram, conotam o grupo decorativo dos amigos de Bertha e Harry Young: o Sr. e a Sra. Norman Knight, Eddie Warren e Pearl Fulton. Um amigo (uma fruta) realçava o(a) outro(a), um texto ilumina o outro, feito se relacionando os dois tempos “aparentemente” desconexos.
Quando Clarice Lispector encontra Katherine Mansfield
O primeiro contato da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector com a escrita de Katherine Mansfield ocorreu quando Clarice era ainda muito jovem.
(…) aos quinze anos, com o primeiro dinheiro ganho com trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E, de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield. (LISPECTOR, 2004, p. 22).
Nascida Haya Pinkhasovna Lispector (em russo: ??? ?????????? ?????????) numa família judaica, Clarice Lispector foi a terceira filha de Pinkhas Lispector e de Mánia Krimgold Lispector. Nasceu a 10 de novembro de 1920 em Tchechelnyk, Ucrânia, enquanto seus pais percorriam várias aldeias do país fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1920, chegando ao Brasil quando tinha um ano e dois meses de idade. No Brasil, por questão de segurança, seu pai mudou o nome de todos com exceção da sua irmã Tânia que era um nome brasileiro comum na época. Clarice morou em Recife durante toda a sua infância. Aos nove anos sua mãe morreu e aos quinze anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Clarice fez a faculdade de Direito e se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Percorreu diversos países acompanhando seu marido, entre eles, Itália, Estados Unidos e Suíça. Divorciou-se em 1959, passando a residir no Rio de Janeiro com os dois filhos, o mais velho, Pedro, esquizofrênico.
Clarice Lispector escreveu diversos livros de romances, crônicas e contos, entre eles, Perto do coração selvagem (1943), Maçã no escuro (1961), Paixão segundo G. H. (1964), A legião estrangeira (1964), Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969), Água viva (1973), A hora da estrela (1977), além de escrever crônicas para o Jornal do Brasil e a revista Veja. Segundo a pesquisadora Susana de Sá Klôh (2005), “é comum encontrarmos, quando se fala em Clarice Lispector, o termo epifania: seus textos frequentemente levam a uma revelação, a uma descoberta que só é feita através de uma entrega aos sentidos, nunca pela racionalização”. Clarice Lispector faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, vítima de câncer.
Comparando os dois contos das autoras, verificamos que eles convergem e divergem ao mesmo tempo em alguns pontos. Além do título do primeiro em inglês, Bliss, remeter literalmente a Êxtase, em português, feito vimos antes, e não a Felicidade, o que poderíamos supor uma felicidade superficial, o sentimento que no caso da personagem Bertha Young é inominável, é claramente nomeável em Clarice Lispector:
Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada (LISPECTOR, 1971; in 1998, p. 12).
Felicidade clandestina é um pequeno conto de Lispector, aparentemente autobiográfico (porque a autora realmente morou na infância em Recife, cidade-cenário do texto), que narra a estória de uma pobre menina atormentada pela menina rica, filha de um dono de livraria, lugar que Clarice “gostaria de morar”. A pobre menina atormentada pela menina rica por esta última reter e não emprestar, dia após dia, As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Ao final do conto, a mãe da menina rica descobre assustada a maldade da própria filha e libera a pobre-menina-Clarice a ter o livro por “quanto tempo quiser”.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados (LISPECTOR, (1971 in) 1998, p. 10).
Enquanto em K.M. ocorre esse apontamento conotativo-metafórico do que irá se realizar e preencher no futuro, em C.L. o jogo é sempre adiado, a entrega do livro da menina rica para a menina pobre é adiada dia após dia, ou como Roland Barthes indica, “cada sistema reenvia para outro”, na “necessidade de criar uma certa ilusão”. Ou mesmo como Wolfgang Iser afirma, um adiamento do fim do jogo do texto quando então se encontrará o sentido.
Se considerarmos ser o significado o resultado do jogo textual, então este só pode provir da suspensão do movimento do jogo que, com alta frequência, envolve a tomada de decisões. Mas qualquer decisão eclipsará inúmeros aspectos provocados pela mudança e interação constantes e, daí, pela reiteração variada de posições do jogo, de modo que este, por si mesmo, se contrapõe a chegar ao fim (ISER IN LIMA, 1979, p. 108).
Poderia se dizer que o conto Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield influenciou na escrita de Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Talvez sim. Mas se considerarmos o título em inglês, Bliss (Êxtase) como uma felicidade de fora para dentro em contraposição ao sentimento que aquecia o peito dessas duas personagens, Bertha Young e a pobre-menina-Clarice, sentimento que brota, jorra de dentro para fora, apesar de ser uma “coisa clandestina”, poderíamos apontar como divergência o fora para dentro em Bertha, o dentro para fora em Clarice, mas poderíamos considerar ao mesmo tempo convergente por ser esse sentimento inominável para Bertha e clandestino para Clarice, o que possivelmente, essa ambiguidade, essa relação antitética de nominável/inominável deva-se a uma relação ambígua entre a personagem Bertha Young e a personagem Pearl Fulton, entre a menina rica e a pobre menina, uma relação de amor e ódio, de desejo e repulsa coexistindo nas mesmas almas, na alma de Bertha/Katherine, na alma de Clarice/Clarice.
Sobre figura
No prefácio de Figura, de Erich Auerbach, Modesto Carone, seu tradutor para o português, resume o pensamento do filólogo alemão: “(…) na ‘figura’ um acontecimento terreno é elucidado pelo outro; o primeiro significa o segundo, o segundo ‘realiza’ o primeiro” (CARONE, in AUERBACH, 1997, p. 9).
A partir da tentativa dos primeiros Padres da Igreja Católica de unir figuras do Antigo Testamento (Davi, Moisés, Elias) com a figura do Cristo no Novo Testamento para angariar novos seguidores, Auerbach, em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, elege diversas obras, desde Homero até Virgínia Woolf, mostrando uma obra apontando para a outra, uma prefigurando a outra, até chegar ao romance moderno.
Trazendo esse exemplo para o nosso estudo, se no primeiro conto as metáforas conotativas apontam, prefiguram em um trecho anterior o que será realizado, preenchido por outro trecho posterior, o adiamento do empréstimo do livro no segundo conto também se adequa ao sistema de conotação/denotação/figura sem fim da menina rica para com a menina pobre, sendo esta última preenchida de “felicidade”, apesar de “clandestina”, ao final do texto.
Além da conotação/denotação, prefiguração/preenchimento no interior dos textos, consideramos os mesmos procedimentos de aplicação desses conceitos na vida dessas autoras que tanto se assemelham: a mudança dos nomes, os casamentos infelizes, a solidão criadora, a introspecção narrativa. E, apesar da diferença no tempo e no espaço, o que foi prefigurado na escrita de Katherine Mansfield, mais de 50 anos antes, foi preenchido na escrita de Clarice Lispector, nesse enredo “sem ação principal”, em que “os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros”, como se confirmasse a constatação de Clarice Lispector diante da escrita de Katherine Mansfield: “Mas esse livro sou eu!”
Referências Bibliográficas
ALAN, Patrícia Peter dos Santos Zachia. A tradução da prosa poética de Katherine Mansfield em português: um estudo comparado, 2011, 215 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Comparada), Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. Disponível em:
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AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, 2011.
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BARTHES, Roland. S/Z. Tradução Maria de Santa Cruz e Ana Mafalda Leite. Lisboa, Portugal: Edições 70, (1970 in) 1999.
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MANSFIELD, Katherine. As filhas do falecido coronel e outras histórias. Tradução Luiza Lobo e Maura Saldanha. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
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Acesso em 13 de junho de 2014.
WIKIPEDIA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector#Obra.
Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br
Bio fornecida pelo palestrante.
Patricia Maria dos Santos Santana
Universidade Federal do Rio de Janeiro/Capes
Resumo: A vida e a morte coexistem no espaço do corpo desde o nascimento. O presente estudo tem como objetivo investigar as leituras de morte apresentadas no livro Este é o meu corpo, de Filipa Melo, obra onde a autora problematiza a necessidade de um aprofundamento sobre o tema com inúmeros questionamentos sobre a angústia e o medo que envolvem o homem diante da morte e, paradoxalmente, diante da própria vida em si.
Palavras-Chave: morte; vida; luto; literatura portuguesa; contemporaneidade.
Abstract: Life and death coexist in the body since birth. The present study aims to investigate the readings about death presented in the book Este é o meu corpo, written by Filipa Melo, work in which the authoress discusses the need of a deepening on the subject with innumerous questions about anguish and fear that involve man facing death and, paradoxically, life itself.
Key-Words: Death. Life. Mourning. Portuguese Literature. Contemporaneity.
Minicurrículo: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas nacionais.
ENTRE MORTOS E AGONIZANTES: A IMPOSSIBILIDADE DE AGIR EM Este é o Meu Corpo, DE FILIPA MELO
Patricia Maria dos Santos Santana
Universidade Federal do Rio de Janeiro/Capes
A morte é um espelho no qual o inteiro
significado da vida é refletido.
(Sogyal Rinpoche)
A certeza de finitude que nos acompanha traz descontentamento e inquietação. Freud (1986) afirma que o homem é um “desamparado” que, fora do útero da mãe, caminha para a morte. E da morte, o homem nada sabe. O medo é o sentimento que surge dessa incerteza. Ameaçador, nebuloso, flutuante, líquido, o medo é parte da natureza humana e compartilhamos com os animais esse sentimento. Nos homens, porém, quando expostos ao perigo, a sensação de vulnerabilidade está presente, pois somente eles têm consciência da possibilidade da morte. A vida e a morte coexistem no espaço do corpo desde a concepção e, apesar de antagônicos, tornam-se um só num diálogo em que nunca desaparecerão. Assim, o início e o fim falam à natureza humana, habitando o corpo com a ideia paradoxal de vida e de morte.
Estamos conscientes de que dos nossos quartos, das ruas, de nossos locais de trabalho, das pessoas com quem nos relacionamos e até do que ingerimos, o medo da morte está sempre à espreita, por perto, nos cercando. Esse medo parece estar sempre a caminho, disposto a nos causar angústia. No ambiente líquido-moderno, o combate ao medo se tornou tarefa árdua. A morte se apresenta na lista de medos que carregamos, latejando no vácuo da imprecisão de quando ocorrerá aquilo que é certo e inevitável. Bauman (2007, p. 31) explica que “esses medos são aterradores por serem difíceis de compreender; porém mais aterradores ainda pelo sentimento de impotência que provocam (…). Os perigos que tememos transcendem nossa capacidade de agir…”
O livro Este é o meu corpo, romance de Felipa Melo, é um livro sobre a morte, mas é também um livro sobre medo e sobre a impossibilidade de agir diante de fatos da vida. O livro parece querer traduzir um vácuo. Uma lacuna estranha sobre o que há entre o viver e o morrer.
Filipa Melo nasceu em 1972, em Angola, na cidade de Silva Porto, atual Cuíto. Estudou Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e, em 1991, começou a trabalhar como tradutora. Em 1992, iniciou a sua atividade como jornalista. Desde então, colaborou com diversas publicações e com as estações de televisão SIC e RTP. Integrou a revista Visão entre 1994 e 1999 e foi responsável, em 1996, pela reformulação e edição da revista Livros de Portugal, da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. Entre 1996 e 2000, atuou na direção do Sindicato de Jornalistas. Recebeu Menção Honrosa, Prémio Revelação 1995, pelo Clube de Jornalistas de Lisboa, e o Prémio Nacional de Cultura Sampaio Bruno 1996 pelo Clube de Jornalistas do Porto. Foi nomeada para o Prémio Bordalo da Imprensa Escrita em 1998. Como jornalista free-lance, Felipa foi editora do suplemento ‘Mil Folhas’, do jornal Público. Organizou várias comunidades de leitores na livraria Almedina. Este é o meu corpo é seu primeiro romance e foi traduzido para o espanhol, francês, inglês, italiano, grego, holandês e servo-croata.
Freud afirma que
Nós, criaturas civilizadas, tendemos a ignorar a morte como parte da vida. No fundo, ninguém acredita na própria morte, nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida. (2009, palestra “Nós e a Guerra” de 1915)
Freud (1915) menciona o fato de o homem matar seu inimigo desde sua época mais primitiva até os dias atuais, havendo um ponto comum entre o homem primitivo e o civilizado, no que diz respeito ao desejo de destruir quem o ameaça ou lhe oferece perigo. Ele afirma que nosso inconsciente comporta-se de maneira semelhante ao do homem primitivo, pois este não acredita na própria morte, apesar de vê-la rondando e de abater seu próximo com frequência. Todavia, o consciente, como era de se esperar, apavora-se com a ideia da morte e, portanto, daí está gerado o conflito existencial. Freud diz que nossa atitude civilizada perante a morte é muito irreal e que vivemos psicologicamente acima de nossos meios, enquanto deveríamos conceder um espaço maior em nossas vidas para a morte, para que a vida se tornasse suportável conscientemente, embora sabendo de sua finitude e de suas consequências. Assim, o homem vive sob o impacto da morte, pois ela significa o fim irrecuperável e irrevogável. Com o pavor da morte, único evento na vida sem retorno, cabe ao homem também a negação dela, sua desconstrução e banalização. Tentamos incessantemente mostrar uma tendência a colocar a morte de lado, a suprimi-la da vida, como se isto fosse resolver o problema da morte.
Freud ainda diz que temos o hábito de enfatizar a morte através de causalidades como acidentes, doenças, infecções, idades avançadas, pois, dessa maneira, revelamos o esforço de reduzir a morte de fatalidade à oportunidade. Para Freud, tal redução ou desconstrução está intimamente relacionada ao discurso da modernidade. O que se vê é que quando se aplica a ideia reducionista para os modos de se morrer, exclui-se o fato de a morte ser algo biologicamente determinado entre os seres humanos.
Este é o meu corpo causa proposital estranheza no primeiro contato. É um livro que revela os mistérios de um assassinato, de forma extremamente poética, através do olhar de um médico legista. Com a solenidade exigida de um ato religioso e com a ternura de uma carícia de amantes, um corpo será desvelado através dos cortes profundos do bisturi do médico que é obcecado pelos segredos que lhe contam os mortos. Ele costuma dizer: “Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam” (MELO, 2004, p. 19). É dos reflexos desta morte na vida dos que ficam que trata este romance. Um enigma que envolve outros corpos e as marcas da vida e da morte dentro deles. Apresenta o corpo humano em seus mais intangíveis mistérios, que se apresentam não apenas na morte como também na vida.
A compreensão do modo pelo qual a sociedade se relaciona com o corpo é uma questão fundamental na medida em que Bauman (2007) nos propõe que devemos conceber o corpo como potencialidade elaborada pela cultura e desenvolvida nas relações sociais. Para Le Breton (2006), o corpo é objeto das representações e do imaginário. Um local por onde se constrói a relação do homem com o mundo. No corpo estará o âmago dessa relação homem-mundo, pois dele nascem e se propagam as significações que fundamentam a existência individual e coletiva:
Pela corporeidade, o homem faz do mundo a extensão de sua experiência, transformá-lo em tramas familiares e coerentes, disponíveis à ação e permeáveis à compreensão. Emissor ou receptor, o corpo produz sentidos continuamente e assim insere o homem, de forma ativa, no interior de dado espaço social e cultural (LE BRETON, 2006, p. 8).
Entendemos, pois, que a morte é o momento natural de desfazer a existência do corpo trabalhado, vivido, experimentado, relacionado, profundamente inserido no mundo no curso da vida. Morte e morrer são palavras que as pessoas evitam proferir. Essa dificuldade de conviver e de trabalhar com a ideia da morte atrapalha a sua elaboração e impede que se lide com tranquilidade com as perdas, que são naturais e que ocorrem inevitavelmente ao longo da vida. A morte faz parte da vida e é um ritual de passagem do qual não se pode esquivar. Mas apesar de se reconhecer a inevitabilidade da morte ainda existe muito tabu diante deste fato e o silêncio é utilizado como um subterfúgio para melhor lidar com o acontecimento.
Em resumo, a morte é concebida pelo ser humano como algo que causa medo, angústia, mas que, ao mesmo tempo, como num jogo, é melhor ser ignorada, esquecida, banalizada, desconstruída para que o homem consiga realizar a difícil tarefa de viver, ou seja, para conseguir realizar, acima de tudo, as suas obrigações sociais.
O corpo de uma jovem mulher é encontrado após um telefonema anônimo para a delegacia. Está à beira de uma estrada, com os pés amarrados e sinais de violência. O médico legista é chamado para descobrir o que aconteceu e ajudar a polícia a desvendar o caso. Esse médico legista, cujo nome desconhecemos, ajudará a contar a história que é a história desse corpo e o que ele revela. Também conheceremos as histórias de outras pessoas, inclusive a do próprio médico, em suas vidas envoltas em solidão, com vozes narrativas intercaladas a cada novo personagem que é apresentado na obra.
Bauman (2007) menciona que a banalização da morte torna o confronto do homem com ela como um evento quase corriqueiro. A banalização leva a experiência única da morte para o domínio da rotina diária dos mortais, transformando suas vidas em perpétuas encenações de morte, familiarizando indivíduos com a experiência do fim e desfazendo o horror que transpira da total e absoluta incognoscibilidade da morte.
A morte, que não deixa de ser algo sublime, perde seu vigor ao ser negada e rejeitada em todos os seus aspectos, uma vez que o homem tornou-se um ser criado para viver intensamente, para a produção e consumo. Então, ele deixa de ser útil para a sociedade quando é impossibilitado de atuar conforme o mercado impõe.
Eis aí que a sociedade ocidental contemporânea reduziu a morte e tudo a que ela está associado: um nada. (…) A sociedade mercantil vai além ao transformar a morte num resíduo irreconhecível. Ela já não é mais um destino. O que existe é uma relação negativa com o sistema de produção, de troca e de consumo de mercadorias. É o estado de não-produção, de não-consumação. Ao negar a experiência da morte e do morrer, a sociedade realiza a coisificação do homem. (MARANHÃO, 1998, p. 19).
Quem não está morto de fato, mas se enquadra nesse processo de não consumação, não produção e não viver, simplesmente vira um vivo-morto e agoniza. Maranhão aponta que
Na sociedade industrial não há lugar para os agonizantes: são indivíduos que não produzem, não consomem, não acumulam, não respondem aos seus apelos, não competem, não se incomodam com o progresso, com o tempo nem com o dinheiro (MARANHÃO, 1998, p. 15).
Ao longo da narrativa encontramos personagens agonizantes em confronto com a morta Eduarda. Esses personagens sofrem parálise e não conseguem agir, tomar as rédeas de suas vidas. “Há momentos em que o sujeito fica tão acuado que parece não-viver. E esse não-viver pode ser equivalente a morrer. Então surge a situação paradoxal, em que a pessoa está morta, mas “esqueceu” de morrer: tem a chamada morte em vida” (KOVÁCS, 2003, p. 3). A autora completa seu raciocínio mencionando que são nos momentos em que não há lugar para a morte é que ela se faz mais presente, espreitando-se em todos os cantos, pois entrelaçamos vida e morte em todos os processos de nosso desenvolvimento vital. (op.cit., p. 2)
De acordo com Heidegger (2001), a morte pertence à própria estrutura essencial da existência, pois a existência do homem é um ser-para-a-morte. Ela não vem de fora, não é um acidente. Não caímos na morte de repente, mas caminhamos para ela passo a passo. Morremos a cada dia. O homem começa a viver tendo idade suficiente para morrer.
Os personagens apresentados na obra, os vivos-mortos, ou melhor, os agonizantes sofrem uma espécie de morte em vida designada por conta de perdas, de dores, de sofrimentos. Kovács diz que “a única morte experienciada é a perda, quer concreta, quer simbólica” e “é nesse sentido que a perda pode ser chamada de morte consciente ou de morte vivida” (2003, p. 38).
Nenhum personagem aproveita o momento. Todos se apropriam da dura tarefa de viver sem gozo e sem felicidade. São frustrados. De um lado, temos os vivos do livro que atuam como mortos, com vidas desfeitas, não vividas, abatidas e aparentemente ceifadas. De outro, temos uma morta que é ouvida e parece ter o poder de contar tudo o que aconteceu com ela como se revivesse, estivesse viva pelo menos no efêmero momento no qual podia se revelar: o da autopsia. De fato, a premissa do livro é a de que o corpo morto fala e tem a capacidade de dizer tudo o que lhe aconteceu para que chegasse naquela situação, no breve momento de uma autopsia, parecendo mais forte que os corpos que ainda se mantêm vivos ao longo da narrativa. E na figura do médico legista recai o poder de dar voz a quem não pode mais falar; o poder de respirar para quem não tem mais vida; o poder da ressurreição mesmo que rápida e impossível.
O silêncio dos personagens, que não sabem expressar seus sentimentos, pois sofrem e vivem em solidão, em dor, é algo fundamental na obra. O corpo morto desvenda os silêncios dos vivos em suas vidas medíocres e desinteressantes. Encontramos o silêncio do pai de Eduarda, que sem saber como lidar com a perda da mulher, por quem nunca expressou o seu amor, afasta cada vez mais a filha de seu convívio por conta de sua dificuldade de afeto e contato físico.
O ápice de afastamento e indiferença é retratado quando o pai passa pelo corpo da filha, na estrada, já morto, cheirado pelo cão e não enxerga nenhum traço familiar para um possível reconhecimento. Diante da morte do outro que está na estrada, da morte tornada banalizada na contemporaneidade, o pai, agonizante e também quase morto por dentro, segue seu passeio. O cão parecia mais incomodado com o cadáver que o homem:
Quando o homem se aproximou da ponte, já o cão rodeava o corpo. Cheirava-o, roçando o focinho nas carnes, veias e ossos que pareciam triturados. Conservavam os contornos intactos. Estendiam-se em duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça de borco entre o passeio e o alcatrão (…) (MELO, 2004, p. 11).
Todavia, com o corpo daquele cadáver que ele não sabia ser de sua própria filha, o pai de Eduarda se identificou morbidamente, como prova do vivo-morto que é: “estranhamente, sentiu-se em paz na companhia daquela massa ensanguentada (…). Julgou que desfalecia e deitou-se ao comprido imitando a forma do corpo inerte e agarrando-se à terra com as mãos” (MELO, 2004, p. 18).
Alda é outra viva-morta da narrativa. Ela é a mulher de Jacinto, o assassino, e sofre em silêncio a opressão de um casamento frustrado e sem amor, onde o diálogo nunca existiu. Jacinto, que a abandona por alguns meses, movido por uma paixão avassaladora por Eduarda, retorna ao lar depois de assassinar a moça, sendo aceito sem quaisquer questionamentos. Reflete a falta de opção de uma pessoa que já morreu em vida pelo simples fato da vida não lhe oferecer melhores condições de sobrevivência. Por ter perdido a vontade de viver, aceita tudo passivamente, submissa até o fim: “Alda pensa que não importa onde ele esteve (…) é suficiente a certeza de que a caminhada terminou e de que, por fim, é ela quem o recebe (…)” (MELO, 2004, p. 121).
Miguel, colega de trabalho de Eduarda, há anos nutre seu amor por ela em silêncio. Quando descobre a morte da moça, sofre demais por não ter se confessado. Mais uma vez são os silêncios que falam mais que os personagens. É outro vivo-morto da narrativa, pois é incapaz de se expressar ou agir:
Desceu as escadas do prédio e só na rua, caminhando pelo passeio, pode chorar a morte de Eduarda. Chorou por ela e, sobretudo, por si próprio. Um choro miudinho.
Foi enquanto chorava que desejou ter tido coragem para um dia a ter abraçado, nem que tivesse sido apenas uma vez (…) (MELO, 2004, p. 96).
Assim, Miguel é mais um personagem construído pelo viés da parálise.
Os personagens apontados carregam um traço de comportamento que beira a neurose, cada um a seu jeito: o pai da morta é extremamente egoísta, Alda é submissa e Miguel é inseguro, medroso. Não são felizes por causa da impossibilidade de realização de felicidade em sociedade, desenvolvendo suas fobias e ansiedades. Freud, em O mal-estar da civilização, escreve: “descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe (…)” (FREUD, 1986, p. 106). Desejos e pulsões não realizados provocam mal-estar. Um conflito entre a pulsão que quer se realizar e o superego que impede esta realização provocam mal-estar. Os sintomas advindos do conflito provocam mal-estar. Vida e sociedade reprimiram cada um deles.
Retomando as palavras de Maranhão (1998, P. 15), “na sociedade industrial não há lugar para os agonizantes”. E cada um dos personagens apresentados parece excluído socialmente, recluso em seu mundo particular. Eles agonizam porque não produzem, não consomem, não competem, não se incomodam… Miguel é conformado e não pensa em crescer profissionalmente; Alda e o pai de Eduarda conformam-se com os rumos que a vida dispõe. Todos agonizam em vida. Não vivem, apenas existem.
O médico legista, com toda a descrição dos passos da autópsia que faz no corpo de Eduarda, estabelece uma relação quase poética com os cadáveres com os quais lida diariamente, filosofando sobre a vida, como se com esses corpos ele realmente pudesse conversar. A força do texto de Filipa impressiona nas descrições precisas da autopsia e na paixão que coloca no trabalho desse médico que, em sua vida pessoal, também sofre de imensa solidão, sem conseguir estabelecer relação sólida com as pessoas. O narrador assim o define:
Sujeito introvertido, propenso à depressões e a especulações absurdas. “Bicho-do-mato”, “individualista feroz” é o que dizem os amigos, esses que conto pelo dedo de uma só mão. Solteiro, inábil no trato com a generalidade dos seres humanos vivos, em especial com os seres humanos femininos. Perfeccionista, voluntarioso. Obcecado pela morte e por suas manifestações terrenas. Capaz de momentos de intensa euforia interior, mas habitualmente incapaz de os exteriorizar (MELO, 2004, p. 69).
À medida que conhecemos a história de Eduarda, a mulher que foi assassinada poucos dias após dar luz a um menino em um dos hospitais da cidade, pelo próprio amante e pai da criança, por estar inconformado com o fim do relacionamento, Melo vai descrevendo aos poucos o personagem do médico-legista. Com a solenidade de um ato religioso, com a violência de uma violação, com a ternura de uma carícia, esse corpo será desvelado através dos cortes profundos do bisturi de um médico-legista apaixonado pelos segredos que lhe contam os mortos que passam por suas mãos. O corpo humano encerra os mais intangíveis mistérios e Este é o meu corpo arrasta-nos para uma viagem ao fundo de nós mesmos, conduzidos por um estilo profundo, cirúrgico. O médico legista age como um verdadeiro “senhor da morte”, homem incapaz de se relacionar com os vivos, mas proativo para elucidar com presteza as artimanhas e os mistérios da morte. Essa fervorosa e íntima relação do médico legista com seu objeto de estudo lembra a afirmação feita por Kovács sobre a importância do estudo do cadáver antigamente:
Ariès introduz o tema da vida no corpo morto e o início da influência da medicina na história da morte, substituindo os homens do clero (…).
O cadáver é ainda um corpo, pois mantém resquícios de vida e de sensibilidade. Isto casa com a superstição popular de que o corpo ainda ouve e se lembra; por isso é necessário ter cuidado, não falar em sua presença. Ocorre uma certa confusão entre vida e morte, pois o corpo morte apresenta alguns movimentos, mesmo que de maneira diferente dos vivos. Pelos, unhas e dentes continuam a crescer. Nos enforcados pode se observar a ereção do pênis, o que justifica muitos enforcamentos porque a falta de ar causa excitação e na busca desta sensação muitos erraram e acabaram morrendo. É uma estranha relação entre a vida e a morte.
Os primeiros estudos dos médicos apresentavam a ideia de que o morto ainda tivesse algum tipo de personalidade. Este conceito foi abandonado no século XIX, quando a morte passa a ser a separação entre a alma e o corpo. A morte é a negatividade, e é estudada em função da doença. Assim, os cadáveres passam a adquirir grande importância porque contêm os segredos da vida e da morte, tornando-se objetos de estudo. Ou seja, o estudo dos cadáveres proporcionou um grande desenvolvimento da medicina, transformando os médicos nos grandes senhores da morte (…) (KOVÁCS, 2003, p. 53-54).
O “senhor da morte” do livro de Filipa Melo compreende sua estranha loucura e assim se apresenta à morta:
Este é um monólogo disfarçado de conversa. Um diálogo morto.
Não tenho ilusões. Entendo a minha loucura mascarada pelo delírio da morte nos corpos que corto. A morte é um diabo louco numa dança macabra dentro dos corpos. É com ela que eu falo: numa conversa de loucos.
Segundo dizem, para a morte e para o sol não se olha de frente. Por isso, continuo cego, a olhá-la. A olhar-me nela. A olhar-te. Cego e louco (MELO, 2004, p. 93).
Com o cadáver de Eduarda, o médico legista dialoga, se expõe, confessa a necessidade de seus gestos, enamora-se macabramente. Kovács menciona que erotismo, volúpia e morte se inter-relacionam: “Eros e Thanatos se aproximam nessa relação de prazer com sofrimento, do amor com a morte” (2003, p. 55). O médico legista sussurra à jovem cadáver:
Hesito. Confesso que tento manter no discurso a pose distante de quem te observa de fora. Comporto-me como um apaixonado e apercebo-me novamente disso. Tento cativar-te. A ti, imagina, estendida, esventrada à minha frente, rodeada da luz crua das lâmpadas fluorescentes e dos reflexos baços dos azulejos. O cenário é tudo menos romântico e eu ficciono-o para te poupar à crueza dos meus gestos.
Mas é verdade. Abro-te para te extrair os segredos e te deixar partir.
O meu corpo responde também. Sinto as mãos úmidas dentro das luvas, a testa quente, a boca áspera, depois inundada pela saliva, que engulo em pequenos goles. Quero deixar as formalidades e gritar-te que preciso que me ajudes.
Ajuda-me.
Regresso à técnica e acalmo-me. (MELO, 2004, p. 76).
Na insistência de seu monólogo amoroso e macabro, expõe sua vontade insana de ouvir Eduarda falar. Quer palavras. Quer saber mais sobre aquela que é mistério para ele. Então, disseca o corpo e descobre que Eduarda parira há pouco tempo:
As palavras não chegam.
(…)
Eu não sei nada. Nem de ti, nem da morte que te estancou as feridas e se prepara para reduzi-las a pó. Nem da vida que deixaste para trás.
Alguém ficou de ti. Confirmo-o agora.
Alguém que antes não era e que, quando morrer, nunca mais voltará a existir. Alguém que, como eu, te procurará por entre os despojos de ti, e que saberá encontrar-te, e desvendar os teus sinais (MELO, 2004, p. 90-91).
Como um verdadeiro deus, sussurra à morta a realidade dura da vida, parecendo o grande e único conhecedor da verdade:
Ninguém nasce duas vezes. Conheço a nossa individualidade composta de carne e sangue. Manobro a sua evidência na mesa de autópsias. Nascemos de uma só maneira, morremos segundo fórmulas infinitas. É a direcção que seguimos entre as duas etapas o que as estreita ou separa. O que nos destina a sobrevivermos na memória dos outros como um exemplar vivo ou um espécime morto. E a encerrarmos as nossas contas com eles. Não existem fórmulas para a vida. Em vão desejamos herdá-las. Em vão ansiamos fazer delas um legado. Em vão (MELO, 2004, p. 91-92).
Ao mencionar a falta de fórmulas para se viver feliz, o médico declara a impossibilidade de alcançar a satisfação em vida. É o grande porta-voz da autora na narrativa. Sem fórmulas não deve haver tentativas para se viver feliz, apenas a direta constatação dessa impossibilidade. Esse é o grande problema da condição do homem em sociedade. Mas Melo não deseja explicar nada, só deseja mostrar que o mundo é o ambiente certo para agonizar.
Norbert Elias traz à tona o problema da morte e, muito claramente, salienta a quem esse problema se destina: “A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na terra, a morte se constitui um problema só para os seres humanos” (ELIAS, 2001, p. 10). Na autopsia, o morto se despe de todos os seus problemas. O médico, vivo, assume os problemas do morto, inclusive o problema da própria morte que se apresenta. Esta é uma significativa construção no livro de Melo. A morte de Eduarda não foi chorada. Tida como indigente, levou-se um tempo para descobrir a sua partida. Na extinção do luto de seu passamento, uma realidade também na sociedade contemporânea conforme afirmam estudiosos como Ariès (1982) e Kovács (2003), o médico legista chora simbolicamente, por poucos minutos, a morte daquele corpo feminino do qual desconhece o nome e nada sabe sobre sua vida. Enluta-se por alguns momentos, entristece-se por ele, para depois rapidamente retornar ao seu mundo contemporâneo, efêmero e se entregar ao prazer das roscas gordurosas da padaria próxima ao Instituto Médico Legal. Sim, ele também se apresenta como uma espécie de neurótico no que diz respeito ao seu relacionamento com os vivos, mas, apesar de tudo, o médico é quem está mais apto para simbolizar o verdadeiro elo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. É como se a mensagem de Melo fosse mesmo mostrar que todos os problemas do mundo estão nas pessoas. Ademais, o médico é o único personagem que não sofre parálise e procura agir, mesmo que seja nos limites de seu ofício de legista. Também é o único personagem que não ignora a morte e dá a esta o seu valor necessário, livre das desconstruções banalizadas da pós-modernidade.
Considerações finais
O ato de morrer pertence à vida, assim como o ato de nascer. Não há vida sem morte e, inevitavelmente, cada vida humana chega ao seu final. Morrer é uma interrupção abrupta que o homem nunca estará, de fato, pronto para entender. É uma obrigação radical de se retirar do mundo. Por sua vez, morrer em vida apresenta-se como uma opção de existência e podemos observar isto em torno dos personagens da obra Este é o meu corpo. Opção de quem não quer fazer muito esforço ou já não acredita mais na vida.
Encontramos os personagens da obra de Filipa Melo, solitários, sem esperança e sem capacidade de entender suas realidades no mundo que os cerca. Apresentam um nível de conformismo muito grande que reflete a vida como algo tão inexorável como a morte em si. Para tais, a vida é frustrante e numa construção que beira o absurdo, é a finada da narrativa a personagem capaz de abrir questionamentos para o entendimento de tudo. Uma narrativa poética onde os vivos encontram-se mortos e a pessoa morta, mais viva que nunca. Isso para afirmar uma inquietação contemporânea, para justificar o abandono e o mal-estar do “desamparo” humano (FREUD, 1986). Enredos que mostram os problemas da condição do homem em sociedade. Um pessimismo essencial para despertar angústia naqueles que terminam a leitura da obra. A autora não procura explicar nada do que é abordado, uma vez que a vida não pode ser explicada. Ela só anseia mostrar o caos contemporâneo existente, mostrar os variados agonizantes que perambulam aqui e ali.
Referências bibliográficas
ARIÈS, Philippe. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.
BAUMAN, Zygmunt. Medo Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
FREUD, Sigmund. Escritos sobre a guerra e a morte. Covilhã: Lusosophia Press, 2009.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. XXI, 1986.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo – Parte II. Petrópolis: Vozes, 2001.
KOVÁCS, Maria Júlia. Educação para a morte: temas e reflexões. São Paulo: Casa do Psicólogo: FAPESP, 2003.
LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis: Vozes, 2006.
MARANHÃO, José Luiz de Souza. O que é morte. São Paulo: Brasiliense, 1987.
MELO, Filipa. Este é o meu corpo. São Paulo: Planeta, 2004.
Bio fornecida pelo palestrante.
Margarida Paredes
(CRIA, ISCTE-IUL)
Resumo: Este artigo é uma reflexão sobre o livro autobiográfico Memórias da Luta de Libertação (s/d) da guerrilheira do MPLA, Rita André Tomás, inspirada no trabalho de John Beverley sobre o Testimonio, On the Politics of Truth (2004). Este autor é um dos principais teóricos da escrita testemunhal, um género que se desenvolveu na América Latina e nas Caraíbas aqui deslocalizado para um espaço africano e para a escrita do “eu” de uma mulher ex-combatente que se vê na contingência de ter que lutar pelo reconhecimento do seu passado na Luta de Libertação.
Palavras-chave: Memórias, Testimonio, Luta de Libertação, guerrilheira.
EL TESTIMONIO DE RITA ANDRÉ TOMÁS, “MEMÓRIAS DA LUTA DE LIBERTAÇÃO” EM ANGOLA
Margarida Paredes
(CRIA, ISCTE-IUL)
Introdução
O livro de Rita André Tomás, Memórias da Luta de Libertação (s/d.), um pequeno livro de 51 páginas tem a particularidade de ser a única autobiografia publicada por uma antiga guerrilheira do MPLA, em Angola. O Diário de um Exílio sem Regresso (2003) escrito por Deolinda Rodrigues foi publicado pelo irmão Roberto de Almeida, 35 anos depois da morte da malograda guerrilheira. Nesta área de estudo são os dois únicos registos publicados de escrita autobiográfica de mulheres guerrilheiras angolanas.
A obra foi lançada em Luanda, em setembro de 2005, com o patrocínio do presidente da República, e em novembro do mesmo ano a ex-combatente foi condecorada por José Eduardo dos Santos com a Ordem dos Combatentes da Liberdade do primeiro grau, atribuída a cidadãos nacionais que se destacaram durante a luta pela independência nacional, condecoração igualmente atribuída a Arminda Faria, combatente da luta clandestina anticolonial¹ que tem uma biografia ficcionada editada em Lisboa, Arminda, Uala ni Angola ku Muxima (2012), de autoria de Álvaro Manuel de Faria.
Uma escrita do “eu”
As primeiras linhas da Introdução da biografia de Rita André Tomás interpelam o leitor diretamente:
Sou Rita André Tomás, filha de André José Tomás, pedreiro de profissão e de Rita Manuel, agricultora e quitandeira. (…) Estas minhas memórias são apenas uma parte onde exprimo como participei na luta directa de libertação nacional, como vivi no MPLA então movimento, com os nossos líderes e as façanhas que assisti de perto (s.d, p. 11).
A narrativa escrita na primeira pessoa, “Sou Rita André Tomás…”, uma ‘escrita do eu’, versa sobre a Luta de Libertação a partir de quem a protagonizou e de quem sente que tem autoridade para a narrar. Ou seja, um sujeito enunciador, que através de uma escrevivência, para utilizar o conhecido conceito da poeta afrobrasileira Conceição Evaristo, ao referir uma escrita da existência contra?hegemónica e que incomoda, relata a sua história individual no feminino, entrelaçada com a história coletiva canonicamente narrada no masculino.
Richard Rorty, em Solidarity or Objectivity (1985), define o “desejo de solidariedade” ou o “desejo de objetividade” como as duas grandes razões que levam os autores a escrever as suas biografias. Rita André Tomás pertence à categoria dos que apelam ao “desejo de solidariedade”: “There are two principal ways in which reflective human beings try, by placing their lives in a larger context, to give sense to those lives. The first is by telling the story of their contribution to a community. (…) I shall say that stories of the former kind exemplify the desire of solidarity” (1985, p. 3).
Um artigo de jornal divulgado no site da Angoflash², a 4 de fevereiro de 2004, intitulado “A guerrilheira que sonha com uma junta médica”, contribui para entendermos as motivações da autora ao recorrer à escrita biográfica. Segundo o jornalista:
Hoje, 41 anos depois de ingressar na luta armada, a sua maior aspiração é conseguir uma junta médica para extirpar um tumor na cabeça, detectado na Namíbia, em 1997. Residente num pequeno apartamento, nas imediações da Escola Mutu Ya Kevela, Rita Tomás lamenta não poder dar nem uma simples cama aos seus filhos. ‘Tive que vender a aparelhagem para comprar medicamentos’, exemplifica. Visivelmente desgastada pela doença descreve as condições sociais em que vive. Mostra os quartos dos filhos, desprovidos de camas. ‘A minha pensão é de dois mil kwanzas’, diz. Reclama ainda do dinheiro [a] que diz ter direito, ‘como brigadeiro das FAA na reserva’, mas não recebe.
A história de vida de Rita Tomás não pode ser desvinculada do conjunto de acontecimentos que fazem parte da trajetória do sujeito. Para enfrentar a doença e para dar testemunho da situação de carência que vivia, o recurso à escrita biográfica apresentou-se como uma nova arma para quem já tinha sido uma ativa combatente da Luta de Libertação. “The situation of narration in testimonio has to involve an urgency to communicate, a problem of repression, poverty, subalternity, imprisonment, struggle for survival, implicated in the act of narration itself” (BEVERLEY, 2004, p. 32).
El Testimonio
A reflexão sobre este livro de Rita André é inspirada no trabalho Testimonio, On the Politics of Truth (2004) de John Beverley, um dos principais teóricos da escrita testemunhal, um género que se desenvolveu na América Latina e nas Caraíbas. Berveley define o Testimonio como uma narrativa, contada na primeira pessoa por um narrador que também é o protagonista ou testemunha dos acontecimentos que narra (2004, p.3) e cuja unidade de narração é geralmente uma “vida” ou uma experiência de vida significativa, ligada à “luta política” e/ou a movimentos revolucionários de libertação nacional, que aparece “at the margin of literature in forms sanctioned more by the social sciences such as ‘life history’ or ‘oral history’ (2004, p. xiii) (…) which signifies the need for a general social change” (2004, p. 41) e onde os leitores “are being asked to participate” (2004, p.37).
O editor, no início da obra de Rita Tomás, numa rubrica intitulada “Explicação Necessária”, diz?nos que a autora “não quer que a julguem como escritora e que o livro é um testemunho do muito que Rita Tomás viu e viveu durante a guerra de libertação nacional” (s.d, p. 9) confirmando que a protagonista “esteve nas matas [e] prejudicou a sua saúde, hoje debilitada”. Para o editor o livro destina-se a contribuir para um propósito maior, ou seja, a redação de “verdadeira história de Angola” ³ (s.d., p. 9). Resgatar as memórias da Luta de Libertação, dialogar com a história e a memória e colocar?se como ator da história de Angola, como sujeito que viveu a “verdadeira história” e fez parte da Luta de Libertação nacional, são alguns dos objetivos do livro. Rita Tomás, neste processo de criação, resgata o “testemunho” e recusa que a sua obra seja apreciada como um texto literário.
The dominant formal aspect of the testimonio is the voice that speaks to the reader in the form of an ‘I’ that demands to be recognized, that wants or need to stake a claim on our attention. This presence of the voice of a real rather than a fictional person, is the mark of a desire not to be silenced or defeated, a desire to impose oneself on an institution of power such as literature, from the position of the excluded or the marginal (BEVERLEY, 2004, p. 34).
Rita André Tomás, reivindica como lugar de pertencimento a cidade de Luanda, município do Sambizanga, onde nasceu a 17 de julho de 1943 (s.d, p.12) e revela ao leitor que tem ascendência étnica e cultural múltipla, Cabinda, Caxito, Golungo Alto, Muxima e Luanda. Filha de um carpinteiro, como já foi referido, coloca a família a viver nas margens sociais do estado colonial, “tanto é que tínhamos que ajudar a mãe a lavar a roupa de alguns patrões” (s.d., p. 12).
A condição das mulheres negras no colonialismo português, constantemente sujeitas a controlo da polícia e encaminhadas para trabalhos forçados, contraria mitos enraizados na história coletiva portuguesa como o da excecionalidade de um “império não?racializado” e “o modo especial como os portugueses se miscigenavam com os seus colonizados” ou ainda a fábula de a colonização ter sido ‘branda’: a autora relata que “Havia rusgas de fichas; os cipaios (chimbas) prendiam as jovens e senhoras a fim de trabalharem em casas de ‘senhoras’ brancas, como criadas e lavadeiras. Por isso quando fôssemos ao mercado era obrigatório levar?se o Bilhete de Identidade ou cartão da escola para nos identificarmos” (s.d., p. 16).
