O PERFIL DA MULHER NA OBRA “TERRAS PROIBIDAS” DE LUIZA LOBO, por Raimunda Maria Chaves Correia




Raimunda Maria Chaves Correia*

RESUMO: Este estudo objetiva analisar perfil da mulher, sobretudo, na escrita feminina a partir dos estudos de gênero. Escolhemos para perfilarem, pela análise que pretendemos fazer, as personagens da obra Terras Proibidas – a saga do café no vale do Paraíba do Sul de Luíza Lobo(2011). Elegeu-se personagem Eliza para um maior enfoque, pois esta, apesar de não ser a protagonista principal, é a partir dela que surgem e se desenrolam os primeiros atos de transgressão. A posição ocupada pelas mulheres na sociedade oitocentista, tanto aquelas que se conformam e/ou supostamente aceitam a dominação do patriarcado, como Maria, Ambrósia, Maria Paula e Ana e aquela que se opõe a esse modelo social – Eliza, que é considerada irregular por recusar a dominação dos homens e enveredar por caminhos e ações que as demais mulheres não ousariam trilhar. Por meio da caracterização dessas mulheres é que se pode perceber a força da sociedade patriarcal na determinação e criação de estereótipos da imagem de mulher. A ficção será examinada conforme as teorias de Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elódia Xavier (2001), Judith Buttler (1987) e Foucault (1988), que direcionam suas proposições para as relações de poder no discurso, gênero e os processos de construção da identidade feminina.

Palavras-chave: Perfil. Mulher. Estereótipos.Terras Proibidas.

ABSTRACT: This study aims to analyze the profile of women, especially in women’s writing from gender studies. We chose to this profile, in the analysis we intend to do in this work the female characters from Terras Proibidas a saga do café no vale do Paraíba do Sul (Forbidden Lands – the saga of coffee in Southern Paraíba valley) by Luiza Lobo (2011) holds. The character Eliza was elected to have a greater focus, because, despite of not being the main character, she is the starting point of the first acts of transgression. The position occupied by women in the nineteenth-century society, both those who conform and / or supposedly accept the domination of patriarchy, like Mary, Ambrosia, Maria and Ana Paula and the one that opposes this social model – Eliza, who is considered irregular by refusing the domination of men and embark on paths and actions that the other women would not dare. Through the characterization of these women we can realize the strength of the patriarchal society in determining and stereotyping the image of women. The fiction will be examined according to the theories of Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elodia Xavier (2001),

* Mestranda em Letras (UESPI). E-mail: raimundaccorreia@gmail.com

Judith Butler (1987) and Foucault (1988), who direct their propositions to the power relations in discourse, gender and the processes of construction of female identity.

Keywords: Female representation. Stereotypes. Terras proibidas.

INTRODUÇÃO

Para falar do perfil da mulher nas obras de arte, e aqui nos reportamos mais, precisamente, a arte literária, é preciso, antes de tudo, fazer uma espécie de retrospectiva histórica em torno da questão. Neste sentido, pode-se afirmar que a mulher, ao longo dos tempos, foi vista de diferentes maneiras, de anjos intocáveis de beleza plena, outras completamente reprimidas e oprimidas pelo sistema patriarcal a verdadeiros demônios sedutores.

Este perfis, bem como, variadas questões relacionadas a mulher na literatura feminina têm sido questões bastante discutidas nas academias de todo país. Discute-se em torno de inúmeras temáticas e formas de representar as mulheres. Neste aspecto, teóricos desvelam questões como o que é escrita feminina? Sobre o que e como escreve a mulher? Como se apresenta o discurso que se chama feminino? E como a escritora feminina representa o perfil da mulher em suas escritas. Mediante essas questões afirma-se que: “Sabe-se da estreita relação entre linguagem e sujeito, e, portanto, quando uma mulher articula um discurso este traz a marca de suas experiências, de sua condição; práticas sociais diferentes geram discursos diferentes” (XAVIER, 1991, p. 13).

Para a autora, a leitura das narrativas feministas possui certa diferenciação pelo fato de que existe um discurso diferente, que é o “discurso feminino”, isto dentro de uma linguagem e de um posicionamento diverso da narrativa de autoria masculina. Desta forma, a importância de estudar a linguagem é visível, pois este estudo representa uma tática feminina que pode auxiliar no rompimento de barreiras impedidoras, ao longo dos tempos, do crescimento da escrita da mulher no que se refere a temáticas abordadas e a sua divulgação.

Sabemos que os fatores que dificultam o apogeu dessa escrita não são os, por vezes, alegados, mas bem outros. Por exemplo, a leitura dos textos de autoria feminina requer certa assimilação, por parte de quem ler, de conhecimentos prévios, para que, desta maneira, não se caia nas estratagemas das teorias literárias firmadas no discurso produzido pela escrita

masculina, numa sociedade de conceitos, basicamente masculinos. Onde os homens figuram como maiorais e usam de estratagemas diversos, na tentativa de excluir a mulher como sujeito da sua própria história ou criam perfis bem distorcidos destas.

O escrever feminino aborda variadas temáticas e com narrativas bem arquitetada, fato que pode ser comprovado em obras como “Terras Proibidas: A saga do café no vale do Paraíba do Sul” da escritora Luíza Lobo. Esta obra é o objeto de análise deste artigo e traz uma miscelânea de temas e habilidosa maneira de escrever. O exame parte de construtos teóricos de Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elódia Xavier (2001), Cristina Ferreira Pinto (1990), Judith Buttler (1987) e Foucault (1988), dentre outros e a discussão se encaminhará na perspectiva de verificar como a submissão ou transgressão feminina apresentam-se na obra, face ao patriarcalismo e como se dá a abordagem através da escrita feminina.

LUÍZA LOBO E SUAS “TERRAS PROIBIDAS

Terras Proibidas, A Saga do Café no Vale do Paraíba do Sul” (2011), da escritora Luiza Lobo que é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada do Programa de Pós- Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tradutora, poeta, contista, cronista, e ensaísta e autora de dezenas de livros e traduções. Muitos de seus trabalhos, o primeiro deles sobre Virginia Woolf, publicado em 1970, faz parte dos estudos inaugurais no campo da literatura de autoria feminina e dos estudos da negritude no Brasil. Destaca-se o ensaio intitulado “Women Writers in Brazil Today”, e “Literatura negra brasileira contemporânea”, inicialmente publicado em 1987 na Revista de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes. Destacam-se, ainda, os artigos sobre Maria Firmina dos Reis, que apresentaram a romancista maranhense aos estudiosos e ao público brasileiros.

Publicado em 2011, “Terras Proibidas” é fruto de uma pesquisa da professora e pesquisadora Luiza Lobo que durou 10 anos. Composto de quase quinhentas páginas e está dividido em quatro partes, cada uma delas subdividas em quatro sub-partes, a saber:

Parte I – A cena: O café e o eito – 1. A maldição do escravo; 2. O barão de Vassouras e a Cachoeira Grande; 3. Baronesas loucas seus fantasmas e; 4. A saga de Eliza na Cachoeira.

Parte II – O mito: Os clãs e a saga do café – Do ouro de Minas ao ouro verde das “Terras Proibidas” – 5. Os Teixeira; 6. Os Ferreira Leite e os Leite Ribeiro e; 7. Os Furquim e os Almeida.

Parte III – A história: Barões e varões do café – 8. A história do café; 9. A fundação de Vassouras; 10. Os pássaros-locomotivas e; 11. Os barões da caridade ou da maçonaria.

Parte IV – O futuro: Ruína e libertação – 12. As vozes submersas de São João Marcos; 13. Apogeu e ruína do Vale do Paraíba do Sul; 14. No limiar da abolição;

15. A ruína da Cachoeira Grande e; 16. O último banquete. (LOBO, 2011, p. 12).

A autora Luiza Lobo assim se refere ao seu livro “Terras Proibidas”: “Meu texto busca romper com a cronologia rígida dos fatos – ao apresentá-lo fora da ordem em que ocorreram – pois é assim que os fatos e as pessoas se apresentam como a nós no dia a dia… Assim o romance pode ser considerado um romance da nova história.” (LOBO, 2007, p. 02).

Escrito em forma de romance, misturando ficção e história, conta a trajetória de ascensão, apogeu e decadência das grandes fazendas do ciclo do café, destacando um personagem influente da região: Francisco José Teixeira Leite, O Barão de Vassouras, que vem a ser avô de Luíza Lobo, fato que comprova que a escritora narra a história da própria família, o que não a impede de engendrar com maestria uma narrativa que acompanha quase três séculos de história de família e da história do café, mas também, a história de um tempo e de uma parte do Brasil.

A narradora proporciona ao leitor a segregação de quatro grupos distintos para a condição do gênero: O grupo masculino, modelo inquestionável; Um grupo de mulheres, cujos estereótipos sociais são representados como pessoas bondosas, adequam-se, pelo menos supostamente, ao sistema social vigente; Um grupo de personagens femininas que se desviam dos ditames sociais e não aceitam viver de acordo das amarras estabelecidas pela sociedade. Onde Eliza figura como a principal representante. E o grupo de escravos e escravas, com suas rezas, macumbas, seu poder de articulação desconstruindo, visões sedimentadas sobre o escravo, como, por exemplo, o mito do escravo submisso, humilde, obediente, haja vista, haver a representação de grupos de escravos com grande poder de articulação, fato que chega a desestabilizar o comando de barões do café.

O narrar histórias de uma família, e no caso de Luíza Lobo, da própria família, poderia supor certa tendência a maquiar fatos ou sobrepor, hierarquicamente, importâncias entres as personagens, não é o que acontece na narrativa de “Terras Proibidas, haja vista que as personagens desta obra possuem lugares equivalentes. Dos escravos ao senhor do café, todos tem voz e lugar no enredo. Há, inclusive, como já citado aqui, a desmitificação do escravo como ser obediente, preguiçoso; no lugar deste aparece um escravo inteligente, que age com cautela e de forma astuciosa.

Apesar de ser uma história, onde, supostamente, os homens predominariam, as mulheres possuem lugar e ações de destaque. Personagens como Maria Paula, condenada a se

casar com o primo Caetano, viúvo de Ambrósia; Ana que também teve de se casar com o cunhado Francisco, viúvo de sua irmã Maria, são transgressoras, apenas em pensamento. Elas apenas sentem no íntimo, porém não conseguem esboçar ação contra a situação, como comprova a passagem: “Maria, ao se casar com Francisco José, logo se sentiu traída, como a terra fora traída […] tudo foi devastado por causa do café, do dinheiro, da voracidade humana […] Ela também se sentia repuxada, cortada, sua seiva arrancada […]” (LOBO, 2011, p. 133).

A respeito da “não ação” das mulheres mencionadas, afirma-se que: “[…] Para que a dominação simbólica funcione, é preciso que os dominados tenham incorporado as estruturas segundo as quais os dominantes percebem que a submissão não é um ato da consciência, suscetível de ser compreendido […]” (BOURDIEU, 1996, p. 36).

É assim que acontece na narrativa, as mulheres representadas em “Terras Proibidas” (2011), as que, de certa forma, aceitam a dominação masculina, fazem isso porque já incorporaram como algo natural, como pode ser percebido no próprio texto: “Ah, minha filha,você ainda é jovem e sonhadora. Não pode uma pessoa fazer tudo sozinha, inventar tudo, tem de seguir a regra geral. A vida é assim. Repetir os antigos.” (LOBO, 2011, p. 203).

Seguindo a ótica do filósofo francês “a dominação masculina está de tal modo inserida no nosso inconsciente que deixamos de nos aperceber dela” (BOURDIEU, 1996, p. 42). Fato percebível na fala de Eleonora irmã de Eliza, que apesar de ser mulher e sofrer com a não realização de seios anseios, seguindo aquilo que dita a sociedade vigente, reafirma o discurso masculino: “Bailarina é profissão de mulher da vida, não é para moça de família!” (LOBO, 2011, p. 226).

Por outro lado, tem-se, nesse quadro narrativo, o retrato da transgressão em Eulália,que se torna amante de Joaquim Nabuco, provando da felicidade apenas desejada por muitas mulheres do Cachoeira Grande e Eliza, neta de Francisco José, menina-mulher, forte, sagaz, livre e solta que após viver todo tipo de peripécias, decide simular a morte, conseguindo a liberdade a partir de então. Eliza questiona-se: “Ninguém perguntara a sua mãe, Maria, se gostava do primo ou se queria casar com ele. Mulher não tinha querer” (LOBO, 2011, p. 170). A partir de questionamentos como esse é que Eliza inicia sua não aceitação das estruturas e conceitos vigentes e começa a transformá-los com seu discurso e ação.

TERRAS PROIBIDAS” – do pensamento a ação

Pensar a escrita feminina e como a escritora constrói o perfil de mulher na escrita feminina, de certa forma, é pensar uma história de resistência iniciada em 1859, quando Maria Firmina dos Reis publica, com o pseudônimo de “Uma maranhense”, Úrsula, considerado, até o momento, o primeiro livro de autoria feminina na literatura brasileira.

Necessário se faz lembrar que quem revelou a autora de “Úrsula”, para o mundo foi a autora de “Terras Proibidas”. O romance Úrsula traz uma visão diferenciada da até então disseminada pela ótica da escrita masculina, onde o perfil de mulher era/é apresentado como de um ser sem vontade própria, obediente e facilmente manipulada pelo homem, uma vez que a escrita, até então, pelo menos a que era publicada, era feita por homens, mesmo a que tratasse sobre mulher. De acordo com Saffioti: “A sociedade delimita, com bastante precisão, os campos em que pode operar a mulher, da mesma forma como escolhe os terrenos em que pode atuar o homem” (SAFFIOTI, 2004, p. 8).

Nesta escrita sobre mulher e feita por homem se cristaliza os lugares dos quais fala a teórica. Eliza da obra “Terras Proibidas” (2011) protagoniza a mulher que faz a reversão desse costumeiro perfil, apresentando-se como aquela que não aceita a delimitação dos espaço culturalmente construído pelo homem, numa visão patriarcal de masculino e feminino, como comprova o excerto que segue:

  • Deixe Eliza para, lá, Maria Paula, se ela não quer mais estudar não vai achar noivo inteligente.
  • Eu quero estudar sim, mas Direito, na Faculdade de São Paulo, como o senhor!
  • Ora minha filha, isso não é possível, não aceitam mulheres na Faculdade de Direito […] (LOBO, 2011, p. 208).

Considerada “irregular”, por não submeter-se aos domínios do homem, no caso, principalmente, o pai e o avô, pois a personagem conta com apenas treze anos de idade. Além disso, o relacionamento amoroso que acontece entre Ela e o Cigano, com quem foge, (após simular a morte para viver, segundo a própria), posteriormente, para o Pará, não se configuram numa relação de opressão, ao contrário, uma relação de amor e igualdade de gênero.

Diferencia-se das demais mulheres com quem convive por agir de forma livre e acreditar não haver papeis estipulados para homens e mulheres. Neste sentido declara-se:

[…] das mulheres se espera que sejam „femininas‟, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E qualquer comportamento feminino que não se enquadrasse nas representações do feminino

imaginado pelo masculino (mulher como boa mãe e esposa) era lido pelos estigmas de degeneração. (BOURDIEU, 1996, p. 82).

É exatamente por isso que Elisa é considerada uma “fora do prumo”, por não se enquadrar no estereótipo de mulher ditado pela sociedade, e construir, assim, sua maneira própria de forma caminhar.

Estudos da crítica feminina vêm mostrando que a mulher tem diferentes modos de representação, dependendo do espaço e das experiências vividas, bem com da visão de quem a representa. Assim, podemos afirmar que a escrita da mulher traz as marcas do que essa acredita. O que não significa dizer que a escrita feminina é apenas sobre temas relacionados a ela ou como já foi dito “coisas de mulher”, usado no sentido pejorativo a expressão.

A obra “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul” figura, no cenário da escrita feminina, como um exemplo preponderante do que se firma como uma grande obra, uma vez que os fios narrativos por esta abordados, não pertencem a uma temática única, longe disso, o que há, de fato, é um entrelaçamento, de modo a formar uma narrativa rica, bem estruturada e variada, dando ao leitor inúmeras possibilidades de análise. A própria autora em “A literatura de autoria feminina América Latina” afirma que:

[…] texto literário feminista é o que apresenta um ponto de vista da narrativa, experiência de vida, e, portanto um sujeito de enunciação consciente de seu papel social. É a consciência que o eu da autora coloca, seja na voz de personagens, narrador, ou na sua persona na narrativa, mostrando uma posição de confronto social, com respeito aos pontos em que a sociedade a cerceia ou a impede de desenvolver seu direito de expressão. (LOBO, 2007, p. 01).

Partindo desse construto teórico, da autora de várias obras, dentre elas “Terras Proibidas”, é que se pode assegurar que a escrita feminina, principalmente, a partir de 1970, quando os estudos em torno desta se avolumam em quantidade e qualidade, direciona-se como uma ruptura no diz respeito às ideias socialmente vigentes em uma sociedade patriarcal. Óbvio, o que chamamos de escrita feminina, sem dúvida, ainda tem muito a trilhar. Fato compreensível, considerando a larga distância existente entre o fazer literário de autoria feminina e o de autoria masculina, uma vez que, ao longo dos tempos, o estudo e mesmo a apreciação da literatura foram praticados por homens que, por consequência, delinearam as teorias e práticas em relação a posição da mulher na sociedade e na vida, restando a essa quebrar bloqueio e fazer sua escrita ser vista, lida e valorizada.

Os estudos em torno de gênero e da crítica literária feminista fizeram com que, gradativamente, o discurso tradicional, que rotula os textos de autoria feminina como texto menor, perdesse credibilidade. Desta maneira, atualmente, pode-se dizer que a mulher

escritora tem seu trabalho mais reconhecido no meio acadêmico, apesar do muito que ainda se tem a conquistar. A obra “Terras Proibidas” da escritora Luiza Lobo comprova isso na medida em que é uma narrativa que está em consonância com a qualidade da literatura de grandes e renomados textos.

Admitindo que toda produção humana reflete-se naquilo que o seu autor acredita e tem como socialmente construído e se pensarmos uma mulher que desde os primórdios dos tempos, vive e convive numa sociedade organizada de modo a ter homens no poder, concluiremos que a mulher sempre produziu, o que dificultou o crescimento, no entanto, foram as estruturas de divulgação e consolidação da escrita feminina. Por isso, Zolin declara: “… o cânone tradicional brasileiro até 1970 (e isso não quer dizer que ele não seja mais assim) é de ordem masculinista, impossibilitando a mulher de escrever, de poder participar do cânone literário.” (ZOLIN, 2003, p. 70).

Considerando o cânone como instituição que determina qual literatura é representativa, e conduzido, numa sociedade patriarcal, pelo cunho da ordem masculina, é explicável porque a literatura de autoria feminina quase não aparece, não se torna visível durante todo esse tempo. Luiza Lobo em “A literatura feminina na América Latina”, teoriza:

[…] o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje. (LOBO, 2007, p. 03).

É essa tônica que escritora de “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul”, segue, pois no curso narrativo da obra não retrata histórias de reclusão ou repressão, e sim de superação, histórias de mulheres que, mesmo em meio a tudo que dita o que seria a ordem socialmente construída, revelam-se condutoras e sujeitos de suas vidas. Curioso notar a estratégia utilizada pela narradora ao iniciar terceiro capítulo, quando escreve: “Das mulheres não falo porque não são importantes” (LOBO, 2011, p. 133), uma vez que bem mais que a história do café e seus barões, que chegou a deslocar o eixo econômico do Brasil, é das mulheres que a obra trata, de suas vidas e vivências, os demais personagens são importantes na medida em que é a partir da convivências estes, que as personagens femininas, mais precisamente Eliza, se conscientizam das relações sociais, até então mantida, e passam a lutar por mudança.

Outra passagem que chama atenção na narrativa é o fato da repetição, por inúmeras vezes da epígrafe: “Nenhuma mulher foi feliz na Cachoeira Grande” (LOBO, 2011, p. 10),

pois a consciência da não felicidade é um dos fatores que impulsiona essa mulher na busca de transformação política e social.

No romance é mostrado que a as personagens femininas, tendo em Eliza principal a representante, longe estão de aparecerem enleadas em relações de gênero ou qualquer coisa do tipo. Elas figuram na narrativa como seres, capazes de delinearem sua própria trajetória e provocarem discussões e manifestações contra o poder de ideologias patriarcais vigentes, que, apesar de não mais encontrarem total espaço em todos os segmentos da sociedade, ainda o encontram em alguns. Traço muito interessante e que ajuda a construir essa imagem de mulher transgressora, porém sem ligar exatamente a imagem da submissão, é o fato de Eliza simular a própria morte, metáfora que representa um nascer para a liberdade.

É minha última taça. A doença é o caminho da salvação! Livre! Livre enfim! Estou a um passo da morte, que é a porta para a vida! Nada me impedirá de encontrar o Príncipe das Trevas. Sei que é cruel com meu pai, mas a decisão já está tomada, e o plano preparado! Sou eu A donzela do Lied de Schubert, que irei ao encontro do Cavaleiro da morte! Beberei até a última gota da taça para ressuscitar! Adeus! Adeus a todos! Que Deus me acompanhe no Outro Mundo, longe muito longe daqui! Lá me libertarei, lá ressuscitarei! (LOBO, 2011, p. 233).

Assim, Luíza Lobo utiliza-se estratégias narrativas que fazem de sua obra atual e livre de elementos que possam trazer a repetição de temáticas e formas de escrever, bem como, apontá-los como exemplos do que não deve ser restaurado nem na literatura como em outras formas de discursos. Nesta perspectiva, afirma-se que “[…] os modos de registro das mulheres estão ligados à sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade.” (PERROT, 1989, p. 12). Sendo assim, a escrita feminina, atualmente, vem provar que a mulher-escritora está muito antenada como seu tempo, seus direitos, seu papel de sujeito atuante, construindo um espaço legítimo na literatura universal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Realizar a leitura de “Terras Proibidas”, buscando analisar o perfil de mulher delineado na escrita feminina, numa escrita de mulher, apresentou-se com uma oportunidade de contato como uma obra literária bem estruturada e que muito bem representa a literatura brasileira.

No romance “Terras Proibidas”, a escritora Luíza Lobo, embora não tenha vivido o passado que relata, ateve-se durante dez anos, reunindo documentação confiável, o que sustenta a pesquisa como histórica. Partindo desse ponto, é feito o entrelaçamento entre

história e ficção de forma muito bem arquitetado, comprovando o tênue limite entre estes dois campos do fazer humano.

A cultura social consolidada no modelo patriarcalista que produz e tenta manter a submissão da mulher é concebida como recurso para manutenção e sucesso da ordem social ainda defendida por alguns. Os conflitos e possibilidades de transgressão do feminino sofrem, por vezes, empreitadas com o intuito de sufocá-los, utilizando como desculpa, garantir a harmonia no contexto da sociedade. No percurso narrativo da obra, aqui analisada, aparece como destoante Eliza, a neta rebelde do Barão de Vassouras “[…] um anjo que voou para a liberdade” (LOBO, 2011, p. 337). Tanto é assim, que no enredo a saga de Eliza termina com a suposta morte desta.

Podemos dizer que “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul” é um projeto de retomada do passado na modernidade. Uma mistura de manifestações históricas e ficcionais que nos permite apreciar uma parte da história do Brasil através de uma narrativa literária de grande porte, onde a mente do leitor, através de uma apurada leitura, deve interligar fatos e preencher os espaços existentes.

Assim, a obra termina por nos apresentar um enredo que, com muita precisão discorre em torno do perfil da mulher na literatura, tanto como escritora quanto como protagonista de sua própria história. Um romance que pode ser analisado sob inúmeros ângulos, trazendo a luz, mais uma vez, a comprovação de autoridade da escrita de autoria feminina.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato Aguiar. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

FOUCAULT, Michel. Ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

LOBO, Luiza. A Literatura de Autoria feminina na América Latina. Disponível em:

<http://members.tripod.com/~lfilipe/LLobo.html>. Acesso em: 03 abr. 2007.

            . Terras proibidas, a saga do Café no Vale do Paraíba do Sul. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

PERROT, M. Práticas da Memória Feminina. Revista Brasileira de História, v. 8, n. 18, p. 9-18,   1989.   Disponível   em:   <file:///C:/Documents%20and%20Settings/cliente/

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SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. “Não há revolução sem teoria”. In. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. (Coleção Brasil Urgente).

XAVIER, Elódia. Reflexões sobre a narrativa de autoria feminina. In: XAVIER, Elódia (Org.)

Tudo no feminino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

ZOLIN, L. O. Desconstruindo a opressão: a imagem feminina em “A república dos sonhos”, de Nélida Piñon. Maringá: Eduem, 2003.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha OUTRAS (POESIAS) URBANAS, OUTRAS (LENDAS) URBANAS NA NOVA OBRA,  DE JORGE VENTURA




MINICURRÍCULO DE JORGE VENTURA: Jorge Ventura é carioca, escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Possui 11 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ, titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE-RJ e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, em nível nacional e internacional, como autor e intérprete. Alguns dos seus poemas foram vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego.

OUTRAS (POESIAS) URBANAS, OUTRAS (LENDAS) URBANAS NA NOVA OBRA DE JORGE VENTURA

Almir Zarfeg

Outras urbanas é o mais novo livro de poemas do poeta e editor, jornalista e ator Jorge Ventura. Trata-se de sua décima obra..

O título foi extraído do poema “Urbi et Orbi”, presente na quarta parte da nova obra intitulada “Caos”. Lê-se o trecho: “são ruínas aqui como em outras urbanas / cidades não têm culpa do que os homens fazem”. As outras três partes são “Gentes”, “Bichos” e “Ruas”, que examinaremos primeiro.

Senhor da palavra, o artista se apossa do texto poético e encara os aspectos verbais e não verbais do signo, fundindo verso e imagem, explorando ritmos e sonoridades. Ao mesmo tempo, imprime à obra um apelo social, uma urgência em resgatar (e instaurar) a normalidade tão desejada, visando, assim, à passagem do caos ao cosmo – se é que isso é possível, a essa altura dos acontecimentos.

A seção “Gentes” abre-se com o poema “Crueza”, que anuncia o que virá pela frente: uma série de textos com a desenvoltura técnica e temática de que as pessoas, com seu jeito de ser e estar no espaço urbano, são protagonistas. Citem-se os poemas “Culpa”, “Delinquência”, “Marginal”, “Romance Urbano”, “Droga”, “Feminicídio”, “Vulnerabilidade”, “Expatriado” e “Andar, Andar”. Enfim, títulos que compõem um vocabulário bem conhecido e que abarcam a violência urbana de que todos, querendo ou não, participam, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades.

“Crueza” retrata muito bem – através de redondilhas menores e tom pessimista impressos no espaço negro (não branco) da página – as impressões que o artista tem de si

e do mundo à sua volta: caos pessoal versus distopia social. Lê-se no poema em questão: “à sorte me atrevo / só creio em meus atos”. O poeta dispara: “vejo o que não devo / o osso em vez da carne”.

Na seção “Bichos” o leitor é presenteado, logo na abertura, com as redondilhas maiores do poemíssimo “Dúvida”: “Abro a caixa de Pandora / Sob o luar sedutor / Que selva aguarda lá fora? / Serei caça ou caçador?”

A seguir, somos envolvidos numa verdadeira (sic) fábula cujo melhor representante não poderia ser outro senão o bicho-homem que, cheio de arrogância, continua achando que sabe das coisas…

O destaque vai para “Zoo 1” e “Zoo 2”, textos povoados por bichos feitos mais de metáforas do que de realidades. No primeiro deles o poeta enumera os animais do marketing estampados nas latas, produtos, slogans e logos tão comuns numa selva de pedra como o Rio de Janeiro, mas que poderia ser qualquer outra metrópole brasileira. O poema acaba em chave de ouro, ou melhor, em advertência do Ministério do Marketing: “Cuidado, homem, o rifle da mídia costuma acerta o seu público-alvo”!

No segundo poema dessa seção “Bichos”, o bicho-poeta recupera algumas metáforas cotidianas que, de tão repetidas, já se tornaram piadas ou expressões assimiladas pela repetição. Ele se diverte: “Não suporto selvagens / nem aceito crocodilagem”. Outros poemas – como “Capital selvagem”, “Gatuna”, “Felina”, “Último uivo” e “Engasgo” – garantem o alto nível da seção pet. Inclusive com boas doses de lirismo e nenhuma referência – que peninha! – aos bichos do Barão de Drummond.

O texto “Engasgo” – pelo requinte estilístico, jogo metafórico e tensão simbólica

instaurados – merece uma análise à parte. Eis que o poeta, em visita à feira livre, se vê cara a cara com um peixe morto, à venda numa barraca. Eles se entreolham, como se fosse um amor à primeira vista. Em seguida, um espanto, um desconforto e um pedido de socorro se instauram instantaneamente. O envolvimento é tamanho que o eu lírico já desconfia de que aqueles olhos ainda detêm a vida e que, na verdade, suplicam por um salvador. Passado o entrevero, o poeta volta à realidade: “essa espinha – até hoje – / me atravessa a garganta”.

A seção “Ruas” começa com um “Maniqueísmo” de boas-vindas: “O que dá mais prazer entre Deus e Satã? / Os infernos da noite… Os céus da manhã…”. Pessoalmente, não tenho a resposta e tampouco saberia escolher, de pronto, entre céu e inferno. Talvez ficasse com os dois, mas não seria maniqueísmo nem dualismo psicopoético! Certo é que um poeta não menos sagaz já sacou que “Deus escreve certo por ruas tortas”.

Essa terceira parte – um flâneur mais atento vai notar isso – apresenta uma série de poemas que dialogam com a pandemia da Covid-19 e, também, com a morte – física ou

metafísica –, da qual nenhum cidadão consegue escapar. A propósito, leem-se “Lockdown”, “Memento pandêmico” (um grito em prol da utilidade poética), “Praça seca”, “Cemitério Municipal”, “Réquiem para uma flor” (à moda drummondiana), “Mártir”, “De todos os jogos o jogo” (gostaria de me deter nesse espetáculo/tragédia) e “Desorigem”, que li e comentei nas redes socais, enaltecendo o talento minimalista do autor.

Antes de entrar na quarta e última seção de Outras urbanas, precisamos nos valer da música: as quatro partes ou seções da nova obra de JV se nos apresentam como movimentos de uma peça sinfônica (“As quatro estações”, de Antonio Vivaldi, por exemplo), cujo 1º movimento mais rápido é seguido por um 2º movimento mais suave. O mesmo se dá com o 3º e 4º movimentos, que se repetem alto e baixo som, respectivamente.

Também verificamos quatro movimentos na obra em questão, em que o primeiro é sucedido pelo segundo, assim sucessivamente. No entanto, em vez do andamento alto/baixo, aqui temos uma espécie de “crescendo”, em que o 1º movimento alcança o 2º movimento, que atinge o 3º movimento, que finalmente chega ao 4º movimento. Mas isso se dá de maneira gradativa, em que a intensidade poética ganha qualidade técnica (forma e fundo) à medida que se verifica a passagem de uma seção para a seguinte. Essa é uma constatação minha pura e simplesmente.

Por fim, chegamos à seção caótica, “Caos”, em que poesia e prosa se confundem, gerando uma prosa poética (os leitores mais experimentados vão lembrar “Le spleen de Paris”, de Charles Baudelaire, e/ou “Spleen de BH”, de Leonardo de Magalhaens). Mas se trata de um caos urbano e, portanto, humano e histórico. A mesmíssima Cidade Maravilhosa de hoje foi, no início do século XX, apelidada de Cemitério de Europeu – de tanto malcheirosa, caótica e contaminante que era.

“Caos” se inicia com a pequena obra-prima “Ovulação” (haicai), que é seguida do ótimo “Urbi et Orbi”, do qual foi retirado o título da obra. A seguir, temos “Para amar e morrer”, “Tempos inexatos”, “Vampiros urbanos”, “A Chuva”, “Parque industrial” (abaixo o consumismo!), “Semáforo”, “Segunda-feira” e “Sempre assim”. Ainda que não abram mão do rigor formal, esses textos são marcados pela discursividade, informalidade e espontaneidade próprias da prosa e, portanto, conseguem dialogar mais e melhor com os leitores. Mas sem prescindir da poeticidade que, o tempo todo, se mantém presente, ou em estado de potência.

Haja fôlego para vivenciar tanta emoção proporcionada pela leitura de “Outras Urbanas”, que brinda seus leitores com o rigor técnico de um mestre da palavra e a riqueza temática de um cidadão do mundo antenado com os eventos atuais. Sem esquecer o projeto gráfico-visual de encher os olhos.

Comedido metaforicamente, equilibrado formalmente e plural humanisticamente, o autor nos envolve com sua poesia. Depois, só nos restará torcer para que caos se transforme em cosmo e a desordem dê lugar à ordem. Quanto às outras (lendas) urbanas, com a palavra Jorge Ventura!

NOTAS

1 Almir Zarfeg é poeta, jornalista e ficcionista. É vencedor de dezenas de prêmios em nível nacional e internacional, é fundador e Presidente de Honra da Academia Teixeirense de Letras (ATL) da Bahia.
2 Ventura, Jorge. Outras urbanas. Poesia. 108 p. Rio de Janeiro, Ventura, 2023. ISBN: 978-65-998703-2-3.
3 Ver https://jornalalerta.com.br/analise-do-poema-de-todos-os-jogos-o-jogo-presente-no-livro-outras-urbanas/.





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Luiza Lobo toma posse da Academia Carioca de Letras








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Educação não é um privilégio: A grandiosa obra de Anísio Teixeira, por William Soares dos Santos








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O Cachorro e o Lobo de Antônio Torres, por William Soares dos Santos




William Soares dos Santos é professor de italiano e didática da Faculdade de Letra, poeta, contista e tradutor dessa língua.





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Posse de Luiza Lobo na Academia Carioca de Letras








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Vídeo




www.litcult.net.br/luizalobo





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Escritores para capa








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UMA INFINIDADE DE SÓIS, texto de William Soares dos Santos




RESENHA

LIVRO: Três sóis.

AUTOR: William Soares dos Santos.

Dados: São Paulo, Patuá, 2019. 142 p. Ilustrado.

ISBN: 978-85-8297-554-1

Resenha publicada na Revista da Academia de Letras do Brasil, n. 9, jan./jun. 2023: p. 154-156. Brasília, D.F., Editora Opção/Cajuína.

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                                          UMA INFINIDADE DE SÓIS

Luiza Lobo

da ALB

Professor e tradutor de italiano da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor de Linguística Aplicada na sua pós-graduação, especialista em Shakespeare, com Dissertação de Mestrado sobre o autor, exímio desenhista, mestre em artes marciais, autor dos livros de poesia Rarefeito (Ibis Libris, 2015), Poemas da meia-noite (e do meio-dia), (Moinhos, 2017), Raro – poemas de Eros (Urutau, 2018), e autor do livro de contos Um Amor (Ibis Libris, 2016), além de diversos livros de ensaios, é difícil acompanhar a ampla atividade de William Soares dos Santos, que parece girar num eixo de 360 graus, incansavelmente. A tal ponto que percebeu que há três sóis no céu, o que ninguém ainda sabia, um segredo que agora nos revela no seu belíssimo livro lindamente ilustrado com figuras da arte clássica, renascentista e pré-rafaelita. O autor conseguiu unir aí, com apoio da cuidadosa edição da Patuá, artes gráficas e da escrita. Seus poemas vão além do tema sentimental e individualista, com um certo descuido da forma, que tem grassado em nossas Letras ultimamente – se é que ainda podemos falar de “Letras” num mundo tão desconexo e multifário como o em que vivemos, no qual agora descobrimos que não há só um, mas três sóis.

O tema de William lembra-me o da magistral trilogia de romances de Haruki Murakami, 1Q84, autor que merecia ter recebido o prêmio Nobel em lugar de outro japonês, Kenzaburo Oe, este sediado na Grã-Bretanha e seguindo a linha mais conservadora possível da literatura ocidental, além de tratar de temas pacifistas. Em 1Q84, num jogo simbólico com o famoso 1984, de George Orwell, o longo romance de 1.300 páginas se inicia com a capacidade de alguns habitantes de Tóquio de verem duas luas, em lugar da singela e prosaica Lua habitual, já tão despida de mistério e explorada ultimamente.

Sinal dos tempos pós-modernos, nos quais a literatura se torna essa arte de encontrar o insólito, o inusitado, o original num cotidiano tornado globalizado e previsível em quase todo o mundo. William busca essa linha de pesquisa sobre o nosso modo de (re)ver as coisas, não de forma desorganizada e mal-acabada, como tantos textos da atualidade, sem técnica, mas partir de um princípio desconstrutor da realidade. No início do livro, ela é vista à luz da metafísica, com a epígrafe de Henrique VI e o quadro O Parélio, ambos sobre o fenômeno da ilusão dos três sóis. Mas essa leitura renascentista já não corresponde mais o que as pessoas – pelo menos os poetas – esperam, na Terra.

Como afirma o crítico e poeta Adriano Espínola, nas orelhas do livro, essa multiplicação dos sóis representa, para o autor, um espaço “cósmico” e “epifânico”. Pouco importa que esse fenômeno ocorra real e raramente no hemisfério nórdico. Prefiro ver nessa temática uma retomada simbólica da revolução copérnica, desconstruindo as certezas e verdades de um mundo até agora organizado, com suas afirmações  insofismáveis, e que vêm sendo desconstruídas desde Nietzsche. A proposta do autor, desde o Livro 1, Três Sóis, é romper com um mundo racional, num mergulho nas novas incertezas da atualidade, não despidas do temor do desconhecido: “Os três sóis / dançavam no etéreo / da galáxia / atraindo o planeta mais cheio de vida a / girar ao redor de / seu contrapasso. // O parélio que / fez-se claro / no horizonte / leva-nos à vertigem / do ocaso (Santos, 2019, p. 20). O parélio é o fenômeno em que cristais de gelo criam a ilusão da multiplicação dos sóis – explica o autor, em nota (p. 137).

O protagonista do livro é o Sol, em todos os momentos do dia e da noite, até o sol da meia-noite, em Reykjavík (p. 31), anunciando a aurora boreal (p. 32), e prenunciando a “Cobrança”, quando “A Terra cobra o seu preço / no clangor do verão.” (p. 35), e finalmente os Eclipses (Livro 2) Essas imagens, que terminam numa atmosfera apocalíptica, inserem o eu narrativo num universo muito mais profundo e gótico que o do simples eu poético – como ocorre nos poemas e nos desenhos de William Blake para o Paraíso perdido de Dante, bem conhecidos de William, sem sombra de dúvida.

É este “Over-soul” (p. 44) e a sempre ameaça de um apagar do sol, após seu multiplicar-se, que dão a dimensão telúrica a esse livro, inserindo o ser humano aí como um fantoche frágil e manipulável, ao bel-prazer das forças universais. Na epígrafe de Henrique VI, o rei Eduardo IV afirma: “Meus olhos me enganam, ou vejo três sóis?” e Ricardo II explica: “Três gloriosos sóis, /cada um perfeito, / Mas separados em um claro e límpido céu.”. Já na visão poética de William esse fenômeno atmosférico parece, antes, prenunciar um céu sombrio e apocalíptico de fim de mundo.

Nessa trajetória, as imagens e texto das três últimas partes do livro, num total de cinco, minimizam a figura humana, com toda a sua prepotência destrutiva em relação ao planeta, focando num histórico da cultura da arte através dos tempos: desde a pintura do parélio, em Estocolmo, de 1636, que sobreviveu apenas numa cópia de Elbfas, até esculturas da arte clássica grega, representando Apolo e Prometeu, que foi punido, justamente por querer dominar o fogo, ou quadros pré-rafaelitas.

O que me pareceu instigante nesse original livro de William Soares dos Santos foi a sua capacidade de mostrar nossas míseras vidas como “amantes de Kairós” (p. 128), “sem pudor”, // enquanto se comprimem / em desejo de saudades / transtornadas de passado”, numa total inconsciência da passagem do tempo, de Cronos. Na nossa insaciedade de cobiça e poder, ignoramos a passagem da água pela clepsidra da Terra.





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Luiza Lobo fala de seu romance Terras proibidas, da Rocco




Luiza Lobo fala de seu romance Terras Proibidas, da Rocco, que conta a história do barão de Vassouras e do café no Vale do Paraíba do Sul.





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O HOMEM DO PLANETA AUSCHWITZ – Texto de Miriam Halfim




O HOMEM DO PLANETA AUSCHWITZ – Texto de Miriam Halfim

Teatro Laura Alvim. 6ª, sáb., dom. Estreia: 1º julho 2022. Até 31 julho 2022 e Funarj e Arcos produções. Vendas: funarj.eleventickets.com

 

Direção: Ary Coslov

Atores: Mario Borges e Susanna Kruger

Cenário: Marcos Flaksman

Figurino: Wanderley Gomes

Trilha sonora: Ary Coslov

 

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O SOBREVIVENTE DA ESTRELA AMARELA

REFLETIDA NOS ASTROS

 

Luiza Lobo*

 

No seu mais recente texto dramático, Miriam Halfim retoma o comprometimento com o teatro engajado, de ideias, que tanta falta faz nesses tempos hedonistas e negativistas pós-modernos. É um espetáculo forte, impressionante, montado num cenário em negro, com uma cerca de arame farpado, criação de Marcos Flaksman. A direção, de Ary Coslov, é segura, e os atores têm voz alta, impactante e convincente.

É claro que a falência da filosofia humanista ocidental já fora acusada desde Nietzsche, mas foi justamente com o nazismo que se abriu a maior brecha no pensamento e na política de Estado dos povos ditos civilizados e eruditos. A peça focaliza um encontro imaginário entre o escritor judeu polonês Yehiel De-Nur e a cientista política Hannah Arendt, que se exilou nos Estados Unidos ainda em 1933, portanto antes da criação dos guetos e dos campos de concentração nazistas. Arendt defende uma análise objetiva dos fatos, enquanto De-Nur, sobrevivente de Auschwitz, se choca com sua frieza, numa postura emocional.

A discussão imaginária entre os dois tem como ponto de partida um artigo publicado por Arendt na imprensa, intitulado “Eichmann em Jerusalém”, que foi amplamente criticado pela imprensa. Ali, ela expôs sua teoria da “banalidade do mal” e defendeu um processo dos nazistas de acordo com as regras jurídicas, inclusive o de Adolf Eichmann, chefe do campo de extermínio de Auschwitz, como o que foi realizado em Nuremberg, na Alemanha. Para Arendt, justiça e mídia são dois polos incompatíveis. De seu lado, De-Nur alega que esse julgamento frio e técnico nada mostrou da atrocidade praticada, nem do sofrimento humano das vítimas, exterminadas sem qualquer possibilidade de defesa e sem culpa por qualquer crime, e que, portanto, não comoveu a opinião pública. Alega que, em face da barbárie do genocídio, exigir uma justiça “normal”, como a de um país democrático, seria um ato de frieza e insensibilidade, e defende o julgamento realizado em Jerusalém, após o sequestro dos principais mandantes nazistas e sua condenação à morte. Para ele, o artigo de Arendt é uma prova de elitismo racional e universitário, distante do sofrimento das vítimas que foram brutalizadas e exterminadas sem razão. Segundo ele, só um julgamento emocional, como o realizado em Israel, com apoio da mídia, poderia ao menos em parte resgatar a atrocidade dos atos praticados por Adolf Eichmann.

Em seu artigo, Arendt caracterizou a “banalidade do mal” como o cumprimento de ordens sem raciocínio próprio nem discussão delas, numa atitude burocrática, de subserviência, sem visão crítica. Ela partiu do aspecto intelectual, individual, pontual, da questão. Já De-Nur se preocupou com a repercussão coletiva da opinião pública – tanto que passou a escrever diversos livros sobre o ocorrido nos campos de extermínio e visitou escolas, para conscientizar os jovens. Arendt acusa De-Nur de não ter confrontado Eichmann, ao ser interrogado no processo de Nuremberg. Ao invés, ele falou de astrologia, de estrelas e até desmaiou. Ele se justifica afirmando que a frieza e o riso cínico do carrasco, encerrado na sua confortável e protegida cabine de vidro, o fizeram silenciar. E a acusa de ter se refugiado nos Estados Unidos assim que possível, ter vivido como professora, longe dos fatos, e ter convivido com um antigo simpatizante das ideias nazistas.

A dramaturga opõe, no debate imaginário entre os dois protagonistas, a inclinação teórica de Arendt, com sua formação de cientista política e apreço pelo pensamento racional, a sociedade democrática e bem constituída, com leis em vigor, e a inclinação para a emoção de um sobrevivente quase por milagre, e marcado psicologicamente pelo dia a dia do holocausto. A pior crítica de Arendt, a meu ver, é de que os judeus não teriam se rebelado, teriam aceitado seu destino e até acreditado que iriam apenas trabalhar – e não seriam exterminados nos chamados “campos de trabalho” alemães.

A questão primordial da peça gira em torno do conflito entre racionalidade e emoção. Arendt contesta a emotividade propagada pela mídia e a necessidade de espetacularização dos fatos do cotidiano (conforme a definiu Guy Debord em A sociedade do espetáculo, obra de 1967). De-Nur se horroriza com a frieza metódica e científica da teórica, incapaz de viver na própria pele o sofrimento humano, e exigindo um julgamento justo para aqueles que criaram a mais injusta das tiranias da sociedade moderna. Inclusive porque alguns sobreviventes do holocausto terminaram por se suicidar, por não suportar o sofrimento que sentiram até o final de suas vidas. Afirma que, diante de crimes que ultrapassam o humano, leis “normais” não são suficientes para punir o chefe do campo de concentração nazista. Principalmente porque no pós-guerra os principais chefes já tinham fugido do país e trocado de identidade, alguns vivendo escondidos em países como Argentina e Brasil. Hoje é conhecido o preparo logístico de Hitler para uma fuga para a América do Sul, com a construção de ferrovias entre Buenos Aires e a Patagônia argentina e de moradias fortificadas naquele extremo, e de uma rede de apoio de neonazistas. No Brasil, também houve apoio para eles, com refúgio em hotéis distantes, onde, até, organizavam congressos que fomentavam o nazismo, em um hotel de Itatiaia.

Creio que a questão que a peça impõe é a exigência de um processo técnico, jurídico, legalista e democrático diante de crimes de exceção bárbaros dirigidos contra a humanidade, que passaram por cima de qualquer lei civilizada. Sem a emoção do povo e a indignação provocada com a divulgação pela mídia, haverá realmente a conscientização coletiva de forma que semelhantes crimes de genocídio não voltem a ocorrer? Por outro lado, é possível sequestrar criminosos de guerra e julgá-los, como ocorreu em Israel, ao arrepio da lei “normal”? Mas que “normalidade” existiu na própria criação de guetos e campos de extermínio, quando pessoas foram condenadas ao sofrimento, ao trabalho forçado, à fome, à morte, à destituição de seus bens e identidade, sem terem cometido crime algum?

Apesar de não ser correto realizar julgamentos sem seguir todos os trâmites jurídicos – que, aliás, levam décadas e não possibilitariam a punição dos criminosos, devido a sua idade avançada, por terem se escondido e trocado de identidade – dada a excepcionalidade dos fatos ocorridos, e sabendo-se quantos “julgamentos” políticos extrajudiciais ocorrem pelas mãos de espiões, da CIA, da KGB russa etc, a visão de De-Nur confronta o purismo acadêmico, de aguardar que o braço da justiça normal atingisse aqueles genocidas a tempo.

Interessantes analogias são traçadas por Miriam Halfim com nossos tempos atuais no Brasil e no mundo. Como reagir, que fazer nas ditaduras ou nos governos não democráticos? Como poderiam reagir as vítimas dos guetos e dos campos de concentração, dada a desigualdade de recursos? Estes, em suas casas, destituídos de tudo; os algozes, munidos do poder total do Estado e das mais poderosas armas dos SS. E por que não reagiu a própria população alemã, que via passarem trens de gado carregados de seres humanos em condições insuportáveis, de forma pior que o gado? Por que as ditaduras fazem silenciar os povos?

O artigo de Arandt define a banalização do mal numa perspectiva teórica, individual. Prende-se à falta de consciência e pensamento sobre os próprios atos. É uma resposta teórica da cientista política no âmbito individual da consciência racional para um problema que na verdade é da alçada da política, da coletividade e da sociedade – portanto da mídia, também, conforme alega o escritor Yeliel De-Nur. Ele afirma que no primeiro interrogatório de Nuremberg falou de estrelas e de astrologia como a única forma de expressar o sofrimento que sentia pelo seu estranhamento de que neste planeta o holocausto pudesse acontecer. Na verdade, só essa metáfora poderia representar todo o sofrimento humano vivido pelos judeus assassinados. Assim, por condensação metafórica, a estrela do céu remete à estrela que as vítimas eram obrigadas a usar no peito, desde que foram aprisionados em guetos. (Mas essa é uma longa história trágica, que já ocorria desde a Idade Média, na ascensão do mercantilismo, como estratagema para a impor a hegemonia religiosa cristã e seu domínio sobre as finanças e o Estado moderno emergente).

O mais importante, nesse renovado teatro de ideias, é o fato de estimular a abertura de debates, indagações, pesquisas. Só esse questionamento possibilita entender a questão do judaísmo no contexto do capitalismo cristão, que desde seu início utilizou as divergências religiosas como ponto de partida para a criação de um bode expiatório ocidental – quando, na verdade, a questão era quem deteria o capital e o poder.

Quando, ao final do espetáculo, os dois protagonistas bebem juntos um copo, combinam seus dois pontos de vista, a razão, e a emoção. O público então compreende a divergência milenar da guerra entre o bem e o mal, que reaparece na política sob diferentes disfarces. Impõe-se, como expõe Hannah Arendt em seu artigo, a necessidade de um pensamento lúcido e autocrítico sem descanso; mas também, como alega De-Nur, de sensibilidade e emoção, para que se transformem consciências e mentalidades. E isso só pode ser vivenciado e percebido pela emoção.

Estão de parabéns a autora e a equipe técnica desse belo espetáculo nesses tempos de retorno do mal. Filmado e distribuído na Internet, ele poderá atingir um público ainda mais amplo.

 

Rio, 11 de julho de 2022.

 

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* Luiza Lobo é professora aposentada e ex-pesquisadora 1 da UFRJ, entre outras universidades nacionais e internacionais. É autora de 20 obras, sendo as mais recentes Cânone e renovação do cânone em literatura (antologia de ensaios, Amazon 2019) e dois romances: Fábrica de mentiras: do Vale do Café ao Arco do Triunfo (RJ, 7Letras, 2022) e Terras proibidas: o Vale do Café (RJ, Batel, 2022).





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Entrevista com Adriano de Paula Rabelo, sobre “O amor é um abismo furtivo”




O CREPÚSCULO DO AMOR

 

Entrevista com Adriano de Paula Rabelo

 

Por Virginia Nogueira –

Pós-graduação da PUC de SP

 

Obra: O amor é um abismo furtivo, Amazon, 2020.

 

ADRIANO RABELO

Adriano de Paula Rabelo tem publicado obras literárias de sua autoria, bem como traduções de textos literários a partir das línguas inglesa e francesa. Também possui livros publicados no campo do ensaísmo. Tem sido professor de literatura e cultura brasileira no ensino superior. É doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas. Nos últimos anos, publicou Desabraçar (Patuá, 2018), Ouriço: Senso incomum (Aglaia, 2019) e Esta agonia é o nosso triunfo: As cartas de Sacco e Vanzetti (Edições 70, 2020).

 

O amor talvez seja o assunto mais recorrente na história da literatura, revelando-se inesgotável na pena de escritores de todas as épocas, que têm explorado minuciosamente as mais diversas concepções e as mais variadas nuances deste sentimento. É o caso de Adriano de Paula Rabelo em seu mais recente livro de contos, intitulado O amor é um abismo furtivo (São Paulo, editora Aglaia, 134 páginas). Autor de outro livro de contos, em que aborda múltiplos aspectos das relações familiares, nesta obra Rabelo focaliza, em especial, um momento específico do processo amoroso: o instante em que o amor acaba e os amantes se separam. É sobre isso que conversamos com ele.

 

Se o amor sempre contém um abismo oculto, como dá a entender o título de seu livro, conclui-se que você é contra o amor e não o recomenda a ninguém…

Quem sou eu para ser contra o amor! Quem sou eu para recomendar a quem quer que seja que ame ou deixe de amar! Mas de fato há um abismo furtivo em cada amor, no qual todos nós já caímos alguma vez na vida. Ele tem a ver com a fragilidade e a incoerência humana, com nossa enorme precariedade, que se reflete na pouca solidez dos laços que estabelecemos com os outros. As tragédias gregas costumavam terminar, depois de acontecimentos terríveis, com o coro ocupando o centro do palco e refletindo que ninguém pode se dizer feliz antes de morrer, pois podemos perder tudo a qualquer momento e mergulhar na infelicidade. Édipo ou Medeia que o digam! Sinto que no amor é a mesma coisa. Podemos perdê-lo a qualquer momento, ele pode acabar no meio da jornada que percorremos juntos, muitas vezes causando enormes sofrimentos, de modo que não podemos dizer que fomos felizes no amor antes de morrer. No máximo podemos dizer que nele fomos felizes por algum tempo, em geral no começo. Não conhecemos muito bem nem a nós mesmos. Muitas vezes nos surpreendemos com nossas próprias atitudes. Imagine só o quanto ignoramos do outro. No entanto, viver é se lançar e correr riscos, senão simplesmente existiremos de modo inautêntico e banal. Por isso, apesar de a separação ser a lei do mundo, seguimos amando e nos fazendo amar.

 

Você parece ter verdadeira obsessão pelo fim do amor. Sua história pessoal tem sido marcada por rompimentos traumáticos?

Como todo mundo, tenho experimentado meus rompimentos e minhas perdas. Esse processo é sempre mais ou menos traumático, dependendo do quanto você se envolveu no relacionamento, do que construiu juntamente com a pessoa com quem compôs um casal, do momento em que a separação aconteceu, da forma como aconteceu. Há sempre um processo de luto mais ou menos demorado até que se possa voltar a experimentar o prazer de uma solidão escolhida e o momento de se permitir ao outro novamente. Ou de seguir sozinho, o que é uma escolha legítima. Mas minha experiência pessoal não tem importância no que tange a meus contos. O que importa é se eles funcionam bem como narrativa, se tocam a sensibilidade dos leitores. Há sempre aqueles que gostam de identificar personagens ou acontecimentos ficcionais com o autor. Não que a experiência biográfica do escritor não tenha importância alguma. Mas é preciso ter em vista que os personagens e acontecimentos da literatura são sempre mais coerentes, mais significativos e mais reais que os da realidade.

 

Suas histórias dão a impressão de que o amor está pré-programado para acabar. É assim que você o concebe?

Sim, todo amor vai acabar. A grande maioria deles acaba em alguns anos, às vezes em alguns meses. Mesmo aqueles que duram um tempo mais longo acabam na morte dos amantes. Somos seres finitos e tudo o que é humano está sujeito à finitude. As novelas, as séries de tv, os filmecos americanos e as canções água com açúcar, em seu romantismo obsessivo-compulsivo, estão sempre batendo na tecla de um amor panaceia, que tudo resolve, que tudo vence, até mesmo a morte. Ora, a morte demole o amor com um piparote. Isso não quer dizer que, quando acontecer, o amor não possa ser fruído mesmo em sua precariedade, no que ele tem de bom no momento presente, não como redentor de nossas misérias ou paraíso vindouro. Sua fragilidade pode mesmo constituir um de seus encantos.

 

Mas será mesmo que essa visão do amor é típica da arte banal, de massas? E o famoso “amor que move o sol e as outras estrelas” com que Dante termina a Divina comédia?

No caso de Dante, ele obviamente não se refere ao amor Eros, mas ao amor Ágape, ideal espiritual do cristianismo. No entanto, houve momentos na história da grande literatura em que o amor Eros foi cantado e decantado como sendo o nec plus ultra da experiência humana. Para ficar só nos poetas, pode-se mencionar a lírica amorosa da Idade Média e todo o movimento romântico do século XIX, ou poetas de épocas muito diversas, como Safo de Lesbos, Catulo, Petrarca, Camões, Tomás Antônio Gonzaga, Vinicius de Moraes. Todos eles criaram obras de grande beleza. Não é o tema que faz a grande arte, mas a força expressiva do artista. O que me parece que estamos discutindo neste ponto não é exatamente literatura, ou seja, se existem assuntos típicos da arte autêntica ou da criação banal, mas relações de casal, ou seja, se a concepção romântica do amor erótico é adequada, em especial num tempo como o nosso. A mim, essa concepção me parece desastrosa.

 

Por quê?

A vida é muito vasta e muito complexa, com muitas dimensões tão válidas quanto o amor: a amizade, a busca do conhecimento, o desenvolvimento de talentos e vocações, a conquista da independência, o amadurecimento, a realização pessoal, a espiritualidade… Quando sobrevalorizamos um amor idealizado, colocando-o muito acima dessas outras dimensões, como fonte única de sentido de nossas vidas, não só nos limitamos muito como corremos o risco de perder, ao perder o amor, o sentido e o valor de nossas vidas. Ora, perder um amor não é o fim do mundo, apesar de carregarmos essa sensação por alguns meses, até a dinâmica da vida redirecionar nossas atenções e nossos afetos. A realidade é muitas vezes dura, grotesca, aborrecida, e as pessoas são muito imperfeitas, muito inconstantes, ora bastante atraentes e estimulantes, ora tediosas e insuportáveis. E as relações interpessoais são sempre conflitivas. Portanto, ir para um relacionamento, em especial para um casamento, imbuído da idealização romântica do amor é a receita segura do fracasso.

 

Voltando à literatura, percebe-se, nos escritos de grande parte dos autores contemporâneos, uma predominância de textos curtos que tratam de assuntos “menores”, sem a pretensão de oferecer uma mensagem universal. Em geral, seu foco está no indivíduo, no cotidiano, na fragilidade humana. Além disso, a literatura atual, em sua quase totalidade, aborda personagens e temas urbanos. Por que isso?

A literatura contemporânea, como a filosofia contemporânea ou moda contemporânea, é um produto do nosso tempo. Na Antiguidade, por exemplo, acreditava-se que a Terra era o centro do universo e que o homem era “a medida de todas as coisas”. A grande literatura de então tratava de assuntos “maiores”, em linguagem sublime, com personagens extraordinários como Ulisses, Orestes, Édipo, Medeia ou Eneias, que realizavam grandes feitos ou eram vítimas de tremendos infortúnios. Essas grandes figuras personificavam o heroísmo, a condição humana, a nacionalidade e protagonizavam acontecimentos nada cotidianos. No rolar dos séculos, fomos descobrindo não somente que a Terra não é o centro do universo como é um grãozinho de areia muito insignificante e muito periférico numa imensidão inimaginável para o homem da Antiguidade. Do mesmo modo, fomos perdendo importância como senhores do mundo, autônomos e autoconscientes, até nos enredarmos num cotidiano marcado pela fixidez, o automatismo, a passividade, nos tornando escravos de um emprego muitas vezes frustrante, do consumismo e do entretenimento banal. Num mundo assim, a literatura contemporânea só poderia ser como é. Porém muitas vezes ela é grande abordando assuntos “menores” por meio de textos em geral curtos. Não é isso que define seu valor. Quanto à predominância absoluta de personagens e temas urbanos, isso também é reflexo de um mundo que se tornou, ao longo do século XX, quase que absolutamente urbano. O Brasil, por exemplo, era 70% rural nos anos 1940. Não surpreende que os anos 30 do século passado tenham gerado uma vasta literatura regionalista que tematizava o sertão e outras regiões não urbanizadas do interior do país. Hoje a sociedade brasileira é cerca de 85% urbana. E mesmo a população rural tem hoje em dia um estilo de vida e valores bastante parecidos com os que predominam nas cidades. Não surpreende, portanto, que a literatura atual contenha essa abundância de temas e personagens urbanos que você menciona.

 

Percebe-se, nos contos deste seu livro, um trabalho formal em que você lida com o fracionário, o fragmento, o inacabado. Com isso você buscou refletir a realidade do nosso tempo? Em que sentido?

Sim, nesta reunião de contos sobre o fim do amor, alguns textos se formam com a justaposição de visões diferentes sobre um mesmo acontecimento, divisão de uma história de amor ao longo de alguns meses, coletânea de mensagens trocadas pelos dois membros de um casal, uma junção de curtíssimas histórias de amor/desamor contadas apenas no que elas têm de essencial, em três ou quatro parágrafos… A era do Google, do WhatsApp, do YouTube, do Tinder, do Netflix, do Spotify, da Amazon, das redes sociais, dos jogos eletrônicos, dos portais de pornografia disponíveis para todos na internet é, por excelência, a era do fragmentário, do inacabado, das pílulas de informação, do saltar de uma canção para outra, de um vídeo para outro, de um filme para outro, de um perfil para outro, de uma busca para outra sem nem ao menos ler, ouvir ou ver tudo o que a tela oferece. Além disso, é comum fazermos várias coisas ao mesmo tempo, dividindo ainda mais nossa atenção. Isso tem tido reflexos na sensibilidade e na capacidade de compreensão das pessoas, que já não conseguem manter-se atentas na mesma coisa por um longo tempo ou fazer um esforço de compreensão do que não possui um significado evidente. Se não tivermos uma satisfação imediata de nossas expectativas, simplesmente abandonamos o que estamos fazendo e saltamos para outra coisa. A segmentação de alguns de meus contos busca dialogar com essa realidade ainda nova para todos nós. Aparentemente a era dos grandes panoramas, das grandes narrativas, das abordagens totalizantes, terminou, até mesmo pela prosaica falta de tempo do leitor comum para se engajar na leitura de um Fausto ou uma Guerra e paz. Do mesmo modo, grandes conceitos como “conhecimento”, “liberdade”, “verdade”, “progresso”, “nação” foram estigmatizados como legitimadores de uma autoridade intelectual e política anacrônica e conservadora. De modo que a realidade contemporânea nos convida o tempo todo a pensar sobre o pequeno, o efêmero, o imperfeito, o inacabado.

 

Como surgiu a ideia de escrever este livro?

Sou grande apreciador de museus e os visito regularmente. Tenho tido a oportunidade de fazer isso em muitos lugares, no Brasil e no exterior. A experiência museológica mais marcante que já tive não foi em alguma das grandes instituições de Nova York, Londres ou Paris. Foi numa pequenina, chamada Museu das Relações Terminadas, que fica na cidade de Zagreb, capital da Croácia. Faz uns cinco ou seis anos que passei ali toda uma tarde, contemplando seu acervo de objetos que remetem a histórias impressionantes de relacionamentos afetivos que tiveram um fim com a separação ou a morte. Quando saí para a rua, ainda comovido, me veio a ideia, ainda vaga e fugidia, de escrever uma série de histórias que focalizassem o momento em que o amor acaba, que refletissem sobre os descaminhos da vida que provocam a separação de pessoas que um dia se amaram. Mas não estou bem seguro de que a ideia surgiu ali mesmo. Um livro vai se formando bem devagar, ao longo de muitos anos, no espírito do escritor, a partir de suas experiências, conhecimentos, leituras, conversas com outras pessoas, acontecimentos de seu tempo. De modo que é sempre difícil precisar um quando, um como ou um por quê. Além disso, a necessidade de escrever é sempre prioritária em relação ao tema. Há grandes obras sobre quase nada ou sobre temas aparentemente pífios. Em meu caso, a partir de uma inquietação direcionada para a escrita, gosto de escolher um tema e produzir uma série de contos sobre ele. De todo modo, embora seja um aspecto importante, o tema costuma ser secundário.

 

Para finalizar, como você vê o que se tem feito na literatura brasileira hoje?

Eu diria que a literatura brasileira de hoje vai muito bem. Há uma grande quantidade de excelentes escritores fazendo coisas muito variadas e focalizando, pelos mais diversos pontos de vista, este momento terrível pelo qual o Brasil está passando. Para ficar apenas em alguns que admiro, eu citaria Milton Hatoum, Michel Laub, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Adriana Lisboa, Cristóvão Tezza, Conceição Evaristo, Chico Buarque, Ricardo Lísias, Bernardo Carvalho, André Sant’Anna, Marçal Aquino, Bernardo Kucinski, Julián Fuks… e por aí vai. Por outro lado, há uma grande quantidade de editoras pequenas publicando autores desconhecidos, algumas delas com excelente produção gráfica, o que estimula novos talentos literários que não teriam oportunidade em editoras grandes e prestigiosas. Se a crítica literária mais séria está hoje encastelada na universidade, há uma enorme e positiva proliferação de sites, blogs, videologs e canais no YouTube tratando de literatura, debatendo-a e oferecendo orientação para escritores e leitores. Há feiras literárias de norte a sul do país, mesmo em cidades pequenas. Apesar de a literatura sofrer hoje muita concorrência do entretenimento audiovisual, ela segue tendo um público crescente e fiel. Claro que existem a catástrofe de nosso sistema de educação, o analfabetismo funcional de grande parte da população, muita gente não conseguindo suprir sequer suas necessidades mais básicas de subsistência, a dificuldade de acesso ao livro nas regiões menos estruturadas, o apego vicioso à tela do telefone móvel. Se com tudo isso ainda se faz uma literatura de excelente qualidade no Brasil e ela ainda mantém e expande o seu público, temos razões para estar otimistas.

 

 

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Entrevista com Adriano de Paula Rabelo, sobre “Ouriço: senso incomum”




Senso incomum nos tempos líquidos

 

Entrevista com Adriano de Paula Rabelo

 

Acaba de ser publicado, pela editora Aglaia, de São Paulo, o livro Ouriço: senso incomum, do escritor mineiro Adriano de Paula Rabelo. A obra é composta por uma coletânea de frases sobre os grandes temas da humanidade: o amor, a morte, Deus, o tempo, a política, a linguagem. O autor, que no ano passado foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e neste ano foi indicado ao Prêmio Jabuti por seu livro de contos Desabraçar, falou nesta entrevista sobre seu novo trabalho.

 

Seus aforismos, em grande parte, buscam desconstruir frases feitas e expressões consagradas repetidas por muita gente em nossa cultura. O que o levou a fazer isso?

 

Tudo o que é repetido indefinidamente gasta-se e perde força expressiva, passando a não mais dizer muita coisa. Lembro-me de um episódio da infância, no finalzinho dos anos 1970, quando eu disse a palavra “bunda” diante de meu avô, que era um homem bastante severo, à antiga. Aquilo provocou-lhe um escândalo inaudito, e fui duramente repreendido por pronunciar aquela barbaridade, aquele termo tão assombrosamente vulgar. Eu, que muito respeitava meu avô, fiquei sem saber onde enfiar a cabeça. De lá para cá, a palavra foi sendo usada com tanta frequência que foi perdendo a conotação negativa até se tornar um vocábulo comum, presente até mesmo na fala dos mais pudicos, dos mais educados e dos mais elegantes. É preciso sempre renovar as formas de expressão, enxergar o mundo por outros ângulos. Nenhuma ideologia, nenhuma religião, nenhum discurso, enfim, abarcam a complexidade da realidade e a vastidão da vida. Sempre ficam lacunas, interditos e não ditos clamando por serem expressos. Por isso a literatura, a arte em geral, e a reflexão crítica são infinitas.

 

O Brasil e o mundo vivem atualmente uma crise da linguagem, não?

 

Sem dúvida. A internet deu voz pública a todo mundo. Basta acessar as redes sociais ou os fóruns de discussão, postar um vídeo no YouTube. O que teoricamente seria algo bom, por ser democratizante e por ampliar os horizontes de todos nós, tornou-se um inferno de insultos, banalidades e vulgaridades de toda sorte, com pessoas vivendo e pensando exclusivamente dentro de uma bolha ideológica, exalando preconceitos e extremismos por meio de uma linguagem miserável. Foi o que vimos nas eleições do ano passado, em que não houve um debate construtivo de ideias, com argumentos válidos. Assistimos à apoteose das fake news, da bestialidade nas falas, da polarização estéril. E tudo isso gerando popularidade e dividendos políticos! Vimos certas palavras não mais dizendo o que elas significam, tais como “ideologia”, “comunista”, “nazista”. O sentido em que foram e ainda têm sido usadas se caracteriza por ser muito pessoal ou, no máximo, do âmbito de determinados grupos, constituindo uma espécie de autoverdade. Mas a linguagem é a grande mediadora que nos liga numa comunidade, e os sentidos das palavras têm uma história comunal. Quando passam a ser usadas pessoalmente ou com sentidos arbitrariamente dados a elas por grupelhos ideológicos, está rompida a capacidade de nos compreendermos e está aberto o caminho para a prática de abusos e violências. No Brasil e no mundo de hoje, parece que todos falam, mas ninguém ouve ninguém. Nem tem a disposição de fazê-lo.

 

Você identifica, na cena pública, um grande descompasso entre o que se diz e o que se faz?

 

O tempo todo. Agora mesmo estamos diante desta crise em que um ex-juiz e um procurador federal, que se autoproclamavam paladinos da moralidade na luta contra a corrupção, revelam-se como o Tartufo e o Falstaff da atual cena pública brasileira. Recentemente, na campanha eleitoral, vimos políticos gabando-se de não serem políticos. E desde sempre temos essa polícia, em grande parte apodrecida, em simbiose com o crime que deveria combater. É o mundo às avessas. Nossos filhos estão sendo educados assistindo ao mais deslavado cinismo das falas – em geral de moralistas – na esfera pública do país, amplificadas pelos meios de comunicação hoje onipresentes. É um tempo de trevas que, como sociedade, teremos de lutar muito para superar.

 

Voltando ao livro, como surgiu e o que ele possui de especial?

 

Sempre gostei de frases que dizem muito com poucas palavras. Durante muito tempo fui até um colecionador delas, primeiramente num caderno, depois no computador. Como sou um leitor voraz de todo tipo de assunto, elas sempre frequentaram meu dia a dia. Com o tempo, comecei eu mesmo a escrever minhas próprias frases a partir de observações e reflexões sobre a realidade, os acontecimentos pessoais e coletivos, as perplexidades que todos tempos diante dos mistérios da vida. Depois de vários anos, percebi que possuía material para um livro, este que está sendo lançado agora. Se é que ele possui algo de especial, é uma perspectiva peculiar a um sujeito ao mesmo tempo do interior de Minas e do mundo que está muito ciente dos limites de seu conhecimento, da fugacidade da vida e da fragilidade das coisas humanas.

 

 Por que Ouriço?

 

Os pensamentos expressos pelos aforismos contidos no livro se pretendem “espinhosos”, perturbadores, críticos, indo na contracorrente do senso comum. Mas, sem perder a ternura, em vários momentos são líricos, poéticos também. De modo que o ouriço, um animal cheio de espinhos mas não agressivo, é uma boa imagem para exprimir isso.

 

Na literatura contemporânea, proliferam-se as obras curtas e fragmentárias. Você acredita que essas formas simples e breves são expressão de uma era em que as pessoas vivem correndo de uma atividade para outra, de um relacionamento para outro, sem ter tempo para quase nada?

 

Sim, infelizmente, pois sou fã dos trabalhos extensos, com uma ampla abordagem da existência. Pensemos em Guerra e paz, de Tolstói, Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Em busca do tempo perdido, de Proust, Fausto, de Goethe, Os miseráveis, de Victor Hugo, Os sertões, de Euclides da Cunha, Odisseia, As mil e uma noites, A divina comédia, D. Quixote, a Bíblia… Ninguém devia morrer sem ter lido essas grandes obras. Mas vivemos hoje os tempos líquidos, na definição de Bauman, em que tudo surge para não durar, não apenas as mercadorias, mas também as relações humanas, o trabalho, os projetos de vida. Numa época em que não temos tempo para quase nada, em que saltamos de uma coisa para outra, sem parar, a lógica desse estilo de vida só pode ser a do efêmero e do fragmentário. Embora essa lógica dificilmente abarque muita coisa da existência e do mundo, pode ser poética e profunda, como tantos trabalhos contemporâneos têm mostrado. A criatividade humana é inesgotável.

O livro Ouriço: senso incomum pode ser adquirido no site www.amazon.com.br

Minicurrículo
Adriano de Paula Rabelo é autor de livros no campo da literatura e do ensaísmo acadêmico, além de ter publicado traduções de textos literários. Tem atuado como professor de Literatura e Cultura Brasileira em universidades do Brasil e do exterior. Realizou doutorado em Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas. Em anos recentes trabalhou como docente no King’s College London, na Inglaterra, e na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Alguns de seus autores favoritos são Dostoiévski, Tchekhov, Machado de Assis, Eugene O’Neill, Céline, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade. Seu livro de cabeceira são os Ensaios, de Montaigne.

 





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Resenha: Ana Clara Batista de Almeida – O senso incomum de um frasista de primeira: Adriano de paula rabelo




O SENSO INCOMUM DE UM FRASISTA DE PRIMEIRA: ADRIANO DE PAULA RABELO

 

Ana Clara Batista de Almeida

 

Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

Resenha sobre o livro Ouriço: senso incomum, de Adriano de Paula Rabelo.

São Paulo: Aglaia, 2019. 152 páginas.

 

Fazia já algum tempo que eu não tinha contato com um livro de aforismos originais. Em geral, as coletâneas de frases reúnem sentenças pronunciadas ou escritas por personalidades famosas ou recolhidas em grandes obras da literatura, da filosofia e das humanidades, bem como nos livros sagrados. Foi, portanto, com certa surpresa que li Ouriço: senso incomum, de Adriano de Paula Rabelo. Envolvida pelas criativas e provocadoras elucubrações do autor, não consegui deixar o livro até praticamente terminar a leitura numa só sentada. Depois disso ainda voltei a ele várias vezes, relendo várias páginas aleatoriamente.

Dividido em quatro partes – “Sociocultural”, “Sentimentos”, “Linguagens” e “Especulações” –, o livro coleta pensamentos sobre as questões essenciais do homem: o amor, a morte, Deus, o destino, a sexualidade, o sucesso, a felicidade, a beleza… A vivacidade dura, provocadora e espinhosa da linguagem do autor chega a lembrar o estilo do panfletário austríaco Karl Kraus, frasista de muita verve. O humor ácido com que critica os costumes lembra a irreverência do aforista italiano Pitigrilli. O destemor com que vergasta instituições falidas e personalidades reacionárias lembra a postura do jornalista americano H. L. Mencken. Já o deboche com que ataca alguns valores consagrados da nossa época lembra o nosso Nelson Rodrigues, que não por acaso está presente na epígrafe do livro. Não sei se Rabelo conhece todos eles. Nem isso importa muito. Se não se pode falar de influência, certamente se pode falar de afinidades eletivas com esses quatro grandes satiristas do século passado.

Parodiando provérbios, frases feitas e sentenças consagradas nas grandes obras, o autor de fato constrói uma ode ao “senso incomum”. Chacoalha a poeira daquilo que é repetido popularmente ou de forma pretensamente intelectual, automaticamente, sem reflexão, como os cães que latem ao ouvir outros cães latirem. Afinal, qual seria o sentido de se escrever um livro, se for para pensar de novo o já pensado, da mesma forma como já foi pensado?

Se as grandes frases que circulam por nossa cultura – muitas vezes repetidas sem crédito ao autor ou à obra de que se originam – quase sempre constituem sentenças morais ou moralizadoras, pode-se dizer que os aforismos de Adriano de Paula Rabelo são amorais. Eles não se preocupam em moralizar nem inverter simplesmente a moral consagrada em busca de uma originalidade forçada. É como se o autor não se guiasse por um código de moralidade prévio e definidor de suas concepções, que vão se apresentando na escrita ao sabor dos efeitos expressivos, da poesia da sintaxe, da morfologia e da semântica da língua portuguesa.

Vejamos alguns dos recursos utilizados por ele:

 

Aliteração:

“Casamento: recíproco leito de Procusto.”

“Bobos são os bons bombardeados pelo padecer.”

“Amor materno: meio Maria, meio Medeia.”

 

Assonância:

“Os outros compõem um monstro só olhos.”

“O coração é o bobo do corpo.”

“Sem o riso, a realidade nos convocaria ao suicídio.”

 

Metáfora:

“A boa reputação, esse piolho da moralidade.”

“O amor é uma brotoeja da eternidade.”

“A inveja é o subúrbio do ódio.”

 

Antítese:

“Gente fina, pura grossura.”

“Amar é atormentar-se docemente.”

“Um feio assunto rende lindas histórias.”

 

Paradoxo:

“Sofrimento passa, mas é para sempre.”

“Para execrar o cinismo, encontremos um cínico.”

“O silêncio fala demais.”

 

Rima:

“Só se pode ser bonito sem faniquito.”

“Ao burro, basta o urro.”

“Distraídos, desunidos.”

 

Paronomásia:

“Rumores não têm rumo.”

“Um ator: ou atordoa ou atormenta.”

“Mostre-me uma musa e lhe mostrarei um museu.”

 

Intertextualidade e paródia:

“A feiura não está nos olhos de quem vê.”

“A mentira possui pernas curtas porém asas longas.”

“O homem é a desmedida de todas as coisas.”

“Os que não viram e creram, deles é o reino da manipulação.”

 

Jogo com o duplo sentido das palavras:

“A paixão é cega e surda, mas não muda.”

“O homem grávido é algo que não se pode conceber.”

 

Humor:

“O pior voyeur é aquele que não quer ver.”

“Amor: óleos nos olhos.”

“Quando conseguir me encontrar, me direi poucas e boas.”

“Há poemas sublimes como um furúnculo.”

 

Essa verve espinhosa está em consonância com a metáfora do “ouriço” que dá título ao livro. Se se tiver de classificar a filosofia que o perpassa, talvez ela possa ser aproximada de um misto de estoicismo e epicurismo em seu pessimismo e desapego de base. É o que transparece em frases como estas, que enfatizam a fragilidade das coisas humanas:

 

“Recém-nascido é um ser humano velho o suficiente para morrer.”

“A luxúria sempre renasce das próprias secreções.”

“O ser humano está mais para piramboia que para Pirandello.”

“Por dentro de um corpo bonito, apenas um esqueleto horrendo.”

 

Chama a atenção também o diálogo do autor com o momento tenebroso por que estamos passando. Títulos como “Cunha”, “Bozano”, “Skaf”, “Liberalite”, “Homo demens”, “#MeToo” falam por si mesmos. Já no campo das frases, algumas parecem tratar diretamente de absurdos recentes:

 

“O juiz é um sicário vicário.”

“Os linchadores de teclado têm medo de sangue.”

“Quando um político se diz não político, politicalha.”

“Quem entende o que quer procura desentender-se.”

 

Mas o autor também é terno e lírico em alguns momentos:

 

“No abraço da infância, a vetustez se desmancha.”

“Ser o que meu cão acredita que sou.”

“Uma bela boca vale mais que belos ditos.”

“Os momentos felizes, não os passamos, nós os possuímos.”

 

Enfim, Ouriço: senso incomum é um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos, seja pela qualidade da expressão do autor, seja pelo conteúdo filosófico e a poesia das frases, seja pela renovação de um gênero secularmente explorado, seja pela discussão leve mas profunda de problemas fundamentais da humanidade, seja pelo debate acerca das misérias do nosso tempo. Parece-me que desses novos autores, a maioria desconhecidos a publicar por editoras pequenas, faz-se hoje a literatura brasileira mais interessante.

 

O livro Ouriço: senso incomum pode ser adquirido no site www.amazon.com.br




Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Ivan Neves Marques Júnior – Chacoalhando o senso comum




Chacoalhando o senso comum 

Ivan Neves Marques Júnior

 

Mestre em Estudos Clássicos – Universidade de São Paulo

 

Resenha da obra

Ouriço: senso incomum, de Adriano de Paula Rabelo

São Paulo: Aglaia, 2019. 152 páginas

 

 

Aforismo é uma sentença de cunho moral ou prático que, de certa forma, sintetiza um pensamento e eclode no raciocínio do leitor. Por óbvio, essa é apenas uma das formas de se definir um aforismo. Mas ela se encaixa na percepção resultante dos muitos que encontramos na mais recente obra de Adriano de Paula Rabelo, intitulada Ouriço: senso incomum.  Segundo o autor, o título da obra tem a ver com o desejo de perturbar e estabelecer uma crítica de comportamento, mas de uma forma pacífica, tal qual o animal ouriço, dócil e ao mesmo tempo repleto de espinhos. Rabelo possui vários livros em seu currículo, mas quem leu seu último trabalho, Desabraçar (se você não leu, leia, pois é muito bom), e agora este, verá que sua última ocupação tem sido desvelar a crueza dos costumes humanos em suas idiotices, hipocrisias, vergonhas, bizarrices, fascismo, vulgaridades etc. E, se esse processo de censura aos costumes (sutil ou mesmo aberta, por vezes dissimulada) permanece, o estilo do autor começa agora a soltar as amarras da norma culta, caminhando com segurança numa plataforma de escrita que se compõe agora de neologismos e uma infinidade de recursos da linguagem, trazendo uma verve refrescante ao domínio de sua escrita. Para que o leitor tenha uma pequena ideia do que isso significa, não há outro caminho para se alcançar a potência de escrita e força narrativa de um Machado de Assis, um Guimarães Rosa ou um Graciliano Ramos.

O livro de divide em quatro seções. Elas compartimentam aforismos que, normalmente (ou seja, não todos eles), singularizam um costume, uma crença, um pensamento marcado pelo senso comum, para tão somente, no mesmo instante, destruí-lo. Esse recurso de singularização e explosão também aparece (embora numa outra variante discursiva) na obra Desabraçar e parece se configurar uma inovadora característica do autor. Essas quatro seções também servem para apontar as maneiras encontradas por ele para desaforar a vida através de seus aforismos. Que os leitores me perdoem o trocadilho, mas ele cabe e é proposital.

Na primeira seção, intitulada Sociocultural, prevalece um riso oblíquo, sarcástico ou até debochado sobre o famoso contrato social, que hoje mais parece um peso a se carregar pela vida, uma espécie de saco de pedras que hedonismo nenhum alivia. A arma mais pesada contra esse tipo de coisa é o riso. É a arma mais poderosa capaz de destruir uma instituição, aniquilando justamente todas suas crendices, insanidades e absurdos, que demais transitam em seu próprio meio, sempre numa corrente cínica, empacotada na mais pura normalidade. Quando, no aforismo Consultas, o autor diz que “O horóscopo é o meretrício da esperança”, não busca com isso desatar a risada, mas cortar o costume pelo sarcasmo, irritando o maneirismo da vida comum pelo quase deboche. E o que dizer de Estirpe: “A Justiça tem classe”? Talvez injusto, não? Afinal todos nós ganhamos 50 mil por mês, não é mesmo? Todos nós recebemos auxílio-moradia, não é verdade? O caminho desse riso é a lembrança de que há entre nós uma constituição social, um tecido feito aparentemente de “contratos” entre seus componentes, em suma, todos os cidadãos. Caia o leitor das nuvens de algodão e saiba que os homens formam um contrato social não por anseios altruístas e colaborativos, mas por instintos de disputa e autopreservação. Isso pode lhe parecer pessimista, caro leitor, mas é o jeito como a coisa é. E seja qual for sua orientação política, Vossa Senhoria há de convir comigo que não vivemos exatamente dias de celebração de pactos sociais, daí o peso em nossas vidas sem que sequer percebamos. Diz o próprio autor: “Civilização é a barbárie enluvada”. Tapa com luva de pelica na nossa esperança de que tudo vai bem.

Recheada de torções de frases feitas, a segunda seção traz aforismos sobre os Sentimentos. Que me perdoem os leitores, mas acabei de ler o livro e talvez ele tenha me contagiado de certo deboche raivoso, afeto resultante de uma desesperança ou vazio trazido pela vida à maneira como vimos nos aforismos dessa seção. Por óbvio, sempre haverá o mais empedernido defensor do Amor como forma de resgate e esperança para a humanidade… Mas, de verdade, será que não passou da hora de sentarmos e discutirmos nossa relação com o Amor? Quem sabe não possamos fazer isso à noite, com uma taça de vinho e… sozinhos! Em resumo, tudo parece uma Brisa em que “O amor é uma ventosidade de esperança”. Esses aforismos “sentimentais” de Ouriço nos ensinam que, no fim, todos estamos sós e que, como nos diz o aforismo Acolá, “O sofrimento vai sempre além de qualquer análise”. No entanto, é importante deixar claro que essa verve antipatética não está a serviço de negar nossos sentimentos ou mesmo o Amor. Tudo sempre é o ser humano. Nesse caso, trata-se de mais uma manifestação do pessimismo do autor para com a nossa espécie, que conflagra ilusões ao mesmo tempo em que parece querer destruir tudo o tempo todo.

Na terceira seção, o livro elenca uma série de aforismos relacionados à linguagem. E é por ela que vazam as desesperanças com nossa existência, como se tudo fosse um fluxo inevitável em que a fluidez da fala revela os conflitos interiores. É verdade que usamos a linguagem para ironizar, debochar ou falar dos nossos sentimentos, como vimos até então. O caso é que agora o autor procura mostrar que a própria linguagem é um instrumento de perturbação. Vou tentar explicar melhor. É como se ele dissesse que a linguagem é uma obrigação algo que burocrática e que está na verdade a serviço de nossa incapacidade de sermos mais colaborativos ou mesmo mais altruístas ou, para usar um termo mais atual, empáticos. Assim tudo o que resta como opção é o silêncio. Quando lemos que “O silêncio é a única sabedoria ao alcance do imbecil”, somos, à primeira vista, levados a pensar nos imbecis, nas pessoas que consideramos imbecis. Mas logo percebemos que, pensando assim, o conceito de imbecil não é algo congelado no tempo em que as pessoas nele se enquadram. Na verdade, ser imbecil é sempre um risco ao qual qualquer um está sujeito, se não perenemente, ao menos ocasionalmente. E o pior é que, se isso for verdade, não seria o silêncio então uma quase imposição a todos nós? Decerto não há como as coisas serem assim. Mas isso prova o quanto aforismos desse tipo podem nos fazer parar e pensar em nosso grande e quotidiano falatório. Se notarmos bem, quase todos os aforismos desta seção propõem uma coisa muito simples nestes tempos de vozerio desenfreado: é melhor que façamos silêncio.

A quarta e última seção traz aforismos que flertam com a filosofia. Não por acaso ela se denomina Especulações. Algumas de suas frases referem-se a pensamentos filosóficos. Parecem querer brincar com a própria metafísica, ao cutucar temas como a verdade (Verdade: “A mentira tem pernas curtas, porém asas longas”), a eternidade (Ensejo: “A eternidade tem seus momentos”) e a liberdade (Punilha: “O indivíduo, esse caruncho da liberdade”). Ai de ti, Adriano, quando encontrares Kant ou Aristóteles! A seção se estende em outros temas, tais como vida, homem, livre-arbítrio etc. Tudo para estender o tapete da inconfiabilidade também do pensamento. Mais um desenrolar do convite à desesperança produtiva. Em Ecce hinc: “Além do horizonte há outro horizonte”, por exemplo, além da referência a Nietzsche (Ecce homo), o autor brinca com a expressão esperançosa de se encontrar algo além de onde podemos ver. Para ele, a esperança não leva a lugar algum, pois sempre há algo mais a se esperar. É melhor que nos concentremos no nosso caminho, no agora. Uma seção destinada ao discurso habitual dos aforismos é uma forma de homenagear a filosofia, mas também de apontar a miserável condição humana frente aos desafios de seu próprio pensamento.

O título do livro é autoinstrutivo. A intenção é claramente colocar um ouriço na sala e perguntar quem tem coragem de mexer com ele. O objetivo é garantir que se possa cutucar qualquer um a respeito de qualquer coisa, garantida a preservação do próprio animal. Trata-se de um pequeno manual de desconstrução minimalista, que faz fluir certo pessimismo e desesperança. Por outro lado, essa desconstrução é uma ferramenta que nos possibilita repensar nossos modos de escolha, de vida e de constituição social. Daí, talvez, a escolha por aforismos assemelhados àquilo que damos o nome “pílulas de sabedoria” para uma vida mais empática e equilibrada, quando, de fato, parecem “pílulas de sabedoria” para que repensemos nossa forma de atuar no mundo e transformá-lo. Trata-se de uma excelente contribuição de Adriano Rabelo para uma época de gente parva no comando de uma nação que perdeu a capacidade de pensar.

 

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CÂNONE E RENOVAÇÃO NA LITERATURA




Antologia de ensaios revistos, publicados no Brasil e no exterior, por Luiza Lobo, reúne 15 ensaios expostos em conferências e publicados em anais de congressos e em revistas especializadas, totalmente revistos e com bibliografia atualizada. O livro se compõe de três partes: 1- Escritoras 2- Escritores 3-Teorias da escrita.

Na Parte 1, os ensaios pretendem discutir a literatura de escritoras da América Latina, tanto do Brasil como de língua hispânica, e a questão do pioneirismo na literatura no continente, sempre tendo em vista a criação de novos cânones, inclusive em face do cânone ocidental, como em Virginia Woolf. A ensaísta apresenta as principais escritoras brasileiras, tais como Clarice Lispector, Dinah Silveira de Queiroz, Maria Firmina dos Reis, a primeira escritora brasileira, entre outras. A definição de literatura de autoria feminina sempre se define por aquela escrita por mulheres, não sobre elas.

Na Parte 2, diversos ensaios tratam em profundidade da obra de Joaquim de Souza Andrade, o Sousândrade, mostrando os recursos da épica romântica reinserida no clássico e no renascentista, pelo poeta maranhense. Há também um ensaio psicanalítico comparando Machado de Assis a Edgar Allan Poe, à luz de Freud.
Na Parte 3, Simone de Beauvoir e sua crítica realizada pelas feministas mais atuais são comparadas e suas teorias dissecadas em face do feminismo atual, visando a apontar novos caminhos teóricos.

Em todos os textos a perspectiva é o hibridismo, o cosmopolitismo, o nomadismo, o cronotopo (dimensão espaço-tempo), a intertextualidade e a interculturalidade – linhas que caracterizam a condição pós-moderna, explicitada em ampla bibliografia, que abrange a teoria literária e a literatura comparada. 

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Resenha: Ivan Neves Marques Júnior  – Resenha de Desabraçar, de Adriano de Paula Rabelo




UM LIVRO DENSO NA ERA DOS “MEMES”

Ivan Neves Marques Júnior

Doutorando em Latim pela Universidade de São Paulo

 

Resenha de Desabraçar, de Adriano de Paula Rabelo

São Paulo: Patuá, 2018. 198 páginas

 

A última frase do letreiro colocado na porta do Inferno, por Dante versado na “Divina Comédia”, traz os seguintes dizeres: “Lasciate ogne speranza, voi ch’entrate” (“Abandonai toda a esperança, vós que entrais”). Ali, depois que leu todos os dizeres daquela inscrição na entrada, Dante logo reclamou com seu mestre, Virgílio, sobre a dureza daquelas palavras. Afinal, o que pode doer mais? A destinação ao inferno ou uma placa, na sua porta, dizendo que qualquer fio de esperança deve ser deixado na sua entrada?

Não sei por quais trâmites do meu pensamento, minhas sensações ao término do primeiro conto de “Desabraçar” (Adriano de Paula Rabelo, Patuá, 2018, 198 páginas, R$ 40,00), cujo título é “Só se morre sozinho”, me remeteram a este trecho do poema de Dante Alighieri. Nesta primeira estória, um homem aidético e hospitalizado narra, no presente, os momentos em que seu quadro de saúde piora enquanto sua fragmentada, desestruturada e traumatizada família, perdendo a esperança, assiste à sua passagem pela porta do inferno. Esse personagem, levado às consequências dos seus atos, nos conta também que eventos, conduzidos por ele, levaram-no àquela situação e corroeram a vida de todos seus familiares.

O leitor, numa perplexidade paulatina, sente, logo nas primeiras páginas da obra, um soco no estômago e, de cara, é surpreendido pela estrutura narrativa adotada pelo autor: personagens-narradores contam, em primeira pessoa e no tempo presente, uma estória de suas vidas que, por sua vez, se torna o pretexto para uma narrativa subjacente, no tempo passado, cuja conexão com a atual é cronológica, mnemônica ou afetiva. Essa estrutura, heterodoxa àquela habitual dos contos (que conta com um conflito claramente demarcado no tempo e no espaço, reservando à narrativa um momento de clímax), faz com que os eventos do tempo passado eclodam no tempo presente, trazendo simultaneamente para esse instante o conflito e o clímax.

Assim, a mistura entre o impacto do conto de entrada e o volume conflitivo dos demais, associados a essa “sui generis” forma de contar uma estória, deixam o leitor com uma sensação de estar à deriva, “abandonado” pela falta da conhecida estrutura das narrativas a que está habituado a ler e pego de surpresa no meio de acontecimentos em que a crua realidade da vida (repleta de dissoluções, mentiras, crises conjugais, abandonos, morte etc.) se revela inexorável.

É preciso muita coragem para, hoje em dia, iniciar um livro dessa maneira e, sobretudo, construí-lo numa estrutura assim. Vivemos num mundo de cínicos reducionismos. Um mundo que, por exemplo, tenta nomear suas figuras midiáticas por meio de letras e números: CR7, R9, H13, B17… Infelizmente, não se trata mais de dizer que perdemos o fôlego para o argumento mais trabalhado, o texto mais alongado e estruturado, para os sermões de Vieira ou para um simples livro sequer. Nós já perdemos tudo: a palavra, a frase, o parágrafo… Já tentou você, leitor, argumentar contra um “meme”?

Este mais novo trabalho de Adriano de Paula Rabelo, talento que desponta em nossa reduzida safra de escritores, é um alívio neste nosso inferno em que o caldeirão é a mídia e as redes sociais o tridente.

Tal como a vida, que traz momentos de desilusão, outros de resignação (aquelas situações em que dizemos que tudo poderia ser pior), outros de desamparo, tristeza, raiva ou desencanto, os contos assim se alternam desencadeando as descobertas da vida tendo como chave o advento da morte, presente ela própria por vezes e, em outras, figurada, na forma de uma mudança de residência ou de um relacionamento que acabou. O saldo, porém, é a conclusão de que não há abrigo para a nossa condição humana. Somos invariavelmente levados pela correnteza da vida social, do instinto de sobrevivência, de procriação, e até mesmo de nossas vontades, sobre as quais, na verdade, não exercemos controle algum.

O livro traz essas lições numa escrita fluida, que em muitos momentos lembra a prosa de Machado de Assis, sobretudo nas elucubrações dos personagens quando retratam, eles próprios, sua relação com os outros.

Não obstante o estilo do autor ainda revelar a necessidade de soltar um pouco mais sua escrita, desprendendo-a da norma culta e deixando-a mais próxima das condições psicológicas ou emocionais do personagem, seu texto tem o mérito maior de adequar seu estilo à atmosfera presente no conto, de tal modo que acabamos sentindo o pesar dos instantes de morte e desencanto com a vida, a platitude da velhice que vê o fim da vida chegar e até mesmo a doçura da criança que se vê de repente pertencente a uma nova família por ocasião do casamento do pai.

A se lamentar somente uma coisa. É uma pena que um livro tão bem escrito e que muito pode nos ensinar seja, aqui no Brasil, uma obra para iniciados na literatura. Por que um país desse tamanho não é um berço onde autores com Adriano Rabelo e tantos outros possam ser nutridos? A vida tem seus requintes de crueldade, não é mesmo? Não bastasse sermos um país de poucas livrarias e de bibliotecas sucateadas ou mesmo inexistentes, somos agora uma sociedade que só aprende vendo “memes” nas redes sociais. Não temos mais tempo nem paciência para a leitura, para depreender um argumento, para analisar uma obra artística em toda sua completude. Leia “Desabraçar” e suas eclosões de sentimentos e você entenderá o que estou tentando aqui dizer. Você se deparará com pensamentos e emoções que sequer tinha percebido ou, no melhor dos casos, esqueceu-os. Aí então você, leitor, perceberá que a riqueza da vida é o que realmente importa, e não a nova mensagem que te chama no celular. Poderá ver a diferença entre a perenidade da existência em toda sua complexidade e a efemeridade e tosquice dos “memes” sobre política e outras bobagens. Você vai se lembrar de uma passagem bíblica, bastante repetida nesses últimos dias: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”. Mas se prepare, pois a verdade e a liberdade são verdadeiras entidades humanizantes, com todo o significado que o termo abarca e que nem sempre estamos preparados para entender.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

Rosalia Milsztajn fala de sua Literatura




Entrevista a Luiza Lobo por Rosalia Mitsztajn, em 19 de abril de 2018, sob forma de depoimento.

ROSALIA MILSZTAJN FALA DE SUA LITERATURA

Meu primeiro poema surgiu de forma inusitada, aos quase quarenta anos de idade. Como uma música, o primeiro verso veio em minha cabeça durante uma madrugada que me levou a escrever quase para conseguir dormir. E com este verso, aconteceu todo um poema que, de forma lírica, contava sobre minha infância.

Um processo iniciara-se: a revelação de minha identidade de poeta camuflada por traumas de infância. Lembrei-me dos concursos literários dos quais fui vencedora na infância, mas ignorados por minha família, assim como o meu talento de bailarina, artes que não desenvolvi. E, assim, só tardiamente comecei a escrever poesia.

A partir desse poema, que acabou ganhando um concurso, publiquei meu primeiro livro em 1991, chamado No azul, pela editora Imago. Acresci à atividade profissional de médica e psicanalista, que exercia em meu consultório, a frequência em oficinas literárias, como por exemplo, na Biblioteca Nacional, além de participar de saraus, noites e noites de recitação e encontros com poetas, o que fortaleceu meus estudos e leitura intensa de poesia.

Cinco anos depois, em 1996, publiquei meu segundo livro, Itgadal — memória dos ausentes, pela editora Diadorim. Depois veio o terceiro, em 1999, Luminosidades, pela editora 7Letras, logo após ter sido vencedora do Prêmio SESC de Poesia do Rio de Janeiro.

O quarto livro — Aqui dentro de mim – foi publicado pela editora Aeroplano no ano de 2003.

De 2003 até 2010 participei de várias antologias, jornais e publicações, como por exemplo, Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional.

Curiosa com  todo o meu processo de escrita, quis aprofundar meus estudos literários com a especialização em Literatura na PUC do Rio de Janeiro que fiz nos anos de 2005/2006.

Somente depois desses sete anos sem publicar livros, inaugurei em minha escrita uma prosa que se revelou em pequenos contos que publiquei no meu quinto livro A história dos seios, pela editora 7Letras, em 2010.

Em 2014 voltei à poesia e publiquei, pela editora Patuá, o livro Esse recorte, que acabou ganhando o Prêmio Literário de Poesia do Pen Clube do Brasil do ano de 2016.

Meu mais recente livro, publicado neste ano de 2018, editado também pela editora Patuá, volta aos pequenos contos e chama-se Era uma vez e outros contos.

 

Por que poesia?

Poesia, porque ela me chegou pronta dessa forma em minha experiência inaugural da escrita. Como aquilo que muitos não gostam de chamar inspiração.

Com o passar do tempo a espontaneidade cedeu lugar a um trabalho árduo de elaboração, com a escrita juntando-se à inspiração, que precisou ser estimulada e exercitada através de estudos e de leituras de poetas.

Mas acho que tenho uma capacidade de síntese, uns insights também desenvolvidos com a minha profissão de psicanalista e certa franquia ao inconsciente, o que facilita um pouco o acesso ao “ainda”, como dizia o grande Drummond, o lugar onde as palavras nascem e que não estão prontas.

 

Meus livros e leituras prediletas

Meu livro predileto é o de 2014, Esse recorte, que acho mais bem elaborado, fruto de certa experiência com a escrita de poesia.

Mas tenho também muito apreço pelo meu primeiro livro, No Azul, de 1991, com o qual me revelei poeta e, por último, A história dos seios. de 2010,  no qual comecei a esboçar uma pequena prosa poética.

Uma grande parte de minhas leituras foi para estudos em Medicina, a profissão em que me formei; e, por muito tempo, anos, li somente livros de estudos médicos. Depois, como psicanalista, lia praticamente a literatura psicanalítica e pouco tempo me sobrava para a poesia e a literatura em si.

Mas lembro de que lia muito na infância, contos de fadas, Monteiro Lobato, e tudo o que me caía nas mãos. Na adolescência li muitos romances de Machado, Herman Hesse, Graciliano Ramos, A.J, Cronin.

Não me interessavam escritores médicos como Pedro Nava ou Guimarães Rosa, pois ainda não tinha feito essa dobradinha comigo mesma, de médica-psicanalista e poeta. Me interesso por poetas da língua inglesa, francesa e da nossa, como Drummond, Cecília Meireles, Clarice Lispector.

 

Poesia e prosa com minhas questões judaicas e emocionais

Não escrevo especificamente sobre minha condição judaica, rituais judaicos de luto ou cemitério. Os livros que escrevo são um pouco despertados, isto é, se iniciam com o estímulo, ou um pouco ao sabor daquilo que eu esteja vivendo no momento.

É verdade que meu segundo livro, Itgadal, memória dos ausentes, de 1996, traz alguns desses elementos, pois foi um livro que escrevi enquanto vivia as mortes de entes muito queridos e outras perdas das mais diversas. A escrita desses poemas me remetia à identidade dos meus pais, e me direcionavam aos rituais e cultura religiosas segundo os quais fui criada; escrevendo, eu elaborava essas perdas.

O meu quinto livro, A história dos seios,  também se iniciou com uma situação muito forte emocionalmente, com um câncer de mama que, pelo fazer literário, se transformou  não em um livro catártico, de autoajuda ou médico, mas um belo livro de pequenas histórias em que a prosa e a poesia se revelaram de um jeito que agradou  muito ao público em geral, despertando muito interesse.

Meu último livro já foi lido como pequenas histórias autobiográficas e ao mesmo tempo, como usei a invenção, o novo estilo se aproximou mais de uma prosa poética. Realmente, poderia ter escolhido um romance para descrever melhor a minha história, romanceando-a com minha imaginação, e, talvez ficasse um livro mais grosso. Na verdade, não sei ainda muito bem qual é este estilo que comecei a usar no livro A história dos seios, e que de certa forma continuei no Era uma vez e outros contos, porque os dois são de prosa, mas muito imaginativos, como a poesia. Poema em prosa, talvez, me faz lembrar de Baudelaire ou ainda, Rimbaud em sua Temporada no inferno.

Muitas histórias, ali, são autobiográficas e eu teria muita dificuldade em ser fiel a elas se as colocasse em forma de poesia. Por outro lado, uma prosa sintética talvez seja como uma flecha de percepção, que permite ao leitor se identificar com os contos, apesar de serem autobiográficos. Afinal, certos cheiros, lugares, cores foram vividos também pelo leitor, que pode assim se identificar com os meus contos, e estes saírem de um lugar estreito que é somente a autobiografia, e se universalizarem.

 

Literatura e Psicanálise

Não distingo meus livros de poesia e de prosa, nem, dentre eles, o do câncer de mama, por terem alguma aproximação com a medicina ou a psicanálise, e de forma alguma seriam didáticos.

Cada livro que escrevo, seja de prosa ou de poesia, revela  ou esconde uma parte de minha vida e também estágios de amadurecimento com a escrita e as revelações que me leio e me estudo através deles.

Como mencionei anteriormente, cada livro, pelo menos no começo, nasce inspirado, como também ocorreu com o livro sobre o câncer de mamas. Escrevi por uma necessidade íntima profunda, com  nos fala o poeta  Rilke, um desejo imperioso que não poderia deixar de realizar. Não com o objetivo didático, médico ou psicanalítico. Aliás, não tinha o objetivo de escrevê-lo, senão, e tão somente, de escrevê-lo.

Acredito que o meu fazer literário não expressa minha atividade psicanalítica ou médica.Talvez qualidades que tenho e que sejam comuns às três funções, ou o estar-no- mundo, que seriam: sensibilidade para apreensão do mundo ao redor, em detalhes, ou seja, uma percepção pelos sentidos, ambas aguçadas; uma grande memória; e uma necessidade de olhar e estar com o outro.





Bio fornecida pelo palestrante.

Heliete Vaitsman descobre passado nazista nos pedalinhos da Lagoa




 

Rio de Janeiro, março-abril de 2018.

VAITSMAN, Eliete. O cisne e o aviador. Rio de Janeiro, Rocco, 2014.

Entrevista a Luiza Lobo

 

HELIETE VAITSMAN DESCOBRE PASSADO NAZISTA NOS PEDALINHOS DA LAGOA

Formada em Comunicação e em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e em Didática da Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, foi jornalista das áreas cultural e internacional e colunista especializada em saúde em O Globo e Jornal do Brasil. Atualmente, é editora e tradutora. Autora de Judeus da Leopoldina (Rio de Janeiro, Museu Judaico, 2006), teve seu primeiro romance, O cisne e o aviador (Rio de Janeiro, Rocco, 2014) selecionado como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2015.

 

Seu livro é tocante na construção das personagens femininas. Há uma delicadeza e uma intimidade com elas que parecem indicar um “roman à clef” retirado da realidade. Você utilizou modelos reais para as personagens ficcionais?

R – Sim, houve modelos reais de mulheres que me serviram de inspiração. Como neta de imigrantes judeus poloneses, testemunhei na infância os embates e a profunda dor daquela gente. As três personagens femininas circulam em liberdade num Rio de Janeiro ameno, arborizado, de classe média, entre vizinhos amáveis, o Rio dos anos 1950 e 60. Elas ocultam o trauma ligado ao extermínio de suas famílias na Europa. O desejo de esquecer os horrores da Segunda Guerra e projetar o futuro é algo em comum entre elas, ainda que as três não compartilhem hábitos e nem mesmo inserção social. Acredito que consegui torná-las críveis, sem recorrer a estereótipos redentores. Como acontece com qualquer ser humano, de qualquer origem, elas se apaixonam, riem, sofrem, traem maridos, cuidam de filhos.  É necessário que o leitor acredite nas personagens, que vivem além do que o autor diz sobre elas.

 

Até hoje muitos, em seu país, negam que Herberts Cukurs, a personagem real do livro, tenha sido um criminoso de guerra. O Brasil também não o investigou. Como se explica isso?

R – Negar a realidade pode ser cômodo, por um lado, e por outro há a ideologia da extrema direita. Na Letônia, o governo chegou a homenageá-lo com um selo, em 2004, mas diante das pressões de grupos locais defensores de direitos humanos e do governo israelense, retiraram-no de circulação. As tentativas de reabilitar a imagem de Cukurs (pronuncia-se Tsukurs) integram, ainda hoje, um movimento de revisionismo histórico que, em vários países europeus, acontece junto com a ascensão conservadora e os discursos contrários aos imigrantes.

 

  1. Ao iniciar as pesquisas, já imaginava escrever um romance histórico? Como se deu a evolução desta ideia?

R – Sim. Embora eu tenha começado com o foco na personagem principal, Frida, duas coadjuvantes, Rosa e Clara, ganharam importância. São mulheres fortes, “curadas ao sol de Copacabana”, como diz a letra de George Israel ao falar dos sobreviventes de uma Europa antissemita e violenta anterior à Segunda Guerra. Elas aprendem a ir em frente num mundo melhor, numa sociedade brasileira onde ocorrem grandes mudanças. Não seria possível escrevê-las num vazio político e social, e, à medida que eu as construía, a História também se tornava mais presente.

As pesquisas me levaram a entender o papel de Cukurs como criminoso de guerra. Sua participação é uma incógnita. Ele não era importante na hierarquia nazista e não poderia ter sido o organizador do massacre dos judeus letões. Isso não o exime nem o desculpa,  pois foi um daqueles colaboradores frios e sinistros que fizeram parte do trabalho sujo para os alemães em todos os países ocupados. Os eslavos eram desprezados pelos nazistas, que planejaram e organizaram o genocídio.

 

Você acha que esse deslumbramento com os estrangeiros, louros, altos, de olhos azuis, é uma marca de nosso sentimento de inferioridade colonial? Todas as portas são abertas a eles, na pesquisa ou na sociedade, por serem europeus ou norte-americanos.

R- Concordo que essa pode ser uma forte marca, impressa pela elite sobre as demais classes sociais, que nada ganham com ela. As matérias sobre Cukurs na revista O Cruzeiro, então a mais popular do Brasil, são deslumbradas diante da competência do piloto, o estrangeiro bonitão, apresentado como um empreendedor que, depois de colocar os primeiros pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, prometia transformar o local em grande ponto turístico. Em fotos abertas, aparecem ele e a bela filha fazendo esqui aquático. Quem o acolheu, altas patentes militares da época, não tinha interesse em tomar conhecimento do que homens como ele haviam feito durante a guerra. As autoridades da época igualavam os imigrantes estrangeiros – judeus sobreviventes ou antigos colaboradores nazistas – e a única exigência que se fazia a eles era que não perturbassem a “ordem pública”.

 

Em que medida você acha que o seu livro contribui para uma mudança de mentalidade, alertando as pessoas a não serem tão ingênuas, se informarem, lerem mais sobre a história, o passado?

R – Quando os fatos são apresentados sem pieguice nem adjetivação, como procurei fazer, a transmissão da História se dá naturalmente. Claro que o leitor precisa ter vontade de sair daquela zona de conforto que adere ao lugar-comum quando se fala de guerra e de perseguições, onde tudo é explicado como uma luta do Bem contra o Mal, ou dos indivíduos sadios contra os loucos. O Reich de Mil Anos pretendeu apagar tudo o que não fosse “ariano”, da arte à ciência e às pessoas. Os indivíduos deviam aceitar-se insignificantes, sem subjetividade, sem direito a memórias próprias. Mas tudo o que minhas personagens fazem e sentem comprova sua significância, sua singularidade. Acho que a humanidade delas impacta mais o leitor do que se fossem estereótipos.

 

Você não acha que a ingenuidade do Brasil com relação à questão judaica e dos nazistas que viveram aqui é causada pela oralidade e desinformação? Já leu o livro de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector? Achou-o exagerado?

R – O Brasil é muito voltado para dentro, e o que acontece “lá fora”,  para além das paisagens e do turismo, interessa a um grupo reduzido. Mas os  colonizados buscam a aprovação dos estrangeiros. Jornais brasileiros publicam a repercussão de acontecimentos daqui pela imprensa estrangeira, como se o olhar de fora fosse imprescindível! Mas governos não têm ingenuidade. Para os brasileiros em geral os judeus fazem parte da nação, não são objeto especial de apreço nem de desapreço. Foram discriminados no período Vargas, mas depois se integraram completamente. As pessoas com acesso a livros e filmes se horrorizam com o que fizeram os nazistas, e gostam de saber que nazistas foram presos aqui. Não há aqui uma questão judaica.

Gosto do livro de Moser sobre Clarice. O autor repetiu informações já conhecidas, pode-se alegar. Mas sempre citou as fontes e nunca afirmou que queria ser completamente original. Ele quis contar uma história e o faz sem os rodeios com os quais a cultura ibérica fala de temas “delicados”. Por exemplo, a mãe de Clarice teria sífilis por ter sido estuprada antes de imigrar para o Brasil. Como inexistem provas, não se deveria falar disso? Mas convenhamos que nem a CIA e o Mossada juntos poderiam encontrar provas de um estupro no início do século XX nos confins da Ucrânia. Moser segue a tradição norte-americana das biografias. É uma tradição que abomina a censura e a exclusividade do saber.

Outro ponto é que Clarice foi, por muitos anos, qualificada na imprensa como uma brilhante escritora pernambucana, filha de imigrantes ucranianos. Ora, nada mais distante de um ucraniano que um judeu ucraniano! Mas ela teve sua persona pública composta também pelos elogios aos seus pômulos faciais eslavos! Atribuir-lhe “origem” judaica é outro ponto estranho. O que é origem? Ser judeu não é uma nacionalidade, portanto ou se é ou não se é judeu. Para Moser, Clarice entra numa categoria similar à dos Jewish American writers. É uma escritora brasileira-judia.

 

Você costuma ser metódica em sua escrita, ou trabalha por inspiração? O seu trabalho de jornalista lhe deu disciplina de se sentar e escrever até terminar um capítulo ou até terminar uma determinada tarefa para o livro?

Não tenho a disciplina que gostaria de ter. Quando tenho tempo, sento diante do computador e posso ficar cinco horas escrevendo sem parar. O problema é sentar! Deixar de lado outras tarefas, para mergulhar num romance exige uma disposição, uma crença de que o texto terá valor. Por isso mesmo não estou conseguindo finalizar um romance que comecei a escrever há um ano. No jornalismo a gente tem deadlines, no romance não.

 

Quanto tempo levou para escrever este livro? Quais foram as dificuldades que encontrou, após a pesquisa, na escrita propriamente dita? Foi pesquisando e escrevendo, concomitantemente, ou terminou a pesquisa e só então escreveu a ficção? Heloísa Maranhão dizia que após a pesquisa ela fechava os livros e misturava tudo. Mas o resultado por vezes ficava bastante confuso…

Levei dois anos. Primeiro terminei toda a pesquisa, em livros e periódicos da época. Tinha o dobro de informações do que as publicadas, pois minha editora, Vivian Wyler, ponderou que um romance brasileiro não deveria tratar em minúcia de situações específicas, sob pena de tornar-se tedioso. Um exemplo: as polêmicas sobre a invasão nazista dos países bálticos, que dificilmente empolgariam o leitor brasileiro.

Escrevi ao mesmo tempo os capítulos factuais e os ficcionais, ao sabor da minha própria vontade, sem organograma. Quando me cansava do horror nazista, falava de Frida, Rosa e Clara. Até o último momento voltei aos livros de História para conferir fatos. Vi milhares de fotos, mapas, entrevistas. Acabei me tornando “especialista” em Letônia, embora sem nunca haver pisado no país. A dificuldade na escrita, para mim, é encontrar a palavra exata, e encadear as frases num ritmo que tenha alguma beleza. Dou importância ao som, ao encadeamento, ao tom. Reescrevi algumas vezes a fala das personagens, tentando fugir da artificialidade. A voz interior e os diálogos muitas vezes emperram textos com tramas ótimas.

 

Como classificaria seu romance, lírico, histórico ou de metaficcionalidade historiográfica (nova história)?

Se eu fosse Jorge Mautner, diria que é um amálgama, tudo junto e misturado, como o Brasil! Não houve intenção de fazer metaficção, mas talvez seja possível dizer que algo ocorreu nessa direção. Isso cabe à crítica. O que posso dizer é que a parte ficcional foi escrita com a emoção, um fluxo, como num transe em que o autor recebe o espírito das personagens, recria seu modo de falar, sua visão de mundo. A recriação, quando é bem sucedida, é uma maravilha, aquela história do “seja universal, fale de sua aldeia”. O leitor de “O cisne e o aviador” pode entrar alternadamente no espaço literário e no espaço real. Pode refletir diante da política e também sentir empatia diante dos dramas das personagens ficcionais. Pelo menos foi o que eu procurei.

O que é verdade, o que é imaginação, o que são as lembranças? Como jornalista, aprendi a checar todas as informações, a lidar com a realidade sem fantasiar. Como romancista, pude “viajar” nesse tema fascinante que são as memórias e suas relações com a História. No caso, memórias de personagens ficcionais com as quais os leitores podem se identificar. Todorov afirma que as memórias são um terreno de liberdade que só os regimes totalitários pensam ser possível domar. O real que elas recriam não é a realidade tal como ela se apresenta, nem como os romances ditos realistas pensavam que era possível apresentar.

 

Suas próximas obras terão aspectos históricos e jornalísticos, como este romance?

Sim. Gostei muito dessa mescla. O próximo livro está caminhando nessa direção, com personagens europeus e brasileiros e, de novo, as barbaridades e as consequências da Segunda Guerra, as figuras sinistras.  Na Europa, a Segunda Guerra é uma memória viva, assim como na Argentina os anos de chumbo continuam a ser lembrados, ensinados aos jovens. O Brasil oficial é que cultiva uma desmemória.





Bio fornecida pelo palestrante.

Nota sobre novas publicações




As revistas Mulheres e Literatura (antes nota 1-B da Qualis-CAPES) e Literatura e Cultura (antes 2-B da Qualis-CAPES) cessaram após julho de 2017. No entanto, os artigos das revistas antigas continuarão disponíveis.

Resenhas de livros atuais continuam a ser aceitas, contendo dados completos do livro, número de páginas, editora e ano, nome do autor da resenha e cinco linhas de currículo sobre ele ou ela.

Entre outros fatores, pesa a nova forma de avaliação da Qualis-CAPES, inatingível para revistas não institucionais como estas, feitas desde 1997 sem qualquer apoio financeiro. Cremos ter prestado um bom serviço à comunidade de ensino e pesquisa nacionais.

Os números das revistas já publicadas continuarão disponíveis para consulta.

E estarei presente no blog da LUIZA LOBO (em construção).





Bio fornecida pelo palestrante.

Aarhus Poems – Luiza Lobo




Dec. 2005 – Aarhus, Denmark

Christmas at Den Gamle By
First you shrink
To the size of a thumb
Then you step in
The miniature carriage
That shines and lies
on the mantelpiece
And head quickly
to the Old City
The show will soon begin
In the small theater
The stage is crooked and pink
The chairs painted green
and so very uncomfortable
You can barely fit it.
But remember,
you are a dwarf,
don’t worry
Just raise a magic wand and
The music begins
The show must go on!
 
New Year’s Eve and Hope
She came from a land where the sun always shines
And the wind blows lightly
It is many years from now
She doesn’t remember her family
But here the streets are covered with snow
And seem to crack her bones.
The chilly wind that runs through her clothes
has robbed her of her soul.
But she hasn’t lost her hope.
At the sound of the fireworks
She decides that she doesn’t mind
And has the great idea to steps on a bus
She doesn’t know where she is going
Only to the other side.
She hops on the bus but the next stop
It reaches the end of the line.
She hops off and waits for another bus
just like the first
And soon it pops up in the next corner
She hops in and hopes for the best
At least she can rest her tired old feet
and heat her broken breast.
It is at the sound of the fireworks that
She hops off and steps on another bus
Just like the other in that city
She doesn’t remember if she ever got a family
But hopping on and off she got herself lost in the city
She doesn’t know where she is going
Just to the other side
But at the sound of the fireworks she hopes for the best
For sure she will fi
 
Contemplation
Aros
Aarhus
Air hus
Brick walls
Floating steps
Stretch your hand
Reach another dimension
Vertical horizon
Straight lines
White walls
 
Banegaard
Greek temple
Lit at night
Yellow light
Straight tracks
Iron bars
Wait for the next train
To nowhere
At the Banegaard
Where are you going?
Just walking in the Banegaard.
There the noise
There the life that never stops
There the yellow light like in a Greek temple
That makes the station slightly float at night
 
Marseliesborg on a Winter Sunday
When not a leaf on the trees
When not a soul in the streets
When not any life in the woods
Slowly head to the Queen’s Palace.
She won’t be there
But there is an observation booth for the private guard
Waiting for you to spy who is approaching
The Queen may arrive at any moment
Most probably in the next summer.
There the world has stopped
The colors have faded
Only white pervades as far as the woods and clouds go
Movement is gone
People are home.
Step on the garden where the Queen is not
And see the marks of your steps deep into the snow
Only two squirrels and one aligator in iron
Talk around the iced lake stiff with cold
Maybe you want to have a chat and a cup of tea too?
The ivy-stand is white as snow. Nothing stirs.
Not a nightingale, not a cricket, not a crow
All is white
The clouds the grass the roof of the castle
Enchanted by some strange white spell
Winter has come forever
Even the window-panes are ice-surfaced
They have become mirros that stare back at you
But they don’t carry an answer.
 
The Strand Vej in Summer
The Strand Way
The Strange Way
Where you can look for a stone
To sit and fish
There is a canoe
Or the other side of the sea
Where the cliffs are
A sailing boat goes by
As fast as the wind
It drifts constantly driven by a never-ending wind
A wind that never ceases never ends never ever never ends
 
A Spring Afternoon at Rissko Psychiatric Hospital
The Rissko hospital is a palace
Under a spell. You must be careful
Or else you may never come out of it.
Once inside it you will wander by the
French gardens the lawn the old oaks
Full of mystery and you can go up the trees
And catch apples as big as soccer footballs
You can even play soccer if you find someone to play with
The problem is that there is no one around.
In the palace there are so many bedrooms that you can’t count
And the gardens are full of blind alleys
Just pick up a flower and put it on your hair.
You may want to sit on a bench and watch the boats or talk to someone there
The problem is that there are no other visitors
But you are welcome to any of the workshops
Where you can make your own sculptures
Just like those in the garden.
Perhaps a trunk without members or mouth?
Or a face without eyes or brain? You choose!
By producing your own handcrafts or works of art
You will be allowed to wander forever and ever in the alleys without end
And will be let to try alone how to find your way out of the mazes formed by hedges and bushes
It is spring and you can take your time.
Nobody will disturb you there
Except your own thoughts.
At lunch time, remember lunch time?
A big table will be laid just for you
with fish and shrimp and fruit
Juices and pure water and delicious desserts
together with wine, everything beautifully served
And the same for dinner, and lunch, and dinner, indefinetely.
At night you can dance interminably through
the immense ball-room floors where music never stops to play
To sleep you can choose any of the bedrooms
There are no nuts there, not a face, not a soul.
You can look through the windows and watch
The silent sailing boats sailing by
Very silently indeed perhaps there are heading to Ebeltoft.
It is all so peaceful, so very peaceful, so too peaceful
That You may not be allowed to leave this peace, this silence, this dreamy loneliness
Step out of the palace before they see you – there you may be a queen forever.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Luiza Lobo – resenha sobre Elogio do gozo (2013), de Ida Vicenzia




RESENHA – LITERATURA E CULTURA

14 de janeiro de 2017

POR Luiza Lobo

 
Vicenzia, Ida. Elogio do gozo. Contos. Rio de Janeiro, Ponteio, 2013. 88 p.
 
Ida Vicenzia tem uma ampla experiência de jornalista e crítica teatral (atualmente mantém o blog idavicenziablogspot.com). Publicou O teatro católico de Octavio de Faria (RJ, Ponteio, 2013), várias biografias e obras teatrais, e tem vários livros e projetos em andamento.
Elogio do gozo (2013) é seu primeiro livro de contos. Antes, minicontos. 28 em 88 páginas, a maioria de uma a três páginas, além de uma homenagem inicial a Lygia Fagundes Telles. É certo que minicontos são bem diferentes de contos, e mais ainda de novelas. Para começar, minicontos não compõem uma atmosfera completa, com princípio e meio (deixemos o fim para a Poética, de Aristóteles; não é necessário chegar a tanto. Podemos ter uma “obra aberta”, sem final, na expressão de Umberto Eco). Mas é claro que esses insights de situações nos deixam curiosos sobre os personagens, e até sobre os desfechos. Ressentimo-nos bastante de um contexto mais estendido e delineado.
Seus minicontos são em geral escritos em Ich-Erzählung (narrativa em primeira pessoa). Por exemplo, em “Feiticeiro do lago” (p. 57), a narradora se refere a dois homens amados trancados numa chácara – mas não sabemos quem são nem quem é esta narradora. Neste, como em outros contos, o Ich-Erzählung fica muito preso na cabeça da autora/narradora, e o texto só faz sentido como poesia, pela beleza das imagens e palavras escolhidas. Excesso de memória e de imaginário são traiçoeiros; podem se transformar num monólogo ou num solilóquio. Frequentemente não sabemos quem fala, pois é claro que o narrador em Ich-Erzählung não pode realizar todos os papéis. O Ich-Erzählung reforça a ideia de que os contos são escritos como se fossem um diário.  “Cosa nostra” (p. 69-70), passado em Nova York, embora em terceira pessoa do singular. Refere-se ao musical Os Miseráveis, baseado em Victor Hugo. Mas a emoção da West 46th Street, um sequestro, a Broadway… tudo marca a emoção daquele momento. Quase desejaríamos que fosse datado, uma vez que hoje há mais chineses que italianos em Nova York, e há mais Máfia russa que a Cosa Nostra.
Pelo fato de serem tão curtos, com forte eixo metafórico, os minicontos funcionam, portanto, como poesia: à p. 65, “Cena obscena”, temos, realmente, um poema; “a grande orquestra”, p. 71; à p. 54, o miniconto “O garoto” termina com um poema; “Tempo refletido”, p. 55, é um poema. Curioso que nos poemas a narradora é externa, dirige-se a uma personagem que não é ela, ao contrário de nos minicontos. Em meio a esse “O livro dos excessos” (p. 19-22), o/a leitor/a pode perder um pouco o norte, sem entender o enredo, e se perguntar: Mas, afinal, quem é tio Ranulfo?  Quem é Paulo? Lisa Maria? Pedro Borges? (Ver o conto “Pra dizer que te amo, (Lembrando Octavio de Faria)”, p. 43-p. 44). Quem é Paulo louco? O amor é louco? (p. 37). Quem é o “cruel Fernando Lobo?” e quem é o “talentoso jornalista”? – em “La historia de un amor”, p. 35-37). Alguns textos são minúsculos minicontos, como “Álcool ou Prozac?”, de apenas quatro linhas, no qual a narradora assume a ilusão, quem sabe até a poesia diante da vida e do texto, concluindo-o: “Nem álcool, nem prozac: o que a alimenta são as grandes doses de autoengano que toma todos os dias” (p. 61). Aqui a narradora não usa o Ich-Erzählung, mas antes se refere a uma personagem que não é ela mesma, e a opção parece ser, mais uma vez, pelo eu lírico poético.
O ponto positivo dessa narradora que fala em tom de diário é ser sempre uma voz de mulher. Nós nos acostumamos por décadas a ouvir a monocórdia voz masculina nos textos literários. Agora mesmo temos o tonitruante Pablo Neruda no cinema, recitando seus poemas com sua voz empostada que tinham os poetas do passado. A mulher veio, a partir da década de 1970, principalmente, no Brasil, romper com esta formalidade acadêmica e introduziu uma poesia pessoal, subjetiva, minuciosa, cotidiana, até doméstica (por que não?). Talvez por isso a epígrafe do livro é dirigida a Lygia Fagundes Telles, uma pioneira na afirmação da literatura de autoria feminina e a dissertação de Ida Vicenzia versa justamente sobre Cecília Meireles. Mas aqui, como entre as pioneiras da literatura de autoria feminina, presenciamos o uso de um feminismo ligado ao feminino, à delicadeza, que em geral é atribuída à mulher, de forma essencialista, o que é falso, já que tais atributos de feminilidade também podem ocorrer independentemente do gênero, devendo-se mais à cultura e ao contexto de vida do que a uma categoria intrínseca do ser humano. Freud mesmo se inclinou a atribuir à mulher a histeria e ao homem a ação, a racionalidade – armadilha já denunciada por Simone de Beauvoir no pioneiro O segundo sexo, mostrando que tendências de comportamento devem ser atribuídas principalmente à cultura, e não à biologia (ou ao DNA, palavra muito em moda hoje em dia, que é aplicada a torto e a direito em referência a racismo, homofobia ou outras escolhas ideológicas pessoais, jamais herdadas no código genético!). O traço poético feminino da primeira fase da literatura de mulheres do século XX e fins do século XUIX tem mostrado mulheres impreterivelmente gentis e delicadas, com uma sensibilidade à flor da pele. Essa imagem de sensibilidade delicada ocorre em Ida num miniconto que parece valorizar a mulher oriental e seu gozo solitário, num passado remoto (p. 63) – transmitindo uma imagem de equilíbrio e harmonia. À p. 77 há também referência a uma mulher sufi, um poço… Num movimento contrário, nesse livro de Ida algumas mulheres parecem ter envolvimento político, participar de ação, rompendo com o estereótipo do imanentismo feminino como delicado e gentil. A imagem da mulher feminina também habita as páginas de Ida Vicenza sob a forma de um grand jetté, passo elaborado de balé (ver “Nuvem passageira”, p. 67). Mas, ironicamente, é um passo de balé masculino, e se trata de um roubo….
Quase ao final da obra, o conto se pergunta se o é e afirma que é mesmo um conto… (p. 81). A própria autora propõe, em metalinguagem, a definição sobre suas opções literárias, ao recorrer a Mário de Andrade quando ele “diz que conto é tudo o que chamamos de conto”. Mas este apelo a Mario deve-se, claramente, ao fato de que a autora tem consciência de que se trata de um livro que oscila entre a poesia e a prosa poética.





Bio fornecida pelo palestrante.

Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s – Marcela de Oliveira e Silva Lemos




Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s
Reading Lolita in Tehran
 
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
 
Abstract: The writings of the Iranian diaspora, the westbound migratory movement motivated by extreme Islamic regimes and violent conflicts, raise public and scholarly interest especially in regard to their “return narratives”, autobiographical novels by writers moving fluidly between Western and Middle-Eastern spaces, homes, and identities. In this article, I join the academic debate about notions and constructions of women’s subjectivity in one of such works, Azar Nafisi’s 2003 Reading Lolita in Tehran. Supported mainly Susan Stanford Friedman’s theorization on locational feminism and multiple subjectivities in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), I argue that protagonist Azar’s cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances in the narrative.
 
Keywords: Women’s Literature; Iranian Diaspora; Return Narratives; Hybrid Subjectivities.
 
Resumo: A escrita da diáspora iraniana, movimento migratório para o ocidente impulsionado por regimes islâmicos extremistas e conflitos violentos, desperta interesse público e acadêmico para suas “narrativas de retorno”, autobiografias de autores que se deslocam fluidamente entre espaços, lares e identidades ocidentais e orientais. Esse artigo visa contribuir com o debate sobre noções e construções da subjetividade feminina em uma dessas obras, Lendo Lolita em Teerã (2013), de Azar Nafisi. Baseada na teorização de Susan Stanford Friedman sobre feminismo locacional e subjetividades múltiplas em Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), proponho que a mobilidade espacial e cultural da protagonista Azar causa a fragmentação e hibridização de sua identidade devido às interações entre constituintes identitários de poder e opressão em diferentes momentos da narrativa.
 
Palavras-chave: Literatura Escrita por Mulheres; Diáspora Iraniana; Narrativas de Retorno; Subjetividades Híbridas.
 
Minicurrículo: Marcela de Oliveira e Silva Lemos é mestranda em Literaturas de Língua Inglesa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Licenciada em Inglês por esta universidade, participou na graduação do projeto de pesquisa “Mobilidades culturais, geografias afetivas: espaço e gênero na literatura contemporânea”. É membro do Núcleo de Estudos de Guerra e Literatura da UFMG. Suas linhas de pesquisa são literatura, história e memória cultural e políticas do contemporâneo. Sua dissertação trata da literatura de guerra escrita por mulheres e do efeito da guerra sobre os constituintes identitários de personagens femininas.
 
 
Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s
Reading Lolita in Tehran
 
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
 
One can be veiled and yet mobile.
 Carole Boyce Davies, Black Women, Writing and Identity
 
In the epigraph, Davies (1994) interprets a Saudi woman’s declaration on television: “I resent not being able to drive an automobile more than I resent having to wear a veil” (p. 2). To Davies, the statement expresses “a layering of resentments, issues to be struggled with, one assuming – for the moment – primacy over the other” (p. 2). One of such issues, determined mainly by religion and gender, is the right to mobility, a contemporary matter implicit in the notion of diaspora. Davies’s discussion about black migratory identities inspires me to look at another moving subject: the Iranian woman. That is because, similarly to diasporic black women’s writings, the works of Iranian female immigrants have become increasingly popular recently.
Since North-American incursions in the Middle-East during the War on Terror led by former U.S. president George W. Bush, Western interest has boosted the publication of autobiographies by authors of Islamic origin, such as Azar Nafisi’s Reading Lolita in Tehran (2003), Azadeh Moaveni’s Lipstick Jihad (2005), Marjane Satrapi’s Persepolis (2007), and Pardis Mahdavi’s Passionate Uprisings (2008). These novels, termed “return narratives” by Jasmin Darznik (2008, p. 56), portray the characters’ departure from Iran to America, and their later return to the native country, where their search for home and identification is often frustrated by changes in the land and within themselves. In this article, I focus on the character Azar Nafisi’s back-and-forth relocations between rigid and liberal, religious and secular, private and public contexts throughout her story. Based on the effects of movement through cultures on subjectivity, discussed by Susan Stanford Friedman (1998), I argue that Azar’s1 cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances.
Reading Lolita in Tehran is Nafisi’s debut novel. Simultaneously the first-person narrator and protagonist, Azar writes in the present time of a “fall day in another room in another country” (2003, p. 6). She recalls memories of pre-revolutionary Iran, schooldays in England, Switzerland, and the United States, and Islamic-ruled Iran. These recollections are organized into four sections, which, owing to Azar’s expertise in literatures in English, are named after Western authors and classics. In each section, Azar discusses events and women’s conditions in relation to those classics. The first part is “Lolita”, in a reference to Vladimir Nabokov’s work that also appears in the title of the novel. It is set in 1995, after Professor Nafisi resigns from teaching Literatures in English at a college in Tehran. She invites her seven best-ever female students to a weekly book club: a private session held at her living room every Thursday morning for two years, in which the class reads, discusses, and writes about occidental literary works banned by the Islamic regime. In the process, the members dive into each others’ problems, create affective relationships, and raise awareness to women’s treatment and roles in society.
The subsequent sections, “Gatsby” and “James”, refer respectively to F. Scott Fitzgerald’s The Great Gatsby, and to the U.S. born author Henry James. Both are chronologically set before “Lolita”. “Gatsby” significantly begins in the United States, where Azar attends graduate school with her first husband, and joins student movements and demonstrations. Following the dreams casted by a popular uprising, she journeys eastward, married this time to Bijan. After seventeen years away, she encounters a different country, where the books she teaches are attacked and forbidden. In “James”, Azar is expelled from the University of Tehran, and lives through the Iran-Iraq war, while female use of veil becomes mandatory. In the final part, “Austen”, the narrative returns to the years from 1995 to 1997, when Professor Nafisi leaves Iran definitively. This is the section in which her private class mostly compares Western and Islamic cultures, especially in regard to their experience as women. To its peculiar structure, polemic themes, and powerful writing, Reading Lolita in Tehran owes both its wide reception and harsh criticism.
As Darznik observes, “an all-out campaign has been launched against Iranian immigrant writers… leading the campaign are US-based Iranian academics who decry these writers’ authority to speak about the experience of ‘real’ Iranians” (2008, p. 55). Two US-based academics critic of Reading Lolita are Hamid Dabashi, in “Native Informers and the Making of the American Empire” (2006), and Fatemeh Keshavaz, in Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran (2007). They claim that “Nafisi substitutes Western hegemonic ideals for Iranian censorship… [and that] redemption in the form of Western cannon can be its own kind of hegemonic prison” (Blumenthal, 2012, p. 253-254). That is, those critics believe that Nafisi endorses worldwide supremacy of Western ideology through her novel’s defense of democracy and admiration for English-language literature. This way, she is regarded as an Orientalist, in reference to Edward Said’s (1978) concept, who propagates patronizing views of the East through cultural translation and commodification to an American audience.
It is rather ironic that US-based Iranian academics question US-based Iranian writers as representative of their “real” people. In this line of reasoning, since both groups are in the same privileged condition of escaping a tyrannical regime and living in a democracy, they are equally distant from and unable to speak about Iranian “reality”. We must remember, moreover, that Reading Lolita in Tehran is a literary work. As such, it does not establish guaranteed allegiances with reality. Indeed, it even unsettles the assumption of truth commonly associated to autobiographies, as the “Author’s Note” acknowledges the inevitable constructiveness of reminiscences: “[t]he facts in this story are true insofar as any memory is ever truthful” (2003, p. 1). Furthermore, by contesting the representativeness of a character’s experience, Nafisi’s critics disregard that, as Joan W. Scott (1991) puts it, “experience is at once always already an interpretation and something that needs to be interpreted” (Motlagh, 2011, p. 417). That is, what Azar narrates is her comprehension of the world and events, which we read against our own backgrounds. Moreover, Rachel Blumenthal argues that “critics must also consider the specificity and nuance” of Azar’s story (2012, p. 257). By attacking this personal interpretation and representation of Iranian, immigrant, Islamic womanhood, scholars may run the risk of silencing voices long unheard.
Amy Motlagh (2011), Darznik, and Blumenthal are attentive to the nuances and difficulties of women’s Eastern and Western lives and writings. The question of authority and authenticity of Iranian-American experience, for instance, is addressed by Motlagh in “Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora”. In her turn, in “The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora”, Darznik observes an adaptation, by Iranian women like Nafisi, of the Western genre of travel literature into return narratives. She also considers a dislocation of the notion of home in relation to those female characters, to whom “[h]ome is… a place at once rooted in Iran and yet mystically beyond place” (2008, p. 60). This idea that the immigrant’s home, signifying the unity of geography, affect, and belonging, is an unachievable desire constantly postponed is further developed by Blumenthal in “Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini”.
Blumenthal argues that diaspora “locates homeland geographically, ideologically, and textually” (2012, p. 251). She affirms that Azar moves to a Western ideological homeland through her opposition to Islamic totalitarian rule and her use of English-language literature, to which the narrator attributes words such as “genuine democracy”, “freedom”, and “courage” (Blumenthal, 2012, p. 252). However, similarly to Darznik, Blumenthal notices Azar’s paradoxical refusal, or perhaps impossibility, to completely divorce herself from “historical, intellectual, and emotional connections to Iran” (BLUMENTHAL, 2012, p. 261). Evidence of this denial, to Darznik, is “the dominance of Iran… [a] gaze steadfastly fixed on Iran” (2008, p. 56), which pervades the narrative through the lingering presence of Iranian settings and Persian cultural elements even when characters engage with Western classics.
Although Darznik and Blumenthal offer interesting considerations about the displacement of home for the Iranian-American immigrant woman, their discussions do not investigate a fragmented, hybrid subjectification as a cause for and consequence of that dislocation. I believe that, in Azar’s movement through cultures, her identity is constantly reconfigured due to the various privileged and oppressed positions she occupies. In this sense, instead of a unitary being unable to find home, Azar is a transcultural, transnational, fragmented, and hybrid subject with different geographical and ideological homelands.
This article’s discussion about the construction of Azar’s subjectivity subscribes to the theoretical apparatus of feminist literary criticism and geographies of identity, as presented by Friedman in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Friedman argues that a locational approach to subjectivity in feminist critical practice is consonant with our postmodern world because it regards identity not as fixed and wholesome, but as fluid and fragmented. This approach traces figurations of the subjects, that is, maps of the social-political locations one occupies in a given context, which together compose the self. In “‘Beyond’ Gender: The New Geography of Identity and the Future of Feminist Criticism,” Friedman names those components of the self, such as gender, ethnicity, and class, axes of identity. She also devises six discourses related to them within locational feminism and geographics: the discourses of multiple oppressions, multiple subject positions, contradictory subject positions, relationality, situationality, and hibridity. Among them, the last two are of special interest to this study.
The discourse of situationality “assumes that identity resists fixity… [and that] it shifts fluidly from setting to setting”, in a way that, if we “change the scene, the most relevant constituents of identity come into play” (Friedman, 1998, p. 23). In this sense, feminist practice following this discourse is concerned with movement and geography in a more literal way, attentive to which axes of a character’s identity are highlighted or minimized in the narrative space and time through which she travels. The discourse of hibridity, in its turn, emphasizes identity as a heterogeneous mixture produced by migrations. Analyses conforming to this discourse focus on the subject’s movement through cultures, which usually, but not necessarily, involves spatial dislocation.
Since Azar transits between Iranian and American land and culture, and even between pre and post-revolutionary societies whose settings and customs profoundly differ, I find situationality and hibridity appropriate bases to discuss her complex construction. Moreover, these two discourses overlap and enrich each other when considered that movement through cultures provides distinct settings and situations, altering the interplay between aspects of subjectivity. With that in mind, I now discuss two narrative moments of different space, time, and socio-political configurations, inserted either in American or Iranian contexts, to see how Azar’s axes of identity interact in each of them.
The first of these narrative moments is set in the late sixties and early seventies in Norman, Oklahoma, to where Azar moves with her first husband to attend a university’s graduate program. Before that, she goes to school in England and Switzerland, and briefly returns to Iran to visit her father in jail. Her father, “the youngest mayor in Tehran’s history… who went into politics despising politicians and defying them almost at every turn” (Nafisi, 2003, p. 45), is arrested for publically sympathizing with the French government. According to Azar, he and the rest of her relatives are “cultural snobs” (Nafisi, 2003, p. 45), who pride “themselves on the fact that as far back as eight hundred years ago… the Nafisis were known for their contributions to literature and science” (NAFISI, 2003, p. 84). From these excerpts and from the fact that her family can afford her foreign instruction, we may conclude that the axes of class and education are sites of privilege of Azar’s identity highlighted in Iranian context, even though her political status as the daughter of a convicted traitor determines her oppression then.
When we change the scene to Oklahoma, Azar’s upper-middle class continues to be an emphasized aspect of her identity. After all, it is because of her social-economic condition that she has access to higher education, while other Muslim women are at times denied any formal instruction. Class is not the only axis of subjectivity underlined in this situation, though. In a Western context, categories that are taken for granted in Iran are brought to the foreground, such as ethnicity, nationality, and religion. As an Iranian Muslim in America, Azar is part of a minority. In this sense, axes that used to ascertain privilege now determine oppression, making her join the Iranian student group at the University of Oklahoma, long for home, and participate in demonstrations “shouting slogans against the US involvement in Iran” (Nafisi, 2003, p. 86).
Paradoxically, the context that causes Azar to feel excluded also empowers her as a woman. That is because, in Iran, gender is a constituent of identity that imposes women’s inferiority in relation to rights, education, freedom and opportunities. In the United States, on the other hand, aside from studying, Azar is allowed to leave and divorce her husband, socialize with other men, express political opinions, and dress however she wishes. All those contradictory subject positions of power and powerlessness might be the reason why the narrator describes this as a “schizophrenic period in my life in which I tried to reconcile my revolutionary aspirations with the lifestyle I most enjoyed” (NAFISI, 2003, p. 85). They are also permanent marks of another culture that affect Azar’s identity even once she returns to Iran.
The narrative moment that mostly contrasts with that in the United States is set in post-revolutionary Tehran. In this context, on the one hand, nationality and ethnicity are once again locations of privilege of Azar’s identity. Religion and gender, on the other hand, determine oppression. When extremist Islamic faith is indissoluble from politics, those of moderate religious views are persecuted by the regime. In spite of her Muslim origins, Azar’s education and transcultural experiences make her critical of the Republic’s use of religion “as an instrument of power and ideology” (NAFISI, 2003, p. 273) that foments hatred and justifies deaths. In addition, Azar stands up to the Islamic rule by reading and teaching Western classics, whose values, like freedom and the right to imagination, are “the exact opposite of those of the revolution” (NAFISI, 2003, p. 107). Because of her reluctant religious and political positions, Azar is confronted by radical male students, has her house searched for illegal books and satellite dishes twice, and is finally expelled from the University of Tehran.
The axis of gender interacts in this situation with religion and political orientation to determine the character’s powerlessness. After living the women’s liberation movement in America, Azar returns to a circumscribed existence in Iran. It is not to say that the West is then the land of gender equality. Indeed, it is during that time that Anglo-American feminism begins to be criticized for its internal reproduction of discrimination. Nevertheless, in Tehran, Azar encounters a strongly unequal scenario: “the government had waged a war against women” (NAFISI, 2003, p. 110). Among rulers’ several impositions on women in this context, the one I would like to further examine is the compulsory use of the veil.
In Reading Lolita in Tehran, Azar narrates a long strife between government and female citizens over veiling, which becomes mandatory in all public spaces around the years of the Iran-Iraq war, supported by the nationalist union the conflict inspires. According to Darznik, return narratives “express the opposition [between Iranian and American selves] through a common symbol: the veil… But at the heart of every return narrative lies a question of not only identity, but of allegiance expressed in terms of veiling” (2008, p. 57). She also considers that it is “as if these folds of fabric have the power to remake not only their bodies, but their personalities” (2008, p. 59). The question of allegiance expressed through veiling is observed in Azar’s defiance of the rule because she thinks “to wear the veil… [is] to compromise” (NAFISI, 2003, p. 203), to be complicit with a tyrannical regime. Even when it comes down to covering herself or going to jail, Azar resists: “I always wore my veil improperly” (NAFISI, 2003, p. 184). The novel also presents the effect of the veil, as pointed by Darznik, on the construction and self-perception of the characters, oppressed and effaced by religion and gender. Azar, for instance, claims that wearing the veil imposes on her a transformation that makes her look at the mirror and hate the stranger she becomes. She feels “irrelevant” (NAFISI, 2003, p. 150), “invisible” (NAFISI, 2003, p. 168), as if, inside the cover forced upon her, her “whole body disappeared” (NAFISI, 2003, p. 167). Such descriptions suggest the veil as a tool of ideological control over women, which alters their public identity so that they become powerless, faceless, deprived of the creative energy that comes from difference, and therefore unthreatening. Privately, however, we notice the unveiling of Azar’s hybrid and complex subjectivity.
The private class held weekly in Azar’s house is “a place of transgression” (NAFISI, 2003, p. 8), where she and the girls can exist in their differences. The learning space created in her living room is itself hybrid, reflecting Azar’s mixed cultural identity. She states that “more than any other place in [her] home, the living room was symbolic of [her] nomadic and borrowed life. Vagrant pieces of furniture from different times and places… created symmetry” (NAFISI, 2003, p. 7). The incongruent, competing fragments compose the harmony of the room and of her subjectivity. On the one hand, Western influence in that space of resistance is verified in the women’s inobservance of the veil, revealing their hidden images, in colorful tones of hair, nail polish, and clothes. It is, naturally, also present through the books, which not only portray different worlds, but bring into discussion themes such as captivity, sexuality, dreams, and even feminism. This way, “every great book read became a challenge to the ruling ideology” (NAFISI, 2003, p. 288), instigating questionings based on occidental thinking. On the other hand, the East composes that space just as much. It is there in the food and drinks consumed, in some students’ unfailing Muslim faith, and in Azar’s childhood stories. It lingers in the Elburz Mountains reflected by the antique oval mirror inherited from her father. That old family mirror inserts in that hybrid space a part of Iran that symbolizes Azar’s roots and a love for the land that, to echo Virginia Woolf in Three Guineas (1938), does not implicate blind sacrifice for the nation.
The different parts of Azar’s class/living room contrastively build that space just like the cultural aspects of her subjectivity compete for and constitute her identity. These aspects and the privilege and oppression they situationally determine are like “two worlds… forever seeking each other out and denying their attraction for each other” (Darznik, 2008, p. 68). That is, they are dialectal fragments, mutually dependent Others that epitomize desire and difference. Each side is dependent on the Other, and does not exist without it, so that, as Darznik puts it, “unit is born of disunity” (DARZNIK, 2008, p. 69) both in the class space and in Azar’s subjectification. So much it is, that she prefers this mixture of influences to any of the parts alone: she declares, “The more attached I became to my class and to my students, the more detached I became from Iran” (NAFISI, 2003, p. 317). Similarly, when away from the meetings and the country, she feels the need to recreate that space, this time, textually.
Blumenthal and Darznik argue that, to the Muslin woman, to write an autobiography is to create a textual space of transgression. That is because this genre is not “compatible with the core values of shame and honor pertaining throughout the Muslim world”, since it “invites a critique of self, family, tribe, or Islam” (Blumenthal, 2012, p. 259). From this statement, we can infer that autobiography and other forms of life writing belong primarily to Western literature and ideology. In this sense, it might be valid to suggest that the Islamic authoress that writes her cultural experience through a Western genre creates not only a textual space of transgression, but of hibridity. This way, we may conclude that Azar’s hybrid, fragmented, and migratory subjectivity is reflected in the very form of Nafisi’s work.
It is possible to extend our analysis, grounded in the discourses of identity within geographics, to other women characters in Reading Lolita in Tehran. Azar’s students, for instance, might as well be considered hybrid subjects, even though some of them never leave Iran, for “the greatest trips can take place without physically moving from one’s habitat” (BRAIDOTTI, 2011, p. 26). Guided by their professor, the girls travel through language and literature, and acquire cultural knowledge and experience. Interestingly, Davies has a view of critical theory similar to Azar’s approach to literature. To her, “theory… ought not to be an impediment to movement but should be an enabling set of discourses” (DAVIES, 1994, p. 25). The feminist critical practice Friedman advocates, locational feminism, allows us to study and understand subjectivity as positionality, thus affected by movement. It also invites us to look closely at literary representations of moving subjects, diaspora, and hibridity, thus acknowledging, for example, the once silenced voices of Iranian women.
 
 
Note
 

  1. Henceforth, I will use “Azar” to refer to the character Azar Nafisi in Reading Lolita in Tehran, and “Nafisi” to refer to the author of the memoir. I do so to avoid a direct association between character and author because, even though the novel is autobiographic, it is necessary to acknowledge its inevitable fictionalization.

 
Works Cited
BLUMENTHAL, Rachel. Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini, Arab Studies Quarterly 34.4 (2012): 250-265. Access on Web: 1 July 2015.
BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory. 2nd ed. New York: Columbia University Press, 2011.
DABASHI, Hamid. Native Informers and the Making of the American Empire, Al-Ahram Weekly Online (2006). Access on Web: 2 July 2016.
DARZNIK, Jasmin. The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora, MELUS 33.2 (2008): 55-71. Access on Web: 3 July 2015.
DAVIES, Carole Boyce. Introduction: Migratory Subjectivities. In: Black Women, Writing and Identity: Migrations of the Subject. New York: Routledge, 1994. p. 1-37.
FRIEDMAN, Susan Stanford. Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Princeton: Princeton University Press, 1998.
KESHAVAZ, Fatemeh. Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2007.
MAHDAVI, Pardis. Passionate Uprisings: Iran’s Sexual Revolution. Palo Alto: Stanford University Press, 2008.
MOAVENI, Azadeh. Lipstick Jihad: A Memoir of Growing up Iranian in America and American in Iran. New York: Public Affairs, 2005.
MOTLAGH, Amy. Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora, Comparative Studies of South Asia, Africa and the Middle East, 31.2 (2011): p. 411-424. Access on Web: 3 July 2015.
NAFISI, Azar. Reading Lolita in Tehran. New York: Random House, 2003.
SAID, Edward. Orientalism. New York: Vintage Books, 1979.
SATRAPI, Marjane. The Complete Persepolis. New York: Pantheon, 2007.
WOOLF, Virginia. Three Guineas. New York: Harcourt, 1963.





Bio fornecida pelo palestrante.

MESTIZA: UMA PROPOSTA DE DESCOLONIZAÇÃO – Luana Balieiro Cosme




 

Luana Balieiro Cosme

Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes

 
Resumo: Nesse artigo, foi proposta uma métodologia black/mestiza feminista para pensar a composição textual do texto acadêmico como forma de resistência, principalmente em relação ao imperativo intelectual da Europa. Os textos base que constituíram aportes desta discussão foram Speaking in Tongues e How to Tame a Wild Tongue, da escritora chicana Gloria Anzaldúa. O artigo se compõe dos recursos da linguagem e das percepções sobre a margem ou os sujeitos da margem, e as variações textuais foram minuciosamente escolhidas, ao nível de intervenções. Multiplicam-se os efeitos, fazendo gerar nos leitores sentimentos de repulsa e negação, tendo como importante componente a ideia de descolonização do pensamento e do Outro.
 
Palavras-chave: Descolonização, Outro, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
 
Abstract: In this paper, we propose a black/mestiza feminist methodology to approach the textual composition of the academic text as a form of resistance, especially in relation to eurocentrism. The texts that served as basis for this article were Speaking in Tongues and How to Tame a Wild Tongue, by the chicana writer Gloria Anzaldua. The linguistic resources and perceptions of the border and of border subjects constituted a contributions for this discussion and were useful to the writing of this article. Textual variations were carefully chosen at the level of intervention. The effects are multiplied, and they generates feelings of repulsion and denial in the readers implying in the idea of decolonization and of the Other.
 
Keywords: Decolonization, Other, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
 
Minicurrículo: Luana Balieiro Cosme é professora, graduada em História (Unimontes) e Pedagogia (Universidade Cruzeiro do Sul), mestre em História (Unimontes). Atualmente está vinculada ao Grupo de Pesquisa Gênero e Violência (Unimontes) e é colaboradora do Projeto de Extensão “Informática básica para mulheres”, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), campus Montes Claros.
 


 
MESTIZA: UMA PROPOSTA DE DESCOLONIZAÇÃO
 
Luana Balieiro Cosme
Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes
 

  1. Introdução

Chicanidade, pretanidade, não-branquinidade. As três palavras aparecem com o traço vermelho do corretor ortográfico, não existem no dicionário, tentaram me avisar. As palavras aparentemente desconexas são um propósito para falar sobre alguns estudos não muito recentes que se propõem a descolonizar do pensamento. Este não é um conceito em sua concepção, mas é uma prática constante, quase diária.
A ideia não é inventar novos nomes para velhas discussões, como talvez as palavras não-palavras poderiam sugerir. Percebe-se o termo Latinidade, carregado de sentido, do dicionário e conceitual. Seria a inversão de latinidade a palavra chicanidade? Onde se inverte os sujeitos falantes?  A resposta é não/não.
A descolonização não (des)constrói nada, por isso, a aversão imediata. Não se propõe a desconstruir latinidade para construir chicanidade. Esta última se configura uma forma de desestabilizar o texto. Tentar trazer ao leitor um sentimento de perda do norte. As pequenas “não-compreensões” é que vão fazer o método, a escrita ou o modo de viver, compreensíveis.
Uma das autoras que se propõe a pensar a própria escrita dentro do âmbito tido como “culto”, é Gloria Anzaldúa. Em um texto, que sua versão primeira é datada de 1980, ela se dispõe a escrever uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Recorto um trecho: “ainda não me desaprendi as tolices esotéricas e pseudointectualizadas que a lavagem cerebral da escola forçou em minha escrita” (ANZALDÚA, 2000, p. 229).
O movimento sobre si de Anzaldúa para realizar a escrita é uma forma de resistir a uma produção ocidental do conhecimento que opera sobre os sujeitos que utilizam a linguagem para se comunicar. Uma força positiva (incisiva) tenta imperar sobre a escrita acadêmica. A indiana Gayatri Spivak (2010, p. 47) diz que essa situação entre outras é “uma violência epistêmica”, vasta e heterogênea “de se constituir o sujeito colonial como Outro”. Esse projeto, a produção intelectual ocidental, “é também a obliteração assimétrica do rastro desse Outro em sua precária Sub-jetividade”.
Quando somos interpelados pelo que nos é estranho, quando somos interpelados por aquilo que não estamos acostumados ou por aquilo que rejeitamos, provavelmente uma vontade de revolver essa situação surge, com agressividade, com silenciamento, com relativismo, com incorporação forçada, etc. Mas, o Outro[1], o estranho, o diferente não é um problema, então não precisa ser resolvido. Nesse momento, quando nos percebemos nessa situação, somos tomados por um sentimento de desorientação e até mesmo vazio, perda de sentido já que não conseguimos lidar.
Quando você se sente como o Outro, numa tentativa desesperadora de empregar a alteridade não se consegue praticar a descolonização, mas quando você é Outro, a percepção sobre descolonização faz sentido. Perceba a citação de uma fala de Audre Lorde:
I am defined as other in every group I’m part of. The outsider, both strength and weakness. Yet without community there is certainly no liberation, no future, only the most vulnerable and temporary armistice between me and my oppression. [Sou definida como outro em cada grupo que participo. A que está fora (the outsider), entre força e fraqueza. No entanto, sem comunidade não há possibilidade de libertação de um futuro, apenas um vulnerável e temporário armistício entre eu e minha opressão] (LORDE, 2006, p. 2). [2]
 
Assim, Audre Lorde nos deixa claro o lugar que ocupamos, enquanto pretas e/ou mestiza – “subalternos” para Gayatri Spivak (2010) – na sociedade, não somos os sujeitos que buscam empregar a alteridade, porque nós somos o Outro a que esse termo se refere. Mesmo que Lorde seja norte-americana por nascimento, isso não implica que sua vida não foi marcada por certas invisibilidades. Conforme M. Jacqui Alexander e Chandra Mohanty, explicam que o racismo é um fenômeno acionado em qualquer ambiente da sociedade. E isso inclui os “estudos de mulheres” acadêmicos e os movimentos sociais, segundo as autoras:
However, the specificities of our national and cultural genealogies-being Black and Brown women-and our statuses as immigrants were constantly being used to position us as foreign, thus muting the legitimacy of our claims to the experiences of different racisms. [No entanto, as especificidades das nossas genealogias cultural e nacional – ser mulheres pretas e marrons – e nossos status de imigrantes foram constantemente utilizados para posicionar enquanto estrangeiros, silenciando, assim, a legitimidade de nossas reivindicações para as experiências de diferentes racismos] (MOHANTY; ALEXANDER, 1997, p. xiv).
 
 
As autoras complementam que “through a politics of decolonization, we have learned that racial solidarity is necessary, even if that means grappling with the differences between oppositional and relational consciousness”. [através de uma política de descolonização, nós aprendemos que a solidariedade racial é necessária, mesmo que isso signifique enfrentar com as novas diferenças no que refere à consciência opositiva e relacional]. As experiências decorridas do ato de ocupar vários lugares onde o racismo é frequente nos Estados Unidos convenceram as autoras de que devemos entender o local, bem como as manifestações globais de poder e os investimentos discursivos que viabilizam o racismo.
Retornando à fala de Audre Lorde, ela persiste na ideia da situação ser “black woman” [mulher preta] é ser invisível, e se adicionarmos feminista, chicana, lésbica etc são construídas outras possibilidades de invisibilidade. Sobre a tensa percepção sobre identidade é interessante percebemos uma nuance: se você deixar o mundo definir você, porque ele irá, será em desvantagem. Lembrando que para o mundo você é o outro, Lorde diz:
As a Black woman, I have to deal with identity or I don’t exist at all. I can’t depend on the world to name me kindly, because it never will. If the world defines you, it will define you to your disadvantage. So either I’m going to be defined by myself or not at all. [Como uma mulher preta, eu tenho que lidar com a identidade ou eu não existo de qualquer forma. Eu não posso depender do mundo para citar-me gentilmente, porque isto nunca acontecerá. Se o mundo define você, ele irá defini-lo em desvantagem para você. Então, ou eu vou ser definida por mim ou de modo nenhum] (LORDE, 1991, p. 19).
 
A produção acerca da identidade e sua pluralização, ou projeto de não identificação é uma armadilha se o mundo onde você habita ainda evoca os discursos naturalizadores das identidades. Cuidado.
Em seu leito de morte, ela tenta nos avisar “your silence will not protect you” [o seu silêncio não protegerá você] (LORDE, 2006, p. 13). Eu recebo a dica com carinho e é isto que falo aqui, meu silêncio não é uma escolha mais. É preciso falar.
Se nossas produções do conhecimento são propostas a partir de referenciais universalistas, brancos, ocidentais, etc não é possível tal prática (descolonizadora). Uma voz me diz bem forte: Não precisamos da alteridade dos brancos, somos o outro. E agora?
Perceba as citações retiradas de um texto de Gloria Anzaldúa, “as línguas selvagens não podem ser domadas, elas podem apenas ser decepadas” (ANZALDÚA, 2009, p. 306). Ela cita três frases ditas, respectivamente, pela mãe, pela professora e pelo imaginário mexicano: “I want you to speak English” [Eu quero que você fale Inglês]; “speak ‘American’” [diga: americana]; “El Anglo con cara de inocente nos arranco la lengua” (ANZALDÚA, 1987, p. 75-76; ANZALDÚA, 2009, p. 305-306) [O inglês com cara de inocente nos arrancou a língua]. É nessa visão do trágico-agressivo e não do atenuante que se descoloniza, primeiramente a si mesmo. Desestabiliza e desconforta quando se mescla as línguas, “lenguas”, “tongues”; os gêneros textuais; as variações de textos etc.
Isto é uma poesia?
 
Eu vi o vídeo.
O vídeo foi visto.
Por quantos brasileiros?
(Poesia inédita, de minha autoria)

  1. Metodologia

Como explicar o/um método mestiza? Primeiramente ele não se propõe a ser explicado. Gloria Anzaldúa e outras chicanas escrevem e misturam poesia, prosa, teoria, autobiografia e narrativas experimentais. A partir disso, conseguimos tentar forjar um método.
É complexo tentar propor uma transliteração de enunciados sobre uma imagem de estar em duas, três, quatro… fronteiras/margens/bordas ao mesmo tempo ou trilhar uma outra rota, diferente e não adversa. Mestiza vive entre culturas com pertencimentos culturais, identitários e geográficos (ou não), múltiplos, e uma “inquietude psíquica”.
A chicana Gloria Anzaldúa defende uma posição plural em detrimento a contraposição, um agir que não seja apenas reagir, um reflexo automático a uma ação. Nesse sentido, quem fala tem um corpo. Este é um incômodo, principalmente se alguém precisa identificá-lo, marcá-lo, pontuá-lo, pois imediatamente o transforma em “outro”.
O trânsito, a translocalidade, o movimento múltiplo agride as teorias, metodologias e epistemologias vigentes e seu deslocamento é uma incômoda mobilidade.
Você viu o vídeo?
Que vídeo?
O “Nasça branca da próxima vez”.
Não vi.
 

  1. (um pequeno) Desenvolvimento

O golpe é maior que tudo isso.
“Nasça branca da próxima vez”.
Ninguém se importa,
com nascimento de ninguém
FIGURA 1 – Um quadrinho de Virus Tropical.
Fonte: POWER, Paola. Virus Tropical. Espanha: Random House, 2013.
 
“How to Tame a Wild Tongue” (Como domar uma língua selvagem)[3] é o quinto capítulo do livro “Borderlands/La Frontera” (1987), ao olhar o significado no dicionário Oxford para o termo “to tame”, vemos:
Pronúncia: /teɪm/
VERBO
(WITH OBJECT)

  1. Domesticate (an animal).

1.1Make less powerful and easier to control.
Old English tam (adjective), temmian (verb), of Germanic origin; related to Dutch tam and German zahm, from an Indo-European root shared by Latin domare and Greek daman ‘tame, subdue’ (OXFORD, 2015).
[(COM OBJETO)

  1. Domesticar (um animal ) .
  2. Constituir menos poderoso e mais fácil de controlar].

[Inglês arcaico tam (adjetivo), temmian (verbo) , de origem germânica; relacionadas com tam holandês e zahm alemão, de uma raiz indo-europeia partilhada pelo latim domare e grego daman ‘cativar , subjugar’]
 
Ao ler a proposta de significação do dicionário Oxford, “To tame” se tornou um termo muito complexo para traduzir, pois seus possíveis significados são complexos. Nas constantes traduções à “la brasileira”  se tem como princípio, e não sei de onde isso vem, atenuar as palavras. A tradução do título do capítulo ficou “Como domar uma língua selvagem”. “Domar” é um termo muito simples para “to tame” que em sua origem latina e grega, remete também a “subdue”, subjulgar.
Apanhar de chicote, em português (brasileiro), equivale a lhe darem uma surra com pluma. Tenho essa sensação quando leio a tradução, apesar de que esta tradução em termos gerais é excelente. E, aqui, eu tenho um problema. Sou a favor da democracia de leitura, mas critico as traduções. Mas não é porque critico a atenuação das palavras que serei contra a popularização de traduções de textos. Eu quero é que possamos ler, em “línguas plurais”.
Um termo se tornou de uso comum entre alguns grupos feministas dos Estados: “speaking in tongues” [falar em línguas]. Sempre que digo isso a alguma pessoa, ela ri. Parece muito engraçado, deve ser. Resguardarei em não traduzir culturalmente o termo agora, não sei se consegui entendê-lo direito, mas daquilo que compreendi, de algum modo tentei aplicar.
“Speaking in Tongues” aparece em vários escritos de feministas de fronteira e um deles é “Speaking in Tongues: A Letter to 3rd World Women Writers” [Falando em línguas: uma carta às mulheres escritoras do terceiro mundo], capítulo de Gloria, publicado à margem, em 1980 – republicado em 1983 – e nele tem uma poesia de Cherríe Moraga, conforme tabela 1:
 
TABELA 1: Poesia de Cherríe Moraga com tradução simultânea.
 

I lack imagination you say Falta-me imaginação, você diz
   
No. I lack language. Não. Falta-me linguagem.
The language to clarify Linguagem para clarear
my resistance to the literate. minha resistência para com o letrado.
Words are a war to me. Palavras são uma guerra para mim.
They threaten my family. Eles ameaçaram minha família.
To gain the word Para ganhar a palavra
to describe the loss para descrever a perda
I risk losing everything. Corro risco de perder tudo.
I may create a monster Eu poderia criar um monstro
the word’s length and body comprimento das palavras e do corpo
swelling up colorful and thrilling super colorido e vibrante
looming over my mother, characterized. pairando sobre minha mãe, a caráter.
Her voice in the distance Sua voz na distância
unintelligible illiterate. ininteligível aos iletrados.
These are the monster’s words. Estas são as palavras do monstro.

Fonte: ANZALDÚA, Gloria, 1980, p. 166.
 
A poesia de Moraga surge abruptamente dentro do texto de Gloria Anzaldúa (1980, p. 166), como trechos de uma poesia qualquer que também interrompe esse texto. É uma forma não estática de leitura, que desloca o leitor a lidar com variações dentro da escrita/leitura. Mas as intervenções se interligam em um mesmo sentido. Aqui também se tenta fazer essa ligação entre o artigo para uma revista acadêmica, cartuns e trechos de poesias. Para Gloria, o leitor que tentar juntar os fragmentos desse tipo de texto, faz um trabalho análogo àquele que as feministas fazem para decifrar e confrontar a sociedade patriarcal.
 

  1. Considerações Finais

Não sei.
Eu vi o vídeo
e não vou esquecer,
mas branca nunca quero/irei nascer.
FIGURA 2 – Sin titulo [Sem título].
Fonte: Yetta (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
 
Muitos leitores desse artigo irão se perguntar: “Mas a autora não desenvolveu os termos do título direito. Não se prestou a explicá-los”. Um leitor da história ficará repetindo “isso não é história, isso não é história, isso não é história” como se fosse um belo espécime de papagaio (Amazona aestiva) ou quiriri (Brotogeris chiriri). Estas são aves tão singelas e que gosto muito.
Quando me percebo historiadora em uma sociedade, local, nacional ou global, como muitos se prestam a ser, não me agrada, é esta a palavra, o ofício. Talvez, no limite, penso que sou uma historiadora fracassada, como repito para mim mesma em momentos de crise. Quando sou historiadora ocupo “uma identidade” de quem apenas assiste a vida (passado-presente) confortavelmente em uma posição urbana-capitalista que se propõe a escrever e prepotentemente analisar sobre o objeto/o outro. Escrever é, sem sombra de dúvida, uma forma de resistência. Na escritura desse texto não sou historiadora e ao chegar a essa conclusão, e não subjetivação, penso: é uma resistência. É isso, é essa a sensação. O afeto que deixo termina aqui.
 

  1. Referências

To Tame. In: Oxford English Dictionary. Oxford: Oxford University Press, 2015. Disponível em:
http://www.oxforddictionaries.com/pt/defini%C3%A7%C3%A3o/ingl%C3%AAs/tame?q=to+tame&searchDictCode=all. Acessado em 08 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Como domar uma língua selvagem. Tradução de Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão), Cadernos de Letras da UFF,  Dossiê: Difusão da língua portuguesa, nº 39, 2009: p. 297-309.
ANZALDÚA, Gloria. How To Tame A Wild Tongue. In: Borderlands/La Frontera. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
ANZALDÚA, Gloria. Speaking In Tongues: A Letter To 3rd World Women Writers. In: ANZALDÚA, Gloria e MORAGA, Cherríe. This Bridge Called My Back: Writings By Radical Women Of Color. 1980.
Disponível em:
https://hamtramckfreeschool.files.wordpress.com/2014/05/anzalducc81a-gloria-this-bridge-called-my-back-dragged.pdf. Acesso em 8 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, jan. 2000. ISSN 0104-026X. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880>. Acesso em 15 set. 2016.
LORDE, Audre. Audre Lorde: Interview. Entrevista por Karla Hammond, Denver Quarterly 16.1. 1981: p. 10-27.
LORDE, Audre. The Cancer Journals: Special Edition. San Francisco: Aunt Lute Books, 2006.
MOHANTY, Chandra Talpade; ALEXANDER, M. Jacqui (Eds.). Introduction: Genealogies, Legacies, Movements. In: Feminist Genealogies, Colonial Legacies, Democratic Futures. New York: Routledge, 1997.
PAOLA, Power. Vírus tropical. Madrid: Random House, 2013. (Selo Reservoir Books).
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
YETTA (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
Disponível em: http://jessicasangoy.com/post/149004303482. Acesso 8 set. 2016.
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] Outro será utilizado em inicial maiúscula respeitando a conceitualização de Gayatri Spivak (2010).
[2] Em todo o texto, sempre que houver citação em língua estrangeira, será acrescida uma tradução livre em português, delimitada por colchetes, o que constitui uma forma de escrita dentro da metodologia mestiza.
[3] A tradução desse título do capítulo foi realizada por Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão) (2009) e publicada nos Cadernos de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF).





Bio fornecida pelo palestrante.

ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR – Elisa Riffel Pacheco




Elisa Riffel Pacheco

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 
Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a escrita feminina através dos aportes teóricos e metodológicos referentes à beleza feminina contemporânea e sua representatividade presente nos diversos artefatos culturais e midiáticos, incluindo o cinema e a literatura. Tal estudo abrange um conteúdo histórico que ressalta a trajetória do embelezamento feminino ao longo dos séculos, bem como sua importância e repercussão nos dias de hoje. Traz como referência teórica os Estudos Culturais em Educação, que fazem pensar as pedagogias culturais que constroem e dão sentido a um modelo/padrão de beleza feminina que cada vez mais ganha visibilidade através de um corpo que se coloca constantemente em evidência e em espetáculo. Este artigo traz um recorte da minha pesquisa de dissertação de mestrado “Meninas fantásticas e o sonho do universo fashion: entre a beleza, o luxo e o glamour das passarelas, vale tudo para ser uma top model?”,  que analisou como muitas meninas sonham em serem modelos e tornarem-se mulheres “fantásticas” no mundo da moda.
 
Palavras-chave: Estudos Culturais; Beleza; Feminilidade; Corpo.
 
Abstract: This article aims to analyse the female writing through the theoretical and methodological related to female beauty and its representations existing in the various media and cultural artifacts, including cinema and literature. This study has a historical background that highlights the feminine embellishment over the centuries, as well as today. It employs cultural studies in education as its theoretical reference, which leads to the cultural building of a pedagogy and measures the meaning of a standard of feminine beauty that increasingly gains visibility through a body that arises constantly in evidence and in shows. This article is part of my dissertation research, “Fantastic Girls and the fashion universe: the glamour of catwalks among beauty, luxury and glamour. Is it worth anything to be a top model?” It analysed the dreams of so many girls who dream about being a model and to be “fantastic” women in the fashion world.
 
Keywords: Cultural studies; Beauty; Femininity; Body.
 
Minicurrículo: Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Psicopedagoga especialista em Pedagogia da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escritora, poeta, atriz. Possui diversas publicações tanto no campo acadêmico como no campo literário.
 


 
ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR
Elisa Riffel Pacheco
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
 

  1. Introdução

A beleza tem muitas histórias para nos contar. Hoje, vivemos a idolatria do belo sexo e as antigas atitudes hostis ao amor do corpo já se encontram ultrapassadas. Na contemporaneidade está em vista a indústria da beleza e a coqueteria já não causa repugnância, nem suspeita em relação à aparência feminina. Crescem os desejos de autonomia e realização pessoal e a tendência é amar a si mesmo, agradar-se e agradar aos outros. Melhorar a forma física tornou-se uma atitude legítima. As mulheres podem embelezar-se aos “quatro  ventos”  e  o  investimento  feminino  na  aparência  é  promulgado  constantemente. Contudo, nem sempre foi assim. Segundo Lipovetsky (2000, p. 102):
(…) durante a maior parte da história da humanidade, a mulher não representou de modo algum a encarnação suprema da beleza, seus encantos não se beneficiaram nem de uma condição muito elevada nem de um tratamento artístico privilegiado. Lição incomparável do mergulho no passado mais distante: não há nenhuma permanência nem necessidade transistórica do “belo sexo”. Este é um fenômeno inteiramente histórico, uma instituição social, um “construído” cuja origem não remonta a muito além da aurora dos tempos modernos.
 
Nem sempre a beleza feminina foi reconhecida e apreciada no prisma das exaltações estéticas. Nas sociedades ditas “selvagens” que datam aproximadamente do período da pré-história, não se levava em consideração a supremacia estética do feminino. Nessa época, conforme Lipovetsky (2000, p. 104) “(…) o atributo sublinhado não é a beleza feminina, mas a fecundidade, o poder superior de vida e de morte. A deusa não é celebrada por sua beleza, mas por ser senhora dos animais e das forças incontroladas, poder divino de vida e de morte”.
Nesse sentido, a beleza feminina não era mais admirada que a dos homens nem aparecia como uma propriedade distintiva da mulher. O homem era “(…) o ponto de mira da estética corporal” (Lipovetsky, 2000, p. 104). Assim, por mais ricos e espetaculares que fossem os ornamentos e tatuagens femininos, isso não significava uma religião estética da mulher. O curioso era que na sociedade sem escrita, tanto a beleza masculina como a feminina eram reconhecidas socialmente e cantadas, mas não eram enaltecidas nem personificadas como um dom de superioridade.
O mesmo autor nos explica que essa “recusa” social de sacralizar a beleza feminina não cabe somente às eras “primitivas” da humanidade. A ausência de culto do belo sexo foi também percebida na mentalidade camponesa do mundo rural tradicional. Os antigos provérbios empenhavam-se em desvalorizar e diabolizar a beleza feminina. Ao afirmar que por toda a parte dominava a tendência de depreciação dos encantos femininos, Lipovetsky (2000, p. 105) afirma: “(…) trata-se antes de tudo de prevenir os rapazes contra os atrativos fugidios e perigosos da beleza: ‘não há rosa sem espinho’ (Provença-Languedoc); ‘Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento’ (Albi); ‘Beleza não põe mesa’ (Gasconha)”.
O que sustentava a condição de beleza nas sociedades primitivas era a fecundidade. Dessa forma, a mulher infecunda era desprezada, porque tornava incompleto o dever de descendência. Devido a isso, a beleza não poderia ser beneficiada de homenagens. Em tudo, o homem era considerado superior às mulheres. Embora o lado feminino tivesse poderes reconhecidos, nenhum deles poderia ser nivelado fora da supremacia do homem. Ao destacar que as atividades nobres, o prestígio e as marcas de glória eram propriamente da ordem do masculino, Lipovetsky (2000, p. 106) elucida que “(…) nesse contexto, a idolatria social da beleza feminina não pode surgir, uma vez que liberaria um foco de consagração feminina antinômico com o princípio do monopólio masculino do prestígio e da superioridade social”.
Em nenhum código social a adulação do feminino e a ausência de religião estética das mulheres, estavam associadas à organização do trabalho. Assim, na ordem social primitiva não havia mulheres ociosas. Todas as mulheres, segundo o autor, eram encarregadas de assegurar um papel de produtoras, inclusive as esposas dos chefes, que também participavam das atividades econômicas.
Em meio a todo esse contexto, a valorização da beleza como uma característica distintiva do feminino não ganhava corpo. Para possibilitar-se a idolatria do belo sexo era preciso que surgisse uma divisão social entre as classes ricas e pobres. E foi isso o que aconteceu. Com a separação das classes nobres das classes laboriosas, abriu-se uma condição necessária para uma categoria de mulheres isentas de trabalho. Essas novas condições sociais contribuíram para tornar mais estreita a relação entre práticas de beleza e feminilidade, conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 107), dizendo-nos que, “(…) nas longas horas de ociosidade de que dispõem as mulheres das classes superiores, elas passam a se dedicar a maquiar-se, enfeitar-se, fazer-se belas para se distrair e agradar ao marido”. O autor ainda coloca que desde a antiguidade grega, e depois romana, já se fazia o uso feminino nas pinturas. Porém, essa prática não estava associada à cultura do “belo sexo”, e sim à procura das mulheres pelo próprio embelezamento. O reconhecimento social da beleza feminina entra em uma nova fase com o aparecimento do Estado e das classes sociais.
 
1.1 O culto da beleza feminina e a invenção do belo sexo
Falar da beleza é também falar do corpo. Para Del Priore (2000, p. 15), “(…) as noções de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura”. Hoje, vive-se uma corrida constante pela beleza, em que todos os corpos devem ser cultuados e bem “cuidados”. Vive-se um “carinho”, um cuidado de si, como afirma Couto (2012, p. 119), onde todos são “(…) convidados a administrar a própria aparência, suprir e redesenhar as formas físicas”. Hoje, o sonho de ser bela democratizou-se e está ao alcance de todos. Sant`Anna (2005, p. 122) diz-nos que:
(…) através das imagens e dos discursos criados com o intuito de embelezar a mulher, segundo os interesses econômicos, os padrões morais e os argumentos científicos de cada época, cruzamos outras histórias paralelas ao sonho de ser bela: no Brasil, em particular, o gesto que embeleza não desenha somente uma fisionomia mais à moda, em detrimento de uma aparência doravante considerada ultrapassada, portanto, feia. Ao fazê-lo, ele também revela as diversas nuanças do antigo sonho de ser moderno e civilizado que há muito persegue as elites desse país.
 
O que antes era considerado um sonho apenas das elites, tornou-se também um sonho do povo, de uma cultura de massa. Ao afirmar que, para o homem ocidental, o corpo tornou-se o lugar de sua identidade e seu modo de ser, Couto (2012, p. 119) destaca que:
(…) nossa época se rende aos diversos cultos que celebram e festejam a corporalidade. Das práticas esportivas intensas e, muitas vezes, radicais, ao uso proliferado do silicone e das cirurgias plásticas, diversas técnicas e terapias servem para hipervalorizar e pavonear o corpo nas ruas, praias, clubes, páginas de revistas, programas televisivos, filmes publicitários, imagens diversas na internet, passarelas, galerias de arte.
 
Mas, será que sempre foi assim? Tal pergunta feita por Del Priore (2000, p. 15) coloca que “(…) a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais (…)”. Ela salienta ainda que, “(…) mais do que nunca, a mulher sofre prescrições (…)”.
Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cercam. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. E se, em termos contemporâneos, “(…) o algoz não tem rosto” (Del Priore, 2000, p. 15), somos bombardeados, constantemente, por centenas de imagens que nos ensinam uma cultura feminina das aparências. No entanto, no passado era diferente, deslocavam-se outros critérios de beleza que produziam outros efeitos corporais.
Assim como nos explica Vigarello (2006), cada regra, etiqueta ou receita de beleza está ancorada a sua dinâmica corporal. Albino e Vaz (2008), ao analisarem como Vigarello (2006), organizando sua exposição sobre a história do embelezamento feminino, explicam que no século XVI a beleza foi revelada, no XVII era expressiva, no XVIII era experimentada e no XIX, torna-se desejada. Por volta de 1914 até os anos 2000, os autores apresentam a beleza como democratizada. Época democrática do belo sexo significa, nesse sentido, glorificação sem reservas de seu reino, emancipação da dimensão beleza em relação aos medos e às litanias misóginas, autonomização total no que se refere às conotações morais e religiosas. Fim da ambivalência imemorial dos encantos femininos: com o século XX, triunfa a era da pós- mulher fatal (Lipovetsky, 2000, p. 170).
É ao falar da difusão dos cuidados estéticos em todas as camadas sociais que o autor (2000) nos conta sobre uma era democrática da beleza e da chegada do século XX, que faz com que os produtos e as práticas de embelezamento deixem de ser um privilégio de classe. Para Lipovetsky (2000), ao longo das últimas décadas, ocorreu um deslocamento de prioridades, onde uma nova economia das práticas femininas de beleza instituiu outra relação com o corpo. O autor ainda ressalta que:
(…) a preocupação feminina de parecer jovem não tem nada de fenômeno recente. No entanto, por muito tempo os cuidados proporcionados à aparência foram dominados pela obsessão com o rosto, por uma lógica decorativa concretizada no uso dos produtos de maquiagem, nos artifícios da moda e do penteado (p. XX).
 
Ao falar de uma cultura feminina das aparências, Del Priore (2000) mostra-nos como era comum buscar a transformação do corpo feminino para dissimular as imperfeições com o uso de pós, perucas, unguentos, espartilhos e tecidos volumosos. A cosmética evoluía. E desde o século XVI, na Europa Moderna, já começavam a circular “livros de receitas”, os chamados “segredos” de beleza. Enquanto os poetas despiam o corpo feminino, a sociedade ditava regras para cobri-lo e transformá-lo. A autora (2000, p. 23) afirma que “(…) a pele azeitonada, a robustez física, as feições delicadas e a longa cabeleira passavam por processos feitos de bens e serviços, utensílios e técnicas, usos e costumes capazes de traduzir gostos e rejeição, preceitos e interditos”. Mas, Lipovetsky (2000) conclui que essa tendência não é mais a nossa. Se por muito tempo, o grande alvo do embelezamento feminino era o rosto, hoje o corpo e sua conservação ganham mais paixão e cuidados estéticos. Del Priore (2000, p. 60), destaca que:
Quanto ao rosto, a moda da fisiognomonia, ou seja, a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços do rosto ditava regras. Trocas fisiológicas entre interior e exterior, relações entre físico e moral, compunham um abecedário de normas para fazer o rosto “falar”: a fronte alta e lisa era denotativa de temperamento dócil e serenidade de alma; sobrancelhas naturalmente arqueadas diziam da franqueza de sua possuidora; olhos negros anunciavam calor e vontade; os azuis, ternura e paixões tranquilas; o nariz não podia ser nem muito pontudo nem muito largo e suas aletas, suficientemente bem recortadas para exprimir “impressões fugitivas”; a boca jamais poderia ter lábios finos pois associavam-nos à mesquinharia.
 
Hoje, no novo planeta da beleza em que vivemos, a magreza se faz preponderante, mas não está sozinha, pois vem acompanhada da febre da beleza-magreza-juventude, que vem sendo anunciada desde os anos 60, em que a cultura juvenil ganha força através da difusão de modelos estéticos adolescentes. Segundo Lipovetsky (2000, p. 130) “(…) desde a Antiguidade as mulheres utilizam maquiagens e outros unguentos a fim de mostrar-se vantajosamente e mascarar certos desfavores”. Com a chegada do século XX, a palavra “ordem” adquire outra configuração e passa dar valor a um furor que põe em evidência uma aparência jovem, magra e descontraída. O velho e admirável “coroa” burguês perde a sua vez e o que vemos hoje, segundo o autor (2000, p. 137), “(…) exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada às metamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedades modernas de cem anos para cá”. A magreza passa a ser o epicentro dessa espiral de coerções estéticas. O corpo esbelto e firme torna-se uma norma consensual.
Nessa perspectiva, Lipovetsky (2000, p. 137) afirma que, “(…) ao longo de todo o século, as estrelas e as manequins propagaram o ideal estético da mulher moderna, esbelta e esguia”. O autor coloca ainda que o corpo feminino emancipou-se de suas antigas servidões (sexuais, procriadoras e indumentárias), mas cada vez mais se rende às atividades modeladoras e à conquista da beleza relacionada à esbelteza, restrições alimentares e exercícios corporais.
Del Priore (2000) salienta que o corpo feminino passou por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. Por muito tempo “(…) a mulher de forma mais salientosa tendia a ser considerada mais ortodoxamente feminina” (p. 53). A mulher era considerada desejada por ser sexuada e fecunda. Como nos diz a autora (2000, p. 58) “(…) feliz prisioneira dessas formas, ela sublinhava a relação entre sua conformação anatômica e sua função biológica e, ao mesmo tempo, sagrada: reproduzir, procriar, perpetuar”. Lipovetsky explica a extraordinária adesão das mulheres à estética da magreza por suas transformações de sua identidade social:
(…) nas sociedades que nos precederam, a corpulência feminina era valorizada porque era associada à fecundidade, destino supremo da condição feminina tradicional. O desenvolvimento dos métodos contraceptivos e o novo compromisso profissional das mulheres transformaram radicalmente não apenas as condições de vida feminina, mas também, no mesmo passo, sua relação com a aparência (2000, p. 138).
 
Desde o século VI a.C a coqueteria era considerada como ardes diabólicos e o uso de pinturas típicas do gênero feminino era condenado e visto como trapaças desonestas (Lipovetsky, 2000). O humanismo renascentista deu uma nova significação para a beleza feminina e, assim, estabeleceu-se uma ruptura com sua diabolização tradicional. Uma bela mulher era dita como uma obra-prima de Deus. Tais encantos femininos alimentavam a inspiração de muitos artistas, entre eles, pintores, escritores, filósofos, pensadores e poetas. Assim, tanto nos meios letrados, como nos aristocráticos, a mulher era admirada como a emanação da beleza divina, sendo posta na condição de anjo. Se antes sua beleza era inscrita como a “arma do diabo”, símbolo da malignidade, no século XV e XVI, mulher bela, divina, como nos diz Lipovetsky (2000, p. 114) “(…) instalou-se um processo excepcional de dignificação da aparência feminina, de celebração de sua supremacia estética, do qual somos os herdeiros diretos”. Da mesma forma que a beleza foi acusada, também foi exaltada, com os mesmos hinos ao feminino. Lipovetsky (2000, p. 113) ao contextualizar que a idolatria do “belo sexo” é uma invenção da Renascença, explica que:
(…) de fato, é preciso esperar os séculos XV e XVI para que a mulher seja alçada ao pináculo como personificação suprema da beleza. Pela primeira vez na história, realiza-se a conjunção das duas lógicas que instituem o reino cultural do “belo sexo”: reconhecimento explícito e “teorizado” da superioridade estética do feminino e glorificação hiperbólica de seus atributos físicos e espirituais.
 
Ainda o que caracteriza a beleza renascentista é a imobilidade, o ócio e a brancura da pele, atributos relacionados à ordem aristocrática, assim como com a função de distinção social. Del Priore (2000, p. 56) informa-nos que “(…) as mulheres brancas eram descritas como possuidoras de um corpo negligenciado, corpulento e pesado, emoldurado por um rosto precocemente envelhecido”. Entre as diversas causas, explica-nos Del Priore (2000) estavam os banhos quentes, o amor à comodidade, o matrimônio e a maternidade precoces, a falta de exercício físicos, entre outros. A autora, ainda nos conta que:
Alguns viajantes atribuíam a palidez e o desmazelo das moças à severidade com que eram tratadas pelos pais e maridos, sendo mantidas muito segregadas da vida social – situação ainda mais grave no interior, onde passavam às vezes muitos meses encerradas entre quatro paredes, sem aparecer às janelas. A sujeira e o desleixo que diziam testemunhar provocavam segundo eles, violentas deformações físicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estúpida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” e por esse motivo pareciam também descoradas e doentes (…) (DEL PRIORE, 2000, p. 57).
 
Isso faz lembrar a história da “Branca de Neve”, em que a princesa é proibida por sua madrasta de sair do castelo, e por isso não tem o hábito de tomar sol, nem de passear pelo bosque, ora de conhecer o mundo em que vive. Contudo, nos diz Lipovetsky (2000, p. 133) que hoje mais do que nunca, as mulheres combatem com muito empenho “(…) tudo o que parece ser flácido, gordo, mole. Já não basta não ser gorda, é preciso construir um corpo firme, musculoso e tônico, livre de qualquer marca de relaxamento ou de moleza”.
No século XIX começa a surgir a necessidade de uma sensibilidade mais individual, mas isso ainda não é tão visto no cotidiano e demora a se consolidar. Como diz Vigarello (2006), há o nascimento de uma nova sociedade que tenta se opor à antiga, mas que ainda se vê sob a “velha etiqueta aristocrática”. Lipovetsky (2000, p. 128), também nos fala que até o fim do século XIX, “(…) a idolatria do belo sexo se desenvolveu em um quadro social estreito”. O autor, ao salientar que as homenagens artísticas às mulheres e às práticas estéticas quase não ultrapassavam os limites do publico rico e cultivado, destaca que:
(…) fora dos círculos superiores da sociedade, as valorizações poéticas e cosméticas da beleza, assim como as imagens resplandecentes do feminino, têm pouca difusão social. Na sociedade camponesa, até a Primeira Guerra Mundial, as acusações tradicionais contra os encantos femininos superam em muito sua exaltação. Durante quase cinco séculos, a celebração da Bela conservou sua dimensão elitista: é um culto de tipo aristocrático que caracteriza o momento inaugural da história do belo sexo (LIPOVETSKY, 2000, p. 128).
 
Entretanto, enfim, chega o século XX, onde a beleza é associada ao bem estar feminino. As referências dessa época são as misses e atrizes, das quais as imagens passam a ser usadas como propagandas de cosméticos. Lipovetsky (2000, p. 128) acentua que com a chegada do século XX “(…) a imprensa feminina, a publicidade, o cinema, a fotografia de moda propagaram, pela primeira vez, as normas e as imagens ideais do feminino na escala do grande número”. As estrelas, as manequins, as imagens de pin-up são as personagens principais, modelos superlativos da feminilidade que saem das passarelas e das telas do cinema e invadem o cotidiano. Não é mais sonho, nem raridade, é realidade. Conforme nos diz ainda o autor (2000, p. 129), “(…) as revistas femininas e a publicidade exaltam o uso dos produtos cosméticos por todas as mulheres”. O culto do belo sexo entra em sua dinâmica mercantil e democrática, ganhando uma dimensão social inédita ao invadir a era das massas com o advento da cultura industrial e midiática.
É com relação a esse protagonismo que nasce um novo modo de pensar e viver a beleza, em que “(…) buscar uma singularidade transforma-se em um dever” (Albino e Vaz, 2008, p. 250). Neste sentido, antes de investir no próprio corpo, faz-se necessário descobrir a si mesma, pois neste novo contexto, o corpo representa o que se é interiormente. Neste novo cenário da beleza contemporânea, os modelos tornam-se mais fugazes, uma vez que acompanham a vontade e o estado de espírito das musas. Para Lipovetsky (2000, p. 129) “(…) durante séculos, a glorificação do belo sexo foi obra dos poetas e dos artistas, de agora em diante ela é própria da imprensa, das indústrias do cinema, da moda e dos cosméticos”. Com esse “boom da beleza”, termo utilizado por Lipovetsky (2005):
(…) abriu-se um novo ciclo histórico baseado na profissionalização do ideal estético (estrelas e manequins) e no consumo de massa de imagens e de produtos de beleza. Industrialização e mercantilização da beleza, difusão generalizada das normas e imagens estéticas do feminino, novas carreiras abertas à beleza, desaparecimento do tema da beleza fatal, inflação dos cuidados estéticos com o rosto e com o corpo: é a conjunção de todos esses fenômenos que funda a ideia de um novo momento da história da beleza feminina. Depois do ciclo elitista, o momento democrático; depois do ciclo artesanal, a época industrial; depois do período artístico, a era econômico-midiática. As democracias modernas não fazem declinar a cultura do belo sexo, coincidem com sua apoteose histórica.
 
Com esse incitamento ao consumo, “(…) a negação metafísica da carne foi substituída por um ativismo funcional do corpo” (Lipovetsky, 2000, p. 141). Os novos discursos de valorização de si mesma não escapam às normas e aos domínios de controle do corpo. Ao falar de uma “teologia da beleza”, por exemplo, Lipovetsky (2000, p. 140) coloca que “(…) a febre contemporânea da beleza feminina é a continuação da religião por outros meios”. Em tempos hipermodernos, o centro é a diabolização do pecado da gordura. Este é o catecismo que culpabiliza as mulheres e hipnotiza e manipula os “fiéis” a renunciarem aos prazeres da gula. De agora em diante, segundo Lipovetsky (2000, p. 140):
(…) as eleitas são as top models e as não-eleitas as mulheres gordas e enrugadas. Como todos os cultos religiosos, a beleza tem seu sistema de doutrinação (a publicidade dos produtos cosméticos), seus textos sagrados (os métodos de emagrecimento), seus ciclos de purificação (os regimes), seus gurus (Jane Fonda), seus grupos rituais (Vigilantes do Peso), suas crenças na ressurreição (os cremes revitalizantes), seus anjos (produtos de beleza), seus salvadores (os cirurgiões plásticos).
 
Se o sistema contemporâneo da beleza amplia a lógica moderna do consumo, ele também vem acompanhado de um novo sistema de comunicação, do qual a imprensa feminina faz parte e contribui para promover normas estéticas. A profusão das representações da beleza feminina conheceu uma popularidade crescente e, segundo Lipovetsky (2000, p. 155), “(…) tanto as mensagens como as imagens reforçam a definição do feminino como gênero destinado à beleza”.
 
1.2 A Algumas considerações: ser bela e feliz para sempre?
Ao nos afirmar que a imprensa feminina adquiriu um imenso poder sobre as mulheres ao longo do século XX, Lipovetsky (2000, p. 165) ressalta que “(…) não há muita dúvida de que a imprensa feminina figura entre os agentes mais eficazes da propagação social das normas do corpo esbelto (…). Frente às novas exigências de sedução, surge uma nova mulher que usa a maquiagem e a roupa que quer. Lipovetsky (2000) conta-nos que a partir dos anos 1960, a imprensa feminina dá mais acessibilidade à elegância, tornando-a prática e descontraída. E assim, a mídia passa a valorizar a individualidade e a personalidade, e a beleza, agora, se torna livre. Até um artigo da Vogue de 1968, como destaca Lipovetsky (2000, p. 165) “(…) defende a ideia de que a beleza resulta metade da personalidade, um quarto da maquiagem e outro quarto da natureza”. Dessa forma, a mídia feminina começa a reforçar o poder das mulheres sobre sua aparência física. E que mulher não sonha em ser bela? Ao falar que se difunde uma cultura que favorece a responsabilização individual pelo corpo e o princípio de autoconstrução de si, Lipovetsky (2000, p. 101) coloca que:
É um belo romance, é uma velha história. Lembremo-nos dos contos, das rainhas e de suas inquietações lancinantes: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Ao longo dos séculos, os poetas se maravilharam com os encantos da bela, os pintores e os escultores glorificaram a plástica de Vênus, os livros de “segredos” propagaram as receitas da sedução feminina. Ainda em nossos dias, as fotografias de moda, os institutos e concursos de beleza, os conselhos e produtos cosméticos não cessam de recompor o primado da beleza feminina, de reproduzir a importância da aparência na identidade feminina. Que mulher não sonha em ser bela e que homem não sonha com mulheres lindas? Uma mulher nunca é bela demais: quanto mais o é, mais irradia sua feminilidade. Para os homens, nada de semelhante: a imagem da virilidade não é função da beleza. Hoje como ontem, as expectativas em relação à beleza e ao valor a ela conferido não são equivalentes no masculino e no feminino. Para nós a equação é evidente: segundo sexo e belo sexo, é a mesma coisa.
 
Esse primado da beleza feminina vem reforçando o sonho de se estar bela desde as nossas infâncias. A importância da aparência ganha palco nas mais diversas circunstâncias sociais. As mulheres são cobradas para adquirirem e manterem uma beleza midiática, a ser consumida e produzida como nos contos de fadas. Muitas meninas, por exemplo, já devem ter sonhado em assumir um estilo Cinderela, Branca de Neve ou Bela Adormecida de ser. Para terem a chance de atingir tais sonhos, elas “abraçam” os conselhos e as dicas que prometem corrigir todos os “defeitos”, alcançando o corpo idealizado. Mas e o que a mídia tem a ver com isso? Conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 167) “(…) a mídia menos produz o desejo feminino de beleza do que o exprime e intensifica”. Mas o que as artistas, as princesas e as manequins têm em comum? Não poderíamos pensar que ambas nos sugestionam ou irradiam uma feminilidade fantástica? Nessa exposição e proliferação de imagens de mulheres realçadas e intensificadas na mídia, não nos inspiramos a querer ser cada vez mais belas e sedutoras? O sonho de ser uma famosa top model não poderia estar de certa forma relacionado com todo esse encantamento literário da beleza feminina? Lipovetsky (2000) nos explica que, por muito tempo, se pendurou o tema da beleza perigosa, que despertava o medo e a desconfiança dos homens. Contudo, com a sagração do belo sexo, houve uma mudança importante e o feminino passou a ser cercado de homenagens enfáticas. Nesse contexto, segundo Lipovetsky (2000, p. 125):
(…) “Cada bela mulher é uma rainha”, diz justamente Balzac: depois de milênios de depreciação, um poder feminino é posto num pedestal, admirado, supostamente igualando ou mesmo superando o poder dos monarcas. O novo reside em que um atributo feminino tornou-se capaz de conferir às mulheres títulos de nobreza, prestígio, riqueza simbólica. Assim, os hinos ao belo sexo não podem ser assimilados pura e simplesmente a um instrumento de alienação do feminino; concretizando um reconhecimento e uma valorização inéditos das prerrogativas femininas, permitiram ao mesmo tempo impulsionar uma promoção social e simbólica das mulheres, ainda que excepcional, a exemplo das Damas de Beleza e outras favoritas do Rei.
 
E que mulher ou menina não sonha em ter uma beleza de princesa ou de rainha? Que jovem não almeja em ser a dama do rei ou aquela moça da corte cortejada por seu admirado embelezamento? Desde cedo, as meninas aprendem a ser princesas, buscando dicas e conselhos de beleza para o seu aperfeiçoamento físico. Ser considerada como uma “rainha” pode ser um caminho para se chegar às passarelas. As misses ao vencerem um concurso de beleza, usam uma coroa. Tal objeto glorifica a beleza que foi conquistada. Muitos atributos femininos são ensinados nos contos de fadas: comportamentos, modos de agir, de pensar, de vestir, de andar, de acenar, e de cuidar da própria aparência. O trabalho de uma modelo não se distancia muito das aprendizagens consideradas importantes para uma princesa. Rainhas, princesas, misses e atrizes cinematográficas, o que elas têm em comum? Os penteados, as maquiagens, o corpo magro, as medidas, e o nariz arrebitado? Será que todas essas referências não trazem em si o brilho de uma super top model? Elas não deixam de ensinar a importância de uma superprodução para se estar bela. Em um passe de mágica, a Gata Borralheira virou Cinderela. Lipovetsky (2000, p. 181) considera que essas figuras ideais do feminino têm em comum “(…) o fato de sua beleza ser fruto de um extraordinário trabalho de metamorfose”. O autor complementa afirmando que “(…) evidentemente, os artifícios sempre permitiram que as mulheres resplandecessem e parecessem ‘outras’”. Isso nos é mostrado até nas imagens de mulheres representadas nos contos de fadas. E as top models, segundo Lipovetsky (2000), prolongam esse processo de superprodução artificialista. As receitas da sedução feminina estão produzindo um modelo de mulher para ser posto em espetáculo a ser desfilado em concursos de beleza. Conforme ainda nos explica o autor (2000, p. 182):
(…) a fase radiosa da beleza coincide com o momento em que a técnica permite construir belezas vivas mais sublimes que as criações imaginárias, em que o mito da beleza torna-se verídico e as belezas de carne, imagens míticas. Em nossas sociedades, a beleza feminina já não é acusada de produzir o mal, é produzida como uma imagem de sonho para o consumo das massas (…).
 
Nesse sentido, a beleza maldita foi substituída por uma beleza mercantil, segundo Lipovetsky (2000, p. 182): “(…) uma beleza funcionalizada a serviço da promoção das marcas e do faturamento das indústrias do imaginário”.
As princesas dos contos de fadas, apresentam a figura de uma mulher jovem, loira, alta, magra, com uma cintura de manequim e um rosto delicado. Muitas meninas, por exemplo, se inspiram até hoje na imagem da Cinderela e de seu sapatinho de cristal, cuja história já ganhou algumas adaptações e releituras para o cinema. Isso também inclui  a Bela Adormecida, uma princesa romântica, meiga, delicada, de vestido rosa, cabelos feitos da luz do sol e lábios rubros como as rosas vermelhas. Uma jovem que sonha em encontrar seu príncipe encantado e ser feliz para sempre. Nesses contos infantis, as princesas apresentam um corpo feminino perfeito. Essa cultura que cria e ensina gestos, atitudes, valores, maneiras de ver e cuidar de si, difunde-se no campo social, estabelecendo estilos e tendências. Muitas animações, por exemplo, dão fluência a tais discursos legitimando como é ser mulher na atualidade. Uma das mais recentes releituras dos contos de fadas, o longa-metragem – Espelho, espelho meu – faz uma adaptação do filme “A Branca de Neve e os sete anões” da Disney. A rainha má, interpretada pela atriz americana Julia Roberts, mostra os seus métodos e artifícios para manter a aparência de um corpo perfeito. Ao fazer referência a essa personagem, pretendo ilustrar, como a partir de um panorama cultural, as meninas são interpeladas a se tornarem fantásticas desde as suas infâncias. Lipovetsky (2000, p. 181) destaca que “(…) as mulheres manequins, da mesma maneira que as estrelas da tela grande, não são irreais nem fictícias, são recompostas e surreais”. Esse filme, por exemplo, teve uma bilheteria de quase dois milhões de ingressos vendidos no Brasil. Assim, penso que algumas imagens de corpos femininos que circulam e são produzidas na mídia, investem em modelos a serem perseguidos. Nessa constante busca pela aparência perfeita, qualquer técnica de beleza parece ser válida para que bruxas, princesas, artistas, modelos e as mulheres ditas “comuns” adquiram os padrões e transformem-se em “uma linda mulher”.
 
Referências
ALBINO, B. S.; VAZ, A. F. Uma narrativa histórica por meio da beleza: comentários sobre História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje, de Georges Vigarello, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 29, p. 145-151, 2008.
COUTO, Edvaldo Souza. Corpos voláteis, corpos perfeitos: estudos sobre estéticas, pedagogias e políticas do pós-humano. Salvador: EDUFBA, 2012.
PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.





Bio fornecida pelo palestrante.

O FEMININO HELENA: MÚLTIPLAS VOZES LITERÁRIAS – Dina Maria Martins Ferreira




 

 

Dina Maria Martins Ferreira

 

Universidade Estadual do Ceará

Université Paris V, Sorbonne

 
 
RESUMO: Este estudo se configura pela hibridez de áreas de estudos da linguagem, já que leva em conta os estudos linguísticos e literários sobre gênero feminino em torno do mito de Helena, o eterno feminino. Faz-se um percurso analítico desde o século VIII a.C. na Grécia antiga e chega-se ao Brasil contemporâneo. Nessa jornada poética, senão filosófica, discute-se se é pertinente aceitar o conceito de gênero feminino por vozes masculinas, formadores de estereótipos falocráticos, ou se o conceito de gênero feminino se constitui apenas por performatividades da mulher.
 
PALAVRAS-CHAVE: Feminino; Mito; Estereótipo; Vozes masculinas
 
ABSTRACT: This study sets the hybridity of areas of language and literature studies, as it takes into account the linguistics and literary studies about feminine gender concerning the myth of Helen, the eternal feminine. It is an analytical survey since the VIII Century B.C., in ancient Greece, until contemporary Brazil. In this poetic journey, we discuss if it is appropriate to accept the notion of feminine gender by male voices, forming phallocratical stereotypes, or if the concept of feminine gender can only consist of  women’s performances.
 
KEYWORD: Feminine; Myth; Stereotype; Male voices
 
MINICURRÍCULO: Pós-doutora pela Université Paris V, Sorbonne e Unicamp (2010), é graduada pela Universidade de Campinas, Unicamp (2002-2003) e doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ (1995). É docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará; membro pesquisadora do Centre d’Études sur Les Actuels et Quotidien, Université Paris V, Sorbonne. É autora de quatro livros, organizadora de quatro outros, capítulos de livros, artigos nacionais e internacionais.
 
 
MÚLTIPLAS VOZES LITERÁRIAS
 
Dina Maria Martins Ferreira
 
Universidade Estadual do Ceará
Université Paris V, Sorbonne
 

  1. Considerações

Este estudo é resultado de estudos sobre o feminino e mitologemas na literatura greco-latina (BRANDÃO, 1989)[1]. Aparentemente não teria ligação com os estudos atuais sobre o que, por exemplo, Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012) e
 
Luce Irigaray (1994; 1994) chamam de “feminismo da diferença”, pois, como poderão observar, não vai se travar nenhuma luta ferrenha em prol do feminismo nem tratar especificadamente de escrita feminina. Muito pelo contrário, pois são as vozes masculinas literárias que constroem o feminino Helena.
A escolha do título “O feminino Helena: múltiplas vozes masculinas” vem justamente nos possibilitar viajar não só pelo território geográfico-simbólico de Helena como também pelos territórios das vozes dos poetas-masculinos construindo o feminino “helena”, uma representação do ‘eterno’ feminino no universo mítico masculino, cujas contingências e performatividades são da seara do sistema patriarcal ‒ um devir de helenas que não têm nem início nem fim, habitando as brumas dos mitologemas. Nessa viagem literária de ‘helenas’, mesmo enaltecida ou enegrecida, o que o movimento feminista contemporâneo (século XX e XXI) chama de gênero feminino é apagado, devido não ser construído pela performatividade feminina.
 

  1. Viagem literária no espaço geográfico-simbólico

Mesmo que tenhamos a preocupação de ‘localizar’ o geográfico, este local no atlas é de natureza simbólica. Quando me refiro à noção do simbólico estarei no espaço de mitologias gregas, quando o caso, que se constroem na sacralidade do símbolo. E por tal aporte sacralizador torna-se um signo denso e durável, na medida em que está sempre em equivalência com outros sentidos de vida (BARTHES, 1989).  Segundo Brandão (1986, p. 38), a própria etimologia do termo símbolo já ratifica sua densidade de sentido, ou seja, o vocábulo grego súmbolon (de sun = junto, com e ballein = atirar, lançar) tem o sentido de
(…) ‘lançar com’, arremessar ao mesmo tempo, ‘com-jogar’. De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitia aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de equivalência (grifo nosso).
 
Apesar de estarmos aventando ao símbolo um caráter sacralizador, durável e equivalente, ele não está ontologizado no essencialismo; até, muitas vezes, está agregado ao simbólico, pois não se nega à morfologia cultural de cada emergência simbólica. O que se propõe é entender a construção do ‘gênero helena’ pela percepção de que
 
(…) os símbolos são diversamente vividos e valorizados: o produto dessas múltiplas atualizações constitui em grande parte os ‘estilos culturais’ (…) [e] como formações históricas, essas culturas não são mais intercambiáveis; estando já constituídas em seus próprios estilos, elas podem ser comparadas no nível das Imagens e dos símbolos (ÉLIADE, 1996, p.  173) (grifo nosso).
 
E Haesbaert (2006, p. 40) nos auxilia a entender porque estamos designando essa viagem de uma geografia simbólico-literária. Para esse autor nada é mais coerente do que tratar território pela vertente cultural ou “simbólico-cultural: [que] prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido”; Ou seja, a dimensão simbólica habita um espaço social organizando-se pela historicidade e geograficidade, quesitos de territorialidade. Vale a observação que historicidade e geograficidade podem ser valores construídos no próprio território ou designados por outro território ‒ neste caso estaremos ainda em viagem, mas já fora da Grécia Antiga, pois os valores da mitologia grega podem ou não ser apropriados por outro território, tal como Itália, Alemanha, Brasil ‒ os territórios que também vamos visitar.
Apresentamos o início de nossa viagem com um guia-atlas: primeiro a localização histórico-geográfica dos poetas masculinos[2], depois o percurso de Helena pela literatura mais antiga. Vale a ressalva de que reduzimos em muito nossa viagem, pois só na literatura greco-romana haveria mais de 34 obras em que Helena se presentifica.
Onde bradam as vozes dos poetas-masculinos gregos:[3]
 
 
 
Figura 1
www.atlas.google.com.br
 
Legenda:
Geografia das vozes dos poetas e suas obras:
Anatólia,                              Homero,               Ilíada e Odisseia (séc. VIII a.C.)
Ilha de Kíos,                        Hesíodo,               Os trabalhos e os dias e Teogonia (séc.VIII e                                                                                                           VII a.C.)
Ilha de Lesbos,    Safo,                      Poemas, L.I (séc. VII a.C.)
Éfeso,                                    Hipônax,              Fragmentos (séc. VII a.C.)
Ilhas Cíclades,     Semônides
de Amargós,         Sátiras às Mulheres (séc. VII e VI a.C.)
Atenas,                  Ésquilo,                 Oréstia (séc.V e IV a.C) e
Eurípedes,            Andrômaca, Orestes, Medeia, Helena                                                                                                         (séc.V e IV a.C)
 
Peregrinação literário-simbólica de Helena:
Troia
Ilha de Ítaca
Micenas
Esparta
Creta
 
 

  1. Helena e o feminino

E já tendo a contextualização geográfico-histórico-simbólico, é na e pela linguagem que se os poetas masculinos constroem as suas helenas, senão os estereótipos de representação feminina. Estamos chamando novamente a atenção para os estereótipos, devido ao fato de não haver performativos femininos nessa caminhada. No entanto, se os estereótipos fossem considerados gêneros, teríamos quatro subgêneros ‒ feminino-deusa; feminino-heroína; feminino-traidora-prostituta; e feminino-em-paz ‒, todos sob a égide do hemistíquio de Ésquilo ‒ “sofrer para compreender”.
 
3.1. Feminino-deusa
A primeira Helena se constitui em divindade creto-micênica. Sua existência foi comprovada em Atenas e na Ilha de Creta e outros lugares como Rodes etc, conforme atestou o geógrafo Estrabão (63 a.C.-24 a.C., grego da Amaseia, atual Turquia). Era uma deusa ctônica da vegetação, que sempre renascia todo ano. Tanto que Apolo na tragédia euripidiana Orestes confirma a tradição divina de Helena:
 
Porque, filha de Zeus, ela deve viver como imortal,
E com Cartor e Pólus entará nas profundezas do éter,


como guardiã da vida dos navegantes [4]
 
(Or.1635-1637)
 
E Homero a apresenta na Ilíada, quando ela sobe as escadarias em Troia para ser apresentada ao Rei Príamo, pai de Páris, o príncipe de Troia, encantado por sua beleza a sequestra de seu marido Menelau, rei de Esparta:
 
Não, não é uma nêmesis [“uma punição”] que troianos e aqueus de belas grevas
[sofram tantas desgraças,
há tanto tempo, por semelhate mulher ()
Quando vista de perto ela se assemelha  terrivelmente às deusas imortais …     
(Il. III. 156-158)
 
Esse trecho se refere ao fato de que Zeus engendraria uma filha, Helena, de tal modo que provocasse uma guerra entre atual Ásia e Europa, de modo a trazer o equilíbrio cósmico, os homens mortais estavam em grande alarido. E Helena seria o pretexto para deflagar o conflito e Aquiles agiria. Esta mesma prerrogativa se repete em Helena de Eurípides, não só ratificando o papel do feminino que deve ser punido, como também transformando esse papel punidor em glórias ao masculino (Aquiles):
 
Além do mais, a estes infortúnios acrescentaram-se
outros desígios de Zeus: a eclosão da guerra entre os helenos
e os desventurados troianos, a fim de aliviar a Mãe-Terra
de uma pletora impertinente de mortais e enaltecer
o mais destemido dos gregos.
(Hel. 36-41)
 
Helena como a deusa da punição, já constrói a representação estereotípica de que tudo que acontece é culpa da mulher. Não é só o hemistíquio de Ésquilo que compõe o feminino-punição, Eurípedes é insistente nessa prerrogativa na obra Medeia:
 
De todos os seres viventes e pensantes, somos nós, as mulheres,
as criaturas mais sofredoras. Primeiro, somos obrigadas
a gastar muito dinheiro para comprar um marido
e (além disso, a) dar um senhor ao nosso corpo, mal
ainda mais grave que o primeiro
E vem o problema mais sério: será ele bom ou mau?
Pois é uma vergonha para as mulheres abondonar o marido
sem lhes ser possível repudiá-lo.
(Med. 230-237)
 
3.2. Feminino-heroína
E, na condição de heroína, mesmo isenta de culpa pelo rei de Troia, Príamo, Homero não deixa Helena livre do sentimento de que merece punição. Helena se amaldiçoa e se julga digna de castigo:
 
Diante de ti, dileto sogro, sinto-me constrangida e temerosa,
Antes me tivesse levado a morte cruel do que ter seguido
teu filho até aqui, abandonando meu tálamo, meus parentes,
minha querida filha e minhas amáveis companheiras.
(Il. III. 172-175)
 
Na Odisseia, Helena minora, de um lado, sua culpa de mulher espartana em diálogo com Telêmaco ‒ conta sua experiência em Troia com a entrada de Ulisses e o “cavalo de Troia”, o famoso “presente de grego” ‒, e, de outro, não deixa de glorificar a superioridade masculina:
 
 Nesse tempo, enquanto outras mulheres troianas lamentavam-se em altas vozes,
meu peito, no entanto, se alegrava, pois meu coração já se inclinara
a voltar para casa, e lamentava a loucura em mim,
provocada por Afrodite, quando para lá me arrastou de minha terra pátria, 
deixando minha filha, meu tálamo, meu esposo,
que não é inferior a ninguém, quer no espírito, quer na beleza.
(Od. IV. 259-264)
 
A superioridade masculina também é enaltecida pelo próprio feminino Helena, tanto que na Ilíada, a mulher heroína necessita, para ter tal atributo, de um marido herói, Menelau, já que Páris se enfraquece diante dos horrores da guerra de Troia:
 
Se os deuses, todavia, nos reservaram estes horrores,
porque, ao menos, não sou mulher de um homem destemido,
capaz de sentir a repulsa e as múltiplas injúrias dos homens?
Páris, no entanto, não tem persistência alguma e jamais aterá.
E creio que, em breve, ele verá as consequências.
(Il. VI, 349-353)
 
Helena se faz tão heróina que enfrenta Afrodite, acusando-a do feitiço recebido para ter abandonado Menelau, rei de Esparta. Manda Afrodite deitar com Páris:
 
Vai deitar com ele. Abandona a companhia dos deuses,
deixa de escalar o Olimpo. Aprende a te atormentar por causa dele,
vela por ele, até que o mesmo te faça sua esposa e talvez sua escrava! 
(Il. III, 406-409)
 
Mas Helena-heroína, rapidamente se transforma em anti-heroína por Hesíodo, em Os trabalhos e os dias:
 
Outros, conduzidos em navios, para além do abismo marinho,
para Troia, por causa de Helena de linda cabeleira,
lá foram envolvidos pela morte que tudo finaliza.
(Trab. 164-166)
 
3.3. Feminino-adúltera-traidora-prostituta
E de anti-heroína Helena passa a adúltera e traidora, em Andrômaca de Eurípedes:
 
Nenhuma jovem espartana, mesmo que o desejasse,poderia permancecer virtuosa:
desertando a casa paterna, coxas nuas e peplos esvoaçantes,
participam com os adolescentes
dos exercícios nos estádios e palestras, hábitos a meu ver intolerávies.
É necessário, após isso, admirar-se de não formardes esposas honestas?
(And. 595-601)
 
Realmente Eurípides não perdoa Helena, porquanto não a isenta de um segundo julgamento que a condena à morte. A impura mulher em Orestes  deve ser condenada:
 
Se nosso punhal se erguesse contra uma mulher honesta,
seria um crime abominável. Helena, todavia, pagará pelaGrécia inteira,
cujos pais matou, cujos filhos fez perecer, cujas mulheres privou de seus maridos.
Erguer-se-á um grito de júbilo e as chamas dos altares
(…)
por termos derramado o sangue de uma mulher infame.
(Or. 1132-1140)
                                                                                                                         
Ésquilo também se insurge contra Helena, na trilogia Oréstia. Aliás é impossível em tragédia salvar alguém, não?
Quem, pois, senão um ser invisível que na sua presciência,
fazendo-nos falar a língua do destino, deu este nome tão verdadeiro
àquela que, objeto de contestação, o esposo reclama, lança na mão,
esta Helena justamente cognominada perdição de navios,
perdição de homens, perdição de cidades
(Agam. 681-688)
 
Esta mulher traidora ascende a Hesíodo, em Os trabalhos e os dias, pois conclama que /quem confia em mulher está confiando em ladrões/ (Trab. 375), e também na Teogonia:
 
E quando, em vez de um bem, [Zeus] criou este mal tão belo,
conduziu-a (Pandora) para onde estavam os demais deuses e homens.
                      (…)
(…) Dela se originou
a espécie maldita das mulheres, flagelo terrível instalado
entre os homens mortais…
(Teog.585-588; 590-592)
 
E um pouco mais ao sul do continente grego, nas Ilhas Cíclades, Simônides de Amorgós também não perde a vez de satirizar Helena em Sátira às mulheres:
 
Zeus criou com efeito este imenso flagelo
e a ele nos prendeu com liame indestrutível: o Hades
recebeu, por isso mesmo, os que lutram por causa deuma mulher.
(Sat. mulh. 115-118)
 
Mas a misogenia alcança o seu épice com Hipônax de Éfeso, cujo ditado popular circula até hoje entre homens machistas:
 
Há dois momentos em que a mulher nos proporciona um prazer supremo,
no dia do casamento e quando a levamos à sepultura.
(Frag. 29 Bergk)
 
3.4. Feminino-em-paz
Diante de tanta misogenia, parece-me que até a voz patriarcal-poética se cansa, A este cansaço chamo pelo feminino-em paz, porquanto Eurípedes desvanece Helena em éter:
 
Todos vós, frígios e aqueus, como sois infelizes. As maquinações de Hera
fizeram que, por minha causa, durante tantos anos morrêsseis
nas margens do Escamandro! Julgáveis que Páris, possuísse
uma Helena e ele no entanto nunca a teve. Agora, após cumprir
durante todo esse tempo o que me foi pelo destino imposto,
retorno para junto de meu pai, nos altos dos céus.
(Hel. 608-613)
 
Já Goethe a celebra em Fausto (1806 [1981]), nas serenas camadas do Éter, vivendo com Aquiles, na foz do Danúbio, eternamente ditosa na Ilha Branca:
 
Eu [Helena], como sombras, vinculei-me a ele, outra sombra,
Um sonho foi, dizem-no as próprias palavras;
Desmaio. E sombra torno-me eu, para mim mesma.
(Fausto, Ato III)
 

  1. As helenas contemporâneas: equivalências simbólicas

Contudo, parece que Helena não descansa no éter da Ilha dos Bem-Aventurados, continua até hoje a provocar pulsões (séculos XIX, XX e XXI), sejam elas misóginas ou não, sejam irônicas, suaves e deleitosas ‒ mas sempre pulsão na voz do masculino. Como diz Brandão (1986, p. 121), “Curioso é que entre muitos poetas modernos Helena continue sua caminhada, às vezes parecendo até que o sangue de Troia nunca foi purgado!”. Continua o hemistíquio esquiliano “sofrer para compreender”!
O poeta neogrego Giorgos Seféris (apud PAES, 1986, p. 169) a transforma em sombra, talvez querendo lhe dar paz ou até culpando-a da guerra, quiçá?:
 
E em Troia?
Nada em Troia – apenas um fantasma.
Assim os deuses o quiseram.
E Páris se deitou com um sombra, como se ela fosse um ente sólido,
e por Helena durante dez anos fomos massacrados.
(Diário de Bordo III)
 
Na comédia Abel e Helena (título é um trocadilho) de Artur de Azevedo (1877), Helena tem um rapto diferente. Helena deveria ir para um convento, pois seu padrinho Nicolau (que a pretendia para esposa) a surpreende com o bem-amado Abel. E este, disfarçado de frade, rapta Helena. Na fuga, já no trem em movimento, Abel tira o capuz, os óculos e a barba e grita para a apoplético Nicolau:
 
Ó Nicolau, triste papel
fizeste em cena:
cá levo Helena…
Eu sou Abel!
(Ato Terceiro, Cena IX)
 
Já o poeta e ensaísta Gilberto Mendonça Telles, no poema Ubi Troia Fútil, em quatro versos, euripidizou Helena, em Sociologia Goiana (1982, p. 111):
 
Helena de um
Helena de dois
Helena de trois
Helena de trottoir
 
Enfim, parece que o feminino se eterniza em mito e poesia, pela voz literária-masculina de Goethe em Fausto:
 
Têm os filólogos aqui
Enganado a si mesmos como a ti.
Se é mitológica, é única a mulher;
Recria-se o poeta como lhe prouver.
Não envelhece, nem fica madura,
Mais sedutora, sempre, sua figura.
Raptam-na, moça, idosa, ainda é do amor a meta;
Pois basta! Não se atém ao tempo o poeta.
 
Mas ainda o feminino não é o agente de sua representação, é o Alter masculino que a constrói, seja belamente, seja ironicamente.
 

  1. Representação do feminino

Mesmo em uma viagem que se iniciou em tempos primevos, a voz feminina deu o seu brado: Safo, a poetiza da ilha de Lesbos. Talvez um marco para o movimento feminista em que a mulher é agente de suas escolhas. A história de Safo é envolta em lendas e muitas controvérsias devido à Escola para Moças que fundou, onde se ensinava poesia, música e dança somente a mulheres. Safo amava todas as suas “amigas” e não alunas (daí o termo lesbianismo, devido sua homosessualidade), e principalmente seu grande amor e amante Ítis. Safo, diante da escolha de Helena de acompanhar seu amante Páris, elogia sua coragem e destemor:
 
Uns consideram que as corridas de carros, de infantes ou de navios
são o que há de mais belo na face da negra terra.
Para mim, o que de mais sublime existe é o objeto do amor de cada um.
É muito fácil fazer que todos compreendam esta verdade:
Helena, que pôde comparar a beleza de tantos homens,
escolheu como o mais atranete aquele que destruiria a gloriosa Troia.
Tendo abandonado a filha e os parentes mais queridos,
deixou-se ir, arrastada por Cípris, a fim de amar
 um homen de terras longínguas
(Liv. 1, 27 D, 1-13)
 
Mesmo que o percurso do feminino pela voz masculina não revele um embate feminista, este estudo não deixa de captar a prerrogativa de Simone de Beauvoir (1949[1973]), quando diz “não se nasce mulher, torna-se mulher”; até porque é uma afirmativa que embuti toda uma noção de performatividade, seja uma suposta Helena um sujeito agente, seja um personagem do universo masculino.
Se pudéssemos ancorar a representação do feminino pela figura de Helena(s), duas categorias são aventadas para a constituição de sua representação social: feminilidade e “feminilitude” (MARTINS FERREIRA, 2009). Na feminilidade, encontramos com a Helena que “alimenta o perfil identitário do senso comum da mulher tradicional, provido por arquétipos do sistema patriarcal” (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 126) ‒ não é à toa a construção que é feito pelos poetas-masculinos. E, na “feminilitude”, encontramos a Helena de Safo que “escolheu”, agiu ‒ enfim esta Helena constrói “ o sujeito-’feminilitude’ [que] precisa afirmar-se no seu meio funcional, adotando elementos que indexem seu posicionamento de força” (MARTINS FERREIRA, 2009, p.127).
Retornando a Simone de Beauvoir (1949[1973]), Helena, a meu ver, torna-se mulher, mesmo sob a égide do falocentrismo, até porque os poetas precisaram da força centrípeta de Helena para compor sagas, comédias e tragédias humanas. Sem Helena, mesmo sendo assinalada com fantasma, cf. Seféris, suas ‘histórias’ literárias não se narrativizariam. Sob o falocentrismo é a mulher punição, precisa “sofrer para compreender”, no entanto o masculino esqueceu que sofrer é ação, é um “tornar-se mulher”, mesmo que, pretensamente, submetida ao alter masculino.
 

  1. Considerações finais

Parece-me que, mesmo insistindo em categorias dicotômicas na construção identitária de gênero feminino, em que o universo ontológico se exacerba, a dicotomia perde sua força hierarquizante. O “tornar-se mulher” beauvoiriano encontra-se com a asserção do filósofo analítico Willard van Orman Quine: “ser é ser o valor de uma variável” (apud Rajagopalan, 2000, p.80). O termo ser pode nos levar ao onto, mas o variável se movimenta, se performatiza, torna-se. Nesse sentido,
 
Tal assertiva vislumbra o universo multifacetado em que a identidade se constrói, por exemplo, ser mulher é ser o valor feminino de uma rede variável sócio-cultural-ideológica, ou seja, o construído da identidade do feminino mobiliza, situado em espaço social e cultural, sentidos ideológicos (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 127).
 
A própria Judith Butler (1986, p. 35), uma das grandes representantes do feminismo contemporâneo, afirma que “se há algo de certo na afirmação de Beauvoir de que ninguém nasce mulher e sim torna-se mulher decorre de que a mulher é um termo em processo, um devir, um construir de que não pode dizer com acerto que tenha uma origem ou um fim”.
Não foi isso que aconteceu às helenas (propositadamente no plural) pelas vozes masculinas desde o século VIII a.C. até os XIX, XX e XXI? O “ser mulher” não foi se “tornando mulher” x, y, z, de acordo com o tempo e espaço, de acordo com as gramáticas culturais nas quais emerge?
 
É preciso também lembrar que a noção de gênero[5] “é um conceito contemporâneo, que surge a partir da ideia de que o feminino e o masculino correspondem
 
a construções culturais que vão mais além das fronteiras entre os secos de  caráter puramente biológico (KUBISSA, 2006, p. 182).
Resta a questão de saber se o gênero feminino é apenas delimitado pela agência do discurso feminino ou pode ser construído pelo masculino.
Se gênero feminino está vinculado ao discurso da mulher, à Helena não aplicamos a noção de gênero, e sim a de um arquétipo feminino construído pelo sistema patriarcal. Se o movimento do “feminismo da diferença” reclama contra a divisão cultural genérica entre masculino e feminino, buscando uma superação de gêneros para uma compreensão unitária do humano (cf. KUBISSA, 2006, p. 183), o nosso estudo sobre o poeta masculino construindo o feminino perde sua razão de ser. Até porque uma “compreensão unitária” é uma linha cultural e sociológica de valoração, mas eliminar as diferenças, parece-me inviável. Para Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012), a linguagem é uma tradução e que qualquer escritor fala através do corpo; e como o corpo feminino é diferente do masculino, logo as literaturas vão construir outros corpos diferentes de acordo com o corpo-escritor. Nesse sentido, Helena não seria um gênero feminino ‘puramente’ feminino já que a escritura é construção do masculino?
Se gênero é uma estilização do corpo, independente de quem o constrói, Helena seria um corpo construído (pelo masculino), estilizado pelo tempo e história em que é construído; mas se depende da própria agência, Helena seria uma fantasma-mulher ou uma personagem feminina segundo a vontade do masculino. Conforme argumentação de Pinto (2002, p. 106) agência/linguagem/corpo é uma rede de contínua intercomunicação, pois “o efeito do ato de fala é operado ao mesmo tempo pelo que é dito, por quem diz e como é dito”, logo, sujeito, fala e corpo estão em relação imbricada. No caso de nossa viagem, teríamos o sujeito e a fala masculina construindo o corpo feminino.  Aí o perigo de entendermos gênero como dissociado de quem fala, pois
 
(…) o dizer do corpo não é um acidente, uma causalidade psico-física-motora do momento da enunciação ligada à intenção do/a falante. O corpo é também ritualizado. Sua ação não é um ato físico não convencional. (…) Suas estilizações fazem parte dos processos de marcação social; a convencionalidade e a repetição definem sua legitimidade e traçam o domínio do possível, do pensável e do executável (PINTO, 2002, p. 107).
 
E nessa viagem a “convencionalidade” e a “repetição” de helenas-sofrer-para-compreender parecem se deter na categoria feminilidade, sob a legitimação do sistema patriarcal.
Porém, o “domínio do possível, do pensável e do executável” está aí, haja vista a nova imortal da Academia Brasileira de Letras, a pensadora e crítica Rosiska Darcy de Oliveira, que assumiu a cadeira 10 em junho 2013, cujos atributos, “a rebeldia, a irreverência, a defesa do ‘feminino’ e uma ruidosa campanha pela felicidade” (ZAIDAN, 2013, p. 154) constróem o gênero feminino: “O movimento feminista se constrói sobre uma ideia extraordinária ‘nosso corpo nos pertence’. Quer botox? Faça!” (ZAIDAN, 2013, p. 158).
Se o gênero está no “que é dito, por quem diz e por como é dito”, Helena continua um gênero-fantasma. Mas “Fazemos votos que Helena e helenas se libertem dos bárbaros e não sejam raptadas por culpa de Zeus, mancomunado com Momo, Têmis e Plutão, nem tampouco espezinhadas e ameaçadas por algum truculento Diomedes (BRANDÃO, 1989, p. 8).
 
 
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, A. Abel, Helena. In: Teatro de Arthur de Azevedo. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas/INACEN. V. 7. (Coleção Clássicos do Teatro Brasileiro, Tomo 1), 1887.
BARTHES, R. Elementos de Semiologia. Tradução Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 1989.
BERGK, Teodor. Poetae Elegiaci et Iambographi. Lipsiae. In: Aeditus B.G. Teibmero, MCMXIV.
BEAUVOIR, Simone (1949). Le deuxième sexe.  Tome I et II. Paris: Gallimard, 1973.
BRANDÃO, Junito de S. Helena – O eterno feminino. Rio de Janeiro: Vozes, 1989.
BRANDÃO, Junito de S. Mitologia grega. Volume I. 2a ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1986.
BUTLER, Judith. Sex and gender in Simone de Beauvoir’s Second Sex, Yale French Studies, Oxford, 72, 1986: p. 35-49.
ÉLIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
GOETHE, Johann W. von. (1806) Fausto. Tradução Jenny Klabin Segall. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. São Paulo: Bertrand Brasil, 2006.
IRIGARAY, Lucy. Thinking the Difference: For a Peaceful Revolution. New York: Routledge, 1994.
IRIGARAY, Lucy. Toward a Culture of Difference. New York: Routledge, 1993.
JEANNET, Fréderic-Yves. Hélène Cixous: Encounters: Conversations on Life and Writing. Trans. Beverley Bie Brahic Malden. Chicago: University of Chicago Press, 2012.
KUBISSA, Luisa P. Diferencia, identidad y feminismo: una aproximación al pensamiento de Luce Irigaray, Anales del Seminario de Metafísica, 39, 2006: p. 181-201.
MARTINS FERREIRA, Dina M. Discurso feminino e identidade social. 2a ed. São Paulo: FAPESP/Annablume, 2009.
PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
PINTO, Joana P. Performatividade radical: Ato de fala ou ato de corpo? Revista  Gênero, Niterói, UFF, v. 3, no 1, 2002: p.101-110.
RAJAGOPALAN, Kanavillil. O singular: uma pedra no caminho dos teóricos da linguagem, Cadernos de Estudos da Linguagem, Campinas, Unicamp, 38, 2000: p. 79-84.
TELLES, Gilberto M. Sociologia goiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
ZAIDAN, Patrícia. Pop e, agora, imortal, Revista Claudia, São Paulo, 6, junho 2013: p. 154-158.
 
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] Não poderia deixar de agradecer a Junito de Souza Brandão de me ter permitido, mesmo post mortem, utilizar sua obra Helena, o eterno feminino (1989), do qual fiz parte como compositora do texto grego, praticamente na íntegra, como forma de reescrever o já dito, de modo que este primoroso livro chegue mais perto aos leitores do século XXI.
[2] Também incluímos no mapa a ilha de Lesbos, local da poetisa Safo, como forma de economia de figuras, desordenando um pouco a nossa argumentação.
[3] Em formatos diferentes e em cor vermelha, a legenda indica o local de nascimento dos poetas gregos, o título da obra em que Helena se faz personagem e o período aproximado dessas obras. As formas em turquesa referem-se às passagem de Helena na geografia das obras gregas. Aos outros poetas que se inserem na Grécia Moderna, na Alemanha, com Goethe, e no Brasil, com dois poetas, não recebem figuração em atlas devido à memória recente dos leitores.
[4] As citações de fragmentos foram retiradas da obra de Junito de Souza Brandão, Helena, o eterno feminino (1989), vide nota 1.
[5] Tradução livre da autora; texto original: También el concepto de género, dentro de la elaboración teórica del feminismo, es de cuño contemporáneo y surge a partir de la idea de que lo femenino y lo masculino responden a construcciones culturales, que van más allá de la frontera entre los sexos de carácter puramente biológico.





Bio fornecida pelo palestrante.

OLGA: PERSONAGEM FEMININA NA LITERATURA E NO CINEMA – Aline de Castro Costa Martins, Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira e Patrícia Sá de Almeida Tavella




 

Aline de Castro Costa Martins

Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora

 

Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

 

Patrícia Sá de Almeida Tavella

Universidade Federal de Juiz de Fora

 
RESUMO: Este artigo tem por objetivo estabelecer uma reflexão comparativa entre literatura e mídia, por meio de análise da obra literária Olga, do autor Fernando Morais, baseada sobre a vida da mulher do líder político Luís Carlos Prestes, Olga Benário, e do filme homônimo do diretor Jayme Monjardim, confrontando as diferenças de abordagem – transposição do hipotexto (texto de partida) para o hipertexto (filme de chegada), ou seja, a transposição da obra literária para o cinema – e a noção de fidelidade. Buscar-se-á também evidenciar os planos de montagem utilizados no filme. O embasamento teórico do trabalho pauta-se, principalmente, em Yannick Mouren que, ao discutir sobre tal transposição, evidenciou três diferentes tipos: a diegética, a pragmática e a de personagens, as quais serão abordadas na presente análise. Percebeu-se que, apesar de literatura e cinema serem artes diferentes, a contribuição que uma suscita à outra é expressiva, permitindo o hipertexto manter uma relação de interdependência com o hipotexto, conservando, no entanto, cada uma das artes características e motivações próprias.
 
Palavras-chave: Olga. Literatura. Cinema.
 
RÉSUMÉ: Cet article a pour objectifs établir une réfléxion comparative entre la littérature et les médias, par le moyen de l´analyse de l´oeuvre littéraire Olga, de Fernando Morais, basé sur la vie de la femme du politique Luís Carlos Prestes, Olga Benário, et du film homonyme du réalisateur Jayme Monjardim, en affrontant les différences d´abordage – transposition de l´hypotexte (texte de départ) pour l´hypertexte (arrivée du film), c´est à dire, la transposition de l´oeuvre littéraire pour le cinéma – et la notion de fidélité. On cherche aussi mettre en évidence les plans de montage utilisés dans le film. La base théorique du travail est guidé, principalement, par Yannick Mouren que, en discutant sur telle transposition, a évidencé trois types différents: la diégétique, la pragmatique et celle des personnages, auxquelles seront abordées dans l´analyse présente. On s´est apperçu que malgré que la littérature et le cinéma soient des arts différents, la contribution de l´une vers l´autre est significative, permettant l´hypertexte de maintenir une interdépendance avec l´hypotexte, tout en conservant chacun des arts leurs caractéristiques et motivations.
 
Mots-clé: Olga. Littérature. Cinéma.
 
Minicurrículos:
Aline de Castro Costa Martins: Graduada em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF; Pós Graduada em Revisão de Textos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG; Mestre em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF – SMC.
 
Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira: Graduada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF – SMC. Doutoranda pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG.
 
Patrícia Sá de Almeida Tavella: Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora; Pós Graduada em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora; Mestre em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF – SMC.
 
OLGA: PERSONAGEM FEMININA
NA LITERATURA E NO CINEMA
 
Aline de Castro Costa Martins
Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora
 
Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
 
Patrícia Sá de Almeida Tavella
Universidade Federal de Juiz de Fora
 
 
Introdução
O cinema, hoje, desponta como a arte que agrega o maior número de interessados, assim como a literatura o fez nos séculos XIX e XX (GALDA, 2010). Nesse cenário, percebe-se que muitos filmes produzidos são adaptações de romances. Uma análise comparada dessas artes permite visualizar a contribuição que uma suscita à outra, pois, mesmo sabendo que elas são independentes, mantêm também uma relação.
Apresenta-se, neste artigo, uma reflexão comparativa entre estas duas artes: literatura e cinema, tendo como objetos de discussão o livro Olga, de Fernando Morais, publicado em 1985 e relançado em 1994, e o filme homônimo, dirigido por Jayme Monjardim, cuja estreia data de 2004. Colocam-se em evidência fatores como noção de fidelidade, espaço e tempo, narrador e personagens, planos de montagem. O embasamento teórico do trabalho pauta-se, principalmente, em Yannick Mouren, que discute a transposição do hipotexto (texto de partida) para o hipertexto (filme de chegada), ou seja, a transposição da obra literária para o cinema.
O livro e o filme são uma biografia, porque a atenção, segundo Bakthtin (2003), concentra-se nas façanhas, afazeres, méritos como também na organização do destino e felicidade/infelicidade de Olga Benário.  Ambos, apesar das diferenças que serão discutidas a seguir, contam a história dessa mulher que, nascida em Munique, na Alemanha, em 1908 e filha de pais judeus, ainda com 16 anos, saiu de casa e tornou-se uma ativista comunista.
Percebe-se, no entanto, que o livro e o filme apresentam a trama de forma diferenciada, pois enquanto o hipotexto (obra literária de partida) tem como abordagem principal a história de Olga com o comunismo, enfatizando ideais políticos e sociais, o hipertexto (filme de chegada) foca a relação amorosa de Olga e Prestes.
 
Noção de fidelidade x adaptação
Serão abordadas as relações entre literatura e cinema, considerando a teoria de Yannick Mouren (1993), para mostrar os elos e as diferenças entre as obras literária e fílmica. A transposição do livro Olga, de Fernando Morais, ao filme homônimo, dirigido por Jayme Monjardim, é considerada pelo teórico francês como “adaptação”, pois o cineasta e/ou o roteirista partem de uma biografia única e fazem dela um filme de ficção (MOUREN, 1993).
O filme de chegada assim como o texto de partida são narrativos, porque produzem uma mensagem multíplice, apresentando uma série de circunstâncias, de eventos e de ações conciliados na unidade de um enredo (GUALDA, 2010). Quanto ao gênero, são épicos, pois há, de acordo com Cunha (1979), distanciamento entre sujeito (narrador) e o objeto (mundo narrado). Há, ainda, a abordagem da história de um povo (judeu) ou de uma nação (Alemanha à época do holocausto), envolvendo aventura, guerras, viagens, gestos heróicos e um tom de exaltação, valorizando a heroína Olga e seus feitos.
Autor e diretor, no livro e no filme respectivamente, colocam-se diante do objeto, segundo determinado ponto de vista de observação, para registrar, apontar, mostrar, apresentar, caracterizando uma narração em terceira pessoa, uma vez que o narrador não está presente na história. Esse tipo de posicionamento (distante), segundo Cunha (1979), vem corroborar o enquadramento dos textos em estudo como pertencentes ao gênero épico. Os fatos são narrados no passado, inclusive no filme (apesar de parecer que as ações estejam desenrolando-se no presente).
Ainda que tenham características comuns, são obras autônomas, uma vez que a obra fílmica não é mera cópia da literária. Nesse sentido, apesar de tais abordagens manterem relação entre si, o hipertexto conserva características e motivações próprias, rompendo, assim, com a noção de “fidelidade”. Isso ocorre, principalmente, por levar em consideração as diferenças entre os meios que veiculam essas obras (o livro é veiculado por um meio verbal, e a obra fílmica é veiculada por um meio multifacetado); a não subordinação do texto-resultante (hipertexto fílmico) com relação ao texto que lhe “deu origem” (hipotexto); e o fato de que qualquer texto, seja ele literário, fílmico, ou de qualquer outra natureza, configurar, segundo Sbrissa e Harris (2013), uma “construção híbrida”, resultado da confluência de muitas vozes “ouvidas” por seu autor (SBRISSA E HARRIS, 2013).
A questão da adaptação, de um ponto de vista narratológico, precisa considerar, segundo Mouren (1993), a exploração de diferentes tipos de transposição do livro ao filme: a transposição  diegética, a transposição pragmática e a transposição de personagens, as quais abordaremos em seguida.
 
Transposição diegética: tempo e espaço
A biografia de Olga Benário contextualiza-se no período dos regimes totalitários na Europa e, posteriormente, da ditadura varguista no Brasil. Para Bakhtin (2003), o tempo biográfico corresponde ao real, pois todos os seus momentos estão vinculados ao conjunto do processo global e, por isso, a biografia traz períodos longos e opera com partes orgânicas do todo de uma vida, como idades, por exemplo (BAKHTIN, 2003). O espaço, por sua vez, reveste-se de um caráter particular, deixando de ser apenas pano de fundo para o herói (neste caso para a protagonista Olga – heroína). A protagonista insere-se no mundo e os lugares onde se passam as ações são significativos para a trama. O espaço é funcional na biografia.
O conjunto de acontecimentos narrados, levando-se em conta a dimensão espaciotemporal, por Morais, na biografia, e retratados, no filme, por Monjardim, apresenta diferenças e semelhanças que serão versadas aqui, considerando-se a teoria de Yannick Mouren (1993) que aborda o texto de partida (romance biográfico Olga, escrito por Fernando Morais) como hipotexto e o filme de chegada (homônimo, de Jayme Monjardim) como hipertexto.
De acordo com Mouren (1993), a transformação de um hipotexto escrito em um hipertexto fílmico requer que o autor dessa operação pratique certo número de escolhas. Procurar-se-á demonstrar como a biografia levada à tela apresenta modificações nos quadros espacial e temporal, ou seja, adaptações.
O livro começa com espaço e tempo bem marcados no subtítulo: “BERLIM, ALEMANHA, ABRIL DE 1928” (MORAIS, 2008, p. 17). O narrador relata aquilo que já aconteceu, conta a façanha de Olga, ao resgatar Otto Braun da prisão de Moabit, no centro de Berlim. Após o fato (o resgate), Olga e seu namorado ativista viajam para Stettin, uma cidade na fronteira entre Alemanha e Polônia. “De lá embarcam num trem rumo a Moscou”, na União Soviética (MORAIS, 2008, p. 21).
O filme, por sua vez, tem início também com uma proeza de Olga, mostrada em flashback, em que ela quando ainda criança, em uma noite de inverno, durante uma nevasca, pula por cima de uma fogueira. Posteriormente, após a cena da menina pulando a fogueira, aparece o rosto da protagonista em uma janela, no campo de concentração de Ravensbrück, na noite que antecede sua morte em 1942. Para marcar local e tempo, há, no filme, uma legenda com as seguintes palavras: “CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE RAVENSBRUCK, ALEMANHA, 1942”. Olga, ao esperar pelo fim de sua vida, pressentindo o que acontecerá, traz à lembrança imagens de sua própria infância, e isso a remete à infância de sua filha.
Distanciando-se do livro, que se inicia em 1928, o filme narra o que está acontecendo em 1942. Segundo Gualda (2010), o tempo cinematográfico apresenta-se com imagens de ações concretas e é percebido como análogo ao tempo real, em que notamos ação e movimento, e não o tempo. Enquanto o tempo, no livro, é codificado linguisticamente.
Na filmagem do texto literário, Olga, na véspera de sua morte, começa a pensar na carta que escreveria para Prestes, seu esposo, e para Anita Leocádia, sua filha: “– Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade”. Com papel e lápis em mãos, dentro do alojamento do campo de concentração, ela começa a escrever sua última carta. Ao redigir, olha para duas “companheiras” que estão na cama à frente e verifica que uma delas bordava em um pano branco uma maçã. A imagem da maçã remete Olga mais uma vez ao passado, levando-a a lembrar-se da cesta com maçãs que carregava (para esconder a arma que utilizaria em sua façanha) quando resgatou Otto Braun da prisão de Moabit, em Berlim, na Alemanha, em 1928.
Essa cena do resgate de Braun marca o início do livro, sendo, portanto, um ponto de contato entre as obras. A cena seguinte do filme é um recorte da viagem de Olga e Otto de trem para Moscou, semelhante ao livro. Todavia, no livro, entre o resgate de Braun e a viagem, há outros fatos.
Durante a viagem da Alemanha para União Soviética, na obra fílmica, Olga relembra seu passado: suas participações nas manifestações comunistas, o dia em que saiu da casa de seus pais, que pertenciam à classe média, para viver em um bairro pobre, de operários, em Berlim. Essa retomada memorialista do passado não acontece no livro na mesma sequência em que ocorre no filme, pois no livro ela relembra os mesmos fatos quando entra no hotel em que se hospeda em Moscou.
Há, na obra de Fernando Morais, um recorte espacial feito pelo narrador, o qual remete o leitor a outro continente, da Europa à América, mas o tempo é preservado: “BUENOS AIRES, ARGENTINA, ABRIL DE 1928” (MORAIS, 2008, p. 22). Isso não ocorre no filme. O narrador do livro contextualiza, no tempo (1928) e no espaço (América), Luís Carlos Prestes, mostrando sua militância, aproximando-o ideologicamente de Olga, apesar da distância continental entre ambos.
No filme não há esse recorte para mostrar a vida de Luís Carlos Prestes. A sequência fílmica, após a viagem de Olga junto com Otto para Moscou, é um discurso que ela faz para várias pessoas, no qual ela exalta a revolução e narra sua vontade de realizar um treinamento militar para se capacitar e, somente assim, participar efetivamente do que está por vir, da revolução. No final desse discurso, Otto rompe com ela no filme, diferente do livro, no qual o rompimento vem após o treinamento militar, quando ela segue para sua primeira missão na França.
O narrador, do livro, após contar os feitos da Coluna Prestes, transporta o leitor à capital soviética, retornando a 1928. Olga e Otto chegam a Moscou. Quando Olga preenche a ficha de entrada no Hotel Desna, nota que exatamente cinco anos antes ela entrara pela primeira vez em uma organização comunista (1923). No livro, há o flashback nesse contexto, quando o narrador marca essa retrospectiva feita pela personagem, da seguinte forma: “Foi no verão de 1923, em Munique, sua cidade natal, poucos meses depois do seu 15º aniversário” (MORAIS, 2008, p. 29). Diante dessas informações, concluímos que Olga, em 1928, estava com 20 anos. O narrador retoma os anos anteriores, como Olga conheceu Otto e seu envolvimento com o comunismo, além de sua ascensão no partido. No filme, esse flashback acontece durante a viagem de trem.
De 1928 a 1931, Olga realizou vários trabalhos em Moscou relacionados à sua militância comunista, participou de um treinamento paramilitar, aprendeu a usar armas, a cavalgar, incorporada a uma unidade regular do Exército Vermelho. “No final de 1931, Olga seria escalada para sua primeira missão internacional” (MORAIS, 2008, p. 55). Olga e Otto estavam se afastando por causa dos compromissos com o Partido Comunista, “os dois vinham se encontrando cada vez menos” (MORAIS, 2008, p. 55). Então, Olga propôs a separação. Mais uma vez diferente do filme, como já citado, foi Otto quem rompeu com Olga antes do treinamento paramilitar, alegando que ela não teria tempo para ser mulher, devido ao empenho.
No final de 1931, Olga viaja para a França. Ao voltar a Moscou faz um curso de paraquedismo e pilotagem de aviões na Academia Zhukovski da Força Aérea, onde encontrou jovens de vários países do mundo. Foi onde ouviu, pela primeira vez, um jovem latino-americano narrar a aventura revolucionária na América do Sul, cujo líder seria Luís Carlos Prestes. Esse último fato (ouvir falar sobre Prestes) é semelhante nas duas obras.
É relevante observar que há, no filme, um recorte, durante as cenas da viagem de navio, para mostrar que os fatos são lembranças de Olga, pois aparece seu rosto com lágrimas, no campo de concentração, retomando o espaço e o tempo iniciais da obra fílmica, lembrando ao espectador que a heroína está recordando fatos vividos.
Olga viveu durante pouco tempo no Brasil, junto com Prestes. Após derrota do movimento revolucionário, eles foram presos. Em 23 de setembro de 1936, Olga foi deportada para Alemanha, grávida de sete meses. Na madrugada de 27 de novembro de 1936, um ano após a frustrada revolta no Rio de Janeiro, nasce Anita Leocádia, na prisão em Lichtenburg, Alemanha.
A partir de janeiro de 1937, Olga e Dona Leocádia começam a se corresponder por cartas. Dessa forma é que Olga volta a se comunicar, ainda que precariamente, com Prestes no Brasil. Esse ponto também converge nas obras literária e fílmica.
Durante o período de amamentação, Olga pode ficar com a filha, mas em 21 de janeiro de 1938, Anita Leocádia foi tirada de Olga.  Quem passa a cuidar da criança é dona Leocádia, sogra de Olga. Após separação de mãe e filha, Olga é transferida da prisão de Lichtenburg para Ravensbrück (campo de concentração nazista), onde ficou de 1938 a 1942. Esse período é retratado tanto no filme como no livro.
O filme termina com a morte de Olga na câmara de gás. O livro não: o narrador remete o leitor a São Paulo, Brasil, em julho de 1945, para contextualizar o que havia acontecido com Luís Carlos Prestes. Relata que havia saído da prisão e que havia sido escolhido para secretário geral do Partido Comunista, e que, naquela ocasião, 15 de julho de 1945, faria um comício no Pacaembu, após dez anos de fechamento da aliança Nacional Libertadora, em 1935. Naquela mesma noite, em 1945, Prestes recebeu notícias de Olga. Tratava-se de um despacho curto, sem o acréscimo de muitos detalhes:
 
Berlim – As autoridades aliadas acabaram de informar que, entre as duzentas mulheres executadas na câmara de gás da cidade alemã de Bernburg, na Páscoa de 1942, estava a Sra. Olga Benário Prestes, esposa do dirigente comunista brasileiro Luís Carlos Prestes (MORAIS, 2008, p. 296).
 
Anos depois, Prestes recebeu a carta que Olga escrevera para ele e para a filha na véspera de sua morte, em 1942. Verifica-se, portanto, que o espaço apresentado relaciona-se ao tempo, como categorias narrativas de relevo para a ancoragem de personagens e ações, num universo referencial dado. Percebe-se, no entanto, conforme analisa Gualda (2010), que o espaço predomina no filme; em contrapartida, o tempo predomina no romance. O espaço é conceitual no romance, mas o tempo é expresso intensamente desde a sucessão dos episódios.
 
 Transposição de personagens
Conforme a abordagem teórica de Yannick Mouren (1993), relativa à transposição das personagens do hipotexto para o hipertexto, critérios objetivos e identificáveis precisam ser considerados, quais sejam: o número de personagens, a idade e o sexo. Abordaremos o número e a idade das personagens, pois com relação ao sexo das personagens não há alteração. O próprio Mouren (1993) diz que são raras as adaptações nas quais as personagens mudem de sexo ao serem transpostas para a tela. (MOUREN, 1993)
Quando se estuda uma adaptação cinematográfica, podem-se enumerar as personagens presentes no hipotexto e comparar o número assim obtido ao dos atores do hipertexto fílmico. O livro Olga, de Fernando Morais, descreve detalhadamente as personagen, que são muitas. Já o filme mostra mais superficialmente as personagens, visto que o foco deste é o casal Olga e Prestes. Segundo Mouren (1993) o cinema apresenta uma tendência geral de reduzir o número de personagens em relação ao hipertexto (MOUREN, 1993), conforme essa pesquisa constatou.
As personagens da obra de Fernando Morais foram, segundo Antônio Candido (2011, p. 71), “transpostas de modelos anteriores, que o escritor reconstitui indiretamente, por documentação ou testemunho, sobre os quais a imaginação trabalha”. Morais realizou uma pesquisa que se inicia em 1982 e só termina em 1985, para “recompor o retrato de Olga” (MORAIS, 2008, p. 9).
A obra literária enfoca personagens políticos como Filinto Müller, Getúlio Vargas, partidários comunistas como Miranda, Rodolfo Ghioldi, Victor Barron, Agildo Barata, Arthur Ewert e Elisabeth Saborowsky Ewert, militares da Coluna Prestes e militares do governo Vargas. No filme, há uma redução de personagens, além de enfoques diferentes. Um exemplo de redução do número de personagens no filme seria a ausência do irmão de Olga, que está presente no livro. No filme, ele aparece apenas em uma fotografia, quando Olga está relembrando o dia em que saiu de casa e pega um porta-retratos no qual há a foto da família.
Com relação à idade das personagens, no texto de Fernando Morais, nós acompanhamos a passagem do tempo por datas marcadas: 1928, 1930, 1934, 1942 e 1945. No filme, de Monjardim, há Olga menina, pulando a fogueira, depois jovem (imagem marcada pelo cabelo com tranças, quando a personagem relembra suas ações em manifestações comunistas), posteriormente Olga adulta, na viagem para o Brasil com Prestes. Há também a passagem do tempo marcada pela gravidez e pelo nascimento de Anita Leocádia (bebê), além de seu crescimento – a imagem de uma menina de mais ou menos cinco anos.
As personagens secundárias que estão ligadas diretamente à Olga e Prestes são mantidas no filme: dona Leocádia, Lígia (irmã de Prestes), Dr. Benário (pai de Olga), a mãe de Olga, Elisabeth Saborowsky Ewert (amiga de Olga), Getúlio Vargas, Filinto Müller, entre outros. Porém, no livro, a ênfase dada aos aspectos políticos e aos personagens políticos é maior, além da descrição e caracterização das personagens secundárias.
O romance e o cinema enfocam e constroem de modos diferentes as personagens, pois, enquanto no primeiro, as personagens são feitas de palavras escritas, no segundo, elas se constroem por imagens; os contextos são diferentes: escrito e visual (CANDIDO, 2011).
 
Transposição pragmática
A transposição que surge a nível pragmático, de acordo com Mouren (1993), constitui a maior parte do trabalho de passagem do hipotexto escrito para o hipertexto fílmico. Constatou-se essa característica na passagem da obra de Fernando Morais, Olga, para o filme homônimo de Jayme Monjardim, pois o filme coloca a história de amor entre Olga Benário e Luís Carlos Prestes em primeiro plano, universalizando a história. Essa abordagem amorosa aponta para um discurso emocional, ao passo que o discurso do livro é mais político e enfatiza questões históricas (nazismo e comunismo).
Olga, o filme, nos oferece o momento histórico simplificado. O espectador é envolvido pelo romance entre as personagens de tal maneira que a história fica em segundo plano. O livro faz o leitor refletir sobre o contexto político e histórico, construindo uma visão crítica. A narrativa do livro apresenta um espaço amplo, pois Olga vive na Alemanha, em seguida União Soviética, depois viaja por vários países europeus, entre eles a França, e, posteriormente, para o Brasil, retornando à Alemanha. O filme, no entanto, reproduz o espaço europeu em estúdio no Rio de Janeiro/RJ.
Para Mouren (1993), os exemplos de supressões e de permutações de ações são comuns. Pode-se mesmo dizer que são a regra na passagem do hipotexto ao hipertexto. As escolhas de Jayme Monjardim, relativas à transposição pragmática, serão discutidas ao serem abordados, brevemente a seguir, os planos de montagem.  Apesar de a questão da adaptação de um romance para o cinema sempre gerar discussão, é possível vislumbrar a contribuição que uma arte traz à outra.
A análise fílmica não é feita facilmente. Francis Vanoye (1994), ao tratar desse assunto, revela as dificuldades de analisar um filme, principalmente, devido à impossibilidade de citar a imagem. O contexto da ação é minuciosamente planejado, segue uma ideia preestabelecida, possui objetivos claros e revela determinada ideologia. As técnicas escolhidas pelo diretor e suas estratégias formais como a montagem, o distanciamento da câmera, o close-up, por exemplo, são alguns dos caminhos encontrados para reprodução cinematográfica (VANOYE, 1994).
O mundo que o diretor Jayme Monjardim reconstruiu no filme Olga é muito familiar à ideia que podemos ter daquela época. Apesar de ter sido totalmente rodado no Rio de Janeiro, o diretor conseguiu que os recursos técnicos possibilitassem a neve e uma fotografia sombria, por exemplo, que coincidem com a imagem que muitos têm do mundo europeu. A produção do filme conseguiu recriar as cidades de Moscou, Berlim, Munique e Ravesnbruck. As sequências foram rodadas nos estúdios “Renato Aragão”, da Rede Globo e em locações como a antiga fábrica Bangu, que se transformou no campo de concentração de Ravensbruck.
O filme Olga tem pouco mais de duas horas de duração e foi filmado praticamente todo da mesma forma. Muitos dos planos mais fechados da obra cinematográfica podem ser explicados por uma questão técnica, além da ênfase dada à emoção. Tendo sido filmado no Rio de Janeiro, sob forte calor, o diretor precisou evitar planos gerais, abertos, para conseguir transmitir uma ideia realista da localização geográfica: Alemanha e Rússia.
O filme parece, tecnicamente, bem construído, em questão de luz, cenário e figurino. Um excesso da utilização da linguagem visual-televisiva percebida no filme, pode ser devido ao fato do diretor do longa, Jayme Monjardim, ter vasta experiência com programas televisivos, e nenhuma com cinema, sendo Olga seu primeiro filme.
Outra influência relativa à televisão seriam os chamados planos “estourados”, em close-up ou primeiro plano, tão comuns nas telenovelas, por exemplo, e que foram empregados amplamente na maior parte no filme. O diretor valeu-se ainda dos recursos de plano de meio conjunto, plano médio e meio primeiro plano para algumas cenas sem recorrer aos planos ambientais durante as filmagens.
Essa escolha estética pode ter sido usada por dois fatores: pela experiência do diretor em televisão ou pode ter sido uma escolha estética e, dessa forma, a linguagem imagética seria de mais fácil absorção, não causando qualquer tipo de estranhamento.
 
Considerações finais
A literatura e o cinema são artes independentes, mas quando se tem um hipotexto como referência de um hipertexto, como foi o caso analisado nesse estudo sobre a obra literária Olga, de Fernando de Morais, e o filme homônimo de Jayme Monjardim, pode-se perceber que, apesar de se manter tal característica (autonomia), uma relação de interdependência é ressaltada. A personagem protagonista Olga também ganha interpretações e recortes diferentes na obra literária e no filme, naquela ressalta-se seu envolvimento com a política e neste o relacionamento amoroso com Preste. A análise comparada de ambos, pautada no referencial teórico de Yannick Mouren, possibilitou uma maior compreensão da complexidade da forma em que acontece essa passagem, além de uma visão da transformação do leitor em espectador.
 
REFERÊNCIAS
 
BAKHTIN, Mikhail. O romance biográfico. In: ______. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 213 – 216.
 
CANDIDO, Antônio et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2011.
 
CUNHA, Helena Parente. Os gêneros Literários. In: PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasil, 1979. p. 107 – 115.
 
GUALDA, Linda Catarina. Literatura e cinema: elo e confronto. Matrizes. São Paulo: USP, Ano 3, n.2, p. 201-220, jan/jul. 2010.
 
MOUREN, Yannick. Le film comme hypertexte. Poétique, Paris: Seuil, n.93, p. 113-122, fev.1993.
 
MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
 
OLGA. Direção: Jayme Monjardim. Produção: Carlos Eduardo Rodrigues; Bruno Wainer e Marc Beauchamps. Intérpretes: Camila Morgado; Caco Ciocler; Fernanda Montenegro. Roteiro: Rita Buzzar. Brasil: Europa Filmes, 2004. 1 DVD (140 min.), drama, son., color.; NTSC.
 
SBRISSA, Fernanda de Souza; HARRIS, Peter James. O conceito de fidelidade na adaptação cinematográfica de obras de literatura: uma comparação entre o romance Enduring Love, de Ian MCEWAN, e o filme de mesmo título. Disponível em: <http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_36854746850.pdf.>. Acesso em: 20 set. de 2013.
 
VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 5 ed. Trad. Marina Appenzeller. Campinas: Papyrus, 1994.
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

LAVOURA ARCAICA: O LÍRISMO LITERÁRIO ADAPTADO PARA O CINEMA – Dante Luiz de Lima, Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima




 

Dante Luiz de Lima

Universidade Federal do Pará

Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima

Universidade Federal do Pará

 

 
RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar alguns trechos do livro Lavoura arcaica (1989), de Raduan Nassar, comparando-os às cenas do filme homônimo dirigido por Luís Fernando Carvalho (2011). Nosso intuito é debater os critérios envolvidos na adaptação de uma obra literária para um meio audiovisual. Para tal nos valemos de cenas do filme que consideramos excepcionais e que foram adaptadas de forma a representar o lirismo retratado no romance de uma forma inovadora e criativa, pois a passagem do meio literário para o fílmico é bastante complexa. Para atingir nossos objetivos, trabalhamos à luz dos teóricos de cinema Linda Hutcheon, Robert Stam e Graeme Turner.
 
PALAVRAS-CHAVE: Adaptação fílmica, Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, Romance, Cinema.
 
ABSTRACT: This article aims at analyzing some passages from the book Lavoura arcaica (1989), by Raduan Nassar, comparing them to the scenes of the homonymous film directed by Luis Fernando Carvalho (2011). Our aim is to discuss the criteria underlying the adaptation of a literary work to audiovisual media. In order to achieve our goals, we refer to the scenes of the movie that we considered exceptional and that were adapted to represent the lyricism portrayed in the novel in an innovative and creative way, considering that an adaptation from book form to a film is quite complex. We based our article on some film theorists, such as Linda Hutcheon, Robert Stam and Graeme Turner.
 
KEYWORDS: Filmic adaptation, Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, Novel, Cinema.
 
MINICURRÍCULOS: Dante Luiz de Lima é Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 2016), Mestre em Literaturas de Língua Inglesa pela UFSC (2007) e Especialista em ensino de Língua estrangeiras pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Atualmente é professor de Língua Inglesa e suas interfaces literárias na Universidade federal do Pará (UFPA).
Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima é Mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará-UFPA, formada em Letras pelo Centro Universitário Moura Lacerda e especialista em Língua Inglesa e suas literaturas pela Universidade de Ribeirão Preto-UNAERP. Atualmente é professora de Língua Inglesa da Universidade Federal do Pará (UFPA).
 
 
LAVOURA ARCAICA: O LÍRISMO LITERÁRIO ADAPTADO PARA O CINEMA
 
Dante Luiz de Lima
Universidade Federal do Pará
Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima
Universidade Federal do Pará
 
 
INTRODUÇÃO
Cada vez mais nos deparamos com adaptações de romances e contos para os mais diversos formatos, sejam eles filmes, animes, televisão, parques de diversão, experimentos de realidade virtual, representações históricas, programas de rádio, entre outros. Neste artigo focaremos na adaptação de obras literárias para o cinema, pois esse mercado se tornou extremamente rentável para a indústria cinematográfica e também uma grande fonte de pesquisa para estudiosos de cinema e literatura.
Nos últimos anos houve uma onda crescente de filmes baseados em livros, como exemplos podemos citar: Anna Karenina de Leon Tolstói (1877), Orgulho e preconceito (1813), de Jane Austen, até livros mais comerciais, como a franquia Harry Potter da escritora J. K. Rowling (1997). Apesar disso, a adaptação fílmica ainda é considerada, por alguns críticos, como um gênero menor e menos valorizado.
Tendo isso em vista, pretendemos com esse trabalho fazer a análise de alguns trechos do livro Lavoura Arcaica a fim de debater sobre os critérios envolvidos na adaptação de uma obra literária para um meio audiovisual. Publicado inicialmente em 1975 e adaptado para o cinema pelo diretor Luís Fernando Carvalho em 2001, o romance do escritor paulista Raduan Nassar é uma obra densa e complexa que instiga estudiosos da literatura e gera debates e críticas.
 

  1. A ADAPTAÇÃO FÍLMICA: UMA TEORIA

Quando uma obra literária é adaptada para as telas, muitos aspectos devem ser considerados, entre eles: quem irá dirigi-la, o público alvo, se o livro será seguido integralmente, se não for o caso, quais partes serão escolhidas para serem trabalhadas, entre outros aspectos. Mas o fundamental é levar-se em consideração que o:
O cinema não é um sistema discreto de significação, assim como a escrita. O cinema incorpora as tecnologias e os discursos distintos da câmera, iluminação, edição, montagem do cenário e som – tudo contribuindo para o significado (TURNER, Graeme, 1997, p. 56).
 
Portanto, o papel do adaptador é bastante complexo, pois ao passar o texto escrito para o meio audiovisual lidará com formas distintas de narrar. Por exemplo, as sensações experimentadas por um personagem dentro de um determinado romance, podem ser descritas em várias páginas e com muitas minúcias. O cinema poderá intensificar ou diminuir tal aspecto do romance, mas terá que achar meios de fazê-lo com os elementos mencionados acima. Um movimento de câmera, uma luz mais sombria, um cenário claustrofóbico ou uma música triste diegética ou não, poderão captar em instantes aspectos que o romance usou várias páginas para descrever. Adaptar é um trabalho árduo e deve ser bem pensado e analisado para que seja bem-sucedido.

  • Uma das principais teóricas em adaptação é Linda Hutcheon, que trata de forma bastante clara e didática a respeito do assunto em seu livro Uma teoria da adaptação: “de acordo com sua ocorrência no dicionário, “adaptar” quer dizer ajustar, alterar, tornar adequado”, ou seja, alterar a obra original para torná-la adequada a um propósito, seja ele comercial ou pessoal do diretor (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 9). Ela compara a adaptação com a tradução, pois as duas seriam uma “transcodificação entre sistemas de comunicação”. Isso fica claro na citação a seguir:

Com as línguas, nós nos movemos, por exemplo, do inglês para o português, e conforme vários teóricos nos ensinaram, a tradução inevitavelmente altera não apenas o sentido literal, mas também certas nuances, associações e o próprio significado cultural do material traduzido. Com as adaptações, as complicações aumentam ainda mais, pois as mudanças geralmente ocorrem entre mídias, gêneros, e, muitas vezes, idiomas e, portanto, culturas (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 9).
 
Dessa forma, as adaptações, assim como as traduções, trabalham com as nuances e sutilezas das obras e também levam em consideração a cultura em que são feitas, uma vez que o sentido inicial do texto pode se perder ao ser adaptado para outro gênero ou idioma.
A adaptação deve ser entendida como uma nova obra, mas sempre tendo em mente que ela dialogará invariavelmente com o texto do qual foi baseada, o que acarretará em comparações e críticas. A esse respeito, afirma Hutcheon:
O estudo que Uma teoria da adaptação faz das adaptações como adaptações – ou seja, como obras que não são apenas autônomas – parte de uma duplicidade factual bastante curiosa: de um lado, a popularidade das adaptações; de outro, o desprezo sistemático com o qual são atacadas. Em contrapartida, as adaptações são aqui examinadas como revisitações deliberadas, anunciadas e extensivas de obras passadas (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 14-15).
 
Vemos aqui que apesar de serem bastante populares há muito tempo, as adaptações ainda são vistas como um gênero depreciado, não tendo tanto mérito quanto as obras das quais são fruto.  Segundo Hutcheon a adaptação é tida como uma traição e uma infidelidade ao texto original. Observamos tal afirmação no trecho “a travessia do literário para o cinematográfico ou televisivo já foi inclusive chamada de passagem para ‘uma forma de cognição deliberadamente inferior’” (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 23). No entanto, a autora as considera como revisitações das obras originais, o que fica claro quando ela afirma que “a arte deriva de outra arte; as histórias nascem de outras histórias” (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 22). Dessa forma, a adaptação sempre será comparada com a obra literária, em uma relação infinita com suas fontes:
Tal como as paródias, as adaptações têm uma relação declarada e definitiva com textos anteriores, geralmente chamados de “fontes”; diferentemente das paródias, todavia, elas costumam anunciar abertamente a tal relação. A valorização (pós-romântica) da criação original e do gênio criativo é claramente uma das fontes da depreciação de adaptadores e adaptações (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 24).
 
Interessante notar aqui que a questão da originalidade pode ser vista como algo essencial em uma obra, seja ela literária, televisiva ou cinematográfica, mas essa é uma criação pós-romântica, visto que na antiguidade as obras eram muitas vezes cópias, recriações ou reinterpretações de outras já consagradas. Hutcheon afirma ainda que a adaptação é uma repetição do texto original, mas não é uma réplica e possui caracteres diferentes, pois as intenções do adaptador podem ser variadas:
A adaptação é repetição, porém repetição sem replicação. E há claramente várias intenções possíveis por trás do ato de adaptar: o desejo de consumir e apagar a lembrança do texto adaptado, ou de questioná-lo, é um motivo tão comum quanto a vontade de prestar homenagem, copiando-o (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 28).
 
Ou seja, a obra que surge, seja ela cinematográfica ou de qualquer outro gênero, pode ser feita para questionar, para homenagear, para criticar ou eternizar a memória do original. Achamos importante ressaltar também as três perspectivas distintas que norteiam o estudo da adaptação, segundo a mesma autora:
Em primeiro lugar, vista como uma entidade ou produto formal, a adaptação é uma transposição anunciada e extensiva de uma ou mais obras em particular. Essa “transcodificação” pode envolver uma mudança de mídia (de um poema para um filme) ou gênero (de um épico para um romance), ou uma mudança de foco e, portanto, de contexto: recontar a mesma história de um ponto de vista diferente, por exemplo, pode criar uma adaptação realmente distinta (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 29).
 
Essa citação define a adaptação como uma transposição extensiva de uma obra ou mais, e aborda um quesito fundamental em relação à adaptação: que ela pode tratar de uma mudança de mídia (por exemplo, de um conto para um programa de rádio), de foco ou ponto de vista ou gênero literário:
Em segundo, como um processo de criação, a adaptação sempre envolve tanto uma (re-)interpretação quanto uma (re-)criação; dependendo da perspectiva, isso pode ser chamado de apropriação ou recuperação (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 29).
 
Nesse segundo aspecto, a autora afirma que a adaptação deve sempre envolver uma nova interpretação e criação, o que pode ser caracterizado como uma apropriação ou recuperação da obra original:
Em terceiro, vista a partir da perspectiva do seu processo de recepção, a adaptação é uma forma de intertextualidade; nós experenciamos as adaptações (enquanto adaptações) como palimpsestos por meio da lembrança de outras obras que ressoam através da repetição com variação (HUTCHEON, Linda, 2013, p. 30).
 
Assim, a adaptação deve ser vista como uma forma de intertextualidade, se relacionando constantemente tanto com a obra de que teve origem, como com outras obras literárias. Acreditamos, por fim, que a adaptação é, ao contrário do que pensam alguns críticos, um gênero importante e que deve cada vez mais ser utilizada para que um maior número de pessoas possa ter contato com os textos literários.
 

  1. 2. LAVOURA ARCAICA: DAS PÁGINAS ÀS TELAS

O livro Lavoura arcaica, publicado em 1975, é considerada a obra prima do escritor paulista Raduan Nassar, cuja foto é mostrada acima. Tido como um autor bastante recluso, Nassar publicou apenas outras duas obras, Um copo de cólera, de 1978 e Menina a caminho, de 1994.
Dividida em duas partes: “A Partida” e “O Retorno”, a história se passa em uma comunidade rural em meados da década de 40 e é narrada por André, filho de uma tradicional família libanesa cristã, que foge da casa paterna, pois é apaixonado por sua irmã. Apesar de comandar a família de forma bastante rígida, o patriarca, em uma referência à parábola bíblica do filho pródigo, pede ao filho mais velho que traga André de volta para casa. Sobre a temática de Lavoura arcaica, Erica Gonçalves, em seu artigo intitulado Lavoura arcaica: análise de personagens na literatura e no cinema, afirma que:

  • A transgressão às regras sociais e as convenções, a paixão de André pela irmã Ana e a busca de respostas fora da família, o retorno do “Filho Pródigo” são os temas desta obra repleta de simbologia e arquétipos e que quebra com a narrativa tradicional, já que o estilo de escrita adotada pelo autor implica sugestivamente o modo como Raduan gostaria que a obra fosse lida; por vezes num ritmo acelerado, imposto pela falta de pontuação; por vezes mais lento e pensativo, também imposto, desta vez inversamente, pela pontuação (GONÇALVES, Érica, 2015).

 
Essa questão religiosa notada acima permeia toda a história através de várias referências, a mais importante delas é a epígrafe da segunda parte do romance, retirada do alcorão, livro sagrado da religião muçulmana:
Vos são interditadas: vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs, (…)”
(Alcorão – Surata IV, 23)
Tal epígrafe faz referência à questão central do romance: a grande paixão de André por sua irmã caçula, Ana. Apesar de a sexualidade estar presente em todo o romance, ela não é mostrada de forma explícita mas sim bastante lírica. O romance se inicia durante uma cena de masturbação de André em seu quarto:
Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto-catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia (NASSAR, Raduan, 1989, p. 7).
 
Interessante destacar aqui a descrição bastante poética da cena, a nudez, o quarto e a penugem do corpo. No filme essa cena é bastante longa e muito interessante, pois começa com o barulho de um trem, enquanto André se masturba. O som não diegético da locomotiva torna-se essencial para o engrandecimento da cena, pois a medida em que este aumenta, mais próximo está André em obter o prazer vindo de sua própria mão, culminando no seu orgasmo acompanhado do ensurdecedor barulho do trem. Assim sendo, percebemos que o cinema narra, não apenas com o uso de imagens e palavras, mas também usando de outros mecanismos, nesse caso, o som não diegético foi fundamental para demostrar a intensidade do prazer obtido pelo rapaz. Esse artifício usado pelo diretor do filme demonstra a importância do som como veículo narrativo.
Robert Stam no livro Introdução à teoria do cinema (2003) explica que o som é um dos elementos essenciais nos filmes, mas o estudo deste artifício utilizado pelo cinema foi bastante negligenciado pelos estudiosos da área, de acordo com o autor: “Parte desse atraso é o resultado, quem sabe, da visão convencional do som como um mero acessório ou suplemento da imagem” (STAM, 2003, p. 238). O autor continua seu raciocínio se referindo aos termos usados para descrever os filmes e sua relação com o som:
Os próprios termos em inglês para o cinema – the movies, motion pictures, cinema – enfatizam o registro de fenômenos visíveis, dirigidos a espectadores (e não ouvintes) que vão ver (e não escutar) um filme. A metalinguagem crítica usada para falar sobre o cinema, da mesma forma, mostra-se mais preparada para dar conta de questões como os raccords de olhar e a montagem em ponto de vista do que sobre o som (STAM, Robert, 2003, p. 238).
 
Portanto, de acordo com as considerações do autor, o estudo do cinema prioriza os fenômenos visíveis e deixa o som em um segundo plano. No entanto, percebemos, que o som foi fundamental na cena que acabamos de descrever, pois o barulho do trem não apenas nos remete aos pensamentos conflitantes do protagonista da trama, mas também, sem o uso das palavras descreve a veemência do orgasmo experienciado pelo mesmo. Sendo assim, o som é um elemento essencial para que um filme, adaptado ou não, possa transmitir ou provocar diferentes interpretações dos espectadores.
Acreditamos que a adaptação cinematográfica feita por Luis Fernando Carvalho utiliza várias às passagens do livro de forma literal, isso fica claro quando o segundo capítulo é todo narrado no filme enquanto vemos as cenas de infância do narrador. Essa questão da aproximação da adaptação com o texto original foi uma escolha deliberada do diretor, que fez questão de não criar um roteiro para o filme, para que o texto literário fosse seguido com grande exatidão. Sobre esse aspecto, Gonçalves afirma que:
Nos créditos extras do filme em DVD, o diretor do longa conta como foi a experiência de transformar Lavoura Arcaica em filme. Para Carvalho, usar técnicas de teatro foi a forma encontrada para dar à obra cinematográfica toda importância do livro e transformar cada ator em seu personagem. Para isso, o elenco ficou reunido durante cerca de dois meses na fazenda que serviu de locação para as gravações se integrando e se inteirando de seus papéis (GONÇALVES, Érica, 2015).
 
Vemos aqui a preocupação do diretor em promover uma aproximação dos atores com seus personagens, o que foi obtido com uma espécie de imersão em uma fazenda do interior de Minas Gerais. Observamos no filme também um cuidado com a fotografia e com o tom poético do filme. Isso fica claro nas longas cenas da infância, dos jantares em família, de Ana com as ovelhas e das danças durante as festas familiares. Além disso, achamos interessante também o uso da luz no filme, o que dialoga com o texto de Nassar. De acordo com Turner:
Pode-se dizer que há dois objetivos principais na iluminação cinematográfica; o primeiro é expressivo – estabelecer um estado emocional, dar ao filme uma “aparência” (…), ou contribuindo para detalhes da narrativa, como caráter e motivação.
(…) O realismo é o segundo objetivo da iluminação. Esta é de longe a meta mais comum e evidente da iluminação cinematográfica. Se for bem sucedida, os atores estarão tão natural e discretamente iluminados que o espectador não perceberá a iluminação como uma tecnologia à parte (TURNER, Graeme, 1997, p. 61-62).
 
Os aspectos mencionados acima por Turner podem ser vistos nas cenas que mostram a infância de André e Ana, os jantares familiares, a cena inicial da masturbação, entre outras. Ao analisarmos a obra, observamos que no passado a casa era bem iluminada, o sol matinal enchia o quarto de luz e as cortinas eram claras, já depois da fuga, o mesmo ambiente é escuro e soturno. No livro isso é perceptível no trecho:
Era boa a luz doméstica da nossa infância, o pão caseiro sobre a mesa, o café com leite e a manteigueira, essa claridade luminosa da nossa casa e que parecia sempre mais clara quando a gente vinha de volta lá da vila, essa claridade que mais tarde passou a me perturbar, me pondo estranho e mudo, me prostrando desde a puberdade na cama como um convalescente (NASSAR, Raduan, 1989, p. 25-26).
 
Em contraponto com essa claridade retratada na citação, temos as cenas dos jantares em família. Uma delas é narrada através da técnica de voice-over por André, de forma bastante literal, retirada do livro:
Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto (NASSAR, Raduan, 1989, p. 154).
 
Era durante os jantares que o pai dava seus rígidos sermões religiosos, entre os temas estavam a negação das paixões e a virtude do trabalho duro:
O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa (NASSAR, Raduan, 1989, p. 54).
 
Vemos aqui a defesa do pai em relação à moral e os bons costumes, a paixão de André por sua irmã seria assim um ataque à criação estabelecida por seu pai. Interessante notar no que diz respeito à irmã de André, Ana, que apesar de ser uma figura de extrema importância, tanto no livro, quanto no filme, suas cenas são longas e belas, no entanto, ela não possui nenhuma fala.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cuidado do diretor com a produção do filme parece ter sido algo de cunho pessoal, pois Luís Fernando Carvalho se identificou sobremaneira com o livro, chegando a afirmar que tal obra era tudo que ele gostaria de ler, ouvir e assistir um dia. A poeticidade do texto, a arte inovadora e lírica de Nassar, foi ressaltada por Carvalho de uma forma vanguardista e tocante, levando os expectores mais atentos a uma profunda reflexão sobre a condição humana.
Não obstante, o deleite propiciado pelo cinema também não foi deixado em segundo plano, pois através das convenções cinematográficas, como: movimentos de câmera, iluminação, som, mise-en-scène e edição, o diretor presenteia a audiência com um filme belo, causando deleite aos espectadores que apreciam a grandeza de um espetáculo cinematográfico.
Através da análise de trechos da obra Lavoura arcaica e sua comparação com a adaptação feita por Luis Fernando Carvalho, percebemos que o trabalho do diretor foi fundamental para demonstrar as diferentes maneiras em que o cinema pode desenvolver sua narrativa, a partir de obras literárias. Apesar de o romance ser considerado uma obra de difícil leitura, o filme tornou-se um sucesso e tornou-se um clássico do cinema nacional.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GONÇALVES, Érica R (2015). Lavoura Arcaica: análise de personagens na literatura e no cinema. Universidade Metodista de São Paulo – UMESP. Disponível em: <http:/www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/6o-
encontro-2008-1/Lavoura%20Arcaica.pdf>. Acesso em: 2 dez. 2015
HUTCHEON, Linda (2013). Uma teoria da adaptação. Florianópolis: ed. Da UFSC.
LISPECTOR, C (1977). A hora da estrela. São Paulo: Civilização Brasileira.
NASSAR, Raduan (1989). Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ROWLING, Joanne Kathleen (2000). Harry Potter e a pedra filosofal. Rio de Janeiro: Rocco.
STAM, Robert (2003). Introdução à teoria do cinema. Trad. Fernando Mascarello. São Paulo: Papirus.
TURNER, Graeme (1997). Cinema como prática social. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Summus.
TOLSTOI, Liev [Leon]. (1995). Anna Karenina. São Paulo: Nova Cultural.
FILMOGRAFIA
ANNA Karenina. Direção: Joe Wright.  Reino Unido. Universal Pictures, 2012. 129min. 1 DVD.
HARRY Potter. Direção: Chris Columbus. Produção: David Heyman. Reino Unido, 2001. Heyday Films. 1 DVD.
LAVOUR’ARCAICA. Direção: Luiz Fernando Carvalho. Brasil. Europa Filmes. Rio de Janeiro, 2001. 01 DVD.
ORGULHO e preconceito. Direção: Joe Wright. Produção: Tim Bevan. Estados Unidos, 2005. 127min. 01 DVD.
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

POESIA E HUMILDADE EM CHICO BUARQUE DE HOLANDA: “PEDRO PEDREIRO” OU “QUEM ESPERA NUNCA ALCANÇA” – Luciano Marcos Dias Cavalcanti




 

Luciano Marcos Dias Cavalcanti

Universidade Vale do Rio Verde – UninCor

 
Resumo: Chico Buarque surge no cenário cultural brasileiro inserindo-se na tradição do samba, absorvendo de seus compositores iniciais a adesão à voz do desqualificado social e a tendência à crônica da vida popular. Uma presença garantida em sua obra poético-musical é a dos desvalidos, configurada por uma galeria de desqualificados, seja em seu aspecto social ou moral. Uma figura importante relacionada a este mundo humilde é a do trabalhador. Neste texto, deter-nos-emos na figura do pedreiro da canção “Pedro Pedreiro”. O elemento humilde trabalhado pelo compositor também se revela em sua elaboração artística formal, fornecendo-lhe um importante recurso estilístico para sua poética: o despojamento, a redução do poético ao essencial e a aderência à linguagem popular.
 
Palavras-chave: Música Popular Brasileira, Poesia, Chico Buarque, Pedro Pedreiro.
Abstract: Chico Buarque stands out in the Brazilian cultural scenery because he follows the samba tradition in his lyrics. He integrates in his music the idea of a lumpen proletarian and the tendency in popular music to draw a chronicle of everyday life of simple people. The lyrics in his music frequently describes the subaltern, either in their social or moral aspects. An important element in this lyrical world inhabited by the poor is the urban proletarian. In this article we will examine the figure of the mason in the song “Pedro Pedreiro.” Humbleness is an important topic which is ever present in the composer’s lyrics. It contributes to elaborate the form of the song and to provide it with a stylistic fabric: the music is simple, and poetics is reduced to the essential and approaches popular expression.
 
Keywords: Música Popular Brasileira, Poesia, Chico Buarque, “Pedro Pedreiro”.
 
Minicurrículo: Doutor em Teoria e História Literária pelo IEL/UNICAMP, professor do Mestrado em Letras da Universidade Vale do Rio Verde – UninCor.
 
 
POESIA E HUMILDADE EM CHICO BUARQUE DE HOLANDA: “PEDRO PEDREIRO” OU “QUEM ESPERA NUNCA ALCANÇA”
 
Luciano Marcos Dias Cavalcanti
Universidade Vale do Rio Verde – UninCor
 
Uma presença garantida na obra poético-musical de Chico Buarque é a dos desvalidos, configurada por uma galeria de desqualificados, seja em seu aspecto social ou moral. São exemplares as pessoas pobres, trabalhadores assalariados, como o pedreiro e o operário; as pessoas que não seguem a moral e os bons costumes provenientes da tradição pequeno-burguesa-cristã, como malandros, prostitutas, travestis; além das pessoas humildes, moradoras das favelas e dos subúrbios das grandes cidades, etc..
As reminiscências infantis de Chico Buarque se revelam um importante elemento constituidor da captação do humilde em suas composições. Ligando-se ao movimento Organização de Auxílio Fraterno, o compositor participou algumas vezes de expedições noturnas a lugares como a Estação da Luz, no centro de São Paulo, com o intuito de ajudar moradores de rua que dormiam nas calçadas, como nos conta em uma entrevista:
 
A gente ia de noite, assim um grupo pequeno, com umas Kombis, à Estação da Luz, levar cobertor. A gente olha hoje, e pode achar bobagem. Mas pra um cara como eu que morava ali na Zona Sul de São Paulo, (…) e que estudou em colégio de menino rico, de repente ter essa missão, duas vezes por semana, era muito importante. Então a gente, ia, chegava com aqueles cobertores e o pessoal, os mendigos, fugiam apavorados. (…) acho que devo um bocado a essa experiência, entende? Ela, pelo menos, me abriu os olhos para esse negócio, porque, normalmente, eu não estaria vendo nada disso (…) e esse contato direto que eu tive naquela época, eu procuro ter sempre. Inclusive, eu comecei a gostar de mantê-los, entende? De conhecer, de ver essa gente, de conversar (HOLLANDA, 11/09/77).
 
Este contato com o povo, em outro sentido, também será significativo em sua elaboração artística formal, fornecendo-lhe um importante recurso linguístico utilizado em sua obra: aderência à linguagem popular, como também o despojamento poético. Situação que se contrapõe e se contrabalança com a formação do indivíduo proveniente da classe média-intelectual, voltada para leitura literária culta, com a vida e a cultura do povo brasileiro humilde.
A compreensão da “atitude humilde” de Chico Buarque pode ser comparada ao modo como Manuel Bandeira desenvolveu o “estilo humilde” em sua poética. Configurada no despojamento e na redução ao essencial, tanto nos temas quanto na linguagem, esse tipo de atitude pode ser encarada de diversas maneiras. Uma decisiva é a da sua relação com a pobreza. De acordo com Davi Arrigucci,
 
Trata-se, antes de mais nada, de uma postura depurada do espírito. E também de uma disposição para agir e significar, que acaba implicando um modo específico de conceber o poético e fazer concretamente o poema. Uma atitude estilística, enfim, em que o modo de ser se converte num modo de ver a vida e a poesia, numa concepção do fazer – fundação de uma poética. É este o termo que, na sua acepção do original, parece caber à noção que Bandeira tem do fazer poético: uma atividade do espírito, em momentos de súbita iluminação, concretizada em obras feitas de palavras. E trata-se de uma poética centrada num paradoxo: o da busca de uma simplicidade em que brilha oculto o sublime (ARRIGUCCI, 1983, p.106-7).
 
De modo semelhante, Chico Buarque também se aproxima dessa “atitude humilde” de Manuel Bandeira ao buscar construir, com extremo cuidado, apuro técnico e economia verbal suas composições, conjuntamente com elementos provenientes da classe pobre e o seu mundo existencial, unindo forma e fundo em um organismo vivo, característica do compositor que fez com que muitas de suas composições recebessem o status de poema.
Essas relações empreendidas tanto por Manuel Bandeira quanto por Chico Buarque com o elemento humilde se tornam constituintes de uma concepção poética, se materializando na construção de suas obras, que, como diz Arrigucci, reportando-se à obra de Bandeira,
 
(…) corresponde a uma inserção do poeta na existência real, no mundo, no mundo misturado do cotidiano. Ao contrário de que se poderia pensar, o poeta, ao construir o poema, não estará poetizando o cotidiano. (…) Não se trata absolutamente de elevar o que se capta no plano comum do dia-a-dia, mas de desentranhar aqui o poético, junto às circunstâncias em que o Eu se acha situado. A pobreza se revela então como condição real de dar forma ao poema (ARRIGUCCI, 1983, p. 108).
 
Assim, será da rua e do povo simples que Chico Buarque retirará os elementos essenciais para construção de sua poética, como bem demonstra seus depoimentos e suas várias canções.
Uma figura importante relacionada ao mundo humilde presente nas composições de Chico Buarque é a do trabalhador, a qual pretendemos comentar nesta comunicação, representada pela figura do pedreiro, em “Pedro Pedreiro”[1], composição gravada em 1961, pertencente ao álbum Chico Buarque. Nesta canção, o que percebemos de imediato é a afinidade direta entre nome (Pedro) e sobrenome-função social (Pedreiro) da personagem, estabelecida pelo morfema “pedr” que nos remete à pedra, ao que é fixo, sólido e imóvel, associando-se, assim, à história da canção, que nos fala de um migrante nordestino que pensa sobre sua vida, sugerido pelo neologismo “penseiro”, enquanto espera de madrugada o trem para ir ao trabalho e o aumento de seu salário atrasado há um ano. Pedro é um indivíduo estático, incapaz de qualquer mobilidade social.
 
Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro Pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem
 
A repetição presente na construção da canção é um recurso importantíssimo utilizado pelo compositor para nos dar a sensação da espera angustiada de “Pedro”. Ela também reforça a ideia inicial da imobilidade e fixidez da personagem que espera e não encontra nenhuma possibilidade de melhoria de vida:
 
Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
Para o bem de quem não tem vintém
Pedro Pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também.
 
Pedro Pedreiro vive o drama das pessoas pobres do Brasil, no qual os trabalhadores só vislumbram a possibilidade de melhora de vida através do carnaval, rito que se caracteriza pela inversão dos papéis sociais, possibilitando, momentaneamente, a troca das posições hierárquicas existentes na sociedade. No carnaval, o pobre pode se fantasiar do que quiser: de rei, nobre, etc., sofrendo uma catarse proporcionada por um momento de liberdade e utopia, característica desse rito.
A festividade do carnaval pode ser considerada um rito nacional por excelência, porque dramatiza valores globais da nação brasileira. No Brasil, o carnaval é generalizado, não pertence apenas a uma cidade ou Estado, mas a todo o país. Neste ritual, a sociedade está orientada para o evento que centraliza toda a atividade nacional, sendo decretado feriado nacional na época da festa; consequentemente, todos os cidadãos abandonam o trabalho e uma grande parte vai “pular” o carnaval. O carnaval apresenta uma particularidade em relação aos demais ritos (como o religioso, o da parada militar, o do dia da independência, etc), ele se realiza preponderantemente de modo informal, sendo caracterizado por uma situação de espontaneidade. O cotidiano massacrante do dia-a-dia é substituído por um momento extraordinário, marcado por transformações no comportamento das pessoas. A rotina maçante é trocada por momentos de alegria e descontração, e a vida diária passa a ser vista como negativa, pois nesta sofre-se, vive-se em uma rotina maquinal, em um mundo hierárquico com comportamentos ditados pelas normas morais vigentes. No desfile carnavalesco, quem participa ativamente das escolas de samba como componentes são as pessoas das camadas mais baixas e marginalizadas da sociedade. Embora as escolas reúnam, além de pobres, milionários, astros do futebol, da televisão, do cinema. Mas o que chama “atenção, nesses desfiles (a inversão constituída entre o desfilante, um pobre, geralmente negro ou mulato) é a figura que ele representa no desfile (um nobre, um rei, uma figura mitológica)” (DA MATTA, 1997, p. 58)
O carnaval talvez seja o único momento em que o pobre marginalizado e desrespeitado pode se sentir importante e respeitado como os astros de TV e as pessoas ricas. Neste momento, através do processo de inversão carnavalesca, o subalterno se iguala aos seus dominadores e passa, mesmo que por um curto período, a não se sentir inferior. Agora, os marginalizados podem ocupar lugares privilegiados, estão altamente conscientes do fato de que nos seus ensaios e durante o carnaval são eles os “doutores”, os “professores”. Com essa possibilidade, podem inverter sua posição na estrutura social, compensando sua inferioridade social e econômica, com uma visível e indiscutível superioridade carnavalesca. Essa superioridade se manifesta no modo “instintivo” de dançar o samba que o senso comum brasileiro considera um privilégio inato da “raça negra” como categoria social. (DA MATTA, 1997, p. 167) Os pobres e os negros marginalizados, que em seu cotidiano costumam portar-se de cabeça baixa, receber ordens, sofrer diversos tipos de preconceitos e humilhações, no carnaval podem se exibir como fazem os ricos com suas roupas, carros importados, etc., mas de maneira mais nobre: eles se exibem com sua capacidade de sambar com extrema habilidade, sensualidade e criatividade.
O Brasil é caracterizado como o país do carnaval. Neste, as posições sociais são invertidas. Em uma sociedade, como a brasileira, marcada pela desigualdade social, pelo preconceito racial velado, o carnaval se torna uma festa nacional de grande importância porque é somente nesta festa popular e, talvez, no futebol (quando a seleção participa de jogos internacionais) que uma grande parcela da nação brasileira, pode-se dizer, se une em uma mesma “corrente” de confraternização.
Pedro Pedreiro representa a condição da vida trabalhadora do povo brasileiro que só pode vislumbrar a saída desta condição por meio da fantasia, do carnaval e sua inversão provisória e momentânea ou no sonho sempre frustrado de ganhar na loteria[2].
O destino de Pedro é trágico e incontornável[3], pois a sua condição de indivíduo estático, sem perspectiva de melhora de sua vida, é transmitida a sua descendência familiar, pois: “(…) a mulher de Pedro/Está esperando um filho/Pra esperar também.”. Os versos revelam a paralisia social de Pedro, aprisionado a mecanismos econômicos que organizam a sociedade brasileira, ordenada pelos proprietários e donos do capital.
 
Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro Pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Só dá o desespero de esperar demais
Pedro Pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também,
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem.
 
A repetição utilizada na construção da canção se dá em 60 versos. Além de representar uma grande espera temporal, nos revela também o sentido de angústia, na qual a personagem, após esperar tanto tempo e com tamanho sofrimento, desiste de esperar: “quer ser pedreiro pobre e nada mais/sem ficar esperando, esperando, esperando”. Ao mesmo tempo em que a canção evidencia a fantasia como única válvula de escape (carnaval ou loteria), revela também a aceitação do sujeito, imobilizado pela vida, de sua condição de pedreiro pobre, de fixo na espera contínua. Chico Buarque faz uma crítica à esperança, e deixa o indivíduo no mundo real, onde não há perspectivas de melhora. O compositor também voltará a falar na desesperança em “Bom conselho”, canção que inverte o ditado popular “Quem espera sempre alcança” para “Quem espera nunca alcança”.
Nos quatro últimos versos da canção, Chico Buarque utilizará mais alguns recursos estilísticos enriquecendo poeticamente a sua composição como a aliteração em “p”, reforçando seus efeitos rítmicos. No último verso, que é repetido várias vezes, o compositor se utilizará da onomatopeia, para reproduzir sonoramente a locomoção do trem que “Pedro pedreiro” espera:
 
Pedro Pedreiro pedreiro esperando
Pedro Pedreiro pedreiro esperando
Pedro Pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)
 
O substantivo Pedro, além da ideia de imobilidade, de fixação, é também um nome simples, refere-se a pessoas comuns, do povo, sugere a condição social do sujeito como generalização do povo pobre brasileiro, como se todos operários fossem representados por Pedro. Há uma substituição do sobrenome por um apelido comum, associado a uma profissão desprestigiada socialmente. O emprego de Pedro implica o uso da força física e de baixa remuneração, reforçando sua condição humilde. Todos nós sabemos do desprestígio que o trabalho manual sempre teve no Brasil, legado ancestralmente aos escravos. De maneira geral, podemos dizer que a canção revela um “retrato do Brasil” de fortes contrastes, uma sociedade injusta e perversa, que lega para os migrantes do Norte do país um lugar de desprestígio, de exclusão e espoliação. Nesse sentido, o trabalho exercido por Pedro expõe bem os mecanismos de funcionamento de classes no Brasil. Talvez “Pedro Pedreiro” seja o mesmo operário que, em “Construção”, composição de Chico de 1971, do álbum de mesmo nome, sobe na “construção como se fosse máquina”, com “Seus olhos embotados de cimento e lágrima”, se acaba “no chão feito um pacote flácido”, agoniza “no meio do passeio público” e morre “na contramão atrapalhando o tráfego”.
“Construção” trata do tema do trabalhador espoliado com extremo apuro técnico. Toda estrutura da canção é feita por um jogo de palavras (“tijolos”) em que todos os vocábulos finais são proparoxítonos, recurso que impressionou João Cabral, poeta conhecido por sua crença no trabalho racional para a elaboração do texto poético.
Os versos da canção são dodecassílabos, construídos por uma estrutura sintática simétrica, com métrica e rimas regulares (que mudam apenas nas últimas palavras, as proparoxítonas), maneira encontrada pelo compositor para representar formalmente a circularidade da vida do operário, em seu eterno retorno, mecanizado e aprisionado em um ambiente sem saída.
“Construção” conta a história comum de um operário da construção civil que sai para o trabalho até à sua morte, em uma queda do andaime que trabalhava. Diferentemente de “Pedro Pedreiro”, em “Construção” Chico Buarque representa o pedreiro no seu local de trabalho, revelando a condição aviltante a qual o trabalhador urbano, da construção civil está inserido. Este operário nem mesmo é nomeado, o que revela sua invisibilidade. Sem questionar a organização social do trabalho, submete-se como um autômato ao seu labor, portanto, este homem é similar a uma máquina. Sua tristeza profunda, e por fim, à sua morte, não causa nenhuma comoção, é considerado um estorvo à sociedade, pois o término trágico de sua vida apenas atrapalha o trafico, o público e o sábado. Em seu sentido alegórico a canção parece representar o esfacelamento de uma sociedade que destrói o próprio homem que a constrói. A situação a qual o personagem da canção se encontra revela o modo de vida de um mundo insustentável. A maquinização do indivíduo e sua espoliação pelo capital leva-o a uma espécie de transe e/ou loucura, da perda do sentido da realidade, de embriaguez em que, talvez momentaneamente, o trabalhador parece se libertar do mundo opressor, por meio do consumo de álcool. Situação que representa bem o mundo urbano e moderno no qual o trabalhador está inserido: maquinal, ilógico e destruidor. O que também é revelado nas inversões dos vocábulos da canção e em seu ritmo vertiginoso, que mimetiza toda esta situação em seu aspecto sonoro.
 
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
 
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
 
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
 
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
 
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego (…)[4]
 
Toda opressão do operário de “Construção”, que não encontra uma saída para mudança de sua condição de penúria é confirmada por outra canção: “Deus lhe pague”, que Chico desloca para o final de “Construção”, promovendo a continuidade desta. Em “Deus lhe pague”, evidencia-se toda condição a qual o trabalhador é sujeitado e que, ironicamente, é o que a sociedade ocidental-cristã moderna tem a lhe oferecer: o trabalho excessivo e mal remunerado até a sua morte:
 
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
 
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
 
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague
 
Outro fator que importante há observarmos, o qual reforça ainda mais as condições precárias da “personagem”, é a sua origem: “Pedro pedreiro” é um migrante do norte que mora em um subúrbio, pois tem que esperar o trem para ir ao trabalho. Situação que revela outra esperança não alcançada pela personagem. A do indivíduo que ao migrar do norte para o sul do país almeja sua melhora de vida em uma região mais desenvolvida. Mas o que encontra novamente é sua exclusão ou expulsão do centro e/ou dos bairros nobres da cidade desenvolvida para o subúrbio. Onde vivem os trabalhadores mal remunerados e excluídos do ambiente moderno e do que ele pode lhe proporcionar.
“Pedro pedreiro” é um indivíduo humilde de uma grande cidade, onde se chocam as contradições do desenvolvimento do mundo moderno brasileiro e de seu atraso. O compositor, ao nos revelar esse retrato da pobreza, se solidariza com ela e nos mostra a poesia no “baixo”, onde o sublime se oculta, numa vida humilde e simples. Ao retirar poesia deste meio “baixo”, não “elevado”, o compositor se afasta da matéria da poesia tradicional, na qual o poético significa o nobre e o raro, revelando que esta pode estar presente também no mais humilde cotidiano do homem simples, lição deixada pela tradição do samba e da elaboração lírica modernista de Manuel Bandeira.
Em “Pedro pedreiro”, destaca-se o espaço da cidade moderna, na qual o homem está inserido, em seu cotidiano, em suas ruas, em suas multidões de anônimos, sofrendo as degradações a que o mundo moderno sujeita a todos com suas experiências. Podemos notar que Chico Buarque inspira-se no drama de um João–ninguém e o transforma em uma experiência humana, densa e complexa. Um destino particular é transformado em um valor geral, abstrato e universal do indivíduo angustiado. Na canção, o elemento social não é tomado como um simples engajamento político, mas, ao contrário, a referência ao social revela nela própria algo de essencial, algo que fundamenta sua qualidade poética. Para Adorno, “(…) o conteúdo de um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, [estas] só se tornam artísticas quando, exatamente em virtude da especificação do seu tomar-forma estético, adquirem participação no universal.” (ADORNO, 1980, p. 193). Assim o vemos revelado nos versos da canção que mimetizam a espera angustiada de Pedro, como vimos anteriormente, e que pode ser sintetizada na sonoridade do verso que imita o ruído do apito do trem: “aflita, bendita, infinita/ Do apito do trem”, nas suas rimas internas consoante (ita) e soante (ita/ito). O que também pode ser notado na representação da espera interminável no verso final: “Que já vem/ Que já vem/ Que já vem/ Que já vem/ Que já vem. (etc.)”. Como também na economia vocabular da canção que apresenta poucos substantivos e adjetivos que se repetem, mais o neologismo “penseiro”, onze verbos (em várias flexões), algumas locuções verbais, o verbo “esperar” no gerúndio repedindo-se, entre outras comentadas acima. Toda essa estrutura formal deságua na figura do homem moderno angustiado e em confronto com os valores desse mundo[5].
Chico Buarque nos mostra que é possível encontrar a poesia no mais humilde cotidiano, desentranhada, pela depuração da linguagem, na forma simples e natural da canção. Em sua obra, o compositor reconhece o outro, resgatando a experiência de vida de uma personagem desqualificada socialmente, solidarizando-se com a existência invisível do outro. A figura do homem humilde presente em sua obra é valorizada em sua complexidade, digna de reconhecimento. E essa postura diante do mundo e da poesia se revela em sua canção como uma atitude estética, na recusa ao elevado e a uma linguagem apenas formalista.
A canção de Chico Buarque faz uma análise critica da sociedade e se coloca contra a ideologia oficial, contestando a insensibilidade do sistema para com os humildes. Conforme observa César, o compositor “está consciente de sua função político-social e faz de sua poesia o instrumento de denúncia da realidade, das injustiças e das desigualdades sociais.” (CESAR, 1993, p. 83).
A Moderna Música Popular Brasileira apresenta uma proposta nova dentro da tradição. Historicamente surgida a partir do desenvolvimento da bossa nova, no dizer de Walnice Nogueira Galvão, a MPB tinha o projeto de “dizer a verdade” sobre a realidade imediata e apresentava duas faces:
 
No plano musical, implica numa volta às velhas formas da canção urbana (sambão, sambinha, marcha, marcha-rancho, modinha, cantiga de roda, ciranda, frevo, etc.) e da canção rural (moda de viola, samba de roda, desafio etc). No plano literário, impõe um compromisso de interpretação do mundo que nos cerca, particularmente em suas concreções mais próximas, brasileiras. Basta arrolar a galeria de personagens: o boiadeiro, o cangaceiro, o marinheiro, o retirante, o violeiro, o menino pobre da cidade, o homem do campo, o nordestino – que vem trabalhar no sul, o chofer de caminhão, o homem da rua, o sambista, o operário etc (GALVÃO, 1976, p. 93).
 
Para a ensaísta, a nova proposta da “Moderna Música Popular Brasileira” reside no compromisso com uma realidade cotidiana e presente, com o “aqui agora”. Esse compromisso, observa Galvão, a leva “a adotar a desmistificação militante, derrubando velhos mitos que se encarnavam em lugares comuns da canção popular, como a louvação da beleza do morro e do sertão, da vida simples, mas plena do favelado e do sertanejo” (GALVÃO, 1976, p. 93).
Assim, após o período inicial (1958-1962) as músicas da Bossa Nova – de letras que se prendiam a temas intimistas, falando do “mar, amor e luar” – passam a acompanhar a evolução do problema político brasileiro, tendo uma conotação mais popular e participativa no período pré-1964, para finalmente desempenhar uma fase de politização explícita, quase militante, nos anos do regime militar. Neste momento histórico, arte e política andavam juntas, como podemos notar no depoimento de Heloísa Buarque de Hollanda:
 
Eu me lembro dos hoje “incríveis anos 1960” como o momento extraordinariamente marcado pelos debates em torno do engajamento e da eficácia revolucionária da palavra poética, palavra que, naquela hora, se representava como muito poderosa e até mesmo como instrumento de projetos de tomada de poder (HOLLANDA, 1980, p. 15).
 
Em 1962, de acordo com o anteprojeto do CPC (Centro Popular de Cultura), havia três posições possíveis para os intelectuais no Brasil naquele momento: o conformismo, o inconformismo ou a atitude revolucionária consequente, das quais a última atitude era a orientação do CPC, que tinha como prerrogativa que “em nosso país e em nossa época, fora da arte política não há arte popular” (HOLLANDA, 1980, p. 17). Mas para a plena existência da “arte popular”, o artista deveria adequar sua linguagem para poderem “exprimir corretamente na sintaxe das massas os conteúdos originais”. (HOLLANDA, 1980, p. 19).
Vem desse tipo de pensamento político e estético o surgimento, em 1963, da coleção Violão de rua, que trazia uma antologia dos poemas mais significativos dos poetas engajados da época. Na introdução de um de seus livros, Moacyr Félix expõe a intenção da poesia do Violão de rua, como obra participante que pretendia ser:
 
(…) mais um solavanco nas torres de marfim de uma estética puramente formal, conservadora e reacionária, onde a palavra esvaziada de supostos objetivos que a determinam como o pulso onde transita o som e o sangue de toda a realidade, é apreciada por critérios exclusivamente externos (com o seu ritmo aparente, raridade, aplicação exótica) e ressalva sempre para o sentido do  “divertissement” e ornamental (apud HOLLANDA, 1980, p. 20).
 
A canção popular da década de 1960 e 1970 tem um caráter circunstancial, assumindo muitas vezes uma dimensão quase jornalística, passando a refletir diretamente os acontecimentos do dia-a-dia. Ela torna-se veículo de comunicação que diz o que os canais competentes de comunicação não podiam dizer.
Chico Buarque surge no cenário cultural brasileiro inserindo-se na tradição do samba, absorvendo de seus compositores iniciais a adesão à voz do desqualificado social e a tendência à crônica da vida popular – não são poucas as comparações de Chico a Noel Rosa, por exemplo –, da mesma forma que está também inserido no contexto político cultural da década de 1960, que revela tanto a bossa nova, no campo musical, quanto o estado de exceção representado pela ditadura militar brasileira, momento de alerta sobre as tensões sociais. A relação de Chico com o samba ressalta sua musicalidade contestatória, uma vez que o samba, “dono do corpo”, conforme expressão de Muniz Sodré (1988), com o seu ritmo sincopado e provocador, contesta valores morais e sociais burgueses. Não é sem razão que Chico fez “Pedro Pedreiro”, herói da canção, esperar o apito do trem no ritmo contestatório do samba.
 
Referências
ARRIGUCCI JR., Davi. “O humilde cotidiano de Manuel Bandeira”. In: Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1983.
CESAR, Lígia Vieira. Poesia e política nas canções de Bob Dylan e Chico
Buarque
. São Paulo/ São Carlos: Editora UFSC; Estação Liberdade, 1993.
DA MATTA, Roberto da. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
GALVÃO, Walnice Nogueira. “Uma análise ideológica da MPB”. In: Saco de gatos: ensaios críticos. São Paulo: Duas Cidades, 1976.
HOLANDA, Chico Buarque de. Chico Buarque: letra e música. Humberto Werneck (Org.) São Paulo: Companhia das Letras, 1989. (Songbook)
HOLANDA, Chico Buarque de. “Entrevista a Tarso de Castro”. In: Folha de São Paulo,11/09/77.<http://www.chicobuarque.com.br/texto/mestre.asp?pg=entrevistas/entre_11_09_77.htm.> Acesso em 18-08-2016.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde 1960/70. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico: poesia e política em Chico Buarque. São Paulo: Hucitec, 1982.
MORAES, Vinicius de. Antologia Poética. 17ªed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.
PERRONE, Charles A. Letras e Letras da MPB. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1988.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. Rio de janeiro: Mauad, 1988.
SITE OFICIAL de Chico Buarque <http://www.chicobuarque.com.br/>. Acesso em 20-08-2016.
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] O tema do trabalhador ocupará um lugar especial na obra de Chico Buarque. Em “Construção” vemos novamente a figura do operário da construção civil, humilhado em suas condições de trabalho. Em “Linha de montagem” aparece novamente o trabalhador, mas nesse momento a figura representada é a do metalúrgico do ABC paulista, que aparece também em “Bom tempo” e “Primeiro de maio”. O trabalhador rural também terá seu espaço garantido nas composições de Chico, são exemplares as canções “O cio da terra”, “Assentamento” e “Levantados do chão”.
[2] É possível perceber um diálogo, no que diz respeito ao desejo frustrado do enriquecimento pelo jogo, de “Pedro pedreiro” com o samba clássico de Wilson Batista e Geraldo Pereira, “Acertei no milhar”: “– Etelvina, minha filha!/ – Que há, Jorginho?/ – Acertei no milhar/Ganhei quinhentos contos/Não vou mais trabalhar (…) mas de repente/ De repentemente/ Etelvina me chamou/Está na hora do batente/mas de repente,/Ai de repente /Etelvina me acordou/(E disse acorda Vargulino)/Era um sonho minha gente/(Mete os peitos pelos fundos/Que na frente tem gente).”
[3] Talvez a única saída para Pedro Pedreiro seria a conscientização de sua condição de explorado e da importância de seu trabalho para a sociedade, como fez o operário de Vinícius de Moraes em O operário em construção, de 1956, poema musicado por Taiguara: “(…) E foi assim que o operário/Do edifício em construção/Que sempre dizia sim/Começou a dizer não.// E aprendeu a notar coisas/A que não dava atenção:/Notou que sua marmita/Era o prato do patrão/Que sua cerveja preta/Era o uísque do patrão/ Que seu macacão de zuarte/ Era o terno do patrão/ Que o casebre onde morava/ Era a mansão do patrão/ Que seus dois pés andarilhos/ Eram as rodas do patrão/ Que a dureza do seu dia/ Era a noite do patrão/ Que sua imensa fadiga/ Era amiga do patrão.// E o operário disse: Não!/ E o operário fez-se forte/ Na sua resolução” (grifos nossos – MORAES, 1979, p. 209-210).
[4] Ver análise detida da canção feita por MENESES, Adélia Bezerra de. In: Desenho mágico: poesia e política em Chico Buarque. São Paulo: Hucitec, 1982 (p.148-158).
[5] Nos anos 1960/1970, a MPB se mostra um veículo de grande importância para o cenário poético e cultural brasileiro. Segundo Augusto de Campos, para estudar a cultura brasileira dessa época, “se quiserem compreender esse período extremamente complexo de nossa vida artística os compêndios literários terão que se entender com o mundo discográfico. No novo capítulo da poesia brasileira que se abriu a partir de 1967, tudo ou quase tudo existe para acabar em disco” (CAMPOS, Augusto de. apud PERRONE, 1988, p. 19). A elaboração artística das letras da MPB se tornou evidente para os críticos literários, chegando alguns a pensar que os poetas desta geração optaram pelo veículo musical (o disco, o rádio, a televisão) devido à superioridade comunicativa dos meios audiovisuais em relação aos meios escritos.





Bio fornecida pelo palestrante.

LITERATURA MARGINAL: EXAUSTÃO E PLENITUDE – Daniele Fernanda Feliz Moreira




Daniele Fernanda Feliz Moreira

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

 
Resumo: O objetivo deste trabalho é discutir as estratégias de performances de grupos marginais após o modernismo brasileiro. Já que, determinados grupos, em períodos distintos, utilizaram-se dos discursos e narrativas literárias do modernismo com objetivos renovadores. Partindo da concepção de John Barth sobre a escrita de Borges, seu texto The Literature of Exhaustion servirá de base para as discussões. Tendo em vista as releituras dos grupos literários, organização e configuração dos mesmos, o trabalho terá como escopo ainda, a análise do texto de Sérgio Vaz e sua ligação com o trabalho de Oswald de Andrade. De modo mais breve, e menos detalhado, será discutido também a atuação dos grupos, perspectivas, organização e como elas conferem legitimidade a essas escritas, uma vez que oferecem releituras com novas perspectivas.
 
Palavras-chave: Literatura; Marginalidade; Cultura; Modernismo.
 
Abstract: This paper aims to discuss the strategies of performance of marginal groups  after the Brazilian Modernism. Certain groups, at different times, used the discourse and literary narratives of Modernism with renovated goals. This paper will depart from John Barth’s text The Literature of Exhaustion, about Borges’ writings, to base our discussion. Aiming at the reinterpretation of literary groups, their organization and their configuration, this paper will analyse Sérgio Vaz’s text and its connection with Oswald de Andrade ‘s work. It will also discuss the activities of these groups, their prospects,  forms of organization and of legitimizing these writings, as they offer readings with new perspectives.
 
Key-words: Literature; Marginality; Culture; Modernism.
 
Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ 2011). É especialista em relações etnorraciais e educação pelo CEFET/RJ. Possui mestrado em Relações Étnico raciais pelo CEFET/RJ (2014) com pesquisa em literatura, racismo e ensino. Tem experiência na área de educação, com ênfase em língua portuguesa, suas literaturas e questões culturais. Trabalhou como professora-tutora do curso de Tecnólogo em Segurança Pública e Social pela UFF, atuando principalmente nas disciplinas de Oficina de Texto I e III. É doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente é professora do departamento de Educação da UERJ, leciona disciplinas voltadas para práticas educativas, questões raciais e estudos de Literatura.
 
 
LITERATURA MARGINAL: EXAUSTÃO E PLENITUDE
Daniele Fernanda Feliz Moreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
 

  1. Modernismo brasileiro: rupturas e permanências

A literatura brasileira persegue de modo constante atualizar-se de acordo com novas formas de expressão, tendo em si a originalidade, o ineditismo e a novidade. Inspirados pelos movimentos de vanguarda europeias, a semana de 1922 assinala uma importante ruptura no campo das artes. No entanto, será que literatura modernista ou pós-modernista serviu como uma reedição da tradição? Será que as promessas inovadoras, incorporaram-se ao sistema e passaram a ser sentidas como “esgotadas” em sua capacidade inovar, surpreender, interessar?
Para refletirmos sobre o panorama literário contemporâneo, em que cada vez mais a pluralidade de escrita assinala seus espaços, é fundamental salientar a relevância do movimento modernista brasileiro. A semana de 1922, para além da congregação de visionárias concepções artísticas, possibilitou uma aproximação entre linguagens até então bem delimitadas no cenário literário brasileiro. O movimento modernista possibilitou uma descentralização de narrativas. A figura do “eu” literário burguês passou a dividir espaços com o elemento indígena e sertanejo, exemplificado nas obras de Mario de Andrade, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Tais obras foram responsáveis por atualizarem a vertente popular sem representarem preconceito, e como afirma Silviano Santiago: “O romancista apenas escuta a produção poética popular.” Ou seja, o escritor, naquele momento, fazia algo que seria decisivo para maior abertura e pluralidade literária no Brasil do século XXI. O escritor compara Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, com as Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos e aponta o caráter duplo da comparação, uma vez que “são obras que navegam tanto em águas europeias quanto em peculiarmente nacionais”. Santiago enaltece ainda o viés positivo e a riqueza literária das expressões populares:
 
“É neste entrecruzar de discursos, já que é impossível apagar o discurso europeu (…) que se impõe o silêncio do narrador-intelectual (…) é aí que se faz ouvir o conflito entre o discurso do dominador e do dominado. É aí que se constitui o texto-da-diferença, da diferença que fala das possibilidades (ainda) limitadíssimas de uma cultura popular preencher o lugar ocupado pela cultura erudita, apresentando-se finalmente como a legítima expressão brasileira”.
(SANTIAGO, 1982, p. 172)
 
O popular obtinha espaço na literatura através de intermediários. Os mediadores desempenhavam papel quase que antropológico, seja em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha seus escritores construíram narrativas polifônicas, os enredos eram permeados de diversas vozes. Seus personagens carregavam consigo o sotaque, o gesto e expressões linguísticas típicas de seus lugares de origem. No entanto, a literatura brasileira ainda carecia de narrativas construídas por camadas populares. O sertanejo, o indígena, o negro e o pobre estavam sendo retratados nas obras de arte de modo mais autêntico, porém ainda sem protagonismo enquanto artista, produtor. É sabido que ao longo da história da literatura no Brasil, alguns escritores de grupos marginalizados socialmente conseguiram notoriedade em suas produções literárias, caso de Lima Barreto, Machado de Assis e do poeta Cruz e Sousa, autores negros, mas que de alguma forma estavam inseridos em contextos de prestígio, obtiveram educação burguesa e circulavam na classe média.
O modernismo brasileiro foi uma corrente decisiva na abertura temática literária, porém ainda carregava consigo características do romantismo, uma vez que o conhecimento e a incorporação do popular pela escrita literária ocorriam através do ponto de vista burguês/erudito. De certa forma, e com algumas exceções, repetia os moldes lineares realistas do século XIX nas narrativas, utilizando uma construção psicológica dos personagens pautadas em dados da realidade e construção com começo, meio e fim. Os mecanismos de centralidade eram ainda os eleitos pela elite cultural, ou seja, os critérios para eleger uma obra literária de valor estão ligados aos seus méritos estéticos, sua “literariedade”.
A problemática da questão está situada na noção de literatura, que a princípio é ideológica e está engendrada na burguesia. Portanto, os valores estéticos e culturais que vão atestar essa “literariedade” estão sob a ótica desse grupo. O privilégio de eleger obras literárias está ligado à questão de poder. As escolhas não são arbitrárias, a história da literatura brasileira constata tais interesses. A linguagem, o modo de expressar-se e o acesso a leitura e a escrita são requisitos que preenchem e estabelecem a noção de autor. No artigo “Vale quanto pesa” Silviano Santiago discorre sobre o caráter elitista da escrita no país problematizando o papel do autor, do livro, e sua circulação social. O escritor trata da configuração do meio literário brasileiro, destacando suas especificidades e de como a ficção operava as tendências da cultura erudita. Por definição de cultura erudita e cultura popular, Alfredo Bosi define que:
“Se pelo termo cultura entendemos uma herança de valores e objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso, poderíamos falar em uma cultura erudita brasileira, centralizada no sistema educacional (e principalmente nas universidades), e uma cultura popular, basicamente iletrada, que corresponde aos mores materiais e simbólicos do homem rústico, sertanejo ou interiorano, e do homem pobre suburbano ainda não de todo assimilado pelas estruturas simbólicas da cidade moderna”.
(BOSI, 2009, p. 24)
 
Ao analisar o panorama literário brasileiro após a semana de 1922 é possível constatar rupturas, mas também muitas permanências. O normativismo e o prescritivismo das formas da arte institucionalizada repercutiram ao longo dos anos. Isto porque, seria preciso uma renovação completa não só no âmbito artístico, mas também social. Para que o modernismo fosse uma estética da reciclagem criativa (BARTH, 1984), seria preciso a reutilização do material literário “esgotado” para novas combinações “originais”, ou seja, a reformulação da arte brasileira, uma vez que está centrada nos anseios burgueses.
É somente em 1960 que uma autora semiletrada, sem qualquer auxílio instrucional para a produção literária, lança-se no meio editorial. Carolina Maria de Jesus tem o seu diário, intitulado Quarto de despejo publicado por intermédio de um jornalista. No entanto, Carolina tinha pretensões que iam além de seu diário, já que inicialmente não tinha como intenção publicar seu diário, mas sim, outros escritos ficcionais. O trabalho de Carolina assumiu diversos lugares de equívocos, seja como testemunho, antropológico ou obra exótica, pouco se explorou seu potencial literário. Sua escrita repercutiu por diversos países, Quarto de despejo, seu livro mais famoso, alcançou números surpreendentes para o mercado editorial da época. E então, trinta e oito anos após a Semana de Arte de Moderna, em que se enaltecia e clamava pelo popular, nacional e originário, uma escritora oriunda da favela tinha seu primeiro livro publicado.
A história da literatura brasileira é um território em constante disputa por conferir e instrumentalizar poder, imprimindo visibilidade cultural e social ao indivíduo e também seu grupo. A escrita de Carolina não é pertencente a movimentos culturais e literários. A escritora foi pioneira em um tipo de literatura associado à produção marginal. Para NASCIMENTO (2009), “Literatura Marginal se tornou uma rubrica ampla que abrange a inserção dos escritores no mercado editorial, as características dos produtos literários, um tipo de atuação literário-cultural, ou ainda, a condição social do escritor.” O termo marginal tem acepções diferentes nos períodos da década de 1970 e mais tarde, nos anos 2000. É utilizado por grupos distintos, porém com algumas aproximações ideológicas, são uma possibilidade para o que Barth denomina o escritor pós-moderno ideal, já que não imita e não repudia nem seus genitores do século XX nem seus avós do século XIX. Ele digeriu o modernismo, mas não o carrega nos ombros como um peso.
Conforme apontado por Barth, os gêneros artísticos são concebidos e desenvolvidos por meio da história da humanidade. Portanto, estão sujeitos à exaustão, a repetição, ao menos no espírito de um certo número de artistas, em certos momentos e em determinados lugares. Ou seja, as convenções artísticas podem ser abandonadas, subvertidas, ultrapassadas ou mesmo retomadas contra elas mesmas, para que se formulem novas formas de expressão mais completas. A literatura marginal pode ser compreendida, a partir da perspectiva dos estudos de John Barth como essa possibilidade de estética de reciclagem criativa. Como cita Helloisa Buarque de Hollanda “se redescobriu (ainda muito bobamente) nossa paisagem social, que andava soterrada nos anos medíocres que se seguiram à Semana de Arte Moderna de 1922. De novo, de um novo ângulo, voltou-se a olhar o Brasil (…) o povo, mal visto, desfocado”.
 

  1. Situando a Literatura marginal de ontem e de hoje

Surge em 1970 um movimento denominado “literatura marginal”. Movimento que era “marginal” na medida em que suas condições, bem como sua distribuição, eram feitas à margem da política editorial vigente. Segundo Heloisa Buarque de Hollanda, “era um movimento da contracultura e feito pela classe média”. Surgia uma geração que, influenciada pelo Tropicalismo, tinha como meta partilhar e popularizar a poesia. No contexto de ditadura militar, tal movimento burla os mecanismos editoriais comerciais e de censura. No tocante a linguagem, estrutura e temática havia uma rejeição aos padrões literários então vigentes. Heloísa Buarque de Hollanda assinala que:
“(..) faz-se clara a recusa tanto da literatura classicizante quanto das correntes experimentais de vanguarda que, ortodoxamente, se impuseram de forma controladora e opressiva em nosso panorama literário. Num recuo estratégico, os novos poetas voltam-se agora para o modernismo de 22, cujo desdobramento efetivo ainda não fora suficientemente perseguido. Nesse sentido, merece atenção a retomada da contribuição mais rica do modernismo brasileiro, ou seja, a incorporação do coloquial como fator de inovação e ruptura com o discurso nobre acadêmico. Se em 22 o coloquial foi radicalizado na forma do poema-piada de efeito satírico, hoje se mostra irônico, ambíguo e com um sentido crítico alegórico mais circunstancial e independente de comprometimentos com um programa preestabelecido.”
(Hollanda, 1975, p. 56)
 
Formado por pessoas da classe média, letrados, tendo a literatura como um meio de revolução social, e inspiradas no modernismo brasileiro, esses escritores tinham como instrumento de produção e popularização de seus trabalhos o mimeógrafo, ferramenta primordial para reprodução dos livros. A máquina, além de baratear e dinamizar a reprodução, era totalmente destoante do que se fazia nos meios editoriais industrializados. A linguagem também era instrumento de pertencimento ao grupo, as gírias, expressões coloquiais eram muito utilizadas e tinha como finalidade tornar a poesia um elemento mais próximo do popular, o objetivo era se afastar do formalismo acadêmico e estabelecer uma conexão com a rua.
É no final dos anos 1990 e início de 2000 que se difunde e assume relevância nos grandes meios literários um movimento intitulado por Ferréz de “literatura marginal”. A proposta adquire maior visibilidade a partir de outros dois importantes eventos que marcam o cenário cultural nacional. O primeiro é o livro de Paulo Lins, Cidade de Deus. Sua obra foi publicada em 1997 e obteve relevantes críticas positivas que exaltavam o poder de escrita de seu autor. Em 2002 a obra recebe uma adaptação para o cinema e é aclamada pela crítica, e assim os componentes do livro, dentre eles favela, violência e marginalidade, adquirem espaço e até certo ponto, prestígio em espaços hegemônicos. A produção marginal que surge a partir dos anos 2000 tem muito em comum com essa literatura marginal dos anos 1970. O próprio Ferréz, escritor militante da periferia alega que “O mimeógrafo foi útil, mas a guerra é maior agora, os grandes meios de comunicação estão aí, com mais de 50% de anunciantes por edição, bancando a ilusão que você terá que ter em sua mente”. O termo “literatura marginal” é escolhido por Ferréz como forma de designação de sua escrita. Na introdução do livro “Literatura marginal – talentos da escrita periférica”– o autor assegura que: “A literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo” (FERRÉZ, 2005, p. 5).
O enfoque da palavra ‘marginal’ escolhida pelo autor para justificar seu trabalho serve como destaque para designar minorias raciais ou socioeconômicas. Essa é uma importante característica a ser levada em consideração, já que é um fator de diferenciação desse grupo dos demais autores marginais da história da literatura nacional. Carolina Maria de Jesus, quando escreve, não está amparada por um grupo, um movimento. A formação ideológica, crítica e cultural são elementos fundamentais para a coesão do grupo. Apesar das diferenças sociais e econômicas que estruturam os movimentos literários de 1922, 1970 e 2000 existe um entendimento intelectual-artístico decisivo para a produção do grupo, tanto que os comprometidos com os coletivos de contracultura da década de 1970 e os escritores de periferia dos anos 2000 tomam como exemplo e eixo paradigmático o movimento modernista.
Além das aproximações existentes entre as gerações de literatura marginal de 1970 e 2000, é preciso ressaltar que, o escritor Ferréz não só elogia o movimento predecessor alegando que “O mimeografo foi útil”, como também cita João Antônio, escritor que, de acordo com Alfredo Bosi é “Ora, realismo fervido na revolta pende mais para a margem que para o centro da sociedade”. O trecho que encerra a abertura de Ferréz faz referência ao desdém que a elite letrada tem como o povo:
 
“Evitem certos tipos, certos ambientes. Evitem a fala do povo, que vocês nem sabem onde mora e como. Não reportem povo, que ele fede. Não contem ruas, vidas, paixões violentas. Não se metam com o restolho que vocês não veem humanidade ali. Que vocês não percebem vida ali. E vocês não sabem escrever essas coisas. Não podem sentir certas emoções, como o ouvido humano não percebe ultrassons.”
(ANTÔNIO, 2001, p. 34)
 
João Antônio foi um escritor que, além das abordagens temáticas que privilegiasse a boemia e a marginalidade, Antônio era também um crítico de seu tempo: “Assim, grande parte dos escritores que depõem hoje sustenta preocupação vinculada à forma, sob a denominação de um ‘ismo’ qualquer. Lamentável ou incrível. As posições beletristas não mudaram entre nós, sequer um milímetro, nos últimos quinze anos.” Antônio, propõe que haja na literatura uma identificação com a realidade brasileira, já que “(…) carecemos, em essência, é o levantamento de realidades brasileiras, vistas de dentro para fora. Necessidade de que assumamos o compromisso com o fato de escrever sem nos distanciarmos do povo e da terra”. Esse anseio por representação já era indicado desde o Manifesto do Centro Popular de Cultura (CPC), em 1962, quando se alegava que sem a arte política não existiria a arte popular (HOLLANDA, 1992). É um viés artístico que vinha adquirindo espaço, que tinha um compromisso com o popular. É dessa tendência que os escritores marginais dos anos 2000 vão se valer para a construção de seus textos. A escolha de Ferréz não é aleatória ou acidental, ao optar por dialogar com João Antônio, o autor o faz de maneira consciente.
Mesmo com aberturas no setor editorial, publicações alternativas e maior espaço para novos autores, a literatura brasileira ainda é conservadora e reproduz antigos mecanismos de seleção de centralidade. Uma pesquisa feita em 2012 por Regina Dalcastagnè traça o perfil dos escritores e da escrita dos brasileiros. Foram lidos 258 romances, publicados de 1990 a 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco. A pesquisa revelou que os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente). Esses dados só enfatizam o quanto ainda é restrito o campo literário.
Nessa perspectiva, a autora também traçou o perfil dos personagens nos romances brasileiros contemporâneos. Eles são, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). As principais ocupações dos personagens masculinos são escritor (8,5%), bandido ou contraventor (7%) e artista (6,3%). As personagens femininas são donas de casa (25,1%), artistas (10,2%) ou não têm ocupação (9,6%). A questão não é diferente no tocante à cor. Os personagens negros são 7,9% e têm pouca voz: são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. Os brancos são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%). Os negros são bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%). Enquanto a maioria dos brancos morre, na ficção, por acidente ou doença (60,7%), os negros morrem mais por assassinato (61,1%).
É possível perceber a existência de uma literatura que, seja por questões editoriais ou sociais, não é contemplada por esse espaço central e hegemônico. Literatura essa, que não usufrui de prestígio e legitimidade do cânone, já que o mercado editorial está voltado para uma demanda específica que foi ilustrada pela pesquisa. Dos números apresentados por Dalcastagnè e das constatações semelhantes feitas por Silviano Santiago em seu período, é possível refletir sobre o quão restrito é o universo literário no Brasil e o quanto são relevantes culturalmente as produções que infringem as regras pré-estabelecidas desse universo.
 
III. Exaustão e Plenitude
O trabalho desses escritores tem componentes próprios; atuação política, iniciativa editorial, além de uma condição diferenciada quanto ao lugar de fala. É uma característica que está presente tanto no movimento que teve seu auge em meados dos anos 1970, quanto no dos anos 2000. Na década de 1960 os escritores faziam recitais de poesias nas ruas, em conjunto com operários, as apresentações se davam em locais inusitados, a própria linguagem, a própria poesia era performática, construída especificamente para o povo. “Não há lugar aqui para os ‘artistas de minorias’ ou para qualquer produção que não faça uma opção de público em termos de povo’.” Os objetivos do grupo são desvirtuados quando em 1964 ocorre o golpe militar, e então o projeto de expansão cultural para o teatro e as demais artes fracassa.
Já a literatura marginal dos anos 2000 é periférica, oriunda da favela. Suas formas de atuação priorizam este espaço. Há um deslocamento de objetivo quando essa migra de lugar, isso ocorre, mas, no entanto, seus idealizadores a transformam em estratégica. As formas de atuação artística na periferia são quase sempre em formato de saraus, mas há também dança, representada como confronto de hop-hop e grafiti, expressão gráfica típica das ruas.
Essa atuação pode ser considerada um veículo de visibilidade, já que os saraus, os encontros literários e as edições com selos próprios também foram componentes que estimularam a curiosidade das universidades, editoras e imprensa. A favela é um elemento complexo dessa escrita; buscar o entendimento dessas produções discursivas é dialogar com um contexto social até então novo para a literatura. As favelas são localidades que não estão no centro social, político e cultural dos acontecimentos, no entanto, é dotada de pulsão criadora, e grande fluxo de produção. São esses atores sociais que buscam na cultura territorializada da favela agregarem outros valores a essa condição. Tal mobilização assinala uma importante mudança social, já que a periferia passa a elaborar as soluções para os obstáculos encontrados, fazendo com que se desempenhe autonomia e protagonismo em seu destino. Essa iniciativa é permeada pela valorização do morador da periferia, sua cultura, seus hábitos, musicalidade e formas de expressão. Sérgio Vaz revela que:
 
“Esse novo artista da periferia é um artista cidadão. Ele não faz a arte só pela arte, ele representa as pessoas que não têm voz, não têm teatro, não têm cinema. É um movimento político apartidário (…). Talvez com menos dinheiro, menos condições, menos espaço. Mas, ainda assim, é uma efervescência cultural. As pessoas se apropriaram dos bares, tem cinema na laje, botecos, becos e vielas”.
(Jornal do Brasil, Cultura, 02/11/ 2012)
 
 
O autor destaca uma apropriação do espaço favela como um território possível para a difusão cultural, revelando a importância do artista periférico. Ele trata essa postura como representação do que seria essa renovação de um espaço. O destaque que esses eventos adquirem possibilita um olhar para as regiões que antes eram negligenciadas, como cita Ferréz “mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto.” Os eventos culturais alteraram as rotinas das comunidades, pois os grupos que prestam serviços aos moradores não são somente as ONGs (organização não governamental) de fora, mas sim os próprios cidadãos empenhados na transformação daquele espaço.
É possível perceber que em três momentos históricos distintos, em 1922 com a semana de Arte Moderna, na década de 1970 com os CPCs da Literatura Marginal e nos anos 2000 com a articulação dos moradores de periferia na criação de um movimento cultural artístico-literário há tentativas de reciclagem criativa. Mas, do ponto de vista da efetivação da proposta, somente as literaturas marginais da década de 1970 e dos anos 2000 conseguem pôr em prática tal empreitada. Isso porque, buscam suas bases no Modernismo e o superam, ao menos em seu intuito objetivo. O Modernismo tinha como ideal, além da antropofagia, a popularização da arte no Brasil. Nessa perspectiva imediata, ele fracassa. Da configuração da semana de arte moderna de 1922 até as publicações e manifestos artísticos, nada é de ampla circulação além do universo burguês. A literatura marginal de 1970, idealizada a partir da semana de 1922 obtém alguma aproximação com o público porque encontra na linguagem um meio de mediação artística. Além de fazer do modo de distribuição um recurso de aproximação relevante. Nos anos 2000, analisadas minunciosamente a semana de 1922 e a aprendizagem da poesia popular da década de 1970, a literatura produzida na periferia refaz o manifesto antropófago, de Oswald de Andrade.
Relevante ícone, agitador cultural e escritor, Sérgio Vaz é conhecido por conceber o primeiro Sarau permanente da periferia. Autor do livro Literatura, pão e poesia, propõe uma Semana de Arte da Periferia nos moldes semelhantes à Semana de Arte Moderna de 1922. Conforme Oswald, Sérgio Vaz elabora um manifesto. Intitulado “Manifesto da Antropofagia Periférica”, o texto de Sérgio Vaz recupera os anseios modernistas no que diz respeito à questão da divulgação e valorização da cultura nacional. No entanto, o trabalho de Vaz está centrado na periferia. O primeiro verso do manifesto expressa essa concepção: “A periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.” O escritor se vale do manifesto antropófago de Oswald de Andrade publicado em 1928, ícone da expressão modernista brasileira. “Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”
A noção de antropofagia é fundamental para a compreensão do movimento modernista brasileiro, uma vez que, a ideia de criação cultural recebe um significado muito diferente do até então explorado naquele momento. Oswald de Andrade ao cunhar o conceito de antropofagia estabelece o canibal como agente, como aquele que transforma a cultura alheia e a ressignifica a partir de suas perspectivas culturais e sociais. Oswald reflete sobre a questão de maneira descontraída em seu manifesto antropofágico: “Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”
No fragmento exposto, o autor modernista reitera com ironia a importância do Brasil no estabelecimento do humanismo europeu do século XVIII, baseado nos princípios da “liberdade, igualdade e fraternidade”, que não se consolidaram. Prova disso é a Primeira Grande Guerra com que se inaugura o século XX na Europa. Sendo assim, propõe a Revolução Caraíba, cujo fundamento é a antropofagia cultural de colonizados e colonizadores. A construção de Sérgio Vaz transforma antropofagia em periferia. O ato de se apropriar de outras manifestações culturais e dar um novo sentido a partir de uma ótica singular, também pode ser concebida sob o viés periférico.
Sérgio Vaz exerce a antropofagia a partir do próprio cenário cultural brasileiro. Se a antropofagia pode ser entendida como uma forma de a arte brasileira se apropriar de elementos culturais hegemônicos, como por exemplo as vanguardas europeias, a periferia, na visão de Sérgio Vaz, também pode se mobilizar no sentido de se apropriar desses elementos eruditos e ressignificá-los. Oswald assinala que a antropofagia é um fator de união social, econômica e filosófica. Sérgio Vaz constrói sua proposta a partir do amor, da dor e da cor. Os três eixos selecionados por Vaz são significativos e ajudam a compreender o conceito de periferia estabelecido por ele. Ao citar dor, o poeta se refere à experiência da violência e da escassez enfrentada pela população mais pobre e consequentemente negligenciada socialmente. Essa parcela, constantemente ignorada é composta por maioria negra, ressaltando assim, outro componente fundamental: a questão racial. Mesmo diante da exclusão social causada pela cor, gerando dor, Vaz cita ainda o amor como componente desse núcleo periferia. O amor pode ser entendido como a solidariedade necessária à sobrevivência. Idealizada a partir do movimento modernista de 1922, a Semana de Arte Moderna da periferia, elaborada em 2007, contou com diversas semelhanças e alusões ao primeiro evento paulista elaborado na primeira metade do século XX. Exposições artísticas, danças, manifestações musicais e folclóricas formaram o repertório da Semana Periférica.
Sérgio Vaz afirma se apropriar da ideia de “Semana de arte moderna” com intuito de dar visibilidade às demandas da periferia. Ou seja, Sérgio Vaz tem consciência da apropriação de um significativo e marcante acontecimento da alta cultural brasileira e o transforma com intuito de subvertê-lo e obter visibilidade, reivindicando assim, atenção para a periferia. No manifesto da antropofagia periférica o escritor assinala:
 
“Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de uma futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade.”
(VAZ, 2011, p. 27)
 
O escritor atribui à arte uma função social, capaz de combater injustiças e, essa arte só pode vir da periferia, uma vez que, “A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.” O princípio da autonomia é constante no manifesto de Sérgio Vaz. E, a figura central dessa autonomia é o artista-cidadão. Nesse sentido, é possível perceber a influência de Oswald de Andrade no texto de Sérgio Vaz. Oswald critica o sistema, as injustiças e a previsibilidade dos eventos:
 
“Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. “
(ANDRADE, Ano I, no I, maio de 1928)
 
Ao ajustar sua crítica ao pensamento oswaldiano e recriá-lo, Sérgio Vaz não só valida a importância do movimento modernista brasileiro de 1922, como o retoma, atualiza-o aplicando a sua realidade. O discurso de Oswald é então melhorado, porque encontra aplicabilidade. Sérgio Vaz também tece uma crítica relacionada aos meios de produção artística, o pouco incentivo governamental, vaidades de indivíduos relacionados com o meio e a mercantilização da arte: “Miami pra eles? “Me ame pra nós!” Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e os eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e da arte privada” (VAZ, 2011, p. 27).
No manifesto antropofágico de 1922, Oswald de Andrade já mencionava algo muito semelhante a essa crítica ao meio artístico. Ao afirmar ser “contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida (…) contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.” O escritor moderno critica a falta de autonomia e condena a repetição das artes e das culturas europeias sem questioná-las ou adaptá-las ao modo brasileiro. Ele afirma: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” A repetição sem adaptação, afastada dos elementos culturais brasileiros parece estúpido na visão oswaldiana. Em consonância a essa postura, Sérgio Vaz estabelece uma intertextualidade pensada, calculada e adaptada a realidade periférica. Vaz consome todo o texto de Oswald de Andrade e o digere de maneira peculiar, sensível e inteligente:
 
“A periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala […] contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.”
(VAZ, 2011, p. 28)
 
De acordo com Sérgio Vaz, a cultura é uma importante solução para o problema da marginalização social da periferia. Oswald também acreditava que a democratização cultural era uma questão importante, já que ele idealizava: “A massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico”. As releituras da produção e ideologia modernista ainda encontram eco nas escritas contemporâneas. Para Ihab Hassan a ficção pós-moderna apenas reativaria, num espírito de subversão cultural e anarquia, a criatividade reflexiva e narcisista do Modernismo. Porém, mais do que reativar, o trabalho de Sérgio Vaz se apropria e a cria a partir de Oswald. Barth, ao tratar da exaustão da literatura, aponta principalmente para a estética do alto modernismo, já superada em sua essência. O autor afirma que a literatura não se esgotará jamais não porque um texto literário em particular seja inesgotável, mas sim por conta de sua significação, que está sujeita, por meio dos leitores, ao tempo, espaço e a linguagem.
 
Bibliografia Consultada
BARTH, John. The Friday Book. Baltimore, John Hopkins University Press, 1984.
BARTH, John. The Literature of the Replenishment. The Friday Book: Essays and Other Non-Fiction. London: John Hopkins University Press, 1984.
BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1984.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2003.
FERRÉZ (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
HASSAN, Ihab Habib. The Postmodern Turn: Essays in Postmodern Theory and Culture. Columbus: Ohio State University Press, 1987.
HUYSSEN, Andreas. Mapeando o pós-moderno. In: Heloísa Buarque de Hollanda. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
HOLLANDA, Heloísa Buarque. 26 Poetas Hoje – Antologia. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
HOLLANDA, Heloisa Buarque. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde:1960/1970. Rio de Janeiro, Rocco, 1992.
NASCIMENTO, Érica Peçanha do. Vozes marginais na literatura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. (Coleção Tramas Urbanas).
SANTIAGO, Silviano. “Vale quanto pesa. (A ficção brasileira modernista)”. In: Vale quanto pesa. Ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. Rio de Janeiro, Global, 2003.





Bio fornecida pelo palestrante.

A LITERATURA FEMININA NO ABC PAULISTA: MARGINALIZAÇÕES E INTERSECCIONALIDADES – Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira, Alessandra Teixeira




 

Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira

Universidade Federal do ABC (UFABC)

 

Alessandra Teixeira

Universidade Federal do ABC (UFABC)

 
Resumo: Este trabalho aborda a literatura produzida no ABC Paulista por meio de uma ótica interseccional. Nesse contexto, são considerados processos históricos e estruturais que marginalizaram determinadas identidades – por fatores de “gênero, raça, classe, ideias e nacionalidade” – no âmbito da autoria literária. Além disso, destaca-se a ressignificação recente que atravessa a literatura dessa região.
 
Palavras-chave: Marginalidade. Literatura. Gênero. Interseccionalidade.
 
Abstract: This paper discusses the literature produced in the São Paulo industrial area known as “ABC Paulista” through an intersectional perspective. In this context, it will consider the historical and structural processes that marginalized certain identities – based on factors such as “gender, race, class, nationality and ideas” – in the scope of literary authorship. Furthermore, it will point to the recent resignification that the literature of this region went through.
 
Keywords: Marginality. Literature. Gender. Intersectionality.
 
Minicurrículos:
Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira é graduada em Letras (Português/Inglês) pela Faculdade IESA. É especialista em Estudos Linguísticos e Literários pelo Centro Universitário Fundação Santo André, professora e escritora.É mestranda no programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (Linha de pesquisa: Comunicação, Cultura e Dinâmica social) e autora de Identidade e diferença em “Mariângela”: a representação literária da mulher e das formas de exclusão, artigo publicado em: SCOTOLO, Irene (org.). A leitura como ofício (São Paulo: Porto de Ideias, 2015).
Alessandra Teixeira é professora adjunta do Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais e do bacharelado de ciências e humanidades da Universidade Federal do ABC – UFABC. Mestre e doutora em sociologia pela USP. Advogada. É autora do livro Prisões de exceção: política penal e penitenciária no Brasil contemporâneo (São Paulo: Juruá, 2009). É também autora, entre outros, do capítulo Mulheres Encarceradas e o direito à Educação: entre iniquidades e resistências, no livro Educação em prisões (Yamamoto, A. (Org.).
 
 

A LITERATURA FEMININA NO ABC PAULISTA: MARGINALIZAÇÕES E INTERSECCIONALIDADES

 
Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira
Universidade Federal do ABC (UFABC)
 
Alessandra Teixeira
Universidade Federal do ABC (UFABC)
 
Introdução
Quase sessenta anos após o jornalista Au­dálio Dantas ter acesso aos diários de Carolina de Jesus, que resultaram na obra ícone da literatura feminina marginal, Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), a questão de uma literatura, duplamente marginal, ou multiplamente marginal, posto que atravessadas por diferentes marcadores sociais da diferença e da marginalidade (raça, gênero, classe), ainda se mantém um campo de escassa reflexão teórica e analítica.
Este artigo propõe uma reflexão sobre tal fenômeno, a literatura marginal, a partir de uma abordagem intersecional, abordagem essa que tem sido inovadora no campo das ciências sociais e bastante profícua para a inteligibilidade de fenômenos como desigualdade, discriminação, violência e os modos de promoção de sua invisibilidade. Para tanto, toma-se como referência empírica o contexto geográfico do ABC paulista e como base identitária a autoria feminina produzida nessa região.     
O ABC paulista é uma região de contradições. Ao mesmo tempo em que é marginalizada – inclusive geograficamente – produz marginalidades. A literatura desse local ainda hoje é entendida como marginal em relação ao circuito literário nacional, além disso, a produção de conhecimento sobre o assunto é bastante escassa.
Especificamente com relação à autoria feminina, embora seja um fenômeno ainda mais recente, a criação literária de mulheres já possui uma trajetória de mais de meio século nessa região. No contexto atual, novas vozes sociais têm encontrado nessa forma de representação um veículo para a sua expressão, mesmo que para isso seja necessário ressignificar meios de produção e difusão.
Para tratar do assunto, este artigo é dividido em duas partes. Em primeiro lugar, busca-se apresentar a literatura do ABC paulista como um campo a ser explorado. Com um enfoque especial para a produção de mulheres, essa primeira parte discorre sobre os processos históricos da literatura feminina, tomando como parâmetro o contexto nacional; bem como ressalta as lacunas de conhecimento acerca desse assunto.
Em segundo lugar, direciona-se o enfoque para as marginalizações e intersecções que permeiam tal contexto. Na segunda parte, também é tomado como parâmetro um plano mais abrangente, não somente no que diz respeito à literatura, mas também no que se refere às opressões estruturadas – relativas a gênero, raça e classe – que afetam as relações e a vida social de mulheres em diferentes âmbitos.
 

  1. Literatura feminina no ABC: um campo a ser explorado

Tanto no campo da crítica quanto da historiografia e teoria literárias, não há material produzido especificamente sobre a literatura feminina no ABC Paulista. Nas instituições locais de ensino, iniciativas no sentido de introduzir obras de escritoras locais em seus currículos são raras.  Obras “eleitas” pelo cânone por serem “exemplares”– a partir de rigorosos critérios – ainda compõem os currículos educacionais.
Embora nos últimos anos muitos esforços no campo da educação tenham sido realizados no amplo sentido da democratização do acesso ao conhecimento, poucas são as instituições que agregam em seu currículo obras da literatura contemporânea, especialmente aquela produzida no entorno de tais instituições.
Um dos sintomas desse distanciamento entre a literatura produzida na região do ABC e o currículo das instituições de ensino, tanto da educação básica quanto do ensino superior, é a escassez de pesquisas sobre o assunto. Trata-se de um tema que raramente permeia as discussões acadêmicas locais.
Alves (2009, p. 8), ao se referir à produção cultural abecedana, alerta para a necessidade de levantamento, organização, sistematização de dados e produção de conhecimento sobre produtos culturais dessa região. Segundo o autor, seria necessário que o Consórcio Intermunicipal – instituição que congrega políticas de desenvolvimento para os sete municípios – e as universidades da região liderassem “um movimento pela recuperação, estabelecimento crítico, sistematização catalográfica e ampliação consorcial do acervo gráfico que compreenda e explique o ABC”.
A literatura seria uma das facetas dessa produção cultural e por isso se torna imprescindível reconhecê-la como um fenômeno inserido num campo de conhecimento que merece ser explorado e cujas informações devem ser popularizadas.
Veras (2000 p. 21) critica o distanciamento entre as universidades locais e a literatura produzida na região. Para ela, em boa parte dos cursos de Letras, as discussões sobre a literatura brasileira se estendem no máximo ao modernismo, como se nada de novo tivesse sido produzido nos últimos anos “em matéria de literatura”. Dalila Veras é uma escritora da região, que desde os anos de 1980, juntamente com outras autoras e autores locais, empenha-se em realizar tal aproximação.
Alguns registros literários, memorialísticos e historiográficos revelam que o ABC conta com uma tradição literária que já remonta pelo menos um século de história. O marco fundador dessa tradição surge com o primeiro veículo de imprensa da cidade. Os poemas Chromo, de Vidal Pessoa e A fábrica de Damasceno Vieira, publicados no jornal O Monitor, no ano de 1904, inauguram a literatura local.
Sobre o poema de Vieira, vale ressaltar que cria uma identidade romantizada do operário, numa região em que a industrialização começa a se instalar e se expandir para fixar um dos maiores polos industriais do país. Segundo Melo (2000), o que Vieira não poderia prever é que no ABC – incluindo Santo André – o operário, distante de qualquer romantização, adquiriria tamanha relevância; tampouco que a ação operária local promoveria lutas políticas que marcaram a história do Brasil.
Os primeiros registros da participação feminina na literatura da região estão datados no início dos anos de 1950 e, desde então, uma profusa participação de mulheres pode ser observada. Neste período, destaca-se a escritora, tradutora e professora, fundadora da primeira biblioteca municipal de Santo André, Nair Lacerda (MELO, 2000).
Outra autora que vale mencionar, em vista do seu engajamento, é Léa Aparecida que, além de poeta, foi operária metalúrgica e vereadora pelo Partido dos Trabalhadores, no município de Mauá, em meados da década de 1980. Diretamente vinculada à militância política, Léa desapareceu tragicamente no ano de 1988.  Acerca de sua poética, Veras (2000, p. 15) pontua que assumia a faceta do engajamento, sem, contudo, constituir-se como “panfletária”:
 
Não foi a condição operária que fez de Léa uma poeta, mas lhe deu material para sua obra, onde o vivenciado sempre dominou. Para exemplificar, comparemos um trecho do poema “A Fábrica”, de Damasceno Vieira, publicado no jornal O Monitor, S. Bernardo, 1904, onde o operário é romanticamente idealizado: “Sem temer as ruidosíssimas provanças/ nem as fadigas da tarefa intensa,/ homens, mulheres e gentis creanças/ sorriem, cantam de alegria immensa!”, com o poema de mesmo nome de Léa Aparecida, onde a fábrica é vista por dentro: “Fundem-se metais desiguais/ Na fuligem a ferrugem que fica/ Em focos de tempo corrido/ (…) Em cada pancada nas prensas/ A pressão dos sentidos (…) Até que plange um apito/ Na tarde dos cansados e oprimidos (op. cit.).
 
Há pelo menos trinta anos a historiografia literária feminista tem se ocupado de resgatar os escritos que a tradição canônica deixou de lado; em vista de seus rigorosos critérios estéticos que operavam (e ainda operam) a inclusão ou exclusão de autores e autoras no circuito nacional. Entre outras coisas, os estudos dessa área discutem as relações de poder e dominação que promoveram o apagamento da identidade de escritoras ao longo do curso histórico da literatura brasileira (SCHMIDT, 2008, p. 127).
Com isso, surge uma nova visão sobre a literatura que, antes entendida como objeto artístico/estético, passa a ser compreendida como objeto estético/escritural. Essa segunda definição a inscreve como “matéria significante situada no domínio da cultura”, na qual se identificam a expressividade e a coletividade (op. cit.).
Segundo Hollanda (1991, p. 4) o cânone é orientado por um “mito da linearidade da história literária” que produz a ideia de uma tradição que é “única e ininterrupta”, aquilo que não se adequa à lógica dessa tradição é lançado à margem, por razões que não raro são relacionadas a fatores de “sexo, raça, ideias ou nacionalidade”. Além disso, reflete que a tradição criou uma linhagem patrilinear que tem por base “os sistemas da propriedade privada”. Somente os filhos dessa linhagem seriam os “herdeiros legítimos de um patrimônio material, político e cultural” (Op. cit., p. 4).
Entende-se que a instituição de uma identidade universal para o crítico e para o escritor – homem branco, classe média, erudito – além do rigor dos critérios para considerar o valor literário da obra, serviram para que, durante longo tempo, as identidades de determinados sujeitos fossem absorvidas, suas vozes, silenciadas, e sua participação e contribuição para a história da literatura, ignoradas.
A literatura no município de Santo André – enquanto parte representante da literatura no ABC – surge nos mesmos moldes, cultivada no interior das famílias mais abastadas, transmitida sob o mérito da filiação e da herança, difundida pelos veículos de imprensa pertencentes a famílias deste mesmo círculo. Porém, o cenário literário da região é praticamente ignorado nas esferas local e nacional.
Para Veras (2000, p. 9), boa parte da comunidade local desconhece a identidade dos seus escritores. Ela sugere, desde a década de 1990, que “um trabalho de incentivo à leitura desses autores também seria desejável”.
Ao longo da história da literatura andreense, por exemplo, alguns esforços no sentido de atrair olhares para a literatura local não tiveram êxito. Foi o caso dos concursos literários produzidos pela Casa da Palavra, também localizada em Santo André, na década de 1990, em que a maioria dos escritores premiados eram da capital (MELO, 2000).
Outra questão a ser observada é o fato de haver pouca informação sobre as produções literárias para além do município de Santo André. Isso mostra a falta de articulação de entre as políticas públicas de cultura dos municípios, os seus artistas e pesquisadores locais. Especialmente no que se refere ao franqueamento de amplo acesso, fomento à produção, registro e à difusão dos fazeres culturais.
Apesar disso, o cenário atual esboça algumas mudanças. Hoje é mais comum o encontro com/entre escritores e escritoras da região pertencentes aos mais diferentes contextos sociais e econômicos. A ainda embrionária descentralização de atividades como saraus, rodas de conversa e oficinas para os bairros e regiões periféricas têm colocado a população em contato com a literatura produzida no ABC, além de estimular essa mesma população a produzi-la. Nessa dinâmica, as redes sociais são uma ferramenta útil para a difusão de tais atividades, bem como para a divulgação pessoal de escritoras, escritores e suas obras.
Apesar de toda a problemática que envolve a literatura produzida no ABC, observa-se o surgimento de novas vozes sociais e a ressignificação das formas de produção. Os restritos clubes e grupos que marcaram a sua trajetória histórica hoje dividem, literalmente, espaço com coletivos que atuam de forma descentralizada e com a proposta de abarcar múltiplas identidades. Esses também buscam por novas formas de produção e difusão de escritos, inclusive com a retomada de gêneros usuais, como os fanzines e as revistas literárias, essas últimas em formatos impressos e digitais.
 

  1. Marginalizações e Interseccionalidades

“Na nossa fantasia perversa aceitamos que o pobre sonhe com um Nike,
mas não com um Flaubert”
Heloísa Buarque de Hollanda (parafraseando Ferréz)
 
Para Hollanda (s/d, p. 1) a atuação periférica, no que tange às expressões artísticas, apresenta-se como “a grande novidade” deste século, como forma de resposta ao aumento da intolerância racial e das altas taxas de desemprego; comuns aos países de economia globalizada.
Embora a tradição tenha produzido apagamentos ao longo da história da literatura, faz parte de suas recorrências temáticas as desigualdades sociais e demais mazelas que permeiam o Brasil. O engajamento de cariz social marcou expressivamente as gerações modernistas e tem sido retomado com força na literatura contemporânea, com algumas diferenças, já que os seus atores são outros.
Para Hollanda (s/d, p. 5) novas vozes sociais surgem e, juntamente com essas, uma “democratização de perspectivas”. Obras literárias de relevância tem como autores sujeitos das regiões periféricas, o que modifica também o “desenho” das personagens que se tornam mais verossímeis em relação ao contexto social no qual estão inseridas. Algo que se observa desde Carolina Maria de Jesus, mas que somente se ampliou com os avanços sociais pelos quais passou o Brasil neste início de século.
É dentro desse contexto de mudanças, interseccionado por diversos fatores, que se insere a literatura de autoria feminina produzida no ABC Paulista. Apesar dos processos históricos pelos quais já passou, essa literatura ainda se encontra à margem do circuito nacional. Ao mesmo tempo, somente nos últimos anos, escritores e escritoras de locais mais periféricos têm conquistado espaço nos círculos literários da região; quando não “criam” novos espaços em que possam circular.
Não é novidade a utilização de uma ótica interseccional em estudos que têm como objeto o fenômeno da literatura feminina. Ao analisar a construção do espaço urbano pela perspectiva de autoras negras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, Dalcastagné (2015, p. 299) pontua que o lugar da mulher negra num país como o Brasil assinala um espaço de interseccionalidade. Já que essa ocupa a base da pirâmide social do país, exercendo a maioria das funções subalternas e recebendo, portanto, a menor remuneração para o desempenho de suas atividades profissionais (op. cit., 299).
A noção de interseccionalidade – conforme cunhada pela advogada americana Kimberlé Cremshaw – surge com o objetivo de promover melhor compreensão sobre a existência de diferentes discriminações que operam juntas na vida social e cultural de mulheres. É importante ressaltar que esse debate se insere no campo de estudos sobre identidade.
Cremshaw (1993, p. 1282) justifica que na cultura norte-americana (assim como na cultura brasileira), a desvalorização da mulher negra está relacionada, além de ao machismo e ao racismo, à construção de sua imagem nas formas de representação. Este fato promove a vulnerabilidade de mulheres, expondo-as a diversos tipos de violências, entre as quais o espancamento e o estupro. Isso quer dizer que as categorias já mencionadas se entrecruzam nos mais diferentes contextos e situações, incidindo diretamente sobre a realidade de mulheres.
A intersecção entre gênero e raça é fruto de processos históricos já avançados. Stepan (1994) realiza uma considerável contextualização sobre esse assunto em seu ensaio Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. A autora discute como, por meio de analogias e metáforas, a ciência encontrou justificativas para “racializar” o gênero e as etnias de povos não ocidentais em determinado momento da história.  Ao serem consideradas pela ciência como análogas aos “macacos”, as “raças inferiores” e “mulheres” foram destituídas de sua humanidade e consequentemente de seus direitos básicos.
Retomando as considerações de Cremshaw, observa-se que ainda hoje a clássica definição de direitos humanos, baseada na noção de universalismo, não reconhece as especificidades dos indivíduos e grupos sociais e culturais. Ou seja, a concepção universalista de direitos humanos e seu arcabouço jurídico, ao não conceberem as diferenças de indivíduos e grupos sociais enquanto fatores historicamente geradores de opressão, contribui para a invisibilidade das situações de desigualdade, discriminação e violência. Para ela, uma visão tradicionalista faz que os problemas de gênero digam respeito somente às mulheres, os de raça, somente às minorias étnicas, os de classe, aos indivíduos de baixa renda.
Em suas proposições, compreende-se que ao adotar uma perspectiva interseccional, o (a) pesquisador (a) não precisa lidar com grupos distintos de pessoas, mas com grupos “sobrepostos”. Isso porque não apenas os fatores de opressão se entrecruzam, mas também os indivíduos em suas relações sociais. Porém, ela é enfática quanto ao fato de a mulher negra ocupar a base dessa sobreposição de opressões, de forma que tal aspecto deve ser primordialmente ressaltado (CREMSHAW, 2002, pp. 9-10).            
Não se pode defender, no entanto, que pelo fato de a literatura no ABC ser considerada marginal em relação ao contexto nacional, todos (as) os (as) escritores (as) atuantes nessa região sejam necessariamente pobres, negros (as), moradores (as) dos subúrbios. As diferenças de classe, de raça e de gênero também se fazem presentes em suas dinâmicas social e cultural.
Trata-se de uma região marginal, à medida em que não dispõe de políticas culturais, com exceção de algumas cidades, sequer semelhantes àquelas implementadas nas grandes capitais; bem como por se situar – geograficamente falando – à margem da capital paulista. Por outro lado, também marginaliza, à medida que em os seus municípios centralizam as políticas de cultura, restringindo-as ao acesso de uma parcela reduzida da população.
Ao se voltar essa perspectiva interseccional para a questão da literatura produzida no ABC Paulista, surgem algumas interrogações:
Dentre as escritoras do ABC há mais moradoras dos centros ou das periferias? Há mais brancas ou mais negras? O acesso aos bens culturais – em que se investiga, produz e difunde a literatura – é equânime a estas mulheres independentemente de sua cor, classe, nível de escolaridade e articulação no meio cultural? Como os fatores de gênero, raça e classe se entrecruzam no contexto em que ocorrem a produção e a difusão dos seus escritos?
Em primeiro lugar, respostas que atendam a tais perguntas requerem uma investigação qualitativa aprofundada sobre o fenômeno da literatura feminina no ABC e suas recorrências. Em segundo, o que se pode afirmar é que a região não está fora do contexto brasileiro, em que as vivências de mulheres ainda são pautadas por papéis de gênero, bem como afetadas por fatores de raça, classe, entre outros que podem acentuar a sua condição desigual na sociedade.
Também é fato que a literatura local tem sido marcada pela diversidade e pela ressignificação dos meios de produção cultural. Os saraus periféricos surgem como alternativas aos eventos centralizados que não atendem amplamente as demandas por cultura. Identidades distintas daquelas comumente esperadas para o escritor ou a escritora também têm se destacado.
É o caso da escritora Ana Paula Costa e Silva, ex-coletora de material reciclável e moradora da cidade de Mauá. A autora ganhou a atenção de um jornal local no início de 2015 por reunir, encadernar artesanalmente e vender seus poemas nas ruas da cidade. No final do mesmo ano, após ter conquistado uma recolocação profissional e certa atenção pública, a sua antologia de poemas passou por uma nova edição, sendo transformada em livro.
 
Considerações Finais
Para compreender minimamente o ABC Paulista é necessária a atenção a diferentes fatores. Não há como pensar um local que é plural, onde se situam migrantes e imigrantes em busca de oportunidades ou moradia, além de pessoas de diferentes gêneros, orientações sexuais, raças e condições sociais por uma ótica estanque. A história da literatura no ABC, mesmo que de forma desproporcional – entre os mais remediados e os mais periféricos/marginalizados – destaca-se como uma trajetória que tem sido construída por atores distintos.
Num momento como o atual, em que tais diferenças confluem de forma mais nítida na literatura dessa região, a produção de registros, reflexões e discussões sobre o assunto são imprescindíveis, tanto no que diz respeito à produção de conhecimento quanto com relação à necessária aproximação entre pesquisadores locais e fazeres culturais. É papel da academia e da intelectualidade do ABC valorizar a literatura local, reconhecendo a sua importância enquanto expressão da diversidade cultural dessa região e, principalmente, como instrumento de transformação social.
 
Referências
ALVES, Luiz Roberto. Grande ABC: culturas que excedem o lugar culturalizado. Ed. Alpharrabio. Santo André, 2009.
COSTA E SILVA, Ana Paula. Jornal ABCD Maior. Disponível em: <http://goo.gl/waFRU6>. Acesso: 10/08/2016.
 
CREMSHAW, Kimberle. A Interseccionalidade na discriminação de raça e gênero. Revista Estudos Feministas, 2002. Disponível em: <http://goo.gl/cdJ6JU>. Acesso: 15/06/2016.
­ CREMSHAW, Kimberle. Maping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Colour.  Stanford Law Rewiew, 1993.
DALCASTAGNÈ, Regina. Para não ser trapo no mundo: as mulheres negras e a cidade na narrativa brasileira contemporânea.  Revista Estudos de Literatura Brasileira contemporânea, n.44.  Brasília, julho/dezembro de 2014, pp. 289-302-637. <http://goo.gl/KRernP>. Acesso: 10/07/2016.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Literatura Marginal. (S/d). Disponível em: <http://goo.gl/uHZo2n>. Acesso: 11/09/2016.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil. Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La critica literaria em Latinoamerica”, Ibero-Amerikaniches institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991. Disponível em: <http://goo.gl/7b4dd7>. Acesso: 05/05/2016.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. Ed. Ática. São Paulo, 2014.
MELO, Tarso M. de. História da literatura em Santo André: um ensaio através do tempo. Edição fomentada pelo fundo de cultura do município de Santo André. Santo André, 2000.
SCHMIDT, Rita Terezinha. Centro e margens: notas sobre a historiografia literária. Estudos de Literatura. Brasileira Contemporânea, nº. 32. Brasília, julho-dezembro de 2008, pp. 127-141. Disponível em: <http://goo.gl/g5Oe0a>. Acesso: 15/07/2016.
STEPAN, Nancy Leys. Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Ed. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.
VERAS, Dalila Teles. As artes do ofício: um olhar sobre o ABC. Ed. Alpharrabio. Santo André, 2000.
Jornal ABCD Maior. Disponível em: <http://goo.gl/waFRU6>. Acesso: 10/08/2016.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CONSTRUÇÃO DO IDEAL FEMININO NA ASSEMBLEIA DE DEUS – Michele Soares Santos e Andre Heloy Avila 




 

Michele Soares Santos

Universidade do Estado da Bahia

 

Andre Heloy Avila

Universidade do Estado da Bahia

 

 
Resumo: Este artigo é um dos resultados do subprojeto de Iniciação Científica Estar no mundo sem ser mundanas”: mulheres pentecostais da Assembleia de Deus, desenvolvido como projeto de iniciação científica. Seu objetivo principal foi identificar os preceitos que a doutrina da Igreja Assembleia de Deus vem estabelecendo, desde sua fundação, para definir o “papel da mulher assembleana, na família e na sociedade”. Em busca do que esta instituição determina como “usos e costumes” adequados às fiéis, recorremos à literatura produzida pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), e, especificamente, às revistas: Lições bíblicas jovens e adultos. Na análise da literatura religiosa da pesquisa, observamos os elementos doutrinários de persuasão e argumentação que a igreja utiliza para que as fiéis respeitem e sigam o que esta prega como sendo o “papel da mulher”.
 
Palavras-chave: Assembleia de Deus; “usos e costumes”; gênero.
 
Abstract: This article represents part of the results obtained by the undergraduate project of ‘Scientific Initiation,’ which was titled Being in the World without being ‘Worldly’: Pentecostal Women in the Assembly of God church. Its main aim was to identify the precepts of the doctrine, since the foundation of this church, while defining the “role of the Assembly woman, in family and society.” We tried to find out what this institution determines as “uses and customs” considered fit to the behavior of the female believers. Therefore, we turned to the literature produced by the Assemblies of God Publishing house (CPAD), specifically the magazine Biblical Lessons Young and Old. We observed then the doctrinal, persuasive and argumentative elements that this church employs to make its female followers to perform the so called “woman’s role.”
 
Keywords: Assembly of God church; “uses and customs”; gender.
 
Minicurrículo: Michele Soares Santos é graduada em História pela Universidade do Estado da Bahia – campus XVIII. Participou do grupo de estudos Cinema e história, no campus XVIII. Foi bolsista de iniciação científica pela PICIN (Programa de Iniciação Científica-UNEB) no projeto de pesquisa: A igreja Assembleia de Deus em Eunápolis: aspectos históricos e das significações de gênero do discurso dirigido às fiéis. Já foi bolsista pela FAPESB (Fundação de Amparo da Pesquisa do Estado da Bahia) atuando no projeto de Pesquisa O cineasta em busca da Brasilidade Perdida: o cinema, os literatos e as representações do cangaço, em continuidade do projeto intitulado História e cinema: o sertão, o cangaceiro e o beato no cinema brasileiro (1950 -1970).
 
Minicurrículo: André Heloy Avila possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1996), mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (2000) e doutorado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2010). É professor Adjunto da Universidade do Estado da Bahia. Tem experiência na área de Psicologia da Educação, com ênfase em Formação de Educadores e temas relacionados.
 
 


 
CONSTRUÇÃO DO IDEAL FEMININO
NA ASSEMBLEIA DE DEUS
 
Michele Soares Santos
Universidade do Estado da Bahia
 
Andre Heloy Avila
Universidade do Estado da Bahia
 
“Mulher virtuosa quem a achará?”
 

  1. Introdução

De acordo com Silva (2003), a Assembleia de Deus (A.D.) é uma das denominações que mais cresce em quantidade numérica de fiéis e em expansão territorial. No Brasil, Alencar (2010) ressalta que o seu crescimento aconteceu de forma desordenada e impressionante, e informa que sua história teve início na década de 1910, quando os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg chegaram à Belém do Pará e instalaram-se no porão de um templo da Igreja Evangélica Batista. Em 1911, os suecos foram expulsos desta denominação, acusados de persuadir os fiéis com as doutrinas pentecostais. Nesse mesmo ano, acompanhados de outros batistas, adeptos do pentecostalismo, iniciaram os primeiros cultos, então realizados em residências, na cidade de Belém do Pará. Logo, as práticas desta nova Igreja, ainda sem nome, atraíram novos fiéis, possibilitando arrecadar fundos e incentivar a sistematização destas práticas.
Com o aumento de fiéis e o interesse da população pela doutrina pentecostal, em 1911, foi construído o primeiro templo desta Igreja, que só foi registrado oficialmente como Assembleia de Deus, em 1918. Em pouco tempo, esta ‘nova’ religião expandiu-se de modo impressionante, em 1920, já se encontrava presente em vários estados do Nordeste, Norte e Sudeste do país. Alencar (2010) atribui o crescimento da A.D. à prática intensa do proselitismo pelos fiéis e a à proposta de participação na realização do culto e consequente proximidade a Deus, sendo esta a característica inicial de sua expansão, no Brasil.
A consolidação da denominação também deve créditos à criação, em 1940, da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) responsável pela publicação de jornais, revistas, entre outras produções que se tornaram eficazes em divulgar as diretrizes da Igreja e alcançaram grande influência na formação espiritual, moral e cultural das famílias que fazem parte da Assembleia de Deus. Desde então, é a partir de publicações como a revista dominical Lições Bíblicas que os representantes religiosos estabelecem valores e padrões que, seguidos, produzem um modo específico dos assembleanos/assembleanas demarcarem sua diferença perante as outras Igrejas.
Ciente do rigor assembleano no que se refere à vestimenta e ao comportamento, sabendo do papel destas publicações em relação a estes aspectos e à expansão da Igreja, em todo o Brasil, conduzimos a elaboração e realização do projeto de Iniciação Científica intitulado: A Igreja Assembleia de Deus em Eunápolis: história e algumas significações de gênero do discurso dirigido às fiéis.
A realização desse projeto de Iniciação Científica (de graduação) objetivou identificar as regras comportamentais e argumentações morais ditadas pela Igreja Assembleia de Deus, em suas publicações, para tal, constituímos um acervo digital com 32 exemplares da revista Lições Bíblicas Mestre e cento e quatorze (114) Aluno, compreendendo um total 197, correspondentes ao período de 1970 a 2014. Esse material do corpus da pesquisa está disponível a interessados sobre o tema, no laboratório do curso de História do campus XVIII da UNEB.
Esta pesquisa envolve estudos na área de gênero e na de religiosidade, tomados aqui na perspectiva histórica e da produção sociocultural de subjetividades.
 

  1. A Assembleia de Deus no Brasil e a doutrina pentecostal

A igreja Assembleia de Deus enfatiza a bíblia como livro principal e o relacionamento do fiel com o sagrado. A doutrina que a distingue das Igrejas Protestantes históricas diz respeito à crença no batismo com Espírito Santo, manifestação esta que tem como fundamentação bíblica o Novo Testamento (NT). De acordo com Cesar e Shaull (1999), essa experiência religiosa é resultado de cinco estágios considerados essenciais: conversão, fé, obediência às doutrinas e “usos e costumes” da Igreja, renúncia total e oração. A fé da segunda vinda de Jesus à Terra e a obediência à doutrina levam à salvação eterna, a uma vida sem dor, sofrimento e enfermidades.
O batismo com o Espírito Santo é considerado uma conquista individual, adquirida através do relacionamento pessoal do fiel com Deus. Resulta em “manifestações sobrenaturais” e é tida como uma benção. Igrejas adeptas ao fenômeno defendem-no como uma presença total do Espírito Santo nas vidas das pessoas. Conforme Brandt (2005), a doutrina defende que há dons espirituais concedidos por Deus ao fiel, por exemplo, o “falar em línguas”, o dom de cura e o de profecia, significando poder declarar às demais pessoas, a vontade divina. Os que têm esse dom são capazes de interpretar os propósitos de Deus e transmiti-los nas igrejas. O dom de cura é a capacidade de realizar curas milagrosas, desde a uma simples doença a uma mais grave. Segundo Gutiérrez e Campos (1996), o falar em línguas, ou a glossolalia, significa que a pessoa foi batizada e pode desenvolver uma variedade de dons espirituais. Os fundamentos e alicerces seriam encontrados nos textos bíblicos, a partir de uma nova perspectiva cristã, o pentecostalismo.
E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem (Atos 2:1-4).
O dom de falar em línguas é a expressão externa da presença de Deus na vida do crente, esse dom é para edificação pessoal do fiel com Deus. Através da glossolalia ele/ela se comunica com o divino. O dom de interpretação de línguas é quando a pessoa interpreta as línguas faladas por alguém e comunica a mensagem do falante a todos os outros, para que possam entender. Esses são alguns dos dons, existem muitos outros, os quais contribuíram para o crescimento e presença da A.D. no país.
O movimento pentecostal teve início nos Estados Unidos da América do Norte, na cidade de Chicago, em 1901, através da Escola Bíblica Betel, fundada por Charles Fox Parham (1873-1929), que elaborou uma definição teológica do pentecostalismo através dos ensinamentos do livro bíblico Atos dos Apóstolos, como se pode identificar na citação acima. Foi em Los Angeles que Gunnar Vingren e Daniel Berg, os religiosos que incitaram o início da A.D. em Belém do Pará, tiveram contato com o pentecostalismo.
Foi nos EUA que (eles) se conheceram e tomaram contato com a doutrina pentecostal, que tomou grande impulso nesta época em consequência dos movimentos liderados por Charles Parham (em Chicago) e Wiliam J. Seymour (em Los Angeles). Impulsionados por tal doutrina e movidos pelo desejo missionário, Berg e Vingren seguem para o Brasil (FAJARDO, 2012, p. 5).
 
Os suecos desembarcaram em novembro de 1910 na capital Belém do Pará e se hospedaram num espaço cedido pelo pastor de um templo Batista. Quando chegaram ao país não eram os únicos adeptos ao movimento, já existia em 1910 uma igreja pentecostal, a Congregação Cristã do Brasil (CCB). A Assembleia de Deus foi a segunda a adotar a vertente pentecostal criada no país, a partir dela, o pentecostalismo cresceu de forma impressionante.
Conforme Maxwell Fajardo (2012), o contexto em que Igrejas como A.D., se instalaram, foi propício para a sua expansão, o regime republicano brasileiro desfavorecia os pobres. Regiões como Norte e Nordeste sofriam com o abandono dos governantes, opressão do coronelismo e a seca, diante de tais fatores, o pentecostalismo encontrou um campo fértil para conquistar fiéis, principalmente por seus cultos e templos parecerem mais próximos da realidade da sociedade carente.
O pentecostalismo com suas bases na experiência pessoal e no poder do Espírito Santo, dá a oportunidade aos pobres e excluídos de experimentarem uma vivência mais próxima do sagrado, de certa forma dando ás pessoas a chance de alívio e trazendo uma perspectiva de um sentimento de alívio da pobreza e uma possibilidade de evoluir, assim como uma esperança de uma realidade nova, dando às pessoas uma nova motivação para serem felizes (FAJARDO, 2012, p. 58).
 
A Assembleia de Deus, Igreja pentecostal, pareceu corresponder mais diretamente à necessidade da população ao enfatizar o relacionamento direto dos fiéis com Deus, ao transmitir uma oportunidade de ter uma experiência com Deus através do batismo no Espírito Santo, ao não cobrar dos mesmos, formação teológica para a realização de certos rituais, como a prática do proselitismo. A oportunidade de anunciar a sua fé, de contar a sua benção, de se expressar no próprio culto, criou nos fiéis um sentimento de pertencimento que, afirma Alencar (2010), colaborou para o rápido crescimento da Assembleia de Deus.
 
2.1. Assembleia de Deus e as relações de gênero na revista Lições Bíblicas
A igreja pentecostal Assembleia de Deus é conhecida pelo rigor no comportamento e na indumentária dos fiéis. A referida denominação tradicionalmente adota e defende determinados “usos e costumes”, que são colocados como mais fidedignos aos ensinamentos bíblicos e teriam como objetivo conduzir a uma vida regida por uma moral cristã.
Aqui os usos e costumes podem ser vistos como visão de mundo que certamente são utilizados pelos pentecostais para se referir ao rigor legalista, as restrições ao vestuário, uso de bijuterias, produtos de beleza, corte de cabelo e a diversos tabus comportamentais existentes em seu meio religioso (SILVA, 2003, p. 33).
 
 
A igreja passou a adotar normas de condutas conhecidas como “usos e costumes” que “enquadram” os fiéis no que a Igreja dita como certo ou errado. Inicialmente, foram criadas proibições quanto ao trajar e aos comportamentos; condenando especialmente qualquer “vaidade” feminina, roupas justas, curtas, de regata, maquiagens, bijuterias, cabelos curtos, sobrancelhas desenhadas, esmaltes, entre outros. Prescreveu-se também aos homens evitar cabelos longos, bermudas, camisetas e a barba crescida. Para além da aparência certa, a doutrina recomendava não frequentar espetáculos “mundanos” e cinema, não assistir TV ou acessar a internet. De modo geral, pregava/prega contra a pornografia, o sexo antes do casamento, palavrões, entre outros. Os líderes da Igreja acompanhando a sociedade contemporânea, vão estabelecendo como os fieis devem se comportar dadas as “novidades” tecnológicas, legais, culturais etc., e, como se pode ver pelo exemplo da internet, a doutrina e as práticas da A.D. também se adaptam ao que não pode vencer.
Na década de 1990, com a criação do Projeto Década da Colheita, os “usos e costumes” passaram por algumas alterações. Divergências interpretativas da Bíblia entre as lideranças consideradas liberais e conservadores causavam transtornos, o clima de tensão e o objetivo do projeto Década da Colheita mostrava-se distante, efeito causado pelo rigor desta Igreja, que consequentemente contribuía para a saída de membros, “migrando” para outras denominações que apresentassem maleabilidade quanto ao trajar, uso de adereços e acesso aos meios de comunicação. Diante das circunstâncias, lideranças chegaram a um consenso e alteraram algumas restrições doutrinárias.
No que se refere às mulheres, o trajar refletindo decoro, decência e o não uso de trajes masculinos continuou sendo cobrado. (…) A proibição para alteração das sobrancelhas foi uma norma extinta. E a permissão do uso de maquiagens e pinturas por parte das mulheres passou a ser introduzida, desde que sem exageros. Outro aspecto desse abrandamento doutrinário está na permissão do corte de cabelo por parte das mulheres (OLIVEIRA, 2014, p. 57).
 
As modificações foram realizadas de forma a não desagradar líderes liberais e conservadores, com cuidado para não se perder o perfil assembleano, exigência principal dos pastores mais tradicionais. As práticas sociais e a maneira de se trajar deveriam continuar demarcando a diferença dos membros da Assembleia de Deus, dos que não o são. O fim de algumas restrições significou uma maleabilidade feminina quanto ao uso de certos itens, o que veio acompanhado da reafirmação da necessidade de recato, pois, como mostraremos, os assuntos relacionados ao comportamento feminino são constantes alvos das revistas dominicais Lições Bíblicas.
Nos templos, realiza-se a escola dominical que, reunindo os membros para estudarem textos bíblicos das publicações da CPAD, cumpre função primordial na Assembleia de Deus, por ser momento de doutrinação e a partir do qual cada membro pode realizar o proselitismo (Ferreira, 2009). Portanto, as revistas produzidas pela CPAD, constituem instrumento na afirmação doutrinária da Assembleia de Deus para leitores e leitoras, sejam estes estudantes na escola dominical, pastores e membros recentes. Ainda segundo este autor, as revistas contribuíram significativamente para o crescimento e consolidação da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus.
As revistas utilizadas na Escola Bíblica Dominical, Lições Bíblicas, merecem destaque já que, depois da Bíblia, esta é a literatura mais usada pelo grupo, dado o seu caráter doutrinário. Nelas se encontram citações bíblicas referentes à temática de cada lição semanal, para cada dia da semana, sendo que, no domingo, o assunto é debatido em classes diferenciadas por gênero e/ou faixa etária (senhoras, senhores, crianças, adolescentes e jovens). Vale ressaltar que a revista Lições Bíblicas é voltada para os jovens e adultos já que para as crianças e os adolescentes são utilizadas outras revistas (FERREIRA, 2009, p. 17).
 
A Bíblia orienta também quanto ao modo de vestir do povo salvo. Ela não estabelece um vestuário “uniforme” para os crentes. Cada um pode vestir-se conforme seu gosto e suas posses. Porém, a Bíblia diz que seja com bom senso. Isto quer dizer que os vestidos não devem ser decotados; que as saias devem ser decentes sob todos os aspectos, para servir de bom testemunho cristão. O homem também deve se vestir de um modo digno do evangelho. O crente renovado, seja mulher ou homem que quer agradar o Senhor (Rm 14.18) não aceita a orientação do espírito do mundo quanto à moda. O mundo não tem direito de determinar o modo de trajar do crente. O crente ama a Deus e esse seu amor ele expressa pela obediência à sua Palavra (Jo 14.15, 21, 23) (CPAD, 3º trimestre, 1984, p. 55).
 
Aqui vemos que as restrições às mulheres ultrapassam as dos homens, para elas são definidas vestes adequadas, que não destacam as formas do corpo. Para os líderes da A.D., a exaltação do corpo incita ao pecado, uma vez que não é preciso consumar o ato sexual, pois desejar ou fantasiar já seria considerado desviar-se. Neste sentido, as publicações mais recentes mostram que não houve muita renovação assim da doutrina, pois a mulher continua sendo considerada como a maior perturbadora da ordem da Igreja, mais vulnerável a desrespeitar ou causar o desrespeito à palavra de Deus. Por exemplo, entre outros, há um longo texto das Lições Bíblicas de 2001, que incorpora como referência trechos bíblicos enaltecedores de valores espirituais femininos.
O texto em apreço torna claro que a real e duradora beleza da mulher brota do seu interior, de onde emana todo o bem, desde que o Espirito habite lá (Rm 8.9): É evidente que a beleza interior da mulher, uma vez que o ser humano é um todo. Não devemos esquecer que a santidade é o fator determinante do equilíbrio do exterior. A verdadeira beleza da mulher não depende de enfeites, adereços ou exibição, mas do atavio de um espírito manso e tranquilo (CPAD, 4º trimestre, 2001, p. 28).
 
Apesar de não haver uma proibição explícita ao uso de maquiagens, enfeites e adereços, a exaltação dos valores espirituais: a beleza da mulher como natural é evidente nas revistas. Como de praxe, as justificativas para tal fazem referências à bíblia, citando trechos de capítulos e versículos, como de João (Jo 14:15, 21.23), para legitimar o que é pregado para os fiéis. Versículos bíblicos estão citados em todas as páginas de todos os números das Lições Bíblicas, sendo a bíblia inquestionável, referencia-lo nas revistas bíblicas significa provar uma verdade estabelecida. É assim que se determinam as roupas masculinas e femininas, o tamanho do cabelo, os comportamentos, a submissão da mulher ao homem e que se elege um modelo ideal feminino, como o descrito abaixo:
Ao contrário da virtuosa, a vil é desprovida das virtudes. A formosura da mulher virtuosa é de natureza ética; a da vil é de caráter meramente estético. A mulher virtuosa prioriza os valores interiores e faz de Deus a fonte de tudo o quanto ela é e representa. Por isso, a mulher virtuosa é tida por honrada! (CPAD, 4º trimestre, 2013, p. 56).
 
Publicado em 2013, este trecho traz um perfil feminino construído pela Assembleia de Deus que é constantemente cobrado, nas escolas dominicais e nos cultos; sendo o mesmo vigiado pelos/as próprios/as fiéis, que observam o comportamento e aparência das mulheres, principalmente das mais jovens; pois seu vestir e comportar deve refletir a virtuosidade da mulher cristã. Conforme Ricardo Gondim (1998), o uso do termo vaidade é incorporado pelos líderes da denominação apenas pejorativamente, associado ao “pecado” e aos perigos de a mulher se sentir bonita, e com isto, causar o desejo no homem. Contudo, o alerta sobre a frivolidade das preocupações estéticas, apresenta outra face: ter o cuidado de manter um estilo sóbrio, simples, mas alinhado e asseado, não só evitaria o risco da vaidade para a própria fiel e a “tentação”, também ajuda a manter cada qual (assembleanos/fiéis; autoridades/leigos; homens/mulheres;) em seu lugar/posição. Posição que a Casa Publicadora da A.D. defende desde sua criação e vemos expressa em revista de 1986.
A Bíblia realça o papel da mulher, na família, na sociedade e na Igreja. À luz das Escrituras, a mulher casada deve viver em sujeição a seu marido, amar a seus filhos e em obediência ao Senhor. Tal submissão não a minimiza [sic] diante do marido e demais criaturas, pelo contrário, honra-a e enobrece-a, pois que tudo quanto ela faz, o faz por amor (CPAD, 4º trimestre, 1986, p. 41).
 
As mulheres são classificadas como donas de casa, mães e esposas, das quais se espera submissão aos seus companheiros e à doutrina, o que é exaltado e defendido como símbolo de nobreza. O papel atribuído a elas reflete a influência de uma sociedade machista que, a A.D. perpetua a desigualdade social, cultural e econômica, fundamentando tal concepção de gênero no sagrado. Nas revistas analisadas, identifica-se uma presença significativa de trechos que se referem ao papel das mulheres como subalterno ao dos homens. O mesmo discurso é repetido:
Segundo a bíblia, Deus criou a mulher para ajudar o homem (Gn 18.20); e para ser a glória do homem (1 Cor 11.7). É seu dever amar seu esposo (Tt 2.4), reverenciá-lo (Ef 5.33), ser-lhe fiel (1 Co 7.3; 5. 10). Os obreiros, especialmente, precisam de esposas ajudadoras. Existem muitas esposas que abandonam suas casas e se esquecem que têm um lar, esposo e filhos para cuidar. A esposa de um obreiro, e de qualquer servo de Deus, não é obrigada a pregar, ensinar, ou ser professora da escola dominical, isto é trabalho de vocação. Em primeiro lugar, o seu dever é cuidar dos seus filhos, se os tem. A mulher cristã deve ser: hospitaleira como a sunamita (2 Rs 4.10); dinâmica e corajosa como Débora, que chegou a ser juíza em Israel (Jz 4.6; 14.5,7). Persistente como Hulda, Mirian, Ana, Maria e as filhas de Filipe (2 Rs 22.14; Êx 15.20; Lc 1.36; At 31.9). Ajudadora como Priscila, a personagem da nossa lição (CPAD, 4º trimestre, 1990, p. 46).
 
As várias referências a passagens bíblicas, como as acima, objetivam sustentar a lógica binária entre os sexos. Claramente, as mulheres são tidas como ajudadoras e não como iguais, perante aos homens; e isto é defendido como ordem divina/natural. Os deveres domésticos, os cuidados com a família e, especialmente, a obediência ao esposo e à denominação religiosa cabem às mulheres – o que garantiria não só a salvação no reino dos céus, como também condições favoráveis às relações domésticas e sociais. As publicações da A.D., desta forma, também ditam posturas, comportamentos, papéis femininos e masculinos, criando e acentuando desigualdades políticas, de direitos, obrigações, acabando por enfatizar a relação entre o dominador (homem) e a dominada (mulher) como incontestável. Discursos como esses ultrapassam a afirmação baseada no biológico:
As justificativas para as desigualdades precisariam ser buscadas não nas diferenças biológicas (se é que mesmo essas podem ser compreendidas fora de sua constituição social), mas sim nos arranjos sociais, na história, nas condições de acesso aos recursos da sociedade, nas formas de representação (LOURO, 1997, p. 22).
As desigualdades de gênero, as hierarquizações entre homens e mulheres são estudadas e criticadas, pois identificadas como construções sociais a serviço de uma cultura ditada por interesses excludentes, que reforçam desigualdades socioeconômicas propagadas durante séculos e que ainda se encontram presentes na sociedade contemporânea.
Perceber que a ideia do ser feminino e masculino é uma construção social que depende muito de cada cultura e de cada grupo social e que, portanto, está relacionada com o contexto e o universo cultural de que que fazem parte, permite afirmar que os tabus sociais criados e impostos aos homens e principalmente as mulheres independe do biológico ou natural dos sexos.
Discutir a aprendizagem de papéis masculinos e femininos parece remeter a análise para os indivíduos e para as relações interpessoais. As desigualdades entre os sujeitos tenderiam a ser consideradas no âmbito das interações face a face. Ficariam sem exame não apenas as múltiplas formas que podem assumir as masculinidades e as feminilidades, como também as complexas redes de poder que (através das instituições, dos discursos, dos códigos, das práticas e dos símbolos) constituem hierarquias entre os gêneros (LOURO, 1997, p. 24).
 
No caso da doutrinação vista nas Lições Bíblicas, observamos a determinação de manter as relações de gênero desiguais como forma mesmo dos fiéis produzirem suas identidades singulares e não somente suas práticas ou posturas religiosas. Sendo que isto com certeza impacta a desenvoltura com que seus membros se movem no cenário social, político, econômico e cultural, uma vez que prega a hierarquização entre homens e mulheres. Essa hierarquia vai além, perpassa as relações entre o ideal de “macho”, forte e valente, que se contrapõe à mulher, frágil e indefesa.
Essas desigualdades sociais baseadas no gênero aprisionam homens e mulheres em padrões limitados e limitantes, pois pretendem estabelecer o que é certo ou errado, o que pode e o que não pode, segundo o sexo genital dos sujeitos.  Embora o sujeito humano seja mais que um receptor passivo, estamos condicionados pelo que vivemos pelo que é construído socialmente. Dessa forma, o conceito de gênero torna-se imprescindível para entender as relações sociais, em especial, porque os estudos de gênero ajudam a expor os mecanismos de controle sobre os “papeis” de gênero, tal como o exercido pela doutrinação da A.D.
Conforme Joan Scott (1992), gênero é um conceito utilizado por historiadoras que problematizam papéis sociais considerados femininos e masculinos, colocando em xeque desigualdades impostas pelas relações de poder, tais como estabelecidas socialmente. O termo serviu para explicar as construções sociais que delimitam o lugar de cada sujeito na sociedade.
Gênero não se refere somente às ideias, mas também às instituições, às estruturas, às práticas cotidianas, aos rituais e a tudo que constitui as relações sociais. (…) o gênero consiste na organização social da diferença sexual. Este não é decorrente da realidade biológica primeira, mas constrói o sentido dessa realidade (GESSER, 2010, p. 65).
 
De acordo com estas autoras, as relações de gênero se encontram no cerne da estrutura social, no cotidiano dos sujeitos, suas práticas e vivências, criando desigualdades sociais ao diferenciar os “sexos”. Portanto, presente nas instituições religiosas seja na organização hierárquica formal ou doutrina. Observamos que tais relações sexistas, no que ser refere à Assembleia de Deus, obedecem a diretrizes que estabelecem modelos femininos e masculinos caracteristicamente desiguais, sendo que a denominação combate tudo que represente uma ameaça a esse modelo estabelecido. Nas revistas Lições Bíblicas, há trechos que são explícitos na crítica ao movimento feminista.
Quanto ao papel da mulher atualmente existem muitas ideias, teorias e movimentos que questionam a posição da mulher moderna, procurando coloca-la em pé de igualdade com o homem. Convém que a mulher cristã baseie suas convicções na Palavra de Deus. É uma questão de compreensão apenas. Deus quis escolher o homem para ser o líder da família em virtude de ordenar as coisas e também pelo fato de o casamento envolver duas pessoas. É claro que uma delas tem de ser a responsável direta pela orientação e pelo bom desenvolvimento. A mulher deve submeter-se à liderança do marido assim, como a Igreja é submissa a Cristo (CPAD, 4º trimestre, 1985, p. 41). (Grifo nosso).
 
No “mundo mundano”, os e as assembleanas convivem com práticas, valores e significações que foram questionados e influenciados pelo feminismo e pela democratização do país, combatendo os efeitos disto, a A.D. voltou-se contra as “ameaças” às relações de gênero e aos costumes ditados por ela, em nome de Cristo. Segundo o que foi observado nas Lições Bíblicas, qualquer repercussão de uma pauta reivindicatória feminista do “mundo mundano” foi combatida por um discurso de exaltação da estrutura familiar e das relações sociais que reafirma a posição de submissão das mulheres aos homens. A defesa da hierarquização entre os sexos é claramente enfatizada.
Em nosso tempo esse princípio tem sido deturpado, porque as mulheres conquistaram um espaço muito grande na sociedade. Tem havido choque entre o ensino bíblico e a filosofia secular puramente humanista, alheia a Deus e à sua palavra. A distinção entre os dois está no fato de que o ensino bíblico tem sua base nos princípios divinos e o pensamento secular é totalmente humano, em que o mundo sem Deus dita os credos, leis e costumes. Deus estabeleceu o princípio da autoridade dentro do lar. As mulheres devem sujeição aos seus maridos, e estes devem ser sujeitos ao Senhor (CPAD, 4º trimestre, 2001, p. 56).
 
As mulheres assembleanas são advertidas a pautarem sua existência e ações cotidianas, nos ensinamentos cristãos, e a rejeitarem tudo que se contraponha ao defendido pela denominação. Contudo, apesar do papel de ajudadora ser uma ideia do próprio Deus, atualmente, a virtude das mulheres estaria atrelada a uma sobrecarrega de trabalho e de esforço para não se desviar da doutrina, inclusive porque hoje em dia é necessário ajudar financeiramente a família, o que obriga ao convívio com o mundo mundano e, ao mesmo tempo, a manter-se como exemplo para suas filhas e outras mulheres:
As pressões e demandas sociais e econômicas dos últimos tempos têm levado multidões de mulheres a buscar o incremento dos recursos financeiros da família, o que não fere os princípios bíblicos. Porém, isso não isenta da responsabilidade de cumprir as orientações do marido no lar, principalmente na educação dos filhos, além da própria manutenção e bem-estar da família. Por mais que esta mulher disponha de pessoas para executar as tarefas rotineiras do lar, sobre ela recai a responsabilidade final das atribuições de uma mãe de família e dona de casa (CPAD 2º trimestre, 2004, p. 20).
 
A despeito da admissão da necessidade de atualização dos “usos e costumes” em função de questões econômicas, o espaço privado do lar e o templo tornam-se ainda mais relevantes para observa-se a exaltação de um modelo feminino que exerce uma dupla jornada, sem descuidar da casa, dos filhos, do esposo e da doutrina. Essa sobrecarga que as mulheres vivenciam é combatida pelo movimento feminista, que visa garantir direitos iguais entre homens e mulheres. “Neste sentido, a luta estende-se também pra a superação da “dupla jornada de trabalho” que obriga a mulher a acumular os encargos profissionais e os de dona-de-casa” (PITANGUY, 2015, p. 65-66).
As desigualdades na inserção no mercado de trabalho em si já refletem a hierarquização de gênero, injusta e irracional, que é questionada a partir da noção de direitos humanos. As mulheres recebem menos sempre e têm menos chances de ocupar cargos de comando e, a tal situação, são adicionadas as dificuldades da dupla jornada diária (HIRATA, 2003). Dado que muitas fiéis tinham/têm emprego formal e que, todos os anos, na semana de 8 de março, estas informações são repetidas pela imprensa, a dupla jornada diária é tematizada pela A.D. como algo que dignifica a mulher cristã, mas não significa igualdade entre os gêneros. Em última instância, ao se submeter a preconceitos de gênero, ao se “deixar conduzir” pelo cônjuge, a mulher fiel garantiria tanto a salvação pós-morte, quanto um ambiente familiar pacífico e harmonioso.
Há, claramente, nos artigos das revistas Lições Bíblicas, uma afirmação da divisão sexual do trabalho, a repetição de definições pré-estabelecidas de depreciação do feminino e valorização do masculino caracteristicamente carregado de determinismo biológico e de herança patriarcal. Apesar de não ser ideal, a dupla jornada é tornada absolutamente normal e os esforços doutrinários se voltam ao aconselhamento das mulheres no sentido de agirem de forma a não desagradar seu esposo, mesmo se este não consegue arcar com despesas, pois, a autoridade deste como “cabeça do casal” não emana de questões materiais, mas, sim, de determinação divina. A esposa deve ser “sábia”, portanto, compreensiva, pode desdobra-se e realizar outros tipos de trabalho, contudo, esse serviço extra não pode e nem deve impedir de realizar as obrigações ditas femininas, como deixa claro este trecho citado acima das Lições Bíblicas.
 
Considerações finais
A Assembleia de Deus defende papéis sociais tradicionalmente sexistas para homens e mulheres como forma de os fiéis conduzirem “uma vida regida pela moral cristã”. Os “usos e costumes” da denominação foram estabelecidos com objetivo de demarcar esta diferença entre assembleanos e os que não seguem a “verdadeira” orientação cristã. Isto a distingue das outras denominações e dos que não pertencem a nenhuma religião (Silva, 2003). Estas prescrições acerca das relações dos fiéis com seus corpos e com as práticas do “mundo mundano”, em especial no tange ao controle do corpo feminino, sempre tratado com desconfiança, remontam à Idade Média, época em que, segundo Le Goff, “a aversão aumentava quando se tratava de suas capacidades sexuais, consideradas as responsáveis pelo pecado e pela a perdição” (MACEDO, 1998, p. 2).
Assim, repetindo advertências de cunho religioso próprias da Idade Média, as mulheres assembleanas são orientadas a se preocupar com os valores espirituais e a deixar em segundo plano os cuidados com aparência física. Porém, embora em suas publicações a A.D. justifique que a vaidade é inimiga da virtude espiritual, a preocupação em inibir a sensualidade feminina e a ênfase na submissão aos esposos não produzem somente a experiência religiosa-espiritual destas mulheres e homens, destes casais e suas famílias.
As Lições Bíblicas contribuem para as desigualdades sociais e para a realização de práticas machistas, dissimuladas como necessárias para a harmonia dentro lar. As lições acabam por reafirmar a lógica binária e desigual entre os “sexos”. A submissão da mulher é enfatizada como um valor, como sinal de honra e alicerce do bem estar da família. As revistas são construídas com a finalidade de que elas, ao lerem, se percebam como ajudadoras dentro do lar e não como iguais e capazes de tomar decisões e dividir tarefas em igualdade. Os artigos das revistas refletem as relações de gênero, observa-se neles:
A imposição de uma sociedade machista, dividida em classes, que inferioriza as mulheres, utilizando-se do discurso dominante como instrumento de disseminação de conceitos e controle. Ao mesmo tempo em que determina que os homens são os sujeitos destinados à atuarem como protagonistas da submissão feminina (SANTOS, 2012, p. 49).
 
Essa estrutura social é legitimada pela denominação, quando exige principalmente a submissão da esposa para com companheiro como sinal de obediência à ordem divina. As revistas da escola dominical colaboram para a manutenção de uma estrutura familiar que coloca os homens em posição de superioridade e menospreza as mulheres, pois esta seria a vontade de seu Deus, o que também poderia ser observado como uma assimetria natural, biológica. Essa estrutura social é legitimada pela denominação, quando exige principalmente a submissão da esposa para com companheiro como sinal de obediência à ordem divina. As revistas da escola dominical colaboram para a manutenção de uma estrutura familiar que coloca os homens em posição de superioridade e menospreza as mulheres, pois esta seria a vontade de seu Deus, o que também poderia ser observado como uma assimetria natural, biológica. A Assembleia de Deus preza pela manutenção desse modelo, e todo aquele destoe desses papéis é tido como desobedientes, de acordo Ricardo Gondim (1998), disciplina é o termo usado pela Assembleia de Deus  como forma de normatização. Observamos que os e as fiéis que são “disciplinados” ficam impedidos de ministrarem a palavra, de evangelizar; eles são separados no banco da disciplina.  Uma vez que se senta nesse banco, se está  impedido  de realizar as mesmas funções de antes, até que se acabe o tempo de disciplina.
Na literatura científico-acadêmica consultada, encontramos também autores/as que mostram que pregar enfaticamente que a desobediência às normas da igreja arrisca a salvação, pressiona o fiel a não infringir as regras ditadas por aquele que “prega a palavra”. Pois,
A salvação para os crentes não é universal; somente uns poucos alcançarão. (…) Ser salvo requer duas coisas: fé em Jesus e obediência à sua palavra. (…) A fé verdadeira ocorre somente quando o homem se humilha, reconhece sua absoluta impotência e submete-se ao total poder salvífico de Jesus (BURDICK, 1998, p. 51).
 
Conforme Oliveira (2014), a salvação é enfatizada por líderes da igreja Assembleia de Deus com objetivo de pressioná-los a obedecer e respeitar as normatizações. Legitimando as normas de condutas da igreja como necessárias para que os membros assembleanos sejam salvos. A obediência simboliza uma prova de compromisso dos/as fiéis com o divino, quem renegam aos “prazeres do mundo” e às coisas terrestres, se entregam à salvação.
Neste sentido, imaginamos que uma investigação junto a membros desta Igreja será um desdobramento lógico desta iniciativa, uma vez que a religiosidade comporá a produção de subjetividades e, consequentemente, de práticas sociais, mas não a determina.
 
 
Referências
ALENCAR, Gedeon. (2003). Assembleia de Deus: origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial.
ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. (2015). O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense. (Coleção Primeiros Passos).
BRANDT, R. L. (2005). Falar em línguas, o maior dom? Pentecostais, Falta-nos algo? Rio de Janeiro: CPAD.
BURDICK, John. (1998). Procurando Deus no Brasil: a igreja católica progressista no Brasil na arena das religiões urbanas brasileiras. Rio de Janeiro: Mauad.
CESAR, Waldo; SHAULL, Richard. (1999). Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs. Rio de Janeiro: Vozes.
FARJADO, Maxwell Pinheiro. (2012), Religião e memória: afirmação da memória institucional da igreja Assembleia de Deus no Brasil, Revista Brasileira de História das Religiões (ANPUH).
FERREIRA. Jean Nela Rocha. (2009). Assembleia de Deus em Feira de Santana: um estudo das representações políticas na “década da colheita”. Monografia (Licenciatura em História). Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana. 66 f.
GESSER, Marivete. (2010), Gênero, corpo e sexualidade: processos de significação e suas implicações na constituição de mulheres com deficiência física. Tese (doutorado em Psicologia). Florianópolis: Universidade de Santa Catarina. 315 f.
GONDIM, Ricardo. (1998). É proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. São Paulo: Mundo Cristão.
HIRATA, Helena. (2003). Por quem os sinos dobram? Globalização e divisão sexual do trabalho. In: Desafios para as políticas públicas: trabalho e cidadania para as mulheres. São Paulo.
LOURO, Guacira. (2011), Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes.
OLIVEIRA, Rok Sônia Naiária de. (2014). O militar de Cristo todo mundo conhece pelo uniforme: a indumentária da neoconvertida assembleana, Milhã-CE (1990-2012). Dissertação (Mestrado em História), Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza – Ceará. 236 f.
ROCHA, Patrícia. (2009). Mulheres sob todas as luzes. São Paulo: Leitura.
SCOTT, Joan. (1989). Gênero: uma categoria útil para análise histórica. Tradução: Christine Rufino Dabat, Maria Betânia Ávila. Recife: SOS Corpo, s. d. [New York, Columbia University Press].
SILVA, Cláudio José da. (2003). A doutrina dos usos e costumes na Assembleia de Deus.  Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Goiânia: Universidade Católica de Goiás. 139 f.
 
PERIÓDICOS:
LIÇÕES BÍBLICAS SAL E LUZ: AS MARCAS DO CRISTÃO ATUAL. Rio de Janeiro: CPAD, 4° trimestre, 1996.
LIÇÕES BÍBLICAS: 1 e 2, PEDRO, A ESPERANÇA DO CRISTÃO EM TEMPOS DE ANGÚSTIAS. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 2001.
LIÇÕES BÍBLICAS: FAMÍLIA CRISTÃ, EU E MINHA CASA SERVIREMOS AO SENHOR. CPAD. Rio de Janeiro: 2º trimestre, 2004.
LIÇÕES BÍBLICAS: MORDOMIA CRISTÃ: SERVINDO A DEUS COM EXCELÊNCIA. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 2003.
LIÇÕES BÍBLICAS: SABEDORIA DE DEUS PARA UMA VIDA VITORIOSA: A ATUALIDADE DE PROVÉBIOS E ECLESIASTES. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 2013.
MATURIDADE CRISTÃ. CPAD. Rio de Janeiro: 4º trimestre, 1985.
MATURIDADE CRISTÃ. CPAD. Rio de Janeiro: 3º trimestre, 1985.





Bio fornecida pelo palestrante.

DOM CASMURRO: A INOCÊNCIA DE CAPITU E AS ESTRATÉGIAS TENDENCIOSAS DE ARGUMENTAÇÃO DE BENTINHO PARA CONDENÁ-LA AO ADULTÉRIO – Aucilane Santos Aragão, Janaíne Januário, Maria das Graças Santos Correia




 

 Aucilane Santos Aragão

Janaíne Januário

 Maria das Graças Santos Correia

Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão 

 
 
Resumo: Este estudo objetiva analisar a argumentação do personagem Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis (2004), cuja intenção do narrador-personagem é de condenar a personagem Capitu por uma suposta traição. No entanto, focaremos não para a sua condenação, mas para a defesa, analisando as falhas na argumentação daquele. Haja vista que não há provas concretas, reais que a incrimine, pelo contrário, o único parecer sobre a história é exclusivamente do Bentinho que se utiliza da própria imaginação para criar situações que confirmem suas suspeitas. Desta forma, focaremos nos desvios da argumentação de Bentinho a fim de inocentar argumentativamente Capitu, entendo que a narrativa construída pelo ciumento é tendenciosa, uma vez que o livro contém evidências criadas a fim de persuadir o leitor a crer que Capitu realmente o traiu.
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Palavras-chave: Dom Casmurro. Ciúme. Argumentação. Inocência.
 
Abstract: This study aims to analyze the arguments of Bentinho’s character Dom Casmurro, in Machado de Assis de Assis novel also called Dom Casmurro. The intention of the narrator-character is to condemn the character Capitu for alleged treason. However, we will focus not for his condemnation but for his defense, analyzing the flaws of his reasoning. Given that there is no concrete evidence that incriminates real, however, the only opinion in the story is exclusively Bento who use their own imagination to create situations to confirm his suspicions. Thus, we will focus on deviations of Bentinho’s argument to exonerate arguably Capitu, I understand that the narrative constructed by jealous is biased, since the book contains evidence created to persuade the reader to believe that Capitu really betrayed him.
 
Keywords: Don Casmurro. Jealousy. Argumentation. Innocence.
 
Miniscurrículos: Discentes do curso de graduação em Letras na Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão
 


 
ESTRATÉGIAS TENDENCIOSAS DE ARGUMENTAÇÃO DE BENTINHO
PARA CONDENÁ-LA AO ADULTÉRIO
 
Aucilane Santos Aragão
 
Janaíne Januário
 
Maria das Graças Santos Correia
 
Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão 
 
 
 
 
Considerações Iniciais
Dom Casmurro, de Machado de Assis, pode ser considerado um dos romances mais famosos da Literatura Brasileira. É uma obra dividida em 148 capítulos, narrada em primeira pessoa pelo personagem Bento Santiago, que relata a história de sua própria vida, como se fosse uma biografia de um homem solitário, que não se desprende do passado.
O livro foi publicado pela primeira vez em 1899, sendo considerado uma das grandes obras de Machado de Assis se estendendo sobre toda a sociedade brasileira, a realidade é retratada através da vida de Bentinho, no Rio de Janeiro do segundo reinado (1840 – 1889) e conta sua trajetória desde a infância, adolescência, seminário, estudos até o casamento.  A obra é instigante gira em torno do ciúme de Bentinho por sua esposa Capitu, abordada com brilhantismo no livro, provoca polêmicas em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira, Capitu.
A narrativa é em primeira pessoa o que permite manter questões sem elucidação até o final, já que a história conta apenas com a perspectiva subjetiva de Bentinho, ou seja, toda a trama gira em torno das percepções de Bentinho, todo o ciúme que ele sente por Capitu, faz com que ele fique transtornado. Desse modo, não há registros reais que comprovem um suposto adultério, e o único olhar que o leitor tem sobre a história é segundo os sentimentos obsessivos e inventivos de narrador-personagem, não sabendo a percepção de Capitu sobre os acontecimentos. Segundo Santiago os críticos estavam interessados em buscar a verdade sobre Capitu ou a impossibilidade de se ter a verdade sobre Capitu, quando a única verdade é a de Dom Casmurro (2000, p.30). O grande enigma da obra está na dúvida em relação ao adultério de Capitu com Escobar, seu melhor amigo do seminário.
No livro não há nenhuma cena que o comprove o adultério, no entanto, Bentinho relata inúmeros episódios, marcando a obra pela desconfiança com que o leitor vai se enredando ou se desvencilhando das próprias interpretações oferecidas pelo narrador, haja vista, que Bentinho vai convencendo o leitor de que sua esposa lhe traiu.  Para Santiago, a qualidade essencial de Machado como escritor reside na “busca, lenta e medida do esforço criador em favor de uma profundidade que não é criada pelo talento inato, mas pelo exercício consciente e duplo, da imaginação e dos meios de expressão de que dispõe todo e qualquer romancista” (2000, p. 28).  O “fingere” na obra machadiana esta presente nas persuasões de Bentinho, o fingimento do narrador para assim convencer o leitor da suposta traição.
Bentinho tinha muita imaginação, registrada em toda a obra; segundo o narrador, “A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar” (Assis, 2008, p. 177). A intenção do narrador era fazer o leitor se deixar influenciar, “Também se goza por influição dos lábios que narram” (Assis, 2008, p. 138). O narrador é sincrético e cumpre, ao mesmo tempo, o papel de vítima, fazendo com que Capitu seja a vilã da história a traidora e dissimulada. Apesar de o romance não registre nenhuma prova de que ela tenha de fato cometido o adultério, o narrador do romance tenta persuadir o leitor de que isso realmente aconteceu. Para Santiago, “a obra de machado de Assis como um todo é coerentemente organizada” (2000, p. 27).
Na obra há uma busca da verdade, isto é, do verossímil, para Santiago “a verossimilhança, que, percorrendo o discurso de uma extremidade a outra, constitui a totalidade da arte oratória” (Santiago, 2000, p.43). Na obra, Dom Casmurro narra a versão de sua própria historia e restaura na velhice, os momentos vividos na adolescência ao lado de seu grande amor Capitu, menina que seduzia com seus olhos de ressaca. Machado de Assis escritor único com a publicação da obra “Dom Casmurro”, recebeu muitas de críticas de vários estudiosos. Segundo Zilberman:
A maturidade da obra de Machado e a institucionalização da crítica proporcionaram muitas leituras e debates sobre a obra do autor. É a partir desse momento que começavam a encarar “a literatura como objeto elevado, e não mero passatempo”. O fato de a crítica só ter meios de interpretar Machado quando a obra dele ia avançada repercute sobre o modo de a encarar.  Também a circunstância de predominar o foco evolucionista, originário do positivismo, teve efeitos determinados e ainda dominante na recepção daquele escritor (ZILBERMAN, 1989, p. 89, 90).
 
Em Dom Casmurro, Machado de Assis faz uso de uma comunicação direta com o leitor, ele conduz o mesmo a acreditar em seus preceitos Santiago afirma que “O romance de Machado é antes de tudo um romance ético, onde pede, se exige a reflexão do leitor sobre o todo” (2000,p. 30). Para Antônio Cândido:
 
Dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida (2004, p. 23).
 
Sendo assim, a obra de Machado de Assis é dividida em duas partes a fase romântica, que retrata o início do namoro dos dois, e a fase realista, esta após o casamento é uma fase amarga, Bento desempenha o papel de homem patriarcal, assume o comando do relacionamento afetivo, levando-o à destruição de sua família.
 
I – Estratégias de transferência de Bento
No decorrer da narrativa, o narrador, aproveitando sua formação como advogado e sua estadia no seminário que lhes rederam um poder argumentativo maior, tenta configurar a culpa de Capitu.
Bentinho conta toda a história insinuando um (mau) caráter de Capitu, para justificar a “traição” desta. Valendo-se, às vezes, da opinião de outra pessoa sobre ela, como uma forma de alegar que não era apenas ele que a via como uma pessoa capaz de traí-lo, destacando a acusação de José Dias que ela tem “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Bentinho aceita as críticas e as usa para fundamentar o caráter de Capitu:
 
Se, de certa maneira, são esses os mecanismos predominantes no modo de raciocinar, e, por conseguinte de convencer, não se deve esquecer de que a retorica do verossímil se espraia, ocasionando a certa compreensão particular do comportamento dos outros. Duas atitudes, entre outras, são típicas de Dom Casmurro, quando analisa os que o rodeiam: a) joga a culpa de toda calúnia nos outros, isentando-se aparentemente de qualquer responsabilidade, colocando-se ainda na qualidade de vitima; b) empresta aos outros contradições entre o que chamaremos por enquanto de interior e exterior (SANTIAGO, 2000, p. 38).
 
Esta é a estratégia usada por Dom Casmurro, mostrando que Capitu sempre teve um “caráter duvidoso”, desde criança, e por isso pode ter o traído. Esse estratagema de transferir o decorrer da história para mostrar o possível caráter da outra pessoa para justificar que está certo é muito utilizada pelas pessoas que têm ciúme excessivo, como no caso de Bentinho, usando todos os argumentos possíveis para convencer-se e convencer aos outros de que foi traído.
Percebemos que no decorrer da história tem a presença de uma tendência argumentativa, para convencer ao leitor que há uma verdade em suas desconfianças. Para isso, ele apresenta uma espécie de dados acerca da vida de Capitu, e consequentemente da dele. Outra estratégia de argumentação usada é a forma que ele escreve, falando diretamente ao leitor (ou leitora, como ele fala em alguns momentos), isso acontece especialmente nos capítulos: XLV- Abane a cabeça, leitor; LXXIX- Vamos ao capitulo; LXXX- Venhamos ao capitulo; CXIX- Não faça isso, querida. Essa aproximação com o leitor é caracterizada pelas escolhas linguísticas usadas por ele, a escolha de palavras já nos títulos dos capítulos como “leitor”, “querida” sugere uma estratégia do autor em aproximar sua fala do enunciador-leitor, ordenando a essa terceira pessoa discursiva a refletir sobre o que está apresentando na argumentação:
 
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 39).
 
Ele fala diretamente ao leitor, numa espécie de desabafo. Tentando mostrar ao leitor que Capitu foi capaz de falar no primeiro filho com naturalidade, coisa que não era comum na época, uma moça de família e solteira falando em ter filhos. Ou seja, passando a imagem de que ela era uma moça que falava e agia de forma diferente das outras da época, sendo assim, era capaz de cometer atos libertinos, como o adultério, com facilidade. Em dados momentos, como no citado, ele fala com o leitor como se estivesse exercendo seu oficio de advogado acusando um réu e em sua argumentação usa alguns momentos da vida.
Porém, ao analisarmos os argumentos de Bentinho percebemos que ele faz uso deles para justificar o ciúme dele colocando a culpa de todos os atos nela. O ciúme de Bentinho faz com que ele crie situações, acredite nelas e crie argumentos para mostrar que está certo. No capítulo XL- Uma Égua, o próprio Bentinho reconhece que “a imaginação foi a companheira de toda a minha existência”:
 
Em dado momento, Bento interpreta o olhar de Capitu como uma confissão: “Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando: – ‘Mamãe!, Mamãe!, é hora da missa!’, restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada; repetiu as últimas palavras, puxou do filho e saíram para a missa” (cap. CXXXIX) . “A confusão dela fez-se confissão pura” é interpretação de Bentinho. Podemos pensar que ele viu assim. Há algo mais subjetivo (ou projetivo) que a interpretação de um olhar? (NETO,…).
 
I – A arte da retórica na obra
A imaginação e o ciúme dele fizeram com que ele interpretasse uma suposta confissão de Capitu através do olhar dela, quando o que houve foi apenas fruto da imaginação de uma pessoa ciumenta. Sendo assim, não há nenhuma evidência que comprove de fato uma suposta traição de Capitu, ao mesmo tempo que dá para condenar Capitu só pelo olhar de Bentinho, pois ele se mostrou ciumento desde o princípio, além de fazer uso da retórica para argumentar contra ela. Para Neto:
A retórica. Esta arte tem como intuito proporcionar uma fala persuasiva, manipulando a linguagem para o benefício do falante. Em Dom Casmurro a retórica é a base de construção do romance. Nele, a história de amor e ciúme entre Bentinho e Capitu é contada de forma a convencer o leitor (e ao próprio Bentinho) de que Capitu é a grande culpada na história.
 
Dessa forma, ao analisarmos a obra percebemos que Bentinho usa a retórica desde o início para mostrar que Capitu é culpada das acusações impostas por ele, quando na verdade o que vemos é a acusação de homem extremamente ciumento, com uma imaginação muito forte e que não há como dizer que ela o traiu tomando como base a argumentação do próprio Bento.
Bentinho criou diversas situações em todo o livro para que o leitor enxergasse Capitu como adúltera, todas essas situações foram criadas em sua imaginação e construídas discursivamente a fim de levar o Outro do discurso à persuasão. Proença (2011) diz que: “uma rede de indícios que, combinados, são interpretados por ele, ciumento, como decisivas evidências de traição”. Isto é, por meio da linguagem, Bento Santiago promove a dúvida no leitor se Capitu foi capaz mesmo de traí-lo, para isso, ele traça um perfil que seria da personalidade dela desde a infância pra compor todas as suas criações imagéticas a respeito da personagem, indiciando-a ao leitor ao adultério em sua relação matrimonial.
Ainda citando Proença (2011), ele diz que Bento Santiago cria “competências” analisando e contando-as ao leitor a fim de comprovar discursivamente a suposta traição, desta forma, o narrador-personagem diz ao leitor momentos em que Capitu agiu de forma perspicaz, quando, por exemplo, quando ela junto com o seu amigo, guardam a segredo de Bento que Capitu economizou dez libras. Nesta cena, o narrador que induzir ao leitor que sua amada e seu amigo trocam confidências as quais ele fica de fora, traço este que ele leva a imaginação de um indicio de traição. Bem como o perfil tanto personalístico de Capitu, de “dissimulada”, “rápida”, “objetiva”, quanto a de Escobar, “reflexivo”, “boa memória”.. Estes traços vão fazendo o leitor acreditar que de fato ambos tinham a “competência” da traição.
Bentinho descreve tão bem as cenas que o leitor e a critica literária de fato acreditaram por muito tempo ser ele o ingênuo, e o traído da situação. Só com a analise da personalidade de um sujeito doente de ciúmes leva a inocentar a personagem, haja vista que a construção discursiva do narrador é detalhada, inteligente, mas de memória falha como ele cita. Memória esta, que é a única fonte de percepção deste para a história, sem provas alguma.
Silviano Santiago (2011, p. 33-34) diz que “Dom Casmurro, como bom advogado que devia ser, toma para si a defesa de Bentinho, arquitetando uma peça oratória onde nos afigura de primeira importância seu aspecto propriamente forense (era escrita por um advogado) e seu aspecto moral-religioso (escrita por um ex-seminarista)”. Desta forma, a construção do seu discurso não será neutro, mas tendencioso, utilizando-se de estratégias argumentativas as quais induzem ao leitor incriminar de fato a personagem.
 
II – Capitu é inocente
Durante toda a história Dom Casmurro faz uso das características fortes de Capitu, valendo-se inclusive de acusações feitas por terceiros, como de José Dias, por exemplo, que a caracterizou como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, além de mostrar algumas cenas passadas dela para mostrar que ela tinha um caráter duvidoso, e que portanto o traiu sem culpa, pois para ele  a traição de Capitu e Escobar era fato.
Apesar de Bento Santiago afirmar que foi traído, não há nenhuma prova de que isso aconteceu de fato. Portanto não há como dizer que Capitu é uma adúltera tomando como base a história contada pelo suposto traído, principalmente, levando-se em consideração que o marido é uma pessoa ciumenta e que já apresentava sinais de um ciúme doentio desde antes de casar com ela.
Ao analisar a obra, observamos que esse traço de ciúme exacerbado de Bentinho começa a aparecer de forma mais concreta a partir do momento em que ele fica muito irritado ao perceber que passou um rapaz a cavalo na rua e olhou para Capitu e ela olhou-o de volta, e com isso já começa a fantasiar várias hipóteses de que eles tinham algo, chegando a pensar em uma frase dita anteriormente por José Dias “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela…” e concluir que o “peralta da vizinhança” se tratava dele de certeza:
 
A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela…” Era certamente alusão ao cavaleiro. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, levá-lo ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese; mas José Dias, que parara ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 58).
 
Após concluir o suposto romance da amada com o vizinho, ele se trancou no quarto e teve um momento de surto, jurando nunca mais querer vê-la. No outro dia ele a procurou para pedir explicações e ela explicou-lhe que não tinha nada com o vizinho, alegando que se tivesse não o olharia e sim iria dissimular. Porém, ele ficou convencido quando ela falou que o rapaz ia casar com outra e que desta forma não poderia ter nada com ele. Essa reação de Bentinho, assim como as outras no avançar da obra, é característica do ciúme no terceiro nível, o delirante ou paranoico. Segundo a Psicologia, existem três níveis de ciúme que o sujeito pode apresentar: o normal, o neurótico e o delirante (Paranóico). O normal é aquele que ocorre quando a pessoa amada dá motivo para o parceiro sentir ciúmes; O neurótico é aquele cujo sentimento de angústia é permanente, nesse a pessoa tem consciência de que seu ciúme é exagerado, mas não consegue controlá-lo; E o terceiro caso é visto como o mais grave e de maior preocupação, pois é aquele onde o indivíduo fantasia uma possível traição podendo ser agressivo e até mesmo cometer insanidades contra o parceiro. Como no caso de Bentinho que fantasiou toda a traição de Capitu sem ter prova alguma, chegando a querer envenenar o filho por achar que o menino é o fruto de uma relação com um terceiro.
O ciúme é a manifestação de um profundo complexo de inferioridade de certa personalidade com imaturidade afetiva (Alves, 2001). Ao analisarmos a personalidade de Bentinho percebemos que ele de fato apresenta essas características típicas de uma pessoa ciumenta, pois desde menino, era sempre mimado pela mãe, pelo tio Cosme, pela prima Justina e pelo agregado José Dias. Essa super-proteção tornou-o um indivíduo inseguro e dependente, incapaz de tomar decisões por conta própria e resolver seus próprios problemas, além de ter uma imaginação muito fértil, contribuindo ainda mais para a suspeita de adultério da amada. Para Santos:
 
Se analisarmos mais detalhadamente o ciúme, podemos perceber, logo de início, que não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas sim voltado para si mesmo, para quem o sente, pois é, na verdade, o medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele. É um sentimento egocentrado, que pode muito bem ser associado à terrível sensação de ser excluído de uma relação (2002, p. 76).
 
Outra característica do ciúme paranoico é a necessidade excessiva de procurar uma forma de confirmar a suspeita da traição. Na obra percebemos que Bentinho procura de todas as formas provar a traição, que para ele já é certa, de Capitu e Escobar, valendo-se da história deles para mostrar que ela sempre foi dissimulada e com um caráter duvidoso, além da amizade dela com Escobar e, por fim da semelhança do filho com o amigo. Esquecendo-se que Capitu é muito parecida também com a mãe da amiga Sancha mesmo sem ter algum parentesco com ela e que, portanto, as pessoas podem ter semelhanças mesmo sem ter nenhum grau de parentesco. Outro conceito apresentado pela Psicologia é o ciúme mórbido ou patológico, também conhecido como Síndrome de Otelo:
 
 
O conceito de ciúme mórbido ou patológico, também chamado de Síndrome de Otelo, em referência ao romance shakeaspereano escrita em 1964 compreende várias emoções e pensamentos irracionais e perturbadores, além de comportamentos inaceitáveis ou bizarros (Leong et al, 1994). Envolveria muito medo de perder o parceiro(a) para um(a) rival, desconfiança excessiva e infundada (ALMEIDA, 2013).
 
Podendo levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade e desejos de vingança desordenados, assim como Bento faz ao comprar um veneno para tomar e depois tentar fazer o filho tomar, além do desejo da morte de Capitu e do filho como uma forma de vingar a traição. Bem como o sentimento de alivio que ele sente quando mais tarde, mesmo depois de Capitu já está morta, quando o menino morre em Jerusalém com uma febre tifoide.
Segundo a psicanálise é possível afirmar que a Síndrome de Otelo seria na verdade e/ou também o desejo do próprio ciumento em ser infiel, no entanto, por não admitir conscientemente esse desejo, acaba projetando no parceiro, como se pertencesse a ele a infidelidade ou desejo desta. Ou seja, é como se o ciumento pensasse que se ele teve o desejo de trair a parceira certamente o trai. Em Dom Casmurro acontece algo semelhante, pois o próprio Bento sente uma atração por Sancha, que é esposa de Escobar, que ele tem certeza que o trai, e amiga de sua mulher.
A personagem de Bento Santiago é marcada por não possuir um motivo real ou prova e sim a certeza absoluta de infidelidade de Capitu baseado na sua imaginação. No cap. XL, ele diz que “A imaginação foi a minha companheira de existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas correndo.”
 
Utilizando a imaginação como recurso para provar a infidelidade de Capitu por meio de criações/invenções da sua imaginação. A retórica e a expressão de um caráter que pode comprovar que ele está certo, tentando mostrar que ela é leviana, fútil, a que desde pequena só pensa em vestidos e penteados, a que tinha ambições de grandeza e luxo, e ele um homem rico, de boa família, com formação em direito e que ama a esposa e foi traído por ela. Mas em muitas partes da obra acaba mostrando que ela era uma esposa e mãe dedicada e carinhosa, uma mulher Inteligente, prática, de personalidade forte e marcante, enquanto ele é um homem fechado, solitário e triste que tem um ciúme doentio pela esposa. Fazendo-nos deduzir que não houve traição e que tudo não passou do fruto da imaginação dele.
 
Considerações finais
A riqueza da obra “Dom Casmurro” estimula nos leitores profunda análise e meditação, bem como o levantamento de hipóteses das intenções do pseudo-narrador da história. Ele traz muitas discussões e interpretações acerca da traição ou não de Capitu. Muitos críticos e leitores em geral acreditam que houve de fato a traição de Capitu e Escobar, enquanto outros acreditam que não e que não há nenhum indicio concreto do adultério, o que há é apenas a imaginação e interpretação de um marido excessivamente ciumento.
A dúvida ou a certeza da traição são frutos do discurso construído pelo narrador a fim de condenar a amada, minuciosamente Bento Santiago se preocupou em criar situações que de fato levassem o leitor a crer que houve traição. A retórica é o ponto chave da trama, visto que, por meio dela o narrador-personagem e nós enquanto sujeitos usuários da lingua(gem) podemos induzir, persuadir, condenar ou inocentar discursivamente outros sujeitos.
A obra conta com inúmeras estratégias que leva o leitor a persuasão, sendo algumas dela, a fala ao leitor na primeira pessoa ao contar a história como um desabafo, induzindo que aquelas situações criadas inventivamente de fato existiram; a descrição da personalidade, das características dos personagens Capitu, Escobar como rápidos, espertos e a de Bento como ingênuo constroem um discurso que leva o Outro a acreditar que tanto Escobar quanto Capitu tinham traços, “competências” que levariam a traição.
Dom Casmurro é uma construção discursiva cujo romance aborda a visão doentia causada pelo ciúme do personagem-narrador para com sua amada, sendo esta tratada na obra como dissimulada e mentirosa. Bento é advogado, ex-seminarista, representante da elite social e econômica, a palavra, o discurso dele é levado ao leitor como a “verdade”, deste modo Capitu é silenciada em toda a narrativa. No entanto, assim como há a possibilidade na interpretação da obra de condená-lo como adultera, há também a possibilidade de enxergar o discurso de Bento como tendencioso, voltado exatamente para retratar Capitu como culpada de algo que não fez. Ambas, retoricamente construídas.
 
Referências Bibliográficas
ASSIS, J.M.M. de. Dom Casmurro. São Paulo: Ática, 2004.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira, 1601 a Machado de Assis, 1908. Intr. de Heron Alencar. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.
ALMEIDA, Thiago de. Síndrome de Otelo: quando o ciúme se torna patológico. Disponível em: <http://www.thiagodealmeida.com.br/site/files/pdf/artigo9.pdf>. Acesso em: 10 set. 2013.
ALVES, Roque de Brito. Ciúme e crime: crime e loucura. Rio de Janeiro: Forense, 2001.
SANTOS, Eduardo Ferreira. Ciúme e crime: uma observação preventiva, Psic, Cerqueira César, v. 3, n. 2, p.74-77, 2002.
SANTIAGO, Silviano 2000. Retórica da verossimilhança. In: Santiago, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco.
CANDIDO, A. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. 2ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
PROENÇA, Paulo Sérgio de. A construção da competência para a infidelidade, em Dom Casmurro. vol. 7, no 1. Junho, 2011
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. Ed. Ática. São Paulo. 1989.





Bio fornecida pelo palestrante.

A IDEALIZAÇÃO DA FIGURA FEMININA NA OBRA IRACEMA DE JOSÉ DE ALENCAR – Janaíne Januário da Silva, Maria das Graças dos Santos Correia




Janaíne Januário da Silva

Universidade Federal de Alagoas

Maria das Graças dos Santos Correia

Universidade Federal de Alagoas

 
RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo identificar a figura feminina na obra “Iracema” de José de Alencar, que foi escrito em 1865. Para tanto, podermos discutir acerca da idealização da mulher no processo construtivo abordado em Iracema. Iremos ressaltar a imagem feminina tratada na obra. A obra retrata a mulher sendo idealizada como uma heroína, guerreira, rápida, forte, inteligente que ficou eternamente conhecida na literatura brasileira como a “virgem dos lábios de mel”. Temos como embasamento teórico Ivo Barbieri “Iracema contemporâneo da posteridade” (2013), Antônio Candido “A personagem de ficção” (1968) e José de Alencar “Iracema” (1865). O artigo visa, descrever a pureza da mulher virgem tratado em Iracema, e também a exaltação da natureza, fauna e flora e a mulher como uma figura natural da pureza nacionalista.
Palavras-chave: Iracema; Idealização da mulher; Romantismo; Indianismo.
ABSTRACT: This study aims to identify the female figure in Iracema work of José de Alencar, which was written in 1865. Therefore, we can discuss about the woman idealization in the construction process addressed in Iracema. We will emphasize the feminine image treated in the work. The work depicts a woman being idealized as a hero, warrior fast, strong, intelligent he was ever known in Brazilian literature as the “virgin honey lips”. We have the theoretical basis Ivo Barbieri “contemporary Iracema of posterity ” (2013),  Antonio Candido “The fictional character” (1968) and José de Alencar “Iracema” (1865). The article aims to describe the purity of virgin woman treated in Iracema, and also the exaltation of nature, flora and fauna and the woman as a natural figure of nationalist purity.
Keywords: Iracema; Idealization of women; Romanticism; Indianism.
 


 
 

  1. Introdução

José de Alencar, nasceu em Mecejana província do Ceará, em 1 de maio de 1829. O autor é considerado o primeiro vulto da literatura nacionalista e indianista. Pode-se dizer que Alencar foi o fundador da literatura brasileira, pois ele descobriu a beleza do nosso país e a trouxe de forma romântica para a literatura, o escritor despertava e transmitia em suas obras, o amor pela pátria, paisagem, natureza, pelas lendas e pelos povos indígenas. Escreveu diversas obras entre romances, teatro, não-ficção. Seus romances abrangiam algumas áreas, pois Alencar escrevia sobre diversos assuntos de caráter social, como em suas obras conhecidas como romances urbanos, destacam-se: A viuvinha (1860); Lucíola (1862); Diva (1864); Senhora (1875). Nos romances regionais podemos destacar: O gaúcho (1870); Til (1872); O sertanejo (1875). E nos romances indianistas, os principais foram: O Guarani (1857); Iracema (1865); Ubirajara (1874). Dentre os romances indianistas, Iracema é considerado o mais importante e é o romance de José de Alencar que abordaremos no presente artigo.
O romance Iracema foi escrito em 1865, contudo, as personagens da história, Iracema e Martin são heróis, Iracema índia guardiã do segredo da jurema e o mistério dos sonhos, e Martin guerreiro branco pelo qual a virgem se apaixona.  Após um acidente, Martim é recebido pela tribo dos Tabajaras, onde vivia a jovem Iracema. Na trama, Iracema e Martim se apaixonam e fogem para viverem o amor proibido, juntos levam o guerreiro Pitiguara Poti, amigo que Martim considerava como irmão.
Ao perceberem a fuga, os Tabajaras perseguem os amantes travando um combate sangrento ao encontrá-los. Desesperados, os três vão para uma praia deserta, na qual Martim e Iracema constroem uma cabana. Mas, passando-se alguns tempos, Martim resolve ir guerrear junto com os Pitiguaras e com seu amigo Poti, deixando Iracema grávida na cabana. Antes de Martim voltar para a tribo, Iracema dá à luz a um menino. Após o parto ela fica gravemente debilitada e acaba morrendo. Martim chega logo depois e, ao ouvir o canto triste da Jandaia (ave que sempre acompanhava Iracema), presencia a tragédia. Ele retorna para sua terra natal levando o filho consigo. Porém, quatro anos depois, voltam para o Ceará, onde implantam a fé cristã.
Alencar fazia parte da primeira geração do Romantismo no Brasil. A primeira geração do Romantismo era caracterizada pelo Nacionalista–indianista as obras eram voltadas para a natureza, o regresso ao passado histórico e ao medievalismo, ou seja, o historicismo, a nostalgia de algo distante no tempo, a fuga do “eu” interior. Criava-se um herói nacional na figura do índio, de onde surgiu a denominação de geração indianista. Alencar, como um dos principais autores dessa geração. Nessas obras indianistas o escritor cearense recria o mito do bom selvagem de Rousseau em nosso indígena. Defensor da associação entre o nativo e o europeu colonizador, observa, nesse casamento, inúmeras vantagens para ambos os povos: enquanto aquele oferece a natureza virgem, este lhe dá, em troca a cultura. O produto dessa amálgama seria o Brasil independente.
O nosso Romantismo elegerá o índio como seu herói, entre outras coisas porque este podia ser representado como. O nativo legítimo do Brasil – aquele que desde sempre aqui viveu, e que lutou heroicamente contra os colonizadores estrangeiros. Nada melhor para um movimento literário nacionalista do que um herói que pode ser apresentado como um legítimo produto de nossa terra. (JOBIM, 2003, p. 100).
O presente artigo objetiva identificar o perfil da mulher no romantismo brasileiro, e a construção da identidade feminina. Em seu romance, Alencar nos mostra uma mulher pura e casta, que simboliza a beleza feminina, a honra da heroína que deixa sua tribo e seu segredo por um amor platônico. “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira”. Alencar (1865). Iracema foi o inicio do marco histórico da idealização da figura feminina na literatura brasileira, a mesma representava a cultura indígena e a submissão da mulher ao homem, exercendo papel de esposa e mãe.
Iracema representa a natureza, a colonização do Brasil o nome Iracema quer dizer “América”, ou seja, Alencar construiu um romance ficcional, pois Iracema é uma mistura de lenda com ficção, em que, no texto há a presença de dois heróis, Iracema e Martin. Um amor proibido, que nasce com o fogo ardente dos dois, o livro mistura a realidade à ficção, já que exalta a colonização e a miscigenação de índio e branco.

  1. O perfil da mulher no romantismo

No Romantismo brasileiro, o Nacionalismo era uma das principais características da primeira geração, em que os autores usavam como tema de suas obras a exaltação da pátria, da nacionalidade. Nessa formação da nacionalidade incluem-se em primeiro lugar os romances que tratam do índio, suas lendas e mitos da terra selvagem e conquistada. Pois românticos da primeira geração entenderam que sua missão era fundar uma identidade brasileira. Constituindo-se, assim, as obras indianistas de José de Alencar e, Iracema como uma das mais importantes.
Durante o Romantismo, a figura feminina foi fonte de inspiração e peça fundamental em muitas obras. Para ressaltar esse caráter puro e majestoso da mulher, muitos autores chegavam até a atribuir características idealizadas à essas damas que remetiam a natureza. A virgindade e o sensualismo também eram bastante valorizados nas obras românticas. Tanto em pinturas quanto na literatura da época, muitas heroínas eram moças virgens e frágeis.
Com o passar do tempo, o modelo de mulher graciosa, delicada, bela, em resumo, perfeita, continuou sendo utilizado e está presente em muitas manifestações culturais contemporâneas, porém nem todos esses valores se mantiveram os mesmos. “A mulher, entre os românticos aparece convertida em anjo, em figura poderosa; inatingível, capaz de mudar a vida do próprio homem”. (PROENÇA, 1978, p. 186).
O Romantismo foi o primeiro movimento literário brasileiro da era nacional. A primeira geração destacou-se pela tentativa de adaptar, de maneira nacionalista, o Romantismo, exaltando a natureza exótica e exuberante do Brasil, bem como a beleza e inocência do indígena; na obra Iracema, Alencar representa essa beleza exótica, “a flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue e tronco onde se enlace” (ALENCAR, 1865. p.15). Neste trecho, o escritor está exaltando a beleza de Iracema comparando-a a uma “flor da mata”, ou ainda exaltando-a como “a virgem dos lábios de mel”. A nação que surgia com a independência buscava seus heróis formadores, os quais diferenciassem o nosso país das origens europeias.
Nem podemos esquecer o caráter sensual que existe no mel, esse grosso liquido tão característico dos trópicos. O mel, viscosos inclusive, pode também ser relacionado ao liquido vaginal, que é a fertilidade e a sensualidade por si mesma, sem vulgaridades, pois a vulgaridade é a malicia que, ao menos por convenção, existe nos homens chamados civilizados, mas o que temos aqui é, ao contrário, algo espontâneo, sem pretensões de o ser e até mesmo sem o perceber sensualidade totalmente relacionada a Iracema, mas não é uma sensualidade provocadora, é algo natural. (SILVEIRA, 2009, p. 77)
Com isso, Alencar enfatiza a beleza e a sensualidade natural da índia Iracema, bem como o sentimento puro e inocente despertado pela virgem dos lábios de mel. Beleza, pureza e sentimento estes que não existiam na população civilizada, como eram chamados os europeus colonizadores.
A índia é bela e formosa por si mesma, sem forçar isso, como prova o momento em que se banha no lago, ao lado de garças e jaçanãs, e as testemunhas do banho, por causa dela, batizam o lugar com o nome de Porangaba, o “lugar da beleza”. É uma sensualidade quase mítica, digna de uma deusa da floresta, aquela que chega até mesmo a estar acima dos fatores naturais, como pode-se perceber no início do romance. (SILVEIRA, 2009, p. 78)
José de Alencar buscou criar no Romantismo indianista uma nova identidade nacional, com isso, buscava suas bases no nativismo da literatura anterior a independência, no elogio á terra e ao homem primitivo. O poeta romântico está sempre buscando modificar a realidade, e a imaginação, criando assim um novo mundo de idealização e escapismo romântico, há o direcionamento em que, o poeta alarga em direção à pátria e o nacionalismo.  A personagem Iracema, é a representação do ideal feminino, segundo Antônio Candido (1968, p. 24). A personagem é um ser fictício a imagem como a palavra tem a possibilidade de descrever e animar ambientes, paisagens e objetos. Haja vista, que a personagem de Iracema retrata o perfil da mulher romântica, daquela época, a mulher para casa-se tinha que ser virgem, pura e submissa ao homem. Antônio Candido afirma que:
A força das grandes personagens vem do fato de que o sentimento que temos da sua complexidade é máximo; mas isso, devido à unidade, à simplificação estrutural que o romancista lhe deu. Graças aos recursos de caracterização, isto é, os elementos que o romancista utiliza para descrever e definir a personagem, de maneira a que ela possa dar a impressão de vida, configurando-se ante o leitor. (CANDIDO, 1968, p. 26).
Alencar descreve muito bem a força de sua personagem Iracema, pois quando o leitor faz uma leitura minuciosa desta obra, identifica os traços de realidade existentes em Iracema, todavia, este leitor deve buscar logo a interpretação de maneira sutil, dando vida às personagens históricas, ou seja, que realmente existiram e fizeram parte da História do Brasil. No romance Iracema há a presença de dois gêneros literários, o lírico e o épico, evidenciados no texto, também a exaltação da natureza vegetal, animal e humano, com isso no inicio do romance temos.
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. (ALENCAR, 1865. p.7).
Além da exaltação feminina no romance, Alencar exalta a fauna e a flora típica do cenário romântico, Iracema “Virgem dos lábios de mel”, idealização feminina e representação da natureza, bela e pura igual à fauna brasileira e o idealismo. Iracema pode ser considerada a personagem símbolo da terra que, pelos seus encantos, seduz o estrangeiro que vem ao Brasil a ficar em suas terras.
Martim se apaixona pelos seus encantos e resolve ficar, no entanto, Iracema não poderá ser sua, a virgem filha de Araquém consagrará a sua virgindade ao deus, sendo guardiã do segredo de jurema e o mistério dos sonhos. A índia fabricava para o pajé a bebida de tupã, e o guerreiro que possuísse a virgem de Tupã morreria. O romance de Iracema é contemporâneo da posteridade, pois, é lembrado para sempre e vive na época presente, tornando-se uma obra atual, segundo Barbieri (2013. p. 29) “José de Alencar irrompe na cena literária brasileira de maneira estrepitosa e ativa, sem Alencar não teríamos romance brasileiro”.  A mulher na obra de Alencar é vista como um símbolo da natureza, Iracema diferente das obras Lucíola e Senhora únicos livros de Alencar em que a mulher se defronta com homem de forma igual, ambas se destacam pela dignidade feminina.
As conquistas da mulher perante a sociedade foram muito significativas, a mulher daquela época era submissa ao homem, vista que a sociedade tinha preceitos machistas e preconceituosos, devido aos costumes da época, essas mulheres defrontavam a mesma dignidade masculina. Já Iracema, tem um perfil diferente dessas duas mulheres citadas acima, ela é uma heroína, que se prende ao amor que sente por Martin e em consequência desse amor platônico ela acaba morrendo de saudades deixando seu filho, Moacir, fruto desse amor e da miscigenação brasileira.
A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, pôde erguer o filho nos braços e apresenta-lo ao pai, que o olhava extático em seu amor.  Recebe o filho de teu sangue nos braços. Era tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhes! Pousada a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu, como a jetica se lhe arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha consumido seu belo corpo; mas a formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá. (ALENCAR, 1865. Pág. 68).
O amor da bela Iracema pelo estrangeiro era tão grande que a saudade acabou-lhe a vida. O romance de Alencar nos mostra a submissão do índio ao branco, a mulher romântica que sente a falta de seu amado e não consegue viver longe desse amor. Diferente das mulheres contemporâneas, que ao longo da história deixaram um pouco de ter essa submissão, e conseguiram a própria autonomia.
Alencar buscou idealizar a figura feminina, e não reproduzi-la. O amor do romancista é angelical, puro, idealizado; a mulher é vista como um ser intocável, um anjo, símbolo da perfeição, a mais bela e virgem, havendo assim, a idealização da figura feminina.  “Iracema a virgem dos olhos negros”, para tanto, caracterizando o retrato da figura feminina nas obras literária de Alencar, predomina um estilo romântico a idealização da mulher e do amor em que o autor realça o seu lirismo amoroso, pela mulher.
Segundo Almeida Prado (1968. p. 44), “a obra literária é um prolongamento do autor, uma objetivação do que ele sente possuir de mais íntimo e pessoal”. Sendo assim, o autor é o retrato de sua obra literária, um marco na literatura brasileira. Alencar é reconhecido como maior poeta escritor do romantismo ele se preocupou com o nacionalismo brasileiro.

  1. A construção da identidade feminina

Ao longo do tempo a mulher foi construindo uma identidade feminina, lutando pelos seus direitos igualitários perante a sociedade. Em suas obras Alencar buscou sempre definir a mulher nesse perfil: guerreira, forte, decidida, heroína que luta pelos seus ideais. Na obra Iracema, ela trai sua família e tribo, para viver um amor com o estrangeiro, amor esse que não era permitido.
As águas do rio banhavam o corpo casto da recente esposa. Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.
Iracema te acompanhará, guerreiro branco; porque ela já é tua esposa. O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem. A filha do pajé traiu o segredo da jurema. (ALENCAR, 1865. p. 34; 37).
Iracema torna-se esposa de Martin traindo seu povo para ficar ao lado do guerreiro. O escritor romântico, enfatiza a decisão da virgem que preferiu lutar pelo seu objetivo, ao se curvar diante de seu povo, a força e a beleza de Iracema representa a mulher.   José de Alencar tem como objeto de criação a personagem feminina Iracema, o comportamento dessa personagem não se limita ao de mulheres idealizadas para os padrões morais e intelectuais daquela época, ele buscou sintetizar o nacionalismo através de sua personagem indígena transformando todo seu conhecimento da terra em poesia.
Todavia, a mulher tratada nos romances de Alencar é digna, santa, forte, para Alencar (1865, p.55) “As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã amolece a terra”, nesta citação o autor exalta a mulher, havendo assim duplo sentido, em que a mulher pode conseguir várias coisas com suas lágrimas, o poder de convencimento da figura feminina perante o homem. Alencar idealiza Iracema tornando-a sempre melhor, usando certa superioridade ao compará-la com a natureza nacionalista.
“A virgem dos lábios de mel” representa todo o imaginário indígena, a beleza natural dessa cultura e Martim traz a figura do branco colonizador, que é também guerreiro, assim como o índio, e igualmente forte, se comparado a ele. Havendo assim, uma igualdade entre homem e mulher, não fazendo distinção entre as duas culturas, pois, Iracema é quem toma todas as atitudes de seguir o guerreiro, mulher valente que se disponibiliza a enfrentar tudo, pelo desejo de seu amor.
A sombra de Iracema não esconderá Iracema à vingança de irapuã. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.
O amor de Iracema é como vento dos areais; mata a flor das árvores: suspirou a virgem. E afastou-se lentamente. (ALENCAR, 1865, p. 18).
Assim, Iracema vai construindo uma identidade feminina da mulher protetora guerreira, que não tem êxito em lutar.  O amor que a virgem sente, é imenso que chega a ser submissa a Martin, seu esposo.
O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos de sol guarda para seu guerreiro, na taba dos brancos, mel da açucena. (ALENCAR, 1865 p. 19).
Por outro lado, a índia é encantadora e com sua beleza consegue conquistar o coração do jovem guerreiro, Alencar refere-se à Iracema, como ela sendo também sedutora e conduz o homem a cometer certas atitudes em consequência desse amor. Iracema é uma mulher forte, dona de sua vontade, porém, se destrói doente de ciúmes, insegurança e saudades de Martim, o grande amor de sua vida, que por conta disso acaba sua vida, mostrando assim o lado fraco da mulher, que sente falta e depende do marido.
É o ciúme que fala mais alto, é o medo de perdê-lo para outra, ou seja, a insegurança faz com que Iracema deixe de comer e fique fraca e o sentimento à flor da pele quando se deixa abater pelas dores do coração a índia acaba morrendo, e dessa dor nasce seu filho Moacir, primeiro filho de branco e índia.
Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento. A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacir; e desde então a ave amiga unia em seu canto ao nome da mãe, o nome do filho. O inocente dormia; Iracema suspirava. Tua mãe também, filho de minha angustia, não beberá em teus lábios o mel de teu sorriso. A jovem mãe passou aos ombros a larga faixa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rasto do esposo, que há três sóis se partira.  (ALENCAR, 1865, p. 63).
A jovem mãe, com angustia de seu amado que não volta, se põe ao desespero, Alencar, defronta uma mulher, guerreira, que luta pelo que considera certo, transformando-a em mulher insegura que fica á espera de seu amado e refém desse amor que acaba por destruí-la.  O seu filho é quem sustenta Iracema, até Martin retornar e tomá-lo em seus braços.
Da mesma forma que Iracema se sacrifica pelo amor de Martim, gerando o herdeiro Moacir, e a mulher se sacrifica para o homem no sistema social patriarcal, não apena no Brasil, mas a América Latina como um todo se sacrifica para a Europa. Ela dispõe ao colonizador a fertilidade da sua terra, a diversidade de seus recursos, para que o europeu “sobreviva”, ao mesmo tempo que, a partir desse contato, é formada a civilização, de características especiais, juntando parte das duas culturas. Assim, mais ainda do que louvar a simplicidade do indígena, Alencar representou a fusão dos elementos branco e índio na formação de nossas particularidades. (SILVEIRA, 2009, p.78)
Ou seja, Alencar idealiza tanto a imagem feminina que a personagem Iracema representa, além da sensibilidade e beleza indígena, a própria história do Brasil, da relação europeia/indígena na construção histórica das nações. Até o próprio nome Iracema, representa a palavra América, representando a fusão dos elementos e a formação e caracterização da mistura dos povos indígenas e europeus.

  1. Considerações finais

No romance Iracema, de José de Alencar encontramos a influência de dois gêneros literários: o lírico e o épico. O lírico é evidenciado pela prosa poética, com elementos sonoros, com a segmentação das frases e repetição dos sintagmas, das imagens sugestivas, das metáforas delicadas, das comparações entre elementos animais, vegetais e humanos, e também presença de outros recursos retóricos próprios de gênero lírico. Os aspectos épicos do romance estão relacionados com o assunto: o narrador anuncia que está relatando. Esta história é a lenda de Iracema, “a virgem dos lábios de mel”. Tal lenda no seio do povo nordestino a partir da luta pela colonização do Ceará e de outras regiões do nordeste brasileiro, no início do século XVII (D’ONOFRIO, 1990).
Em suas obras José de Alencar, em geral, idealiza a mulher como um ser amável, que busca lutar pelos seus ideais. Iracema luta contra todos e rompe com seus valores familiares para ficar com seu grande amor. Ela descumpre as leis do seu povo, não tem medo de ninguém, enfrentando seu deus e defendendo seu amado, mostrando assim, uma atitude de mulher guerreira e valente. Iracema inovou o perfil feminino daquela época, pois a sociedade antigamente era preconceituosa, as mulheres teriam que ser submissas ao marido e/ou a sua família, e Iracema rompe, com esse tradicionalismo, tornando-se independente para fazer sua própria escolha.
Alencar enfatiza, também, a beleza feminina representada pela bela índia de cabelos longos e negros, ou seja, a mulher representa a natureza, forte, pura, guerreira. Os poetas românticos idealizavam os índios como bons selvagens, cujos valores heroicos tomavam como modelo de formação do povo brasileiro. O conceito de indianismo no romantismo brasileiro seria que, os poetas visavam o índio como modelo ideológico e selvagem, um ser puro sem maldades, sem ambição ou qualquer interesse em adquirir riqueza (JOBIM, 2003), Alencar descreve em suas obras o perfil indianista.
No entanto, ao mesmo tempo Iracema é uma mulher frágil que se apega a esse amor, que sente ciúme e insegurança por medo de perder o grande amor e acaba morrendo de desgosto e saudade ficando apenas seu filho Moacir, “o filho de sua dor”, para seu amado cuidar. Iracema é forte, dona de sua vontade, mas se destrói doente de ciúmes e saudade de Martim, o grande amor de sua vida. É o ciúme que fala mais alto, é o medo de perdê-lo para outra, é o sentimento à flor da pele quando se deixa abater pelas dores do coração ela acaba morrendo tornando-se personagem do romantismo, já, que a mesma sofre por alguma ilusão e em consequência desse sofrimento morre. Por outro lado, Iracema é uma mulher romântica, mas que luta pelos seus ideais e sonhos. Traçando, assim o perfil da mulher idealizada do movimento romântico.
Referências
ALENCAR. José de. Iracema. 5 ed. Jaraguá do Sul-SC: Avenida, 2012.
BARBIERI. Ivo. Iracema contemporâneo da posteridade? São Paulo: Realizações, 2013.
CANDIDO. Antônio.  A personagem de ficção. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.
D’ONOFRIO, Salvatore. A época romântica da Era Moderna. In: ______. Literatura ocidental: autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1990.
JOBIM, José Luís. Formas da teoria. 2 ed. Rio de Janeiro: Caetés. 2003.
PRADO. Decio de Almeida. A personagem no teatro. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.
PROENÇA FILHO, Domício. O romantismo. In: ______. Estilos de época na literatura. 5. ed. rev. e aum. São Paulo: Ática, 1978.
SILVEIRA, Cássio. Iracema e a graciosa Ará: as metáforas e comparações entre personagens e natureza em “Iracema”. 2009. 190 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.





Bio fornecida pelo palestrante.

PARAGUAÇU, MOEMA E IRACEMA: RAZÃO E ESQUECIMENTO – Sandra Sacramento




 

Sandra  Sacramento

Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus

 

RESUMO: Pretendo, neste texto, ler as personagens Paraguaçu e Moema da epopeia Caramuru (1781) de Santa Rita Durão e Iracema (1865), de José de Alencar; à luz dos ensaios Dos canibais (1584) de Montaigne, Do contrato social (1762) e Emílio (1762) de Rousseau, em atenção ao delineamento da alteridade do índio no Novo Mundo (em Durão), e em especial da mulher (em Durão e Alencar). Em contraponto, cita-se a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), da escritora Olympe de Gouges, e o feminismo da terceira onda, quando este incorpora severa crítica à tradição ocidental.
 
Palavras-chave: Personagem feminina; Razão; Alteridade; Santa Rita Durão; José de Alencar.
 
ABSTRACT: Paraguaçu, Moema and Iracema: reason and forgetfulness has as its main goal  the reading of the characters Paraguaçu and  Moema, in the poem Caramuru (1781), by Santa Rita Durão, and the novel Iracema (1865), by José de Alencar. The article will be based on the essays Dos canibais (1584), by Montaigne, and Do contrato social (1762) and Emílio (1762), by Rousseau. It draws attention to the otherness of the Indians in the New World (in Durão) and especially the otherness of the woman (in Durão and Alencar). In addition, the Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), by the woman writer Olympe de Gouges will be compared to the feminism of the third wave when it brings a severe criticism to the Western  tradition.
 
Key words: Female character; Reason; Otherness; Santa Rita Durão; José de Alencar.
 
 
Minicurrículo : Sandra Sacramento é Doutora em Letras (Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). Atualmente, é professora titular (plena) em Teoria Literária, na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), onde coordenou o Programa em Letras: Linguagens e Representações, aprovado pela Capes, em 2007, e atua como membro efetivo do referido Programa. Desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Poitiers, na França, com a Profa. Dra. Ria Lemaire, em 2012-2013. É membre associé étranger do Centre de Recherches Latino-Américaines – ARCHIVOS, da Université de Poitiers, France, do GT Mulher e Literatura da ANPOLL e da Rede de Estudos Avançados em Leitura – RELER, grupo ligado à Cátedra UNESCO de Leitura da PUC/Rio.
 
 
PARAGUAÇU, MOEMA E IRACEMA:
RAZÃO E ESQUECIMENTO
 
Sandra  Sacramento
Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus
 
A tradição ocidental estruturou-se em bases racionais presos ao modelo da analogia. Diante do Novo Mundo, o europeu, quase sempre, ao lidar com o outro, muniu-se do princípio da similitude que o antecedia, trabalhando para a manutenção da imago mundi, isto é, mapa cartográfico, escrito em 1410, pelo teólogo francês Pierre d’Ailly, sobre o mundo além do continente europeu. Ainda que filósofos como Montaigne e Rousseau tenham escrito em favor da alteridade, esses não ficaram distantes da concepção monística, ou seja, teoria do conhecimento que dissolve os fenômenos, os acontecimentos em um apriorismo, que refuta a multiplicidade e a contingência. Neste texto, persigo os desencontros experimentados entre textos literários e filosóficos frente ao novo e desconhecido, no que diz respeito basicamente à mulher índia.  Pelo recorte a que me proponho, essa traz o alcance dos primeiros contatos do colonizador com a terra brasileira e sua gente, em que o sentimento amoroso despertado nas índias Paraguaçu e Moema de Caramuru de Santa Rita Durão e Iracema de José de Alencar, é capaz de se colocar submetido ao domínio cultural trazido pelo forasteiro. O modelo que se faz de pronto é o inspirado na Virgem Maria e depois na mulher burguesa, mãe de família, responsável pela esfera do privado, em eterna imanência; enquanto o homem responde pelo público, pelo político, por estar melhor adaptado segundo sua natureza (ROUSSEAU, 1755).
As índias Paraguaçu e Moema, da tribo dos antropófagos Tupinambá, são personagens da epopeia Caramuru de Santa Rita Durão, que se apaixonam pelo lusitano Diogo Álvares, náufrago na Ilha de Itaparica, no litoral baiano. É composta de X cantos, à maneira camoniana, de cunho propagandístico em louvor às grandes descobertas. No Canto II, ocorre o encontro entre a índia e Diogo. Paraguaçu é uma autóctone, de pele branca com traços finos e suaves. Apesar de não amar Gupeva, está na tribo por ter-lhe sido prometida. Como sabe a língua portuguesa, vai ao encontro de Diogo e apaixonam-se:
 
LXXXI
Deseja vê-lo o forte lusitano,
Por que interprete a língua que entendia;
E toma por mercê do céu sob’ramo
‘Ter como enteada o idioma da Bahia.
Mas, quando esse prodígio avista humano,
Contempla no semblante a louçania:
Pára um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo.
 
LXXXII
Só tu, tutelar anjo, que o acompanhas,
Sabes quando a virtude ali se arrisca,
E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Essa de insano amor doce faísca;
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias que nem na morte o tempo risca),
Que houvera de perder-se naquela hora,
Se não fora cristão, se herói não fora
 
LXXXV
Bela (lhe disse então), gentil menina,
(Tornando a si do pasmo, em que estivera)
Sorte humana não é, mas é divina,
Ver-me a mim, ver-te a ti na nova esfera.
Ela a frase, em que falo aqui te ensina;
Ela, se não me engana o que alma espera,
Um fogo em nos acende, que de resto
Eterno haja de arder, se arder honesto.
 
No Canto IV, ocorre a guerra entre Tupinambás, liderada por Gupeva, tendo a ajuda de outras tribos, como os Tupiniquis, Viatanos, Poquiguaras, Tumimvis, Tamviás, Canucajaras; contra os Caetés, liderada por Sergipe, tribo de Jararaca, com a ajuda de outras nações, como os Ovecates, Petiguares, Carijós, Agirapirangas e Itatise. Tal contenda se deve ao fato de Paraguaçu se encontrar prometida a Gupeva, mas Jararaca não aceita perder a índia para o último e se torna amigo de Diogo Álvares. O narrador faz elogios explícitos às tribos inimigas aos Tupinanbás, também antropófagas, por sua bravura, e, especialmente, em atenção às mulheres tapuias pela destreza na guerra:
 
XXVII
Quarenta mil de cor todos vermelha
Conduz ao campo o forte Sapucaia:
Dez mil, que têm furada a longa orelha,
São Amazonas de femínea laia:
É o amor conjugal que lhe aconselha
A descer dos sertões à vasta praia,
Por achar-se nos lances mais temidos
Ao lado, sem temor, dos seus maridos.
 
XXVIII
Brasa matrona de coragem cheia
A quem o márcio jogo não perturba,
Na forma bela, mas por arte feia,
Vai comandando na femínea turba:
Deram-lhe o nome os seus da grã-baleia,
Nome que, ouvido, os bárbaros disturba,
De namorados uns que a têm por bela,
Mas outros com mais causa por temê-la.
 
Nesta, Paraguaçu luta e vai acabar salvando o seu amor. Ainda no Canto IV, também Paraguaçu luta contra os Caetés e salva Diogo da morte:
 
XLVI
Paraguaçu, que de Diogo esposa
(Por que mais Jararaca se confunda)
Ia a seu lado a combater briosa,
Nem teme a multidão que o campo inunda:
Usa com ela a tropa belicosa
Da vulgar seta, do bodoque e funda
Leva a Amazona um rígido colete,
E coa espada de ferro o capacete.
 
No Canto VI, Diogo participa da guerra, da qual sai vitorioso. Por tal feito, muitos chefes indígenas lhe trazem suas filhas em agradecimento.
II
Muitos deles, dos povos subjugados,
Que o efeito viram da terrível chama,
Outros vinham somente convocados
Das heróicas ações, que conta a fama;
Trazem plumas e bálsamos prezados,
E outra rude opulência, que o povo ama,
E com os dons da americana Ceres
Oferecem-lhe as filhas por mulheres.
 
Moema é também conduzida:
IV
Tuibaé, dos Tapuias chefe antigo,
Tiapira lhe oferece celebrada;
E com a mão da filha deixa amigo
Uma ilustre aliança confirmada.
Xerenimbó trazia-lhe consigo
A formosa Moema já negada
A muitos principais, por dar-lhe esposo
Digno do trono de seus pais famoso.
 
Entretanto, Diogo prefere Paraguaçu:
 
VI
Paraguaçu, porém, com fé de esposo
Parecia estimar distintamente,
Mostrando-lhe no afeto carinhoso
A sincera afeição que n’alma sente:
Amava nela o peito valoroso,
E o gênio dócil, com que à fé consente;
Amor que ocasionou, como é costume,
Em algumas inveja e noutras ciúme.
 
No primeiro contato que Diogo tem com Gupeva, no Canto II, esse se apresenta solícito à doutrinação religiosa, pois, em uma gruta, reconhece a beleza da Virgem Maria.
 
XXVII
Mas entre objetos vários a que atende
Nota Gupeva extático a pintura
Que num precioso quadro, que ali pende,
Representava a Mãe da formosura:
Se seja coisa viva não entende,
Mas suspeitava bem pela figura
Digna a pessoa, de que a imagem era,
De ser mãe de Tupá, se ele a tivera.
 
XXVIII
“Esta (pergunta o bárbaro) tão bela,
Tão linda face, acaso representa
Alguma formosíssima donzela,
Que esposa o grão-Tupá fazer intenta?
Ou porventura que nascesse dela
Esse que sobre os céus no sol se assenta?
Quem pode geração saber tão alta?
Mas se há mãe, que o gerasse, esta é sem falta.”
 
XXX
Peçamos, pois que é mãe, que nos defenda,
Que te dê para ouvir dócil orelha
E contigo o teu povo recomenda. »
Dizendo o herói assim, devoto ajoelha.
Gupeva o mesmo faz com fé estupenda
E pendente de Diogo, que o aconselha,
Levanta as mãos, como ele levantava,
E, vendo-o lacrimar, também chorava.
 
No Canto VI, Diogo ergue uma capela em uma gruta, visando à catequese.
 
VIII
E, estando o sol no seu maior aumento,
Quanto sítio no ardor busca sombrio,
Numa lapa, que esconde alto mistério,
Foi achar para a calma o refrigério
 
XII
Capela ali se vê de entalho nobre,
Obrado com desenho estranho e vário,
Onde, efigiado em mármore, se cobre
Um natural belíssimo Calvário;
Vê-se a base da cruz, mas nada sobre,
De jaspe ainda melhor que Egízio, ou Pário,
E ao lado um posto em proporção distinta,
Onde a mãe e discípulo se pinta.
 
XIV
Eis aqui preparado (disse) o templo,
Falta n fé, falta o culto necessário;
E quanto era de Deus, feito contemplo
Tudo o que é de salvar meio ordinário.
Desta intenção parece ser exemplo
Este insigne prodígio extraordinário,
Onde parece que no templo oculto
Tem disposto o lugar e espera o culto.
 
Ainda no Canto VI, Diogo parte com Paraguaçu para a Europa em um barco francês; e, na saída da nau, as índias que foram preteridas por Diogo Álvares, acorrem ao mar na intenção de acompanhá-lo a nado; mas somente Moema consegue chegar mais perto e declara seu amor ao português:
 
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
 
Moema desabafa e clama por um homem que ela não encontra em Diogo, cujo modelo também não é o do indígena:
 
XXXVIII
“Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Faziam, raios, coriscos, que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco…
Ah que o corisco és tu… raio… penhasco?
 
XLI
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio… »
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
 
Não mais resistindo…
 
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
 
Mas, ainda brada:
 
“Ah Diogo cruel!” disse com mágoa,
E, sem mais vista ser sorveu-se n’água.
 
Tal como Moema, Iracema também morre. Perguntamo-nos se não estaria aí a chave para o entendimento de uma proposta mais equânime para a colonização e, consequentemente, para a relação estabelecida entre o homem/ branco/ europeu e o outro homem/ indígena/ do Novo Mundo; ou entre o primeiro e a mulher/ indígena/do Novo Mundo? No Canto VII, Paraguaçu, ao ser recebida na Corte pelos reis franceses, é batizada e recebe o nome da rainha Catarina de Médici, esposa de Henrique II.  No Canto VIII, na viagem de volta ao Brasil, sem antes parar em Portugal, Paraguaçu descreve a Bahia com suas terras, engenhos e fortalezas; e profetiza o futuro do Brasil, as invasões francesa e holandesa, sempre em favor das tropas portuguesas. E, em seguida, a empreitada colonizadora se adensa, confirmando o que já havia sido anunciado nos Cantos II e VI, acerca da catequese e da imposição de um modelo feminino espelhado à luz mariana. A volta do casal encontra-se narrada nos Cantos, VIII, IX e X.
Nestas narrativas, sobressai o imaginário europeu sobre o Novo Mundo, com sua gente e sua natureza, apoiando-se em uma gama de referências, que justificam a empreitada expansionista; ainda que, muitas vezes, ocorra a simpatia por aquela gente chamada de bárbara, diante da antropofagia, ou pelo fato de não identificar sinal de cobiça, entre os índios, como se confirma na estância a seguir, do Canto II.
 
XXVI
Acesa a luz na lôbrega caverna,
Vê-se o que Diogo ali da nau levara;
Roupas, armas, e entre parte mais interna
A pólvora em barris, que transportara,
Tudo vão vendo à luz de uma lanterna,
Sem que o apeteça a gente nada avara,
Ouro e prata, que a inveja não lhe atiça;
Nação feliz, que ignora o que é cobiça!
 
Aqui o colonizador, na voz do narrador, louva a ausência de cobiça no índio. Da mesma forma que, em Iracema, de José de Alencar são enaltecidos os valores cultivados pelos índios, mas, em grande medida, o que prevalece é o modelo do colonizador. Em relação à mulher, por exemplo, era esperada a submissão ao homem, (tal como aparece em Emílio, publicado inicialmente em 1762, por Rousseau, acerca do comportamento esperado para Sofia): –  Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araquém (p.176);  – Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor (p. 184); – O coração da esposa está sempre alegre junto de seu guerreiro e senhor (p.190). O mesmo podemos dizer em relação a ela dentro do casamento, como se confirma nas palavras de Poti:
 
A felicidade do varão é a prole, que nasce dele e faz seu orgulho; cada guerreiro que sai de suas veias é mais um galho que leva seu nome às nuvens; como a grimpa do cedro. Amado de Tupã é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; ele nada mais deseja senão a morte gloriosa (ALENCAR, 2006, p. 203).
 
Tais prescrições comportamentais não são as indígenas, como o reconhecimento do homem como senhor de obras, esposa e filhos (BOURDIEU, 2000). Entretanto, a índia, quando comparada à europeia, é colocada como menos casta que aquela: – Martim se embala docemente; e, como a alva rede vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores (2006, p. 161). Montaigne, no ensaio Dos Canibais, de 1580, século XVI, em estilo pouco ortodoxo de lidar com a alteridade, recorre a recursos argumentativos que tendem ao enaltecimento do modus vivendi indígena, vendo o canibalismo como subordinado a um ritual, em que o vencido não era desrespeitado. Aliás, o mesmo posicionamento aparece em Durão, na estância XVIII, do Canto I:
 
XVIII
Que horror da humanidade! ver tragada
Da própria espécie a carne já corruta!
Quando não deve a Europa abençoada
A fé do Redentor, que humilde escuta!
Não era aquela infâmia praticada
Só dessa gente miseranda e bruta:
Roma e Cartago o sabe no noturno
Horrível sacrifício de Saturno.
 
Neste passo, o autor faz menção ao canibalismo ocorrido entre os lestrigões e os repártanos, povos da Roma antiga, bem como entre os fenícios e os cartagineses. Montaigne, por sua vez, munido de leituras sorvidas em passagens dos Commentaires de Monluc de 1561, com abonações também de Platão e de outros representantes da Antiguidade e mesmo de comentadores do período românico, não deixa de ressaltar as atitudes pouco humanas dos seus ancestrais conterrâneos anteriores à Idade Média. E, diante dos embates religiosos da Europa quinhentista, se indagava:
 
J’ai pensé qu’il y a plus de barbarie à manger un homme vivant, qu’à le manger mort; à déchirer par tourments et par genes, un corps encore plein de sentiment, le faire rotir par le menú, le faire mordre et meurtrir aux chiens, et aux pourceaux  (comme nous l’avons non seulement lu, mais vu faiche mémoire, non entre des ennemis anciens, mais entre des voisins et concitoyens, et qui pis est, sous prétexte de piété et de religion) que de le rotir et manger après qu’il est trépassé (MONTAIGNE, 2002, p. 366,367).
 
[Pensei que há mais barbárie em devorar um homem vivo do que assá-lo e devorá-lo depois de morto; em despedaçar suas carnes por tormento e tortura, em um corpo ainda repleto de sentimento, incorporado ao cardápio, mordido e machucado por cães e porcos (como não apenas lemos, mas vimos recentemente, não entre antigos inimigos, mas entre vizinhos e concidadãos, e o que é pior ainda, sob o pretexto de piedade e de religião) (MONTAIGNE, 2002, p. 366, 367) (tradução minha)].
 
Colocando, assim, em discussão, a suposta racionalidade europeia, tendo sido visto por Lévis Strauss como afeito ao pensamento do que seria a antropologia posteriormente. Por isso, quando se refere ao relacionamento entre os índios com suas mulheres, coloca-os sempre numa dimensão humana, que crê no transcendente. Para os índios, havia dois preceitos sagrados: la vaillance contre les ennemis, et l’amitié à leurs femmes [a vigilância contra os inimigos e a amizade às suas mulheres]. Enquanto os homens se ocupavam da caça, as mulheres permaneciam na tribo e s’amusent cepandant à chauffer leur breuvage, qui est leur principal office [divertindo-se durante a fermentação de sua bebida, cuja elaboração é a sua principal função na tribo] (MONTAIGNE,2002, p. 364). Ao colocar o índio como humano, detentor de valores, Montaigne dá sinais de uma teoria que posteriormente será defendida por Rousseau, o monogenismo, isto é, de que todo ser humano nasce igual, em estado de natureza, apto à perfectibilidade, ao aperfeiçoamento; não sendo a civilização europeia melhor, pois detectavam-se problemas nesta, e chama a atenção para uma humanidade una, entretanto, múltipla em seu desenvolvimento, em seus caminhos escolhidos. Em O contrato social (1762), no capitulo II, Des premières sociétés, logo no início, vai dizer: la plus ancienne de toutes les sociètés et la seule natirelle est celle de la famille (ROUSSEAU, 2011, p.10). E, depois, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da diferença entre os homens (1775) coloca a vontade geral, instância de Liberdade, como corpo soberano dos cidadãos.
 
(…): o pacto fundamental, em lugar de destruir a igualdade natural, pelo contrário substitui por uma igualdade moral e legítima aquilo que a natureza poderia trazer de desigualdade física entre os homens, que, podendo ser desiguais na força ou no gênio, todos se tornam iguais por convenção e direito (ROUSSEAU, 1762/1989, p. 28) (tradução minha)
 
Tanto Santa Rita Durão, quanto Montaigne se baseiam em textos publicados anteriormente, de literatura de viagem, como Les Singularitées de la France antarctique de 1557 e Cosmographie Universalle de 1575, ambos de André Thevet; além da Histoire d’un voyage faiten terre de Brésilde 1578 de Jean de Léry. Os dois últimos participaram da expedição de Villegagnon, quando da invasão francesa no Rio de Janeiro. Mas tal raciocínio ocorre pela própria dificuldade enfrentada pelo filósofo em dirimir, basicamente, o interesse, princípio que rege a vida em sociedade. Rousseau, ao afirmar que «O homem (= humanidade) nasce livre, mas por toda parte encontra-se posto a ferros», coloca um dispositivo aplicável a qualquer ser humano e, ao mesmo tempo, limita a escolha por voto, no sistema democrático, a uma minoria, tida como maioria, deixando a maioria, vista como minoria, sempre sem voz, em nome do bem comum; porque o Estado, em síntese, encerra o interesse de todos. Logo, a própria engrenagem política está impossibilitada de atender a todos, instaurando-se assim a alienação, isto é, tornam-se o outro a partir do olhar do mesmo; não havendo possibilidade de intervir na ordem social, experimentando o rechaço, independente do gênero a que pertença. Por isso, feministas como Olympe de Gouges, entre outras, se insurgiram contra a noção rousseriana da vontade geral, porque perceberam que tanto o escravo quanto a mulher encontravam-se submetidos à hierarquização dos pares dicotômicos da razão iluminista; ainda que a República francesa tenha-se utilizado, em bustos, medalhas, moedas e pinturas da Marianne, figura emblemática da mulher do povo, como forma de disseminação representativa do credo liberal; mas, na prática, a mulher foi usurpada da cidadania e restou-lhe somente a sublimação simbólica de uma exclusão de fato (AGULHON, 1979). Assim, a mulher, como outras minorias, foi deixada em posição inalterada, tidas como moralmente neutras (DUMONT, 1966). Hoje, por outro lado, vivemos na era do desencanto em relação a qualquer relato, colocando por terra a crença no progresso, na superação, pois esses não foram alcançados no passado, na medida em que o protocolo de ação encerrava-se no domínio da natureza e de humanos sobre outros humanos. Resta-nos, reivindicar em processo simbólico de negociação, relações de gênero mais equânimes, rumo ao empoderamento, não a partir de um paradigma imposto, à luz de interesses que não nos dizem respeito, como ocorreu no passado com Paraguaçu, Moema e Iracema, mas, em contexto cuja representação de gênero esteja atravessada pelo cognitivo (da razão das sombras), pelo avaliativo (do querer) e pelo afetivo (do psíquico), como fatores psicossociológicos ligados à prática relacional da comunicação, indo muito além do binarismo do ou, ou; como nos fala Butler:
 
A tarefa crucial do feminismo não é estabelecer um ponto de vista fora das identidades construídas (…). Sua tarefa crucial é, antes, a de situar estratégias de repetição subversiva facultadas por essas construções, afirmar as possibilidades locais de intervenção pela participação precisamente nas práticas de repetição que constituem a identidade e, portanto, a possibilidade imanente de contestá-las (BUTLER, 2008, p. 212).
 
Portanto, ao entender a agência, como um processo de ressignificação mediada, essa se apresenta de modo contrário ao essencialismo racional e acena, por isso mesmo, com uma outra forma de a mulher estar no mundo. Somente assim, Olympe de Gouges poderá ser atendida em sua Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, de 1791.
 
Considerações finais:
Os gregos chamavam de bárbaros aqueles que não falavam o grego. Tal comportamento humano coloca em evidência a dificuldade em lidar com a diferença, sempre uma ameaça a uma ordem instituída. Por isso, os povos não europeus foram esquadrinhados à luz de uma racionalidade que se queria eterna, sempre tendo o modelo anterior do que fosse cultura, homem, mulher em analogia ao previamente estabelecido. E não foi sem dificuldade assim o olhar europeu posto sobre o habitante do Novo Mundo. Ainda que Montaigne e Rousseau tenham se colocado, a princípio, como defensores de uma ordem natural, contrária à civilização, esses acabaram endossando a manutenção de papeis hierarquizados prévios como civilizado/bárbaro, homem/mulher. Tal princípio epistemológico-interpretativo estruturou a imago mundi, isto é, a imagem discursiva que se tem do mundo, de que esse deve ser como é, marcada por uma necessidade, por uma lógica interna que elimina a contingência, a multiplicidade; isso porque ocorre a absolutização do espaço, em favor do tempo, em sua perspectiva continuísta. Desse modo, nega-se a possibilidade de ruptura no tecido da tradição, fazendo com que os episódios, os acontecimentos, as histórias se fundam numa única História. Logo, restou às índias Paraguaçu, Moema e Iracema a submissão e a vassalagem na medida em que a primeira teve de se adequar à imposição colonizadora para ser aceita no imaginário estabelecido previamente para ela; enquanto as duas seguintes encontraram a morte como recompensa à empreitada expansionista, em que a relação de gênero estabelecida com o forasteiro esteve, antes, atravessada pelo domínio cultural.
 
Referências:
AGULHON, M. Marianne au combat. L’imagerie et la symbolique républicaines de 1789 à 1880. Paris: Flammarion, 1979.
AILLY, P. D’. Imago mundi [Reprod.]. Louvain: J. de Paderborn, 1483. Disponível em: <http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb40223090r/PUBLIC> Acesso em: 20 out 2014
ALENCAR, J. Iracema: lenda do Ceará. Cotia (SP): Ateliê Editorial, 2006.
BOURDIEU, P. La dominación masculina. Traducción de Joaquín Jordá. Barcelona: Editorial Anagrama, 2000.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
DUMONT, L. Homo hierarchicus. Essai sur le système des castes. Paris: Gallimard, 1966.
GOUGES, O.  Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791). Paris: Mille et Une Nuits, 2003.
MONTAIGNE.  Des Cannibales (1584). In: Essais.  Livre Premier. Paris: Librairie Générale Française, 2002.
ROUSSEAU, J-J. Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes (1753). Paris: Flammarion, 1971.
ROUSSEAU, J-J. Du contrat social (1762). Livres I et II. Paris: Hatier, 2011.
ROUSSEAU, J-J. Émile ou de l’éducation (1762). Paris: Flammarion, 2009.
SANTA RITA DURÃO. Caramuru (1781). Virtual Book: Formato: e-book/ PDF-Código: VBOCARAMURUPOEMAEPICO© Virtuais Books, 2002.





Bio fornecida pelo palestrante.

AS FIGURAS FEMININAS NAS OBRAS REGIONAIS DE AFRÂNIO PEIXOTO – Helena Maria Alves Moreira




 

Helena Maria Alves Moreira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
RESUMO: Este artigo tem como perspectiva identificar as representações da mulher, seus costumes, suas tradições, seus pertencimentos, através das figuras femininas das personagens que Afrânio Peixoto imprimiu em seus romances. Também são abordados aspectos da educação das mulheres no início do século XX, e sua influência nas transformações socioculturais ocorridas desde então, com ecos na literatura brasileira. O tema desta pesquisa é o estudo da obra literária de Afrânio Peixoto sobre gênero literário – os romances regionais – com um olhar voltado para as personagens femininas de seus romances. É relevante refletir sobre a representação e a valorização da mulher no seu cotidiano feminino naquela e em outras épocas ou regiões do Brasil, para que possamos revisar obras já consagradas pela literatura brasileira, na intenção de reconstruir o passado, numa singela tentativa de identificar a pluralidade da identidade feminina. Este desafio a um tempo nos remete ao passado e o liga ao presente.
Palavras-chave: Afrânio Peixoto; Literatura Brasileira; Representações da Mulher; Século XX
ABSTRACT: This article proposes to identity representations of women, their customs, their traditions, their belongings through the characterization made by Peixoto in his novels.  It will also discuss aspects of women’s education in the beginning of the 20th Century and its influence on the social-cultural transformations then occurred which had echoes on Brazilian literature. The theme of this research is the literary work of Peixoto on literary genre – the regional novels – with a special regard to his female characters. It is relevant to think on the representation and empowerment of women and their actions in everyday life in different epochs and regions of Brazil. This enables us to revise the canon of Brazilian literature, in an attempt to reconstruct the past and thus find the plurality of feminine identities. This defy will link the past to the present.
Keywords: Peixoto; Brazilian literature; Representations of Women; Twentieth Century.
Minicurrículo:


AS FIGURAS FEMININAS NAS OBRAS REGIONAIS DE AFRÂNIO PEIXOTO
Helena Maria Alves Moreira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
 
Introdução
No dia 14 de dezembro de 1876, nascia no sobrado de uma casa em Lençóis o futuro médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista e historiador baiano Afranio Peixoto. Exatos 94 anos depois, no mesmo espaço, é instalado um dos mais importantes espaços culturais da Chapada Diamantina: a Casa Afrânio Peixoto. Ele teve uma passagem pela política quando foi eleito deputado federal pela Bahia, ficando no cargo no período de 1924 a 1930. Após, voltou à atividade do magistério sendo professor de História da Educação no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1932. Foi reitor da Universidade do Distrito Federal em 1935 e, após 40 anos de relevantes serviços, aposentou-se. Segundo os sua biografia pela ABL, era dotado de personalidade fascinante, animada e tinha excelente domínio da oratória. Prendia a atenção das pessoas e dos auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Obteve, na época, grande aprovação de crítica e prestígio popular.
 
A Representação da Mulher no Século XX
Aprisionada numa representação sempre associada à figura materna e dona do lar, às mulheres cabia à vida cotidiana, sem acesso à educação, conforme publicação da Liga de Ensino em 1911, na conferência de mesmo ano sobre a “Educação da Mulher” considerando-a essencial para reger a educação de seus filhos:
É ela que vai encarregar-se da formação do caráter dos nossos filhos, do desenvolvimento racional da saúde, da inteligência, da vontade dos pequeninos seres de hoje, mas cidadãos d’amanhã, responsáveis pelos destinos da pátria (FERNANDES, 1911, p. 1).
 
A representação da mulher no Brasil no início do século XX era de educadora da primeira infância. As mulheres lutavam de várias maneiras pelo respeito e credibilidade, mas a cultura hegêmonica da época insistia para que essa ideia de mulher frágil e incapaz intelectualmente se perpetuasse como verdade. À luz dessa perspectiva, Peixoto  afirma que a mulher devidamente instruída tornaria-se alvo de desejo e respeito perante a sociedade. Um exempo desse pensamento se destava no livro de sua autoria Ensinar a Ensinar:
Sua educação, instruída nas artes e nas ciências, deu-lhe boas ideias e belas palavras, com que abriu a bôca à sabedoria e por isso a aclamam seus filhos, e a louva seu marido, e a admiramos todos nós, e vós, minhas senhoras, vós a deveis invejar e imitar (PEIXOTO, 1937, p. 32).
 
No livro supracitado, Peixoto faz uma abordagem crítica ao modelo de ensino oferecido no início do século XX no Brasil em função da dificuldade de acesso dos mais humildes a níveis mais elevados de estudos. A educação da época privilegiava apenas os mais ricos dando-lhes oportunidades que nem sempre condiziam com suas reais abilidades.
 
 
Os Romances Regionais
Neste trabalho foram analisados três de seus romances: Maria Bonita, Sinhazinha e Bugrinha. As chamadas obras regionalistas  mostravam as contradições e conflitos de um Brasil que se queria moderno, urbano e industrializado, mas guardava também traços arcaicos em sua diversidade regional. O Brasil não era composto somente de cidades retratadas comumente pelo homem comum e seus problemas sociais, havia também o campo, dominado por uma sociedade patriarcal em decadência. Assim como os autores da literatura proletária, os autores regionalistas tinham uma preocupação sociológica e documental, distinguindo-se dos modernistas com seu experimentalismo estético.
O mercado editorial do Rio de Janeiro vivia em plena ebulição A vida literária das rodas da sociedade brasileira principalmente na capital eram representadas por obras publicadas, nos periódicos de grande circulação como O Paiz e A Gazeta. Dentre as obras literárias publicadas no início do século XX, destacam-se em 1902, Canaã de Graça Aranha;  Os Sertões, de Euclides da Cunha; não podemos deixar de destacar sobre as obras de Aluísio de Azevedo já vinha lançando suas obras naturalistas desde o final do século XIX: O Mulato, em 1881; Casa de Pensão, em 1884, e O Cortiço, em 1890 – somente para citar as principais. Machado de Assis (1839-1908) publicara quase toda sua obra em fins do século XIX, ambientando suas tramas à vida urbana carioca da classe média e tendo sua análise centrada nos aspectos psicológicos das personagens; em 1909, Lima Barreto acabara de fazer sua estreia como escritor ao lançar Recordações do escrivão Isaías Caminha, publicada em Portugal, no qual narra à história de um homem do interior que vem para a capital tentar ser médico e acaba jornalista de onde investe na vida cotidiana da redação e da imprensa.
A análise das obras de um mesmo autor vem sendo uma das estratégias de alguns pesquisadores. Os romances são em sua maioria baseados em recordações e experiências vividas pelo próprio autor, carregados de profundo sentimentalismo, de lembranças remotas, mas que na realidade, são consideradas ficção. Este caráter ficcional, no entanto, expressa relações de poder que buscam definir o que pode ser entendido como um conjunto de possibilidades passíveis de disputas intelectuais sufocadas por um enredo que envolve uma trama complicada, intrincada e complexa em toda sua essência. O que está contido em seu interior percebe-se um conjunto de conceitos e ideias, formadas por um argumento formado de matéria, objeto, questão, temática, que carregam consigo um sentido já que possuem um significado em comum. No entanto, sua total compreensão jamais será feita, na medida em que nenhum sentido pode ser totalmente decifrado, a sua real significação estará sempre permeada de dúvidas. Nenhum compartilhamento de palavras ou de experiências é pleno ou sem conflitos, ainda que pudéssemos compreender pelo outro exatamente como supomos que o outro quisesse se expressar.
Em romance intitulado Maria Bonita, lançado em 1914, Afrânio Peixoto recebe inúmeros elogios pelo também escritor Afrânio Coutinho na introdução de sua obra, principalmente em relação à caracterização das personagens, fazendo-se entender que o lado romântico de escritor de Afrânio Peixoto sobressai ao do médico Afrânio na descrição de suas personagens:
Dos sete romances que escreveu Afranio Peixoto, os do grupo sertanejo superam os da cidade. E deles a obra-prima é Maria Bonita. Sua técnica de caracterização aperfeiçoou-se, o escritor perdendo a rigidez dos fenômenos psicológicos da mulher para adotar uma visão mais equilibrada dos fenômenos psicológicos da mulher (PEIXOTO, 1914, Nota Introdutória).
 
O romance, denso e consistente, quebra sua austeridade quando descritas as belíssimas paisagens do sertão baiano. Mas como o próprio Afranio aponta nas notas do autor, teve o lugar retratado, um infeliz episódio, quando em 1914 uma cheia diluviana, como descrever, desfigurou completamente a região do rio Pardo afogando e destruindo prósperas fazendas de cacaueiros. Num relato carregado de tristeza, Afranio desabafa,
O Jacarandá quase já não existe, na ruína geral do que o homem plantou e construiu o próprio rio não achou mais o leito secular. Outro, bárbaro e inculto, o Pardo anda agora, a espaços, por alheias paragens, em busca de um perfil de equilíbrio (PEIXOTO, 2002, Notas).
 
Em Maria Bonita, a personagem principal que dá título ao romance sofre durante toda a vida, o fardo de ser bonita. Detentora de uma beleza que atra^`
s vizinhos, e por vezes havia tanta gente a olhar o padre como a fitar a menina. (…) Perdera (o irmão) já a paciência e não se esquecia de desabafar-se quando chegava em casa:
– Não saio mais com esta lambisgoia! Para toda a gente a vê-la e a lhe dizer uma graça. Parece melado, que todas as moscas procuram. E a sonsa via mostrando os dentinhos… (PEIXOTO, 2002, p. 13).
 
O romance Maria Bonita difere dos demais pelas inúmeras trovas transcritas ao longo do livro e, cujas autorias são “empréstimos” de cantores famosos da região como Fabião das Queimadas e Manuel Tavares como explica o próprio Afranio, “escusava inventar tipos e lhes atribuir versos alheios, se a realidade me oferecia exemplos e exemplares acabados, dessa genuína arte popular, a que aludi” (PEIXOTO, 2002, Notas).
As trovas geralmente são feitas por repentistas. A presença de repentistas é muito comum em toda Região Nordeste do Brasil. Repentista refere-se em geral a um poeta popular, um improvisador que, a partir de um mote debita espontaneamente um poema em forma de repente. Assim se apresentava outro personagem verídico da história, Terêncio Martins da Silva, apelidado de “o funileiro trovador”.
O livro tem um final surpreendente. O drama psicológico que vive a personagem ao longo da história acaba levando-a a atentar contra a si própria, atormentada pelo pensamento de que tudo era consequência de sua amaldiçoada beleza. De todos os seus romances esse, talvez seja o mais fiel em relação ao lugar onde nasceu na Chapada Diamantina, região dos Lençóis na Bahia, mas é em Sinhazinha que Afranio, além da descrição de suas paisagens, mescla ficção e realidade quando da caracterização de suas  personagens.
A comparação entre as cidades de Lençóis e Paris nos permite entender o status que sua cidade natal representa para ele. Percebe-se também, claramente a crítica quanto à exploração de diamantes que são desde muito, extraídos e exportados, degradando a paisagem e explorando os que lá vivem, “Lençóis corresponde-se com Paris: tudo nos vem de lá, e para lá vai o nosso diamante…” (PEIXOTO, 2002, notas).
Assim como as demais personagens femininas, Bugrinha, a personagem principal do livro que leva o mesmo nome é descrita em sua essência como “indócil e geniosa, descrita, pele morena, cabelo e olhos muito negros, dentinhos brancos, indiferente à dor, resistente a dificuldade, insubmissa, às vezes caprichosa…” (PEIXOTO, 2002, p. 41). O sentido de insubmissa não quer dizer, no entanto, que seja desrespeitosa com os pais, mas sim, de uma mulher que acima de tudo sabe o quer e deseja e luta para alcançar seus ideais. Talvez por isso, o romance tenha alcançado tanto sucesso perante as mulheres da época do lançamento deste em 1914.
Quando em Paris, no ano de 1928, Peixoto escreve outro romance de cunho regional, Sinhazinha, que explora o homem simples, do campo. Remonta à história de amor entre a caçula de um grande fazendeiro do interior da Bahia que tinha seu destino traçado a se casar com um indivíduo de uma família rival como acordo de famílias, como era comum aos costumes da época e da própria região. O aparecimento de um caixeiro viajante traz toda uma nova perspectiva à personagem principal. Ao longo da trama, através de sua humilde e de atitudes perseverantes, o caixeiro conquista a amizade e a confiança de todos que estão ao seu redor, principalmente de Clemência, carinhosamente apelidada de Sinhazinha.
Neste romance, Peixoto dedica especial atenção às descrições das paisagens campestres, assim como relata com riqueza de detalhes às festividades populares e todas as superstições que as rodeiam. O enredo é pitoresco quando se trata da relação entre famílias rivais onde as questões de honra são também tratadas como questões de vida e morte. No sertão brasileiro são comuns às rivalidades entre famílias, e por isso surgem inúmeras histórias de ficção baseadas num mesmo enredo. Neste livro, segundo o escritor Fernando Sales, o romance retratado no livro Sinhazinha teve por base um fato verídico:
Afrânio Peixoto ouvindo descendentes dos dois lados, cada qual narrando a sua versão, concebeu a sua Sinhazinha, a seu modo, baseado na vindita entre Mouras e Canguçus, situando sua condição de autor à de ouvinte dos dramas que se sucederam entre as margens do Paraguaçu e do Rio de Contas: “como não pretendi dar sentença – não sou juiz –, nem a causa estava em julgamento –, informei-me e, seguro da minha verdade – que o ódio é mais duradouro do que o amor, pois transmite por gerações – tratei de ser imparcial… (PEIXOTO, 1975, Introdução).
 
       As duas famílias retratadas no livro são figadalmente inimigas marcadas pelo ódio entre as famílias. E, para fugir do destino traçado, a personagem teve a coragem de enfrentar o pai, austero fazendeiro, que já havia prometido o futuro da filha como o trecho a seguir:
(…) no dia em que a filha faz dezesseis anos, fá-la jurar que não casará senão depois que nenhum Moura a pretenda, e eles só a podem pretender pela força. O romance materno será continuado por uma tragédia filial. Ali entrou o amor, mas o ódio continuou e é ele agora que dá pretexto à lealdade. Certo da palavra da filha – se não lha desse, de boamente, de mau modo a tomaria – manda recado aos parentes. Eles têm o direito à vingança: venham buscá-la. Nos mesmos termos. O sacrifício está pronto. É para qualquer dia destes… (PEIXOTO, 1975, p. 82).
 
       Quando da fala “o sacrifício está pronto” as mulheres eram assim comparadas ao pagamento de uma dívida como, uma cabeça de gado, ou entrega de um animal qualquer, no qual seu destino não tivesse a menor importância. A personagem de Dona Emília, matriarca da família, esposa do Coronel que apesar de obedecer e fazer todas as vontades do marido, atitude muito comum às mulheres da época, fazia suas vontades e seus desejos prevalecer, através de um jogo de poder atrelado a um discurso sutil, porém, convincente.
As mulheres das fazendas por se encontrarem mais afastadas dos grandes centros, s  tinham suas vidas voltadas para o cuidado os afazeres de “dona do lar”, assim como o cuidado com o marido e os filhos sem, no entanto, receber qualquer elogio ou sequer agradecimento por isso. Os rapazes que frequentavam as cidades e por isso tinham acesso às inovações, a cultura, aos costumes vindos da Europa, conquistavam grande admiração e fascínio entre as mulheres, pois faziam contraste ao homem rude do campo e por isso chamava-lhes tanto a atenção. No cenário mais agreste de seus romances fica a dúvida onde acaba a realidade e começa a ficção.
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
Os romances de Afrânio Peixoto foram mais do que simples histórias para entreter as moças da época, são verdadeiros relatos de como era a vida no interior do sertão baiano no caso dos romances carregados de regionalismo como Maria Bonita e Bugrinha e Sinhazinha. As histórias relatavam os costumes das famílias mais tradicionais, principalmente suas relações com as filhas, cujas protagonistas eram pessoas fortes e decididas capazes de romper barreiras comuns à época como a predestinação aos casamentos arranjados ou à conduta que causavam estranhamento à sociedade ou à comunidade onde viviam. Considerando que às mulheres eram em sua maioria educadas para serem submissas, recatadas e voltadas unicamente para o lar, o acesso às obras literárias onde às mulheres são destemidas e lutam pelo direito de amar e ser feliz era raro mas das mulheres que tinham esse privilégio lhes era permitido ao menos o direito de sonhar.
Através da análise das suas personagens, mulheres que existiram de fato ou foram obra da imaginação do autor, perecebemos, a história das relações familiares, da literatura, da violência, da sexualidade, enfim, dos sentimentos e suas representações.   As obras não se contentam apenas em separar as vitórias das derrotas das mulheres e sim, retratar o universo feminino nos seus mais diversos espaços como a zona rural, as sinhazinhas, as burguesas, etc. É compreender que ser um a mulher no Brasil é uma construção de imagens e valores que atravessam os anos, décadas e séculos em diferentes espaços geográficos, dada a diversidade cultural existente em nosso país.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERNANDES, S. O problema: a Liga do Ensino I, A República, 1911
PEIXOTO, Afranio. Ensinar a ensinar: ensaios de pedagogia aplicada à educação nacional. 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.
PEIXOTO, Afranio. Noções da História da Educação. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942.
PEIXOTO, Afranio. Sinhazinha. São Paulo: Clube do Livro, 1975.
PEIXOTO, Afranio. Bugrinha. São Paulo: Clube do Livro, 1975.
PEIXOTO, Afranio. A Esfinge. São Paulo: Clube do Livro, 1978.
PEIXOTO, Afranio. Maria Bonita. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 2002. (Coleção Prestígio).





Bio fornecida pelo palestrante.

A PROBLEMÁTICA DA SECA NO CEARÁ REFLETIDA EM O QUINZE – Yls Rabelo Câmara, Yzy Maria Rabelo Câmara




 

Yls Rabelo Câmara

Universidad de Santiago de Compostela

 

Yzy Maria Rabelo Câmara

Universidad John Kennedy

 

 
RESUMO: Neste trabalho buscamos mostrar a realidade obscura que há por trás da indústria da seca no sertão nordestino. Assim, no levantamento bibliográfico que efetuamos, inicialmente apresentamos os campos de concentração que foram construídos como campos de contenção. Em seguida, voltamos nosso olhar para a contextualização dos mesmos e o reflexo da calamidade da seca em O Quinze (1930), obra-prima desta que é uma das escritoras brasileiras mais importantes de todos os tempos, a segunda mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras: Rachel de Queiroz.
 
Palavras-chave: Seca, Campos de Concentração, Nordeste Brasileiro, O Quinze.
 
ABSTRACT: This paper aims to show the dark reality existing behind the drought industry in the Brazilian sertão. Thus, in the bibliographical survey that we reviewed, we first focus on the concentration camps that were built as containment places. Later, our attention is turned to their contextualization and the reflection that the drought calamity had on Rachel de Queiroz’s masterpiece O Quinze (1930). She is one the most important Brazilian writers of all times, and the second woman to be elected to the Brazilian Academy of Letters: Rachel de Queiroz.
 
Keywords: Drought, Concentration Camps, Northeastern Brazil, O Quinze.
 
MINICURRÍCULO: Yls Rabelo Câmara é licenciada em Letras Português-Inglês, tem especialização no Ensino de Línguas Estrangeiras – Inglês – pela Universidade Estadual do Ceará, e é Mestra e Doutora em Filologia Inglesa pela Universidad de Santiago de Compostela. Lecionou idiomas em cursos livres no Brasil e na Espanha, e atualmente na graduação e na pós-graduação em universidades do Ceará e do Piauí.
 
MINICURRÍCULO: Yzy Maria Rabelo Câmara é licenciada e bacharel em Psicologia pela Universidade de Fortaleza e bacharel em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará. É mestra em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará e doutoranda em Psicologia Social pela Universidad John Kennedy, de Buenos Aires. Foi professora em IES cearenses e piauiense e atualmente leciona no Centro Educacional Estácio do Ceará.
 
 
A PROBLEMÁTICA DA SECA NO CEARÁ
REFLETIDA EM O QUINZE
 
Yls Rabelo Câmara
Universidad de Santiago de Compostela
 
Yzy Maria Rabelo Câmara
Universidad John Kennedy
 

  1. MEDIDAS INEFICAZES CONTRA A SECA NO NORDESTE

Tal como afirmam Oliveira (1994) e Silva e Bastos (1986), sempre houve dois “brasis” dentro do mesmo Brasil: um próspero, refinado e litorâneo; o outro, rudimentar, inculto e sertanejo. Conforme Câmara e Câmara (2015), a economia nordestina sempre esteve baseada na agricultura e na pecuária. Infelizmente, tanto uma quanto a outra vêm sendo prejudicadas pelas secas sazonais próprias da região.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, as secas e os flagelados delas surgidos cristalizaram-se na memória dos brasileiros como uma simbiose atrelada à decadência. Em contrapartida, de acordo com Castro (2010), o século XIX, impulsionado pela Revolução Industrial, trouxe consigo ares de modernidade, requinte e cultura para quem não conhecia as agruras da fome causada pela longa estiagem. A cidade de Fortaleza, na época, experimentava, segundo Silva e Bastos (1986), o descompasso que a maioria das demais capitais brasileiras vivenciava: ainda que buscassem a evolução, estavam fincadas na pobreza de uma parcela considerável de sua população e, no caso das capitais nordestinas, dos habitantes do sertão. O atraso socioeconômico era pautado na política oligárquica que reforçava a condição miserável do binômio clientelismo-coronelismo em detrimento do sertanejo, que, quando muito, apenas dispunha da agricultura de subsistência.
Aliada ao sistema hegemônico do governo de então, como defendem Câmara e Câmara (2015), a Igreja atuava na manutenção da ordem, mas se encontrava também em crise naquele momento, mais propriamente desde que se iniciara a projeção de ideologias marxistas, positivistas, liberais e maçônicas, além do fortalecimento do Cristianismo rústico, que incentivava a construção de açudes, cacimbas, cemitérios, capelas e “casas de caridade” através da presença de líderes influentes como Antônio Conselheiro e Padre Cícero.
Diante deste cenário, Farias (1997) afirma que a seca significa para o sertanejo um período de descontinuação. Para aplacar os efeitos drásticos da estiagem, levas de nordestinos migram de seus territórios de origem para outros menos inóspitos em busca de oportunidades de (sub) emprego, fenômeno que provoca desajuste social por impactar negativamente na economia (NEVES, 1995). A famigerada seca de 1877 (que se estendeu até 1879) foi de tal proporção devastadora que provocou o êxodo massivo de sertanejos cearenses, conforme Costa (2010) e Farias (1997), dos mais distantes e diversos municípios até a capital e a pé, com a esperança de melhores condições de vida. Neves (1995) coloca que, diante do crescente número daqueles retirantes, que já contabilizava um número quatro vezes maior do que a população de Fortaleza, o caos se instalou: saques ao comércio local, desordem, epidemias, delinquência e prostituição em troca de comida.
O poder público criou, então, estratégias de enfrentamento. Por trinta e oito anos, foram utilizadas tecnologias simples de distribuição de alimentos em locais reservados aos retirantes, que foram denominados “abarracamentos”. Segundo Neves (1995) e Farias (1997), além do envio de provimentos alimentícios, o governo promoveu ações isoladas e pouco efetivas de movimentos sanitaristas e, com o empenho da Igreja e de membros da sociedade local, buscou a moralização das condutas dos sertanejos. Houve também, por parte do poder público e da iniciativa privada, ações de isolamento, fazendo com que o retirante recebesse passagens para migrar país adentro e assim abandonasse os grandes centros urbanos.
O movimento migratório periódico de retirantes para a capital passou a ser constante nos momentos de intensidade das estiagens, conforme Barreto (1990) e Farias (1997), devido à falta de políticas públicas que dessem aos cidadãos condições mínimas de permanência e sobrevivência em seus territórios de origem. A partir do século XIX, com o fortalecimento de conhecimentos sanitaristas e sociais, passou-se a acreditar que o adoecimento físico e/ou mental estava diretamente relacionado com os miasmas, com os lugares infectos com as águas poluídas, segundo a perspectiva hipocrática do saber médico. Tal revelação provocou a necessidade de criação de mecanismos para conter a população que adentrava os limites da capital cearense à revelia, trazendo, com sua presença, micro-organismos malsãos.
No ano de 1859, Farias (1997) aponta que o engenheiro Adolfo Hebster elaborou a primeira organização urbana de Fortaleza, que comemorava a prosperidade da província e a ausência de três décadas sem o fenômeno da seca. Este movimento coincidiu com o momento histórico em que a capital buscava se inserir no padrão de aformoseamento característico da Belle Époque. Esta marcava o final do século XIX e o início do século XX com a construção de praças, jardins, ruas pavimentadas, transporte público (bondes), iluminação pública e domiciliar a gás, instituições públicas de asilos e hospitais.
Como era próprio do século XVIII e começo do século XIX, os párias sociais eram confinados em espaços de isolamento (Foucault, 2000), como uma tecnologia utilizada pelo poder público, com intervenção militar, para que a classe que estava emergindo não fosse atingida pela desordem dos menos válidos. À luz do que teoriza Castro (2010), os poderes públicos no Brasil se utilizaram de uma estratégia que já era conhecida, o abarracamento, adaptado ao cenário caótico imposto pela seca de 1915. Os retirantes provenientes das mais longínquas localidades cearenses foram abrigados não mais como na seca de 1877, mas amontoados em um espaço exíguo de quinhentos metros quadrados, coberto por cajueiros: o centro de concentração do Alagadiço. Assim sendo, a implementação de campos de concentração de refugiados foi a solução, no que se refere ao controle social, segundo Foucault (1996), encontrada pelo poder público para conter as levas de retirantes que invadiam e saqueavam agora a já aformoseada Fortaleza.
Destarte, conforme Castro (2010), o Presidente do Estado, Cel. Benjamim Barroso, tomou a iniciativa de construí-lo. Este nome deveu-se à distinção dos abarracamentos aleatórios, construídos em diversos pontos da capital pelos governos anteriores a 1915, e que formavam um amontoado de retirantes vulneráveis que expunham suas mazelas à população provinciana moralmente rígida e que para a qual, os miseráveis da seca representavam um fardo social muito pesado: o de fazê-la conviver com seres humanos em estado sub-humano.
O terreno destinado na seca de 1915 para acolher os retirantes foi estruturado para concentrar três mil homens, mulheres e crianças não higienizados e promiscuamente  amontoados no Passeio Público, área reservada ao lazer e à sociabilidade na Fortaleza de então. A justificativa adotada para a transferência dos flagelados para uma área nos arredores da capital foi, de acordo com Neves (1995), a de ser uma ação humanitária, onde seriam distribuídos alimentos e socorros diversos, prestados em um ambiente humanizado, pois, acima de tudo, urgia ao poder público, em sua política de controle social, livrar a cidade do enfeamento e da contaminação que vinha com os retirantes, assim como evitar a explosão demográfica deles na capital, trazendo consigo sua miséria para uma população que já se encontrava cultuando o belo e o fútil.
Mesmo havendo estradas de ferro ligando o interior à capital em 1915, construídas anteriormente pelas mãos dos próprios retirantes na estiagem anterior, muitos flagelados escolheram a alternativa de buscar trabalho nas construções da comissão de Obras Novas Contra as Secas, uma das políticas públicas emergenciais de combate à seca e aos problemas a ela relacionados. A construção dos açudes públicos das Obras Contra as Secas concentrava auxiliares técnicos, operários e seus familiares. Castro (2010) afirma que o serviço era difícil e mal pago para os flagelados. Mesmo que se praticasse a caridade cristã, por meio da doação de esmolas, havia, por parte de muitos “cidadãos de bem”, a abominação deste exercício, pois, para eles, a esmola poderia se tornar um vício. A recorrência a esta forma de socorro fazia com que muitos retirantes fossem vistos com reserva, como preguiçosos e aproveitadores.
Segundo Neves (1995) e Castro (2010), ficou confinada no campo de concentração do Alagadiço (um espaço destinado, em teoria, a três mil sujeitos) uma população desvalida de oito mil habitantes, em um vasto campo arborizado de cajueiros e mangueiras, ainda que sem qualquer condição infraestrutural, onde famílias inteiras se abrigavam do relento sob a copa das árvores ou em barracas rudimentares, sem conforto ou privacidade. Neste contexto, as condições sanitárias eram deploráveis e a alimentação, insuficiente. Com estes agravantes, a proliferação de doenças e os desfechos fatais eram constantes.
O memorável farmacêutico sanitarista Rodolfo Teófilo foi o grande ativista contra a construção e permanência de campos de concentração nos arredores de Fortaleza, em especial por sua larga experiência como agente no combate às epidemias urbanas, como a varíola. Conhecedor do fato de doenças infecto-contagiosas serem transmitidas por meio de ambientes insalubres e pouco higiênicos, Teófilo sabia, desde o princípio, que o quadro de explosão populacional no local representaria um risco potencial não apenas para os flagelados, mas também para os habitantes da capital e adjacências. Tentou, em vão, alertar o poder público sobre a precariedade e risco do campo de concentração do Alagadiço para a população citadina, mas seus esforços resultaram em uma luta inglória. Como ele mesmo defendia: “A primeira visita que fiz ao Campo de Concentração deu-me a certeza de que em breves dias teríamos ali um Campo Santo” (TEÓFILO, apud NEVES, 1995, p. 99).
Infelizmente, cumpriu-se seu vaticínio: as péssimas condições sanitárias, o amontoamento de corpos, a promiscuidade, a alimentação escassa, aliada à falta de qualidade da água potável, a proliferação de moscas enquanto agentes transmissores de doenças e a distribuição de leite adulterado para os infantes catalisaram a morte para retirantes em grandes proporções; em especial, os mais vulneráveis (idosos e crianças). Assim, ao invés de ser um campo de assistência aos desvalidos da Seca de 1915, o Alagadiço passou à nossa história como o macabro “Campo da Morte” pela facilidade com que a mesma se fazia presente no local e consigo levou milhares de vidas.
Parte deste cenário desalentador é plasmada com maestria por Rachel de Queiroz em sua obra primeira, O Quinze, publicado em 1930, e que desafiou as sociedades literata e leitora da época porque mostrou um Ceará que o Brasil se negava a enxergar. Sobre este tema versa a seguinte sessão.
 

  1. O QUINZE E O RETRATO DO CEARÁ NO ESTIO

Para Câmara et al. (2015), a estiagem no Nordeste é um fenômeno periódico que provoca o êxodo rural que impacta no social. As secas mais avassaladoras, responsáveis pela grande mortandade provocada pela fome e pelas doenças delas advindas, registradas com dor e presentes na memória dos nordestinos da época em que ocorreram e na de seus descendentes, são, em recorte: as de 1877-1879, a de 1915, a de 1934-1936, a de 1979-1985 e a que estamos enfrentando desde 2012.
Dentre estas, a de 1877-1879, afirmam Câmara et al. (2015), ainda no Brasil Império, provocou a migração forçada de parte dos cearenses afetados para a região Norte, mais amena e promissora. Destarte, os filhos do Ceará, junto com outros nordestinos, ajudaram a impulsionar o primeiro Ciclo da Borracha. Na tentativa de solucionar o problema da estiagem, retendo água em reservatórios apropriados, Dom Pedro II investiu na abertura de estradas e no estudo da geografia local por meio de engenheiros brasileiros e ingleses. Concluiu-se que a construção de barragens e açudes poderia ser uma solução cabível e exequível (SCOVILLE, 2011). Foi assim que surgiram projetos que foram executados a posteriori pelos subsequentes governos republicanos, com o Instituto de Obras contra as Secas (atual DNOCS), criado no governo de Nilo Peçanha.
Segundo Câmara et al. (2015), mais do que um problema geográfico-hidrológico, a seca é um problema de cunho político. As verbas destinadas a saná-la, desviadas para as contas bancárias de terceiros, evidenciam o desmando que sempre caracterizou a região Nordeste como berço de corrupção em um país onde, como bem definiu Antônio Delfim Netto: “o braço da justiça não alcança os homens de dinheiro”.
Como explicitamos na seção anterior, a partir da estiagem de 1915 vieram os campos de concentração ou os currais do governo, que objetivaram evitar que os flagelados seguissem ocupando e saqueando a capital cearense. Conforme Câmara et al. (2015), a Seca do Quinze foi o cenário para a implantação do primeiro destes campos, no Alagadiço, a oeste de Fortaleza, com cerca de oito mil pessoas mal alimentadas e mal cuidadas, vigiadas de perto por soldados nada complacentes, que Rachel de Queiroz plasmou n’O Quinze (1930). Repetindo o que ocorrera na Seca do Quinze, na seca de 1934-1936 os campos de concentração seriam novamente cogitados e implantados. Desta vez não somente no Alagadiço e no Pirambu, em Fortaleza, mas estendidos para outras regiões do estado, providas de estações de trem, como Quixadá, São Mateus, Quixeramobim, Ipu, Crato, Senador Pompeu e Cariús. Confinados, os retirantes seriam obrigados a seguir rígidas regras de conduta e não poderiam partir sem autorização (SCOVILLE, 2011). Um aglomerado de aproximadamente setenta e três mil pessoas seria reunido nestes redutos insalubres e, deste total, uma parcela seria utilizada nas trincheiras da Revolução de 1932, em São Paulo.
Podemos afirmar, à luz do que defendem Câmara et al. (2015), que Rachel de Queiroz transfere para O Quinze sua experiência pessoal de fugir com a família do sertão do Quixadá para as cidades do Rio de Janeiro, Belém do Pará, Fortaleza, Guaramiranga e, novamente Quixadá, quando da Seca do Quinze. O feito foi tão impactante para a autora que a levou a plasmar, em forma de livro, a bravura e a impotência do sertanejo frente às adversidades advindas com a seca e que o levavam a tomar atitudes desesperadas como, por exemplo, soltar o gado para morrer de fome e sede na caatinga por não poder-lhe mais dar de comer nem de beber. Pela ótica de Neves (1995, p. 95), podemos afirmar que: “O romance, sem apelar para a sociologia da literatura nem para a teoria literária, é uma representação do real sócio-histórico”.
Inovador por haver sido escrito por uma jovem de vinte anos, culta, desconhecida e transgressora, o livro fixou seu enredo em planos distintos, que tinham como pano de fundo a Seca de 1915, o eixo cidade-sertão e o binômio liberdade-confinamento. Retratando um Brasil que o Brasil desconhecia ou não queria conhecer, Rachel ousou distanciar-se do modelo de romance regionalista que então se produzia na literatura e, utilizando-se de uma linguagem jornalística, destituída de sentimentalismo, reportou ao mundo o drama de seus conterrâneos menos afortunados.
Conforme Andrade (2014), o livro é narrado em terceira pessoa por meio de um narrador onisciente e que não participa da história; a fome está presente em quase todos os vinte e seis capítulos sem títulos e numerados. O Quinze representa a persona do sertanejo sofrido na personagem Chico Bento, que junto à esposa e aos cinco filhos empreendem a marcha forçada de deixar a fazenda onde moravam em busca de sobrevivência, uma vez que Chico fora dispensado de seu serviço porque já não tinha mais como alimentar o gado da fazenda da patroa. O fato de migrar dentro da caatinga parecia-lhe penoso, mas se não chovesse até o dia de São José, 19 de março, este seria o seu destino, como o foi, tal como ocorreu com tantos outros chico bentos não somente no Ceará, mas no Nordeste de maneira geral.
Com algum dinheiro guardado com sacrifício, Chico compra mantimentos e uma burra no intuito de atravessar o sertão; almejava ir para o Norte, extrair látex, como tantos outros conterrâneos seus. Sem ter como embarcar no trem, os planos mudam e a família passa a trilhar o caminho a pé até Fortaleza. No entanto, a sombra do infortúnio os ronda roubando-lhes a esperança e o ânimo: o filho mais novo, Josias, morre envenenado ao comer mandioca crua e o mais velho, Pedro, foge com uns comboieiros de cachaça.
Como bem descreve Andrade (2014), o sertanejo não almeja ser retirante. Se assim se torna é por força das circunstâncias. Mesmo sentindo-se desgraçado, Chico Bento, representando o espírito do homem do sertão, demonstra generosidade, fé e resignação sem que com esta se abata a necessidade que sente de prover sua família. A trama é muito fiel ao espírito do nordestino que mora no sertão, agrário por natureza, e que somente parte em êxodo quando a terra que ama não tem mais nada a lhe oferecer. A família de Rachel de Queiroz, afortunada e abastada, teve como se deslocar de Quixadá para cidades mais amenas. Para fazer um percurso infinitamente mais simples e mais curto, Chico Bento e sua família tiveram que perder três de seus seis membros, passar fome, sede, vergonha e humilhação, bem aos moldes do que acontecia e segue acontecendo quando o assunto é a estiagem.
Tempos depois, com a ajuda de seu cunhado e já no campo de concentração do Logradouro, desvalido e desesperançado, Chico reconhece uma antiga vizinha que ali trabalha como voluntária, Conceição, sua comadre e protagonista de outro plano do romance, que lhe consegue trabalho na construção de uma barragem. À luz de Câmara et al. (2015), Conceição é o alter ego da autora que, morando em uma casa grande no bairro Alagadiço, frequentava o campo de concentração juntamente com as tias, como voluntárias. Além disso, Rachel e Conceição comungavam o gosto pela instrução, pela emancipação feminina e pela falta de identificação somente com a cidade ou somente com o sertão: pertenciam a ambos.
Declinando do casamento e da maternidade, Conceição se oferece para criar o afilhado Duquinha, o filho mais novo do casal. Este é um drama para qualquer mãe sertaneja: o dilema que a seca e a pobreza lhe impõem de ou criar o filho e possivelmente vê-lo morrer de fome ou entregá-lo a outra mulher, para que tenha melhor sina, e não vê-lo nunca mais. Sem escolha, Cordulina o dá à sua comadre porque sabe que com ela ele terá uma vida digna. Vendo a família diminuir e Cordulina desesperançar-se, com o fim da construção da barragem e já sem emprego outra vez, Chico volta a pedir ajuda a Conceição, que o desaconselha a ir para o Norte, mas rumar para São Paulo. Ela consegue passagens de navio para que a família se traslade e inicie ali uma nova história.
Em linguagem simples, Rachel de Queiroz descreve neste seu primeiro livro e, sobradamente, sua obra-prima, um dos mais graves problemas sociais de seu tempo, a Seca do Quinze e, com ela, o descaso do governo para com os retirantes da seca, a corrupção por trás das pseudo ajudas subornadas, a necessidade de evitar que os flagelados alcançassem Fortaleza, a exploração de pessoas miseráveis em trabalhos forçados e tudo à sua revelia, quando o que eles mais queriam era estar em suas terras ou nas terras por eles arrendadas, trabalhando honestamente se não fosse a seca. Rachel toca também em um ponto nevrálgico em O Quinze quando se refere ao sonho dos retirantes em terem uma vida melhor no Norte, trabalhando com a borracha, ou em São Paulo, trabalhando nas fazendas cafeicultoras.
Em outras palavras, a então jovem, inexperiente e já excelente escritora imprimiu sua marca nesta, que é considerada sua obra magna, e legou-nos o retrato cruel do Ceará sedento de chuva e de justiça.
 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Passado mais de um século desde a seca do Quinze, o cenário político mudou, mas não o suficiente para solucionar o problema das estiagens nordestinas, que inspirou Rachel de Queiroz a escrever seu primeiro romance, nem para acabar com a indústria da seca – corrupta e vergonhosa. Antes, as ações governamentais visavam beneficiar o patrão e encurralar os flagelados e/ou fazê-los trabalhar nas frentes de obras e migrar para outras regiões do país, onde sofreriam o preconceito de haverem nascido no desgraçado Nordeste. Hoje, com a implementação de políticas públicas voltadas para o campo, o cenário é outro, não tão inóspito como outrora, ainda que muito mais poderia ser feito se contássemos com menos corrupção e mais ação. Poderíamos estar em melhores condições, pois nos sobram as boas intenções, mas nos faltam Chico Bentos, Conceições e Racheis de Queiroz.
 
REFERÊNCIAS
 
ANDRADE, J. T. de. Aspectos políticos e sociais em O Quinze, de Rachel de Queiroz: uma análise representativa sobre o personagem Chico Bento. Trabalho de conclusão de curso, João Pessoa, Universidade Estadual da Paraíba, Departamento de Letras e Humanidades, Curso de Licenciatura Plena em Letras, 29 p., 2014.
BARRETO, E. Arquitetura do poder: reflexão crítica da estrutura sóciopolítica e econômica do Brasil. 11ª ed. Fortaleza: Edição do Autor, 1990.
CÂMARA, Y. R.; CÂMARA, Y. M. R.; SOUTULLO, M. R. O Quinze: revisitando a importância de Rachel de Queiroz para a cultura cearense, a Literatura Brasileira e o feminismo no Brasil do Século XX, Revista Entrelaces, Ano 5, no 6, 2015: p. 116-130.
CÂMARA, Y. M. R.; CÂMARA, Y. R. Canudos revisitado: uma breve análise do que foi a utopia de Antônio Conselheiro, ameaça à consolidação do poder da república no final do século XIX, Revista Entrelaces, Ano 5, no 5, 2015: p. 5-19.
CASTRO, L. de. As retiradas para os campos de açudagem na seca d’O Quinze, Revista Historiar, ano 2, no 1, 2010: p. 97 -122.
FARIAS, P. de. História do Ceará: dos índios à geração Cambeba. Fortaleza: Tropical, 1997.
FOUCAULT, M. A história da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 2000.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1996.
NEVES, F. de C. Curral dos bárbaros: os campos de concentração no Ceará (1915 e 1932), Revista Brasileira de História – Contexto, v.15, no 29, 1995: p. 93 – 122.
OLIVEIRA, J. H. C.; CAMPOS, N. L. B. História do Brasil: de Pindorama ao Brasil atual. Coleção 2º Grau. Fortaleza: Colégio GeoStúdio, 1994.
QUEIROZ, R. de. O Quinze.  Rio de Janeiro: Editora do Brasil, 1930.
SILVA, F. de A.; BASTOS, P. I. de A. História do Brasil: colônia, império e república. 2ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Moderna, 1986.





Bio fornecida pelo palestrante.

OPINIÃO PÚBLICA, PROPAGANDA E ESTETIZAÇÃO DA POLÍTICA: O CASO DA ITÁLIA FASCISTA – Beatriz Nascimento Teles




 

 Beatriz Nascimento Teles

Universidade Federal do Espírito Santo

 
Resumo: O objetivo deste artigo é confrontar diferentes abordagens de teóricos da cultura e da propaganda a fim de demonstrar de que forma essas abordagens se relacionam com a propaganda fascista na Itália do início da década de 1940. O enfoque será dado à teoria crítica da indústria cultural, confrontando as diferentes perspectivas dos filósofos alemães da Escola de Frankfurt, como Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin.
 
Palavras-chave: Propaganda. Cinema. Fascismo. Itália
 
Abstract: The aim of this paper is to compare different theoretical approaches about culture and propaganda to demonstrate how these approaches are related with the fascist propaganda in Italy during the beginning of the 1940s. The focus is on the critical theory of culture industry in order to compare the different perspectives of the German Frankfurt Scholl’s philosophers, such as Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse and Walter Benjamin.
 
Keyword: Propaganda. Cinema. Fascism. Italy
 
Minicurrículo: Beatriz Nascimento Teles é mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e orientanda do Prof. Dr. Geraldo Antonio Soares (UFES). Pesquisa os temas: cinema, mídia, Itália, regimes autoritários e totalitarismo. Email: bnteles@gmail.com
 


 
O CASO DA ITÁLIA FASCISTA
 
Beatriz Nascimento Teles
Universidade Federal do Espírito Santo
 
Introdução
Em outubro de 1922, Benito Mussolini foi nomeado a Primeiro Ministro da Itália pelo rei Vittorio Emanuele III. A partir dessa data, a Itália seria governada pelo chefe do Partido Nacional Fascista, fundado em 1921, pelo próprio Mussolini. De 1928 a 1943, este seria o único partido da Itália.
Nesse contexto político surge a Escola de Frankfurt, termo que designa um grupo de pesquisadores de teoria crítica, associada ao Instituto para Pesquisa Social, fundado em 1923, da Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Alguns dos filósofos dessa escola, entre eles Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin, tiveram como tema de suas pesquisas o funcionamento da indústria cultural, a propaganda, o papel da arte na sociedade e a opinião pública. O objetivo desse artigo é justamente confrontar as diferentes perspectivas desses filósofos e propor o uso da teoria crítica da Escola de Frankfurt para entender o funcionamento da propaganda fascista na Itália.
Primeiramente, será definido o conceito de opinião pública, na perspectiva de Jürgen Habermas, a fim de relacioná-lo com o conceito de indústria cultural.
Em seguida, será feita uma análise do conceito de propaganda, como parte integrante da indústria cultural, na perspectiva de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Será discutida também a crença desses teóricos na vulgarização da arte, sendo que esta, segundo eles, se dissolveu para atender às exigências da indústria cultural, no seu intuito de vender produtos e padronizar comportamentos.
Por último, será analisado o conceito de estetização da política e politização da arte em Walter Benjamin, de forma a confrontá-lo com a crítica de Adorno e Horkheimer. Marcuse, da mesma forma, afirma a capacidade da arte de utilizar os meios de produção e reprodução da indústria cultural de forma subversiva, como veículos de libertação. Por fim, serão aplicados esses conceitos ao caso da propaganda do regime fascista italiano.
 
Opinião pública
Jürgen Habermas define opinião pública enquanto julgamento ou opinião a respeito de determinado assunto a partir de um grupo social. A esfera pública seria o espaço onde ocorre o confronto de opiniões a fim de se chegar a um julgamento. Apesar dessa definição, opinião pública é um conceito temporal, ou seja, podemos considerá-la enquanto uma tendência historicamente definida. No caso da análise feita por Habermas, a opinião pública se refere aos burgueses, proprietários e com formação educacional, com acesso à esfera pública, de debate de posições a respeito de seus interesses.
A existência da opinião pública depende da comunicação entre dois sistemas de opinião: opiniões informais, pessoais e não-públicas; opiniões formais, públicas. As primeiras se referem à esfera privada, da família e dos amigos. As opiniões formais circulam em meio restrito, não alcançam a massa da população, e incluem discursos e proclamações.
 
Naturalmente existe uma ligação, por sobre os mass media, entre esses dois domínios, que se dá através daquela publicidade desenvolvida demonstrativa ou manipulativamente, com a ajuda da qual os grupos participantes da execução e equilíbrio político se esforçam por obter do interior do público mediatizado uma disposição plebiscitária de apoio (HABERMAS, 1977, p. 198).
 
A partir disso, a esfera privada, no âmbito da família, amigos e conhecidos, se relaciona com a esfera pública, no sentido em que esta problematiza e leva a debate suas temáticas. Por outro lado, a esfera privada incorpora os debates da esfera pública, numa autorreflexão. Os meios de comunicação, por sua vez, exercem uma mediação entre seus participantes.
 
Uma opinião pública no sentido rigoroso do termo só pode formar-se, entretanto, na medida em que os dois domínios da comunicação tenham por mediação aquele outro, da publicidade crítica (…). Na medida em que essas organizações propiciam uma esfera pública interna não apenas no plano dos funcionários e administradores, mas em todos os níveis, existe a possibilidade de uma correspondência recíproca entre a opiniões políticas das pessoas privadas e as daquela opinião quase-pública (HABERMAS, 1977, p. 198).
 
É interessante nessa abordagem a percepção de que os diferentes domínios, público e privado, da sociedade, se relacionam e se influenciam, em medidas diferentes de acordo com a sociedade analisada. Nesse sentido, na apropriação das temáticas privadas pela esfera pública, é necessária a aprovação da esfera pública em geral.
Por outro lado, Theodor Adorno e Max Horkheimer consideram que os meios de comunicação e a indústria cultural tem papel muito maior na formação da opinião pública do que o de simples mediação. Esse novo ramo industrial é parte do processo de desencantamento do mundo, onde os antigos meios de controle da sociedade, como a religião, se enfraquecem enquanto a tecnologia avança. Assim “o cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto” (1985, p. 99). Um produto da indústria cultural como o cinema não mais se apresenta como arte, mas sim como mais um negócio, faz parte de mais um “modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso”. Nesse sentido, a indústria cultural modela as pessoas no “esquema da reprodutividade mecânica” (1985, p. 105).
Adorno e Horkheimer pensam na relação entre indústria cultural e opinião pública em termos de manipulação, e não como uma via de mão dupla em que os dois âmbitos se influenciam. Nesse contexto, a arte se vulgariza, perde sua função de portar o belo e passa a ser usada para fins de propaganda e manipulação.
 
Propaganda e sua relação com a indústria cultural
Enquanto ato de tornar pública e propagar determinada informação ou discurso, a propaganda na teoria crítica da Escola de Frankfurt, quase não se diferencia da indústria cultural em seus objetivos.
 
Tanto lá como cá, a mesma coisa aparece em inúmeros lugares e a repetição mecânica do mesmo produto cultural já é a repetição do mesmo slogan propagandístico. Lá como cá, sob o imperativo da eficácia, a técnica converte-se em psicotécnica, em procedimento de manipulação das pessoas (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 135).
 
Essa característica da indústria cultural se insere no que Adorno e Horkheimer chamaram de dissolução das fronteiras entre ciência, moralidade e arte. Esta assumiu seu papel de produto, seu lugar na indústria, enquanto, segundo eles, até então tinha um domínio próprio e leis próprias. “As inúmeras agências da produção em massa e da cultura por ela criada servem para inculcar no indivíduo os comportamentos normalizados como os únicos naturais, decentes, racionais” (1985, p. 35).
A respeito dessa estandardização de comportamentos, Walter Benjamin afirma que “a reprodução em massa corresponde efetivamente a uma reprodução de massas”. Ou seja, as técnicas de reprodução da fotografia, do cinema e dos jornais correspondem à tendência de se reproduzir igualmente o comportamento das pessoas (1980, p. 27).
Essa dinâmica pode ser percebida a partir da propaganda fascista na Itália do início da década de 1940. A propaganda, então, tinha a função de disseminar os valores morais do regime fascista que, pelo menos até o ano de 1943, tinha grande identificação e aceitação da opinião pública italiana. Esse cenário só começa a ser alterado de forma ampla quando a a Itália na Segunda Guerra estava caminhando para a derrota.
Até então a propaganda feita pelos jornais italianos ditava a forma como a população se sentia pertencente ao país, o que pensavam a respeito do resto do mundo, principalmente a respeito dos países inimigos durante a guerra, e o que pensavam sobre sua própria realidade. Nesse sentido, a propaganda através da indústria cultural foi uma importante ferramenta de coerção a fim de delimitar as coordenadas de uma existência coletiva alimentada por uma forma comum de ver a realidade e de se comportar.
O rádio, nesse caso, era o porta-voz da Itália. “Ele assume a forma de uma autoridade desinteressada, acima dos partidos, que é como que talhada sob medida para o fascismo. O rádio torna-se aí a voz universal do Führer” (ADORNO; HORKHEIMER,1985, p. 132). Igualmente, era a voz de Mussolini na Itália. Pela repetição cega, a indústria cultural se torna instrumento dos regimes fascistas:
 
Os senhores fascistas de hoje são menos super-homens do que funções de seu próprio aparelho de publicidade, pontos de interseção das reações idênticas de inúmeros indivíduos (…). Eles representam para esses a plenitude do poder, sem por isso deixarem de ser simples lugares vazios que o poder veio ocupar (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 195).
 
Nesse sentido, também a arte, em especial o cinema, assume sua posição na política, ao mesmo tempo em que perde sua aura, sua autenticidade, seu caráter único, a partir da sua reprodução em massa. “Desde que o critério de autenticidade não é mais aplicável à produção artística, toda função da arte fica subvertida. Em lugar de se basear sobre o ritual, ela se funda, doravante, sobre uma outra forma de práxis: a política” (BENJAMIN, 1980, p. 16).
Da mesma forma, a política, com os instrumentos da arte, se transforma em espetáculo. Benjamin chama a esse processo de estetização da política.
 
Estetização da política
No plano da arte, a perda da sua aura, entendida aqui como seu caráter de único, e da sua autenticidade, através das técnicas de reprodução em massa, causaram a vulgarização da arte e a perda de sua independência perante a sociedade. Na política igualmente pode-se constatar mudança no que concerne à forma de sua exposição, o que também depende das técnicas de reprodução da indústria cultural.
A apresentação dos líderes ou governantes sofreu uma transformação juntamente com o processo de crise das democracias liberais. A relação que se mantinha entre governante e parlamento, então seu público, passou a ser uma relação entre governante e aparelho de reprodução de informação, que leva a voz e a imagem do líder a um público mais amplo. A evolução da imagem do governante no âmbito político se transformou assim como a do ator no âmbito da arte. Assim, estadista e ator se aproximam ainda mais do seu público. “Daí a existência de uma nova seleção diante do aparelho: os que saem vencedores são a vedete e o ditador” (BENJAMIN, 1980, p. 17). O povo se sente mais próximo ou mais parecido com o líder do que com seus próprios concidadãos.
Esse processo de estetização da política e o uso da arte na propaganda também é observado por Peter Burke na sua análise das imagens como testemunhas oculares. Ele se refere ao uso da propaganda visual, assumindo o anacronismo do termo, já por Augusto, primeiro imperador do Império Romano, em 27 a. C., que influenciou a forma de se representar governantes em imagens até o século XX. Aponta o uso das imagens pela Igreja Católica também como propaganda, usadas inclusive como objetos de devoção e como imagens de consolo. Durante a Reforma Protestante na Alemanha, o artista Lucas Cranach, amigo de Lutero, produziu impressões de protesto contra a Igreja Católica e para disseminar a mensagem reformista (BURKE, 2004). Da mesma forma, o filme O navio branco, de 1941, dirigido por Roberto Rosselini, exaltava a coragem do exército italiano e convocava o espectador para a guerra a partir de palavras de ordem ditas durante todo o filme.
Nesse sentido, o espetáculo da política não é assunto novo, ao mesmo tempo nunca foi tão atual. O fascismo italiano fazia da guerra um espetáculo. A guerra do Vietnã foi televisionada, e hoje o ISIS divulga vídeos de decapitações, afogamentos e fuzilamentos de seus prisioneiros, com direito ao uso de câmeras GoPro, para que não se perca os detalhes nem a qualidade das imagens. O número de espectadores dos vídeos do ISIS divulgados na internet também não é insignificante e passa dos milhões.
Esses fatos são condizentes com o diagnóstico de Adorno a respeito do triunfo da publicidade na indústria cultural. E a confirmação da estetização da política proclamada por Benjamin.
No desenrolar desse processo, porém, Walter Benjamin e Herbert Marcuse chamam a atenção para uma questão que fica em aberto: a consciência do espectador é convidada a entrar em regiões estranhas da experiência da cognição. Isso quer dizer que a partir do momento em que o espectador tem acesso a determinada imagem ou informação as reações não são idênticas. Não se pode afirmar que a opinião pública é sempre passiva diante das informações que recebe todos os dias. É nesse sentido que a obra de arte, que tem seu papel de mercadoria dentro da indústria cultural, pode ser subversiva:
 
Sem dúvida, as obras são mercadorias. Mas esse fato, por si só, não altera a sua substância, a sua verdade. A “verdade” em arte refere-se não só à coerência e lógica internas da obra, mas também à validade do que ela diz, das suas imagens, som, ritmo. Elas revelam e comunicam fatos e possibilidades da existência humana (…). Não existe obra que não evoque, em sua própria estrutura, as palavras, as imagens, a música de uma outra realidade, de uma outra ordem repelida pela ordem existente e, entretanto, viva na memória e na antecipação, viva no que acontece aos homens e mulheres, e na rebelião contra isso (MARCUSE, 1973, p. 90).
 
Marcuse afirma, no contexto da revolução cultural da década de 1960, que a busca por uma linguagem que subverta a ordem estabelecida dependerá do uso subversivo do material tradicional já existente. Além da arte, a tradição popular, impressa na linguagem das palavras, nas gírias e no jargão, enquanto língua dos oprimidos, afina-se com o protesto e com a recusa.
Peter Burke também aponta o caráter subversivo das imagens e da arte no seu conceito de imagens subversivas. As imagens propagam valores, mas ao mesmo tempo em que o uso político das imagens é feito de forma a manipular a opinião pública, não se pode reduzir seu uso a isso. Como exemplo, Burke aponta o uso de caricaturas e desenhos com o intuito de desmistificar o poder e contribuir para o debate político (2004, p. 98).
A propaganda não é onipotente. Deve haver uma identificação por parte do que Habermas chamou de sistema de opiniões informais e não públicas, que afinal é formado por pessoas que tem seu lugar enquanto espectadores e pensantes.
 
O caso da Itália fascista
Como foi dito anteriormente, a indústria cultural foi um instrumento da racionalidade fascista e tinha a função de fazer os italianos internalizarem os valores morais do regime e de manter a coesão social.
Em 10 de junho de 1942, Mussolini anunciava aos italianos em Roma a declaração de guerra à França e Grã-Bretanha, e afirmava que
 
Essa luta gigantesca não é mais do que uma fase do desenvolvimento lógico da nossa revolução; é a luta dos povos pobres e de braços numerosos contra os ávidos que detêm ferozmente o monopólio de todas as riquezas e de todo o ouro da terra; é a luta dos povos fecundos e jovens contra os povos estéreis e decadentes; é a luta entre dois séculos e duas ideias (apud CAVALLO, 1997, p. 113).
 
Nessa passagem estão presentes alguns dos principais valores exaltados por Mussolini durante o regime fascista e especialmente durante a Segunda Guerra: pobreza, fertilidade e juventude. Algo como uma receita para o sucesso da Itália fascista na guerra.
Como num livro de George Orwell, o discurso do ditador ecoa: “A palavra, tal como foi definida pela administração (pública e privada), permanece válida, efetiva, operacional: ela estimula o comportamento e ação desejados” (MARCUSE, 1973, p. 108).
Aldo Valori, radialista italiano, comentava em seu programa Commenti ai fatti del giorno, em 3 de julho de 1940, que a “modesta estrutura econômica” italiana havia evitado que no país se desenvolvesse uma classe de “burgueses gordos”, como aconteceu na França e Grã-Bretanha, resultando num baixo nível moral nesses países, enquanto na Itália a sociedade se manteve coesa e unida o suficiente resultando em que “a diferença de gostos, de hábitos, de costumes, entre as várias classes sempre foi mínima” (apud CAVALLO, 1997, p. 117). Essa especulação tanto não poderia ser provada quanto poderia ser desmentida diante das diferenças tanto econômicas, quanto culturais, especialmente entre regiões diferentes, tema recorrente nas obras neorrealistas do cinema e da literatura, como mais adiante será demonstrado.
Pobreza, juventude e fé, enquanto “coletividade religiosamente sentida” (CAVALLO, 1997, p. 117). Desse conjunto, o slogan da guerra surgia: sangue contra ouro. O sangue dos italianos contra o ouro que França e Grã-Bretanha acumulavam em detrimento do resto do mundo. Para muitos italianos, essa era uma guerra justa.
Era a partir dessa concepção da guerra e desse esquema simbólico que a indústria cultural sustentava a imagem dos países adversários, enquanto estéreis, superficiais, ambiciosos e bárbaros. Imagem que se sustentou pelo menos até 1942, quando o cenário interno e externo à Itália começou a mudar. Mario Appelius, afirmava no jornal Il popolo d’Italia, em julho de 1940, que a guerra contra a Inglaterra deveria assumir
 
(…) o caráter de uma verdadeira Cruzada (…). Se mais tarde a humanidade quiser resolver, racionalmente, a questão inglesa, será preciso esterilizar pelo menos 2 milhões de britânicos, que irá reduzir cientificamente o volume de sangue bárbaro que ainda circula nas veias da raça branca (apud CAVALLO, 1997, p. 157).
 
Sobre a União Soviética, Luigi Barzini afirmava, no jornal Il popolo d’Italia, em julho de 1941, que a família, “refúgio de tradição e de fé”, estava destruída naquela sociedade. E que por essas e outras razões, o povo italiano, enquanto fascista, não podia aceitar um país onde a imoralidade tomou forma de governo (apud CAVALLO, 1997, p. 157).
A partir do esquema de oposição entre civilidade/barbaridade, pobreza/riqueza, sangue/ouro, a propaganda sustentava a imagem dos italianos sobre si mesmos. Diante da escassez de armas e ferramentas para os soldados no front, a propaganda colocava em destaque justamente a inferioridade dos meios e recursos para exaltar os valores, a inteligência, o ardor, a capacidade de resistir e de sofrer. No filme O navio branco, de Rossellini, a última cena mostra um grupo de soldados que se recuperam num navio hospital, após serem feridos durante uma batalha naval. Quando o navio em que estavam quando foram atingidos volta a ancorar no porto, onde estavam agora, todos os soldados, mesmo os imobilizados, se levantam com o intuito de ver o navio passar, como prova de superação e dedicação, os principais valores, afinal, que um soldado italiano deveria carregar.
Para Adorno e Horkheimer, a essência da indústria cultural é escravizar a opinião pública, se mostrar como uma máquina de possível realização de sonhos. A única resposta possível da arte à opressão, para ele, seria a alienação.
Contudo, apesar da importância evidente da propaganda para o regime fascista italiano, ela não poderia ser onipotente. Para um amplo acolhimento das palavras do emitente, os ouvintes devem se identificar com aquilo que é dito. E essa relação entre emissão e recepção deixou de ser amplamente harmônica quando a realidade vivida pelos italianos no cotidiano divergia em grande medida daquela realidade informada pela imprensa.
Após uma série de bombardeios aéreos em Torino, em fevereiro de 1943, um cabo da polícia escrevia em carta, referindo-se ao rádio como “o papagaio”:
 
Meu caro irmão, você ouviu no rádio o que aconteceu, enquanto estávamos na casa daquele brigadeiro, que Torino era bombardeada, que foram os ingleses, e também dessa vez fizeram danos graves mesmo nas vilas vizinhas da cidade com vários mortos e feridos, diferente do que diz o papagaio, que foram poucas vítimas, poucos danos (apud CAVALLO, 1997, p. 298).
 
Além da descrença da vitória na guerra, em cartas se percebe a crescente denúncia a respeito da falta de bens básicos para a sobrevivência, como alimentos, remédios e roupas, devido ao racionamento feito pelo governo, devido à incapacidade deste de controlar a chegada desses bens para todos italianos, independente da região e da classe social, e devido a isso, o crescimento do mercado negro, especialmente em Napoli e na Sicília, pela máfia Camorra. Sobre isso, em carta enviada de Agrigento, na Sicília, um homem dizia que ali “só há Camorra, nesta feia Sicília, só ladrões e porcos e falsos, e Camorra, em tudo uma vergonha” (apud CAVALLO, 1997, p. 303). Sobre a situação na Sicília, uma carta enviada a Mussolini pela sua filha Edda, é esclarecedora:
 
Aqui, além da desordem e do bombardeamento, tem a fome, verdadeira, crônica há meses. Penso que seja hora de encontrar um remédio para isso, de considerar a Sicília e especialmente as áreas afetadas, como terras de terremoto nas quais não sobrou nada (…). Eu estive na Albânia e na Rússia, nunca vi tanto sofrimento e tanta dor. E eu mesma tenho a impressão de estar em não sei onde, longe, a mil milhas de distância da Pátria e da civilização. Por agora ainda se diz, o Duce não sabe, agora sabe (apud CAVALLO, 1997, p.358).
 
Ao fatalismo de Adorno a respeito da relação manipuladora entre indústria cultural e opinião pública, Benjamin prevê a possibilidade da arte, em especial do cinema, favorecer uma crítica das relações sociais e das condições materiais. Essa seria a politização da arte, em resposta à estetização da política. Por outro lado, Marcuse critica a defesa da arte enquanto ferramenta política. Da mesma forma que na propaganda, o uso político da arte, em qualquer sentido, significaria que ela se tornou meramente funcional em favor da racionalização da sociedade. A arte é diferente da realidade, não pode ser confundida. Mas ainda assim é, para Marc Ferro, uma contra-análise da sociedade, é uma segunda história dentro da história (2010). E nessa segunda história, a arte mostra a opressão e a liberdade:
A verdade está na beleza, ternura e paixão das vítimas e não na racionalidade dos opressores. É a síntese de dois níveis antagônicos de realidade: a ordem estabelecida das coisas e a libertação possível ou impossível dessa ordem. O resultado é a criação de um mundo objetal diferente e, no entanto, derivado do mundo existente; mas essa transformação não violenta os objetos, outrossim, fala por eles, dá palavra, som e imagem ao que é silencioso, distorcido, suprimido, na realidade estabelecida (MARCUSE, 1973, p. 96).
 
Considerações finais
Tendo a teoria crítica como referencial, é indiscutível o fato de que com o desenvolvimento tecnológico e a evolução dos meios de reprodução em massa se observa uma constante transformação da forma como se faz política, arte e como se produz informação. Mas apesar da importância da indústria cultural na estandardização de comportamentos, tanto na sociedade liberal quanto em uma ditadura, a opinião pública não deixa de ser uma construção realizada também por meio da recepção, da forma como as pessoas se sentem representadas e identificadas. Da interação entre os produtos da indústria cultural, o público que as recebem e o contexto em que estão inseridos, não é possível determinar qual será o resultado exato. Pode-se afirmar, porém, que apesar da tendência em normalizar comportamentos, a partir dos instrumentos da indústria cultural é possível surgir também a crítica a essa normalização.
 
Referências bibliográficas
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. (1985). Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar.
BENJAMIN, W. (1980). A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução. Em: Os pensadores: textos escolhidos – Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas. Trad. José Lino Grünewald. São Paulo: Abril Cultural.
BURKE, P. (2004). Testemunha ocular: história e imagem. Bauru: EDUSC.
CAVALLO, P. (1997). Italiani in Guerra: sentimenti e immagini dal 1940 al 1943. Bologna: il Mulino.
COHN, G (Org.) (1977). Comunicação e indústria cultural: leituras de análise dos meios de comunicação na sociedade contemporânea e das manifestações da opinião pública, propaganda e cultura de massa nessa sociedade. São Paulo: Cia. Edit. Nacional.
FERRO, M. (2010). Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra.
MARCUSE, H. (1973). Contrarrevolução e revolta. Rio de Janeiro: Zahar.





Bio fornecida pelo palestrante.

LITERATURA MARGINAL: EXAUSTÃO E PLENITUDE – Daniele Fernanda Feliz Moreira




Daniele Fernanda Feliz Moreira

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

 
Resumo: O objetivo deste trabalho é discutir as estratégias de performances de grupos marginais após o modernismo brasileiro. Já que, determinados grupos, em períodos distintos, utilizaram-se dos discursos e narrativas literárias do modernismo com objetivos renovadores. Partindo da concepção de John Barth sobre a escrita de Borges, seu texto The Literature of Exhaustion servirá de base para as discussões. Tendo em vista as releituras dos grupos literários, organização e configuração dos mesmos, o trabalho terá como escopo ainda, a análise do texto de Sérgio Vaz e sua ligação com o trabalho de Oswald de Andrade. De modo mais breve, e menos detalhado, será discutido também a atuação dos grupos, perspectivas, organização e como elas conferem legitimidade a essas escritas, uma vez que oferecem releituras com novas perspectivas.
 
Palavras-chave: Literatura; Marginalidade; Cultura; Modernismo.
 
Abstract: This paper aims to discuss the strategies of performance of marginal groups  after the Brazilian Modernism. Certain groups, at different times, used the discourse and literary narratives of Modernism with renovated goals. This paper will depart from John Barth’s text The Literature of Exhaustion, about Borges’ writings, to base our discussion. Aiming at the reinterpretation of literary groups, their organization and their configuration, this paper will analyse Sérgio Vaz’s text and its connection with Oswald de Andrade ‘s work. It will also discuss the activities of these groups, their prospects,  forms of organization and of legitimizing these writings, as they offer readings with new perspectives.
 
Key-words: Literature; Marginality; Culture; Modernism.
 
Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ 2011). É especialista em relações etnorraciais e educação pelo CEFET/RJ. Possui mestrado em Relações Étnico raciais pelo CEFET/RJ (2014) com pesquisa em literatura, racismo e ensino. Tem experiência na área de educação, com ênfase em língua portuguesa, suas literaturas e questões culturais. Trabalhou como professora-tutora do curso de Tecnólogo em Segurança Pública e Social pela UFF, atuando principalmente nas disciplinas de Oficina de Texto I e III. É doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente é professora do departamento de Educação da UERJ, leciona disciplinas voltadas para práticas educativas, questões raciais e estudos de Literatura.
 
 
LITERATURA MARGINAL: EXAUSTÃO E PLENITUDE
Daniele Fernanda Feliz Moreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
 

  1. Modernismo brasileiro: rupturas e permanências

A literatura brasileira persegue de modo constante atualizar-se de acordo com novas formas de expressão, tendo em si a originalidade, o ineditismo e a novidade. Inspirados pelos movimentos de vanguarda europeias, a semana de 1922 assinala uma importante ruptura no campo das artes. No entanto, será que literatura modernista ou pós-modernista serviu como uma reedição da tradição? Será que as promessas inovadoras, incorporaram-se ao sistema e passaram a ser sentidas como “esgotadas” em sua capacidade inovar, surpreender, interessar?
Para refletirmos sobre o panorama literário contemporâneo, em que cada vez mais a pluralidade de escrita assinala seus espaços, é fundamental salientar a relevância do movimento modernista brasileiro. A semana de 1922, para além da congregação de visionárias concepções artísticas, possibilitou uma aproximação entre linguagens até então bem delimitadas no cenário literário brasileiro. O movimento modernista possibilitou uma descentralização de narrativas. A figura do “eu” literário burguês passou a dividir espaços com o elemento indígena e sertanejo, exemplificado nas obras de Mario de Andrade, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Tais obras foram responsáveis por atualizarem a vertente popular sem representarem preconceito, e como afirma Silviano Santiago: “O romancista apenas escuta a produção poética popular.” Ou seja, o escritor, naquele momento, fazia algo que seria decisivo para maior abertura e pluralidade literária no Brasil do século XXI. O escritor compara Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, com as Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos e aponta o caráter duplo da comparação, uma vez que “são obras que navegam tanto em águas europeias quanto em peculiarmente nacionais”. Santiago enaltece ainda o viés positivo e a riqueza literária das expressões populares:
 
“É neste entrecruzar de discursos, já que é impossível apagar o discurso europeu (…) que se impõe o silêncio do narrador-intelectual (…) é aí que se faz ouvir o conflito entre o discurso do dominador e do dominado. É aí que se constitui o texto-da-diferença, da diferença que fala das possibilidades (ainda) limitadíssimas de uma cultura popular preencher o lugar ocupado pela cultura erudita, apresentando-se finalmente como a legítima expressão brasileira”.
(SANTIAGO, 1982, p. 172)
 
O popular obtinha espaço na literatura através de intermediários. Os mediadores desempenhavam papel quase que antropológico, seja em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha seus escritores construíram narrativas polifônicas, os enredos eram permeados de diversas vozes. Seus personagens carregavam consigo o sotaque, o gesto e expressões linguísticas típicas de seus lugares de origem. No entanto, a literatura brasileira ainda carecia de narrativas construídas por camadas populares. O sertanejo, o indígena, o negro e o pobre estavam sendo retratados nas obras de arte de modo mais autêntico, porém ainda sem protagonismo enquanto artista, produtor. É sabido que ao longo da história da literatura no Brasil, alguns escritores de grupos marginalizados socialmente conseguiram notoriedade em suas produções literárias, caso de Lima Barreto, Machado de Assis e do poeta Cruz e Sousa, autores negros, mas que de alguma forma estavam inseridos em contextos de prestígio, obtiveram educação burguesa e circulavam na classe média.
O modernismo brasileiro foi uma corrente decisiva na abertura temática literária, porém ainda carregava consigo características do romantismo, uma vez que o conhecimento e a incorporação do popular pela escrita literária ocorriam através do ponto de vista burguês/erudito. De certa forma, e com algumas exceções, repetia os moldes lineares realistas do século XIX nas narrativas, utilizando uma construção psicológica dos personagens pautadas em dados da realidade e construção com começo, meio e fim. Os mecanismos de centralidade eram ainda os eleitos pela elite cultural, ou seja, os critérios para eleger uma obra literária de valor estão ligados aos seus méritos estéticos, sua “literariedade”.
A problemática da questão está situada na noção de literatura, que a princípio é ideológica e está engendrada na burguesia. Portanto, os valores estéticos e culturais que vão atestar essa “literariedade” estão sob a ótica desse grupo. O privilégio de eleger obras literárias está ligado à questão de poder. As escolhas não são arbitrárias, a história da literatura brasileira constata tais interesses. A linguagem, o modo de expressar-se e o acesso a leitura e a escrita são requisitos que preenchem e estabelecem a noção de autor. No artigo “Vale quanto pesa” Silviano Santiago discorre sobre o caráter elitista da escrita no país problematizando o papel do autor, do livro, e sua circulação social. O escritor trata da configuração do meio literário brasileiro, destacando suas especificidades e de como a ficção operava as tendências da cultura erudita. Por definição de cultura erudita e cultura popular, Alfredo Bosi define que:
“Se pelo termo cultura entendemos uma herança de valores e objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso, poderíamos falar em uma cultura erudita brasileira, centralizada no sistema educacional (e principalmente nas universidades), e uma cultura popular, basicamente iletrada, que corresponde aos mores materiais e simbólicos do homem rústico, sertanejo ou interiorano, e do homem pobre suburbano ainda não de todo assimilado pelas estruturas simbólicas da cidade moderna”.
(BOSI, 2009, p. 24)
 
Ao analisar o panorama literário brasileiro após a semana de 1922 é possível constatar rupturas, mas também muitas permanências. O normativismo e o prescritivismo das formas da arte institucionalizada repercutiram ao longo dos anos. Isto porque, seria preciso uma renovação completa não só no âmbito artístico, mas também social. Para que o modernismo fosse uma estética da reciclagem criativa (BARTH, 1984), seria preciso a reutilização do material literário “esgotado” para novas combinações “originais”, ou seja, a reformulação da arte brasileira, uma vez que está centrada nos anseios burgueses.
É somente em 1960 que uma autora semiletrada, sem qualquer auxílio instrucional para a produção literária, lança-se no meio editorial. Carolina Maria de Jesus tem o seu diário, intitulado Quarto de despejo publicado por intermédio de um jornalista. No entanto, Carolina tinha pretensões que iam além de seu diário, já que inicialmente não tinha como intenção publicar seu diário, mas sim, outros escritos ficcionais. O trabalho de Carolina assumiu diversos lugares de equívocos, seja como testemunho, antropológico ou obra exótica, pouco se explorou seu potencial literário. Sua escrita repercutiu por diversos países, Quarto de despejo, seu livro mais famoso, alcançou números surpreendentes para o mercado editorial da época. E então, trinta e oito anos após a Semana de Arte de Moderna, em que se enaltecia e clamava pelo popular, nacional e originário, uma escritora oriunda da favela tinha seu primeiro livro publicado.
A história da literatura brasileira é um território em constante disputa por conferir e instrumentalizar poder, imprimindo visibilidade cultural e social ao indivíduo e também seu grupo. A escrita de Carolina não é pertencente a movimentos culturais e literários. A escritora foi pioneira em um tipo de literatura associado à produção marginal. Para NASCIMENTO (2009), “Literatura Marginal se tornou uma rubrica ampla que abrange a inserção dos escritores no mercado editorial, as características dos produtos literários, um tipo de atuação literário-cultural, ou ainda, a condição social do escritor.” O termo marginal tem acepções diferentes nos períodos da década de 1970 e mais tarde, nos anos 2000. É utilizado por grupos distintos, porém com algumas aproximações ideológicas, são uma possibilidade para o que Barth denomina o escritor pós-moderno ideal, já que não imita e não repudia nem seus genitores do século XX nem seus avós do século XIX. Ele digeriu o modernismo, mas não o carrega nos ombros como um peso.
Conforme apontado por Barth, os gêneros artísticos são concebidos e desenvolvidos por meio da história da humanidade. Portanto, estão sujeitos à exaustão, a repetição, ao menos no espírito de um certo número de artistas, em certos momentos e em determinados lugares. Ou seja, as convenções artísticas podem ser abandonadas, subvertidas, ultrapassadas ou mesmo retomadas contra elas mesmas, para que se formulem novas formas de expressão mais completas. A literatura marginal pode ser compreendida, a partir da perspectiva dos estudos de John Barth como essa possibilidade de estética de reciclagem criativa. Como cita Helloisa Buarque de Hollanda “se redescobriu (ainda muito bobamente) nossa paisagem social, que andava soterrada nos anos medíocres que se seguiram à Semana de Arte Moderna de 1922. De novo, de um novo ângulo, voltou-se a olhar o Brasil (…) o povo, mal visto, desfocado”.
 

  1. Situando a Literatura marginal de ontem e de hoje

Surge em 1970 um movimento denominado “literatura marginal”. Movimento que era “marginal” na medida em que suas condições, bem como sua distribuição, eram feitas à margem da política editorial vigente. Segundo Heloisa Buarque de Hollanda, “era um movimento da contracultura e feito pela classe média”. Surgia uma geração que, influenciada pelo Tropicalismo, tinha como meta partilhar e popularizar a poesia. No contexto de ditadura militar, tal movimento burla os mecanismos editoriais comerciais e de censura. No tocante a linguagem, estrutura e temática havia uma rejeição aos padrões literários então vigentes. Heloísa Buarque de Hollanda assinala que:
“(..) faz-se clara a recusa tanto da literatura classicizante quanto das correntes experimentais de vanguarda que, ortodoxamente, se impuseram de forma controladora e opressiva em nosso panorama literário. Num recuo estratégico, os novos poetas voltam-se agora para o modernismo de 22, cujo desdobramento efetivo ainda não fora suficientemente perseguido. Nesse sentido, merece atenção a retomada da contribuição mais rica do modernismo brasileiro, ou seja, a incorporação do coloquial como fator de inovação e ruptura com o discurso nobre acadêmico. Se em 22 o coloquial foi radicalizado na forma do poema-piada de efeito satírico, hoje se mostra irônico, ambíguo e com um sentido crítico alegórico mais circunstancial e independente de comprometimentos com um programa preestabelecido.”
(Hollanda, 1975, p. 56)
 
Formado por pessoas da classe média, letrados, tendo a literatura como um meio de revolução social, e inspiradas no modernismo brasileiro, esses escritores tinham como instrumento de produção e popularização de seus trabalhos o mimeógrafo, ferramenta primordial para reprodução dos livros. A máquina, além de baratear e dinamizar a reprodução, era totalmente destoante do que se fazia nos meios editoriais industrializados. A linguagem também era instrumento de pertencimento ao grupo, as gírias, expressões coloquiais eram muito utilizadas e tinha como finalidade tornar a poesia um elemento mais próximo do popular, o objetivo era se afastar do formalismo acadêmico e estabelecer uma conexão com a rua.
É no final dos anos 1990 e início de 2000 que se difunde e assume relevância nos grandes meios literários um movimento intitulado por Ferréz de “literatura marginal”. A proposta adquire maior visibilidade a partir de outros dois importantes eventos que marcam o cenário cultural nacional. O primeiro é o livro de Paulo Lins, Cidade de Deus. Sua obra foi publicada em 1997 e obteve relevantes críticas positivas que exaltavam o poder de escrita de seu autor. Em 2002 a obra recebe uma adaptação para o cinema e é aclamada pela crítica, e assim os componentes do livro, dentre eles favela, violência e marginalidade, adquirem espaço e até certo ponto, prestígio em espaços hegemônicos. A produção marginal que surge a partir dos anos 2000 tem muito em comum com essa literatura marginal dos anos 1970. O próprio Ferréz, escritor militante da periferia alega que “O mimeógrafo foi útil, mas a guerra é maior agora, os grandes meios de comunicação estão aí, com mais de 50% de anunciantes por edição, bancando a ilusão que você terá que ter em sua mente”. O termo “literatura marginal” é escolhido por Ferréz como forma de designação de sua escrita. Na introdução do livro “Literatura marginal – talentos da escrita periférica”– o autor assegura que: “A literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo” (FERRÉZ, 2005, p. 5).
O enfoque da palavra ‘marginal’ escolhida pelo autor para justificar seu trabalho serve como destaque para designar minorias raciais ou socioeconômicas. Essa é uma importante característica a ser levada em consideração, já que é um fator de diferenciação desse grupo dos demais autores marginais da história da literatura nacional. Carolina Maria de Jesus, quando escreve, não está amparada por um grupo, um movimento. A formação ideológica, crítica e cultural são elementos fundamentais para a coesão do grupo. Apesar das diferenças sociais e econômicas que estruturam os movimentos literários de 1922, 1970 e 2000 existe um entendimento intelectual-artístico decisivo para a produção do grupo, tanto que os comprometidos com os coletivos de contracultura da década de 1970 e os escritores de periferia dos anos 2000 tomam como exemplo e eixo paradigmático o movimento modernista.
Além das aproximações existentes entre as gerações de literatura marginal de 1970 e 2000, é preciso ressaltar que, o escritor Ferréz não só elogia o movimento predecessor alegando que “O mimeografo foi útil”, como também cita João Antônio, escritor que, de acordo com Alfredo Bosi é “Ora, realismo fervido na revolta pende mais para a margem que para o centro da sociedade”. O trecho que encerra a abertura de Ferréz faz referência ao desdém que a elite letrada tem como o povo:
 
“Evitem certos tipos, certos ambientes. Evitem a fala do povo, que vocês nem sabem onde mora e como. Não reportem povo, que ele fede. Não contem ruas, vidas, paixões violentas. Não se metam com o restolho que vocês não veem humanidade ali. Que vocês não percebem vida ali. E vocês não sabem escrever essas coisas. Não podem sentir certas emoções, como o ouvido humano não percebe ultrassons.”
(ANTÔNIO, 2001, p. 34)
 
João Antônio foi um escritor que, além das abordagens temáticas que privilegiasse a boemia e a marginalidade, Antônio era também um crítico de seu tempo: “Assim, grande parte dos escritores que depõem hoje sustenta preocupação vinculada à forma, sob a denominação de um ‘ismo’ qualquer. Lamentável ou incrível. As posições beletristas não mudaram entre nós, sequer um milímetro, nos últimos quinze anos.” Antônio, propõe que haja na literatura uma identificação com a realidade brasileira, já que “(…) carecemos, em essência, é o levantamento de realidades brasileiras, vistas de dentro para fora. Necessidade de que assumamos o compromisso com o fato de escrever sem nos distanciarmos do povo e da terra”. Esse anseio por representação já era indicado desde o Manifesto do Centro Popular de Cultura (CPC), em 1962, quando se alegava que sem a arte política não existiria a arte popular (HOLLANDA, 1992). É um viés artístico que vinha adquirindo espaço, que tinha um compromisso com o popular. É dessa tendência que os escritores marginais dos anos 2000 vão se valer para a construção de seus textos. A escolha de Ferréz não é aleatória ou acidental, ao optar por dialogar com João Antônio, o autor o faz de maneira consciente.
Mesmo com aberturas no setor editorial, publicações alternativas e maior espaço para novos autores, a literatura brasileira ainda é conservadora e reproduz antigos mecanismos de seleção de centralidade. Uma pesquisa feita em 2012 por Regina Dalcastagnè traça o perfil dos escritores e da escrita dos brasileiros. Foram lidos 258 romances, publicados de 1990 a 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco. A pesquisa revelou que os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente). Esses dados só enfatizam o quanto ainda é restrito o campo literário.
Nessa perspectiva, a autora também traçou o perfil dos personagens nos romances brasileiros contemporâneos. Eles são, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). As principais ocupações dos personagens masculinos são escritor (8,5%), bandido ou contraventor (7%) e artista (6,3%). As personagens femininas são donas de casa (25,1%), artistas (10,2%) ou não têm ocupação (9,6%). A questão não é diferente no tocante à cor. Os personagens negros são 7,9% e têm pouca voz: são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. Os brancos são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%). Os negros são bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%). Enquanto a maioria dos brancos morre, na ficção, por acidente ou doença (60,7%), os negros morrem mais por assassinato (61,1%).
É possível perceber a existência de uma literatura que, seja por questões editoriais ou sociais, não é contemplada por esse espaço central e hegemônico. Literatura essa, que não usufrui de prestígio e legitimidade do cânone, já que o mercado editorial está voltado para uma demanda específica que foi ilustrada pela pesquisa. Dos números apresentados por Dalcastagnè e das constatações semelhantes feitas por Silviano Santiago em seu período, é possível refletir sobre o quão restrito é o universo literário no Brasil e o quanto são relevantes culturalmente as produções que infringem as regras pré-estabelecidas desse universo.
 
III. Exaustão e Plenitude
O trabalho desses escritores tem componentes próprios; atuação política, iniciativa editorial, além de uma condição diferenciada quanto ao lugar de fala. É uma característica que está presente tanto no movimento que teve seu auge em meados dos anos 1970, quanto no dos anos 2000. Na década de 1960 os escritores faziam recitais de poesias nas ruas, em conjunto com operários, as apresentações se davam em locais inusitados, a própria linguagem, a própria poesia era performática, construída especificamente para o povo. “Não há lugar aqui para os ‘artistas de minorias’ ou para qualquer produção que não faça uma opção de público em termos de povo’.” Os objetivos do grupo são desvirtuados quando em 1964 ocorre o golpe militar, e então o projeto de expansão cultural para o teatro e as demais artes fracassa.
Já a literatura marginal dos anos 2000 é periférica, oriunda da favela. Suas formas de atuação priorizam este espaço. Há um deslocamento de objetivo quando essa migra de lugar, isso ocorre, mas, no entanto, seus idealizadores a transformam em estratégica. As formas de atuação artística na periferia são quase sempre em formato de saraus, mas há também dança, representada como confronto de hop-hop e grafiti, expressão gráfica típica das ruas.
Essa atuação pode ser considerada um veículo de visibilidade, já que os saraus, os encontros literários e as edições com selos próprios também foram componentes que estimularam a curiosidade das universidades, editoras e imprensa. A favela é um elemento complexo dessa escrita; buscar o entendimento dessas produções discursivas é dialogar com um contexto social até então novo para a literatura. As favelas são localidades que não estão no centro social, político e cultural dos acontecimentos, no entanto, é dotada de pulsão criadora, e grande fluxo de produção. São esses atores sociais que buscam na cultura territorializada da favela agregarem outros valores a essa condição. Tal mobilização assinala uma importante mudança social, já que a periferia passa a elaborar as soluções para os obstáculos encontrados, fazendo com que se desempenhe autonomia e protagonismo em seu destino. Essa iniciativa é permeada pela valorização do morador da periferia, sua cultura, seus hábitos, musicalidade e formas de expressão. Sérgio Vaz revela que:
 
“Esse novo artista da periferia é um artista cidadão. Ele não faz a arte só pela arte, ele representa as pessoas que não têm voz, não têm teatro, não têm cinema. É um movimento político apartidário (…). Talvez com menos dinheiro, menos condições, menos espaço. Mas, ainda assim, é uma efervescência cultural. As pessoas se apropriaram dos bares, tem cinema na laje, botecos, becos e vielas”.
(Jornal do Brasil, Cultura, 02/11/ 2012)
 
 
O autor destaca uma apropriação do espaço favela como um território possível para a difusão cultural, revelando a importância do artista periférico. Ele trata essa postura como representação do que seria essa renovação de um espaço. O destaque que esses eventos adquirem possibilita um olhar para as regiões que antes eram negligenciadas, como cita Ferréz “mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto.” Os eventos culturais alteraram as rotinas das comunidades, pois os grupos que prestam serviços aos moradores não são somente as ONGs (organização não governamental) de fora, mas sim os próprios cidadãos empenhados na transformação daquele espaço.
É possível perceber que em três momentos históricos distintos, em 1922 com a semana de Arte Moderna, na década de 1970 com os CPCs da Literatura Marginal e nos anos 2000 com a articulação dos moradores de periferia na criação de um movimento cultural artístico-literário há tentativas de reciclagem criativa. Mas, do ponto de vista da efetivação da proposta, somente as literaturas marginais da década de 1970 e dos anos 2000 conseguem pôr em prática tal empreitada. Isso porque, buscam suas bases no Modernismo e o superam, ao menos em seu intuito objetivo. O Modernismo tinha como ideal, além da antropofagia, a popularização da arte no Brasil. Nessa perspectiva imediata, ele fracassa. Da configuração da semana de arte moderna de 1922 até as publicações e manifestos artísticos, nada é de ampla circulação além do universo burguês. A literatura marginal de 1970, idealizada a partir da semana de 1922 obtém alguma aproximação com o público porque encontra na linguagem um meio de mediação artística. Além de fazer do modo de distribuição um recurso de aproximação relevante. Nos anos 2000, analisadas minunciosamente a semana de 1922 e a aprendizagem da poesia popular da década de 1970, a literatura produzida na periferia refaz o manifesto antropófago, de Oswald de Andrade.
Relevante ícone, agitador cultural e escritor, Sérgio Vaz é conhecido por conceber o primeiro Sarau permanente da periferia. Autor do livro Literatura, pão e poesia, propõe uma Semana de Arte da Periferia nos moldes semelhantes à Semana de Arte Moderna de 1922. Conforme Oswald, Sérgio Vaz elabora um manifesto. Intitulado “Manifesto da Antropofagia Periférica”, o texto de Sérgio Vaz recupera os anseios modernistas no que diz respeito à questão da divulgação e valorização da cultura nacional. No entanto, o trabalho de Vaz está centrado na periferia. O primeiro verso do manifesto expressa essa concepção: “A periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.” O escritor se vale do manifesto antropófago de Oswald de Andrade publicado em 1928, ícone da expressão modernista brasileira. “Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”
A noção de antropofagia é fundamental para a compreensão do movimento modernista brasileiro, uma vez que, a ideia de criação cultural recebe um significado muito diferente do até então explorado naquele momento. Oswald de Andrade ao cunhar o conceito de antropofagia estabelece o canibal como agente, como aquele que transforma a cultura alheia e a ressignifica a partir de suas perspectivas culturais e sociais. Oswald reflete sobre a questão de maneira descontraída em seu manifesto antropofágico: “Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”
No fragmento exposto, o autor modernista reitera com ironia a importância do Brasil no estabelecimento do humanismo europeu do século XVIII, baseado nos princípios da “liberdade, igualdade e fraternidade”, que não se consolidaram. Prova disso é a Primeira Grande Guerra com que se inaugura o século XX na Europa. Sendo assim, propõe a Revolução Caraíba, cujo fundamento é a antropofagia cultural de colonizados e colonizadores. A construção de Sérgio Vaz transforma antropofagia em periferia. O ato de se apropriar de outras manifestações culturais e dar um novo sentido a partir de uma ótica singular, também pode ser concebida sob o viés periférico.
Sérgio Vaz exerce a antropofagia a partir do próprio cenário cultural brasileiro. Se a antropofagia pode ser entendida como uma forma de a arte brasileira se apropriar de elementos culturais hegemônicos, como por exemplo as vanguardas europeias, a periferia, na visão de Sérgio Vaz, também pode se mobilizar no sentido de se apropriar desses elementos eruditos e ressignificá-los. Oswald assinala que a antropofagia é um fator de união social, econômica e filosófica. Sérgio Vaz constrói sua proposta a partir do amor, da dor e da cor. Os três eixos selecionados por Vaz são significativos e ajudam a compreender o conceito de periferia estabelecido por ele. Ao citar dor, o poeta se refere à experiência da violência e da escassez enfrentada pela população mais pobre e consequentemente negligenciada socialmente. Essa parcela, constantemente ignorada é composta por maioria negra, ressaltando assim, outro componente fundamental: a questão racial. Mesmo diante da exclusão social causada pela cor, gerando dor, Vaz cita ainda o amor como componente desse núcleo periferia. O amor pode ser entendido como a solidariedade necessária à sobrevivência. Idealizada a partir do movimento modernista de 1922, a Semana de Arte Moderna da periferia, elaborada em 2007, contou com diversas semelhanças e alusões ao primeiro evento paulista elaborado na primeira metade do século XX. Exposições artísticas, danças, manifestações musicais e folclóricas formaram o repertório da Semana Periférica.
Sérgio Vaz afirma se apropriar da ideia de “Semana de arte moderna” com intuito de dar visibilidade às demandas da periferia. Ou seja, Sérgio Vaz tem consciência da apropriação de um significativo e marcante acontecimento da alta cultural brasileira e o transforma com intuito de subvertê-lo e obter visibilidade, reivindicando assim, atenção para a periferia. No manifesto da antropofagia periférica o escritor assinala:
 
“Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de uma futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade.”
(VAZ, 2011, p. 27)
 
O escritor atribui à arte uma função social, capaz de combater injustiças e, essa arte só pode vir da periferia, uma vez que, “A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.” O princípio da autonomia é constante no manifesto de Sérgio Vaz. E, a figura central dessa autonomia é o artista-cidadão. Nesse sentido, é possível perceber a influência de Oswald de Andrade no texto de Sérgio Vaz. Oswald critica o sistema, as injustiças e a previsibilidade dos eventos:
 
“Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. “
(ANDRADE, Ano I, no I, maio de 1928)
 
Ao ajustar sua crítica ao pensamento oswaldiano e recriá-lo, Sérgio Vaz não só valida a importância do movimento modernista brasileiro de 1922, como o retoma, atualiza-o aplicando a sua realidade. O discurso de Oswald é então melhorado, porque encontra aplicabilidade. Sérgio Vaz também tece uma crítica relacionada aos meios de produção artística, o pouco incentivo governamental, vaidades de indivíduos relacionados com o meio e a mercantilização da arte: “Miami pra eles? “Me ame pra nós!” Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e os eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e da arte privada” (VAZ, 2011, p. 27).
No manifesto antropofágico de 1922, Oswald de Andrade já mencionava algo muito semelhante a essa crítica ao meio artístico. Ao afirmar ser “contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida (…) contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.” O escritor moderno critica a falta de autonomia e condena a repetição das artes e das culturas europeias sem questioná-las ou adaptá-las ao modo brasileiro. Ele afirma: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” A repetição sem adaptação, afastada dos elementos culturais brasileiros parece estúpido na visão oswaldiana. Em consonância a essa postura, Sérgio Vaz estabelece uma intertextualidade pensada, calculada e adaptada a realidade periférica. Vaz consome todo o texto de Oswald de Andrade e o digere de maneira peculiar, sensível e inteligente:
 
“A periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala […] contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.”
(VAZ, 2011, p. 28)
 
De acordo com Sérgio Vaz, a cultura é uma importante solução para o problema da marginalização social da periferia. Oswald também acreditava que a democratização cultural era uma questão importante, já que ele idealizava: “A massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico”. As releituras da produção e ideologia modernista ainda encontram eco nas escritas contemporâneas. Para Ihab Hassan a ficção pós-moderna apenas reativaria, num espírito de subversão cultural e anarquia, a criatividade reflexiva e narcisista do Modernismo. Porém, mais do que reativar, o trabalho de Sérgio Vaz se apropria e a cria a partir de Oswald. Barth, ao tratar da exaustão da literatura, aponta principalmente para a estética do alto modernismo, já superada em sua essência. O autor afirma que a literatura não se esgotará jamais não porque um texto literário em particular seja inesgotável, mas sim por conta de sua significação, que está sujeita, por meio dos leitores, ao tempo, espaço e a linguagem.
 
Bibliografia Consultada
BARTH, John. The Friday Book. Baltimore, John Hopkins University Press, 1984.
BARTH, John. The Literature of the Replenishment. The Friday Book: Essays and Other Non-Fiction. London: John Hopkins University Press, 1984.
BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1984.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2003.
FERRÉZ (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
HASSAN, Ihab Habib. The Postmodern Turn: Essays in Postmodern Theory and Culture. Columbus: Ohio State University Press, 1987.
HUYSSEN, Andreas. Mapeando o pós-moderno. In: Heloísa Buarque de Hollanda. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
HOLLANDA, Heloísa Buarque. 26 Poetas Hoje – Antologia. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
HOLLANDA, Heloisa Buarque. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde:1960/1970. Rio de Janeiro, Rocco, 1992.
NASCIMENTO, Érica Peçanha do. Vozes marginais na literatura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. (Coleção Tramas Urbanas).
SANTIAGO, Silviano. “Vale quanto pesa. (A ficção brasileira modernista)”. In: Vale quanto pesa. Ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. Rio de Janeiro, Global, 2003.





Bio fornecida pelo palestrante.

NARRADOR E SOCIEDADE: UMA LEITURA DO ROMANCE DE ALEITON FONSECA NHÔ GUIMARÃES – Maria Eduarda Pinto Pereira, Silvia Eliane de Oliveira Basso e Adenilson de Barros de Albuquerque




 

Maria Eduarda Pinto Pereira

Silvia Eliane de Oliveira Basso

Adenilson de Barros de Albuquerque

 

Instituto Federal do Paraná

 
 
RESUMO: Este artigo é uma análise do papel do narrador na sociedade atual; da forma como ele introduz sua narrativa, os métodos que usa e a maneira como trabalha em conjunto com a memória a fim de fornecer narrativas que possam transmitir não apenas histórias, mas experiências. Com base no envolvimento do narrador não correspondido pelo ouvinte, que está vinculado diretamente a coisas imediatas, o assunto abordado será relacionado ao romance de Aleiton Fonseca, Nhô Guimarães, o qual instiga uma reflexão a respeito da posição e da importância do narrador em sociedade. A partir da contribuição de autores como Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Pierre Nora e Michael Pollak é feita uma análise a respeito da principal hipótese aqui levantada: se o narrador está ou não à margem da sociedade nos dias atuais.
 
Palavras-chave: histórias; memória; experiências; ouvinte.
 
ABSTRACT: This article is an analysis of the role of the narrator in present society. It introduces the narrative, the methods, uses and the way he works them in conjunction with memory, in order to achieve a narrative that can transmit not only stories, but also experiences. It will discuss the case of the narrator that does not correspond with his listener, since the latter is linked only to immediate things, in the novel Nhô Guimarães, by Aleilton Fonseca. It instigates a reflection on the position and the importance of narrator in society. Employing the contributions of From of the contribution of Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Pierre Norra and Michael Pollak, this article will analyse the book having as its main hypothesis raised here whether the narrator is at the margin of society.
 
Keywords: stories; memory; experiences; listener.
 
MINICURRÍCULOS: Maria Eduarda Pinto Pereira foi pesquisadora Pibic-Jr, de março de 2015 a fevereiro de 2016, no projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É estudante do Ensino Médio Integrado em Química, no IFPR/campus Umuarama. É membro do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação
Silvia Eliane de Oliveira Basso é docente no IFPR/campus Umuarama. Colaboradora do projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É líder do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação.
Adenilson de Barros de Albuquerque é socente no IFPR/campus Umuarama. ´É coordenador do projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É membro do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação.


 
NARRADOR E SOCIEDADE: UMA LEITURA DO ROMANCE DE ALEILTON FONSECA NHÔ GUIMARÃES
 
Maria Eduarda Pinto Pereira
Silvia Eliane de Oliveira Basso
Adenilson de Barros de Albuquerque
 
Instituto Federal do Paraná
 
 
Nhô Guimarães (2006) é um romance de Aleilton Fonseca que retrata, através de uma homenagem a Guimarães Rosa, a vida no sertão. Mantendo a sua maneira característica de escrever, Fonseca dá ênfase ao narrador e às suas histórias vividas. O escritor prende a atenção do leitor graças à sua forma de escrever que reflete alguém experiente. Na sua maneira de desenvolver o texto, ele nos leva para além do personagem, fazendo-o se transformar a cada leitura, criando assim um tipo de identificação tornando-o mais “real”. O escritor reflete em seus escritos experiências de vida. “Isto porque sua vida é o principal alimento da sua escrita” (RIBEIRO, 2009, p. 297). Esta bagagem, que está diretamente ligada ao seu método de contar a história, enriquece a narrativa, aquela que carrega consigo as boas histórias/experiências. Aleilton Fonseca nos impulsiona a novos sentimentos: ele “é capaz de nos fazer enxergar qualidades e valores do ser humano que se fazem cada vez mais raros no nosso quotidiano de simulacros de emoções” (OLIVIERI-GODET, 2010, p. 99). Assim, indo além do fantasioso e transformando o que é dito simples em algo substancial para o leitor, Fonseca retrata, a história da personagem Nhô Guimarães.
Uma narradora personagem, por meio de muitas histórias, tenta repassar suas experiências ao seu ouvinte (semelhante àquele de Grande sertão: veredas), destacando o interesse que a personagem Nhô Guimarães tinha pelo sertão. Fonseca emprega informações obtidas e trabalhadas pelo escritor mineiro Guimarães Rosa e as organiza de maneira que a narradora personagem possa homenageá-lo. Na homenagem a Guimarães Rosa, está conservada a característica do narrador do sertão, que procura não apenas contar uma história, mas torna-a “real” de maneira que o ouvinte possa refletir e se identificar. Outro destaque do texto é o próprio ouvinte, sua postura de atenção silenciosa à narradora. Isso gera uma provocação sobre o tipo de respeito e valor que o meio social atual fornece ao narrador.
Destacada, em linhas gerais, a maneira como a obra de Fonseca retrata a vida no sertão, este artigo, especialmente, está voltado à ação de narrar e à (des)valorização do narrador nos dias atuais. A narradora em Nhô Guimarães valoriza os aprendizados, as experiências que a vida lhe proporciona. A admiração dedicada ao marido que não era um homem estudado, mas que vivia e aprendia as coisas que o sertão lhe oferecia, representa a importância da experiência não somente na história, mas no contexto geral de vida: “Mas ele era difícil de errar as ideias; tinha boa intuição e preparo… Foi um longo tempo de observar de um tudo, aprendendo e ensinando”. (FONSECA, 2006, p. 12).
Ao pensarmos na experiência, devemos ter em conta a maneira como ela pode ser conservada e transmitida através da memória, no trabalho de armazenar e rememorar. Esse processo só é efetivo se exercitado rotineiramente, pois a memória é seletiva: “Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado” (POLLAK, 1992, p. 4). Ao afirmar isso, Pollak chama a atenção para o seguinte: apesar de muito eficiente ainda é dependente do agora, do exercício. Assumi-la é considerar por completo suas características, sendo uma delas estar em função do momento presente: “As preocupações do momento constituem um elemento de estruturação da memória” (POLLAK, 1992, p. 4). Esse fator a torna, em alguma medida, limitada. Atualmente, parece haver a perda da distinção da própria memória que não consegue mais determinar o que é ou não importante, o que deve ou não ser armazenado, já que tudo é muito mais breve e momentâneo. A memória nos tempos de hoje está resiliente e ao mesmo tempo distingue o porquê de sua fácil e passageira adaptação ao efêmero. É como se houvesse uma convenção do não uso da memória. Por mais efetiva que ela seja, há um afastamento das funções que não apenas poderia ou conseguiria exercer, mas, insistimos, deveria exercer.
Apesar das restrições que há sobre a memória, ainda assim “a gente guarda a memória de certos barulhos” (FONSECA, 2006, p. 67). A narradora, em sua fala, remete ao barulho que o cavalo da personagem Nhô Guimarães fazia ao se aproximar, apenas pela forma que cavalgava ela conseguia distingui-lo de qualquer outro cavaleiro que chegava, demonstrando por meio disso uma maneira da memória armazenar as coisas importantes. Entretanto, existe a nossa (in)capacidade de nos prontificarmos a ouvir: “Muita história que se conta nasceu de coisa acontecida, mas fica por si” (FONSECA, 2006, p. 40).
A desvalorização da importância da memória e da experiência em sociedade deve-se às velhas verdades das narrativas trocadas por algo mais imediato e digitalizado. É como se a sabedoria atribuída às experiências perdesse sua vitalidade para o próprio narrador, tornando-se algo descartável e facilmente substituível. Apesar disso, não é como se o narrador tivesse uma parcela de “culpa” pela morte da narrativa. Pelo contrário, a responsabilidade deve ser atribuída em grande medida às características da sociedade atual que, além de desmotivar, gradativamente exclui o narrador de sua dinâmica.
Com base no exposto até aqui, entendemos que a memória é constitutiva, transitando entre ser formadora de indivíduos e formadora de uma cultura. No caso específico deste estudo, as experiências da memória estão constituídas em narrativa.
Na obra de Fonseca, a narradora passa toda a história relembrando e contando ao seu ouvinte inúmeros aprendizados. Ele permanece em silêncio apenas “assuntando”, o que a faz elogiá-lo pela sua facilidade e paciência em apenas ouvir. É isso que a personagem Nhô Guimarães (representação do escritor Guimarães Rosa) fez ao adquirir os conhecimentos com o povo do sertão e “repassá-los” utilizando a ferramenta da escrita. “Nhô Guimarães contou a mesma com palavras outras, umas muito difíceis dá gente saber, porém bonitas” (FONSECA, 2006, p. 48). A relação entre o leitor e as narrativas escritas estende-se à do narrador com o ouvinte: ambos devem estabelecer uma relação fraternal e recíproca porque “o texto só existe quando é lido” (BOMBINI, 2011, p. 5), assim como o narrador só cumpre o seu papel quando há alguém para ouvi-lo. A familiaridade entre escritor e leitor, portanto, pode servir de parâmetro de comparação entre o narrador e seu ouvinte, pois entre leitor e escritor, para que a compreensão seja satisfatória “estabelece-se um elo (…) o qual se fortalece a partir do que é exposto e desenvolvido no texto e compartilhado por ambos” (PEREIRA, 2009, p. 56). De maneira semelhante, se fixa uma relação entre o narrador e seu ouvinte, essencial para que se estabeleça, mediante a história narrada, um elo entre os dois. O narrador pode projetar que tipo de sentimento quer provocar em seu ouvinte ou até mesmo de que maneira a forma de narrar pode prender a atenção de quem escuta.
O narrador deixa espaços vagos (mas não vazios) reservados para que o pensamento do interlocutor explore e acrescente a eles seu tipo de percepção do que é escutado. Por isso, ao se pensar em narrativas, deve-se considerar os narradores e seus interlocutores que desempenham papel fundamental na (re)constituição das histórias.
Apesar da arbitrariedade na comparação entre as narrativas escritas e orais, o trabalho desempenhado pelo ouvinte difere do desempenhado pelo leitor. Ao se colocar em posição de interlocutor, o ouvinte deve prestar atenção redobrada ao narrador de maneira que não se distancie em nenhum momento do que ouve e não perca os detalhes da narrativa. O leitor, quando perde o foco, pode voltar algumas páginas e reler. O ouvinte pode pedir para que o narrador repita, mas a maneira que contou uma vez, mais acentuada do que no ato da leitura, não será igual ao se “repetir”: outro tom de voz, outro humor, outros gestos, outras palavras serão empregados. Somado a “todo aparato circunstancial que engloba o momento da enunciação e audição, o ouvinte aciona sua memória pessoal” (PEREIRA, 2009, p. 60) ao mesmo tempo em que ele precisa se distanciar e ir ao seu mais íntimo para se identificar com o sentimento que lhe é despertado, armazenando o ensinamento que está agregado ao que ouve.
Ao “reapresentar” a história ouvida, o ouvinte se torna um narrador e tem a oportunidade de contar a sua versão e buscar a “autenticidade” na reprodução, tomando cuidado na forma como a reproduz. “É preciso apurar o juízo que as histórias têm sentidos escondidos nos interesses das pessoas” (FONSECA, 2006, p. 53). A narradora personagem de Nhô Guimarães aconselha seu ouvinte ao lhe dizer que nem tudo que é contado é verdadeiro, mas que tudo tem seu valor. Ela – quando se trata de histórias que não lhe “pertencem” – assume que conserva o que lhe contaram, não sabendo se o assunto é verídico. Parece haver mais a ser aproveitado do que excluído. Cabe ao ouvinte também discernir o que ouve.
A importância do narrador, tanto individual como socialmente, está não apenas na pessoa que narra, mas na maneira com que faz uso de sua memória que é formadora de identidades. A memória quando individual se transforma através da narrativa para algo conjunto ao de ouvir. “Quem escuta uma história está em companhia do narrador” (BENJAMIN, 1994, p. 213). A narrativa retrata as memórias de maneira que se permite imaginar a respeito delas, o que o narrador sentiu ao escrevê-las/contá-las. O narrador é peça fundamental na conservação da memória, pois é aquele que consegue fazer a ponte entre as experiências captadas e as memórias armazenadas, transformando-as em narrativas.
 
Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer a um acervo de toda uma vida (uma vida que pode não incluir apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer).  (BENJAMIN, 1994, p. 221).
 
O narrador recorre a um acervo de memórias, de experiências próprias ou alheias, tornando-o ensinamento, narrativa. É o talento do narrador que trabalha com a memória, juntando fatos e transmitindo-os de maneira que prenda a atenção do ouvinte. Essa narrativa rica, formativa de identidades individuais e coletivas, está, contudo, em decadência devido à sociedade pós-moderna que a sufoca.
É importante ressaltar que a morte do narrador, demonstrada por Benjamin (1994), tem relação próxima com a perda recorrente da sensibilidade ligada à memória mencionada por Nora (1993). Memória e narrador caminham juntos, um necessita do outro para que ambos se constituam. Afirmar que o narrador está perdendo seu lugar na sociedade, também é dizer que a importância da memória está se perdendo. Com a falta de narradores que estabeleçam cotidianamente a ponte entre a memória e a narrativa, destacam-se outras formas de manutenção de memórias. Na tentativa de conservá-las, são consagrados lugares, ambientes nos quais se tornaria “mais fácil” o “acesso” à memória. No entanto, “desde que haja rastro, distância, mediação, não estamos mais dentro da verdadeira memória, mas dentro da história” (NORA, 1993, p. 9). Com medidas paliativas, armazenam as memórias em objetos, coisas e lugares. Não obstante, quando há alguma mediação, ela não se habita mais na memória humana, pois se trata mais do trabalho feito pelo narrador. A memória, assim, se torna patrimônio coletivo o que, ironicamente, soa como algo positivo: tudo que é coletivo é de todos. Não se deve esquecer, porém, que antes de coletiva a memória é individual. Cabe primeiramente ao indivíduo “repassá-la”, mantendo ainda sua presença nela. Algo “sacralizado”, arquivado e mediado (por monumentos, lugares e objetos) não se referem mais à memória viva, mas à história. Além de transmitir determinados conhecimentos, a narradora de Nhô Guimarães também nos reporta em sua fala sobre como a memória funciona, evidenciando em sua fala o que foi marcante e memorável para ela.
 
Naquela noite, foi um assombro como nunca. Ah, nem queira o senhor saber. Tive um pressentimento, fiquei com a imagem da falecida atentando meu juízo. Fiquei mofina de ir me deitar, mas o sono me agarrava. Fui dormir muito tarde, era uma noite de uma lua bem pouca, no alto de mais do céu. Eu estava inquieta, tremia aperreada (FONSECA, 2006, p. 73).
 
Notamos o quanto a memória é marcante nesta fala. A narradora possuía uma amiga de infância que havia levantado uma calúnia a seu respeito. Em função disso, a antiga amizade se desfez e sua companheira nunca mais foi vista até o dia de seu enterro, no qual a narradora deixa de lado seu ressentimento e vai acompanhá-lo. Ainda de acordo com a narradora, a falecida lhe faz uma breve visita na noite em que não conseguia aquietar sua mente. Ela relembra, detalhadamente, que naquela noite ela havia ido dormir tarde e que a lua era pouca no céu. Não cabe aqui, obviamente, questionar a veracidade dessa fala na narrativa, mas ressaltar esse conjunto de detalhes fornecido pela narradora que dá forma e concretiza uma característica marcante da memória humana: armazenar tudo aquilo que lhe é importante.
A memória, entretanto, não guarda somente imagens ou momentos relevantes. Ela consegue gerar certos mecanismos para além do imaginado, conservando lembranças e determinados sentimentos geradores de esperanças. Esse tipo de função foi outra característica vivenciada pela narradora.
 
Ah, meu Deus! Por derradeiro, confiro um detalhe. Aqui está: o senhor tem o sinal de minha gente. Agora junto os demais: seu olhar, seus gestos, seu modo de sorrir, seu sentimento. O senhor há de ser gente minha, conforme quero e anseio. Me dou por ciente, satisfeita. Esperei, tive fé: alcancei? O senhor é a revelação? Eu confiro com sua esperança? O que o senhor descobriu? Se for o certo e exato esse quarto arrumado então é seu. Venha a mim, me abrace. Tenho sentido muitas saudades suas (FONSECA, 2006, p. 171).
 
A narradora que havia perdido seu marido e não tinha notícias do filho há anos, do qual não se lembrava mais como eram as feições, guardava na lembrança seu modo de ser e o que sentia por ele. Ao observar seu interlocutor no desenrolar da narrativa, a narradora personagem conclui sua história questionando se não era ele o neto que há tanto tempo aguardava, que jamais vira e não sabia se realmente existira. Ela se lembra, naquela idade avançada, as características de seu povo, recordando o tipo de sentimento que seu filho despertava nela, deixando transpassar o sentimento que conservara desde a sua partida anos atrás.
Ao se dirigir para um final sugestivo, a narradora, antecipadamente, faz um de seus últimos comentários/ensinamentos a respeito da importância do narrador e da relação com seu ouvinte, do poder que este último (um narrador em potencial) tem em mãos. Ela aconselha: “Pois, se o senhor reunir os causos, escolher as palavras e contar as histórias, saiba que muita gente vai se agradar do senhor” (FONSECA, 2006, 105). Ao deixar um de seus últimos ensinamentos, relembra o que Nhô Guimarães fez ao recontar as histórias, conservando sua autenticidade, mas de maneira que todos se interessassem por lê-las. Além disso, ela chama a atenção não apenas para o ato de contar, mas para o saber contar, a partir do qual o narrador se apoia para dar vida à narrativa. Podemos afirmar ainda que, ao oferecer este ensinamento ao seu ouvinte, a narradora espera que ele vá além do ouvir, usando tudo que aprendeu para recontar a narrativa à sua maneira, pois o desejo do narrador, além do ouvinte, é que a narrativa caminhe e permaneça viva.
O maior problema, contudo, atribuímos à forma como o narrador é visto atualmente na maioria das sociedades contemporâneas: “o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado” (BENJAMIN, 1994, p. 200). A falta de tempo e desatenção às histórias contadas contribuem para constatações como a seguinte: “a arte de narrar está em vias de extinção” (BENJAMIN, 1994, p. 197). Assim, o próprio narrador perde sua força de comunicação social. Devido a isso, Benjamin anuncia a morte do narrador.
A perda do valor encontrado nas relações humanas em comunidade e “mecanização” psicológica gradativa dos indivíduos ajudaram a extinguir modelos de “(…) representantes arcaicos, (…) um exemplificado pelo camponês sedentário, e o outro pelo marinheiro comerciante” (Benjamin, 1994, p. 199). O primeiro, ganha vida com suas viagens, com elas também tira suas experiências, já que elas se estabelecem em relações e situações abundantes. O segundo leva vida estática se comparada ao outro, obtém suas experiências a partir de informações e situações no seu próprio lugar.
A partir dos pressupostos antes citados, relacionando-os às análises do sociólogo Zymunt Bauman (2007), encontram-se neste século novos tipos sociais que podem ser comparados ao narrador da modernidade de Walter Benjamin. Bauman sugere três tipos sociais que vêm ganhando destaque a partir da segunda metade do século XX: o guarda-caças, o jardineiro e o caçador. O guarda-caças, consciente do mundo a sua volta, sente-se ainda satisfeito com sua imobilidade, ele é o responsável por vigiar a caça e pode ser relacionado ao servo do período medieval, o que possui o seu papel definido e faz parte da manutenção da vida, mesmo que não se encontre no topo da pirâmide. O segundo, o jardineiro, tem certa porção de terra e sementes para formar seu jardim diferente do guarda-caças, tem ainda certa medida de escolha do que pode plantar ou cortar, seja o que for decidido de sua vontade. O jardineiro pode ser relacionado ao renascentista, ao iluminista, que até estabelece perspectiva para o futuro, mas faz coisas mínimas para mudá-lo. Por fim, sendo característico de grande parte da população pós-moderna, surge o caçador, que é movido única e exclusivamente pela sede de caçar, sustentando-a mesmo na ausência de caça ou no excesso dela. Para ele, a procura é o que o deixa em movimento e o afasta do que seriam consideradas “intervenções negativas” em sua vida.
 
Diferentemente dos dois tipos que prevaleceram antes do início de seu mandato, o caçador não dá a menor importância ao “equilíbrio” geral “das coisas”, seja ele “natural” ou planejado e maquinado. A única tarefa que os caçadores buscam é outra “matança”, suficientemente grande para encherem totalmente suas bolsas. (BAUMAN, 2007, p. 105 – grifos do autor).
 
É nesta interseção, narrador excluso e desvalorizado mediante as novas tendências humanas deste século, que se encontra a narradora de Nhô Guimarães. É ela um exemplo do camponês sedentário, que viveu “(…) sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições” (BENJAMIN, 1987, p. 199). Fundamentou suas experiências nos conhecimentos que aprendeu na infância sobre sua terra e os juntou com o que ouviu ao longo da vida. Atualmente, ela se apresenta como o guarda-caças baumaniano, responsável pela história oral, por guardar suas memórias e transmiti-las em forma de experiências.
Venha ver que a melhor é essa do pote de barro, dos antigos, que ainda tenho. Aprecie. […] A gente pega as influências, que o mundo é uma grande mistura. Nos modos de falar, sou assim: meio de lá, meio de cá, de maneira bem apurada. Faço frases bem feitinhas, assim, nas boas falas.  Pois eu lhe digo: tive certo estudo, cultivei minhas leituras, uso a voz da experiência. […] O sertão é meu terreiro; e tudo o que o vento traz. Certas coisas a gente aprende pelo viver, não carece de ensino (FONSECA, 2006, p. 12-15).
 
A narradora/personagem conserva e valoriza seus aprendizados ao longo da vida Ao pedir ao seu ouvinte que ele se achegasse, ela lhe traria um copo do pote de barro, que, de acordo com sua experiência, possuí um melhor sabor. Ela faz uso da “voz da experiência”, pois o sertão é o seu terreiro.
Contudo, a sociedade contemporânea vem se adaptando a uma forma de vida individualizada. Apesar de saber como fornecer ensinamentos através de seus aprendizados, os narradores são vitimizados pelo imediatismo. O exemplo benjaminiano e o narrador deste século podem ser relacionados ao guarda-caças baumaniano, destituídos de voz no contexto ágil e “líquido” atual do mundo. A imobilidade do guarda-caças não entra na dança do consumismo. Ao possuir propósitos na vida que vão além da incessante busca pela individualização e do seu recorrente poder, por diversas vezes, mesmo com suas experiências, ele é posto de lado. Pois:
 
Agora somos todos caçadores, ou chamados de caçadores e convocados ou compelidos a agir como tal, sob pena de sermos expulsos da caçada, ou (nem pensar nisso) relegados às fileiras da caça. E o quanto quer que olhemos em volta, provavelmente veremos outros caçadores solitários como nós. […] E precisaríamos realmente nos esforçar para conseguirmos ver um jardineiro que estivesse contemplando algum tipo de harmonia pré-planejada por trás da cerca de seu jardim privado e depois se pudesse a concretizá-la (a relativa raridade dos jardineiros e a crescente profusão de caçadores são o que os cientistas sociais discutem sob o título culto de “individualização”) (BAUMAN, 2007, p. 105).
 
O caçador, assim, é fruto da sede pela individualização, esta que eterniza o tempo presente de maneira que o futuro é não imaginado, ele corre na direção do “ser supremo e completo” que pode ser comprado e encontrado nas lojas e vislumbrado nas propagandas. Vende-se quase que imperceptivelmente uma vida baseada no consumismo e no ilusório poder agregado a ele. Os vazios são cada vez mais preenchidos pelas compras futuras, pelo tempo diretamente ligado à produtividade. Devido à eternização do futuro no presente, há uma despreocupação com a imagem que irá se construir ao longo dos anos, pois o futuro é o aqui e o agora. O narrador está “morto” não pela ausência de suas experiências, mas pelo ouvinte eternizado no agora, que não se preocupa em aprender a formular a vida tendo-a como princípio o passado. Este é esquecido e o envelhecimento é algo que pode ser evitado aos olhos dos caçadores.
O narrador, precursor de memória, vive à margem, desencorajado pelo meio que o cerca. Porém, afirmar que não há nenhuma memória viva ou que não há narradores suficientes seria mortificar os últimos indivíduos sem que estivessem verdadeiramente mortos. Talvez o narrador não esteja morto, mas apenas repousa e descansa em um sono aguardando novos tempos e novos ouvintes. Ele necessita de pessoas que se disponibilizem a lhe dar atenção, pois “a relação que se estabelece entre ouvinte e narrador é mantida pelo interesse em conservar o que foi narrado” (SANTOS, 2001, p. 121). É através desse interesse gerado que o narrador se agarra no fio de esperança de poder repassar sua história. O nosso narrador descansa, pois nós mesmos o afastamos quando o excluímos, menosprezamos e o trocamos pela imediaticidade das informações efêmeras, a busca pela caça definida por Bauman (2007). Diante disso, não é o narrador quem deveria estar no centro do problema, mas nós mesmos que precisamos nos reeducar, aprender a separar e a valorizar o que realmente nos é importante. O narrador, enquanto vivo, porém menos operante do que gostaríamos, está com a sua arte apenas aguardando que alguém pare e o assunte, para que ele possa exercer com maestria sua função, a exemplo do que é apresentado entre os interlocutores na narrativa viva do romance Nhô Guimarães.
 
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Trad. Carlos A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In. BENJAMIN,W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
BOMBINI, Rosilene F. Rocha. A relação texto-leitor no ato da leitura, IV Simpósio de Letras Neolatinas, Rio de Janeiro, 2011.
DUTRA, Daniel Iturvides. O papel do leitor na construção de sentido do texto: uma análise dos contos “Um som de trovão”, de Ray Bradbury, e “A máscara da morte rubra”, de Edgar Allan Poe, SIGNUM: Estudos de Linguística, Londrina, no 13, jul. 2010: p. 127-138.
FONSECA, Aleilton. Nhô Guimarães. Rio de Janeiro: Bertrand , 2006.
OLIVIERI-GODET, Rita. Aleilton Fonseca: O engenho do faz de conta como aprendizagem da vida. Revista da Academia de Letras da Bahia, Salvador: Academia de Letras da Bahia, n. 49, p. 85-101, dez. 2010.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Trad. Monique Augras, Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 5, no 10, 1992.
RIBEIRO, Carlos Jesus. O território sagrado da alma na obra de Aleilton Fonseca. In. RIBEIRO, C. J. À luz das narrativas: escritos sobre obras e autores. Salvador: EDUFBA, 2009.
SANTOS, Rita A. Coelho. O conto de Aleilton Fonseca: a permanência do narrador. (Posfácio). In. FONSECA, Aleilton. O desterro dos mortos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.
NORA, Pierre. Entre memória e história: A problemática dos lugares. Trad. Yara Aun Khoury, Projetos História. São Paulo, dez. 1993.
PEREIRA, Rafaela C. Maximiano. O ato da percepção: do enfoque dado ao leitor na estética da recepção ao papel do ouvinte na performance da poesia oral, GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL, Londrina, n. 7, jan-jun. 2009.





Bio fornecida pelo palestrante.

HOMERO NÃO ERA UM MERO HOMEM: A LEITURA DE CABRA DAS ROCAS, SOB A PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS – Maria José Gomes




 
 

Maria José Gomes

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 

RESUMO: Homero Homem, escritor potiguar e autor do romance Cabra das rocas, é o objeto de estudo desse artigo que tem como um dos propósitos analisar a obra à luz dos Estudos culturais, buscando identificar o sujeito e suas intersubjetividades. O seu livro provoca reflexões acerca do papel da literatura como instrumento de denúncia das incoerências e injustiças sociais, especialmente em comunidades marginalizadas, situadas geograficamente em locais periféricos. A função de Cabra das rocas é também sugerir reflexões políticas com vistas a mudanças de paradigmas incorporados pelo sujeito “marginal” através de uma relação de poder estabelecida pela classe dominante. Para tal, consultamos Raymond Willians, Stuart Hall, Maria Elisa Cevasco, Antônio Candido, entre outros, além do próprio autor da obra analisada, Homero Homem.
 
PALAVRAS CHAVES: Homero Homem, Estudos culturais, Literatura marginal
 
ABSTRACT: This article will study the novel Cabra das Rocas, written by Homero Homem, a potiguar Brazilian writer (born in Rio Grande do Norte State). Its purpose is to analyze the work in the light of Cultural Studies in order to identify the subject and point out its intersubjectivities. His book provokes reflections on the role of literature as an instrument for the denouncement of social injustices and inconsistencies, especially in marginalized communities, which are situated in peripheral locations. Cabra das rocas also suggests political thoughts on the paradigms that are incorporated into the idea of a marginal subject due to the relations of power established by the dominant class. For the writing of this article, we consulted Raymond Williams, Stuart Hall, Maria Elisa Cevasco, Antonio Candido, among others, and also the author of the work now analyzed, Homero Homem.
 
KEY WORDS: Homero Homem, Cultural Studies, Marginal Literature
 
MINICURRÍCULO: Formada em Letras pela UFRN- Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Especialista em Literatura Luso-brasileira pela mesma universidade, sob a orientação de João Antônio Bezerra Neto, é professora da rede pública do estado do Rio Grande do Norte, poetisa e escritora potiguar com livros publicados e participações em revistas literárias.
 
HOMERO NÃO ERA UM MERO HOMEM:
A LEITURA DE CABRA DAS ROCAS,
SOB A PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS
 
 
Maria José Gomes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
 
Sou (fui) um oceano.
Homero Homem, in Canto do mar
 
 
UM DEDO DE PROSA SOBRE O AUTOR
O presente artigo pretende propor uma reflexão frente às situações de desigualdades, fios temáticos analíticos daqueles estudos. O romance tem como ambiente ficcional o bairro das Rocas, subúrbio de Natal, e suas adjacências. O sujeito verossímil, metaforizado em João, um garoto de onze anos que sonha em estudar no Colégio Atheneu, instituição frequentada pelos filhos da elite natalense, é o principal elo que vincula a temática à unidade textual do romance, uma vez que a personagem principal perpassa pelos capítulos narrando a sua história e a dos demais moradores como forma encontrada para denunciar, refutar ou colidir com uma sociedade que exclui.
Poeta nascido das águas potiguares e canguleiro por vocação, Homero Homem de Siqueira Cavalcanti representou significativamente o povo potiguar através de sua lírica acentuada nos textos poéticos e em narrativas que redesenham a realidade social dos que moram no antigo bairro das Rocas, ambiente que inspirou a tessitura do seu romance consagrador: Cabra das rocas.[1]
 
O escritor segue o fio ancestral de Manuel Mascarenhas Homem, capitão-mor da capitania de Pernambuco e um dos heróis da história da fundação de Natal.  Neto do desembargador, jornalista, poeta e ensaísta Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti. Nasceu em Canguaretama, RN, em meio às águas robustas que rodeavam o Engenho Catu, de propriedade de seu pai Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti Filho.
Instalado na capital, junto à família, o poeta lapidava suas expectativas em relação ao modo de viver dos moradores nordestinos, habitantes nativos das Rocas: pescadores, marinheiros, salineiros, mulheres, crianças, idosos, analfabetos, enfim, todos os tipos humanos “marginais”.
A região que delimitava o espaço geográfico onde situavam as Rocas e as comunidades ribeirinhas, às margens do Rio Potengi, “Canto do mangue”, “Limpa” e “Chama-maré”, denominada de parte baixa da cidade, abrigava, com toda a maresia, a falta de estrutura e condições inadequadas de habitação, de moradores ávidos pela chegada da modernização, antecipada com o plano diretor que organizaria a estrutura urbana de Natal. Esse contato com os habitantes da região praieira instigou o pensar criativo, ponto de partida para uma sequência de textos literários que vieram, a posteriori, configurar a obra de Homero Homem.
Em 1954, aos 33 anos, Homero Homem engendrou a sua certidão de nascimento artístico literária com uma prosa poética intensamente lírica: A cidade suíte de amor e secreta esperança, uma obra que acendeu o brilho e a inspiração para a produção de seus escritos, resultando em um conjunto de 15 publicações, número que compõe o acervo homeriano. Após esse, veio o Calendário Marinheiro, obra que lhe rendeu os prêmios Alphonsus de Guimarães, pelo INL – Instituto Nacional do Livro – e Paula Brito. Posteriormente, uma sucessão de prêmios banhava a confluência literária de Homero Homem a caminho dos grandes braços de mar que o poemário da praia permite a quem se diz feito de águas: “Há 51 anos, eu trago em mim o mar”. Afirmou numa entrevista para o Jornal do Brasil, no dia 12 de setembro de 1975.
Não apenas na prosa, mas, sobretudo na poesia, seu primeiro amor, Homero revelou-se poeta lírico e telúrico com a produção dos títulos: Tempo de amor; Um doido e sua canção; O país do não chove; Tábua de marés – ganhador do Prêmio Olavo Bilac; Rei sem sono; Canto nacional e Abecedário da Transamazônica – também premiado, desta vez pelo Ministério dos Transportes – e o Livro de Zaíra Kemper. Este era chamado pelo autor de ‘o livro da minha viuvez’ que abriga poemas produzidos entre 1968 e 1972, cuja linha temática diz respeito ao relacionamento do casal.
O mar é um dos eixos temáticos de sua extensa obra lírica. A sua relação subjetiva e profundamente abstrata com este elemento natural esparrama-se sobre as águas metafísicas que fluem de sua imaginação. “Meu mar é existencial. Aos 11 anos comecei a escrever poesia. E nunca mais parei”, profere o poeta do mar naquela mesma entrevista.
 
SENTIDOS ENTRE PERIFÉRICO E MARGINAL
Cabra das rocas é o objeto de estudo selecionado para a produção desse artigo por enquadrar-se nas características apontadas pelos Estudos culturais e por ser uma prosa poética com versos profundamente líricos. Além disso, uma obra rica em elementos linguísticos autenticamente potiguares como forma de valorização de um patrimônio cultural intangível: a linguagem.
A razão que nos levou analisa-la sob a perspectiva dos Estudos culturais está pautada na leitura de um personagem que subverteu os padrões sócio-culturais vigentes no contexto existencial do propagonista. Isso porque, João, a figura verossímil, que simboliza a classe oprimida, rompe com o paradigma instituído pelo sistema de classes, que exclui e assola o homem. Essa ruptura ocorre no momento em que ele é admitido como aluno do colégio Ateneu Norte-riograndense cuja acessibilidade era limitada aos filhos da classe burguesa que habitavam o bairro da Cidade Alta.
A divisão de classes imposta pelo sistema estimulava a criação de novos conceitos que delimitavam o espaço urbano caracterizando os seus moradores através das alcunhas de “canguleiros” e “xarias” que, ao modo dos moradores do bairro das Rocas e da Cidade Alta, eram ofensas graves. No capítulo II da narrativa, temos os conceitos ficcionais que designam os termos utilizados durante as demarcações territoriais:
 
Em nossa cartilha de palavrões, xarias era o supremo xingamento. Designava o morador da Cidade Alta, urbano e próspero, comedor de xaréu, peixe proibido à fome humilde do povo das Rocas […] Na boca dos xarias éramos assim canguleiros, comedores de cangulo.
 
Podemos suscitar uma analogia utilizando os termos “xarias” e “canguleiros”, respectivamente, para metaforizar a ideia de literatura canônica e não canônica uma vez que essas terminologias possuem sentidos equivalentes na perspectiva histórica dos bairros Rocas e da Cidade Alta.
É possível que Homero Homem ao escrever Cabra das rocas tenha como objetivo tratar os temas apenas como forma de denunciar incoerências e, através da sua singularidade poética, trazer ao avesso disparidades sociais escamoteadas pela classe dominante.
Essa página da realidade dos que habitavam os espaços ribeirinhos e marginais, locais adjacentes ao centro nervoso da capital potiguar, não é virada, pelo contrário, é consubstancializada na narrativa com o sentido intersubjetivo das personagens nas falas em que ocorre um diálogo entre Seu Geraldo e João: “E os outros, seu Geraldo? Eles me chamaram de xarias. – Não, menino, você é mais canguleiro do que eles (…). Você é um canguleiro que vai à aula. Ao passo que os outros, que jamais irão à escola, esses nunca serão canguleiros”.
Nessa conversa, especificamente, nota-se que pela educação acontece a vitória da minoria sobre a condição existencial de pobreza dos grupos menos assistidos pelas políticas públicas nos levando a refletir sobre a importância do conhecimento como propulsor do avanço humano.
Além disso, nada impede de investigarmos a possibilidade do autor inferir os termos “canguleiro” e “xarias” associando-os às terminologias literatura canônica e não canônica, a fim também de instigar o leitor a questionar tais classificações, uma vez que a primeira é obrigatória nas grades de disciplinas das escolas públicas, tornando-se requisito imprescindível nos exames escolares. Seria esta uma outra reflexão a cerca dos motivos que levam a literatura local a amalgamar-se nas estantes das bibliotecas como mero instrumento simbólico?
Essa leitura é feita por enxergarmos em Homero Homem um sujeito conectado com o mundo das letras, não somente do ponto de vista literário, sobretudo no que diz respeito às exigências próprias da sua profissão de jornalista, cargo que exerceu em quase toda a sua vida laboral. É cabível vê-lo como um cidadão que, antes de ser autor, era primeiramente leitor do mundo. Essa condição lhe permitia acessar o universo cultural, no eixo da região sudeste, local onde ocorriam as mais notáveis efervescências artísticas. Logo a realidade para ele era muito mais palpável a ponto de influenciá-lo na criação de uma obra que refletia as condições sociais do seu povo, por isso mesmo, Homero refere-se a esse livro como um trabalho literário regionalíssimo.
A ligação com os Estudos culturais, que tinham como meta promover uma reflexão a respeito dos currículos escolares estabelecidos pela burguesia cuja hegemonia era mantida há séculos, é ponderada pelo fato da obra ancorar-se nas questões humanas urgentes como moradia, saúde e educação.
Um dos precursores dos estudos citados, o professor Raymond Williams, sugeria que a grade de disciplinas contemplasse a classe operária inglesa introduzindo uma literatura capaz de atender as expectativas dos trabalhadores com temas sociais voltados para os problemas da classe.
No caso de Homero, entendemos classe como a população ribeirinha que tem, nas imediações, o rio Potengi, locus periférico e existencial, assim como recordamos Antônio Candido no seu livro Os parceiros do Rio Bonito, uma abordagem sobre a mudança do modo de viver do caipira onde o campo também é o seu espaço periférico, e a análise sobre a sociedade rural inglesa em O campo e a cidade, de Raymond Williams cuja discursão promove a abertura de novos olhares para o homem do campo britânico que, como ocorreu com o caipira paulista, acabou ‘perdendo’ seus aspectos culturais primitivos em detrimento a um modo de vida diferente influenciado pelo processo de industrialização.
O discurso do personagem de Cabra das rocas é congruente com a proposta de valorização do homem oprimido servindo de referência para a construção do universo subjetivo do sujeito por ele apresentado na narrativa.
Na sua tessitura poética vê-se, nitidamente, a preocupação com os seus iguais, especialmente neste romance, cujas temáticas são focos discutidos pelos Estudos Culturais como a desigualdade social, geradora da miséria e da desinformação, e o acentuado preconceito com as minorias.
Seria esta uma literatura periférica denunciadora das incoerências analisadas sob o ponto de vista das produções literárias denominadas marginais? Para isso faz-se necessária a compreensão do conceito de periférico e marginal. Segundo Érica Peçanha do Nascimento, o termo literatura marginal serviu para classificar as obras literárias produzidas e veiculadas à margem do corredor editorial; que não pertencem ou que se opõem aos cânones estabelecidos; que são de autoria de escritores originários de grupos sociais marginalizados; ou ainda, que tematizam o que é peculiar aos sujeitos e espaços tidos como “marginais”.
A primeira característica não se enquadra no perfil de Homero Homem, uma vez que Cabra das Rocas fora publicada por uma editora de renome nacional, cuja divulgação estendeu-se amplamente no eixo Rio-São Paulo. Ou seja, recebeu suporte editorial, tornando-se uma obra conhecida nacionalmente, não se restringindo a um grupo de obras meramente regionalistas.
Do ponto de vista do conceito de periférico, a articulista Rejane Pivetta, em seu artigo “Literatura marginal: questionamentos à teoria literária”, comenta: “Periférico diz respeito à linha que define o limite de uma superfície, demarcando, portanto, a forma e a configuração de um espaço ou objeto” (PIVETTA, 2011, p. 32).
Nesse caso, podemos considerar o ambiente no qual ocorre a construção da teia narrativa como periférico, uma vez que o autor se inspirou no bairro das Rocas, subúrbio de Natal, tornando-o elemento geográfico básico para a edificação do romance.
Vale destacar que a literatura marginal surgiu nas periferias das metrópoles com o intuito de discutir e democratizar temáticas referentes às minorias, principalmente no tocante a grupos sociais marginalizados como os negros, os homossexuais e as mulheres. Portanto, trata-se de uma vereda literária que expressa olhar político sobre as condições de sobrevivência humana. A literatura torna-se não apenas um instrumento estético da arte de escrever, mas um veículo emancipador das ideias comuns.
 
Hart Preston, Revista Life, época da guerra.jpg [2ª Guerra mundial].
 
Os conceitos, agora aclarados, nos fornecem subsídios para o argumento de que é possível que a narrativa esteja dentro das perspectivas esperadas pelos Estudos culturais, tendo em vista um corpus artístico literário dotado de marcas analíticas próprias, tais como: versões distintas sobre determinado tema, produção literária com temáticas que dizem respeito às minorias e questões sociológicas, históricas ou geográficas.
Os termos marginal e periférico não são vias de mãos duplas, todavia estão intimamente relacionados. Contudo, o primeiro refere-se àquele que está à margem de posições estabelecidas. No caso da literatura, a oposição se faz ao cânone. O segundo denota o espaço onde àquela literatura se configura, mesmo sendo obra ficcional, especialmente porque, de acordo ainda com a articulista Rejane Pivetta, o texto não é um produto final da atividade criativa, mas um ato de intervenção e participação na vida da comunidade onde ele se produz e circula.
 
A REDE ANALÍTICA DE CABRA DAS ROCAS
Cabra das rocas foi o primeiro romance de Homero Homem embrionado em meados de 1940. A obra de caráter ficcional inspirada na realidade social do bairro onde passara sua infância e adolescência é a leitura prosaica denunciadora das injustiças, do preconceito, da discriminação com aqueles de classes sociais menos favorecidas, da descrença na capacidade humana de superação, da miséria e do analfabetismo.
Lançado em 1966, a peça literária transitava entre as manifestações sociais de um Brasil em processo de mudanças políticas com a vitória quase unânime de Artur da Costa e Silva, a determinação das eleições indiretas para governadores nos estados e prefeitos nomeados na capital pelo AI3, a decisão compelida ao Congresso para a votação na constituição de Castelo Branco pelo AI4 e os Festivais de Música que classificaram canções de protesto ao sistema ditatorial brasileiro. O mundo efervescia: Indira Gandhi, a primeira-ministra na Índia, a VIII Copa do Mundo de Futebol, na Inglaterra, Ronald Reagan eleito governador da Califórnia e demais fatos que marcaram a história servindo de subsídio para impulsionar a produção laboral jornalista do poeta, especialmente pelo fato de que, neste período, ele trabalhava como redator em jornais cariocas, logo vivenciava os acontecimentos que permearam a década de 1960.
 
Acervo Sylvio Pedroza, década de 1940.jp
 
 
Traduzido para o italiano, em 1977, por Danuza Garcez Ourique e Laura Draghi, com o título Gente delle Rocas, a obra ganhou visibilidade internacional, provocando alegria em alguns e desagrado a outros, como os esquerdistas que destilaram críticas ferrenhas, argumentando que o conteúdo estava conivente com as desigualdades sociais e integração à direita, uma vez que, segundo eles, a ambição do protagonista era uma forma de aceitação do sistema. Magoado, Homero rompeu definitivamente com o seu partido, o PSB. Em carta, endereçada ao escritor potiguar Manoel Onofre Júnior, o autor de Cabra das Rocas, comenta indignado as críticas que lhe foram dirigidas.
 
 
Cabra das rocas é um livro regionalíssimo, humilde, potiguar, brasileiro e universal, que não está circulando por todos os idiomas da terra porque me recusei a mudar o seu fim e assassinar o personagem, símbolo da vitória do nosso homem sobre a miséria e o analfabetismo, que não se tratam nem curam literariamente com ideologia (apud PEIXOTO, 2013, p.115).
 
No seu desabafo Homero expõe as ideias centrais de Cabra das rocas enfocando a miséria e o analfabetismo, umas das temáticas que confluem para a proposta de análise dos Estudos Culturais. A narrativa desde sempre se debruça sobre temas que aludem a graves questões da sociedade brasileira.
O forte lirismo telúrico serve de modelo para o que se discute em termos de literatura marginal, tema relevante para os Estudos Culturais, parte da ciência que se preocupa em propagar uma literatura que dê vez à minoria.
Do ponto de vista intrínseco a tessitura de Cabra das rocas se utiliza de elementos da natureza como o mar, que tece uma malha expressiva conectada com o tecido metafórico bem articulado pelo detalhamento das imagens que se consubstancializam. O mar é a principal simbologia aplicada ao corpus temático no qual toda a obra homeriana se configura.
Tem-se uma narrativa intensa que denuncia as injustiças sociais através do personagem principal, a voz representante do povo das Rocas. Sobre esses assuntos Homero Homem faz um comentário pertinente: “Literatura e política são elos da mesma cadeia que impele o homem a abordar as questões coletivas ou individuais” (apud PEIXOTO, 2013, p. 84).
Mesmo sem pertencer à geração de 45 ou seguir as vertentes literárias estabelecidas pela crítica mais apurada e seletiva, Cabra das rocas possui um olhar regionalista com a inferência do léxico regional, cheio de expressões próprias cunhadas no seio da ancestralidade linguística do povo potiguar.
Segundo Manoel Onofre Júnior, no que diz respeito à estética literária, toda a obra homeriana está impregnada de valores românticos: comunhão com a natureza (o mar, especialmente); exaltação da mulher amada; crítica social e política.
A trama se ambienta em um espaço social humilde tendo o mar de Natal, especialmente as praias adjacentes ao bairro das Rocas, como pano de fundo para a construção do romance que, apesar de ter sido classificado assim, apresenta em sua forma extrínseca, características nítidas do gênero Novela por conter no seu corpo literário capítulos enumerados cujas saídas e entradas dos enredos instigam o receptor a gerar expectativas, em um diálogo interativo entre leitor e texto, definido por Roland Barthes
como texto de prazer: “Texto de prazer é aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura”. (BARTHES, 1987, p. 49).
Em oposição à ideia desse tipo de texto, Cabra das rocas desvirtualiza a reação confortável do leitor a partir do momento em que promove reflexões sobre a natureza político-social enfocada no enredo, provocando nele a reavaliação da realidade. Ocorre, nesse caso, o fenômeno da inversão de papeis que Barthes chama de contra- herói: “Ora, este contra herói existe: é o leitor de texto no momento em que experimenta o seu prazer” (BARTHES, 1987, p. 36)
O leitor ávido e atento lança-se sobre a ficção como os banhistas das praias potiguares ao avistarem, maravilhados, os azuis que se misturam pela extensão do mar. Jogam-se, desprendidos, feito olhar astucioso de menino vislumbrado com o primeiro encontro amoroso.
Os retratos construídos sob o olhar atento do prosador e poeta, não apenas detectam incongruências sociais, como apontam as veredas pelas quais transformam o contexto vivido pelas comunidades que tem a periferia como o seu locus existencial.
O corpo físico da obra é dotado de uma estrutura padrão que obedece a reza da produção de livros na categoria infanto-juvenil, cuja linearidade pauta-se na lógica da unidade linguística, ou seja, um texto coerente e coeso no qual esteja sequenciado o começo, o meio e o fim.
Esse olhar não se restringe apenas à forma, mas, sobretudo à temática na qual os ramos textuais se fundamentam ancorados na figura de um menino que almeja, através da educação, romper os paradigmas perpetuados ao longo da história das sociedades, cujo modelo de conduta divide os homens entre dominantes e dominados, além de discutir questões circundantes nas comunidades onde residem os menos assistidos pelas políticas públicas.
Notamos que a segmentação em capítulos foi o meio pelo qual o autor procurou organizar o pensamento conduzindo-o a um desfecho positivo metaforizando a ruptura com a realidade.
Lúdica e poeticamente, a teia narrativa vai se consolidando de maneira sequenciada através dos capítulos que veremos a seguir: o primeiro é “A inscrição”.  Aqui, o leitor tem o contato com o motivo que promove o desenvolvimento da ficção; o desejo de estudar em uma escola da elite. O segundo, “Rocas da frente”. Esse capítulo busca detalhar o ambiente real que serviu como base inspiradora para as ações que se desenrolam ao longo da tessitura. O terceiro é Um homem do mar, onde está descrito o pai de João, referência na formação do caráter do personagem.
Os demais vão amarrando a tessitura de forma que não há como lê-los individualmente.
“As cinco partes do mundo” é o capítulo dedicado aos estudos enquanto mecanismos de reação em prol das mudanças da realidade. É nele que o personagem João se revela um sujeito decidido, com objetivos definidos, focados para o futuro.
Como toda ficção voltada para o público jovem, não poderia deixar de compor o tecido narrativo, “A boca de Dora e Rabicho”, os capítulos sobre as primeiras descobertas amorosas do personagem adolescente. É interessante saber sobre esses capítulos que o texto original de Cabra das Rocas de 1966, especialmente na página onde está detalhada a boca de Dora, há conteúdo sexual, mas que algumas passagens foram suprimidas na versão posterior para adequar à linha editorial da editora que lançara a obra na linha infanto-juvenil.
Após estes se seguem “A briga”, “Xarias e canguleiro” e “Papa ovo”. São essas as partes nas quais o personagem vive momentos ora de tensão, por conta dos desentendimentos comuns entre jovens dessa idade, ora de extrema sensibilidade lírica com a narração detalhada sobre a vida dos animais naquele chão de maresia, sal e mau cheiro.
“A Cerca”, “Correio do mar”, “Carnaval”, “Azul e branco”, “Tatu morrendo de medo” e “Chispa humana” são capítulos que incluem temas sobre as relações sociais entre brancos e negros, o analfabetismo, festas carnavalescas, cultura popular por meio da transmissão oral e os artistas de circos, grupo social também marginalizado.
Como partes que se conectam, a fim de prender a atenção de quem lê, temos “Vintém ou tostão?”, “Um dia muito especial”, capítulo onde se instaura o clímax da narrativa, “Farda cáqui” e “Cabra das rocas”. Esses últimos enobrecem a trama na qual o sentimento de patriotismo se configura com o desejo de ver João, o garoto da periferia do bairro das Rocas, adentrando o ambiente físico sofisticado do Ateneu onde só frequentavam os meninos xarias.
O resumo do corpus nos possibilita uma visão global de Cabra das rocas, mas a leitura intensa e atenta nos permite descobrir muito mais nas entrelinhas a começar pelo lirismo pelo qual o autor se lança elaborando parágrafos como estes:
 
Alto e robusto, ostentava uma força maciça e lenta de marinheiro. Tinha mãos enormes, duras, servidas de dedos curtos. De tão grossos até pareciam inchados os dedos de meu pai. Recordo bem o seu físico agigantado, mas por mais que me esforce não consigo reter as suas feições. Lembro-me bem dos seus olhos. Eram pardos, de uma tonalidade que nunca vi reproduzida em ninguém mais.
 
A escrita homeriana, não apenas neste livro, mas nos demais, especialmente na sua obra poética fortemente telúrica, caracteriza-se pela inferência constante de elementos que compõem a sua terra de origem como a linguagem, realçando a variedade linguística nordestina e o cenário natural em passagens como esta:
 
A noite tombava com a força da copa dos coqueiros. Desci o morro com o primeiro clarão da lua cheia subindo do mar. Minha sombra se destacava na areia frouxa, ainda quente do sol. Lagartos corriam por entre os tufos de cardeiros pontilhados de frutos vermelhos rachados pelo calor da tarde.
 