Apesar da condição subalterna da família durante a ocupação colonial portuguesa, a autora revela pertenças marcantes à elite fundadora do nacionalismo angolano, nomeadamente protestante, do início dos anos 50 do século XX.
Estudei a iniciação e a primeira classe (…) na escola do Samba Kimunga, com a professora Maria Silva Neto, mãe do saudoso Guia Imortal, Dr. António Agostinho Neto (s.d., p. 12).
(…)
O meu pai foi membro da Associação da Caixa Preventiva e Socorro Mútuo da mesma Congregação religiosa onde faziam parte outros contemporâneos seus, alguns dos quais do Processo 50 dentro eles, Sebastião Gaspar Martins e Pascoal Veríssimo da Costa. Após a prisão destes, a PIDE prendeu o meu pai e o meu tio Domingos André Tomás (s.d., p. 13).
Estas pertenças fazem parte da identidade do sujeito e a autora envolve?se na luta clandestina anticolonial ainda em Luanda:
A minha entrada na vida política foi em companhia de familiares e demais jovens (…) no Bairro Operário. Após a prisão dos camaradas do Processo 50, muitos de nós com familiares presos, entre pais, tios e primos, fomos alvo de atenção de agentes informadores (bufos) da PIDE (s.d., p.13).
A família foi alvo de perseguição política por parte da PIDE, tendo o pai, tio e irmãos sido presos por vários meses e posteriormente sujeitos a residência fixa. Pertencer a uma congregação religiosa, a uma associação desportiva ou a um grémio cultural eram razões suficientes para os angolanos serem detidos pela PIDE e acusados de ações terroristas. Marissa Moorman no seu livro Intonations, a Social History of Music and Nation in Luanda (2008), ao focar a relação entre cultura e política no fim da era colonial, defende que as práticas culturais estavam entrelaçadas com a política e era através dessas práticas que a nação era ‘imaginada’, vivida e resistia ao colonialismo (2008, p. 1?13) sobretudo nos musseques de Luanda.
Rita Tomás descreve a fuga em 1962, para Boma no Congo, através de Cabinda, aos 19 anos, informando o leitor sobre quem preparou a fuga e com quem fugiu, ficando subentendido no texto que a motivação da viagem, sem os pais terem sido informados, se deveu à repressão que a família sofria por parte da PIDE e ao desejo da jovem se juntar ao MPLA e lutar contra o colonialismo português. Quando chegou a Leopoldville residiu numa casa do movimento e dividiu o quarto com Deolinda Rodrigues, Luzia Paim, Evangelina e Maria Luísa Júnior (Vastok), combatentes históricas do MPLA.
Em vez de focar a intensidade das experiências vividas, a memória de Rita Tomás tende a resgatar as pessoas com quem se cruzou na Luta de Libertação na tentativa de comprovar a veracidade do seu relato, “Ainda no CVAAR4 [onde trabalhou] frequentei como assistente o curso de enfermagem, e tive como professores os doutores Américo Boavida, Edmundo Rocha, Traça, Rui de Carvalho, Pestana, Manuel Boal, João Vieira Lopes e Manuel Videira” (s.d., p.22). “Compiladores” é o nome que os críticos da escrita testemunhal usam para excluir o Testimonio do cânone literário, no entanto parece que o que está em questão não é a literariedade deste género textual, mas, sim, o não reconhecimento da escrita testemunhal como uma espaço onde o subalterno pode ser ouvido, como nos diz Spivak em Pode o Subalterno Falar? (2010) ao recomendar que o intelectual pós?colonial trabalhe “contra” a subalternidade, “criando espaços nos quais o subalterno possa se articular e, como consequência, possa também ser ouvido” (S. ALMEIDA apud SPIVAK, 2010, p. 14).
Quando a autora faz considerações sobre a realidade vivida, fá?lo para sublinhar as dificuldades da guerrilha e as consequências de quem se envolvia: “alguns [camaradas] só queriam luta política; desprezavam a luta armada, talvez por medo, pois, o maqui exigia muito sacrifício e riscos à saúde” (TOMÁS s.d., p. 22).
Beatriz Sarlo cuida que no testemunho se misturam “argumentos de sua verdade, suas legítimas pretensões de credibilidade e sua unicidade, sustentada na unicidade do sujeito que enuncia com a própria voz, pondo?se como garantia presente do que diz…” (2007, p. 37). A escrita da história confronta?nos com memórias em conflito e o MPLA tem todo um historial de “narrativas oficiais” que têm sido postas em causa por memórias dissidentes e pelos historiadores. Rita Tomás, ao relatar a experiência da divisão interna do MPLA em 1963, Leopoldville, conflito do qual foi testemunha entre os “ex?dirigentes Matia Miguéis, Graça Tavares e Viriato da Cruz” por um lado e por outro o MPLA dirigido por Agostinho Neto, chama a atenção para um conflito interno e desafia a historiografia oficial, expondo pessoas e acontecimentos silenciados no MPLA.5 A autora vincula-se “à amizade [que esses ex?combatentes fizeram] com Holden Roberto” da FNLA, e relata que durante a reunião a 7 de julho de 1963 “ouviu?se três tiros [e] um tiro bateu precisamente onde eu e a Maria Carneiro estávamos sentadas, e caso não aplacássemos, uma de nós seria morta. (…) Quando saímos, Holden Roberto estava defronte do jardim do CVAAR a apreciar o sucedido! Isto é verdade, porque estive presente”. E remata: “Esta é uma grande lição da história que não posso esquecer; cresci no MPLA e muita coisa tenho comigo. Estava assim, dividida a nossa juventude” (s.d., p. 25?26). A autora usa na escrita dispositivos da literatura oral com a intenção de enunciar um sentido de veracidade e autenticidade. A seguir, ainda sobre este incidente comenta, “Gostaria de esclarecer que o Dr. Mário Pinto de Andrade, no dia 7 de julho de 1963, não esteve em Leopoldville, aquando dos incidentes com a Facção Viriato da Cruz. (…) Por isso, quando algumas pessoas falam que o Dr. Mário Pinto de Andrade estava presente, isso não constitui verdade. Sou testemunha viva. Ele, após o reconhecimento do GRAE, 6 ausentou?se. Não gostava de confusão, era doente e dizia?nos sempre que nunca aguentaria fazer uma longa marcha” (s/d., p. 48). “More than an interpretation of reality”, notes Jara (…) what is important about testimonio is that it produces, if not the real, then certainly a sensation of experience the real” (BEVERLEY, 2004, p. 40).
Em novembro de 1963 a autora seguiu, integrada num grupo de dez jovens, para a URSS, onde fez o “Curso Médio completo de enfermagem” na cidade de Luvov. Anos depois, para cumprir a palavra de ordem de Agostinho Neto “todos para o interior”, regressou ao maquis em 1968, através de Dar?es?Salem na Tanzânia e fez treinamento militar com combatentes moçambicanas da FRELIMO antes de se juntar aos camaradas colocados no interior do país, na 3ª Região Político?militar, tendo atuado como guerrilheira e enfermeira na zona B, da Base Mandume III.
São frequentes os silêncios e a ausência de qualquer comentário sobre uma estadia longa de cinco anos na URSS levando o leitor a se interrogar o porquê desta omissão. A passagem pela Tanzânia condu?la, no entanto, a solidarizar?se e a prestar homenagem à camarada Margarida Chipenda, que “conduzindo camiões pesados de marca Magiros e outros (…) foi uma mulher incansável (…) nos seus afazeres de logística no Porto de Dar?es?Salem” (TOMÁS, s/d.,p.29). “Each individual testimonio evokes an absent polyphony of other voices, other possible lives and experiences” (BEVERLEY, 2004, p. 34), afirma Beverley.
Na mata, respondendo a uma pergunta da Delegação do Comité de Libertação da OUA de visita às zonas libertadas, sobre o papel das mulheres na Luta, a autora escreve: “Nós mulheres, embora poucas em número, respondemos que estávamos ali por vontade própria e dispostas a cumprirmos com as Palavras de Ordem: Todos Para o Interior e a Vitória ou Morte” (s.d., p.36). Mais à frente acrescenta, “Para que se recorde os nossos nomes: Rita Tomás, Alice Kolombo (Lemba), Lídia Cadete, Luísa Quarta e Margarida Ferreira (Guida Ferreira) no VC (…) aqui fica expresso o meu testemunho” (s.d., p.47), um testemunho que recusa o silenciamento e a lembrar que as mulheres também estiveram na mata e participaram na Luta de Libertação.
As memórias são um campo de batalha e em 1972/73, Rita Tomás coloca o leitor perante outra divisão no seio do MPLA e atribui a conspiração à fação Chipenda na Frente Leste e a camaradas “oportunistas e desonestos” que, “quando estavam com Agostinho Neto tinham um procedimento e com o Chipenda diziam outra coisa, à volta de grandes manjares, copos e prostitutas. As cabeças de todas estas confusões, raras vezes estiveram no interior” (s/d., p.39). Na descrição das razões deste conflito (que viria a dar origem ao Reajustamento da Frente Leste, quando Agostinho Neto foi confirmado na presidência e Chipenda se afastou do MPLA), o tom subjetivo marca o depoimento que se quer instrumento da verdade, mas como Sarlo defende, “todo o testemunho quer ser creditado, mas nem sempre traz em si mesmo as provas pelas quais se pode comprovar a sua veracidade” (2007, p.37).
No capítulo intitulado “Entrada em Angola – 1975”, após o fim da Luta de Libertação e início da Guerra Civil, nos confrontos com a UNITA, a autora relata que participou da defesa da sede do MPLA no Lobito, com a sua filha Tomásia às costas e sob o comando do comandante Katondo, seu marido. No meio da guerra é celebrada a proclamação da Independência da República Popular de Angola:
Mais alegre fiquei aquando da proclamação, no dia 11/11/1975, na voz do nosso saudoso Guia Imortal, o Presidente António Agostinho Neto, da independência nacional, porque o MPLA cumpria assim com o seu programa mínimo. E com coragem vencemos, foi mesmo a Vitória Certa! (TOMÁS, s.d., p. 44)
Com alguma nostalgia de uma época considerada heroica e numa retórica triunfalista e acrítica, a autora confirma nas entrelinhas dos não?ditos que a Luta de Libertação, a estratégia da luta armada valeu a pena, sendo este livro (apesar das divisões internas enunciadas) sobre uma comunidade de vencedores. E do ponto de vista pessoal? O que aconteceu à guerrilheira que sonhava com a junta médica um ano antes do lançamento do livro? Conseguiu a assistência médica que o seu estado de saúde reclamava? Como já foi dito, o livro foi editado com o apoio do presidente da República, apoio que a autora reconhece nos “Agradecimentos” e onde aproveita para invocar José Eduardo dos Santos como antigo companheiro de luta:
A Sua Excelência o Senhor Presidente da República de Angola, Engenheiro José Eduardo dos Santos, meu antigo companheiro de luta contra a opressão colonial portuguesa, pelo apoio brindado para que esta obra deixasse de ser apenas um sonho (TOMÁS s.d., p.7).
No lançamento também estiveram presentes membros do Comité Central do MPLA e da OMA (Organização da Mulher Angolana), o que parece indicar que a autora conseguiu mobilizar apoios institucionais do Estado e do partido MPLA para a sua causa e, através de uma escrita vinda das margens sociais, capturar o “centro”, associando-se assim à elite política dos que venceram no MPLA.
Em 2004/2005, a situação dos Antigos Combatentes da Luta de Libertação Nacional era de grande insegurança pessoal. O ministério estimava em 120.000 os Antigos Combatentes que participaram na Luta e apenas um quarto beneficiava do fundo de pensões. O processo de atribuição da patente de brigadeiro a Rita Tomás já tinha sido concluído na altura em que o artigo foi difundido e podemos especular que a pensão da Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas concedida aos oficiais na reforma, também terá começado a ser paga no seguimento da divulgação da sua situação na comunicação social e do livro que estava a escrever. Ao contrário do artigo, a ausência de vitimização no livro impresso confirma a cogitação. Rita Tomás, através dum processo de empoderamento, terá utilizado a arma do testimonio e o trabalho de memória e da escrita para conseguir ultrapassar a situação de subalternidade em que se encontrava no MPLA e assim transformar a sua vida, o que não invalida o valor testemunhal que a obra encerra ao inscrever-se como guerrilheira na Luta de Libertação através da narrativa.
Esta incursão de Rita Tomás na escrita biográfica, o testemunho do seu passado na guerra, o desejo que manifesta de participar na “vida concreta” como ator social, a determinação de intervir no mundo que a rodeia recusando o papel de mulher sem voz, revela a ênfase do seu agenciamento ou gender empowerment (ORTNER, 2007) que emergiu da sua experiência de vida como pessoa e sujeito da sua própria história. West na esteira de Fanon (1967) aponta que as mulheres que combateram de armas nas mãos demonstram grande confiança e autoestima com a sua participação na guerrilha (WEST, 2000, p.109) e Paredes (2014) defende que a participação das mulheres na Luta Armada reforçou a luta pela emancipação feminina ao assumirem papéis que lhes estavam interditos anteriormente (2014, p.i). Por outro lado Pranee Laimputtong (apud NEVES, 2012, p.77) diz-nos que “as vidas individuais carregam um legado coletivo, contendo elementos que ilustram também a memória social de um grupo ou de uma comunidade” e este pequeno livro de memórias no feminino sobre a Luta de Libertação em Angola revela-nos que, se por um lado as antigas guerrilheiras combateram na guerra, na paz passaram a ter que se bater pelo reconhecimento dos seus passados de luta para não ficarem relegadas às margens da nação. A obra de Rita André Tomás mostra como as representações de género que estão a ser construídas em Angola para homens e mulheres ex-combatentes não são simétricas e instituem uma hierarquia de subordinação na qual os homens que combateram representam a nação numa posição superior à das mulheres combatentes (PAREDES, 2014, p.206). As memórias de Rita André Tomás destabilizam essa narrativa quase hegemónica da Luta de Libertação no masculino, promovem um espaço de representação das mulheres combatentes no imaginário nacional e questionam a ilusão do sonho nacionalista.
NOTAS
1Arminda Faria, enfermeira foi uma mulher à frente do seu tempo, em 1956 foi para Paris fazer uma especialização em “parto sem dor”, tendo introduzido em Angola esta terapêutica.
2Site Angoflash, edição especial de 4 de fevereiro de 2004, da Embaixada da República de Angola, Serviço de Impresa, Moscovo, “A guerrilheira que sonha com uma junta médica”, p. 5, em:, http://www.docstoc.com/docs/114180036/angoflash?2004?02?04, consultado a 18?05?2013.
3A “verdadeira história” em Angola é vista como uma versão da História que foi silenciada, é inédita nas fontes escritas e não corresponde à história oficial.
4CVAAR, Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados
5No entanto Rita Tomás não comenta o facto de, na sequência desses embates, Matia Miguéis e José Miguel terem sido assassinados, mortes atribuídas ao MPLA de Agostinho Neto.
6GRAE, Governo Revolucionário de Angola no Exílio.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
BEVERLEY, John (2004). Testimonio, on the Politics of Truth. Minneapolis, University of Minnesota Press.
FARIA, Álvaro Manuel de (2012). Arminda, Uala ni Angola ku Muxima, Lisboa, Chiado Editora.
MOORMAN, Marissa (2008). Intonations, a Social History of Music and Nation in Luanda, Angola from 1945 to Recent Times. Athens, Ohio University Press.
NEVES, Sofia (2012). “Investigação feminista qualitativa e histórias de vida: a libertação das vozes pelas narrativas biográficas”, in Maria José Magalhães & al. Pelo fio se vai à meada. Percursos de investigação em histórias de vida. Lisboa, Ela por Ela, p. 69?81.
ORTNER, Sherry B. (2007). “Poder e projetos: reflexões sobre a agência”, in Miriam Grossi & al. (org.). Conferências e diálogos, saberes e práticas antropológicas. Goiânia, ABA, Associação Brasileira de Antropologia. Blumenau, Nova Letra, p. 45-80.
PAREDES, Margarida (2014). Mulheres na luta armada em Angola, memória, cultura e emancipação. Tese de doutoramento, ISCTE-IUL.
RODRIGUES, Deolinda (2003). Diário de um xxílio sem regresso. Luanda, Editorial Nzila.
RORTY, Richard (1985). “Solidarity or Objectivity”, in John Rajchman (org.). Post Analytic Philosophy. New York, Columbia University Press.
SARLO, Batriz (2005). Tempo passado, cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo, Companhia das Letras; Belo Horizonte, UFMG.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty (2010). Pode o subalterno falar? Belo Horizonte, Editora UFMG.
TOMÁS, Rita André (s.d.). Memórias da luta de libertação. Luanda, Artimagem. (Lançado em Luanda no dia 9 de setembro de 2005).
Bio fornecida pelo palestrante.
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos/FAPESP
RESUMO: Atravessando quase toda a segunda metade do século XX, a obra de Natália Correia apresenta uma contribuição relevante para a consolidação de uma literatura de autoria feminina em Portugal, não apenas pelo que produziu em termos de poesia, teatro e ficção, mas também, e sobretudo, pela sua obra ensaística. O presente trabalho tem como objetivo abordar alguns dos seus textos críticos e como a expressão comumente utilizada por ela (o “matrismo”) relacionava-se com os feminismos em voga, tanto num movimento de aproximação, quanto de interrogação. Seus ensaios podem ser lidos, portanto, num viés de afirmação desta intelectualidade feminina em Portugal.
PALAVRAS-CHAVE: Feminismo – Matrismo – Ensaio – Natália Correia.
ABSTRACT: Spanning almost the entire second half of the twentieth century, the work of Natalia Correia presents an important contribution to the consolidation of a literature of female authorship in Portugal, not only for what she has produced in terms of poetry, drama and fiction, but also, and above, by their essays. This paper aims to address some of her critic texts, pointing out how the expression she often employed (“matrismo”) was related to the feminisms then in vogue and indicated both a movement of approach as of questioning. Her essays can therefore be read as an affirmative statement of this feminine intellect in Portugal.
KEY WORDS: Feminism – Matrismo – Essay – Natalia Correia.
Minicurrículo: Jorge Vicente Valentim é doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. É professor adjunto de literaturas de língua portuguesa (literatura portuguesa e literaturas africanas de língua portuguesa) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), vice-coordenador do Programa de pós-graduação em estudos de literatura (PPGLit/UFSCar) e professor colaborador do Programa de pós-graduação em estudos literários da UNESP/Araraquara. O presente texto foi elaborado a partir de pesquisa realizada em Portugal, em outubro de 2014, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
DO ENSAIO COMO DEFESA DO PENSAMENTO MATRISTA: BREVES CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE NATÁLIA CORREIA
Jorge Vicente Valentim
(Universidade Federal de São Carlos/FAPESP)
É no facto de a amada existir como só ela sabe existir, na possibilidade de provocar o delírio da presença absoluta, que ela é portadora da decifração de todos os enigmas. O rosto do ser amado sobrepõe-se à imagem da divindade, ocupa o lugar de deus. O amor sexualiza o universo, que toma a fisiologia da eleita. Assim, cada objecto da paixão absoluta encerra uma cosmogonia. A mulher resume todas as formas, todos os mistérios da Natureza.
(NATÁLIA CORREIA, O surrealismo na poesia portuguesa).
Poeta, ficcionista, dramaturga, ensaísta, política e ativista, Natália Correia (1923-1993) foi, acima de tudo, uma intelectual engajada com as questões reivindicadoras de sua época. Dona de uma escrita singular, manifesta nas suas mais distintas veias de um eruditismo deslumbrante, a autora portuguesa, nascida no arquipélago dos Açores, tornou-se um nome de citação obrigatória quando se fala na literatura portuguesa de autoria feminina na segunda metade do século XX.
Para além do seu trabalho como uma artista produtiva e uma figura controversa e assertiva nas suas convicções, Natália Correia deixou uma obra que ainda carece de leitores atentos, sobretudo, quando se considera que a sua produção se consolidou exatamente numa época conturbada da política portuguesa. Do final dos anos de 1940 até início da década de 1990, a escritora vivenciou desde os anos de chumbo da ditadura salazarista até às expectativas de um processo tenso de redemocratização, criando textos que ora efabulavam nos mais diversos gêneros situações muito próximas do seu contexto político-social, ora refletiam de maneira pontual e direta no âmbito do ensaio sobre a situação dos intelectuais e o silêncio imposto sobre estes pela censura do Estado Novo português.
Valendo-me, portanto, de um recorte específico, mais próximo desta segunda postura, quero aqui recuperar brevemente alguns momentos da produção ensaística de Natália Correia, bem como a sua relevância no cenário cultural português, sobretudo, nas décadas que tal veio criativo e analítico se desencadeou. Ou seja, num período de pouco mais de 40 anos, de 1947 a 1988, a escritora produziu um elenco significativo de reflexões sobre questões várias que vão desde a situação da mulher e sua repercussão na sociedade portuguesa, o papel de Portugal e da língua portuguesa nos cenários europeu e mundial, as múltiplas subjetividades das diversidades sexuais, o culto incoerente ao infantocentrismo, além, é claro de suas posições sobre escritores e obras da literatura portuguesa, dentre eles, Fernando Pessoa, Alamada Negreiros, José Régio, Mário Cesariny e Ary dos Santos.
Na sua prática reflexiva, Natália Correia desenvolveu várias atividades contínuas de ensaísmo, seja no campo jornalístico, publicando em periódicos de projeção no cenário português (Jornal de Letras, Artes e Ideias, Diário de Notícias, Sol e A Capital)[1], seja na produção de obras específicas, tais como Breve História da Mulher (1947), Poesia de Arte e Realismo Poético (1959), A questão académica de 1907 (1962), Uma estátua para Herodes (1974), Somos todos hispânicos (1988) e A Ibericidade na dramaturgia portuguesa (1989).[2]
A par destes títulos, o grande papel de Natália Correia reside exatamente na sua prática ensaística inconformada com o esquecimento e o abandono que certa crítica literária deixou sobre determinados temas e épocas, procurando revisitá-los com um olhar inquieto e desassossegado. Nesta perspectiva, gosto de pensar que foi exatamente na manutenção de uma memória cultural e artística que a autora portuguesa apostou toda a sua atenção de pesquisa e registro de resultados. Em outras palavras, o inconformismo com uma prática de recolha sem qualquer tipo de explicação ou nota informativa parece ter sido o motor do seu trabalho como antologista.
Não será gratuito, por exemplo, perceber que todas as suas compilações vem acompanhada de um extenso e cuidadoso exercício de prefação e apontamentos informativos importantes para a compreensão do objeto selecionado. Estes paratextos funcionam como verdadeiros ensaios, no sentido de que aliam a função introdutória e apresentadora dos prefácios a uma necessidade de reflexão, de “interrogar tudo de novo, numa incessante peripécia da inteligência” (BARRENTO, 2010, p. 34) que a práxis analítica convoca a seu executante.
Destarte, ao olhar para períodos da literatura e da cultura portuguesa pouco habituados a uma leitura menos convencional, como faz em Cantares dos trovadores galego-portugueses, em 1970, quando procura evidenciar, no rastreio sobre a poesia provençal, o espírito de uma época marcada “por um acentuado feminismo” (CORREIA, 2004b, p. 44), evocando pelos textos de Afonso Eanes de Coton, Bernaldo de Bonaval, Joan de Guilhade, Pero da Ponte, Pero Meogo e Pero Velho de Taveirós, dentre outros, a “emancipação da mulher” (CORREIA, 2004b, p. 44); ou em Antologia da Poesia do Período Barroco, em 1982, exatamente numa época em que outros antologistas, tais como Ana Hatherly, por exemplo, interessavam-se por investigar a literatura seiscentista e setecentista; não deixa Natália Correia de imprimir nas páginas dessas duas antologias, bem como nos esclarecedores ensaios que as antecedem, uma criação marcada pela impossibilidade de ceder a modismos, porquanto informa, esclarece e explica com uma perspectiva singular e inovadora os principais eixos condutores dos escritores eleitos e da época em que viveram e produziram.
Não deixa de ser, neste sentido, um ensaísmo de primeira mão, diríamos mesmo avant la lettre, que evoca o espírito da presença feminina, ainda que apenas tematicamente, e que não se conforma com lugares-comuns, reiterando, acima de tudo, a manutenção de uma memória cultural portuguesa, que, apesar de se constituir um bem coletivo, passa necessariamente também pela subjetividade pessoal do antologista. São estes nomes, pertencentes àquela “cúpula da cultura” (CORREIA, 2004a, p. 89), que irão formar o pensamento e a atividade criadora de Natália Correia. O seu ensaísmo, portanto, aparece marcado por uma profunda insatisfação diante da “conjura provinciana” (CORREIA, 2004b, p. 35) que, na sua concepção, impede os espíritos libertários de viverem as suas experiências estéticas até às últimas consequências.
Interessante observar que, já nesta antologia dos Cantares, a insistência sobre a recorrência à imagem da mulher, numa época, até então considerada predominantemente masculina, constitua o avatar do pensamento de Natália Correia, no sentido de defender não uma posição feminista, como seria de esperar, numa intelectual de esquerda, que sempre se posicionou na defesa dos ideais libertários do pensamento feminino. Na verdade, toda a exposição da escritora portuguesa centra-se num inconformismo em aceitar o feminismo enquanto perspectiva cerceadora do homem. Segundo o pensamento de Natália Correia, aceitar o feminismo sem interrogar certos pontos de sua pauta significaria submeter-se cegamente a uma disciplina, e, para ela, esta só é aceitável quando demonstrada enquanto “necessidade ética ou criadora” (CORREIA, 2004b, p. 61). Daí a sua resistência à expressão e a sua adequação a uma outra, capaz de resumir a sua linha de raciocínio. Em 1983, em entrevista a Antónia de Souza, afirma:
Acho que não vale a pena a mulher libertar-se para imitar os padrões patristas que nos têm regido até hoje. Ou valerá a pena, no aspecto da realização pessoal, mas não é isso que vem modificar o mundo, que vem dar um novo rumo às sociedades, que vem revitalizar a vida. Ora bem, a mulher deve seguir as suas próprias tendências culturais, que estão intimamente ligadas ao paradigma da Grande Mãe, que é a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para os impor ao mundo ou pelo menos para os introduzir no ritmo das sociedades como uma saída indispensável para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. É no paradigma da Grande Mãe que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e não feminismo (CORREIA, 2004b, p. 65).
Ora, a partir de sua defesa de um pensamento matrista, capaz de revelar o poder libertário das ações femininas, Natália Correia não nega as discussões e as reivindicações das correntes feministas. Na verdade, a sua postura é de interrogar o feminismo enquanto disciplina cerceadora da criação, daí que a sua preferência resida exatamente na expressão “matrista”, por aquilo de libertário e de união a uma força cosmogônica maior e criadora que evoca. É possível seguir este caminho de leitura da autora sobre a forma de refletir sobre o mundo e a sociedade portuguesa, no sentido de que, ao ser interrogada sobre as heranças deixadas pela Revolução dos Cravos, ela não hesita em pontuar “o surto de uma literatura feminina e de um comportamento feminino que ofertam à nossa sociedade [a portuguesa] uma reinterpretação da vida, uma outra visão da vida” (CORREIA, 2004b, p. 63), como uma das grandes conquistas do evento de 1974.
No entanto, mesmo antes do alvorecer da Revolução dos Capitães de Abril, Natália Correia parece estar decidida a apontar a presença feminina e a sua junção com uma cosmogonia que valida a união com a Grande Mãe como os eixos norteadores para se pensar o momento inaugural da poesia portuguesa. Tendo consciência de que a produção trovadoresca medieval galego-portuguesa encontrava-se inserida no “seio de uma sociedade teocrática” (CORREIA, 1978, p. 15) e, portanto, patrista por excelência, Natália Correia propõe um outro viés de leitura, fora dos padrões já comumente utilizados, ao privilegiar “a originalidade da temática trovadoresca e o porquê de sua deflagração revolucionária” (CORREIA, 1978, p. 15).
Todo o seu rigor de seleção e apuro crítico vão incidir sobre a percepção aguda desta “revolucionária concepção do amor, enraizada na descoberta do espírito feminino” (CORREIA, 1978, p. 15), presente nas mais diferentes cantigas recolhidas na antologia, sempre com o intuito de evidenciar um “verdadeiro culto prestado à mulher” (CORREIA, 1978, p. 15). Na contramão, portanto, de historiadores e críticos que, já nas décadas de 1960 e 1970, sublinhavam a Idade Média como uma época de confirmação de uma Idade dos Homens, a ensaísta portuguesa prefere abordar a produção literária deste contexto, ou seja, de autoria masculina, sob a égide de uma valoração daquele “espírito feminino”.
Parece-me significativo e, portanto, não gratuito, o fato de Natália Correia investir todo o seu tempo na publicação desta obra, tendo em vista que, na França, por exemplo, Georges Duby, movido pelos ideais da corrente da Nova História, já propunha uma leitura da Idade Média por estes caminhos. Basta lembrar, por exemplo, de L’économie rurale et la vie des campagnes dans l’Occident médiéval, de 1962; Hommes et structures du Moyen Âge; e Guerriers et paysans, viie???xiie siècles, ambos de 1973. Em Portugal, os estudos de Manuel Rodrigues Lapa (Lições de literatura portuguesa: época medieval, de 1934, com sucessivas reedições posteriores; e Miscelánia de língua e literatura medieval, 1965) também caminhavam por esta senda. No entanto, não se trata, aqui, de pôr em xeque o valor e a qualidade dos estudos dos dois renomados críticos e historiadores, mas sim de pontuar um nítido inconformismo de Natália Correia em relação ao ponto de vista essencialmente masculinista adotado, que parecia não agradar a concepção da compiladora e investigadora portuguesa.
Destarte, a sua recusa a determinados procedimentos de análise, crítica e recolha que “deixam na sombra os pressupostos éticos sem os quais é inapreensível a substância desse florescimento poético” (CORREIA, 1978, p. 16). Por isso, os mais reconhecidos poetas desta corte (Martim Codax, Pero da Ponte, Pero Meogo e D. Afonso X, dentre outros) não deixam de comparecer com os mais diferentes tipos de cantigas, em que a imagem icônica da mulher emerge como cerne e elemento inspirador das composições poéticas.
Gosto de pensar, portanto, que o ensaio de Natália Correia pode ser lido como uma forma também de se reinterpretar determinadas etapas da história da literatura portuguesa e de ofertar uma outra visão da cultura portuguesa, fora dos eixos de uma “racionalidade masculina”. A atenção da ensaísta concentrar-se-á, inclusive, em temas esconjurados pelo provincianismo arraigado no cenário artístico português. Tanto que a sua Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, de 1965, logo sentiu o bafo da censura ao ser recolhida pela PIDE diante da constatação que o conteúdo da obra feria o ato instituído pelo Estado Novo de “educar os espíritos para o bom gosto” (CABRERA, 2013, p. 28). Não será à toa, portanto, que David Mourão-Ferreira, em sua breve apresentação, chama a atenção do leitor para o fato de que a coragem da compiladora iria despertar incômodos nos espíritos mais ortodoxos e tradicionais, acomodados ao “bom gosto”, imposto pela política da época:
Como é possível que uma Antologia como esta ainda não tivesse sido realizada? Mas devemos antes felicitarmo-nos pelo facto de só agora ser empreendida. Com efeito, ninguém melhor do que Natália Correia – com a profundidade e com a extensão de sua cultura, com a indiscutível garantia do seu génio poético, com as provas exemplares da sua coragem cívica – poderia superiormente desempenhar-se desta empresa. Obra de erudição, de criação e de civismo, há-de constituir, para os vindouros, um documento indispensável e o nome da sua autora tornar-se-á credor da mais legítima gratidão; mas é provável que também suscite, em meia dúzia de paranoicos, em duas ou três dezenas de recalcadas, a sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (apud CORREIA, 1999, p. 9-10).
Apesar do tom laudatório e positivo do grande poeta e ficcionista português, nada impediu o corte que a obra sofreu. Interessante observar que todas estas contrariedades acabaram por sedimentar aquele espírito inconformista com a imposição de regras que marcaria o pensamento intelectual de Natália Correia. Aliás, ela própria deixa esta postura em evidência, quando, em entrevista, declara tacitamente: “Descobri, mais tarde, particularmente em trabalhos para que se exigiam disciplina e estrutura, que não podia vergar-me a regras que me fossem impostas de fora. Eu é que as tinha de criar” (CORREIA, 2004b, p. 40).
Por esta perspectiva, não será difícil perceber que a inadaptação movimenta o pensamento e a produção intelectuais da ensaísta, visto que, em sequência destes fatos, ela ainda iria publicar as antologias A mulher e o surrealismo na poesia portuguesa, ambas em 1973. Desta díade, interessa-me, sobretudo, a última obra, já que, a exemplo da Antologia de 1965 – onde persegue, de Martim Soares (1220ca-1260ca) a Dórdio Guimarães (1938-1997), as temáticas do “desfasamento satírico com uma irreprimível feição licenciosa” (CORREIA, 1999, p. 23) e da “fulguração carnal da mulher” (CORREIA, 1999, p. 31) – também nesta, de 1973, Natália Correia debruça-se sobre uma corrente de vanguarda e desata os nós historicistas que a prendem temporalmente ao século XX, num longo e extenso estudo de casos perceptíveis na literatura portuguesa.
Aliás, é precisamente contra uma concepção historicista castradora que Natália Correia se posiciona, talvez, porque entenda tal forma de pensar os passos de uma expressão artística como uma força disciplinadora pouco produtiva. Daí a sua compreensão da história como “o ponto de vista que menos convém aplicar à unidade poética do surrealismo” (CORREIA, 1973, p. 7), posto que qualquer redução histórica sobre as propostas estéticas do ato vanguardista “obscureceria as aparições espontâneas que organizam o movimento surrealista” (CORREIA, 1973, p. 7).
Vale destacar que não se trata simplesmente de pensar o Surrealismo enquanto uma corrente anarquista que pregava uma liberdade sem medida. Seu pensamento aponta para a reconhecida corrente estética do século XX como um movimento transistórico, capaz de ultrapassar as barreiras cronológicas e de abarcar diferentes ciclos epocais. Segundo Natália Correia, aí estaria a singularidade do pensamento criador dos surrealistas, qual seja, numa liberdade que transcende as amarras historicistas e reverbera em diferentes contextos artísticos, conforme deixa claro no ensaio “A insurreição do saber surrealista contra o conhecimento”, de 1972:
Coube ao Surrealismo compreender o drama desta polaridade da literatura fatalizada pelo histórico e é contra este que as vozes surrealistas erguem o protesto de uma ultrarracionalidade que quer devolver a literatura à sua essência sapiencial. É neste sentido que o Surrealismo toma severas precauções contra o literário que concerne uma literatura historicizada, entendendo-a como a expressão de uma sabedoria fundante que se exerce contra a relatividade do histórico.
Enquanto presa dessa relatividade, o homem não é livre. Só o será quando puder aplicar a cognoscibilidade que o desprendimento surrealista do histórico lhe confere (CORREIA, 2004a, p. 155).
Nesta busca por uma compreensão da fuga de relativismos historicizantes, Natália Correia propõe, assim, uma espécie de antologia transistórica, em que o Surrealismo seja perceptível não apenas em escritores com uma sintonia singular (tais como Mario Cesariny, Cruzeiro Seixas e Alexandre O’Neil), mas em autores anteriores, contemporâneos e posteriores ao movimento de vanguarda (como são os casos de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Raul Brandão, Maria Teresa Horta e Luísa Neto Jorge, por exemplo).
Ora, não deixa de ser ousada a posição de Natália Correia, não apenas em termos estéticos, porque abre a conceituação da corrente vanguardista para uma abordagem epistemológica que transcende as considerações contextuais, mas também em termos ideológicos, já que, ainda num clima de insegurança política, em 1972-73, a escritora revigora o seu posicionamento reivindicativo ao falar abertamente de vozes literárias que “erguem o protesto” e do homem, enquanto presa de um condicionalismo que impede o pleno exercício de sua liberdade.
Se, por um lado, esta proposta repousa no próprio cerne da estética em questão, conforme sugerida no Primeiro Manifesto, de 1924, em que André Breton, “cioso da autonomia da abordagem surrealista, não se exime, por coerência com a doutrina cinética do surrealismo, a reconhecer-lhe antepassados” (CORREIA, 1973, p. 7), por outro, ela também não deixa de colocar em evidência a reivindicação de um discurso feminino que chama para si a responsabilidade de pensar os caminhos da arte e da literatura portuguesas fora dos padrões patristas (como bem preferia chamar Natália Correia).
Parece-me, portanto, significativo que, nesta postura ensaística de Natália Correia, se reconheça uma poética de afirmação matrista, num contexto português em que as conquistas alcançadas pela segunda leva dos feminismos ainda carecia de propagação, em virtude do controle exercido pelas forças cerceadoras do Estado Novo salazarista sobre os veículos culturais. Vale lembrar, neste sentido, que os anos de 1960 e 1970 foram, talvez, os mais duros para a classe intelectual, sobretudo, para as mulheres. Segundo Manuela Tavares, estas duas décadas tinham em comum um mesmo quadro de fundo, “um país onde a luta contra ditadura salazarista, cerceadora das mais elementares liberdades, continuava a absorver todas as energias e onde as dimensões de classe e de género não se cruzavam” (TAVARES, 2010, p. 536-537).
Neste sentido, concordo com Manuela Tavares, quando afirma que, neste cenário árido para a consolidação das conquistas feministas em Portugal, sobressaiam as Novas cartas portuguesas, uma obra de tríplice autoria feminina (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa), que desestabilizou definitivamente as certezas masculinistas na percepção da sociedade portuguesa. Mas, não se poderá negar que, de igual modo, também, no mesmo ano desta publicação, em 1972, Natália Correia já iniciara seu projeto de antologia d’O Surrealismo na poesia portuguesa, sem falar nas suas inúmeras contribuições, registradas em jornais de Angola e Portugal, em ensaios reivindicativos, tais como “A emancipação feminina ou o triunfo da beleza” (Notícia, Luanda, 1969), “Vêm aí as amazonas” (Notícia, Luanda, 1969), “Cultura feminina” (Diário de Notícia, Lisboa, 1970), “A verdade e a moda” (Notícia, Luanda, 1970), “O manifesto S.C.U.M” (A Capital, Lisboa, 1970), “A morte de Elsa” (Notícia, Luanda, 1970), “As feministas inglesas que sempre foram assexuadas” (Notícia, Luanda, 1970) e “O pingue-pongue das feministas: pouca ou muita vergonha?” (Notícia, Luanda, 1970).
Longe, portanto, de se afastar das questões e das pautas feministas, o pensamento matrista de Natália Correia vem dar uma contribuição definitiva para o pensamento intelectual e literário de Portugal, na segunda metade do século XX. Basta observar, por exemplo, as suas propostas emancipadoras e ousadas, contidas no capítulo conclusivo de Breve História da Mulher (“A legitimidade dos direitos femininos”), e publicadas já em 1947: “Se a mulher é eleitora e elegível, se tem voto consultivo na orientação política e económica dum país, porque levantar-lhe obstáculos à execução das decisões que também trazem a firma do seu voto?” (CORREIA, 2003, p. 112). Olhado no seu contexto específico, tal ousadia não deixa de ter repercussões proféticas já que, somente em 1979-1980, Portugal teve uma mulher em exercício no cargo de Primeiro-Ministro (Maria de Lourdes Pintassilgo).
Seja, portanto, pelo ponto de vista ideológico, seja pela perspectiva estética, a práxis ensaística de Natália Correia não deixa de reivindicar uma defesa do pensamento matrista, bem como aponta para uma possibilidade outra de se repensar a cultura e a literatura portuguesas, reintegrando-as dentro de uma perspectiva que ousa rasurar os racionalismos patristas.
Se, conforme tentamos demonstrar, este “escasso número de casos decisivos” (CORREIA, 2004a, p. 89) é composto por nomes e títulos eleitos pela escritora para formar a sua biblioteca particular, não se pode esquecer que tais objetos literários, que vão desde os Cantares medievais às transposições transistóricas do Surrealismo, constituem o alvo de uma paixão absoluta da autora, e, por isto mesmo, carregam consigo toda uma cosmogonia que Natália Correia intenta deslindar.
Talvez, por isso, Natália Correia, em suas considerações sobre O Surrealismo na poesia portuguesa não hesite em afirmar que “todos os mistérios da Natureza” (CORREIA, 1973, p. 82) se encontram resumidos na mulher, porque somente ela seja capaz de exercer este poder remissivo, analítico e concentrador.
Referências bibliográficas:
CABRERA, Ana. “Censuras e estratégias censurantes na sociedade contemporânea”. In: CABRERA, Ana, coord. (2013). Censura nunca mais: a censura ao teatro e ao cinema no Estado Novo. Lisboa: Aletheia, 2013, p. 15-75.
CORREIA, Natália (1999). Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Lisboa: Antígona.
CORREIA, Natália (2004a). A estrela de cada um. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria Editora.
CORREIA, Natália (2003). Breve história da mulher e outros escritos. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria.
CORREIA, Natália (1978). Cantares dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Estampa.
CORREIA, Natália (2004b). Entrevistas a Natália Correia. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria Editora.
CORREIA, Natália (1973). O surrealismo na poesia portuguesa. Lisboa: Edições Europa-América.
TAVARES, Manuela. (2010). Feminismos: percursos e desafios (1947-2007). Porto: Texto Editores.
NOTAS
[1] Sobre a prática de publicação de textos em jornais, que, muitas vezes, absorvem aspectos genológicos de empréstimo, Helena Carvalhão Buescu alerta para o fato de que não se deve “negligenciar a produção jornalística onde, nomeadamente através do uso da forma ‘crónica’, é possível encontrar intervenções que, em nosso entender, tem um lugar definido adentro da prática ensaística” (1997, col. 290). Em outras palavras, não se pode negar que o ensaísmo circula também entre títulos produzidos para e publicados pela imprensa.
[2] Alguns desses títulos não foram publicados em forma de volume em vida da autora. Breve História da Mulher e outros escritos, por exemplo, veio à lume postumamente, graças ao trabalho cuidadoso de edição de Zetho Cunha Gonçalves, em 2003.
Bio fornecida pelo palestrante.
Giulia Spinuzza
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Sumário: O presente trabalho pretende analisar um aspecto da obra de Glória de Sant’Anna, poeta de origem portuguesa que esteve radicada em Moçambique de 1951 até 1974. Para demostrar que sua escrita rasura o problemático limite entre o dizível e indizível, será abordada a temática do silêncio enquanto elemento fundamental dessa poética intimista de autoria feminina. Veremos de que forma o silêncio molda o discurso poético de Glória de Sant’Anna e quais as possíveis interpretações críticas deste elemento temático, que questiona a representação da identidade e intimidade poética da autora.
Palavras-chave: silêncio, poesia moçambicana, intimismo, autoria feminina.
Currículo da autora: Mestre em Estudos brasileiros e africanos, é actualmente doutoranda da Faculdade de Letras de Lisboa com uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É membro colaborador do CEsA (ISEG, Universidade Tecnológica de Lisboa). Atualmente desenvolve uma tese sob orientação da Professora Ana Mafalda Leite (UTC) e co-orientação da Professora Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco (UFRJ). Em 2012 publicou o capítulo “Reconfiguração da nação em Janela para Oriente de Eduardo White” na colectânea de ensaios Nação e narrativa pós-colonial I: Angola e Moçambique (Leite et al., orgs.). Em junho de 2013, publicou o artigo “O cânone poético em construção na literatura moçambicana” na revista Mulemba.