O autor apropria-se de recursos poéticos fortes e singulares, como figuras de estilo que dão realce às cenas, predominando a personificação. Influenciado pela estética de vanguarda notamos que em grande parte da narrativa, Homero utilizou esta figura de linguagem com o intuito de aproximar o texto do leitor assim como reza a Cartilha do Movimento modernista, como nesta passagem da narrativa: “(…) jogara seu olhinho amarelo como um pequeno sol triste em cima de mim”.
Além dos vários recursos estilísticos, o autor de Cabra das rocas, talvez como forma de declarar seu amor à terra natal, recorreu ao patrimônio cultural intangível, a linguagem própria do povo potiguar, a fim de tornar a obra autenticamente potiguar.  Nota-se um vocabulário “subversivo” em oposição à linguagem clássica literária, como lemos: “Também o bicho era feio mesmo; feio de doer. Até Dona Clara se assustara quando a fera parou à sua frente, roncou forte e fez mungangas, pedindo dinheiro”.
O vocabulário que recheia a narrativa é composto de um universo linguístico próprio que anuncia e conceitua ao mesmo tempo, de acordo com o contexto no qual se insere.
No estudo A construção do pensamento e da linguagem, Vygotsky assegura que signo e significado coexistem, porque se trata de uma ideia que vem do cognitivo. “ Não podemos falar de significado da palavra tomado separadamente. O que ele significa? Linguagem ou pensamento? Ele é, ao mesmo tempo, linguagem e pensamento porque é uma unidade do pensamento verbalizado”. (VYGOTSKY, 2001, p. 10)
Podemos associar essa ideia à palavra Cabra, que faz parte do título deste livro, pois esse termo comporta um significado semanticamente forte com uma conotação abrangente e contextual. Partindo disso, o autor se apropria de um termo que metaforiza o protagonista, sugerindo a constituição de um personagem forte, decidido, capaz de reagir às imposições advindas de um sistema político-social dominante e historicamente perpetuado não se submetendo, portanto, às regras estabelecidas, culturalmente. João, o protagonista, pode ser visto como esse ‘cabra’ resiliente, representante de uma minoria cujo acesso ao universo da elite lhe é ponderado através da visão de mundo difundida pelos ancestrais, de submissão e assolamento.
Todavia, pelo caráter regional e por abranger vários sentidos, tornando-se, pois, uma palavra polissêmica, interpretamos o termo ‘cabra’ levando em consideração os aspectos metafóricos como figura estilística capaz de mostrar antíteses, embora, o personagem João proponha ao leitor a caracterização subjetiva de um sujeito singelo, cordial, generoso e autêntico. Mas, também, corajoso, destemido, certo de suas convicções e, sobretudo, decidido a transformar seu estado social, através da educação.
É um ‘cabra’ também construído sob a ótica da força, não no que se refere à força bruta, mas àquela oriunda das intersubjetividades, das abstrações e dos questionamentos existenciais. Homero é o genitor de um personagem inteligente, reflexivo, questionador, ativo, estudioso, atento, sensível e revolucionário por sair vitorioso nos exames de admissão para cursar o secundário no Ateneu natalense.
A voz verossímil, que se alimenta dessas características para a configuração do personagem principal, é simbolizada por um jovem adolescente de nome João, 11 anos, filho de pescador, morador do bairro próximo ao manguezal e que busca incessantemente tornar-se aluno do Colégio Ateneu, uma instituição que, nas décadas passadas, voltava-se à elite natalense, aos filhos dos provincianos nobres.
Entre rivalidades, bairrismos e ufanismos o personagem é a metáfora mimética da realidade social enredada no tecido narrativo. Essa mesma voz narra e experimenta, por isso a tessitura tem substância, especialmente porque a história possui o foco narrativo ancorado na primeira pessoa. Todavia, há determinadas situações em que o narrador onisciente “salta” do texto, como se estivesse pedindo o direito à voz, como é possível perceber nesse fragmento: “Dona Laura chegou [sic] o bule de flandres, virou o líquido escuro e fumegante na xícara, um quase sorriso se insinuando em seu rosto. Eu me espantava. Aquilo era raro, nela. Talvez fosse alegria pela volta de meu pai”.
Homero Homem escreve como se estivesse saboreando um ensopado de camarão, caminhando pelas ruas do bairro das Rocas ou elaborando trocadilhos com o linguajar próprio do povo potiguar em uma amistosa conversa de calçada que se materializa entre os personagens que dão robustez à narrativa – João e os moradores.
O macrodiscurso solta as amarras do “eu” verossímil dando carta branca à liberdade de ser autêntico, sugerindo que ele navegue pela obra e vislumbre um passeio de jangada sobre as águas verde azuladas do fértil rio Potengi. Esses “eus”, entendidos como vozes que denunciam, mas que também se orgulham da beleza natural da terra estão implícitos nas circunstâncias temáticas que dão corpo à narrativa libertando-os dos vínculos comuns à obras fechadas, ou seja, os micro discursos tem espaço para se desenvolverem no cerne da ficção, mostrando a que vieram, ocupando espaço nas ações e dando os recados propostos  pelo enredo. A narrativa torna-se uma obra aberta, repleta de brechas para o leitor explorar dada a variação de ideias e sugestões temáticas.
De acordo com a análise de discurso, o sujeito pode surgir em determinados lugares da obra, dispersando-se e cumprindo com a sua função social e política. Sobre esse aspecto da análise, Eni Orlandi reflete: Ele é atravessado por várias formações discursivas e isso pode ser entendido dizendo-se que, no texto, o sujeito pode aparecer em várias posições (ORLANDI, 1988, p. 112).
Personagens como Seu Brás, pai de João, e Isaura, a madrasta, são algumas das alegorias que podem representa os “eus” verossímeis analfabetos, uma vez que são seres ficionais cujas funções na narrativa mostrarão ao leitor a realidade histórico-social pela qual viviam os moradores do bairro das Rocas e estimular a reflexão sobre possíveis mudanças de paradigmas implantados no inconsciente do homem nordestino de que, por questões de ordem cultural, devem permanecer submissos. A figura metafórica que representa essa submissão é a da Isaura. No seguir percebemos, de imediato, a mulher na condição de subserviviente. Vejamos: “– Como vai, minha velha? Tem rezado muito? / – Por vosmecê, Seu João, por vosmecê”.
Notemos que além do uso da linguagem corrente, sem refinamento, mostrando que a personagem não passou pelo saber sistematizado da escola, a figura feminina se mostra submissa como alegoria importante para a reflexão do paradigma arraigado há séculos. Todavia, não se trata de uma submissão assoladora da figura feminina, mas uma demonstração amorosa, ingênua e comovida da obediência entendida por ela como parte inerente à mulher.
Vimos outro fragmento substancial que rodeia o tema Analfabetismo onde a personagem dona Clara denuncia-se iletrada. A metáfora preenche a proposta do processo criativo de instigar a reflexão acerca da problemática que circunda todo aquele que não sabe decodificar palavras, simbolizado por um “eu” que se angustia perante a sua condição, mas que tem humildade em reconhecer-se daquela forma:
 
Levantei-me, ganhei o corredor, voltei com o envelope. Pelo caminho, vim lendo. ‘Inselentíssima sinhora Clara dos Santos. Por ispicial obzsequio de mestre Antonho Braz, a bordo do Esperança III’.  Entreguei a carta à Dona Clara. Ela olhou o endereço um tempão, virou e revirou o envelope fechado com muito grude, apalpou-o, e de súbito decidiu-se.
– Quer ler para mim, Joãozinho?
O conjunto temático que costura o enredo possui vários pontos de fuga, abrindo uma palha de coqueiro para outras interpretações, logo, Cabra das rocas oferece ao leitor virtual, aquele construído pelo autor, um discurso polissêmico que agrega situações do cotidiano de uma realidade periférica, mas que também representa um contexto social que não se aplica apenas ao localista, ao ambiente onde a tessitura se propõe concretizada, mas se espraia pelo universal.
Ainda considerando o aspecto estrutural e significativo da obra, vale lembrar o que disse Foucault a respeito do sujeito e do texto à luz da análise do discurso: “O sujeito é visto como descontinuidade e o texto como espaço de dimensões múltiplas” (apud FOUCAULT, 1969).
Em sua teoria da identidade cultural na sociedade moderna chamada por ele de modernidade tardia, Stuart Hall aponta três concepções de identidade que definem o homem enquanto sujeito em determinados tempos e espaços históricos: sujeito do Iluminismo, sujeito Sociológico e sujeito Pós-moderno. O primeiro se baseia em alguém individualizado, um sujeito masculino cujo centro essencial do “eu” é a sua identidade. O segundo reflete uma pessoa que entende a relação entre outros sujeitos como necessária para mediar as conexões entre valores, sentidos e símbolos. E o terceiro é o resultado desse processo de mudanças de posturas e de posições dentro da sociedade em que ele vive. Um processo no qual o sujeito passa a ser fragmentado e envolto em várias identidades.
Considerando as definições de Hall, visualizamos em Cabra das rocas um sujeito sociológico capaz de interagir e “passear” entre os vários tipos de sujeitos que consubistanciam entre si no enredo. São personagens de uma mesma realidade ficcional, mas que possuem características sociais peculiares, indispensáveis na construção da narrativa:
 
A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação com “outras pessoas importantes para ele” que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura- dos mundos que ele/ela habitava (HALL, 1992, p. 11).
 
 
Portanto, enxergamos Cabra das rocas como uma narrativa polissêmica tanto do ponto de vista dos sentidos quanto das identidades representadas pelos tipos humanos, muitas vezes sujeitos culturalmente influenciados pela tradição, mas cientes da importância das relações sociais na construção da sociedade, ou seja, uma obra aberta às variadas formas de leituras, especialmente porque se evidencia ou se espera do leitor que ele traga no seu matulão um contexto de experiências outras capazes de alicerçar a interpretação do texto lido.
 
REFLETINDO O CÂNONE NACIONAL
A literatura canônica está em posição privilegiada sobre a ‘não canônica’ porque existe um sistema editorial que apadrinha, que estabelece, que reforça e que perpetua. Essa posição social, propagada há séculos pelos especialistas e estudiosos, acaba por tolher a possibilidade de literaturas outras, muitas vezes com excelente nível artístico, de receberem a devida atenção de leitores ávidos e de uma crítica independente.
Refletir a superioridade canônica não significa dizer que estamos propondo comparações entre as literaturas. A pretensão é sugerir reflexões acerca da relevância que o acervo canônico exerce sobre aquele que lê. Curiosamente, nem toda obra consagrada pelos parâmetros estabelecidos pelo cânone é acessível, prazerosa e de fácil entendimento. Questões importantes emergem: a sociedade moderna carece de um conhecimento clássico como obrigatoriedade escolar? As obras canônicas não poderiam ser lidas paralelamente às não canônicas? Não seria mais apropriada uma leitura contextualizada, enriquecida por realidades com as quais há identificação sem, contudo, isolar os cânones? A respeito dessa relação contextual Antônio Candido comenta:
 
Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo (CANDIDO, 2000, p. 6).
 
 
Nas instituições escolares é práxis a leitura dos livros que compõem o acervo literário nacional como tarefa obrigatória para quem está disposto a prestar exames vestibulares ou o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Todavia, alguns professores de literatura propõem leituras de outras obras não canônicas, geralmente produzidas em regiões que correspondem ao sul e ao sudeste do país, cujas obras encontram-se nas estantes das escolas, vindas através dos programas do Ministério da Educação como fonte de incentivo à leitura. No entanto, a descontextualização desencanta o leitor, pois em sua grande maioria são jovens de lugares periféricos, estudantes das escolas públicas brasileiras.
O fenômeno ocorre porque o conteúdo foge à compreensão do aluno, uma vez que a realidade que ele conhece é destoante daquela ilustrativa oferecida pela escola, através de uma literatura de cunho exclusivamente didático na qual o estudante deve apenas interpretar o conteúdo (o sentido pelo sentido) e responder aos questionamentos elaborados sem interagir com a obra contra argumentando. Essa prática utilizada pelas pedagogias tradicionais tem sofrido pouquíssimas alterações no decorrer da história educacional brasileira, mesmo com a moda das propostas progressistas ganhando visibilidade neste setor.
Conhecer os cânones universais e nacionais é bastante profícuo, todavia, é imprescindível ler as obras que dizem respeito ao espaço local do aluno. Cabra das rocas, de Homero Homem é um exemplo de que é possível começarmos a introduzir literatura nacional partindo de obras produzidas por autores locais. Como diz o pedagogo brasileiro Paulo Freire: “A primeira leitura deve ser a de mundo”.
É o contato com a sua realidade que propõe ao ser humano essa leitura simbólica que o aluno conhece e que está ao seu alcance, contextualizando, aproximando, propondo releituras, decodificando pensamentos. Antônio Candido se referiu a integridade da obra como a ação que só se concretiza quando texto e contexto se fundem numa interpretação dialeticamente íntegra.
Para o teórico Raymond Willians que preconiza uma literatura abrangente e que atenda às expectativas da classe operária desvirtualizada do universo cultural da elite, os Estudos culturais consistem numa forma de oposição às práticas e disciplinas vigentes. O autor faz referência à cultura comum em detrimento a uma cultura em comum em que haja participação efetiva na construção dos processos de transformação causados pelas mudanças históricas. Segundo ele se a cultura é tudo o que constitui a maneira de viver de uma sociedade específica, devem-se valorizar, além das grandes obras que codificam esse modo de vida, as modificações históricas desse mesmo modo de vida. (Apud CEVASCO, 2003).
Ainda de acordo com Willians Raymond, as formas culturais devem estar à mão de todos os sujeitos sociais, uma vez que essas culturas podem e devem ser renovadas pela participação de todos, ou seja, a necessidade de reinterpretar a realidade pauta-se na ideia de que a cultura não se planeja porque ela advém das intersubjetividades.
 
Devemos planejar o que pode ser planejado, de acordo com a decisão comum. Mas no que diz respeito à cultura, a atitude certa será a que nos lembre de que uma cultura é, por essência, insuscetível de planejamento. Devemos assegurar os meios de vida e os meios para a comunidade constituir-se. Mas o que será a vivência, com base em tais meios, não podemos conhecer e nem traduzir. A idéia de cultura apóia-se numa metáfora: o velar pelo crescimento natural. E é sem dúvida no crescimento, como fato e metáfora, que se deve colocar a ênfase final. Em nenhuma outra área é maior a necessidade de reinterpretação (Williams, 1969, p. 343).
 
Entendemos que Cabra das rocas reverencia essa cultura local e aposta no respeito aos valores culturais como bens intangíveis, mas também que assume a função de instrumento denunciador de uma realidade específica capaz de acompanhar as modificações que o processo de globalização proporciona à sociedade contemporânea.
É uma obra que representa toda a pompa que a literatura potiguar deve ter. Parafraseando o mestre Cascudo: “Quando eu viajar, mais cedo ou mais tarde, a Universidade vai acabar comprando dos meus herdeiros a minha biblioteca. Ninguém é tão burro para dispensar livros tão incríveis.” A nossa expectativa é que aconteça o mesmo com a obra de Homero que não era um mero Homem.
 
 
REFERÊNCIAS

  • BARTHES, Roland. O prazer do texto. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987.
  • CANDIDO, Antônio. Crítica e sociologia. In.: ______Literatura e sociedade. 8  São Paulo: T. A. Queiroz, 2000; Publifolha, 2000. (Grandes nomes do pensamento brasileiro). P. p. 5 – 16.
  • CEVASCO, Maria Elisa. A formação dos estudos culturais. In ______. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo: Boitempo, 2003.
  • DUARTE, Constância Lima – MACEDO, Diva Cunha Pereira de. Literatura do Rio Grande do Norte. EDUFRN – Editora da UFRN, Natal, 2001.
  • HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tadeu da Silva, Guaraeira Lopes Louro. 11 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
  • HOMEM, Homero. Cabra das Rocas. 14ª ed. Ática: São Paulo, SP. 2003.
  • NASCIMENTO, Érica Peçanha do. Vozes marginais na literatura. Ed. Aeroplano. Rio de Janeiro, 2009.
  • ONOFRE JR, Manuel. Salvados: livros e autores Norte-rio-grandenses. 2ª ed. Sebo Vermelho: Natal, 2000.
  • ORLANDI, EniPulcinelli. Discurso e leitura. Ed. Cortez. São Paulo, 1996
  • PEIXOTO, Alexis. Canguleiro: ensaio biográfico sobre Homero Homem. Caravela Selo Cultural: Natal/RN, 2013.
  • PIVETTA, Regina. Revista Ipotesi, Juiz de Fora, v.15, n.2 – Especial, p. 31-39, jul./dez. 2011.
  • WILLIAMS, R. Cultura e sociedade. São Paulo: Nacional, 1969.
  • WILLIAMS, R. O campo e a cidade: na história e na literatura. Companhia das letras. São Paulo, 2011.

 
NOTA AO TEXTO
1 A primeira versão de Cabra das rocas foi publicada em 1966, mas a selecionada para essa análise é a 14ª edição de 2003, que sofreu pequenas alterações por solicitação da editora Ática para adaptá-la à linha temática e editorial da série Vagalume.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

OS TEXTOS DE APRESENTAÇÃO DE JORGE AMADO: UMA LISTAGEM BIBLIOGRÁFICA – Rodrigo Conçole Lage




                               

                                                                  Rodrigo Conçole Lage

                                                                                  Universidade do Sul de Santa Catarina

 
Sumário: O objetivo desse trabalho é apresentar uma listagem bibliográfica dos prefácios e demais textos de apresentação publicados pelo escritor Jorge Amado. Com esse objetivo, dêscutimos na primeira parte as limitações das demais bibliografias e o aspecto complementar da que organizamos. Na sequência, apresentamos a nossa bibliografia.
 
Palavras-chave: Jorge Amado, Literatura Brasileira, Bibliografia, Pesquisa Documental.
 
Abstract: This paper presentes a bibliographical review of prefaces and other introductory texts written by the Brazilian author Jorge Amado. Firstly, we approach the limitations of the existing bibliographies on this subject, then we discuss the complementary aspect of the one we organized. Lastly, we present our bibliography.
 
Key-words: Jorge Amado, Brazilian Literature, Bibliography, Documentary Research.
 
Minicurrículo: Graduado em História pelo Centro Univesitário São José de Itaperuna, é especialista em História Militar pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Tem artigos e resenhas nas áreas de História e Literatura publicados em revistas acadêmicas. Também publicou algumas traduções em revistas acadêmicas digitais e artigos no jornal Poiésis. É professor de História da SEEDUC (Secretaria de Estado de Educação).
 


 
OS TEXTOS DE APRESENTAÇÃO DE JORGE AMADO:
UMA LISTAGEM BIBLIOGRÁFICA
                               
                                                                  Rodrigo Conçole Lage
                                                                                  Universidade do Sul de Santa Catarina
 
Introdução
O estudo da vida e obra de muitos escritores brasileiros possui um grande obstáculo: a ausência de bibliografias que contenham da forma mais completa possível uma relação de todos os seus escritos. Diante dessa dificuldade, decidimos contribuir nessea área por meio de uma nova bilbiografia de Jorge Amado que trata de uma parte de sua obra que tem recebido pouca atenção, e que não pode ser negligenciada por todos que desejam estudá-lo.
A obra de um escritor não é composta apenas dos livros publicados ou textos de jornais e revistas. Ela inclui tudo o que o autor escreveu (textos inéditos, cartas, rascunhos, anotações, entre outros). Assim, um gênero textual muitas vezes ignorado também faz parte dela: o texto de apresentação. Ele pode estar elaborado, por exemplo, na forma de um prefácio, posfácio, de um apresentação, uma introdução, orelha do livro ou estar na contracapa de um livro ou LP (discos), entre outras formas.
O objetivo de nosso trabalho é apresentar uma nova bibliografia destes textos visando a preencher as lacunas existentes nas que já existiam. A pesquisa em sites da internet como, por exemplo, o Google, Google Books e o da Estante Virtual foram fundamentais para a elaboração dessa bibliografia.
 
1- Os textos de apresentação de Jorge Amado: um exame da questão
Ao longo de sua vida, Jorge Amado produziu um número desconhecido de textos de apresentação. A falta de uma listagem do próprio autor ou de maiores referências torna impossível saber com exatidão seu número. No livro Jorge Amado: 80 anos de vida e obra (1992) foi publicada uma pequena listagem na qual muitos textos não foram incluídos, inclusive de autores nela presentes. Em 2009, no Catálogo de acervo de documentos da Fundação Casa de Jorge Amado, foi apresentada uma nova listagem na qual constam alguns prefácios que não foram incluídos na anterior (quatro no total), e que foram aqui incluídos. O objetivo dessa nova bibliografia aqui apresentada é complementá-las. Além disso, em acréscimo, indicamos o gênero do texto produzido. Nossa bibliografia é formada, em sua maior parte, de textos publicados no Brasil. Novas pesquisas, em outros países, poderão complementá-la.
A listagem inclui textos para livros de ficção, não ficção, poesia, catálogos de arte e LPS. Ela está organizada na ordem alfabética pelo fato das anteriores terem adotado o mesmo critério. A primeira bibliografia é composta de 163 livros. A segunda repete algumas referências da anterior e acrescenta quatro novos textos, que foram incluídos aqui. A que apresentamos contém 105 novas referências que, somadas aos quatro já citados, possui um total de 109 títulos.  Temos, portanto, um acréscimo de pouco mais de 62% em relação aos 167 textos anteriormente conhecidos. Os novos textos se dividem em:
 
Prefácio: 69
Apresentação: 14
Introdução: 9
Texto de Contracapa: 9
Orelha: 5
Prólogo: 2
Texto sem classificação: 1
 
Deve-se destacar também o fato de que essa nova bibliografia inclui a apresentação de seis LPs, algo inexistente nas anteriores. Tal fato nos permite conjecturar que outros trabalhos possam ter sido produzidos para eles sem que tenhamos quaisquer referência. Essa possibilidade abre espaço para futuras pesquisas sobre a questão. Portanto, não se pode descartar a idéia de que pesquisas ulteriores poderão complementar o trabalho aqui apresentado. Apresentamos, a seguir, a nova bibliografia.
 
2- Bibliografia dos textos de apresentação de Jorge Amado

  1. ALVES, Castro; MARTINS, Aldemir. O navio negreiro. Com apresentação de Jorge Amado e prefácio de Antônio Cândido. São Paulo: Studioma, 1992.
  2. ALVES, Leopoldo. Histórias e estórias do caixeiro viajante. Introdução de Jorge Amado. Salvador: Editora: Contemp., s.d.
  3. AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos. Prefácio à tradução chinesa. Trad. Sun Cheng’au. Yunnan: Editora Povo de Yunnan, 1987.
  4. ANGELO, Decânio Filho. A herança de mestre Bimba: filosofia e lógica africanas da capoeira. Apresentação de Jorge Amado e Esdras Magalhães dos Santos. Salvador: [s.n.]. Edição do autor.
  5. ANÍSIO, Chico. A Curva do Calombo. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.
  6. ANTÔNIO, João. Dedo-duro. Orelha de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1982.
  7. ARAÚJO, Emanuel. Noite dos gatos. Apresentação de Jorge Amado. Salvador: Onile, 13 de setembro de 1968.
  8. ARAUJO, Murillo. Poemas completos (vol. 1). Introdução de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Pongetti, 1960. 3 v.
  9. BACELAR, Maria de Lourdes. Na sombra e no silêncio. Prefácio de Jorge Amado. Bahia: Imprensa Vitória, 1944.
  10. BARRETO, Benito. Plataforma vazia. Orelha de Jorge Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1962.
  11. BERIMBAU, Luis; TAVARES, Ildásio. Os Orixás. Contracapa de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Som Livre, 1978. 1 LP
  12. BITTENCOURT, Milton da Silva (Zé Trindade). O poeta Zé Trindade. Apresentação e prefácio de Jorge Amado. Capa de Carybé. [s.l.]: J. Ozon Editor, [1965].
  13. BOAVENTURA, Edivaldo Machado. Gente da Bahia.  Prefácio de Jorge Amado.  Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.
  14. BRAGA, Roberto. Almanaque amor. Apresentação de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Antares; [Brasília]: INL (Instituto Nacional do Livro), 1984.
  15. BRANDÃO, Darwin; SILVA, Motta. Cidade do Salvador, caminho do encantamento. Prefácio de Jorge Amado. Companhia Ed. Nacional, São Paulo, 1958,
  16. CALASANS NETO, José (José Júlio de Calasans Neto). Apresentação de Jorge Amado. Salvador: Macunaíma, 1964.
  17. CAYMMI, Dorival. Contracapa de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Odeon, 1972. 1 LP.
  18. Clube da gravura de Porto Alegre e Bagé. Gravuras gaúchas: 1950-1952. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Editora Estampa, 1952.
  19. CONY, Carlos Heitor. JK: memorial do exílio. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1982.
  20. CORDEIRO, João. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Calvino Filho, 1934.
  21. CARYBÉ (Hector Julio Páride Bernabó). Painel dos orixás. Textos de Jorge Amado e Waldeloir Rego. Fotografias de Voltaire Fraga. Programação visual de Emanoel Araújo. Salvador: Banco da Bahia, 1971 (1ª ed. preto e branco) e 1979 (2ª ed. colorida).
  22. CARYBÉ (Hector Julio Páride Bernabó). As setes portas da Bahia. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1976.
  23. CARYBÉ (Hector Julio Páride Bernabó). Cipó – usos e costumes da Bahia. Apresentação de Jorge Amado e texto do escritor Rubem Braga. São Paulo: Raízes, 1981.
  24. CARYBÉ. Pinturas: têmperas e óleos, desenhos, esculturas. Apresentação Jorge Amado. São Paulo: MASP, 1989.
  25. CARVALHO, Jehová de. Um passo na noite. Prefácio de Jorge Amado. Salvador: Mensageiro da Casa Grande, 1969.
  26. CARVALHO, Walter Campos de. Obra reunida. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1995.
  27. CASTRO, Silvio. Memorial do Paraíso. Introdução de Jorge Amado. Porto Alegre: L&PM, 1999.
  28. CASTRO, Ferreira de. A Selva. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Editorial Verbo, 1972.
  29. CAVALCANTI, Ricardo. A História Natural do amor. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Editora Gente, 1995.
  30. CERECEDO, Miguel Bustos. Cuando éramos niños. Prólogo de Jorge Amado, México: Talleres Gráficos de la SEP, 1958.
  31. CHALLITA, Mansour. A literatura árabe: fonte de beleza e de sabedoria. Prefácio de Jorge Amado. Capa de Milton Ribeiro. s.l. [Rio de Janeiro]: Pongetti, s.d.
  32. CHONCHOL, Rosane. O rabino e o psicanalista. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, s.d.
  33. COQUEIJO, Carlos. Mais dias menos dias. Prefácio de Jorge Amado. Salvador: Itapuã, 1972.
  34. COSTA, Dias da. Mirante dos aflitos. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1960.
  35. COSTA, Haroldo. Fala, crioulo. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1982.
  36. COSTA, Sosígenes. Poesia completa. Ilustrações de Aldemir Martins, estudos introdutórios, rodapés e glossário de José Paulo Paes e prefácio de Jorge Amado. Salvador: secretaria da Cultura e turismo, Conselho estadual de Cultura, 2001.
  37. FERNANDO, Coelho. Salvador: guia de cheiros, caminhos e mistérios. Apresentação de Jorge Amado. São Paulo: Estudio F, 1993.
  38. FINKELSTEIN, Lucien. Brasil naïf – Arte naïf: testemunho e patrimônio da humanidade. Prefácio de Jorge Amado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Novas Direções, 2001.
  39. FINAMOUR, Jurema. China sem muralhas. Prefácio de Jorge Amado. Rio de janeiro: Prado, 1956.
  40. GALLO, Nelson. O sorriso do cacau. Prefácio de Jorge Amado. Itabuna: Edições Gabriela, 1964.
  41. GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1979.
  42. GATTAI, Zélia. Crônica de uma namorada. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1995.
  43. GATTAI, Zélia. A casa do Rio Vermelho. Orelha de Jorge Amado, retirada de seu livro de Navegação de cabotagem. Rio de Janeiro: Record, 1999.
  44. GUERRA, Guido. As aparições do Dr. Salu. Prefácio de Jorge Amado. Bahia: Mensageiro da Fé, 1978.
  45. HANSEN, Karl Heinz. Flor de São Miguel. Introdução de Jorge Amado. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1957.
  46. JÚNIOR, Juracy Magalhães. Luta da minha geração. Prefácio de Jorge Amado e Jânio Quadros. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1963.
  47. LACERDA, Carlos. Piano de informal e bossa. Capa desenhada por Carybé, contracapa assinada por Jorge Amado. Salvador: JS Discos, s.d. 1 LP.
  48. LAVRENEV, Boris. Vento. Tradução e prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Brasiliense, 1945.
  49. LEITE, Carlindo. Prelúdio, coral e fuga. Prefácio de Jorge Amado. Salvador: Federação Bahiana;São Paulo: Editora do Escritor, 1983.
  50. LONA, Fernando. O romance desastroso de Josiano e Mariana ou A gesta do Boi Menino. Prefácio de Jorge Amado. Nova York: McGraw-Hill, 1977.
  51. LONA, Fernando. Quincas Berro D’água, de Jorge Amado. Contracapa de Jorge Amado. Sãoi Paulo: Philips, 1972. 1 LdP.
  52. LOPES, Carlos Herculano. O sol nas paredes. Contracapa de Jorge Amado. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora do Autor, 1980.
  53. LOUZEIRO, José. Luzes da consagração. Orelhas de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Europa, 2008.
  54. LAVRENEV, Boris. Vento – novela russa. Tradução e prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Brasiliense, 1945.
  55. MACEDO, Nertan. O padre e a beata: vida do padre Cícero. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1969.
  56. MAIA, Vasconcelos. Histórias da gente baiana. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Cultrix, 1964.
  57. MAIOR, Mário Souto. Dicionário do palavrão e termos afins. Contracapa de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1990.
  58. MARTINS, Aldemir. Apresentação de Jorge Amado. São Paulo: Civilização Brasileira, 1964.
  59. MEIRA, Marcelo Suppa. Algo amarelo à minha esquerda. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Cátedra, 1983.
  60. MELO, Arnon Afonso de Farias. Os sem trabalho da política. Prefácio de Jorge Amado. Rio de. Janeiro: Flores & Mano, 1931.
  61. MOREIRO, José María. Eu, Miguel Torga. Prefácio de Jorge Amado. Miraflores: Difel, 2001.
  62. MOREL, Edmar. A marcha da liberdade. Prefácio de Jorge Amado. Petrópolis: Vozes, 1987.
  63. MORENO, Tatti. Orixás. Apresentação de Jorge Amado. F. Valdemiro M. Gomes, Salvador, 1987.
  64. MOURA, Clóvis. Espantalho na feira. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Editora Fulgor, 1961.
  65. NADIR, Chems. O astrolábio do mar. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Editora Ática, 1983.
  66. NAMORA, Fernando. O trigo e o joio. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Círculo do Livro, 1973.
  67. NASCIMENTO, Paulo César. Mundo jovem. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Círculo do Livro, 1979.
  68. NERUDA, Pablo. Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Prólogo de Jorge Amado. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1946.
  69. NETO, Mario Cravo. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Raízes, 1980.
  70. NEVIEROF, Alexander. A cidade da fartura. Tradução e prefácio de Jorge Amado. Brasiliense Limitada, 1945.
  71. NUNES, Maria Conceição. Teu rosto de bem-me-quer. Contracapa de Jorge Amado. Salvador: Editora Itapuã, 1978.
  72. OGNEV N. O diário de Costia Riabtsev. Tradução e prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Brasiliense, 1945.
  73. OLINTO, Antônio. Prefácio de Jorge Amado. 2ª ed. São Paulo: Nórdica, 1981.
  74. OLIVEIRA, Raimundo Falcão de. Pequena Bíblia de Raimundo de Oliveira. Xilogravuras. Org. Julio Pacello. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Lia Cesar, 1966. 10 lâms. color.
  75. ORICO, Oswaldo. A vida imita os contos. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1995.
  76. OXOSSI, Camafeu de. Berimbaus da Bahia. Contracapa de Jorge Amado. São Paulo: Continental, 1968. 1 LP.
  77. PAIM, Alina Leite. Sol do meio-dia. Rio de Janeiro: Edições ABL, 1961.
  78. PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola. Orelha de Jorge Amado. [s.I]: Gráfica Loreto, 1964.
  79. PEREIRA, João Baptista Borges. Siamo tutti oriundi! A Presença Italiana no Brasil. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Parmalat, 1991.
  80. POPOVIC, Dragiš Eanes entre o ontem e o amanhã. Prefácio de Jorge Amado. Trad. Carlos Alberto Sá Faria. Lisboa: Nova Nórdica, 1986.
  81. PÔRTO, Sérgio. As Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
  82. QUEIROZ, Paulo Peltier de. Politica agrícola e legislação agrária: novos agricultores – sim! favelização do campo – nunca! Introdução de Jorge Amado. Rio de Janeiro, Sociedade Gráfica Vida Doméstica, 1987.
  83. QUEIROZ, Walter. Filho do povo. Contracapa de Jorge Amado. São Paulo: Phillips, 1977. 1 LP.
  84. RAMOS, Graciliano. Viagem: Tcheco-Eslováquia-URSS. Obra póstuma. Prefácio de Jorge Amado. 14ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1984.
  85. RAMOS, Saulo. Fora da lei. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Leya, 2012.
  86. RIBEIRO, João Ubaldo. Setembro não tem sentido. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1968.
  87. SANTOS, Deoscóredes Maximiliano dos (Mestre Didi). Yorubá tal qual se fala. Prefácio de Jorge Amado. Bahia: Tipografia Moderna, 1950.
  88. SANTOS, Deoscóredes Maximiliano dos (Mestre Didi). Contos negros da Bahia. Nota introdutória de Antonio Olinto, desenhos e capa de Carybé. Introdução de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1961.
  89. SANTOS, Deoscóredes Maximiliano dos (Mestre Didi). Contos negros da Bahia e contos de Nagô. Prefácio de Jorge Amado. Salvador: Corrupio, 2003.
  90. SARNEY, José. Capitaine de la mer océane. Tradução de Jean Orecchioni. Prefácio de Jorge Amado. Paris: Hachette, 1997.
  91. SAVARY, Olga. Prefácio de Jorge Amado. Xilogravuras de Calasans Neto. Salvador/São Paulo: Edições Macunaíma/Massao Ohno Editor, 1979.
  92. SILVEIRA, Breno; CORREA, Viriato; LESSA, Orígenes. Grandes vocações. Vol. 1. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Donato, s.d.
  93. SILVEIRA, Walter da. Fronteiras do cinema. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1966.
  94. SMARCEVSKI, Lev. Graminho: a alma do saveiro. Prefácio de Jorge Amado. Salvador: Odebrecht, 1996.
  95. SOUSA, Albano Neves e. Angola a branco e preto. Prefácio de Jorge Amado. s/e. Luanda: Edições Lello, s/d.
  96. SOUZA, Luiz Ademir Cerqueira. Apresentação de Jorge Amado. Salvador: Editora Mensafé, 1973.
  97. SOUZA, Márcio. L’Empereur d’Amazonie. [Galvez, Imperador do Acre]. Tradução Béatrice de Chavagnac. Prefácio de Jorge Amado. Paris: Lattès, 1983.
  98. TAVARES, Ildásio. Apresentação de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1974.
  99. TAVARES, Odorico. Livro de Luciano. Capa e ilustrações de Calasans Neto. Prefácio de Jorge Amado. Salvador: Edições Macunaíma, 1976?
  100. TÁVOLA, Artur da. Mevitevendo: crônicas. Prefácio de Jorge Amado. 4ª ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1977.
  101. TOLEDO, J. Flávio de Carvalho – o comedor de emoções. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Brasiliense/Unicamp, 1994.
  102. TOKUNAGA, Naoshi. Rua sem sol. Tradução e prefácio de Jorge Amado. Brasiliense Limitada, 1945.
  103. TORGA, Miguel. Portugal. Prefácio de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
  104. VERGER, Pierre. Retratos da Bahia. Prefácio de Jorge Amado e Carybé. Salvador: Corrupio, 1980.
  105. VERGER, Pierre. Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
  106. VERGER, Pierre. Ewé: Le verbe et le pouvoir des plants chez les yorùbá (Nigéria – Benin). Prefácios de Theodore Monod e Jorge Amado. Paris, Maisonneuve & Larouse, 1997.
  107. WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um reporte. Introdução de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record, 1988.
  108. WARD, Nacle (Trad.). Antologia de contos brasileiros em árabe. Apresentação de E. Simões de Paula. Introdução de Shaker Mustafa. Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Safady, s.d.
  109. WERNECK, Leny. Zás! Prefácio de Jorge Amado. São Paulo: Salamandra, 1990.

 
Referências:
FRAGA, Myriam (Org.). Fundação Casa de Jorge Amado: catálogo do acervo de documentos. vol. 1. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2009. Disponível em: <http://www.jorgeamado.org.br/?page_id=172>.
RUBIM, Rosane; CARNEIRO, Maried. Jorge Amado: 80 anos de vida e obra. Subsídios para pesquisa. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1992.





Bio fornecida pelo palestrante.

DA CRISE À METANOIA: A TENSÃO DIALÉTICA ENTRE O SAGRADO E O PROFANO NA POESIA DE JORGE DE LIMA E MURILO MENDES – Sergio Carvalho de Assunção




 
 
Sergio Carvalho de Assunção
Universidade Estácio de Sá/UFF/Unifeso
 
 
Resumo: Este artigo propõe-se abordar a poesia de tonalidade espiritual em Jorge de Lima e Murilo Mendes partindo do princípio de que suas respectivas experiências poéticas foram potencializadas efetivamente por um estado de estado de crise e inquietude vivenciados pelo sujeito do início do século XX. Embora o fato religioso tenha proporcionado uma transformação que perpassa a esfera ética até o plano estético, suas produções serão abordadas sob a perspectiva do dilaceramento do sujeito, através da tensão entre a negatividade órfica e a espiritualidade cristã, vivenciadas tanto ao nível do corpo quanto no plano da poesia.
 
Palavras-chave: Poesia; Murilo Mendes; Jorge de Lima; Sagrado; Crise.
 
Abstract: From Crisis to Metanoia: the Dialectical Tension between the Sacred and the Profane in the poetry of Jorge de Lima and Murilo Mendes proposes to approach the poetry of spiritual tone in Jorge de Lima and Murilo Mendes assuming that their respective poetic experiences were leveraged effectively by a state of crisis and anxiety which are experienced by the subject of the early Twentieth century. Although religion  has provided a transformation in their poetry that permeates the ethical sphere until the aesthetic level, their works will be addressed in the perspective of a subject torn off by tension between the Orphic negativity and Christian spirituality, experienced both at body as in poetic levels.
 
Keywords: Poetry; Murilo Mendes; Jorge de Lima; Sacred; Crisis.
 
Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2000), mestrado (2002) e doutorado (2008) em Estudos de Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com dissertação sobre o artista Jorge Mautner e tese sobre o poeta Waly Salomão, e concentra linha de pesquisa sobre Poesia, Contracultura, Música e Vanguardas. Atualmente é docente e pesquisador do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá e pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense, com projeto de pesquisa sobre o surrealismo e o sagrado na poesia de Jorge de Lima e Murilo Mendes.
 
 
 
 
 
DA CRISE À METANOIA: A TENSÃO DIALÉTICA ENTRE O SAGRADO E O PROFANO
NA POESIA DE JORGE DE LIMA E MURILO MENDES
 
Sergio Carvalho de Assunção
Universidade Estácio de Sá/UFF/Unifeso
 
 
As harpas da manhã vibram suaves e róseas.
O poeta abre seu arquivo – o mundo –
E vai retirando dele alegria e sofrimento
Para que todas as coisas passando pelo seu coração
Sejam reajustadas na unidade
 
Murilo Mendes
 
Durante as primeiras décadas do século XX, no auge da modernidade industrial, o ocidente viveu um período de grande euforia desenvolvimentista científica, tecnológica e com os meios de comunicação. Porém, diante das guerras, do colapso socioeconômico e da eclosão do nazifascismo, o sujeito se viu mergulhado em uma crise que o esvaziava psíquica e espiritualmente, na medida em que seu futuro era colocado em cheque, que seu papel social era reduzido a uma função maquínica, e os valores culturais eram transformados em bens de consumo por uma poderosa macroestrutura econômica e sua lógica materialista.
Se por um lado a crise obrigou o sujeito a lidar com os novos meios de produção, reinventando, assim, outros modos e condições capazes de resistir ao utilitarismo e de intervir sobre a lógica cultural massiva, por outro, o avanço técnico e tecnológico possibilitou diversas experimentações e expansões no campo da linguagem e da arte, como o rádio, a fotografia e o cinema, apenas para citar alguns exemplos.
Em meio a essa crise, as potências criadoras eram severamente abaladas pelo materialismo da lógica industrial, promovendo uma descrença e um esvaziamento espiritual, além da liquidação dos sonhos e afetos culminada pelas guerras e pela ameaça atômica. Podemos dizer que o mesmo sujeito que teve a sua experiência cultural empobrecida desde a virada do século XIX para o século XX, consequentemente, teve sua sensibilidade e psiquismo esboroados pelo tédio e pelo desencanto, pela melancolia e pela angústia.
Mais do que uma experiência estética, a poesia moderna assumiu-se como um lugar crítico, proporcionando ao sujeito uma experiência através da linguagem, ao ressignificar e reinventar, efetivamente, sua perspectiva como um ato de resistência e transgressão contra a lógica massiva, utilitarista e alienante da modernidade industrial. Em face dessa realidade, pergunta-se, então, de que maneira é possível pensar essa crise do sujeito através da poesia, enquanto experiência transformadora do sujeito?
A partir dessa questão, propõe-se abordar a poesia de tonalidade espiritual em Jorge de Lima e Murilo Mendes partindo do princípio de que suas respectivas experiências poéticas foram potencializadas efetivamente por esse mesmo estado de crise e inquietude vivenciado pelo sujeito do início do século XX. Decerto que, muito embora o fato religioso tenha proporcionado uma transformação que perpassa a esfera ética até o plano estético, suas produções serão abordadas sob a perspectiva da crise e dilaceramento do sujeito moderno, em meio à tensão permanente entre a negatividade órfica e a espiritualidade cristã, vivenciadas tanto ao nível do corpo quanto no plano da poesia:
 
A igreja toda em curvas avança para mim,
Enlaçando-me com ternura – mas quer me asfixiar.
Com um braço me indica o seio e o paraíso,
Com outro braço me convoca para o inferno.
Ela segura o Livro, ordena e fala:
Suas palavras são chicotadas para mim, rebelde.
Minha preguiça é maior que toda a caridade.
Ela ameaça me vomitar de sua boca,
Respira incenso pelas narinas.
Sete gládios sete pecados mortais transpassam seu coração.
Arranca do coração os sete gládios
E me envolve cantando a queixa que vem do Eterno,
Auxiliada pela voz do órgão, dos sinos e pelo coro dos desconsolados.
Murilo Mendes (1994, p. 303)
 
Ao considerar que as experiências poéticas de Murilo Mendes e Jorge de Lima foram deflagradas por esse estado de crise, seja ele existencial, moral e espiritual, vivenciado pelo sujeito do início do século XX, pode-se dizer que o livro Tempo e Eternidade – escrito a quatro mãos em 1934, e logo após a conversão ao cristianismo pelos dois poetas –, além de simbolizar esse momento emblemático da vida pessoal, ele foi determinante para o rumo de suas respectivas poéticas. Este livro tornou-se o ponto divisório na obra de cada um, uma vez que este momento consolidou a busca de ambos pela essência sagrada, analógica e beatífica e compreensão de sua experiência vivencial, como um saber adquirido por meio da poesia.
Em entrevista a Gastão Pereira da Silva, Jorge de Lima comenta sobre o papel do poeta moderno no Brasil:
 
Veja que apesar dos retrocessos de cultura e civilização em que o mundo periodicamente se debate, a presença da poesia é mais sensível e mais real que os terroristas e as guerras. Nós, os poetas brasileiros, devemos nos integrar na imensa floração espiritual que brotará da terra mais salgada de sangue e de lágrimas; reconciliarmo-nos com a nossa dignidade de poetas, com a nossa força de poetas, com a nossa eternidade de poetas. O nosso passado milenar é tão profundo que não podemos enxergar em nossa trajetória o pequeno episódio dos régulos que impelem os homens a se entrematar. É possível que este continente americano, ou mesmo que esta humanidade brasileira cujo homem fraterno vai adquirindo uma longitude e uma latitude de alma só conseguidas por outros povos com o domínio da força bruta polarizada para o mal, é possível que seus poetas sejam amanhã os eleitos para inaugurar e não para rememorar. Poderemos elevar o nível dos corações, projetar as nossas mãos para consolar o distante companheiro aturdido pelas decepções da vida nos quatro pontos cardeais. Podemos projetar nossas mãos, não com estes gestos tão gratos aos bombardeadores-mores que pretendem sobre os cemitérios imensos plantar a nova desordem, do mundo, mas impor nossas mãos no gesto suave dos primitivos cristãos sobre os ombros e sobre os peitos dos próximos e longínquos companheiros precisados da nossa mensagem como pão de cada dia. Só assim os nossos campos e as nossas minas serão mais férteis e seremos olhados através das cordilheiras e dos antípodas (LIMA, 1997, p. 72).
 
 
Percebe-se que a modernidade de suas respectivas poéticas está determinada pela radicalidade expressional que cada um constrói, à sua maneira, segundo suas respectivas soluções formais do sujeito marcado por um estado de permanente tensão. Seja a expressão de inquietude movida pelos instintos que se confrontam com a cultura e com o outro, ou seja ela movida pelo desejo de transcender essa mesma cultura, visando, ao mesmo tempo, consolidar um sentido à existência sob a perspectiva do homem em relação com seu próximo e, ao mesmo tempo, com relação a Deus.
Ainda que Murilo ou Jorge assumissem claramente sua conversão religiosa – o que implicou, consequentemente em uma profunda transformação ética e estética –, em nenhum momento este fato comprometeu o caráter moderno, crítico e experimental de suas poesias, e tampouco assumiu uma expressão ascética ou proselitista. Ao contrário, essa transformação tornou-se evidente na medida em que a perspectiva espiritual se amalgamava à visão crítica diante da degradação humana na era industrial, sobretudo a partir das guerras, e à medida que a consciência artesanal do poeta passou a fundir o tom profético e apocalíptico com a plasticidade surrealista, o que deu às respectivas poéticas sua radicalidade expressional e projetiva da realidade inefável do sagrado.
 
É preciso falar-se das criaturas,
verdadeiras criaturas animadas,
das vivências totais, arbítrio e tudo,
alma, corpo funesto e essa imortal
 
perpetuidade além, Deus nas alturas,
nomes de terra e nomes eternados,
anjos, demônios, sonhos acordados
e as profecias, fúrias, posses, tudo
 
que um poema pode ter: esse clamor,
essa indefinição, esses apelos,
– sonho de rei Nabucodonosor,
 
que depois de refeito e decifrado
é a condição do bicho: carne, pelos,
e sangue breve do homem desgraçado.
(Jorge de Lima, 1997, p. 678)
 
 
Historicamente, é possível afirmar que esta polarização entre a negatividade pagã e a espiritualidade cristã assinala uma profunda cisão no ocidente, e que por sua vez marcou certa linhagem moderna da poesia do romantismo ao século XX, voltada para a gnose, para o ocultismo, e para o agnosticismo. Esta linhagem trouxe à tona o antagonismo cada vez mais evidente entre a negatividade pagã e a transcendência cristã, tal como demonstrou Raul Antelo (s.d.) a partir de um ensaio sobre Murilo Mendes, ao trazer, inclusive, um significativo trecho de uma entrevista do poeta, que alinhou as bases históricas e filosóficas da negatividade profana desde o século XVIII até sua influência no surrealismo francês do século XX.
Com o passar do tempo, a disseminação do gnosticismo no ocidente tomou grande proporção, acentuando a negatividade na poesia moderna em detrimento do cristianismo, que se viu enfraquecido como instituição. Esse processo assumiu proporções substanciais desde o Iluminismo à era industrial, sendo, mais tarde, determinantemente corroborado pelo pensamento de Nietzsche, e pela crítica de Marx, Freud e Durkheim às instituições religiosas, principalmente o catolicismo apostólico romano.
Some-se a esse processo o surgimento de uma mentalidade progressista forjada pela lógica materialista e tecnocrata, o que acentuou ainda mais o estilhaçamento e a descontinuidade do tempo eterno e do espaço infinito, visando desmontar a concepção da existência do sujeito fundada na totalidade metafísica do homem, do mundo e do cosmos em unidade com o sagrado. Eis então que o sujeito se vê deslocado dessa concepção cosmogônica e transcendente do sagrado, ao perceber a existência sob a perspectiva do corpo, pela potencialidade instintiva do desejo e em imanência com o mundo.
Para George Bataille, no momento em que esta totalidade se rompe, o indivíduo se redescobre a partir de uma dupla acepção de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto, quando é separado da natureza e devolvido à imanência das coisas finitas, de maneira que essa percepção o angustia, deixando-o terrificado. Acuado em sua finitude e desespero, o sujeito passa a criar sentido para sua existência integrando-se ao mundo das coisas por meio do trabalho, em tensão com a ordem íntima das coisas que é por onde se passa sua relação com o sagrado.
 
Em outras palavras, o trabalho e o medo de morrer são solidários, o primeiro implica a coisa e vice-versa. Na verdade, sequer é necessário trabalhar para ser em alto grau a coisa do medo: o homem é individual na medida em que sua apreensão o liga aos resultados do trabalho. Mas o homem não é, como se poderia acreditar, uma coisa porque tem medo. Ele não teria angústia se não fosse o indivíduo (a coisa), e é essencialmente ser um indivíduo o que alimenta sua angústia. É para responder à exigência da coisa, é na medida em que o mundo das coisas colocou sua duração como a condição fundamental de seu valor, de sua natureza, que ele aprende a angústia. Ele tem medo da morte desde que entra no edifício de projetos que a ordem das coisas é. A morte bagunça a ordem das coisas, e a ordem das coisas nos mantém. O homem tem medo da ordem íntima que não é conciliável com aquela das coisas (BATAILLE, 2015, p. 44).
 
Por outro lado, ainda que o processo de industrialização tenha provocado efeitos irreversíveis na concepção do homem moderno do século XX ao acelerar o tempo e desdobrar os espaços, mantendo-os imanentes e interconectados, a poesia de Jorge e Murilo superou a concepção que reduzia a poesia moderna brasileira a um paradigma que a colocou a serviço da forma, como apenas como ‘produto para consumo’, como uma fragmentação da realidade que visa desmontar a dimensão metafísica, contrapondo-se ao sentimento órfico, antropófago e profano de Oswald de Andrade.
Ao expressar os dramas do homem moderno em busca do sagrado, a poesia de Jorge e Murilo superou o paradigma oswaldiano, ao fundir a imanência e a transcendência, ao expandir a visão culturalista a uma perspectiva sobrenatural e supra real, além de produzir uma poesia de absoluta radicalidade plástica e expressional, além de extremamente crítica, empregando procedimentos formais absolutamente inovadores em suas respectivas linguagens poéticas.
Mais que uma luta entre o desejo de liberdade e reconciliação com Deus em confronto com a instintividade da condição carnal e animalesca que se abre ao pecaminoso, o que se passa no plano de suas poesias é um mergulho na natureza paradoxal humana, tentando alinhar a ordem de intimidade com o sagrado à ordem das coisas, para usar os termos de Bataille, no plano da poesia.
No caso de Jorge de Lima e Murilo Mendes, é sob a perspectiva cristã que suas respectivas poéticas devem ser compreendidas, considerando que, no plano de suas poesias, ao mesmo tempo em que a relação entre o sujeito e o sagrado se eleva a uma perspectiva transcendente e gloriosa proveniente do sobrenatural, essa dimensão é confrontada pela violência que se inscreve ao nível do corpo e dos afetos, como se tais violências configurassem não somente a condição humana em face da finitude terrena, mas, sobretudo, as tribulações pelas quais o sujeito deve vivenciar em seu processo de reconciliação com Deus pela fé, desde a queda adâmica:
 
Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua parusia.
 
Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.
 
Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.
(Murilo Mendes, 1994, p. 255)
 
Seja sob o tom agônico e escatológico que vai da sensualidade à devoração do outro, seja sob angústia ou desespero humano diante do flagelo da fome ou da guerra, ambos expressam a experiência conflituosa do sujeito que se equilibra entre a negatividade da queda e o desejo de elevação, como se essa tensão consubstanciasse sua experiência sacrificial e, ao mesmo tempo, como algo que só pode ser compreendido na ordem íntima em que se passa a relação de intensidade vivencial com o sagrado.
Segundo Bataille:
 
O sagrado é essa efervescência pródiga da vida que, para durar, a ordem das coisas encadeia e que o encadeamento transforma em desencadeamento, ou, em outros termos, em violência. Sem trégua, ele ameaça romper os diques, opor à atividade produtiva o movimento precipitado e contagioso de um consumo de pura glória. O sagrado é precisamente comparável à chama que destrói a madeira ao consumi-la. É o contrário de uma coisa, um incêndio ilimitado que se propaga, irradia calor e luz, queima e cega; e aquele que ele queima e cega, por sua vez, de repente também queima e cega. O sacrifício abrasa como o sol que lentamente morre da irradiação pródiga cujo brilho nossos olhos não podem suportar, mas ele nunca está isolado e, num mundo de indivíduos, convida à negação geral dos indivíduos como tais (BATAILLE, 2015, p. 44-5).
 
Em outras palavras, antes que a relação entre o sujeito e o sagrado possa ser vista apenas pelo ângulo analógico ou beatífico da poesia, considera-se, primordialmente, que a poesia de Jorge de Lima e Murilo Mendes visa substancializar a transformação espiritual (metanoia) no próprio fazer poético (poiesis), tomando-a como uma intervenção real que visa tocar a verdade que se passa na intimidade com Deus pela ordem das coisas.
Assim, na medida em que este estado de crise era trazido à tona, a experiência poética deixava de ser para estes poetas apenas um modo de resistência e intervenção a essa lógica massiva, maquínica e desumana, tornando-se, sobretudo, o meio pelo qual ambos passaram a cultivar a aproximação e busca da unidade com o sagrado como uma experiência ética, substancial e impessoal.
Para Georges Bataille, em A literatura e mal, a poesia moderna é marcada por um paradoxo que corresponde à natureza humana mais profunda, ao expressar a essência dualista e dinâmica de nossa condição, configurada pelo duelo entre o bem e o mal, como ele exemplificou em vários poetas, com destaque para William Blake e Charles Baudelaire.
Segundo Bataille:
 
O Mal, nessa coincidência de contrários não é mais o princípio oposto de uma maneira irremediável à ordem natural que ele é nos limites da razão. A morte sendo a condição da vida, o Mal, que está ligado em sua essência à morte, é também, de uma maneira ambígua, um fundamento do ser. O ser não está destinado ao Mal, mas deve, se assim pode, não se deixar encerrar nos limites da razão (BATAILLE, 2015, p. 26).
 
Bataille defende que a significação do Mal se configura a partir de uma autocondenação da própria condição humana, seja na inclinação para a morte, para a guerra ou para o erotismo, o que poderia forjá-lo para um estado de angústia, de raiva e repugnância. O Mal é tomado como um impulso, uma paixão ou uma atração irrefletida, diferentemente de uma intencionalidade calculista, crapulosa e egoísta, como diz Bataille, ao deslocar o Mal de um lugar moral, sujeito à lei, mas sob a espessura humana e passional, já que, segundo ele, “A literatura mais humana é o alto lugar da paixão”, isto é, como se esse embate apaixonado fosse absolutamente necessário ao homem para se reconhecer como sujeito:
 
Nem por isso a paixão escapa da maldição: só uma “parte maldita” é reservada àquilo que, numa vida humana, tem o sentido mais carregado. A maldição é o caminho da bênção menos ilusória. Um ser altivo aceita lealmente as piores consequências de seu desafio. Por vezes até precisa ir ao encontro delas. A “parte maldita” é a parte do jogo, da álea, do perigo. É ainda a parte da soberania, mas a soberania se expia (BATAILLE, 2005, p. 27).
 
Diante da evidência de uma existência em crise, a poesia expõe a impotência do sujeito em meio às macroestruturas econômicas e sociais que propiciam seu esvaziamento espiritual e a desvalorização humana, em meio ao progresso industrial e beligerante. Ao mesmo tempo, dentro da ótica de Bataille, é preciso que o sujeito vá ao encontro dessa paixão que o move, e que ao mesmo tempo é sua expiação, aceitando-a como a “parte maldita” que proporcionará sair do lugar comum, ou seja, desse vazio que o imobiliza e o definha.
Mais uma vez, no caso de Jorge e Murilo, essa negatividade humana não deve ser vista apenas sob a perspectiva da instintiva imanência órfica e pagã, ao passo que ela pode ser configurada dentro do contexto adâmico do cristianismo, isto é, da queda e expulsão do Éden. Deste modo, na medida em que a poesia naturaliza a irracionalidade insólita dessa paixão e negatividade trágicas para o nível da vida comum do sujeito, ela visa, dessa maneira, libertar o imaginário do racionalismo materialista e ordinário, lançando-o ao maravilhoso que transcende, isto é, consagrando esta tensão e anseio pela da promessa da vida eterna, sob a égide da natureza infinita de Deus.
O fato é que para Jorge e Murilo, o cristianismo se passa, antes de mais nada, na individualidade do sujeito e de sua prática cotidiana com o outro, independente de uma institucionalização que determine suas ações, desde a leitura do Evangelho até a incorporação do texto pelo sujeito, como uma ética vivenciada no dia a dia.
 
Sim, creio numa única, imensa, geral e verdadeira revolução: que é a Revolução de Cristo, que apenas começa e em que as outras revoluções sociais sejam elas quais forem, francesa ou russa, serão unicamente minutos dentro dessa eterna revolução, que só terminará no dia do Juízo Final. (…) Trazendo à Humanidade, muitas vezes distante da verdade, atrações momentâneas da vida, a realidade da Dor, a realidade da Morte, que jamais será afastada da realidade de Cristo, que a todo o instante nos espera, no final de todos os momentos (LIMA, 1997, p. 96).
 
Como disse Jorge de Lima, ao contrário de uma mobilização massiva, a revolução cristã se passa, primordialmente, ao nível da consciência, como uma transformação (metanoia) pela fé, e do próprio corpo, isto é, da própria experiência, ao ampliar sua ação da esfera existencial e pessoal para a esfera social e impessoal com o próximo, isto é, com o outro, sendo ao mesmo tempo transcendente e imanente. Como distingue Eugene Webb:
 
Uma linha de abordagem que pode nos ajudar a esclarecer esse problema é a que o considera nos termos de seu aspecto experiencial. De acordo com esse ponto de vista, uma das formas pelas quais o teísmo de tipo ortodoxo, o panteísmo e o ateísmo podem ser distinguidos encontra-se em sua relação com o senso do sagrado. Em sua forma hebraica, o teísmo ortodoxo apresenta um grande sentimento do sagrado como algo transcendente; em sua forma cristã, ao menos de maneira ideal, ele vem caracterizado tanto como imanente quanto transcendente, tendo ambos os polos em equilíbrio. O panteísmo, por sua vez, se diferencia por um senso de sagrado preciso, mas com um predomínio relativamente forte do polo imanente; o senso do sagrado transcendental precisa existir em alguma medida – caso contrário, não haveria qualquer sentimento de sacralidade –, mas no panteísmo ele geralmente parece quase eclipsado. Quando totalmente obscurecido, não há mais qualquer senso de sagrado, o que então gera uma perspectiva que pode ser adequadamente chamada de ateísta (WEBB, 2012, p. 294).
 
Verifica-se, deste modo, que, muito embora a religião cristã tenha sido determinante nas poéticas de Jorge e Murilo, isso não significou que suas poesias adotassem uma expressão puramente panfletária, prosélita ou ascética. Ao contrário, ambas as poéticas se valeram essencialmente do caráter transcendente e da tonalidade metafísica e espiritual, mas sempre colocados sob permanente tensão com a imanência da desordem material da vida cotidiana dos afetos e paixões, vivenciando este acirramento através da experiência poética inscrita ao nível do corpo.
 
Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,
pousa a mão no teu ombro o Anjo que te proteja.
Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda
o grande e belo Anjo exilado da Luz.
Adiante de ti – perfurada e sangrando,
a mão do Redentor te aponta o caminho certo;
dentro de ti – seres anteriores a ti, – luminosos ou negros
vão contigo e tua sombra.
Quando adormeces e ficas durante o sono – invisível e inocente,
e o livre arbítrio voa de teu cadáver,
a estranha procissão espera que tu te acordes
para prosseguir a marcha.
Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.
Por isso é que andas de costas para o caminho certo.
Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.
Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,
a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.
(Jorge de Lima, 1997, p. 429)
 
Para o pensador e teólogo cristão Sören Kierkegaard, é justamente tal dinâmica conflituosa que condiciona o sujeito, de modo que este é, por sua vez, movido por uma permanente inquietação diante da vida, constituída de três esferas que se confrontam permanentemente, como a esfera estética, a ética e a espiritual. Segundo ele, a melancolia, a angústia, o desespero e a depressão, que histórica e atavicamente atormentam o ser humano, são apenas fluxos de um processo existencial do sujeito em sua relação com o mundo, de modo que este confronto, isto é, esta crise, deve ser vista como um processo de edificação da sua consciência ética e libertação por meio da fé e elevação espiritual acima da finitude da matéria:
 
Todo conhecimento cristão, por estrita que seja de resto a sua forma, é inquietação e deve sê-lo; mas essa mesma inquietação edifica. A inquietação é o verdadeiro comportamento para com a vida, para com a nossa realidade pessoal e, consequentemente, ela representa, para o cristão, a seriedade por excelência; a elevação das ciências imparciais, muito longe de representar uma seriedade superior ainda, não é, para ele, senão farsa e vaidade. Mas sério é, eu vô-lo afirmo, aquilo que edifica (KIERKEGAARD, O desespero humano, 1979, p. 189).
 
Em seu livro O conceito de angústia (2013), Kierkegaard afirma que a origem do pecado se deve a uma escolha consciente do pecado e afastamento de Deus, de modo que a inocência é, por sua vez, tornada uma ignorância. Sendo assim, resta-nos saber que nossa relação original com Deus foi substituída pela consciência histórica de nossa condição humana, fundada pelo pecado e pela ignorância.
Em outras palavras, Kierkegaard não reconheceu a proibição dos instintos como aquela que despertasse a concupiscência e causa a queda, sendo que, tanto na experiência pagã quanto na cristã, o homem sempre fora atraído pelo proibido. Ele admite, sim, que a inocência/ignorância, em seu estado de paz e repouso – uma vez que não há nada pelo que lutar – e em sua ausência de sentido, produz o efeito de vaziez e angústia. Logo, a sensualidade é tornada pecaminosa após a queda, ou seja, quando é tornada consciência, uma vez que se caso Adão não tivesse pecado ou transgredido os limites de Deus, o sexual jamais seria um instinto.
 
A narrativa do Gênesis sobre o primeiro pecado tem sido, sobretudo em nosso tempo, considerada de maneira um tanto ou quanto negligente como um mito. Isso tem um bom motivo, já que o que foi posto em seu lugar era justamente um mito, e ainda por cima um mito ruim, pois quando o entendimento decai no mítico, raramente daí resulta algo além de conversa fiada. Aquela narrativa é a única concepção dialeticamente consequente. Todo o seu conteúdo está concentrado propriamente nesta proposição: o pecado entrou no mundo por meio de um pecado. Se não fosse assim, o pecado teria entrado como algo de casual, que seria melhor não tentar explicar. A dificuldade para o intelecto constitui precisamente o triunfo desta explicação, sua consequência lógica profunda está em que o pecado se pressupõe a si mesmo, que ele entra no mundo de tal maneira que, ao ser, já é pressuposto (KIERKEGAARD, Temor e tremor, 1979, p. 34).
 
Em outro livro, O desespero humano, Kierkegaard define o sujeito a partir de uma tensão agônica ou acirramento que produz, dialeticamente o desespero e a liberdade. Segundo ele, se por um lado o sujeito é a síntese entre finito e infinito, entre a possibilidade e a necessidade, desesperamo-nos ou por não querermos ser quem somos, ou por querermos desesperadamente descobrir quem somos, o que nos impossibilita de atingir repouso e equilíbrio. Logo, nos desesperamos pelo que nos tornamos e pelo eu que não deveio. Para Kierkegaard:
 
O homem é espírito. Mas o que é espírito? É o eu. Mas, nesse caso, o eu? O eu é uma relação, que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo própria. Mais e melhor do que na relação propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade. O eu não é a relação em si, mas sim o seu voltar-se sobre si própria, o conhecimento que ela tem de si própria depois de estabelecida. O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e se eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma uma síntese. Uma síntese é a relação de dois termos. Sob este ponto de vista, o eu não existe ainda (Kierkegaard, O desespero humano, 1979, p. 195).
 
Ainda segundo Kierkegaard, é possível reconhecer que a angústia e o desespero humanos são parte da natureza e da condição humana, conforme a herança adâmica após a queda do paraíso. Logo, para que o homem não se desespere é preciso aniquilar em si a cada instante essa possibilidade virtual e frequente, evitando que essa virtualidade recaia sobre a realidade psíquica e física. Deste modo, não desesperar é evitar a queda ou, ainda, elevar-se, tomando consciência de nossa natureza agônica da qual deriva nossa essência, já que se fôssemos uma síntese e não uma contradição, não haveria razão para nos desesperar, “e tampouco o poderíamos se esta síntese não tivesse recebido de Deus, ao nascer, a sua firmeza”.  E, por último, desesperamo-nos por relegar nossa perspectiva temporal ao agora, sem projetarmos a existência sob a perspectiva da eternidade:
 
Vem em primeiro lugar o desespero do temporal ou duma coisa temporal, em seguida o desespero de si próprio quanto à eternidade. Depois vem o desafio que é, no fundo, desespero, graças à eternidade, e no qual o desesperado, para ser ele próprio, abusa desesperadamente da eternidade inerente ao eu. Mas é precisamente por se servir da eternidade que esse desespero a tal ponto se aproxima da verdade, e é por estar próximo dela que vai infinitamente longe. Esse desespero, que conduz à fé, não existiria sem o auxílio da eternidade; graças a ela, o eu consegue a coragem de se perder, para de novo se encontrar; pelo contrário, recusa-se a começar por se perder, e quer ser ele próprio (Kierkegaard, O desespero humano, 1979, p. 233-234).
 
Em suma, Kierkegaard afirma que, após o pecado original, o homem está condicionado à sua natureza animal, determinada pela queda do paraíso (ou afastamento de Deus), e assim luta intensamente para reconciliar-se com Deus, mas para isso, é necessário elevar-se espiritualmente e renunciar ao instinto, sendo que, dessa luta, resulta o seu desespero. O homem não tenta livrar-se da carne, mas deseja ser tocado espiritualmente pelo sagrado e, deste modo, ao ser tocado pelo eterno e imortal de Deus, o espírito prevalece sobre o instinto, e não ao contrário, já que o instinto é devorador e, ao suprir seu desejo, ele revela sua própria vaziez de sentido:
 
Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna. E de qualquer maneira jamais alguém viveu ou vive, fora da cristandade, sem desespero, nem ninguém na cristandade se não for um verdadeiro cristão; pois que, a menos de o ser integralmente, nele subsiste sempre um grão de desespero (KIERKEGAARD, p. 203).
 
Enquanto para Freud e a psicanálise a crise do sujeito moderno foi definida pelo signo da repressão e neurose (FREUD, 2006), para Kierkegaard, ela passa pela angústia e desespero. Kierkegaard aponta a crise, ou seja, inquietude, a angústia, ou, mais determinantemente o desespero (porque este enlouquece) como a própria condição humana, uma vez que ele jamais pode ser superado inteiramente, mas só pode ser controlado e suspenso pela fé em Cristo.
Se para a filosofia nietzschiana (2004, p. 87-88), fundada na negatividade pagã, e para a psicanálise de Freud, o sujeito é movido por impulsos instintivos e desejantes, para Kierkegaard, o sujeito cristão é aquele que tem a consciência de que desejar é a essência fulcral da vida, desde que o foco do desejo não seja a satisfação de nossos instintos, mas sim pela busco do sentido primordial sobre nossa condição e existência através de Deus.
Evidentemente que isto implica em um paradoxo, já que a consciência e desejo de uma existência com Deus só pode ser alcançada por um salto sobre, pois, ao mesmo tempo em que se caminha pelo desconhecimento de Deus, é como se para cada passo da consciência fosse necessário um salto inconsciente em direção ao abismo e ao vazio pela fé.
Em outras palavras, só se chega a Deus por um salto sobre a queda do instinto, e sobre o abismo e a vaziez da consciência materialista, ou seja, é um salto sobre a escuridão, movido pela fé e absoluta crença de que este mesmo salto pisará o rochedo mais firme e seguro, ao passo que este vazio da razão angustiada, só pode ser preenchido por Deus. Ao mesmo tempo, este salto exige uma convicção, que é precedida por uma consciência, e que deseja ser transformada pelo poder sobrenatural de Deus:
 
Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal e o bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos
Não vim para construir a minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
 
Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.
(Murilo Mendes, 1994, p. 248-249)
 
O lugar do sagrado que funda a poesia cristã de Jorge e Murilo não se constitui pela suspensão etérea e liberta do desespero, mas sim sob o prisma dramático e conflituoso da existência terrena, vivenciada pelo sujeito a partir de sua consciência diante da negatividade demoníaca e da transcendência divina. Ou seja, para o cristão a queda é, paradoxalmente, como um peso que cada vivente carrega em si até hoje, e que pode nos levar ao abismo do desespero e à angústia do vazio, como o signo de uma crise e condenação, mas que deve, ao mesmo tempo, servir como uma força propulsora a nos mover em direção a Deus pela fé.
Logo, não se trata de uma fé puramente impulsiva e irrefletida, mas de uma fé consciente da decisão espiritual do sujeito e visando a transformação ética ao nível de suas práticas cotidianas, ou seja, a partir de uma metanoia. Do contrário, uma fé sem consciência dessa escolha e decisão seria um mero fideísmo, e os poetas têm plena consciência disso. Em face desse desejo grandioso, a consciência cristã está em saber que tal movimento será posto à prova todos os dias, como modo de fortalecimento da fé pelas tribulações e compreensão de que esta luta engendrada no corpo e na consciência corresponde à nossa própria experiência íntima da ordem de Deus:
 
O mundo atual, como sempre, é um grande campo de batalha, onde se digladiam constantemente as forças do Mal e do Bem. Muitas vezes pensamos, devido a circunstâncias fortuitas e à curta visão do homem, pensamos que o Mal está ganhando terreno, como atualmente é a impressão que nos dá a imensa tragédia universal dos tempos presentes. Mas não! O Bem está à frente, o Bem conquista, mesmo sem nós percebermos, terreno para o Reino de Deus, dia a dia, hora à hora, minuto a minuto (LIMA, 1997, p. 96).
 
Decerto, ao colocar Jesus Cristo no centro de sua existência, o cristão deseja que o espaço esvaziado de sua identidade em desespero seja preenchido primordialmente pelo sagrado. Do contrário, a crença e opção pelo cristianismo não tornam o sujeito imune à sua natureza pecaminosa ou isento da malignidade, uma vez que essa é sua natureza terrena e animalesca.
Em outras palavras, o cristianismo é a consciência de uma luta permanente entre o bem e o mal ao nível do corpo e da mente, sob a crença na promessa de libertação e vida eterna de Cristo através do amor. E essa é a perspectiva cristã que compõe a poíesis de Jorge de Lima e Murilo Mendes, ao passo que ambos reconhecem e expressam a condição humana sendo marcada pela dualidade e acirramento entre a negatividade profana, instintiva e devoradora das paixões, e a elevação de uma consciência espiritual cristã que transcende e liberta-se da devoração do outro pelo amor ao próximo e a Deus, acima de tudo, como na Carta de Paulo aos Gálatas 5:13-17:
 
Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis (Bíblia sagrada, 2011).
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
ANTELO, Raul. “Murilo, o Surrealismo e a religião” disponível em:
<http://www.cce.ufsc.br/ñelic/boletim8-9/raulantelo.htm>.
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Bio fornecida pelo palestrante.

PRÁTICAS CULTURAIS E O PÓS-COLONIAL EM A VARANDA DO FRANGIPANI, DE MIA COUTO – Artinésio Widnesse Saguate




 

ARTINÉSIO WIDNESSE SAGUATE

Universidade de São Paulo

 
 
Resumo: Este artigo analisa a temática do romance A varanda do frangipani, de Mia Couto, sob o ponto de vista teórico dos debates em torno do pós-colonial no campo cultural. À luz desse quadro teórico, foi possível observar três aspectos essenciais na temática do romance de Mia Couto: a desconstrução da visão colonialista residual na sociedade moçambicana, o resgate das identidades culturais amplamente abaladas pela pesada herança colonial, a crítica contra as práticas da nova elite política pós-colonial.
 
Palavras-chave: A varanda do frangipani; Mia Couto; temática; cultura; pós-colonial.
 
Abstract: This article examines the theme of the novel A varanda do frangipani, by Mia Couto, departing from the theoretical discussions around the “postcolonial” in the cultural field. In the light of this framework, we can observe three essential aspects in the theme of this novel by Mia Couto: the deconstruction of a residual colonialist vision in Mozambican society, the rescue of cultural identities which have been widely shaken by the heavy colonial heritage, and the criticism against the practices of the new post-colonial elite policy.
 
Keywords: A varanda de frangipani; Mia Couto; theme; culture; postcolonial.
 
Minicurrículo: É doutorando no Programa de Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (2013-2017). Possui Mestrado em Estudos Linguísticos, Área de Análise Linguística, pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – São José do Rio Preto (SP) (2012), Tem Licenciatura em Ensino do Português pela Universidade Pedagógica – Delegação de Nampula/Moçambique (2008), Bacharelato em Ensino do Português pela Universidade Pedagógica – Delegação de Quelimane/Moçambique (2007). Exerceu atividades de docência na Universidade Pedagógica – Delegação de Nampula, entre 2008 e 2009 e em 2012. Tem experiência nas áreas de Linguística/ Sociolinguística e Análise do Discurso, atuando principalmente em temas como ensino do português como língua segunda; variação linguística; política linguística; escrita; letramento; discurso.
 
 
PRÁTICAS CULTURAIS E O PÓS-COLONIAL
EM A VARANDA DO FRANGIPANI, DE MIA COUTO
 
ARTINÉSIO WIDNESSE SAGUATE
Universidade de São Paulo
 
Introdução
Neste artigo, examino a temática do romance A varanda do frangipani (1996), de Mia Couto. A ideia é demonstrar que essa temática se enquadra dentro de tensões ideológicas que surgem quando da necessidade de, ao mesmo tempo, desconstruir a visão eurocêntrica sobre África e construir/reconstruir as identidades do continente no campo cultural, negativamente afetadas por essa visão.
Para tanto, oriento-me de um quadro teórico ligado a discussões sobre o pós-colonial no chamado “Sul global” (África, Ásia, América Latina), tendo como autores de referência Ella Shohat (1992) e esta e Robert Stam (2013), que defendem práticas discursivas capazes de desencadear aspectos positivamente profundos sobre as identidades dos povos do Sul global, em oposição aos moldes da visão eurocêntrica, caracteristicamente negativos e estereotipados sobre esses povos. Em termos metodológicos, discutirei, portanto, a perspectiva epistemologicamente ideológica do pós-colonial, seguida de uma análise temática do romance.
 

  1. Perspectiva ideológica do pós-colonial em África

O termo pós-colonial é ambíguo, conforme reconhece Shohat (1992). Desse modo, para este artigo, deve sê-lo entendido como o antagonismo entre duas visões que se encontram em constantes embates na representação e explicação dos aspectos cosmopolíticas: eurocêntrica e antieurocêntrica.  Por visão “eurocêntrica”, se entendem as manifestações discursivas que, por si só, representam de forma positiva o “mundo ocidental” em detrimento ao “mundo não ocidental”, particularmente, a África, incluindo Moçambique. Em oposição, por visão “antieurocêntrica”, se denotam as manifestações discursivas que se posicionam no sentido de desconstruir a visão eurocêntrica sobre o continente. Portanto, a expressão “dimensão pós-colonial” sugerida no título deste artigo diz respeito à inserção da abordagem presente no romance A varanda do frangipani, de Mia Couto, nesse embate ideológico entre o eurocêntrico e o antieurocêntrico, particularmente no campo cultural, por entender que há um entrecruzamento irresistível entre cultura e imperialismo/colonialismo/pós-colonialismo (cf. SAID, 2011).
Em uma entrevista, Shohat (2013, p. 706) defende que o pós-colonial deve ser visto “como um discurso potencialmente policêntrico e aberto, a ser definido por múltiplos lugares e perspectivas”. É neste âmbito que, talvez, ideologicamente, uma análise sobre o pós-colonial deve ter como ponto de partida o período histórico das expedições europeias nos anos 1490. Conforme observa Stam (2013), com as expedições europeias a partir de 1492, começa a conquista da África (incluindo as Américas e parte de Ásia). O discurso ideológico desse período se materializava em atos de “descobertas”, de expulsão dos mouros, em inquisições (Stam, 2013). Entretanto, o pós-colonial “só adquire, enquanto noção, substância conceptual a partir dos anos 1980” (MATA, 2014, p. 27).
Embora não seja um período efetivamente de ocupação colonial em África, o primeiro contato que se estabelece entre os ocidentais e os africanos, particularmente entre os portugueses e os moçambicanos, representa um marco bastante importante para os períodos subsequentes. No período anterior às “descobertas”, a relação que reinava entre os moçambicanos e outros povos (árabes, chineses) era estritamente de trocas comerciais: o chamado mercantilismo. Assim, os portugueses, também se fazendo passar por mercadores, entraram em contato, pela primeira vez, com os moçambicanos.
No entanto, a relação entre os portugueses e os moçambicanos, que parecia pacífica, começou a tomar outros contornos quando aqueles (os portugueses) se empenharam, primeiro, pela monopolização das trocas comerciais (entrando em guerra e expulsando os tradicionais parceiros comerciais dos moçambicanos: árabes e chineses) e, segundo, pela subalternização das relações de poder (através da escravização dos moçambicanos). É a partir dessa relação que se constrõem noções como, por exemplo, “gente superior” versus “gente inferior”, “gente civilizada” versus “gente selvagem”, “culturas superiores” versus “culturas inferiores” etc.
Atualmente, os discursos “pós-coloniais” opostos à visão eurocêntrica são consensuais no sentido de que as noções tradicionalmente usadas para identificar o tipo de sociedades africanas são “ideológicas” (HOUNTONDJI, 2008). Expressões como sociedades “primitivas”, sociedades “arcaicas”, sociedades “tradicionais”, povos “indígenas” etc., são, em si, pouco claras e, portanto, tendenciosas. Portanto, esses discursos antieurocêntricas se esforçam no sentido de explicar exatamente o que essas sociedades são em termos de identidade.
Adicionalmente, essas sociedades têm sido caracterizadas pela visão eurocêntrica como “iletradas”. Em contrapartida, a visão antieurocêntrica tem sinalizado para a necessidade de se prestar atenção aos modos e dispositivos concretos através dos quais o conhecimento é transmitido nessas sociedades sem recurso à escrita tal como ela é usada no Ocidente. Portanto, constitui erro caracterizar negativamente essas sociedades por algo que não possuem: a literacia (HOUNTONDJI, 2008). Por essa razão, autores antieurocêntricos como o linguista francês Maurice Houis (1971) sugerem que essas sociedades devem ser chamadas sociedades de civilizações da oralidade.
Com a expulsão dos árabes e chineses, o mercantismo toma outro rumo, passando a configurar-se num comércio transcontinental de escravos. Nesse período, os discursos sobre os africanos (e, também, sobre os judeus, muçulmanos e indígenas) foram demonizados (STAM, 2013). Aqui, os temas marcadamente dominantes giram em torno do antissemitismo, islamofobia, racismo; sob a justificativa da edificação da civilização cultural, religiosa e do purismo racial.
Esses temas têm seu ponto mais alto nos anos de 1882, através dos acordos de partilha e ocupação efetiva de África, cujos efeitos se resumem no colonialismo propriamente dito. Conforme observa Meneses (2013, p. 45), “a missão colonial de civilizar tornou-se, a partir de meados do século XIX, a peça central da doutrina colonial europeia em relação aos territórios ultramarinos africanos, com as fronteiras da civilização a serem agora estabelecidas a partir dos referenciais europeus de ser e de estar”.
O colonialismo não se traduziu apenas numa ocupação de territórios geográficos, mas, também, num apagamento total ou parcial do tecido social, cultural e cognitivo dos povos colonizados. É nesse âmbito que, após a II Guerra Mundial, começam a emergir, na maioria dos países africanos, organizações nacionalistas, para lutar contra as condições sociais, políticas e, particularmente, culturais em que estavam submetidos. Portanto, conforme destaca Meneses (2013), a luta nacionalista, libertadora, era acima de tudo um ato cultural e um ato de cultura.
De acordo com Cabral (1973, apud MENESES, 2013, p. 46), o estudo da história das lutas de libertação nacional mostra que geralmente essas lutas são precedidas por um aumento da expressão da cultura, consolidada progressivamente através de tentativas com sucessos e insucessos, na afirmação da personalidade cultural dos povos oprimidos, como forma de negociar com a cultura do opressor.
A cultura, nas diversas formas de sua manifestação, ocupa um lugar privilegiado nos discursos do pós-colonial, isto porque, quaisquer que possam ser as condições dos povos, dos fatores políticos e sociais implicados na relação de dominação, é, geralmente, na cultura que se encontram as sementes da oposição, o que conduz à estruturação do desenvolvimento dos movimentos de libertação (cf. MENESES, 2013). Assim, socorrendo-se da herança cultural dos povos que haviam sofrido a violência colonial, esses movimentos apelavam à liberdade da cultura a partir da amplificação da imaginação, da improvisação e da palavra oral, ao mesmo tempo em que questionavam as razões da manutenção da escravatura e do genocídio trazidos pela relação colonial.
É neste cunho que Césaire escreveu o seu manifesto contra o colonialismo (CÉSAIRE, 1978, apud MENESES, 2013, p. 47):
 
Falam-me de progresso, de ‘realizações’, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios.
Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. (…) Falo de milhões de milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. (…)
Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação (Césaire, 1978 [1955]: 19-21).
 
Portanto, aqui vemos uma tentativa de construção do conceito de liberdade criativa e a profunda admiração pelos modos de pensar e práticas das sociedades pré-coloniais africanas. Do mesmo modo, o que vemos em Mia Couto é a luta pela possibilidade de combinar saberes e experiências. Portanto, essa luta não se restringe no uso do conhecimento para o desenvolvimento e emancipação dos povos colonizados; visavam também trazer o direito das diferentes formas de conhecimento, a uma existência sem marginalização ou subalternidade por parte da ciência oficial, defendida e apoiada pelo estado colonial.
De acordo com Meneses (2013), esse debate consolidou nos movimentos a importância do ‘retorno às fontes’, para a (re)conquista do poder de narrar a própria história e, portanto, de construir a sua imagem, a sua identidade. Esse processo passou necessariamente por um diálogo crítico sobre as raízes das representações, questionando as geografias e semânticas associadas a conceitos que insistem em manter os países africanos como espaços de atraso. No outro patamar, obrigou a uma reflexão e diálogos sobre a articulação entre os problemas e características locais, africanos, e os projetos nacionalistas globais, nem sempre articulados da melhor forma.
 

  1. A varanda do frangipani a dimensão pós-colonial”

A temática em A varanda do frangipani, quando analisada sob o ponto de vista da abordagem teórica dos autores citados neste trabalho, ajuda a entender o entrelaçamento de alguns aspectos conflitantes no discurso das personagens. É de acreditar que a pesada herança colonial tem e continua a ter consequências nefastas em variadas esferas da vida dos moçambicanos, algumas das quais sem soluções previsíveis a curto, médio ou longo prazo.
No caso desse romance de Mia Couto, os conflitos no discurso das personagens parecem denunciar a prevalência de algumas práticas ideológicas do colonialismo, negativamente contrárias ao próprio do espírito nacionalista inscrito na vontade libertadora do povo moçambicano. Portanto, a temática desse romance parece surgir de uma representação sintomática desses aspectos em conflito, nomeadamente: o novo poder político e o descontentamento social; a tensão entre o poder institucional e a tradição; a “desvinculação” do poder político vigente aos propósitos nacionalistas; a questão da “nativização” do homem; a “ruptura” estética para com a prática literária colonial.
Desse modo, A varanda do frangipani seria um romance de cunho pós-colonial, que, entretanto, se insereria num momento de justaposição entre o colonial e o pós-colonial. Aliás, as diversas tensões inscritas no romance servem de suporte a esse posicionamento, conforme mostram os exemplos a seguir:
 
(1)  Me faltou cerimônias e tradição quando me enterraram (p. 9).
 
Essa é uma fala da personagem Ermelindo Mucanga, que, longe de sua terra natal, morre e é enterrado sem o cumprimento das “tradições” fúnebres da sua etnia. Em consequência, virou uma alma xipoco, isto é, sem paradeiro, sem um sossego que um defunto merece.
Esse trecho mostra a importância das “tradições” nas culturas africanas e suas consequências quando não elas não forem respeitadas. Por outro lado, o trecho pode constituir uma crítica à ideologia colonial e/ou pós-colonial. Sob o ponto de vista do pós-colonial, o trecho em (1) pode ser analisado fazendo o paralelismo como a tensão instalada no período imediato à proclamação da Independência em Moçambique (em 1975). Nesse período, alguns discursos adotados pelo governo moçambicano giravam em torno do combate ao tribalismo. Contudo, esses discursos foram entendidos, de certa forma, como uma tentativa de “homogeneização” cultural do povo moçambicano – uma continuidade da ideologia colonial –, uma vez que a diversidade das tribos no País significava, ao mesmo tempo, a diversidade cultural.
Porém, o governo parecia estar mais preocupado com questões políticas do que, necessariamente, culturais, pois, no entendimento, era necessário manter e fortalecer a “unidade nacional” dos moçambicanos, considerada a “arma” fundamental para a vitória contra o colonialismo. Essa unidade passava, primordialmente, pelo aniquilamente do tribalismo, que representava perigo de divisões e de conflitos entre os moçambicanos.
Portanto, é possível que o romance de Mia Couto constitua uma crítica a esse entendimento do governo, pois, em parte, o “aniquilamento” das tribos significava, de forma implícita, o aniquilamento das práticas culturais a elas associadas. De fato, o que se depreende nessa passagem pode ser uma tentativa de questionamento sobre esse apagamento das tribos e das tradições mais antigas.
A crítica à ideologia colonial portuguesa relativa à cultura africana, particularmente à moçambicana pode ser também observada no trecho em (2):
 

  • Não escreva, deixe esse caderno no chão.

Neste asilo, o senhor se aumente de muita orelha. É que nós aqui vivemos muito oralmente (p. 26).
 
Esse trecho foi produzido pela personagem Navaia Caetano em diálogo com a personagem Inspetor. Durante o diálogo, a personagem Inspector, que usa a escrita para documentar a conversa. Porém, a personagem Navaia desuade no sentido de o Inspetor não usar a escrita, pois, naquele meio, a vida era feita, sobretudo, da oralidade.
Portanto, os trechos em (2) mostram um dos símbolos de identidade cultural moçambicana – a oralidade. Conforme se pode depreender desses trechos, mais do que um simples apelo para a necessidade do uso da comunicação oral, temos a exaltação dessa prática social. Desse modo, a expressão, “é que nós aqui vivemos muito oralmente” (grifo nosso) não significa a ausência do traço escrito na tradição cultural moçambicana, como erradamente os colonos cunharam as línguas africanas como sendo línguas sem escrita; e sim, a predominância da oralidade com relação à escrita.
De fato, na relação entre a oralidade e a escrita, enquanto práticas sociais em Moçambique, a primeira tende a ser mais predominante do que a segunda dentro de eventos comunicacionais. Ademais, nesses trechos, o romance corrobora cientificamente com a ideia de que a relação que se estabelece entre oralidade e a escrita não é uma relação de oposição, nem tampouco de inferioridade e de superioridade. Por conseguinte, não existe uma relação de inferioridade e de superioridade para com as culturas predominantemente associadas a cada uma dessas práticas. Assim, apesar da predominância da oralidade na cultura moçambicana, não significa, de modo algum, inferioridade da cultura moçambicana, relativamente à cultura ocidental que, ao que parece, é relativamente dominada pela tradição escrita.
Vemos, então, que Mia Couto apresenta esta relação de oralidade e escrita no sentido de representar a primeira como igualmente importante quando comparada com a segunda. Além disso, vemos também aqui um esforço no sentido de desconstruir qualquer concepção que considere as culturas tradicionalmente associadas à oralidade como inferiores às culturas tradicionalmente associadas à escrita, apelando-se, desse modo, o respeito para com a diversidade cultural.
A questão do respeito para com os preceitos culturais é também retomada no trecho em (3):
 

  • A gente da aldeia suspeitava de castigo, uma desobediência às leis dos antigos (p. 27).

 
No romance, esse trecho é produzido pela personagem Navaia Caetano, que conta história sobre sua mãe, que dava à luz sempre o mesmo ser. Como tentativa de explicar esse fenômeno, foi evocada a desobediência às leis dos antigos.
Portanto, nesse trecho, pode-se observar um modo particular de organização social e estrutural das comunidades tradicionais moçambicanas. Portanto, o trecho oferece uma pista importante sobre a constituição das relações de poder tradicional nessas comunidades. Como se pode depreender, com base nessa passagem, as relações de poder são regidas pelos antigos, isto é, pelas pessoas mais velhas, pois simbolizam a sabedoria, por conta da experiência ao longo dos tempos. E, uma eventual desobediência aos apelos ou às normas regidas por essa camada social/etária desencadeia castigos, com consequências individuais ou mesmo coletivas.
Esse fato faz com que a questão da memória ocupe um lugar muito importante nas heranças culturais de geração para geração em Moçambique, sobretudo por via oral. Também faz com que se pense na importância das línguas nativas (em relação ao português) na manutenção das comunidades e de suas tradições, já que, geralmente, essas comunidades se comunicam, sobremaneira, através dessas línguas de forma oral, e que essas línguas continuam a desempenhar um serviço importante que o português não pode oferecer, apesar de essa língua ser oficial.
 

  • Pois, senhor inspector, eu sou essa árvore. Venho de uma tábua de outro mundo mas o meu chão é este, minhas raízes renasceram aqui. (grifo nosso). (p. 46).

 
Com relação a esse trecho, vale observar que um aspecto que se verificou no período imediato ao fim do colonialismo em Moçambique foi a tensão social com relação aos portugueses ou seus descendentes que tinham optado em permanecer em território moçambicano, enquanto grande parte optava em regressar a Portugal. Houve, no entanto, alguma percepção errada no seio de alguns moçambicanos que associava todo o indivíduo português ou seus descendentes aos colonialistas. Entretanto, esse problema só foi resolvido através de atos de consciencialização. Assim, o inimigo não era nem a raça, nem a origem dos indivíduos, e sim as práticas neocoloniais de indivíduos, quer brancos, quer negros; quer portugueses, quer moçambicanos etc.
Assim, nesta passagem do romance, encontramos, ao que acreditamos, um reforço a essa consciencialização.            Além disso, observa-se aqui então um esforço de “nativização” da identidade; e/ou de afirmação/reafirmação da identidade moçambicana.
 

  • O que está a passar aqui é um golpe de estado (…). Um golpe contra o antigamente. Há que guardar este passado. Senão o país fica sem chão (p. 98).

 
Na passagem acima, parece registrar-se certo questionamento quanto aos encaminhamentos sociopolíticos e culturais em que o País vinha conhecendo no período pós-colonial, que se contrastam ou contrastavam com o espírito libertário que se esperava que fosse “efetivo”. Paradoxalmente, parece haver certo “saudosismo” para com o passado colonial. Na verdade, trata-se de um passado que, apesar de situado no período colonial, é alheio ao próprio colonialismo e suas práticas. Portanto, trata-se, em nosso entender, de um passado que não se inscreve na pesada memória colonial, mas aquele passado inscrito nas típicas práticas tradicionais dos moçambicanos; aquele passado que foi capaz de sobreviver à opressão e à imposição coloniais, mas que, paradoxalmente, era destruído ou era colocado em situação de ameaça (no período pós-colonial). Por outros termos, temos aqui um questionamento aos propósitos do próprio espírito libertário que aparece como um dilema para a própria sobrevivência da identidade nacional.
 
Conclusão
Neste artigoo, tentamos mostrar como a(s) temática(s) apresentada(s) por Mia Couto constitui um verdadeiro embate ideológico no campo cultural. Tomando por base a visão os debates sobre o pós-colonial, foi possível analisar o ideológico do romance, que desencadeia aspectos profundos como, por exemplo, o respeito pelas “tradições” culturais e a (re)construção das identidades igualmente vculturais.
Desse modo, no romance analisado, três aspectos podem ser tomados como pilares de toda uma temática nela presente, quando analisada sob o ponto de vista dos debates pós-coloniais: a desconstrução da visão colonialista residual na sociedade moçambicana, o resgate das identidades culturais amplamente abaladas pela pesada herança colonial, a crítica contra as práticas da nova elite política pós-colonial.
 
 
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STAM, R. In: SANTOS, Emmanuele, e SCHOR, Patricia (Orgs.). Brasil, estudos pós-coloniais e contracorrentes análogas: entrevista com Ella Shohat e Robert Stam. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, no 2, maio-agosto 2013: p. 701-726.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

DIFFERENTIATION AND NEGOTIATION IN JEANNETTE ARMSTRONG’S POETRY: STRATEGIES IN BEHALF OF OKANAGAN CONSCIOUSNESS – Mariese Ribas Stankiewicz




 

 Mariese Ribas Stankiewicz

Universidade Tecnológica Federal do Paraná

 
Abstract: By pointing at an indigenous community fragmented by colonization, Jeannette Armstrong writes about the tension of walking in the city, amid loss and absence. In doing so, the poet recentralizes the idea of what is marginal in order to make the silenced not only to speak, but also to reclaim what has been lost. In the light of Homi Bhabha’s notion of hybridity and Fred Wah’s elaborations on hyphenated identities, this essay presents a brief reading of Jeannette Armstrong’s poetic commitment to reassert her people’s culture and history (the Canadian Okaganan), while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization. Thus, the issue of land/place/placement in her poetry is recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality.
 
Keywords: Okanagan-Canadian poetry. Historical consciousness. Hyphenated discourse. Cultural hybridity.
 
Resumo: Observando uma comunidade indígena fragmentada pela colonização, Jeannette Armstrong escreve sobre a tensão em se caminhar na cidade, em meio à perda e à ausência. Ao fazer isso, a autora recentraliza a ideia daquilo que está às margens, para fazer o silenciado não apenas falar, mas também reclamar o que foi perdido. Sob a luz das noções de hibridismo de Homi Bhabha e das elaborações sobre as identidades hifenizadas de Fred Wah, este ensaio aborda uma breve leitura do compromisso poético de Jeannette Armstrong em reafirmar a cultura e a história de seu povo (os Okaganan to Canadá), enquanto vocalizando um discurso hifenizado que pode permitir a re-territorialização. Assim, o assunto de terra/local/posicionamento em sua poesia é recriado a partir de características, tais como raça, religião e etnicidade para se proteger da nacionalidade canadense homogeneizante.
 
Palavras-chave: Poesia Okanagan-canadense. Consciência histórica. Discurso hifenizado. Hibridismo cultural.
 
Currículo da autora: Professora Adjunta de Literaturas de Língua Inglesa e de Ensino de Língua Inglesa da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês (USP). Mestre em Inglês e Literaturas Correspondentes (UFSC). Coordenadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência UTFPR-CAPES.
 
 
DIFFERENTIATION AND NEGOTIATION IN
JEANNETTE ARMSTRONG’S POETRY: STRATEGIES IN BEHALF OF OKANAGAN CONSCIOUSNESS
 
Mariese Ribas Stankiewicz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
 
 
In the poem entitled “Death Mummer,” by Okanagan writer Jeannette Armstrong, the scenario of a contemporary city reveals the absence of a race: “There are no Indians here”; the good ones are dead, “preserved in alcohol” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), that is, poverty and social exclusion makes them hopeless at finding a way out. They feel useless for the community and are often stereotyped while searching for alcohol as a means of compensation for their unhappiness. Indians are part of memories and of bitter interpretations of a so long different culture. So, “in the million dollar museum / that so carefully preserves / their clothing, their cooking utensils / their food” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), they are far from being real. The remaining traces of their culture, being marginalized, constantly face rupture.
As many others indigenous poets around the world, Armstrong writes about the memories of her own people in permanent contrast to present reality, which is one of the most profound characteristics of multiculturalism. Inside this analytical scope, but stressing a more creative view of this kind of poetic development, this paper addresses a brief reading of Armstrong’s commitment to reassert the culture and the history of her people, while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization, that is, land/place/placement in her poetry and critical material are recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality. In this sense, as this essay also deals with a view of memories and traditions of a people found in the midst of consequences of post-colonialism, some ideas about identity disfiguration (mainly racial, generational, and geopolitical), by Homi K. Bhabha, may be important to help make out that, after so many years, this has still been a question of culture being dislocated to a space called “beyond”.
Armstrong is an Okanagan-Canadian educator, artist, political activist, and author of anthologies, criticism, children’s books, novels, short stories, and poetry. She is best known for her work on education, ecology, and Indigenous rights. However, as she was born and grew up on the Penticton Indian reserve in British Columbia’s Okanagan Valley, much of her artistic work is embedded in her community’s political and social matters, as one can see in poems such as “History Lesson,” “Trickster Time,” or “Bone Game.” Through her literary and critical work, Armstrong claims for the rewriting of her people’s history and for the raising of consciousness of its cultural values: “Our children, for generations, were seized from our communities and homes and placed in indoctrination camps until our language, our religion, our customs, our values, and our societal structures almost disappeared” (ARMSTRONG, 2005, p. 239). In doing so, she brings about material from Native oral tradition and myths as they are still linked with the present situation of her people, also setting forward a hybrid discourse that dispels counterfeit stereotypes of Natives and helps her delineate her people’s heterogeneity.
These discourses produced in resolution of post-colonialism or postmodernity would be related to cultural embattlements implying superposition and displacement in the realm of difference. In this sense, the more a people disfigure their tradition of past generations, the more the differences could be redefined and renegotiated. According to Bhabha, one of the important consequences of this is related to the identity perceptions in our contemporaneity. In a deconstructive way, this may be explained by saying that those perceptions were restricted to binary positions often fixed in modernity, but have found a way to become more fluid and transitory, which are characteristics of a time of mobility of global population.
In discourses of colonialism, hybridity is a depreciative word meaning miscegenation or mixed-breeds, that is, a hybrid, sterile product that resulted from the relationship between the colonizer and the colonized. This issue has to do with hegemony and eugenics, which implies a really strong matter of power relation. On the other hand, this same word “hybridity” occupies a central role in postcolonial discourse. In the light of these views, it has the benefit of the “in-betweeness” state, the overlapping of two cultures and the ability to negotiate the difference. This is part of the discussion promoted by Bhabha about cultural hybridity.
The theoretician has developed his own concept of hybridity from literary studies and cultural theory to define the structure of culture and identity within the circumstances of colonial antagonism and inequity. For Bhabha, hybridity is a way to describe the emergence of new voices exactly because it appears from the relationship between the colonizer and colonized. So it is fertile and challenges the validity and authenticity of any essentialist cultural identity.
In views of this, one can say that every kind of culture is in a continuous process of hybridity and, according to Bhabha, this new transfiguration supplants the established pattern with a “mutual and mutable” representation of cultural difference that is positioned in-between the colonizer and colonized:
 
For a willingness to descend into that alien territory (…) may reveal that the theoretical recognition of the split-space of enunciation may open the way to conceptualizing an international culture, based not on the inscription and articulation of culture’s hybridity. To that end we should remember that it is the ‘inter’ – the cutting edge of translation and negotiation, the inbetween space that carries the burden of the meaning of culture. It makes it possible to begin envisaging national, anti-nationalist histories of the ‘people’. And by exploring this Third Space we may elude the politics of polarity and emerge as the others of our selves (BHABHA, 1994, p. 56; the author’s italics).
 
Thus, it is the indeterminate place in between subject-positions that are mentioned to be the location of the disruption and displacement of hegemonic colonial narratives of cultural structures and practices, which Bhabha calls Third Space. So the space inbetween is a third one in relation to the colonizer and the colonized.
On the verge of this thought, indigenous peoples grow their art and culture. Subjected to European colonialism, besides being characterized as inferior, primitive, and unable to constitute suitable political, economic, religious and cultural structures and histories, every Native people of the New World is usually regarded as one large group (Indians), despite their heterogeneity, which, consequently, often sets them apart from progressive contemporary analyses of their particular identity traits. Diverging from this idea, in “The disempowerment of first North American Native peoples and empowerment through their writing,” Armstrong (2005, p. 241) declares: “We, as Native people, through continuously resisting cultural imperialism and seeking means toward teaching co-operative relationships, provide an integral mechanism for solutions currently needed in this country. The author voices the “we” of her people, which expresses the refusal to participate of the Canadian nationalistic aesthetic, indicating an escape from homogenising narratives. In the words of Fred Wah, this stance towards literature can be called “‘alienethnic’ poetics,” which is “often used for its ethnic imprint and frequently originating from the necessity to complicate difference” (WAH, 2000, p. 52). Thus, categorization segments social environment in classes, whose members are considered as equals in reason of their common characteristics, actions, and intentions.
Although her main thematic choices have to do with the history being told from her people’s perspective, as she does in “History Lesson,” or with their oral tradition, as in “Wind Woman,” her poetic discourse can be analysed as a hyphenated one. It is in that Third Space in which happens the “cutting edge of translation and negotiation” (BHABHA, 1994, p. 56), and that is essentially critical of essentialist positions of identity and a conceptualization of original or originary culture. Native art is that space which is a mode of articulation, describing a fruitful, and not merely contemplative, space that creates new possibility. As a means of discourse, I functions as an interruptive and interrogative space of new forms of cultural meaning and production, blurring the existing boundaries between we and them, and calling into question established categorizations of culture and identity.
However, the issue of hyphenated discourses, while concerning Native writers, is complex, because, in Wah’s words, these writers generally “feel a strong need to participate in a tangible community (despite the cries of ‘separatist’) in order to locate the cortex of their own social content without it being conditioned by first-world perceptions” (WAH, 2000, p. 77). On the other hand, Wah agrees that Native works show hybrid features. Thus, although Armstrong’s work is orchestrated with poetic tools used to resist dominant literary culture, such as references to land and genetic inscription, it also presents some traits of that which Wah calls “hyphenated poetics.” According to him, the hyphen “in the middle,” but “not in the centre” of multicultural compound adjectives metaphorically signals “a crucial location for working at hybridity’s implicit ambivalence” (WAH, 2000, p. 73).
In Armstrong poems, the reader may feel every personae in a state of enunciation, transgression, and subversion of binary positions, going beyond the realm of colonial dualistic opposition. The poet provides a spatial politics of inclusion rather than complete exclusion “that initiate new signs of identity, and innovative sites of collaboration, and contestation, in the act of defining the idea of society itself” (BHABHA, 1994, p. 2). The poems selected encode a counterhegemonic idea, in the sense that, when the colonizer shows hegemonic practices, the hybrid in the poetic content opens a space for attempts to negotiate to mean. They have that hybridity potential with their ability to transverse British, Canadian, and Okanagan cultures and to translate and to negotiate affinity and difference within a dynamic of exchange and inclusion that may start being felt in names and naming. The “play” with writers’ names that may reveal and conceal cultural tendencies and histories disturbs straightforward conclusions about most hybrid writers. Ambivalence resides in names, such as her own, “Jeannette Armstrong,” that is visibly English, concealing every Okanagan trace possible at a first sight. Further textual contact may reveal her history and political position, but will always accentuate the ambivalent character of her work.
Furthermore, the use of the English language throughout her critical work, stressing the aspect of her intellectual arrangement, besides dealing directly with cultural values as such, also outlines the chances of integration and cooperation with the dominant culture. The achievement of communication is, in Armstrong’s project, an essential point:
 
I don’t think I would go very far in a text if I were reading it through a text that had a lot of indigenous terms and words which didn’t have any meaning to me. I couldn’t continue reading it; I would therefore put it down as literature. Now, if I were reading it, and the literature itself was speaking to me, and the words and terms that were being used were not impeding that, then I would read it all the way through (ISERNHAGEN, 1999, p. 149)
 
In this sense, the use of code-switching is not strong in her work, that is, “the movement between two languages, (…) functions as part of hyphen poetics as it helps to locate (…) the ability to remain within ambivalence without succumbing to the pull of any single culture” (WAH, 2000, p. 82, 83). The use of Okanagan words in her poetry is not a constant, but English and Red English (that represents a linguistic variety) is part of her cooperative project for extending her people’s cultural survival. Thus, many communities may read poems that speak about her roots and identitary traits. On the other hand, the use of Red English and the almost absence of punctuation are strategically devised in a way that warrants shows of displacement and subversion, as it happens in “History Lesson”: “Father mean well / waves his makeshift wand / forgives saucer-eyed Indians” (ARMSTRONG, 2001, p. 8-10).
In poems, such as “Blood of My People,” “Keepers Words,” and “World Renewal Song,” among others, syntax is interrupted with silence, through gaps in the sentences. Wah verifies that the “gaps that punctuate her poem [“Blood of My People”] reflect the nomadic cut and refuse to settle into English placement of expected syntax and, more basically and politically, into both the imaginary nation and its ideological assault on the land” (WAH, 2000, p. 56). In “Keepers Words,” the silence “tells” about the sacred that cannot be changed, but that, somehow, is missing, because it is not remembered:
 
Her words     smooth     carved as bone
and so old no one remembered
were placed side by side
in a pattern
fashioned in the beginning
of her kind
(ARMSTRONG, 2001, p. 61)
 
Here, one cannot avoid associating the breakdown of a cultural system to loss of memories, which can only reconstruct fragmentary realities. Silence makes her discourse fragmentary at the same time that vindicates the vitalizing of her people’s history. “The cannibal monster / who devours himself / because he changes so much” (ARMSTRONG, 2001, p. 61) stands for the amalgamation and transformation of a series of different cultural traces, which coexist and are made homogeneous by globalizing ideologies.
One way out of cultural colonialism would be to teach the keeping of spiritual and tribal resources that are extremely connected to the land, so that the culture of her people can survive. Armstrong understands, however, that stressing the similarities within a category and the differences with the “other” may have dramatic consequences in the plane of behaviours and perceptions. This stance generally gives place to discriminations, to the extent that it is followed by favourable results to the groups to which one belongs, with a tendency to undervalue the groups from which one distinguishes.
Hence, in order to raise consciousness about her people’s culture without breaking through delicate issues about multiculturalism and globalization, her literary project includes principles to promote positive effects in the relationship with the dominant literary traits. In “Let Us Begin with Courage,” by blending contemporary Canadian issues about multiculturalism and Native intellectual traditions to defamiliarize common notions of Native peoples, Armstrong spins out a series of organic principles that, according to her, are essential for understanding that “the knowledge that the total community must be engaged in order to attain sustainability is the result of a natural process of survival” (ARMSTRONG, 1999, p. 1). Those principles are basically cooperation and pacifism, which she says to be natural to the foundation of Native ideologies.
Her key terms include individual, family, community, and land, which are interrelated in a stable chain. The notion of individual is, of course, not that of individualism, that is, the one that recognizes somebody apart from others. The individual is the talented person who must share his or her gifts with the community. As the four elements above constitute a stable chain, all are dependent on one another and cannot coexist separately. Furthermore, the individual is the powerful cell able to transfer cultural information to later generations, which again depends on the family structure. The family may live through many generations and constitutes a strong network able to spread cultural teaching. The community is that which embodies the identity traits of a given people, engaged in maintaining the principles in the land, which sustain all life.
These four elements cited above take part of a project, whose characteristics coexist in the collective environment of multiculturalism. She strives for accentuating cultural consciousness to her own people and for spreading their ideology to those out of her group willing to interact cooperatively and pacifically. This recipe follows the ancient and effective rules of the Bone Game, which was created and developed by Native peoples for deciding quarrels and disputes without hot conflicts, aggression, or war.
In a bone game, everybody participates with an object, which is passed around all members. A power object is chosen among all the objects of the participants involved in the game. Everybody must agree on the chosen power object. The game follows with the power object being passed around the members. The one who is holding that Object at a certain moment makes a proposal, which is listened, and then, approved or rejected. The power object is a kind of bridge linking all those involved in a dispute and every decision must be made based on consensus (BROWN, 2003).
Since she knows that the problem of social conflicts not only comes from the fight for the right to difference (ethnical, racial, or of gender), but from the fact that those phenomena are used for achieving power, the principles embedded in her project, cooperation and pacifism, much rely on the idea of the Bone Game. Negotiating the land, which is the site of political interests and element of disputes, is a slow process that involves the holding of a power object (here represented by her literary art), so that there can be consensus about the possession and use of the land.
In “Bone Game,” the four elements of Armstrong’s project engage wittily to tell that it is the moment to negotiate. The imagery of “the Okanagan” and “creek beds,” in the first stanza, is meaningful: if there was no land to which the persona belonged, or in which she could find her roots, the poem certainly would not express so intense certainty of place and placement. The persona walks the place to reach a powwow,1 in which she will propose something—imagined as an important issue, because she comments: “At the bone game I will wager / with cunning and skill / everything I own” (ARMSTRONG, 2008, p. 17). The poem treats of the individual, who, knowing the land, is going to meet others in a gathering, at the same time that will have a spiritual contact with the trickster Coyote, an indigenous entity that stands for the forces of good and evil: “I will laugh with coyote / […] / Tonight I will stalk / as I sing his song” (ARMSTRONG, 2008, p. 17).
Because the rupture of cultural and social links increases considerably, when the individual loses his or her land (or home), the redefinition of a place to which belong is a necessary measure proposed by an ethnic writer. Being a nomad constantly in search of a land that now is occupied by a different owner is to discover that “‘where you live,’ is also ‘Other,’ a large poetics term particularly attractive to contemporary ethnopoetics” (WAH, 2000, p. 57). In “History Lesson,” Armstrong tells about the white man’s search for a promised land, which, originally, belonged to her people, to try to wager, and possibly to challenge, the idea that the original owners are the best ones, since everything that she considers sacred about the land was devastated and broken:
 
Somewhere among the remains
Of skinless animals
Is the termination
To a long journey
And unholy search
For the power
Glimpsed in a garden
Forever closed
Forever lost
(ARMSTRONG, 1991 p. 28)
 
It states much about the issue of language and the attempts to survive through it, while it tries to preserve the myth that lies in the process of making history by deconstructing historical topics in the colonization of the Natives by the British and the French. Speaking about the tools of conquest, ships and guns, Armstrong’s version of the history also includes the journey to a paradisiacal land, when “Civilization has reached / the promised land” (ARMSTRONG, 1991, p. 47). However, the process of colonization comprises destruction and disorganization, which, eventually, make her people wander away in search of home. In Wah’s words, the “nomadology,” a name coined by Deleuze and Guattari, that is:
 
(…) the figuring out where [the ethnic writer] is, where to go, how to move, not just through language but in the world, is an investigation of place, as well as placement in said place. For some, this is a reclamation project—and who could blame them, the natives (WAH, 2000, p. 56).
 
Native peoples have developed, and somehow, changed countless times amidst very harsh realities. Fighting for keeping hold of group cohesion in the face of almost overwhelming obstacles and working toward the realization of common goals are among the tasks of conspicuous Native writers. However, one of the greatest tasks has to do with the integration process that develops along with the raising of consciousness of their people’s culture. This integration will perpetually show hybrid aspects in their art. It is the necessary tool so that communication exists. This in-out procedure describes the spread of literary and cultural representations as well as the historical subjection of Native peoples.
In bringing Bhabha’s views to this essay, I would not forget to remind the reader about a general awareness of his neglect to conceive historical and traditional circumstances that reside inside colonial discourses. Despite of that, this author, as many others who bring postcolonial aspects of cultures in their theories, has the merit of being responsive to the global game of strategic negotiations of affinities and differences, which is optimistic but also complex. His theoretical criticism recognizes the postcolonial reality of that game, and describes the fact that who was once the other has a voice in this world now. After all, in this writing, postcolonial does not mean that those who left Great Britain and France towards Canada have returned. Instead, they are there to stay with the Native people. Indeed, all of them are Native people now, with all those similarities and differences around, and therefore the significant requirement of negotiation.
Because of the increase of cultural consumption – many times appropriating dissimilar cultures – and the globalization of its structure in our days, we all have become members of various communities. This myriad of positions makes transformation an everyday experience. Even if we do not change into a cannibal monster, as one in Okanagan mythology, every morning we wake up to find ourselves in completely new roles. One might ask whether it is necessary for a Canadian Euro-descendant who meets an Indigenous Canadian schoolmate to define him/herself by his or her national identity, being first reaction the impulse to exclude, punish, or ignore.
What makes them choose those labels from among the stuffed bag of identity components, rather than the part of the mother playing with her son, the crazy university professor, or the unhappy Brazilian living a chaotic political situation here in Brazil? Are we really to exclude, punish, or ignore those that do not look like the ones of a group or is there a possibility for breaking through the difference-breeding division between “us” and “them”? This latter possibility might not be completely deceptive for the players of this game these days.
 
 
 
REFERÊNCIAS
 
ARMSTRONG, Jeannette. Bone Game. 2001. Disponível em: http://www.parl. gc.ca/Information/about/people/poet/poem-of-the-week/poems-.htm?param=40. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
ARMSTRONG, Jeannette. Breath Tracks. Stratford: Williams-Wallace/Penticton – Theytus, 1991.
ARMSTRONG, Jeannette. The Disempowerment of First North-American Native Peoples and Empowerment through their Writing. In: GOLDIE, Terry; MOSES, Daniel David. An Anthology of Canadian Native Literature in English. Don Mills, Ont.: Oxford UP, 2005.
ARMSTRONG, Jeannette. Let us Begin with Courage: Ecoliteracy: Mapping the Terrain. 1999. Disponível em: http://www.ecoliteracy.org/publications/pdf/jarmstrong_letusbegin.pdf. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
BHABHA, Homi K. The Location of Culture. London e Nova York: Routledge, 1994.
BROWN, Michael, (Org.). The Bone Game: A Native American Ritual for Developing Personal Power and Group or Tribal Consciousness. 2000. Disponível em: http://www.michaelbrown.org/HTML/BoneGame.htm. Acesso em: 13 abril 2015.
ISERNHAGEN, Hartwig. Jeannette Armstrong. In: Mamaday, Vizenor, Armstrong: Conversations on American Indian Writing. Norman: U of Oklahoma P, 1999.
QUIRK, Randolph. Longman Dictionary of Contemporary English. 3ª ed. Essex: Pearson, 1995.
WAH, Fred. Faking it: Poetics and Hybridity. Edmonton: NeWest Press, 2000.
 
 
NOTE
[1] Powwow: “an American Indigenous ceremony (as for victory in war; an American Indian social gathering or fair usually including competitive dancing; a meeting for discussion” (QUIRK, 1995, p. 1104).
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A RAPOSA E O PERCEPTIVO: A MULHER NEGRA CHEROKEE EM THE SUBTERRANEANS, DE JACK KEROUAC – Sávio Augusto Lopes da Silva Junior




 

Sávio Augusto Lopes da Silva Junior

 

Universidade de São Paulo (USP)

 

RESUMO: Este trabalho pretende analisar o romance norte-americano The Subterraneans, publicado em 1958 e de autoria de Jack Kerouac. O foco deste estudo está na visão que o narrador Leo Percepeid apresenta de sua amante Mardou Fox. A personagem é caracterizada por suas raízes africanas e Cherokee e, além disso, por estar envolvida em uma cultura marginalizada ligada ao bebop jazz.
 
PALAVRAS-CHAVE: Romance norte-americano; cultura afro-americana; bebop jazz; Jack Kerouac.
 
ABSTRACT: This paper analyzes the North-American novel The Subterraneans, published in 1958 by Jack Kerouac. It focuses on the perception that the narrator Leo Percepeid presents of his lover Mardou Fox, a character described as having African  and Cherokee roots and as also being involved in a marginalized culture linked to the bebop jazz.
 
KEYWORDS: North-American Novel; African-American Culture; bebop jazz; Jack Kerouac.
 
Minicurrículo: Doutorando no departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor do romance Deixe a Inglaterra tremer, publicado em 2013 pela editora Novo Século (SP).
 
 
 
A RAPOSA E O PERCEPTIVO:
A MULHER NEGRA CHEROKEE EM
THE SUBTERRANEANS, DE JACK KEROUAC
 
Sávio Augusto Lopes da Silva Junior
 
Universidade de São Paulo (USP)
 
Ao atribuir nomes fictícios às suas personagens, percebe-se que o escritor norte-americano Jack Kerouac (1922-1969) utiliza um jogo de palavras para caracterizar personalidades inspiradas em pessoas reais. Esse é o caso de Sal Paradise, que percorre as estradas em busca do paraíso, e Old Bull Lee, nome dado a William Burroughs, um dos integrantes da geração beat de mais idade – ambas personagens de On The Road. Em The Subterraneans, esse padrão também pode ser percebido. Leo Percepeid, o narrador, é marcado por ser perceptivo e capaz de identificar aquilo que é digno de atenção para o seu relato de memórias em meio ao cenário do bebop jazz, narrativa esta que constitui o próprio romance. Já Mardou Fox, a raposa, remete ao termo foxy, uma mulher descrita como atraente, que é alvo da atenção de Percepeid e, muitas vezes, vista por ele como uma caça.
O romance The Subterraneans, publicado pela primeira vez em 1958, trata do envolvimento do narrador Leo Percepeid – codinome de Jack Kerouac – e Mardou Fox, integrante genuína da cultura do bebop jazz, marginalizada e de origens afro-americana. Em meio ao cenário boêmio de North Beach em São Francisco, Percepeid permeia uma cultura que lhe é estranha, visto que ele é integrante da classe média branca norte-americana. As diferenças sociais e culturais do casal criam uma constante tensão, relacionada à marginalização vivida por Mardou Fox e a cultura a qual ela faz parte.
A relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid é ambígua e marcada pela oscilação entre o amor e o ódio. Em sua primeira impressão de Mardou, Percepeid se sente atraído por sua aparência exótica – em uma forma de fetiche primitivista, conforme aponta Jon Panish (2011). Mardou Fox é uma personagem de origens étnicas africanas e cherokee e integrante genuína da cultura bebop, estilo de jazz muito presente na obra analisada e famoso por sua agilidade que destoa do jazz comercial. A corrente bebop, por muito tempo, foi apreciada por um público muito específico e às margens da cultura oficial norte-americana, criando assim uma forma de cultura de resistência. Ao conhecer Mardou e seu estilo de vida ligado ao bebop, Leo decide conquistar a moça e submergir no universo subterrâneo do qual ela faz parte. Kerouac narra: “But eyeing her little charms I only had the foremost one idea that I had to immerse my lonely being (‘A big sad lonely man,’ is what she said to me one night later, seeing me suddenly in the chair.) in the warm bath and salvation of her thighs (…)” (KEROUAC, 2001, p. 7).
De início, a atração física é o que define o desejo de Leo por Mardou. Percebe-se o fetiche por sua pele negra e pela associação que o protagonista faz de sua ascendência com o imaginário selvagem que a sociedade conservadora norte-americana tem da cultura afro-americana. Contudo, nota-se que, ao aprofundar os níveis de sua relação com Mardou, Percepeid tem uma percepção mais ampla de sua cultura, deixando, em diversos momentos, o fetichismo de lado e envolvendo-a em uma relação de trocas interculturais:
 
Her little brown hand is curled in mine, her fingernails are paler than her skin, on her toes too and with her shoes off she has one foot curled in between my thighs for warmth and we talk, we begin our romance on the deeper level of love and histories of respect and shame (KEROUAC, 2001, p.19).
 
É nestes momentos de intimidade que se percebe um crescimento do respeito que Percepeid tem por Mardou – mesmo que este seja oscilante. O estranhamento que Leo sente em relação às suas origens e cultura, contudo, voltam a surgir em diversos momentos da narrativa, demonstrando que a discriminação racial está mais enraizada em sua cultura conservadora do que Percepeid imagina. Leo percebe que Mardou jamais seria colonizada pela vida burguesa de classe média; sua cultura e suas origens étnicas são fatores que impedem a adequação da jovem negra a esse estilo de vida. Esse é o principal motivo de Percepeid ver o seu próprio conforto – tanto no cotidiano, quanto social – ameaçado.
A forma como o amor e ódio se misturam na descrição que Leo Percepeid faz de seus sentimentos por Mardou remete aos conceitos de “sagrado” e “maldito”. Segundo o linguista francês Émile Benveniste (1995), no latim, ambos os termos são designados pela palavra sacer. Dessa forma, há uma ambivalência nesses termos, existente, segundo Benveniste, devido às apropriações culturais feitas do termo no decorrer de sua existência:
 
(…) na Idade Média, um rei e um leproso eram ambos, ao pé́ da letra, “intocáveis”, mas isso não quer dizer que sacer encerre dois sentidos contraditórios; foram as condições da cultura que determinaram, em face do objeto “sagrado”, duas atitudes opostas  (BENVENISTE, 1976, p. 87).
 
A característica de “intocável” do rei leproso sugere dois sentidos: o de “sagrado”, devido à sua posição privilegiada e relacionada à divindade, por isso, o rei não deveria ser tocado; e a de “maldito”, devido à sua doença contagiosa e nesse caso, também, não deveria ser tocado. Contudo, o exemplo dado não pressupõe dois significados ao termo; foi a cultura em que ele foi usado que criou duas atitudes opostas diante do ser sagrado. Da mesma forma, Mardou também é sagrada e intocável para Leo Percepeid. Por um lado, ela é divina, por ser uma representante da cultura bebop, a qual Leo tanto admira e, por isso, encontra-se em um pedestal e não deve ser tocada. Por outro lado, é uma figura marginalizada, vista pelo senso comum como uma ameaça e por Leo Percepeid como um empecilho para uma vida confortável e, por isso, também não deve ser tocada. Nesses casos, o valor dado ao sagrado também é culturalmente determinado e ambivalente.
Ao colocar em dúvida os valores de Mardou, Percepeid menciona o seu bem-estar (well-being), termo utilizado com frequência no decorrer de The Subterraneans e que remete à qualidade de vida proporcionada pelo American Way of Life da década de 1950. A proximidade com Mardou é um fator que impede o deleite deste bem-estar e, portanto, há necessidade de uma escolha entre os dois universos: a subcultura marginalizada e o prazer da vida estável. Sobre o seu bem-estar e a presença de Mardou, Percepeid relata: “(…) as tho never I was straight with her, but crooked – never away from my chimerical work room and comfort home, in the alien grey of the world city, in a state of WELL-BEING” (KEROUAC, 2001, p. 34). Essa escolha entre o bem-estar e a marginalização implica em constantes avaliações de Mardou, sua cultura e seu caráter. Por esse motivo, ocorrem frequentes oscilações na perspectiva que Leo Percepeid possui da vida ao lado de Fox.
Em um momento de excitação, Percepeid compartilha com Mardou a admiração e o seu afeto por suas raízes africanas e destaca o essencialismo, a pureza existente em sua cultura, mencionando que ela seria a mulher essencial e original:
 
‘Honey what I see in your eyes is a lifetime of affection not only from the Indian in you but because as part Negro somehow you are the first, the essential woman, and therefore the most, most originally most fully affectionate and maternal’ – there now is the chagrin too, some lost American addition and mood with it – ‘Eden’s in Africa,’ I added one time (…) (KEROUAC, 2001, p. 79-80).
 
O trecho citado mostra que Percepeid percebe claras distinções étnicas e culturais entre ele e Mardou. Por vezes, ele a rebaixa e a enxerga como uma relação que o comprometeria de levar uma vida normal nos padrões do American Way of Life; em outros momentos, ele exalta essa diferença e a coloca acima de sua própria cultura, como uma forma de essencialismo. Esta menção à pureza da cultura africana e sua comparação ao Éden remete à visão essencialista que escritores afro-americanos contemporâneos à Jack Kerouac, como Amiri Baraka (1934-2014), têm de suas próprias raízes; e que está relacionada à ideia de que o ouvinte branco do bebop, por exemplo, é incapaz de realmente compreender tal expressão artística. Para as personagens de Amiri Baraka (1995) – como Clay, na peça Dutchman  – os músicos bebop são reverenciados por muitos brancos de classe média. Contudo, não são compreendidos por estes, que só possuem uma espécie de fetiche primitivista por  aquilo que é estranho a eles. Há, segundo essa opinião, a ideia de que o bebop é próprio da comunidade afro-americana e impossível de ser assimilado por alguém que seja externo à ela. O que essa forma de essencialismo não prevê é o papel de desmistificador do American Way of Life que um relato como o de Jack Kerouac pode assumir, ao levar para o centro de sua narrativa a cultura do bebop e o racismo.
É perceptível que as dúvidas em relação ao caráter de Mardou são mais intensas na segunda parte da narrativa, quando Leo demonstra paranoia e ódio intensos pela mulher. Novamente, sua descendência africana e cherokee são determinantes para o sentimento que Leo tem por Mardou, contudo, este é revertido da admiração e fetiche por ódio. Logo em seguida ao seu instante de admiração, em um momento de ciúmes, Leo Percepeid, ao caminhar ao lado de Mardou nas ruas de São Francisco, revela sentimentos de ódio existentes em sua consciência e, neles, ressalta um preconceito racial enraizado na cultura a qual ele abomina, mas não consegue deixar de fazer parte:
(…) but now in my hurt hate turning the other way and so walking down Price with her every time I see a Mexican gal or Negress I say to myself, ‘hustlers’, they’re all the same, always trying to cheat and rob you – harking back to all relations in the past with them – Mardou sensing these waves of hostility from me and silent (KEROUAC, 2001, p. 80).
 
Mardou aceita a hostilidade em silêncio. É possível reparar, com essa forma oscilante com a qual Percepeid trata Mardou, que há uma relação de imposição do protagonista sobre sua companheira; um posicionamento de Percepeid em relação às etnias marginalizadas nos Estados Unidos nos anos 1950, que remete às relações entre imperialistas e colonizados, conforme apontado no trecho citado acima. Portanto, cabe aqui discorrer um pouco sobre a forma como a geração beat, em especial Jack Kerouac, vê as minorias de seu país e a maneira como eles lidam com o contato junto às culturas que lhe são estranhas. Esse é o caso de grupos citados no trecho acima e que estão muito presentes na literatura beat: mexicanos e afro-americanos, principalmente.
Em seu trabalho intitulado The Transnational Counterculture, Daniel Belgrad aborda a relação entre a contracultura beat e a expressão do realismo mágico no México, e relata as diversas passagens dos beats pelo México, afirmando: “Clearly Mexico was an important literary influence as well as a significant life event in the development of the beat subculture” (BELGRAD, 2004, p. 28). Em sua análise, Belgrad (2004) não descarta a possibilidade de uma relação de déspotas/colonizados entre, respectivamente, beats e México. O autor levanta fontes que interpretam os relatos da presença dos beats em terras mexicanas como uma afirmação do imperialismo, afirmando que William Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg se portavam como déspotas, nessas ocasiões. A partir da análise de suas fontes, o autor afirma:
 
They praised Mexico for its low cost of living and reveled in the ready availability of teenage prostitutes and illegal drugs (heroin and marijuana), a phenomenon inseparable from Mexico’s political and economic “underdevelopment” in comparison to the United States (BELGRAD, 2004, p. 29).
 
 
Contudo, Daniel Belgrad (2004) não considera a teoria anti-imperialista o foco de sua análise, visto que esta desconsidera a relação intercultural entre os beats e a cultura mexicana. Dessa forma, o autor apoia a hipótese de uma relação de trocas entre as duas culturas e considera, tanto a geração beat como o realismo mágico mexicano, formas de oposição ao capitalismo corporativo pós-guerra, que, durante a década de 1950, conquistava cada vez mais espaço nos Estados Unidos e no México. Belgrad afirma: “As part of a transnational counterculture that inherited the mantle of the postwar avant-garde, the beats in Mexico should be understood as cultural allies of the Mexican magic realists, rather than as agents of American imperialism” (BELGRAD, 2004, p. 30).
Cabe frisar, além disso, que a afinidade entre a geração beat e a cultura afro-americana, especialmente o bebop, relatada em The Subterraneans, também promove uma relação intercultural e, conforme já mencionado, criou-se uma expressão literária que se opõe ao imperialismo corporativista norte-americano do século XX. Ao contrário de apreciar a sua suposta posição social superior, Percepeid não é conivente ao racismo e à dominância da cultura de classe média; ao contrário, o racismo existente em níveis profundos de sua consciência é o motivo da sua angústia. Percebe-se, na narrativa de Jack Kerouac, o anseio pela institucionalização de uma comunidade alternativa, uma realidade idealizada, em que a relação de Leo Percepeid e Mardou Fox fosse possível.
Além disso, Leo Percepeid é um protagonista com características de um anti-herói, visto que assume constantemente seus erros, fracassos e arrependimentos. Dessa forma, é possível que Kerouac coloque sua própria contradição na relação de Percepeid e Mardou. Dificilmente Jack Kerouac conseguiria retratar o preconceito vivido por integrantes negros da cultura bebop na década de 1950, caso a relação entre Leo Percepeid e Mardou Fox fosse totalmente harmoniosa e Leo não vivesse em constante conflito entre a cultura mainstream norte-americana e a subterrânea do bebop jazz. Nesse sentido, a ambivalência presente em Percepeid é fundamental para o ideal contra-hegemônico manifestado em The Subterraneans.
Para analisar a relação entre os beats e a cultura mexicana explorada por eles, Belgrad (2004) resgata o termo fellaheen proposto pelo historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), termo esse relacionado a grupos que permanecem infensos aos grandes movimentos históricos e que também é frequentemente aplicado à contracultura situada nas margens sociais que sobrevivem ao impacto da modernização. Segundo Daniel Belgrad (2004), os beats viam os índios mexicanos como uma subclasse de fellaheen e, por esse motivo, identificavam-se com eles. Os fellaheens para Jack Kerouac e a geração beat são aqueles considerados por eles companheiros de marginalização, como, por exemplo, comunidades afro-americanas, mexicanos vivendo nos Estados Unidos, índios norte-americanos, artistas de rua. Em suma, grupos que sobrevivem à opressão da cultura dominante do consumo, mesmo que estes tenham sofrido mudanças no decorrer de suas existências. A geração beat e seus fellaheens muitas vezes compartilham espaços e, dessa proximidade, surge o convívio. Este é o caso de North Beach, região de São Francisco descrita em The Subterraneans, onde diversos grupos marginalizados convivem em um ambiente boêmio.
Em The Subterraneans, esse tipo de identificação ocorre entre Leo e Mardou devido às raízes culturais de Fox e as experiências na estrada de Percepeid; em ambos os casos há a adoção, mesmo que por vontade própria, de um estilo de vida marginalizado que foge aos parâmetros da vida americana e do progresso. Percepeid comenta sobre a forma como ele se identifica com Mardou e suas experiências, o que o levou a entender o que ele tem de semelhante com a companheira:
 
Concern for her father, because I’d been out there and sat down on the ground and seen the rail and steel of America covering the ground filled with the bones of old Indians and Original Americans. – In the cold grey fall in Colorado and Wyoming I’d worked on the land and watched Indian hoboes come suddenly out of brush by the track and move slowly (…) (KEROUAC, 2001, p. 18-19).
 
Tendo isso em mente, podemos dizer que Percepeid vê Mardou como uma companheira fellaheen e se identifica com a sua origem – um povo que vive de forma muito distinta do padrão modernizado dos Estados Unidos. Sendo assim, o fato de a personagem conviver e se interessar por culturas que fogem aos padrões do American Way of Life pode ser visto como uma contraposição à cultura dominante. Apesar de Jack Kerouac e seus fellaheens das culturas minoritárias coexistentes nos Estados Unidos na década de 1950 resistirem à intensa instauração do American Way of Life, não se pode dizer que estes se opõem à modernização, conforme aponta Belgrad (2004). Acredita-se que a geração beat vê o contágio das culturas sobreviventes e minoritárias como uma característica da modernização, a qual proporciona oportunidades para que artistas de vanguarda apropriem-se dessas culturas para a criação artística. Dessa forma, através de relatos literários como The Subterraneans, busca-se uma institucionalização desse aspecto da modernização. Além disso, diversos efeitos dessas mudanças são apropriados pela literatura beat de forma a criar expressões como a prosa espontânea, um estilo de escrita moderno por excelência, presente em The Subterraneans.
Outra dimensão marcante na relação de dominante e dominado entre Leo e Mardou é a sexualidade. De acordo com Daniel Belgrad (2004), para os beats, sexo era um símbolo natural de comunhão e cita o exemplo de The Subterraneans, em que Kerouac iguala os conceitos de sexo e comunhão na relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid. Para exemplificar, Belgrad cita o seguinte trecho da obra: “(…) the intimacies of young lovers in a bed, high, facing eye to eye, breast to breast naked, organ to organ, knee to shivering goose-pimpled knee, exchanging existential and lover-acts for a crack at making it (…)” (KEROUAC, 2001, p. 7). Considerando que o sexo é uma forma de comunhão entre Mardou e Leo, novamente, se percebe a imposição de Leo sobre sua parceira. Devido ao fato de Mardou ter passado grande parte da sua vida sexualmente inativa, Percepeid impõe-se de forma a reeducá-la afetivamente e sexualmente, remetendo novamente à sua imagem de déspota. Percepeid relata:
 
Never did she use the world love, even that first moment after our wild dance when I carried her still on my lap and hanging clear to the bed and slowly dumped her, suffered to find her, which she loved, and being unsexual her entire life (except for the first 15-year-old conjugality which for some reason consummated her and never since) (…) (KEROUAC, 2001, p. 16).
 
Devido a essa peculiaridade de sua relação, em alguns momentos da história, Percepeid demonstra o desejo de ser o mentor sexual de Mardou, de guiá-la na forma como ela poderia obter prazer na relação. O seguinte trecho exemplifica esse desejo: “We hugged, we held close – it was like love now, I was amazed – we made it in the living-room, gladly, in chairs, on the bed, slept entwined, satisfied – I would show her more sexuality –” (KEROUAC, 2001, p. 32).
Se Percepeid é o mentor de Mardou, no que diz respeito à sexualidade, Mardou, por sua vez, é quem tem o maior entendimento acerca do jazz bebop e o auxilia a compreender o estilo musical. Contudo, por ser membro enraizado nessa subcultura, Mardou não partilha da mesma excitação e atração pelo desconhecido que Percepeid. Pelo contrário, em uma conversa sobre o bebop, a jovem negra demonstra-se indiferente à expressão musical. Kerouac narra: “(…) Mardou, who, impressed, forewarned, understanding everything, makes solemn statements about bop, like, ‘I don’t like bop, I really don’t, it’s like junk to me, too many junkies are bop men and I hear the junk in it’” (KEROUAC, 2001, p. 84). Além disso, Mardou viveu a marginalização ligada ao estilo de vida do bebop, diferente de Percepeid, que tem aquele cenário como uma forma de evasão da vida normativa.
Dessa forma, Mardou é entendedora do bebop e, por isso, não se comove tanto com o estilo. Mesmo demonstrando certo descaso com o estilo, Fox está em posição superior quanto ao entendimento da música e isso a coloca acima de Percepeid no quesito inserção à cultura bebop, visto que ela é uma integrante genuína do meio em que ambos frequentam. É interessante destacar que Mardou compara o bebop ao lixo, que, para Kerouac, é um lixo merecedor de ser coletado e colocado no centro de sua narrativa. Leo Percepeid, ao contrário de Mardou, enxerga o bebop como uma recém-descoberta fascinante e, em resposta ao descaso de Mardou pelo estilo, responde: “(…) ‘But you never like what you come from’ (looking at Mardou). – ‘What do you mean?’ – ‘You’re the child of bop,’ (…)” (KEROUAC, 2001, p. 84).
A visão que Percepeid tem de Mardou e do bebop é de que ambos têm a mesma origem, uma forma de essencialismo que remete às narrativas de Amiri Baraka (1995) sobre o bebop. Devido ao fascínio pela origem de Mardou e por considerá-la “a filha do bop”, Percepeid vê Fox como uma companheira fellaheen e, assim, estabelece um relacionamento de natureza intercultural – semelhante à relação que Daniel Belgrad (2004) analisa entre a geração beat e a cultura mexicana. É através da relação entre Mardou e Percepeid que Kerouac obtém êxito em retratar a geração bebop subterrânea. Ao colocar Mardou e o universo cultural a que ela pertence no centro de sua narrativa – mesmo que haja tantas controvérsias na relação entre ela e o narrador, abordadas anteriormente –, Jack Kerouac cria, assim, um relato que vai além da memória oficial criada pelo imaginário normativo norte-americano; uma memória que busca os descartes dos arquivos oficiais e que tem como objetos principais, nesse caso, Mardou Fox e a cultura do bebop da qual ela faz parte.
 
 
REFERÊNCIAS
 
BARAKA, Imamu Amiri. Dutchman. In: KLAUS, Carl H.; GILBERT, Miriam; FIELD JR., Bradford S. (Ed.). Stages of Drama: classical to contemporary theater. New York: St. Martin’s Press, 1995. p. 1.030-1.041.
BELGRAD, Daniel. The Transnational Counterculture: Beat-Mexican Intersections. In: SKERL, Jennie (Ed.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 27-40.
BENSTON, Kimberly W. Ellison, Baraka, and the Faces of Tradition. 1978. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/302327>. Acesso em: 20 out. 2013.
BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral. Tradução de Maria da Glória Novak e Luiza Neri. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1976.
BERENDT, Joachim E. O jazz: do rag ao rock. Tradução de Júlio Medaglia. São Paulo: Editora Perspectiva, 1987.
GINSBERG, Allen. Uivo e outros poemas. Porto Alegre: LP&M, 2006.
HOBSBAWM, Eric. História social do jazz. Tradução de Angela Noronha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
HOLTON, Robert. “The Sordid Hipsters of America”: Beat Culture and the Folds of Heterogeneity. In: SKERL, Jennie (Ed.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 11-26.
KEROUAC, Jack. Essentials of Spontaneous Prose. In: CHATERS, A. The Portable Beat Reader. New York: Viking, 1992.
KEROUAC, Jack. The Subterraneans. New York: Penguin Books, 2001.
KEROUAC, Jack. On The Road: Pé na estrada. Tradução de Eduardo Bueno. Porto Alegre: LP&M, 2007.
KOHLI, Amor. Black Skins, Beat Masks: Bob Kaufman and the Blackness of Jazz. In: SKERL, Jennie. (Ed.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 105-117.
PANISH, Jon. Kerouac’s The Subterraneans: A Study of “Romantic Primitivism”. 1994. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/467875>. Acesso em: 18 fev. 2016.
STARR, Clinton R. “I Want to Be with My Own Kind”: Individual Resistance and Collective Action in the Beat Counterculture. In: SKERL, Jennie (Ed.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 41-54.





Bio fornecida pelo palestrante.

ANTÍGONA: PERFORMATIVIDADE DE PROTEÇÃO E LIBERTAÇÃO – Leandro Nazareth Souto




 
 

Leandro Nazareth Souto

 Universidade Federal de Uberlândia

 
 
Resumo: O estudo em questão tem por objetivo apresentar e desenvolver uma análise sobre a performatividade de Antígona, personagem central da maior das tragédias escritas por Sófocles por volta de 400 a.C., apresentar as leituras ou releituras realizadas desta tragédia por Hegel, Lacan e Butler, feitas à luz do seu tempo e fundamentadas em suas teorias, bem como apresentar Antígona como figura literária, mas sobretudo como uma figura histórica extremamente atual.
 
Palavras-chave: Antígona; Hegel; Lacan; Butler; Literatura Antiga; Filosofia Antiga; Feminismo.
 
Abstract: The present study aims to present and develop an analysis of the performativity of Antigone, the central character of the greatest tragedy written by Sophocles around 400 BC, to present the readings or rereadings of this tragedy made by Hegel, Lacan and Butler in the light of his time with basis on their theories, but mainly to present Antigone as a literary figure and above all as a historical figure extremely up-to-date.
 
Keywords: Antigone; Hegel; Lacan; Butler; Ancient Literature; Ancient Philosophy; Feminism.
 
Minicurrículo: Leandro Nazareth Souto é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia
ANTÍGONA: PERFORMATIVIDADE
DE PROTEÇÃO E LIBERTAÇÃO
 
 
Leandro Nazareth Souto
 
Universidade Federal de Uberlândia
 
Vede como, sem que sejam ouvidas as lamentações de meus amigos, como e por que leis sou levada a um covil de pedra, a um túmulo de nova espécie. Como sou infeliz! Nem sobre a terra, nem na região das sombras, poderei habitar, nem com os vivos, nem com os mortos”.  SÓFOCLES, Antígona.
 
O Clamor de Antígona é um grito, muito parecido como uma vocalização de um pássaro que projete seus filhotes. Tomando como base a questão da ave de rapina que protege seus filhotes, é preciso relembrar que a vocalização das aves está entre as manifestações da natureza que mais fascinam o ser humano, e, portanto, essa referência foi bem marcante, os pássaros vocalizam a todo instante, e não rara vezes vemos artistas, músicos e escritores colocando o canto das aves antropomorfizados em beleza, saudade e tristeza, as vezes também são identificados como veículo de interação social, alerta e cortejo, mas aqui nossa referência não fora de um canto belo e suave, mas sim de um grito, um grito que protege, que enfrenta o opressor e que liberta os que presenciam. Um grito de alarme é um fator de demonstração de perigo do indivíduo para ele mesmo, contudo, a “compreensão” que os demais indivíduos têm dessa vocalização faz com que esses também se coloquem em estado de alerta.
A primeira parte desse trabalho falará um pouco sobre a tragédia, pois ela tem sempre algo para nos ensinar, ela traz sempre um fundamentação teórica, ética, necessária. Antígona carrega toda uma historicidade que é importante postularmos, e para isso, é importante lembrar que o que importa em uma tragédia não é sua veracidade histórica, e sim sua verossimilhança, o que importa não é se ela aconteceu, mas sim que poderia ter acontecido, e, por isso, pode nos ensinar.
Antígona era filha de uma relação incestuosa entre Édipo e Jocasta, filho e mãe, que tinham além dela, mais três filhos, Ismênia, Etéocles e Polinice, sendo os dois últimos os personagens coadjuvantes que causam o problema central de toda a trama. Antígona já era considerada uma personagem forte nas outras tragédias de Sófocles, Foi a única filha que não abandonou Édipo quando este foi expulso de seu reino, Tebas, por seus irmãos, Polinice tentou convencê-la a não partir, enquanto Etéocles ficou indiferente com sua partida. Antígona acompanhou o pai até o momento de sua morte, retornando a Tebas posteriormente, vê seus irmãos brigando pelo trono, em um combate singular, onde ambos morrem.
Creonte, tio de Antígona herda o trono, pois é o parente mais próximo da linhagem de Jocasta, mãe de Antígona, e logo após a morte dos sobrinhos, manda fazer uma sepultura com todas as honras para Etéocles, sobrinho preferido, e não só deixa Polinice onde caiu, para que o cadáver ficasse exposto à putrefação e a dilaceração, exposto para que aves ou animais comessem, e proíbe todo e qualquer cidadão de Tebas a não tocar no corpo, proibindo o enterro ou qualquer ato de culto ou ritual fúnebre. Creonte entendia que isso serviria de exemplo para todos os que pretendessem ir contra o seu governo.
Antígona, conhecedora das leis da cidade e dos deuses, e ao mesmo tempo indignada, próprio da sua própria natureza, tenta convencer o novo rei a enterrá-lo, fala diretamente a Creonte de igual para igual, ato raro para um diálogo entre uma mulher e uma autoridade do governo, coloca em cheque questões da morta e da ética, e também da religião, pois, aquele que morresse sem os rituais fúnebres seria condenado a vagar nas margens dos rios do hades, sem poder ir para o outro lado onde estariam os bem aventurados. Mesmo com todos esses argumentos religioso Creonte não sede, Antígona apela sobre as leis da cidade, ele também não sede, logo, não conformada ela rouba o cadáver insepulto que estava sendo vigiado, e enterra Polinice com as próprias mãos, novamente em um ato bruto, natural e de protetora, no entanto, como em toda tragédia, algo trágico acontece, ela é presa enquanto enterra seu irmão.
Neste momento inicia para nós a grande reflexão da personagem Antígona, ela mostra sua voz a partir dos questionamentos sobre a sua desobediência, mesmo sabendo da ordem de Creonte ela deixou claro que não deixará o corpo do irmão sem os ritos sagrados, mesmo que tenha que pagar com a própria vida por tal ação, mesmo ao se orientar com a imã, ela reforça sua força e mostra-se insubmissa às leis humanas por estarem indo de encontro às leis divinas e a própria lei da família.
Creonte ao descobrir que a cobertura do morto não tinha sido obra dos deuses, mas de um ato de desobediência de Antígona, ele se rebela e começa então toda a argumentação e travamento de ideias, de um lado Antígona mostrando sua lealdade a família e a leis divina, do outro Creonte a visão do inquisidor que queria apenas ser respeitado acima de tudo para que sua palavra continuasse firme, rocha.
Creonte apela para uma saída de chamar Ismênia, irmã de Antígona, para ser interrogada sobre o fato, ela arrependida de não apoiado a irmã no início da tragédia, confessa o crime que não cometeu, mesmo confessando, Antígona continua firme em seu posicionamento e não admira a irmã, por este pseudo ato de coragem, e reafirma que é a única e real transgressora. Ambas são condenadas à morte.
Creonte condena a morte Antígona pelo ato, pela desobediência, mesmo sabendo da importância dela para a família e também para seu filho, pois eles iriam se casar, sendo assim é travado um novo diálogo, agora entre Creonte e seu filho Hêmon, porém no diálogo fica evidente o perfil do jovem rapaz, submisso às ordens paternas e sem nenhuma força política e revolucionária, porém, tenta mesmo respeitando muito seu pai, demonstrar ideias em defesa de sua amada, de que os cidadãos comenta pelas ruas que estão de acordo com a ação de Antígona, neste momento Creonte é afrontado pela sua autoridade e questiona o filho que se é por acaso a cidade que tem poder de ordenar o que o Estado deve fazer. O filho então tenta recorrer as honras devidas aos deuses e que o ato não seria prudente, mas o pai se mantém irremediável. A discussão chega ao ponto de Hêmon ameaçar se matar caso o pai não revogue a condenação, Creonte para mostrar seu poder, ignora o filho e manda prender Antígona em uma caverna escavada na rocha, só com o alimento indispensável, para assim ter um fim lento e doloroso, um ato cruel em sua época.
Um novo personagem entra em cena, Tirésias, um adivinho conhecido e respeitado por todos adverte Creonte do mal que irá se abater em sua vida devido a esta ação cega de matar Antígona, por um ato de coragem e de honra aos próprios deuses, ato este que deixaria os próprios deuses enfurecidos. Creonte mantém-se irredutível na frente de Tirésias, mas logo é convencido de que deveria libertar Antígona, sepultar Polinice, porém, como em toda grande tragédia que quer nos ensinar algo sobre ética e moral, Creonte não consegue se redimir, e as diversas mortes acontecem sem sua intervenção, Antígona, seu filho Hêmon, sua esposa Eurídice, e é obrigado ali a viver com o grande peso em sua vida: “o único culpado sou seu, e nenhum outro. Eu, só eu foi quem matou, miserável. Eu, falo a verdade. Já, guardas, levai-me daqui, tirai-me sem demora. Eu não sou nada, sou menos que ninguém. […] Que eu não veja a luz de novo dia. […] Tudo o que tenho nas mãos vacila, e sobre minha cabeça a fatalidade desaba, insuportável (1320-1345).
Uma vez abordada a grande tragédia passaremos a análise de Hegel, Lacan e Butler sobre esta grande personagem. Para Hegel, Antígona é uma grande personagem que traz uma referência de uma discussão sobre a própria ética, ele faz uma trajetória importante a partir da personagem para mostrar a transição da lei do parentesco para a lei do Estado, a primeira com viés particular, singular, e a segunda com viés universal, pública. Creonte representa, em Hegel, a lei do Estado (universal e pública) quanto Antígona, com toda a sua voz e performatividade debatedora, representa a lei familiar (particular e singular). Neste sentido Hegel vê o grande embate em Antígona, da lei familiar com a lei do Estado, embate este sobre valores, princípios morais, normas e justiça.
Para Hegel a ordem social só é inaugurada pela suspensão da ordem singular, seja ela da família (singular e privada) e a da igreja (singular e privada). Para ele, Creonte está defendendo a esfera política, que deve ser regida sempre pela universalidade, simplesmente por ser pública. Hegel associa Antígona a uma lei que não é nem familiar e nem do estado, uma lei do feminino, algo estritamente particular, portanto adverso ao público e universal, e sua condenação se dá por ir contra o Estado em favor de um interesse puramente pessoal e particular. Neste sentido, toda a sua coerência de querer dar um enterro digno ao irmão, em atender os interesses divinos e até mesmo os interesses da família não tem importância, se ela está descumprindo uma lei do Estado, nesta perspectiva vemos claramente na tragédia de Sófocles o que é viver sob as leis.
Para Hegel não há nenhuma justificativa para que Antígona descumpra a lei de Creonte, simplesmente pelo fato da lei que ela invoca seja esta familiar ou divina não pode ser conceitualizada como lei, por ser uma lei não escrita, e, portanto, fora do campo do direito público, ela não tendo razão para descumprir. Lembrando que para Hegel o indivíduo só atinge a sua moralidade no Estado. Entende-se por moralidade aquilo que permite um indivíduo seja um sujeito. Em uma visão bem aristotélica, sujeito é aquele que se faz moralmente pelo conjunto de suas ações. Para Hegel agir moralmente é o agir do discurso, não um agir qualquer, agir segundo uma eticidade, isto é, ações pautadas na liberdade realizada nas crenças e instituições.
Ética para Hegel é o conjunto de relações, familiares, civis, jurídicas, políticas, religiosas e estatais, é a lei do bem, e só se realiza se estiver ligada a um bel maior, para a religião (Deus) para Hegel (Estado). A dualidade entre Estado e Religião é fruto de consequências anteriores ao pensamento de Hegel, para ele o indivíduo poderia ter condutas morais quando está ligado a estruturas como família (particular) e religião (particular), e muito menos condutas éticas se estiver fora do Estado (universal). Em suma, para Hegel “o homem não pode alcançar uma atitude ética e consciente de si autêntica fora do Estado” (Hegel, Fenomenologia do Espírito).
O homem realiza a sua identidade enquanto cidadão, quando sai da esfera familiar para ingressar na esfera pública, no Estado. E quando o indivíduo deixa a esfera pública no ato de sua morte, ele retorna para o ceio de sua família, e, portanto, volta para o particular, esta é para Hegel o grande motivo da luta de Antígona pelo interesse de dar um enterro digno e segundo a lei divina para Polinice, ele pode ter sido inimigo do estado, mas para ela ele continua sendo seu irmão, seu amigo, não importando o que foi para o Estado. Em um determinado momento Creonte afirma que Polinice é inimigo de Tebas, e Antígona logo rebate dizendo que um morto não é inimigo de ninguém.
Um argumento interessante é abordado acerca da visão hegeliana da relação entre irmãos, nesta relação Antígona afirma que essa é a única relação que ela estaria disposta a salvar em sua vida, a de ter um irmão e honrá-lo, a relação de esposa, poderia ter outro marido, mesmo que não fosse o filho de Creonte, abdicaria do papel de princesa, filhos a mesma coisa, com Hêmon, ou com outro marido, poderia ter outro (s) filho (s). Mas com pai e mãe já mortos, lhe é impossível ter outro irmão, por isso a importância da honra e do enfrentamento para salvar sua vida. Nesta perspectiva Hegel enxerga em Antígona um dever sagrado, o de enterrar seu irmão.
Segundo George Steiner o ato de Antígona é o mais sagrado a que uma mulher pode aceder, simplesmente porque há situações em que o Estado não está em condições de abandonar a sua autoridade perante o morto. Há circunstâncias – políticas, militares, simbólicas – em que as leis da polis tornam extensivos ao corpo do morto os imperativos de honra (funerais solenes, monumentos) ou de punição que, de um modo geral, apenas tocam aos vivos. O que tem como resultado uma ruptura máxima e última entre os mundos do homem e da mulher.
Ao questionar Creonte, Antígona se faz cidadã. Neste ponto Hegel no texto Linhas fundamentais da filosofia do direito, postula que Antígona de Sófocles é enunciada como a lei da mulher, subjetiva, sensitiva, tendo assim um apoderamento da lei e da política da mulher. Ao ver a luta de Antígona não dá para não tomar partido, se tomamos o olhar pacífico de Hegel sobre toda a carnificina da tragédia de Sófocles como verdadeiro, nada compreendemos de moral e ética nas relações humanas e políticas, esta é a crítica de Derrida ao próprio Hegel, ele observa que na abordagem de Hegel, “a carnificina da peça de Sófocles é exibida”, mas, repentinamente, o olhar de Hegel foca uma cena totalmente apaziguada, enquanto nós observamos um embate violente de pensamento e de ruptura de postura a todo instante no momento em que a performatividade de Antígona se traveste carregada de proteção e libertação.
O segundo autor analisado será Lacan, este também possui um diálogo com a tragédia de Sófocles, Antígona, sobretudo nos seus estudos de 1959-1960, no seminário, livro 7 do livro A ética da psicanálise, ele irá abordar nesse seminário basicamente o problema ético da tragédia. Ele ao contrário de Hegel, que o governador está apenas defendendo o Estado, para Lacan, a figura de Creonte representa, assim como os muitos modelos políticos do mundo de sua época, algo tirano, sem discernimento e equivocado ao agir por impulso sem respeitar as leis da família, dos deuses e da cidade.
Em Lacan, o Estado não aparece em suas discussões sobre Antígona. Seu foco está no parentesco, ne estética sobre o belo, na análise sobre o desejo, desejo este ponto central de toda a discussão, o desejo em toda as suas esferas, na ordem, na família e no erótico, e também o sacrifício do próprio desejo, somos seres para a morte, toda esta simbologia mais tarde será criticada por Butler, afirmando que em função do simbolismo de Lacan a discussão torna-se “rigorosamente dissociada da esfera do social, apesar de constituir o campo estrutural de inteligibilidade no qual o social nasce”. (Butler, 2014).
 
Em suma, a dimensão simbólica está separada da dimensão social em Lacan, aquilo que é universal na cultura é entendido como regras simbólicas ou linguísticas, que, a princípio, codificam e sustentam as relações de parentesco. Em Lacan, o domínio da lei universal, abarcando uma regra cultural eterna, é a “base para a noção lacaniana do simbólico e para as tentativas posteriores de separar o simbólico tanto da esfera do biológico quanto do social”. (Butler, 2014).
Sendo o desejo tema central da reflexão de Lacan, e desejo e morte estão estritamente ligados em sua filosofia, temos na tragédia de Sófocles um desejo que é transformado ou levado a uma pulsão, pulsão de morte, por ser uma tragédia que precisa nos ensinar muito sobre ética. Em Antígona vimos na primeira parte do trabalho, todos morrem, com exceção do velho profeta Tirésias e do guarda, a morte triunfal da personagem central e de todos em sua volta pelo erro de Creonte, filho e mãe, mostra bem esta pulsão, de que somos todos seres para a morte.
O mesmo desejo que impulsiona a morte é o desejo que faz com que Antígona enfrenta Creonte, em nome do desejo e a partir de sua decisão em nome da lei da família e dos deuses ele enfrenta a lei do Estado. Ao enfrentar, ao questionar e dar voz a muitos da cidade, ao ponto dos cidadãos nas ruas comentarem da coragem e clareza de suas decisões, Antígona já prefigura a sua morte antes mesmo de morrer, neste sentido, a morte vivida de forma antecipada, em todo diálogo vão, em toda discussão sem perspectiva de mudança, já é uma vida antecipada até a própria sepultura.
Antígona ao reforçar a lei da família, a lei dos deuses em relação ao lei da cidade começa a questionar e mostrar a distinção entre governo e o Estado, um governador causar a morte novamente a um cadáver para ela, para além do sentimento para com o irmão é algo sem fundamento, ela mostra que a exposição do corpo do irmão e a proibição dos ritos de passagem é uma segunda morte, afirma ela “não queiras matar quem já morreu. Que bravura há em exterminar um cadáver”.
Antígona para Lacan é uma personagem ímpar, marcada pelo desejo e desejo que a leva ao extremos, desejo que clarifica a sua própria presença no mundo, afirma ela: “não fui gerada para odiar, mas para amar”, sua trajetória de apoio a Édipo na saída da cidade já prefigura esta existência ímpar e autêntica, esse amor, para Lacan, de forma visível se dá pela proteção e amor pelo irmão, pelo parentesco, e ao mesmo tempo há uma forma invisível, um amor erótico e até mesmo incestuoso, repetindo o ato dos pais, desejo este que leva a uma pulsão de morte e o desejo da própria morte.
Para Lacan, Antígona rompe com todas as barreiras pelo desejo, amor pelo irmão, amor de proteção e de libertação, por este motivo, é vista como gloriosa, atos acompanhados de louvor popular, vista como senhora de sua própria lei, figura máxima do belo, aquela que não sede a lei imposta sem fundamento e contra a sede do seu desejo. Para Laca, a função de todo esse desejo deve permanecer, numa relação fundamental com a morte.
Por fim, entraremos nas reflexões de Butler sobre Antígona e seu debate constante com Hegel e Lacan, autores que abordamos mesmo que de forma sucinta seus pensamentos sobre a tragédia de Sófocles. Simplesmente o título do seu livro já nos chama a atenção sobre as questões que serão postas, O Clamor de Antígona: parentesco entre vida e a morte, o foco principal da obra é mostrar o empoderamento da mulher de sua época, atual, na voz e em toda a performatividade de Antígona, esse empoderamento traz em si o verdadeiro poder da mulher, quando ela se empodera, isto é, toma para si o poder, sua vida e suas ideias são libertadas por si só, sem a necessidade de consentimento ou liberação de outrem.
Na tragédia de Antígona percebemos esse empoderamento já no início do seu debate com Creonte, quando alguém ou principalmente uma mulher está sendo acusada ou recebendo alguma sanção por algo que fez e na sua fala ela diz: “sim, eu confesso!”, esta fala é de quem está se submetendo a autoridade que está agindo sobre ela, ao contrário, quando sob a mesma acusação, ela se empodera e diz: “não negarei o meu feito”, este ato corajoso, ato de proteção e libertação, ela não está se submetendo mesmo não negando o ato do fato acontecido. Do ponto de vista da performatividade, começamos a perceber que Antígona está se revestindo de atitudes, antes presentes só ou quase sempre no universo masculino, seja rebeldia, seja o enfrentamento da autoridade, por mais que percebemos que a inteligência sempre foi percebida nas mulheres, a estas não era dada a voz no discurso de determinadas causas, por exemplo, no discurso político ou até mesmo na defesa de si e dos seus.
Butler ao contrário de Hegel e Lacan, não está fazendo o caminho tradicional de mudança de pensamento, mostrando a personagem recorrendo as leis da família, dos deuses para questionar as leis do Estado, ela não está preocupada em mostrar a incoerência de Creonte com a lei divina, mas, sobretudo, mostrar a sua transgressão em relação a lei de parentesco, seja na vida e na morte, lei reservada a família, e é justamente essa argumentação que desestrutura toda questão de gênero durante a tragédia de Sófocles.
Butler define Antígona como uma figura feminina que desafia o Estado através de uma poderosa sequência de argumentos reflexivos e linguísticos, quer evidenciar esse lado político, deixado de lado nas leituras de Hegel e Lacan, ela não fala apenas em um ato de rebeldia ou loucura, ou de revolta ao Estado (Hegel) ou por desejo/pulsão de morte (Lacan), ela é uma figura política, alguém que desafia Creonte, descontrói seus argumentos, sabendo de todas as implicações e problemas que enfrentaria por tais atos. É uma mulher que está além das discussões tradicionais da passagem da pré-política a política, ela está lutando e dando voz libertadora a uma lei de parentesco, esta como a esfera das condições de possibilidade da política e de reformulação das leis da cidade/Estado.
Butler quer mostrar, sobretudo, a indagação sobre a legitimidade da justiça imposta pelo governante ou Estado, questionar as bases sobre as quais a moralidade e posta na sociedade e como esta cultura histórica influencia na construção e leis em que a figura feminina é cada vez mais marginalizada, silenciada e cercada de vários limites de representação e representatividade. Por isso, é tão importante a questão do empoderamento e da performatividade, no momento em que Antígona sai de sua condição de mulher silenciosa e fala diretamente a Creonte, ela se torna viril, masculina, ou se performativa como tal, ao mesmo tempo, ao dar ouvidos a ela, Creonte, se desmasculiniza, e mais adiante, após refletir sobre a sua incoerência volta atrás e tenta salvar a própria condenada, neste sentido, nenhum dos personagens se mantém nos papéis originais de gênero, a performatividade é protetora quando se fundamento no cuidado, na proteção e na garantia de cumprir os rituais familiares e divinos, mas, sobretudo, sua voz, seu gripo, é libertador, na medida em que desestabiliza todo o jogo de gênero e as leis mal fundamentadas, logo, o grande ato de Antígona não é de ação de enfrentamento e rebeldia cega, mas um ato de linguagem, um ato de raciocínio que desestabiliza o que está posto e que não tem fundamento.
É o afrontamento e a rebeldia que dá voz a ela, mas são seus argumentos, sua linguagem e reflexão que permite que a sua voz seja libertadora e transformadora, ao dialogar com Hegel e Lacan, Butler propõe a resolução questões fundamentais na elaboração das regras/leis, a obediência a elas, bem como as alterações que podem propor no campo simbólico, que, por sua vez, é constitutivo do campo social, precisa haver, segundo Butler uma implicação social de tudo aquilo que é proposto no campo simbólico. E que no ceio familiar, é importante reforçar que o parentesco se dá através da linguagem e discurso e não simplesmente no modelo tradição de pai, mãe, filhos e irmãos.
A grande pergunta que fazemos hoje é: quem são as “Antígonas” de hoje? Com que voz afronta as leis que as marginalizam? Ainda usam de performatividade para serem ouvidas? Em seus discursos e nos tons de suas vozes se transvestem de uma masculinidade para serem ouvidas? Esta voz de hoje depois de toda uma luta do feminismo e das exclusão das deturpações questões de gêneros, ela é ouvida? Pouco ouvida? Ainda incomoda? Ao longo da história e atualmente vemos muitas manifestações das novas “Antígonas”, analisando o tempo histórico e as ações ainda nos perguntamos se suas ações são constituídas de uma performatividade autêntica, feminina e libertadora ou ainda se reveste de todos os trejeitos masculinos para serem ouvidas em uma sociedade machista?
Talvez não tenhamos todas as respostas, talvez enxergamos em alguns exemplos uma performatividade protetora e libertadora estritamente feminina, mas em outras vezes vemos apenas uma “casca” feminina rechegada e travestida de uma masculinidade para ser ouvida. O que importa para nós e para a história, é reconhecer cada uma dessas mulheres fortes que enfrentam as autoridades estabelecidas, sejam elas, autoridades da casa, da sociedade ou da religião, para colocar suas ideias e rompendo com todos os padrões culturais e sociais pré-estabelecidos, isso, no ocidente, no oriente, precisamos de mais “Malalas” para lutar e enfrentar as forças talibãs para dar voz para as meninas que querem o direito de estudar no oriente médio, queremos mais “Dilmas” a fim de lutar contra todo tipo de golpe, opressão e retrocesso político no Brasil e América Latina, precisamos de mais “Hannah´s Arendt´s” para denunciar toda a banalidade do mal e o autoritarismo ainda presente, precisamos de mulheres capazes de ser elas mesmos, imponderadas de autoridade de si, de sua consciência, do seu corpo, da sua linguagem a fim de discursar a favor de uma racionalidade para que possamos superar toda e qualquer questão de gênero que vem sendo posta pelos políticos retrógados, precisamos de homens e mulheres fortes capazes de quebrar com toda a falsa ideação de configuração de família e parentesco, para que as crianças de pais e mães homossexuais possam ser livremente reconhecidos como família, precisamos de mais “Antígonas” para questionar e dar a todos o entendimento de que ninguém, nem instituição alguma, familiar, religiosa ou o Estado tem poder sobre a vida dos indivíduos.
A tragédia fica para trás, mas a história não, os personagens daquele palco, naquele espaço e tempo dão lugar a novos nomes e novas realidades, novas reflexões precisam ser postas, novos confrontos precisam ser traçados, novas autoridades devem ser questionadas, para que nunca nos darmos como mortos ou vencidos. No início da tragédia Antígona já se declara morta, e, mesmo assim, veja tudo o que fez, tudo o que questiona, veja a ressonância que teve a sua voz, o poder que teve suas palavras, sua linguagem e seu discurso. Antígona é, sobretudo, uma personalidade histórica, pois dá força a todas as mulheres que se sentem mortas em suas casas, em seus empregos, em seus relacionamentos abusivos, a todas as mulheres que ainda precisam se esconder atrás de uma figura masculina, seja ela mesma transvestida ou de outrem que pensa ter autoridade sobre elas. Antígona é uma mulher histórica para fazer com que todas as minorias que se sentem marginalizadas e desprotegidas, possam ter em que buscar força e veneração. Depois de Antígona nenhuma mulher pode se contentar em ser enterrada viva ou não ter o direito de enterrar e lutar pelos seus.
Depois Antígona não se pode se contentar com o a expressão recorrente de que tanto faz viver ou morrer. É preciso se apoiar em sua figura forte, protetora e libertadora para que tenhamos sempre forças para lutar, pode-se até morrer, mas esta morte não será em vão, a autoridade pode até permanecer injusta, mas sempre terá espaço para a denúncia da injustiça, para lutar contra a falsa autoridade, e os falsos paradigmas, pode-se tentar calar a voz, mas será precisa sempre o enfrentamento para que não seja em vão todas as lutas de tantas mulheres que fizeram a diferença na humanidade nas mais diversas áreas do saber e do viver.
 
 
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
BUTLER, Judith. O Clamor de Antígona: parentesco entre vida e a morte. Tradução André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2014.
 
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses com a colaboração de Karl-Hetnz Efken. Petrópolis, Vozes, 1992.
 
LACAN, J. (1959-1960/1988). O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.





Bio fornecida pelo palestrante.

O DISCURSO DO ARTISTA COMO CARTOGRAFIA – Sofia Porto Bauchwitz




 

Sofia Porto Bauchwitz

Universidad Complutense de Madrid/CAPES

 
Abstract: This paper presents a brief introduction to the image of the artist as an errant who appropriates his Discourse and legitimates it. He defends his discourse as a mapping tool with which the artist draws and activates the map by walking in it himself/herself. The many wanderings and the many projects and works that spring from this wandering are defended by the discourse that the artist invents for himself. This artistic discourse, which is transformed in a travelogue, becomes itself a place, or the map for the artist. This open dialogue that wishes for a dialogue is always in the frontier, and it transforms itself while it goes forward..
 
Key-words: cartography, discourse, legitimization, wandering,
 
Resúmen: El artículo hace una breve introducción a la imagen del artista Errante que se adueña de su discurso y se autolegitima. El discurso es defendido como una herramienta cartográfica con la cual dibuja y activa el mapa por el cual anda. Esas muchas errancias, y los muchos proyectos y obras que nacen de la errancia, se defienden con el discurso que el artista inventa para sí. Ese discurso artístico hecho relato de viaje es ya un lugar, el mapa del artista. Fronterizo, es un discurso abierto que desea el diálogo, que se transforma en la medida misma en que anda.
 
Palabras-clave: cartografía, discurso, errancia, legitimación.
 
Minicurrículo: Sofia Bauchwitz é artista e pesquisadora. Teve bolsa de Iniciação Científica do CNPq para pesquisa sobre cultura popular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Fez Mestrado em Investigação em Artes e Criação na UCM (Universidad Complutense de Madrid) e Doutorado em Artes (2013-2017) nesta universidade, com bolsa da CAPES. Em 2015 teve residência artística no MAK Center de Los Angeles, no Museu de Arte Vienna, sobre Caminhos coexistentes.
 
 
 
 
O DISCURSO DO ARTISTA COMO CARTOGRAFIA
 
Sofia Porto Bauchwitz
Universidad Complutense de Madrid/CAPES
 
I.
 
“(…) perdidos somos, y es nuestra condena vivir sin esperanza en el deseo”
Dante Alighieri, Divina comédia, Canto IV,
 
 
Ao ver-se iniciada na psicanálise, não como terapeuta e sim como paciente, a artista passa a aproveitar aquela uma hora semanal como uma hora para passear pelos acontecimentos profundos e superficiais de seu cotidiano. Passeia em companhia de uma outra pessoa que aparentemente só escuta. Ao tentar expressar com palavras suas angústias, medos e experiências, a artista percebe as muitas vozes que se manifestam. Como paciente que, em um princípio, apenas acredita estar relembrando, voltando atrás no tempo de sua própria vida, acaba medindo-se pela resposta que poderá ou não receber daquele que escuta. A terapeuta, por outro lado, é em realidade a pessoa que, respondendo ao que ouve, ativa o processo – tão urgente – de empoderamento que a paciente precisa reiniciar. Na minha primeira sessão de psicanálise, depois de falar do dos meus abismos, recebi como réplica não a solução para meus problemas em forma de sentença, senão a ideia que eu deveria perseguir a partir daquele momento para sanar aquilo que eu ainda não sabia verbalizar: “Você precisa encontrar o seu lugar no mundo”.
Defender um discurso é posicionar-se em relação a alguém que escuta ou que quereremos que, escutando, responda. A arte implica tomar partido, defender uma forma, um conceito, uma ideologia. Por isso que a arte é, finalmente, uma experiência dialética. É, hoje, urgente pensar uma volta a essa relação com outro que escutando pode responder, e uma volta, primeiro, às nossas perguntas. Saber por que perguntamos o que perguntamos é cada vez mais importante. Pois, antes de ser um passeio cheio de respostas, o que a contemporaneidade traz consigo e comprova diariamente é que habitamos, cada vez mais e a cada novo dia, ruinas das certezas que tínhamos. A artista é aquela que caminha as incertezas e tenta edificar-se nas perguntas.
Para pensar o discurso artístico como cartografia é necessário relembrar como nas últimas décadas o artista contemporâneo tem perdido sua forma humana para vestir as peles das mais diferentes metáforas. Foi etnógrafo, foi nômade, foi planta. A imagem do artista parece mesmo ter deixado o ateliê para habitar não o espaço, senão o espaço-tempo do movimento, do movimento aventureiro e explorador. É certo que todo aventureiro volta para contar suas experiências, todo etnógrafo precisa afastar-se do objeto que estuda para traduzir o que viu, todo artista precisa encontrar uma forma de relatar seus passeios e devaneios. À diferença do explorador ou do etnógrafo, o artista parte sem ter certeza do que busca e volta, quase sempre, de mãos vazias.
Mãos vazias apenas no que se refere às conclusões tomadas a respeito daquilo que o obriga a andar. Andar e voltar a andar, o artista contemporâneo vive errando. Não só erra quando falha, erra, mormente porque é errático, errante. Dado a errâncias e experimentações. Há artistas que encontram seu caminho com mais facilidade, vão e voltam por ele fazendo poucos desvios. Outros, como eu, pois sou também artista e do tipo errante, não chegam a sentir-se a vontade em nenhum lugar específico. Insatisfeitos com as próprias descobertas não só seguimos andando por caminhos novos, mas também insistimos em caminhos já cruzados, na esperança de, desta vez, voltar algo mais satisfeitos.
Para prosseguir com a imagem do errante e explicar como o discurso funciona como ferramenta cartográfica, é oportuno esclarecer o que se entende aqui por Fronteira, Caminho e Mapa. Fronteiras são lugares onde mudanças ocorrem, é onde dois diferentes (dois territórios, dois países, dois corpos) se encontram. Dois ou mais, claro. Como todo encontro tensiona e vibra nos corpos que se encostam – ainda que muito sutilmente, das fronteiras, das tensões das fronteiras, algo sempre pode vir a ser. Comumente se pensa que a fronteira é a linha que divide os diferentes, mas, se bem se pensa na coisa, é justamente o contrário. Estas linhas tão frágeis que suportam as forças opostas desses dois distintos territórios são a força que juntam os diferentes, mostrando as tensões, permitindo que dessa potência alguma mudança ocorra. Por caminho se entende uma possibilidade espacial que se escolhe caminhar, uma rota pela qual fazemos e desfazemos nossas vidas.
 
(Material para You Can Touch Whatever is in your Way, 2015)
(Esta imagem é parte do projeto realizado pela MAK Schindler Scholarship Program, do MAK – Austrian Museum of Applied Arts / Contemporary Art, Vienna, em 2015).
 
Também são linhas, linhas que arrastamos com nossos pés pelo mapa. Mapa, aqui, é a representação metafórica do lugar onde tudo se dá. Um mapa que possui um epicentro e um abismo. Uma força violenta que atrai para o centro, outra força branda, mais silenciosa, que puxa certos corpos em direção à borda. Brevemente, é isso. Com esses simbolismos desenhamos o mundo pelo qual o errante caminha. É por esse mapa, deixando marcas pelo chão, arrastando suas muitas possibilidades como cordas, indo e voltando, aproveitando, não já o trajeto como aventura que visa um fim -e pelo qual ocorre transformações, mas desfrutando do trajeto como o trânsito em constante transformação que não visa nada além do próprio insinuar-se no mapa.
 
 
II.
 
Da mesma forma que os radicantes, essas plantas que avançam no terreno fazendo que suas raízes se territorializem e se desterritorializem, uma e outra vez, assim se comportam os artistas errantes. Fincando suas raízes e traduzindo-se ao novo solo – tradução sendo pensada como “essencialmente um ato de deslocamento”, pois, “provoca que o significado do texto se mova de uma linguagem a outra e põe os tremores associados a ele sobre a mesa.” (BOURRIAUD, 2009, 54). Cada vez mais me parece perceber um discurso vindo dos artistas em tom confiante da própria transdisciplinaridade do fazer artístico e do discurso que dele se faz.
Se hoje é quase impossível reduzir a criação contemporânea a um único meio, disciplina, tema ou área do conhecimento é principalmente porque os fluxos atuais de informação, possibilidades, tesões e pessoas pelo globo terrestre alimentam identidades várias, identidades que vestem as peles das heras e dos morangos, que fincam raízes temporárias por onde passam, e que nisso, não se identificam com esta cultura ou aquele idioma, senão com o constante desencontro que só visa a tradução de si mesmo, de um próprio a um devir-outro. Assumir esse estado transitório é assumir também a capacidade de falar desde diversos estados e diversos lugares. Essa capacidade é legítima e deve ser defendida diariamente.
Thomas Hirschhorn, artista suíço, ao defender para o artista, e desde o lugar do artista, o direito legítimo de decidir os termos e conceitos que falarão de sua obra, faz uma crítica aos discursos viciados e nebulosos que não parecem relacionar-se com nenhum indivíduo:
As an artist I am often surprised by effortless, inexact and empty terms or notions used in order to “explain” an artwork. I am astonished by the repeated and thoughtless use of terms in art critique. As the artist – I refuse to use them myself when I think it is not the right word to describe what I want. I have to invent my own terms and I want to insist with my own notions (HIRSCHHORN, 2010).
 
O ato discursivo não é e nunca será meramente informativo. A obra de arte e a arte não podem se resumir a esse fim, o de informar. Mais é mais. Não se pode ignorar que a obra responde primeiro ao artista, depois a aqueles que a frequentam. É antes uma pergunta em aberto que o artista se faz e que decide plantar no meio do caminho, como uma pedra (pedra que, no caminho, estará sempre aí – no espaço, para todos). Cada artista tem suas próprias noções e notações e coordenadas. Um acervo cheio delas para usar quando melhor lhe convir. Com elas escreve seu relato pelo mapa, conta de seus encontros e traduz as coisas vistas. Traduz primeiro para si mesmo, torna-se o encontrado. Depois fala da experiência. A própria escrita vai-se adaptando às diferentes peculiaridades que a identidade vai assumindo nesses muitos passeios. É assim como funciona, estamos ensaiando maneiras melhores de falar de nós mesmos, falar da nossa obra, nossas questões abertas. Um ensaio sempre mutante do discurso. É esse relato, que é relato de viagem, o que constitui a obra, finalmente. Relato que é mapa e que é ferramenta cartográfica ao mesmo tempo. É a última ferramenta empoderadora que ainda não foi totalmente incorporada ao mercado da arte. Seja privado ou oficial, é pelo discurso que podemos criar e reinventar os territórios que caminhamos e desenhamos como nossos mapas.
Grande parte do que se ensina superficialmente aos artistas, no desejo que a arte alcance o patamar das ciências, é a tão sonhada profissionalização do artista. Oficinas sobre como escrever um statement, o que por e o que não por numa biografia e em um currículo, como se vender melhor etc acabam sendo o meio pelo qual o sistema manipula o discurso artístico, como parte de uma agenda que tenta, sistematicamente, impor uma narrativa hegemônica nesse único espaço público onde o artista poderia expressar-se livremente. Reduzir o tempo que o artista tem para perguntar-se e para ensaiar suas vozes (processo pelo qual o artista se fortalece!) é a maneira mais eficaz de fragilizar seu verbo e mantê-lo inofensivo.
Machado Pais, sociólogo português, já havia atentado para esse errático e resistente:
 
(…) toda pergunta é um buscar. E como epistemologicamente método significa caminho e como o caminho se faz ao andar, o método que nos deve orientar é esse mesmo: o de trotar a realidade, passear por ela em deambulações vadias, indiciando-a de uma forma bisbilhoteira, tentando ver o que nela se passa mesmo quando “nada passa” (Pais, 1993, p. 113).
 
Nessa linha, acho interessante trazer um trecho que considero um bom exemplo de como romper as normas e defender para si, como artista, uma arte vadia do cotidiano. O documento é um statement do coletivo de performance natalense Coletivo ES3, enviando para compor o primeiro volume do projeto Fronteiras e Estados de Sítio. O texto foge completamente da noção comum de que um statement deve ter, quando muito, um pequeno parágrafo de umas quatro linhas sintéticas sobre o trabalho do artista e suas motivações. Com mais de duas páginas, o statement do ES3 veio com força de manifesto, usando e brincando com as palavras que eles escolheram para definir seus anseios. Optei por grifar as partes que dialogam diretamente com as ideias do artista errante.
Somos professores, e como tal somos questionados com frequência: “Para que serve a Arte?”, e, em situações práticas do dia-a-dia, ficamos inclinados a dizer “para nada”, mas nos recusamos.
(…) Basta olhar um pouco mais, de corpo inteiro, não é preciso muito. Buscamos os processos das coisas e esta é a ilha de resistência da arte que fazemos, a busca por processos nas coisas do dia-a-dia, naquilo que mais compreendemos como natural. O momento de contato com um trabalho artístico é o momento de ser afetado por algo usual ou não, mas que nos permite ver o mundo pelos olhos de um outro (corpo, tempo, lugar, mundo)
(…) Nosso corpo em ação é político, é investigador de espaços entre estados, culturas, entre corpos. No calor entre os corpos, no encontro entre um e outro, e na negação de um fechamento da dialética em direção as questões que se processam, inventamos nossa vida em performance. Nossas dinâmicas de criação artística partem de questões micropolíticas, questões que estão nas bocas banguelas, na volta de ônibus para casa, nas mesas dos bares, nas marquises populadas, nos dedos calejados que costuram, nos olhos atentos que desfiam. Pensamos estas micropolíticas enquanto ações em trânsito nas relações cotidianas, mais distantes de uma política partidária e mais próximas de atitudes focadas em questões mais específicas como o gênero, a fome, a impunidade, o direito à educação e à habitação, à ecologia, o amor, enfim, tudo aquilo que nos diz respeito e se entrelaça à vida.
(…) Performamos, instalamos, dançamos, fotografamos, videografamos, desenhamos, escrevemos, ocupamos o que nos toca, o que conosco vive, o que se compõe na paisagem complexa e irredutível de ser/estar aqui-lá-everywhere deste tempo, a excepcional instabilidade das poéticas de morte e vida, a inadequação as formas espetaculares, a inconformidade da gordura e dos músculos afetivos, as indóceis subjetividades, as indisciplinadas intimidades, o extrapolar das epistemologias, a ritualização do indomável dia-a-dia, os buracos negros ao lado das luzes do biopoder, o que diferentemente somos e deixaremos de ser.
(Coletivo ES3, 2014)
Há artistas que se recusam a adaptar-se a essas necessidades, não deixam traços de sua voz em seus portfólios e em suas páginas web. Nenhuma sentença que pareça sair de um corpo, nenhuma declaração que respire. Farão, talvez alguma que outra exceção quando o ofício (e o ofício sempre o faz) assim o exigir, mas, ali onde qualquer um pode ter contato com seus discursos, decidem calar. Uma escolha, é certo, e transgressora, também. Mas me parece que entre uma e outra, entre falar demais e não falar, simpatizo com os tagarelas, que praticam suas identidades nos textos e vozes que articulam em relação ao Outro, o Outro na fronteira.
Se esses discursos são o lápis que desenha o mapa do artista, é pelo discurso que podemos participar de sua travessia. Todos os distintos projetos que, em um começo, podem parecer confusos desde fora, demasiado diversos entre si, estão, pelo contrário, unidos por essas linhas que o artista arrasta com ele ao andar, pertencem, assim, ao mesmo cartógrafo, e configuram um mesmo mapa sempre em expansão. Essa expansão, que pressupõe um movimento, não é sempre do tipo nômade ou migrante. Há também o movimento das plantas, e não só as radicantes. A planta que não para em nenhum momento, cujo movimentar-se foge ao olho humano, que nada vê, e como não vê, dá por inexistente. Outro ritmo, sim. Não poderíamos sequer falar num ritmo mais lento. Para quê comparar? Outro ritmo e ponto. A planta move-se constantemente, crescendo, buscando.
 
(You Can Touch Whatever is in your Way, 2015)
(Esta imagem é parte do projeto realizado pela MAK Schindler Scholarship Program, do MAK – Austrian Museum of Applied Arts / Contemporary Art, Vienna, em 2015).
 
O artista errante é este que quer encontrar seu próprio ritmo. Pode não achar. Tentar é gesto político também. Trazendo, ainda, os estudos sobre ritmoanálise de Bachelard (2007), é bom pensar que entre o instante (o fato, o evento, a experiência) e o ritmo (o contínuo do cotidiano) há sempre um entreato, um descontínuo, que é o repouso. Por isso, abrir-se à errância não é só sobre mover-se como quem corre, como quem viaja geograficamente. O movimento está até quando, aparentemente, não está. Errância é habitar esse movimento desde o corpo. E dito isso, é impossível não lembrar-se desse verso, o favorito, de Hector Viel Temperley, o poeta de culto argentino, que em Hospital británico (1984) deixou a máxima: “Voy hacia lo que menos conocí en mi vida: voy hacia mi cuerpo”. Em espanhol é mais bonito. “Ir até o corpo”, “ir em direção ao corpo”, não se compara a esse advérbio de lugar arredondado: hacia. O corpo feito lugar desconhecido e sempre por conhecer. Como um lugar que não habitamos, mas que todos queremos alcançar. O corpo como quase. O corpo como utopia. O corpo como lugar. Talvez como esse lugar que perseguimos e que não conseguimos nomear.
É com grande dificuldade que se consegue falar, a partir de uma crítica institucional, a partir de uma posição de corpo como propriedade inteira, campo de certezas. Discutir o sistema é falar de dentro desse mesmo sistema. Andrea Fraser (2008) deixou isso claro quando defendeu que não há um fora da instituição Arte (como sistema, tecido, máquina), um fora do mapa que podemos habitar – como artistas e agentes artísticos, um fora desde o qual podemos apontar para o dentro e criticá-lo, e transformá-lo. Diz Fraser:
 
Se não há fora para nós, não é porque a instituição é perfeitamente fechada ou porque existe como aparato em uma “sociedade totalmente administrada” nem sequer porque se tornou algo que tudo abarca, tanto por seu tamanho como por seu campo de investigação – mas porque a instituição está dentro de nós, e não podemos estar fora de nós mesmos (FRASER, 2005, p. 184).
 
Para realizar uma crítica real, potente, é necessário, como escritores desse relato da Arte, que procuremos nos distanciar dessa ideia de artista como peça de um jogo de poderes, que obedece a normas e repete discursos externos. Dentro do que é possível fazer, que se faça. Falemos mais abertamente, abrindo nossos corpos para a fronteira. Reformulemos os dentro e os fora. Desfrutemos das fronteiras em quebra, arruinadas e reconstruídas.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CORPO, VERDADE E PSICANÁLISE: O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE EM SEVENTEEN DE KENZABURO OE – Renan Kenji Sales HAYASHI




 

Renan Kenji Sales HAYASHI

 

Universidade Estadual de Campinas

 
RESUMO: O presente resumo trata de uma análise de um conto do escritor japonês Kenzaburo Oe, tendo como motivação as questões do corpo, sexualidade e a produção de uma narrativa com verdades sobre si. Para tanto, empreendemos uma interpretação da obra com referências ao dispositivo foucaultiano, bem como a visão psicanalítica sobre a sexualidade e o corpo como lugar de práticas de veridição e dispersão do sujeito. Com o presente artigo desejamos tratar a questão atual sobre a intensa produção de verdade sobre o corpo e o sujeito, tendo a sexualidade como o lugar de encontro entre discursos, verdade e poder.
 
Palavras-chave: Sexualidade; Dispositivo foucaultiano; Literatura Japonesa; Kenzaburo Oe.
 
ABSTRACT: This article is an analysis of a short tale written by the Japanese writer Kenzaburo Oe, aiming at discussing body, sexuality and the production of a narrative about the self. We carried out an overview of this work with references to the Foucaultian device, as well as the psychoanalytical perspective about sexuality and the body as a place of self-taking practices and dispersion of the subject. By doing this, we wish to discuss the present issue of an intense production of truth about the body and the subject, sexuality being the meeting point between discourse, truth and power.
 
Keywords: Sexuality; Foucaultian device; Japanese literature; Kenzaburo Oe.
 
Minicurrículo: Doutorando em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES).  Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB). Aluno egresso do Curso de Master in Teaching English as a Foreign Language (TEFL) pela Universidad de Jaén (UJA). Graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB). Docente de língua inglesa.
 
 
CORPO, VERDADE E PSICANÁLISE:
O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE NO CONTO
“SEVENTEEN”, DE KENZABURO OE
 
Renan Kenji Sales HAYASHI
 
Universidade Estadual de Campinas
 
 

  1. Introdução

“A pele está começando a ficar de uma palidez sombria, típica de masturbadores habituais, pode ser que eu esteja andando pelas ruas e por toda a escola apregoando: sou onanista. Ao me verem, as pessoas talvez percebam de imediato que me masturbo habitualmente. Pode até ser que elas já tenham intuído e digam, (…) ‘olhem, este cara costuma fazer aquilo’” (OE, 2011 [1961], p. 196).
Essa citação pertence ao conto “Seventeen”, do escritor japonês Oe Kenzaburo, o qual narra o conjunto de descobertas de um jovem morador de Tóquio sobre sua sexualidade, sobre a sociedade japonesa do pós-guerra e sobre o discurso político direitista da época.  O mencionado conto é particularmente interessante para discussão de questões relacionadas ao dispositivo da sexualidade e sobre a [intensa] produção de verdade sobre si que a modernidade empreende sobre os sujeitos.
No presente artigo, abordaremos a temática do corpo e da sexualidade como elementos de constituição de uma narrativa sobre o sujeito pós-moderno, fragmentado e dividido, tido por Foucault como morto com o fim do sujeito cartesiano centrado. Com efeito, buscaremos problematizar como essas temáticas foram abordadas por Kenzaburo em “Seventeen”¸ para a composição de uma personagem que ver no corpo e nas práticas sexuais motes para a constituição e fragmentação de si, entre o cuidado e o controle, a junção e a dispersão, o alívio e a culpa.
Para tanto, lançaremos mão do conceito de dispositivo sexual, presente na obra foucaultiana, bem como uma proposta de análise da produção de verdade sobre a sexualidade pelo viés psicanalítico, tendo a obra de Kenzaburo como plano de fundo para a problematização da linguagem como lugar de veridição de si, bem como a dispersão do sujeito pós-moderno e sua sexualidade atravessada por discursos.
 

  1. Dispositivo foucaultiano

Sobre a questão do dispositivo na obra foucaultiana, Monique David-Ménard (2010, p. 322) assevera que esse construto pode ser entendido como “uma positividade e uma rede impessoal de atos, de regras, de relações”. Como tal, configura-se como uma análise de elementos dispostos um em oposição ao outro, rompendo uma possível conformação anterior e colocando em evidência as especificidades que compõem esse dispositivo em si. A autora segue afirmando que a definição de um dispositivo foucaultiano só ocorre a partir de transformações singulares nas instituições, na produção de saberes, em condutas e poderes, bem como formas de visibilidade e de discurso.
No tocante específico do dispositivo da sexualidade, Mendelsohn (2010) descreve que, a partir de uma leitura de Foucault, pode-se entender o dispositivo da sexualidade como o conjunto de estratégias de relações de poder que viabilizam a produção de saberes sobre a sexualidade, ao tempo em que se sustentam a partir dela.
Nesse contexto, Mendelsohn (2010) reitera que é precisamente no campo da sexualidade que se identifica um ponto de junção entre verdade, discurso e o sujeito, na medida em que o sexo é, por excelência, um registro de verdade, no qual dizer essa verdade é revelar aquilo que se tem de mais singularmente reconhecível.
À vista disso, o singular é menos o sexo em si, mas, sobretudo, o prazer que lhe é associado. Sendo esse prazer pensado a partir do dispositivo da sexualidade, o qual atua simultaneamente como um mecanismo de controle de práticas sexuais, bem como um mecanismo de veridição subjetiva[i], institui-se nos indivíduos algo do qual sempre estão culpados, quer se queira ou não, quer se saiba ou não, e esse algo é o prazer, na leitura da autora francesa.
Nesse sentido, lançamos mão de um excerto de Kenzaburo que ilustra esse ponto de culpabilidade do prazer na autoconfissão do protagonista que “imaginava que se eu fosse pego me masturbando eu me mataria de tanta vergonha. Isso era o drama genuíno do poder máximo do olhar dos outros e da fraqueza máxima da minha carne, horrorizada de vergonha” (OE, 2011 [1961], p. 234).
Nessa passagem, podemos ver uma produção de verdade sobre si do protagonista e de sua subjetividade enovelada pela sexualidade, notadamente marcada pela culpa e por esse prazer que lhe fora associado.
Sobre isso, Mendelsohn (2010) afirma que é a sexualidade que se apresenta como um ponto de junção entre essa verdade e o discurso. Rosa (2015, p. 185) salienta que “a sexualidade não existe fora de uma rede de enunciados ou de um conjunto de regras que a determinam e do qual fazem parte discursos como o da pastoral cristã, da medicina, da psicanálise” não sendo, portanto, possível separar a realidade fundadora e o discurso, tendo em vista que é por meio desse que a realidade pode ganhar existência.
 

  1. Corpo, verdade e psicanálise – Um sujeito produtor de narrativas

A passagem que Kenzaburo traz em seu conto – abertura desse artigo – sobre a necessidade do personagem de produzir uma verdade sobre si frente à sua prática particular de busca de prazer – “sou um onanista” – descreve bem essa demanda de dizer o que é mais singular sobre sua existência, ou seja, sua sexualidade.
Posteriormente no conto, o escritor japonês exemplifica mais uma vez essa produção de verdade de si, descrevendo um fluxo de pensamento do personagem sobre seu sexo e uma vislumbrada impotência, no qual o protagonista “visualizando a mim mesmo aos quarenta anos a dizer: ‘tive os primeiros sintomas no meu décimo sétimo aniversário’, com as calças arriadas até os joelhos e exibindo ao psicanalista o meu inhame peludo e impotente. ‘Será que me excedi na prática daquilo, hein…?” (OE, 2011 [1961], p. 211).
Dessa forma, é interessante notar que o escritor descreve uma passagem de devaneio sexual com uma referência ao ato psicanalítico, no qual produz uma verdade sobre si, sobre sua sexualidade e a confessa/indaga a um sujeito da psicanálise que ouve.
Prata (2011) evidencia a relação psicanálise e a sexualidade a partir da hipótese repressiva e das práticas de confissão, questões já trazidas por Foucault nos volumes da História da sexualidade e salientadas pela autora brasileira. Segundo Prata (2011, p. 161), na hipótese repressiva, a psicanálise compreenderia a sexualidade pela via da repressão e da proibição, postura que desembocaria na perspectiva freudiana, relegando ao discurso psicanalítico uma função normativa do desejo e, em última instância, da sexualidade.
Nesse sentido, as práticas da psicanálise seriam marcadas pelo espectro de uma “codificação clínica do fazer falar” (p. 161). Já na prática da confissão, mais notadamente dentro da moral cristã, deve-se confessar incessantemente seus atos e tudo aquilo que se passa em sua mente, produzindo, assim, uma verdade sobre si.
Sobre isso, Foucault (2006 [1978]) assevera que o cristão deve confessar aquilo que ele traz de mais íntimo a alguém que está encarregado de dirigir sua consciência, o pastor, o qual imbuído de um poder individualista, poderá conduzir à salvação esse membro do rebanho que, porventura, tenha se desviado do que se considera a conduta desejada.
À vista disso, cumpre-nos questionar: por que é tão importante falar sobre si? Por que se faz tão necessário produzir verdades sobre si?
Mendelsohn (2010) pontua que dizer de si guarda estreita relação com a passagem da condição de indivíduo para sujeito, na medida em que na constituição da subjetividade, localizado no dispositivo da sexualidade, a passagem para sujeito é viabilizada a partir da existência de práticas discursivas que engajam o reconhecimento da fala como o local de enunciação da verdade, sendo a singularidade exigência da verdade.
Dessa forma, dizer de si, e, mas notadamente, dizer o que é singular de si produz uma verdade e essa exaustiva e constante produção de verdades sobre si se relaciona com a constituição da subjetividade atrelada ao dispositivo da sexualidade.
Contudo, Rosa (2015, p. 187) salienta que a verdade do sujeito está “condicionada ao fato de não dizer do sujeito senão quando submetida a certas circunstâncias ou condições de produção”. Portanto, é preciso dizer de si em condições específicas – consultório, divã, confessionário – e a indivíduos específicos – psiquiatra, psicanalista, padre, etc. A pesquisadora (ROSA, 2010, p. 190) ainda complementa que a produção da verdade pode ser entendida como um efeito de uma dupla insistência em dizer.
A primeira delas diz respeito a um controle exercido sobre o sujeito que o leva a crer que deve dizer exaustivamente de si a indivíduos de suposto saber – psicanalista, médico. Já a segunda, refere-se ao fato de o sujeito que fala crer que algo não está bem, portanto, deve ser “gerenciado” por esse outro indivíduo.
Esse último ponto é interessante e acreditamos que seja facilmente identificável na atualidade. Precisamos constantemente que um outro nos diga o que fazer com isso que acreditamos estar mal. Demandamos um padre que afirme que o que fizemos não é um pecado mortal, mas passível de redenção com um número específico de orações e penitências.
Necessitamos produzir verdades sobre nós ao médico e obter desse sujeito de um suposto saber um lastro de normalidade, semelhante ao que ilustrou Kenzaburo no conto em referência “(…) pensava que masturbação fazia mal à saúde, mas, depois de folhear um livro de medicina sexual numa livraria, soube que o único mal era o de sentir culpa por estar se masturbando” (OE, 2011, p. 194).
Nesse sentido, na modernidade, conforme pontua Rosa (2015), acreditamos na necessidade de constantemente confessar e produzir verdades sobre nós: que estamos acima do peso, que somos usuários de drogas ou que somos depressivos.
 

  1. Kenzaburo e sexualidade em “Seventeen”

Conforme salientado nas subseções anteriores, toda essa produção reverbera sobre nós, pois ao dizermos, produzimos um conjunto de verdades sobre nós que, muitas vezes, não tínhamos conhecimento até o ato de dizê-las. O conto “Seventeen” de Kenzaburo é bastante ilustrativo sobre a questão da sexualidade, verdade e a veridição do sujeito. O trato da questão do sexo conduzida pelo escritor japonês no conto, ora com sutileza, ora com intensidade cortante, nos faz refletir sobre que verdade temos produzido desde nossos seventeen?
Mais que isso, a quem concedemos o espaço do outro que ouve as nossas verdades? A problemática da produção de verdades de si e o dispositivo da sexualidade é, sem dúvidas, um campo de investigação bastante amplo e interessante, tendo sido esse artigo uma investida de análise que tentou combinar a leitura de um autor de literatura japonesa contemporânea, sobre a temática da sexualidade, com uma aproximação da proposta foucaultiana de estudo da produção de verdade e constituição da subjetividade.
Kenzaburo utiliza de maneira magistral o corpo como um lugar de rarefação do sujeito, de esvaziamento de si frente a uma infinidade de discursos que, ora fragmentam ainda mais esse ser que já se encontra demolido, ora incidem e insistem para que a produção de uma verdade sobre sua sexualidade seja, de alguma forma, parte de um processo que tenta reunir pedaços de um todo que não poderá se integrar novamente.
A leitura do conto de Kenzaburo oportuniza uma reflexão sobre um jovem que, numa Tóquio do pós-guerra, se vê às voltas como seus conflitos familiares, com um país com intensa demanda de reconstrução, uma direita partidária que quer se reerguer em meio a um cenário subjetivo de conflitos e irresoluções pessoais que muito mais do que dizer para si, demandam que se diga de si, em jogo com o ponto que une a verdade e o discurso, corpo e o sexo, o ser e o sujeito.
Sem grandes dificuldades, podemos ver esses mesmos conflitos do jovem retratado na década de 1950 no Japão, nos dias atuais na sociedade brasileira, na qual a crise econômica clama por uma solução imediata, a direita ganha força sem precedentes e a produção de uma verdade sobre si e sobre a sexualidade nunca foi tão grande e demandada.
Contudo, diferentemente do desfecho do conto de Kenzaburo, não permaneceremos com nossos seventeen, importando uma tomada de decisão frente a essa exacerbação de situações e essa projeção superdimensionada de um sujeito que pensa que sabe produzir uma narrativa sobre si, mas que na verdade, tem encontrado no corpo e na sexualidade uma forma de esquecimento e dispersão, de apagamento das verdades e construção de grandes contos, mas sem a beleza e a estética de uma história de um certo escritor japonês.
 

  1. Referências

BUTLER. J. Subjection, resistance, resignification: between Freud and Foucault. In: The Psychic Life of Power: Theories in Subjection. Stanford, 1997.
DAVID-MÉNARD, M. Um tratamento psicanalítico é um agenciamento deleuziano ou um dispositivo foucaultiano? In: SIMANKE, R. T. et. al.. Filosofia da Psicanálise. São Carlos: EdUFSCAR, 2010.
FOUCAULT, M. Sexualidade e poder. Conferência na Universidade de Tóquio, 1978. In: FOUCAULT, M. Ditos e escritos. Vol. V. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p. 56-76.
FOUCAULT, M. Verdade e Subjetividade (Howison Lectures), Revista de Comunicação e Linguagem, no 19, Lisboa: Edições Cosmos, 1993.
GODINO CABAS, A. Situação da Psicanálise em 1950. In: O sujeito na Psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
MENDELSOHN, S. Foucault avec Lacan: le sujet en acte. Filozofski vestnik, Letnik XXXI Stevilka 2. 2010, p.139–169.
OE, K. Seventeen [1961]. In: 14 contos de Kenzaburo Oe. Seleção e tradução de Leiko Gotoda. Introdução de Arthur Dapieve. São Paulo: Companhia das Letras: 2011. p. 193-239.
PRATA, Maria Regina. Foucault com Freud: notas para uma leitura positiva do desejo na psicanálise. In: SOUZA, Pedro de; GOMES, Daniel de Oliveira. Foucault com outros nomes: lugares de enunciação. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2009. p. 155-166.
ROSA, Marluza Terezinha da. A incidência da verdade no discurso: notas para reler A vontade de saber. In: Linguagem em (dis)curso – LemD, Tubarão, SC, v. 15, no 1, jan./abr. 2015: p 183-195. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1982-4017-150111-2214.
 
NOTA AO TEXTO
 
1 Veridicção é um termo cunhado por Michel Foucault que se refere a uma afirmação que é verdadeira de acordo com a visão de mundo de um determinado indivíduo, e não se tratando tanto de uma verdade universal. É uma visão verdadeira apenas em função do ponto de vista subjetivo do sujeito falante, portanto é uma visão particular dele, e não baseada na verdade objetiva. NOTA DA REDAÇÃO.





Bio fornecida pelo palestrante.

O JAPONISMO GÓTICO DE LAFCADIO HEARN – Edelson Geraldo Gonçalves




 Edelson Geraldo Gonçalves

Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

 
Resumo: No presente artigo será feita a análise de como os contos fantásticos de Lafcadio Hearn contidos em livros como Kwaidan e A Japanese Miscellany inserem-se na tradição da literatura japonista, e como também a temática desses contos contribui para inserir seu trabalho ficcional na tradição da literatura gótica.
Palavras-chave: Lafcadio Hearn, contos, japonismo, literatura gótica.
Abstract: This article will analyse how the fantastic tales by Lafcadio Hearn included in books such as Kwaidan and A Japanese Miscellany are part of the Japonist literary tradition. It will also examine how the theme of these stories can allow us to classify his fictional work also in the Gothic literature tradition.
Keywords: Lafcadio Hearn, tales, Japonism, Gothic literature.
Minicurrículo: Edelson Geraldo Gonçalves é doutorando em História Social das relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com bolsa de estudos concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES). Possui também mestrado em História Social das Relações Políticas pela UFES, e experiência no ensino de História nos níveis fundamental, médio e superior.
 


 
O JAPONISMO GÓTICO DE LAFCADIO HEARN
 
Edelson Geraldo Gonçalves
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
 
 
Introdução
Lafcadio Hearn (1850-1904) é conhecido como uma referência no estudo da cultura japonesa, sendo também um autor de destaque no campo da literatura fantástica, principalmente por seus contos baseados no folclore japonês, sendo os de maior sucesso aqueles que compõem o livro Kwaidan, a mais difundida entre as obras do autor, sendo inclusive o único de seus trabalhos publicado no Brasil.
O presente artigo terá como tema a literatura fantástica desse autor, abordando a forma como essa compõe a tradição o do japonismo da segunda metade do século XIX, assim como parte da tradição da literatura gótica. Para isso faremos uma apresentação do autor e de sua obra, uma exposição sobre a natureza do japonismo e por fim uma análise das características gerais que são comuns nos contos fantásticos de Lafcadio Hearn.
 
O Autor
Lafcadio Hearn foi um escritor grego-irlandês que fez sua carreira literária escrevendo para o público de língua inglesa; primeiramente como jornalista nos EUA, onde se destacou como tradutor de literatura francesa e também por seus artigos sobre a vida dos afro-americanos de Nova Orleans.
Além de escrever vários artigos e um livro, de grande valor etnográfico enquanto viveu nos EUA até 1890, Hearn também foi romancista e contista, primeiramente com os livros de contos Stray Leaves From Strange Literature (uma coletânea de contos fantásticos originários de várias culturas), de 1884, e Some Chinese Ghosts (uma coletânea de contos chineses de fantasmas) de 1887. Posteriormente publicou os romances Chita (1889), uma história que tem como pano de fundo a chegada do Tufão de Last Island na Louisiana em 1856, e Youma (1890) romance que tem como motivo as revoltas de escravos na Martinica na década de 1840).
Em 1890 Hearn viajou ao Japão, com o objetivo de estudar a cultura e o cotidiano do povo japonês, buscando o coração (kokoro) do Japão em sua tentativa de decifrar e compreender temas como as emoções e espiritualidade desse povo (HEARN, 1910, p. ii).
Para cumprir tal objetivo Hearn passou os últimos quatorze anos de sua vida entre os japoneses, tendo se naturalizado japonês, adotando o nome de Yakumo Koizumi, trabalhado como professor e jornalista e constituído família nesse país.
Dessa forma no intervalo entre 1894 e 1905 foram publicados quatorze livros de Lafcadio Hearn que tiveram o Japão como tema[1], publicações que o marcaram na época e ainda hoje como uma das grandes referências sobre a interpretação da cultura japonesa.
Nesses livros Hearn tratou de vários temas: estudos etnológicos, folclore, religião, política, relatos de viagens, etc. Mas além disso o autor também publicou entre seus escritos vários contos ambientados no Japão, sendo em sua maioria histórias fantásticas de fantasmas e duendes, assuntos que estavam entre as grandes paixões desse escritor, sendo inclusive dentro dessa temática que se localiza seu livro mais famoso (e seu único trabalho publicado no Brasil), Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things[2].
Tais escritos pertencem a um gênero artístico específico, o japonismo, tema que abordaremos no próximo tópico.
 
O Japonismo
 
O termo japonismo (japonisme) foi cunhado pelo colecionador e crítico de arte francês Philippe Burty (1830-1890) como o título de um artigo seu na revista La Renaissance artistique et littéraire, na edição de maio de 1872 – fevereiro de 1873, termo esse também traduzido para o inglês (japonism) em um artigo desse autor para a revista inglesa The Academy de agosto de 1875, sendo o conceito de japonismo definido pelo autor como “um novo campo de estudos, artísticos, históricos e etnográficos” como também “o estudo da arte e gênio do Japão” (KUNIYOSHI, 1998, p. 76-77). Contudo o japonismo que aqui abordamos limita-se a produção artística desse período que tem o Japão como tema (literatura, teatro, ópera, pintura, etc.), seja ela produzida por ocidentais, ou mesmo a arte japonesa (como as pinturas de Hokusai) exposta no Ocidente.
No entanto convencionou-se entender por japonismo a influência da arte japonesa no Ocidente, sendo que o interesse inicial pela arte japonesa e que levou a essa influência; manifesta primeiro na pintura e posteriormente em campos como a moda, arquitetura, decoração, espetáculos e literatura. Serão a esses dois últimos campos que daremos ênfase no presente artigo.
O Japonismo na Literatura e Espetáculos
O japonismo alcançou a literatura primeiramente e principalmente em livros do romancista francês Pierre Loti; nom de plume do oficial da marinha francesa Julien Viaud (1850-1923) (KUNIYOSHI, 1998, p. 86); um escritor de tipo notório do período que Hobsbawm chama de “Era dos Impérios”, ou seja um viajante ocidental (soldado, jornalista, administrador colonial, aventureiro, etc.) que escreve sobre um ambiente exótico; figura tornada mais possível e recorrente graças ao maior acesso aos territórios da África e da Ásia no dado período. Logo, Loti é um escritor de um tipo e geração que inclui outros como Joseph Conrad (1857-1924), Rudyard Kipling (1865-1936), Karl May (1842-1921) e mais tardiamente Sax Rohmer (1883-1959) (HOBSBAWM, 2005, p. 119).
A matéria prima do legado literário de Loti foram suas viagens como oficial marítimo, trabalho que possibilitou que escrevesse sobre variadas paragens (Turquia, Taiti, Senegal, Indochina, Japão, Marrocos, Argélia, Palestina, Índia, China e Egito) em seus relatos de viagem e romances. O Japão foi tema de três de suas obras: Madame Chrysanthème (1887), Japoneries d’Automne (1889) e La Troisième Jeunesse de Madame Prune (1905), sendo que o primeiro e terceiro eram romances e o segundo um relato de viagem.
Entre seus três livros sobre o Japão, Madame Chrysanthème foi sem dúvida o de maior destaque, não apenas por ser a obra inaugural da literatura japonista, como também provavelmente a obra de maior sucesso de Loti e talvez o livro de maior notoriedade na época, entre aqueles que tinham a Japão como temática, sendo para muitos leitores ocidentais (quiçá a maioria) a obra que lhes apresentou o país do sol nascente (DANTAS, 2011, p. 23).
De maneira sumária podemos descrever Madame Chrysanthème como um romance semiautobiográfico, em que Loti, após uma estada de dois meses no Japão, (e como em textos passados sobre Taiti, Turquia e Senegal) faz o relato de um relacionamento romântico de um marinheiro francês (Pierre) com uma moça local. Esse relacionamento, que tem a cidade de Nagasaki como cenário, é descrito por Loti como um “casamento”, sendo para o francês uma relação tediosa e decepcionante, contudo, às vésperas de sua despedida, Pierre começa a entender sua noiva, partindo, no entanto, com a certeza de que jamais poderia se tornar realmente afeiçoado a ela (KAWAGUCHI, 2010, p. 118-119).
Esse livro, que veio a impingir nas mentes de seus leitores não iniciados na cultura japonesa a imagem de um país que pode ser descrito quase que exclusivamente por adjetivos predominantemente redutivos e degradantes como “pequeno”, “artificial”, “polido”, “animal”, “monótono”, “frágil”, “velho”, “cerimonioso”, “numeroso”, “servil” e “simples”; palavras que juntamente com seus sinônimos “retornam incessantemente, insistem e terminam por imprimir uma imagem” e pelo “sucesso extraordinário das obras de Pierre Loti, a visão do Japão nessa época passava forçosamente por esse filtro” (DANTAS, 2011, p. 24).
Tão notável quanto o sucesso com o público leigo, foi a rejeição que o livro de Loti sofreu nos círculos efetivamente iniciados na cultura japonesa, e também entre o público japonês leitor de língua francesa. Para o romancista brasileiro Aluísio Azevedo que teve contato com o livro em sua estadia como vice-cônsul no Japão entre 1897 e 1899, a leitura foi uma experiência revoltante, que o encorajou a escrever o seu próprio livro sobre o Japão, uma obra que transmitisse uma visão mais justa do país e pudesse ajudar a sanar os danos causados por Loti a imagem daquela nação (DANTAS, 2011, p. 13, 24). Segundo o encarregado de negócios brasileiros no Japão entre 1901 e 1902, o também brasileiro Oliveira Lima (1997, p. 33); “Não existe livro mais superficial em sua fofice e mais falso em seus arrebiques do que o celebrado romance de Pierre Loti”, que, “contudo, passou e passa ainda entre certos grupos de leitores, e, o que mais é, de viajantes, pela fiel imagem do Japão”. A esses exemplos podemos acrescentar ainda a opinião de um notável estudioso da cultura japonesa do período, o filólogo Basil Hall Chamberlain (1905, p. 69), que tece o seguinte comentário sobre o bestseller de Loti: “[…] sua inexatidão e superficialidade vão contra a corrente [da qualidade da bibliografia na época recente sobre o Japão]”. Acrescentando ainda: “Não obstante, as ilustrações de seu Madame Chrysanthème são muito belas, e sua impressão tipográfica o torna digno de se folhear, embora o volume não possa ser de maneira nenhuma recomendado a moças ou a missionários”.
Contudo, a despeito das opiniões de intelectuais, o sucesso geral da obra de Loti fez com que essa inspirasse o surgimento de outras obras semelhantes, tanto no próprio campo da literatura; com o conto Madame Butterfly de John Luther Long (1861-1927), publicado pela primeira vez na revista nova-iorquina Century Magazine em 1898, quanto no campo dos espetáculos, onde o romance de Loti foi adaptado para a ópera (na França) por André Messager (1853-1929) e Georges Hartmann (1843-1900) em 1893, seguido em 1900 pela adaptação do conto Madame Butterfly de John Luther Long para o teatro, feita por David Belasco (1853-1931), sendo este também adaptado, de maneira célebre para a ópera italiana por Giacomo Puccini (1858-1924) e Luigi Illica (1857-1919) em 1904 (KAWAGUCHI, 2010, p. 118-120, 131-132).
Com sua influência, a Madame Chrysanthème de Loti pode não ter sido a responsável primeira pela migração do japonismo para o mundo dos espetáculos; uma vez que a primeira obra de tema japonista nesse campo foi a ópera inglesa The Mikado da dupla William Schwenck Gilbert (1836-1911) e Arthur Sullivan (1842-1900) [Gilbert & Sullivan], que estreou em Londres em 1885; mas nesse processo ajudou a disseminar e cristalizar tanto a tendência orientalista de erotizar as mulheres do leste do planeta, como consumou a imagem da gueixa  como um estereótipo central do comportamento das mulheres japonesas (KAWAGUCHI, 2010, p. 111; LITTLEWOOD, 2006, p. 120-124).
Esse estereótipo (que não foi criado nessa época, embora nela tenha sido reforçado) já se mostrava evidente no musical produzido por George Edwardes (1855-1915), The Geisha, que estreou na cidade de Londres em 1896.
Nesse espetáculo é contada a história de Molly Seamore; a noiva de um oficial da marinha britânica, chamado Reginald Fairfax; que vai até o Japão atrás de seu noivo visando recuperar o seu amor, que foi perdido para a gueixa Mimosa San da casa de chá dos Dez Mil Prazeres, pela qual o marinheiro se apaixonou. Para isso a moça disfarça-se como uma gueixa, chamada Roli-Poli. A parte principal da ação ocorre na resistência a um nobre japonês, que tenta forçar que todas as gueixas da casa de chá sejam vendidas para ele, para comporem seu harém. Ao final todas as dificuldades são superadas e a moça alcança seu objetivo (KAWAGUCHI, 2010, p. 113).
Independente da pouca compreensão ou mesmo consideração que os autores das ficções anteriormente citadas tivessem sobre o Japão e sua cultura (como fica evidente, por exemplo, nos nomes dos personagens dessas obras), essas obras foram de decisiva importância para a formação de uma imagem do Japão no imaginário popular ocidental.
   
O Japonismo de Lafcadio Hearn
Lafcadio Hearn tinha uma grande admiração pela obra de Pierre Loti, mas também tinha a opinião que suas descrições da cultura japonesa eram inadequadas, apesar da inegável beleza de seus escritos (HEARN, 1915, p. 85-86).
A literatura japonista de Hearn foi ao contrário da de Loti, construída com base sólida em sua longa vivência entre os japoneses, e de suas pesquisas voltadas principalmente para as crenças religiosas e superstições populares desse povo, o que resultou em uma produção ficcional baseada principalmente em histórias de terror.
Para Hearn (1894, p. vi-vii) a religião e as superstições seriam uma chave central para compreender a forma de pensar de qualquer povo, e para compreender tal faceta da cultura do Japão, afastou-se dos japoneses urbanos, que no geral considerava por demais ocidentalizados, concentrando suas pesquisas longe das metrópoles como Tóquio e Yokohama, escolhendo ao contrário vilas do campo e cidades interioranas como Matsue e Kumamoto, nas quais viveu e trabalhou como professor.
Entre seus contemporâneos que estudavam a cultura japonesa, Hearn destacava-se pela atenção que dava ao Shinto (ou Xintoísmo) como um elemento formador não apenas da moralidade japonesa, como também da própria organização social, desde a família até o Estado.
Seus contos de terror foram espalhados pela sua bibliografia, uma vez que raramente escrevia livros que não fossem coletâneas de variados textos (ensaios, memórias, contos, etc.) com pouca unidade temática. Tais trabalhos concentraram-se nos livros Japanese Fairy Tales, In Ghostly Japan, A Japanese Miscellany, Kotto e principalmente, Kwaidan.  
Os contos contidos nessas obras são sobre fantasmas (yurei) e duendes (yokai) japoneses, não sendo meras criações do autor, mas sim sua versão de contos fantásticos populares (kaidan) colhidos em suas pesquisas de campo e de antigos livros japoneses, enriquecidos com notas de suas pesquisas históricas e etnológicas em torno desses temas.
Entre seus contos mais famosos podemos destacar A História de Mimi-nashi-Hoishi, Yuki-Onna e A Promessa. Os dois primeiros foram publicados no livro Kwaidan, de 1903, enquanto o terceiro está presente no livro A Japanese Miscellany, de 1901[3].
A primeira história é sobre um músico cego, hospedado em um templo budista. Esse músico é chamado por um samurai para fazer uma apresentação na corte de um nobre, e vai sem saber que estava se dirigindo a uma corte de fantasmas, os espíritos do extinto clã Heike[4] (HEARN, 2007, p. 23-32). A segunda história é sobre um lenhador, que em meio a uma nevasca encontra a Yuki-Onna, uma entidade das neves que mata pessoas em meio ao frio (em outras palavras uma espécie de fada ou duende). No entanto o lenhador é poupado pela aparição, que preserva sua vida em troca da promessa de que nunca revelaria a ninguém o que viu naquela noite; uma promessa que encontraria dificuldades em cumprir (HEARN, 2007, p. 76-80). A terceira história é sobre um homem que no leito de morte de sua jovem esposa promete a ela que jamais se casaria novamente, mas por pressão de seus vizinhos acaba casando-se mais uma vez, e sua nova esposa passa a ser assombrada pelo fantasma da esposa anterior (HEARN, 2007, p. 111-114).
Além de retratar crenças populares ainda em voga entre grande parte dos japoneses do final do século XIX, de forma geral aspectos interpretação que Hearn faz da cultura japonesa em seus ensaios etnológicos e históricos também aparecem nesses contos, como por exemplo em um momento do conto A Promessa, ao pressionarem o protagonista a casar-se os vizinhos argumentam que ele ainda era jovem e sem descendentes, e que por isso precisaria de filhos para no futuro fazer as oferendas e lembrar os ancestrais (HEARN, 2007, p. 112). Nesse trecho Hearn chama a atenção para uma tese central de sua interpretação sobre a cultura japonesa, a de que a principal razão da existência das famílias japonesas, desde a antiguidade, seria justamente a de preservar o culto aos espíritos dos ancestrais, para que não se tornassem espíritos malfazejos (HEARN, 1906, p. 35, 79).
Ainda devemos levar em consideração o fato de serem um reflexo das crenças populares do meio rural japonês da época em que escreveu, como o conto de Yuki-Onna, com o qual teve seu primeiro contato em um festival xintoísta da cidade de Matsue, quando um jardineiro lhe contou sobre ele (HEARN, 1894b, p. 637-638).
Uma característica peculiar dos contos fantásticos japoneses escritos por Lafcadio Hearn é o estilo gótico que o autor atribuiu a eles, não apenas por terem o horror, fantasmas e entidades malignas como tema, mas também pelo fato de seus contos se ambientarem na época dos samurais, comumente tida como uma era feudal, muito semelhante a Europa da Idade Média.
Dessa forma a literatura japonista de Hearn é marcadamente gótica, contendo características clássicas que definem esse gênero segundo Hogle (2002, p. 2), como  ambientes arcaicos (à exemplo das ambientações dos três contos aqui citados como exemplo, um templo budista, uma floresta, uma casa de samurais; além do próprio cenário geral do Japão pré-moderno), o passado voltando para assombrar os protagonistas (como os fantasmas dos Heike no primeiro conto, ou as promessas dos dois contos seguintes), a presença de fantasmas e monstros (os fantasmas dos Heike, a Yuki-Onna, o fantasma da esposa morta).
Segundo Sukehiro Hirakawa o amplo contato que Hearn teve com histórias fantásticas de origem camponesa (por intermédio dos criados de sua casa) em sua infância na Irlanda, deram forma ao seu japonismo, e podemos isso com suas referências literárias, como Edgar Alan Poe (1809-1849) e Théophile Gautier (1811-1872), dois de seus autores favoritos (MURRAY, 2005, p. 31, 72).
Dessa maneira podemos concluir que a grande característica do japonismo de Lafcadio Hearn era sua natureza gótica. Essa característica é notável na obra de Hearn sobretudo pelo contraste com os outros autores japonistas de sua época, que preferiam explorar a sensualidade exótica do universo feminino japonês, sobretudo o mundo das gueixas.
 
REFERÊNCIAS
CHAMBERLAIN, Basil Hall. Things Japanese: Notes on Various Subjects Connected With Japan. Londres: Kelly & Walsh, 1905.
DANTAS, Luiz. Apresentação. In: AZEVEDO, Aluísio. O Japão, p. 7-38. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011.
HEARN, Lafcadio. Glimpses of Unfamiliar Japan Volume 1. Boston e Nova York: Houghton Mifflin Company, 1894.
HEARN, Lafcadio. Glimpses of Unfamiliar Japan Volume 2. Boston e Nova York: Houghton Mifflin Company, 1894b.
HEARN, Lafcadio. Japan: An Attempt at Interpretation. Nova York: Grosset & Dunlap, 1906.
HEARN, Lafcadio. Kokoro: Hints and Echoes of Japanese Inner Life. Londres: Gay and Hancock, 1910.
HEARN, Lafcadio. Interpretations of Literature. Nova York: Dodd, Mead and company, 1915.
HEARN, Lafcadio. Kwaidan: Assombrações, seguido de Estudos de Insetos. São Paulo: Claridade, 2007.
HIRAKAWA, Sukehiro. Hearn, Interpreter of the Animistic World of the Japanese. In. HIRAKAWA, Sukehiro (Ed.). Lafcadio Hearn in International Perspectives. p. 55-61. Folkestone: Global Oriental, 2007.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
HOGLE, Jarrold E. Introduction: The Gothic in Western Culture. In: HOGLE, Jarrold E. (Ed.). The Cambridge Companion to Gothic Fiction. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. P. 1-20.
KAWAGUCHI, Yoko. Butterfly’s Sisters: The Geisha in Western Culture. New Haven: Yale University Press, 2010.
KUNIYOSHI, Celina. Imagens do Japão: uma utopia de viajantes. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.
LIMA, Oliveira. No Japão: impressões da terra e da gente. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
LITTLEWOOD, Ian. The Idea of Japan: Western Images, Western Myths. Chicago: Ivan R. Dee, 1996.
MURRAY, Paul. A Fantastic Journey: The Life and Literature of Lafcadio Hearn. Nova York: Routledge, 2005.
 
NOTAS AO TEXTO
[1] O último livro de Hearn, The Romance of the Milky Way and Other Studies and Stories, é uma publicação póstuma; reúne artigos inéditos do autor.
[2] No Brasil, esse livro foi publicado primeiramente com o título Kwaidan: Assombrações, em 2007, pela editora Claridade, e posteriormente em 2014, no formato digital, pela editora NSP, com o título Kwaidan: Contos do Sobrenatural.
[3] Esses três contos estão presentes na edição brasileira de Kwaidan, publicada pela editora Claridade, que foi a edição consultada para o presente artigo.
[4] Ou clã Taira, derrotado em uma luta pelo poder no Japão na Batalha de Dan no Ura, em 1185.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "Liturgia do fim" – Paula Queiroz Dutra




RESENHA – LITERATURA E CULTURA
janeiro de 2017.
ARNAUD, Marília. Liturgia do fim. São Paulo: Tordesilhas, 2016. 150 p.
 

Paula Queiroz Dutra

Universidade de Brasília

 
Em seu segundo romance, a escritora paraibana Marília Arnaud apresenta a história de uma família em uma pequena cidade fictícia chamada Perdição. Com um narrador protagonista masculino, Arnaud retrata as raízes e as consequências de uma sociedade sexista e patriarcal. Narrado por Inácio, o romance relata o retorno desse homem, de vida aparentemente simples, mas que se consome em segredos, para a sua cidade natal, cujo nome já nos dá pistas de que algo se esconde nesse lugar onde ele passou sua infância e juventude. Entre presente e passado, Inácio navega por suas lembranças, às vezes bem amargas, de uma infância em um lar liderado por um pai opressor, uma mãe totalmente submissa e o sofrimento que esse ambiente austero, e por vezes violento, causou nele e em suas irmãs.
Professor e escritor, sempre enveredado pelo mundo dos livros e das palavras, seu refúgio desde a infância, Inácio inicia seu percurso relembrando o dia em que saiu de casa, aos 18 anos, expulso pelo pai. O sofrimento da mãe ante a partida do filho, silenciando sua opinião para não enfrentar o marido, é algo que fica como uma marca na vida de Inácio.
A relação do narrador com o pai, desde o início, foi marcada por enfrentamentos e decepções, afinal Inácio, mais interessado nos livros do que em desempenhar tarefas que o pai considerava mais ‘masculinas’, é constantemente rechaçado pelo pai. Em nossa sociedade, são vários os elementos e as instituições que exercem o que Guacira Lopes Louro (2007) chama de pedagogia da sexualidade, que tenta disciplinar os corpos para que sigam a norma heterossexual compulsória. A escola é, sem dúvida, uma delas, pois permite formas legitimadas de violência entre os próprios alunos, e tem um papel importante no processo de escolarização do corpo e na produção das identidades de gênero e sexual. Aprendemos, através das diversas redes de poder que constituem a sociedade, a classificar os sujeitos pela forma como eles se comportam e como se apresentam corporalmente. De forma semelhante, é na família que essa pedagogia também se exerce e, como vemos no romance, o pai critica e pune frequentemente os filhos com o intuito de mantê-los dentro da norma, do que se espera de homens e mulheres em uma sociedade patriarcal. No entanto, isso não se dá sem violência física, psicológica e emocional, e suas consequências para a vida de todos os membros dessa família são evidentes.
Trinta anos depois, cansado de lutar para esquecer as lembranças e os segredos que fizeram dele um homem triste e com dificuldade para se relacionar com os outros, além de um marido e pai ausentes, Inácio decide retornar para a cidade de Perdição e enfrentar os fantasmas de um passado que ainda hoje o atormenta. Abandona o emprego, a esposa e a filha e, sem data para voltar, viaja para o interior onde reencontra o pai, já velho e debilitado, bem diferente do homem autoritário cuja lembrança o acompanhou durante todos esses anos, e a empregada Damiana, única sobrevivente de uma época marcada por acontecimentos trágicos.
A casa em ruínas que Inácio encontra é palco de lembranças e medos que afloram, junto com muitos questionamentos sobre a própria vida, sua relação com o mundo e sobre o homem em quem se transformou. É também um espelho dessa família que se desestruturou por conta da opressão e do autoritarismo de um pai, silenciando sonhos e possibilidades de esperança e amor. O retorno a Perdição é uma busca por si mesmo, alimentado pelo desejo de recuperar o que se perdeu nesse caminho tortuoso de crescimento e mágoas, e também um reencontro com o pai com o qual talvez seja possível traçar mais semelhanças do que o próprio Inácio almejaria. O retorno é, portanto, reencontro e ruptura, fim e recomeço.
Este rito de fim, de Marília Arnaud, é marcado por um cuidadoso trabalho com a linguagem, o que dá ao texto ritmo e fluidez, transportando o leitor para um lugar remoto, cheio de lembranças por vezes sombrias, outras mais arrebatadas, como a descoberta do amor pelo jovem Inácio, carregado de elementos que caracterizam a obra de uma grande escritora. Através da narrativa de Marília Arnaud somos levados a refletir sobre as relações familiares e suas hierarquias, sobre a violência que ainda é tão comum no ambiente doméstico, sobre suicídio e também sobre a possibilidade de um dia encontrar na vida alguma redenção.
 
REFERÊNCIAS
LOURO, Guacira Lopes. “Pedagogias da sexualidade”. In: LOPES (Org.) O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 9-34.
 
Paula Queiroz Dutra é doutoranda em Literatura e Práticas Sociais na Universidade de Brasília e Mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia. E-mail: qpaulad@gmail.com





Bio fornecida pelo palestrante.

IMBRICAMENTOS SUBJETIVOS NA TESSITURA POÉTICA – UMA LEITURA DOS CORPOS EM ANA CRISTINA CESAR E HILDA HILST – Marina da Rocha, Douglas R. da Silva




 

Marina da Rocha

            Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Douglas R. da Silva

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 
Resumo: Sob um viés comparatista, a presente investigação articula as poéticas contemporâneas de autoria de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst, com o aporte crítico dos estudos de gênero. O intento é transitar entre os corpos poéticos produzidos e inseridos no legado literário das autoras. A constituição das noções de corpos poéticos fundamenta-se, sobretudo, nos estudos de subjetivação identitária aliada à revisão bibliográfica de Judith Butler (2004) e J. L. Austin (1990), que discorrem sobre a performance no eixo corpo-linguagem. Face ao exposto, os resultados da pesquisa evidenciam os cenários cuja corporalidade poética descria e inventa inéditas formas corpóreas. Como conclusão, sobreleva-se um escopo poético centrado na “atividade reflexionante”, de acordo com os princípios propostos por Friedrich Schiller (1991).
 
Palavras-chave: Poéticas Contemporâneas. Corpos. Autoria Feminina.
 
Abstract: From the perspective of Comparative Literature studies, this article articulates the contemporary poetics of Ana Cristina Cesar and Hilda Hilst, with the critical contribution of gender studies. Its intention is to travel between both poetic bodies produced and inserted in the literary legacy of the authors. The notion of poetic bodies is based, above all, on the studies of identity subjectivity, besides the bibliographical review made by Judith Butler (2004) and J. L. Austin (1990), which discuss performance in the body language segment. The results of the research highlight scenarios in which poetic corporeality undoes or invents new body forms. In conclusion, this article emphasizes that contemporary poetry is centered on “reflective activity,” according to the principles proposed by Friedrich Schiller (1991).
 
Keywords: Contemporary Poetics. Bodies. Women Writing.
 
Minicurrículos: Marina da Rocha é Mestranda em Educação no Programa de pós-graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, com bolsa da CAPES. É graduada em Letras – Português e suas respectivas Literaturas. Atua como Professora de Literatura na rede estadual de ensino, no Rio Grande do Sul.
 
Douglas R. da Silva é integrante do Núcleo de Pesquisa em Gênero – NPG e do Grupo de Pesquisa “Poéticas Contemporâneas”, do CNPq. É licenciado em Letras – Português/Inglês. Atualmente cursa o mestrado em Literatura Comparada no PPGLet/UFRGS.
 
IMBRICAMENTOS SUBJETIVOS NA TESSITURA POÉTICA – UMA LEITURA DOS CORPOS EM ANA CRISTINA CESAR E HILDA HILST
 
Marina da Rocha
            Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Douglas R. da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
 
Poéticas pós-modernas: acerca do rompimento
Com a finalidade de especificar certo eixo temporal e estilístico, é considerado que a produção poética de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst se movimenta inerente a uma perspectiva nomeada de poéticas pós-modernas. Mediante ao exposto, a delimitação dos gêneros, neste período, se torna mais abrangente, híbrida e irrestrita. As poéticas pós-modernas convertem as propriedades de uma obra pós-moderna dentro de uma essência peculiar, uma vez que “uma transgressão tipicamente pós-moderna de limites é previamente aceita” (HUTCHEON, 1988, p. 9).
Parte das reflexões apresentadas em O que é pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos, se encaminham nesta compreensão, complementando-a. A partir das possibilidades e das não-fronteiras exploradas no pós-modernismo, o autor enfatiza que
(…) o pós-modernismo desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades. A des-referencialização do real e a des-substancialização do sujeito, motivadas pela saturação do cotidiano pelos signos, foram os primeiros exemplos. (…) Entendamos ainda que o pós-modernismo é um ecletismo, isto é, mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome. Ele não tem unidade; é aberto, plural e muda de aspecto (…). Inacabado, sem definição precisa, eis por que as melhores cabeças estão se batendo para saber se a “condição pós-moderna” (…). Para dor dos corações dogmáticos, o pós-modernismo por enquanto flutua no indecidível (SANTOS, 1986, p. 19).
 
Diante da elucidação, o que pode se esperar do tecer poético tanto de Ana Cristina Cesar como de Hilda Hilst – que tiveram produção literária em realce nos anos 70/80, período em que a influência pós-modernista é nítida no âmbito literário – é, no mínimo, um afastamento das convenções consagradas na escrita da poesia, para uma aproximação com aquilo que transitava diante de vontades inerentemente particulares de compor. Na obra das autoras, há o heterogêneo, o enleado, o caos: todos eles, não apenas como expressão da face pós-moderna, mas também como símbolo do identitário de cada uma. Ambas acentuam, na forma e na essência, o avultamento do ser – como um traço temporal e também como traço subjetivo daquela que cria.
 
Imbricações da subjetividade, corpos poéticos e performance
O filósofo Mikel Dufrenne sinaliza que “o poético define um modo de ser da subjetividade” (1969, p. 10). Em linhas gerais, abre-se a possibilidade para pensar que o envolver-se na escrita é também envolver-se com as totalidades do ser subjetivo, dando a este não apenas a habilidade de expressão, como também a liberdade de ser ressignificado a partir dos olhares daqueles/as que contemplam o fazer-do-corpo-poético.
Em diálogo com as noções encontradas em Dufrenne (1969), pode-se pontuar a ideia de “atividade reflexiva ou reflexionante” abarcada na obra de Schiller (1991), denominada Poesia ingênua e sentimental. Neste livro, o autor discorre sobre o desencadear da reflexão do poeta sentimental, indicando que
(…) o poeta sentimental não apenas reflete, mas também convida o leitor a percorrer o mesmo fio de raciocínio em relação ao objeto. As mesmas operações do espírito do criador têm de ser desencadeadas no espírito do leitor, sem o que não há comunicação (SCHILLER, 1991, p. 27).
 
Ainda imbricado em Schiller, “[o poeta sentimental] reflete sobre a impressão que os objetos lhe causam e tão somente nessa reflexão funda-se a comoção a que ele próprio é transportado e nos transporta” (SCHILLER, 1991, p. 62). Tal relação denota que a subjetividade poética advém e resulta num processo duplo: leitor-convidado e inventada se fundem na construção mútua da subjetividade a partir da invenção; afinal, de acordo com Dufrenne, “poética é a obra que induz o leitor [espectador] ao estado poético” (DUFRENNE, 1969, p. 101), ao estado de ser e estar subjetivo.
Ao mencionar e referenciar a relação com o corpo e imagem de si, Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst fazem oposição, mesmo que não conscientemente, ao protótipo do corpo e do ideário feminino que é regulado pelo prisma e pensamento predominantemente externo e/ou masculino. As inventadas inventam, desse modo, uma obra poética-corporal que se situa distante das vigências e normas presentes nos contratos sociais.
A partir dos escritos das autoras, é permissível pensar em corporalidades reais, em um feminino originário, em uma ótica do/no corpo da mulher que não está calcada e nem gerenciada pelo olhar da sistemática do patriarcado, o que fornece a inventada o poder de re-invenção: ela não apenas inventa a si como reinventa o olhar que o leitor-convidado tem sobre o ser mulher.
Por conseguinte, a partir da escrita e produção poética de Ana C. e Hilda Hilst, é permissível a invenção de um corpo/essência que se re-inventa e recusa concepções improcedentes e mandatórias, visto que
(…) seu alcance epistemológico supera a ideologia dos mitos e das percepções patriarcais. Em outras palavras, o corpo é um signo usado como uma estratégia ontológica na transformação de paradigmas para que as mulheres possam se imaginar outras e, também, umas com as outras. Uma nova ética da diferença sexual passaria pela liberação do potencial criativo e subversivo dessa memória reinventada (SCHMIDT, 2003, p. 202).
 
É pertinente destacar que, ao discorrer sobre as corporalidades poéticas, a interpelação realizada considera um corpo ausente de órgãos, zonas erógenas e atributos físicos, posto que a noção corporal aqui explorada está entrelaçada com o aspecto subjetivo de ser. Em Être deux, de Lucy Irigaray, a autora notabiliza um vínculo com o “o outro” que, por conta de paradigmas totalizantes e falocêntricos, se mantém ignoto. À vista disso, tratar do corpo transcendente é uma ação com o intuito de fomentar uma cultura que se ancore, no re-conhecimento e na coexistência das diferenças e das multiplicidades – contrariando, assim, qualquer vestígio de dominação.
Os temas da diversidade e do corpo emergem juntos, porque a diferença mais visível entre homens e mulheres, e a única que temos certeza ser permanente, é de fato a diferença no corpo. Essa diferença tem sido usada como um pretexto para ‘justificar’ o poder total de um sexo sobre o outro’. O estudo da imagem biológica na escrita das mulheres é útil e importante na medida em que compreendemos que outros fatores além da anatomia estão envolvidos. As ideias a respeito do corpo são fundamentais para que se compreenda como as mulheres conceptualizam sua situação na sociedade; mas não pode haver qualquer expressão de corpo que não seja mediada pelas estruturas linguísticas, sociais e literárias. A diferença da prática literária das mulheres, portanto, deve ser baseada (nas palavras de Miller), “no corpo de sua escrita e não na escrita de seu corpo” (SHOWALTER, 1994, p. 35).
 
Com a finalidade de compreender como o ato performativo se configura no legado poético de Ana C. e Hilda Hilst, busca-se, inicialmente, trazer apontamentos a partir da leitura de J. L. Austin (1990), filósofo da linguagem, para que haja uma revisitação no entendimento acerca dos “atos de declaração” no domínio da fala-ação. Austin salienta que “o papel de uma declaração era tão somente o de “descrever” um estado de coisas, ou declarar um fato, o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso.” (1990, p. 21). Na tese defendida pelo filósofo, é questionável que o proferir da linguagem e/ou ato de declarar esteja restritamente comprometido com a descrição, pois “muitos proferimentos que parecem declarações não têm, ou têm apenas em parte, o propósito de registrar ou transmitir informação direta acerca dos fatos”. (AUSTIN, 1990, p. 22).
Com isso, o autor se dirige a uma compreensão não limitada da função declarativa, alegando que esta pode tanto indicar, inserir e ultrapassar uma realidade a partir do léxico, como também pode relatar, declarar e descrever outra realidade – em cada caso, há uma munição distinta de recursos lexicais, gramaticais e organizacionais.
Por conseguinte, a própria ação de proferir está intimamente encadeada com a ação de fazer, de concretizar. Acerca disso, o filósofo sobreleva que
(…) o termo performativo  será usado em uma variedade de formas e construções cognatas, assim como se dá com o termo “imperativo”. Evidentemente, que este nome é derivado do verbo inglês to perform, verbo correlato do substantivo “ação”, e indica que ao se emitir o proferimento está-se realizando uma ação, não sendo, consequentemente, considerado um mero equivalente a dizer algo (AUSTIN, 1990, p. 25).
 
Qual a relação entre o fazer poético e o fazer performativo? Como já mencionado, se o estado poético está vinculado ao modo de subjetividade do sujeito criador, então a potência da palavra e do ato declarativo faz muito mais do que instaurar no leitor-convidado uma mera percepção. Sua força é capaz de gerar, criar, parir e inventar – sobretudo quando há uma receptividade maior por parte daquele/a que adentra esse estado de ser poético e subjetivo.
O fluido, que é uma particularidade defendida e ampliada nos estudos de performance, em especial em Judith Butler (2003), apresenta vinculação com o ato performativo, já que a ideia de “construções” de gênero nasce de uma vertente tradicional de se pensar filosoficamente as questões sobre o tema, vertente esta que representa, respectivamente, o poder e o não-poder de escolha do sujeito sobre os seus atos performativos.
Acerca disso, Butler (2003) reflete:
(…) o corpo é representado como um mero instrumento ou meio com o qual um conjunto de significados culturais é apenas externamente relacionado. Mas o corpo é em si mesmo uma construção, assim como o é a miríade de “corpos” que constitui o domínio dos sujeitos com marcas de gênero. Não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca do seu gênero; e emerge então a questão: em que medida pode o corpo vir a existir na(s) marca(s) do gênero e por meio delas? Como conceber novamente o corpo, não mais como um meio ou instrumento passivo à espera da capacidade vivificadora de uma vontade caracteristicamente imaterial? (BUTLER, p. 30, 2003).
 
Os corpos poéticos, que intrinsecamente se relacionam com a formação da subjetividade, formam linha auxiliar para pensarmos que a escrita de Ana C. e Hilda Hilst vivificam a imaterialidade de si, limpando registros outrora impostos e repensando as marcas de “seu” gênero através de suas vivências e experimentos enquanto sujeito. A escrita poética seria, neste sentido, uma das possibilidades de conceber – novamente – o corpo, constatação que responde ao último questionamento expresso pela filósofa na citação acima.
 
Tessituras poéticas: a invenção da inventada
Cartilha da cura
As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.
(CESAR, 2013 p. 87).
 
(…) Na hora da minha morte
estarão ao meu lado mais homens
infinitamente mais homens que mulheres.
(Porque fui mais amante que amiga)
(HILST, 1998, p. 400).
 
Um questionamento que emerge frente ao contato inicial com os inventos de Ana C. e Hilda Hilst é: qual o posicionamento do sujeito mulher frente à sua própria produção? É importante notabilizar que tanto Ana Cristina Cesar quanto Hilda Hilst se apropriaram da palavra para anunciar a experiência da mulher. Isto é, não usaram de subterfúgios outros de escrita, anulando a sua condição intrínseca – muito contrariamente: tanto Ana quanto Hilda ventilam em seus poemas que o sujeito que fala é feminino e não masculino. Logo, temos implicada a questão da voz e da produção intelectual das mulheres, o que garante a compreensão de que o posicionamento das autoras dentro do próprio tecer é um posicionamento criador, engenhoso, lugar único daquela que inventa.
 
Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quem saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
 
Que uso o viés para amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
 
Pergunto aqui meus senhores
Quem é a loura donzela
Que se chama Ana Cristina
 
E que se diz alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
(CESAR, 2013, p. 151)
 
VII
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
(HILST, 1998, p. 200)
 
As tessituras poéticas evocam o interlocutor, fazendo com que ele não apenas receba subalternamente o presente inventado, mas também participe da experiência de criação, moldando-a conforme sua subjetividade. O espaço das autoras é o espaço de encantamento, de deslumbre, espaço reflexivo e indagador que possibilita o encaixe e desencaixe de distintas reações no leitor-convidado. A tessitura poética se torna, portanto, uma tessitura conjunta, dialógica e (di)fundida a partir desse posicionamento de inventora ocupado pelas poetas.
No corpo poético apresentado, é inconcebível não notar o uso do jogo de palavras que as criadoras usam para fazer referência ao sujeito lírico. A preocupação comportamental e uso regrado de etiquetas que se destinam ao meio feminino não são aspectos de relevância na composição de ambas. Há, em especial, certo deboche quando as poetas referenciam termos tais como “louca donzela”, “pura” e “moça”, uma vez que se pressente que ambas estão mais voltadas para a naturalização da experiência do que para um regramento comportamental da mesma.
Exposto isto, é nítido que há se problematiza a relação entre inventora-invento com as questões de identidade e de vivência. As palavras empregadas por Ana C. e Hilda Hilst também se relacionam com o domínio da realidade das poetas e, assim sendo, captam o instante do pensamento do tecer poético que verbaliza o refletir acerca da vida.
Samba canção
Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – tai,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meio-bruxa, meio-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…
(CESAR, 2013, p. 113)
 
Por que me fiz poeta?
Porque tu, morte, minha irmã,
No instante, no centro
De tudo o que vejo.
 
No mais que perfeito
No veio, no gozo
Colada entre eu e o outro.
No fosso
No nó de um ínfimo laço
No hausto
No fogo, na minha hora fria.
 
Me fiz poeta
Porque à minha volta
Na humana ideia de um deus que não conheço,
A ti, morte, minha irmã,
Te vejo.
(HILST, 1980, p. 32)
 
São infinitas as temáticas e os devaneios, pois todos versam, sobretudo, sobre o instante e o pensamento daquela que inventa. Consequentemente, a invenção toma proporções outras, podendo ser perpassada no campo imagético, político e social. O fluído de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst se encontra justamente na não necessidade de precisar concretizar um vínculo definitivo sobre si, sobre a própria identidade e prática de vida – aqui, a vivência se encaminha justamente para ser palavra poética, para fotografar o anfêmero que pode vir arrematado de uma condicional, de um discernimento, de uma observação:
 
Sem você bem que sou lago, montanha
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumento o preço.
(CESAR, 2013, p. 92)
 
E se eu ficasse eterna?
Demonstrável
Axioma de pedra.
(HILST, 1980, p. 51)
 
A performance das autoras se concentra justamente na força de suas respectivas invenções, que são capazes de recolher fragmentos do devaneio e de transformá-los nesta corporalidade única, condizente com o conceito de “atividade reflexionante” posta em Schiller (1991). Ademais, a subjetividade identitária da inventada e do leitor-convidado atuam mutuamente no fomento destas corporalidades, tornando-as expressivas, originais e significantes, reinventando, assim, o sentido poético. Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst se apresentam cruas, originárias, desafiadoras – re-inventadas por si:
 
Noite carioca
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não que não tem nenhum segredo.
(CESAR, 2013, p. 83)
 
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
(HILST, 1998, p. 219-220)
 
 Considerações Finais: inéditas formas corpóreas
Embora o presente trabalho tenha feito a tentativa de focalizar a tessitura poética de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst sob a ideia de corporalidades, é de pleno conhecimento que a leitura das autoras não se encerra aqui – há muito que se explorar e, ainda assim, se acredita que será impossível absorver de modo totalitário aquilo que é dito poeticamente pelas autoras. A intenção deste recorte de pesquisa foi notabilizar como a relação de invenção do ato poético está relacionada também com um sujeito feminino que está desprendido de imposições reguladoras, e que se apresenta como uma possibilidade de pensar novas e diferentes subjetividades identitárias por intermédio dos chamados ‘corpos poéticos’.
As chamadas novas e diferentes formas corpóreas afrontam uma idealização de ser e se encaminham para uma noção do ser que é – inventado, reinventado – a todo instante. As subjetividades identitárias dos/nos corpos poéticos expressos em Ana C. e Hilda Hilst são múltiplas, o que justifica a intenção de exibir formas corpóreas e maneiras de ver/viver o mundo cada vez mais amplas e heterogêneas, fato que retira a poética do plano da abstração e a coloca efetiva, em vida.
 
 
Referências
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
DUFRENNE, M. O Poético. Porto Alegre: Globo, 1969.
HILST, Hilda. Da morte. Odes mínimas. São Paulo: Massao Ohno Editora, 1980.
HILST, Hilda. Poesia reunida/Hilda Hilst. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.
HUTCHEON, Linda. A Poetics of Postmodernism: History, Theory, Fiction. Cambridge: Routledge, 1988.
IRIGARAY, Luce. Être deux. Paris: Grasset, 1997.
J.L. Austin. Quando dizer é fazer. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2000.
SCHILLER, Friedrich. Poesia Ingênua e Sentimental. São Paulo, Iluminuras, 1991.
SCHMIDT, Rita Terezinha. A ficção de Clarice: nas fronteiras do impossível. Porto Alegre: Editora Sagra Luzzatto, 2003.
SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994: p. 23-57.





Bio fornecida pelo palestrante.

LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR E DE FERNANDO PESSOA – Dhandara Soares de Lima




 

Dhandara Soares de Lima

Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)

 
Resumo: Ana Cristina Cesar (1952-1983) é uma das principais poetas da chamada “poesia marginal” brasileira. Sua obra, ainda que rica e complexa, normalmente é estudada a partir de uma perspectiva historiográfica ou sob a sombra de sua morte trágica (a poeta suicidou-se aos 31 anos). Assim, as comparações tecidas entre ela e outros poetas, de modo geral, condenam sua poesia a estes dois aspectos, simplesmente. Diferentemente, este artigo trata de uma importante parte de sua poética: o metapoema, ou seja, aquele que tematiza a própria produção poética ou o próprio poema em si – característico de sua escrita. O poeta português Fernando Pessoa (1988-1935), por sua vez, também se utilizou da metapoesia como meio de representação. Além de uma possível influência do trabalho de Pessoa nos escritos de Ana C., outros fatores aproximam os dois poetas, como tentaremos demonstrar neste trabalho. O objetivo principal da presente pesquisa é apresentar e refletir sobre os elementos que aproximam e os que distanciam a escrita metapoética do poeta português e a da brasileira, complementando essas análises com alguns textos de crítica literária e ensaios acerca de literatura pertinentes a este trabalho.
 
Palavras-chave: Literatura Comparada. Poesia Contemporânea. Literatura Brasileira. Escrita feminina.
 
Minicurrículo: Professora de Língua e Literatura de Língua Inglesa no curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês e Respectivas Literaturas na UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutoranda em Letras (Literatura e Sociedade: Estudos Comparados). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UNIOESTE. Avaliadora oral dos exames internacionais de Cambridge/ESOL. Tradutora e revisora de línguas portuguesa e inglesa.
 
LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR
E DE FERNANDO PESSOA
 
Dhandara Soares de Lima
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
 
 
O Homem é uma soma heterogênea de solicitações inconscientes, a que uma consciência e uma razão, aquisições recentes da animalidade, presidem como um rei constitucional, que reina, mas não governa. A acção humana é irracionalizável, contraditória, absurda. (…) A mais lúcida e simples das nossas escolhas é inúmera e obscura nas suas origens.
Fernando Pessoa
 
 
Como ilustra a citação escolhida para figurar no início deste trabalho, as razões humanas são inúmeras. Uma vez que a literatura é a arte humana que utiliza a linguagem como forma de expressão e também mantendo em mente que a linguagem é uma das mais importantes formas de o humano compreender e refletir sobre o mundo e sobre si mesmo, a razão da produção de uma obra literária nos parece algo complexo demais para ser discutido em poucas páginas. Portanto, o objetivo deste trabalho não se centra na possibilidade (mesmo que bastante provável) de Ana Cristina Cesar, importante poeta brasileira, ter escrito seus poemas por influência da leitura de obras de Fernando Pessoa, grande cânone mundial.
Dessa forma, nossa investigação foi motivada pela similaridade entre os poemas dos dois autores, ainda maior quando nos focamos nos trabalhos metapoéticos dos artistas. Como a obra de ambos é ampla, para a produção deste artigo selecionamos poucos poemas, para que a pesquisa pudesse ser um pouco mais apurada. A proposta, como será perceptível, não foi de realizar uma análise quantitativa, ainda que esta seja uma opção interessante para o futuro. Os poemas de Ana Cristina selecionados fazem parte da antologia póstuma Inéditos e dispersos (1985), organizada por Arnaldo Freitas Filho. A seleção para o corpus de Fernando Pessoa privilegiou os textos metapoéticos mais conhecidos, assim como algumas de suas reflexões sobre arte.
Inicialmente, traçamos um panorama de vida e obra de Ana Cristina Cesar, de caráter introdutório. Então, passamos a alguns comentários sobre Fernando Pessoa e, na sequência, ao confronto entre os poemas e os ideais estéticos perceptíveis nas obras dos artistas em questão.
 
Sobre Ana Cristina Cesar
Ana Cristina César (1952-1983), ou Ana C., como costumava assinar seus trabalhos, nasceu e viveu no Rio de Janeiro, ainda que tenha viajado por muitos lugares do mundo. Ela escreveu e publicou diversas coletâneas de poemas, assim como livros sobre estudos literários e tradutológicos. Sua vida encontrou um fim talvez prematuro, com seu suicídio, aos 31 anos.
Tendo participado da coletânea 26 poetas hoje, organizada Heloísa Buarque de Holanda (2007), sua poesia ganhou reconhecimento no meio intelectual em sua própria época. Depois disso, publicou seus poemas em edição independente e, no contexto da repressão política em que vivia, devido à ditadura militar, publicou através de uma editora apenas seu último livro, A teus pés (1999). Assim, seu nome é um dos grandes expoentes da chama “geração mimeógrafo”, e sua poesia pertence ao contexto de poesia marginal dos anos 70 do Brasil. Sobre isso, a própria Ana Cristina asserta que
 
(…) a marginalidade é tomada não como saída alternativa mas sim como ameaça ao sistema, como possibilidade de agressão e transgressão. A contestação é assumida conscientemente. O uso de tóxicos, a bissexualidade, o comportamento exótico são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e portanto assumidos como contestação de caráter político (CESAR, 1999, p. 123).
 
Contudo, cada vez mais estudos, na atualidade, tratam de como seu projeto poético não se limita aos preceitos “marginais” e como sua obra se diferencia da de outros autores reconhecidos da época. Sobre isso, Ivan Junqueira (1987) afirma que:
 
(…) enganam-se os que supõem haver desleixo formal ou discursivismo no verso da autora. Tais características são antes atributos da má poesia que escreveram quase todos os seus companheiros de geração. Esse aparente desleixo nada mais é que uma estratégia destinada a impedir que se coagulem a fluência do discurso e o ritmo do verso (JUNQUEIRA, 1987, p. 1).
 
Como podemos perceber a partir disso, Ana C. reconhecidamente difere-se dos outros de sua época. Mesmo assim, de forma geral sua obra é estudada a partir de dois prismas principais: seu contexto histórico ou sua morte trágica.
Contudo, ainda que tenha, de fato, compartilhado e contribuído com a estética de seus contemporâneos, cada vez mais estudos mostram como sua grande parte de sua obra diferiu da dos outros escritores e artistas de seu tempo. Ana Cristina, portanto, não pode ser tomada apenas como uma representante da época em que escreveu, mas como uma artista que, principalmente, não seguiu nem os modelos clássicos nem unicamente as tendências momentâneas. Estudando a obra de Ana C. e, principalmente, o distanciamento da obra desta das de seus contemporâneos, Marchi e Franchetti (2009) afirmam que:
 
Diante de uma questão sobre a relação entre a escrita em forma de diário e a expressão de intimidades, a poeta responde: (…) Aqui é fingido, é inventado, certo? Não são realmente fatos da minha vida. É uma construção. Mas há muitos autores que publicam diário. Quando você ler o diário do autor, de verdade, que ele escreveu sem uma intenção propriamente de fingimento, você vai procurar a intimidade dele. Se você vai ler esse diário fingido, você não encontra intimidade aí. Escapa… Então, exatamente o que é colocado como uma crítica é, na verdade, a intenção do texto (CESAR, p. 256 apud MARCHI; FRANCHETTI, 2009). (Grifos nossos).
 
O “fingimento” de que fala Ana Cristina nos remete imediatamente ao clássico poema de Fernando Pessoa, Autopsicografia, dentro da coletânea Cancioneiro, publicada em 1934:
 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
 
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
 
É possível compreender, desde esse primeiro momento, que o conceito poético de Ana Cristina se aproxima do de Fernando Pessoa. O modo como essa aproximação se dá e quais são as concepções e os elementos compartilhados pelos projetos estéticos de Pessoa e de Ana C. são o tema das páginas que se seguem.
 
As aproximações entre os poetas e suas obras
Fernando Pessoa é um poeta que dispensa apresentações. Foi um dos maiores artistas da língua portuguesa e grande conhecedor de literatura. Sua obra, vasta e rica, é ainda discutida e analisada. Tendo vivido entre 1988 e 1935, Ana Cristina Cesar certamente teve acesso à obra desse importante nome da literatura, tendo até se referido a ele em seus poemas.
Como comentado na introdução, o norte desta pesquisa não é a busca por possíveis “fontes e influências” do trabalho de Ana C., relegando-a, assim, a uma posição de poeta “menor”. Dada a leitura de poemas como os que citamos, é perceptível que existe algo que os aproxima. Compreendemos, a partir de nossos estudos, que este “algo” pode ser um projeto estético que compartilhe conceitos – e aí se encontra a pergunta que instigou a presente pesquisa: quais conceitos?
Comecemos pela reflexão de que ambos Ana C. e Pessoa expressaram sua poética tanto em língua portuguesa quanto em inglesa, mesmo que predominantemente na primeira. Ana C., contudo, mistura mais os dois idiomas do que o poeta português. Portanto, não se expressaram apenas na língua materna, demonstrando perícia também em manipular outras formas de linguagem. A manipulação linguística é um dos temas abordados por Pessoa em um de seus vários ensaios. O poeta sintetiza algumas de suas concepções acerca de poesia em um ensaio que escreve em português e em inglês: “um poema é uma impressão intelectualizada, ou uma ideia convertida em emoção, comunicada a outros por meio de um ritmo” (PESSOA, s/n, p. 75).
Além disso, os dois poetas também foram tradutores e estudiosos de literatura, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Parte de suas obras literárias também são dedicadas ao metapoema, ou seja, a poesia que trata exatamente do fazer poético. Essas informações são relevantes quando nos atentamos ao que isso significa: foram poetas que se preocuparam não apenas com escrever bons poemas, mas que pensavam a arte e refletiam sobre a essência da poesia.
Em um estudo anterior (LIMA, 2011), discutimos como Fernando Pessoa se encaixa na definição de poeta  “artesão” – termo cunhado por Dufrenne em sua obra O Poético (1987):
 
Enquanto criadores de um efeito poético, Dufrenne distingue dois grupos nos quais os poetas podem se encaixar: o poeta artesão ou o poeta inspirado. O primeiro é o “artesão da linguagem” (1969, p. 124), que constrói o poema de forma deliberada calculada. O segundo “é menos cioso de seu ato do que propriamente de seu estado” (idem, p. 219), ou seja, ocupa-se do “estado poético” mais do que da construção do poema (LIMA; AISSA, 2009).
 
Como podemos compreender a partir de vários ensaios, poemas e declarações, Ana Cristina preocupava-se com a qualidade da literatura. Como podemos inferir de um de seus poemas, desconfia da poesia “inspirada”, uma vez que “a gente sempre acha que é / Fernando Pessoa” (CESAR, 1985, p. 182). Podemos inferir a partir desses dados, a poeta questiona sua própria produção, o que nos aponta para uma preocupação com seu fazer poético e mostra uma “desconfiança” da poeta em relação ao verso “fácil” e é um sinal de que podemos classificar Ana C. como uma poeta artesã, em contraponto ao poeta inspirado. Anteriormente, também classificamos Fernando Pessoa como poeta artesão. Este é um dos pontos principais e talvez a maior confluência entre o projeto estético desenvolvido por Pessoa e por Ana C.
Annita C. Malufe (2006) discorre sobre as acepções de Ana Cristina sobre as relações entre a intimidade do poeta (pessoa de carne e osso) e a produção da poesia. Assim, a estudiosa sintetiza alguns conceitos importantes à nossa pesquisa:
 
(…) para se produzir literatura, Ana C. acredita ser possível partir de uma emoção, um sentimento. Contudo, essa intimidade só é apropriada pelo escritor enquanto uma espécie de material bruto, inicial, sobre o qual será necessário trabalhar, empregando o que ela chama de “olhar estetizante” (MALUFE, 2006, p. 56-7).
 
Esse conceito de se criar um objeto estético a partir da experiência, ou seja, a necessidade de “lapidar” alguma sensação para, somente então, escrever, é algo também discutido por Fernando Pessoa sendo essencial:
 
(…) a composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente (PESSOA, s/n, p. 72).
 
Neste sentido, as concepções de fazer poético de Ana Cristina e de Fernando Pessoa são correspondentes. Assim como para Ana C., a criação do poema, para Pessoa, é um trabalho intelectual e não emocional. A emoção não tem lugar no fazer poético de ambos os poetas. Malufe, interpretando declarações e textos de Ana C., afirma que, segundo esta autora
 
(…) nesta operação obrigatória para se produzir o texto literário, poético, não há como ser fiel ao sentimento inicial, ainda que assim o desejasse. Neste sentido, não haveria como fugir do fingimento (MALUFE, 2006, p. 56-7).
 
Assim, o trabalho intelectual é a parte mais importante da criação poética. Dois poemas de Ana C. e de Pessoa ilustram bem essa relação entre sentimento, fingimento e poesia:
 
POEMA ÓBVIO
 
Não sou idêntica a mim mesmo
Sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob o mesmo ponto de vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante.
 
Esse poema de Ana Cristina aponta para um dos aspectos do fazer poético de Fernando Pessoa: a coexistência de diferentes eu-poéticos que se sobrepõem no momento da escritura poética, ou seja, a possibilidade do poeta se expressar através de diferentes “identidades” poéticas – como os heterônimos de Pessoa. O poema Isto, de Pessoa, parece demonstrar a ideia de racionalização da poesia:
 
ISTO
 
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
 
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
 
A preocupação com o ritmo também é uma constante no trabalho tanto de Ana C. quanto de Pessoa. O poeta português, dedicou várias páginas à análise da importância do ritmo ao poema:
 
A linha isolada é uma unidade rítmica. A qualidade rítmica depende, como aliás dependeu sempre, do poeta. (…)
O verso é a prosa artificial, o discurso disposto musicalmente. Não é outra a diferença entre as duas formas da palavra escrita (PESSOA, n/d, p. 78).
 
Podemos perceber que a musicalidade é algo intrínseco à poesia na concepção de Pessoa. Também para Ana C., a música é essencial à existência do poema, confundindo-se com este:
 
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.
 
Para ambos os autores, o ritmo é um dos fatores essenciais do poema, que o caracteriza e sem o qual este não existe.
 
Conclusão
Neste artigo, procuramos investigar até que ponto podemos considerar próximas as escritas metapoéticas do grande escritor português Fernando Pessoa e da poeta carioca contemporânea Ana Cristina Cesar. Após o estudo de metapoemas de ambos os autores e de alguns de seus principais textos teóricos, tal que parte da fortuna crítica destes, elencamos determinados pontos que consideramos importantes.
A principal semelhança nas concepções de poesia dos poemas em questão é a sua visão de poesia como um produto do intelecto. Assim, mesmo que tenha sua “fonte” seja uma emoção, esta precisa ser “estetizada” ou “racionalizada” para, então, tornar-se uma obra poética.
A importância do ritmo para o poema também aproxima a estética desses poetas, dado que estes consideram a musicalidade um elemento intrínseco da poesia.
As coincidências entre os poetas e suas obras são ainda mais numerosas do que as estudadas nesta pesquisa: ambos foram tradutores, estudiosos de literatura e escreveram em inglês e em português, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Dedicaram poemas ao fazer poético, metapoemas, o que mostra que refletiam sobre seu ofício.
Como dito, esta pesquisa não teve foco quantitativo, ainda que tal perspectiva possa ser um caminho interessante e produtivo. Contudo, esperamos que este trabalho contribua para pesquisas futuras, assim como divulgue a poesia de Ana Cristina Cesar, demonstrando também sua importância para a literatura de expressão em língua portuguesa.
 
Referências
CESAR, Ana Cristina. A teus pés. São Paulo: Editora Ática, 1998.
CESAR, Ana Cristina. Crítica e tradução. São Paulo: Editora Ática, 1999.
CESAR, Ana Cristina. Inéditos e dispersos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
DUFRENNE, Mikel. O Poético. Porto Alegre, Globo, 1969.
HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2007.
JUNQUEIRA, I. Ana Cristina Cesar: a vocação do abismo. In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 03 jan. 1987.
LIMA, Dhandara Soares de; AISSA, José Carlos. O fazer poético de Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. In: Anais do I CIELLI – Congresso Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Disponível em: <http://www.cielli.com.br/downloads/101.pdf>. Acesso em 10 Ago. 2011.
MALUFE, Annita Costa. Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2006.
MARCHI, Tatiane; FRANCHETTI, Paulo. Ana Cristina Cesar e a poesia marginal. Revista Língua, Literatura e Ensino, v. IV. Maio/2009. p. 385-94.
MORICONI, I. Ana Cristina Cesar: o sangue de uma poeta. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.
PESSOA, Fernando.  Cancioneiro. 1934.
Disponível em: <http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/index.html> Acesso em: 17 Mar. 2011.
PESSOA, Fernando. Páginas de estética e de teoria e crítica literárias. 2ª Ed. Lisboa: Editora Ática, s.n.





Bio fornecida pelo palestrante.

SUBVERSÃO E RUPTURA FEMININA EM AUTO DA BARCA DE CAMIRI E O VERDUGO, DE HILDA HILST – Adalberto Rafael Guimarães, Maria Augusta Bernardes Fonseca




 

Adalberto Rafael Guimarães

Universidade de São Paulo

 

Maria Augusta Bernardes Fonseca

Universidade de São Paulo

 
 
Resumo: Neste estudo, pretende-se analisar, nas peças Auto da barca de Camiri (1968) e O Verdugo (1969), os pontos que vinculam o teatro de Hilda Hilst à tradição literária brasileira e verificar de que forma a construção de personagens femininas desloca-se na direção de um novo ideal de dramaturgia que rompe com os padrões convencionais do teatro brasileiro do século XX. Nesse sentido, discutiremos de que maneira as personagens femininas criadas por Hilda Hilst representam exemplos de “indecidibilidade”, segundo os conceitos propostos por Jacques Derrida, ao subverterem a noção de poder falogocêntrico, agindo como instrumento ferrenho de denúncia social e política.
 
Palavras-chave: Hilda Hilst; Teatro; Feminino; Desconstrução.
 
Abstract: This study aims to analyze the plays Auto da Barca Camiri (1968) and O Verdugo (1969), by Hilda Hilst and examine their link with the Brazilian literary tradition. It also aims to verify how the building of female characters approach a new ideal of dramaturgy which disrupts the conventional patters of 20th Century Brazilian theatre. Therefore, it will discuss how the female characters created by Hilda Hilst represent examples of “undecidability”, according to Jacques Derrida’s concepts, when Hilst subverts the notion of phallogocentric power, which act as a staunch instrument of social and political denunciation.
 
Keywords: Hilda Hilst; Theater; Female; Deconstruction.
 
Adalberto Rafael Guimarães – Doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo; Mestre em Letras/Estudos Literários pela Universidade Estadual de Montes Claros (2013) e graduado em Letras Português pela Universidade Estadual de Montes Claros (2011). Membro da Comissão Editorial da Revista Magma, periódico da Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura comparada da USP.
 
Maria Augusta Bernardes Fonseca – Possui graduação em Letras Português e Inglês pela Universidade Mackenzie (1966); Mestrado em Letras pela Universidade de São Paulo (1977); Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (1985). É professor livre-docente em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (2006), e professor adjunto em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina.
 
 
SUBVERSÃO E RUPTURA FEMININA EM AUTO DA BARCA DE CAMIRI E O VERDUGO, DE HILDA HILST
 
Adalberto Rafael Guimarães
Universidade de São Paulo
 
Maria Augusta Bernardes Fonseca
Universidade de São Paulo
 
 
O meu teatro é como a CASA dentro de cada um de nós.
 CASA que não existe para morar, mas para ser pensada.
 
Hilda Hilst
 
 
O superficialismo flagrante em considerável parcela das análises literárias produzidas, atualmente, nas academias brasileiras de letras, articula-se diretamente, aos rumos trilhados pela crítica literária na contemporaneidade. A repetição de assertivas induz, comumente, à associação estrita de importantes escritores brasileiros aos gêneros textuais específicos em que teriam se consagrado, relegando a parcela restante de suas obras à obscuridade. Hilda Hilst não foge à infâmia desta regra, apesar de figurar de modo inusitado neste panorama pintado sutilmente. Reconhecida, principalmente, em virtude de sua poesia sensorial, agonizante e catártica, bem como por sua prosa inovadora, caracterizada pela mescla de gêneros literários, sua produção dramatúrgica encontra-se quase que imersa em águas de descaso e esquecimento. Hilda Hilst não foi somente romancista, por um lado, e poeta, por outro. Ela foi tudo isso ao mesmo tempo e, frequentemente, no mesmo livro, uma vez que sua dramaturgia se apresenta carregada de poeticidade e seus romances e poesias trazem, em evidência, fortes tendências do gênero dramático.
Em certa medida, este silêncio pelo qual o teatro de Hilda encontra-se rodeado talvez derive de sua afinidade com a teoria da desconstrução de Jacques Derrida, uma vez que, se pensadas dentro da linha do teórico, as peças de Hilda Hilst retiram de nossos pés, leitores e espectadores, as bases sólidas sobre as quais a tradição teria construído as noções de verdadeiro ou falso, opondo questões como a da forma e conteúdo. O teatro de Hilda Hilst, diferentemente de grande parte do teatro contemporâneo, não procura criar fundamentos pragmáticos que se configurem como ponto de partida para o leitor/espectador, e opta por deslocar seu ideal de escrita e encenação para uma zona de “indecidibilidade” que exige de quem se aceite a desvendá-lo a consciência de sua instabilidade e incerteza. Bem como a lógica do pensamento dos pensamentos que tremem de Derrida, o teatro de Hilda Hilst pode, em certo grau, ser encarado como uma espécie de terreno movediço em contraponto à fixidez e estabilidade de dramaturgia tradicional.
O conceito de “indecidibilidade” de Jacques Derrida, apesar de ter se originado a partir de da ciência matemática de Kurt Gödel e de seus teoremas da incompletude, é abrangente e pode ser articulado a diversas séries de signos que porventura admitam jogos de contradição e não-contradição, uma vez que a especificidade de seus conceitos repousa, justamente, na premissa de que as ideias não poder ser nem comprovadas nem refutadas, ao mesmo tempo. Na esteira de pensamento de Rodrigues (2008, p. 76), o pensamento de Derrida lança-nos em um jogo entre o que não é nem falso nem verdadeiro, uma vez que o filósofo procura nos deslocar não para um novo lugar, novamente determinando as coisas. Ao invés de nos deslocar, por exemplo, para o cinza, ele nos lança entre os inúmeros matizes existentes entre o preto e o branco. Essas assertivas a respeito do pensamento de Derrida são pertinentes, em nossa discussão pois, ao se analisar o teatro hilstiniano, o que se verifica é a elaboração de um jogo que oscila entre o retorno à tradição, nos mesmos instantes em que a escritura rompe com o convencional, colocando-nos neste entre lugar situado entre o teatro tradicional e o moderno que destrói as algemas dos parâmetros estéticos. Recordando a obra A Escritura e a Diferença, na qual Derrida discute a possibilidade de uma estrutura acêntrica do discurso, percebe-se que o lugar em que o sentido do teatro de Hilda encontra sua efetivação é, justamente, no entremeio: o espaço existente entre as oscilações entre lugar e o não-lugar. Talvez por isso o texto teatral de Hilst poucas vezes tenha sido adaptado para os grandes palcos, sob alegação crítica de que as oscilações entre possibilidade e impossibilidade tornariam sua execução e funcionamento algo incerto.
Na primeira peça em destaque neste estudo, Auto da Barca de Camiri (1968), criação que desde o título alude claramente à tradição teatral dos autos de Gil Vicente, não se encontram referências pormenorizadas de quaisquer aspectos extrínsecos ao texto, constando somente uma rubrica nomeada de “Cenário”, e todo o drama se desenrola em um único ato e ambiente. Hilda Hilst desloca sua escrita da já convencionalizada e o que se sobressai, logo de início, é a presença marcante da adjetivação que intensifica a subjetividade e corrobora a crítica da desigualdade social, que se desenvolverá durante a ação. Hilst chega mesmo a lançar mão da “Nota: Diferença acentuada entre as duas portas. Uma, singela. Outra (a dos juízes) rebuscada, grotesca. (HILST, 2008, p. 185), reforçando a ideia de contraste entre as classes ali envolvidas.  O Verdugo (1969), por sua vez, abre-se pondo em destaque o cuidado com as personagens que devem deixar transparecer, primordialmente, suas idades. Preocupações com as características físicas das personagens recorrentes nos textos da época, são excluídas e, em seu lugar, Hilda promove um deslocamento para o interior das personagens logo nas rubricas do texto. Hilda Hilst rompe ao subtrair tais elementos técnicos, caros à execução da peça em um palco, e em seu lugar destacar o moderno, por exemplo, sugerindo a utilização de recursos modernos como slides e linguagem coloquial.
Hipoteticamente, é como se a preocupação estivesse menos pautada na forma como sua mensagem será dita, do que no que está sendo dito. Hilda Hilst quer se fazer ouvida e não importam características detalhadas das personagens ou como suas peças serão adaptadas na realidade em cima de um palco. O que parece ter maior relevância é a mensagem que suas peças constroem, principalmente quando lidas em conjunto. Talvez por isso seu teatro seja repleto de personagens coletivas e haja um deslocamento na escrita de elementos técnicos como cenografia, iluminação ou sonorização. De imediato, a presença de personagens que figuram em mais de um texto faz-se recorrente nas peças destacadas neste estudo. Em Auto da Barca de Camiri e O Verdugo, não somente há a presença de duas personagens representantes do poder identificadas somente pelos epítetos “Velho” e “Jovem”, como também se verifica a repetição da personagem intitulada “Homem”, que em ambas representa a razão condutora de todos os conflitos.
Nas cenas iniciais de Auto da Barca de Camiri e O Verdugo, o que parece haver é uma ruptura com o que Roland Barthes, em Sade, Fourier, Loiola, indica como operações necessárias para a construção de um texto literário: o corte, o isolamento, a articulação e a ordenação. Ambos os textos se abrem com diálogos que revelam inferências de cunho social e político evidenciam o caráter de denúncia e crítica característico do teatro de Hilda Hilst, como se fossemos jogados dentro de uma ação em movimento.  Por meio de um trapezista e de uma mulher, figuras emblemáticas dentro do panorama social, a autora alerta para a constatação de que nosso tempo é de desamor e lamento, no qual quem faz as leis são os “sujos”.  Vale lembrar que se recorrermos à discussão sobre os fundamentos de questões como a do poder e da lei, elaboradas pelo filósofo francês Michel Focault, em sua História da Sexualidade I, perceber-se-á que a crítica de Hilda Hilst repousa não na complexa rede de estratégias em que esses mecanismos se originam, mas na ação de suas formas terminais: como a soberania do Estado e a maneira como seus representantes a reproduzem.  Para Foucault, a temática do poder não se encontra em um local específico, como a personagem do teatro de Hilda parece supor, uma vez que ela circula pela sociedade. Sendo assim, ao considerar a crítica elaborada por Hilda é preciso compreender que todas as práticas sociais são marcadas por relações de poder e não somente aquelas que pertencem aos juízes, na peça.
Auto da Barca de Camiri e O Verdugo partilham de um mesmo fio condutor: a morte do guerrilheiro Che Guevara, retomada em situações análogas. O acontecimento histórico evidencia-se desde o título da primeira peça, que destaca a região boliviana de Camiri, na qual foi assassinado, e a habilidade de Hilda Hilst com a trama entremostra-se mesmo na maneira estratégica com que a autora joga com a ambiguidade do termo “auto”. Seja de ordem processual ou sacramental, verifica-se que esse auto que condena Che Guevara instaura, ao mesmo tempo, sua existência sagrada afirmada na escrita que, insistentemente, assimila Ernesto Rafael Guevara de la Serna à figura de Jesus Cristo. Vale ressaltar que, como o faz Alcir Pécora (2008), organizador da edição do Teatro Completo, o nome de Che Guevara não é mencionado em nenhuma passagem, o que certamente tem a ver não só com a censura da época, mas também com a intenção de extrair do acontecimento, a imagem ideal de homem-cordeiro imolado para a salvação da humanidade.
Em Auto da Barca de Camiri e O Verdugo, a autora critica a corrupção de um sistema que ao invés de legislar e advogar em favor da justiça, faz uso do que bem lhe entende para fazer cumprir suas demandas, como invadir casas de famílias e oferecer suborno em praça pública.  Em O Verdugo, os juízes tentam de todas as formas atribuir a culpa de vários assassinatos a Che Guevara que, pelo discurso inflamado teria enlouquecido a todos, para assim obrigar o verdugo a cumprir a ordem de executar o condenado; enquanto em Auto da Barca de Camiri percebe-se a tentativa de apagamento das evidências contidas na memória de cada testemunha interrogada sobre a existência do líder revolucionário. Essas atitudes são elevadas ao ápice da hipocrisia mediante à indiferença dos poderosos que ignoram as incessantes rajadas de metralhadoras que perpassam toda a cena e que, ao final, invadem a corte matando os pobres. A crítica de Hilda às instituições políticas emerge, ainda, por meio das ações dos representantes da Lei que mandam e desmandam conforme suas vontades. Um dos pontos altos da trama é, pois, a passagem em que a lei mostra sua verdadeira face opressora à sociedade, veiculada nas seguintes falas do Juiz Jovem: “Eu posso obrigar o senhor a fazer. Mas não quero”, ou na fala do Juiz Velho que proclama: “Nós somos a lei. Não somos a polícia” (HILST, 2008, p. 393). As falas das personagens denunciam com clareza o que Foucault procura explicitar ao afirmar que as relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com respeito a outros tipos de relações. Sejam relações econômicas ou sexuais, como manifestadas no texto hilstiniano em destaque, já que matando Che Guevara o verdugo receberá grande quantia de dinheiro e fará possível o casamento de sua filha que o pressiona, essas relações entre dominantes e dominados não servem apenas como simples papel de proibição, pois atuam diretamente com o objetivo de produzir algum resultado.
É importante assinar a habilidade de Hilda Hilst de relacionar, em sua linguagem, questões problemáticas que não se ligam somente ao governo. Na cena inicial de O Verdugo, ambientada no espaço doméstico, uma discussão sobre a “Lei” desperta um debate acirrado de cunho feminista, inflamado pela fúria das personagens “Mãe” e “Filha” que reivindicam sua capacidade de participarem das decisões ligadas aos assuntos políticos. No entanto, é curioso notar que essa atitude feminista no posicionamento das personagens não as acompanha durante toda a ação, pois essas personagens assumem, nos termos de Derrida, um caráter de indecibilidade: em certos momentos predomina a fragilidade e o fetichismo, perpetuados pelo senso comum; em outros, atitudes enérgicas nas quais a consciência e necessidade de mudança se instauram na representação da mulher.
Na peça O Verdugo, o casamento da filha somente acontecerá se o pai aceitar o trabalho “imundo” de enforcar o “Homem”, acusado de a todos incendiar com suas palavras de amor e igualdade. Devido a isso, instaura-se um conflito no íntimo do pai que se vê dividido entre: seguir a vontade da filha que o pressiona visando à realização de seu desejo, e o filho que se coloca em defesa do “Homem”. No instante em que se nota essa delimitação do caráter da mãe e da filha que, de início, encontram-se marcadas pela ganância e ambição por melhorias de vida via casamento, Hilda Hilst rompe com a concepção de feminino frágil e subordinado e reescreve essas personagens como determinadas a alcançarem suas metas. Vale citar o episódio em que, à certa altura, a mulher-verdugo indaga a existência de Deus e a ironiza por não haver intercedido na salvação de duas crianças assassinadas brutalmente nas proximidades da residência. A meticulosidade do raciocínio da mulher, que deseja apossar-se do dinheiro que o marido receberá, dirige-se, por fim, para a tentativa de convencer o esposo de que a resistência dos moradores da região à sentença de morte do “Homem” trata-se de mera manifestação de afronta e resistência ao poder e, não, amostra de amor ao próximo. Neste sentido, Hilda Hilst parece ilustrar, em seu teatro, o que a postulação foucaultiana sobre resistência e poder defende. Para Foucault (2005), a resistência não se caracteriza como um subproduto das relações de poder, pois ela não é nem anterior ao poder nem mesmo secundária a ele, pois se assim o fosse não haveria resistência. Para o autor, é necessário que a resistência seja como o poder. Isto é, tão inventiva, móvel e produtiva quanto ele.
Ser produzida e reprimida pelos sistemas jurídicos e, ainda assim, lutar pela emancipação de sua categoria valendo-se dessas mesmas formas de poder é a forma como se pode visualizar a questão feminina a partir da genealogia elaborada por Judith Butler (2003), em seu Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. A partir de relação com a teoria foucaultiana que também visa à elaboração de genealogia da sexualidade, entrevê-se a sugestão do processo de produção de sujeitos fadados a representar os próprios sistemas jurídicos que as criaram. Butler (2003), dessa forma, evidencia a perpetuação negativa envolvida na maneira com que o “poder” forma, define e reproduz a vida dos indivíduos por meio de suas limitações, proibições, regras e, até mesmo, sob a alegação de proteção.  Ao colocar em evidência a questão do sujeito feminino, é necessário que se perceba ao longo de nossa literatura e história sua incessante procura pela legitimação de uma linguagem capaz de representá-las e promovê-las à visibilidade política. Além do mais, é preciso, também, permanecer-se alerta para as ambiguidades de uma lei que produz e oculta categorias, como é o caso da mulher, de acordo com suas exigências, na tentativa de excluir a diversidade e, assim, forjar a ideia da existência de um sujeito feminino estável, a errônea noção singular de identidade. Pois, como discute Butler (2003), o gênero nem sempre se constitui de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos e variáveis como modalidades racial, classista, étnica, sexual e religiosa quase sempre foram separadas propiciando a descontextualização da especificidade do feminino.
É justamente com a noção reducionista da contraposição masculino/feminino, construída pelos sistemas de poder, que o teatro de Hilda Hilst procura romper. O patriarcado universal, crença numa hegemonia masculina, em O Verdugo, inverte-se e desloca-se para as mãos da figura feminina que se apropria dos elementos que representam a força masculina para executar o que parece impossível para seu par. O texto hilstiniano corrobora, neste sentido, para o que o texto de Judith Butler (2003) parece apontar como a urgente necessidade para as teorias feministas: a construção da categoria de “mulheres” não mais como sujeito coerente e estável a partir desses elementos que apenas reificam questões de gênero e identidade.
O que se apreende no texto literário de Hilda Hilst é a própria desestabilização da ideia universal de sexo binário macho/fêmea uma vez que nele o próprio gênero se torna um “artifício flutuante” com a consequência de que homem e masculino podem, com igual facilidade, significar tanto um corpo feminino como um masculino, bem como o inverso, valendo-nos da expressão de Butler (2003). Ao constatar a circularidade existente nos estudos a respeito do gênero feminino, a pesquisadora nos oferece um panorama relevante sobre teóricas feministas que assumiram discordantes posições frente a esse debate, na genealogia histórica. Beauvoir, por exemplo, para quem o feminino institui-se como representação do Outro, já que o masculino primordialmente estaria ligado à noção de universalidade do gênero, problematiza ao tomar como ponto de partida a concepção de que a mulher repousaria no estigma de ser uma corporalidade renegada, projetada pelo sujeito abstrato da pessoa masculina.
No texto hilstiniano, a imagem da mulher em determinados momentos pode ser analisada sob a ótica da negação discutida por Beauvoir. Há momentos em que as personagens masculinas, como na peça O Verdugo, negam o potencial feminino. Apesar de incansavelmente procurar afirmar sua força e seu valor, a figura da mulher, no teatro de Hilda Hilst, sofre com a resistência masculina. Na peça em questão, temendo que o marido não cumpra as tarefas que garantirão melhorias nas condições miseráveis em que a família vive, a mulher assume uma posição de poder e declara aos juízes que ela mesma matará o condenado, no lugar do seu marido. Diante dessa surpreendente atitude, os representantes da lei imediatamente negam a mulher sua capacidade para realizar a façanha. Essa negação, no entanto, que inicialmente pode ser percebida na atitude dos homens que desacreditam na força da mulher e que de todas as maneiras tentam evitar a aceitação, termina, por fim, no consentimento mediante à incapacidade do masculino de concluir sua tarefa. Aceitação, esta, que marca a subversão do estigma de fragilidade e inferioridade da mulher que então passa a assumir um novo lugar dentro da escala de poder. Dessa forma, o corpo da mulher transforma-se no instrumento de libertação, conforme preconizado por Beauvoir, e deixa de ser apenas uma instância definidora e deformadora como é visto por correntes que atribuem ao masculino a concepção de Uno.
O corpo feminino, concebido como marcado perante o não-marcado masculino, passa a pelo processo de deslocamento em relação ao modelo falocêntrico e a ideia de Uno, atribuída sempre ao homem, no instante em que a personagem se apropria das vestes de seu marido e socialmente escancara sua não-diferencialidade, aparecerendo publicamente para executar o condenado com suas próprias mãos. Nota-se que o falocentrismo que, de acordo com Butler (2003), eclipsa o feminino passa em certo grau é subvertido no teatro de Hilda Hilst que des-cobre o lugar daquelas que representam o gênero indecidível para Jacques Derrida.
É importante ressaltar, no entanto, que quando se menciona o pensamento da desconstrução, a concepção de “falta” não surge imbuído de valor pejorativo. Diferentemente das teóricas feministas que associam esse “não ser algo” a uma apologia do falocentrismo, Derrida concebe a mulher como aquela que na condição de não-verdade carrega consigo a possibilidade de significação. De fato, a indecidibilidade que permeia o feminino significa a possibilidade de a mulher ser a verdade levando-se em conta que seu pensamento repousa na contradição de a não-verdade ser a verdade. Essa associação entre mulher e não-verdade de Derrida remonta à discussão sobre a oposição binária entre macho-fêmea. Em seu teatro, Hilda Hilst nos revela imagens de personagens femininas que indecidivelmente transitam entre feminilidade e masculinidade. Personagens que ao mesmo tempo apoderaram-se do logos falocêntrico e por outro lado situam-se no lugar de seres dominados e discriminados por uma estrutura representada pela Lei, que as subestima e insiste em enxergá-las a partir do senso comum.
A representação da mulher em O Verdugo de Hilda Hilst, bem como o pensamento de Derrida corroboram com a ideia de uma não instituição de lugares fixos de encarceramento da mulher. Logo, o que aparenta permear a escrita hilstiniana assim como a de Jacques Derrida, quando trazem à tona a questão feminina, parece não ser apenas a intenção de promover uma simples inversão de lugares. Não há fixação nem de identidades nem de lugares exatos em que as mulheres devam figurar, mas deslocamentos que consistem no reconhecimento do valor daquelas que historicamente estiveram rebaixadas. Parafraseando Rodrigues (2008), é como se em seus textos, Hilst e Derrida preferissem pensar a mulher a partir da marca do indecidível: nem feminista nem antifeminista. Ambos procuram situá-las em um novo âmbito que não o do mero verdadeiro/falso, numa tentativa de desorganizar essas oposições binárias cristalizadas, sem chegar a instituir uma solução. Buscam mostrar a mulher que não é nem um ser terrível e incomunicável como Deus, possuidora de divindade que reflete nela todas as graças da natureza e encanta a todos os homens, como Baudelaire a escreve, nem a militante que se propõe a buscar um lugar no alto da hierarquia social deixando o lugar de submissão na sedenta luta por sua instalação no lugar do poder falocêntrico.
É importante deixar claro que o esgotamento de discussões como esta, que elegem como foco de análise questões extensas como as inovações e deslocamentos na escrita de Hilda Hilst e a questão do feminino em sua literatura, é praticamente impossível.  Nosso objetivo principal, neste breve ensaio, era o de verificar de que forma a autora desloca sua escrita carregando sua dramaticidade afastando-se e recorrendo a novos ideais poéticos ao mesmo tempo em que constrói personagens femininas diferentes das usualmente vistas em nossa literatura.  Se em Gil Vicente, cuja maioria da obra compõe-se de autos, é pelo riso que se corrigem os costumes, Hilda Hilst surge no panorama da literatura dramatúrgica perturbando completamente a ideia do riso estampado na face da lei. Nas peças destacadas, personagens como o Trapezista, o Passarinheiro, o Verdugo e o “Homem” assassinados de forma cruel tornam-se ecos de uma voz autoral que pretende impedir o projeto opressor que a lei revela: “dar ao povo o que ele merece (…) resguardá-lo de toda e qualquer visão” (HILST, 2008, p. 226). Teatro de resistência, do silêncio ou político, independente das classificações que a ele sejam atribuídas, o que se assiste é a tentativa incessante de se pensar de outra maneira não só a questão da mulher, mas de alertar para a cegueira moral e “desmoitar” os coiotes adormecidos; para tanto, é que a voz de Hilda Hilst assume ares perseverantes de ruídos de metralhadora.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loiola. Trad. Maria de Santa Cruz. São Paulo: Martins Fontes, 1979. (coleção signos).
 
BUTLER, Judith P. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
 
DERRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. 2ª ed. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. São Paulo: Perspectiva, 1995. (Coleção Debates).
 
DUARTE, Eduardo Costa. “Hilda Hilst: a poética da agonia e do gozo.” In: Jornal de Poesia, Revista Agulha. ago. 2006, p. 01-19.
 
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 16. ed., 2005.
 
HILST, Hilda. “Auto da Barca de Camiri”.  In: PÉCORA, Alcir (Org.). Teatro Completo. São Paulo, 2008.
 
HILST, Hilda. “O Verdugo”. In: In: PÉCORA, Alcir (Org.). Teatro Completo. São Paulo, 2008.
 
POUND, Ezra. “O Artista Sério”. In: A Arte da Poesia. São Paulo: Editora Cultrix: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976. p. 57-76.
 
RODRIGUES, Eder. O Teatro Performático de Hilda Hilst. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2010. 173 p. (Dissertação de Mestrado em Letras).
 
RODRIGUESCarla. “Alianças e tensões: Desconstrução, feminino e feminismo”. In. Mente, Cérebro e Filosofia, ed. n.12. São Paulo: Duetto Editora, 2008.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

ESSA CLARICE… ALÉM DE MATAR, AINDA PEDE PERDÃO! – Andressa Mariano Gonçalez




A FIGURAÇÃO DO TEMA DA MORTE NA OBRA A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR

 

Andressa Mariano Gonçalez

Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

 
Resumo: Neste trabalho iremos fazer uma breve análise da obra A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, publicada em 1969, a fim de identificar como ela figura o tema da morte numa obra destinada ao público infantil. Para isso iremos levantar algumas características presentes nas suas obras, traçando um paralelo com as recorrências presentes tanto na sua literatura voltada para o público adulto quanto na sua literatura voltada para o público infantil, pois em ambas a violência, de um modo geral, está presente em todo o seu trabalho.
 
Palavras-chave: Clarice Lispector. Literatura infantil. Morte. Violência.
 
Abstract: In this paper we will present a brief analysis of A mulher que matou os peixes, by Clarice Lispector, published in 1969, in order to identify how the theme of death is configured out in a children’s book. We will point out some features in her works in order to establish a parallel between the stylistic recurrences that appear both in adult literature and in children’s, while considering the theme of violence pervasive in all of Lispetor’s works.
 
Keywords: Clarice Lispector. Literatura infantil. Death. Violence.
 
Minicurrículo: A autora é bacharel em Letras – com habilitação dupla em Português e Inglês – pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Atualmente cursa a Licenciatura nessa mesma habilitação dupla. Atua nas áreas de revisão de textos num projeto de pesquisa desenvolvido no Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e tem interesse nas relações entre literatura, sociedade e as outras artes.
 
 
 ESSA CLARICE… ALÉM DE MATAR, AINDA PEDE PERDÃO!
A FIGURAÇÃO DO TEMA DA MORTE NA OBRA A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR
 
Andressa Mariano Gonçalez
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)
 
 

  1. UMA TENTATIVA DE INTRODUÇÃO

 
É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências salvam-nos das grandes.
Clarice Lispector
 
A fortuna crítica clariciana é vastíssima. Não é de se surpreender já que Clarice Lispector é uma das maiores escritoras brasileiras. A quem goste de sua obra e também a quem não goste. É interessante observar que Clarice Lispector não é, por assim dizer, uma escritora muito “fácil”, tendo em vista a complexidade da sua linguagem, que é delineada por meio de uma escrita, aparentemente, simples. Talvez por isso a resistência por parte daqueles que não admiram o seu trabalho. A obra de Clarice desafia tanto os seus leitores quanto àqueles que se dedicaram a criticar sua grande contribuição à literatura brasileira. Característica esta que a torna, no nosso ponto de vista, muito mais interessante. Analisando suas obras infantis muitos podem dizer que sua literatura pode não ser, necessariamente, indicada para o público mirim. Tal argumento estaria baseado nos temas abordados pela autora, como no caso do tema da violência. Tema este que está presente em toda a sua obra, seja pelo tema em si ou mesmo por conta da sua linguagem transgressora. A maior diferença entre as obras destinadas para o público infantil em relação às obras destinadas para o público adulto se concentrariam na forma como Clarice conduz suas narrativas. Não analisaremos todas as suas obras para tal comparação, mas sim, faremos uma visita às características peculiares a sua estilística como representação da literatura dita adulta a fim de traçar um paralelo com as da literatura infantil presente na obra A mulher que matou os peixes. A pergunta que norteia tal análise reside em como a autora trata da questão da violência, para tentar entender o porquê da abordagem do tema da morte na sua literatura infantil.
 

  1. REVISITANDO CLARICE

 
Precisamos pensar a nossa língua. A palavra é, na verdade, um ideograma, língua que ainda borbulha, que precisa mais do presente que de qualquer tradição. Cada palavra nova é reflexo de novos aprofundamentos de uma consciência do mundo e de nós mesmos. Cada palavra abre pequenas liberdades, é uma violentação criativa.
Clarice Lispector
 
Nascida na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920, e registrada em Chechelnik com o nome judeu de Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice pertencia a uma família judia e com menos de um ano de idade vem para o Brasil com seus pais, que fugiam da perseguição dos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1921). Em solo brasileiro, passou a usar o nome de Clarice Lispector, e, adotando o Brasil como sua única pátria, considerava-se pernambucana. Sua família teria mudado para o Recife por volta dos anos de 1930, e aos 17 anos ela partiu para o Rio de Janeiro. Muitas de suas obras, inclusive, possuem um espaço bem delimitado, no caso, a cidade de Recife, que serviu de palco para muitas das suas narrativas nos momentos que rememorava fatos da sua infância – devido as fortes lembranças de quando ainda era uma menina. Assim, a obra de Clarice possui traços de cunho memorialista e autobiográfico. Além de escritora, também foi jornalista.
A obra clariciana é extensa. Ao longo de sua vida Clarice escreveu e publicou suas obras tanto no Brasil quanto no exterior. Foram romances, contos, crônicas, cartas e novelas. Traduções também fazem parte do seu trabalho. Sua literatura não está voltada somente para o público adulto, Clarice também se dedicou a literatura infantil, que é o objeto de maior interesse neste trabalho. Mesmo assim, revisitaremos um pouco sobre sua estilística, elencando alguns dos traços da obra clariciana de forma geral.
Clarice possui uma escrita deveras particular, devido as suas escolhas lexicais. O léxico é fácil, mas suas combinações são paradoxais. Se por um lado muitas vezes as ausências de palavras prejudicam a compreensão do seu texto, por outro, suas definições estão fora do que é considerado senso-comum, pois a junção de certos adjetivos e substantivos quebra a expectativa de simulacros pré-estabelecidos.
Outro diferencial em seu estilo reside no seu olhar, pois este está direcionado a questões rotineiras e cotidianas. Ao longo da narrativa é perceptível um movimento ascendente, pois essas questões vão ganhando uma amplitude e dimensões absurdas.  Vale ressaltar que esse movimento não constitui, em si, uma linearidade no texto. A palavra de ordem reside na ideia de efeito. Esta particularidade muitas vezes se dá através das experiências epifânicas vividas pelas suas personagens femininas. Estas são abruptamente tiradas de uma situação que anteriormente era de extrema normalidade para outra completamente transformadora. A realidade passa a não ser mais a mesma. É sempre uma sequência de construção seguida de desconstrução. Muitas são as mulheres na obra de Clarice, o que para alguns críticos sua obra não seria somente feminina, mas sim, feminista.
Outra característica peculiar ao olhar clariciano são as suas relações com os objetos. Muitas vezes seus narradores são considerados solitários, míopes. Nas palavras de Russotto (1989, p. 83), “Se trata de uma mirada que se detiene en lo pequeno, agigantándolo”. A autora possuía um grande interesse em desvendar os mistérios do outro. Seus romances são considerados de empatia, aproximação e contato. Os contos não fogem a essa regra. Suas relações se dão por um processo de aproximação, de reconhecimento e de fusão. Assim, muitas vezes o sujeito se funde com o objeto e vice e versa. Clarice tinha obsessão por tentar atingir o cerne das coisas.
Reversibilidade. A narrativa clariciana também é marcada pelas reversibilidades, ou seja, por jogos de opostos. Os jogos de contrários são sempre atuantes. Podemos apontar também a questão da repetição como sendo própria da sua narrativa. A repetição muitas vezes atua por meio de uma relação polifônica entre forma e experiência, constituindo assim uma função de cunho metalinguístico.
Questões relativas ao mal e a violência também estão fortemente representadas em suas narrativas, inclusive na sua literatura infantil, o que vem a nos interessar e que iremos discutir mais profundamente à frente. Os temas tratados por Clarice podem ser lidos sempre de forma atual por conta da ruptura entre as fronteiras do mundo real e do mundo fictício. É recorrente e característico notar que suas personagens, sempre vitimadas, são constituídas por jovens, crianças, e negros sempre pertencentes às classes desprivilegiadas. Os animais também fazem parte das suas narrativas. Todos estes seres que estão à margem da sociedade são expostos à violência. Além de sofrerem violência, também a praticam. Nem mesmo as crianças fogem a essa regra. O que percebemos é que na narrativa clariciana a naturalização e a banalização da violência são sempre negadas. Por isso sua narrativa é extremamente transgressora. Tudo em Clarice Lispector choca no sentido de confrontar o senso comum. O não dito passa a ser sempre nomeado. Suas narradoras, por exemplo, são famosas por estarem associadas às atividades clandestinas:
 
Como asociadas a una actividad clandestina, el ámbito de estas heroínas de la narración es la obscuridad, la simulación y el desvío (no olvidemos que succedere es etimológicamente “apartar” y desviar del camino). Y ese acto es asimilado a uma práctica escabrosa, de extraña conspiración y peligrosidad (RUSSOTTO, 1989, p. 85).
 
Para ser ainda mais pontual e precisa, Russotto  ainda diz:
 
Preservación, seducción, ignorancia, miseria, compasión. Son estas las imágenes de la mujer que narra, según la obra de Clarice Lispector. Imágenes de una transgresión asumida y sistemática. Transgresión que afecta tanto los códigos de la moral como los de la técnica literaria. Transgresión a nível de la historia y transgresión a nivel del discurso (RUSSOTTO, 1989, p. 93).
 
A ruptura com o senso comum e a transgressão presentes na sua obra – que vem apresentar um olhar de mundo estranhado, tendo em vista o distanciamento que temos para com este universo apresentado pela autora – são mediados pelo uso do recurso estilístico do grotesco, “as representações de grotesco no mundo moderno constituem a oposição mais ruidosa e evidente a toda espécie de racionalismo e a qualquer sistema de pensar” (SÁ, 2004, p. 99).
Aliás, como lembra Rosenbaum (1999, p. 3), a própria autora afirma,
 
Por que publicar o que não presta? Por que o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão (LISPECTOR).
 
Assim o grotesco é característico da sua obra. Rosenbaum denomina a obra de Clarice como uma narrativa rebelde e demoníaca:
 
(…) a literatura de Clarice não rejeita o grotesco, ao contrário, acolhe o que normalmente é monstruoso e obsceno, gerando horror, espanto e nojo. O leitor estremece e se desnorteia, frente a textos de tão crua realidade. Aliás, ela explicitou esse gosto pelo que desequilibra a ideia de beleza clássica, de totalidade harmônica, recusando toda representação literária organizada e arrumada (ROSENBAUM, 1999, p. 3).
 
Para definir o fazer linguagem clariciano, podemos dizer então que ele é marcado pela desconfiança. Sá lembra que essa desconfiança não seria de ordem teórica:
 
Sua ontologia da palavra, assim como sua metafísica (o ser) é empírica e vivenciada como escritura, exercício de vida, que ela alimenta de seu próprio sumo e que a realimenta, numa espécie de suplício de Tântalo. Sua “maiêutica” não é feita de um processo racional, para atingir uma verdade que preexista e só se precise encontrar, mas é uma maiêutica do fazer linguagem (SÁ, 2004, p. 234).
 
Olga de Sá afirma também que Clarice nunca havia gostado de dualismos do tipo fundo/forma, ou mesmo corpo/alma, transcendência/imanência ou matéria/ espírito. As possibilidades de uso das mesmas só seriam contempladas quando estas dilaceravam “seu desejo de unidade e totalidade” (SÁ, 2004, p. 234), já que a realidade é maior que a linguagem. Ainda diz que a autora teria vivido a agonia de escrever. Essa agonia ela não teria vivido sozinha, juntamente com o leitor, este também embarcaria nessa aventura, “empenhando ele também na maiêutica da escritura/leitura” (SÁ, 2004, p. 235):
 
Em Clarice, escrever era uma forma de compreender a própria vida. Não era a vida que a levava a compreender o escrever. Era escrevendo que ela se compreendia. A palavra para ela tinha a maior importância, porque exorcizava seus fantasmas. Seu leitor é sempre a mão que segura a sua, e isto sustenta a possibilidade de diálogo. A estrutura mínima de sua narrativa. Seu leitor não pode ser reduzido a um ouvido à escuta, mas tem de ser mão que tateia (SÁ, 2004, p. 235).
 
A palavra escrita para Clarice “passava a ser um instrumental da existência” (SÁ, 2004, p. 238), advinda da sua postura questionadora sobre o ato de escrever já que ela, a partir da escrita, se compreendia.
 

  1. CLARICE “PARA BAIXINHOS”: A MULHER QUE MATOU OS PEIXES

Foram quatro as obras publicadas para crianças. Seu primeiro trabalho foi O mistério do coelho pensante, publicado em 1967. No ano de 1969, A mulher que matou os peixes seria sua segunda obra. Alguns anos depois, no ano de 1974, Clarice publica A vida íntima de Laura. E por último, Quase de verdade, de 1978.
 
Matou. Matar. Matar. Matei. Matado. Morte. Morreram. Morrem. Morrer. Matá-la. Morrer. Mato. Morrer. Morre. Morreu. Matar. Mataria. Morta. Morrendo. Matou. Morte. Morte.  Matara. Morreu. Morte.
 
Se fôssemos organizar em um único parágrafo a recorrência do substantivo “morte”, bem como as diversas conjugações do verbo “morrer”, que aparecem ao longo da narrativa de A mulher que matou os peixes, seria esta a sequência transcrita acima. Inclusive, logo de início já temos apresentada, no primeiro parágrafo do texto, três destas ocorrências: “matou”, “matar”, “matar”. Fica evidente que Clarice não poupa de forma alguma o seu público infantil. Não poupa no sentido de não deixar de tratar sobre um assunto que pode não ser considerado próprio para crianças.
A morte é um fato inegável. Se formos pensar a respeito das verdades das quais o ser humano tem a plena certeza, a morte é a única delas. A única certeza que temos no mundo é a de que um dia iremos morrer. E a morte é a maior violência que podemos sofrer, já que ela anula toda a nossa existência enquanto ser. Sendo assim, a violência está impregnada nesta obra, seja por conta do tema ou mesmo pelas escolhas lexicais destacadas. Podemos afirmar ainda, que a violência não reside na morte em si, mas também no ato de matar. Cabe identificar como tal fato é apresentado para as crianças através desta narrativa.
Logo de início a narradora-personagem assume ter ela própria matado os peixes. Mas explica que havia cometido tal ato sem querer. Para conquistar a confiança do pequeno leitor, ela diz que era incapaz de fazer uma criança ou bicho sofrer. Ainda diz que seu coração era doce. Ela também age como uma criança, pois faz rodeios para contar de fato como se deu a morte dos peixinhos. Como toda criança inocente e que tem medo da represália por parte dos adultos, ela também admite não ter coragem para contar tudo de uma vez, mas promete que ao final do livro irá contar toda história. Enquanto o fim não chega, ela segue contando diversos causos para estreitar ainda mais a relação com seu leitor. Ela pretende criar uma cumplicidade com seus leitores, dizendo a eles que irá contar tudo em segredo, e somente eles irão saber tudo o que se passou – já que ela só confia nas crianças. Estas não seriam chatas como os adultos costumam ser. A narradora-personagem espera que assim, ao final do livro, ela seja perdoada.
A primeira história que ela conta é a da gatinha que faleceu em sua última ninhada. Diz que ficou muito triste por ela ter morrido, mas que, com o tempo, a febre que ela sentiu, em função da dor da perda, havia passado. Aqui ela já desmistifica a dor da morte. A morte já não seria tão ruim assim, pois com o tempo tudo passa.
Em certo momento se apresenta. Diz que se chama Clarice. Pergunta qual o nome do seu amiguinho leitor. Pede que ele diga seu nome bem baixinho, estabelecendo a confidencialidade entre eles. E o mais interessante é que ela diz que não haveria problemas em dizer baixinho, pois seu coração iria ouvir de qualquer forma. Desta forma a narradora-personagem já senta os leitores em seu colo e os aconchega.
E não para por aí. Ela diz que as crianças devem ser mais corajosas do que ela, ao admitir que ela tem medo de ratos. Desta forma ela acaba com a hierarquia estabelecida entre adultos e crianças. Ambos estão em pé de igualdade, tanto as crianças quanto os adultos possuem seus medos e ambos precisam ser respeitados.
Várias histórias vão sendo desenroladas ao longo da narrativa. Todas elas são protagonizadas por animais. Aparecem o coelho, o pato, os cachorros, o macaco e até mesmo as baratas. O que as historinhas têm em comum é que em certo momento os animais acabam morrendo. Não se trata da banalização da morte, mas sim, a retratação de um processo que é natural aos seres vivos. É interessante observar que em algumas situações as mortes são até desejadas. Ora porque ela não gosta de tal animal – como é o caso do rato do seu amiguinho e das baratas, que ela havia pagado para alguém exterminar. A morte também pode ser algo engraçado, como no caso das lagartixas. Estas ao terem seus corpos desmembrados, ainda articulam seus membros isoladamente. E por fim, retrata a morte também como algo necessário, como no caso dos mosquitos. Estes seriam comidos pelas lagartixas como sobremesas.
Para sustentar a confiança dos leitores ela sempre afirma que tudo o que conta é verdade. E sabendo que as crianças poderiam ficar tristes com tudo o que está sendo contado, ela também os aconselha como uma mãe que quer proteger seus filhos. A narradora-personagem também agradece por terem acreditado nela, pois ela não gosta de se passar por mentirosa. Ao final, cumpre sua promessa, contando de fato como matou seus peixinhos. O diálogo com os leitores é mantido a todo o momento. Ela questiona se ficaram com raiva dela, pede desculpas novamente, e finaliza pedindo perdão aos seus companheirinhos.
 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sensibilidade maternal. Assim podemos definir o olhar de Clarice Lispector para crianças. A narradora-personagem consegue criar uma relação de cumplicidade junto ao leitor por conta do clima aconchegante e acolhedor que ela figura na sua narrativa, através dos diálogos. Essa característica se repete ao longo da narrativa o que a constitui como recurso estilístico. A todo o momento o leitor se sente acolhido, e nunca sozinho, devido aos diálogos permanentes entre eles. O que podemos inferir após toda essa discussão é que enquanto o modo de narrar clariciano, voltado para o público adulto, tem por objetivo deslocar o leitor da sua zona de conforto a partir de um incômodo estranhamento, na literatura infantil temos justamente o contrário. O estilo sádico, como denomina Rosenbaum, que faz com que o leitor se sinta completamente frustrado, pois não encontra em Clarice uma leitura apaziguadora, mesmo quando ele se identifica com certas personagens, passa longe do seu público infantil. A semelhança entre elas é que muitas vezes o leitor se reconhece e caminha com essas personagens nas suas crises mais profundas. Mas enquanto na literatura dita adulta essa parceria não liberta o indivíduo de tamanhas turbulências, pois os leitores são lançados sempre em situações de inquietudes constantes, as quais constituem uma “marca incorrigível de uma narrativa essencialmente transgressora dos padrões estéticos estabelecidos” (ROSEMBAUM, 1999, p. 2), na literatura infantil esta sua particularidade narrativa vem preparar seus futuros leitores para uma futura turbulenta e desafiadora jornada, que será a própria vida, ou seja, na literatura infantil temos uma literatura de formação.
 
REFERÊNCIAS
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Bio fornecida pelo palestrante.

TOADA NORDESTINA: DISSONÂNCIAS DE VOZES FEMININAS NO REGIONALISMO BRASILEIRO – Michele Nascimento Kettner




 

Michele Nascimento Kettner

Montclair State University

 

Resumo: O presente trabalho pretende fazer uma análise comparativa dos personagens Macabéa, de A hora da estrela, de Clarice Lispector, e Conceição, do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz. Ele pretende analisar a função das personagens femininas no diálogo estabelecido por esses romances com a temática da seca e a tradição literária e cultural dela derivada. O diálogo entre esses livros com a tradição regionalista em nossa literatura abre questionamentos referentes não somente à invenção de uma região – segundo a teoria de Albuquerque Jr. –, mas também à criação de estereótipos homogeneizadores dessa literatura regional.
 
Abstract:  This paper intends to make a comparative analysis of the characters Macabéa, from Clarice Lispector’s novel A hora da estrela, and Conceição, from Rachel de Queiroz’ novel O Quinze. It aims to examine the role of these female characters in regards to the dialogue established by the two authors and the Regionalist novels that employ the theme of the drought in the Northeast of Brazil. The dialogue between these books with the regionalist tradition in Brazilian literature establishes discussions regarding not only “the invention of a region,”  according to Albuquerque Jr.’s proposal, but also the attempt to create homogenizing stereotypes of this regional literature.
 
Palavras-chave: Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Regionalismo.
 
Keywords: Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Regionalism.
 
Minicurrículo: Michele Nascimento Kettner é coordenadora do programa de português na Montclair State University, onde ministra disciplinas de língua portuguesa e literaturas lusófonas. Obteve o doutorado em Literaturas Hispânica e Luso-Brasileira no Graduate Center da CUNY (City University of New York). Em sua tese de doutorado investigou o tema do Regionalismo Transnacional e a Globalização na América Latina através da comparação das obras de Mario Vargas Llosa e de Milton Hatoum. Seus interesses de pesquisa incluem os temas de regionalismo, globalização, transnacionalismo e migração. Paralelamente a sua pesquisa sobre a literatura latino-americana, Nascimento Kettner foi coautora de um livro sobre música e cultura afro-brasileira, Maracatu de baque virado (2013).
 
 
 
TOADA NORDESTINA: DISSONÂNCIAS DE VOZES FEMININAS NO REGIONALISMO BRASILEIRO
 
Michele Nascimento Kettner
Montclair State University
 
Neste trabalho, serão trazidos à luz seca da temática nordestina os romances A hora da estrela e O Quinze, escritos por Clarice Lispector e Rachel de Queiroz, respectivamente. A análise comparativa destes romances centra-se na função estabelecida entre as personagens Macabéa de A hora da estrela e Conceição de O Quinze. Tratando-se de escritoras do gênero feminino, o trabalho pretende analisar como estas personagens femininas atuam dentro da tradição regionalista. A relação estabelecida entre estes livros com a tradição da literatura regionalista do nordeste brasileiro fomenta questionamentos que perpassam discussões sobre a invenção desta região, segundo Albuquerque Jr.[1], e a criação de estereótipos homogeneizadores no regionalismo.
O Quinze está situado dentro da tradição canônica regionalista. Este livro, publicado em 1930, tem por trama a história da grande seca de 1915 e mostra o tema do flagelo que entremeia o relacionamento amoroso entre Conceição e Vicente. Conceição, professora criada no sertão, torna-se uma advogada da causa dos retirantes. Rachel de Queiroz usa o espaço regional e seus símbolos para criar uma obra que pode ser considerada canônica e exemplar do chamado romance regionalista. Uma das grandes contribuições de Rachel de Queiroz para esse romance é sua própria existência como escritora. É notável a grande fascinação de autores contemporâneos de Queiroz, assim como de críticos, como Heloísa Buarque de Hollanda, sobre o fato de Rachel de Queiroz despontar como uma ‘escritora nordestina’ preocupada com o social.[2] Ângela Tamaru afirma categoricamente que:
 
Rachel de Queiroz não pode ser vista sob o mesmo prisma com que se veem os demais representantes do chamado romance nordestino, porque em suas obras, o fenômeno da região e dos homens aparece filtrado pelo olhar feminino que o atenua, delimitado pela formação característica da mulher da posição destacada no ambiente rural da cana e do gado (TAMARU, Ângela, 2006, p. 66).
 
Além disso, complementando o pensamento de Tamaru, é válido afirmar que a inovação da autora cearense se reflete na sua protagonista, Conceição. Esta personagem quebra o estereótipo da mulher nordestina que está fadada ao casamento e aos afazeres domésticos. Conceição, ainda que absorva o estereótipo da Virgem Maria/Nossa Senhora da Conceição em socorro dos retirantes nordestinos, é representada de maneira a exercer um papel ativo na sociedade e se destaca por sua inteligência.[3] Em O Quinze, Conceição é representada como a: “carinhosa inteligência (…) superior no meio de outras” (QUEIROZ, Rachel, 1957, p. 30). Ou, ainda, quando Queiroz a descreve como: “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, cria para seu uso ideias e preconceito próprios, às vezes largos, às vezes ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca de casa” (QUEIROZ, Rachel, 1957, p. 7). Maria de Lourdes Dias Leite Barbosa define a personagem dizendo: “Conceição talvez seja, das protagonistas de Rachel de Queiroz, a que mais demonstra preocupação intelectual, pois, além da leitura variada, escrevia poemas e um livro sobre pedagogia e, ainda citava Nordau e Renan” (BARBOSA, Maria de Lourdes, 1999, p. 35).
A inteligência que isola Conceição das outras mulheres nordestinas[4] é a mesma que a isola de Vicente, seu primo por quem se apaixona. A frustração de um final romântico entre Vicente e Conceição em O Quinze quebra esse estereótipo do feminino. Conceição, a normalista inteligente capaz de ler em diferentes línguas e com acesso à literatura universal e até teorias feministas, indaga a capacidade intelectual de Vicente. Rachel de Queiroz pôs em palavras e deu liberdade de ação à Conceição para escolher o seu próprio destino como ser pensante e até superior intelectualmente ao seu amado.[5] Courteau comenta que a introdução do personagem de Conceição faz parte do processo de feminização na literatura regional/nacional. Ao mesmo tempo em que Rachel de Queiroz se insere na tradição regional, a escritora promove uma mudança de perspectiva para esta tradição. Courteau afirma:
 
Nos romances O Quinze (1930), Caminho de Pedras (1937), e João Miguel (1932), Rachel desestabiliza o ideal de domesticidade borrando aquela imagem de mulher que foi desenvolvida com tanto cuidado no século XIX, mulher como o “anjo do lar”. Conceição, a heroína de O Quinze, ao não encontrar um homem que a merecesse, apesar do seu nome, rejeita o matrimônio e com este a conseguinte maternidade (…). Conceição torna-se mãe ao adotar Duquinha, filho dos retirantes da seca (COURTEAU, Joanna, 2001, p. 749-750).
 
Em O Quinze, Conceição oferece uma resistência social, e encontra sua independência e liberdade possibilitada pela educação. Sua liberdade social é afincada à realidade nordestina determinada pela seca e seu posicionamento dentro deste contexto.
Por sua vez, em A hora da estrela Macabéa parece situar-se num plano além do social. Ao fazer referência ao conceito de Sperber de resistência orgânica da personagem (em oposição a uma resistência social), Lídia Santos afirma a oposição explícita de Clarice Lispector à literatura realista.[6] Em verdade, mais do que uma oposição à tradição realista com a qual a obra dialoga constantemente, pode-se afirmar que o tema do outro é levado  para além da esfera humana como afirma a crítica feminista francesa Cixous:
 
Lispector cherishes a world that for us, for them, is tenderly and violently other. (…) In Clarice, the chain of the other the violently other, contains a terrifying beggar as well as a brigand, and the psychotic child as well as the cockroach. It is a universe quite removed from the human sphere (CIXOUS, Hélène, 1990, p. 144).
 