Uma poética do silêncio: a poesia intimista
de Glória de Sant’Anna
Giulia Spinuzza
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Glória de Sant’Anna (1925-2009) é uma poeta de origem portuguesa que esteve radicada durante duas décadas em Moçambique. O mar, a viagem, o silêncio e a solidão são algumas das marcas da sua escrita introspectiva. Começa a publicar em 1951, ano de chegada à sua terra adoptiva e afectiva.
A poesia de Glória de Sant’Anna, que se insere na linha da lírica intimista, estabelece um diálogo com outros poetas moçambicanos das décadas de 1950 e 1960 e a sua obra será retomada por poetas que se afirmam logo após a independência do país. É possível encontrar na escrita dessa poeta ecos de outras vozes femininas de língua portuguesa, como é o caso, por exemplo, de Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen. São as temáticas aquáticas, as linguagens submarinas e as viagens náuticas alguns dos elementos que acomunam a escrita destas autoras.
A obra poética de Glória de Sant’Anna desenvolve dois grandes núcleos temáticos, um veiculado à poesia sobre os “outros”, da qual emergem mulheres, meninos e pescadores moçambicanos, para além do drama da guerra colonial, e outro mais intimista, centrado sobretudo na solidão e no silêncio.
A poesia lírica intimista privilegia uma visão introspectiva, na qual a representação do mundo é, na maioria dos casos, veiculada à função de “espelho” do sujeito. O olhar introspectivo tenta definir os limites e percursos da própria intimidade a partir da imagem do mundo exterior. Todavia, no percurso poético introspectivo há algo que é silenciado, porque há uma luta constante entre o que é dito e o que não é dito; por esta razão, a poesia de Glória de Sant’Anna rasura o limite entre o dizível e o indizível. Como escreve Clarice Lispector em A hora da estrela: “a minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não tem uma só palavra que a signifique” (2002, p. 13). Também a poesia de Sant’Anna nega a possibilidade de exprimir-se plenamente através da palavra, pelas limitações conexas à linguagem: “A palavra/ é uma leve medida onde não me contenho/ e meu cílio parou sobre o pensamento” (1954, p. 37). Dessa impossibilidade emerge a vocação para o silêncio, que não corresponde exclusivamente ao não dito porque, como afirma Eni Puccinelli Orlandi, “o silêncio não fala, ele significa” (2011, p. 42).
Partindo do pressuposto de que, como diz Max Picard, “o silencio é mais do que uma simples renúncia à palavra” (1953, p. 1, tradução livre), propomos analisar as várias formas do silêncio na poética de Glória de Sant’Anna com o apoio de alguns textos críticos e filosóficos, numa perspectiva de análise já inaugurada por Guilherme de Sousa Bezerra Gonçalves (2013).
O silêncio está presente em diferentes meios de expressão artísticos, como a literatura, a pintura e o cinema. Na literatura, o silêncio tem adquirido, assim como em outras formas de expressão artísticas, funções e significados diferentes ao longo das épocas. O silêncio, por exemplo, pode estar conexo à censura, ao interdito ou ao pudor. No nosso caso, a temática do silêncio combina-se com outros elementos, entre os quais o secretismo, o pudor da intimidade, a solidão, a necessidade de definição de um limite verbal e existencial, a incomunicabilidade da intimidade do sujeito e o horror da guerra. Como sugere Picard, “o silencio adquire mil formas diferentes” entre as quais predomina “a imagem do silêncio do nosso interior” (1953, p. 10, tradução livre). As conexões estabelecidas a partir do silêncio demonstram então a complexidade do tecido poético estruturado à volta deste elemento.
Na capa do primeiro livro publicado por Glória de Sant’Anna recém chegada a Moçambique, Distância (1951), entre uma fracção riscada e uma mancha de tinta, apresenta-se o seguinte verso: “Tão grande o silêncio/ trazido”. O silêncio é o elemento propulsor da poética desta autora desde o primeiro livro publicado. Tal como sugere o auto-retrato traçado pela poeta, o silêncio é a medida de significação do sujeito e a marca do seu perfil: “Aqui me tens ajoelhada,/ de mãos abstractas/ e pálpebras descidas no silêncio” (SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 67).
No segundo poema de Distância, o silêncio é associado ao tempo e à noite, como podemos ler nos seguintes versos: “O relógio/ marca o silêncio do Tempo:/ a noite/ veste o silêncio/ nas casas que dormem/ Eu tenho um oásis/ na alma/ de penumbra verde/ da calma noite” (SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 11). Relativamente ao binómio tempo/silêncio, Picard nota que estes dois elementos são estritamente ligados, porque silenciosamente avançam os dias e as estações ao longo do ano (1953, p. 85, 88). O tempo, que se dilata silenciosamente, é acompanhado e definido pelo silêncio que o habita e só o relógio contraria esta natural afiliação, ao marcar os instantes que irrevogavelmente avançam.
Se a imagem do silêncio e do tempo é menos comum, a do silêncio e da noite é mais recorrente. Noite e silêncio partilham a ideia de ausência, de luz, no primeiro caso, e de som, no segundo. Para além disso, a noite tem em comum com o silêncio a ideia de amplitude e vastidão, sendo que o poder de ambos é penetrar nos espaços privados e protectores, as casas, durante o momento mais vulnerável do homem, o sono. Também Picard sublinha a relação entre noite e silêncio: “à noite, o silêncio aproxima-se da terra; (…). O silêncio da noite dissolve as palavras do dia (…)” (1953, p. 108, tradução livre). A ideia de dissolução das palavras pode estar associada à ausência de memória, como demostram os versos de outro poema, “Ausência”, de Livro de água, que combinam a ideia de noite e de silêncio com a de memória:
Hoje nem saudade. O antigo vento é morto.
Dentro da noite
anda um silêncio absorto,
sem peso nem memória.
As casas pardas. Ausente a grande lua.
Dentro da noite,
cresce uma vã ternura
que ficará lá fora […].
(SANT’ANNA, Glória de, 1961, p. 30)
A temática da ausência de memória, conexa à da nulidade do passado e à da transitoriedade do presente, tem a ver com uma específica concepção do tempo, relacionada à efemeridade da vida humana. A noite, que exerce sua atracção sobre o silêncio, faz prevalecer a ideia de ausência, que dá o título a esse poema.
A este ponto perguntamos se é possível estabelecer uma relação entre silêncio e memória. Se, por um lado, o silêncio pode ser considerado um elemento propulsor da memória, porque favorece o processo de retrospecção necessário para lembrar o passado, por outro lado, pode evocar o nada, o vazio, o leve e o efémero. A ideia do silêncio-vazio, que remete para a concepção do silêncio enquanto ausência de som, contrasta com o facto de o silêncio ser muitas vezes relacionado à musicalidade. A relação silêncio/música integra a reconhecida relação entre a poesia e a música.
Como sabemos, a poesia lírica implicava a presença de um acompanhamento musical, a lira, desde o tempo dos gregos e dos romanos; também na época medieval as produções poéticas eram criadas para serem cantadas pelos trovadores. A poesia moderna e contemporânea reelabora criativamente e de formas distintas a questão da música e da musicalidade; é por isso que Steiner refere a existência de um topos que vê a poesia enquanto um caminho que, em sua intensidade máxima, conduz à música (1988, p. 62). Ainda segundo Blanchot, o verso orienta a linguagem segundo um movimento, uma trajectória rítmica, que aproxima a poesia da música (1999, p. 41). Considerando o facto de que o silêncio, pode ser visto não tanto em oposição às palavras, mas enquanto sua realização máxima, porque com as palavras é possível criar o silêncio (BLANCHOT, Maurice, 1999, p. 42), podemos dizer que este é presente na poesia como harmonia perceptível, enquanto música (PICARD, Max, 1953, p. 13).
Na poética de Glória de Sant’Anna a associação entre música e poesia é feita através da presença do silêncio, porque este representa a harmonia interior, que é reconduzível à musicalidade:
Silêncio aberto
de plenitude
como uma ilha
num lago fundo.
Silêncio exacto
cheio de música
vindo de nada
contendo tudo.
É este agora
deste momento
em que estando
me ausento.
(SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 33)
No poema citado há uma comunhão entre elementos aparentemente oximóricos: silêncio>música e nada>tudo. Todo o poema constrói-se através de categorias opostas: a ilha, que é o elemento de comparação do “silêncio aberto”, é na verdade uma porção de terra fechada pela água; e o silêncio, “cheio de música”, reconfigura a harmonia interior do sujeito e da poesia.
A última estrofe deste poema evidencia outra ambivalência: a do homem e a do sujeito poético; porque, para ser poeta, o eu-lírico tem que se “ausentar” do homem. O poema reafirma a ideia de Octávio Paz segundo o qual “a poesia nasce no silencio (…), mas aspira irresistivelmente a recuperar a linguagem enquanto realidade total” (1992, p. 282). Nesse sentido, podemos dizer que, no caso de Glória de Sant’Anna, o silêncio permite recuperar a harmonia do sujeito com o mundo à sua volta, através da linguagem poética.
A relação entre música e poesia, enunciada pelo poema citado, leva-nos a reflectir sobre o título de outro livro de Glória de Sant’Anna: Música ausente (1954). O livro funda-se na presença-ausência da memória e do passado, sendo que o sujeito, despojado de seus limites temporais, já não se reconhece no espelho do tempo. Assim, o título pode ser lido como uma referência à ausência da lembrança e da sua música interior, substituídas pela presença avassaladora do silêncio da poesia.
A ausência do passado, da memória, da lembrança e a ideia de um sujeito errante num espaço e tempo indefinidos remetem para o questionamento da identidade. O caminho da poesia vivencia então a impossibilidade de comunicar o indizível da alma:
Aqui estou inteira:
de memória ausente,
sem fisionomia
– como uma medalha.
Aqui estou inteira
para ser guardada
no fundo do tempo
onde não há nada.
(SANT’ANNA, Glória de, 1954, p. 61)
O sujeito mantém sua integridade, porém o seu limite se desfaz, num percurso de anulação temporal e espacial. Este poema, que sublinha o desmoronar-se das coordenadas temporais, complementa a imagem de outro poema, no qual se apresenta o movimento de dispersão do sujeito:
Força esta
que me dispersa…
Eu venho do brado das quedas da água,
e da melodia das ondas do mar,
e do céu infindo,
quando há lua cheia.
(SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 9)
Aqui, o sujeito reencontra a sua origem primordial nos elementos da natureza, cujas forças de dispersão o desprendem das amarras terrestres e lhe permitem alcançar o espaço infinito do mar e do céu. Ao lado deste movimento de expansão, notamos que há também um percurso paralelo de introspecção. E, nesta indagação interior, o silêncio torna-se no elemento que melhor define a intimidade do eu lírico, porque cela o indizível, o segredo.
Relativamente à relação entre secretismo e silêncio, podemos dizer que na poesia intimista a palavra não dita (ou, neste caso, escrita) deriva do facto de que, como bem explica Paula Morão, “a natureza do enigma reside no segredo da própria linguagem, e na luta travada entre um eu que se quer conhecer dizendo-se e a obscuridade da palavra. Escrever sobre o eu, e sobre o eu íntimo, é desafiar a esfinge e, como Édipo, incorrer nos perigos de tal empresa (…)” (2011, p. 49). Assim, o silêncio é também fruto das limitações da palavra e da linguagem no percurso de (re)conhecimento interior.
No “Segundo poema da solidão” (SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 47) a imagem do secretismo é criada através da referência ao elemento aquático que, devido à sua fluidez, não pode ser “capturado”. O movimento da água reflecte não só a transitoriedade do próprio sujeito, mas a sua inteligibilidade relacionada ao secretismo:
Serei tão secreta
como o tecido da água
e tão leve
e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem
e todo o alheio pecado
do gesto, da presença ou da palavra
que logo que a tua mão me prenda
me não achará:
serei de água.
(SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 47)
Neste texto, s poesia viaja até os meandros do eu e o sujeito cumpre uma leitura da própria imagem no reflexo da água para descobrir, por intermédio da palavra, os lugares mais recônditos da própria alma. Podemos dizer que o intimismo está conexo ao narcisismo, na medida em que indagar sobre o eu permite concentrar-se na própria imagem. Mas, ao contrário de Narciso, o poeta vê na água muito mais do que a própria imagem. Define-se, assim, uma paisagem animizada e em permanente trânsito, impossível de se fixar temporal ou geograficamente.
O silêncio deve ser lido como um dos aspectos da poesia intimista que definem não só a escrita da poeta, mas também o seu enigmático rosto: “Este é o silêncio:/o silêncio exacto/ que permanece/ na curva do meu lábio” (SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 45). Nestes versos o silêncio torna-se parte constitutiva do ser, porque “o rosto humano é a fronteira entre o silêncio e a palavra (…). O silêncio é como um órgão do rosto (…)” (PICARD, Max, 1953, p. 73, tradução livre). Relativamente aos versos citados, é interessante notar que o silêncio se coloca na boca, ou seja, no órgão de emissão da palavra, porque é o lábio fechado que mantém o secretismo.
Consideradas as relações entre silêncio e secretismo, notamos que este último pode ser muito dramático porque, para além de carregar o peso do silêncio, pode esconder as inquietudes do sujeito. No poema “Mágoa”, por exemplo, o lábio fechado simboliza o silêncio que esconde a dor:
No tempo
é marcado
meu gesto amargo.
Morto o sentimento
– fechado meu lábio
por seu segredo.
(SANT’ANNA, Glória de, 1954, p. 87)
O segredo é a essência do sujeito e marca a sua origem e o seu destino indefinidos: “Eu nada sou/ Minhas raízes/ é que definem o que não digo./ E donde partem/ e aonde vão/ é um segredo já antigo” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 29). Então, o desconhecimento e a incomunicabilidade derivam de um não-estar no mundo enquanto sujeito “histórico”, com um passado, um presente e um futuro. A aniquilação do ser não é uma renúncia, mas uma tomada de consciência da instabilidade e efemeridade do próprio percurso geográfico, histórico e existencial.
Sendo impossível encontrar um lugar do ser, definido por coordenadas espaço-temporais, o eu lírico, devido às limitações da linguagem, não encontra palavras que o signifiquem. Em consequência disso, o sujeito nota a falha intrínseca da linguagem, à qual substitui o silêncio; as palavras, então, deixam de ter significado real e, ao ficarem desajustadas, contribuem à dispersão do sujeito: “Palavras me trespassam./ Claras frases. (Sem densidade quase)./ Tão exactas,/ diluindo meu contorno (que inda sou).” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 59). Dessa forma, as palavras, incapazes de reproduzir a ideia do real, deixam lugar ao silêncio, como testemunha o seguinte poema: “A essência das coisas é senti-las/ tão densas e tão claras,/ que não possam conter-se por completo/ nas palavras./ A essência das coisas é nutri-las/ tão de alegria e mágoa,/ que o silêncio se ajuste à sua forma/ sem mais nada” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 43).
Notamos então que a escrita de Glória de Sant’Anna dilui-se à medida que se aproxima da percepção do mundo e de si, porque, como declara Picard, a poesia nasce do silêncio (1953, p. 112) e o seu objectivo é recuperá-lo através das palavras.
Em conclusão, devemos notar também que a poética de Glória de Sant’Anna fundada no silêncio, não pode ser compreendida na sua totalidade, se não for relacionada à imagem do mar. O título de um livro da autora, Um denso azul silêncio (1965), pode fornecer uma interessante leitura acerca da relação entre o silêncio e o mar. De facto, Um denso azul silêncio evoca metaforicamente a imagem do céu e do mar e conjuga sinestesicamente os diferentes sentidos: o tacto (a densidade), a visão (o azul) e a audição (o silêncio). No poema “Nocturno”, que faz parte deste livro, ecoam as palavras do título:
Dentro dos finos dedos das árvores quietas
a noite dorme um longo sono transparente
junto das tépidas aves de olhos ausentes
da clara madrugada que ainda não surgiu.
O esparso e denso azul silêncio ressente-se
e simula agitar-se a uma brisa ténue que não existe,
(e contornaria os muros pálidos e inertes
sem tocar o secreto e desconhecido íntimo das pedras).
tudo se contém no contorno fixo do seu limite.
Só o mar se desdobra e reflecte a inquietamente
vigília inútil e cansada das estrelas.
(SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 65)
A profunda ligação entre o mar e o silêncio deve-se, como demonstra P. Orlandi, à origem etimológica da palavra silêncio, sileo, que remete para a ideia de tranquilidade e era empregada com referência à noite, ao vento e, sobretudo, ao mar: “Silentium, mar profundo. E aí deparamos com o aspecto fluido e líquido do silêncio” (2011, p. 33). O azul silêncio que emerge do mar e do céu acomuna os dois elementos naturais, todavia, neste aparente quadro de tranquilidade, perante a presença constante, e por isso “cansada”, das estrelas, a irreverência do mar, espelho do sujeito, marca a sua presença. Ao contrário do limite que marca e define os elementos naturais, o mar reivindica a sua força expansiva.
A força expansiva dos elementos naturais, conexa à ideia de imensidão, é uma imagem frequente na poesia de Glória de Sant’Anna. De facto, os elementos naturais, como o céu, o vento, as estrelas e o mar, estabelecem uma relação metafórica com o sujeito lírico. Porque a consciência da vastidão do mundo permite experimentar, como afirma Bachelard, “a consonância da imensidade do mundo com a profundidade do ser íntimo” (2008, p. 194). Assim, a natureza transforma-se num espaço sem limites, onde mergulha o eu lírico.
Em conclusão, podemos dizer que o silêncio é, como afirma Eni Puccinelli Orlandi, “tão ambíguo quanto as palavras”, porque “trabalha nos limites do dizer, o seu horizonte possível e o seu horizonte realizado” (2011, p. 101, p. 91). É dentro desses possíveis horizontes que devemos interrogar os textos escritos, porque o espaço do silêncio não se limita a preencher o vazio das palavras. Nesse sentido, a escrita de Glória de Sant’Anna, não é só um testemunho importante do lirismo intimista de autoria feminina, mas interroga também a capacidade da poesia de interpretar e desvelar os lados mais recônditos da intimidade poética. Se, como nota Blanchot, “a literatura pretende fazer da linguagem o absoluto, e reconhecer nesse absoluto o equivalente do silencio” (1999, p. 68), Glória de Sant’Anna procura, através da palavra poética, o absoluto silêncio da poesia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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GONÇALVES, Guilherme de Sousa Bezerra (2013). Para inventar um balé marinho: Glória de Sant’Anna. Dissertação de mestrado orientada pela Dra. Carmen Lucia Tindó Secco. Programa de pós-graduação em letras vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. 168 p.
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MORÃO, Paula (2011). O secreto e o real – Ensaios sobre literatura portuguesa. Lisboa: Campo da Comunicação.
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SANT’ANNA, Glória de (1961). Livro de água. Lourenço Marques: Edição de autor.
SANT’ANNA, Glória de (1965). Um denso azul silêncio. Lourenço Marques: Edição de autor.
SANT’ANNA, Glória de (1972). Desde que o mundo e 32 poemas de intervalo. Lourenço Marques: COOP.
SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro (2008, 2ª ed.). A magia das letras africanas. Rio de Janeiro: Quartet.
STEINER, George (1988). Linguagem e silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. São Paulo: Companhia das Letras.
Bio fornecida pelo palestrante.
Daniele Ribeiro Fortuna1
Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima2
José Geraldo Rocha3
Marcio Luiz Correa Vilaça4
Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO)
“Não somente esta forma de exclusão é relativa, mas ela se revela, sobretudo, nela mesma, das relações de interdependência entre as partes constitutivas de uma larga estrutura social (…). A exclusão singular a qual os pobres são sujeitados pela comunidade que os assiste é característica da função que eles preenchem na sociedade como membros dela numa situação particular.” (Simmel, 1998, p. 16).
Resumo: Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma importante escritora da Literatura Brasileira. O artigo busca contextualizar a época em que Carolina Maria de Jesus de Jesus viveu, bem como o lugar de onde falava, para, em seguida, analisar como, contrariando todas as expectativas e lutando contra diversas formas de preconceito, Carolina tornou-se uma importante escritora.
Palavras chaves: Carolina Maria de Jesus – literatura afrobrasileira – lugar da fala.
Abstract: Carolina Maria de Jesus is recognized as an important writer of Brazilian literature. The article seeks to contextualize the time in which Carolina Maria de Jesus lived. We will examine the standpoint of her speech and how she could become an important writer, in spite of all the odds and prejudice she suffered.
Key-words: Carolina Maria de Jesus – Afrobrazilian literature – standpoint of speech.
Carolina Maria de Jesus: exclusão social, linguagem e preconceito
Daniele Ribeiro Fortuna 1
Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima2
José Geraldo Rocha3
Marcio Luiz Correa Vilaça4
Introdução
Atualmente, Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma importante escritora da Literatura Brasileira. Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo, a crítica questionava se seus textos eram de fato literatura. O tempo, a força, a inovação e atualidade de sua escrita contribuíram para colocá-la num lugar de destaque no cenário cultural brasileiro – talvez ainda não o que lhe é devido, mas um lugar um pouco menos invisível.
Invisibilidade, aliás, é a palavra que perpassa toda a discussão deste artigo: invisibilidade de uma mulher miserável, catadora de lixo e moradora da favela; uma mulher que mal sabia escrever, mas que, ainda assim, possuía uma visão de mundo perspicaz e irônica; uma mulher que, por ser negra, era vítima de um preconceito ainda mais ferrenho por parte da sociedade conservadora dos anos 1950 e 1960.
Para abordar estes temas, porém, o artigo busca contextualizar a época em que Carolina Maria de Jesus viveu, bem como o lugar de onde falava, para, em seguida, analisar como, contrariando todas as expectativas, Carolina, apesar de pouca escolaridade e por não se encaixar no perfil de autora que escreve na norma culta, conseguiu se tornar uma importante escritora, conquistando espaço e superando diversas formas de preconceito.
Em seguida, o texto trata da questão da mulher negra no cenário cultural brasileiro e, por fim, revela como todos os temas acima apresentados estão presentes no livro Quarto de despejo.
Um pouco sobre Carolina Maria de Jesus
A escritora negra Carolina Maria de Jesus viveu entre 1914 e 1977. Nascida na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, teve uma infância miserável e estudou apenas o suficiente para aprender a ler e escrever. Com cerca de 30 anos, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde exerceu diversas atividades para sobreviver: artista de circo, faxineira de hotel, vendedora de cerveja etc.
Durante muito tempo, foi empregada doméstica, trabalho que teve que abandonar em função de ter tido três filhos – um de cada pai. Por isso, resolveu ser catadora de lixo.
Na década de 1950, foi morar na favela do Canindé, em São Paulo. Lá começou a fazer um diário, no qual relatava sua vida naquele lugar, a dificuldade de criar três filhos, sua revolta com os políticos, seus sonhos, impressões, vivências, enfim.
A catadora de lixo foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas que, ao fazer uma reportagem no Canindé, acabou conhecendo sua história e se interessando por editar seu diário. Embora até hoje haja controvérsias sobre o papel que o jornalista teria exercido na vida da escritora e até que ponto ele teria interferido em seu texto, foi graças a ele que Carolina Maria de Jesus conseguiu publicar em 1960 seu maior sucesso, o livro Quarto de despejo, no qual foram reunidos diversos trechos de seu diário.
Carolina escreveu diversas obras: peças de teatro, romance, antologia poética, mas ficou realmente conhecida por seu diário. Imediatamente, o livro tornou-se um sucesso editorial, fazendo com que ela conseguisse realizar seu grande sonho: comprar uma casa de alvenaria. Entretanto, embora tenha tido grande repercussão, a escritora não conseguiu repetir o feito com suas outras obras e foi relegada ao ostracismo.
No ano em que Carolina Maria de Jesus completaria cem anos de vida, várias homenagens foram realizadas, fazendo com que seu nome viesse à baila novamente. Até hoje, sua obra é considerada importante e inovadora, pois, como afirma Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Segundo Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.
Mas exatamente de onde falava Carolina Maria de Jesus?
O lugar de Carolina
O ponto de partida para se pensar o lugar de Carolina, isto é, de onde ela escreve – a favela – está em estabelecer parâmetros entre a ideia de pobreza que sempre se constituiu no Brasil, pelo menos desde o século XIX, bem como na Europa, a partir da constatação de que esta significava um problema social. Algo que colocaria em xeque as apreensões de toda a sociedade e, não mais somente das pessoas consideradas pobres. Isto no Brasil desencadeou noções de interdependência em diversas áreas, o que fez com que as ações em prol da pobreza se dividissem entre o chamado sertão e a cidade, entre médicos e eugenistas, entre tradição e modernidade.
Enfim, se pensava todo tipo de tensões e contradições que pobreza versus riqueza poderiam oferecer. Mas podemos ressaltar que a pobreza não era um problema específico da economia de mercado. Ela é um problema estrutural e tem seu sentido transformado, dependendo da sociedade na qual ela incida. E no Brasil, desde os primeiros anos do século XX, ela está muito relacionada a este locus denominado favela.
Anthony e Elizabeth Leeds, em seu livro A sociologia do Brasil urbano (1978), mostram que, muito embora os temas da pobreza e da habitação popular fossem preocupações desde o século XIX, as favelas só aparecem, tanto fisicamente quanto como constituição de um problema, mais tarde, nos primeiros anos do século XX, já nas abordagens de Everardo Beckheuser (1906).
No Brasil, perigo e marginalidade sempre foram corroborados pelas doenças e insalubridade, no que diz respeito às favelas. No entanto, as ações em prol da pobreza tinham que se dividir entre o sertão e a cidade. Durante o século XX, o interior do Brasil muito foi investigado através de expedições científicas que acabaram por mostrar quão difícil era a vida dos habitantes do interior, mas, em contrapartida, mostrava-se um ambiente mais saudável que a cidade. Além disso, foi no interior que os investimentos tecnológicos apareceram como melhoria para o local e um sentido de ordenamento e progresso.
Outra questão importante nestes espaços é a tentativa de transformação das identidades da população considerada pobre e sua relação com uma memória e um projeto que dão sentido ao fato do deslocamento físico e às ideias de transferência e fragmentação da sociedade. Sair da favela caracteriza uma ascensão não só financeira, mas social e cultural. Como Carolina como moradora da favela acaba sendo estigmatizada e que tipos de representações sociais se fazem dela?
Conclui-se, assim, que a pobreza é um fenômeno sociológico singular, porque não é só definida como um número de indivíduos que ocupam uma posição orgânica na sociedade, mas que possuem um papel ratificado por um grupo. Na verdade, a categoria pobre, seja ela favelada ou não, revela uma amplitude da sua verdadeira significação, pois ao categorizá-las, abre-se um caminho maior para justificar as ações do governo e até mesmo da sociedade como um todo.
Mas como definir ou conceituar a pobreza? Torna-se necessário construir noções e conceitos no plural, para identificarmos que tal categoria se transforma de acordo com o tempo e o espaço, ou seja, deve ser contextualizada. De categoria moral, como vítima e marginalizado, a elemento perigoso, o pobre sofreu classificações sociais diversas. Historicamente, o homem pobre medieval era somente o contrário do rico. A passagem para o chamado homem moderno, como explica Sprandel (2004), fazia com que a pobreza fosse encarada como diferenciação econômica, o que já mostra seu poder de ameaça quando passa a ser associado à marginalidade. Vale lembrar que também é neste momento que a pobreza se desenvolve em função do crescimento do mercado. Com o passar do tempo, a pobreza foi, então, conhecendo considerações e percepções distintas. Era, portanto, associada ao trabalho, à mestiçagem, à violência, à insalubridade e à vadiagem. E é neste contexto que nasce e vive Carolina.
Neste cenário, é comum perceber que as pessoas têm dificuldade de se expressar – não apenas de forma oral, mas principalmente no que diz respeito à escrita. Por isso, cabe agora refletir sobre a escrita propriamente dita na obra de Carolina Maria de Jesus.
Educação, língua e preconceito linguístico
Veremos aqui brevemente que Carolina de Jesus contraria qualquer imagem recorrente de escritor.
A prática da escrita é, em geral, a habilidade linguística menos empregada nas práticas quotidianas. Isto significa que, embora vivamos uma cultura que valoriza a escrita e a considera muitas vezes como modelo de padrões linguísticos, a produção de textos é pequena se comparada, por exemplo, à leitura. Na escola, no ensino de língua portuguesa, observa-se com frequência que o ensino de gramática e leitura ocupa espaço central nas práticas pedagógicas. Em parte, como consequência disso, há uma afirmação bastante frequente de quem lê muito escreve bem, embora, na prática, isso não seja tão verdadeiro quanto parece. A leitura pode contribuir para o desenvolvimento da produção textual, mas nos dois casos fazemos usos de estratégias discursivas diversificadas. No caso de uma obra literária, seja poesia ou prosa, a questão fica ainda mais complicada. Podemos observar que é relativamente pequeno o número de professores de língua ou literatura que escrevem literatura ou que pelo assuma esta tarefa. Assim, podemos perceber que a capacidade de analisar literatura e o domínio da língua não garante a produção literária.
Ainda na questão da produção textual, carece ainda perguntar: o que é escrever bem? Com certa frequência, podemos encontrar livros que buscam objetivamente apresentar as regras do bem escrever. Em muitos casos, escrever bem é visto como manter-se dentro de normas linguísticas prestigiadas. Assim, toma-se por sinônimo, em algumas publicações, que escrever bem é escrever corretamente, ou seja, seguindo padrões da comumente chamada de norma culta. A literatura e o jornalismo, historicamente, são dois espaços empregados às vezes para a identificação de modelos de escrita e de normas. É comum, por exemplo, que fragmentos literários sejam empregados como modelo de construções sintáticas.
Essa breve discussão aqui exposta não pretende incluir a produção de textos, seja em prosa ou poesia, da autora. Pretendemos aqui, na verdade, gerar uma reflexão sobre a criação literária de Carolina Maria de Jesus, que, pela biografia anteriormente apontada, está longe de ter vivido em condições favoráveis a práticas de leitura e produção de texto. No entanto, parece estar claro que os eventos de letramento pelos quais a escritora passou, mesmo com tantas adversidades, contribuíram para despertar o interesse pela criação literária.
Conforme apontado pelos historiadores Bom Meihy e Levine (1994, p. 17), Carolina de Jesus “aprendeu a ler e a escrever rudimentarmente e desde os primeiros anos da escola primária nunca mais deixou os cadernos”. Fortuna (2014, p. 99) sintetiza a formação de Carolina ao afirmar que ela “estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida”.
Logo, Carolina rompe diretamente com a tradição de escritores com elevados níveis de instrução formal e letramento. Ressalta-se, portanto, que este elemento deve ser visto como uma quebra de paradigma. Não se trata, no entanto, de simplesmente relacionar educação formal com capacidade de escrever.
Precisamos ter em mente que a autora teve, principalmente até a publicação de sua obra, poucas oportunidades de leitura e, portanto, este deve ter sido um obstáculo a mais. Além disso, por sua história, é inegável reconhecer que a escritora precisou lutar contra uma série de preconceitos, inclusive o linguístico. O sociolinguista Marcos Bagno aponta que as variedades linguísticas estigmatizadas são “empregadas predominantemente pelos falantes das camadas sociais de menor poder aquisitivo e de menor escolarização” (2013, p. 65). Trata-se de uma variante linguística estigmatizada socialmente e que não goza de prestígio. Sobre o preconceito linguístico, o experiente pesquisador faz uma observação bastante impactante ao relacioná-lo a outras formas de preconceito:
O preconceito linguístico é tanto mais poderoso porque, em grande medida, ele é “invisível”, no sentido de que quase ninguém se apercebe dele, quase ninguém fala dele, com exceção dos raros cientistas sociais, que se dedicam a estuda-lo. Pouquíssimas pessoas reconhecem a existência do preconceito linguístico, que dirá sua gravidade como um sério problema social. E quando não se reconhece sequer a existência de um problema, nada se faz para resolvê-lo (BAGNO, 2009, p. 23-24).
Logicamente não se pretende aqui discutir a criação literária ou ainda o preconceito linguístico a partir de Carolina de Jesus. Em termos objetivos, o que se pretende apontar aqui é que Carolina de Jesus contrariou uma série de adversidades e, dentre as diferentes formas de preconceito pelas quais passou, certamente o linguístico foi um deles. Por esse motivo, mas que uma criação literária, a obra de Carolina deve ser, sobretudo, reconhecida como um ato de resistência.
Resistência também no que diz respeito ao seu papel de mulher – e negra – na sociedade das décadas de 1950 e 1960, como veremos no item que se segue.
A mulher negra no cenário cultural brasileiro
A vida da mulher na sociedade é historicamente marcada por diversos tipos de violências. Inúmeros estudos atestam o quanto à questão da violência afeta suas vidas, desencadeando outros problemas que vão influenciar definitivamente na sua qualidade de vida.
A violência generalizada contra a mulher tem se caracterizado como um grave problema de saúde publica mundial… especificamente sobre a mulher há inúmeros estudos sobre as violências que a vitimam e que fundamentam tais afirmações, os quais apresentam vários pontos em comum, como por exemplo, o fato de que os resultados da violência na avida da mulher são devastadores para a saúde mental e física, aumentando o risco a longo prazo, da manifestação de outros problemas de saúde como dores crônicas, incapacidade física, abuso de drogas e álcool e depressão.(GIORDANI,2006, XVII)
Pode-se falar de violência física, a mais facilmente entendida e compreendida no senso comum. Há, entretanto, outros tipos de violências que nem sempre são pautadas na cotidianidade das discussões. Aqui pode-se exemplificar a violência verbal, quando as palavras e xingamentos são utilizados como forma de ofensas e acarretam diminuição do autoestima da mulher. O machismo e o moralismo incrustrados no imaginário, na mente e nas estruturas sociais. Uma outra forma de violência é a negação das contribuições femininas nos diferenciados campos do saber e do conhecimento. Trata-se de uma espécie de “sequestro da imagem, da voz e da atuação” de mulheres, e de modo especial de mulheres negras.
As discussões e os debates em torno das questões de gênero nas últimas décadas têm evidenciado que a mulher negra ainda está muito aquém do lugar de destaque na vida nacional em todas as suas dimensões. É possível afirmar a existência de uma realidade de invisibilização da mulher negra como protagonista. Não raras são as vezes em que elas aparecem subalternizadas, sem família, sem história e sem perspectivas de vida, a não ser a dependência de uma família “branca boazinha”.
A irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silencio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória, e ainda mais da história, este relato que por muito tempo esquece as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (PERROT, 2005, p. 9).
O fenômeno da invisibilidade dos escritores e escritoras negras na literatura brasileira produz um tipo de cegueira paradigmática, conforme atesta Morin (2011), segundo o qual os critérios para o reconhecimento literário são normatizados numa perspectiva de exclusão e marginalização da produção desses escritores e escritoras.
Tornar alguém ou um grupo invisível em uma sociedade é uma humilhação social e uma atitude política. No contexto das relações raciais no Brasil, isso implica sua negação indenitária.
A invisibilidade compõe não tanto aos sofrimentos gerais, sofrimentos de totós nós, quanto aqueles que estão no centro da alma… não deveríamos simplesmente vincula-los aos males gerais de uma sociedade de massas, em todo o rosto é amortecido e vira mascara indiferente. Não haveria ai também, no núcleo de tudo, um conflito propriamente político, um conflito de classe? (COSTA, 2004, p.45).
No campo da literatura, tal invisibilidade da mulher negra expressa “um desejo” da cultura dominante no que tange ao embranquecimento da produção literária.
Escarafunchar! Talvez esse seja um dos termos mais apropriados para significar o ato de perscrutar na literatura nacional as produções e seus autores, que por tanto tempo foram invisibilizados em função processo de embranquecimento. É possível afirmar que a cor da escritora negra representou elemento fundante da sua exclusão .
A cultura de dominação caracterizada pelos valores eurocêntricos, em detrimento dos valores originados dos povos indígenas e negros na sociedade brasileira, jogou historicamente papel decisivo no processo de invisibilização das mulheres negras na cotidianidade da vida. O lugar e o papel relegados nessa cultura à mulher negra a tornaram um segmento à margem da história. Em virtude da padronização cultural de beleza associada à cor branca, as mulheres negras passaram a ser compreendidas como a encarnação da “não beleza” ou da feiura. Nos diferentes níveis de participação social, ela foi colocada, quando muito a um segundo plano. A situação de exclusão, discriminação e marginalização afeta todas as esferas da vida humana. No campo da produção de conhecimento, além de um número reduzido de mulheres negras se fazerem presentes, essas poucas ainda têm sua produção pouco visível em função de um modo de pensar branco e machista.
Nas últimas décadas, com as lutas dos movimentos sociais negros associados a alguns pesquisadores e estudiosos nas academias brasileiras, alguns nomes de mulheres negras têm sido retirado das “profundezas” do abismo do não reconhecimento. Esses vão, assim, como que renascendo das cinzas. Escritoras negras, que principalmente, no campo da literatura foram por muito tempo ocultadas pelos processos de dominação cultural associados às práticas racistas que negam aos negros ressurgem. E no caso particular as mulheres negras passam a ter o reconhecimento e a visibilidade na história nacional.
É corrente na literatura brasileira uma representação da mulher negra construída pelos escritores brancos, cujas concepções se fundamentam e reportam ao período colonial no qual a mulher branca era para casar, negra para trabalhar e mulata para sexo. A literatura brasileira se apropriou dessa concepção e estereotipou a mulher negra, atribuindo a ela o papel de empregada doméstica no cenário literário brasileiro, ao passo que a mulata passou a significar o objeto de desejo, de consumo sexualmente falando.
No Brasil, é possível falar de um certo apagamento da escrita da mulher negra na literatura nacional. Embora saibamos da existência de mulheres como Teresa Margarida da Silva, Maria Firmina dos Reis, Anita de Souza, Antonieta de Barros, seus escritos ainda soam como estranhos no universo literário das academias. Nessa perspectiva, é que se pode lançar um olhar particularizado sobre a obra e sobre a autora Carolina Maria de Jesus. Colocar essa escritora no lugar de seu merecimento na literatura brasileira é, sem sobra de dúvida, reconhecer uma dívida para com todas as mulheres negras invisibilizadas na história.
Quarto de Despejo: o relato de ‘dentro’ da pobreza
Carolina Maria de Jesus revelava em seu diário a necessidade de escrever e de como dedicar-se à escrita a ajudava a compreender o mundo, a política, a fome e, principalmente, a resistir à miséria e às inúmeras dificuldades que enfrentava – “(…) creio, que não poderei viver sem escrever porque os dramas continuam [a] acontecer enquanto vivemos (sic)” (JESUS, 1996, p. 54). Ou ainda: “Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo” (sic) (JESUS, 1997, p. 19).
A escrita era, para Carolina, uma forma de sentir-se menos invisível. Na verdade, foi graças à publicação de seu diário, saiu da invisibilidade na qual estava imersa como mulher negra e miserável. Seu texto é o relato de ‘dentro’ não apenas da sua invisibilidade, mas do apagamento vivenciado por todos que a cercavam na favela.
Mulher, negra, mãe solteira de três filhos, miserável… Os trechos de Quarto de despejo, a todo momento, trazem à tona essa realidade. E embora Carolina Maria de Jesus não domine as normas cultas da língua padrão, sua escrita demonstra uma visão de mundo aguda, perspicaz e crítica.
Em seu diário, os dias começam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água” (sic) (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Dêixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (sic) (JESUS, 1997, p. 61).
O leitor que ainda desconhece a escrita de Carolina talvez espere um relato despretensioso de um cotidiano banal, o testemunho de alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas logo Carolina Maria de Jesus ‘decepciona’ esse leitor e revela um texto que, como afirma Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”, como se vê neste trecho: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (sic) (JESUS, 1997, p. 55).
O trecho a seguir mostra ainda uma descrição do lugar de onde fala Carolina: “Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos” (sic) (JESUS, 1997, p. 48). Traz, principalmente, o testemunho da fome:
27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (sic) (JESUS, 1997, p. 39).
Para lidar com essa dura realidade, a escrita era sua válvula de escape: “Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo” (JESUS, 1997, p. 19). Esse tipo de situação é recorrente em seu diário: apesar do cansaço, da fome, da miséria e das injustiças, Carolina encontrava sempre tempo para dedicar-se à escrita.
Seus relatos mostram ainda que ser negra tornava tudo ainda mais difícil. No dia 22 de maio, Carolina Maria de Jesus relembra que, em junho de 1957, ficou doente e, por isso, percorreu “as sedes do Serviço Social” (JESUS, 1997, p. 37) para pedir auxílio financeiro. De lá foi encaminhada para vários lugares até chegar à Santa Casa, onde – não fica claro exatamente por que – um funcionário manda prendê-la: “Prende ela! Não me deixaram sair. E um soldado pois a baioneta no meu peito” (sic) (JESUS, 1997, p. 38).
Mais adiante Carolina revela que escrevia peças que apresentava a diretores de circo, os quais lhe diziam: “É pena você ser preta” (JESUS, 1997, p. 58). Pouco adiante, nesse mesmo trecho, a escritora se recorda ainda de um diálogo com um homem branco, que lhe disse: “Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem” (sic) (JESUS, 1997, p. 58).
Parte dos críticos brasileiros considerava que a escritora mostrava-se um tanto alienada no que dizia respeito à sua cor. Nesse sentido, Joel Rufino dos Santos (2009, p. 20) ratificava o pensamento desse setor da crítica: “ela se colocava quase sempre do lado contrário ao da sua condição de mulher negra favelada e, ao mesmo tempo, foi autônoma com relação ao mundo em que viveu”. Santos afirma ainda que: “Entre o eu e o nós, preferiu a literatura” (SANTOS, 2009, p. 22). Porém, considera que “qualquer juízo sobre Carolina e sua obra não deve esquecer que elas são três: a mulher, a escritora e a personagem criada pela escritora” (SANTOS, 2009, p. 21).
Por meio da leitura de alguns trechos de Quarto de despejo, entretanto, é possível perceber que, em alguns momentos, a escritora tinha consciência e orgulho de sua negritude: “adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico. (…) Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta” (sic) (JESUS, 1997, p. 58). Além disso, não se conformava com a pretensa superioridade que os brancos afirmavam possuir: “O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe [também]. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém” (sic) (JESUS, 1997, p. 58).
Alienada ou não, fica evidente que Carolina Maria de Jesus via o mundo e tecia suas próprias conclusões. Não se valia da opinião de ninguém, não criava subterfúgios. A realidade era dura e ela não fugia disso. Sua escrita continua inovadora e atual justamente por causa disso: é o relato fiel, sincero e cruel de uma realidade excludente e desigual.
Referências Bibliográficas
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Sobre os Autores
1Daniele Ribeiro Fortuna é professora do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Tem pós-doutorado em Comunicação (UERJ), doutorado em Literatura Comparada (UERJ) e mestrado em Literatura Brasileira (UERJ).
2Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima é Coordenadora e professora do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Pós-doutorado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
3José Geraldo Rocha é professor do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Tem doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
4Marcio Luiz Correa Vilaça é Coordenador Adjunto e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas da Unigranrio. Tem doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
Bio fornecida pelo palestrante.