A realidade pesa em Lispector com uma intensidade que vai além dos desejos óbvios da mulher e do homem, e alcança um caráter metafísico. Como disse Giovanni Pontiero, Clarice Lispector:
 
(…) dismissed the idea that her narratives should have any predetermined form. Moments of insight and their repercussions were allowed to surface and flower as if by an act of nature. Fascinated by what others might consider worthless, incomplete, or simply awkward, Lispector drew inspiration from fleeting sensations, from some word overheard by chance, some trifle without substance or form. Her aim was to touch life rather than become entangled in mere description, and she could scarcely be more lucid in stating her preferences (…) (PONTIERO, Giovanni, 1995, p. 275).
 
De fato, A hora da estrela, publicado em 1977, representa uma mudança relevante em comparação com a obra anterior de Clarice Lispector e com a tradição literária brasileira. Ainda preocupada com os problemas interiores de suas personagens, Lispector adiciona a discussão sobre um dos temas mais crônicos da sociedade brasileira da época: a imigração de nordestinos para o sudeste do país. Este passo simboliza a entrada de Clarice Lispector na literatura regionalista. O diálogo entre esta obra e questões levantadas por esse tipo de literatura são cruciais para entender a postura da autora sobre a tradição.[7] Debra Castillo defende o envolvimento social de Lispector, considerado inexistente por muitos no início da sua carreira, com o seguinte depoimento da escritora:
 
Ever since I came to know myself, the social problem has been more important to me than any other issue: in Recife the black shanty towns were the first truth I ever encountered…tend to be straightforward in my approach to any social problem: I wanted ‘to do’ something, as if writing were not doing anything (CASTILLO, Debra 1992, p. 188).
 
Relacionando este depoimento à obra A hora da estrela, fica claro que escrever sobre a mulher nordestina para Lispector significou se envolver de forma a definir o conceito de Brasil e de sua sociedade.
A mulher nordestina representada no romance de Lispector por Macabéa difere bastante da Conceição de Queiroz, pois se em ambas a conotação social é forte, a representação de sua relação com a realidade difere. Embora as duas personagens sejam órfãs, o que as aproxima de certa forma, ainda há um grande hiato que separa as duas.[8] Enquanto Macabéa se mostra aparentemente alheia à realidade que a rodeia – somente escutando os pedaços de informação que vem da rádio-relógio – Conceição se constitui uma porta-voz para os retirantes da seca. Percebe-se que Macabéa de A hora da estrela não parece corresponder a nenhum estereótipo já trabalhado da mulher nordestina em específico (seja o da ‘mulher-macho’, da mulher mística, ou da submissa) embora na obra encontre-se carregada de estereótipos exacerbados nordestinos.[9]
Na verdade, este processo de exacerbação de estereótipos nordestinos a deixa sui generis, a isola e a singulariza. Clarice Lispector desmonta assim o estereótipo pela própria adoção de seu esquema em um processo de desconstrução. O processo desconstrutivo deste estereótipo é também demonstrado na cena em que Macabéa, isenta de uma cultura formal, foi capaz de sentir mais profundamente uma ópera de Donizetti.
Conceição e Macabéa, ambas nordestinas, distinguem-se mais que nada pelo processo de representação escolhido por suas autoras. Para ajudar a esclarecer o processo de escrita das duas autoras talvez o conceito de Cixous de ‘Realm of Proper’ e “Realm of Gift’ possa ser proveitoso. Sabe-se que, na concepção dessa crítica feminista, estes dois conceitos correspondem respectivamente ao modo de escrever masculino e ao modo de escrever feminino. O masculino seria o resultado do medo da castração, perda, separação e da visão do ato de doação como uma economia de troca. O feminino seria mais espontâneo, simbolizando a generosidade que não quer nada em troca e mais aberta para o diferente, para o ‘outro’. A concepção da diferença, de clara influência derridariana, é entendida por Cixous como uma outra bissexualidade, que seria múltipla e variável, e que fomenta e provoca diferenças. Assim, há uma grande preocupação em acabar com o binarismo masculino/feminino caracterizando a maneira feminina de escrever como ‘bissexual’.[10]
Levando em conta essa teoria, poder-se-ia situar O Quinze, de Raquel de Queiroz, como um livro que representaria uma escrita masculina. Utilizando a maneira de escrever fragmentada e realista masculina, Raquel de Queiroz transforma sua personagem Conceição em uma ativista pela causa da seca. Numa narrativa linear e de linguagem seca, a autora confere a Conceição valores do conhecimento ocidental da escrita e intelectualização. A isto se referiria Cixous ao dizer: “Casi todas las mujeres son así: hacen la literatura de otro –del hombre– y en su inocencia la defienden y le dan voz, creando obras que en realidad son masculinas” (MOI, Toril, 1995, p. 118).
Com as isenções que se merece dar à teoria feminista de Cixous[11], é bem verdade que, ao surgir no campo literário da escrita regionalista, Raquel de Queiroz foi louvada por possuir uma dicção que poderia se confundir com a de um homem. Vejamos as palavras de Graciliano Ramos, reproduzidas por Heloísa Buarque de Hollanda: “O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que a obra de José Américo, por ser livro de mulher. Seria realmente de mulher? Não acreditei. (…) Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado” (HOLLANDA, Heloísa, 2005, p. 15).
Obviamente isto sinaliza a descrença na qualidade de uma mulher escritora na época, mas também sinaliza o uso da “authorial voice” (LANSER, Susan, 1992, p. 15) de caráter legitimador da escrita. Em A hora da estrela, quanto à adoção de um narrador masculino, constata-se que: “Lispector exploits the idea that a male narrating subject would confer a greater degree of credibility and authority on her treatment of a theme more social in inclination that is usually found in her repertoire” (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 93).
Ao adotar um narrador masculino com consciência social, o recurso do “authorial voice” é usado por Clarice Lispector, porém de modo irônico e revelador.[12] O processo de metamorfose de Lispector em Rodrigo simboliza também a diferenciação de Lispector de sua própria literatura considerada sempre como literatura feminina. Utilizando uma escrita mais centralizada e linear em relação às suas outras obras, Lispector simboliza a maneira masculina de escrever principalmente nas descrições de suas atitudes e hábitos.[13]
A adoção do narrador masculino Rodrigo S.M. (iniciais para Sua Majestade, como bem observado por Lídia Santos), também traz à tona o questionamento sobre a capacidade do narrador masculino de perceber o ‘outro’. Segundo Sloan, “Lispector calls into question a masculine narrative strategy that sanctions textual and social practices that do not allow the ‘other’ to be recognized” (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 91). O escritor/narrador, segundo Sloan, é onipotente, mas não onisciente, pois a verdade que ele inventa, não a conhece inteira. Esta voz onipotente está sempre interrompendo o fluxo da história ao mesmo tempo em que desvela o seu poder de construção e destruição das personagens. Rodrigo diz: “Desculpai-me, mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido” (LISPECTOR, Clarice, 1999, p. 15).
A interrupção revela um narrador incapaz de esquecer-se de si mesmo e se enxergar no outro, voltando-se sempre a uma atitude egocêntrica. Neste jogo de gênero narratológico, a frustração da homogeneização e do controle do outro leva Rodrigo a matar Macabéa.[14] O clímax desse jogo de controle é o momento prévio à morte de Macabéa onde Rodrigo se embate com a impossibilidade de sair de uma marginalização e livrar-se do signo de escritura masculina.[15] Por isto, este livro, ao mesmo tempo em que afirma a escrita masculina com sua forma direta e cronológica (com começo, meio e gran finale), mostra uma fluidez de pensamento, constante uso de paradoxos, mistura de gêneros, técnica de cortes semelhante a de Joyce.[16] A apresentação de elementos técnicos diferentes levou Sloan a afirmar:
 
A hora da estrela, a text replete with contradiction, paradox, and inconsistency, can be read as a text that is wavering, attempting to become something that it is not, that it cannot be. It is a narrative that is unable to cross over from a masculine libidinal economy to a feminine economy and thus underscores Rodrigo’s frustrates attempts to forget himself and to identify, it protagonist and, by extension, between the artist and society (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 99).
 
Existe em A hora da estrela um processo labiríntico de perspectivas onde o leitor lê o livro sabendo que é a perspectiva de uma mulher sobre um homem. Cixous analisa os títulos opcionais do livro e observa que a assinatura de Clarice Lispector se interpõe como um “ou”. Lispector se desdobra no livro, se metamorfoseia em homem para falar de uma “quase-mulher”. Na dedicatória a autora deixa explícita sua identidade a título enfático: “Dedicatória do autor (Na verdade, Clarice Lispector)” (LISPECTOR, Clarice, 1999, p. 21). Assim Lispector expõe o uso artificial do narrador masculino mostrando a intencionalidade no seu projeto de expor a visão deste ‘tipo’ de narrador e seu olhar sobre o outro.
Lispector utiliza uma escrita que já se caracteriza como pós-moderna e denuncia um outro tipo de relação com o conhecimento criando uma personagem que é símbolo de alteridade e da construção de um conhecimento relativizado. Em A hora da estrela a relativização do conhecimento é representada pela própria construção da personagem Macabéa. A personagem vista sempre com comiseração pelo seu narrador, que se sente culpado por sua situação, é representada como uma ‘ignorante’ dentro de parâmetros do conhecimento ocidental. No entanto, Macabéa mostrou-se capaz de apreciar um produto de cultura alta e também de aprender a mentir para ter tempo livre. Assim, ao mesmo tempo em que Macabéa é descrita como desprovida de conhecimento, sua representação é frustrada pelos próprios fatos da obra. Lispector representa a Macabéa sem correspondê-la à razão ocidental.
Portanto, a frustração do narrador com o fato de não conseguir apreender a personagem pode ser entendido como uma afirmação da distância que há entre a sociedade de valores ocidentais e esse ‘outro’ inalcançável. O ‘outro’, mulher pobre nordestina, é inalcançável não somente para o narrador mas também para a própria autora. Esta perpassa o seu sentimento para o narrador e este para o leitor. Lispector não tenta ser a porta-voz de uma camada social explicitamente alheia a ela.[17] Através da técnica do narrador consegue passar credibilidade a um personagem que não é produto da sociedade diretamente, mas sim da percepção da sociedade de um tipo social corrente. Em A hora da estrela a representação do ‘não grito’ (um dos títulos opcionais do livro) do subalterno aparece sem pretensões de ser ‘verdadeira’, ‘original’ ou ‘homogenia’.[18]
Macabéa assim, de certa forma, nasce numa obra que tenta desomogeinizar a imagem de um representante da região Nordeste. O próprio nome Macabéa faz alusão a revolta dos Macabeus contra a tentativa de um processo de homogeneização/assimilação do povo judeu, desenhando assim um claro paralelismo com o homogeneização que sofre a região Nordeste do país.[19] Esta região, que segundo Albuquerque Jr. foi ‘inventada’, passou por um processo de dizibilidade para o qual escritores e intelectuais contribuíram. Sobre este processo, o historiador afirma: “O Espaço Nordestino vai sendo dotado de uma visibilidade e uma dizibilidade; desenhado por agrupamento de imagens rurais ou urbanas, (…) domadas em sua diversidade pelo trabalho integrativo de poetas e escritores (ALBUQUERQUE JR, Durval, 1999, p. 117).
O trabalho das duas escritoras difere com relação à maneira como elas trabalham com as personagens nordestinas dentro da perspectiva da tradição literária regional. Em O Quinze o espaço novelesco está situado no espaço natural da literatura regionalista: a história se passa no Logradouro[20] ou na fazenda em que Conceição passara toda sua infância.
Em O Quinze, se há uma quebra do estereótipo da mulher, pode-se ver que há bem marcada a visão determinista do clima como principal vetor na formação dos tipos humanos. Rachel de Queiroz muda um aspecto da visão da mulher nordestina; contudo o nordestino em O Quinze, e da região em si, ainda se encontra nas garras do estereótipo construído sobre esta parte da nação. Existe a presença de multidões não individualizadas e a visão idílica e de vitimização do personagem sertanejo. Sobre a formação do estereótipo, diz Bhabha:
 
O reconhecimento do estereótipo, como um modo ambivalente de conhecimento e poder, requer uma resposta política e teórica que desafia os modelos deterministas e funcionalistas da concepção do relacionamento entre discurso e política e perguntas relativas às posições dogmáticas e moralistas do significado da opressão e da discriminação. Minha leitura do discurso colonial sugere que o ponto de intervenção deve mudar da identificação de imagens como positivas ou negativas para uma compreensão dos processos de subjetividade tornados possíveis (e plausíveis) por meio de discurso estereotípico (BHABHA, Homi, 1991, p. 178).
 
Os processos de subjetividade de um discurso estereotipado precisam ser repensados através da análise dos processos de subjetividade expostos dentro do discurso e o reconhecimento do poder determinista. É verdade que Rachel de Queiroz inova no campo regionalista ao quebrar um estereótipo da mulher nordestina “do lar”. Porém, Queiroz agrega um outro estereótipo para este tipo de literatura que irá se repetir em suas obras posteriores. Rachel de Queiroz não necessariamente impõe uma análise reflexiva a respeito do papel do escritor na representação de imagens homogêneas do Nordeste. Segundo Benedict Anderson[21], a literatura e, por conseguinte, o escritor tem grande importância na construção imaginativa de uma comunidade. Percebe-se uma atitude consciente da escritora Clarice Lispector sobre o seu papel construtor do estereótipo nordestino. Na obra de Lispector parece haver uma reflexão sobre o tema dentro do palimpsesto de sua obra, pela qual ela resolve expor as camadas da construção de um discurso regionalista.
O cotejo de O Quinze com A hora da estrela permite perceber como a tradição canônica da literatura brasileira regional construiu estereótipos, homogeneizou regiões e criou mitos identitários em nossa literatura. Rachel de Queiroz emprega aquilo que Lanser chama de “authorial voice” como uma forma de dar mais prestígio a sua voz. Esta técnica lhe posiciona entre os melhores do regionalismo brasileiro e lhe permite tornar o caráter da mulher mais múltiplo nesta tradição. Este progresso ocorre às custas de um esvaziamento do tom feminino em suas obras.
Lispector vai aos bastidores desta construção literária nacional para mostrar a impossibilidade de um processo de homogeneização (Macabéa é bastante diferente de Olímpico e de outros tipos de nordestinas). Impossível é tentar abarcar a imagem de um povo ou nação e modelá-la em termos de uma grande massa, representativa de desejos, e expectativas e (pre)conceitos. Se valendo da técnica de um narrador masculino, Lispector avalia o processo masculino de escrita da literatura regional que nomeia e demarca identidades e regiões.
A avaliação das personagens nordestinas dentro deste contexto mostra como se desenvolveu a representação do feminino neste tipo de literatura. Isto remete a uma reavaliação da literatura regionalista como sendo uma literatura que, ao mesmo tempo, quis dar voz ao subalterno, não conseguiu mais que sinalizar simulacros de identidades.
 
 
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NOTAS AO TEXTO
 
[1] O Nordeste, segundo Albuquerque Jr. foi inventado a princípios do século passado como uma paisagem imaginária que substituiu a relação dicotômica norte-sul do Brasil. Seguindo a linha de Foucault, o autor afirma que o Nordeste é um discurso, um topos, mais do que um lugar.
[2] Em uma biografia de Rachel de Queiroz, Heloísa Buarque de Hollanda a escreve quase como um guia para entender/validar sua leitura. A crítica classifica Queiroz como proveniente deste clã de “matriarcas nordestinas” (12) e diz: “O Quinze trazia ainda consigo uma outra novidade não menos desafiadora: ser um livro escrito por uma mulher sobre uma mulher com claras preocupações sociais e autonomia de pensamento e ação.” (15) Há um certo fascínio sobre a escritora cearense que perpassa a crítica de Heloísa Buarque de Hollanda. Este é comum nas críticas feministas sobre escritoras, e também ocorre em Hélène Cixous ao falar sobre Clarice Lispector. Muitas vezes, em sua crítica, Cixous compara a vida das autoras e não de seus personagens, por considerar verdadeira esta relação especular “autora feminina/personagem feminino”.
[3] Em O Quinze, o narrador descreve o “retrato de Conceição, com ar pensativo, que pendia da parede junto do quadro do coração de Jesus.” (58)  Conceição se converte na cena em uma Virgem Maria “pensativa”. A obra também explora  este jogo de poder da Virgem Maria. Já na primeira página vê-se a frase: “Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria” (5) Deus está assim referido como esposo da Virgem Maria e prenuncia a mulher como figura central no livro.
[4] As outras mulheres da trama são retratadas como passivas. Esta passividade é representada por mulheres que se refugiam na religião ou choro: “Da janela da cozinha, as mulheres assistiam à cena. Chorava, silenciosamente…” (15). Por sua vez, Conceição anda sozinha pelas ruas (fato considerado não aceitável naquele contexto) e exerce um papel ativo na sociedade. A personagem vai de encontro aos padrões sociais que por vezes é representado na própria figura feminina da Mãe Nácia, sua avó. A mulher luta também contra o seu próprio sexo.
[5] Conceição indaga a capacidade intelectual de Vicente e vê que ele não se sente no mesmo nível intelectual de Conceição. Em O Quinze, a exploração do tema da mulher intelectual ou simplesmente superior intelectualmente ao homem vem constituir parte central da trama. O que fora sinalizado antes por Graciliano Ramos em Vidas secas, sobre a capacidade intelectual de Sinhá Vitória, na escrita feminina vem com mais força e ocorre uma exploração mais explícita do tema.  
[6] Lídia Santos chama a atenção para esta posição já na dedicatória do livro “E – e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também.” ( Dedicatória de A hora da estrela, 10).
[7] Nesta época, Guimarães Rosa, considerado por Antônio Cândido como o representante do supra-regionalismo, tomava a cena. Lispector se insere neste gênero da literatura brasileira imprimindo seu estilo interior de momentos epifânicos joycianos. Clarice Lispector criada no Nordeste volta o seu olhar para a região em que viveu seus primeiros anos de vida de forma introspectiva.
[8] Maria de Lourdes Barbosa avalia a orfandade como uma maneira de facilitar o processo de independência de Conceição. A orfandade para Macabéa poderia, então, ser vista como um processo que causa dor e que permite o autodescobrimento. É só depois que sua tia falece que Macabéa vai ao Rio de Janeiro e começa a ampliar o processo que existia do seu deslocamento no mundo.
[9] Lispector enfatiza o caráter de Macabéa como uma nordestina. Diferentemente de Olímpico, ao qual por vezes se refere como ‘paraibano’, Macabéa é sempre apontada como a nordestina, e não a ‘alagoana’.
[10] O conceito de escritura feminina em Cixous relaciona-se com o conceito de différance de Derrida, que se opõe ao conceito de estruturalista binário. A análise de Derrida baseia-se na produção de significado que implica uma crítica a toda tradição filosófica ocidental. Os textos femininos dentro deste conceito adaptado por Cixous vão contra a lógica falocêntrica. Porém, é importante destacar a afirmação de Cixous de que a escrita feminina não está necessariamente ligada ao sexo feminino. Segundo a teórica francesa, homens como Joyce, Lautréamont e Genet escrevem de maneira feminina, com fluência e espontaneidade. Mulheres também podem fazer-se valer de uma escrita masculina, caracterizada por uma narrativa mais convencional estruturalmente.
[11] A teoria de Cixous é contraditória, pois lida com a ênfase de Derrida no fato textual, e se distancia da interpretação de literatura como voz, presença e origem. A contradição se constitui pelo fato de ainda utilizar mitos e símbolos da mulher envolvidos no imaginário ocidental. Muito da escritura francesa, inclusive a feminista, parece assumir uma disjunção radical mais ontológica do que socialmente construída entre mente/masculino e corpo/feminino.
[12] Há uma parte da crítica que pensa que Lispector não usa a voz pessoal para evitar que a obra fosse percebida como autobiográfica. Para Sloan, “she wants to portray a mode of discourse that is unlike her own, one that incorporates the practices the phallogocentric discourse. (…) Rodrigo makes it clear he is attempting to write from a position of objectivity and emotional distance. (91)
[13] Rodrigo compara a escrita com a carpintaria. Esta é uma comparação de cunho bem masculino e diferente da comparação da escrita com as outras artes como tinha ocorrido em Água viva. Enquanto a descrição dos outros personagens demarca sua classe social, as descrições de Rodrigo enfatizam seu lado de escritor masculino.
[14] Rodrigo representa o mundo da razão, intelectualidade, imaginação, enquanto Macabéa age por instinto. Ela é o oposto de Rodrigo, uma datilógrafa que ironicamente não nenhum controle conceitual sobre a língua. No entanto, de certa forma, ambos Rodrigo e Macabéa são figuras marginais. Ele, por ser escritor, e ela, uma nordestina. Rodrigo diz que a classe média o despreza, a alta o olha como um monstro esquisito e que a baixa nunca vem até ele.
[15] A invenção do personagem cartomante Carlota seria uma outra forma de controlar a vida de Macabéa, embora seja mais uma tentativa frustrada. Rodrigo e madame Carlota não conseguem realizar seus intentos e apreender o destino de Macabéa.
[16] Clarice Lispector faz uso de vocabulário simples, mas utiliza técnicas de escrita complexas. Sobre o estilo de escrita de Lispector, comenta Fitz:  “Additional characteristics of her sentences have to do so with parataxis, that is, a writing style that strings together the members of a sentence without a clear explanation of their connection, and hypotaxis, a style in which the members of a sentence are clearly connected by conjunctions, clauses and subordinate clauses.” (43) Outra figura de linguagem muito usada por Lispector é o paradoxo. Seu trabalho assume uma orientação filosófica e lírica. Fitz acrescenta:  “as a poetical writer, however, Lispector turns these apparently contradictory couplings into oxymorons. (…) a conceit that allows a writer to verbalize the inconsistencies, contradictions, and complexities of the human condition at the same instant that he gives credence to the truth of their existence.” (51)
[17] Cixous diz que Clarice Lispector escreve um texto sobre a pobreza, mas o texto não é pobre. Assim, Clarice Lispector mostra que pobreza não é somente um fato mas sim também um conceito ou preconceito. A imagem estereotipada do que é pobreza é desmascarada por um texto denso. Lispector divide bem o que seria pobreza espiritual e pobreza material.
[18] A respeito do personagem Macabéa e a construção da personagem feita por Clarice Lispector, Fitz afirma que Lispector deparou com o mesmo problema de Graciliano Ramos ao trabalhar com um personagem desprovido de educação formal e sem consciência de conceitos intelectuais de linguagem. Analogamente a Graciliano Ramos, que através da secura e comedimento de linguagem, conseguiu representar esse ‘outro’, Lispector consegue-o através de seu narrador masculino. Lispector supera este empasse narratológico com a adoção do narrador masculino em oposição do pretenso narrador assexuado de Queiroz. A validade da representação de Conceição é baseada na relação especular ‘autora/personagem’.
[19] O nome de Macabéa muitas vezes é citado pela crítica como um referência à ascendência judia de Clarice Lispector e a adoção do sufixo “-éa “, tão popular nas camadas pobres do Brasil. É importante saber que Judas Macabeu foi protagonista de uma revolta contra o processo de assimilação helenística iniciado pelo imperador Natíoco IV Epifanes, que queria impor um sistema religioso em detrimento dos judeus. Em 164 a.C., Judas e seus homens conseguem tomar Jerusalém e se ver livres dessa imposição.
[20] Lugar perto de Quixadá onde Rachel de Queiroz costumava passar suas férias quando menina. Percebe-se que a autora também passou por esse processo de ida e volta da paisagem sertaneja.
[21] A definição de nação de Benedict Anderson parece bastante válida em paralelo ao conceito de regionalização, quando afirma: “In an anthropological spirit, then, I propose the following definition of the nation: it is an imagined political community – and imagined as both inherently limited and sovereign. It is imagined because the members of even the smallest nation will never know most of their fellow-members, meet them, or even hear of them, yet in the minds of each life the image of their communion.” (5)





Bio fornecida pelo palestrante.

ÚRSULA E A VERTENTE DO GÓTICO FEMININO NO BRASIL – Ana Paula A. dos Santos




 Ana Paula A. dos Santos

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 
Resumo: No presente trabalho pretendemos analisar de que forma a tradição feminina do gótico explorou a conflituosa relação entre as personagens mulheres e os seus antagonistas. Para tanto, propomos uma leitura de Úrsula (1859), romance da escritora brasileira Maria Firmina dos Reis, cujo enredo explora o abuso de poder e a opressão gerada pelas leis familiares, e tem, na figura do vilão gótico, um páter-famílias, a principal causa dos horrores da narrativa.
 
Palavras chave: gótico, gótico feminino, gótico brasileiro, Literatura Brasileira, Maria Firmina dos Reis.
 
Abstract: This paper aims to analyze in what ways the female Gothic tradition tapped into the conflicting relationships between female characters and their antagonists. To this end, we propose the reading of Úrsula (1859), a Brazilian novel written by Maria Firmina dos Reis, which exploits the abusive power and oppression caused by the family laws, represented by the figure of a Gothic villain, a pater familias who is the main source of the horrors depicted in this narrative.
 
Keywords: Gothic, female Gothic, Brazilian Gothic; Brazilian Literature, Maria Firmina dos Reis.
 
Minicurrículo: Ana Paula A. dos Santos é mestranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, bolsista da CAPES e membro do grupo de pesquisa “Estudos do gótico”, fomentado pelo CNPq. É orientanda do Prof. Dr. Júlio França e sua pesquisa se volta para esse tipo de ficção, mais especificamente para o gótico feminino e para as teorias que procuram compreender e analisar a relação existente entre a poética gótica e suas autoras.
 


 

ÚRSULA E A VERTENTE DO GÓTICO FEMININO NO BRASIL

 

Ana Paula A. dos Santos

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 
Introdução
Publicado em 1859 pela escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, Úrsula pode ser considerado o primeiro romance brasileiro de autoria feminina, e, também, nosso primeiro romance abolicionista (cf. LOBO, 2006, p. 193). Apesar de a obra carregar tão importantes epítetos, é curioso notar o quão pouco estudada ela foi pela nossa crítica e historiografia. O nome de Reis não consta nos nossos manuais de literatura e suas obras permaneceram por longo tempo longe de qualquer apreciação ou análise, a despeito do caráter original que ela possui em comparação a outros escritores contemporâneos à sua época de publicação.
Assim como Reis, outras escritoras tiveram seus nomes obliterados de nossa história. O fato é comentado por Lúcia Miguel Pereira: estudando a produção ficcional brasileira do período de 1870 a 1920, a historiógrafa nota que, “[e]mbora tivesse, ainda no século dezoito, tido em Margarita da Orta e Silva uma precursora, a ficção não conta entre nós, no período aqui estudado, muitas mulheres” (PEREIRA, 1988, p. 259). O levantamento feito por Pereira revela o nome de apenas doze escritoras. Dentre estas, um número ainda menor representa as mulheres cujas obras resistiram ao tempo e conseguiram chegar até nós. Diante destes dados, a historiógrafa alerta para a dificuldade em se estabelecer uma tradição feminina da Literatura Brasileira:
 
(…) temos que aceitar como definitivo o juízo dos contemporâneos, tácito no silêncio que se fez em torno da maioria dessas escritoras, registradas tão-somente por Sacramento Blake. E mesmo a uma ou outra lembrada pelos críticos do momento, como Adelina Lopes Vieira ou Gorgeta de Araújo, não se pode dar lugar na história (PEREIRA, 1988, p. 259).
 
No entanto, o conjunto de escritoras brasileiras vem sendo ampliado por conta do empenho que estudos literários mais recentes têm empregado em resgatar esta produção ficcional omitida por tanto tempo da nossa história. Grande parte deste empenho foi realizado pelos trabalhos filiados à linha de pesquisa “Mulher e Literatura”, ativa desde 1986 (cf. GAZOLLA, 1990; MUZART, 2008), que tem defendido a necessidade de se estabelecer uma tradição que contemple as obras de autoria feminina pertencentes à nossa literatura. Desde então, romancistas como Ana Luísa de Azevedo e Castro, Emília Freitas, Júlia Lopes de Almeida, e a própria Maria Firmina dos Reis, entre outras escritoras do século XIX e XX, passaram a despertar um maior interesse dos estudos literários brasileiros.
A crítica feminista encontrou nesta produção ficcional o que foi compreendido como uma resistência aos valores patriarcais que dominavam as regras sociais e morais. Afinal, dentre os assuntos mais frequentemente abordados nessas narrativas, nota-se o inconformismo em relação à opressão gerada pela estrutura familiar e social. Contudo, as análises não se restringiram aos estudos de cunho feminista. A exemplo, romances como A rainha do ignoto (1899), de Emília Freitas, passaram a receber a atenção dos estudiosos não apenas pelo seu caráter de denúncia das dificuldades enfrentadas pela mulher na sociedade, mas, também, pelos aspectos fantásticos e sobrenaturais presentes na obra.
Em verdade, muitas das obras que integram esta produção literária feminina demonstram uma proximidade com uma literatura menos preocupada em seguir convenções realistas e mais voltada para uma poética imaginativa, a saber, o gótico – em especial para a versão setecentista desta literatura, que tornou conhecidas as obras de escritoras inglesas como Clara Reeve, Sophia Lee, Anne Radcliffe e Charlotte Smith.
A pesquisadora Zahidé Muzart (cf. 2008, p. 299) mostra-se surpresa ao notar que, tal como ocorrera na Inglaterra do século XVIII, o gótico foi uma poética que atraiu sobremaneira as mulheres que se dedicaram a escrever romances. Já Maurício Cesar Menon (2007) elenca Ana Luísa de Azevedo e Castro, Maria Firmina dos Reis e Emília Freitas entre o conjunto de escritores que apresentam influxos góticos em suas obras, seja por meio da proximidade das duas primeiras escritoras com o gótico radclifeano, seja pelo clima fantasmagórico e pelos temas do duplo e do espiritismo presentes na obra desta última.
No que concerne a Maria Firmina dos Reis, Luiza Lobo é categórica ao afirmar que o gótico se mostra uma das características basilares da obra da escritora maranhense. Seja em seu romance, em sua poesia ou mesmo em seu diário, Reis apresenta uma tendência às formas e aos conteúdos pertencentes à poética gótica:
 
Úrsula, escrito no estilo de folhetim romântico, ao gosto de Paul et Virginie, de Bernardin de Saint-Pierre – que, aliás, MFR cita no início do capítulo 13 –, traz descrições de cenas lúgubres no cemitério, de desenganos amorosos e da loucura de Úrsula. (…) São cenas de um romantismo gótico e aguçado que se repetem em diversos poemas de MFR, assim como no Álbum (LOBO, 2006, p. 193).
 
Partindo de tais considerações, podemos afirmar que o romance de Reis se caracteriza como uma obra gótica em sua totalidade: em primeiro lugar, os cenários sombrios, lúgubres e melancólicos, palcos de situações trágicas, fazem as vezes de loci horribiles. Em Úrsula é a fazenda de Santa Cruz que assume tal função. O local parece corroborar com a proposição de Fernando Monteiro de Barros (2014), para quem as grandes propriedades latifundiárias, as fazendas, as casas-grandes são nossos equivalentes nacionais dos castelos e das magnificentes e aterrorizantes construções góticas, principais loci do gótico setecentista.
Em segundo lugar, na fazenda de Santa Cruz impera o poder de um senhor de terras cuja tirania iguala-se a dos vilões aristocratas que povoam a ficção gótica. O antagonista da obra, o Comendador Fernando P…, possui as características das personagens monstruosas destas narrativas, suas ações se configuram como transgressões morais e sexuais responsáveis por colocar em risco os demais personagens e causar o horror e medo. Tal personagem vilanesco permite à narrativa uma ampla abordagem de situações de violência e assédio, entre outras infrações sociais que visivelmente se sobressaem aos sentimentos virtuosos e edificantes presentes na obra.
Nestes termos, podemos concluir que o enredo se caracteriza por uma forma bastante desencantada de retratar a existência humana, que, acreditamos, seja uma das características fundamentais do gótico. Afinal, tal ficção não parece interessada em retratar a bondade ou a virtude, mas sim o confronto dos sentimentos positivos com o que há de mais sombrio, maligno e cruel em nossa sociedade.
O embate maniqueísta, entre virtude e vício, bem e mal, também foi uma temática privilegiada por duas formas literárias com as quais o gótico dividiu o contexto setecentista, o melodrama e o romance sentimental, gêneros que se valiam de elementos sensacionais e do pathos advindo de situações de perseguição e angústia para suscitar determinados efeitos de recepção em seus respectivos públicos. Porém, os dois gêneros traziam uma preocupação moral visivelmente mais marcante que a ficção gótica: neles, a virtude era recompensada e a vilania punida.
A aproximação com o melodrama e o romance sentimental fez surgir uma vertente do gótico literário visivelmente mais preocupada com questões moralizantes. Tal vertente encontrou respaldo em uma significativa produção ficcional de escritoras que buscaram acrescentar ao “tecido da vida cotidiana – matéria privilegiada do romance feminino – e ao viés sentimental uma dose de ingredientes góticos para satisfazer o gosto do público leitor” (VASCONCELOS, 2007, p. 118). Posteriormente, essa produção ficcional constituiu-se como uma tradição particular da ficção gótica, a saber, o gótico feminino. Podemos considerar, então, o romantismo da obra de Reis como herdeiro dessa tradição, e Úrsula como integrante da linhagem brasileira do gótico literário, mais especificamente da tradição do gótico feminino no Brasil.
 
A vertente feminina do gótico
Apesar de o gótico setecentista ser compreendido comumente como um conjunto de obras mais ou menos homogêneas, uma análise mais apurada da produção ficcional do período – que se inicia com a publicação de O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, e se estende até as primeiras décadas do século XIX – revela que as obras góticas possuem tantas semelhanças quanto possuem diferenças entre si (cf. PUNTER, 1996, p. 1). No que concerne às obras de autoria feminina, tais diferenças se mostram bastante significativas: o modo como as escritoras se utilizaram da poética gótica e os efeitos de recepção intencionados por suas narrativas originaram uma vertente particular desta ficção, o gótico feminino.
O termo, cunhado por Ellen Moers em 1976, deu margem a uma série de estudos guiados pelo objetivo de especificar as características narratológicas desta tradição do gótico, e, ao mesmo tempo, justificar a separação desta vertente de sua contraparte, o gótico masculino. Para Sandra M. Gilbert e Susan Gubar (cf. 1984, p. xi), a produção ficcional de autoria feminina compartilha entre si certas temáticas, como enredos de perseguição, a opressão da mulher por uma figura paterna, e, também, certas imagens de aprisionamento e clausura, motivo pelo qual seria possível constituir uma vertente do gótico literário propriamente feminina.
Tal como Zahidé Muzart, anteriormente citada, Gilbert e Gubar notam que uma parte considerável da literatura feminina apresenta certa propensão à utilização da poética gótica em suas narrativas. Para explicar esta tendência, devemos levar em conta o contexto de ingresso da mulher no mercado literário na Inglaterra setecentista, sobre o qual Virginia Woolf (cf. 1990, p. 84) tece importantes comentários. Woolf comenta que, à época, as mulheres passavam a maior parte do seu tempo restritas ao interior de suas casas, e, naturalmente, esse fato se reflete em suas obras: a ficção de autoria feminina tem no espaço doméstico o principal locus de suas narrativas, e nos sentimentos e relações pessoais os principais assuntos abordados por elas. Assim, seus romances apresentam frequentemente enredos que retratam o difícil cotidiano enfrentado pelas protagonistas para atender às expectativas sociais e adquirir uma posição social estável. Nem sempre, porém, os desfechos dessas apresentam finais felizes e o triunfo da bondade e da virtude – pelo contrário, a perseguição sexual e os problemas relativos ao âmbito doméstico são temas recorrentes nessas narrativas, revelando o lado mais sombrio do cotidiano da mulher em sociedade.
O gótico mostrou ser uma poética adequada para as escritoras retratarem, ficcionalmente, estes horrores próprios do universo feminino (cf. PUNTER & BYRON, 2004). A afinidade entre a poética e as temáticas deu origem a um viés do gótico literário, que, ao longo da história, explorou situações de horror e terror provenientes da experiência feminina. Nas palavras de Anne Williams (1995, p. 10, tradução nossa.), “[a] versão feminista do gótico (…) tem conscientizado os leitores das possíveis afinidades entre escritoras e uma literatura especializada no medo e nos segredos domésticos monstruosos”.
Nossa hipótese é de que Úrsula se insere nessa tradição ficcional, uma vez que essa narrativa tem como enredo a perseguição de uma jovem órfã por um vilão criminoso, violento e cruel, que não é outro senão seu próprio tio, obcecado em torná-la sua esposa. Ao longo do romance é notável que Reis se dedique a retratar o sofrimento feminino, sobretudo como forma de alertar para uma configuração de mundo em que o domínio de valores patriarcais frequentemente torna as mulheres vítimas da tirania masculina.
 
O páter-famílias como vilão gótico
Como procuramos defender, os problemas relativos ao âmbito familiar são os mais insistentemente retratados pelas escritoras da vertente feminina do gótico literário. Úrsula não foge a esta regra, afinal, é das relações familiares que surge a principal ameaça que colocará a protagonista de Maria Firmina dos Reis em perigo e fará dela uma damsel in distress – arquétipo comum nas obras góticas, encarnado em personagens jovens, inocentes, frágeis e virtuosas, ameaçadas pela malignidade e pelos desejos sádicos do vilão.
No gótico feminino, este vilão geralmente é a figura mais importante do espaço doméstico, o páter-famílias, um homem em posição de autoridade que deveria zelar pelas filhas, irmãs ou esposas, ou seja, pelas personagens femininas impotentes e desamparadas na configuração de mundo patriarcal. Essa figura de posição privilegiada no âmbito familiar é justamente quem vai subverter sua função e tornar-se a principal ameaça nas narrativas. Como Punter (1996, p. 52, tradução nossa.) ressalta, o universo retratado na vertente feminina do gótico corresponde a “um mundo no qual os homens, como protetores, passam quase naturalmente da gentileza ao estupro”.
Nesse sentido, o Comendador Fernando P…, antagonista de Úrsula e algoz da protagonista do romance, configura-se como um vilão desta vertente do gótico. Este é descrito por Menon (2007, p. 133) da seguinte forma:
 
De fato, a figuração desse vilão aproxima-se muito àquela esboçada pelo gótico. Vários dos elementos presentes no século XVIII, como a aristocracia, a tirania, a perseguição a parentes, a crueldade e a esperteza da personalidade encontram-se em Fernando P…; unem-se a isso, ainda, alguns elementos nacionais, como o fato de ele ser um senhor/torturador de escravos, as paragens brasileiras por onde se empreendem fugas e perseguições.
 
O vilão de dos Reis segue o perfil radclifeano de antagonista – cruel, sádico e misógino – ao qual foram adicionadas algumas particularidades dos vilões do gótico brasileiro. O comendador encontra-se em uma posição social privilegiada, protegido por leis institucionais que asseguram o seu domínio sobre as personagens femininas da narrativa. Além disso, assim como Montoni ou Schedoni, os respectivos vilões de Os mistérios de Udolpho (1791) e O Italiano (1797), ele será movido por uma emoção extrema: a paixão obsessiva e incestuosa que nutre pela sobrinha. Esse amor não correspondido será responsável pelos horrores da narrativa e pelo medo suscitado nas personagens e, consequentemente, nos leitores da obra.
Podemos considerar, então, que o principal antagonista de Úrsula se enquadra no arquétipo setecentista de vilão gótico. Da mesma forma, a protagonista também parece seguir o arquétipo de heroína gótica, que, nos termos de Réka Tóth (2010, p. 25, tradução nossa.), encontra-se quase sempre em uma posição “desamparada e desesperançosa diante das labirínticas perseguições do tirânico poder masculino”. Órfã de pai e, posteriormente, também de mãe, segundo as leis sociais Úrsula estaria sujeita ao domínio do Comendador, seu parente mais próximo. Porém, a protagonista não pode confiar a ele a função de páter-famílias, pois ele é uma ameaça para sua virtude e sua segurança, como demonstra o excerto abaixo, que descreve o primeiro encontro entre Úrsula e Fernando:
 
Esse homem não estava no verdor dos anos; mas sua fisionomia, suposto que severa e pouco simpática, nessa hora crepuscular, que dá certa sombra a toda a natureza, não denunciava a sua idade. A pele sem rugas, os olhos negros e cintilantes, tinham um quê de belo; mas que não atraía. Era de estatura acima da medíocre, esbelto, e bem conformado; e as feições finas davam-lhe um ar aristocrático, que, quando não atrai, sempre agrada.
Malgrado seu, Úrsula começou a sentir-se oprimida pelo olhar do desconhecido, a quem o seu deixava já de dominar, e caiu de novo sobre o assento entalhado no tronco. Era como se esse homem a tivesse magnetizado. A sua vista causava repugnância, queria escapar-lhe; mas as forças abandonavam-na e seus belos olhos cor de ébano estavam sobre ele fixos.
O terror, a desconfiança, a inquietação pintavam-se no rosto pálido e aflito, no olhar fixo e pasmado dessa pobre moça (REIS, 1988, p. 88-9).
 
Nesse primeiro encontro, Úrsula, que não sabe ainda que está diante de seu tio, percebe o perigo iminente que está correndo. É curioso notar que o personagem do comendador não é desprovido de atrativos físicos. Ele é descrito como belo e esbelto, suas feições são finas, aristocráticas. Portanto, à primeira vista, sua aparência não dá indícios de malignidade alguma. É seu olhar, como o de outros vilões góticos, a principal pista de seu verdadeiro caráter, ele hipnotiza e aterroriza a protagonista, causa-lhe desconfiança e medo.
Tais efeitos de terror serão gradativamente magnificados à medida que Fernando começa a perseguir a sobrinha e colocar a vida e a virtude da protagonista em risco. Úrsula passa a ser assombrada pela figura do tio:
 
Apareceu a noite rebuçada no seu manto de escuridão, e a donzela supôs encontrar o sossego nas trevas e no sono; mas trêmula e agitada no seu leito, invocava embalde o sono, que o fantasma se erguia mudo e impassível, e a sua mente alucinada dava-lhe movimento e voz, e ele blasfemava, e ameaçava, e sorria-se com sarcasmo. Os olhos chispavam fogo, e os lábios agitavam-se convulsos e os membros e o tronco pareciam cobertos de sangue.
E ela revolvia-se no leito, e o corpo tremia-lhe e o suor corria-lhe, e o peito opresso ofegava: era um pesadelo insuportável!!!!!!!!!!!!!!!!!! (REIS, 1988, p. 94)
 
Na cena, a descrição do comendador é feita de modo a potencializar os efeitos de horror na narrativa: ele aparece à noite, em meio às trevas, surgindo em meio a uma espécie de pesadelo em vigília experimentado por Úrsula. Sua forma é fantasmagórica, coberta de sangue, com lábios convulsos e olhos que chispam fogo. Em verdade, a passagem parece antecipar os horrores de que o comendador será capaz para tomar posse de Úrsula – como, por exemplo, assassinar friamente o noivo da sobrinha no dia do casamento. A violência da ação tem consequências fatais para Úrsula:
 
Um mar de sangue tingiu-lhe as mãos e os puros seios! Tinha os olhos fixos e pasmados sobre o doloroso espetáculo, e entretanto parecia nada ver; estava absorta em sua dor suprema, muda, e impassível em presença de tão monstruosa desgraça.
O seu sofrimento era horrível, e profundo, e o que se passava de amargo e pungente naquela alma cândida e meiga foi bastante para perturbar-lhe a razão (REIS, 1988, p. 147-8).
 
Novamente, Maria Firmino dos Reis vale-se de uma descrição expressiva para suscitar efeitos de horror: o sangue do noivo cobre as mãos e os seios da heroína, que, diante da horrível e monstruosa cena, perde a razão. Sob o domínio do tio, a personagem perecerá aos poucos. Febril, convulsa e louca, ela torna-se a encarnação física dos crimes do Comendador Fernando: “A presença dessa menina era um remorso vivo para o seu coração; seus olhos cerrados, seus lábios entreabertos, sua respiração ofegante pareciam repetir-lhe: – Assassino!” (REIS, 1988, p. 150).
Vale ressaltar que, mesmo no epílogo da obra as transgressões de Fernando não são, em momento algum, punidas pelas leis sociais. Apenas Úrsula parece agir como contraponto da malignidade do antagonista, denunciando, com o estado de loucura ao qual fora reduzida, a vilania do personagem e os atos malignos que ele cometera durante a narrativa.
Assim, ao mesmo tempo em que assume um ponto de visto empático em relação ao sofrimento de Úrsula, a narrativa de Maria Firmina dos Reis parece alertar, por meio do trágico final legado à personagem, quão ineficazes se mostram os seus esforços diante da extensão do poder vilanesco – poder este assegurado pelas instituições reguladoras das normas sociais.
Nesses termos, o romance de Reis coaduna com certa tendência das obras do gótico feminino em conferir desfechos nada otimistas às personagens femininas de suas obras. Acreditamos que este seja o meio pelo qual as escritoras desta tradição procuraram ressaltar a recorrência com que as mulheres tornavam-se vítimas de páter-famílias, cujo poder, infinitamente engenhoso na busca por seus demoníacos objetivos (cf. PUNTER, 1996, p. 9), mostra-se o verdadeiro causador dos perigos e dos horrores do universo feminino retratado neste viés do gótico literário.
 
 
Bibliografia
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Bio fornecida pelo palestrante.

MULHERES E SUAS REPRESENTAÇÕES: A IDEALIZAÇÃO DO FEMININO EM GEORGE SAND – Daiane Basílio de Oliveira




 

Daiane Basílio de Oliveira

Universidade Federal de Viçosa

 
Resumo: A literatura ocupa-se do social e liga-se diretamente a ele. O Romantismo apresentava a discussão sobre a realidade, na qual se inseria a mulher, naquela sociedade patriarcal. O romance Indiana, de George Sand, publicado em 1832, surge  como um dos inauguradores do discurso feminista na forma literária, evidenciando a situação da mulher, denunciando as opressões e rompendo com paradigmas da ideologia dominante. Aqui observaremos como esses aspectos se apresentam como traços presentes no caráter e na ação das mulheres nessa obra de modo a idealizá-las.
 
Palavras-chave: Literatura de autoria feminina, feminismo, mulher, George Sand.
Minicurrículo: Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Letras – Estudos Literários – pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com ingresso em 2015, Daiane Basílio de Oliveira é formada em Letras – Português/Francês (UFV, 2015), possui experiência na área de revisão de textos e no ensino de língua portuguesa, francesa e redação. Atualmente, desenvolve pesquisas no campo literário, sobretudo em literatura francesa e crítica feminista.
 
 
 
MULHERES E SUAS REPRESENTAÇÕES: A IDEALIZAÇÃO DO FEMININO EM GEORGE SAND
 
Daiane Basílio de Oliveira
Universidade Federal de Viçosa
 
Introdução
Até o século XIX, a representação da mulher nos cânones literários era marcada pela subserviência. Neste momento, começa-se a emergir a escrita literária feminina, que adentra os portões da arte, colocando em questão as circunstâncias sócio históricas nas quais as mulheres se encontravam.
Nos romances de autoria masculina, assim como no círculo literário, as mulheres ocupavam posição secundária. As personagens femininas se encontravam vinculadas a papéis social e culturalmente construídos, moldados às convenções patriarcais. Zolin (2009) menciona que além de tradicionalmente construídas, as personagens eram “submissas, dependentes, econômica e psicologicamente do homem”, o que muda ao ser retratadas nas obras literárias de autoria feminina, nas quais são “engendradas como conscientes de sua condição de inferioridade e como capazes de empreender mudanças em relação a esse estado de objetificação” (ZOLIN, 2009, p.222).
Neste contexto, em 1832, desponta a francesa George Sand com Indiana, seu primeiro romance, no qual a autora empreende com sensibilidade uma trama repleta de sentimentalismo, estruturada por meio de uma linguagem eloquente e realista, cujo pilar principal é a crítica à sociedade patriarcal, mais notoriamente à forma com que a mulher era tratada no matrimônio. “Romance dentro da história, romance de 1830, Indiana é muito mais que um romance de tese que denuncia a opressão das mulheres dentro do casamento” (BORDAS, 2004, p.147, tradução minha) ¹.
George Sand (1804-1874), pseudônimo masculino de Amandine-Aurore-Lucile Dupin, foi uma das principais representantes da literatura francesa do século XIX. Romancista, crítica e ensaísta, cumpriu um significante papel na vida política de sua época, sobretudo pela representatividade dos ideais feministas em seus romances. A autora é considerada uma das precursoras do movimento pela igualdade de gênero e emancipação feminina no meio artístico.
Nas palavras de Madame de Staël, “a arte é a expressão da sociedade”. Candido (2006) também articula que a estilização da linguagem está disposta para fins de representação, “a arte, e, portanto, a literatura, é uma transposição do real para o ilusório por meio de uma estilização formal, que propõe um tipo arbitrário de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos” (CANDIDO, 2000, p. 47). Concentrados nessas premissas, cabe-nos refletir sobre as conjunturas sócio-históricas como coeficientes deliberativos da produção literária, assíduos em Indiana. Assim, a proposta deste estudo do romance Indiana sob a perspectiva da crítica feminista é analisar a representação da mulher na sociedade de século XIX tendo em vista sua luta pela liberdade e capacidade de alcançar a emancipação.
 
Indiana, um romance de aprendizado: De mulher-objeto à mulher-sujeito
Inseridos no quadro de produção, a política e a história, elementos constitutivos do romance, oferece-nos a dimensão temporal e o contexto a que a autora prima referir-se, a fim de afirmar aquilo que se passava e como o extrato social acaba por sujeitar os indivíduos àquilo que lhe era de interesse, a exemplo das mulheres. Visto que a autora ocupa-se em discutir questões de ordem social, pode-se afirmar que o contexto político e histórico, na obra referidos, tende a incidir diretamente sobre o comportamento e caráter de cada personagem, ao mesmo tempo em que se torna, também, um dos objetos de crítica dentro da obra.
Antônio Candido (2006) reitera que a dimensão histórica e a construção artística coabitam em união dentro das obras literárias. Versando sobre o âmbito de Indiana, percebemos a expressão de uma época, do século XIX. Narrado com copioso realismo, a realização da escritora enseja alinhar os fatores estéticos e sociais na obra, em tal grau que o elemento social não se configura unicamente como um elemento exterior, mas “como referência que permite identificar, na matéria do livro, a expressão de uma certa época ou de uma sociedade determinada; nem como enquadramento, que permite situá-lo historicamente; mas como fator da própria construção artística” (CANDIDO, 1965, p. 7).
O modelo de estado na França do século XIX, viabilizava e atestava o primado masculino na sociedade. Neste cenário, a mulher era delineada como domesticada e subalterna. O papel das mulheres estava limitado ao círculo familiar, sua existência era totalmente atrelada aos representantes do sexo masculino. Hunt (1991) afirma que o pensamento da época engessava as mulheres em uma estrutura caracterizada por uma suposta debilidade intelectual, eram tidas como o inverso do homem, identificadas por sua sexualidade e corpo.
Faz-se presente, assim, a desconstrução das definições tipológicas das personagens femininas conforme os protocolos sociais e a universalização das experiências das mesmas, as quais, eram, anteriormente, esboçadas em perfis legitimados pelo modelo patriarcal, silenciadas na vida pública e privada e em estereótipos negativos e/ou inferiorizados. Passam a transitar com consciência do estado em que vivem, não sendo mais personagens secundárias, mas heroínas e idealizadas nos romances. Dessa forma, nos ateremos a discutir como são representadas duas das personagens centrais da obra, a protagonista, Indiana, e Laure de Nangy, esposa do amante da figura central, sob o olhar da mulher sobre a mulher, no desvencilhar da forma tradicional de representação do feminino.
A obra de Sand dedica-se a contar a história de Indiana, uma jovem que subsiste em um sistema que é repressor de sua individualidade. O prólogo sobre a protagonista se dá no tecer de sua relação com seu marido, retratada primariamente como “sua mulher” e não em sua identidade individual. Em uma autêntica descrição, apreende-se o propósito da autora em evidenciar a marginalização da mulher, ao passo que sua admissão social deve-se, diretamente, à figura masculina. Sua existência, assim como das demais mulheres da época, só é possível através do laço matrimonial.
Mas suas vagas e passageiras distrações não impediam que o Coronel, a cada tour de seu passeio, lançasse um olhar lúcido e profundo sobre os dois companheiros de sua velhice silenciosa, reportando de um a outro esse olhar atento que cobria há três anos um tesouro frágil e precioso, sua esposa. Pois sua esposa tinha dezenove anos, e si você tivesse a visto afundada sob o manto dessa vasta chaminé de mármore branco com cobre dourado; se você a tivesse visto, toda franzina, toda pálida, toda triste, o cotovelo apoiado sobre o joelho, ela toda jovem, em meio a esse lugar antigo, ao lado de seu velho marido, semelhante a uma flor nascida ontem que cresce em um vaso gótico (…) (SAND, 1991, p. 8-9, tradução minha).2
 
A beleza, juventude e fragilidade de Indiana são enaltecidas em primeiro nível, todavia, contemplamos em seu silêncio o tédio e a angústia. Criada por um pai violento e bizarro, jamais conhecera a alegria e afeição por parte de outra pessoa para consigo. Apesar do isolamento e da dependência, Indiana é descrita como alguém que possui uma resistência de ferro contra tudo que escopa oprimi-la e uma bondade para com aqueles que necessitam (SAND, 1991). A exposição feita sobre a figura central da obra, tende à percepção da exaltação da mulher, enquanto negligenciada na vida doméstica, mas que discorda do estado de tutela a que está sujeita.
– Eu sei que sou sua escrava e você o meu senhor. A lei desse país vos faz meu dono. Você pode comandar meu corpo, prender minhas mãos, governar minhas ações. Você possui o direito do mais forte, e a sociedade confirma isso; mas sobre minha vontade, senhor, você não pode nada, somente Deus pode a curvar e reduzir. Procure uma lei, um calabouço, um instrumento de suplício que vos dê poder sobre mim! (…) Você pode me impor o silêncio, mas não pode me impedir de pensar (SAND, 1991, p. 221, tradução minha).3
 
De acordo com Zolin (2009), as obras canônicas, em grande parte, representavam a mulher sob a ótica dos estereótipos culturais, a mulher sedutora e imoral, a megera, a indefesa e incapaz, a mulher como anjo, e outras diversas definições. “A representação da mulher como incapaz e impotente subjaz uma conotação positiva; a independência feminina vislumbrada na megera e na adúltera remete à rejeição e à antipatia” (ZOLIN, 2009, p.226). Embora a obra edifique o estereótipo do homem mais velho, educado e experiente em detrimento da mulher mais jovem, inocente e ignorante, a representação da mulher no romance de George Sand subverte os princípios da ideologia dominante, lançando a figura feminina em um contexto que desmascara as opressões e que lhe atribui superioridade.
Na primeira fase da narrativa, contemplamos uma Indiana, totalmente envolta em um contexto que lhe impunha passividade. No entanto, essa imagem transita no sentido emancipatório da personagem. Indiana é a personificação da mulher como ser social lançada ao silenciamento, é ela a porta voz de um discurso contestador, é por meio dela que se denuncia a condição das mulheres no lar e no meio público, pois ela é a tipificação da mulher do século XIX.
A forma com que a mulher é tratada na sociedade é apenas o alargamento daquilo que ocorre no âmbito doméstico. O que ocorre neste meio privado é ilustrado pelo narrador como prisão que condiciona a mulher à solidão e à obediência cega. Trata-se da insistência do patriarcado em manter a mulher em uma posição subalterna, condição essa que Indiana reconhecia e experienciava, pois era impedida de agir fora dos limites posto sobre si.
Desposando Delmare, ela apenas trocou de dono, vindo morar em Nagny, apenas trocou de prisão e de solidão. Ela não amava seu marido, pela única razão talvez que fazia amá-lo um dever e resistir mentalmente à toda espécie de limitação social havia se tornado para ela uma segunda natureza, um princípio de conduta, uma lei do consciente. Não haviam procurado prescrever à ela outra coisa a não ser a obediência cega (SAND, 1991, p. 79-80, tradução minha). 4
 
Indiana é uma mulher que não teve opções a seguir, reveladora da vida privada, estava limitada ao ambiente doméstico e à reflexão dos indivíduos que estão alheios à história. É por meio de Indiana que se conta a impossibilidade da participação pública e da identidade histórica e política. “Ela havia sido ensinada por Sir Ralph, o qual havia uma opinião medíocre quanto à inteligência e raciocínio das mulheres (…). Ela sabia somente a história resumida do mundo e toda dissertação séria a sobrecarregava de tédio” (SAND, 1991, p. 235-236, tradução minha)5. Nela, percebemos a mulher que envolta em um contexto que não lhe sugeria outra coisa senão a passividade, quebra com o mesmo através do adultério, o qual alude ao rompimento com o sistema de leis e à queda da moral. Ela não consegue uma fuga física imediata, mas impugna seu matrimônio pelo viés do adultério.
No ideal sandiano, a idealização dos personagens tem muito em comum com a política, Indiana é um tipo, é a mulher carregada de paixões suprimidas pelas leis e moral, com sentimentos e desejos que almejam romper com os limites da civilização. É por esse fato que a protagonista é ímpar na obra, em meio a várias figuras femininas, vemos Indiana como sendo a mais nobre de todas, apesar das limitações sociais, lembrando-nos do que Beauvoir (1980, p. 224) diz sobre a ingenuidade do homem “quando imagina que submeterá facilmente a mulher às suas vontades e a ‘formatará’ como quiser”.
É possível engendrar que o nome Indiana tem seu significado inserido no campo dos desejos e realizações que se encontram na liberdade do sujeito, no viver sem rótulos e demandas sociais. Indiana remete à desconstrução, à alteridade, à autonomia, à descolonização da mente e do corpo, representa a transição do estado de tutela à existência autêntica, pois a mesma, no fim da obra; depois de diversos acontecimentos que incluem o engano do amante, a violência física e simbólica sofrida em seu matrimônio, a morte de seu esposo e uma tentativa de suicídio; retorna à sua terra natal, ilha de Bourbon, colônia da França, e passa a viver distante da civilização em uma existência autentica e libertadora.
De acordo com Zolin (2009), as obras canônicas encarnavam a mulher em meio a repetições de estereótipos culturais, a mulher sedutora e imoral, a megera, a indefesa e incapaz, a mulher como anjo, e outras diversas definições. “A representação da mulher como incapaz e impotente subjaz uma conotação positiva; a independência feminina vislumbrada na megera e na adúltera remete à rejeição e à antipatia” (ZOLIN, 2009, p.226).  A representação da mulher na obra de George Sand subverte os princípios da ideologia dominante, lançando a figura feminina em um contexto que desmascara as opressões e que lhe atribui superioridade.
Se pode afirmar-se que há anacronismo na obra de Sand, este se apresenta claramente na figura de Laure de Nagny, esposa de Raymon, a qual é a única dentro do romance que se contrapõe à máquina de opressão misógina, subvertendo o modelo matrimonial e a relação amorosa imposta. Para ela, o casamento é uma necessidade social e a felicidade ilusão. Repleta de bom senso, conhecimento do mundo em que vive, é uma mulher moderna, consciente histórico e politicamente. Segundo Bordas, “Laure de Nagny é a mulher do século, mulher que reúne consciência histórica e política” (BORDAS, 2004, p.43, tradução minha),6 é a possibilidade de ser no mundo, aquela que é independente financeiramente e livre, de certa forma, da opressão masculina, de modo a guiar ao seu bel prazer sua existência, ainda que tenha que responder às convenções sociais.
Menos generosa que Mme Delmare, mas mais inteligente, fria e lisonjeira, orgulhosa e prevenida, era a mulher que devia subjugar Raymon; pois ela era superior nas habilidades que ele mesmo havia tido com Indiana. Ela havia compreendido bem que a cobiça de seu admirador era mais sobre sua fortuna do que por ela. Mlle de Nangy estava resolvida a sofrer o casamento como uma necessidade social; mas ela sentia prazer de usar essa liberdade que lhe pertencia ainda, e fazer com que o homem que aspirava tirá-la sentir sua autoridade. […] Para ela, a vida era um cálculo estóico, e a felicidade uma ilusão pueril, da qual é necessário de defender como de uma febre e do ridículo (SAND, 1991, p. 445-446, tradução minha).7
 
De acordo com Bourdieu (1998), o corpo é o meio pelo qual nos identificamos desde o nosso nascimento e é onde estão inscritos todos os significados e informações sociais e culturais. É neste ponto que podemos considerar a marca da sujeição e submissão inscritas também no corpo feminino, visto que o romance trata do drama da mulher cuja sociedade onde se encontra produz sobre ela significações que se supõem coerentes com o seu gênero, trata-se do corpo que sofre pelo enfraquecimento e dominação que, segundo Foucault (1988) é o gesto essencial e repressor da história.
As personagens femininas de Sand compreendem essa marca cultural que constitui as referências às suas identidades; no entanto, dessas mulheres emana um discurso interior e inábil que escopa subverter a ordem dominante. O discurso dessas mulheres, que são as porta-vozes da autora, buscam romper com as práticas reguladoras imposta ao corpo pelo poder.
Estamos diante de identidades dispares e deslocadas conforme o senso comum, as personagens aqui analisadas são mulheres abastadas, embora esse status deduza maior acesso ao capital cultural, pondera-se a conjuntura de que o jugo social recaía sobre todas as representantes do sexo feminino.
 
Considerações finais       
As relações de poder entre os sexos são preeminentes nos textos literários canônicos. Considerando-se que essas correspondências são concatenadas em conformidade com a orientação política e do poder, para Zolin (2009: 328) “a crítica literária feminista (…) trabalha no sentido de interferir na ordem social. Trata-se de um modo de ler a literatura de modo confessadamente empenhado, voltado para a desconstrução do caráter discriminatório das ideologias de gênero, construídas, ao longo do tempo, pela cultura.” Dessa forma, a escrita literária feminista transcorre o campo de reivindicações e construção da identidade da mulher como sujeito de sua existência, em uma vivência marcada pela luta pela liberdade e igualdade, assim como os movimentos feministas   desde sua primeira onda.
Com o olhar da mulher sobre a mulher, George Sand traça sua crítica à sociedade patriarcal, colocando suas personagens em um contexto que explana a situação de submissão em que vivia, ao mesmo tempo que arquiteta perfis de mulheres conscientes e combativas, diferenciando-as daquelas retratadas anteriormente. As posturas delineadas em Indiana são contra ideológicas, posto que se colocam em oposição à máquina misógina do poder, representando a história da mulher silenciada e outremizada no meio patriarcal a qual rompe com o normatização imposta ao seu corpo e com as estruturas sociais, apoiando-se na descolonização de seu corpo e subjetividade.
 
Notas ao Texto
¹ Roman dans l’histoire, roman de 1830, Indiana est bien autre chose qu’un roman à thèse dénonçant l’oppression des femmes dans le mariage (BORDAS, 2004, p.147).
² Mais ces vagues et passagères distractions n’empêchaient pas que le colonel, à chaque tour de sa promenade, ne jetât un regard lucide et profond sur les deux compagnons de sa veillée silencieuse, reportant de l’un à l’autre cet œil attentif qui couvait depuis trois ans un trésor fragile et précieux, sa femme. Car sa femme avait dix-neuf ans, et, si vous l’eussiez vue enfoncée sous le manteau de cette vaste cheminée de marbre blanc incrusté de cuivre doré ; si vous l’eussiez vue, toute fluette, toute pâle, toute triste, le coude appuyé sur son genou, elle toute jeune, au milieu de ce vieux ménage, à côté de ce vieux mari, semblable à une fleur née d’hier qu’on fait éclore dans un vase gothique, vous eussiez plaint la femme du colonel Delmare, et peut-être le colonel plus encore que sa femme (SAND, 1991, p. 8-9).
3Je sais que je suis l’esclave et vous le seigneur. La loi de ce pays vous a fait mon maître. Vous pouvez lier mon corps, garotter mes mains, gouverner mes actions. Vous avez le droit du plus fort, et la société vous le confirme ; mais sur ma volonté, monsieur, vous ne pouvez rien, Dieu seul peut la courber et la réduire. Cherchez donc une loi, un cachot, un instrument de supplice qui vous donne prise sur moi! (…) Vous pouvez m’imposer silence, mais non m’empêcher de penser (SAND, 1832, p.221).
4 En épousant Delmare, elle ne fit que changer de maître ; en venant habiter le Lagny, que changer de prison et de solitude. Elle n’aima pas son mari, par la seule raison peut-être qu’on lui faisait un devoir de l’aimer, et que résister mentalement à toute espèce de contrainte morale était devenu chez elle une seconde nature, un principe de conduite, une loi de conscience. On n’avait point cherché à lui en prescrire d’autre que celle de l’obéissance aveugle (SAND, 1991, p.79-80).
5 Elle avait été élevée par sir Ralph, qui avait une médiocre opinion de l’intelligence et du raisonnement chez les femmes […]. Elle savait donc à peine l’histoire abrégée du monde, et toute dissertation sérieuse l’accablait d’ennui (SAND, 1832, p.235-236).
6 Laure de Nangy est la femme du siècle, femme qui réunit conscience historique et sens politique (BORDAS, 2004, p.43).
7 Moins généreuse que Mme Delmare, mais plus adroite, froide et flatteuse, orgueilleuse et prévenante, c’était la femme qui devait subjuguer Raymon ; car elle lui était aussi supérieure en habileté qu’il l’avait été lui-même à Indiana. Elle eut bientôt compris que les convoitises de son admirateur étaient bien autant pour sa fortune que pour elle. Sa raisonnable imagination n’avait rien espéré de mieux en fait d’hommages ; elle avait trop de bon sens, trop de connaissance du monde actuel pour avoir rêvé l’amour à côté de deux. Mlle de Nangy était donc bien résolue à subir le mariage comme une nécessité sociale ; mais elle se faisait un malin plaisir d’user de cette liberté qui lui appartenait encore, et de faire sentir quelque temps son autorité à l’homme qui aspirait à la lui ôter. Point de jeunesse, point de doux rêves, point d’avenir brillant et menteur pour cette jeune fille condamnée à subir toutes les misères de la fortune. Pour elle, la vie était un calcul stoïque, et le bonheur une illusion puérile, dont il fallait se défendre comme d’une faiblesse et du ridicule (SAND, 1991, p. 445-446).
 
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Bio fornecida pelo palestrante.

A ESCRITA FEMININA LATINO-AMERICANA CONTEMPORÂNEA: EL PAÍS DE LAS MUJERES, DE GIOCONDA BELLI, E A FEMINIZAÇÃO POLÍTICA – Amanda da Silva Oliveira




A ESCRITA FEMININA LATINO-AMERICANA CONTEMPORÂNEA: EL PAÍS DE LAS MUJERES, DE GIOCONDA BELLI, E A FEMINIZAÇÃO POLÍTICA [1]

 Amanda da Silva Oliveira

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)

 
Resumo: A partir da pesquisa desenvolvida para a dissertação de mestrado, a análise do texto El país de las mujeres, de Gioconda Belli, representa a construção social do poder feminino na sociedade nicaraguense, evidenciando justamente as características que estereotipam as mulheres como destacados elementos de crítica. Com base no pensamento de habitus, de Pierre Bourdieu, o objetivo do trabalho é a análise interpretativa da sociedade por meio da representação literária, e a significação do texto enquanto utopia social para bandeiras de mundos possíveis.
Palavras-chave: literatura latino-americana; Pierre Bourdieu; poder; gênero.
Resumen: A partir de la pesquisa desarrollada para la disertación de máster, el análisis del texto El país de las mujeres, de Gioconda Belli, representa la construcción social del poder femenino en la sociedad nicaragüense, evidenciando justamente las características que estereotipan las mujeres como destacados elementos de crítica. Con base en el pensamiento de habitus, de Pierre Bourdieu, el objetivo del trabajo es el análisis interpretativo de la sociedad por medio de la representación literaria, y la significación del texto como utopía social para banderas de mundos posibles.
Palabras clave: literatura latinoamericana; Pierre Bourdieu; poder; género.
Minicurrículo: Graduada em Letras Português/Espanhol pela Universidade Feevale, é mestra em Teoria da Literatura pela PUCRS e doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS. Cursa também Ciências Sociais na UFRGS. Atualmente, realiza pesquisa sobre o espaço na literatura feminina latino-americana contemporânea, sob orientação da Profa. Dra. Maria Eunice Moreira.
 
A ESCRITA FEMININA LATINO-AMERICANA CONTEMPORÂNEA: EL PAÍS DE LAS MUJERES, DE GIOCONDA BELLI, E A FEMINIZAÇÃO POLÍTICA
Amanda da Silva Oliveira
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
 
 
“Devemos tomar consciência de nosso poder, mas até agora na América Latina não o tomamos de forma como eu recebi minha feminilidade, que foi como um poder”.
(Gioconda Belli)
 
A voz relacionada ao gênero muitas vezes é definida sinonimamente como feminina, como se, de alguma forma, a necessidade de expressão do termo pudesse abarcar toda a atmosfera discriminatória da história. A possibilidade de considerar questões relativas ao social com certa naturalidade pode revelar a tendência cultural da relativização, sem, no entanto, encararmos o problema que por traz se esconde. Em um estudo sobre a “dominação
 
masculina”[2], Pierre Bourdieu afirma justamente essa ideia, ao expressar que a sociedade, através da dominação masculina, é levada a tornar como autêntico e inato os caracteres de diferenciação biológica dos seres masculino e feminino, de forma a evidenciar
 
certa valorização do primeiro em detrimento do segundo, e que a História dos grandes homens e dos grandes feitos corrobora para essas validades sociais.
Através de uma violência simbólica dos atos dos indivíduos, que reforçam os caracteres de força, hombridade e virilidade – todos adjetivos atribuídos aos homens –, somos levados a crer no predomínio masculino como organizador dos contextos sociais nos quais interagimos, e que a qualidade feminina deve ser não só evitada, como excluída:
 
A força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe-se como neutra e não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem à legitimá-la. A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior desta, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos (BOURDIEU, 2005, p. 18).
 
Na justificada opressão masculina de que ela é neutra e superior a qualquer outro discurso que a negue ou a ponha em cheque, a violência simbólica, portanto, inicia-se na naturalização das diferenças pela premissa biológica dos corpos, sendo, assim, a legitimação masculina
 
dominantemente aceita em processo saudável, válida e socialmente aceita. Pela lógica de sentido do habitus[3], a mulher, como inverso do homem, é vista como vazia – recebe a semente, a fertilização – e superficial – preocupação com a aparência
 
e com os detalhes –, sensível – dores, tensões, menstruação/menopausa, calores e dores de cabeça – e emotiva – choro, carinho, necessidade de afeto –, características sociais que a discriminam em relação à força de caráter, racionalismo e domínio, traços considerados tipicamente masculinos, tendo a relação sexual o maior exemplo da dominação pelo homem dos atos que regem a vida cotidiana, além de ser o canal central de todas as referências de domínio masculino/inferioridade feminina.
À medida que se estabelecem as relações sociais de dominação, através da construção naturalizada de suas ordens simbólicas de sentido, o habitus define-se no princípio dominante masculino e percebe-se o mundo através desse princípio. É nessa lógica que se organiza o conceito de violência simbólica: a dominação masculina, encontrando todas as condições para seu pleno exercício, possui primazia universal, afirmando-se na “objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e social” (BOURDIEU, 2005, p. 45), o que conferiria aos homens a melhor parte. Para Bourdieu, o habitus, “moldados por tais condições, portanto objetivamente concordes, eles funcionam como matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade, como transcendentais históricos” (BOURDIEU, 2005, p. 45), que, “sendo universalmente partilhados, impõem-se a cada agente como transcendentes” (BOURDIEU, 2005, p. 45).
É no uso das categorias dominantes pelo dominado que este intensifica e naturaliza o poder social delas, fazendo com que a violência simbólica seja aplicável e aplicada. Esse tipo de violência se constitui pela “adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante” (BOURDIEU, 2005, p. 47), quando o indivíduo não a pensa e a segue como classificação natural do ser no mundo. Dessa forma, o domínio é totalmente regido pelos padrões aceitos e regrados pela ótica capitalista (no sentido das elites) e masculina (no sentido da violência simbólica e o gênero) de dominantes sobre dominados, na estrutura social que encontramos nas sociedades tidas como modernas.
Lógicas de sentido se pautam em domínios para sua existência, e são essas relações que estabelecem os símbolos de poder, nos quais os governos se utilizam para organizar socialmente os espaços e os territórios. Através do sentimento de pertencimento, as relações se constituem segundo estratagemas sociais conscientemente pensados e difundidos de modo a serem aceitos inconscientemente e de forma natural em nosso meio. Há que se destacar que só a crítica a esses espaços simbólicos podem trazer à tona essas matizes de organização social, para passar a perceber as posições não mais como simplesmente naturalizadas, mas como poderosamente impostas.
 
A escrita feminina: o rompimento dos campos de poder masculinos.
Gioconda Belli desempenha, nesse sentido, duplamente, o papel de representação da mulher e de sua visibilidade em espaços de poder, tanto em suas personagens quanto na sua própria postura como ativista política. Afiliou-se ao movimento sandinista na década de 1970 (Frente Sandinista de Liberación Nacional – FSLN), opondo-se à ditadura de Anastasio Somoza. Ainda como organização clandestina, o FSLN tinha como principal objetivo a derrocada da ditadura somocista, e Belli foi, dentre as ações de correio clandestino, transportadora de armas e divulgadora da proposta sandinista, membro da comissão político-diplomática do partido. Após a Revolução Nicaraguense, de 1979, ocupou vários cargos políticos no governo sandinista, mas largou tudo em prol da literatura, em 1986. Mesmo assim, a luta política por uma Nicarágua mais justa não a abandonou; pelo contrário, apenas dirigiu-se para o viés do engajamento literário.
Belli diz que há muito por fazer pela sua Nicarágua, pois, se não o fazemos, deixamos nossa responsabilidade para as futuras gerações. Para ela, há que feminizar
 
a política[4], trazer o felicismo para a sociedade, e desfazer-se do governo arcaico e
 
masculino que sempre tivemos. Sua posição é muito próxima da ideologia de El país de las Mujeres que, apesar de revolucionário e sarcástico, representa para ela uma vitória do sentido feminino frente à dominação masculina na política. Mas não é só: para a autora, seu livro é uma mostra de que as mudanças ocorrem segundo ações pequenas no próprio cotidiano, e que esse deveria ser um indício de como mudar efetivamente na vida real.
A própria referência de vida na obra e nas escritas criacionais de Gioconda Belli não são frutos do acaso. Nos anos 80, ela fez parte do grupo Partido de la Izquierda Erótica (PIE), junto com outras mulheres, nome esse baseado em um livro de poemas de Ana María Rodas, que buscava na força do feminino as motivações para as mudanças sociais que naquele contexto revelavam ser necessárias. É esse o partido que ressurge no romance de Belli aqui em questão, o que familiariza o autor com a luta engajada cuja responsabilidade a própria autora atribui a si e sua literatura.
A autora defende que a luta da mulher por um lugar no mundo deva ser feita “com unhas e dentes”, pois acredita que “há uma carga emocional muito grande, há uma dose de sofrimento bastante grande no fato de ser mulher”. Além do grande problema de assumir seu próprio corpo, nós, as mulheres, para a autora, temos que “tomar consciência de nosso poder, mas até agora na América Latina não o tomamos de forma como eu recebi minha feminilidade, que
foi como um poder”[5].
 
Nesse campo de sentido, a autora evidencia o habitus distinto feminino e entrega-se à luta por uma realidade melhor a seu país. É através da palavra que a formulação de uma realidade possível, ainda que utópica, pode surgir e significar, apesar de a realidade da obra não condizer com a própria realidade de seu país, e o capital simbólico produzido pela obra de Belli corresponde a um caminho, estreito, de liberdade feminina, mas que ainda sim se sustém em função de que é parte de uma cultura, a literatura, e que ela possibilita o envolvimento dos leitores e a crença à ideia através do ato de ler. Gioconda, portanto, estabelece o sentido da literatura como valor simbólico de uma possibilidade da realidade social cuja realização a própria autora busca em sua vida. Ela mesma diz que há uma crise da imaginação, e pensar nisso corrobora a tese de uma realidade material e superficial, em que as relações emocionais dão espaço ao instantâneo e ao espaço virtual. Vivemos presos às tecnologias, e já o espaço de sonhar se desfez em meio às necessidades do vencer o tempo em nosso cotidiano.
Mais que um espaço de interação, o ativismo político de Belli dá espaço a que muitas mulheres, principalmente de seu país, possam falar sobre seus traumas e angústias, além de
 
refletir sobre as questões de nosso tempo. A Nicarágua, segundo Isabel Soto Mayedo[6],
 
“foi o sétimo país do continente – depois do México, Costa Rica, Guatemala, Chile, El Salvador e Peru – em definir e condenar os crimes contra a violência à mulher”, em todas suas expressões (físicas, psicológicas, sexuais e trabalhistas). Através da aprovação da Lei nº 779, em 21 de junho de 2012, o número de denúncias de abusos contra as nicaraguenses aumentaram muito. No primeiro ano, “sete mil e quinhentos homens foram acusados por maus tratos – segundo a Corte Suprema de Justiça -, o que supõe o aumento da confiança das mulheres para denunciar seus agressores, uma vez que sabem que têm respaldo legal”. Além disso, a partir da entrada em vigor da referida Lei, pôde ser possível “conhecer com mais clareza a quantidade de assassinatos cometidos contra as mulheres, quase sempre por seus companheiros masculinos, apegados ao conceito machista de que elas devem ser subordinadas a eles em todos os aspectos”.
Motivada pelas inúmeras ideias de como seria um mundo em que as mulheres não fossem subjugadas, Belli percebe que quiçá as ações não seriam difíceis de serem mudadas: são os pensamentos sociais de uma consciência coletiva de dominação organizacional e política que devemos desestruturar e que, se isto não muda, seguiremos acreditando que nossas particularidades biológicas sigam sendo desvantagens de interação e sucesso social.
 
El país de las mujeres: a literatura como utopía social
Viviana Sanzón é a nova Presidente de Fáguas. Viúva, mãe de uma filha, foi eleita por voto popular, junto com as amigas, que, juntas, fundaram o Partido de la Izquierda Erótica, termo recuperado da organização de mulheres que desejavam melhor condições de vida para todos, nos anos 1980. A conquista dessas mulheres pelo governo de seu país confere um caráter novo na realidade deste, e se deve ao fato de Viviana, apresentadora de um famoso programa de TV, passar a denunciar as ações corruptivas e abusivas dos envolvidos nos anteriores governos. Quando elas sobem ao poder, Viviana e as amigas, Martina Meléndez, Eva Salvatierra, Ifigênia Porta e Rebeca de los Ríos, passam a inverter toda a ordem de domínio masculino pelo feminino: todos os cargos do governo, de ministérios à polícia local, passam a ser chefiados por mulheres.
Os homens, afetados por um desvio hormonal de testosterona, passam a ter que chefiar as atividades domésticas, como casa e filhos, e suas mulheres, liderando os cargos que antes eram puramente masculinos, passam a atuar na vida pública. O caos social se instala: os homens passam a ter medo dessa nova atitude adotada pelas suas mulheres, mas não podem fazer nada em virtude das sensações despertadas pelos baixos índices de testosterona, que explicam ser uma alteração relacionada à erupção do vulcão da cidade. Com a premissa de “cuidar do país”, elas passam a gerenciar os cargos públicos da mesma forma que cuidavam da casa e dos filhos.
É claro que nem todos se mantiveram contentes com essas mudanças todas no governo, e a oposição encontrou espaço de atuação, de forma violenta e na obscuridade. A Presidenta Viviana sofre um atentado, e é internada em coma. Em flashback, o leitor sabe da história do atentado pelo depoimento da testemunha, José de la Aritmética, vendedor de sorvete que tenta salvar a Presidenta, e pelas cenas posteriores ao atentado, quando as amigas passam a tentar chefiar o governo na falta de Viviana, que se encontra em coma no hospital da cidade. Num relato, em primeira pessoa, a voz inconsciente de Viviana, internada no hospital, que rememoramos a história dessas mulheres, até o ponto do atentado.
Com a descoberta de que o atentado foi de responsabilidade da oposição, a Presidenta se salva, mas fica com a bala alojada no crânio. Decide, então, abrir mão da liderança do país, pois não acreditava que, naquele estado, apesar de bem de saúde, podia representar seu país. No entanto, a população pede seu retorno, pois acreditam que essa sequela apenas reforçaria seu desejo de mudança pelo país, e que seguiria lutando pelos direitos de todos. Através do pedido popular, Viviana volta ao poder e segue, ao lado das amigas, seu ideal de melhoria social.
A narrativa de Belli se destaca pelas relações sobre o público e o privado, na dualidade entre esses dois espaços e a reflexão crítica que identifica o pensamento apresentado como feminista. A compreensão dessas duas esferas revela as diferentes implicações que esta fronteira imaginária significa para homens e mulheres. Segundo definiu Carole Pateman (1988), a obra corresponderia a uma exposição “da história não contada da construção da esfera pública e dos direitos individuais na modernidade a partir da posição das mulheres” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 14). Segundo Miguel e Biroli, a esfera pública corresponderia à política, como se o espaço doméstico não o fosse, negando-se, dessa forma, as relações de poder da vida cotidiana, familiar, reduzindo o valor e o poder para “fora de casa”, e “a esfera pública estaria baseada em princípios universais, na razão e na impessoalidade, ao passo que a esfera privada abrigaria as relações de caráter pessoal e íntimo” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 15).
Estando as mulheres no ambiente doméstico, estariam elas reduzidas a uma domesticidade, no seio da casa e da família, dando caráter naturalizado de status a uma posição de comportamento e de papel social. Para os autores, “a preservação da esfera privada relativamente à intervenção do Estado e mesmo às normas e valores vigentes na esfera pública, significou, em larga medida, a preservação de relações de autoridade que limitaram a autonomia das mulheres” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 15). Como “rainha do lar”, a mulher torna-se o ser sinônimo de regência da sistemática do espaço privado, “cujos princípios da justiça não se aplicariam, já que nas relações sociais predominaria o afeto” (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 15), o que de certo modo inviabiliza seu papel social dissociável de vida pública. Nesse sentido, não só o homem passa a ter domínio sobre o espaço público, como também é dotado de livre circulação entre os dois espaços. Miguel e Biroli acrescentam:
 
Não há sociedade justa na qual as relações na família sejam estruturalmente injustas; a democracia requer relações igualitárias em todas as esferas da vida, incluída a familiar. Nesse caso, o compromisso com a universalidade como ideal normativo significa um compromisso com a universalidade como ideal normativo com uma sociedade na qual o fato de se ser mulher ou homem não determine o grau de autonomia e as vantagens/desvantagens dos indivíduos ao longo da vida. O universal opõe-se, assim, ao arbitrário e a uma sociedade que supere o gênero é considerada um ideal adequado para o feminismo (MIGUEL; BIROLI, 2013, p. 17).
 
Em El país de las mujeres, a cidade fictícia Fáguas serve de espaço geográfico para um governo organizado, liderado e comandando por mulheres. Nesse sentido, a atmosfera literária está marcada pelo rompimento dos paradigmas socialmente imposto pelas mulheres, através da ótica de conquista do espaço pelo reforço do estereótipo.
Após o atentado contra a presidenta, Viviana Sanzón, temos conhecimento, através do processo de rememoração dela num espaço chamado galpão, um entre-lugar entre vida e morte, espaço que sua alma estaria enquanto o corpo encontrava-se em coma no hospital local, do processo de conquista eleitoral do PIE, que explorou, justamente, os estereótipos femininos para renovação da política, num processo de feminização na administração governamental.
A partir da valorização das próprias características que recebem as mulheres como definidoras de seus perfis, ou o lado feminino, a serem desqualificadas socialmente frente à política, ou às decisões e cargos que têm por argumento serem masculinos por conta das características testosterônicas, o manifesto explora justamente esses elementos como o processo de renovação política e organização social através da feminização, menos pelo fato de ser por uma mulher, mas, e principalmente por serem essas características as mais direcionadas ao governo justo e voltado ao cuidado para/com os cidadãos. A ideia do felicismo como proposta política indica exatamente o que Miguel e Biroli definiram como a premissa da característica de julgamento das mulheres como diferenciadoras e benéficas em relação à realizada por homens.
Nesse sentido, Gioconda Belli evidencia seu posicionamento político de escritora, mas, principalmente, de representatividade social de cidadã. Ao abordar na obra todos os estereótipos femininos como o próprio processo de autonomia das mulheres, ela busca exatamente os poderes políticos há muito desejados pelas mulheres. Longe de uma igualdade de gênero, o que ela busca é justamente a valorização das ações e características das mulheres, desenvolvidas no espaço privado, para a área pública dos contextos, sendo as questões relativas à democracia da mulher por ser mulher, e não na afirmação das vantagens masculinas de dominação. A mulher, nesse aspecto, não necessitaria ser homem para ser ouvida, mas apenas utilizar-se das artimanhas das quais foram sempre consideradas elementos opressores. Mais do que igualdade, o que Belli proporciona na obra é a manutenção dos perfis femininos de forma critica e participativa socialmente.
A perspectiva da obra é a construção de um espaço fictício para a renovação e o surgimento de um novo mundo possível, dentro da negação do habitus dominante masculino que há socialmente consolidado e aceito como correto. Na violência simbólica feminina e na sua subalternidade, a mulher, ou a proposta feminina de negação ao masculino, coloca-se como um entre-lugar do que historicamente sempre significou e as possibilidades de mudança frente aos contextos opressores. A cultura valorizaria, nessa obra, o posicionamento feminino, abrindo caminho para a discussão dos elementos que outrora significavam a carga de violência simbólica tratada a/pelas mulheres.
O governo de Fáguas, liderado por uma mulher, passou a exercer mudanças significativas e efetivas na vida de todos. Através das ações políticas adotadas por Viviana e as outras companheiras de governo, a primeira ideia foi a de colaborar com a formação cidadã do povo. Na ação dos “cuidadãos”, “cuja maior inovação foi usar o feminino para o geral e introduzir o conceito de ‘cuidadania’” (BELLI, 2010, p. 37), homens e mulheres tornaram-se agentes da prática de cidadania, ideia essa “pega emprestada” de um grupo de feministas espanholas. Por outro lado, a educação formal também passou a ser mais destinada à formação do sujeito cidadão. Nessa nova didática, defendida pela ministra da educação espanhola, que chegou a fazer um discurso público na cidade sobre a nova proposta, “as crianças de até doze anos estudavam nas escolinhas dos bairros”. (p. 47). “Aprendiam a ler e escrever e, no restante do tempo, faziam o que mais gostavam, qualquer matéria” (p. 48):
 
Além das disciplinas como gramática e ciências, tinham aulas de “maternidade”, fossem homens ou mulheres. Os homens saíam doutores em trocar fraldas, pôr para arrotar, dar colo e cuidar das crianças. Ensinavam-lhes que não tinham que bater nos filhos e um monte dessas coisas de psicólogos. Não era má ideia (BELLI, 2010, p. 48).
 
Engajada no discurso feminista de nosso tempo, a proposta de campanha e de governo de Viviana é quebrar o paradigma da visão política, mas também social da mulher, justamente através do reforço do estereótipo feminino de cuidadora, mãe e dona de casa. Nessa premissa, não é só a ideia de exploração do âmbito privado na vida pública de um país, mas no reforço de que são as atividades das internas, que se configuram pela valorização do afeto e das relações humanas, que evidenciaria a mudança nos contextos sociais racionais para contextos mais amigáveis e positivos nas relações interpessoais, e isso não estaria só destinado às mulheres. A abertura do valor do privado para uma atmosfera maior incluiria todos, inclusive os homens. E isso significaria a questão de democracia social:
 
– – E o que vamos defender? Lavar, passar e cuidar das crianças!
– Vou repetir: lavar, passar e cuidar das crianças não é o problema. O problema é que se menospreze o cérebro por trás disso, que se restrinja essa atitude feminina ao âmbito privado, que não entendam que isso tem de ser feito com todos e entre todos; que cuidar da vida, da casa, das emoções, deste planeta miserável que estamos destruindo é o que todos temos que fazer: trata-se de socializar a prática do cuidado, na qual somos peritas, e nos apresentar como as especialistas, as mais qualificadas para isso (BELLI, 2010, p. 83).
 
Através da campanha, as mulheres decidiram valorizar e, com a ajuda forte da publicidade, “bendizer seu sexo”, numa referência a um poema de Gioconda Belli. O rompimento da velha forma de fazer política deu lugar à exploração do corpo e da imagem daquelas mulheres como críticas de uma sociedade marcada pelo machismo. Se esse era o principal senso comum de Fáguas, Viviana e as companheiras do PIE, passaram a justamente, no reforço das ideias machistas de que não seria capaz encontrar o combustível necessário para reconfigurar a velha máquina política. Na ânsia por criticarem a postura dessas mulheres, os candidatos homens da campanha esqueceram-se de suas próprias propostas para o governo de Fáguas. Foi dessa forma que elas conseguiram a eleição: trazendo à tona o reforço da realidade existente, e injusta, as mulheres encontraram uma forma de ingressar no poder e dele se sobressairem com suas ideias de mudança efetiva.
O governo das eróticas contribuem para a quebra do paradigma socialmente imposto, no (in)consciente coletivo, do domínio masculino. Em um dos capítulos, destaca-se a nova vida de Petronio Calero, um dos inúmeros maridos que ficam em casa enquanto é a mulher que começa a trabalhar fora:
 
Como ela organizava essas atividades para se manter ocupada durante os anos que ficou em casa sem trabalhar? Porque não tiveram filhos. A natureza não lhes fez esse favor. Olga não se aborreceu. Tinha espírito de freira: sacrificada, silenciosa. Até na cama era assim. Fazê-la suspirar era uma proeza. Mas era inteligente. Mais inteligente do que ele. Agora ganhava mais do que ele jamais ganhara. Viviam melhor. Viveriam melhor, corrigiu-se, se ele se ocupasse da casa, mas a preguiça o consumia (BELLI, 2010, p. 65).
 
A evidência machista do texto é clara, e é um dos exemplos do pensamento social naturalizado que o novo governo tem de vencer. Em primeiro, o questionamento de como a mulher consegue fazer os inúmeros serviços domésticos que agora competia ao homem é apenas a constatação de que ela não tinha “preguiça”, e não por talento ou por competência, até porque a inteligência da mulher é justificada pelo fato de ela ganhar mais, e como uma compensação pelos hábitos “de freira” da esposa nos atos sexuais.
Nessa premissa, a comunidade imaginada de Belli é um país no qual se organiza através da mulher, ou da ótica estereotipada ao feminino. Seus entre-lugares são estabelecidos o tempo todo, seja através do espaço não físico em que a personagem
 
Viviana[7] se encontra enquanto está em coma, seja pela lógica de sentido
 
transviada que o novo governo estabelece, que passa a refletir o que já foi feito, e negado, pela nova possibilidade de formação de nação, que transgride o passado em um novo modelo de atuação, no entanto, ainda não, de todo, consolidado. As personagens masculinas, no estabelecimento e no desenvolvimento de ações cotidianas próprias das mulheres até então, como cuidar da casa e dos filhos, e as femininas, no assumir dos espaços de trabalho que outrora eram ocupados pelos homens, como os próprios cargos de governo e da polícia, neste espaço utópico, tornam o sentido de nação definível tanto pelo entre-lugar de negar e cambiar, como o de renovar e transformar o habitus consolidado em novas realidades possíveis. Através de sua escrita, a própria autora identifica-se no entre-lugar da sua literatura, pois a representa num duplo de realidade sonhada, portanto realidade possível, e a validade social, e, portanto, vivenciada.
 
Literatura: espaços de diálogos, espaços de reflexão sociais.
Em O país das mulheres, Viviana Sanzón viverá para o resto da vida com uma bala alojada no crânio, marca viva de um atentado contra não só sua vida, mas principalmente a um ideário igualitário para todos, homens e mulheres. Com um pé em frente ao outro, um passo de cada vez, a cidade de Fáguas pode ter representado o padrão de respeitabilidade entre os seres humanos, independentemente de sua condição biológica de gênero.
Em um espaço onde cada vez mais a mulher tenha que justificar suas posições, delimitar seus espaços e exigir a respeitabilidade que deveria ser obrigatória, as questões relativas ao gênero ainda necessitam de muitos avanços. Muitos dizem serem exagero certas manifestações sociais em que a mulher possa ser subjugada, mas tão naturalizados estão certas condutas que já é difícil as conquistas de espaço simplesmente pelos talentos pessoais.
Na própria narrativa, as mulheres, mais do que divulgar suas ideias, precisam buscar a conquista de espaços específicos para que essas ideias possuam efeito positivo. A campanha do PIE é atacada pelos opositores masculinos, que, esquecem suas propostas em nome das acusações de desprestigio de um governo liderado por mulheres. Homens não precisam reforçar estereótipos masculinos como elementos de dominação e de superioridade, porque seus estereótipos já configuram esses sentidos. Por que as mulheres na narrativa são julgadas não pela possível falta de experiência, mas pelas “ideias descabidas” como propostas de campanha? Como acreditar que as posições sociais entre homens e mulheres são iguais se há justamente uma necessidade de provação das segundas aos julgamentos dos primeiros? No reforço de crenças únicas, somos fadados a seguir óticas machistas e injustas, e a negação disso como crítica já estabelece outros estereótipos.
Na parte final do livro, Viviana Sanzón toma a palavra e narra o que lhe parece válido, após sair com vida do coma. De certezas, apenas que muitas das ideias sociais de ativistas feministas preocupadas com a democracia de gênero puderam ser aplicadas e geradoras de mudanças positivas no país. No mundo possível de Belli, Viviana Sanzón foi a mulher que, junto com toda uma equipe de também mulheres, e de um homem que pôde valorizá-la dentro da igualdade de vê-la como uma companheira de vida e de sonhos, trouxe também um mundo possível para inúmeras personagens que desejavam justiça, dignidade e, acima de tudo, felicidade para viver entre os seus.
Mais que uma experiência de vida, a representação do contexto nicaraguense viabiliza a riqueza que a autora possibilita ao leitor, sendo a responsável pela denúncia de opressão, na busca pela igualdade de todos, pelo respeito e pela identidade. Mais que utopias, a narrativa de Gioconda Belli indica a representação ficcional de um ideário em que homens e mulheres possuem os mesmos direitos, porque são eles, em união, os responsáveis por uma sociedade mais justa. O felicismo proposto pela autora não é sinônimo da antítese homem-mulher, mas da combinação feminino+masculino, porque se vence mais que a batalha de gênero: vence-se a batalha de poucos que tem possibilidades sociais.
 
REFERÊNCIAS:
 
BELLI, Gioconda. El pais de las mujeres. Disponível em:  http://humweb.ucsc.edu/aaperez/tarea/spss63/pais_mujeres_completa.pdf. Acesso em: maio de 2014.
BELLI, Gioconda. O país das mulheres. São Paulo: Verus, 2011.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 2001.
Gioconda Belli: “Hay que feminizar la política”. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3Y9zqTnpe1I. Acesso em: nov. de 2014.
MIGUEL, Luis Felipe, e Flávia BIROLI. Teoria política feminista: textos centrais. Vinhedo: Editora Horizonte, 2013.
“Mulheres da Nicarágua: avanços contra a violência”. Revista Diálogos do Sul. Disponível em:
http://www.dialogosdosul.org.br/mulheres-da-nicaragua-avancos-contra-a-violencia/06072013/. Acesso em: nov. de 2014.
UNIVERSIDAD COMPLUTENSE MADRID. “Entrevista com Gioconda Belli”. Disponível em: https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero34/giobelli.html Acesso em: nov. de 2014.
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] O presente trabalho é uma adaptação da dissertação de mestrado da autora. A versão completa do trabalho está disponível em: http://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/7371?mode=full.
[2] BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
[3] A definição de habitus, segundo o autor, corresponde a “um conhecimento adquirido e também um ‘haver’, um capital (de um sujeito transcendental na tradição idealista) o ‘habitus’, a ‘hexis’ [termo de Aristóteles], indica a disposição incorporada, quase postural” (BOURDIEU, 2001, p. 62), cuja intencionalidade é “a de sair da filosofia da consciência sem anular o agente na sua verdade de operador prático de construções de objeto”. (BOURDIEU, 2001, p. 62).
[4] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3Y9zqTnpe1I. Acesso em: nov. 2014.
[5] UNIVERSIDAD COMPLUTENSE MADRID. Disponível em:
https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero34/giobelli.html. Acesso em: nov. 2014.
[6] Imprensa Latina, de Manágua, Nicarágua, para Diálogos do Sul. Disponível em:
http://www.dialogosdosul.org.br/mulheres-da-nicaragua-avancos-contra-a-violencia/06072013/. Acesso em:
nov. de 2014.
[7] O primeiro capítulo da obra intitula-se “A presidenta”, e o último, “Viviana”. A Personagem, assim como a autora, também vive o entre-lugar das posturas sociais que possui historicamente por ser mulher (mãe, esposa, mantenedora do lar, etc.) e as que buscam conquistar (após a morte do marido, dedicam-se ao jornalismo, à denúncia de atrocidades feitas por políticos, à criação do partido, à eleição e à presidência).





Bio fornecida pelo palestrante.

A ESCRITA FEMININA EM FAZES-ME FALTA, DE INÊS PEDROSA: O (DES)TECER NARRATIVO – Diana Navas, Telma Ventura




Diana Navas

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 

Telma Ventura

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 
 
Resumo: O presente artigo objetiva apresentar no romance Fazes-me falta (2002), da escritora contemporânea portuguesa Inês Pedrosa, as especificidades associadas à Escrita Feminina, as quais possibilitam a (des)construção narrativa. Tal propósito constituiu-se a partir da consideração de que a produção literária pedrosina apresenta uma tessitura composicional em renda, permeada por fendas, brechas e lacunas, revelando os procedimentos linguísticos de fragmentação e decomposição textuais contemporâneos, mesmo que enunciados por uma voz lírica característica de toda uma tradição literária portuguesa.
 
Palavras-chave: Inês Pedrosa; literatura portuguesa contemporânea; Escrita Feminina; (des)construção narrativa.
 
Minicurrículos: Diana Navas é pós-doutora pela Universidade de Aveiro e doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Atua como professora no Programa de Estudos Pós-Graduados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Suas pesquisas concentram-se nas tendências da literatura portuguesa contemporânea, mais especificamente, nos romances de António Lobo Antunes. Dentre suas produções, destacam-se: Narcisismo discursivo e metaficção – Lobo Antunes e a revolução do romance (2009) e Figurações da escrita (2013).
 
Telma Ventura é graduada em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É especialista em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e mestranda em Literatura e Crítica Literária por essa mesma Universidade. Pesquisa as Literaturas Portuguesa e Brasileira contemporâneas, com ênfase nos seguintes temas: Erotismo; Prosa Poética; (neo)barroco; Diálogo interartes; literatura fantástica; Psicanálise.


 
A ESCRITA FEMININA EM FAZES-ME FALTA, DE INÊS PEDROSA: O (DES)TECER NARRATIVO
 
Diana Navas
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
 
Telma Ventura
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
 
 
A Escrita Feminina e a (Des)Construção do texto literário
A desconstrução da composição narrativa engendra a Escrita Feminina, visto que transforma a linearidade da narrativa e a tessitura da linguagem romanesca – esta, marcada pela poeticidade, pelas brechas e fendas textuais, pelo tecer ao redor do vazio e pelo fluxo de consciência, bem como pela autorreflexão em relação à própria estrutura e forma literárias.
Inúmeros são, entretanto, os equívocos relacionados à expressão Escrita Feminina, sendo a maioria associados à ideia de uma escrita “delicada”, ou ainda à ideia de uma escrita produzida unicamente por mulheres. A Escrita Feminina, enquanto modelo discursivo literário, pode apresentar-se, na realidade, tanto em produções escritas por mulheres quanto por homens. Assim posto, fica evidente que o que é compreendido como discurso feminino (ou Escrita Feminina) não deve ser entendido como o discurso da mulher (ou Escrita de Autoria Feminina). Lúcia Castello Branco, psicanalista e crítica literária que estabeleceu as bases para a fundamentação da Escrita Feminina, cita inclusive alguns exemplos de homens-escritores que apresentam este registro, a fim de desconstruir estereótipos: Marcel Proust, James Joyce, Guimarães Rosa e Raduan Nassar, aludindo que suas obras são produzidas no registro do estilo discursivo feminino.
Com o propósito de estabelecer as bases de uma definição da Escrita Feminina, Lúcia Castelo Branco postula que
(…) não se trata de detectar uma anatomia do texto, mas de examinar uma configuração discursiva específica – entendida, a partir de uma série de correlações, como feminina, mas que afinal pode ser concebida tanto por homens quanto por mulheres. (2010, p.12-13)
 
Abarcando as contribuições da Psicanálise, a Escrita Feminina tem como objetivo pontual a análise do texto literário. Branco afirma que ao estudo desta Escrita pouco importa o sexo biológico do autor do texto (e, em decorrência, o sexo do texto) mas as maneiras pelas quais sua trama se constrói, quais especificidades discursivas podem nele ser pontuadas, a fim de realizar um traçado – uma cartografia:
(…) não propriamente um mergulho nas profundezas do texto, mas um passeio por suas superfícies, um mapeamento, uma cartografia. Nessa viagem se pretende assinalar a dimensão temporal descontínua da memória, as terras da literatura, (…), a materialidade da letra feminina (letra feminina compreendida enquanto discurso feminino), os entrecruzamentos entre a memória e a ficção (1990, p.16-17 – grifo nosso)
 
O constructo da Escrita Feminina ocorre, destarte, por meio dos processos discursivos nos quais “a linguagem é sempre levada ao paroxismo de seus próprios limites” (BRANCO, 1990, p. 16). Construída em prosa-poética, entremeada por metáforas e apresentando marcas de ritmo e cadência específicas, a Escrita Feminina invariavelmente articula-se a partir de uma linguagem que produz um texto de gozo, na acepção que Roland Barthes confere a este termo:
Texto de fruição [texto de gozo]: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (…), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem. (2013, p. 20-21 – grifo nosso).
 
A fim de compreender a Escrita Feminina enquanto texto de gozo, faz-se necessário comparar a sua composição à tessitura de uma renda – cujas linhas tanto constituem quanto margeiam os buracos, as fendas, os vazios, mas não os preenchem: “A lacuna desses textos (…) é um elemento estruturante: é em torno do vazio, do buraco, da falta, que a escrita feminina se constrói” (BRANCO, 1991, p.57). Em sendo tessitura, enreda o leitor, por meio de uma linguagem margeante, em sua malha, em sua rede de sentidos; e, em sendo margem, lança a própria narrativa ao precipício, à beira da morte, visto que retira desta todas as certezas e limites, levando-a a extremos de sentidos.
O texto produzido pela Escrita Feminina é tecido e destecido às vistas do leitor, oferecendo-lhe mais dúvidas do que certezas, mais ausência do que presença, e desafiando os limites linguísticos tradicionais. Assim configurada, uma narrativa desta forma produzida invariavelmente espelha e é espelhada por um enredo fragmentado, em uma intermitente tensão entre os polos da continuidade e da descontinuidade (do tecer e do destecer): buscando traçar uma linha narrativa contínua, delineia uma trama intervalar, cujos sujeitos narrativos oscilam entre a presença e a total desconstrução, e cuja voz, mesmo que ancorada na escrita, avulta apenas seu deslocamento.
Produzindo textos que jamais se permitem desvendar por completo e que concedem à lacuna e à falta um lugar privilegiado em sua tessitura, a Escrita Feminina faz uso de uma composição cujo elemento primordial é a Morte – primordialmente enquanto fator de (de)composição da trama linguística, pois que tal figuração “exibe a perda, por apresentar o vazio sem buscar obturá-lo e por fazer desse vazio e dessa perda os motores de produção de sentido e de palavras” (BRANCO, 1991, p.36). Tendo em vista que a morte a tudo desconstrói, a Escrita Feminina, por meio da linguagem, instala o texto em um lugar de desconforto, já que o sentido do escrito nunca está onde o texto se encontra, pois que desconstruído constantemente – e caminhando em direção ao gozo através da morte, já que a lógica do texto de gozo é a abolição dos limites.
Escrita sempre em construção, em movimento, em processo, sempre inacabada, a abolição dos limites linguísticos e a continuidade-descontinuidade narrativa são plenamente refletidas pela e na prosa poética e na linguagem erótico-amorosa, cujas funções sintáticas e semânticas apresentam-se subvertidas em prol do sentido, do ritmo, da cadência e da pulsação textuais. Corroborando esta concepção, Branco (1991) expõe que “o gozo está contido nesse movimento em direção à morte: das vibrações, palpitações e suspiros, que sugerem uma atmosfera evidentemente erótica da linguagem” (p. 53), ao que Barthes (2013) complementa ao salientar que o texto traga – e seduz, violentamente – o leitor para o seu íntimo, ao utilizar-se desta constituição formal.
A narrativa assim engendrada apresenta características discursivas específicas em sua linguagem poética e erótico-amorosa: as lacunas e fendas, a ausência de certezas, a pontuação e a sintaxe singulares, a linguagem em proximidade com a fala, o ritmo sincopado e a (des)tessitura narrativa. Revelando constantemente a precariedade da linguagem, a fragmentação do sujeito, e oscilando entre a existência e a inexistência, o enredo do texto produzido pela Escrita Feminina, por sua vez, se dissipa, encenando suas relações com a morte e a vacuidade do eu, e desenhando um sujeito contemporâneo, fraturado e descontínuo.
 
Os lugares de Inês Pedrosa
Inês Pedrosa (1962 – ), escritora portuguesa nascida em Coimbra, licenciou-se em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 1984 e, por esta mesma Universidade, doutorou-se em Línguas, Literaturas e Culturas.
Em janeiro de 1983, iniciou sua carreira como cronista, tendo publicado suas crônicas em diversos jornais; a constante crítica às múltiplas formas de discriminação – raciais, de gênero, de acesso à cultura e às injustiças sociais – levou a que suas crônicas fossem laureadas com o Prêmio Paridade, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero. A compilação das crônicas relacionadas à condição da mulher na sociedade portuguesa deu origem ao livro Crónica feminina, publicado em 2005.
Seu primeiro romance, A Instrução dos amantes, foi publicado em 1992 e, em 1997, publicou Nas tuas mãos, romance que recebeu o Prémio Máxima de Literatura, prêmio este que voltou a receber, em 2010, com a obra Os Íntimos. Além de romances, entretanto, Inês Pedrosa também publicou 20 mulheres para o século XX, ensaio composto por um conjunto de biografias de mulheres marcantes do Século XX, dentre as quais figuram Simone de Beauvoir, Agustina Bessa-Luís, Coco Chanel, Frida Khalo, Lou Andreas Salomé, Virginia Woolf. Fica comigo esta noite (2003), por sua vez, caracteriza-se por uma reunião de contos permeados pelas vozes femininas da contemporaneidade que questionam os homens modernos e suas identidades e desejos.
A produção romanesca pedrosina apresenta uma profunda transformação da lógica interna de seus romances, a qual, marcada por uma ordem não linear e por múltiplos cruzamentos de perspectivas narrativas, prima por uma ordem aparentemente desconexa e incoerente, comportando saltos que subvertem o tempo-espaço interno ao texto. O autoquestionamento das personagens principais em relação à sua existência espelha-se nesta (des)construção da escrita, demarcada pela profunda solidão existencial das personagens. Assim, a palavra poética, único procedimento formal capaz de expressar tais vazios e questionamentos humanos, particulariza a escrita pedrosina.
Questionando as mudanças estruturais na sociedade, as obras de Inês Pedrosa também colocam em pauta a mudança das mentalidades, a partir do momento em que sua escrita estabelece o contraponto da voz da autoria feminina – a voz da diferença -, interpelando o discurso ditatorial patriarcal salazarista que se perpetua em Portugal, travestido de androcentrismo. À semelhança de suas antecessoras, utiliza, em algumas de suas composições, a Escrita Feminina a fim de construir narrativas que espelhem o subjetivismo fragmentado do indivíduo contemporâneo.
 
(Des)tecendo narrativas: A Escrita Feminina de Fazes-me falta
Em Fazes-me falta (2002), Inês Pedrosa encena uma narrativa de vínculos e separações que, entre o amor, a amizade e o desejo, expõe os afetos (in)existentes entre uma mulher morta – a personagem feminina – e um homem vivo – a personagem masculina. Durante o velório do corpo dela, ambos empreendem uma jornada elaborada em monólogos, permeados de desespero e pranto, na tentativa de compreender a ausência definitiva, a partir da qual o enredo se enuncia no romance: a ausência do corpo, a ausência da fé, a ausência dos afetos e vínculos e, principalmente, a ausência que se resume na personagem feminina e que representa a tradição literária contemporânea de Portugal – a ausência de uma narrativa tecida nos moldes literários queirosianos, pois que a presente obra pedrosina apresenta todas as características de um romance desconstrucionista metahistórico português.
Analisando o mundo e a sociedade, a obra pedrosina em estudo demarca a crítica à realidade portuguesa, a qual sofreu grandes transformações a partir da Revolução dos Cravos. O lugar do sujeito, afetado pelas mudanças sócio-político-econômicas do Portugal moderno, participa do novo fazer literário, pois que a narrativa denuncia a alienação dos indivíduos pelo sistema e o vazio provocado por esta situação.
A guerra colonial em África, a angústia dos retornados e as consequências de todas as configurações sócio-históricas de Portugal decorrentes de tais fatos históricos marcam igualmente a narrativa de Fazes-me Falta com o ícone da morte e da ausência. Uma profunda falta de esperança em relação à política nacional, marcada pelo pós-colonialismo, e aos indivíduos que a representa encontra-se delimitada no romance em questão.
A fim de demonstrar, igualmente, a mentalidade misógina da sociedade portuguesa, a qual observa com olhar desacreditado a emancipação e os posicionamentos das mulheres que buscam ações afirmativas que garantam seus direitos legais e sociais, o romance coloca, na voz da personagem feminina, um desabafo: “Tanto insistias. Que eu não me definisse como feminista em público. (…) Que sorrisse em vez de criticar. Ou pelo menos sorrisse enquanto criticava” (PEDROSA, 2003, p.160). Entretanto, é factual que a condição feminina possui ampla proeminência na Literatura Portuguesa, sobretudo nos escritos de autoria feminina contemporânea, iniciada por Agustina Bessa-Luís, Maria Teresa Horta e Natália Correia, como contraponto à ditadura salazarista.
As ideologias, todavia, se estenderam igualmente às delimitações quase ditatoriais impostas à linguagem literária que, em geral, na tradição anterior à revolução pós-salazarista da Literatura, caracterizava-se pela prosa linear, organizadora e mantenedora da instrumentalização social. O romance pedrosino em estudo, em decorrência, subverte esta linearidade ditatorial, rompendo inicialmente, de acordo com Álvaro Gomes (1993), com a estrutura fechada que tentava negar autonomia à produção literária, pois que traz à composição formal a multiplicidade de eus narrativos e propicia, destarte, múltiplos modos de abordagem da realidade, consoante os diversos pontos de vista das vozes narrativas.
O aparente caos narrativo é ainda reforçado pelo fato de Fazes-me falta ser fundado na poeticidade, constituindo um texto em fragmentação, em ruptura e descontinuidade temporais, exibindo o abandono da linearidade e da ausência de fechamento, que marcam a completa destruição do enredo. A obra em questão enuncia uma fala subreptícia, resistente e sempre dissidente, uma poética da perda e da morte, da falta irremediável e do indizível – a linguagem do discurso feminino, a qual se anuncia traçada e tecida, sobretudo, “na perda e na lacuna, (compondo) um viscoso limbo discursivo, onde as palavras explodem, implodem e nada dizem, além desse impossível de dizer” (BRANCO, 1990, p. 341-342). A poética da escritura pedrosina oferece um estilo elaborado, um tratamento exuberante às palavras, a força de uma lírica amorosa ancestral, demarcada na tradição literária portuguesa.
A linguagem poética, lírica, está presente em todo o texto, construindo uma forte imagética permeada de metáforas, visto ser esta a única tessitura possível para expressar os sentimentos das vozes narrativas, pois que as palavras cotidianas, a prosa linear e organizadora, não dão conta de manifestar a ausência e as lacunas constitutivas do relacionamento entre as personagens feminina e masculina de Fazes-me falta as quais, já em suas primeiras falas, exprimem poeticamente a morte e consequente sentimento de ausência:
[Ela] Agora que saí do corpo que fui – para me tornar pólen, poeira nos teus olhos, pura imaginação de mim – imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio ser, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez. (PEDROSA, 2003, p.10)
[Ele] Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus – quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam (PEDROSA, 2003, p. 13-14).
 
Por apresentar-se enraizada na prosa poética, Fazes-me falta é, da mesma maneira, o lugar de um erotismo, de um texto oposto ao pensamento linear-prosaico, e que se abeira, como a própria poesia, dos limites da linguagem, em um movimento incessante de palavras que exibem nuances e vacuidades. “A poesia é feita de palavras enlaçadas que emitem reflexos, vislumbres e nuances (…), e nos fazem ouvir o inaudito e ver o imperceptível”, assegura PAZ (1994, p. 11). E, ao proferir o imperceptível, a palavra poética, da mesma forma, apresenta uma “festa de linguagem, em seu espetáculo de perda e de desordem, de loucura e de siderações do sujeito” (BRANCO, 1990, p. 434).
Ao considerar-se a Escrita Feminina, a mesma imagem metafórica é observada, pois que o discurso feminino sugere, na verdade, o que não foi dito, de maneira objetiva, no texto, mas o que está presente, presentificado no ilimitado, no indizível, que apenas pode ser concebido por meio da linguagem. Em Fazes-me falta, esta Escrita se constitui, na verdade, em uma desescrita, em uma destessitura da narrativa, explícita nas lacunas e nos abismos da linguagem utilizada, à semelhança de todo processo poético que, levado aos seus limites, aproxima-se desse lugar. O destecer narrativo é pontuado logo no primeiro monólogo da personagem masculina que, ao definir o que o unia à personagem feminina, expressa: “O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam, sei que não voltarás a devolver-me os meus” (PEDROSA, 2003, p. 12). Uma ciência do desaparecimento igualmente ocorre com a própria composição, ao longo da narrativa.
Os fragmentos, os vazios, os bordados no nada, com ritmos entrecortados e respirações ofegantes, compõem uma escrita espasmódica, uma linguagem erótica, permeada por detalhes ínfimos, meticulosidades e minúcias, criando um texto excessivo e desdobrado e, ao mesmo tempo, elíptico, fraturado e lacunar. A personagem masculina, em meio a seu sofrimento, diz que a personagem feminina traz em si um “tecido de mortos” e um “saber de cinzas” (PEDROSA, 2003, p. 65), assinalando a lacuna, a dissipação e a fragmentação da personagem e da narrativa, representadas na Escrita Feminina de Inês Pedrosa. Em Fazes-me falta, tudo está presente, mas quase nada acontece: não existem fatos reais, nem um grande enunciado, ou mesmo uma revelação fundamental; a Escrita Feminina, nesta obra, revela o sujeito através de seu esvaecimento e, em decorrência, uma narrativa enunciada no vazio:
[Ele] O teu corpo é agora alimento da terra (…). E no cheiro do vento, na matéria física dos dias e das noites.  Olho para a tua campa e sinto os teus olhos negros a serem devorados pelas larvas, o teu sorriso espelhento apodrecendo a cada instante, as tuas mãos desfazendo-se, desaparecendo para sempre deste mundo que é ainda tão teu (PEDROSA, 2003, p. 156).
 
A tal tessitura composicional cindida e fragmentária corresponde a poeticidade, uma linguagem que se aproxima da fala, da linguagem oral, “com sua dupla capacidade de fluir com o tempo e de o fazer durar” (BRANCO, 1990, p. 285), a qual, simultaneamente, projeta a narrativa em direção ao futuro, movida pelo passado e, no entanto, paralisada no presente – na morte da personagem feminina. Na prosa poética de Fazes-me falta, urdida no esquecimento, produto de lapsos e omissões, “a linearidade se torce, atropela seus próprios passos, serpenteia: a linha reta (a prosa) deixa de ser o arquétipo em favor do círculo e da espiral (a poesia). Há um momento em que a linguagem deixa de deslizar e (…) move-se sobre o vazio” (PAZ, 1994, p. 13).
No serpentear da linguagem poética, o presente narrativo da obra pedrosina estudada relaciona-se à fala, à voz e ao corpo feminino – morto –, exibindo a angústia da ausência e da descontinuidade, desse lugar de imobilidade e silêncio:
[Ela] De quem é esta morte encenada em caixão? De onde vem esta febre fria que me sela a boca? Luto para fugir desta caixa onde me expõem e me lamentam. Se ao menos soubessem rezar. Pai Nosso, eu não quero já o céu. (…) No lugar do morto, é o medo que enjoa e entontece. O medo que os vivos têm de mim, agora, do futuro que lhes anuncio, vestida para enterrar. Esse medo cria ondas de calor, ondas enevoadas, que a luz das velas, a baba dos sussurros amplia. Meto-te medo, também a ti? Aqui imóvel, de olhos fechados, olhando-te ainda, para não me olhar a mim, para me afastar do cheiro a medo que é talvez o cheiro derradeiro (PEDROSA, 2003, p. 21).
 
A angústia enunciada em Fazes-me falta, de dupla orientação, funda-se no desejo de negação da morte: “Preciso de me despedir de ti, ou de aceitar a morte, que é a mesma coisa” (PEDROSA, 2003, p. 71), bem como na tentativa de sobreviver à ausência do outro: “Ensina-me a tua morte, que em vida apenas pude surpreender” (PEDROSA, 2003, p. 90), ausência esta que marca o corpo de quem fica com os sinais do corpo ausente: “Esforço a imaginação, estendo-a até aos teus dedos, mas não consigo mais do que um ligeiro roçagar de asas. São os lençóis que agito, bem sei – mas não me concederás a graça de transformar a fímbria do meu lençol na ponta dos teus dedos?” (PEDROSA, 2003, p. 144). Ao sujeitarem-se à ausência, no tempo presente da perda e da angústia, as vozes narrativas a manipulam, transformando, por meio do discurso feminino poético:
(…) a distorção do tempo em vai e vem, (a fim de) produzir ritmo, abrir a cena da linguagem (…). A ausência torna-se uma prática ativa, um atarefamento (que me impede de fazer qualquer coisa); cria-se uma ficção com múltiplos papéis (dúvidas, recriminações, desejos, melancolias). Essa encenação linguageira afasta a morte do outro. (BARTHES, 2003, p.39)
 
Nesse vai-e-vem narrativo, a poesia recria o objeto amoroso por meio de palavras que, de acordo com Octávio Paz, “sangram pela mesma ferida” (2012, p. 137), ferida aberta pela perda deste objeto, como se pode verificar na seguinte passagem:
[Ele] Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-me agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios. Um deus que me libertasse desta imagem fixa do teu corpo encaixotado (PEDROSA, 2003, p. 11).
 
Marcada pela força lírica, como também pela Escrita Feminina que, em Fazes-me falta, tece e destece a Morte – morte esta não apenas da personagem feminina, mas de todo o corpo textual da obra –, a narração do corpo morto da protagonista sugere a metáfora central, metáfora esta que institui a cadeia de camadas textuais estabelecidas por esta morte alegórica. Morrendo, a personagem feminina revela o vazio da vida, do saber e da contemporaneidade, visto que principia uma reflexão a respeito da sua (in)existência e assim expõe a incompletude a que o ser humano está fadado na sociedade atual.
A fragmentação, a ausência e as fendas textuais, elaboradas em linguagem lírica, propiciam a manufatura de um texto de gozo, postulado por Barthes (2013) em O prazer do texto, no qual o teórico menciona que “o texto (de gozo) é atópico (…) em sua produção. Não é um falar, uma ficção, nele o sistema está desbordado, desfeito” (pp.37-38). Um texto desfeito, uma narrativa de não-morte, urdida entretanto no desespero, na saudade e na ausência. Tal narrativa, ao mesmo tempo desmedida, inútil e efêmera, e excessiva e sempre adiada em suas grandes verdades, apresenta-se invariavelmente tecida em uma produção de sentidos minúsculos – na exacerbação narrativa dos afetos, das sensações e dos caminhos do desejo.
A tessitura textual exibe, destarte, uma obra que procura algo que lhe falta e sempre faltará, até que esta procura infinita desemboque no único caminho possível – na morte. A dinâmica do desejo de Fazes-me falta, em sua trajetória de texto de gozo, um texto sempre em percurso, compõe-se assim de um desejo já a priori frustrado, visto que o objeto desejante – a personagem masculina – e o objeto desejado – a personagem feminina – jamais se encontrarão novamente, marcando, com este fato, o sentido (im)possível e abismal da narrativa: “Não quero que venhas ter comigo, os mortos não se encontram” (PEDROSA, 2003, p. 182), exorta a personagem feminina, reafirmando a separação eterna entre eles, no gozo da separação e da ausência imutável e infinita.
 
Considerações Finais
Inês Pedrosa vem construindo, desde meados dos anos 1990, um rico e sólido legado romanesco. Sua obra, vislumbrando aspectos humanos e conflitos existenciais universais da contemporaneidade, seduz o leitor que, mesmo ávido por respostas, não as encontra nos textos pedrosinos; ao contrário, a leitura destas obras apenas faz aumentar a angústia e o sentimento de incompletude humanos, pois que se configuram como espelhos que evidenciam e refletem as ausências vivenciadas na sociedade pós-moderna. Destarte, as narrativas desta autora lançam seus leitores em um abismo de faltas e de lacunas, jamais facilitando ou oferecendo possíveis respostas, uma vez que se configuram como textos de gozo, como postulado por Roland Barthes em O prazer do texto (2013).
Essa sensação de incompletude suscitada pelo romance, associada ao sentimento de projeção ao abismo, instigou o presente artigo. Assim, buscou-se apreender as maneiras pelas quais a narrativa pedrosina se constrói formalmente, bem como a configuração do trabalho com a linguagem que Inês Pedrosa empreende a fim de tecer suas obras de gozo. Para tanto, mostrou-se necessário definir os aspectos composicionais da Escrita Feminina, como concebida por Lúcia Castelo Branco (1991), no intuito de apreender os modos e meios pelos quais a escrita pedrosina (des)constrói as próprias narrativas.
A Escrita Feminina configurou-se como um constructo teórico singular para a análise do romance Fazes-me falta, pois demonstrou que esta obra preza por uma tessitura composicional em renda, ou seja, uma narrativa toda tecida em prosa-poética, a qual demanda a transgressão da sinalética e da sintaxe, alterarando a sequenciação na leitura das frases e imprimindo um fluxo musical e uma cadência instintual de ritmo; ao mesmo tempo, a estilística da obra em estudo subverte a estrutura linguística tradicional do romance, pois que espelha a condição humana na contemporaneidade, entre sentimentos de incompletude e de vida fragmentada.
Fazes-me falta, contrariando os estereótipos associados às obras de autoria feminina, segundo os quais essa literatura revela-se invariavelmente delicada, intimista e introspectiva, revelou-se um texto transgressivo que, em seus silêncios, grita suas fendas e lacunas, conduzindo o leitor à consciência de sua própria violação.
 
 
Referências
BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2013.
BRANCO, Lúcia Castello; BRANDÃO, Ruth Silviano. A mulher escrita. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2004.
BRANCO, Lúcia Castello. A traição de Penélope: uma leitura da escrita feminina da memória. Tese de Doutorado. Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais, 1990.
BRANCO, Lúcia Castello. O que é escrita feminina. São Paulo: Brasiliense, 1991.
GOMES, Álvaro Cardoso. A voz itinerante. Ensaio sobre o Romance Português Contemporâneo. São Paulo: Edusp, 1993.
PAZ, Octávio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac-Naify, 2012.
PEDROSA, Inês. Fazes-me falta. São Paulo: Planeta, 2003.
REAL, Miguel. O romance português contemporâneo: 1950-2010. Lisboa: Editorial Caminho, 2012.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

MESTIZA: UMA PROPOSTA DE DESCOLONIZAÇÃO – Luana Balieiro Cosme




 

Luana Balieiro Cosme

Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes

 

Resumo: Nesse artigo, foi proposta uma métodologia black/mestiza feminista para pensar a composição textual do texto acadêmico como forma de resistência, principalmente em relação ao imperativo intelectual da Europa. Os textos base que constituíram aportes desta discussão foram Speaking in Tongues e How to Tame a Wild Tongue, da escritora chicana Gloria Anzaldúa. O artigo se compõe dos recursos da linguagem e das percepções sobre a margem ou os sujeitos da margem, e as variações textuais foram minuciosamente escolhidas, ao nível de intervenções. Multiplicam-se os efeitos, fazendo gerar nos leitores sentimentos de repulsa e negação, tendo como importante componente a ideia de descolonização do pensamento e do Outro.
 
Palavras-chave: Descolonização, Outro, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
 
Abstract: In this paper, we propose a black/mestiza feminist methodology to approach the textual composition of the academic text as a form of resistance, especially in relation to eurocentrism. The texts that served as basis for this article were Speaking in Tongues and How to Tame a Wild Tongue, by the chicana writer Gloria Anzaldua. The linguistic resources and perceptions of the border and of border subjects constituted a contributions for this discussion and were useful to the writing of this article. Textual variations were carefully chosen at the level of intervention. The effects are multiplied, and they generates feelings of repulsion and denial in the readers implying in the idea of decolonization and of the Other.
 
Keywords: Decolonization, Other, Gloria Anzaldúa, Black/Mestiza.
 
Minicurrículo: Luana Balieiro Cosme é professora, graduada em História (Unimontes) e Pedagogia (Universidade Cruzeiro do Sul), mestre em História (Unimontes). Atualmente está vinculada ao Grupo de Pesquisa Gênero e Violência (Unimontes) e é colaboradora do Projeto de Extensão “Informática básica para mulheres”, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), campus Montes Claros.
 


 
MESTIZA: UMA PROPOSTA DE DESCOLONIZAÇÃO
 
Luana Balieiro Cosme
Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes
 

  1. Introdução

Chicanidade, pretanidade, não-branquinidade. As três palavras aparecem com o traço vermelho do corretor ortográfico, não existem no dicionário, tentaram me avisar. As palavras aparentemente desconexas são um propósito para falar sobre alguns estudos não muito recentes que se propõem a descolonizar do pensamento. Este não é um conceito em sua concepção, mas é uma prática constante, quase diária.
A ideia não é inventar novos nomes para velhas discussões, como talvez as palavras não-palavras poderiam sugerir. Percebe-se o termo Latinidade, carregado de sentido, do dicionário e conceitual. Seria a inversão de latinidade a palavra chicanidade? Onde se inverte os sujeitos falantes?  A resposta é não/não.
A descolonização não (des)constrói nada, por isso, a aversão imediata. Não se propõe a desconstruir latinidade para construir chicanidade. Esta última se configura uma forma de desestabilizar o texto. Tentar trazer ao leitor um sentimento de perda do norte. As pequenas “não-compreensões” é que vão fazer o método, a escrita ou o modo de viver, compreensíveis.
Uma das autoras que se propõe a pensar a própria escrita dentro do âmbito tido como “culto”, é Gloria Anzaldúa. Em um texto, que sua versão primeira é datada de 1980, ela se dispõe a escrever uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Recorto um trecho: “ainda não me desaprendi as tolices esotéricas e pseudointectualizadas que a lavagem cerebral da escola forçou em minha escrita” (ANZALDÚA, 2000, p. 229).
O movimento sobre si de Anzaldúa para realizar a escrita é uma forma de resistir a uma produção ocidental do conhecimento que opera sobre os sujeitos que utilizam a linguagem para se comunicar. Uma força positiva (incisiva) tenta imperar sobre a escrita acadêmica. A indiana Gayatri Spivak (2010, p. 47) diz que essa situação entre outras é “uma violência epistêmica”, vasta e heterogênea “de se constituir o sujeito colonial como Outro”. Esse projeto, a produção intelectual ocidental, “é também a obliteração assimétrica do rastro desse Outro em sua precária Sub-jetividade”.
Quando somos interpelados pelo que nos é estranho, quando somos interpelados por aquilo que não estamos acostumados ou por aquilo que rejeitamos, provavelmente uma vontade de revolver essa situação surge, com agressividade, com silenciamento, com relativismo, com incorporação forçada, etc. Mas, o Outro[1], o estranho, o diferente não é um problema, então não precisa ser resolvido. Nesse momento, quando nos percebemos nessa situação, somos tomados por um sentimento de desorientação e até mesmo vazio, perda de sentido já que não conseguimos lidar.
Quando você se sente como o Outro, numa tentativa desesperadora de empregar a alteridade não se consegue praticar a descolonização, mas quando você é Outro, a percepção sobre descolonização faz sentido. Perceba a citação de uma fala de Audre Lorde:
I am defined as other in every group I’m part of. The outsider, both strength and weakness. Yet without community there is certainly no liberation, no future, only the most vulnerable and temporary armistice between me and my oppression. [Sou definida como outro em cada grupo que participo. A que está fora (the outsider), entre força e fraqueza. No entanto, sem comunidade não há possibilidade de libertação de um futuro, apenas um vulnerável e temporário armistício entre eu e minha opressão] (LORDE, 2006, p. 2). [2]
 
Assim, Audre Lorde nos deixa claro o lugar que ocupamos, enquanto pretas e/ou mestiza – “subalternos” para Gayatri Spivak (2010) – na sociedade, não somos os sujeitos que buscam empregar a alteridade, porque nós somos o Outro a que esse termo se refere. Mesmo que Lorde seja norte-americana por nascimento, isso não implica que sua vida não foi marcada por certas invisibilidades. Conforme M. Jacqui Alexander e Chandra Mohanty, explicam que o racismo é um fenômeno acionado em qualquer ambiente da sociedade. E isso inclui os “estudos de mulheres” acadêmicos e os movimentos sociais, segundo as autoras:
However, the specificities of our national and cultural genealogies-being Black and Brown women-and our statuses as immigrants were constantly being used to position us as foreign, thus muting the legitimacy of our claims to the experiences of different racisms. [No entanto, as especificidades das nossas genealogias cultural e nacional – ser mulheres pretas e marrons – e nossos status de imigrantes foram constantemente utilizados para posicionar enquanto estrangeiros, silenciando, assim, a legitimidade de nossas reivindicações para as experiências de diferentes racismos] (MOHANTY; ALEXANDER, 1997, p. xiv).
 
 
As autoras complementam que “through a politics of decolonization, we have learned that racial solidarity is necessary, even if that means grappling with the differences between oppositional and relational consciousness”. [através de uma política de descolonização, nós aprendemos que a solidariedade racial é necessária, mesmo que isso signifique enfrentar com as novas diferenças no que refere à consciência opositiva e relacional]. As experiências decorridas do ato de ocupar vários lugares onde o racismo é frequente nos Estados Unidos convenceram as autoras de que devemos entender o local, bem como as manifestações globais de poder e os investimentos discursivos que viabilizam o racismo.
Retornando à fala de Audre Lorde, ela persiste na ideia da situação ser “black woman” [mulher preta] é ser invisível, e se adicionarmos feminista, chicana, lésbica etc são construídas outras possibilidades de invisibilidade. Sobre a tensa percepção sobre identidade é interessante percebemos uma nuance: se você deixar o mundo definir você, porque ele irá, será em desvantagem. Lembrando que para o mundo você é o outro, Lorde diz:
As a Black woman, I have to deal with identity or I don’t exist at all. I can’t depend on the world to name me kindly, because it never will. If the world defines you, it will define you to your disadvantage. So either I’m going to be defined by myself or not at all. [Como uma mulher preta, eu tenho que lidar com a identidade ou eu não existo de qualquer forma. Eu não posso depender do mundo para citar-me gentilmente, porque isto nunca acontecerá. Se o mundo define você, ele irá defini-lo em desvantagem para você. Então, ou eu vou ser definida por mim ou de modo nenhum] (LORDE, 1991, p. 19).
 
A produção acerca da identidade e sua pluralização, ou projeto de não identificação é uma armadilha se o mundo onde você habita ainda evoca os discursos naturalizadores das identidades. Cuidado.
Em seu leito de morte, ela tenta nos avisar “your silence will not protect you” [o seu silêncio não protegerá você] (LORDE, 2006, p. 13). Eu recebo a dica com carinho e é isto que falo aqui, meu silêncio não é uma escolha mais. É preciso falar.
Se nossas produções do conhecimento são propostas a partir de referenciais universalistas, brancos, ocidentais, etc não é possível tal prática (descolonizadora). Uma voz me diz bem forte: Não precisamos da alteridade dos brancos, somos o outro. E agora?
Perceba as citações retiradas de um texto de Gloria Anzaldúa, “as línguas selvagens não podem ser domadas, elas podem apenas ser decepadas” (ANZALDÚA, 2009, p. 306). Ela cita três frases ditas, respectivamente, pela mãe, pela professora e pelo imaginário mexicano: “I want you to speak English” [Eu quero que você fale Inglês]; “speak ‘American’” [diga: americana]; “El Anglo con cara de inocente nos arranco la lengua” (ANZALDÚA, 1987, p. 75-76; ANZALDÚA, 2009, p. 305-306) [O inglês com cara de inocente nos arrancou a língua]. É nessa visão do trágico-agressivo e não do atenuante que se descoloniza, primeiramente a si mesmo. Desestabiliza e desconforta quando se mescla as línguas, “lenguas”, “tongues”; os gêneros textuais; as variações de textos etc.
Isto é uma poesia?
 
Eu vi o vídeo.
O vídeo foi visto.
Por quantos brasileiros?
(Poesia inédita, de minha autoria)

  1. Metodologia

Como explicar o/um método mestiza? Primeiramente ele não se propõe a ser explicado. Gloria Anzaldúa e outras chicanas escrevem e misturam poesia, prosa, teoria, autobiografia e narrativas experimentais. A partir disso, conseguimos tentar forjar um método.
É complexo tentar propor uma transliteração de enunciados sobre uma imagem de estar em duas, três, quatro… fronteiras/margens/bordas ao mesmo tempo ou trilhar uma outra rota, diferente e não adversa. Mestiza vive entre culturas com pertencimentos culturais, identitários e geográficos (ou não), múltiplos, e uma “inquietude psíquica”.
A chicana Gloria Anzaldúa defende uma posição plural em detrimento a contraposição, um agir que não seja apenas reagir, um reflexo automático a uma ação. Nesse sentido, quem fala tem um corpo. Este é um incômodo, principalmente se alguém precisa identificá-lo, marcá-lo, pontuá-lo, pois imediatamente o transforma em “outro”.
O trânsito, a translocalidade, o movimento múltiplo agride as teorias, metodologias e epistemologias vigentes e seu deslocamento é uma incômoda mobilidade.
Você viu o vídeo?
Que vídeo?
O “Nasça branca da próxima vez”.
Não vi.
 

  1. (um pequeno) Desenvolvimento

O golpe é maior que tudo isso.
“Nasça branca da próxima vez”.
Ninguém se importa,
com nascimento de ninguém
FIGURA 1 – Um quadrinho de Virus Tropical.
Fonte: POWER, Paola. Virus Tropical. Espanha: Random House, 2013.
 
“How to Tame a Wild Tongue” (Como domar uma língua selvagem)[3] é o quinto capítulo do livro “Borderlands/La Frontera” (1987), ao olhar o significado no dicionário Oxford para o termo “to tame”, vemos:
Pronúncia: /teɪm/
VERBO
(WITH OBJECT)

  1. Domesticate (an animal).

1.1Make less powerful and easier to control.
Old English tam (adjective), temmian (verb), of Germanic origin; related to Dutch tam and German zahm, from an Indo-European root shared by Latin domare and Greek daman ‘tame, subdue’ (OXFORD, 2015).
[(COM OBJETO)

  1. Domesticar (um animal ) .
  2. Constituir menos poderoso e mais fácil de controlar].

[Inglês arcaico tam (adjetivo), temmian (verbo) , de origem germânica; relacionadas com tam holandês e zahm alemão, de uma raiz indo-europeia partilhada pelo latim domare e grego daman ‘cativar , subjugar’]
 
Ao ler a proposta de significação do dicionário Oxford, “To tame” se tornou um termo muito complexo para traduzir, pois seus possíveis significados são complexos. Nas constantes traduções à “la brasileira”  se tem como princípio, e não sei de onde isso vem, atenuar as palavras. A tradução do título do capítulo ficou “Como domar uma língua selvagem”. “Domar” é um termo muito simples para “to tame” que em sua origem latina e grega, remete também a “subdue”, subjulgar.
Apanhar de chicote, em português (brasileiro), equivale a lhe darem uma surra com pluma. Tenho essa sensação quando leio a tradução, apesar de que esta tradução em termos gerais é excelente. E, aqui, eu tenho um problema. Sou a favor da democracia de leitura, mas critico as traduções. Mas não é porque critico a atenuação das palavras que serei contra a popularização de traduções de textos. Eu quero é que possamos ler, em “línguas plurais”.
Um termo se tornou de uso comum entre alguns grupos feministas dos Estados: “speaking in tongues” [falar em línguas]. Sempre que digo isso a alguma pessoa, ela ri. Parece muito engraçado, deve ser. Resguardarei em não traduzir culturalmente o termo agora, não sei se consegui entendê-lo direito, mas daquilo que compreendi, de algum modo tentei aplicar.
“Speaking in Tongues” aparece em vários escritos de feministas de fronteira e um deles é “Speaking in Tongues: A Letter to 3rd World Women Writers” [Falando em línguas: uma carta às mulheres escritoras do terceiro mundo], capítulo de Gloria, publicado à margem, em 1980 – republicado em 1983 – e nele tem uma poesia de Cherríe Moraga, conforme tabela 1:
 
TABELA 1: Poesia de Cherríe Moraga com tradução simultânea.
 

I lack imagination you say Falta-me imaginação, você diz
No. I lack language. Não. Falta-me linguagem.
The language to clarify Linguagem para clarear
my resistance to the literate. minha resistência para com o letrado.
Words are a war to me. Palavras são uma guerra para mim.
They threaten my family. Eles ameaçaram minha família.
To gain the word Para ganhar a palavra
to describe the loss para descrever a perda
I risk losing everything. Corro risco de perder tudo.
I may create a monster Eu poderia criar um monstro
the word’s length and body comprimento das palavras e do corpo
swelling up colorful and thrilling super colorido e vibrante
looming over my mother, characterized. pairando sobre minha mãe, a caráter.
Her voice in the distance Sua voz na distância
unintelligible illiterate. ininteligível aos iletrados.
These are the monster’s words. Estas são as palavras do monstro.

Fonte: ANZALDÚA, Gloria, 1980, p. 166.
 
A poesia de Moraga surge abruptamente dentro do texto de Gloria Anzaldúa (1980, p. 166), como trechos de uma poesia qualquer que também interrompe esse texto. É uma forma não estática de leitura, que desloca o leitor a lidar com variações dentro da escrita/leitura. Mas as intervenções se interligam em um mesmo sentido. Aqui também se tenta fazer essa ligação entre o artigo para uma revista acadêmica, cartuns e trechos de poesias. Para Gloria, o leitor que tentar juntar os fragmentos desse tipo de texto, faz um trabalho análogo àquele que as feministas fazem para decifrar e confrontar a sociedade patriarcal.
 

  1. Considerações Finais

Não sei.
Eu vi o vídeo
e não vou esquecer,
mas branca nunca quero/irei nascer.
FIGURA 2 – Sin titulo [Sem título].
Fonte: Yetta (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
 
Muitos leitores desse artigo irão se perguntar: “Mas a autora não desenvolveu os termos do título direito. Não se prestou a explicá-los”. Um leitor da história ficará repetindo “isso não é história, isso não é história, isso não é história” como se fosse um belo espécime de papagaio (Amazona aestiva) ou quiriri (Brotogeris chiriri). Estas são aves tão singelas e que gosto muito.
Quando me percebo historiadora em uma sociedade, local, nacional ou global, como muitos se prestam a ser, não me agrada, é esta a palavra, o ofício. Talvez, no limite, penso que sou uma historiadora fracassada, como repito para mim mesma em momentos de crise. Quando sou historiadora ocupo “uma identidade” de quem apenas assiste a vida (passado-presente) confortavelmente em uma posição urbana-capitalista que se propõe a escrever e prepotentemente analisar sobre o objeto/o outro. Escrever é, sem sombra de dúvida, uma forma de resistência. Na escritura desse texto não sou historiadora e ao chegar a essa conclusão, e não subjetivação, penso: é uma resistência. É isso, é essa a sensação. O afeto que deixo termina aqui.
 

  1. Referências

To Tame. In: Oxford English Dictionary. Oxford: Oxford University Press, 2015. Disponível em:
http://www.oxforddictionaries.com/pt/defini%C3%A7%C3%A3o/ingl%C3%AAs/tame?q=to+tame&searchDictCode=all. Acessado em 08 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Como domar uma língua selvagem. Tradução de Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão), Cadernos de Letras da UFF,  Dossiê: Difusão da língua portuguesa, nº 39, 2009: p. 297-309.
ANZALDÚA, Gloria. How To Tame A Wild Tongue. In: Borderlands/La Frontera. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
ANZALDÚA, Gloria. Speaking In Tongues: A Letter To 3rd World Women Writers. In: ANZALDÚA, Gloria e MORAGA, Cherríe. This Bridge Called My Back: Writings By Radical Women Of Color. 1980.
Disponível em:
https://hamtramckfreeschool.files.wordpress.com/2014/05/anzalducc81a-gloria-this-bridge-called-my-back-dragged.pdf. Acesso em 8 de setembro de 2016.
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, jan. 2000. ISSN 0104-026X. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880>. Acesso em 15 set. 2016.
LORDE, Audre. Audre Lorde: Interview. Entrevista por Karla Hammond, Denver Quarterly 16.1. 1981: p. 10-27.
LORDE, Audre. The Cancer Journals: Special Edition. San Francisco: Aunt Lute Books, 2006.
MOHANTY, Chandra Talpade; ALEXANDER, M. Jacqui (Eds.). Introduction: Genealogies, Legacies, Movements. In: Feminist Genealogies, Colonial Legacies, Democratic Futures. New York: Routledge, 1997.
PAOLA, Power. Vírus tropical. Madrid: Random House, 2013. (Selo Reservoir Books).
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
YETTA (Jessica Sangoy). Cómics. 2016.
Disponível em: http://jessicasangoy.com/post/149004303482. Acesso 8 set. 2016.
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] Outro será utilizado em inicial maiúscula respeitando a conceitualização de Gayatri Spivak (2010).
[2] Em todo o texto, sempre que houver citação em língua estrangeira, será acrescida uma tradução livre em português, delimitada por colchetes, o que constitui uma forma de escrita dentro da metodologia mestiza.
[3] A tradução desse título do capítulo foi realizada por Joana Plaza Pinto, Karla Cristina dos Santos e Viviane Veras (revisão) (2009) e publicada nos Cadernos de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF).





Bio fornecida pelo palestrante.

ASQUEANTE ESTADO DE DESGRACIA – LA MATERNIDAD EN LA POESÍA VENEZOLANA – Cristina Gutiérrez Leal




 

Cristina Gutiérrez Leal

 Universidad Federal de Rio de Janeiro

 
 
Resúmen: La sociedad y la cultura funcionan como reguladores de conducta a partir de modelos y estereotipos: la maternidad es uno de ellos. El propósito de esta investigación es recorrer la poesía venezolana escrita por mujeres sospechando de algunas zonas ocultas que se dicen a contrapelo de los protocolos normalizados de la experiencia materna, ahí donde el “orden” de lo materno es intervenido, atravesado por una lengua que lo nombra –  transversalmente. Me interesa pensar cómo la lengua poética logra develar una posición ajena al sentimiento materno “legítimo” –ternura, felicidad, aceptación– como política de experiencia afectiva en la madre. Entre las obras revisadas están las de Miyó Vestrini, María Auxiliadora Álvarez, Márgara Russotto, Maritza Jimenez y Jacqueline Goldberg.
 
Palabras clave: poesía venezolana, maternidad, protocolo.
 
Abstract: Society and culture act as behavioral controllers through role models and stereotypes: maternity is simple one of them. The purpose of this article is to survey Venezuelan poetry written by women, trying to locate some hidden zones that may go against normalized protocols of the experience of motherhood. Those in which the ‘order’ of maternity is subverted, pierced by a language that names it transversally. The main aim is to understand how the poetic language allows for the revelation of a position distant from ‘legitimate’ motherhood feelings –tenderness, happiness, acceptation– as a politics for the mother’s affective experience. Among the revised works are those from Miyó Vestrini, María Auxiliadora Álvarez, Márgara Russotto, Maritza Jiménez y Jacqueline Goldberg.
 
Keywords: Venezuelan poetry, maternity, protocol.
 
Minicurrículo: Cristina Gutiérrez Leal (Coro, 1988) es licenciada en Educación, mención lengua, literatura y latín (UNEFM-Venezuela), magíster en Literatura iberoamericana (ULA-Venezuela) y fotógrafa aficionada. Sus artículos, fotografías y poemas han sido publicados en diversas revistas digitales. Ganadora de la XX Bienal de literatura José Antonio Ramos Sucre, con el poemario Estatua de sal. Actualmente cursa el Doctorado en Ciencia de la literatura de la Universidad Federal de Rio de Janeiro (UFRJ).
 
 
 
ASQUEANTE ESTADO DE DESGRACIA –
LA MATERNIDAD EN LA POESÍA VENEZOLANA
 
Cristina Gutiérrez Leal
 Universidad Federal de Rio de Janeiro
 
madre.

  1. f. Hembra que ha parido.
  2. f. Alcantarilla o cloaca maestra.

DRAE
 
La familia y las diferentes figuras que la constituyen son presas de rituales y prácticas políticas que no permiten excepciones, desbordes o miradas transversales, pues a veces funciona como espacio que controla y regula tanto el afecto como los modos de manejar los lazos de sangre. La maternidad es un ejemplo: esa suerte de fatum  que “naturaliza” esta condición en tanto la convierte de forma obligatoria en algo inherente a la condición femenina, cuando en realidad puede ser también una imposición, un imperativo de la cultura y el poder. Lo que conocemos por maternidad está potencialmente regulado a partir de modelos y arquetipos: “Así pues, las imágenes y representaciones de la maternidad están socialmente construidas” (Daich, 2008:62), y podría pensarse como un protocolo naturalizado de la experiencia (Isava, 2012), es decir, como un conjunto de prácticas que, si bien se asumen como naturales, son el resultado de formas impuestas que producen estereotipos a través de los cuales se circunscribe el hecho de “ser mujer” a la posibilidad de ver en ella el sujeto que garantiza amor incondicional y entrega íntegra hacia los hijos.
De acuerdo a un recorrido que hace Lorena Saletti Cuesta, en Propuestas teóricas feministas en relación al concepto de maternidad (2008), el “instinto materno” se considera una construcción cultural y social basada en el sistema patriarcal, a través del cual se ha creado un discurso que controla y legitima el “amor de madre”. Simone de Beauvoir fue la primera en insistir en la deconstrucción del concepto de maternidad pues, según su perspectiva, representaba la anulación del cuerpo femenino. Es decir que “la maternidad anula a la mujer como persona, ya que los hijos representan un obstáculo para la trascendencia social” (Ibíd, p.175); así pues, estas primeras interpretaciones que el feminismo hace de la maternidad obedecen a la resistencia y rechazo de la dominación patriarcal que relega a la mujer a la función reproductiva. Ser madre es pues visto como una forma de subordinación que hace de la mujer un ente subalterno valorado sólo a través del acto reproductivo para el cual, supuestamente, está naturalmente –esto es, culturalmente– asignada.
En la historia de la cultura latinoamericana la figura del padre tiene numerosas representaciones que la muestran como efigie fundadora de estirpes y naciones. Las madres, en cambio, aparecen como telón de fondo, como figuras periféricas, representativas de “épicas mínimas” y domésticas que también tienen la función de educar a los futuros ciudadanos de la nación. Asimismo, en la tradición occidental son muchos los estereotipos existentes sobre la maternidad. Ésta, en tanto construcción social, es vista desde los ángulos diseñados por los dispositivos de poder que prescriben los modos de actuar en comunidad.
Por ejemplo, la iglesia cristiana introdujo, mediante el relato de la virgen  María, el modelo de madre que rige mayormente la idea de maternidad como vocación natural que se tiene en occidente. Virgen e inmaculada, María fue elegida como “madre del mesías” pues no fue hallado en ella pecado alguno; de hecho, la virtud con que había desarrollado su vida la hacía merecedora de llevar en su vientre al hijo de Dios. Entre los atributos que la madre de Jesús debía tener estaba la santidad, el sacrificio y la obediencia. Aun sin haber consumado el acto sexual y reproductivo, María debía aceptar llevar en su cuerpo a quien salvaría a este mundo de sus pecados.  Debía sacrificarse, aceptar, obedecer, y sobre todo sentirse privilegiada por haber sido elegida según el mandato de Dios. No quejarse, porque “así estaba escrito”.
Ahora bien, la mitología griega nos ofrece, a través de la historia de Medea, una forma excéntrica de concebir la maternidad. Medea es el contrarrelato de la madre sacrificada; es una madre que puede asesinar a sus hijos –aún amándolos–, matarlos como un acto de “protección”,  los libra de las manos vengativas de otros, y con las suyas propias le pone fin a sus vidas y a su maternidad pura. Es ésta otra madre, no la que da la vida por sus hijos sino aquella que los sacrifica a ellos, que practica el amor maternal de forma perversa y monstruosa.
Estas dos breves menciones a la carga cultural que pesa sobre la figura de la madre ponen en evidencia su relación con los protocolos naturalizados de la experiencia, y por consiguiente su vinculación con un rol que establece modos de sentir y actuar de la mujer; sin embrago, a sabiendas de que todo discurso hegemónico, en tanto discurso de poder, excluye lo que puede desestabilizarlo y oculta las zonas donde se producen quiebres y fisuras, me pregunto ¿dónde y cómo localizar un contradiscurso de lo materno? ¿A través de qué modos de expresión se interpelan estas convenciones de la experiencia materna? Pienso con Florencia Garramuño, en la “noción de experiencia siempre mediada por el lenguaje”, propuesta en su libro La experiencia opaca (2011),  que permite comprender la poesía como espacio para la representación de una maternidad de excepción, en las antípodas de la convencionalidad, que problematiza y desvía las convenciones que pesan sobre ella. En Venezuela son varias las poéticas que han nombrado a la madre desde la incomodidad y el desasosiego. Durante la revisión de la poesía venezolana escrita por mujeres, en el siglo XX y XXI, me encuentro con algunas poetas que, si bien no desarrollaron en toda su obra el tema de la maternidad, lo introducen al menos groso modo, y esta intromisión colabora con la configuración de una suerte de cartografía donde es posible identificar y ubicar la maternidad dentro de la producción poética venezolana.
En la primera voz que me gustaría detenerme es la de Miyó Vestrini (1938) (pseudónimo de Marie Jose Fauvelles Ripert). Sus textos, escritos desde el desafuero y la confesión, con registros narrativos y lenguaje conversacional, proponen una estética donde temas como el suicidio, lo monstruoso, lo abyecto, son desarrollados desde un “yo” evidentemente fracturado y defectuoso. “No hay complacencia en su mirada sino inconformidad que compromete toda acción políticamente correcta” (Saraceni; 2012:138). Precisamente desde esa inconformidad con el orden se enuncia la figura de la madre en su poesía. Leamos “Los paredones de primavera”, del poemario Pocas virtudes (1986):
 
No enseñaré a mi hijo a trabajar la tierra
ni a oler la espiga
ni a cantar himnos.
Sabrá que no hay arroyos cristalinos
Ni agua clara que beber.
Su mundo será de aguaceros infernales
y planicies oscuras.
(…)
 
Lo llevaré a Hiroshima. A Seveso. A Dachau.
Su piel caerá pedazo a pedazo frente el horror
(…)
 
Tendrá la memoria que no tuvimos
y creerá en la violencia
de los que no creen en nada.
(1995:54)
 
No casualmente los últimos versos de este poema sirven de epígrafe a Máscaras de familia, de Jacqueline Goldberg, que trata precisamente sobre la maternidad. En este poema, la madre construye para su hijo una idea de mundo asociado al horror y el mal. No hay en ella el gesto protector característico de la mujer hacia el hijo o la intención de salvarlo de lo “real”; al contrario, piensa en acercarlo/someterlo a la contemplación de escenas dolorosas: la guerra, la muerte, la historia que se escribe desde la tragedia. El mundo que esta madre le pronostica –y de alguna forma prepara– a su hijo “será de aguaceros infernales/ y planicies oscuras”; quiere asegurar que su hijo crezca con una memoria abastecida de suficientes grietas como para creer sólo en la violencia del desasosiego. La desesperanza y el cinismo dictan el ritmo del texto y la vida del hijo. La maternidad en Vestrini sólo asegura debacles para el hijo, a quien le espera el vivir desollado “frente al horror”.
En otro poema del mismo libro, donde se recrea el encuentro de un psicoanalista y su paciente, la madre no habla; al contrario, se habla de ella:
 
Usted está cargada de cosas, ¿entiende?
Cosas rudas. Unas detrás de otras.
Su madre, por ejemplo.
(…)
Su madre la toma por el brazo. (…)
Usted se resiste a ese brazo que
La envuelve toda. ¿Fue entonces
cuando sintió miedo?
(56).
 
La madre es presentada como un peso, como una carga que habita en la memoria y es dañina, tanto que puede ser la causa de algunos desórdenes. La escena del paseo con la madre como posible origen de los miedos parece nombrar lo traumático asociado a la maternidad, parece presentar a una madre “mala”, a una mujer que al envolver a la hija toda con su brazo también la envuelve con temores que desembocarán en visitas infructuosas al psicoanalista.
En sintonía con esta imagen de “madre dañina”, se encuentra configurado un poema de Márgara Russotto (1946). Leamos “Los años salvajes”, incluido en Viola d´amore (1986):
¿has visto a mamá
caminando sola
sólo ella misma
por la calle?
desenfadada y polvorienta
se ve
toda llena de un goce anónimo
 
(…)
desentendida de nosotros
(…)
sin tarea alguna que la mantuviera alerta
sin que la preocupación de nosotros pudiera
hincarle el diente
(…)
sublevando miedo
pretendiendo irse
irse
irse
irse
¿qué ancestral ignorancia la hará volver?
¿qué virulento escozor será
lo que
cada noche
nos la devuelve?
(1995:112).
 
Las voces que enuncian este poema son los hijos que viven azotados por el constante abandono de la madre que quiere “irse/irse/irse”. Ellos empiezan el texto preguntando por mamá, interrogando a un escucha que no ofrece respuesta, es más bien un recurso para tener a quien describirle la escena de la huida y exponer el miedo que les habita ante el desdén de una madre desentendida de ellos. Esta madre está en constante huida, y la emprende “sola, sólo con ella”. La huida le proporciona goce, quizás animado por la libertad de emprender camino en soledad, sin la obligación que al parecer es la familia.  La maternidad se presenta también a través del letargo que padece la madre, deambulando sin que ningún pensamiento o preocupación logre “hincarle un diente”, afectarle o recordarle su lugar y compromiso con los hijos. Éstos permanecen a la espera, sólo planteándose interrogantes. Con una intermitente zozobra, tanto por la ida como por el regreso de su madre, nada saben, sólo la contemplan ir y venir; y es que la madre regresa. Lo que nunca se sabe es qué “virulento escozor” la trae de vuelta. Queda en el poema ese misterio sin develar, el lector intuirá, quizás, porque al menos los hijos no pueden ni siquiera intuir, sólo padecer a la madre.
Yolanda Pantin (1954), en su poemario Correo del corazón (1985), incluye el poema “Vitral de mujer sola” en el que explaya las características que guardan en común las mujeres solas, entre las cuales está la certeza de que:
 
Si tienen hijos hacen de madres
Son tiernas y delicadas
Aunque muchas veces se alteren
Un pensamiento recurrente es
Ya no puedo ni un minuto más
(1995:181)
 
Estos versos nos recuerdan las premisas teóricas de Adrienne Rich, cuando propone la idea de una maternidad ambivalente, ambigua, donde las emociones que se viven son agridulces. En este caso, las madres-mujeres solas “son tiernas y delicadas” pero también pueden explotar, desesperarse, alterarse y sentir que lo materno es una incomodidad, un peso que no es soportable “ni un minuto más”.
Por otro lado, la maternidad asociada a la soledad es también una manera inédita de concebirla, pues según el pensamiento convencional el hecho de “ser madre” es garantía de compañía. De hecho, las mujeres que socialmente cuentan con cierta estabilidad piensan en ser madres “para no estar solas”. En este poema de Pantin, al igual que en el Russotto, la soledad de la madre es una certeza. En tal sentido, la soledad es también una forma de vivir la maternidad.
Especial mención merece la poética de María Auxiliadora Álvarez, para quien en su poemario Cuerpo (1985), en palabras de Luis Alberto Crespo, “la experiencia de la maternidad se tradujo en (…) diario de reclusa y condenada a ser cuerpo” (1993:9).  Lo materno es para Álvarez el suplicio de dar vida incluyendo la parafernalia logística de los hospitales y las salas de parto:
hubiera podido reunirlo
el dinero doctora
vaca amarga castrada que me agrede
para tener mejor asistencia
(…)
si el embarazo durara varios años
a medida que me hubiera ido inflamando
cada arcada
cada pelo que cayese
cada estría
lo hubiera ido guardando (…)
(1993:15)
 
La puesta en escena de la parturienta con la doctora revela esas zonas de lo cotidiano donde la amargura es ley de vida. Se observa a una madre llena de reproches a la institución, al poder. Muestra cómo la maternidad es un proceso que se enuncia y se sufre desde el cuerpo; y además cómo se convierte en desasosiego la imposibilidad de que el cuerpo fracturado sea suficiente para acceder a los centros que el orden dispone para la llegada a la vida. Si tan sólo cada “estría”, “arcada”, “pelo” pudieran reunirse como el precio pagado por la madre para “tener mejor atención. ¿No ha sido suficiente ya el estropicio corporal?  El cuerpo aparece en el poema como ente mancillado, como víctima de una maternidad feroz que lo anula o, peor, lo destruye; y al final, de nada vale.
En otro texto del mismo poemario, el escucha ya no es una doctora “vaca amarga”, sino un doctor para quien no hay adjetivos pero sí se le reprocha el desconocimiento, en tanto hombre, que tiene del acto de parir:
usted nunca ha parido
no conoce
el filo de los machetes
no ha sentido
las culebras de río (…)
doctor no meta la mano tan adentro
que ahí tengo los machetes
que tengo una niña dormida
y usted nunca ha pasado
una noche en la culebra
usted no conoce el río
(1993:19)
 
Para quienes han dado a luz es fácil reconocer esta escena como el preámbulo al parto: la escena del tacto.  Las imágenes propuestas acá están diseñadas para producir el efecto de los machetes, las culebras y el río en el doctor: cortar, mover, chocar; contraponer el  desconocimiento del escucha en cuanto al parto  a su experiencia como depositaria de machetes y una “niña dormida”. El doctor es una figura intrusa, que invade el cuerpo de la madre con su mano pero es incapaz de experimentar los dolores y exilios del vientre que da a luz.
En Álvarez, también habla el hijo:
mamá es un animal negro
manso
extenso
(…)
cría (…)
no come
no duerme
no ríe
es un espacio oscuro
(…)
mamá es un animal quieto
amarrado
hinchado
habitual
muerto
(1993:24)
 
El devenir animal de esta madre es enunciado precisamente desde el hijo, quien la observa ahí donde lo materno asiste a su desborde y entra en “una zona de indeterminación, incontrolable e incontrolada donde el ser viviente que es el hombre se excede (…) para dar paso a la emergencia del defecto, del error, de lo monstruoso, de lo animal” (Saraceni, 2012). La madre acá es mirada desde su anomalía. Lo monstruoso ya no se refiere solamente a la subversión del orden, sino que a través del discurso cobra forma precisamente en la figura de la madre como cuerpo padece lo animal, que “no come/ no duerme/ no ríe”; diseñando así una escena lúgubre donde la maternidad es también un espacio oscuro donde se está amarrado, quieto, muerto.
Si la madre se vuelve discurso de animalidad el hijo también es descifrado a través de la palabra, es decodificado en el preciso momento del nacimiento: “entre las piernas/ la humedad de la placenta/ ACHE I JOTA O” (1993:29). En el parto el hijo es deletreado, es traído a la vida como un ente susceptible, como la justificación del cuerpo dolido de la madre.
Hay un texto que pudiera leerse en contraposición a Cuerpo haciendo una justa visión comparativa del hecho doloroso de traer a la vida y el de negarla. Estoy refiriéndome a Hago la muerte (1987) de Martiza Jimenez, donde la maternidad es enunciada fundamentalmente desde su negación: el aborto.
Este poemario posee un carácter narrativo en tanto describe desde el punto inicial y la confirmación del embarazo (“Náusea matinal”) hasta el desalojo del vientre (“como sangre salió”).  Si en Álvarez el cuerpo materno es configurado desde el dolor de parto, en Jimenez este cuerpo es un ente pasivo a través del cual el hijo fluye y se anula: “como sangre salió/ y en mi cuerpo dormía” (1993:219). En las primeras escenas del poemario el aborto es para la madre símbolo de feliz desprendimiento: “al despertar/ yo bailaba/ y bailaba/ mi nueva libertad” (219); pero a medida que se va desarrollando la secuencia corporal y emotiva, comienzan a aparecer atisbos que develan el otro lado de la libertad: el vacío, el hijo ausente. Hacer la muerte es también vivirla: “se seca mi seno/ ya no alimenta esta sangre/ muero dos veces/ crepito sin sombra” (220). La mujer que decide no ser madre igual vive otra maternidad, una “llena de ortigas y abismos” (221). Eliminar la posibilidad del hijo no elimina los restos de una experiencia materna dicha desde el vacío y la nada.
El vientre deshabitado observa cómo “por siete días la sangre/ el surco que se abre/ y pasas”; el hijo entra en la muerte sirviéndose de la sangre de su madre como puerta, entonces la madre define a su hijo como “una oquedad/un vértigo” (221), lo conduce a la muerte, lo nombra desde ahí.
Al final del poemario hay una suerte de arrepentimiento:
debiste ser la inundación
colorear las horas y el sentido
dibujar con furia tu pequeño pie
seguir golpeando desde adentro
entonces la muerte
con su traje falso de enfermera
(…)
retiraría espantada
(226)
 
La madre no se reprocha nada a sí misma, le reprocha al hijo, tal como hemos visto en anteriores poemas: el hijo carga las culpas. Es el chivo expiatorio de madres que o bien viven la maternidad a contrapelo o deciden no vivirla. Algo bastante interesante sucede en el último poema del libro:
(…) tu madre poda en sus cabellos –como metáforas–
el peso de uno, dos
–¿cuántos hijos?–
que encorvan su espalda
(…)
Tu madre frente a la máquina
Desnuda palabras para olvidar
(227).
 
Acá, en palabras de Julio Miranda, “por una parte nada se ha olvidado; por otra, experiencia se ha convertido en escritura” (1995:217). La madre ratifica su desidia, afirma que su memoria hace esfuerzos por descartar los recuerdos, y que su ser está encorvado por el peso que significan los hijos ausentes, ahora convertidos en una carga mayor, pesan en tanto faltan, y siempre queda la palabra como articuladora de esa nueva subjetividad rota. Es por ella que la maternidad se convierte en discurso y los cabellos de la madre devienen metáforas y el hijo ausente quiere olvidarse frente a una máquina donde la madre “desnuda palabras”.
El hijo que falta aparece también en Casa de pisar duro (2013) de Gina Saraceni (1966).
El hijo no nacido reclama un lugar en la palabra,
Una letra que ocupe el espacio de la falta.
(…)
Que el poema diga el peso de su ausencia
La sangre más secreta
La que corre fuera de las venas
(50).
 
El hijo imposible sólo encuentra asidero en la poesía. Su reclamo es por hacer visible su ausencia. La lengua poética, en Saraceni, se hace cargo de las culpas y los vacíos que se enfrentan ante un hijo que no ha sido, ante una descendencia coartada, sesgada. Ahora bien, así como Saraceni habla desde el hijo ausente, que no llegó ni llegará, Jacqueline Golberg (1966)  hace el movimiento contrario en Máscaras de familia (1988), donde le escribe al hijo que está por nacer. Este libro es fundamental para entender la reflexión sobre la maternidad desde la poesía, constituye uno de los engranajes principales de la poética sobre la madre tanto en la obra de Goldberg como en la tradición literaria venezolana.
Esta poeta propone a través de una lengua breve y contundente, afilada y cruda, una experiencia atormentada por la espera del hijo “vuelto náusea” (2006:265).  Máscaras de familia está escrito desde la espera de algo todavía incumplido. En la posibilidad. Es la poética de un hijo por venir, de una rotura y cambio que se aproximan. La voz poética se imagina madre antes de serlo pero, a diferencia de los acuerdos existentes sobre el estado de felicidad y deseo de quien que va a dar a luz, aquí lo que se pone en escena es una mirada sospechosa en relación al “alumbramiento” y sus consecuencias, por el modo como compromete la libertad del sujeto y afecta su cuerpo: “Vendrás/ a clavarme/ tu sangre mía/ a someterme” (Goldberg, 2006: 269). Se advierte la tragedia desde la genealogía. La sangre de su hijo, la suya misma, es precisamente la molestia, lo que se clava. Esta forma de esperar al hijo que va a nacer interrumpe el “archivo de lo sabido”, subvierte la idea de plenitud que debe experimentar una mujer encinta.
La madre es amenazada por su propia sangre e inicia un periplo de dolores y angustias que no alcanzan a revertirse en ningún momento a lo largo del poemario. Lo que permanece constante es el reproche y la queja. En el texto no está expresada la esperanza y las ansias emotivas de las madres por su hijo; están los desvelos, las tristezas, la zozobra. No hay dolor que libere y se atenúe con el nacimiento del hijo sino, por el contrario, su llegada representa la constatación de que su existencia, su estar allí en la cotidianidad de la madre, produce en el sujeto poético ansiedad, reproche y lamento. No hay, a lo largo de este poemario, ninguna similitud a lo que convencionalmente suele asociarse con una madre que acaba de parir: felicidad, plenitud.
Estos develamientos de una maternidad a contracorriente de la convención social se pueden asociar a lo que Freud llamó lo “ominoso”, pues se trata de una forma de experimentar la maternidad desde sus zonas defectuosas, de poner al descubierto las emociones “abyectas” que resultan del embarazo, y que a la luz de la sociedad llena de prejuicios y percepciones consensuadas, serían juzgadas como negativas y perversas.
En Goldberg, la voz que se enuncia madre usa la poesía para ir en contra de este estado, para mostrar cómo el poema es una manera de cuestionar la cultura y las convenciones que sostienen el protocolo de la maternidad: “Tu lengua/ será mortaja/ iré quemándome en ella” (Goldberg; 2006:270); “No insinúo derrotas/ no te culpo de amargar/ mis prisas de amante” (Goldberg; 2006: 296). La maternidad se presenta como ese “combate” de “quien se arriesga en la lucha de lo que no tiene rostro” (Ossott, 2008:826). El riesgo es asumir la afectividad desde una trinchera separada, desrostrificada (Deleuze y Guattari), inexpresable. Pienso en la desrostrificación como la operación que la literatura hace para desmontar la máquina de rostrificación que intenta organizar el poder y sus protocolos de determinada forma, de proporcionales un paisaje ordenado y seguro: un rostro (Deleuze y Guattari. Mil Mesetas 2006: 174-186). El rostro de la maternidad preestablecido socialmente se desfigura en la poesía de Goldberg para producir nuevas significaciones y hablar desde sus zonas defectuosas. El sentir materno convencional, el del “mundo interpretado” que acusa a la madre en caso de cualquier “desorden” o anomalía en el hijo, asiste a su desborde en una poesía que busca lo que en la trastienda de la experiencia se oculta. Este otro modo de lo materno atenta contra el orden que la política de la vida impone en la existencia de los sujetos para controlar su afectividad y sus emociones, y garantizar la regulación social.
A diferencia de la larga tradición poética latinoamericana que propone una versión sublime de la maternidad, Goldberg la plantea como una experiencia de la pérdida, como la paraguaya Renée Ferrer en sus Nocturnos (1987), quien nombra al hijo como “tibio pétalo en arrullo (…) / pequeña y breve flor” (p. 42); o Gabriela Mistral quien es reconocida como la madre de América por su forma de sublimar la maternidad:
 
Querré perderme
cuando gimas en mi carne
 
querré llamarte
sombra
muerte
 
hijo al fin
(Goldberg, 2006: 282)
 
La muerte es inherente al hijo engendrado, el cuerpo materno no es leído según el lugar común de “dar vida” sino que funciona transversalmente como recinto de oscuridad; al igual que la lengua cuando busca nombrarlo y sólo encuentra un hijo “sombra/muerte” y entonces ensombrece sus códigos. La poética de la maternidad deriva entonces hacia sus zonas más inexpresables, siniestras y ocultas. En la poesía de Goldberg, el monstruo está en la madre.
Hay una puesta en escena el cuerpo encinta desde una mirada que deconstruye la promesa que implica el embarazo y muestra la lesión que significa:
Tu madre
será mujer muy sola
de esas que leen
y  gritan
para no morir
 
Andará por la casa
palpándose
aprendiendo poco a poco
que su cuerpo
no resistirá más goces
que sus senos deberán hincharse
a la hora del descanso
 
que se acabó la vida
(Goldberg, 2006:294)
 
La contingencia cotidiana y la casa –espacio asociado al hogar como nido, como amparo del proyecto familiar, a las máscaras de familia– se convierten en escenario de una catástrofe para la mujer que al dar vida a otro ser, pierde la suya. En palabras de Hanni Ossott se trata de un “ejercitarse en la decepción” (2008:831), de una vida que se sustrae a sí misma, que es déficit y muestra un devenir muerte que la palabra poética declara: “que acabó la vida”. Esta maternidad asociada a la muerte una vez más revoca la intención de pensarla en comunión con la idea de trascendencia humana, continuación de la vida, posteridad asegurada. Al contrario: el vientre materno deviene muerte.
En este poema la cotidianidad de la madre no es una láctea cantata a la alimentación. Es el registro de los espacios donde la mujer observa los límites de su cuerpo y sabe que su última salvación es precisamente la palabra, la única coartada “para no morir”.  Así pues, el orden, esa forma naturalizada de concebir la realidad, es también subvertido por lo que Bataille, en La literatura y el mal (1957), llamaría “una voluntad decidida de ruptura con el mundo, para abarcar mejor la vida y descubrir en la creación artística, lo que la realidad niega” (2000:39).  En Máscaras de familia lo que el orden intenta mantener oculto es traído del espacio íntimo y secreto al colectivo y público a través de la creación poética y es puesto en evidencia ante la escucha del lector, lo cual desestabiliza los protocolos normalizados de ser madre, quien es sometida a la pérdida de algo que sólo la escritura puede compensar. Es la palabra como forma posible para dejar de ser madre o serlo de otro modo.
Entonces, a partir de esta apresurada propuesta cartográfica, es posible pensar la poesía como el lugar de la resistencia a la forma común de maternidad, es un lugar para intervenir los modos consensuados de la experiencia y proponer otros. Estas voces poéticas desenmascaran tales modos para descubrir y mostrar el lado oscuro de esas instituciones normativas de la vida y del deseo que son el soporte de la vida social. Visibiliza aquello que de la maternidad no tiene cabida en la norma establecida sobre este estado de la mujer. Y es que “La poesía es el lugar donde los límites se abren, donde la lengua se excede y se confunde para mostrar “la parte maldita” del ser” (Saraceni, 2012:136), eso que la literatura asume en su espalda, en su renovación estética, en los instrumentos que le da al ser para (re)interpretar el mundo.
 
 
Referencias bibliográficas y electrónicas
Álvarez, María A. (1993). Ca(z)a/Cuerpo. Caracas: Fundarte.
Bataille, G. (2000). La literatura y el mal. Ediciones el aleph.com. Disponible en: http://www.slideshare.net/amylesusana/la-literatura-y-el-mal-georges-bataille.
Deleuze, G.; Guattari, F. (1997). “Rizoma”. En: Mil mesetas. Capitalismo y esquizofrenia. Valencia: Pre-textos.
Freud, S. (1919). Lo Ominoso. Obras completas en digital. Disponible en:
www.diamantoro.com.
Garramuño, T. (2011). La experiencia opaca. Literatura y desencanto. Buenos Aires: F.C.E.
Goldberg, J. (2007). Verbos predadores. Poesía reunida 2006/1986. Caracas: Equinoccio. (Serie Papiros. Colección Recorridos).
Isava L. (2012). De las prolongaciones de lo humano: reflexiones en torno a la experiencia y sus inherentes protocolos.
Miranda, J. (1995). Poesía en el espejo. Estudio y antología de la nueva lírica femenina venezolana (1970-1994). Caracas: Fundarte.
Ossott, H. (2008). Obras Completas. Caracas: Bid &Co Editores.
Saraceni, G. (2008). Escribir hacia  atrás. Herencia, lengua y memoria. Argentina: Beatriz Viterbo Editora
Saraceni, G. (2012) La soberanía del defecto. Legado y pertenencia en la literatura latinoamericana contemporánea. Caracas: Editorial Equinoccio. USB.
Saletti, L.  (2008). Propuestas teóricas feministas en relación al concepto de maternidad. Disponible en:
http://www.ugr.es/~esmujer/pdf/Saletti_Cuesta_articulo_revista_clepsydra.pdf.





Bio fornecida pelo palestrante.

VOZES AO VENTO: BREVE ANÁLISE DE VENTOS DO APOCALIPSE, DE PAULINA CHIZIANE – Taiane Santi Martins




 

Taiane Santi Martins

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 
Resumo: O presente artigo se propõe a analisar o romance Ventos do Apocalipse, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, pela perspectiva da construção das vozes dos personagens. A análise identifica quais as vozes que compõem o romance – vozes femininas, vozes dos excluídos e esquecidos, vozes marginalizadas – e de que maneira tal composição leva à construção de identidade e a embates como tradição e modernidade, oralidade e escrita.
 
Palavras-chave: Literatura Africana, Literatura Moçambicana, Paulina Chiziane, Oralidade.
 
Abstract: This article aims to analyze the novel Ventos do Apocalipse, by the Mozambican writer Paulina Chiziane, through the perspective of the construction of the characters’ voices. The analysis identifies which voices compose the novel – voices of women, of the excluded and forgotten, or marginalized – and how this narrative raises issues regarding the construction of identity and related to questions such as tradition and modernity, orality and literacy.
 
Keywords: African Literature, Mozambican Literature, Paulina Chiziane, Orality.
 
Minicurrículo: Escritora e doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestre em Literaturas Estrangeiras Modernas, com ênfase em Literaturas Francesa e Francófonas, especialista em Literatura Africana de expressão francesa pela mesma universidade (2016).  É também formada em História – bacharelado e licenciatura – pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC (2013), e no bacharelado de Letras – Literaturas e Língua Francesa – pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (2013).
VOZES AO VENTO: BREVE ANÁLISE DE VENTOS DO APOCALIPSE, DE PAULINA CHIZIANE
 
Taiane Santi Martins
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
 
Quero contar-vos histórias antigas, do presente e do futuro, porque tenho todas as idades e ainda sou mais novo que todos os filhos e netos que hão de nascer. Eu sou o destino. A vida germinou, floriu e chegamos ao fim do ciclo. Os cajueiros estão carregados de fruta madura, é época de vindima, escutai os lamentos que saem da alma, KARINGANA WA KARINGANA.
(Ventos do Apocalipse)
 
 
KARINGANA WA KARINGANA, a expressão que se traduz por “era uma vez” é a utilizada por Paulina Chiziane [1] para introduzir a narrativa de Ventos do Apocalipse. A autora faz com o leitor um pacto de contação de histórias, assim como o fazem
 
os escritores de contos de fadas. Mas as histórias de Paulina são contadas ao redor da fogueira, por vozes roucas já cansadas; vozes daqueles que viram muito mais sofrimento do que achavam que podiam aguentar, e mesmo assim ainda têm força para contar histórias à beira do fogo. As histórias de Paulina são contadas por vozes que anunciam ventos mórbidos.
Ventos do Apocalipse, publicado em 1995, é o segundo romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Nele retrata o sofrimento e as mazelas trazidas pela Guerra Civil que se seguiu a Independência de Moçambique proclamada em 25 de junho de 1975. O romance retrata um cenário de violência, de descrença, de fome e de seca, um cenário de enfrentamento e de morte.
A narrativa é construída em três partes. Um prólogo, onde Chiziane conta – como se estivesse ela mesma ao redor da fogueira – três contos: O marido cruel, Mata que amanhã faremos outro e A ambição de Massupai. Os três contos são utilizados pela autora para dar o tom de leitura desejado e seus temas serão, de alguma forma, retomados ao longo da narrativa do romance. Além disso, a escolha por narrar contos antes do início da narrativa do romance ambienta os leitores ao redor da fogueira, voltados para a antiga tradição de se contar histórias ao pé do fogo.
A narrativa propriamente dita é dividia em duas partes. A “I Parte” narra a história de Sianga e Minosse, vivendo na vila de Mananga e sofrendo com a fome, a seca e a possibilidades dos conflitos armados atingirem a vila, o que de fato acontece. A “II Parte” narra a busca dos sobreviventes de Mananga por um local seguro, onde possam de alguma maneira reconstruir suas vidas, após tudo ser tirado de si.
Débora Leite David afirma que assim como na tradição bantu, Paulina Chiziane traz para os leitores essas pequenas referências a contos e provérbios, antes de começar a contar sua história para que a partir do uso destes elementos ancestrais, “a contadora de histórias estabeleça uma relação entre passado e presente, entre a tradição e a modernidade, indicando uma circularidade da vida e das histórias” (DAVID, 2007, p. 6).
É no sentido desta relação entre tradição e modernidade que me proponho a analisar a narrativa de Ventos do Apocalipse. Para isso é primeiro necessário contextualizar de que tradição estou me referindo. O ponto principal desta análise será o da oralidade e o da tradição oral. Ana Mafalda Leite diz que é a necessidade de legitimação de um espaço próprio das literaturas africanas em oposição às literaturas europeias que se leva o estudo da “oralidade” como um “instrumento de detecção da africanidade textual” (LEITE, 2012, p. 16). Isso causa alguns problemas de interpretação. O primeiro é relativo ao reconhecimento de que a literatura africana moderna nasce a partir da introdução da escrita e da língua do colonizador, as línguas europeias. Nesse sentido, pode-se entender que a escrita é europeia, enquanto a oralidade é africana; ou seja, a “natureza” da cultura africana é oral. (LEITE, 2012, p. 19). Essa premissa pode levar a um juízo de valor e a entendimentos um tanto errôneos. O primeiro de que não existia escrita em África antes da colonização europeia, quando estudos apontam a importância da escrita com caracteres árabes desde o século XIII, isso sem se falar na escrita egípcia que é anterior a isso (LEITE, 2012, p. 18-19). Outro é a crença de que devido ao fato de o continente ser fundamentalmente de expressão oral antes da chegada dos europeus não existiria uma literatura estruturada. Segundo o mexicano Brahiman Saganogo a literatura oral em África é de suma importância e constitui a difusão do “saber, da cultura, dos costumes, os usos, o pensamento e a filosofia africanos mediante uma retórica centrada essencialmente na memória, na elocução e na pronuncia” (SAGANOGO, 2008, p. 489). Nesse sentido, pode-se afirmar que a lógica da literatura oral em África é tão complexa quanto à lógica da literatura escrita, segundo os padrões estéticos ocidentais. Ademais, a literatura oral contava com quase todos os gêneros – poesia, teatro, conto. Com exceção do romance/novela por razões ligadas à essência do gênero em questão, como a extensão, e a unidade de composição (MARTINS, 2012, p. 20). É errôneo, portanto, pensar que a introdução da escrita e dos padrões estéticos europeus provoca a passagem da oralidade para a escrita, numa perspectiva evolutiva. Onde a escrita teria mais valor do que a oralidade e onde a oralidade seria abandonada em favor da escrita.
Ana Mafalda Leite afirma, pautada nos estudos de Honorat Aguéssy, que a “oralidade nas culturas africanas é uma ‘característica dominante’ e não a única e exclusiva” (LEITE, 2012, p. 20). Possuir uma tradição oral significa possuir toda uma episteme própria, é uma forma de pensar o mundo. Uma concepção própria de homem, tempo, vida, natureza, e essas concepções não precisam ser abandonadas
 
com a inserção de uma nova lógica de produção cultural, pautada na
 
escrita[2]. Talvez seja por isso que Paulina Chiziane nega o estatuto de romancista
 
dizendo-se, sobretudo, uma boa ouvinte e que a partir das histórias que ouve torna-se uma longa contadora de histórias. Ela diz:
 
Eu acho que o mundo está habituado a por rótulos em todas as coisas, nós queremos liberdade, mas as pessoas nos rotulam e a partir do momento em que a pessoa é rotulada de alguma coisa tem que pertencer a esse gueto. Romance é algo europeu, (…). Eu sou africana, contacto com o romance sim. Agora, se eu ser romancista, eu tenho que cumprir com as normas do romance. E eu não quero. Eu quero escrever em liberdade aquilo que me dá na cabeça. Porque se eu me apresento ao mundo como romancista, as pessoas vão querer cobrar de mim aquilo que são as regras de um bom romance, estou a fugir das regras. É só isso (CHIZIANE, 2009).
 
O que significa para Paulina escrever em liberdade, fugindo das regras e normas impostas por um tipo de escrita que não julga ser seu, senão um grito de independência? Uma aclamação de voz? O que Paulina diz ao renunciar o título de romancista é que ela tem voz própria, que ela pode falar a partir de seu lugar de mulher, de africana, de moçambicana, de escritora. Que ela pode falar pautada na sua cultura, nas suas vivências e experiências de vida; utilizando um mecanismo que outrora podia lhe ser estranho, mas que agora é tão seu quanto de qualquer outro, a escrita. É por sua vivência própria que Paulina Chiziane recorre às histórias contadas ao redor da fogueira em seus romances, é por suas experiências na vida que a oralidade está presente em seus textos:
 
Como me tornei escritora? É algo que não sei responder. Apenas posso dizer que a escrita escolheu-me, da mesma forma que a natureza me tornou mulher. Posso confirmar que a minha vivência também contribuiu para conduzir-me a este caminho.
As minhas memórias mais remotas são das noites frias à volta da lareira, ouvindo histórias da avó materna (CHIZIANE, 2013, p. 201).
 
É da memória da escritora que vem a familiaridade para contar histórias. Seja talvez pelas lembranças da avó materna que Paulina construa a personagem de Minosse, que depois de velha toma para si o encargo de contar histórias. É a partir da personagem de Minosse que pretendo abordar o primeiro elemento da relação entre tradição e modernidade presentes no romance. Elemento este residente na voz, no poder da fala.
Na literatura chamada tradicional de África se destacam as figuras dos griots, djélis, soras que poderiam ser caracterizados como verdadeiros historiadores tradicionais, são poetas e cantores que se encarregam de contar as façanhas dos heróis locais, histórias genealógicas, narram as lendas e contos maravilhosos onde homens e animais ganham vida (MARTINS, 2012, p. 20). São, pois, os homens quem detém o poder da fala, da contação de histórias. A mulher está resignada ao privado, ao espaço do lar e sua voz só tem vez entre elas mesmas. A própria autora conta que seguia todos os passos de sua mãe e ao fazê-lo observava seus cantos e lamentos, ouvia sua voz e das outras mulheres, mas era a única a fazê-lo:
 
No rio, enquanto me banhava, a minha mãe cantava e lavava roupas e mágoas. As outras mulheres faziam o coro. Estas cantigas umas vezes eram suspiros e outros murmúrios de angústia. Já em casa ouvia as cantigas de pilar milho e as de pilar amendoim. Eram todas tristes. O que consegui observar é que os homens ouviam-nas com total indiferença. Em momento nenhum da minha vida me recordo de ter ouvido, da boca de um rapaz ou de um homem, estas cantigas de mulher (CHIZIANE, 2013, p. 201).
 
Enquanto os homens, através da figura dos griots recebiam as glórias de um público atento, o espaço da mulher resigna-se ao das cantigas de lamúrias proferidas no decorrer dos trabalhos “de mulher” e ignoradas pelos homens. Em Ventos do apocalipse, Paulina Chiziane dá voz à mulher através de Minosse, a última esposa de Sianga, longe de ser a preferida, longe de ser a mais bonita, é submissa e infeliz e, ainda assim, é ela uma das grandes personagens do romance. Numa primeira leitura desatenta pode parecer que a autora retrata Minosse sob a mesma lógica da submissão e até inferioridade perante a figura masculina. Assim a descreve: “Esposa dos velhos tempos, ainda preserva as tradições e o respeito dos antigos” (CHIZIANE, 2006, p. 27).
A utilização da expressão “dos velhos tempos” já aponta para uma ruptura com a lógica da dominação masculina. Minosse foi a única das esposas de Sianga que não o abandou, ela sabe que pertence a outros tempos, ela sabe que o tempo mudou. Mas também sabe que mudou junto com o tempo, mesmo que escolha continuar ao lado do marido: “Minosse enfrenta o marido com fúria de fêmea. Os olhos dela são o céu inteiro desabando em catapultas de fúria” (CHIZIANE, 2006, p. 29). Minosse enfrenta o marido e reivindica sua voz, mais do que isso a conquista ao longo da narrativa.
Ela é a única personagem que permanece até o fim da narrativa. Sianga morre, assim como seus filhos e os demais personagens apresentados na primeira parte do romance; mas ela permanece e ganha importância. Enlouquece devido às amarguras da vida, os sofrimentos da guerra e caminhada em busca de uma nova aldeia; mas retorna da loucura e ainda, ao final da vida, reencontra a felicidade e realiza seus sonhos. Adota três órfãos na aldeia do Monte, e lhes chama de filhos, se encarrega ela mesma de lhes ensinar as coisas da vida:
 
Minosse conseguiu realizar um pedaço do seu sonho. Os meninos órfãos confiam nela. (…) Ensina-lhes as manhas da terra, os segredos da semente, as voltas da água e os movimentos do vento. Ela não pode ensinar mais do que isso. Lamenta o facto de não haver na aldeia uma escola onde possam aprender outros modos de vida porque o mundo moderno tem exigências que ela desconhece. As crianças deliram porque a velha apagou neles o fogo do terror. Quando a noite chega, sentam-se à volta da lareira e contam histórias (CHIZIANE, 2006, p. 227).
 
Minosse lhes ensina os segredos da terra, lhes transmite seus conhecimentos, conta-lhes histórias, preocupa-se com o futuro dos pequenos e lamenta-se por não poder ensiná-los mais, pois sabe que a sua voz será a única educação que terão, lamenta-se por saber que se trata de novos tempos e por saber que sua voz já não é mais o suficiente. É nesse sentido que a voz é um dos elementos de embate entre tradição e modernidade aportados pelo romance. Pois mesmo que as duas primeiras frases do livro sejam “Vinde todos e ouvi / Vinde todos com as vossas mulheres…”, pressupondo um narrador, um contador de histórias masculino; a grande voz do romance é uma voz feminina.
Inocência Mata, ao tentar conceituar o pós-colonial afirma que alguns entendem o termo como a situação em que viveram, e ainda vivem, as sociedades que recentemente saíram do sistema colonial. Ou seja, o sufixo “pós” do significante “colonial” estaria se referindo a sociedades que começam a agenciar a “sua existência com o advento da independência” (MATA, 2003, p. 45).  Nesse sentido, a pesquisadora apoia-se na teoria do historiador Henk Wesseling para afirmar que “o pós-colonial pressupõe uma nova visão da sociedade que reflete sobre a sua própria condição periférica, tanto no nível estrutural como conjuntural” (MATA, 2003, p. 45), já que o processo de descolonização, de passagem ao pós-colonial exige, “um novo método de abordagem e diálogo com o mundo global, porque nessa nova conjuntura impõe-se a ‘lógica do gesto de abrir novos espaços’” (MATA, 2003, p. 46). O que seria, no contexto de Ventos do Apocalipse, abrir novos espaços, senão dar voz àqueles que há muito vêm sendo marginalizados?
Como afirma a pesquisadora Deolinda M. Adão, a grande maioria das personagens de Paulina Chiziane podem ser consideradas, de uma maneira ou de outra, como personagens com identidades marginais. Trata-se de personagens de meios rurais, que vivem na extrema pobreza, com baixo nível de escolaridade ou sem nenhuma, e que ainda vivem numa sociedade que há muito vem sofrendo com as pressões da colonização e da guerra civil (ADÃO, 2007, p. 2).
Inocência Mata ainda afirma que assim como a literatura anticolonial, literatura feita em África até aproximadamente final da década de 1960 – momento das lutas pelas independências da maior parte dos países africanos, mobilizou estratégias contra o discurso colonial – no sentido mais amplo do termo, no intuito de afirmar a diferença cultural e reivindicar a pátria, a atual escrita africana “mobiliza estratégias contradiscursivas que visam à deslegitimização de um projeto de nação monocolor em todos os sentidos” (MATA, 2003, p. 57). Ventos do Apocalipse narra a história daqueles que ninguém quer ver, nem dentro da própria sociedade moçambicana. Narra a história de refugiados de guerra, de pessoas marginalizadas historicamente tanto a nível internacional quanto dentro de suas próprias nações. Narra história de homens que acreditam que “se o homem é a imagem de Deus, então Deus é um refugiado de guerra, magro, e com ventre farto de fome” (CHIZIANE, 2006, p. 184).
Assim, para a supracitada pesquisadora o que romances como Ventos do Apocalipse faz é funcionar como:
 
(…) uma lógica antiépica que acaba por referenciar os ideais agônicos da revolução e do nacionalismo – e, claro, da cidadania, que nem logrou vingar. E isso através do despertar de vozes silentes e marginais resgatadas da História, descobrem-se as suas sombras, intervém-se na paisagem da cidadania e a nação começa a emergir colorida (MATA, 2003, p. 59).
 
Não sou, pois, a única a falar em vozes e despertar de vozes. Paulina Chiziane utiliza de outras estratégias para brincar e jogar com as vozes de seus personagens, além da própria escolha deles. Voltando para o campo do estudo da oralidade em si, Ana Mafalda Leite disserta a respeito dessas estratégicas utilizadas pelos escritores africanos para manter em seus textos escritos as marcas da oralidade.  E debate as ideias de Alioune Tine que afirma que “a literatura africana se define como uma literatura situada entre a oralidade e a escrita” (TINE, apud LEITE, 2012, p. 28) e afirma ainda que um dos traços que constitui a especificidade da literatura africana é a noção de “oralité
 
feinte », ou seja, “oralidade fingida”[3].
 
O conceito de “oralidade fingida” será entendido aqui como estratégias e marcas da oralidade que permanecem nos traços escritos de muitos autores africanos, incluindo Paulina Chiziane. Ou seja, o mesmo modo pelo qual Ana Mafalda Leite entende a oralidade, ou “oralidades” como fala em seu texto, como a maneira pela qual os escritores se relacionam com a textualidade oral e com as línguas, visto que as narrativas são escritas e publicadas nas línguas oficiais, nas línguas do outro. No caso das literaturas africanas de expressão lusófona, a pesquisadora distingue três maneiras de se relacionar com a textualidade oral. A primeira é a tendência de seguir uma norma mais ou menos padronizada, ou “oralizar” de alguma maneira a língua portuguesa. A segunda, refere-se a tentativa de “hibridização” da língua estrangeira através da “recriação sintática e lexical e de recombinações linguísticas” (LEITE, 2012, p. 36) provenientes das línguas locais. A terceira, o que é o caso de Paulina Chiziane, é menos recorrente por ser utilizada apenas por escritores que são de fato bilíngues e que possuem um contato mais próximo com as regiões rurais e se constitui por uma relação de diálogo linguístico. “Essa terceira e última situação, quase de dialogismo, é resultante da interação entre as duas línguas conhecidas, uma africana, e a outra, a língua portuguesa, que tentam como ‘traduzir-se’ mutuamente” (LEITE, 2012, p. 36).
Paulina Chiziane tem tanto a supracitada relação próxima ao
 
meio rural [4], como também situa os personagens de Ventos do Apocalipse neste meio e faz uso da estratégia apontada por Ana Mafalda Leite. Inclui frases,
 
nomes e expressões africanas no texto como se fizessem parte da língua portuguesa. Algumas das palavras utilizadas pela escritora estão traduzidas na parte final do romance em um glossário, mas nem todas. Para algumas delas o trabalho de entendimento é do leitor, que precisa prestar atenção no que está sendo narrado para conseguir entender o sentido da palavra estrangeira. Outras permanecem um mistério, até que o leitor busque referências fora do romance como é o caso da expressão “KARINGANA WA KARINGANA”.
Chegamos ao ponto final desta análise, uma análise pautada nas vozes, já me referi às vozes femininas, às vozes dos excluídos e esquecidos, às vozes marginais. Falemos agora do contraste de vozes que o final do romance traz. No penúltimo capítulo de Ventos do Apocalipse, Paulina faz com que as vozes dos novos e dos velhos entrem em disputa.
Na aldeia do Monte, quando a terra acorda e volta a dar vida após tudo ser destruído pela chuva, os homens comemoram e felizes querem dar graças pela alegria do recomeço, pela superação da desgraça. “Alguém sugere que seja feita uma festa aos defuntos à semelhança do mbelele que se realizou em Mananga” (CHIZIANE, 2006, p. 256). É ai que começa o problema, os jovens se opõem ao mbelele, ritual tsonga para fertilidade da terra, e ao culto aos defuntos, enquanto os velhos defendem a tradição.
A primeira parte do romance gira em torno do personagem de Sianga e sua família, e da sua tentativa de voltar a ter algum prestígio perante a comunidade local, através da realização do mbelele, para livrar a aldeia dos tormentos da seca, da fome, do sofrimento. Mas sua tentativa é frustrada, apesar de ter realizado o ritual, a aldeia é atingida pela guerrilha e destruída, a maior parte da população é morta, incluindo os seus dois filhos. Sianga é condenado e punido com a morte no final da primeira parte da narrativa, pela sua ambição em comandar a aldeia. Ao relembrar os acontecimentos sucedidos em Mananga os jovens da aldeia do Monte proclamam:
 
Velhos, olhemos para a trajectória da nossa vida. Façamos o balanço. Durante séculos ensinaram-nos a adorar os defuntos. Nos momentos de aflição chamamos por eles. Não respondem. Em Mananga, chegámos ao cúmulo de oferecer cabras malhadas, cereais, sacrifícios, pedindo auxílio a esses defuntos cegos e surdos. (…) A resposta foi a guerra, a fome e o sofrimento. Já é tempo de sepultar as crenças antigas. O culto aos antepassados é coisa para os velhos e não para os novos (CHIZIANE, 2006, p. 257).
 
Paulina traz para as páginas de Ventos do Apocalipse um embate literal entre tradição e modernidade e neste único capítulo, fazendo dele praticamente seu capítulo de tese. Nas seis páginas do capítulo 24, a autora usa da voz dos personagens dos novos e dos velhos para levantar discussões teóricas e filosóficas de maneira bem explícita. O velho Mungoni, representante da voz da tradição, rebate as críticas dos jovens:
 
Falar dos antepassados é falar da história desde povo, da tradição e não do fanatismo cego, desmedido. Não há novo, sem velho. O velho lega a herança ao novo. O novo tem a sua origem no velho. Ninguém pode olhar para a posterioridade sem olhar para o passado, para a história. (…) Acreditar nos antepassados é acreditar na continuidade e na imortalidade do homem (CHIZIANE, 2006, p. 257).
 
São belas e tocantes as palavras do velho Mungoni, mas ainda mais bela é a compreensão que ele transmite na sequencia de sua oratória quando compara as tradições novas e antigas por meio das religiões. Todas as religiões têm suas práticas sagradas e seus rituais, “celebram o nascimento e a morte de seus profetas”. E “Todas estas realizações não são mais do que uma nova face do culto aos antepassados. Fazer uma cerimônia dedicada aos defuntos da família, da tribo ou do clã é render homenagem à tradição, à história, à cultura.” (CHIZIANE, 2006, p. 257).  O que o velho Mungoni está dizendo é todos temos as nossas tradições, independente da cultura a qual pertencemos e independente da maneira pela qual a coloquemos em prática. Para além disso, o que as palavras do velho fazem refletir é que as tradições não precisam ser algo tão oposto a modernidade, modernidade e tradição não precisam ser elementos tão contrastantes. No final das contas é tudo uma questão de identidade:
 
A crise existe porque o povo perdeu a ligação com a sua história. As religiões que professa são importadas. As ideias que predominam são importadas. Os modos de vida também são importados. O confronto entre a cultura tradicional e a cultura importada causa transtornos no povo e gera uma crise de identidade. Estamos tão sobrecarregados de ideias estranhas à nossa cultura que da nossa gênese pouco ou nada resta. (…) O jovem que é eleito para a nova liderança leva dentro de si o conflito que irá desencadear a crise no sistema por ele dirigido. (…) Se ele não sabe que é nem de onde vem, logicamente que não saberá por onde deve caminhar (CHIZIANE, 2006, p. 258-259).
 
No final das contas, é uma questão de ter voz própria, de ter direito a voz. É uma questão de ter direito a tradição, de ter direito a sua cultura própria. A mensagem que Paulina passa pela voz do velho Mungoni é que o que realmente importa é a identidade, o que importa é o direito à voz própria:
 
Que venham os régulos, rei, ou outros com qualquer outro nome. Que sejam, como agora, estrangeiros à tribo e ao clã. Que sejam espíritos vindos do espaço.  O mais importante é que sejam homens de bem que deixem as pessoas viver de acordo com as marcas da sua identidade. Que saibam harmonizar o velho e o novo (CHIZIANE, 2006, p. 259-260).
 
Não é meu objetivo neste artigo debater teoricamente questões referentes à problemática identitária. Prefiro manter o embate aportado por Paulina nas páginas finais de seu romance no campo da reflexão literária, por este motivo a escolha por longas citações do texto da autora. Da mesma maneira que a escritora moçambicana faz na sua narrativa a escolha de dar voz a personagens que comumente não a teriam, opto por manter na parte final deste artigo a voz de Paulina; que ela possa despertar no leitor deste o mesmo tipo de efeito e reflexões que despertou em mim.
O cenário final de Ventos do Apocalipse é, sob um primeiro olhar, o da desesperança. A aldeia do Monte é engolida pelos cavaleiros do apocalipse e recebe seu batismo de fogo. Mas não se pode esquecer que Paulina começa o romance lembrando aos leitores que a vida é cíclica:
 
As folhas caem no Outono na ceifa do vento. As águas do rio desembocam no mar, voam para o céu e voltam, enchendo de novo os rios. As estações do ano andam a roda. Até nós, seres humanos, morremos para voltar a nascer. Somos a encarnação dos defuntos há muito sepultados, não somos? A terra gira e gira, a vida é uma roda, chegou a hora, a história repete-se… (CHIZIANE, 2006, p. 22).
 
O fim da aldeia do Monte não significa o fim da tradição, nem o apagamento da voz de seus aldeões. Assim como Paulina aponta para o movimento cíclico da vida, que este artigo abra a possibilidade de novos pensamentos, de novas reflexões e novas maneiras de se pensar o mundo e compreender as tradições orais.
KARINGANA WA KARINGANA.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADÃO, Deolinda M. Novos espaços do feminino: uma leitura de Ventos do Apocalipse de Paulina Chiziane. In: MATA, Inocência; PADILHA, Laura. A mulher em África: vozes de uma margem sempre presente. Lisboa: Colibri, 2007.
CHIZIANE, Paulina. Ventos do Apocalipse. Lisboa: Caminho, 2006.
CHIZIANE, Paulina. Entrevista concedida ao programa A Páginas Tantas. 2009 (33min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yYIwTj7afJA. Acessado em 13.08.2014
CHIZIANE, Paulina. Eu, mulher…por uma nova visão de mundo, Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Niterói, Vol. 5, n° 10, abril de 2013. Disponível em:
http://www.uff.br/revistaabril/revista-10/014_Paulina%20Chiziane.pdf. Acessado em 13.08.2014
COUTO, Mia. E se Obama fosse africano. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DAVID, Débora Leite. O feminino em dois romances de Lídia Jorge e Paulina Chiziane, Revista Crioula, São Paulo, n° 01, 2007. Disponível em:
http://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/52674. Acessado em 13.08.2014.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidade na produção e na crítica literárias africanas. In: Oralidades & escritas pós-coloniais: estudos sobre literaturas africanas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.
MATA, Inocência. A condição pós-colonial das literaturas africanas de língua portuguesa: algumas diferenças e convergências e muitos lugares-comuns. In: LEÃO, Ângela Vaz (Org). Contatos e ressonâncias: literaturas de língua portuguesa. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.
MARTINS, Taiane Santi. De mãos dadas: literatura e história, escrita e oralidade, tempo e memória nas narrativas de Mia Couto e Ahmadou Kourouma. 126f. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação). Universidade do Estado de Santa Catarina – Centro de Ciências Humanas e da Educação. Curso de História. Florianópolis, 2012.
Disponível em:
http://www.pergamumweb.udesc.br/dados-bu/000000/000000000016/00001675.pdf.
 
NOTAS AO TEXTO
 
1 “Paulina Chiziane nasceu em 1955 na região de Gaza ao sul de Moçambique. Estreou como escritora com o romance Balada de amor ao vento, em 1990. Seguiram os romances Ventos do apocalipse em 1995, O sétimo juramento em 2000, e Niketche, uma história de poligamia em 2002. Apesar da pequena produção literária até o momento, Paulina Chiziane é considerada pela crítica uma das revelações mais promissoras da literatura moçambicana, além de ser a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. Recebeu, ex-aequo, o Prêmio José Craveirinha de Literatura em 2003 pelo romance Niketche, uma história de poligamia, ao lado de Mia Couto.” (DAVID, 2007, p01)
[2] Não é meu objetivo, neste artigo, abordar profundamente o que é a chamada tradição oral africana, nem as concepções filosóficas aportadas por esta lógica de pensamento. Para maiores informações sugiro a leitura do trabalho: MARTINS, Taiane Santi. De mãos dadas: literatura e história, escrita e oralidade, tempo e memória nas narrativas de Ahmadou Kourouma e Mia Couto. 126f. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação). Universidade do Estado de Santa Catarina – Centro de Ciências Humanas e da Educação. Curso de História. Florianópolis, 2012.
[3] O conceito de Alione Tine é questionado e aceito apenas em parte por Ana Mafalda Leite, isso porque ele poderia levar à ideia de que a literatura africana seria autenticamente africana somente se possuísse traços da oralidade. Não entenderei o conceito desta maneira, primeiramente, pois acredito, assim como Mia Couto (2011), que os escritores africanos compõem romances assim como qualquer outro escritor em qualquer parte do mundo e que, enfrentam as mesmas dificuldades e os mesmos desafios de composição. Segundo, pois, como pesquisadora das literaturas africanas, nego a necessidade de uma suposta autenticidade esperada dos autores africanos. Sabendo que a África foi e continua sendo sujeitada a sucessivos processos de “essencialização” e “folclorização”, além do mais, muito do que se considera como “autenticamente africano” é resultado de invenções feitas fora do continente africano.
[4] “Aos seis anos de idade abandonei o campo com meus pais e fomos viver no subúrbio da cidade. (…) Nas ruas do subúrbio sentia imensas saudades da vida livre e dos passeios nos campos. Para matar a saudade passava o tempo desenhando paisagens na tentativa de restaurar o paraíso perdido da primeira infância” (CHIZIANE, 2013, p.201-202).





Bio fornecida pelo palestrante.

FRAGMENTED, HYBRID AND MIGRATORY SUBJECTIVITIES IN AZAR NAFISI’S READING LOLITA IN TEHRAN – Marcela de Oliveira e Silva Lemos




 

Marcela de Oliveira e Silva Lemos

Universidade Federal de Minas Gerais

 
Abstract: The writings of the Iranian diaspora, the westbound migratory movement motivated by extreme Islamic regimes and violent conflicts, raise public and scholarly interest especially in regard to their “return narratives”, autobiographical novels by writers moving fluidly between Western and Middle-Eastern spaces, homes, and identities. In this article, I join the academic debate about notions and constructions of women’s subjectivity in one of such works, Azar Nafisi’s 2003 Reading Lolita in Tehran. Supported mainly Susan Stanford Friedman’s theorization on locational feminism and multiple subjectivities in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), I argue that protagonist Azar’s cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances in the narrative.
 
Keywords: Women’s Literature; Iranian Diaspora; Return Narratives; Hybrid Subjectivities.
 
Resumo: A escrita da diáspora iraniana, movimento migratório para o ocidente impulsionado por regimes islâmicos extremistas e conflitos violentos, desperta interesse público e acadêmico para suas “narrativas de retorno”, autobiografias de autores que se deslocam fluidamente entre espaços, lares e identidades ocidentais e orientais. Esse artigo visa contribuir com o debate sobre noções e construções da subjetividade feminina em uma dessas obras, Lendo Lolita em Teerã (2013), de Azar Nafisi. Baseada na teorização de Susan Stanford Friedman sobre feminismo locacional e subjetividades múltiplas em Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter (1998), proponho que a mobilidade espacial e cultural da protagonista Azar causa a fragmentação e hibridização de sua identidade devido às interações entre constituintes identitários de poder e opressão em diferentes momentos da narrativa.
 
Palavras-chave: Literatura Escrita por Mulheres; Diáspora Iraniana; Narrativas de Retorno; Subjetividades Híbridas.
 
Minicurrículo: Marcela de Oliveira e Silva Lemos é mestranda em Literaturas de Língua Inglesa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Licenciada em Inglês por esta universidade, participou na graduação do projeto de pesquisa “Mobilidades culturais, geografias afetivas: espaço e gênero na literatura contemporânea”. É membro do Núcleo de Estudos de Guerra e Literatura da UFMG. Suas linhas de pesquisa são literatura, história e memória cultural e políticas do contemporâneo. Sua dissertação trata da literatura de guerra escrita por mulheres e do efeito da guerra sobre os constituintes identitários de personagens femininas.
 
 
Fragmented, Hybrid and Migratory Subjectivities in Azar Nafisi’s
Reading Lolita in Tehran
 
Marcela de Oliveira e Silva Lemos
Universidade Federal de Minas Gerais
 
One can be veiled and yet mobile.
 Carole Boyce Davies, Black Women, Writing and Identity
 
In the epigraph, Davies (1994) interprets a Saudi woman’s declaration on television: “I resent not being able to drive an automobile more than I resent having to wear a veil” (p. 2). To Davies, the statement expresses “a layering of resentments, issues to be struggled with, one assuming – for the moment – primacy over the other” (p. 2). One of such issues, determined mainly by religion and gender, is the right to mobility, a contemporary matter implicit in the notion of diaspora. Davies’s discussion about black migratory identities inspires me to look at another moving subject: the Iranian woman. That is because, similarly to diasporic black women’s writings, the works of Iranian female immigrants have become increasingly popular recently.
Since North-American incursions in the Middle-East during the War on Terror led by former U.S. president George W. Bush, Western interest has boosted the publication of autobiographies by authors of Islamic origin, such as Azar Nafisi’s Reading Lolita in Tehran (2003), Azadeh Moaveni’s Lipstick Jihad (2005), Marjane Satrapi’s Persepolis (2007), and Pardis Mahdavi’s Passionate Uprisings (2008). These novels, termed “return narratives” by Jasmin Darznik (2008, p. 56), portray the characters’ departure from Iran to America, and their later return to the native country, where their search for home and identification is often frustrated by changes in the land and within themselves. In this article, I focus on the character Azar Nafisi’s back-and-forth relocations between rigid and liberal, religious and secular, private and public contexts throughout her story. Based on the effects of movement through cultures on subjectivity, discussed by Susan Stanford Friedman (1998), I argue that Azar’s1 cultural and spatial mobility produces a hybrid and fragmented identity because of the interactions of axes of power and powerlessness in different circumstances.
Reading Lolita in Tehran is Nafisi’s debut novel. Simultaneously the first-person narrator and protagonist, Azar writes in the present time of a “fall day in another room in another country” (2003, p. 6). She recalls memories of pre-revolutionary Iran, schooldays in England, Switzerland, and the United States, and Islamic-ruled Iran. These recollections are organized into four sections, which, owing to Azar’s expertise in literatures in English, are named after Western authors and classics. In each section, Azar discusses events and women’s conditions in relation to those classics. The first part is “Lolita”, in a reference to Vladimir Nabokov’s work that also appears in the title of the novel. It is set in 1995, after Professor Nafisi resigns from teaching Literatures in English at a college in Tehran. She invites her seven best-ever female students to a weekly book club: a private session held at her living room every Thursday morning for two years, in which the class reads, discusses, and writes about occidental literary works banned by the Islamic regime. In the process, the members dive into each others’ problems, create affective relationships, and raise awareness to women’s treatment and roles in society.
The subsequent sections, “Gatsby” and “James”, refer respectively to F. Scott Fitzgerald’s The Great Gatsby, and to the U.S. born author Henry James. Both are chronologically set before “Lolita”. “Gatsby” significantly begins in the United States, where Azar attends graduate school with her first husband, and joins student movements and demonstrations. Following the dreams casted by a popular uprising, she journeys eastward, married this time to Bijan. After seventeen years away, she encounters a different country, where the books she teaches are attacked and forbidden. In “James”, Azar is expelled from the University of Tehran, and lives through the Iran-Iraq war, while female use of veil becomes mandatory. In the final part, “Austen”, the narrative returns to the years from 1995 to 1997, when Professor Nafisi leaves Iran definitively. This is the section in which her private class mostly compares Western and Islamic cultures, especially in regard to their experience as women. To its peculiar structure, polemic themes, and powerful writing, Reading Lolita in Tehran owes both its wide reception and harsh criticism.
As Darznik observes, “an all-out campaign has been launched against Iranian immigrant writers… leading the campaign are US-based Iranian academics who decry these writers’ authority to speak about the experience of ‘real’ Iranians” (2008, p. 55). Two US-based academics critic of Reading Lolita are Hamid Dabashi, in “Native Informers and the Making of the American Empire” (2006), and Fatemeh Keshavaz, in Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran (2007). They claim that “Nafisi substitutes Western hegemonic ideals for Iranian censorship… [and that] redemption in the form of Western cannon can be its own kind of hegemonic prison” (Blumenthal, 2012, p. 253-254). That is, those critics believe that Nafisi endorses worldwide supremacy of Western ideology through her novel’s defense of democracy and admiration for English-language literature. This way, she is regarded as an Orientalist, in reference to Edward Said’s (1978) concept, who propagates patronizing views of the East through cultural translation and commodification to an American audience.
It is rather ironic that US-based Iranian academics question US-based Iranian writers as representative of their “real” people. In this line of reasoning, since both groups are in the same privileged condition of escaping a tyrannical regime and living in a democracy, they are equally distant from and unable to speak about Iranian “reality”. We must remember, moreover, that Reading Lolita in Tehran is a literary work. As such, it does not establish guaranteed allegiances with reality. Indeed, it even unsettles the assumption of truth commonly associated to autobiographies, as the “Author’s Note” acknowledges the inevitable constructiveness of reminiscences: “[t]he facts in this story are true insofar as any memory is ever truthful” (2003, p. 1). Furthermore, by contesting the representativeness of a character’s experience, Nafisi’s critics disregard that, as Joan W. Scott (1991) puts it, “experience is at once always already an interpretation and something that needs to be interpreted” (Motlagh, 2011, p. 417). That is, what Azar narrates is her comprehension of the world and events, which we read against our own backgrounds. Moreover, Rachel Blumenthal argues that “critics must also consider the specificity and nuance” of Azar’s story (2012, p. 257). By attacking this personal interpretation and representation of Iranian, immigrant, Islamic womanhood, scholars may run the risk of silencing voices long unheard.
Amy Motlagh (2011), Darznik, and Blumenthal are attentive to the nuances and difficulties of women’s Eastern and Western lives and writings. The question of authority and authenticity of Iranian-American experience, for instance, is addressed by Motlagh in “Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora”. In her turn, in “The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora”, Darznik observes an adaptation, by Iranian women like Nafisi, of the Western genre of travel literature into return narratives. She also considers a dislocation of the notion of home in relation to those female characters, to whom “[h]ome is… a place at once rooted in Iran and yet mystically beyond place” (2008, p. 60). This idea that the immigrant’s home, signifying the unity of geography, affect, and belonging, is an unachievable desire constantly postponed is further developed by Blumenthal in “Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini”.
Blumenthal argues that diaspora “locates homeland geographically, ideologically, and textually” (2012, p. 251). She affirms that Azar moves to a Western ideological homeland through her opposition to Islamic totalitarian rule and her use of English-language literature, to which the narrator attributes words such as “genuine democracy”, “freedom”, and “courage” (Blumenthal, 2012, p. 252). However, similarly to Darznik, Blumenthal notices Azar’s paradoxical refusal, or perhaps impossibility, to completely divorce herself from “historical, intellectual, and emotional connections to Iran” (BLUMENTHAL, 2012, p. 261). Evidence of this denial, to Darznik, is “the dominance of Iran… [a] gaze steadfastly fixed on Iran” (2008, p. 56), which pervades the narrative through the lingering presence of Iranian settings and Persian cultural elements even when characters engage with Western classics.
Although Darznik and Blumenthal offer interesting considerations about the displacement of home for the Iranian-American immigrant woman, their discussions do not investigate a fragmented, hybrid subjectification as a cause for and consequence of that dislocation. I believe that, in Azar’s movement through cultures, her identity is constantly reconfigured due to the various privileged and oppressed positions she occupies. In this sense, instead of a unitary being unable to find home, Azar is a transcultural, transnational, fragmented, and hybrid subject with different geographical and ideological homelands.
This article’s discussion about the construction of Azar’s subjectivity subscribes to the theoretical apparatus of feminist literary criticism and geographies of identity, as presented by Friedman in Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Friedman argues that a locational approach to subjectivity in feminist critical practice is consonant with our postmodern world because it regards identity not as fixed and wholesome, but as fluid and fragmented. This approach traces figurations of the subjects, that is, maps of the social-political locations one occupies in a given context, which together compose the self. In “‘Beyond’ Gender: The New Geography of Identity and the Future of Feminist Criticism,” Friedman names those components of the self, such as gender, ethnicity, and class, axes of identity. She also devises six discourses related to them within locational feminism and geographics: the discourses of multiple oppressions, multiple subject positions, contradictory subject positions, relationality, situationality, and hibridity. Among them, the last two are of special interest to this study.
The discourse of situationality “assumes that identity resists fixity… [and that] it shifts fluidly from setting to setting”, in a way that, if we “change the scene, the most relevant constituents of identity come into play” (Friedman, 1998, p. 23). In this sense, feminist practice following this discourse is concerned with movement and geography in a more literal way, attentive to which axes of a character’s identity are highlighted or minimized in the narrative space and time through which she travels. The discourse of hibridity, in its turn, emphasizes identity as a heterogeneous mixture produced by migrations. Analyses conforming to this discourse focus on the subject’s movement through cultures, which usually, but not necessarily, involves spatial dislocation.
Since Azar transits between Iranian and American land and culture, and even between pre and post-revolutionary societies whose settings and customs profoundly differ, I find situationality and hibridity appropriate bases to discuss her complex construction. Moreover, these two discourses overlap and enrich each other when considered that movement through cultures provides distinct settings and situations, altering the interplay between aspects of subjectivity. With that in mind, I now discuss two narrative moments of different space, time, and socio-political configurations, inserted either in American or Iranian contexts, to see how Azar’s axes of identity interact in each of them.
The first of these narrative moments is set in the late sixties and early seventies in Norman, Oklahoma, to where Azar moves with her first husband to attend a university’s graduate program. Before that, she goes to school in England and Switzerland, and briefly returns to Iran to visit her father in jail. Her father, “the youngest mayor in Tehran’s history… who went into politics despising politicians and defying them almost at every turn” (Nafisi, 2003, p. 45), is arrested for publically sympathizing with the French government. According to Azar, he and the rest of her relatives are “cultural snobs” (Nafisi, 2003, p. 45), who pride “themselves on the fact that as far back as eight hundred years ago… the Nafisis were known for their contributions to literature and science” (NAFISI, 2003, p. 84). From these excerpts and from the fact that her family can afford her foreign instruction, we may conclude that the axes of class and education are sites of privilege of Azar’s identity highlighted in Iranian context, even though her political status as the daughter of a convicted traitor determines her oppression then.
When we change the scene to Oklahoma, Azar’s upper-middle class continues to be an emphasized aspect of her identity. After all, it is because of her social-economic condition that she has access to higher education, while other Muslim women are at times denied any formal instruction. Class is not the only axis of subjectivity underlined in this situation, though. In a Western context, categories that are taken for granted in Iran are brought to the foreground, such as ethnicity, nationality, and religion. As an Iranian Muslim in America, Azar is part of a minority. In this sense, axes that used to ascertain privilege now determine oppression, making her join the Iranian student group at the University of Oklahoma, long for home, and participate in demonstrations “shouting slogans against the US involvement in Iran” (Nafisi, 2003, p. 86).
Paradoxically, the context that causes Azar to feel excluded also empowers her as a woman. That is because, in Iran, gender is a constituent of identity that imposes women’s inferiority in relation to rights, education, freedom and opportunities. In the United States, on the other hand, aside from studying, Azar is allowed to leave and divorce her husband, socialize with other men, express political opinions, and dress however she wishes. All those contradictory subject positions of power and powerlessness might be the reason why the narrator describes this as a “schizophrenic period in my life in which I tried to reconcile my revolutionary aspirations with the lifestyle I most enjoyed” (NAFISI, 2003, p. 85). They are also permanent marks of another culture that affect Azar’s identity even once she returns to Iran.
The narrative moment that mostly contrasts with that in the United States is set in post-revolutionary Tehran. In this context, on the one hand, nationality and ethnicity are once again locations of privilege of Azar’s identity. Religion and gender, on the other hand, determine oppression. When extremist Islamic faith is indissoluble from politics, those of moderate religious views are persecuted by the regime. In spite of her Muslim origins, Azar’s education and transcultural experiences make her critical of the Republic’s use of religion “as an instrument of power and ideology” (NAFISI, 2003, p. 273) that foments hatred and justifies deaths. In addition, Azar stands up to the Islamic rule by reading and teaching Western classics, whose values, like freedom and the right to imagination, are “the exact opposite of those of the revolution” (NAFISI, 2003, p. 107). Because of her reluctant religious and political positions, Azar is confronted by radical male students, has her house searched for illegal books and satellite dishes twice, and is finally expelled from the University of Tehran.
The axis of gender interacts in this situation with religion and political orientation to determine the character’s powerlessness. After living the women’s liberation movement in America, Azar returns to a circumscribed existence in Iran. It is not to say that the West is then the land of gender equality. Indeed, it is during that time that Anglo-American feminism begins to be criticized for its internal reproduction of discrimination. Nevertheless, in Tehran, Azar encounters a strongly unequal scenario: “the government had waged a war against women” (NAFISI, 2003, p. 110). Among rulers’ several impositions on women in this context, the one I would like to further examine is the compulsory use of the veil.
In Reading Lolita in Tehran, Azar narrates a long strife between government and female citizens over veiling, which becomes mandatory in all public spaces around the years of the Iran-Iraq war, supported by the nationalist union the conflict inspires. According to Darznik, return narratives “express the opposition [between Iranian and American selves] through a common symbol: the veil… But at the heart of every return narrative lies a question of not only identity, but of allegiance expressed in terms of veiling” (2008, p. 57). She also considers that it is “as if these folds of fabric have the power to remake not only their bodies, but their personalities” (2008, p. 59). The question of allegiance expressed through veiling is observed in Azar’s defiance of the rule because she thinks “to wear the veil… [is] to compromise” (NAFISI, 2003, p. 203), to be complicit with a tyrannical regime. Even when it comes down to covering herself or going to jail, Azar resists: “I always wore my veil improperly” (NAFISI, 2003, p. 184). The novel also presents the effect of the veil, as pointed by Darznik, on the construction and self-perception of the characters, oppressed and effaced by religion and gender. Azar, for instance, claims that wearing the veil imposes on her a transformation that makes her look at the mirror and hate the stranger she becomes. She feels “irrelevant” (NAFISI, 2003, p. 150), “invisible” (NAFISI, 2003, p. 168), as if, inside the cover forced upon her, her “whole body disappeared” (NAFISI, 2003, p. 167). Such descriptions suggest the veil as a tool of ideological control over women, which alters their public identity so that they become powerless, faceless, deprived of the creative energy that comes from difference, and therefore unthreatening. Privately, however, we notice the unveiling of Azar’s hybrid and complex subjectivity.
The private class held weekly in Azar’s house is “a place of transgression” (NAFISI, 2003, p. 8), where she and the girls can exist in their differences. The learning space created in her living room is itself hybrid, reflecting Azar’s mixed cultural identity. She states that “more than any other place in [her] home, the living room was symbolic of [her] nomadic and borrowed life. Vagrant pieces of furniture from different times and places… created symmetry” (NAFISI, 2003, p. 7). The incongruent, competing fragments compose the harmony of the room and of her subjectivity. On the one hand, Western influence in that space of resistance is verified in the women’s inobservance of the veil, revealing their hidden images, in colorful tones of hair, nail polish, and clothes. It is, naturally, also present through the books, which not only portray different worlds, but bring into discussion themes such as captivity, sexuality, dreams, and even feminism. This way, “every great book read became a challenge to the ruling ideology” (NAFISI, 2003, p. 288), instigating questionings based on occidental thinking. On the other hand, the East composes that space just as much. It is there in the food and drinks consumed, in some students’ unfailing Muslim faith, and in Azar’s childhood stories. It lingers in the Elburz Mountains reflected by the antique oval mirror inherited from her father. That old family mirror inserts in that hybrid space a part of Iran that symbolizes Azar’s roots and a love for the land that, to echo Virginia Woolf in Three Guineas (1938), does not implicate blind sacrifice for the nation.
The different parts of Azar’s class/living room contrastively build that space just like the cultural aspects of her subjectivity compete for and constitute her identity. These aspects and the privilege and oppression they situationally determine are like “two worlds… forever seeking each other out and denying their attraction for each other” (Darznik, 2008, p. 68). That is, they are dialectal fragments, mutually dependent Others that epitomize desire and difference. Each side is dependent on the Other, and does not exist without it, so that, as Darznik puts it, “unit is born of disunity” (DARZNIK, 2008, p. 69) both in the class space and in Azar’s subjectification. So much it is, that she prefers this mixture of influences to any of the parts alone: she declares, “The more attached I became to my class and to my students, the more detached I became from Iran” (NAFISI, 2003, p. 317). Similarly, when away from the meetings and the country, she feels the need to recreate that space, this time, textually.
Blumenthal and Darznik argue that, to the Muslin woman, to write an autobiography is to create a textual space of transgression. That is because this genre is not “compatible with the core values of shame and honor pertaining throughout the Muslim world”, since it “invites a critique of self, family, tribe, or Islam” (Blumenthal, 2012, p. 259). From this statement, we can infer that autobiography and other forms of life writing belong primarily to Western literature and ideology. In this sense, it might be valid to suggest that the Islamic authoress that writes her cultural experience through a Western genre creates not only a textual space of transgression, but of hibridity. This way, we may conclude that Azar’s hybrid, fragmented, and migratory subjectivity is reflected in the very form of Nafisi’s work.
It is possible to extend our analysis, grounded in the discourses of identity within geographics, to other women characters in Reading Lolita in Tehran. Azar’s students, for instance, might as well be considered hybrid subjects, even though some of them never leave Iran, for “the greatest trips can take place without physically moving from one’s habitat” (BRAIDOTTI, 2011, p. 26). Guided by their professor, the girls travel through language and literature, and acquire cultural knowledge and experience. Interestingly, Davies has a view of critical theory similar to Azar’s approach to literature. To her, “theory… ought not to be an impediment to movement but should be an enabling set of discourses” (DAVIES, 1994, p. 25). The feminist critical practice Friedman advocates, locational feminism, allows us to study and understand subjectivity as positionality, thus affected by movement. It also invites us to look closely at literary representations of moving subjects, diaspora, and hibridity, thus acknowledging, for example, the once silenced voices of Iranian women.
 
 
Note
 

  1. Henceforth, I will use “Azar” to refer to the character Azar Nafisi in Reading Lolita in Tehran, and “Nafisi” to refer to the author of the memoir. I do so to avoid a direct association between character and author because, even though the novel is autobiographic, it is necessary to acknowledge its inevitable fictionalization.

 
Works Cited
BLUMENTHAL, Rachel. Looking for Home in the Islamic Diaspora of Ayaan Hirsi Ali, Azar Nafisi, and Khaled Hosseini, Arab Studies Quarterly 34.4 (2012): 250-265. Access on Web: 1 July 2015.
BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory. 2nd ed. New York: Columbia University Press, 2011.
DABASHI, Hamid. Native Informers and the Making of the American Empire, Al-Ahram Weekly Online (2006). Access on Web: 2 July 2016.
DARZNIK, Jasmin. The Perils and Seductions of Home: Return Narratives of the Iranian Diaspora, MELUS 33.2 (2008): 55-71. Access on Web: 3 July 2015.
DAVIES, Carole Boyce. Introduction: Migratory Subjectivities. In: Black Women, Writing and Identity: Migrations of the Subject. New York: Routledge, 1994. p. 1-37.
FRIEDMAN, Susan Stanford. Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. Princeton: Princeton University Press, 1998.
KESHAVAZ, Fatemeh. Jasmine and Stars: Reading More than Lolita in Tehran. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2007.
MAHDAVI, Pardis. Passionate Uprisings: Iran’s Sexual Revolution. Palo Alto: Stanford University Press, 2008.
MOAVENI, Azadeh. Lipstick Jihad: A Memoir of Growing up Iranian in America and American in Iran. New York: Public Affairs, 2005.
MOTLAGH, Amy. Autobiography and Authority in the Writings of the Iranian Diaspora, Comparative Studies of South Asia, Africa and the Middle East, 31.2 (2011): p. 411-424. Access on Web: 3 July 2015.
NAFISI, Azar. Reading Lolita in Tehran. New York: Random House, 2003.
SAID, Edward. Orientalism. New York: Vintage Books, 1979.
SATRAPI, Marjane. The Complete Persepolis. New York: Pantheon, 2007.
WOOLF, Virginia. Three Guineas. New York: Harcourt, 1963.





Bio fornecida pelo palestrante.

O FEMININO HELENA: MÚLTIPLAS VOZES LITERÁRIAS – Dina Maria Martins Ferreira




 

Dina Maria Martins Ferreira

 Universidade Estadual do Ceará

Université Paris V, Sorbonne

 
 
RESUMO: Este estudo se configura pela hibridez de áreas de estudos da linguagem, já que leva em conta os estudos linguísticos e literários sobre gênero feminino em torno do mito de Helena, o eterno feminino. Faz-se um percurso analítico desde o século VIII a.C. na Grécia antiga e chega-se ao Brasil contemporâneo. Nessa jornada poética, senão filosófica, discute-se se é pertinente aceitar o conceito de gênero feminino por vozes masculinas, formadores de estereótipos falocráticos, ou se o conceito de gênero feminino se constitui apenas por performatividades da mulher.
 
PALAVRAS-CHAVE: Feminino; Mito; Estereótipo; Vozes masculinas
 
ABSTRACT: This study sets the hybridity of areas of language and literature studies, as it takes into account the linguistics and literary studies about feminine gender concerning the myth of Helen, the eternal feminine. It is an analytical survey since the VIII Century B.C., in ancient Greece, until contemporary Brazil. In this poetic journey, we discuss if it is appropriate to accept the notion of feminine gender by male voices, forming phallocratical stereotypes, or if the concept of feminine gender can only consist of  women’s performances.
 
KEYWORD: Feminine; Myth; Stereotype; Male voices
 
MINICURRÍCULO: Pós-doutora pela Université Paris V, Sorbonne e Unicamp (2010), é graduada pela Universidade de Campinas, Unicamp (2002-2003) e doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ (1995). É docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará; membro pesquisadora do Centre d’Études sur Les Actuels et Quotidien, Université Paris V, Sorbonne. É autora de quatro livros, organizadora de quatro outros, capítulos de livros, artigos nacionais e internacionais.
 
 
MÚLTIPLAS VOZES LITERÁRIAS
 
Dina Maria Martins Ferreira
 
Universidade Estadual do Ceará
Université Paris V, Sorbonne
 

  1. Considerações

Este estudo é resultado de estudos sobre o feminino e mitologemas na literatura greco-latina (BRANDÃO, 1989)[1]. Aparentemente não teria ligação com os estudos atuais sobre o que, por exemplo, Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012) e
 
Luce Irigaray (1994; 1994) chamam de “feminismo da diferença”, pois, como poderão observar, não vai se travar nenhuma luta ferrenha em prol do feminismo nem tratar especificadamente de escrita feminina. Muito pelo contrário, pois são as vozes masculinas literárias que constroem o feminino Helena.
A escolha do título “O feminino Helena: múltiplas vozes masculinas” vem justamente nos possibilitar viajar não só pelo território geográfico-simbólico de Helena como também pelos territórios das vozes dos poetas-masculinos construindo o feminino “helena”, uma representação do ‘eterno’ feminino no universo mítico masculino, cujas contingências e performatividades são da seara do sistema patriarcal ‒ um devir de helenas que não têm nem início nem fim, habitando as brumas dos mitologemas. Nessa viagem literária de ‘helenas’, mesmo enaltecida ou enegrecida, o que o movimento feminista contemporâneo (século XX e XXI) chama de gênero feminino é apagado, devido não ser construído pela performatividade feminina.
 

  1. Viagem literária no espaço geográfico-simbólico

Mesmo que tenhamos a preocupação de ‘localizar’ o geográfico, este local no atlas é de natureza simbólica. Quando me refiro à noção do simbólico estarei no espaço de mitologias gregas, quando o caso, que se constroem na sacralidade do símbolo. E por tal aporte sacralizador torna-se um signo denso e durável, na medida em que está sempre em equivalência com outros sentidos de vida (BARTHES, 1989).  Segundo Brandão (1986, p. 38), a própria etimologia do termo símbolo já ratifica sua densidade de sentido, ou seja, o vocábulo grego súmbolon (de sun = junto, com e ballein = atirar, lançar) tem o sentido de
(…) ‘lançar com’, arremessar ao mesmo tempo, ‘com-jogar’. De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitia aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de equivalência (grifo nosso).
 
Apesar de estarmos aventando ao símbolo um caráter sacralizador, durável e equivalente, ele não está ontologizado no essencialismo; até, muitas vezes, está agregado ao simbólico, pois não se nega à morfologia cultural de cada emergência simbólica. O que se propõe é entender a construção do ‘gênero helena’ pela percepção de que
 
(…) os símbolos são diversamente vividos e valorizados: o produto dessas múltiplas atualizações constitui em grande parte os ‘estilos culturais’ (…) [e] como formações históricas, essas culturas não são mais intercambiáveis; estando já constituídas em seus próprios estilos, elas podem ser comparadas no nível das Imagens e dos símbolos (ÉLIADE, 1996, p.  173) (grifo nosso).
 
E Haesbaert (2006, p. 40) nos auxilia a entender porque estamos designando essa viagem de uma geografia simbólico-literária. Para esse autor nada é mais coerente do que tratar território pela vertente cultural ou “simbólico-cultural: [que] prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido”; Ou seja, a dimensão simbólica habita um espaço social organizando-se pela historicidade e geograficidade, quesitos de territorialidade. Vale a observação que historicidade e geograficidade podem ser valores construídos no próprio território ou designados por outro território ‒ neste caso estaremos ainda em viagem, mas já fora da Grécia Antiga, pois os valores da mitologia grega podem ou não ser apropriados por outro território, tal como Itália, Alemanha, Brasil ‒ os territórios que também vamos visitar.
Apresentamos o início de nossa viagem com um guia-atlas: primeiro a localização histórico-geográfica dos poetas masculinos[2], depois o percurso de Helena pela literatura mais antiga. Vale a ressalva de que reduzimos em muito nossa viagem, pois só na literatura greco-romana haveria mais de 34 obras em que Helena se presentifica.
Onde bradam as vozes dos poetas-masculinos gregos:[3]
 
 
 
Figura 1
www.atlas.google.com.br
 
Legenda:
Geografia das vozes dos poetas e suas obras:
Anatólia,                              Homero,               Ilíada e Odisseia (séc. VIII a.C.)
Ilha de Kíos,                        Hesíodo,               Os trabalhos e os dias e Teogonia (séc.VIII e                                                                                                           VII a.C.)
Ilha de Lesbos,    Safo,                      Poemas, L.I (séc. VII a.C.)
Éfeso,                                    Hipônax,              Fragmentos (séc. VII a.C.)
Ilhas Cíclades,     Semônides
de Amargós,         Sátiras às Mulheres (séc. VII e VI a.C.)
Atenas,                  Ésquilo,                 Oréstia (séc.V e IV a.C) e
Eurípedes,            Andrômaca, Orestes, Medeia, Helena                                                                                                         (séc.V e IV a.C)
 
Peregrinação literário-simbólica de Helena:
Troia
Ilha de Ítaca
Micenas
Esparta
Creta
 
 

  1. Helena e o feminino

E já tendo a contextualização geográfico-histórico-simbólico, é na e pela linguagem que se os poetas masculinos constroem as suas helenas, senão os estereótipos de representação feminina. Estamos chamando novamente a atenção para os estereótipos, devido ao fato de não haver performativos femininos nessa caminhada. No entanto, se os estereótipos fossem considerados gêneros, teríamos quatro subgêneros ‒ feminino-deusa; feminino-heroína; feminino-traidora-prostituta; e feminino-em-paz ‒, todos sob a égide do hemistíquio de Ésquilo ‒ “sofrer para compreender”.
 
3.1. Feminino-deusa
A primeira Helena se constitui em divindade creto-micênica. Sua existência foi comprovada em Atenas e na Ilha de Creta e outros lugares como Rodes etc, conforme atestou o geógrafo Estrabão (63 a.C.-24 a.C., grego da Amaseia, atual Turquia). Era uma deusa ctônica da vegetação, que sempre renascia todo ano. Tanto que Apolo na tragédia euripidiana Orestes confirma a tradição divina de Helena:
 
Porque, filha de Zeus, ela deve viver como imortal,
E com Cartor e Pólus entará nas profundezas do éter,


como guardiã da vida dos navegantes [4]
 
(Or.1635-1637)
 
E Homero a apresenta na Ilíada, quando ela sobe as escadarias em Troia para ser apresentada ao Rei Príamo, pai de Páris, o príncipe de Troia, encantado por sua beleza a sequestra de seu marido Menelau, rei de Esparta:
 
Não, não é uma nêmesis [“uma punição”] que troianos e aqueus de belas grevas
[sofram tantas desgraças,
há tanto tempo, por semelhate mulher ()
Quando vista de perto ela se assemelha  terrivelmente às deusas imortais …     
(Il. III. 156-158)
 
Esse trecho se refere ao fato de que Zeus engendraria uma filha, Helena, de tal modo que provocasse uma guerra entre atual Ásia e Europa, de modo a trazer o equilíbrio cósmico, os homens mortais estavam em grande alarido. E Helena seria o pretexto para deflagar o conflito e Aquiles agiria. Esta mesma prerrogativa se repete em Helena de Eurípides, não só ratificando o papel do feminino que deve ser punido, como também transformando esse papel punidor em glórias ao masculino (Aquiles):
 
Além do mais, a estes infortúnios acrescentaram-se
outros desígios de Zeus: a eclosão da guerra entre os helenos
e os desventurados troianos, a fim de aliviar a Mãe-Terra
de uma pletora impertinente de mortais e enaltecer
o mais destemido dos gregos.
(Hel. 36-41)
 
Helena como a deusa da punição, já constrói a representação estereotípica de que tudo que acontece é culpa da mulher. Não é só o hemistíquio de Ésquilo que compõe o feminino-punição, Eurípedes é insistente nessa prerrogativa na obra Medeia:
 
De todos os seres viventes e pensantes, somos nós, as mulheres,
as criaturas mais sofredoras. Primeiro, somos obrigadas
a gastar muito dinheiro para comprar um marido
e (além disso, a) dar um senhor ao nosso corpo, mal
ainda mais grave que o primeiro
E vem o problema mais sério: será ele bom ou mau?
Pois é uma vergonha para as mulheres abondonar o marido
sem lhes ser possível repudiá-lo.
(Med. 230-237)
 
3.2. Feminino-heroína
E, na condição de heroína, mesmo isenta de culpa pelo rei de Troia, Príamo, Homero não deixa Helena livre do sentimento de que merece punição. Helena se amaldiçoa e se julga digna de castigo:
 
Diante de ti, dileto sogro, sinto-me constrangida e temerosa,
Antes me tivesse levado a morte cruel do que ter seguido
teu filho até aqui, abandonando meu tálamo, meus parentes,
minha querida filha e minhas amáveis companheiras.
(Il. III. 172-175)
 
Na Odisseia, Helena minora, de um lado, sua culpa de mulher espartana em diálogo com Telêmaco ‒ conta sua experiência em Troia com a entrada de Ulisses e o “cavalo de Troia”, o famoso “presente de grego” ‒, e, de outro, não deixa de glorificar a superioridade masculina:
 
 Nesse tempo, enquanto outras mulheres troianas lamentavam-se em altas vozes,
meu peito, no entanto, se alegrava, pois meu coração já se inclinara
a voltar para casa, e lamentava a loucura em mim,
provocada por Afrodite, quando para lá me arrastou de minha terra pátria, 
deixando minha filha, meu tálamo, meu esposo,
que não é inferior a ninguém, quer no espírito, quer na beleza.
(Od. IV. 259-264)
 
A superioridade masculina também é enaltecida pelo próprio feminino Helena, tanto que na Ilíada, a mulher heroína necessita, para ter tal atributo, de um marido herói, Menelau, já que Páris se enfraquece diante dos horrores da guerra de Troia:
 
Se os deuses, todavia, nos reservaram estes horrores,
porque, ao menos, não sou mulher de um homem destemido,
capaz de sentir a repulsa e as múltiplas injúrias dos homens?
Páris, no entanto, não tem persistência alguma e jamais aterá.
E creio que, em breve, ele verá as consequências.
(Il. VI, 349-353)
 
Helena se faz tão heróina que enfrenta Afrodite, acusando-a do feitiço recebido para ter abandonado Menelau, rei de Esparta. Manda Afrodite deitar com Páris:
 
Vai deitar com ele. Abandona a companhia dos deuses,
deixa de escalar o Olimpo. Aprende a te atormentar por causa dele,
vela por ele, até que o mesmo te faça sua esposa e talvez sua escrava! 
(Il. III, 406-409)
 
Mas Helena-heroína, rapidamente se transforma em anti-heroína por Hesíodo, em Os trabalhos e os dias:
 
Outros, conduzidos em navios, para além do abismo marinho,
para Troia, por causa de Helena de linda cabeleira,
lá foram envolvidos pela morte que tudo finaliza.
(Trab. 164-166)
 
3.3. Feminino-adúltera-traidora-prostituta
E de anti-heroína Helena passa a adúltera e traidora, em Andrômaca de Eurípedes:
 
Nenhuma jovem espartana, mesmo que o desejasse,poderia permancecer virtuosa:
desertando a casa paterna, coxas nuas e peplos esvoaçantes,
participam com os adolescentes
dos exercícios nos estádios e palestras, hábitos a meu ver intolerávies.
É necessário, após isso, admirar-se de não formardes esposas honestas?
(And. 595-601)
 
Realmente Eurípides não perdoa Helena, porquanto não a isenta de um segundo julgamento que a condena à morte. A impura mulher em Orestes  deve ser condenada:
 
Se nosso punhal se erguesse contra uma mulher honesta,
seria um crime abominável. Helena, todavia, pagará pelaGrécia inteira,
cujos pais matou, cujos filhos fez perecer, cujas mulheres privou de seus maridos.
Erguer-se-á um grito de júbilo e as chamas dos altares
(…)
por termos derramado o sangue de uma mulher infame.
(Or. 1132-1140)
                                                                                                                         
Ésquilo também se insurge contra Helena, na trilogia Oréstia. Aliás é impossível em tragédia salvar alguém, não?
Quem, pois, senão um ser invisível que na sua presciência,
fazendo-nos falar a língua do destino, deu este nome tão verdadeiro
àquela que, objeto de contestação, o esposo reclama, lança na mão,
esta Helena justamente cognominada perdição de navios,
perdição de homens, perdição de cidades
(Agam. 681-688)
 
Esta mulher traidora ascende a Hesíodo, em Os trabalhos e os dias, pois conclama que /quem confia em mulher está confiando em ladrões/ (Trab. 375), e também na Teogonia:
 
E quando, em vez de um bem, [Zeus] criou este mal tão belo,
conduziu-a (Pandora) para onde estavam os demais deuses e homens.
                      (…)
(…) Dela se originou
a espécie maldita das mulheres, flagelo terrível instalado
entre os homens mortais…
(Teog.585-588; 590-592)
 
E um pouco mais ao sul do continente grego, nas Ilhas Cíclades, Simônides de Amorgós também não perde a vez de satirizar Helena em Sátira às mulheres:
 
Zeus criou com efeito este imenso flagelo
e a ele nos prendeu com liame indestrutível: o Hades
recebeu, por isso mesmo, os que lutram por causa deuma mulher.
(Sat. mulh. 115-118)
 
Mas a misogenia alcança o seu épice com Hipônax de Éfeso, cujo ditado popular circula até hoje entre homens machistas:
 
Há dois momentos em que a mulher nos proporciona um prazer supremo,
no dia do casamento e quando a levamos à sepultura.
(Frag. 29 Bergk)
 
3.4. Feminino-em-paz
Diante de tanta misogenia, parece-me que até a voz patriarcal-poética se cansa, A este cansaço chamo pelo feminino-em paz, porquanto Eurípedes desvanece Helena em éter:
 
Todos vós, frígios e aqueus, como sois infelizes. As maquinações de Hera
fizeram que, por minha causa, durante tantos anos morrêsseis
nas margens do Escamandro! Julgáveis que Páris, possuísse
uma Helena e ele no entanto nunca a teve. Agora, após cumprir
durante todo esse tempo o que me foi pelo destino imposto,
retorno para junto de meu pai, nos altos dos céus.
(Hel. 608-613)
 
Já Goethe a celebra em Fausto (1806 [1981]), nas serenas camadas do Éter, vivendo com Aquiles, na foz do Danúbio, eternamente ditosa na Ilha Branca:
 
Eu [Helena], como sombras, vinculei-me a ele, outra sombra,
Um sonho foi, dizem-no as próprias palavras;
Desmaio. E sombra torno-me eu, para mim mesma.
(Fausto, Ato III)
 

  1. As helenas contemporâneas: equivalências simbólicas

Contudo, parece que Helena não descansa no éter da Ilha dos Bem-Aventurados, continua até hoje a provocar pulsões (séculos XIX, XX e XXI), sejam elas misóginas ou não, sejam irônicas, suaves e deleitosas ‒ mas sempre pulsão na voz do masculino. Como diz Brandão (1986, p. 121), “Curioso é que entre muitos poetas modernos Helena continue sua caminhada, às vezes parecendo até que o sangue de Troia nunca foi purgado!”. Continua o hemistíquio esquiliano “sofrer para compreender”!
O poeta neogrego Giorgos Seféris (apud PAES, 1986, p. 169) a transforma em sombra, talvez querendo lhe dar paz ou até culpando-a da guerra, quiçá?:
 
E em Troia?
Nada em Troia – apenas um fantasma.
Assim os deuses o quiseram.
E Páris se deitou com um sombra, como se ela fosse um ente sólido,
e por Helena durante dez anos fomos massacrados.
(Diário de Bordo III)
 
Na comédia Abel e Helena (título é um trocadilho) de Artur de Azevedo (1877), Helena tem um rapto diferente. Helena deveria ir para um convento, pois seu padrinho Nicolau (que a pretendia para esposa) a surpreende com o bem-amado Abel. E este, disfarçado de frade, rapta Helena. Na fuga, já no trem em movimento, Abel tira o capuz, os óculos e a barba e grita para a apoplético Nicolau:
 
Ó Nicolau, triste papel
fizeste em cena:
cá levo Helena…
Eu sou Abel!
(Ato Terceiro, Cena IX)
 
Já o poeta e ensaísta Gilberto Mendonça Telles, no poema Ubi Troia Fútil, em quatro versos, euripidizou Helena, em Sociologia Goiana (1982, p. 111):
 
Helena de um
Helena de dois
Helena de trois
Helena de trottoir
 
Enfim, parece que o feminino se eterniza em mito e poesia, pela voz literária-masculina de Goethe em Fausto:
 
Têm os filólogos aqui
Enganado a si mesmos como a ti.
Se é mitológica, é única a mulher;
Recria-se o poeta como lhe prouver.
Não envelhece, nem fica madura,
Mais sedutora, sempre, sua figura.
Raptam-na, moça, idosa, ainda é do amor a meta;
Pois basta! Não se atém ao tempo o poeta.
 
Mas ainda o feminino não é o agente de sua representação, é o Alter masculino que a constrói, seja belamente, seja ironicamente.
 

  1. Representação do feminino

Mesmo em uma viagem que se iniciou em tempos primevos, a voz feminina deu o seu brado: Safo, a poetiza da ilha de Lesbos. Talvez um marco para o movimento feminista em que a mulher é agente de suas escolhas. A história de Safo é envolta em lendas e muitas controvérsias devido à Escola para Moças que fundou, onde se ensinava poesia, música e dança somente a mulheres. Safo amava todas as suas “amigas” e não alunas (daí o termo lesbianismo, devido sua homosessualidade), e principalmente seu grande amor e amante Ítis. Safo, diante da escolha de Helena de acompanhar seu amante Páris, elogia sua coragem e destemor:
 
Uns consideram que as corridas de carros, de infantes ou de navios
são o que há de mais belo na face da negra terra.
Para mim, o que de mais sublime existe é o objeto do amor de cada um.
É muito fácil fazer que todos compreendam esta verdade:
Helena, que pôde comparar a beleza de tantos homens,
escolheu como o mais atranete aquele que destruiria a gloriosa Troia.
Tendo abandonado a filha e os parentes mais queridos,
deixou-se ir, arrastada por Cípris, a fim de amar
 um homen de terras longínguas
(Liv. 1, 27 D, 1-13)
 
Mesmo que o percurso do feminino pela voz masculina não revele um embate feminista, este estudo não deixa de captar a prerrogativa de Simone de Beauvoir (1949[1973]), quando diz “não se nasce mulher, torna-se mulher”; até porque é uma afirmativa que embuti toda uma noção de performatividade, seja uma suposta Helena um sujeito agente, seja um personagem do universo masculino.
Se pudéssemos ancorar a representação do feminino pela figura de Helena(s), duas categorias são aventadas para a constituição de sua representação social: feminilidade e “feminilitude” (MARTINS FERREIRA, 2009). Na feminilidade, encontramos com a Helena que “alimenta o perfil identitário do senso comum da mulher tradicional, provido por arquétipos do sistema patriarcal” (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 126) ‒ não é à toa a construção que é feito pelos poetas-masculinos. E, na “feminilitude”, encontramos a Helena de Safo que “escolheu”, agiu ‒ enfim esta Helena constrói “ o sujeito-’feminilitude’ [que] precisa afirmar-se no seu meio funcional, adotando elementos que indexem seu posicionamento de força” (MARTINS FERREIRA, 2009, p.127).
Retornando a Simone de Beauvoir (1949[1973]), Helena, a meu ver, torna-se mulher, mesmo sob a égide do falocentrismo, até porque os poetas precisaram da força centrípeta de Helena para compor sagas, comédias e tragédias humanas. Sem Helena, mesmo sendo assinalada com fantasma, cf. Seféris, suas ‘histórias’ literárias não se narrativizariam. Sob o falocentrismo é a mulher punição, precisa “sofrer para compreender”, no entanto o masculino esqueceu que sofrer é ação, é um “tornar-se mulher”, mesmo que, pretensamente, submetida ao alter masculino.
 

  1. Considerações finais

Parece-me que, mesmo insistindo em categorias dicotômicas na construção identitária de gênero feminino, em que o universo ontológico se exacerba, a dicotomia perde sua força hierarquizante. O “tornar-se mulher” beauvoiriano encontra-se com a asserção do filósofo analítico Willard van Orman Quine: “ser é ser o valor de uma variável” (apud Rajagopalan, 2000, p.80). O termo ser pode nos levar ao onto, mas o variável se movimenta, se performatiza, torna-se. Nesse sentido,
 
Tal assertiva vislumbra o universo multifacetado em que a identidade se constrói, por exemplo, ser mulher é ser o valor feminino de uma rede variável sócio-cultural-ideológica, ou seja, o construído da identidade do feminino mobiliza, situado em espaço social e cultural, sentidos ideológicos (MARTINS FERREIRA, 2009, p. 127).
 
A própria Judith Butler (1986, p. 35), uma das grandes representantes do feminismo contemporâneo, afirma que “se há algo de certo na afirmação de Beauvoir de que ninguém nasce mulher e sim torna-se mulher decorre de que a mulher é um termo em processo, um devir, um construir de que não pode dizer com acerto que tenha uma origem ou um fim”.
Não foi isso que aconteceu às helenas (propositadamente no plural) pelas vozes masculinas desde o século VIII a.C. até os XIX, XX e XXI? O “ser mulher” não foi se “tornando mulher” x, y, z, de acordo com o tempo e espaço, de acordo com as gramáticas culturais nas quais emerge?
 
É preciso também lembrar que a noção de gênero[5] “é um conceito contemporâneo, que surge a partir da ideia de que o feminino e o masculino correspondem
 
a construções culturais que vão mais além das fronteiras entre os secos de  caráter puramente biológico (KUBISSA, 2006, p. 182).
Resta a questão de saber se o gênero feminino é apenas delimitado pela agência do discurso feminino ou pode ser construído pelo masculino.
Se gênero feminino está vinculado ao discurso da mulher, à Helena não aplicamos a noção de gênero, e sim a de um arquétipo feminino construído pelo sistema patriarcal. Se o movimento do “feminismo da diferença” reclama contra a divisão cultural genérica entre masculino e feminino, buscando uma superação de gêneros para uma compreensão unitária do humano (cf. KUBISSA, 2006, p. 183), o nosso estudo sobre o poeta masculino construindo o feminino perde sua razão de ser. Até porque uma “compreensão unitária” é uma linha cultural e sociológica de valoração, mas eliminar as diferenças, parece-me inviável. Para Hélène Cixous (apud JEANNET, 2012), a linguagem é uma tradução e que qualquer escritor fala através do corpo; e como o corpo feminino é diferente do masculino, logo as literaturas vão construir outros corpos diferentes de acordo com o corpo-escritor. Nesse sentido, Helena não seria um gênero feminino ‘puramente’ feminino já que a escritura é construção do masculino?
Se gênero é uma estilização do corpo, independente de quem o constrói, Helena seria um corpo construído (pelo masculino), estilizado pelo tempo e história em que é construído; mas se depende da própria agência, Helena seria uma fantasma-mulher ou uma personagem feminina segundo a vontade do masculino. Conforme argumentação de Pinto (2002, p. 106) agência/linguagem/corpo é uma rede de contínua intercomunicação, pois “o efeito do ato de fala é operado ao mesmo tempo pelo que é dito, por quem diz e como é dito”, logo, sujeito, fala e corpo estão em relação imbricada. No caso de nossa viagem, teríamos o sujeito e a fala masculina construindo o corpo feminino.  Aí o perigo de entendermos gênero como dissociado de quem fala, pois
 
(…) o dizer do corpo não é um acidente, uma causalidade psico-física-motora do momento da enunciação ligada à intenção do/a falante. O corpo é também ritualizado. Sua ação não é um ato físico não convencional. (…) Suas estilizações fazem parte dos processos de marcação social; a convencionalidade e a repetição definem sua legitimidade e traçam o domínio do possível, do pensável e do executável (PINTO, 2002, p. 107).
 
E nessa viagem a “convencionalidade” e a “repetição” de helenas-sofrer-para-compreender parecem se deter na categoria feminilidade, sob a legitimação do sistema patriarcal.
Porém, o “domínio do possível, do pensável e do executável” está aí, haja vista a nova imortal da Academia Brasileira de Letras, a pensadora e crítica Rosiska Darcy de Oliveira, que assumiu a cadeira 10 em junho 2013, cujos atributos, “a rebeldia, a irreverência, a defesa do ‘feminino’ e uma ruidosa campanha pela felicidade” (ZAIDAN, 2013, p. 154) constróem o gênero feminino: “O movimento feminista se constrói sobre uma ideia extraordinária ‘nosso corpo nos pertence’. Quer botox? Faça!” (ZAIDAN, 2013, p. 158).
Se o gênero está no “que é dito, por quem diz e por como é dito”, Helena continua um gênero-fantasma. Mas “Fazemos votos que Helena e helenas se libertem dos bárbaros e não sejam raptadas por culpa de Zeus, mancomunado com Momo, Têmis e Plutão, nem tampouco espezinhadas e ameaçadas por algum truculento Diomedes (BRANDÃO, 1989, p. 8).
 
 
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, A. Abel, Helena. In: Teatro de Arthur de Azevedo. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas/INACEN. V. 7. (Coleção Clássicos do Teatro Brasileiro, Tomo 1), 1887.
BARTHES, R. Elementos de Semiologia. Tradução Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 1989.
BERGK, Teodor. Poetae Elegiaci et Iambographi. Lipsiae. In: Aeditus B.G. Teibmero, MCMXIV.
BEAUVOIR, Simone (1949). Le deuxième sexe.  Tome I et II. Paris: Gallimard, 1973.
BRANDÃO, Junito de S. Helena – O eterno feminino. Rio de Janeiro: Vozes, 1989.
BRANDÃO, Junito de S. Mitologia grega. Volume I. 2a ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1986.
BUTLER, Judith. Sex and gender in Simone de Beauvoir’s Second Sex, Yale French Studies, Oxford, 72, 1986: p. 35-49.
ÉLIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
GOETHE, Johann W. von. (1806) Fausto. Tradução Jenny Klabin Segall. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. São Paulo: Bertrand Brasil, 2006.
IRIGARAY, Lucy. Thinking the Difference: For a Peaceful Revolution. New York: Routledge, 1994.
IRIGARAY, Lucy. Toward a Culture of Difference. New York: Routledge, 1993.
JEANNET, Fréderic-Yves. Hélène Cixous: Encounters: Conversations on Life and Writing. Trans. Beverley Bie Brahic Malden. Chicago: University of Chicago Press, 2012.
KUBISSA, Luisa P. Diferencia, identidad y feminismo: una aproximación al pensamiento de Luce Irigaray, Anales del Seminario de Metafísica, 39, 2006: p. 181-201.
MARTINS FERREIRA, Dina M. Discurso feminino e identidade social. 2a ed. São Paulo: FAPESP/Annablume, 2009.
PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
PINTO, Joana P. Performatividade radical: Ato de fala ou ato de corpo? Revista  Gênero, Niterói, UFF, v. 3, no 1, 2002: p.101-110.
RAJAGOPALAN, Kanavillil. O singular: uma pedra no caminho dos teóricos da linguagem, Cadernos de Estudos da Linguagem, Campinas, Unicamp, 38, 2000: p. 79-84.
TELLES, Gilberto M. Sociologia goiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
ZAIDAN, Patrícia. Pop e, agora, imortal, Revista Claudia, São Paulo, 6, junho 2013: p. 154-158.
 
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] Não poderia deixar de agradecer a Junito de Souza Brandão de me ter permitido, mesmo post mortem, utilizar sua obra Helena, o eterno feminino (1989), do qual fiz parte como compositora do texto grego, praticamente na íntegra, como forma de reescrever o já dito, de modo que este primoroso livro chegue mais perto aos leitores do século XXI.
[2] Também incluímos no mapa a ilha de Lesbos, local da poetisa Safo, como forma de economia de figuras, desordenando um pouco a nossa argumentação.
[3] Em formatos diferentes e em cor vermelha, a legenda indica o local de nascimento dos poetas gregos, o título da obra em que Helena se faz personagem e o período aproximado dessas obras. As formas em turquesa referem-se às passagem de Helena na geografia das obras gregas. Aos outros poetas que se inserem na Grécia Moderna, na Alemanha, com Goethe, e no Brasil, com dois poetas, não recebem figuração em atlas devido à memória recente dos leitores.
[4] As citações de fragmentos foram retiradas da obra de Junito de Souza Brandão, Helena, o eterno feminino (1989), vide nota 1.
[5] Tradução livre da autora; texto original: También el concepto de género, dentro de la elaboración teórica del feminismo, es de cuño contemporáneo y surge a partir de la idea de que lo femenino y lo masculino responden a construcciones culturales, que van más allá de la frontera entre los sexos de carácter puramente biológico.





Bio fornecida pelo palestrante.

ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR – Elisa Riffel Pacheco




Elisa Riffel Pacheco

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a escrita feminina através dos aportes teóricos e metodológicos referentes à beleza feminina contemporânea e sua representatividade presente nos diversos artefatos culturais e midiáticos, incluindo o cinema e a literatura. Tal estudo abrange um conteúdo histórico que ressalta a trajetória do embelezamento feminino ao longo dos séculos, bem como sua importância e repercussão nos dias de hoje. Traz como referência teórica os Estudos Culturais em Educação, que fazem pensar as pedagogias culturais que constroem e dão sentido a um modelo/padrão de beleza feminina que cada vez mais ganha visibilidade através de um corpo que se coloca constantemente em evidência e em espetáculo. Este artigo traz um recorte da minha pesquisa de dissertação de mestrado “Meninas fantásticas e o sonho do universo fashion: entre a beleza, o luxo e o glamour das passarelas, vale tudo para ser uma top model?”,  que analisou como muitas meninas sonham em serem modelos e tornarem-se mulheres “fantásticas” no mundo da moda.
 
Palavras-chave: Estudos Culturais; Beleza; Feminilidade; Corpo.
 
Abstract: This article aims to analyse the female writing through the theoretical and methodological related to female beauty and its representations existing in the various media and cultural artifacts, including cinema and literature. This study has a historical background that highlights the feminine embellishment over the centuries, as well as today. It employs cultural studies in education as its theoretical reference, which leads to the cultural building of a pedagogy and measures the meaning of a standard of feminine beauty that increasingly gains visibility through a body that arises constantly in evidence and in shows. This article is part of my dissertation research, “Fantastic Girls and the fashion universe: the glamour of catwalks among beauty, luxury and glamour. Is it worth anything to be a top model?” It analysed the dreams of so many girls who dream about being a model and to be “fantastic” women in the fashion world.
 
Keywords: Cultural studies; Beauty; Femininity; Body.
 
Minicurrículo: Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Psicopedagoga especialista em Pedagogia da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escritora, poeta, atriz. Possui diversas publicações tanto no campo acadêmico como no campo literário.
 


 
ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR
Elisa Riffel Pacheco
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
 

  1. Introdução

A beleza tem muitas histórias para nos contar. Hoje, vivemos a idolatria do belo sexo e as antigas atitudes hostis ao amor do corpo já se encontram ultrapassadas. Na contemporaneidade está em vista a indústria da beleza e a coqueteria já não causa repugnância, nem suspeita em relação à aparência feminina. Crescem os desejos de autonomia e realização pessoal e a tendência é amar a si mesmo, agradar-se e agradar aos outros. Melhorar a forma física tornou-se uma atitude legítima. As mulheres podem embelezar-se aos “quatro  ventos”  e  o  investimento  feminino  na  aparência  é  promulgado  constantemente. Contudo, nem sempre foi assim. Segundo Lipovetsky (2000, p. 102):
(…) durante a maior parte da história da humanidade, a mulher não representou de modo algum a encarnação suprema da beleza, seus encantos não se beneficiaram nem de uma condição muito elevada nem de um tratamento artístico privilegiado. Lição incomparável do mergulho no passado mais distante: não há nenhuma permanência nem necessidade transistórica do “belo sexo”. Este é um fenômeno inteiramente histórico, uma instituição social, um “construído” cuja origem não remonta a muito além da aurora dos tempos modernos.
 
Nem sempre a beleza feminina foi reconhecida e apreciada no prisma das exaltações estéticas. Nas sociedades ditas “selvagens” que datam aproximadamente do período da pré-história, não se levava em consideração a supremacia estética do feminino. Nessa época, conforme Lipovetsky (2000, p. 104) “(…) o atributo sublinhado não é a beleza feminina, mas a fecundidade, o poder superior de vida e de morte. A deusa não é celebrada por sua beleza, mas por ser senhora dos animais e das forças incontroladas, poder divino de vida e de morte”.
Nesse sentido, a beleza feminina não era mais admirada que a dos homens nem aparecia como uma propriedade distintiva da mulher. O homem era “(…) o ponto de mira da estética corporal” (Lipovetsky, 2000, p. 104). Assim, por mais ricos e espetaculares que fossem os ornamentos e tatuagens femininos, isso não significava uma religião estética da mulher. O curioso era que na sociedade sem escrita, tanto a beleza masculina como a feminina eram reconhecidas socialmente e cantadas, mas não eram enaltecidas nem personificadas como um dom de superioridade.
O mesmo autor nos explica que essa “recusa” social de sacralizar a beleza feminina não cabe somente às eras “primitivas” da humanidade. A ausência de culto do belo sexo foi também percebida na mentalidade camponesa do mundo rural tradicional. Os antigos provérbios empenhavam-se em desvalorizar e diabolizar a beleza feminina. Ao afirmar que por toda a parte dominava a tendência de depreciação dos encantos femininos, Lipovetsky (2000, p. 105) afirma: “(…) trata-se antes de tudo de prevenir os rapazes contra os atrativos fugidios e perigosos da beleza: ‘não há rosa sem espinho’ (Provença-Languedoc); ‘Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento’ (Albi); ‘Beleza não põe mesa’ (Gasconha)”.
O que sustentava a condição de beleza nas sociedades primitivas era a fecundidade. Dessa forma, a mulher infecunda era desprezada, porque tornava incompleto o dever de descendência. Devido a isso, a beleza não poderia ser beneficiada de homenagens. Em tudo, o homem era considerado superior às mulheres. Embora o lado feminino tivesse poderes reconhecidos, nenhum deles poderia ser nivelado fora da supremacia do homem. Ao destacar que as atividades nobres, o prestígio e as marcas de glória eram propriamente da ordem do masculino, Lipovetsky (2000, p. 106) elucida que “(…) nesse contexto, a idolatria social da beleza feminina não pode surgir, uma vez que liberaria um foco de consagração feminina antinômico com o princípio do monopólio masculino do prestígio e da superioridade social”.
Em nenhum código social a adulação do feminino e a ausência de religião estética das mulheres, estavam associadas à organização do trabalho. Assim, na ordem social primitiva não havia mulheres ociosas. Todas as mulheres, segundo o autor, eram encarregadas de assegurar um papel de produtoras, inclusive as esposas dos chefes, que também participavam das atividades econômicas.
Em meio a todo esse contexto, a valorização da beleza como uma característica distintiva do feminino não ganhava corpo. Para possibilitar-se a idolatria do belo sexo era preciso que surgisse uma divisão social entre as classes ricas e pobres. E foi isso o que aconteceu. Com a separação das classes nobres das classes laboriosas, abriu-se uma condição necessária para uma categoria de mulheres isentas de trabalho. Essas novas condições sociais contribuíram para tornar mais estreita a relação entre práticas de beleza e feminilidade, conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 107), dizendo-nos que, “(…) nas longas horas de ociosidade de que dispõem as mulheres das classes superiores, elas passam a se dedicar a maquiar-se, enfeitar-se, fazer-se belas para se distrair e agradar ao marido”. O autor ainda coloca que desde a antiguidade grega, e depois romana, já se fazia o uso feminino nas pinturas. Porém, essa prática não estava associada à cultura do “belo sexo”, e sim à procura das mulheres pelo próprio embelezamento. O reconhecimento social da beleza feminina entra em uma nova fase com o aparecimento do Estado e das classes sociais.
 
1.1 O culto da beleza feminina e a invenção do belo sexo
Falar da beleza é também falar do corpo. Para Del Priore (2000, p. 15), “(…) as noções de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura”. Hoje, vive-se uma corrida constante pela beleza, em que todos os corpos devem ser cultuados e bem “cuidados”. Vive-se um “carinho”, um cuidado de si, como afirma Couto (2012, p. 119), onde todos são “(…) convidados a administrar a própria aparência, suprir e redesenhar as formas físicas”. Hoje, o sonho de ser bela democratizou-se e está ao alcance de todos. Sant`Anna (2005, p. 122) diz-nos que:
(…) através das imagens e dos discursos criados com o intuito de embelezar a mulher, segundo os interesses econômicos, os padrões morais e os argumentos científicos de cada época, cruzamos outras histórias paralelas ao sonho de ser bela: no Brasil, em particular, o gesto que embeleza não desenha somente uma fisionomia mais à moda, em detrimento de uma aparência doravante considerada ultrapassada, portanto, feia. Ao fazê-lo, ele também revela as diversas nuanças do antigo sonho de ser moderno e civilizado que há muito persegue as elites desse país.
 
O que antes era considerado um sonho apenas das elites, tornou-se também um sonho do povo, de uma cultura de massa. Ao afirmar que, para o homem ocidental, o corpo tornou-se o lugar de sua identidade e seu modo de ser, Couto (2012, p. 119) destaca que:
(…) nossa época se rende aos diversos cultos que celebram e festejam a corporalidade. Das práticas esportivas intensas e, muitas vezes, radicais, ao uso proliferado do silicone e das cirurgias plásticas, diversas técnicas e terapias servem para hipervalorizar e pavonear o corpo nas ruas, praias, clubes, páginas de revistas, programas televisivos, filmes publicitários, imagens diversas na internet, passarelas, galerias de arte.
 
Mas, será que sempre foi assim? Tal pergunta feita por Del Priore (2000, p. 15) coloca que “(…) a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais (…)”. Ela salienta ainda que, “(…) mais do que nunca, a mulher sofre prescrições (…)”.
Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cercam. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. E se, em termos contemporâneos, “(…) o algoz não tem rosto” (Del Priore, 2000, p. 15), somos bombardeados, constantemente, por centenas de imagens que nos ensinam uma cultura feminina das aparências. No entanto, no passado era diferente, deslocavam-se outros critérios de beleza que produziam outros efeitos corporais.
Assim como nos explica Vigarello (2006), cada regra, etiqueta ou receita de beleza está ancorada a sua dinâmica corporal. Albino e Vaz (2008), ao analisarem como Vigarello (2006), organizando sua exposição sobre a história do embelezamento feminino, explicam que no século XVI a beleza foi revelada, no XVII era expressiva, no XVIII era experimentada e no XIX, torna-se desejada. Por volta de 1914 até os anos 2000, os autores apresentam a beleza como democratizada. Época democrática do belo sexo significa, nesse sentido, glorificação sem reservas de seu reino, emancipação da dimensão beleza em relação aos medos e às litanias misóginas, autonomização total no que se refere às conotações morais e religiosas. Fim da ambivalência imemorial dos encantos femininos: com o século XX, triunfa a era da pós- mulher fatal (Lipovetsky, 2000, p. 170).
É ao falar da difusão dos cuidados estéticos em todas as camadas sociais que o autor (2000) nos conta sobre uma era democrática da beleza e da chegada do século XX, que faz com que os produtos e as práticas de embelezamento deixem de ser um privilégio de classe. Para Lipovetsky (2000), ao longo das últimas décadas, ocorreu um deslocamento de prioridades, onde uma nova economia das práticas femininas de beleza instituiu outra relação com o corpo. O autor ainda ressalta que:
(…) a preocupação feminina de parecer jovem não tem nada de fenômeno recente. No entanto, por muito tempo os cuidados proporcionados à aparência foram dominados pela obsessão com o rosto, por uma lógica decorativa concretizada no uso dos produtos de maquiagem, nos artifícios da moda e do penteado (p. XX).
 
Ao falar de uma cultura feminina das aparências, Del Priore (2000) mostra-nos como era comum buscar a transformação do corpo feminino para dissimular as imperfeições com o uso de pós, perucas, unguentos, espartilhos e tecidos volumosos. A cosmética evoluía. E desde o século XVI, na Europa Moderna, já começavam a circular “livros de receitas”, os chamados “segredos” de beleza. Enquanto os poetas despiam o corpo feminino, a sociedade ditava regras para cobri-lo e transformá-lo. A autora (2000, p. 23) afirma que “(…) a pele azeitonada, a robustez física, as feições delicadas e a longa cabeleira passavam por processos feitos de bens e serviços, utensílios e técnicas, usos e costumes capazes de traduzir gostos e rejeição, preceitos e interditos”. Mas, Lipovetsky (2000) conclui que essa tendência não é mais a nossa. Se por muito tempo, o grande alvo do embelezamento feminino era o rosto, hoje o corpo e sua conservação ganham mais paixão e cuidados estéticos. Del Priore (2000, p. 60), destaca que:
Quanto ao rosto, a moda da fisiognomonia, ou seja, a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços do rosto ditava regras. Trocas fisiológicas entre interior e exterior, relações entre físico e moral, compunham um abecedário de normas para fazer o rosto “falar”: a fronte alta e lisa era denotativa de temperamento dócil e serenidade de alma; sobrancelhas naturalmente arqueadas diziam da franqueza de sua possuidora; olhos negros anunciavam calor e vontade; os azuis, ternura e paixões tranquilas; o nariz não podia ser nem muito pontudo nem muito largo e suas aletas, suficientemente bem recortadas para exprimir “impressões fugitivas”; a boca jamais poderia ter lábios finos pois associavam-nos à mesquinharia.
 
Hoje, no novo planeta da beleza em que vivemos, a magreza se faz preponderante, mas não está sozinha, pois vem acompanhada da febre da beleza-magreza-juventude, que vem sendo anunciada desde os anos 60, em que a cultura juvenil ganha força através da difusão de modelos estéticos adolescentes. Segundo Lipovetsky (2000, p. 130) “(…) desde a Antiguidade as mulheres utilizam maquiagens e outros unguentos a fim de mostrar-se vantajosamente e mascarar certos desfavores”. Com a chegada do século XX, a palavra “ordem” adquire outra configuração e passa dar valor a um furor que põe em evidência uma aparência jovem, magra e descontraída. O velho e admirável “coroa” burguês perde a sua vez e o que vemos hoje, segundo o autor (2000, p. 137), “(…) exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada às metamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedades modernas de cem anos para cá”. A magreza passa a ser o epicentro dessa espiral de coerções estéticas. O corpo esbelto e firme torna-se uma norma consensual.
Nessa perspectiva, Lipovetsky (2000, p. 137) afirma que, “(…) ao longo de todo o século, as estrelas e as manequins propagaram o ideal estético da mulher moderna, esbelta e esguia”. O autor coloca ainda que o corpo feminino emancipou-se de suas antigas servidões (sexuais, procriadoras e indumentárias), mas cada vez mais se rende às atividades modeladoras e à conquista da beleza relacionada à esbelteza, restrições alimentares e exercícios corporais.
Del Priore (2000) salienta que o corpo feminino passou por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. Por muito tempo “(…) a mulher de forma mais salientosa tendia a ser considerada mais ortodoxamente feminina” (p. 53). A mulher era considerada desejada por ser sexuada e fecunda. Como nos diz a autora (2000, p. 58) “(…) feliz prisioneira dessas formas, ela sublinhava a relação entre sua conformação anatômica e sua função biológica e, ao mesmo tempo, sagrada: reproduzir, procriar, perpetuar”. Lipovetsky explica a extraordinária adesão das mulheres à estética da magreza por suas transformações de sua identidade social:
(…) nas sociedades que nos precederam, a corpulência feminina era valorizada porque era associada à fecundidade, destino supremo da condição feminina tradicional. O desenvolvimento dos métodos contraceptivos e o novo compromisso profissional das mulheres transformaram radicalmente não apenas as condições de vida feminina, mas também, no mesmo passo, sua relação com a aparência (2000, p. 138).
 
Desde o século VI a.C a coqueteria era considerada como ardes diabólicos e o uso de pinturas típicas do gênero feminino era condenado e visto como trapaças desonestas (Lipovetsky, 2000). O humanismo renascentista deu uma nova significação para a beleza feminina e, assim, estabeleceu-se uma ruptura com sua diabolização tradicional. Uma bela mulher era dita como uma obra-prima de Deus. Tais encantos femininos alimentavam a inspiração de muitos artistas, entre eles, pintores, escritores, filósofos, pensadores e poetas. Assim, tanto nos meios letrados, como nos aristocráticos, a mulher era admirada como a emanação da beleza divina, sendo posta na condição de anjo. Se antes sua beleza era inscrita como a “arma do diabo”, símbolo da malignidade, no século XV e XVI, mulher bela, divina, como nos diz Lipovetsky (2000, p. 114) “(…) instalou-se um processo excepcional de dignificação da aparência feminina, de celebração de sua supremacia estética, do qual somos os herdeiros diretos”. Da mesma forma que a beleza foi acusada, também foi exaltada, com os mesmos hinos ao feminino. Lipovetsky (2000, p. 113) ao contextualizar que a idolatria do “belo sexo” é uma invenção da Renascença, explica que:
(…) de fato, é preciso esperar os séculos XV e XVI para que a mulher seja alçada ao pináculo como personificação suprema da beleza. Pela primeira vez na história, realiza-se a conjunção das duas lógicas que instituem o reino cultural do “belo sexo”: reconhecimento explícito e “teorizado” da superioridade estética do feminino e glorificação hiperbólica de seus atributos físicos e espirituais.
 
Ainda o que caracteriza a beleza renascentista é a imobilidade, o ócio e a brancura da pele, atributos relacionados à ordem aristocrática, assim como com a função de distinção social. Del Priore (2000, p. 56) informa-nos que “(…) as mulheres brancas eram descritas como possuidoras de um corpo negligenciado, corpulento e pesado, emoldurado por um rosto precocemente envelhecido”. Entre as diversas causas, explica-nos Del Priore (2000) estavam os banhos quentes, o amor à comodidade, o matrimônio e a maternidade precoces, a falta de exercício físicos, entre outros. A autora, ainda nos conta que:
Alguns viajantes atribuíam a palidez e o desmazelo das moças à severidade com que eram tratadas pelos pais e maridos, sendo mantidas muito segregadas da vida social – situação ainda mais grave no interior, onde passavam às vezes muitos meses encerradas entre quatro paredes, sem aparecer às janelas. A sujeira e o desleixo que diziam testemunhar provocavam segundo eles, violentas deformações físicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estúpida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” e por esse motivo pareciam também descoradas e doentes (…) (DEL PRIORE, 2000, p. 57).
 
Isso faz lembrar a história da “Branca de Neve”, em que a princesa é proibida por sua madrasta de sair do castelo, e por isso não tem o hábito de tomar sol, nem de passear pelo bosque, ora de conhecer o mundo em que vive. Contudo, nos diz Lipovetsky (2000, p. 133) que hoje mais do que nunca, as mulheres combatem com muito empenho “(…) tudo o que parece ser flácido, gordo, mole. Já não basta não ser gorda, é preciso construir um corpo firme, musculoso e tônico, livre de qualquer marca de relaxamento ou de moleza”.
No século XIX começa a surgir a necessidade de uma sensibilidade mais individual, mas isso ainda não é tão visto no cotidiano e demora a se consolidar. Como diz Vigarello (2006), há o nascimento de uma nova sociedade que tenta se opor à antiga, mas que ainda se vê sob a “velha etiqueta aristocrática”. Lipovetsky (2000, p. 128), também nos fala que até o fim do século XIX, “(…) a idolatria do belo sexo se desenvolveu em um quadro social estreito”. O autor, ao salientar que as homenagens artísticas às mulheres e às práticas estéticas quase não ultrapassavam os limites do publico rico e cultivado, destaca que:
(…) fora dos círculos superiores da sociedade, as valorizações poéticas e cosméticas da beleza, assim como as imagens resplandecentes do feminino, têm pouca difusão social. Na sociedade camponesa, até a Primeira Guerra Mundial, as acusações tradicionais contra os encantos femininos superam em muito sua exaltação. Durante quase cinco séculos, a celebração da Bela conservou sua dimensão elitista: é um culto de tipo aristocrático que caracteriza o momento inaugural da história do belo sexo (LIPOVETSKY, 2000, p. 128).
 
Entretanto, enfim, chega o século XX, onde a beleza é associada ao bem estar feminino. As referências dessa época são as misses e atrizes, das quais as imagens passam a ser usadas como propagandas de cosméticos. Lipovetsky (2000, p. 128) acentua que com a chegada do século XX “(…) a imprensa feminina, a publicidade, o cinema, a fotografia de moda propagaram, pela primeira vez, as normas e as imagens ideais do feminino na escala do grande número”. As estrelas, as manequins, as imagens de pin-up são as personagens principais, modelos superlativos da feminilidade que saem das passarelas e das telas do cinema e invadem o cotidiano. Não é mais sonho, nem raridade, é realidade. Conforme nos diz ainda o autor (2000, p. 129), “(…) as revistas femininas e a publicidade exaltam o uso dos produtos cosméticos por todas as mulheres”. O culto do belo sexo entra em sua dinâmica mercantil e democrática, ganhando uma dimensão social inédita ao invadir a era das massas com o advento da cultura industrial e midiática.
É com relação a esse protagonismo que nasce um novo modo de pensar e viver a beleza, em que “(…) buscar uma singularidade transforma-se em um dever” (Albino e Vaz, 2008, p. 250). Neste sentido, antes de investir no próprio corpo, faz-se necessário descobrir a si mesma, pois neste novo contexto, o corpo representa o que se é interiormente. Neste novo cenário da beleza contemporânea, os modelos tornam-se mais fugazes, uma vez que acompanham a vontade e o estado de espírito das musas. Para Lipovetsky (2000, p. 129) “(…) durante séculos, a glorificação do belo sexo foi obra dos poetas e dos artistas, de agora em diante ela é própria da imprensa, das indústrias do cinema, da moda e dos cosméticos”. Com esse “boom da beleza”, termo utilizado por Lipovetsky (2005):
(…) abriu-se um novo ciclo histórico baseado na profissionalização do ideal estético (estrelas e manequins) e no consumo de massa de imagens e de produtos de beleza. Industrialização e mercantilização da beleza, difusão generalizada das normas e imagens estéticas do feminino, novas carreiras abertas à beleza, desaparecimento do tema da beleza fatal, inflação dos cuidados estéticos com o rosto e com o corpo: é a conjunção de todos esses fenômenos que funda a ideia de um novo momento da história da beleza feminina. Depois do ciclo elitista, o momento democrático; depois do ciclo artesanal, a época industrial; depois do período artístico, a era econômico-midiática. As democracias modernas não fazem declinar a cultura do belo sexo, coincidem com sua apoteose histórica.
 
Com esse incitamento ao consumo, “(…) a negação metafísica da carne foi substituída por um ativismo funcional do corpo” (Lipovetsky, 2000, p. 141). Os novos discursos de valorização de si mesma não escapam às normas e aos domínios de controle do corpo. Ao falar de uma “teologia da beleza”, por exemplo, Lipovetsky (2000, p. 140) coloca que “(…) a febre contemporânea da beleza feminina é a continuação da religião por outros meios”. Em tempos hipermodernos, o centro é a diabolização do pecado da gordura. Este é o catecismo que culpabiliza as mulheres e hipnotiza e manipula os “fiéis” a renunciarem aos prazeres da gula. De agora em diante, segundo Lipovetsky (2000, p. 140):
(…) as eleitas são as top models e as não-eleitas as mulheres gordas e enrugadas. Como todos os cultos religiosos, a beleza tem seu sistema de doutrinação (a publicidade dos produtos cosméticos), seus textos sagrados (os métodos de emagrecimento), seus ciclos de purificação (os regimes), seus gurus (Jane Fonda), seus grupos rituais (Vigilantes do Peso), suas crenças na ressurreição (os cremes revitalizantes), seus anjos (produtos de beleza), seus salvadores (os cirurgiões plásticos).
 
Se o sistema contemporâneo da beleza amplia a lógica moderna do consumo, ele também vem acompanhado de um novo sistema de comunicação, do qual a imprensa feminina faz parte e contribui para promover normas estéticas. A profusão das representações da beleza feminina conheceu uma popularidade crescente e, segundo Lipovetsky (2000, p. 155), “(…) tanto as mensagens como as imagens reforçam a definição do feminino como gênero destinado à beleza”.
 
1.2 A Algumas considerações: ser bela e feliz para sempre?
Ao nos afirmar que a imprensa feminina adquiriu um imenso poder sobre as mulheres ao longo do século XX, Lipovetsky (2000, p. 165) ressalta que “(…) não há muita dúvida de que a imprensa feminina figura entre os agentes mais eficazes da propagação social das normas do corpo esbelto (…). Frente às novas exigências de sedução, surge uma nova mulher que usa a maquiagem e a roupa que quer. Lipovetsky (2000) conta-nos que a partir dos anos 1960, a imprensa feminina dá mais acessibilidade à elegância, tornando-a prática e descontraída. E assim, a mídia passa a valorizar a individualidade e a personalidade, e a beleza, agora, se torna livre. Até um artigo da Vogue de 1968, como destaca Lipovetsky (2000, p. 165) “(…) defende a ideia de que a beleza resulta metade da personalidade, um quarto da maquiagem e outro quarto da natureza”. Dessa forma, a mídia feminina começa a reforçar o poder das mulheres sobre sua aparência física. E que mulher não sonha em ser bela? Ao falar que se difunde uma cultura que favorece a responsabilização individual pelo corpo e o princípio de autoconstrução de si, Lipovetsky (2000, p. 101) coloca que:
É um belo romance, é uma velha história. Lembremo-nos dos contos, das rainhas e de suas inquietações lancinantes: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Ao longo dos séculos, os poetas se maravilharam com os encantos da bela, os pintores e os escultores glorificaram a plástica de Vênus, os livros de “segredos” propagaram as receitas da sedução feminina. Ainda em nossos dias, as fotografias de moda, os institutos e concursos de beleza, os conselhos e produtos cosméticos não cessam de recompor o primado da beleza feminina, de reproduzir a importância da aparência na identidade feminina. Que mulher não sonha em ser bela e que homem não sonha com mulheres lindas? Uma mulher nunca é bela demais: quanto mais o é, mais irradia sua feminilidade. Para os homens, nada de semelhante: a imagem da virilidade não é função da beleza. Hoje como ontem, as expectativas em relação à beleza e ao valor a ela conferido não são equivalentes no masculino e no feminino. Para nós a equação é evidente: segundo sexo e belo sexo, é a mesma coisa.
 
Esse primado da beleza feminina vem reforçando o sonho de se estar bela desde as nossas infâncias. A importância da aparência ganha palco nas mais diversas circunstâncias sociais. As mulheres são cobradas para adquirirem e manterem uma beleza midiática, a ser consumida e produzida como nos contos de fadas. Muitas meninas, por exemplo, já devem ter sonhado em assumir um estilo Cinderela, Branca de Neve ou Bela Adormecida de ser. Para terem a chance de atingir tais sonhos, elas “abraçam” os conselhos e as dicas que prometem corrigir todos os “defeitos”, alcançando o corpo idealizado. Mas e o que a mídia tem a ver com isso? Conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 167) “(…) a mídia menos produz o desejo feminino de beleza do que o exprime e intensifica”. Mas o que as artistas, as princesas e as manequins têm em comum? Não poderíamos pensar que ambas nos sugestionam ou irradiam uma feminilidade fantástica? Nessa exposição e proliferação de imagens de mulheres realçadas e intensificadas na mídia, não nos inspiramos a querer ser cada vez mais belas e sedutoras? O sonho de ser uma famosa top model não poderia estar de certa forma relacionado com todo esse encantamento literário da beleza feminina? Lipovetsky (2000) nos explica que, por muito tempo, se pendurou o tema da beleza perigosa, que despertava o medo e a desconfiança dos homens. Contudo, com a sagração do belo sexo, houve uma mudança importante e o feminino passou a ser cercado de homenagens enfáticas. Nesse contexto, segundo Lipovetsky (2000, p. 125):
(…) “Cada bela mulher é uma rainha”, diz justamente Balzac: depois de milênios de depreciação, um poder feminino é posto num pedestal, admirado, supostamente igualando ou mesmo superando o poder dos monarcas. O novo reside em que um atributo feminino tornou-se capaz de conferir às mulheres títulos de nobreza, prestígio, riqueza simbólica. Assim, os hinos ao belo sexo não podem ser assimilados pura e simplesmente a um instrumento de alienação do feminino; concretizando um reconhecimento e uma valorização inéditos das prerrogativas femininas, permitiram ao mesmo tempo impulsionar uma promoção social e simbólica das mulheres, ainda que excepcional, a exemplo das Damas de Beleza e outras favoritas do Rei.
 
E que mulher ou menina não sonha em ter uma beleza de princesa ou de rainha? Que jovem não almeja em ser a dama do rei ou aquela moça da corte cortejada por seu admirado embelezamento? Desde cedo, as meninas aprendem a ser princesas, buscando dicas e conselhos de beleza para o seu aperfeiçoamento físico. Ser considerada como uma “rainha” pode ser um caminho para se chegar às passarelas. As misses ao vencerem um concurso de beleza, usam uma coroa. Tal objeto glorifica a beleza que foi conquistada. Muitos atributos femininos são ensinados nos contos de fadas: comportamentos, modos de agir, de pensar, de vestir, de andar, de acenar, e de cuidar da própria aparência. O trabalho de uma modelo não se distancia muito das aprendizagens consideradas importantes para uma princesa. Rainhas, princesas, misses e atrizes cinematográficas, o que elas têm em comum? Os penteados, as maquiagens, o corpo magro, as medidas, e o nariz arrebitado? Será que todas essas referências não trazem em si o brilho de uma super top model? Elas não deixam de ensinar a importância de uma superprodução para se estar bela. Em um passe de mágica, a Gata Borralheira virou Cinderela. Lipovetsky (2000, p. 181) considera que essas figuras ideais do feminino têm em comum “(…) o fato de sua beleza ser fruto de um extraordinário trabalho de metamorfose”. O autor complementa afirmando que “(…) evidentemente, os artifícios sempre permitiram que as mulheres resplandecessem e parecessem ‘outras’”. Isso nos é mostrado até nas imagens de mulheres representadas nos contos de fadas. E as top models, segundo Lipovetsky (2000), prolongam esse processo de superprodução artificialista. As receitas da sedução feminina estão produzindo um modelo de mulher para ser posto em espetáculo a ser desfilado em concursos de beleza. Conforme ainda nos explica o autor (2000, p. 182):
(…) a fase radiosa da beleza coincide com o momento em que a técnica permite construir belezas vivas mais sublimes que as criações imaginárias, em que o mito da beleza torna-se verídico e as belezas de carne, imagens míticas. Em nossas sociedades, a beleza feminina já não é acusada de produzir o mal, é produzida como uma imagem de sonho para o consumo das massas (…).
 
Nesse sentido, a beleza maldita foi substituída por uma beleza mercantil, segundo Lipovetsky (2000, p. 182): “(…) uma beleza funcionalizada a serviço da promoção das marcas e do faturamento das indústrias do imaginário”.
As princesas dos contos de fadas, apresentam a figura de uma mulher jovem, loira, alta, magra, com uma cintura de manequim e um rosto delicado. Muitas meninas, por exemplo, se inspiram até hoje na imagem da Cinderela e de seu sapatinho de cristal, cuja história já ganhou algumas adaptações e releituras para o cinema. Isso também inclui  a Bela Adormecida, uma princesa romântica, meiga, delicada, de vestido rosa, cabelos feitos da luz do sol e lábios rubros como as rosas vermelhas. Uma jovem que sonha em encontrar seu príncipe encantado e ser feliz para sempre. Nesses contos infantis, as princesas apresentam um corpo feminino perfeito. Essa cultura que cria e ensina gestos, atitudes, valores, maneiras de ver e cuidar de si, difunde-se no campo social, estabelecendo estilos e tendências. Muitas animações, por exemplo, dão fluência a tais discursos legitimando como é ser mulher na atualidade. Uma das mais recentes releituras dos contos de fadas, o longa-metragem – Espelho, espelho meu – faz uma adaptação do filme “A Branca de Neve e os sete anões” da Disney. A rainha má, interpretada pela atriz americana Julia Roberts, mostra os seus métodos e artifícios para manter a aparência de um corpo perfeito. Ao fazer referência a essa personagem, pretendo ilustrar, como a partir de um panorama cultural, as meninas são interpeladas a se tornarem fantásticas desde as suas infâncias. Lipovetsky (2000, p. 181) destaca que “(…) as mulheres manequins, da mesma maneira que as estrelas da tela grande, não são irreais nem fictícias, são recompostas e surreais”. Esse filme, por exemplo, teve uma bilheteria de quase dois milhões de ingressos vendidos no Brasil. Assim, penso que algumas imagens de corpos femininos que circulam e são produzidas na mídia, investem em modelos a serem perseguidos. Nessa constante busca pela aparência perfeita, qualquer técnica de beleza parece ser válida para que bruxas, princesas, artistas, modelos e as mulheres ditas “comuns” adquiram os padrões e transformem-se em “uma linda mulher”.
 
Referências
ALBINO, B. S.; VAZ, A. F. Uma narrativa histórica por meio da beleza: comentários sobre História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje, de Georges Vigarello, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 29, p. 145-151, 2008.
COUTO, Edvaldo Souza. Corpos voláteis, corpos perfeitos: estudos sobre estéticas, pedagogias e políticas do pós-humano. Salvador: EDUFBA, 2012.
PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro" – Luiza Lobo




RESENHA POR LUIZA LOBO

Literatura e Cultura – Janeiro de 2017

SANTOS, William Soares dos. Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro. Pref. Claudio Aguiar. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2016. 180 p. il.
Já tivemos muitos textos em homenagem ou enquadrados na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, como os de Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, crônicas de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, contos de Clarice Lispector, Sérgio Sant’Anna, Rubem Fonseca, Sonia Coutinho, novelas, como A estrela sobe, de Marques Rebelo (Edi Dias da Cruz), e, na música, incontáveis compositores… sem falar em José de Alencar e Machado de Assis. A lista é muito ampla, e poderia desencorajar qualquer um que não fosse William Soares dos Santos.  Este guerreiro escritor, pesquisador, oriundo dos bancos da Faculdade de Letras da UFRJ e agora seu professor de italiano, não para jamais. Ano passado publicou rarefeito – poemas, pela mesma editora, Ibis Libris, que agora lança também este livro de contos situados na cidade do Rio de Janeiro. Além destes, ele já publicou livros sobre didática de ensino, em colaboração, e diversos ensaios. Sempre original e múltiplo, William é exímio desenhista e fotógrafo. Ele é também o autor das fotos em branco e preto que ilustram cada um dos contos, marcando o bairro em que se passa a história, sempre apresentando ângulos inusitados.
As epígrafes do livro são em grego (de Menandro) e em italiano (da Divina comédia, de Dante Alighieri), justamente o Inferno, versos 100 a 105 do canto V, que trata do amor. Mas não há qualquer analogia entre os contos e os males do Inferno, de Dante, tanto que a passagem escolhida fala do amor: este “tomou-me pelo seu desejo tão forte, / que, como vês, não me abandona”. Os contos rememoram antes o amor e o encontro que o mal e o desencontro infernais. São doze contos que tratam de “o amor da mãe pelo filho”, do “poliamor”, da divisão “entre dois amores”, “flores de jacinto”, com referência a Virginia Woolf. Os que mais se aproximam do inferno são “ulisses” (p. 169-175), que nos remete à ilha da feiticeira Circe, a qual transformou os marinheiros em animais e quis aprisionar Ulisses para sempre, e “poliamor” (p. 89-103), que parte de uma descoberta de amor poligâmico e termina num cruel inferno.
O conto “flores de jacinto” (p. 57-71), vai na mesma direção que “poliamor”, no sentido de construir contos de amor fora do costumeiro modelo heterossexual. A descrição de uma solteirona “já com mais de 25 anos” (p. 60) está localizada no ano de 1970, e seu estudo num curso de inglês e sua vida são associados à biografia homossexual de Virginia Woolf. Referências a amores homossexuais parecem uma tendência da nova geração, agora liberta de entraves preconceituosos contra todo tipo de amor fora das normas canônicas. Tais preconceitos permanecem, mas, agora, liberados pelo menos na legislação, e relações amorosas tornam-se tema literário não mais reprimido, mesmo que nem em todas as mentalidades.
“O amor da mãe pelo filho” se situa em data ainda anterior: 1961. Foi nessa época que a favela do Pinto foi desalojada para dar lugar a um condomínio de luxo, chamado Selva de Pedra, e outro para baixa renda, numa proposta de dom Helder Câmara de misturar ricos e pobres – prédio que ainda existe no jardim de Alá, na divisa entre Ipanema e Leblon, uma das áreas mais valorizadas da cidade, tendo vista para a praia e para a Lagoa. É talvez o conto mais social – e sua colocação em primeiro lugar no livro dá uma impressão inicial ao leitor de que todo o livro correrá nessa linha… A favela é queimada pelo poder público – recurso constantemente utilizado em São Paulo para retirar moradores recalcitrantes e desocupar terrenos particulares – mas o final é feliz, embora focado num único caso.
William vai percorrendo os bairros – o centro, em “flores de jacinto”, com a confeitaria Colombo, na rua Gonçalves Dias – Copacabana, em “o divórcio” (p. 73-87), com o “divorciando” repetindo o estado de espírito do noivo, anos antes, ao correr em casa atrás do documento de pacto antenupcial esquecido pela estagiária, e exigido pelo tabelião para realizar o divórcio. A corrida pelas ruas de Copacabana serve de ensejo para o personagem relembrar os anos passados no matrimônio que termina. O clima de ansiedade do noivo renovado em “divorciando” é muito bem reconstituído, sem uma atitude maniqueísta de bem ou mal nas cores do passado, mas uma vida transcorrida até ali com felicidade, também. Foi apenas o amor que acabou, abrindo novas possibilidades.
O conto “flores de jacinto” parece preceder cronologicamente “entre dois amores” (p. 49-55), que o antecede nas páginas do livro. Neste há também uma primeira e uma segunda mulher, enquanto no anterior a “flores de jacinto”, intitulado “um amor” (p. 37-48), paira uma sombra triangular ou uma indecisão amorosa num caso amoroso relatado do ponto de vista do homem por um narrador onisciente. “entre dois amores” é também narrado por um narrador onisciente que mergulha no interior do protagonista masculino. Tem final triste, assim como “poliamor”. Antes que tudo há o desencontro, a impossibilidade do amor juntos, como em “o retrato da infanta maria teresa” (p. 159-167).
O amor de Ulisses por Penélope, difícil quando se realiza e cheio de esperança quando reaparece, pode corresponder ao mote de todos os tipos de amor do livro: “(…) ele testificara que o amor não era, necessariamente, o elemento formador da felicidade. Eles não poderiam mais viver juntos, já que o que ela dizia sentir o aprisionava, impedindo-o de viver uma existência plena na qual realizaria os sonhos grandiloquentes de conquista” (p. 171). Esses sentimentos atribuídos a Ulisses podem muito bem ser os do narrador. Digamos que William tenha nos oferecido uma Arte de amar, à la Ovídio, mas uma arte de amar dos tempos pós-modernos, cheios de desencontros, frustrações, indecisões, indefinições, abandonos e morte, sinal de nossa época, em que mergulhamos cada vez mais fundo no eu. Talvez por isso a opção pelas letras minúsculas, infringindo a norma gramatical e a do amor metafísico.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O ENCONTRO ENTRE O FEMININO BRASILEIRO E O ISLÃ: CAMINHOS E DESENCONTROS – Mônica Peralli Broti, Paulo Roberto Monteiro de Araújo




O ENCONTRO ENTRE O FEMININO BRASILEIRO E O ISLÃ: CAMINHOS E DESENCONTROS

Mônica Peralli Broti

Paulo Roberto Monteiro de Araújo

Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

Resumo: O artigo investiga o encontro entre a mulher brasileira e o discurso tradicionalista da religião do Islã no sentido de como tal aproximação abre à mulher novos significados culturais e existenciais. Partiu-se, da revisão das principais questões de gênero observadas em campo com entrevistas e, consequentemente de suas relações com o contexto da cultura ocidental moderna. Além disso, analisou-se como as considerações dessas mulheres foram interpretadas à luz de autores como Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco, que se dedicaram a descrever as esferas política e social da modernidade.
Palavras-Chave: Tradição, Islã, gênero, modernidade.
Summary: The article investigates the meeting between Brazilian women and the traditionalist speech of Islam, in a way that such approach opens new cultural and existential meanings to these women. It all started from the review of main questions of gender observed in the field throughout interviews, and consequently from the relations with the context of modern occidental culture. Besides all that, it analyzes how the considerations of these women were interpreted by some authors such as Hannah Arendt and Elisabeth Roudinesco who dedicated themselves to describe social a political spheres of modern times.
Keywords: Tradition, Islam, gender, modernity.
Minicurrículos: Mônica Peralli Broti é Mestranda no Programa de Pós-Graduação Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie.  Atualmente é professora no Colégio São Judas Tadeu. Atua principalmente nas seguintes áreas:  História do Brasil e Geral, Cultura Brasileira e Multiculturalismo.
Paulo Roberto Monteiro de Araújo – Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Senso em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua principalmente nas seguintes áreas: Cultura Contemporânea, Arte, Ética e Filosofia Política.
 
 
O ENCONTRO ENTRE O FEMININO BRASILEIRO E O ISLAM: CAMINHOS E DESENCONTROS
Mônica Peralli Broti
Paulo Roberto Monteiro de Araújo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
 
Oh! O amanhã é sempre o grande momento
De que amanhã se trata?[1]
 
Os estudos sistemáticos sobre as desigualdades de gênero[2], colocados no campo da teoria política feminista trouxeram uma situação inédita: mulheres brasileiras que cresceram em meio a costumes ocidentais, manifestam o desejo à conversão ao Islam, e reivindicam o direito ao parentesco como vida privada e à procriação assistida[3]. No  Brasil, país marcado por diferenças sociais profundas, onde é patente a luta pela  incorporação das mulheres à ordem existente, a partir dos anos 1980 a pluralidade de abordagens sobre as questões femininas – a luta pelo voto, acesso à educação, assim como a exigência de direitos iguais no casamento e do direito ao divórcio, do direito das mulheres à integridade física e a controlar sua capacidade reprodutiva – definiram discussões teóricas no ambiente acadêmico e também na prática política. Apesar da exigência da cidadania igual para os dois sexos, o que aconteceu nos últimos anos para que a mulher considerada inferior tenha desejado não apenas ser reconhecida como cidadã integral, mas encarna o empoderamento da identidade e religiosidade da “nascida muçulmana”? Por que esse desejo de resgate de outra cultura que não a sua?
Para abordar tais depoimentos requer uma rigorosa reflexão sobre o mundo moderno. Ao mesmo tempo, outra atenção deve ser direcionada ao significado desse momento histórico e as implicações sobre a condição humana. No que concerne particularmente a esse contexto político e social, a importância de alguns acontecimentos valemo-nos de duas intelectuais que contribuíram enormemente, cada qual a seu modo, para o debate. Trata-se de Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco.
A condição humana (2015) de Hannah Arendt, permanece fundamental para “pensar o que estamos fazendo” (ARENDT, 2015, p. 25). E o resultado desta análise, o de reconsiderar a condição humana do ponto de vista das mais novas experiências, que faz do texto um parâmetro para a tarefa de compreensão dos motivos e intenções das mulheres brasileiras ao se reverterem[4] às comunidades muçulmanas firmemente arraigadas na tradição.
Muitas das críticas dirigidas ao contexto histórico atual como a perda da autoridade do pai, a precariedade da economia moderna e a própria família desconstruída, partem de Elisabeth Roudinesco. Historiadora da psicanálise, comprometida em efetuar uma leitura da relação entre a sociedade ocidental moderna e o manifesto de homens e mulheres pelo direito aos valores tradicionais, sobretudo do modelo familiar conservador. Em sua obra A família em desordem (2003), Roudinesco resgatou a história da família e suas mutações estabelecidas pelas inovações tecnocientíficas e pela própria economia moderna. Para ela, a família era então contestada, rejeitada, declarada funesta ao desabrochar do desejo e da Liberdade sexual (ROUDINESCO, 2003, p. 8). Contraditoriamente em nossa era contemporânea, marcada pelo veloz desenvolvimento tecnológico tais declarações parecem obsoletas, e hostis à “moral civilizada”[5] em busca de regra e de um “familiarismo redescoberto”[6].
Feita essa breve apresentação sobre a questão do retorno a modelos tradicionais de comportamento, partamos às ideias centrais de Arendt sobre o homem e à história deste bem como às críticas de Elisabeth Roudinesco a questão do comportamento, para a reflexão sobre as considerações e experiências de mulheres revertidas ao contexto islâmico.
 
O Islã e a Modernidade
Há diversas temáticas relacionadas ao status da mulher entre as comunidades islâmicas que permeiam de forma significativa o imaginário social como a imagem, a discriminação de gênero e corpo, religiosidade e o uso da vestimenta. Para uma maior reflexão a respeito do feminino no Islã, compreender as motivações que levam mulheres brasileiras à conversão e à prática religiosa merece atenção aprofundar e analisar mais esse contexto histórico pós-moderno.
O emprego do termo Islã reporta-se a uma civilização que cresceu e floresceu sob a égide da religião islâmica. Para os seguidores da religião, o termo Islam compreende a submissão e devoção à vontade de Alá (Deus único) e também a paz (Salam) que se efetiva através da aceitação por parte do fiel das verdadeiras palavras e dos mais belos nomes deixados pelo criador.
O islamismo surgiu no ano 622 da era crista na etnia árabe – núcleo e agente difusor do Islã – e foi a última das grandes tradições monoteístas a se consolidar na civilização humana, tendo seu início marcado pelos ensinamentos do Profeta Muhammad[7].
Segundo a crença islâmica Muhammad, reconheceu-se Profeta e Mensageiro depois de uma intensa experiência de meditação em seus retiros anuais, no silêncio do deserto. “Em pouco tempo adquiriu o título de As sadiqul Amin que quer dizer o sincero e fidedigno” (MAZLOUM, 2014:29). Muhammad recebeu a Revelação Divina no ano de 610 d.C. na língua árabe, através do Arcanjo Gabriel. O conjunto das Revelações foi denominada Alcorão (Qu’ran – a Recitação). Esse texto considerado sagrado pelos fiéis é composto de 144 capítulos (suras), foi revelado lentamente, linha por linha e versículo por versículo, num período de 23 anos, “(…) tornou-se um estatuto de vida através do qual se realiza a justiça social, a paz, a harmonia e o bem-estar para toda a humanidade. Disse Allah (o Altíssimo): E não te enviamos senão como misericórdia para todas as criaturas”[8].
As orientações de Muhammad, conhecido como Hadith, é igualmente seguida pelos fiéis. Através dele é transmitido a Sunnah[9] ou a “Tradição” de como o Profeta conduzia seus valores morais. O Islã, como “religião divinamente revelada” (al-Sheda, 2014, p. 13), defende cinco bases de devoção para orientar os seguidores muçulmanos em suas relações com Deus. São as chamadas de Cinco Pilares do Islamismo: o primeiro consiste na profissão islâmica da fé, a Shahada – “Ninguém tem direito de ser adorado além de Alá, e que Maomé é seu servo e Mensageiro”[10]; o segundo pilar recomenda a prática da oração – Sallah – que consiste num conjunto de citações repetidas cinco vezes ao dia; o terceiro pilar é denominado Zakaah, é uma certa porcentagem de dinheiro que o muçulmano rico dá ao pobre necessitado; o quarto pilar trata da participação no jejum – sawn – que acontece no mês do Ramadan, o mês que marca o início da Revelação. A hajj, peregrinação feita pelo muçulmano até a Casa Sagrada de Alá (a Ka’bah), é o quinto pilar da religião. Este pilar do Islam é obrigatório a todo file, homem ou mulher, uma vez na vida, se eles tiverem condições físicas, financeiras e alcançado a puberdade.
 
Retorno à tradição
Nesse contexto cultural de regras e preceitos frente às exigências das esferas política e social do mundo pós-moderno, mulheres brasileiras assumem suas perspectivas no processo de inserção nas comunidades islâmicas. O Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE – aponta entre 2000 e 2010 um crescimento de 29% dos praticantes da religião no país. Em números cerca de 30 mil brasileiros convertidos, mas a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – FAMBRAS – estima que o número tenha saltado de 600 mil em 2010 para entre 800 mil e 1,2 milhão de fiéis em 2015, esses números distribuídos pelo país, o Estado de São Paulo possui a maior concentração 24% dos muçulmanos contra a segunda maior comunidade de 16% em Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná.
Durante a pesquisa do artigo realizada na Mesquita do Pari – Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil – situada entre esse bairro e o do Brás, mulheres declaradas muçulmanas dispuseram-se a participar de uma entrevista individual, semi-dirigida e de questões abertas, cujo material foi posteriormente analisado com método qualitativo (CRESUSWELL, 2000). As participantes consentiram para a realização da pesquisa e divulgação do estudo. Seus nomes foram substituídos por outros fictícios, de modo a preservar o anonimato e sua identidade.
Quando lhes foi perguntado sobre o sentido da religião muçulmana, tradição familiar, valor da mulher e ainda sobre o matrimônio e o uso do véu – hijab, as respostas foram muito próximas em sentido do desejo pelos valores tradicionais de família, escola, nação e – sobretudo – às críticas ao mundo moderno:
Maria, 52 anos, viúva, pedagoga:
 
“Há três anos conheci o Islã através de uma amiga e comecei a frequentar a mesquita, estudar o Alcorão e esclarecer as minhas dúvidas com o cheikh [xeque] Rodrigo Rodrigues. Eu era evangélica e sentia que faltava algo. Depois da minha conversão, sou muito feliz, passei a entender que a minha vida aqui na Terra, é apenas passageira, preparo-me todos os dias para a eternidade e não penso mais na vaidade feminina, só com o uso do hijab [véu] sinto-me uma mulher de verdade”.
 
Para o cheikh [xeque] Rodrigo Rodrigues[11], brasileiro e natural da cidade de Porto Alegre, responsável pelos assuntos religiosos da mesquita do Pari, reconhece que nos últimos anos houve um aumento significativo do número de mulheres que se reverteram ao Islã:
 
“A desorganização familiar do contexto social atual, as integrações globais através dos meios eletrônicos – mídia e Internet – facilitam o acesso ao relacionamento entre homens, mulheres e jovens brasileiros com países muçulmanos. Outro fato que atrai, foi a exibição, pela Rede Globo, da novela O Clone, em 2001, criou-se o estereótipo do ‘árabe rico’, do ‘árabe gentil e sedutor’, influenciando sobre o imaginário feminino. Muitas mulheres, quando procuram a mesquita, vêm em busca de uma família e tentam resolver suas carências de afeto. Muitas se relacionam com homens que usam do estereótipo criado por elas e vem ao Brasil em busca apenas de um visto. A crise econômica tornou países como Egito, Marrocos, Tunísia, Paquistão, Índia, Iraque e Turquia áreas de risco para mulheres que procuram relacionamentos com estrangeiros ditos ‘árabes’. É comum ouvir dessas mulheres: ‘Eu me converti’; ‘A cada oração me faz melhor’”.
 
A partir dos relatos das brasileiras convertidas ao Islam é possível perceber a fidelidade à religião nas suas atitudes e condutas do seu cotidiano; fazem do uso do véu uma rotina e os valores da tradição familiar apresentaram-se prioritariamente. Notadamente em todos os depoimentos havia uma postura por parte das mulheres entrevistadas de inquietação, desconforto e distanciamento com os padrões culturais e de comportamento da sociedade pós moderna.
Em um livro publicado em 2004, Elisabeth Roudinesco[12] dialoga com a sede de uma ou várias das grandes interrogações que perpassam nossa época – as transformações na família ocidental, a fragilidade do Estado enquanto instituição, os sistemas de pensamento hegemônicos ou dominantes, a organização dos espaços e o controle da ordem e mostra a crescente insegurança e incerteza que ocupam lugares cada vez mais centrais nos modos de vida contemporâneos, quando o homem passou a ser sujeito de seu destino, de suas escolhas e conflitos.
 
Espaço público e a construção da identidade
Nessa perspectiva, as transformações da organização da vida atual, desempenharam o papel revelador de uma crise identitária particularmente aguda das sociedades ocidentais da era moderna, em suas relações de trabalho, familiar, cultura e espaço público. A modernidade se caracteriza, contudo, em desconstruir a solidez do Estado e o desmantelamento da ordem tradicional das outras instituições, implicando um permanente recomeço significativo existencial, social e histórico dos seres humanos:
 
O que se perdeu na era moderna não foi, naturalmente, a capacidade para a verdade ou a realidade ou a fé, nem a concomitante aceitação inevitável do testemunho dos sentidos e da razão, mas a certeza que antes as acompanhava” (ARENDT, 2015, p. 344).
 
A “desconstrução da família” e a revalorização da sua função paterna foram evocadas de forma unânime nos discursos das brasileiras muçulmanas. As transformações da família conjugal dita “nuclear” nesse mundo em mutação foram severamente criticadas e o “desejo de normatividade” (ROUDINESCO, 2003, p. 11), repousa na tentativa em organizar a desordem do mundo.
Quanto à família, pode-se distinguir três grandes períodos de uma história de evolução. Numa primeira fase, a família na Europa da Idade Média, serve acima de tudo para assegurar a transmissão de um patrimônio. Os casamentos arranjados entre os pais sem que a vida sexual e afetiva dos futuros esposos seja levada em conta. Numa segunda fase, a família “moderna” cujo modelo se impõe entre o final do século XVIII e meados do XX passa a ser fundada no amor romântico. Passa a existir a reciprocidade dos sentimentos e desejos carnais por intermédio do casamento. E a partir dos anos 1960, impõe-se na família “contemporânea” – ou “pós-moderna –, dois indivíduos em busca de relações íntimas ou realização sexual.
Nessa perspectiva, Arendt sublinha a distinção usada na Antiguidade Clássica e ainda na Idade Média entre as esferas privada e pública. O traço distintivo da esfera do lar, do privado (oikos) era que o fato de que nela, os homens viviam juntos para desempenharem as atividades relativas a suas necessidades e carências à manutenção da vida. Baseavam-se nas relações de parentesco como a phatria (irmandade) e a phyle (amizade). A tarefa do homem era considerada como evidente, para fornecer o sustento e o trabalho da mulher era sujeito à procriação e o cuidado e a manutenção da ordem doméstica. O público, ao contrário, era a zona do discurso, do uso da palavra e da persuasão, do aparecimento e da visibilidade e, por conseguinte da política: um espaço reconhecido de opinião e ação.
A tentativa do homem pela compreensão desses espaços público e privado no mundo moderno recai sobre a sacralidade da vida. A razão para a existência humana é encontrada pelas mulheres muçulmanas nos ditos e ensinamentos de Maomé fundamentais para a conduta das suas ações e o credo, na imortalidade da vida individual, o que contribui para liberar as inquietações naturais originadas pela desordem e insegurança da era contemporânea.
Finalmente, a realidade de uma economia de mercado cada vez mais devastadora de um Estado que tem se mostrado distante na garantia das condições necessárias para a segurança da dignidade humana. Família e religião aparecem como as únicas instâncias capazes de darem bases humanas para que os sujeitos possam fazer frente as mazelas provenientes da desordem social. As mulheres brasileiras muçulmanas encontraram na  fé, na tradição[13] um estado de alma livre de tensão e desprazer, a maneira transcendental de ver a vida, o mundo e os objetos e a construção da ideia de paraíso e eternidade tornaram-se para elas a forma simbólica de extrair o máximo da felicidade num curto tempo de prazer imposto pela modernidade tardia ou pós modernidade.
Talvez o esforço dessas mulheres na convivência com o mundo pós-moderno esteja apontando para nós a construção de novos caminhos, da perspectiva de diálogos com à imposição contemporânea de normas e sistemas, ou simplesmente busquem responder à pergunta – sempre atual – feita pelo escritor francês Victor Hugo há quase dois séculos: “De que amanhã se trata?”
NOTAS AO TEXTO
 
[1] “Spectre toujours masqué qui nous suit côte à côte. / Et qu’on nome demain! / Oh! Demain, cést la grande chose! / De quoi demain sera-t-il fait?”, Victor Hugo, “Napoléon II”, Les chants du crépuscule (1835), Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t.1, 1964, p. 838 e 811. [Trad. livre: “Espectro sempre mascarado que nos segue lado a lado. / E que se chama amanhã! / Oh! Amanhã é o grande momento! / De que amanhã se trata?”] (ROUDINESCO, 2004, p.7).
[2] Derivado do latim genus, o termo “gênero” é utilizado habitualmente para designar uma categoria qualquer – classe, grupo ou família – apresentando os mesmos sinais de pertencimento. Em numerosos trabalhos contemporâneos, designa-se por “sexo” o que deriva do corpo sexuado (masculino ou feminino) e por “gênero” o que reporta à significação sexual do corpo na sociedade (masculinidade ou feminilidade) Cf. Joan Scott, “Gente: une catégorie utile d’analyse historique”, Les Cahiers du GRIF, 37-8, primavera 1988, p. 125-53 (ROUDINESCO, 2003, p. 115).
[3] A ideia de que a família é o âmbito primário das relações e, como tal, constitui as práticas relativas à maternidade, ao direito da criança à proteção convencional da esfera doméstica.
[4] Por natureza, no Islã os seres humanos nasceram todos muçulmanos e durante a Chaháda (Testemunho), dizendo: Testemunho que não há outra divindade além de Allah e Muhammad é o Mensageiro de Alá, ao fazer o reconhecimento o homem está voltando a sua origem como muçulmano.
[5] Ibid., p. 9.
[6] Ibid., 9.
[7] Muhammad é traduzido para o português como Maomé. (MAZLOUM, 2014, p. 3).
[8] Ibid., p. 29.
[9] Sunnah, ensinamentos e estilo de vida do Profeta (MAZLOUM, 2014, p. 111).
[10] Ibid., p.109.
[11] O objetivo do presente estudo foi compreender as motivações das mulheres brasileiras se converterem ao Islã, empregando o método qualitativo. Foram aplicadas entrevistas semidirigidas a doze mulheres e a dois Cheikhs da Mesquita Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil e Mesquita São Paulo.
[12] ROUDINESCO, Elisabeth. De quoi demain. Paris: Arthème Fayard e Galilée, 2001.
[13] Entende-se por “tradicionalistas” aqueles que seguem os fundamentos da religião (FERREIRA, 2009, p. 123).
 