Cristian Souza de Sales
Universidade Federal da Bahia
RESUMO: O presente artigo busca refletir sobre os poemas de autoria de Miriam Alves e como a escrita feminina contemporânea tem buscado construir outras formas de dizer o corpo. Miriam Alves integra uma geração de escritoras negras brasileiras que têm produzido textos literários interessados em marcar olhares que registram outras configurações para o corpo negro, rompendo com um silenciamento imposto historicamente às mulheres de origem afrodescendente dentro e fora universo ficcional. São vozes literárias que investem e buscam inscrever outras formas de escrita do corpo através de versos que surgem munidos de desejo, sedução e erotismo, cujas representações diferenciam os seus discursos poéticos das imagens e dos sentidos depreciativos disseminados em inúmeras produções da literatura nacional. Neste articulo, recorreu-se aos estudos teóricos de Dallery (1997), Souza (2005), Soares (2006), Gomes (2006), Hooks (2006), entre outros.
Palavras-chave: escrita feminina, literatura, corpo negro, erotismo.
RESUMEN: Este artículo pretende reflexionar sobre los poemas escritos por Miriam Alves y como la escritura de la mujer contemporánea ha tratado de construir otras formas de decir el cuerpo. Miriam Alves integra una generación de mujeres negras brasileñas que han producido textos literarios que registran otros ajustes, rompiendo con un silenciamiento históricamente impuesto a las mujeres de ascendencia africana, dentro y fuera del universo de la ficción. Esas voces literarias invirtien y buscan otras formas de escribir el cuerpo a través de los versos que vienen equipados con el deseo, la seducción y el erotismo, cuyas representaciones diferencian sus discursos poéticos de las imágenes y sentidos despectivos diseminados en numerosas producciones de la literatura nacional. En este artículo se utilizaron los estudios teóricos de Dallery (1997), Souza (2005), Soares (2006), Gomes (2006), Hooks (2006), entre otros.
Palabras clave: escritura de las mujeres, la literatura, el cuerpo negro, el erotismo.
Currículo da autora: Cristian Souza de Sales é doutoranda pelo Programa de Pós- Graduação em Literatura e Cultura (PPGLICULT), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Mestre pelo Programa em Estudo de Linguagens (PPGEL) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É bolsista da Fundação de Apoio e Amparo à Pesquisa da Bahia (FAPESB) e integrante do Grupo de pesquisa EtniCidades: escritoras/es e intelectuais afro-latinos(as), da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Desenvolve pesquisas sobre a escrita de mulheres negras latino-americanas contemporâneas, inclusive Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, focalizando questões como escrita de si, escrita do corpo e memória.
INFINITAS DESCOBERTAS DO CORPO NA ESCRITA POÉTICO-ERÓTICA DE MIRIAM ALVES
Cristian Souza de Sales
Universidade Federal da Bahia
Passos ao mar
[…]
Os pés alisando a areia molhada
arrepiando o corpo a cada passo
Os passos dirigindo-se às águas salgadas
O sol a água banhado-me
[…]
Razão de sentir um único desejo
Desejo adulto forte
bom solto
quase completo
O rosto sorrindo
Esvaindo-se prazerosamente
sensação
Areia, mulher, luar, sorriso
Completando o inevitável
Natureza seguindo seu curso
Mar
Mulher cumprindo o seu curso
Vida
(ALVES, 1979, p. 37, grifos meus)
As metáforas, os sentidos e os significados acionados pelo poema Passos ao Mar, de autoria de Miriam Alves, colocam o corpo negro feminino em outras cenas literárias e inscreve-o em outras imagens ficcionais, distanciadas daquelas que normalmente vemos circular no imaginário coletivo, construídas sob a ótica da dóxa masculina pela literatura brasileira, no que diz respeito à existência de um corpo-objeto ou corpo-sexual 1. Segundo é possível interpretar, os versos se enunciam impregnados de desejo, sedução e erotismo, sem, no entanto, recorrer às estereotipias raciais ou sexuais mencionadas, o que evidencia uma das preocupações políticas da escrita feminina afrobrasileira contemporânea.
É uma escrita feminina que se insinua poeticamente, revertendo preconceitos, rompendo com tradições, com convenções, com modelos instituídos, problematizando projetos ideológicos falocêntricos e etnocêntricos. Na escrita de Miriam Alves, a poesia oferece um espaço único de fruição do desejo de transformação e mudança, materializando-se em cada verso repleto composto de musicalidade. Assim, a natureza contemplada, seu ritmo e seu fluxo são a fonte de inspiração do sujeito lírico: “areia molhada, luar, sol, mar, as águas salgadas”. A sua força e potência discursiva faz movimentar a vida, o corpo e o universo. Movimenta outras formas de encenação do corpo que mobilizam outras performances discursivas e configurações de si.
Neste modo de escrita feminina poético-erótica, é possível constatar que, no processo de criação e recriação de imagens, Miriam Alves resgata esse elo considerado sagrado e espiritual que serve a poetisa de inspiração: mulher, corpo e natureza. A partir desta comunhão, as sensações corpóreas se expressam nas linhas do texto em uma linguagem sinestésica e melodiosa, propagando-se de modo suave, delicado e sensual.
A escrita feminina afrobrasileira segue buscando cumprir um de seus principais rituais: desconstruir para restabelecer ao corpo o que lhe foi retirado, segregado e negado pela doxa masculina. Em Passos ao mar, os pés alisando a areia molhada, o rosto feminino sorrindo, o desejo adulto vindo forte à tona, as águas banhando o corpo, deixam aflorar a sensualidade da mulher negra. Uma sensualidade feminina restituída e reconfigurada no discurso poético de Miriam Alves, que se une a beleza da terra, da natureza, iluminada pela luz do sol e da lua, abençoada pelas águas salgadas do mar, o que marca um ciclo de abalos em supostas verdades e mobiliza um discurso de autoafirmação identitária. Aspectos que serão encontrados e reiterados em outras poesias da escritora.
Nascida em São Paulo, nos finais da década de cinquenta do século passado, Miriam Alves é uma escritora que integra uma geração de intelectuais e militantes do movimento negro, os quais produzem a partir de 1970, uma literatura que aqui, considerando a efervescia das discussões, a emergência dos discursos referentes à existência de uma produção de autoria negra ou afrodescendente, quanto às definições, percursos, outras trajetórias, características e conceitos, chamaremos de afrobrasileira contemporânea2.
Integrante do Grupo Quilombhoje Literatura até 1989, autora de antologias nacionais e internacionais, traduzidas para o inglês, o espanhol e o alemão, de textos não ficcionais (ensaios, resenhas e artigos) nos quais aparecem reflexões ligadas à literatura afrobrasileira, ao fazer literário de autoria feminina negra, Miriam Alves se filia a um projeto ideológico que revela o seu comprometimento artístico e intelectual.
Quanto à circulação de seus textos, os seus poemas e contos podem ser encontrados, tanto na antologia Cadernos Negros, periódico no qual publica seus trabalhos desde a década de oitenta do século XX, assim como em publicações individuais.3 Completando quase trinta e cinco anos de trajetória intelectual, tendo publicado Momentos de busca, seu livro de estreia em 1983, e o segundo Estrelas no dedo, em 1985, Miriam Alves elege a(s) mulher(es) negra(s) como temática, personagem e assunto, em verso ou em prosa.
Trata-se de uma escrita feminina negra contemporânea, conforme são exemplares as poesias Passos ao mar, Despudor, Necessidade e Íntimo véu, que vão se inscrevendo nas bordas do vazio, das ausências, dos silêncios impostos, das frestas, buscando recompor o tempo de alguma forma ou de muitas formas, formatos, jeitos e modos de dizer. Nos textos mencionados, reaparece o desenho de um rosto, de um corpo feminino negro, cujos contornos são delineados em outras grafias, figurações e linguagem poética, marcado o pertencimento étnico do autor, nesse caso, da autora Miriam Alves.
Ocupando este outro lugar, o da busca por uma visibilidade social, pela liberdade de expressão do corpo e da voz feminina, produzindo literatura afrobrasileira, as escritoras negras contemporâneas deslocam a eloquência dramática e dolorosa de outros momentos históricos e memorias relegadas ao esquecimento, adotando um tom incisivo e autoafirmativo do discurso identitário. Suas textualidades demonstram uma preocupação em exibir a face do corpo mulher negra como símbolo de um território reconquistado por mãos calosas, exaustas, sensíveis e firmes. São mulheres que estão ansiosas para falar de e sobre si.
Nos poemas de sua autoria, Miriam Alves constitui imagens alternativas e diferenciadas para o corpo feminino negro, geradas no interior de um processo de convivência, muitas vezes, tensa e problemática com a cultura ocidental hegemónica no que concernem aos padrões estéticos instituídos. Por isso, seus textos literários lutam para se expressar e expressar-se com rosto, voz, corpo, tinta e papel, deixando impressas as suas digitais, acrescentando ao universo patriarcal e hegemônico um estilo literário outro, agora o feminino negro.
Miriam Alves segue no manuseio da/com a palavra, do fio (linguagem) e do tecido (poesia), tecendo e desenhando de um modo especial os corpos negros que surgem entrelaçados a muitas histórias, memórias e identidades. A escritora traz consigo um coro de vozes que formam um rosário de contas unidas por fios de resistência. Uma produção literária afrobrasileira que sugere caminhos de ação e insubordinação contra o racismo e o sexismo, mas que também falam/expressam o afeto, o amor, a sexualidade, com beleza, encanto, sedução e erotismo, segundo é possível interpretar em Despudor:
Arregacei as vestes
Deitei sem seu regaço
Sonhei meu nego tolo
Tolas coisas
O seu calor esquentando
O meu corpo
Nos meus ouvidos
Respiração entrecortada
O encontro a confirmação
Você em mim.
Suas mãos possuidoras
Calorosamente, despudoramente
Confirmam afirmam
AMOR
(ALVES, 1978, p.54, grifos meus)
Sem timidez, sem medo e sem receio, desvestindo o seu corpo, o sujeito literário expõe questões internas como a sexualidade e a sensualidade da mulher negra, explicitando o seu ponto de vista sobre estes assuntos cercados ainda de mitos e tabus na sociedade brasileira. Mitos que representaram as mulheres de origem afrodescendente como criaturas distorcidas, desumanizadas, cujos corpos diferenciados dos padrões brancos de beleza, eram e são descritos como possuidores de uma temida atividade sexual, classificados pela dóxa masculina como repulsiva, suja, obscena e apresentada como mulher ou tipo físico menos aceitável socialmente.
Em O feminino corpo da negrura, Leda Maria Martins (1996) constata que, no plano ficcional, a relação submissão e dominação das mulheres, colocaram o corpo da mulher negra em um jogo de imagens e de símbolos, sob a ótica do “alheio e do alienante”, com base na lógica racial e sexista (MARTINS, 1996, p. 112). De acordo com suas pesquisas, nas “cenas literárias nacionais”, a autora destaca que “os corpos femininos da negrura” aparecem sob as seguintes miragens da “doxa masculina” e visão falocêntrica: “(…) a mãe preta, a empregada doméstica, uma espécie de força bruta assexuada, de rosto indiferenciado, e a insinuante mulata, corpo erotizado em excesso, objeto dos desejos “ocultos” do homem branco” (MARTINS, 1996, p-112, grifos da autora).
Já Lélia Gonzalez (1983), em seu trabalho pioneiro sobre Racismo e o sexismo na cultura brasileira, denuncia como essas formas de representação das mulheres negras e de seus corpos, mencionados por Martins, determinaram os lugares ocupados pelas mulheres negras na sociedade brasileira através das relações de poder mantidas entre brancos e negros historicamente. Para Gonzalez, nessas figurações mencionadas e em muitas outras, expressam-se “os modos de rejeição contra a negra e a mulher”, assim como os aspectos “simbólicos do racismo e do sexismo”, os quais devem ser pensados em termos de contextos e lugares, funções e papeis sociais “naturalmente” atribuídos à mulher negra. (GONZALEZ, 1983, pp.226-227).
Atenta a estas reflexões, desvencilhando-se dessas codificações falocráticas, de sua opressão, de sua censura, de sua repressão e do silêncio, a escrita que chamamos de poético-erótica de Miriam Alves busca desmitificar e desconstruir a sexualidade feminina negra pela ótica do negativo, do desprezo e da aversão, utilizando a literatura afrobrasileira e seus recursos disponíveis. Através de um sonho, o olhar feminino negro nos descreve um encontro amoroso que culmina no ato sexual entre um casal, investindo em outras formas de enunciação de sua intimidade (ALVES, 1978, p.54, grifos meus). Nesse momento dos corpos em fricção, ela grafa o gozo e o desejo.
Por outro lado, em Vivendo de amor, bell hooks (2006, p. 188) afirma que muitas mulheres negras sentem que em “suas vidas existe pouco ou nenhum amor” 4. E essa é uma de “nossas verdades privadas” e inquietações que raramente são discutidas em público. Trata-se de uma realidade que é tão dolorosa para as mulheres negras, da qual dificilmente, elas falam à vontade sobre o assunto. Para intelectual afroamericana, um dos motivos que explica este nosso comportamento social é a herança deixada pelo sistema escravista e as divisões raciais estabelecidas entre os brancos e os/as afrodescendentes pelo racismo e pelo sexismo, tanto nos Estados Unidos, assim como no Brasil.5 Por isso, “nós negros (as) temos sido profundamente feridos”:
(…) feridos até o coração, e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e, consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando. […] Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. (…). Mas, a vontade de amar tem representado um ato de resistência (HOOKS, 2006, p. 189, grifos meus).
Conforme sugere a autora, a opressão patriarcal, o racismo e a violência, agindo juntos, experimentados de todas as formas por nossas ancestrais africanas, colaboraram para afetar, distorcer e “impedir”, “embora não fosse impossível”, a capacidade que as mulheres de origem afrodescendente, na condição de escravas ou libertas, tinham “de amar e de sentirem amadas”.
De acordo com hooks, foram às mulheres que sofreram castigos físicos e “testemunharam seus filhos sendo vendidos” – “seus amantes – familiares – companheiros – amigos apanhando sem razão” – sendo punidos de “forma cruel”. Acrescento ainda que, nesse contexto, elas foram expostas à violência sexual e definidas pela cultura dominante como corpo-objeto, como objetos sexuais, corpos negros anormais e sexualizados em excesso, logo, elas não poderiam ter saído dessa conjuntura, nem entender aquilo que se chama de “amor” (HOOKS, 2006, p. 188). Contudo, foram e ainda são experiências amargas e dolorosas que deixaram marcas profundas para essa geração, assim como para as gerações posteriores vide a violência física e simbólica praticada, enraizando-se nos corações das mulheres negras sob a forma de “feridas emocionais” (HOOKS, 2006: 188-189).
Segundo hooks, no atual contexto, essas “feridas emocionais” estão sendo revertidas e curadas com doses altas de autoestima e autoafirmação. A autoestima e a afirmação do lugar étnico-racial e de gênero têm possibilitado às mulheres negras cultivarem o seu “amor interior”, especialmente produzido literatura. Dessa forma, muitas escritoras negras brasileiras demonstram que têm superado através da escrita literária os complexos de inferioridade e de incapacidade de sentir e de amar incutidos pelo racismo e pelo sexismo, ao longo da história colonial, o que provocado mudanças significativas fora e dentro do universo ficcional.
Assim, entendemos que uma “sociedade racista e machista”, conforme nos faz compreender hooks, muitas mulheres de origem afrodescendente, “não recebem muito amor”, não percebem a sua presença, assim como também não nos sentem amadas. Elas não aprendem a “reconhecer que a sua vida interior também é importante”, dedicando-se exclusivamente parte de sua militância política, às lutas e às conquistas de seu grupo. (HOOKS, 2006, p.197).
Contrariando os discursos hegemônicos, é possível identificar que Miriam Alves está interessada construir formas de dizer os corpos negros, cujas imagens e sentidos têm procurado explorar esta vida interior mencionada pela pesquisadora afroamericana. Trata-se de uma escrita feminina negra feita no Brasil que tem buscado acessar um universo de emoções e sentimentos dos quais as mulheres negras estiveram privadas historicamente em função, também, dos muitos preconceitos de que foi e é vítima.
O discurso poético-erótico de Miriam Alves tem descoberto as várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais ao empreender transformações significativas:
Necessidade
Os lamentos soltos
Esfarrapam minhas vestes
Descobrem os meus pensamentos
Fico só
Emano ondas de calor
Endurecidos nos medos
Amolecidos nos abraços
Prontos para amar
(ALVES, 1985, p. 43, grifos meus).
Por meio da voz lírica, a mulher negra revela outras necessidades que emanam de seu corpo – amar e sentir prazer – sem, no entanto, repetir ou apelar para formas depreciativas de exposição de sua intimidade. Trata-se de uma escrita feminina negra que traz à cena uma voz poética transbordando em desejos que são transmitidos no corpo por “ondas de calor”. Um corpo de onde emergem vontades secretas que vão substituindo os “lamentos soltos”, descobrindo-se em pensamentos novos, ainda que “endurecidos” por medos e receios, parecendo que a voz poética se recorda das marcas negativas deixadas pelo passado colonial. Apesar disso, das interdições sofridas no discurso da tradição cultural hegemônica, o corpo se diz pronto, finalmente pronto para viver sensações novas.
Por esse motivo, as mulheres negras através da literatura afrobrasileira têm pensado na sexualidade como tema e pauta política, assim como em dimensões socioafetivas, não apenas como uma questão pessoal ou privada, mas, sobretudo, elas imprimem um discurso poético que trazem em sua essência, reivindicações coletivas, cujas ações individuais desejam mobilizar questões sócio-políticas que precisam ser exploradas, debatidas e problematizadas em nossa sociedade.
Os poemas de Miriam Alves apresentam modificações atravessadas por um olhar interno que vai desvelando a intimidade do corpo, expondo uma nudez quase envergonhada, apropriando-se de um repertório linguístico e semântico, cujo conteúdo e sentidos das palavras desconstroem, reconstroem, ressignificam e desvelam com muita ousadia:
Íntimo véu
Arregaço o ventre
corcoveio no ar
gemo
Você?
tira o meu último véu.
(ALVES, 1986, p. 60).
O corpo é a primeira forma de visibilidade humana que desperta interesses, teorias e interpretações em diferentes áreas do conhecimento. Da medicina às artes, da biologia à cultura, multiplicam-se explicações quanto aos seus aspectos anatômicos, étnicos e estéticos. No campo natural e biológico, o corpo físico é dado como uma materialidade finita. Contudo, para além de seu caráter biológico, o corpo humano sofre interferências ideológicas, culturais, religiosas, políticas, assim como de gênero, raça e classe.
Em Corpo, conhecimento e educação: notas esparsas, Carmem Soares (2006, p. 3) afirma que em um sentido mais “agudo” de sua presença, como “materialidade polissêmica”, constituído por múltiplas significações, o corpo “invade lugares” exige compreensão, determina funcionamentos sociais, mas também sofre “determinações pedagógicas”. Nele, a sociedade “circunscreve o seu retrato”, impondo “limites sociais e psicológicos” a sua conduta moral.
Esta também fixa seus “sentidos e seus valores”, submetendo o corpo a normatizações, a “disciplinamentos e as coerções”, além de privilegiar um dado número de atributos físicos e padrões estéticos que o “transformam” e o definem dentro de uma escala entre o aceitável e o inaceitável. E o modo como este se move e modifica-se “revela trechos da história do contexto histórico-social a que pertence” (SOARES, 2006, p. 110).
Em uma vertente de reflexão mais restrita, Nilma Lino Gomes (2006, p. 261), em Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo de identidade negra, corroborando com as reflexões propostas por Soares, diz que para além do princípio de apreensão do corpo em sua “especificidade biológica” ou mesmo em suas funções “puramente fisiológicas”, aproximando-o das “relações de sentido e de significação”, interpretado em sua “materialidade simbólica”, o corpo está localizado em um “terreno social e subjetivamente conflitivo”.
Segundo Gomes, ao longo da história, o corpo se tornou “emblema étnico”, símbolo a ser explorado, manipulado e transformado nas “relações de poder e de dominação” para marcar “assimetrias sociais”, “classificar, hierarquizar” e estabelecer desigualdades na “distribuição de poder” entre grupos raciais distintos por causa de fenótipos como a cor da pele. Assim, a sua aparência física passou a difundir mensagens e a integrar significados ideológicos relacionados a “atributos negativos e positivos”, introjetados por regras sociais, padrões estéticos, códigos de comportamento moral, transformando-se em “objeto de reflexão e de apelo da cultura” dominante, sendo por ela, “tocado, modelado, modificado”, violentado e agredido. (GOMES, 2006, p. 261-262).
Nesse sentido, a autora passa a discorrer sobre o corpo negro, pois segundo ela, “no processo histórico, cultural e político brasileiro”, o corpo negro foi “tocado, modificado”, agredido e violentado nas relações de poder mantidas entre os brancos e os afrodescendentes. Gomes explica que o corpo negro foi usado como um dos “sinais diferenciadores” mais evidentes pelo racismo para estabelecer hierarquias entre as classes sociais no Brasil e para marcar a “referência negra” de um sujeito, e, dessa forma, justificar sua posição social subalterna (GOMES, 2006, p. 261). Sobre este, agiram duplamente a violência física e simbólica, investindo no controle de sua aparência, em seus movimentos, em seus gestos, em suas expressões, em seus desejos, em suas vontades, afetividade e sexualidade.
Na escrita do corpo feita por Miriam Alves, promovendo o processo de recriação de imagens, a voz poética “libera” o corpo feminino negro para usufruir, definitivamente de uma rede infinita de prazeres sexuais e para vivenciar as suas próprias fantasias e fetiches, desafiando, mais uma vez, a ordem social controladora sobre si. Uma escrita feminina poético-erótica promove o autoconhecimento, a retomada de consciência do próprio corpo e de sua relação com o desejo sexual, colocando a mulher negra como o sujeito na cena amorosa, e não mais como objeto, o que contribui para demolir princípios patriarcais arraigados.
Nas linhas do texto de Íntimo Véu, repletas de libido e erotismo, podemos flagrar através do uso da expressão verbal “gemer”, o momento exato da explosão do gozo e o instante da fruição do orgasmo feminino – do toque naquelas zonas do corpo que provocam a excitação sexual no sujeito poético, as chamadas zonas erógenas: “ouvidos, pernas, coxas, ventre, rosto e pele”.
Assim, os véus (as máscaras sociais alicerçadas em valores falocêntricos) que encobrem este corpo são retirados completamente para que o eu lírico possa desfrutar de certas sensações corporais com mais liberdade e vivenciar a experiência erótica extraordinária do prazer sexual sem limites ou demarcações sociais negativas. O poema torna-se o lugar da encenação e da enunciação plena do desejo, de infinitas descobertas do corpo que se revelam por meio de uma linguagem poética cheia de sedução, ritmos, ecos, sons, dissonâncias e ressonâncias.
De acordo com Florentina Souza (2005, p.127), em Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal MNU, “o discurso, a imagem e o poder” nos textos literários afrobrasileiros de autoria feminina estão interligados e são indispensáveis para que interfiram nas “várias instâncias de prestígio e de poder”: resgatando a “autoestima da mulher negra”. A literatura afrobrasileira promove “condições políticas e sociais de respeito à sua diversidade cultural e à igualdade de direitos” quanto às questões de gênero e raça, considerados como elementos indispensáveis que resultam em um “grande esforço” para “remapear e reconfigurar o imaginário instituído”.
Redesenhados nas falas da escrita feminina afrobrasileira, rostos e corpos femininos negros surgem desejosos de existência, ambicionando outras formas de visibilidade social, segundo interpretamos nas poesias de Miriam Alves. Ambos vão sendo (re)esculpidos e redefinidos por outros contornos formados por linhas que são preenchidas por vontades, sentidos próprios, expressões, performances e movimentos, não mais sob olhares e discursos discriminatórios (eurocêntricos, etnocêntricos, falocêntricos etc ), mas como forma de representação de uma atitude de afirmação e autoafirmação da identidade do sujeito mulher negra.
Nas poesias de Miriam Alves, o corpo é compreendido em sua materialidade polissêmica que mobiliza interpretações infinitas. Apresenta-se como um corpo feminino negro que pode agora, enfim, (re)composto na visão de Miriam Alves, solto, alforriado, vivenciar a sua liberdade individual. Corpo-território onde o ser-mulher-negra pode exercer e organizar a sua liberdade de transformação.
Segundo interpretamos, trata-se de um corpo feminino negro ou corpos que produzem questionamentos e constroem respostas as suas interpelações, inquietações e frustrações. Corpos femininos negros em luta que se movimentam e se contrapõem a todas as formas de opressão. Corpos femininos negros que guardam vontades reprimidas. “Falam de amor à vida e ao outro”, mas que também refletem sobre sua sexualidade (ALVES, 2010, p. 70).
Miriam Alves (2010), em Literatura feminina negra no Brasil: pensando a sua existência, reflete sobre o papel da mulher negra enquanto escritora e intelectual e analisa a importância de sua atuação e de demais vozes femininas no movimento que ela chama de literatura de autoria negra. É preciso dar visibilidade a questões que foram relegadas ao silêncio e ao esquecimento pela sociedade brasileira, a exemplo do corpo, da afetividade e sexualidade, tratada sempre com um assunto tabu pelas próprias mulheres e escritoras.
Segundo Alves, ao assumir sua voz-mulher negra, as escritoras afrobrasileiras ampliam o significado da escrita feminina brasileira, revelando uma identidade-mulher que não é mais o “outro” dos discursos. Ao contrário, elas afirmam uma identidade-mulher-negra que revela que sempre esteve lá, no “lugar do silêncio”, permeada por singularidades e subjetividades experimentadas por elas no cotidiano em contato com a sociedade: ser mulher e negra simultaneamente (ALVES, 2010, p. 186).
De acordo com Arleen B. Dallery (1997, p. 64-65), no ensaio A Política da Escrita do Corpo: Écriture féminine, através da escrita ou reescrita do corpo, a mulher tem a possibilidade de liberá-lo do discurso normatizador, da “objetificação e da fragmentação do desejo masculino”.6 Escrever o e sobre corpo “celebra as mulheres” como sujeitos autônomos.
Logo, é preciso ressaltar que neste processo de reconstrução, a relação sexual aparece nas poesias como uma ação compartilhada que se concretiza pelo desejo dos dois, pela cumplicidade dos corpos e pelo vínculo afetivo que une o casal. Trata-se de uma visão sobre as mulheres negras que desconstrói e transgride os discursos literários nacionais sexistas, concernentes ao comportamento obsceno do corpo negro, à sua sexualidade infrene, voraz e submissa. Ao invés de estar subjugada ao desejo masculino, nas poesias Íntimo véu e Despudor, ela quer e ele consente, em um movimento de completude dos corpos. Isto permite ao eu lírico celebrar a sua autonomia na escrita literária na busca pela realização de seus desejos.
Em Crítica literária e estratégias de gênero, Vera Queiroz (1997, p.120) aponta que uma das questões centrais para a “crítica feminista” é a discussão em torno do “sujeito que lê e do sujeito que escreve”. A questão da autoria e da construção da subjetividade feminina em termos de representação literária só pode ser enfrentada se colocada em perspectiva, ou seja, a partir de uma relação dialógica, cujo “olhar está interessado” em reconhecer nos possíveis “elementos da trama”, “as condições ideológicas e sociais contemporâneas que configuram as vidas de mulheres transformadas pelo feminismo” (QUEIROZ, 1997, p. 131, grifos da autora).
A escrita literária produzida por Miriam Alves segue essa direção e assume esse posicionamento descrito por Queiroz, no que concerne, principalmente, à desconstrução das imagens literárias depreciativas elaboradas pela ótica masculina para as mulheres de origem. No traçado do verso, na comunicação em prosa, no uso do tom e do som das palavras que saem pronunciadas em voz alta em diferentes ritmos, sons e timbres, a escritora afrobrasileira tem buscado construir outras escritas do corpo, deixando impressas em suas produções as digitais femininas.
Finalmente, nas quatro poesias analisadas de Miriam Alves, é possível identificar a celebração e o arrebatamento da escritora ao falar sobre o corpo negro feminino, colocando em relevo uma linguagem poético-erótica. Os corpos negros femininos aparecem envoltos em uma atmosfera de erotismo, lirismo e muita sensualidade, valorizando suas formas e contornos, experimentando outras sensações e sentimentos em tessituras afrobrasileiras.
NOTAS
[1]Cito como exemplo os sonetos atribuídos ao escritor Gregório de Matos dedicados à mulata Jelu; as características da personagem Vidinha, no romance Memórias de um sargento de milícias, de Joaquim Manuel de Almeida (1854); as imagens construídas pelo narrador para as personagens afrodescendentes Eufêmia, Esméria e Lucinda, em As Vítimas-algozes: quadros da escravidão, de Joaquim Manuel de Macedo (1869); os poemas de Castro Alves (1868) nos quais o escritor se refere ao processo de escravização dos negros africanos em nosso país; a representação da personagem Rosa, em A escrava Isaura, romance escrito por Bernardo Guimarães (1875); a figuração das personagens Rita baiana e Bertoleza, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo (1891); o conto intitulado Negrinha, de autoria de Monteiro Lobato (1918); o poema Essa negra Fulô, de Jorge de Lima (1929); a imagem da mulher negra presente na poesia Irene, de Manuel Bandeira (1930); as personagens afrodescendentes do livro Casa-grande senzala, de Gilberto Freyre (1930); os Poemas da negra, de Mário de Andrade (1929); e, finalmente, as incontáveis personagens das obras do escritor baiano Jorge Amado, entre elas, destaco o romance Gabriela, cravo e canela (1958), entre outras (os).
2 Estou adotando o termo afrobrasileira em consonância com as reflexões propostas por Florentina Souza (2005), em Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal MNU. Acredito que a autora, além de utilizar o termo afrobrasileira para definir a literatura produzida por escritoras de origem afrodescendente, apresenta um conceito sobre esse tipo de produção textual que está em análise. Chamo atenção de que há outras denominações para a literatura de autoria negra que tem sido adotada por pesquisadores e estudiosos, a exemplo dos termos negra, afrodescendente ou negro-brasileira.
3 Os Cadernos Negros são publicados desde 1978 e estão sob a organização do grupo Quilombhoje Literatura desde 1980. Esta antologia literária se tornou o principal veículo de divulgação da literatura afrobrasileira na contemporaneidade produzida por autores, cujo posicionamento discursivo e temática abordada, tanto em verso, como em prosa, evidencia uma preocupação ou comprometimento do(a) escritor(a) com as questões ligadas ao cotidiano da população negra. Este ano os Cadernos chegam ao seu número 37, alterando poemas (números impares) e contos (número pares), completando quase quarenta anos de existência.
4bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escritora afro-americana, que escolheu esse apelido para assinar suas obras como uma forma de homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó. Grafo o seu nome em letras minúsculas, atendendo ao pedido da própria autora que afirma o seguinte: “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”.
5A autora discorre sobre a realidade das mulheres afro-americanas. Embora construa suas reflexões em um lugar geograficamente distante, procuro aqui estabelecer uma aproximação com a realidade vivenciada pelas mulheres negras brasileiras, pensando que essa situação descrita pela autora é comum a todos nós, independente do espaço onde nos localizamos
6 Publicado no livro organizado por Alison Jaggar e Susan Bordo, Gênero, Corpo e Conhecimento. Écriture féminine trata-se de uma teoria desenvolvida no contexto do feminismo francês, enraizado em uma tradição da filosofia, da linguística e da psicanálise europeias, a qual situa o feminino como aquilo que é “reprimido, mal representado nos discursos da cultura e do pensamento ocidentais”. Com base na alteridade radical da diferença sexual da mulher.
REFERÊNCIAS
ALVES, Miriam.(1983). Momentos de Busca. São Paulo: Do Autor.
ALVES, Miriam. (1985). Estrelas de Dedo. São Paulo: Do Autor.
ALVES, Miriam. A literatura negra feminina no Brasil – pensando a existência. Revista ABPN, v. 1, n. 3 – nov. 2010 – fev. 2011, p. 181-189.
CADERNOS NEGROS 9. (1986). São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CADERNOS NEGROS 17. (1993) São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CADERNOS NEGROS 25. (2002). São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CADERNOS NEGROS 31. (2008). São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1969.
DALLERY, Arleen (1997). A política da escrita do corpo: écriture féminine. In: BORDO, Susan & JAGGAR, Alison. (Orgs.). Gênero, corpo e conhecimento. Trad. Brítta Lemos de Freitas. Rio de Janeiro: Record.
GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz: Corpo e Cabelo como símbolo da Identidade
Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
GONZALEZ, Lélia. (1983). Racismo e sexismo na cultura brasileira. Brasília: ANPOCS.
HOOKS, Bell. (1995). Vivendo de amor. In: WERNECK, Jurema et al. (Orgs.). O livro da saúde das mulheres: nossos passos vêm de longe. Trad. Maísa Mendonça, Marilena Agostina e Maria Cecília MacDowell dos Santos. 2ª edição. Rio Janeiro: Pallas, p.188-198.
MARTINS, Leda. (1996). O feminino corpo da negrura. Revista de Estudos de Literatura. v. 4, p. 111 -121, Out.
QUEIROZ, Vera. Crítica Literária e Estratégias de Gênero. Rio de Janeiro: UFF, 1997.
SOARES, Carmem. (Org). Corpo, conhecimento e educação: notas esparsas. In: Corpo
e História. Campinas: Autores Associados, 2006.
SOUZA, Florentina da Silva. (2005). Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal MNU. Belo Horizonte: Autêntica.
Bio fornecida pelo palestrante.
CADERNOS PARA JOGAR: A ENCENAÇÃO LUTUOSA NA ESCRITURA DE CAROLA SAAVEDRA
Cassiana Lima Cardoso
Universidade Cândido Mendes
Resumo: Neste ensaio buscamos uma breve leitura da obra Inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra. Partindo da premissa de que a obra de arte, na contemporaneidade, se nos oferece repleta de rasuras e fendas, como que num convite ao diálogo, pensaremos as lacunas deixadas pela narrativa da autora, em seu processo metaficcional, como um jogo. Entretanto, ao contrário do jogo de xadrez, no qual cada peça tem uma função específica e o jogador carece de competência para movê-las, os fios propositalmente desordenados de sua narrativa farão jornadas espirais. Histórias dispersas, que encenam o desencontro do mundo e das subjetividades; o descompasso entre as narrativas individuais e coletivas, mas que, à revelia da vontade do narrador, coexistem e seguem seu curso. Uma atmosfera de solidão e abandono, na qual nem o amor romântico nem o amor paterno inspiram redenção; sendo, antes, o ensejo para a encenação lutuosa de uma realidade em estilhaços.
Palavras-chave: luto, melancolia, jogo, metaficção, contemporaneidade.
Resumen: En este ensayo buscamos una breve lectura de la obra “Inventario de las cosas ausentes”, de Carola Saavedra. Partiendo del supuesto de que la obra de arte, en la contemporaneidad, se nos da repleta de tachones y fisuras, como que en una invitación al diálogo, pensaremos en las lagunas dejadas por la narrativa de la autora, en su proceso de metaficción, como un juego. Sin embargo, al contrario del ajedrez, donde cada pieza tiene una función específica y el jugador carece del poder para moverlas, los hilos deliberadamente desordenados de su narrativa harán jornadas en espiral. Historias dispersas, que ponen en escena el desajuste del mundo y de las subjetividades; la brecha entre las narrativas individuales y colectivas, mas que, en desacato a la voluntad del narrador, coexisten y siguen su curso. Una atmosfera de soledad y abandono, en la que ni el amor romántico ni el amor paterno inspiran la redención; siendo, mas bien, la oportunidad para la lúgubre escenificación de una realidad astillada.
Palabras clave: duelo, melancolía, juego, metaficción, contemporâneo.
Minicurrículo: Cassiana Lima Cardoso é professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Pesquisadora do Colégio do Brasil, com orientação do professor Eduardo Mattos Portella. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (2003) mestrado e doutorado em Letras (Ciência da Literatura) na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No mestrado, estudou a obra O Dia do Juízo, do escritor mineiro Rosário Fusco. Doutora em Literatura Comparada com a tese: Samuel Beckett, o jogador melancólico. Atualmente é professora de Comunicação Específica da Universidade Candido Mendes, para os cursos de Moda e Design de Interiores. Atua, principalmente, nos seguintes temas: literatura, teatro, melancolia, jogo, ironia e infância.
CADERNOS PARA JOGAR: A ENCENAÇÃO
LUTUOSA NA ESCRITURA
DE CAROLA SAAVEDRA
Cassiana Lima Cardoso
Meu enleio vem de que o tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar – uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer despencar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras.1
Clarice Lispector
Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.2
Carola Saavedra
Inventariar é a possibilidade de discriminar, catalogar, listar, minuciosamente, o espólio de um morto. O que fazer, no entanto, com a herança de um cadáver que não deseja morrer? Ou: como arrolar bens deixados sob a forma de rasura, corporificadas em linhas íntimas e confessionais?
Amar é não morrer.3 A escrita, em Inventário de coisas ausentes é a encenação melancólica de um amor que perdeu, irremediavelmente, seu objeto. O amor a Nina ou ao pai, além de todas as outras narrativas nas quais encontros e desencontros são enredados e desenredados, são apenas subterfúgios para a tentativa de aproximação com uma ausência; num jogo que encena4, em seu próprio curso, a inconstância e a impossibilidade de domesticar em um conceito ou em uma forma literária, a experiência subjetiva entre os seres.
Nina foi embora, eu nem sabia para onde e fiquei ali com aqueles diários. Senti um ódio enorme, como se atrevia? Demorei alguns meses para ler o primeiro. Digressões sem sentido, filosofias baratas, histórias de família. Não que houvesse ali alguma pretensão literária, para ela a literatura parecia tão distante quanto um tabuleiro de xadrez. De qualquer forma, Nina tinha dezessete cadernos completos. Prolixa. Por que decidira deixá-los comigo eu nunca consegui compreender (SAAVEDRA, 2014, p. 26).
Dezessete diários. É esse o legado de Nina para o narrador do livro, que surgem como objetos a partir dos quais ele encena seu luto, na forma de duas narrativas que parecem se escreverem na presença do leitor, convidando-o, desse modo, à participação quase instantânea ao ato da escrita.
Nessa narrativa em processo, as rasuras, os silêncios e o fragmento, apresentam uma escritura que se corporifica a partir de sua própria fragilidade, tentando pôr em cena, relações marcadas por uma série de inseguranças, desencontros e ausências. Mas haveria outra(s) forma(s) de amar se não pela falta? Cabe ao narrador, também ele, uma instância ficcional urdida na tessitura da trama, escrever uma história com os vestígios e as cifras que restam; transformando essa herança pouco convencional em uma separação amorosa (cadernos íntimos de sua parceira) em uma possibilidade de compreensão do que se passou, ao mesmo tempo em que tenta, sem êxito, alinhavar os elementos constitutivos de sua ficção.
É que, em Inventário das coisas ausentes, a tentativa de coesão, quando a narrativa tenta desenhar árvores genealógicas ou descrever caracteres, vem acompanhada de um impulso corrosivo, pois o narrador vai se dando conta de que não se trata de traçar um perfil psicológico dos personagens ou mapear sua genealogia, mas compreender o que se passa nas relações interpessoais, no entrechoque de subjetividades; fotografar, sem melindres, a explosão silenciosa dos afetos:
Vou até o armário. Tiro de lá uma caixa vermelha, dentro dela dezessete cadernos dos quais não consegui me livrar. Penso, o que será do passado quando os rastros se forem e ficar apenas a memória. Como se os rastros dissessem alguma coisa. Os rastros contam sempre uma outra história. Abro um dos cadernos, leio com cuidado o primeiro parágrafo, sinto como se o lesse pela primeira vez. (…) As palavras parecem ter perdido sua substância, como uma fruta que tivesse perdido sua carne e restasse apenas a casca. A casca das palavras é frágil e ressecada (SAAVEDRA, 2014, p. 64).
O romance é dividido em duas partes: “Cadernos de anotações” e “Ficção”, mas seria um engodo pensar que o narrador consegue ordenar seu material, quando, supostamente, na segunda parte do livro, o alça ao estatuto de uma narrativa. Ao contrário, a relação tensa com o pai (agora testamentário dos dezessete cadernos) torna a sensação de desencontro de perspectivas ainda mais aguda, tornando a escrita uma experiência na qual os paradoxos são insistentes, marcando, notadamente, a impossibilidade de domar as várias formas de experiência afetiva, via escritura.
Lembrando, em muito, como já foi observado, a Carta ao pai, de Franz Kafka, a figura paterna, na segunda parte do livro, transfere para o narrador, assim como Nina, a obrigação de entendê-lo a partir de seus diários. Como se a posse daqueles cadernos fosse suficiente para a restituição da comunhão perdida; e ele, como escritor, fosse obrigado a dar forma àquele material e explicar tudo, dirimir tudo; aparar todas as arestas:
Ele continua, estes são os diários que eu escrevi nestes últimos dezessete anos, um longo exercício de rememoração, a infância, a adolescência, os anos de faculdade, a prisão, eu que nunca falei do tempo em que estive preso, está tudo aí, tudo o que vivi, o que eu pensei, as pessoas, suas frases, seus nomes, está tudo aí, todo o tempo que eu passei lá (…). Está tudo aí, os anos no exílio, a vida desses anos (…). Quantas vezes eu tive que reconstruir tudo, está tudo aqui, nestes cadernos, até os últimos anos, as mudanças, coisas que você jamais imaginaria, toda uma vida, toda uma vida, dezessete cadernos, foi do jeito que está aqui, você entende? Eu olho para aqueles cadernos e não penso em nada (SAAVEDRA, 2014, p. 26).
Nina é uma personagem apresentada aos leitores, como uma jovem chilena, que muito cedo veio para o Brasil e aqui, à época da Faculdade, conhece o narrador do romance, com quem tem relacionamento amoroso. O namoro é rompido bruscamente por ela, sem que haja maiores explicações para seu parceiro, deixando-o atônito.
No decorrer da escritura, o narrador tenta reinventá-la na instância da narrativa para compreendê-la, ao mesmo tempo em que deseja estruturar os elementos constitutivos de sua ficção. São recorrentes os apontamentos, que aparecem como parábases, à medida que a narrativa começa a se desenhar, sobre personagens, tempo, espaço. Cada peça é apresentada ao leitor sem pressa, como matrihoskas, reveladas no momento de sua fabricação e que, às vezes, não se encaixam bem, carecendo de alguns ajustes:
Ainda não sei nada sobre a história. Apenas umas ideias desconexas, um homem velho, uma casa, diários. Um filho (SAAVEDRA, 2014, p. 12).
(…)
A história começa a se delinear. Será uma história de família (SAAVEDRA, 2014, p. 13).
(…)
O livro é sobre um lugar. Uma casa. E a descrição detalhada dos móveis da casa, suas janelas, corredores. É também sobre o tempo nesse lugar. Uma pequena engrenagem da memória (SAAVEDRA, 2014, p. 24).