 
Referências:
AL-SHEHA, Abdurrahman. A mensagem do Islã. Tradução Nibevah Barreiros. São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, Alsofara, 2014.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução: Roberto Raposo, posfácio de Adriano Correia. 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015.
ARMSTRONG, Karen. O Islã. Tradução: Anna Olga de Barros Barreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BRANT, Isadora. 2015. No dia do muçulmano, mulheres explicam como é seguir o Islã no Brasil, Folha de S. Paulo, São Paulo, 12/05/2015.
FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES MUÇULMANAS DO BRASIL. Dados Estatísticos de 2010 a 2015. São Paulo: FAMBRAS.
FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa. 2009. Teatralização do Sagrado Islâmico: a Palavra, a Voz e o Gesto. In: Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 29 (1): p. 95-125.
MAZLOUM, Cheikh Ahmad Osman. O profeta do Islã Muhammad. Tradução: Cheikh Ahmad Osman Mazloum. São Paulo: Publicação da Academia de Investigação e Ciências Islâmicas, 2014.
NASR, Dr. Helmi. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Brasil: Society of the revival of Islamic Heritage, 2014.
ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
ROUDINESCO, Elisabeth. De que Amanhã… Diálogo. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A ESSENCIALIZAÇÃO DO SER POR MEIO DA LINGUAGEM (O ESTUDO DO SER NO DISCURSO LITERÁRIO) – UMA PERSPECTIVA ENTRE REALIDADE E FICÇÃO, NO ROMANCE TERRA SONÂMBULA, DE MIA COUTO – Angélica Maria Alves Vasconcelos




   Angélica Maria Alves Vasconcelos

 Pontifícia Universidade Católica de Goiás

 
 
Resumo: Apresenta-se neste artigo uma análise fenomenológica do capítulo titulado, “A lição de Siqueleto” da obra Terra sonâmbula (2007), do escritor Mia Couto. Nesta abordagem de crítica literária tem-se como objetivo o estudo da linguagem como a essência do ser, conforme a teoria de Martin Heidegger (1987) em Ser e tempo. O presente estudo aborda, ainda, o conceito de ficção e realidade dentro desta obra literária, utilizando as teorias de Antoine Compagnon (2006) em O demônio da teoria.
 
Palavras-chave: realidade, ilusão referencial, linguagem, existência, ser.
 
Resúmen: Este ensayo presenta un análisis fenomenológico del capítulo titulado “Lección de Siqueleto”, de la novela Terra sonâmbula (2007), publicada por el escritor Mia Couto. Este enfoque de la crítica literaria se centra en el estudio del lenguaje como la esencia del ser, según la teoría de Martin Heidegger (1987) en Ser y tiempo. El presente estudio también aborda el concepto de ficción y realidad en esta obra literaria, según las teorías desarrolladas por Antoine Compagnon en O demônio da teoría (2006).
 
Palabras-clave: realidad, ilusión referencial, lenguaje, existencia, ser.
 
Abstract: This paper presents a phenomenological analysis of the chapter titled “Siqueleto Lesson,” in the novel Terra sonâmbula (2007), by the Angolan writer Mia Couto. This piece of literary criticism has at its focus the study of language as the essence of being, according to Martin Heidegger’s book Ser e tempo (Being and Time, 1987). It approaches the concept of fiction and reality in the novel through the theory developed by Antoine Compagnon in his book Demônio da teoria (2006).
 
Keywords: reality, illusion, referential language, existence, being.
 
Minicurrículo: Angélica Maria Alves Vasconcelos é mestranda em Letras – Literatura e Crítica Literária, pela Instituição Pontifícia Universidade Católica de Goiás, especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira e licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás. Atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiás, Goiânia.
 
 
A ESSENCIALIZAÇÃO DO SER POR MEIO DA LINGUAGEM (O ESTUDO DO SER NO DISCURSO LITERÁRIO) – UMA PERSPECTIVA ENTRE REALIDADE E FICÇÃO, NO ROMANCE TERRA SONÂMBULA,
DE MIA COUTO
 
 
 
 Angélica Maria Alves Vasconcelos
 
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
 
 

  1. O ser no universo macrocosmo

Vivemos em um mundo em que a linguagem é focada como fator social, num processo dinâmico vital. Ela está em permanente construção, evolução, deslocamento e transgressão e se coloca como instrumento de identificação, de saber e de poder. É através dela que o ser impõe seu lugar no mundo. A linguagem eleva o homem. É a sua defesa e a sua magnitude. Ela passa por um processo de conhecimento, de humanização e converte o ser em fertilizador, em eloquência transgressora.
As linguagens transcendem e perpassam no tempo, querendo sempre dizer algo de novo a cada época. Sua significância sugere possibilidades para que os indivíduos façam sua busca de afirmação como ser da linguagem, singular e único. As linguagens não se excluem umas das outras, mas se interrompem de diversas maneiras, porque são pontos de vistas específicos sobre o mundo. Elas podem ser confrontadas, podem servir de complemento mútuo entre si, opõem-se umas às outras e se correspondem dialogicamente. Elas vivem, lutam e evoluem no plurilinguismo social.
O crítico literário Riffatterre (apud, COMPAGNON, 2006, p.110) diz que a literatura não tem referência com a realidade e sim com a ilusão referencial, pois a significância está no silêncio do texto. O leitor, com o seu conhecimento idiossincrático, ativado por meio da memória, chega à compreensão.
O romance Terra sonâmbula foi publicado em 1992, tendo como pano de fundo o período da guerra civil em Moçambique, cujo término se deu naquele ano. Moçambique viveu longo período em guerras desde que começou a luta pela sua independência de Portugal, em 1965. Depois de dez anos de guerra contra Portugal, iniciou-se o conflito interno, que durou mais 16 anos. Foram, portanto, mais de 25 anos de luta até se conseguir a paz.
Terra sonâmbula foi considerado um dos melhores romances africanos do século XX. Nesta obra, o autor (que vivenciou o período) mostra, por seus personagens, traços da nação moçambicana em busca de sua unidade.
Assim Couto (2007, p. 9) inicia o livro, descrevendo a paisagem moçambicana:
 
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Em cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão. Em resignada aprendizagem da morte.
 
Muidinga (o miúdo) e Tuahir (o velho) são personagens cercados por este cenário, pela estrada morta, pelas cores sujas, em que caminham juntos, sem destino, “em busca do adiante”.
Terra sonâmbula apresenta um linguajar que não é nem brasileiro nem de Portugal. É como se o autor tivesse achado uma nova forma na língua portuguesa local uma forma de mostrar a alma do povo moçambicano, um sentimento que mistura a agressividade da guerra à passividade do sono e que conta duas histórias simultâneas, entremeadas por várias outras.
No primeiro plano se tem a história de Muidinga, o jovem que acompanha o velho Tuahir, fugindo da guerra, até chegarem ao machimbombo completamente queimado, onde eles resolvem se abrigar.
Concomitantemente surge a segunda linha narrativa, após Muindinga encontrar uns cadernos na mala que está ao lado de um homem morto. Esses cadernos encontrados contam a história de Kindzu, que coincidentemente complementam a história de Muidinga. Kindzu, em seus cadernos, narra sua trajetória desde a partida de sua aldeia, após a morte do pai, em plena guerra civil:  “qualquer que fosse minha escolha uma coisa era certa: eu tinha que sair dali, aquele mundo já me estava matando” (COUTO, 2007, p. 29).
Assim como Muidinga, também Kindzu foge da guerra e tem como objetivo tornar-se um naparama: espécie de guerreiro tribal vestido de penas, que luta contra a injustiça. Parte para uma viagem, sem destino final, sendo diversas vezes perseguido e atormentado pelo espírito e pelas lembranças do pai morto.
Tuahir e Muidinga são frutos de seu país em guerra, seguem sem rumo certo, desorientados, situação um tanto semelhante com Moçambique, durante a guerra civil.
Terra sonâmbula nos permite imaginar a situação na qual se encontra o país: os relatos do velho Tuahir, de Muidinga, Kindzu e Siqueleto mostram a vida num local tomado pelos horrores da guerra, onde sonhar se torna um meio de fuga da cruel realidade. O livro denuncia a pobreza, o abandono do povo, numa terra sem lei, os efeitos da guerra:
 
Gentes imensas se concentram na praia como se fossem destroços trazidos pelas ondas. A verdade era outra: tinham vindo do interior, das terras onde os matadores tinham proclamado seu reino. Consoante as pobres gentes fugiam também os bandidos vinham em seu rastro como hienas perseguindo agonizantes gazelas. E agora aqueles deslocados se campeavam por ali sem terra para produzirem a mínima comida (COUTO, 2007, p. 55).
 
Algo que chama a atenção em Muidinga é sua construção como personagem. Ele não recorda de seu passado. Salvo da morte em um campo de refugiados por Tuahir, só se lembra do que ocorreu a partir daí.
O leitor depara, ao longo do romance, com “acontecimentos” fantásticos, surreais, sobrenaturais, que deixam transparecer a cultura mística do povo:
 
Numa das seguintes noites, escuras de perder o próprio nariz, tive, quem sabe, um sonho. O mar parava, imovente. As ondas se aplanavam, seu rugido emudecia. Havia uma calma dessas que precederam o nascer do mundo. Então, súbito e inesperado, das profundezas emergiram os afogados. Vinham ao de cimo, borbulhavam em festa. Entre eles estava meu pai, idoso como não o tínhamos deixado. Chamou-me saudou-me sem nenhum afeto (COUTO, 2007, p. 43).
 
O livro traz uma linguagem poética que caracteriza o estilo de Mia Couto, em que há um cunho social, embora o escritor não use sua obra como panfleto político. Apenas descreve seus personagens de forma coerente ao mundo em que vivem. E ainda assim, oferece ao leitor frases belíssimas, como esta do padre a Farida: “O mundo não tem nenhuma utilidade, disse ele. E conclui: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos mais pobres” (COUTO, 2007, p. 77).
No romance percebe-se um dualismo sonho-realidade, que acompanha a obra como um todo. Em Terra sonâmbula encontram-se trechos que revelam verdades humanas: “A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco” (COUTO, 2007, p. 121).
Mia Couto descreve cuidadosamente cada sofrimento, cada dificuldade e cada momento vivido por seus personagens de forma encantadora, poética. Logo o leitor se vê obrigado a mergulhar junto nessa terra de sonhos e, assim, acaba também fantasiando seus personagens.
O real é a ilusão referencial literária, baseado na relação linguística que estabelece relação entre um signo e outro signo, um texto e outro texto. A ilusão referencial resulta de uma manipulação de signos que a convenção realista camufla, oculta o arbitrário do código e faz crer na naturalização do signo. Barthes afirmava que:
 
No mais realista dos romances, o referente não tem “realidade” que se imagine a desordem provocada pela mais comportada das narrações, se suas descrições fossem tomadas ao pé da letra, convertidas em programas de operações, e, muito simplesmente, executadas. Em suma (…), o que se chama de “real” (na teoria do texto realista) não é nunca senão um código de representação (de significação) não é nunca um código de execução (COMPAGNOM, 2006, p. 107).
 
A única maneira aceitável de colocar a questão das relações entre literatura e a realidade é formulá-la em termos de ilusão referencial, ou segundo a célebre expressão de Barthes, como “efeito do real”. A questão da representação volta-se então para o verossímil como convenção ou código partilhado pelo autor e pelo leitor.
A referência não tem realidade: o que se chama de real não é senão um código. A finalidade da “mimesis” é de produzir uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real. Barthes (apud COMPAGNON, 2006, p. 110) diz: “O que existe por trás do papel não é o real, o referente, é a referência, a sutil imensidão das escrituras”.
Assim se manifesta uma nova teoria, a elaboração da sintaxe do texto literário no momento em que uma semântica deveria ser trazida a luz, a intertextualidade, que se apresenta como uma maneira de abrir o texto.
Kristeva (apud COMPAGNON, 2006, p. 111) afirma: “Todo texto se constrói como um mosaico de citações e transformações de um outro texto”. Bakhtin (apud COMPAGNON, 2006, p. 111) no que diz respeito à intertextualidade, designa o diálogo entre os textos no sentido amplo: “é o conjunto social considerado como um conjunto textual”.
Riffaterre reconhece que a única referência que importa nos textos literários é que falam de si mesmos e de outros textos. O intertexto é a percepção, pelo leitor, de relações entre uma obra e outra que a precederam ou se lhe seguram, sendo, um mecanismo para a leitura literária. Ela é a própria literariedade. A referencialidade se dá no texto e no leitor.
Pode-se descrever um fato histórico, preenchendo-o com argumentos, numa relação poética, a partir do momento em que expõe linguisticamente, a constituição de uma determinada história. O autor tenta estabelecer esse caráter poético do trabalho histórico e especificar o elemento figurativo seja ele de metonímia, sinédoque, ironia ou metáfora.
Independente de uma história contar fatos reais, que ocorreram historicamente, a narração desses fatos nunca conseguirá ser exatamente a expressão da realidade do que aconteceu, pois ela é escrita pela ótica do autor, que seleciona pela sua opinião ou pela intencionalidade da obra: “A literatura é uma seriedade prazerosa, isto é, não é a seriedade de um dever ser feito ou de uma lição a ser apreendida, mas uma seriedade estética, uma seriedade de percepção” (WARREN; WELLEK, 1962, p. 26).
Na obra Terra sonâmbula, vários personagens são diluídos, desessencializados, ou seja, há uma desrealização do ser. Eles estão preocupados somente com a sobrevivência e em como se manter vivos. Tudo isso faz parte da cotidianidade e da mundanidade desses personagens, que aparecem na medida em que o seu discurso se intercala na linguagem da obra, simultaneamente com a trajetória de suas ações.
 

  1. A busca do sentido do ser no discurso literário

Empregamos aqui, como suporte teórico-filosófico, as ideias de Martin Heidegger, em sua obra Ser e tempo (1988), a qual tem como objetivo investigar o sentido do Ser, começando pela análise do ser que nós próprios somos. Criando uma terminologia própria, Heidegger denominou o “modo de ser” do ser humano, nossa existência, com a palavra DASEIN, cujo sentido é ser-aí, estar-aí. Analisando a vida humana, o filósofo descreveu três etapas que marcam a existência inautêntica do ser:
1 – Fato da existência – o ser humano é lançado ao mundo, sem saber por quê. Ao despertar para a consciência da vida, já está aí, sem ter pedido para nascer;
2 – Desenvolvimento da existência – o ser humano estabelece relações com o mundo. Para existir, projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move uma busca permanente para realizar aquilo que ainda não é.
3 – Destruição do eu – tentando realizar seu projeto, o ser humano sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. O seu eu se dissolve na cotidianidade. Em vez de se tornar o si-mesmo, torna-se o que os outros são.
A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão profunda, isto é, esquecer-se do ser e retornar ao cotidiano, ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.
Surge então um dos temas-chave de Heidegger: o homem pode transcender, o que significa afirmar que ele está capacitado a atribuir um sentido ao ser (CHAUI, in Heidegger, 1996, p. 10).
Distingue Heidegger duas espécies de linguagem, uma original e outra derivada.
A linguagem original exprime diretamente o ser, mostra o ser, revela-o e o traz para a luz. Ela é a fonte primordial do aparecer das coisas. O falar original está na base de todo movimento do universo: ela é a relação de todas as coisas.
O filósofo atribui à linguagem original uma densidade ontológica fundamental: a palavra é aquilo que sustenta o ser em todas as coisas.
A linguagem derivada é a linguagem humana, a qual consta de duas fases, uma da resposta e outra da proclamação. Os mortais falam enquanto correspondem à linguagem, que pode ser de dois modos: percebendo e respondendo. Toda palavra pronunciada é sempre resposta; faz com que o ser humano entre numa “servidão libertadora”, na qual o homem é encarregado de transferir o dizer original que não tem som, para o som da palavra.
Heidegger refere-se à linguagem como forma essencial para cultivar o homem junto à natureza, se posicionar de maneira questionadora e ascender, neste mundo em que o consumismo é prioridade. É preciso ter um diálogo com o todo, ter a sensibilidade para se aproximar da poesia da linguagem. A ciência e o cálculo manipulam e objetam o ser, gerando um descompasso, um desequilíbrio, impossibilitando-o de pensar, refletir e se questionar, não dando a oportunidade ao ser de se transcender em sua existência.
A teoria da linguagem de Heidegger consiste numa desconstrução da ideia de Sujeito, e, portanto, de subjetividade.
A linguagem eleva o homem à sua defesa e à sua magnitude. Ela converte o ser em fertilizador, em eloquência transgressora e revela a supremacia do direito ao humano pela libertação da palavra.
Podemos perceber na análise abaixo o ser humano (Dasein) lançado ao mundo, sem saber por que e ao despertar para a consciência da vida, já esta aí sem ter pedido para nascer. Ele estabelece relações com o mundo (ambiente natural e social historicamente situado). Para existir o Dasein projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move-se em busca permanente para realizar aquilo que ainda não é. Mas mostrará em sua essência. Em outras palavras, existir é construir um projeto.
Vamos tomar um capítulo de Terra sonâmbula, cujo título é “A lição de Siqueleto, para mostrar seus personagens e, pela linguagem, analisar sua trajetória.
Tuahir é um contador de histórias que não sabe ler, e se baseia na tradição oral e em suas experiências cotidianas e espontâneas. Ele pode ajudar Muidinga com seus ensinamentos de vida e restaurar a memória perdida deste. Metonimicamente, esse idoso representa a sociedade primitiva, sem acesso à escrita, mas enriquecido pelos conhecimentos práticos orais recebidos das gerações anteriores. Parte importante dessa cultura, a oratura mítica da ancestralidade, a linguagem de Tuahir, será o elo entre o passado e o presente, entre Muidinga e Siqueleto.
Um velho que se achava sem esperanças, que não via sentido na vida, agora passa a sonhar a partir de seu encontro com Muidinga e os cadernos de Kindzu. Temos o sonho mostrado em uma de suas falas:
 
Que a nossa terra ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos como nos tempos, roendo caminhos sem nunca mais termos medo.
– Verdade isso? Pergunta o desdentado.
Longe se houve tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde, mas o aldeião já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos” (COUTO, 2007, p. 67).
 
Tuahir é revigorado no momento que ele introduz sua linguagem ancestral para auxiliar Muidinga a manter contato com o velho Siqueleto, estabelecendo uma ponte entre eles.
Em contraponto temos Muidinga, um menino que fora encontrado por Tuahir em um campo de refugiados, e que, prestes a ser enterrado, é salvo pelo velho.  Perde a memória, não se lembra de onde veio e quem é, o que lhe causa mais sofrimento.
O menino recebe os ensinamentos de Tuahir, lê os cadernos de Kindzu, vai recobrando a memória coletiva e descobre que conhece também a escrita. Quando encontra uma mala com cadernos o menino descobre que podia lê-los, o que lhe abre enormes possibilidades.
Tuahir, por seu lado, também acaba recebendo influência dos escritos de Kindzu que vão sendo lidos por Muidinga, em voz alta.
Siqueleto, que aprisionou Muidinga e Tuahir em uma rede, não falava português, comunicando-se apenas na sua língua ancestral. Tuahir traduzia o que Siqueleto falava. Muidinga questiona o velho Siqueleto:
 
O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto responde o velho: Não é assim a maneira de nossa raça. Antigamente quem chegava era bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos (COUTO, 2007, p. 67).
 
O velho e o menino, ainda prisioneiros de Siqueleto, “fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumassem o tempo, como se não houvesse rede impedindo-os de sair” (COUTO, 2007, p. 68). Quando, por um buraco da rede, Muidinga consegue retirar um braço, apanha um pau e escreve no chão a palavra “SIQUELETO”, e este observa os escritos: “Que desenhos são esses? – pergunta Siqueleto. – É o teu nome, responde Tuahir. – Esse é o meu nome?” (COUTO, 2007, p. 69).
Como se fosse um ritual sobre algo importante, Siqueleto roda limpando rabiscos em volta da palavra, depois se ajoelha como um ato de agradecimento e sorri para o chão como manifestação de encantamento e contemplação. Logo em seguida cantarola uma canção. Parece interiorizar-se para encontrar o ser que estava em sono profundo. E que, de repente, desperta e compreende que o silêncio da palavra escrita no chão mostra-lhe um possível processo de produção de sentido. Silenciado entende uma dimensão do não dito.
Dessa forma vale dizer que a palavra o remeteu e o transportou numa relação fundamental com o indizível, este recheado de significâncias. Pois o vazio é a ausência de conhecimento. Teve o seu primeiro contato com o desconhecido, aquilo que é sugerido por meio da palavra.
Como não tinha para quem passar suas origens e histórias (era o último habitante da aldeia), Siqueleto consegue enxergar a possibilidade de não ser esquecido. Imediatamente ele busca uma faca e corta a rede libertando os prisioneiros e estes o acompanham: “Frente a uma grande árvore Siqueleto ordena algo que o jovem não entende. – Está mandar que escrevas o nome dele” (COUTO, 2007, p. 67).
No tronco da árvore Muidinga grava, letra por letra, o nome do último habitante da aldeia: SIQUELETO. “Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore” (COUTO, 2007, p. 69).
A partir do nome gravado no sangue da árvore, Siqueleto realiza-se como ser independente, Assim percebemos que o ser só pode ser determinado e deslocado de seu espaço exterior para o interior a partir do seu sentido com ele mesmo, ou seja, um ser autônomo, independente e indefinível: “Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sente o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando até se tornar do tamanho de uma semente” (COUTO, 2007, p. 68).
Assim, sua transformação em semente sugere a perenização do ser pela linguagem.
 

  1. Considerações finais

O que nos interessa é que a palavra poética e filosófica em Terra sonâmbula mostra que a linguagem é distinção fundamental entre o homem referencial e desreferencial, sendo a manifestação do ser do homem na busca de sua existência e identidade, numa perspectiva autêntica, representando a transcendência do personagem, por meio da desalienação diante de si, do outro e para o mundo.
Heidegger (1988, p. 176) nos ensina que “a linguagem é a morada do ser”. É através dela que o ser se manifesta como sentido por meio dele mesmo e com o outro. Ela é o lugar onde o ser acontece, sobretudo porque se trata de um dizer, um determinar, um mostrar, um deixar aparecer, um ver, um sentir. É por ela que se dá a revelação do sentido do ser.
A preservação das espécies se dá por meio do sêmen, do sangue e sempre deixará os seus descendentes para dar continuidade à vida. No caso do homem, além da preservação da espécie como todos os animais, temos a preservação do ser. Esta preservação se dá por meio da linguagem, dos discursos tanto falados como escritos, uma vez que o indivíduo sem linguagem perde a capacidade humana, de percepção do real e da essência verdadeira das coisas.
 

  1. Referências bibliográficas

CHAUÍ, Marilena (1996). Introdução. In: HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Nova Cultural.
COMPAGNON, Antoine (2006). O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Editora UFMG.
COUTO, Mia (2007). Terra sonâmbula. São Paulo: Ed. Companhia das Letras.
HEIDEGGER, Martin (1987). Ser e tempo. Petrópolis: Vozes.
WARREM, Austin; WELLEK, René (1962). Teoria da Literatura. São Paulo: Europa América.





Bio fornecida pelo palestrante.

AS ISOTOPIAS DE CONVERGÊNCIAS ENTRE O POEMA O CACTO, DE MANUEL BANDEIRA, E O QUADRO O GALO, DE JUAN MIRÓ, NUMA ANÁLISE HOMOLÓGICA – UM ESTUDO SEMIÓTICO – Angélica Maria Alves Vasconcelos




 

 Angélica Maria Alves Vasconcelos

 Pontifícia Universidade Católica de Goiás

 
 
 
 
Resumo: Com base em uma análise homológica, apresentamos as similaridades de raízes e de estruturas entre a pintura de Juan Miró O Galo e a poesia de Manuel Bandeira O Cacto, e mostramos que a arte literária e a arte pictórica se correlacionam, na interação de convergências, demonstrando essa proximidade entre ambas. Neste trabalho nos fundamentamos no estudo e pesquisa do crítico Agnaldo José Gonçalves em suas obras – Laokoon revisitado (1994) e Transição e permanência Miró/Cabral: da tela ao texto (1989) – além de artigos de outros críticos.
 
Palavras-chave: similaridades – raízes – homologia – pintura – poesia.
 
Resúmen: Basándonos en un análisis homológica, presentaremos las similitudes de las raíces y estructuras entre la pintura de Juan Miró, El Gallo (Le Coq, 1940) y la poesía de Manuel Bandeira O Cacto, y mostraremos que el arte literario es correlato al arte pictórico, en la interacción de convergencias, lo que demuestra la cercanía entre ambas. En este trabajo es esencial señalar la contribución fundamental del estudio y de la investigación del crítico Aguinaldo José Gonçalves en sus obras Laokoon Revisitado (1994) y Transição e permanência: Miró/Cabral: da tela ao texto (1989) –así como artículos de otros críticos,
 
Palabras-clave: similitudes – raíces – homología – pintura – poesía.
Abstract: Based on a homology analysis, in this article we will present the similarities of roots and structures existing between the picture O Galo (Le Coq, 1940), by Juan Miró and the poem O Cacto, by Manuel Bandeira, and demonstrate that literary and pictorial arts are correlated, in an interaction of convergences, due to the closeness that lies between them. We consider essential here to point out the fundamental contribution of the studies and research published by the critic Aguinaldo José Gonçalves in his books Laokoon Revisitado (1994) and Transição e permanência Miró/Cabral: da tela ao texto (1989) – as well as articles from other critics.
 
Keywords:  similarities – roots – homology – picture – poetry.
Minicurrículo: Angélica Maria Alves Vasconcelos é mestranda em Letras, Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira e licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás. Atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiânia, Goiás.


AS ISOTOPIAS DE CONVERGÊNCIAS ENTRE O POEMA O CACTO, DE MANUEL BANDEIRA, E O QUADRO O GALO, DE JUAN MIRÓ, NUMA ANÁLISE HOMOLÓGICA –
UM ESTUDO SEMIÓTICO
 
 
 
Angélica Maria Alves Vasconcelos
   
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
 
 

  1. Fundamentação teórica

A imobilidade do pensamento, segundo Proust, capaz de estabilizar todas as coisas que nos cercam, sintetiza o que começamos a considerar. A estabilidade, tantas vezes sugerida, mas não evidenciada em nossos pensamentos, somente vem à tona a partir da instância em que passamos a obedecer a determinados procedimentos distintos, que se inter-relacionam.
Estes procedimentos são responsáveis pela construção da imagem que singulariza o objeto conhecido e podem se dar por relações de continuidade, por similaridade ou pela sobreposição de ambas. É a partir desses procedimentos que podemos falar de relações analógicas, homológicas e associativas.
Para o estudo das relações homológicas entre sistemas artísticos distintos deve-se explicitar: “É perigoso estabelecer simples analogias e também recusar a individualizar certas relações por uma injustificada fobia às analogias, própria dos espíritos simples” (Prof. Dr. Aguinaldo Gonçalves). O problema consiste em reduzir os diversos fenômenos a modelos estruturais mais rigorosos, para neles individualizar não mais analogias, mas homologias de estrutura, ou seja, similares estruturais.
Visando a relação entre obras artísticas distintas, a homologia se integra perfeitamente a qualquer princípio metodológico, que se proponha a estudar as aproximações analógicas.
Buscar as equivalências homológicas entre sistemas distintos é verificar possíveis correspondências entre eles, e, também, verificar as diferenças de operacionalização de recursos oferecidos por cada meio expressivo. Essas possibilidades estabelecem analogias fecundas que conduzem à homologia de estrutura.
A poesia e a pintura modernas são expressões objetivas, especificas e distintas e tratam da questão do movimento abstrato. A primeira é formada pelos signos artificiais e a segunda pelos signos naturais.  Assim se comunicam por meio de suas línguas diferenciadas, num entrecruzar-se de produções de sentidos.
Ao ler um poema (e assim nos remete ao que Proust se refere como imobilidade de pensamento), surge na mente uma forma que nem sempre é definida. E quanto menos definido é este desenho mental, mais enriquecedora será a construção de uma figura que expresse um sentido.
É nessa construção dos sentidos, que a mente sugere ao receptor, que está a questão dos limites desses sistemas de signos.
O signo da arte é superior devido ser “material” e, ainda, confere uma verdadeira unidade, no sentido inteiramente espiritual, aproximando-o da essência. E o que o eleva é exatamente essa capacidade de unificar todos os sistemas, independente de seus meios expressivos.
Vale destacar que alguns críticos, entre eles Agnaldo José Gonçalves, Jean Starobinski, Paul Valéry e Northrop Frye, compartilham da idéia da convergência de artes distintas.
Jean Starobinski faz interpretação das relações humanas por meio da obra de arte e toma a pintura como objeto de leitura das relações culturais, em que a imagem visual se conjuga à imagem verbal. Mostra a intensidade da linguagem visual, como fonte de leitura e de interpretação da realidade.
Paul Valéry, pensador semiológico, dispõe das duas formas de expressão e aprendeu, com perspicácia, os fundamentos comuns que conduzem a produção artística de sentidos, extraindo o essencial da arte, e, ainda, mostrando a correspondência indissociável entre forma e conteúdo.
Northrop Frye, no seu ensaio Critica ética, se refere a duas direções básicas que movem nossa atenção no ato da leitura do signo verbal: 1- movimento centrífugo, que é o externo da leitura, cujo signo nos reporta às coisas que significam;  2 – movimento centrípeto, que é o interno, ou seja, dos signos imateriais.
Esse crítico ainda se refere ao princípio de retorno, fundamental a todas as obras de arte: ritmo, quando se desenvolve no tempo e desenho, quando se distribui no espaço.
Todas as artes possuem um aspecto temporal e um espacial. Assim, as obras literárias se movem no tempo, como na música, e se estendem em imagens, como na pintura.
Essa relação tem como base os sentidos e as diferentes formas de expressão, como a continuidade temporal e a simultaneidade espacial, conjugando-se por procedimentos estéticos.
A poesia avançou para as modalidades espaciais devido ao advento do verso livre, que passou a ter uma esfera composicional, resultante dos grandes avanços da modernidade.
As estratégias de motivação do signo se expandiram para as suas relações discursivas. Já não é possível imaginar uma leitura de um poema do nosso tempo, sem adentrarmos em sua estrutura composicional, sua distribuição no espaço, sua dimensão gráfica, bem como as desestruturações de palavras, o universo sonoro, a materialidade do discurso poético.
Dessa forma, os signos do poema são responsáveis por efeitos de sentidos e também de construções de imagens em nossa mente, que jamais seriam conseguidos se fossem mantidos apenas na esfera da temporalidade.
A poesia moderna não dispensa o olho do leitor-observador, exigindo dele que olhe sua organização gráfica, seu desenho, na busca constante de uma iconização ou de uma espécie de diagramação mental, indo de uma sintaxe verbal para a não verbal.
A linguagem da pintura se distribui no espaço bidimensional. Apresenta ao longo da historia peculiaridades conflitantes, para ocupar na modernidade seu lugar próprio no sistema das artes.
A pintura renascentista precisou imitar, por muito tempo, recursos próprios da escultura, para poder ser recebida e respeitada.
A batalha estética da pintura moderna possui características muito próprias, que devem ser consideradas, sem precisar submeter-se aos ditames da ilusão de terceira dimensão. A mais decisiva foi manter sua natureza analógico-espacial e evoluir para as relações temporais, distanciando-se da fotografia.
A pintura foi se impondo como uma forma de manifestação capaz de trazer, na sua esfera de sentidos, a temporalidade. É com a arte moderna, descompromissada com a normatização mimética, que os filamentos do tempo vão se plasmar de modo mais intenso, mais eficaz, pela própria evolução dessa forma de linguagem.
O espectador não percorre de uma só vez toda obra. O olho se constrói, de modo que a cavidade ocular se sustente de trechos sucessivos. Para ajustar-se a um novo fragmento, deve abandonar o fragmento anterior. Assim a obra plástica apresenta o inconvenientemente de não se saber por onde começar, porém o receptor possui a vantagem de poder variar, de modo abundante, a ordem de leitura e tomar consciência da multiplicidade de suas significações.
A pintura e a poesia são como um elemento diagramador do criador. Assim, “uma palavra ou figura resume todo o bloco verbal: movimento”. É pelo movimento que se tem, em cada palavra ou objeto, o resgate no trabalho da arte: o tempo espacializado e o espaço temporalizado.
A linguagem da pintura é a linguagem do olhar, ou seja, o conceito que se tem sobre algo advém de uma manifestação espacial, icônica, numa estrutura verbal ou pictórica. Dessa forma a pintura não existiria como forma de linguagem se não se fizesse linguagem na mente do observador, sendo esta verbal.
É nesse processo que a pintura e a poesia se movem, sendo um movimento circular, que se verte para figuras metafóricas. Estas são questionadas e vivenciadas, levando à produção de sentidos.
 

  1. Análise do corpus

 
Quadro: O Galo, de Joan Miró
 
Quando se olha para o quadro O Galo de Joan Miró, o olhar do receptor circula o detalhe de cada objeto da tela verificando cada cor, cada traço, linha, forma, para depois olhar o todo.
Dessa forma a metonímia, figura de linguagem que aparece no quadro em questão, se refere às partes compostas na tela, como por exemplo: o sol vermelho, o chão, o céu, o bico aberto, as garras, a cauda sempre afiadas, para depois se olhar um galo todo desreferencializado e deformado. Observa-se a desfiguratização do objeto, que mais aparece no tipo de representação do galo na pintura. Seria uma emergência das experiências ligadas ao modo como os elementos e as partes estão dispersos, com o propósito de interagir entre si para construir o todo.
Dentro da gramática da pintura clássica mostra-se a exuberância técnica da pintura, a imagem da perfeição, da sedução, da beleza, da automatização, da superficialidade, da familiaridade, do habito caracterizado pelo estatismo espacial do olhar, apenas para o centro, para o todo. No galo multicolorido de Miró, numa transfiguração do real, tem-se o efeito de superar o óbvio, trazendo o inédito, que surpreende e espanta.  O pintor é guiado pelas forças psicológicas, pois ele busca através de seu ato criador os recursos fundamentais: a anormalidade e a incompreensibilidade, por meio do esquecimento e da inocência.
Miró busca obter a sensação de um galo vivo, ousado, singular, inédito, luminoso, para que em cada espaço do quadro prevaleça um reaprender, um recomeçar, o vigor original.
Um bico aberto, que também sugestiona um sorriso, asas pequenas, um olhar que pode ser para frente, para cima, para o lado, tal qual é o olhar do receptor que observa o galo, não o todo, mas cada parte, cada espaço ou seja, em cada momento um lugar, um objeto, um fragmento, para depois observar o galo extravagante, mas imponente, vivo e atrativo.
Sugere, para quem o olha, um novo cantar, novas perspectivas, novos paradigmas para esta nova proposta de arte.
O Galo de Miró é conduzido, na pintura, através de metáfora que se constrói a partir de que cada enunciação que se apresenta. A medida que o galo é transferido do ambiente renascentista para o moderno, representações se sobrepõem, construindo um agrupamento de transferências entre domínio diferentes.
Estamos falando das metáforas. O galo é preso e emoldurado na pintura renascentista. È aprisionado pela rigorosa lei do ritmo, conduzindo um olhar instantaneamente a um ponto ideal da tela e às três dimensões, à ilusão de profundidade. A metáfora impregnada naquela arte contempla a harmonia, o equilíbrio e a proporção, proposta para ver o que é visível, sem oportunidade de novos caminhos, sufocando o ato criador.
A arte passa da composição do tradicional, das limitações, das convenções, para a arte que está além de toda determinação. Não numa positividade gloriosa, mas na incessante negação de toda positividade, renascendo para um novo plano em que o lado sombrio, deformante, estranho da arte, também pode ser belo, magnífico e reluzente.
Miró pintou Le Coq em Verengelli-sur Mer, uma aldeia na costa da Normandia (França), onde ele se refugiou depois de fugir da guerra civil Espanhola (1936-1939) onde permaneceu até 1940.
O galo é um dos símbolos mais conhecidos na França. Ele representa a luz e a inteligência, pois sabe a hora de avisar, gritar que o dia chegou sem nunca falhar, sendo uma anunciação da chegada dos fios de sol adentrando a aurora. As nações celtas consideravam esta ave como pássaro da manhã sendo sagrada. Tornou-se símbolo da Gália, região que corresponde à parte da Itália e da França. A origem da palavra Gália, segundo alguns autores, seria “gallus”, galo, em latim. Foram encontradas estátuas e esculturas gravadas com a figura do animal nesta região.
O galo também está relacionado ao simbolismo da cor vermelha, que remete a uma significação entre as trevas e a luminosidade, quando ambas se hibridizam no intuito de sempre criar uma transposição do dia e da noite. Isso mostra a metamorfose incompreensível da arte, que pode se dar a partir da cor negra (noite) para o branco ( dia), florescendo e se abrindo para uma nova proposta, um novo belo: grotesco, absurdo, sombrio e deformado como Le Coq.
Este signo, o galo, na tela de Miró, cria imagens de significância na mente do observador, que nos sugere  que a arte  constrói uma manhã liberta,  uma fusão em que a obra plástica nunca se deforma, pois  ela revela ser singular, única, infinita e transcendental, pois capta os matizes sutis, inefáveis e apreende as ressonâncias múltiplas e complexas aparências da vida moderna.
O pintor consegue deslocar o objeto para outro ambiente, ou seja, ele desintegra a noção de unidade da tela, não há mais uma subordinação de elementos a um ponto central, organizador e dominante. Em sua pintura tudo se propõe simultaneamente importante, exigindo do espectador uma série de observações sucessivas, um olhar que deve deter a sua atenção em cada setor do quadro; um ambiente que lhe dê liberdade de expressão, que concebe a fantasia, como uma elaboração guiada pelo intelecto, criando uma nova linguagem, de sentido obscuro.
Dessa forma, Miró multiplica quadros dentro de um quadro e obriga o espectador a uma série de atos instantâneos e a uma contemplação descontínua. Ele liberta a pintura tanto de sua moldura quanto de sua paisagem, através de uma estrutura fragmentada e serial, livre de toda predeterminação ou qualquer previsão.
Sua pintura exige um discorrer da atenção sobre a superfície, pois não há mais uma harmonia, uma solução, permitindo uma única visão do quadro. O espectador agora precisa percorrer o olhar por cada região da tela e deter-se no movimento de sua visão, uma ação temporal.
Introduziu um novo modo de fazer pintura tendo como foco a desobjetivação do objeto, no intuito de desorientar, dissolver e gozar da liberdade de misturar todas as imagens, através do absurdo que ocupa essa nova arte.
Do galo que transita na memória da cultura ao galo que o pintor e criador não se cansa de ressignificar, a metáfora ganha estabilidade. O movimento de deslocar o galo da pintura renascentista para a pintura moderna, é o que marca a continuidade dessa figura de linguagem.
Nesse sentido, objetos, temas e idéias, aos serem deslocados de um ambiente para outro ambiente, cruzam e anunciam significações diversas, via metáforas e metonímias, que atestam a mobilidade memorial da pintura.  Essa memória sempre móvel se atualiza a medida que cria inferências entre seus materiais, sendo uma forma de integrar uma proposição histórica inventiva para esta arte.
A parte baixa da cabeça do galo sugestiona um leve sorriso, sendo também uma disforia, pois remete um tom sarcástico, irônico e grotesco, que, na verdade é um estranhamento, uma forma transfigurada, longe da inteligência padronizada.
A língua, as unhas, a crista, a cauda do galo se apresentam como garras extremamente afiadas, parecendo evocar forças intensas, no intuito de mostrar um outro lado da criação ainda não percebido.
É sabido, ainda, que naqueles tempos de extremo conflito em terras espanholas, Miró engajou-se na luta pelo restabelecimento do regime republicano na Espanha. Juntou-se, então, a outros artistas que compuseram obras contra o fascismo do General Franco.
As cores empregadas na tela, embora de tonalidades intensas, são poucas, mas suficientes para tornar a pintura radiante: o amarelo vibrante do chão faz uma junção com o azul que remete ao céu, proporcionando um equilíbrio. O preto perde sua função tradicional de representação de sombra e proporciona à tela um contraponto e um contorno às cores vibrantes delimitando as possíveis formas extravagantes e absurdas.
Há uma sintonia entre o vermelho e o verde provocando uma sensação de luminosidade ardente, um vigor que salta aos olhos do receptor, um movimento interno na obra de arte.
É nesse processo que a pintura e a poesia se movem, sendo um movimento circular que se verte para figuras metafóricas e metonímicas. Estas são questionadas e vivenciadas, levando à produção de sentidos.
A pintura também busca a desautomatização e a desconstrução do objeto artístico para atingir sua transcriação. Esta se baseia de um elemento mimético para um elemento não mimético, sendo um transfigurador do real. Isso reforça as relações de isotopias nas construções de sentidos, em um processo de desreferencialização do objeto, na direção centrípeta, explicitando as nuances de euforia e disforia,  como  transmutação e transubstancialização da arte.
 
O Cacto
 
Manuel Bandeira
 
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua.
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:
 
–  Era belo, áspero, intratável.


 
A figura de Bandeira também merece destaque, dado seu papel conciliador entre a tradição poética em língua portuguesa e o trabalho de inovação das formas de escrita. Para o poeta pernambucano, a modernização das formas poéticas brasileiras não poderia se dar pelo repúdio puro e simples da tradição, teria que primeiro conhecê-las. Sua concepção poética jamais proporia uma simples substituição de um conjunto de dogmas por outro. Seu repertório de recursos poéticos deveria pautar-se pela ampliação de seu espectro de possibilidades, viessem eles da tradição, do cotidiano ou de outras artes, como a pintura.
Bandeira é um dos autores de mais difícil classificação dentro do modernismo literário em língua portuguesa: se não foi expressionista, sabe incorporar em seus versos poéticos o grotesco e a linguagem cotidiana das ruas.
Outro destaque que deve ser reservado a Bandeira é a parte significativa de sua obra em prosa, seja como critico de arte propriamente dito, seja escrevendo crônicas jornalísticas com temas ligados a pintura, a escultura ou a estética plástica em geral. A música lhe ensinou a bemolização das alterações vocálicas e afinou seu ouvido para o uso das rimas toantes. As artes visuais serviram como fonte de recursos que, transpostos da linguagem visual para verbal, ajudaram a compor seu múltiplo repertório poético.
Tentaremos mostrar os pontos convergentes entre o poema de Bandeira O Cacto (1925) e a tela de Miró O Galo (1940), já mostrado neste trabalho, com o intuito de comprovar que tanto na poesia como na pintura há o absurdo, o insólito, o obscuro, a magia da linguagem e o deformante por meio de imagens mentalizadas pelo observador.
A poesia pertence ao mundo da linguagem, ao universo linguístico e sua multiplicidade interpretativa, mas pode-se referir ao mundo das imagens significativas.
Quando se lê o poema O Cacto, este é transportado para a mente do leitor, por meio de associações de imagens que remetem a um quadro todo desconfigurado, desordenado, cujo caos é uma significância que traduz sentidos ao espectador. É através das palavras do poema que os elementos surgem na mente do leitor, transformando em imaginação toda a diegese da poesia.  O real é a fantasia criativa da imagem sugerida na mente do observador.
Existe no poema a busca pela brasilidade da criação imagética: o cacto, símbolo da região Nordeste, refere-se à planta que transcende a seca, alimento que serve para matar a fome da população bovina, em épocas de chuva escassa, sendo uma vegetação que vai além de seu tempo. É intratável e resiste às intempéries da natureza. Por outro lado, o cacto é magnífico e surpreendente, pois de trata de uma planta exótica, estranha, porém bela, que, em épocas menos férteis, sol tremulante e ardente, resgata a beleza efêmera e singular, florindo para sua renovação em seu ciclo virtuoso.
Como se fosse um quadro, o poema O Cacto sugere signos icônicos imagéticos na mente do leitor, pois o olhar vê primeiro as partes: Primeiro, uma escultura de Laooconte e Ugolino sendo comparado a um cacto todo retorcido e deformado. Segundo, um cacto gigantesco e estranho tombado no meio da rua, trazendo malefícios a toda uma cidade. E terceiro um cacto que cria possibilidades de se essencializar e transgredir através do tempo.
As imagens na mente do observador traduzem o discurso poético para um discurso pictórico, pois não existe uma única voz a falar os textos. Temos no mínimo três atuantes: pintor-desenhista, poeta e o leitor, que interagem durante a comunicação artística.
Poesia e pintura permitem combinações: a primeira por meio de palavras, metáforas, sonoridades e musicalidades e a segunda através de cores, formas, traçados. E ambas compostas por uma mistura de citações estruturadoras de um terceiro texto, formado pelo observador analista, criando um recurso móvel de significações e correspondências.
Na poesia, a sequência dos elementos gera a relação de isotopia com a pintura. Os signos e as imagens criam uma rede de ícones referentes às coisas próprias da pintura. Conclui-se que, no poema temos tanto o observador pictural, por meio das palavras que remetem a uma imagem, a um quadro, quanto o leitor de poemas movido pelo calor do texto.
Esse diálogo compreende uma decodificação dos sistemas de signos aplicados, não de forma encerradora, última, mas como ponto inicial para demais ampliações de sentidos; contempla uma prática de investigação e encontros, com soluções, muitas vezes, surpreendentes.
Dessa forma, entendemos que o cacto representa signo da arte moderna, que pode ser lido no poema como metáfora da obra, seja ela poética ou pictórica, envolvendo os espectadores de maneira profunda e modificadora.
O poema O Cacto é composto por três estrofes irregulares de versos livres.  Mostra-se inusitado desde sua abertura na 1ª estrofe, que faz duas referências. A primeira é a Laocoonte, sacerdote do templo de Apolo em Troia. É o único a desconfiar do plano de invasão da cidade pelos gregos, escondidos no famoso cavalo de madeira de enormes proporções. Por ter mantido relações sexuais diante de imagens sagradas, é punido pelos deuses, favoráveis aos gregos, sofrendo, juntamente com seus filhos um ataque de serpentes.
A segunda referência, a Ugolino e os filhos esfaimados, diz respeito ao conde pisano Ugolino della Gherardesca.  Acusado de traição pelo arcebispo local, seu antigo aliado, é por ele enclausurado, na companhia dos filhos, na torre da fome, onde definham até a morte.
A história de Laocoonte  é descrita por Virgilio na Eneida (Livro II, versos 201) e a de Ugolino  na Divina Comédia, logo no inicio do canto XXXIII do Inferno.
Ambas as histórias, mencionadas na 1ª estrofe, inferem na poesia o que Riffatterre, citado por Compagnon (2006), em O demônio da teoria,  chama de ilusão referencial, pois a única referencia que importa é que nos textos literários falam de si mesmos e de outros textos. Essa ilusão referencial é a percepção pelo leitor, de relações entre uma obra e outra que a precederam. Ela é um mecanismo próprio para leitura sendo a intertextualidade a própria literariedade.
Para Barthes e Riffatterre (COMPAGNON, 2006, p.110) a literatura não tem referência com a realidade e sim com a ilusão referencial, que é produzir uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real. Assim a referencialidade não se dá apenas no texto, ela se dá no leitor também.
O poema O Cacto cita outros textos como a história de Laocoonte e Ugolino, basicamente por duas finalidades distintas:
1) Para reafirmar alguns dos sentidos do texto citado “Aquele cacto lembrava  Laocoonte” – aqui podemos associar as imagens na memória do leitor, pois cada um tem a sua visão de mundo que está vinculada a linguagem, está na sua percepção dialógica, nas relações intertextuais, das referências de um texto a outro; depende do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimento literário e de outras manifestações culturais.
Esses conhecimentos de mundo do leitor devem ser ativados durante a leitura para se chegar ao momento da compreensão. Assim por meio dessa competência leitora, o leitor aprende que os textos dialogam entre si por meio de citações, referenciais e alusões.
Podemos recorrer ainda aos elementos eufóricos e disfóricos da imagem de Laocoonte e o cacto. No primeiro podemos ver uma sugestionalidade de imagem de libertação, ou seja, tanto o sacerdote do templo de Apolo quanto os filhos lutam para se livrar da serpente que vai entrelaçando seus corpos e sufocando-os. Mesmo assim esforçam e persistem numa busca da essencialização.
Na imagem do cacto percebemos uma imagem como de Laocoonte que tenta se afirmar através do tempo, passando por um processo de destruição (um tufão furibundo abateu-o pela raiz).
2) Com o intuito de restabelecer como algo que surpreende: “ O cacto era enorme, quebrou beirais, do casario, impediu o trânsito, arrebentou cabos elétricos, e ainda privou a cidade de iluminação e energia”.
Assim os objetos mais insignificantes como o cacto, se mantém intacto, forte e imortal, pois o poeta o buscou na natureza e o transportou de uma forma absurda e deformante como o galo de Miró, todo desobjetivado, para o cenário da vida urbana proporcionando certo desconforto, desprazer, impacto e estranheza na compreensão por parte do leitor.
Por outro lado, paradoxalmente, mostra um cacto que, apesar dos transtornos, é um elemento de se contemplar: – “Era belo, áspero, intratável” – pois sugestiona uma imagem de um cacto que transcende, sendo carregado de valor, de sentido, de vida, de ousadia e ameaçador. Assim o cacto se identifica como uma imagem de um quadro, distorcida e imponente, estimulando na mente do leitor uma nova arte de um encanto agressivo.
O cacto é o elemento metafórico, pois há um deslocamento da natureza figurativa para uma natureza deformante, se mostrando vivo por meio de seus atributos absurdos: áspero e intratável, porém belo, pois ele sobrevive a tudo, podendo ir além do tempo e do espaço, preservando a idéia de perpetuação, de vida palpitante. Ainda que não aparente, pode ser reconhecido como a resistência, a durabilidade; devido até mesmo ao caos relacionando aos fenômenos da seca, ele emerge para sua transcendência.
No poema de Bandeira, constatamos que este cacto é caracterizado com imagens de significações insólitas. Ele é transportado através do tempo e chega à cidade, um espaço turbulento. Sem pedir licença, um tufão o abate pela raiz, fazendo-o tombar atravessado na rua:  “Ele impede o trânsito de bondes, automóveis e carroças. Arrebenta os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas, privou a cidade de iluminação e energia.”
Há na mente do leitor uma desconfiguração do elemento, sendo uma inovação de sentido, daquilo que é familiar (o cacto) sobrepõe-se o estranhamento desse novo elemento, através de sua anormalidade, sendo uma nova maneira de se olhar para o poema. Sobretudo trouxe uma inquietação para o observador proporcionando uma avalanche de mudanças em relação a “beleza” que antes se conferia.
Na imagem que temos do cacto é desproporcional no poema e se constitui num refúgio que renuncia cada vez mais à ordem objetiva, lógica afetiva e gramatical da poesia tradicional. E anuncia as forças sonoras das imagens, da fantasia, da magia da linguagem que se deixa impor conteúdos provenientes dos impulsos da palavra, que leva à imaginação.
Dessa forma, a poesia moderna é uma ruptura com a forma tradicional, sugestiona na mente de quem lê uma pintura com imagens e, para que ela seja protegida do banal, deve ser bizarra (estranha) criando um efeito de composição de um quadro.
O absurdo é conteúdo do novo mistério da poesia moderna, possibilitando um sublimar por meio de associações imagéticas.  A partir do feio, do disforme e do anormal, o poeta desperta um novo encanto e produz surpresa em um novo poetar moderno.
 

3. Considerações finais

O conceito de deformação é entendido no sentido positivo, em que reina a força do espírito, num mundo novo, resultante da destruição que desconstrói o real e constrói um mundo irreal.  Assim, o maravilhoso privilégio da arte é que o espantoso, expresso com arte, torna-se beleza.
Essa obscuridade nasce do despropósito e do mistério em que está imersa esta nova arte, que desabrocha na luz da escuridão de nossos pensamentos, um excesso de luz espiritual. Suas linguagens são autônomas, pois sua força transformadora reside na fantasia metafórica, a qual produz imagens extravagantes. Assim, nascem estas artes pictoriais e literárias, que instigam o expectador e o leitor a conquistá-las com a razão.
O poeta e o pintor despertam forças que a linguagem cotidiana ignora. Suas formas de expressar consistem em deduzir do conhecimento o desconhecido, do banal o misterioso, do belo o feio, do cheio o vazio, do normal o anormal, do obvio o obscuro. Aqui o real é a fantasia criativa que inflama a forma do pensamento desses artistas, proporcionando imagens dissonantes no expectador.
Para esses artistas há um eterno recomeço do ato criador dessas artes. É a força do trabalho intelectual deles que dá a originalidade em sua arte e que mantém a suas obras sempre vivas.
Assim, tanto na poesia (uma pintura falante) quanto na pintura (uma poesia muda) o processo criativo do receptor e também do autor é o mesmo: obter um dinamismo visual descritivo entre palavras e pintura, com seus deslocamentos, metafórica e metonimicamente, vivos e lúdicos. A pintura e a poesia assemelham-se na criação de imagens que evocam o olhar e a mente do receptor, porém diferenciando o objeto.
Baudelaire (FRIEDRICH, 1978, p.176) fala da legitimidade do absurdo enaltecendo o sonho, porque este evoca o que realmente é impossível, com a lógica espantosa do irreal.
Para João Cabral, as palavras concretas propõem poeticidade e uma visualidade plástica do texto, que remete à arte pictórica.
Constatamos que a imagem é que aproxima essas artes e isso só é possível pelo processo espacial e temporal. A cena do poema é descritiva e seu ritmo lembra a plasticidade de um quadro. Há uma carga de expressividade que permite ao espectador ou leitor identificar Bandeira como poeta-pintor.
Em suma suas obras guardam o frescor, o vigor pela vigência desse vivo. Ela pode romper com a sensibilidade do espectador, formada pelo hábito cotidiano. Nesse sentido, a metáfora contida no poema O Cacto e na pintura O Galo espanta, e, ao mesmo tempo, acorda o receptor para essa sensibilidade adormecida, despertando a capacidade de saborear o inédito em sua própria origem. E que, a partir do esquecimento e da inocência, a arte torna-se criativa, espiritual e transfigurada.
Tanto a poesia quanto a pintura têm o intuito de mostrar a forma. Desagrega a realidade aparente para ordená-la de outro modo como constatamos na análise. É nesse sentido que esses objetos artísticos não nos levam a nada exterior, eles constituem um mundo em si mesmo, de interioridade. É através da desrealização das imagens que poesia e pintura se tornam, propositadamente, obscuras e absurdas. É uma fantasia que decompõe toda a criação, através das palavras e da pintura, isto é, em linguagens, pois o real são as palavras e as formas em sua criação, rompendo as fronteiras entre o dizível e o indizível para, enfim, transcender a obscuridade das coisas.
 
Referências bibliográficas
ARRIGUCCI JR., D. (1990).  Humildade, Paixão e Morte: A Poesia de Manuel Bandeira. São Paulo: Companhia das Letras.
 
COMPAGNON, Antoine (2006). O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum. Belo Horizonte: Editora UFMG.
 
GONÇALVES, Aguinaldo José (1989). Transição e Permanência. Miró/João Cabral: da Tela ao Texto. São Paulo: Iluminuras.
 
_______.(1994). Laokoon Revisitado. Relações Homológicas entre Texto e Imagem. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
 
FRIEDRICH, Hugo (1978). A Estrutura da Lírica Moderna. São Paulo: Editora Duas Cidades.
 
PAULA, Júlio Cesar Machado de (2010). Mímesis entre espinhos. Revista Todas as Musas. Ano 1.  Número 02. Janeiro.
 
POESIS, Rosidelma Fraga. Homologias entre pintura e poesia: Algumas  Reflexões.
 
 
RESUMEN
 
Basándose en un análisis homologica, presentamos las similitudes de las raíces y estructuras entre la pintura de Juan Miró, El Gallo y la poesía de Manuel Bandeira O Cacto, y mostramos que el arte literario es correlato a el arte pictórico, en la interacción de convergencias, lo que demuestra la cercanía entre ambas. En este trabajo es esencial señalar la contribución fundamental del estudio y de la pesquisa  del crítico Aguinaldo  José Gonçalves en sus obras – Laokoon Revisitado, 1994 y Transição e Permanência: Miró/Cabral:  da Tela ao Texto, 1989 – y también artículos de otros críticos,
 
Palavras-chave: similaridades – raízes – homologia – pintura – poesia
 
Palabras-clave: similitudes – raíces – homología – pintura – poesia.
 
 
 
ANGÉLICA MARIA ALVES VASCONCELOS: Mestranda em Letras, Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira. Licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás, atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiânia, Goiás. E-mail: angelicaguapa5@gmail.com, telefone: (62)8155-6991
 





Bio fornecida pelo palestrante.

HISTÓRIAS DE MULHERES DE UMA FAVELA – Natália de Campos Tamura




Natália de Campos Tamura

Universidade Presbiteriana Mackenzie

  
Resumo: O presente artigo reúne breves histórias de mulheres que vivem na única favela que resta no centro de São Paulo.
 Palavras-chave: mulheres, memórias, histórias de vida, favela.
 Abstract: This article aims to reflect about women´s life histories. They live in the latest slum located at Central region of São Paulo City.
 Keywords: Women, memories, life histories, slum.
Minicurrículo: Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Mackenzie, Especialista em Gestão da Comunicação pela USP e Bacharel em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atuou em Comunicação Corporativa na Indústria Farmacêutica Mantecorp e em Sustentabilidade com Projetos de Voluntariado, Desenvolvimento de Comunidades e Redes de Apoio nas empresas Unimed e Porto Seguro. Hoje é Consultora nas áreas de Comunicação e Sustentabilidade e leciona Responsabilidade Social Corporativa no MBA da Aberje.
 


 

HISTÓRIAS DE MULHERES DE UMA FAVELA

 

Natália de Campos Tamura
Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
 
 
Por que ouvir mulheres de uma favela?
Existe, em nós, uma diversidade de mundos diferentes que nos rodeia. Ainda assim, por mais que sejamos capazes de reconhecer o diferente, talvez, dificilmente o aceitamos como parte da nossa existência, da nossa completude como humanidade. Temos uma capacidade rarefeita de compreender que o outro, mesmo tratando-se de um outro completamente avesso ao que temos por normal, é apenas diferente de nós, não desigual.
Assim, entre todas as imagens que percebemos do mundo, não podemos deixar de considerar que somente temos visões parciais e subjetivas da realidade e que, esta mesma realidade, transcende a visão que podemos ter dela. Como afirma Eclea Bosi,
 
O nosso círculo de experiência é limitado. O nosso espaço vivido no mundo é pequeno. Embora tenhamos a ilusão de participar intensamente desse mundo único que encerra os seres viventes, conhecemos, na verdade, um reduzido espaço dentro dele, e um caminho familiar pelo qual nos guiamos e onde repetimos nossos passos, entre a infinidade de caminhos oferecida a outros seres (BOSI, 1977, p. 97).
 
 
Neste sentido, é tão instigante compreendermos a vastidão do comportamento humano, que sob tantas e diferentes perspectivas influencia e é influenciado por aspectos como a cultura, os estereótipos e preconceitos que transpassam gerações, linguagens verbais e não verbais, memórias, emoções e um dos aspectos que tornam o ser humano único e irreplicável, ao mesmo tempo em que pode o alienar – o cotidiano, como disse Heller (1987).
Dentro deste universo formado por relações complexas, conhecemos algumas pessoas, algumas coisas, alguns pedaços de paisagens, de ruas e alguns livros. Mas não podemos dizer que nosso repertório contempla e testemunha tudo que acontece. Conforme Bosi (1977, p. 97), “presenciamos alguns fatos, mas não a maior parte dos fatos sobre os quais conversamos. Confiamos, porém, nas pessoas que viveram e presenciaram esses fatos”. Com isso, formamos o que a autora chama de confiança social – confiar naquilo que as pessoas contam que viveram – base que forma nossos pensamentos e discursos cotidianos.
Somos formados, assim, da soma de histórias individuais e cada pedaço da cidade tem focos sugestivos que amparam nossa identidade, percepção e memória. Se não podemos dizer que conhecemos a maior parte dos fatos que nos circundam, não podemos afirmar saber como se formam as percepções sociais de pessoas que vivem uma realidade especificamente diferente daquela entendida pela opinião pública, mesmo morando na mesma cidade.
Segundo Milton Santos,
 
O modelo cívico forma-se, entre outros, de dois componentes essenciais: a cultura e o território. O componente cívico supõe a definição prévia de uma civilização, isto é, a civilização que se quer, o modo de vida que se deseja para todos, uma visão comum do mundo e da sociedade, do indivíduo enquanto ser social e das suas regras de convivência. (…). Quando aceitamos que sejam pagos salários de fome a uma boa parte da população, é certo que estamos longe de possuir uma verdadeira cultura (SANTOS, 1989, p. 5).
 
No Brasil permanece firme a ideia de que pessoas com menos condições sociais devam ficar à mercê da sociedade. A afirmação, à primeira vista, parece do século passado, mas quando analisamos o significado da configuração geográfica da cidade de São Paulo – lugares centrais e periféricos denotando boa parte da condição econômica das pessoas que ali habitam – entendemos que ela ainda se faz realidade. Ofertas de emprego costumam ditar esta regra nos centros urbanos, em geral, cobiçados, e dando nome às periferias também como cidades- dormitórios. A periferia, costuma denotar um local onde, em geral, estão pessoas menos favorecidas financeiramente, contraponto do centro, local onde os imóveis costumam ser mais caros, por conta de toda infraestrutura pública consolidada.
No centro da cidade de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil temos controvérsias bastante visíveis. Seu centro velho, a parte antiga da região central, compreende entre seus distritos o de Santa Cecília, que, por sua vez, abriga o bairro de Campos Elísios, o primeiro bairro nobre da cidade, onde moraram diversos fazendeiros de café. O bairro, fundado em 1879, e que teve seus tempos áureos e sua elegância, hoje abriga dois grandes problemas crônicos urbanos, indissolúveis, até então, pelos poderes público e privado – em uma das extremidades do bairro a Cracolândia, apelido derivado de crack, dado para uma região onde circulam e até residem, cerca de 2.000 usuários de drogas, além do intenso tráfico delas; e na outra a favela do Moinho, conhecida por ser a única comunidade que resta no centro de São Paulo.
As contradições já começam por tal fato – a cidade de São Paulo, entre as grandes megalópoles do mundo, ser a única que, apesar de ter tantas estruturas culturais interessantes no seu Centro antigo, como Pinacoteca de São Paulo, Museu de Língua Portuguesa, Parque da Luz, Fundação de Energia e Saneamento, Sala São Paulo, o Teatro São Pedro, apenas para citar os mais conhecidos, tem a região abandonada pela falta de segurança e pelo apoderamento da população que evita transitar por medo da violência e da vulnerabilidade a que se sentem expostos. E, por mais que se tenha tentado revitalizar este espaço público, seja por meio de iniciativas públicas de várias instâncias, seja pela privada (impulsionada pelas empresas da região que investem em qualidade de convivência para seu público interno e moradores da região), ainda não se conseguiu vencer o caráter marginalizado e aparentemente abandonado dessa parte de São Paulo.
Ao atravessarmos o Elevado Costa e Silva em direção ao centro da cidade, chegamos a Avenida Angélica que, em seguida, vira alameda Eduardo Prado. Se seguirmos o curso na contramão da via, chegamos a uma rua que parece sem saída, mas dá num trilho de trem da Companhia de Transportes Metropolitanos de São Paulo. Este trilho, que passa embaixo do viaduto Rio Branco, ao ser atravessado, nos leva à porta da comunidade do Moinho, a última favela localizada no centro de São Paulo.
A favela é rodeada por grandes prédios residenciais do bairro de Campos Elíseos, pertencendo ao distrito de Santa Cecília, subdistrito da Sé. O terreno particular foi ocupado, segundo publicações do jornal O Estado de São Paulo em 2002, tendo como área, um pouco mais de 30.000 metros quadrados, o equivalente a três campos de futebol.
A comunidade abriga cerca de 750 famílias (por volta de 2.000 moradores) – onde já moraram mais de 1.200 famílias em 375 imóveis de madeira, conforme os dados da Secretaria de Habitação de São Paulo. O local não tem saneamento básico (água, esgoto ou luz regularizados) e é cenário de diversas vulnerabilidades como a disputa entre a especulação imobiliária e as promessas públicas de regularização fundiária do terreno.
No terreno, em 1949 era inaugurado o Moinho Central, empresa que compunha o grupo Moinho Santa Cruz, também conhecida como Moinho Fluminense, por conta da grande unidade em funcionamento no Rio de Janeiro desde 1887. Segundo a ONG São Paulo Antiga, o Moinho Central, mesmo pouco conhecido do paulistano atual, foi o maior moinho da capital. A empresa operou, segundo relatos da Bunge até meados dos anos 1980. Dos anos 1980 ao final dos anos 1990, nem mesmo o Centro de Memória da Bunge soube nos dizer o que foi feito do terreno desativado. Em 1999, o local foi adquirido por duas empresas particulares durante um leilão da antiga Fepasa (empresa ferroviária paulista). Sem ocupação pelos proprietários, o terreno, em área prevista para ser adensada pela operação urbana, começou a ser invadido por volta de 2002, principalmente após a retirada de moradores da Favela do Gato, localizada nas margens do Rio Tamanduateí.
Entre 2011 e 2012, dois incêndios destruíram centenas de barracos e mataram algumas pessoas – número que ainda gera divergências: a imprensa noticiou duas pessoas, os moradores dizem que foram 30. Apesar da falta de laudos oficiais, esses incêndios são apontados pelos moradores como criminosos que o entendem como um recado para deixarem o terreno.
A favela do Moinho sobreviveu ao adensamento da cidade ao redor. Ainda assim, sentem a força da opinião contrária a sua continuação no terreno em acontecimentos como o citado.
Após o incêndio de 22 de dezembro de 2011, o então prefeito Gilberto Kassab (PSD) disse que todos os moradores seriam removidos para uma Cohab na Vila Leopoldina. No entanto, como o terreno é particular, estudantes de psicologia da PUC, além de promoverem encontros com as mães da comunidade para atendimentos, movem processo para destinar a propriedade aos invasores por usucapião. A prefeitura, impedida de desapropriar a área, durante a campanha para prefeitura de São Paulo de 2012, o então candidato a prefeito Fernando Haddad (PT) propôs a urbanização da região e a regularização fundiária. Há registros gravados pelos moradores da promessa realizada pelo prefeito que não foi cumprida desde então. Para os moradores, o descaso das autoridades também é uma forma de pressioná-los a saírem do terreno.
Uma proposta com mais de dez anos na favela é a Aliança de Misericórdia, uma frente da Igreja Católica, cujos padres construíram diálogo com os moradores e acolheram as crianças em um projeto bem recebido por parte da favela: o Oratório São Domingos Sávio, local de contra-turno escolar que recebe diariamente 120 crianças (60 pela manhã e 60 pela tarde) com atividades culturais, almoço e atendimento psicológico. Além do Oratório, a Aliança de Misericórdia construiu uma creche, fora da favela, em uma das ruas ao lado, e recebe diariamente quase 150 crianças, todas do Moinho, entre zero e cinco anos.
No entanto, os projetos não conseguem beneficiar todas as crianças que moram ali. O público infantil e jovem é quantitativamente expressivo, testemunha diária de experiências carregadas de significados que passam despercebidos pela comunidade do entorno. As crianças são afetadas diariamente por diversos discursos (seus pais ou responsáveis, instituições escolares e religiosas, voluntários, amigos e conhecidos da própria comunidade) e assim vão formando seu “eu”, suas relações interpessoais e seu olhar sobre o mundo.
Também compõe o espaço da favela o tráfico de drogas instalado na região. Crianças e jovens são assediados pelo tráfico de drogas e muitas delas são usuárias desde muito cedo. Outra grande questão é a violência diária que sofrem, muitas vezes de suas próprias famílias, como espancamentos e brigas entre si. Soma-se a tudo isso falta de acesso escolar de qualidade, desvalorização da sua cultura pela sociedade e desconhecimento da riqueza cultural disponível no bairro onde moram.
É nesta favela que moram as mulheres cujas histórias de vida relatamos abaixo. Entrevistei-as entre julho de 2015 e julho de 2016, gravei e transcrevi seus depoimentos, a partir dos quais apresento os textos sobre cada uma:
:
 
UM POUCO DA FÁ…
Fa não sabe ao certo onde nasceu. Talvez seja mineira, como sua mãe diz, talvez não. Não conheceu seu pai, nem por foto. A figura masculina da sua infância traz breves imagens do seu padastro, caminhoneiro que bebia muito, por isso batia em todo mundo e colocava todos para fora de casa até que viesse a polícia e o levasse. Conhecida como maria macho, quando criança, porque gostava de brincar de bolinha de gude, pipa, rodar peão e brigava feio se precisasse. Não era chegada em encosta de menina não. Brincar de boneca era a coisa mais difícil. Saiu de casa aos nove anos, para dormir fora e passar uns dias longe usando drogas.
Quando caiu de vez na rua, aos 11, sabia que só tinha amigo que não prestava. Drogas já faziam parte do seu dia a dia. Até chegar o momento da prisão. Ficou presa um ano e cinco meses por porte de drogas. Mas a maior surpresa foi se descobrir grávida, de um menino ao qual não sabia quem era o pai. Aí ela resolveu tomar um rumo na vida. A convivência conflituosa com o filho ela traz até hoje, quando deixa claro que o ama, mas não se dá com ele. Tem dia que tem vontade de “encher ele” de porrada.
Lembra dos seus passos na prisão, fazendo paralelos com os acontecimentos políticos. Em 1999 Mário Covas, então governador do estado de São Paulo, inaugura a prisão feminina para as portadoras de HIV. Morre em 2001, um mês antes da Fá deixar a prisão e correr direto de volta às drogas, lembrando somente de deixar seu filho aos cuidados da mãe. Na rua, você sabe quando é dia e noite porque escurece e amanhece. Mais nada te importa. Se você marcar algo com alguém, você fura. Só não se esquece de dinheiro. Resolve um dia, por conta própria, parar de usar drogas. E fica limpa dez anos, de pensão em pensão, até ter uma recaída forte, depois de mais dois filhos nascidos.
Chega ao Moinho indicada por uma amiga. Já havia arrumado tanta briga nos albergues por conta da sua personalidade irritante. Era um cômodo pequenininho, não tinha nem banheiro. Pagou 1.000 reais em prestações de 100 por mês. Hoje, um cômodo no Moinho pode chegar a 10.000. Depois de um tempo, compra o barraco ao lado, faz a parte de cima e constrói dois banheiros.
Nunca teve muita paciência pra morar com homem. Quando eles bebem, ela se enche. Nem pensa em namorar. Hoje não. Um sonho é ir ao programa do Rodrigo Faro e conseguir uma casa. Tira o sustento dos filhos puxando carroça. Às vezes passa “uns apertinho”. E, se o armário fica vazio, pede “pras amiga chique” que tem loja no Bom Retiro. Pedir pra quem tem igual ela não resolve. E tem que pagar direitinho porque senão o povo fala.
Chique é pessoa branca, pessoa bonita, bem vestida. Se fala até que é rica. Se bem que as vezes só parece e não é. Uma das “suas amiga chique” tem uma loja de lingerie no Bom Retiro, quando fez tratamento de câncer ficou careca. Fá rapou o cabelo pra ficar que nem ela – linda. Uma amiga que gosta tanto dela que até a chamou pra ir no aniversário do filho, em Guarulhos. Só que Fá se diz bicho do mato, acha que as pessoas vão ficar olhando, então ela nunca vai. Ela até diz que vai pra pessoa não ficar triste, mas onde ela se sente feliz e bem é com sua carroça.
Medo ela só tem de perder os filhos. De mais nada. Caguetar alguém na favela leva para o debate de quem manda nela. Então, não indique onde alguém mora, mesmo se você souber disso. Em favela a gente tem que saber como agir. A coisa pode estar feia, mas isso não quer dizer que você pode chamar a polícia. Um dos seus filhos disse ter vontade de conhecer a Disneylandia, nos Estados Unidos. Mas nunca foi nem à praia, no Brasil.
 
SOBRE A D. ZÉ…

  1. Zé veio da Paraíba, andando, sem destino, com uns sete anos. Quando ela e os irmãos roubavam coisas da casa dos outros pra comer a mãe quebrava eles na madeira. Quando ela dizia que ao crescer ia cair no mundo a mãe dizia que “matava ela”. Ignorância do povo antigo antiga, ela afirma. Quando soube de um homem que pegava gente de menor pra trabalhar nas casas, lá foi ela, vindo parar no Rio de Janeiro, com 18 anos.

Conheceu o pai dos seus filhos, mas logo vieram para São Paulo, onde passou os maiores apertos. Só tinha peixe salgado pra comer quando o marido roubava dos bares, escondendo “nos casco” [dentro de cascos vazios de garrafas?]. Roubava lenha para fazer folha de abóbora pros filhos. Como o marido não arranjava emprego e ela não tinha como trabalhar com 7 crianças, morava um mês em cada lugar para não pagar o aluguel. Quando morava num barraco no Jardim Peri, soube que seu marido estava com outra. Perdeu a cabeça. Expulsou o marido de casa, fez curso e cinco inscrições no “Ticket leite” pra dar pros filhos.
Um dia, tomou umas pinga e foi discutir com o marido na casa da outra. Mas como eles puseram um guarda-roupa na porta, ela não teve forças para entrar. Na semana do Natal ele entrega uma galinha viva pra ela. Ela deu nele com a ave. Ele quase passou com o fusquinha em cima dela, deixando-a toda rasgada, mesmo grávida de um dos filhos dele. Depois de dar queixa na polícia, o marido foi intimado a depositar a pensão dos filhos. A justificativa para ter largado D. Zé é que ela era uma mulher cheia de filho. A vida só com os filhos seguiu bem por um tempo até um dos meninos arranjar treta [arrumar briga] com o pessoal do Jardim Peri.
Quando soube que um dos filhos estava marcado pra morrer, ela foge, carregando seis dos sete filhos do jeito que deu. O mais velho ficou pra trás empinando pipa, o bendito, motivo de desespero de D. Zé por meses até conseguir trazer o filho. Na fuga, D. Zé deixa pra trás os álbuns de fotos dos aniversários dos filhos. Trabalhou em vários lugares temporariamente, mas arrumava treta [briga] porque as mulheres enroscavam com ela. Um dia uma amiga teve a ideia de roubar umas roupas no Brás porque não tinha o que vestir. Foi pegá e apanhou muito.
Algumas vezes foi necessário colocar os filhos pra pedir esmola no farol [sinal de trânsito, em São Paulo]. Às vezes tem que aprender a pedir. Foi parar no Moinho depois de acabarem com a favela no Brás. Boa parte dos filhos arrumou confusão com os donos da favela. Então eles moram longe.
Homens na sua vida, foram só tranqueiras [estorvos]. No começo eles parecem educados, cuidadosos, depois, batem e xingam sem dó. Hoje ela se diz feliz. Tem seu barraco reformado e faz a vida com os cambalachi que consegue. Compra geladeira e TV velha e revende. Conseguiu até ajudar alguns filhos a comprar seus barracos. Mas de todos os filhos, a menina Tá, a caçula, é a que mais merece porque “ajudou ela” a puxar muita carroça. Os outros filhos, apesar “dela” ajudá-los, às vezes roubam dela, ainda mais quando saem sem nada da prisão. Porque roubar da mãe pode. Ela não vai denunciar filho nenhum mesmo. Na verdade já falaram pra D. Zé que os filhos dela não estão todos mortos porque ela vale. E olha que ela não guarda roubo, droga e nem arma. Mas dá pão e café pra quem precisar. Roupa então, boa parte do que ganha manda pra Bahia.

  1. Zé gosta de se recolher às 15 horas. A neta leva até bolacha na cama pra ela. Pra quem nunca imaginou ter uma TV já teve até duas. Seu sonho era comprar um pedacinho de terra longe dali. Plantar couve e coentro pra comer com polenta. Ela ama polenta bem fresquinha. Quando ela mudar, vai a quadrilha – ela e os três netos. Os netos gêmeos da outra filha ela também gostaria de levar porque eles apanham muito dela.

Realizou seu sonho em 2016. Foi embora do Moinho com os três netos que moravam com ela para um pedacinho de terra que comprou num terreno invadido na Zona Sul. Só que perdeu os netos gêmeos para o Conselho Tutelar.
 
A VIDA DE LÔ…
Lô, não gosta de falar a idade. Com quase quarenta anos, nasceu em Minas Gerais. Sua mãe a colocou pra fora de casa com nove anos. Foi aos 17 que ela foi morar definitivamente na rua porque era dependente química, alcoólatra compulsiva e puta. Não tira a razão da mãe. Lidar com dependente químico 24 horas é difícil.
O primeiro filho nasceu em Minas e foi adotado por um casal. Apesar de ter uma vida muito melhor do que Lô poderia lhe dar, ele é revoltado. Tem tudo que quer, mas reclama muito – e a culpa por tê-lo abandonado.
O segundo filho foi roubado dela no parto. Sob efeito de drogas, ela lembra que a anestesia não pegou e que fizeram a cesária e a costuraram daquele jeito mesmo. Depois disseram que ela não tinha tido um filho. É a máfia que pega crianças, ela diz. Hoje, com 12 filhos, quatro dela e oito que adotou da rua, reza a Deus que alguém cubra seu filho como ela cobre o filho dos outros. Dos filhos de rua que moram com ela todos sofriam abuso ou eram espancados pelos pais e padrastos. Morou muitos anos em uma maloca, debaixo do viaduto da avenida São João onde cozinhava na rua, era louca de tanto cheirar cola e fumar crack e muita gente a chamava de mãe. Nunca passou 24 horas na Cracolândia. Fumava sempre longe dali. Acredita que tinha que respeitar a sociedade pra ser entendida como sociável. Mesmo muito louca, não deixava de cozinhar pra quem tinha fome e abraçar os filhos que precisam de aconchego
Está há 13 anos limpa [sem usar drogas]. É porque o que a gente quer, a gente consegue. O negócio é não ficar reclamando. Homem? Ela viveu mais de 16 anos com o pai de seus filhos e foi muito feliz. Só que ele regrediu – fumou tudo que conquistaram. Homem na verdade só serve pra te dar filho e encher o saco. Não teve infância porque pobre lá tem infância? Não estudou porque não teve cabeça pra isso. E apesar de ter sido muito espancada pela mãe, não tem dúvidas: sua mãe é a mais guerreira das mulheres e a melhor mãe do mundo. Mas não tem contato com ela há anos.
Lô se diz maloqueira [favelada], mas tem facebook e mantém contato com seus irmãos – todos têm estabilidade. Um é professor de hip hop, outro tem carro próprio e tem uma irmã que está se formando. Mas, mesmo seus irmãos indo à igreja, não conseguem dizer aos filhos que os ama, diferentemente de Lô que diz isso a toda hora aos seus. Leva os filhos à Cracolândia e mostra as opções: estudar e ser alguém na vida ou viver naquela escolha.
Ficou presa um ano por comercializar drogas. Depois se envolveu três anos com um portador de HIV. Quase enlouqueceu os agentes do posto de saúde. Todo mês aparecia para fazer os exames e se certificar que não estava bichada. Quando sua filha lhe pediu uma calça de R$ 150,00 – não que ela se importe de comprar no Brás – fez questão de levá-la ao shopping para escolher a que queria. Vaidade? Diz que não. É uma questão que se ela quer, ela pode. Lô tinha duas ratazanas de estimação, quando morava no Moinho. Às 22 horas, bastava chamá-las. Reconheciam a voz da dona. Eram muito inteligentes. Descascavam até banana. Alguém fez maldade e sumiu com o Tico e o Teco.
Outra mágoa é terem vendido seu cavalo. Foi o último marido viciado em drogas que vendeu pra fumar umas. Por isso ela não o perdoa e não volta pra ele. Em um dos projetos do bairro do qual fazia parte, um senhor, de classe, comentou que queria conhecer seus filhos. Quando os apresentou, o homem se surpreendeu com a educação das crianças. Lô, mesmo maloqueira, como se diz, fala com orgulho da educação que deu aos filhos e preza pelas roupas limpas das crianças. Mesmo quando morava debaixo do viaduto, ariava toda semana suas panelas e não podia secar com pano para não perder o brilho. Também trocava roupa de cama e toalhas todos os dias.
Seu sonho é ver os filhos crescerem, se formarem e terem oportunidades melhores na vida do que ela. Sem contar a luta pela moradia digna na qual ela acredita e a motiva a levantar todos os dias. Um dos seus filhos pequenos quer ser policial – pra fazer as coisas certas na vida, como ele diz.
 
AS MEMÓRIAS DE MI…
Mi chegou ao Moinho quando tinha 18 anos e estava grávida do primeiro filho. Já tinha passado por várias casas na periferia de São Paulo antes de chegar a morar na favela. Ficou um ano trancada no seu barraco porque tinha medo e não sabia como conviver com a nova realidade. Já trabalhou em firma, bar, lavando carro em estacionamento e até com drogas, que ela nunca usou. Por conta disso, foi acusada de coisas que não fez e chegaram até a colocar uma arma na sua cabeça.
Da infância ela não lembra muito. Aprontava bastante na escola e batia nos meninos. Era muito mulher macho. Que ela saiba é filha única e tem enorme apreço pela mãe que batalhou muito para criá-la. Se precisasse daria seu coração pra salvar sua mãe. Pra salvar seus filhos também. Desde que eles estivessem certos. Se estiverem errados…
Mi sente vontade até hoje de ter conhecido o seu pai e ter perguntado por que a abandonou. Não o conheceu nem por foto. Tem quatro filhos, um de cada pai, e nenhum dos pequenos convive com o pai porque [cada] um vale menos que o outro, segundo ela. Para o futuro, ela deseja que os filhos se formem, façam uma faculdade e construam suas famílias depois de estudar. Porque a gente tem que ter uma aprendizagem pelo futuro pra ter uma posição melhor. Namorar agora não dá futuro. Ensina para os quatro filhos homens que em mulher não se bate, nem se ela for a pior puta. É melhor [se] separar. Ela já apanhou muito de homem, mas sempre deu de volta. Já arrancou até dente deles, conta com orgulho.
É feliz onde vive, mas sonha em pagar as dívidas, juntar dinheiro e ir embora dali. Porque quem mora numa favela tem dificuldade até de arrumar emprego. É mal visto. Pra educar os filhos vale tudo. Até quase enforcar o mais velho, ela já tentou. Porque se ela não educar agora, polícia mata ele amanhã. Acredita que ser mãe não é só cuidar e pôr comida ou lavar roupa. Mas é aquela que ensina, que explica e que mostra a realidade pros filhos. É ser dura na hora certa. Dizer não e não e acabou. Acredita em Deus e reza pelas poucas amigas que conta nos dedos.
 
Referências bibliográficas
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FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 4ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1972.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. 4ª ed. São Paulo: Paulo de Azevedo, 1960.
LIPPMANN, Walter. Opinião pública. Petrópolis: Vozes, 1922.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP: Unicamp, 1990.
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VALLADARES, Licia do Prado. A invenção da favela: do mito de origem a favela.com. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2005.
ONG São Paulo antiga. Disponível em: http://www.saopauloantiga.com.br/. Acesso em 15 out. 2015.





Bio fornecida pelo palestrante.

A VOZ ESPIRITUAL DE ISMAEL COUTINHO – Luiza Lobo




Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
Minicurrículo: Luiza Lobo é professora da pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, e foi professora da UERJ. É membro da ABRAFIL (Associação Brasileira de Filologia) e do Pen Clube do Brasil, e autora de 20 livros. Edita as revistas Literatura e Cultura e Mulheres de Literatura desde a década de 1990.
Resumo: Este ensaio discute o modernismo brasileiro na tendência espiritualista, dentro do contexto mundial, e a inserção do latinista e professor Ismael Coutinho neste movimento, através de duas obras de poesia que deixou inéditas, ao falecer.  O ensaio, que foi a introdução do livro reunindo Silhuetas e Bosquejos (Rio, de Janeiro, Botelho, 2014), busca resgatar essas obras de criação poética do professor de latim e português.
Summary: This essay discusses Brazilian modernism in its spiritual trend in the frame of world modernism, in which are inserted two books written by the Latinist and teacher of Portuguese and Latin Professor Ismael Coutinho, who left them unpublished at his death. They are Silhuetas and Bosquejos, and this essay was an introduction to the book in which they were printed together (Rio de Janeiro, Botelho, 2014).
 
 


 
A VOZ ESPIRITUAL DE ISMAEL COUTINHO
Luiza Lobo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
 
I – O modernismo mundial
Nossa ideia sobre modernismo é de que foi um movimento que revolucionou a linguagem em quase todas as latitudes da Terra onde ocorreu.  Pioneiros como Picasso, com o quadro “Les demoiselles d’Avignon”, que lança o cubismo, em 1909, e a norte-americana Gertrude Stein, com “Autobiografia de Alice B. Toklas”, de 1910, esta geralmente não reconhecida como pioneira, abriram o caminho para a arte dos também emigrados norte-americanos Ezra Pound, T. S. Eliot e os que lançaram o fluxo da consciência como nova técnica narrativa: o irlandês James Joyce e a inglesa Virginia Woolf.
O modernismo propôs uma transformação radical na linguagem poética, na prosa ou no verso, voltando-a para a expressão cotidiana, despojada e adotando uma visão de mundo que se identificava com o cosmopolitismo, a rapidez e a mudança social, o espírito revolucionário, em oposição à placidez romântica e o preciosismo parnasiano. No Brasil, sabemos como essa revolução recorreu ao indianismo, em busca do reconhecimento dos valores nacionais das formas nativistas de expressão. Em todo o mundo, o modernismo se afastou da linguagem erudita e adotou a oralidade e a naturalidade da expressão do sentimento, aproximando-se do cotidiano e da forma denotativa e descritiva, como ocorre na linguagem jornalística.
Desde o barroco a poesia se estabeleceu como uma forma refinada e se tornou, ao longo do tempo, uma arte de elite – seja da nobreza, seja do clero. No período da Ilustração o culto da forma e do estilo elaborado chegou ao auge. Surgiu dessa tendência a poesia parnasiana e simbolista, que buscou palavras raras, por vezes obtendo resultados artificiais, como no caso do parnasiano Olavo Bilac, e redundou no afastamento do público-leitor. Sua poesia nada tem a ver com a de Baudelaire ou mesmo de Cruz e Souza, ambos simbolistas – que usam rimas ricas e palavras raras, mas não rejeitam a expressão natural do sentimento.
Já no romantismo, cujo projeto era alcançar uma comunicação mais ampla, a poesia se esmerou em transmitir o sentimento de forma simples e clara, e por vezes recaiu num sentimentalismo subjetivista exagerado, como ocorre em certos poemas de Lamartine, de Heine e, entre os românticos brasileiros, em Casimiro de Abreu. Essa tendência ao sentimentalismo se torna mais acentuada nos poetas do Brasil, pelo caráter tipicamente oral de nossa cultura, numa sociedade pouco letrada e pouco inclinada a uma educação formal.
Na terminologia do formalismo russo, representado pelos críticos Tynianov, Chklovski e Eikhenbaum, o estilo literário nada mais é do que uma mudança da função fática, que é própria da linguagem cotidiana, para um novo uso, estético e mais refinado, da função literária. Segundo esses críticos, há apenas uma tênue separação, mais de intenção ou função do que de conteúdo, entre o discurso comum usado na fala cotidiana e a escrita literária. O que ocorre no modernismo dos anos 1920 é o entrosamento dessa forma fática com o discurso erudito literário, passando-se a empregar a linguagem denotativa e simples na comunicação artística. Bastou deslizar de um contexto (ou função) para outro para se chegar ao uso “modernista” na linguagem literária. Com isso, rompeu-se a aura que sacralizava a literatura e o ato estético, existente até o século XX, que eram antes associados à inspiração sagrada, proveniente das musas ou deuses, ou ligados a um exercício nefelibático, realizado nas altas esferas da sofisticação de escolha de vocábulos, como num Olavo Bilac. Resultou disso um grande artificialismo na poesia, em busca de rima e de métrica perfeitas, obtidas através de inversões sintáticas radicais e busca de palavras incomuns, que nem sempre ecoavam de forma natural e agradável, principalmente aos ouvidos brasileiros, avessos à norma culta herdada de Portugal.
Na rígida língua francesa, considerada sacrossanta, o modernismo não ocorreu de forma tão radical na morfologia e na sintaxe, embora, desde o Romantismo, o estilo tenha se tornado menos rebuscado e com orações menos longas na prosa, em comparação com o estilo do século XVIII.
Em 1924, a revolução promovida por André Breton na prosa foi de cunho mais surrealista, no plano das ideias, visando a uma abertura para o campo do inconsciente, do sonho e do desrecalque, antes do que propriamente uma mudança na linguagem. Ele utilizou seus estudos de psiquiatria, em especial de Charcot, além de psicanálise, de Freud, para criar uma obra como Nadja (1924), livro antológico que identifica a cidade de Paris com a personagem enlouquecida Nadja. Ela era, na verdade, uma paciente psiquiátrica que Breton conheceu durante seu curso de medicina. Ao mesmo tempo em que fez essa identificação metafórica entre a loucura e a urbs caótica, cosmopolita, Paris, Breton rompe com a ideia de uma unidade essencial do indivíduo.
Mais além foi Guillaume Apollinaire, no teatro, em 1917, com sua peça Les mamelles de Tirésias (As mamas de Tirésias), que tem como protogonista um homem tresloucado que perambula pelo palco monologando com um manequim. Entretanto, em ambos os casos, a “revolução da linguagem poética”, na expressão de Julia Kristeva, se deu mais na autocrítica  do pensamento que na alteração da linguagem no plano da expressão. Apollinaire antecipou o teatro do absurdo das peças curtas de Ionesco, sendo as mais famosas A cantora careca (1950) e O Rinoceronte (1957). Ionesco foi aceito pelo Colégio de Patafísica, que funcionou de 1948 a 1973, na Biblioteca Nacional de Paris (tendo sido reaberto em 2000), editando livros ousados, como o Pai Ubu, de Jarry, e James Joyce. As obras de Ionesco, romeno naturalizado francês se destacam pelo silêncio (que, cerca de dois anos depois, será utilizado pelo dramaturgo Samuel Beckett) e pela acusação metafórica de temas sociais, provocando um efeito de  nonsense. Em geral, não ocorreu na poiesis francesa uma mudança no uso da linguagem, na poesia e na prosa, como no modernismo em língua inglesa ou no Brasil, se excetuarmos a poética revolucionária de Mallarmé, com seu Um lance de dados jamais abolirá o acaso (1897), que rompe com estrofe, métrica e rima, e o seu Livro (póstumo), que poderia ser lido em ordem aleatória (retomado por Cortázar no romance Amarelinha, de 1963).
Já o dadaísmo, que surgiu no período de entreguerras (entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) surgiu na língua francesa como um movimento niilista que introduziu o nonsense como forma de crítica da sociedade e elemento de transformação da linguagem. Ele negava a possibilidade de uma filosofia e uma cultura estruturadas. Esse movimento utilizou o que o futurista italiano Marinetti chamou de “palavras em liberdade”, deixando o pensamento fluir sem censura, e, na poesia, aboliu qualquer uso de estrofe, métrica ou rima, chegando a introduzir desenhos no texto em prosa ou em verso, neologismos, e assim desconstruindo a organização sintática do pensamento. Destacou-se no que se entendia então por “ilógico” ou “irracional” na linguagem, mas que Freud bem definiu como o inconsciente, uma segunda visão, imagem onírica e recalcada, ou a “linguagem esquecida” (dos sonhos, da poesia, da criação artística), no dizer de Erich Fromm.
Efetivamente, o século XX se iniciou com diversos manifestos que denotavam essa procura por uma grande revolução linguística e estilística – paralelamente aos grandes movimentos políticos do século – anarquismo, comunismo, socialismo, integralismo. Seu início deu-se com a Primeira Guerra Mundial, em 1914, e não em 1900, em plena bela época – no dizer de Gilberto Mendonça Teles, em seu importante Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. Havia toda uma admiração pelas buzinas, dos carros e das fábricas, o barulho das ruas da cidade, como centro cosmopolita fervilhante de idéias, em substituição ao ambiente natural, rural e bucólico dos campos, que inspirara a literatura, do Renascimento ao Romantismo. O século XX sentia-se a um tempo horrorizado e fascinado com a revolução industrial iniciada no século XVIII: o automóvel substituía, com seus cavalos-máquinas, a força dos cavalos de carne e osso; a  indústria armamentista, ainda com metralhadoras, numa guerra de trincheiras, com soldados e tanques, surgia com toda a pompa na imaginação de F. T. Marinetti. Italiano nascido no norte da África, em Alexandria. Ele saudou a modernidade com um clamor incendiário – até as bibliotecas deveriam ser queimadas! – no seu principal manifesto, o Futurista, de 1909, entre diversos outros. Articulou várias mudanças na forma de expressão: a abolição dos adjetivos e advérbios, visando à força e rapidez da comunicação, como ocorre no jornalismo. Os longos períodos propostos por uma nobreza passadista e em extinção, que escrevia de acordo com ócio de que dispunha, dava, assim, lugar a um discurso rápido, tenso, dos tempos modernos, infelizmente cada vez mais belicosos. Nesse ponto Marinetti anteviu o que viria no século seguinte; não se pode afirmar com toda a certeza se ele percebeu essa tendência à transformação na sociedade que o cercava ou se ele realmente introduziu essa nova perspectiva em seus escritos revolucionários. No entanto, Marinetti se notabilizou apenas como um autor de manifestos, mas que não conseguiu se firmar como escritor de literatura, pelo menos fora da Itália.
 
II – O modernismo no Brasil
Já o Modernismo brasileiro teve uma forte vertente indianista, que não fora abordada no Romantismo brasileiro, que tratara o indígena de forma fantasiosa, imaginativa e indireta, através das correntes europeias (Montaigne, Rousseau, Chateaubriand) ou norte-americana (James Fenimore Cooper), em lugar de escrever sobre o indígena brasileiro real.  (Gonçalves Dias utiliza o termo “manitô”, ou espírito dos mortos, que sequer fazia parte do imaginário indígena brasileiro). Nos anos próximos a 1920, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral se dedicam ao estudo antropológico das sociedades indígenas sob a luz de Freud, para compreender o pensamento dos povos chamados “primitivos”. Essa abordagem inspirou, por exemplo, Raul Bopp na escrita do seu enigmático Cobra Norato, que tenta unir a mitologia indígena à noção de inconsciente. Diversos quadros da grande pintora Tarsila do Amaral, que retirou sua inspiração das cores típicas do interior do Brasil caipira numa visita a cidades de Minas Gerais. Cenas como a de “A Negra” (1923), “Paisagem com touro” (1925), “O Abaporu” (1928) e “Antropofagia” (1928) representam a visão naive da vida interiorana brasileira, com sua mescla de cores vivas oriundas das culturas indígena e africana contrastando o sentido de “racionalidade” social europeia imposta sobre essas visões de mundo sul-americanas. O objetivo de nosso modernismo foi criar um Brasil independente, com suas características culturais tropicais peculiares e consolidar a variante brasileira da língua portuguesa. Em vários textos emblemáticos de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, na prosa e na poesia, e em diversas expressões reveladas na Semana de Arte de São Paulo, como o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, ou a escultura do Cristo de trancinhas, de Brecheret – assim como no primeiro livro de Drummond, Alguma poesia, de 1929, o que representa para nós o modernismo é uma atitude combativa e revolucionária em busca de uma expressão linguística e de uma imagética próprias. E Oswald de Andrade foi quem melhor condensou esse sentimento com seus dois manifestos, Pau Brasil (1924) e Antropófago (1928). No primeiro sugere, com a memorável imagem de um “negro” que gira a manivela do desvio nos trilhos, invertendo a direção de um trem, que se operasse uma mudança histórica na mentalidade colonial brasileira, inclusive incorporando a presença da África aqui, rumo ao Brasil real, não europeu. Com essa imagem quis Oswald mostrar que a cultura no Brasil deveria recuperar todas as suas fontes nativistas, a indígena e a africana, e não continuar a repetir modelos e formas trazidas da metrópole, de forma maquinal, como se fôssemos sua mera continuação do outro lado do Atlântico. Já no segundo manifesto ele propôs a junção das culturas na produção de um novo amálgama linguístico e cultural, resumido no conceito de antropofágico, que antecipa muitos trabalhos do pós-modernismo.
É claro que toda essa ideologia ufanista de pátria autônoma desenvolvida no modernismo se esvaziou um pouco sob o impacto do pós-modernismo, que nos mostrou o equívoco do lema de Pound: “make it new” – seguido no Brasil pelos irmãos Campos, em especial Haroldo de Campos, e por Décio Pignatari. Como renovar completamente uma língua? Escrever e pensar sempre retomam algum ponto na linguagem, uma plataforma pré-existente, pois não se cria a língua do nada, não se inventa ab ovo coisa alguma. Sempre se transforma o que existe, como dizia Lavoisier.
Note-se, no entanto, que, dentro do próprio modernismo brasileiro, há uma linha de escrita menos preocupada com a mudança radical da forma, do tema e do estilo do poema que a dos autores citados acima. Trata-se da poesia modernista praticada por Cecília Meireles e por Darcy Damasceno, na linha espiritualista – compartilhada por Murilo Mendes e Jorge de Lima – que recebeu o epíteto de “poeta cristão”. Nessa autora, captamos a tradição açoriana – por influência da avó, originária dessas ilhas – que ela cultiva através das formas fixas, tais como no Romanceiro da Inconfidência. (Ver, a respeito desse poema, meu artigo in Perspectivas I, Rio de Janeiro, Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ, 1984, p. 109-15).  Apesar do uso de um vocabulário despojado, próximo ao cotidiano, na tradição católica e espiritualista, Darcy e Cecília, unem poesia e música, prática não tão distante quanto se possa pensar, da poesia de Mário de Andrade, que segue essa orientação do teórico simbolista René Ghil. A preocupação cristã e espiritualista desses poetas parece remontar ao parnasianismo de Horto, único livro de Auta de Souza, caracterizado pela extrema religiosidade da autora rio-grandense-do-norte. O uso da linguagem cotidiana, imantada pela descrição das cenas de nossa história e vivências, redundou, em Cecília, no belíssimo poema, talvez o seu mais famoso, em que ela revela sua intimidade ao leitor-receptor: “Eu não tinha esse rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro (…)” (“Retrato”, in Retrato natural, 1949). Falta às obras de Ismael Coutinho essa sensibilidade transbordante de emotividade que impregna esse poema de Cecília Meireles.
 
III – Os dois livros de poesia deixados inéditos por Ismael Coutinho
Vemos, pela leitura de Silhuetas e de Bosquejos,[i] ambos datados pelo autor de 1922, mas escritos entre 1917 a 1925, que Ismael Coutinho é avesso a tais “revoluções da linguagem poética” que caracterizaram o modernismo mundial – com exceção da linha espiritualista. Nesses seus dois livros, que deixou inéditos, esmera-se no uso da expressão refinada da norma culta e na obediência à forma do soneto, na rima e na métrica bem marcadas e num glossário oriundo da poesia clássica. Apenas em algumas composições dramáticas curtas, ou autos, recupera a “linguagem caipira” brasileira, em tom ingênuo ou naif, mas sempre num contexto cômico. Por exemplo, em “Dois roceiros” (ver Coutinho, Bosquejos), os personagens Chico e Mané, que remetem para o teatro de Artur de Azevedo, como em A capital federal, em que se confrontam o ambiente rural e o urbano.
A poesia de Ismael Coutinho não se insere na revolução modernista quer no uso da língua portuguesa, quer na afirmação do nativismo da cultura brasileira. Ao contrário, salvo as exceções apontadas, busca praticar o vocabulário clássico herdado do passado greco-latino e congelado pelo Simbolismo-Parnasianismo, em especial por Olavo Bilac, que o poeta cita como uma de suas fontes de inspiração, ao lado de Casimiro de Abreu, Victor Hugo e Camilo (mas não Fernando Pessoa…). Todo o movimento da poesia de Ismael Coutinho integra-se a sua prática de professor de língua portuguesa e no projeto de conservar a norma culta.
Assim, há, nos dois livros deixados por Ismael Coutinho, um tom de filiação romântico-simbolista-parnasiana, e até epígrafes que se referem aos grandes românticos – Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, poetas maiores – ao lado da busca vocabular de termos raros que nos remete à antologia da Poesia Simbolista, de Andrade Muricy, cujo maior expoente é Olavo Bilac. Há um uso constante, no poeta, da rima e da métrica perfeitas – levando-o a utilizar termos raros, como “travesseira”, para rimar com “ligeira” (ver Bosquejos). Já na apresentação de Bosquejos, desculpa-se com o leitor, afirmando que a obra é pouco pretensiosa, e oferecendo-a apenas à família; no entanto, sua temática, a métrica, a rima e o glossário pouco diferem do outro livro, Silhuetas. Neste apresenta principalmente sonetos, metrificados em decassílabos, heptassílabos e pentassílabos. Apenas os versos são bem mais longos, em geral, e há mais variação nos metros em muitos poemas. Mas ocorre a mesma busca de vocábulos raros que afasta o estilo dos dois livros do modernismo e o aproximam do parnasianismo; já na temática, ambos denotam o mesmo sentimento ingênuo, familiar, religioso e apelam a cenas rupestres próprias do romantismo, que poderiam aproximá-los do modernismo espiritualista.
Seus temas são, prioritariamente, a própria morte e o enterro em cova rasa sob a sombra de um cipreste, que chorará com o poeta, numa subjetividade exacerbada, que corresponde à primeira fase romântica subjetivista, das três fases apontadas por Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira. Não se dedica quer ao indianismo quer ao realismo nacionalista, que são as duas fases seguintes. As referências mais frequentes são à família, Deus, Cristo, a Cruz, o sentimento religioso, o abandono, o terror do sono e da solidão, a “estrada” – termo muito utilizado – ou caminho para a velhice e a morte, ao lado da descrição da natureza, os pássaros, a avó, mas também o pai e a mãe. Todo esse ideário se rege pela forma rebuscada e a correção vocabular, sintática, morfológica, em função da norma culta, como lemos na poesia parnasiana de Machado de Assis – chega mesmo a empregar o termo “taful” – e jamais se afasta da métrica exata e da rima perfeita. Não há versos livres, soltos ou brancos, como pregava René Ghil, visando a uma sensibilidade livre; e nada está mais distante da poética de Ismael Coutinho que o conceito de “palavras em liberdade”, do futurista Marinetti.
Já a forma latina adotada pelas línguas neolatinas, francesa, espanhola e portuguesa, tem cunho suficientemente rígido em si, pelo grande número de vogais que têm e que marcam muito os sons, contribuindo para a monotonia dos versos, que obedecem a uma contagem silábica rígida. Essa monotonia impede maior musicalidade, como era possível na poesia grega e na tradição celta e bárdica anglo-saxônica, presente em Burns e Byron, para não citar a liberdade quase total dos versos de T. S. Eliot em “The Love Song of J. Alfred Prufrock” (1910-1915) ou “The Waste Land” (1922), por exemplo. Este ignora as regras da métrica e da rima e obedece apenas ao ritmo dos pés métricos (marcados musicalmente, ao contrário das sílabas poéticas, nas línguas neolatinas). Essa característica, possível na língua inglesa, foi levada ao ápice por Gerald Manley Hopkins. Paralelamente, os poemas de Eliot apresentam uma crítica filosófica do mundo moderno, ao retomar as grandes questões metafísicas (que já tinham sido tema dos poetas metafísicos ingleses, no barroco), mas aplicando-as ao cotidiano e unindo-as ao nonsense. Para acentuar esse efeito, Eliot acrescenta notas a “The Waste Land” que parodiam as referências a ensaios, mas que na verdade são falseadas, pois retiradas a esmo de livros que encontrou na sala de leitura de um hospício onde ficou internado (com a esposa) por alguns meses. Esse poema sofreu muitos cortes ao ser editado por Pound. Já este, nos Cantos, juntou recortes de notícias de jornal aleatoriamente, em grandes estrofes de versos brancos e livres, que levam ao extremo a proposta de Sousandrade no Guesa (1867-1884), que já havia feito uso desse tipo de material jornalístico nos dois fragmentos em limerick desse seu poema épico. Pound transforma a poesia simbólica e aurática num simples enumerar de fatos pouco importantes retirados da imprensa, num fluxo de palavras denotativas e destituídas de “beleza”, no sentido da estética de Kant e Hegel, mostrando, realmente, um mundo em desencanto (Weber). Por coincidência, Pound também sucumbe ao apelo do integralismo de Mussolini – repetindo a experiência de Marinetti – talvez porque ambos tenham procurado desse modo ordenar ou frear sua ousada revolução das “palavras em liberdade”. Por isso, tratado como traidor pelos Estados Unidos após ser recolhido no campo de concentração de Pisa, ao fim da Segunda Guerra, Pound passou doze anos (de 1945 a 1957) internado no hospício de Saint Elizabeth, em Washington, D.C., prisão psiquiátrica negociada pelos seus admiradores, em troca da cadeira elétrica; por isso são intermináveis os Cantos, chegando a quase mil páginas.
Assim, Ismael Coutinho atravessa o modernismo erguendo o facho parnasiano das belas letras, indiferente a sua desconstrução pelos poetas de seu século. Insiste na fala preciosista do poeta inspirado pelas musas, na subjetividade do poeta em seu caminho solitário e da morte (é a “estrada”, de Dante?), foge a um sentido político coletivo para a poesia. No solipsismo da voz do poeta vemos um silêncio, um basta a todas as ideologias, devido a sua inclinação espiritualista. Em seus poemas, escolhe o tom elevado de uma estética pura, aurificada, nefelibática, e nada semelhante ao heterônimo Ricardo Reis de Fernando Pessoa, que se identificava com Walt Whitman e a destruição dos valores europeus visando ao surgimento de um mundo moderno.
 
IV – Imagens: Bosquejos
Bosquejos, com seus poemas escritos entre 1919 e 1922, basicamente em Niterói, é praticamente contemporâneo de Silhuetas, cujos poemas são datados de 1922 a 1925, mas se inicia e termina ligeiramente mais tarde, e sempre naquela cidade. Os três poemas que abrem o livro se enquadram na sua dedicatória, feita pelo “Autor” a “seus pais”, a seus “idolatrados irmãos”, evidenciando toda a importância da família no seu imaginário. Em “Meu livro” (datado da cidade de Campelo, 1921), Ismael Coutinho afirma: “Procura outros vergéis, outros palmares” – mostrando sua filiação a Gonçalves Dias e sua romântica “Canção do exílio”. Suas epígrafes também mostram sua filiação ao romantismo. Em “Morrer! Morrer!” a epígrafe é de Castro Alves. Nos poemas seguintes, “Ao meu pai”, a epígrafe é de Lamartine; e em “A minha mãe”, é de Álvares de Azevedo: “Quando partia do teto amado / E que, apressado, / Me dirigia para a estação, / E tua mão / E os olhos teus / Dizerem adeus / De longe via (…) Sinto-te perto, vejo-te em sonho, / Anjo risonho”.
Toda a poética ou teoria da criação em Ismael Coutinho se dirige à vida e à linguagem subjetiva, intimista, platônica, mas também ligada à religião, ao didatismo e moralismo, como em “Ser poeta”, quando afirma que ser poeta é “externar os sentimentos (…) é ser todo ensinamentos; (…) é viver meditabundo”; “viver por entre as flores, / Salmodiando sem ser compreendido” (…) “cantar na frauta amena, / É viver abraçado à sua cruz” (Niterói, 1920).
A maior parte dos poemas exibem uma sensibilidade ligada à casa, à família, ao sentimento religioso mencionado acima – que também se encontra no tom adotado pela corrente espiritualista do modernismo, na figura dos quatro poetas já citados: Cecília, Murilo, Darcy e Jorge de Lima. No entanto, na poesia de Ismael Coutinho, que teve formação religiosa em seminário, embora tenha se desviado da ocupação de padre para a de professor (muito pouca diferença, na verdade), revela-se, explicitamente, o tema cristão católico, como em “O Monge” (Niterói, 7 de setembro de 1920): “Ei-lo, de pé, no cimo do rochedo, / Apenas rompe a aurora e enceta o dia, / A contemplar extático a agonia / Da vaga que se embala no penedo.” Também em “A J… R…” a faceta religiosa é explícita: “Anjos em alas na mansão sagrada / Tiram das liras doce melodia / No ar vibrátil, pálida irradia / A suave luz de eterna madrugada” (Niterói, 1920). A “Visão” (Niterói, 1921) menciona um “anjo da guarda, que te segue ao lado” no “paraíso”, e, mais explicitamente, no poema “Deus”, Ismael Coutinho une a noção de religiosidade cristã com a natureza, outro tema presente na sua poética: “Eu era então imerso em incerteza. / Interrogava a terra, o espaço, os céus, / Buscando ver na bruta natureza / A mansão do supremo ser – que é Deus. // Eu perguntei à brisa que passava / Varrendo as verdes comas vegetais: / ‘Em que lar Deus habita?’ E por resposta: / ‘Ascende mais.’” (Niterói, 1921). Em “Perdão, meu Deus” pede a Ele pelo Brasil e pela humanidade (Niterói, junho de 1921). Há muitos outros poemas explicitamente religiosos, todos escritos no período do seminário em Niterói, como “Hino seminarístico” (abril de 1921); “São João Batista” (22 de novembro de 1919), “Jesus no Calvário” (20 de novembro de 1919), “Perdão, Senhor” (1921), “Queixas” (abril de 1921), “Jesus!” (sem data), “Virgem Maria” (maio de 1921), “A Dom Sebastião Leme” (20 de outubro de 1921); “Rosa branca” anuncia o nascimento de Cristo (junho de 1921).
Os bons sentimentos cristãos imantam o mundo que cerca o poeta, como a figura de “O Ceguinho” esmoler (Niterói, abril de 1921), que aparece em Silhuetas sob a forma de uma mãe mendiga e cega. “Vida e morte” surge quase como um poema didático, sobre a alegria nos lares, os pássaros nos ninhos, as gotas de orvalho e os sinos “a planger finados (…) ao toque da Ave-Maria” (Niterói, 30 de outubro de 1921). “Obrar bem e mal” (Niterói, 31 de outubro de 1921), se inclina na mesma direção didática e reassume um tom próximo dos poemas medievais de Anchieta, que sem dúvida Ismael Coutinho conhecia, com sua imagética simples e ideologia cristã da caridade (obrar bem).
São muitas as referências à natureza, e, como um São Francisco de Assis, pelo menos na alma, Ismael Coutinho povoa seus dois livros com inúmeros animais, em especial pássaros, ao lado de todo tipo de plantas e animais do campo. Em “A rosa e o colibri” surge a ingenuidade romântica de um diálogo entre uma rosa e um pássaro: “Disse um dia uma rosa a um colibri / ‘Por que, malvado, não me vens a mim / Oscular, como fazes às mais flores, / Ao resedá e ao pálido jasmim?’” (Campelo, 1921). Ali, revoam animais alados, ao lado de flores delicadas, para representar o sentimento do poeta, como em “O Pássaro” (Niterói, 1919), “O Canário” (Campelo, 1921) ou em “Saudade” (Campelo, 1921), o qual se refere a uma andorinha que pode ser sua irmã. Os versos de “Minha terra” – “A minha terra é um ninho / De mimoso passarinho, / Igual no mundo não há; / É um jardim de açucenas, / Em que nas tardes amenas / Canta o meigo sabiá” (Campelo, 1921) – ecoam, numa paráfrase, os de Gonçalves Dias e de Casimiro de Abreu, tanto no glossário quanto na abordagem na temática, relacionando o passado com a pureza dos dias remotos, vividos na inocência em meio à natureza. Aliás, a paráfrase não está ausente da obra do autor, como no poema “Se eu tenho de morrer”, que ele anuncia como “Imitando Casimiro de Abreu” (dezembro de 1921). O preciosismo da linguagem rompe, no entanto, com essa visão paradisíaca tão cara aos românticos quando, na sexta estrofe de “Minha terra”, Ismael Coutinho se preocupa com a rima e rompe o pacto de emoção que a poesia deve provocar no leitor, arrebatando-o, ao escrever: “A fauna do meu torrão, / Se lhe falece um leão, / Supera em outro animal; / As searas, mantos de ouro, / Ostentam cabelo loiro / Té na zona tropical.” Na personificação de “A voz do vento” emprega estrofes sobre a natureza para transmitir um sentimento quase sagrado da criação da natureza e dos animais: “Nas quebradas seus gemidos, / Vão morrer como ganidos, / De cão que de fome chora; / E eu transido de espanto, / Não posso dormir, enquanto / O vento geme lá fora” (Niterói, maio de 1921), ou em “À margem de um rio”. Delicados animais confundem-se com descrições da natureza, como em “A lua do sertão”: “A lua desta cidade / Não é a casta deidade / Que vagueia no sertão” (Niterói, 1921).
 
V – Formas: Silhuetas
Enquanto Bosquejos é apresentado ao leitor como um livro íntimo e pouco pretensioso, quase uma lembrança para a família, parece-me que em Silhuetas Ismael Coutinho procurou esmerar-se ainda mais na forma, utilizando muitos sonetos, e sempre com rima e métrica perfeitamente acordadas. Aqui a temática é mais séria, mais literariamente selecionada. Já o primeiro poema é, mais uma vez, dirigido “A minha mãe” (1922). O mesmo tema se repete em “Minha mãe” (Niterói, 1º de outubro de 1923) e em “O olhar de minha mãe” (Niterói, 2 de outubro de 1923), escrito no mesmo dia que o anterior. Também ao pai dedica “Conselhos paternos”, em cuja voz busca modelo e exemplo para seu futuro (Niterói, 1º de novembro de 1933). “Minha avozinha” é um soneto. Essa figura que conta histórias, cercada de crianças (Niterói, 28 de agosto de 1924), é descrita noutro poema, “A avozinha”, como uma senhora de cabelos brancos que narra histórias à luz da lua que “aclara a varanda”, enquanto “assopra uma aragem branda… / Geme ao longe um noitibó…” (sem local, 1º de outubro de 1925).
Contudo, já o segundo poema do livro envereda por um tema novo, “O Proletário”, que tem perfil social, embora seja tratado do ponto de vista emocional: “Vejo no pranto a mágoa que o consome: / Pois deixa os filhos a gemer com fome / E a esposa sobre o leito agonizando” (Niterói, 3 de maio de 1922). Na mesma linha seguem “O mendigo” (Niterói, 7 de maio de 1922) e “A Esmola” (Niterói, 8 de maio de 1922), sendo os três sonetos. Já “Gratidão” adota os dodecassílabos, numa única estrofe de 24 versos e retoma o tema religioso, no qual Jesus se volta para as “criancinhas pobres” (Niterói, agosto, sem ano). “Rosa e borboleta” surge como um diálogo semelhante à “A rosa e o colibri” de Bosquejos, em 1921, mas aqui só temos o local, Niterói, sem data, que pode ser entre 1919 e 1922.
“O Canarinho” (Niterói, sem data), também se refere a cenas de natureza; este poema tem uma variante, o soneto em decassílabos “Meu canário” (novembro de 1925), enquanto outros retomam o tema religioso, como “O Sacerdote”, homenagem ao Exmo. Sr. Bispo Diocesano (sem data) e “Sta. Isabel” que descreve o milagre efetuado por essa personagem religiosa (Niterói, 29 de agosto de 1924). Em “Ave, Maria!”, belo soneto em decassílabos, afirma, no primeiro terceto: “‘Ave, Maria!’ O velho bronze entoa, / No campanário, e esta sublime loa / E o miserere do final do dia…” (Niterói, 15 de agosto de 1924).
 
VI – Conclusão: uma vida espiritual
Deduzimos que o cunho religioso da poesia de Ismael Coutinho se deve a sua inclinação monacal, tendo estudado dos 17 aos 26 anos no Seminário São José, de Niterói, a qual não foi cumprida (casou-se, teve sete filhos), mas que se condensou na profissão de professor. Conforme afirma Rosalvo do Valle (UFF), que foi seu aluno no Colégio Brasil, em Niterói (ver “O homem e a obra”, in  http://www.filologia.org.br/XV_CNLF/homenageado.htm): “Para ele, o magistério era um sacerdócio, a que se dedicava como um missionário. E o professor, que forma alunos, foi-se tornando o mestre, que forma discípulos.”
Natural de Santo Antônio de Pádua, RJ, onde nasceu em 12 de maio de 1900, segundo filho da família, faleceu em 24 de julho de 1965, de acidente de automóvel, em São Paulo. Ismael Coutinho passou uma infância pobre, pois o pai ficou paralítico e a mãe, muito católica, costurava para fora. Ele a ajudava como vendedor ambulante de pão, no pequeno arraial de Paraoquena, dos poemas de 1919 – que é, assim como Campelo, localidade próxima a Santo Antônio de Pádua, onde nasceu. De 1917 a 1926, sedimentou profundamente seus estudos de latim e grego no seminário. Até então, seus estudos de língua e gramática tinham sido feitos como autodidata, devorando gramáticas; já o latim ele aprendeu no secundário, com o professor José Pinto de Sousa, que o aconselhou a melhorar o manejo da língua através da leitura de bons autores – como os padres Antonio Vieira, Manuel Bernardes e Frei Luís de Sousa. Pela mão de dom Agostinho Benassi, começou o primeiro emprego no magistério, nos anos de 1927 e 1928, no colégio Sílvio Leite, na cidade do Rio de Janeiro, sempre se destacando pela integridade de seu caráter. Em 1929 fixou-se em Niterói.  Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, dedicou-se ao ensino e a cargo público na Prefeitura de Niterói, como chefe de gabinete (1941-1944), além de outros dois cargos públicos: secretário de Educação e Saúde (1947) e presidente do Conselho Estadual de Educação (1958). Foi fundador da Academia Brasileira de Filologia, em 26 de agosto de 1944 e colaborou na fundação da atual Universidade Federal Fluminense (antes denominada Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).
Afirma Rosalvo do Valle (ver homepage acima), que Ismael Coutinho publicara, em O Município, de Lavras (MG), sonetos e pequenos textos em prosa, às vezes com o pseudônimo de João das Chagas, escritos quando era seminarista em Niterói. Num caderno por ele deixado de “Poemas e artigos publicados”, encontram-se as seguintes criações: a) sonetos: “Minha Mãe”, “Natal”, “Soror Teresinha”, “Retorno” (publicado em Lira, Resende, RJ), “A cigarra” e “Conselhos paternos”; b) em prosa, sob o pseudônimo de João das Chagas: “Ruínas” e “Almas penadas”. C) há cinco poemas manuscritos: “Quando o teu vulto passa”, “A H. L. F.”, “Esfinge”, “Amor e Receio” e um soneto sem título – todos datados de Belo Horizonte, dezembro de 1926), seguidos de outras composições poéticas, datadas (08/05/1927), ou sem data. Talvez o último poema que publicou (Belo Horizonte, 05/02/1957) foi “À minha netinha Branca”, escrito para a neta primogênita pelo “vovô Baé”.
Podemos afirmar que a principal preocupação de Ismael Coutinho, em sua poética, prende-se ao tema religioso cristão aliado ao tom didático, moral, educativo, como no último poema de Silhuetas, o soneto “Meu rosário”: “Este rosário sempre me acompanha, / Acompanha-me sempre pela vida (…) // Hei de guardar, num lindo relicário, / Todas as contas deste meu rosário, / Depois de velhas, entre murchas flores, (…)” (novembro de 1925). A literatura religiosa, após as criações excepcionais da poesia de José de Anchieta, os sermões do Padre Antonio Vieira e a poesia sacra de Gregório de Matos, no barroco, não teve grande repercussão na criação poética brasileira. Surge assim, na vertente espiritualista da poesia modernista brasileira, um autor que exerceu a arte religiosa, inserindo-a na preocupação com a norma culta e no cuidado com a técnica de poetar – arte na qual sobressaiu Cecília Meireles. Nem poderia deixar de ser assim sua poesia, tão esmerada, tendo sido Ismael Coutinho titular de língua e literatura latina na Universidade Federal Fluminense.
1 Este ensaio serviu de introdução à edição das duas obras inéditas de poesia Silhuetas e Bosquejos, de Ismael Coutinho publicadas num só volume (Rio de Janeiro, Botelho, 2014). Por ocasião do lançamento, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fiz uma palestra a respeito do autor no IX Congresso Nacional de Língua e Literatura da ABRAFIL, no auditório do 11º andar daquela universidade, no dia 22 de agosto de 2011. Ismael de Lima Coutinho dá nome ao Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, localizado em São Domingos, em Niterói. Ele foi grande professor de português e latim, além de filólogo que se dedicou a estudar o sistema verbal latino-português.





Bio fornecida pelo palestrante.

“A MORTE DO AUTOR” EM BOUVARD E PÉCUCHET, DE GUSTAVE FLAUBERT – Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira




“A MORTE DO AUTOR” EM BOUVARD E PÉCUCHETDE GUSTAVE FLAUBERT

Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 
 
Resumo: O presente artigo pretende mostrar a posição do autor na obra Bouvard e Pécuchet de Gustave Flaubert, a partir dos conceitos levantados por Roland Barthes, em seu ensaio A morte do autor. Considerada uma obra às avessas da tradição do romance, Bouvard e Pécuchet traz à tona a imbecilidade humana, através da colagem de idéias alheias, catalogadas e pesquisadas por Gustave Flaubert durante seus últimos anos de vida. Assim, o romance confunde a posição do autor com a posição do leitor, inaugurando uma forma nova, sem precedentes, que Roland Barthes mencionou em vários de seus ensaios e escritos. Assim, Barthes mostra a retirada do autor, o nascimento da linguagem, para além do papel essencial do leitor, que, nesse caso, se mescla com a função autor.
 
Palavras-chave: Flaubert; Barthes; autor; literatura, Bouvard e Pécuchet.
 
Abstract: This article aims to present the author’s position in the work Bouvard and Pécuchet, by Gustave Flaubert, departing from some concepts raised by Roland Barthes in his essay “The Death of the Author.” Considered as a work apart from the Romantic tradition, Bouvard and Pécuchet brings about the human imbecility, by pasting other people’s ideas, catalogued and researched by Gustave Flaubert during his last years of life. Thus, the novel confounds the author’s with reader’s position, pointing to the absence of the author, and the birth of a new concept of language, which Barthes mentions in several of his writings and essays.
 
Keywords: Flaubert ; Barthes ; author; literature, Bouvard and Pécuchet .
 
Minicurrículo: Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira possui graduação em Letras (2007) e mestrado em Estudos de Linguagem (2013) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Atualmente é bolsista Capes e doutoranda da Pós-Graduação de Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em literatura, atuando nos seguintes temas: literatura comparada, arte e crítica, percepção do texto poético e questões da contemporaneidade.
 
 
“A MORTE DO AUTOR” EM BOUVARD E PÉCUCHET,
DE GUSTAVE FLAUBERT
Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
 
Guy de Maupassant (1990) registrou certa vez que Gustave Flaubert, em plena falência financeira, recluso em sua casa e entregue totalmente à escrita, morreu repentinamente em 1880, ao pé de sua mesa de trabalho, deixando em estado de roteiro as duas últimas cenas do capítulo X da mais desafiante de suas obras: Bouvard e Pécuchet.
Tal projeto desconcertou os seus contemporâneos, definindo-o como uma “aberração estranha”, segundo dizeres de Mallarmé (cf. CAMPOS, 1978, p. 13). Essa obra inacabada tinha o intento de provocar os burgueses, confrontar a sociedade da época. Assim:
 
a escrita é uma realidade ambígua: por uma parte, nasce incontestavelmente de um confronto do escritor com a sua sociedade por outra, dessa finalidade social, ela remete o escritor, por uma espécie de transferência trágica às fontes instrumentais de uma criação (BARTHES, 1974, p. 15).
 
 
Flaubert fez as seguintes confissões sobre tal produção, em carta a Mme. Roger Des Genettes, em 1872: “É preciso estar louco e triplamente frenético para empreender um livro como esse!”. Além disso, disse também que “nesse tempo de avacalhamento universal”, que lhe provocava revolta, “vomitarei sobre os meus contemporâneos o desgosto que eles me inspiram, ainda que tenha que romper o meu peito. Bouvard e Pécuchet me obcecam a tal ponto que eu me transformei neles! Sua estupidez é a minha e eu morro dela”.[1]
Assim, para Flaubert, a escrita era um ato de “fabricação”; uma “cerâmica”; uma “joia”; e isso mostra o seu intenso envolvimento com suas produções. Roland Barthes não esconde em seus ensaios sua admiração pelas obras do escritor, e disse que “para Flaubert, o estilo é a dor absoluta, a dor infinita, a dor inútil” (BARTHES, 1974, p. 68).
É esse estilo flaubertiano tão comentado por Barthes que chama atenção. Um estilo peculiar, que não tem somente a intenção de proporcionar prazer, mas também provocar o desconforto. Atentemos a Bouvard e Pécuchet, especificamente. Por que tal obra causa inquietação? O que Flaubert pretendia afinal? Qual é a posição do autor na obra? Qual é o limite do autor/leitor/personagens? Como tal escrita pode mostrar a retirada do autor e talvez mostrar a sua suposta “morte” simbólica como Barthes costumava afirmar?
Discorreremos sobre a posição do autor e a figura do leitor na obra Bouvard e Pécuchet, baseado nos conceitos tratados por Roland Barthes em seu ensaio A morte do autor, podendo durante a análise surgir outros conceitos e autores para dar maior suporte às idéias barthesianas.
 

  • Barthes e Bouvard e Pécuchet

Antoine Compagnon, em O demônio da teoria (2006, p. 47) afirma que o ponto de maior controvérsia dos estudos literários é o lugar que o autor ocupa diante da obra. Antigamente, associava-se o sentido da obra do ponto de vista primordial do autor, exposto pela filologia, pelo positivismo, pelo historicismo. Porém, a partir de ideias contemporanêas, como o Formalismo Russo e o New Criticism, o texto tornou-se detentor do sentido, independente das intenções do autor. Não tardou para que nos meados dos 60, Hans Robert Jauss e outros teóricos trouxessem à tona a importância do leitor como agente significante para a obra literária.
A partir dessas vertentes de questionamentos da posição e da importâcia real do autor para obra, Roland Barthes formula a tese ‘A morte do Autor’. Partindo desses conceitos mencionados, a obra não se limita ao autor, e sim, a linguagem; é como foi composta e feita, segundo Barthes. Como formar um estilo através do trabalho árduo de compor uma linguagem artesanal, podendo assim  esse autor ver em sua obra o além de si mesmo? Vale ressaltar, que essa “morte” do autor, é uma morte simbólica ; o autor tem sua importância, porém ele não é a mais a figura central e o foco de todas as respostas do texto. Assim, não faria sentido mencionar a fortuna crítica e o trabalho intelectual de Gustave Flaubert. que se pretende abordar é o esvaziamento do espaço desse autor, valorizando o processo de escrita e sua recepção. Sendo assim, “A problemática da autoria surge e ressurge a todo instante na obra, tanto no que concerne aos personagens, quanto ao próprio Flaubert ” (SANTOS, 2013, p. 137).
Para Barthes, a escritura é esse neutro, esse composto, pelo qual o sujeito consegue obter sua fuga e perder sua identidade; seria esse “grau zero da escrita”. Logo, começa o corpo que escreve, não mais o indivíduo propriamente em si. Michel Foucault (2006, p. 295) também teceu pontos de vista (embora sejam por outros vieses), sobre a representatividade do autor em uma obra, dizendo que o autor se apaga para favorecer seu discurso. Logo, esse desaparecimento de quem compõe a escrita, nada mais é que um jogo da função do autor dentro da obra.
Antoine Compagnon menciona Roland Barthes em sua obra O demônio da teoria, dizendo que o escritor:
 
É aquele para quem a linguagem é problema, que experimenta sua profundidade, não a instrumentalidade ou a beleza”. A literatura é a partir daí plural, irredutível a uma intenção, donde a exclusão do autor. (COMPAGNON, 2006, p. 67)
 
Bouvard e Pécuchet  pretendia mostrar esse jogo; seria a “vingança moral” aos seus contemporâneos.  Esses personagenseriam a representação dos burguêses. Enquanto Emma Bovary representava uma figura feminina vazia, envolvida com as leituras românticas e submersa numa atmosfera burguesa falida como o casamento, os dois copistas representam o individuo burguês do século XIX aspirando conhecimento e progresso, em busca do desenvolvimento da civilização. “Este homem civilizado, por sua vez, deveria não somente usufruir da tecnologia, mas também buscar acumular o máximo de conhecimento” (SANTOS, 2013, p. 20).
Para compor a obra, Flaubert leu mais de 1.500 livros com temáticas variadas (como agronomia, jardinagem, fabricação de conservas, anatomia, etc.), como prova que a humanidade tem a necessidade de compreender e dominar o mundo através do saber. Além de autor, Gustave Flaubert era antes de tudo, um leitor. O autor é fundido aos personagens da história e a “colagem” e conceitos alheios recorridos às leituras feitas. Como prova disso, Julia Kristeva diz que “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto (apud SAMOYAULT, 2008, p. 16). Dessa forma, existe uma criação? Tudo se resume a colagens de ideias? Qual é a função do autor que é também um leitor?
Atentemo-nos ao enredo: Bouvard e Pécuchet são dois copistas, que se conhecem por acaso e tornam-se amigos. Certa vez, em conversa informal, ambos confessam que são insatisfeitos com seus ofícios e se pudessem, se dedicariam à pesquisa, à leitura e fariam grandes coisas em diversas aréas do saber. Em determinado momento, Bouvard recebe a herança de um tio e faz a seguinte proposta ao amigo Pécuchet : comprar uma chacará e dedicar todo o tempo aos estudos de diversas áreas, a pesquisa e a prática. Depois de tanto tentarem e e praticarem, fracassam em todos intentos e desistem do sonho. É como se todo conhecimento adquirido fosse posto a prova e descobrisse que tudo não passa de uma farsa e grande estupidez.
Vejamos um exemplo a partir de um trecho do romance, que mostra as contradições que o conhecimento pode acarretar, que no caso, é na área da química especificamente:
 
Para estudar química, providenciaram o Curso de Regnault, e aprenderam antes de tudo que “os corpos simples talvez sejam compostos”. Dividem-se em metalóides e metais, diferença que “nada tem de absoluto”, diz o autor. O mesmo acontece aos ácidos e às bases, “um corpo pode comporta-se à maneira dos ácidos ou das bases, dependendo das circunstâncias.”
A notação lhe pareceu estapafúrdia. As proporções múltiplas confundiram Pécuchet (FLAUBERT, 2007, p. 93).
 
Ao final, cansados de fracassarem em seus experimentos e depararem com tantas contradições, os dois homens voltam à posição inicial: de copistas que copiam tudo que leem! Segundo Guy de Maupassant, Bouvard e Pécuchet :
 
É a história da fraqueza da inteligência humana, um passeio pelo labirinto infinito da erudição com um fio na mão; este fio é a grande ironia de um pensador que constata sem cessar em tudo, a estupidez eterna e universal  (MAUPASSANT,1990, p. 38).
 
Para comprovar essa imbecilidade inerente humana e esse estado de frustração intelectual (e de gasto total da tão estimada herança), cria-se um “Tolicitário”, um Dicionário de ideias prontas que surgiu depois de tanto os personagens tentarem e experimentarem as teorias dos livros. Eles apropriam-se de vocabulários existentes e dão-se novas definições a elas, subvertendo-as. Vejamos alguns exemplos dos verbetes do “Tolicitário”: BUDISMO –  “Falsa religião da Índia”. ALCOOLISMO – “Causa de todos os males modernos”. BANQUEIROS – “Todos ricos, árabes e agiotas”. CALOR – “Sempre insuportável! Não beber quando faz calor.” CORTESÃ – “Mal necessário. Salvaguarda de nossas filhas e nossas irmãs. São sempre moças do povo, levadas à devassidão por burgueses ricos”. DOMINÓ – “Joga-se dominó melhor quando se está embriagado”. HOMERO – “Jamais existiu.” No mínimo, tais definições provocam certo estranhamento e riso.
Augusto de Campos afirma, em A margem da margem, que:
 
Se Bouvard e Pécuchet já desconcerta pela neutralidade da linguagem, sem qualquer brilho aparente, pelo anti-heroísmo dos personagens, e pela reiteração dos movimentos, sucessos e fracassos, o Dicionário atenta definitivamente a ação e os personagens e nos põe em contanto direto com o tema da imbecilidade (que ambiguamente confunde o leitor, autor e personagens, fictícios colecionadores de verbetes). (…) Nessa obra, “personagens se convertem em despersonagens, heróis em anti-heróis, ao passo que o estilo se desistila e se neutraliza, no segundo tomo o autor se retira de vez. O escritor desescreve (CAMPOS, 1978, p. 18-20).
 
 
Com essa visão de desconstrução da escrita, Flaubert parece não acreditar mais no romance em si, na literatura como algo detentor de todo sentido e completo, considerando o processo de escrita e artificialidade desse gênero, que não poderia representar a vida em sua verossimilhança e totalidade. Oram segundo Barthes (1974), em O grau zero da escrita, a escrita pode se reduzir a um tipo de modo negativo em que dados sociais ou míticas de uma linguagem comprometida em favor de um estado neutro e inerte da forma.
A questão de autoria/leitor também entra em discussão. Em Bouvard e Pécuchet, quando a cópia se torna o impulso da produção, é possível perceber uma descaracterização da ideia dessa autoria, pois o discurso do texto só é construído a partir de outros discursos e referências, dando fim ao que seja propriedade tanto no “roubo” do que é do outro quanto na construção daquilo que seja próprio. A obra confunde a posição autor/leitor, se retroalimenta, tornando-se fragmentada.
Segundo Barthes (2004, p. 62), ao citar a composição de Bouvard e Pécuchet, diz que o escritor imitará sempre um gesto já existente, já dito, como se a criação fosse algo ilusório, ou seja, jamais original; o poder dessa “entidade” (que é o escritor) é de dar novos sentidos ao “já-dito”, mesclar informações, criar contradições. Ou seja, um livro nada mais é que um retalho de citações anteriormente feitas. Philippe Sollers reforça essa idéia dizendo que “Todo texto situa-se na junção de vários textos dos quais ele é ao mesmo tempo a releitura, a acentuação, a condensação, o deslocamento e a profundidade (apud SAMOYAULT, 2008, p. 17).
Antoine Compangnon, em La seconde main, citado por Tiphaine Samoyault (2008), comenta sobre essa escrita que agrega outros discursos e lhe dá continuidade, ou um novo conceito e entendimento:
 
O trabalho da escritura é uma reescritura, visto que se trata de converter elementos separados e descontínuos num todo contínuo e coerente […] Reescrever, realizar um texto a partir de seus fragmentos, é arranjá-los ou associá-los, fazer as ligações ou as transições que se impõem entre os elementos presentes. Toda escritura é colagem e glosa, citação e comentário (apud SAMOYAULT, 2008, p. 35).
 
A autoria aqui parece confundir-se com a leitura, pois, para Flaubert, utilizar aquilo que é de outro, deve-se colocar no lugar de leitor, e, retomando a noção de scriptor, o autor leva este lugar de ação ao extremo ao concretizar este novo texto a partir de outros. Para Barthes, “a linguagem conhece um “sujeito”, não uma “pessoa”, e esse sujeito, vazio fora da enunciação que o define, basta para “sustentar” a linguagem, isto é, para exauri-la” (BARTHES, 2004, p. 60).
A seguir, analisaremos outro trecho da obra Bouvard e Pécuchet, que mostra claramente a colagem de idéias de outros autores, sendo confrontadas e ridicularizadas pelas contradições de argumentos, que coloca em questão a seriedade científica:
 
(…) O ideal de ambos era Cornaro, o fidalgo veneziano que, graças a um regime rígido, foi muito longevo. Sem chegar a imitá-lo totalmente, poderiam tomar as mesmas precauções, e Pécuchet retirou, da sua biblioteca, o Manual de higiene, do doutor Morin.
Como haviam conseguido viver até então? Os pratos que gostavam eram proibidos. Germaine, confusa, não sabia mais o que lhes servir.
Todas as carnes têm inconvenientes. Os chouriços, as salsicharias, o arenque defumado, os crustáceos e a caça são “refratários”. Quanto maior o peixe, mais contém gelatina e, consequentemente, é mais pesado. Os legumes causam acidez, o macarrão produz pesadelos, os queijos “de um modo geral são difíceis de digerir”, um copo de água pela manhã é “perigoso”. Toda bebida ou todo comestível vem acompanhado de um aviso dessa espécie, ou então destas palavras: “Nocivo! – Cuidado com o abuso! – Não convém a todos!”
Faz mal por quê? Em que consiste o abuso? Como saber se determinada coisa nos convém?
Que problema o almoço! Abandonaram o café com leite devido à sua reputação detestável e, em seguida, o chocolate, por ser “um amontoado de substâncias indigestas”. Restava o chá. Mas “as pessoas nervosas não devem bebê-lo de forma alguma. No entanto, no século XVII, Decker prescrevia vinte decalitros por dia, para limpar as estagnações do pâncreas.
Aquela informação abalou a estima deles por Morin. Além do mais, condenava todas as coisas que cobriam a cabeça – chapéus, bonés e barretes –, exigência que revoltou Pécuchet. Então compraram o Tratado de Becquerel, onde viram que o porco é em si “um bom alimento”, o tabaco, perfeitamente inocente e o café, “ indispensável aos militares”.
Até então tinham acreditado na insalubridade dos lugares úmidos. Nada disso! Casper declara que são menos mortíferos que os outros. Não se toma banho de mar sem antes refrescar a pele. No entanto, Bégin recomenda que se entre nele ainda transpirando. O vinho puro após a sopa é considerado excelente para o estômago. Lévy acusa-o de prejudicar os dentes. Finalmente, o colete de flanela, esta salvaguarda, este protetor de saúde, este paládio, tão caro a Bouvard e inerente a Pécuchet, é desaconselhável pelos autores, sem rodeios, nem medo da opinião, aos homens pletóricos e sanguíneos.
Afinal, o que é a higiene? “Verdade aquém dos Pirineus, erro além”, afirma o senhor Lévy, e Becquerel acrescenta que não é uma ciência (FLAUBERT, 2007, p. 108- 109).
 
Os personagens, ao depararem com tais absurdos, questionam cada conceito lido: não entendem, tentam pôr em prática e fracassam. Mesmo assim, resta-lhe esperança, pois eles insistem em outras áreas e leituras, até que concluem que tudo não passa de uma ilusão e de uma soma de equívocos intelectuais e científicos que se afirmam hoje e se negam amanhã.
Flaubert compôs essa narrativa, através da colagem de idéias, questionando cada conceito lido, mostrando que a “forma literária pode doravante provocar os sentimentos existenciais que estão atados ao interior vazio de todo objeto, sentido de insólito, familiaridade, repugnância, complacência, uso, homicídio” (BARTHES, 1974, p. 5). Flaubert ao fazer isso, desconstrói a escrita e logo, o papel de escritor no romance, tendo que assumir o caráter dessacralizador da linguagem e de autoria, dando essa liberdade de interpretação e leitura da obra.
Contudo, “Dar ao texto um Autor é impor-lhe um travão (…) é fechar a escritura” (BARTHES, 2004, p. 63). Independente dessa fala feita posteriormente, Flaubert justificou o pensamento barthesiano anteriormente. Guy de Maupassant disse que Flaubert era um “apóstolo da impessoalidade na arte” e que ele não admitia que o autor fosse, em momento algum, um ser vislumbrado, iluminado; que por descuido deixasse transparecer em uma página ou frase, uma articulação de sua opinião íntima como forma de intenção (cf. MAUPASSANT, 1990, p. 72).
Para Fernanda Ferreira Santos, Flaubert tinha essa consciência mencionada por Maupassant:
 
Toda a folia enciclopédica de Flaubert, todos os discursos que ele apresenta no texto servem pura e simplesmente, segundo Contador Borges, para denunciar o próprio momento de escrever. Isso nos faz pensar acerca da teoria de que o escritor já se preocuparia com a linguagem, de que ela, em seu texto, já aparece como um retorno a si (SANTOS, 2013, p. 32).
 
Consciente de seu ofício, Flaubert era altamente disciplinado e comprometido; jamais descuidaria em parecer um autor dono de sua obra e de suas verdades.
 
Gustave Flaubert, ao contrário, procedendo com inteligência e compreensão profundas, muito mais que por intuição, trazia em uma linguagem admirável e nova, precisa, sóbria e sonora, um estudo de vida humana profundo, surpreendente, completo (MAUPASSANT, 1990, p. 29).
 
Julgava que a personalidade do autor deve evaporar na originalidade da criação de um livro. Esse autor não se “apaga”, mas a escrita “nasce” e é algo aberto, inacabado; essa escrita torna-se atração principal onde o leitor se deleita e interage com o que lê.
 

  • O Leitor/autor:

Esse Leitor (já disse uma vez Calvino) é aquele que agrega o “não-dito” dentro da obra; que preenche as lacunas, que traz novos entendimentos (cf. CALVINO, 2003, p. 243). Logo, o Leitor torna-se figura essencial para completude de uma obra.
Poderemos citar Umberto Eco (1994) e seu “bosque narrativo”, onde o leitor é convidado adentrar e explorar cada espaço desse lugar. Usando as palavras desse autor, o texto seria uma máquina “preguiçosa”; que não responde a todas as perguntas; essa máquina pede ao leitor que faça o seu trabalho na obra, e por isso, o “passeio no bosque” torna-se mais interessante. Esse tipo de leitor-modelo, definido por Eco, é criado pelo texto em si e dele se torna refém, ou seja, esse leitor-modelo desfruta apenas a liberdade que o texto lhe oferece. Logo, Eco formula o entendimento que o autor/leitor-modelo devem andar juntos, pois
 
Precisam aparecer juntos porque o autor-modelo e leitor-modelo são entidades que se tornam claras uma para outra somente no processo de leitura, de modo que uma cria a outra. Acho que isso é verdadeiro não apenas em relação aos textos narrativos como em relação a qualquer tipo de texto (ECO, 1994, p. 30).
 
 
Se a obra Bouvard e Pécuchet é múltipla diante de quem escreve, ela triplica na mão de quem a lê. Fazer nascer esse leitor é ofuscar o autor (esse “ofuscar” seria valorizar o papel do leitor, não excluir completamente o autor); a voz desse leitor se torna imperceptível enquanto o império de autor prevalece intacto, segundo Barthes. Flaubert era um autor/leitor.
Logo, tanto Flaubert como seus personagens Bouvard e Pécuchet não passam de leitores que tentam reproduzir o que leram, o que torna a obra interminável. “De todos os seus textos é o que mais aponta para o futuro e para o nosso tempo” (CAMPOS, 1978, p. 14). O autor, em carta a Louise Colet, em dezembro de 1852 diz: “Seria necessário que, em todo o livro, não houvesse uma só palavra de minha autoria e que depois de tê-lo as pessoas não ousassem mais falar com medo de dizer instintivamente uma das frases que lá se encontram”.[2] Diante disso, cria-se uma liberdade da recepção, nasce uma obra sem procedentes, provocadora e um autor disposto a “morrer” para sua criação, ou seja, se tornar um ponto neutro; deixa sua obra dizer por si mesma.
Podemos aqui decretar outra “morte” simbólica: a morte do livro. Seria o fim da concepção do livro como algo encerrado, dotado de toda significação, sendo assim na escritura passível de encontrar a inserção do sujeito na internalidade da escrita. Os livros citados e usados em Bouvard e Pécuchet passam por essa morte, pois não carregam plena significação, o que é percebido na leitura que não se concretiza dos personagens. Para justificar tal argumento, Derridá diz que “(…) o fim da escritura linear é definitivamente o fim do livro (…)” (DERRIDA, 2011,  p. 108).
Obra pela obra, autor desconstruído, prosa aberta, fragmentada e inclassificável, Flaubert desafiou e provocou quem pudesse presenciar seus dois copistas em suas labutas e desventuras. A obra não se encaixa em nenhum tempo, mas sim, na eternidade. Se as figuras do autor/leitor eram bem demarcadas no romance tradicional, Flaubert fez questão de desconstruí-las, como Barthes já disse posteriormente. Além disso, ele ousou profetizar caso “concluísse” a obra: “Se eu conseguir, será falando seriamente, o ápice da Arte”. Pelo visto, ele conseguiu.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. Novos ensaios críticos: o grau zero da escritura. São Paulo: Cultrix, 1974.
BARTHES, Roland. A morte do autor. In. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
CALVINO, Ítalo. “Apêndice”. In: Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Cia das Letras, 2003.
CAMPOS, Augusto de. O Flaubert que faz falta. In: A margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1978.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria : literatura e senso comum. Trad. Cleonice Paes Barreto Mourão, Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte : Ed. UFMG, 2001.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo : Perspectiva, 2011.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor ? In :Estética : Literatura e Pintura, Música e Cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
MAUPASSANT, Guy de. Gustave Flaubert. Trad. Betty Joyce. Campinas, SP: Editora Pontes, 1990, p. 72
SAMOYAULT, Tiphaine. A intertextualidade. Trad. Sandra Nitrini. São Paulo :Aderaldo & Rothschild, 2008.
SANTOS, Fernanda Ferreira dos. Flaubert, Bouvard e Pécuchet : autor ou leitor? Congresso Internacional da associação de pesquisadores em crítica genética, X edição, 2012. http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/apcg/edicao10/Fernanda.Santos.pdf acessado em 15/01/2016.
SANTOS, Fernanda Ferreira dos. Ler e escrever: Bouvard e Pécuchet e a multiplicação da escrita. 2013, 148f. Dissertação (mestrado)- Departamento de Letras Modernas. Faculdade de filosofia, Letras e ciências humanas da Universidade de São Paulo.
 
 
 
 
 
 
 
 
[1] Essas passagens foram retiradas do ensaio CAMPOS, Augusto de. O Flaubert que faz falta. In: A margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1978, p. 17 e 18.
[2] Carta mencionada no ensaio de  CAMPOS, Augusto de. O Flaubert que faz falta. In: A margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1978, p. 17 e 18.
 
 
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”, DE GUY DE MAUPASSANT – Caio Vitor Marques Miranda, Cláudia Cristina Ferreira




O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”, DE GUY DE MAUPASSANT

 
 

Caio Vitor Marques Miranda

Universidade Estadual de Londrina

 

Cláudia Cristina Ferreira

Universidade Estadual de Londrina

 
 
Resumo: O presente trabalho almeja analisar o conto “O Horla”, de Guy Maupassant, que apresenta relatos de um homem em progressivo estado de insanidade e incita uma ameaça invisível com relativo grau de realismo psicológico e verossimilhança, e ao decorrer da história, a sanidade de seu personagem e seus sentimentos são questionados, enquanto o personagem invisível, o Horla, aos poucos, domina seus pensamentos. Para a realização desta análise, recorre-se o embasamento teórico aos estudos efetivados por Todorov, Vax, Rodrigues e Roas que possuem obras pioneiras no gênero. Para tanto, será levado em conta o fato de que a busca pelo inexplicável, a magia e o irreal fazem parte do mundo fantástico, um mundo em que a ficção concerne à realidade, e são elementos assim que dominam as obras pertencentes a este gênero, que, há muitos anos, vem despertando no leitor uma necessidade por saber mais.
 
Palavras-chave: Medo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
 
Resúmen: El presente trabajo busca analizar el cuento “O Harla”, de Guy de Maupassant, que presenta relatos de un hombre en progresivo estado de insania e incita una amenaza invisible con relativo grado de realismo psicológico y verosímil, y al desarrollar de la historia, la insania de su personaje y sus sentimientos son cuestionados, mientras el personaje invisible, el Horla, a los pocos, domina sus pensamientos. Para la realización de este análisis, se recurre el embasamientos teóricos a los estudios efectuados por Todorov, Vax, Rodrigues y Roas que poseen obras pioneras en el género. Para tanto, será llevado a cabo el hecho de que la búsqueda por lo inexplicable, la magía y lo irreal hacen parte del mundo fantástico, un mundo donde la ficción concierne a la realidad, y son elementos así, que dominan las obras pertenecientes a lo fantástico, el cual, hace muchos años, se ha despertado una necesidad por saber más del lector.
 
Palabras-clave: Miedo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
 
Minicurrículo: Caio Vitor Marques Miranda: Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) com a pesquisa em Literatura e Ensino e graduado pela mesma universidade em Letras – Licenciatura em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas (2013). Possui experiência na área de Letras Vernáculas e Estrangeiras Modernas. Atualmente é professor de Espanhol no Colégio Bom Jesus de Rolândia e no cursinho pré-vestibular Prime, e de Literatura Brasileira no Colégio Interativa Londrina e no cursinho Especial da UEL, CEPV. A orientadora do Mestrado é a Profa. Dra. Claudia Critina Ferreira, da Universidade Estadual de Londrina.
 
 
O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”,
DE GUY DE MAUPASSANT
 
 
Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina
 
Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina
 
 

  1. Introdução

A literatura fantástica sob o viés da loucura tem traçado seu percurso no decorrer dos anos. Criando cenários sombrios, permeados pela dúvida, a literatura fantástica possibilita a instauração ou a presença da desordem psíquica em um universo paralelo ambíguo e incerto. Normalidade e anormalidade, sanidade e loucura, tudo se confunde. As fronteiras se expandem, esfumaçando ou apagando os limites entre esses binômios.
A presença da loucura em contos fantásticos que abordam a alienação, o delírio ou a demência é temática contemplada na obra contística de alguns escritores, como: Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft ou Ambrose Bierce.
A literatura fantástica rompe com rótulos e explicações racionais, científicas e cartesianas ao possibilitar a presença ou a existência de elementos insólitos e sobrenaturais, convivendo em harmonia com o real. Nesse sentido, a loucura pode ser considerada natural e/ou aceita sem hesitação, enquanto que a sobriedade, questionada.
Dentro deste contexto, faz-se interessante observarmos algumas definições de loucura e termos afins para que possamos compreender melhor a presença e a associação da loucura nesta vertente literária.
Louco, portanto, é aquele sujeito cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais, aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados. A loucura é a doença/distúrbio que o louco possui. No entanto, Foucault, professor e filósofo, em seu livro História da loucura na literatura (2010), define o louco como:
 
O louco afasta-se da razão, mas pondo em jogo imagens, crenças, raciocínios encontrados, tais quais, no homem de razão. Portanto, o louco não pode ser louco para si mesmo, mas apenas aos olhos de um terceiro que, somente este, pode distinguir o exercício da razão da própria razão (FOUCAULT, 2010, p.186).
 
Assim, desde tempos remotos, encontramos, na literatura, histórias em que o louco/a loucura se torna um fator relevante do enredo, apresentando suas diversas faces. Num panorama geral, podemos começar nos mitos, nos mais clássicos, como a troiana Cassandra.  O deus Apolo concede a Cassandra o dom da profecia, mas como ela não quis ficar com ele, o deus faz com que ninguém acredite no que ela diz. Assim, todos a consideram louca. Ela vive presa numa torre, gritando e sofrendo, pois sabe que as desgraças vão acontecer, mas não pode impedir, pois ninguém acredita nela, todo mundo pensa que suas profecias são mentira. Tendo, assim, um fim trágico.
O herói grego Ájax, por exemplo, que pertence ao ciclo da guerra de Troia, após perder a disputa pelas armas de Aquiles para Ulisses, tem um ataque de loucura e mata vários guerreiros. Depois deste surto, ao descobrir o que fez, ele se mata.
Temos, também, O Alienista, de Machado de Assis, em que o cenário é a casa verde, um tipo de manicômio; o considerável número de contos do Guy de Maupassant, que no final de sua vida, foi diagnosticado com doença mental; a coletânea de contos de Leopoldo Lugones, autor argentino, que com a incursão do fantástico, faz crítica ao cientificismo, ou ainda, a grande obra de Cervantes, El ingenioso Don Quijote de la Mancha.
Entretanto, na literatura, nos deparamos com muitos outros elementos ou fatores chave das narrativas, como o terror, a presença de bruxas e magias, situações inexplicáveis científica ou racionalmente, surreais ou até irreais, provocando, no leitor, uma sensação de medo, mistério ou curiosidade por saber mais. Vislumbrando, neste contexto, a literatura fantástica.
Assim, o presente trabalho almeja realizar uma possível leitura da segunda versão do conto O Horla, de Guy de Maupassant, pelo viés do fantástico, salientando a sensação de medo que o personagem principal sofre durante toda história e ainda o estado de loucura em que se encontra. Como aporte teórico, utilizamos autores pioneiros desta temática, como as ideias de Todorov (2010) presentes no livro Introdução à literatura fantástica e de Roas (2011), presentes no livro Tras los límites de lo real. Una definición de lo fantástico.
 

  1. Em terras fantásticas: Como definir este gênero?

Sabemos que na literatura se manifestam tendências inacabadas, que não se concluem em rótulos determinados, visto que o trabalho de criação é renovado através dos tempos, e que a literatura foi e continua sendo uma linguagem aberta, que permite modificar a ideia do que hoje é, ou não, considerado literatura. Assim, ocorre com o fantástico.
O termo fantástico pode significar: “aquilo que só existe na imaginação, na fantasia; o fora do comum; extraordinário, prodigioso” (HOUAISS, 2001). A literatura fantástica tornou-se, sobretudo nas últimas décadas do século XX, um tema recorrente na literatura contemporânea, sendo objetivo de várias análises literárias, que em sua compreensão, o fantástico mantém, em sentido lato, essas mesmas acepções, e delas sucedem traços únicos ou definidores desse gênero incerto, dependendo da proposta de que parte cada estudioso. Várias foram as tentativas de definições do fantástico realizadas por teóricos literários. Para conter o mundo fantástico na literatura, expomos alguns como: Castex (1951), Vax (1965) e Todorov (1975).
Castex (1951), estudioso sobre a literatura fantástica na França, estabelece:
 
O fantástico não se confunde com as histórias de invenção convencionais, como as narrações mitológicas ou os contos de fadas, que implicam uma transferência da nossa mente para um outro mundo. O fantástico, ao contrário, é caracterizado por uma invasão repentina do mistério no quadro da vida real; está ligado, em geral, aos estados mórbidos da consciência, a qual, em fenômenos como aqueles dos pesadelos ou do delírio, projeta diante de si as imagens das suas angústias e dos seus horrores (CASTEX, 1951, p. 8).
 
Para esse teórico, o fantástico seria histórias muito próximas à realidade, chocando-se com o impossível, e esta invasão faz com que o leitor entre em conflito com ele mesmo sobre o que é ficção e realidade. É isso que faz do fantástico um gênero único, inconfundível, e caracterizado pelo sobrenatural.
Vax (1965), também francês, é um estudioso e um dos precursores do surrealismo artístico, segundo o qual o fantástico não deve somente fazer uma irrupção no real, mas precisa que o real lhe estenda os braços, consinta com a sua sedução, ou seja, esta sedução pode ser considerada um elemento deste gênero, mas para que este encanto ocorra, o real deve ceder-lhe espaço.
Todorov (1975) foi um dos grandes estudiosos que teorizou sobre o fantástico, destacando-se por ter sido o primeiro a organizar o estudo do fantástico, até então pouco discutido. Todorov em Introdução à literatura fantástica (1992) elabora um estudo mais detalhado e consistente nas características da literatura fantástica, ele retoma as definições dadas pelos especialistas franceses Castex (1951), Caillois (1966) e Vax (1960), e logo no segundo capítulo do livro, ele aborda Alvare, o personagem principal do livro de Cazotte, Le diable amoureux, que vive uma história de ambiguidade até o fim da ficção, e Todorov (2010) consolida:
 
Somos assim transportados ao âmago do fantástico. Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentimentos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. (…) O fantástico ocorre nesta incerteza; (…) (TODOROV, 2010, p. 31).
 
Por conseguinte, define o fantástico como sendo “a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 1992, p. 31). Em outras palavras, o fantástico habita a hesitação do leitor diante de fatos insólitos, que vão contra a ordem natural, fazendo com que a dúvida perante estes acontecimentos permaneçam até o fim da narrativa. Esta hesitação do leitor é apontada por Todorov (1992), como uma marca principal do fantástico. Portanto, o autor vê o fantástico como um produto de três fatores que são essenciais em obras desta natureza:
 
Primeiro, é preciso que o texto obrigue ao leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e hesitar entre uma explicação natural uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica como a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação “poética”. Estas três condições não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita (TODOROV, 1992, p. 39).
 
Logo, a hesitação provoca no leitor uma espécie de reflexo, uma atitude que rejeite a leitura metafórica da obra, o que terminaria com a hesitação requerida, com uma possível condição, a identificação do leitor com uma personagem. Para que haja esta hesitação, compreensão da narrativa, mais uma vez, há de se fechar os olhos para a realidade, e mergulhar-se para um mundo de possibilidades, fantasias, mistérios, um mundo em que a presença do sobrenatural é habitual.
Caillois (1980), outro escritor francês e compilador de antologias, em uma de suas definições, em 1958, diz que o fantástico é a violação de uma regularidade imutável, e o elemento principal do fantástico é a aparição, ou seja, é o que não pode aparecer, mas aparece, manifestando na narrativa o inadmissível. A definição de Caillois (op.cit.) está próxima à definição de Vax (1960), pois em ambas as definições há uma invasão do inadmissível, um conflito do real com o impossível. O que não poderia/deveria ocorrer em uma realidade racional, acaba ocorrendo.
Lovecraft (2007), escritor norte americano, é outro autor que vê o fantástico a partir da relação que estabelece com seu leitor e da sua reação. Dedicou-se a histórias de terror e medo. Para ele, o fantástico reside no modo como o leitor recebe o texto, no envolvimento da obra com o público. Para que um conto receba o rótulo de fantástico, é preciso que este “suscite ou não o leitor um sentimento de profunda apreensão e de contato com esferas diferentes e forças desconhecidas” (LOVECRAFT, 2007, p. 5-6). Ou seja, há de se fechar os olhos para a realidade, para que haja um envolvimento ou uma interação entre leitor e texto.
 

  1. Análise do conto

 
“Quando ouço pronunciar a palavra guerra sinto um pavor como se me falassem de Bruxaria, de inquisição, de uma coisa longínqua, abominável, monstruosa, contra a natureza.”
Guy de Maupassant
 
Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, em Tourville-sur-Arques (França). Estudou no liceu de Ruão, foi colaborador por oito anos dos Ministérios da Marinha e da Instrução Pública. Em 1870, Maupassant foi para Paris e lá se firmou como contista. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais, usando a técnica naturalista.
Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant mais produziu textos, cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como Bola de sebo, O Colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla. Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Mas o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. Em 1892, ele tentou suicídio. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.
Em um de seus textos deixados, O Horla, escrito em 1887, narra a transformação psicológica de seu personagem, um senhor francês, em progressivo estado de insanidade; relata-nos cerca de 4 meses da sua vida por meio de um diário, manifestando todo o sofrimento com a presença de um ser invisível que o persegue por meses, não conseguindo livrar-se dele.
O Horla, conto de cunho realista psicológico que aborda paulatina e progressivamente o inquietante, a loucura, a paranoia, a demência e a obsessão, influenciou outros escritores, como: H. P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu) e Ambrose Bierce (A coisa maldita).
Vale salientar que tal obra possui duas versões. A primeira linear, com narrativa baseada em fatos já ocorridos. A segunda, em ordem cronológica, possui narrador em primeira pessoa, quem relata os acontecimentos com datas precisas (dia e mês exatos), fato que concede maior verossimilhança à narrativa.
No conto, o personagem autodiegético inicia seu relato com os elementos que estão ao seu redor: “8 de maio – que dia lindo! Passei toda a manhã deitado na relva, na frente da minha casa, sob o enorme plátano que a cobre, a abriga e a sombreia por inteiro” (MAUPASSANT, 2006, 239).
A história tem como espaço predominante a casa do protagonista, cenário baseado na casa de seu amigo Gustave Flaubert, que não consegue abandonar por conta das lembranças que guarda da sua infância. Às vezes, este espaço se estende a outras cidades da França. O personagem relata dias normais, feliz com a vida que leva, até que, de repente, de um dia para o outro, ele começa a se sentir doente, e é esta doença que o leva a sentir uma sensação de perigo iminente, tal como um pressentimento.
 
16 de maio – decididamente estou doente! Eu estava tão bem o mês passado! Estou com febre, uma febre atroz, ou, melhor dizendo, um abatimento febril, que faz minha alma sofrer tanto quanto meu corpo! (MAUPASSANT, 2006, 240).
 
É durante o período noturno que coisas estranhas passam a acontecer. No quinto dia de seu relato, o senhor francês alega estar estranho, com medo, “um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama” e não consegue se concentrar para dormir. A presença do medo se permeia em todo o conto, e em vários momentos o personagem relata suas emoções, e o medo que sente.
Quando finalmente consegue adormecer, começa a sonhar e sentir que tem alguém se aproximando dele, que o olha, apalpa-o, sobe na sua cama, ajoelha-se sobre seu peito, agarra-o pelo pescoço entre as mãos e o aperta com muita força.
Transcorrido algum tempo, o estado do personagem se agrava cada vez mais. No sétimo dia, ele decide fazer uma pequena viagem para outra cidade. Ao retornar, tudo parece estar bem; entretanto, ele se sente perseguido e começa a pensar que está louco.
Certa noite, algo insólito ocorre. Antes de dormir, bebeu um copo de água e viu que a garrafa estava cheia, mas ao acordar de um pesadelo, observou que a garrafa se encontrava vazia:
 
Tudo recobrado a razão, senti sede outra vez; acendi uma vela e fui até a mesa sobre a qual estava minha garrafa. Levantei-a, inclinando-a sobre meu copo: nada escorreu. Estava vazia! Estava completamente vazia! (MAUPASSANT, 2006, 245).
 
O personagem se questiona sobre tal acontecimento, achando que realmente está louco. O roubo da água volta a acontecer, sucessivamente, por vários dias e, novamente, ele decide viajar; uma espécie de fuga, para solucionar os problemas que vinha enfrentando dentro de casa. Lá, ele visita uma prima e presencia um hipnotismo que o deixa perturbado.
No dia que retorna, aparentemente, tudo está normal, até ouvir uma discussão entre seus criados (…) Eles afirmam que alguém quebra os copos, à noite, nos armários. O criado de quarto acusa a cozinheira, que acusa a lavandeira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado. Idiota quem dissesse! (MAUPASSANT, 2006, 252).
Logo, no mesmo dia, vê uma cena muito intrigante. Passeando pelos seus canteiros de roseiras, algo anormal acontece:
 
(…) Quando parei para olhar uma “gigante das batalhas” que tinha três flores magníficas, eu vi, eu vi perfeitamente, bem perto de mim, a haste de uma dessas rosas dobrar, como se uma mão invisível a entortasse, depois se quebrar, como se a mesma mão a tivesse colhido! Depois a flor se ergueu, descrevendo uma curva que teria feito um braço levantando-a até uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, apavorante mancha vermelha a três palmos de meus olhos (MAUPASSANT, 2006, 252).
 
A partir daqui, são os elementos fantásticos que dominam o conto. Uma vez mais, o ser invisível bebe sua água e o medo vai possuindo o senhor francês, que já não sabe o que fazer, e aos poucos, vai ficando sem força, não tendo mais controle de certas atitudes.
No trigésimo sexto dia, o senhor francês lê uma notícia de uma revista:
 
Uma notícia um tanto curiosa nos chega do Rio de janeiro. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa da Idade Média, grassa neste momento na província de São Paulo. Os habitantes apavorados deixam suas casas, desertam de suas aldeias, abandonam suas culturas, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como gado humano por seres invisíveis (…) (MAUPASSANT, 2006, 257).
 
Após ler e refletir muito sobre a notícia que recebera, percebe a chegada do ser invisível que o persegue, começa a dizer um nome: Horla. É este o nome desta força sobrenatural, do ser que há meses vem sugando a vitalidade do senhor francês.
19 de agosto é o dia em que o senhor francês decide:
 
(…) Vou matá-lo. Eu o vi! Sentei-me à mesa ontem à noite; e fingi escrever com muita atenção. Eu sabia que ele viria rondar em volta de mim, bem perto que talvez eu conseguisse tocá-lo, agarrá-lo! E então… então eu teria a força dos desesperados; eu teria minhas mãos, meus joelhos, meu peito, minha testa, meus dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, rasgá-lo (MAUPASSANT, 2006, 259).
 
O Horla foge, e o senhor consegue montar uma armadilha para prendê-lo e livrá-lo de todo aquele tormento. Tranca-se em seu quarto e, quando sente a presença do Horla, começa a caminhar em direção à porta. Sai do quarto, passa a chave na porta, joga todo o óleo no tapete, nos móveis, em toda parte, e ateia fogo.
 
(…) eu olhava para minha casa e esperava. Como demorou! Eu já achava que o fogo tinha apagado sozinho, ou que Ele o tivesse apagado, quando uma das janelas do térreo explodiu sob a pressão do incêndio e uma chama, uma grande chama vermelha e amarela, comprida, mole, acariciante, subiu pela parede branca e beijou-a até o telhado (…) (MAUPASSANT, 2006, 261).
 
A convicção/neurose de capturar o Horla era tão grande que o senhor se esqueceu de seus empregados, que estavam dentro da casa. Horrorizado com isso, começa a pedir ajuda, mas já era tarde. A casa já era uma fogueira horrível e magnífica, e que, de repente, veio abaixo. Para ele, o Horla estava morto, mas como matar um ser que não tinha um corpo? Assim, somente a própria morte aparenta ser a única solução para livrar-se do ser invisível e temível, o Horla: “Não… não… sem dúvida… ele não está morto… então… então… vai ser preciso que eu me mate!…” (MAUPASSANT, 2006, 262).
O tormento psicológico vivenciado na casa fez com que o narrador/personagem questionasse sua sanidade e adentrasse o cenário sombrio permeado pela incerteza e pelo insólito, o que o fez progredir da angústia à loucura/demência/obsessão, apresentando-nos um desfecho surpreendente.
 

  1. Considerações finais

Podemos constatar as contribuições da obra de Maupassant para a literatura fantástica mundial. Influenciado por Gustave Flaubert e modelo para muitos outros escritores contemporâneos ou posteriores, Maupassant foi um mestre do relato breve, deixando-nos mais de trezentos contos que devem ser considerados e analisados pelo seu teor qualitativo e não somente quantitativo.
Diagnosticado com distúrbio mental, Maupassant exerceu com excelência a arte da escrita. Sua obra fascina e inspira muitos pelo mundo afora, consagrando-se como verdadeiros clássicos canônicos.
No conto analisado, observamos a presença da loucura como um ingrediente que dá sabor peculiar à obra de cunho fantástico, incitando a imaginação do leitor e enriquecendo ainda mais a leitura.
 
REFERÊNCIAS
 
COSTA, Flávio Moreira da (2006). Os melhores contos fantásticos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Eudave, Cecilia (2008). Sobre lo fantástico mexicano. Orlando: Letra Roja..
ROAS, David (2008). Tras los límites de lo real: una definición de lo fantástico. Madrid: Páginas de Espuma.
TODOROV, Tzvetan (1981). Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva.
VAX, Louis (1983). A arte e a literatura fantástica. Lisboa: Arcádia.
CESARINI, Remo. (2006). O Fantástico. Trad. Nilson Cezar Tridapalli. Curitiba: UFPR.
CHIAMPI, Islemar (1980). O realismo Maravilhoso. São Paulo: Perspectiva.
FOUCAULT, Michel (2012). História da loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva.





Bio fornecida pelo palestrante.

REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA EM AS VISÕES DE SIMONE MACHARD, DE BERTOLT BRECHT – Lindberg S. C. Filho




  REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA EM AS VISÕES DE SIMONE MACHARD, DE BERTOLT BRECHT
 
Lindberg S. C. Filho
Universidade de São Paulo
 
Resumo: Esse artigo tem por objetivo apresentar uma leitura atenta dos momentos iniciais da peça As visões de Simone Machard (1941-43/1957), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Trata-se de uma análise textual materialista – isto é, um procedimento crítico que busca determinar as relações entre forma literária e processo social – cujo intuito é descobrir de que maneira acontece a seleção e a organização de elementos estéticos para representar os meandros subterrâneos de um momento decisivo da história europeia no século XX: a invasão alemã do território francês e a subsequente implementação de um governo colaboracionista com os nazistas.
Palavras chave: Bertolt Brecht, crítica materialista, representação da história, forma literária, processo social.
Abstract: This article aims at presenting a close reading of the initial moments of the German playwright Bertolt Brecht’s text The visions of Simone Machard (1941-1943 e 1957). It is a materialist textual analysis – that is, a critical procedure that seeks to determine the relations between literary form and social process and to reveal how and which aesthetic elements are selected and organized in order to represent the subterranean meanderings of a decisive moment of European History in the Twentieth century: the German invasion of the French territory and the subsequent implementation of a govern of cooperation with the Nazi.
Keywords: Bertolt Brecht, materialist criticism, representation of History, literary form, social process.
Minicurrículo: Graduado em Letras (Português e Inglês), em 2013 e Mestre em Estudos linguísticos e literários em Inglês, em 2016, ambos pela Universidade de São Paulo. Em 2014 foi pesquisador visitante no departamento de Literatura inglesa do King’s College de Londres e atualmente é doutorando em Estudos linguísticos e literários em Inglês também na Universidade de São Paulo.


 
  REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA EM AS VISÕES DE SIMONE MACHARD, DE BERTOLT BRECHT
 
Lindberg S. C. Filho
Universidade de São Paulo
 
Introdução
Escrever sobre o realismo e a contemporaneidade de Bertolt Brecht é uma tarefa, à primeira vista, fácil, pois significa salientar duas características que este autor buscou incansavelmente imprimir em sua obra. Em um segundo momento, no entanto, o que parecia ser simples se revela uma missão de grande complexidade, especialmente porque se trata de um realismo e de uma contemporaneidade bastante particulares e de inúmeras camadas de significação. Isso quer dizer que embora Brecht tenha dedicado a quase totalidade do tempo de seu processo criativo à elaboração de formas estéticas que dessem conta da experiência real da dominação política e social contemporânea – isto é, da realidade moderna sob o regime capitalista -, ele desenvolveu um realismo que, ao mesmo tempo em que bebia, superava as técnicas narrativas de captação da realidade dos movimentos artísticos do fim do século XIX, mais notadamente o naturalismo francês. Não bastava mais reproduzir as contradições do mundo sensível no texto ou na cena; a forma artística tinha que ela mesma produzir uma experiência estética exigente que abrisse a possibilidade de superação subjetiva das contradições presentes na vida real e que levasse em consideração os últimos desenvolvimentos da sociedade atual. Desse modo, Brecht não formulou propriamente uma doutrina ou um método, mas um princípio de construção formal baseado na descrição consciente de processos.
Neste trabalho vamos procurar fazer o exercício de análise do texto da peça As visões de Simone Machard (1941-1943 e 1957) com o objetivo de mapear como acontece a representação da história contemporânea. Além do mais, tentaremos decifrar, sempre através do exame das engrenagens formais do escrito, qual posição ou comentário político é estruturado no ponto de vista da obra. Para tanto, vamos começar por sugerir como quatro elementos constitutivos do texto dramático – tempo, espaço, personagem e enredo – tratam a matéria social e juntos compõem uma opinião do autor implícito, ou, a consciência específica que montou a obra.
A peça As visões de Simone Machard foi escrita entre os anos 1941 e 1943, ou seja, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o exílio de Brecht em Los Angeles nos Estados Unidos. Tal dado – aparentemente extraliterário – tem importância crucial porque se revela um elemento interno decisivo para confecção do texto. Com efeito, o motivo da peça tem por base não apenas uma propaganda antifascista, mas também uma avaliação política a respeito do papel de capitulação das classes proprietárias e das autoridades francesas ao regime nazista já nos primeiros anos da guerra. A “guerra de mentira” – em inglês “phoney war”, em francês “drôle de guerre” e em alemão “Sitzkrieg” – é o primeiro momento da Segunda Guerra Mundial, no qual não aconteceram grandes conflitos terrestres e vai da declaração de guerra dos aliados Reino Unido e França à Alemanha em 3 de setembro de 1939 até o início da invasão do território francês pelas tropas nazistas em 10 de maio de 1940. Este momento de indecisão geopolítica é imediatamente sucedido pelo episódio histórico que ficou conhecido como “Queda da França” e que é retratado pela peça de Brecht. Daí As visões de Simone Machard ter como começo o dia 14 de junho de 1940 – tomada de Paris pelos alemães – e terminar no dia 22 de junho do mesmo ano, quando o marechal francês Philippe Pétain assina um acordo armistício e passa a colaborar com os nazistas.
Faz-se importante notar também que estamos diante da segunda das três peças do dramaturgo alemão a apresentar uma versão dos feitos de Joana d’Arc – as outras duas são A Santa Joana dos matadouros (1929-31/1959) e O julgamento de Joana d’Arc, 1431 (1952) –, pois isto demonstra que além do esforço de reconstrução da história europeia recente, está em jogo aqui uma evidente analogia com outra época. Isto também indica, como veremos mais tarde com maior detalhamento, que Brecht identificou e quis ressaltar dinâmicas sócio-históricas que, por diversas razões, persistiram durante a história da luta de classes na França. Isto por si só já é uma maneira de transcender a ideia de realismo como mera cópia do que pode ser facilmente apreendido, essencialmente porque Brecht parece procurar tornar visível uma dinâmica histórica que escapa à carapaça aleatória dos eventos. Ele organiza o material social e estético de tal modo que as conexões entre as várias esferas da experiência concreta – conexões, diga-se de passagem, escamoteadas pela saturação do cotidiano capitalista reificado – possam ganhar proeminência. Vejamos agora como se dá esse trabalho de seleção e organização.
 
Fundamentos da estrutura formal de As visões de Simone Machard
Os dois primeiros elementos constitutivos do texto dramático de As visões de Simone Machard que tomamos conhecimento ao começarmos a lê-lo são o espaço e o tempo. Há, desde o início, uma preocupação bastante evidente por parte de Brecht de dar coordenadas espaciais e temporais bastante específicas. Primeiramente ficamos sabendo que a ambientação cênica deve buscar representar “o pátio da hospedaria Au Relais” e, logo em seguida, que “a ação se passa em junho de 1940 na pequena cidade francesa de Saint-Martin, no centro da França, numa estrada principal que vai de Paris ao sul” (Brecht, 1992, p. 15). Além disso, não é de maneira alguma secundário notar que a divisão dos episódios da peça não se dá propriamente por atos, mas por capítulos caracterizados por antecipação de elementos do enredo e dias cronologicamente marcados: a saber, I – O livro: “Primeiro sonho de Simone Machard – Noite de 14 de junho”; II – Aperto de mãos: “Segundo sonho de Simone Machard – Noite de 15 de junho”; III – O fogo: “Sonho acordado de Simone Machard – 20 de junho”; IV – O tribunal: “O quarto sonho de Simone Machard – Noite de 21 de junho”. Estas especificações temporais e espaciais não deixam dúvidas de que apesar de ser um objeto ficcional, a peça pretende emitir uma opinião acerca de acontecimentos bastante reais por intermédio de uma reconstrução cênica particular e informada. Não se pretende aqui abstrair a forma de representação para promulgar uma lei histórica. É nesse sentido que a divisão do texto em capítulos e não em atos faz parte do esforço do teatro épico, ou narrativo, de enfatizar que a representação em questão é uma representação e não a realidade. Dito de outra maneira, diferentemente do caráter fortemente ilusionista do drama burguês cujo objetivo central é mostrar ações como se elas fossem a realidade, o teatro narrativo de Brecht ambiciona contar histórias sempre enfatizando que há um ponto de vista desenhando a representação esteja ele implícito ou explícito.
Já as personagens, outro dispositivo formal de grande importância, funcionam tanto para nos devolver a generalidade do processo em questão através do retrato estético das classes encarnadas em tipos não individuados como “refugiados”, “soldados” e o “povo” quanto a particularidade do episódio pelo emprego de personagens de diferentes graus de caracterização histórica como “Philippe Chavez, prefeito de Saint-Martin (nos sonhos, Rei Carlos VII)” e “Um Comandante Alemão (comandante dos ingleses)”, por exemplo. Em outras palavras, no intuito de não perder a dimensão da dialética entre a parte e o todo, Brecht articula dentro do quadro geral da luta de classes – via personagens genéricos – as imagens das especificidades sócio-históricas que ele busca representar – via personagens individualmente concretos. Mais ainda: em As visões de Simone Machard está presente a característica do teatro épico que denuncia o mito da autoconsciência do drama burguês. Isto é, se por um lado o drama burguês – fortemente alicerçado no diálogo eloquente da personagem individual que toma as relações sociais existentes como dadas – constrói ideologicamente um individualismo que aparece como autossuficiente, por outro lado o teatro épico vai descaracterizar essa concepção de mundo mostrando que só na ação política coletiva e na tomada de consciência da artificialidade das relações atuais é que as personagens podem adquirir alguma autoconsciência individual verdadeira. Trocando em miúdos, as personagens estão formatadas de modo a mostrar que os indivíduos em coletividade objetivam a si próprios; as personagens vão ganhando concretude à medida em que percebem as relações reais nas quais estão inseridas. Nega-se uma interdependência coletiva. Individualidade e coletividade estão de tal maneira entrelaçadas que, do ponto de vista de Brecht, pender somente para um ou outro dos polos é eliminar um traço ímpar da realidade.
Por fim, temos o último dos fundamentos formais do texto que nos propusemos a analisar: o enredo. O que logo de saída chama mais atenção é o método de duplicação. O enredo se bifurca na realidade da Segunda Guerra Mundial durante o começo da invasão nazista e nas passagens dedicadas aos sonhos de Simone que se passam na França do século XV. Tal procedimento, como dito logo acima, tem implicações diretas nas personagens, as quais também se duplicam incluindo a própria Simone que se torna “a virgem de Orleans” nos sonhos. A indicação textual de caracterização das personagens sugere que o figurino seja duplo, ou seja, que ressalte o papel dentro e fora do sonho ao mesmo tempo como acontece com o prefeito “que usa o manto real sobre seu terno” (Brecht, 1992, p. 34) para se tornar o rei Carlos VII nos sonhos. A estas duplicações soma-se a própria ambientação cênica da fronteira entre dois países, o caráter duplo dos proprietários da hospedaria que assume a forma nacionalista para os seus empregados e colaboracionista para os alemães e a repetição de cenas imediatamente anteriores dentro das passagens oníricas. Contudo, o princípio da duplicação está subordinado ao imperativo da unidade dos opostos – como mencionado acima – que a construção estética dialética de Brecht opera a todo instante. A proliferação de duplos, então, serve mais à função de complexificação da experiência do que de fato a de oposição, pois todos os mecanismos não permanecem estáticos e sim em movimento inter-relacional. Os sonhos de Simone são produtos da sua realidade sensível e da sua imaginação e influenciam decisivamente o desenrolar do texto mesmo na narração do “real”. Do mesmo modo, “O Anjo” que diz a ela o que fazer e a ajuda a perceber coisas que ela não havia se atentado antes fora do sonho é o irmão mais velho da vida real – que, pelo visto morreu na fronteira – e a voz do próprio inconsciente de Simone em operação. Realidade e ficção se misturam de forma semelhante com que a peça, como obra de ficção, procura exprimir uma realidade que se situam para além dela.
 
Figuração da história em As visões de Simone Machard
I
Desde pelo menos o fim dos anos 1920 Brecht tem se debruçado sobre a questão da representabilidade do capitalismo enquanto uma temporalidade da história fundada na produção industrial. Isto, porém, não significa que nosso escritor estivesse interessado em um “realismo fotográfico” (Jameson, 1999, p. 189) nos moldes do naturalismo do final do século XIX. Há de ser dito, então, que a busca de figuração estética exigente nas suas obras não estava dissociada nem da preocupação de ensinar como operam os nexos sociais regidos pelo capital, tampouco da propaganda anticapitalista. Ou seja, o exercício de representar para Brecht pressupunha uma pedagogia em torno do funcionamento dos interesses dominantes que regem o que, como e para quem se representa e uma tomada de posição diante à configuração desses conflitos. De fato, é precisamente este elemento de construção artística que permanece em suas obras e que faz parte do relevo histórico captado pelo texto de As visões de Simone Machard.
Logo no começo da peça há uma conversa entre os trabalhadores da hospedaria que ilustra uma das características centrais da formação social capitalista:
 
Père Gustave para Robert – Que tal uma partidinha de belote [jogo de cartas francês]?
Robert – Estou com dor de cabeça. Passamos o dia inteiro atravessando colunas de refugiados, transportando os barris de vinho do capitão. Um verdadeiro êxodo.
Père Gustave: Você não percebe que o vinho do capitão é que é o mais importante dos refugiados?
Georges – Todo mundo sabe que esse homem é um fascista. Os cupinchas dele no estado-maior devem ter ouvido falar que alguma coisa não ia bem na frente de novo.
Robert – O Maurice está uma fera. Diz que está cheio de ficar transportando os malditos barris de vinho no meio da mulherada e da criançada. Vou tirar uma soneca. Sai.
Père Gustave – Para o comando de guerra essas colunas de refugiados são a ruína. Os tanques conseguem atravessar qualquer pântano, mas encalham no humano. A população civil mostrou ser o grande estorvo para a guerra. A gente devia levá-la logo a outro planeta desde o começo porque ela só atrapalha. Ou acabamos com o povo ou com a guerra. Não dá para ter as duas coisas (Brecht, 1992, p. 17-18).
 
A primeira coisa a ser dita é que o processo de individuação das personagens, como pontuado anteriormente, está intimamente ligado à formação de uma consciência mais crítica a respeito das relações sociais; neste caso a respeito dos patrões e da guerra. As personagens trabalhadoras père Gustave, Georges, Robert e Maurice não são idealizadas e tampouco têm o papel de oferecer comicidade, no lugar disso, ganham alguma profundidade psicológica e importância na mesma proporção em que externalizam o negativo não evidente das situações. Ademais, verificamos como é um deles que rapidamente aponta que entre a mercadoria – o vinho – e as pessoas refugiadas não há dúvida de quem tem mais valor do ponto de vista do senso comum da sociedade imersa no fetiche. De fato, Brecht rapidamente condensa um dos primeiros achados críticos marxistas sobre a condição fetichista moderna: “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria” porque “com a valorização do mundo das coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens (Menschenwelt)” (Marx, [1932] 2010, p. 80). O vinho do capitão é colocado como superior aos humanos tanto semântica – as colunas de refugiados são atravessadas e os barris de vinho transportados – quanto sintaticamente – o vinho é o mais importante dos refugiados. Mas, a saída de Robert para tirar uma soneca logo após a crítica ilustra como a mera percepção da contradição não é suficiente para superá-la. A passagem acima ainda faz um breve balanço ao mostrar quem são os mais prejudicados com o momento de exceção e que a guerra não existe para defender a população civil, mas esta última é vista como “estorvo”. Aliás, o trecho da peça em que os proprietários da hospedaria fazem de tudo para não deixar que os refugiados consumissem as provisões demonstra claramente até onde vai o automovimento da acumulação capitalista e expõe as duas grandes guerras do século XX como embates para lidar com a crise de superprodução, a disputa imperialista de mercados e para proteger a propriedade privada da ameaça comunista.
Vale dizer que quem dá o livro sobre a virgem de Orleans para Simone, que diz que a França precisa de uma nova Joana d’Arc é o patrão e que os empregados se revelam muito céticos em relação a qualquer resolução positiva para toda a situação que o país se encontra. Isto pode ser visto tanto como cinismo quanto descrença em soluções idealistas ou metafísicas para os conflitos reais, as quais o patrão parece querer cultivar em Simone. Père Gustave é, durante toda a peça, responsável por desmascarar o patrão, apesar de nunca fazer isso diretamente na frente dele:
 
Patrão – Chega, Père Gustave! Quero que o senhor reprima o seu cinismo na presença da menina. Deixem-na ler seu livro sem os seus comentários sujos. Ao entrar – só não precisa ser justo durante o trabalho, Simone. Sai.
Père Gustave sarcástico – Não é o cúmulo, Georges? Agora a lavadeira ainda tem que ser educada para ser a virgem de Orleans, e é claro que só nas horas vagas. Entopem nossas crianças de patriotismo. Eles próprios se escondem em guarda-pós. Ou escondem a gasolina açambarcada em certas olarias, em vez de entregá-la ao exército.
Simone – O patrão não comete injustiças.
Père Gustave – Não, ele é o grande benfeitor. Te dá vinte francos por semana, para que tua gente “tenha ao menos isso”.
Simone – Ele me mantém para que o meu irmão não perca o emprego aqui.
Père Gustave – E assim tem uma frentista, uma garçonete e uma lavadeira.
Simone – É porque estamos em guerra.
Père Gustave – E não é nada mal para ele, não é? (Brecht, 1992, p. 21-22).
 
Desde o início, o texto dá a entender que o papel dos proprietários franceses frente à ocupação nazista foi no mínimo ambíguo. O sarcasmo, o deboche e a informalidade que determinam as falas de père Gustave contrastam com o tom moderado e mais formal que marcam as falas dos seus antagonistas; neste caso, do patrão. A função de desmascaramento é reafirmada no relevo do comportamento linguístico da personagem, isto é, aos poucos ele vai se transformando na voz que faz a crítica política. Tal procedimento vai se consolidando e sua personalidade vai cada vez mais se diferenciando das outras personagens, precisamente porque ele parece estar mais consciente de uma série de coisas que as outras não estão. Uma hipótese interpretativa para a escolha da personagem mais velha como porta-voz pode ser o fato de père Gustave ter vivido mais e, por esta razão, ter sido observador ocular do comportamento recorrente dos pequenos proprietários de seu país. O temperamento ácido da personagem é essencial para continuar a fazer as revelações que Brecht pretende realizar, porque ele normalmente leva as ações e afirmações das autoridades ou das personagens proprietárias até as últimas consequências para verificar a sua validade prática ou veracidade lógica. Por exemplo, além do patrão Henri Sopeau querer tirar vantagens econômicas, aproveitando o estado de emergência para acentuar a exploração de Simone, ele dá o mínimo de comida possível para os batedores do exército francês que batem à porta da hospedaria. Porém, é a inserção estilizada da personagem père Gustave que antecipa e deixa no ar outras possíveis descobertas sobre a situação real dos interesses envolvidos na guerra:
 
Sargento – Isso é tudo? Que vergonha! Dê só uma olhada no caldeirão mademoiselle. Não está nem pela metade. Esse é o terceiro restaurante onde mandam a gente. Em dois nada e aqui isso.
Simone olha atônita para o caldeirão – Deve haver algum engano. Aqui temos de tudo, lentilha e até toucinho. Eu mesmo vou falar com o patrão. O caldeirão de vocês será enchido. Esperem um instante. Entra correndo.
Georges oferecendo cigarros – O irmão dela só tem dezessete anos. Foi o único voluntário em Saint-Martin. Ela é muito apegada a ele.
Sargento – O diabo que carregue essa guerra, que nem guerra é. Tratam o exército, em seu próprio país, como a um inimigo. E o primeiro-ministro falando pelo rádio “o exército é o povo”.
Père Gustave, que saiu novamente – “O exército é o povo”. E o povo é o inimigo.
Sargento, hostil – O que quer dizer?
Georges olha para o caldeirão pela metade – Por que vocês toleram isso? Chamem o prefeito.
Sargento – A gente conhece os comandantes: não fazem nada.
Simone retorna lentamente, sem olhar para o Sargento – o patrão disse que a hospedaria não pode dar mais – tem muitos refugiados aí.
Père Gustave – A quem não podemos dar nada porque damos tudo à tropa (Brecht, 1992, p. 23).
 
Aqui já começa a ficar evidente um traço fundamental do quadro político que Brecht quer pintar através de As visões de Simone Machard: foram os trabalhadores que resistiram à invasão nazista, enquanto a pequena burguesia lidou com a guerra como se estivessem encenando uma farsa. O sargento aos poucos percebe que a guerra até então tem sido a “guerra de mentira” ou a “drôle de guerre”, como ficou conhecida, e se mostra irritado e confuso quando père Gustave arremata a discussão afirmando que o povo é o inimigo. Os fatos anunciados nesses dois trechos iniciais – Simone acumular funções e seu irmão mais velho ter ido lutar, e provavelmente ter morrido na guerra – fazem parte da figuração da vulnerabilidade de quem geralmente paga com o suor do trabalho e a vida dos seus jovens em momentos como este: a classe trabalhadora que tem que aumentar a produtividade e fornecer soldados para o esforço de guerra. Vemos também os primeiros delineamentos do alinhamento entre as classes dirigentes e proprietárias para além da mistificação nacional contra o imprevisível resultado que a instabilidade social e política pode causar. As possibilidades de alteração das ordens sociais e políticas proliferam-se rapidamente em um período de exceção como esse. Ainda mais quando no extremo leste do continente europeu o pesadelo bolchevique das desapropriações e dos paredões de fuzilamento se materializaram. Em As visões de Simone Machard somos convidados a refletir não meramente sobre um manual sociológico acerca do comportamento das classes, mas, sobretudo, em relação a instintos de classe. Logo, o povo é visto como inimigo e os arranjos de cooperação econômica se sobrepõem aos culturais ou nacionais.
II
Na segunda parte da peça, Henri Soupeau, o patrão e dono da hospedaria, está aflito querendo fugir com seus caminhões levando seus vinhos, provisões e porcelanas para Bordeaux, já que as tropas alemãs avançam sobre o território francês e há a ameaça de bombardeios. Contudo, seus empregados se recusam a carregar e a dirigir os caminhões porque estão mais preocupados em se refugiar do que continuar a trabalhar, o que o deixa enfurecido. Nesse instante Simone sai sorrateiramente da hospedaria e vai contar ao prefeito os planos de fuga do seu patrão para impedi-lo. Com a chegada do prefeito e policiais e a se ver prestes a ter seus caminhões, mesmo que temporariamente expropriados, ele dispara:
 
Patrão fora de si – Portanto não existe mais ordem! A propriedade parou de existir, não é? Por que é que você não dá a minha hospedaria aos Machard? Talvez os meus motoristas desejem esvaziar meu cofre? Isso é a anarquia! Gostaria de lembrar, senhor Chavez, que a minha mamãe estava no internato junto com a mulher do governador. E ainda existe telefone.
Prefeito, mais fraco – Henri. Não faço nada além do meu dever.
Da rua vem o barulho de uma multidão. Tocam a campainha da frente do hotel e batem à porta.
Patrão – O que foi? Georges, veja lá o que está acontecendo! (…)
Georges, de volta – Tem um monte de gente aí do ginásio, monsieur Henri. Eles ouviram falar que os caminhos vão ser levados. Estão muito agitados e querem falar com o senhor prefeito.
Patrão, pálido – Aí está o resultado, Philippe. Tudo por causa da Simone! Georges, depressa, tranque o portão. Georges vai fechar o portão. Depressa, depressa! Vai logo! – Eis a consequência de atiçar as pessoas contra os meus pacotes de provisões. A plebe. Aos policiais – Façam algo! Rápido! Você tem que telefonar pedindo reforço, Philippe, isso você me deve. Eles estão aprontando comigo, Philippe. Me ajude! Por favor, Philippe.
Prefeito aos policiais – Fiquem no portão. Ao patrão – Bobagem, não vai acontecer nada a você. Você ouviu que o que eles querem é falar comigo. E já que agora também batem no portão – Deixem entrar uma delegação, não mais do que três.
Os policiais entreabrem o portão e negociam com a multidão. Logo deixam três pessoas passar, dois homens e uma mulher com um bebê.
Prefeito – O que está acontecendo?
Um dos refugiados excitado – Senhor prefeito, nós exigimos os caminhões!
Patrão – Vocês não ouviram que as ruas devem ser mantidas desimpedidas?
Mulher – Para o senhor? E nós decerto devemos esperar pelos bombardeios alemães!
Prefeito aos refugiados – Madame, monsieurs, nada de pânico. Os veículos já foram colocados em segurança. A hospedaria só deseja ainda tirar alguns objetos de valor da ameaçadora apropriação do inimigo.
Mulher indignada – Viram, aí está! Querem levar caixotes em vez de levar a gente.
Ouve-se barulho de avião. (…)
Patrão depois que os aviões se distanciaram – Isso é perigoso demais, tenho que ir.
Vozes de fora – Entreguem os caminhões! – Vocês querem que a gente morra aqui? (Brecht, 1992, p. 41-43).
 
Antes de tudo, uma breve contextualização precisa ser feita. No sonho de Simone, o anjo a trata como Joana e pede para que ela toque um tambor convocando todo o povo francês “senão, em duas semanas, a grande França irá desaparecer” (Brecht, 1992, p. 30). Isto se traduz no que ocorreu imediatamente antes do que acabamos de ler: Simone chama o prefeito e aparentemente avisa o povo para que ajudem a colocar os caminhões do monsieur Henri à disposição da evacuação de refugiados. Não se pode perder de vista que o grande fluxo de refugiados das regiões fronteiriças entre a França e a Alemanha é tão grande que impede que os reforços do exército francês cheguem ao front.[i] Aliás, o segundo capítulo começa com uma transmissão de rádio do ministro da defesa pedindo para que as pessoas fiquem nas suas casas, algo a que o patrão se refere no excerto acima com a esperança de se apoiar em alguma autoridade ou ordem, a qual naquela hora já havia perdido grande parte da sua consistência.
Fundamentalmente o que vemos aqui é a armação de um conflito dentro da arena do estado de exceção da guerra. Todos os elementos básicos dos conflitos políticos que interessavam a Brecht estão presentes. A saber, o estado (o prefeito e a polícia), o proprietário (patrão) e os trabalhadores. Contudo isso não é tudo, pois existe algo que subjaz à cena e que fornece a ela a tipicidade necessária para a reconstrução histórica mais geral que o dramaturgo está operando. A guerra não é vista como um estado de coisas no qual os conflitos diários são atenuados, como a propaganda belicista prega, mas, pelo contrário. Como já dito anteriormente, é durante a guerra que esse conflito básico se escancara e radicaliza. É na reação verbal e gestual (“fora de si”) de Henri Soupeau que Brecht coloca as palavras-chave que compuseram a crítica ideológica marxista do primeiro capítulo da história da luta de classes moderna naquela mesma França só que em junho de 1848:
 
A República pareceu algo óbvio. Cada partido a interpretou ao seu modo. Por tê-la conquistado de armas na mão, o proletariado lhe imprimiu o seu selo e a proclamou como República Social. Desse modo, indicou-se o conteúdo geral da revolução moderna, que se encontrava em contradição com tudo o que, nas circunstâncias dadas, podia ser posto diretamente em prática num primeiro momento com base no material disponível e no nível de formação atingido pela massa (…). A Assembleia Nacional, que se reuniu no dia 4 de maio de 1848 em decorrência das eleições nacionais, representou a nação. Ela tomou a forma de um protesto vívido contra as propostas pretensiosas das jornadas de fevereiro e deveria reduzir os resultados da revolução ao parâmetro burguês (…). As exigências do proletariado parisiense eram baboseiras utópicas que deveriam ser detidas. A resposta do proletariado parisiense a essa declaração da Assembleia Nacional Constituinte foi a Insurreição de junho, o mais colossal acontecimento das guerras civis europeias. A república burguesa triunfou (…). Do lado do proletariado parisiense não havia ninguém além dele mesmo. Mais de 3 mil insurgentes foram trucidados após a vitória (…). Durante o mês de junho, todas as classes e todos os partidos se uniram no Partido da Ordem contra a classe proletária, considerada o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Eles “salvaram” a sociedade dos “inimigos da sociedade”. O lema repassado por eles às suas tropas consistia nas palavras-chave da antiga sociedade: “Propriedade, família, religião, ordem”. A sociedade é salva sempre que um interesse mais exclusivo é imposto a um mais amplo. Toda e qualquer reivindicação da mais elementar reforma financeira burguesa, do mais trivial liberalismo, do mais formal republicanismo, da mais banal democracia é simultaneamente punida como “atentado contra a sociedade” e estigmatizado como “socialismo” (Marx, 2011, p. 33-36).
 
A oposição discursiva entre ordem e anarquia cria um cenário de pânico e de emergência muito funcional à preservação das relações de propriedade de tal maneira que faz com que o prefeito e os policiais passem a tentar a reverter a situação se colocando como contenção da multidão vista aqui como personificação da anarquia. O apelo a uma suposta ordem é um antigo mecanismo para reorganizar forças sociais: vemos isso no texto de Brecht e de Marx. Além disso, vale lembrar que quem vai acabar “salvando” a hospedaria da “anarquia” da multidão enfurecida é o exército nazista. Algo que demonstra o isolamento da multidão excluída em contraposição ao quase instantâneo agrupamento de setores aparentemente distintos em face do perigo maior para a sociedade. Em outras palavras, a propriedade é mostrada como o verdadeiro cimento que liga e que orienta todas as outras relações. Não se trata aqui, no entanto, de especular se Brecht está ou não se referindo ao texto de Marx, porque isso interessa menos do que verificar como ele se apoia em linhas gerais da história moderna, as quais se revelam não apenas nas recorrências amplas ou pontuais de acontecimentos, mas também no manuseio ideológico da linguagem para disputa política. Isso quer dizer que no fundo há uma operação linguística de estigmatização para justificar todo tipo de ação. Na realidade não existe uma oposição rígida e fixa entre ordem e anarquia como os discursos do patrão e do Partido da Ordem querem fazer crer. O que vemos é a busca irracional da manutenção da ordem da propriedade, tal como ela se encontra, contra qualquer outro arranjo e inclusive contra os interesses coletivos. Algo bem mais básico, como a distribuição de mantimentos, é que está posto.
Outra coisa a ser dita é que, para que Brecht conseguisse reproduzir imagens da história recente, ele teve que abandonar uma fórmula consagrada do drama burguês. Ele precisava deslocar as ações da esfera privada para a pública. Os grandes conflitos políticos ganham contornos mais evidentes no espaço público, entre tantas outras razões, porque, principalmente a partir da Revolução Francesa, é nele que uma força social decisiva para alterar os rumos da história se expressa: as massas de excluídos. Há, porém, um detalhe que faz grande diferença. A peça acontece no pátio, ou, entre a hospedaria e a rua. Um ambiente de transição onde as diferenças e as conexões entre dois polos ganham maior visibilidade. Isto é, não estamos nem totalmente no ambiente privado nem no público, mas em mais uma região de fronteira. O texto de Brecht ganha profundidade crítica e de significação justamente porque se por um lado a ideia das fronteiras da comunidade imaginada do estado nação é constantemente alimentada, por outro lado a visão das divisões entre proprietários e não proprietários é cotidianamente escondida pela ideologia da identidade ou integração nacional da qual, diga-se de passagem, o partido nazista se alimentou bastante. Pode-se supor que essa configuração espacial, tanto cênica quanto textual, recoloca um acúmulo político da esquerda alemã sobre o que estava de fato em jogo nos descomunais esforços bélicos da primeira metade do século XX na Europa: “guerras imperialistas pela partilha de mercados” (Loureiro, 2005, p. 43). Não é à toa que essa segunda parte comece com uma multidão que chega a arrombar o portão da hospedaria, seguida da cena da chegada das tropas nazistas à hospedaria e que ela se chame “o aperto de mãos”. A “velha madame Soupeau”, mãe do patrão, intercede no conflito, deixando parte da multidão ser levada nos caminhões e prometendo que todos poderão voltar amanhã para se alimentar com as provisões da hospedaria. O “aperto de mãos” parece estar ligado tanto à política momentânea de conciliação de classes que os Soupeau empregam quanto ao pacto que fazem imediatamente depois com os alemães. O conflito de classe, que chegou a explodir, mas que foi contornado pela aliança nacional celebrada com conhaque e vinho, se encerra com frases do tipo: “vamos erguer um brinde ao futuro da nossa bela França” (Madame Soupeau), “À França. Ao futuro” (Prefeito), “Vamos juntos formar um bloco sólido contra o inimigo comum. Vamos selar isso com um aperto de mãos!” (Patrão) (Brecht, 1992, p. 48). Todavia, logo depois que a “multidão se dispersa” o rádio avisa que os alemães avançam e que podem chegar ainda de noite à Saint-Martin, Madame Soupeau despede Simone e toma a chave das provisões de Simone. Está tudo pronto para o terceiro capítulo da peça, no qual madame Soupeau, o marechal francês e os nazistas selam um pacto: os alemães garantem a segurança da propriedade dos Soupeau em troca dos mantimentos da hospedaria e do combustível da olaria. Afinal, não é precisamente esta afinidade de classe superior, e que teve implicações sócio-históricas da maior importância, que nosso autor busca representar durante toda a obra?
 
III
A personagem Honoré Fétain (“capitão, um rico proprietário de vinhedos”) estabelece – não somente a partir do próprio nome, mas também de suas ações e classe de origem – um paralelo direto com uma figura real da história contemporânea da França: o marechal Philippe Pétain, chefe de estado do régime de Vichy. Vale lembrar que tanto o Fétain da ficção quanto o Pétain da vida real colaboraram ativamente com o governo nazista. Todavia, isso não é tudo já que, como descrito mais acima, os sonhos de Simone produzem um outro nível narrativo, no qual as mesmas personagens são refuncionalizadas. Fétain também é o “duque de Borgonha” nas passagens dos sonhos de Simone. Chegamos, assim, à triangulação que a peça sugere: Fétain, Pétain e o duque de Borgonha criam, a um só tempo, uma figuração histórica e um ponto de vista político. A combinação da autoridade militar, do rico proprietário e do título de nobreza dentro da mesma personagem coordenada com a evidente analogia da história da França gera a substância de uma determinação histórica que Brecht quer salientar no seu trabalho de figuração estética: um comportamento recorrente da classe dominante francesa. Este procedimento ganha ainda mais relevância e abrangência caso o pensemos em paralelo com mais um episódio da história francesa. A Comuna de Paris (1871) compartilha com a Guerra dos Cem Anos e com o regime de Vichy – e, portanto, com o enredo de As visões de Simone Machard – a capitulação das classes dominantes francesas perante invasores estrangeiros e a organização de uma resistência popular por parte dos trabalhadores. O exército contrarrevolucionário francês contou com a colaboração do exército prussiano para massacrar o proletariado parisiense e acabar com a comuna. É por isso também que Simone, père Gustave, Georges, Maurice e Robert estão vestidos com armaduras medievais para defender a França nos sonhos, já que Brecht procurou salientar o fato dos trabalhadores terem se mantido fiéis aos preceitos nacionalistas.
De modo geral, é possível afirmar que a analogia entre a Joana d’Arc da Guerra dos Cem Anos (1337-1451) e a Simone Machard da “Queda da França” funciona como a figuração de uma realidade sócio-histórica que se “tornou representável de forma tangível” (Jameson, 1992, p. 37). Estamos falando aqui da emergência de uma percepção – e, portanto, da possibilidade de representação ou figuração – de que em momentos de crise e de fortalecimento das condições de luta social de classes subalternas é preferível, do ponto de vista dos interesses dominantes, que uma forma de administração política e social mais extrema e autoritária prevaleça no lugar da dominação mais cotidiana. E também de que apesar dos conflitos dentro do poder estabelecido serem reais (disputas de tronos, territórios, partilhas de mercados), haverá instintivamente um reagrupamento caso surja a oportunidade de uma ordem de coisas alternativa.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRECHT, Bertolt. “As visões de Simone Machard”. Trad. Angelika E. Köhnke. In: Teatro completo em 12 volumes. São Paulo, Paz e Terra, 1992. v. 9.
JAMESON, Fredric. “Class and Allegory in Contemporary Mass Culture: Dog Day Afternoon as a Political film”. In: Signatures of the Visible. London, Routledge, 1992.
JAMESON, Fredric. Brecht and Method. London, Verso, 1999.
LOUREIRO, Isabel. A Revolução Alemã [1918 – 1923]. São Paulo, Editora Unesp, 2005.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesuis Ranieri. São Paulo, Boitempo, 2010.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Trad. Nélio Schneider. São Paulo, Boitempo, 2011.
NOTA AO TEXTO
 
1 Père Gustave: Para o comando de guerra essas colunas de refugiados são a ruína. Os tanques conseguem atravessar qualquer pântano, mas encalham no humano. A população civil mostrou ser o grande estorvo para a guerra. A gente devia levá-la logo a um outro planeta, desde o começo, porque ela só atrapalha. Ou acabamos com o povo ou com a guerra. Não dá para ter as duas coisas (Brecht, 1992, p. 18).





Bio fornecida pelo palestrante.

AS MULHERES EM LUANDA: UMA LEITURA DO FEMININO NA OBRA O TÍMIDO E AS MULHERES, DE PEPETELA – Elaine Cristina Andrade Pereira




AS MULHERES EM LUANDA: UMA LEITURA DO FEMININO NA OBRA O TÍMIDO E AS MULHERESDE PEPETELA
 

Elaine Cristina Andrade Pereira

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

 
 
Resumo: Este texto tem por objetivo analisar as principais personagens femininas da obra O tímido e as mulheres (2008), do escritor Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos). Tal leitura busca verificar como o ficcionista angolano construiu as suas personagens femininas de maneira a representar a realidade contemporânea da mulher em Angola, tendo como pano de fundo a própria capital Luanda em pleno processo de (re)construção maciça. Para a escrita deste artigo, foram pertinentes os estudos dos pesquisadores Alberto Oliveira Pinto (2006), Maria Aparecida Ribeira (1992), Selma Pantoja (2008) e Tânia Macedo (2008).
Palavras-chave: Mulher. Coisificação. Mulher quitandeira. Luanda.
Abstract: This text aims at analyzing the main female characters of the novel The Timid Man and Women (2008), by the Angolan writer Pepetela (pen-name for Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos). Our reading tries to see how he built his female characters in this novel so as to represent the contemporary reality of women in his country. He uses as his background Angola and its capital Luanda, which is under the process of a massive (re)construction. The writing of this article benefited from the contributions by the researchers Alberto Oliveira Pinto (2006), Maria Aparecida Ribeira (1992), Selma Pantoja (2008) and Tania Macedo (2008).
Keywords: Woman. Reification. Female mobile vendor (stallholder). Luanda.
Minicurrículo:  Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa, área de concentração Literaturas de língua africana. Linha de pesquisa Identidade e alteridade na literatura. Mestra em Literaturas de língua portuguesa, área de concentração Literaturas de língua africana. Linha de pesquisa Identidade e alteridade na literatura. Graduada em Letras (Português/Espanhol) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
 
 
 
AS MULHERES EM LUANDA: UMA LEITURA DO FEMININO NA OBRA O TÍMIDO E AS MULHERES,
DE PEPETELA
 
 
Elaine Cristina Andrade Pereira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
 

  1. INTRODUÇÃO

Publicada no ano de 2013, a obra O tímido e as mulheres do autor Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos – o Pepetela – retrata, de maneira irônica e peculiar, o atual cenário da sociedade angolana. O foco da narrativa é a discussão das questões femininas dentro da capital Luanda, o que poderia remeter, até mesmo, a todo o país. A obra gira em torno do protagonista Heitor, um jovem historiador, aspirante na escrita literária que, desde a infância, demonstra uma clara dificuldade particular em se relacionar com indivíduos do sexo feminino. Tal fator teria aumentado quando ele se decepcionou amorosamente com uma moça chamada Tatiana, que o trocou por outro homem, sem aparentar lhe dedicar nenhuma consideração.
Essa evidência parece tornar interessante a maneira dessa personagem lidar e interpretar as várias mulheres que passam por todo o seu caminho ao longo da obra. Heitor, em seu perfil, demonstra ser um jovem curioso e questionador quanto aos principais conceitos sociais acerca do feminino que estão arraigados na cultura angolana.
De acordo com o estudioso Alberto Oliveira Pinto, “a mulher africana foi sempre encarada pelos colonos portugueses tão somente enquanto um instrumento de dominação, sobre os espaços e sobre os homens colonizados” (PINTO, 2007, p. 48). É relevante esta observação do estudioso, uma vez que, tal premissa colaborou para o relativo conceito social angolano, referente a mulher, legando ao gênero feminino o cunho sexual manipulador pejorativo, uma vez que, durante o período colonial do continente, a mulher africana se envolvia sexualmente com os brancos colonizadores europeus com o intuito de gerar filhos miscigenados, como forma de buscar uma ascensão social, o que possibilitaria a sua saída da condição de escrava. Todavia, contrariando as expectativas tradicionais angolanas, as personagens femininas principais na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2014), demonstram não apresentar tais perfis tradicionais, muito pelo contrário, perpassam um senso comum pré-definido e esperado.
No enredo da narrativa em questão, Pepetela, lança mão de várias personagens femininas que circulam pela capital angolana em processo de (re)construção, em movimentos constantes, oriundos do período pós-independente. Para esta análise, foram selecionadas as personagens Marisa e dona Luzitu, pois pela maneira como o autor engendra as histórias cotidianas e corriqueiras dessas mulheres, nos parece possível esboçar, ainda que simbolicamente, as mulheres angolanas que fazem parte do cenário central e periférico do país, colaborando ativamente para com o seu processo de modelamento urbano e social.
A encenação das mulheres de Luanda neste romance (PEPETELA, 2014) aparenta transparecer as muitas tensões que norteiam o cenário público de Luanda, que são marcadas por intensas contradições. De maneira mais intensa, tais paradoxos luandenses aparentam ser indicadas pela personagem Marisa, conforme pontuaremos posteriormente.
Senhora de um temperamento forte e valente, a personagem Luzitu é também dona de uma biografia valente e triste, atrelada a história das guerras de libertação angolana, que lhe ceifaram o marido e dois de seus filhos. Moradora da periferia abastada da cidade, Luzitu desempenha a função de zungueira [vendedora ambulante] para se manter e manter também a sua família, o que a possibilita circular pelos vários espaços suburbanos da capital Luanda. Tal atividade profissional é tradicionalmente angolana, sendo ela herdeira de uma outra atividade feminina denominada quitandeira.
Desde os tempos coloniais as mulheres quitandeiras já se destacavam em Luanda por abastecerem os navios que ali aportavam por meio do comércio de mantimentos e utensílios básicos, e por isso indispensáveis. A aproximação com a multiplicidade da população no país, bem como os navegadores que passavam pelo porto de Luanda, possibilitaram às quitandeiras se tornarem as protagonistas de uma rede de relações dentro do país, como será abordado no decorrer desse texto.
Dessa forma, as mazelas femininas são exploradas e expostas na obra em análise, em uma perspectiva inovadora, como se o autor Pepetela buscasse remeter ao passado, mas se desvencilhando dele para contar a sua narrativa. De fato, a capital Luanda tem um papel importante dentro da história, e consequentemente, dentro da literatura do país, por ter esta cidade acompanhado o processo colonial e pós-colonial de Angola. Sendo assim, nos parece correto afirmar que a escolha do autor Pepetela como ambiente predominante da obra aqui examinada (PEPETELA, 2014) não foi por acaso.
Inspirados, ainda que tardiamente, pelos ecos do movimento Negritude que eclodiram na França em meados da década de 1930, os países africanos de língua portuguesa, perceberam que havia realmente a necessidade de romper, definitivamente, com o colonizador europeu, juntando forças para lutarem, literalmente, pela liberdade tão desejada, se fazendo ouvir de uma vez por todas.
Nesse aspecto, de acordo com Tânia Macedo (2008), o povo africano elegeu a cidade colonial africana como o espaço no qual se daria a batalha fundamental contra o colonialismo europeu, “pois é na cidade colonizada que as contradições são exacerbadas ao máximo e, portanto, o terreno será fértil às mudanças” (MACEDO, 2008, p. 112). Sendo assim, Luanda passou a se impor como modelo e referência na luta pela libertação africana.
Segundo a estudiosa Maria Aparecida Ribeiro (1992), durante a década de 1950, a escrita angolana passou por um processo de conscientização histórica e literária, o que implicaria em, além da busca por uma identidade autêntica, no questionamento de valores culturais. Sendo assim, ainda segundo a pesquisadora, “Luanda surge, então, como metonímia de uma Angola onde secam as mulembas [árvore de frutos comestíveis e de grande porte] e a harmonia cede lugar à tensão” (RIBEIRO, 1992, p. 85).
Nessa perspectiva, a literatura passa a questionar antigos conflitos coloniais, incluindo nesta questão o papel da mulher em Angola, por meio de uma atitude crítica e questionadora aparente, o que proporcionou vários estudos acerca das mazelas femininas:
 
Signo da cidade em mudança e das mudanças da cidade, a mulher aparece com frequência nos textos. Seguindo as pistas será possível ver, nos desenhos de suas imagens, a terra de que o nativo vai perdendo a posse, o corpo vulnerável, que se torna arma e armadura na defesa de um corpo maior (RIBEIRO, 1992, p. 86).
 
 
É interessante observar que, apesar dos conceitos coloniais acerca do gênero feminino terem engessado a mulher angolana dentro de um estereótipo submisso, sensual e não ativo, Pepetela, na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2014), seguindo esta linhagem literária pós-colonial, traz à tona, personagens femininas fortes, independentes, promissoras, capazes e cheias de vida, coragem e determinação, como são os perfis das personagens Marisa e dona Luzitu. Tais personagens lançariam mão dos recursos sociais dos ambientes nos quais viviam, bem como as condições específicas nas quais estão inseridas para fazer a diferença no meio que frequentavam.
 

  1. MARISA E O CONCEITO DE “COISIFICAÇÃO” DA MULHER ANGOLANA

Jovem, negra, atraente e muito bem-sucedida, a personagem Marisa esbanja autonomia e consciência humana na obra em questão (PEPETELA, 2014). Dona de uma voz sedutora e uma formação profissional incomum para uma mulher em seu meio, essa personagem se destaca na obra de Pepetela por, além de outras características subjetivas, lançar mão da sua função social para dar voz a mulher angolana. Radialista, Marisa, em seu programa diário, de maneira sutil denunciava irregularidades e excessos dentro da sociedade luandense:
 
Marisa era jornalista, trabalhava numa rádio. Animava mesmo um programa matinal, com muita conversa, recados vários. Um programa alegre como ela. No entanto, não era despreocupada. E aproveitava de vez em quando para criticar atitudes, comportamentos, situações (PEPETELA, 2014, p. 13).
 
Apaixonada pela capital Luanda, onde reside com o marido, Marisa é casada com um homem incomum para o conceito popular de marido ideal. Ela se organiza de maneira genial para dar conta do trabalho que adora, e do cônjuge deficiente que aparenta amar sinceramente.
Seu marido é um homem encantador, segundo expressa a própria jornalista. Mesmo sendo mais velho do que a esposa, e portador de uma deformidade física genética que o prendia a uma cadeira de rodas, Marisa demonstra na obra de Pepetela, sentir um amor sincero, uma ternura profunda e um grande respeito pelo marido, que a completava. Tal completude seria referente ao fato de Lucrécio ser um homem com pensamentos libertários, o que talvez, Marisa não teria encontrado nos outros pretendentes que teve em seu país, nos tempos de solteira:
 
Esse era o fato o seu marido, que se moldou a si próprio, produto de muito estudo e pensamento, como alguns personagens do século XIX que ela encontrara em escritos antigos. Uma pessoa que, nunca poderia ser derrotada, pois não impunha e não se deixava dominar, pelo menos o seu cérebro (PEPETELA, 2014, p. 25).
 
Essa aparente predileção da personagem Marisa por homens com o intelecto aguçado parece correr na contramão das expectativas sociais, que se ancoram em características críticas e cognitivas menos desenvolvidas do que aquelas apresentadas por Lucrécio, sobretudo ao que concerne a questão da mulher dentro do país. O casal Marisa e Lucrécio morava na parte mais abastada da cidade, o que não impede a jovem de enxergar os problemas aparentes que a capital encena, denunciando-os em seu programa matinal.
Em meio as pautas que elaborava para apresentar seu programa de rádio, Marisa sempre procurava abarcar temas polêmicos, no entanto importantes, para com as questões mal resolvidas em Luanda. Casos de adultério, violência contra a mulher e até mesmo questões políticas ganhavam destaque em suas pautas, ricamente construídas e desenvolvidas por ela mesma. Tal façanha era realizada nas entrelinhas, uma vez que, uma discussão aberta, poderia lhe gerar sérios problemas, especialmente por se tratar de um programa popular de Luanda, que atingia a vários grupos sociais da capital angolana.
Tal premissa poderia ser exemplificada na passagem do texto de Pepetela, em que a radialista expressa a sua artimanha, fazendo assim emergir contradições luandenses. Em meio aos fatos corriqueiros ocorridos em Luanda que deve noticiar involuntariamente, destacaram-se aqueles referentes a“as molengonas das mulheres se arrastando pelas casas” (PEPETELA, 2014, p. 15). Para Marisa:
 
O termo molengona não só é injusto, pois quem trabalha na cidade como no campo são as mulheres, os maridos se limitando a barafustar no trânsito todo o dia, como me saiu com raiva, pensou a radialista, defensora declarada da igualdade no género, e praticante. Mas assim nos tratam os imprestáveis machões, os burros, que nem percebem quanto os gozos nas entrelinhas (PEPETELA, 2014, p. 15).
 
 
Embora muitos duvidassem, Marisa era uma esposa fiel, zelosa e dedicada, que não media esforços para agradar o marido e manter bem e feliz o seu casamento, que lhe era tão importante. Mesmo sendo muito cobiçada pelo público masculino que ouvia o seu programa na rádio, bem como aquele outro grupo que a cercava em seu cotidiano, Marisa não se deixava abalar, mantinha uma postura fiel e discreta frente à toda sociedade luandense, bem como aos olhos do marido Lucrécio, que demonstrava ser bastante seguro com relação a fidelidade da esposa. Todavia, Marisa desenvolvia um comportamento peculiar em companhia de determinados homens que selecionava, em locais reservados, caso não estivesse ninguém olhando.
Tanta beleza e tanta sensualidade renderam à radialista, na obra de Pepetela, algumas situações embaraçosas, e uma fama, dentre os homens, de mulher amoral. A que mais se destaca, e mais se mostra pertinente a esta análise, se refere ao fato dessa personagem ter se tornado, no enredo da narrativa, o objeto de desejo e de curiosidade dos amigos de infância, Heitor, Lucas e Antunes, devido a sua fama de mulher “acendalha” (PEPETELA, 2014, p. 40): “uma substância que arde com o primeiro fósforo e depois fica um tempo largo a se consumir até fazer o carvão todo pegar fogo” (PEPETELA, 2014, p. 40).
De acordo com os estudos de Alberto Oliveira Pinto (2007), a tentativa da mulher negra africana em subir de classe social durante o período colonial, se oferecendo para manter relações sexuais com o colonizador, fez com que a mulher recebesse, desde então o estereótipo de “coisa”, ou seja, algo maleável que poderia ser usado, sem grandes considerações ou mesmo preocupações, dando início a um processo que o pesquisador chamou de “coisificação”.
Ainda segundo Pinto (2007), já era articulado nos espaços coloniais a ideia de subalternização da mulher negra africana e a sua predisposição ao ato sexual eventual.  Além disso, os portugueses, teriam usado o sexo como um dos artifícios de colonização, como meio de manipular a população colonizada, o que teria tornado mais dificultosa a relação masculina para com a mulher dentro do continente. Tal premissa perduraria até a escrita literária contemporânea:
 
Esta concepção, mistificada até à actualidade em sectores relevantes das sociedades portuguesa e angolana veio a marcar os discursos políticos e científicos e a própria literatura colonial portuguesa posterior a 1953 (PINTO, 2007, p. 37).
 
Sendo assim, o trio de amigos Heitor, Lucas e Antunes parece lançar mão da fama de aventureira da radialista para colocar em xeque a sua moral feminina e, em consequência, a sua fidelidade ao marido Lucrécio, salientado assim, pelo menos de maneira aparente, mais uma contradição da sociedade luandense, sendo ela referente a moralidade da mulher no país. Ou seja, a sociedade cobraria da mulher uma postura correta – a de mulher fiel e submissa – mas a provocaria para que ela se destoasse desse perfil idealizado.
Dessa forma, parece-nos que tal posicionamento das personagens Heitor, Lucas e Antunes, de certa maneira, condiz com o conceito de “coisificação” da mulher em Angola, levantado por Alberto Oliveira Pinto (2007), uma vez que, além de ser mulher, Marisa era esposa de um homem deficiente e mais velho, sendo este perfil masculino o não ideal, pelo menos socialmente falando, para marido. Tais condições poderiam comprometer o seu desempenho sexual masculino, tornando assim a esposa insatisfeita sexualmente, além de tornar um transtorno a vida social de ambos, uma vez que a capital Luanda estava em processo de (re)construção. Este período da cidade dificultaria a locomoção de um cadeirante pela maior parte de sua área: “A cidade não estava preparada para facilitar a vida de ninguém com todas as faculdades, quanto mais a alguém com uma deficiência” (PEPETELA, 2014, p. 72).
Portanto, para o trio de amigos, tudo isso poderia ser mais uma motivação para a possível infidelidade conjugal de Marisa. Antunes, que também era jornalista, sabia bem o que diziam, no meio em que frequentavam, sobre Marisa: “A colega era conhecida como incendiária, punha os homens ao rubro e depois escapava, deixando-os exangues e de língua para fora” (PEPETELA, 2014, p. 40).
Para tentar descobrir se Marisa era realmente infiel ao marido, Antunes e Lucas elaboram o seguinte plano: o primeiro convidaria Marisa para gravar o áudio do livro que Heitor havia escrito, com o intuito de atraí-la até a residência onde o aspirante a escritor se escondia da vida e das decepções femininas que ela lhe trouxe. Dessa maneira, estando longe do marido e do centro da cidade que sempre a observava, Marisa poderia se mostrar como “acendalha”, conforme a crença masculina luandense. Posteriormente, os dois amigos pediram a ajuda de Heitor para concluírem o plano.
Parece-nos interessante observar que, em um primeiro momento, embora, assim como os amigos, desejasse muito Marisa, Heitor duvidou em acreditar na fama de aventureira da sua radialista preferida. Tal verdade comprovaria o seu perfil de homem angolano questionador quanto aos conceitos arraigados na cultura do país, o que o afastaria de uma grande maioria masculina luandense. Para tanto, o protagonista analisou os fatos evidentes, expondo uma possível raiz do emblema que, teria imposto à Marisa, tal fama pejorativa e não comprovada, não esclarecida:
 
Imagina, uma miúda, casada com um paralítico (…). Paralítico e muito mais velho. Claro, todos os colegas e conhecidos acham, eis a presa fácil. Ela é fiel e afasta-os a todos. Despeitados, inventam essa da acendalha. Pura maldade (PEPETELA, 2014, p. 41).
 
 
Ao dar sequência ao plano que concordou em participar com os amigos Lucas e Antunes, Heitor acaba se tornando mais um dos homens que Marisa abandona repentinamente, antes de concluir o ato sexual, o que acabou comprovando a sua fama dentre os homens luandenses. Após ler, seminua, trechos do livro escrito por Heitor para um gravador, deitada na cama do rapaz, a jornalista se deixa envolver pelo jovem escritor, mas vai embora antes de consumar totalmente a relação carnal, deixando Heitor desolado: “Gostaria muito, mas não posso… Desculpa” (PEPETELA, 2014, p. 68), foi a única argumentação que Marisa manifestou antes de partir.
Parece-nos, mais uma vez, interessante salientar a postura da moça, ante a possibilidade de trair o marido Lucrécio, quebrando uma das regras mais sagradas do casamento, em várias culturas, não só na angolana. Além disso, a intenção voluntária da moça de provocar os homens, uma vez que, a sua ida à casa do jovem Heitor para ler o livro do rapaz, tirar a roupa, permanecendo apenas com as peças íntimas e deitar na cama do escritor, já demonstraria uma postura provocativa, audaciosa, enfim, que foge do padrão angolano esperado para uma mulher casada.  Mas, qual seria a sua real intenção ao se comportar dessa forma?
Estaria Marisa tentando confrontar o universo masculino por meio da sua postura provocativa? Seria uma maneira da radialista provar, ou mostrar à sociedade angolana que a mulher não se resume a uma “coisa” que pode ser manipulada, usada e descartada simplesmente? De qualquer maneira, nos parece que, ao assediar os homens, mas não aceitar consumar o ato sexual, o que quebraria assim a regra sagrada da fidelidade no casamento, Marisa expressaria aos homens que a “testam”, que a mulher pode sim, também, dar voz a sua vontade, sem se deixar corromper, ou seja, sem burlar com a regra da fidelidade conjugal.
Afinal, ao confrontar os homens por meio da sexualidade, é Marisa quem aparenta manter o controle do jogo, o controle da situação propriamente dita. Tal posicionamento parece que a destoa do conceito de “coisificação” tradicional: “Sou mesmo uma sacana, pensou ela, se vendo a um espelho. Dissimulada, falsa, traidora. No entanto, sabia, amava Lucrécio, ele era o homem da sua vida. Complicado? Para ela, tão evidente” (PEPETELA, 2014, p. 153).
 

  1. DONA LUZITU E A IMAGEM DA “MULHER QUITANDEIRA”

De acordo com os estudos de Tania Macedo (2008), durante os anos finais da década de 1950 e os anos iniciais da década de 1960, a capital Luanda foi o “cenário por excelência dos textos angolanos” (Macedo, 2008, p. 114). Segundo a pesquisadora, neste momento da história de Angola, os escritores se esforçaram, efetivamente, em dar realmente, a um projeto nacionalista, uma forma artística, que iniciava, naquele momento, sua organização política. Tal iniciativa foi enriquecida pelo fato de que, tais autores envolvidos nesse projeto, participaram ativamente, como simpatizantes ou até mesmo militantes, de tal momento político angolano, como é o caso do próprio ficcionista Pepetela.
Esse processo, ao ganhar forma artística, resultou “na criação de um novo espaço ficcional na literatura de Angola. É dessa maneira que, insistentemente na ficção angolana, a partir desse momento, as marcas do imaginário urbano recriado conformam os textos” (Macedo, 2008, p. 114). Dessa forma, de acordo com Tania Macêdo (2008), surge uma Luanda com o perfil de cidade cuja “fronteira do asfalto”, passa a dividir os bairros da Baixa, e os musseques [mocambos], a periferia excluída da cidade. Dentro desse contexto de (re) construção da literatura angolana, personagens reais da história do país passam a ganhar destaque dentro da ficção, como é o caso da mulher quitandeira, que desde o período colonial se faz importante para a história política e social de Angola.
De acordo com a pesquisadora Selma Pantoja (2008), as “quitandas” são espaços tipicamente africanos, embora pudessem (e ainda podem) ser encontradas em outras cidades litorâneas banhadas pelo Oceano Atlântico: “Espalhadas por todo o continente, esses espaços de troca que ficaram conhecidos, na região centro-ocidental da África, e mais especificadamente entre os povos mbundu, como Kitanda” (PANTOJA, 2008, p. 174). Ainda segundo Pantoja (2008), as quitandas se referem a locais de troca, onde os viajantes marítimos e a própria população local se abasteciam com mantimentos e utensílios básicos.
Quem trabalhava nessas quitandas, ou seja, quem comercializava as mercadorias eram mulheres denominadas quitandeiras, sendo elas, em sua grande maioria, negras e pobres que trabalhavam para sustentar suas próprias famílias. A autora Selma Pantoja (2008) ressalta também que, além das quitandeiras que trabalhavam em espaços fixos – no caso as quitandas – havia também as que trabalhavam de maneiras itinerante, ou seja, sem um ponto fixo de trabalho. Estas são denominadas quitandeiras ambulantes, como é o caso da personagem Luzitu, da obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2014), conforme salientaremos a seguir.
Embora aparentam ser espaços agitados devido ao fluxo de pessoas, as quitandas, ainda segundo Selma Pantoja (2008), organizasse em um comércio urbano:
 
As quitandeiras se dividiam conforme suas especificidades: havia mulheres que só vendiam peixes, outras que ofereciam apenas comidas prontas e as que se dedicavam aos produtos da terra, como amuletos, pemba (argila branca usados em rituais religiosos), liamba (cânhamo) e a macanha (tabaco)”. Além da importância de abastecer a população e navegantes que passavam por Angola, as quitandeiras acabaram assumindo uma outra significância extremamente valiosa para como o país (PANTOJA, 2008, p. 176).
 
A conquista da independência que acarretou um novo momento angolano, ocasionou um certo desaparecimento das quitandas, e em consequência das quitandeiras. Na nova nação que se almeja construir não caberia essa figura típica dos flagelados, sobretudo pelo fato de que, os espaços nos quais se concentravam as quitandas eram considerados espaços nocivos a sociedade, por serem desagradáveis e mal cheirosos, o que fortaleceu o desejo do seu desaparecimento: “Desde o século XVII, a Câmara de Luanda tentava regulamentar esse comércio, obrigando as quitandeiras a tirar licença e cobrando multas das ilegais. No século XIX, foram erguidos prédios modernos para o funcionamento do pequeno comércio” (PANTOJA, 2008, p 176). Assim, a atividade de quitandeira não se findou aí, permanecendo nos espaços periféricos mais afastados dos grandes centros urbanos.
Ao ser rejeitado pela amada Tatiana, a personagem Heitor, na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2013), acaba se mudando voluntariamente para um local afastado do centro da cidade, como forma de se exilar do mundo: “Heitor largou a cidade, mudou mesmo nesse dia para um mato onde houvera cajueiros, cortados para o fabrico de carvão, fora da periferia construída” (PEPETELA, 2014, p. 27). Ao decidir comprar mudas de mangueira para plantar em um terreno próximo ao seu casebre, acaba conhecendo, durante uma viagem de candongueiro, dona Luzitu, personagem ilustre da obra de Pepetela, que reside justamente na periferia da cidade.
De acordo com os estudos de Maria Aparecida Ribeiro (1992), a literatura angolana ainda não registrava, até o período de reforma artística iniciado no final da década de 1950, uma mulher africana com consciência quanto a necessidade de luta, que almejava o rompimento com a alienação que lhe era imposta há tempos. Uma imagem mais comum e representativa da mulher, dentro da literatura angolana, se refere justamente a mulher quitandeira.
Antes da liberdade nacional, tal figura feminina era vista como apenas “o objeto do desejo de uma poesia que lançava a mulher africana um olhar exótico” (RIBEIRO, 1992, p. 86), quase irreal. A partir de demarcação de um projeto literário identitário, a mulher deixaria de ser em literatura um objeto, passando para a condição de sujeito ativo. Assim, a mulher quitandeira passou a demarcar um perfil bem diferente:
 
As quitandeiras dos romances, contos, novelas angolanos contemporâneos constituem verdadeiros símbolos do trabalho e da sagacidade, já que são responsáveis, não apenas pelo equilíbrio da vida familiar, pela economia doméstica, mas também pela educação dos filhos (MACÊDO, 2008, p. 126).
 
Tais considerações nos parecem poder serem atreladas ao perfil de dona Luzitu. Viúva respeitada de um antigo combatente que lutou contra os tugas, na Segunda Região, Cabinda, ela é uma personagem extremamente interessante. Traz em sua história de vida um rastro de tragédias familiares resultantes das guerras civis que assolaram Angola durante anos a fio, pois, além do marido, também havia perdido dois filhos militares em combates internos. Jacinto, o filho mais velho, era tenente, faleceu durante a guerra em Malanje no ano de 1994. Já o sargento Lírio, o seu segundo filho, foi morto em 1998, em Huambo.
De acordo com os estudos de Tânia Macedo (2008), a literatura angolana pós-colonial, passou a apresentar em suas linhas “uma galeria de tipos femininos cuja característica básica é o trabalho” (MACEDO, 2008, p. 125). Nascida na aldeia de Uíje, além de dona de casa e mãe zelosa, dona Luzitu exerce a função de zungueira na obra de Pepetela. Tal ofício se refere àquelas mulheres que praticam a zanga, uma espécie de comércio ambulante de alimentos e bebidas pelas ruas, o que lhe permiti transitar livremente por todas as áreas periféricas da cidade, bem como ter contato com várias espécies de pessoas.
Essa atividade refere-se à função de quitandeira ambulante, conforme pontuou Selma Pantoja (2008) em seu texto. Dona Luzitu é mãe de seis filhos, e procura se dedicar aos quatro que sobreviveram, dando a eles apoio moral e muita força para vencer na vida, mesmo sendo periféricos, excluídos socialmente: “Na moderna Angola, as zungueira são as herdeiras diretas [das quitandeiras], perambulando pelo confuso e variado comércio das ruas” (PANTOJA, 2008, p 176).
Tal personagem parece expor em sua postura e em sua fala, no decorrer da obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2013), força, coragem e consciência política e social não esperadas em uma mulher inserida na sua realidade pós-independente, dona de uma história tão infeliz. Além disso, dona Luzitu por transitar por entre os vários espaços de Luanda – periféricos ou não – aparenta contribuir para com a transmissão de informações, uma vez que, articula bem as ideias relacionadas aos acontecimentos cotidianos sociais e políticos de Angola. Ao dialogar com Heitor, em uma passagem da obra, acerca de uma antiga promessa política de dar casas aos antigos combatentes, a zungueira desabafa:
 
Olha meu filho. Muitos já morreram, não receberam casa nem nada. Eu, uma viúva, é que vou receber? Eles combateram, ganharam, temos a independência. Os que aproveitam dela já têm muita coisa. Que interessa os que lutaram e não têm nada ou já morreram? (PEPETELA, 2014, p. 119).
 
Ao descrever o ambiente no qual reside com sua família, dona Luzitu descreve uma união entre os vizinhos do musseque, muitos deles conterrâneos seus da mesma aldeia: “Assim nos sentimos apoiados, se houver alguma coisa. E nos ajudamos, um pouco de sal, tomar conta dos filhos pequenos, se tem um óbito, ajuda assim…” (PEPETELA, 2014, p. 119). Essa aparente pré-disposição em ajudar ao próximo de maneira desinteressada, faz parte do perfil angolano da mulher quitandeira, como bem pontuou Selma Pantoja (2008), pois, segundo ela, as quitandeiras eram solidárias para com o próximo que fosse menos afortunado que elas.
Dessa forma, nos parece saliente a aproximação do perfil da personagem Luzitu, na obra O tímido e as mulheres, com a categorização de “mulher quitandeira”, levantada por Maria Aparecida Ribeiro (1992), Selma Pantoja (2008) e por Tania Macedo (2008). Apesar de se enquadrar aparentemente ao papel tradicional de mulher submissa, com atividades ligadas à família, como casa, marido e filhos, dona Luzitu se destaca, não só por demonstrar uma profunda força de vontade para trabalhar, sustentando assim a sua família, como também por se mostrar aberta e consciente quanto a realidade de Angola, bem como as questões femininas das quais também está submetida, mas não se deixa abalar.
 

  1. CONCLUSÃO

A escrita singela e irônica de Pepetela na obra O tímido e as mulheres (PEPETELA, 2013) permite a encenação de personagens femininas que se destoam do perfil da mulher antes da independência angolana. Fazendo jus a sua geração de intelectuais pós-independentes e sedentos por novas reflexões, novos olhares nacionais, Pepetela foi muito feliz ao engendrar a sua narrativa, tendo como cenário predominante a capital Luanda.
Tanto Marisa quanto dona Luzitu são mulheres que apresentam perfis comuns, ambas são donas de casa, zelam pelo bem-estar da família e amam as suas rotinas. Todavia, não representam os estereótipos coloniais, questionados pela escrita do país após o rompimento com o colonizador europeu:
 
As mulheres da ficção da literatura angolana contemporânea caracterizam-se principalmente pela luta incessante pela sobrevivência, por uma profunda ligação à família e aos valores da ética e do trabalho (Macedo, 2008, p. 125).
 
Marisa, mesmo tendo consciência de que a sua condição humana a denunciarei socialmente em Angola, não se deixou intimidar, estudou e se formou em comunicação para poder dar voz a sua classe marginalizada duplamente pela sociedade, até então pouco ou nada representada no centro da capital. Todavia, não abriu mão de se casar com o homem que escolheu, embora toda a sociedade – inclusive a sua própria família – fosse contrária à sua união com Lucrécio, um cadeirante mais velho que ela.
A jornalista gostava de provocar os homens por meio de uma espécie de jogo de sedução no qual ela mesma ditava as regras. Marisa aparentava lançar mão do desejo sexual feminino, bem como os pensamentos masculinos acerca da mulher, relativos ao conceito de “coisificação”, talvez, para mostrar a eles o contrário. Sendo assim, a mulher poderia, com certeza, ser uma excelente esposa, profissional bem-sucedida, consciente e moralmente feliz, sem se deixar corromper por uma classe que se coloca na condição superior de dominante. Tais considerações parecem dialogar com os estudos de Tânia Macedo (2008), acerca da escrita angolana pós-independente sobre o gênero feminino:
 
São personagens positivas, e rompem definitivamente com os estereótipos forjados pelo colonizador sobre a lascívia feminina, a partir de um imaginário em que ganha preponderância a nudez dos corpos e uma suposta libertinagem sexual que substitui a inteligência (MACEDO, 2008, p. 125).
 
Já Dona Luzitu, com todas as suas limitações sociais e humanas, não se deixa abater, luta pela sua sobrevivência, bem como a sobrevivência da sua família, estereotipando um perfil literário de mulher quitandeira, tradicionalmente conhecida na escrita angolana:
 
Provavelmente, a quitandeira seja a personagem que, de maneira mais completa, encarna a figura materna, articulando as qualidades míticas da Mamã africana em seus aspectos de defesa da prole da família (MACEDO, 2008, p. 126).
 
 
Pelos musseques angolanos, dona Luzitu transita fazendo as suas zangas, possibilitando o esboço de uma área marginalizada, mas imensamente rica culturalmente, além de contribuir com o trânsito de informações interessantes aos moradores da capital Luanda:
 
Assim, por meio da representação literária do musseque como centro da cidade da escrita, assiste-se não apenas a uma escolha estética por parte dos produtores culturais, mas também à construção de um completo modelo ideológico, caracterizando uma imagem do mundo própria, nacional (MACEDO, 2008, p. 122).
 
 
E assim a capital Luanda serve de cenário para inúmeras histórias de mulheres nobres, que colaboram para com o seu crescimento de forma ativa e positiva. Não se deixando abalar, nem manipular por velhos conceitos que em nada se aproximam aos novos desejos angolanos, principalmente no que se refere ao papel da mulher dentro da sociedade.
 
REFERÊNCIAS
MACEDO, Tania. Luanda, cidade e literatura. São Paulo: Editora UNESP; Luanda (Angola): Nzila, 2008.
PANTOJA, Selma. Quitandas e quitandeiras: história e deslocamento na nova lógica do espaço em Luanda, In Atas da III Reunião Internacional de História de África, Lisboa, 2000, p 175-186.
PEPETELA. O tímido e as mulheres. São Paulo: Editora Leya, 2014. [1ª ed. 2013].
PINTO, Alberto Oliveira. O colonialismo e a coisificação da mulher no cancioneiro de Luanda, na tradição oral angolana e na literatura colonial portuguesa. In: MATA, Inocência; PADILHA, Laura Cavalcante (Orgs.). A mulher em África – vozes de margem sempre presente. Lisboa: Colibri, 2007, p. 35-49.
RIBEIRO, Maria Aparecida. A mulher e a cidade: uma leitura da narrativa angolana, Revista Crítica de Ciências Sociais, no 34, fevereiro de 1992, p. 85- 97.





Bio fornecida pelo palestrante.

CONSTRUÇÃO COMPLEXA DA IDENTIDADE INDIVIDUAL EM MEIO Á ESFERA SOCIAL – ANNE FRANK COMO EXEMPLO – Juliane Della Méa




CONSTRUÇÃO COMPLEXA DA IDENTIDADE INDIVIDUAL EM MEIO Á ESFERA SOCIAL – ANNE FRANK COMO EXEMPLO
 
Juliane Della Méa
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI – Campus de Frederico Westphalen
 
 
RESUMO: O artigo propõe analisar a narrativa ou discurso vinculado pelo filme Escritores da liberdade (EUA, XXX), dentro da temática do reconhecimento e aceitação da identidade e da diferença, através do diálogo entre gerações e socialização entre as diversidades sociais, culturais, religiosas e econômicas. Por ter como aporte obra bibliográfica O diário de Anne Frank (publicado em 1947), memórias de uma garota judia perseguida durante a Segunda Guerra Mundial, o filme identifica a luta de uma professora para decompor teorias curriculares envolvidas na prática docente, a partir das categorias: função da escola, conhecimentos, relação de poder, organização curricular, postura professor/aluno, espaço físico, dentre outras. Assim, reflete sobre questões sociais de liberdade presentes no âmbito educacional, e, portanto, parte da complexidade da identidade criada através da diferença.
 
Palavras-chave: Identidade. Educação. Análise fílmica.
 
ABSTRACT: This article analyzes the narrative or discourse employed in the film Writers of Freedom (USA, XXX), which sets it in the context of the subject of knowledge and acceptance of identity and difference. It shows that these are acquired through the dialogue between generations and the socialization among the several existing social, cultural, religious and economic diversities. Having as departing point the book The Journal of Anne Frank, the memories of a girl written during World War II and published in 1947, the film draws a comparison of its theme with the fight of a teacher to contest some curricular theories that rule the practical work of a teacher, according to the following categories: the function of school, the question of knowledge, power relations, curricular organization, the relationship teacher/pupil, the physical space of school, among others. Therefore, the film discusses questions related to freedom that are relevant in the realm of schooling and education, and reflects on the complexity of identity that is created through the notion of difference.
 
Keywords: Identity. Education. Film analysis.
 
Minicurrículo: Graduada em Letras Espanhol pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI – Campus de Frederico Westphalen. Professora da rede pública e privada do Estado do Rio Grande do Sul. Especialista em Gestão Estratégica de Pessoas. Especialista em Literatura Brasileira.  Mestranda do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Letras pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI – Campus de Frederico Westphalen.
 
 
CONSTRUÇÃO COMPLEXA DA IDENTIDADE INDIVIDUAL EM MEIO Á ESFERA SOCIAL –
ANNE FRANK COMO EXEMPLO
 
Juliane Della Méa
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI – Campus de Frederico Westphalen
 
 
INTRODUÇÃO
A busca da identidade é um tema de ordem e fator social, cultural e coletivo que envolve identificações externas em um confronto de si com o outro para que a pessoa se reconheça como sujeito uno, desestabilizando quadros de referência que oferecem aos indivíduos um lugar estável e definido em seu meio social. Consequentemente, ocorre um choque entre as representações socialmente definidas e a identificação pessoal do sujeito, o qual é diretamente ligado às alterações sociais e culturais, que provocam seu deslocamento individual.
A fase pueril, dentre as demais na evolução humana, é a mais atingida, pois a criança está mais suscetível às transformações que afetarão a construção e a definição da sua identidade. Essa etapa se concretiza, ao longo da vivência, como uma criação social sensível a mudanças, sempre que a sociedade sofra transformações estruturais amplas, tendo suas definições alteradas. A ideia de infância, surgida apenas por volta dos séculos XVI e XVII, não é a mesma dos dias atuais.
Na Idade Média, segundo Philippe Ariès (2006, p. 99):
 
“(…) o sentimento de infância não existia, (…) assim que a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante da sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes” (ARIÈS, 2006, p. 9).
 
À medida que a sociedade cresceu economicamente, a distinção entre adulto e criança surgiu, marcada por vários acontecimentos: o modo de se vestir, a linguagem, a personalização do nome como identidade própria, a expansão da escolaridade, o surgimento da própria literatura e também o modelo de família moderno, a qual foi encarregada de novas funções educacionais e religiosas. Esses fatores criaram uma nova classe social: a infância, detentora de suas características próprias.
Mesmo com toda a evolução social, na contemporaneidade, ainda ocorre a invisibilidade da infância, quando esta se torna projeção de expectativas dos pais, e a criança é vista como incapaz de agir por si própria em um mundo cercado de obstáculos. Sem participação social efetiva, sob o argumento de que a criança necessita de proteção, a velha teoria paternalista é enfatizada, e as crianças passam a ser vistas como seres humanos em miniatura desprovidos de especificidade própria e originalidade.
A aproximação entre o mundo adulto e o mundo infantil é resultado da realidade pós-moderna, na qual vivemos atualmente, como afirmam Steinberg e Kincheloe:
 
Esta nova realidade brinda os adultos com um problema complexo que poderia ser chamado “O dilema da infância pós-moderna.” O acesso das crianças contemporâneas à cultura infantil comercial e à cultura popular não apenas motivou a se tornarem consumidoras hedonistas, mas também lhes minou a inocência (Steinberg e Kincheloe, 2001, p. 33).
 
 
A concepção de infância, para os teóricos citados, é uma criação da sociedade, e está sujeita a mudar sempre que houver transformações sociais e econômicas. Perante essas circunstâncias, a criança busca a definição de sua identidade: ora é parte do universo adulto e autossuficiente, ora é frágil e dependente desse mundo. O jeito de ser infantil, que busca na fantasia e na imaginação a invenção de si, encontra pouco reconhecimento no mundo amadurecido que instiga precocemente a adultização, através da mídia que a bombardeia com publicidades para gerar um consumo desenfreado de bens supérfluos como forma de obtenção de prazer, da cauterização da objetividade, da reprodução de certos conceitos e valores.
A família é a primeira instituição para a qual a criança se reporta, e cabe a ela edificar a responsabilidade sobre a criança como indivíduo autônomo e crítico, buscando estruturar sua adaptação no mundo. Também nesse meio a criança perde suas possibilidades de ser infante quando recebe as projeções dos adultos, que se encontram nos seus anseios e frustrações.
Com menção ao relato de uma garota – O diário de Anne Frank (1947) – que, refugiada durante parte da Segunda Guerra Mundial, num sótão, com a família, por ser judia, demonstra orgulho de sua origem e coragem para seguir enfrentando os desafios impostos pela vida, até serem descobertos. O filme Escritores da liberdade (EUA, XXX), que também existe em forma de livro (EUA, 1999), é uma produção cinematográfica que apresenta as contradições da sociedade contemporânea através da vida da professora Erin Gruwell (Hillary Swank) e sua luta por uma educação mais justa em meio ao caos das relações sociais e humanas, a submissão destas ao capital, as semelhanças e resultados de um sistema educacional ultrapassado com o poder real sobre o desenvolvimento dos alunos e, logo, da sociedade.
A história se passa por volta de 1992, em Los Angeles, em um contexto de guerra urbana nos bairros de periferia, causado por gangues e motivado por tensões raciais, que definiam grupos isolados. A escola é conhecida por ser um local de intolerância, de violência e de diversidade de coligações juvenis que resistem ao ensino tradicional vigente. Estruturalmente, o referido filme se divide em três momentos básicos: o primeiro momento mostra a alegria de Erin Gruwell em poder se dedicar à atividade de docência, após ter estudado e se especializado para ministrar aulas de Literatura, que era um de seus sonhos, sua identidade idealizada, exposta no contexto real. O segundo momento destaca todas as frustrações e desafios pelos quais ela passa na tentativa de realizar um trabalho docente significativo, sua identidade sendo modificada pelo meio e pela identidade dos alunos quando se encontravam, formando seus princípios, valores e diferenças. O terceiro momento enfatiza as conquistas alcançadas com a turma, os alvitres conquistados, diante do seu esforço, os benefícios partilhados quando se respeita e se é respeitado dentro de suas limitações e opiniões, religiões e origens, culturas e credos, onde seu significante maior é a palavra  conviver (viver com) o outro), “Quando eu os ajudo a darem sentido a suas vidas, tudo na minha se completa. Quantas vezes se consegue isto?” (Professora Erin Gruwell).
Perfazendo o papel de mediadora, a professora se completa, transfere as conquistas dos seus alunos para si, como complemento e avaliação de sua própria vivência, realçando a importância e nobreza da profissão do educador para com a formação da sociedade em geral, fazendo os incrédulos aceitarem e confiarem em que mudanças são possíveis quando concebidas com delicadeza, reflexão, respeito e amor.
Outro aspecto a ser salientado é que, por meio deste processo educacional (fixação da própria identidade), os educandos passam a serem construtores de conhecimentos e de sua própria história, capazes de realizar as modificações que lhe são possíveis, escolhendo a direção que cada indivíduo quer dar a sua vida.
As produções literárias dos alunos reais resultaram em um livro – O diário dos escritores da liberdade – lançado em 1999, nos Estados Unidos.
 
COMPLEXIDADE DA IDENTIDADE x EDUÇÃO E LIBERDADE
Com o passar dos tempos é sensato propor a construção e a contribuição de novos aspectos culturais e históricos dentro do meio social em que estamos inseridos. Também é comum a percepção de que os jovens constituem uma geração na medida em que vivem em determinado tempo cronológico, se diferenciando dos demais. A cultura entre os homens se transmite de uma geração a outra pela educação, ou seja, todo contato humano é educativo, se promove o bem e a integração; e é (des)educativo se dele resultam o mal e a desintegração. A educação dissemina a cultura, porém esta vai sofrendo adaptações e mudanças através dos tempos, resultando em conflitos entre as gerações. Certamente que “sobreviventes” dos anos 1970 e 1980, quando, nos Estados Unidos, os automóveis vinham sem cadeirinhas de segurança, a água nem sempre era filtrada, as casas ficavam destrancadas e as crianças iam para a escola sozinhas, não têm os mesmos pensamentos e opiniões dos nascidos no século XXI. No entanto, se valores morais como respeito, prudência, paciência, pontualidade foram repassados, estarão presentes nesta nova geração, o que  não evitará divergência de opiniões, mas estas serão encaradas  com facilidade. Porém, se o meio não proporcionar esperança de melhoria, de aperfeiçoamento, de crescimento, esses valores serão considerados descartáveis.
A afirmação da identidade e a marcação da diferença implicam, sempre, as operações de incluir e de excluir. Dizer “o que somos” significa também dizer “o que não somos”. A identidade e a diferença se traduzem, assim, em declarações sobre quem pertence a um grupo e quem não pertence a ele, portanto sobre quem está incluído e quem está excluído. Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora. A identidade está sempre ligada a uma forte separação “nós” e “eles”. Essa demarcação de fronteiras, essa separação e distinção, supõem e, ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam relações de poder.
O processo de classificação é central na vida social, o maior, o menor; o educado, o irreverente; o sábio e o ingênuo. Ele pode ser entendido como um ato de significação pelo qual dividimos e ordenamos o mundo social em grupos e em classes econômicas. A identidade e a diferença estão estreitamente relacionadas às formas pelas quais a sociedade produz e utiliza classificações – dividir e classificar significa, neste caso, também hierarquizar; fato apresentado no filme através da divisão das turmas.
Bem como a definição da identidade depende da diferença, seja essa de ordem econômica, ética, cultural, a definição do normal depende da definição do anormal. Aquilo que é deixado de fora é sempre parte da definição e da constituição do “dentro”. A definição daquilo que é considerado aceitável, desejável, natural é inteiramente dependente da definição daquilo que é considerado abjeto, rejeitável, antinatural. A identidade hegemônica é permanentemente assombrada pelo seu “outro”, sem cuja existência ela não faria sentido.
Desta forma, o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles procedimentos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os métodos que tendem a subvertê-la e a desestabilizá-la. Processo semelhante ao que ocorre dentro da escola, quando a hierarquia da direção, nos Estados Unidos, dividindo as turmas pelo poder aquisitivo, rendimento escolar e nacionalidade, faz prevalecer esses valores como mecanismos de ordem social natural e adequada.
Conceber a separação conveniente ao meio – e, por extensão, ao sistema de significação governamental como uma estrutura estável e determinada, desenvolvendo-a, é representar um sistema que negligencia a formação social do cidadão. A identidade e a diferença são estreitamente dependentes da representação, e é por meio desta que se concebe, se compreende e se diferencia, adquirindo sentido. É através das diferenças instauradas que se torna possível pensar na produção de novas e renovadas identidades.
Nessa perspectiva, iniciamos a reflexão complexa e abrangente sobre a identidade individual, visto que a mesma não é homogênea, definitiva e acabada. Ela está diretamente ligada ao outro, ao sistema e ao poder.
Ao analisar o objeto midiático – filme – constata-se, num primeiro momento, que o “outro” já está com um “pré-conceito” formado, ao abordar a turma que é concedida à professora Gruwell para a prática pedagógica que segundo a escola é a pior turma existente, pois a própria instituição educadora que deveria ter a obrigação de proporcionar a inclusão social de forma igualitária, aplica o método de seleção, onde se dividem as turmas entre os melhores e os piores alunos. Isso faz, nos Estados Unidos, com que os latinos, os cambojanos e os negros entrem em conflito cultural constante com os brancos, uma vez que, a instrução incutida na identidade de sobrevivência dos alunos requer o afastamento e discriminação entre si.
De maneira geral a professora não se foca em nenhuma etnia especialmente, mas procura mostrar que todos, ao mesmo tempo em que são diferentes, com culturas diferentes, são iguais como vitimas dos preconceitos, intolerância ou da violência das gangues. Teríamos aqui uma espécie de crise, segundo Arendt:
 
Uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-formados. Uma atitude (como essa) não apenas aguça a crise como nos priva da experiência da realidade e da oportunidade por ela proporcionada à reflexão (2003, p. 25).
 
 
Essa divisão característica da metodologia tradicional e do preconceito vem ao encontro do tradicionalismo exercido na educação da época. Se a professora agisse de forma tradicional como a relação que era apresentada pela escola para com os alunos, contribuiria para o colapso educacional. Porém, a diferença está justamente na prática docente exercida pela professora Gruwell, incutida dos saberes da teoria crítica curricular e aplicada no cotidiano da sala de aula. Mesmo sem o aval da direção, ela busca a emancipação dos seus educandos, como indivíduos críticos, respeitando os saberes pré-existentes de cada indivíduo. Visível na cena em que ela ensina poesia e o conceito de rima interna com uma música de rap, gênero musical apreciado pelos jovens da turma, mostrando, assim, que todos gostam das mesmas músicas, possuem os mesmos discos e enfrentam diariamente os mesmos problemas, independente da sua raça.
É precisamente essa noção que está no centro da conceituação linguística de diferença – a identidade e a diferença têm que ser nomeadas. É apenas por meio de atos de fala que instituímos a identidade e a diferença como tais, pois as mesmas são ativamente produzidas, elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas do mundo cultural e social, somos nós que as fabricamos, nesses contextos. Dizer isso não significa, entretanto, dizer que elas são determinadas pelos sistemas discursivos e simbólicos que lhes dão definição. Ocorre que a linguagem, entendida aqui de forma mais geral como sistema de significação, é, ela própria, uma estrutura instável, e é precisamente isto que teóricos pós-estruturalistas como Jacques Derrida vêm tentando dizer nos últimos anos.
Essa indeterminação da linguagem decorre de uma característica fundamental do signo. O signo é um sinal, uma marca, um traço que está no lugar de outra coisa, a qual pode ser um objeto concreto, um conceito ligado a um objeto concreto ou um conceito abstrato; ele não coincide com a coisa ou com o conceito. Na linguagem filosófica de Derrida, poderíamos dizer que o signo não é uma presença, ou seja, a coisa ou o conceito não estão presentes no signo, mas a natureza da linguagem é tal que não podemos deixar de ter a ilusão de ver o signo como uma presença, isto é, de ver no signo a presença do referente ou do conceito, e é a isso que Derrida chama de “metafísica da presença”. Essa “ilusão” é necessária para que o signo funcione como tal: afinal, o signo está no lugar de alguma outra coisa. Embora nunca plenamente realizada, a promessa da presença é parte integrante da ideia de signo. Em outras palavras, podemos dizer, com Derrida, que a plena presença (da “coisa”’, do conceito) no signo é indefinidamente adiada. É também a impossibilidade dessa presença que obriga o signo a depender de um processo de diferenciação, de diferença. O autor acrescenta a isso, entretanto, a possibilidade do traço: o signo carrega sempre não apenas o traço daquilo que ele substitui, mas também o traço daquilo que ele não é, ou seja, precisamente da diferença. Isso significa que nenhum signo pode ser simplesmente reduzido a si mesmo – à identidade.
Em suma, a identidade e a diferença são tão indeterminadas e instáveis quanto à linguagem da qual dependem: o poder de definir. A identidade e a diferença são o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva. A identidade, tal como a diferença, é uma relação social, isso significa que sua definição – discursiva e linguística – está sujeita a vetores de força, a relações de poder. Elas não são simplesmente definidas; elas são impostas, não convivem harmoniosamente, lado a lado, em um campo sem hierarquias; elas são disputadas.
Apesar de o sistema da época ser marcado pelo regime de poder dominante europeu, com seu currículo rígido e inabalável, no qual a ordem, a relação de autoridade, a submissão, a burocracia e, principalmente, a impessoalidade levam as pessoas a desconsiderarem os jovens nas suas características individuais, ao seguirem estereótipos. No filme Escritores da liberdade, estes alunos questionam exatamente isto, o “porque” de estarem estudando aquilo, para que serve e chegam a afirmar que nada daquilo irá mudar a vida de qualquer um deles ali. O aluno é alienado por a escola impedir a espontaneidade no pensar e no modo de lidar com as coisas desses educandos. O filme destaca a flexibilidade da professora Gruwell ao ministrar suas aulas, tornando-as atraentes, participativas e construtivas dentro de suas habilidades específicas (literatura, leitura e escrita), internalizadas dentro da identidade individual de cada aluno, tornando-o um ser pensante, investigativo, curioso e protagonista de sua própria história. Nessa ótica, todo e qualquer sistema se submete à avaliação alheia e restrita de caráter individual e social, enquanto práticas inovadoras e adequadas recuperam o homem integralmente – razão e sentimento, conhecimento e emoção.
Sem esquecer que a instituição escolar é política e faz parte de um segmento do sistema de poder, esses poderes dentro da escola são hierárquicos – dentro da sala de aula o professor é detentor do domínio supremo. Possuidora de uma clientela peculiar, a professora do filme analisado em momento algum demonstra autoridade; ao contrário, através da reflexão, a educadora se mostra construtivista na relação professor e aluno, aberta ao ponto de vista dos mesmos, propiciando uma troca de saberes e análises conjuntas, criando desta forma uma relação horizontal que mostra uma docente empenhada na prática transformadora, que busca desmistificar e questionar, junto com os alunos, sempre orientando na busca do conhecimento, sem esquecer-se de estreitar vínculos afetivos em meio a tamanho caos.
Segundo Silva:
 
(…) pedagogia significa precisamente diferença: educar significa introduzir a cunha da diferença (…). É nessa  possibilidade de abertura para um outro mundo que podemos pensar na pedagogia como diferença (2000, p. 65).
 
 
Este conceito vem afirmar que a instituição escolar é um lugar político e, como tal, rege e é regida por relações de poder. Em outras palavras, a linguagem, as táticas de organização e de classificação, os distintos procedimentos das disciplinas escolares são, todos, campos de um exercício desigual de poder. O currículo, os regulamentos, os instrumentos de avaliação e o ordenamento dividem, hierarquizam, subordinam, legitimam ou desqualificam as pessoas. A meta não é “moldar” os estudantes para que sejam todos desse jeito e não de outro, e sim acolher as diferenças, as diversidades de identidades. Ver e entender o outro como outro, conservando o que lhe é próprio, a sua diferença: o outro é o outro gênero, a outra cor, outra sexualidade, outra raça, outra região, outra nacionalidade, outra religiosidade, o outro corpo… A escola como lugar legítimo de ensino deve procurar estabelecer um currículo que trabalhe essas identidades – construindo um currículo pluri e multicultural, que permita o enriquecimento de saberes.
 
A ESCOLA E SEU REAL PAPEL SOCIAL
Na concepção teórica de Tomaz Tadeu Silva, a diferença é a marca para o reconhecimento  de uma identidade e esta é tanto simbólica quanto social. Um grupo social, cultural, ético, político… apenas existe porque ele é “diferente” em relação aos demais. No entanto, é um tanto frustrante admitir a exclusão para nos “firmarmos” em uma única identidade excluindo elementos de outra. Por conta da globalização, muitas vezes, os valores e culturas se perdem em meio à imensa ânsia do imediatismo em ser ou permanecer a um estereótipo criado e ou idealizado por determinado grupo social (crise de identidade).
Parece difícil que uma perspectiva que se limita a proclamar a existência da diversidade possa servir de base para uma pedagogia que coloque no seu centro a crítica política da identidade e da diferença. Na perspectiva da diversidade, a diferença e a identidade tendem a ser naturalistas, são aceitas como dados ou fatos da vida social diante dos quais se deve tomar posição. Em geral, a posição socialmente aceita e pedagogicamente recomendada é de respeito e tolerância para com a diversidade e a diferença. Segundo José Luis Pardo, “respeitar a diferença não pode significar deixar que o outro seja como eu sou ou deixar que o outro seja diferente de mim tal como sou diferente (do outro), mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu…”. Ou se pode reformular as palavras de Maurice Blanchot, quando falamos de pedagogia como diferença e identidade – saber acolher o outro, com sua diferença, conservando sua afirmação própria.
As afirmações sobre diferença também dependem de uma cadeia, em geral oculta, de declarações negativas sobre identidades. Assim como a identidade depende da diferença, a diferença depende da identidade. Identidade e diferença são, pois, inseparáveis. Em geral, consideramos a diferença como um produto derivado da identidade. Nesta perspectiva, a identidade é a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. Isto reflete a tendência a tomar aquilo que somos como sendo a norma pela qual descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos. Por sua vez, na perspectiva desenvolvida, identidade e diferença são vistas como mutuamente determinadas, numa visão mais radical. Entretanto, seria possível dizer que a diferença vem em primeiro lugar. Para isso seria preciso considerar a diferença não simplesmente como resultado de um processo, mas como o processo mesmo pelo qual tanto a identidade quanto a diferença (compreendida, aqui, como resultado) são produzidas.
Esse aspecto é explicitado no filme, apesar das dificuldades encontradas pela professora Gruwell, que não desiste e se desdobra para alcançar seus objetivos de transformação positiva em seus alunos, mesmo tendo diante de seus olhos o mundo violento. Assim, ela abre portas para a imaginação e criação próprias de oportunidades onde jamais se acreditaria existir.
Ensinar, ou melhor, suscitar a aprendizagem é uma tarefa bastante sutil. Envolve muita sensibilidade para consigo e com o outro, a busca da percepção consciente das dinâmicas da relação e a permissão interna para se relacionar. Relacionar-se com outra pessoa implica entrar em acordos, conflitos, impasses, identificações e ter a vivência de diversas emoções prazerosas, (des)prazerosas e angustiantes, mas, com a possibilidade da realização de um encontro muito maior consigo e com o outro, favorecendo, assim, o auto e o heteroconhecimento. Assim fez Erin, que passou a ver seus alunos com seu próprio olhar, como jovens capazes que precisavam de credibilidade e desafios e não como meras estatísticas. Ela permitiu que a identidade de cada um fosse desenvolvida e ampliada, sem receio, firmando-a dentro do contexto social vivenciado.
Com a identidade restabelecida, a metodologia do “aprender fazendo” promove um sentido de significado ao fato (passeios de estudos, realizados pela turma), de maneira que o educando possa introduzi-lo em seu modo de ser e viver. Esse ambiente desafiador provoca o desequilíbrio, para só depois, então, se dar o autoconhecimento.
É apenas dessa forma que a escola pode contribuir para o social, quando coloca seu aluno como centro do processo e pronto para conduzir para novas experiências, onde é responsável pela autorrealização das mesmas, proporcionando uma construção saudável de cidadania.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A formação de um sujeito ativo e atuante, que luta pelos seus ideais e busca uma formação melhor dentro da sociedade, a partir da teoria critica, está diretamente vinculada à escola. Esta é o local que leva o aluno a refletir sobre a diversidade cultural, promovendo o respeito mútuo e a igualdade entre todos os cidadãos, questionar os padrões sociais e políticos que formam o nosso país, abandonar o preconceito, o comodismo e o medo da mudança. A iniciativa de formar uma escola disposta a mudar a sociedade, voltada com o olhar para a emancipação do indivíduo, uma escola que vai além das experiências dos educando dentro de suas aprendizagens, requer grande trabalho e por sequência batalhas e desafios.
Essa é a primeira identidade capturada, representada e fortalecida no filme, a identidade docente da professora, mulher que lida com  múltiplas e complicadas combinações de identidades sociais que estão presentes nas disposição escolar e que fazem parte do currículo, caso se pretenda uma educação que proporcione o convívio, em igualdade, de diversas identidades e diferenças.
Quando a educação for entendida como conservação do legado cultural, ligação entre passado e presente, possibilidade de revolução, no sentido de mudar, de transformar; permitindo-se que estudantes (e professorado) identifiquem suas múltiplas identidades, se conhecendo e tornando o mundo compreensível, em sua complexidade, acreditando fazer parte dessa realidade, que lhe és própria, a educação será a liberdade real buscada por todo ser humano.
Pedagogicamente falando, a teorização cultural contemporânea sobre identidade e diferença, não aborda o multiculturalismo na educação simplesmente como uma questão de currículo, a diversidade é um dado – da natureza ou da cultura. A multiplicidade é um movimento que reafirma o idêntico, o respeito a esse idêntico, não pode significar querer que ele seja igual ou compactue das mesmas atitudes.
Em certo sentido, pedagogia significa precisamente diferença: educar significa introduzir a diferença em um mundo que sem ela se limitaria a reprodução. É nessa possibilidade de abertura para o outro que podemos pensar como diferentes.
 
 
REFERÊNCIAS
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
ARENDT, Hannah. A crise na educação. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2003. p. 221-247.
ARROYO, Miguel G. Políticas educacionais e desigualdades: à procura de novos significados, Educação & Sociedade, Campinas, v. 31, 2010.
ARROYO, Miguel G. Indagações sobre currículoeducandos e educadores: seus direitos e o currículo. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007.
XVI Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e III Congresso Internacional de Ciências do Esporte, 2009, Bahia, Anais Escritores da liberdade: A escola contemporânea na linguagem cinematográfica. Bahia: UEM, 2009.
DERRIDA, Jacques. Posições. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
GROSSI, Esther Pillar. A contribuição da Psicologia na educação. In: Contribuições das Ciências Humanas para a Educação: a Psicologia, Em Aberto, Brasília, ano 9, nº 48, out/dez. 1990: p. 45-50.
SILVA Jr., P.; MOREIRA, A. Periferias, Sexualidades e Educação para a Sexualidade: desafios para as práticas curriculares. In: SOBREIRA, H. (Org.). Educação, cultura e comunicação nas periferias urbanas. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2010. p. 21-39.
STEINBERG, Shirley R. & KINCHELOE, Joe L. Cultura infantil: a construção corporativa da infância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p.11-49; p. 135-154.





Bio fornecida pelo palestrante.

A ONDA QUE NÃO SE DEIXA LER: COMENTÁRIO SOBRE UM CONTO DE CALVINO – Samuel Rezende




A ONDA QUE NÃO SE DEIXA LER: COMENTÁRIO SOBRE UM CONTO DE CALVINO

 

Samuel Rezende

Universidade Federal de Minas Gerais

 
Resumo: Inicialmente, este ensaio discute o conceito de simulacro enquanto resistência a um modelo fixo de representação e identidade. Em seguida, encaminha uma reflexão do filósofo Gilles Deleuze sobre a divisão de Platão, naquilo que contribui para um recalque do simulacro, visto que o intuito de Platão era a seleção da imagem que se assemelha à Ideia. Assim, o simulacro deve surgir enquanto resistência ao semelhante, colocando-se como a própria dessemelhança, cujo movimento nunca é o mesmo, mas sempre diferente. O conceito de simulacro é então ligado ao de eterno retorno, àquilo que, contraditoriamente, sempre se torna outro. Finalmente, tendo como pano de fundo tal reflexão teórica, o artigo comenta o conto de Italo Calvino “Leitura de uma onda”, do livro Palomar.
 
Palavras-chave: Simulacro; Diferença; Calvino; Deleuze.
 
Abstract: This essay initially discusses the concept of simulacrum as resisting to the fixed model of represenation and identity. Then, it follows a reflection on the philosopher Gilles Deleuze on the division in Plato, when it contributes to the idea of repression of the simulacrum, given that Plato’s intention was the selection of images similar to the Idea. So, simulacrum must be resist the similar, placing itself as its own dissmilitude, whose movement is never the same, but always diferente. The concept of simulacrum is then linked to that of eternal return, something that, contradictorily, always becomes another. Finally, having these discussions as its background, the article comments the short story “Leitura de uma onda”, from the book Palomar, by Ítalo Calvino.
 
Key-words: Simulacrum; Difference; Calvino; Deleuze
 
Minicurrículo: Samuel Rezende é aluno do mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde realiza pesquisa, financiada pela CAPES sobre a poética do mineiro Eloésio Paulo. Graduou-se em Letras pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), onde também realizou pesquisas de iniciação científica, “Mímesis na história: uma proposta de síntese” e “Modernidade e pós-modernidade: uma aproximação”, e conclusão de curso, “Leituras simbólicas do feminino em três poetisas hispano-americanas”.
 
 
A ONDA QUE NÃO SE DEIXA LER: COMENTÁRIO SOBRE UM CONTO DE CALVINO
 
Samuel Rezende
Universidade Federal de Minas Gerais
 
 
I – Delineamento teórico
As críticas à metafísica, à verdade, à representação e à identidade são alguns dos temas que, na segunda metade do século XX, ascenderam ao primeiro plano de uma parte da reflexão filosófica. Tais críticas deram ensejos a novas interpretações e lançaram um novo olhar sobre as fundações do pensamento metafísico. Diante desse quadro, o pensamento de Platão, cujo primado é a fixação da verdade e da identidade, tornou-se o ponto de partida de alguns pensadores da filosofia da diferença.
Entre tais pensadores, Gilles Deleuze foi um dos que retornou a Platão, asseverando que “o projeto platônico só aparece verdadeiramente quando nos reportamos ao método da divisão” (DELEUZE, 2011, p. 259), ou seja, a filosofia de Platão não tinha por intenção a divisão dos gêneros em espécies. Na verdade, a teoria das Ideias buscava distinguir o puro do impuro, o verdadeiro do falso:
O objetivo da divisão não é dividir um gênero em espécies, mas selecionar linhagens, ou seja, distinguir o puro e o impuro, o autêntico do inautêntico. A dialética platônica não é da contradição, mas da rivalidade (DELEUZE, 2011, p. 260).
No quadro da metafísica platônica, o mundo inteligível é aquele que se liga à pureza e ao autêntico, e o mundo sensível é aquele que comporta as impurezas e as inautenticidades. Nesse marco divisório, ao sensível, portanto, cabe uma conotação baixa, ou seja, é um mundo onde somente há cópias e aparências, onde as coisas estão sempre em mutação – e é no mundo sensível em que se encontra a poesia. É, portanto, diante dessas cópias e aparências que o método de Platão tratará de selecionar, separando aquilo que possui uma linhagem com relação mais próxima à Ideia, daquilo que se distancia, que escapa à representação ideal, ou seja, o simulacro:
Sob esta condição que a divisão prossegue e atinge seu fim, que é não a especificação do conceito, mas a autenticação da Ideia, não a determinação da espécie, mas a seleção da linhagem. (…) À busca do lado do simulacro e de se debruçar sobre seu abismo, Platão, no clarão de um instante, descobre que não é simplesmente uma falsa cópia, mas que põe em questão a própria noção de cópia e de modelo (DELEUZE, 2011, p. 261).
O simulacro coloca-se como um problema para o método da divisão, pois ele abala a representação entre o modelo e a cópia. Não se liga a nenhum dos dois, não é nem mesmo uma cópia falsa. Ele não visa à imagem semelhante ou à imitação do modelo, ao contrário, produz uma dessemelhança, resistindo à representação. É um elemento que se esvai, que resiste, que não se deixar domar, sendo, portanto, difícil de codificar.
É importante notar que, para Deleuze, na contramão da interpretação tradicional feita do pensamento de Platão, o decisivo não é a separação entre essência e aparência, mas entre cópia e simulacro. É dessa forma que o pensamento de Deleuze se faz original, porque, para ele, a primeira separação é apenas para escamotear a segunda:
A motivação platônica consiste em [trata-se de, sic] selecionar os pretendentes, distinguindo as boas e as más cópias, ou antes, as cópias sempre bem fundadas e os simulacros sempre submersos na dessemelhança. Trata-se de assegurar o triunfo das cópias sobre os simulacros, de recalcar os simulacros, de mantê-los encadeados no fundo, de impedi-los de subir à superfície e de se “insinuar” por toda parte (DELEUZE, 2011, p. 262).
Há, portanto, uma desqualificação do simulacro, uma forte tentativa em derrotá-lo, em mantê-lo submerso no mais profundo. Tal indiferença aparece porque o simulacro não possui, assim como a cópia, uma identidade que o ligue à Ideia. Essa identidade deve pressupor uma imagem certeira entre essência e aparência, modelo e cópia, ou seja, “a cópia não parece verdadeiramente a alguma coisa senão na medida em que parece à Ideia da coisa” (DELEUZE, 2011, p. 262).
Por sua vez, o simulacro quer o objeto, mas não o quer por meio da ideia, ao contrário, o que quer é justamente subverter a imagem semelhante enquanto cópia. Pode-se dizer que o simulacro, enquanto resistência, abre uma fenda no interior da metafísica platônica, pois, o que fazer com algo que é a própria dessemelhança e o próprio desequilíbrio? Enquanto a cópia possui uma imagem que se assemelha à Ideia, o simulacro é justamente a imagem que não possui semelhança:
A cópia é uma imagem dotada de semelhança, o simulacro, uma imagem sem semelhança. (…) O simulacro é construído sobre uma disparidade, sobre uma diferença, ele interioriza uma dissimilitude. Eis porque não se pode nem mesmo defini-lo com relação ao modelo que se impõe às cópias. Modelo do Mesmo do qual deriva a semelhança das cópias (DELEUZE, 2011, p. 263).
A imagem que possui um caráter semelhante tende a ser sempre a mesma, sempre a identidade. A fim de que se mantenha o mesmo, deve-se, portanto, recalcar qualquer traço que destitua a imagem de sua proximidade com o modelo, ou seja, que a distancie de sua essência. Modela-se, assim, a experiência, cuja sensação deverá ser a mesma, nunca diferente. Na imagem semelhante, somente é possível experimentar o modelo, o mesmo que possui um liame essencial com a Ideia.
De outro modo, o simulacro torna-se a imagem da dessemelhança, “imagem sem semelhança”, diz Deleuze. Sua construção é sobre aquilo que difere. Na tentativa platônica de codificar a cidade, o amor e as leis, o simulacro, mais próximo do poético, aparece como o elemento que não se deixa codificar, que resiste a se deixar apreender sob um sistema que pretende o igual. Nesse sentido, apenas a título de exemplo, o choro de Aquiles é o luminar do simulacro. O herói solar, forte e viril, desafiador de reis, vai até Tétis, sua mãe, chorar a prisão de Briseida, por Agamenon. O simulacro corrompe a ideia do mesmo, faz com que o grande guerreiro chore a perda da amada. No interior da imagem do herói, forte e viril, há, portanto, uma dessemelhança, o choro de Aquiles. É essa a diferença que envolve o simulacro, pois ele não permite, de certa forma, que o herói sustente sempre a mesma imagem, que seja sempre igual, porque deve tornar-se outro, sempre:
Em suma, há no simulacro um devir-louco, um devir ilimitado, (…) um devir sempre outro, um devir subversivo das profundidades, hábil a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos ao mesmo tempo, mas nunca igual. Impor um limite a este devir, ordená-lo ao mesmo, torná-lo semelhante – e, para a parte que permaneceria rebelde, recalcá-la o mais profundo possível, encerrá-la numa caverna no fundo do Oceano: tal é o objetivo do platonismo em sua vontade de fazer triunfar os ícones sobre os simulacros (DELEUZE, 2011, p. 264).
Então, se há no simulacro um devir que não possui um limite, ou seja, que continua a se tornar sempre outro, tal conceito não parece distar muito do eterno retorno nietzschiano. Apesar de já se encontrar entre os pré-socráticos, o conceito pressupunha, entre os primeiros pensadores, um caráter cíclico e seria, portanto, por meio de tal movimento que todas as coisas retornariam ao mesmo e ao idêntico. Na visão de Deleuze, a originalidade de Nietzsche está em conceber o eterno retorno enquanto intensidade, cujo movimento é capaz de produzir sempre aquilo que não é mais o mesmo, produzindo sempre o diferente:
O eterno retorno não é um ciclo, não supõe o Uno, o Mesmo, o Igual ou o equilíbrio. Não é o retorno do Todo, não é o retorno do Mesmo, nem retorno ao Mesmo. (…) O desigual, o diferente é a verdadeira razão do eterno retorno. É porque nada é igual e nem o mesmo; o eterno retorno se diz somente do devir, do múltiplo. O eterno retorno constitui a única unidade do múltiplo, a única unidade do que difere (DELEUZE, 2006, p. 163-164).
Alinhado ao eterno retorno, o simulacro ganha força em sua resistência à tentativa de interpretação e de seleção. Não é possível fazer dele um conhecimento, ou ainda, uma experiência que seja universal, pois se reveste de um manto indiscernível às configurações que pretendem à igualdade.
 
     II – A onda que não se deixa ler
O conto “Leitura de uma onda” é uma das diversas histórias que compõem o livro Palomar, de Ítalo Calvino. O título, além de ser o nome do grande personagem dos contos inscritos no livro, é também o nome de um observatório astronômico, que, por muito tempo, conteve o maior telescópio do mundo. A ligação entre os nomes talvez não seja casual, porque remete ao ato de observar. Tal como o observatório, que se fixa nos astros, o senhor Palomar é um observador, que olha atentamente para o mundo. E no conto em questão, ele põe-se a observar e, principalmente, a ler uma onda.
O senhor Palomar encontra-se diante de uma praia e observa as ondas. Ele não as contempla, ou seja, seu olhar não está completamente absorto, porque está seguro quanto ao que se põe a fazer: quer apenas observar. Não pretende observar todas as ondas que surgem e se esvaem no mar. O que o senhor Palomar pretende é selecionar apenas uma simples onda para observá-la:
Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso (CALVINO, 1994, p. 7).
Há a intenção de se fixar um objetivo que, pode-se dizer, vise à seleção da melhor onda. A fim de que o procedimento não seja malogrado, as sensações vagas deverão ser evitadas e o delineamento, então, será estipular os limites precisos para o alcance do objetivo:
Como o que o senhor Palomar pretende fazer neste momento é simplesmente ver uma onda, ou seja, colher todos os seus componentes simultâneos sem descurar de nenhum, seu olhar se irá deter sobre o movimento da água que bate na praia a fim de poder registrar os aspectos que a princípio não havia captado; tão logo se dê conta de que as imagens se repetem, perceberá que já viu tudo o que queria ver e poderá ir-se embora (CALVINO, 1994, p. 8).
A observação pretende tornar-se mais apurada, visto que o observador quer atentar para os detalhes ainda não captados num primeiro momento. A intenção é apreender, ou melhor, é reter uma imagem, o modelo da onda. Pode-se dizer que o grande objetivo do senhor Palomar seria, portanto, buscar a repetição das imagens. Assim que perceber que as imagens se repetem com todos os seus componentes simultâneos, a ideia de onda estará fixada no mesmo, em sua identidade.
Dessa forma, o senhor Palomar busca organizar uma imagem que retenha todos os aspectos em sua totalidade, a fim de que se tenha a ideia de onda. Ler uma onda, para o senhor Palomar, significa congelar uma imagem e, também, uma identidade, por isso, trata de limitar um campo de observação, para que possa “levantar um inventário de todos os movimentos de ondas que ali se repetem com frequência variada dentro de um dado intervalo de tempo” (CALVINO, 1994, p. 9). Não há dúvidas: Palomar quer selecionar a melhor onda dentre todas. Esse movimento de observação almeja a escolha da onda que se furte a qualquer movimento que contradiga a ideia de onda tida por Palomar. Haverá, portanto, uma imagem que deverá sobressair-se, será o modelo mais puro de onda.
Apesar de todo o esforço e determinação do senhor Palomar, em sua tentativa de observação e apreensão da pura imagem, a tarefa de selecionar, isolar, arrastar, separar ou ainda interpretar uma onda não é algo simples.
Isolar uma onda da que se lhe segue de mediato e que aparece às vezes suplantá-la ou acrescentar-se a ela e mesmo arrastá-la é algo muito difícil, assim como separá-la da onda que a precede e que parece empurrá-la em direção à praia, quando não dá até mesmo a impressão de voltar-se contra ela como se quisesse fechá-la (CALVINO, 1994, p. 7).
A excisão que pretende Palomar é árdua porque as ondas com o fluxo contínuo dos movimentos tendem sempre a rejeitarem uma imagem pronta e acabada. Assim, ao ver “uma onda apontar na distância, crescer, aproximar-se, mudar de forma e de cor, revolver-se sobre si mesma, quebrar-se, desfazer-se” (CALVINO, 1994, p. 7), Palomar já não pode apreendê-la. Isto porque é preciso considerar os diversos fatores que contribuem para a formação de uma onda e que devem estar incluídos na leitura de Palomar:
Para se compreender como uma onda é feita, é necessário ter-se em conta esse impulso em direções opostas que em certa medida se contrabalançam e em certa medida se somam, e produzem um quebrar geral de todos os impulsos e contraimpulsos no mesmo alagar de espuma (CALVINO, 1994, p. 9).
Como, no entanto, poderia o senhor Palomar enquadrar a imagem de algo que possui impulsos e contraimpulsos?            Seria possível observar o modelo Ideal daquilo cuja força está exatamente em se opor a si mesma? Para se compreender uma onda é necessário entender a própria diferença que há nela mesma. Nesse sentido, parece haver nessa citação uma fina ironia da própria onda em relação ao observador, pois a onda rechaça a compreensão por meio de uma observação que a quer idêntica, por ser formada por impulsos e contraimpulsos. Assim, a onda resiste à interpretação do senhor Palomar, pois seu impulso faz com que assuma o caráter enigmático do simulacro, tornando-se algo que resiste ao domínio da interpretação ou à codificação. A onda, nesse caso, resiste à leitura do senhor Palomar.
A resistência da onda tende a sugerir um verdadeiro jogo de gato e rato em que, a todo o momento, parece haver uma fuga, como se algo escapasse, tornando-se impossível de ser conquistado, apreendido ou ainda territorializado. Sendo assim, para se definir o modelo, haverá sempre alguma consideração a ser feita:
Mas todas as tentativas de definir este modelo devem levar em consideração uma onda que sobrevém em direção perpendicular ao quebra-mar e paralela à costa, fazendo escorrer uma crista contínua e apenas aflorante (CALVINO, 1994, p. 10).
Contudo, “o senhor Palomar não perde o ânimo e a cada momento acredita haver conseguido observar tudo o que poderia ver de seu ponto de observação, mas sempre ocorre alguma coisa que não tinha levado em conta” (CALVINO, 1994, p. 9), ou seja, no instante em que for considerada a direção perpendicular ao quebra-mar e paralela à costa, ainda haverá uma consideração outra, pois a onda resistirá ao modelo e à interpretação da consideração anterior e, portanto, já não será mais a mesma, exigindo que novos elementos sejam avaliados:
Ao mesmo tempo precisa-se considerar as reentrâncias da frente, em que a onda se divide em duas alas, uma que tende em direção à praia da direita para a esquerda e outra da esquerda para a direita, e o ponto de partida ou de chegada dessa divergência ou convergência é aquele ponto em negativo que segue o avançar das alas, mas sempre se mantendo um pouco atrás e sujeita ao sobrepor-se alternando delas, para que não venha a ser alcançada por uma outra onda mais forte embora também esta com o mesmo problema de divergência-convergência, ou talvez por outra ainda mais forte que resolva o impasse rompendo o nó (CALVINO, 1994, p. 8-9).
Apesar de o senhor Palomar não perder o ânimo com a sua observação, sempre surge um novo traço na onda que anteriormente não lhe havia ocorrido. O surgimento desses traços, a todo o momento em que Palomar tenta captar uma imagem, parece revestir as ondas de uma força que as ajudam a resistir a qualquer tentativa de representação. Torna-se, portanto, difícil abarcar uma imagem idêntica de algo que no interior de si mesmo se debate, produzindo impulso e contraimpulso, divergência e convergência. Nessa controvertida ação, a onda ascende à superfície como sendo o próprio simulacro, porque impede a imagem do mesmo, resistindo ao controle da identidade e à ideia mesma de onda:
Em suma, não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles também complexos a que essa dá ensejo. Tais aspectos variam continuamente, decorrendo daí que cada onda é diferente de outra onda; mas da mesma maneira é verdade que cada onda é igual a outra onda (CALVINO, 1994, p. 8).
Cada onda é igual à outra onda em sua diferença interior, porque são formadas por abalos e contra-abalos. Mas as ondas diferem umas da outras porque se assemelham na própria diferença. Cada onda é diferente de outra onda. Nesse sentido, quebra-se a ideia do uno enquanto detentor de todo valor da imagem pura de onda. Se a onda é o simulacro, porque, tal como o “Homem da multidão” de Poe, “não se deixa ler”, então ela se alinha intimamente ao eterno retorno, porque, não se deixando ler, apresenta sempre novos aspectos que continuamente variam e, portanto, não recaem no uno, no mesmo, no igual ou ainda no universal. Assim tendem a ser as ondas do oceano, cujos movimentos escapam à apreensão do observador, porque nunca são as mesmas. As ondas estão sempre a revolverem-se no ir e vir. Elas sempre estão em devir.
Finalmente, para contemplar tamanha multiplicidade, ao senhor Palomar “bastaria não perder a paciência, coisa que não tarda a acontecer” (CALVINO, 1994, p. 11). Palomar frustra-se por não conseguir o retrato ideal da onda, porque “só conseguindo manter presentes todos os aspectos juntos, ele poderia iniciar a segunda fase da operação: estender esse conhecimento a todo o universo” (CALVINO, 1994, p. 11).
 
Referências bibliográficas:
CALVINO, Italo. Leitura de uma onda. In: Palomar. 2ª ed. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 7-11.
DELEUZE, Gilles. Conclusões sobre a vontade de potência e o eterno retorno. In: A ilha deserta. Trad. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminuras, 2006. p. 155-166.
DELEUZE, Gilles. Platão e o simulacro. In: Lógica do sentido. 5ª ed. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 2011. pp. 259-271.
MACHADO, Roberto. Platão e o método de divisão. In: Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. p. 41-49.





Bio fornecida pelo palestrante.

MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER EM YO NO SOY BONITA, DE ANGÉLICA LIDDELL – Ricardo Augusto de Lima




MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER EM YO NO SOY BONITA, DE ANGÉLICA LIDDELL
 
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
 
Resumo: Angélica Liddell (1966) é hoje um dos nomes mais conhecidos do teatro espanhol e europeu. Suas performances, sempre carregadas de um tom violento e autobiográfico, dão ênfase à misoginia e ao machismo. A partir da peça Yo no soy bonita (2004), pretendo evidenciar como a violência no espetáculo narrada e o tom confessional se somam para criar um grito que denuncia a violência contra a mulher e contra a criança-menina.
 
Palavras-chave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
Resúmen: Angélica Liddell (1966) es hoy uno de los nombres más conocidos del teatro español y europeo. Sus actuaciones, siempre cargadas con un tono violento y autobiográfico, dan énfasis a la misoginia y al machismo. A partir del espectáculo Yo no soy bonita (2004), pretendo mostrar cómo la violencia en el espectáculo narrada y el tono confesional se suman para crear un grito denunciante de la violencia contra las mujeres y las niñas.
 
Palabras-clave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
 
Minicurrículo: Ricardo Augusto de Lima é bacharel em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina, onde defendeu a dissertação de mestrado intitulada “Estas três paredes do meu apartamento: intertexto, ruptura da ilusão e autoficção como recursos metateatrais” em O Homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. É doutorando também na UEL em Letras, com pesquisa na área de autoficção, dramaturgia, escritas de si e metateatro. Mantém, como Ricardo Dalai, o blog Reticências.
 
 
MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER
EM YO NO SOY BONITA, DE ANGÉLICA LIDDELL
 
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
 
“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”
(Clarice Lispector, em A hora da estrela)
 
Fredric Jameson (1996), ao analisar o conceito de “expressão” a partir do quatro O Grito, de Munch, afirma que existe uma separação entre sujeito interior e exterior e as emoções de cada um: da dor sem palavras do sujeito interior ao momento em que a “emoção é então projetada e externalizada, como um gesto ou grito, um ato desesperado de comunicação, a dramatização exterior de um sentimento interior” (JAMESON, 1996, p. 39, grifo nosso). Na peça Yo no soy bonita (2004), Angélica Liddell finaliza uma confissão com um grito um pouco abafado, mas, ainda assim, um grito: “Y aquella noche vomité” (LIDDELL, 2008, p. 22). Por meio de um discurso confessional e autoficcional, a dramaturga catalã atinge o espectador com o que há de mais violento na relação homem-mulher. Nascida em 1966, em Figueras, Espanha, Angélica nasceu Angélica González, mas assumiu o sobrenome Liddell em homenagem a Alice Liddell, menina que inspirou aquela Alice que cai na toca do coelho. Filha única de pai militar, escrevia pequenas histórias (geralmente trágicas e cheias de personagens) para fugir da solidão e da austeridade do ambiente militar.
Em 1993, fundou, com o amigo Gumersindo Puche, a Companhia de Teatro Atra Bilis. Em 2010, participou pela primeira vez do Festival de Avignon com a peça El año de Ricardo. Hoje, é um dos principais nomes do teatro espanhol e mundial, tendo recebido inúmeros prêmios, dentre os quais o Prêmio Nacional de Literatura Dramática, em 2012, com a obra La casa de la fuerza, e foi a primeira mulher a receber o Leão de Prata da Bienal de Teatro de Veneza, em 2013:
 
Per la sua capacità di tradurre l’arte performativa sulle scene teatrali. Per il suo teatro di resistenza. Per la qualità della sua scrittura, capace di trasformare i suoi testi in poesia che grida al mondo e alla sua stessa anima. Per il suo impegno come interprete e attrice. Per aver cancellato la linea divisoria tra diversi generi e stili d’arte, facendo sì che la miscela di parole, immagini, suoni, musica, gioco, il drammatico, il divertente e il tragico compongano un tutto. Per essere una delle artiste europee della sua generazione che ha avuto la maggiore diffusione nel mondo delle arti sceniche. Per la sua denuncia e l’attenzione continua alle debolezze dell’essere umano. Per la continua ricerca di comunicazione con il pubblico e per la ricerca della conoscenza di nuove culture e forme (LA BIENNALE, 2013, n.p.).
 
Suas peças, que escapam de toda dramaturgia convencional, sempre carregam um grito estridente e um tom memorialístico, no qual se recria o passado em cena, presentificando-o. Seu objetivo é evidenciar o podre, como uma poética do negativo ou, ainda, uma poética do mal, como fazia Jean Genet. Desta forma, temas como sexo, poder, loucura, morte, violência e estupro são recorrentes no cruzamento entre mitos clássicos (Édipo, Antígona, Medeia…) e mitos modernos.
A voz de Liddell surge em um momento no qual, segundo Maria Pilar Espín Templado (2011), se percebe a importância da mulher no mundo teatral não como atriz, mas como dramaturga, diretora e produtora, mundo este dominado, até a segunda metade do século XX, pelos homens. E a autora se pergunta:
 
¿Qué temas llevan a escena las dramaturgas españolas de las dos últimas décadas del siglo XX? ¿Dejan memoria de la sociedad actual, recrean su autobiografía, plantean un teatro comprometido o reivindicativo? ¿Podemos acaso hablar de denuncia y compromiso social en la dramaturgia femenina de finales de siglo XX? ¿Podríamos considerar el teatro de las dramaturgas actuales como testimonio de la desigualdad de género, como un teatro feminista? Y en definitiva: ¿marcan una dramaturgia diferente respecto de los autores masculinos de su generación? (TEMPLADO, 2011, p. 45-46).
 
O cenário no qual Angélica Liddell entra possui até então poucos nomes de destaque (Lidia Falcón, Carmen Resino, M. José Ragué-Arias, Lourdes Ortiz e Concha Romero são alguns deles). Essas mulheres abrem caminho no meio do contexto ditatorial franquista e encabeçam o boom da presença feminina na dramaturgia em meados da década de 1980 (TEMPLADO, 2011, p. 47).
A autora afirma que existem várias motivações na escrita dramática feminina, que vão desde sistematizar estudos e marcar presença feminina em festivais até, no caso de Liddell, de “una necesidad interior de algo revulsivo”:
 
(…) Cuando estas autoras optan por temas de carácter metafísico, político o social de amplio significado, su talante femenino en ocasiones se diluye en lo general de los planteamientos o por el contrario se inicia una corriente de ruptura política, caso de Angélica Liddell, cuya obra desarrolla un nuevo teatro político paralelo al de Rodrigo García, cuya marca más característica siempre ha sido la provocación (TEMPLADO, 2011, p. 49).
 
De uma maneira geral, os trabalhos dessas dramaturgas trazem uma temática ligada com a realidade e comprometida com ela, seja a realidade política, a social ou a individual, que se amplia no palco para atingir e englobar outras esferas. Não se trata, pois, do tradicional realismo teatral, ou seja, de um teatro que se esforça em imitar o real na fala, gestos e tipos de personagens a fim de evidenciar que aquela ação poderia acontecer na vida. Ao contrário, “su escritura surge para contestar a problemas del género humano y de la historia contemporánea como trama que explica la historia pública reciente” (TEMPLADO, 2011, p. 50).
Percebeu-se, desde a primeira aparição de Liddell, um diferencial na escrita dramática feminina em Espanha, assim como toda literatura dita “de minorias”. Anna Caballé, professora do Departamento de Filologia Espanhola da Universitat de Barcelona, afirma que, no caso da escritura autobiográfica, ou de cunho autobiográfico (autoficções, diários, cartas, ensaios, romances autobiográficos, peças de teatro, poemas etc), parece ser evidente a diferença em relação ao cânone masculino, pois as escritoras não se inspiram nos moldes estabelecidos por ele. Segundo Caballé (2001), a aurorrepresentação feminina não é enfática como a dos homens, que querem reivindicar o conceito de sujeito e seu destino histórico. As mulheres tendem a se concentrar em um relato mais detalhado “de acontecimientos o situaciones vitales que han dejado una huella indeleble, una cicatriz. La autobiografía como un punto de salida antes que de llegada, una búsqueda moral, una interrogación a tumba abierta” (CABALLÉ, 2001, p. 6).
Ainda que se afirme, constantemente, a impossibilidade de um drama autobiográfico, José García Barrientos (2014) distingue alguns temas para uma nova modalidade teatral que cresce na contemporaneidade, o chamado “teatro do eu”: um interesse propriamente teatral; um interesse testemunhal, seja sobre a enfermidade, o sexo, a violência política ou de vítimas dos regimes militares latino-americanos; ou um interesse de identidade, do tipo sexual, social, étnico, cultural etc. “Todos los casos coinciden en utilizar lo autobiográfico para hablar de otra cosa, más general, que nos atañe a todos, y de la que el actor es solo un ejemplo” (BARRIENTOS, 2014, p. 134).
Por outro lado, enquanto a autobiografia teatral se apresenta como gênero impossível, a autoficção cênica (ou teatro autoficcional) se evidencia como tendência contemporânea nas Artes Dramáticas em peças que, evocando o passado, mesclam no espaço cênico (ambíguo por excelência) ficção e autobiografia, criando um discurso híbrido e metateatral. Assim, vamos recusar o conceito de teatro autobiográfico para aplicar este, mais maleável, de teatro autoficcional, visto que o espaço teatral e a figura do ator são, concomitantemente, espaço e corpo reais e ficcionais, promovendo um estar-não-estando, justificando por si só que o teatro é, desde sempre, mescla de ficção e real. Em outras palavras, arte ambígua cujo primeiro-motor é justamente a sobreposição das camadas de real e ficcional, ou seja, autoficcional. Desta forma, se anula completamente a necessidade autobiográfica da verdade.
Templado (2011, p. 52) afirma que três temas estão presentes na obra dramatúrgica feminina produzida desde o final do século XX: memória, compromisso e autoficção. Apesar das peças de Angélica tratarem da memória e, consequentemente, da autoficção, o conceito de compromisso nos interessa mais nesse momento, pois podemos entendê-lo de uma forma mais ampla: por compromisso, Templado entende
 
(…) no sólo el teatro escrito desde una actitud abiertamente comprometida como puede ser la de un teatro feminista, sino también como denuncia de una sociedad muy distante en la consecución de los derechos y de la igualdad de género, en este caso de las mujeres, sin que sus autoras estén afiliadas explícitamente a ningún credo concreto (TEMPLADO, 2011, p. 50).
 
Angélica Liddell não se liga a nenhum movimento e não se crê uma autora feminista. Não apenas ela, mas outras dramaturgas são reticentes em se ligar a algum movimento feminista, “seguramente por temos a perder oportunidades si se limitaban al gueto feminista” (TEMPLADO, 2011, p. 51).
Por outro lado, a geração de dramaturgas que iniciaram sua escritura dramática na década de 1980 apresenta traços de uma luta pelos direitos da mulher e, segundo Leonard & Gabriele (1996, p. 50):
 
Es la primera generación que asume de una manera totalmente integrada conceptos como el aborto, la separación, el uso de anticonceptivos, la liberdad sexual, la homosexualidad masculina y femenina, la integración de la mujer en el trabajo, la presencia mayoritaria de la mujer en la universidad… etc. Y el arte es un espacio donde se refleja esa presencia siempre más evidente del elemento femenino.
 
Algumas delas, como Lidia Falcón, nascida em 1936, são não apenas escritoras, mas também advogadas e militantes. Falcón, por exemplo, funda o primeiro Partido Feminista Espanhol, em 1979, e participa ativamente das Primeiras Jornadas Catalanas de la Dona, em Barcelona, em 1976.
As peças de Angélica Liddell apresentam, também elas, esses três temas, mesmo que a dramaturga não esteja vinculada a nenhum partido ou movimento feminista. Ela trabalha abertamente com material autobiográfico, evocando sua infância, a relação entre pais e filhos, a maternidade e, sobretudo, a posição das mulheres na sociedade diante dos homens. Suas peças são, antes de tudo, um manifesto feminino ao mesmo tempo em que trabalham com questões sexuais traumáticas, pois, como ela afirma em uma de suas peças, “mi cuerpo es mi protesta contra mi generación” (LIDDELL, 2008, p. 9). Assim, podemos chamar seu teatro de autoficcional, pois temos um espaço exclusivamente ficcional, o palco. Entretanto, Angélica, em cena, não é apenas Angélica González, mas é também um ícone, um signo teatral, uma personagem. Ao mesmo tempo, evoca a todo momento a menina de nove anos que foi e que vomitou no final de um dia que parecia comum. Dessa forma, a menina Angélica, a atriz Angélica e a personagem Angélica se convertem em uma persona totalmente nova, inédita, incapaz de existir fora daquele espaço e daquele tempo da cena, mas também incapaz de ser uma ou outra coisa, apenas. Persona híbrida, participante de uma cena também híbrida e ambígua.
A obra Yo no soy bonita trata da natureza monstruosa e animal do homem. Nela, a dramaturga, que também é atriz e diretora, leva um cavalo para o palco, cuja presença é claramente gótica e metafórica: ele representa o homem, o falo gigante que quer penetrar a mulher sem importar-se com seu tamanho, sem razão, só instinto, só desejo.
Originalmente criada em 2004, é a terceira parte da Trilogia da Desobediência, composta por três “confissões”: Lesiones incompatibles com la vida (2003) e Broken Blossomns – lírios partidos (2004). Angélica não enxerga seus espetáculos como peças convencionais, e não o são realmente. Ela os chama de “acciones/ações”, que recusam o formato de ação dramática com começo, meio e fim para expor uma situação-chave, central, e a partir dela conduzir o público à reflexão. São textos curtos, que se modificam em cada espetáculo de acordo com a performance de Liddell.
Yo no soy bonita tem como situação-chave a violência: um abuso sexual ocorrido na infância de Angélica por parte de um soldado que a ajuda a subir em um cavalo. A ferida, não (e talvez jamais) cicatrizada, é exposta de várias maneiras. Usando a primeira pessoa do singular, Angélica conta sua infância sempre buscando a duplicidade: fazer da sua infância a infância de todos.
A primeira frase da ação já denota o medo feminino e a recusa de ser aquilo que a sociedade ordena que a mulher seja: “Yo no soy bonita ni lo quiero ser” (LIDDELL, 2008, p. 19). Entretanto, por não fazer parte da tradicional dramaturgia, o texto é curto (embora as encenações de Yo no soy bonita preencherem, em média, uma hora). Assim, a atriz altera o texto de uma encenação para outra. Um exemplo, em um espetáculo de 2008, disponível no YouTube, a atriz começa: “Yo tengo cuarenta y dos años”, depois de entrar, caminhar pelo palco, acariciar o cavalo, beber uma garrafa dentre as tantas que estão no palco de cerveja e arrotar. Assim, se prender somente ao texto dramático e/ou à encenação pode ser um descuido levando em conta a alta presença da performance espontânea de Liddell em cena. Nela, texto e cena se completam em uma difícil (ou impossível) separação.
Essa performance nasce do oferecimento do seu corpo como objeto de questionamento. A mulher que tem domínio sobre seu corpo e faz dele o que bem entender. Assim, como seu corpo é seu protesto, ela o castiga de diferentes maneiras como uma forma de desobediência, cujo sofrimento gera uma poética da dor e da violência contra a misoginia. Para tanto, o tom confessional/autobiográfico é necessário, pois assim a atriz descontrói qualquer possibilidade de engano e de ambiguidade.
A performatividade se manifesta de várias maneiras. Por exemplo, ela inicia o espetáculo com seis garrafas de cerveja no palco, que serão, todas elas, consumidas até o final da peça. Assim, ela atua enquanto o álcool produz efeito sobre seu corpo, embaralhando seus sentidos, tornando-a um ser mais próximo ao cavalo que está ao lado, e com quem ela interage em vários momentos. O animal, irracional, possui uma “atuação” incerta, instintiva, não previsível.
Em outro momento, inicia uma série de autoflagelação. Ela corta, com uma pequena navalha, suas pernas, criando um pequeno quadro barroco: o sangue vermelho escorrendo pela pele clara. Depois, enxuga o sangue com um pedaço de pão para come-lo logo em seguida. Assim, o sangue regressa ao corpo, movimento inverso à menstruação.
Ou ainda quando ela, já embriagada pela cerveja, ferve um pouco de leite e mergulha sua mão no líquido fervente. O leite, signo duplo de maternidade e esperma, a fere, causando repulsa e relembrando a frase que a atriz inclui em vários espetáculos: “No quiero tener hijos” – que surge como outro protesto em relação à sociedade: ela, mulher, se recusa a ser mãe, papel muitas vezes imposto para a figura feminina em uma sociedade patriarcal. Uma vez bêbada e vestida como bufão, a atriz se aproxima de uma figura grotesca e animal a fim de provocar indignação do espectador. Não quer a beleza da arte e sua contemplação estética. Angélica busca, como já foi afirmado, a poética do mal, do cruel, da desobediência.
Dessa maneira, a atriz inverte os papéis e se inclui em outro nível de representação, acentuando sua vida e seu corpo no espaço ficcional do teatro. O corpo também é palco. O corpo também é texto.
Por exemplo, ao iniciar um diálogo com “el barquero”, Angélica suplica: “No me mates, por favor, no me mates./ ¿Qué le voy a hacer?/ Es un miedo de nacimiento./ Como una marca./ Un privilegio inverso (…). Mira, hacemos una cosa. Primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas” (LIDDELL, 2008, p.  21). Suplica tudo enquanto sua mão direita está entre suas pernas, tocando sua vagina, e fotografias de sua infância são projetadas em um telão. Nesse pequeno trecho podemos perceber que o barqueiro (isto é, o homem) oprime a figura feminina a ponto de ela nascer com medo de morrer e de ser usada. Ser mulher é, então, uma marca, “um privilégio inverso”, pois tal privilégio só dá direito à morte e ao uso por parte do outro: “primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas”.
Essas imagens e esse texto introduzem o trecho, talvez, mais importante da peça, que a dramaturga denomina “Confesión”:
 
Éramos tres niñas. Teníamos 9 años. Obtenemos el permiso de nuestros padres para visitar las cuadras. Era normal. Frecuente. Los niños y las niñas podíamos visitar las cuadras cuando quisiéramos. Estaban al lado de nuestras casas. Eran las cuadras del cuartel. Vivíamos entre militares y caballos. Aquel día un soldado nos acompañó durante la visita. El soldado preguntó: “¿Queréis subir a algún caballo?” Nosotras contestamos: “Sí, a ése.” Era el caballo más bonito de la cuadra. El soldado aprovechó la situación. Empezó a sudar. Su cara se volvió roja. Soy la primera en subir. Para subirme al caballo el soldado me agarra de una forma extraña. Pone su mano gigantesca bajo mi sexo diminuto mientras me levanta en el aire. Intenta apartarme las bragas. Utiliza sus dedos para separar los labios de mi vulva. Aprieta. Duele. Mantiene su mano entre mis nalgas y el lomo del caballo. Mueve los dedos como gusanos. Noto sus uñas. El soldado aprieta con un solo dedo. Le digo que quiero bajar. El soldado aguanta un poco más. Se ríe. Aprieta mi vagina un poco más. Por fin el soldado me baja del caballo. Se pasa la mano por la nariz. Se huele los dedos. Sube a las otras niñas. Recuerdo la verguenza. Teníamos nueve años. Cuando salimos de las cuadras estábamos serias. Calladas. De repente una dice: “¿A vosotras os ha hecho algo?” Yo digo que no. Me da vergüenza decir que sí. No. No. La otra dice que el soldado le ha hecho daño ahí abajo. Yo digo que no. A mí no me ha hecho nada. Me da vergüenza decir que sí. Nada. No sé. A mí no me ha hecho nada. Me encontraba mal. No se lo conté a nadie. Me marché a casa. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité (LIDDELL, 2008, p. 21-2).
 
O trecho deixa claro, devido à riqueza de detalhes (o suor do soldado, suas falas, sua mão gigantesca, o sexo pequeno, os dedos, os lábios, a dor, as unhas, a vontade de parar, o riso do soldado, sua força, o ato de cheirar os dedos, a vergonha sentida, o silêncio, o vômito), a lembrança do acontecimento, presentificando e, assim, tornando-o parte do aqui-agora de cena. Nesse ponto, a presença do cavalo vivo em cena corrobora para a presentificação do ato, que “coroa” uma série de infortúnios que Angélica teria sofrido ao longo de sua vida por ser mulher e por ser criança, “una niña”. A memória, embora de um tempo distante, parece estar viva, revelando toda uma infância sendo palco para abusos, como quando ela nos relata que um amigo da família comentou a seu pai que sua filha era uma “puta”. Tais relatos servem para situar a origem da violência contra a mulher, e não apenas a mulher-Angélica, mas todas as mulheres, pois, ao falar de si mesma, a atriz evidencia todo um sistema social patriarcal e misógino. Seu espetáculo surge, então, como uma forma de estabelecer um canal comunicativo entre a dificuldade de ser e de defender uma menina/mulher na sociedade patriarcal.
Nesse momento sua desobediência é necessária: ferir o próprio corpo como protesto à violência real, fora da cena, causada não por si mesma, mas por outro que se acha mais poderoso. Sua desobediência, por fim, pretende acabar com aquela vergonha sentida aos nove anos, que a fez calar. No aqui e agora do palco, a mulher não se cala e tampouco permanece inerte diante do abuso. A atriz se coloca como figura dupla, fiel e oferenda, faca e sacrifício. Ela é ao mesmo tempo aquele que oferece o sacrifício e a própria oferta, pois “en el tiempo de las muertes colectivas es necesario el sacrificio individual como rebeldía o barricada. El arte, sacrificio íntimo en un espacio público, es nuestra rebeldía. Gracias al sacrificio poético recuperamos la identidad que perdemos en el masacre” (LIDDELL, 2014, p. 99). Dessa rebeldia nasce a necessidade da autobiografia. O eu surge então não como narcisismo, mas como desejo: “Con el sacrificio queremos decir YO” (LIDDELL, 2014, p. 99).
Esse desejo de dizer “EU nasce do desejo de atestação de si, como escreveu Ricoeur (1990, p. 34-5): “L’attestation est fondamentalement attestation de soi. Cette confiance sera tour à tour confiance dans le pouvoir de dire, dans le pouvoir de faire, dans le pouvoir de se reconnaître personnage de récit, dans le pouvoir enfin de répondre à l’accusation par l’accusatif: me voici!” (RICOEUR, 1990, p. 34-5).
Nesse sentido, Angélica resgata suas memórias para converte-las em elementos estéticos dentro de sua poética dramática. A cenografia, que ela também assina em Yo no soy bonita, reafirma isso: uma vez diante do palco, o espectador é afetado pela pintura viva na qual ele é convertido.
Pela imagem anterior podemos verificar que os elementos e objetos cênicos aproveitam o espaço horizontal do palco. Da esquerda para a direita, temos: uma pilha de colchoes, quadros, uma cadeira, as garrafas de cerveja, uma pequena mesa com um fogão elétrico, um coelho empanado e o cavalo branco. Assim, a proposta da cenografia é uma primeira comunicação visual com o espectador, que entra na sala e já percebe os elementos do palco. A importância da cenografia e do figurino se mostra também no fato de Angélica ser responsável por isso na maioria de suas peças. Ela escreve:
 
El espacio escénico debe ser también un espacio de tensión, debe ser despojado del concepto escenográfico-decorativo tradicional, más cercano del ornamento y el mobiliario que de lo realmente expresivo. El espacio escénico se despoja, pues, del diseño, esa trampa o mentira estética, para convertirse en un espacio de tensión moral. Los objetos, fuera de un espacio de tensión, son superficiales, artificiales e inertes, pero en el espacio escénico son las acciones las que dotan al objeto de culpabilidad y responsabilidad. Cuando el objeto y la acción se unen desaparecen el uno y el otro para dejar paso al sentido, es decir, al lenguaje. Se ha creado lenguaje. Nuestra misión es fabricar sentido dándole así la oportunidad a la revelación, haciendo visible lo invisible. Los objetos, enfrentados al espacio escénico, constituyen la anatomía física de la revelación (LIDDELL, 2014, p. 46).
 
A tentativa de representação autobiográfica aqui reforça a tensão em cena. Para Janaína Leite (2014, p. 86), dramaturga e pesquisadora brasileira influenciada pelo trabalho de Liddell, a ideia do tom confessional aqui nada mais é que “a tentativa de figurar a experiência vivida, sentida, sofrida”, mantendo assim “a tensão com o referencial real que a motivou”. O espaço de tensão, próprio do teatro, é reforçado pelo eu que o personagem diz, eu que é imediatamente reconhecido pelo espectador.
Essa tensão é reforçada pelo palco feito pintura viva, visto que ele aproxima o espectador do contexto em questão, criando aquilo que Boileau chamou de “ilusão referencial”. Em outras palavras, existe uma experiência da qual se pode falar, se deve falar (LEITE, 2014, p. 87).
Janaína Leite afirma que esse movimento de falar sobre si localiza a história passada do sujeito no palco, ao mesmo tempo que re-sente a ferida:
 
A história pessoal se abre para a experiência das mulheres em sua condição de oprimidas, mas retorna, na performatividade da cena, sempre para ela mesmo já que a artista cria uma cena de autoflagelo […]. É através da história localizada e re-sentida naquele corpo particular, naquela mulher que se encontra diante de nós, é que podemos viver a experiência, não de uma peça de denúncia como tanta as que existem sobre mulheres, mas de uma obra na qual nos tornamos testemunhas de um crime sofrido e para o qual não poderemos ficar indiferentes. A narrativa autobiográfica se atualiza de forma assustadora diante de nossos olhos a partir da performance de Liddell, frente à qual não há como nos posicionarmos como se fôssemos espectadores confortavelmente sentados diante de uma representação, nos colocando como testemunhas diante de um acontecimento (LEITE, 2014, p. 90).
 
O uso de temas autobiográficos em Angélica Liddell reforça o objetivo do seu teatro: falar da parte tóxica do homem (LIDDELL, 2014, p. 124). Entretanto, isso não quer dizer que seu teatro busque a purificação. Segundo a própria dramaturga, seu teatro busca o reconhecimento, uma união de sensibilidades, uma epifania individual diante de um acontecimento, pois o “teatro responde al concepto de sacrificio, pero no para purificarnos, sino para gozar de las tinieblas” (LIDDELL, 2014, p. 125). Desta forma, ao resgatar suas memórias e traumas, a dramaturga busca atingir o mais sensível de seus espectadores e da natureza humana em geral. Como toda arte de provocação, esse tipo de experiência artística deseja atingir o mais profundo da empatia. Enquanto muitos entendem a provocação como choque, o texto e a cena de Liddell buscam um olhar mais atento para uma experiência pessoal para que essa se converta em um reconhecimento cultural, político e social. Rompe-se os limites da cena para se aprofundar nos sentidos da miséria humana.
Uma vez mesclando vida e arte nessa proposta, se intensifica a tensão dramática e quebra-se a quarta parede teatral, isto é, a separação entre palco e público, criando uma cena metadramática capaz de produzir uma nova espécie de catarse: aquela que nasce da dúvida e do jogo entre real e ficcional e que questiona as noções de verdade, memória, passado, presente e teatro.
 
BIBLIOGRAFIA:
ALMELA, Margarita et al. (2011). “Prólogo”. In: Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 3-4.
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JAMESON, Fredric (1996). Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática.
LA BIENNALE. (2013). Angélica Liddell Leone d’argento per il Teatro. Disponível em: <http://www.labiennale.org/it/teatro/archivio/festival-42/liddell.html?back=true>. Acesso em: 20 fev. 2016.
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LIDDELL, Angélica (2008). La desobediencia, hágase en mi vientre, Pliegos de Teatro y danza, n. 26. Madrid: Aflera Producciones SL.
LIDDELL, Angélica (2014). El sacrificio como acto poético. Madrid: Editorial Continta Me Tienes, colección Escénicas.
RICOEUR, Paul (1990). Soi-même comme un autre. Paris, Editions du Seuil.
TEMPLADO, M. Pilar Espín (2011). El teatro de denuncia social: un compromiso en las dramaturgas españolas de finales del siglo XX (1980-2000). In: ALMELA, Margarita et al. Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 45-64.





Bio fornecida pelo palestrante.

O ENCOBERTO: O PESSIMISMO DE QUE SE IMBUI UM SÍMBOLO DA ESPERANÇA – Ana Bárbara Pedrosa




Ana Bárbara Pedrosa

Universidade Federal de Santa Catarina

 
 
Resumo: Analisaremos aqui a forma como, em O Encoberto, Natália Correia, centrando-se em D. Sebastião, símbolo da esperança no imaginário português, usa o pessimismo como mote principal para o carácter tragicómico da peça. Neste sentido, reflectiremos ainda sobre a ideia essencial do messianismo, que funcionará como forma de alienação, e a necessidade de que o símbolo da esperança se mantenha caso nele esteja imbuída a hipótese de melhoria.
 
Summary: This article will analyse the play O Encoberto, by Natália Correia, whose main figure is King Don Sebastian, who is a symbol of hope in the Portuguese imagination. The text employs pessimism as a tragicomic resource. The article will also reflect on the essential idea of messianism as a form of alienation and the need for it to continue as a symbol of hope if it points to the hypothesis of improvement.
                                                                                                                                
Minicurrículo: Doutoranda em Ciências Humanas na Universidade Federal de Santa Catarina, com um projecto de tese sobre as obras das escritoras portuguesas que foram censuradas durante o Estado Novo português, mestre em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pós-graduada em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciada em Línguas Aplicadas pelo Instituto de Letras e Ciências Humanadas da Universidade do Minho.
 
Palavras-chave:  pessimismo, messianismo, esperança, mito
                                                                                                              
Key-words: pessimism, messianism, hope, myth


 

O ENCOBERTO: O PESSIMISMO DE QUE SE IMBUI

UM SÍMBOLO DA ESPERANÇA

 

Ana Bárbara Pedrosa

Universidade Federal de Santa Catarina

                                                                                                
Introdução
Iremos aqui fazer referência à obra teatral O Encoberto, de Natália Correia (1923-1993), uma escritora e editora portuguesa que, para além de ter tido uma vasta produção literária, principalmente poética, teve uma vida cultural e política muito activa, tendo ainda sido tradutora, jornalista, guionista e editora. Tendo-se afirmado em todas estas áreas, não espanta que tenha sido uma figura central da vida cultural e intelectual portuguesa nas décadas de 1950 e 1960.
Publicada em 1969, a obra, em que é caricaturizado D. Sebastião, uma das mais emblemáticas personagens do imaginário português, teve a ditadura salazarista como zeitgeist e foi proibida pelos serviços censórios do regime. A ditadura, que durou quase cinco décadas, viria a proibir centenas de obras, fossem estas literárias, filosóficas, políticas ou sociológicas. No que concerne à produção literária de autoras portuguesas, Natália Correia ocupa um lugar de destaque, tendo tido seis obras proibidas, sendo, assim, a autora portuguesa mais censurada pela PIDE (Comunicação, 1959; O Homúnculo, 1965; A antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, 1965; A Pécora, 1967; O Encoberto, 1969; O vinho e a lira, 1969).
Apesar da sua vasta produção literária, a fama de Natália na sociedade portuguesa durante estas décadas devia-se principalmente às suas intervenções políticas. Esta ideia desagradava à autora, que dizia estar na vida política activa pelo valor cultural. Assim como assim, casava política com literatura também na sua obra artística: a sua relação com a literatura foi sempre política e a autora encarou-a como uma forma de intervenção social. Assim, a propensão crítica da sua obra é inocultável: a produção literária tornou-se num lugar de reflexão e, portanto, num lugar onde cidadania e arte se mesclavam.
Ao longo dos quarenta e oito anos da ditadura, o efeito do zeitgeist fez-se sentir na produção literária de forma impactante, conseguindo-se, após o 25 de Abril, com o resgate de várias obras, uma memória da literatura bem sedimentada. Assim, o regime foi matéria de criação de grande parte dos autores: o contexto fez-se várias vezes matéria da criação artística e a criação passou por um olhar crítico. Ao mesmo tempo, havia, por parte da arte, uma posição de confronto relativa à ideologia oficial, levada a cabo por artistas que não queriam compactuar com um sistema que, entre outros, se imiscuía na criação artística.
Os textos de Natália, por isso, exigem uma análise que atente na sua ecuménica subtextualidade. Uma análise que peque por ignorar o subtexto, onde o símbolo se revela, cingindo-se a ser textual, não conseguirá alcançar a significação simbólica do corpus literário. Desta forma, e no caso concreto de Natália, ao partir-se para uma análise, o factor simbólico deve ser primordial: a linguagem simbólica, que oscila entre ser visível e oculta, responsabiliza o leitor no processo comunicativo com a autora: a última trabalha a palavra e apresenta-a ao primeiro, a quem caberá, por sua vez, analisar o subtexto e interpretar o universo onírico, onde se esconde o que permitirá o alcance da significação do texto. As obras da autora, por isso, põem peso na recepção da obra, que nasce já com o intuito de que os alcances das significações sejam tarefa dos leitores.
Para mais, a autora desafia os cânones literários, abalando-os, provocando-os, e reinterpretando os mitos. Ao mesmo tempo, e ainda que dirigindo uma crítica sarcástica ao surrealismo, a autora é conotada com ele, principalmente devido a obras como O Homúnculo ou O Encoberto, em que o palco e as figuras históricas são ressignificadas.
 
O símbolo da esperança como pessimismo
Publicado em 1968, O Encoberto, modelo de teatro épico-narrativo, foi a décima nona obra de Natália Correia, correspondendo a uma fase madura da sua dramaturgia. Com a sua censura, a autora fechou um ciclo de uma década de grandes confrontos com os serviços censórios, vindo esta a ser a sua sexta obra proibida.
A obra é a terceira parte daquilo a que Armando Nascimento Rosa chamou trilogia dos mitos lusitanos (ROSA, 2010, p. 151), seguindo-se a O Homúnculo (1965) e A Pécora (1967). Este autor encontrou afinidades entre as três obras que lhe pareceram suficientes para irmaná-las, ainda que a autora nunca tenha sugerido nem a nomenclatura nem o agrupamento textual. Nascimento Rosa, contudo, argumenta não só pela proximidade cronológica da publicação das obras, uma vez que foram as três publicadas entre 1965 e 1968, mas também pelas parecenças na concepção estilística dos temas: os títulos das obras, para além de se comporem todos por um artigo definido e um substantivo, referem-se a mitos da história portuguesa. Assim, O Homúnculo orienta-nos para Salazar, A Pécora para as aparições de Fátima (1917) e O Encoberto para o mito sebastiânico. Nas três obras, interroga-se a identidade portuguesa e compõe-se uma visão panorâmica de uma parte relevante do imaginário nacional.
Nascimento Rosa considera que as três obras da trilogia dos mitos lusitanos indicam várias formas de escapar a uma circunscrição geocultural exclusiva e que as três dialogam com arquétipos de recorrência transtemporal tanto na experiência da psique individual quanto na colectiva. Considerando que, em O Encoberto, essa intenção universalizante é levada a uma explicitude no desfecho fantástico da parábola, tornando a peça numa reflexão teatral sobre a pulsão messiânica, o autor considera ainda que também nas duas peças anteriores se notam horizontes com uma grande mundividência (ROSA, 2011, p. 112). De facto, a circunscrição geocultural em O Encoberto remete-nos para a ideia de recorrência transtemporal dos fenómenos, sendo possível paralelizar-se a crise dinástica não só ao regime do Estado Novo mas também a qualquer outra situação, transtemporal e transgeográfica, em que não seja da vontade dos povos que dependem as decisões sobre aquilo que os rege.
Debate-se na obra o papel de D. Sebastião na cultura portuguesa e no imaginário nacional. Tendo em conta o que representa, não é de admirar que a história da literatura portuguesa lhe tenha dado um grande destaque, principalmente a partir do século XIX, com o surgimento do Romantismo e do romance histórico. Assim, os exemplos, na literatura portuguesa, em que D. Sebastião figura como personagem literária abundam e incluem obras como frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, ou O Conquistador, de Almeida Faria.
Assim, O Encoberto tem como cerne da narrativa o mito de D. Sebastião. Não estando historicamente circunscrito à crise dinástica de 1580, que levou ao poder régio a dinastia filipina, usa esta última como paisagem simbólica do drama, que se dilui na intemporalidade do mito. Fazendo-o, coloca perante quem lê a situação de um povo que, privado da sua independência, se vê incapaz de reger-se. D. Sebastião, neste cenário, aparece como a presumível (impossível?) salvação desse povo.
A obra parte, por isso, da derrota portuguesa na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, em cujo campo de batalha D. Sebastião desapareceu, assim como a nata da nobreza portuguesa, e que levou a dinastia filipina ao poder régio português, passando Portugal e Espanha a ter o mesmo rei. O mito que daqui nasceu foi o do retorno de D. Sebastião, o único que poderia restituir a independência ao povo português. A lenda a respeito do rei português começou a ser difundida em finais do século XVI. Dizia-se que este havia sobrevivido à batalha e escapado para Itália, onde se manteria, sob uma identidade falsa, até estarem reunidas as condições para que pudesse voltar para Portugal e reconquistar a independência do seu povo.
O zeitgeist em que a obra de Natália foi concebida não pode ser ignorado: escrita durante o Estado Novo, estaria intrincada no seu tempo, mostrando o contexto como mote para que o mito ressurgisse, já que este havia sido historicamente reconfigurado como símbolo de esperança e de independência de um poder que não pertencia ao povo. Assim, cumprir o mito seria o mesmo que reganhar o direito à vida política e social. Ao mesmo tempo, ter necessidade dele significava um status quo que derivava de um regime autoritário em que as decisões políticas não dependiam das vontades populares. A ideia da restauração da independência, portanto, funcionará como forma de ligar as duas circunstâncias históricas (o Estado Novo e a perda do poder régio para a dinastia filipina). Ao mesmo tempo, a obra não se circunscreve a estes dois episódios históricos, antes alcançando a mundialização do mito, já que a sua carga messiânica o torna passível de ser evocado sempre que os povos se virem omissos de liberdade, tendo, claro, um grande peso na história portuguesa. A mundialização do mito torna a obra intemporal, não a agrilhoando nem na era filipina nem no Estado Novo (o que seria usado, por Natália Correia, como mote para o recuo da censura, numa carta enviada a Marcelo Caetano1), tornando-se, assim, “inaferível pelo cronómetro” (GARCIA, 1990).
Em O Encoberto, a autora explora a ambiguidade, deixando o final em aberto, privilegiando a confusão entre D. Sebastião e o seu duplo. Assim, a peça gira em torno da identidade do actor Bonami, explorando-se a ambiguidade entre vida e teatro, tentando desvendar-se se este é ou não quem afirma ser: D. Sebastião. A acção motiva-se porque Bonami quer levar D. Sebastião para além do palco, fazendo de D. João de Castro um cúmplice. No final da peça, não consegue entender-se se o primeiro é ou não “O Encoberto”. Para mais, a dada altura, a autora satisfaz a vontade da personagem, tornando ainda mais híbridas as fronteiras entre vida e teatro: “A partir deste ponto, Bonami e D. Sebastião são uma e a mesma pessoa pelo que a autora, respeitando o arbítrio da personagem, passará a denominá-la Bonami-Rei” (CORREIA, 1969, p. 25). No decorrer da peça, as personagens afirmam ou desmentem Bonami-Rei, consoante os seus interesses. Filipe, por exemplo, quer condená-lo à morte, já que ele lhe ameaça o trono, e quer que morra enquanto rei. Como diz, “Se o prisioneiro morrer como impostor, D. Sebastião continuará vivo e o génio da desordem teimará em provocar insónias ao poder” (CORREIA, 1969, p. 109). Bonami, por sua vez, vai saltitando entre a identidade  de actor e a de rei consoante lhe é mais conveniente. Ao ser espancado por Cristóvão de Moura, naquele que é um episódio tragicómico, confessa-se um actor: “Basta! Basta! Confesso que sou um actor e protesto contra o estilo sofredor desta personagem” (CORREIA, 1969, p. 105). Depois, finge ter sido apanhado desprevenido: “Tirem-me daqui! Que raio de peça é esta?” (CORREIA, 1969, p. 106). Quando acalma, volta a proclamar-se rei: “Sou D. Sebastião. Acudam! Estão a martirizar a própria humanidade” (CORREIA, 1969, p. 106). Ao azorrague de Cristóvão de Moura, volta a desdizer-se e a desdizer-se uma vez mais: “Isto não é coisa que se faça a um pobre actor. (…) Sou D. Sebastião” (CORREIA, 1969, p. 107). Quando quer, finalmente, desfazer a identidade de rei, D. João de Castro, em mais um ímpeto tragicómico, diz-lhe que os revoltosos o matam se ele desfizer a ilusão da identidade (CORREIA, 1969, p. 56) e considera que a vontade de Bonami de dizer que não é mais do que um actor “transtorna a ordem do mundo” (CORREIA, 1969, p. 56). Assim, a acção e a vontade do indivíduo são enformadas pelas expectativas da sociedade e este tem de agir de acordo com o que lhe for mais conveniente. A autora assume no texto, assim, que não havia um caminho viável para que o país saísse da situação em que se encontrava e que restava apenas fazer com que o povo acreditasse num símbolo, por falso que fosse, para que não resvalasse para o absoluto desalento. Afinal, só isso permitiria evitar mais tumultos e acalentar a alegria que a esperança contém, as hipóteses de que se imbui.
As personagens, no decorrer da peça, entram e saem para afirmarem ou negarem a identidade de Bonami. Por exemplo, o coro das Catadeiras de Piolhos, a que estão associados um pessimismo profético e o constante desprestígio de D. Sebastião, revela os factos históricos e diz-se e desdiz-se, afirmando e negando a identidade de Bonami. Afirma que pode ser e pode não ser o monarca, aumentando a ambivalência entre actor e personagem. Ainda que parta do desprestígio, acaba por reproduzir o hibridismo que outras personagens e o desenrolar da história acentuarão.
É Maria de Fátima Marinho quem nota que o cerne do enredo é precisamente “a estrutura em abismo que faz periclitar reciprocamente as duas acções” (MARINHO, 2003, p. 35). Quer isto dizer que o actor Bonami se vai progressivamente transformando em D. Sebastião e que a transformação é feita de tal forma que, como dissemos, a autora cumpre a vontade do actor e começa a tratá-lo por Bonami-Rei (CORREIA, 1969, p. 25). Ao longo do texto, a ambiguidade permanece, actor e personagem confundem-se, o hibridismo nunca cede, antes se adense. A peça gira à volta do messianismo e cabe ao público indagar sobre se o messias existe ou não.
A dualidade é instável. Quem lê desconfia, mas até a desconfiança vacila. O jogo ambíguo da autora não sucumbe: as personagens entram e saem em cena, argumentando, endrominando, sugerindo uma verdade que esteja aos seus serviços. Perante o texto que é apresentado, e uma vez que este não fornecerá respostas em relação à identidade de Bonami, resta ao público leitor a reflexão sobre a questão messiânica e o papel do messias na vida social e no imaginário cultural português. A dualidade serve para pôr a ideia do messias em perspectiva e pouco importará que, no final, não se entenda se Bonami é ou não o rei.
Quando Bonami afirma: “Vejo-me na difícil situação de um actor em que o público acredita” (CORREIA, 1969, p. 53), a ironia atinge um alcance ímpar, não sendo possível, a partir daí, fugir-lhe, ou fugir à ambiguidade. Para mais, é o próprio Bonami-Rei quem diz não ter culpa pelas duas faces da verdade (CORREIA, 1969, p. 92), assumindo que a sua identidade terá de ser sempre volátil. Apresenta, assim, a verdade como uma conveniência e, portanto, as interpretações como formas manipuladas de interesses. É por isso que o facto de ter dito “Pois fica sabendo que somos quem supomos ser” (CORREIA, 1969, p. 85) anula a verdade enquanto fidelidade aos factos: as pessoas, como as personagens, são quem crêem ser e é tendo estas crenças por base que as interpretações irão nascer, também estas sendo dirigidas para o que for mais conveniente aos interpretantes. A ideia de verdade, assim, ou será inútil ou inexistente.
A utilização do absurdo permite que se misture mais eficazmente a realidade com a ficção. Aliás, a autora, ainda que se tenha tentado afastar das conotações com o surrealismo, recupera-o nesta peça para ridiculizar o espírito messiânico (MARINHO, 2003, p. 36) e, entenda-se, são ridicularizados símbolos de esperança, que são apresentados na peça como forma de endrominar ou acalmar os intentos de um povo. Ao mesmo tempo, a ideia da verdade é apresentada tão-só como forma modificável, que varia consoante as conveniências do Estado e o seu interesse em que seja ou não acalentada a ideia da existência de um messias. É neste sentido que, quando Bonami-Rei admite fazer flutuar a sua identidade, e aqui em detrimento das necessidades alheias, querendo dizer ao povo que não passa de um actor (CORREIA, 1969, p. 55), D. João de Castro, depois de lhe ter dito que ele simboliza a liberdade, quer que insista na ideia de que é rei porque esta servirá o interesse comum. Para mais, diz a Bonami-Rei que, se este desfizer a ilusão da identidade, as pessoas irão sentir-se enganadas e matá-lo (CORREIA, 1969, p. 56). Desta forma, tenta que seja reconhecido como rei: “Se este homem não é D. Sebastião, que eu seja condenado por blasfemo e herético” (CORREIA, 1969, p. 22). Contudo, quando a acção passa por uma reviravolta e Bonami é condenado à morte, D. João muda o discurso e pede-lhe que diga que é um comediante. Se morrer enquanto comediante e não enquanto rei, a sua morte pouco simbolizará, não terá a carga simbólica da extinção da esperança. É neste sentido que a ideia essencial do messianismo sobrevive: o símbolo deve ser mantido se nele estiver imbuída a hipótese da melhoria.
Já Filipe II, que tem interesses contrários aos de D. João de Castro, diz a Cristóvão de Moura, que hesitava em relação à identidade do prisioneiro, temendo que este fosse o rei, que seria benéfico que ele morresse enquanto rei, já que, morrendo o mito, morreria também o futuro: “Mete de uma vez para sempre nesses teus miolos de magarefe que a segurança do Estado exige que esse homem seja D. Sebastião e, como tal, será executado a fim de impedir que haja futuro” (CORREIA, 1969, p. 108). Assim, e como o próprio nota, se Bonami morresse enquanto actor, o mito continuaria vivo, o povo continuaria acalentado e o poder estaria sempre sob ameaça: “Se o prisioneiro morrer como impostor, D. Sebastião continuará vivo e o génio da desordem teimará em provocar insónias ao poder” (CORREIA, 1969, p. 109). Assim, dá-se espaço, no decorrer da peça, à confusão em torno do protagonista: o símbolo existirá mesmo ou existirá apenas para que o povo não desespere? Assim como assim, Bonami deve viver para que a esperança exista: se estiver vivo, interessa ao povo. Se morrer enquanto símbolo da esperança, como intenta Filipe II, nada acalentará a esperança do povo.
Neste cenário, o clero apoia o poder, sendo-lhe indiferente as mãos em que se encontra. Belchior do Amaral, por sua vez, simboliza aqui a razão, que, em mais um episódio tragicómico, será fonte do ódio do povo: ao opor-se à campanha de África, alertando o povo para a manipulação de que era alvo, é linchado pela população alienada (CORREIA, 1969, p. 44). Mais tarde, reaparece na forma de um cientista do século XX, retomando o mesmo discurso, e também aí é alvo de maus-tratos. Assim, o mito simboliza ainda uma forma de alienação e, ao mesmo tempo que representa a esperança, funciona como grau último do pessimismo: só pode acreditar no mito quem recusa a razão; se o mito é uma ilusão, não há um caminho viável, a melhoria é impossível.
O mito, portanto, aparece como única forma de salvação do país, reconfigurando a esperança. Que a imagem de D. Sebastião seja precisamente um mito e não uma hipótese viável muito nos dirá sobre o pessimismo inerente à obra: a salvação só é possível pelo cumprimento do mito que não chega, pela existência do que não existe. A salvação, por isso, é impossível: D. Sebastião está evidentemente morto: “D. Sebastião morreu em Alcácer Quibir. Encontraram o seu cadáver crivado de lanças”, diz Belchior do Amaral (CORREIA, 1969, p. 43).
Ao mesmo tempo, neste cenário em que Bonami parece uma farsa, mantendo a sua identidade de acordo com as expectativas e existindo apenas para acalentar um povo, esse povo é mostrado como incapaz e dá-se a ideia de que, faça o que fizer, não conseguirá nunca libertar-se:
 
“ (…) três Catadeiras de Piolhos, [que] desbastam a cabeça de três imundas crianças. No seu filosófico alheamento do entusiasmo pela vinda do Encoberto, leia-se a conclusão realista de que aconteça o que acontecer, o mundo está coberto de piolhos” (CORREIA, 1969, p. 38).
 
Neste sentido, contra a vida portuguesa, é usado um símbolo da cultura portuguesa, aquele que no seu imaginário personifica e simboliza a esperança. D. Sebastião salvaria a pátria, restituir-lhe-ia a liberdade, mas aquilo que simboliza resvala em ironia: a esperança assenta num símbolo que, obviamente, não se fará chegar, tornando-se, assim, numa ideia vaga, num caminho sem rumo, numa prospecção sem força material. Só aceitando que apenas a ilusão pode significar a esperança, com toda a ironia que tal ideia acarreta, é que pode aceitar-se a ideia de que “o mundo está coberto de piolhos” (CORREIA, 1969, p. 38).
Assim, também o povo chega a considerar que o símbolo é opressor2, tornando aqui o pessimismo inultrapassável. No início, é-lhe indiferente que Bonami-Rei morra ou não, mas pouco depois concede-lhe o interesse da utopia, o interesse do que poderia ter sido: “Estes heróis só interessam na medida em que podiam ter sido” (CORREIA, 1969, p. 114). Também aqui se vê o grau último do pessimismo: nem no símbolo da esperança pode haver esperança, esta será sempre traída. Por isso, a utopia não pode tornar-se real, valendo apenas pelo que podia ter sido, já que a sua realização traria uma nova opressão. A ironia suprema passa, por isso, por entender-se que o próprio símbolo da esperança é falso e que servirá mais enquanto morto: a esperança não tem razões para existir e os seus símbolos valem tão-só enquanto utopia, jamais enquanto hipótese.
A mensagem última da peça é a da impossibilidade de mudar o que está mal, ao mesmo tempo que se manifesta uma profunda insatisfação com o estado de Portugal, o que o rege e o seu povo, perpassando por toda a obra um concomitante horror ao possível. Daí que a obra, ideologicamente conservadora, portanto, formule a ideia de que todas as revoluções são inócuas, sonegando a esperança que as motivou e tornando todas as situações perfidamente equivalentes. Aliás, é a própria autora quem, na folha de sala da peça, já em 1977, diz que a obra “tem a condicionante de um tempo mas dele se descondiciona na intemporalidade do próprio tema” (CORREIA, 1977, folha de sala3). E é no mesmo documento que contrapõe a irracionalidade do poder que escraviza à irracionalidade do messias, da crença em D. Sebastião como salvação de um povo, como derrota do poder indesejado. Confrontado as duas irracionalidades, é a própria Natália Correia quem admite que a peça representa o insolúvel e que, como tal, tem de derivar em humor. Daí que o sentido tragicómico da contraposição das duas irracionalidades a que autora faz referência perpasse toda a obra e seja um dos seus pilares fundamentais: afinal, como evitar a tragicomédia de uma situação em que o povo tem de acreditar no impossível para vencer o que é possível? O que poderá ser mais pessimista – e, acrescente-se, desesperante – que resgatar o impossível como medida única de combate ao possível? De que forma pode analisar-se as pretensões de que Bonami, ao ser condenado à morte, finja/diga ser um actor que fingia para que a sua morte não represente o fim daquilo que ele queria representar/representava até então, o rei impossível capaz de vencer o possível?
O pessimismo é, assim, o mote principal do carácter tragicómico da peça. No entanto, a peça foi publicada já no pós-PREC e talvez aí tenha parecido estar um tanto fora de tempo. Afinal, veio a cena já depois de tempos convulsos em que não só se havia derrotado uma ditadura que parecia arrastar-se indefinidamente, uma ditadura que soube durar (ROSAS, 2013), como se arriscavam sucessivas tentativas de reorganização da sociedade, que incluíam não só o Verão Quente de 1975, mas também o Golpe Militar de 25 de Novembro do mesmo ano.
Finalmente, nota-se que a ambiguidade se alia à questão do messianismo e, com esta junção, Natália Correia, herdeira da tradição surrealista, recusa a afirmação unívoca da identidade, antes mesclando identidades e optando por uma abordagem ambígua da história. As personagens estão perfeitamente alinhadas, dizendo-se e desdizendo-se, consoante vontades momentâneas e usando da palavra de forma manipuladora, de forma a que este jogo ambíguo possa ser exercido e a que sobreviva a ideia de que a realidade não chega, porque é preciso um símbolo de algo que partiu, que representa o que poderia ter sido, para que a esperança se acalente.
 
Notas

  1. “Refuto, por outro lado, como igualmente abusiva, qualquer interpretação tendente a ver um propósito de crítica à actualidade portuguesa, porquanto, no final da peça, quando se dá uma transposição do mito para a actualidade, essa actualidade é declaradamente universal, propondo-me eu um confronto de natureza mítica entre a imaginação e os valores oníricos, por um lado, e, por outro, o condicionalismo tecnológico que despersonaliza dos homens” (FREIRE, 1985, p. 382).
  2. “Ora, se vivesse seria um novo opressor” (CORREIA, 1969, p. 114)
  3. Folha de sala – programa da peça.

 
Referências bibliográficas
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MARINHO, Maria de Fátima (2003). D. Sebastião entre o Ser e o Parecer (a propósito de O Encoberto)” in Colóquio Natália Correia, 10 anos depois: p. 31-42.
ROSA, Armando Nascimento (2010). Eros, história e utopia: o teatro de Natália, in: Abreu, Maria Fernanda de; Fernandes, Margarida; Goulart, Rosa Maria; Mourão, José Augusto (orgs.) (2010). Natália Correia, A festa da escrita,  p.137-153. Lisboa: Edições Colibri.
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ROSAS, Fernando (2013). Salazar e o poder. a arte de saber durar. Lisboa: Tinta-da-china.





Bio fornecida pelo palestrante.

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA – Lorilei Secco, Graciela René Ormezzano




SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA
 
 

Lorilei Secco

Graciela René Ormezzano

Universidade de Passo Fundo

 

Resumo: Este artigo é um recorte de um projeto mais abrangente voltado para a leitura de imagens fotográficas em sítios arqueológicos missioneiros jesuíticos da América Latina, considerando-os vestígios significativos da gestação de todo um sistema de reduções[1] indígenas que facilitou o processo de interculturalidade e a definição de um modelo de evangelização. Trata especificamente do caso da doutrina de Juli no Peru, região habitada pelos Aymaras, onde, com a chegada dos conquistadores, iniciou-se uma profunda transformação e extinção de povos, civilizações e culturas estabelecidas no território andino. Essas populações nativas foram envolvidas numa conquista além de territorial e espiritual, também linguística, pois sem a comunicação, certos avanços não teriam sido possíveis. Num âmbito geral, foi a mestiçagem de toda uma cultura[2] a principal característica do sistema colonial, onde moldaram-se novos costumes, com a integração de comportamentos e elementos de diferentes formações que passaram a conviver em espaços comuns.
Palavras-Chave: cultura andina, idiomas nativos, história latina, jesuítas.
Minicurrículo: Lorilei Secco é graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Luterana do Brasil (1996) e graduanda em Artes Visuais (Licenciatura) pela Universidade de Passo Fundo. É pesquisadora nas áreas de História da Arte na América Latina (tema: Missões Jesuíticas) e Educação Estética como bolsista UPF e Fapergs. Tem experiência artística e docente na área de Artes, atuando em projetos diversos, principalmente nos temas ligados às artes visuais, leitura de imagens, cultura, educação, inclusão social e saúde mental.
 
Graciela René Ormezzano possui graduação em Professorado de Escultura – Escuela Nacional de Bellas Artes Prilidiano Pueyrredón (1985), graduação em Educação Artística: Habilitação em Artes Plásticas/LP – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992), Mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1996), Doutorado em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2001), Especialização em Arteterapia em Educação e Saúde na Universidade Cândido Mendes, RJ (2002), Pós-doutorado na Universidad Complutense de Madrid (2009), Pós-doutorado na Universidade do Estado de Santa Catarina (2015). Atualmente é professora titular III da Universidade de Passo Fundo. Tem experiência na área de Educação Estética, atuando principalmente nos seguintes temas: leitura de imagens, arteterapia, história da arte, imaginário e desenvolvimento humano.
 
 
SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO
DA AMÉRICA LATINA
 
 
Lorilei Secco
Graciela René Ormezzano
Universidade de Passo Fundo
 
Um pouco da História Andina
Os povos andinos não utilizavam a escrita e considerando que boa parte de sua memória cultural foi destruída durante os processos de conquistas de território, o conhecimento atual embasa-se nos estudos de evidências arqueológicas.
Muito antes da “Era dos Descobrimentos”, o espaço andino foi ocupado por diferentes civilizações nativas de nível tribal, com assentamentos pré-históricos que remontam a datas entre 40000 A. C. e 20000 A.C., ainda  na Era Glacial. Por volta de 5000 A. C., o clima dessa parte do mundo sofreu uma grande alteração, tornando-se mais árido e obrigando esses homens, que até então viviam como caçadores e coletores nômades, a produzirem seus próprios alimentos. O sedentarismo e o surgimento de uma nova forma de economia, fruto da domesticação de animais, do desenvolvimento da agricultura, de uma maior organização social e especialização do trabalho, resultou num novo contexto cultural que levou o homem andino de uma vida tribal a configuração do Império Tiwanaku.
Tiwanaku[3] existiu entre 1580 A.C.-1172 D.C. e, de uma pequena aldeia, foi
 
transformando-se lentamente em uma poderosa cidade com quilômetros de extensão e uma população aproximada de 40.000 habitantes. No auge de sua fase de expansão territorial, o império se estendeu até a serra e costa do Peru, norte do Chile, norte da Argentina, vales e selvas da Bolívia, configurando o que se denominou por “Pueblo Aymara”. Assim, define-se esse povo como o conjunto de indivíduos que tem como língua materna o idioma Aymara, geograficamente assentado em diferentes regiões andinas e composto por vários subgrupos étnicos como os Qullas, Lupagas, Qanchis, Carangas, Lucanas, Chocorvos, Chichas. Esse império entrou em colapso bruscamente, tendo como razão fundamental variações climáticas que ocasionaram desastrosas secas por anos consecutivos (ARPASI, 1995).
Depois do declínio de Tiwanaku, surgiram outros estados e senhorios Aymaras independentes e politicamente organizados em comunidades e regiões, fundamentadas nos laços de parentesco, sem a existência de classes sociais. Durante esse período, ocorreu grande crescimento demográfico e cada grupo tratou de consolidar seu território e de expandir o espaço agrícola, inclusive construindo fortificações na intenção de deter a invasão de povos vizinhos. Esses conflitos ficaram registrados na arte rupestre e têxtil com ricos e complexos desenhos coloridos.
Fragmentado e dividido, o povo Aymara foi dominado pelo então nascente Estado inca, que muito além de ser uma nova etnia, era uma mescla de Aymaras e Incas de língua quéchuas Donos de uma enorme capacidade organizacional e militar, em pouco tempo, construíram um dos maiores impérios da história da humanidade e, sem fazer distinção alguma, denominaram a todos os Aymaras por Qullas e o território habitado por eles passou então a chamar-se Qullasuyo. Não existe consenso entre os historiadores sobre a maneira como foi essa conquista. Uns sustentam que os Incas anexaram pacificamente as regiões Aymaras para logo assimilarem sua cultura, outros defendem que ocorreram guerras cruéis e rebeliões durante todo o domínio incaico. O certo, no entanto, é que os Incas respeitaram as crenças desse povo e que não conseguiram impor o idioma quéchua sobre o Aymara (ARPASI, 1995).
Na realidade, o Império inca era herdeiro somente de um exército e, para construir sua própria riqueza, devia conquistar e anexar novos territórios. Com isso, o sistema econômico dos Aymaras, que antes produziam para seu consumo com um mínimo de excedente para o comércio, passou a agregar em seu ciclo produtivo também horas de trabalho para o novo Estado. Isso incluía a construção de templos e caminhos, o serviço militar e trabalhos agrícolas onde as comunidades deviam cultivar as terras dos Incas e do Sol, produzindo uma série de bens, como tecidos em lã e algodão, cerâmicas, cestarias, utensílios domésticos, pescado e carne seca. Em contrapartida, os Incas forneciam outros bens de consumo ou de uso cerimonial, que serviam para fortalecer o controle e as alianças com as comunidades. Os centros administrativos e religiosos foram unidos pela construção do inca promovendo uma melhoria na infraestrutura e nos sistemas de informações.
Este funcionamento permaneceu até por volta do ano de 1528, quando os espanhóis, liderados por Francisco Pizarro e Diego Dalmagro começaram a explorar a costa norte do Império Inca. A conquista veio em seguida, foi violenta e trouxe consigo as piores expressões dos valores humanos devido à quantidade de pessoas que foram cruelmente assassinadas (CHOQUE MARIÑO, 2013). Essa destruição atingiu o seu auge na soma de vários fatores tais como as epidemias trazidas pelos europeus, a falta de uma unidade enquanto nação entre os diversos povos andinos, a colaboração de povos inimigos com o conquistador, a vantagem tecnológica das armas espanholas, a grande diferença entre a guerra ritual andina e a guerra de extermínio europeia. Após o massacre, um novo sistema impôs a dominação e o servilismo ao mundo indígena andino, alterando todo o seu modo de vida.
Com isso, segundo Amestoy (2012), primeiro abriu-se o horizonte geográfico com uma dominação militar e política, que foi seguido por uma “colonização” do imaginário religioso, na medida em que foram aparecendo também a Igreja e as ordens religiosas missioneiras, incumbidas de impulsionar a ocidentalização e a evangelização dos indígenas autóctones.
Para um melhor entendimento, deve-se considerar que o povo Aymara possuía uma tradição milenar dedicada ao pastoreio de lhamas e alpacas e a uma agricultura diversificada, que utilizava técnicas ancestrais de cultivo mediante o uso de terraças. Os que viviam no altiplano possuíam abundantes rebanhos e escassos cultivos, enquanto os da cordilheira produziam nos vales, verduras, frutas e sementes. Entre essas zonas, se realizava um forte intercâmbio não só comercial através das caravanas, mas também da cultura e do idioma, gerando o povoamento dos vales providos de água até o litoral. O lhama se converteu num dos elementos essenciais para o desenvolvimento dessa fase. Os Aymaras destacaram-se em manufaturas como a cerâmica, a metalurgia, os tecidos coloridos e detalhados, a escultura e a arquitetura a partir da construção dos primeiros centros cerimoniais em pedra, com finos acabamentos e tamanhos colossais. Concebiam seu habitat como todo o meio andino que lhe deu origem, numa cosmovisão formada em diferentes épocas, que refletia as grandes mudanças na sua história e onde o espaço era considerado sagrado. Para esses indígenas, submetidos à dominação colonial, foi muito difícil guardar a memória do seu passado e a chegada dos espanhóis representou uma virada tão brusca que, na perspectiva deles, foi comparada a um retorno forçado à Idade da Escuridão[4] (ARPASI, 1995).
 
 
A questão do idioma
Desde muito cedo, os espanhóis estavam conscientes da necessidade de resolver o problema do idioma para poder cristianizar e europeizar os nativos. Num primeiro contato, recorreram ao recurso dos gestos, complementados com a troca de presentes e a pronúncia de algumas palavras chaves. Este sistema comunicativo, no entanto, gerou uma série de desentendimentos que provocaram muitos problemas. Constatou-se que seria impossível expandir qualquer idioma instantaneamente, se fazendo obrigatória uma transição gradual.
Como alternativa provisória, utilizaram-se então, de intérpretes meninos que, segundo a opinião dos padres, aprendiam o espanhol com maior facilidade. Ainda assim, não podiam confiar que as traduções fossem realizadas sempre de maneira fiel. Necessitavam buscar formas de comunicação direta com o povo e para tal, tinham de escolher entre aprender o idioma nativo ou ensinar o espanhol.
 
Criou-se outro impasse, pois, enquanto alguns jesuítas[5] da Companhia de Jesus[6] defendiam o uso do idioma local, outros insistiam que o espanhol seria a melhor opção, apelando para um sentimento patriótico de que quando uma nação culta estendia
suas conquistas, procurava fazer o mesmo com sua língua.
 
Chegando a um acordo, optaram então pela língua Aymara, pois, parecia mais fácil de ser ensinada a uns poucos missionários já alfabetizados em vários idiomas, ao invés de levar o espanhol a milhares de indígenas analfabetos com professores e recursos insuficientes. Tampouco eles confiavam na capacidade de aprendizagem dos nativos, além de acreditarem que o indígena Aymara deveria ouvir a palavra de Deus em sua língua nativa para assimilar melhor seu conteúdo espiritual.
Partindo disso, desenvolveram um esquema linguístico, em que aplicavam seus conhecimentos de outras línguas, tentando entender a estrutura, a lógica, as conjugações e declinações do novo idioma. Decifrada essa etapa, o classificavam segundo suas características e decidiam se ele poderia ser usado como “idioma geral”, justificando com isso, seu ensino a outros jesuítas. Observavam, principalmente, se esse idioma já era falado pela maioria do povo e se pertencia a nativos tidos como mais civilizados, além de assemelhar-se ao grego ou latim. A língua Aymara era a segunda do Vice-Reino do Peru em importância, depois somente do Quéchua (KING; HISPANA; URBINA, 2011).
Em caso afirmativo, iniciava-se nas escolas seu estudo intensivo, evitando com isso, muitos dos mal entendidos que outras ordens religiosas experimentaram em seus esforços para evangelizar. No entanto, ao limitarem-se num idioma geral, os jesuítas perceberam que teriam de modificá-lo para que se tornasse adequado à evangelização, pois carecia de vocabulário para expressar as ideias cristãs. Se necessário, adicionavam então palavras, derivando-as da língua nativa, inventado-as ou usando-as do vocabulário espanhol. Por outro lado, ressignificavam palavras existentes, iniciando com isso, uma mestiçagem linguística.
Conforme King, Hispana e Urbina (2011), os jesuítas se destacaram linguisticamente das outras ordens por mostrarem interesse em entender profundamente os indígenas, preservando certos aspectos de sua cultura e tentando embasar seu ensino religioso em elementos espirituais já existentes, reconhecendo que o idioma nativo possuía uma força emotiva muito maior. Também o isolamento permitiu a preservação e total domínio do idioma local, pois, sendo o padre o único europeu, não havia necessidade de usar o espanhol com os indígenas. Isso favorecia o sigilo das conversações privadas entre os jesuítas.
No que se refere à postura oficial da Coroa espanhola, refletia-se uma confusão geral sobre o assunto, pois nunca haviam enfrentado uma situação linguística assim. Na Europa não existiam mais línguas desconhecidas e quando chegaram à América, os problemas de comunicação foram tantos e tão inesperados, que demoraram anos para decidirem-se por uma estratégia definitiva.
Quando finalmente chegaram a uma conclusão, estavam firmemente ao lado do ensino exclusivo do espanhol por estar mais próximo do latim, por ser o idioma melhor capacitado para expressar a fé católica, além de ser considerado mais rico em comparação com a “pobre” língua indígena. Desejavam também, uma população nativa hispanizada e obediente à Coroa, tendo o espanhol como língua comum de todo o império, unindo  mais os nativos e facilitando seu controle e cristianização.
Na realidade, a questão do uso das línguas nativas ou do espanhol não foi uma simples escolha entre duas alternativas. Foi sim, necessário mesclar os dois idiomas, modificando-os para criar um sistema comunicativo funcional. O resultado dessa mestiçagem linguística seria a explicação para os dialetos latino-americanos, tão diferenciados do espanhol ibérico.
A partir de 1612, foi instalada uma imprensa em Juli de onde saíram gramáticas e catecismos, que reuniram os diversos manuscritos de experiências anteriores, inclusive de padres de outras ordens (KING; HISPANA; URBINA, 2011). A produção textual missionária revela a importância do conhecimento da língua para a compreensão de um novo mundo de idéias e de representações. A necessidade fez com que a Doutrina de Juli fosse a origem de uma verdadeira tradição linguística nos idiomas quéchua e Aymara.
Além de tudo isso, indispensável mencionar que, as escolas de Juli desempenharam um papel fundamental e começaram funcionar pouco tempo depois que os jesuítas assumiram as ditas doutrinas. Os principais, porém não exclusivos beneficiários delas, eram os filhos dos líderes indígenas, que recebiam ensino da escrita, leitura, aritmética, música e dança. Com o passar do tempo, os padres observaram nas crianças locais, uma habilidade intelectual muito maior do que haviam imaginado. São destacados os efeitos multiplicadores da educação escolar nas comunidades, manifestando que os alunos criavam uma barreira muito eficaz contra a feitiçaria, o alcoolismo e o comportamento desonesto no ambiente cotidiano:
 
La escuela se comenzará a entablar con el favor divino; entiendo que entrarán en ella como doscientos muchachos. Creo que este medio de enseñar estos niños del escuela en costumbres y doctrina, ha de ser para ganar a sus padres y enseñarles el camino del cielo, de lo cual tienen mucha necesidad (ACOSTA, 2013, [s.p.] ).
 
Educação e evangelização sempre foram ações inseparáveis na experiência jesuítica. Na verdade, a evangelização é, em essência, uma ação educativa, porquse implica na transformação da vida do homem ou de um povo, de um estado cultural para outro. Nesse sentido, Ortiz (2008) destaca que, o representante no Peru da chamada “pedagogia da evangelização” ou “pedagogia missioneira”, foi o Provincial José de Acosta, com uma sólida formação intelectual assimilada das ideias de Ignácio de Loyola, do humanismo e do ratio studiorum. Ao tentar compreender os padrões culturais das populações aborígenes, ele elaborou um modelo pedagógico para executar tanto o processo educativo escolar formal quanto a cristianização da América, de acordo com a realidade do continente.  Realizou para tal, um trabalho paciente de recolhimento de dados sobre a vida dos homens autóctones e os submeteu a uma rigorosa análise, o que lhe permitiu distinguir diversos graus de desenvolvimento cultural nas chamadas “nações bárbaras”. Percebeu que, mesmo generalizando o nome de “indígenas” para todos, eles eram bastante diferenciados. Então, diante dessa diversidade se fez necessário o emprego de uma estratégia de evangelização para cada tipo de sociedade, respeitando suas leis e modos de vida que não fossem contrários à fé. Estratégias estas, que iam desde o convencimento por livre decisão, passando pelo paternalismo, até o uso da persuasão.
Os jesuítas colocaram-se contrários ao uso da violência na propagação do Evangelho, conscientes de que, pelo uso da força, fariam com que a religião católica fosse odiada, o que aumentaria o apreço dos nativos pelos seus ídolos de origem. Para eles, era absurdo difundir o evangelho da paz e estender a espada da violência, uma atitude bastante contraditória que atentava contra a liberdade do ser humano. O ponto de partida foi, portanto, a persuasão. Compreender sua cultura, demonstrar simpatia e confiança, dar exemplo de boas maneiras, mostrar-se paciente e humilde, para induzir com eficiência as mudanças desejadas.
 
Considerações finais
Os julgamentos históricos sobre o trabalho dos jesuítas são quase sempre polêmicos e controversos. No entanto, importa ressaltar seu papel enquanto sujeitos da história da América Latina, com destaque em obras no campo social, educacional, evangelizador, artístico, político e econômico, habilmente manejadas para modificar as condições de vida de conglomerados humanos nativos.
Nas doutrinas de Juli foram realizadas experiências essenciais que serviram de base para a implantação de todo um sistema de reduções, como: a) a manutenção do idioma nativo, onde as doutrinas serviram de seminário das línguas aymara e quéchua; b) a conveniência de produzir um sincretismo religioso e abandonar a simples conversão pelo batismo como havia sido praticado até então; c) a importância dada à educação nas escolas; d) o registro de pormenores da vida em Juli em detalhados diários como forma de multiplicar informações e vivências. Estes são alguns dos aspectos relevantes que mostram a referida doutrina como um verdadeiro laboratório construído em décadas de um trabalho paciente, árduo e cheio de incertezas, que acabou por transformar um assentamento numa redução “embrionária” de considerável influência. Dalí saíram os padres que, em diferentes lugares do sul da América, atuaram como protagonistas do projeto missioneiro.
Esse intercâmbio não se manifestou apenas no campo material, mas conjugado com outros elementos, em quase todas as manifestações culturais do povo Aymara. Salienta-se, porém, que embora os nativos tenham assimilado as novas informações trazidas pelos conquistadores, até hoje é mantido um complexo sistema de crenças. Como prova disso, registra-se que os Aymaras denominam de “costume” às práticas de seus rituais ancestrais e de “religião” aos rituais e símbolos cristãos.
 
Referências
 
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Notas
1 Redução é um termo que diz respeito à concentração permanente de indígenas em um povoado, estabelecido por ordem e iniciativa do Estado, e nos quais, os padres constituíam o centro organizador de toda vida espiritual e material; também traz o sentido de reduzir os nativos à civilização (GONÇALVES, 2013).
2 Considerando Cultura como o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Portanto, fazem parte da cultura de um povo, atividades e manifestações como a música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, danças, arquitetura, invenções, pensamentos, formas de organização social e política (CULTURA, 2013).
3  Significa pedra central no idioma aymara  (CHOQUE MARIÑO, 2013).
4  Cf. Choque Mariño (2013), na Idade da Escuridão (Tutaypacha), o Deus Thunupa, armado de raio e luz, aniquilou a primeira humanidade, acabou com as trevas, iluminou o mundo, criou novos humanos civilizados, moralizou-os e lhes ensinou a cultura; no final desta Era, este Deus foi seduzido por mulheres sereias e morreu no mesmo Lago Titicaca que lhe dera origem, desaparecendo seu corpo com a promessa de voltar algum dia.
5 Cabe esclarecer que, desde 1577, os padres jesuítas aceitaram encarregar-se da doutrina de Juli, que então compreendia vários pequenos povoados, totalizando aproximadamente 20.000 habitantes (COELLO DE LA ROSA, 2007).
6 Ordem religiosa fundada em 1534 por Ignácio de Loyola, no contexto da reforma católica ou contra-reforma, como movimento reacionário à Reforma Protestante, tendo sido reconhecida por reis e papas; de disciplina rígida, pregaram a obediência total à doutrina da Igreja Católica, sendo seu lema “à maior Glória de Deus”; seus membros são chamados jesuítas, termo derivado do latim que significa “semelhante à Jesus”; caracteriza-se por sua forte ligação ao ensino e à educação, tendo sua experiência pedagógica sintetizada num conjunto de normas e estratégias chamado “Ratio Studiorum” (Ordem de Estudos), que visa a formação integral do homem cristão, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo; em oposição aos luteranos, pregaram que as decorações e a ostentação nas cerimônias do catolicismo deveriam ser acentuadas e abundantes (BN DIGITAL,2011).





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "De um duplo a outro" – Marie-Ange Depierre




Marie-Ange Depierre – Resenha sobre Rubem Mauro Machado e Borges

RESENHA – LITERATURA E CULTURA

2016 – 2º semestre.

 

DE UM DUPLO A OUTRO
Borges, Jorge Luis Borges, “La forme de l’épée”. In: Fictions. Paris: Gallimard, 1957. p. 137-143.
Machado, Rubem Mauro. “Deux ennemis”, Dérives, no 37-38-39, 1983: p. 105-108.
 

Marie-Ange Depierre

 
Se o tema do duplo aparece com frequência no gênero conto, não é, entretanto, tratado de maneira uniforme.  Desse modo, por meio da análise comparativa de dois contos, “A forma da espada” do argentino J. L. Borges e “Dois inimigos” do brasileiro Rubem Mauro Machado, jornalista no Rio de Janeiro e autor de vários livros de histórias curtas, entre eles Jacarés ao sol (publicado em 1976 e que inclui o conto que vamos estudar), tentaremos mostrar as diferenças no tratamento do tema do duplo que aparece em ambos, os diferentes processos de escritura usados e as visões diversas da literatura que ali se revelam.
O título do conto de J. L. Borges, “A forma da espada”, nos remete para um problema de forma. A forma semicircular da cicatriz no rosto do personagem principal, forma semicircular de lua que está presente de modo implícito no nome do personagem, John Vincent Moon, e a forma circular engendrada por um movimento de simetria entre o desenrolar diegético e o desdobramento da narrativa que cria assim uma roda de linguagem que poderia girar infinitamente.
Desde o princípio, a narrativa põe em cena o elemento enigmático, a cicatriz: “Um talho rancoroso lhe cruzava o rosto.” A história secreta dessa cicatriz virá a ser a própria base do relato e é ao contá-la que Moon levará a mudar de opinião o proprietário, que não queria lhe vender suas terras. Narrar a história, qualquer história, é, portanto, um argumento convincente, pragmático, um ato do discurso: da mesma forma a ação da narrativa, qualquer narrativa transforma a realidade, segundo a visão borgiana da ficção. Esse problema de venda das terras é, aliás, um índice da ação infamante que originou a cicatriz no rosto de Moon: a venda de seu amigo.
Neste conto, o leitor tem acesso à verdade, ao caminhar ao longo de uma sucessão de mentiras. Mentira inaugural do narrador que quer nos fazer acreditar que a cicatriz é mais importante que o personagem que a carrega: “Tanto faz seu verdadeiro nome. ” Ora, o nome desse personagem importa tanto que se nos for revelado, não haveria possibilidade do texto, pois, na condição de leitores, compreenderíamos tudo. A expressão “seu verdadeiro nome” sugere de maneira invertida que existe um nome falso, “o inglês da Colorada”, que define dessa forma o protagonista da história, ao passo que seu verdadeiro nome definirá o traidor.
O caráter dúbio e turvo do personagem principal já aparece na sua falsa nacionalidade dupla: ele é chamado de “o inglês”, embora seja irlandês e se utiliza de sua condição de “inglês” num país de América do Sul, o Uruguai.
Todo o texto depende de um jogo de identificações: identificação especular invertida da dupla identidade constituída pelo inglês/Moon; identificação do narrador com Moon quando percebe que ele está bêbado, já que Moon nos fora apresentado com um beberão; identificação do inglês com Borges como narrador na hiponarrativa que constitui a história da cicatriz. Essa identificação resultará na identidade de Moon.
A tempestade que se arma no céu, o segredo que se revela aos poucos na história evoca o que Borges dizia da literatura em “Borges e eu”: “vivo e me deixo viver para que Borges possa urdir sua literatura, e essa literatura me justifica.[1]” Escrever seria então urdir mentiras como as produzidas pelas atividades de Moon.
A explicação que Moon dá para sua cicatriz é pontuada de referências intertextuais: Joyce, sem que seja nomeado, na evocação da Irlanda e de seus traidores, e que nos recorda a visão da história irlandesa por este último em Dedalus, o general Berkeley remetendo para o filósofo do mesmo nome, Shakespeare e Schopenhauer. Essa intertextualidade permite ver que para Borges a História mostra a literatura e que a literatura é um traço ilusório da História, o que leva a uma totalidade da ficção, para não dizer a uma ficção totalitária. Há uma contaminação constante da história e da ficção e essa ficção dá à luz a realidade. Esse primado da ficção se manifesta por meio da linguagem e podemos observar que em “A forma da espada”, a traição é um evento da palavra, que se deixe escutar numa biblioteca, lugar borgiano por excelência.
Moon se faz traidor ao denunciar alguém, mas ao mesmo tempo, torna-se herói da história ao se denunciar.  Sua cicatriz serviria então como espelho de uma imagem especular invertida que se manifesta na cadeia paradigmática. Antes da existência dela, Moon é descrito como “invertebrado, covarde, delator”; depois de marcado, se tornará o inglês “enérgico, severo e justo”.
Desse modo, em “A forma da espada”, o tema do duplo aparece numa rede de identificações, de imagens invertidas que podem coexistir, da mesma forma que o texto, na sua duplicidade de ficção-história, pode se utilizar das muitas representações que ele faz surgir ao aceitar sua condição de mentira. Se para Borges o real é uma cópia deficiente das obras de arte, então a forma do duplo importa mais que seu conteúdo. Portanto é o processo mesmo do texto que vai pôr em cena esse duplo num jogo de deformações, transformações e deslocamentos, eles constituem uma combinatória que põe na berlinda o tema da renúncia na narrativa. Esse jogo faz com que será essencialmente pelo trabalho da leitura que vai se concretizar o duplo, acompanhado de perto pelo leitor.
Em “Dois inimigos” de R. Mauro Machado, a narrativa desenvolve uma paródia do duplo que não será mais um reflexo especular, mas um desenvolvimento que conduzirá à unicidade, a duas metades que constituem o Um, a uma unidade física dividida psiquicamente.
Desde o início da história, presenciamos duas identidades com quatro instâncias: “Eu o observo, ele me vigia”, o que já põe em cena dois sujeitos de enunciação, “eu-ele”, e dois sujeitos do enunciado, “eu -ele”, que se enfrentam. O olhar servirá de fio condutor ao longo do conto.
O texto condensado, muito curto, que mal chega a duas páginas e meia, trabalha muito com diferentes tipos de gênero: o gênero meta-ficcional na descrição da preparação para o ato de escrever logo no início, o gênero policial no enigma que nos é colocado a propósito desse personagem misterioso, esse “ele” obsedante, o gênero de aventura quando o narrador começa a descrição da queda do avião.
Essa mistura de gêneros que nunca resulta em nada, que são rapidamente abordados, apenas sugeridos, surpreende o leitor e compõe um conto que se apresenta como um relatório mesclando acontecimentos reais e fantásticos num estilo quase jornalístico.
Não por acaso, o narrador introduz na história o mundo dos jornalistas, a respeito do qual ele se mostra irônico, crítico. Ele os descreve ao mesmo tempo ávidos e simplificadores dos acontecimentos; por fim, mostra a mídia brasileira como mera ficção cientifica.
O mundo da medicina será também parodiado sem piedade. O nome do doutor Kill sugere assassinato, ao mesmo tempo que, por causa de sua profissão, lhe é imputado o poder de curar e livrar da morte. Ele é apresentado como um vaidoso que utiliza seus pacientes para estabelecer uma reputação de herói dos tempos modernos, em que as cirurgias espetaculares tomaram o lugar das provações e proezas do herói clássico. A evocação de seu “primeiro transplante de cérebro” faz dele mais um cientista louco (como o criador de Frankenstein) do que um homem de ciência.
A cadeia paradigmática de suas qualidades parece tão insensata quanto a classificação dos animais que J. L. Borges dá à proposito de certa enciclopédia chinesa: o doutor Kill é obcecado pelo prêmio Nobel, sabe dançar bem a rumba e as mulheres fazem fila para trepar com ele! O narrador golpeia com arte o mito do cirurgião e, implicitamente, levanta o problema da modernização num país em desenvolvimento, modernização essa que produz mais eventos espetaculares do que uma resposta para necessidades vitais, pelo menos na área da saúde. Devemos lembrar que o Brasil é um dos países onde o domínio da cirurgia plástica é dos mais avançados.
Um outro setor da modernidade, a publicidade, será também parodiado. O narrador toma emprestada a retórica do estilo publicitário, enfático, que insiste pesadamente na necessidade da total alegria de viver: “(…) eu que amo o mar e a natureza, eu que sinto dentro de mim a alegria de viver, na inteireza dos meus músculos, porque sou jovem e percebo o pulsar do sangue e do sêmen.” Esse dinamismo imperioso e exibicionista sugere um lugar, uma cidade imensa e trepidante, e um tempo da modernidade voltado para o futuro.
Como em “A forma da espada”, é através de uma hiponarrativa que tomamos consciência do segreda das cicatrizes. Pela leitura, tomamos conhecimento que esse duplo é constituído por duas metades do narrador, vítima de um acidente de avião.  “O incrível capricho da lâmina afiada ao me decepar exatamente no meio, ao comprido, de alto a baixo” só pode evocar o mito do andrógino tal como transmitido por Aristófanes no Banquete de Platão.  Porém se na narrativa mitológica é a espada de um deus que provoca a divisão, em “Dois inimigos” é mais prosaicamente a lâmina de ferro de um avião destroçado. O destino não é concebível num mundo moderno e não há qualquer traço da tragédia na descrição da sorte do narrador. O acidente aparece como um teatro burlesco: “(…) os bombeiros correndo com as minhas duas metades, ainda vivas, transportadas em cobertores.” A mitologia é também parodiada, porque se Zeus fendeu o andrógino de alto a baixo, o doutor Kill, por sua vez, o Zeus das salas de operação, vai costurar e enxertar as “meias frações, cada uma com sua metade de cérebro, nariz, pulmões, olhos” para chegar ao resultado monstruoso de um ser dividido na sua unicidade (e não pela obtenção exitosa de dois seres distintos como na mitologia): “Feito uma anêmona, as duas metades em poucos meses monstruosamente regeneraram, formando dois seres distintos, dois seres repulsivos que se odeiam, nós dois – eu e ele.”
Todo o processo narrativo joga com essa divisão física de um sujeito fictício e mesmo fantástico, para remeter o leitor a um sujeito psiquicamente dividido, ele mesmo e o outro, que somos todos, o eu e o outro que surgirá , sua parte de sombra que, tal como o inimigo, é “tímido, encolhido, contrafeito, hesitante, (…) não sabe, não consegue, maturar sua personalidade, manipular aquela carga de conhecimento humano e sensibilidade que acabei lhe transmitindo, [e que tem] o olhar baixo de medo e angustia do outro”. No entanto essa cesura corporal, seguida da divisão psíquica de um ser de duas cabeças, parece antes de tudo funcionar como a imagem icônica do corte perpetrado por uma modernização exagerada e fora do controle num mundo de tradição, de culturas diversificadas. O inimigo seria o Outro, o autóctone, o Índio, o recalcado, o arcaico, o imutável que o país deve arrastar com ele para permanecer numa dimensão humana.  Do mesmo modo, se em “A forma da espada”, Borges trata do tema do duplo numa dimensão metafisica, se ele usa a história de um país, a Irlanda, à procura da sua identidade como tela de fundo do seu conto, já Mauro Machado retrata uma realidade mais tangível, um corpo humano, e um tempo mais determinado, o advento de um acidente de avião e de uma operação cirúrgica para parodiar o duplo fracassado, produto da tecnologia e da ciência do homem. Mauro Machado faz uma apresentação burlesca e até mesmo grotesco do mundo, do homem, para propor ao leitor o problema da tolerância em relação ao outro, de seu eu dividido, seu lado desconhecido, mas também para propor o problema da modernização nos países que não levam mais em conta suas raízes culturais e etnológicas.
Na reescritura de Borges, é a escritura da História – a guerra, a conspiração e sua produção de heróis e traidores – que alimenta a narrativa, ao passo que na escritura de Rubem Mauro Machado é o cotidiano do homem moderno nos seus aspectos acidentais, porém banalizados que enseja a oportunidade de contar uma história. Uma história ancorada na modernidade: presenças do avião, do hospital, do corpo médico, do grupo de jornalistas, o que nos situa no macrocosmo de uma cidade, para nos introduzir paradoxalmente no microcosmo da vida interior, a história individual de um ser aprisionado nos seus sofrimentos físicos. O desfecho do conto, desvendando a existência de um homem de duas cabeças, produto do desejo megalômano do cirurgião, dá de súbito ao corpo a dimensão de uma narrativa, de uma memória viva, de uma história que se faz transparente.
Assim, uma das diferenças no tratamento do duplo em “A forma da espada” e em “Dois inimigos” seria talvez o fato de que Borges, no seu conto, não utiliza o corpo na sua materialidade, mas antes no seu efeito, através da sua função de continente que permite ao homem pensar, tomar decisões, trair ou tornar-se herói. Já Mauro Machado situa o corpo, desde o início, em todo a sua densidade, com suas cicatrizes, seu olhar de ódio, sua presença, aqui e agora, independentemente de todo tratamento psicológico ou metafisico. Essa densidade como que provoca um efeito de distanciamento por meio de um estilo grotesco.
O conto de Borges está mais próximo do ensaio filosófico, metafísico e literário, ao passo que o conto de Mauro Machado se lê como um texto musical, uma partitura que permite tocar uma gama de estilos narrativos, de níveis de leitura, num ritmo enxuto, feito de rupturas e novidades.
A escritura de Borges brinca com a repetição que gera o mesmo, a mentira verossímil, enquanto a escritura de Mauro Machado recorre ao registro do Outro, ao efeito do novo que gera surpresa, o inacreditável sobre um fundo de verdade.  Os dois contos, que tratam de um mesmo tema, o duplo, manifestam, entretanto, dois procedimentos narrativos diferentes, duas utilizações contrarias do mundo referencial e talvez, generalizando, duas visões divergentes da literatura.
 
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Terapeuta em psicomotricidade, Marie-Ange Depierre é doutora em Literatura Comparada. Sua tese junta dois vieses de pesquisa: o corpo e a psicanalise, o corpo e a escritura. Colabora com diferentes revistas de Québec, é tradutora de espanhol e ensina na École des Interprètes et Traducteurs da Universidade de Ottawa. É autora de coletânea de narrativas curtas publicada pela editora Triptyque: Une petite liberté (narrativas), que inclui seu trabalho “Dire oui à Clarice Lispector”.
 
Tradução de Stéphane Chao
[1] 1. Jorge Luis Borges, “Borges et moi”. In: L’Auteur et autres textes. Paris: Gallimard, 1965. p. 103-105.





Bio fornecida pelo palestrante.

DOIS INIMIGOS (*)




Rubem Mauro Machado

 
Eu o observo, ele me vigia – olhos, nascentes do ódio brotando.
Eu me pergunto o que veio esse sujeito fazer na minha vida, pressinto que jamais vai me libertar de sua horrível presença, ele, o maldito.
Vou fazendo ponta no lápis, o canivete arranca lascas que voam, quebro o grafite, recomeço com mais raiva, mas o exercício é bom e me acalma. Apoio o lápis no tampo da escrivaninha, afino a ponta, o leve pó negro constitui um pequeno monte residual, que assopro.
Ele, durante todo o tempo, assume aquele seu detestável ar contrafeito, sabendo que me incomoda estando ali. Procura evitar o ódio do meu olhar, passa a mão em gesto reflexo pelas feias cicatrizes. Eu o odeio mais pelas cicatrizes.
Sim, boa pergunta, o que veio ele fazer na minha vida, nós que não temos nada, mas absolutamente nada, em comum. Eu sou assim como vocês sempre me conheceram, sou tido, modéstia à parte, como um sujeito simpático, alegre, expansivo, de riso fácil e uma certa sedução a que as mulheres não ficam indiferentes, cortês sem frescuras, terno mas viril. Maldito Doutor Kill, maldita sejas medicina, enquanto os flashes estouram ao redor, triunfo da ciência, não me faça rir, da vaidade isto sim, sejamos sinceros, ele sorria, eu passo a mão nas minhas cicatrizes, eu cultivo meu ódio, não pedi nada a ele e a ninguém, não precisava ter feito o que fez, já era famoso e rico desde o seu primeiro transplante de cérebro, as mulheres fazem fila para trepar com ele, ah, falta-lhe o Nobel, deve ter obsessão pelo Nobel, dizem que dança rumba muito bem.
Ciência, justificativa de todos os crimes e todos os martírios e eu sou obrigado a aturar esse sujeitinho para quem detestável é pouco, um ser tímido, encolhido, contrafeito, hesitante no falar e inepto no agir, que não sabe, não consegue, maturar sua personalidade, manipular aquela carga de conhecimento humano e sensibilidade que acabei lhe transmitindo, embora a contragosto.
Mas não, ele se encolhe em sua carapaça de tatu e eu o odeio ainda mais, eu que amo o mar e a natureza, eu que sinto dentro de mim a alegria de viver, na inteireza dos meus músculos, porque sou jovem e percebo o pulsar do sangue e do sêmen. Este, que ama a música e a alegria sou eu – e quem disser o contrário mente.
E apesar de tudo, como meu inimigo, carrego cicatrizes. E ainda pressinto, como pressenti, o mergulho do avião, o abismo que me engolia, o pavor trancado na garganta, o espanto nos olhos, o choque, a desintegração, ferragens que se rompem e o agudo sentimento da impotência que nos dá na hora tanta raiva, lâminas de fogo a compor quadros que não existem nem na mais enfermiça febre dopada pelo ácido, a dor inconcebível, o incrível capricho da lâmina afiada ao me decepar exatamente no meio, ao comprido, de alto a baixo – o resto eu soube depois, me contaram, li, os bombeiros correndo com as minhas duas metades, ainda vivas, transportadas em cobertores (vi depois esta foto, em preto e branco, premiada, a gente percebe as expressões dramáticas, ao fundo as chamas e os destroços). E a ambulância com seu uivo lamentoso e desesperado furando o tráfego difícil até o hospital. E o célebre Doutor Kill e sua equipe mobilizados, à espera, contando nervosos os segundos e os décimos de segundos, andando pelos corredores esterilizados. E ainda eles curvando-se como um bando de corvos brancos, tentando adivinhar como ainda se podia constatar sobrevivência naquelas duas meias-frações, cada qual dotada de meio cérebro, um olho, meio nariz e um pulmão. E a longa noite, que emendou com a seguinte, de cauterizações, purgações, raspagens, enxertos e transfusões, o lado direito pulsando ao ritmo de um coração artificial que seria depois implantado, ao inflar e desinflar do pulmão único. No saguão de entrada os repórteres tomavam café e dormitavam sentados, revezando-se em plantões cansativos cuja monotonia só era rompida pelo anúncio de mais um lacônico boletim oficial.
O milagre acabou por acontecer. Feito uma anêmona, as duas metades em poucos meses monstruosamente regeneraram, formando dois seres distintos, dois seres repulsivos que se odeiam, nós dois – eu e ele.
Enquanto o gáudio dos jornais berra em manchetes o brilhante feito do sorridente Doutor Kill, agora festivamente chamado “o pai dos incríveis homens-anêmonas”, eu capto num relance o olhar baixo de medo e angustia do outro e me pergunto se não será possível sufocá-lo durante o sono com o travesseiro.
 
(Do livro Jacarés ao sol – São Paulo, Ática, 1976)
 
 
Nota de Rubem Mauro Machado (27-07-2016)
 
O SEGUNDO ENCONTRO COM BORGES
 
Conversei certa vez com Jorge Luis Borges em Buenos Aires. Sobre esse encontro inesquecível escrevi crônica publicada no Globo e em vários outros veículos. O que jamais poderia imaginar é que décadas depois meu caminho de alguma maneira tornaria a se cruzar com o de um dos maiores gênios da literatura. Confesso meu assombro ao me deparar com um ensaio crítico, publicado na revista literária francesa -canadense XYZ, em que Marie-Ange Depierre, doutora em literatura comparada, professora da Universidade de Otawa, traça um paralelo entre um famoso conto de Borges, “A forma da espada”, do livro Ficciones, com um conto meu, “Dois inimigos”, publicado inicialmente em 1978 no livro “Jacarés ao sol” (Editora Ática). [Ver este artigo em Resenhas, neste site]. O que une os dois contos, na visão da ensaísta, é que tratam do problema do duplo (da duplicidade), ainda que de maneira completamente diferente. Meu espanto foi ainda maior porque ignorava que meu conto fora traduzido para o francês e publicado na revista literária Dérives, que circula na França e no Canadá, onde aparentemente Marie-Ange o leu. Ao que me consta, é a primeira vez que alguém traça um paralelo entre um conto de Borges e o de um autor brasileiro.  A produção literária tem esse dom de fugir do controle de seus autores, para se desdobrar em efeitos surpreendentes. Isso constitui um alento para vários de nós, escritores brasileiros, ignorados pela mídia e desconhecidos do grande público e que temos com frequência a sensação absurda de escrever para ninguém. Devo dizer que “Jacarés ao sol”, apesar das ótimas críticas recebidas na ocasião de seu lançamento e de ter esgotado rapidamente duas edições, nunca mais foi reeditado. Alguns exemplares ainda resistem nos sebos espalhados ao longo deste grande país.
 
R.M.M.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

DUAS MARIAS: RESISTÊNCIA E CORPO NA LITERATURA – Daniele Ribeiro Fortuna




 

 Daniele Ribeiro Fortuna

Universidade Unigranrio

 
Resumo: O artigo realiza uma análise comparativa da literatura e a trajetória das escritoras Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo. Ambas viveram em condição de subalternidade e conseguiram ter voz por meio de sua escrita. O texto busca, ainda, compreender de que forma a literatura das duas escritoras atua como mecanismo de resistência. Por fim, ele se debruça sobre a questão do corpo e da resistência – ambos temas fundamentais na literatura das duas escritoras.
 
Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistência; corpo; subalternidade
 
Abstract: This article presents a comparative analysis of both Carolina Maria de Jesus’ and Maria Conceição Evaristo’s literary works and biographies. They both lived in subaltern condition, but succeeded to be ‘heard’ through their writing. This article also tries to understand how their literature acts as a mechanism of resistance. Finally, it discusses the importance of body and resistance in both writers.
 
Keywords: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistance; body; subaltern.
 
Minicurrículo: Daniele Ribeiro Fortuna é jornalista (UFRJ), mestre em Literatura Brasileira (UERJ), doutora em Literatura Comparada (UERJ) e Pós-Doutora em Comunicação (UERJ). Atualmente tem uma bolsa de Jovem Cientista do Nosso Estado (2015-2017). É professora do programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes da Universidade Unigranrio. Pesquisa os seguintes temas: autobiografia, corpo, emoção e Estudos Culturais.
 
 
DUAS MARIAS: RESISTÊNCIA E CORPO
NA LITERATURA
 
Daniele Ribeiro Fortuna
Universidade Unigranrio
 
Introdução
Para falar sobre resistência, Marilena Chauí recorre a Raymond Williams: “A realidade do processo cultural deve ser sempre capaz de incluir os esforços e as contribuições daqueles que, de um modo ou de outro, estão fora ou na margem dos termos da hegemonia específica” (WILLIAMS, 1977 apud CHAUÍ, 1993, p. 23).
Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo estiveram nesse grupo, e representam o que Spivak denominou de “subalterno”, a partir de Gramsci. Elas pertenciam às “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 12).
Pode o subalterno falar?”, pergunta Spivak. Carolina e Conceição provaram que sim. Para ambas, a escrita tornou-se, mais do que forma, caminho de resistência. Muito as duas Marias têm em comum: negras, nascidas em Minas Gerais, moraram em favelas, em condições precárias e fizeram da escrita, mais do que um alento, um modo de vida.
 
Carolina Maria de Jesus, a artista da fome
Carolina vencia o cansaço para escrever ou justamente porque estava cansada, escrevia. Ao longo de vários anos, a escritora manteve um diário, no qual registrava seu cotidiano, pensamentos, sentimentos, sonhos, revoltas, angústias e o dia-a-dia da favela. Esse diário foi publicado em 1960 sob o título de Quarto de despejo e se transformou em um dos maiores sucessos editoriais do Brasil, sendo, inclusive, traduzido em vários países. Anos depois, em 1996, outros trechos foram organizados pelos historiadores Robert Levine e José Carlos Sebe Bom Meihy e publicados no livro Meu estranho diário.
A escritora nasceu em 1914, em Sacramento, no interior de Minas Gerais. Estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida. Aos 16 anos, mudou-se com a mãe para a cidade de Franca, em São Paulo, dando início a um período de várias outras mudanças, que culminariam com sua ida para a capital do estado.
Para sobreviver, exerceu várias atividades: faxineira de hotel, auxiliar de enfermagem, vendedora de cerveja, artista de circo e, principalmente, empregada doméstica. Em 1948, Carolina foi morar na favela do Canindé. Naquele período, as favelas começavam a aparecer e se transformariam em uma dura realidade nas décadas que estavam por vir.
Os textos de Carolina, transcritos em seu diário, se constituem em um retrato de alguém que busca resistir a uma realidade dura, marcada pela miséria. A escritora mistura palavras rebuscadas a descrições ácidas de um cotidiano cruel. Embora, muitas vezes, seu diário se dedique a momentos de devaneio, sua escrita é direta, sem subterfúgios.
Até hoje, considera-se como inovadora a obra de Carolina, pois trata-se da fala de alguém que vivenciou a pobreza, a realidade de uma favela. É um testemunho de um personagem ‘de dentro’ de um cenário miserável, e não de um observador externo, como é comum acontecer. De acordo com Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Para Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.
É possível afirmar ainda que a escritora estava entre o que Chauí (1993, p. 140) denomina de os “mais pobres”, isto é, os favelados, com situação empregatícia precária, mal remunerados e quase sem escolaridade. Portanto, Carolina Maria de Jesus conhecia bem o lugar de onde falava, pois era personagem daquele cenário.
Cabe ainda ressaltar que Carolina não se detinha em escrever (e também descrever) apenas sobre a pobreza, mas – principalmente – sobre o pobre. Com isso, Carolina retratava seu cotidiano e o daqueles que a cercavam de forma individual e, portanto, original. Assim, sua escrita é única, já que é originária da força do sentimento próprio de quem é mais do que testemunha, personagem da fome – “nos textos de Carolina, tudo é visual e imediato (…) jamais perdem o conteúdo dramático da vida vulgar, cotidiana (…)” (MEIHY, 2006, p. 347).
O diário de Carolina (publicado nos livros Quarto de despejo e Meu estranho diário) relatam a vida da autora durante o tempo em que esteve na favela. Os trechos são separados por datas e se iniciam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água”. (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Deixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (JESUS, 1997, p. 61).
Um leitor desatento possivelmente terá a expectativa de uma descrição banal de alguém que leva uma vida simples, sem grandes ambições ou pretensões: alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas imediatamente o diário de Carolina ‘frustra’ esse leitor e revela um texto que, de acordo com Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (JESUS, 1997, p. 55).
Neste trecho, Carolina faz ainda uma descrição crua e cruel do lugar onde vive:
 
Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituiram os corvos (JESUS, 1997, p. 48). [Nas citações do texto de Carolina será mantida a acentuação original].
 
A escritora revela ainda o testemunho da fome:
 
27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (JESUS, 1997, p. 39).
 
Entretanto, Carolina Maria de Jesus buscava formas de resistir à fome e a todos os obstáculos que tornavam sua existência difícil. Para tanto, também tinha em seu corpo outro lugar de resistência. Nos diários da escritora, as referências ao corpo (seu e ao dos outros) são inúmeras: cansaço, fome, indisposição – suas –, sexo, bebedeiras – dos outros – etc. É possível perceber uma tensão constante entre miséria humana e resistência. Contando com o auxílio de sua escrita e de seu caráter raro e forte, seu corpo resistia aos seus problemas individuais e às questões que a incomodavam na favela.
Ao se debruçar sobre sua escrita, o leitor consegue perceber como se dava esse mecanismo de resistência. O corpo de Carolina cambaleava entre o cansaço, o estupor e a necessidade de sobreviver. No dia 19 de maio, Carolina relata em seu diário: “Deixei o leito as 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal” (JESUS, 1997, p. 30). Parece o prenúncio de um dia mais ameno, mas, logo em seguida, ela afirma: “As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (…) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dorme porque deitam-se sem comer”. (JESUS, 1997, p. 30).
Mais adiante, a escritora dá prosseguimento ao seu relato:
 
Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro:
— Olha o pão doce, que está na hora do café!
Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café. Os favelados comem quando arranjam o que comer. (…)
(…) Eu estou começando a perder o interesse pela existencia. Começo a revoltar e a minha revolta é justa (JESUS, 1997, p. 30).
 
Já no dia seguinte, 20 de maio, Carolina Maria continua: “O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito. A vera despertou e cantou. E convidou-me para cantar. Cantamos. O João e o José tomaram parte”. Mais uma vez, uma promessa de felicidade que não se concretiza:
 
Abri a janela e via as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo. Daqui a uns tempos estes palitou que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu, vão ser substituidos por outros. É os politicos que há de nos dar. Devo incluir-me, porque eu também sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo (JESUS, 1997, p. 33).
 
Com isso, o corpo de Carolina oscila entre a revolta e esperança, buscando, de alguma forma, continuar a luta, resistir. Quando tenta esboçar alguma vaga alegria ou, pelo menos, uma sensação de amenidade, rapidamente a escritora se recorda de onde fala ou algum fato do seu dia-a-dia – como a falta de comida ou de dinheiro para comprar bens de necessidade básica, por exemplo – não a deixa esquecer. E essa recordação também a faz se lembrar que o seu diário é o seu lugar de denúncia e de resistência. Mesmo que os ‘outros’ não a ouçam, porque não têm acesso a seus textos, ainda assim, ela pode escrever, tendo a esperança de um dia ser ‘lida’.
 
Conceição Evaristo, a artesã das palavras
Conceição Evaristo também nasceu em Minas Gerais, em 1946. Viveu numa favela e conseguiu concluir o curso normal somente aos 25 anos. Trabalhou como empregada doméstica em várias casas de famílias tradicionais em Belo Horizonte.
Alguns anos depois, foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou no magistério e, posteriormente, cursou a graduação em Letras. Tornou-se ainda mestre e doutora em Letras. Escreveu livros, como Ponciá Vicêncio e Becos da memória, além de diversos contos e poesias, que foram publicados em antologias.
Assim como Carolina Maria de Jesus, a escritora faz de sua escrita uma ferramenta de resistência. Sua própria trajetória acadêmica já dá indícios desse papel que a escrita sempre desempenhou na sua vida. A leitura do romance Becos da memória também traz pistas de como se dá tal mecanismo.
Escrito entre 1987 e 1988, foi publicado pela primeira vez em 2006 e relançado em 2013. No texto “Conversa com o leitor”, que abre o livro, Conceição Evaristo revela: “Arrisco-me a dizer (…) que a origem da narrativa de Becos da memória poderia estar localizada numa espécie de crônica, que escrevi ainda em 1968. Naquele texto podia ser apreendida a tentativa de descrição de uma favela” (EVARISTO, 2013, p. 11, 12). Segundo a autora, a crônica a que ela se refere fora escrita como um exercício de redação apresentado no colégio e que foi publicado em dois pequenos jornais posteriormente.
O livro nasceu ainda dos fatos que a tia, Maria Filomena, tinha o hábito de registrar: “datas e acontecimentos importantes, desde fatos relacionados à economia doméstica a acontecimentos sociais ou religiosos” (EVARISTO, 2007, apud Lima 2004, p. 1). Com o tempo, a tarefa passou a ser de Conceição e, mais tarde, esta experiência teria influência decisiva no seu fazer literário (LIMA, 2014).
As memórias da escritora a ajudaram a construir Becos da memória. O personagem Totó e sua última esposa, Maria-Velha, por exemplo, foram baseados nos tios de Conceição Evaristo. O romance conta a história de personagens que moram em uma favela, que está sendo destruída para dar lugar a um hospital ou a uma companhia de gás. Ao longo da narrativa, é possível perceber uma tensão constante entre desânimo e resistência, na qual o corpo tem papel fundamental.
Vida e morte, luta e submissão, vitória e derrota: a narrativa é permeada por estes três binômios antagônicos, que se refletem ainda no corpo dos personagens. Maria-Nova, por exemplo, é uma menina negra, de 13 anos, que gosta de ouvir histórias. O amigo Bondade e seu tio Antônio João da Silva, o Totó, são seus principais contadores.
As histórias contadas por eles vão se confundindo com os fatos que se passam na favela e que culminam com a sua destruição. Passado e presente se alternam, assim como a alegria, o espanto, a tristeza e a dor de Maria-Nova.
A menina é testemunha de várias tragédias, provocadas não apenas pelo fim eminente da favela, mas também pelas condições precárias em que vivem seus moradores. Ao mesmo tempo em que Tio Totó vai narrando sua vida, seu corpo vai se tornando decrépito. Antes risonho e alegre, apesar de todo o sofrimento que viveu (a morte de duas esposas e de filhos), ele vai definhando, se deixando ficar triste e choroso.
Maria-Nova chora com ele, sofre, sente vontade do nada. Em vários momentos, a desesperança toma conta dela:
 
Era doloroso ver Tio Totó esconder nas mãos o rosto, seus cabelos agora totalmente brancos, sentado, encolhidinho, chorando tanto. A menina se aproximava, na tentativa de consolá-lo, abraçando o velho. E, sem pudor, sem orgulho algum, sem vergonha de serem vistos, os dois libertavam o pranto (EVARISTO, 2013, p. 182).
 
Até na escola, para onde gostava de ir, agora havia perdido a graça, principalmente, quando uma de suas vizinhas, a Filó Gazogênia, morre triste, sem esperança. A vida parecia não ter sentido para ela também, como já não tinha para Tio Totó.
Tio Totó se sente cansado, sem vontade de viver. Anseia a morte como um alívio. Maria-Nova teme essa morte mas, quando ela acontece, a personagem supera a desesperança: “A dor de Tio Toto significava para ela um compromisso de busca de uma melhor forma de vida para si própria e para os outros” (EVARISTO, 2013, p. 246).
A morte, aliás, permeia toda a narrativa, em uma disputa com a vida. Os personagens e seus corpos estão sempre oscilando neste embate. Cidinha-Cidoca é outro exemplo. Antes uma negra sensual, conhecida pelo seu “rabo de ouro” – “Não havia quem provasse e não se tornasse freguês” (EVARISTO, 2013, p. 36) –, vai enlouquecendo, perdendo o cuidado de si e acaba morrendo dentro do buracão, onde iam parar os dejetos da destruição da favela. Seu corpo bonito tornara-se feio, seco.
Se a desesperança toma conta de Cidinha-Cidoca e a morte vence a luta, para Dora, o movimento é inverso. Apesar de linda – “mulata alta”, “corpo melodioso” (EVARISTO, 2013, p. 127) – e aparentemente feliz, a personagem guarda uma história de perdas e descrença.
Quando engravidou, não quis o filho. Deixou-o com o pai. Não queria se envolver com ninguém nem qualquer tipo de compromisso. Ansiava sempre o prazer, como se o isso a recompensasse por ter sido abandonada pelo pai. Mas a vida de Dora se transforma ao conhecer Negro Alírio, de quem acaba engravidando no final da narrativa e com quem decide continuar e criar a criança.
Negro Alírio – assim como o personagem Bondade – é um dos que buscam a esperança, acreditando que as coisas podem ser melhores. Também negro e pobre, ele faz do trabalho e do incentivo à educação as suas metas. Alírio é quem se encarrega de reunir os moradores para tentar resolver o problema do desfavelamento, buscando sempre conscientizá-los. No final da história, cabe a ele a Bondade o papel de ajudar os vizinhos a encontrar uma solução para o problema do desfavelamento.
Há ainda duas personagens cuja trajetória revela, mais uma vez, a tensão entre derrota e resistência. São Ditinha e a Outra. Ditinha é uma empregada doméstica que é presa por roubar uma joia da patroa, D. Laura. Ela não apenas se lamenta pela miséria em que vive, como parece invejar a beleza de D. Laura, que a faz se sentir feia e envergonhada. De tanto trabalhar, Ditinha estava sempre cansada e tinha o corpo moído.
Ditinha sustentava seus três filhos, seu pai paralítico e a irmã, que não lhe ajudava em nada. Para não ter mais filhos, pede a Maria Cosme, uma vizinha, que lhe ajude de alguma forma. A mulher enfia uma sonda em seu corpo, que a faz sangrar até parar no hospital e ter que retirar o útero.
Quando Ditinha é presa, Beto, seu filho mais velho, toma conta de tudo. Ao ser solta, ela volta para a favela. Mais magra e abatida, começa a beber e não tem vontade de sair de casa. Sente muita vergonha de seus atos. Mas, ao final, resiste e se muda da favela, sendo apoiada pelos vizinhos e com uma ponta de esperança.
A Outra vive com Vó Rita, uma parteira que havia trazido ao mundo várias crianças que moravam na favela. Vó Rita vai, aos poucos, deixando de ser parteira para cuidar somente da Outra. No começo do romance, não se sabe muito sobre essa personagem, apenas que todos a evitam e que ela se esconde. Nem seu filho a quer por perto.
Ela pensa em se matar, mas não o faz, porque sabe que Vó Rita ficaria muito decepcionada. Ao final, seu segredo é revelado: a Outra sofre de hanseníase. Para ela, parece não haver maneira de resistir. Mas, ainda que seu corpo esteja totalmente tomado pela doença, sua esperança é reacendida quando ela e Vó Rita são encaminhadas pelo governo para uma colônia de tratamento – a Outra para se tratar e Vó Rita para trabalhar.
O romance termina com Maria-Nova largando a escola, pois, com o fim da favela, teria que se mudar para longe. O tom, entretanto, não é de derrota:
 
Havia o medo, o incerto, o imprevisível do amanhã. Mas havia a tenacidade, a força o desejo de vida.
Maria-Nova tinha feito no dia anterior as provas finais, despedido dos professores, dos colegas e amigos. Não voltaria no próximo ano, mas voltaria a estudar um dia (EVARISTO, 2013, p. 255).
 
Dessa forma, apesar de toda esta tensão entre vida e morte que permeia Becos da memória, a resistência parece ser o fio condutor. Maria-Nova sabe que está deixando para trás um período importante de sua vida, sabe também que a escola é fundamental na sua vida. Mas, mais do que ter esperança, a menina acredita que um dia vai retornar aos bancos escolares.
 
Considerações finais
Como Carolina Maria de Jesus, Maria Conceição Evaristo parece acreditar que a literatura se constitui em um lugar de resistência. Ambas apostaram nessa crença e conseguiram não apenas resistir, mas existir fora da margem.
Durante algum tempo, Carolina desempenhou o papel de escritora de sucesso: viajou pelo mundo, conheceu pessoas, passou a se vestir bem. Infelizmente, esse período durou pouco e ela voltou a ter uma vida humilde e precária. Depois de Quarto de despejo, seus livros não tiveram o mesmo desempenho comercial ou espaço nos jornais e revistas.
Assim como a personagem Maria-Nova, Conceição Evaristo também foi obrigada a parar de estudar durante um período. Se para Maria-Nova retornar à escola era apenas uma possibilidade, para Conceição, esta esperança transformou-se em realidade e ela não apenas se tornou escritora, como iniciou uma vida acadêmica consistente.
Pode o subalterno falar?”, recorremos mais uma vez ao livro de Spivak. Sim, é possível. Maria Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus mostraram que sim e que a fala pode ser não apenas uma voz, mais um lugar de resistência. Duas Marias e uma só palavra: resistência.
 
 
Referências Bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência – aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Florianópolis: Editora Mulheres, 2013.
JESUS, Carolina Maria de. Meu estranho diário. São Paulo: Xamã Editora, 1996.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1997.
LAJOLO, Marisa. Poesia no quarto de despejo, ou um ramo de rosas para Carolina. In: JESUS, Carolina Maria de. Antologia pessoal. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
LIMA, Omar da Silva. Conceição Evaristo: escritora negra comprometida etnograficamente. Disponível em:
http://150.164.100.248/literafro/data1/autores/43/critica6.pdf  Acesso em: 2 mar 2016.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A fala da pobreza: Carolina Maria de Jesus. In: LIENHARD, Martín. Discursos sobre (l)a pobreza. América Latina y/e países luso-africanos. Madrid / Frankfurt: Iberoamericana / Vervuert, 2006.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.





Bio fornecida pelo palestrante.

NOTÍCIAS DE UMA POESIA LÉSBICA EM LÍNGUA PORTUGUESA – Tatiana Pequeno




 

Tatiana Pequeno

 Universidade Federal Fluminense

 

Resumo: O presente artigo tenciona cartografar e problematizar algumas das escritoras que buscam, em seus trabalhos poéticos, colocar em pauta o desejo de mulheres por outras mulheres. É de nosso interesse verificar em que medida a locução de uma poesia lésbica admite não apenas uma pulsão desejosa mas assume riscos, enfrenta poderes e desloca as hegemonias da tradição. Esta, confrontada, reexamina e reelabora outros espaços para fora da normatividade, ou, melhor dizendo, da heteronormatividade. Se por um lado será importante apontar a reduplicação de uma condição marginal, na medida em que a sexualidade não-usual é escrita através de uma lírica melancólica, é possível também verificar que as estratégias de humor também serão encontradas, uma vez que tais modos de condução poética parecem ser utilizados como subversão de uma gramática afetiva. Serão utilizados como pressupostos teóricos as obras Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade (2012), de Judith Butler, Um corpo estranho, de Guacira Lopes Louro (2008), bem como outras obras fundamentais da teoria queer que puderem discutir a temática lésbica e suas representações na poesia de língua portuguesa.
 
Palavras-chave: poesia lésbica, literatura lésbica, estudos de gênero, literaturas de língua portuguesa.
 
Abstract: This paper aims at mapping and discussing some writers who to seek the desire for other women in their poetic work. It is our interest to verify to what extent the expression of lesbian poetry admits not only a personal drive but also that it takes risks, faces powers and displaces hegemonic tradition. The latter, when confronted, re-examines and re-elaborates other spaces beyond normativity, or rather, heteronormativity.  If on one hand it will notice the importance of reduplication of a marginal condition, when unusual sexuality is described through melancholy lyric poetry, on the other hand it is verifiable the existence of humor strategies that instigate new forms of poetry that subvert an affective grammar. This article will employ as its theoretical bases in the works by Judith Buther Problemas de gênero – feminismo e subversão da identidade (2012), by Guacira Lopes Louro in Um corpo estranho, de (2008), and others dealing with queer theory that discuss the lesbian theme and its representations in the poetry in the Portuguese language.
 
Keywords: poetry, lesbian literature, gender studies, Portuguese-speaking literatures.
 
Minicurrículo: Tatiana Pequeno é professora do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, onde coordena o grupo de pesquisas: “Corpo, gênero e sexualidades no contexto das literaturas de língua portuguesa”. É doutora, mestra e bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também é autora de dois livros de poesia, tendo publicado Réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014).
 


 
NOTÍCIAS DE UMA POESIA LÉSBICA
EM LÍNGUA PORTUGUESA
 
 
 
Tatiana Pequeno
 Universidade Federal Fluminense
 
Mas quem aceita como saber que se difunda
palavra de mulher que, ainda mais, é pesada?
 
Novas cartas portuguesas
 
 
Lidar com a perspectiva de uma literatura lésbica – isto é, uma literatura cuja temática é a representação da homossexualidade feminina – no âmbito luso-afro-brasileiro é significativamente complexo. Primeiro porque as três referências locais anteriormente mencionadas dizem respeito não apenas a um mapeamento geográfico, mas sobretudo porque mencioná-los obriga a uma responsabilidade cultural, isto é, expõe diferenças na própria concepção harmoniosa e bem-intencionada da lusofonia, uma vez que a expressão literária em língua portuguesa exibe uma tensa rede de problemas endógenos nos variados contextos africanos, no contexto brasileiro e no português. Segundo porque mesmo sob o tronco da ideia de Nação, seria inapropriado e inverídico acreditar que a lesbiandade pode ser representada de uma única forma mesmo porque – e aqui já se verifica a terceira dimensão da complexidade dessa representação – especialmente a homossexualidade feminina redobra a marca de silêncio que recai sobre tudo o que compõe a própria história da mulher.
A essa história coube e cabe a posição demérita de estar fora ou articuladamente inapropriada ao universo das epistemologias: a ausência, a anulação ou a diminuição dos papéis femininos nas instâncias que permeiam e fazem a cultura e seus saberes. Judith Butler, em entrevista às holandesas Meijer e Prins (BUTLER, 2002, p. 3), entende tal assujeitamento como uma forma de “viver nas regiões sombrias da ontologia” e que, por essa razão, é chegado o tempo de reelaborar as estratégias discursivas de tratamento do gênero e da sexualidade. Diz a pesquisadora americana:
 
Meu trabalho sempre teve como finalidade expandir e realçar um campo de possibilidades para a vida corpórea. Minha ênfase inicial na desnaturalização não era tanto uma oposição à natureza quanto uma oposição à invocação da natureza como modo de estabelecer limites necessários para a vida gendrada. Pensar os corpos diferentemente me parece parte da luta conceitual e filosófica que o feminismo abraça, o que pode estar relacionado também a questões de sobrevivência. A abjeção de certos tipos de corpos, sua inaceitabilidade por códigos de inteligibilidade, manifesta-se em políticas e na política, e viver com um tal corpo no mundo È viver nas regiões sombrias da ontologia. Eu me enfureço com as reivindicações ontológicas de que códigos de legitimidade constroem nossos corpos no mundo; então eu tento, quando posso, usar minha imaginação em oposição a essa ideia (BUTLER, 2002, p. 3).
 
Será, portanto, fundamental, ao menos para este trabalho, verificar em que medida a poesia escrita por mulheres, ao tratar de representar algo que desafia o paradigma da heteronormatividade, pode assumir novos espaços no discurso, bem como protagonizá-lo na sua formulação simbólica crendo numa aposta de reinvenção desses mesmos códigos de inteligibilidade.
Para esta apresentação não pretendo, no entanto, enfrentar tais questões no contexto das literaturas africanas, uma vez que a referida complexidade assumida no início deste texto é potencializada pelos procedimentos culturais de velamento da lesbiandade nas culturas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, o que acaba por exigir uma argumentação mais demorada, o que o tempo da presente oportunidade não pleiteia. A meu ver, entretanto, a poesia de Paula Tavares abriria brechas para um enfrentamento literário desses problemas, por exemplo, mas, aqui, não trataremos de tais procedimentos. Nesse sentido, gostaria de apontar que o presente texto é, também, fruto de meu trabalho de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal Fluminense, cujo objetivo principal é ler criticamente a literatura produzida a partir de 1969 com temáticas de gênero e sexualidades femininas em questão.
Considero 1969 um ano decisivo porque não só é uma consequência cronológica imediatamente ao turbulento ano de 1968 e suas revoluções culturais, mas também porque é o ano de publicação, em Portugal, de Maina Mendes, de Maria Velho da Costa, livro que, dentre outras coisas, ficcionaliza o problema do silêncio no/para o universo feminino e obra que estabelece relação direta com o algo que leio obsessivamente há quatro ou cinco anos: as Novas cartas portuguesas. Entretanto, em conversas com colegas da área de Literatura Portuguesa, costuma aparecer uma pergunta que penso ser delicada: “Mas você não acha que as Novas cartas portuguesas são um texto empenhado demais, o que faria com que a Literatura perdesse espaço para um ativismo exacerbado?”
Mas e as Novas cartas portuguesas? E a poesia que pretendo discutir? Minha proposta teórica é de que a escrita das Novas cartas portuguesas funcionaria, em alguma medida, como texto estruturante no processo reivindicatório do lugar do feminino no universo da literatura luso-afro-brasileira. O que compreendo por inovador e singular nas NCP é exatamente a sua proposição ativista que sugere uma reconfiguração do conceito de literatura a partir de uma escrita reivindicatória no feminino, o que não quer dizer que não se reconheça a monumentalidade de obras de Júlia Lopes de Almeida, Judith Teixeira, Gilka Machado, Noémia de Sousa, Alda do Espírito Santo, Ana Cristina César, Paula Tavares, Luiza Neto Jorge e Conceição Lima e Ana Luísa Amaral, por exemplo, no século XX. De todo modo, o que proponho, é que o livro das “três marias” operacionalizaria uma guinada histórica e objetiva que colocaria em xeque até mesmo o projeto de qualquer Literatura que se queira “Maior”, “Pura”, “Alta” ou “Depurada” ou que pressuponha a hipervalorização do significante em detrimento dos significados. Neste sentido, a importância das NCP se evidencia, pois ela atualiza o lugar da própria literatura no século XX. Ao hibridizar os gêneros em cartas, pequenas narrativas, poemas, textos de caráter ensaísticos ou de manifesto, as três autoras abrem um precedente literário (e inclusive jurídico) para que outras mulheres reivindiquem o local da autoria, estabelecendo um contraponto – um contradiscurso – em relação à especificidade do cânone e seus sentidos de representação.
Essa atitude de reivindicação costuma ser, no entanto, mal recebida. É neste sentido que a americana Annette Kolodny verifica, em seu livro Dancing Through the Minefields: Some Observations on the Theory, Practice, and Politics of a Feminist Literary Criticism  (1980), a dificuldade de compreensão da crítica feminina/feminista:
 
Ao invés de serem bem-vindas ao trem, entretanto, nós temos sido forçadas a negociar em um campo minado (…) se nós somos acadêmicas dedicadas a redescobrir um corpus perdido de textos escritos por mulheres, nossos achados são questionados esteticamente. E se nós somos críticas, determinadas a praticar leituras revisionistas, é dito que nosso foco é muito estreito, e que nossos resultados são apenas distorções de, ainda pior, más interpretações polêmicas (KOLODNY, apud AUAD, 2014, p. 153).
 
Com efeito, a argumentação de Kolodny demonstra que a crítica tradicional não só desprestigia a crítica feminista (e a crítica queer ou a crítica mais assemelhada aos estudos culturais) pelo fato de estas últimas desativarem o estatuto hegemônico de sua permanência, o que é evidentemente visto com antipatia pela maioria (no sentido sociológico) que o cânone representa: uma cultura ocidentalmente branca, de origem ou influência europeia, masculina e heterossexual, vide o ressentimento apontado por Harold Bloom a respeito do Cânone Ocidental. Ainda que pareça desnecessário dizer isso num ambiente acadêmico, é importante ressaltar que a proposta da crítica feminista/queer e ou da literatura feminista/queer não é a destruição irrestrita e radical da literatura e crítica canônicas. O que se deseja a partir dessas perspectivas de estudos e produções estéticas é questionar a singularidade da voz, isto é, procurar construir espaços mais plurais capazes de receber aquilo que se inscreve pela e/ ou na diferença.
 

  1. Da poesia Em nome do corpo

Quantos de nós já ouvimos falar de uma literatura feminina em língua portuguesa que pusesse em xeque a heterossexualidade ou até mesmo as tradicionais concepções de gênero? Seríamos capazes de listar ao menos cinco autoras para quem a dimensão da sexualidade ativasse uma crise ou o seu processo de criação?
Como se sabe, as Novas cartas portuguesas são um livro de constituição híbrida e plural em todos os seus aspectos: a sua concepção enquanto objeto textual evidencia, na autoria, uma construção de seis mãos, na medida em que três são as autoras, além disso, a potencialidade dos gêneros textuais presentes no livro é igualmente diversa. Estas proposições estéticas dialogam contemporaneamente com conceitos importantes do feminismo como o de sororidade, que seria a capacidade de mulheres serem solidárias a elas mesmas. A partir disso, caberia lembrar também que Maria Velho da Costa, Maria Tereza Horta e Maria Isabel Barreno parecem estar decididamente cientes, para o universo feminino, dos conflitos e problemas existentes nas ideias de herança e legado. Cito:
 
Por que me chamo de rebento extemporâneo e filosófico desta linhagem feminina? Por despeito, por raiva, por impotência? Que fizemos nós todas? Nada. Mariana começou; Mariana veio afirmar seus direitos? Duvido. Mariana apenas rompeu a hipocrisia e dela se queixou. (…).
Não, Mariana nem isto gritou; apenas disse “aqui estou eu, possuída pelo amor”. Levantou-se um murmúrio “que lindo é o amor de mulher, ah! mas porquê escondê-lo debaixo de tanto respeito e conveniência, não convirá mais aproveitá-lo? Quem teme esta mulher, tão à mercê do amor?” Desenhou-se, gigantesca, a figura de Mariana sobrinha; rebento extemporâneo também; onde foi buscar tal saber? Com ela me identifico; e apesar de seu saber e de sua palavra, que outra coisa foi senão mulher, que escreve diário e uma carta? Quanto ao resto bordou e teve filhos; com que solidão. O seu diário é uma rocha; não, é antes única quebra de seu silêncio, único local possível para a sua palavra, mas por isso, pedra. Que dizia ela? “A vida de uma mulher é toda como um parto; acto solitário e doloroso, escondido, arredado dos olhos de todos em nome do pudor. O pudor é uma nostalgia, serve para fingir que estão mortos os vivos demasiado incômodos (BARRENO, COSTA & HORTA, 1974, p. 177-178, negritos nossos).
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É disso que quero tratar. Dessa história da literatura no feminino e em língua portuguesa. É dessa forma que a compreensão do legado deixado pelos “rebentos extemporâneos” anteriores que vai se delineando e se reescrevendo uma nova tradição do feminino que prescinde dos silenciamentos. Creio, dessa forma, que foi só a partir da atividade desenvolvida pelas três figuras vivas demasiado incômodas que até hoje têm seu livro questionado pelos valores estéticos hipoteticamente perdidos que Manuela Amaral, Adília Lopes, Isabel de Sá, Helga Moreira, Maria Sousa, Ana Luísa Amaral e Margarida Vale de Gato, por exemplo, puderam publicar o que escreveram.
E indo ao encontro desta hipótese de legado, é que considero Em nome do corpo, livro de Isabel de Sá, de 1986, em que se verifica uma enunciação interessada em sugerir (às vezes evidenciar deliberadamente) relações entre mulheres, um texto fundamental para driblar as estratégias de construção e definição do cânone. Em outras palavras, estamos diante de uma poesia notadamente lésbica. Ciente da dificuldade dessa expressão em língua portuguesa, Isabel de Sá recorre a outros suportes estéticos para ensejar o seu lirismo lésbico.
Partindo daquilo que considero ser duas epígrafes (uma verbal e outra imagética), encontramos na primeira uma remissão à obra de Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut, Le nouveau désordre amoureux, importante obra de 1977 que discorre sobre as revoluções afetivas e sexuais em curso a partir das revoluções culturais dos anos de 1960. A frase diz: “Hoje em que a pele é o que há de mais profundo, todas as exclusões são pronunciadas em nome do corpo” (SÁ, 1986, p. 7). Esta epígrafe, taxativa em sua proposta de deixar claro que o corpo e a pele serão, neste livro de poemas, de sujeitos excluídos. O que penso haver de mais interessante neste trabalho, para além da coragem de Isabel de Sá, é uma espécie de recado à crítica. Pois a segunda epígrafe desta obra nada mais é que um desenho de Graça Martins. Imagem que, a meu ver, parece querer dizer: “Caso não tenham entendido ainda de que tratará este livro, a ilustração talvez ajude a concluir.” E para finalizar sua introdução, sob o título de “Começar”, aí assinada pela autora, lê-se: “Na penumbra os corpos tocam-se antes da sílaba inaugural. Começar é sempre um escândalo, é desviar a instituição da sua verdadeira finalidade e da sua inocência” (SÁ, 1986, p. 11).
O presente texto, pelos limites da sua extensão, não permite que possamos discutir de maneira mais aprofundada o que parece estar em jogo no prólogo desta poesia mas, de antemão, é digno de nota que o texto aponta para uma prática anterior aos procedimentos de escrita. Trata-se, vamos concluir depois da leitura, de uma escrita bastante consciente de sua relação de desvio da heteronormatividade. Algo, entretanto, me incomoda neste começo, provavelmente porque leio este livro em 2014, 2015 e não em 1986, no contexto de sua produção. Falo sobre “desviar a instituição da sua verdadeira finalidade e da sua inocência” (SÁ, 1986, p. 11). A que instituição Isabel de Sá se refere? À Família? À Literatura, com L maiúsculo? De qualquer forma, fica a pergunta: qual seria a verdadeira finalidade das instituições? (Qual é a finalidade da crítica acadêmica? Por que as Novas cartas portuguesas não seriam Literatura?)
De todo modo, é importante que se diga que as tradições não foram de todo abolidas na poesia de Isabel de Sá. Os textos, organizados a partir da proposta dos poemas em prosa, apontam para uma certa narratividade em que se apresentam três instâncias nucleares que movimentam estas narrativas líricas: um “eu”, um “ela” e o nascimento de uma escrita urgente, capaz de tratar desse encontro fulminante e arrebatador. Como se a escrita estivesse a serviço de uma devoção ao sentimento que, conectada à sua tradição, sabe dos riscos de qualquer sistema de vassalagem amorosa.
Se vimos que em Isabel de Sá o desenho de Graça Martins alude à temática da poesia de Em nome do corpo, é preciso também reconhecer que a resistência da poesia, para lembrar Jean-Luc Nancy, está mantida. Porque apesar destes poemas estarem inscritos a partir de uma certa coloquialidade, aqui evidenciada por conta dessa narratividade lírica, é tensa e rara a dicção dessa arte erótica feminina: “(…) Aproximara de mim o gesto, vigoroso, ao prender-me a mão entre os seus dedos deixando uma impressão de queimadura (…). Ela tomava-me o corpo num abraço voluptuoso, feminino. Eu era a figura ambígua de encontro ao seio onde a palavra renascia” (SÁ, 1986, p. 19).
A rigor, é possível comprovar um lesboerotismo no trecho anteriormente lido? Não sei se a poesia precisa comprovar alguma coisa, mas minha experiência diz que ela se constrói a partir de uma estrutura subjetiva, e portanto pretensamente singular do humano. O abraço voluptuoso do poema é feminino. O que é esse feminino, nesse caso? Seria para caracterizar que neste abraço estão implicadas duas mulheres? Ou para dizer que nesta volúpia esse desejo é marcadamente feminino? De todo modo, o poema reitera de maneira tensa que o gênero é uma questão. “Eu era a figura ambígua de encontro ao seio onde a palavra renascia” (SÁ, 1986, p. 19) não é um final simples. Sugere ao menos duas possibilidades para a minha leitura: ser essa figura ambígua permitiria compreender uma dissociação da representação tradicional com que sujeitos do gênero feminino têm de passividade, doçura, sensibilidade, submissão. Digo isso porque a teoria queer nos ensina que para compreender as sexualidades é fundamental compreender os papéis sociais de gênero. E Isabel de Sá, em 1986, parece um pouco consciente dessas clivagens. A dimensão da ambiguidade aparece em outros poemas do livro, como por exemplo em “Sedução” e “Cumplicidade”, em que diz “Uma rapariga que pelo corte de cabelo e estilo de conjunto parecia um cavaleiro da Idade Média. No olhar foi-me dado entender que ela fazia a vassalagem do amor” (SÁ, 1986, p. 13). A outra possibilidade de leitura que entrevejo na categoria da “figura ambígua” seria exatamente no sentido da angústia da dicção. Como se esta imagem se opusesse ao peito eloquente onde a palavra opera. Neste sentido, a figura ambígua seria marca de um contradiscurso ou de uma subjetividade ainda incapaz de compreender a erótica em questão.
Por outro lado, é importante observar que nessa dificuldade, a poesia insiste. Insiste em tratar do desejo, sobretudo: “Eu morria de tanto desejo contido nesse corpo. Que fazer senão amá-la, expulsar meu desespero, ser mãe e amante na inconsciência total do momento? O poema surpreendia-me. Impossível esconder o rosto ou fugir ao tumulto” (SÁ, 1986, p. 28). Ou seja, verificamos nessa dialética (mostrar o rosto/esconder o rosto/sujar o rosto/dar o rosto) de Isabel de Sá, autora de um livro posterior chamado O avesso do rosto, que a dimensão do lesboerotismo e da homoafetividade lésbica acabam por resolver na tensão da poesia ou só a poesia pode(ria), inicialmente, dizer esta gravidade (ser mãe e amante na inconsciência total do momento) que é subverter a ordem dos discursos sobre a heteronormatividade.
Mas, e no caso da literatura brasileira, sistema que estabelece com a cordialidade um traço predominantemente cultural, em que medida seria possível falar de uma poética capaz de enfrentar a norma da submissão e a ética do pudor a que parte do trecho anteriormente citado das Novas cartas portuguesas nos lembra?
A rigor, seria conveniente apontar que na proto-história de uma poesia lésbica brasileira encontraríamos em A queda para o alto, de Herzer, um texto fundamental para a ativação de qualquer estrutura que deseje considerar o binômio gênero-sexualidade em sua crítica. Para tanto, seria importante lembrar do livro A queda para o alto, publicado pela Editora Vozes em 1982, que pode ser considerado um dos documentos mais relevantes para se pensar a relação entre escrita, gênero e sexualidade periférica no campo das literaturas de língua portuguesa. Isso porque a narrativa – uma autobiografia mesclada com poemas, trechos de cartas e bilhetes-, tem como objetivo principal compartilhar a experiência de Sandra Mara ou Anderson Herzer, escritor@ nascid@ no interior do Paraná, como sobrevivente de um longo e contínuo processo de exclusão. Para ler esta obra, elaborada a partir de uma consciência frágil da sua relevância para se problematizar os dispositivos que garantem a hegemonia e o poder do autor na literatura brasileira. Herzer, cujo sonho eram o livro e a possibilidade de uma quantidade maciça de seres humanos conhecerem a sua versão da história, escrevia poesia que, embora não seja apessoada a uma “Alta Literatura”, obteve muito raramente seu texto lido sob o escrutínio da crítica canônica, especialmente porque seu trabalho, embora escrito em versos, jamais foi alçado ao patamar da dignidade literária. Luiz Mott, importante estudioso da história e dos ativismos gays e lésbicos, no fundamental (ainda que hoje desatualizado) O lesbianismo no Brasil (1987) recupera um panfleto assinado pelo Grupo de Ação Lésbica Feminista de São Paulo na ocasião da morte de Herzer:
 
Esta carta é dirigida a todos os que repudiam a violência, desde a violência acintosa das ruas e da repressão policial ou a do estupro e espancamento de mulheres, àquela mais insidiosa do preconceito que interiorizamos e que também mata. O preconceito que empurra pessoas de cima das pontes, como empurrou a jovem mulher Sandra Mara Herzer, de um viaduto para a avenida 23 de maio. Sandra Mara amava as mulheres numa sociedade ultramisógina, onde apenas o masculino é positivo e tudo é feito para satisfazer as necessidades e anseios dos homens. Talvez por isso, supondo ser incompatível a força e o feminino, o valor e o feminino, tenha se transformado em Bigode – mas Sandra tinha sua essência no feminino, não o feminino de estereótipo, mas aquele que transcende e não se conforma preferindo até mesmo o suicídio.
Esta carta é dirigida a todos que repudiam a violência, o preconceito. Queremos, através dela, dizer a todas as Sandras Maras que o mundo mulher é lindo, e que continuaremos aqui lutando pelo direito de retirar nossas máscaras e amar a quem quisermos e como quisermos. Continuaremos aqui lutando pelo direito à felicidade, como companheiras solidárias que somos e devemos ser, contra todo tipo de preconceito, porque o preconceito também nos mata (MOTT, 1987, p. 213).
 
Com o intuito de finalizar esta apresentação, gostaria de sugerir a leitura da obra de Angélica Freitas, poeta de Pelotas publicada pela Cosac & Naify. Gostaria de ter a oportunidade e um tempo mais amplo para desta poesia aqui tratar pois, ao contrário de uma tradição que relaciona o lugar do feminino a imagens de silêncio e melancolia, a obra de Angélica Freitas parece esboçar uma crítica fundamental a despeito de alguns conflitos das mulheres, utilizando o humor como metodologia poética. Seu primeiro livro, Rilke Shake, procura desestabilizar a influência modernista europeia e americana, embora o lugar de fala do sujeito lírico esteja notadamente marcado por um (lugar no/ do) estrangeiro (destaque para o poema “Liz & Lota”). Já seu segundo livro, Um útero é do tamanho de um punho, de 2012, evoca muito mais frontalmente as questões de gênero, procurando subverter de maneira mais ou menos original os lugares comuns da condição feminina, transformando-se numa obra fundamental para a compreensão da lírica feminina e de uma poesia mais ou menos consciente de seu caráter revolucionário no que diz respeito ao tratamento de temáticas lésbicas, contribuindo para uma refrigeração original da poesia brasileira contemporânea.
Para encerrar, gostaria de recuperar Virginia Woolf, no artigo “Profissões para mulheres”, onde a inglesa observa o quanto é difícil matar o fantasma do Anjo do Lar, imagem atomizadora da mulher dócil e subserviente, frágil e passiva. Pois estes textos, apesar de nada garantirem a não ser os seus conflitos e dilemas, realocam as mulheres na participação do desejo e de uma reconfiguração social por meio, inclusive, das novas proposições de entendimento do gênero. O senso comum poderia objetar: “Todo mundo sabe o que é uma mulher.”. Ao que eu responderia: “Talvez o cânone literário (ainda) não saiba”.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AUAD, Pedro Henrique T. K. Teoria da Literatura e Teoria do cinema: a crise e o fantasma. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos Literários. Faculdade de Letras, UFMG, 2014.
BARRENO, Maria Isabel; COSTA, Maria Velho da; HORTA, Maria Teresa. Novas cartas portuguesas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974.

BUTLER, Judith. Como os corpos se tornam matéria: entrevista com Judith Butler. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, jan. 2002, v. 10, no 1. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2002000100009&script=sci_arttext. Acesso

em 30 de maio de 2015.

MOTT, Luiz. O lesbianismo no Brasil. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
SÁ, Isabel de. Em nome do corpo. Lisboa: Rolim, 1986.
WOOLF, Virginia. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre: L&PM, 2011.





Bio fornecida pelo palestrante.

LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR E DE FERNANDO PESSOA – Dhandara Soares de Lima




LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR E DE FERNANDO PESSOA
 

Dhandara Soares de Lima

UNIOESTE

 
Resumo: Ana Cristina Cesar (1952-1983) é uma das principais poetas da chamada “poesia marginal” brasileira. Sua obra, ainda que rica e complexa, normalmente é estudada a partir de uma perspectiva historiográfica ou sob a sombra de sua morte trágica (a poeta suicidou-se aos 31 anos). Assim, as comparações tecidas entre ela e outros poetas, de modo geral, condenam sua poesia a estes dois aspectos, simplesmente. Diferentemente, este artigo trata de uma importante parte de sua poética: o metapoema, ou seja, aquele que tematiza a própria produção poética ou o próprio poema em si – característico de sua escrita. O poeta português Fernando Pessoa (1988-1935), por sua vez, também se utilizou da metapoesia como meio de representação. Além de uma possível influência do trabalho de Pessoa nos escritos de Ana C., outros fatores aproximam os dois poetas, como tentaremos demonstrar neste trabalho. Finalmente, o objetivo principal da presente pesquisa é apresentar e refletir sobre os elementos que aproximam e os que distanciam a escrita metapoética do poeta português e a da brasileira. Tentaremos também complementar essas análises com alguns textos de crítica literária e ensaios acerca de literatura escritos pelos autores em destaque neste trabalho.
 
Palavras-chave: Literatura Comparada. Poesia Contemporânea. Literatura Brasileira. Escrita feminina.
 
Minicurrículo: Professora de Língua e Literatura de Língua Inglesa no curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês e Respectivas Literaturas na UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutoranda em Letras (Literatura e Sociedade: Estudos Comparados). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UNIOESTE. Avaliadora oral dos exames internacionais de Cambridge/ESOL. Tradutora e revisora de línguas portuguesa e inglesa. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6015422207393688.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LEITURAS DA METAPOESIA DE ANA CRISTINA CESAR
E DE FERNANDO PESSOA
 
Dhandara Soares de Lima
UNIOESTE
 
O Homem é uma soma heterogênea de solicitações inconscientes, a que uma consciência e uma razão, aquisições recentes da animalidade, presidem como um rei constitucional, que reina mas não governa. A acção humana é irracionalizável, contraditória, absurda. […] A mais lúcida e simples das nossas escolhas é inúmera e obscura nas suas origens.
Fernando Pessoa
 
 
Como ilustra a citação escolhida para figurar no início deste trabalho, as razões humanas são inúmeras. Uma vez que a literatura é a arte humana que utiliza a linguagem como forma de expressão e também mantendo em mente que a linguagem é uma das mais importantes formas de o humano compreender e refletir sobre o mundo e sobre si mesmo, a razão da produção de uma obra literária nos parece algo complexo demais para ser discutido em poucas páginas. Portanto, o objetivo deste trabalho não se centra na possibilidade (mesmo que bastante provável) de Ana Cristina Cesar, importante poeta brasileira, ter escrito seus poemas por influência da leitura de obras de Fernando Pessoa, grande cânone mundial.
Desta forma, nossa investigação foi motivada pela similaridade entre os poemas dos dois autores, ainda maior quando nos focamos nos trabalhos metapoéticos dos artistas. Como a obra de ambos é ampla, para a produção deste artigo selecionamos poucos poemas, para que a pesquisa pudesse ser um pouco mais apurada. A proposta, como será perceptível, não foi de realizar uma análise quantitativa, ainda que esta seja uma opção interessante para o futuro. Os poemas de Ana Cristina selecionados fazem parte da antologia póstuma Inéditos e Dispersos (1985), organizada por Arnaldo Freitas Filho. A seleção para o corpus de Fernando Pessoa privilegiou os textos metapoéticos mais conhecidos, assim como algumas de suas reflexões sobre arte.
Inicialmente, traçamos um panorama de vida e obra de Ana Cristina Cesar, de caráter introdutório. Então, passamos a alguns comentários sobre Fernando Pessoa e, na sequência, ao confrontamento entre os poemas e os ideias estéticos perceptíveis nas obras dos artistas em questão.
 
Sobre Ana Cristina Cesar
 
Ana Cristina César (1952-1983), ou Ana C. – como costumava assinar seus trabalhos –, nasceu e viveu no Rio de Janeiro, ainda que tenha viajado por muitos lugares do mundo. Ela escreveu e publicou diversas coletâneas de poemas, assim como livros sobre estudos literários e tradutológicos. Sua vida encontrou um fim talvez prematuro, com seu suicídio, aos 31 anos.
Tendo participado da coletânea 26 poetas hoje, organizada Heloísa Buarque de Holanda (2007), sua poesia ganhou reconhecimento no meio intelectual em sua própria época. Depois disso, publicou seus poemas em edição independente e, no contexto da repressão política em que vivia, devido à ditadura militar, publicou através de uma editora apenas seu último livro, A teus pés (1999). Assim, seu nome é um dos grandes expoentes da chama “geração mimeógrafo”, e sua poesia pertence ao contexto de poesia marginal dos anos 70 do Brasil. Sobre isso, a própria Ana Cristina asserta que
 
(…) a marginalidade é tomada não como saída alternativa mas sim como ameaça ao sistema, como possibilidade de agressão  e transgressão. A contestação é assumida conscientemente. O uso de tóxicos, a bissexualidade, o comportamento exótico são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e portanto assumidos como contestação de caráter político (CESAR, 1999, p. 123).
 
Contudo, cada vez mais estudos, na atualidade, tratam de como seu projeto poético não se limita aos preceitos “marginais” e como sua obra se diferencia da de outros autores reconhecidos da época. Sobre isso, Ivan Junqueira (1987) afirma que:
 
(…) enganam-se os que supõem haver desleixo formal ou discursivismo no verso da autora. Tais características são antes atributos da má poesia que escreveram quase todos os seus companheiros de geração. Esse aparente desleixo nada mais é que uma estratégia destinada a impedir que se coagulem a fluência do discurso e o ritmo do verso (JUNQUEIRA, 1987, p. 1).
 
Como podemos perceber a partir disso, Ana C. reconhecidamente difere-se dos outros de sua época. Mesmo assim, de forma geral sua obra é estudada a partir de dois prismas principais: seu contexto histórico ou sua morte trágica.
Contudo, ainda que tenha, de fato, compartilhado e contribuído com a estética de seus contemporâneos, cada vez mais estudos mostram como sua grande parte de sua obra diferiu da dos outros escritores e artistas de seu tempo. Ana Cristina, portanto, não pode ser tomada apenas como uma representante da época em que escreveu, mas como uma artista que, principalmente, não seguiu nem os modelos clássicos nem unicamente as tendências momentâneas. Estudando a obra de Ana C. e, principalmente, o distanciamento da obra desta das de seus contemporâneos, Marchi e Franchetti (2009) afirmam que:
 
Diante de uma questão sobre a relação entre a escrita em forma de diário e a expressão de intimidades, a poeta responde: (…) Aqui é fingido, é inventado, certo? Não são realmente fatos da minha vida. É uma construção. Mas há muitos autores que publicam diário. Quando você ler o diário do autor, de verdade, que ele escreveu sem uma intenção propriamente de fingimento, você vai procurar a intimidade dele. Se você vai ler esse diário fingido, você não encontra intimidade aí. Escapa… Então, exatamente o que é colocado como uma crítica é, na verdade, a intenção do texto (CESAR, p. 256 apud MARCHI; FRANCHETTI, 2009). (Grifos nossos).
 
O “fingimento” de que fala Ana Cristina nos remete imediatamente ao clássico poema de Fernando Pessoa, Autopsicografia, dentro da coletânea Cancioneiro, publicada em 1934:
 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
 
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
 
É possível compreender, desde esse primeiro momento, que o conceito poético de Ana Cristina se aproxima do de Fernando Pessoa. O modo como essa aproximação se dá e quais são as concepções e os elementos compartilhados pelos projetos estéticos de Pessoa e de Ana C. são o tema das páginas que se seguem.
 
As aproximações entre os poetas e suas obras
 
Fernando Pessoa é um poeta que dispensa apresentações. Foi um dos maiores artistas da língua portuguesa e grande conhecedor de literatura. Sua obra, vasta e rica, é ainda discutida e analisada. Tendo vivido entre 1988 e 1935, Ana Cristina Cesar certamente teve acesso à obra desse importante nome da literatura, tendo até se referido a ele em seus poemas.
Como comentado na introdução, o norte desta pesquisa não é a busca por possíveis “fontes e influências” do trabalho de Ana C., relegando-a, assim, a uma posição de poeta “menor”. Dada a leitura de poemas como os que citamos, é perceptível que existe algo que os aproxima. Compreendemos, a partir de nossos estudos, que este “algo” pode ser um projeto estético que compartilhe conceitos – e aí se encontra a pergunta que instigou a presente pesquisa: quais conceitos?
Comecemos pela reflexão de que ambos Ana C. e Pessoa expressaram sua poética tanto em língua portuguesa quanto em inglesa, mesmo que predominantemente na primeira. Ana C., contudo, mistura mais os dois idiomas do que o poeta português. Portanto, não se expressaram apenas na língua materna, demonstrando perícia também em manipular outras formas de linguagem. A manipulação lingüística é um dos temas abordados por Pessoa em um de seus vários ensaios. O poeta sintetiza algumas de suas concepções acerca de poesia em um ensaio que escreve em português e em inglês: “um poema é uma impressão intelectualizada, ou uma ideia convertida em emoção, comunicada a outros por meio de um ritmo.” (PESSOA, s/n, p. 75).
Além disso, os dois poetas também foram tradutores e estudiosos de literatura, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Parte de suas obras literárias também são dedicadas ao metapoema, ou seja, a poesia que trata exatamente do fazer poético. Essas informações são relevantes quando nos atentamos ao que isso significa: foram poetas que se preocuparam não apenas com escrever bons poemas, mas que pensavam a arte e refletiam sobre a essência da poesia.
Em um estudo anterior[1], discutimos como Fernando Pessoa se encaixa na definição de poeta “artesão” – termo cunhado por Duffrene em sua obra O poético (1987):
 
Enquanto criadores de um efeito poético, Dufrenne distingue dois grupos nos quais os poetas podem se encaixar: o poeta artesão ou o poeta inspirado. O primeiro é o “artesão da linguagem” (1969, p. 124), que constrói o poema de forma deliberada calculada. O segundo “é menos cioso de seu ato do que propriamente de seu estado” (idem, p. 219), ou seja, ocupa-se do “estado poético” mais do que da construção do poema (LIMA; AISSA, 2009).
 
Como podemos compreender a partir de vários ensaios, poemas e declarações, Ana Cristina preocupava-se com a qualidade da literatura. Como podemos inferir de um de seus poemas, desconfia da poesia “inspirada”, uma vez que “a gente sempre acha que é / Fernando Pessoa” (CESAR, 1985, p. 182). Podemos inferir a partir desses dados, a poeta questiona sua própria produção, o que nos aponta para uma preocupação com seu fazer poético e mostra uma “desconfiança” da poeta em relação ao verso “fácil” e é um sinal de que podemos classificar Ana C. como uma poeta artesã, em contraponto ao poeta inspirado. Anteriormente, também classificamos Fernando Pessoa como poeta artesão. Este é um dos pontos principais e talvez a maior confluência entre o projeto estético desenvolvido por Pessoa e por Ana C.
Annita C. Malufe (2006) discorre sobre as acepções de Ana Cristina sobre as relações entre a intimidade do poeta (pessoa de carne e osso) e a produção da poesia. Assim, a estudiosa sintetiza alguns conceitos importantes à nossa pesquisa:
 
(…) para se produzir literatura, Ana C. acredita ser possível partir de uma emoção, um sentimento. Contudo, essa intimidade só é apropriada pelo escritor enquanto uma espécie de material bruto, inicial, sobre o qual será necessário trabalhar, empregando o que ela chama de “olhar estetizante” (MALUFE, 2006, p. 56-7).
 
Esse conceito de se criar um objeto estético a partir da experiência, ou seja, a necessidade de “lapidar” alguma sensação para, somente então, escrever, é algo também discutido por Fernando Pessoa sendo essencial:
 
(…) a composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente (PESSOA, s/n, p. 72).
 
Neste sentido, as concepções de fazer poético de Ana Cristina e de Fernando Pessoa são correspondentes. Assim como para Ana C., a criação do poema, para Pessoa, é um trabalho intelectual e não emocional. A emoção não tem lugar no fazer poético de ambos os poetas. Malufe, interpretando declarações e textos de Ana C., afirma que:
 
(…) segundo ela [Ana], nesta operação obrigatória para se produzir o texto literário, poético, não há como ser fiel ao sentimento inicial, ainda que assim o desejasse. Neste sentido, não haveria como fugir do fingimento (MALUFE, 2006, p. 56-7).
 
Assim, o trabalho intelectual é a parte mais importante da criação poética. Dois poemas de Ana C. e de Pessoa ilustram bem essa relação entre sentimento, fingimento e poesia:
 
POEMA ÓBVIO
 
Não sou idêntica a mim mesmo
Sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob o mesmo ponto-de-vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante.
 
Este poema de Ana Cristina aponta para um dos aspectos do fazer poético de Fernando Pessoa: a coexistência de diferentes eu-poéticos que se sobrepõem no momento da escritura poética, ou seja, a possibilidade do poeta se expressar através de diferentes “identidades” poéticas – como os heterônimos de Pessoa. O poema Isto, de Pessoa, parece demonstrar a ideia de racionalização da poesia:
 
ISTO
 
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
 
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
 
A preocupação com o ritmo também é uma constante no trabalho tanto de Ana C. quanto de Pessoa. O poeta português, dedicou várias páginas à análise da importância do ritmo ao poema:
 
A linha isolada é uma unidade rítmica. A qualidade rítmica depende, como aliás dependeu sempre, do poeta. (…)
O verso é a prosa artificial, o discurso disposto musicalmente. Não é outra a diferença entre as duas formas da palavra escrita (PESSOA, n/d, p. 78).
 
Podemos perceber que a musicalidade é algo intrínseco à poesia na concepção de Pessoa. Também para Ana C., a música é essencial à existência do poema, confundindo-se com este:
 
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.
 
Para ambos os autores, o ritmo é um dos fatores essenciais do poema, que o caracteriza e sem o qual este não existe.
 
Conclusão
 
Neste artigo, procuramos investigar até que ponto podemos considerar próximas as escritas metapoéticas do grande escritor português Fernando Pessoa e da poeta carioca contemporânea Ana Cristina Cesar. Após o estudo de metapoemas de ambos os autores e de alguns de seus principais textos teóricos, tal que parte da fortuna crítica destes, elencamos determinados pontos que consideramos importantes.
A principal semelhança nas concepções de poesia dos poemas em questão é a sua visão de poesia como um produto do intelecto. Assim, mesmo que tenha sua “fonte” seja uma emoção, esta precisa ser “estetizada” ou “racionalizada” para, então, tornar-se uma obra poética.
A importância do ritmo para o poema também aproxima a estética desses poetas, dado que estes consideram a musicalidade um elemento intrínseco da poesia.
As coincidências entre os poetas e suas obras são ainda mais numerosas do que as estudadas nesta pesquisa: ambos foram tradutores, estudiosos de literatura e escreveram em inglês e em português, assim como escreveram poemas e ensaios sobre poesia, arte e literatura. Dedicaram poemas ao fazer poético, metapoemas, o que mostra que refletiam sobre seu ofício.
Como dito, esta pesquisa não teve foco quantitativo, ainda que tal perspectiva possa ser um caminho interessante e produtivo. Contudo, esperamos que este trabalho contribua para pesquisas futuras, assim como divulgue a poesia de Ana Cristina Cesar, demonstrando também sua importância para a literatura de expressão em língua portuguesa.
 
Referências
CESAR, Ana Cristina. A teus pés. São Paulo: Ática, 1998.
CESAR, Ana Cristina. Crítica e Tradução. São Paulo: Ática, 1999.
CESAR, Ana Cristina. Inéditos e dispersos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
JUNQUEIRA, I. Ana Cristina Cesar: a vocação do abismo, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 3 jan. 1987.
LIMA, Dhandara Soares de; AISSA, José Carlos. O fazer poético de Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. In: Anais do I CIELLI – Congresso Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Disponível em: <http://www.cielli.com.br/downloads/101.pdf>. Acesso em 10 Ago. 2011.
MALUFE, Annita Costa. Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2006.
MARCHI, Tatiane; FRANCHETTI, Paulo. Ana Cristina Cesar e a poesia marginal. Revista Língua, Literatura e Ensino, v. IV. Maio/2009. p. 385-94.
MORICONI, I. Ana Cristina Cesar: o sangue de uma poeta. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.
PESSOA, Fernando.  Cancioneiro. 1934.
Disponível em: <http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/index.html> Acesso em: 17 Mar. 2011.
PESSOA, Fernando. Páginas de estética e de teoria e crítica literárias. 2ª ed. Lisboa: Ática, s. n.
 
[1] LIMA, Dhandara Soares de; AISSA, José Carlos. O fazer poético de Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. In: Anais do I CIELLI – Congresso Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Disponível em: <http://www.cielli.com.br/downloads/101.pdf>





Bio fornecida pelo palestrante.

DESLOCAMENTOS E TRAVESSIAS NA NARRATIVA DE ANA MARIA GONÇALVES – Denise Maria Soares Lima




 

Denise Maria Soares Lima

Doutoranda da Universidade Católica de Brasília

 
 
 
Minicurrículo: Denise Maria Soares Lima é escritora de contos, poesia e artigos científicos, desde 2010. Publicou nas edições 34, 35 e 37 dos Cadernos Negros (São Paulo) e em revistas científicas nacionais e internacionais, como por exemplo Dialogia e Eccos (SP, Universidade Nove de Julho), Teias (eletrônica, UERJ, Pós-graduação em Educação, ProPed), Interacções (Universidade de Lisboa, Portugal), IberoAmericana de Educación  (Madri, Org. de Estados Iberoamericanos), Educere (Mérida, Venezuela), entre outras. Doutoranda e Mestra em Educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB), é bolsista CAPES e membro integrante voluntário da Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade. Tem experiência na área de educação, atuando principalmente nos temas da Educação para as Relações étnico-raciais, Lei Federal n. 10.639/2003, Educação de Jovens e Adultos, educação antirracista e Educação a distância.
 
Resumo: Este artigo estuda a obra de Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor.  A obra centra-se nos deslocamentos e travessias de Kehinde, protagonista, cuja trajetória transcontinental (África e América) permite articular as relações sociais e individuais vivenciadas pela personagem e, ao mesmo tempo, compreender sua experiência na   diáspora africana. Focaliza, num primeiro momento, a estrutura da obra: enredo, ambientação, personagens, linguagem, entre outros elementos constitutivos e, num segundo momento, aborda-se como as narrativas constroem sentido às questões sociais suscitadas no romance, conjugando a literatura científica com o corpus literário do romance pesquisado.
 
Palavras-chave: Gênero e raça; resistência feminina; diáspora.
 
JOURNEYS AND DISPLACEMENTS IN THE NARRATIVE OF GONÇALVES
Abstract: This article is a study of Ana Maria Gonçalves’ novel, A flaw of color. It is centered on the journeys and displacements of the protagonista Kehinde, whose transcontinental voyage (Africa and America) allows us to understand the articulation of social and individual relationships lived by the character and, at the same time, to comprehend her experiences in the African Diaspora. It focuses, in a first moment, on the structure of the novel: the plot, the setting, the characters, the language, among other constitutive elements and, in a second moment, it discusses how the narrative brings to light social issues raised by the novel, while conjugating a scientific literature with the literary corpus of a book of research.
 
Keywords: Gender and race; feminine resistance; diaspora.
 
DESLOCAMENTOS E TRAVESSIAS NA
NARRATIVA DE GONÇALVES
 
Denise Maria Soares Lima
Doutoranda da Universidade Católica de Brasília
 
Introdução
Ana Maria Gonçalves é brasileira, nasceu em 1970, em Ibiá, Minas Gerais, região Sudeste do Brasil. Em sua biografia, consta-se que abandonou a carreira de publicitária para dedicar-se à literária. Para isso, mudou-se para a Ilha de Itaparica, na Bahia, onde escreveu seu primeiro romance Ao lado e à margem do que sentes por mim, edição independente lançado em 2002.  Em sua bibliografia, destaca-se a obra em estudo,  Um defeito de cor,  agraciada com o Prêmio Casa de Las Américas na categoria literatura brasileira, em 2007. Em relação à divulgação desta obra a autora relata:
Devo a publicação de Um defeito de cor a algumas serendipidades, a uma boa dose de sorte, à ajuda indispensável e nunca agradecida o suficiente de alguns amigos, à coragem da Record em investir nesse catatau escrito por uma escritora iniciante e desconhecida, mas, principalmente, à blogosfera. Foi o blog que me fez voltar a escrever, foi o blog que me presenteou com leitores e amigos fantásticos, que sempre me incentivaram a continuar. Isso me leva a crer que não temos a real ideia do tamanho e da importância da influência dessa fantástica ferramenta (GONÇALVES, 2014).
 
Com isso, nota-se também que a autora faz uso das ferramentas disponíveis na internet para divulgar seus livros e artigos. Para isso, mantém um blog, iniciado em 2001 (100 meias confissões da Aninha) e escreve artigos de opinião em redes sociais e blogs. A temática que elege em suas postagens, volta-se para as discussões cotidianas que envolvem racismo, discriminação e preconceitos raciais. Em relação à presença das mulheres negras na literatura, Gonçalves afirma que a mulher negra é sub-representada: “Acredito que haverá um crescimento nos próximos anos, porque pode estar aí um campo ainda não conhecido e explorado, o de algumas histórias que só podem ser escritas por mulheres negras. Se literatura se faz através da experiência, a nossa foi pouquíssimo contada e considerada; há muito por dizer” (GONÇALVES, 2014).
Por fim, Gonçalves representa uma geração de escritores negros, identificados pela crítica especializada como pertencentes à literatura afro-brasileira, cujos autores e autoras são identificados pela temática afro: “o suplemento ‘afro’ ganha densidade crítica a partir da existência de um ponto de vista específico” expresso em múltiplos temas: identidade negra, denúncia às discriminações sociais existentes, revisão crítica do passado, entre outros (DUARTE, 2014). Essa ‘afroindentificação,’ anotada por Duarte, torna Um defeito de cor um aporte para o discurso acerca de raça, como será estudado a seguir.
 
A obra
Um defeito de cor é uma obra de 947 páginas, no volume publicado pela Record, e, no formato e-book, contém 612 páginas. A obra é dividida em dez capítulos, que sempre iniciam com um provérbio africano e se subdividem em vários subtítulos. No prólogo, Gonçalves (2006) anuncia que a obra é fruto de serendipidade, que, em resumo, significa achados bem-sucedidos descobertos por acaso, geralmente, quando se está em busca de outros feitos. Nessas revelações, aguça a curiosidade do leitor, ao afirmar que há uma mistura de ficção e realidade na trajetória da protagonista. Narrado em primeira pessoa, o romance de Gonçalves, aclamado pela crítica literária, tirou o fôlego de Millôr que analisa a obra com estas palavras: “Em suas 952 páginas, Um defeito de cor não tem hausto, parada pra respirar. É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua “eslava”. Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?,entre os 10” (MILLÔR, 2006).
Tamanha a riqueza de incidentes transcorridos em torno de Kehinde, o número de personagens (em torno de 400) e ambientações, a obra é considerada uma saga da literatura brasileira. A História da protagonista é contada ao lado de outras histórias, que marcaram a História do Brasil e do continente africano, no século XIX, entre os anos de 1810 (nascimento de Kehinde) a 1894 (ano provável de sua morte), caracterizados por lutas abolicionistas e mudanças sócio-políticas. Esse espaço temporal se dá em torno de aproximadamente oito décadas em vários territórios brasileiros e africanos, como indica o fragmento abaixo:
(…) Savalu, Uidá, Ilha dos Frades, São Salvador, Itaparica, São Luís, Cachoeira, São Sebastião, Santos, São Paulo, Campinas, Uidá, Lagos, Era lá em África, que eu deveria morrer, onde tinha nascido. Mas aqui estou, indo morrer no Brasil, na sua terra. Será que posso considerar isso uma última homenagem? Como a única coisa que uma mãe que uma mãe à beira da morte pode fazer por um filho? (GONÇALVES, 2006, p. 588).
 
Nestes territórios, a voz feminina relata o Atlântico, do tráfico e da diáspora, para dar voz a negritude e revisar, pela ficção, o fenômeno da escravidão e suas vicissitudes.
 
A protagonista Kehinde
Gonçalves (2014) informa que Luiza, nome brasileiro da protagonista Kehinde, é inspirado em carta e poesia que o escritor brasileiro Luiz Gama escreve sobre sua mãe, como se destaca a seguir:
 
Nasci na cidade de S[ão] Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da Rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na Freguesia de Sant’Ana, a 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, (Nagô de Nação) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do Dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856, em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas, que conheciam-na e que deram-me sinais certos que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma «casa de dar fortuna», em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Em opinião dos meus informantes que esses «amotinados» fossem mandados para fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores (FERREIRA, 2008, grifo nosso).
 
O fragmento acima, de fato, coincide com algumas passagens do romance, inclusive com aquela em que, como na carta, Kehinde tem seu filho desaparecido, sendo esta a principal motivação para a narrativa: “Estou guardando comigo todas as cartas trocadas, para que você saiba de tudo que fiz na esperança de te encontrar, meu pequeno Omotunde” (GONÇALVES, 2006, p. 258). “Seu desaparecimento foi pior que a morte do seu irmão, muito pior, porque ele eu sabia onde e como estava” (GONÇALVES, 2006, p. 403). Além das coincidências de datas e lugares citados na obra e na carta, alguns papéis sociais se assemelham aos assumidos por Kehinde, neste percurso: escrava, escrava de aluguel e de ganho, liberta, filha, mãe, avó, irmã, esposa, amante, comerciante (de cookies, de pães, de charutos, de quitutes, de armas), construtora, rebelde, entre outros.
Assim, quem é Kehinde? Africana nascida em Savalu, abruptamente capturada e retirada de sua terra para viver a barbárie da escravidão?  Sim, mas também apesar de toda sorte de infortúnios que a protagonista enfrenta ao longo da narrativa – inicialmente, com as mortes violentas de sua mãe e irmão (em África), seguidas das mortes de sua avó e de sua irmã gêmea, a bordo do negreiro até sua própria morte, cega e sem realizar o desejado encontro com seu filho –, Kehinde é a experiência da luta cotidiana, que reflete a trajetória histórica da diáspora e os discursos colonialistas em relação à raça.
 
A África inteira em um só lugar
“Todos os dias chegava mais gente capturada em muitos lugares da África, falando línguas diferentes e dando várias versões sobre o nosso destino. Perguntei onde ficava o estrangeiro e ela não sabia, mas outra mulher que estava por perto disse que era em Meca” (GONÇALVES, 2006, p. 20). Esse excerto inaugura o discurso sobre a diáspora africana no século XIX. Não sem razão, menciona Meca (importante mercado de escravos), já que uma parcela significativa de africanos migrou para a Ásia, contudo foi o Brasil, um dos maiores importadores de africanos, segundo Ajayi (2010, p.890): “ao longo de todo o período de tráfico negreiro, este país recebeu cerca de 38% do efetivo total de africanos introduzidos no Novo Mundo”.
Além do trecho supracitado, há no decorrer da obra, inúmeras passagens que confirmam essa migração em massa de diferentes pontos do continente africano para o Brasil:
 
Alguns brancos acompanhavam um ou outro desembarque, mas a grande maioria era de pretos como nós, com tons de pele e aparências tão diferentes uns dos outros que eu imaginava ver uma África inteira em um só lugar, e tinham os rostos tão alegres que até pareciam nos dar boas-vindas (GONÇALVES, 2006, p.39).
Os pretos de São Sebastião eram diferentes dos de São Salvador, por causa da procedência. Para São Salvador iam principalmente os da região de onde eu tinha saído, os fons, os eves, os iorubás e mais outros que, por lá, eram todos chamados de minas, porque embarcavam na Costa da Mina. Para São Sebastião iam os angolas, os moçambiques, os monjolos, os benguelas e mais alguns. Os monjolos tinham marcas ao comprido do rosto, os angolas tinham o rosto fino e eram muito bonitos, e os benguelas usavam cortes de cabelo bastante estranhos, formando desenhos muito trabalhosos, que podiam pegar a cabeça inteira ou apenas o alto, perto da testa, formando um topete com trancinhas. (GONÇALVES, 2006, p. 413).
 
Essa migração, raramente, ocorreu de modo voluntário, como se sabe. Dessa forma, os africanos, que chegaram ao Brasil, vivenciaram na experiência da diáspora perseguições e adversidades como as reproduzidas na obra, entre outros aspectos: 1) na linguagem: “[…] falou em iorubá que eu tinha que aprender logo o português, pois o sinhô José Carlos não permitia que se falassem línguas de pretos em suas terras” (p. 43); 2) na religião: “Alguém lembrou que o padre também tinha dito que, a partir daquele momento, eles deviam acreditar apenas na religião dos brancos, deixando em África toda a fé nos deuses de lá” (p. 28); 3) nas tradições: “Os capoeiras tinham inventado esse toque para avisar da chegada da polícia quando estavam jogando no meio da rua, o que era proibido” (p. 428); 4) nos costumes: “ Entre outras coisas, naquele dia aprendi que existem talheres, e que eu deveria usá-los para comer, que não podia mais comer com as mãos que era proibido pela sinhá aos escravos que trabalhavam na casa-grande” (GONÇALVES, 2006, p. 46).
Contudo, se essas tentativas de redução do povo africano à alienação foram extremadas pelo colonizador, a hostilidade do meio e estranhamento à terra proporcionaram, por sua vez, uma ‘reação de reserva’, como aponta Munanga  (1988, p. 33):
Trata-se da maioria das populações vivendo ainda nos territórios étnicos e das massas espalhadas em todas as cidades de origem colonial. […] Mas, felizmente, continuaram a praticar uma espécie de resistência passiva, funcionando como um bastião, no qual o patrimônio cultural, legado dos ancestrais, continuou a ser transmitido de geração a geração. O povo guardou sua língua, sua arte, maquis que o protegiam das tentações alienantes.
 
Nesta perspectiva, Um defeito de cor aponta vários momentos de manutenção e aproximações de culturas e produção de novas culturas a partir do legado africano:  seja  na linguagem: “Ele chegou perto da Verenciana e começou a esfregar uma mão na outra, como se estivesse aquecendo as sementes entre elas, enquanto rezava e cantava em iorubá” (p. 67) ou nos costumes: “Precisando de carregadores, por exemplo, podia-se chamar com certeza qualquer preto usando um corte que deixava um chumaço de cabelo bem na frente […]. Quem fazia esses cortes eram os oficiais barbeiros, que conheciam os costumes de cada nação e trabalhavam nas ruas e nas praças, ou em pontos como o do Omissias (p. 412).
Todavia, segundo Sodré (1988), foi na religião que a intersecção das diferenças e a proximidade dos opostos resultaram em “um jogo de contatos’ a fim de preservar um patrimônio comum, ainda que com rituais diversificados.  E assegura: “O patrimônio simbólico do negro brasileiro (a memória cultural da África) afirmou-se aqui como território político-mítico-religioso, para a sua transmissão e preservação” (p. 50), citando como referência o candomblé da Casa Branca, mencionado na obra em estudo: “Fiquei sabendo de uma série de novidades, como uma casa de culto aos orixás, chamada de Casa Branca, que estava sendo aberta por uma ialorixá liberta chamada de lyálusò Danadana” (GONÇALVES, 2006, p. 262). O aspecto religioso é marcante em vários segmentos da obra, como abaixo:
 
Os nagôs e iorubás eram numerosos e estavam espalhados por toda a cidade, e tinham levado para o Brasil quase todos os orixás que cultuavam em África. Havia casas de pretos da mesma nação que cultuavam apenas um orixá, o da própria tribo, mas também havia casas freqüentadas por muitas nações, onde vários orixás eram cultuados, e por isso recebiam o nome de candomblés (GONÇALVES, 2006, p. 319).
 
Por fim, vale registrar a ocorrência de processos migratórios e de transformação cultural que envolveram os regressados à África. Quanto a isso, acrescenta Ajayi (2010, p. 903): “Enquanto os africanos desembarcados no Novo Mundo são contados aos milhões, os seus descendentes retornados à África não passariam de alguns”; ainda que em número reduzido, essa experiência de retorno revela-se, com precisão, no fragmento abaixo:
 
Na verdade, todos os brasileiros, mesmo que não o fossem, eram considerados brancos, porque aos olhos dos africanos, nós agíamos como brancos, morávamos em casas diferentes, tínhamos hábitos diferentes, como o de usar talheres e ter móveis como a mesa e a cama, que não eram usuais em África (GONÇALVES, 2006, p. 498).
Assim, esse “algo no meio”, no dizer de Chambers apud Hall (2013), vivido no decorrer da experiência diaspórica, marca a trajetória daqueles que passaram ou passam – diáspora moderna – por um processo de ruptura com suas raízes. Nessa situação, a volta para ‘casa’ sempre traz o acúmulo de feitos, esses irrevogáveis, e, incapazes de serem abolidos da memória. Portanto, o olhar diferente dos que ficaram em relação aos retornados, e, ao mesmo tempo, a introdução e manutenção deste arsenal (linguístico ou  religioso, por exemplo) apreendido no exterior por aqueles que retornam evidenciam segundo Hall (2013) um diálogo de trajetórias, de trocas, que se entrecruzam tanto do colonizador para com o colonizado, como em sentido inverso.
 
Perfeitos sem defeitos
Segundo Ajayi (2010), a construção das sociedades do Novo Mundo deve-se a presença marcante dos africanos e afro-americanos, como modernamente são chamados seus descendentes. Se hoje esse papel importante do negro é tardiamente reconhecido na História das Civilizações, no período colonialista, negros e negras foram reduzidos, humilhados e desumanizados. Essa desvalorização não se restringiu somente às teorias racistas do século XIX, mas cuidou também de demonstrar na prática cotidiana um conjunto de condutas com intenção de inferiorizar racialmente o indivíduo negro (MUNANGA, 1988).  O mesmo autor acrescenta que três elementos compõem esse proceder racista: “descobrir e pôr em evidência as diferenças entre colonizador e colonizado, valorizá-las em proveito do primeiro e em detrimento do último e levá-las ao absoluto, afirmando que são definitivas, e agindo para que assim se tornem” (MUNANGA, 1988, p. 21).
Na obra em estudo, a protagonista Kehinde vivencia inúmeras experiências discriminatórias e preconceituosas em relação à cor, como demostram os excertos abaixo:
 
Fingi acreditar, mas sabia que, no fundo, ele tinha vergonha de assumir que estávamos morando juntos. Afinal de contas, as pretas serviam para que os brancos satisfizessem os desejos carnais, como a Claudina e a Adeola tinham dito, e raramente eram boas o bastante para chegarem a esposas (p. 226).
A Esméria disse que era assim mesmo, que os homens precisavam estar entre homens, e que no meu caso era ainda pior, por eu ser preta e o Alberto ser branco (p. 233)
Eu queria morrer, mas continuava mais viva que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô José Carlos sobre o meu (…) (p. 108).
Ele então se aproximou e agarrou meu braço com a alça da bengala, quase derrubando o tabuleiro que eu levava na cabeça, falando que eu era uma negrinha que, além de estúpida, devia ser cega (p. 158).
De início tentaram me enxotar enquanto eu dava uma olhada nas prateleiras, dizendo que os produtos que estavam ali não eram para o meu paladar e muito menos para o meu bolso (p. 174).
Mas os comerciantes preferiam os mulatos aos pretos, achando que a mistura de sangue branco fazia deles pessoas mais capazes para os serviços que exigiam inteligência. E sempre homens; acho que nunca vi mulheres atrás dos balcões ou cuidando dos livros de contas (p. 154).
 
Nos trechos acima, predominam dois registros de racismo identificados por Hall (2013): o racismo biológico e a discriminação cultural, presentes, quase sempre, segundo o autor, de modo simultâneo, ou seja, incorporam-se a esses indivíduos todos os defeitos em razão da cor – um coletivo anônimo –, ao mesmo tempo em que tudo o que lhes pertence, valores materiais e imateriais – é retirado, ridicularizado ou proibido. Diante disso, afirma Munanga (1988, p. 23): “(…) Jamais se caracteriza um deles individualmente, isto é, de maneira diferencial. (…) Colocado à margem da história, da qual nunca é sujeito e sempre objeto, o negro acaba perdendo o hábito de qualquer participação política ativa, até o de reclamar”.
Entretanto, ainda que silenciados pela força e desestabilizados psiquicamente em um período marcado pela exploração da mão de obra escrava, muitos foram os mecanismos de resistência individual e coletiva. Em um defeito de cor, há menção a quilombos, reconhecidamente territórios de resistência negra: “O Jacinto então falou da última rebelião da qual tinha participado, depois de ter se juntado a uns pretos no Quilombo do Urubu (GONÇALVES, 2006, p. 179). Contudo, a Revolta de Malês encontra espaço privilegiado na narrativa para descrever minuciosamente esse movimento de luta armada ocorrida na cidade de São Salvador no ano de 1837, desde o planejamento, seus mentores até a emboscada, que resulta em morte dos rebeldes, como a seguir: “Isso era bem verdade, pois eu já tinha ouvido várias pessoas dizendo que os muçurumins, que alguns chamavam de malês [Malê: corruptela de imole, que em iorubá significa muçulmano, ou preto islamizado, o muçurummim] (GONÇALVES, 2006, p.  264); “Era sobre isso que os muçurumins tanto conversavam, e o Fatumbi disse que estavam muito próximos de um acordo entre eles, para depois começarem a planejar uma rebelião” (GONÇALVES, 2006, p. 277); “Foi naquele mesmo dia que o Fatumbi me contou que já tinham escolhido a data da rebelião, ia ser durante as festas de entrudo do próximo ano, no fim de fevereiro” (GONÇALVES, 2006, p. 315); “A denúncia de que uma rebelião estava para começar foi feita no início da noite de sábado por um nagô liberto, que também se chamava Domingos” (GONÇALVES, 2006, p. 334).
Finalmente, pode-se afirmar que o deslocamento continental (África-Atlântico-Brasil-Atlântico-África-Atlântico) descrito pela protagonista e vivenciado por ela, kehinde, é fruto de uma trajetória que opera entre dois opostos: opressão e resistência, não necessariamente em equilíbrio, em medidas iguais. Na verdade, porque polos tão díspares, sempre instáveis, conquanto sempre consequência da experiência humana.
 
Considerações finais
A análise da biografia da personagem permitiu uma visão mais aguçada acerca da histórica luta que se dá a partir das rupturas com o instituído. No caso de Kehinde, as vicissitudes da escravidão e a opressão em relação à negritude demandam processos constantes de apropriação que vão desde a língua do colonizador à conversão religiosa, mas que,  na personagem,  não conduzem à assimilação e sim à emancipação política e econômica de uma mulher negra e africana.
Por fim, vale dizer que Um defeito de cor traz em seu nome uma provocação que remete a um texto de Munanga (1988:79), que resume a ideia  título: “os negros não foram colonizados por que são negros, ao contrário na tomada de suas terras e na expropriação de sua força de trabalho, com vista à expansão colonial, é que os negros tornaram-se pretos”.
 
Referências
AJAYI, J. F. A. de (2010). História Geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880, Brasília: UNESCO.
 
FERREIRA, L. F. (2008). “Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça”, In:  Teresa, Revista de Literatura Brasileira da USP, São Paulo, 8/9, p. 300-321. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/Literafro/data1/autores/96/luizgamacritica03.pdf> . Acesso em 02. Nov. 2014.
 
GONÇALVES, A. M. (2006). Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record.
 
GONÇALVES, A. M. (2014). 100 meias confissões da Aninha, Disponível em:  <http://anamariagoncalves.blogspot.com.br>. Acesso em: 12 out. 2014.
 
GONÇALVES, A. M. (2014). Prosa literária com Ana Maria Gonçalves. In: Literatura Subversiva:  Entrevista concedida a Ana Paula Santos, em 22-04-2014.  Disponível em: < http://litsubversiva.blogspot.com.br/2014/04/prosa-literaria-com-ana-maria-goncalves.html>. Acesso em: 15 nov. 2014.
 
HALL, S. (2013).  Da diáspora: identidades e mediações culturais. Bel Horizonte: UFMG.
 
MILLÔR, F. (2006). Daily Míllor, Opinião pública é a opinião que se publica: um defeito de cor, In Millôr on line, Disponível em:
< http://www2.uol.com.br/millor/aberto/dailymillor/006/045.htm>. Acesso em: 05 nov. 2014.
 
MUNANGA, K. (1988). Negritude: usos e sentidos.  2ª ed. São Paulo: Ática.
 
SODRÉ, M. (1988).  O terreiro e a cidade.  Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM ÚRSULA E UM DEFEITO DE COR – Alana Yasmim dos Santos




CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM ÚRSULA E UM DEFEITO DE COR
 

Alana Yasmim dos Santos

Universidade Federal do Piauí – UFPI

 
 
Resumo: Neste trabalho realizou-se análises acerca das construções identitárias da mulher negra nas obras Úrsula (2004), de Maria Firmina dos Reis, e Um defeito de cor (2013), de Ana Maria Gonçalves. Através da dialogicidade entre as autoras de épocas distintas, buscou-se analisar como foi descrito os processos de construções identitárias das personagens negras escravizadas no Brasil: Susana (Úrsula) e Kehinde/Mahin (Um defeito de cor). Para tanto, foram analisadas passagens e situações narrativas relativas ao lugar de memória como instrumento de construções identitárias e do discurso como espaço interacional no qual o indivíduo se faz sujeito.
 
Abstract: In this essay the building of black women identities is analyzed in the works Úrsula (2004), by Maria Firmina dos Reis, and Um defeito de cor (2013), by Ana Maria Gonçalves. Through the dialogue between these authors from distinct times, an analysis is proposed to explain how the identity of the characters, two black women slaves in Brazil, was built: Susana (in Úrsula) and Kehinde/Mahin (in Um defeito de cor). An analysis of some passages and narrative scenes is presented in relation to memory as a tool for identitary construction and to discourse as an interational space in which the individual becomes a subject.
 
Palavras-chave: Úrsula. Maria Firmina dos Reis. Memória. Construção identitária.
 
Key-words: Úrsula. Maria Firmina dos Reis. Memory. Identity construction.
 
Minicurrículo: Graduanda do curso de Letras-Português pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), participou da Iniciação Científica Voluntária (2014-2015) como integrante do Projeto de Pesquisa Teseu, o labirinto e seu nome, vigente na Universidade Federal do Piauí. Neste projeto de pesquisa, desenvolveu o trabalho Úrsula e Um defeito de cor: prefácios à literatura afroamericana, que deu suporte para a construção deste artigo. Além disso, possui interesse em pesquisas sobre Literatura Fantástica e o Mal na Literatura, tendo desenvolvido o trabalho de conclusão de curso nesta área.
 
 
CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM ÚRSULA E UM DEFEITO DE COR
 
Alana Yasmim dos Santos
 
Universidade Federal do Piauí – UFPI
 
 
INTRODUÇÃO
Neste trabalho, Memória e discurso em Úrsula e Um defeito de cor serão apresentadas as análises acerca das construções identitárias nas obras Úrsula (2004) e Um defeito de cor (2013), a partir das personagens Preta Susana em Úrsula (2004) e Kehinde/Mahin em Um defeito de cor (2013). Essas duas personagens possuem voz para contar a sua própria versão dos fatos históricos, do ponto de vista de quem sofreu com todas as torturas físicas e psicológicas de não se sentir pertencer mais a sua terra e nem mesmo a si, ao serem escravizadas no Brasil.
Segundo Duarte (2010), na historicidade da literatura afro-brasileira muitas vozes foram silenciadas e escritos não publicados, e a pouca divulgação de textos afrodescendentes “[…] impediu que a maranhense Maria Firmina dos Reis viesse a constar dos manuais clássicos de nossa historiografia literária” (DUARTE, 2010, p. 20). Mott (1989), em Escritoras negras: resgatando nossa história, pontua que a recuperação dos escritos de matriz negra feminina é um trabalho de muita dificuldade, devido a pouca preservação desses textos durante a história. Segundo Campos (2008), na literatura brasileira, a mulher negra tem sido representada negativamente a partir da visão dos escritores brancos. Quando não é silenciada e oprimida, a mulher negra é retratada a partir do corpo como objeto de abuso e violência. Além disso, segundo Campos (2008), a mulher negra não é representada como uma heroína ou romântica, e nem são explorados seu sentimento, pensamento e sofrimento como sujeito escravizado. A construção da mulher negra, na literatura brasileira canônica, se resume a uma valorização do corpo como objeto de apropriação, de prazer de outrem.
Nas obras Úrsula (2004) e Um defeito de cor (2013), a mulher negra conta a sua história desde o tempo livre na terra África, a travessia do Atlântico e a vida como vítima da escravização no Brasil. Nessas obras, não há a representação da mulher negra do ponto de vista do sujeito branco, e sim a mulher negra enunciadora, sendo explorados suas vivências, seu sofrimento quanto sujeito exilado e escravizado. Neste trabalho, analisou-se as contruções identitárias de Preta Susana e Kehinde através dos discursos memorialísticos, passagens e situações narrativas relativas ao lugar da memória como instrumento de construções identitárias.
 
DESENVOLVIMENTO
Úrsula (2004) é o primeiro romance abolicionista e primeiro escrito por uma mulher no Brasil, no ano de 1859. Maria Firmina dos Reis foi uma escritora mestiça, maranhense e abolicionista que debateu e refletiu sobre a escravidão no XIX. A pioneira, Maria Firmina dos Reis, publicou o romance Úrsula (2004) dez anos antes do conhecido poema de Castro Alves, “Navio Negreiro”. Há pouco reconhecimento da obra de Maria Firmina dos Reis, devido alguns motivos, como a publicação distante do centro cultural e ser de autoria de uma mulher negra. Além disso, essa obra deu ao negro uma visão diferenciada do que era visto até então na literatura: “a de ser humano privilegiado, portador de sentimentos, memória e alma” (MENDES, 2011, p. 79).
Úrsula (2004) é um expoente do Romantismo e narra o amor entre Tancredo e Úrsula.  O romance possui três personagens negras e escravizadas são elas: Túlio, Preta Susana e Antero. Estas personagens, diferentemente de outras obras da época, possuem voz e podem contar a sua história. Segundo Mendes (2011), Maria Firmina dos Reis “adota posicionamento explicitamente antiescravagista, diferente de Joaquim Manuel de Macedo, em As vítimas algozes; Bernardo Guimarães, em A escrava Isaura” (MENDES, 2011, p. 79).
No capítulo IX de Úrsula (2004), Preta Susana relata a dura travessia no navio negreiro para Túlio. Este capítulo é dedicado a narração de Preta Susana, o que configura uma inovação, pois “até onde se sabe, na literatura, o negro não era concebido como ser humano” (MENDES, 2011, p. 83). Diferentemente de obras que exploraram a mulher negra pelo viés da sexualidade, ou seja, que reduziram a mulher negra à um objeto sexual e de desejo dos homens brancos, Preta Susana é caracterizada como uma mulher idosa, de memórias sofridas e duras por ter sido arrancada do berço-mãe: África. Mendes (2011) aponta Preta Susana como “porta-voz da verdade histórica” (MENDES, 2011, p. 83). Susana fala da sua terra-mãe, a África, baseando seu discurso nas suas memórias e ancestralidade africana. Em Úrsula (2004), o negro passa de objeto a sujeito do discurso, acentuando que:
 
(…) a existência da literatura negra se dá a partir do momento em que o negro deixa de ser somente tema, deixa de ser objeto para uma literatura alheia e passa a criar a sua própria, assumindo o papel de sujeito. Para ela, [Luiza Lobo] essa mudança de posição, de papel, define o surgimento da literatura negra no Brasil. (EVARISTO, 2010, p. 134).
 
A fim de apresentar à Túlio a verdadeira liberdade, Preta Susana, em um discurso memorialístico, conta sua história, desde a sua vida na terra africana, onde “tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país” (REIS, 2004, p.115) até a sua vinda para o Brasil, como migrante nu. Segundo Glissant (2005), o migrante nu é o indivíduo transportado à força para um novo continente. Esse indivíduo é retirado de sua nação, de sua família, de sua cultura, de sua língua, e reconstrói-se no novo continente a partir de vestígios da memória a fim de estabelecer aproximação com suas origens identitárias e culturais. O migrante nu “recompõe, através de rastros/resíduos, uma língua e manifestações artísticas” (GLISSANT, 2005, p.19). Esse resgate das antigas tradições, por meio da memória, é uma maneira que o escravizado encontrou para se reterritorializar no Brasil, pois “a lembrança tem sempre uma função de reterritorialização” (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p. 80). Sendo possível, dessa maneira, reconstruir a cultura africana “que se desteceu pelos caminhos, recolher fragmentos, traços, vestígios, acompanhar pegadas na tentativa de reelaborar, de compor uma cultura de exílio refazendo sua identidade de imigrante nu (EVARISTO, 2010, p. 132).
A desterritorialização, segundo Deleuze e Guattari (1997), é o movimento de saída/abandono de um território e a reterritorialização é o movimento de construção de um território. Sendo assim, os dois processos são indissociáveis, pois “todo movimento de desterritorialização carrega consigo elementos de reterritorialização” (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p.01). A desterritorialização dos africanos trazidos pelo tráfico de escravos para o Brasil possui raízes bem profundas, pois o sujeito negro perdeu o direito a liberdade – sendo transformado em objeto -, perdeu a sua casa, sua família, sua vida, sua cultura e sua língua, sem a chance de retornar para a terra-mãe.
Segundo Schimitt e Turatti (2002), o parentesco e o território constituem a identidade do homem, pois “os indivíduos estão estruturalmente localizados a partir de sua pertença a grupos familiares que se relacionam a lugares dentro de um território maior.” (SCHIMITT e TURATTI, 2002, p. 4). Ao chegarem ao Brasil, os africanos não se reconheciam, não se sentiam pertencidos a essa terra que os acolheu tão cruelmente. Por isso, para combater essa desterritorialização, os negros escravizados foram além da necessidade de um espaço territorial para si, mas buscaram desenvolver uma identidade cultural e simbólica baseada nas heranças africanas, para que recriassem a vida com base no que se identificam e se sentem pertencer.
O teórico Maurice Halbwachs (apud FERREIRA, 2013, p. 19) reflete a memória sob a ótica da sociologia e da história. Memória é construção coletiva, ou seja, o que é lembrado por um indivíduo não é somente uma lembrança dele, mas sim de um meio em que viveu e partilhou com outros indivíduos as mesmas vivências e lembranças. Na literatura afro-brasileira, segundo Evaristo (2008, p. 6), é perceptível “o caráter pessoal e coletivo da memória como possibilitador de construção de uma identidade”.
Logo, através da memória coletiva, há a recuperação/reconstrução de pessoas, sentimentos, sensações, acontecimentos, e, principalmente, da identidade. Em Úrsula (2004), Preta Susana é a voz de uma realidade de abusos e violências do povo africano no Brasil; é a voz da identidade africana sobrevivente na memória dos que sofreram com a diáspora. Sendo assim, segundo Indursky e Campos (2000),
 
(…) a memória é um referencial vivo na construção das identidades, pois, em sua capacidade de filtrar e manter o sentido, atua por meio de seus processos e efeitos, os quais podem ser tanto de lembrança, de redefinição e de transformação quanto de esquecimento, de ruptura e de negação do vivido e do já dito. Se a memória é, portanto, um fator inerente a construção de identidade, o discurso é o espaço de conhecimento e de interação através do qual o ser humano se faz sujeito, inscrevendo-se no campo da prática social, que é eminentemente histórica. (CAMPOS, INDURSKY, 2000, p. 12)
 
A recuperação das memórias é fator fundamental para a recuperação de uma identidade africana na terra de exílio na obra de Maria Firmina dos Reis. A memória é uma maneira de manter viva informações, costumes, tradições, e ao mesmo tempo, as mesmas são atualizadas e reconstruídas durante a história de uma sociedade. As tradições africanas possuem base oral, transmissiva, logo, a memória é fonte de manutenção da identidade do povo africano que foi sequestrado de sua terra, de sua família. Nascimento (2006) confirma que:
 
A memória, faculdade tantas vezes negada aos escravos e seus descendentes (lembremo-nos que eram considerados sem alma, portanto sem humanidade, consequentemente, sem memória – cadeias de subtrações a forjá-los pelo signo da falta), a memória, repetimos, será a mola impulsionadora dos textos das escritoras afro-brasileiras. Recuperação de reminiscências relegadas ao avesso do afresco histórico das representações brasileiras (NASCIMENTO, 2006, p.78).
 
Na obra, Preta Susana resgata lugares de memória para explicar ao jovem Túlio o que é liberdade. O lugar de memória foi um conceito construído pelo historiador francês, Pierre Nora, para definir lugares que possuem uma memória, uma função, um significado simbólico, como museus (lugares topográficos), aniversários (lugares simbólicos) ou autobiografias (lugares funcionais) (LE GOFF, 1990, p. 473). Os lugares de memória presentes no discurso de Preta Susana se referem a um passado repleto de significado e simbologia: é a lembrança de uma felicidade genuína, de um lugar que se sentia pertencer, lugares que dividiu com companheiras, lugares topográficos que guarda na memória quando ia “em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias” (REIS, 2004, p. 115). Sem esse resgate ancestral através dos lugares de memória, não há a reconstrução identitária da personagem Preta Susana.
O discurso sobre a diáspora e sobre a escravização de Preta Susana procura desmistificar a visão que se tinha de que o negro não possui história, identidade ou cultura, e de romper com a ideia de um negro escravizado passivo. A memória afro-brasileira é uma forma de resistência e sobrevivência do sujeito negro; é fonte de reconstituição identitária. A literatura negra, segundo Bernd (apud FONSECA, 2006, p. 28), seria uma “tentativa de preencher vazios criados pela perda gradativa da identidade determinada pelo longo período em que a ‘cultura negra’ foi considerada fora-da-lei […]”.
A militância contra a estereotipificação do indivíduo negro é um dos motivos que fazem da obra de Maria Firmina dos Reis tão importante na literatura afro-brasileira. A personagem Preta Susana utiliza a memória para reconstruir a sua identidade cultural, que sofreu dolorosas interferências e mudanças durante a travessia, além do sofrimento por não ser mais livre e não estar em sua terra. A mesma militância está presente também na obra contemporânea Um defeito de cor (2013) da escritora Ana Maria Gonçalves.
A história de Um defeito de cor (2013) é construída, segunda a autora, a partir de cartas que encontrou casualmente em uma visita a Ilha de Itaparica. Essas cartas, muitas amareladas, rasuradas e até mesmo perdidas, contavam a história de uma escrava alfabetizada chamada Kehinde (que no Brasil passou a ser chama Luísa Mahin) e que estavam destinadas ao seu filho desaparecido, Luís Gama, que é considerado o fundador da literatura afro-brasileira. Ana Maria Gonçalves tem em mãos a tarefa de reescrever essas cartas e completar os espaços vazios que existem nesta história, sendo possível recontar a história do negro escravizado no Brasil, a partir da vida de Kehinde. Apresentar a obra como consequência de uma descoberta acidental é apontado por Zilá Bernd (2012) como um artifício literário já utilizado por outros autores, como J.J. Rousseau e C. De Laclos, pois isto confere a obra um poder enunciativo à protagonista.
Segundo Bernd (2012), “é a partir de vestígios (traces), de cartas consideradas sem nenhum valor e semidestruídas, que a narrativa constitui importantes acontecimentos ocorridos na Bahia, como a Revolta dos Malês (1835)” (BERND, 2012, p. 31). A noção de traces de Derrida (1967) resulta que “a origem nos movimentos de desconstrução implica uma não-origem, um vestígio, um rastro (trace) antes de outro suposto vestígio” (DEANGELI, 2008, p. 176). Sendo assim, o rastro é renovado constantemente, ao longo de novas experiências, sendo impossível encontrar uma origem definitiva.
Segundo Bernd (2014, p. 18 apud Viart, 2008, p. 79-101), o romance francês atual têm se preocupado com a temática ancestral resultando em um romance memorial, o qual Viart (2008) denomina romance de filiação. Esse romance “articula-se a partir de vestígios (objetos da casa paterna, cartas, fotos) ou da falta (pais ausentes, transmissão imperfeita).” (BERND, 2014, p. 19). Kehinde constrói sua trajetória pessoal e histórica a partir das suas vivências, das suas lembranças, e ao transformar essa memória em texto escrito, põe no papel o desejo de contar ao filho sobre suas origens, ou seja, transmitir a herança africana ancestral, e ao relembrar sua história reconstitui sua identidade africana, pois como bem salientou Bosi (1994) a memória é um trabalho de reconstrução.
Em Um defeito de cor (2013), a personagem Kehinde faz três travessias pelo Atlântico. Na primeira travessia, há a desterritorialização de Kehinde, que é obrigada a aprender a língua portuguesa e passa a ter um novo nome (Luísa Mahin). Usurpado o direito de viver livre em sua terra, Kehinde juntamente com sua irmã gêmea e avó são trancafiadas em um navio negreiro, conhecido também como tumbeiro. A protagonista descreve de maneira realista e sofrida a vivência dentro do navio, descreve a partir da visão de quem sofreu a violência do tráfico:
Durante dois ou três dias, não dava para saber ao certo, a portinhola no teto não foi aberta, ninguém desceu ao porão e estava quase impossível respirar. Algumas pessoas se queixavam de falta de ar e do calor, mas o que realmente incomodava era o cheiro de urina e de fezes (GONÇALVES, 2013, p. 48).
 
Após o falecimento da avó, Kehinde passa a refletir sobre a morte, o futuro incerto na terra hostil e a dor de se estar longe de casa, longe do conhecido, do familiar: “Não estava mais na minha terra, não tinha mais a minha família, estava indo para um lugar que não conhecia (…)” (GONÇALVES, 2013, p. 61). Também no primeiro capítulo da narrativa memorial de Kehinde, ela relembra com ternura lugares de memórias de sua infância, momentos de danças que compartilhou com sua mãe e irmã gêmea e que compõem uma identidade cultural ancestral do povo africano: “Ela dançava e as pessoas colavam cauris em sua testa, e quando eu e a Taiwo éramos pequenas, colavam ainda mais, pois a minha mãe dançava com nós duas amarradas ao corpo” (GONÇALVES, 2013. p. 21).
Bernd (2012) observa que o romance possui três características que também estão presentes no fazer poético da escrita feminina contemporânea na literatura afro-brasileira: a primeira delas é a de procurar os “guardados da memória” (BERND, 2012, p. 31), por meio dos traços e fragmentos deixados pela herança ancestral; a segunda é que a construção identitária se baseia na procura das origens, e a terceira seria o “resgate da memória transatlântica” (BERND, 2012, p. 31). A respeito da memória, há a presença da memória histórica, que é o resgate da história do negro no Brasil, e a memória familiar, ou seja, as sabedorias, ensinamentos que o negro africano adquiriu com sua família em terra africana. A crença nos orixás africanos e a lembrança viva de sua família (principalmente mãe, irmã e avó), que estão enraizadas na memória, são o que fazem Kehinde suportar as dores, as violências e os abusos da escravização. Além disso, Kehinde carrega consigo a força ancestral de sua avó:
 
Então, mesmo que não fosse através dos voduns, ela (a avó) me disse para eu nunca esquecer da nossa África, da nossa mãe, de Nanã, de Xangô, dos Ibêjis, de Oxum, do poder dos pássaros e das plantas, da obediência e respeito aos mais velhos, do culto e agradecimentos. (GONÇALVES, 2013, p. 61).
 
Essas lembranças que se ligam a rituais, elementos ritualísticos, comemorações, bem como ensinamentos que são transmitidos, fazem parte de uma memória cultural ou transmissão do sentido, que compõem, juntamente com a memória mimética, memória dos objetos e memória comunicacional as quatro dimensões da memória externa, segundo Assmann (apud BERND, 2014, p. 16). Ao chegar ao Brasil, Kehinde inicia um processo de reterritorialização, com os escravizados que passa a ter contato e que serão sua nova família. A fim de reconstituir os tecidos da memória ancestral, Kehinde encontra no terreiro da Casa de Minas uma forma de relembrar as tradições e rituais africanos, que por muito tempo foram silenciados e oprimidos pela imposição da religião católica. Relembrar esses rituais, essa memória cultural, é uma maneira de construção identitária da personagem Kehinde, tornar a se ligar aos ensinamentos da avó, tornar vivo os rastros da memória.
O resgate memorialístico de Kehinde formam a dupla reconstruir e transmitir, pois  sem a memória ancestral não é possível a reconstrução identitária (BERND, 2014, p. 21) e sem a transmissão de geração para geração dessas tradições e vivências não há a memória cultural (HUYSSEN, apud BERND, 2014, p. 16). Assim como em Úrsula (2004), Kehinde representa o indivíduo africano que foi “tirado à força, de forma brutal e bestial, de sua terra natal, foi animalizado e classificado como objeto, coisa (…)” (Mendes, 2006, p.169). As duas personagens utilizam a memória como um instrumento de resgate e aproximação da herança cultural africana.
O discurso memorialístico de Kehinde, que escreveu a história da sua vida aos 80 anos de idade, traz toda a dor do negro escravizado e o sentimento de não ser livre e de não pertencer a nenhum lugar. Assim como Preta Susana, o discurso versa sobre o sonho de voltar para a liberdade que um dia conhecera. O Oceano Atlântico separava o indivíduo africano da verdadeira liberdade. São denominadas memórias transatlânticas aquelas que no mar originam o chamado Atlântico Negro, que é uma “estrutura rizomórfica e fractal da formação transcultural e internacional” (GILROY, apud BERND, 2012, p.35). Em Um defeito de cor (2013), há passagens do livro que fazem os descendentes dos ex-escravizados sentirem orgulho, como as formas de resistências, como a descrição da formação dos quilombos, a preservação da cultural oral, mas também traz momentos que deveriam ser esquecidos, como os castigos, os abusos sexuais e a privação da liberdade (BERND, 2012).
 
CONCLUSÃO
 
Úrsula (2004) e Um defeito de cor (2013) evidenciam a identidade afro-brasileira e a construção identitária do indivíduo negro através do discurso das personagens. Em Úrsula (2004), Preta Susana é a enunciadora do seu próprio discurso e narra a sua vida na terra livre, a África, para Túlio, que, segundo ela, não conheceu a verdadeira liberdade. O discurso de Preta Susana é forte e libertador, pois evidencia que, mesmo tendo uma alforria em mãos, Túlio jamais seria livre, pois só há liberdade quando se está em sua terra, com sua cultura, com sua história.
Em Um defeito de cor (2013), Kehinde é arrancada da terra África com sua irmã gêmea e avó. As duas morrem no tumbeiro, devido às más condições durante a viagem. Ao chegar ao Brasil, Kehinde não é mais a mesma, o cruel processo de desterritorialização faz com que ela busque na memória lembranças da África, dos momentos bons em que estava livre com sua mãe, avó, irmã. A partir da memória, Kehinde consegue aos poucos tecer sua identidade cultural africana em um processo de reterritorialização.
Nos dois discursos, de Preta Susana e Kehinde, é perceptível a função da memória como resgate da identidade afrodescendente. Durante a diáspora, o negro africano sofreu duras interferências em sua identidade, tanto na travessia, dentro do navio, como no Brasil, onde foi subjugado ao sistema cruel da escravização. Nas duas obras, a memória é um instrumento de reterritorialização do sujeito africano, através de readaptações e resgates da cultura de matriz africana.
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
 
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Bio fornecida pelo palestrante.

NO SILÊNCIO DE CLARICE: A PRODUÇÃO DE SENTIDOS A PARTIR DA OBRA ÁGUA-VIVA – Danielly Christina de Souza Mezzari, Rafael Siqueira Guimarães




NO SILÊNCIO DE CLARICE: A PRODUÇÃO DE SENTIDOS A PARTIR DA OBRA ÁGUA-VIVA
 
Danielly Christina de Souza Mezzari
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
 
Rafael Siqueira Guimarães
Universidade Federal do Sul da Bahia
 
 
Resumo: Este artigo é composto de uma análise e reflexão acerca da obra Água-viva, de Clarice Lispector. A literatura desta autora pode nos ajudar a vislumbrar a importância do papel ativo do sujeito no que diz respeito à interpretação e à própria produção das informações, relatos e experiências que nos chegam, seja por meio da mídia, de livros, internet ou do contato com outros sujeitos. Realizamos uma pesquisa cartográfica com o intuito de analisarmos como se dá o processo de produção de sentidos na obra já citada da autora. Consideramos que a literatura de modo geral se apresenta como uma forma de resistência à linguagem estereotipada e enrijecida do cotidiano
 
Abstract:  This article proposes an analysis and a reflexion about Clarice Lispector’s novel Água viva. Her work will help us to glimpse at the importance of the subject’s active role when it comes to the interpretation and the production of information, the stories and experiences that are divulged either by the media, books, the internet or the contact with other people. It will produce a cartographic research aiming at analysing how this literary work produces an effect on the senses. It considers literature in general as representing a form of resistance to the daily stereotypes of stiff language.
 
Palavras chave: Clarice Lispector, sentidos, silêncio.
 
Keywords: Clarice Lispector, senses, silence.
 
Danielly Christina de Souza Mezzari: Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual do Centro-Oeste, de Irati/PR. Mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, de Assis/SP e membro do Grupo de Pesquisa GEPS – Grupo de Estudos e Pesquisas em Sexualidades, da UNESP/Assis.
 
Rafael Siqueira de Guimarães: Psicólogo, performer e produtor cultural. Doutor em Sociologia pela Unesp/Araraquara, Professor Adjunto na Universidade Federal do Sul da Bahia, Líder do Grupo de Pesquisa ETC – Estéticas, Tecnologias, Criações e Etecetera – além de membro do Coletivo Artístico Elenco de Ouro.
 
 
NO SILÊNCIO DE CLARICE: A PRODUÇÃO DE SENTIDOS
A PARTIR DA OBRA ÁGUA-VIVA
 
Danielly Christina de Souza Mezzari
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
 
Rafael Siqueira Guimarães
Universidade Federal do Sul da Bahia
 
 
Introdução
É pela palavra, mal dita (maldita?) palavra, que ousamos trilhar um caminho absurdo feito de falhas, de espaços em branco, nos quais nos expressamos de modo mais aproximado daquilo que na verdade buscamos dizer. “Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários, criados, de cada vez, para revelar a vida nas coisas” (DELEUZE, Gilles, 1993, p. 13). O que será que há no processo de escrita que o ultrapassa a ponto de fazer com que, muitas vezes, seja apenas no que se julga ser o seu contrário, no silêncio, que esteja presente a possibilidade de nos fazermos sentir naquilo que realmente nos interessa? Como será que, pela palavra, surge a palavra ao avesso e nela construímos uma híbrida relação que não se presta a diferenciar o que é o corpo-leitor do que é o corpo-autor ou corpo-livro?
 
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente (LISPECTOR, Clarice,1976, p .21).
 
Ao lermos os textos de Clarice temos a impressão que a autora luta o tempo todo para rasgar a palavra e dela (quem sabe atrás ou ao lado dela) fazer aparecer o que realmente se pretendia anunciar. “Fracasso e falha parecem ser o alvo de Clarice que, no momento em que constata a distância do que desejava falar e do que fala, transforma esse fracasso no próprio tema e meta a serem perseguidos” (BITENCOURT, Anderson, 2011, p. 89).
Surge desta luta constante uma angústia proveniente da tentativa de “captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 09). É nesta característica da palavra, expressa por Clarice Lispector, de ao mesmo tempo ser fonte e limite da possibilidade de alcançar o real das coisas que procuraremos nos debruçar, direcionar e aprofundar o nosso olhar e análise. Como se dá este processo de buscar pela palavra superar a abstração que lhe é inerente? A partir daí, quais os subsídios que a escrita da autora pode proporcionar na direção de produzir sentidos, e não de os encontrar? Acreditamos que o desenvolvimento desta pesquisa se justifica e se sustenta devido à importância de se pensar na construção de sentidos. Temos, hoje, uma disseminação de informações que cria e impõe ao sujeito sentidos já prontos e que, portanto, não necessitam da participação deste no que diz respeito à criação e desenvolvimento de suas próprias atribuições a partir de suas vivências e experiências.
A literatura de Clarice Lispector pode nos ajudar a vislumbrar a importância do papel ativo do sujeito no que diz respeito à interpretação, interação e à própria produção das informações, relatos e experiências que lhe chegam seja por meio da mídia, de livros, internet ou do contato com outros sujeitos. Inúmeras são as possibilidades de compreensão acerca do que pode vir a ser o sentido e quais são as melhores formas de tentar captá-lo. Silveira Bueno (2007) em seu minidicionário da língua portuguesa fornece algumas conceituações para a palavra “sentido”, tais como “cada uma das formas de receber sensações, segundo os órgãos destas”, “faculdade de sentir ou apreciar”, “juízo”, “bom senso”, “significação”. Ou seja, o sentido nos remete geralmente a sensações ou a significados.
No entanto, ao nos depararmos com a literatura de Clarice Lispector alguma coisa fica por ser dita. Ela não dá respostas, não há um caminho, não há nenhum significado estabelecido nas suas linhas.  As suas palavras se decompõem e se rearranjam de acordo com os olhos, com o corpo todo por fim, de quem as lê. É quando o leitor se deixa tocar, ou quando alguma coisa no texto encontra alguma coisa no leitor, que se produz um sentido, ou qualquer outra coisa, para o que foi lido. Não há nada para ser encontrado nas palavras tecidas pela autora. É a possibilidade de produção de sentidos que nos é apresentada.
Tendo em vista o objetivo da presente pesquisa, consideramos pertinente trabalharmos com o método cartográfico proposto por Guilles Deleuze e Félix Guattarri (1995). Nas palavras de Roberta Carvalho Romagnolli (2009, p. 169) “(…) mais do que procedimentos metodológicos delimitados, a cartografia é um modo de conceber a pesquisa e o encontro do pesquisador com seu campo” (ROMAGNOLI, Roberta, 2009, p. 169).
O método aparece como uma nova proposta para reencontrar o saber que está em crise. Sendo assim, a cartografia é um método, já que não parte de um modelo pré-estabelecido, como nos diz a autora, mas sim os questiona a partir de uma fundamentação própria. Não há passos a serem seguidos ou normas a serem cumpridas para que se possa trabalhar a partir deste viés. É principalmente na criatividade e nos afetamentos produzidos no processo que uma produção poderá se tornar possível.
O papel do pesquisador adquiri uma importância singular já que o entendimento da produção no contexto desta pesquisa é pensado como sendo construída: “(…) a partir das percepções, sensações e afetos [do pesquisador] vividos no encontro com seu campo, seu estudo, que não é neutro, nem isento de interferências e, tampouco, é centrado nos significados atribuídos por ele” (ROMAGNOLI, Roberta, 2009, p.170).
Gilles Deleuze e Félix Guattarri (1995), ao descreverem os seis passos necessários para se pensar o rizoma, opõem o mapa da cartografia ao decalque. O mapa, segundo os autores, está voltado para a experimentação, a abertura, a conexão, o desbloqueio. Ele pode ser moldado, revertido, refeito. Pode-se, através do mapa, realizar conexões com as mais diversas formas e nos mais diversos formatos: “Um mapa tem múltiplas entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’. O mapa é uma questão de performance, enquanto que o decalque remete sempre a uma presumida “competência” (DELEUZE, Gilles, GUATTARRI, Félix, 1995, p. 21).
A questão, no entanto, não diz respeito a uma invalidação de tudo aquilo que é do âmbito do decalque. As estruturas, as “competências”, o que já foi duramente significado também fazem parte do processo e compõem o rizoma, o mapeamento. Se os rizomas e mapas, como nos afirmam os autores, possuem múltiplas entradas, então que se possa entrar também pelo viés do decalque, das ‘árvores-raízes’. “No coração de uma árvore, no oco de uma raiz ou na axila de um galho, um novo rizoma pode se formar” (DELEUZE, Gilles, GUATTARRI, Félix, 1995, p. 23). É na relação que se desenvolverá entre pesquisadora e texto que a produção será possível. É, portanto, uma produção única dentre as infinitas possibilidades de construções. Única, já que se delineia a partir de um determinado lugar e referencial, de alguns olhares e de alguns sujeitos.
A partir do que já foi exposto, dos referenciais e afetamentos que inevitavelmente atravessam esta pesquisa, como podemos pensar esse processo almejado por Clarice Lispector de, pela palavra, superá-la e ir além do que ela propõe? Ou seja, como pode um mesmo texto abrir portas para tantas interpretações, para tantos sentidos? Orlandi (1995) nos diz que o silêncio é condição para a produção de sentidos. Ele não é vazio, sem sentido, pelo contrário, é o indício de uma totalidade significativa.
Sendo o silêncio condição para a produção de sentidos, é ele também condição para o movimento necessário para a criação. É no silêncio que a palavra se assenta e é por ele que a palavra se torna infinita. Infinita porque é inesgotável. Inesgotável porque o seu alicerce é o indizível. Indizível que se pluraliza e se multiplica, paradoxalmente, através da palavra e do que pode fazer com ela aquele que a lê:
 
É isso… o silêncio… Única palavra à altura do impensado. Mas, para poder ouvir o silêncio, é preciso dispersar toda identidade, abrir mão de toda morada estável, abandonar a fé no poder da palavra. Esse silêncio é uma palavra para além do mundo, um eco distante, mal perceptível, uma inesgotável interrogação, o sinal de uma escrita que abomina toda resposta (MALDONATO, Mauro, 2004, p. 87).
 
Maldonato aponta, no trecho acima, a indiferença do silêncio em relação a uma produção específica, ou seja, ao silêncio não compete uma direção, um encaminhamento, uma resposta. O silêncio diz da produção de possibilidades, de conexões, de relações que muitas vezes transgridem, que subvertem o efeito esperado por quem escreveu. Orlandi (1995) nos diz que o silêncio diz da possibilidade de se trabalhar a contradição constitutiva do próprio sujeito. Para ela todo discurso se produz, reproduz, se desloca de forma a remeter a outros discursos que lhe dão realidade significativa.
O silêncio, portanto, remonta à unidade, à completude de um todo que a palavra quebra e mobiliza na tentativa de poder apontar para alguma parte deste todo e se referir a ela de alguma maneira. “O ato de falar é o de separar, distinguir e, paradoxalmente, vislumbrar o silêncio e evitá-lo” (ORLANDI, 1995, p. 29). É pela palavra que temos a possibilidade de vislumbrar relances de um todo que ela não dá conta de fazer aparecer. É só na palavra que este silêncio constitutivo se manifesta e se esconde e cria espaços de possibilidades outras que a palavra não consegue dizer.
E o sujeito? Sujeito-leitor, sujeito-autor, sujeito-produtor. Qual é o seu papel em meio a tanto silêncio e tanta palavra? O que dele é demandado para que, nele e por ele, se crie algo que extrapole os limites das linhas de um texto?
Ricardo Goldenberg, em sua palestra apresentada no programa café filosófico e intitulada “A utopia do autoconhecimento” nos diz que não há a possibilidade da construção de qualquer tipo de conhecimento que não passe pelo outro. Para que possamos saber algo acerca de nós mesmos é necessário, para o psicanalista, que passemos, que atravessemos o outro. É através do olhar do outro que nos construímos, assim como é só na interação com outros sujeitos que nos desenvolvemos. Para Doel: “O sujeito humano é sempre um corpo pleno a advir; ele perdura sem jamais existir como tal. Ser é devir. Em outras palavras, o sujeito perdura por meio de um contínuo romper-se” (2001, p. 81).
Rompemo-nos uns nos outros, uns através dos outros, através das coisas. E é o rompimento que possibilita a abertura, a criação, a possibilidade de transbordarmos para além de nós mesmos.
É também no contato com um livro, com uma letra, enfim, com tudo aquilo que compõe o mundo exterior que um sujeito se cria e se transforma. “E o sujeito seria, portanto, o espaço de conexão ou de montagem, contínua pré-posição, uma dobra do exterior” (SILVA, Tomaz, 2001, p. 122-123). A dobra, para o autor, que dialoga com Deleuze, tem como finalidade nos levar a um caminho aberto, de fluxos ou “linhas de força” que surgem das conexões entre objeto e objeto, objeto e sujeito, sujeito e espaço. O sujeito é aquele que, em conexões múltiplas e que circulam intensidades, cria e se produz a partir dos seus agenciamentos, de suas multiplicações, dos seus outros. “Agora o problema já não seria tanto perguntar-se sobre que tipo de sujeito é produzido, mas que pode fazer o ser humano, que capacidade de afectar e ser afectado tem em um dispositivo concreto” (SILVA, Tomaz, 2001, p. 129).
Quais são as possibilidades de produção que podem ser criadas por um sujeito em conexão com um livro em seus múltiplos agenciamentos e metamorfoses? A escritora sozinha não pode dar conta de transmitir o que quer que seja. É só pelo outro que suas palavras ganham vida e relevância. É através do outro que um texto pode ganhar um direcionamento e uma aplicação. Cabe ao leitor produzir, a partir daquilo que é seu, do seu olhar e experiências, novas possibilidades, novos caminhos e interpretações. O que se construirá a partir daí, passa a não ter mais um responsável, um autor. É algo novo que se criou a partir de uma relação única estabelecida entre autor, texto e leitor.
 
Água-viva
Na água vive o movimento. O vívido da queimadura que se espalha, que se espelha pela água. A água-viva que envolve e marca com seu frágil corpo o corpo daquele que ousa tocá-la, que inadvertidamente a toca. A água-viva com sua beleza de água. A água na sua profundidade discreta. A discrição daquilo que não se vê, mas se sabe, que não se vê, mas se sente. É que a água não diz o que nela se mostra, pela água eu não sei o que posso encontrar. Na fluidez da água que se pode captar… Captar o que? “Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 13-14).
De que fala Clarice em sua obra? Fala dela mesma? Fala de um outro? De que trata água-viva? De sua própria vida, de sua autobiografia? No fluxo próprio da escrita de Clarice Lispector há algo como que um nunca chegar lá. Paira sobre sua obra, na nossa leitura, uma sensação de impotência, de insucesso, diante do seu próprio exercício, do ato de escrever. Àquilo a que se destina a escrita, na verdade não lhe compete. Escrever é justamente não chegar lá:
 
A escrita é sempre solitária, visto que nada revela, nada fala, nada transmite a ninguém. Escrever é deixar calar a própria voz, é apagar o eu e tornar-se um desconhecido aos próprios olhos. Em lugar do eu se insinua o vazio, o ele, o impessoal. Aquilo que não pode ser dito e, no entanto, não cessa de tentar se inscrever. O escritor deve abandonar seu eu a fim de poder captar o irredutível silêncio da obra. Este secretamente se anuncia nos livros, no entanto, das palavras sempre escapa. O silêncio será sempre a promessa de um dia deixar-se capturar (OLIVEIRA, Danielly, 2000, p. 88).
 
Escrever é deixar o eu de lado. É se abster de si próprio enquanto um ser individual para que a vida possa surgir de uma nova maneira, de modo que o vazio se manifeste e prolifere pelas letras criando o espaço necessário para a criação. Deixar o eu de lado, principalmente nas obras de Clarice, pode ser fruto de um estranhamento do mundo, de um tomar consciência, de uma epifania. De repente o comum, o corriqueiro perde o sentido, tira o chão e o óbvio não nos é mais nem sequer compreensível, apreensível. Então o que resta é buscar “a face terrível da vida, a matéria orgânica que pulsa”. (OLIVEIRA, Danielly, 2000, p. 88-89).
Surge destes momentos epifânicos um vislumbre do real, que é imprevisto, indizível, desestruturante. O eu não suporta. É preciso alcançar o “it”, o impessoal. “O it vivo é o Deus (…). Deus é o mundo. A prece profunda é uma meditação sobre o nada. É o contato seco e elétrico consigo. Um consigo impessoal” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 34). Clarice se experimenta nas palavras e experimenta o que delas não consegue fazer aparecer. Se no ato do discurso e da escrita o eu se desfaz, se atrapalha, se desorganiza, é também por essa via que ele se cria.
Mais uma vez, de que fala Clarice? O que é esse “it”? Pode a leitora captá-lo? Caso ela possa, o que é captado com este impessoal? Villari (2000) afirma que havia até pouco tempo uma via de mão única no que diz respeito à relação entre psicanálise e literatura. A psicanálise servia de base, de resposta, para os enigmas da literatura, o que pressupôs a noção de “inconsciente do texto literário”. No entanto, como nos diz o autor, o equívoco estava em considerar que o próprio texto possuía um inconsciente sem se atentar para a figura do leitor, para a questão de que o “texto diz na medida em que é lido” (VILLARI, Rafael, 2000, p. 4). A partir daí, podemos pensar que, na verdade, o texto em si não fala, não diz nada, quem diz é a leitora através do texto, na sua relação com ele. “Estou dando a você a liberdade. Antes rompo o saco de água. Depois corto o cordão umbilical. E você está vivo por conta própria” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 39). O leitor está vivo na obra. Ele é ativo, é criador, criativo. Dele dependem os possíveis sentidos que a obra pode assumir. É dele também o movimento no qual a obra se desenvolve. É no leitor que a obra fala. É por ele que ela se cria.
Para podermos pensar sobre a criação é necessário que exploremos um pouco mais a experiência. O que é experienciar um livro, uma palavra, uma paisagem? Como, da experiência de Clarice, podemos fazer surgir algo novo, algo nosso, a nossa experiência? Walter Benjamim (1994) nos diz que o narrador é aquele que retira da sua experiência ou da experiência de outras pessoas o material necessário para a construção das suas narrativas. Para além disso, o narrador incorpora à sua história a experiência dos seus ouvintes. Diferentemente da informação que, como o próprio nome já supõe, deseja tão somente informar, trazer dados, notícias sobre algum acontecimento, a narrativa pede uma experiência daquilo que se ouve, que se é contado. O sujeito que narra uma história inevitavelmente se apropria dela e a preenche de si próprio. A história é dele na medida em que ele está nela, impregnado dela, impregnando os seus contornos. E os ouvintes, quando forem narrar esta mesma história para outras pessoas, mergulharão nela também. Quanto mais recontada for, mais pessoal, original e carregada de experiências ela será. “Ela [a experiência] mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele” (BENJAMIN, Walter, p. 205, 1994). A experiência do narrador, portanto, se encontra na coisa que vai se impregnar das experiências de todos aqueles que a recontarem e se apropriarem dela.
Maria Rita Kehl (2009) acredita que a segurança fornecida pela eficácia da técnica desmoraliza a experiência. Para ela, a imaginação é o que sustenta a experiência e o que permite que cada um se coloque e coloque um pouco de si nas histórias narradas, naquilo que nos foi transmitido. Ao perdermos estas referências, continua a autora, esta capacidade de usar e aplicar a imaginação, ficamos vazios de sabedoria e disponíveis para qualquer coisa que nos seja oferecida ou imposta. Maria Rita Kehl advoga a delicadeza como parte essencial do ser humano. Seu valor consiste na possibilidade de frear a máquina de poder e de concentração do capital e na possibilidade de trazer à tona aquilo que tende a se perder dentro dessa lógica. O demorar-se nas coisas, o olhar um pouco mais. Deixamos a experiência de lado na nossa relação atual com o tempo. Priorizamos a informação, a rapidez, a impessoalidade. Quanto mais destrinchada e cheia de sentidos já prontos a informação, o texto, a imagem, ou seja lá o que for, melhor. A informação nos dá a sensação de completude, como se nela já estivesse dito tudo que há para se dizer. Ela não precisa da nossa intervenção, da nossa criação, da nossa experiência. A delicadeza consiste justamente no contrário disso. Ela exige a nossa intervenção, a nossa criação. Ela pede um pouco mais de corpo, um pouco mais de toque, um pouco mais do olhar. Ela subverte a nossa relação com o tempo porque se a lógica dos nossos dias afirma que o tempo é dinheiro, na lógica da delicadeza “o tempo é o tecido de nossa vida” (CANDIDO, Antônio, apud. KEHL, Maria, 2009, p. 454).
No que diz respeito à produção literária Almeida e Junior (2010) afirmam que existe uma tensão entre a compreensão de literatura enquanto conceito e enquanto experiência. Para eles a conceitualização da literatura estaria do lado do aprisionamento, da significação, da essencialização e sistematização dos saberes enquanto que a literatura entendida como experiência diria respeito a um acolhimento, a um encontro, à intensidade, à criação, ao devir. Para os autores, um escrito literário não é produzido sobre as coisas, mas sim com as coisas. O escrever sobre diria respeito à memória, à significação e representação. Já escrever com é escrever com as coisas, é explorar as possibilidades de transgressão na linguagem. “O escritor escreve com o escrever. Ele mergulha no turbilhão da experiência para se perder em sua tarefa de construção de sentido, através da escrita” (ALMEIDA, Leonardo JUNIOR, p. 139, 2010).
E o que a experiência tem a ver com a obra clariceana? Parece-nos que para ler Clarice é necessário que se a experiencie. Que se experiencie suas letras, suas fugas, suas brechas, suas deixas. E, para além disso, que se experiencie neste processo. Que se sinta no corpo o corpo da autora, de modo que um terceiro corpo se crie. Para ler Clarice acreditamos ser preciso delicadeza. Delicadeza para que se acalme um pouco no tempo das coisas. Para que se permita sentir as palavras roçando na pele e para se desvencilhar da busca incessante por um sentido já dado, por um sentido escondido. Não há nada escondido, não há nada por trás das letras de Clarice. O sentido só se cria pelo leitor, pelo seu olhar. O sentido não é. Ele se faz, se produz, se transforma. “O verdadeiro pensamento parece sem autor” (LISPECTOR, 1976, p. 108).  Desimportante atribuí-lo a alguém. Desimportante porque ele foi feito, lapidado e desenvolvido pelos agenciamentos que lhe foram possíveis, impossíveis. Porque ele se criou nas suas infinitas conexões. Porque ele foi composto e impregnado de vários outros sujeitos, de várias outras palavras:
 
Não se perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significante, não se buscará nada compreender num livro, perguntar-se-á com o que ele funciona, em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades, em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos sem órgãos ele faz convergir o seu (DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, 1995. p. 18).
 
Perguntar-se-á, em Clarice, com a autora, o que dela nos encontra, o que nela nos diz respeito. Perguntar-se-á não o que está dado em sua obra, mas o que naquilo que há pode se fazer, o que se pode criar a partir do que temos na relação com o que ela compôs. Não há o que ser desvendado, porque não há nada para se revelado, para ser apreendido em sua obra. O que há é o contato da experiência da leitora com o livro. O que há é a relação que, de acordo com Boaventura de Souza Santos (2008), é mais real do que os próprios sujeitos.
No que diz respeito à criação que a literatura possibilita Almeida (2009), a partir de Deleuze e Guatarri, nos aponta duas formas de uso da língua: a majoritária e a minoritária. A primeira estaria associada às palavras de ordem, à rigidez do dia-a-dia, aos estereótipos, que culminariam na dominação, enquanto que a segunda implicaria em um modo de resistência a esta rigidez e padronização que a linguagem impõe. A literatura é entendida nesta perspectiva como uma forma de resistência à rigidez das palavras de ordem, que dão forma à linguagem majoritária:
 
(…) como diz Proust, aquela [a literatura] traça nesta [a língua] uma espécie de língua estrangeira, que não é outra língua, nem um patois reencontrado, mas um devir-outro da língua, uma minoração dessa língua maior, um delírio que a transporta, uma linha de feiticeira que se escapa do sistema dominante (DELEUZE, Gilles. 1993, p. 16).
 
Contrapondo-se à linguagem do poder, a literatura seria a linguagem sem poder, estando do lado da inutilidade (ALMEIDA, Leonardo, 2009). Inutilidade esta que é constitutiva, já que o que conta é a experiência. De acordo com o autor, a literatura não dita regras, pelo contrário, o que ela faz é proporcionar a elaboração de uma experiência intensa em que o sentir e o sentido se misturam, se colam, se interpenetram. “É como se fazer literatura fosse enlouquecer a escrita, subverter, desmoronar, romper, transgredir, contestar os limites impostos pela própria linguagem” (ALMEIDA, Leonardo, 2009, p. 100).
No processo de criação e escrita de Clarice Lispector a fuga da palavra nos parece ser um fenômeno almejado pela autora. Essa fuga, no entanto, só pode ser possível através da própria palavra. Podemos nos perguntar em meio a este processo: de que foge Clarice? O que há com a palavra que, sendo o seu ponto de apoio é também do que ela busca se libertar? Clarice procura dizer o indizível. “Mas como dizer o indizível? Como pensar o impensável? Como levar a linguagem e o pensamento além de seus limites?” (DINIS, Nilson, 1998, p. 98). Parece-nos que Clarice cria pontos de fuga, de desterritorializações da palavra. Se ela busca apossar-se do “é da coisa” e se a palavra é sempre abstração, representação e se, no entanto, é o seu único recurso, é preciso subverter a sua lógica, subverter a relação, subverter a própria linguagem enfim:
 
É como se a escrita literária fosse uma escrita insolente que sabotasse a linguagem. Ela faz as palavras se metamorfosearem, tecendo relações intensas e, às vezes, incomuns, que proporcionam uma ruptura com os usos costumeiros da linguagem. Por isso, sua decifração será somente posta em jogo na própria experiência literária (ALMEIDA, Leonardo, 2009, p. 100).
 
Se é preciso uma nova forma de linguagem, se se faz necessário uma outra relação com a palavra, é necessário também uma nova forma de pensamento. É necessário uma nova forma de produção de sentidos que vá além dos sentidos já convencionados para cada palavra. É preciso que a leitora se liberte da própria autora que nos afirma que o que ela diz “deve ser lido rapidamente como quando se olha” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 17).  Deve ser lido de forma livre, desprendida e leve. O que há é a possibilidade e não a confirmação, não a sujeição ou a certeza. Não mais o pensamento lógico, racional, mas sim “um pensamento que invade as entranhas do narrador, que aguça sua inquietude, violenta o seu corpo até manifestar-se” (DINIS, Nilson 1998, p 90). Um pensamento que, como nos diz Nilson Fernandes Dinis, é exercício pleno de liberdade, que não tem autor, não tem sujeito nem função preestabelecida. “Mas sou caleidoscópica: fascinam-se as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 38). Caleidoscopicamente se produz, se escreve. Porque em suas muitas faces se inscrevem muitos outros corpos. Nas suas muitas faces Clarice carrega as marcas de muitas outras imagens, pessoas, avisos, olhares. Escrever é despir-se de si própria, de certa forma, é abdicar da estrutura e procurar os seus desvios, as suas fugas. Escrever é viver, é tentar fazer viver. “O que estou te escrevendo não é para se ler – é para se ser” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 42). Escrita e vida se confundem, se apropriam uma da outra de maneira que a escrita se mescla na vida e a vida transborda na escrita. No entanto, se escrever nunca dá conta de dizer tudo o que é preciso, tudo o que na vida e pela vida se cria, se a escrita não consegue captar o “instante-já”, então a saída…: “(…) é desistir de uma cópia fiel do instante, uma cópia ícone, e celebrar a cópia simulacro. O simulacro é o mundo do diferente, do feio, do tortuoso, do grotesco, do imprevisível pelo qual o autor realiza sua opção” (DINIS, Nilson, 1998, p. 68-69).
Se a cópia fiel diz de uma reprodução autêntica e eterna o simulacro abre espaço para o torto, o desarticulado, o mutável. Se escrever é uma forma de tentar viver, então que se escreva. Que se escreva mesmo sem objetivo, sem objeto. Que se escreva mesmo no improviso, no improvável, no repentino. E que se leia despido das possíveis amarras do texto. Que se deixe levar por si próprio e pelos encantamentos produzidos no encontro com as letras. Que se permita sentir o que do texto nos diz respeito, o que dele nos chega. “Das palavras deste canto, canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente?” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 55). Se em Clarice percebemos uma busca incessante de, pela palavra, ir para além da abstração que lhe é inerente e alcançar o silêncio que por ela sutilmente escapa, percebemos também em água-viva principalmente uma abdicação da busca pelo que há de mais concreto, de mais despido de atribuições. Percebemos, na escrita da autora, uma minoração da língua que se caracterizaria pela produção de “uma forma de crítica à língua materna, maior e dominante, cavando vias de escoamento com o intuito de transgredir os limites impostos pela linguagem” (ALMEIDA, Leonardo, 2009, p. 102). Clarice abdica da sua necessidade de desvendar o que se insinua pelas palavras e aceita o mistério que é inerente à existência. “É-se. Sou-me. Tu te és” (LISPECTOR, Clarice, 1976, p. 32). O texto já não possui um autor, não é de ninguém. Ele é de quem o leu, de quem o escreveu, de quem o pensou e de tudo que participou da sua produção.
 
 
Referências Bibliográficas
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ALMEIDA, Leonardo Pinto; JÚNIOR, Carlos Augusto Peixoto. (2010). Escrita literária: linguagem, existência e ruptura com a tradição. ALCEU, 2009, v. 11, no 21, p. 127-144, jul./dez.
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Bio fornecida pelo palestrante.

DO MALLEUS PARA EASTWICK: ONDE O FEMINISMO É CONSIDERADO BRUXARIA – Isabelle Rodrigues de Mattos Costa




DO MALLEUS PARA EASTWICK: ONDE O FEMINISMO É CONSIDERADO BRUXARIA
 

Isabelle Rodrigues de Mattos Costa

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
 
Resumo: O objetivo deste trabalho é investigar a relação entre o feminismo e a bruxaria e de que maneira essa relação transparece na obra As bruxas de Eastwick, que se utiliza do estereótipo da bruxa para expor uma visão negativa da mulher feminista. Para tanto, é realizada uma análise da caracterização das bruxas de acordo com o famoso tratado do século XV, o Malleus maleficarum, ressaltando-se as semelhanças entre o estereótipo ali descrito e o estereótipo da mulher considerada feminista.
 
Palavras-chave: mulher, feminismo, bruxaria.
 
Abstract: The purpose of this work is to investigate the relation between feminism and witchcraft and how that relation appears in the novel Witches of Eastwick, which uses the architype of the witch in order to expose a negative view of the feminist woman. In order to do so, I will analyze how witches are described in the famous Malleus maleficarum, a manual from the 15th century, bringing to light the similarities between the archetype of the witch and the architype of the feminist woman.
 
Keywords: woman, feminism, witchcraft.
 
Currículo: Mestre em Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e graduada em Letras – Inglês/Literaturas de Língua Inglesa pela mesma universidade. Atualmente trabalha na Secretaria de Estado de Educação e pesquisa sobre as diferentes figurações da bruxa em obras literárias, principalmente no âmbito das literaturas inglesa e norte-americana.
 


 
DO MALLEUS PARA EASTWICK: ONDE O FEMINISMO
É CONSIDERADO BRUXARIA
 
Isabelle Rodrigues de Mattos Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
 
 
O mais famoso tratado em prol da caça às bruxas, o Malleus maleficarum (1486), também conhecido como O martelo das feiticeiras, foi escrito por inquisidores católicos, que consideravam a mulher inferior ao homem e portanto mais propensa a se aliar ao diabo, pois como era supostamente mais fraca tanto de corpo quanto de mente, também era mais fraca para preservar a fé em Deus. Apoiando-se nesse argumento, o Malleus procurava justificar porque as mulheres eram mais dadas à bruxaria do que os homens – já que historicamente o número de mulheres acusadas de bruxaria e condenadas superou o de homens.[1]
Entre as ideias disseminadas pelo Malleus destacava-se a relação entre as bruxas e a sexualidade, pois, de acordo com o manual, toda bruxaria deriva da luxúria carnal, que é insaciável nas mulheres, e as pessoas com maior inclinação para a bruxaria seriam as mulheres infiéis, ambiciosas ou luxuriosas. Para eles, as bruxas eram obcecadas pelo excesso de amor carnal, e nenhuma vergonha era capaz de persuadi-las a desistir de tais atos, estando inclusive dispostas a deitarem-se com demônios para satisfazerem seu apetite carnal.
O modelo vitoriano de ideal de mulher, o “anjo da casa”, pregava a imagem da mulher como boa mãe e esposa, dócil e submissa. Segundo esse ideal, a mulher deveria ser passiva e assexuada, sendo frequentemente caracterizada como quase etérea e de uma pureza contemplativa, além de, obviamente, obediente à ordem patriarcal.
Em Idols of Perversity (1986), Bram Dijkstra, professor de literatura inglesa da Universidade de Califórnia, estabelece uma oposição dualística: de um lado, a mulher idealizada na figura do “anjo da casa”, e do outro, a perversa, que configura uma ameaça ao ideal de mulher. Dijkstra analisa as representações de mulheres entre os séculos XIX e XX, procurando justificativas para o sentimento antifeminista percebido na vida social e nas obras literárias e artísticas. Segundo ele, mulheres com características consideradas tipicamente masculinas, como agressividade, anseio por poder e sexualidade exacerbada, sofriam preconceito por não se submeterem ao papel esperado delas, fosse desrespeitando a vontade do pai ou do marido, ou ainda rejeitando os deveres de mãe. Desse modo, a mulher que fugia ao padrão e se mostrava demasiadamente assertiva era mal vista pela sociedade, que considerava que esta estaria procurando usurpar privilégios masculinos em vez de se deixar subjugar ao papel feminino esperado dela.
Tendo isso em vista, percebemos que a figura da bruxa representa essencialmente uma mulher perversa, destoante do ideal “anjo da casa”. Uma breve análise de relatos históricos da caça às bruxas revela que muitas mulheres acusadas de bruxaria entre os séculos XV e XIX possuíam uma personalidade considerada conturbada: falavam palavrão, questionavam os outros e defendiam sua opinião, fosse discutindo com o marido ou com autoridades; enfim, eram mulheres de personalidade forte, que não se sujeitavam ao papel submisso que se esperava delas (KARLSEN, 1998, p. 310).
Tendo o Malleus malleficarum como contrapartida, verificamos que o tipo de mulher que Dijkstra chama de “perversa” correspondia justamente ao estereótipo da bruxa, pois as mulheres com maior probabilidade de serem acusadas eram justamente as mulheres que fugiam às normas da sociedade, mostrando-se demasiadamente assertivas ou agressivas: mulheres que discutiam com o marido ou os vizinhos, falavam palavrão ou de outro modo portavam-se de maneira desagradável, mostrando-se invejosas ou mal-humoradas. Segundo o Malleus, “(…) a mulher perversa é, por natureza, mais propensa a heresitar na sua fé e, consequentemente, mais propensa a abjurá-la – fenômeno que conforma a raiz da bruxaria” (KRAMER; SPRENGER, 2014, p. 117).
Se analisarmos as características da mulher perversa de Dijkstra, percebemos que elas não destoam da figura da mulher feminista, pois quem mais procurava contestar a ordem patriarcal e “usurpar” privilégios até então masculinos, buscando a igualdade de direitos entre os sexos? Desse modo, não é surpreendente que muitas mulheres que foram acusadas de bruxaria nos séculos passados hoje em dia poderiam ser consideradas feministas.
Como afirma Joanne Hollows, o movimento feminista busca explicar e modificar a relação de poder entre homens e mulheres (2000, p.3), sendo tradicionalmente dividido em três momentos, chamados de ondas: a primeira, marcada pelo sufragismo, que ocorreu nos séculos XVIII e XIX; a segunda, que abarca as décadas de 60 a 80; e a terceira, que diz respeito à época contemporânea.
Entre as reivindicações das feministas da segunda onda estavam a igualdade no acesso à educação e ao mercado de trabalho, igualdade de salários entre homens e mulheres e independência legal e econômica. A questão da liberdade sexual e a possibilidade de as mulheres usarem métodos contraceptivos ou mesmo terem acesso ao aborto também foram importantes reivindicações desse momento. Partindo do preceito que o sexo feminino era subjugado pelo masculino, muitas dessas feministas consideravam “() femininity as inferior to masculinity: that is, that equality between men and women might be achieved if women rejected feminine values and behaviour in favour of masculine values and behavior” (HOLLOWS, 2000, p. 10), o que nos lembra o estereótipo da mulher perversa, que era considerada uma ameaça à sociedade justamente por usurpar características masculinas. Não surpreende assim que uma imagem estereotipada da mulher feminista evoque aspectos antes atribuídos à mulher perversa: a típica feminista passa a ser considerada uma mulher masculinizada e que rejeitava apetrechos femininos: “The figure of the bra-burning, mannish and fanatic feminist has dominated popular representations of feminism (…) Moreover, the figure of the unattractive bra-burner also cemented into the public’s mind the perception of feminism as anti-feminine” (GENZ; BRABON, 2009, p. 22), sendo por vezes também considerada uma mulher que não se depila, usa o cabelo curto, odeia os homens e se mostra agressiva e irritada: ou seja, uma mulher nada feminina.
Alguns teóricos, como Kimberly Ann Wells, identificam similaridades entre a caça às bruxas e o movimento feminista por ambos denotarem alguma forma de opressão ao sexo feminino. A bruxa, contudo, não se assemelha à feminista apenas por ser oprimida, mas principalmente pelo seu desejo de equiparar-se ao homem, por se rebelar contra a opressão e exigir seus direitos. Desse modo, a bruxa se mostra um símbolo forte para o movimento feminista: “Characteristically, women writers have seen in the witch a figure of all that women could be were it not for patriarchy […] To be recognized as a witch is to be recognized as free and independent” (PURKISS, 2010, p. 22). Para Wells, é notável
 
(…) how strongly connected the concept of independent woman and our modern concept of witch has been ever since. Both feminist and witch are scapegoated as evil, with evil meaning those who endanger society’s family values and therefore who must be punished for exercising powers that patriarchy defines as more rightly belonging to men: independence, outspoken belief in oneself, sexual freedom, education, and choice in occupation. Both groups are women who struggle with patriarchy and power (WELLS, 2002, p. 7).
 
Assim sendo, não surpreende que as feministas sejam atraídas pela figura da bruxa, que popularmente é representada como uma mulher que transgride as normas sociais e ameaça causar mudanças no sistema: que é justamente o que as feministas desejam. Dito de outro modo, a figura da bruxa é essencialmente ligada ao feminismo, pois se refere à figura da mulher empoderada: a bruxa transgride convenções ao mostrar comportamentos considerados inadequados e reclamar para si poderes que não deveria possuir.
Justyna Sempruch, pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais da Polônia, por sua vez, chama atenção para o fato de que
 
As a radical feminist identity, the ‘witch’ strategically represents both the historical abject figure subjected to torture and death, and a radical fantasy of renewal in the form of a female figure who desires (and articulates) a cultural transformation ‘that has not happened yet’ and also the one who already marks that transformation. Thus, the feminist witch succeeds in subverting her own (abject) identity by converting it into a political fantasy (…) (SEMPRUCH, 2004, p. 115).
 
Tendo em vista as similaridades entre a figura da feminista e a da bruxa, não é difícil identificar tais relações no romance As bruxas de Eastwick, de John Updike – publicado em 1984, a estória se passa no final da década de 1960, que, como sabemos, foi o período correspondente à segunda onda do movimento feminista. Assim, não surpreende que a questão feminista esteja muito presente na obra: a própria escolha do cenário (a cidade de Eastwick, em Rhode Island) é muito sugestiva, pois o autor revela que Anne Hutchinson, uma puritana que presidia debates sobre questões espirituais, fora banida para lá no século XVII, pois, por ser uma mulher num papel de liderança espiritual, Anne desagradou as autoridades e acabou sendo banida da colônia de Massachusetts. Ao citar Anne Hutchinson, o autor acaba criando uma analogia entre sua transgressão e a das bruxas que habitam Eastwick, igualando as bruxas à Anne ao tratar ambas figuras como marginais.
As bruxas de John Updike sem dúvida apresentam muitas das características descritas no Malleus maleficarum. Alexandra, Sukie e Jane são mesquinhas e egoístas, como as típicas bruxas citadas no manual, e possuem estranhas protuberâncias pelo corpo, os mamilos de bruxas, que se acreditava ser por onde os Espíritos Familiares alimentavam-se. As três também usam sua magia para fazer malefícios e punir pessoas que de algum modo as incomodassem.
De acordo com o manual, as bruxas eram capazes de invocar tempestades e relâmpagos, que é o que Alexandra faz quando está na praia com seu cachorro e quer expulsar as pessoas que a chamaram de megera pelas suas costas. Consta no Malleus que as bruxas também podiam preparar um unguento de acordo com as instruções do diabo, que usariam para untar uma cadeira ou vassoura em que poderiam voar. Sabemos que pelo menos Jane podia voar, pois
 
‘Ontem à noite’, disse ela, ‘fiquei tão chateada e com raiva disso tudo que não consegui dormir, e acabei acordando e me esfregando inteira com capuz-de-fradinho e creme para as mãos Noxema, com um tiquinho só daquela cinza fina que fica depois de colocar o forno na função de limpeza automática, e saí voando até a mansão Lenox. Foi maravilhoso! (UPDIKE, 2010, 278).
 
Não podemos esquecer que o diabo também era frequentemente mencionado no Malleus maleficarum, aparecendo como condição necessária para a existência da bruxa, pois lhe daria poderes sobrenaturais caso ela fizesse um pacto com ele, que deveria ser selado pela assinatura da bruxa em um livro. Assim, a associação do diabo com a bruxa é notável, e também está presente na obra de John Updike, embora de maneira velada: em nenhum momento o autor afirma que o personagem Darryl van Horne se tratava de fato do diabo, mas faz diversas alusões irônicas, que ficam ainda mais explícitas na adaptação cinematográfica, em que Darryl chega a adquirir uma forma monstruosa e com chifres. O próprio nome do personagem sugere que se trata do diabo disfarçado: “Darryl” possui uma sonoridade parecida com “Devil[2] e “Horne” poderia tanto se referir aos supostos chifres (horns, em inglês) quanto ao caráter sexual do diabo (horny[3]), uma vez que Darryl é um personagem altamente sexualizado. De acordo com o Malleus, o diabo mantinha relações sexuais com as bruxas durante o “sabá”: momento em que as bruxas se reuniam na floresta numa espécie de congregação para adorar ao diabo. John Updike faz uma releitura do sabá, adaptando-o para o século XX: no romance, as bruxas criaram o hábito de se encontrarem com Darryl em sua mansão, onde jogavam uma partida de tênis e depois iam para a banheira, onde bebiam, fumavam maconha e, é claro, tinham relações sexuais – série de eventos que repetia quase ritualisticamente toda quinta-feira.
Até mesmo a caracterização de Darryl evoca aspectos diabólicos, pois sua temperatura é mais fria que o comum e não era muito agradável para as bruxas fazerem sexo com ele: nos relatos históricos, muitas mulheres acusadas de bruxaria, ao confessarem terem tido relações sexuais com o diabo, afirmavam que sua temperatura era mais fria do que a de um homem normal, e ainda que as relações não eram prazerosas (ROPER, 2004). Também é interessante reparar que quando estava na banheira, Alexandra sentira um ímpeto de beijar as nádegas de Darryl, o que é no mínimo curioso se considerarmos que em muitas descrições do sabá () in place of the kiss of peace in the Mass, they had to kiss the Devil’s anus” (ROPER, 2004, p.113), numa forma de demonstrar sua adoração por ele.
Além disso, o interior de sua mansão fede a enxofre, odor que “Van Horne não pareceu notar, pois aquele era o seu elemento” (UPDIKE, 2010, p. 100), e também se afirmara que um dos talentos de Darryl era “fazer as pessoas assinarem pactos” (UPDIKE, 2010, p. 346), numa referência ao pacto demoníaco da bruxa ou mesmo ao pacto faustiniano,
 
Pois Van Horne havia lhes garantido solenemente que Thumbkin [a gata de estimação de Darryl], por baixo de sua forma felpuda, era a alma reencarnada de um advogado setecentista de Newport que havia desviado dinheiro do seu escritório (…) e que, para salvar a si mesmo da prisão e a família da desgraça, vendera seu espírito após a morte para os poderes das trevas (UPDIKE, 2010, p. 278).
 
Apesar de o autor sugerir que este personagem se trata do diabo, o objetivo de Darryl na obra não fica muito claro: além de envolver-se sexualmente com as três mulheres, sabemos por exemplo que ele procurava incentivar a criatividade delas: queria que Alexandra melhorasse suas esculturas e fizesse exposições em Nova York, tocava música com Jane e sugerira diversas vezes que Sukie escrevesse um romance. Daryl incentivava tanto as inclinações artísticas quanto a prática de bruxaria, que pareciam interligadas[4], uma vez que “O dom da escultura havia surgido junto com seus outros poderes (…)” (UPDIKE, 2010, p. 24-25). Talvez a presença do diabo nessa obra servisse apenas para acentuar a condição de bruxa dessas mulheres, além de seu caráter devasso, uma vez que se envolviam sexualmente com o diabo:
 
Stories of this kind were at the heart of the witch craze. The witch was a human who had sex with the Devil. This was what made her “his”, sworn to harm all other Christians (…). Intercourse with the Devil was the physical counterpart of the pact with him – and it was sex with the Devil which many accused witches talked about at length, rather than the pact which, according to demonological theory, actually made them Satan’s own. (ROPER, 2004, p. 84).
 
Como bruxas, e principalmente como mulheres livres (sem maridos), elas podiam fazer sexo com quem bem quisessem, ao contrário das outras mulheres da cidade, que ainda estavam agrilhoadas ao papel tradicional de esposa e mãe. Contudo, antes de se mudarem para Eastwick, Alexandra, Sukie e Jane eram donas de casa que desempenhavam seus papéis de esposa e mãe, mesmo que odiassem ou ficassem deprimidas por fazê-lo: “(…) anos antes, quando, ainda tentando fazer as coisas que se esperava de uma esposa, acompanhara Ozzie a um concerto” (UPDIKE, 2010, p. 16). Ao libertarem-se de tais papéis, libertam-se então da escravidão das convenções sociais, que ditavam como uma mulher deveria portar-se: Alexandra para de se pesar na balança o tempo todo, enquanto Jane se recusa a usar maquiagem.
Assim, nessa obra, ao tornarem-se bruxas, as mulheres se veem “recém-liberadas das amarras do trabalho doméstico” (UPDIKE, 2010, p. 25), de modo que Alexandra, Jane e Sukie, ao passo em que iam descobrindo seus poderes e tornando-se bruxas, deixaram de desempenhar seus papéis de esposa e mãe: “(…) esses instantes maternais lhe ocorriam cada vez mais raramente à medida que ela ia adquirindo controle sobre si própria, uma semideusa maior e mais austera do que qualquer dos usos que os outros pudesse ter para ela” (UPDIKE, 2010, p. 122). Tarefas domésticas, como cozinhar e cuidar do jardim, parecem um martírio que elas evitam ao máximo e do qual se ressentem:
 
Quando Ozzie e eu nos mudamos para Eastwick, eu sempre fazia geleia com as frutinhas das roseiras’.
‘Você e Oz eram mesmo uma gracinha.’
‘Era patético. Eu era tão dona de casa.’ (UPDIKE, 2010, p.329).
 
Como consequência, elas passam a não querer cozinhar para os filhos, preferindo comprar comida congelada ou dar-lhes biscoitos, e seus quintais são desorganizados por falta de cuidados: o quintal dos fundos de Alexandra precisava ter a grama cortada e parecia uma selva descontrolada; Jane também não tinha jeito para jardinagem, e seu jardim consistia em um “abandonado emaranhado de rododentros, hortênsias, tuias, berberes e buxinhos em volta dos alicerces da casa” (UPDIKE, 2010, p. 27).
Percebemos então que nesse romance, o papel de dona de casa e esposa é incompatível com o da bruxa, assim, os maridos obrigatoriamente devem sair de cena, como se um fator  automaticamente excluisse o outro: toda divorciada deve ser uma bruxa, e uma bruxa não pode ser casada:
 
Seu próprio ex-marido, Oswald Spofford, repousava dentro de um vidro com a tampa de rosca bem fechada em uma prateleira alta da cozinha, reduzido a um pó multicolorido. (…) Quando eles de fato se divorciaram, seu antigo mestre e senhor se transformara em pó (…) que ela havia varrido e guardado de lembrança dentro de um vidro. As outras bruxas haviam passado por transformações semelhantes em seus casamentos; o ex-marido de Jane Smart, Sam, estava pendurado no porão da casa de fazenda dela, em meio às ervas secas e poções, sendo ocasionalmente salpicado em algum filtro (…) e Sukie Rougemont havia plastificado o seu e o usava como jogo americano (UPDIKE, 2010, p.11-12).
 
Quanto aos filhos, caíram numa espécie de esquecimento, sendo largados sozinhos em casa, famintos e encardidos. As protagonistas são diversas vezes chamadas de péssimas mães, e sua devassidão também não passa despercebida, passando a noite com vários homens ao longo dos anos. Para elas, “Ser mulher e divorciada em uma cidade pequena era mais ou menos como jogar Banco Imobiliário, depois de algum tempo, você acaba caindo em todas as casas” (UPDIKE, 2010, p. 32). Por rebelarem-se desse modo contra as normas sociais, essas mulheres escandalizaram a cidade, sendo alvo de fofoca dos outros habitantes: “(…) não sei por que essas mulheres se dão ao trabalho de continuar vivendo, são umas putas que vão para a cama com metade da cidade e sequer são pagas por isso. E aqueles coitados daqueles filhos delas, todos abandonados, é mesmo um crime” (UPDIKE, 2010, p. 150). Outro aspecto que parece ter influenciado o ponto de vista negativo com que essas mulheres eram vistas é o fato de elas trabalharem – por não possuírem um marido para sustenta-las, Alexandra, Sukie e Jane tinham que ingressar no mercado de trabalho para conseguirem dinheiro.
As protagonistas apresentam às vezes uma postura deveras feminista. Alexandra, por exemplo, vestia-se com roupas de homem e também apresentava um andar masculinizado, espelhando o estereótipo da feminista e da mulher perversa, que, como já discutimos, eram consideradas mulheres masculinizadas. Seu discurso também evocava um certo criticismo:
 
Alexandra cada vez mais achava as roupas masculinas confortáveis; primeiro começou a comprar sapatos e luvas de homem, depois calças (…) por que eles deveriam ficar com todo o conforto enquanto nós nos martirizamos com saltos agulha e todas as outras modas escravizantes que veados sádicos inventam para nós? (UPDIKE, 2010, p. 258).
 
Jane, por sua vez, tinha opiniões mais agressivas: “Homens são violentos (…). Até os mais gentis. É biológico. Eles são cheios de raiva porque são apenas acessórios para a reprodução” (UPDIKE, 2010, p. 184). No romance de John Updike, o feminismo parece intrinsicamente ligado à bruxaria: as mulheres divorciadas (autossuficientes e assertivas) só poderiam ser maléficas e poderosas. Assim, percebemos que o fato dessas personagens parecerem feministas era justamente o que as tornava mal vistas para a comunidade de Eastwick – o fato de trabalharem e de não serem casadas gerava diversos comentários maldosos, como se não estivessem cumprindo seu papel de mulher, além, é claro, de a sua liberdade sexual escandalizar os outros habitantes da cidade.
As bruxas de Eastwick são personagens perversas porque, de acordo com a obra, uma bruxa deveria sê-lo, enquanto que demonstrar um pouco mais de humanidade – como quando Alexandra confessou estar sentindo culpa por terem enfeitiçado Jenny, as outras a acusaram de estar “perdendo seu temperamento de bruxa” (UPDIKE, 2010, p. 303), como se uma bruxa não pudesse sentir compaixão ou arrependimento pelos seus atos maléficos.
Segundo Wells, o sentimento antifeminista transparece claramente nas páginas de John Updike, que se utiliza do típico estereótipo da bruxa para atacar o feminismo: “In his portrayal of three modern witches who mouth feminist rhetoric, and his setting of the novel retroactively during the “birth” of second wave feminism, he critiques women and the feminist movement quite deliberately (…) (WELLS, 2002, p. 231-232).
As bruxas de Eastwick apresentam muitos aspectos estereotipados pelo Malleus maleficarum e surgem como uma resposta ao movimento feminista, exibindo mulheres que transgrediam as normas sociais e portanto eram mal vistas pela sociedade a sua volta. A relação entre o feminismo e a bruxaria fica clara no romance ao relatar que Alexandra, Sukie e Jane, ao se tornarem bruxas, rejeitam seu papel como dona de casa, desfazendo-se dos maridos e abandonando os filhos em casa enquanto saem para cuidar das próprias vidas. Desse modo, o romance nos mostra claramente um sentimento antifeminista.
Como afirma Margaret Atwood, o que uma cultura tem a dizer sobre bruxaria tem muito a ver com suas visões a respeito de sexualidade e poder, e principalmente de que maneira o poder é dividido entre os sexos (ATWOOD, 1984). E por ter sido escrito nos anos oitenta, época dominada pelo discurso feminista, não é a toa que, de acordo com o romance, as mulheres que se tornavam livres do papel tradicional de mãe/esposa e, portanto, poderosas, automaticamente representariam um perigo para a sociedade a sua volta.
 
Referências:
ATWOOD, Margaret. Wondering What It’s like to be a Woman. New York Times, New York, 13 maio 1984. Review of Books. Consulta online. Disponível em: <http://www.nytimes.com/1984/05/13/books/wondering-what-it-s-like-to-be-a-woman.html?pagewanted=all>. Acesso em: jun. 2016.
KARLSEN, Carol. The Devil in the Shape of a Woman: Witchcraft in Colonial New England. New York: Norton, 1998.
KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2014.
DIJKSTRA, Bram. Idols of Perversity. Oxford: Oxford University Press, 1986.
GENZ, Stéphanie; BRABON, Benjamin. Postfeminism: Cultural Texts and Theories. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2009.
HOLLOWS, Joanne. Feminism, Femininity and Popular Culture. Manchester: Manchester University Press, 2000.
PURKISS, Diane. The Witch in History: early modern and twentieth-century representations. New York: Routledge, 2010.
ROPER, Lyndal. Witch Craze: Terror and Fantasy in Baroque Germany. New Haven: Yale University Press, 2004.
SEMPRUCH, Justyna. Feminist Constructions of the ‘Witch’ as a Fantasmatic Other. Body and Society, 2004, v. 10, n. 4, p.113-133.
UPDIKE, John.  As bruxas de Eastwick. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
WELLS, Kimberly. Screaming, Flying, and Laughing: Magical Feminism’s Witches in Contemporary Film, Television, and Novels. Texas: [s.n.], 2002. Disponível em: <http://repository.tamu.edu//handle/1969.1/6007>. Acesso em: jun. 2016.
 
Notas ao texto
[1] De acordo com Carol Karlsen, professora da Universidade de Michigan que realizou um estudo demográfico sobre os casos de bruxaria nas colônias americanas, cerca de 80% dos acusados entre 1620 e 1725 eram do sexo feminino (Cf. KARSEN, 1998).
[2] “Diabo”, em inglês.
[3] Horny, em inglês, é frequentemente utilizado para indicar que alguém está sexualmente excitado.
[4] É interessante reparar que as bruxas de Eastwick possuem inclinações artísticas, pois Alexandra é escultora, Jane musicista e Sukie jornalista – a única cuja ocupação talvez não possa ser considerada exatamente artística, embora devamos reconhecer que seu trabalho exigia certa criatividade e estilo, não sendo de todo destoante. A relação entre a bruxaria e as Artes também não escapa aos olhos de Wells, para quem o poder da mulher é definido ao se colocar criatividade, feminismo e poder na mesma categoria (WELLS, 2002, p. 9).





Bio fornecida pelo palestrante.

BREAKING SOCIAL STRUCTURE IN TONI MORRISON’S SULA – Adonay Custódia dos Santos Moreira, Ana Isabel Mendes Rosa Marques




 

 Adonay Custódia dos Santos Moreira

CICS.NOVA.IPLeiria;

Instituto Politécnico de Leiria

 
Ana Isabel Mendes Rosa Marques
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria[1]
 
Resumo: Toni Morrison é uma aclamada escritora afro-americana cujas obras evidenciam a problemática da construção da identidade da mulher afro-americana em opressivos contextos histórico-culturais que interligam índices raciais, sexuais e de classe. Esta comunicação examinará, em particular, o modo como os papéis sexuais condicionam o processo de construção da identidade da mulher afro-americana na obra Sula. Especial relevo será dado à personagem Sula, que subverte as dicotomias que subjazem a essa organização social. O seu processo de autodefinição constitui uma reflexão acerca da necessidade sempre premente de transpor obstáculos de sexo, raça e classe de modo a manter uma identidade íntegra numa sociedade pouco receptiva a alterações na estrutura de poder.
 
Palavras-chave: patriarcado, género, raça, identidade.
 
Abstract: Toni Morrison is an acclaimed African American writer whose works highlight the problem of identity construction for African American women who live under oppressive historical and cultural contexts, at the intersection of race, gender and class issues. This paper will examine in particular how gender roles affect the process of identity construction for African American women in the novel Sula. Special emphasis will be given to the character “Sula”, who subverts the dichotomy female/male underlying this social organization. Her process of self-definition is a reflection on the ever pressing need to overcome obstacles of gender, race and class, in order to maintain a full identity in a society that is not receptive to changes in the power structure.
 
Key words: patriarchy, gender, race, identity.
 
Minicurrículos: Adonay Custódia dos Santos Moreira é doutora em Tradução pela Universidade de Vigo (2010) e mestre em Estudos Anglo-Americanos pela Universidade de Coimbra (1998). É professora-adjunta do Departamento de Ciências da Linguagem da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria, onde lecciona desde 1995. Foi docente da licenciatura em Tradução aí ministrada. Foi membro de uma equipa de tradução, com trabalho publicado em Theoretical Issues and Practical Cases in Portuguese-English Translations (1996) e a sua tese de doutoramento – Terminologia e tradução: criação de uma base de dados terminológica do turismo baseada num corpus paralelo Português-Inglês (2010) – foi publicada pela Universidade de Vigo. Actualmente, integra o centro de investigação CICS.NOVA.IPLeiria (Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais).
 
Ana Isabel Marques é doutora em Línguas e Literaturas Modernas na especialidade de Ciências de Tradução, pela Universidade de Coimbra. É professora-adjunta do Departamento de Ciências da Linguagem da Escola Superior e Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria, onde lecciona desde 1995. Foi docente da licenciatura em Tradução aí ministrada. É autora de Paisagens da memória. Identidade e alteridade na escrita de Ilse Losa (2001) e As traduções de Ilse Losa no período do Estado Novo – Mediação cultural e projecção identitária (2015). Actualmente integra o centro de investigação CICS.Nova.IPLeiria (Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais).
 
 
BREAKING SOCIAL STRUCTURE
IN TONI MORRISON’S SULA
 
Adonay Custódia dos Santos Moreira
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria
 
Ana Isabel Mendes Rosa Marques
CICS.NOVA.IPLeiria;
Instituto Politécnico de Leiria[2]
 
 
 
 
Toni Morrison is a widely-acclaimed African American writer whose works highlight the problem of identity construction for African American women who live under oppressive historical and cultural contexts, at the intersection of race, gender and class issues. In a patriarchal and racist society, whose hierarchical power structure determines the behavior and the construction of identity for both men and women, women are not powerless victims in the perpetuation of this structure, but essential agents of its reproduction.
This paper will examine in particular how gender roles affect the process of identity construction for African American women in the novel Sula (MORRISON, 1973). [3] Special emphasis will be given to the character “Sula”, who subverts the dichotomy female/male underlying this social organization by refusing normative roles and also by questioning two patriarchal institutions: religion and family. Her process of self-definition is a reflection on the ever pressing need to overcome obstacles of gender, race and class, in order to maintain a full identity in a society that is not receptive to changes in the power structure.
Thus, we start this presentation by reading an extract from a dialogue taken from Toni Morrison’s novel Jazz (1992, p. 242) [4]:
 
‘What’s the world for if you can’t make it up the way you want it?’
‘The way I want it?’
‘Yeah. The way you want it. Don’t you want it to be something more than what it is?’
‘What’s the point? I can’t change it.’
‘That’s the point. If you don’t, it will change you and it’ll be your fault cause you let it. I Let it. And messed up my life.’
 
These words take us to a key issue in Morrison’s work: the way individuals lead their lives in relation to cultural norms or, as Philip Weinstein sums up, “[…] the drama of the subject in culture […]” or “[…] the drama of identity formation” (1996, p. xx; xxvii). In an interview to Jane Bakerman (1978, p. 60), Morrison herself states that the fundamental issue of her novels comes down to maintaining a full identity in a world that weakens us at some moment:
 
But I think that I still write about the same thing, which is how people relate to one another and miss it or hang on to it…or are tenacious about love.
About love and how to survive – not to make a living – but how to survive whole in a world where we are all of us, in some measure, victims of something. Each one of us is in some way at some moment a victim and in no position to do a thing about it. Some child is always left unpicked up at some moment. In a world like that, how does one remain whole – is it impossible to do that?
 
Starting from the premise that cultural norms underlie the process of identity formation of every individual, and facing the latter as someone always pressed by social roles, we seek to analyze how these roles or norms seem to appear as “natural”, and hence inescapable, realities. Over time, women’s reproductive power has been put at the service of the social organization and the reproduction of unequal gender roles, which make up the core of patriarchy. In this regard, Gerda Lerner (1986, p. 20) explains that women’s participation in building this limiting system dates back to the need for survival of primitive people. The author argues that it became essential to the group’s survival for women to devote most of their energies to motherhood and childcare. However, although necessity created a division of labor, over the centuries this hierarchical power structure has been culturally reinforced. The patriarchal reasoning resembles that of colonization, for it entails the acceptance of power asymmetries, with evident political consequences. The psychological relationship with power is imbedded in the subconscious of individuals, influencing their future decisions. In other words, the traditional hierarchical structure that values men and women differently comes to be considered as natural and inevitable. Ultimately, patriarchy prevails because its reproduction mechanisms are deeply rooted in both men and women. Both men and women contribute to prevailing representations of masculine and feminine, through their behavior and the image they convey of themselves in social interactions (AMÂNCIO, 1993, p. 127). Shere Hite (1995, p. 95), in her report on the family, comes to the conclusion that hierarchical separations are aimed at the maintenance of male domination in family and society and that, in a society less obsessed with establishing gender roles, it is likely that values usually associated with the terms “feminine” and “masculine” are chosen by individuals of both sexes.
In the novel Sula, gender roles are exposed and subverted, namely the deeply-rooted principle of Western culture that all women naturally possess maternal instincts. In this work, black mothers are measured in relation to paradigmatic images of motherhood – that do not include feelings such as hatred, resentment, fear, disappointment or erotic pleasure – and suffer its devastating effects. When Hannah confronts Eva with questions about her love for her children (“‘Mamma, did you ever love us?’” (S, 67), Hannah shows her the intensity of her love by saying she remained alive for her children when it would have been a relief to die.
Eva criticises Hannah, for the latter seems to judge her mother more severely than others: “‘Everybody all right. ‘Cept Mamma. Mamma the only one ain’t right. Cause she didn’t love us.’” (S, 68). Eva’s sharp remark denounces the general social tendency to blame the mother and to consider as unnatural the non-display of maternal affection in terms of smiles and play. Hannah does not apprehend the economic and emotional pressure her mother was subjected to, when, in 1895, she was abandoned by her husband with three children to support, and judges her harshly, when her first priority was survival: “‘No time. They wasn’t no time. Not none’” (S, 69). This daughter is unable to recognize the inapplicability of socially disseminated ideals of motherhood, idealized for white women, and hence views her mother as a failure.
Sula and Nel, in their turn, try to stay away from their mothers in order to create an independent identity. Sula, after hearing her mother say she loves her, but does not like her, confirms that “(…) there was no other that you could count on” (S, 118-119). The sense of separation is obvious when Sula watches her mother die, marveling at the spectacle of movement and light that radiates from her mother’s body engulfed in flames. Nel decides to be different from her mother after seeing her smile at the train inspector that had humiliated her: “It was on that train, shuffling toward Cincinnati, that she resolved to be on guard – always. She wanted to make certain that no man ever looked at her that way. That no midnight eyes or marbled flesh would ever accost her and turn her into jelly” (S, 22). Although she admires her mother in the family sphere, Nel is ashamed of her inferiority as a black woman in a public sphere dominated by racism and sexism. Determined never to submit to male oppression, Nel refuses to be defined as Helene’s daughter, by saying “‘I’m me. I’m not their daughter. I’m not Nel. I’m me. Me.’” (S, 28). These words show an utter fear of an identity as vulnerable as the mother’s.
Thus, Sula and Nel, using “(…) each other to grow on” (S, 52), seek to transcend the relations with their mothers: Sula, in an attempt of self-creation (“I want to make myself” (S, 92); Nel, by claiming an independent identity (“I’m me.” (S, 28). However, even as children, they both realize they are confined to a widely accepted patriarchal doctrine that ranks people. Sula and Nel quickly discover “(…) they were neither white nor male, and that all freedom and triumph was forbidden to them” (S, 52). This awareness of power asymmetries associated with skin color and sex translates into a negative self-definition, by what they are not – neither white nor male. However, Sula rebels against this order by leaving Bottom and coming back ten years later with the strong conviction she will not marry or have children, while Nel, like Eva and Helene, accepts the security of a conventional identity, fully identifying herself with the roles of wife and mother and putting her husband and children at the center of her life. Unlike Sula, that “(…) had no center, no speck around which to grow” (S, 119) and only submits to the will of the “I”, as predicted in her dream of a knight galloping a white and grey horse, wandering in search of a soulmate, Nel, abandoned by Jude, is devastated by the emptiness of her life without “Prince Charming” to whom she had previously entrusted her identity: “She didn’t even know she had a neck until Jude remarked on it, or that her smile was anything but the spreading of her lips until he saw it as a small miracle” (S, 84). Being brought up under a strict control that suppresses her individuality, Nel uses the moral values of her traditional education as a shelter from life’s hardships and her desperate and obsessed desire to merge with her children becomes a remedy for her loss. Nel resigns to the principle that the “maternal” is incompatible with the “individual.” Likewise, Eva, when confronted with degrading economic and emotional conditions, chooses to live for her children and self-mutilates to receive insurance money, in order to guarantee their survival.
But let us take up Sula’s analysis, in particular, the way she rejects the patriarchal model by breaking loose from all conventional emotional supports – religion, family and motherhood.
In terms of religion, there are several episodes that illustrate the way Sula defies biblical laws or despises those who subscribe to these laws. Sula arouses the anger of community women by going to their church dinners without underwear or refusing to eat their food: “She came to their church suppers without underwear, bought their steaming platters of food and merely picked at it – relishing nothing, exclaiming over no one’s ribs or cobbler. They believed that she was laughing at their God” (S, 115). Sula, in fact, laughs at this God when arguing with Eve, discrediting a God that was going to “magically” lift them up from reality. (S, 160). When Eva turns to the authority of the biblical text to criticize Sula – “Bible say honor thy father and thy mother that thy days may be long upon the land thy God giveth thee” (S, 93) – Sula not only challenges the monolithic version of good and evil that society at large subscribes, but also questions God’s power: “‘Mamma must have skipped that part. Her days wasn’t too long.’ (…) ‘Which God? The one watched you burn Plum?’” (S, 93). By questioning religious dogma, that is, by questioning the basis of our ethical system, that separates good from evil, Sula creates a state of moral ambiguity that Morrison well-defines in the phrase: “Sometimes good looks like evil – you never really know what it is” (STEPTO, 1979, p. 216). Thus, Morrison restores the necessary complexity to concepts that are normally seen as hermetic and often prevent us from knowing our true selves. A conventional morality seems to be insufficient to understand the natural complexity of human beings.
Apart from crossing the barrier of good and evil, Sula breaks the dichotomy “female/male” by adopting an alternative identity that Bell Hooks calls “radical black female subjectivity” (1992, p. 48). In her quest to create this radical identity, Sula does not let herself be repressed by patriarchal norms of behavior and lives in an experimental way, at the mercy of her freedom and amorality. She leaves Bottom for 10 years to see the world, contrary to what is expected of the normative female role, that is, to stay attached to family responsibilities. And Sula expresses once again her libertarian character, by diluting differences between men and women with the following response to Nel: “‘You say I’m a woman and colored. Ain’t that the same as being a man?’” (S, 142). Sula rejects this dichotomous convention; she adopts social male behavior and is only responsible for herself. However, this choice remains an insult to women like Eve and Nel, who devoted their entire lives to others, as Morrison points out in one of her interviews. According to Morrison, Sula’s adventurous masculinity is an outrage in the thirties and forties (STEPTO, 1979, p. 227).
In short, the “I” becomes the center of Sula’s life, as she wishes to create herself and utterly refuses to follow the path of mothers who forgo their wishes for their children. Sula rules over her world, acquires the coveted existential freedom and reinforces her dissociation from socially imposed feminine roles.
Sula’s radicalism also extends to motherhood, with the rejection of a mother’s role. “I don’t want to make somebody else” (S, 92) is the statement that expresses her rebellion against the role of women who merely defined themselves through motherhood and family bonds. It is the assertion that culminates her long process of identity formation. Sula looks for a genuine identity that isolates her from maternal and community connections, a seclusion that can be considered as negative according to Morrison, since the author believes in the importance of ancestors for the formation of personal identity.
In spite of breaking free from all family and cultural bonds, Sula cannot survive on her own.[5] In fact, the greatest drama of Sula’s identity lies in this ambivalence, as Sula wants total freedom, but she also needs a rewarding human contact in order to feel whole.[6] Although Sula challenges a patriarchal ideology that identifies women as mothers, a deeper analysis reveals the patriarchal paradigm is not completely thrown out.[7] This “(…)new world black and new world woman (…),” as Morrison (1989, p. 25) defines her, seeks to endorse a different world that seems to answer Violet’s question in Jazz – “‘What’s ‘the world for if you can’t make it up the way you want it?’” (J, 242). In fact, at first glance, Sula seems to get from the world what she looks for, but ends up showing a terrible fear of the feminine by rejecting Hannah, Eva and the community of women. Sula refuses to communicate with her mothers, judges them by the same Manichean system she intended to eradicate and sees them as limited, but she only looks for the “how” and not the “why” and does not learn to unite her story to theirs.
In conclusion, this character lives at the mercy of a powerful will that blurs conventional gender roles and brings down the dichotomy good versus evil. However, by fighting for self-definition alone and by distancing herself from the collective condition of black women, Sula reveals a deeply-embedded patriarchal fear of a maternal inheritance. In fact, Sula’s identity, based on total subversion and challenge of conventional rules, is neither sustainable nor steady. After having confronted stereotypes and shaken community traditionalism, Sula dies alone and Bottom quickly returns to its conventional values.
Somehow, her endeavor failed, because Sula not only wanted to create herself as if it was possible to build an identity in a cultural void, but was also unable to acknowledge how racism, sexism and poverty distort all family ties, affecting the identity formation of each individual. Building a balanced identity seems to come precisely from the confrontation of a past and a present of oppression, so that we can, as Morrison affirms, “to survive whole in a world where we are all of us, in some measure, victims of something” (BAKERMAN, 1978, p. 60) or for the world to be “something more than what it is” (J, 242). If we do not try to find out the “why”, the assumption that oppression is a “natural” matter of fate will go on and we will remain “(…) wishing [we were] somebody else” (J, 242), like Violet, in the novel Jazz.
 
 
References:
 
AMÂNCIO, L. (1993). Género – representações e identidades. Sociologia – problemas e práticas, 1993, 14, p. 127-140.
BAKERMAN, J. (1978). The Seams Can’t Show: An Interview with Toni Morrison. Black American Literature Forum, Summer 1978, 12.2, p. 56-60.
HIRSCH, M. (1990). Maternal Narratives: ‘Cruel Enough to Stop the Blood’. In: GATES JR., H. L. (Ed.), Reading Black – Reading Feminist. New York: Meridian, p. 415-430.
HITE, S. (1995). Relatório Hite sobre a família: crescendo sob o domínio do patriarcado. Trad. M. C. Fernandes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
HOOKS, B. (1992). Black Looks: Race and Representation. Boston, MA: South End Press.
LEE, D. H. (1984). The Quest for Self: Triumph and Failure in the Works of Toni Morrison. In: EVANS, M. (Ed.), Black Women Writers (1950-1980): A Critical Evaluation. Garden City: Anchor Books, p. 346-360.
LERNER, G. (1986). The Creation of Patriarchy. New York: Oxford University Press.
MORRISON, T. (1992). Jazz. New York: Penguin Books.
MORRISON, T. (1973). Sula. London: Pan Macmillan Publishers Ltd., 1990.
MORRISON, T. (1989). Unspeakable Things Unspoken: The Afro-American Presence in American Literature. Michigan Quarterly Review, Winter 1989, 28.1, p. 1-34.
PAGE, P. (1995). Dangerous Freedom: Fusion and Fragmentation in Toni Morrison’s Novels. Jackson: University Press of Mississippi.
STEPTO, R. B. (1979). ‘Intimate Things in Place’: A Conversation with Toni Morrison. In: HARPER, M. S. & STEPTO, R. B. (Eds.), Chant of Saints: A Gathering of Afro-American Literature, Art, and Scholarship. Urbana: U. of Illinois P., p. 213-229.
WEINSTEIN, P. M. (1996). What Else But Race? The Ordeal of Race in Faulkner and Morrison. New York: Columbia University Press.
 
Notes to the Text
 
[1] Pode aceder-se ao Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Pólo de Leiria em:  http://www.cics.nova.fcsh.unl.pt/polos/cics-nova-ipleiria.
NOTES TO THE TEXT
 
[2] Pode aceder-se ao Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Pólo de Leiria em:  http://www.cics.nova.fcsh.unl.pt/polos/cics-nova-ipleiria.
[3] Hereafter, this novel will be referred to by its abbreviation; the page number cited will in parentheses.
[4] Hereafter, this novel will be referred to by its abbreviation; the page number cited will in parentheses.
[5] See PAGE, P. (1995). Dangerous Freedom: Fusion and Fragmentation in Toni Morrison’s Novels. Jackson: University Press of Mississippi, p. 74.
[6] See LEE, D. H. (1984). The Quest for Self: Triumph and Failure in the Works of Toni Morrison. In: EVANS, M. (Ed.), Black Women Writers (1950-1980): A Critical Evaluation. Garden City: Anchor Books, p. 350.
[7] See HIRSCH, M. (1990). Maternal Narratives: ‘Cruel Enough to Stop the Blood’. In: GATES JR., H. L. (Ed.), Reading Black – Reading Feminist. New York: Meridian, p. 424.





Bio fornecida pelo palestrante.

SYLVIA PLATH E A VOZ INDIVIDUAL FEMININA NA ESCRITA E NA LITERATURA – Aline Menezes




 

Aline Menezes
Universidade de Brasília

 
Resumo: Este artigo apresenta reflexões iniciais sobre a poesia de Sylvia Plath, considerando alguns estudos da produção de sua autoria. O objetivo é apontar elementos constitutivos do trabalho poético da escritora norte-americana – ainda conhecida muito mais pelos dramas de sua vida e pela tragédia de sua morte do que pela sua poesia – e discutir o método utilizado por Plath para a construção de seu projeto literário, na condição de mulher que revela a voz individual e particular da artista, inscrita em um mundo onde a fala feminina parece sempre estar sufocada. Para este trabalho, portanto, iremos nos orientar com base na leitura e interpretação de poemas selecionados do livro Ariel.
Palavras-chave: literatura, estudos de gênero, poesia feminina, voz poética.
 
Abstract: This article presents initial reflections about Sylvia Plath’s poetry, considering some studies about her production. The objective of this paper is to point constituent elements inside the poetic work of the American writer – still known more by the dramas of her life and the tragedy of her death rather than her poetry – and to discuss the method used by Plath to build her literary project over the condition of women, which reveals the individual content and particularly the artist’s voice, registered in a world where the female speech always seems to be stifled. For this work, thus, we will orient ourselves based on the reading and interpretation of selected poems of the book Ariel.
 
Keywords: literature, gender studies, women’s poetry, poetic voice.
 
Minicurrículo: Aline Jesus de Menezes é jornalista, mestre em Literatura e Práticas Sociais e doutoranda na mesma área pelo Programa de Pós-graduação em Literatura (PósLit) da Universidade de Brasília (UnB), sob a orientação da professora dra. Cíntia Schwantes. Com experiência docente nas disciplinas de Literatura Brasileira, Estudos Literários, Língua Portuguesa, assim como Leitura e Produção de Textos, atualmente pesquisa na linha de estudos de gênero, crítica literária feminista, escrita de autoria feminina e literatura contemporânea.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
SYLVIA PLATH E A VOZ INDIVIDUAL FEMININA NA ESCRITA E NA LITERATURA
 
Aline Menezes
Universidade de Brasília
 
(…) a vida é solidão…
Sylvia Plath
 
Na conhecida obra de crítica literária feminista The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth Century Literary Imagination1, publicada em 1979, as autoras Sandra Gilbert e Susan Gubar analisam escritoras do século XIX que conquistaram um lugar na literatura, até então predominantemente masculina e patriarcal. Para Gilbert e Gubar, as narrativas de Jane Austen, Emily Dickson e as irmãs Brontë, por exemplo, evidenciam a experiência de opressão vivida pelas mulheres dos séculos anteriores:
 
(…) se as mulheres contemporâneas tentam pegar a caneta com energia e autoridade, elas só podem fazê-lo porque suas predecessoras dos séculos dezoito e dezenove lutaram em um isolamento que parecia uma doença, alienação que parecia loucura, obscuridade que parecia paralisia, para superar a ansiedade de autoria que era endêmica em sua subcultura literária (GILBERT e GUBAR, s/n).
 
A ansiedade de autoria à qual Gilbert e Gubar fazem referência no ensaio é parte da vivência de escritoras que se sentiam aprisionadas em um universo que – de vários modos – silenciava suas vozes, reprimindo-as. Não por acaso, Virginia Woolf escreveu em Um teto todo seu sobre a necessidade de que mulheres escritoras tivessem espaço no qual elas pudessem, finalmente, dedicar-se ao trabalho de escrever ficção. Liberdade econômica, inclusive, é relevante para esse processo de empoderamento feminino e artístico.
A hipótese aqui é de que – na obra de Sylvia Plath – é possível compreendermos como a poetisa apropriava-se do ato de escrever como forma de resistir às imposições de um mundo onde a fala feminina parece sempre estar sufocada e no qual essa ansiedade de autoria revela o seu trabalho poético na mais completa manifestação de sua experiência e identidade literárias:
Seu esforço literário para encontrar sua voz, ainda que para isso fosse preciso modulá-la ao sabor dos perfis impostos pelo mercado editorial de sua época, sem dúvida contribuiu para que ela fosse pouco a pouco construindo uma identidade literária distinta, cuja presença haveria de chegar, inconfundível, até os dias de hoje, sobretudo na constante mistura que realiza entre os modos poéticos e narrativos (CARVALHO, 2003, p. 46).
 
O processo de construção dessa identidade literária na obra plathiana apresenta-se de maneira bem particular. Para Ana Cecília Carvalho (2003), autora do livro A poética do suicídio em Sylvia Plath, a poetisa concentrou o seu esforço na “tentativa de transformar seu mundo subjetivo em material literário” (p. 168). Material este que – até os dias de hoje, passadas cinco décadas após sua morte – rendeu a Plath o seu reconhecimento no cânone literário. No entanto, a escritora ainda é relativamente mais conhecida pelos dramas de sua vida e pela tragédia de sua morte do que pela sua poesia.
Na opinião do professor José Luís Araújo Lima (1987), a norte-americana é “uma estrada para a apreensão e aprendizagem do real sob o ponto de vista do aprofundamento do eu, dos seus contornos e dos seus mistérios” (p. 196). Além disso, ele escreve que “a sua poesia é um combate feroz pelo descobrimento da identidade, em que avança até os limites da linguagem e da vida” (idem, ibidem). Nessa perspectiva, Ana Cecília Carvalho comenta que encontraremos na poesia de Plath “as marcas da indissociação entre a experiência interna e a escrita”2.
Sylvia Plath apresenta um trabalho de tratamento da linguagem, no qual ela obsessivamente procura construí-la artisticamente. Nesse sentido, José Lima discute os limites desse empreendimento da escritora, tomando como poema inicial “Edge” (tradução em português, “Ponto-limite”), publicado no livro Ariel, de Plath. Para ele, o título desse poema é implacável, uma vez que “anuncia de imediato a experiência dos limites”.
E mais: “Edge” aponta “o contato com as margens da vida e os extremos da linguagem”. Assim como é possível apreender o real à medida que o “eu” aprofunda-se em Sylvia Plath, segundo Lima, também se pode observar o seu recolhimento, conforme acontece em “Edge”. Em “Words” (“Palavras”), há o movimento em que o eu se aprofunda e se recolhe.
Essas e outras reflexões neste artigo são iniciais e não pretendem encerrar a discussão sobre o trabalho poético da escritora norte-americana. O objetivo é dar início a questões que consideramos fundamentais para analisar o processo de construção do trabalho artístico plathiano, que integrará tese de doutoramento, buscando evidenciar a superação da ideia de que a morte trágica da autora é o elemento maior capaz de explicar a sua produção, como se a sua voz não pudesse ser ouvida muito além das angústias e dramas particulares estigmatizados “do ser mulher com depressão”.
Evidentemente, o debate sobre a escrita poética produzida por Plath precisa ser feito de forma a pensar na experiência humana vinculada à literária, porém, mais do que isso, é necessário pesar até que ponto a voz individual feminina na literatura – na condição de mulher escritora – encontra uma recepção capaz de compreendê-la artisticamente, não apenas como “testes projetivos para compor um diagnóstico de sua personalidade supostamente esquizoide”, conforme aponta Carvalho.
Sylvia Plath morreu prematuramente, aos 30 anos de idade, no auge de sua produção literária. Se considerarmos que há um dilema comum a todo poeta, que seria conseguir uma voz própria, “inconfundível e inovadora” por meio da linguagem ou “da prática textual”, como nos diz Rodrigo Garcia Lopes (2007), é válido identificarmos de que maneira a escrita plathiana tenta resolver esse dilema, uma vez que ele exige do(a) autor(a) o esforço para encontrar na linguagem a forma estética que representa a experiência/existência humana, suas contradições e suas relações com o mundo.
 
Aprisionamento doméstico
Ao examinar a poesia de Sylvia Plath, Jeannine Dobbs (1977) percebe a relação que a poetisa faz às alusões sobre casamento e maternidade. Para Dobbs, a norte-americana explora o que significa ser mulher em termos do conflito tradicional entre família e carreira, assim como outras escritoras contemporâneas. Segundo essa crítica literária, a poesia de Plath apresenta forte resistência com a perspectiva de aprisionamento doméstico como esposa e mãe.
Ainda de acordo com Dobbs, portanto, a vida doméstica parece ser preocupação fundamental nos poemas da escritora, que também apresentam doença, ferimento, tortura, loucura e morte. Ela lembra que a vida de Plath e das pessoas de seu convívio diário foi marcada por dramas: amputação da perna e depois morte do pai, úlcera crônica da mãe, morte da avó e seus próprios problemas de saúde.
Jeannine Dobbs aponta como exemplo da ambivalência da poetisa a personagem Esther, do romance The Bell Jar, único publicado pela escritora. A metáfora central do romance seria a representação literária deste dilema: carreira ou casamento:
 
Several incidents in The Bell Jar illustrate Plath’s linking of suffering and sin. Bad-girl Doreen flaunts her sexuality (and perhaps, in Esther Greenwood’s eyes, does worse) and gets drunk-sick… (…) Plath’s letters to her mother and her novel both make it explicitly clear that Plath was confused and frustrated by the necessity of defining herself as a woman3 (DOBBS, 1977, p. 11 e 12).
 
Ainda no ensaio ‘Viciousness in the Kitchen’: Sylvia Plath’s Domestic Poetry, Dobbs comenta que – ao ingressar na universidade – Plath passou a ver a maternidade como uma maneira de ampliar a experiência da vida. Ela conheceu Ted Hughes em 1956, com quem casou-se e teve dois filhos: Frieda e Nicholas:
 
Plath’s work suggests that the attempt to resolve these feelings failed. Her suicide may have been, to some degree, a final acting out of her belief in punishment, vengeance, of the self on the self, for this failure4 (DOBBS, 1977, p. 3).
 
The Colossus foi o primeiro livro de poesias de Plath, escrito em 1959 e publicado em 1960. Em Ariel, reúnem-se os principais poemas da escritora. Em ambas as obras, há referências a mulheres dominadas, subjugadas e manipuladas, de acordo com a observação de Jeannine Dobbs. Sexualidade, gravidez e paradoxo também são parte dessa “atmosfera” criada pela produção poética de Plath. Além disso, há “jogo metafórico e imagens nos poemas”. Sobre isso, Dobbs afirma que – raramente – Sylvia Plath é vista como se houvesse “sentimentalismo e fofura” em seus poemas. E conclui seu ensaio dizendo que a ambivalência de Plath em relação aos homens, ao casamento e à maternidade explica o grau em que os seus poemas estão associados ao sofrimento:
 
She is more often accused of excess hostility, of hysteria. Most of her poems about maternity exhibit these characteristics.
(…) They reflect not only her perception of outer reality, but they project her inner reality as well5 (DOBBS, 1977, p. 9 e 13).
 
No caso do ensaio de Dobbs, a existência de Plath está vinculada ao aprisionamento doméstico, aos conflitos da mulher que escreve com aquela que é mãe, esposa e “precisa” cumprir os “rituais” comuns ao seu “destino”. Essa perspectiva é uma das interpretações possíveis da produção da escritora norte-americana. Sob outra análise, no entanto, há palavras e sentidos nos poemas selecionados para este trabalho que são indicativos de uma expressão poética que marca a sua voz particular e individual.
 
Influência e expressão poéticas
De acordo com Eileen Aird (1979), Sylvia Plath recebeu influência de escritores como Robert Lowell, Anne Sexton e Theodore Roethke, nomes aos quais a poetisa rendia admiração e respeito. No entanto, sua fala é a expressão poética própria, criada para ser capaz de afirmar-se como autônoma e única.
Para Aird, os poemas intitulados “Poem for a Birthday” e “Three Women: a Poem for Three Voices”, por exemplo, marcam um período de rápida mudança e desenvolvimento na poesia de Plath. A ensaísta comenta que esse momento é “caracterizado não apenas pelo movimento de escrita” que vai até a construção de “poemas dramáticos que precisam ser falados em voz alta”. Na opinião de Aird, portanto, tal movimento era consciente, o que demonstra o trabalho empreendido pela poetisa:
Sylvia Plath said of her artistic method: ‘I think that personal experience shouldn’t be a kind of shutbox and mirror-looking narcissistic experience. I believe it should be generally relevant to such things as Hiroshima and Dachau and so on.’ The relevance of this to the late poetry is abundantly clear but the process begins with ‘Poem for a Birthday’ where private experience–breakdown and the reasons for it, clinical treatment, pregnancy–is extended through the images which accumulate layer upon layer until it becomes a metaphor for suffering throughout the natural and the human world6 (AIRD, 1979, s/n).
 
Em “Poem for a Birthday”, Aird identifica a influência de Roethke na estrutura apresentada. Nesse caso, Plath teria aprendido com o poeta americano sobre a possibilidade de capturar a realidade e transformá-la, liberando “o drama interior”:
 
The poems which Roethke collected in Praise to the End are the most direct influence on Sylvia Plath’s poem which has the same structure of short sections connected by theme and imagery. More importantly Plath’s subjects–madness, loneliness, sexual identity, family relationships, growth and searching–are very close to Roethke’s in poems such as “Dark House”. Sylvia Plath acknowledges Roethke as a major influence in a letter to her mother on 2 February 1961: ‘Ted and I went to a little party the other night to meet the American poet I admire next to Robert Lowell – Ted [for Theodore Roethke]. I’ve always wanted to meet him as I find he is my influence.’ Her debt to Lowell and Sexton is acknowledged later in October 1962 and is a much more general recognition of an exciting mode, a developing convention. For all its raw immediacy, its deliberate assault on the reader’s sensibility, Ariel has a dramatic focus and personae which are pared away by Lowell and Sexton7 (AIRD, 1979, s/n).
 
Segundo Aird, “Poem for a Birthday” inicia o período de transição que termina com “Three Women”, ambos poemas longos que se juntam para dar a ver o tema da gravidez e do nascimento, “apresentação realista que se funde com uma oposição simbólica entre criatividade e destrutividade”:
 
Escritura plathiana
Do ponto de vista formal, Sylvia Plath revela uma estrutura variável e hermética no conjunto de poemas reunidos em Ariel, que é constituída de dísticos (“The Night Dances”), tercetos (“Gulliver”), septilhas (“Tulips”), assim como estrofes irregulares (“Getting There”). Em “Words”, ela apresenta quatro quintilhas, formando um agrupamento de 20 versos no total. Considerando que as suas primeiras produções poéticas apresentam dicção tipicamente modernista, a sua fortuna crítica indica a influência que ela recebeu da literatura norte-americana representada, por exemplo, por Ezra Pound e T. S. Eliot.
Nesse sentido, o uso de versos livres, brancos e de estrofação não convencional, que são conquistas do Modernismo, também fez parte da formação de Plath. No entanto, mesmo que tais aquisições literárias se apliquem a outros poetas posteriores a Pound e Eliot, compreendemos que – no caso da escritura plathiana – a poetisa conseguiu sua voz própria, capaz de fazê-la distinta em meio a outros nomes de sua geração.
Em se tratando de Plath, a sua expressão poética preserva, ainda, estruturas de algum modo fixas: em todos os poemas de Ariel, há o emprego de letras maiúsculas iniciando cada um dos versos. Esse aspecto formal não pode e não deve ser desconsiderado na avaliação de sua poesia, uma vez que demonstra preocupação na linguagem:
A seguir, confira íntegra do poema “Words” (1963) e a tradução de Maria Fernanda Borges:
 

Words
 
Axes
After whose stroke the wood rings,
And the echoes!
Echoes travelling
Off from the center like horses.
 
The sap
Wells like tears, like the
Water striving
To re-establish its mirror
Over the rock
 
That drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens.
Years later I
Encounter them on the road —
 
Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.
Palavras
 
Machados,
Após cada pancada sua a madeira range,
E os ecos!
São os ecos que viajam
Do centro para fora como cavalos.
 
A seiva
Brota como lágrimas, como a
Água a esforçar-se
Por recompor o seu espelho
Sobre a rocha
 
Que pinga e se transforma,
Uma caveira branca
Comida pelas ervas daninhas.
Anos mais tarde
Encontro-as no caminho —
 
Palavras secas e indomáveis,
Infatigável som de cascos no chão.
Enquanto
Do fundo do charco estrelas fixas
Governam uma vida.
 

 
Nesse poema e em outros, Plath faz com que o leitor ouça o seu texto (cf. CARVALHO, 2003, p. 126). A própria escolha dos signos linguísticos realiza essa tentativa: machados, pancada, madeira que range, ecos, cavalos… Estendendo a perspectiva de interlocução para o poema “Palavras”, há um tom muito agressivo e, talvez, violento, a exemplo dos machados (Axes) (“Machados, / Após cada pancada sua a madeira range”) que parecem representar o interlocutor do poema.
Esses machados provocam ecos “que viajam do centro para fora como cavalos”. Ou, em outros termos, repetidos sons que viajam de dentro do eu lírico para fora, na rapidez ou nos movimentos equivalentes aos galopes de um cavalo. As palavras são essencialmente violentas, brutas e pesadas. “Machados”, “pancadas”, “ervas daninhas”, “caveira branca”, “cascos no chão”… todas elas juntas compõem uma atmosfera densa, tensa e mórbida. No poema, são “estrelas fixas” que “governam uma vida”.
A atmosfera criada por Plath em “Words” é mórbida, e sua imagem de “uma caveira branca” sendo “comida pelas ervas daninhas” conduz o leitor para outra imagem: a de vermes sobre um corpo em putrefação. Plath constrói um poema com referências a corpo (“caveira branca”), sangue (“A seiva/ brota como lágrimas”), putrefação (“ervas daninhas”). As “palavras secas e indomáveis” que a poetisa encontra no caminho ou no processo de criação de seu próprio poema transformam-se em palavras pesadas e violentas. O poema está centrado na morbidez e na violência dos termos e expressões: morbidez e violência condensadas na linguagem poética.
Em Sylvia Plath, o que ela encontra pelo caminho são as “palavras secas e indomáveis”. O seu poema demonstra a estranheza da linguagem, o hermetismo, este como uma das principais características da poesia plathiana, tornando seus escritos ambíguos e subjetivos, como já disse Garcia Lopes. Não sem razão, ele chama a atenção para o fato de que a escrita de Plath não estava limitada ao seu material autobiográfico, como muitos críticos equivocadamente escreveram. Para Lopes, não se pode desprezar o método utilizado pela escritora:
 
Sylvia Plath não se limita a usar em sua poesia material autobiográfico em estado bruto. Seus poemas são um delírio lapidado por um método. Restringir a leitura de seus poemas ao que a vida da poeta teve de trágico e curioso é desprezar seu método de escrita que tinha, com um de seus paradigmas, o controle absoluto sobre a linguagem (LOPES, 2007, p. 119).
 
 
Considerações finais
A escritora norte-americana Sylvia Plath (1932-1963) apresenta em seus poemas certos dilemas da experiência poética enquanto fenômeno de expressão da linguagem e, em outro sentido, as tensões do poeta na condição daquele que depara com as (im)possibilidades e limites da própria criação literária. Além disso, a independência ou relativa liberdade do poeta – no caso de Plath – demonstra, talvez, a sua capacidade de transformar o mundo externo em material elaborado artisticamente e que revela imaginação, criatividade e talento literários.
Nas palavras de Julia Kristeva, o refúgio ao qual Sylvia Plath fora submetida anuncia a “despedida silenciosa da vida” da poetisa. Nesse sentido, a sua morte trágica vai sempre suscitar especulações quanto à criação de seus poemas serem elementos projetivos de seu estado mental. Um exemplo disso é a avaliação possível do poema “Words”, analisado neste trabalho com base na metodologia do close reading, que julgamos ser o tipo de análise mais interessante para este momento.
Em “Words”, a presença de termos e palavras abstratas indica o esvair-se da própria vida. A seiva (sangue) nasce ou surge como um líquido (lágrimas, água) que se esvai ou evapora. Surge como algo cristalino, cujo esforço é no sentido de criar uma condição de reflexo, ainda que seja um reflexo sobre a rocha. Possivelmente, não é somente “a água” no poema da escritora americana que busca recompor o seu espelho, mas a própria voz da mulher que tenta reorganizar sua experiência no mundo, no qual o esforço é encontrar os signos que melhor representem o dissipar ou desfalecer da vida.
Não por acaso, a professora Ana Cecília Carvalho comenta que a poesia de Plath nos mostra “que o fascínio pela morte ocupa o eu e instala-se no próprio centro da fonte da criação literária” (CARVALHO, 2003, p. 231), acrescentando que essa criação, “como qualquer produção do pensamento, provém do trabalho, no sentido técnico do termo, e da elaboração psíquica, que põem em jogo a complexidade dos processos do inconsciente” (idem, p. 176).
 
Referências

  1. Fortuna crítica de Sylvia Plath

DOBBS, Jeannine (1977). ‘Viciousness in the Kitchen’: Sylvia Plath’s Domestic Poetry,  Modern Language Studies, Vol. 7, nº 2, Autumn, 1977: p. 11-25. Disponível em: http://www.sylviaplath.de/plath/dobbs.html. Acessado em ago. 2015.
CARVALHO, Ana Cecília (2003). A poética do suicídio em Sylvia Plath. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
EILEEN, Aird (1979). ‘Poem for a Birthday’ to ‘Three women’: Development in the Poetry of Sylvia Plath, Critical Quarterly, Vol. 21, No. 4, 1979: p. 63-72.
LIMA, J. L. Araújo (1987). Uma linguagem de limites ou os limites da linguagem: o último poema último de Sylvia Plath, Revista da Faculdade do Porto, II Série, IV, p. 173-198, 1987. Disponível em:  http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2556.pdf.
LOPES, Rodrigo Garcia (2007). Sylvia Plath: delírio lapidado. In: PLATH, Sylvia. Poemas. Organização, tradução, ensaios e notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. 2ª ed. 2ª. reimp. São Paulo: Iluminuras, 2007.
 

  1. Obras literárias de Sylvia Plath

PLATH, Sylvia. Ariel (1996). Tradução Maria Fernanda Borges. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1996.
PLATH, Sylvia. The Bell Jar (2005). New York: Harper Pernnial, 2005. (Harper Perennial Modern Classics).
PLATH, Sylvia. The Collected Poems (2008). Edited and with an Introduction by Ted Hughes. New York: Harper Perennial, 2008. (Harper Perennial Modern Classics)
 
III. Obras gerais
GILBERT, Sandra; GUBAR, Susan (1979). Infection in the Sentence: The Woman Writer and the Anxiety of Authorship. Disponível em:
http://firstyear.barnard.edu/legacy/modernism/womanwriter. Acessado em 15 out. 2015.
KRISTEVA, Julia (1986). About Chinese Women. In: The Kristeva reader. Ed. Toril Moi. Translation Margaret Walter. New York: Columbia University Press, 1986, pp. 89-136.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu (1929). Tradução Vera Ribeiro. São Paulo: Editora Nova Fronteira. Disponível em: http://brasil.indymedia.org/media/2007/11/402799.pdf. Acessado em: 25 out. 2015.
 
 
25.25 out. 2015.

NOTAS AO TEXTO
1 Conforme tradução livre de C. Schwantes para o português: A louca no sótão: a mulher escritora e a imaginação literária do século XIX.
2 Na opinião de Ana Cecília Carvalho, é importante esclarecer que tal dissociação não deve ser tomada como se os textos de Plath fossem “testes projetivos”.
3 “Alguns incidentes em The Bell Jar ilustram a ligação que Plath faz entre sofrimento e pecado. A garota Doreen ostenta sua sexualidade (e talvez, aos olhos de Esther Greenwood, faça ainda pior) e se embriaga e adoece. As cartas de Plath a sua mãe e o seu romance, ambos deixam claro que Plath estava confusa e frustrada pela necessidade de se definir como mulher” (tradução minha).
4 “As obras de Plath sugerem que a tentativa de resolver esses sentimentos falhou. Seu suicídio pode ter sido, em algum grau, o ato final – contra si mesma – de sua crença em punição e vingança por essa falha” (tradução minha).
5 “Ela é mais frequentemente acusada de hostilidade excessiva ou histeria. A maioria dos seus poemas sobre maternidade exibe essas características. (…) Eles refletem não somente sua percepção da realidade exterior, mas também projetam sua realidade interna” (tradução minha).
6 “Sobre o seu método artístico, Sylvia Plath disse: ‘Eu penso que a experiência pessoal não deve ser uma experiência narcisística de uma caixa fechada ou de se olhar no espelho. Acredito que deva ser relevante para tais coisas como Hiroshima e Dachau e assim por diante’. A relevância disso para sua poesia posterior é abundantemente clara, mas o processo começa com Poem for a Birthday, onde a experiência particular – o colapso e suas razões, tratamento clínico e gravidez – é estendida por meio de imagens que acumulam camada sobre camada até que se torne uma metáfora para o sofrimento natural e humano” (tradução minha).
7 “Os poemas coletados por Roethke em Praise to the End são as influências mais diretas sobre os de Sylvia Plath, os quais têm a mestra estrutura de seções curtas ligadas pelo tema e imagens. Os assuntos mais importantes na obra dela – loucura, solidão, identidade sexual, relacionamentos familiares, crescimento e busca – são muito próximos aos de Roethke, a exemplo de “Dark House”. Em uma carta escrita para sua mãe em 2 de fevereiro de 1961, Sylvia Plath reconhece Roethke como sua principal influência: ‘Ted e eu fomos a uma pequena festa na outra noite para encontrarmos o poeta americano que eu mais admiro além de Robert Lowell – Ted [para Theodore Roethke]. Eu sempre quis encontrá-lo porque reconheço sua influência’. Seu débito a Lowell e Sexton é reconhecido posteriormente em outubro de 1962 e é muito mais um reconhecimento geral de um modo emocionante, uma convenção que se desenvolvia. Por toda sua imediação crua, e ataque deliberado sobre a sensibilidade do leitor, Ariel tem um foco dramático e personagens que são colocados lado a lado por Lowell e Sexton” (tradução minha).





Bio fornecida pelo palestrante.

A PERDA DA LINGUAGEM NA NARRATIVA DE SYLVIA PLATH: A REDOMA DE VIDRO, “LÍNGUAS DE PEDRA” E “MÃES”




Mariana Chaves Petersen

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 
 
Resumo: Em A redoma de vidro, a personagem principal e narradora, Esther faz críticas ao papel atribuído às mulheres nos EUA dos anos 1950, enquanto passa por um colapso que culmina em uma tentativa de suicídio. O romance foi objeto de diversas leituras críticas feministas, sendo mais recente seu enfoque como estudo de caso. Neste trabalho, faço um diálogo entre essas duas possibilidades de leitura, relacionando feminismo e trauma. Em A redoma de vidro, Esther perde sua capacidade de ler e de escrever, fato que está ligado não só a suas críticas a um mundo patriarcal como também a certos acontecimentos que desencadeiam essa perda. Partindo disso, estabeleço paralelos com dois contos de Plath: “Línguas de pedra” e “Mães”, os quais trazem situações que podem ser relacionadas a experiências pelas quais Esther passa, além de fomentarem discussões quanto à perda da linguagem, presente no romance.
 
Palavras chave: Sylvia Plath; A redoma de vidro; contos; linguagem.
 
Abstract: In The Bell Jar, the main character and narrator, Esther, criticizes the role attributed to women in the US in the 1950s, while she is going through a breakdown that culminates in a suicide attempt. The novel has been the object of several feminist criticisms, the most recent being those that interpret it as a case study. In this article I aim at establishing a dialogue between these two forms of reading, while relating feminism to trauma. In The Bell Jar, Esther loses her ability to read and write, a fact that is connected not only to her critical view of patriarchal society, but also to certain events that led to her loss. Having this in mind, I intend to make a parallel between Plath’s novel and two of her short stories: “Tongues of Stone” and “Mothers.” These bring about situations that can be related to the experiences that Esther experiences in the novel and promote a discussion on the loss of the power of expressing oneself that is referred to in the novel.
 
Keywords: Sylvia Plath; The bell Jar; short stories; language.
 
Minicurrículo: Mariana Chaves Petersen é licenciada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é mestranda em Letras (Estudos de Literatura) pela mesma universidade, sendo bolsista da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Tem experiência nas áreas de literaturas estrangeiras modernas, literatura comparada e teoria literária, com especial interesse em estudos de gênero e na obra de Sylvia Plath.
 
 
A PERDA DA LINGUAGEM NA NARRATIVA
DE SYLVIA PLATH: A REDOMA DE VIDRO,
“LÍNGUAS DE PEDRA” E “MÃES”
 
Mariana Chaves Petersen
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
 
 
Introdução
O romance A redoma de vidro foi publicado com o nome de Sylvia Plath em 1971, não mais com o pseudônimo Victoria Lucas, conforme a primeira edição, em 1963 (Londres, Heinemann, 258 p. Ver também 1966 na Inglaterra e 1971 nos Estados Unidos). Na obra, a personagem principal e narradora, Esther Greenwood, faz fortes críticas ao papel das mulheres nos Estados Unidos dos anos 1950, ao mesmo tempo em que está passando por um colapso, que culmina em uma tentativa de suicídio. Esther é uma graduanda em Inglês, em uma faculdade de prestígio, onde só tira notas A. No começo da narrativa, ela vai a Nova Iorque depois de ganhar um concurso de uma revista feminina. Lá, faz um estágio, conhece pessoas, mas também passa por experiências desagradáveis, como por exemplo com Marco, descrito como “misógino” (PLATH, 2014, p. 120), que tenta estuprá-la. Enquanto em Nova Iorque, Esther se vê como separada, como uma observadora outsider, mas é evidente que sente o que acontece com ela. Ao retornar para casa após a viagem, em Londres, descobre que não foi aceita em uma oficina de criação que teria lugar durante as férias. É então que sabemos de acontecimentos do passado e do momento narrado por Esther, os quais podem ser relacionados a seu colapso: suas experiências com um namorado anterior, a morte prematura de seu pai, suas expectativas em relação ao futuro e sua relação conturbada relação com sua mãe. Ela vai então a um psiquiatra, mas após uma sessão traumática de eletrochoque decide não mais voltar. Acaba tentando suicídio e sendo levada a um hospital psiquiátrico. Lá, tendo uma psiquiatra, Dra. Nolan, em quem parece confiar, Esther é capaz de passar pelo eletrochoque novamente de forma menos (apesar de ainda) traumática. No fim da narrativa, tudo está pronto para Esther sair do hospital, mas fica a sensação de que ela está de certa forma melhor, mas não “curada”; que ela ainda tem sobre sua cabeça a redoma suspensa.
A redoma de vidro foi tema de diversas leituras críticas feministas, como as de Marjorie G. Perloff (1972) e E. Miller Budick (1987). Budick faz uma leitura mostrando como, de acordo com ela, a narrativa traz um discurso feminino e uma proposição de uma linguagem feminina em oposição ao que seria a masculina. Para a autora, a descoberta de Esther da linha narrativa de um discurso feminista é o que a faz sair da redoma:
 
(…) ela [Esther] descobre a linha mágica que é tanto a fonte de sua criatividade interna quanto sua ligação com o mundo.
Essa linha leva para fora da redoma de vidro, para fora do quarto todo seu, (…). É uma linha poderosa, um umbílico capaz de assimilar a energia masculina, de convertê-la por dentro do espaço interior da feminina em uma próspera, pulsante vida, e então carregar essa questão para fora, no mundo, como uma expressão única do self. Essa é a linha do discurso feminista (…) (BUDICK, p. 883-884, tradução minha).
 
Já Perloff discute mais o estado mental de Esther. Apesar de sua leitura da personagem como tendo uma personalidade esquizoide, seu enfoque é no mundo habitado por Esther e em como as situações vividas por ela propulsionam sua doença mental, de forma que podemos questionar se realmente há diferença entre aqueles diagnosticados como “doentes” e os outros ditos “normais”:
 
O foco de Sylvia Plath em A redoma de vidro não é na doença mental em si, mas na relação entre a psicose privada de Esther e sua situação social maior. De fato, seu dilema parece ter muito a ver com ser uma mulher em uma sociedade cujas diretrizes para as mulheres ela não consegue aceitar nem rejeitar (PERLOFF, 1972, p. 518, tradução minha).
Qualquer que seja a extensão da predisposição congênita de Esther à loucura, o mundo louco em que ela habita certamente intensifica sua condição (PERLOFF, 1972, p. 518, tradução minha).
[Plath sugere que] a distinção externa ou oficial entre loucura e sanidade (…) é largamente ilusória (PERLOFF, 1972, p. 520, tradução minha).
O arranjo dos incidentes sugere que toda doença deva ser vista como parte do mesmo espectro: a enfermidade, seja mental ou física, é um índice da incapacidade humana de lidar com uma situação impossível de se viver (PERLOFF, 1972, p. 520-521, tradução minha).
 
Mais recente é o enfoque no romance como estudo de caso, como faz Tsank (2010). A autora comenta abordagens críticas anteriores e situa a sua:
 
Muitos críticos veem A redoma de vidro como um símbolo das limitações sufocantes da sociedade e das mensagens misturadas e confusas que aprisionam a heroína de Sylvia Plath, Esther Greenwood, dentro de sua cúpula de vidro. No entanto, outra realidade frequentemente negligenciada é que o físico, embora metafórico, sufocamento induzido pela redoma de vidro é uma representação direta do sufocamento mental de Esther pela fixação inevitável da depressão sobre sua psique e que essa circunstância altera muito a forma segundo a qual todo o romance pode e deve ser percebido (TSANK, 2010, p. 166, tradução minha).
 
 
 
Tsank lembra que a perspectiva de Esther, estando sob a redoma, é instável (TSANK, 2010, p. 166). No entanto, a autora parece fazer leituras práticas demais em termos de causa-efeito, ou afirmações muito categóricas: “O desenvolvimento de Plath desse personagem fisicamente ausente [o pai de Esther] ilustra a dor subjacente que resulta da morte prematura do pai de Esther” (TSANK, 2010, p. 167, tradução minha); “Esther pode ser claramente apontada como um indivíduo depressivo” (TSANK, 2010, p. 175, tradução minha). Será que podemos fazer tais afirmações de forma tão categórica? Finalmente, Tsank conclui sua análise dizendo que a escrita de Plath é um estudo de caso: “Plath escreve, na voz de Esther – aquela de uma depressiva, vindo de uma autora e poeta a quem a doença não era estranha e que é capaz de fornecer uma das prescrições de bem-estar mais precisamente penetrantes – um estudo de caso impiedosamente realista” (TSANK, 2010, p. 176, tradução minha). A crítica acaba deixando de lado um fato essencial: o de que Esther é, apesar de semelhanças com a vida de Plath, uma criação literária, não podendo ser tão facilmente diagnosticada como se fosse uma paciente em uma sessão de análise.
Partindo disso, proponho meu primeiro objetivo com este trabalho: fazer um diálogo entre essas duas possibilidades de leitura — repensando as relações entre sociedade, depressão e trauma. Para isso, farei uma reflexão teórica sobre as relações possíveis entre tais esferas, partindo de Laura S. Brown (1995), Andrea Nicki (2001), Luce Irigaray (1974, 1990), Cathy Caruth (1996, 2006), entre outras. Além disso, trago um segundo objetivo: o de relacionar essa discussão a dois contos de Plath, intitulados “Línguas de pedra” (1955) e “Mães” (1962).
 
Trauma, gênero e A redoma de vidro
Para Laura S. Brown (1995), parâmetros sociais são usados para definir o que é ou não trauma. Partindo de seu contexto – Brown é terapeuta –, a autora ressalta que, ao se patologizarem alguns comportamentos, não se está questionando as estruturas sociais por trás deles. Ela diz que deve haver um foco nessas estruturas e não nas vítimas como se elas estivessem desconectadas da sociedade (BROWN, 1995, p. 106). De acordo com ela, “devemos, se temos alguma moralidade, questionar uma sociedade que sujeita muitos de seus habitantes a estressores traumáticos” (BROWN, 1995, p. 108, tradução minha). Ela vê dois posicionamentos possíveis frente ao trauma: “Agimos como servos do status quo, dizendo que aqueles já doentes sofrem de toxicidade cultural? Ou nomeamos como venenosas aquelas instituições da sociedade que podem envenenar qualquer um?” (BROWN, 1995, p. 110, tradução minha). Brown vê ainda uma necessidade em se mudar a percepção do que é visto como “humano”: “uma análise feminista do trauma psíquico requer que nós mudemos nossa visão do que é ‘humano’ para uma imagem mais inclusiva e vai nos mover em direção a uma revisão radical de nosso entendimento da condição humana” (BROWN, 1995, p. 110, tradução minha). De forma semelhante, Andrea Nicki tenta validar diferentes estados mentais, reconhecendo o comportamento de pessoas que sofreram diversas formas de opressão; para isso, deveria ser rejeitado o paradigma de humanidade enquanto autocontrolada, agradável, conformista e em conformidade com normas de gênero (NICKI, 2001, p. 82). Ela defende que “a análise cultural e social da doença mental é importante, uma vez que fatores culturais e sociais contribuem para o desenvolvimento e para a prevalência de grande parte da doença mental em membros de grupos desfavorecidos” (NICKI, 2001, p. 82, tradução minha). Nicki não nega que haja casos em que a doença mental tenha principalmente uma causa bioquímica ou física, mas é evidente que os grupos oprimidos formam um alto percentual dos doentes mentais (como mulheres e homossexuais) (NICKI, 2001, p. 91). Ainda segundo a autora, tratando especificamente das mulheres, quando elas se dão conta das normas femininas de dependência e desamparo, ao tentarem escapar dos papéis femininos, elas tornam-se mentalmente doentes (NICKI, 2001, p. 83). Dessa forma, vemos como fatores sociais não só levam a doenças mentais como também a própria definição do que é doença mental é socialmente excludente. Como propõem as autoras, esse é um espaço para se repensar o que é a normalidade, o que nos leva ao questionamento do que é o humano e de por que alguns comportamentos são aceitáveis enquanto outros não o são. Esther está passando por um momento no qual decidirá sua vida futura: é então que se depara com desigualdades de gênero que a revoltam, comportamento que hoje podemos dizer “normal”. Também é evidente que a “redoma” a acompanha há algum tempo e a leva ao suicídio; por isso, é interessante pensar as situações traumáticas passadas por ela, relacionando estudos de gênero e trauma.
Apesar de falarem de diferentes lugares, Luce Irigaray e Cathy Caruth dão especial atenção à linguagem, que pode ser tanto silenciadora quanto transgressora. Em je, tu, nous: Toward a Culture of Difference (1990) (je, tu, nous: por uma cultura da diferença), Irigaray diz que a diferença sexual não pode ser reduzida a um fator extralinguístico da natureza, uma vez que “[e]la condiciona a natureza e é condicionada por ela”; “determina o gênero das palavras e sua divisão em classes gramaticais: “Está situada na junção da natureza e da cultura” (IRIGARAY, 1993, p. 20, tradução minha). No entanto, tendo o patriarcado reduzido o valor do feminino, “em vez de permanecer um gênero diferente, o feminino se tornou o não-masculino, ou seja, uma realidade abstrata não-existente” (IRIGARAY, 1993, p. 20, tradução minha). Seguindo Irigaray, a linguagem, enquanto supostamente neutra, é, na verdade, masculina, falocêntrica, e, assim, exclui o feminino. Em “Toute théorie du sujet aura toujours été appropriée au masculin” (“Toda teoria do sujeito já foi apropriada pelo masculino”), como já diz o título, Irigaray discorre sobre como toda teoria do sujeito já foi apropriada pelo masculino. Nesse contexto, as mulheres são objetificadas no discurso, por serem mulheres, ou reobjetificadas, quando se identificam como o sujeito masculino (IRIGARAY, 1987, p. 165). Em relação a esse sujeito uno, os outros não são realmente “outros”, pois sempre estiveram a serviço do mesmo, do logos (IRIGARAY, 1987, p. 167). A mulher, assim, não é o “outro”; é o ausente, o inexistente. Ela estaria impossibilitada de falar, “[e]ximida das próprias palavras que se esperam dela nesse palco inventado para escutá-la” (IRIGARAY, 1974, p. 174, tradução minha). Seu discurso é reprimido, interdito, fora da história atual, a não ser que ela entre nos “jogos” metafóricos masculinos, se converta a um discurso que nega seu prazer (IRIGARAY, 1974, p. 174). Podemos aproximar essa reflexão de como Esther se sente quando não é aceita na oficina de criação: a ela é negado o uso da linguagem. Após esse evento, ela não consegue escrever nem ler literatura, perdendo seu interesse pelas palavras: “As palavras, embora ligeiramente familiares, estavam todas retorcidas, como rostos numa sala de espelhos, e passaram sem deixar impressão alguma na superfície vítrea do meu cérebro” (PLATH, 2014, p. 140). Isso acontece quando Esther está também frustrada pelos papéis femininos impostos a ela enquanto mulher: ao se tornar adulta, ela se dá conta do quão falocêntrico o mundo é. Referindo-se a um comentário feito por sua ex-sogra – “o homem é uma flecha rumo ao futuro e a mulher é o lugar de onde essa flecha parte” (PLATH, 2014, p. 82), Esther menciona:
 
Essa é uma das razões por que nunca quis me casar. A última coisa que eu queria da vida era ‘segurança infinita’ ou ser o ‘lugar de onde a flecha parte.’ Eu queria mudança e agitação, queria ser uma flecha avançando em todas as direções, como as luzes coloridas de um rojão do Quatro de julho (PLATH, 2014, p. 95).
 
Esther também não quer aprender taquigrafia, pois odeia servir aos homens, queria ditar suas próprias cartas (PLATH, 2014, p. 87); vê uma vida gasta na domesticidade como “uma vida melancólica e desperdiçada para uma garota com quinze anos seguidos de notas A”, mas ela sabia que “os casamentos eram assim” (PLATH, 2014, p. 96).
Para Irigaray, para enfrentar as dificuldades de se entrar o mundo cultural entre homens, quase todas as mulheres precisam renunciar a suas identidades femininas e a relações com mulheres; ela diz que as tradições patriarcais destruíram os traços de genealogias mãe e filha (IRIGARAY, 1990, p. 21, p. 17). No que tange à Esther, sua relação com sua mãe é claramente problemática. Além disso, apesar de ela ter amigas mulheres, é incapaz de estabelecer laços reais, sempre tentando manter distância delas. Quanto a essas relações, Bainbridge (2008) resume o pensamento de Irigaray:
 
Sem meios para uma autodefinição autônoma, a mãe é consumida pelo papel materno. As garotinhas não têm imagens do feminino com as quais se identificar. A mãe é sujeitada ao Nome-do-Pai e a padrões de troca; ela abre mão do nome de seu pai para receber o nome do marido: ela não tem nome/identidade própria(s) (BAINBRIDGE, 2008, p. 23, tradução minha).
 
Essa é uma das reclamações feitas por Esther em A redoma de vidro: ela quer ter sua própria identidade, não viver a vida de um outro (um marido), mas a sua própria. Enquanto ainda jovem, ela denuncia o desgaste das mulheres pela maternidade, a qual geralmente vê de forma negativa; quando se deparar com mães e seus bebês, fica apreensiva. Esther, à sua maneira, parece estar entre denunciar e aceitar o Nome-do-Pai – aceitar se pensarmos que, no presente da narrativa, ela escreve do lugar que anteriormente criticava.
Luce Irigaray mostra uma relação paradoxal com a linguagem: enquanto afirma que ela não é neutra, que é falocêntrica e então exclui o feminino, ela também precisa usá-la como o meio para dizer isso e lutar contra o falocentrismo. Cathy Caruth apresenta um caso similar tratando de trauma: “A demanda em se achar uma linguagem para o trauma é, assim, uma obrigação paradoxal em falar sem enterrar o silêncio na alma da história, em achar uma linguagem que traga consigo a força silenciadora do evento, sem se submeter a ela” (CARUTH, 2006, p. 2, tradução minha). É por meio da linguagem que o trauma pode ser parcialmente “curado”[1] e se tornar parte da história assim como é por meio da linguagem que as mulheres deveriam se expressar pala serem ouvidas e romperem com o falocentrismo. Em A redoma de vidro, Esther é capaz de fazer isso: apesar de, quando nova, perder o interesse pelas palavras e sentir-se incapaz de escrever um romance, anos mais tarde, a narradora, já adulta, consegue contar suas memórias e, assim, não é silenciada.
Em Unclaimed Experience: Trauma, Narrative and History (1996), (Experiência não-reivindicada: trauma, narrativa e história), Cathy Caruth discute o texto Além do princípio do prazer (1920), de Sigmund Freud, no qual o autor trata da repetição traumática. Analisando argumento de Freud sobre Gerusalemme liberata, Caruth faz um paralelo: assim como Tancredo não escuta a voz de Clorinda antes de machucá-la pela segunda vez, “o trauma não é localizável no simples evento violento ou original no passado de um indivíduo, mas antes na forma como sua própria natureza não-assimilada – a forma como foi precisamente desconhecido na primeira instância – retorna para assombrar o sobrevivente mais tarde” (CARUTH, 1996, p. 4, ênfase no original, tradução minha). Em outro texto, Caruth chama isso de “[a] temporalidade do trauma – o atraso do evento que sempre retorna em outro lugar, em outro local e em outro tempo” (CARUTH, 2006, p. 2, tradução minha). Voltando a A redoma de vidro, pelo menos dois paralelos são possíveis quanto à temporalidade do trauma. O primeiro é quanto à narradora: uma Esther já mãe está discutindo os acontecimentos traumáticos de sua vida de jovem adulta. Se a violência dos eventos do romance é conhecida apenas tardiamente, como Caruth sugere, requer discussão mais aprofundada, mas acredito que a Esther adulta está, de certa forma, precisando repassar suas lembranças. Outro paralelo importante é sua relação com a morte de seu pai: apenas anos depois, ela consegue passar por seu luto – é como se o evento não tivesse sido assimilado por ela e, por isso, retornasse para assombrá-la mais tarde. De fato, essa percepção é comentada pela narradora: “Minha mãe não nos deixou ir ao enterro porque éramos muito pequenos na época. Como ele morreu no hospital, aquele cemitério e até mesmo sua morte sempre pareceram irreais para mim” (PLATH, 2014, p. 185). Parece um trabalho de luto não concluído – segundo os parâmetros de Freud em Luto e melancolia (1917). Podemos especular o que serviu de gatilho para a tentativa de suicídio de Esther, tendo em mente que ela já não estava bem desde o começo. Teria sido a recusa para a oficina de criação? Talvez a tentativa de estupro sofrida por ela? Ambos os acontecimentos parecem levar a mudanças no comportamento de Esther, mas não creio que seja possível apontar com exatidão uma “causa”.
Quanto à luta pela linguagem e à relação entre vida e morte, Caruth resume: “A luta pela (e dentro da) linguagem é também, como Dori Laub sugere, uma luta nas fronteiras entre morte e vida, o estabelecimento de uma nova relação entre o que define a própria natureza da sobrevivência” (CARUTH, 2006, p. 3, tradução minha). Isso fica claro no caso de Esther: ao longo de A redoma de vidro, temos a sensação de que ela está em uma linha tênue entre morte e vida. Além disso, a impossibilidade de Esther de escrever (sua maior conexão com a linguagem) está ligada a sua tentativa de suicídio; sua luta pela linguagem é uma luta entre a vida e a morte.
 
“Línguas de pedra”, “Mães” e a perda da linguagem
De forma semelhante ao romance A redoma de vidro, o conto “Línguas de pedra” (1955), narrado em terceira pessoa, traz uma personagem (sem nome) que está em um hospital psiquiátrico; ela é apenas referida como “a rapariga” (PLATH, 2013, p. 276). Ela passa uma tarde sozinha, “levando um livro de contos que não leu porque as palavras não passavam de negros e defuntos hieróglifos, que ela já não conseguia traduzir em imagens coloridas” (PLATH, 2013, p. 277). O problema não é só a incapacidade de ler como também de pensar: “Pouco importava que os seus olhos fossem agora janelas vazias e cegas, pois não conseguia ler nem pensar” (PLATH, 2013, p. 281); era como se seu cérebro estivesse paralisado: estava “sentindo definhar o cérebro morto como um morcego pardacento e paralisado na escura caverna do seu crânio vivo” (PLATH, 2013, p. 279). Analogamente a A redoma de vidro, essa garota não vê propósito em mudar as roupas ou lavar o cabelo: “Não valia a pena mudar de roupa, porque todos os dias transpirava ao sol, encharcando a blusa de algodão aos quadrados, e a cada dia que passava o seu cabelo, comprido e preto, ia ficando mais oleoso” (PLATH, 2013, p. 278); sente-se paralisada: “Nada no mundo conseguia alcançá-la. (…) estava morta por dentro” (PLATH, 2013, p. 281). Em A redoma de vidro, antes de sua internação, Esther comenta: “Eu não tinha lavado minhas roupas ou o cabelo porque aquela me parecia uma ideia estúpida. (…) Eu achava estúpido lavar algo num dia para no dia seguinte ter que lavar de novo” (PLATH, 2014, p. 144); ela sente-se sem razão para levantar: “enterrei o rosto sob a escuridão do travesseiro, fingindo que ainda era noite. Eu não via motivo para me levantar. / Eu não ansiava por nada” (PLATH, 2014, p. 133). Conforme vimos, no conto, o cenário se assemelha fortemente ao do hospital psiquiátrico de A redoma de vidro, e há também grande ênfase na perda das capacidades linguística e cognitiva em geral. Com escrita que antecede a publicação de A redoma de vidro em quase uma década, “Línguas de pedra” traz o embrião do que depois seria melhor desenvolvido no romance. Há passagens muito semelhantes em ambos — tanto a rapariga do conto quanto Esther se imaginam sufocando suas mães:
 
As últimas noites antes do colapso passara-as a rapariga deitada, sem dormir, escutando o fio ténue da respiração da mãe, na ânsia de se levantar e de abafar a vida daquela garganta frágil, para pôr fim, de uma vez por todas, ao processo de lenta desintegração que a saudava com um sorriso de caveira, para onde quer que se virasse (PLATH, “Línguas de pedra”, 2013, p. 280)
O quarto se iluminou e me perguntei onde a noite tinha se enfiado. Minha mãe deixara de ser um tronco de árvore nebuloso e se transformara numa mulher adormecida de meia-idade, a boca ligeiramente aberta, um ronco escapando de sua garganta. Aquele barulho suíno era irritante, e por um momento me pareceu que a única maneira de silenciá-lo seria pegar a coluna de pele e tendões de onde o som brotava e esganá-la com as minhas mãos (PLATH, A redoma de vidro, 2014, p. 138-139).
 
Similarmente, a maternidade é importante – senão o tema principal – no conto “Mães”, que também traz uma personagem chamada Esther. Ela tem uma filha e está grávida de novo. Toda a história, narrada em terceira pessoa, está centrada na Obra das Mães de uma cidade pequena, Devon, na Inglaterra. Esther vai a uma de suas reuniões, na igreja. Ela é nova em Devon: uma norte-americana que quer ser aceita ao mesmo tempo em que é uma outsider. Durante a reunião, Esther aparentemente simpatiza com Mrs. Nolan, que, como ela, não conhece ninguém na cidade. Mais tarde, descobrimos pelo pastor que Mrs. Nolan não é bem-vinda na Obra das Mães, por ser divorciada. Esther fica revoltada com isso, mas depois passa a agir como cúmplice da exclusão de Mrs. Nolan; enquanto a última segue sozinha, Esther acompanha Rose, uma mãe aceita na comunidade, em seu caminho de casa. De acordo com Jo Gill, Mrs. Nolan é “o óbvio bode expiatório”: “Sua iniciação [de Esther] neste mundo vem com sua aparente traição, ou sacrifício, de Mrs. Nolan no final da história” (GILL, 2008, p. 90, tradução minha). De forma semelhante a A redoma de vidro e “Línguas de pedra”, cuja rapariga se isola das outras pessoas, também não há uma genealogia feminina em “Mãe.”. Nesse conto, um evento em que as mulheres deveriam supostamente criar laços é atentamente observado pelo pastor, e as mulheres de lá estão conectadas porque são casadas, mães e não divorciadas. As que não se encaixam, como Mrs. Nolan, não são bem-vindas.
O nome Esther tinha aparentemente um significado especial para Sylvia Plath. Uma recente biografia cita uma amiga de Plath, Janet Salter, a qual fala sobre os nomes que elas usavam para si: “se nós estivéssemos em uma situação onde não queríamos que as pessoas soubessem que estávamos nos referindo a nós mesmas, usávamos nomes bíblicos – eu me chamaria Ruth, e Sylvia gostava de usar Esther” (SALTER cit. em WILSON, 2013, p. 290, tradução minha). Além disso, as duas Esthers presentes na narrativa de Plath aparentemente têm mais em comum do que o nome. Apesar da de A redoma de vidro se sentir melhor no final, podemos relacionar esse fato à sua aceitação em viver em um mundo masculino que ela antes recusara para agora poder deixar o hospital: o fato de ela ficar “melhor” parece deixá-la sob uma espécie de torpor como após uma sessão de eletrochoque. De forma similar, a Esther do conto se assimila a uma sociedade ainda mais conservadora, centrada na Igreja Anglicana. Ela se define como mãe e esposa, que serve ao trabalho de seu marido em vez do seu; quando a perguntam o que ela fazia em Devon, Esther responde: “Oh, eu tenho o bebé. (…) E passo à máquina uma parte do trabalho do meu marido” (PLATH, 2013, p. 115). Ademais, as narrativas parecem ter mais em comum do que apenas uma personagem, uma vez que “Esther” não é o único nome de A redoma de vidro a aparecer em “Mães”: a presença de Dra./Mrs. Nolan como alguém com quem ambas simpatizam pode ser importante. Isso embora a repetição de nomes não ser incomum na narrativa de Plath: “Esther” aparece apenas como protagonista em A redoma de vidro e em “Mães.”[2]
 
Partindo dessas considerações, acredito que as possíveis relações entre experiência feminina e trauma no romance podem ser iluminadas caso tracemos paralelos entre as duas Esthers. A situação em que se encontra a personagem de “Mães” pode ser comparada à da adulta Esther de A redoma de vidro, que escreve suas memórias. Dessa maneira, a Esther do conto pode ser vista como representando a perda completa da linguagem, iniciada no romance, de forma que podemos especular se “Mães” funcionaria como uma espécie de posfácio de A redoma de vidro, ao trazer a situação atual da Esther da narrativa longa. A personagem do conto não escreve mais; apenas taquigrafa os escritos de seu marido – o que a jovem Esther se recusava a fazer. Além disso, a personagem de “Mães” não é capaz de escrever sua história como a outra Esther faz: o conto é narrado em terceira pessoa, o que podemos ver como mais um indício de que ela perdeu sua conexão com as palavras. É como se Esther tivesse aceitado os jogos metafóricos masculinos de que fala Irigaray; aceitado fazer parte de um discurso que a nega mesmo enquanto Outro.
 
REFERÊNCIAS
BROWN, Laura S. Not outside the range: one feminist perspective on psychic trauma. In: CARUTH, Cathy (ed.). Trauma: Explorations in Memory. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1995. p. 100-112.
BUDICK, E. Miller. The Feminist Discourse of Sylvia Plath’s The Bell Jar. In: College English, Vol. 49, n. 8. Urbana, Illinois: National Council of Teachers of English, Dec. 1987, p. 872-885. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/378115. Acesso: 23 Mai. 2012.
CARUTH, Cathy. An Introduction to “Trauma, Memory, and Testimony.” In: Reading on: a Journal of Theory and Criticism, Issue 1: Trauma, Memory and Testimony. Atlanta: Emory University, Fall 2006, p. 2. Disponível em:
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GILL, Jo. The Cambridge introduction to Sylvia Plath. New York: Cambridge University Press, 2008.
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PLATH, Sylvia. A redoma de vidro (1963). Tradução Chico Mattoso. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
PLATH, Sylvia. Zé Susto e a bíblia dos sonhos (1977). Tradução Ana Luísa Faria. Lisboa: Relógio d’Água, 2013.
TSANK, Stephanie. The bell jar: a psychological case study. In: Plath profiles: an interdisciplinary journal for Sylvia Plath studies, Vol. 3. Bloomington: Indiana University, 2010, pp. 166-177.
Disponível em: https://scholarworks.iu.edu/journals/index.php/plath/article/view/4714. Acesso: 15 Ago. 2016.
WILSON, Andrew. Mad Girl’s Love Song: Sylvia Plath and Life Before Ted. New York: Scribner, 2013.
NOTAS AO TEXTO
1 Não há consenso quanto a se o trauma pode ser “curado” ou não. Discutindo Testimony [Testemunho], de Shoshana Felman e Dori Laub, Elissa Marder conclui: “a mais urgente e essencial reivindicação de Testimony é mostrar que, por mais que não nos ‘recuperemos’ de nosso passado traumático, nem possamos ‘curá-lo’ ou ‘superá-lo’, ou mesmo entendê-lo completamente, nós podemos e devemos ouvi-lo e sobreviver a ele ao ouvir seus efeitos conforme são transmitidos a nós pelas vozes de suas testemunhas e sobreviventes” (MARDER, 2006, p. 4, ênfases no original, tradução minha).
4 Existe outra Esther em “Os nossos mortos queridos”, mas ela é uma personagem menor, apenas mencionada pelos outros.





Bio fornecida pelo palestrante.

THE SINGING LESSON BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS – Luana Mara Almeida Teixeira




THE SINGING LESSON BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS
 

Luana Mara Almeida Teixeira

Universidade de São Paulo

 
Resumo: Este ensaio considera personagens e enredo psicológicos como uma marca poética presente na obra de Katherine Mansfield. É uma característica que se desenvolve com o humor psicológico sobre o gênero conto. Seu trabalho dá ao leitor a mesma impressão de quando as pessoas vêem a imagem de um quadro impressionista, por exemplo. Parece como um momento capturado. O conto escolhido foi a aula – The Singing Lesson. O objetivo deste trabalho é descobrir como a personagem principal, Miss Meadows, pode ser entendida. Isso significa que por trás dela, há muitas coisas que outras mulheres já fizeram antes. Este ensaio indica que é possível fazer uma comparação entre Miss Meadows e a deusa grega Deméter, por meio de símbolos e da complexidade de suas ações. que merece um romance de verdade, por causa de sua complexidade.
 
Abstract: This essay considers psychological characters and plot as a mark of poetic present in the work of Katherine Mansfield. It’s a feature that develops within the psychological mood on the genre short story. Her work gives the reader the same impression as when people see an impressionist painting, for example. It looks as an imprisoned moment. The chosen short story was The Singing Lesson. The aim of this paper is to discover how the main character, Miss Meadows, may be understood. It means that behind her, there are many things that women have always done before. This essay indicates that it is possible to make a comparison between Miss Meadows and the Greek goddess Demeter, through symbols and the complexity of her actions.
 
Palavras-chave: Katherine Mansfield, “A lição de canto”, conto, Demeter.
 
Key words: Katherine Mansfield, “The singing lesson”, short story, Demeter.
 
Minicurrículo: Luana M. A. Teixeira é mestranda em Estudos da Tradução pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. É secretária executiva na Universidade Federal do ABC desde 2009, com atuação na área de comunicação, ensino de inglês e português para estrangeiros e tradução. É terapeuta floral do Sistema Joel Aleixo e escreve sobre autoconhecimento e desenvolvimento humano.


 
 
THE SINGING LESSON BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS
 
Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo
 
“Salomon said: There’s no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembrance, so Salomon gave his sentence that all novelty is but oblivion.” Francis Bacon, Essays, LVIII
 
 
Introduction
We intend to show how the mood is created in the shot story “The singing lesson” by Katherine Mansfield and the importante of the character Miss Meadows into it, through an analysis of the symbols that appear along the text.
The characters are middle class people, who, because of their visceral mediocrity, could cause nothing but indifference. So after evoking in few lines a whirlwind of sensations, the author hurries in dismantling that effect, as if she wanted to apologize because of the impact she had caused. With this, however, she adds more vigor to the narrative, as if the strength of the text had been born just from its delicacy.
 
Plot
The plot is very simple. A despairing singing teacher, Miss Meadows, has to stard her class, but she has just received a letter from her bridegroom, Basil. This letter makes her thing their relationship was ended. So, the teacher changes what she had prepared for the classes and obliges the students to sing the saddest song of their books, while she plays the piano.
Soon a telegram from Basil is sent to Miss Meadows, asking her to apologize him. The teacher comes back to the class smiling and asks for the students sing another song, happy and sweet, without explanations, as if nothing had happend.
 