O jogo metaficcional é a possibilidade de tornar Nina corpórea; de tornar a ausência, presença, nesse duelo entre o dito e o não-dito. A escrita fragmentada, que segue o itinerário de um caderno de anotações e seus intervalos, deixa campo aberto para o leitor interagir com o que não está explícito nas linhas, mas aparece nas entrelinhas. Desse modo, justamente quando se põe em evidência a fragilidade, a vulnerabilidade de sua ficção em encarnar o real, a escrita de Inventário de coisas ausentes revela sua maior potência; uma força paradoxal, que se serve de sua própria impossibilidade para convocar a presença do leitor:
Volto a sentar diante do computador. Abro o arquivo. Escrevo: Nina quebrou a coluna em três lugares. Nina não sustenta a si mesma, precisa de ossos, uma estrutura, que lhe dê concretude. Sem essa estrutura ela apenas o espaço vazio, essa constante incerteza. Escrevo. Escrevo para Nina uma medula, escrevo também um fígado, e um estômago. Escrevo vísceras, sim, muitas vísceras. A barriga estufa. Escrevo vértebras e toda uma nova coluna. Dou atenção aos espaços, escrevo uma vagina, escrevo um útero, escrevo ovários, trompas, uma placenta, e escrevo também um filho que ainda não existe no útero de Nina. (…) Escrevo o nada. Cubro-o delicadamente com uma rede, as palavras incessantes à sua volta. Depois penso, com tristeza, mas também com certo alívio, o corpo de Nina é apenas o corpo de Nina (SAAVEDRA, 2014, p. 47).
A susceptibilidade dessa ficção abre espaço para o olhar do outro, ela contempla e se oferece à contemplação. Assim como os leitores são chamados à conversação mediante as lacunas e frestas que o texto apresenta, um personagem; Pedro, melhor amigo do narrador, também aparece como alguém a quem o autor submete seu texto e pede aprovação:
No bar entrego a Pedro os primeiros capítulos, é só um rascunho, não revisei ainda. É a história de que te falei. Ele não diz nada, passa os olhos no primeiro parágrafo, eu tento ler na expressão do seu rosto algum indício de simpatia ou desprezo (SAAVEDRA, 2014, p. 21).
Pedro materializa o desejo de adivinhar o outro, de supor seus juízos no ato de leitura. É o crítico, aquele que com sua interpretação, poderia dar uma resposta esclarecedora às questões que movem aquele texto, reduzindo-as a simples ficção. Mas Pedro é, sobretudo, o amigo; não o ouvinte cego de emoções; racional e judicativo, mas sim aquele contagiado pelo afeto, também partícipe da história, a quem uma parte dela é sempre vedada: “Pedro acomoda-se em sua sala de estar com vista para a Lagoa, coloca o manuscrito sobre a mesa, abre a primeira página. Pedro é péssimo personagem” (SAAVEDRA, 2014, p. 43).
As narrativas individuais misturam-se aos relatos coletivos. Uma interpenetração entre a razão dos fatos e razão das histórias que são contadas torna indivisível literalidade e historicidade. Como observou Rancière5, “escrever a história e escrever histórias pertencem ao mesmo regime de verdade”. Desse modo, os personagens anônimos, invisíveis à história oficial, nos fazem revisitar, via uma poética fragmentada, o embate subjetivo com a História, que, à parte de vencedores e vencidos, nunca foi unilateral, linear ou conclusiva. Testemunho e ficção, nessa perspectiva, passam a habitar um mesmo regime de sentido. Trata-se, nesse caso, não de um empirismo radical discursivo, proposto como voz única de uma verdade inconteste, mas de uma apreensão do real em que a metaficção, no processo contínuo de uma escritura que reflete sobre si mesma, se rasura, em forma de rastros e vestígios. “O real precisa ser ficcionalizado para ser pensado 6” E se a realidade não se oferece plena e legível, a ficção deve apresentar esta inconclusividade e embaçamento em seu próprio arranjo, em sua composição.
Com efeito, os relatos dos antepassados de Nina e as histórias paralelas de ilustres desconhecidos que o narrador intercala, possuem, sobretudo, o traço comum de apontarem para a pluralidade de vozes que habitam o real. Uma Medeia em Viena, anônima, que se mata ao final da história, tem a mesma importância que os relatos sobre uma de suas bisavós, por exemplo; (esta última, uma das passagens mais divertidas, quando ela mesma se descobre personagem de um romance cujo título era “Paloma Negra”7).
Assim, se passa também, com a história paralela de Joana e Guido, um caso de romance que se inicia pela internet e termina em suicídio; e o avô de Nina, um jovem cineasta socialista e ateu que irá se converter em um pastor presbiteriano e morre de morte natural, em idade avançada. Não há moral ou mensagem a ser extraída dessas histórias que se cruzam; a ficção não é mais apenas um disfarce para aproximação do real; mas a única forma de encená-lo sem trair a coexistência de múltiplas narratividades que compõe o caleidoscópio do mundo.
Parece-me que esses diários, confiados às mãos desse narrador ficcional de forma tão abusiva, insinuam, em Inventário de coisas ausentes, uma interessante alegoria a respeito da literatura em nossos dias. Ela, a literatura, já não tem obrigação de se constituir como obra total, nem destilar conselhos, nem explicar a inexplicável inoperância dos homens quando o assunto é o outro. Não lhe cabe o papel de mediadora ou redentora dos seres. Enfastiada, ela nega sua instrumentalidade, e, como sempre quis, encena (é verdade que, às vezes, também, com certo espanto) o desejo que os homens têm que se decida por eles o que devem ser ou fazer.
Assim, contra um princípio absoluto de apreensão total da realidade, a pluralidade de vozes no mundo contemporâneo, performatizada nesse romance, nos propõe também “uma escuta do silêncio, na diferença do corte”.8 As várias narrativas que se sobrepõem, em sua incompletude, matizam o enigma do amor e suas possibilidades. Quase todas contêm o refrão que indica esse impasse: “… ah, então isso deve ser o amor.” A indefinição, a inconclusividade, na forma desse paradoxo, é o principal indício deste recado – não mensagem. A narrativa termina em suspensão: nem Édipo, nem Hamlet; matar ou morrer não é mais o dilema. A tarefa, agora, é jogar o jogo da ficção, que, afinal, assim como o amor, se move pela falta; ampliando vazios e encenando perdas; presentes, ausentes.
NOTAS
[1]LISPECTOR, Clarice. Os desastres de Sofia. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 100.
2SAAVEDRA, Carola. O inventário das coisas ausentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 64 -65.
3LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 125.
4“O jogo esclarece o luto, escreve Pierre Fédida, que lembra a referência freudiana ao Trauerspiel (…). Enquanto não se está morto, se finge sempre morrer[1]”. Cf. DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 85.
5RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Trad. Mônica Costa Neto. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 58.
6Idem, p. 58.
7Trata-se de um romance de cerca de quinhentas páginas escrito pelo avô de Nina, que versava sobre todas as suas traições à mulher, que, sadicamente, o fizera sofrer em silêncio em um casamento bastante infeliz. Paloma Negra é uma alusão à “Palomita Branca”, clássico romance chileno, de Enrique Lafourcarde.
8PORTELLA, Eduardo. Curso “Os caminhos do paradoxo (do Alto Romantismo à Baixa Modernidade)”. Anotações em sala de aula do curso ministrado no 1º semestre de 2011.
Notas bibliográficas
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998.
PORTELLA, Eduardo. Curso “Os caminhos do paradoxo (do Alto Romantismo à Baixa Modernidade)”. Anotações em sala de aula do curso ministrado no 1º semestre de 2011.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Trad. Mônica Costa Neto. São Paulo: Editora 34, 2005.
SAAVEDRA, Carola. O inventário das coisas ausentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Bio fornecida pelo palestrante.
Carina Lessa
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo: Este artigo pretende versar sobre O retorno, de Dulce Maria Cardoso, romance publicado no Brasil em 2012, com uma narrativa que retrata os efeitos da descolonização de Luanda. Muito diferente dos romances que nos têm chegado sobre as ex-colônias africanas, a autora opta por apresentar o ponto de vista de um adolescente que sofre a marca de estar no entre-lugar. Mais do que construir uma escrita sobre o sofrimento dos retornados, realidade sobre a qual poucos ousaram falar, a autora nos dá a medida certa ao demonstrar a ruína do império português por meio das impressões de um adolescente – ainda pouco calejado pela vida e que pouco recebe informações sobre os fatos. Apenas observa e apreende a vida malograda dos seus familiares e companheiros, franqueada pelas perdas e as marcas abjetas que jamais serão reestabelecidas.
Palavras-chave: Dulce Maria Cardoso; Literatura Portuguesa; entre-lugar; memória.
Abstract: This article discusses the novel The Return, by Dulce Maria Cardoso, published in Brazil in 2012, with a narrative that portrays the effects of decolonization in Luanda. It is very different from other novels that reflect on the former African colonies, since its author chooses to present it through a teenager’s point of view. One that suffers the effect of living in an in-between place. More than building her writing on the plight of returnees, a reality over which few dared to speak, the author gives us the right measurement to prove the ruin of the Portuguese Empire through this teenager’s impressions, someone who is still little jaded by life and who has received little information about the facts. He only observes and captures the ill-fated lives of his family and companions flanked by losses and abject marks that will never be reestablished.
Keywords: Dulce Maria Cardoso; Portuguese literature; in-between; memory.
Carina Lessa é bacharel em Letras, mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Literatura Brasileira. Participa de projeto sobre literatura contemporânea associado à Stanford University. Publicou a obra A esquizofrenia do escritor (São Paulo, Batel, 2011).
AS COISAS QUE MORREM NÃO SE DEVEM TOCAR:
UMA LEITURA DE O RETORNO, DE DULCE MARIA CARDOSO
Carina Lessa
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Sagrado e profano representam, pois, na máquina do sacrifício, um sistema de dois polos, no qual um significante flutuante transita de um âmbito para outro sem deixar de se referir ao mesmo objeto. Mas é precisamente desse modo que a máquina pode assegurar a partilha do uso entre os humanos e os divinos e pode devolver eventualmente aos homens o que havia sido consagrado aos deuses. (“Elogio da profanação”, Giorgio Agamben)
O retorno é um romance de perdas. Perdas e só. O leitor só tem acesso às reminiscências sobre o impacto da perda. Rui, o narrador-personagem, “é o imperativo do verbo ruir”, como a própria autora afirma em entrevista ao “Prosa e Verso” – a propósito de sua vinda ao Brasil para falar na Flip. Como adolescente, o personagem não viveu os momentos da glória portuguesa, apenas assistiu e viveu a ruína final. Sua percepção é falha na medida ideal para a narrativa proposta.
Rui perde a casa em Luanda, a cachorra, a alegria solar e os amigos. Retorna com a mãe e a irmã a Portugal e passa quase todo o romance sem saber se irá rever o pai, que some de maneira misteriosa. Já em Portugal, é alojado com a família num hotel cinco estrelas e desde sua chegada percebe as manobras que a diretora faz para roubar o dinheiro que o Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais pagava para sustentá-los. Dentre tantos trechos e frases que se repetem, há um que lateja profundamente no decorrer da narrativa, uma espécie de mentira que Rui tentava fazer-se acreditar “um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa” (p. 163).
Apresentado o argumento do romance de Dulce Maria Cardoso, devemos dizer que, por meio dos silêncios e lacunas da perda que Rui vai tentando completar e justificar no fluxo narrativo, os leitores estão diante de um mundo de possibilidades para penetrar na memória do trauma – não só individual, mas também coletiva – que nós, e nem mesmo o narrador, podemos tocar.
Segundo Agamben, uma sociedade precisa “desativar seus dispositivos, afim de tornar possível um novo uso”, tal frase, apresentada na quarta capa do seu Profanações (2007), faz lembrar uma forte tendência da literatura contemporânea de escrever a história daqueles que foram varridos da historiografia, por estarem à margem da sociedade. Entre homens e deuses, o sagrado e o profano devem agora perambular de modo a inverter suas particularidades.
Aqui, Dulce Maria Cardoso faz a transfusão das células exemplarmente. A autora injeta no povo africano a sua carga de crueldade, manchando de sangue as mãos do povo visto como vítima de Portugal e, em contrapartida, injeta delicadeza e sofrimento no povo branco visto como explorador e preconceituoso. Uma profanação ousada e, talvez, nunca vista na recente literatura escrita em Portugal sobre os países africanos de língua portuguesa.
“As coisas que morrem não se deve tocar” (2012, p. 150) é uma frase dita por Glória, mãe de Rui, já em fins do romance. Usualmente, os autores de um texto se utilizam de uma frase ou trecho de outros escritores para introduzir seus leitores ao tema a ser abordado. Em O retorno, curiosamente, Dulce Maria opta por uma frase de Dulce María Loynaz1 que, invertendo o costume, finaliza o romance – tal qual uma lápide em cima de um túmulo fechado em absoluto. Calado e intocável.
É interessante pensar essa frase sob a égide de um paradoxo que não se resolve, no que diz respeito à memória, se analisarmos o ato de morrer também metaforicamente. Num romance prenhe de memorialismo faz-se necessário pensar que, mais do que a morte física e moral, devemos pensar naquela morte que nos distancia da verdade – a morte dos fatos. Memória traumática ou não, sempre será reescrita e refeita, sempre em função da necessidade e autoridade do presente. Henri Bergson, em Matéria e memória, faz uma distinção muito interessante entre lembrar e recordar: lembrar como um ato involuntário, por derivar de um fato ou questão que se impõe e que não está sob controle, enquanto que recordar remete ao esforço voluntário de rememorar fragmentos do passado. A lembrança desse fato histórico parece ter se imposto de modo vigoroso para a realização do romance.
Rui narra a partir das impressões diretas que recebe da sua condição de retornado. Recebe e sofre a realidade dos fatos e suas perdas, procura intensamente preencher as lacunas. Sob a visão do narrador não se impõe o processo de rememoração porque ele ainda não está distante dos acontecimentos. Portanto, nós, leitores, recebemos aquilo que ele nos pode oferecer como verdade dos fatos que o cercam. Em contrapartida, Dulce Maria Cardoso, também retornada de Luanda, procura reproduzir por meio desse adolescente suas vivências e impressões sobre a vida de retornada.
Ambas as verdades – a de Rui e a de Dulce – se esbarram e se entrelaçam, de modo a nos fornecer os dois processos: a lembrança e a rememoração. Mas a lembrança continua presa às raízes do passado, reflete o presente, realiza o estado de espírito atual da autora que pode visualizar de perto tal realidade, mas já agora personifica-se e, podemos até dizer que preenche as lacunas deixadas – é o instinto de sobrevivência. A autora rememora e preenche espaços, justifica o porquê do presente. O romance da vida do personagem fictício Rui, que temos em mãos, realiza de modo grandioso a lacuna, desfaz-se da memória. Joga de lado o excesso de historicismo e lida, podemos dizer, muito bem com a perda da mesma memória. Tudo que está morto não se deve tocar, quer seja do império ou, simplesmente, da vivência individual de cada retornado.
O título do romance, O retorno, não diz respeito apenas à volta para o país de origem, mas também o retorno a um passado que não se pode dizer. O leitor tem a mesma sensação que um retornado pode ter, ouvimos o seu grito desesperado e também vivenciamos e tentamos preencher suas lacunas. Esse movimento entre a reescrita do passado e a evasão da memória possibilita a escrita de um passado ignorado por boa parte dos portugueses 2, marcando sua existência, ao passo que mostra a incapacidade de se dar corpo a esse passado de modo efetivo. Podemos afirmar que este romance está inserido no que Hutcheon diz ser:
A postura pós-modernista de confrontar os paradoxos da representação fictícia/histórica, do particular/geral e do presente/passado. E, por si só, essa confrontação é contraditória, pois se recusa a recuperar ou desintegrar qualquer um dos lados da dicotomia, e mesmo assim está mais do que disposta a explorar os dois” (HUTCHEON, 1991, p. 142).
Ao recuperar os dois lados da dicotomia, a autora se utiliza de alguns recursos estilísticos que intensificam a realidade à qual somos submetidos como meros espectadores distantes – espacial e temporalmente. Estamos diante de um romance que possui caráter histórico e, em consequência, que está revestido de elementos que adquirem historicidade, seja por se tratarem de fatos verídicos ou por se tratar de ficção contaminada pelo universo narrativo no qual estão inseridos. Segundo Alcmeno Bastos, em Introdução ao romance histórico:
É sempre oportuno lembrar que o modelo de romance histórico ideal para Lukács assentava justamente na atribuição do papel de herói não a uma figura reconhecidamente histórica, mas a uma figura inventada ou de pouca expressão na cena histórica reconstituída. No primeiro caso, puramente ficcional, portanto; no segundo, com débil poder de evocação do quadro histórico, uma marca registrada fraca. E, tanto num caso quanto no outro, marca registrada suposta” (BASTOS, 2007, p. 93).
Devemos dizer que a narrativa de Dulce Maria Cardoso está longe de ser tradicional, com começo, meio e fim, ou ainda, movida pela trajetória de um herói. Mas não temos nenhuma dúvida de que a escolha de Rui e todos os personagens que o cercam foi fundamental para se chegar ao objetivo desejado. Visitamos uma história nunca antes mencionada pela literatura, obtemos informações verídicas sobre a condição dos retornados por meio de personagens fictícios. Tal opção nos serve muito bem para receber e avaliar os fatos que foram velados pela história, digamos assim, oficial. Sem citar nomes conhecidos, participamos de uma memória individual que, indiscutivelmente, dá conta da memória coletiva.
Como já foi dito, o não distanciamento dos fatos foi uma moeda de grande valor original para a obra da autora em questão. Temos em mãos um relato direto, no momento exato dos acontecimentos. Mas é preciso fazer uma divisão entre a memória da autora – junto com sua opção narrativa e modelo de escrita – e a visão do adolescente que nos permite vivenciar o horror dos fatos sem distanciamento, portanto repleto de lacunas. Um romance que, seguindo a leitura de Jeanne-Marie Gagnebin sobre a escrita em Platão3, manifesta a consciência de que o texto, seja ele falado ou escrito, possui limites internos de comunicação:
A crítica platônica da escrita não apontaria, portanto, para a existência de doutrinas que Platão teria se recusado a transmitir em sua obra, “mas chamaria mais atenção para o fato que existem limites internos à comunicabilidade”. Segundo Wieland, portanto, não há verdadeira contradição em chamar “atenção num texto para tudo aquilo que, enquanto tal, um texto não pode produzir” (GAGNEBIN, 2005, p. 49).4
Há um paradoxo muito interessante em torno da memória. A autora Dulce Maria Cardoso conhece a debilidade do processo de rememoração: sempre falho, principalmente ao ser verbalizado. Ao reconstruir a memória dos retornados, a autora opta por um personagem que está no fervor dos fatos. Para ele não existe a lembrança ou a ansiedade de rememoração.
Não há quase nenhuma referência direta aos fatos históricos. A estrutura narrativa será a maior arma de combate, digamos assim, para denunciar e/ou anunciar a realidade camuflada sobre o impacto na vida dos retornados. O romance é dividido em quatorze capítulos, treze deles são textos corridos de fluxo de consciência de Rui. Conhecemos todos os outros personagens e suas falas por meio do discurso indireto.
O primeiro capítulo anuncia a necessidade de retorno a Portugal. Para o adolescente, a espera de uma grande novidade, principalmente no que diz respeito às raparigas. Rui constrói um discurso comparativo entre as moças de Luanda e as de Portugal, bem como vai enchendo-se de expectativas para uma vida melhor na metrópole. Há um delineamento da situação em Angola, da necessidade de partir e das marcas de despedida. O adolescente descreve o ritual do dia a dia familiar, e, ao fazer isso, perfaz um movimento de ida e vinda ao passado – um processo de rememoração típico da nostalgia sobre aquilo que se vai perder.
Neste momento, podemos verificar, talvez com maior exatidão, uma estrutura narrativa que vivifica o título desse romance: marcado sempre pelo retorno ao passado. Rui relembra a história (sempre repetida por sua mãe) sobre o casamento de seus pais. Relembra com autoridade, dando voz aos seus pais utilizando-se de verbos no presente do indicativo. Aqui, as vozes se misturam e também os tempos verbais – circulamos entre pretérito perfeito, imperfeito e presente – que parecem nos lembrar a indiscernibilidade entre ambos os tempos. O uso do discurso indireto livre já anuncia, desde já, a necessidade que o narrador tem de preencher as lacunas deixadas a sua volta. Dessa forma, lhe é permitido entrar na cabeça daqueles que agora se tornaram personagens de sua história:
A mãe de costas para o mar, sem reconhecer o pai, sem conhecer a terra que tinha em frente, os guindastes pareceram-me mais altos do que as nuvens, o porto tão grande, cabiam ali cem cabeços de macieiras. A mãe teve medo dos pássaros que gritavam como os de Lisboa, o vosso pai disse-me que se chamavam gaivotas. Dos pretos não tive medo, não tinham nada de especial, eram só pretos. O porto tinha um cheiro ácido, como se o mar tivesse azedado, o porto em Lisboa não cheirava mal (2012, p. 25).
Mais ainda do que reconhecermos a marca do discurso indireto livre, que será uma marca constante no decorrer do romance, recebemos informações sobre a chegada da mãe em Luanda. Suas primeiras impressões que carregam a primeira morte simbólica do pai: a mãe constata que ele já não era o homem que a deixara em Portugal.
A mãe, seguindo a tradição portuguesa, havia bordado uma toalha de mesa que agora o pai resolvera rasgar aos poucos, como se transformasse em ruínas o império em decadência. Rasgar as dálias parece ser um ato de destruir aos poucos o passado. É interessante pensar que, ao retirar apenas as dálias, buracos são deixados. Espaços em branco que marcam a presença e/ou ausência daquilo que foi e não mais será: “O pai pega na faca de cortar a carne e com a ponta afiada começa a rasgar uma das dálias que a mãe bordou. Devagarinho, como se houvesse uma maneira certa de rasgar as dálias e o pai a tivesse aprendido tão bem como a mãe aprendeu a bordá-las” (2012, p. 21).
O pai desaparece misteriosamente após a “visita” de alguns soldados negros que estão procurando o carniceiro do Grafanil. A mãe e a irmã não ficam sabendo sobre o ocorrido, apenas Rui que estava ao lado do pai quando isto aconteceu. Rui irá se culpar até o retorno do pai, já em fins do romance, por ter sido covarde e ter desmaiado naquele dia.O tio de Rui faz com que eles retornem antes do pai, com o argumento de que este ficaria mais alguns dias para resolver coisas relativas à casa e seus pertences.
O capítulo seguinte é bem curto, cinco páginas após as quase sessenta do primeiro capítulo. A família, sem o pai, está no aeroporto a esperar vagas no avião para que retornasse a Portugal. Enquanto isso, Rui culpa-se pelo sumiço do pai e por nada ter feito. O capítulo perfaz dezoito parágrafos que terminam sempre com uma sentença fatídica sobre o que de fato teria acontecido ao pai. Tal recurso empregado pela autora é muito interessante, porque constrói um movimento de parábase – típico da tragédia grega –, no qual um coro revela a verdade sobre os fatos da tragédia:
(…) quando chegar a vossa vez têm de ir, o meu coração bate mais depressa e mais forte como se o tio Zé me tivesse ameaçado, quando chegar a vossa vez têm de ir. O sangue do pai no asfalto.
(…) não trouxemos nada a mais, saímos à pressa, as malas ficaram por encher, tanto para levar e afinal tivemos de fechar as malas à pressa e deixámos quase tudo. O pai metido à força no jipe (p. 61).
Depois de tantas expectativas, o terceiro capítulo resume-se à seguinte frase: “Então a metrópole afinal é isto” (p. 65). O espaço em branco parece dramatizar a decepção automática, ao passo que também está prenhe da morte de um passado que não se pode mais tocar. Aquilo que foi perdido e que é irrecuperável.
Como havíamos dito, treze dos quatorze capítulos do romance são movidos pelo fluxo de consciência de Rui. E aqui vai o quarto capítulo, o único que possui uma outra voz que parece falar por Portugal inteiro: a diretora do hotel, no qual Rui se instala com a família, revela um monólogo imperioso (claramente preconceituoso) por sete páginas. Sabemos que sua fala sofre a interferência da mãe de Rui, que está preocupada com as malas, em função das respostas que a diretora dá. A voz da senhora é calada, não é digna de fazer interjeições e conhecer a situação na qual se encontra. Esta habilidade narrativa de Dulce Maria Cardoso foi mais uma construção de grande valor que reflete, de modo velado e sutil, a condição do retornado:
Sejam bem-vindos a este hotel. Façam o favor, entrem, podem sentar-se nessas poltronas. É o meu escritório, estejam à vontade, aqui no hotel todos querem ajudar, chegaram a bom porto. Sei pelo que estão a passar, mas infelizmente não são os únicos. Não se preocupe com as malas, minha senhora, o recepcionista toma conta delas (p. 67).
Rui não precisou de muito tempo para sentir-se imerso numa legião de preconceitos, frustrando todas as expectativas anteriores. Ao frequentar a escola, reage com agressividade às inclinações depreciativas sobre ele. A professora chega a fazer separação por fila, na sala de aula. Por serem retornados e ainda não terem se estabelecido financeiramente, recebem roupas usadas de uma instituição denominada IARN e tíquetes para se alimentarem na hora do intervalo escolar. Sua irmã, Milucha, não usa o tíquete para se desvencilhar da marca de exclusão. Ambos sofrem e reagem de formas distintas, no entanto encontram-se sob a égide do entre-lugar.
Sabemos que aquela era uma geração em que a questão do nacional se impunha e suas leis de convivência eram rigorosas, principalmente num país com caráter de Metrópole – tal qual Portugal. Mas, já agora, em pleno século XXI, misturada a essa narrativa que denuncia um passado renegado pela historiografia, a autora coloca em cena com igual vigor duas vivências culturais diferentes e que se complementam. Um exemplo disso é a tentativa de cura da mãe de Rui. Uma mulher que é descrita por uma doença que pode ser espiritual ou psicológica. Frequentou rituais de desobsessão, bem como fez orações para que melhorasse. Em pleno hotel, cercado de pessoas, diante de uma crise que não cessava, o filho chega a fazer um ritual de exorcismo que resulta na cura da mãe.
O romance também é marcado pela mistura vocabular de Luanda e Lisboa. Os leitores se deparam com uma nova realidade estilística, compatível com a condição da sociedade atual e que comporta as seguintes assertivas de Antonio Candido e Denilson Lopes 5, no seu No coração do mundo:
Sabemos que somos parte de uma cultura mais ampla, da qual participamos como variedade cultural. E que, ao contrário de que supunham, por vezes ingenuamente, os nossos avós, é uma ilusão falar em supressão de contatos e influências. Mesmo porque, num momento em que a lei do mundo é a inter-relação e a interação, as utopias da originalidade isolacionista não subsistem no sentido de atitude patriótica (…) (CANDIDO, 1987, p. 154).
(…) o entre-lugar não é uma abstração, um não lugar, mas uma outra construção de territórios e formas de pertencimento; não simplesmente “uma inversão de posições” no quadro internacional, mas um questionamento desta hierarquia a partir da antropofagia cultural, da traição da memória e da noção de corte radical. O entre-lugar está embasado teoricamente no simulacro e na diferença, a fim de propor outra forma de pensar o social e o histórico, diferente das críticas marcadas por uma filosofia da representação (LOPES, 2012, p. 25).
Apesar de os personagens do romance de Dulce Maria Cardoso viverem à margem da sociedade portuguesa e, mais ainda, já não pertencerem mais à realidade africana, a autora revela por meio de sua estrutura narrativa um elo – um processo de ligamento que os retira do entre-lugar, pelo menos no sentido tradicional do termo. Um elo que refaz o modo de pensar a sociedade e constrói um novo modo de pertencimento, como afirma Lopes no seu “Do entre-lugar ao transcultural”.
O pai de Rui foi um personagem fundamental para efetivar esse ideal de elo cultural e social. Após sofrer o que chamamos de sua primeira morte simbólica, Rui passa a acreditar que o pai morrera quando, finalmente, é chegado o dia da Independência de Angola. Ele sempre ouvira falar que, quando este dia chegasse, quem não tivesse retornado não retornaria mais. Nós, meros leitores, acompanhamos sua angústia e acreditamos.
No meio do romance recebemos o impacto da notícia, uma frase (parágrafo) solitária a anunciar o que já esperávamos desde o início: “O pai morreu” (p. 153). Esta será a mesma frase que encerrará o curto capítulo. Rui, diante de sua ruína, parece quase gritar a um interlocutor indeterminado – que bem poderia ser todos nós leitores: “Sejas tu quem fores, tens de existir para que eu não espere mais. Sejas tu quem fores, existes e eu não espero mais. Sejas tu quem fores, existes e eu não espero mais. Sejas tu quem fores escolheste matar-me o pai” (p. 154).
Depois dessa segunda e falsa morte, o pai retorna quase ao final do romance. Nenhuma palavra fora dita sobre o que acontecera ao pai, pelo menos ao Rui. Ele observa e, como sempre, procura preencher os vazios. “Às coisas que morrem não devem tocar”, e o pai de fato “morrera” – constata o narrador-personagem. Aquele pai sorridente que, por muitas vezes, protegera-o em suas atitudes sexuais de jovem rapaz ficara em Luanda:
O pai nunca falou da prisão. Nem uma palavra. Talvez por isso eu não consiga olhar para as cicatrizes do pai quando o vejo em tronco nu. O silêncio do pai faz com que as cicatrizes contem coisas mais terríveis do que as que o pai poderia alguma vez contar, as cicatrizes mostram-me as feridas a serem abertas, o pai a gritar, a implorar, o pai deve ter chorado (…) (p. 251).
Neste fragmento podemos verificar, mais uma vez, a tentativa de preencher as lacunas deixadas pela ruína do império português. Mais uma vez Rui está derrotado por uma lembrança que jamais será sua. No entanto, a vinda do pai pôs uma pedra quase lapidar no sofrimento da vida de retornado, pelo menos no que diz respeito ao sentimento de estar sem lugar. Até então, Rui tentava acreditar repetitivamente no fato de que, não havendo mais esperanças, aquele hotel poderia ser sua casa. No fim, o pai que tanto sofrera calado, será o mensageiro de boas esperanças. Apesar de sua morte (ainda que simbólica) e de todas as cicatrizes no corpo que marcaram para sempre o seu passado tortuoso, ele chega prenhe de expectativas e possibilidades. O retorno do pai, o retorno mais esperado no decorrer do romance, será ironicamente o fim do sentimento de fracasso:
Talvez o pai tenha razão, talvez o pior possa ainda estar para vir. Mas não vou pensar nisso agora, tenho de ser capaz de pensar numa coisa de cada vez, vamo-nos embora do hotel e eu tenho de estar contente sem me pôr a pensar noutras coisas, aquele quarto e aquela varanda com vista para o mar não eram a nossa casa, a nossa casa é um quarto e uma sala com janelas coladas ao teto, a nossa casa não tem varanda e é longe do mar mas é a nossa casa. (p. 242)
O romance de Dulce Maria Cardoso, mais do que a primeira e óbvia impressão de ter como mote o retorno das famílias a Portugal, perfaz uma história de esperança da família com a volta do pai. O patriarca seria capaz de mudar tudo, de libertá-los daquela vivência cheia de preconceitos no hotel? De restituir à família uma vivência digna e feliz? Passeamos desde a situação macro à micro, do coletivo ao individual. A grande vítima da ruína de Portugal não é aquele que traria à literatura o caráter testemunhal. Tal qual o tema, recebemos apenas as ruínas, mais do que as ruínas de um país por séculos glorioso, recebemos as ruínas psicológicas dos homens torturados. Não dos deuses que exploraram as terras africanas, mas dos homens pequenos que se viram desalojados das terras que lhes trouxeram um dia a esperança de uma nova vida.
NOTAS
[1] Poetisa cubana (1902-1997), ganhadora do prêmio Miguel de Cervantes 1992.
2 “Dulce volta e meia recebe mensagens de portugueses que nunca souberam das mais de meio milhão de pessoas que tiveram que sair das colônias de Portugal”. (Suzana Velasco, no Prosa e Verso, em 2012)
3 “Morte da memória, memória da morte: da escrita em Platão”. In: 7ete – sete aulas sobre linguagem, memória e história.
4 Citações feitas por Jeanne Marie Gagnebin, retiradas do livro de Wolfgang Wieland.
5 Citação de Denilson Lopes, em No coração do mundo, 2012, p. 22.
Referências Bibliográficas
AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.
BASTOS, Alcmeno. Introdução ao romance histórico. Rio de Janeiro: Eduerj, 2007.
BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito.Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
CARDOSO, Dulce Maria. O retorno. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2012.
GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LOPES, Denilson. No coração do mundo: paisagens transculturais. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
“DURAR É MELHOR QUE ARDER?” – A VIA CRUCIS DA PAIXÃO EM MARIA TERESA HORTA E EM CLARICE LISPECTOR
Ângela Beatriz de Carvalho Faria
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo: O presente artigo pretende apontar as consonâncias e dissonâncias entre A paixão segundo Constança H. (Maria Teresa Horta) e A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). Em ambos os romances, o pathos e a hybris, vivenciados pelas personagens femininas, estarão “correlacionados ao desencantamento do mundo e à fratura de uma identidade, assinalada por um caráter, intrinsecamente, agônico e agonístico.” Assim, Eros (pulsões de vida) e Thanatos (pulsões de morte) coexistem na interioridade do sujeito, capaz de perguntar a si próprio: “E agora, como é que eu vou viver com um coração aceso?”. Em ambas as personagens, a paixão que as consomem é o desejo de ser. Em ambos os romances, observa-se a crise da representação e uma pergunta incontornável: Como narrar a o inenarrável; o inelutável e, intrinsecamente, cruel; as experiências traumáticas plenas de “ardência”?
Palavras-chave: A paixão segundo Contança H. – Maria Teresa Horta; A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector.
Abstract: This article intends to point out consonances and dissonances between A paixão Segundo Constança H. (Maria Teresa Horta) and A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). The pathos and hybris will be experienced by female characters in both novels and they will be ‘correlated to the disenchantment of the world and a fractured identity, marked by a character inherently agonistic and agonizing.’ It is thus that Eros (the life drives) and Thanatos (the death drives) coexist in the interior of the subject, who is able to ask himself: ‘And now, how am I going to live with a burning heart?’ The passion that consumes both characters is the desire to be themselves. There is a crisis of representation in both novels and an unavoidable question: How can one narrate the unspeakable, the inevitable, the inherently cruel, the traumatic experiences, full of burning?
Keywords: A paixão segundo Contança H. – Maria Teresa Horta; A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector.
Currículo: Ângela Beatriz de Carvalho Faria, Doutora em Literatura Portuguesa, é Professora Associada III da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde orienta Monografias do Curso de Especialização, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas. Autora de artigos em Anais de Congressos, periódicos especializados e capítulos de livros da área em questão, também é líder do Grupo de Pesquisa do CNPq “A (im)possibilidade de dar corpo ao passado na arte e na narrativa do século XXI”.
“DURAR É MELHOR QUE ARDER?” – A VIA CRUCIS DA PAIXÃO EM MARIA TERESA HORTA E EM CLARICE LISPECTOR
Ângela Beatriz de Carvalho Faria
Universidade Federal do Rio de Janeiro
E agora, como é que eu vou viver com um coração aceso?
(HORTA, Maria Teresa, A paixão segundo Constança H).
A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela.
(LISPECTOR, Clarice, A paixão segundo G.H.).
O que seria da paixão sem a sua lembrança, resguardada pela ausência?
(GOTLIB, Nádia, “Um fio de voz: histórias de Clarice”).
Trinta anos após a publicação de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector (1964), Maria Teresa Horta publica A paixão segundo Constança H. (1994). A semelhança entre os títulos e a sedução, inerente a eles, levou-nos à releitura de ambos os romances e à sua possível interpretação, capaz de apontar as consonâncias e dissonâncias existentes entre as ficções, brasileira e portuguesa, de autoria feminina, passíveis de focalizarem a fratura de uma identidade, envolta na via crucis do prazer e da dor. Ambas as personagens femininas “oscilam entre os dois lados, as duas faces da paixão”, e se perguntam, como na ficção de Schelling – intertexto presente no romance: “Por que razão durar é melhor que arder?” (HORTA, 2010, p. 46). E, porque a paixão que as consome é o desejo de ser, mergulham no “excesso” e no “abismo”, buscam reintegrar-se à sua própria identidade cindida, assinalada pela lacuna ou pela omissão que cerca o nome completo: G.H. (iniciais gravadas em uma valise de viagem, signo de uma máscara ou persona social) e Constança H. (inicial que traz, em seu cerne, a despersonalização do “eu” situado em tempos e espaços diferenciados). Tal fato evidencia-se a partir de uma das epígrafes presentes no romance de Maria Teresa Horta e de autoria de Clarice Lispector: “…estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?”.
Assim, o romance-interrogação desvia-se, propositalmente, de certezas definidas no que se refere, inclusive, às estratégias narrativas canônicas e à construção da subjetividade do sujeito. A obra A paixão segundo Constança H. apresenta, em sua composição, histórias reais ou inventadas, superpostas no tempo e no espaço, plenas de acontecimentos traumáticos; a inserção de poemas em que a cartografia erótica do desejo e do corpo se imprime, a fim de “se prolongar a dor e o prazer que simultaneamente corroem o sangue” da personagem feminina; inúmeras epígrafes que ocupam, isoladamente, as páginas em branco (algumas encontram-se entre parênteses como se o sujeito apenas confessasse a si próprio o mais íntimo de seu ser); títulos e citações de outras obras circunscritas às paixões avassaladoras que espelham os sentimentos vividos; ecos de outras vozes e gritos atemporais e femininos, resultantes da opressão de uma sociedade estratificada e coercitiva; reflexões permitidas ou interditas; o registro de sonhos e alucinações de ordem mística; a reprodução de “estranhas cartas, com letras diferentes, mas todas com a mesma assinatura: Constança H.” (HORTA, 2010, p. 55) e que talvez revelem uma “crise de despersonalização psiquiátrica”; extratos de diários assinados e/ou atribuídos à Constança H. – ela própria ou a outra (a mulher que existe nela e que ela desconhece)? Em suma, todos esses fragmentos textuais apresentados e que formam um caleidoscópio funcionam como álibis de veracidade e/ou de verossimilhança, capazes de revelar os simulacros da interioridade do sujeito problemático, consumido pelo pathos e enclausurado “na cela nua de uma prisão de mulheres ou na enfermaria de um hospital psiquiátrico” (HORTA, 2010, p. 33), aonde recebe eletrochoques para que aceda ao esquecimento, após ter cometido um crime e transgredido a lei. No centro desse universo multifacetado, encontra-se, como vemos, a personagem Constança H. que se “deixará consumir pela paixão até ao sangue” (HORTA, 2010, p. 295) e que, conscientemente, pouco antes afirmara: “Perder a minha paixão será a dissolução total, mas o entregar-me a ela é a minha loucura” (HORTA, 2010, p. 287). Para vingar-se da traição do marido (Henrique H.) e do abandono e da rejeição da mãe (ocorridos na infância), mata a sua própria amante, Adele, a adolescente negra, para quem leu A paixão segundo G.H., e, por quem nem sequer sentia desejo, ajudada por um cão que “apareceu uma tarde vindo não se sabe de onde” (HORTA, 2010, p. 41) na casa da praia e que será o seu próprio reflexo e o seu desdobramento (o cão – signo da melancolia –, referido em Origem do drama barroco alemão, de Walter Benjamin?). Adele será, portanto, uma interposta pessoa, vítima sacrificial (o homo sacer, teorizado por Agamben?), um perfil, uma personagem de um filme de Truffaut – Adele H., a filha de Victor Hugo, também consumida pela paixão, pelo abandono e pela loucura (HORTA, 2010, p. 145). A sublimação da perda ou a impossibilidade dela levará a personagem Constança H. a inventar histórias como se fosse outra e a “querer apagar o passado para que nunca tivesse existido”: “Constança pretende esquecer a memória, que para ela é uma farpa enterrada na carne a roer-lhe o sangue” (HORTA, 2010, p. 75). Consciente de que “o temor avassalador pela paixão, ou por aquilo a que a paixão poderá obrigar” – “uma “insubordinação submersa” – ou abrigar, acabará levando-a a caminho do abismo, uma vez que “não conseguirá voltar atrás” e nem “fugir da criança que fora”, marcada, para sempre, pelo medo, pela loucura da mãe, pelo abandono e pelo suicídio” (HORTA, 2010, p. 152). “Consciente da sua desagregação, da sua desorganização interior, do seu caos e da depressão cada vez maior” (HORTA, 2010, p. 136), Constança H. “ficará do lado das trevas, do negrume de si própria, tacteando por dentro dos seus sentidos e pulsões mais escondidos” (HORTA, 2010, p. 110). Aqui, vivencia “a noite escura da alma” de São João da Cruz e está a um passo da hybris ou desmedida da tragédia clássica. Eros (pulsões de vida) e Thanatos (pulsões de morte) coexistem na interioridade do sujeito. No espaço textual, várias palavras assinalam a paixão desmedida ou “insensata”, tais como: “voragem”, “fome”, “desassossego”, “veneno” e “vício” (“Henrique era um vício doloroso de suportar” (HORTA, 2010, p. 72). E, embora seja necessário esquecer, reluta diante do tratamento que lhe é imposto, pois “não quer conhecer de novo aquele espaço negro onde se afunda a caminho do nada” (HORTA, 2010, p. 57). O seu “corpo”, antes “úmido de prazer” é substituído por outro “seco”, “ferido” e “gretado”. E é interessante observar que a sensação de nihilismo existencial e a presença de determinados adjetivos, relacionados à constituição dos seres ou ao seu estado, também estão presentes no romance de Clarice Lispector. Em ambos os romances, o êxtase místico marcará a vivência das personagens femininas. Em Maria Teresa Horta, há visões dos anjos do Apocalipse, a visita de um arcanjo, o que estabelece uma analogia entre a personagem Constança H. e Teresa d’ Ávila – paradigma feminino de transgressão, sonhos e visões. A personagem G.H., de Clarice Lispector também passará pela experiência da náusea, da ascese e da perda da própria individualidade, pelo “momento do rapto da alma e do desprendimento do próprio Eu” (HORTA, 2010, p. 105), em um outro nível, como veremos mais adiante. Henrique, por sua vez, personagem de A paixão segundo Constança H., que “nunca conseguira explicar a si mesmo porque se deitara com outra” (HORTA, 2010, p. 130), movido pelo remorso e pelo vazio, pela ausência incontornável e insuportável do outro, suicida-se, após a prisão de Constança H. Seu corpo é encontrado pelos filhos que ficam petrificados diante da cena dos pulsos cortados e do sangue a escorrer da banheira. E o leitor pergunta-se: Como narrar o inenarrável, o inelutável e intrinsecamente cruel, as experiências traumáticas e eróticas plenas de “ardência”?
O romance de Maria Teresa Horta circunscreve-se, dessa forma, na crise da representação e na Estética da Crueldade: mostra-nos o derramamento de sangue verdadeiro e de situações sutilmente ou inelutavelmente cruéis, o excesso de sentimentos através da vivência do pathos e da hybris, a presença de repetições e paroxismos, na estrutura discursiva (capítulos que possuem ligeiras modificações ou são repetidos, na íntegra, ratificam as situações traumáticas fixadas na memória – mortes, abandonos e perdas irreparáveis), as múltiplas versões de um mesmo fato, exemplificando a indecidibilidade de uma escrita que transita no limite entre a realidade e o imaginário, pleno de alucinações e imagens fantasmáticas, inerente a um sujeito que “deixava que os sonhos chegassem para os apanhar de viagem” (HORTA, 2010, p. 299). E, ao final do romance A paixão segundo Constança H., lemos que “os sentimentos ultrapassavam o entendimento” e “nada se cumpria” (HORTA, 2010, p. 299). A personagem continua a simular que engole os comprimidos, escondidos debaixo do colchão e continua a ser, violentamente, injetada. “Os ferozes predadores do deserto do seu caos interior” (HORTA, 2010, p. 251) permanecem e a ardência do desejo não se reduz a cinzas. Façamos nossas as palavras de Marilena Chauí, em seu ensaio, “Laços do desejo”:
Seja como desejo de reconhecimento, seja como desejo de plenitude e repouso, o desejo institui o campo das relações intersubjetivas, os laços de amor e ódio e só se efetua pela mediação de uma outra subjetividade. Forma de nossa relação originária com o outro, o desejo é peculiar porque, afinal, não desejamos propriamente o outro, mas desejamos ser para ele objeto de desejo. Desejamos ser desejados. Donde a célebre definição do desejo: o desejo é desejo do desejo do outro (CHAUÍ, 1990, p. 25).