Starting the narration
The mood has to sustain the soul’s excitement for a certain time, so, the short story starts this way: “With despair – cold, sharp despair…”. It creates a tension atmosphere. Then there are words wich remind death, like this simile: “buried deep in  her heart like a wicked knife”.
The setting starts with: “cold corridors that led to the music hall”. The corridors are like a labyrinth when she felt in a prison, confused, bitterly lonely and auloved. It’s an autumn morning, nevertheless, it’s as cold as winter.
A sound from the stair case announces that something is going to happen. It’s when the conflict begins. A bell had just ringed, like a bad sing. It’s a psychological plot. There are descriptions of the environment only when it’s according to what is happening with the characters.
 
Miss Meadows versus The Science Mistress
A secondary character , the Science Mistress, is described through this imagery: “sweet, pale, like honey”. She has yellow hair. This color is disagreeing with what Miss Meadows feels, so this disturbs her.
There’s no physical descriptions of Miss Meadows. We just know she wears “cap and gown” and handles “ little baton”. When she talks to the Science Mistress, “hugging the knife”, there’s no real knife. It’s a wedged letter on her throat, a metaphor about how she feels in her heart.
There’s an opposition between them. The Science Mistress has a “sugary smile”, while Miss Meadows is “frozen”, grim. The first one has blue eyes. That’s the first complication that Miss Meadows will have with the blue color.
 
Starting the class
The students are making noise and get silent when Miss Meadows arrive. She brings apprehension with her. Mary Beazley, her favorite student, “was turning the music stool”. That turn symbolizes the turn fo the world, which stops. It’s as if Miss Meadows had power to rule nature and to change the things’ course. This is how her inner tempest will become an environmental tempest.
She beats the baton asking for silence. The baton is a sign of her power, like a magician’s stick or a magic wand. The girls wear a “sea of coloured flannel blouses” and they get silent, as if the colours had to be stagnated.
The singing teacher remembers the letter she had received from her bridegroom. He had written: “I’m not a marrying man”. She was feeling “bleeding to death, pierced to the heart”. The red colour represents as the love as the rage Miss Meadows feels when her pride is injured.
 
The bridegroom’s symbology
The bridegroom’s name is Basil, which may be associated with the mythological creature basilisk, that is an unbelievable kind of snake. “People have been surprised enough that she had get engaged. (…). She was thirty. Basil was twenty-five”. It had been a miracle that Basil appeared, like the basilisk, that is able to kill with its breath, stare or physical contact, like Basil could hurt just using words of a letter.
Basilisk is also an ancient cannon of a piece of artillery, that can cause damage. It represents hardness, insensibility. The same insensibility Bad used when he wrote the letter: “ and the word ‘disgust’ was scratched out lightly and ‘regret’ written over the top”.
Basil demonstrates he didn’t have greatness enough to understand love and to be selfless. Either he didn’t have mental structure to be engaged or he didn’t have enough maturity. He might have been confused, in addition, he was impulsive and selfish.
The last time Miss Meadow had seen Basil, he “had worn a rose with his buttonhole. How handsome he had looked in that bright blue suit, with that dark red rose”. That’s the contrast between blue and red, while she heard the melancholic voices of the contraltos, the deepest and lowest female voices.
The colour light red is an image of heath and wealth, beauty and youngness, Eros free and triumphant. Red is everlasting the place of the battle – or dialects – between heaven and hell. A sumptuous red, more mature, becomes the emblem of power. Expressed, red becomes dangerous as the instinct of power. When not controlled, it gets selfishness, hate, blind passion, hellish love. In this colour, the two deepest human impulses are linked: action and passion, liberation and oppression. The dark red is associated to death. It’s a sign of sadness, like dead soldiers in a war. The purple oceans of Greeks and the Red Sea are tied to the same symbolism: they represent the womb, where death and life transmutes to each other.
According to Kandinsky, the deepness of blue has a solemn seriousness, above earth, that evokes the death idea. The Egyptian considered it the colour of the truth. Blue is the colour of the bliss bird, inaccessible though so close. Entering in blue is to do like Alice, from Wonderland, passing through the other side of the mirror. This colour symbolizes the exact pure and cold, as Basil, like Basil, because maybe he was innocent for having not perceived what he could cause with his actions. It seems a little inconsequent and childish.
Miss Meadows remembers when Basil said: “You know, somehow or other, I’ve got fond of you”. And he “had taken hold of the end of her ostrich feather boa”. In Egypt, the ostrich feather was a symbol of justice, equity, truth. Miss Meadows demonstrates she had believed in her bridgroom, so how could he had changed his mind so much?
 
The yellow chrysanthemum
The student Mary Beasley gives the teacher a “yellow chrysanthemum”. It was a ritual that was part of the class, like opening the piano. This time, Miss Meadows doesn’t thank for the gift. She just ignores it, with its regular and radiating petals arrangement, wich is a symbol essentially solar, associated with ideals of longevity and even of immortality, but Miss Meadows love is dead now.
From Japan to China and Vietnam, many homophonies give the chrysanthemun a hole of mediator between heaven and earth, associating it also to notions of plenitude, totality. This flower becomes a symbol of perfection, and so, joy for the eyes. Therefore, it’s and unpleasant sight to Miss Meadows, like the solar aspect of the Science Mistress.
In Europe and Asia the chrysanthemum was as autumn flower, the season of a peace life after carrying out the meadows obligations. That’s the flower which, among all, hides and avoids the world. Miss Meadows bring meadows in her name. She’s the chrysantemum owner. Ther aspect of mediator remids the power of the teacher over the students.
 
Mood:  The lament and the environment
When Miss Meadows doesn’t answer the girl’s greeting, Mary Beasley’s eyes get filled with tears. The teacher orders the girls to sing “a lament”. The sing with “mournful voices”. The teacher contaminates them with her state of spirit. The music is like a mantra, magic words of a goddess and their inner sides are changed to winter. The lyric of the music is like that moment of life the character was passing:
 
Fast! Ah. Too Fast Fade the Ro-o-ses Pleasure;
Soon autumn yields unto Wi-I-inter Drear.
Fleetly! Ah. Fleetly Mu-u-sic’s Gay Measure
Passes away from the Listening Ear.
 
Tension is growing. “Every note was a sigh, a sob, a groan of awful mournfulness”. The situation is almost unsustainable. While she’s creating such an external disorder, Miss Meadows, in her internal chaos, wonders about what could have happened to Basil as he had that attitude. On his last letter she had been very happy. That’s how we may realize how dependent she is from external events and from her relationship with her bridegroom.
The Lament” goes on. “The willow trees, outside the higs, narrow windows, waved in the wind”. The willow is a tree associated to the idea of death, of sadness. “ They had lost half their lives. The tiny ones that clung wriggled like fishes caught on a line”. The comparison gets the impression of a whole death. It looks as if all the leaves wanted to fall down. The narrow windows, suffocating, cause anguish, as the singing lament. The setting agrees perfectly with the creation of a gloomy, morbid mood by Miss Meadows.
“The Lament” is like a funeral march. Miss Meadows gets a dark aspect – of waning moon – darkening the environment as well. She says: “Make that Drear sound as if a cold wind were blowing through it. Dre-ar!”
Mary Beazley “wriggled her spine”. The atmosphere is already heavy enough when Miss Meadows says: “you must begin to die… to fade… until de Listening Ear is nothing more than a faint whisper…” It sounds like Miss Meadows wanted to express all the misery seh was feeling, because living on a happy world would be a martyrdom for her at that moment.
“The voices were silent; the piano waited”. There’s a pause. Everybody remains blockaded, stagnant, languid and Miss Meadows retakes, much more vehemently, her metamorphosing class. The rhythm grows up, the tension is raised. Some of the girls are “crimson” – the red colour again. One of them starts to cry. “Big spots fo rain blew against the windows, and one could hear the willows whispering”.
All that brain storm flows into a real rain of tears and drops mixed each other, blowing up. An effect like that also occurs in a short story of the North American writer Kate Chopin (1851-1904). It’s “The Storm”. The character Calixta has a sexual awakening during a tempest. The story deals openly with female sexuality. Calixta, a happily married woman, is nevertheless attracted to another man. Daring for it’s time, Chopin’s story ends happy for all the characters and no disastrous consequences attend Calista’s passionate encounter with the man, Alceé.
In both stories, “The singing lesson” and “The storm”, the environment is like a mirror that reflects the emotions of the characters. It’s the pain exceeding the body’s walls, transcending it. The ritual is performed, near of a climax, like an alchemic transformation. “Soon Autumn yields unto Winter Drear”
 
A deeper analysis of Miss Meadows
Miss Meadows, as the gods of Olympus in Greek mythology, has human attitudes and defects. She’s susceptible to suffer with the changes of fortune in life and she can make use of her power indiscriminately against the weaker and more vulnerable people to overflow her pain, hate or jow. For the gods, the weaker is the human being. In this short story, the girls are under Miss Meadows’ inclement mood.
Basil is her object of value, so his absence causes sadness. When he comes back, nature smiles again. It’s like the myth of the goddess Demeter, who rules the seasons of the year according to the absences and presences of her daughter Persephone.
Furthermore, among primitive people, the name is inseparable of both thing and subject designated. That’s the prime care and respect they dispense with it, attributing it a magic meaning, a holy value. Meadows means fields, greenland. That’s the kingdom of Demeter, who is the material goddess of earth, harvests, seasons and fertility. She is usually represented beside a snake – it might be related to the basilisk of the short story.
It has been said that Persephone was kidnapped by Hades, god of the hells. He fell in love with the young one and kidnapped haer, taking advantage of the exact moment when she was quietly picking flowers up in company of the Nymphs. When Zeus ordered Hades to give Persephone back to her mother, it was impossible, because the had eaten a pomegranate seed  in the hells and it was sufficient to keep her indissolubly linked to that place.
For softening the grieving of Demeter, Zeus decided that Persephone would divide her time between the subterranean and the alive worlds. Then, during the time when mother and daughter are separated, the ground remains sterile, infertile. It’s autumn and winter. However, when they are joined together again, nature smiles and blooms. It’s spring and summer. So, the cycle goes on. Demeter’s humour is reigned by contentment and also Miss Meadows acts like this.
 
The end of the story
Miss Meadows “would have to leave the school, too”. She would have to hide herself, like the chrysanthemum that, among all the flowers, avoids the world.
“The voices began to die, to fade, to whisper… to vanish…”. The reader would think that now death is going to reign utterly, when “suddenly the door opened”. A girl enters “in blue (…) and twisting the silver bangle on her red little wrist”. She’s a woman called Monica and brings the contrast between blue and red once more. She says that Miss Wyatt, the principal of the school, wants to see Miss Meadows on her room.
There’s a moment of expectation and apprehension when Miss Meadows cross the cold, silent corridors. An apologetic telegram had been sent to her by Basil. “He had commited suicede, decides Miss Meadows”. The idea of his death is a relief to her – despite she misses him – because it might take away from her the heaviness of the responsability of being abandoned. She wouldn’t have the guilt and could blame just the lack of motives to be alive, the despair that makes someone kills himself.
Happily Basil was not dead. On his telegram he asks her no to mind his letter because he was mad. Miss Meadows “blushed”, the hot colours were coming back. Miss Wyatt says that is forbidden to receive telegrams “in school hours, unless in case of death (…) or a very serious accident or something to that effect”.
The situation is the opposite. Miss Meadows received some news that gives her life back, like when Persephone comes back to Demeter. “On wings of hope, of love, of joy, Miss Meadows sped back to the music hall”. She crosses the corridors again. Like a labyrinth that carries to death or life, the corridors are an intermediary plane, a stay yonder. They are the way that take to heaven or hell, both represented by the music hall, where the music of life is developed.
Miss Meadows comes back to that room, picks up the chrysanthemum and raps with her baton. She retakes the ritual of another season. Now it’s another page of the songbook, time to another song:
 
We come here Today with Flowers o’erladen
With Baskets of Fruit and Ribbons to boot
To-oo Congratulate…
 
That’s the climax, an apex, a zenith. It’s spring now. Everything has to regain its agility, becoming eager. Miss Meadows says: “Use your imaginations”. She “beamed at the girls”, since the sun is shining inside her. The air, the voices, the sound and all the rest become light. The girls are manipulated, influenced bey the teacher, who tries to touch them with her joy. It’s the end of the nightmare. “Don’t look so doleful, girls. It ought to sound warm, joyful, eager”.
Miss Meadows seems to be filled with an instinctive, impulsive, spontaneous infatuation. She recovers motion, impetuosity, fervor, frenzy, moved by her satisfied desire. “And this time Miss Meadows voice sounded over all the other voices – full, deep, glowing with expression”. At this point she demonstrates her place at the hierarchy, the goddess that she really is. She recovers the full moon aspect, Demeter, mother, wife.
The moon shines only illuminated by the sun, so she is manipulated too. It’s not self sufficient, but it doesn’t mean it can’t be happy just because it’s submitted. It may put to use the good moment to have some fun. Then Miss Meadows leaves the labyrinth corridors, like a cemetery. Eros instinct substitutes Thanatos instinct.
The only way to avoid delusion could be, like Buddhism says, having no wishes, which cause dissatisfaction. Notwithstanding, Miss Meadows, without wishes, would lose  verisimilitude with the human condition, considering the story is fiction.
 
The title
The title “The singing lesson” has double sense. It may mean either a classe where people learn how to sing or a lesson that is singing itself, as if it was alive. Life follows the music. Maybe music played according to life. Music is like an iced fragment that transmits the impression of a certain moment, like an impressionist painting.
 
Social criticism
The social criticism of the text denounces the society of that age, not explicitly, with vestiges of Victorian moral. The hypocrisy is present at the school environment with a piece of irony and sarcasm. There’s a subtle feminist denunciation against the yoke/oppression on women and, consequently, on children.
 
A psychological analysis of Miss Meadows
According to the typology described by Jung, Miss Meadows seems to be the kind of person sentimental-introverted, which specially appears on women. People like this use to be quiet, difficult approachable, often behind a childish or banal masque. They have also a melancholic temperament. Generally they don’t have neither a great appearance nor make the other notice themselves in special. They are leaded by feelings oriented subjectively, and their motives are kept, usually, unkown.
A person like this abstains from all manifestations and contracts an impassioned deepness that covers the misery of the whole world as she is astonished by it. In its excess, this kind of personality may even overflow explosively because of a disconcerting fact, as regards neither the subject nor the object can find the exact proportion.
The introverted feeling is specially determined by subjective facts, since it’s subordinated to these preliminary conditions and only is attached to objective facts secondarily. So it’s common this kind of person shows herself less and when she does it, uses to be misunderstood.
Final considerations
Katharine Mansfield work was envied by Virginia Wool. D. H. Lawrence was a friend of hers. Her talent consisted in change the reality into fiction until taking out all the realism of the scenes and give to what have passed a dream character.
The denunciations narrated in her short stories refer specially to the exploration of women and children, expressing the inexpressible from her condition of being a woman. We can see it along the short story “The singing lesson”. We could realize how wondrous is Mansfield work, since the analysis we can make about it are unfinished. The author uses highly symbolic elements, contributing to our ontological narrative,  bringing universal archetypes to everyday situations.
 
 
Biblioagraphy
CARROL, Lewis. Alice’s Adventures in Wonderland. London: Penguin Books, 1994.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, 1991. Tradução de: Vera Costa e Silva.
CHOPIN, Kate. The Storm. In: Great short stories by American Women. Ed. Candance Ward. New York: Dover Publications, 1996.
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 1991. (Série Princípios).
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia grega e romada. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. Tradução de: Victor Jabouille.
JUNG, Carl Gustave. Tipos psicológicos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. Tradução de: Álvaro Cabral.
MANSFIELD, Katherine. The Garden Party and Other Stories. London: Penguin Books, 1964.
RAPUCCI, Cleide Antônia. Exposta ao vento e ao sol: A Construção da Personagem Feminina na Ficção de Angela Carter. 1997. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista “Júlio de mesquita Filho”, Assis.
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA NA LITERATURA INGLESA – Janaina Cardoso de Mello




JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA NA LITERATURA INGLESA
 

Janaina Cardoso de Mello

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

 
Resumo: Jane Austen foi uma escritora inglesa que obteve sucesso com seus romances, publicados no século XIX. Neles, faz uso da ironia em sua construção narrativa. Nascida em 1775, Jane Austen é uma mulher do seu tempo e como tal sua escrita não está imune a ele. Ao escrever para as mulheres oitocentistas sobre o modo de vida delas, fazendo-as enxergar sua realidade através do espelho literário, promove um ato de desconstrução de ideias ou pelo menos de questionamento de perspectivas vigentes na sociedade.
 
Palavras-chave: Jane Austen; ironia; romance; costumes.
 
Abstract: Jane Austen was an English writer who published successful novels in the 19th century. They make use of irony in their narrative construction. Born in 1775, Jane Austen is a woman of her time, therefore her writing is not exempt from it. While writing to her contemporary women about their way of life, she made them realize their reality as if seen through a literary mirror. Thus, she promotes an act of deconstruction of ideas, or at least questions some perspectives existing in her time and society.
 
Keywords: Jane Austen; irony; novel; customs.
 
Minicurrículo: Janaina Cardoso de Mello é doutora em História Social (UFRJ), professora do Mestrado em História (PPGH-UFAL) e do Mestrado em Ensino de História (ProfHistória – UFS).
 
 
 
 
JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA
NA LITERATURA INGLESA
 
Janaina Cardoso de Mello
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
 
 
“She opened her mouth with wisdom and in her tongue is the law of kindness”[1]
(James Edward Austen-Leigh, 1871)
 
 
Nascida em 16 de dezembro de 1775, no condado de Hampshire, Jane Austen foi uma escritora inglesa responsável por romances de sucesso que fizeram uso da ironia em sua construção narrativa. Foi ainda representante da época georgiana, que defendia o romance como um gênero literário e de qualidade (KELLY, 1992, p.3-35).
Para Ian Watt (2001) o “renascimento do romance” nesse período ocorre em razão do momento de transição dos códigos de amor da Corte (institucional, estilizado, aristocrático) para códigos românticos de amor da classe média (individual, particularizado, burguês). Além disso, a classe média enquanto receptora/leitora de obras literárias não possuía a mesma erudição da nobreza (domínio do latim e do grego), deixando de lado a bibliografia clássica.
Jane Austen era a sétima filha de um pastor anglicano, George Austen. Ela e sua irmã Cassandra eram as únicas meninas da prole de oito irmãos. A educação das duas, fora da tutela do pai, residiu numa breve estada na casa da Sra. Cawley, em Southampton, e posteriormente, entre 1785 e 1786, num internato em Reading. Recusou duas ofertas de casamento e viveu  em grande parte de sua vida com os proventos da comercialização de seus escritos. Morreu em Winchester aos 41 anos, em 1817, solteira.
A obra de Jane Austen se dedicou a descrição da sociedade rural do período da Regência de George IV, príncipe de Gales, durante a enfermidade de seu pai – o rei George III. Foi um momento histórico-político de turbulências à exemplo das Guerras Napoleônicas (1804–1815), da expansão do colonialismo, das campanhas de abolição da escravidão, da reforma das prisões, de críticas à ausência de uma justiça social, da defesa de políticas de bem-estar social por intelectuais (HIBBERT, 1973).
Sendo a educação das crianças feita nas escolas dominicais ou fornecida por tutores, no caso das famílias mais abastadas, Jane Austen apresenta em seus romances um discreto clamor por uma educação liberal para a mulher. Dentre suas obras destacam-se Sense and Sensibility (1811), Pride and Prejudice (1813), Emma (1815) e Persuasion (iniciado em 1815, mas só publicado após sua morte, em 1817).[2]
Seguindo essa tendência, as escritoras inglesas Charlotte Brontë (1816-1855) e Anne Brontë (1820-1849), autoras de Jane Eyre e Agnes Grey, obras publicadas em 1847, também integraram o cenário literário oitocentista que usou o romance como uma porta para denúncias sociais da opressão do mundo feminino cujo foco muitas vezes centrou-se na solidão e melancolia de professoras e governantas (SOUSA; DIAS, 2013, p.149).
Ressalte-se que alguns dos mais relevantes escritos protofeministas produzidos por iluministas inglesas como Mary Wollstonecraft, Mary Hays e Mary Robinson foram publicados entre 1792 e 1799. Assim, “A Vindication of the Rights of Woman[3], de Wollstonecraft, reivindicando que a mesma Educação destinada aos homens fosse concedida às mulheres. Amiga íntima de Wollstonecraft, Mary Hays publicou em 1798 o tratado “Appeal to the Men of Great Britain in Behalf of Woman[4], no qual refutava a ideia de inferioridade das mulheres em relação aos homens e também propunha a inclusão das mulheres num sistema educacional mais amplo. Mary Robinson, atriz e poeta na Inglaterra setecentista, affair de George IV, escreveu seu tratado “Letter to the Women of England on the Injustice of Mental Subordination[5], de 1799, abordando a opressão feminina e suas possibilidades concretas de emancipação (MIRANDA, 2013, p.1-4). Talvez alguns ares dessa atmosfera tenha sido respirado por Jane Austen, mesmo que Edward Austen-Leigh (1871) tenha propalado seu isolamento.
Os estudos da intertextualidade nas obras de Jane Austen, à exemplo de Steiner (2016), buscando as referências citadas em seus romances, contrariam a assertiva de Austen-Leigh e apontam a leitura de obras de: Fanny Burney,  Maria Edgeworth,  Ann Radcliffe,  Daniel Defoe,  Henry Fielding,  Laurence Sterne, e Samuel Richardson; ensaistas como Joseph Addison e Richard Steele, e contos de poetas como William Cowper e George Crabbe, demonstrando seu interesse em autores que tergivessavam suas obras.
Alguns críticos consideraram Jane Austen como um símbolo do “antifeminismo”, uma vez que as personagens de seus romances são “moças casadoiras” em busca do “príncipe encantado” bonito, charmoso e rico, atribuindo seus escritos à uma chick-lit, ou “leitura de mulherzinha”.[6] Mas se sua obra não é um tratado reivindicatório ou uma bandeira militante direta, ao escrever para as mulheres sobre o modo de vida delas, fazendo-as enxergar através do espelho literário sua realidade, promove um ato de desconstrução de ideias ou pelo menos de questionamento das perspectivas vigentes na sociedade. Observa-se que
 
(…) the Regency conduct book tended to judge a woman by how she conducts herself – that is, by how she acts, by how she seems. The novel, by contrast, was concerned with what women are really like, admitting – perhaps for the very first time – that women too have a fulsome interior life, with thoughts and feelings that are as crucial to get right as the actions that follow from them… And Jane Austen was at the forefront of it all, presenting to the Regency world a host of real women – so determined to do so, indeed, that she invented her very own narrative style, which gives the reader almost unrestricted access to the internal life of her female characters (MURPHY, 2014, p. 4).[7]
 
 
É provável que Jane Austen tenha tomado conhecimento da história pessoal de Mary Wollstonecraft, cujo ativismo contundente em prol da Educação das mulheres levou-a a receber inúmeras críticas, incluindo de seu marido, que publicou uma biografia póstuma relatando infidelidades e comportamentos sociais vistos como inadequados naquele tempo e maculando a reputação da escritora. Buscando proteger a si mesma, é possível que Austen tenha adotado uma estratégia literária distinta, mais sutil.
Quiçá a ironia mais perfeita de Jane Austen seja a forma como concebeu a escrita de sua obra, cuja aparência para muitos remeteria à tradição, conformismo e limites do feminino, quando para leitores sagazes as “entrelinhas” possam dizer muito mais da época, da autora e de seus pensamentos. Conforme afiança Beth Brait, a ironia romântica carrega consigo
 
(…) a ideia de contradição, de duplicidade como traço essencial a um modo de discurso dialeticamente articulado; o distanciamento entre o que é dito e o que o enunciador pretende que seja entendido; a expectativa da existência de um leitor capaz de captar a ambiguidade propositalmente contraditória desse discurso (1996, p. 29).
 
 
Jane Austen escolhe abordar, em seus romances, poucas famílias dos vilarejos do interior da Inglaterra, o que torna a leitura mais centrada em poucos mas densos personagens, permitindo à autora desenvolvê-los em seus relacionamentos sociais, suas complexidades internas e dramas do período. Embora não ocorra uma preocupação em delimitar datas e fatos históricos, o ambiente retratado em suas minúcias deixa claro as posições hierárquicas, as ocupações militares, a aquisição de fortunas, as tipologias de mobilidade social conferindo uma carga de historicidade as obras.
Jane Austen é uma mulher do seu tempo e como tal sua escrita não está imune a ele. A religiosidade esteve presente em sua formação, os ditames sociais patriarcais dos séculos XVIII e XIX preconizavam moças ingênuas, responsáveis, virtuosas e fiéis.
Entretanto, os costumes sociais da sociedade inglesa são tratados de forma cômica, agressiva e ácida ao mesmo tempo como se pode observar em Sense and Sensibility, nas palavras da personagem Marianne sobre a idade das mulheres para o casamento:
 
Uma mulher de vinte e sete anos (…) não pode mais esperar sentir ou inspirar amor, e se sua casa não for confortável ou se suas posses forem modestas, acho que deva oferecer os serviços de enfermeira, em troca de sustento e da segurança de uma esposa. Casar com uma mulher assim, portanto, nada teria de inadequado. Seria um pacto de convivência, e a sociedade ficaria satisfeita. A meu ver, não seria absolutamente um casamento, não seria nada. Para mim, seria só uma troca comercial, em que cada um pretende lucrar à custa do outro (AUSTEN, 2012, p. 29-30).
 
 
A “sociedade de corte” inglesa possuía cores muito liberais nesse período, levando a valsa para seus salões, apreciando as composições de Mozart, Bach, Beethoven, Paganini, Rossini e Schubert, reforçando o contraste entre o glamour da nobreza e a pobreza dos outros segmentos sociais. Nesse contexto, os romances de Jane Austen abordam sua própria experiência de vida como mulher pertencente à baixa nobreza, a classe nomeada como gentry. Conservadora e patriarcal, a sociedade inglesa destinava às mulheres a invisibilidade na sombra do marido, por isso
 
A ironia é uma das características mais importantes de Austen e ela faz uso de tal recurso para criticar a sua sociedade contemporânea. Através da narrativa, além da ironia, outros aspectos da obra são ressaltados, tais como, o senso de humor que permeia as descrições no romance, comentários ou atitudes das personagens e a constante preocupação com o bom senso, a conveniência e a moralidade (SONEGO, 2015, p. 1).
 
 
Essa perspectiva está presente no capítulo 8 da obra Pride and Prejudice, na conversa entre o Sr. Darcy, o Sr. e a Sra. Bingley sobre as mulheres serem “prendadas”. Para Charles Bingley, todas as mulheres pintavam mesas, forravam biombos e faziam bolsas se malha, tendo a oposição de Darcy que não concordava com essa avaliação generalista das mulheres, afirmando que não podia dizer conhecer mais de meia dúzia de mulheres realmente prendadas. Elizabeth Bennet o confronta dizendo que deveria ser muito exigente quanto as mulheres. Ao que é replicada por Darcy que além do conhecimento de música, canto, desenho, dança, idiomas modernos, era essencial que a mulher “prendada” mantivesse “o cultivo da inteligência pelas amplas leituras”. Logo, Elizabeth mostra sua ironia fina, dizendo estar surpresa que ele conhecer “tantas” mulheres assim (referindo-se às seis mencionadas antes) e afirma nunca ter visto uma mulher assim que juntasse bom gosto, capacidade, aplicação e elegância como ele descrevera (AUSTEN, 2012, p. 259).
Ao mesmo tempo, a própria personagem de Elizabeth Bennet é descrita como uma “boa leitora”, preferindo os livros ao jogo de baralho, ocupando sua mente com instrução como deleite e não obrigação. Essa mesma mulher, em vários momentos coloca em xeque a autoridade masculina e os comportamentos de subserviência femininos que lhes são exigidos. Desse modo, como afirma Camila da Silva Alavarce
 
(…) o estudo da ironia exige o reconhecimento de um sentido literal e de outro figurado, uma vez que esse “recurso” se constitui de um significante para dois significados contraditórios ou incompatíveis. Aquele que pratica a ironia qualifica o enunciatário, pois o julga capaz de perceber os índices que sinalizam esse procedimento, participando, assim, da construção da significação irônica (2009, p. 29).
 
Grosso modo, o termo “ironia” provém do grego antigo εἰρωνεία (transl. eironēia), significando “dissimulação”, presente no cotidiano como uma arte capaz de provocar distintas reações.
A percepção da ironia envolve certa complexidade, pois há diferentes tipos de ironia, sendo necessário ter atenção ao desdobramento da construção narrativa, pois “irony depends on context since it springs from the relationships of a word, expression or action with the whole text or situation” (MATEO, 1995, p. 172).[8] Em sua obra, Jane Austen utiliza a ironia como um recurso para criticar as frivolidades da sociedade burguesa do período. Assim:
 
(…) uma construção de linguagem dotada de subjetividade e liberdade criativa, manifestada pelo autor enquanto consciente do poder de agir, refletir e produzir. É, ainda, uma manifestação do coletivo histórico enquanto percebida a relação entre sujeitos, a interação e o contexto sócio-histórico em que é criado (reinterpretado) o discurso (SANTOS, 2009, p. 2).
 
 
Em Persuasion a autora descreve em detalhes a sociedade inglesa do século XIX, usando a ironia para discutir pontos comuns a época, como o preconceito, a elitização e o desnível social.  Assim, logo no capítulo 1, o personagem de Sir Walter Elliot dispõe da leitura de uma única obra – o Baronetage – onde encontra “consolo para as horas amargas” contemplando a biografia com elogios à antiga nobreza e encontrando ali mesmo a sua própria história (AUSTEN, 2012, p. 471).
A vaidade que reduzia o homem ao bem que possuía e o definia por sua condição social, por seu status, por seu sucesso econômico e seu prestígio político. Características que ordenavam os casamentos, destruíam amores e postergavam ressentimentos perpétuos. Embora os personagens de Persuasion busquem a felicidade, é ao contrário a tristeza que confere a profundidade de suas vidas:
 
No caso de Austen, a “agressão cômica” pode ser de três tipos: social, que envolve os diferentes modos de revidar os limites impostos pela vida em sociedade; interpessoal, que apreendemos nas situações de conflito entre duas personagens; e interno, quando o conflito é internalizado por uma personagem e sua invectiva se dirige a si própria (VASCONCELOS, 2014, p. 146-147).
 
 
Desse modo, é possível observar a agressão cômica social na fala de Marianne em Sense and Sensibility, a agressão cômica interpessoal nos diálogos entre Sr. Darcy e Elizabeth Bennet em Pride and Prejudice e a agressão cômica interna no autoelogio de origem por parte de Walter Elliot na obra Persuasion. Evidentemente, outras personagens ao longo das três obras assumem essas características de forma distinta, não tornando-as uma exclusividade de um só livro (VASCONCELOS, 2014).
O casamento, ambicionado por moças e seus familiares, se no plano romântico se constitui como o triunfo do amor, no plano real retrata o jogo de interesses, acordos, competição social e dependência feminina numa sociedade patriarcal e excludente.
Na obra “A sociedade de corte”, o autor  Norbert Elias (2001, p.27), ao retratar as tramas em torno do antigo regime e a formação burocrática dos Estados nacionais, chama a atenção para as alianças e rivalidades familiares, as amizades e inimizades pessoais que permeavam assuntos de governo e demais momentos oficiais. Os demais extratos da sociedade buscavam refletir-se no espelho de suas dinastias, recriando em seus microcosmos os comportamentos sociais da vida nobre almejada, mesmo que na maior parte das vezes terminassem por constituir-se como simulacros distorcidos do modelo original.
Se Norbert Elias (2001) estuda pelo viés sociológico o estudo da corte dos reis franceses entre Francisco I e Luís XIV, em seus códigos de etiqueta, rituais de ostentação e interdependência social, Jane Austen em seus romances expõe os vícios, as intempéries e contradições da sociedade inglesa georgiana com a mesma maestria, todavia, através da linguagem literária de um romance irônico e inserido em seu contexto de produção.
Mas afinal, qual o valor do romance como gênero literário? O que é o romance? Nascido de de estilos híbridos, como o romance medieval, narrativas orais, epístolas e textos de retórica, apresenta-se sobre a forma de uma narrativa ficcional em prosa, apresentando grande flexibilidade tanto no número de páginas quanto na longevidade de alcance de seus personagens muitas vezes retratados no percurso de várias gerações. Cronologias e linearidades são flexíveis em sua disposição.
O acesso à alfabetização de pessoas à margem das classes privilegiadas criou uma demanda por narrativas “mais fáceis” na Europa do setecentista. Se outrora, as epopéias e tragédias compunham as bibliotecas das famílias abastadas, o romance alcançou públicos mais amplos dada a disseminação das obras pela imprensa e a profissionalização dos autores.
De acordo com Mikail Bakhtin, a representação dialógica entre autor e personagens personificam a “imagem da linguagem de outrem e de sua visão de mundo, que é representada ao mesmo tempo em que representa, é extremamente típica do romance” (1998, p. 367).
Como afiança Hannon (2016), os personagens dos romances de Jane Austen se permeiam de características como autocomando e senso de propriedade [decoro],  mas estas não são suficientes para compor uma narrativa atraente, pois a elas devem ser acopladas mente  e línguas rápidas, senso de humor, boas maneiras e uma vontade forte, como se pode observar em Elinor, Elizabeth Bennet (Pride and Prejudice) e Anne Elliot (Persuasion).
Através de uma leitura de mundo semiótica, nas obras de Jane Austen a realidade e a linguagem se fundem numa relação de intersubjetividade na qual:
 
(…) “la réalité” correspond au monde empirique à travers sa phénoménalité, (…) par opposition, “le réel” se réfère au monde tel qu’il est construit, structuré, par l’activité signifiante de l’homme à travers l’exercice du langage en ses diverses opérations de nomination des êtres du monde, de caractérisation de leurs propriétés, de description de leurs actions dans le temps et dans l’espace et d’explication de la causalité des ces actions (CHARAUDEAU, 2007, p. 50-51).[9]
 
Por isso a leitura das obras de Jane Austen requer acuidade na percepção das armadilhas discursivas, ambiguidades e sutilezas da enunciação nas narrativas desenvolvidas. Nada em seus escritos é ingênuo ou insípido.
À mulher britânica do século XIX estava destinado o “reino doméstico”, a dependência financeira, as qualidades servis, dóceis e talentosas para satisfazerem ao patriarca na relação matrimonial. Era essa a premissa cultural construída para orientar corpos e mentes. Jane Austen, vivendo nesse cenário, escreveu sobre isso de modo inteligentemente crítico, usando a ironia como capa protetora para alfinetar uma sociedade que tentava colocá-la nas margens como escritora e como mulher. Seus romances ora dramáticos, ora cômicos, revelavam o modo de ser e de sentir da sociedade inglesa, bem como as brechas encontradas para fugir aos arquétipos de dominação do masculino sobre o feminino.
Mais do que a imagem de “Cinderelas frívolas”, assoladas pela passionalidade, as protagonistas dos romances de Jane Austen evidenciavam em suas falas mordazes a racionalidade feminina que compreendia seu lugar naquele mundo e buscava usar os próprios códigos de cerceamento para negociar sua sobrevivência com algum luxo, afinal, “todo homem solteiro, rico e bonito, naquela época, também precisava de uma esposa para ser bem quisto na sociedade vigente”, não é mesmo?
 
Referências
ALAVARCE, Camila da Silva. A ironia e suas refrações: um estudo sobre a dissonância na paródia e no riso [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 208p. Disponível em: http://static.scielo.org/scielobooks/5dcq3/pdf/alavarce-9788579830259.pdf, Acesso em: 15 ago. 2016.
AUSTEN, Jane. Razão e sensibilidade; Orgulho e preconceito; Persuasão. São Paulo: Martin Claret, 2012.
AUSTEN-LEIGH, James Edward. A Memoir of Jane Austen. Londres: Bentley, 1871.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: A teoria do romance. São Paulo: EDUNESP, 1998.
BRAIT, Beth. Ironia em perspectiva polifônica. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996.
CHARAUDEAU, Patrick. Les stéréotypes, c’est bien, les imaginaires, c’est mieux. In: BOYER, Henri. Stéréotypage, stéréotypes: foncionnements ordinnaires et mises en scène. Langue(s), discours. Paris: Harmattan, 2007. v. 4, p 49-63.
HANNON, Patrice. Austen Novels and Austen Films: Incompatible Worlds? In: A publication of Jane Austen Society of North America. Pp. 24-32. New York: JASNA. Disponível em: http://www.jasna.org/persuasions/printed/number18/hannon.htm. Acesso em: 18/08/2016.
HIBBERT, Christopher. George IV, Regent and King, 1811–1830. Londres: Allen Lane, 1973.
ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
KELLY, Gary. Jane Austen in Dictionary of Literary Biography. v. 116: British Romantic Novelists, 1789-1832. Edited by Bradford K. Mudge. Denver: University of Colorado at Denver, Gale Research, A Bruccoli Clark Layman Book, 1992.
MATEO, Marta. The Translation of Irony. In: Meta: Journal des Traducteurs, v. 40, nº 1, 1995. pp. 171-177.
Disponível em: http://www/erudit.org/revue/meta/1995/v40/n1/003595ar.pdf, Accesso em: 24 mar. 2006.
MIRANDA, Anadir dos Reis. Escritos protofeministas na Inglaterra setecentista: entre razão e sensibilidade, teoria e ficção. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013.
Disponível em:
http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/anais/20/1384800932_ARQUIVO_AnadirdosReisMiranda.pdf, Acesso em: 15 ago. 2016.
MURPHY, Sinead. The Jane Austen Rules: A Classic Guide to Modern Love. Newport: Melville House, 2014.
SANTOS, Waniamara J. As funções da ironia na obra literária Orgulho e preconceito, de Jane Austen. Monografia de Graduação em Letras. Diamantina: Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina, 2009.
SONEGO, Fatima Ines. Ironia em Orgulho e Preconceito. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/4mostra/pdfs/343.pdf, Acesso em: 10 jul. 2015.
SOUSA, Dignamara Pereira de Almeida; DIAS, Daise Lilian Fonseca. Quando a Mulher Começou a Falar: literatura e crítica feminista na Inglaterra e no Brasil. In: Gênero na Amazônia, Belém, n. 3, jan./jun., 2013, pp.143-168.
Disponível em:
http://www.generonaamazonia.ufpa.br/edicoes/edicao-3/Artigos/Artigo7-Dignamara%20e%20Daise.pdf.
Acesso em: 18/08/2016.
STEINER, Enit Karafili. Jane Austen:  Northanger Abbey/Persuasion. New York: Palgrave, 2016.
VASCONCELOS, Sandra Guardini Teixeira. O Gume da ironia em Machado de Assis e Jane Austen. Machado Assis Linha [online]. 2014, vol.7, n.14, pp. 145-162. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/mael/v7n14/1983-6821-mael-7-14-00145.pdf, Acesso em: 11 jul. 2015.
WATT, Ian. The Rise of the Novel. Studies in Defoe, Richardson and Fielding. Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 2001.
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] “Ela abria a boca com sabedoria e sua linguagem exibia a lei da bondade” (tradução livre).
[2] “Razão e sensibilidade”, “Orgulho e Preconceito”, “Ema” e “Persuasão” (tradução livre).
[3] “Uma defesa do direito das mulheres” (tradução livre).
[4]  “Apelo para os homens da Grã-Bretanha em favor da mulher” (tradução livre).
[5] “Carta para as mulheres da Inglaterra sobre a injustiça de subordinação mental” (tradução livre).
[6] Talvez por isso a obra de Jane Austen, apesar do apelo junto à um grande número de leitores, tenha sido por anos sistematicamente negligenciada nos Departamentos de Inglês das universidades, como informa Patrice Hannon (2016).
[7] “O livro de conduta da Regência tendeu a julgar a mulher pela forma como ela conduz a si mesma – isto é, pela forma que ela age, pela forma que ela parece. O romance, por outro lado, estava preocupado com o que as mulheres eram realmente, admitindo – talvez pela primeira vez – que as mulheres também têm uma vida privada excessiva com pensamentos e sentimentos que são tão cruciais para obter direito como as ações que decorrem destes… E Jane Austen estava na vanguarda de tudo isso, apresentando para o mundo regencial uma série de mulheres reais – tão determinada a fazê-lo, na verdade, que ela inventou seu próprio estilo de narrativa, o que dá ao leitor acesso quase irrestrito ao vida interna de seus personagens femininos” (tradução livre).
[8] “Ironia depende do contexto, uma vez que brota das relações de uma palavra, expressão ou ação com todo o texto ou situação” (tradução livre).
[9] A “realidade” corresponde ao mundo empírico por meio de sua fenomenalidade, (…) por oposição, “o real” refere-se ao mundo tal qual ele é construído, estruturado, por atividade significante do homem através do exercício da linguagem em suas diversas operações de nomeação dos seres do mundo, de caracterização de suas propriedades, de descrição de suas ações no tempo e no espaço e de explicação da causalidade dessas ações” (tradução livre).





Bio fornecida pelo palestrante.

MME CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930 – Maria de Lourdes da Silva, Helena Maria Alves Moreira , Luciana Maria da Conceição Vieira




MME CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930
 

Maria de Lourdes da Silva

Helena Maria Alves Moreira

Luciana Maria da Conceição Vieira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
 
RESUMO: Mme Chrysanthème é o pseudônimo de Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos (1869-1948), figura pouco conhecida dentro do próprio país. Fez de suas crônicas espaço de defesa das causas femininas, escreveu para os mais importantes periódicos do Brasil entre fins do século XIX e as primeiras décadas do XX. Dentre eles, destacamos O Correio Paulistano, objeto desse artigo que procura investigar como as crônicas da autora apresentavam seus conselhos às mulheres, desenhando uma ética própria para o comportamento feminino, negociado a partir das convicções construídas nas alianças que fez ao longo da vida com a Igreja, a elite letrada conservadora e a oligarquia paulista.
PALAVRAS-CHAVE: Mme Chrysanthème; Cecília Moncorvo Bandeira de Mello; Correio Paulistano; feminismo; Década de 1930.
ABSTRACT: Mme Chrysanthème was the pen name adopted by Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos (1869-1948), a literary figure little known even in Brazil. She took advantage of her newspaper chronicles to defend women’s causes. She published in the main Brazilian newspapers between the end of the 19th century and the first decades of the 20th, especially the Correio Paulistano. This will be the object of this article, examining the advice the author gave to women, while drawing ethics to their behavior, based on her religious convictions learned from the Church, the conservative literate elite and the São Paulo oligarchy.
KEYWORDS: Mme Chrysantheme; Cecília Moncorvo Bandeira de Mello; Correio Paulistano; feminism; the 1930’s.
MINICURRÍCULOS: Maria de Lourdes da Silva é Professora Adjunta da História da Educação na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Helena Maria Alves Moreira é Mestranda do Programa de Pós-Graduação de Ensino em Educação Básica do Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Luciana Maria da Conceição Vieira é Graduanda do Curso de Pedagogia na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
 
MME.  CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930
 
Maria de Lourdes da Silva
Helena Maria Alves Moreira
Luciana Maria da Conceição Vieira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  1. INTRODUÇÃO

Durante a leitura do manual infantil História de São Paulo (1926)
 
[1], chamou-nos a atenção neste romance, não somente o tom pedagógico da obra e sua história memorialista do estado de São Paulo contada às crianças, como também a fidelidade demonstrada pela autora à oligarquia paulista e a exaltação desta, no momento em que cresciam, nacionalmente, as críticas às bases de sustentação da política do café-com-leite e do poder oligárquico. Decidimos, então, investigar sua contribuição no periódico Correio Paulistano, para verificar se havia como verificar esta hipótese e se era possível identificar as motivações da aproximação desta carioca ao grupo paulista.
Dos mais de vinte anos que escreveu para o referido jornal, selecionamos para este estudo, as crônicas publicadas entre os anos de 1929 e 1930, porque representam o período que antecede a derrocada da oligarquia paulista. Ela escreveu, ao todo, 58 crônicas para o jornal Correio Paulistano nestes dois anos.  O contexto histórico aqui retratado, também retirou fatos noticiados nas mesmas páginas onde as crônicas da autora foram publicadas para entender a permeabilidade desta aos eventos de seu cotidiano. Geralmente publicadas entre as páginas 2, 3 e 4, suas crônicas figuravam entre as notícias sobre os despachos políticos dos presidentes da república e da província de São Paulo e o cotidiano de eventos protagonizados por políticos e ilustres da época aliados a esse grupo de oligarcas.
Nas crônicas deste periódico, constatamos que nossa autora mantém o tom de exaltação aos paulistas, para os quais fala, muitas vezes, de modo pejorativo sobre a Capital Federal e suas gentes, incluindo a elite carioca, da qual faz parte. Tais crônicas mostram uma autora absolutamente conservadora, voltada à defesa dos valores dos grupos e instituições que defende abertamente: a Igreja, seus amigos intelectuais de matiz conservador e a oligarquia paulista.
Dada às dificuldades de trabalhar como jornalista e romancista, considerando ser o universo literário dominado, essencialmente, por homens, nossa autora conseguiu estabilidade e longevidade no ofício, muitas vezes, escrevendo para mais de um periódico ao mesmo tempo. Assim como as crônicas que escrevia, seus romances eram recebidos com cautela e sob críticas, principalmente, pela escolha de seus temas e pela caracterização de suas personagens, as quais, em sua maioria, apresentavam o lado decadente e “desglamourizado” da sociedade carioca, Capital Federal.  Suas crônicas no jornal paulista informavam àqueles sobre os modos de vida desta “metrópolis”, como ela costumava referir-se à Capital Federal. Mas havia nelas, ainda, um desejo de agradar aos editores e de reafirmar a superioridade do estado produtor de café e de sua gente, já retratados como heróis pela autora no manual citado.
Ou seja, o que está no centro da análise é o próprio agir da autora e a forma que dá a sua arte. Pensando que este agir, que institui a autora enquanto sujeito, é de todo modo relacional e resulta na construção negociada do sentido, observando como a composição instituinte da identidade de Chrysanthème atende à tríade necessária e condicionante do estar do ser no mundo, o eu para mim, o eu para o mundo e o outro para mim. Dessa forma, acompanhando Bakhtin, entendemos que só é possível se formar um “eu” entre outros “eus”, porque o sujeito se define a partir do outro e elabora sua singularidade diante do outro. Ainda e necessariamente é o outro no essencial que condiciona a identidade à dialogia e à atitude responsável e responsiva de cada sujeito.
Portanto, não é possível pensar o sujeito sem pensar o contexto instituinte do sujeito e sem considerar o princípio dialógico que orienta a elaboração do discurso e seus interdiscursos. A situação social e histórica concreta dos sujeitos é a matéria que conforma a realidade matizada de seus discursos por seus valores. Assim, o agir do sujeito é resultado de uma decisão ética, tomada a partir da forma como elabora, interage e constitui os outros e o eu próprio
 
[2]. Este eu individual se manifesta no discurso e no estilo autoral, mas
Todo estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e às formas típicas de enunciados, ou seja, os gêneros do discurso. Todo enunciado – oral e escrito, primário e secundário e também em qualquer campo da comunicação discursiva – é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve) isto é, pode ter estilo individual (BAKHTIN, 2011, p. 265).
Pela filosofia bakhtiana, o enunciado reflete a individualidade de quem o profere, mas o essencial dele é ser capaz de organizar o seu discurso através de decisões inteligíveis.  Com isso, queremos dizer que Chrysanthème é, como todo ser permeada pelo seu tempo, mas seu registro desse tempo resulta das decisões tomadas ao longo da vida ora mais numa direção, ora noutra. Assim, como as mudanças também nos caracteriza e humaniza, pois não nos constituímos pelo imperativo categórico transcendente, mas pelas inúmeras experiências no mundo, podemos ver o conjunto de seus atos discursivos pelo filtro dos valores que os orientaram.
 

  1. DO CONHECIMENTO À OBSCURIDADE: QUEM FOI CHRYSANTHÈME?

Chrysanthème era o pseudônimo da escritora Cecília Moncorvo Bandeira de Mello, carioca da freguesia de São José – capital do Rio de Janeiro, nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1869; filha do casal, Dr. Jeronymo Bandeira de Mello e Emília Moncorvo Bandeira de Mello, também jornalista e escritora que se apresentava pelo pseudônimo de Carmem Dolores – uma notável escritora do período da Belle Époque brasileira.
Aos 19 anos, em 10 de abril de 1888, casou-se com o bacharel em línguas, professor Horácio Rebello de Vasconcellos, passando, então, a assinar como Cecília Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos. Desta união, nasce o único filho do casal, Henrique Rebello de Vasconcellos, em 1889.
Sua primeira crônica de que temos registro foi para o jornal A Imprensa no ano de 1907. Ela começou a escrever não muito jovem. Temos indicativos de que isto ocorre após a viuvez, mas ainda não conseguimos confirmá-lo. Na época em que enviuvou, em 1907, aos 38 anos, ainda não havia aposentadoria para o funcionalismo público[3] e, portanto, supomos que o marido não tenha deixado pensão ou pecúlio confortável. E mesmo que tal provento não fosse a única renda da família, a ausência do provedor da família, aliada ao exemplo da mãe, certamente a impulsionaram a iniciar nas letras.
Assim como outras escritoras da época e da própria mãe, ela também fez uso de um pseudônimo – um artifício necessário em um período em que as mulheres eram discriminadas pela sociedade por exercer alguma profissão que não a de professora. Os pseudônimos funcionavam como uma proteção à verdadeira identidade destas autoras. Era prática internacional as escritoras adotarem nomes masculinos para depois provarem que o exercício da escrita literária também cabia às mulheres. Cecília opta por um nome que não contraria sua identidade de gênero. Ao adotar como pseudônimo o nome do livro de Pierre Loti, “Madame Chrysanthème”, ela já mostra sua disposição para polêmicas mediadas pela pena, provocando os contemporâneos. Este livro, que fez enorme sucesso na virada do século XIX ao XX, tem como mote o casamento do autor, um oficial da marinha francesa, com uma “gueixa” japonesa. Um casamento arranjado, muito comum no Japão da época, cuja narrativa está focada nas reflexões sobre a vida enfadonha do militar durante os três meses que viveu no Japão. Madame Chrysanthème, a esposa negociada de Loti, é o arquétipo da submissão e, enquanto “gueixa”, abarca os devaneios ilimitados dos desejos masculinos.
Apesar desta ironia inicial, as crônicas da autora no jornal Correio Paulistano, publicadas nos anos selecionados para esta pesquisa, são farto material de cultivo da opinião dos leitores no sentido mais conservador do termo. Seus escritos, quando versavam sobre os dilemas femininos, expunham a faceta da conselheira polêmica por não ter medo de criticar as novidades, a modernidade e tudo o que considerava exemplo de decadência nos costumes, na mentalidade e que expunham a mulher às armadilhas da falta de decoro e compostura, próprias do modo de adesão das cariocas aos novos tempos. É certo que tal posição é fruto de sua trajetória de vida. Oriunda de uma família distinta, culta, pertencente à alta sociedade carioca, ela cresceu entre os ilustres, frequentou desde sempre os salões letrados e conviveu com as elites política e econômica de seu tempo. Sobretudo, cresceu entre os escritos também eles ácidos e irônicos da mãe, no ambiente irreverente da produção literária da virada do século, pelo qual circulou, fez amigos e desenvolveu seu estilo de escrita.
A obra de Cecília não sobreviveu ao tempo, mas em sua época, fim do século XIX e primeiras décadas do século XX, suas crônicas e romances conseguiram agitar leitores e pares, provocar acalorados debates, conseguindo, inclusive, retorno dos leitores, que escreviam aos jornais[4]. Diz-nos Maria de Lourdes Melo Pinto, que suas crônicas são irônicas e mordazes, pois esta autora comentava, com larga franqueza, sobre diversos assuntos[5]. Supomos que Melo Pinto refira-se às crônicas da escritora mais jovem, certamente mais audaciosa do que as crônicas com as quais nos deparamos no Correio Paulistano no período mencionado. Adiante, retornaremos a este ponto.
Em função disto, nossa hipótese arrisca que seu apagamento progressivo tenha resultado, além da ação da história, sobre quem, em seu inexorável processo, mostrou estar equivocada em muitos aspectos, mas também pela ajuda não casual dos mediadores da política cultural de seu tempo, com os quais Chrysanthème colaborou com suas crônicas. Afinal, uma autora que escreve com tamanha liberdade sobre os costumes de seu grupo social, denunciando sem meias palavras suas vilanias, vícios, inescrúpulos e amoralidades é geradora de muitos incômodos. Chrysanthème parecia ser do tipo que perdia o amigo, mas não a boa oportunidade da crítica. Junte-se a isso textos de baixo apreço estilístico, uma personalidade que receita moralidades sem economia e cerimônia, que dispara juízos e valores católicos contra os costumes da vida moderna e talvez possamos entender algumas das motivações para lentamente silenciar seu trabalho e sua voz.
Isto porque, à Chrysanthème jovem ou madura, ninguém intimidava. Não é que seus valores e posições políticas fossem progressistas ou de vanguarda. Falando da Chrysanthème das crônicas do jornal Correio Paulistano nos anos 1929-30, vemos que suas defesas são bastante antiquadas até para os seus dias e seu estilo de escrita, além de monótono e enfadonho é ultrapassado. Mas, certamente, não foi graças a estas posturas que a autora foi relegada à obscuridade, assim como tantas outras escritoras que não estão arroladas nos registros literários oficiais. Cremos mesmo, que sua contribuição não a qualifica a estar no panteão dos grandes talentos. A crítica, contemporânea da autora, tratou de sublinhar seus limites como é exemplo o livro Crítica (1933), de Humberto de Campos[6] e, até mesmo, ignorá-la por completo, como em História da literatura brasileira (1931) e Panorama da literatura brasileira (1940); ambos de Afrânio Peixoto. Sua predileção pela crítica dos costumes de seu grupo social de origem talvez tenha sido um dos fatores a contribuir para o seu apagamento do cenário literário brasileiro.  É provável que suas alianças com setores conservadores da sociedade, tenham dificultado sua sobrevivência na “nova ordem” varguista. Contudo, é quase certo que a estilística de qualidade duvidosa e pouco apreciada de seus escritos tenha determinado a fortuna de sua obra.
Não obstante, Chrysanthème sobreviveu na vida pública do país através de sua arte por longo tempo – ficou ativa na imprensa e no mercado editorial por quase quarenta anos consecutivos.  Tal longevidade parece sustentar-se menos pela forma dura e direta com que critica os comportamentos da sociedade e mais por suas posições políticas, graças as quais, consegue o emprego no diário Correio Paulistano, um jornal que era, sabidamente, a mídia oficial do PRP, Partido Republicano Paulista, o qual autora defende e divulga:
Como sempre enquanto traço essas linhas para a colunna dominical deste jornal, outros periódicos esvoaçam sobre o papel que escrevo. É a Gazeta de Notícias com seu feitio irônico   e   curioso   zombando   da oposição   em   phases   e   desenhos sarcásticos. E o Correio Paulistano, combativo, vigoroso   e   certo   do triunpho final da causa que tão bem defende… e são outros e outros que se agitam ao vento como borboletas trazendo notícias, vários annuncios, muitos   annuncios   sobre   suas   asas abertas (O PAIZ, 29/09/1929).
É bastante curiosa sua trajetória na vida literária, porque, ao apontar as mazelas das elites, a não temer criticar os seus pares, ela revela o que poucos queriam ver exposto nos diários. Cecília pôde, como poucas, falar sobre as coisas que elegeu. Ela expôs as vísceras dos costumes que considerava vis de seu grupo social, especialmente o das mulheres, embora não poupe os opróbrios das mulheres pobres. Sua defesa é a da mulher educada, tenha ela que posição social tiver, nutrida pelos altos valores da moralidade cristã, que saiba resistir aos atrativos pouco decentes e prejudiciais da vida moderna. Por isso, não perdoa o ócio, a futilidade, a vaidade inconsciente e as torpezas femininas.
Consideramos que seu maior legado é o registro contínuo, sistemático, incansável, ao longo dos quase quarenta anos dedicados à escrita dos costumes da cidade e às suas personagens. Seu destemor ou desprezo por certo conjunto de condutas sociais e seu olhar tão aguçado quanto a sua pouca disposição para seguir composturas as quais não acreditava, tornam sua obra um conjunto documental primoroso de narrativas sobre a Capital Federal e seus habitantes, escrito por uma mulher que o tempo curvou e domesticou. A Chrysanthème destas crônicas não lembra a escritora de outrora, crítica e desafiadora. Nestes aspectos, aliados à longevidade de sua permanência na imprensa, reside a maior potência de seus escritos. Neles, vemos com clareza suas alegrias e vaidades, sua mágoa, sua ira, seu deboche, sua tristeza, sua derrota. Essa marca é seu diferencial e sua obra reflete uma mulher solitária defendendo seu ponto de vista, empenhando todos os seus esforços para contribuir à nova ética social com o personalismo de seus pressupostos morais, adequados aos projetos de grupos político-econômicos aos quais se alinhou.
Apesar de sua vasta produção literária, seus escritos não tiveram reedições. Os exemplares sob a guarda dos arquivos públicos que tivemos acesso, aparentam pouco manuseio e estão se perdendo pela ação do tempo. Chrysanthème deixou um acervo bibliográfico de aproximadamente 1.500 crônicas, e, ao menos, 26 livros computados, sendo alguns, reunião dos folhetins originariamente escritos para os diários (Pinto, 2006), como era comum à época[7]. Seus escritos conformam, pois, um conjunto etnográfico singular sobre o Brasil e seu povo, porque resultado do olhar de uma mulher que tratava de temas que não se esgotam, mas que são mediados pelas questões do tempo ao qual pertence e com o qual interage com decisões e opiniões que nos permitem ver o contraditório das críticas que enceta, sem que caiamos no anacronismo. Chrysanthème apoia a oligarquia paulista e é pouco permeável às novidades estilísticas em ebulição na literatura. Embora os temas de seus romances sejam picantes e desconcertantes, sua narrativa envelhece, seu ponto de vista é mantenedor do status quo, suas defesas políticas são derrotadas e a força dos escândalos que provocava com seus romances fenece, apesar da nova ética do(a) cidadão(ã) trabalhador(a) da Era Vargas, mas este é um assunto para outro artigo. Nestas linhas, nos limitaremos a analisar seu ocaso juntamente à República Velha por seus escritos no Correio Paulistano entre 1929 e 1930.
Nossa escritora falece em 22 de agosto de 1948, aos 79 anos. Em sua certidão de óbito[8] consta como profissão “doméstica”, não tendo reconhecimento do cargo que exerceu como jornalista, ou da profissão de escritora, reduzindo e apagando os seus feitos na tradição da história literária do país em razão, talvez, da “(…) franqueza, talvez perigosa, que ponho em todos os meus artigos(…)”, como a própria supunha (Chrysanthème, O Paiz, 1924).
 

  1. CRÔNCIAS DE CHRYSANTHÈME NO CORREIO PAULISTANO

Considerado por muitos autores como um gênero transgressor nos periódicos, a crônica torna-se o espaço ideal para que nossa autora escreva.  Concisa e cotidiana, a crônica permite ao seu autor opinar sobre fatos e eventos de modo breve e sem aprofundamento, já que sua matéria é a realidade social imediata. Sustentar uma crônica nos jornais naqueles dias indica que nossa autora possuia prestígio e proximidade com os centros de decisão editorial – no Correio Paulistano, como vimos, suas crônicas ocupavam espaço privilegiado, o que pode conotar também certa proteção dos paulistas. Por outro lado, o tom de suas críticas foi mitigado, seus temas foram reduzidos a alguns poucos e, no caso específico de 1930, ela recusa oferecer investidas mais contundentes quanto às questões políticas que atravessam o país.

O jornal Correio Paulistano, um períodico de grande circulação foi lançado em 26 de junho de 1854:

Primeiro diário da então província de São Paulo e o terceiro do Brasil, o Correio Paulistano, foi fundado pelo tipógrafo Joaquim Roberto de Azevedo Marques e circulou de 1854 a 1930, e depois, com intervalos, até 1963. Este jornal, que, ao ser lançado, prometeu total imparcialidade aos seus leitores, estava destinado a fazer história na imprensa paulista. (…) A partir de 1855, e em seguida a uma de suas numerosas crises financeiras, o Correio passou a atuar como órgão oficial de partidos políticos em troca de patrocínio, a despeito de sua promessa inicial de “oferecer uma Imprensa Livre”. (Arquivo Público do Estado de São Paulo).

Foi relativamente fácil oferecer imparcialidade naquele período, pois o ano de lançamento do jornal corresponde ao ano inicial da “Política de Conciliação” (1853-68), período em que liberais e conservadores se aliaram no governo. Por causa disto, afirma-se que a imprensa perdeu um pouco de sua força, que estava nos debates e contendas políticas. Contudo, como o Correio Paulistano apresentava-se como imprensa livre, quando os demais jornais eram mantidos como representação de grupos políticos[9]. Mas isto não durou. Os anos de maior prestígio do jornal correspondem aos anos de prestígio do PRP (Partido Republicano Paulista), para quem o jornal funciounou como orgão de divulgação oficial a partir de 1873, quando foi comprado por Leôncio de Carvalho.[10] Nesta linha, defendia o federalismo, que muito interessava aos paulistas:

Ainda nos tempos da Monarquia, o jornal foi um grande formador da opinião pública. Divulgou cartas do leitor na sua “seção livre”, participou da abolição da escravatura, lutou pela construção da Estrada de Ferro Santos⁄Jundiaí, e defendeu a Proclamação da República. Logo após tomar posse, em 1930, Getúlio Vargas ordenou o fechamento das instalações do jornal. Depois disso o Correio Paulistano permaneceu por quatro anos sem ser publicado. Ao retornar, manteve sua ligação, inclusive financeira, com o Partido Republicano Paulista, até 1955. A última publicação do periódico foi em 31 de julho de 1963 (Arquivo Público do Estado de São Paulo).
Chrysanthème trabalhou para o Correio Paulistano de 1920 a 1930. Em 1934, encontramos duas crônicas suas. Uma intitulada “Modas e modos”, publicada na página 5, na qual se não distingue uma temática específica, e uma segunda, “Vida moderna”, na página 10, que, sob o título genérico de “Página Feminina”, publica matérias sobre moda, decoração, comércio de sapatos etc. Definitivamente, o lugar de honra no jornal havia sido perdido.
As crônicas que analisamos no presente artigo foram escritas por uma mulher madura, entrando na casa dos 60 anos, em 1929. Embora este não seja o foco deste artigo, convém pontuar nossa percepção de uma sensível mudança no tom e no teor das críticas que profere no jornal Correio Paulistano, quando comparamos tais crônicas com aquelas escritas nos anos 1910, por exemplo.
Seu olhar acompanha o da oligarquia que, voltado para fora do país, empreende esforços para colocar o Brasil entre “as grandes nações”, ignorando quase sempre os demais estados e a população. Em nenhum dos artigos deste período, ela se ocupa das questões do povo. Ela escreve em paralelo também para o Jornal O Paiz, onde, entre 1914 e 1930, ininterruptamente, dedica-se à coluna A Semana. Mas neste jornal, ela aparece mais ousada. Na crônica escrita para a esta coluna no dia 29/09/1929, ela faz uma crítica à falta de apoio do governo aos estudantes de pouco poder aquisitivo. Também critica os outros jornais por noticiarem fatos policiais que chocam.  Já na crônica do dia 21/04/1929, ela fala da proximidade do dia dos encarcerados (28/04) relatando, após uma visita sua à penitenciária, as condições insalubres em que vivem os encarcerados, sem água e sem esgoto, e o fato de pessoas doentes dividirem os espaços com pessoas sãs. Chrysanthème faz uma súplica ao então presidente Washington Luiz para intervir na reforma das penitenciárias cariocas, assim como fez em São Paulo. No jornal Correio Paulistano, ela aparece mais comedida.
Na crônica intitulada “O Dia da Cidade”, publicada em 26/01/1930, no Correio Paulistano, ela conta aos paulistas sobre a derrubada do Morro do Castelo. Nele, lamenta que os brasileiros não preservem sua memória e história, resgata a importância “da colina” nas conquistas portuguesas, que contaram com o protagnismo dos índios – convencidos do acerto de lutar em prol dos portugueses na expulsão dos franceses –, lastima a demolição da igreja sede da Companhia de Jesus, e ignora, completamente, o despejo criminoso das famílias pobres que ali moravam, destacadamente, imigrantes portugueses e italianos, sem que lhes tivesse sido dada qualquer opção decente de moradia.[11]
Embora mantenha sua disposição para polêmicas, a Chrysanthème sexagenária, que acompanhou as bruscas e profundas mudanças pelas quais passou o mundo nos anos 1910 e 1920, inclusive, pela Grande Guerra, era católica fervorosa, ferrenha crítica dos modismos modernos e seu seus indicativos de etiqueta às mulheres possuíam um tom antiquado para sua época, mas que resistiu ao tempo e hoje constela na complexidade de questões que envolvem os debates feministas, como exploraremos adiante.
Nesses anos que aqui estudamos, 1929-1930, ela viveria ainda outros eventos de magnitude mundial e importância histórica profunda, como o crack da bolsa de Nova York, o crescimento das ideologias nazi-fascistas e a Revolução de 1930. As crônicas destes anos, neste jornal, nos apresentam uma escritora endurecida, nem mesmo o gosto pela ironia mantém o vigor de antes. Sua crítica agora é rascante e seu humor curto. Seu envolvimento com os eventos políticos assumem um sentido metafórico que exige mais sagacidade da autora e mais conhecimento da parte dos leitores de suas técnicas de escrita.
 
3.1     As Crônicas
As crônicas de Chrysanthème publicadas no jornal Correio Paulistano cumprem a função de apresentar aos paulistas o cotidiano da Capital Federal. Porta-voz do cotidiano fluminense, aos paulistas, quase sempre, ela maldiz a capital, apontando as falências da modernidade, os incômodos da rotina da cidade, os percalços que vão desde o clima à convivência com suas gentes. Quase sempre começa retratando a situação climática através de descrições sobre o estado do sol, do vento ou da chuva. Não é uma exaltação à exuberância da natureza da cidade, trata-se de um estilo de introdução ao qual recorre quase sempre; outras vezes, constitui uma forma de trazer a onipresença divina como testemunha dos eventos por entre o céu, o firmamento, o horizonte. Nas crônicas intituladas “Canícula” e “Canto da chuva em Petropólis”, publicadas respectivamente em 26/01/1930 e 05/02/1930, a autora mostra, na primeira, como o calor da capital e a movimentação de suas gentes torna-a insuportável e, na segunda, conta como é confortável e diferente a chuva da cidade serrana se comparada a chuva das metrópolis, pois “Em Petropólis, a chuva é símbolo de frescura, limpeza e poesia”.[12]
Até o início de 1930, a autora ainda ensaia investidas nos assuntos políticos, sempre em defesa das instituições republicanas, do governo e seu sucessor, acusando a oposição de “inveja e despeito contra o belo estado de São Paulo”[13], de traição, de mentir e enganar o povo com promessas que jamais poderá cumprir. Para responder aos ataques da Aliança Liberal, em diferentes crônicas conclama o mais puro civismo e patriotismo, especialmente às mulheres, para que se possa continuar na ordem e na paz que o governo do “glorioso governo do Dr. Washington Luis”[14] impigiu ao país, além de tudo fazer para que o Brasil pudesse figurar entre as grandes nações. Ao longo do ano de 1929 e ainda no início do 1930, ela arriscava crônicas com algumas investidas sobre a situação política do país, como na crônica “Opinião de mulher”, publicada em 19/02/1930, na qual comenta o atentado sofrido pelo vice-presidente em Montes Claros, Minas Gerais, por ocasião da campanha presidencial. Ela ataca ferozmente a oposição, a quem acusa de ultrapassar “os limites da educação e da lógica” recorrendo a “pedras e balas que ferem e matam” e, como sugere o título da crônica, opina:
Se as mulheres, no Brasil, ainda não têm direito ao voto, elas possuem – pelo menos as que escrevem – direito a emitir sua opinião sobre um fato que manchou o caráter nacional, dando à luta política uma forma negra e lamentável de covardia resguardada e protegida  (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 19/02/1930, p. 2).
Convém mencionar que o evento de Montes Claros contou com a participação ativa de D. Tuburtina Andrade Alves, esposa de João Alves, aliancista e organizadora, junto com este, do evento de campanha em que o atentado ocorreu. Tuburtina recebeu grande atenção na imprensa, tendo sido acusada de mandante do atentado. Sobre ela, Chrysanthème nada disse. Na crônica seguinte, do dia 22/02/1930, intitulada “O crime passional”, ela comenta as declarações do psiquiatra Henrique Roxo quanto à insanidade momentânea que por vezes acomete os criminosos passionais e ao fato de este tipo de crime ser mais individual do que social. Discordando do “sábio Dr.”, afirma que “ninguém mais admite a contrariedade e a dor como se estes não fizessem parte integrante de toda existência humana” e que o criminoso é escravo do ambiente onde respira e imitador do semelhante. E pergunta: “Qual a profilaxia a usar nessa época de atentados, ditos, passionais, e tornados tão banais que jamais espantam?” e conclui, adiante: “E nessas horas de rebelião às vontades de Deus, o mal e a dor humanos aumentam todo dia como nocivas sementes jogadas por eles no seio maldito de uma terra sem Messias”.
Esse tom de incredulidade perante as atitudes de uma gente que não segue os mandamentos católicos atravessa as crônicas dos anos estudados. Mas sua defesa da Igreja vai além da adoção de uma compreensão dos fatos pelo viés religioso. Ela faz propaganda da Igreja. Suas crônicas pontuam as festas religiosas: carnaval, quaresma, semana santa, natal e dias santos, além de dedicar crônicas às personagens santificadas. Divulga livros de escritores católicos e defende a Igreja das críticas, como na crônica do dia 26/03/1930, “A Igreja e as modas”, na qual defende os padres por repreenderem as mulheres que não se vestem adequadamente para ir à missa, condenando os excessos modernos e “a moda feminina tão abusiva e excêntrica”, que deixa à mostra pernas e braços de mulheres e meninas. Diz tratar-se de uma “crise de caráter” e conclui afirmando que as mulheres estão confundindo “o esporte, a higiene e a saúde com excessos de maneiras livres”.
Além da defesa da Igreja e da oligarquia paulista, condena as novidades que põem em risco a família. Na crônica “Os soi disant perigos do feminismo na Inglaterra e alhures”, de 11/01/1929, onde comenta uma carta encaminhada à agência americana, onde Peter Street lamenta os rumos e os caminhos trilhados pelas mulheres inglesas, que não se contentam em desafiar os homens pregando a igualdade com ele, mas ainda ridiculariza o casamento e a sua concepção. E finaliza: “e a mulher, aqui, ao contrário da inglesa, combate os homens e os casamentos de palavras, mas ama os primeiros subservientemente e realiza os segundos… inconscientemente…”.
De fato, mesmo considerando suas ousadias n’O Paiz, Chrysanthème mudou ao longo dos anos. Como já mencionamos neste artigo, as crônicas desta autora no periódico e no período sob estudo, em nada lembram a autora de outras épocas. Veja-se o exemplo do trecho de um artigo da autora falando sobre a situação das mulheres na sociedade:
(…) gritam os homens, no seu patriotismo de cinema (…), que nós, mulheres, nada temos que ver com esses acontecimentos sérios do mundo e que o nosso papel na vida é preparar-lhes xícaras de camomila (…), talvez assim fosse há alguns anos passados; agora, entretanto, em todas as partes da Europa, a mulher venceu o homem, pela sua energia no trabalho (jornal O PAIZ, Palestra Feminina, A Paz, 30/06/1919, p. 4).
 
E esta outra crônica, intitulada “Ainda e sempre os Concursos de Beleza”, publicada no Correio Paulistano, onze anos depois:
Tudo o que a mulher atual alcançou de prerrogativas e de privilégios termina e esbarra numa linha: a sua feminilidade, que põe restrições a certos exageros, a excessivas originalidades. Entre a xícara de camomila que ela não mais quer preparar para o marido e o “maillot sem mangas”, há uma determinada estação em que ela deve parar e refletir. (Chrysanthème, Correio Paulistano, 13/03/1930, p. 4).
A despeito do que disse no artigo d’O Paiz, acima, ela antagonizou com as lutas feministas do início do século, como o encetado pelo grupo de Berta Lutz[15], além de outras feministas da época[16]. Lima Barreto, com quem também antagonizou, afirma, que ela queria “a plena liberdade do seu coração e dos seus afetos para as mulheres”[17], uma espécie de liberdade emocional que a livraria dos martírios do amor, seu principal infortúnio. Tal aspecto parece ter sido preservado entre as crenças da autora, pois em outra crônica do Correio Paulistano, intitulada “Onde está a felicidade?”, de 26/04/1930, ela afirma que “felicidade para as mulheres é o amor. Sem ele, muda de nome”. Apesar do tom “libertário” de outra ou da denotação “libertina” que dá no avançado da idade à ideia da ausência de controle da mulher sobre os próprios sentimentos, persiste a vontade de poder da mulher sobre si própria.
A linha tênue que Chrysanthème sugere às mulheres não ultrapassarem, constitui o núcleo do seu argumento acerca da condição e do papel da mulher na sociedade em que vive. Segundo ela, as mulheres estão sendo vítimas das liberalidades frouxas da modernidade, que em nada ajudam na formação da mulher moderna. Antes, lhe têm feito perder o rumo da elegância, decência e do caráter. A autora é muito rígida com relação às mulheres, não lhes perdoando vulgaridades e inconsciência quanto às implicações de suas atitudes.
Tema recorrente entre suas crônicas, os concursos de beleza merecem atenção especial. Percebemos em suas avaliações sobre os concursos de beleza um tom de ponderação necessário e um contraponto sensato à euforia pouco lúcida que envolvia as argumentações daquelas que promoviam tais eventos. A defesa do que considera feminino ao invés da filiação ao chamado feminismo, revela uma concepção do papel da mulher moderna conservador para os seus dias, mas que está presente hoje na articulação dos valores organizadores da educação das mulheres. Na crônica “Como na Grécia Antiga…” de 25/04/1929, ela afirma que a única superioridade alcançada pela mulher brasileira, à semelhança, da Grécia, era a da beleza, enquanto as mulheres de outros países já eram ministras e governadoras. Na crônica do ano seguinte, publicada em 13/03/1930, “Ainda e sempre os Concursos de Beleza” ela declara novamente porque é contrária aos concursos: “certames pejorativos para o sexo de delicadeza e pudor que é o nosso”, pois considera indecorosa e aviltante a exposição das mulheres nestes concursos ao julgamento público: “Para as donzelas familiares, para aquelas que são educadas a fim de serem esposas e mães, essas superioridades esgazeadas não convém de maneira alguma”.  E respondendo às organizadores que se defendem das críticas alegando inveja e  despeito, responde:
Sem cair no feminismo enragé que tantos lares tem destruído e desgraças tem causado, glorifico a dma que trabalha, que auxilia a sua família na dura luta pelo pão cotidiano, mas combato continuamente aquela que, mesmo nessa conquista, tenta igualar-se ao homem que ela menospreza, esquecendo a missão para que foi criada (CORREIO PAULISTANO, 13/04/1930, p. 4).
 
Quando fala de educação, fala de condutas numa perspectiva moral. Sua única crônica do ano de 1930 que toca no tema da educação escolar, comemora o retorno do ensino religioso às escolas, mas o tom metáforico deixa ver uma melancólica ironia pela derrubada da oligarquia paulista. Sob o título de “Therezinha, a Eleita!”, este foi último artigo da cronista no ano de 1930, publicado no dia 03/10/1930, quando já marchavam, rumo à capital, os tenentes vindos do Rio Grande do Sul para tomar o poder, entre eles Getúlio Vargas. Em sua curta crônica da 01 de março de 1930, dia das eleições presidenciais, intitulada “As Urnas”, ela conclama as mulheres, que não podiam votar, a se fazerem presentes no coração e na mente dos homens, guiando-os ao acertado voto em Júlio Prestes, esse homem que “conserva a mentalidade e o espírito que fazem desses homens os chefes indispensáveis” e continua:
Na hora exata, no momento preciso, lá estaremos em mente, e justo às urnas, como o coração repleto de patriotismo, sugestioraremos esse nosso povo, uma mínima parte, felizmente, si abrasada pelas frases retóricas da Aliança – do que ele deve fazer para que a Pátria o reconheça como o seu salvador e o seu servo útil e devotado. Às urnas, pois senhoras, pelo coração e pelo patriotismo, auxiliando o nosso irmão na escolha do homem que nos defenderá do mal e do maligno (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 01/03/1930, p. 2).
 
Sem questionar o fato de as mulheres não poderem votar, ela não reivindica esta pauta ao governo. Somente encontra um meio de afirmar que as mulheres, mesmo impossibilitadas de chegarem às urnas, ainda têm poder para intervir no destino do país como mães e esposas:
As mulheres, esses espíritos guiadores e que a Natureza dotou de sugestão poderosa cabe agora demonstrar aos homens, qual a segura e verdadeira estrada a seguir, o leme a obedecer, a luz a vislumbrar.(…). E embora sentimentaes e poéticas, elas compreendem melhor a gratidão, o reconhecimento e o que se deve a um governo que lhes deu paz, nos lares, a harmonia no existir, a garantia no porvir. Elas não são eleitoras, mas sempre, em todos os tempos, as damas, em segredo ou às claras, conduziram os seus companheiros à vitória, tendo melhor do que eles a compreensão do judicioso, do bem e do indispensável. (Chrysanthème, Correio Paulistano, 01/03/1930).
 
Chrysanthème assumiu um caráter responsável e compreensivo sobre as questões da mulher, de sua profissionalização, saúde, família, valores. Sempre advogando pela melhoria de sua condição, desde que considerada a diferença que guarda com relação ao homem tanto biológica, quanto político-cultural. A educação feminina e sua profissionalização era um dos temas principais de que Chrysanthème se ocupava, pois, para ela um dos caminhos mais promissores para a mulher alcançar a sua libertação era o mercado de trabalho, mas nega que isto seja uma postura feminista, conforme afirma na crônica “O trabalho feminino ou o credo moderno”, de 24/07/1930: “não dou o título de feminismo a essa natural e necessária disposição das damas modernas, porquanto, os tempos mudaram, e elas tiveram que mudar com eles”. Para ela, o trabalho é um antídoto contra a preguiça, os vícios, a ociosidade e enervações mórbidas. Adiante afirma:
Sou adepta da lei bolchevista que ao ente que nada produz e que em nada contribui para o bem da sociedade de que faz parte, o direito de viver, visto como ele sempre será um corpo morto a impedir o luminosos desenvolvimento dos outros entes (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 24/07/1930, p. 3).
 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Madame Chrysanthème que escreve no Correio Paulistano nos anos 1929 e 1930 é diferente daquela que acompanhamos nos anos 1910 no jornal O Paiz. Comedida nas polêmicas e provocações, católica fervorosa, ela se torna, a partir de meados do ano de 1930, indiferente aos dilemas políticos que vivia a sociedade, em suas crônicas neste jornal. Em seu papel de quadro ideológico do PRP, atuava com função formadora das mulheres leitoras do jornal, investindo na defesa da família, da tradição e dos proprietários paulistas. Seletiva quanto à modernidade, criticava o que julgava inadequado às mulheres e lhe corrompia a essência delicada, pois defendia a desigualdade essencial entre homens e mulheres, sem que isto implicasse em subordinação destas àqueles.
Em plena efervescência dos debates em torno da institucionalização do voto feminino, suas crônicas defendem a mulher que trabalha para conquistar sua autonomia, sem abandonar sua missão nobre de mãe e esposa, sem se deixar perverter pelas falsidades do modernismo, que ela tanto criticava, contornando aquele impedimento como se fosse dificuldade menor.
Chrysanthème negocia com a oligarquia até onde pôde e pagou o preço. De fins de outubro de 1930 até outubro de 1933, ela não escreveu para jornal algum e nem publicou qualquer romance.
 

  1. BIBLIOGRAFIA

Arquivo Público do Estado de São Paulo.
In: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoria/pginterna.php?jornal=cp.
Bakhtin, M. (2011). Estética da Criação Verbal. 6ed. São Paulo: WMF Martins Fontes.
Coelho, N. N. (2001). Dicionário crítico de escritoras brasileiras. Rio de Janeiro: Saraiva.
Crhysanthème, Mme. Crônicas diversas. Jornal Correio Paulistano, 1929-1930.
Elias, N. (1995). Mozart. Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: J. Zahar.
Lopes, Maria Margaret. Proeminência na mídia, reputação em ciências: a construção de uma feminista paradigmática e cientista normal no Museu Nacional do Rio de Janeiro, Revista História, Ciências, Saúde, Rio de Janeiro, Manguinhos, v.15, suplemento, jun. 2008: p.73-95.
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Paixão, CMQ. A reforma urbana e os moradores do morro do Castelo: estratégias e disputas de populares no Rio De Janeiro (1904-1922), Anais do XII Encontro Regional de História ANPUH-RJ, 2006. Disponível em:
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Rosso, M. Dueto em torno da mulher: Machado e Lima, Germina – Revista de Literatura & Arte. Março, 2014. Disponível em:
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Silva, M. L.; Moreira, H. M. A.; Vieira, L. M. C. (2015). Movimento feminista e educação no “Manual” História de São Paulo, de Mme. Chrysanthème: feminismo, feminino e feminice no final da Belle Époque brasileira. Trabalho apresentado no VII Seminário Internacional As Redes Educativas e as Tecnologias: Movimentos Sociais e Educação. Rio de Janeiro, Brasil. Disponível em:
http://www.seminarioredes.com.br/adm/diagramados/TR121.pdf. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Sobral. A. Ato/atividade e evento. In: Brait, B. Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2013. p. 11-36.
Thalassa,  Ângela. Correio Paulistano: O primeiro diário de São Paulo e a cobertura da Semana de Arte Moderna. PUC-São Paulo, 2007. Dissertação de Mestrado. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/cp029341.pdf.
NOTAS AO TEXTO
 
[1] SILVA, M. L.; Moreira H.M.A,;Vieira, L. M. C.  Movimento Feminista e Educação no “manual” História de São Paulo, de Mme. Chrysanthèe. Trabalho apresentado no VIII Seminário Internacional As Redes Educativas e as Novas Tecnologias- Movimentos Sociais e Educação – UERJ – De 08 a 11 de junho de 2015.
[2] Sobral, A. 2013, p. 21-5.
[3] A aposentadoria como a conhecemos hoje tem uma história muito recente no mundo. No Brasil, os fundos de pensões privados e montepios nasceram antes do estatal, graças às iniciativas dos trabalhadores. No que diz respeito ao funcionalismo público, os funcionários dos Correios foram os primeiros a terem este benefício, através da organização do Fundo de Pensão da categoria, ainda no século XIX. Somente a partir de 1923, com a Lei Elói Chaves, este benefício foi estendido às outras categorias – são os primeiros passos da Previdência Social. In: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/30344-31376-1-PB.pdf
[4] Pinto, MLM. 2006.
[5] Pinto, MLM. 2006.
[6]  Este ponto foi comentado no texto “Diálogo sobre a mulher entre Madame Chrysanthème e Afrânio Peixoto na década de 1930 – fronteiras”. Revista Educação/Unisinos, 2016.
[7] Por alguns títulos de seus romances, tais como Flores modernas (1921); Enervada (1922); Gritos femininos (1922); Uma paixão (1923); Memórias de um patife aposentado (1924); Mãe (1924); Vícios modernos (1926) Almas em desordem (1928); entre outros, pode se observar o caminho escolhido pela autora para conduzir a suas questões sobre a mulher e o feminino.  Mas Madame Chrysanthème escreveu literatura infantil – Contos para crianças (1906) e Contos azuis (1910), além dos romances históricos e manuais pedagógicos – História de São Paulo (1926); Minha terra e sua gente (1929); e A infanta Carlota Joaquina (1937).
[8] Pinto, MLM. 2006 p.113 – Memória de autoria feminina nas primeiras décadas do século XX: a emergência da obra periodística de Chrysanthème.
[9] Thalassa, A. 2007, p. 12-14.
[10]http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CORREIO%20PAULISTANO.pdf
[11] Claudia Miriam Quelhas Paixão informa: “Um documento da Coleção Carlos Sampaio no IHGB, indica que em setembro de 1921 havia no morro do Castelo 408 prédios onde habitavam 4200 pessoas”. Sobre o destino da população afirma que seus moradores foram expulsos para barracões na Praça da Bandeira, construídos de improvisos e sem infraestrutura alguma. (Anais ANPUH-Rio,2006).
[12] “Canto da Chuva em Petrópolis”, Correio Paulistano, 05/02/1930, p. 2.
[13] “Lições de Civismo”, Correio Paulistano, 21/03/1930, p. 3.
[14]  “A Gratidão da Pátria”, Correio Paulistano, 21/08/1930, p. 3.
[15]  A luta das mulheres pelo direito ao voto ganha força com a chegada do exterior da bióloga Bertha Lutz. Ela foi uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que fez campanha pública pelo voto, tendo inclusive levado, em 1927, um abaixo-assinado ao Senado, pedindo a aprovação do Projeto de Lei, de autoria do Senador Juvenal Larmartine, que dava o direito de voto às mulheres. Direito este que foi conquistado em 1932, quando promulgado o Novo Código Eleitoral brasileiro. Fonte: Pinto, C.R.J. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v.18, n.36, p. 15-23, jun. 2010
[16]  Lopes, MM. 2008, p. 79.
[17]  Rosso, M. 2014.





Bio fornecida pelo palestrante.

VIOLETTE LEDUC: A AUTORA DESERTO – Naná DeLuca




   VIOLETTE LEDUC: A AUTORA DESERTO
 

Naná DeLuca

Universidade de São Paulo

 
Resumo: Em sua trilogia autobiográfica, Violette Leduc desestabiliza as fronteiras entre o ficcional e a escrita de si. Para além disso, percorrem por toda a sua obra problemáticas ligadas ao gênero e às sexualidades, categorias com as quais entra em conflito constante. O presente artigo, à luz dos estudos feministas, propõe uma análise da obra de Leduc que parte das desestabilizações literárias para investigar os corpos e gêneros inscritos em seus textos, bem como as relações firmadas entre as duas esferas.
 
Palavras-chave: Violette Leduc, literatura francesa, crítica feminista, estudos de gênero
 
Abstract: Violette Leduc’s autobiographical trilogy disturbs the border between fiction and the writing on the self. Questions on gender and sexual categories traverse all of Leduc’s  work in a conflicted manner. This article proposes, in the light of gender and feminist studies, to analyse Leduc’s literary project and to take into consideration these instabilities in order to investigate the bodies and genders incorporated in her texts, as well as the relation built between them.
 
Keywords: Violette Leduc, french literature, feminist criticism, gender studies
 
Minicurrículo: Possui graduação em Letras Português/Francês pela Universidade de São Paulo. Realizou duas pesquisas de iniciação científica que se concentraram no estudo das autobiografias francesas escritas por mulheres. Atualmente, é mestranda da área de Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês, da Universidade de São Paulo, desenvolvendo uma dissertação sobre a obra autobiográfica de Violette Leduc.
 
 


 
VIOLETTE LEDUC: A AUTORA DESERTO
 
Naná DeLuca
Universidade de São Paulo
 
O deserto, os monólogos
Violette Leduc, em correspondência com Simone de Beauvoir, afirmou: “eu é um deserto que monologa (LEDUC, 2007, p. 207).  Sua trajetória enquanto escritora, iniciada ao fim da Segunda Guerra Mundial com o romance L’Asphyxie, é narrada em sua trilogia autobiográfica, cujo primeiro tomo, La Bâtarde, foi seu livro de maior repercussão crítica e de público, narrando a vida desde a infância até o término da guerra em 1945. La folie en tête e La chasse à l’amour são os outros tomos da trilogia, sendo o último de publicação póstuma. Tal como linha e agulha que costuram retalhos a fim de torná-los um conjunto único, a trilogia autobiográfica cita, reescreve e revisa os romances publicados anteriormente, tomando-os para si. A narradora personagem autobiográfica, Violette, afirma-se recorrentemente enquanto autora, complementando e desdobrando os romances L’Asphyxie, Ravages, L’Affamée e, em alguma medida, problematizando a própria escrita de si. Como um deserto que se expande, desertificando tudo ao redor, a trilogia marca estes romances anteriores como partes integrantes, e os desloca de sua posição inicial – ficção. Em La Bâtarde, por exemplo, de súbito a narrativa é interrompida e a narradora afirma que agora, enquanto personagem, irá encontrar o homem com quem mais tarde se casaria:
Arcanjo, fui injusta com você em Ravages. É um romance, nosso romance, é romanceado. Arcanjo, logo você terá sessenta anos. Arcanjo, eu não acredito que você roubava dos cofres das igrejas. Espero que me odeie. Pode odiar, você foi imperfeito (LEDUC, 1964, p. 133).
 
Gabriel, o personagem da autobiografia, é assim revelado enquanto Marc, o personagem de Ravages. Estes momentos de ruptura demarcam não só este deslocamento dos romances enquanto também autobiográficos, mas momentos de revisão – fui injusta com você – e pequenos postulados sobre o próprio processo criativo. Afinal, Ravages fora romanceado. Ainda adiante:
Ceder… Ceder, que significa isso de ceder?  Não tornar a ver o sangue, engordar até uma criança saia de dentro de você, caia na sarjeta com você. Após tal lição, seria impossível o erro, eu estava prevenida. Minha mãe tinha-se superado em coragem, em energia, em magnanimidade, quando deixou a casa de André. Não perdoava os homens o que fizera por um só. Aliás, já me referi a isso de outro jeito em Ravages e L’Asphyxie. Misturei verdade com romance (LEDUC, 1964, p. 15).
Mais uma vez ocorre a citação explícita dos romances publicados como ficcionais, e reafirma-se as autobiografias enquanto um processo de reescrita destes. Ao embutir os romances em suas narrativas autobiográficas, coloca-os em patamar ambíguo; lá – na ficção – se misturou a verdade com o romance, cá – na autobiografia – fala-se a verdade pura. E, no entanto, os episódios narrados são similares. A narradora dá, assim, as chaves de leitura com as quais se devem adentrar sua obra, alterando aquela inicialmente proposta para os romances. Desta forma, esta trilogia está no centro da teia que é o complexo projeto literário de Leduc, proporcionando passeios pela vida da escritora, sem jamais perder de vista sua vida de escritora, atuando como uma revisitação deste percurso. A narradora-autora convida sem cerimônias seu leitor a percorrer este trajeto; estendendo a ele abertamente a mão: “Leitor, siga-me. Leitor, caio a seus pés para que me siga” (LEDUC, 1964, p. 229). Se ler a obra de Violette Leduc é atravessar o deserto, esta travessia não é feita em solidão; a voz autoral ecoa daquela que escreve para aquele que a lê.
As imagens unidas por Leduc para falar de sua autoria, o deserto e o monólogo, são um ponto de partida para pensar as problemáticas presentes em sua obra. A primeira relação possível entre ambas está na ideia da solidão e do isolamento – o deserto é uma extensa área inóspita, onde sobrevivem poucas formas de vida e que, de alguma maneira, replica infinitamente a si mesmo: não há nada no deserto senão o próprio deserto. O monólogo, por sua vez, é o ato discursivo que não possui um interlocutor direto ou explícito e é associado à introspectividade. Assim, é possível pensar que Leduc enxerga sua literatura como um deserto que é somente a si mesmo e que fala somente de si: seus escritos seriam a resposta para a pergunta O que falaria o deserto se falasse sobre o deserto?
Este deserto monologante, contudo, não escapa às contradições. O segundo livro publicado por Leduc, L’Affamée, narra a paixão da narradora, nomeada somente pelo pronome Eu Je – por aquela que chama somente Madame ou Ela-Elle. Sobre isso, a crítica Mireille Brioude afirma: “O verdadeiro paradoxo de L’Affamée não reside, portanto, no fato de que o pronome “ela” é a máscara de Simone de Beauvoir – isto não foi segredo para ninguém desde a aparição do livro – mas no fato de que o pronome ‘eu’ é o signo de uma enunciação obcecada por si mesma” (BRIOUDE, 2000, p.55).
L’affamée possui, assim, um stAatus flutuante: embora não possa ser chamado de autobiografia em termos estritos ou formais, como sublinha Brioude, não foi lido em nenhum momento como ficcional. A crítica Catherine Viollet, ao construir uma tabela1 na qual classificou e organizou a obra de Leduc em relação ao período biográfico e o gênero de cada livro, não classificou L’Affamée nem como autobiografia, nem como romance e tampouco como ficção; sublinha somente que o texto trata da paixão por Simone de Beauvoir. Esta ideia do eu obcecado por si mesmo, no entanto, corresponde com a imagem do deserto monologante. Há, contudo, a criação de um paradoxo: em L’Affamée, a narradora não se limita a monologar sobre sua paixão, mas abre, em diversos momentos, diálogos com Madame:
Deixe-me chama-la [lhe chamar] Madame no papel… O respeito me embriaga. O respeito é um velho cassis. (…) Acabo de te deixar. Como estava desfigurada neste café provisório, já que seu café habitual está fechado. Talvez esperasse alguém (…). Não quero que espere. Tudo deve estar pronto para você (LEDUC, 1948, p. 56).
 
No caso de La Bâtarde, por exemplo, a postura de diálogo com o leitor perpassa toda a narrativa, dando força à voz da escritora que não se deixa parecer ausente de seu texto e indo contra a própria ideia do monólogo. Contudo, também elucida a presença deste leitor no vácuo que Leduc cria entre ela que escreve e aquele que a lê. Em meio ao relato que se centra, sobretudo, no abandono e isolamento da personagem e narradora, Violette, por parte daqueles que a cercam – a mãe, a avó, as amantes, o marido, o amigo, todos estes que possuem em La Bâtarde aurora e crepúsculo, partindo e deixando sós narradora com narrativa – a autora Leduc estabelece forte relação com seu leitor, o único personagem que permanece, do encontro inicial “Meu caso não é único: tenho medo de morrer e estou aflita por estar no mundo” ao desértico desfecho  “É fogo que a solidão pousa em minha boca.”. É esta frase final que afirma o absoluto isolamento enquanto importante condutor e que traz à luz o leitor enquanto antítese da solidão, pois é o leitor e somente ele que está ao término do relato. Ora, se o caso de Violette não é único, existem, então, outros desertos que têm medo de morrer e aflição de estar, contrariando a ideia de singularidade e isolamento proposta pela imagem do deserto que elegeu.
Em diversos momentos da narrativa, a narradora anula o tempo (BEAUVOIR, 1986, p. 29) dedicando-se a escrever sobre o ato de estar escrevendo aquilo que se lê: por vezes, descreve onde está, seu caderno, sua posição, a caneta que usa para desenhar palavras no papel quadriculado, o sol ou as nuvens sobre sua cabeça, em outros momentos concisamente explicita o próprio ato da criação literária que sabe estar fazendo: “Meu Deus, fazei com que eu escreva uma bela frase, uma só” (LEDUC, 1964, p. 29). Há, portanto, um eu extremamente ativo na escrita de Leduc, que não se limita a realizar o movimento de retorno autobiográfico, mas que se faz ecoar e notar enquanto integrante do tempo presente:
Súbito ela compreendeu que a criação literária poderia ser-lhe a salvação. “Escreverei, abrirei os braços, abraçarei as árvores frutíferas, vou dá-las a minha folha de papel”. Falar a um morto, a surdos, a coisa, é um jogo duro. O leitor cumpre a síntese impossível da ausência e da presença. “O mês de agosto hoje, leitor, é uma rosácea de calor. Eu a ofereço a você, de presente”. Ele recebe tal presente sem alterar a solidão do autor. Escuta seu monólogo, não o escuta, mas o justifica (BEAUVOIR, 1986, p. 6).
 
O presente oferecido ao leitor é, de fato, o reconhecimento da narradora da presença deste leitor, que está ali, em La Bâtarde. Leduc não procura disfarçar-se ou esconder-se entre suas linhas, ao contrário, firma-se incessantemente como dona de sua voz, como escritora de seus escritos; autora.
A palavra autora não está aqui sendo usada levianamente ou sem levar em consideração as discussões sobre este conceito que surgiram nos anos 1970, notadamente com os textos A morte do autor, de Roland Barthes, e a conferência O que é o autor? de Michel Foucault, posteriormente publicada na forma texto. O impasse oriundo da discussão crítica e teórica sobre o que seria a noção de autor (e, considerando Barthes, se sequer haveria uma noção de autoria ainda a ser discutida) e a proposta barthesiana de que a crítica não mais deveria centrar-se no chamado autor, mas naquele que o recebe, o leitor2 torna-se ainda mais complexa se sobre ela nos inclinarmos pela lente das questões de gênero e produção literária. Quando se fala em autoria feminina estamos também falando da condição da mulher enquanto Sujeito na sociedade, ou seja, de sua capacidade (bem como viabilidade) de produzir e criar em um mundo regido pelas desigualdades de gênero no qual certeiramente está em desvantagem e do qual foi fatalmente excluída ao longo da História.  A mulher ocupou, ao longo de séculos, somente os ambientes privados da família e teve por muito tempo seu acesso negado à educação básica, tornando sua participação na cultura não só eventual como frequentemente ignorada pela justificativa de que trata-se de uma mulher3. Devido a um estudo sobre a (não) participação da mulher na literatura, após coletar uma diversa bibliografia em que homens falavam sobre mulheres, Virginia Woolf escreve:
Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. (…) Eis porque tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se.  Isso serve para explicar, em parte, a indispensável necessidade que as mulheres tão frequentemente representam para os homens. E serve para explicar o quanto se inquietam ante a crítica que elas lhes fazem, o quanto impossível é para a mulher dizer-lhes que esse livro é ruim, este quadro é fraco, ou seja lá o que for, sem magoar muito mais e despertar muito mais raiva do que um homem formulando a mesma crítica. É que, quando ela começa a falar a verdade, o vulto no espelho encolhe, sua aptidão para a vida diminui (WOOLF, 1985, p. 48-49).
 
Mais adiante, os argumentos posteriores à Woolf elaborados por Simone de Beauvoir no livro O segundo sexo elucidam ainda mais intensamente a desigualdade de gênero:
Os antifeministas extraem da história dois argumentos contraditórios: 1º) as mulheres jamais criaram alguma coisa de grande; 2º) a situação da mulher jamais impediu o aparecimento de grandes personalidades femininas. Tais afirmações são eivadas de má-fé; os êxitos de algumas privilegiadas não compensam nem desculpam o rebaixamento sistemático do nível coletivo; e o fato de serem esses êxitos raros e limitados prova precisamente que as circunstâncias lhes são desfavoráveis. Como o sustentaram Christine de Pisam, Poulain de la Barre, Condorcet, Stuart Mill, Stendhal, a mulher nunca teve suas possibilidades em nenhum terreno. Eis porque reclamam elas hoje, em grande número, um novo estatuto; e, mais uma vez, sua reivindicação não consiste em serem exaltadas em sua feminilidade; elas querem que em si próprias, como no resto da humanidade, a transcendência supere a imanência. Elas querem que lhes sejam concedidos, enfim, os direitos abstratos e as possibilidades concretas, sem a conjugação das quais a liberdade não passa de mistificação. (…) A História mostrou-nos que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter a mulher em um estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como o Outro (BEAUVOIR, 1997, p. 172-179).
 
Dessa forma, quando discutimos autoria feminina não estamos somente discutindo o conceito autor tal como visto pela teoria literária. Mesmo que se pense nas definições foucaultianas em que falar sobre autoria4 diz respeito marcadamente a uma função social e discursiva, esta função operaria de maneiras muito distintas para a autoria feminina, já que sua produção representa uma conquista ao mesmo tempo histórica, social e cultural. De alguma maneira, para a teoria literária feminista, matar o autor (ou não mais se voltar a ele criticamente) é um luxo que ainda não pode ser dado, tendo em vista o imenso retardo da produção literária e teórica de mulheres acerca de mulheres. A autoria feminina se mostra fenômeno recente em termos diacrônicos, não podendo ser ainda extinta para que se pensem as intersecções entre mulher e literatura. A proposta de Elaine Showalter, fundadora da chamada ginocrítica, exibe esta cisão entre a teoria literária feminista e a própria teoria literária; seria preciso primeiro “o estudo das mulheres enquanto escritoras, e seu foco [da ginocrítica] são a história, estilos, temas, gêneros e estruturas de escrita de mulheres; a psicodinâmica da criatividade feminina; a trajetória individual ou coletiva da carreira da mulher; e a evolução e leis da tradição literária feminina” (SHOWALTER, 1986, p. 248). Embora esta diferenciação possa parecer radical, ela se faz necessária para que haja um resgate e, em alguma medida, um realce, daquilo que foi escrito por mulheres. Sobre isto, a teórica feminista brasileira Sylvia Paixão, escreve que não é possível tratar das relações de gênero na literatura sem antes abordar a questão do cânone literário, tendo em mente as relações de poder que resultam na construção de um cânone, onde indivíduos detentores deste poder dão ou tiram valor literário de um texto (PAIXÃO, 1997). Neste sentido, dada a posição de inferioridade social da mulher, a autoria feminina foi sumariamente excluída quando não ignorada e, tendo isto em vista, a construção desta voz autoral nos escritos autobiográficos de Violette Leduc ganha força, ao mesmo tempo que literária, também política:
Tendo roubado o lugar e a pulsão dos homens, ela se torna o único verdadeiro homem; ela se fantasia com o poder procriador masculino. Falando da escrita, Leduc se descreve tal como um deus criando um mundo (EVANS, 1982, p. 28-92).
 
Leduc assume, assim, o papel de Sujeito reservado ao homem socialmente. Lembrando da análise de Gilbert e Gubar, que apontam a caneta do escritor enquanto um falo, já que foi o homem colocado como único ser detentor do poder da criação, a narradora autobiográfica de Violette Leduc subverte esta lógica, por exemplo, quando afirma:
Escrever. O amor e depois o amor. Eu me curvava, eu me endireito: meu desejo de escrever melhor. Se você soubesse o quanto me falta a seriedade quando me aplico, quando me pego. Eu faço malabarismo com os achados. Meu caderno fechado, me acuso de viver. Morrer escrevendo. O estilo. O hermetismo do estilo. A clareza do estilo. As liberdades de um estilo. Lhe dar minha pele, ao estilo. Escrevo, não tenho futuro, abandono-me na página de meu caderno (LEDUC, 1970, p. 166).
 
O que quero realçar é a maneira como Leduc atenta, sobretudo, para seu processo de criação e não para a criação em si; um está embutido no outro. Não coloca-se, assim, como um criador onipotente, mas exibe as fragilidades e impasses em sua escrita; o ofício passa, assim, a ser também personagem de sua trilogia autobiográfica, sendo seus livros não somente o resultado de um processo de criação, mas o relato deste processo. Vida e escrita estão interligadas de maneira indissociável: as autobiografias demarcam a existência, pois o caderno da narradora a acusa de viver ao mesmo tempo em que compassam a vida que transcorre finita: ela quer morrer escrevendo. Quando cita conceitos críticos como estilo – seu hermetismo em oposição à sua clareza – também fala de imprimir nele sua pele, seu corpo; corpo este que não tem futuro, senão aquele presente no caderno. Corpo e texto são, assim, também inseparáveis.
 
O corpo do deserto
Em vida, Leduc conheceu a censura com a narrativa Ravages, desta foram excluídos o princípio, dedicado à narrativa do caso amoroso entre a narradora e Isabelle, uma colega de pensionato que é também personagem em La Bâtarde5. A supressão deste episódio foi a condição dada pela editora Gallimard para a publicação do romance. A narrativa autobiográfica La chasse à l’amour se inicia logo que Violette, a narradora personagem autora, tem Ravages censurado; este início é o relato da insanidade6 gerada pela ideia de ter cortado seu livro:
Chamava-se Ravages. Está morto, não é verdade? Diz-me ao ouvido. Chamavas-te Ravages, meu pobre pequeno. Eles separam-te de ti próprio, separam-me de ti. São tristezas que me atravessam a cabeça com movimentos ondulatórios. Não me curarei de nossa amputação (LEDUC, 1974, p. 18).
 
Violette sente ter seu texto censurado, cortado, como uma amputação – trata da questão como se tivesse uma parte de seu corpo retirada. Hélène Cixous, em O riso da medusa, elabora as relações entre texto e corpo quando falamos da autoria feminina. Para ela, que mulheres assumam o papel de escritoras está além da transição entre ser o Outro, o esquecido, para tornar-se Sujeito, aquele que rege; escrever simboliza uma retomada do corpo que antes não a ela pertencia. A cultura patriarcal realiza um trabalho sistemático de objetificação do corpo da mulher, que desde a infância é, sutil ou agressivamente (quando não ambos) ensinada de que seu corpo não é, de fato, seu, mas um objeto direcionado ao outro, que independe de sua vontade ou individualidade. Para Cixous, a mulher que se assuma dona de um discurso próprio e que afirma possuir uma voz a ser ouvida reivindica para si este corpo:
Individualmente, ao escrever a si mesma, mulheres irão retornar ao corpo que foi mais do que dela confiscado, que tornou-se o incomum estranho a mostra – o doente ou o morto, que tão frequentemente se revela ser o nefasto companheiro, a causa e lugar das inibições. Censurar o corpo é censurar respiração e discurso ao mesmo tempo (CIXOUS, 1998, p. 1.457).
 
Quando a narradora de La Bâtarde tem seu primeiro texto crítico publicado em uma pequena revista, exibe imenso fascínio pela ideia de ter sua assinatura estática junto à uma criação própria. Para além disso, seu foco se centra, sobretudo, em seus leitores potenciais, afirmando que saem comigo, passeiam comigo, me apertam no calor das axilas (LEDUC, 1964, p. 341). Há uma continuidade recorrentemente afirmada entre os textos da narradora autora e seu corpo. Contudo, esta relação entre texto/corpo e corpo/texto não se dá de maneira sempre harmônica. No prefácio escrito para La Bâtarde, Simone de Beauvoir afirma:
 
Nos diálogos que escreve transparece sua impossibilidade de se comunicar. Os interlocutores falam um junto ao outro e não conversam; cada qual tem uma linguagem própria, não se compreendem. (…) Sartre narra em As Palavras que, embebido pelo Littré, estas lhe apareciam como precárias encarnações do nome. Para Violette Leduc, ao contrário, a linguagem está nelas (nas coisas), e o escritor é que corre o risco de traí-las. “Não assassine esse calor no alto de uma árvore. As coisas falam sem você, contenha-se, sua voz poderá abafa-las” (BEAUVOIR, 1986, p. 3-7).
 
Assim, há neste texto-corpo flutuações, que o faz se modificar e performar sem aviso prévio. Perpassam por toda a narrativa de Leduc diálogos que se mostram incompreensíveis e momentos em que subitamente surgem longas frases (a mais notável se derrama por três páginas) sem pontuação gráfica alguma, explicitando em sua forma esta impossibilidade ou limitação da comunicação a qual de Beauvoir faz referência:
Violette eles morrem de rir os moleques da capital meu nariz meu osso e minha carne com sofrimento eu o pinçava com o pregador de roupa meu pregador de roupa com dezesseis anos dezesseis anos o oceano me pedia a caridade dezesseis anos minhas entradas no pôr-do-sol ah rosto sexo do espelho ah espelho no qual homens e mulheres são todos putos eu lhe agrado Gabriel ponto de interrogação tenho pés pequenos minha mãe diz a Hermine olhe ela tem pés de criança sou a multidão será que multidão me segue um vidraceiro no redemoinho isso está mal construído isso exibe seu ofício cale-se com seus pequenos cemitérios sobre suas costas é inevitável senhor o verificador são meus túmulos antes de nascer será preciso que falemos disso com Gabriel cale-se (…) (LEDUC, 1964, p. 189).
 
Este trecho foi retirado de um destes momentos de ruptura performática em La Bâtarde; assim como destaquei este excerto, sem início ou fim lógicos, poderia tê-lo feito em qualquer outra parte desta sentença de três páginas, sem pontuação gráfica ou unidade. Este momento foi escolhido, no entanto, pois mostra o desconforto da narradora com seu físico, além de colocar em antítese Gabriel e Hermine, os dois amantes, sempre em antítese. Aparece a reflexão sobre o que se escreve, isto está mal construído; e de alguma forma, a narradora mais uma vez se expressa enquanto autora: isto exibe seu ofício, a ruptura no texto torna evidente o exercício literário. É importante destacar que a narrativa em questão não é escrita em capítulos, mas em espécies de blocos narrativos que não estabelecem entre si necessariamente uma ligação cronológica ou de ação. A narrativa segue os movimentos de seu texto-corpo; se este corpo-texto possui perturbações da ordem da linguagem, este texto-corpo as sofrerá também.
 
Miragens
A passagem destacada acima não desponta no texto sem motivo. Violette encontra-se tensionada entre Gabriel e Hermine; o primeiro já pontuado anteriormente como o homem que conhecera jovem e que mais tarde seria seu marido. Com ele, Violette estabelece uma relação violenta e conflituosa. Gabriel dispensa à ela o tratamento que daria a um homem: chama-a de rapaz em diversos momentos (não há nada a explicar, rapaz) e mostra repulsa por tudo aquilo que é feminino em sua figura. A narradora-personagem, assim, vê em Gabriel um espelho, entende que ele é, de alguma maneira, seu reflexo distorcido e não percebe a relação de ambos como aquela estabelecida entre um homem e uma mulher, mas dois homens. Isto se torna tão evidente ao longo da narrativa que quando decidem se casar,
Pedi a Gabriel que me amasse como um homem ama outro homem. O pânico, o terror sagrado da pequena cruz ao lado da data sobre o calendário? No primeiro plano, sim. No segundo plano, refletindo trinta anos depois, é a verdade. No segundo plano o desejo de um casal de homossexuais sobre a minha cama (LEDUC, 1964, p. 309).
 
Violette expressa abertamente que ao lado de Gabriel possui a identidade de gênero masculina. E, para além disso, quer o sexo de um homem com outro homem, pois quer que ela e Gabriel sejam dois homossexuais, denunciando uma fluidez também em sua orientação sexual. Com Hermine, por outro lado, o conflito é absolutamente oposto. Se de um lado há Gabriel que a masculiniza, do outro Hermine torna uma missão feminizá-la: “‘Eu preferia você com um chapéu, os cabelos mais compridos. Um chapéu-sino.’ Ela quer uma mulher com um chapéu-sino” (LEDUC, 1964, p. 189). Hermine e Violette se conhecem no pensionato onde Violette estudara; mas ao contrário de Isabelle, Hermine não era uma colega da escola, mas a professora de piano, demitida uma vez que se torna público seu caso com a aluna. Quando Violette decide voltar a Paris e deixar o colégio, as duas optam por morar juntas; é a partir desta decisão que Hermine traz recorrentemente seu desagrado com os aspectos masculinos de sua parceira, insistindo sempre (quando não obrigando) que Violette compre roupas em determinadas lojas, arrume seus cabelos de determinados jeitos e comporte-se de outras maneiras em algumas situações. Esta tensão entre o gênero masculino e feminino, onde Violette é a corda em um cabo de guerra que pende ora para Gabriel e ora para Hermine7, eclode nesta sentença de três páginas, em que o grande questionamento seria qual gênero, qual espelho, deve ser levado em conta:
Hermine vigia o recreio Gabriel se sacia de sono Hermine Gabriel me esquartejam recomeça pra ver Hermine e Gabriel me esquartejam (…) eu escolhi Hermine Gabriel está aqui na ponta dos meus cílios (…) qual gênero é verdade (…) (LEDUC, 1964, p. 189)
 
A perturbação no texto é, portanto, reprodução direta de uma outra perturbação: a de gênero. Novamente retorna ao texto o vocabulário do corpo: Hermine e Gabriel me esquartejam – no texto original o verbo utilizado é écarteler que designa um método medieval de punição: amarrar os membros de um indivíduo a quatro cavalos distintos e, assim, mutilá-lo com a força bruta dos animais; a tensão de gênero imposta pelos amantes faz sentir como se o corpo fosse brutalmente dilacerado, ora pelo feminino, ora pelo masculino.
A narradora personagem de Ravages, Thérèse, chega a afirmar em dado momento a seu amante: Eu não sou uma mulher. Se a narradora do romance nega o status de mulher, a narradora autobiográfica explicita ainda mais esta problemática, aprofundando-se abertamente nos conflitos em relação à sua identidade de gênero, sexualidade e expressão de gênero:
Em outras palavras, atos, gestos e desejo produzem o efeito de uma essência interna ou substância, mas produzem estes efeitos na superfície do corpo, através do jogo de ausências significantes que sugerem, mas nunca revelam, o princípio organizador da identidade como causa. Tais atos, gestos, atuações, geralmente construídos, são performáticos no sentido de que a essência ou identidade que tencionam expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas através de signos corporais e outras vias discursivas (BUTLER, 2003, p. 194).
 
É impossível ignorar que a narradora-personagem, Violette Leduc, do ponto de vista da teoria queer, realiza constantemente este movimento performativo ao qual Butler se refere; abordando abertamente o gênero e a sexualidade como efeitos¸ construções culturais as quais o indivíduo não está preso, mas passível de transitar por. Quase como quem brinca (nem sempre sorrindo) em um balanço que ignora as leis da Física, indo para cima, para baixo, lados, diagonais, círculos, Violette perambula por feminino/masculino/andrógeno, homem/mulher/transgênero, heterossexual/bissexual/homossexual. Ora as recusa, ora as aceita, ora abertamente se põe a manipular e citar estas classificações em função de seus desejos. Sua tensão qual gênero é verdade, de fato, só faz tornar evidentes que não há, para ela, um gênero verdadeiro.
Em La chasse à l’amour, após meses de internação em um sanatório, Violette ganha o direito de passar uma noite na cidade ao lado de amigos. O programa escolhido pelos companheiros é um show de travestis em Paris. Violette descreve minuciosamente cada umx delxs, até que percebe que, por baixo de seus trajes, havia um membro de homem e, por fim:
Vocês queriam ser mulheres e serem rainhas, no Carrossel. Foram-no. (…) Violette só pensava nela, só se via a si. Repudiada, impunha-se. O vestido, o creme, a depilação com cera, a maquilhagem cor de malva, o traço do lápis verde pálido, o gesto precioso, o bater de pálpebras estudado significavam um membro caído em desgraça, um pobre pequenito no asilo por baixo do cetim. O seu órgão: o veneno de seus artifícios. (…) Os homens na sala devoravam-na [Coccinelle] com os olhos. O falso ultrapassava o verdadeiro. (…) Tinham-me salvo de um naufrágio lento (LEDUC, 1974, p. 114).
 
É neste momento, após contemplar as apresentações das travestis, que a narradora Violette desperta de seu torpor. É após esta experiência que decide abandonar o sanatório e tentar retomar seu cotidiano. Ao observar as travestis, vê a si. As performances teatrais drag, parodísticas do gênero ressoam com as suas próprias: seus acessórios, sua própria maquiagem e trajes representam para ela o mesmo que o membro escondido das travestis: o veneno dos artifícios. Quando se vê em um espaço no qual o falso ultrapassa o verdadeiro, a personagem se liberta da dor que a perseguia após a censura de seu livro, em um momento de epifania, pois as travestis e ela própria revelam que “as superfícies corporais são impostas como o natural, elas podem tornar-se lugar de uma performance dissonante e desnaturalizada, que revela o status performativo do próprio natural” (BUTLER, 2003, p. 210) .
O deserto monologante é, assim, criador e criatura de uma performance que se estende e multiplica não só em sua identidade de gênero ou sua sexualidade, mas também na própria imagem autoral que é construída, desconstruída e exibida. Para retomar o vocabulário do deserto, as performances criam o efeito de miragens, possíveis de serem deslumbradas e perseguidas em meio a travessia, mas inconstantes, perenes. O caráter fluido da identidade da narradora escorre para o local de autoria que ela mesma delimita, abertamente desestabilizando sua própria obra e, em última instância, apontando a performance que foram seus romances e que são suas autobiografias.
Se lembrarmos da passagem onde despontam os questionamentos sobre o gênero verdadeiro e a afirmação de que a perturbação textual exibe o ofício, podemos enxergar na obra de Leduc dois pilares performativos: um denunciador do gênero não enquanto essência, mas busca – construção. Como afirma Teresa de Lauretis, o gênero, por si só, é a representante de uma Relação social, pois mostra o indivíduo enquanto pertencente de uma classe (LAURETIS, 1994, p. 211). Esta Relação, no caso de Leduc, será flutuante, pois é abertamente expressa a maneira como o gênero não é fixo. Por outro lado, explicitar o processo da escrita é uma inscrição no texto da constituição fluida e instável da criadora deste próprio texto – esta entidade autora construída pela narradora personagem. Assim, o deserto monologante é ele próprio uma miragem e é também povoado por muitas outras.
 
NOTAS

  1. VIOLLET, Catherine. Violette Leduc, de Ravages à La Bâtarde. Paris: Item [online], 2006. Disponível em: http://www.item.ens.fr/index.php?id=13806.
  2. “O leitor, a critica clássica nunca dele se ocupou; ‘para ela, não há na literatura qualquer outro homem para além daquele que escreve. Começamos hoje a deixar de nos iludir com essa espécie de antifrases pelas quais a boa sociedade recrimina soberbamente em favor daquilo que precisamente põe de parte, ignora, sufoca ou destrói; sabemos que, para devolver à escrita o seu devir, é preciso inverter o seu mito: o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.” (BARTHES, 2004, p.5)
  3. “Até agora, temo, nós lidamos parcialmente com as dificuldades inerentes em desafiar as autoridades de cânones estabelecidos para, então, justificar a excelência da tradição das mulheres, por vezes em acordo com parâmetros com quais não estabelece relação intrínseca. No momento em que temos necessidade de realizar um discurso – isto é, clamar excelência ou importância para nossos “campos” – toda a discussão, descobrimos, já se encerrou. ‘Se Kate Chopin realmente valesse ser lida’ um colega de Oxford uma vez me assegurou ‘ela teria durado – como Shakespeare’; e ele então prosseguiu para votar contra o fomento que o departamento me daria para realizar um seminário de estudos femininos que eu ofereceria sobre escritoras americanas (…)” (KOLODNY, 1998, p. 1.389). Tradução minha.
  4. “(…) o nome do autor serve para caracterizar um certo modo de ser do discurso: para um discurso, ter um nome de autor, o fato de se poder dizer “isto foi escrito por fulano” ou “tal indivíduo é o autor” indica que esse discurso não é um discurso cotidiano (…) A função autor é, assim, característica de um modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade“ (FOUCAULT, 1992).
  5. Leduc dedica uma boa parcela do início de sua autobiografia a relatar as primeiras experiências sexuais entre Violette e Isabelle até o fim do envolvimento, reescrevendo o arco censurado de Ravages. De fato, Thérèse et Isabelle é até hoje publicado separadamente, nunca tendo sido reunido ao romance que originalmente compunha. É interessante notar, contudo, que os personagens das autobiografias têm seus nomes alterados nos romances e Isabelle é a única cuja identidade é mantida.
  6. De fato, Violette Leduc teve de ser internada em um sanatório após este acontecimento, que a mergulhou em acessos de paranoia, manias de perseguição e episódios de crises nervosas. La chasse à l’amour se inicia com o relato desta crise e o tratamento consequente.
  7. “Eu escutava uma voz, a de Gabriel, a de um ausente: ‘Você é durona, rapaz, está calada, isso me agrada. Quer beber outro? Que acharia de vagar pelo cais?’ Eu era seu homem, ele a minha mulher nesse corpo a corpo da amizade. (…) Hermine me feminilizava, isso o deixava fora de si” (LEDUC, 1986, p. 202).

 
Referências Bibliográficas
1- Bibliografia de Violette Leduc
L’Asphyxie. Paris: Gallimard, 1946.
L’Affamée. Paris: Gallimard, 1948.
Ravages Paris: Gallimard, 1955.
La Bâtarde Paris: Gallimard, 1964.
Thérèse et Isabelle Paris: Gallimard, 1966.
La Folie en Tête Paris: Folio, 1970.
La Chasse à L’amour Paris: Gallimard, 1973.
Thérèse et Isabelle (versão integral) Paris: Gallimard, 2000.
A Bastarda. Tradução: Vera Mourão. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.
Caça ao amor. Tradução: Manuela Daupiàs. Rio de Janeiro: Portugália, 1974.
 
2- Bibliografia geral
BARTHES, Roland. A morte do autor In: O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
BEAUVOIR, Simone de. Prefácio. In: La Bâtarde. Tradução: Vera Mourão. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1997
BRIOUDE, Mireille. Violette Leduc: La mise en scène du “Je”. Amsterdã: Rodopi, 2000.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero – feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003
CIXOUS, Helène. Le rire de la méduse. In: The Critical Tradition. Nova York: Bedford Books, 1998.
EVANS, Martha. La mythologie de l’écriture dans La Bâtarde, de Violette Leduc,  Littérature, nº 46, 1982. Graphies.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? São Paulo: Passagens, 1992.
GILBERT, Sandra; GUBAR, Susan. The Madwoman in the Attic: The Women Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination. London: Yale University Press, 1984.
KOLODNY, Anette. Dancing Through the Minefield: Some Observations on the Theory, Practice and Politics of a Feminist Literary Criticism. In: The Critical Tradition. Nova York:  Bedford Books, 1998.
LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: Tendências e impasses. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
PAIXÃO, Sylvia. A Literatura Brasileira e o cânone. In: RESENDE, Beatriz (Org.), Revista Tempo Brasileiro, As aporias do cânone. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, no 129. Abril-junho de 1997.
SHOWALTER, Elaine.  Toward a Feminist Poetics:Women’s Writing and Writing About Women. London: Croom Helm, 1979.
VIOLLET, Catherine. Violette Leduc, de Ravages à La Bâtarde. Paris: Item [online], 2006.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.





Bio fornecida pelo palestrante.

A tarde é uma mulher recém-saída do banho




 

Rosália Milsztajn

 
A tarde é uma mulher recém-saída do banho
pingos de chuva em sua pele lisa
como as calçadas nuas e escorregadias
 
escorre um recomeço verde
revelado nesta luminosidade
frescor de folhas estalando
coisa de florescer
 
eu e a tarde
suspensas no tempo fotográfico
num canto das folhagens
nos lábios vermelhos do sol – um sorriso
vários verdes desfilam como vestidos
o que guarda esta paisagem
um encontro
um amor?
 

AFTERNOON IS A WOMAN JUST COMING OUT OF A BATH

 

Rosália Milsztajn

 
Afternoon is a woman who has just come out of bath
Raindrops sprinkled on her smooth skin
such as naked and slippery sidewalks
 
a green beginning flows
revealed in this luminosity
a freshness of crispy leaves
a flourishing thing
 
The afternoon and me
suspended in this photography flash
in a corner of leaves and
in the sun’s red lips – a smile
all greens parade in dresses
what keeps this scenery is
an encounter
a love?
 

De Este recorte, Rio de Janeiro, Patuá, 2014.





Bio fornecida pelo palestrante.

Que vocabulário poderei usar contigo




Rosália Milsztajn

 
Que vocabulário poderei usar contigo
já que és eterno e a palavra efêmera
se dilui no prazer de dizer
e tudo mais se evapora na formosura da forma – mera ilusão
aparência sem reverberação e consciência de ti que amo
e repito: eu te amo para sempre
e assim não resiste ao desgaste
ao embate fixo da palavra que imobiliza
e no silêncio me sinto em comunhão contigo
que vibra em tudo que cala
e que é escuridão ainda
 

WHAT WORDS CAN I SAY TO YOU

Rosália Milsztajn

 
What words can I say to you
You who are eternal while words are so ephemeral
and dissolve in the pleasure of saying them
everything else drifts in the beauty of form – mere illusion
appearance without reverberation and your consciousness that I love
So, I repeat: I love you forever
my words will not resist wearing out
and the constant opposition of words that immobilize
it is silence that I feel in unison with you
you who vibrate in everything that silences
and is darkness yet.
 

De Este recorte, Rio de Janeiro, Patuá, 2014.





Bio fornecida pelo palestrante.

ROMANCE NO FEMININO: TRACY CHEVALIER DIALOGANDO COM JOHANNES VERMEER – Cristina Susigan




Cristina Susigan

UPM – SP

 
 
Resumo: Este artigo tem o intuito de refletir sobre a escrita no feminino e neste caso como a autora empodera a sua personagem, também uma figura feminina dando voz num período, a Holanda do século XVII, onde a muher era invisível. Através do romance de Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, pretendemos fazer  uma reflexão de alguns dos elementos que constituem o chamado “romance de formação” (Bildungsroman) feminino, uma vez que assistimos à evolução da personagem principal e narradora da história, à perda gradual da sua inocência, à conquista da liberdade e ao seu crescimento extraordinariamente rápido, feito de várias rupturas afetivas, mas também da concretização de alguns sonhos impossíveis e o olhar feminino que desconstroi a mulher como objeto da narrativa.
 
Palavras-chave: Tracy Chevalier, feminino, romance de formação, mulher-sujeito.
 
Abstract: This paper is intented to reflect about writing in the feminine and in this case as the author powers your character, also a voicing female figure in a period, the Dutch seventeenth century, when the women was invisible. Through the novel by Tracy Chevalier, Girl with a Pearl Earring, intend to reflect some of the elements that constitute the so-called “novel of formation ” (Bildungsroman) female, since witnessing the evolution of the main character and narrator of the story, the gradual loss of innocence, the conquest of freedom and its extraordinarily rapid growth , made several emotional ruptures, but also of achieving some impossible dreams and the feminine look that deconstructs the woman as the narrative object.
 
Keywords: Tracy Chevalier, female, novel of formation, woman-subject.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ROMANCE NO FEMININO: TRACY CHEVALIER DIALOGANDO COM JOHANNES VERMEER
 
Cristina Susigan
UPM – SP
 
 
Introdução
O romance de Tracy Chevalier pretende traduzir em palavras o mundo pictórico de Vermeer, através de descrições de forte sugestão visual e simbólica, ao descortinar as preferências do autor e tentar perceber o fio condutor da sua produção artística. Chevalier soube captar/capturar de um modo raro e preciso o universo intimista de Vermeer. Ao desfiar-lhe as múltiplas cores, cambiantes, tons, tintas lavadas e coadas de que o livro é feito, na habilidosa mistura com a escrita. Abordagem das emoções continuadamente prometidas e sempre adiadas, da entrega a uma sensualidade permanentemente suspensa mais tátil. Mostrando-se e recusando-se, jogando com as palavras e com as imagens, que se enovelam e acrescentam.
Ainda que de maneira superficial não podemos deixar de referir o fato de que seja uma mulher a autora do relato, com o qual estaríamos, por assim descrevê-lo de um modo um tanto simbólico, ante a transmissão de uma história através do prisma da mulher. Uma história, não esqueçamos, que tem seu ponto de partida no olhar  masculino, o de Vermeer. Mas não é nossa intenção detalhar aqui um compêndio de características do relato feminino em contraposição ao relato masculino, nem tampouco meditar sobre como seria o resultado tratando-se de um autor homem. Seja como for, pensamos que no olhar feminino há uma maior tendência ao intimisno, ao deter-se em análises psicológicas que tratam de dar resposta ao porque de determinadas ações, e isto só resolve-se, por mais paradoxo que pareça, de forma intuitiva, em estreita dependência de sensações mais que de argumentos racionais.
 
O livro contém todos os elementos de um romance histórico, possibilitando uma revisitação de um período de tempo particularmente ativo na vida do pintor Vermeer, na segunda metade do século XVII. A autora constroí uma narrativa linear, com as mesmas personagens do começo ao fim. Produz um romance no sentido tradicional, em que um único enredo conduz toda a trama. A originalidade do livro prende-se com a circunstância de o ponto de vista adotado ser de uma criada. A escritora expõe os recônditos sentimentos de uma moça na Delft do século XVII, chamada Griet, suposta criada, que mais tarde também é elevada à categoria de assistente e musa/modelo do pintor, que observa e descreve o trabalho do mestre ao mesmo tempo que partilha com o leitor uma etapa crucial do seu crescimento e da sua formação.
Vermeer pintou a mulher de notório silêncio, com os olhos voltados para baixo. Michelle Perrot (2005) observa que esse silêncio comum das mulheres, essa ausência de fala consistia em disciplina das famílias, dos corpos e da sociedade. De fato, no século XVII as mulheres holandesas eram submissas ao pai e posteriormente ao marido, sempre absorvidas pelos trabalhos domésticos, com o cuidado e educação dos filhos, portanto, o silêncio das mulheres de Vermeer não consistia apenas na ausência de fala, mas também de expressões, gestos, uma vez que a postura dessas figuras femininas era de escuta, espera, sem queixas, sem confidências. Chevalier em seu romance, transfere o poder para uma criada, na escala da sociedade, a mais silenciosa e invisível, empoderando-a.
Feito de transparências e de misteriosas obscuridades, de pequeníssimos detalhes e luminosidades súbitas. Um romance de cores e odores, textura onde subitamente se abrem rasgões de claridade, que logo se tolda e adensa. Um texto banhado por uma velada luz intimista, que, vinda dos interiores da casa que descreve e onde as personagens vivem, se escapa, indo-se recolher no atelier de Vermeer, que a toma e trabalha até a fazer parte visceral da sua pintura. Onde, ora se mostra resplandecente: em vermelho laca e amarelos ocres. Ora se mergulha a si própria na sombra: num branco de chumbo tingido de negro de ossos, num indizível verde seco, ou cinzento. História onde está abolida qualquer esperança para a criatividade feminina, que vemos anular-se a cada passo. Texto comovente na sua entrega à inocência, de que invoca a queda e por fim a perda. Enquanto nos dá a ver da genialidade artística, a solidão absoluta.
 
Se Vermeer colocava todo o seu interesse no real, na mulher escrevendo uma carta, vertendo leite ou pesando pérolas, Chevalier esforça-se em fornecer um retrato, realista das relações entre a incipiente burguesia e o mundo dos trabalhadores. A ação pertence a Griet, assim como a voz narradora da história. É a Moça com Brinco de Pérola – único dos quadros de Vermeer a explorar alguma dose de sensual e enigmático erotismo – que se movimenta.
 

  1. Bildungsroman: a mulher como protagonista

Outra questão teórica, particularmente relevante para a análise de Moça com Brinco de Pérola, é da metaficção historiográfica, termo cunhado por Linda Hutcheon em A poética do pós-modernismo: História, Teoria, Ficção, e retomado em The Politics of Postmodernism, livros nos quais a crítica canadense argumenta que história e ficção são construtores discursivos, representações narrativas, ambas com seus poderes e limitações. Para Hutcheon, “A história, como relato narrativo, é inevitavelmente figurativa, alegórica, fictícia; ela é smpre já textualizada, sempre já interpretada” (1990, p.143) outro importante conceito de Hutcheon é do papel exercido pelo personagem marginal ou marginalizado, silencioso e silenciado, membro de qualquer uma das diversas minorias, habitante das margens da cultura dominante, personagem ao qual ela dá o nome de “ex-centric”. Hutcheon mostra como a literatura pós-moderna tem trazido para o centro narrativo esse personagem marginalizado, dando-lhe uma voz própria e um posição de sujeito de sua própria história (1990, p. 60-62).
Esses conceitos teóricos nos são extremamente úteis no exame de Moça com Brinco de Pérola. Nesse romance, Chevalier, usando tanto do seu conhecimento das obras e da vida de Vermeer como das fontes históricas sobre a Holanda do século XVII; utilizando uma sensibilidade refinada em relação ao mundo e à arte da pintura; e mostrando uma especial empatia com a busca da identidade e o desenvolvimento de uma subjetividade feminina, produz uma obra maravilhosa e precisamente evocativa do passado mas, também e principalmente, de forte e poética atualidade.
A existência real de documentos históricos e sua simultânea sujeição a regimes de signos cambiantes reúne-se, em aliança, com a brutalidade do real só apreensível por meio de textualização, ou, de sistemas significantes, na visão pós-estruturalista com a qual nos afinamos para construir nosso olhar sobre os objetos artísticos.
Na linha de abordagem pós-moderna tal como defendida por Linda Hutcheon, o que importa é perguntar como podemos nos relacionar com o que se deu no passado. Segundo Hutcheon, em A poética do pós-modernismo: História, Teoria, Ficção, especialmente em “Historicizando o pós-moderno: a problematização da história” (1990, p. 120-40): “Quanto a disciplinas dedicadas a outros objetos, estamos nos referindo às neurociências cognitivas, tratadas em outros capítulos, e mencionamos apenas para marcar que o tema não se resume ao passado e à presença diante de um objeto ou acontecimento”. Em relação ao passado, vai se desenvolver a questão de como formular a relação entre a reconstrução histórica (construção de fatos históricos) e a reconstrução literária (de ficções artísticas) dos acontecimentos, objetos, documentos e relíquias, colocando em jogo a noção de verdade. É justamente da colocação em jogo, ou dinamização, ou ainda diálogo, e não do cancelamento desta, e de outras noções tradicionais, que trata nossa construção de objeto.
Na linha de discussão desenvolvida por Hutcheon, o que importa é a revisão problematizante da relação que queiramos estabelecer com a referência e não a eliminação desta noção. Uma negação do acesso ao referente não implica a negação da sua existência empírica, apenas sua inapreensibilidade. Um vasto material teórico é colocado em discussão, resgatando a historicidade dos argumentos que, em um momento, reuniram e, depois, apartaram a escrita histórica da escrita literária. Dentre eles, encontra-se uma figura da linguagem, a ekphrasis (representações de representações visuais)” – e considerá-la como: descrições verbais de imagens visuais capazes de gerar efeito de vida (HUTCHEON, 1990, p. 158-160).
Hutcheon se dedica especialmente a um tipo de romance que define como metaficção historiográfica, no qual Moça com Brinco de Pérola não se inclui, em termos narrativos, uma vez que não interrompe o fluxo ilusionista para denunciar seu artifício, mas sim em termos da intertextualidade entre arte e historiografia a partir da qual, e pela maneira pela qual, a narrativa se constrói, sob o ponto de vista da noção pós-estruturalista de discurso.
 
O romance de Chevalier, nasce como intertexto pela apropriação que faz da pintura já em seu título, na reprodução da imagem na capa, sublinhada pela imagem de outro quadro do pintor (uma vista da cidade de Delft, onde habitava), enquanto embalagem de seu texto, mas também por meio narrativa propriamente dita: se não pela forma, pelos elementos da criação da realidade artística que insere, por meio da linguagem verbal, na tessitura da trama.
No âmbito mesmo da abordagem de Hutcheon, i.e., da poética do pós-moderno, não há mais hierarquia entre textos e para-textos ou contextos: a intertextualidade se dá como deslocamento da ilusão de um referente para a multiplicação ou deslocamento de referencializações. Nesses termos é que defendemos que o objeto artístico não seja visto apenas na forma da narrativa literária ou no aspecto temático mais banal do envolvimento amoroso. A materialidade do romance envolve, em sua temática e em sua trama, elementos técnicos da pintura como: a elaboração das tintas, os nomes, a compra e a manipulação das substâncias dos pigmentos, efeitos de luminosidade sobre a modelo e sobre a base da tinta na tela, mostra a redução em perspectiva por meio de um objeto ótico da época. Isto é parte da trama porque é constitutivo das relações entre as personagens e da intertextualidade ou metamidialidade da narrativa em relação à pintura. Tanto quanto podem ser consideradas as descrições da intervenção do cotidiano sobre a criação artística e vice-versa, quando o pensamento que rege a observação se associa a um regime que rompe as fronteiras entre arte e vida.
Se não há ruptura do ilusionismo realista na tessitura verbal da narrativa, há na narrativização do processo pictórico que descreve a feitura de uma pintura histórica. Ao dar aos dois elementos passíveis de abordagem indicial, em uma leitura iconográfica, o tratamento de objetos casualmente eleitos para resolver um problema de ordem técnica, a narrativa se torna metalingüística em relação à linguagem pictórica da qual extrai sua fonte de inspiração.
A pérola e o pano que envolve a cabeça da moça, reais no objeto histórico (imagem pictórica), são requisitados pela personagem literária do pintor, apenas, para resolver problemas do processo de pintura, ao invés de decorrer da caracterização social da personagem ou do seu possível envolvimento amoroso. Ao contrário, uso do brinco de pérola, que intitula o quadro, só termina por conduzir ao desfecho da narrativa porque o pintor o solicita para equilibrar a composição, com um efeito de luminosidade.
Vermeer literário mostra à moça o efeito da luz sobre o pendente quando usado por sua esposa, causando-lhe estranhamento, gera conflito e exige concessões de outras duas personagens: da moça, porque não tem a orelha perfurada e permitir perfurá-la lhe trará dor física e uma marca que implica problemas sociais, como uma metáfora de desvirginamento; e da sogra, porque deve extrair o brinco da caixa de jóias da filha, que as mantém sob vigilância e já está sendo enganada sobre a convivência entre a moça e o marido.
O torso com véu que envolve a cabeça da moça nasce da necessidade que o pintor sente de ver o rosto encoberto pela touca que ela usa. È um tecido dentre outros materiais que guarda no quarto de despejo e que serve de mediação entre a solicitação dele de ver o rosto para poder pintá-lo e o limite dela, em não poder admitir deixar os cabelos à mostra: outra solicitação do processo de criação artística que proporciona uma cena de intimidade entre pintor e modelo, na transformação da moça em pintura.
A narrativa denuncia a imagem visual da qual constrói a ekphrasis, não como realidade histórica, mas como realidade da criação artística. E este é um procedimento que simultaneamente ilude com seu efeito de real e mostra a desreferencialização de uma imagem artística por meio de um uso metalingüístico da narrativa sobre a criação da imagem pictórica: lugar em que também se situam os procedimentos metaficcionais da poética pós-moderna defendidos por Hutcheon.
Tomando outra categoria festejada pelo pós-moderno – e incorporada pelas artes cênicas contemporâneas, por serem artes do movimento e do efêmero –  para explicitar a riqueza dessa operação, podemos dizer que o romance se desenvolve como ekphrasis, não de uma pintura, mas, do work in progress  de uma pintura, ou como Renato Cohen, no seu Work in Progress na Cena Contemporânea (1998), prefere, por vezes, adaptar a expressão cunhada pela arte contemporânea, substituindo o segundo termo por – process, (processo).
 
A descrição verbal não é do resultado, da imagem pictórica, mas do processo de nascimento, desenvolvimento e finalização de uma obra pictórica, até sua partida para o endereço de seu solicitante: o mecenas. È quando também é bruscamente interrompida a vida da moça na casa do pintor, na condição de objeto artisticamente processável, na condição servil à família, à arte, e ao seu sentimento por seu criador. Na narrativa, assim como a história rejeitou essa personagem em sua inscrição, a vida social a teria rejeitado: objetos rejeitados pelo social também são objetos desejáveis à poética pós-moderna.
Uma pintura, que é um documento histórico anterior ao romance em três séculos, tem, por meio da voz silenciosa da personagem-título, o desenvolvimento de uma narrativa que transcorre de modo absolutamente realista, assim como a narrativa desenvolvida pelo olhar neutro da câmera cinematográfica. Mas uma diferença entre essas duas mídias traz mais um elemento metalingüístico a ser notado no romance.
No momento do desfecho, a esposa em crise, revoltada por ter sido enganada pela mãe e pelo marido, e enciumada, pergunta ao marido porque ele pinta a moça e não ela. Ele diz à esposa que ela não entende, e ela se revolta ainda mais, por isto implicar que a moça entenda e ela não. Para explicitar o absurdo que vê na resposta dele ela diz em relação à moça: “(…) ela não sabe ler!” (CHEVALIER, 2002, p. 182).. E, em um romance em primeira pessoa, podemos dizer que seja uma provocação metaliterária ao realismo que o caracteriza.
Novamente, na interface entre obra e referencialidade, aí está uma disjunção que o texto de Chevalier desafia. Estamos diante de uma forma narrativa escrita do testemunho em primeira pessoa. Mas, de uma personagem analfabeta do século século XVII, e construído por uma escritora americana do século XXI. Embora, como dissemos, a escritora não dissimule sua identidade, o gênero do romance se inscreve no cânone do testemunho, o que propicia à intertextualidade com as questões literárias que se estabelecem em torno dele, e com o que o debate contemporâneo lhe oferece.
É exatamente na problematização constituída entre objeto histórico, vestigial – que afirma que um passado extratextual realmente existiu – somado a uma contextualização histórica compatível – que, no entanto, não afirmam que esse passado extra-textual que existiu seja aquele narrado –, pela textualização literária e fílmica, que se encontra a ruptura pós-moderna, em relação à dicotomização entre a narrativização ficional e aquela historiográfica.
É nesse lugar de fronteiras rasuradas entre literatura e história, de ter acontecido ou não no passado, que Moça com Brinco de Pérola se insere respondendo à pergunta pela apreensão do passado que: seja na literatura, seja na história, embora com comprometimentos distintos, tudo o que temos são reconstruções imaginativas a partir de textualizações de objetos, registros, relíquias ou arquivos do passado.
Uma das estratégias narrativas mais características da literatura pós-moderna é a apropriação, releitura, e re-escritura de textos canônicos da literatura e da arte ocidental. Essa estratégia narrativa é de especial importância para o estabelecimento de uma literatura feminina de sobrevivência, de resistência, de subversão, e de imensa criatividade pois desafia os pressupostos e os vieses de cânones artísticos e literárias, estabelecidos a partir de critérios hegemônicos que privilegiam a cultura dominante, de cunho patriarcal.
A coisa mais impressionante sobre este romance é que ao mesmo tempo que é uma história absorvente, ela também faz uma interseção entre os dois predominantes pilares  da teoria feminista. O discurso da “imagem da mulher”, que é um dos fundamentos básicos dos estudos sobre a mulher como nós conhecemos hoje, aqui se releciona com o tema apresentada da “mulher como artista”. Não é necessariamente curioso, pois estes dois pilares do discurso feminista tratam a mulher como objetos e sujeitos. Precisamente o que Chevalier faz no seu romance é transformar a mulher enquanto objeto em sujeito: “(…) mas ele era meu mestre. E eu tinha que fazer o que ele dizia” (CHEVALIER, 2002, p. 60). Ironicamente é dada a Griet uma identidade através da qual supõe-se um papel ativo no objeto da pintura.
Esta não é a história de uma feminista antes do seu tempo, pois Chevalier segundo o artigo de Cibelli:
 
(…) não tem o caráter de derrubar estereótipos femininos ou transcender sua classe social. Chevalier discute o interesse nascente de Griet na arte sem igualá-la à Vermeer ou de mulheres artistas holandeses como Judith Leyster ou Rachel Ruysch. Ns mãos de Chevalier, Griet é uma persona fictícia dotado de valores protofeministas. (2004, p.589).
 
 
 
Como já foi dito anteriormente, nos últimos anos o trabalho de Vermeer tem sido objeto de mais de um livro. Muitas das pinturas do mestre holandês retratam mulheres nas suas tarefas domésticas. O romance de Chevalier pode não ter sido o único a dar vida a um dos quadros de Vermeer, mas é a mais rica e complexa narrativa do que uma mulher poderia ter sido no seu tempo. Moça com Brinco de Pérola transforma o objeto de uma pintura em mulher humana, que respira, e é esta visão que, ao reimaginar um mundo de igualdade, torna este trabalho primordial.
Em relação às artes visuais a representação não pode ser considerada uma atividade politicamente neutra. A questão da representação se situa entre o feminismo e a arte. Argumenta-se a forma pela qual a repetição inerente às imagens culturais tem a função particularmente ideológica de apresentar e posicionar a subjetividade “feminina” ou “masculina” como estável e fixa.
A decisão de Vermeer de pintar Griet – fazendo dela o objeto da sua pintura – paradoxalmente transforma Griet de um objeto – uma criada – em um sujeito: “Eu vou pintá-la como eu a vi pela primeira vez, Griet. Apenas você” (190). Carregada de simbolismo, pois envolve as rígidas convenções de representação da época, se desenvolve entre Vermeer e Griet: a pose do corpo, o virar do rosto para o pintor, o mostrar da orelha, o entreabrir dos lábios, a retirada da touca e – o pedido final – usar os brincos de pérola.
Através do seu olhar fixo, Griet torna-se mais do que apenas uma jovem criada; ela torna-se conhecida como algo de uma dimensão profunda, imortalizando-se. A criada – uma pessoa silenciosa, que faz o trabalho de forma a ser invisível, para que a casa funcione – aqui torna-se visível. A transformação de Griet de criada em uma jovem mulher faz-se gradualmente. Num primeiro momento ela senta-se (um luxo na sua condição de criada). Depois ele pede que ela tire sua touca e mostre o seu cabelo. Chocada, Griet recusa o pedido de Vermeer e reflete: “… Eu nçao podeira mostrar a ele o meu cabelo. Eu não sou este tipo de garota que deixa seu cabelo solto” (192). A resistência de Griet é uma marca da sua própria subjetividade, a confiança em si mesma é maior, vai além de ser simplesmente um objeto para ser pintado.
 
 
Referências Bibliográficas
CHEVALIER, Tracy. Moça com brinco de pérola. São Paulo: Betrand Brasil, 2002.
CIBELLI, Deborah H. “Girl with a Pearl Earring: Painting, Reality, Fiction.” Journal of Popular Culture 37.4 (2004): 583-592.
 
COHEN, Renato. Work in Progress na Cena Contemporânea. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004
 
HUTCHEON, Linda. A poética do pós-modernismo: História, Teoria, Ficção. Rio de Janeiro:Imago Editora, 1990.
 
PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da História. Tradução: Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSP, 2005.





Bio fornecida pelo palestrante.

O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”, DE GUY DE MAUPASSANT – Caio Vitor Marques Miranda, Cláudia Cristina Ferreira




Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina 

Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina

 
 
Resumo: O presente trabalho almeja analisar o conto “O Horla”, de Guy Maupassant, que apresenta relatos de um homem em progressivo estado de insanidade e incita uma ameaça invisível com relativo grau de realismo psicológico e verossimilhança, e ao decorrer da história, a sanidade de seu personagem e seus sentimentos são questionados, enquanto o personagem invisível, o Horla, aos poucos, domina seus pensamentos. Para a realização desta análise, recorre-se o embasamento teórico aos estudos efetivados por Todorov, Vax, Rodrigues e Roas que possuem obras pioneiras no gênero. Para tanto, será levado em conta o fato de que a busca pelo inexplicável, a magia e o irreal fazem parte do mundo fantástico, um mundo em que a ficção concerne à realidade, e são elementos assim que dominam as obras pertencentes a este gênero, que, há muitos anos, vem despertando no leitor uma necessidade por saber mais.
 
Palavras-chave: Medo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
 
Resúmen: El presente trabajo busca analizar el cuento “O Harla”, de Guy de Maupassant, que presenta relatos de un hombre en progresivo estado de insania e incita una amenaza invisible con relativo grado de realismo psicológico y verosímil, y al desarrollar de la historia, la insania de su personaje y sus sentimientos son cuestionados, mientras el personaje invisible, el Horla, a los pocos, domina sus pensamientos. Para la realización de este análisis, se recurre el embasamientos teóricos a los estudios efectuados por Todorov, Vax, Rodrigues y Roas que poseen obras pioneras en el género. Para tanto, será llevado a cabo el hecho de que la búsqueda por lo inexplicable, la magía y lo irreal hacen parte del mundo fantástico, un mundo donde la ficción concierne a la realidad, y son elementos así, que dominan las obras pertenecientes a lo fantástico, el cual, hace muchos años, se ha despertado una necesidad por saber más del lector.
 
Palabras-clave: Miedo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.
 
Minicurrículo: Caio Vitor Marques Miranda: Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) com a pesquisa em Literatura e Ensino e graduado pela mesma universidade em Letras – Licenciatura em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas (2013). Possui experiência na área de Letras Vernáculas e Estrangeiras Modernas. Atualmente é professor de Espanhol no Colégio Bom Jesus de Rolândia e no cursinho pré-vestibular Prime, e de Literatura Brasileira no Colégio Interativa Londrina e no cursinho Especial da UEL, CEPV. A orientadora do Mestrado é a Profa. Dra. Claudia Critina Ferreira, da Universidade Estadual de Londrina.
 


 
O MEDO E A LOUCURA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”,
DE GUY DE MAUPASSANT
 
Caio Vitor Marques Miranda
Universidade Estadual de Londrina
 
Cláudia Cristina Ferreira
Universidade Estadual de Londrina
 

  1. Introdução

A literatura fantástica sob o viés da loucura tem traçado seu percurso no decorrer dos anos. Criando cenários sombrios, permeados pela dúvida, a literatura fantástica possibilita a instauração ou a presença da desordem psíquica em um universo paralelo ambíguo e incerto. Normalidade e anormalidade, sanidade e loucura, tudo se confunde. As fronteiras se expandem, esfumaçando ou apagando os limites entre esses binômios.
A presença da loucura em contos fantásticos que abordam a alienação, o delírio ou a demência é temática contemplada na obra contística de alguns escritores, como: Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft ou Ambrose Bierce.
A literatura fantástica rompe com rótulos e explicações racionais, científicas e cartesianas ao possibilitar a presença ou a existência de elementos insólitos e sobrenaturais, convivendo em harmonia com o real. Nesse sentido, a loucura pode ser considerada natural e/ou aceita sem hesitação, enquanto que a sobriedade, questionada.
Dentro deste contexto, faz-se interessante observarmos algumas definições de loucura e termos afins para que possamos compreender melhor a presença e a associação da loucura nesta vertente literária.
Louco, portanto, é aquele sujeito cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais, aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados. A loucura é a doença/distúrbio que o louco possui. No entanto, Foucault, professor e filósofo, em seu livro História da loucura na literatura (2010), define o louco como:
 
O louco afasta-se da razão, mas pondo em jogo imagens, crenças, raciocínios encontrados, tais quais, no homem de razão. Portanto, o louco não pode ser louco para si mesmo, mas apenas aos olhos de um terceiro que, somente este, pode distinguir o exercício da razão da própria razão (FOUCAULT, 2010, p.186).
 
Assim, desde tempos remotos, encontramos, na literatura, histórias em que o louco/a loucura se torna um fator relevante do enredo, apresentando suas diversas faces. Num panorama geral, podemos começar nos mitos, nos mais clássicos, como a troiana Cassandra.  O deus Apolo concede a Cassandra o dom da profecia, mas como ela não quis ficar com ele, o deus faz com que ninguém acredite no que ela diz. Assim, todos a consideram louca. Ela vive presa numa torre, gritando e sofrendo, pois sabe que as desgraças vão acontecer, mas não pode impedir, pois ninguém acredita nela, todo mundo pensa que suas profecias são mentira. Tendo, assim, um fim trágico.
O herói grego Ájax, por exemplo, que pertence ao ciclo da guerra de Trios, após perder a disputa pelas armas de Aquiles para Ulisses, tem um ataque de loucura e mata vários guerreiros. Depois deste surto, ao descobrir o que fez, ele se mata.
Temos, também, O Alienista, de Machado de Assis, em que o cenário é a casa verde, um tipo de manicômio; o considerável número de contos do Guy de Maupassant, que no final de sua vida, foi diagnosticado com doença mental; a coletânea de contos de Leopoldo Lugones, autor argentino, que com a incursão do fantástico, faz crítica ao cientificismo, ou ainda, a grande obra de Cervantes, El ingenioso Don Quijote de la Mancha.
Entretanto, na literatura, nos deparamos com muitos outros elementos ou fatores chave das narrativas, como o terror, a presença de bruxas e magias, situações inexplicáveis científica ou racionalmente, surreais ou até irreais, provocando, no leitor, uma sensação de medo, mistério ou curiosidade por saber mais. Vislumbrando, neste contexto, a literatura fantástica.
Assim, o presente trabalho almeja realizar uma possível leitura da segunda versão do conto O Horla, de Guy de Maupassant, pelo viés do fantástico, salientando a sensação de medo que o personagem principal sofre durante toda história e ainda o estado de loucura em que se encontra. Como aporte teórico, utilizamos autores pioneiros desta temática, como as ideias de Todorov (2010) presentes no livro Introdução à literatura fantástica e de Roas (2011), presentes no livro Tras los límites de lo real. Una definición de lo fantástico.
 

  1. Em terras fantásticas: Como definir este gênero?

Sabemos que na literatura se manifestam tendências inacabadas, que não se concluem em rótulos determinados, visto que o trabalho de criação é renovado através dos tempos, e que a literatura foi e continua sendo uma linguagem aberta, que permite modificar a ideia do que hoje é, ou não, considerado literatura. Assim, ocorre com o fantástico.
O termo fantástico pode significar: “aquilo que só existe na imaginação, na fantasia; o fora do comum; extraordinário, prodigioso” (HOUAISS, 2001). A literatura fantástica tornou-se, sobretudo nas últimas décadas do século XX, um tema recorrente na literatura contemporânea, sendo objetivo de várias análises literárias, que em sua compreensão, o fantástico mantém, em sentido lato, essas mesmas acepções, e delas sucedem traços únicos ou definidores desse gênero incerto, dependendo da proposta de que parte cada estudioso. Várias foram as tentativas de definições do fantástico realizadas por teóricos literários. Para conter o mundo fantástico na literatura, expomos alguns como: Castex (1951), Vax (1965) e Todorov (1975).
Castex (1951), estudioso sobre a literatura fantástica na França, estabelece:
 
O fantástico não se confunde com as histórias de invenção convencionais, como as narrações mitológicas ou os contos de fadas, que implicam uma transferência da nossa mente para um outro mundo. O fantástico, ao contrário, é caracterizado por uma invasão repentina do mistério no quadro da vida real; está ligado, em geral, aos estados mórbidos da consciência, a qual, em fenômenos como aqueles dos pesadelos ou do delírio, projeta diante de si as imagens das suas angústias e dos seus horrores (CASTEX, 1951, p. 8).
 
Para esse teórico, o fantástico seria histórias muito próximas à realidade, chocando-se com o impossível, e esta invasão faz com que o leitor entre em conflito com ele mesmo sobre o que é ficção e realidade. É isso que faz do fantástico um gênero único, inconfundível, e caracterizado pelo sobrenatural.
Vax (1965), também francês, é um estudioso e um dos precursores do surrealismo artístico, segundo o qual o fantástico não deve somente fazer uma irrupção no real, mas precisa que o real lhe estenda os braços, consinta com a sua sedução, ou seja, esta sedução pode ser considerada um elemento deste gênero, mas para que este encanto ocorra, o real deve ceder-lhe espaço.
Todorov (1975) foi um dos grandes estudiosos que teorizou sobre o fantástico, destacando-se por ter sido o primeiro a organizar o estudo do fantástico, até então pouco discutido. Todorov em Introdução à literatura fantástica (1992) elabora um estudo mais detalhado e consistente nas características da literatura fantástica, ele retoma as definições dadas pelos especialistas franceses Castex (1951), Caillois (1966) e Vax (1960), e logo no segundo capítulo do livro, ele aborda Alvare, o personagem principal do livro de Cazotte, Le diable amoureux, que vive uma história de ambiguidade até o fim da ficção, e Todorov (2010) consolida:
 
Somos assim transportados ao âmago do fantástico. Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentimentos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. (…) O fantástico ocorre nesta incerteza; (…) (TODOROV, 2010, p. 31).
 
Por conseguinte, define o fantástico como sendo “a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 1992, p. 31). Em outras palavras, o fantástico habita a hesitação do leitor diante de fatos insólitos, que vão contra a ordem natural, fazendo com que a dúvida perante estes acontecimentos permaneçam até o fim da narrativa. Esta hesitação do leitor é apontada por Todorov (1992), como uma marca principal do fantástico. Portanto, o autor vê o fantástico como um produto de três fatores que são essenciais em obras desta natureza:
 
Primeiro, é preciso que o texto obrigue ao leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e hesitar entre uma explicação natural uma explicação sobre natural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica como a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação “poética”. Estas três condições não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita (TODOROV, 1992, p. 39).
 
Logo, a hesitação provoca no leitor uma espécie de reflexo, uma atitude que rejeite a leitura metafórica da obra, o que terminaria com a hesitação requerida, com uma possível condição, a identificação do leitor com uma personagem. Para que haja esta hesitação, compreensão da narrativa, mais uma vez, há de se fechar os olhos para a realidade, e mergulhar-se para um mundo de possibilidades, fantasias, mistérios, um mundo em que a presença do sobrenatural é habitual.
Caillois (1980), outro escritor francês e compilador de antologias, em uma de suas definições, em 1958, diz que o fantástico é a violação de uma regularidade imutável, e o elemento principal do fantástico é a aparição, ou seja, é o que não pode aparecer, mas aparece, manifestando na narrativa o inadmissível. A definição de Caillois (op.cit.) está próxima à definição de Vax (1960), pois em ambas as definições há uma invasão do inadmissível, um conflito do real com o impossível. O que não poderia/deveria ocorrer em uma realidade racional, acaba ocorrendo.
Lovecraft (2007), escritor norte americano, é outro autor que vê o fantástico a partir da relação que estabelece com seu leitor e da sua reação. Dedicou-se a histórias de terror e medo. Para ele, o fantástico reside no modo como o leitor recebe o texto, no envolvimento da obra com o público. Para que um conto receba o rótulo de fantástico, é preciso que este “suscite ou não o leitor um sentimento de profunda apreensão e de contato com esferas diferentes e forças desconhecidas” (LOVECRAFT, 2007, p. 5-6). Ou seja, há de se fechar os olhos para a realidade, para que haja um envolvimento ou uma interação entre leitor e texto.
 

  1. Análise do conto

 
“Quando ouço pronunciar a palavra guerra sinto um pavor como se me falassem de Bruxaria, de inquisição, de uma coisa longínqua, abominável, monstruosa, contra a natureza.”
Guy de Maupassant
 
Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, em Tourville-sur-Arques (França). Estudou no liceu de Ruão, foi colaborador por oito anos dos Ministérios da Marinha e da Instrução Pública. Em 1870, Maupassant foi para Paris e lá se firmou como contista. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais, usando a técnica naturalista.
Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant mais produziu textos, cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como Bola de sebo, O Colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla. Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Mas o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. Em 1892, ele tentou suicídio. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.
Em um de seus textos deixados, O Horla, escrito em 1887, narra a transformação psicológica de seu personagem, um senhor francês, em progressivo estado de insanidade; relata-nos cerca de 4 meses da sua vida por meio de um diário, manifestando todo o sofrimento com a presença de um ser invisível que o persegue por meses, não conseguindo livrar-se dele.
O Horla, conto de cunho realista psicológico que aborda paulatina e progressivamente o inquietante, a loucura, a paranoia, a demência e a obsessão, influenciou outros escritores, como: H. P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu) e Ambrose Bierce (A Coisa Maldita).
Vale salientar que tal obra possui duas versões. A primeira linear, com narrativa baseada em fatos já ocorridos. A segunda, em ordem cronológica, possui narrador em primeira pessoa, quem relata os acontecimentos com datas precisas (dia e mês exatos), fato que concede maior verossimilhança à narrativa.
No conto, o personagem autodiegético inicia seu relato com os elementos que estão ao seu redor: “8 de maio – que dia lindo! Passei toda a manhã deitado na relva, na frente da minha casa, sob o enorme plátano que a cobre, a abriga e a sombreia por inteiro” (MAUPASSANT, 2006: 239).
A história tem como espaço predominante a casa do protagonista, cenário baseado na casa de seu amigo Gustave Flaubert, que não consegue abandonar por conta das lembranças que guarda da sua infância. Às vezes, este espaço se estende a outras cidades da França. O personagem relata dias normais, feliz com a vida que leva, até que, de repente, de um dia para o outro, ele começa a se sentir doente, e é esta doença que o leva a sentir uma sensação de perigo iminente, tal como um pressentimento.
 
16 de maio – decididamente estou doente! Eu estava tão bem o mês passado! Estou com febre, uma febre atroz, ou, melhor dizendo, um abatimento febril, que faz minha alma sofrer tanto quanto meu corpo! (MAUPASSANT, 2006, 240).
 
É durante o período noturno, que coisas estranhas passam a acontecer. No quinto dia de seu relato, o senhor francês alega estar estranho, com medo, “um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama” e não consegue se concentrar para dormir. A presença do medo se permeia em todo o conto, em vários momentos, o personagem relata suas emoções, e o medo que sente.
Quando finalmente consegue adormecer, começa a sonhar e sentir que tem alguém se aproximando dele, que o olha, apalpa-o, sobe na sua cama, ajoelha-se sobre seu peito, agarra-o pelo pescoço entre as mãos e o aperta com muita força.
Transcorrido algum tempo, o estado do personagem se agrava cada vez mais. No sétimo dia, ele decide fazer uma pequena viagem para outra cidade. Ao retornar, tudo parece estar bem; entretanto, ele se sente perseguido e começa a pensar que está louco.
Certa noite, algo insólito ocorre. Antes de dormir, bebeu um copo de água e viu que a garrafa estava cheia, mas ao acordar de um pesadelo, observou que a garrafa se encontrava vazia:
 
Tudo recobrado a razão, senti sede outra vez; acendi uma vela e fui até a mesa sobre a qual estava minha garrafa. Levantei-a, inclinando-a sobre meu copo: nada escorreu. Estava vazia! Estava completamente vazia! (MAUPASSANT, 2006, 245).
 
O personagem se questiona sobre tal acontecimento, achando que realmente está louco. O roubo da água volta a acontecer, sucessivamente, por vários dias e, novamente, ele decide viajar; uma espécie de fuga, para solucionar os problemas que vinha enfrentando dentro de casa. Lá, ele visita uma prima e presencia um hipnotismo que o deixa perturbado.
No dia que retorna, aparentemente, tudo está normal, até ouvir uma discussão entre seus criados (…) Eles afirmam que alguém quebra os copos, à noite, nos armários. O criado de quarto acusa a cozinheira, que acusa a lavandeira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado. Idiota quem dissesse! (MAUPASSANT, 2006, 252).
Logo, no mesmo dia, vê uma cena muito intrigante. Passeando pelos seus canteiros de roseiras, algo anormal acontece:
 
(…) Quando parei para olhar uma “gigante das batalhas” que tinha três flores magníficas, eu vi, eu vi perfeitamente, bem perto de mim, a haste de uma dessas rosas dobrar, como se uma mão invisível a entortasse, depois se quebrar, como se a mesma mão a tivesse colhido! Depois a flor se ergueu, descrevendo uma curva que teria feito um braço levantando-a até uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, apavorante mancha vermelha a três palmos de meus olhos (MAUPASSANT, 2006, 252).
 
A partir daqui, são os elementos fantásticos que dominam o conto. Uma vez mais, o ser invisível bebe sua água e o medo vai possuindo o senhor francês, que já não sabe o que fazer, e aos poucos, vai ficando sem força, não tendo mais controle de certas atitudes.
No trigésimo sexto dia, o senhor francês lê uma notícia de uma revista:
 
Uma notícia um tanto curiosa nos chega do Rio de janeiro. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa da Idade Média, grassa neste momento na província de São Paulo. Os habitantes apavorados deixam suas casas, desertam de suas aldeias, abandonam suas culturas, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como gado humano por seres invisíveis (…) (MAUPASSANT, 2006, 257).
 
Após ler e refletir muito sobre a notícia que receberá, percebe a chegada do ser invisível que o persegue, começa a dizer um nome: Horla. É este o nome desta força sobrenatural, do ser que há meses vem sugando a vitalidade do senhor francês.
19 de agosto é o dia em que o senhor francês decide:
 
(…) Vou matá-lo. Eu o vi! Sentei-me à mesa ontem à noite; e fingi escrever com muita atenção. Eu sabia que ele viria rondar em volta de mim, bem perto que talvez eu conseguisse tocá-lo, agarrá-lo! E então… então eu teria a força dos desesperados; eu teria minhas mãos, meus joelhos, meu peito, minha testa, meus dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, rasgá-lo (MAUPASSANT, 2006, 259).
 
O Horla foge, e o senhor consegue montar uma armadilha para prendê-lo e livrá-lo de todo aquele tormento. Tranca-se em seu quarto e, quando sente a presença do Horla, começa a caminhar em direção à porta. Sai do quarto, passa a chave na porta, joga todo o óleo no tapete, nos móveis, em toda parte, e ateia fogo.
 
(…) eu olhava para minha casa e esperava. Como demorou! Eu já achava que o fogo tinha apagado sozinho, ou que Ele o tivesse apagado, quando uma das janelas do térreo explodiu sob a pressão do incêndio e uma chama, uma grande chama vermelha e amarela, comprida, mole, acariciante, subiu pela parede branca e beijou-a até o telhado (…) (MAUPASSANT, 2006, 261).
 
A convicção/ neurose de capturar o Horla era tão grande, que o senhor esqueceu-se de seus empregados que estavam dentro da casa. Horrorizado com isso, começa a pedir ajuda, mas já era tarde. A casa já era uma fogueira horrível e magnífica, e que de repente, veio abaixo. Para ele, o Horla estava morto, mas como matar um ser que não tinha um corpo? Assim, somente a própria morte aparenta ser a única solução para livrar-se do ser invisível e temível, o Horla: “Não… não… sem dúvida… ele não está morto… então… então… vai ser preciso que eu me mate!…” (MAUPASSANT, 2006: 262)
O tormento psicológico vivenciado na casa fez com que o narrador/personagem questionasse sua sanidade e adentrasse o cenário sombrio permeado pela incerteza e pelo insólito, o que o fez progredir da angústia à loucura/demência/obsessão, apresentando-nos um desfecho surpreendente.
 

  1. Considerações finais

Podemos constatar as contribuições da obra de Maupassant para a literatura fantástica mundial. Influenciado por Gustave Flaubert e modelo para muitos outros escritores contemporâneos ou posteriores, Maupassant foi um mestre do relato breve, deixando-nos mais de trezentos contos que devem ser considerados e analisados pelo seu teor qualitativo e não somente quantitativo.
Diagnosticado com distúrbio mental, Maupassant exerceu com excelência a arte da escrita. Sua obra fascina e inspira muitos pelo mundo afora, consagrando-se como verdadeiros clássicos canônicos.
No conto analisado, observamos a presença da loucura como um ingrediente que dá sabor peculiar à obra de cunho fantástico, incitando a imaginação do leitor e enriquecendo ainda mais a leitura.
 
REFERÊNCIAS
 
COSTA, Flávio Mreira da (2006) Os melhores contos fantásticos. Rio de Janeiro: Nova fronteira.
 
Eudave, Cecilia (2008).Sobre lo Fantástico Mexicano. Orlando: Letra Roja..
 
ROAS, David.Tras los límites de lo real: Una definición de lo fantástico.(2008) Madrid: Páginas de Espuma.
 
TODOROV, Tzvetan (1981). Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva.
 
VAX, Louis (1983). A arte e a Literatura Fantástica. Lisboa: Arcádia, 1983.
 
CESARINI, Remo. (2006) O Fantástico. Trad. Nilson Cezar Tridapalli. Curitiba:UFPR, 2006.
 
CHIAMPI, Islemar (1980). O realismo Maravilhoso. São Paulo: Perspectiva, 1980.
 
FOUCAULT, Michel (2012). História da loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

REPRESENTAÇÃO FEMININA SOB O ÂNGULO DE MODELOS DE FAMÍLIA EM A MAÇÃ NO ESCURO, DE CLARICE LISPECTOR – Danilo Silva Paes Landim




 

DANILO SILVA PAES LANDIM

UNICAMP

 
 
RESUMO: O presente ensaio procura articular as configurações familiares encontradas no romance A maçã no escuro, de Clarice Lispector (1961), a uma reflexão sobre a representação feminina. Mesmo em meio a uma série de paradoxos visíveis nas personagens principais, é possível ver certa diferença de valores que as separam. A oposição entre o eixo exogâmico identificável no engenheiro Martim e o eixo incerto e pouco delimitado das primas Vitória e Ermelinda será colorida da seguinte forma: Martim seria representante de valores estabelecidos na cultura, e também, possivelmente, de um pensamento pretensamente universalista e neutro – figuração tradicionalmente masculina –, e o núcleo das primas seria um possível contraponto, que convida a pensar sobre a especificidade da representação feminina de fecundo potencial crítico em relação a qualquer universalismo.
 
PALAVRAS-CHAVE: estudos claricianos, representação feminina, família, A maçã no escuro.
 
ABSTRACT: This essay aims at articulating the family configurations found in the novel The Apple in the dark by Clarice Lispector (A maçã no escuro, 1961), to a reflection about the female representation. Even among a series of visible paradoxes in the main characters, it is possible to figure out certain value differences that separate them. The opposition between the identifiable exogamic axis in the engineer Martim and the uncertain and not so well delimited axis of the cousins Vitória and Ermelinda will be colored in the following way: Martim would be representative of the given values of the culture, and he would also be representative of a supposedly universalist and neutral thinking – traditionally male figuration –, and the cousins nucleus would be a possible counterweight that invites to think on the female representation’s specificity which brings great critical potential in relation to any universalism.
 
KEYWORDS: Clarice Lispector studies, female representation, family, The apple in the dark.
 
MINICURRÍCULO: Mestrando em Teoria e História Literária no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP desde 2015. Graduado em Letras (Português / Francês) pela USP em 2012, tem experiência em Literaturas Estrangeiras Modernas, tendo trabalhado, em sua iniciação científica, com o romance Malone morre, de Samuel Beckett. Atualmente se interessa por questões ligadas à imaginação, à hermenêutica crítica e ao feminino na literatura. Estuda o romance A maçã no escuro, de Clarice Lispector, sob esses vieses.
 
 
 
 


 
REPRESENTAÇÃO FEMININA SOB O ÂNGULO DE MODELOS
DE FAMÍLIA EM A MAÇÃ NO ESCURO, DE CLARICE LISPECTOR
 
DANILO SILVA PAES LANDIM
UNICAMP
 
 
Introdução
Apesar das relações familiares não ocuparem lugar central no romance A maçã no escuro (1961)1, de Clarice Lispector, podemos concebê-las como pano de fundo da paisagem mais visível da obra. As  dinâmicas familiares inscritas no enredo são, como se verá na análise aqui presente, reforçadoras de problematizações e de elementos que a crítica já pôde depreender da obra, além de revelarem outras problematizações mais ligadas à situação das mulheres. A partir da consideração das formações familiares e de suas reverberações na narrativa, tentaremos articular elementos já estudados como constitutivos do romance – alguns dos quais são a obsessão por apreender instantes fugazes, as dimensões ocultas e inquietantes de situações aparentemente banais, além das percepções de um estágio humano anterior ao pensamento organizado, racional e universalista – com outros elementos que identifico como associados à situação da mulher. Pretendo aqui mostrar, incorporando alguns dos temas já explorados pela crítica, que há dois polos familiares que se põem em atuação na obra e que, ao se encontrarem, provocam choques mútuos e propiciam mudanças no modo de ser das personagens principais – e que convocam a reflexão sobre a subjetividade feminina e a representação feminil.
Para facilitar a compreensão das características desses dois ramos familiares colocados no romance, faremos uma breve explanação do enredo: o engenheiro Martim foge após supostamente ter cometido um crime – ele teria matado a mulher. Ele dorme num hotel, mas o medo de ser flagrado o afasta daquele lugar. Perambula e divaga em contato com a natureza, e o tempo todo também foge da própria ideia de crime. Seu ato criminoso e que ele dificilmente reconhece como tal provoca uma busca por autoconhecimento, que parece ocorrer justamente por ele ter rompido com as normas sociais e ter se distanciado das alteridades que dificultariam a tarefa de encontrar o que em si não é um outro. Assim, independente de normas, ele procura encontrar sua própria inteireza. A busca tem acidentes e perdas à medida que vai tendo contato com pessoas e vendo seus traços se confirmarem ou se invalidarem, agonicamente. As primeiras pessoas que ele encontra estão numa fazenda, onde ele procura trabalho. A dona da fazenda se chama Vitória, e junto dela mora a prima Ermelinda. Como resume bem a filósofa Gilda de Mello e Souza:
 
A chegada de Martim perturba o isolamento em que as mulheres vivem e, aos poucos, o ritmo pacato da vida de Vitória e Ermelinda se modifica – a presença inquietante do homem pondo em relevo os problemas pessoais de cada uma. Levado pelo instinto, Martim uma tarde acaba possuindo a mulata e, logo mais, cedendo ao cerco de Ermelinda, torna-se seu amante. Para Vitória, também apaixonada pelo estranho, o amor se revela sob a forma de tortura, tortura que impõe a Martim através de tarefas cada vez mais duras, e a si, pela renúncia2 (SOUZA, 1964, p. 86-87).
 
Vitória e Ermelinda são primas, e em alguns momentos Martim suspeita que as duas sabem que ele está envolvido num crime. Efetivamente, apenas Vitória sabe do crime, e seu amor torturante por Martim a leva a hesitar entre deixar as coisas como estavam ou denunciá-lo à polícia. Como tinha uma rigidez moral que a impedia de admitir até para si mesma o amor que tinha pelo engenheiro, resolveu denunciá-lo e o romance termina com a prisão de Martim.
 
Exogamia e endogamia
Como esboçamos há pouco, inscrevem-se nas relações postas no romance A maçã no escuro dois núcleos familiares em conexão um com o outro. A antropologia estrutural lévi-straussiana pode ser levada em conta aqui para contrapor esses núcleos familiares, num esforço que poderíamos empreender no sentido de concebê-los como estruturas, em que pese o fato de estarmos lidando com uma realidade ficcional. Assim, apenas com um intuito meramente sugestivo para alargar a compreensão do romance, gostaria de propor a seguinte divisão nesses grupos familiares: há, primeiramente, o grupo representado pelas primas Vitória e Ermelinda – que vive um certo isolamento, e apresenta virtualmente uma tendência à sua própria destituição, já que elas não têm filhos que as possam suceder. Desse modo, apesar de ser fruto de relações exogâmicas, as primas não criam vínculos exogâmicos favoráveis à formação de subnúcleos familiares. O outro grupo, representado por Martim, sua mulher e seu filho, tem um destino claramente exogâmico. Já no primeiro contato entre esses dois núcleos, do qual emerge alguma tensão, percebe-se a tentativa por parte de Vitória de marcar seu poder para não sucumbir, poderíamos interpretar, ao possível triunfo da exogamia representada pelo histórico familiar de Martim. Há a desconfiança natural de um primeiro contato, evidentemente, mas também vemos certa hostilidade que persiste não só no diálogo entre os dois e o empregado Francisco, mas também ao longo da relação entre eles na narrativa:
 
– O que é que o senhor deseja. (…) / – Eu estava olhando, respondeu sem pudor. (…) / – Disso eu sei, disse a mulher do alpendre. (…) / – Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim (…) / – Já bebi, disse este com alguma candura (…) / – Que o senhor bebeu eu também sei. / – Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus (LISPECTOR, 1992, p. 56).3
 
Os valores atribuídos a essas personagens – maior sociabilidade na figura de Martim, e a rispidez na figura de Vitória – podem ser vistos como reflexos do valor sociocultural imputado aos diferentes tipos de família. Com base nas análises da antropologia estrutural expostas sobretudo nas Estruturas elementares do parentesco (1949), de Lévi-Strauss4, podemos depreender que o paradigma da família exogâmica é hegemônico e efetivamente propulsiona o arranjo de novas famílias, pela famosa tese da “troca de mulheres” entre diferentes clãs e formações familiares. Tendo sido esse o modelo responsável pela perpetuação da espécie humana em proporções abundantes, em contraposição ao modelo endogâmico, cuja expansão ocorre no interior de um mesmo clã ou unidade familiar e é mais limitada pelo número menor de parcerias sexuais propiciadoras de reprodução possíveis (de acordo com os estudos de Lévi-Strauss, há restrições à formação de parcerias sexuais mesmo para os sistemas endogâmicos), então podemos efetuar uma contraposição de valores entre esses dois modelos familiares. O valor positivo atribuído à exogamia vem de seu poder normativo coercitivo e pela adesão social em larga escala desse modelo; da mesma forma, igualmente entendemos que o modelo reverso, o endogâmico, é a contraparte negativa da exogamia por não promover em proporções tão elevadas a expansão do número de ramificações humanas, e também por ser culturalmente interdito como uma possibilidade abjeta da existência humana, que deve ser evitada a qualquer custo. O costume condena ao ostracismo aqueles que ousam se aventurar por esse caminho, inibindo o incesto.
 
Desdobramentos da contraposição de modelos familiares
Em consequência dessa contraposição, dentro da qual reconhecemos certo maniqueísmo que logo será desmontado ou visto por um outro ângulo, identificamos em Martim uma positividade, e nas duas primas uma negatividade, ainda que incorramos numa validação pura e simples de valores muito arraigados da cultura, que se confirmam, se reiteram e se promovem justamente pelo tabu às formações familiares endogâmicas ou sem destino claramente exogâmico – basta ver como a cultura valora negativamente mães solteiras ou mesmo mulheres que não pretendem ter filhos. De todo modo, Martim faz parte de uma configuração familiar atrelada a valores normativos e socialmente esperados nos costumes, por ser casado e ter um filho, ao passo que o espaço da fazenda de Vitória e de sua prima agregada Ermelinda pode ser concebido como o continente residual do esfacelamento das unidades familiares em que as duas personagens encontravam amparo em seu passado e com as quais, num certo momento, as duas romperam (Ermelinda talvez parcialmente o tenha feito, por ainda, como veremos, repetir um modo de ser que era seu paradigma existencial com a unidade familiar com a qual vivia em seu passado).
O trabalhador ali instalado, Francisco, tendo feito sua aparição inicial nos trechos do diálogo que descrevemos a propósito da entrada de Martim na fazenda, é um potencial agente para a formação de uma nova configuração familiar – exogâmica – naquele ambiente, mas em nenhum momento  se coloca como pretendente das duas personagens femininas – e a recíproca é igualmente verdadeira (ou o olhar do narrador está tão ancorado no impacto da chegada de Martim à fazenda e nas reverberações que ele produz na existência das primas que a existência de Francisco é quase invisibilizada).
Vitória está nos seus cinquenta anos e é solteira. Por meio de Martim, nos momentos finais da narrativa, ela revê seu passado e percebe em sua própria história uma lacuna de relacionamentos românticos. É na conversa que ela tem com ele que ela se dá conta de que teria amado muito pouco ou teria deixado de lado a possibilidade de ser amada. Ela se recorda, na ocasião dessa descoberta, de uma história que poderia ter sido de amor, mas que não ocorreu concretamente, e tal lembrança serve de escudo para se proteger do constrangimento decorrente da percepção dessa falta de vínculos românticos em sua história, já que ela queria se desembaraçar da sugestão dada por Martim de que ela deveria encontrar um amor. A lembrança de Vitória consistia na visão que ela teve, quando jovem, de um rapaz armando uma fogueira e que demonstrou alguma inclinação em relação a ela, mas a história se interrompe aí e nada mais acontece. Apenas o “não-amor” acontece:
– Era a primeira vez que eu pisava neste sítio, e nunca pensei que ele terminaria sendo meu, continuou ela insistindo na nota da coincidência. Eu estava de férias e vi um rapaz acendendo uma fogueira no descampado. Fiquei de pé olhando, tinha um menino olhando também! exclamou garantindo a veracidade do fato, esse menino até já morreu, disse rouca. Vi o rapaz acendendo a fogueira, a poeira quente das folhas voava, esquentava – esquentava uma pessoa. (…) E eu… estava ali – eu, muito moça, muito linda, louca oh louca que eu era e ninguém sabia (…) eu era tão idealista! Eu estava de pé, assim mesmo, e eu – eu amava esse rapaz, eu amava esse rapaz e amava essa fogueira que ele acendia. Ele não disse uma só palavra! uma só palavra.
(…)
– E foi esse então o seu amor? – perguntou Martim com uma delicadeza de que ela não o julgara capaz.
– É, disse um pouco decepcionada, enxugando o suor. Esse também foi o meu amor.
– Durou tanto quanto a fogueira, disse Martim (…) ele não sabia como poupá-la de encarar a pobreza de sua história de amor (LISPECTOR, 1992, p. 268-269).5
 
 
Assim como os detalhes que ela traz para a sua história empobrecida de fatos e de transformações pessoais reforçam o vazio de sua existência, ela também se refere a outros momentos de sua vida enfatizando impressões dos espaços pelos quais ela circulou, dos objetos que ela viu, das sensações que ela teve e a menção que ela faz a pessoas é sempre circunstancial. É como se as alusões que ela fizesse não trouxessem uma dimensão realmente vital de sua subjetividade, o que acaba por enfraquecer o efeito perlocutório que seu discurso poderia surtir em seu interlocutor Martim – ou é esse o máximo de convencimento que ela consegue alcançar, é o máximo que sua posição de sujeito pode atingir, por conta da rarefação de relações sociais em sua história: é como se os objetos que tivesse visto fossem o cenário principal de sua vida, e as pessoas fossem secundárias, relegadas a segundo plano. Esse isolamento social pode tê-la impedido de aprender a selecionar os fatos que pragmaticamente são esperados nas comunicações correntes. É com essa disposição e essa comunicação fora dos esquemas convencionais e que não a promovem perante os outros que ela menciona a visita de alguns parentes ao Rio de Janeiro, onde ela morava antes de se instalar na fazenda. Ao tentar narrar essa experiência, também vemos um esvaziamento de sentido e uma saturação sensorial que ela julga importante trazer à baila, mas que é constrangedor e incompreensível ao homem, como vemos a seguir:
 
– Mas nesse tempo, continuou a mulher com o rosto de repente clareado pelo prazer e pelo inesperado acesso a um ideal inatingível, nesse tempo vinham em pratos enormes as costeletas de porco cheias de gordura, e quando eu saía do restaurante, via que as frutas nas quitandas se esborrachavam e então… (…) Não sei, disse enxugando penosamente o suor, mas era como se eu visse que as coisas são muito mais que a casca seca, o senhor por acaso me entende? Era como se eu visse que, se antes sentira nojo, era porque já então eu sabia que o perigo estava sob a secura (…) era horrivelmente maduro, sabe como é? E eu me sentia tão cansada como se fosse adoecer.
(…)
A mulher via que ele não entendia (LISPECTOR, 1992, p. 263).6
 
 
É com relutância, aliás, que ela admite o vazio de histórias amorosas e com mais dificuldade ainda admite a interpretação de Martim segundo a qual ela é medrosa. Vitória, apesar de muito resistente à interpretação sugerida por Martim e reiterada pelo narrador, dá alguns sinais de que seu movimento existencial mais espontâneo não consistia em tal isolamento, selado no deslocamento que ela realizou de uma grande cidade como o Rio para ir se instalar numa fazenda em meio a um descampado. Ao ser questionada a respeito das motivações que a levaram a se instalar na fazenda, ela responde (depois muitas idas e vindas em seu raciocínio difícil): “Fui eu mesma que quis vir para cá. Sei, sei que foi um erro, não precisa dizer.” Logo depois, ela diz:
 
Suponho […] que eu imaginava poder encontrar na fazenda aquilo tudo [aqui ela menciona aquelas frutas e comidas gordurosas já aludidas e que talvez tenham dado a ela, por contraste imagético, a ideia de que vivia sob certa superficialidade, pouco amadurecida pessoalmente] Mas depois […] me confundi um pouco” (LISPECTOR, 1992, p. 262).7
 
 
Como diz o narrador, ela escolheu corajosamente seguir pelo caminho do medo. Poderíamos explicar que essa coragem um tanto estranhamente colocada – já que se inverte a convenção semântica que opõe coragem ao medo – tem sua razão de ser no fato de que ela está associada ao fato de que, ao ter uma coragem ancorada no medo, assume-se um risco que também é pressuposto nos atos corajosos convencionalmente reconhecidos como tais, com sua positividade facilmente identificável. Escolher ter medo seria, do ponto de vista do narrador, um ato igualmente corajoso – ainda que polêmico: é um autossacrifício, uma martirização, é a aniquilação do sujeito, o apagamento pessoal, o esvaziamento de si. O título do romance nos sinaliza a centralidade desse  gesto de aniquilação do desejo para a narrativa em si, no sentido de que o fruto proibido edênico seria a encarnação da inibição do desejo transferida para as personagens femininas encerradas em seu isolamento existencial.
A situação de Ermelinda guarda algumas semelhanças com a da prima Vitória. Encontramos igualmente um vácuo no âmbito de suas relações sociais, e seu ingresso na fazenda em certa medida agrava seu isolamento, embora outros indícios apontem para uma maior sociabilidade de Ermelinda em comparação com Vitória. A narrativa também não se detém muito nos detalhes do passado de Ermelinda, mas colhe-se a informação de que ela tinha sido casada antes de ir à fazenda de Vitória. Podemos pressupor, com algum risco por estarmos nos baseando puramente nas omissões da narrativa, que ela não exercia atividades remuneradas, e também possuía poucos vínculos sociais – ainda que mais convencionalmente moldados do que os de Vitória. Assim, mesmo num cenário que a coloca num “destino exogâmico”, com uma sociabilidade maior, vemos uma negatividade e o vazio na ausência de projetos e na subordinação a uma relação conjugal que não a emancipa como sujeito. No capítulo inicial da segunda parte do livro (“Nascimento do herói”), momento em que Martim passa a se sentir seduzido por Ermelinda depois de tantas investidas por parte dela – abandonando o silêncio que até então ele vinha fazendo em relação à aproximação da moça –, ele faz um comentário que contribui para a caracterização do isolamento de Ermelinda: depois dela ter sugerido que ele a julgava “doida”, ele nega tê-la visto dessa forma, dizendo: “você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta (…)” (LISPECTOR, 1992, p. 120).8
Convém considerar a figura de Ermelinda e a de outras personagens femininas de A maçã no escuro sob o arcabouço conceitual apresentado por Simone de Beauvoir em O segundo sexo9: algumas ideias da filósofa se amalgamam com as formulações tecidas sobre os gêneros no romance. Explico: para não ameaçar o protagonismo masculino na vida pública, Ermelinda, respeitando sua condição de mulher casada, evita sair do seu confinamento doméstico e acredita estar sendo beneficiada por esse modelo de vida – de fato, há benefícios no sentido dela ter garantida sua sobrevivência material, mas eles são proporcionados às expensas do marido e por meio da renúncia a uma atuação na esfera pública. Findo o casamento por conta do falecimento do esposo, Ermelinda, desamparada financeiramente para prover seu próprio sustento, aceita viver como agregada na fazenda de Vitória, e sua dependência em relação a outrem perdura – sua condição objetal perdura: ela parece ter dificuldade para fazer luto de sua antiga condição de casada, e isso a encerra numa condição de contínua subalternidade tanto em relação aos próprios desejos, quanto em relação à Vitória – replicando assim o esquema de sua vida de casada precedente, dentro do qual ela se acomoda e assegura uma existência de poucos desejos possíveis, pois não implica uma nova ordem que exigiria dela o trabalho de romper gradativamente com os laços de sua existência objetal do passado. De certa forma, Vitória se beneficia, como o antigo marido de Ermelinda, dessa assimetria de poderes: portando-se ativa e agressivamente, para iludir-se com a posse de um poder que, pelos elementos elencados há pouco, podem ser apenas encobridores de seu próprio vazio, reina em sua propriedade e autoritariamente manda e desmanda em todos os que a cercam na fazenda, e ela tem essa conduta também em relação à Ermelinda. Ou seja, é uma relação de senhora e escrava, que é equilibrada pela aparente força de Vitória e a aparente fragilidade de Ermelinda, se concebermos as duas como integrantes de um sistema familiar, em que as deficiências de um membro asseguram a estabilidade e o equilíbrio de todo o conjunto familiar, seguindo um certo modo de conceber as dinâmicas familiares.10
Também uma articulação possível que se pode fazer sobre as personagens femininas e “a situação existencial” das mulheres destrinchada pela filosofia beauvoiriana se vislumbra nas alusões que se faz, no romance, à figura feminina a partir do olhar masculino: a mulher é, sob esse ponto de vista, a outra que confirma o homem. Já se pode perceber esse olhar nos pensamentos que são expostos na ocasião do contato que Martim tem com a “mulata”, ao final da primeira parte primeira parte do livro – pouco antes dele ter se interessado por Ermelinda –, cujo título, “Como se faz um homem”, anuncia uma espécie de explicação generalizante da constituição da subjetividade masculina. Nesse sentido, as percepções e impressões que Martim vinha recebendo e elaborando a partir da tentativa de recusar o expediente da linguagem verbal e os códigos de uma lógica convencional – e, paradoxalmente, expressas verbalmente pelo narrador – pareciam indicar a mulher como a alteridade que confirma o homem:
 
“(Ele) pareceu entender para que nascem mulheres quando uma pessoa é um homem. (…) Como se seu corpo por si mesmo não bastasse. Era o desejo, sim, ele bem se lembrou. Lembrou-se de que mulher é mais que o amigo de um homem, mulher era o próprio corpo do homem. Com um sorriso um pouco doloroso, acariciou então o couro feminino da vaca e olhou em torno: o mundo era masculino e feminino”  (LISPECTOR, 1992, p. 102).
 
Essa ideia de uma entidade que confirma a subjetividade masculina será desdobrada nas seções seguintes, que vai tentar delinear linhas de força recorrentes no romance e que parecem apresentar uma ideia sobre os gêneros a partir da ideia do fruto proibido edênico.
 
O fruto proibido como chave interpretativa
Entendemos que a chegada de Martim à fazenda desestabiliza o quadro de poderes ali colocados. Há uma saturação simbólica no romance que autoriza leituras muito diversificadas e talvez até antagônicas, e, portanto, nosso ângulo de observação e análise das relações em jogo no romance será uma escolha entre muitas possíveis. De todo modo, nossa leitura é encorajada pela temática do pecado original que o romance convoca, já no título. Acreditamos produtiva a consideração a algumas significações do fruto proibido edênico, da tradição judaico-cristã, sobretudo nos desdobramentos da expulsão das criaturas humanas do paraíso. Essa é uma das várias formas claricianas de retorno a uma verdade original, anterior à constituição do sujeito, tão bem delineada no texto “Menino a bico de pena”11.
Vejamos então como o retorno à tal verdade transcendental poderia estar organizado em A maçã no escuro. Uma vez que a desobediência que acarretou a interdição ao paraíso afastou os seres humanos da divindade una, da fusão harmônica com um mundo ao qual, após nos separarmos dele, apenas podemos fazer referência pela mediação da linguagem e não pelo acesso direto aos fenômenos e aos referentes, instaura-se uma falta fundamental nos sujeitos. Expulsos do paraíso, é como se tivéssemos perdido nossa inteireza viva – somos seres a quem falta algo. Temos no fruto proibido, portanto, o significante do inacessível pelo qual nossa inteireza poderia ser restituída. A propósito dessa volta, não posso deixar de mencionar uma leitura muito fecunda de Rodolfo Piskorski12, e que está resumida no artigo “O significante fálico em A maçã no escuro”, de cuja linha argumentativa faremos uso parcial para mostrar a reverberação de certas noções ligadas ao fruto proibido ao longo do texto clariciano. A partir do conceito de suplemento, de Derrida, usado para compreender o que é a significação, Piskorski entende que
 
(…) somente através do suplemento, que é esse elemento que sempre já é definido como secundário, instrumental e desnecessário, é possível que se construa a ideia da origem e do elemento inicial como algo completo, pleno e presente a si. O suplemento, apesar de ser o ‘mal necessário’ que ameaça substituir e desfigurar quando é chamado apenas para completar e auxiliar, é na verdade o responsável por retroativamente criar o estado originário que deveria, por definição, ser perfeito e acabado (PISKORSKI, [2012? 2013?], p. 2).
 
Ou seja, há um dúbio caráter no suplemento: ele nos dá acesso à imagem fiel da origem, mas o processo falha por não dar acesso direto a ela, por demandar intermediação, tornando-a cópia do original, e, portanto, infiel. Ora, Martim perambula pelo mundo tentando ancorar sua identidade em algum lugar depois de ter supostamente tentado matar sua esposa. Se pensarmos na articulação da temática do pecado original com a trama do romance, desliza-se facilmente para a noção de que Martim estaria repetindo o pecado original, para poder se reumanizar, e vive uma ilusão de plenitude ao não sentir as consequências do seu ato enquanto estava na condição de fugitivo da lei, pois só uma entidade divina estaria a salvo da lei, só ela teria essa inteireza. Ele confirma por vezes ser portador de uma verdade transcendental, que ele tenta registrar por escrito, mas não consegue – no capítulo 8 da segunda parte (“Nascimento do herói”) –, pois é tão humano como os outros e só tem acesso à realidade pela linguagem convencionalmente instituída pelos humanos para suplantar a falta de um acesso direto ao real. Mas a consequência do crime se consuma no fato da sua prisão, adiada para o desfecho da narrativa, como se houvesse, pela postergação de uma consequência inevitável da humanidade, a sugestão de que a lei é um imperativo insuperável e irrenunciável, mesmo que seus efeitos não se façam sentir de modo imediato. O fracasso que se abate sobre Martim quando ele tenta registrar a sua verdade transcendental – se é que ela existe – já prenuncia que só conseguimos expressar aquilo que é “alcançável”, só conseguimos representar os fenômenos, e jamais somos apresentados diretamente a eles. Tal queda também é possível de ser visualizada e se impõe pela emblemática tentativa de um homem aniquilar a mulher. Nesse sentido, a leitura de Piskorski a partir da noção de suplemento reforça esse dado simbólico que pode ser aproveitado para vermos como a dualidade entre masculino e feminino importa para o romance: na origem bíblica, ao homem (Adão) foi concedida a presença de uma auxiliar, a mulher (Eva). E é esse caráter auxiliar da mulher que Martim quer extirpar de seu horizonte ao tentar matar sua esposa, se aceitarmos a mesma radicalização de leitura proposta por Piskorski. Martim triunfaria, com esse assassinato, em voltar (imaginariamente, claro) a ter acesso direto, sem suplemento, ao real. A divisão sexual nos moldes do Gênesis bíblico seria um dos emblemas da falta de todos os seres humanos – nenhum gênero é capaz de alcançar, por si só, os referentes e as fontes originais de qualquer discurso.
O fruto proibido como chave de leitura do romance consegue implicar as personagens principais do romance numa lógica sistêmica que articula tanto a negatividade das limitações sociais e existenciais das duas primas – e talvez, de forma pouco profunda, da mulata – quanto a positividade atribuída a Martim. Em outras palavras, poderíamos compreender que é colocado em jogo pelo romance uma representação do vazio feminino, reforçado ainda mais pelo caráter subalterno e auxiliar da mulher no ato da criação divina e que se replica abundantemente na obra clariciana. Tal vazio se camufla sob o manto da saturação simbólica e dos paradoxos com que o feminino é figurado – a negatividade dos paradoxos podem ser a formalização do vazio de que estamos falando (as rosas da personagem Laura, do conto “A imitação da rosa”13, por exemplo, podem ser lidas como um vazio, já que fulguram uma beleza efêmera e são alvo da retórica clássica do carpe diem – “colher o dia que passa”; tal beleza atrai a personagem mas também sabemos que elas provavelmente a fazem mergulhar em depressão ou a entrar em estado de loucura; tal vazio é, ademais, patente nas duas primas de A maçã no escuro, como vimos com um pouco mais de detalhes). Ao mesmo tempo, a contraparte desse vazio é a plenitude viril ilusória encarnada por Martim, legitimada, diríamos, pela pretensa universalidade e neutralidade do homem – ao contrário da não-universalidade e não-neutralidade da mulher –, buscando alguma forma de se agarrar às coisas em si sem auxiliar, sem suplemento, sem instrumentos de mediação entre ele e o mundo, autossuficientemente.
 
Imaginação como desconfiança
Até o presente momento, as linhas de força que pudemos apontar de certa forma não se desviam muito de um imaginário muito comum sobre a subjetividade masculina e feminina. É como se, até agora, o romance estivesse simplesmente reforçando os valores existentes e os pensamentos prontos. Entretanto, acredito igualmente poder ver nele focos de resistência aos modelos estruturais e míticos aqui analisados: primeiramente, o fato do elemento masculino positivo estar fora das normas que ele se arroga conhecer ao expor as fragilidades comunicativas e sociais das duas mulheres já se revela como um desvio da rota que estava validando os dados já conhecidos da cultura – que atribuem ao homem a universalidade e o pensamento conceitual. Além disso, as mulheres supostamente vazias e ignorantes das regras da vida são justamente aquelas que representarão uma ameaça real a esse mesmo homem, por poderem denunciá-lo à polícia e igualá-lo na condição limitante e de sujeição antes reservada apenas ao feminino – são os dois gêneros que estão impedidos de acessar diretamente a realidade e os dois gêneros também estão sujeitos à mesma lei e sem os delírios de plenitude com que o homem antes sonhava. Martim engendra sua própria humanidade quando se vê subsumido às leis existentes e, portanto, é um ser a quem também a falta é inerente à sua condição.
O fato das mulheres poderem ser vistas como porta-vozes da crítica à pretensa universalidade do homem no romance me parece um momento importante na obra, no sentido de mostrar que, se o feminino existe, não é como simples suplemento validado pelo mito do pecado original, mas sim para se afirmar como vertente crítica do pensamento, como vertente que suspeita, que desconfia desse lugar tão seguro que fora reservado aos homens.  Assim, a busca de inteireza de Martim, ancorada nos valores que já estão dados, se fragiliza diante da suspeita e da denúncia que Vitória lança sobre ele, que o conduzem à prisão tanto no plano simbólico quanto no plano literal.
 
Considerações finais
Um romance da dimensão de A maçã no escuro mereceria, evidentemente, mais espaço para análise, a partir de outras chaves interpretativas. No entanto, acredito que pensar num vazio que se transmuta em excesso simbólico não só nesse romance, mas nas obras claricianas de modo geral, me faz acreditar que tentar destrinchar o maior número de leituras possíveis é também cair nas armadilhas de uma retórica que sempre pende para um excesso infindável.
Ademais, um estranhamento de leitura pode ter sido causado pela completa ausência de considerações ao pai de Vitória no romance. Não ignoro que a presença dele como ser doente pode ser bastante significativa. Entretanto, também não acredito que se deva atribuir o vazio em que a personagem se encontra ao pai. O preço a se pagar, talvez, para podermos visualizar um contorno mais amplo e menos particularizado da figura de Vitória – com a potência transgressora da suspeita e da crítica – e que possa ser compreendida como momento de resistência crítica ao pensamento universalista, é ver no pai dela um detalhe que a constitui, mas que não a resume. Desse modo, ela pode adquirir o estatuto de representante feminino clariciano capaz de opor força a um conjunto de dados culturais que sempre reservam ao feminino o vazio e a mudez.
 
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo (1949). São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967. v. 1, Fatos e mitos. v. 2, A experiência vivida.
LÉVI-STRAUSS, C. Estruturas elementares do parentesco (1949). São Paulo: Vozes, 2013.
LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro (1961). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
LISPECTOR, Clarice. A imitação da rosa, em Laços de família (1960). Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. Menino a bico de pena, em A descoberta do mundo (1984). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
MANDELBAUM, Belinda. Psicanálise da família. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008. (Coleção Clínica Psicanalítica).
PISKORSKI, Rodolfo. O significante fálico em A maçã no escuro (2012? 2013?). Acesso em 10/12/15, às 20h: www.priberam.pt/DLPO/defaut.aspx/?pal=f%C3%A1lico. p. 1-10.
SOUZA, Gilda de Mello e. O vertiginoso relance (1963), em Exercícios de leitura. (Coleção O Baile das Quatro Artes). São Paulo: Duas Cidades, 1980, p. 79-91.
 
NOTAS
[1] LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
2 SOUZA, Gilda de Mello e. “O vertiginoso relance”, em Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades, 1980, p. 86-87. (Coleção O Baile das Quatro Artes).
3 LISPECTOR (1992), p. 56.
4 LÉVI-STRAUSS, C. Estruturas elementares do parentesco. São Paulo: Vozes, 2013.
5 LISPECTOR (1992), p. 268-269.
6 LISPECTOR (1992), p. 263.
7 LISPECTOR (1992), p. 262.
8 LISPECTOR (1992), p. 120. Grifos meus.
9 BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967. v. 1, Fatos e mitos. v. 2, A experiência vivida.
10 MANDELBAUM, Belinda (2008, p. 44) alude a uma corrente de estudos acadêmicos da família que tinha essa perspectiva sistêmica para fins de aplicação clínica, a partir da década de 1950, em Palo Alto, na Califórnia.
11 LISPECTOR, Clarice. “Menino a bico de pena”, em A descoberta do mundo (1984) Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 240-243.
12 PISKORSKI, Rodolfo. O significante fálico em A maçã no escuro, em www.priberam.pt/DLPO/defaut.aspx/?pal=f%C3%A1lico (2012? 2013?, p. 2).





Bio fornecida pelo palestrante.

A VIAGEM COMO ESTRATÉGIA DE LIBERTAÇÃO FEMININA EM AMANHECER, DE LÚCIA MIGUEL PEREIRA – Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida




Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida

Universidade Estadual de Montes Claros

 
RESUMO: A escritora mineira Lúcia Miguel Pereira iniciou sua carreira literária nas primeiras décadas do século XX. Foi também uma das pioneiras mulheres a investir na crítica literária brasileira e ser reconhecida pela sua atuação nessa área. Enquanto ficcionista, Lúcia Miguel-Pereira não teve o mesmo reconhecimento que enquanto crítica literária, ainda que tenha publicado várias obras: quatro romances direcionados ao público adulto, intitulados Maria Luísa, Em Surdina, Amanhecer e Cabra-cega e outros quatro voltados para o público jovem: A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde. Fica evidente, tanto em sua crítica quanto em sua ficção, que a autora se preocupa com a condição social da mulher no Brasil dos primeiros cinquenta anos do século XX. Esse aspecto pode ser exemplificado quando trata da viagem das personagens Maria Aparecida e Sônia como sendo estratégia de libertação, na obra Amanhecer, escrita em 1938.
 
PALAVRAS-CHAVE: mulher, libertação, viagem, ficção.
 
ABSTRACT: The writer Lúcia Miguel-Pereira was born in Minas Gerais and began her literary career in the first decades of the twentieth century. She was one of the first women to become a female Brazilian literary critic and to be recognized by her performance as such. Lúcia Miguel-Pereira did not have the same recognition as a fiction writer, although she published four novels directed to adult readers, entitled Maria LuísaEm surdinaAmanhecer and Cabra-cega; another four were aimed at young readers: A fada menina, Na floresta mágicaMaria e seus bonecos and A filha do Rio Verde. One can notice her concern for the social status of Brazilian women either in her criticism or in her fiction during the 1950s. This becomes evident in her introduction of travels by the characters Maria Aparecida and Sônia in the novel Amanhecer (1938) as a strategy for women’s liberation.
 
KEYWORDS: woman, liberation, travel, fiction.
 
 
Minicurrículo: EDWIRGENS A. RIBEIRO LOPES DE ALMEIDA é mestre em Literatura Brasileira pela UFMG, doutora em Literatura pela UNB e doutora em Literatura espanhola pela USP. Autora dos livros Por trás do véu e da espada: o disfarce subjacente à representação das personagens cervantinas, O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira: escritos da tradição, Crítica, poética e relações de gênero: uma releitura de Memórias de um sargento de milícias, organizadora dos livros Diálogos literários: a ficção do século de ouro espanhol e as literaturas brasileira, francesa e inglesa, Nas margens do fato escritos sobre as Novelas de Cervantes; e Relendo Dom Quixote. É escritora integrante do Dicionário Miguel de Cervantes o sagrado direito de sonhar, dentre outros. Professora/pesquisadora do Departamento de Comunicação e Letras e do Mestrado em Letras da UNIMONTES. Membro da ABH e da Asociación Cervantes.
 
 
A VIAGEM COMO ESTRATÉGIA DE LIBERTAÇÃO FEMININA EM AMANHECER,
DE LÚCIA MIGUEL PEREIRA
 
Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida
Universidade Estadual de Montes Claros
 
 
Longo ou curto, narrando um episódio ou toda uma existência, o romance tem que penetrar fundo nos mistérios da vida, ter um sentido de busca, de tentativa de compreensão. Sem isso, nada vale, seja embora bem realizado como obra de arte.
Lúcia Miguel-Pereira
 
 
Sendo considerada uma das primeiras mulheres a investir do campo da crítica literária, Lúcia Miguel Pereira teve logo o reconhecimento por sua atuação na escrita de jornais e revistas, além de biografar, coerentemente, dois grandes nomes da literatura brasileira: Machado de Assis e Gonçalves Dias. A profícua atividade no campo das letras ao longo dos primeiros 1950 anos do século XX, a escritora, nascida em Minas Gerais, também fez um breve percurso pelos campos da ficção quando empreendeu a escrita de quatro romances Maria Luísa, Em Surdina, Amanhecer e Cabra-cega destinados ao leitor adulto e outros quatro A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde, que procuravam conquistar os pequenos leitores.
Desse legado deixado por Lúcia Miguel Pereira, a ficção para adultos revela uma autora preocupada com a condição social da mulher naquele contexto dos anos 30 e nas décadas seguintes até o falecimento da autora em 1959.  Para Lúcia Miguel, a literatura era uma forma ativa de demonstrar a ocupação relegada à mulher e as possibilidades que as mesmas poderiam galgar. Essa discussão pode ser facilmente percebida tanto em seus textos de ficção quanto em seus textos críticos publicados em jornais e revistas para os quais a autora, fertilmente, contribuiu. Tendo em vista essa inquietação que percorreu a trajetória da escritora, nesta breve exegese, demonstraremos como a mesma utiliza a estratégia da viagem de Maria Aparecida, personagem da obra Amanhecer, publicada em 1938, para metaforizar uma forma de libertação feminina.
Frente ao exposto, pode-se relatar que, pelo trecho acima citado como epígrafe, escrito por Lúcia Miguel Pereira para a Revista do Brasil dois anos após a publicação de Amanhecer, indica a preocupação com o conteúdo da ficção, sobretudo com a sua função na existência das pessoas. No mesmo artigo, Lúcia avança no sentido de explicar que o papel do romance, mais acessível que o drama e a poesia, pode satisfazer “à necessidade, numa época como a nossa [o final da década de 30], praticamente sem padrões morais, de pôr em equação todos os problemas, de procurar soluções para os conflitos humanos” (PEREIRA, 1992, p. 126).
Talvez por essas preocupações, pela ação do romance sobre o indivíduo que pode influenciar a desordem evidente no contexto, a artista construa um enredo bastante contraditório, porém, que faz um chamamento a pensar. Traduzindo essa complexidade do tempo, principalmente no plano ideológico, ela põe em evidência no romance Amanhecer, duas distintas personagens, Maria Aparecida e Sônia. A primeira, embora seja a protagonista, narradora de suas próprias memórias, divide atenção com a coadjuvante Sônia, que passa a ocupar lugar privilegiado na cena ficcional. Uma é o oposto da outra. Enquanto Maria Aparecida é a representação da tradição, através de seu discurso religioso, embora um pouco místico também, sonha com um casamento por amor e sua completa realização através dele, enquanto Sônia é emblemática da modernidade. Moradora da cidade grande, sem muitas crenças e superstições, namoradeira, não segue os protocolos e os padrões morais da família tradicional.
Para a protagonista, o encontro com Sônia está previsto em sua imaginação fantasiosa. Também a chegada da nova moradora da Casa Verde põe Aparecida diante da possibilidade da realização de seus sonhos, como o casamento com um burguês, o exercício do trabalho, a mudança para a cidade grande. Talvez aqui seja indicada a inevitabilidade do contato com as novas posturas, com a modernidade, traduzida na oportunidade da realização pessoal e profissional da mulher, o que, ironicamente, configura outra frustração da protagonista. De certa forma, é a viagem tanto de uma quanto da outra que começa a operacionalizar as transformações na vida das duas. É através da viagem de Sônia para o lugarejo de São José que Aparecida tem contato com novas ideologias e novas práticas, do mesmo modo que Sônia, naquele lugar, trava contato com uma nova realidade e, a partir dali, passa a buscar novos objetivos para sua vida. É, ainda, com a viagem para o Rio de Janeiro que se dá a concretização da transformação de ambas.
Se o embate que nutriu esse escrito se revela bem condizente com uma crítica aos pressupostos patriarcais, Sônia era o símbolo da desordem, da liberdade, enquanto Aparecida realça os parâmetros da regrada educação patriarcal. Nádia Batella Gotlib (1998) esclarece que as personagens de Lúcia Miguel apresentam alguns traços da religiosidade católica possuídos pela autora. Do lado da autoria, Antonio Candido acrescenta que, nos registros de Lúcia, há a preocupação com o espiritual. “Trata-se de uma católica preocupada em ver a sociedade resolver os seus graves problemas à luz de uma transformação espiritual marcada pela fidelidade aos princípios religiosos” (CANDIDO, 2004, p. 130). Consoante nossa explicação, mesmo que revele a preocupação com a presença de Deus, através da religião católica na ficção, a autora não deixa de criticar algumas posturas de religiosos. Falando ainda dessa presença nos textos da década de 30, Candido prossegue: “Para Lúcia, havia no panorama do seu tempo uma esterilidade e um dilaceramento que a faziam tender à busca da unidade pela fé” (CANDIDO, 2004, p. 130).
Do plano da ficção, essa educação, sobretudo religiosa adquirida num colégio de freiras, era, para Sônia, uma falta de civilização: “– Você está muito cheia de baboseiras… quando formos para o Rio, há de ir passar uns tempos comigo para se civilizar” (PEREIRA, 1938, p. 38). Sob uma ótica irônica, as palavras da personagem Sônia indicam que as crenças, superstições e costumes daquele lugar eram entendidos como ‘baboseiras’ e a vida que levava no Rio de Janeiro, ‘cassinos e grills’, festas, passeios ‘de baratinhas com os namorados’, eram para ela práticas de uma pessoa civilizada. A viagem para o Rio de Janeiro era, para Aparecida e, também pela visão de Sônia, uma forma daquela se libertar de uma série de ‘preconceitos’. A religião passa então a ser uma forma de libertação. Também, para Aparecida que, no final da história, acredita-se sem fé, é a Nossa Senhora da Aparecida, a quem ela recorre na última frase do livro.
Apesar de vislumbrar algumas mudanças e certa liberdade, Aparecida tinha consciência da diferença existente entre as duas. Explica a protagonista que “sentia-a mais livre, mais dentro da vida do que, mais capaz de gozar, de aproveitar tudo. Sônia era um animalzinho novo e feliz, obedecendo sempre ao capricho do momento, fazendo tudo que lhe passava pela cabeça” (PEREIRA, 1938, p. 34). A vida regrada da educação recebida por Aparecida é para ela um afastamento dos prazeres da vida, procurando então aproximar-se de Sônia para alcançar também a sua liberdade. Apesar dessa constatação e dessa aspiração, a protagonista, parece não concordar com a amiga que achava um ‘absurdo que a mulher dependesse do casamento para conhecer a vida’. O destaque a este pensamento é bem providencial para fazer pensar as mulheres e, a sociedade de modo extensivo, sobre a ocupação e a conduta estigmatizada da mulher ainda naquele momento. Contraditoriamente e, estrategicamente sarcástico, após abandonar a vida desregrada e passar a obedecer alguns protocolos do tempo, sobretudo no plano espiritual, Sônia se sente mais livre e feliz que a protagonista. E, é com base nessa transformação também que Sônia atribui à religião o final infeliz de Aparecida mostrando isso quando esclarece: “– Antônio matou a sua fé, por isso é que você não é feliz, apesar de estar com ele” (PEREIRA, 1938, p. 228).
A expressão ‘conhecer a vida’ assume significados diferentes para cada uma. Para a ingênua Aparecida, isto representava viver como as heroínas dos romances românticos, enquanto para Sônia, o termo adquire sentido da prática sexual. Apesar da ingenuidade, a narradora de Amanhecer consegue definir bem a questão. “Sem deixar de invejar a liberdade de Sônia, eu sabia que não seria capaz de imitá-la. Viver era para ela uma coisa e para mim outra. Bem diferentes. Às vezes achava Sônia uma desmiolada, uma leviana. E prometia a mim mesma afastar-me dela” (PEREIRA, 1938, p. 35). O enunciado da narradora põe em destaque o conhecimento da ação transformadora de uma sobre a outra. Como buscava mudanças para sua vida, Aparecida mostra ainda uma incerteza se essa transformação seria benéfica para si, assim como se comportavam grande parte das mulheres diante do rompimento e da transformação de suas práticas. Neste sentido, o final desencantado da protagonista parece culminar na punição da mesma por ter tentado. Ao longo da narrativa, é-lhe permitido, em vários momentos, refletir sobre sua decisão. A constatação feita no trecho acima, por exemplo, não foi realizada após a desilusão da mudança, mas no presente dos acontecimentos. Então, ela mesma tinha consciência da incerteza das consequências de seus atos.
Essa criticidade presente na romântica personagem a faz sentir também mais parecida com a mãe da amiga, pois ela “não tinha as teorias esquisitas da filha, vivia no mesmo mundo que eu. Era do Apostolado da Oração, cosia para os pobres todas as sextas feiras. Queria muito que Sônia se casasse” (PEREIRA, 1938, p. 36). Podemos localizar na explicação de Aparecida a chamada de atenção para a existência de mundos diferentes, em consequência disso também a existência de escolhas a serem feitas. Se as teorias são esquisitas se deve ao fato de não serem condizentes com a realidade daquele que a contata, logo improcedentes para uma personagem ‘sonhadora’ como Aparecida, vivendo numa sociedade ficcional que assume para si um tempo de desagregação de valores e de constante vigilância das ideias e das práticas no plano histórico. Do mesmo modo em que a sociedade daqueles tempos agregava distintas formas de tratamento para a mulher burguesa, camponesa ou proletária, a sociedade ficcional assume essa dinâmica e constrói dois universos incompatíveis entre si, o mundo de Aparecida e o mundo de Sônia. O clima de desencanto em que a obra é finalizada parece comprovar a dificuldade de integração entre ambos.
Esse descompasso entre os mundos de Sônia e de Aparecida pode ser notado quando se refere ao trabalho. Como burguesa, essa ocupação não faz parte dos planos de Sônia, enquanto para Aparecida, incentivada por Tia Josefina e por Antônio, o trabalho é entendido como forma de libertação. Porém, Aparecida não segue os conselhos da Tia se tornando professora em São José, ela deseja um emprego como datilógrafa no Rio de Janeiro. Enquanto o pai vê no trabalho uma forma de ‘humilhação parecer não poder sustentá-la’, a mãe indica os perigos do trabalho feminino que levam à perdição. Há aqui mais uma ousadia feminina, isto é, o caminho da subversão tomado por Aparecida que, de certo modo, se não a conduz ao desencanto final, também não é suficiente para a sua plena realização. Com uma iniciativa rara nas protagonistas dos romances de Lúcia, a protagonista põe em prática as ideias de Antônio que ela mesma considera ‘esquisitas’, com isso, rompe com o futuro previsto para uma menina na sua condição, ser professora.
No modo de ver historiográfico, Guacira Lopes Louro (1997) empreende que a sociedade semipatriarcal, ainda nesses tempos, acreditava que toda atividade da mulher fora do lar poderia representar um risco. Para justificar o trabalho da mulher como professora, algumas vozes argumentavam que estas possuíam natural inclinação para o trato com as crianças, sendo elas as primeiras educadoras. “Se o destino primordial da mulher era a maternidade, bastaria pensar que o magistério representava, de certa forma, ‘a extensão da maternidade’, cada aluno ou aluna vistos como um filho ou uma filha ‘espiritual’” (LOURO, 1997, p. 450), completa Guacira Lopes Louro. Por este lado, o trabalho passava a ser visto como uma extensão da maternidade, portanto da ocupação ‘por excelência’ da mulher. Também nesse discurso se inclui os baixos salários oferecidos à mulher o que permitia ao homem o provimento da família, já que “o trabalho externo para ele era visto não apenas como sinal de sua capacidade provedora, mas também como um sinal de sua masculinidade” (LOURO, 1997, p. 453). No ferir a ‘capacidade provedora e a masculinidade’ está a ‘humilhação’ temida pelo pai da narradora de Amanhecer e, mais uma vez o discurso literário, com ironia, critica as regras ao mesmo tempo em que se mostra condizente com o discurso histórico, criando, assim, a ilusão da verdade.
Intentando irromper a condição de submetimento feminino e alcançar a esperada liberdade, o que almeja Aparecida é ir para a cidade exercer o seu trabalho para, assim, fomentar o seu sustento. Embora já houvesse número significativo de mulheres engajadas nos trabalhos como os das fábricas, do comércio ou dos escritórios, essas mulheres ainda eram marginalizadas e essa prática considerada uma fatalidade. Sob essa questão, a ficção põe diante do leitor, a partir da percepção da própria protagonista, que é impossível a tranquilidade para quem faz certas escolhas. Tendo em vista que a posição crítica da autora concorre para acentuar os contrastes e interpretações da ficção, convém comentar a afirmação de Cristina Ferreira Pinto de que Lúcia Miguel Pereira “é partidária da ideologia que defende o direito da mulher ao trabalho, sem restrições de atividades” (PINTO, 1990, p. 50). Desperta atenção essa afirmativa já que, a autora, em texto escrito para a Revista A Ordem, em 1933, já mencionado anteriormente, confirma essa vertente histórica de que a mulher deveria trabalhar em atividades que não ferissem as suas ‘sensibilidades’ femininas e nem as ‘impedissem de exercer as suas atividades domésticas’. Esse pensamento é condizente com aquele do feminismo bem comportado daquela época, do qual Lúcia nega ser complacente, porque, pensava nas mulheres de elite que já haviam alcançado o direito ao voto, o ingresso às universidades, alguma ocupação social. Como esclarecia Bertha Lutz, dois anos antes da publicação de Amanhecer (1938), o envolvimento da mulher com as atividades da educação, do trabalho ou da política daria melhores condições para exercerem o compromisso de mãe e esposa, já que, no lar, ela precisava tomar decisões que eram estabelecidas a partir dessas instituições.
Na instância literária, através da criatura de papel é criticada essa trajetória feminina, pois, negando o trabalho como professora que legaria ‘sua independência’ e a aproximaria das ‘atividades femininas’, a protagonista opta pelo serviço na cidade grande no qual, de toda forma, não consegue alcançar a sua total liberdade, mas fica também exercendo trabalho de datilógrafa para Antônio. Quem a conduz para este trabalho é o ‘mentor’ das ideias ‘dispersivas’ e esse trabalho, como esclarecido, não é bem visto para uma mulher.
Se estudasse, como diz Antônio, a menina poderia virar gente através do trabalho, renuncia ao casamento, tornando-se apenas amante, à maternidade e “torna-se mera colaboradora de Antônio” (BUENO, 2006, p. 518), conforme diz Luís Bueno. Ela mesma conclui sua infelicidade, mediada pela total subserviência e aceitação quando relata “eu serei sua amante, Antônio, sua criada, sua escrava. Serei o que você quiser, contanto que você me dê um lugarzinho na sua vida” (PEREIRA, 1938, p. 213). Nesse momento, o romance ironiza e expõe o risco da mulher ingênua que almeja a liberdade, mas continua submissa ao masculino. Nem o relacionamento com aquele, nem o trabalho é, para ela, fator de libertação, mas de aprisionamento, é o argumento utilizado para viajar para o Rio de Janeiro e dedicar-se a ele, sem pedir nada em troca. São o trabalho e o afeto concorrendo para a escravidão consciente da protagonista. Por conseguinte, a nosso ver, como um mecanismo de mostrar que as mulheres devem vislumbrar mais do que já conseguiram, a personagem é vencida pela sociedade semipatriarcal, pois o que impera no desfecho da trama é o ‘vazio’ desse tipo de vida que ela leva agora em comparação com aquela estabilidade que almeja.
A desagregação ideológica, política e moral, cuja influência se evidencia nos aspectos da vida coletiva são entrevistos, mormente, no seu reflexo literário. Essa desagregação afeta a vida de todos os personagens que passam de uma condição a outra ou de um modo de pensar a outro. Os três romances dessa autora, publicados na década de 30, revelam a desarticulação provocada pelas ‘ideias novas’ em contraposição à chamada ‘velha ordem’. Inclusive a fé católica de Aparecida é perdida após o contato com o modo de pensar e as práticas de Antônio. Explica a protagonista: “não me faz falta a fé, como a entende Sônia; queria sim, que Antônio não tivesse matado a minha alma, a minha personalidade” (PEREIRA, 1938, p. 228). Aparecida que antes acreditava em Deus passa a substituí-lo em sua vida por Antônio. Enquanto Sônia, que antes queria ser livre, após o episódio do ataque do negro, em que acredita ser punição de Deus pelo aborto e pela vida desregrada, de liberdades, o assume para si e finaliza o livro fazendo um esclarecimento para Aparecida: “– De nós duas, a mais livre sou eu… Deus exige muito, mas dá tudo. Antônio quer tudo de você, sem dar nada” (PEREIRA, 1938, p. 232).
Veja-se que as mudanças operacionalizadas nas personagens são intensas, capazes de conduzir o curso da trama e permitir o chamamento de uma reação feminina diante da passividade e do anonimato da mulher frente à sociedade. A postura de Antônio revela a vulnerabilidade de seus posicionamentos comunistas levando o leitor a duvidar de sua crença em suas próprias ações. Ainda assim, Antônio não muda, termina a narrativa do mesmo modo que começou nem mais nem menos feliz. Assim, a narrativa conclama ao leitor a pensar sobre a parcialidade dos discursos. Enquanto ele prega o princípio da liberdade, o resultado de sua ação sobre Aparecida é de aprisionamento. Se, como diz Antônio, o único trabalho que degrada é o do escravo, a vida de Aparecida é degradada porque ela termina vivendo em função dele e lhe servindo como datilógrafa, sem receber nada em troca, apenas com a recompensa de que “a história registrará o seu nome como minha colaboradora” (PEREIRA, 1938, p. 229), como completa Antônio.
A nosso ver, vale lembrar também que a condição social concorre para o final desencantado da narradora. Sônia deixa sua vida burguesa, de ‘modernismos’, para acreditar e seguir os princípios da fé católica. Para ela, isso a faz mais feliz que Aparecida, pois esta agora, descrente de tudo em que acreditava antes, começa a viver como amante de Antônio, servindo-lhe com seus trabalhos de datilografia, sem, como ela mesma diz: “um nome, um lar, uma situação estável” (PEREIRA, 1938, p. 230). A frase acima citada por Aparecida ratifica o desejo dela pela manutenção daqueles protocolos dos quais ela vai se afastando à medida que se aproxima das ‘novas’ ideias e faz a sua viagem. Nome, lar, situação estável traduz e inspira situação semelhante ao que se prega com “Deus, pátria e família”. Pensando no trabalho feminino como uma preocupação moderna, este é visto com certos receios, uma vez que contribui para a perdição da protagonista. Através dele, a mesma busca alcançar a liberdade, o que configura a sua dupla perda: da liberdade e do outro caminho, aquele constituído numa condição patriarcal. Nem de um modo nem de outro são plenamente realizadas. Trocando suas próprias experiências, como se trocassem de papel, Sônia e Aparecida veem o fracasso da opção feita pela outra.
A protagonista termina no meio termo, pois além de não alcançar a liberdade, não rompe com as regras tradicionais porque mesmo não se casando se submete aos mandos masculinos. Como uma perfeita romântica, embora não realize o casamento contratual, Aparecida se dedica a essa ‘união’ porque o sentimento que mantém por ele é maior que as razões para se afastar. Por esse lado parece que, mais uma vez, Amanhecer, embora critique as normas, reflete o pensamento falocêntrico quando põe em primeiro plano o lado emocional feminino sobre o racional. Sem escolha satisfatória, o estilo de vida desestabilizadora que encontra Aparecida possui para ela muitas implicações negativas. Se, de um lado, a viagem para Aparecida significa o encontro com o ‘novo’, para Sônia, ela simboliza o encontro com a tradição, com a religião e com as convenções de uma vida patriarcal. Também nesse ponto, quem parece ter um final satisfatório para aquele contexto é a mãe de Maria Aparecida que, sendo muito nova, após enviuvar, casa-se com o ex-pretendente da filha quando ainda morava em São José atinge o final ‘feliz’, se não feliz, pelo menos o esperado pelo discurso predominante, embora a contragosto da protagonista.
Com essas trajetórias femininas percebidas na ficção de Lúcia Miguel-Pereira, Luís Bueno (2006) observa que as mulheres são convidadas mais à renúncia que à ação. Trabalhado artisticamente ao longo de todo o enredo até se decantar em vários sentidos para o leitor, vê-se que o conteúdo histórico que a obra ficcionaliza não funciona aqui como pano de fundo, mas como elemento trabalhado a fim de compor a razão de ser da narrativa. Dessa forma, a viagem empreendida pelas duas personagens são vistas aqui como estratégias adotadas por cada uma a fim de conceberem a sua libertação, no entanto, ainda assim essas mulheres continuam sendo aprisionadas pelo mesmo sistema que as condicionaram, deixando em evidência o motivo central de sua submissão: o ser mulher.
 
NOTA: Para um estudo mais alentado sobre a ficção de Lúcia Miguel Pereira ver O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira escritos da tradição, de minha autoria, publicado pela Editora Mulheres.
 
REFERÊNCIAS
 
BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Campinas: Editora da Unicamp, 2006.
CANDIDO, Antonio. Lúcia. In: O albatroz e o chinês. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004.  p. 127-132.
GOTLIB, Nádia Batella. A literatura feita por mulheres no Brasil. In Boletim do GT ANPOLL/MULHER E LITERATURA, 1998.
LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das mulheres no Brasil. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1997. p.443-481.
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia Miguel. Amanhecer. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1938.
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. A leitora e seus personagens: seleta de textos publicados em periódicos (1931- 1943), e em livros. Prefácio, Bernardo de Mendonça; pesquisa bibliográfica, seleção e notas, Luciana Viégas- Rio de Janeiro: Grafia Editorial, 1992.
PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990.
 
 
 
 
 
[1] Para um estudo mais alentado sobre a ficção de Lúcia Miguel Pereira ver O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira escritos da tradição, de minha autoria, publicado pela Editora Mulheres
 
 
 
 
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A PERSONAGEM FEMININA NA OBRA MEMORIAL DO CONVENTO: COMO “FORJAR UMA NOVA FORMA DE HUMANIDADE” – Marcelo Franz




Marcelo Franz

Universidade Técnica Federal do Paraná – UTFPR

 
 
Resumo: Analisa-se neste artigo a representação da figura feminina na obra Memorial do convento (1982) discutindo as particularidades do trato de José Saramago a essas figuras e como essa representação se articula com os interesses ideológicos evidentes em sua obra. Além disso, pretendemos vincular as declarações manifestadas pela figura pública do escritor, retiradas da obra Palavras de Saramago, para confrontarmos essas informações com as personagens de Memorial do Convento com o objetivo de mostrar a construção e a relevância das personagens analisadas.
 
Abstract: This article analyzes the representation of the female figure in the novel Memorial do convento (1982). This representation is articulated with the ideological interests evident in Saramago’s work. In addition, our intention is to link the statements expressed by him as a public figure in the book Palavras de Saramago, and to confront them with the characters in his novel Memorial do Convento in order to evince their model of construction and their overall relevance.
 
Palavras-chave: Saramago; Memorial do convento; Feminino.
 
Key-words: Saramago; Memorial do convento; Feminine.
 
Minicurrículo: Marcelo Franz é professor de Literaturas de Língua Portuguesa e de Teoria da Literatura do Curso de Letras da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Tem mestrado em Literatura Brasileira (pela UFPR) e doutorado em Literatura Portuguesa e Pós-doutorado em Teoria da Literatura, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).
 
 
A PERSONAGEM FEMININA NA OBRA
MEMORIAL DO CONVENTO: COMO
“FORJAR UMA NOVA FORMA DE HUMANIDADE”
 
Marcelo Franz
Universidade Técnica Federal do Paraná – UTFPR
 
O pessimismo como motor das transformações
Como escritor, José Saramago afirmava estar comprometido com a vida até os últimos dos seus dias, e não separava o escritor do cidadão. Segundo ele, sua literatura reflete de alguma forma, as posturas que ideologicamente assumia, sem, no entanto, transformar os seus livros em meros panfletos. Para isso, não encontrava outro remédio senão fazer o que fazia e dizer o que dizia:
 
Auschwitz não está fechado, está aberto, e suas chaminés continuam soltando a fumaça do crime que se comete a cada dia contra os mais frágeis. E (…) eu não quero ser cúmplice, com a comodidade do meu silêncio, de nenhuma fogueira (Aguilera, 2010, p. 352)
 
 
 
Assim, literariamente encontramos um Saramago inserido em suas obras:
 
Onde estou nos romances? Ali, sim, estou.  Mas um leitor não deve perder tempo a procurar a minha vida nos romances porque ela não está ali. O que está nos romances não é a minha vida, mas a pessoa que eu sou, o que é algo muito diferente (AGUILERA, 2010, p. 206).
 
A literatura não é a vida e também não é uma imitação da vida.  Nada do que entra num livro vem de outro lugar que não seja este mundo, mas o romance ao achar-se feito entra ele também a influir na vida (AGUILERA, 2010, p. 182).
 
 
Um dos traços mais marcantes da personalidade pública de José Saramago era o seu caráter pessimista em relação a uma humanidade que, segundo ele, jamais foi humanizada. Para o escritor português estamos todos condenados: este mundo não tem solução, não merecemos a vida, a humanidade jamais foi educada para a paz, mas sim moldada espiritualmente para o conflito.
Em Aguilera (2010, p. 142), Saramago afirma: “Como se pode ser otimista quando tudo isto é um estendal de sangue e lágrimas? Nem sequer vale a pena que nos ameacem com o inferno, porque inferno já o temos. O inferno é isto”. Ateu, Saramago via o elemento divino como uma invenção humana e produto da imaginação.  O que chamam de mistério é simplesmente o que não se sabe. A partir do momento em que há uma explicação científica (ou lógica), deixa de ser mistério. Logo, esse produto da imaginação humana que chamamos de divino, assim como muitas outras criações humanas, a certa altura toma as rédeas e passa a condicionar os seus inventores:
 
Levamos o diabo e Deus dentro de nós; aí nasceram e aí continuam vivendo.  O bem e o mal são obra humana.  Não posso acreditar num Deus que não existe ou que nunca se apresentou.  Eu não necessito de Deus.  Nunca tive nenhuma crise religiosa.  Vivi meu ateísmo numa tranquilidade total.  E digo a mim mesmo: nasceste, estás vivendo, morrerás, e acabou (AGUILERA, 2010, p. 127).
 
 
Portanto, ao afirmar que não acreditava e não precisava de Deus, o remédio para os males que afligem o mundo, na ótica de Saramago, estaria apenas no plano terreal. Por outro lado, o próprio Saramago, afirma, paradoxalmente, que sem Deus a sua literatura perderia o sentido.
Não há como negar que nas construções literárias do autor, muitos dos alicerces estão sustentados, justamente, na polêmica luta em afirmar que Deus é uma criação humana. Para se ter ideia de tamanha inquietação, no ano de 1991, Saramago publica a sua obra mais controversa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, um romance que conta a história humanizada de Jesus Cristo, desconstruindo as verdades canônicas da Igreja. No evangelho de Saramago, Jesus Cristo não nasceu de uma Maria virgem, mas sim de uma relação carnal.  José é acusado de ser cúmplice da matança dos nascituros ordenada pelo rei Herodes e, ainda, Jesus estaria envolvido em uma relação amorosa com Maria Madalena.
Diante desses relatos, a Igreja Católica portuguesa como instituição não reagiu, preferiu ignorar oficialmente o livro.  No entanto, Saramago não ficou isento das críticas de algumas figuras do alto clero. Assim, o arcebispo de Braga proferiu uma homilia classificando o livro como blasfemo e adjetivando Saramago como um “ateu confesso, um comunista impenitente, que escrevera uma obra desrespeitosa à identidade do povo português”. O Evangelho segundo Jesus Cristo, vendeu mais de 100 mil exemplares em Portugal e outros 40 mil no Brasil.
Mas Saramago sofreu um duro golpe: em uma sociedade autoproclamada democrática, sua obra seria alvo de censura imposta pelo próprio governo. A decisão da Secretaria de Estado da Cultura vetaria a inclusão dessa obra na lista de concorrentes ao Prêmio Literário Europeu.
Não obstante, ainda que estejamos em um mundo condenado e sem um Deus para nos socorrer, Saramago afirmava que há a necessidade de um olhar pessimista, pois é somente esse olhar que pode mudar o mundo:
 
Os pessimistas são pessoas insatisfeitas com o mundo.  Em princípio seriam as únicas interessadas em alterar a rotina, uma vez que, para os otimistas, é razoável como está.  Mas, ultimamente, gosto de dizer outra coisa: eu não sou pessimista, o mundo que é péssimo.  Com isto transfiro a culpa para a realidade (AGUILERA, 2010, p. 141).
 
Olhando as marcas deixadas na pavimentação da estrada literária de Saramago, notamos que a crítica social do autor vai ganhando traços e contornos que irão culminar com a representação da perda da razão na humanidade, notória no romance alegórico Ensaio sobre a cegueira, de 1995. Nesse texto, o uso desumanizado da razão (que é metaforizado na epidemia de cegueira) conduziu os personagens aos extremos da violência, da crueldade, uma irracionalidade que, segundo Saramago, reflete o horror contemporâneo do mundo real, no qual o homem não está em condições ainda de se ocupar das relações com os outros seres humanos. Estamos cada vez mais cegos, porque cada vez menos queremos ver. Fato é que Ensaio sobre a cegueira afirma que todos nós estamos cegos da razão. No entanto, vale lembrar que a personagem identificada significativamente como “a mulher do médico” é uma espécie de fio de esperança que atravessa toda a narrativa sem ser contaminada por uma epidemia que cega a espécie humana do exercício da razão.
Todavia, se estamos cegos da razão e transcendentalmente não temos o que buscar, será que ainda há esperança? As palavras de Saramago dizem que sim, não com o sim, e sim com o não:
 
Embora não sejamos donos da verdade, pois isso não existe, somos os que dizem a palavra “não”. O “sim” é da rotina, está sempre por aí.  Devemos sempre introduzir um “não” para confrontar o “sim” que é o consenso hipócrita em que estamos mais ou menos vivendo (Aguilera, 2010, p. 379).
 
Mas onde estaria essa voz negativa? Reiteradamente, na literatura samaraguiana essa voz ganha vida nas personagens femininas:
 
Se algum dia uma personagem minha ficar na memória das pessoas, será a de uma dessas mulheres, e não é porque eu predetermine sua maneira de ser ou atue mediante estratégias prévias. O caráter dessas mulheres nasce naturalmente, no meio da situação concreta que estou a narrar.  Em certa ocasião, alguém me perguntou: Mas por que sempre escolhe uma mulher? E eu respondi: Acredita que tudo que essa mulher fez um homem faria? Claro que não. Sempre há uma mulher a sustentar cada um de meus romances: Lídia em O ano da morte de Ricardo Reis, Blimunda em Memorial do Convento, Maria Madalena em O Evangelho segundo Jesus Cristo […] (Aguilera, 2010, p. 265).
 
 
Durante séculos a mulher foi vista como subserviente e dominada pelas prerrogativas masculinas nas sociedades patriarcais, e porque não dizer, até os dias de hoje. Basta direcionar o nosso olhar para algumas culturas do mundo árabe que ainda insistem em manter a mulher submissa em relação ao sexo masculino dominante, utilizando como ferramentas repressoras o poder do Estado e práticas religiosas ortodoxas e ultraconservadoras que acabam limitando muito o papel da mulher nessas sociedades.  Há também, nas sociedades ocidentais a transformação da mulher em objeto da satisfação sexual masculina.
Na ânsia de romper com esse legado, na segunda metade do século XIX o feminismo político começa a se organizar, particularmente nos Estados Unidos e Inglaterra, em busca da igualdade legislativa, pois, a partir desse direito, se descortinaria um novo horizonte de ampliação dos direitos da mulher.  Todavia, foi nessa época, na Inglaterra, que a mulher foi amplamente discriminada, conforme observamos em Bonicci e Zolin:
 
A mulher que tentasse usar seu intelecto, ao invés de explorar sua delicadeza, compreensão, submissão, afeição ao lar, inocência e ausência de ambição, estaria violando a ordem natural das coisas, bem como a tradição religiosa […] a condição de subjugada da mulher deve ser tomada como sendo de vontade divina. (BONNICI & ZOLIN, 2004, p. 220-221).
 
No entanto, assim como em algumas sociedades, será que na literatura as personagens femininas também possuem algum estereótipo ou papel previamente definidos? Para isso vamos recorrer novamente a um pronunciamento de Bonnici e Zolin:
 
As críticas feministas mostram como é recorrente o fato de as obras literárias canônicas representarem a mulher a partir de repetições de estereótipos culturais, como, por exemplo, o da mulher sedutora, perigosa e imoral, o da mulher como megera, o da mulher indefesa e incapaz, e entre outros, o da mulher como anjo capaz de se sacrificar pelos que a cercam (BONNICI & ZOLIN, 2003, p. 226).
 
 
A inquietação com a distinção da personagem feminina nas obras de Saramago se deve às recorrências de um rompimento com os estereótipos e papéis da mulher na literatura:
Não me agradam as grandes frases nem a retórica das ações.  Mas é verdade que nos meus romances aparecem personagens, sobretudo mulheres, dotadas de um heroísmo discreto, natural, como uma emanação de sua personalidade.  São mulheres, inclusive, dispostas ao sacrifício por compaixão, compadecer-se com o outro, um sentimento que tem haver com piedade, não com a grandiloquência.  Nesse modelo de mulher que se repete de livro em livro, com nomes diferentes e em épocas diferentes, se está a forjar uma nova forma de humanidade, uma forma distinta de ser humano (Aguilera, 2010, p. 265).
 
 
Nos pilares de sustentação da literatura samaraguiana estão excepcionais figuras femininas, presentes em seus romances como fulgurantes encarnações do melhor da condição humana já que, na visão de Saramago, a esperança para a mudança de um mundo desumanizado estaria na sensibilidade da mulher. Diante disso, nossa proposta é analisar a representação da figura feminina na obra Memorial do convento, lançada em Portugal em 1982.
 
O feminino em Memorial do convento
Com mais de dez edições e 50 mil exemplares vendidos em apenas dois anos, foi Memorial do convento que consagrou definitivamente o nome de Saramago no panorama literário português e na cultura internacional. O impacto dessa obra acabou alavancando as obras de Saramago no cenário internacional. Apenas para termos noção de tal êxito, Memorial do convento obteve uma tiragem inicial de 5 mil exemplares e a obra seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (1984), impulsionado pelo sucesso de Memorial, vendeu 20 mil exemplares em um período de três meses. Esses números evidenciam a força que o nome Saramago ganha no cenário internacional e que conduzem o autor para o restrito espaço do cânone.
Para o crítico literário Álvaro Pina, analisando a obra em algumas páginas da revista Colóquio-Letras, Memorial do Convento, por mais interessante que pareça ser não atinge a condição de romance, não passa de uma composição epidérmica que romanceia fatos históricos (AGUILERA, 2010, p. 11).
Todavia, contrapondo Álvaro Pina e reforçando a importância de Saramago no cenário ocidental recorreremos às palavras do crítico Harold Bloom. Professor de literatura das universidades de Yale e Nova Iorque, autor das obras O cânone ocidental e Gênio, Os 100 autores mais criativos da História da Literatura, Harold Bloom é considerado um dos críticos literários de maior relevância no Ocidente. Sobre Saramago, Bloom afirma:
 
Saramago é extraordinário, quase um Shakespeare entre os romancistas. Não há nenhum ficcionista vivo nos Estados Unidos, na América do Sul ou na Europa que tenha a sua versatilidade. Dir-se-ia tão divertido quanto pungente. Sei que é um marxista, mas não escreve como um comissário [Komintern] e opõe-se aos impostores da Igreja católica. O seu trabalho ultrapassa tudo isso (HAROLD BLOOM, 2001 apud AGUILERA, 2010, p. 12).
 
 
Em nossa proposta de análise serão comparadas as personagens femininas, Dona Maria Ana Josefa e Blimunda Sete-Luas dentro da obra Memorial do Convento.
Em Memorial do convento, somos conduzidos ao século XVIII em Portugal, no período de construção do convento de Mafra, durante o reinado de D. João V. Saramago organiza o romance em três núcleos narrativos: o projeto de construção do convento de Mafra, no espaço da monarquia; a história de amor entre uma feiticeira e um soldado maneta mutilado na guerra; a construção da passarola arquitetada pelo padre Bartolomeu Lourenço.
Nesses três núcleos os conflitos sociais ganham uma força e uma voz crítica contra a Igreja e o Estado, voz essa que ganha vida não apenas nas personagens femininas. Valendo-se da revisitação ao passado, Saramago ficcionalizou as personagens históricas do casal real, D. João e Dona Maria Josefa, do padre Bartolomeu Lourenço e de Domênico Scarlatti, entre outros de menor destaque. Para completar o elenco, Saramago cria as figuras ficionalizadas do casal Blimunda de Jesus e Baltazar Mateus e as suas respectivas famílias. Segundo o autor:
 
Se não ligasse meu trabalho à História não faria qualquer trabalho. (…) o que eu quero escrever liga-se aos fatos e aos homens passados, mas não em termos de arqueologia.  O que eu quero é desenterrar homens vivos. A História soterrou milhões de homens vivos (AGUILERA, 2010, p. 253).
 
O romance inicia-se com um narrador em terceira pessoa relatando a dificuldade da rainha D. Maria Ana Josefa em dar infantes à coroa portuguesa.  Passados mais de dois anos desde a sua chegada e até o momento não havia engravidado:
 
Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, […] que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, […] Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais (SARAMAGO, 2011, p. 11).
 

  1. Maria Ana Josefa historicamente foi a arquiduquesa da Áustria, filha do Sacro Imperador Germânico, Leopoldo I, da Casa dos Hasburgos, e da condessa Palatina de Neuburgo Leonor Madalena.
  2. João V e D. Ana Maria Josefa, eram primos diretos, filhos da Rainha D. Maria Sofia de Portugal e a Imperatriz Leonor Madalena, respectivas mães de Sua Majestade o Rei de Portugal e da Sereníssima Arquiduquesa da Áustria. Assim, a troca de alianças no enlace matrimonial extrapola os limites do religioso e atinge um caráter de grande Aliança.

Na ficção ocorre um silenciamento de D. Maria Ana Josefa. As poucas ocorrências de falas suas ficam restritas às suplicas a Deus por um filho. A liberação dos seus desejos sexuais ganha vida somente nos sonhos:
 

  1. Maria Ana se vê a si própria inclinando-se para o pano santíssimo, não se chega, a saber, se o ia beijar devotamente, porque de repente adormece e acha-se dentro do coche, recolhendo-se ao paço noite já escura, (…) é o infante D. Francisco, de que lugares do sono veio ele e porque virá tantas vezes. Espantou-se-lhe o cavalo, não podia ter sido outra coisa, com o tropear do coche e dos archeiros sobre as pedras da calçada, mas, comparando sonho e sonho, observa a rainha que de cada vez chega o infante mais perto, que quererá ele, e ela que quererá (SARAMAGO, 2011, p. 32).

 
Em Memorial do convento temos a representação do casamento de aparências, na qual a missão da mulher é dar herdeiros ao rei para glória do reino, afinal, na monarquia a sucessão do trono ocorre de forma hereditária e vitalícia, salvo se não houver herdeiros.
A rainha é o símbolo do papel da mulher da época: submissa, procriadora, objeto da vontade masculina que cumpre o seu dever:
 
Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canônica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total (SARAMAGO, 2011, p. 11).
 
O papel de rainha, desempenhado por D. Ana Maria Josefa, é de uma personagem plana. A condição de majestade distancia a personagem da condição de mulheres comuns, pois não cabem em um mesmo corpo a coroa e a mulher:
 
Farta estou eu de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha, Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus, são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem (SARAMAGO, 2011, p. 112).
 
 
Paralelamente à ação dos nobres e das intrigas palacianas a que se dão, encontra-se uma ação que envolve a história de amor de Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, representantes da plebe que se conheceram em um auto-de-fé cuja vítima era a mãe de Blimunda, considerada bruxa:
 
E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa, está o Rossio cheio de povo duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé (SARAMAGO, 2011, p. 48).
 
(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, (…) Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu (…),e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele (…). Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis (SARAMAGO, 2011, p. 51).
 
 
Blimunda de Jesus, de alcunha Sete-luas, diferentemente da mãe, não possui a capacidade de enxergar o futuro; seu poder está no olhar que permite visualizar aquilo que está por debaixo da pele: a vontade humana. Para isso, basta que Blimunda esteja em jejum.
É importante salientar os significados da visão na ação de Blimunda. Ela representa a mulher que vai além da simples ação de ver. Mais do que isso, ela enxerga com seus próprios olhos, diferentemente das demais personagens femininas na obra que veem por meio do Santo Ofício, de um catolicismo que cega.
Seu papel será decisivo na construção da invenção do Padre Bartolomeu, a passarola, visto que o combustível para que a máquina possa alçar voo está justamente nas vontades humanas vistas por Blimunda. Essas vontades são capturadas no momento em que há a separação do corpo e do espírito quando as pessoas estão à beira da morte.
Além disso, Blimunda é a representação da concretização dos desejos oprimidos. Seu comportamento é marcado pela transgressão aos ditames de uma sociedade cristã e conservadora. Conforme observamos no diálogo entre o padre Bartolomeu Lourenço e Balatasar: “Tens dormido com ela, Vivo lá, Repara que estão em pecado de concubinato, melhor seria casarem-se” (SARAMAGO, 2011, p. 62).
Diferentemente da rainha, os seus desejos são concretizados sem qualquer ressentimento de pecado. Em concubinato com Baltasar, acaba infringindo um dos mandamentos da Igreja Católica.
Ao compararmos os casais representativos da nobreza e da plebe, observamos que D. João V e D. Ana Maria Josefa, os monarcas, têm muitas coisas em comum, ambos têm o título de nobreza, estão no topo da pirâmide social. Entretanto, eles não se completam, a troca de alianças entre o casal representa apenas o cumprimento de um dever religioso e a manutenção de uma tradição dinástica:
 
Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. (…) Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para a conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários, discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das meninas, e não podendo estas uniões ser feitas à ligeira, nem à porta do talho, onde grosseiramente se diz que são combinados os amiganços, só agora, quase um lustro passado, se fará a troca das princesas, uma a ti, outra a mim (SARAMAGO, 2011, p. 288).
 
 
No caminho inverso, representando o povo, temos o casal Baltasar e Blimunda, que estão na base da pirâmide social. Como bem diz o narrador, nem parecem pessoas daquele século:
 
Há também outros simples e rústicos prazeres, como lavarem Baltasar e Blimunda os pés na água, ela levantando as saias até à curva da perna, melhor será que as desça, porque para cada ninfa que se banha há sempre um fauno espreitando, e este está perto e arremete. Blimunda foge da água rindo, ele agarra-a pela cintura, ambos caem, qual de baixo, qual de cima, nem parecem pessoas deste século (SARAMAGO, 2011, p. 263).
 
 
A aliança entre Baltasar e Blimunda é de sangue, acordada no primeiro ato sexual entre ambos.  O casamento ocorre em uma cerimônia breve durante um jantar. Aqui não temos as pompas da nobreza, porém o enlace é feito em corpo presente, diferentemente da nobreza da época que tinha o costume de se casar por procuração:
 
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. (…) Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezenove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus (SARAMAGO, 2011, p. 54).
 
 
Em alguns trechos da obra Saramago quer ressaltar a representação da figura da mulher e seu papel na História como condutoras e não como conduzidas: “Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres”. (SARAMAGO, 2011, p. 17); “Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu” (SARAMAGO, 2011, p. 113).
Logicamente que a construção dessas personagens tem uma razão de ser: ironizar e questionar os poderes instituídos, a nobreza com suas convenções e sua opressão à mulher (sinalizada no drama do silenciamento da rainha), a Igreja (que persegue as “heresias” dirigindo especial violência ao que considera “bruxarias”, praticadas preferencialmente por mulheres) e o Estado por meio das vozes das personagens que representam uma grande parcela da humanidade que é ignorada nos registros da História.
 
 
 
Referências Bibliográficas
AGUILERA, Fernando Gómez.  As palavras de Saramago: catálogo de reflexões
pessoais, literárias e políticas.  São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia O. (Org.). Teoria Literária. Abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2003.
SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a egueira. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
SARAMAGO, José. Memorial do convento. São Paulo: Companhia da Letras, 2011.





Bio fornecida pelo palestrante.

A MÉTAFORA NO TEXTO POÉTICO: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE A TEORIA E UMA APLICAÇÃO EM POESIA DE CORA CORALINA – KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS




KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS

                                                                         Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)

 
Resumo: O presente artigo tem por objetivo uma leitura metafórica em poemas da poetisa Cora Coralina. Tecem-se, aqui, algumas considerações sobre essa figura de linguagem, recurso tão usado pelos poetas, assim como por Cora Coralina. Nesta análise, além de se identificarem as metáforas utilizadas pela poetisa, apresenta-se uma visão crítica do homem e das relações sociais, sem perder de vista toda a magia da poesia. Sabendo-se que o tema da metáfora nos leva a um campo de estudo muito vasto, delimitou-se o mesmo à investigação na língua portuguesa.
 
Palavras-chave: leitura, investigação, análise, linguagem.
 
Abstract: This article aims at a metaphorical reading of the poems of the poet Cora Coralina. It will propose some considerations on this figure of speech as a resource employed by poets, as Cora Coralina. This analysis will identify the metaphors present in the poet’s texts and evince a critical view of man and social relations without losing focus on the magic of poetry. Since the theme of the metaphor can open up to a very wide field of study, this study wil be limited to the Portuguese language.
 
Keywords: reading, research, analysis, language.
 
 
Minicrrículo da autora: Graduada em Letras pela FECLITA, pós-graduada em Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira. Professora da Rede Pública Municipal de Itapuranga e da Faculdade Itapuranga – FAI.  Mestranda do Programa de Mestrado em Letras – Literatura e Crítica Literária da Pontifica Universidade Católica de Goiás, Goiânia-GO.
 
 
 
 
 
A MÉTAFORA NO TEXTO POÉTICO: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE A TEORIA E UMA APLICAÇÃO
EM POESIA DE CORA CORALINA
 
 
                                    KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS
                                                                         Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
 
 

  1.  Introdução

Este artigo propõe-se à realização de um breve estudo da metáfora, evidenciando a utilização desta figura na poética de Cora Coralina1. Será evidenciado a metáfora como um elemento não apenas com a função de emocionar mas também de propor ao leitor um novo e diferente modo de interpretação, bem como explorar preconceitos e as questões sociais pungentes.
Ao submeter palavras do cotidiano a um arranjo poético, os poemas passam a ter duplo sentido e deixa para o leitor a tarefa de compreender as relações estabelecidas entre suas palavras e suas intenções em todas as possibilidades, descobrindo assim, o real significado das mesmas. Esta reflexão se faz necessária, pois do contrário, as palavras agrupadas simplesmente não teriam a autenticidade de um texto poético.
É por meio das leituras que perceberemos como a figura de linguagem, metáfora, é bastante importante tanto para o leitor quanto para o escritor. Figura esta que expressa uma certa maneira de instigação e até mesmo um recurso maior de valorização do contexto proposto. A mencionada figura é muito utilizada, até mesmo quando não percebemos falamos por metáfora e com os poetas não é diferente.
As citações utilizadas colocarão o leitor a pensar, refletir e dessa forma as reflexões evidenciarão que o uso da metáfora é uma busca de conhecimentos e descobertas do cotidiano, valorizando o significado e o significante de cada conceito.
A atenção será voltado para uma investigação poética que será tratada nos poemas da autora goiana, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas –   Cora Coralina. A escritora, como todos os poetas usam desse recurso para retratar a realidade vivenciada ou não por eles.
 

  1. Considerações sobre a metáfora

A metáfora, palavra grega (meta = mudança + força = transporte), que significa translação, mudança e consiste em atribuir a uma pessoa ou coisa uma qualidade que não lhe cabe logicamente. Essa transferência de significado de um termo para outro baseia-se na semelhança de características que o emissor da mensagem encontra entre os dois termos comparados. Portanto, é uma comparação de ordem subjetiva.
A comparação é uma espécie de metáfora que estabelece que estabelece uma associação mais limitada de sentidos. É indispensável observarmos que se usarmos os elementos de comparação, não termos metáfora e sim a própria comparação. Isso significa que para entender a metáfora e preciso perceber a comparação subentendia.
Se pretendemos compreender a metáfora além da comparação e da semelhança ou da supressão de partículas de comparação é necessário remetê-las ao que diz Lopes (1987, p.33) “a metáfora emerge em dado foco, mas afeta o sentido do quadro inteiro do seu enquadramento, sentido esse que ela desvia no rumo de uma outra isotropia, um outro plano de conteúdo contextual.”.
De acordo com Lopes o valor conotativo de uma palavra depende do contexto onde ela se encontra. Por exemplo: na palavra “fogueira” Seu rosto foi consumido pela fogueira das minhas recordações”, neste enunciado o significante fogueira exprime ardor, exaltação, entusiasmo. Enquanto que em “faça uma fogueira com o máximo cuidado”, o significante fogueira exprime lenha ou outro material combustível. Com isto temos a ideia de que na metáfora certas palavras adquirem novos significados.
É necessário compreender a palavra dentro do contexto, pois metáfora pertence exclusivamente à esfera do uso. Ela não tem significado especial, varia de acordo com o enunciado. Sendo assim, não podemos interpretar ao pé da letra a metáfora, isto, porque ela não existe em estado do dicionário. Esta figura de linguagem não é apenas um recurso de que se lança mão por falta de expressão adequada, mas também um meio de caracterização pitoresca.
Em síntese didática, pode-se definir a metáfora como figura de significação (tropo) que consiste em dizer que uma coisa (A) é outra (B), em virtude de qualquer semelhança percebida pelo espírito entre um traço característico de A e o atributo predominante, atributo por excelência de B, feita a exclusão de outras secundárias por não serem convenientes à caracterização do termo próprio A.
A experiência e o espirito de observação nos ensinam que os objetos, seres, coisas presentes na natureza, fonte primacial das nossas impressões impõe-se aos sentidos por certos traços distintivos.  Pela intersecção Lopes, esclarece:
 
As somas intersectoras (sic) constituem o fundamento da metáfora; pelo fato de serem possuídos por A e B, eles funcionam como conectores de isotopia, abrindo para vários planos de conteúdo do discurso, cada um dos quais é suscetível de se transformar a qualquer instante, na leitura num texto autônomo (1987, p. 29).
 
 
 
De acordo com o ponto de vista de Lopes recorremos à intersecção para compreendermos melhor como se figura o processo metafórico no plano real, quer dizer, elemento A, a ideia nova a ser expressa ou definida. O segundo, o plano imaginário ou poético, o elemento B, aquela em que a imaginação do emissor percebeu alguma relação ou semelhança com o elemento A.
O ponto de interseção entre os dois elementos justifica a metáfora, pois é neste que situa a possibilidade de aproximar diretamente os termos envolvidos na comparação. Temos uma metáfora onde o comparado A e o comparante B, pertencem a dois paradigmas diferentes /humano/ e /planta/, incompatíveis na mesma construção. Porém, assim construídos passam de algum modo a compartilharem os paradigmas.
Os textos metafóricos colocam o leitor a sonhar e a interpretar tais textos. Para isto se faz necessário usar a imaginação e esquecer as inúmeras regras gramaticais que para a metáfora não tem valia. Sabemos que para uma leitura se realizar é necessário que haja interpretação entre o texto e o leitor, assim como para compreender uma metáfora além de leitura, requer comparação de semelhanças e similaridades, para não se distanciar por demais do termo ou do sentido pretendido.
Uma metáfora nos faz notar certa semelhança, frequentemente uma semelhança nova ou surpreendente, entre duas ou mais coisas. Essa observação trivial e verdadeira leva, ou parece levar, a uma conclusão concernente ao significado das metáforas. Assim, podemos considerar a semelhança ou similaridade comuns: duas rosas são similares por partilharem da propriedade de ser uma rosa, duas crianças são similares em virtude de sua infância, ou mais simplesmente por serem cada uma delas criança.
A metáfora depende de significados novos ou estendidos, ela certamente, depende de algum modo, dos significados originais; uma explicação adequada da metáfora deve admitir que as significadas primárias e originais das palavras permaneçam ativas em cenário metafórico.
Talvez, então, possamos explicar a metáfora como um tipo de ambiguidade. No contexto da metáfora, certas palavras têm um significado novo ou um significado original, e a força da metáfora depende da nossa incerteza ao vacilarmos entre dois significados. A ambiguidade da palavra, se é que existe, é devido ao fato de ela significar uma coisa no contexto metafórico, não os hesitemos, necessariamente, quanto ao seu significado.  Quando hesitamos de fato, é usualmente, para decidir sobre qual dentre o número de interpretações metafóricas aceitaremos; raramente temos dúvida de que se trata de uma metáfora.
Segundo Karsten Harries (apud SACKS, 1992, P. 89), apesar da analogia entre a poesia e a metafísica, não devemos ignorar a maneira bem diferente em que os textos poéticos, por um lado, e os textos filosóficos, por outro, exigem ser lidos. A partir daí, percebemos que apesar de ambos serem textos, devem ser analisados de formas diferentes, tais como, as metáforas parabólicas e metáforas poéticas, as quais são interpretadas de forma diversificada.
Para que compreendamos o estudo metafórico e poético é importante nos prepararmos, estarmos disponíveis e abertos ao entendimento das obras metafóricas. Percebe-se que os poetas metaforizam a obra, colocando-nos a questioná-la, mesmo sabendo que a linguagem enfatizada pelo escritor nunca será igual à usada pelo leitor. A metáfora pode ser universalizada por ter o domínio maior da palavra, embora a escrita seja capaz de exprimir ideias metafóricas com grande clareza. O estudo teológico é bastante amplo e notável nas escrituras do Novo Testamento, onde Jesus em seus ensinamentos usava o poder das parábolas para convencer os povos daquela época a se transformarem espiritualmente e moralmente. Como por exemplo a parábola do ovelha perdida (Lc15.3-7) onde Jesus com o uso da metáfora “ovelha” ressalta o mistério do amor do pai que se alegra em acolher o pecador arrependido ao lado do justo que persevera.
Na verdade a metáfora é utilizada há bastante tempo e é um meio de melhor esclarecer os estudos propostos. Para entender a metáfora no sentido geral, na linguagem deve-se antes entender a conceituação verbal do tema.
Segundo Don R. Swanson (apud SACKS, 1992, p. 164), uma metáfora é um convite obrigatório à descoberta. O que deve ser descoberto são as inúmeras alusões ou atributos em comum entre a metáfora e a verdade subjacente à qual ele remete. O autor deixa explícito que, para haver a descoberta, é necessário que o leitor tenha entendimento, satisfação e prazer pelo que está lendo; assim descobrirá sozinho os erros, criando sua própria versão da verdade metafórica.
Sobre verdade e mentira, no sentido intramoral (sic), Nietzsche afirma:
 
Nunca ele (intelecto) é mais exuberante, mais rico, mais orgulhoso, mais hábil e mais tinerário (sic): com prazer criador ele entrecruza as metáforas e desloca as pedras limites das abstrações, de tal modo que, por exemplo, designa o rio como o caminho em movimento que transporta o homem para onde ele, do contrário, teria de ir a pé (1987, p. 37).
 
 
Com este pensamento percebemos a mesquinhez da existência humana, a qual diferencia de todos os outros seres, o intelecto proporcionando o pensamento, que às vezes demonstra ser maior que os outros seres, neste momento ele cai no engano e não percebe ser um grande miserável, querendo ser superior nas suas defesas de verdade e mentira. O autor questiona sobre a verdade e não podemos dizer ao certo de onde ela provém, pois a sociedade estabelece uma obrigação para que exista, sendo ele o de proferir sempre a verdade, ou seja, de usar as metáforas usuais, isto é, mentir segundo uma convenção sólida tornando assim um estilo obrigatório para todos. Com essa mentira às vezes inconsciente pode-se chegar ao sentimento da verdade. Portanto, a metáfora é a possibilidade de reelaboração do real a partir do real e a partir da linguagem.
Nietzsche vê a metáfora como estrutura cognitiva, pois as diferentes línguas expressam como cada povo reconta sua realidade. O significado é um tijolo no prédio do conceito, ao evoluir no processo de formação de conceitos o homem aprende a generalizar e a degeneralizar. A insatisfação com a realidade estimula a sua reorganização, o homem recusa o senso comum ao produzir metáforas, ao fazer poesia. Nietzsche usa de metáforas para falar sobre metáforas, humanidade, vaidade, seu trabalho é poético.
 

  1. Metáforas poéticas

Voltando a atenção para o uso da metáfora nos poemas, teremos que reforçar que deve ser levado em consideração o foco, o enquadramento e o contexto em que se dá a construção do poema:
 
(…) quando o poeta cria a metáfora original o que ele inventa são os termos, não a relação: encarna uma forma antiga numa substancia nova. (…), a figura de invenção não é original na forma, mas apenas nos termos novos em que o gênio do poeta soube encarná-la (COHEN, 1996, p. 41).
 
Segundo Cohen, o estudo da metáfora vem de longa data e ocupa lugar de destaque na criação poética. É uma figura de linguagem que tende a encontrar os que se propõem a compreendê-la, especialmente quando se pretende descobrir a relação existente entre as metáforas poéticas e as metáforas de uso corrente, pois neste momento, percebe-se que a imaginação aliada à inteligência está acima do conhecimento real e da verdade crua.
Cora Coralina, em seu fazer poético, manteve uma capacidade crítica, acreditando em si, em sua causa e denotando sempre um sentimento por sua terra e sua gente, sem com isso deixar transcrever os limites do regionalismo. A poetisa deu novas formas de significados plurais a temas do cotidiano, usando tanto a metáfora que, isolada, fora do contexto e, por si só, não seria capaz de expressar os sentimentos da autoria em sua plenitude.
Por essa razão, entre nomes e obras pertencentes ao acervo da Literatura Goiana em particular, depara-se com a poesia de Cora Coralina, uma mulher que fez da própria história a matéria prima de seus poemas, exigindo por isso, uma análise profunda, se pretendemos que o nosso juízo alcance de modo suficiente a compreensão das visões ideológicas, registradas pela poesia em meio ao lírico emprego da metáfora.
 

  1. Análise da metáfora no poema “Todas as vidas”

Ao analisarmos o poema “Todas as Vidas”, percebe-se que a metáfora ocupa um lugar importante no fazer poético de Cora Coralina. A autora prova o quanto se comovia com cada uma das mulheres ali presentes e caracterizadas, deixando claro que também sua vivencia era feita com toda aquela sorte de experiências e dificuldades.
A poetisa inicia todas as estrofes do poema com o verso “Vive dentro de mim”. Em consulta ao minidicionário Aurélio (2001, p. 715), encontramos as seguintes definições do verbo viver: ter vida, estar com vida, existir, durar, gozar a vida, residir, coabitar, conviver, dentre outros.
Conforme Jean Cohen: “A linguagem é um simples intermediário codificado da própria experiência. De modo que a comunicação verbal supõe duas operações inversas: a codificação que vai das coisas às palavras; a decodificação que vai das palavras às coisas” (1965, p. 32).
De acordo com Cohen, o poema resgata a complexidade existencial da mulher brasileira para celebrar, através de um discurso aparentemente simples o viver de todas elas no sensível poema. A poetisa utilizou seus poemas metaforizando cada vida vivenciada por ela no lugar onde viveu. Todas as mulheres elencadas não “habitam” em Cora Coralina, entretanto, no poema todas elas coabitam seu ser, trazendo assim ao leitor toda uma realidade existente, essas mulheres ora é benzedeira, ora mulher da vida, todas fortes e até porque não, corajosas.
Bem linguaruda… o termo “linguaruda” é uma metáfora gasta, que por ser muito utilizada passou a fazer parte de nosso vocabulário. Independente de repertório de leitura que o leitor possua irá entende-la como faladeira.
Ao utilizar o termo “casca grossa”2, possibilita-nos uma leitura na qual a mulher é comparada a uma árvore, não para coisificá-la, mas para conceder-lhe a condição de um ser firme, plantada, enraizada em seus afazeres e em sua identidade. É uma metáfora pouco utilizada, mas também faz parte do vocabulário cotidiano. Seu significado varia de acordo com o enunciado, portanto, o leitor precisa decodificar a mensagem codificada.
Segundo Lopes:
 
“A metaforização tem, como todo fato de estilo uma origem paradigmática, mas essa origem tem uma manifestação sintagmática –ela se manifesta num espaço de localização e enquadramento de dimensões muito variadas, mas sempre no eixo sintagmático da fala” (1987, p. 32).
 
De acordo com esse pensamento, averiguamos que se descontextualizarmos uma palavra metafórica, ela deixa de ser metáfora e passa a ser uma palavra de grau zero, igualando-se com os demais vocábulos do dicionário da Língua Portuguesa.
Para Cohen (1992), a poesia é a realização de todas as combinações possíveis da linguagem. Cora faz todas as combinações quando fala da mulher lavadeira do Rio Vermelho, no verso em que evoca “sua coroa verde São Caetano”3, ao assim proceder entendemos que a poetisa possa não estar apenas se referindo ao sofrimento, neste caso segundo a Bíblia, o sofrimento de Cristo, mas também a sua redenção, até porque podemos dar outra acepção à palavra “coroa” como áurea de luz. Todas essas combinações são utilizadas para definir a mulher lavadeira. Nesse sentido, compreendemos que a poetisa coloca-a num outro plano, ou seja, a lavadeira lembra Cristo, lembra sofrimento, mas também sua vitória diante das situações vividas.
São Caetano é uma planta que segundo a sabedoria popular é utilizada como alvejante de roupas, utilizava-se a planta que era esfregada juntamente com o sabão sobre a roupa, tendo ela o mesmo efeito dos alvejantes fabricados nos dias atuais.
Ao falar da mulher lavadeira, pensamos na função social da obra de Cora Coralina, posto que ao falar de todas essas vidas dentro dela, fala de pessoas reais, de mulheres que eram de certa forma escravizadas e ao mesmo tempo ignoradas.
Ao caminhar pelo poema, deparamo-nos com a mulher cozinheira, pois na expressão “cacheada”, a poetisa utiliza a personificação, pois os versos passa-nos a impressão de que a cozinha fosse gente, pois cacheada lembra cabelo de pessoas. Já no verso “pisando alho-sal”, recorremo-nos ao dicionário, a significação de pisar, e encontramos: por o pé sobre, calçar, magoar, andar sobre, atravessar. Pela nossa experiência culinária, sabemos que alho e sal não se pisam, logo entendemos que no verso, esta expressão quer nos remeter a macerar, esmagar. Com a “pedra pontuda”, a mulher cozinheira esmaga o alho e sal como se quisesse esmagar o sofrimento, as dores e o preconceito.
Ao dizer que dentro dela vive a mulher do povo, vê-se a dimensão do compromisso da poetisa com as coisas que passam pela vida sem que a elas sejam dadas a devida importância.
Essa mistura de esferas é verificada no decorrer de toda a poesia, à media que Cora Coralina vai descrevendo e caracterizando a cabocla velha, a lavadeira do Rio Vermelho, a mulher cozinheira, a mulher do povo, a mulher roceira e a mulher da vida, vai demonstrando uma ponta de angustia e sofrimento misturada ao desejo de transformar esta realidade. E no momento em que a poetisa consegue trabalhar as situações corriqueiras e o vocabulário simples de sua gente, dando outras perspectivas a estes aspectos, esta transformação acontece, pois agora representam a poesia e a arte.
O recurso encontrado pela poetisa, assim como pelos poetas em geral, para deixar vazar seus sentimentos, é a quebra de linguagem óbvia e o uso da metáfora. As vidas são tão bem desenhadas no poema que se estendem também às vidas escondidas, às sonhadas, a todas as vidas reprimidas, enfim, impedidas de serem vividas.  E assim, a autora transforma todo esse inventário em poesia, usando um jogo de palavras que se materializam na medida em que são compreendidas pelo leitor.
A poetisa parece revelar-nos o seu repúdio contra as pressões ideológicas com as quais convivia. Estas descrições denunciam o retrato do tempo em que viveu na cidade de Goiás. Numa espécie de ladainha, a poetisa traça o perfil daquelas mulheres que ficaram marcadas de algum modo em sua memória. Isto mostra a forte ligação da poetisa e sua gente, afinal é de si e de sua origem que está falando.
A crítica social pulsa no poema, a discriminação social principalmente da mulher. Admitir essa sociedade é legitimar o reino das injustiças e violências, onde as diferenças sócias e econômicas procuram nivelar a maioria pelo padrão de valores de uma minoria.  Houve ainda no poema, uma mistura de saudade e presente, demonstra que tudo o que a autora viveu e vivenciou continua a fazer parte de sua vida e de sua personalidade.
O processo metafórico da obra é rico. A estrutura frasal anuncia matizes coloridas de imagens, que atesta relevante flexibilidade semântica, que autoriza o vocábulo a refletir valores inesperados. E isso, sem dúvida, implica processo criativo, na elasticidade de sentido que ele dá às palavras dentro de clara valorização estética.
 

  1. Considerações Finais

A leitura e a análise nos permitem evidenciar o uso da metáfora na construção poética dos poema, assim como as pesquisas realizadas mostram que a metáfora se revela como figura de linguagem integrante do universo dos poetas, capaz de tornar ponte entre a realidade e o sonho. Cainhando pela poesia, vemos o real significado da metáfora, principalmente porque pela primeira leitura muitas vezes nos perdemos quanto ao verdadeiro sentido apresentado pelos escritores, sendo assim, percebemos a necessidade de descobrir, interpretar e imaginar, conforme as ideias propostas pelos poetas.
Diante disso, buscamos uma visão crítica do mundo e do homem, contextualizando seus poemas à época em que foram escritos e comparando-os com o presente, pode-se afirmar que a arte transcende o tempo, através da consciência do fazer poético. A inovação coloca o leitor diante de um desafio em codificar a própria língua, sendo assim, notamos que a metáfora se faz presente em vários momentos da vida, não só do leitor como também do escritor. Em tese, a metáfora é um recurso não só usado para que haja mais eficácia na comunicação mas também para expressão mais artística.
 
Referências
 
COHEN, Jean. Estrutura da linguagem poética. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.
CORALINA, Cora.  Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 14ª ed. São Paulo: Global, 1977.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O minidicionário da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2001.
LOPES, Edward. Metáfora: da Retórica à Semiótica. 2ª ed. São Paulo: Atual, 1987.
NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. 4ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
SACKES, Sheldon. Da metáfora. São Paulo: EDUC/Pontes, 1992.
 
 
 
Notas
1 Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu em 20 de agosto de 1889 na Cidade de Goiás (GO). Começou a escrever muito jovem, porém só publicou o seu primeiro livro – Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais – aos 76 anos de idade. Considerada uma das principais escritoras brasileiras, Cora Coralina foi uma mulher simples, doceira de profissão, mãe de 6 filhos. Vivendo longe dos grandes centros urbanos produziu uma obra rica em motivos do cotidiano brasileiro, mais precisamente dos becos e ruas da Cidade de Goiás.
2 Vive dentro de mim/a mulher do povo. / Bem proletária/.Bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos,/de casca-grossa,/de chinelinha,/ e filharada.
3 Vive dentro de mim/ a lavadeira do Rio Vermelho, /seu cheiro gostoso/ d’água e sabão. / Rodilhada de pano. /
Trouxa de roupa, /pedra de anil. /Sua coroa verde de São-Caetano.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O ENCONTRO ENTRE O FEMININO BRASILEIRO E O ISLÃ: CAMINHOS E DESENCONTROS – Mônica Peralli Broti




Mônica Peralli Broti

Mestranda – Universidade Presbiteriana Mackenzie

Paulo Roberto Monteiro de Araújo

Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
Resumo: O artigo investiga o encontro entre a mulher brasileira e o discurso tradicionalista da religião Islã no sentido de como tal aproximação abre à mulher novos significados culturais e existenciais. Partiu-se, da revisão das principais questões de gênero observadas em campo com entrevistas e, consequentemente de suas relações com o contexto da cultura ocidental moderna. Além disto, analisou-se como as considerações dessas mulheres foram interpretadas a luz de autores como Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco que se dedicaram a descrever as esferas política e social da modernidade.
Palavras-chave: Tradição, Islã, gênero, modernidade.
Summary: The article investigates the meeting between Brazilian women and the traditionalist speech of Islã, in a way that such approach opens new cultural and existential meanings to these women. It departs from the revision of the most basic questions of gender observed in the field throughout interviews, and consequently from the relations with the context of modern Western culture. Besides, it analyzes how  these women were interpreted by some authors, such as Hannah Arendt and Elisabeth Roudinesco, who dedicated themselves to describe social and political spheres of modern times.
Keywords – Tradition, Islam, gender, modernity.
Mônica Peralli Broti – Mestranda no Programa de Pós-Graduação Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é professora  no Colégio São Judas Tadeu. Atua principalmente nas seguintes áreas: História do Brasil e Geral, Cultura Brasileira e Multiculturalismo.
Paulo Roberto Monteiro de Araújo – Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Senso em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua principalmente nas seguintes áreas: Cultura Contemporânea, Arte, Ética e Filosofia Política.
 
 
ISLÃ: CAMINHOS E DESENCONTROS
Mônica Peralli Broti
Paulo Roberto Monteiro de Araújo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
 
Oh! O amanhã é sempre o grande momento / De que amanhã se trata?”[1]
 
Os estudos sistemáticos sobre as desigualdades de gênero[2], colocados no campo da teoria política feminista trouxeram uma situação inédita: mulheres brasileiras que cresceram em meio a costumes ocidentais, manifestam o desejo à conversão ao Islã, e reivindicam o direito ao parentesco como vida privada e à procriação assistida[3]. No  Brasil, país marcado por diferenças sociais profundas, onde é patente a luta pela  incorporação das mulheres à ordem existente, a partir dos anos 1980 a pluralidade de abordagens sobre as questões femininas – a luta pelo voto, acesso à educação, assim como a exigência de direitos iguais no casamento e do direito ao divórcio, do direito das mulheres à integridade física e a controlar sua capacidade reprodutiva – definiram discussões teóricas no ambiente acadêmico e também na prática política. Apesar da exigência da cidadania igual para os dois sexos, o que aconteceu nos últimos anos para que a mulher considerada inferior tenha desejado não apenas ser reconhecida como cidadã integral, mas encarna o empoderamento da identidade e religiosidade da “nascida muçulmana”? Por que esse desejo de resgate de outra cultura que não a sua?
Para abordar tais depoimentos requer uma rigorosa reflexão sobre o mundo moderno. Ao mesmo tempo, outra atenção deve ser direcionada ao significado desse momento histórico e as implicações sobre a condição humana. No que concerne particularmente a esse contexto político e social, a importância de alguns acontecimentos valemo-nos de duas intelectuais que contribuíram enormemente, cada qual a seu modo, para o debate. Trata-se de Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco.
A Condição Humana (2015) de Hannah Arendt, permanence fundamental para “pensar o que estamos fazendo” (ARENDT, 2015, p.25). E o resultado desta análise, o de reconsiderar a condição humana do ponto de vista das mais novas experiências, que faz do texto um parâmetro para a tarefa de compreensão dos motivos e intenções das mulheres brasileiras ao se reverterem[4] às comunidades muçulmanas firmementes arraigadas na tradição.
Muitas das críticas dirigidas ao contexto histórico atual como a perda da autoridade do pai, a precariedade da economia moderna e a própria família desconstruída, partem de Elisabeth Roudinesco. Historiadora da psicanálise, comprometida em efetuar uma leitura da relação entre a sociedade ocidental moderna e o manifesto de homens e mulheres pelo direito aos valores tradicionais sobretudo do modelo familiar conservador. Em sua obra A Família em Desordem (2003) Roudinesco resgatou a história da família e suas mutações estabelecidas pelas inovações tecno-científicas e pela própria economia moderna. Para ela, a família era então contestada, rejeitada, declarada funesta ao desabrochar do desejo e da Liberdade sexual (ROUDINESCO, 2003, p.8). Contraditoriamente em nossa era contemporânea, marcada pelo veloz desenvolvimento tecnológico tais declarações parecem obsoletas, e hostis à “moral civilizada”[5] em busca de regra e de um “familiarismo redescoberto”[6].
Feita essa breve apresentação sobre a questão do retorno a modelos tradicionais de comportamento, partamos às ideias centrais de Arendt sobre o homem e à história deste bem como às críticas de Elisabeth Roudinesco a questão do comportamento, para a reflexão sobre as considerações e experiências de mulheres revertidas ao contexto islâmico.
Islã e a Modernidade
Há diversas temáticas relacionadas ao status da mulher entre as comunidades islâmicas que permeiam de forma significativa o imaginário social como a imagem, a discriminação de gênero e corpo, religiosidade e o uso da vestimenta. Para uma maior reflexão a respeito do feminino no Islã, compreender as motivações que levam mulheres brasileiras à conversão e à prática religiosa merece atenção aprofundar e analisar mais esse contexto histórico pós-moderno.
O emprego do termo Islã reporta-se a uma civilização que cresceu e floresceu sob a égide da religião islâmica. Para os seguidores da religião, o termo Islã compreende  a submissão e devoção à vontade de Allah (Deus único) e também a paz (Salam) que se efetiva através da aceitação por parte do fiel das verdadeiras palavras e dos mais belos nomes deixados pelo criador.
O Islãismo surgiu no ano 622 da era crista na etnia árabe – núcleo e agente diffusor do Islã – e foi a última das grandes tradições monoteístas a se consolidar na civilização humana, tendo seu início marcado pelos ensinamentos do Profeta Muhammad[7].
Segundo a crença islâmica Muhammad, reconheceu-se Profeta e Mensageiro depois de uma intensa experiência de meditação em seus retiros anuais, no silêncio do deserto. “Em pouco tempo adquiriu o título de As sadiqul Amin que quer dizer o sincero e fidedigno” (MAZLOUM, 2014:29). Muhammad recebeu a Revelação Divina no ano de 610 d.C. na língua árabe, através do Arcanjo Gabriel. O conjunto das Revelações foi denominada Alcorão (Qu’ran – a Recitação). Esse texto considerado sagrado pelos fiéis é composto de 144 capítulos (suras), foi revelado lentamente, linha por linha e versículo por versículo, num período de 23 anos, “[…] tornou-se um estatuto de vida através do qual se realiza a justiça social, a paz, a harmonia e o bem-estar para toda a humanidade. Disse Allah (o Altíssimo): E não te enviamos senão como misericórdia para todas as criaturas”[8].
As orientações de Muhammad, conhecido como Hadith, é igualmente seguida pelos fiéis. Através dele é transmitido a Sunnah[9] ou a “Tradição” de como o Profeta conduzia seus valores morais. O Islã, como “religião divinamente revelada” (al-Sheda, 2014, p.13), defende cinco bases de devoção para orientar os seguidores muçulmanos em suas relações com Deus. São as chamadas de Cinco Pilares do Islãismo: o primeiro consiste na profissão islâmica da fé, a Shahada – “Ninguém tem direito de ser adorado além de Allah, e que Muhammad é seu servo e Mensageiro”[10]; o segundo pilar recomenda a prática da oração – Sallah – que consiste num conjunto de citações repetidas cinco vezes ao dia; o terceiro pilar é denominado Zakaah, é uma certa porcentagem de dinheiro que o muçulmano rico dá ao pobre necessitado; o quarto pilar trata da participação no jejum – sawn – que acontece no mês do Ramadan, o mês que marca o início da Revelação. O Hajj, peregrinação feita pelo muçulmano até a Casa Sagrada de Allah (a Ka’bah), é o quinto pilar da religião. Este pilar do Islã é obrigatório a todo file, homem ou mulher, uma vez na vida, se eles tiverem condições físicas, financeiras e alcançado a puberdade.
Retorno à tradição
Nesse contexto cultural de regras e preceitos frente às exigências das esferas política e social do mundo pós-moderno, mulheres brasileiras assumem suas perspectivas no processo de inserção nas comunidades islâmicas. O Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE – aponta entre 2000 e 2010 um crescimento de 29% dos praticantes da religião no país. Em números cerca de 30 mil brasileiros convertidos, mas a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – FAMBRAS – estima que o número tenha saltado de 600 mil em 2010 para entre 800 mil e 1,2 milhão de fiéis em 2015, esses números distribuídos pelo país, o Estado de São Paulo possui a maior concentração 24% dos muçulmanos contra a segunda maior comunidade de 16% em Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná.
Durante a pesquisa do artigo realizada na Mesquita do Pari – Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil – situada entre esse bairro e o do Brás, mulheres declaradas muçulmanas dispuseram-se a participar de uma entrevista individual, semi-dirigida e de questões abertas, cujo material foi posteriormente analisado com método qualitativo (CRESUSWELL, 2000). As participantes consentiram para a realização da pesquisa e divulgação do estudo. Seus nomes foram substituídos por outros fictícios, de modo a preservar o anonimato e sua identidade.
Quando lhes foi perguntado sobre o sentido da religião muçulmana, tradição familiar, valor da mulher e ainda sobre o matrimônio e o uso do véu – hijab, as respostas foram muito próximas em sentido do desejo pelos valores tradicionais de família, escola, nação e – sobretudo – às críticas ao mundo moderno:
Maria, 52 anos, viúva, pedagoga:
“Há três anos conheci o Islã através de uma amiga e comecei a frequentar a Mesquita, estudar ao Alcorão e esclarecer as minhas dúvidas com o Cheikh Rodrigo Rodrigues. Eu era evangélica e sentia que faltava algo. Depois da minha conversão sou muito feliz, passei a entender que a minha vida aqui na Terra é apenas passageira, preparo-me todos os dias para a eternidade e não penso mais na vaidade feminina, só com o uso do hijab sinto-me uma mulher de verdade”.
Para o Cheikh Rodrigo Rodrigues[11], brasileiro e natural da cidade de Porto Alegre, responsável pelos assuntos religiosos da Mesquita do Pari, reconhece que nos últimos anos houve um aumento significativo do número de mulheres que se reverteram ao Islã:
      “A desorganização familiar do contexto social atual, as integrações globais através dos meios eletrônicos – mídia e Internet – facilitam o acesso ao relacionamento entre homens, mulheres e jovens brasileiros com países muçulmanos. Outro fato que atrai, foi a exibição, pela Rede Globo, da novela ‘O Clone’, em 2001, criou-se o estereótipo do ‘árabe rico’, do ‘árabe gentil e sedutor’, influenciando sobre o imaginário feminino. Muitas mulheres quando procuram a Mesquita vem em busca de uma família e tentam resolver suas carências de afeto. Muitas se relacionam com homens que usam do estereótipo criado por elas e vem ao Brasil em busca apenas de um visto. A crise econômica tornou países como Egito, Marrocos, Tunísia, Paquistão, Índia, Iraque e Turquia áreas de risco para mulheres que procuram relacionamentos com estrangeiros ditos ‘árabes’. É comum ouvir dessas mulheres: ‘Eu me reverti’; ‘A cada oração me faz melhor’”.
A partir dos relatos das brasileiras convertidas ao Islã é possível perceber a fidelidade à religião nas suas atitudes e condutas do seu cotidiano; fazem do uso do véu uma rotina e os valores da tradição familiar apresentaram-se prioritariamente. Notadamente em todos os depoimentos havia uma postura por parte das mulheres entrevistadas de inquietação, desconforto e distanciamento com os padrões culturais e de comportamento da sociedade pós moderna.
Em um livro publicado em 2004,[12] Elisabeth Roudinesco dialoga com a sede de uma ou várias das grandes interrogações que perpassam nossa época – as transformações na família ocidental, a fragilidade do Estado enquanto instituição, os sistemas de pensamento hegemônicos ou dominantes, a organização dos espaços e o controle da ordem e mostra a crescente insegurança e incerteza que ocupam lugares cada vez mais centrais nos modos de vida contemporâneos, quando o homem passou a ser sujeito de seu destino, de suas escolhas e conflitos.
Espaço público e a construção da identidade
Nessa perspectiva, as transformações da organização da vida atual, desempenharam o papel revelador de uma crise identitária particularmente aguda das sociedades ocidentais da era moderna, em suas relações de trabalho, familiar, cultura e espaço público. A modernidade se caracteriza, contudo, em desconstruir a solidez do Estado e o desmantelamento da ordem tradicional das outras instituições, implicando um permanente recomeço significativo existencial, social e histórico dos seres humanos.
 
O que se perdeu na era moderna não foi, naturalmente, a capacidade para a verdade ou a realidade ou a fé, nem a concomitante aceitação inevitável do testemunho dos sentidos e da razão, mas a certeza que antes as acompanhava” (ARENDT, 2015, p. 344).
 
A “desconstrução da família” e a revalorização da sua função paterna foi evocada de forma unânime nos discursos das brasileiras muçulmanas. As transformações da família conjugal dita “nuclear” nesse mundo em mutação foram severamente criticadas e o “desejo de normatividade” (ROUDINESCO, 2003, p. 11), repousa na tentativa em organizar a desordem do mundo.
Quanto à família pode-se distinguir três grandes períodos de uma história de evolução. Numa primeira fase, a família na Europa da Idade Média, serve acima de tudo para assegurar a transmissão de um patrimônio. Os casamentos arranjados entre os pais sem que a vida sexual e afetiva dos futuros esposos, seja levada em conta. Numa segunda fase, a família “moderna” cujo modelo se impõe entre o final do século XVIII e meados do XX. Passa a ser fundada no amor romântico, passa a existir a reciprocidade dos sentimentos e desejos carnais por intermédio do casamento. E a partir dos anos 1960, impõe-se na família “contemporânea” – ou “pós-moderna -, dois indivíduos em busca de relações íntimas ou realização sexual.
Nessa perspectiva Arendt sublinha a distinção usada na Antiguidade Clássica e ainda na Idade Média entre as esferas privada e pública. O traço distintivo da esfera do lar, do privado (oikos) era que o fato de que nela, os homens viviam juntos para desempenharem as atividades relativas a suas necessidades e carências à manutenção da vida. Baseavam-se nas relações de parentesco como a phatria (irmandade) e a phyle (amizade). A tarefa do homem era considerada como evidente, para fornecer o sustento e o trabalho da mulher era sujeito à procriação e o cuidado e a manutenção da ordem doméstica. O público (pólis), ao contrário, era a zona do discurso, do uso da palavra e da persuasão, do aparecimento e da visibilidade e, por conseguinte da política: um espaço reconhecido de opinião e ação.
A tentativa do homem pela compreensão desses espaços público e privado no mundo moderno, recai sobre a sacralidade da vida. A razão para a existência humana é encontrada pelas mulheres muçulmanas nos ditos e ensinamentos de Muhammad fundamentais para a conduta das suas ações e o credo, na imortalidade da vida individual contribui para liberar as inquietações naturais originadas pela desordem e insegurança da era contemporânea.
Finalmente, a realidade de uma economia de mercado cada vez mais devastadora de um Estado que tem se mostrado distante na garantia das condições necessárias para a segurança da dignidade humana. Família e religião aparecem como as únicas instâncias capazes de darem bases humanas para que os sujeitos possam fazer frente as mazelas provenientes da desordem social. As mulheres brasileiras muçulmanas encontraram na  fé, na tradição[13] um estado de alma livre de tensão e desprazer, a maneira transcendental de ver a vida, o mundo e os objetos e a construção da ideia de paraíso e eternidade tornaram-se para elas a forma simbólica de extrair o máximo da felicidade num curto tempo de prazer imposto pela modernidade tardia ou pós modernidade.
Talvez o esforço dessas mulheres na convivência com o mundo pós-moderno esteja apontando para nós a construção de novos caminhos, da perspectiva de diálogos com à impostura contemporânea de normas e sistemas, ou simplesmente busquem responder à pergunta – sempre atual – feita pelo escritor francês Victor Hugo há quase dois séculos: “De que amanhã se trata?”
 
 
NOTAS
 
[1] “Spectre toujours masqué qui nous suit côte à côte. / Et qu’on nome demain! / Oh! Demain, cést la grande chose! / De quoi demain sera-t-il fait?”, Victor Hugo, “Napoléon II”, Les chants du crépúscule (1835), Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t.1, 1964, p. 838 e 811. [Trad. livre: “Espectro sempre mascarado que nos segue lado a lado. / E que se chama amanhã! / Oh! Amanhã é o grande momento! / De que amanhã se trata?”] (ROUDINESCO, 2004, p. 7).
[2] Derivado do latim genus, o termo “gênero” é utilizado habitualmente para designar uma categoria qualquer – classe, grupo ou família – apresentando os mesmos sinais de pertencimento. Em numerosos trabalhos contemporâneos, designa-se por “sexo” o que deriva do corpo sexuado (masculino ou feminino) e por “gênero” o que reporta à significação sexual do corpo na sociedade (masculinidade ou feminilidade) Cf. Joan Scott, “Gente: une catégorie utile d’analyse historique”, Les Cahiers du GRIF, 37-8, primavera 1988, p. 125-53 (ROUDINESCO, 2003, p.115).
[3] A ideia de que a família é o âmbito primário das relações e, como tal, constitui as práticas relativas à maternidade, ao direito da criança à proteção convencional da esfera doméstica.
[4] Por natureza, no Islã os seres humanos nasceram todos muçulmanos e durante a Chaháda (Testemunho), dizendo: Testemunho que não há outra divindade além de Allah e Muhammad é o Mensageiro de Allah, ao fazer o reconhecimento o homem está voltando a sua origem como muçulmano.
[5] Ibid, p. 9.
[6] Ibid, 9.
[7] Muhammad é traduzido para o português como Maomé (MAZLOUM, 2014, p. 3).
[8] Ibid, p. 29.
[9] Sunnah, ensinamentos e estilo de vida do Profeta (MAZLOUM, 2014, p.111).
[10] Ibid, p.109.
[11] O objetivo do presente estudo foi compreender as motivações das mulheres brasileiras reverterem-se ao Islã, empregando o método qualitativo. Foram aplicadas entrevistas parcialmente dirigidas a doze mulheres e a dois Cheikhs da Mesquita Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil e Mesquita São Paulo.
[12] ROUDINESCO, Elisabeth. De quoi demain. Paris: Arthème Fayard e Galilée, 2001.
[13] Entende-se por “tradicionalista” aqueles que seguem os fundamentos da religião (FERREIRA, 2009, p. 123).
 
 
Referências:
AL-SHEHA, Abdurrahman. A mensagem do Islã. Tradução: Nibevah Barreiros. São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, Alsofara, 2014.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução: Roberto Raposo, posfácio de Adriano Correia. 12 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015.
ARMSTRONG, Karen. O Islã. Tradução: Anna Olga de Barros Barreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BRANT, Isadora. 2015. No dia do muçulmano, mulheres explicam como é seguir o Islã no Brasil. São Paulo: Folha de S. Paulo. 12/05/2015.
FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES MUÇULMANAS DO BRASIL. Dados Estatísticos de 2010 a 2015. São Paulo: FAMBRAS.
FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa. 2009. Teatralização do Sagrado Islâmico: A Palavra, a Voz e o Gesto. In: Religião e sociedade, 29 (1):  pp. 95-125. Rio de Janeiro.
MAZLOUM, Cheikh Ahmad Osman. O profeta do Islã Muhammad. Tradução: Cheikh Ahmad Osman Mazloum. São Paulo: Publicação da Academia de Investigação e Ciências Islâmicas, 2014.
NASR, Dr. Helmi. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Brasil: Society of the revival of Islãic Heritage, 2014.
ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã… Diálogo. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
 
 
NOTAS
 
[13] “Spectre toujours masqué qui nous suit côte à côte. / Et qu’on nome demain! / Oh! Demain, cést la grande chose! / De quoi demain sera-t-il fait?”, Victor Hugo, “Napoléon II”, Les chants du crépúscule (1835), Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t.1, 1964, p. 838 e 811. [Trad. livre: “Espectro sempre mascarado que nos segue lado a lado. / E que se chama amanhã! / Oh! Amanhã é o grande momento! / De que amanhã se trata?”] (ROUDINESCO, 2004, p. 7).
[13] Derivado do latim genus, o termo “gênero” é utilizado habitualmente para designar uma categoria qualquer – classe, grupo ou família – apresentando os mesmos sinais de pertencimento. Em numerosos trabalhos contemporâneos, designa-se por “sexo” o que deriva do corpo sexuado (masculino ou feminino) e por “gênero” o que reporta à significação sexual do corpo na sociedade (masculinidade ou feminilidade) Cf. Joan Scott, “Gente: une catégorie utile d’analyse historique”, Les Cahiers du GRIF, 37-8, primavera 1988, p. 125-53 (ROUDINESCO, 2003, p.115).
[13] A ideia de que a família é o âmbito primário das relações e, como tal, constitui as práticas relativas à maternidade, ao direito da criança à proteção convencional da esfera doméstica.
[13] Por natureza, no Islã os seres humanos nasceram todos muçulmanos e durante a Chaháda (Testemunho), dizendo: Testemunho que não há outra divindade além de Allah e Muhammad é o Mensageiro de Allah, ao fazer o reconhecimento o homem está voltando a sua origem como muçulmano.
[13] Ibid., p. 9.
[13] Ibid., 9.
[13] Muhammad é traduzido para o português como Maomé (MAZLOUM, 2014, p. 3).
[13] Ibid., p. 29.
[13] Sunnah, ensinamentos e estilo de vida do Profeta (MAZLOUM, 2014, p.111).
[13] Ibid., p.109.
[13] O objetivo do presente estudo foi compreender as motivações das mulheres brasileiras reverterem-se ao Islã, empregando o método qualitativo. Foram aplicadas entrevistas semi-dirigidas a doze mulheres e a dois Cheikhs da Mesquita Liga da Juventude Islâmica Beneficiente do Brasil e Mesquita São Paulo.
[13] ROUDINESCO, Elisabeth. De quoi demain. Paris: Arthème Fayard e Galilée, 2001.
[13] Entende-se por “tradicionalista” aqueles que seguem os fundamentos da religião (FERREIRA, 2009, p. 123).
 





Bio fornecida pelo palestrante.

THE SINGING LESSON, BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS – Luana Mara Almeida Teixeira




 Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo

 
Resumo: Este ensaio considera personagens e enredo psicológicos como uma marca poética presente na obra de Katherine Mansfield. É uma característica que se desenvolve com o humor psicológico sobre o gênero conto. Seu trabalho dá ao leitor a mesma impressão de quando as pessoas veem a imagem de um quadro impressionista, por exemplo. Parece com um momento capturado. O conto escolhido foi A aula de canto (The Singing Lesson). O objetivo deste trabalho é interpreter o sentido da personagem principal, Miss Meadows. Isso significa que há muitas coisas que outras mulheres já fizeram antes dela. Este ensaio indica que é possível comparar Miss Meadows com a deusa grega Deméter por meio de símbolos e da complexidade de suas ações.
 
Palavras-chave: Katherine Mansfield, “A lição de canto”, conto, Demeter.
 
Abstract: This essay considers psychological characters and plot as a mark of poetic present at the work of Katherine Mansfield. It’s a feature that develops to the psychological mood on the genre short story. Her work gives the reader the same impression when people see an impressionist painting, for example. It looks as an imprisoned moment. The chosen short story was The Singing Lesson. The aim of this paper is to discover how the main character, Miss Meadows, may be understood. It means that behind her, there are many things that women have always done before. This essay indicates that is possible to make a comparison between Miss Meadows and the Greek goddess Demeter, through symbols and the complexity of her actions.
 
Key words: Katherine Mansfield, “The singing lesson”, short story, Demeter.
 
Minicurrículo: Luana M. A. Teixeira é mestranda em Estudos da Tradução pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. É secretária executiva na Universidade Federal do ABC desde 2009, com atuação na área de comunicação, ensino de inglês e português para estrangeiros e tradução. A autora se especializa em terapia floral.


 
THE SINGING LESSON, BY KATHERINE MANSFIELD – PHASES OF MISS MEADOWS
 
Luana Mara Almeida Teixeira
Universidade de São Paulo
 
“Salomon said: There’s no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembrance, so Salomon gave his sentence that all novelty is but oblivion.”
Francis Bacon: Essays, LVIII
 
Introduction
We intend to show how the mood is created in the shot story “The Singing Lesson” by Katherine Mansfield and the importante of the character Miss Meadows into it, through an analysis of the symbols that appear along the text.
The characters are middle class people, who, because of their visceral mediocrity, could cause nothing but indifference. So after evoking in few lines a whirlwind of sensations, the author hurries in dismantling that effect, as if she wanted to apologize because of the impact she had caused. With this, however, she adds more vigor to the narrative, as if the strength of the text had been born just from its delicacy.
 
Plot
The plot is very simple. A despairing singing teacher, Miss Meadows, has to stard her class, but she has just received a letter from her bridegroom, Basil. This letter makes her thing their relationship was ended. So, the teacher changes what she had prepared for the classes and obliges the students to sing the saddest song of their books, while she plays the piano.
Soon a telegram from Basil is sent to Miss Meadows, asking her to apologize him. The teacher comes back to the class smiling and asks for the students sing another song, happy and sweet, without explanations, as if nothing had happend.
 
Starting the narration
The mood has to sustain the soul’s excitement for a certain time, so, the short story starts this way: “With despair – cold, sharp despair…”. It creates a tension atmosphere. Then there are words wich remind death, like this simile: “buried deep in  her heart like a wicked knife”.
The setting starts with: “cold corridors that led to the music hall”. The corridors are like a labyrinth when she felt in a prison, confused, bitterly lonely and auloved. It is an autumn morning, nevertheless, it is as cold as winter.
A sound from the stair case announces that something is going to happen. It is when the conflict begins. A bell had just ringed, like a bad sing. It is a psychological plot. There are descriptions of the environment only when it is according to what is happening with the characters.
 
Miss Meadows versus The Science Mistress
A secondary character , the Science Mistress, is described through this imagery: “sweet, pale, like honey”. She has yellow hair. This color is disagreeing with what Miss Meadows feels, so this disturbs her.
There is no physical descriptions of Miss Meadows. We just know she wears “cap and gown” and handles “ little baton”. When she talks to the Science Mistress, “hugging the knife”, there is no real knife. It is a wedged letter on her throat, a metaphor about how she feels in her heart. There is an opposition between them. The Science Mistress has a “sugary smile”, while Miss Meadows is “frozen”, grim. The first one has blue eyes. That is the first complication that Miss Meadows will find in the blue color.
 
Starting the class
The students are making noise and get silent when Miss Meadows arrive. She brings apprehension with her. Mary Beazley, her favorite student, “was turning the music stool”. That turn symbolizes the turn fo the world, which stops. It’s as if Miss Meadows had power to rule nature and to change the things’ course. This is how her inner tempest will become an environmental tempest.
She beats the baton asking for silence. The baton is a sign of her power, like a magician’s stick or a magic wand. The girls wear a “sea of coloured flannel blouses” and they get silent, as if the colours had to be stagnated.
The singing teacher remembers the letter she had received from her bridegroom. He had written: “I’m not a marrying man”. She was feeling “bleeding to death, pierced to the heart”. The red colour represents as the love as the rage Miss Meadows feels when her pride is injured.
 
The bridegroom’s symbology
The bridegroom’s name is Basil, which may be associated with the mythological creature basilisk, that is an unbelievable kind of snake. “People have been surprised enough that she had get engaged. (…). She was thirty. Basil was twenty-five”. It had been a miracle that Basil appeared, like the basilisk, that is able to kill with its breath, stare or physical contact, like Basil could hurt just using words of a letter.
Basilisk is also an ancient cannon of a piece of artillery, that can cause damage. It represents hardness, insensibility. The same insensibility Bad used when he wrote the letter: “ and the word ‘disgust’ was scratched out lightly and ‘regret’ written over the top”.
Basil demonstrates he did not have greatness enough to understand love and to be selfless. Either he didn’t have mental structure to be engaged or he did not have enough maturity. He might have been confused, in addition, he was impulsive and selfish.
Last time Miss Meadow had seen Basil, he “had worn a rose with his buttonhole. How handsome he had looked in that bright blue suit, with that dark red rose”. That’s the contrast between blue and red, while she heard the melancholic voices of the contraltos, the deepest and lowest female voices.
The colour light red is an image of heath and wealth, beauty and youth, a free and triumphant Eros. Red is the everlasting place of the battle – or dialectics – between heaven and hell. A sumptuous red, more mature, becomes the emblem of power. When it is expressed, the color red becomes dangerous as an instinct of power. When it is not controlled, it leads to selfishness, hatred, blind passion, hellish love. In this colour the two deepest human impulses are linked: action and passion, liberation and oppression. Dark red is associated to death. It’s a sign of sadness, like dead soldiers in a war. The purple oceans of Greeks and the Red Sea are tied to the same symbolism: they represent the womb, where death and life transmute into one another.
According to Kandinsky, the deepness of blue has a solemn seriousness, above earth, that evokes the death idea. The Egyptian considered it the colour of the truth. Blue is the colour of the bliss bird, inaccessible though so close. Entering in blue is to do like Alice, from Wonderland, passing through the other side of the mirror. This colour symbolizes the exact pure and cold, as Basil, like Basil, because maybe he was innocent for having not perceived what he could cause with his actions. It seems a little inconsequent and childish.
Miss Meadows remembers when Basil said: “You know, somehow or other, I’ve got fond of you”. And he “had taken hold of the end of her ostrich feather boa”. In Egypt, the ostrich feather was a symbol of justice, equity, truth. Miss Meadows demonstrates she had believed in her bridegroom, so how could he had changed his mind so much?
 
The yellow chrysanthemum
The student Mary Beasley gives the teacher a “yellow chrysanthemum”. It was a ritual that was part of the class, like opening the piano. This time, Miss Meadows doesn’t thank for the gift. She just ignores it, with its regular and radiating petals arrangement, wich is a symbol essentially solar, associated with ideals of longevity and even of immortality, but Miss Meadows love is dead now.
From Japan to China and Vietnam, many homophonies give the chrysanthemun a hole of mediator between heaven and earth, associating it also to notions of plenitude, totality. This flower becomes a symbol of perfection, and so, joy for the eyes. Therefore, it’s and unpleasant sight to Miss Meadows, like the solar aspect of the Science Mistress.
In Europe and Asia the chrysanthemum was as autumn flower, the season of a peaceful life after carrying out the meadows obligations. This flower, among all others, is the one that hides and avoids the world. Miss Meadows bring meadows in her name. She is the chrysanthemum owner. Its aspect of mediator reminds one of the power of the teacher over the students.
 
Mood:  The lament and the environment
When Miss Meadows doesn’t answer the girl’s greeting, Mary Beasley’s eyes get filled with tears. The teacher orders the girls to sing “a lament”. The sing with “mournful voices”. The teacher contaminates them with her state of spirit. The music is like a mantra, magic words of a goddess and their inner sides are changed to winter. The lyric of the music is like that moment of life the character was passing:
 
Fast! Ah. Too Fast Fade the Ro-o-ses Pleasure;
Soon autumn yields unto Wi-I-inter Drear.
Fleetly! Ah. Fleetly Mu-u-sic’s Gay Measure
Passes away from the Listening Ear.
 
Tension is growing. “Every note was a sigh, a sob, a groan of awful mournfulness”. The situation is almost unsustainable. While she’s creating such an external disorder, Miss Meadows, in her internal chaos, wonders about what could have happened to Basil as he had that attitude. On his last letter she had been very happy. That’s how we may realize how dependent she is from external events and from her relationship with her bridegroom.
The Lament” goes on. “The willow trees, outside the higs, narrow windows, waved in the wind”. The willow is a tree associated to the idea of death, of sadness. “ They had lost half their lives. The tiny ones that clung wriggled like fishes caught on a line”. The comparison gets the impression of a whole death. It looks as if all the leaves wanted to fall down. The narrow windows, suffocating, cause anguish, as the singing lament. The setting agrees perfectly with the creation of a gloomy, morbid mood by Miss Meadows.
“The Lament” is like a funeral march. Miss Meadows gets a dark aspect – of waning moon – darkening the environment as well. She says: “Make that Drear sound as if a cold wind were blowing through it. Dre-ar!”
Mary Beazley “wriggled her spine”. The atmosphere is already heavy enough when Miss Meadows says: “you must begin to die… to fade… until de Listening Ear is nothing more than a faint whisper…” It sounds like Miss Meadows wanted to express all the misery seh was feeling, because living on a happy world would be a martyrdom for her at that moment.
“The voices were silent; the piano waited”. There’s a pause. Everybody remains blockaded, stagnant, languid and Miss Meadows retakes, much more vehemently, her metamorphosing class. The rhythm grows up, the tension is raised. Some of the girls are “crimson” – the red colour again. One of them starts to cry. “Big spots fo rain blew against the windows, and one could hear the willows whispering”.
All that brain storm flows into a real rain of tears and drops mixed each other, blowing up. An effect like that also occurs in a short story of the North American writer Kate Chopin (1851-1904). It’s “The Storm”. The character Calixta has a sexual awakening during a tempest. The story deals openly with female sexuality. Calixta, a happily married woman, is nevertheless attracted to another man. Daring for it’s time, Chopin’s story ends happy for all the characters and no disastrous consequences attend Calista’s passionate encounter with the man, Alceé.
In both stories, “The singing lesson” and “The storm”, the environment is like a mirror that reflects the emotions of the characters. It’s the pain exceeding the body’s walls, transcending it. The ritual is performed, near of a climax, like an alchemic transformation. “Soon Autumn yields unto Winter Drear”
 
A deeper analysis of Miss Meadows
Miss Meadows, as the gods of Olympus in Greek mythology, has human attitudes and defects. She’s susceptible to suffer with the changes of fortune in life and she can make use of her power indiscriminately against the weaker and more vulnerable people to overflow her pain, hate or jow. For the gods, the weaker is the human being. In this short story, the girls are under Miss Meadows’ inclement mood.
Basil is her object of value, so his absence causes sadness. When he comes back, nature smiles again. It’s like the myth of the goddess Demeter, who rules the seasons of the year according to the absences and presences of her daughter Persephone.
Furthermore, among primitive people, the name is inseparable of both thing and subject designated. That’s the prime care and respect they dispense with it, attributing it a magic meaning, a holy value. Meadows means fields, greenland. That’s the kingdom of Demeter, who is the material goddess of earth, harvests, seasons and fertility. She is usually represented beside a snake – it might be related to the basilisk of the short story.
It has been said that Persephone was kidnapped by Hades, god of the hells. He fell in love with the young one and kidnapped haer, taking advantage of the exact moment when she was quietly picking flowers up in company of the Nymphs. When Zeus ordered Hades to give Persephone back to her mother, it was impossible, because the had eaten a pomegranate seed  in the hells and it was sufficient to keep her indissolubly linked to that place.
For softening the grieving of Demeter, Zeus decided that Persephone would divide her time between the subterranean and the alive worlds. Then, during the time when mother and daughter are separated, the ground remains sterile, infertile. It’s autumn and winter. However, when they are joined together again, nature smiles and blooms. It’s spring and summer. So, the cycle goes on. Demeter’s humour is reigned by contentment and also Miss Meadows acts like this.
 
The end of the story
Miss Meadows “would have to leave the school, too”. She would have to hide herself, like the chrysanthemum that, among all the flowers, avoids the world.
“The voices began to die, to fade, to whisper… to vanish…”. The reader would think that now death is going to reign utterly, when “suddenly the door opened”. A girl enters “in blue (…) and twisting the silver bangle on her red little wrist”. She’s a woman called Monica and brings the contrast between blue and red once more. She says that Miss Wyatt, the principal of the school, wants to see Miss Meadows on her room.
There’s a moment of expectation and apprehension when Miss Meadows cross the cold, silent corridors. An apologetic telegram had been sent to her by Basil. “He had commited suicede, decides Miss Meadows”. The idea of his death is a relief to her – despite she misses him – because it might take away from her the heaviness of the responsability of being abandoned. She wouldn’t have the guilt and could blame just the lack of motives to be alive, the despair that makes someone kills himself.
Happily Basil was not dead. On his telegram he asks her no to mind his letter because he was mad. Miss Meadows “blushed”, the hot colours were coming back. Miss Wyatt says that is forbidden to receive telegrams “in school hours, unless in case of death (…) or a very serious accident or something to that effect”.
The situation is the opposite. Miss Meadows received some news that gives her life back, like when Persephone comes back to Demeter. “On wings of hope, of love, of joy, Miss Meadows sped back to the music hall”. She crosses the corridors again. Like a labyrinth that carries to death or life, the corridors are an intermediary plane, a stay yonder. They are the way that take to heaven or hell, both represented by the music hall, where the music of life is developed.
Miss Meadows comes back to that room, picks up the chrysanthemum and raps with her baton. She retakes the ritual of another season. Now it’s another page of the songbook, time to another song:
 
We come here Today with Flowers o’erladen
With Baskets of Fruit and Ribbons to boot
To-oo Congratulate…
 
That is the climax, an apex, a zenith. It’s spring now. Everything has to regain its agility, becoming eager. Miss Meadows says: “Use your imaginations”. She “beamed at the girls”, since the sun is shining inside her. The air, the voices, the sound and all the rest become light. The girls are manipulated, influenced bey the teacher, who tries to touch them with her joy. It’s the end of the nightmare. “Don’t look so doleful, girls. It ought to sound warm, joyful, eager”.
Miss Meadows seems to be filled with an instinctive, impulsive, spontaneous infatuation. She recovers motion, impetuosity, fervor, frenzy, moved by her satisfied desire. “And this time Miss Meadows voice sounded over all the other voices – full, deep, glowing with expression”. At this point she demonstrates her place at the hierarchy, the goddess that she really is. She recovers the full moon aspect, Demeter, mother, wife.
The moon shines only illuminated by the sun, so she is manipulated too. It’s not self sufficient, but it doesn’t mean it can’t be happy just because it’s submitted. It may put to use the good moment to have some fun. Then Miss Meadows leaves the labyrinth corridors, like a cemetery. Eros instinct substitutes Thanatos instinct.
The only way to avoid delusion could be, like Buddhism says, having no wishes, which cause dissatisfaction. Notwithstanding, Miss Meadows, without wishes, would lose  verisimilitude with the human condition, considering the story is fiction.
 
The title
The title “The singing lesson” has a double sense. It may mean either a classe where people learn how to sing or a lesson that is singing itself, as if it were alive. Life follows the music. Maybe music played according to life. Music is like an iced fragment that transmits the impression of a certain moment, like an impressionist painting.
 
Social criticism
The social criticism of the text denounces the society of that age, not explicitly, with vestiges of Victorian moral. The hypocrisy is present at the school environment with a piece of irony and sarcasm. There is a subtle feminist denunciation against the yoke/oppression on women and, consequently, on children.
 
A psychological analysis of Miss Meadows
According to the typology described by Jung, Miss Meadows seems to be the kind of person sentimental-introverted, which specially appears on women. People like this use to be quiet, difficult approachable, often behind a childish or banal masque. They have also a melancholic temperament. Generally they do not have neither a great appearance nor make the other notice themselves in special. They are leaded by feelings oriented subjectively, and their motives are kept, usually, unkown.
A person like this obtains from all manifestations and contracts an impassioned depth that covers the misery of the whole world as she is astonished by it. In its excess, this kind of personality may even overflow explosively because of a disconcerting fact, as regards neither the subject nor the object can find the exact proportion.
The introverted feeling is specially determined by subjective facts, since it’s subordinated to these preliminary conditions and only is attached to objective facts secondarily. So it’s common this kind of person who shows herself less, but when she does it, she is usually misunderstood.
 
Final considerations
Katharine Mansfield work was envied by Virginia Wool. D. H. Lawrence was a friend of hers. Her talent consisted in change the reality into fiction until taking out all the realism of the scenes and give to what have passed a dream character.
The denunciations narrated in her short stories refer specially to the exploration of women and children, expressing the inexpressible from her condition of being a woman. We can see it along the short story “The Singing Lesson”. We could realize how wondrous is Mansfield work, since the analysis we can make about it are unfinished. The author uses highly symbolic elements, contributing to our ontological narrative,  bringing universal archetypes to everyday situations.
 
Bibliography
CARROL, Lewis. Alice’s Adventures in Wonderland. London: Penguin Books, 1994.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, 1991. Tradução de: Vera Costa e Silva.
CHOPIN, Kate. The Storm. In: Great short stories by American Women. Ed. Candance Ward. New York: Dover Publications, 1996.
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 1991. (Série Princípios).
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia grega e romada. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. Tradução de: Victor Jabouille.
JUNG, Carl Gustave. Tipos psicológicos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. Tradução de: Álvaro Cabral.
MANSFIELD, Katherine. The Garden Party and Other Stories. London: Penguin Books, 1964.
RAPUCCI, Cleide Antônia. Exposta ao vento e ao sol: A Construção da Personagem Feminina na Ficção de Angela Carter. 1997. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista “Júlio de mesquita Filho”, Assis.
 
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Nota da revista: Há tradução do conto por Luiza Lobo pela Ediouro (Rio de Janeiro).
 





Bio fornecida pelo palestrante.

LYGIA FAGUNDES TELLES E O BILDUNGSROMAN FEMININO – Maria Célia Martirani Bernardi Fantin




 
 

                                                           Maria Célia Martirani Bernardi Fantin                                                                    Universidade Federal do Paraná (UFPR)

 
 
Resumo: A vasta trajetória que Lygia Fagundes Telles tem percorrido como romancista, contista e militante ativa nos embates teóricos e políticos, que envolvem o ofício literário, sempre privilegiou a afirmação do feminino, enfrentando, com pertinência, o tema dos preconceitos que se travam contra a mulher. O presente estudo busca enfatizar os procedimentos narrativos de que a autora lança mão para que tal intento se configure.
 