Constança H. deseja ser desejada por Henrique e enlouquece quando ele se aproxima de outra que precisará ser eliminada, por ela, simbolicamente. Afinal, “O inferno mesmo é o do amor”, [já] dizia Clarice Lispector” (HORTA, 2010, p. 133). O extrato abaixo, inserido no livro de Maria Teresa Horta, assim o confirma:
(Com os seus silêncios.
Constança ficava horas imaginando como po-
deria ter sido o desejo de Henrique pela outra.
Mas esquecia-se de tudo quando na cama fica-
vam agarrados os dois, os corpos muito juntos.
Colados.
Sentia como o pénis dele se entesava no calor
das suas coxas.
Com os seus silêncios ele defendia-se de Cons-
tança; da sua loucura?
Desmesura.
Constança olhava a nesga do céu cinzento pelas
grades estreitas da pequena janela.) (HORTA, 2010, p. 181).
Em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, deparamo-nos com o fluxo de consciência da personagem feminina que também vivencia o pathos (a paixão) e a hybris (desmesura ou desmedida), em decorrência do desencantamento do mundo. Ao buscar a sua “verdade”, a personagem G.H. conscientiza-se de que “havia fundado toda uma esperança em vir a ser aquilo que não era” e se pronuncia: “Até que ponto até agora eu havia inventado um destino, vivendo no entanto subterraneamente de outro?” (LISPECTOR, 1997, p. 39). Além disso, a “esperança” de uma vida anterior é posta em dúvida e abandonada, diante do exercício de uma “coragem” e de uma “curiosidade mortal”, ao deparar-se com o neutro e com o inumano, representados, a princípio, pelo desenho a carvão do contorno do corpo de uma mulher, encontrado na parede do quarto da empregada que se despedira, na véspera, e, logo depois, pela “massa amorfa” e “branca” de uma barata, esmagada pela cintura, na porta do guarda-roupa, e que acabará por colocar na boca, num “ato de gustação totêmica” (LISPECTOR, 1997, p. 109). Tal gesto será o “único a reunir o corpo e a alma” (LISPECTOR, 1997, p. 106) e a melhor “prova de transmutação” do sujeito em si mesmo, plena de redenção e de “transcendência” (LISPECTOR, 1997, p. 107). Segundo os comentários críticos de Benedito Nunes, implícitos à edição de A paixão segundo G.H. (ALLCA XX / Scipione Cultural), “uma das formas de comunicação vital, no texto clariceano, é a que se consuma pelo olhar. Existe, em sua visão de mundo, uma espécie de erótica (eros do olhar), que pode levar à vertigem, ao êxtase epifânico” (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 38), em que o “divino” acaba por se aproximar do “real” (LISPECTOR, 1997, p. 107). O olhar, portanto, dirigido ao desenho vazio na parede e à barata (ambos, metáfora da própria mulher), permitirá a instauração do “inexpressivo”, “demoníaco” ou “diabólico”, capaz de “designar a busca secreta de G.H.” (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 64-65). Implícito a isso, encontram-se a “orgia de ser” e o sentido do “inferno”, marcado pela “aceitação cruel da dor, [pela] solene falta de piedade pelo próprio destino; amar mais o ritual de vida que a si próprio – esse era o inferno, onde quem comia a cara viva do outro espojava-se na alegria da dor” (LISPECTOR, 1997, p. 78). Semelhante postura – a presença de uma “avidez colérica e assassina”, encontrada, também, em A paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta –, transmuta-se, na ficção de Clarice Lispector, em uma “cólera sagrada e vital”, de ordem metafísica. Em comum, a “tentativa de violentação do próprio sujeito”, responsável por “aumentar infinitamente o pedido que nasce da carência” (LISPECTOR, 1997, p. 96-97). Assim, a personagem clariceana, ao tocar na essência da barata, toca no que é “proibido” ou “imundo”, no “núcleo do vivo”, na “raiz”, no “neutro”, no “sem adornos”, o que permite à narradora estabelecer um diálogo intertextual, pelo avesso, com o Deuteronômio.[1] Em A paixão segundo G.H., o confronto entre as duas personagens – G.H. e a barata – acaba por estabelecer uma analogia entre elas: ambas são “várias em suas “cascas”, de que vão “se desvencilhando”, “neste percurso de desnudar-se até a sua essência máxima” (GOTLIB, 1997, p. 175). Em ambos os romances, os bichos (o cão e a barata) constituem uma “simbologia do Ser” (NUNES, 1969, p. 125).
A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, apresenta, portanto, a temática da “despersonalização como a grande objetivação de si mesmo”, o que “implica o encontrar ou reconhecer o outro sob qualquer disfarce” (LISPECTOR, 1997, p. 112). E, por isso, a personagem feminina “deseroiciza-se”, opta pelo ínfimo, assume-se como alguém destituído de um nome próprio e, “porque se despersonaliza, a ponto de não ter o seu nome, responderá a cada vez que alguém lhe disser: eu” (LISPECTOR, 1997, p. 112). Evidencia-se, assim, “o despojamento do EU e a renúncia da individualidade egoística” (NUNES, 1969, p. 111). Em A paixão segundo Constança H., vimos que o próprio nome, assinalado pela fragmentação presente na abreviatura, poderia ser estendido a várias mulheres, situadas em tempos e em épocas diferenciados, como atestam as enunciações discursivas inerentes às cartas. Revela-se, assim, na narrativa, a não contradição do ser-no-mundo, a constatação de que “todas as figuras humanas criadas pela romancista são sempre iguais, de que todas as suas personagens resumem-se em uma só personagem” (NUNES, 1969, p. 116). Isso permite-nos constatar que estaríamos diante do “amor do neutro – da coisa a que se reduzem todas as coisas” (NUNES, 1969, p. 111) ou todos os seres.
Segundo Benedito Nunes, em A paixão segundo G.H., “os seis travessões, que iniciam e finalizam a narrativa, marcam a ruptura de G.H. com o seu mundo” (NUNES, 1997, p. 9). “O silêncio, desistência da compreensão e da linguagem, é o termo final da aventura espiritual de G.H., que principia pela náusea e culmina no êxtase do Absoluto, indiscernível do Nada e tal aventura é a via crucis de uma paixão” (NUNES, 1997, p. 115). E como a personagem “só pode amar a evidência desconhecida das coisas” (LISPECTOR, 1997, p. 115), é inevitável a “ausência de compreensão daquilo que é dito”. E o romance, experiência-limite do sujeito e da linguagem transgressora, termina, enfatizando o silêncio, assinalado, graficamente, por seis travessões: “A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro. – – – – – –” (LISPECTOR, 1997, p. 115). Tal recurso estilístico, segundo Benedito Nunes, indica os seis reinos de Salomão e marca essencialmente a oposição da criatura ao criador, em um equilíbrio indefinido.[2] Convém lembrar que, na ficção de Clarice Lispector, a paródia de textos bíblicos afirma a condição humana.
Parece-nos, portanto, que ambas as romancistas, ao levar ao limite a indagação sobre as possibilidades ontológicas da linguagem, acabam por revelar um preceito socrático: “a tomada de consciência de si através da consciência da significação das palavras” (PESSANHA, 1990, p. 110) ajuda os sujeitos a descobrir a “verdade de si mesmos”, necessária ao seu crescimento. Em ambas as romancistas, a questão da linguagem entrelaça-se com as duas formas de desejo, na ótica platônica: o “desejo-aspiração” e o “desejo-apetite”.
José Américo Motta Pessanha, em seu ensaio “A água e o mel”, inserido em O desejo, afirma o seguinte:
Assistimos, no interior da obra de Platão, ao confronto entre duas formas de desejo: de um lado, o desejo enquanto aspiração, enquanto anelo, a remeter a alma ascensionalmente, na direção de sua condição originária; de outro lado, o desejo enquanto apetite, que crava a alma no corpo, prendendo-o à horizontalidade da imediatez, do factual, do empírico. O primeiro é impulso de liberação, o segundo aprisiona. O primeiro é nostálgico anseio de retorno à incorporeidade pura, apontando para alhures; e o segundo persegue vorazmente, na sofreguidão do corpóreo, o aqui e o agora. Cada qual subentende um tipo de vínculo com a temporalidade e associa-se a uma espécie de memória. Mais: esse embate entre desejos voltados para objetos de diferentes naturezas – um, o claro objeto de aspiração, o outro, o obscuro objeto dos conturbados apetites – cria uma tensão permanente, que ultrapassa o nível psicológico e se desdobra nos planos epistemológico, ético, político, constituindo um dos focos irradiantes da sempre reaberta construção do platonismo (PESSANHA, 1990, p. 91).
Segundo Marilena Chauí, em “Laços do desejo”, ensaio inserido na coletânea acima citada, a própria origem etimológica da palavra “desejo” (do verbo desidero) acaba por instaurar o significado de desiderium, que “significa uma perda, privação do saber sobre o destino, queda na roda da fortuna incerta”, e ainda, “desejo ou apetite de possuir alguma coisa cuja lembrança foi conservada”. E continua: “O desejo chama-se, então, carência, vazio que tende para fora de si em busca de preenchimento, aquilo que os gregos chamavam “hormê”. (CHAUÍ, 1990, p. 23). No entanto, isso não anula “a vontade consciente nascida da deliberação”, vontade de se tomar o “nosso destino em nossas próprias mãos” (CHAUÍ, 1990, p. 22), o que pressupõe uma atitude ética e política. No entanto, Marilena Chauí, no ensaio referido, nos alerta de que “quando procuramos, nos primeiros filósofos modernos, a palavra que traduzimos por desejo, descobrimos que não empregam desiderium e sim appetitus, tendo como referência os vocábulos gregos oréxis e hormê” (CHAUÍ, 1990, p. 27). Detenhamo-nos em oréxis, vocábulo que nos irá permitir tecer uma consideração sobre o romance A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Vejamos:
Oréxis,ação de tender para algo ou alguém, donde apetite e desejo, vem de orégô,, tender, estender, dar, oferecer, estender as mãos para implorar e, na voz média, orégomai, significa estender-se, alongar-se com as mãos, tentar pegar, tocar com as mãos, visar e procurar atingir alguém para feri-lo (assim são as flechas de Eros-Cupido), lançar-se, expandir-se de alegria, aspirar (à verdade, à glória, à riqueza), puxar para si alguma coisa, donde desejar (CHAUÍ, 1990, p. 27).
No romance citado, “G.H, dialoga com um interlocutor imaginário” (o leitor?) “e, metonimicamente, esse interlocutor é identificado, ao longo da narrativa, com a mão que ela segura” (NUNES, 1997, p. 13). “Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria” (LISPECTOR, 1997, p. 13). Simbolicamente, tal frase está gravada no túmulo de Clarice Lispector, no Cemitério judaico do Caju, no Rio de Janeiro. E, segundo Benedito Nunes, a “mão anônima” é a “mão do leitor” – “o suporte necessário de sua narrativa” (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 105). Vejamos:
– Ah, não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda /. . ./ mas não retires tua mão, mesmo que eu já saiba que encontrar tem que ser pelo caminho daquilo que somos, se eu conseguir não me afundar definitivamente naquilo que somos (LISPECTOR, 1997, p. 48).
Pensamos que tal embate entre as duas formas de desejo (o “desejo-apetite” e o “desejo-aspiração”) está representado em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector e em A paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta, através da via crucis das personagens femininas. Situadas entre a “casa” e a “cave” (espaços metonímicos representantes do metafórico social), descobrem que a trajetória existencial da via crucis “não é um descaminho”, mas uma “passagem única”, a “trajetória não é um modo de ir”, “somos nós mesmos”, em “meio ao esplendor de se ter uma linguagem” capaz de “anteceder a posse do silêncio” (LISPECTOR, 1997, p. 113). Essa trajetória é marcada pelos travessões (sinais gráficos de ausência), no texto de Clarice. Índices de que “é melhor silenciar acerca do que não pode ser expressado’? (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 127).
Temos, assim, em A paixão segundo Constança H. e em A paixão segundo G.H., duas visões ou versões sobre a paixão, a partir da consciência reflexiva das personagens femininas que, movidas pelo desejo de ser e de “atingir a existência universal em sua nudez” (NUNES, 1969, p. 127), preferem “arder” a “durar”.
Referências bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. “Laços do desejo”. In: CHAUÍ, Marilena (et al.). O desejo. Adauto Novaes (org.). São Paulo: Companhia das Letras; Rio de Janeiro: Funarte, 1990. p. 19-66.
DIAS, Ângela; GLENADEL, Paula (orgs.). Estéticas da crueldade. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2004.
GOMES, Renato Cordeiro. Narrativa e paroxismo: será preciso um pouco de sangue verdadeiro para manifestar a crueldade? In: Estéticas da crueldade. Ângela Maria Dias e Paula Glenadel (orgs.). Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2004.
GOTLIB, Nádia Battella. “Um fio de voz: Histórias de Clarice”. In: GOTLIB, Nádia Battella (et al.).
HORTA, Maria Teresa. A paixão segundo Constança H. Lisboa: Bertrand Editora, 1994, 2010.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Edição Crítica Benedito Nunes (Coordenador). Madrid, Paris, México, Buenos Aires, São Paulo, Lima, Guatemala, São José da Costa Rica, Santiago de Chile: Scipione Cultural / ALLCA XX, 1997. (Col. Archivos, 13).
NUNES, Benedito. O mundo imaginário de Clarice Lispector. In: NUNES, Benedito. O dorso do tigre. Ensaios. São Paulo: Editora Perspectiva, 1969. (Col. Debates, 17). p. 93-142.
NUNES, Benedito. Comentários feitos na Edição Crítica. In: LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Benedito Nunes (Coordenador). Madrid, Paris, México, Buenos Aires, São Paulo, Lima, Guatemala, São José da Costa Rica, Santiago de Chile: Scipione Cultural / ALLCA XX, 1997. (Col. Archivos, 13). p. 6-115.
PESSANHA, José Américo Motta. A água e o mel. In: PESSANHA, José Américo Motta (et al.). O desejo. Adauto Novaes (org.). São Paulo: Companhia das Letras; Rio de Janeiro: Funarte, 1990. p. 91-124.
NOTAS:
[1] Veja-se a citação explícita em Levítico ou Deuteronômio: “E tudo o que anda de rastos e tem asas será impuro, e não se comerá.” (LISPECTOR, 1997, p. 47). Observe-se, agora, outra afirmação implícita no mesmo capítulo de A paixão segundo G.H., indiciadora da transgressão cometida: “Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo.” (LISPECTOR, 1997, p. 47).
[2]Segundo Benedito Nunes, tal “oposição” não configura uma contradição, mas, antes, “uma distinção”, o que remete para a origem da ambivalência do número seis e sua significação: bem ou mal; união com Deus ou revolta; número do destino místico; referenciado, no Apocalipse, como o número do pecado, representa o homem físico sem o seu elemento salvador, sem essa parte suprema de si mesmo que lhe permite entrar em contato com o divino.
Bio fornecida pelo palestrante.
A CASA COMO REFLEXO DO EU
Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri
Universidade Federal do Rio de Janeiro
RESUMO: Este artigo tem como objeto de estudo o conto de Lygia Fagundes Telles, “Apenas um saxofone” – inserto no livro de contos Antes do baile verde, publicado pela escritora em 1970. Propõe a leitura da narrativa sob uma perspectiva topoanalítica, procurando observar como as casas habitadas pela narradora-protagonista refletem o seu estado emocional e por que a casa do presente seria para ela um espaço topofóbico – lugar do medo e da aversão – e a casa do passado, um espaço topofílico – lugar feliz. O estudo pretende ainda mostrar como a passagem do tempo interfere nessa percepção que a narradora-protagonista tem do espaço habitado.
Palavras-chave: casa – análise topoanalítica – topofilia – topofobia – Lygia Fagundes Telles.
ABSTRACT: This article aims at studying Lygia Fagundes Telles’s tale “Just a Saxophone.” It was published in her book Before the Green Ball (1970). It proposes the reading of the narrative in a topoanalitic perspective. It analyses in which way the house inhabited by the narrator-protagonist reflects her emotional condition, why it meant a topophobic space for her, that is, a place of fear and loathing, and why her home of the past meant for her a topophilic space, that is, a happy place. The article also focuses on how the passage of time affects the narrator-protagonist’s perspective about her living space.
Keywords: home – topoanalitic analysis – topophilic space – topophobic space – Lygia Fagundes Telles.
Curriculo:
Doutoranda em Literatura Portuguesa, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve o título de Mestre em Literatura Portuguesa e de Especialização em Literaturas Portuguesa e Africanas. É professora de Língua Portuguesa e Literaturas da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro.
A CASA COMO REFLEXO DO EU
Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas,
Eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?
(Cecília Meireles)
“Quero deixar bem claro que a única coisa que existe para mim é a juventude, tudo o mais é besteira, lantejoulas, vidrilho. (…) Ele era a minha juventude (…)”.
(Telles, Apenas um saxofone, p. 36).1
O eu lírico do poema de Cecília Meireles constata melancolicamente a passagem do tempo e se pergunta em que espelho ficou perdida a sua face, não se reconhece no rosto de hoje; a narradora-protagonista do conto de Lygia Fagundes Telles, “Apenas um saxofone”, se pergunta “Onde?”, em que espaço indeterminado do passado ficou perdido o seu grande amor, a sua juventude. Nossa leitura pretende analisar o conto “Apenas um saxofone – inserto no livro de contos Antes do baile verde2, publicado por Lygia Fagundes Telles em 1970 – sob uma perspectiva topoanalítica;3 interessa-nos observar como o espaço da casa reflete a relação que a narradora mantém com o passado e com o presente, mais do que isso, como reflete o seu estado emocional e as suas escolhas. Afinal, como ensina Gaston Bachelard, “a casa, mais ainda que a paisagem, é um estado de alma” (1989, p. 84).
Luisiana, narradora-protagonista do conto, assusta-se com a velocidade do tempo ao se dar conta de que já chegou aos quarenta e quatro anos: “Quarenta e quatro anos e cinco meses, meus Jesus. Foi rápido, não? Rápido” (AUS, p. 31). Esse fato faz com que ela comece a refletir sobre sua existência e chegue à conclusão de que tudo que amealhou ao longo dos anos, todo o conforto, o luxo, as viagens, enfim tudo o que conquistou não a faz feliz. Num momento de solidão, Luisiana percebe que jogou fora sua chance de felicidade quando trocou a vida simples, ao lado de seu grande amor – um saxofonista que simbolizava a própria juventude dela –, por uma vida de ostentação.
Márcio Seligmann-Silva, ao falar sobre testemunho em períodos de catástrofes, ressalta a “profunda relação entre a memória e o espaço” (2003, p. 56). Referindo-se à memória topográfica, explica que ela é sobretudo imagética, pois “na arte da memória conectam-se as ideias que devem ser lembradas a imagens e, por sua vez, essas imagens a locais bem conhecidos”4 (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 56). A reflexão de Luisiana acerca do passado é motivada pela imagem de um retrato sobre a lareira da sala; no entanto, é ouvindo interiormente os sons de um antigo saxofone que penetra profundamente na memória “e transporta-se para outro espaço de sua vida” (LIMA, 2009, p. 134):
Onde agora? Às vezes eu fechava os olhos e os sons eram como voz humana me chamando, me envolvendo, Luisiana, Luisiana! Que sons eram aqueles? Como podiam parecer voz de gente e serem ao mesmo tempo tão mais poderosos, tão puros? E singelos como ondas se renovando no mar, aparentemente iguais, só aparentemente. “Este é o meu instrumento”, disse ele deslizando a mão pelo saxofone. Com a outra mão em concha, cobriu meu peito: “e esta é a minha música” (AUS, p. 33).
A transcendência de Luisiana para um outro lugar e um outro tempo, por meio de uma percepção auditiva, remete-nos ao estudo de Ozíris Borges Filho sobre o relacionamento dos personagens de uma obra literária com o espaço do ponto de vista sensorial. O pesquisador estabelece uma gradação entre o espaço e os gradientes sensoriais (os cinco sentidos) em termos de distância/proximidade: a visão capta o espaço em seu distanciamento máximo, é o primeiro sentido através do qual entramos em contato com o mundo; já o paladar percebe o espaço em seu distanciamento mínimo. Esse não deve ser, segundo Ozíris Borges Filho, o único nível de interesse do topoanalista pelos gradientes sensoriais, é válido “verificar as múltiplas possibilidades de sentidos criados no texto literário. Sentidos esses que podem ser tanto denotativos quanto conotativos” (BORGES FILHO, 2009, p. 169).5 Para ele, o topoanalista deve procurar saber, por exemplo, se, numa percepção predominantemente auditiva do espaço, o personagem se encontrava num momento de silêncio ou de barulho; no caso de predomínio da percepção visual, deve observar as cores predominantes, se há incidência de luz ou escuridão no ambiente etc. Considerando sempre que cada detalhe observado exercerá conotações positivas ou negativas sobre o personagem e apenas no interior do texto literário poderá discernir tais conotações.
O conto de Lygia Fagundes Telles reforça a afirmação de Ozíris Borges Filho de que os “olhos captam informações do espaço de maneira mais abundante e precisa que os ouvidos. No entanto, muitas vezes, somos mais sensibilizados pelo que ouvimos do que pelo que vemos” (BORGES FILHO, 2009, p. 176). Luisiana recupera na memória o momento em que conheceu o rapaz do saxofone e relata como sua música tinha o poder de sensibilizar e acalmar as pessoas:
A melodia era mansa, mas ao mesmo tempo tão eloquente que fiquei imersa num sortilégio. Nunca tinha ouvido nada parecido, nunca ninguém tinha tocado um instrumento assim. Tudo o que tinha querido dizer à mulher e não conseguira, ele dizia agora com o saxofone: que ela não chorasse mais, tudo estava certo quando existia o amor. Tinha Deus, ela não acreditava em Deus? perguntava o saxofone. E tinha a infância, aqueles sons brilhantes falavam agora da infância!… A mulher parou de chorar e agora era eu que chorava. Em redor, os casais ouviam num silêncio fervoroso e suas carícias foram ficando mais profundas, mais verdadeiras porque a melodia também falava do sexo vivo e casto como um fruto que amadurece ao vento e ao sol (AUS, p. 37-38, sic).
Ao refletir sobre sua vida, Luisiana contrapõe presente e passado, consequentemente, contrapõe dois espaços: a casa habitada no presente e a casa habitada no passado. Através de seu fluxo de consciência, a narradora vai descrevendo os dois espaços e o leitor pode constatar que a casa rica e luxuosa do presente constitui-se para ela como um espaço frio e melancólico, um lugar topofóbico; enquanto o quarto simples e humilde do pequeno apartamento em que passou parte da juventude ao lado de seu amor constitui-se como um espaço aconchegante, topofílico6:
Meu tapete é persa, todos meus tapetes são persas, mas não sei o que fazem esses bastardos que não impedem que o frio se instale na sala. Fazia menos frio no nosso quarto, com as paredes forradas de estopa e o tapetinho de juta no chão, ele mesmo forrou as paredes e pregou retratos de antepassados e gravuras da Virgem de Fra Angelico, tinha paixão por Fra Angelico (AUS, p. 31-32, sic).
A descrição feita pela narradora-protagonista sugere que a casa atual é para ela fria e inóspita, um lugar em que não se sente aconchegada. A sala traz uma sensação de vazio que leva Luisiana a ressentir-se do antigo quarto do saxofonista “com as paredes forradas de estopa e o tapetinho de juta no chão” (AUS, p. 31). No livro Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade (1992), o antropólogo Marc Augé diferencia as expressões “lugar” e “não lugar”. Segundo ele, a casa teria o status de “lugar” por ser o espaço em que o personagem “fica à vontade na retórica das pessoas com as quais compartilha a vida. O sinal de que se está em casa é que se consegue se fazer entender sem muito problema, e (…) se consegue entrar na razão de seus interlocutores sem precisar de longas explicações.” Enquanto o “espaço do não lugar não cria nem identidade singular nem relação, mas sim solidão e similitude” (apud XAVIER, 2012, p. 18).
A representação que Luisiana faz, no presente, do antigo quarto em que viveu com o namorado confirma a visão positiva do espaço casa; no entanto, a sala da casa atual contraria tal visão, pois está para a personagem como uma espécie de não lugar. O conto “Apenas um saxofone” reforça as palavras de Elódia Xavier na apresentação de A casa na ficção de autoria feminina – livro em que competentemente analisa a representação da casa em textos de uma série de escritoras brasileiras: “Talvez a representação da casa no imaginário feminino possa comprovar ou refutar esta abordagem “topofílica” da casa em oposição à “topofobia” da rua” (p. 18). Este artigo se propõe a observar o que levou a narradora-protagonista a abrir mão do lugar que pode ter sido o “seu canto no mundo” (BACHELARD, 1989, p. 24) e a construir uma casa que se tornou um espaço de melancolia e solidão. Pretendemos levantar indícios que sustentem o argumento de que a representação da casa do presente reflete o estado emocional da protagonista.
Luisiana vivia uma vida feliz ao lado de seu saxofonista: “Nossa vida foi tão maravilhosamente livre! E tão cheia de amor, como nos amamos e rimos e choramos de amor naquele décimo andar (…)” (AUS, p. 38). À época não tinha consciência dessa felicidade, incomodava-se com a falta de ambição do namorado, que se contentava com aquela vida simples. Ele só queria viver ao lado da mulher amada e tocar seu saxofone: “Luisiana, você é a minha música e eu não posso viver sem música” (AUS, p. 39). Ela sentia medo do futuro, precisava de segurança, conforto, angustiava-se com a possibilidade de envelhecer na pobreza. Escolheu afastar esse amor de forma definitiva e mesmo cruel: “preferi que nosso amor apodrecesse, que ficasse tão insuportável que quando ele fosse embora saísse cheio de nojo, sem olhar para trás” (AUS, p. 39).
Durante a juventude, a narradora-protagonista de Lygia Fagundes Telles associou felicidade à conquista de bens materiais. E, para tanto, fez muitas concessões, submeteu-se aos caprichos de seus amantes ricos, cultivou falsas amizades; mas tudo isso fazia parte de seu projeto de enriquecimento:
(…) quando o velho me deu a pérola, achou originalíssimo escondê-la no fundo do aquário e me mandar procurar: “Está ficando quente, mais quente. Não, agora esfriou!…”. E eu me fazia menininha e ria quando minha vontade mesmo era dizer-lhe que enfiasse a pérola no rabo e me deixasse em paz. Me deixa em paz! (AUS, p. 35).
Em O mal-estar da pós-modernidade, Zigmut Bauman aponta para o indivíduo pós-moderno que constrói uma identidade rasurável para ajustar-se às condições de sobrevivência social, uma espécie de identidade palimpsesto: “a identidade que se ajusta ao mundo em que a arte de esquecer é um bem não menos, se não mais, importante do que a arte de memorizar, em que esquecer, mais do que aprender, é a condição de contínua adaptação (…)” (BAUMAN, 1998, p. 37, grifo nosso). Luisiana usou várias máscaras identitárias para atingir sua meta, conviveu com pessoas que também adotaram uma segunda pele como forma de sobrevivência. Um personagem que nos parece ilustrar muito bem essa afirmação é Renê, o decorador oportunista e falsário que Luisiana contratou:
Nem o pano era do Afeganistão nem ele era tão viado assim, tudo mistificação, cálculo. Surpreendi-o certa vez sozinho, fumando perto da janela, a expressão fatigada de um ator que já está farto de representar. Assustou-se quando me viu, como se o tivesse apanhado em flagrante roubando um talher de prata. Então retomou o gênero borbulhante e saiu se rebolando todo para me mostrar o oratório, um oratório falsamente antigo, tudo feito há três dias, mas com furinhos na madeira imitando caruncho de três séculos (AUS, p. 32, sic).
A narradora-protagonista leva o simulacro de sua vida pessoal também para o espaço da casa, justo o lugar que se espera ser de intimidade, onde as máscaras deveriam ser retiradas. Todas as “relíquias” na casa do presente são falsas, dos tapetes persas aos anjinhos de Aleijadinhos, e Luisiana comprava tudo conscientemente, o seu prazer consistia em viver a ostentação, o não autêntico: “E eu sabendo que estava sendo enganada e não me importando, ao contrário, sentindo um agudo prazer em comer gato por lebre” (AUS, p. 33).
O exagero fazia parte da casa e da vida pessoal de Luisiana, gastou “um saco de ouro” com a decoração da sala; mantinha relações com três homens, um velho rico, um jovem ardente e um “sábio” filósofo. Naturalmente, a casa se tornou fria e impessoal – afinal, “o excesso de pitoresco de uma morada pode ocultar a sua intimidade” (BACHELARD, 1989, p. 32) – e os três amantes apenas serviam para atender as necessidades materiais, sexuais e culturais de Luisiana, nunca se envolveu emocionalmente com nenhum deles. A citação a seguir ilustra os relacionamentos superficiais da personagem, aliás, vale destacar o tom irônico, podemos mesmo dizer sarcástico, que Lygia Fagundes Telles dá à narrativa para retratar o distanciamento afetivo entre a narradora-protagonista e seus amantes:
Onde?… Tenho um iate, tenho um casaco de vison prateado, tenho uma coroa de diamantes, tenho um rubi que já esteve incrustado no umbigo de um xá famosíssimo, até há pouco eu sabia o nome desse xá. Tenho um velho que me dá dinheiro, tenho um jovem que me dá gozo e ainda por cima tenho um sábio que me dá aulas sobre doutrinas filosóficas com um interesse tão platônico que logo na segunda aula já se deitou comigo. Vinha tão humilde, tão miserável com seu terno de luto empoeirado e botinas de viúvo que fechei os olhos e me deitei. Vem, Xenofonte, vem (AUS, p. 34).
Com a chegada da idade madura, Luisiana percebe que a riqueza só lhe trouxe conforto material, pois, emocionalmente, sente-se só e desprotegida. As pessoas que se aproximam dela só o fazem por interesses econômicos; sua casa também não lhe serve de abrigo, ao contrário, intensifica o sentimento de arrependimento pelo rumo que deu à sua vida. Principalmente, porque essa casa representa metonimicamente a sua própria vida.
E eu mal tenho forças para acender o cigarro. Estou aqui sentada faz não sei quanto tempo. Desliguei o telefone, me enrolei na manta, trouxe a garrafa de uísque e estou aqui bebendo bem devagarinho para não ficar de porre, hoje não, hoje quero ficar lúcida, vendo uma coisa, vendo outra. E tem coisa à beça para ver tanto por dentro como por fora, ainda mais por fora, uma porrada de coisas que comprei no mundo inteiro, coisas que nem sabia que tinha e que só vejo agora, justo agora que está escuro. É que fomos escurecendo juntas, a sala e eu. Uma sala de uma burrice atroz, afetada pretensiosa (AUS, p. 32, grifo nosso).
Segundo Monica Figueiredo, “quando o real é hostil, lugar de privação e de frustração permanentes, as certezas do indivíduo são abaladas” (2011, p. 183). Durante a juventude, Luisiana acreditou que para ser feliz seria necessário conquistar segurança econômica e muitos bens. Agora que tem tudo isso, constata dolorosamente que é infeliz. Tanta raiva ao falar da sala de sua casa talvez represente a raiva que sente pela própria “burrice”, pela própria pretensão de achar que poderia ser feliz sem um amor verdadeiro. Luisiana sofre por só ver a felicidade que tinha “justo agora que está escuro”. Ao pedir que seu amor se matasse, não sabia que estava simbolicamente matando a si mesma.
Com o conto “Apenas um saxofone”, Lygia Fagundes Telles nos brinda com a construção de uma personagem extremamente rica, capaz de despertar no leitor os mais contraditórios sentimentos. Por vezes, comovemo-nos com suas angústias, com seu arrependimento; por outras, sentimos repúdio por suas atitudes egoístas e até cruéis. A nosso ver, Luisiana constitui-se como uma personagem que não deve ser lida, maniqueisticamente, como uma simples representação da ambição e da perversidade humanas.
NOTAS
1 Para as citações do conto “Apenas um saxofone”, utilizaremos a abreviação AUS, seguida do número da página.
2 O livro Antes do baile verde levou a escritora a receber o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros na França, em 1970.
3 Segundo Gaston Bachelard, “a topoanálise então é um estudo psicológico sistemático dos locais de nossa vida íntima”. (1999, p. 28)
4 Para ilustrar a relação entre memória e espaço, Seligmann-Silva recordou uma anedota da tradição clássica sobre o poeta Simônides de Ceos (apr. Ss6-468 a.C.), considerado o pai da mnemotécnica (arte da memória). Achamos interessante reproduzi-la: Simônides é salvo do desabamento de uma sala de banquete onde se comemorava a vitória do pugilista Skopas. Os parentes das vítimas não conseguiram reconhecer os seus familiares mortos que se encontravam totalmente desfigurados sob as ruínas. Eles recorreram a Simônides – o único sobrevivente – que graças à sua mnemotécnica conseguiu recordar-se de cada participante do banquete, na medida em que recordou do local ocupado por eles. (apud, SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 55)
5 Interessa-nos, principalmente, para a leitura de “Apenas um saxofone” a percepção da realidade pela visão e pela audição.
6 “Topofilia” é expressão empregada para designar o espaço acolhedor, feliz (cf. BACHELARD, 1989). Ozíris Borges Filho (cf. XAVIER, 2012, p. 19) utiliza o termo “topofobia” para se referir a espaços do medo, da aversão.
BIBLIOGRAFIA
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
BORGES FILHO, Ozíris. “Espaço, percepção e literatura”. In: BORGES FILHO, Ozíris; BARBOSA, Sidney (orgs.). Poéticas do espaço literário. São Carlos, SP: Editora Claraluz, 2009. p. 167-189.
FIGUEIREDO, Monica. No corpo, na casa e na cidade: as moradas da ficção. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2011.
LIMA, Susana Moreira de. “O envelhecimento feminino na escrita de Lygia Fagundes Telles”. Interdisciplinar – Revista de Estudos de Língua e Literatura, Ano IV, vol. 8, jan-jun de 2009: p. 133-138.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Apresentação da questão – A literatura do trauma”. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). História, memória, literatura – o testemunho na era das catástrofes. Campinas, SP: Unicamp, 2003. p. 45-88.
TELLES, Lygia Fagundes. “Apenas um saxofone”. In: TELLES, Lygia Fagundes. Antes do baile verde. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 31-40.
XAVIER, Elódia. A casa na ficção de Autoria Feminina. Florianópolis: Mulheres, 2012.
Bio fornecida pelo palestrante.
Wellington Alves Toledo
Universidade Federal do Rio de Janeiro ? UFRJ
Resumo
A busca de um lugar onde a liberdade fosse um item primário inevitavelmente não pode deixar de ser associada à biobibliografia do poeta português Jorge de Sena. A relação de amor e abandono de seu país de origem, Portugal, mais as experiências vividas em suas pátrias madrastas, fizeram parte do seu percurso humano e literário. Assim, o presente trabalho, pretende, pois, refletir sobre essa transitoriedade identificada na poética do autor, não só o que concerne às mudanças territoriais em curso, mas, sobretudo, as constantes deambulações que caracterizaram sua escrita, como a transmutação da consciência poética individual para um estado de transnacionalidade, a busca de uma identidade literária nacional contrapondo ao compromisso intertextual universal, além do pensar a própria obra sob a égide de perpassar o extenso legado cultural português.
Palavras-chave: Poética. Poesia narrativa. Transitoriedade. Pátrias. Deambulações.
Abstract
The pursuit of a place where freedom was a primary item should inevitably be associated with the Portuguese poet Jorge de Sena’s bio-bibliography. His love relation to his birth country, Portugal, and later his leaving it, besides the experiences he had in other foster homelands, were part of his human and literary trajectory. Therefore, this paper intends to reflect about the transience that can be identified with the author’s narrative poetry, not only in what concerns the territorial changes in course, but, above all, the constant ramblings that characterized his writing. Among these, the transmutation of the individual poetic consciousness to a state of transnationality, the search for a national literary identity in opposition to the universal intertextual commitment, and the thinking of his own work under the light of the extensive cultural Portuguese legacy.
Key-words: Poetics. Narrative poetry. Transience. Homelands. Ramblings.
Currículo do autor
Wellington A. Toledo é formado em Letras e atualmente termina o Mestrado em Literatura Portuguesa pela UFRJ, com a professora Doutora Gumercinda Nascimento Gonda, sobre a problemática da forma e de gênero da Mensagem de Fernando Pessoa, com defesa prevista para fevereiro de 2015. Essa dissertação foi apresentada no decorrer da disciplina Escrever Portugal, ministrado pelas professoras Cleonice Berardinelli e Gilda Santos, no primeiro semestre de 2013. É professor concursado na rede pública de ensino da Prefeitura de Magé. Tem um livro de poesia com publicação prevista em dezembro de 2014.
JORGE DE SENA: TRANSITANDO EM VIAS DE FATOS
Wellington Alves Toledo
Universidade Federal do Rio de Janeiro ? UFRJ
Introdução
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…
(PESSOA, 1981, p. 293- 294)
Comecemos, portanto, com a famosa asserção pessoana da relação de inaptidão do escritor com o espaço cívico. O artista, como um ser contestador do seu tempo, sente-se às vezes incapaz de se enquadrar em qualquer modo institucionalizado de vida. Assim, transfere à arte a responsabilidade de criação de um ambiente no qual possa dar perfeitamente um livre sentido à sua existência. Desta forma, vida e obra se interagem, embora, tumultuosamente.
As somas de toda sua trajetória pessoal obrigaram-no a conviver com os sentimentos de deslocação e de pertencer sempre a um espaço de intervalo. Sentimentos que ajudaram formar uma figura personalíssima, contestadora de seu estado social e, principalmente, um ser que fez da procura por libertação ? talvez utópica ?, do amor à pátria, da incompreensão humana e do resgate da herança literária, veios temáticos de sua vasta produção artística.
Poeta acima de tudo, como se considerava o próprio escritor português, difícil não correlacionar grande parte de seu histórico de vida com o que produziu de mais substancial durante anos de esteta das palavras. Com uma linguagem simples, embora detentor de um elitismo cultural e de um conhecimento literário grandíssimo, Sena fez de sua obra uma espécie de diário íntimo, no qual não só se refletiam dados autobiográficos, mas também versos reveladores de um homem que foi um cidadão do mundo.
Embora Nascido em Portugal, de pais portugueses, sua postura contestadora diante das contingências políticas de seu país reclamará para si ares mais respiráveis, capazes de lhe conferir a liberdade de se expressar contra todo o tipo de repressão humana. O Brasil se afigura então como um terreno fértil para seus inúmeros projetos. Por outro lado, esse espaço alheio e desconfortável instaura no autor um contraponto para a saudade e mágoa para com aquele que o renegou. Nisso, intensifica-se em sua escrita a tentativa de manter vivo, através da arte, o laço à distância com o país que amou e se viu obrigado a abandonar, ao mesmo tempo em que busca não perder as particularidades que o caracterizam como o ser de sua pátria natal, mesmo que contaminado por uma nova unidade sociocultural. Em meio a tanta diversidade de cultura a ele imposta pelas circunstâncias, o sujeito da enunciação lírica se fecha em sua própria consciência individual, manifestando um encontrar fora de si só a povoada solidão mortal. A palavra torna-se então residência fixa de um discurso poético que transita do eu-expatriado para o transnacional e, finalmente, assim pôde a poesia ser hábito de exercício de sobrevivência.
Estabelecido o exílio territorial, a lírica seniana projetará uma poesia emigrante; reflexo de suas muitas peregrinações pelo mundo. Situado entre dois polos ambíguos ? a mãe-pátria renegada e o quarto de hóspede oferecido pelo parente distante ?, o poeta opta por construir um exílio mais profundo e subjetivo, transformando a ausência de “colo” em material lírico por excelência e da existência pessoal senda de superação de uma identidade nacional fragmentada. Sobre essa errância da figura dos poetas, vale a pena destacar o que a poetisa russa Marina Tsvetáieva aponta:
Todo o poeta é por essência um emigrante […]. Um emigrante do reino dos Céus e do paraíso terrestre da natureza. O poeta (todos os artistas, mas sobretudo o poeta) leva sempre a marca especial do descontentamento, graças à qual mesmo na sua própria casa é impossível reconhecê-lo. É um emigrante da Intemporalidade no tempo, um exilado do seu céu (TSVETAIEVA,1993. p. 63-64).
O exílio, seja ele voluntário ou punitivo, ancorou durante os séculos a poesia, não só portuguesa como também em âmbito universal. É comum notar no lirismo de autores expatriados a presença de um sentimento de consciência ambígua. Um sentir que os fazem mesclar em seus discursos poéticos a repulsa e o desejo pelas paisagens perdidas de sua pátria mãe e o anseio em tomar para si aquilo que se vislumbra com um novo acolher materno. Assim, convém destacar o que Julia Kristeva aponta sobre o ser exilado:
No ponto mais longínquo em sua memória remota, ela está deliciosamente magoada: incompreendido por uma mãe amada e contudo distraída, discreta e preocupada, o exilado é estranho à própria mãe. Ele não a chama, nada lhe pede. Orgulhoso, agarra-se altivamente ao que lhe falta, à ausência, a qualquer símbolo (KRISTEVA, 1994, p. 12-13).
Porém, nota-se na lírica seniana, embora ornada de um amor passional à terra natal, o testemunho de que ter pátria é um estar no presente de um determinado local, enraizado ou não. Muito mais uma noção do que nação de fato. Ser de Portugal, por que lá nasceu, embora ao mundo pertença. Como camisa que se despem, / se usam e se deitam fora (SENA, 2006, p. 215-217), irá reforçar a ideia de que a verdadeira nação não é a genética nem a adotada, mas sim aquela fecundada dentro de si mesmo; que nacionalidade não é o que se registra em cartório, mas a que se traz na alma.
Essa espécie de símbolo de transferência, apontado por Kristeva, Sena parece retomar, de forma irônica talvez, no poema Raiz, inserido no livro Jorge de Sena: Ressonâncias e cinquenta poemas. Nele, através de uma viagem temporal por diversos escritores exilados e/ou nômades, o poeta se vale primeiramente do significado atribuído à palavra-título, para em seguida desmitificá-la de toda a conotação comum a ela imposta, na qual se subentende que ter nascido em uma terra não é garantia de patriotismo. A propósito, tomemos emprestada a voz do escritor de Metamorfoses através dos fragmentos do poema acima referido:
Raízes
Raízes? Nem mesmo todas as plantas têm,
e o termo cheira às gritarias de Barrés
(ou voulez-vous que je m’enracine? ? perguntava-lhe Gide)
ou quejandas companhias galicanas pré-facistas,
quando desejavam ? patriotas ? que francesas fossem
[…]
Raízes outras há: os mortos que nos dormem
na terra que nascemos, na terra onde morreram,
e nos vivem na vida que não tendes nesta Europa finis ?
pilritos fêmeas de outros mundos machos. (SENA, 2006, p. 228-229)
Embora não vivesse em Portugal grande parte da vida, Sena foi um escritor português em todos os lugares em que esteve. Autor de uma extensa produção poética, publicada em vida e/ou póstuma, além de uma gama considerável de estudos críticos a ele creditados, imprimiu à sua poesia uma perseguição ascética de uma escrita lusitana, de cantar a sua terra ? às vezes ácida até ?, da mobilização social através da construção artística e de resgatar o legado literário português, principalmente a herança camoniana; poeta de maior apreço pessoal, ao mesmo tempo em que também refletiu o próprio ato de fazer poesia.
O poeta escreveu num período de verdades garantidas pela polícia e, no que tange à produção textual, num contexto em que o fingimento pessoano causou uma neurastenia na originalidade literária portuguesa. Parecia impossível um merecimento autoral sem o crivo assombroso do fenômeno heteronímico e sem o olhar esfíngico da Mensagem. E, embora Sena não fosse uma presença confortável para Portugal durante o regime Salazarista, tão pouco deixou de incomodá-lo, mesmo quando residia no Brasil. Discutiu o proibido até quando se era proibido discutir, antecipando o tempo de responsabilidade democrática que faltava ao povo de Portugal, silenciado deveras pelo medo de seu representante maior e também pela conivência com a surdez criativa de seus escritores. Porém, mesmo sendo talvez o crítico mais radical do cenário português da segunda metade do século passado, não se deve reduzir sua obra à mera militância política e restringir sua figura à sentinela do vazio poético de sua geração. Ela é demasiado emblemática para isso. Sua gordura filosófica se diluiu em pedaços mil ao longo de seu extenso corpo poético. Como um reflexo corajoso do cotidiano, o humanismo seniano se exerceu sobre o circunstancial de sua nação e sobre o estágio atual de um mundo não muito seguro de se viver, embora ciente de que não houvesse outro possível. Tanto, que fazia questão de datar suas poesias, realçando todo seu comprometimento com a contemporaneidade. Um Drummond português, conjugado no presente imperfeito daquele tempo.
Sena sempre esteve imbuído em refletir sobre o ser português, independentemente de sua residência pessoal, mesmo que para isso tivesse que “atacar” o contexto político de seu país de origem e até o seu idioma. Os constantes ataques rotineiramente aconteciam numa tonicidade canora e belicosa (CAMÕES, 2009, p. 26), como se verifica no poema A Portugal, texto no qual derrama toda sua indiferença e revolta contra a “medeia” pátria. Mas, ao negar seu país, evocado em suas estâncias poéticas como metonímia da incompreensão humana e injustiça, o sujeito da enunciação não estaria fazendo um desabafo amoroso a Portugal? Somente os seres acometidos por uma paixão insistentemente não correspondida seriam capazes de testemunhar tão passionalmente um sentimento. Tomemos então por empréstimo os dizeres de um aviso que, em forma de discurso poético, de Amor e de poesia e de ter pátria se quis retratar:
A Portugal
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela (SENA, 2006, p. 239-240).
Não nos cabe aqui reproduzir o poema por completo, mas, mesmo através de uma leitura superficial, nota-se em A Portugal uma poética de consciência lírica paradoxal que, partindo das vivências do sujeito enunciador, busca captar uma realidade fora delas. Ambos, universo subjetivo e realidade vivida, mesclam-se, transferindo para um mundo distinto e mais amplo do que qualquer nacionalidade específica o espaço ansiado; espaço capaz de abrigar um ser exilado dentro si, antes mesmo de qualquer exílio espacial. A madrasta pátria evocada passa a ser então instância primária da dor da vida finita, exercida, todavia, em toda sua imortalidade, mas não o seu ponto final. Cabe então ao ser mortal a perseguição fiel da dignidade humana e deixar testemunhado sua dedicação à honra de estar vivo.
Mesmo adotando uma violência vocabular, Jorge de Sena não se exime de registrar em sua “cantiga de escárnio” a sua preocupação de resgatar o passado histórico-cultural e literário de sua terra. Principia-o ao alevantar, através de um recorte poético, a figura camoniana ? osso filosofal da literatura portuguesa e de grande parte da escrita de Sena ?, mapeando o seu discurso em uma ordem histórico-evolutiva mais ou menos linear. Perpassa-o por suas origens mais remotas até o que, na terceira estância, identifica-se como sendo um arquétipo do urbanismo moderno. Um cenário de progresso que se contrasta ao mesmo tempo com os porcos transeuntes pelas ruas. Mas, muito além de uma voz denunciadora do atraso estrutural e econômico da nação portuguesa, ecoa em A Portugal o descontentamento daquele que observa estanque em uma morada estrangeira a estagnação secular da literatura de sua terra-museu, dirigindo-se contestadoramente, sobretudo, aos poetas seus contemporâneos. Assim, para melhor reforçar o encontro de uma consciência lírica que protesta contra o “estilo” de vida levado por uma mãe displicente, recortemos um trecho de Jorge de Sena, um poeta sem fronteiras, ensaio de Silvio Renato Jorge, no qual ressalta que:
Ao exílio, corresponde uma imagem angustiosa da solidão. Acusa-se uma consciência de que, ao desviver a pátria, na sua materialidade objetiva, é possível contemplá-la criticamente. Por não atribuir à origem o peso que o senso comum atribui, compreende em sentido mais amplo o descompasso entre memória e seu objeto, substituindo a saudade, fórmula recorrente na Literatura Portuguesa, pela mágoa ou pelo desprezo… (JORGE. In: SENA, 2006, p. 113-114).
Ainda com relação ao exílio na lírica seniana, acreditamos encontrar, conforme referido anteriormente, traços significativos que ultrapassam uma simples reflexão saudosista da pátria. Embora seja uma temática caríssima ao longo de sua obra poética, sua complexidade impede que nos estacionemos apenas nesse único aspecto. Suas multiressonâncias são, além disso, o testemunho do cotidiano do seu tempo, a busca em dar sentido à existência humana e, acima de tudo, o comprometimento do escritor em fazer da vida um exercício poético.
Indissolúvel às vezes no que escreve, o anseio em ter de volta a pátria furtada e o desejo de se reestabelecer em uma casa alheia servem de primeiro plano para uma escrita que vagueia por múltiplas vertentes. Esse passeio ? entendido aqui por nós como deambulação poemática ? perpassa por questões patrióticas, pela documentação da vida presente, pelo resgate cultural e literário ? transitando do clássico ao moderno, das letras portuguesas à literatura ocidental ? pela reflexão da ação poético-construtiva, pela análise da própria poesia, além das mudanças de matizes no decorrer dessa mesma poesia. Antes de nos debruçarmos sobre esses influxos temáticos, convém registrar o apuro com que o poeta sempre idealizou o ato transformador da palavra escrita:
Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte constituirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas, principalmente, de outros que nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o seja de fato. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer consciência ou nos afetos tudo, recusando ao mesmo tempo as disciplinas em que outros serão mais eficientes, os convívios em que alguns serão mais prodígios, ou o isolamento de que muitos serão mais ciosos ? eis o que foi, e é, para mim, a poesia (GILDA. In SENA, 2006, p. 165).
Em creta, com o Minotauro
I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de
gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.
(…)
III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu,porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.
(…)
V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café (SENA, 2006, p. 215-217).
Escrito, convém lembrar, após o golpe militar de 1964, ao nível mais exemplar, o poema parece mexer com o dedo sujo nas origens de velhas feridas. Em outro sentido, Jorge de Sena vê novamente nascer, agora no Brasil, a dor de haver nascido em Portugal. É certo que o convívio em solo tupiniquim não lhe angariaram um abrir e fechar despojados a “geladeira” de todas as intimidades dessa casa alheia. Porém, também furtada essa outra roupagem-asilo, que durante alguns anos vestiu com todo o respeito e aprendeu a amar, o poeta transparece uma vontade máxima em deixar registrada sua decepção, não com o país em si, mas com a sensação de ser vendida a novos donos autoritários a pátria onde prestou serviço à arte de fazer poesia.
Ao debruçar sobre a experiência pessoal da diáspora, o poeta visa transpassá-la a um nível de transnacionalidade. Elege então em versos uma ilha. Não a Grã-Canária, nem a camoniana Ilha do Amores, nem a de Moçambique, onde Camões dejetava o seu lirismo, mas uma ilha-metáfora, sonhada, poeticamente possível, Creta, mas não a Creta dos gregos que não eram gregos ainda. Esta porção de terra onírica corresponde um lugar capaz de abrigar, sob o olhar de deuses sem vergonha, dois seres híbridos em essência: o Minotauro e o sujeito fragmentado que se apresenta nas primeiras linhas do ato inicial. Essa estruturação formal a partir da tragédia clássica, aliás, ressalta os caracteres sobre-humanos, o pathos da personagem central que, consciente de sua situação labiríntica, prevê no esquecimento e no esquecimento de qualquer sentido de nacionalidade o reencontro de si próprio.
E o Minotauro compreendê-lo-á. Ser mitológico tripartido, fruto de uma simbiose entre o que de humano e de deus lhe constitui, não é semideus. É, antes de tudo, um monstro em sua humanidade em pedaços repartida. Essa coisificação em sua essência o aproxima do eu-lírico, porque ambos, fazendo um eco com Álvaro de Campos em sua Tabacaria, são incapazes de reconhecer no espelho as marcas indistintas de seus próprios rostos enrugados. Trazendo o Minotauro à contemporaneidade insular das chávenas de café, o poeta busca credenciar ao filho adúltero e zoofílico de Pasifaë a depuração total dos signos catárticos de seu poema-peça, justamente por essa natureza dúplice que os particulariza. O café, um dos símbolos modernos dos escritores do século passado, serve de estreito, ao ligar afetivamente numa linguagem afônica, dois seres sem pátrias e sem espírito, / sem nada, nem ninguém (SENA, 2006, p. 215-217).
O estilo pessoano de representação cênica da linguagem poética parece retomado no poema. Mas, enquanto o criador dos heterônimos suscitava a representação da totalidade do mundo através de personalidades recriadas a partir de si, o poeta expatriado prioriza a totalidade de si por meio das personagens do mundo literário. Obra de cunho dramático, dirigida e representada por quem concedeu a si próprio o conteúdo de vida para a composição do roteiro, Em Creta, com o Minotauro seria a encenação autobiográfica de um poeta que atigira o mais elevado grau de sua maturidade artística.
Quando dizemos que Jorge de Sena realiza um percurso deambulatório em sua criação, sobretudo quando nos valemos exemplarmente do poema referido acima, queremos demonstrar o constante trânsito temático inserido em sua escrita. A problemática do exílio implica às vezes o erro de uma análise simplista de sua obra, justamente por propiciar aos seus leitores de pouca humanidade uma zona de conforto. O caráter intimista inicialmente empregado é, a priori, o rito de passagem de uma viagem iniciática que se quer desembarcar em sentidos muito mais profundos. O próprio poeta nos facilita o trabalho ao credenciar à língua portuguesa o modo único de ser realizar a pátria transformada em matéria lírica. As outras possíveis, no indivíduo, realizam-se.
Muito além de uma simples canção do exílio portuguesa, há no poema uma tensão discursiva mais substancial e plurissignificativa do que o mero patriotismo ufanista ou um vandalismo vexatório com a imagem do país. Helder Macedo defende a perspectiva de que Sena, pretendendo elevar a questão da expatriação a um nível semântico mais representativo, subverte a tríade “Deus, pátria e família”, propagada pelo ditador português, Salazar, ao redecodificá-la em “amor, poesia e pátria”, suplantando assim seus limites. Pátria, exercida, porém, como forma de vida e não de morte, como requisitaram pra si alguns autores. Portanto:
“Pátria” e “poesia” (ou língua) revelam-se assim como o mesmo exercício da livre humanidade na perspectiva definida por Jorge de Sena. E o lugar do Deus imposto na tríada salarazarista é ocupado pelo amor, desde o da carne àquele que só de si se move, como dirá no Aviso de Porta de Livraria. Por isso, no arquétipo de eternidade representado na Creta do Minotauro não há lugar para um Deus que tudo unificasse, há deuses, metáforas plurais (e aliás também camonianas) da infinita humanidade (MACEDO, 2007, p. 191).
Em sua complexidade, O estilo seniano condiciona quase tudo o que a literatura portuguesa considera como o modo português de escrever. O pensar o processo de criação antes e durante de realizá-lo, atesta a ética com a qual o autor tratava a palavra transformada em arte, justamente por seu modo característico de buscar o sentido da existência humana através da estetização da vivência, já que, segundo o seu entendimento, a arte não poderia ser deslocada da vida.
Seu olhar indagador incita um questionamento sobre a real capacidade transformadora do artista. Mas, antes de se ater à elaboração metapoética pura e simplesmente, sua espantosa erudição nos condiciona uma leitura que, a partir da interdisciplinaridade de seu interesteticismo poético e de suas experimentações temáticas, aponta para o passado um itinerário infinito de formas de recriação de um presente para o futuro. Objetos de investigação, os acervos artísticos e históricos humanos servem de pilares exemplares para uma escrita que, embora esteja radicalizada no processo testemunhal de seu tempo, vê no regresso consciente ao mitológico e às personalidades marcantes da história um veio de questionar a sociedade de sua época. Próprio da modernidade, o retorno aos cânones literários tem em Sena, talvez, um dos seus maiores porta-vozes. Longe, porém, de incorrer em uma eleição arbitrária, o poeta credencia somente as personagens que melhor dialogam com a temática posta em xeque. Essa seleção consciente permite ao artista adotar por vezes uma postura dessacralizadora do passado mitificado.
Compulsoriamente resgatado na lírica seniana, o fantasma camoniano ressurge então, através do criador de Peregrinatio ad loca infecta, como a voz magoada do memorial português. Contudo, o Camões seniano, é pertinente mencionar, não é o Camões exumado por leitores delicados e de vis propósitos patrióticos, mas, antes mesmo de um busto de bronze, um homem “assinalado” nas dores sofridas de uma língua nova.
Alevantado outro valor da língua portuguesa por entre as colônias, o que o autor busca agora é um novo canto que deponha contra o esvaziamento linguístico do século XX. A condição mítica do Minotauro permite que haja uma correspondência entre ambos, mesmo que numa língua também mitificada, o volapuque. Assim, os dois estariam livres para investigar, com um fálico dedo, as partes íntimas da vida, já que, nessa ilha-metáfora, sem pátria e sem idioma, portanto, liberta de tudo, apenas o café que os ata. E finalmente a paz ? a morte, a velhice ou que seja ? poderá dizer da grandeza de estar vivo.
Dono de um acervo criativo diverso, conflituoso e questionador, Jorge de Sena foi a base tutelar dos poetas da geração de 1970 e, sobretudo, uma senão a mais representativa das figuras da poesia portuguesa no cenário pós-Fernando Pessoa. Criador da poética do testemunho, nela o autor imprimiu à sua arte o compromisso diário de catalogar a experiência humana através da escrita. Essas múltiplas mundivivências, insertas num contexto histórico social tumultuado e na constante fuga da repressão ditatorial, servirão de fonte de arquivo para a gênese de seus textos. Mesclando a vida burocrática de um homem simples com um intelectualismo apurado e o fenômeno do exílio com o reencontro de si próprio, sua obra se nos revelará como um processo criativo em constante trânsito. Vale lembrar que a liberdade formal também teve cadeira cativa em sua vida; novas formulações refletidas, sobretudo, em seus recorrentes diálogos interestéticos; na intersecção entre o histórico e o ficcional; na transição de gêneros literários; na multiplicidade de estudos críticos e ensaísticos; na interlocução entre prosa e lírica; em sua experimentação de uma língua autoral e, principalmente, pela violência verbal, pela qual buscou varrer para fora dos tapetes da psique humana, questões que muitos preferiam esconder.
Referências
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BENJAMIN ,Walter (1994). Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura história da cultura. 7ª Ed. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense.
CAMÕES, Luís Vaz de (2009). Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM.
JORGE, Silvio Renato. Jorge de Sena: “Um poeta sem fronteiras”. In. Jorge de Sena: “Ressonâncias e Ciquenta Poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
KRISTEVA, Julia. Estrangeiro para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MACEDO, Helder. “De amor e de poesia e de ter pátria. In: Trinta leituras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Presença, 2007.
MACEDO, Helder. Jorge de Sena, a Grã-Canária e a Ilha do Amor. In: Trinta leituras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editorial Presença, 2007.
PESSOA, Fernando. Obra poética: volume único. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1981.
SANTOS, Gilda (Org.). Introd. a Jorge de Sena: “Quarenta anos de pública servidão poética”. In: Jorge de Sena: “Ressonâncias e cinquenta poemas”. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
SENA, Jorge de. Jorge de Sena: “Ressonâncias e cinquenta Poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
TSVETAIEVA, Marina. O poeta e o tempo. Lisboa: Cosmos, 1993.
Bio fornecida pelo palestrante.
Rafaella Cristina Alves Teotônio
Universidade Federal de Pernambuco
Resumo:
O artigo busca revelar e discutir como a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie consegue diluir os estereótipos acerca da África e de seus povos. Nascida na Nigéria, Adichie é uma escritora em contundente desabrochar literário, reconhecido criticamente por sua postura política e pelo sucesso de seus livros publicados. A autora, que comunga de bastante sucesso também por suas palestras veiculadas na internet, tenta representar em suas narrativas o cotidiano de homens e mulheres de diversos estratos sociais, econômicos, educacionais e culturais. Revelando uma África bem mais diversa e plural do que se ousa saber a partir dos olhos ocidentais. A escrita de Adichie reclama para o seu continente a oportunidade de contar uma “nova história”, além de provocar, como convém o pensamento de Walter Mignolo (2008), uma “desobediência epistêmica”.
Palavras chaves: Autoria feminina; teoria pós-colonial; desconstrução; África.
Abstract:
This paper aims at revealing and discussing how Chimamanda Ngozi Adichie dilutes stereotypes about Africa and its people in her writing. Born in Nigeria, Adichie is an astonishing writer, critically recognized for her political stance and for the success of her published books. The author, also known for her lectures in TED (as in “The Danger of the Single Story” and “We Should All Be Feminists”), attempts to represent in her narratives men and women from different social economic, educational and cultural strata, revealing a much more diverse and plural Africa than we dare know in western eyes. In her writing she advocates for the right to tell a “new story” for her continent, provoking, as suggests Walter Mignolo (2008), “epistemic disobedience”.
Keywords: Female authorship; Postcolonial theory; Deconstruction; Africa.
Currículo da autora: Rafaella Teotônio é doutoranda em Teoria da Literatura pela UFPE, mestre em Literatura e Interculturalidade e graduada em Letras pela UEPB. Seu projeto de pesquisa no doutorado centra-se no estudo dos romances do autor luso-africano Valter Hugo Mãe, em específico as questões acerca do humano em suas narrativas. Desde o mestrado tenta desenvolver pesquisas sobre Literaturas de Língua Portuguesa, em relação também com autores contemporâneos de outras línguas, alguns ainda com pouca fortuna crítica, como Valter Hugo Mãe e Chimamanda Ngozi Adichie. Também se interessa por estudos comparativos, crítica feminista e representações de minorias.
Histórias importam
Contar novas histórias acerca de um continente reconhecido por uma única história tem sido o empenho da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Nascida em Abba, Nigéria, em 1977, vinda de uma família de classe média, a autora tenta representar em sua literatura imagens de uma África diferente da que foi escrita pelo Ocidente. Em suas obras, as diferenças se cruzam em relações de conflito ou de troca, dependendo das estratégias identitárias e dos afetos mantidos pelos personagens. Retratos de uma Nigéria pós-colonial, marcada por guerras e tentativas de desenvolvimento.
Ao contar várias histórias sobre um mesmo lugar, Chimamanda Ngozi Adichie prioriza em sua escrita uma diversidade temática acerca da África e principalmente de seu país de origem. A preocupação da autora em negar os estereótipos africanos criados pelo imaginário ocidental tem como influência significativa sua experiência de vida. Adiche estudou nos Estados Unidos e na Inglaterra, tendo passado a infância e adolescência no campus universitário de Nsukka, cidade nigeriana. Filha de pais professores universitários, a autora teve contato com um mundo africano diferente daquele reconhecido somente pela miséria e por guerras.
Com três romances publicados, dentre eles, Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2003), Hibisco roxo (Purple Hibiscus, 2006) e Americanah (Americanah, 2013), além do livro de contos A coisa à volta do teu pescoço (The Thing Around Your Neck, 2009) e o de poemas Decisions (1997), a autora, a partir da variedade de personagens de suas obras, tenta enriquecer a complexidade de suas histórias e tornar fiel a representação do hibridismo de seu país. No universo de sua literatura podemos encontrar pessoas ricas e pobres, vindas da cidade ou de aldeias, instruídas e não instruídas, intelectuais, mulheres submissas, mulheres empresárias, estrangeiros, nativos alienados pela cultura europeia, dentre outros. Uma Nigéria moderna dividida entre as tradições e o processo de modernização, um país pobre, um país rico, um país em guerra, um país de mulheres independentes e de homens revolucionários. Entre suas temáticas versam a tentativa de entender a identidade nigeriana, a diversidade de religiões e crenças, o contato com o mundo estrangeiro e as diversas questões que permeiam o universo de seu país.
Em discurso no evento Technology, Entertainment and Design (TED), organização não-governamental que proporciona conferências sobre Tecnologia, Entretenimento e Design, Adichie fala da infância feliz em Nsukka, morando na casa em que também morou o escritor Chinua Achebe, dos livros estrangeiros em que encontrava climas, frutas e bebidas diferentes das que conhecia, das histórias que escrevia durante a infância imitando os escritores estrangeiros, do período de escassez alimentar e do contato com os livros africanos que lhe proporcionaram uma maior identificação com a literatura.
Nesse discurso, pronunciado em 2009 e publicado no YouTube, intitulado “O perigo de uma única história”[1], Adichie tenta alertar para o perigo de uma única história acerca de um lugar, como foi criada a visão estereotipada que via os africanos como selvagens, além de demonstrar sua preocupação em mostrar a diversidade cultural existente na África através da sua ficção.
Ao iniciar a sua fala, a autora conta como ficou surpresa ao descobrir que a família do garoto que trabalhava em sua casa tinha produzido um cesto lindo de ráfia seca, feito artesanalmente. Quando criança, Adichie só podia pensar no garoto da forma que sua mãe falava dele, enfatizando a pobreza de sua família, não conseguindo imaginar que eles pudessem ter a capacidade de confeccionar tal objeto. Assim, a autora começa a discorrer sobre O perigo de uma única história, sobre como uma única face de uma história pode influenciar o pensamento de quem a ler ou a escuta. Ao falar acerca da família de Fide, o criado de sua casa, como o seu personagem Ugwu de Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2003), ela diz: “Sua pobreza era minha única história sobre eles”. Esse artigo tenta observar como a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie encontra nas várias histórias de um povo a forma de diluir e problematizar visões monolíticas sobre lugares, crenças, identidades e afetos.
Uma visão pós-colonial
Chimamanda Ngozi Adichie refaz em seus escritos a África, reconta histórias que foram deformadas pelo colonialismo e pelo imperialismo. Tal estratégia encontra na Teoria pós-colonial um fundamento, trata-se de uma tentativa de revisão do olhar europeu sobre os sujeitos e nações pós-coloniais, relocando a voz e colocando tais sujeitos em condição de atores, dessa vez, protagonistas de suas próprias histórias.
Adichie alertou para o estereótipo que se criou acerca da África e acerca de muitos povos do oriente a partir dos olhos ocidentais. A autora termina sua palestra no TED dizendo: “histórias importam, muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno, mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar”.
A partir da fala da escritora africana pode-se compreender como as narrativas foram usadas de diferentes modos pelas culturas e pelos povos, e como a disseminação delas criou imagens e estereótipos sobre lugares e grupos de pessoas, favorecendo a luta pelo poder, mas também dignificando ou dando existência a pessoas e lugares. Edward Said (2011), em seu livro Cultura e imperialismo, buscou analisar como a literatura inglesa construiu e influenciou o imaginário do colonialismo. Analisando obras como O coração das trevas, de Joseph Conrad, Said propôs reinventar a história sobre os povos colonizados, dando a esses o lugar de protagonistas. De acordo com Said, a literatura inglesa do século XIX colaborou com o estereótipo da África enquanto lugar misterioso, selvagem, “das trevas”, assim como também foi referência para ações e atitudes imperialistas.
O principal objeto de disputa no imperialismo é, evidentemente, a terra; mas quando se tratava de quem possuía a terra, quem tinha o direito de nela se estabelecer e trabalhar, quem a explorava, quem a reconquistou e quem agora planeja seu futuro – essas questões foram pensadas, discutidas e até, por um tempo, decididas na narrativa. Como sugeriu um crítico, as próprias nações são narrativas. O poder de narrar, ou impedir que se formem e surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui umas das principais conexões entre ambos (SAID, 2011, p.11).
A teoria pós-colonial, da qual Said é um de seus representantes, tenta reinventar a história do colonialismo pela ótica do colonizado (MATA, 2007). Trata-se de analisar as consequências e influencias do colonialismo nas nações pós-coloniais. A literatura é um dos objetos de estudo mais analisados pela Teoria pós-colonial, pois ela exprime enquanto documento histórico e objeto estético as décadas de silenciamento dos povos colonizados e das mudanças ocorridas nas nações emergentes com a independência. Foi a partir da literatura, enquanto campo de batalha e protesto, que muitas nações foram influenciadas a resistirem ao imperialismo, sendo as literaturas africanas as mais representativas para esse debate. Trata-se de provocar estratégias que tentam desautorizar narrativas tidas como absolutas, provocar uma “desaprendizagem”, como Walter Mignolo (2008) observa, numa maneira de aprender novas epistemologias e reinscrever as vozes daqueles que foram silenciados.
Mais importante, as grandiosas narrativas de emancipação e esclarecimento mobilizaram povos do mundo colonial para que se erguessem e acabassem com a sujeição imperial; nesse processo, muitos europeus e americanos também foram instigados por essas histórias e seus respectivos protagonistas, e também eles lutaram por novas narrativas de igualdade e solidariedade humana (SAID, 2011, p. 11).
Durante o período de independência, as literaturas dos países africanos, sendo as detentoras mais urgentes de saberes, em comunidades com sérios problemas educacionais, tiveram papel importante para a compreensão do período e para a luta anticolonial, o que se pode entender também pela adesão da escrita literária por muitos intelectuais ativistas. As literaturas africanas, assim como outras, tentaram afirmar as identidades de seus países, saqueados culturalmente pelo colonialismo, culminando num movimento nacionalista e de resistência, em que a obra literária era usada por muitos escritores como arma na guerra colonial.
Assim como na literatura brasileira, no romantismo e no modernismo, as literaturas dos países africanos tentaram reinventar signos, mitos e imagens sobre a África, tentando resistir à exterminação cultural e buscando enfatizar um sentimento de identidade. Porém, contemporaneamente, o desgaste dessa necessidade identitária surge da autoconsciência dos escritores perante a impossibilidade de reconstituição de tradições e o alerta para os problemas internos gerados pela independência, assim como a homogeneização trazida pela globalização.
Essa autoconsciência torna ainda a cultura na África problemática e gera um debate recorrente em suas literaturas, como nas obras de Mia Couto, Paulina Chiziane, como também nas de Adichie. Teria a África e suas literaturas que lidar sempre com o passado colonial? Russel Hamilton (1999) diz que os africanos avançam para o futuro “de costas”. Mia Couto, em edição de 2012 da Fliporto falou sobre a importância de esquecer o passado, numa tentativa de exorcizar o ressentimento. Tais questões são discutidas pela Teoria pós-colonial e não chegaram a uma conclusão.
É fato que as culturas africanas sofreram com a violência exercida pelos anos da colonização e alguns danos não conseguiram ser reparados, porém, como discute Said, o colonizado, o nativo, nunca foi passivo nessa batalha e, se as comunidades hibridas africanas são o resultado da colonização, os costumes e valores estrangeiros não foram todos impostos pelo colonizador.
Ella Shohat criticou em A crítica da imagem eurocêntrica este estigma do ex-colonizado e de suas comunidades como hibridas. Discutindo que a Europa também foi formada por diversas culturas. A preocupação da estudiosa é de esclarecer a Teoria pós-colonial e desmascarar certas tendências que culminam numa lógica ainda eurocêntrica. Segundo a autora, o elogio à diferença e a autoafirmação da identidade subalterna pela Teoria pós-colonial pode “santificar” ou justificar a violência cultural exercida pelo colonialismo.
Voltando a discussão sobre o passado ainda presente na África e em suas literaturas, é preciso que se busque um entendimento da África na sua contemporaneidade, na defesa de uma cultura ativa e não numa identidade auto-excluída que apela para o ressentimento e a folclorização do passado (que tende a ser mastigado pela globalização como mercadoria exótica), na vanguarda de suas literaturas e na riqueza de sua diversidade, sem com isso arrancar da história o passado que agora deve ser reinventado, como um passado de resistência e não de escravidão.
Tal visão pode encontrar nas obras de Chimamanda Ngozi Adichie uma representação. No vídeo O perigo de uma única história, Adichie lembra que quando criança lia muitos livros britânicos e americanos, era uma escritora precoce e, nas histórias que escrevia seus personagens sempre eram brancos, de olhos claros e comiam maçãs como nesses livros, porém, sua vida não era compatível com essas histórias, tão pouco com os personagens que encontrava nelas. A autora conta como foi importante o encontro com as literaturas africanas e com escritores como Chinua Achebe e Camara Laye:
As coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e nem eram tão fáceis de encontrar como os estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele de cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura.
Ao contar sua experiência pessoal com a descoberta das literaturas africanas e com as várias faces de uma história, Adichie aborda a importância da literatura no reconhecimento das identidades, na disseminação de imagens acerca de povos e lugares que podem perpetuar os preconceitos ou trazer visões diferentes acerca de um mesmo lugar. Essa mesma postura desconstrucionista pode ser encontrada em outra palestra da autora para o TED, em Sejamos todos feministas (We Should All Be Feminists) Adichie alerta: “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura”. Foi com esse posicionamento contundente que a autora provocou em seus romances discussões acerca dos costumes machistas perpetuados por algumas tradições, buscando discernir entre o resgatar a tradição extirpada pela colonização, tema intrínseco as literaturas africanas, e o entender o papel dela na contemporaneidade. Em suas obras a autora privilegia as várias histórias sobre a Nigéria, as diversas histórias com as quais ela teve contato e das quais ouviu falar ou criou para dar corpo aos debates contemporâneos acerca da diferença, desigualdade e alteridade presente na sociedade nigeriana. Como compreende Anderson Bastos Martins (2011, p. 111):
Chimamanda representa uma das várias oportunidades que o continente africano possui hoje de reclamar para si o espaço simbólico internacional que os séculos de exploração colonialista lhe negaram. Ela é a mulher negra que desconstrói a gama de estereótipos que o Ocidente disseminou a fim de justificar sua empreitada imperialista.
Adichie é uma das escritoras contemporâneas africanas que escreve sobre a África numa perspectiva transcultural, em que as diversas identidades dos sujeitos africanos são compreendidas em suas obras no debate sobre as relações de alteridade, nos conflitos internos marcados pela experiência da independência e pela influência externa da modernização.
No debate acerca da alteridade, tema presente nas obras de Adichie, pode-se perceber um recurso que leva o leitor a compreender a contemporaneidade dos debates sociais e culturais africanos a partir das relações internas entre os personagens. Esse jogo entre o local e o global, privado e público, revela a tentativa da autora em aproximar o leitor, familiarizá-lo com as situações vividas pelos personagens. As literaturas africanas, ainda estigmatizadas por uma visão essencialmente nacionalista, em que seus temas discorrem acerca do social e sobre as suas culturas que parecem estranhas aos leitores ocidentais, acabam por se distanciar desses mesmos leitores influenciados por uma crítica que potencializa a análise social dos textos literários africanos.
Entretanto, o texto de Adichie parece aproximar esses leitores “estrangeiros”, pois ela tenta criar uma visão diferenciada sobre a África, o que se configura na escolha por personagens de classe média, empresários, intelectuais, universitários, urbanos, cristãos, e, claro, sem esquecer dos personagens pobres, sem escolaridade, rurais e tradicionalistas. A gama de personagens diferenciados, das diversas camadas sociais, financeiras e educacionais, traz o horizonte próximo à realidade dos leitores “ocidentais” que se impressionam com a desmistificação do estereótipo que tinham acerca das sociedades africanas, das quais creditavam ser constituídas somente por uma imagem exótica.
Adichie se preocupa em representar os vários lugares de uma Nigéria constituída pela diversidade, ao caracterizar os espaços urbanos e os indivíduos escolarizados e, muitas vezes, eurocêntricos. Ao fazer isso, ela instala a modernidade nas literaturas africanas, uma modernidade que não tenta se igualar à homogeneização proposta pelos processos de modernização impostos pelo Ocidente, mas uma modernidade local, própria, marcada pelos processos decorrentes da globalização, mas que também negocia com o global a partir de suas singularidades locais, instaurando uma modernidade complexa, transcultural e problemática (TEOTÔNIO, 2013).
Na escolha pela desmistificação dos estereótipos, a maneira com que Adichie prioriza o discurso acerca da diferença e da alteridade é apresentando ao leitor a partir das situações familiares de muitos africanos. Em seus livros, a escolha de núcleos em que despontam histórias de relações entre sujeitos que possuem parentescos revela a tentativa da autora em tornar os personagens familiares aos leitores, além de tentar proporcionar uma normalidade a temas que muitas vezes fogem à realidade de leitores estrangeiros, como também representar as semelhanças entre as histórias contadas no Ocidente com as contadas na África. A estratégia de Adichie é moderna e tenta também afastar as literaturas africanas do rótulo de uma literatura com fins sociais, sem, contudo esquecer de abordar os problemas sociais, mas a partir da comunicação entre o privado e público, proporcionar ao leitor a reflexão acerca dos velhos e novos problemas africanos.
Muitas histórias importam
Em Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2008), o retrato de uma época de duras transformações na Nigéria é feito por Chimamanda Ngozi Adichie com minúcia, caracterizada num grupo de personagens diversos, tão híbridos quanto a nação nigeriana. Os personagens principais do romance, as irmãs Olanna e Kainene e o professor catedrático Odenigbo, também namorado de Olanna, trabalham ativamente na tentativa de tornar Biafra independente. A residência de Odenigbo e Olana na narrativa é visitada por diversos intelectuais que discutem acerca da situação política e social do mundo e, em especial, da África. Em meio a esse ambiente, Ugwu, menino que veio da aldeia para trabalhar como criado na casa do professor descobre-se maravilhado com o novo universo que encontra distante da vida tradicional da aldeia. Enquanto isso, Richard, tímido britânico com aspirações a escritor, por mais que represente a cultura do colonizador, não demonstra nenhum preconceito pela cultura africana, o que se torna visível na obra em suas relações com os personagens nativos e em sua paixão devotada por Kainene.
Em Hibisco roxo (Purple Hibiscus, 2011) personagens diversos se cruzam e se chocam revelando as diferenças constituintes de uma sociedade como a nigeriana. No encontro com a diversidade, a autora representa um mundo onde os diferentes convivem cotidianamente, em relações que podem ser conflituosas, segregacionistas ou apaziguadoras. Na narrativa, Kambili é a personagem-narradora capaz de emprestar ao leitor um olhar adolescente, observador e descobridor de um mundo de diferenças e contradições. A partir do seu olhar o leitor pode descobrir uma sociedade em que as identidades foram deformadas e transformadas pela presença do colonizador. Com a personagem é possível observar a origem dos preconceitos e suas contradições. Numa família de educação rígida e cristã, a protagonista sofre com o fanatismo religioso de seu pai, Eugene (também chamado, na narrativa, de Papa), rico empresário com sérias dificuldades de aceitação das práticas religiosas tradicionais, revelando um comportamento ambíguo e violento. Beatrice, mãe de Kambili, é uma esposa submissa e maltratada pelo fanatismo do marido.
Kambili e seu irmão Jaja viajam para Nsukka, cidade universitária da Nigéria, para passarem uns dias na casa de Tia Ifeoma, mulher progressista, professora universitária que cria os filhos de maneira libertária, diferentemente de sua cunhada Beatrice. Ao estarem na companhia dos primos Amaka, Obiora e Chima, do Padre Amadi e do avô Papa-Nnukwu, Kambili e Jaja encontram um novo universo, onde a modernidade provocou relações íntimas entre as crenças e obrigou comunidades pobres a buscar pelo progresso depois da derrocada do Estado de Biafra[2].
A comunicação estabelecida entre o público e o privado é um sintoma presente nas literaturas africanas contemporâneas e demonstra a maneira com que essas literaturas tentam encontrar esta “modernidade própria” e se livrar do nacionalismo literário desgastado pelas outras gerações de escritores africanos. Homi K. Bhabha (2005) entende a aproximação do privado e o público, no discurso dessas literaturas, como reconhecimento de um período conturbado de diversidade cultural em que a história invade o espaço doméstico. O indivíduo sente-se estranho ao lar, que na metáfora colonial é o seu lugar de pertença, ao qual ele revela estranhamento por esse estar demasiado transformado pela invasão estrangeira. Sua primeira reação é a de recusa e de rememoração do passado em que o seu lar era familiar, mas logo depois ele permite o encontro e há o reconhecimento do intercultural. Traduzida a metáfora colonial no discurso das literaturas africanas, essas abordam o reconhecimento do encontro, as situações cotidianas que revelam a interferência do público no privado.
Tal prerrogativa pode ser analisada também no livro de contos A coisa à volta do teu pescoço (The Things Around Your Neck, 2009), que sucumbe o social ao privado, buscando tratar das relações familiares, principalmente dos africanos ou descendentes de africanos radicados em outros lugares, como os que vivem nos Estados Unidos.
Conclusão
Chimamanda Ngozi Adichie entende a importância de não apagar da memória a exterminação cultural que a colonização proporcionou. Trata-se de entender a impossibilidade de restituição do passado sem que, com isso, seja promovido o esquecimento da violência física e cultural sofrida pelos africanos durante a colonização. Se, na narrativa de Adichie, podem-se perceber os personagens em polos contrários, com o intuito de colocar em debate a exaltação dos costumes europeus, o preconceito às tradições ou até mesmo a crítica ao patriarcalismo dos costumes africanos e a ineficácia de algumas tradições na contemporaneidade, podem-se observar também personagens híbridos que se mantem no “entre-lugar”.
Chimamanda Ngozi Adichie é uma das escritoras contemporâneas que buscam compreender a África em sua complexidade, sem mistifica-la ou imacula-la. Entende que a colonização e o imperialismo, assim como os conflitos internos gerados por uma elite política, são apenas uma das muitas faces de uma história chamada África.
Referências bibliográficas:
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[1] O vídeo O perigo de uma única história (The Danger of the Single Story) pode ser visto através do link: http://www.youtube.com/watch?v=O6mbjTEsD58.
[2] No pós-1945, os povos iorubás tentaram estabelecer um estado independente, culminando com a resposta dos ibos, traduzida numa eleição para presidência do Estado ibo, institucionalizando as diferenças entres os povos da Nigéria, que, a cada dia, mais enfraqueciam os elos, havendo, portanto, confrontos que terminaram na criação do Estado independente de Biafra. No entanto, a guerra pela fundação desse Estado independente de Biafra não teve êxito e a Nigéria conseguiu unificar seu território com o apoio da Grã-Bretanha e da URSS.
Bio fornecida pelo palestrante.
Patricia Maria dos Santos Santana
Doutoranda em Literatura Comparada – UFRJ
Currículo: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas nacionais.
Resumo: Paulo Leminski tornou-se um dos escritores mais lidos da Era Digital. Seus poemas rápidos encaixam-se com facilidade na comunicação breve do Twitter e do Facebook. É a Internet possibilitando a popularização de obras e de escritores que antes somente transitavam num circuito mais privado. Sinais de um novo tempo.
Palavras-chave: Internet. Poesia. Popularização. Paulo Leminski.
Abstract: Paulo Leminski became one of the most reading writers of the Digital Age. His fast poems easily fit in the brief Twitter and Facebook ways of communication. It is Internet giving opportunities to the popularization of works and writers that used to be in a private space. These are signs of a new time.
Key Words: Internet. Poetry. Popularization. Paulo Leminski.
A INTERNET COMO UM NOVO MURO: A POPULARIZAÇÃO
SEM GRAFITE DA OBRA DE PAULO LEMINSKI
Patricia Maria dos Santos Santana
Doutoranda em Literatura Comparada – UFRJ
O mundo aparece assim como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem ou se combinam e, por meio disso, determinam a textura do todo.
(Heisenberg)
Introdução
Na década de oitenta, o escritor Paulo Leminski alegava que ao grafitar em Curitiba, sua cidade natal, ele podia ter um grande número de leitores para sua obra e pensamento. Afirmava que numa esquina bem movimentada, cerca de quinze mil pessoas por dia podiam ler um grafite. Perguntava-se, então: “Qual poeta no Brasil conseguiria tantos leitores em livros?”. Por ironia da vida, Leminski também conseguiu tornar-se bastante lido mais tarde, já falecido, sem precisar utilizar seus grafites capazes de chamar a atenção dos mais desavisados. Ele tornou-se um dos autores mais lidos noutro forte veículo de expressão, mais contemporâneo, menos underground que um muro e igualmente radical: a Internet. Leminski mostra-se, apesar de morto, mais vivo que nunca.
É um traço cultural da era pós-moderna. A sociedade contemporânea passa por uma hibridização entre práticas tradicionais e digitais. A Internet ganhou ênfase nos rumos que ditam os comportamentos e gostos sociais. Uma mistura que fez com que todas as áreas e níveis da sociedade contemporânea fossem atingidos e, assim, a Literatura, devido a sua relevância social, não poderia ficar imune ao processo. É algo tão intenso que Coscarelli (2009) mencionou que o digital está impregnado em nós, pois vivemos, somos e fazemos o digital… Isso faz parte de nós, cidadãos inseridos no mundo contemporâneo. E tudo isso abre caminho para que as práticas tradicionais se reinventem. Como as novas gerações de leitores são fortes usuárias da Internet e dos recursos por ela disponibilizados, ficou mais fácil divulgar no heterogêneo cenário comunicacional da rede. Ademais, no universo da Web, os leitores não são espectadores passivos. Eles atuam como coprodutores de Cultura nesse momento onde tudo possibilita gerar um compartilhamento da parte do público. Esse fenômeno ocorre porque, como apontou Jenkins (2009), nessa nova era os consumidores estão reivindicando o direito de participar da Cultura, sob suas próprias condições, quando e onde desejam. Apropriam-se disso porque as redes sociais viabilizam essa enorme divulgação de autores, poemas, romances, etc., uma vez que quem lê seus autores prediletos facilmente consegue postar trechos de suas obras na rede. Devido a este momento cultural específico, pesquisas apontam que Leminski tornou-se, juntamente com outros autores (como Clarice Lispector, por exemplo), um dos grandes nomes da atualidade. Paradoxalmente, um escritor da geração mimeógrafo, geração de escritores que nos anos oitenta compreendia um número seleto de autores que escreviam para um também seleto grupo de leitores, torna-se um dos nomes mais lidos atualmente por conta da fama que seus poemas e aforismos receberam na Web.
Eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois.
(LEMINSKI, 2013, p. 401)
A sopa de Leminski, há tempos, já engrossou.
A poesia leminskiana e o novo leitor
Com a facilidade de disseminação que a Internet possui não é difícil ver escritores que alcançam a fama com rapidez, despertando em seus leitores a vontade de buscar por determinado livro ou até mesmo mais trabalhos daquele autor. Hoje em dia, as editoras nacionais têm no Facebook ou no YouTube suas maiores formas de divulgação de lançamentos. Bem ou mal, a Internet propaga a leitura. E, no caso específico de Leminski, sua literatura tem o poder de cativar novos públicos com facilidade. Foi justamente por intermédio de sua popularidade nas redes sociais que uma conceituada editora dedicou a Leminski uma série de livros em forma de coletânea. Um fato jamais ocorrido na obra do autor anteriormente. Um fenômeno motivado pela ajuda, mesmo que indireta, dos usuários das redes sociais, leitores ativos, coparticipantes, que não apresentam medo de percorrer novos campos. Como nos diz Roger Chartier (1998), o leitor é um verdadeiro caçador que percorre terras alheias. Desbravando novas terras, esse leitor pisou em terras leminskianas, abrindo-as ao mundo e tornando Leminski mais pulsante e vivo entre nós, fazendo-nos lembrar de seu poema “Sintonia para pressa e presságio”, onde o poeta nos diz:
Escrevia no espaço
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
(…)
(LEMINSKI, 2013, p. 251)
Fazendo uma leitura do citado poema, poderíamos ironicamente afirmar que Leminski parecia entender o que estava reservado para ele no futuro. Sintonizado ao presságio do título, sentia que não escreveria mais no espaço de um muro, pois estaria para sempre escrito no infinito do tempo e na alma de todos, graças ao poder de certa força arrebatadora do momento, uma luz contemporânea chamada Internet. A poesia de Leminski tornou-se essencial na atualidade no que tange essa mistura bem-vinda do modo de composição de seu trabalho, numa escrita híbrida, cheia de oralidade, contaminada com um falar e pensar pulsantes, fragmentando ideias, criando rotulações para essa vida rápida na qual estamos inseridos. Assim, sua poesia cai no gosto do público por ser breve, rápida, cabendo direitinho nos caracteres do Twitter e nos quick posts do Facebook.
Heloisa Buarque de Holanda (1998) menciona que mesmo considerando um aquecimento do mercado de poesia, não seria possível afirmar que a facilidade de sua publicação corresponda também a uma facilidade similar no escoamento e circulação dessa produção. De todos os gêneros artísticos, a poesia é o que está mais alijado do mercado. Esse alijamento se traduz em escassez de leitores, confinando quase que fatalmente o público leitor de poesia aos próprios poetas e simpatizantes. Com isso, temos mais um ponto a favor de Leminski. Hoje, seus poemas tornaram-se tão admiráveis que o autor é líder em vendas. Fato altamente rentável às editoras que o publicam.
Não podemos nos esquecer de que nesse novo tempo de Internet, os fragmentos parecem falar pelo todo e nos proporcionam outras possibilidades de contemplação de leitura. Em um momento onde a leitura é mais dinâmica e bastante fragmentada, não é difícil observar também pseudoleitores que afirmam ter lido obras de determinados autores sem nunca, de fato, terem lido sequer um livro desses autores por completo. Na facilidade da Internet que permite o colar, salvar, recortar, nós observamos uma falsa intimidade entre leitores e obras. Todavia, estudiosos depositam confiança nessa relação metonimística, digamos assim. Alegam que ocorreu nessa nova era o aparecimento de um novo perfil de leitor e esta situação é bem-vinda, pois são leitores que conseguem fazer diversas atividades num mesmo tempo, atendendo atuais demandas modernas. Beiguelman afirma que
Celulares e PDAS remetem, acima de tudo, a situações em que o indivíduo está sempre envolvido em mais de uma atividade (dirigindo e falando, por exemplo), interagindo com mais de um dispositivo e desempenhando tarefas múltiplas e não correlatas (2003, p. 79).
Lucia Santaella (2003) menciona que o leitor virtual desenvolveu um sexto sentido conectado ao clique do mouse e quanto maior a interatividade, mais profunda será a experiência de imersão do leitor. O leitor pós-moderno, está acostumado a toneladas de informações sobre ele, mas não se achata com elas, uma vez que é um indivíduo acostumado com a rapidez dessas informações.
Na era do efêmero
Inegavelmente, a Internet é um marco no modo de ler, na medida em que há mais acesso aos livros. A leitura e o leitor se modificaram e as novas tecnologias dinamizam e potencializam o processo de consulta a obras. Temos economia de tempo, socialização da consulta e da pesquisa. O acesso tornou-se mais fácil. Os textos agora permitem intervenções, alterações, colaborações e, inclusive, dúvidas quanto à autoria. O ciberespaço é interativo, efêmero, reciclável, mediado, fluído, líquido… A Internet age, então, como uma alavanca para o bem ou para o mal. Numa nova era obcecada por e-books e pelos textos rápidos que cabem nos posts do Facebook, Twitter, do extinto Orkut e de outras redes sociais, Leminski caiu no gosto popular. A existência de comunidades que indicam livros, autores, séries, sagas e trilogias e que também disponibilizam o download rápido de diversos títulos, veio agitar mais o mundo literário. E quando um e-book apresenta-se tão caro quanto um livro físico, rapidamente aparece um leitor interessado em disponibilizar a mesma obra de forma digitalizada, ou seja, copiada através de scanner.
A Internet também reorganiza o clássico e o novo. Rearruma o que passou com o que acabou de surgir. Dá um sentido democrático à literatura garantindo o acesso a autores que fazem parte do cânone, que não fazem parte do cânone, que se tornaram celebridades atuais do dia para a noite e autores em fase de divulgação de seus primeiros trabalhos. Ela parece lutar para tirar das mãos de um seleto grupo o poder de conceituar a chamada “literatura de qualidade”, num momento onde tudo pode gerar um texto literário e todos parecem fazer literatura.
A Modernidade Líquida definida por Bauman (2003) nos permite apreciar que mudanças significativas na vida da sociedade que se cristalizaram por séculos e décadas, agora não duram mais que meses ou semanas. Vivemos numa sociedade marcada por sentimentos de mobilidade e individualidade, do ponto de vista das relações sociais, comportamentos individuais, hábitos de consumo, vida amorosa… A impressão que se tem é que a estabilidade e a solidez perderam seus sentidos, sendo substituídas pela autonomia e pela necessidade de renovação e reorganização. Tudo é líquido, leve e não pode ser ‘preso pelas mãos’.
Nascimento nos mostra que temos na atualidade um sujeito descentralizado e
relacionado a uma gama de transformações culturais emergidas no âmbito da modernidade, a constituir um tema bastante atual e amplo, discutido em diversas áreas do conhecimento, entre elas, a literatura. A noção de sujeito centrado, dotado de razão e consciência, conhecido como sujeito cartesiano, referência às discussões filosóficas de Descartes, aos poucos, vai dando lugar a uma concepção mais social do sujeito, uma exigência da complexidade que caracteriza a sociedade moderna (NASCIMENTO, 2011, p. 541).
Na observação incessante de si e do mundo, no encontro com o que está fora tentando entender o que há por dentro, Leminski se confessa e, ao mesmo tempo, se torna porta-voz de diversos homens atuais. Isto tornou seu trabalho extremamente relevante na atualidade, fazendo de Leminski o grande representante poético da era virtual pelas telas dos computadores brasileiros. Com poucas linhas Leminski consegue fazer com que o leitor sinta, viaje, pense. A escrita é leve, porém violenta, tornando difícil colocar em palavras o impacto que essa leitura causa. São sentimentos conflitantes, mas que, paradoxalmente, se encaixam com perfeição. Leituras que falam sobre o amor, sobre a vida, sobre medos, sobre alegrias e tristezas. Fala sobre assuntos comuns, temas corriqueiros, mas que ganham alma e abordagens diferentes nas mãos do poeta marginal. Seus poemas curtos são precisos na descrição, mas refletem a profunda desestabilidade do sujeito contemporâneo:
Hamburger preconiza sobre a existência, na modernidade, de “um eu que se tornou fluido e volátil”, ratificando a questão da identidade descontínua. Essa crise do sujeito relativizado concorre, muita vez, para o projeto de uma “poesia objetiva”, formulada por uma subjetividade cravada, como dissemos, na alteridade. Sintomático dessa perda de estabilização do sujeito é também a opção pelo poema curto que, filiado ao prosaico, ao popular, ao humor, buscados no haicai japonês, corrobora também o parentesco com Oswald de Andrade. Em Leminski, tais poemas tendem a valorizar o fragmentário e o aparentemente trivial, a constituírem formas de captar instantes de um mundo objetivo e exterior, onde o eu – lírico encontra-se, muita vez, ausente. A elisão do sujeito expressa uma certa objetividade a permitir que as coisas possam existir, sem interferência e /ou olhares particulares.
(…)
Assim, o sujeito, quando sente esboroar sua integridade, assumindo-se fragmentado, se afugenta na própria linguagem, fazendo dela não mais um espaço onde tradicionalmente se pronuncia a si e/ou se confessa, mas onde se encontra com o que está “fora”, revelando a postura de um sujeito que observa a si e aos outros, tanta vez, a esgarçar as fronteiras entre o lírico e o narrativo (…) (NASCIMENTO, 2011, p. 544-545)
Leminski encontra-se e se perde. Está presente e, ao mesmo tempo, ausente. Fala de tudo e de nada. É ele mesmo, é todo mundo e não é ninguém. Nos temas banais sublima as dores do mundo no mesmo momento que debocha delas. Leminski escorrega, torna-se fluído, líquido. Talvez assim possamos melhor entender seu sucesso nesse momento.
Grafitando nas telas dos computadores: o novo muro
A poesia de Leminski é a do fast thinker. Fast como a Web. Fast como a demanda do mundo atual. Escreveu seus poemas numa época onde não havia Internet, tampouco Facebook, mas de forma surpreendente, sua poesia se encaixa e se completa nesse espaço que contempla o formato minimalista, sucinto de falar das coisas que nos cercam. Os poemas de Leminski foram facilmente aceitos pelos usuários da Web porque são breves e carregam um pouco da inquietação que reflete a angústia do tempo atual. Poemas que traduzem a ideia de liberdade que, mais do que uma ambição na época em que foram escritos, época da ditadura militar brasileira, se tornou uma constante e indispensável exigência contemporânea, pois alimenta as inquietações pós-modernas. Poemas criados pelo viés dessa liberdade individual como condição e demanda, mas que não quer demarcar limites. Poemas que enfatizam determinadas transformações nas formas de conduzirmos nossas vidas para colocar em questão algumas exigências dos espaços e tempos que habitamos e que nos habitam.
As frases rápidas de Leminski, carregadas de musicalidade e sentidos dão um nó no pensamento lógico cartesiano. Em 2014, completam-se 70 anos de nascimento do autor. Será que, de fato, ele gostaria de ser classificado como cânone?
nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
— cala a boca
e pro relógio
— abaixo os ponteiros
(LEMINSKI, 2013, p. 61)
Difícil imaginar o que Leminski diria de sua fama atual e da proporção que seu trabalho ganhou no mundo virtual, local onde sua poesia se encaixa e desfila com desenvoltura, fazendo da Internet o seu muro curitibano. Com três reimpressões, a obra Toda Poesia se encaminha para vender 21 mil exemplares. Muito desse sucesso deve-se ao gosto popular no qual sua poesia caiu. Leminski criou uma poesia que teve sucesso por manter o aspecto lúdico do confronto com a linguagem. E essa característica sempre foi muito apreciada por seus leitores, especialmente os jovens, para os quais Leminski nunca deixou de ser pop. Sua obra é uma feliz combinação do erudito e do popular misturando a liquidez de nossa era. Brinda a celebração de liberdade combinada à necessidade de rebelião. Mexe na angústia pós-moderna.
Através do Twitter e do Facebook, quem está conectado sente-se livre para postar suas preferências literárias. Como Leminski não exige pré-requisito para ser lido, seus poemas (ou parte deles) foram facilmente compartilhados entre os internautas:
Os serviços propiciados pela rede nos trouxeram uma nova realidade: navegar na Internet tornou-se a mais moderna forma de aquisição de informações, sobre praticamente qualquer assunto, já que um usuário tem acesso a uma imensa quantidade de dados, espalhados por toda a rede, de forma prática e amigável. Como muitos endereços estão oferecendo diversos serviços gratuitamente, a informação está cada vez mais acessível (SILVA, 2007).
Dos quinze sites mais utilizados para download de livros na Internet, treze possuem obras completas de Leminski. Nos cinco maiores sites de busca da atualidade (Google, Yahoo, Bing, Ask.com e HAO 123) encontramos disponibilizados para download diversos livros de Paulo Leminski em pdf como, por exemplo, Não fosse isso e era menos, Catatau, Distraídos venceremos, Caprichos e relaxos, Vida, Agora é que são elas, 40 clics em Curitiba, Gozo fabuloso, Um milhão de coisas, La vie em close, Metamorfose, Polonaises. Livros que chegam a ser vendidos com três dígitos em livrarias convencionais devido à raridade das obras. A obra Toda poesia, uma coletânea das obras completas de poesia do autor, lançada em 2013, também já se encontra disponível em pdf, com suas 421 páginas.
Considerações Finais
Achando que o muro fosse a melhor forma de alguém divulgar o próprio trabalho, nos anos 80, perguntava-se Leminski: “Qual poeta no Brasil conseguiria tantos leitores em livros?”. Não sabia, então, que o destino reservaria o poder da Web para ele.
Leminski cabe bem nos 140 caracteres do Twitter, encaixa-se nas postagens do Facebook. Nossos novos muros virtuais. Talvez Leminski agradecesse a mais essa oportunidade de expressão de seu trabalho com um poema:
Não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
(LEMINSKI, 2013, p. 398-99)
Nós, certamente, nos tornamos gratos pela exposição de sua obra aos que antes a ignoravam e por seu merecido culto na atualidade. O mundo inteiro saiu ganhando.
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Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas nacionais.
Bio fornecida pelo palestrante.
Luiz Souza
Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia
Resumo: O presente trabalho se propõe a uma análise do filme Jamaica Inn (Estalagem Maldita, 1939), de Alfred Hitchcock. O principal operador conceitual ao qual recorreremos é a teoria feminista do cinema, com as pesquisadoras Tania Modleski (2005), Paula Marantz Cohen (1995) e Laura Mulvey (1996, 2009). Pretendemos analisar a narrativa em questão com a perspectiva de apurar como a violência misógina aciona emoções ambivalentes no espectador e torna-se artefato central à estratégia de composição do suspense hitchcoquiano.
Palavras Chave: Literatura e Cultura, Estudos de Gênero, Teoria Feminista do Cinema, Alfred Hitchcock
Abstract: This paper proposes an analysis of the film Jamaica Inn (Estalagem maldita, 1939), Alfred Hitchcock. The main conceptual operator to whom we turn is feminist film theory, with researchers Tania Modleski (2005), Paula Marantz Cohen (1995) and Laura Mulvey (1996, 2009). We intend to analyze the narrative concerned with the prospect of investigating how the misogynistic violence triggers ambivalent emotions in the viewer and becomes the central artefact of composition hitchcoquiano suspenseful strategy.
Currículo do pesquisador: Luiz Carlos de Souza é doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (ILUFBa), sob orientação da Profa. Dra. Nancy Rita Ferreira Vieira e Mestre, pela mesma instituição. É jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da UFBa (FACOM/UFBa) e estudante de graduação em Letras pelo ILUFBa. A sua pesquisa é sobre representações de violência misógina na obra de Alfred Hitchcock.
A VIOLÊNCIA MISÓGINA COMO ESTRATÉGICA AO SUSPENSE DE ALFRED HITCHCOCK, UMA ANÁLISE DE JAMAICA INN (ESTALAGEM MALDITA, 1939)
Luiz Souza
Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia
À guisa de introdução
A obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock tem sido amplamente estudada no meio acadêmico brasileiro, porém são poucos os trabalhos que atentem à perspectiva de analisar a questão da violência[1] misógina como artefato estratégico à composição do suspense hitchcoquiano e componente fundamental do seu universo ficcional. O presente trabalho tem como objetivo colaborar para que tal lacuna seja preenchida, pois a obra do diretor foi de fundamental importância para a constituição do operador conceitual teoria feminista do cinema, no qual consta análises diversas narrativas hitchcoquianas, como Rear Window (Janela Indiscreta, 1954), North by Northwest (Intriga Internacional, 1958) e Psycho (Psicose, 1964), empreendidas por teóricas como Tania Modleski (2005), Paula Marantz Cohen (1995) e Laura Mulvey (1996, 2009).
Por violência misógina compreendemos as agressões dirigidas a todas aquelxs que ocupem uma posição feminina, dentre os quais os sujeitos mulheres[2], privilegiados na presente análise. Partimos de uma perspectiva de que as identidades de gênero são fruto de uma construção social, não sendo, portanto, intrínsecas às pessoas, mas produzidas a partir de uma série de rituais regentes da interação entre os sujeitos (BUTLER, 2010). Aqui não se pretende um denuncismo, no sentido de buscar colocar em evidência a suposta misoginia hitchcoquiana, mas consiste numa tentativa de se compreender como imaginário androcêntrico colabora para a construção de um inconsciente social (Mulvey, 2009) que autoriza e mesmo demanda por filmes e produtos culturais nos quais a violência misógina é perpetrada.
O filme no qual nos deteremos no presentem trabalho é Jamaica Inn (Estalagem Maldita, 1939), narrativa que traz em seu âmago a violência misógina praticada por mais que um agressor. Há um sujeito intelectualizado e de alto status social associado a um personagem mais forte do ponto de vista físico e susceptível à perpetração de agressões físicas. A perspectiva de um Próspero associado a um Calibã, na constituição do quadro da violência misógina é algo que se repete na filmografia hitchcoquiana, numa diversidade de filmes. A tendência é perceptível em North by Northwest, que seria lançado pelo menos 20 anos depois de Jamaica Inn.
A questão é percebida por Truffaut, na série de entrevistas que Hitchcock o concedeu, com a perspectiva de que o vilão seja representado como “alguém muito chique, distinto e sedutor” (TRUFFAUT, p. 105). Hitchcock cita, precisamente, North by Northwest como referência em relação ao assunto, ao considerar que escolheu de James Mason para interpretar o vilão pois pretendia alguém “suave e distinto. Mas, ao mesmo tempo ameaçador, e isso é difícil de conciliar. Então, dividi o vilão em três pessoas: James Mason, que era bonito e meigo, seu secretário, de aspecto sinistro, e o terceiro, o louro, o capanga de aspecto rude e brutal” (TRUFFAUT, p. 106).
O recorte que vamos proceder é a questão da homossocialidade[3] como componente misógino capaz de fazer com que as mulheres permaneçam a distância, dada uma cumplicidade entre os homens agressores. Porém, ao mesmo tempo, o espectador é francamente convocado a simpatizar pelas personagens em perigo, que, nas narrativas em questão, continuam seguindo a tendência do cinema hitchcoquiano, no qual as mulheres são geralmente os personagens que mais demandam os sentimentos de solidariedade e compaixão por parte da audiência. Por outro lado, a violência misógina comparece como forma de sublimar as possíveis pulsões homossexuais latentes na relação de cumplicidade entre os homens, aqui referida como homossocialidade.
Jamaica Inn é o último filme da fase inglesa de Alfred Hitchcock, visto que, no ano seguinte ao lançamento do filme, em 1940, ele se transferiria para os EUA, a fim de trabalhar com o produtor David O. Selznick. O filme é baseado no romance homônimo de Daphne du Maurier. Além de Jamaica Inn, outras duas narrativas hitchcoquianas foram baseadas em trabalhos da escritora: Rebecca (Rebeca, a Mulher Inesquecível, 1940) e The Birds (Os Pássaros, 1960).
Em Jamaica Inn, a jovem Mary Yellen (Maureen O’Hara) decide, após a morte dos pais, viver com a sua tia Patience (Marie Ney) numa estalagem, localizada na Costa de Cornwall, na Inglaterra do fim do século XVIII. A jovem ignora que o marido da tia, Joss Merlyn (Leslie Banks) faz parte de uma quadrilha de criminosos. O bando provoca naufrágios a partir do uso de luzes à guisa de um farol, fazendo os navios chocarem-se contra as rochas. Em seguida, matam os marinheiros e pilham a carga. O chefe da gangue, porém, é o Juiz de Paz, Sir Humphrey Pengallan (Charles Laughton), a quem Mary recorrem, em busca de ajuda, sem saber o perigo no qual se envolveria, ao se aproximar do magistrado.
Perspectiva de leitura: delineando um caminho
A psicanálise como perspectiva de leitura de textos fílmicos foi algo constante no período dos anos 70, até que se tornou questionável como perspectiva analítica, dada a fixidez com que alguns teóricos lançavam mão de conceitos da disciplina, como se esta fosse capaz de dar conta da totalidade do texto em sua complexidade. Aqui recorremos à psicanálise, num procedimento que repete estratégias de antanho, mas esta é uma repetição na diferença, ou seja, num contexto diferente, com força e perspectivas renovadas. De acordo com a perspectiva de Laura Mulvey (2009) a psicanálise seria componente fundamental à teoria feminista do cinema, pois consistiria numa arma política. O uso político da psicanálise, defendido por Mulvey vem no sentido de descobrir como o fascínio do filme é construído a partir de padrões preexistentes no imaginário da sociedade androcêntrica.
Não se trata, portanto, de aplicar a psicanálise à obra de arte, pois, como pondera Quinet (2013), a psicanálise como tratamento pelo discurso só se aplica a sujeitos. A nossa perspectiva, porém, a partir de um método interdisciplinar no qual a psicanálise é apenas uma das disciplinas com as quais se pretende manter um profícuo diálogo a fim de investigar como se caracteriza o olhar masculino na fruição da narrativa fílmica ora analisada. Em contraposição a uma perspectiva de análise que possa dar conta do texto fílmico como um todo, Aumont e Marie (2004) convocam a experimentação, como procedimento de análise, no sentido de reafirmar a inexistência de uma teoria global do cinema. Em contraposição a possíveis “chaves” interpretativas, os autores argumentam que cada analista deve habituar-se à ideia de que precisará construir o seu próprio método de análise – este talvez válido apenas para o filme analisado.
Propomo-nos, a partir destes pressupostos, a investigar os desejos acionados em função de um olhar masculino. Este não seria, porém, o olhar do homem, mas uma contingência, uma posição a qual uma mulher poderia ocupar, inclusive. Os filmes de Hollywood, ainda que estruturados em torno do prazer masculino, oferece às mulheres a possibilidade de uma identificação com o ponto de vista ativo, perpetrador da violência, assim, “permitem que a mulher espectadora redescubra este aspecto perdido de sua identidade sexual, que é a pedra angular, nunca inteiramente reprimida da neurose feminina” (MULVEY, 2005, p. 382). O ato de reconhecer em si impulsos destrutivos pode ser uma perspectiva libertadora para as mulheres, pois há a oportunidade de que elas os realizem na ficção – “Agressividade impedida parece envolver grandes danos; realmente é como se tivéssemos que destruir outras coisas, outras pessoas, para não destruirmos a nós mesmos, para nos guardar da tendência de autodestruição”, observa Freud (2010, p. 255), numa constatação, segundo ele, triste para os moralistas.
A Estalagem Maldita
Nas cenas iniciais do filme, fica evidente ao espectador que o Jamaica Inn goza de uma péssima reputação entre os moradores da região da Costa de Cornwall, com isso, o cocheiro que transporta a jovem Mary termina por deixa-la próxima à casa de Pengallan. O Juiz de Paz é sofisticado, bem relacionado, mas flerta com a loucura, visto que convoca à sala de jantar, diante de convidados, uma égua, constantemente comparada a uma jovem mulher. O Imperador Calígula (31 de agosto de 12 d.C.-22 de janeiro de 41 d.C.) nomeou seu cavalo Incitatus como senador, demonstrando seu desprezo àquela casa. O imperador e o Juiz de Paz demonstram, na verdade, um desprezo pela civilização e pelos rituais sociais, estes frequentemente representados em Hitchcock como vazios de significação. Zizek (2010) observa que grande parte da interação social seria regida por atos performativos, realizados apenas para manter as relações entre as pessoas. Porém Pengallan sabota os ritos sociais, algo do âmbito do incivilizado. O magistrado, por alguns instantes, deixa a máscara cair e se mostra avesso às convenções e incapaz de dominar suas pulsões.
Sob os auspícios da égua adentrando à sala de jantar, Mary conheceria o Juiz de Paz e se afeiçoaria a ele, apesar do olhar desejoso que lhe lança, algo ignorado pela moça – mas não pelo espectador. Pesa sobre as mulheres hitchcoquianas uma constante ameaça de serem estupradas. Na década de 60, com Marnie (Marnie, confissões de uma ladra, 1964) as constantes comparações entre mulheres jovens e equinos ganhariam o seu maior grau, envolvendo uma série de metáforas antropomórficas e insinuações no âmbito sexual. Há, portanto, uma constante desumanização das mulheres, algo, contudo, associado a um constante apelo de solidariedade e simpatia para com elas. A ambiguidade hitchcoquiana em relação às mulheres remonta a uma tradição literária, demarcada por Bloch (1995), quando do seu estudo acerca da misoginia medieval. O teórico aponta que a mulher, no universo simbólico cristão, seria, simultaneamente, a esposa de cristo e o portão do inferno. A angústia em relação à nudez da mulher acionaria este universo imaginário perverso, pois a visão dos genitais femininos convoca o fantasma da castração (MULVEY, 2009). Portanto, o suspense hitchcoquiano é construído na dimensão do olhar, conforme aponta o diálogo entre Mary e Pengallan:
Pengallan: Me faria o favor de tirar seu abrigo, senhora?
Mary: Por que?
Pengallan: Fiz uma aposta [de que a moça seria bonita]. Sempre gostei das apostas. Permita-me. – avança na direção dela e lhe despe do abrigo. É de uma figura esquisita. Querida, você é uma beleza. – e se curva em sinal de respeito (…) “Caminha bela, como a noite/trunfo claro céu de estrelas/Todo glamour, brilho e mistério unem-se nela e refletem-se nos seus olhos.”
O diálogo se pauta por um leve deslize em direção a impulsos perversos, por parte de Pengallan. A crueldade misógina se insere, de maneira sutil, como que inserida nos rituais sociais, algo subjacente até mesmo na literatura convocada pelo personagem como gracejo em relação à convidada. O suposto cavalheirismo de Pengallan é misógino, pois traz o germe da objetificação da mulher, considerada por ele como um algo a ser visto, fator que coloca em xeque a humanidade da jovem, a esta altura vista como objeto do gozo escópico do rico anfitrião.
Na relação entre o Juiz de Paz e Mary se insere algo referido por Zizek (FIENNES, 2014), quando da análise de Titanic. O estudioso considera que a narrativa se organiza em torno de um suposto direito que os ricos teriam de se renovar a partir da relação com pessoas das classes trabalhadoras. Pengallan, então, terá algo de vampiresco, monstruoso. O filósofo argentino José P. Feinmann (2013) afirma a tendência de que o cinema dos anos 30 registre, de maneira constante, uma presença monstruosa e terrível, no que seria uma antecipação do Hitler. O magistrado carrega o título de Sir Humphrey Pengallan, um homem, portanto, distinto, mas a nobreza conferida pela distinção não o impede de cometer crimes, encarnando a antecipação hitchcoquiana do nazista monstruoso. Quando do diálogo com Joss, o magistrado se vangloria de conhecer o valor das mercadorias roubadas, algo impossível ao gerente da estalagem, que não é “filósofo nem cavalheiro”.
A narrativa hitchcoquiana passa a ser sintomática em relação aos valores eurocêntricos humanistas e de pretensão universal ao nos colocar diante de um personagem refinado, de alto status social, mas de comportamento cruel e terrível, algo sintomático em relação a uma suposta decadência da cultura ocidental. A perspectiva se torna novamente inserida na análise quando os convidados de Pengallan se jogam em direção ao dinheiro que ele arremessa à mesa. A estátua na decoração do hall de entrada da sua sala de estar, possivelmente de inspiração Grega, testemunha a reverência ao que seria o berço da cultura ocidental, enquanto a moça, colocada num patamar superior do hall ali estaria como num display, o que a consagra como uma coisa a ser vista. Há um plano médio de Pengallan, a partir das suas costas, enquadramento capaz de sugerir ao espectador uma cumplicidade em relação ao desejo perverso do Juiz de Paz (fotograma 12 min 06 seg)[4].
Por outro lado, aquele que seria o alter ego do agressor, a sua versão Calibã, o Joss, sujeito morador de um lugar “muito ruim, um lugar não à altura da senhorita”, conforme aponta Pengallan. O encontro de Joss com a sobrinha da mulher é pautado pela violência, pois o sujeito carrega uma arma e a aponta para a moça como se visse nela uma ameaça e lhe demandasse sua identificação. A arma ase projeta fálica em relação à jovem, como se ali estivesse presente a principal ameaça a pesar sobre si, a ameaça da violação sexual. O comportamento grosseiro faz a jovem pensar ser um criado o homem ameaçador que lhe pede um beijo, se comporta de maneira impertinente – atitude mantida mesmo após a chegada da Tia Patience. O espectador é convocado a suspeitar que a esposa de Joss sofra violência física a partir das cenas nas quais a violência psicológica lhe é imposta, dadas as imprecações do marido e o tom meio gutural no qual se dirige à esposa. Há outro possível paralelo em relação a Joss e Pengallan.
O proprietário da estalagem, como o Juiz de Paz, também teatraliza os rituais sociais. Quando abraça a esposa e se apresenta como tio de Mary dramatiza um papel familiar, daquele que assume o compromisso de cuidar dos filhos dos parentes, quando estes faltam, mas nós sabemos que este é um papel esvaziado e as palavras de Joss são vazias. A narrativa parece se organizar em torno da falência de uma família pensada como um clã, no qual os jovens migram para casa de parentes, por questões de sobrevivência e ali encontram o risco de abusos, em vez de abrigo para enfrentar tempos difíceis.
A Tia Patience parece atenta aos olhares e investidas de Joss em relação à jovem e parece se colocar entre os dois, de forma a proteger a moça. Porém, a situação da tia é ainda mais tensa, pois ela ainda tem que guardar segredo em relação às falcatruas perpetradas pelo marido bandido – Mary tem que ser mantida na ignorância em relação aos atos de naufrágio cometidos pelo bando de Joss, até mesmo para sua própria proteção. Ainda assim, Patience, apesar de todas as evidências em contrário, nega que sofra violência, e defende o marido: “Sem dúvida, sua mãe falou de mim. Ela pensava que eu estava mal por ter saído de casa. Ela estava equivocada. Joss tem sido um bom esposo, não mudaria nada nele se pudesse”, considera a tia, num diálogo com a sobrinha. A cena do diálogo, porém, tem uma peculiaridade, dado que, durante a fala de Patience, a atenção do espectador é convocada à reação de Mary, fazendo com que o espectador suspeite que a mãe da moça a havia alertado para os perigos que envolveria um relacionamento com homens como Joss. Patience, em inglês, Paciência, convoca o aspecto resilente da tia em relação aos abusos do marido, ao mesmo tempo, a questão de conseguir ver nele aquilo que supostamente ele teria de melhor, em detrimento da sua face mais terrível.
Tia Patience tem, assim, um conhecimento em relação à violência do marido e aqui nos referimos à questão de uma violência no âmbito sexual. O segredo do qual a tia em idade madura pretende proteger a jovem sobrinha é em relação a uma possível relação sexual traumática, incestuosa e niilista, dados os seus efeitos potencialmente destrutivos sobre os sujeitos. Porém, a moça não está a salvo de violências como esta, visto que, no terço final do filme, Pengallan a sequestra, sem que seja dado ao espectador saber o que se passou com Mary enquanto ela esteve em poder do seu algoz, ainda assim, algumas cenas trazem o sadismo do Juiz corrupto que amarra a sua vítima e a arrasta quando da fuga. Bloch observa que, no universo judaico-ocidental e cristão, a mulher é vista como uma ambiguidade, sendo, ao mesmo tempo, Esposa de Cristo, mas, simultaneamente, como o Portão do Inferno. A obra de Hitchcock dialoga com este imaginário e a dualidade em relação à mulher é apaziguada com a violência que se lhe perpetra.
Camille Paglia (1994) observa que os crimes sexuais seriam uma vingança dos homens contra as mulheres, tendo em vista que elas passam por uma série de mudanças corporais que definem a sua identidade sexual adulta, ao passo que eles não. De acordo com a estudiosa, a violência misógina estaria ligada, dentre outros fatores, a uma insegurança em relação à própria masculinidade. A perspectiva encontra eco em Fávero (2011), quando a pesquisadora observa que a agressão contra mulheres está associada à incapacidade do homem de impor a sua vontade, pois encontra resistência e apenas consegue fazer valer as prerrogativas do patriarcado mediante o uso da força. Numa entrevista concedida por Camille Paglia (1993, p. 70) à revista SPIN, a entrevistadora, a jornalista Celia Farber, que revelou ter sofrido agressão sexual, manifesta a sua opinião em relação ao assunto:
Num caso de estupro, o homem tem que usar a força bruta para obter algo que a mulher possui – seu próprio sexo. Assim, naturalmente, ela é mais fraca no aspecto físico e sempre será fisicamente oprimida por ele. Mas, no momento em que ele decide que a única maneira de obter dela o que ele quer emocionalmente, ou sexualmente, seja lá o que for, é estuprando-a, está confessando uma fraqueza total. É ela quem sofre o abuso, mas é ele quem é absolutamente trágico e patético. Uma coisa é temporária, a outra permanente.
Kaufman (1999, p. 3) observa que a violência se transforma num agente compensador em relação às angústias de homens emocionalmente perturbados em função da perda do seu poder em relação às mulheres:
(…) para alguns homens, respostas violentas ao medo, dor, insegurança, rejeição ou o sentimento de ser depreciado ou desprezado não são incomuns. Isto é particularmente verdadeiro quando há a sensação de perda do controle e poder. Este tipo de sentimento potencializa as inseguranças masculinas: se masculinidade é algo sobre poder e controle, não ser poderoso significa que você não é um homem. Novamente, a violência consiste num meio de provar isso a si próprio e aos outros.
O estudioso ainda observa que, apesar dos complexos motivos psicológicos e sociais determinantes da violência contra a mulher, contribui para a situação um universo de permissividade social, explícita ou tácita. Os discursos legitimadores da violência estariam numa série de lugares, como os costumes, os códigos legais ou mesmo as doutrinas religiosas. Por outro lado, há uma violência que transcendo ao aspecto físico, mas se insere numa perspectiva simbólica de fixar a mulher no lugar do Outro, do objeto – indiretamente culpando-a por seus desejos.
Reveladora em relação a isso é a fala de um dos cúmplices de Joss, na série de naufrágios e assassinatos. Trata-se de um homem velho, com olhar vazio que cumpre uma função de sábio, aquele capaz de, a partir da sua experiência de vida, prever o futuro, bem como ocupar uma posição de ascendência em relação aos capangas componentes da quadrilha. Na fala, está a questão da desvalorização dos sentidos, do corpo, como aliados à opressão das mulheres. A fala do velho antecipa o suicídio de Pengallan nas sequencias finais do filme: “[Vocês] só pensam em mulheres. Vaidade da carne. Seguindo saias irão pelo caminho da perdição eterna. (…) Você ri agora, mas será outro a cair quando arder na fogueira que acesa nos espera a todos, inclusive a mim”.
Logo em seguida, o velho homem afirma que todos dentre os comparsas estarão presos em breve e correntes estarão atadas a seus pés. O bando, assim, seria punido não tanto por seus crimes, mas por seus desejos perversos, sublimados a partir de uma homossocialidade potencialmente destrutiva, manifestada na sua união para cometer crimes. Porém, dentre eles, há um elemento que não comunga dos valores desta masculinidade perversa. Trata-se daquele que seria um dedo suro, mas que, na verdade, é um policial infiltrado no bando a fim de desbaratar a quadrilha, o oficial Jem Trehearne (Robert Newton). A questão de uma masculinidade perversa torna-se mais evidente a partir do instante no qual Patience ousa adentrar àquele recinto para falar com o marido, mas, porém, é severamente repelida por ele, sob a ameaça de uma agressão. O alvo do grupo passa a ser, então, Trehearne. O bando trama fazer algo terrível ao rapaz, quando o aspecto misógino de uma versão perversa da masculinidade torna-se presente na narrativa, a partir da declaração de um dos componentes da quadrilha, antes da tentativa de assassinato: “Espere. Deixe-me ver se as mulheres estão por perto. Não quero interferência” – uma evidência a mais de uma homossocialidade perversa, que mantém as mulheres a distância como forma de reforçar os laços de cumplicidade entre os criminosos.
Há, porém, uma discussão entre os comparsas acerca da ética em relação ao assassinato, tentativa da qual Trehearne consegue se livrar – os criminosos vacilam em relação a matar um homem que está inconsciente ou mesmo sobre a validade de roubar do cadáver. Há uma ética e uma estética da violência, apesar da crueza da cena de tortura e agressão contra o jovem rapaz. Tanto no civilizado jantar de Pengallan no início do filme, quanto na cena da agressão a Trehearne há ritos sociais envolvidos e a pergunta em relação ao humanismo e à intelectualidade como garantidores da dignidade humana persiste. Joss é a versão recalcada de Pengallan, a sua alteridade isolada no Jamaica Inn, a pousada de aspecto sinistro e má fama. Mas, ainda assim, a clivagem entre os dois não é estanque, algo que pode ser conferido quando de uma das falas do magistrado ao gerente da estalagem maldita, quando da fuga de Trehearne e Mary: “Se você não consegue manter a calma não venha me importunar. Quando não se tem cérebro, o corpo morre e não é necessário lembrar que nesta organização você e os rapazes são só o corpo”, pondera Pengallan.
Com contraposição à associação criminosa e a uma sociedade falida, na qual o acesso a alta cultura não garante ética ou dignidade, o amor romântico se torna uma perspectiva de redenção dos sujeitos, no universo ficcional hitchcoquiano. Uma mesma ação se repete em dois filmes de Hitchcock, separados por quase vinte anos. Trata-se das sequencias finais de North by Northwest, quando o publicitário Roger O.Thornhill ergue Eve Kenall e lhe dá o status de mulher casada, a afastando de ocupar um status precário no universo adrocêntrico – ela agora é uma esposa e não mais uma mulher que joga com a sexualidade em trabalhos de espionagem para o governo americano.
Uma cena parecida ocorre entre Mary e Trehearne, quando da fuga do rapaz da quadrilha criminosa. Escondido no teto de um celeiro componente da propriedade de Joss, ele ergue a moça e a protege da perseguição. Apesar de romântico e cavalheiresco, o gesto é misógino, pois pressupõe que apenas sob a tutela de um homem a mulher pode ter segurança e dignidade numa sociedade dominada pelo masculino.
Considerações Finais
A representação das mulheres nos filmes de Hitchcock é conflituosa. Patience é emblemática em relação a este aspecto, pois, apesar de todas as agressões sofridas, ela inda protege Joss e demonstra amor pelo marido. Há uma cena reveladora em relação a este aspecto, no momento no qual a senhora flagra o marido saindo do quarto da sobrinha, o olha com severidade, mas não manifesta irritação. Logo em seguida, tenta afastar a sobrinha da propriedade do Jamaica Inn. A atitude é conflituosa, pois, ao mesmo tempo em que age para salvar a moça, parece estar a eliminar a concorrência de uma rival indesejada, jovem e bonita. É como se, apesar de toda a situação de violência e tortura psicológica na qual vive, haveria um certo gozo naquela situação, por mais perversa que esta possa nos parecer.
A ambiguidade novamente volta a comparecer quando, no final da narrativa, Mary lamenta pelo suicídio de Pengallan. A moça manifesta piedade pela situação do magistrado – Requena (2004) considera que uma das peculiaridades dos vilões hitchcoquianos é que o espectador é convocado a desejar a sua punição pelos dolos cometidos ao longo do filme – Pengallan é um assassino, ladrão, mas, ainda assim, humano, demasiado humano. O magistrado representa, talvez, a decadência de uma determinada classe social, envolta em crise financeira, por conta dos percalços da economia mundial na década de 30, período no qual o filme foi lançado. Há um pessimismo perceptível, inclusive, pela produção intelectual europeia durante o período, como o Mal Estar da Civilização, de Freud (2010), ou a perspectiva heideggeriana (1996), da angústia como constitutiva do ser humano.
A nossa perspectiva foi verificar como as emoções de desejo pela violência misógina se somam enquanto vetores da produção do suspense e angústia, tendo por base um inconsciente androcêntrico constituinte das representações audiovisuais no sentido de culpar as mulheres por suas aspirações e desejos, pois este lugar de ser desejante sempre lhe foi tradicionalmente negado.
Referências:
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BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro. Ed: Civilização Brasileira, 2010.
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FÁVERO, Maria Helena. Psicologia do gênero: psicobiografia, sociocultura e transformação. Curitiba: EDUFPR, 2011.
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FIENNES, Sophie. Zizek: Guia do perverso para a ideologia ROOKS NEST Enterteiment, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XM2qIJTlDgo, acessado em 20/11/2014
FREUD, Sigmund. O mal estar da civilização. Novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. Obras completas. São Paulo. Companhia das Letras, 2010. v. 18.
HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1996.
KAUFMAN, Michael. The Seven P’s of Men’s Violence, 1999. Disponível em: http://www.michaelkaufman.com/wp-content/uploads/2009/01/kaufman-7-ps-of-mens-violence.pdf, acessado em 28/10/2012, às 00:59.
LAURETIS, Teresa de. Alice Doesn’t: Feminism Semiotics Cinema. Indiana: Indiana University Press, 1984.
MODLESKI, Tania. The Women Who Knew Too Much: Hitchcock and Feminist Theory. New York: Taylor & Francis Group, 2005.
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REQUENA, Jesús Gonzalez. Clásico, manierista e postclásico: los modos del relato en el cine de Hollywood. Valladolid, Espanha: Castilla Ediciones, 2004.
ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
[1] A partir de Maria Fávero (2011, p. 75) destacamos que o conceito de violência misógina “é entendido hoje de forma ampla abrangendo as diversas formas de discriminação e as diversas manifestações de relações de poder. Trata-se, em última análise, de considerar essas formas de violência e de relações de poder desiguais, como formas de violação dos direitos das mulheres, que fazem parte dos direitos humanos universais, tal como reconhecido desde 1993 pela Conferência Mundial dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, a chamada violência de gênero consta no texto da Declaração como incompatível com a dignidade e o valor da pessoa humana”.
[2] Na introdução de Alice Doesn’t, Teresa de Lauretis (1984, p. 6) demonstra a preocupação de definir o que se pode entender por mulher: a pesquisadora afirma que, por “mulher” eu menciono os seres reais que não podem ser definidos de maneira exterior às formações discursivas, mas que, apesar de tudo, têm existência material concreta. As relações entre as mulheres como sujeitos históricos e a noção de mulher como produto dos discursos hegemônicos não constituem uma relação direta de identidade, uma correspondência um por um, nem uma simples relação de implicação. Como todas as outras relações expressas na linguagem, esta é arbitrária e simbólica, ou seja, construída no âmbito da cultura.
[3] Homossocialidade é aqui referida como o companheirismo e cumplicidade entre os sujeitos masculinos, sem que este relacionamento envolva, necessariamente, a homoafetividade.
[4] Neste trabalho, optamos por não recortar os fotogramas componentes da citação do filme, mas apontar o momento no qual se inserem na narrativa.
Bio fornecida pelo palestrante.
João Pedro Fagerlande
Faculdade de Letras – UFRJ
João Pedro Fagerlande