Abstract: The vast trajectory that Lygia Fagundes Telles has traveled as a novelist, short story writer and active militant in the theoretical and political clashes involving the literary craft always favored women’s affirmation. She pertinently faced the prejudices that weigh on women. This study seeks to emphasize the narrative techniques that the author employs for this purpose. Palavras-chave: Lygia Fagundes Telles; afirmação do feminino; bildungsroman; procedimentos narrativos. Key-words: Lygia Fagundes Telles; women’s affirmation; bildungsroman; narrative techniques.
 
Minicurrículo: Maria Célia Martirani Bernardi Fantin) é Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela F.F.L.C.H. – USP. Foi professora de Língua e Literatura Italiana do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná. Atualmente, é Pós-Doutoranda da Universidade Federal do Paraná (Programa de Estudos Literários), instituição em que desenvolve pesquisa relacionada à Literatura e Cinema, especialmente às representações cinematográficas italianas contemporâneas, que tematizam a condição dos imigrantes e refugiados, à luz das teorias pós-coloniais.
 
 
 
LYGIA FAGUNDES TELLES
E O BILDUNGSROMAN FEMININO
 
                                                           Maria Célia Martirani Bernardi Fantin
                                                                    Universidade Federal do Paraná (UFPR)
 
O nome de Lygia Fagundes Telles está, inevitavelmente e não sem razão, associado ao dos grandes escritores da literatura brasileira, ao dos famosos “imortais” da ABL. Não surpreende, pois, que a autora venha sendo lembrada – mais recentemente – como forte candidata ao Prêmio Nobel de Literatura, a ser entregue neste ano.
A vasta trajetória que tem percorrido como romancista, contista e militante ativa nos embates teóricos e políticos que envolvem o ofício literário nos faz dirigir um olhar mais que atento ao conjunto de sua obra, que vem ganhando consecutivas reedições, ampliadas e comentadas. Naturalmente, acompanhando o movimento crescente dessa pluralidade ficcional, há também, um rico acervo de estudos a respeito de sua criação. Além da acurada crítica de Fabio Lucas — tido, talvez, como dos mais habilitados leitores especializados na obra de Lygia — deparamo-nos com análises muito valiosas, tais como as de José Paulo Paes e Silviano Santiago, publicadas na edição de março de 1998 dos Cadernos de literatura brasileira, do Instituto Moreira Salles, todo dedicado à autora. Assim, Paes, por exemplo, percebe a grandeza de um percurso literário em que, especialmente os romances Ciranda de pedra (1953), Verão no aquário (1962) e As meninas (1973) se alinhariam como típicos romances de formação[i].
Guardando as particularidades e as tramas de cada um, é possível, com efeito, perceber que a sucessão de desencontros sofridos pelas protagonistas — respectivamente Virgínia, Raíza e Lorena — apontam para um núcleo de desrazão e absurdo nos assuntos do mundo. Aqui, os traços específicos do bildungsroman estariam concentrados no fato de que suas heroínas precisam enfrentar uma série de conflitos, deixando-se marcar por eles, integrando, em seu caráter, as experiências pelas quais vão passando.
Interessa notar que, originalmente (Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe, é de 1795-96), o protagonista desse tipo de romance era sempre um jovem do sexo masculino, uma vez que às mulheres não era possível, à época, a liberdade de movimentos que permitia ao herói o contato com as múltiplas experiências sociais, decisivas no percurso do autoconhecimento.
A dicção discursiva de afirmação do feminino em Lygia, ao eleger, com frequência, como centros gravitacionais de seus enredos, mulheres, busca de certo modo equilibrar as forças, numa sociedade em que as relações de poder eram mantidas pela imposição do masculino. Sem ser “feminista” no sentido literal do termo, ao tratar das dificuldades e conflitos de uma geração de mulheres que, especialmente a partir da década de 50, precisava lutar por igualdade de direitos em meio às tradições reacionárias machistas, a autora enfrentou com pertinência o tema dos preconceitos que se travavam, então, contra a mulher.
Inseridas, pois, no amplo leque dos chamados romances de formação, há que perceber o quanto as mencionadas obras da autora jogam com duas tendências fundamentais: por um lado, a necessidade de expressar o mundo concreto, por outro, a necessidade de superá-lo. Da tensão entre a realidade e a possibilidade, entre o real presente e um alternativo resulta o caráter particularmente híbrido desse tipo de romance.
Com efeito, em Ciranda de pedra, temos Virgínia, lidando com as desavenças de um mundo familiar, fechado e rígido, em que não consegue ser aceita. O título remete às estátuas dos cinco anões que enfeitam a fonte da mansão do suposto pai da heroína, mansão onde passa a viver após a morte de sua mãe adúltera e o suicídio de seu verdadeiro pai. Ali é tratada com irritada condescendência pela governanta alemã de suas duas meias-irmãs e se sente excluída da roda de amigos delas, a que sonha pertencer. Essa roda é simbolicamente representada pela ciranda dos cinco anões: “a resistência dos dedos de pedra” deles não permite o ingresso de Virgínia.
Diante do conflito doloroso da rejeição, ela acaba criando para si mesma a alternativa de ficar interna em um colégio, inclusive no período de férias. A partir do afastamento — com tudo de aprendizado que a ruptura dos vínculos aparentes possa comportar —, Virgínia adquire condições de voltar à mansão da família, vendo-a, agora, com novos olhos. Nesse processo de autoconhecimento, na viagem que deve fazer no sentido da própria maturação individual, ao final, consegue ler criticamente aquela hipócrita ciranda familiar, a qual não vale a pena querer pertencer.
Depois de cumprida essa trajetória, a via-crúcis de heroína em crise, a ex-menininha de unhas roídas conclui:
O mal maior foi (ela, Virgínia) não estar nunca presente, não ver de perto as coisas que assim de longe se fantasiavam como num sortilégio. Teria visto tudo com simplicidade, sem sofrimento. (…) Os semideuses eram apenas cinco criaturas dolosamente humanas (TELLES apud PAES, 1998, p.76)
 
Em síntese, Ciranda de pedra aborda uma profusão de temas que vão desde o adultério, a loucura e o homossexualismo feminino até a impotência masculina, a falta de perspectivas profissionais e o trauma da ausência do pai, tudo costurado sobre o pano de fundo da decadência de certa estrutura familiar e do processo de formação de uma personalidade (no caso, a de Virgínia).
De modo análogo, o segundo romance de Lygia, Verão no aquário, também tem por protagonista uma jovem, Raíza, cujos conflitos existenciais estão basicamente centrados no relacionamento perturbado com a mãe, Patrícia. Aqui, a simbologia do verão muito quente, traduzido em termos da opressão exercida pela mãe, associado à estreiteza protetora e artificial do aquário/redoma onde a moça se sente como que confinada, revelam um tipo de aprisionamento do qual Raíza busca se libertar.
Se, no primeiro romance, a situação concreta que é preciso superar é a da rejeição, representada por meio da impenetrabilidade no círculo familiar feito de pedra, aqui a superação precisa se dar contra o sufoco (comparado ao calor escaldante de certos verões) da presença racional da mãe, muito ocupada com as questões do mundo prático e, em contrapartida, a ausência de um pai idealizado, obsessivamente lembrado e associado a um espaço mágico e lúdico.
É assim que a jovem descreve o tipo de mal-estar que se estabelece entre as duas: “Há um germe que se instalou em nós, mas agora resolvi reagir, não quero mais esse vazio, não quero mais esse desespero, quero fortalecer a minha vontade”. (TELLES apud PAES, 1998, pp.76, 77)
Outra vez, o problema concreto e a necessidade de superação.
Enfim, o retrato da adolescente quebrando as paredes de vidro do pequeno mundo em que se sente obrigada a viver, buscando um mundo alternativo, por meio do autoconhecimento, à procura de uma identidade: “Estou me despedindo do meu aquário, mamãe, estou me preparando para o mar, não percebe?”. (TELLES apud PAES, 1998, p.77)
O romance As meninas, de 1973, assim como os dois anteriores, traz à cena três protagonistas tão jovens como Virgínia e Raíza. Os projetos de vida de Lorena, Lia e Ana Clara tipificam os caminhos ou descaminhos com que se defrontava a juventude universitária dos anos 60-70, quando o regime militar se impôs de modo violento e absoluto. Nesse caso, porém, substituem-se os grilhões circunscritos às cirandas familiares pelos amplos conflitos do mundo, datados num tempo fortemente marcado pela repressão.
Os desencontros existenciais que nesse romance se verificam poderiam ser assim resumidos: Lorena se mortifica com uma virgindade que insiste em manter, numa época de total liberação sexual; Lia encarna visceralmente o ideal revolucionário, junto a Miguel, seu amante e companheiro de militância, com quem viaja para a Argélia; Ana Clara, obstinada em enriquecer por meio de sua beleza de modelo profissional — alternativa de superação de uma infância feita só de miséria, violência e degradação —, acaba morrendo por overdose de cocaína.
A superação dos conflitos, aqui, no processo de formação de cada uma delas, será catalisada pela figura central de Lorena. Como bem observa José Paulo Paes:
 
No desenlace da efabulação de As meninas, a figura de Lorena ganha um relevo que lhe dá redondez ficcional. É ela que garante a Lia os meios de ir ao encontro do amado na Argélia; é ela quem toma as medidas necessárias para tornar menos ignóbil a morte de Ana Clara, evitando um escândalo cuja repercussão iria arruinar as inocentes freiras que lhes davam abrigo. Sua intervenção ativa em situações do mundo mostram que, dentro da delicada concha de ordem, limpeza, requinte e supérfluo em que se compraz em viver, há mais do que aquela “intelectual burguesa podre de chique” a que faz referência Ana Clara num momento de despeito (PAES, 1998, p. 79).
 
Segundo Lukács (2000), é no romance de formação, síntese entre o idealismo abstrato e o romance de desilusão, que a forma adquire sua melhor possibilidade. Daí porque esse tipo de romance possibilite o que ele denomina “experiência compreensiva” ou “reflexão polêmica”. Não parece ser outra a estratégia de Lygia, ao investir magistralmente nos fluxos introspectivos do monólogo interior de seus personagens, numa narrativa que se volta aos estados mentais, ainda que não descuide dos acontecimentos históricos e sociais.
Narrativas de subjetividades, essas três obras, fundamentais no corpus ficcional da autora, elegem o processo, o percurso, a viagem do eu atormentado em seus embates com o mundo e as formas reflexivas da introspecção do narrar como tônica dominante.
Se Ciranda de pedra, Verão no aquário e As meninas focalizavam a fase juvenil da construção do feminino, o romance As horas nuas (1989) se volta para sua fase outonal. As questões do envelhecimento e da solidão roubam a cena, num processo de desnudamento da atriz Rosa Ambrósio, mulher de meia-idade atormentada pelos efeitos do tempo sobre seu corpo, revelados em forma de memórias, que ela registra num gravador. Enquanto se desnuda diante do leitor — o que justifica o título — e também do gato voyeur Rahul, Rosa tece, ao longo da narrativa, um exame de consciência ou balanço de vida, num ritual de mea culpa bastante recorrente na voz de outros protagonistas da autora.
A inexorabilidade do tempo, contra o qual a atriz tenta lutar em vão, é descrita de modo sagaz pelo gato, que presencia tudo, na cena bizarra em que ela aparece tingindo os pelos pubianos:
 
Não sei por que esses bandidos tinham que nascer brancos, resmungou ela. Já estava de luvas quando mergulhou mais uma vez a escova na tintura do copo. Inclinou-se para frente. Abriu as pernas e bem devagar foi passando a tinta nos pelos do púbis. Com a mão livre, abriu a caixa rosada no tampo de mármore e dela tirou um lenço de papel para limpar o fio de tinta negra que lhe escorria pela coxa, Ô! Meu Pai!… (TELLES, 1989, p.30, 31).
 
É o gato quem a observa e narra, num tom de sensual ironia, que, por mais que as luzes daquele dia sejam indício de primavera, para Rosona — cuja imagem madura se reflete nua no espelho — inicia-se o outono:
 
Aperto os olhos feridos. Quando volto a abri-los, Rosona está posando de estátua diante do espelho coroado, os braços languidamente erguidos para prender os cabelos no alto da cabeça. Está sorrindo para a própria imagem que parece filtrar uma certa luz cálida, Sou o Outono, diria a imagem nua que se imobilizou no instante de perfeição. Não fora o triângulo do púbis todo borrado de tinta negra, travessura de algum moleque obsceno que passou lambrecando as estátuas do parque. (TELLES, 1989, p.31)
 
A velhice e tudo que ela comporta é um dos temas recorrentes na obra da autora, que jamais a concebe de modo tranquilo e natural. Ao contrário, o processo da passagem dos anos e as limitações que isso impõe chegam, no discurso reflexivo e confessional de seus personagens, ao limite do desespero.
É o que se dá no conto Boa noite, Maria, um dos mais fascinantes de A noite escura e mais eu, cuja primeira edição é de 1995. Aqui, a rica senhora Maria Leonor de Bragança, que, devido às fragilizações impostas pela idade busca ser apenas Maria, encontra um homem bem mais jovem, Julius Fuller, num aeroporto, ao voltar de uma viagem.
O enredo vai sendo tecido com a precisão e a maestria de quem sabe que um passo em falso, quando se trata de narrativas curtas como o conto, pode por tudo a perder. Aos poucos, vamos tomando conhecimento de que o que Maria busca — no desespero de seu envelhecimento solitário — é tão somente a presença de um amigo que a ajude a morrer. E o que poderia ser extremamente dramático e sinistro, na narrativa de Lygia, transforma-se num ritual poético de profunda delicadeza nas lides com a morte.
Como acontece em muitas de suas narrativas curtas, o recurso à ambiguidade bem construída dilui o pathos que esse tipo de tema, inevitavelmente, carrega. O que se tem como resultado é a abordagem de uma questão seriíssima, traduzida — pelos modos do narrar — em sublime desfecho.
Os mesmos problemas em relação ao passar dos anos, acenados em As horas nuas, nesse conto são retomados de modo pungente, tocando num dos temas mais polêmicos da atualidade, o da eutanásia assistida, também conhecida como suicídio passivo ou “doce morte”:
 
Sem saber como, a verdade é que estava só e precisando apenas de alguém que a ajudasse a viver. E a morrer quando chegasse a hora de morrer. Uma morte sem humilhação e sem dor. A morte respeitosa — mas era pedir muito? Precisava de um amigo e não de um assassino, ela concluiu e achou graça. Baixou a cabeça. Tamanho horror pelas doenças aviltantes que deixam a boca torta e o olho vidrado. E a fralda, Ah! Senhor, a fralda não! O amigo tem que amar esse próximo como a si mesmo, se ainda é possível o amor. Permitir que esse próximo amado fique indefinidamente num estado miserável não é cruel? E a compaixão? Seria um simples gesto de compaixão, a morte por compaixão. Vida vegetativa? Mas que vida vegetativa se os vegetais viviam e morriam limpos, sem a baba, sem os cheiros (TELLES, 2009, p. 54).
 
 
Quando Julius decide acompanhá-la, o sinuoso trajeto que os dois cumprem num táxi, do aeroporto até o apartamento dela, na primeira metade do conto, gera, no leitor, uma série de suspeitas em relação àquele estranho aventureiro que poderia, por exemplo, aproximar-se da elegante senhora para explorá-la, roubá-la e até — como bem previsível em narrativas contemporâneas à la Rubem Fonseca —, a sangue frio e com requintes de sádica violência, assassiná-la.
Mas as desconfianças ao redor do comportamento do belo homem de cabelos cor-de-palha e intensos olhos verdes vão se dissipando, na andadura ardilosa de um narrar que se contém a princípio, para afinal atingir o clímax, fechando com o prêmio tão almejado pela protagonista e tão inesperado pelo leitor: ele se revela, de fato, confiável como o bom amigo, que lhe trará a redenção da doce morte. (TELLES, 2009, pp.41-56)
Enfrentando, a partir de diversos temas, a contraditória complexidade humana, Lygia, em sua prolífera produção de contos, demonstra excepcional habilidade. Alguns deles, muito comentados, analisados e elogiados pela crítica, reeditados em diferentes antologias ou adaptados para a televisão e o cinema, são já conhecidos do grande público. Vejam-se, a exemplo, o sucesso de Venha ver o pôr do sol, Seminário dos ratos, As formigas, Pomba enamorada (considerado por Saramago uma verdadeira obra-prima), Herbarium, A estrutura da bolha de sabão, As pérolas, Um chá bem forte e três xícaras e A caçada, entre tantos outros. Seja em qualquer dos ângulos da existência sobre a qual a autora incida seu olhar, de fato, ela é capaz de fazer o recorte justo e preciso, exigido pela narrativa que não pode se demorar, que não pode vacilar.
Percebemos nos procedimentos adotados pela autora, nesse caso, aquele alto grau de exigência já anunciado por Edgar Allan Poe ao afirmar que todo conto bem realizado deve surtir um “efeito único”, atingido por um movimento interno de significação, que aproxime parte com parte, além de um ritmo e um tom singulares que só leituras repetidas — se possível, em voz alta — serão capazes de encontrar[ii].
Se pensarmos na construção do sinistro em Venha ver o pôr do sol, esse efeito único, obtido desde o primeiro passo sorrateiro em direção à presa, dá-nos a impressão exata do bote bem armado do animal que, ardiloso e dissimulado, confere liberdade de ação à vítima, apenas para, ao final, desferir o golpe certeiro, com toda a precisão exigida, a fim de que se cumpra seu intento. De saída, desde o primeiro parágrafo, insinua-se o cenário de total abandono daquela tarde:
 
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde (TELLES,1986, p. 159).
 
 
Ela é Raquel, a presa que será vítima do bote de Ricardo, seu ex-namorado que, por ciúme, convida-a para um reencontro amigável a um passeio num cemitério (local insuspeito, em que ninguém os veria juntos), acabando por trancá-la e abandoná-la atrás das grades de um jazigo antigo. Ele é o animal que se camufla, camaleão adestrado a adquirir diferentes nuances de pele, em meio ao exuberante silêncio verde dos ciprestes, a cada alteração de claro-escuro, acompanhando os jogos de luz e sombra no gradual entardecer daquele lugar abandonado. Desde o início, fragilizada, acreditando piamente no contar mentiroso daquele que a seduz, Raquel nem de longe desconfia de que acabará sendo vítima de tamanha atrocidade.
Mais do que o precioso recurso à quebra de expectativa, e não só em contos que gravitam em torno de situações sinistras (como As formigas, O jardim selvagem, Dolly, Anão de jardim etc.), o expediente estratégico de que lança mão a contista é o da excisão, melhor dizendo, o do afastamento, de um desvincular entre o plot narrativo, o cerne do que se está por narrar e os modos sinuosos pelos quais essa matéria vai se configurando, num jogo dialético de aproximação/distanciamento.
A excisão, segundo esclarece o escritor argentino Ricardo Piglia, em Teses sobre o conto e Novas teses sobre o conto é o que justifica o caráter duplo da forma do conto. Para o autor, em suas tentativas de teorizar o gênero, um conto, na verdade, revela sempre duas histórias: uma secreta, oculta; outra explícita. (PIGLIA, 2004, pp.89-114)
Essa aparente dissonância — a deslocar Raquel para longe do sinistro que está por vir, numa credulidade ingênua, facilmente capaz de conduzir a presa, que não deixa de ser também o leitor, às malhas finas da armadilha, da qual não conseguirá escapar — é revelada pelo caráter de ambiguidade inerente aos modos de narrar da autora. Ambiguidade que só é alcançada por conta do desvincular entre o que se quer contar (o secreto) e as artimanhas da linguagem tecidas para tanto (o que se explicita).
Depois de tudo bem armado, a presa/leitor sucumbe ao bote preciso:
 
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda (TELLES, 1986, p. 169).
 
De modo análogo ao anterior, mas numa ambientação totalmente diversa, é que se estrutura o conto Segredo (em A noite escura e mais eu, o livro de contos favorito da autora, cuja primeira edição é de 1995, tendo sido reeditado em 2009 pela Cia das Letras). A trama se desenrola diante do impasse de uma menina de quase dez anos que precisa entrar num bordel, para pegar uma bola que lá caíra.
No início, o cenário de uma cidade interiorana descreve a tal Rua da Viúva, que era preciso evitar, da mesma forma que se evitavam os leprosos em pequenos bandos e que “mendigavam sacudindo as moedas que faziam blim-blim nas canecas de folha”. Embora as escolhas lexicais reflitam tempos de outrora, em que o preconceito contra as prostitutas era exagerado, o conto não cai no narrar excessivamente datado que poderia restringi-lo a um retrato de época. Ao contrário, sempre pautada pelo princípio do desvincular a história oculta da outra que se explicita, a voz narrativa instaura a tensão entre a menina assustada que atravessa um corredor até chegar ao quintal onde está a bola e a prostituta loira que a conduz.
Nesse ritual de perda de inocências por parte da menina, há um segredo que precisará ser mantido entre as duas: o de que ela não conte a ninguém que esteve lá. A história oculta, apenas sugerida, dá a entender que o pai da criança é um dos clientes daquela mulher, um dos frequentadores da casa; daí o porquê da necessidade do segredo.
O que se explicita é a situação de timidez, num misto de curiosidade e constrangimento por parte da menina, ao ir tomando contato com aquele universo tão proibido, e com a gentileza da prostituta loira que a ajuda, comovida com a presença que evocaria a de uma sua própria filha, já morta. Mais uma vez, arma-se, senão o bote contra o animal acuado, o momento preciso da surpresa que se intensifica por meio desses ardis do narrar. (TELLES, 2009, pp. 57-64)
Tratando de um dos temas mais instigantes da criação literária, nos 14 contos de Invenções e memória (obra vencedora do Prêmio Jabuti em 2001), Lygia investe na representação das imbricações entre memória e ficção. Em entrevista concedida a Edla van Steen, ela pergunta: “A invenção fica sendo verdade quando se acredita nela?” (TELLES apud SANTIAGO, 1998, p.100). E a resposta que ela mesma nos dá, por meio do que escreve, é que a memória é matéria tão ficcional que se torna impossível tentar estabelecer qualquer fronteira entre as duas instâncias. Em depoimento feito ainda em 1993 na Sorbonne, em Paris, ela esclarece:
 
Vejo minha vida e obra seguindo trilhos tão paralelos e tão próximos e que podem (ou não) se juntar lá adiante. (…) Mas quando me estendo demais nessas respostas, pulo de um trilho para outro, misturo a realidade com o imaginário e acabo por fazer ficção em cima da ficção… (TELLES, 1993).
 
 
Num dos contos desse livro, Que se chama solidão, uma menina presencia o cenário da morte de Leocádia — uma de suas pajens de infância —, que, para se livrar da gravidez indesejada, provoca o aborto, não conseguindo se salvar. Importa notar o quanto, nesse caso, a memória (da infância) invade a invenção, até o fantástico desfecho da narrativa: “Chão da infância. Algumas lembranças me parecem fixadas nesse chão movediço, aquelas minhas pajens”. E continua, registrando a voz da mãe, diante do ocorrido:
Enfiou a agulha de tricô tão lá no fundo, meu Deus, meu Deus… — a voz sumiu para voltar mais forte. Grávida de quatro meses e eu sem desconfiar de nada, ela era gordinha, engordou um pouco mais, pensei. Então, Leocádia? Eu perguntei e ainda me reconheceu (…)
Em dezembro tinha quermesse. Minha mãe e tia Laura foram na frente porque eram as barraqueiras, eu iria mais tarde com a Custódia que ficou preparando o peru. Quando passei pelo jasmineiro no quintal (anoitecia), vi o vulto esbranquiçado por entre os galhos. Parei. A cara úmida de Leocádia abriu-se num sorriso, colhia jasmins. A quermesse, vamos? Convidei e ela recuou um pouco, Não posso ir, eu estou morta (TELLES, 1998, p.62).
 
 
Qualquer tentativa de análise que queira abranger, com detalhes, uma obra do porte da que vem realizando Lygia Fagundes Telles seria vã. Melhor ouvir o que tem a dizer a mocinha que coleta folhas vegetais para o primo botânico que se hospeda por curto tempo na sua casa, no conto Herbarium: “era preciso fazer render o instante em que (o primo) se detinha em mim, ocupá-lo antes de ser posta de lado como as folhas sem interesse, amontoadas no cesto. Então (eu) ramificava perigos, exagerava dificuldades, inventava histórias que encompridavam a mentira”. (TELLES, 1988, p.61)
Que possamos nós, leitores, tal como o privilegiado primo, continuar demorando prazerosamente nessa ficção, em que o contar mentiroso sabe que a verdade, muitas vezes, é tão banal quanto a folha de uma roseira (TELLES, 1988, p. 62).
 
NOTAS
[i] A propósito, gostaríamos de remeter ao brilhante ensaio Ao encontro dos desencontros (pp.70-83), em que José Paulo Paes se dedica à análise minuciosa dos principais romances da autora, aqui mencionados. O estudo é um dos que compõem o volume: Lygia Fagundes Telles – Cadernos de Literatura Brasileira, editado pelo Instituto Moreira Salles, número 5, em março de 1998.
[ii][ii][ii][ii] A “teoria da unidade de efeito” do conto foi proposta por Edgar Allan Poe na Review of  Twice Told-Tales, um dos textos da Graham’s Magazine em 1842 e 1847. Em tais  reflexões teóricas,  analisa a coletânea de contos de Nathaniel Hawthorne e defende a ficção breve. Também sustenta que a narrativa deve ser lida de uma só assentada, do contrário “os interesses do mundo que intervêm durante as pausas da leitura modificam, desviam, anulam, em maior ou menor grau, as impressões do livro” (POE, 2004, p. 3).
 
 
 
Referências Bibliográficas
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. Trad: José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Editora 34, 2000.
PAES, José Paulo. Ao encontro dos desencontros. In: ANGELO, Ivan; CABELLO, Maria Eugênia Longo; CALIL, Carlos Augusto; DOS SANTOS, Tatiana Longo; HILST, Hilda; LUCAS, Fábio; PACHECO e CHAVES, Anesia; PRADO, Adélia; RÉGIS, Sônia; SANTIAGO, Silviano; SARAMAGO, José; SCLIAR, Moacyr; VAN STEEN, Edla; WEINTRAUB, Fabio. Lygia Fagundes Telles. Cadernos de Literatura Brasileira, São Paulo.
PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Trad: José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p.87-114.
POE, Edgar Allan. Resenhas sobre Twice-Told Tales, de Nathaniel Hawthorne. Tradução de Charles Kiefer. Bestiario, Porto Alegre, v.1, n.6, 2004. Disponível em: http://www.bestiario.com.br/6.html Acesso em: 31 out. 2011.
SANTIAGO, Silviano. A bolha e a folha: estrutura e inventário. In: ANGELO, Ivan; CABELLO, Maria Eugênia Longo; CALIL, Carlos Augusto; DOS SANTOS, Tatiana Longo; HILST, Hilda; LUCAS, Fábio; PACHECO e CHAVES, Anesia; PAES, José Paulo; PRADO, Adélia; RÉGIS, Sônia; SARAMAGO, José; SCLIAR, Moacyr; VAN STEEN, Edla; WEINTRAUB, Fabio. Lygia Fagundes Telles. Cadernos de Literatura Brasileira, São Paulo: Instituto Moreira Salles, número 5, março 1998; 1ª reimpressão: janeiro, 2002.
TELLES, Lygia Fagundes. A estrutura da bolha de sabão: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1ª ed.1978; 2ª ed. revista 1995.
TELLES, Lygia Fagundes. Antes do baile verde: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1ª ed.1970; 9ª ed.1986.
TELLES, Lygia Fagundes. As horas nuas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
TELES, Lygia Fagundes. As Meninas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1ª ed.1973; 16ª ed.1985.
TELLES, Lygia Fagundes. Os melhores contos. Seleção de Eduardo Portella. São Paulo: Global, 1ªed.maio 1984; 5ªed. novembro 1988.
TELLES, Lygia Fagundes. Que se chama solidão. In: ANGELO, Ivan; CABELLO, Maria Eugênia Longo; CALIL, Carlos Augusto; DOS SANTOS, Tatiana Longo; HILST, Hilda; LUCAS, Fábio; PACHECO e CHAVES, Anesia; PAES, José Paulo; PRADO, Adélia; RÉGIS, Sônia; SANTIAGO, Silviano; SARAMAGO, José; SCLIAR, Moacyr; VAN STEEN, Edla; WEINTRAUB, Fabio. Lygia Fagundes Telles. Cadernos de Literatura Brasileira, São Paulo: Instituto Moreira Salles, número 5, março 1998; 1ª reimpressão: janeiro, 2002. p. 59-62.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

DIFFERENTIATION AND NEGOTIATION IN JEANNETTE ARMSTRONG’S POETRY: STRATEGIES IN BEHALF OF OKANAGAN CONSCIOUSNESS – Mariese Ribas Stankiewicz




 

 Mariese Ribas Stankiewicz

Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)

 
 
Resumo: Observando uma comunidade indígena fragmentada pela colonização, Jeannette Armstrong escreve sobre a tensão em se caminhar na cidade, em meio à perda e à ausência. Ao fazer isso, a autora recentraliza a ideia daquilo que está às margens, para fazer o silenciado não apenas falar, mas também reclamar o que foi perdido. Sob a luz das noções de hibridismo de Homi Bhabha e das elaborações sobre as identidades hifenizadas de Fred Wah, este ensaio aborda uma breve leitura do compromisso poético de Armstrong em reafirmar a cultura e a história de seu povo, enquanto vocalizando um discurso hifenizado que pode permitir a re-territorialização, ou seja, o assunto de terra/local/posicionamento em sua poesia é recriado a partir de características, tais como raça, religião e etnicidade para se proteger da nacionalidade Pcanadense homogeneizante.
 
Abstract: By pointing at an indigenous community fragmented by colonization, Jeannette Armstrong writes about the tension of walking in the city  amid loss and absence. In doing so, the poet recentralizes the idea of the marginal in order to make the silenced not only speak, but to reclaim what has been lost. In the light of Homi Bhabha’s notion of hybridity and of Fred Wah’s elaborations on hyphenated identities, this essay addresses a brief reading of Armstrong’s poetic commitment to reassert her people’s culture and history, while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization. Therefore, the issue of land/place/placement in her poetry is recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality.
 
Palavras-chave: Poesia okanagan-canadense. Consciência histórica. Discurso hifenizado. Hibridismo cultural.
 
Keywords: Okanagan-Canadian poetry. Historical consciousness. Hyphenated discourse. Cultural hybridity.
 
Currículo da autora: Professora Adjunta de Literaturas de Língua Inglesa e de Ensino de Língua Inglesa da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês (USP). Mestre em Inglês e Literaturas Correspondentes (UFSC). Coordenadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência UTFPR-CAPES.
 
 
 
JEANNETTE ARMSTRONG’S POETRY: STRATEGIES IN BEHALF OF OKANAGAN CONSCIOUSNESS
 
Mariese Ribas Stankiewicz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
 
 
In the poem entitled “Death Mummer,” by Okanagan writer Jeannette Armstrong, the scenario of a contemporary city reveals the absence of a race: “There are no Indians here”; the good ones are dead, “preserved in alcohol” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), that is, poverty and social exclusion makes them hopeless at finding a way out. They feel useless for the community and are often stereotyped while searching for alcohol as a means of compensation for their unhappiness. Indians are part of memories and of bitter interpretations of a so long different culture. So, “in the million dollar museum / that so carefully preserves / their clothing, their cooking utensils / their food” (ARMSTRONG, 2001, p. 10), they are far from being real. The remaining traces of their culture, being marginalized, constantly face rupture.
As many others indigenous poets around the world, Armstrong writes about the memories of her own people in permanent contrast to present reality, which is one of the most profound characteristics of multiculturalism. Inside this analytical scope, but stressing a more creative view of this kind of poetic development, this paper addresses a brief reading of Armstrong’s commitment to reassert the culture and the history of her people, while voicing a hyphenated discourse that may allow for reterritorialization, that is, land/place/placement in her poetry and critical material are recreated from characteristics such as race, religion, and ethnicity to shield from homogenising Canadian nationality. In this sense, as this essay also deals with a view of memories and traditions of a people found in the midst of consequences of post-colonialism, some ideas about identity disfiguration (mainly racial, generational, and geopolitical), by Homi K. Bhabha, may be important to help make out that, after so many years, this has still been a question of culture being dislocated to a space called “beyond”.
Armstrong is an Okanagan-Canadian educator, artist, political activist, and author of anthologies, criticism, children’s books, novels, short stories, and poetry. She is best known for her work on education, ecology, and Indigenous rights. However, as she was born and grew up on the Penticton Indian reserve in British Columbia’s Okanagan Valley, much of her artistic work is embedded in her community’s political and social matters, as one can see in poems such as “History Lesson,” “Trickster Time,” or “Bone Game.” Through her literary and critical work, Armstrong claims for the rewriting of her people’s history and for the raising of consciousness of its cultural values: “Our children, for generations, were seized from our communities and homes and placed in indoctrination camps until our language, our religion, our customs, our values, and our societal structures almost disappeared” (ARMSTRONG, 2005, p. 239). In doing so, she brings about material from Native oral tradition and myths as they are still linked with the present situation of her people, also setting forward a hybrid discourse that dispels counterfeit stereotypes of Natives and helps her delineate her people’s heterogeneity.
These discourses produced in resolution of post-colonialism or postmodernity would be related to cultural embattlements implying superposition and displacement in the realm of difference. In this sense, the more a people disfigure their tradition of past generations, the more the differences could be redefined and renegotiated. According to Bhabha, one of the important consequences of this is related to the identity perceptions in our contemporaneity. In a deconstructive way, this may be explained by saying that those perceptions were restricted to binary positions often fixed in modernity, but have found a way to become more fluid and transitory, which are characteristics of a time of mobility of global population.
In colonialist discourses, hybridity is a depreciative word meaning miscegenation or mixed-breeds, that is, a hybrid, sterile product that resulted from the relationship between the colonizer and the colonized. This issue has to do with hegemony and eugenics, which implies a really strong matter of power relation. On the other hand, this same word “hybridity” occupies a central role in postcolonial discourse. In the light of these views, it has the benefit of the “in-between” state, the overlapping of two cultures and the ability to negotiate the difference. This is part of the discussion promoted by Bhabha about cultural hybridity.
The theoretician has developed his own concept of hybridity from literary studies and cultural theory to define the structure of culture and identity within the circumstances of colonial antagonism and inequity. For Bhabha, hybridity is a way to describe the emergence of new voices exactly because it appears from the relationship between the colonizer and colonized. So it is fertile and challenges the validity and authenticity of any essentialist cultural identity.
Therefore, one can say that every kind of culture is in a continuous process of hybridity and, according to Bhabha, this new transfiguration supplants the established pattern with a “mutual and mutable” representation of cultural difference that is positioned in-between the colonizer and colonized:
 
For a willingness to descend into that alien territory (…) may reveal that the theoretical recognition of the split-space of enunciation may open the way to conceptualizing an international culture, based not on the inscription and articulation of culture’s hybridity. To that end we should remember that it is the ‘inter’ – the cutting edge of translation and negotiation, the in-between space that carries the burden of the meaning of culture. It makes it possible to begin envisaging national, anti-nationalist histories of the ‘people’. And by exploring this Third Space we may elude the politics of polarity and emerge as the others of our selves (BHABHA, 1994, p. 56; his italics).
 
Thus, it is the indeterminate place in between subject-positions that are mentioned to be the location of the disruption and displacement of hegemonic colonial narratives of cultural structures and practices, which Bhabha calls Third Space. So the space inbetween is a third one in relation to the colonizer and the colonized.
On the verge of this thought, indigenous people grows their art and culture. Subjected to European colonialism, besides being characterized as inferior, primitive, and unable to constitute suitable political, economic, religious and cultural structures and histories, every Native people of the New World is usually regarded as one large group (Indians), despite their heterogeneity, which, consequently, often sets them apart from progressive contemporary analyses of their particular identity traits. Diverging from this idea, in “The disempowerment of first North American Native peoples and empowerment through their writing,” Armstrong (2005, p. 241) declares: “We, as Native people, through continuously resisting cultural imperialism and seeking means toward teaching co-operative relationships, provide an integral mechanism for solutions currently needed in this country. The author voices the “we” of her people, which expresses the refusal to participate of the Canadian nationalistic aesthetic, indicating an escape from homogenising narratives. In the words of Fred Wah, this stance towards literature can be called “‘alienethnic’ poetics,” which is “often used for its ethnic imprint and frequently originating from the necessity to complicate difference” (WAH, 2000, p. 52). Thus, categorization segments social environment in classes, whose members are considered as equals in reason of their common characteristics, actions, and intentions.
Although her main thematic choices have to do with the history being told from her people’s perspective, as she does in “History Lesson,” or with their oral tradition, as in “Wind Woman,” her poetic discourse can be analysed as a hyphenated one. It is in that Third Space in which happens the “cutting edge of translation and negotiation” (BHABHA, 1994, p. 56), and that is essentially critical of essentialist positions of identity and a conceptualization of original or originary culture. Native art is that space which is a mode of articulation, describing a fruitful, and not merely contemplative, space that creates new possibility. As a means of discourse, it functions as an interruptive and interrogative space of new forms of cultural meaning and production, blurring the existing boundaries between we and them, and calling into question established categorizations of culture and identity.
However, the issue of hyphenated discourses, while concerning Native writers, is complex, because, in Wah’s words, these writers generally “feel a strong need to participate in a tangible community (despite the cries of ‘separatist’) in order to locate the cortex of their own social content without it being conditioned by first-world perceptions” (WAH, 2000, p. 77). On the other hand, Wah agrees that Native works show hybrid features. Thus, although Armstrong’s work is orchestrated with poetic tools used to resist dominant literary culture, such as references to land and genetic inscription, it also presents some traits of that which Wah calls “hyphenated poetics.” According to him, the hyphen “in the middle,” but “not in the centre,” of multicultural compound adjectives metaphorically signals “a crucial location for working at hybridity’s implicit ambivalence” (WAH, 2000, p. 73).
In Armstrong’s poems, the reader may feel every persona in a state of enunciation, transgression, and subversion of binary positions, going beyond the realm of colonial dualistic opposition. The poet provides a spatial politics of inclusion rather than complete exclusion “that initiate new signs of identity, and innovative sites of collaboration, and contestation, in the act of defining the idea of society itself” (BHABHA, 1994, p. 2). The poems selected encode a counterhegemonic idea, in the sense that, when the colonizer shows hegemonic practices, the hybrid in the poetic content opens a space for attempts to negotiate to mean. They have that hybridity potential with their ability to transverse British, Canadian, and Okanagan cultures and to translate and to negotiate affinity and difference within a dynamic of exchange and inclusion that may start being felt in names and naming. The “play” with writers’ names that may reveal and conceal cultural tendencies and histories disturbs straightforward conclusions about most hybrid writers. Ambivalence resides in names, such as her own, “Jeannette Armstrong,” that is visibly English, concealing every Okanagan trace possible at a first sight. Further textual contact may reveal her history and political position, but will always accentuate the ambivalent character of her work.
Furthermore, the use of the English language throughout her critical work, stressing the aspect of her intellectual arrangement, besides dealing directly with cultural values as such, also outlines the chances of integration and cooperation with the dominant culture. The achievement of communication is, in Armstrong’s project, an essential point:
 
I don’t think I would go very far in a text if I were reading it through a text that had a lot of indigenous terms and words which didn’t have any meaning to me. I couldn’t continue reading it; I would therefore put it down as literature. Now, if I were reading it, and the literature itself was speaking to me, and the words and terms that were being used were not impeding that, then I would read it all the way through (ISERNHAGEN, 1999, p. 149).
 
In this sense, the use of code-switching is not strong in her work, that is, “the movement between two languages, (…) and that] functions as part of hyphen poetics as it helps to locate (…) the ability to remain within ambivalence without succumbing to the pull of any single culture” (WAH, 2000, p. 82, 83). The use of Okanagan words in her poetry is not a constant, but English and Red English (that represents a linguistic variety) is part of her cooperative project for extending her people’s cultural survival. Thus, many communities may read poems that speak about her roots and identitary traits. On the other hand, the use of Red English and the almost absence of punctuation are strategically devised in a way that warrants shows of displacement and subversion, as it happens in “History Lesson”: “Father mean well / waves his makeshift wand / forgives saucer-eyed Indians” (ARMSTRONG, 2001, p. 8-10).
In poems such as “Blood of My People,” “Keepers Words,” and “World Renewal Song,” among others, syntax is interrupted with silence, through gaps in the sentences. Wah verifies that the “gaps that punctuate her poem [“Blood of My People”] reflect the nomadic cut and refuse to settle into English placement of expected syntax and, more basically and politically, into both the imaginary nation and its ideological assault on the land” (WAH, 2000, p. 56). In “Keepers Words,” the silence “tells” about the sacred that cannot be changed, but that, somehow, is missing, because it is not remembered:
 
Her words     smooth     carved as bone
and so old no one remembered
were placed side by side
in a pattern
fashioned in the beginning
of her kind (ARMSTRONG, 2001, p. 61)
 
Here, one cannot avoid associating the breakdown of a cultural system to loss of memories, which can only reconstruct fragmentary realities. Silence makes her discourse fragmentary at the same time that vindicates the vitalizing of her people’s history. “[…] The cannibal monster / who devours himself / because he changes so much” (ARMSTRONG, 2001, p. 61) stands for the amalgamation and transformation of a series of different cultural traces, which coexist and are made homogeneous by globalizing ideologies.
One way out of cultural colonialism would be to teach the keeping of spiritual and tribal resources that are extremely connected to the land, so that the culture of her people can survive. Armstrong understands, however, that stressing the similarities within a category and the differences with the “other” may have dramatic consequences in the plane of behaviours and perceptions. This stance generally gives place to discriminations, to the extent that it is followed by favourable results to the groups to which one belongs, with a tendency to undervalue the groups from which one distinguishes.
Hence, in order to raise consciousness about her people’s culture without breaking through delicate issues about multiculturalism and globalization, her literary project includes principles to promote positive effects in the relationship with the dominant literary traits. In “Let Us Begin with Courage,” by blending contemporary Canadian issues about multiculturalism and Native intellectual traditions to defamiliarize common notions of Native peoples, Armstrong spins out a series of organic principles that, according to her, are essential for understanding that “the knowledge that the total community must be engaged in order to attain sustainability is the result of a natural process of survival” (ARMSTRONG, 1999, p. 1). Those principles are basically cooperation and pacifism, which she says to be natural to the foundation of Native ideologies.
Her key terms include individual, family, community, and land, which are interrelated in a stable chain. The notion of individual is, of course, not that of individualism, that is, the one that recognizes somebody apart from others. The individual is the talented person who must share his or her gifts with the community. As the four elements above constitute a stable chain, all are dependent on one another and cannot coexist separately. Furthermore, the individual is the powerful cell able to transfer cultural information to later generations, which again depends on the family structure. The family may live through many generations and constitutes a strong network able to spread cultural teaching. The community is that which embodies the identity traits of a given people, engaged in maintaining the principles in the land, which sustain all life.
These four elements cited above take part of a project, whose characteristics coexist in the collective environment of multiculturalism. She strives for accentuating cultural consciousness to her own people and for spreading their ideology to those out of her group willing to interact cooperatively and pacifically. This recipe follows the ancient and effective rules of the Bone Game, which was created and developed by Native peoples for deciding quarrels and disputes without hot conflicts, aggression, or war.
In a bone game, everybody participates with an object, which is passed around all members. A power object is chosen among all the objects of the participants involved in the game. Everybody must agree on the chosen power object. The game follows with the power object being passed around the members. The one who is holding that Object at a certain moment makes a proposal, which is listened, and then, approved or rejected. The power object is a kind of bridge linking all those involved in a dispute and every decision must be made based on consensus (BROWN, 2003).
Since she knows that the problem of social conflicts not only comes from the fight for the right to difference (ethnical, racial, or of gender), but from the fact of those phenomena are used for achieving power, the principles embedded in her project, cooperation and pacifism, much rely on the idea of the Bone Game. Negotiating the land, which is the site of political interests and element of disputes, is a slow process that involves the holding of a power object (here represented by her literary art), so that there can be consensus about the possession and use of the land.
In “Bone Game,” the four elements of Armstrong’s project engage wittily to tell that it is the moment to negotiate. The imagery of “the Okanagan” and “creek beds,” in the first stanza, is meaningful: if there was no land to which the persona belonged, or in which she could find her roots, the poem certainly would not express so intense certainty of place and placement. The persona walks the place to reach a powwow, 1 in which she will propose something—imagined as an important issue, because she comments: “At the bone game I will wager / with cunning and skill / everything I own” (ARMSTRONG, 2008, p. 17). The poem treats of the individual, who, knowing the land, is going to meet others in a gathering, at the same time that will have a spiritual contact with the trickster Coyote, an indigenous entity that stands for the forces of good and evil: “I will laugh with coyote / (…) / Tonight I will stalk / as I sing his song” (ARMSTRONG, 2008, p. 17).
Because the rupture of cultural and social links increases considerably, when the individual loses his or her land (or home), the redefinition of a place to which belong is a necessary measure proposed by an ethnic writer. Being a nomad constantly in search of a land that now is occupied by a different owner is to discover that “‘where you live,’ is also ‘Other,’ a large poetics term particularly attractive to contemporary ethnopoetics” (WAH, 2000, p. 57). In “History Lesson,” Armstrong tells about the white man’s search for a promised land, which, originally was her people’s, to try to wager, and possibly to challenge, the idea that the original owners are the best ones, since everything that she considers sacred about the land was devastated and broken:
 
Somewhere among the remains
Of skinless animals
Is the termination
To a long journey
And unholy search
For the power
Glimpsed in a garden
Forever closed
Forever lost (ARMSTRONG, 1991 p. 28)
 
It states much about the issue of language and the attempts to survive through it, while it tries to preserve the myth that lies in the process of making history by deconstructing historical topics in the colonization of the Natives by the British and the French. Speaking about the tools of conquest, ships and guns, Armstrong’s version of the history also includes the journey to a paradisiacal land, when “Civilization has reached / the promised land” (ARMSTRONG, 1991, p. 47). However, the process of colonization comprises destruction and disorganization, which, eventually, make her people wander away in search of home. In Wah’s words, the “nomadology,” a name coined by Deleuze and Guattari, that is,
 
(…) the figuring out where [the ethnic writer] is, where to go, how to move, not just through language but in the world, is an investigation of place, as well as placement in said place. For some, this is a reclamation project—and who could blame them, the natives (WAH, 2000, p. 56).
 
Native peoples have developed, and somehow, changed countless times amidst very harsh realities. Fighting for keeping hold of group cohesion in the face of almost overwhelming obstacles and working toward the realization of common goals are among the tasks of conspicuous Native writers. However, one of the greatest tasks has to do with the integration process that develops along with the raising of consciousness of their people’s culture. This integration will perpetually show hybrid aspects in their art – It is the necessary tool so that communication exists. This in-out procedure describes the spread of literary and cultural representations as well as the historical subjection of Native peoples.
In bringing Bhabha’s views to this essay, I would not forget to remind the reader about a general awareness of his neglect to conceive historical and traditional circumstances that reside inside colonial discourses. Despite that, this author, as many others who bring postcolonial aspects of cultures in their theories, has the merit of being responsive to the global game of strategic negotiations of affinities and differences, which is optimistic but also complex. His theoretical criticism recognizes the postcolonial reality of that game, and describes the fact that who was once the other has a voice in this world now. After all, in this writing, postcolonial does not mean that those who left Great Britain and France towards Canada have returned. Instead, they are there to stay with the Native people. Indeed, all of them are Native people now, with all those similarities and differences around, and therefore the significant requirement of negotiation.
Because of the increase of cultural consumption – many times appropriating dissimilar cultures – and the globalization of its structure in our days, we all have become members of various communities. This myriad of positions makes transformation an everyday experience. Even if we do not change into a cannibal monster, as that one of Okanagan mythology, every morning we wake up to find ourselves in completely new roles. One might ask whether it is necessary for a Canadian Euro-descendant who meets an Indigenous Canadian schoolmate to define him/herself by his or her national identity, and the first reaction being the impulse to exclude, punish, or ignore.
What makes them choose those labels from among the stuffed bag of identity components, rather than the part of the mother playing with her son, the crazy university professor, or the unhappy Brazilian living a chaotic political situation here in Brazil? Are we really to exclude, punish, or ignore those that do not look like the ones of a group or is there a possibility for breaking through the difference-breeding division between “us” and “them”? This latter possibility might not be completely deceptive for the players of this game these days.
 
 
 
REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Jeannette. Bone Game. 2001. Disponível em: http://www.parl. gc.ca/Information/about/people/poet/poem-of-the-week/poems-.htm?param=40. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
ARMSTRONG, Jeannette.  Breath Ttracks. Stratford: Williams-Wallace/Penticton – Theytus, 1991.
ARMSTRONG, Jeannette. The Disempowerment of First North-American native peoples and empowerment through their writing. In: GOLDIE, Terry; MOSES, Daniel David. An Anthology of Canadian Native Literature in English. Don Mills, Ont.: Oxford UP, 2005.
ARMSTRONG, Jeannette. Let us Begin with Courage: Ecoliteracy Mapping the Terrain. 1999. Disponível em: http://www.ecoliteracy.org/publications/pdf/jarmstrong_letusbegin.pdf. Acesso em: 25 fevereiro 2015.
BHABHA, Homi K. The Location of Culture. Londres e Nova York: Routledge, 1994.
BROWN, Michael, (Org.). The Bone Game: A Native American Ritual for Developing Personal Power and Group or Tribal Consciousness. 2000. Disponível em: http://www.michaelbrown.org/HTML/BoneGame.htm. Acesso em: 13 abril 2015.
ISERNHAGEN, Hartwig. Jeannette Armstrong. In: Mamaday, Vizenor, Armstrong: Conversations on American Indian Writing. Norman: U of Oklahoma P, 1999.
QUIRK, Randolph. Longman Dictionary of Contemporary English. 3ª ed. Essex: Pearson, 1995.
WAH, Fred. Faking it: Poetics and Hybridity. Edmonton: NeWest Press, 2000.
 
 
NOTE
[1] Powwow: “an American Indigenous ceremony (as for victory in war; an American Indian social gathering or fair usually including competitive dancing; a meeting for discussion” (QUIRK, 1995, p. 1104).





Bio fornecida pelo palestrante.

RECEPÇÃO DE CAROLINA MARIA DE JESUS NA ALEMANHA: ASPECTOS DE UM RECONHECIMENTO A PARTIR DA ANÁLISE DE PARATEXTOS – Raquel Alves dos Santos Nascimento




 
Raquel Alves dos Santos Nascimento
Universidade de São Paulo
 
 
RESUMO: Esse trabalho visa a examinar o potencial da recepção, na Alemanha, do livro Quarto de Despejo (traduzido como Tagebuch der Armut) de Carolina Maria de Jesus, valendo-se para tanto de resenhas de jornais alemães publicadas sobre a obra e a autora. A moldura teórica para a presente pesquisa fundamenta-se nos Estudos Descritivos da Tradução e o trabalho com o corpus que tem por base a Linguística de Corpus. Esta última viabilizou a identificação de palavras-chave nos textos estudados, que nos permitiram mapear possíveis eixos temáticos, a partir dos quais apontamos aqui algumas condicionantes da recepção da obra, tanto em uma perspectiva sincrônica ao examinar cada texto em particular, quanto diacrônica ao estudar a evolução de conceitos no tempo.
 
PALAVRAS-CHAVE: Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, Estudos Descritivos da Tradução, Linguística de Corpus, recepção de Literatura Brasileira.
 
ABSTRACT: This paper aims to examine the potential and the  impact of the reception of Carolina Maria de Jesus’s diary Quarto de despejo (translated as Tagebuch der Armut)  in Germany. It will resource to German newspaper reviews published about the work and the author, to try to find the elements that alow us to understand how and by which resources and agents, the translation of Quarto de despejo had seven editions in  that country. The theoretical framework for this research is based on Descriptive Translation Studies and works with a corpus that is based on Corpus Linguistics. The latter enabled the identification of key words in the studied texts, which allowed us to map out possible themes, from which we point out some conditions for the work’s reception, both in a synchronic perspective, examining each text in particular, and in a diachronic one, studying the evolution of the concepts in time.
 
KEYWORDS: Child of the Dark, Carolina Maria de Jesus, Descriptive Translation Studies, Corpus Linguistics, reception of Brazilian literature in Germany.
 
 
MINICURRÍCULO: Mestranda do programa Estudos da Tradução do Departamento de Letras Modernas, FFLCH, Letras, USP. Possui bacharelado e licenciatura em Letras Português/Alemão pela Universidade de São Paulo (2011). Além da pesquisa acadêmica, é professora de alemão e trabalha com traduções e revisões acadêmicas e comerciais. Sua pesquisa atual concentra-se nos seguintes temas: Carolina Maria de Jesus, tradução, recepção, paratextos e literatura.


 
 


RECEPÇÃO DE CAROLINA MARIA DE JESUS NA ALEMANHA: ASPECTOS DE UM RECONHECIMENTO A PARTIR DA ANÁLISE DE PARATEXTOS
 
Raquel Alves dos Santos Nascimento
Universidade de São Paulo
 
 
INTRODUÇÃO
Como entender o sucesso de Quarto de Despejo, primeiro livro de Carolina Maria de Jesus na Alemanha, um país tão distante culturalmente e geograficamente do Brasil?
Traduzido para o alemão por Johannes Gerold, o livro teve sete edições no período de 1962 a 1993. A primeira tradução foi realizada em um momento em que outros diários de cunho político-social estavam sendo traduzidos, como os diários de Erwin Behrens (Diário de Moscou), de Thilo Koch (Diário de Washington) e de Josef Müller-Marein (Diário do Oeste), revelando certa tendência da época por literaturas voltadas para esse viés.
O objetivo deste trabalho é apresentar alguns traços da recepção de Carolina Maria de Jesus e sua obra na Alemanha a partir de resenhas de jornais da época, escritas depois da publicação do livro.
Falar de recepção é pensar primordialmente em todas as condicionantes que envolvem a publicação da obra no país que o recebe: cultura, momento histórico, textos sobre o livro e no livro – os quais o teórico Genette (1987) chama de epitextos e peritextos respectivamente e ambos de paratextos –, agentes literários, público-alvo e outros. Do mesmo modo, devemos pensar sobre o potencial de recepção é que diz respeito às motivações e finalidades da tradução da obra para aquela determinada cultura.
O estudo sobre a recepção da obra de Carolina Maria de Jesus na Alemanha começa na recepção dela no país de origem, o Brasil. Como ela foi apresentada e representada naquele país e que direcionamentos de leituras foram exercidos sobre ela. Desse modo não há como não citar Audálio Dantas, jornalista que publica e escreve o prefácio da obra. Se pensarmos nos processos de reescritura e manipulação propostos por Lefevère. Leia-se:
 
(…) (re)escrita é manipulação, realizada a serviço do poder, e em seu aspecto positivo pode ajudar no desenvolvimento de uma literatura e de uma sociedade. As reescritas podem introduzir novos conceitos, novos gêneros, novos recursos, e a história da tradução é também a história da inovação literária, do poder formador de uma cultura sobre outra. Mas a reescrita também pode reprimir a inovação, distorcer e controlar, e em uma época de crescente manipulação de todos os tipos, o estudo dos processos de manipulação da literatura, exemplificado pela tradução, pode nos ajudar a adquirir maior consciência a respeito do mundo em que vivemos (Lefevère, 1992: vii).
 
 
Podemos dizer que o prefácio da obra feito por Audálio Dantas teve a função de direcionar os leitores da obra para o viés, embora mais sociológica e, talvez, menos literário. Para Perpétua (2014):
 
Os textos introdutórios – o da orelha, assinado por Paulo Dantas, e o da apresentação, por Audálio Dantas – ampliam a antevisão dada na intitulação ao conceder, por meio de um discurso persuasivo, uma direção de apreensão do sentido do diário para a área sociológica.
 
 
E ainda:
 
O objetivo de Audálio Dantas, ao pretender [em seu prefácio] a presentificação de Carolina, é o de enfatizar o valor sociológico do texto para que seja lido como testemunho real da miséria, escrito por quem a viveu, pessoa da classe mais desprotegida da sociedade.
 
Nuances desse direcionamento são percebidas também na Alemanha onde, além de sofrer adequações para o público alemão, constatamos a exaltação à leitura sociológica da obra. O pósfácio do tradutor é um exemplo claro disso quando diz: “As anotações de Carolina Maria de Jesus devem ser lidas menos como uma obra literária, mas contar muito mais como um documento humano único e autêntico…”
Assim como o prefácio, reescrituras como os paratextos – textos que conforme Genette (1987) falam sobre o livro – também podem servir para direcionar a recepção de determinada obra e formar/manipular opiniões sobre ela. Também a tradução da obra já pode imprimir traços de manipulação no sentido de adequar o produto, o livro traduzido, à sua cultura-alvo e às intenções do meio que a publica, suas tendências e crenças.
Ao pensar em adequações, pensamos também em um  conjunto de regras de um polissistema literário que segundo Even-Zohar é específico em cada país ou cultura. Para o teórico o sistema literário é ligado a uma rede de sistemas que regem uma sociedade como culturais, econômicos entre outros, prefere chamar de polissistema:
 
(…) um sistema múltiplo, um sistema de vários sistemas com intersecções e superposições mútuas, que usa diferentes opções simultâneas, mas que funciona como um todo estruturado, cujos membros são interdependentes (EVEN-ZOHAR 1999 a: 6).
 
Dentro deste sistema heterogêneo, há espaço para as literaturas canônicas localizadas ao centro do sistema e para as não canônicas, situadas na periferia. Sobre elas, Even-Zohar faz o seguinte esclarecimento e distinção:
 
(..) “por ‘canonizadas’ entendemos aquelas normas e obras literárias (isto é, tanto modelos como textos) que nos círculos dominantes de uma cultura se aceitam como legítimas e cujos produtos mais sobressalentes são preservados pela comunidade para que formem parte da herança histórica desta. ‘Não canonizadas’ quer dizer, pelo contrário, aquelas normas e textos que estes círculos recusam como ilegítimas e cujos produtos, em larga escala a sociedade esquece com frequência, (a não ser que seu status mude)” (Even-Zohar, 1999a: 10).
 
 
Ao contrário das obras canonizadas, que estão no centro do sistema, podemos entender como não canonizadas a literatura regionalista, panfletária, infantil e traduzida, as quais se localizam, via de regra, na periferia do polissistema. As tensões entre periferia e centro é que permitem que obras canonizadas saiam do centro e por vezes, também, que obras da periferia se desloquem para lá. Isso explicaria o fato de a literatura traduzida vir a fazer parte, de modo representativo, no polissistema literário de outra cultura, quando existem lacunas para que isso aconteça. Nas palavras de Even-Zohar:
 
(…) quando um polissistema ainda não está cristalizado, a saber, quando uma literatura é ‘jovem’ este processo de construção; quando uma literatura é ‘periférica’ (dentro de um amplo grupo de literaturas inter-relacionadas), ou ‘fraca’, ou ambas as coisas; e quando existem pontos de inflexão, crises ou vazios literários em uma literatura (EVEN-ZOHAR 1999b: 84).
 
A partir disso, Quarto de despejo teria se localizado, então, na periferia do polissistema literário alemão. No entanto, a pergunta que se faz é: o que poderia ter interessado tanto aos alemães que os fizessem ter necessidade de inserir essa obra em seu sistema literário?
Podemos dizer de início que o sucesso nacional e internacional da obra somado ao interesse da já extinta editora Christian Wegner, detentora dos direitos de tradução de Quarto de despejo, na tradução de diários de cunho político-social, contribuiu bastante para a inserção de Carolina no sistema literário alemão. No entanto, não seriam talvez fatores suficientes para ocasionar as outras sete publicações existentes.
É nesse contexto de insuficiência de informações que buscamos o aporte teórico dos Estudos Descritivos da Tradução (EDTs), na tentativa de tentar responder essa pergunta e compreender melhor o processo tradutório no contexto da recepção, uma vez que os EDTs colocam o foco, até então depositado no processo tradutório e no texto original, no texto traduzido, em seu público alvo e na recepção, marcando, assim, uma mudança na maneira de estudar e compreender a tradução de literatura na década de 1970.
Somado a isso buscamos também na teoria dos paratextos de Gerard Genette (1982, p. 8) uma forma de analisar essa recepção a partir de textos, mais precisamente, de resenhas de jornal escritas sobre a obra na época. Genette define o lugar do paratexto como sendo “o lugar privilegiado de uma pragmática e de uma estratégia, de uma ação sobre o público” e, ainda, “aquilo que por meio de um texto se torna livro e se propõe como tal a seus leitores, e de maneira mais geral ao público” (1982, p. 9-10).  Nas palavras do teórico paratextos são:
 
Título, subtítulos, intertítulos; prefácios, preâmbulos, apresentação, etc.; notas marginais, de rodapé, de fim; epígrafes; ilustrações; dedicatórias, tira, jaqueta [cobertura], e vários outros tipos de sinais acessórios, (…) que propiciam ao texto um encontro (variável) e às vezes um comentário, oficial ou oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado à erudição externa nem sempre pode dispor tão facilmente quanto ele gostaria e pretende (p.10).
 
 
Amparada nessa afirmação, abordaremos brevemente as capas de três edições alemãs e respectivos títulos e passaremos para a análise de três resenhas publicadas em 1962.
 
CAPAS DAS EDIÇÕES ALEMÃS
Para fins unicamente demonstrativos, sem pretensões de maiores aprofundamentos, serão apresentadas as capas publicadas em 1968 pela Fischer Bücherei em Frankfurt, em 1979, pela Reclam em Leipzig e em 1983 pela Lamuv Göttingen:
 
 
Em uma primeira análise, podemos conjecturar que a primeira capa, publicada no lado oeste da Alemanha, então dividida, apelava para identificação visual, compondo a imagem de Carolina em uma capa amarela vermelha e preta, cores da bandeira alemã. Levando em consideração que as capas, entre outras funções, também tem fins mercadológicos, podemos dizer que poderia ter havido a tentativa de instigar o interesse alemão pelas cores e pela própria composição da imagem com uma mulher negra.
A segunda capa traz imagens em preto e branco e apresenta um apelo mais social e talvez familiar. Há a presença de crianças pobres em frente a um barraco de madeira e uma mulher adulta (Carolina) a olhar por elas. Essa capa já prenuncia um pouco mais a temática do livro e poderia instigar o interesse alemão oriental que vivia sobre regime comunista pela evocação de uma certa condição de precariedade.
Publicada 20 anos depois da primeira edição, a terceira capa traz a imagem de uma Carolina em uma posição de bem estar ao fundo e coloca em primeiro plano um dos filhos, com aparência saudável, prenunciando talvez um presente e um futuro melhor.
Passando a observação dos títulos que segundo Genette (2009, p. 73) apresentam funções de identificar as obras, seu conteúdo e valorizá-lo, observamos primeiramente que também diferem entre si. O primeiro: “Diário da Pobreza, anotações de uma negra brasileira”, o segundo somente “Diário da Pobreza” e o terceiro “Diário da Pobreza, a vida em uma favela brasileira”.
Percebemos que o primeiro título coloca o livro como algo mais intimista de Carolina, sua perspectiva e vivência “anotações de uma negra brasileira”, ao mesmo tempo em que faz questão – como o título em português – de deixar claro o pertencimento de raça da autora; o segundo título busca a neutralidade. Não caracteriza a autora e despersonifica o relato como sendo o “Diário da Favela” e não mais somente de uma negra brasileira; por fim o terceiro, assim como o segundo despersonifica o relato e também o generaliza. Não é mais o relato de pobreza de uma negra brasileira, mas também a descrição da “vida em uma favela brasileira”. Podendo ser somente o Canindé, qualquer outra favela, ou todas.
Estas breves observações já nos permitem obter informações sobre algumas perspectivas de um público alvo em relação a uma obra, bem como da adequação necessária para cativa-los. No caso dos nossos três exemplos, estas seriam: caracterização mesmo que indireta do povo alemão pelas cores da bandeira, o apelo social caro às ideologias socialistas e o bem estar e esperança sentimentos talvez caros a um povo quase as vésperas da reunificação em 1990.
Buscando avançar um pouco mais na análise, observemos agora as resenhas de jornal publicadas na época sobre a obra. Segundo Genette elas seriam classificadas como epitextos, um dos desdobramento dos paratextos,  caracterizado como o discurso do mundo sobre o livro e também:
 
Todas as mensagens que se situam, pelo menos na origem, na parte externa do livro: em geral num suporte midiático (conversas, entrevistas) ou sob a forma de uma comunicação privada (correspondências, diários íntimos e outros) (GENETTE 2009: 12).
 
É exatamente nesse âmbito que nossa pesquisa vai centrar sua observação. Como mencionado anteriormente, observaremos a seguir alguns aspectos de recepção da obra em questão na Alemanha, tendo como exemplo alguns excertos das três primeiras resenhas publicadas sobre o assunto.
 
AS RESENHAS DE JORNAL
As resenhas as de jornal sobre Quarto de despejo e sua autora Carolina Maria de Jesus foram escritas entre 1962 e 1996. Oito destes artigos foram conseguidos no Instituto para Pesquisa Jornalística de Dortmund (Institut für Zeitungsforschung – IZF) e os demais foram fornecidos pelo professor Klaus Küpper, autor da Bibliographie der brasilianischen Literatur. Prosa, Lyrik, Essay und Drama in deutscher Übersetzung (Bibliografia da literatura brasileira. Prosa, Lírica, Ensaios e Drama em tradução alemã). Eles foram publicados em jornais de média e grande veiculação na Alemanha. Os exemplos apresentado a seguir são das primeiras resenhas publicadas em 1962.
Iniciando a observação pelos títulos de cada uma das resenhas já podemos obter as primeiras informações sobre o conteúdo do texto, já que como vimos anteriormente, um título entre outras funções serviria para “identificar o conteúdo e valorizá-lo” (Genette, 2009: 73). Eles são:
 

  • Poetisa do lixo – diário de um bairro de miséria brasileiro
  • Augias em São Paulo – Diário de uma negra da favela torna-se beststeller
  • A mãe coragem preta do Canindé – sobre os diários de Maria Carolina de Jesus
  • A Cinderela negra – sobre o livro de cabeceira de uma negra brasileira
  • Crônicas de uma negra brasileira
  • Poetisa da pobreza – As anotações de uma negra brasileira
  • Nas favelas
  • Favelas, sambas, candomblé – dois diários do Brasil
  • Carolina Maria de Jesus
  • 000 em barracos
  • Relato da miséria

 
Passando rapidamente os olhos por todos os títulos podemos perceber a referência à mitologia grega em “Augias”, a identificação de Carolina como poetisa, a associação de Carolina a personagens importantes da literatura alemã e, por fim, o direcionamento para as questões sociais brasileiras apresentadas ou não na obra.
Resenha 1
Os primeiros trechos foram retirados da primeira resenha publicada depois do lançamento da obra em 1962 em um jornal conservador alemão Rheinischer Merkur:
 
Bonn, 20.04.1962 – Die “Dichterin des Kehrichts” – Tagebuchblätter aus den brasilianischen Elendsvierteln (Poetisa do lixo – diário de um bairro de miséria brasileiro), Guillermo Baumfeld:
 
Há 46 anos nasceu Carolina em Sacramento, frequentou a escola por dois anos e aos nove começou a trabalhar como empregada doméstica. Quando tinha dezoito anos, casou-se e com vinte já era moradora da favela do Canindé em São Paulo. Sua existência resumiu-se em manter a vida de seu marido doente e de seus três filhos e, durante vinte e seis anos, levantar ao alvorecer.
(…)
Mas o livro não é somente um documento, também se destacam nele, em meio a toda realidade cruel, passagens de lírica suave e intensidade dos sentimentos humanos universais. Ela mesma, que se denomina poetisa do lixo diz: “A voz dos pobres não têm poesia”.
(…)
Seria Carolina de Jesus uma poetisa ou faria ela parte das descobertas que, como cometa, aparecem, escrevem um livro impressionante e depois  desaparecem na escuridão? Há cem anos Harriet Beecher Stowe incitou à libertação dos escravos com A cabana do pai Tomás e “acordou“ o mundo para refletir. Hoje, seus outros livros são esquecidos mas essa obra a tornou imortal.
(…)
Carolina é uma poetisa, além de ser também alguém que denuncia.
 
Partindo do título da resenha – “Poetisa do lixo – diário de um bairro de miséria brasileiro” –, já podemos tecer algumas considerações. Se levarmos em conta as palavras “poetisa” e “lixo”, podemos inferir a mescla de noções vindas dos eixos temáticos que definimos inicialmente para esta pesquisa: poetisa (eixo literário) e lixo (eixo político-social). O subtítulo define, então, o tipo de texto e sua origem.
No primeiro trecho destacado, podemos perceber que o autor se ocupa em caracterizar Carolina primeiramente como alguém que “deu voz aos pobres, até então mudos”, para, em seguida, caracterizar a autora como uma mulher sofrida e de muita força, que luta para dar a seu “marido doente e a seus três filhos” o parco sustento.
Intrigante nessa afirmação, contudo, é o fato de ela estar equivocada. Não é possível reconstruir, na fortuna crítica sobre Carolina, esse mesmo perfil de mulher: a autora nunca foi casada e muito menos teve um marido doente. Por ser a primeira resenha escrita sobre a autora, não é possível saber de onde essa informação foi tirada. No entanto, as conjecturas nos levam a pensar que se trata aqui de uma tentativa, embora baseada em dados equivocados, de moldar e caracterizar uma Carolina que os alemães se interessariam em ler.
Outro ponto interessante é que o jornal em que foi publicada a resenha é de vertente conservadora da época e hoje é um suplemento extra do Die Zeit, jornal de grande circulação na Alemanha. Nesse caso, parece ser importante que Carolina, tendo filhos, tenha também um marido. E como esse marido não aparece na narrativa, é possível que o articulista tenha inferido o fato de ele ser doente.
Analisando a partir da perspectiva alemã, o caráter exótico da vida de Carolina, bem como o fato de o livro ser um diário (um registro autobiográfico, portanto), do qual ela é a autora, e se considerarmos, ainda o fato de que ela mesma pode ser também vista como um personagem do livro, é possível que o resenhista tenha se sentido autorizado a recriar sobre os fatos da vida da autora.
O segundo trecho faz referência ao caráter mais literário da obra: “Mas o livro não é somente um documento, ao contrário, em meio a toda a realidade cruel, destacam-se passagens de lírica suave e da força de sentimentos humanos universais”. A afirmação leva Carolina de um extremo a outro: do relato documental e jornalístico da autora-personagem à dimensão da lírica, da prosa poética e da literatura. Nesse sentido, o trecho em questão confirma os dois eixos em torno dos quais gira o potencial de recepção do livro e busca compensar o caráter documental da obra com a alusão à sua manifesta literariedade.
 
Resenha 2
O segundo exemplo é de uma resenha publica no mesmo ano alguns meses depois em um jornal socialdemocrata alemão, Vorwärts:
 
Leipizig, 16.05.1962 – Augias in Sao Paulo – Tagebuch einer Negerin aus den Slums wurde Beststeller (Augias em São Paulo – Diário de uma A partir do título: “Augias em São Paulo – Diário de uma negra da favela torna-se bestseller”, podemos perceber uma referência ao deus grego Augias dos estábulos imundos, o que pode apontar para uma rede associativa passível de ser estabelecida por um público leitor alemão de formação clássica. Por outro lado, percebemos também certo descrédito ao mérito literário de Carolina, já que a ênfase do título parece denotar a surpresa de que tal diário pudesse se tornar um bestseller.
Publicada um mês depois da primeira resenha, em um jornal cujos leitores são basicamente os membros do partido socialdemocrata alemão (SPD), nesta resenha o autor se atém mais ao livro do que à Carolina. Importam aqui, a informação sobre o sucesso do livro, seu tema e a forma como os fatos foram contados: “de forma tão drástica quanto como acontece na realidade”.
O articulista não se preocupa, portanto, em traçar um perfil de autora que os alemães se interessariam em ler, mas em dar ênfase à temática e à forma como é expressa no livro, seu processo de publicação e, é claro, o fato de ele ,surpreendentemente, ter se tornado um bestseller em tão pouco tempo. Assim, tem-se a impressão de que o fato de o livro ser escrito por uma ex-favelada, negra e brasileira, fica em segundo plano. Aqui também não se tenta traçar qualquer perfil, seja ele real ou fictício da autora:
 
Resenha 3
O terceiro exemplo também do mesmo ano de um jornalista brasileiro que escrevia também para o jornal cristão liberal-conservador alemão, Christ und Welt.
 
Bonn, 13.07.1962 –, Die Schwarze Mutter Courage aus Canindé – Zu den Tagebüchern der Maria Carolina de Jesus (A mãe coragem preta do Canindé – sobre os diários de Maria Carolina de Jesus), Leo Gilson Ribeiro:
 
Com uma reação fulminante, a elite brasileira – intelectuais, imprensa e televisão, professores e estudantes, ministros e deputados – recebeu o choque elétrico deste desmascaramento de um mundo, que representa nas capitais do planeta um problema social de dimensões catastróficas.
(….)
O jornal fortemente conservador ”O Estado de São Paulo“ fala sobre um dos melhores livros brasileiros deste século“, o ”Diário de Notícias“ considera a obra um tapa sonoro na cara do governo brasileiro.
(….)
Em suas anotações Carolina escreve: “Há pessoas que duvidam da vida e só pensam na morte como solução. Eu lutei constantemente contra isso enquanto escrevi meu diário”. Como um eco distante soam as palavras de Kafka: “Na escrita existe um consolo estranho, enigmático, talvez perigoso, talvez salvador… Talvez a literatura nos leve a orar…” O livro da brasileira é testemunho de uma crença semelhantemente absoluta na transcendência da palavra, na sua força de transformar  o meio circundante tal como lhe foi permitido vivenciá-lo concretamente. Como um “Negro Spiritual”, este livro amargo contém, ao lado de tanta tristeza, uma faísca de consolo, quando Carolina diz: “O homem não nasce nu – a esperança o veste.”
 
Iniciando novamente a análise pelo título: Die Schwarze Mutter Courage aus Canindé – Zu den Tagebüchern der Maria Carolina de Jesus, consideremos primeiramente “Die Schwarze” e “Mutter Courage”. Começando por “die Schwarze”, vemos aqui mais uma vez a tentativa de evidenciar a cor da autora, evocando com ela todas as redes associativas sociopolíticas aí implícitas, como escravidão e pobreza, por exemplo. Além de marcar uma diferença estereotípica em relação a Mutter Courage de Brecht, Anna: “a mãe Coragem de quem falamos aqui é preta (schwarz)!”.
Já “Mutter Courage”, além de fazer associação direta à célebre personagem de Brecht, Anna, comerciante que sai a trabalho com seus três filhos, dois meninos e uma menina (assim como Carolina), em meio a guerra dos trinta anos, faz alusão também à crítica  feita por Brecht de que a guerra não melhora ninguém, pelo contrário. Segundo PEIXOTO (1991) Brecht teve influências do Romance Simplicissimus, de Jacob Christian Grimmelshausen, autor alemão do século XVII, que afirmava que a “guerra torna os homens piores e não melhores” (p. 192). Também Carolina faz uma afirmação que vai ao encontro da crítica de Brecht: “Os pobres são tratados tão mal que são obrigados a abrir mão de sua bondade…”.
Voltando a Anna, a Mãe Coragem de Brecht, na verdade o que vemos não é uma mãe como todos esperavam, que faz de tudo pelos filhos (como Carolina), mas uma mãe que, na guerra, se preocupa em ganhar seu dinheiro mesmo perdendo seus filhos. Nas palavras de PEIXOTO (1991): “o dinheiro faz Coragem perder os filhos” (p. 192). Ou seja: a guerra, a pobreza “faz homens piores”, tira a sua “bondade”. No entanto, Carolina mostra que para escapar à regra, basta querer e fazer diferente. E nesse ponto, as duas obras se encontram novamente. Para PEIXOTO (1991), a peça de Brecht deixa claro ao público que qualquer uma das personagens poderia ter agido de outra forma se quisessem. Carolina Maria de Jesus dá testemunho disso com sua escrita.
O articulista faz ainda uma referência ao imperador Marco Aurélio, que se dedicou à filosofia estoica. Na passagem destacada pelo autor do artigo, quando Carolina relata sobre o racismo dizendo que “o homem está no mundo de passagem e deveria se preocupar em viver em paz e não odiar seu próximo durante sua viagem na terra”, parece mesmo haver um diálogo com o estoicismo, que tinha como um de seus preceitos aceitar escravos como  “iguais aos outros homens, porque todos os homens são igualmente produtos da natureza” (RUSSELL, 2004: 253)
Outro ponto importante é a relação feita aqui entre o papel existencialista da escrita de Kafka e a de Carolina Maria de Jesus. Segundo o articulista, ambos usam a escrita como uma forma de se manterem vivos. Para isso, Gilson Ribeiro utiliza uma citação de Carolina, que diz: “Há pessoas que pensam na morte como solução. Eu lutei constantemente contra isso enquanto escrevi meu diário”. Como contraponto de comparação, ele utiliza a seguinte citação de Kafka: “Na escrita existe um consolo estranho, enigmático, talvez perigoso e talvez salvador…”1. Em outras passagens ele declara em cartas que seria a escrita o que o manteria vivo.
Em sua tese de doutorado “Die Tagebücher von Franz Kafka, ein literarisches Laboratorium 1909 – 1923” [Os diários de Franz Kafka, um laboratório literário 1909 – 1923], Andrea Rother apresenta de forma pormenorizada um estudo sobre os diários de Kafka e a importância deles na vida do escritor. Juntamente a isso são apresentadas algumas considerações sobre o gênero diário que talvez venham reforçar a nossa análise: “O diário é um lugar de transição. A vida é transformada lá em escrita… escrever pode dar moldura à vida e, assim, servir de apoio” (p. 4).2
Carolina também encontra na escrita uma saída para sua realidade dura e é nos papeis catados no lixo que encontra a matéria prima para o que chamaria de seu alimento: a escrita. O articulista reconhece essa característica, busca na literatura alemã um paralelo e o encontra em Kafka. Da mesma forma, conforme comentamos acima, ele busca outros correlatos em figuras exponenciais, canônicas para características de nossa autora, e os encontra em Bertold Brecht e até mesmo no imperador romano Marco Aurélio.
Relevante ainda é o fato de o articulista ser brasileiro, crítico literário renomado, que morou na Alemanha e escreveu para jornais alemães. Gilson Ribeiro aproxima Carolina ao viés literário e compara sua trajetória, sua escrita e sua reflexão à de personagens da literatura alemã – Mãe Coragem e Cinderela –, associando-a, assim, não apenas a autores canônicos como Brecht e  Kafka, mas também a personagens ligados a uma forte tendência da literatura alemã expressa nos Märchen, ou contos de fada.
 
Últimas Considerações
A breve observação das capas, títulos e uma análise um pouco mais aprofundada de alguns trechos de resenhas sobre Quarto de despejo e sua autora Carolina Maria de Jesus, foi capaz de nos fornecer os primeiros indícios de recepção da obra na Alemanha.
Nesse sentido, temos que a recepção de Quarto de despejo pode estar inserida prioritariamente no viés político-social da obra, atrelado ao caráter exótico de um contexto político-social diferente contado em primeira pessoa.
Os trechos selecionados mostraram-nos que, cada articulista dá a seu artigo uma ênfase peculiar motivada tanto por suas próprias convicções, e sua leitura singular da obra, quanto pelo jornal para o qual escreve. Fica clara, nos poucos casos analisados, a tentativa de atrair para a obra a atenção do leitor alemão, o que ganha corpo na caracterização da autora, de forma até mesmo arbitrária, e também na caracterização da forma de escrita e aproximação de Carolina a personagens e autores consagrados da literatura alemã. No entanto, em alguns trechos há a presença de adjetivações e caracterizações desnecessárias o que pode caracterizar a perplexidade de constatar como uma negra favelada consegue sucesso no mundo da literatura.
Sendo este artigo parte de uma pesquisa de mestrado que se encerra deixando abertas portas para o surgimento de novas pesquisas,  podemos dizer, em suma,  que além de contribuir para a divulgação da literatura brasileira na Alemanha a tradução da obra teve também a função de desviar o interesse alemão pelo Brasil do plano da exuberância da natureza para relatos relacionados a condições de injustiça social.
 
 
Referências Bibliográficas
EVEN-ZOHAR, Itamar (1979). Polysistem Theory. In: Poetics Today, vol. 1: 1-2.
Teoria de los polissistemas, disponível em:
http://www.tau.ac.il/~itamarez/works/papers/trabajos/EZ-teoria-polisistemas.pdf. Acesso: 01/07/2014
GENETTE, Gérard (2009). Paratextos Editoriais.  Tradução de Álvaro  Faleiros.  São Paulo. Editora Atelie.
KAFKA, F. (1992). Nachgelassene Schriften und Fragmente II. Kritische Ausgabe. Frankfurt a.-M.: Fischer Verlag.
LEFEVERE, André (1977) Translating literature: the German tradition from Luther to Rosenzweig. Amsterdam: Assen.
LEFEVERE, André (1990). Translation, History and Culture. London, New York: Pinter Publ.
MUNDAY, Jeremy (2001). Introducing Translation Studies. Theories and Applications. London: Routledge.
PEIXOTO, F. (1991) – Brecht, vida e obra. São Paulo: Paz e Terra.
PERPÉTUA, Elzira (2014) – A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus. Belo Horizonte: Ed. Nandyala.
SINCLAIR, John (2004). Trust the Text – language, corpus and discourse. London & New York: Routledge.
 
NOTAS
 
1 Kafka, Franz. Briefe 1902 – 1924. Org. v. Brod. P. 28
2 “Das Tagebuch ist ein Ort des Übergangs. Leben wird dort in Schrift transformiert… Schreiben kann dem Leben einen Rahmen verleihen und damit Halt geben.”





Bio fornecida pelo palestrante.

MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER EM YO NO SOY BONITA – Ricardo Augusto de Lima




 

Ricardo Augusto de Lima

Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL

 
Resumo: Angélica Liddell (1966) é hoje um dos nomes mais conhecidos do teatro espanhol e europeu. Suas performances, sempre carregadas de um tom violento e autobiográfico, dão ênfase à misoginia e ao machismo. A partir da peça Yo no soy bonita (2004), pretendo evidenciar como a violência no espetáculo narrada e o tom confessional se somam para criar um grito que denuncia a violência contra a mulher e contra a criança-menina.
 
Palavras-chave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
Resúmen: Angélica Liddell (1966) es hoy uno de los nombres más conocidos del teatro español y europeo. Sus actuaciones, siempre cargadas con un tono violento y autobiográfico, dan énfasis a la misoginia y al machismo. A partir del espectáculo Yo no soy bonita (2004), pretendo mostrar cómo la violencia en el espectáculo narrada y el tono confesional se suman para crear un grito denunciante de la violencia contra las mujeres y las niñas.
 
Palabras-clave: Angélica Liddell; Dramaturgia; Teatro autoficcional; misoginia.
 
Minicurrículo: Ricardo Augusto de Lima é bacharel em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina, onde defendeu a dissertação de mestrado intitulada Estas três paredes do meu apartamento: intertexto, ruptura da ilusão e autoficção como recursos metateatrais em O Homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. É doutorando também na UEL em Letras, com pesquisa na área de autoficção, dramaturgia, escritas de si e metateatro. Mantém, com o nome de Ricardo Dalai, o blog Reticências.
 
 
MISOGINIA E ABUSO: O GRITO DA MULHER EM YO NO SOY BONITA
 
Ricardo Augusto de Lima
Doutorando em Letras – Estudos Literários, UEL
 
 
“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”
(Clarice Lispector, em A hora da estrela)
 
Fredric Jameson (1996), ao analisar o conceito de “expressão” a partir do quatro O Grito, de Munch, afirma que existe uma separação entre sujeito interior e exterior e as emoções de cada um: da dor sem palavras do sujeito interior ao momento em que a “emoção é então projetada e externalizada, como um gesto ou grito, um ato desesperado de comunicação, a dramatização exterior de um sentimento interior” (JAMESON, 1996, p. 39, grifo nosso). Na peça Yo no soy bonita (2004), Angélica Liddell finaliza uma confissão com um grito um pouco abafado, mas, ainda assim, um grito: “Y aquella noche vomité” (LIDDELL, 2008, p. 22). Por meio de um discurso confessional e autoficcional, a dramaturga catalã atinge o espectador com o que há de mais violento na relação homem-mulher. Nascida em 1966, em Figueras, Espanha, Angélica nasceu Angélica González, mas assumiu o sobrenome Liddell em homenagem a Alice Liddell, menina que inspirou aquela Alice que cai na toca do coelho. Filha única de pai militar, escrevia pequenas histórias (geralmente trágicas e cheias de personagens) para fugir da solidão e da austeridade do ambiente militar.
Em 1993, fundou, com o amigo Gumersindo Puche, a Companhia de Teatro Atra Bilis. Em 2010, participou pela primeira vez do Festival de Avignon com a peça El año de Ricardo. Hoje, é um dos principais nomes do teatro espanhol e mundial, tendo recebido inúmeros prêmios, dentre os quais o Prêmio Nacional de Literatura Dramática, em 2012, com a obra La casa de la fuerza, e foi a primeira mulher a receber o Leão de Prata da Bienal de Teatro de Veneza, em 2013,
 
Per la sua capacità di tradurre l’arte performativa sulle scene teatrali. Per il suo teatro di resistenza. Per la qualità della sua scrittura, capace di trasformare i suoi testi in poesia che grida al mondo e alla sua stessa anima. Per il suo impegno come interprete e attrice. Per aver cancellato la linea divisoria tra diversi generi e stili d’arte, facendo sì che la miscela di parole, immagini, suoni, musica, gioco, il drammatico, il divertente e il tragico compongano un tutto. Per essere una delle artiste europee della sua generazione che ha avuto la maggiore diffusione nel mondo delle arti sceniche. Per la sua denuncia e l’attenzione continua alle debolezze dell’essere umano. Per la continua ricerca di comunicazione con il pubblico e per la ricerca della conoscenza di nuove culture e forme (LA BIENNALE, 2013, n.p.).
 
Suas peças, que escapam de toda dramaturgia convencional, sempre carregam um grito estridente e um tom memorialístico, no qual se recria o passado em cena, presentificando-o. Seu objetivo é evidenciar o podre, como uma poética do negativo ou, ainda, uma poética do mal, como fazia Jean Genet. Desta forma, temas como sexo, poder, loucura, morte, violência e estupro são recorrentes no cruzamento entre mitos clássicos (Édipo, Antígona, Medeia…) e mitos modernos.
A voz de Liddell surge em um momento no qual, segundo Maria Pilar Espín Templado (2011), se percebe a importância da mulher no mundo teatral não como atriz, mas como dramaturga, diretora e produtora, mundo este dominado, até a segunda metade do século XX, pelos homens. E a autora se pergunta:
 
¿Qué temas llevan a escena las dramaturgas españolas de las dos últimas décadas del siglo XX? ¿Dejan memoria de la sociedad actual, recrean su autobiografía, plantean un teatro comprometido o reivindicativo? ¿Podemos acaso hablar de denuncia y compromiso social en la dramaturgia femenina de finales de siglo XX? ¿Podríamos considerar el teatro de las dramaturgas actuales como testimonio de la desigualdad de género, como un teatro feminista? Y en definitiva: ¿marcan una dramaturgia diferente respecto de los autores masculinos de su generación? (TEMPLADO, 2011, p. 45-46).
 
 
O cenário no qual Angélica Liddell entra possui até então poucos nomes de destaque (Lidia Falcón, Carmen Resino, M. José Ragué-Arias, Lourdes Ortiz e Concha Romero são alguns deles). Essas mulheres abrem caminho no meio do contexto ditatorial franquista e encabeçam o boom da presença feminina na dramaturgia em meados da década de 1980 (TEMPLADO, 2011, p. 47).
A autora afirma que existem várias motivações na escrita dramática feminina, que vão desde sistematizar estudos e marcar presença feminina em festivais até, no caso de Liddell, de “una necesidad interior de algo revulsivo”.
 
(…) Cuando estas autoras optan por temas de carácter metafísico, político o social de amplio significado, su talante femenino en ocasiones se diluye en lo general de los planteamientos o por el contrario se inicia una corriente de ruptura política, caso de Angélica Liddell, cuya obra desarrolla un nuevo teatro político paralelo al de Rodrigo García, cuya marca más característica siempre ha sido la provocación (TEMPLADO, 2011, p. 49).
 
 
De uma maneira geral, os trabalhos dessas dramaturgas trazem uma temática ligada com a realidade e comprometida com ela, seja a realidade política, a social ou a individual, que se amplia no palco para atingir e englobar outras esferas. Não se trata, pois, do tradicional realismo teatral, ou seja, de um teatro que se esforça em imitar o real na fala, gestos e tipos de personagens a fim de evidenciar que aquela ação poderia acontecer na vida. Ao contrário, “su escritura surge para contestar a problemas del género humano y de la historia contemporánea como trama que explica la historia pública reciente” (TEMPLADO, 2011, p. 50).
Percebeu-se, desde a primeira aparição de Liddell, um diferencial na escrita dramática feminina em Espanha, assim como toda literatura dita “de minorias”. Anna Caballé, professora do Departamento de Filologia Espanhola da Universitat de Barcelona, afirma que, no caso da escritura autobiográfica, ou de cunho autobiográfico (autoficções, diários, cartas, ensaios, romances autobiográficos, peças de teatro, poemas etc.), parece ser evidente a diferença em relação ao cânone masculino, pois as escritoras não se inspiram nos moldes estabelecidos por ele. Segundo Caballé (2001), a aurorrepresentação feminina não é enfática como a dos homens, que querem reivindicar o conceito de sujeito e seu destino histórico. As mulheres tendem a se concentrar em um relato mais detalhado “de acontecimientos o situaciones vitales que han dejado una huella indeleble, una cicatriz. La autobiografía como un punto de salida antes que de llegada, una búsqueda moral, una interrogación a tumba abierta” (CABALLÉ, 2001, p. 6).
Ainda que se afirme, constantemente, a impossibilidade de um drama autobiográfico, José García Barrientos (2014) distingue alguns temas para uma nova modalidade teatral que cresce na contemporaneidade, o chamado “teatro do eu”: um interesse propriamente teatral; um interesse testemunhal, seja sobre a enfermidade, o sexo, a violência política ou de vítimas dos regimes militares latino-americanos; ou um interesse de identidade, do tipo sexual, social, étnico, cultural etc. “Todos los casos coinciden en utilizar lo autobiográfico para hablar de otra cosa, más general, que nos atañe a todos, y de la que el actor es solo un ejemplo” (BARRIENTOS, 2014, p. 134).
Por outro lado, enquanto a autobiografia teatral se apresenta como gênero impossível, a autoficção cênica (ou teatro autoficcional) se evidencia como tendência contemporânea nas Artes Dramáticas em peças que, evocando o passado, mesclam no espaço cênico (ambíguo por excelência) ficção e autobiografia, criando um discurso híbrido e metateatral. Assim, vamos recusar o conceito de teatro autobiográfico para aplicar este, mais maleável, de teatro autoficcional, visto que o espaço teatral e a figura do ator são, concomitantemente, espaço e corpo reais e ficcionais, promovendo um estar-não-estando, justificando por si só que o teatro é, desde sempre, mescla de ficção e real. Em outras palavras, arte ambígua cujo primeiro-motor é justamente a sobreposição das camadas de real e ficcional, ou seja, autoficcional. Desta forma, se anula completamente a necessidade autobiográfica da verdade.
Templado (2011, p. 52) afirma que três temas estão presentes na obra dramatúrgica feminina produzida desde o final do século XX: memória, compromisso e autoficção. Apesar das peças de Angélica tratarem da memória e, consequentemente, da autoficção, o conceito de compromisso nos interessa mais nesse momento, pois podemos entendê-lo de uma forma mais ampla: por compromisso, Templado entende
 
(…) no sólo el teatro escrito desde una actitud abiertamente comprometida como puede ser la de un teatro feminista, sino también como denuncia de una sociedad muy distante en la consecución de los derechos y de la igualdad de género, en este caso de las mujeres, sin que sus autoras estén afiliadas explícitamente a ningún credo concreto (TEMPLADO, 2011, p. 50).
 
 
Angélica Liddell não se liga a nenhum movimento e não se crê uma autora feminista. Não apenas ela, mas outras dramaturgas são reticentes em se ligar a algum movimento feminista, “seguramente por temos a perder oportunidades si se limitaban al gueto feminista” (TEMPLADO, 2011, p. 51).
Por outro lado, a geração de dramaturgas que iniciaram sua escritura dramática na década de 1980 apresenta traços de uma luta pelos direitos da mulher e, segundo Leonard & Gabriele (1996, p. 50),
 
Es la primera generación que asume de una manera totalmente integrada conceptos como el aborto, la separación, el uso de anticonceptivos, la libertad sexual, la homosexualidad masculina y femenina, la integración de la mujer en el trabajo, la presencia mayoritaria de la mujer en la universidad… etc. Y el arte es un espacio donde se refleja esa presencia siempre más evidente del elemento femenino.
 
 
Algumas delas, como Lidia Falcón, nascida em 1936, são não apenas escritoras, mas também advogadas e militantes. Falcón, por exemplo, funda o primeiro Partido Feminista Espanhol, em 1979, e participa ativamente das Primeiras Jornadas Catalanas de la Dona, em Barcelona, em 1976.
As peças de Angélica Liddell apresentam, também elas, esses três temas, mesmo que a dramaturga não esteja vinculada a nenhum partido ou movimento feminista. Ela trabalha abertamente com material autobiográfico, evocando sua infância, a relação entre pais e filhos, a maternidade e, sobretudo, a posição das mulheres na sociedade diante dos homens. Suas peças são, antes de tudo, um manifesto feminino ao mesmo tempo em que trabalham com questões sexuais traumáticas, pois, como ela afirma em uma de suas peças, “mi cuerpo es mi protesta contra mi generación” (LIDDELL, 2008, p. 9). Assim, podemos chamar seu teatro de autoficcional, pois temos um espaço exclusivamente ficcional, o palco. Entretanto, Angélica, em cena, não é apenas Angélica González, mas é também um ícone, um signo teatral, uma personagem. Ao mesmo tempo, evoca a todo momento a menina de nove anos que foi e que vomitou no final de um dia que parecia comum. Dessa forma, a menina Angélica, a atriz Angélica e a personagem Angélica se convertem em uma persona totalmente nova, inédita, incapaz de existir fora daquele espaço e daquele tempo da cena, mas também incapaz de ser uma ou outra coisa, apenas. Persona híbrida, participante de uma cena também híbrida e ambígua.
A obra Yo no soy bonita trata da natureza monstruosa e animal do homem. Nela, a dramaturga, que também é atriz e diretora, leva um cavalo para o palco, cuja presença é claramente gótica e metafórica: ele representa o homem, o falo gigante que quer penetrar a mulher sem importar-se com seu tamanho, sem razão, só instinto, só desejo.
Originalmente criada em 2004, é a terceira parte da Trilogia da Desobediência, composta por três “confissões”: Lesiones incompatibles com la vida (2003) e Broken Blossomns – Lírios partidos (2004). Angélica não enxerga seus espetáculos como peças convencionais, e não o são realmente. Ela os chama de “acciones/ações”, que recusam o formato de ação dramática com começo, meio e fim para expor uma situação-chave, central, e a partir dela conduzir o público à reflexão. São textos curtos, que se modificam em cada espetáculo de acordo com a performance de Liddell.
Yo no soy bonita tem como situação-chave a violência: um abuso sexual ocorrido na infância de Angélica por parte de um soldado que a ajuda a subir em um cavalo. A ferida, não (e talvez jamais) cicatrizada, é exposta de várias maneiras. Usando a 1ª pessoa do singular, Angélica conta sua infância sempre buscando a duplicidade: fazer da sua infância a infância de todos.
A primeira frase da ação já denota o medo feminino e a recusa de ser aquilo que a sociedade ordena que a mulher seja: “Yo no soy bonita ni lo quiero ser” (LIDDELL, 2008, p. 19). Entretanto, por não fazer parte da tradicional dramaturgia, o texto é curto (embora as encenações de Yo no soy bonita preencherem, em média, uma hora). Assim, a atriz altera o texto de uma encenação para outra. Um exemplo, em um espetáculo de 2008, disponível no YouTube, a atriz começa: “Yo tengo cuarenta y dos años”, depois de entrar, caminhar pelo palco, acariciar o cavalo, beber uma garrafa dentre as tantas que estão no palco de cerveja e arrotar. Assim, se prender somente ao texto dramático e/ou à encenação pode ser um descuido levando em conta a alta presença da performance espontânea de Liddell em cena. Nela, texto e cena se completam em uma difícil (ou impossível) separação.
Essa performance nasce do oferecimento do seu corpo como objeto de questionamento. A mulher que tem domínio sobre seu corpo e faz dele o que bem entender. Assim, como seu corpo é seu protesto, ela o castiga de diferentes maneiras como uma forma de desobediência, cujo sofrimento gera uma poética da dor e da violência contra a misoginia. Para tanto, o tom confessional/autobiográfico é necessário, pois assim a atriz descontrói qualquer possibilidade de engano e de ambiguidade.
A performatividade se manifesta de várias maneiras. Por exemplo, ela inicia o espetáculo com seis garrafas de cerveja no palco, que serão, todas elas, consumidas até o final da peça. Assim, ela atua enquanto o álcool produz efeito sobre seu corpo, embaralhando seus sentidos, tornando-a um ser mais próximo ao cavalo que está ao lado, e com quem ela interage em vários momentos. O animal, irracional, possui uma “atuação” incerta, instintiva, não previsível.
Em outro momento, inicia uma série de autoflagelação. Ela corta, com uma pequena navalha, suas pernas, criando um pequeno quadro barroco: o sangue vermelho escorrendo pela pele clara. Depois, enxuga o sangue com um pedaço de pão para comê-lo logo em seguida. Assim, o sangue regressa ao corpo, movimento inverso à menstruação.
Ou ainda quando ela, já embriagada pela cerveja, ferve um pouco de leite e mergulha sua mão no líquido fervente. O leite, signo duplo de maternidade e esperma, a fere, causando repulsa e relembrando a frase que a atriz inclui em vários espetáculos: “No quiero tener hijos” – que surge como outro protesto em relação à sociedade: ela, mulher, se recusa a ser mãe, papel muitas vezes imposto para a figura feminina em uma sociedade patriarcal. Uma vez bêbada e vestida como bufão, a atriz se aproxima de uma figura grotesca e animal a fim de provocar indignação do espectador. Não quer a beleza da arte e sua contemplação estética. Angélica busca, como já foi afirmado, a poética do mal, do cruel, da desobediência.
Dessa maneira, a atriz inverte os papéis e se inclui em outro nível de representação, acentuando sua vida e seu corpo no espaço ficcional do teatro. O corpo também é palco. O corpo também é texto.
Por exemplo, ao iniciar um diálogo com “el barquero”, Angélica suplica: “No me mates, por favor, no me mates./ ¿Qué le voy a hacer?/ Es un miedo de nacimiento./ Como una marca./ Un privilegio inverso (…). Mira, hacemos una cosa. Primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas.” (LIDDELL, 2008, p.  21). Suplica tudo enquanto sua mão direita está entre suas pernas, tocando sua vagina, e fotografias de sua infância são projetadas em um telão. Nesse pequeno trecho podemos perceber que o barqueiro (isto é, o homem) oprime a figura feminina a ponto de ela nascer com medo de morrer e de ser usada. Ser mulher é, então, uma marca, “um privilégio inverso”, pois tal privilégio só dá direito à morte e ao uso por parte do outro: “primero abusas de mí. Para eso estamos las niñas”.
Essas imagens e esse texto introduzem o trecho, talvez, mais importante da peça, que a dramaturga denomina “Confesión”:
 
Éramos tres niñas. Teníamos 9 años. Obtenemos el permiso de nuestros padres para visitar las cuadras. Era normal. Frecuente. Los niños y las niñas podíamos visitar las cuadras cuando quisiéramos. Estaban al lado de nuestras casas. Eran las cuadras del cuartel. Vivíamos entre militares y caballos. Aquel día un soldado nos acompañó durante la visita. El soldado preguntó: “¿Queréis subir a algún caballo?” Nosotras contestamos: “Sí, a ése.” Era el caballo más bonito de la cuadra. El soldado aprovechó la situación. Empezó a sudar. Su cara se volvió roja. Soy la primera en subir. Para subirme al caballo el soldado me agarra de una forma extraña. Pone su mano gigantesca bajo mi sexo diminuto mientras me levanta en el aire. Intenta apartarme las bragas. Utiliza sus dedos para separar los labios de mi vulva. Aprieta. Duele. Mantiene su mano entre mis nalgas y el lomo del caballo. Mueve los dedos como gusanos. Noto sus uñas. El soldado aprieta con un solo dedo. Le digo que quiero bajar. El soldado aguanta un poco más. Se ríe. Aprieta mi vagina un poco más. Por fin el soldado me baja del caballo. Se pasa la mano por la nariz. Se huele los dedos. Sube a las otras niñas. Recuerdo la vergüenza. Teníamos 9 años. Cuando salimos de las cuadras estábamos serias. Calladas. De repente una dice: “¿A vosotras os ha hecho algo?” Yo digo que no. Me da vergüenza decir que sí. No. No. La otra dice que el soldado le ha hecho daño ahí abajo. Yo digo que no. A mí no me ha hecho nada. Me da vergüenza decir que sí. Nada. No sé. A mí no me ha hecho nada. Me encontraba mal. No se lo conté a nadie. Me marché a casa. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité. Y aquella noche vomité (LIDDELL, 2008, p.  21-2).
 
 
O trecho deixa claro, devido à riqueza de detalhes (o suor do soldado, suas falas, sua mão gigantesca, o sexo pequeno, os dedos, os lábios, a dor, as unhas, a vontade de parar, o riso do soldado, sua força, o ato de cheirar os dedos, a vergonha sentida, o silêncio, o vômito), a lembrança do acontecimento, presentificando e, assim, tornando-o parte do aqui-agora de cena. Nesse ponto, a presença do cavalo vivo em cena corrobora para a presentificação do ato, que “coroa” uma série de infortúnios que Angélica teria sofrido ao longo de sua vida por ser mulher e por ser criança, “una niña”. A memória, embora de um tempo distante, parece estar viva, revelando toda uma infância sendo palco para abusos, como quando ela nos relata que um amigo da família comentou a seu pai que sua filha era uma “puta”. Tais relatos servem para situar a origem da violência contra a mulher, e não apenas a mulher-Angélica, mas todas as mulheres, pois, ao falar de si mesma, a atriz evidencia todo um sistema social patriarcal e misógino. Seu espetáculo surge, então, como uma forma de estabelecer um canal comunicativo entre a dificuldade de ser e de defender uma menina/mulher na sociedade patriarcal.
Nesse momento sua desobediência é necessária: ferir o próprio corpo como protesto à violência real, fora da cena, causada não por si mesma, mas por outro que se acha mais poderoso. Sua desobediência, por fim, pretende acabar com aquela vergonha sentida aos nove anos, que a fez calar. No aqui e agora do palco, a mulher não se cala e tampouco permanece inerte diante do abuso. A atriz se coloca como figura dupla, fiel e oferenda, faca e sacrifício. Ela é ao mesmo tempo aquele que oferece o sacrifício e a própria oferta, pois “en el tiempo de las muertes colectivas es necesario el sacrificio individual como rebeldía o barricada. El arte, sacrificio íntimo en un espacio público, es nuestra rebeldía. Gracias al sacrificio poético recuperamos la identidad que perdemos en el masacre” (LIDDELL, 2014, p. 99). Dessa rebeldia nasce a necessidade da autobiografia. O eu surge então não como narcisismo, mas como desejo: “Con el sacrificio queremos decir YO” (LIDDELL, 2014, p. 99).
Esse desejo de dizer “EU nasce do desejo de atestação de si, como escreveu Ricoeur (1990, p. 34-5): “L’attestation est fondamentalement attestation de soi. Cette confiance sera tour à tour confiance dans le pouvoir de dire, dans le pouvoir de faire, dans le pouvoir de se reconnaître personnage de récit, dans le pouvoir enfin de répondre à l’accusation par l’accusatif: me voici!” (RICOEUR, 1990, p. 34-5).
Nesse sentido, Angélica resgata suas memórias para converte-las em elementos estéticos dentro de sua poética dramática. A cenografia, que ela também assina em Yo no soy bonita, reafirma isso: uma vez diante do palco, o espectador é afetado pela pintura viva na qual ele é convertido.
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Pela imagem anterior podemos verificar que os elementos e objetos cênicos aproveitam o espaço horizontal do palco. Da esquerda para a direita, temos: uma pilha de colchoes, quadros, uma cadeira, as garrafas de cerveja, uma pequena mesa com um fogão elétrico, um coelho empanado e o cavalo branco. Assim, a proposta da cenografia é uma primeira comunicação visual com o espectador, que entra na sala e já percebe os elementos do palco. A importância da cenografia e do figurino se mostra também no fato de Angélica ser responsável por isso na maioria de suas peças. Ela escreve:
 
El espacio escénico debe ser también un espacio de tensión, debe ser despojado del concepto escenográfico-decorativo tradicional, más cercano del ornamento y el mobiliario que de lo realmente expresivo. El espacio escénico se despoja, pues, del diseño, esa trampa o mentira estética, para convertirse en un espacio de tensión moral. Los objetos, fuera de un espacio de tensión, son superficiales, artificiales e inertes, pero en el espacio escénico son las acciones las que dotan al objeto de culpabilidad y responsabilidad. Cuando el objeto y la acción se unen desaparecen el uno y el otro para dejar paso al sentido, es decir, al lenguaje. Se ha creado lenguaje. Nuestra misión es fabricar sentido dándole así la oportunidad a la revelación, haciendo visible lo invisible. Los objetos, enfrentados al espacio escénico, constituyen la anatomía física de la revelación. (…) (LIDDELL, 2014, p. 46).
 
A tentativa de representação autobiográfica aqui reforça a tensão em cena. Para Janaína Leite (2014, p. 86), dramaturga e pesquisadora brasileira influenciada pelo trabalho de Liddell, a ideia do tom confessional aqui nada mais é que “a tentativa de figurar a experiência vivida, sentida, sofrida”, mantendo assim “a tensão com o referencial real que a motivou”. O espaço de tensão, próprio do teatro, é reforçado pelo eu que o personagem diz, eu que é imediatamente reconhecido pelo espectador.
Essa tensão é reforçada pelo palco feito pintura viva, visto que ele aproxima o espectador do contexto em questão, criando aquilo que Boileau chamou de “ilusão referencial”. Em outras palavras, existe uma experiência da qual se pode falar, se deve falar (LEITE, 2014, p. 87).
Janaína Leite afirma que esse movimento de falar sobre si localiza a história passada do sujeito no palco, ao mesmo tempo que re-sente a ferida:
 
A história pessoal se abre para a experiência das mulheres em sua condição de oprimidas, mas retorna, na performatividade da cena, sempre para ela mesmo já que a artista cria uma cena de autoflagelo (…). É através da história localizada e re-sentida naquele corpo particular, naquela mulher que se encontra diante de nós, é que podemos viver a experiência, não de uma peça de denúncia como tanta as que existem sobre mulheres, mas de uma obra na qual nos tornamos testemunhas de um crime sofrido e para o qual não poderemos ficar indiferentes. A narrativa autobiográfica se atualiza de forma assustadora diante de nossos olhos a partir da performance de Liddell, frente à qual não há como nos posicionarmos como se fôssemos espectadores confortavelmente sentados diante de uma representação, nos colocando como testemunhas diante de um acontecimento (LEITE, 2014, p. 90).
 
 
O uso de temas autobiográficos em Angélica Liddell reforça o objetivo do seu teatro: falar da parte tóxica do homem (LIDDELL, 2014, p. 124). Entretanto, isso não quer dizer que seu teatro busque a purificação. Segundo a própria dramaturga, seu teatro busca o reconhecimento, uma união de sensibilidades, uma epifania individual diante de um acontecimento, pois o “teatro responde al concepto de sacrificio, pero no para purificarnos, sino para gozar de las tinieblas” (LIDDELL, 2014, p. 125). Desta forma, ao resgatar suas memórias e traumas, a dramaturga busca atingir o mais sensível de seus espectadores e da natureza humana em geral. Como toda arte de provocação, esse tipo de experiência artística deseja atingir o mais profundo da empatia. Enquanto muitos entendem a provocação como choque, o texto e a cena de Liddell buscam um olhar mais atento para uma experiência pessoal para que essa se converta em um reconhecimento cultural, político e social. Rompe-se os limites da cena para se aprofundar nos sentidos da miséria humana.
Uma vez mesclando vida e arte nessa proposta, se intensifica a tensão dramática e quebra-se a quarta parede teatral, isto é, a separação entre palco e público, criando uma cena metadramática capaz de produzir uma nova espécie de catarse: aquela que nasce da dúvida e do jogo entre real e ficcional e que questiona as noções de verdade, memória, passado, presente e teatro.
 
BIBLIOGRAFIA:
ALMELA, Margarita et al. (2011). “Prólogo”. In: ALMELA, Margarita et al. Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 3-4.
BARRIENTOS, José-Luís García (2014). “Paradojas de la autoficción dramática”. In: CASAS, Ana. (Ed.), El yo fabulado. Nuevas aproximaciones críticas a la autoficción. Madrid: Iberoamericana. pp.  127-146.
CABALLÉ, Anna (2001). “Seguir el hilo”. ABC Cultural, 20 jun. 2001. p.  4.
JAMESON, Fredric (1996). Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática.
LA BIENNALE. (2013) “Angélica Liddell Leone d’argento per il Teatro”. Disponível em: <http://www.labiennale.org/it/teatro/archivio/festival-42/liddell.html?back=true>. Acesso em: 20 fev. 2016.
LEITE, Janaina Fontes (2014). Autoescrituras performativas: do diário à cena. As teorias do autobiográfico como suporte para a reflexão sobre a cena contemporânea. Tese. Universidade de São Paulo.
LEONARD, Candyce; GABRIELE, John. P. (1996).  Panorámica del teatro español actual. Madrid: Fundamentos.
LIDDELL, Angélica (2008). La desobediencia, hágase en mi vientre. Pliegos de Teatro y danza n. 26. Madrid: Aflera Producciones SL.
LIDDELL, Angélica (2014). El sacrificio como acto poético. Madrid: Editorial Continta Me Tienes, colección Escénicas.
RICOEUR, Paul (1990). Soi-même comme un autre. Editions du Seuil.
TEMPLADO, M. Pilar Espín (2011). “El teatro de denuncia social: un compromiso en las dramaturgas españolas de finales del siglo XX (1980-2000)”. In: ALMELA, Margarita et al. Ecos de la memoria. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia. p. 45-64.





Bio fornecida pelo palestrante.

PARAGUAÇU, MOEMA E IRACEMA: RAZÃO E ESQUECIMENTO – Sandra Sacramento




 

 Sandra  Sacramento

Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus – BA

 

RESUMO: Pretendo, neste texto, ler as personagens Paraguaçu e Moema, da epopeia Caramuru (1781), de Santa Rita Durão e Iracema (1865), de José de Alencar; à luz dos ensaios Dos canibais (1584) de Montaigne, Do contrato social (1762) e Emílio (1762), de Rousseau, em atenção ao delineamento da alteridade, acerca do indígena do Novo Mundo, em especial da mulher indígena, trazendo, em contraponto, a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791) de Olympe de Gouges e o feminismo da terceira onda, que apreseta severa crítica à tradição ocidental.
 
PALAVRAS-CHAVE: Personagem feminina; Razão; Alteridade; José de Alencar.
 
ABSTRACT: The present article, Paraguaçu, Moema and Iracema: reason and forgetfulness, has as its main goal to present a reading of the characters Paraguaçu and  Moema from Caramuru (1781), by Santa Rita Durão, and Iracema (1865), by José de Alencar. This reading will be based on the essays Dos canibais (1584) by Montaigne and Do contrato social (1762) and Emílio (1762), by Rousseau. It will draw attention to the otherness of the indigenous populations of the New World, especially the otherness of the woman. It will also employ the Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), by Olympe de Gouges, and the feminism of the third that offers severe criticism to western society.
 
Key words: Female character; Reason; Otherness; José de Alencar.
 
 
MINICURRÍCULO : SANDRA SACRAMENTO: Doutora em Letras (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). Atualmente, é professora titular (plena) em Teoria Literária, na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, onde coordenou o Programa em Letras: Linguagens e Representações, aprovado pela Capes, em 2007 e atua como membro efetivo do referido Programa. Desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Poitiers, na França, com a Profa. Dra. Ria Lemaire, 2012-2013. É Membre Associé Étranger do Centre de Recherches Latino-Américaines- ARCHIVOS, da Université de Poitiers:France, do GT Mulher e Literatura da ANPOLL e da Rede de Estudos Avançados em Leitura. – RELER, grupo ligado à Cátedra UNESCO de Leitura- PUC/Rio.
 
 
A tradição ocidental estruturou-se em bases racionais presos ao modelo da analogia. Diante do Novo Mundo, o europeu, quase sempre, ao lidar com o outro, muniu-se do princípio da similitude que o antecedia, trabalhando para a manutenção da imago mundi, isto é, mapa cartográfico, escrito em 1410, pelo teólogo francês Pierre d’Ailly, sobre o mundo além do continente europeu. Ainda que filósofos como Montaigne e Rousseau tenham escrito em favor da alteridade, esses não ficaram distantes da concepção monística, ou seja, teoria do conhecimento que dissolve os fenômenos, os acontecimentos em um apriorismo, que refuta a multiplicidade e a contingência. Neste texto, persigo os desencontros experimentados entre textos literários e filosóficos frente ao novo e desconhecido, no que diz respeito basicamente à mulher índia.  Pelo recorte a que me proponho, essa traz o alcance dos primeiros contatos do colonizador com a terra brasileira e sua gente, em que o sentimento amoroso despertado nas índias Paraguaçu e Moema de Caramuru de Santa Rita Durão e Iracema de José de Alencar, é capaz de se colocar submetido ao domínio cultural trazido pelo forasteiro. O modelo que se faz de pronto é o inspirado na Virgem Maria e depois na mulher burguesa, mãe de família, responsável pela esfera do privado, em eterna imanência; enquanto o homem responde pelo público, pelo político, por estar melhor adaptado segundo sua natureza (ROUSSEAU, 1755).
As índias Paraguaçu e Moema, da tribo dos antropófagos Tupinambá, são personagens da epopeia Caramuru de Santa Rita Durão, que se apaixonam pelo lusitano Diogo Álvares, náufrago na Ilha de Itaparica, no litoral baiano. É composta de X cantos, à maneira camoniana, de cunho propagandístico em louvor às grandes descobertas. No Canto II, ocorre o encontro entre a índia e Diogo. Paraguaçu é uma autóctone, de pele branca com traços finos e suaves. Apesar de não amar Gupeva, está na tribo por ter-lhe sido prometida. Como sabe a língua portuguesa, vai ao encontro de Diogo e apaixonam-se:
 
LXXXI
Deseja vê-lo o forte lusitano,
Por que interprete a língua que entendia;
E toma por mercê do céu sob’ramo
‘Ter como enteada o idioma da Bahia.
Mas, quando esse prodígio avista humano,
Contempla no semblante a louçania:
Pára um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo.
LXXXII
Só tu, tutelar anjo, que o acompanhas,
Sabes quando a virtude ali se arrisca,
E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Essa de insano amor doce faísca;
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias que nem na morte o tempo risca),
Que houvera de perder-se naquela hora,
Se não fora cristão, se herói não fora
LXXXV
Bela (Ihe disse então), gentil menina,
(Tornando a si do pasmo, em que estivera)
Sorte humana não é, mas é divina,
Ver-me a mim, ver-te a ti na nova esfera.
Ela a frase, em que falo aqui te ensina;
Ela, se não me engana o que alma espera,
Um fogo em nos acende, que de resto
Eterno haja de arder, se arder honesto.
 
No Canto IV, ocorre a guerra entre Tupinambás, liderada por Gupeva, tendo a ajuda de outras tribos, como os Tupiniquis, Viatanos, Poquiguaras, Tumimvis, Tamviás, Canucajaras; contra os Caetés, liderada por Sergipe, tribo de Jararaca, com a ajuda de outras nações, como os Ovecates, Petiguares, Carijós, Agirapirangas e Itatise. Tal contenda se deve ao fato de Paraguaçu se encontrar prometida a Gupeva, mas Jararaca não aceita perder a índia para o último e se torna amigo de Diogo Álvares. O narrador faz elogios explícitos às tribos inimigas aos Tupinanbás, também antropófagas, por sua bravura, e, especialmente, em atenção às mulheres tapuias pela destreza na guerra:
XXVII
Quarenta mil de cor todos vermelha
Conduz ao campo o forte Sapucaia:
Dez mil, que têm furada a longa orelha,
São Amazonas de femínea laia:
É o amor conjugal que lhe aconselha
A descer dos sertões à vasta praia,
Por achar-se nos lances mais temidos
Ao lado, sem temor, dos seus maridos.
XXVIII
Brasa matrona de coragem cheia
A quem o márcio jogo não perturba,
Na forma bela, mas por arte feia,
Vai comandando na femínea turba:
Deram-lhe o nome os seus da grã-baleia,
Nome que, ouvido, os bárbaros disturba,
De namorados uns que a têm por bela,
Mas outros com mais causa por temê-la.
 
Nesta, Paraguaçu luta e vai acabar salvando o seu amor. Ainda no Canto IV, também Paraguaçu luta contra os Caetés e salva Diogo da morte:
XLVI
Paraguaçu, que de Diogo esposa
(Por que mais Jararaca se confunda)
Ia a seu lado a combater briosa,
Nem teme a multidão que o campo inunda:
Usa com ela a tropa belicosa
Da vulgar seta, do bodoque e funda
Leva a Amazona um rígido colete,
E coa espada de ferro o capacete.
 
No Canto VI, como Diogo participa da guerra, da qual sai vitorioso. Por tal feito, muitos chefes indígenas lhe trazem suas filhas em agradecimento.
II
Muitos deles, dos povos subjugados,
Que o efeito viram da terrível chama,
Outros vinham somente convocados
Das heróicas ações, que conta a fama;
Trazem plumas e bálsamos prezados,
E outra rude opulência, que o povo ama,
E com os dons da americana Ceres
Oferecem-lhe as filhas por mulheres.
 
Moema é também conduzida:
IV
Tuibaé, dos Tapuias chefe antigo,
Tiapira lhe oferece celebrada;
E com a mão da filha deixa amigo
Uma ilustre aliança confirmada.
Xerenimbó trazia-lhe consigo
A formosa Moema já negada
A muitos principais, por dar-lhe esposo
Digno do trono de seus pais famoso.
 
Entretanto, Diogo prefere Paraguaçu:
VI
Paraguaçu, porém, com fé de esposo
Parecia estimar distintamente,
Mostrando-lhe no afeto carinhoso
A sincera afeição que n’alma sente:
Amava nela o peito valoroso,
E o gênio dócil, com que à fé consente;
Amor que ocasionou, como é costume,
Em algumas inveja e noutras ciúme.
 
No primeiro contato que Diogo tem com Gupeva, no Canto II, esse se apresenta solícito à doutrinação religiosa, pois, em uma gruta, reconhece a beleza da Virgem Maria.
XXVII
Mas entre objetos vários a que atende
Nota Gupeva extático a pintura
Que num precioso quadro, que ali pende,
Representava a Mãe da formosura:
Se seja coisa viva não entende,
Mas suspeitava bem pela figura
Digna a pessoa, de que a imagem era,
De ser mãe de Tupá, se ele a tivera.
 
XXVIII
« Esta (pergunta o bárbaro) tão bela,
Tão linda face, acaso representa
Alguma formosíssima donzela,
Que esposa o grão-Tupá fazer intenta?
Ou porventura que nascesse dela
Esse que sobre os céus no sol se assenta?
Quem pode geração saber tão alta?
Mas se há mãe, que o gerasse, esta é sem falta. »
XXX
Peçamos, pois que é mãe, que nos defenda,
Que te dê para ouvir dócil orelha
E contigo o teu povo recomenda. »
Dizendo o herói assim, devoto ajoelha.
Gupeva o mesmo faz com fé estupenda
E pendente de Diogo, que o aconselha,
Levanta as mãos, como ele levantava,
E, vendo-o lacrimar, também chorava.
 
No Canto VI, Diogo ergue uma capela em uma gruta, visando à catequese.
 
VIII
E, estando o sol no seu maior aumento,
Quanto sítio no ardor busca sombrio,
Numa lapa, que esconde alto mistério,
Foi achar para a calma o refrigério
XII
Capela ali se vê de entalho nobre,
Obrado com desenho estranho e vário,
Onde, efigiado em mármore, se cobre
Um natural belíssimo Calvário;
Vê-se a base da cruz, mas nada sobre,
De jaspe ainda melhor que Egízio, ou Pário,
E ao lado um posto em proporção distinta,
Onde a mãe e discípulo se pinta.
XIV
Eis aqui preparado (disse) o templo,
Falta n fé, falta o culto necessário;
E quanto era de Deus, feito contemplo
Tudo o que é de salvar meio ordinário.
Desta intenção parece ser exemplo
Este insigne prodígio extraordinário,
Onde parece que no templo oculto
Tem disposto o lugar e espera o culto.
 
Ainda no Canto VI, Diogo parte com Paraguaçu para a Europa em um barco francês; e, na saída da nau, as índias que foram preteridas por Diogo Álvares, acorrem ao mar na intenção de acompanhá-lo a nado; mas somente Moema consegue chegar mais perto e declara seu amor ao português.
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
 
Moema desabafa e clama por um homem que ela não encontra em Diogo, cujo modelo também não é o do indígena:
XXXVIII
« Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Faziam, raios, coriscos, que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco…
Ah que o corisco és tu… raio… penhasco?
XLI
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio… »
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
 
Não mais resistindo…
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
 
Mas, ainda brada:
 
« Ah Diogo cruel! » disse com mágoa,
E, sem mais vista ser sorveu-se n’água.
 
Tal como Moema, Iracema também morre. Perguntamo-nos se não estaria aí a chave para o entendimento de uma proposta mais equânime para a colonização e, consequentemente, para a relação estabelecida entre o homem/ branco/ europeu e o outro homem/ indígena/ do Novo Mundo; ou entre o primeiro e a mulher/ indígena/do Novo Mundo? No Canto VII, Paraguaçu, ao ser recebida na Corte pelos reis franceses, é batizada e recebe o nome da rainha Catarina de Médici, esposa de Henrique II.  No Canto VIII, na viagem de volta ao Brasil, sem antes parar em Portugal, Paraguaçu descreve a Bahia com suas terras, engenhos e fortalezas; e profetiza o futuro do Brasil, as invasões francesa e holandesa, sempre em favor das tropas portuguesas. E, em seguida, a empreitada colonizadora se adensa, confirmando o que já havia sido anunciado nos Cantos II e VI, acerca da catequese e da imposição de um modelo feminino espelhado à luz mariana. A volta do casal encontra-se narrada nos Cantos, VIII, IX e X.
Nestas narrativas, sobressai o imaginário europeu sobre o Novo Mundo, com sua gente e sua natureza, apoiando-se em uma gama de referências, que justificam a empreitada expansionista; ainda que, muitas vezes, ocorra a simpatia por aquela gente chamada de bárbara, diante da antropofagia, ou pelo fato de não identificar sinal de cobiça, entre os índios, como se confirma na estância a seguir, do Canto II.
 
XXVI
Acesa a luz na lôbrega caverna,
Vê-se o que Diogo ali da riait levara;
Roupas, armas, e entre parte mais interna
A pólvora em barris, que transportara,
Tudo vão vendo à luz de uma lanterna,
Sem que o apeteça a gente nada avara,
Ouro e prata, que a inveja não lhe atiça;
Nação feliz, que ignora o que é cobiça!
 
Aqui o colonizador, na voz do narrador, louva a ausência de cobiça no índio. Da mesma forma que, em Iracema, de José de Alencar são enaltecidos os valores cultivados pelos índios, mas, em grande medida, o que prevalece é o modelo do colonizador. Em relação à mulher, por exemplo, era esperada a submissão ao homem, (tal como aparece em Emílio, publicado inicialmente em 1762, por Rousseau, acerca do comportamento esperado para Sofia):              – Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araquém (p.176); – Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor (p. 184); – O coração da esposa está sempre alegre junto de seu guerreiro e senhor (p.190). O mesmo podemos dizer em relação a ela dentro do casamento, como se confirma nas palavras de Poti:
 
A felicidade do varão é a prole, que nasce dele e faz seu orgulho; cada guerreiro que sai de suas veias é mais um galho que leva seu nome às nuvens; como a grimpa do cedro. Amado de Tupã é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; ele nada mais deseja senão a morte gloriosa (ALENCAR, 2006, p. 203).
 
Tais prescrições comportamentais não são as indígenas, como o reconhecimento do homem como senhor de obras, esposa e filhos (BOURDIEU, 2000). Entretanto, a índia, quando comparada à europeia, é colocada como menos casta que aquela: – Martim se embala docemente; e, como a alva rede vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores (2006, p. 161). Montaigne, no ensaio Dos Canibais, de 1580, século XVI, em estilo pouco ortodoxo de lidar com a alteridade, recorre a recursos argumentativos que tendem ao enaltecimento do modus vivendi indígena, vendo o canibalismo como subordinado a um ritual, em que o vencido não era desrespeitado. Aliás, o mesmo posicionamento aparece em Durão, na estância XVIII, do Canto I:
 
XVIII
Que horror da humanidade! ver tragada
Da própria espécie a carne já corruta!
Quando não deve a Europa abençoada
A fé do Redentor, que humilde escuta!
Não era aquela infâmia praticada
Só dessa gente miseranda e bruta:
Roma e Cartago o sabe no noturno
Horrível sacrifício de Saturno.
 
Neste passo, o autor faz menção ao canibalismo ocorrido entre os lestrigões e os repártanos, povos da Roma antiga, bem como entre os fenícios e os cartagineses. Montaigne, por sua vez, munido de leituras sorvidas em passagens dos Commentaires de Monluc de 1561, com abonações também de Platão e de outros representantes da Antiguidade e mesmo de comentadores do período românico, não deixa de ressaltar as atitudes pouco humanas dos seus ancestrais conterrâneos anteriores à Idade Média. E, diante dos embates religiosos da Europa quinhentista, se indagava:
Je pensé qu’il y a plus de barbarie à manger un homme vivant, qu’à le manger mort; à déchirer par tourments et par genes, un corps encore plein de sentiment, le faire rotir par le menú, le faire mordre et meurtrir aux chiens, et aux pourceaux  (comme nous l’avons non seulement lu, mais vu faiche mémoire, non entre des ennemis anciens, mais entre des voisins et concitoyens, et qui pis est, sous prétexte de piété et de religion) que de le rotir et manger après qu’il est trépassé (MONTAIGNE, 2002, p. 366,367).
 
Pensei que há mais barbárie em devorar um homem vivo do que assá-lo e devorá-lo depois de morto; em despedaçar suas carnes por tormento e tortura, em um corpo ainda repleto de sentimento, incorporado ao cardápio, mordido e machucado por cães e porcos (como não apenas lemos, mas vimos recentemente, não entre antigos inimigos, mas entre vizinhos e concidadãos, e o que é pior ainda, sob o pretexto de piedade e de religião) (MONTAIGNE, 2002, p. 366, 367) (tradução minha).
 
Colocando, assim, em discussão, a suposta racionalidade europeia, tendo sido visto por Lévis Strauss como afeito ao pensamento do que seria a antropologia posteriormente. Por isso, quando se refere ao relacionamento entre os índios com suas mulheres, coloca-os sempre numa dimensão humana, que crê no transcendente. Para os índios, havia dois preceitos sagrados: la vaillance contre les ennemis, et l’amitié à leurs femmes [a vigilância contra os inimigos e a amizade às suas mulheres]. Enquanto os homens se ocupavam da caça, as mulheres permaneciam na tribo e s’amusent cepandant à chauffer leur breuvage, qui est leur principal office [divertindo-se durante a fermentação de sua bebida, cuja elaboração é a sua principal função na tribo] (MONTAIGNE,2002, p. 364). Ao colocar o índio como humano, detentor de valores, Montaigne dá sinais de uma teoria que posteriormente será defendida por Rousseau, o monogenismo, isto é, de que todo ser humano nasce igual, em estado de natureza, apto à perfectibilidade, ao aperfeiçoamento; não sendo a civilização europeia melhor, pois detectavam-se problemas nesta, e chama a atenção para uma humanidade una, entretanto, múltipla em seu desenvolvimento, em seus caminhos escolhidos. Em O Contrato Social (1762), no capitulo II, Des premières sociétés, logo no início, vai dizer: la plus ancienne de toutes les sociètés et la seule natirelle est celle de la famille (ROUSSEAU, 2011, p.10). E, depois, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da diferença entre os homens (1775) coloca a vontade geral, instância de Liberdade, como corpo soberano dos cidadãos.
 
(…): o pacto fundamental, em lugar de destruir a igualdade natural, pelo contrário substitui por uma igualdade moral e legítima aquilo que a natureza poderia trazer de desigualdade física entre os homens, que, podendo ser desiguais na força ou no gênio, todos se tornam iguais por convenção e direito (ROUSSEAU, 1762/1989, p. 28). (Tradução minha)
 
Tanto Santa Rita Durão, quanto Montaigne se baseiam em textos publicados anteriormente, de literatura de viagem, como Les Singularitées de la France antarctique de 1557 e Cosmographie Universalle de 1575, ambos de André Thevet; além da Histoire d’un voyage faiten terre de Brésilde 1578 de Jean de Léry. Os dois últimos participaram da expedição de Villegagnon, quando da invasão francesa no Rio de Janeiro. Mas tal raciocínio ocorre pela própria dificuldade enfrentada pelo filósofo em dirimir, basicamente, o interesse, princípio que rege a vida em sociedade. Rousseau, ao afirmar que «O homem (= humanidade) nasce livre, mas por toda parte encontra-se posto a ferros», coloca um dispositivo aplicável a qualquer ser humano e, ao mesmo tempo, limita a escolha por voto, no sistema democrático, a uma minoria, tida como maioria, deixando a maioria, vista como minoria, sempre sem voz, em nome do bem comum; porque o Estado, em síntese, encerra o interesse de todos. Logo, a própria engrenagem política está impossibilitada de atender a todos, instaurando-se assim a alienação, isto é, tornam-se o outro a partir do olhar do mesmo; não havendo possibilidade de intervir na ordem social, experimentando o rechaço, independente do gênero a que pertença. Por isso, feministas como Olympe de Gouges, entre outras, se insurgiram contra a noção rousseriana da vontade geral, porque perceberam que tanto o escravo quanto a mulher encontravam-se submetidos à hierarquização dos pares dicotômicos da razão iluminista; ainda que a República francesa tenha-se utilizado, em bustos, medalhas, moedas e pinturas da Marianne, figura emblemática da mulher do povo, como forma de disseminação representativa do credo liberal; mas, na prática, a mulher foi usurpada da cidadania e restou-lhe somente a sublimação simbólica de uma exclusão de fato (AGULHON, 1979). Assim, a mulher, como outras minorias, foi deixada em posição inalterada, tidas como moralmente neutras (DUMONT, 1966). Hoje, por outro lado, vivemos na era do desencanto em relação a qualquer relato, colocando por terra a crença no progresso, na superação, pois esses não foram alcançados no passado, na medida em que o protocolo de ação encerrava-se no domínio da natureza e de humanos sobre outros humanos. Resta-nos, reivindicar em processo simbólico de negociação, relações de gênero mais equânimes, rumo ao empoderamento, não a partir de um paradigma imposto, à luz de interesses que não nos dizem respeito, como ocorreu no passado com Paraguaçu, Moema e Iracema, mas, em contexto cuja representação de gênero esteja atravessada pelo cognitivo (da razão das sombras), pelo avaliativo (do querer) e pelo afetivo (do psíquico), como fatores psicossociológicos ligados à prática relacional da comunicação, indo muito além do binarismo do ou, ou; como nos fala Butler:
 
A tarefa crucial do feminismo não é estabelecer um ponto de vista fora das identidades construídas […]. Sua tarefa crucial é, antes, a de situar estratégias de repetição subversiva facultadas por essas construções, afirmar as possibilidades locais de intervenção pela participação precisamente nas práticas de repetição que constituem a identidade e, portanto, a possibilidade imanente de contestá-las (BUTLER, 2008, p.212).
 
Portanto, ao entender a agência, como um processo de ressignificação mediada, essa se apresenta de modo contrário ao essencialismo racional e acena, por isso mesmo, com uma outra forma de a mulher estar no mundo. Somente assim, Olympe de Gouges poderá ser atendida em sua Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, de 1791.
 
Considerações finais:
Os gregos chamavam de bárbaros aqueles que não falavam o grego. Tal comportamento humano coloca em evidência a dificuldade em lidar com a diferença, sempre uma ameaça a uma ordem instituída. Por isso, os povos não europeus foram esquadrinhados à luz de uma racionalidade que se queria eterna, sempre tendo o modelo anterior do que fosse cultura, homem, mulher em analogia ao previamente estabelecido. E não foi sem dificuldade assim o olhar europeu posto sobre o habitante do Novo Mundo. Ainda que Montaigne e Rousseau tenham se colocado, a princípio, como defensores de uma ordem natural, contrária à civilização, esses acabaram endossando a manutenção de papeis hierarquizados prévios como civilizado/bárbaro, homem/mulher. Tal princípio epistemológico-interpretativo estruturou a imago mundi, isto é, a imagem discursiva que se tem do mundo, de que esse deve ser como é, marcada por uma necessidade, por uma lógica interna que elimina a contingência, a multiplicidade; isso porque ocorre a absolutização do espaço, em favor do tempo, em sua perspectiva continuísta. Desse modo, nega-se a possibilidade de ruptura no tecido da tradição, fazendo com que os episódios, os acontecimentos, as histórias se fundam numa única História. Logo, restou às índias Paraguaçu, Moema e Iracema a submissão e a vassalagem na medida em que a primeira teve de se adequar à imposição colonizadora para ser aceita no imaginário estabelecido previamente para ela; enquanto as duas seguintes encontraram a morte como recompensa à empreitada expansionista, em que a relação de gênero estabelecida com o forasteiro esteve, antes, atravessada pelo domínio cultural.
 
 
 
Referências:
AGULHON, M. Marianne au combat. L’ imagerie et la symbolique républicaines de 1789 à 1880. Paris: Flammarion, 1979.
AILLY, P. D’. Imago mundi ([Reprod.]). Louvrain: J. de Paderborn, 1483. Disponível em: <http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb40223090r/PUBLIC> Acesso em: 20 out 2014
ALENCAR, J. Iracema: Lenda do Ceará. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2006.
BOURDIEU, P. La domonación masculina. Traducción de Joaquín Jordá. Barcelona: Editorial Anagrama, 2000.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
DUMONT, L. Homo hierarchicus. Essai sur le système des castes. Paris: Galimard, 1966.
GOUGES, O.  Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791), Paris: Mille et une nuits, 2003.
MONTAIGNE.  Des Cannibales (1584). In: Essais,  Livre Premier. Paris: Librairie Générale Française, 2002.
ROUSSEAU, J-J. Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi leshommes (1753).Paris: Flammarion, 1971.
ROUSSEAU, J-J. Du Contrat social (1762).Livres I et II. Paris: Hatier, 2011.
ROUSSEAU, J-J. Émile ou de l’éducation (1762). Paris:Flammarion, 2009.
SANTA RITA DURÃO. Caramuru (1781). Virtual Book: Formato: e-book/ PDF-Código: VBOCARAMURUPOEMAEPICO© Virtuais Books, 2002.
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A RAPOSA E O PERCEPTIVO: A MULHER NEGRA CHEROKEE EM THE SUBTERRANEANS, DE JACK KEROUAC – Sávio Augusto Lopes da Silva Junior




 

Sávio Augusto Lopes da Silva Junior

Universidade de São Paulo (USP)

 

 
RESUMO: Este trabalho pretende analisar o romance norte-americano The Subterraneans, publicado em 1958 por Jack Kerouac. Este estudo focaliza a visão que o narrador Leo Percepeid apresenta de sua amante Mardou Fox, personagem caracterizada por suas raízes africanas e indígena Cherokee que, além disso, está envolvida em uma cultura marginalizada ligada ao jazz bebop.
 
PALAVRAS-CHAVE: romance norte-americano; cultura afro-americana; jazz bebop; Jack Kerouac
 
ABSTRACT: This paper aims to analyze the North-American novel The Subterraneans, published in 1958 by Jack Kerouac. This study focuses on the vision that the narrator Leo Percepeid presents of his lover Mardou Fox, a character that is described as having African and Cherokee roots and that is also involved in a marginalized culture linked to bebop jazz.
 
KEYWORDS: North-American Novel; Afro-American culture; bebop jazz; Jack Kerouac.
 
MINICURRÍCULO: É doutorando no departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É bacharel em Comunicação Social – Jornalismo – pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor do romance Deixe a Inglaterra tremer, publicado em 2013 pela editora Novo Século.
 
 
A MULHER NEGRA CHEROKEE EM THE SUBTERRANEANS, DE JACK KEROUAC
 
 
Sávio Augusto Lopes da Silva Junior
Universidade de São Paulo (USP)
 
Ao atribuir nomes fictícios às suas personagens, percebe-se que o escritor norte-americano Jack Kerouac (1922-1969) utiliza um jogo de palavras para caracterizar personalidades inspiradas em pessoas reais. Esse é o caso de Sal Paradise, que percorre as estradas em busca do paraíso, e Old Bull Lee, nome dado a William Burroughs, um dos integrantes da Geração Beat de mais idade – ambas personagens de On The Road. Em The Subterraneans, esse padrão também pode ser percebido. Leo Percepeid, o narrador, é marcado por ser perceptivo e capaz de identificar aquilo que é digno de atenção para o seu relato de memórias em meio ao cenário do bebop jazz, narrativa esta que constitui o próprio romance. Já Mardou Fox, a raposa, remete ao termo foxy, uma mulher descrita como atraente, que é alvo da atenção de Percepeid e, muitas vezes, vista por ele como uma caça.
O romance The Subterraneans, publicado pela primeira vez em 1958, trata do envolvimento do narrador Leo Percepeid – codinome de Jack Kerouac – e Mardou Fox, integrante genuína da cultura do bebop jazz, marginalizada e de origens afro-americana. Em meio ao cenário boêmio de North Beach em São Francisco, Percepeid permeia uma cultura que lhe é estranha, visto que ele é integrante da classe média branca norte-americana. As diferenças sociais e culturais do casal criam uma constante tensão, relacionada à marginalização vivida por Mardou Fox e a cultura a qual ela faz parte.
A relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid é ambígua e marcada pela oscilação entre o amor e o ódio. Em sua primeira impressão de Mardou, Percepeid se sente atraído por sua aparência exótica – em uma forma de fetiche primitivista, conforme aponta Jon Panish (2011). Mardou Fox é uma personagem de origens étnicas africanas e cherokee e integrante genuína da cultura bebop, estilo de jazz muito presente na obra analisada e famoso por sua agilidade que destoa do jazz comercial. A corrente bebop, por muito tempo, foi apreciada por um público muito específico e às margens da cultura oficial norte-americana, criando assim uma forma de cultura de resistência. Ao conhecer Mardou e seu estilo de vida ligado ao bebop, Leo decide conquistar a moça e submergir no universo subterrâneo do qual ela faz parte. Kerouac narra: “But eyeing her little charms I only had the foremost one idea that I had to immerse my lonely being (‘A big sad lonely man,’ is what she said to me one night later, seeing me suddenly in the chair.) in the warm bath and salvation of her thighs (…)” (KEROUAC, 2001, p. 7).
De início, a atração física é o que define o desejo de Leo por Mardou. Percebe-se o fetiche por sua pele negra e pela associação que o protagonista faz de sua ascendência com o imaginário selvagem que a sociedade conservadora norte-americana tem da cultura afro-americana. Contudo, nota-se que, ao aprofundar os níveis de sua relação com Mardou, Percepeid tem uma percepção mais ampla de sua cultura, deixando, em diversos momentos, o fetichismo de lado e envolvendo-a em uma relação de trocas interculturais:
 
Her little brown hand is curled in mine, her fingernails are paler than her skin, on her toes too and with her shoes off she has one foot curled in between my thighs for warmth and we talk, we begin our romance on the deeper level of love and histories of respect and shame (KEROUAC, 2001, p. 19).
 
É nestes momentos de intimidade que se percebe um crescimento do respeito que Percepeid tem por Mardou – mesmo que este seja oscilante. O estranhamento que Leo sente em relação às suas origens e cultura, contudo, voltam a surgir em diversos momentos da narrativa, demonstrando que a discriminação racial está mais enraizada em sua cultura conservadora do que Percepeid imagina. Leo percebe que Mardou jamais seria colonizada pela vida burguesa de classe média; sua cultura e suas origens étnicas são fatores que impedem a adequação da jovem negra a esse estilo de vida. Esse é o principal motivo de Percepeid ver o seu próprio conforto – tanto no cotidiano, quanto social – ameaçado.
A forma como o amor e ódio se misturam na descrição que Leo Percepeid faz de seus sentimentos por Mardou remete aos conceitos de “sagrado” e “maldito”. Segundo o linguista francês Émile Benveniste (1995), no latim, ambos os termos são designados pela palavra sacer. Dessa forma, há uma ambivalência nesses termos, existente, segundo Benveniste, devido às apropriações culturais feitas do termo no decorrer de sua existência:
 
(…) na Idade Média, um rei e um leproso eram ambos, ao pé́ da letra, “intocáveis”, mas isso não quer dizer que sacer encerre dois sentidos contraditórios; foram as condições da cultura que determinaram, em face do objeto “sagrado”, duas atitudes opostas (BENVENISTE, 1976, p. 87).
 
A característica de “intocável” do rei leproso sugere dois sentidos: o de “sagrado”, devido à sua posição privilegiada e relacionada à divindade, por isso, o rei não deveria ser tocado; e a de “maldito”, devido à sua doença contagiosa e nesse caso, também, não deveria ser tocado. Contudo, o exemplo dado não pressupõe dois significados ao termo; foi a cultura em que ele foi usado que criou duas atitudes opostas diante do ser sagrado. Da mesma forma, Mardou também é sagrada e intocável para Leo Percepeid. Por um lado, ela é divina, por ser uma representante da cultura bebop, a qual Leo tanto admira e, por isso, encontra-se em um pedestal e não deve ser tocada. Por outro lado, é uma figura marginalizada, vista pelo senso comum como uma ameaça e por Leo Percepeid como um empecilho para uma vida confortável e, por isso, também não deve ser tocada. Nesses casos, o valor dado ao sagrado também é culturalmente determinado e ambivalente.
Ao colocar em dúvida os valores de Mardou, Percepeid menciona o seu bem-estar (well-being), termo utilizado com frequência no decorrer de The Subterraneans e que remete à qualidade de vida proporcionada pelo American way of life da década de 1950. A proximidade com Mardou é um fator que impede o deleite deste bem-estar e, portanto, há necessidade de uma escolha entre os dois universos: a subcultura marginalizada e o prazer da vida estável. Sobre o seu bem-estar e a presença de Mardou, Percepeid relata: “(…) as tho never I was straight with her, but crooked – never away from my chimerical work room and comfort home, in the alien grey of the world city, in a state of WELL-BEING” (KEROUAC, 2001, p. 34). Essa escolha entre o bem-estar e a marginalização implica em constantes avaliações de Mardou, sua cultura e seu caráter. Por esse motivo, ocorrem frequentes oscilações na perspectiva que Leo Percepeid possui da vida ao lado de Fox.
Em um momento de excitação, Percepeid compartilha com Mardou a admiração e o seu afeto por suas raízes africanas e destaca o essencialismo, a pureza existente em sua cultura, mencionando que ela seria a mulher essencial e original:
 
“Honey what I see in your eyes is a lifetime of affection not only from the Indian in you but because as part Negro somehow you are the first, the essential woman, and therefore the most, most originally most fully affectionate and maternal” – there now is the chagrin too, some lost American addition and mood with it – “Eden’s in Africa,” I added one time (…) (KEROUAC, 2001, p. 79-80).
 
O trecho citado mostra que Percepeid percebe claras distinções étnicas e culturais entre ele e Mardou. Por vezes, ele a rebaixa e a enxerga como uma relação que o comprometeria de levar uma vida normal nos padrões do American way of life; em outros momentos, ele exalta essa diferença e a coloca acima de sua própria cultura, como uma forma de essencialismo. Esta menção à pureza da cultura africana e sua comparação ao Éden remete à visão essencialista que escritores afro-americanos contemporâneos à Jack Kerouac, como Amiri Baraka (1934-2014), têm de suas próprias raízes; e que está relacionada à ideia de que o ouvinte branco do bebop, por exemplo, é incapaz de realmente compreender tal expressão artística. Para as personagens de Amiri Baraka (1995) – como Clay, na peça Dutchman – os músicos bebop são reverenciados por muitos brancos de classe média. Contudo, não são compreendidos por estes, que só possuem uma espécie de fetiche primitivista por  aquilo que é estranho a eles. Há, segundo essa opinião, a ideia de que o bebop é próprio da comunidade afro-americana e impossível de ser assimilado por alguém que seja externo à ela. O que essa forma de essencialismo não prevê é o papel de desmistificador do American way of life que um relato como o de Jack Kerouac pode assumir, ao levar para o centro de sua narrativa a cultura do bebop e o racismo.
É perceptível que as dúvidas em relação ao caráter de Mardou são mais intensas na segunda parte da narrativa, quando Leo demonstra paranoia e ódio intensos pela mulher. Novamente, sua descendência africana e cherokee são determinantes para o sentimento que Leo tem por Mardou, contudo, este é revertido da admiração e fetiche por ódio. Logo em seguida ao seu instante de admiração, em um momento de ciúmes, Leo Percepeid, ao caminhar ao lado de Mardou nas ruas de São Francisco, revela sentimentos de ódio existentes em sua consciência e, neles, ressalta um preconceito racial enraizado na cultura a qual ele abomina, mas não consegue deixar de fazer parte:
(…) but now in my hurt hate turning the other way and so walking down Price with her every time I see a Mexican gal or Negress I say to myself, ‘hustlers’, they’re all the same, always trying to cheat and rob you – harking back to all relations in the past with them – Mardou sensing these waves of hostility from me and silent (KEROUAC, 2001, p.80).
 
Mardou aceita a hostilidade em silêncio. É possível reparar, com essa forma oscilante com a qual Percepeid trata Mardou, que há uma relação de imposição do protagonista sobre sua companheira; um posicionamento de Percepeid em relação às etnias marginalizadas nos Estados Unidos nos anos 1950, que remete às relações entre imperialistas e colonizados, conforme apontado no trecho citado acima. Portanto, cabe aqui discorrer um pouco sobre a forma como a Geração Beat, em especial Jack Kerouac, vê as minorias de seu país e a maneira como eles lidam com o contato junto às culturas que lhe são estranhas. Esse é o caso de grupos citados no trecho acima e que estão muito presentes na literatura beat: mexicanos e afro-americanos, principalmente.
Em seu trabalho intitulado The Transnational Counterculture, em que aborda a relação entre a contracultura beat e a expressão do realismo mágico no México, Daniel Belgrad relata as diversas passagens dos beats pelo México e afirma: “Clearly Mexico was an important literary influence as well as a significant life event in the development of the Beat subculture” (BELGRAD, 2004, p.28). Em sua análise, Belgrad (2004) não descarta a possibilidade de uma relação de déspotas/colonizados entre, respectivamente, beats e México. O autor levanta fontes que interpretam os relatos da presença dos beats em terras mexicanas como uma afirmação do imperialismo, afirmando que William Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg se portavam como déspotas, nessas ocasiões. Analisando suas fontes, o autor afirma:
 
They praised Mexico for its low cost of living and reveled in the ready availability of teenage prostitutes and illegal drugs (heroin and marijuana), a phenomenon inseparable from Mexico’s political and economic “underdevelopment” in comparison to the United States (BELGRAD, 2004, p. 29).
 
Contudo, Daniel Belgrad (2004) não considera a teoria anti-imperialista o foco de sua análise, visto que esta desconsidera a relação intercultural entre os beats e a cultura mexicana. Dessa forma, o autor apoia a hipótese de uma relação de trocas entre as duas culturas e considera, tanto a Geração Beat, como o Realismo Mágico mexicano, formas de oposição ao capitalismo corporativo pós-guerra, que, durante a década de 1950, conquistava cada vez mais espaço nos Estados Unidos e no México. Belgrad afirma: “As part of a transnational counterculture that inherited the mantle of the postwar avant-garde, the Beats in Mexico should be understood as cultural allies of the Mexican Magic Realists, rather than as agents of American imperialism” (BELGRAD, 2004, p. 30).
Cabe frisar, além disso, que a afinidade entre a Geração Beat e a cultura afro-americana, especialmente o bebop, relatada em The Subterraneans, também promove uma relação intercultural e, conforme já mencionado, criou-se uma expressão literária que se opõe ao imperialismo corporativista norte-americano do século XX. Ao contrário de apreciar a sua suposta posição social superior, Percepeid não é conivente ao racismo e à dominância da cultura de classe média; ao contrário, o racismo existente em níveis profundos de sua consciência é o motivo da sua angústia. Percebe-se, na narrativa de Jack Kerouac, o anseio pela institucionalização de uma comunidade alternativa, uma realidade idealizada, em que a relação de Leo Percepeid e Mardou Fox fosse possível.
Além disso, Leo Percepeid é um protagonista com características de um anti-herói, visto que assume constantemente seus erros, fracassos e arrependimentos. Dessa forma, é possível que Kerouac coloque sua própria contradição na relação de Percepeid e Mardou. Dificilmente Jack Kerouac conseguiria retratar o preconceito vivido por integrantes negros da cultura bebop na década de 1950, caso a relação entre Leo Percepeid e Mardou Fox fosse totalmente harmoniosa e Leo não vivesse em constante conflito entre a cultura mainstream norte-americana e a subterrânea do jazz bebop. Nesse sentido, a ambivalência presente em Percepeid é fundamental para o ideal contra-hegemônico manifestado em The Subterraneans.
Para analisar a relação entre os beats e a cultura mexicana explorada por eles, Belgrad (2004) resgata o termo fellaheen proposto pelo historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), que se relaciona com grupos que permanecem não afetados pelos grandes movimentos históricos e que, também, facilmente se aplica à contracultura situada nas margens sociais que sobrevivem ao impacto da modernização. Segundo Daniel Belgrad (2004), os beats viam os índios mexicanos como uma subclasse de fellaheen e, por esse motivo, identificavam-se com eles. Os fellaheens para Jack Kerouac e a geração beat são aqueles considerados por eles companheiros de marginalização, como, por exemplo, comunidades afro-americanas, mexicanos vivendo nos Estados Unidos, índios norte-americanos, artistas de rua. Em suma, grupos que sobrevivem à opressão da cultura dominante do consumo, mesmo que estes tenham sofrido mudanças no decorrer de suas existências. A geração beat e seus fellaheens muitas vezes compartilham espaços e, dessa proximidade, surge o convívio. Este é o caso de North Beach, região de São Francisco descrita em The Subterraneans, onde diversos grupos marginalizados convivem em um ambiente boêmio.
Em The Subterraneans, esse tipo de identificação ocorre entre Leo e Mardou devido às raízes culturais de Fox e as experiências na estrada de Percepeid; em ambos os casos há a adoção, mesmo que por vontade própria, de um estilo de vida marginalizado que foge aos parâmetros da vida americana e do progresso. Percepeid comenta sobre a forma como ele se identifica com Mardou e suas experiências, o que o levou a entender o que ele tem de semelhante com a companheira:
 
Concern for her father, because I’d been out there and sat down on the ground and seen the rail and steel of America covering the ground filled with the bones of old Indians and Original Americans. – In the cold grey fall in Colorado and Wyoming I’d worked on the land and watched Indian hoboes come suddenly out of brush by the track and move slowly (…) (KEROUAC, 2001, p.18-19).
 
Tendo isso em mente, podemos dizer que Percepeid vê Mardou como uma companheira fellaheen e se identifica com a sua origem – um povo que vive de forma muito distinta do padrão modernizado dos Estados Unidos. Sendo assim, o fato de a personagem conviver e se interessar por culturas que fogem aos padrões do American way of life pode ser visto como uma contraposição à cultura dominante. Apesar de Jack Kerouac e seus fellaheens das culturas minoritárias coexistentes nos Estados Unidos na década de 1950 resistirem à intensa instauração do American way of life, não se pode dizer que estes se opõem à modernização, conforme aponta Belgrad (2004). Acredita-se que a Geração beat vê o contágio das culturas sobreviventes e minoritárias como uma característica da modernização, a qual proporciona oportunidades para que artistas de vanguarda apropriem-se dessas culturas para a criação artística. Dessa forma, através de relatos literários como The Subterraneans, busca-se uma institucionalização desse aspecto da modernização. Além disso, diversos efeitos dessas mudanças são apropriados pela literatura beat de forma a criar expressões como a prosa espontânea, um estilo de escrita moderno por excelência, presente em The Subterraneans.
Outra dimensão marcante na relação de dominante e dominado entre Leo e Mardou é a sexualidade. De acordo com Daniel Belgrad (2004), para os beats, sexo era um símbolo natural de comunhão e cita o exemplo de The Subterraneans, em que Kerouac iguala os conceitos de sexo e comunhão na relação entre Mardou Fox e Leo Percepeid. Para exemplificar, Belgrad cita o seguinte trecho da obra: “(…) the intimacies of young lovers in a bed, high, facing eye to eye, breast to breast naked, organ to organ, knee to shivering goose-pimpled knee, exchanging existential and lover-acts for a crack at making it (…)” (KEROUAC, 2001, p.7). Considerando que o sexo é uma forma de comunhão entre Mardou e Leo, novamente, se percebe a imposição de Leo sobre sua parceira. Devido ao fato de Mardou ter passado grande parte da sua vida sexualmente inativa, Percepeid impõe-se de forma a reeducá-la afetivamente e sexualmente, remetendo novamente à sua imagem de déspota. Percepeid relata:
 
Never did she use the world love, even that first moment after our wild dance when I carried her still on my lap and hanging clear to the bed and slowly dumped her, suffered to find her, which she loved, and being unsexual her entire life (except for the first 15-year-old conjugality which for some reason consummated her and never since) (…) (KEROUAC, 2001, p. 16).
 
Devido a essa peculiaridade de sua relação, em alguns momentos da história, Percepeid demonstra o desejo de ser o mentor sexual de Mardou, de guiá-la na forma como ela poderia obter prazer na relação. O seguinte trecho exemplifica esse desejo: “We hugged, we held close – it was like love now, I was amazed – we made it in the living-room, gladly, in chairs, on the bed, slept entwined, satisfied – I would show her more sexuality” (KEROUAC, 2001, p. 32).
Se Percepeid é o mentor de Mardou, no que diz respeito à sexualidade, Mardou, por sua vez, é quem tem o maior entendimento acerca do jazz bebop e o auxilia a compreender o estilo musical. Contudo, por ser membro enraizado nessa subcultura, Mardou não partilha da mesma excitação e atração pelo desconhecido que Percepeid. Pelo contrário, em uma conversa sobre o bebop, a jovem negra demonstra-se indiferente à expressão musical. Kerouac narra: “(…) Mardou, who, impressed, forewarned, understanding everything, makes solemn statements about bop, like, ‘I don’t like bop, I really don’t, it’s like junk to me, too many junkies are bop men and I hear the junk in it’” (KEROUAC, 2001, p.84). Além disso, Mardou viveu a marginalização ligada ao estilo de vida do bebop, diferente de Percepeid, que tem aquele cenário como uma forma de evasão da vida normativa.
Dessa forma, Mardou é entendedora do bebop e, por isso, não se comove tanto com o estilo. Mesmo demonstrando certo descaso com o estilo, Fox está em posição superior quanto ao entendimento da música e isso a coloca acima de Percepeid no quesito inserção à cultura bebop, visto que ela é uma integrante genuína do meio em que ambos frequentam. É interessante destacar que Mardou compara o bebop ao lixo, que, para Kerouac, é um lixo merecedor de ser coletado e colocado no centro de sua narrativa. Leo Percepeid, ao contrário de Mardou, enxerga o bebop como uma recém-descoberta fascinante e, em resposta ao descaso de Mardou pelo estilo, responde: “(…) ‘But you never like what you come from’ (looking at Mardou). – ‘What do you mean?’ – ‘You’re the child of Bop, (…)’” (KEROUAC, 2001, p. 84).
A visão que Percepeid tem de Mardou e do bebop é de que ambos têm a mesma origem, uma forma de essencialismo que remete às narrativas de Amiri Baraka (1995) sobre o bebop. Devido ao fascínio pela origem de Mardou e por considerá-la “a filha do bop”, Percepeid vê Fox como uma companheira fellaheen e, assim, estabelece um relacionamento de natureza intercultural – semelhante à relação que Daniel Belgrad (2004) analisa entre a Geração Beat e a cultura mexicana. É através da relação entre Mardou e Percepeid que Kerouac obtém êxito em retratar a geração bebop subterrânea. Ao colocar Mardou e o universo cultural a que ela pertence no centro de sua narrativa – mesmo que haja tantas controvérsias na relação entre ela e o narrador, abordadas anteriormente –, Jack Kerouac cria, assim, um relato que vai além da memória oficial criada pelo imaginário normativo norte-americano; uma memória que busca os descartes dos arquivos oficiais e que tem como objetos principais, nesse caso, Mardou Fox e a cultura do bebop da qual ela faz parte.
 
 
REFERÊNCIAS
BARAKA, Imamu Amiri. Dutchman. In: KLAUS, Carl H.; GILBERT, Miriam; FIELD JR., Bradford S. (org.). Stages of Drama: classical to contemporary theater. New York: St. Martin’s Press, 1995. p. 1030-1041.
 
BELGRAD, Daniel. The Transnational Counterculture: Beat-Mexican Intersections. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 27-40.
BENSTON, Kimberly W. Ellison, Baraka, and the Faces of Tradition. 1978. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/302327>. Acesso em: 20 out. 2013.
BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral. Tradução de Maria da Glória Novak e Luiza Neri. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1976.
 
BERENDT, Joachim E. O Jazz: do rag ao rock. Tradução de Júlio Medaglia. São Paulo: Editora Perspectiva, 1987.
GINSBERG, Allen. Uivo e outros poemas. Porto Alegre: LP&M, 2006.
HOBSBAWM, Eric. História social do jazz. Tradução de Angela Noronha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
______. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
HOLTON, Robert. “The Sordid Hipsters of America”: Beat Culture and the Folds of Heterogeneity. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 11-26.
KEROUAC, Jack. Essentials of Spontaneous Prose. In: CHATERS, A. The Portable Beat Reader. New York: Viking, 1992.
______. The Subterraneans. New York: Penguin Books, 2001.
______. On The Road: Pé na estrada. Tradução de Eduardo Bueno. Porto Alegre: LP&M, 2007.
KOHLI, Amor. Black Skins, Beat Masks: Bob Kaufman and the Blackness of Jazz. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 105-117.
PANISH, Jon. Kerouac’s The Subterraneans: A Study of “Romantic Primitivism”. 1994. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/467875>. Acesso em: 18 fev. 2016.
STARR, Clinton R. “I Want to Be with My Own Kind”: Individual Resistence and Collective Action in the Beat Counterculture. In: SKERL, Jennie. (org.). Reconstructing the Beats. New York: Palgrave Macmillan, 2004. p. 41-54.





Bio fornecida pelo palestrante.

LA EXPERIENCIA MUDA DE LA INFANCIA EN MEMORIA POR CORRESPONDENCIA, DE EMMA REYES – Susana Ynés González Sawczuk




 

 Susana Ynés González Sawczuk

Universidad Nacional de Colombia, Sede Medellín

 
 
Resúmen: Se parte de las reflexiones de Giorgio Agamben, en Infancia e historia, sobre la experiencia muda de la infancia comprendida como experiencia originaria, aferrada al aprendizaje de un padecer, y la imaginación como médium, por excelencia, del conocimiento. Se problematiza, entonces, en torno a la relación infancia/experiencia siguiendo las misivas en Memoria por correspondencia, de Emma Reyes, que más allá de cierta confesión afectiva, son relatos de la infancia que, como cifra de una génesis dolorosa, nos invitan a sumergirnos en los procedimientos de la mediación del lenguaje en el padecer, en la palabra, ante el intento por asir y dar cuenta de la experiencia de la aflicción.
 
Palabras-clave: infancia, experiencia, lenguaje, aflicción
 
Abstract: This paper departs from the reflections of Giorgio Agamben, in Infancy and History, about the silent experience of childhood understood as an original experience that clings to the learning of suffering, and basically links to imagination as a medium of knowledge. It problematizes the relation between childhood and experience according to the letters of Emma Reyes in Memoria por correspondencia. Beyond   emotional confessions of these stories of childhood, they represent the genesis of pain and invite us to submerge in the proceedings of the mediation of language in pain, and in the Word, aiming at understanding the experience of grief.
 
Keywords: childhood, experience, language, grief.
 
Minicurrículo de la autora: Doctora en Letras de la Universidad de São Paulo (Brasil). Profesora Titular del Departamento de Estudios Filosóficos y Culturales, de la Facultad de Ciencias Humanas y Económicas, de la Universidad Nacional de Colombia, sede Medellín. Los intereses temáticos abarcan la literatura latinoamericana, retóricas del cuento, ficción y crítica, ficción y memoria, espacios de subjetividad.
 
LA EXPERIENCIA MUDA DE LA INFANCIA EN
MEMORIA POR CORRESPONDENCIA, DE EMMA REYES
 
Susana Ynés González Sawczuk
Universidad Nacional de Colombia, Sede Medellín
 
 
En abril de 2012 se publica Memoria por correspondencia, de Emma Reyes (Bogotá, Colombia, 1919 / Burdeos, Francia, 2003), artista plástica que hizo su carrera en Europa. Son veintitrés cartas escritas entre 1969 y 1997 dirigidas a su querido amigo, Germán Arciniegas. Textos breves que superan el registro íntimo de la correspondencia individual, de un sí mismo amarrado a una autorreflexión muchas veces tediosa y, al contrario, atrapan difuminando sentidos de una época. Más allá de cierta confesión afectiva, son relatos de la infancia que, como cifra de una génesis dolorosa, nos invitan a sumergirnos en los procedimientos de la mediación del lenguaje, en el padecer, en la palabra ante el intento por asir y dar cuenta de la aflicción.
Dos aspectos pueden delimitar una primera apreciación. Uno atiende a la modalidad de escritura, las cartas que, con registros de una novela de formación, sostienen en el relato una temporalidad progresiva y, más, ante la ausencia de las respuestas del interlocutor se hace misteriosa y extraña aquella dimensión unidireccional que puede sellar con tanta fidelidad los dos extremos de las misivas, porque no hay hiatos, ni vacíos en el relato, sino susurros de una profunda confesión que parece no necesitar su confirmación. Quien escribe y, por ende, su destinatario, quien lee, lo hacen en un presente suspendido que diluye también el espacio, las distancias de continentes se pierden y la palabra presentifica la amistad. En ese artificio se replican significantes e imágenes de una vivencia dolorosa y de inmenso abandono que enmarca los tiempos de la infancia de la narradora.  Así, se refuerza un pacto de lectura; alguien da cuenta, tal vez, de cierta promesa atesorada hace tiempo -la autora tiene 50 años en la primera misiva-  y se dispone, ante un amigo, a cumplirla y saldar en la escritura los momentos decisivos de cualquier tiempo humano: la niñez y adolescencia. En las breves cartas, se abren tensiones que estructuran una historia de vida signada por la pobreza y la falta de afecto en su Colombia natal;  el encierro en sus años de niña y adolescencia en el convento, típico modelo de internados de época que definen espacios de control y disciplina, siempre sesgados por la lógica de la productividad; la displicencia y desidia que tiene, ante los niños, una sociedad parroquial, hipócrita y pacata que los maltrata, los esconde y esclaviza; la corrupción y la doble moral de una burguesía política; y no otra cosa que el prejuicio y la falta de oportunidades de la mujer, en esos tiempos. En fin, se condensan sentidos en una trama, que podríamos denominar binaria, contraste de variantes opuestas que sobredeterminan una modalidad para significar experiencias demasiado adversas y tan distantes de una subjetividad, que no deja de auscultarse y medirse en esos tramos de la vida, que transita como una viajera obsesiva por encontrar las cifras de su existencia.
El otro aspecto, más sorprendente, abre una reflexión sobre la construcción del yo narrativo que emerge, desplazado en el tiempo, por la escritura, para dislocarse y pasar de sujeto de la enunciación a testigo que entrecorta su monólogo interior e interpela tanto a un escucha como a sí misma, se cuestiona y desconfía del lenguaje, demasiado movedizo para una narradora nada impertinente. Parto de este camino de lectura que atraviesa como principio axial el calvario del relato y me refiero a la inmersión, siempre esquiva, que provocan escrituras privadas dolorosas que, en este caso, como ejercicios de memoria vuelven a traer la relación infancia/experiencia.  Para lo cual, parto de las reflexiones de Giorgio Agamben, en Infancia e historia, sobre la experiencia muda de la infancia (como experiencia originaria, aferrada al aprendizaje de un padecer), y la imaginación como médium, por excelencia, del conocimiento.
 
La “experiencia muda” de la infancia  
Conocemos por Walter Benjamin la inmensa soledad que provocan las experiencias traumáticas ante la imposibilidad de compartirlas, de traducir esa incapacidad –en tránsito incomprensible- en un conocimiento que, como blindaje individual, nos cobije en nuestros semejantes.  Quizás sea ésta la razón por la cual Emma Reyes necesitó pasar los cincuenta años de vida para decidir capturar, en la escritura, su padecer, transformarlo en relato que se pueda comprender y, así, compartir. Sólo algunos tramos de las primeras misivas son suficientes para situarnos en una infancia miserable. Siendo muy niña comparte, con su hermana Helena, el encierro en una casucha, en Bogotá, con una temerosa, Sra. María, de “enorme mata de pelo negro” (REYES, 2012, p. 18) y un niño, “el piojo”. Y necesitó pocos párrafos para impactar al lector, en una escena que, sin golpes bajos, cifra toda su experiencia de formación: el abandono como destino inexorable. Así, a partir del “piojo”, Eduardo, parecería que intercambiado por dinero, se suman las ausencias con otro posible hermanito (dejado en la puerta, de cualquier convento), castigo que, sin ninguna piedad, les llegaría a ambas, a Emma y a su hermana, perdidas en una estación de trenes de un pueblo, cuyo nombre no pueden recordar. Y es en la elección de ese acontecimiento, como frontera y punto de partida de una vida, que asistimos, como una epifanía, a la pura experiencia originaria que, al decir de Agamben, “lejos de ser algo subjetivo (…), antes del lenguaje: [es] una experiencia muda (…), una in-fancia del hombre, cuyo límite justamente el lenguaje debe señalar” (p.64). Prueba que se fija como impronta de una vivencia traumática donde los ecos no tienen lugar y el silencio, la ausencia de palabras para significar, se impone. Así, la infancia es el espacio de reconocimiento del lector y no otra cosa que soledad invade a la narradora quien, como presagio ante la escena del abandono del “piojo”, nos aclara que “en ese momento (…) nació entre Helena y yo una especie de pacto secreto y profundo; un sentimiento inconsciente de que éramos solas y que sólo nos pertenecíamos la una a la otra” (REYES, 2012, p. 27). Esa es la fuerza en el relato que parece sólo sostenida por la tenacidad de quien busca, en soledad, en la minucia y en los detalles, recuperar esos hechos innombrables, despojados de sentencias, a partir de la voz entrecortada de una niña. En esos hechos estaría cifrada toda su infancia, son como mojones en el relato, tan contundentes y definitivos como despojados de cualquier mediación inteligible. En los tres episodios de abandono, asistimos como tramo doloroso a “un aprender únicamente a través y después de un padecer [páthei], que excluye toda posibilidad de prever; es decir, de conocer algo con certeza [máthos]” (AGAMBEN, 2001, p. 17). La clave está en la fuerza de la infancia muda porque es la niña Emma quien nos habla, por eso, hay cierto encantamiento del lector que confía y da crédito a la memoria de cada misiva. Aunque esa narradora (que nos encanta), en los momentos más angustiosos de sus vivencias, se desdobla temerosa porque duda y apela a su interlocutor, padece y requiere su aprobación para seguir.
Nada más conmovedor que acompañar ese movimiento del lenguaje que agoniza por no encontrar la certeza, en la palabra. Y entonces, ese aprendizaje, esa materia de conocimiento (máthos) que, como tal, puede transformarse en experiencias compartibles, se hace insegura, repito, en particular, en los momentos más decisivos y angustiosos de su vida,  provocando, al contrario de lo esperado, un efecto de realidad que sella más el pacto de lectura, tal vez, por espejarnos en esa agonía.
Así, se intercalan registros entre un auténtico sujeto de la experiencia pura (páthei) de esa niña, Emma, “Nené, bizca y feita” como se recuerda en los relatos ajenos, que sólo puede hacer experiencia sin tenerla, es decir, sin asirla, sin comprenderla; pasando a esta narradora, sujeto del conocimiento, que condenada a la pérdida de la experiencia, sólo puede transmitirla y hasta mostrarse en su inseguridad; como se expresa en el relato del segundo abandono del llamado “Niño, José sin sal”, en la carta 8, que representa otro de los momentos de clímax. En breves páginas, se asiste a esos desdoblamientos de la voz narrativa. Al comienzo, sin intuir lo peor, la niña acepta su desdicha con estoicismo y nos informa, “sólo una cosa nueva se produjo en nuestra vida y es que la Srta. María tomó la costumbre de pegarnos y (…) decidió que no importaba cuál había cometido la falta, ella nos pegaba a las dos” (REYES, 2012, p. 59). Y esa niña que, desconociendo lo que iba a ocurrir, será testigo del abandono de quien más ama, ante la impotencia cierra el episodio con la lucidez que brinda el monólogo interior. Incluso, antes de informarnos que se quedó muda por tres días, tal como lo recuerda, “creo que en ese momento aprendí de un solo golpe lo que es injusticia y que un niño de cuatro años puede sentir el deseo de no querer vivir más y ambicionar ser devorado por las entrañas de la tierra. Ese día quedará sin duda como el más cruel de mi existencia” (p. 62).
Ahora bien, parecería que acompañamos, en la misma lectura, una escritura cuyo telos no es otro que alcanzar y, por ende, transmitir en el lenguaje, una comprensión. Un volver a traer lo que no se podía nombrar, por padecerlo sin entenderlo. Y aunque resulte extraño no quedar preso en esa ambigüedad, los lectores se dejan llevar por la narradora, en ese viaje hacia la infancia y se instituye, siguiendo a Agamben, aquel entramado misterioso que enlaza la Infancia con el lenguaje y la verdad, porque “infancia y lenguaje parecen así remitirse mutuamente a un círculo donde la infancia es el origen del lenguaje y el lenguaje, el origen de la infancia. Pero tal vez sea en ese círculo donde debamos buscar el lugar de la experiencia” (p. 66). Y bien, a pesar de haber logrado significar esa experiencia traumática, la narradora sale del soliloquio y se remite a su interlocutor, necesita el amparo de un escucha y así lo expresa en su conmovedora despedida de esta breve carta: “sumercé, estoy triste porque esta carta no me salió como yo hubiera querido, pero no me siento capaz de repetirla. Besos para toda la familia y no me olviden. Emma. París, Octubre/69” (REYES, 2012, p. 62). La dificultad se muestra en esos intercambios, la experiencia queda bloqueada ante el lenguaje, por eso titubea ante la escritura de una de las misivas, si bien más duras, también más claras y precisas, y reflexiona como sujeto del conocimiento, como si la narradora niña se hubiese extraviado. En síntesis, toma distancia, incluso parecería que cobra conciencia en el mismo relato, de haber llegado a la experiencia en estado puro, al límite del lenguaje como origen de la infancia, que es el misterio, sabiendo que sólo se sale por el conjuro de la palabra, porque “así como la infancia destina el lenguaje a la verdad, así el lenguaje constituye la verdad como destino de la experiencia” (AGAMBEN, 2001, p. 71).  Y como duda de haber restituido su verdad, nos coloca, siguiendo al filósofo, ante esa escisión que se da en la infancia entre lengua (lo semiótico) y discurso (lo semántico), reflexiones recuperadas a partir de los aportes de Benveniste, separación que define e instituye al lenguaje adulto (AGAMBEN, 2001, p. 71-76).
La narradora queriendo transmitir la experiencia de aquella niña que fue, siente que quedó atrapada en el discurso. Emma se angustia y se despide, hasta excusándose, es un ser histórico, no se reconoce en ese intento por transmitir una comprensión aunque, repito, el efecto que provoca sea, precisamente, lo contrario. Lo que la paraliza es la puesta al día del balance de su vida, tal vez desconoce que encontró su verdad, con su libro. Ahora bien, si el procedimiento de apelación a un escucha refuerza el diálogo como marca de la modalidad epistolar, por eso también lo encontramos en otras misivas más animadas, igual resulta imperiosa la necesidad de mostrar ese plus, de constatar que alguien espera la continuidad del relato, de interpelar su atención y así buscar su aprobación.  Aunque, en esos tramos se llega al nodo de esa soledad y al silencio, ante el desconcierto y dolor de una niña por semejante desprotección que produce el abandono y el maltrato que la espera, también hay otro trabajo con la escritura, y la fantasía se impone (de nuevo cobra fuerza la infancia muda) y también la ironía, y hasta el temple, la serenidad, de quien tiene la capacidad de desdoblarse y salir del padecer y dejarse llevar por el lenguaje.
Por eso, no hay angustia, no es un relato que asfixie, no ahoga al lector ni lo desespera con hechos escabrosos. Sí lo sumerge en alguna turbulencia, pero lo rescata con humor y con cierta inocente malicia. Incluso, aunque algunas convenciones quedan claras de entrada, como lo hace en la primera misiva donde prepara al lector para lo que debe atenerse, condensa su existencia en la precisa definición de quien reconoce su vida de privación, porque “en esos medios uno nace sabiendo lo que quiere decir hambre, frío y muerte” (REYES, 2012, p. 21). Interesante manifestación de quien, sin tener oficio en la escritura, demuestra que sí cumple, a cabalidad, con el reconocimiento de ser una fabuladora incomparable. A pesar de esa sentencia en la primera carta, que bien podría ser el epígrafe de una de las puertas del infierno, no se esperan relatos que linden con la obscenidad, al contrario es una invitación a escuchar, se podría pensar que al lenguaje en estado puro, es decir, “como el lugar donde la experiencia debe volverse verdad” (AGAMBEN, 2001, p. 70). Y esa verdad adquiere contundencia, ante el recuerdo del tercer episodio de abandono, cuyas víctimas serán Emma y Helena, en la carta número 10. En la misma, la fidelidad que da el tránsito de experiencias angustiosas se resuelve en los detalles, en la descripción de los lugares y personas1, como si el tiempo se hubiese congelado y el dolor fijara la experiencia en la voz de la niña. Incluso, esa veracidad se refuerza hasta en la angustia por la pérdida de una palabra, en el olvido de ambas hermanas  -todavía incomprensible para Emma, a pesar del paso del tiempo- del nombre del pueblo, donde estaba la estación de trenes, donde no las esperaron y las dejaron abandonadas2. Y, otra vez, se replica la infancia muda. Para significar la aflicción se necesitaron más de cinco referencias al silencio, en estas breves páginas para capturar la experiencia, así nos relata las peripecias de ese infortunio, “como cuando abandonamos al Niño, me quedé muda” / “nuestro llanto se volvió mudo” / “nosotras seguíamos mudas” / “nosotras seguíamos sin hablar” / “ninguna de las dos hablaba” (REYES, 2012, p. 72-78). Pero sí pudo hablar y pasar el umbral y salir al mundo.
Finalmente, texto que nos deslumbra, más que por la extraordinaria templanza de haber logrado sortear la desesperanza y cimentar una existencia, por adentrarnos en recorridos tan sinuosos sin perder la ternura, el humor y la maravillosa pulsión de vida.
 
 
BIBLIOGRAFÍA CITADA  
AGAMBEN, G. (2001). Historia e infancia. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora
REYES, E. (2012). Memoria por correspondencia. Bogotá: Fundación Arte Vivo Otero Herrera. Laguna Libros.
 
 
NOTAS
1 Interesante salto temporal en el relato de quien recupera el presente suspendido, que facilitan las epístolas, y se remite directamente a su interlocutor, con la siguiente reflexión, “a ti te parecerá extraño que yo pueda contarte con detalle y con tanta precisión los acontecimientos de esa época tan lejana. Yo pienso como tú, que un niño de cinco años que lleva una vida normal no podría reproducir con esa fidelidad su infancia. Nosotras, tanto Helena como yo, la recordamos como si fuera hoy y la razón no te la puedo explicar. Nada se nos escapaba, ni los gestos, ni las palabras, ni los ruidos, ni los colores, todo era ya claro para nosotras” (REYES, 2012, p. 74).
2 La narradora vuelve a interrumpir su descripción y demuestra su desconcierto ante el olvido: “es curioso que ninguna de las dos se acuerda del nombre del pueblo donde se tomaba el tren. Recordamos la estación, el hotel y la iglesia, pero ninguna calle” (REYES, 2012, p. 75).
 





Bio fornecida pelo palestrante.

SILÊNCIO E TRAUMA NA ESCRITA LITERÁRIA DE PAULINA CHIZIANE – Terezinha Taborda Moreira




 

Terezinha Taborda Moreira

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG)

 
RESUMO: Este artigo analisa a relação entre silêncio e trauma na obra O alegre canto da perdiz, da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Parte da hipótese de que o silêncio assume, na escrita da autora, uma dupla função: ser a resposta que a personagem oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta na sociedade em que vive, a qual é de ordem patriarcal, falocêntrica, mas também racial e de classe; e projetar, na escrita literária da autora, uma resistência a essa tradição literária que tenta impor à escritora a mesma condição de subalternidade, com a qual ela não se identifica e com a qual pretende dialogar.
 
Palavras-chave: Silêncio. Trauma. Escrita literária. Paulina Chiziane. Literatura moçambicana.
 
Abstract: This article analyzes the relationship between silence and trauma in the novel O alegre canto da perdiz, by the Mozambican writer Paulina Chiziane. Our initial hypothesis is that silence assumes, in the author’s writing, a double function: to be the answer the character offers to a condition of subalternity imposed on her in the society in which she lives, which is patriarchal, phallocentric, but also based on race and class; and to resist, in the author’s literary writing, to this literary tradition which tries to impose on the writer the same condition of subalternity, with which she does not identify herself but wants to dialogue with.
 
Keywords: Silence. Trauma. Literary writing. Paulina Chiziane. Mozambican literature.
 
Minicurrículo: Professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora CNPq-Nível 2. Este trabalho é parte das reflexões desenvolvidas no âmbito das atividades do Grupo de Pesquisa “África e Brasil: repertórios literários e culturais”, e do Projeto de Pesquisa “Linguagem e trauma na escrita literária angolana”, desenvolvido com o apoio do CNPq.
 
 
SILÊNCIO E TRAUMA NA ESCRITA LITERÁRIA
DE PAULINA CHIZIANE
 
Terezinha Taborda Moreira
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG)
 
A palavra silêncio tem uma origem latina que é uma determinação de fazer cessar o barulho. Conforme registra o dicionário Caldas Aulete, dentre outros, silentium, ii significa “1. Ausência de som ou de barulho. 2. Estado de quem permanece calado. 3. Privação, voluntária ou não, de qualquer tipo de comunicação escrita ou oral.”1[1] Ainda de acordo com o mesmo dicionário, o mutismo associado ao silêncio pode ter dupla intencionalidade: pode resultar de um “estado de tranquilidade, calma, paz” ou ser indicativo de uma atitude que revela “mistério, sigilo, segredo”.
Mônica Santos informa que, no pensamento mítico, o silêncio é identificado com o caos: é anti-história (SANTOS, 2015). Na esteira dos estudos de Vladimir Jankélévitche e John Cage sobre a música, Santos afirma que o tempo é silencioso e abstracto, e o ruído está ligado à presença humana e relaciona-se com o movimento: “O devir dos eventos e ocorrências no tempo faz ruído. O ruído, ao se opor ao silêncio, torna-se criação, representação do mundo, símbolo da vida” (SANTOS, 2015). Por isso, a música nasce do silêncio e retorna a ele. Assim como a palavra.
A premissa lançada por Monica Santos nos permite vincular silêncio e realidade. No significado da palavra silêncio encontramos a dualidade calar/falar, a qual traduz a tentativa incessante do homem de significar e, simultaneamente, comunicar a vida – oralmente ou por escrito. Nesse sentido, Susan Sontag lembra-nos que “o ‘silêncio’ nunca deixa de implicar seu oposto e depender de sua presença: [por isso] é necessário reconhecer um meio circundante de som e linguagem para se admitir o silêncio” (SONTAG, 1987, p. 18 – destaque da autora). Assim, em um espaço pleno de discursos como é o texto, por exemplo, o silêncio pode ser a estratégia para um dizer poético que recusa “o peso da acumulação histórica” que recai sobre a linguagem, impondo-lhe “significados de segunda ordem”, que “a oneram, a comprometem e a adulteram” (SONTAG, 1987, p. 22). Pleno de sentidos, o silêncio seria a abertura dialética do texto para dizer do que é provável, daquilo que a linguagem não diz, mas que a circunda. Afinal:
 
Quando nada, porque a obra de arte existe em um mundo preenchido com muitas outras coisas, o artista que cria o silêncio ou o vazio deve produzir algo dialético: um vácuo pleno, um vazio enriquecedor, um silêncio ressoante ou eloquente. O silêncio continua a ser, de modo inelutável, uma forma de discurso (em muitos exemplos, de protesto ou acusação) e um elemento em um diálogo (SONTAG, 1987, p. 18).
 
Abertura dialética da linguagem para dizer do que é provável, daquilo que ela não diz, mas que a circunda: assim será pensado o silêncio na obra O alegre canto da perdiz, da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Nela o silêncio caracteriza a personagem feminina Maria das Dores, protagonista do enredo. No movimento de construção da personagem e de seu enredo encontramos aquilo que Santiago Kovadloff, em seus estudos sobre poesia e silêncio, chama de “silêncio da epifania” (KOVADLOFF, 2003, p. 25). Para Kovadloff, o silêncio da epifania é aquele da significação excedida que, com sua irredutível complexidade, “subtrai o homem do solo petrificado do óbvio: o liberta” (KOVADLOFF, 2003, p. 24). O silêncio da epifania não deve ser entendido como aquele dos significados convencionais. Ele resulta de um ato criativo que retira o poeta de seu lugar usual de compreensão “pelo impacto não de um novo significado (uma vez que este só surgirá mais tarde, sob a forma de sua obra), mas de uma presença luminosa e inesperada – a do real subtraído de seu jugo ao previsível” (KOVADLOFF, 2003, p. 30).
Paulina Chiziane cria sua personagem por meio de um uso poético da palavra. Na tecitura narrativa da autora, o silêncio é a resposta que a personagem Maria das Dores oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta, a qual é de ordem patriarcal, mas também racial e de classe. No contexto narrativo da obra, é pelo silêncio que a personagem resiste a essa condição. Ao mesmo tempo, o seu silêncio projeta, na escrita literária da autora, também uma resistência a uma tradição literária patriarcal, racial e de classe que tenta impor à escritora uma condição de subalternidade com a qual ela, no entanto, não se identifica. Assim, neste estudo, o silêncio será pensado como o recurso por meio do qual a personagem protagonista do romance resiste à subalternidade. Para além disso, pretende-se evidenciar como ele se torna, também, a estratégia por meio da qual a escrita literária da autora se opõe à intimidação paralisante e silenciadora de uma tradição literária com a qual ela dialoga.
 
I
 
O retorno às águas do rio é a estratégia da voz narrativa para tecer a trama discursiva da personagem Maria das Dores no romance O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane. Qual Vênus emergindo das águas[2]2, a personagem Maria das Dores é apresentada ao leitor nua na solidão das águas do Rio Licungo:
 
Um grito colectivo. Um refrão.
Há uma mulher nua nas margens do rio Licungo. Do lado dos homens.
– Ah?
Há uma mulher na solidão das águas do rio. Parece que escuta o silêncio dos peixes. Uma mulher jovem. Bela e reluzente como uma escultura maconde. De olhos pregados no céu, parece até que guarda algum mistério.
– Quem é ela?
Uma mulher negra, tão negra como as esculturas de pau-preto. Negra pura, tatuada, no ventre, nas coxas, nos ombros. Nua, assim, completa. Ancas. Cintura. Umbigo. Ventre. Mamilos. Ombros. Tudo à mostra (CHIZIANE, 2008, p. 11).
 
Dois aspectos chamam a atenção na descrição da personagem feita pela voz narrativa.  A primeira refere-se ao fato de ela encontrar-se na margem que fica “do lado dos homens”. A segunda diz respeito à maneira como ela se porta em sua nudez: “Parece escutar o silêncio dos peixes”.
Nua, envolta em mistério e aparentemente exilada, Maria das Dores emerge na narrativa saída das águas do rio em uma atitude de transgressão que desestabiliza a ordem que regula o comportamento das mulheres e dos homens do lugar. A atitude da personagem é transgressora porque, ao banhar-se no lugar privado destinado aos homens, ela quebra todas as normas do local e, além disso, sua nudez, segundo as crenças da comunidade, ameaça as crianças, que podem ficar cegas e as mulheres, que podem passar a ser usadas e abusadas pelos homens. No entanto, ela responde à reivindicação de reestabelecimento da ordem, que lhe é dirigida pelas mulheres, por meio da linguagem que aprende com os peixes do rio: “Ela responde com a linguagem dos peixes do rio. Sorri. Olha para o chão. Para o céu. Com brandura. Com candura. Os olhos emanam muita luz e uma miríade de cores” (CHIZIANE, 2008, p. 15).
A linguagem dos peixes, essa linguagem outra, que a faz sorrir, mirar o chão, o céu, com brandura, candura e muita luz, lhe dá acesso ao outro lado do mundo, onde ela se posta e de onde mira a multidão “com os olhos no limbo” (CHIZIANE, 2008, p. 13). Alojada nessa linguagem outra, em relação à linguagem do lugar somente lhe resta o silêncio. Até porque é essa linguagem outra que lhe permite desafiar a ordem local, banhar-se no lugar privado destinado aos homens, mirar a multidão de mulheres do outro lado do mundo enquanto balança os olhos entre o céu e o horizonte “na visão clarividente dos poetas” (CHIZIANE, 2008, p. 13), superar as ameaças com um sorriso e impor seu corpo e sua nudez como a presença que diz de si, em detrimento de uma identidade que a enquadraria a partir de
 
Projecções fantásticas das histórias à volta da fogueira, as meninas bonitas, bondosas, obedientes, trabalhadoras casam-se com príncipes dourados, têm muitos filhos e vivem felizes para sempre. As meninas maldosas, mentirosas, desobedientes e preguiçosas, no final da história são castigadas, não arranjaram marido, nem filhos, vivem solteironas e infelizes para sempre, e acabam enlouquecendo. Crenças. De dádivas e destinos. Pragas. Profecias. Castigos (CHIZIANE, 2008, p. 19).
 
Por meio da linguagem dos peixes a personagem assume uma identidade outra, diferente dessas projeções, que lhe possibilita fugir de sua condição de “animal ferido por todas as coisas” (CHIZIANE, 2008, p. 17), “borboleta incolor, disforme”, “aquela que ninguém vê” (CHIZIANE, 2008, p. 18). Nessa identidade outra se cumpre seu destino de água, “Sempre correndo em todas as formas, umas vezes nascente, outras vezes rio. Outras vezes suor e outras lágrimas. Dilúvio. Gota de orvalho na garganta de um passarinho” (CHIZIANE, 2008, p. 17). Como água, o movimento é a sua eternidade. Cumprindo seu destino, Maria das Dores cruza o presente, o passado e o futuro, unindo os tempos para trazer, para as mulheres e os homens do local, uma mensagem de liberdade. Por isso, para a mais velha do lugar, a mulher do régulo, Maria das Dores é “uma canção que recordava às mais novas todas as coisas antigas, dos princípios dos princípios, no conto do matriarcado” (CHIZIANE, 2008, p. 21). Canção que projeta, no presente narrativo, os mitos da cultura tradicional moçambicana:
 
Era uma vez…
No princípio de tudo. Homens e mulheres viviam em mundos separados pelos Montes Namuli. As mulheres usavam tecnologias avançadas, até tinham barcos de pesca. Dominavam os mistérios da natureza e tudo… eram tão puras, mais puras que as crianças numa creche. Eram poderosas. Dominavam o fogo e a trovoada. Tinham já descoberto o fogo. Os homens ainda eram selvagens, comiam carne crua e alimentavam-se de raízes. Eram canibais e infelizes. Um dia, um homem jovem tentou atravessar o rio Licundo, para saber o que havia. Ia afogar-se quando aparece a linda jovem, sua salvadora, que meteu o homem no seu barco. Como houvesse frio a jovem tentou reanimar o moribundo com o calor do seu corpo. O homem olhou para o corpo dela, completamente aberto, u m antúrio vermelho com rebordos de barro. Ali residia o templo maravilhoso, onde se escondiam todos os mistérios da criação. E depois… (CHIZIANE, 2008, p. 21).
 
Diferentemente desse passado que emerge no presente narrativo a partir da linguagem-canção mítica trazida por Maria das Dores, o passado histórico do país é relido pela mulher do régulo como uma tentativa de propor, para as mulheres do lugar, um outro olhar sobre si mesmas, que as insira em sua realidade com a consciência da unidade que as aproxima em sua condição feminina:
 
Éramos de Monomotapa, de Chagamire, de Makombe, de Kupula, nas velhas auroras. O poder era nosso. (…) Unimo-nos aos changanes, aos ngunis, aos ndaus, nhanjas, senas. Guerreámo-nos e reconciliámo-nos. Fomos invadidos pelos árabes. Guerreados pelos holandeses, portugueses. Lutámos. As guerras dos portugueses foram mais fortes e corremos de um lado para outro, enquanto os barcos dos negreiros transportavam escravos para os quatro cantos do mundo. Vieram novas guerras. De pretos contra brancos, e pretos contra pretos. Durante o dia, os invasores matavam tudo, mas faziam amor na pausa dos combates. Vinham com os corações cheios de ódio. Mas bebiam água de coco e ficavam mansos e o ódio se transformava em amor. As mulheres se parecem com coco, não acham? As mulheres violadas choravam as dores do infortúnio com sementes no ventre, e deram à luz uma nova nação. Os invasores destruíram os nossos templos, nossos deuses, nossa língua. Mas com eles construímos uma nova língua, uma nova raça. Essa raça somos nós (CHIZIANE, 2008, p. 23-24).
 
Ao associar o corpo feminino ao coco, cujas águas os homens bebem e cujo interior abriga as sementes da nova nação, a mulher do régulo, sob a inspiração da linguagem-canção mítica de Maria das Dores, recorda às mulheres que a nudez da personagem às margens do rio Licungo as assusta porque inscreve, em sua própria memória e na memória da nação que lemos no contexto da narrativa, algo que apenas pela nudez da estrangeira pode ser recuperado: a sua condição de corpos femininos e negros, lugar de sua identidade feminina e de origem da nação mesma.
Assim, vemos que o corpo define a condição feminina da personagem Maria das Dores. É ele o seu espaço de enunciação. Talvez por isso, ao apresentar-se nas margens do rio Lucungo ela o faça na posição de lótus, que lhe permite colocar em evidência a fala-corpo que a caracteriza e que dá visibilidade ao “seu interior desabrochado, como um antúrio vermelho com rebordos de barro”, a suas tatuagens no ventre de mulher madura, a seu “corpo esguio, pequeno, recheado à frente, recheado atrás” (CHIZIANE, 2008, p. 12).
A construção da personagem por meio do recurso a seu corpo-discurso decorre do fato de que ela será submetida, na narrativa, a um processo de sequestro de sua subjetividade, resultado das perdas que acumula ao longo da vida e decorrente de sua condição de mulher negra num país regido por uma história marcada pela colonização, pelo falocentrismo e pelo racismo:
 
Mas tudo começou no dia em que o pai negro partiu para não mais voltar. Tudo começou quando o pai branco amou a sua mãe. Tudo começou quando nasceu a sua irmã mulata. Tudo começou quando a sua mãe vendeu a sua virgindade para melhorar o negócio do pão. Tudo começou com uma relação que envolvia sexo e amargura. Filhos e fuga. Torpor e ausência. Escalada de uma montanha. Soldados brancos na defesa do império de Portugal. Dinheiro e virgindade. Magia. Fortuna.
Lembra-se de tudo, da terra e do mundo. Onde a cultura dita normas sobre homens e mulheres. Onde o dinheiro vale mais que a vida. Onde o mulato vale mais que o negro e o branco vale mais que todos eles. Onde a cor e o sexo determinam o estatuto de um ser humano (CHIZIANE, 2008, p. 27).
 
Cada perda se inscreve no corpo-discurso da personagem Maria das Dores conformando o silêncio com o qual, gradativamente, ela ocupa seu lugar no mundo. Para a personagem o silêncio não significa uma renúncia. O silêncio de Maria das Dores lhe permite elaborar a linguagem outra pela qual ela desafia tudo aquilo que sequestra sua subjetividade. Pelo silêncio ela elabora a linguagem e a identidade outra que lhe permitem escapar dos padrões culturais de significação dominantes em Moçambique, a partir dos quais a mulher negra é socialmente projetada em signos que a vinculam a imagens da escravidão negra e da submissão do corpo feminino à imposição racial e de gênero.
A expressão da renúncia da personagem Maria das Dores em assumir as representações sociais inferiorizantes que a sociedade moçambicana projeta para a mulher pode ser lida em sua recusa às roupas que lhe cobrem aquilo que ela elege como signo de sua identidade-discurso-enunciação: o seu corpo nu, por meio do qual ela pode recuperar sua condição feminina e negra:
 
Quem sou eu? Uma estátua de barro, no meio da chuva. Odeio as roupas que me limitam o voo. Odeio as paredes das casas que não me deixam escutar a música do vento. Eu sou a Maria das Dores. Aquela que desafia a vida e a morte a busca do seu tesouro. Eu sou a Maria das Dores, e sei que o choro de uma mulher tem a força de uma nascente. Sei com quantos passos de mulher se percorre o perímetro do mundo. Com quantas dores se faz uma vida, com quantos espinhos se faz uma ferida. Mas não tenho nome (CHIZIANE, 2008, p. 18).
 
Recusar as roupas é, para Maria das Dores, resistir a um discurso de dominação de origem colonial, patriarcal e racial, como também a tudo que decorre desse discurso. É regressar a um estado de pureza, de transparência, em que “o nu de uma [mulher] se reflete no corpo da outra [mulher]” (CHIZIANE, 2008, p. 33) para lembrar que os tempos podem se misturar, os povos podem se misturar, os costumes podem se misturar, mas o ventre da mulher “é o único ponto de partida para todos os caminhos do mundo” (CHIZIANE, 2008, p. 34).
Na redefinição do corpo feminino negro como ponto de origem encontramos a redefinição da identidade feminina da personagem. Encontramos, também, a reinserção de Maria das Dores em condições sociais que lhe foram suprimidas, as quais ela reivindica pela nudez: a de filha, a de irmã, a de esposa e a de mãe:
 
Sorri. Finalmente pode regressar a casa e retomar o penteado de Jacinta que ficou por terminar. Pode voltar a conversar com o centauro, esse cavaleiro de diamante, com corpo de homem e cabeça de cavalo. Pode voltar e arrumar os livros que deixou abertos sobre a mesa há mais de vinte e cinco anos. Abraçar a boneca na cama da infância. Voga no espaço, voa até se transformar numa mancha, num ponto, num germe pronto a ser de novo incubado pelo ventre da mesma mãe. Sente a vertigem da leveza e tenta desesperadamente buscar um alicerce que a sustente no grito de libertação: – Minha mãe, minha mãe, minha mãe! (CHIZIANE, 2008, p. 319).
 
Sua nudez transgressora reencena, na narrativa de Paulina Chiziane, os questionamentos postos por Teresa de Lauretis em relação às representações do feminino. Para Teresa de Lauretis, essas representações precisam ser pensadas a partir de um “outro lugar”, de um ponto de interseção que nos coloque dentro dos discursos de gênero e, simultaneamente, fora dele. A estudiosa esclarece que
 
(…) esse “outro lugar” não é um distante e mítico passado, nem uma história de um futuro utópico: é o outro lugar do discurso aqui e agora, os pontos cegos, ou o space-off de suas representações. Eu o imagino como espaços nas margens dos discursos hegemônicos, espaços sociais entalhados nos interstícios das instituições e nas fendas e brechas dos aparelhos de poder-conhecimento. E é aí que os termos de uma construção diferente de gênero podem ser colocados – termos que tenham efeito e que se afirmem no nível da subjetividade e da auto-representação: nas práticas micropolíticas da vida diária e das resistências cotidianas que proporcionam agenciamento e fontes de poder ou investimento de poder; e nas produções culturais de mulheres, feministas, que inscrevem o movimento dentro e fora da ideologia, cruzando e recruzando as fronteiras – e os limites – das(s) diferença(s) sexual(ais) (LAURETIS, 1994, p. 237).
 
Para a estudiosa, “as mulheres se situam tanto dentro quanto fora do gênero, ao mesmo tempo, dentro e fora da representação” (LAURETIS, 1998, p. 218). O situar-se dentro e fora do gênero joga por terra as noções dualistas de representação baseadas apenas na oposição entre o feminino e o masculino.
Assim, a redefinição do espaço ocupado pelo corpo feminino na sociedade moçambicana, proposta pela personagem, contrapõe-se a noções dualistas de representação baseadas em oposições valorativas que excluem o feminino e o negro, com privilégio do masculino e do branco. Nem enquadrando-se no gênero, nem excluindo-se dele, mas gendrando e en-gendrando (LAURETIS, 1994) o corpo e o discurso, a voz narrativa conduz Maria das Dores ao encontro de sua condição feminina sequestrada, a fim de que ela possa ocupar seu lugar no mundo e viver o gênero evidenciando suas contradições, ideologias e as relações de poder a partir das quais ele se representa.
 
II
 
A relação entre a mulher e o silêncio tem sido assinalada pela crítica feminista há já algum tempo. Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, por exemplo, em sua obra The madwoman in the attic (2000)[3]3, que retomo a partir das considerações e análises desenvolvidas por Aparecido Donizete Rossi (2011/2016), ao associarem a pena ao falo estabelecem alguns pressupostos importantes para a reflexão sobre a situação da mulher no universo patriarcal que lhes significa na literatura canônica ocidental. As estudiosas apontam para o silenciamento que essa literatura impõe à mulher quando perguntam: “Is a pen a metaphorical pennis? [É a pena um pênis metafórico?]” (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 3). Respondendo afirmativamente à pergunta com base nos estudos de Anne Finch, Gilbert e Gubar observam que a pena, por ser uma ferramenta essencialmente masculina, pode ser pensada como um falo metafórico, o que as leva a afirmar que escrever, ler e pensar são, em si mesmas, atividade masculinas no contexto da literatura canônica ocidental.
A partir da associação entre gênero, literatura e poder, Gilbert e Gubar evidenciam a ausência da voz da mulher no espaço da escrita literária canônica ocidental, fato que, segundo elas, pode ser comprovado pelas representações da mulher nessa literatura. Essas oscilam entre duas imagens matriciais que espelham a projeção que a sociedade patriarcal e falocêntrica faz da mulher ao longo dos séculos: a de anjo, à qual estão associados os atributos da beleza, pureza, bondade, passividade, entrega aos afazeres domésticos, aos filhos e aos maridos; e a de monstro, representada pela bruxa, pela louca histérica, pela femme fatale, pela sereia, pela vampira, enfim, a ela associando-se uma autonomia inconciliável com a dependência feminina pressuposta pelo universo patriarcal e falocêntrico. Para Gilbert e Gubar, nos estereótipos do anjo e do monstro a literatura ocidental fixa os paradigmas a partir dos quais a mulher é lida e representada. Nas duas situações, resta à mulher uma condição de silenciamento. Seja ela leitora ou escritora, o silêncio é aquilo que a sociedade patriarcal falocêntrica lhe impõe e que espera dela, visto que sua possibilidade de expressar-se fica circunscrita à incorporação das máscaras com as quais ela é falada.
Intensificando o debate sobre a relação entre mulher e silêncio, Gayatri Chakravorty Spivak incorpora à discussão as diferenças de raça e de classe, observando como, no contexto do itinerário obliterado do sujeito subalterno, apesar de tanto o homem quanto a mulher serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurgência, a construção ideológica de gênero mantém a dominação masculina. Para a estudiosa, a violência epistêmica do imperialismo restringe ao sujeito subalterno a possibilidade de uma episteme. Porém, para Spivak, “se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (SPIVAK, 2010, p. 64).
A análise da obra de Paulina Chiziane que estamos fazendo neste estudo, embora superficial, ilustra a relação entre gênero, literatura e poder proposta por Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, como também as diferenças entre raça e classe acrescentadas ao debate por Gayatri Chakravorty Spivak. A moçambicana Paulina Chiziane é uma escritora negra que produze sua obra em um espaço com história de colonização. Por isso, vale a pena investigarmos como sua criação estética se constrói diante da constrangedora limitação que lhe impõe a relação entre gênero, literatura e poder e da restrição à possibilidade de fala com que se depara o sujeito subalterno feminino no contexto da produção colonial.
Segundo Gilbert e Gubar, como a pena pode ser associada ao falo, ao apropriar-se dela para escrever a mulher está, na verdade, de maneira inconsciente, apropriando-se de um objeto socialmente circunscrito ao masculino. A ausência, em seu corpo, de um órgão sexual que corresponda ao ato/poder de criar, que a leva a apropriar-se da pena/falo, gera na mulher um embate psíquico inconsciente, que, muitas vezes, encontra expressão na escrita das autoras quando elas produzem obras de caráter metatextual, discutindo o ato de escrever em suas narrativas. Esse embate psíquico, associado com a circunscrição da mulher aos estereótipos do anjo e do monstro definidos pela tradição literária patriarcal e falocêntrica, gera o que Gilbert e Gubar tratam como sendo a “angústia da autoria” (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 49) para mostrar como o tornar-se escritora é, para a mulher, uma experiência traumática.
Gilbert e Gubar associam a noção de angústia da autoria à de angústia da influência proposta por Harold Bloom. A angústia da influência diz respeito à construção da autoria, ao fato de que tornar-se escritor implica construir-se a si mesmo a partir do outro, da influência que se recebe de toda uma tradição de autores precedentes que deve ser apropriada, a qual, por sua vez, também se apropriou de toda uma tradição autoral que a precedeu. Implica, ainda, encontrar uma maneira de superar os predecessores, tornando-se um autor forte por renovar, de alguma maneira, a literatura precedente.
Para Gilbert e Gubar, no caso da escritora essa situação se complica, pois a tradição autoral que precede a escrita da mulher é masculina, patriarcal e falocêntrica. Além disso, essa tradição enquadra a mulher pelos estereótipos do anjo e do monstro, priorizando o anjo e repudiando o monstro. Tal constatação leva Gilbert e Gubar a concluírem que a tradição autoral que as mulheres encontram quando decidem tornar-se autoras não lhes fornece modelos nos quais elas possam inspirar-se, ou com os quais possam romper em seu processo de autoafirmação. Por isso, o que resta à mulher que deseja tornar-se autora é, na perspectiva aberta por Gilbert e Gubar, procurar uma precursora (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 49) que, longe de representar uma ameaça a ser contestada ou destruída, comprove a possibilidade de uma insurreição contra a autoridade literária patriarcal. À mulher que pretende tornar-se escritora resta, então, procurar uma tradição autoral feminina que lhe permita opor-se à autoria/autoridade literária patriarcal. Essa tradição literária autoral feminina é encontrada por Gilbert e Gubar em textos de várias escritoras inglesas dos séculos XVIII e XIX, tais como Jane Austen, Mary Shelley, Emily Brontë, Emily Dickinson, dentre outras.
Gilbert e Gubar informam que as obras dessas escritoras apresentam várias estratégias por meio das quais procuram desarticular e/ou subverter o patriarcado. A primeira estratégia elencada é o palimpsesto, por meio do qual as escritoras criaram uma tradição literária feminina que se configura por meio de uma simultânea relação de conformidade e subversão dos padrões literários patriarcais. A segunda estratégia é a evasão e a dissimulação, pelas quais as escritoras buscam, de maneira velada, dissimulada, reexaminar as imagens de mulheres herdadas da literatura masculina e definidoras das polaridades do anjo e do monstro, rejeitando os valores e pressuposições da sociedade que os criou e criando outras personagens que, por suas características monstruosas, sangrentas, invejosas, furiosas, insanas, funcionam como um duplo das escritoras e projetam, na escrita literária, sua prória raiva autoral. A terceira estratégia alia paródia e ambiguidade como resultado do fato de que, sendo a personagem louca um duplo de sua autora, ela pode ser vista como uma paródia tanto da autora quanto das mulheres monstruosas criadas pela literatura patriarcal. Por isso, a paródia permite às escritoras instalar, em suas narrativas, uma ambiguidade essencial, por meio da qual expressam e camuflam a crítica que propõem à literatura patriarcal. A quarta e última estratégia é a construção espacial presente nas escritas dessas mulheres, que é marcada pelo signo da reclusão, da clausura, do isolamento, da morte, refletindo o espaço social habitado pela própria mulher autora, ou seja, o da casa ou doméstico. As mulheres projetam a angústia sobre a clausura em sua arte a partir do espaço da casa, fundindo as angústias sobre a maternidade com as da criação literária. A partir daí, Gilbert e Gubar propõem que o útero, comumente associado à casa, também seja visto como espaço dominado por angústias. Nessa perspectiva, ele se torna espaço da loucura, da morte, mas também, forma de comunicação, de expressão da voz feminina, de seu discurso, de seu texto. O útero é proposto, então, pelas estudiosas, como espaço do impulso criativo feminino. É um desdobramento da pena que possibilita às mulheres a estratégia do palimpsesto. Por meio de uma série de associações as autoras mostram que o texto escrito pelo útero/pena não corresponde à “nulidade” ou à “vacuidade” (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 9) sugeridas pela cultura patriarcal, mas se caracteriza, antes, como enigma, mistério que coloca em xeque não apenas a literatura patriarcal, mas também o próprio Logos.
As observações de Gilbert e Gubar, inclusive relativas à existência de um cânone literário autoral feminino e de uma estética que lhe corresponda, nos permitem indagar sobre como devem proceder as mulheres negras que pretendem tornar-se escritoras e que produzem suas obras em contextos com história de colonização, como é o caso de Paulina Chiziane. A tradição autoral feminina sugerida por Gilbert e Gubar, composta por escritoras inglesas, burguesas e brancas dos séculos XVIII e XIX, poderia ser considerada como precursora pelas mulheres negras que se tornam escritoras? Existiria uma tradição autoral feminina que permitisse às escritoras negras insurgir-se contra a autoridade literária patriarcal, falocêntrica, racial e de classe? Existiria uma tradição autoral feminina negra na literatura ocidental? Existiria na literatura moçambicana?
Essas indagações nos permitem verificar como o tornar-se escritora é, para a mulher negra, e em nosso caso específico, para a mulher negra moçambicana, uma experiência ainda mais traumática. Aliás, com relação à literatura moçambicana, é preciso lembrar, antes de mais nada, que o próprio ato de assumir a língua portuguesa na escrita literária foi, para os escritores de maneira geral, traumática, uma vez que sua presença nos países africanos se dá por legado e imposição do processo de colonização europeu. Assim, apenas na segunda metade do século XX os escritores africanos assumem a língua portuguesa como pertença individual e coletiva. De qualquer forma, é preciso assinalar que grande parte da escrita literária moçambicana, como também africana de língua portuguesa, é essen­cialmente masculina. A literatura moçambicana espelha a exclusão das mulheres do espaço da escrita literária. Nela predominam vozes masculinas.
Laura Padilha atesta a ausência da produção de mulheres nas literaturas africanas de língua portuguesa chamando a atenção para o fato de que “o acesso ao texto verbal lhes era duas vezes barrado: por serem mulheres e africanas” (PADILHA, 2002, p. 171). Segundo a pesquisadora,
 
Encher de palavras o silêncio histórico foi para elas uma árdua e difícil conquista. Mesmo depois das independências, quando as nações se constituíram como comunidades políticas imaginadas – territorialmente limitadas e organizadas de modo soberano (ANDERSN, 1989, p. 14) –, o acesso das mulheres à condição de produtoras textuais não foi facilitado. A formação canônica em tais nações submeteu-se aos mesmos aparatos ideológicos e aos mesmos mecanismos de dominação cuja meta, como se sabe, é elidir as diferenças, sobretudo no que concerne a questões como as de raça e gênero (PADILHA, 2002, p. 171).
 
Destacando o papel importante do Boletim Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império – CEI –, editado entre 1948 e 1964, em Lisboa, na formação de um cânone literário africano de língua portuguesa, Padilha mostra que, embora a presença de escritores seja eminentemente masculina, as mulheres tomam parte dele, propondo duas imagens que se fazem recorrentes em suas produções: “a da mulher e a de seu duplo, a terra, significando esta o lugar de nascimento, a pátria” (PADILHA, 2002, p. 173 – destaques da autora). Para Padilha, a recorrência a imagens de mulheres se torna comum nas publicações da CEI, aparecendo, inclusive, em produções masculinas. Ressalta a pesquisadora que a imagem da mulher aparece sempre vinculada a uma metáfora genesíaca, “pois a mulher é sempre vista em África como fonte primeira da vida individual e clânica” (PADILHA, 2002, p. 173-174). Porém, nos textos femininos, além da vinculação metafórica à terra, a representação adentra a metonímia, por meio da qual, na esteira de Inocência Mata, Padilha afirma que a figuração da mulher põe em cena um “indivíduo com as suas dores e frustrações pessoais, as suas esperanças e desejos. E nessa dualidade (como indivíduo e como entidade político-cultural: a mátria) a figura da mulher emerge com facetas humanas” (MATA apud PADILHA, 2002, p. 174).
Ressaltando a participação das mulheres no Boletim Mensagem, Laura Padilha informa sobre a presença de três mulheres: Alda Lara, de Angola; Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe; e Noémia de Sousa, que escreve utilizando também o pseudônimo Vera Micaia, de Moçambique. Para esta reflexão, interessam-nos mais diretamente as observações de Padilha sobre a poética de Noémia de Sousa, em razão dos questionamentos que levantamos há pouco sobre a configuração de uma tradição de escrita feminina negra na literatura moçambicana.
Para Padilha, o principal traço significante da escrita de Noémia de Sousa é a sua feminilidade. Assim, “mesmo, muitas vezes, sem assumir marcas discursivas explícitas de um sujeito-mulher, sua poesia irrompe em forma de um feminino convulsionado pela revolta e por uma inadiável ânsia de libertação” (PADILHA, 2002, p. 183). Esse movimento do eu lírico projetado na voz em feminino de Noémia de Souza resgata uma tradição oral que se transforma na escrita, “daí o fato de o sujeito negar-se a ficar solitário, exigindo a presença de outras vozes, o que faz do seu um canto coletivo” (PADILHA, 2002, p. 183). Esse canto coletivo, para Padilha, coloca na cena poética as vozes dos “seres vitimados de sua terra; os torturados corpos marcados ‘pelos chicotes da escravatura’ dentro e fora da África, enfim, os negros de todo o mundo” (PADILHA, 2002, p. 183, destaque da autora). Por isso, a estudiosa conclui que o canto de Noémia de Sousa se desdobra como um canto coletivo.
Em oposição a essa vertente política da produção poética feminina apresentada no Boletim Mensagem, Padilha identifica, na literatura angolana, entre os anos 1950 e 1960, uma outra figuração do corpo feminino que ganhou as páginas dos jornais que funcionavam como espaço de circulação dessa produção poética em seus inícios, na época colonial. Essa figuração era proferida por uma voz “assimilada” (PADILHA, 2002, p. 221), construída a partir de um modelo que tinha a mulher branca e europeia como paradigma, mesmo travestida de africana, e que lançava, para o corpo feminino negro, um olhar externo que destacava nele o exótico e o sensual. Porém, como a pesquisadora informa, essas vozes “mergulham em uma espécie de limbo, praticamente se calando” (PADILHA, 2002, p. 221).
Estudando outras poetas africanas, Padilha vai mostrar que, da mesma forma que em Noémia de Sousa, a encenação do corpo feminino se faz a partir dos “mitos bantos de origem, sempre organizados em torno do feminino” (PADILHA, 2002, p. 204). Esses estudos mostram o comprometimento da figuração do corpo feminino com o corpo coletivo da nação, num entrelaçamento sígnico mulher/terra que se tornará um dos vetores da formação das chamadas modernas literaturas africanas produzidas em português. A esse respeito, Maria Nazareth Soares Fonseca chama a atenção para o fato de a construção de uma voz coletiva ser uma estratégia eficaz para aproximar a poeta de inúmeras mulheres exploradas pelo sistema colonial e afirma que “Esse mesmo recurso, em vários poemas de Noémia de Sousa, mostra prostitutas e magaíças como vítimas de um mesmo processo de exploração, como metonímias do sistema de opressão que a poeta condena” (FONSECA, 2004, p. 290).
Todavia, como adverte Maria Nazareth Soares Fonseca, “a adesão às causas coletivas não consegue dar voz aos anseios próprios de um segmento também marginalizado e submisso, o das mulheres” (FONSECA, 2004, p. 290). Daí, para a estudiosa, justificar-se a pouca presença de escritoras a figurarem nas antologias de poesia de autores africanos de língua portuguesa. Percebemos, assim, que a tentativa da voz feminina de Noémia de Sousa, como a de outras poetas das literaturas africanas de língua portuguesa, de romper o silêncio imposto para a mulher e subverter as leis da invisibilidade de seu corpo vai se confundir com o rompimento do silêncio imposto ao próprio corpo moçambicano/africano. No entanto, ao realizar esse intento por meio da projeção de uma voz coletiva feminina no espaço da literatura, essas mulheres, e entre elas Noémia de Sousa, vão “silenciar as manifestações próprias à feminilidade” (FONSECA, 2004, p. 291). Em função disso, analisando a produção poética mais recente de algumas autoras africanas, Fonseca classifica o lugar de fala dessas mulheres como “desconfortável”, “incômodo”, observando, porém, que é apenas a partir dele que elas podem “acolher as vozes dos excluídos com os quais (…) guardam fortes semelhanças” e, ao mesmo tempo, afastar-se “de algum modo, do compromisso com um projeto de luta” para inserir-se, pela escrita literária, em “um ritual de passagem para outras travessias” (FONSECA, 2004, p. 291) que deixem mais evidentes as pulsações do corpo feminino.
É nesse lugar “desconfortável”, “incômodo”, que a poética de Paulina Chiziane se insere. Por isso, acredito que a condição traumática em que Paulina Chiziane produz sua escrita literária se materializa na personagem protagonista de seu romance O alegre canto da perdiz como projeção dos limites contra os quais se debate o sujeito feminino negro em sua busca para expressar-se. A recusa da personagem por uma expressão que não lhe permite dizer de si, sua busca por uma linguagem outra, seu silêncio, encenam as estratégias pelas quais a escritora assume o desconforto e o incômodo como condição da/para a escrita e, consequentemente, para a construção de uma tradição autoral feminina que permita às escritoras moçambicanas – e africanas de língua portuguesa – negras insurgirem-se contra a autoridade literária patriarcal, falocêntrica, racial e de classe que as representa pelo silêncio, deslocarem-se de projetos coletivizadores que as esvaziam de si mesmas e
 
assumir[em] uma escrita que deixa espaço para a expressão da intimidade do eu, para a escuta de sugestões mais comprometidas com o universo de mulheres que, ainda silenciadas por fortes tradições, motivam a escrita de textos que transitam no espaço da literatura, procurando não se fechar às inter-relações com outros campos em que o corpo desenha diferentes coreografias, ainda quando só pode ser observado no desempenho de obrigações cotidianas (FONSECA, 2004, p. 295).
 
 
Referências
CASTRO, E. M. de Melo e. O próprio poético: ensaio de revisão da poesia portuguesa atual. São Paulo: Quíron, 1973.
CHIZIANE, Paulina. O alegre canto da perdiz. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
FONSECA, Maria Nazareth Soares. Literatura africana de autoria feminina: estudo de antologias poéticas. In: Scripta. Revista do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas. Belo Horizonte, v. 8, n. 15, 283-29, 2º sem. 2004.
KOVADLOFF, Santiago. O silêncio primordial. Tradução de Eric Nepomuceno e Luís Carlos Cabral. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
LAURETIS, Teresa. As tecnologias do gênero. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.) Tendências e impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 206-242.
MIRANDA, Maria Geralda; SECCO, Carmen Lucia Tindó (Orgs.) Paulina Chiziane: vozes e rostos femininos de Moçambique. Curitiba: Editora Appris, 2013.
PADILHA, Laura Cavalcante. Bordejando a margem (escrita feminina, cânone africano e encenação de diferenças). In: Scripta. Revista do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas. Belo Horizonte, v. 8, n. 15, 253-266, 2º sem. 2004.
PADILHA, Laura Cavalcante. Silêncios rompidos. In: PADILHA, Laura Cavalcante. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre literaturas luso-afro-brasileiras. Porto Alegre: EDIPUCS, 2002. p.171-186.
PADILHA, Laura Cavalcante. A encenação do corpo por três poetas africanas. In: PADILHA, Laura Cavalcante. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre literaturas luso-afro-brasileiras. Porto Alegre: EDIPUCS, 2002. p.187-204.
PADILHA, Laura Cavalcante. Corpo e terra: um entrecruzamento simbólico em falas poéticas de mulheres africanas. In: PADILHA, Laura Cavalcante. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre literaturas luso-afro-brasileiras. Porto Alegre: EDIPUCS, 2002. p. 219-228.
SANTOS, Mônica. Silêncio. In: SANTOS, Mônica et al. Léxico de Estética e Filosofia da arte. Disponível em: http://filosofiadaarte.no.sapo.pt/silens.html. Acesso em 07 de setembro de 2015.
SONTAG, Susan. A estética do silêncio. In: SONTAG, Susan. A vontade radical: estilos. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 11-40.
ROSSI, Aparecido Donizete. Segredos do sótão: feminismo e escritura na obra de Kate Chopin. Tese (Doutorado). FCL-Ar/Unesp, 2011. Disponível em:
http://base.repositorio.unesp.br/handle/11449/102372. Acesso em 25 de janeiro de 2016.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-philosophicus. Tradução e apresentação de José Arthur Giannotti. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968.
 
NOTAS
[1] Disponível em: http://www.aulete.com.br/silêncio. Acesso em 07 de setembro de 2015.
[2] Não nos parece inadequado sugerir que a cena dialoga com a tela O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. A pintura está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália. É provável que tenha sido feita em 1485. No quadro, a deusa clássica Vênus emerge das águas em uma concha, sendo empurrada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolo das paixões espirituais, e recebendo, de uma Hora (as Horas eram as deusas das estações), uma manto bordado de flores. Alguns especialistas argumentam que a deusa nua não representaria a paixão terrena, carnal, e sim a paixão espiritual. O efeito causado pelo quadro foi de paganismo, já que foi pintado em época em que a maioria da produção artística se atinha a temas católicos. Na antiguidade clássica, a concha do mar era metáfora para vagina. (Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Nascimento_de_Vênus).
[3] Não é objetivo deste texto explorar a fundo as importantes reflexões de Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, motivo pelo qual remetemos para as elucidações, considerações e análise crítica da obra das autoras feitas por Aparecido Donizete Rossi em sua Tese de Doutorado Segredos do sótão: feminismo e escritura na obra de Kate Chopin, defendida na FCL-Ar/Unesp em 2011, salientando sua contribuição para a leitura que apresento neste artigo. Disponível em: http://base.repositorio.unesp.br/handle/11449/102372. Acesso em 25 de janeiro de 2016.





Bio fornecida pelo palestrante.

OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA FEMININA NA ITÁLIA: UNA DONNA, DE SIBILLA ALERAMO – Maria Cecilia Casini, Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti




 

 Maria Cecilia Casini

Universidade de São Paulo (USP)

Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti

Universidade de São Paulo (USP)

 

Resumo: O texto apresenta o caso exemplar da escritora italiana Sibilla Aleramo, que no começo do século XX, com a publicação de seu primeiro livro, Una donna, tornou-se personagem de referência da questão da mulher na Itália, tema de debates e discussões na época, culturais, políticas e sociais; e, em particular, na literatura feminina italiana, para qual a autora apontou direções e modalidades de escrita, reconhecendo-lhe uma especificidade própria, que a distanciava do modelo masculino.
 
Palavras-chave: Literatura italiana; mulher; Literatura feminina; Sibilla Aleramo
 
Abstract: This article presents the model case of the Italian writer Sibilla Aleramo from the beginning of the twentieth century. The publication of her first book, Una donna, became a reference in the Woman Question in Italy, the subject of cultural, political and social debates and discussions; and, particularly, in the feminine Italian literature The writer indicated directions and modalities of writing by recognizing its specificity, which differentiated it from the masculine model.
 
Key-words: Italian Literature; women; Feminine Literature; Sibilla Aleramo
 
Minicurrículo: Maria Cecilia Casini é formada em Letras pela Universidade de Florença (Itália). É doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH/USP, com Pós-Doutorado na Universidade “L’Orientale” de Nápoles (Itália). É docente de Literatura Italiana no Departamento de Letras Modernas da FFLCH/USP. Desenvolve pesquisas sobre a Literatura Medieval e Renascentista italianas; a literatura clássica e a formação do cânone literário; a história da língua literária italiana; a literatura comparada. Dirige o grupo de pesquisa “A tradição literária italiana”, voltado ao aprofundamento do estudo das relações interculturais entre Brasil e Itália. É membro da ABPI (Associação Brasileira dos Professores de Italiano); da AIPI (Associazione Internazionale dei Professori di Italiano) e do Comitê Diretivo da SILFI (Società internazionale di Linguistica e Filologia Italiana).
 
Minicurrículo: Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti é formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Culturas Italianas nessa mesma universidade, onde desenvolve um projeto de pesquisa sobre Italo Svevo sob orientação da Profa. Dra. Maria Cecilia Casini. É membro dos grupos de pesquisa “A tradição literária italiana” e “Literatura Italiana e Outras Artes”.
 


 
OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA FEMININA NA ITÁLIA:
UNA DONNA, DE SIBILLA ALERAMO
 
Maria Cecilia Casini
Universidade de São Paulo (USP)
 
Thaís Helena de Barros Neves Cavalcanti
Universidade de São Paulo (USP)
 
 
Introdução
Nos anos setenta a televisão italiana exibiu uma minissérie inspirada na obra principal de Sibilla Aleramo (1876-1960), Una donna, cujo inesperado sucesso impeliu milhares de jovens e adolescentes a procurar e ler um livro escrito no começo do século por uma escritora não exatamente conhecidíssima, desatualizada do ponto de vista político, totalmente superada em termos estilísticos. Tratou-se verdadeiramente de um fenômeno popular de vulto, em decorrência do qual houve até a momentânea inclusão do texto da autora nos programas escolares oficiais. Estávamos, talvez, no período de maior pico da recrudescência internacional do movimento feminista, tendo-se deslocado o foco da luta para o direito ao voto a reivindicações de ordem geral, visando ampliar o leque dos direitos civis aos quais as mulheres ambicionavam; mas era a sexualidade que ocupava o centro de todas as lutas do movimento feminista, agora sim fortemente presente em cada desdobramento da sociedade civil, da educação à saúde, da cultura à política, da arte à religião. Era portanto o momento certo para a volta da escandalosa Sibilla à cena cultural italiana, depois do esquecimento que se seguiu a sua morte. Em 2002, os prêmios atribuídos pelo juri do Festival do Cinema de Veneza ao filme Un viaggio chiamato amore, sobre o relacionamento entre Sibilla e o poeta Dino Campana, reacenderam o interesse pela obra da escritora, fazendo com que a maioria de suas obras fossem reeditadas, incluindo algumas de difícil fruição.
De fato, trata-se de uma obra extensa[1], quase integralmente doada por disposição testamentária à “Fondazione Istituto Gramsci”, de Roma. A “Fondazione” estrutura-se como o arquivo histórico do Partido Comunista Italiano, além de estar voltada desde seu nascimento (em 1949) para a história das mulheres: além do “Fondo Aleramo”, possui o arquivo “Camilla  Ravera”, rico em material referente à memória e à escritura feminina. O “Fondo Aleramo” é composto por todas as principais edições dos livros de Sibilla (excluindo o manuscrito original de Una donna, na “Biblioteca Nazionale Centrale” de Florença); por várias primeiras edições autografados de textos representativos da época (inclusive uma preciosíssima dos Canti orfici de Dino Campana, com anotações do próprio punho do poeta de tudo que tinha sido publicado a respeito na imprensa); pela maior parte da correspondência, por fotografias da escritora e de outros, por retratos de Sibilla feitos por vários artistas (Viani, Conti, Guttuso, Cascella, Pieraccini, Lamberti); por uma massa imensa de folhetos, anotações, rascunhos, pró-memória etc; existe ainda um “Fondo Aleramo” no Arquivo de Estado de Florença, basicamente composto por cartas de e para a escritora.
No entanto, a fama de Aleramo na Itália é ligada quase somente a seu primeiro livro, Una donna, escrito em um período particularmente difícil de sua vida (a separação do marido e a consequente perda dos direitos familiares sobre o filho pequeno), publicado em 1906. Essa e outras circunstâncias fazem de Sibilla Aleramo um caso único no panorama cultural italiano do começo do século XX, mesmo no âmbito da história dos movimentos de reivindicação e de autodeterminação feminina, que na época encontravam-se em seu pleno desenvolvimento. Em um país ainda bastante conservador como a Itália, ainda não acostumado à participação ativa das mulheres em setores sempre mais amplos da sociedade; o fato de uma mulher decidir abandonar o lar para ir viver more uxorio com outro homem (o escritor Giovanni Cena), dedicando-se à literatura e a trabalhos sociais de vários tipos (a causa feminista, certamente; mas, também, a implementação de escolas de alfabetização para os paupérrimos camponeses do Agro romano[2]; ou a ajuda prestada às vítimas do terrível terremoto de Messina, na Sicília, de 1908); tornando-se, em seguida, amante de muitos dos intelectuais italianos mais importantes da época; aderindo, já velha, ao Partido Comunista; constituiu um escândalo sem proporções. Não foi suficiente que, no livro, a autora relatasse os  fatos que a levaram, depois de quase dez anos de  casamento, à decisão de deixar o marido e o filho (a desagregação de sua família de origem; o estupro sofrido pelo então namorado, com quem depois foi obrigada a casar; o ciúme doentio deste; as contínuas violências, físicas e morais, às quais era sujeita em casa): durante toda sua vida, Sibilla foi cercada por uma aura de escândalo, e pela fama quase mítica de mulher sedutora, devoradora de homens, insaciável (além de tudo, era muito bonita).
De qualquer forma, desde seu primeiro livro, de grande sucesso de público e de crítica[3], até à última produção, de teor mais íntimo e privado (os diários), a reflexão que está no cerne de toda a obra da escritora concentrou-se sempre na possibilidade da existência de um tipo (gênero?) de escrita tipicamente feminina, e nas especiais modalidades de sua criação e de sua prática. Tal reflexão habilita, de fato, Sibilla Aleramo, a ficar entre as pioneiras italianas da teorização de uma genealogia feminina em literatura, capaz de participar, junto da masculina, da construção de um passado comum; e, consequentemente, de propor a criação de um novo cânone literário aberto às dinâmicas da perspectiva da mulher.
 
A questão da mulher na Itália
A questão da mulher explode na Itália nas últimas décadas do XIX século. Já em 1861 (ano da unificação da Itália), Marco Minghetti, ministro do interior do primeiro governo unitário, tinha formulado a primeira proposta para o sufrágio feminino – sem sucesso; de fato, as mulheres italianas obterão o direito de voto somente em 1946 -, na onda das celebrações pós-unificação. Determinante para o movimento das reivindicações femininas é a entrada maciça de mulheres nas fábricas, embora em condições de inferioridade com relação aos homens (recebendo salários mais baixos), e instrumentalizadas pelos donos das fábricas, que as opõem às massas masculinas, já sindicalizadas. São fundadas as primeiras revistas e jornais, visando definir um modelo de mulher engajada e consciente; são organizadas as primeiras greves de mulheres; é criado o primeiro sindicato feminino de categoria, o das bordadeiras (1883). A presença feminina no corpo docente das escolas do Reino aumenta significativamente, consequência direta da melhora do nível da escolarização feminina e dos baixos salários dos professores. Entre 1870 e o fim dos anos Noventa são abertas associações, ligas, círculos; textos fundamentais são traduzidos em italiano (entre outros, A sujeição da mulher, de John Stuart Mill; Casa de boneca, de Henrik Ibsen; A mulher e o socialismo, de August Bebel). Graças à ação de divulgação dos instrumentos da imprensa, as associações femininas italianas conseguem manter-se em estreito contato com as iniciativas e as atividades das ligas e das organizações estrangeiras, publicando as atas dos congressos e encontros que acontecem em vários lugares da Europa e enviando representantes próprias. Os trabalhos de pesquisa no campo – enquetes sobre a sexualidade, o divórcio, a educação dos filhos, o voto, a alfabetização das massas etc –, aumentam consideravelmente. A 1890 remonta a famosa palestra Il monopolio dell’uomo[4], de Anna Kuliscioff, reivindicando iguais condições políticas, jurídicas, econômicas. Em 1892 nasce o Partido Socialista Italiano: o que parecia ser motivo de esperança para a causa feminina retumba em clamoroso desapontamento, já que os socialistas receiam que, favorecendo o acesso ao voto para as mulheres – em geral mais atingidas pelo analfabetismo, pela ignorância popular e pela influência clerical –, criariam um eleitorado hostil, pondo em risco seu próprio sucesso político; tendem portanto a absorver a questão feminina na operária, equiparando a mulher ao trabalhador homem e privilegiando a luta social às suas reivindicações. Essa falta de sensibilidade para com a mulher resulta em rachas fatais dentro dos próprios movimentos emancipacionistas: em 1907, depois do golpe da recusa do Partido Socialista de levar adiante a questão do voto feminino, pode-se dizer que o movimento das mulheres na Itália já tinha concluído sua primeira estação, definindo-se decididamente segundo diretrizes de ‘normalização’, à espera de momentos mais adequados. Isso leva a um progressivo esvaziamento de sua carga revolucionária e, pelo menos até o fim da Segunda Guerra Mundial, orienta a ação das participantes em termos da mera filantropia de conteúdo vagamente social, ou do simples suporte à ação masculina. Todas essas temáticas estão presentes na obra de Sibilla Aleramo, acompanhando o desenvolvimento do movimento feminista, italiano e internacional.
 
A literatura feminina na Itália
Mas, falando mais especificamente em literatura, como se dá a presença feminina na Itália, entre o final do século XIX e o começo do XX? Existem mulheres que saibam, colhendo a herança já codificada das letras, enveredar por um caminho literário próprio, de criação e estética autônoma, alcançando resultados originais? Na verdade, se por um lado nunca faltaram na história literária italiana escritoras e poetisas[5], em sua famosa Storia della letteratura italiana[6] o grande crítico Francesco De Sanctis se esquece quase completamente delas, realizando, em plena  época moderna, uma supressão “drastica, e a lungo definitiva, della soggettività femminile dalla memoria storica della tradizione italiana”[7] (ZANCAN, 1998, p. XIII).
Mais ou menos no mesmo período, Benedetto Croce, nas páginas da revista La critica, trava uma polêmica com a forma de escrever da mulher, destinada a marcar durante muito tempo a historiografia oficial. Se por um lado Croce retoma e supera De Sanctis, enquanto é obrigado, diante da realidade histórica que vê as mulheres sempre mais presentes no campo literário da época, a abrir pela primeira vez uma reflexão sistemática sobre a subjetividade feminina e a forma de escrita com que essa se expressa; por outro o faz, em uma ação algo autoritária na definição da esfera de atividade reservada às mulheres, segundo uma diretriz de pensamento crítico já bastante estruturada e codificada, que vê e quer a mulher autora exclusivamente na esfera íntima dos sentimentos. O que Croce agrega à definição da escrita feminina reafirma a substancial esquizofrenia inerente, segundo ele pensa, a cada forma de escrita desse tipo, intrinsecamente imperfeita enquanto cindida entre um conteúdo de valor próprio e uma forma que substancialmente não lhe pertence, por estar historicamente ligada a uma outra cultura (a masculina): admitindo então por de lado a preocupação pela forma, o filósofo dirige sua atenção exclusivamente ao conteúdo da escrita, da qual sublinha o valor ético-moral, unicamente decorrente das altas qualidades humanas do texto. Em seu ‘batismo’ historiográfico, o olhar crítico codificado pela tradição parece carregar a escrita das mulheres como que de uma sina de nascença, que lhe nega direito de cidadania entre as formas de arte verdadeiramente relevantes, destinando-a a “narrare in tono minore la parzialità della realtà sentimentale”[8] (ZANCAN, 1998, p. XV); condenando-a, portanto, a uma condição inapelável de invisibilidade e esquisitice.
De fato, é em termos de “pericolo roseo”e “gaietto sciame”[9] (FOLLI, 2000, p. 11) que o escritor e jornalista Luciano Zuccoli expressa-se a propósito das mulheres que, no começo do século XX, agitam a cena literária italiana. E não menos severos com suas colegas escritoras demonstram ser Renato Serra, Giovanni Boine, Giuseppe Antonio Borgese; sem falar em Croce, embora o constante tratamento do tema pareça revelar a inadiabilidade de enfrentar, em sede crítica, uma realidade de fato já mais do que atuante. Mesmo se ainda com certa dose de complacência, quem melhor se confronta com o problema de um diferencial expressivo que ainda não teria encontrado o seu nome é Giuseppe Antonio Borgese, que justamente com Sibilla Aleramo entretém uma troca de escritos durante a qual, em uma tentativa de definição do “libro di donna” e, para tal, aceitando fazer-se “anche un po’ lettrice”, reconhece à escritora, provida de “passione intelligente”[10] (FOLLI, 2000, p. 12), plena paridade com o escritor homem.
Já nas primeiras décadas do século XIX, há na Itália algumas vozes femininas de certa relevância, entre as quais Maria Giuseppina Guacci, Rosina Muzio Salvo, Enrichetta Caracciolo, Caterina Percoto, Cristina Trivulzio di Belgioioso; de pouco anteriores a Sibilla, Marchesa Colombi, Emma, Bruno Sperani (pseudônimo de Beatrice Speraz), Neera, Regina di Luanto, Contessa Lara, Annie Vivanti, Matilde Serao, Donna Paola, Willi Dias, Anna Franchi, Clarice Tartufari; praticamente coetâneas de Aleramo, Amalia Guglielminetti, Leda Rafanelli, Carolina Invernizio, Maria Messina, Ada Negri, e Grazia Deledda (que em 1926 ganhou o Nobel).
É, portanto, nessa ‘tradição’ de escritoras, que Sibilla Aleramo agrega seu caso exemplar: nascida em 1876, ela pertencia àquela geração de mulheres do final do século que maior lucidez alcançaram na investigação da especificidade feminina; e que, pelo menos em parte, exerceram seu ofício intelectual menos condicionadas por pertencer a um dado sexo, a partir de uma condição de menor submissão, historicamente mais aptas a reconciliar a ruptura entre vida e prática da escrita.  A produção literária sibilliana configura-se como percurso de formação em ato, aproximando-se da única experiência de Bildungsroman feminino provida de valor original, o da tradição inglesa, que tem em Jane Austen, George Eliot, nas irmãs Brontë suas fundadoras, evitando cuidadosamente cair na armadilha da “supplenza simbolica”[11] (MORETTI, 1999, p. XV) já exercida pelas formas da escrita feminina codificadas (“romanzo familiare”; “romanzo del matrimonio”; “romanzo dell’adulterio”)[12] (MORETTI, 1999, p. 8). Nesse sentido, ela representa bem – principalmente em Una donna e Il passaggio – uma modalidade de constituição da cultura humana, isto é, uma ‘forma simbólica’[13] da modernidade, permanecendo ainda hoje legitimamente central na reflexão sobre a identidade literária feminina. A partir de sua primeira obra, o autobiográfico Una donna, Sibilla entra no âmago do próprio conceito de emancipação, indicando de maneira inapelável a impossibilidade expressiva da mulher, decorrente de seus deveres de esposa e de mãe na estrutura familiar e social da época, ao mesmo tempo em que individualiza e principia desenvolvendo alguns núcleos temáticos sobre escrita de mulheres.
 
Una donna, de Sibilla Aleramo
Una donna foi publicado pela editora STEN em 1906; e tornou-se imediatamente um caso, que ia além de seu valor artístico, e que, alimentando polêmicas acirradas, já parecia anunciar o ‘jeito Sibilla Aleramo’ de ser. Contando em forma de biografia romanceada, ficcional, sua própria experiência de vida, Sibilla inovou, tanto pelo tema, quanto pela maneira extremamente franca com que o tratou, tanto no plano estilístico quanto de conteúdo. Não que esse tivesse sido, na literatura italiana, o primeiro texto a retratar a triste sorte da mulher malcasada e inconformada, impedida de expressar sua individualidade; nem que a exigência de se manter fiel à verdade fosse inovação absoluta de Sibilla: cabe pelo menos citar Un matrimonio in provincia, de Marchesa Colombi (1885); e a literatura de Caterina Percoto, cujos textos eram constantemente reprovados sob alegação de ‘excesso de realidade’ (embora o ambiente fosse o do Verismo), que mal condizia com o “scritto di donna” clássico: isto é, de fantasia[14] (MORANDINI, 1980, pág.77). Mas Una donna é o primeiro texto que, juntando o tema feminino com a forma autobiográfica, de teor quase confessional; e narrando em primeira pessoa, para obter o máximo efeito de identificação entre autor e personagem – na medida em que elimina qualquer nome identificador dos personagens -, permite chegar a um nível inusitado de abstração e de universalização do tema, levando o leitor a seguir o processo de revelação e descoberta da protagonista até às últimas consequências; e, ao mesmo tempo, proporcionando-lhe um altíssimo grau de percepção da realidade. Foi justamente esse acréscimo de realidade ‘real’, essa forte e não capciosa ‘verdade’ do texto, que consagrou Una donna junto à crítica e ao público.
Em um certo sentido, Una donna agiu como um divisor de águas no mundo cultural italiano daquele começo do século: ao lado das inúmeras reações positivas, que conquistam para a autora a estima e o respeito de muitos representantes das letras, na Itália como na Europa; o livro provocou também reações adversas, suscitando a rejeição de intelectuais, menos afinados com as reivindicações femininas; e até de certa parte do feminismo histórico italiano, que já a essa altura, como vimos, frente às dificuldades que a questão da mulher tinha para emplacar de vez na pauta do debate sócio-político, estava começando a regredir em suas ambições emancipacionistas e a ajustar-se em uma vertente mais geralmente social. Em particular, o final do livro – o abandono do filho por parte da mãe – causou escândalo, senão franca rejeição, até em amigas de Sibilla[15], como Ersilia Maino (que foi a única, junto com Cena, a ter acesso aos manuscritos originais; e que vinha expressando à amiga suas opiniões, à medida que o trabalho procedia): as duas esfriaram os contatos, depois da troca de correspondência que acompanhou toda a elaboração do texto e das várias tentativas, todas frustradas, do marido de Ersilia, advogado, para obter a guarda do filho para Sibilla (BUTTAFUOCO; ZANCAN, 1988, p.153).
Sem dúvida, há em Una donna os elementos típicos e facilmente reconhecíveis da literatura folhetinesca – e já feminina ‘clássica’ – da época, herança direta do imaginário romântico popular: uma bem calculada mistura entre drama familiar, psicologismo, temas da atualidade, evidentes intenções educativo-formativas: expressados em uma linguagem amplificada e passional, muitas vezes enfática e repetitiva. Mas a autora agrega a eles uma sinceridade absoluta, deslocadora, radicalmente fora dos padrões dessa mesma convenção literária; o que de alguma maneira subtrai o livro à mecanização do modelo de referência e o torna obra única, autenticamente original, provida de aura própria. Sibilla inovou sobretudo nisso e, dentro do estilo engessado das convenções codificadas da época, conseguiu passar o frescor de sua proposta em termos de novidade vivificante.
Ecco, anzitutto, un libro profondamente, compiutamente sano. Concetto qualche volta frainteso è questo della sanità letteraria. Certi libri (…) che toccan piaghe terribili (…) son quelli ch’io dico sani, perché ammettono e ispirano la fede in un possibile rimedio. Qualunque convinzione taluno possa essersi fatto sulla indifferenza necessaria all’arte, cade di fronte alla sincerità grande dell’autrice, sincerità che subito si rivela, e diviene tosto un elemento di vitalità estetica, e la traduce in espressione viva; e così, mentre credevamo di uscir dall’arte per la propaganda, ci avvediamo che il calore di questa ci ha sempre mantenuto nelle alte sfere di quella. (BONTEMPELLI, “Una donna”, em Il Grido del Popolo).
Pochi romanzi moderni io ho letti, che racchiudano come questo un dramma così grave e profondo nella sua semplicità, e lo rappresenta con pari arte, in una forma così nobile e schietta, con tanta misura e tanta potenza (…) il romanzo è chiuso da una breve perorazione, da un appello al figlio lontano. L’intendimento estraneo all’arte si scopre troppo palesemente; e l’arte ne soffre. È il solo punto, a parer mio, in cui l’autrice non abbia saputo padroneggiare la realtà come fin qui aveva fatto, meravigliosamente, in tutta la narrazione. (PIRANDELLO, “Una donna, em Gazzetta del Popolo).
 
Finalizando, reproduzimos, entre tantos outros, esses dois trechos das resenhas dedicadas ao livro por dois dos principais intelectuais da época, Massimo Bontempelli e Luigi Pirandello[16]; que, mais sensíveis ao problema da renovação literária, souberam vislumbrar na obra de Sibilla Aleramo aquele fundamental aspecto da ‘sinceridade’, enquanto o elemento estrutural de uma forma nova de fazer literatura na Itália.
 
 
Bibliografia:
ALERAMO, Sibilla. Uma mulher. Trad. de Marcela Mortara, prefácio de Maria Antonietta Macciocchi e posfácio de Emilio CecchiSão Paulo: Marco Zero (coleção Ciranda do Mundo, ed. Maria José Silveira, Mércio Sousa, Felipe Lindoso), 1984.
ALERAMO, Sibilla. Una donna. Prefácio de Maria Corti. Milão: Feltrinelli, 1993.
BUTTAFUOCO, Annarita; ZANCAN, Marina. Svelamento. Sibilla Aleramo: una biografia intellettuale. Milão: Feltrinelli, 1988.
FOLLI, Anna. Penne leggere. Neera, Ada Negri, Sibilla Aleramo. Scritture femminili fra Otto e Novecento. Milão: Guerini, 2000.
MORETTI, Franco. Il romanzo di formazione. Turim: Einaudi, 1999.
CASSIRER, Ernst. Filosofia delle forme simboliche. Milão: Sansoni, 2004.
MORANDINI, Giuliana. La voce che è in lei. Antologia della narrativa femminile italiana tra ‘800 e ‘900. Milão: Bompiani, 1980.
ZANCAN, Marina. Il doppio itinerario della scrittura, Turim, Einaudi, 1998.
 
 
NOTAS
[1]Da qual podemos citar os textos mais representativos: Momenti, 1920; Trasfigurazione, novella (lettera non spedita), 1922; Amo dunque sono, 1927; Poesie, 1929; Il passaggio, 1932; Il frustino, 1932; Sì alla terra, 1934; Orsa minore (note di taccuino), 1938; Dal mio diario (1940-1944), 1945; Selva d’amore, 1947; Il mondo è adolescente, 1949; Aiutatemi a dire, 1951; Russia alto paese. Prose e poesie, 1953; Gioie d’occasione e altre ancora, 1954; Luci della mia sera, 1956; Diario di una donna. Inediti 1945-1960, 1978.
[2] Entende-se por Agro romano a vasta região campestre fora dos muros de Roma; até pelo menos a década de Trinta, tratava-se de terras desoladas, imensas, assoladas pela malária, de propriedade das mais ricas famílias romanas, que as destinavam à coltura extensiva ou ao pasto; para lá dirigiam-se os ‘guitti’, espécie de retirantes das regiões mais pobres do Lazio, Abruzzo e Campania, para trabalhar por estação, junto da população local, em regime de vergonhosa exploração por parte dos latifundários proprietários das terras. Em 1904 Anna Fraentzen Celli, esposa do cientista e expecialista em malária Angelo Celli, criou uma escola para os camponeses do Agro, junto à secção romana da “Unione femminile”, graças ao apoio do inspetor do Ministério da Pública Instrução, Alessandro Marcucci. A escola, que combinava a impostação pedagógica de Maria Montessori com as teorias sobre arte popular de Maksim Gorki, apresentava-se ao mesmo tempo como instrumento de resgate educativo e de inclusão social para os camponeses.
[3] No exterior também: na França, Anatole France o aconselherá a Calman-Lévy, que o publicará em 1908; na Alemanha, sairá em 1909, com prefácio de Georg Brandes. Além do francês e do alemão, o livro será logo traduzido em muitos outros idiomas, como o inglês, o russo, o espanhol, o sueco, o polonês; no Brasil será traduzido por Marcella Mortara em 1984.
[4] O monopólio do homem.
[5] Conforme testemunham obras catalogadoras do século XVIII (como os Componimenti poetici delle più illustri rimatrici d’ogni secolo, de Luisa Bergalli, publicados em Veneza em 1726; ou Della storia e della ragione d’ogni poesia, editado em Bolonha por Francesco Saverio Quadrio entre 1739 e 1752); ou, ainda, segundo atestam obras mais recentes (como a Biblioteca femminile italiana raccolta posseduta e descritta dal conte Pietro Leopoldo Ferri Padovano, de 1842; e o Indice storico bio-bibliografico de Carlo Villani – em particular, a seção intitulada Stelle femminili, editado em Nápoles em 1913).
[6]A mais bela história de uma literatura nacional jamais escrita, segundo René Wellek, a Storia da literatura italiana foi composta por De Sanctis nos anos 70 do século XIX.
[7]“drástica, e por muito tempo definitiva, da subjetividade feminina da memória histórica da tradição italiana”.
[8] “narrar, em tom menor, a parcialidade da realidade sentimental”.
[9] “Perigo cor-de-rosa”; “enxame multicolorido”.
[10] “livro de mulher”; “também um pouco leitora”; “paixão inteligente”. Mas ressalte-se que ponto de partida da análise de Borgese é a obra de Colette, La vagabonde.
[11] “Suplência simbólica”.
[12] “Romance familiar”; “romance do casamento”; “romance do adultério”.
[13] Conforme a teoria das formas simbólicas formulada por Ernst Cassirer (2004).
[14]“Escrita de mulher”.
[15] Em geral, a leitura que as mulheres fizeram de Uma donna foi sujeita às exigências do debate e das lutas políticas daqueles anos, e, em geral, bem mais severa para com às teses da escritora que a de seus colegas homens. Comentários pouco positivos, se não francamente negativos, foram os de Gina Lombroso, Virginia Olper Monis, Bruno Sperani (Beatrice Speraz).
[16]“Aqui está, antes que mais nada, um livro profundamente, absolutamente sadio. Conceito às vezes equivocado, este da saúde literária. Alguns livros (…) que tratam de males terríveis (…) são aqueles que eu defino sadios, pois admitem e inspiram a fé na possibilidade de uma cura. Qualquer ideia que possamos ter formado acerca da indiferença necessária à arte, ela desaparece, frente à sinceridade da autora; sinceridade que revela-se imediatamente, tornando-se um elemento de vitalidade estética, traduzida em viva expressão; assim, enquanto pensávamos de poder sair da arte com os meios da propaganda, nos demos conta de que o calor  desta sempre nos manteve nas altas esferas daquela” (trad. nossa).
“Poucos romances modernos eu li, que representem, como esse, um drama tão grave e profundo, em sua simplicidade; e que o descrevam com arte igual, em uma forma tão nobre, e franca; com tanto equilíbrio, e força (…) o romance acaba com uma breve peroração, um apelo ao filho perdido. A intenção, estranha à arte, revela-se com excessiva evidência; e é a arte que padece disso. É este o único momento, segundo me parece, em que a autora não tenha sabido dominar a realidade, como até então tinha feito, maravilhosamente, em toda a narrativa” (trad. nossa). (BUTTAFUOCO; ZANCAN, 1988).





Bio fornecida pelo palestrante.

FORA E DENTRO DO CÍRCULO – ESCRITORAS E O MO(VI)MENTO BEAT – Miriam Adelman e Renata Senna Garraffoni




 

 Miriam Adelman e Renata Senna Garraffoni

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

 
 
Resumo: Análise do movimento beat de mulheres e de artigos referentes ao tema neste número de Mulheres e Literatura.
 
Currículos:
Miriam  Adelman é socióloga,  escritora e tradutora. Nascida nos EUA,  mora no Brasil desde 1991.  Obteve seu M. Phil. em Sociologia da New York University (1991) e seu Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC (2004) com a tese A voz e a escuta: encontros e desencontros entre a teoria feminista e a sociologia contemporânea (Blucher, 2008). Desde 1992 é professora de sociologia da UFPR.  Atualmente leciona no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e no Programa de Estudos Literários nessa instituição.
 
Renata Senna Garraffoni é historiadora, formada pela Unicamp em 1997, mestra (1999) e doutora (2004) em História na mesma instituição. É professora no Departamento de História e do Programa de pós-graduação em História da UFPR. Atua na área de História Antiga (Império Romano) e trabalha em uma perspectiva interdisciplinar entre História, Literatura e Arqueologia. Sua paixão pelas múltiplas formas de escrita, tradução e literatura a atraiu ao estudo da geração beat há mais de uma década. Em 2011, como tutora do PET-História da UFPR, coordenou uma pesquisa coletiva sobre a geração beat, momento em que estabeleceu a parceria com Miriam Adelman, realizando várias atividades com alunos e alunas de graduação e pós-graduação na UFPR e com a comunidade.
 
 
FORA E DENTRO DO CIRCULO –
ESCRITORAS E O MO(VI)MENTO BEAT
 
Miriam Adelman e Renata Senna Garraffoni.
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
 
Resumo: Análise do movimento beat de mulheres e de artigos referentes ao tema neste número de Mulheres e Literatura.
 
Nas primeiras décadas do século passado, a escritora inglesa Vírginia Woolf, preocupada com a questão da participação das mulheres na vida cultural e intelectual da modernidade europeia,  lançou para seu público uma pergunta sobre os efeitos que  uma exclusão histórica – a ‘falta de uma tradição’  literária na qual se inserir e se espelhar – teria tido sobre elas. Poderiam as mulheres valorizar sua própria voz, suas percepções, suas experiências?  E quais as condições necessárias para que uma mulher se tornasse escritora – as simbólicas, mas também as materiais, o que neste caso quer dizer as básicas, como ter ‘um teto todo seu’, dinheiro para se alimentar e para viabilizar seu uso do tempo para uma finalidade artística ou literária?  Para Woolf, numa incisiva discussão que mais tarde seria retomada por outra pioneira, Simone de Beauvoir, a tradição literária e filosófica ocidental teria se constituído claramente como espaço e província masculinos, funcionando como aparato de poder que atribuía capacidades e privilégios: o poder de criar, de incitar e permitir a fala, de sustentar ou de silenciar discursos. Uma visão, afinal, que hoje poderíamos chamar de ‘generizada’, sobre cultura, discurso e poder, e que de certa forma antecipa os muito acolhidos insights de um homem da segunda parte do século, o filósofo francês Michel Foucault.
Três décadas mais tarde, do outro lado do Atlântico, um grupo de mulheres que frequentava a ‘boemia’ e os espaços de uma nova vanguarda cultural norte-americana teve que enfrentar a ação destes mecanismos de exclusão sobre suas próprias vidas e opções de inserção social.   Conforme elas mesmas chegaram a explicitar, estas jovens, nascidas na década de 1930, tinham aspirações que as colocavam numa batalha cotidiana com os costumes e a moral do seu tempo, aspirações que constantemente ameaçavam ser frustradas. E o custo existencial e emocional seria altíssimo. Espelhar-se na vida das suas mães ou curvar-se diante das expectativas hegemônicas de uma época em que um ‘discurso oficial’ tentasse restituir e reforçar a ideologia vitoriana da domesticidade feminina não lhes era concebível, e resistir, uma necessidade que vinha de algum lugar muito profundo dentro de si; o caminho à construção de outra forma de viver, ainda um incógnito a enfrentar, com ousadia, inteligência, desapego.
Os avanços das mulheres no mundo do trabalho, na política e na educação em décadas anteriores (cf. Thébaud, 1995), não podiam ser deletadas da história.  Mas o clima do pós-guerra, que trouxe a guerra fria, o macarthismo e o engodo de uma sociedade que oferecia uma pletora de bens e confortos a camadas amplas da população, em proporção e extensão nunca antes vistas, afincou na sociedade um renovado conservadorismo e disseminou intensas tentativas de convencer as mulheres a aceitar as restrições e convenções de uma época passada.  Ou de ensiná-las a desejar uma vida ‘segura e pacata’, trocando os desafios do mundo público pela proteção de um marido no padrão do ‘bom provedor’ – e de um Estado que garantisse a riqueza e hegemonia americana no mundo. Às mulheres, e em particular às da classe média branca norte-americana, o papel de ‘dona de casa’ se impunha com mais força normativa do que antes, encontrando poderosos aliados nos meios de comunicação que ganhavam um público maior do que nunca.  Por meio da televisão, difundiam-se os ideais do governo e de uma nova ‘sociedade do consumo’ diretamente para o interior das casas das pessoas. Contudo, o mal-estar provocado por uma subordinação socialmente imposta, e igualmente, autoimposta, também foi se difundindo, ficando famosamente registrado e analisado um pouco mais tarde por Betty Friedan no seu livro The Feminine Mystique, publicado originalmente em 1963.  Era isto o que de alguma ou outra forma pairava sobre a vida das jovens que viriam a frequentar o círculo dos rebeldes culturais como os do movimento da geração beat.
De fato, havia dissidência de muitas formas sob a superfície pacificada do ‘sonho americano’ do final dos anos 1940 e os anos 1950 nos EUA e o mundo da arte e das vanguardas intelectuais e culturais era um dos seus ‘lugares de produção’ mais significativos. Escritores, cineastas e mesmo alguns cientistas sociais criticavam o ‘conformismo das massas’ ou ironizavam as estreiteza das pessoas ‘enquadradas’ (Adelman, 2008); finalmente, não seria tão difícil que alguns homens que adotassem uma postura de rebeldes pudessem adquirir em torno de si uma aura heroica, que embora chocasse alguns, fascinasse outros, mesmo porque era possível construir laços ou uma linhagem entre tal rebeldia e alguns dos mitos mais caros à sociedade norte-americana, de free thinkers e libertários[1].
 
Contudo, tal tipo de romantismo não funcionaria da mesma forma para as mulheres, sobre as quais o peso da moral e das normas de gênero agia de outra maneira. Os ‘homens rebeldes’ reproduziam, em grande parte, atitudes de controle e desqualificação das mulheres parecidas com as propagadas pela cultura hegemônica, preferindo tê-las como musas, auxiliares e viabilizadoras do que como verdadeiras ‘companheiras de estrada’.
Ou, pelo menos, são esses sentimentos de frustração que reverberam nos escritos das mulheres que frequentavam o círculo beat.  Joyce Johnson, que foi a primeira delas a chegar a publicar um romance (Come and Join the Dance – “Venha dançar conosco” – publicado pela primeira vez em 1961), escreveu, mais tarde um dos mais interessantes livros de memória da época, cujo próprio título, Minor Characters [Personagens Menores] resume tudo: as complexas dinâmicas que ela explora ao longo do livro, que produzem e reproduzem  a relegação das mulheres a uma situação de coadjuvantes, enraizada na cultura e convenções de um ‘papel social’. A falta de outros modelos de mulher, de exemplos ou mesmo de (re)conhecimento de uma tradição, bem à maneira que o colocava Vírginia Woolf, é apontada por ela como ponto de partida de um difícil caminho à descoberta de si:
 
As que entre nós empreendíamos o voo para fora não achávamos modelos utilizáveis para aquilo que fazíamos. Não queríamos ser nossas mães ou professoras solteironas ou mulheres profissionais duronas como elas eram retratadas na tela. E ninguém tinha nos ensinado como ser escritoras ou artistas. Sabíamos um pouco sobre Virginia Woolf mas não a achávamos relevante. Os privilégios que ela tinha nos desencorajavam, nascida como era num meio literário, e de conexões e riqueza. O “teto todo seu” do qual ela escrevia pressuponha que seu habitante tivesse uma pequena renda familiar. Com nossos cursos superiores, a gente poderia datilografar até fazer uns $50 dólares por semana – apenas o suficiente para comer e pagar o aluguel para um pequeno apartamento em Greenwich Village ou North Beach, sobrando pouco para sapatos ou pagar a conta de luz. Nada sabíamos sobre a romancista Jean Rhys, quem numa época anterior também tinha fugido da respeitabilidade, boiando perigosamente na Boemia Parisiense da década de 1920. Talvez tivéssemos nos identificado com sua falta de confiança naquilo que escrevia ou tomássemos como uma alerta a passividade corrosiva das suas relações com os homens. Mesmo assim, nenhuma alerta teria nos parado, com toda essa fome que tínhamos de abraçar a vida e tudo que fazia parte da realidade. A própria dureza da vida era algo para saborear (Johnson, 1983: xxxii nossa tradução).
 
 
Vinha ao encontro das atitudes dos homens jovens com suas colegas e namoradas, quem a Joyce, aliás, não culpa.  Muito pelo contrário, o que ela aponta, em primeiro lugar – e que de certa forma configura o grande tema de toda sua produção literária posterior, tratava-se de  um complexo jogo de subjetividades, no qual tanto mulheres quanto homens ficavam presas e presos aos padrões culturais que os e as moldaram. E rompê-los era difícil, seria esse o desafio que daria sentido à época, à vida:
 
Naturalmente, nos apaixonávamos por homens que eram rebeldes. Caíamos muito rapidamente, acreditando que nos levariam junto nas suas viagens e aventuras. Não esperávamos ser rebeldes por conta própria; não contávamos com a solidão. Uma vez que encontrávamos nossos parceiros masculinos, uma fé cega nos impedia de desafiar as antigas regras do masculino e feminino. Éramos muito jovens e tínhamos dado um passo maior do que a perna. Mas sabíamos que tínhamos feito algo que exigia coragem, algo quase inédito. Éramos as que ousaram sair de casa (Johnson, 1983: xxxiii: nossa tradução).
 
Não foram poucas as mulheres que tiveram uma passagem pelos círculos literários beat e o mundo boêmia ou no meio ‘alternativo’, com epicentros em Nova Iorque e na Califórnia. Inclusive  discute-se, na literatura crítica (Johnson & Grace, 2002; Knight, 1996) em que medida que elas  devem ser consideradas realmente como ‘beat’. Eis uma questão interessante que não deixa de nos interessar, afinal, por meio dela, pode ser descoberto conexões e alianças, história e genealogias, inovação estética e assim por diante. Não podemos, neste pequeno espaço que nos cabe aqui, adentrar muito no assunto, mas devemos levantar a questão do que, afinal definiria a identidade ‘beat’. Múltiplos critérios são possíveis, por exemplo, um estilo literário comum e semelhanças estéticas, ou o pertencimento a um grupo de avant garde cultural com uma identidade particular e que cultivava relações de amizade, amor, colaboração concreta  (performances, leituras, publicações), convívio? Este último elemento é enfatizado por Grace & Johnson (2002), na sua análise das mulheres no beat: face à heterogeneidade do movimento e a dificuldade de definir critérios de ‘pertencimento’, elas ressaltam os de ‘camaraderie and community connection to identify artists’ affiliations’ [camaradagem e conexão com uma comunidade para identificar as afiliações das artistas] (p. 3-4),  sugerindo também a vantagem de critérios que abrem o círculo em lugar de restringí-lo.2
Ainda mais, como Johnson & Grace também comentam,  a tentativa de definir  ‘quem é beat’ que tanto gerou e continua gerando controvérsia, chega até a concentrar energias analíticas que poderiam ser melhor empregadas na leitura e apreciação crítica da obra de mulheres que algo  teriam a ver com o tempo e o espaço da beat  (Johnson & Grace: 11). Johnson & Grace afirmam  “… women beats were there, and they gave beat literature a transformative character, rending speech from their socially mandated silence, presence from their invisibility of gender, and literary works from their subordinated status as literature’s objects” [(…) as mulheres beats estavam lá, e deram à literatura beat um caráter transformativo, extraindo a fala do seu socialmente imposto silêncio, presença da sua invisibilidade de gênero, e obra literária de seu status subordinado como objetos da literatura] (p. 7).  A riqueza literária e existencial da poesia de Jones e Di Prima, ou o que se apreende sobre um momento histórico, e sobre as lutas que continuam, das memórias de  Jones e Johnson,  junto com o puro prazer da construção de belos e comoventes textos de prosa e poesia que descobrimos nos textos de todas elas – incluindo aqui escritoras como também Leonor  Kandel, Bonnie Bremser e Joanne Kyger – merecem não só a nossa atenção atual senão uma inserção mais plena nos ‘cânones’ que tantas vezes só serviram para propagar exclusões baseadas em gênero.
A presença vigorosa das figuras femininas centrais do beat como produtoras de discursos literários se deu também por meio de décadas de trabalho e evolução. Uma boa parte  delas sobreviveu aos homens (amigos, companheiros, maridos, parceiros de trabalho, muitas vezes levados por uma morte precoce vinculados à propensão dos beats, e ainda mais os homens beat, de fazer aquilo tão poeticamente evocado na expressão de língua inglesa, burning your candle at both ends e várias das mais importantes continuam vivas até hoje (Joyce Johnson, Hettie Jones, Bonnie Bremser, Joanne Kyger, Diane di Prima; também Diane Wakoski, a prolífica poeta californiana segundo a Poetry Foundation, autora de mais de 60  livros[2] – e que é muitas vezes
 
associada ao grupo, sem ter sido do círculo mais íntimo).  O trabalho literário delas continuou desdobrando-se, beneficiando-se também do clima cada vez mais favorável à criação das mulheres (fenômeno claramente vinculado à revolução feminista na academia que se deu em estreita relação com a segunda onda e seus posteriores desdobramentos, inclusive os que reivindicavam vozes femininas diversificadas, a escrita de mulheres de cor, a literatura lésbica e queer etc). No caso de Joyce Johnson,  a temática histórica, geracional e cultural da geração beat continuou sendo seu foco, o que percebemos claramente nos livros de diversos gêneros publicados por ela (entres eles, uma biografia de Kerouac e as cartas que ela trocou com ele entre 1957 e 1958, dois livros de memórias – Missing Men & Minor Characters  e vários romances). Bonnie (Brenda Frazer) publicou um livro de memórias (2007; 1ª ed.1969) que tem sido comparado estilisticamente com On the Road de Kerouac, embora não tenhamos registro de qualquer publicação posterior  a este surpreendente relato da sua experiência no México (país que figurou como tropo de um ‘outro lugar’  nos relatos de viagens de vários escritores beats; cf. Adelman p. 49). As várias coleções de poesia (1998, 2003, 2007) que Hettie Jones publicou muitos anos depois de sua convivência íntima com o grupo beat refletem aquele momento, mas também uma longa vida na qual o compromisso político e existencial com um mundo conturbado e profundamente desigual tematizando, entre outras coisas, a solidariedade possível entre as mulheres.
Acreditamos, então, que muitas das escritoras passaram suave, quase espontaneamente de sua posição como ‘protofeministas’ beat (onde eram também herdeiras de uma primeira onda de fortes lutas pelos direitos das mulheres) a uma nova situação, de participantes das ondas que se seguiram:  segunda, terceira.  Nos parece fundamental ressaltar aqui, antes de mais nada, que eram mulheres que ousaram viver e participar e escrever num momento muito pouco hospitaleiro para a produção e voz das mulheres; elas persistiram, e mais do que teimar com questões identitárias – no sentido de reivindicar para sim um rótulo, como beats ou mesmo como
 
‘feministas’[3],  juntaram-se com outras mulheres de outras gerações na construção dessa
 
elusiva  ‘tradição’ (por assim voltar à preocupação de Woolf)  de escritoras, que hoje podemos entender como algo que viabiliza e convida, como história e presente. Receberem e promoveram influencias filosóficas diversas, como o budismo na obra de Kyger, a espiritualidade New Age que celebra arquétipos do feminino no poema épico de di Prima, Loba, ou o compromisso político de Jones, que ela reafirma ao dar oficinas de escrita criativa para detentas nova-iorquinas que tampouco hesita a evocar na poesia que ela escreve. Figuram entre as pioneiras da segunda metade do século XX, e as lutas que condicionaram e caracterizaram sua juventude se transformaram, em vários casos, em carreiras literárias parecidas com mulheres das gerações que as seguiram,  para as quais elas também com certeza contribuíram, abrindo caminhos e legitimando o que a Woolf uma vez chamou de feminine sentences e se tornou, na segunda metade do século, um amplo campo de criação literária onde mulheres diversas encontravam voz e vozes.
É também neste sentido que nosso esforço de trazer sua história e sua produção literária para um ‘presente brasileiro’ adquire importância enorme. A partir de uma experiência acadêmica, uma primeira disciplina sobre a geração beat ministrada por nós duas para alunos e alunas dos cursos de graduação em História e Ciências Sociais da UFPR e, posteriormente, uma disciplina exclusivamente focada nas ‘esquecidas’ escritoras por Miriam, no curso de pós-graduação em Letras da UFPR, com uma ampla bibliografia de obras delas em língua inglesa, a urgência deste novo trabalho de pesquisa e debate a veio à tona. Assim, buscando divulgar parte desse trabalho complexo, em abril de 2015 organizamos uma leitura e discussão de seus poemas e escritos em um café da cidade de Curitiba uma primeira versão de parte do material que segue no dossiê. Com as traduções encaminhadas e discutidas, percebemos que tínhamos em mãos um rico material para compartilhar, dando origem ao dossiê que se segue, que, é importante assinalar, configura a fruição de esforços crítico-analíticos de algumas das alunas que cursaram a disciplina de pós-graduação.
As escritoras escolhidas para o dossiê foram Joyce Johnson, Diane di Prima, Hettie Jones e Elise Cowen e os artigos a seu respeito exploram uma série de temas que entrecruzam as experiências de vida dessas singulares mulheres: debatem a questão do cânone, analisam a circulação das mulheres nos grupos boêmios, suas vicissitudes e suas conquistas, ampliam os conflitos sociais do período com seus olhares aguçados sobre o contexto histórico em que viveram e, por fim, exploram suas formas de viver e suas múltiplas formas de constituição de subjetividades libertárias, em especial suas leituras e trânsito entre passado e presente.
O primeiro artigo, de Joana Darc Pupo, abre as discussões apontadas a partir de considerações sobre biografia, autobiografia e escrita feminina. A partir da obra Missing Men, de Joyce Johnson, lançada recentemente e ainda sem tradução para o português, como muito dos textos que fazem parte desse dossiê, Joana Pupo explora a narrativa de Johnson e o significado mais amplo da escrita memorialista de várias mulheres que circularam entre os poetas da geração beat. A maneira como Johnson apresenta seus desafios com o mundo que a cercava e sua relação com os homens é instigante, pois com suas idas e vindas entre passado e presente reconstitui, sob um olhar feminista, fios de sua vida e nos inspira a pensar sobre as nossas. O que Pupo busca discutir é, portanto, exatamente essa linha tênue entre passado, presente e subjetividade, como narrar suas experiências de vida em um outro contexto e época pode ser um poético encontro consigo mesma e uma reflexão sobre os papéis femininos na modernidade.
Emanuela Carla Siqueira escreve o segundo artigo do dossiê e discute o pouco que restou da obra de Elise Cowen. Como Elise cometeu suicídio aos vinte e oito anos, em 1963, e a família destruiu todos os seus cadernos de escrita, o que restou contém poemas de seus últimos anos de vida. Explorando os laços afetivos a partir das memórias de suas amigas escritoras, como Joyce Johnson, por exemplo, Emanuela Siqueira apresenta ao leitor e à leitora uma reconstituição de sua vida e seus escritos, traduzindo alguns de seus poemas. Mais do que expressar somente os momentos de dor antes de sua partida, os poemas de Elise falam sobre vida e, de certa forma, sobre as maneiras de ser mulher e suas lutas por afirmar sua paixão pela escrita.
A seguir o artigo de Isaura Maria Rigitano de Limas, retoma a escrita memorialista, mas explora as narrativas de Diane di Prima. Essa, talvez, seja a escritora dessa geração mais conhecida do público brasileiro, pois sua obra Memoir of a Beatnik (Memórias de uma Beatnik) foi traduzida ao português. Isaura Limas retoma essa questão e vai além, trazendo aspectos de sua vida, seus embates políticos anarquistas, presença forte em seus poemas de juventude, assim como suas reflexões sobre as múltiplas formas de ser mulher. A radicalidade política de seu pensamento atrelada as suas percepções místicas e religiosa de vida, ora pelo budismo, ora pelas tradições indígenas norte-americanas, nos proporciona uma narrativa variada, em prosa ou poesia, trabalhando literariamente temas que ainda hoje são polêmicos como maternidade, escolhas, sexo, prazer, liberdade. Os textos variados, com traduções bastante cuidadosas de Isaura de Limas, nos trazem uma Diane inquieta, ativista e sonhadora que seguramente surpreenderá a todos que a conhecem somente pelas suas Memórias.
Encerrando o dossiê, o artigo de Priscila Finger do Prado traz uma contribuição bastante original que entrecruza os temas trabalhados anteriormente. A partir da obra Drive, de Hettie Jones, publicado mais tardiamente, e reflexões de teóricas feministas e da escrita de mulheres, Priscila Prado discorre sobre a relação mulher e o volante. Tema do universo masculino e ícone da rebeldia na estrada, o volante, ressignificado por Hettie Jones e discutido por Prado, nos proporciona insights sobre a relação das mulheres com a vida e a escrita. Como discutido por Prado, a metáfora do volante é poderosa, pois permite Hettie – e por extensão as mulheres – a assumir o próprio destino, construir sua própria história de vida no contexto conflituoso do American way of life, quando os papéis de gênero estavam tão bem definidos. Dirigir não seria, portanto, somente uma ação emancipadora masculina, mas também de empoderamento feminino e uma possibilidade de subversão dos papéis de gênero.
O presente dossiê se deteve em apenas quatro escritoras, mas é um começo de uma viagem nos seus trabalhos. Nosso esforço em trazer à tona está relacionado a potência criadora dessas mulheres. Cada autora a seu modo questionou valores e buscou suas formas estéticas de expressão, conviveu com homens que não aceitaram muitas normas impostas, algumas nos deixaram, outras seguiram seus caminhos. O que chama a atenção em suas obras é, sem dúvida, a firmeza na realização de suas convicções e paixão pela escrita: lendo seus textos, percebendo suas dificuldades e conquistas, sente-se ainda hoje latente a força de suas formas de viver e sentir. Algumas delas receberam prêmios, tiveram suas obras publicadas e comentadas, mesmo mais tardiamente, e seguem nos inspirando ainda hoje. Cada artigo desse dossiê busca um diálogo com o passado dos anos de 1950 e 1960, auge da geração beat, os desdobramentos desses encontros e desencontros de Joyce, Diane, Elise e Hettie, analisa essas vozes femininas, inserindo-as no Brasil do século XXI e nos desafia! Sim, desafia a escrever, a ler, a pensar, a não se curvar diante das normas e do conservadorismo, seja eles qual forem e quais formas assumam em nossa sociedade. Uma boa leitura a todos/as!
 
 
Referências
Adelman,  M. (2008).  A voz e a escuta:  encontros e desencontros entre a teoria feminista e a sociologia contemporânea. São Paulo: Blucher.
Bremser, B. (2007) Troia: Mexican Memories. Champaign/London: Dalkey Archive Press.
Thebaud, Françoise (Org.). (1995). História das mulheres no Ocidente. (Duby, G. e Perrot, M. org geral).  Lisboa: Afrontamento, 1995. v. 5.
Ehrenreich, B. (1983). The Hearts of Men: American Dreams and The Flight from Commitment. New York: Anchor Books.
Johnson, R. C. & Grace, N. M. (2002).  Girls who Wore Black: Women Writing the Beat Generation. New Brunswick/London: Rutgers University Press.
Johnson, J. (2014). Come and Join the Dance. New York:  Open Road Integrated Media.
Johnson, J. (2014). Bad Connections.  New York: Open Road Integrated Media.
Johnson, J. (2012). The Voice is All: the Lonely Victory of Jack Kerouac. New York:  Viking.
Johnson, J. (2004). Missing Men: a Memoir. New York: Penguin.
Johnson, J. (1989). In the Night Café. New York: E.P. Dutton.
Johnson, J. (1983). Minor Characters: a Young Woman’s Coming-of-Age in the Orbit of Jack Kerouac. New York: Houghton Miflin.
Jones, H. (1990). How I Became Hettie Jones. New York: Grove Press.
Jones, H. (1998). Drive. Brooklyn: Hanging Loose Press.
Jones, H. (2003).  All Told. Brooklyn:  Hanging Loose Press
Jones, H. (2007). Doing 70.  Brooklyn:  Hanging Loose Press.
Kerouac, J. & Johnson, J. (2000) Door Wide Open: A Beat Love Affair in Letters. New York: Penguin.
Knight, B. (1996). Women of the Beat Generation:  the Writers, Artists and Muses at the Heart of a Revolution.  Berkeley: Conari Press.
Melnick, Lynn (2015). “I Would Have to Wake Up Young Again: On “Bay of Angels,” Personal Mythology, and the Enduring Badassery of Diane Wakoski”  Los Angeles Review of Books. March 10th.
https://lareviewofbooks.org/essay/wake-young-bay-angels-personal-mythology-enduring-badassery-diane-wakoski.
 
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] Cf  Barbara Ehrenreich (1983) ao respeito.  Para ela , os homens Beat percebiam que havia nesses conteúdos historicamente construídos elementos que poderiam ser aproveitados e explorados,  na elaboração de poderosas ‘narrativas de sí’.
[2] http://www.poetryfoundation.org/bio/diane-wakoski
[3]  A poeta e crítica norte-americana  Lynn Melnick oferece uma discussão interessante sobre a relação explícita e implícita  de Wakoski com o feminismo, examinando tanto o contéudo da poesia dela, suas afirmações ao público leitor e aos críticos, e os paradoxos da recepção da obra dela ao longo de sua carreira,  particularmente por parte de críticos literários de sexo masculino  (Melnick, 2015)





Bio fornecida pelo palestrante.

A VALORIZAÇÃO DO VOLANTE COMO FORMA DE SIGNIFICAR O FEMININO EM DRIVE, DA ESCRITORA BEAT HETTIE JONES – Priscila Finger do Prado




 

Priscila Finger do Prado

Universidade Federal do Paraná

Universidade Estadual do Centro-Oeste

 
MINICURRÍCULO: Priscila Finger do Prado é graduada em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria. É especialista em Literatura Brasileira pelo Centro Universitário Franciscano, Mestre em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria e Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Professora do departamento de Letras da Universidade Estadual do Centro-Oeste.
 
ABSTRACT: Hettie Jones is a Beat woman writer that is not well known in Brazil yet. However, her work could be a good way to think about female metaphors. Hettie Jones, in her book Drive,  analyzes how the act of driving can work as a metaphor for womanship and femininity. This article points out to some interesting data on beat writers, especially Hettie Jones. It argues that it is possible to think Jones’ literary production as part of a beat project, which an aspect of the beat generation that should attract our attention.
 
KEY-WORDS: Hettie Jones, Drive, female metaphor, Beat generation.
 
 
A VALORIZAÇÃO DO VOLANTE COMO FORMA DE SIGNIFICAR O FEMININO EM DRIVE, DA
ESCRITORA BEAT HETTIE JONES
 
Priscila Finger do Prado
Universidade Federal do Paraná
Universidade Estadual do Centro-Oeste
 
 
e portanto,  mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:
 
sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para me comover até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção
(Hettie Jones, trad. Miriam Adelman)
 
 
Considerações iniciais
Minhas reflexões sobre o trabalho de Hettie Jones, escritora do círculo Beat, parte de um artigo de divulgação da professora Miriam Adelman, que se intitula “Metáforas de autoria feminina”. Ele foi publicado na Revista Contemporartes em 2014, na coluna “Planetário”. Interessa-me a representação do “ser mulher” ou do “feminino” destacada pela autora na obra de Hettie Jones, a partir da metáfora da “mulher ao volante”.
No artigo de Adelman, a autora parte do debate sobre o significado de ser mulher e de ser escritora. Para ela, esse debate deve alongar-se ainda por muito tempo, uma vez que mudam as relações entre as mulheres e seu papel na sociedade. Adelman baseia sua reflexão no livro Literature after Feminism (2003), de Rita Felski, o qual aborda o “teimoso debate com críticos literários de tendências variadas que defendem ou reproduzem a convicção de haver uma oposição entre preocupações estéticas e políticas na análise e avaliação de obras literárias.”. Segundo a leitura que Adelman faz de Felski, não deveríamos ver as relações entre estética e ideologia como opostas ou excludentes, já que “há sempre em toda produção literária conteúdo político”.
Como “metáforas de autoria feminina”, Adelman busca a reflexão de Felski, a qual identifica três metáforas “que condensam abordagens utilizadas pela crítica feminista contemporânea”, como forma de “interpretar o ser e fazer das mulheres dentre as complexas teias-tramas de relações sociais e históricas”. A primeira teria a ver com a loucura, vista como uma resposta à negação de voz para a mulher na sociedade, caracterizando a metáfora “loucas no sótão” (madwomen in the attic). Esta metáfora parte da leitura do trabalho crítico de Sandra Gilbert e Susan Gubar, sobre as obras Jane Eyre, de Charlotte Bronte, e The yellow wallpaper, de Charlotte Perkin. A segunda metáfora, intitulada “mulheres mascaradas” (masquerading women), teria a ver com a quebra nos estereótipos do feminino e do masculino e teria como principal característica a ambiguidade na representação da mulher, a partir da análise do conto “The Hidden Woman”, de Colette. A terceira metáfora seria a das “meninas de casa” (home girls), a qual apresentaria a representação de mulheres de comunidades raciais ou étnicas marginalizadas, cujo lar seria visto como refúgio.
É importante destacar que nem Felski nem Adelman pensam essas categorias como forma de engessar a produção literária feminina ou a crítica literária feminista. Elas devem ser pensadas como uma possibilidade de leitura das obras de autoria feminina ou que apresentam personagens femininas.
Na sequência de seu artigo, Adelman busca, na produção da escritora Beat, uma nova possibilidade de metáfora para a autoria feminina. A autora destaca a obra Drive, de Hettie Jones, cuja metáfora central seria a da “mulher ao volante”: “Os poemas evocam constantemente a capacidade das mulheres de pegar a estrada, ou de fazer a estrada. Tematizam, nesse empreendimento, tanto a relação como eu quanto como outro”. E este seria o ponto que me interessa de sua análise, outra representação para o “ser mulher”, aquela que dirige sua vida, seu carro, bem como a vida daqueles que a rodeiam.
  Meu objetivo com este trabalho seria, então, buscar verificar como se constroem as metáforas da “mulher ao volante” na obra de Hettie Jones – Drive. Cumpre destacar como entendo o termo “metáfora” neste trabalho. Segundo o Dicionário de Filologia e Gramática (1968), de Joaquim Mattoso Câmara Jr, metáfora “é a figura de linguagem que consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu” (1968, p. 236). A relação entre a significação própria e a figurada seria subjetiva, dada a partir do “trabalho mental de apreensão” (idem, ibidem). Contudo, para este trabalho, o conceito de metáfora é mais abrangente, a relação não se dá entre termos essencialmente, mas entre uma figura linguística e uma série de usos que são interpretados por essa figura. No caso da metáfora da “mulher ao volante”, literalmente teríamos uma mulher que dirige um veículo, mas metaforicamente podemos ter a ideia de direção ligada à vida de uma mulher. A metáfora da “mulher ao volante” seria uma possibilidade de “metáfora de autoria feminina”, na esteira do que foi pensado por Rita Felski, uma forma de representar o “ser mulher” em obras de autoria feminina. Essa ideia pode estar presente em várias sequências linguísticas distintas, como procuraremos demonstrar a seguir, com a análise dos poemas.
Antes da análise, contudo, é importante destacar o lugar da fala dos enunciadores, uma vez que não há obra sem autor, e que não há autor sem o contexto da sociedade que o rodeia e constitui. Assim, partirei de uma exposição do contexto Beat como um todo, para, então, apresentar a autora e a obra escolhida, enfocando a metáfora antes mencionada.
      
As mulheres e a geração beat
Quando se fala em Geração Beat, os nomes que costumeiramente nos vêm à cabeça são os de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs. Isso quer dizer que, conforme as palavras de Nancy Grace e Ronna Johnson, no artigo “Visions and revisions of the Beat Generation” do livro Girls who Wore Black (2002), só parte dessa geração vem sendo estudada. Além disso, é comum uma maior ênfase na vida dos seus componentes do que na sua própria obra. Contudo, o principal ponto destacado pelas estudiosas é o “esquecimento” do papel das escritoras deste período. Para elas, “a exclusão das escritoras Beat diminui o entendimento sobre o movimento literário e cultural dos Beat, e distorce visões da era durante e depois da Segunda Guerra Mundial, quando o movimento emerge” (2002, p. 2, minha tradução).
Mas o que seria afinal a escrita Beat? Para as autoras, podemos buscar uma estética Beat, mas as concepções seriam tão divergentes que não formariam fator único para uma definição. Definir o momento pelo que ele tem de social, em relação a drogas e sexo livre, por exemplo, não seria um caminho viável, já que os Beat compartilham essas características com os demais boêmios anglo-americanos do século XX. Para elas, o que seria distintivo dos Beat seria o momento histórico e o contexto social em que essa iconoclastia foi praticada, bem como as comunidades específicas nas quais a práxis Beat tomou forma: o modo como os habitantes do pós-guerra rejeitaram as paranoias da Guerra Fria, as conformidades de corporações button-down, a cultura de consumo, a repressão social e a violência contra os gays da era McCarthy (2002, p. 2).
Sobre a configuração do movimento Beat, Allen Ginsberg o denomina como um grupo de amigos que trabalharam juntos na poesia, na prosa e numa consciência cultural. Um conceito aceitável para os conhecedores do movimento. Contudo, na leitura de Grace & Johnson (2002), quando o autor elenca nomes dos “amigos” que trabalharam juntos, somente cita o nome de duas mulheres: Diane Di Prima e Joanne Kyger. E é esse o ponto discutível na opinião das autoras, essa elipse que marca a condição das escritoras Beat. Embora o movimento, assim como outras estéticas “irmãs”, preconizasse liberdades e contracultura, a ideia de mulher e sua participação na cultura não se alterou. Conforme Grace & Johnson (2002), na medida em que os escritores beat, como Ginsberg, só reconheciam Diane Di Prima, seu lugar se marcava pela exceção, de forma que essa concessão sinaliza a falha dos Beats, que perpetuam o conceito patriarcal de indivíduo excepcional, como meio de limitar o reconhecimento de pessoas marginais à norma hegemônica do homem branco.
Apesar do que circula, é notável a participação de várias escritoras no grupo dos beat. Na leitura de Grace & Johnson (2002, p. 5), esse considerável número de mulheres escritoras fazia parte de uma comunidade ainda obscura ou ignorada, daí a importância do livro que organizam. O que se destaca, ao olharmos para a produção feminina do círculo beat, é um movimento de vanguarda, que antecipa a segunda onda feminista. A escrita das mulheres Beat oferece outras referências de leitura, outras representações do feminino, outro olhar sobre um movimento que, em si, chamou tanto a atenção do mundo, por apresentar uma visão de inconformidade com o mundo vivido e, em especial, com a época vivida. Para Grace & Johnson (2002, p.7-8), o que chama a atenção sobre o movimento Beat e o tardio reconhecimento da produção feminina é a posição ambivalente dos envolvidos: os homens, porque defendiam liberdades, mas mantinham as mulheres como objeto literário, não as vendo como protagonistas do movimento; e as mulheres, porque aceitaram sua própria marginalização no movimento: “Algumas escritoras Beat aceitaram a marginalização das mulheres explicitamente ou então promovendo o trabalho dos homens ao invés do seu” (2002, p. 8, minha tradução).
Contudo, ao recuperarmos o trabalho dessas escritoras, recuperamos também uma parte da história do movimento que faltava. Conhecer o trabalho das Beat é reconhecer o movimento em sua inteireza, pois, através disso, podemos ver que não é só com uivos e estradas que se constrói essa estética, mas também com beatniks ao volante. A escrita das autoras ligadas ao movimento Beat é em grande parte feita de memórias, como se se propusessem a expor os “bastidores” do movimento, mas não só a isso se presta. A escrita dessas autoras, como falamos, oferta-nos novos pontos de referências, novas metáforas para o ser mulher, para a autoria feminina, além disso, complementa uma imagem que já tínhamos sobre o movimento Beat, o que nos permite o conhecer mais plenamente.
A produção feminina do movimento Beat, que é destacada pelo livro de Grace & Johnson, apresenta artigos críticos sobre a obra de Helen Adam, Diane Di Prima, Joyce Johnson, Hettie Jones, Elise Cowen, Joanne Kyger, Janine Pommy Vega e Anne Waldman, pela leitura de vários estudiosos, inclusive Ronna Johnson e Nancy Grace, as organizadoras. Das escritoras destacadas, este trabalho pretende apresentar alguns poemas do livro Drive, de Hettie Jones, buscando analisar como se constrói a metáfora da “mulher ao volante”.
 
Drive, de Hettie Jones, e o volante como metáfora para o ser feminino
Quando se fala em Hettie Jones, possivelmente a primeira obra que vem à cabeça é o livro How I became Hettie Jones, que ainda não possui tradução para a língua portuguesa. Nesse livro de memórias, a autora conta como foi sua vida de Beat, como o movimento foi decisivo para seu crescimento pessoal e intelectual. A mudança de nome constitui uma mudança frente ao mundo, e o fator dessa mudança – quem lhe concede o “Jones” – é o poeta Amiri Baraka (antes Everett Leroy Jones), com quem foi casada.
Sobre esse livro de Jones, Barrett Watten propõe um estudo, intitulado “What I see in How I became Hettie Jones”, partindo do questionamento entre possibilidade de conhecimento advindo da poesia. Em estudos de Teoria e Crítica literárias, é comum a questão sobre se há ou não equivalência entre forma e conteúdo. O conhecimento para a poesia seria aquele advindo do estranhamento que ela proporciona, “deslocando” aquilo que sabemos, para, posteriormente, realocá-lo. A proposta do artigo de Watten, no entanto, é diversa. Ele se propõe explorar outro lugar para o pensamento da relação entre forma e conteúdo. Sua proposta é o estudo da possibilidade de ver a poesia como prática materialista nos escritos de Hettie Jones e de LeRoi Jones/Amiri Baraka. A obra analisada envolve uma questão central, que é a divisão entre público e privado.  Ora, o título da obra de Hettie Jones é How I became Hettie Jones, o qual, para ser bem entendido, necessita da informação adicional de que a autora tinha como nome de solteira Hettie Cohen, e que a troca do nome para Hettie Jones tem a ver com seu casamento com Everett Leroy Jones. Essa troca além de oficializar seu estado de mulher casada, também legitima, de certa forma, sua participação no círculo Beat, seu envolvimento com o movimento. Essa questão da mudança de nomes também é importante aqui, porque seu então marido vai se renomeando a partir de novas proposições ideológicas para sua poesia, passando de Everett Leroy Jones para LeRoi (no início da carreira), depois para Imamu Amiri Baraka (na fase Nacionalismo negro), e finalmente para Amiri Baraka (na fase do “Terceiro Mundo Marxista”).
Porém, a relação entre Hettie Jones e Amiri Baraka é um pouco mais complexa. Assim como muitas mulheres da época, a autora dedicava mais tempo à obra de seu marido do que a sua; ele, por sua vez, acreditava que essa vontade de escrever, sem de fato fazê-lo, advinha de uma extrema falta de confiança. Além disso, os escritos de Hettie Jones não condiziam com aquilo que Baraka pensava sobre a poesia. Para ele, o conhecimento da poesia deveria ser simbólico, ao passo que a escrita de Hettie Jones namorava a materialidade do cotidiano: “Set against the grande histoire of the cold war and the rise of the civil-rights movement, her narrative details a micropolitics of literary culture in material rather than symbolic terms[i]” (2002, p. 104). Assim, para Watten, se a poesia apresenta algum conhecimento, no caso de How I became Hettie Jones, essa poesia ocorreria não no lugar original de gênio, mas como um fato material em um discurso construído entre sujeitos (2002, p. 110).
No caso de Drive, não seria diferente. Para Watten (2002, p. 111), a irredutibilidade das circunstâncias materiais seria um dos principais focos do livro. Quando o sujeito lírico apresenta os vários carros que já teve, por exemplo, não há nada de transcendental nessa apresentação, há a circunstância material de que eles servem para levar pessoas de um lado para o outro, de que eles fazem parte do dia-a-dia desse eu lírico feminino que dirige.
Drive é um livro de poemas que foi publicado em Nova York, em 1998. Um livro recente, se pensamos Hettie Jones a partir do Movimento Beat. Este livro, composto de sessenta e sete poemas, apresenta um momento de maturidade da autora, com poemas de épocas diversas de sua carreira como escritora. Há um viés feminista aqui que ultrapassa o que nos propôs as análises vanguardistas de Virgínia Woolf, com Um teto todo seu (1991), e Simone de Beauvoir, com seu O segundo sexo (2009).
Podemos dizer que os escritos de Virginia Woolf constituem um ponto de partida histórico importante para pensarmos o lugar social da mulher, principalmente quando ligada à literatura. Quem pode escrever? Quando o que uma mulher escreve vai ser considerado literatura? Como é vista uma mulher que escreve? Já o estudo de Beauvoir, hoje considerado um clássico, leitura básica para o estudo do feminismo, apresenta sua importância pelo questionamento do que é ser uma mulher, biológica e culturalmente. Pela leitura da autora, a discussão sobre o feminino ganhou novos argumentos. A partir disso, pudemos pensar o feminino como um construto social, e que a demarcação de diferenças entre homens e mulheres, cabendo às segundas a fragilidade e a falta, serve como forma de dominação e manipulação. Diferente perspectiva apresenta a filósofa Judith Butler (2010). Para ela, não é só o gênero que deve ser levado em conta ao estudar o feminino e suas representações, mas outras categorias como raça e classe social. A esta perspectiva a estudiosa Rita Felski afirma ter maior afinidade. Ela busca tratar com cuidado as relações entre Literatura e gênero, mesmo sabendo do papel primordial da Crítica feminista diante dos estudos recentes em Literatura. Em seu livro Literature after Feminism, Felski propõe esclarecer como o feminismo tem transformado o modo de as pessoas pensarem a Literatura. Para ela, aspectos culturais e estéticos não se excluem, mas se complementam, quando se trata do estudo da Literatura. Quando dizemos que o viés feminista que aparece em Drive difere do de Woolf e de Beauvoir, é por que Hettie Jones apresenta uma seleção de poemas em que a tradição e a modernidade andam entrelaçadas, tanto nos aspectos formais quanto temáticos, de modo que as problemáticas femininas que se destacam nos poemas são apresentadas de modo individualizado, fugindo a generalizações ou determinismos no que diz respeito à representação do feminino.
Drive, como dissemos, é um livro de uma Hettie Jones madura. Segundo Adelman, este foi o primeiro livro de poesia publicado por Jones, que reuniu em um volume o trabalho de muitas décadas: “A obra foi premiada e seguida por mais dois belos livros de poesia desta mulher que, nascida em 1934, continua na ativa, construindo pontes entre pessoas que, a partir de suas singularidades e diferenças, procuram também as bases da aproximação” (ADELMAN, 2014).
Quando destaca a poesia de Hettie Jones, Miriam Adelman (2014), na esteira do estudo de Rita Felski sobre literatura e feminismo, apresenta, conforme já apontamos, a metáfora da “mulher ao volante”. Nesse sentido, a proposta de Adelman (2014) parece divergir da de Watten (2002), antes apresentada, porém essa divergência é apenas aparente, uma vez que o autor destaca o caráter materialista da obra de Hettie Jones, mas é esse mesmo caráter materialista que possibilita novas metáforas para o ser feminino, como a do volante, por exemplo. O volante, no livro de Jones, tem a ver tanto com a ideia de carro quanto com a ideia de vida. Essa “mulher ao volante” dirige seu carro, sua escrita, sua vida, bem como a vida dos que a rodeiam. Conforme Adelman (2014), a metáfora da “mulher ao volante” pode condensar o impulso poético que subjaz o livro Drive:
 
(…) a poeta nos convoca a brincar com a convergência de metáforas de escrita e de autoria de vida. Assim, a mão ao volante é a mesma que sustenta a caneta (ou digita no teclado), e o carro deixa de ser máquina objeto, máquina significando apenas veículo impessoal (ou mesmo representando a tecnologia, da qual por vezes se imagina o distanciamento das mulheres) tornando-se veículo prenhe de desejos articulados no feminino.
 
Na leitura de Adelman (2014), é possível pensar a noção de “mulher ao volante” na tensão criativa entre o literal e o metafórico: “Ela nos convida a conduzir, a encontrar nosso movimento (cultural, individual, social e coletivo), ultrapassar barreiras sociais e culturais”.  A mulher que dirige não é mais aquela que precisa de “um teto todo seu” para escrever, ainda assim ela continua batalhando por um teto todo seu. A mulher que dirige é o segundo sexo na sociedade, mas o primeiro em sua vida, em suas decisões e ações.
Essas diferentes visões da “mulher ao volante” aparecem na organização da obra. O livro se divide em quatro partes, sendo cada uma centrada em um sentido de “dirigir”: [1] “A mulher no carro verde” (The woman in the green car), [2] “Bem-vindos à nossa multidão” (Welcome to our crowd), [3] “A lista semi-permanente de Gate” (The Semipermanent Gate List) e [4] “Sendo ela” (Having been her, minha tradução). O sentido de dirigir, como destacado por Adelman, abarca o literal e o metafórico, destaca-se a mulher que dirige o carro e passa a ter com ele uma relação diferente da apresentada imageticamente pelo homem que dirige; mas também se destaca a mulher que dirige sua vida, com tudo o que isso implica, como a perda da mãe, o divórcio, a relação com a escrita, a compaixão por outras mulheres, o cuidado com os filhos…
Há um total de onze poemas sob o primeiro subtítulo, “A mulher no carro verde” (The Woman in the Green Car): “Hard Drive”, “The Woman in the Green Car”, “She”, “Paleface”, “All the Beautiful Days”, “Ode to my Car”, “5:00 P.M., eastern stand time, November”, “Racing with the Moon”, “Good Old Paint”, “In memoriam” e “Ruby my Dear”. O sentido de direção aqui está ligado ao volante, destacando-se poemas que apresentam a relação da mulher com o carro, uma relação historicamente recente, mas que passa a ser cotidiana, intensa e até afetuosa.
O poema “Direção” (Hard Drive), que abre o livro Drive, de Hettie Jones, apresenta uma linguagem coloquial, próxima à da prosa, com temas cotidianos. Uma mulher sai de carro por aí. E de tudo o que vê, algo lhe chama a atenção e ela chora. O eu lírico desse poema dirige e chora ao mesmo tempo. E dessa cena, ela elabora uma máxima, que colabora para a metáfora da “mulher ao volante” como possibilidade de representação da mulher:
 
e portanto,  mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:
 
sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para me comover até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção (trad. Miriam Adelman)
 
 
A metáfora da “mulher ao volante” condiz com a representação de uma mulher contemporânea, sendo que os limites entre o que são ações femininas ou masculinas são “testados”. O final do poema revela esse “teste”. Seria “coisa de homem” dirigir seu carro em qualquer direção, seria “coisa de mulher” se emocionar “por motivos tolos”, e o que o eu lírico faz é interpretar sua ação como um dilema solucionado, o que nos faz pensar que, cotidianamente, já não deve ser visto como dilema quando um homem ou uma mulher realiza alguma ação que não seja esperada para seu gênero. Note que o vocativo aqui presente é “jovens mulheres”, possivelmente aquelas a quem ainda cabe aprender essa lição, mas a consequência desse aviso interessa a todos, pois resolve o falso dilema de ações que deveriam ser especificamente femininas como chorar (lembremos o dito popular “homem não chora”) ou especificamente masculinas como dirigir (lembremos o senso comum sobre mulheres e direção, quando alguma imprudência é cometida: “tinha que ser mulher!”). A proposta de apontar uma narração de ações, com linguagem prosaica, na forma de um poema é uma técnica modernista, contudo, não faltam, nos poemas de Jones, elementos estéticos comuns à poesia tradicional como recursos sonoros e expressivos como o enjambement, as rimas internas, as aliterações, entre outros.
Ainda sobre o tema da direção, como relação contemporânea entre a mulher e o carro, podemos apresentar o poema “A mulher no carro verde” (The Woman in the Green Car), cujos recursos expressivos se destacam, em especial a disposição das palavras nos versos, as repetições sintáticas e as aliterações:
 
A mulher no carro verde
não sabe onde está indo
 
então ela vai obstinadamente
 
veja seu pequeno pé vigoroso no pedal
 
como ela pressiona
por tempo
 
como ela
acelera (minha tradução)
 
 
Neste poema, temos outro eu lírico que dirige, uma mulher em um carro verde. Observamos a disposição dos versos correlatas ao sentido apresentado: o vai-e-vem de alguém que dirige rapidamente sem saber ao certo seu destino. A velocidade, comumente relacionada a práticas masculinas, faz parte desse sujeito. Ainda que não saiba o destino, ela vai obstinadamente, e essa fome de direção pode ser interpretada como uma fome de vida, de alguém que sabe qual o fim, mas que precisa viver o máximo possível. A metáfora da “mulher ao volante” se aplica aqui literal e figurativamente, numa linha de pensamentos que aparece em outros momentos do livro, o lugar do carpe diem. Dirigir a vida equivale aqui a aproveitar a vida, a viver com intensidade, por isso a necessidade de velocidade. Ou seja, temos o encontro da tradição com o contemporâneo, os poemas de Hettie Jones apresentam como sujeito lírico uma mulher pronta, de um momento em que o feminismo apresenta nova pauta. Essa mulher pode desfrutar de ações antes proibidas, como a ação de dirigir um carro. E o interessante é que essa liberdade, essa independência encontra lugares-comuns da literatura como o do carpe diem, como se apropriação da tradição também fosse uma conquista, uma ação que não é mais “proibida” ou “inibida”.
Outro poema que merece destaque desse primeiro momento de “Drive”, por contribuir para a metáfora da “mulher ao volante” é “Ode ao meu carro” (Ode to my Car). Nesse poema, a relação da mulher com o carro é apresentada em outros termos. O eu lírico homenageia seu carro, declara-se para ele, como se fosse um ente querido:
 
Não é como se você fosse o primeiro.
Antes de você eu amei, um por um,
O Plymouth cinquenta e três, em sessenta e cinco,
Os vagões, todos três, o Ford e ambos
Ramblers, o Valiant, o Chevy cinquenta e seis
Roubado em Newark em sessenta e nove, e ultimamente
O bom e verde Maverick, que correu de verdade
Até morrer e me trazer pra você,
Meu querido Honda azul, você (minha tradução)
 
Nesses versos, percebemos algumas expressões comuns a relacionamentos amorosos como “como se você fosse o primeiro” (e por isso marcante), “antes de você eu amei”, “me trazer para você”, “meu querido”. Essas expressões denotam afeto e colocam a relação do eu lírico com o(s) carro(s) como importante, intensa, de convívio. Além disso, os carros apresentados como “amores antigos” recebem nomes próprios (nome de série ou marca), alguns adjetivados com o ano de fabricação. Em outro fragmento do poema, percebemos razões para essa relação afetiva com o carro, suas utilidades na vida do eu lírico:
 
Meu casulo amado, meu ovo. Leve-me, amigo,
Por vias convidativas de vida, dobre-me em
Seu pequeno e espaçoso corpo, suportando minha bagagem,
Meus mantimentos, meus filhos preciosos. Leve-me
De forma certa ao lugar onde estou agora, nesses perfeitos
Arredores silenciosos, nessa mesa de mulheres,
Escrevendo. Por causa de vocês nós podemos, e nós fazemos (minha tradução).
 
Notamos nesses versos as imagens de casulo e ovo, recorrentes na literatura para apresentar as ideias de nascimento, origem, acolhimento e transformação. Nesse caso, o objeto que proporciona conforto, acolhimento é o carro, visto como abrigo em relação ao mundo. As utilidades do carro são destacadas como favores concedidos, o carro é personalizado, ganha um “pequeno e espaçoso corpo”, “suporta” a bagagem, carrega os mantimentos e os filhos do eu lírico. Esses atributos humanos concedidos ao carro nos fala dessa relação apresentada entre mulher e veículo: ele não serve só para transporte, mas para acolhimento, segurança. Ao final, é destacada a independência que a ação de dirigir traz à mulher, mulheres que escrevem, mulheres que dirigem, mas propriamente, mulheres que podem escrever porque são independentes, inclusive, para ir e vir com o carro: “Por causa de vocês nós podemos, e nós fazemos.” Interessante destacar aqui também esse “nós” que aparece em vários poemas do livro, esse “nós” conclama todas as mulheres, cria identificação entre as leitoras e o eu lírico, à maneira de uma irmandade.
No segundo subtítulo, “Bem-vindos a nossa multidão” (Welcome to our Crowd), tem-se 14 poemas: “Words”, “Sonnet”, “Saladin crossing the desert”, “Rabbits rabbits rabbits 2/1/80”, “Freddie, in memoriam”, “The third poem”, “Three little Love Songs”, “One hundred Love Poems for Lisa”, “As if”, “my friend”, “Forgiving the Traveler”, “Adultery – Kandahar, Afghanistan 1996”, “how will it be” e “Welcome to our crowd”. O sentido de direção nesse grupo de poemas está ligado a caminhos possíveis na sociedade, um sentido mais social, mais altruísta, de um volante coletivo. Apresentam-se situações cotidianas, como no poema “Rabbits rabbits rabbits* 2/1/80”, “Quando eu deixei vocês esta manhã// eu fui para a clínica”, mas também eventos mais dramáticos, como a morte por apedrejamento de um casal que serve como tema para o poema “Adultery – Kandahar, Afghanistan 1996”.
No poema que abre o subtítulo, “Palavras” (Words), a ideia de direção foca a relação com a linguagem. Contudo, a direção aqui não é de autoria do eu lírico. Nesse sentido, por mais que alguém se disponha a lidar com as palavras, nunca terá total domínio sobre elas:
 
Palavras
 
São chaves
Ou suportes
Ou pedras
 
Te dou minha palavra
Você a embolsa
E fica com os trocados
 
Eis aqui a palavra
Na ponta da minha língua: amor
 
Eu lhe dou abrigo
Ela sonha ir embora (trad. Miriam Adelman)
 
 
A metáfora da “mulher ao volante” nesse poema ganha outra conotação, há algo que as mulheres não dominam, que os homens também não dominam, os sentimentos e a linguagem. São direções que se prestam como guias, mas que não são definitivas. Eu posso usar a palavra “amor”, mas isso não quer dizer que ela vai se prestar a funcionar como eu quero. Nesse sentido, a ideia de direção como poder é questionada, é preciso ter poder sobre as coisas para dirigir a própria vida? Dirigir um carro, a vida, não seria uma forma de se deixar dirigir, ao pensar na instabilidade dos seres, da linguagem, dos sentimentos? Sabe-se que o uso da razão como forma de controle é uma arma que tem sido usada de forma contínua e insistente na política, na ciência, desafiar a ideia de direção como controle é de alguma forma ofertar outras possibilidades de convívio e manejo do mundo, inclusive das palavras.
No terceiro subtítulo, “A lista semipermanente de Gate” (The Semipermanent Gate List), são 16 poemas: “Mother America”, “Two portraits”, “A history of war in five acts”, “Look at how we live, look at how we die”, “A day at a Time”, “Poem for Rashid”, “Albert Ayler’s Flowers”, “Lunch Poems”, “HOME: deep, to the”, “on the fifth of December a Rose”, “You are what you eat”, “The semipermanent Gate list”, “Sin Songs”, “Elegy for Allen”, “Manhattan Special” e “Subway Poem”. Nesse conjunto de poemas, o sentido social iniciado no segundo subtítulo é intensificado. O sentido de direção aqui é o de caminhos da humanidade, apresentados a partir de algumas histórias exemplares. O poema que dá nome ao subtítulo, por exemplo, apresenta visões sobre uma penitenciária e sua rotina, ou melhor, como uma lista pode preservar ou não uma vida. Contudo, a ideia de vida, o locus do carpe diem aparece aqui também. A metáfora da “mulher ao volante” perpassa a ideia de que, apesar dos conflitos, é preciso viver, e viver de forma plena, como aparece no “Poema no metrô” (Subway Poem):
 
Poema no metrô
 
Ei, Primavera!
 
Precisamos de tempo baby,
Precisamos de tulipas, violetas,
Dentes-de-leão, rosetas
E de sua bunda a silhueta (minha tradução).
 
Este poema apresenta um apelo à vida, mas não qualquer vida, uma vida bonita. Aparece aqui um “nós” recorrente no livro, um chamamento às pessoas para viver, para ver belezas, para sentir o contato com as pessoas. O chamamento inicial retoma o locus da primavera como o período de vida, de renascimento, de reprodução. A natureza se renova na primavera, então o chamamento à primavera aliado ao uso do pronome pessoal em primeira pessoa, nós, propõe um carpe diem urbano. O título do poema pode tanto remeter à urbanidade do momento em que se pede o carpe diem, o que constitui uma atualização do locus, mas também a ideia de um chamamento coletivo, já que o metrô é um meio de transporte que possibilita o embarque de muitas pessoas, e que possibilita também o contato físico, mesmo que indireto, entre elas.
No quarto e último subtítulo, “Having been her”, tem-se vinte e seis poemas: “In answer to your question”, “Lottie and Oscar”, “What my uncles taught me”, “Finally Narcissa”, “By the beatiful sea”, “This man I met, he said”, “Homage to Frank O’Hara’s personal poem”, “Having been her”, “Self-portrait”, “Civil war”, “Atlanta Death 1981”, “For my daughters”, “In the eye of the beholder”, “A little light verse for Helene”, “This kind of Kaddish”, “The pause that refreshes/or climbing back on the roof again and taking off the rag”, “The empty nest syndrome”, “They’re not heavy, They’re my sisters”, “From Four Hetties”, “Dresses: four of mine for Naima Belahi”, “Mother Moon”, “Emine and Hamide”, “Hotter than July, 1982”, “Birthday presents, 1989”, “Seven songs at sixty” e “Aftertune”. O sentido social permanece presente nesse grupo, que apresenta alguns poemas mais específicos de chamamento a um grupo: as mulheres como coletivo. A partir de casos isolados, tem-se a procura pela união, pois o que se espera do mundo é semelhante, e o que se rejeita do mundo também. Há um eu lírico que se identifica com seus interlocutores, que se compadece deles, que os chama para si.
O poema “Sendo ela” (Having been her) é bem elucidativo desse senso de compaixão que aparece no quarto subtítulo de Drive.
 
Sendo ela
 
No ônibus
De Newark para New York
O bebê vomita
No colarinho de raposa
Do único casaco dela
 
Ela limpa o colarinho
E o tenro rosto do bebê
Então pega sua cria
Pela mão
E ruma para o metrô
 
Onde a cria
Dorme
No joelho dela
E ela
Ela mesma
Fita
Pela janela
Por cima da cabeça
Do adormecido bebê
 
Ela tem vinte e sete
E está exausta
 
Deixe-me sempre
Apoiá-la
Sendo ela,
 
Ampará-la (minha tradução).
 
O poema fala de uma mulher que poderia ser qualquer uma. O que aparece nesse subgrupo de poemas, e em especial neste, é o detalhamento de um caso individual de forma a torná-lo geral. A mulher que leva o filho no ônibus, que se cansa, representa o fardo de muitas mulheres. Não é o senso de maternidade que se destaca aqui, mas esse cansaço e essa resiliência, ou seja, esse adaptar-se a uma rotina cansativa, esse viver que não é só pra ser aproveitado, mas pra ser resistido. A metáfora da “mulher ao volante” implica também aqueles casos em que a direção é solitária e cansativa, como o da mulher apresentada no poema. Frente a isso, o sujeito lírico se solidariza, deseja amparar essa mulher – cansada, mas que resiste -, a ideia, como a princípio se afirmou, é a de um senso de grupo que emerge, a ideia de uma irmandade.
A metáfora da “mulher ao volante”, que se constrói no livro Drive, de Hettie Jones, abarca vários sentidos para o dirigir, a direção. Evoca-se a relação de independência e afetividade que se instala entre a mulher e o carro; evoca-se a relação de não-dominação que pode caber na ideia de direção, contrapondo o lugar-comum da direção como controle ( até porque nem tudo se pode controlar, e é mais fácil viver quando se entende isso); evoca-se os retratos das mulheres e homens que dirigem suas vidas apesar das adversidades; evoca-se a compaixão pelo outro, capaz de formar um senso de irmandade entre as mulheres, senso esse que parece já existir entre os homens que, como ilustra um poema de Hettie Jones, se chamam de mano e se cumprimentam “pat pat”. A metáfora da “mulher ao volante” traz à cena novos argumentos para um feminismo necessário, que envolve novas pautas, mas também a manutenção de direitos conquistados e a convivência com as injustiças que ainda existem.
 
Considerações finais
Meu objetivo com este trabalho foi buscar verificar como se constrói a metáfora da “mulher ao volante” na obra de Hettie Jones, Drive, e como ela contribui para a representação do “ser mulher”. Primeiramente, busquei alguns dados contextuais sobre o movimento Beat, a produção feminina desse movimento e o trabalho de Hettie Jones. Depois, me detive na análise da obra, sua estrutura e poemas, para buscar como se deu a construção da metáfora da “mulher ao volante”.
Esse trajeto metodológico me leva a algumas considerações mais gerais sobre a contribuição de Hettie Jones, e das escritoras que se envolveram de alguma forma com o movimento, que, ao que me parece, está para além de um conhecimento de época ou de mero arquivo. A escrita dessas mulheres propõe novas formas de significar o feminino e, com isso, novas possibilidades de significar o masculino também. Uma vez que a mulher passa a dirigir, uma vez que o carro passa a ser uma necessidade também feminina, os homens precisam buscar novas ações e novas necessidades. Passa a ser possível romper binarismos, pois, há tempos, descobrimos que a questão de gênero está para além da biologia, e que a cultura é a principal responsável pela bipolarização dos seres humanos. E a literatura segue sendo um caminho possível para mudanças culturais…
 
 
Referências bibliográficas
ADELMAN, Miriam. “Metáforas de autoria feminina”. in. Coluna Planetário. Revista Contemporartes. Disponível em: http://revistacontemporartes.blogspot.com.br/2014/09/metaforas-de-autoria-feminina.html. Acesso em: 19 de setembro de 2014.
ADELMAN, Miriam. “Estradas da vida II. Mulher ao volante”. in. Coluna Planetário. Revista Contemporartes. Disponível em: http://www.revistacontemporartes.com.br/2014/10/estradas-da-vida-ii-mulher-ao-volante.html. Acesso em: 02 de março de 2015.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática. Referente à língua portuguesa. Rio de Janeiro: J. Ozon Editor, 1968.
GRACE, Nancy M. & JOHNSON, Ronna C. (edit). Girls who wore black. Women writing the Beat Generation. New Brunswick, New Jersey, and London: Rutgers University Press, 2002.
FELSKI, Rita. Literature after feminism. Chicago: University of Chicago Press, 2003.
JONES, Hettie. Drive. New York: Hanging Loose Press, 1998.
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.
 

1 “Situada entre a grande história da Guerra Fria e a ascensão do movimento dos direitos civis, sua narrativa detalha uma micropolítica de cultura literária em termos materiais ao invés de simbólicos” (minha tradução).





Bio fornecida pelo palestrante.

A ESCRITA DE SI E DO OUTRO EM “MISSING MEN – A MEMOIR”, DE JOYCE JOHNSON – Joana d’Arc Martins Pupo




 

 

Joana d’Arc Martins Pupo

Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná

 
 
Resumo: A escrita autobiográfica, as memórias e as histórias de vida foram os primeiros gêneros literários escritos pelas mulheres. As escritoras Beats também praticaram intensamente estes gêneros literários. O objetivo deste artigo é analisar o livro de memórias Missing Men de Joyce Johnson focalizando, primordialmente, a dimensão relacional através da qual a autora constitui essas memórias. Esta característica relacional se opõe aos moldes em que as autobiografias de autoria masculina são tradicionalmente construídas. A obra também revela a capacidade de construção de uma identidade feminina de escritora Beat emancipatória que está em consonância com os objetivos políticos dos estudos feministas da autobiografia.
 
Autoria: Joana d’Arc Martins Pupo é professora assistente do Departamento de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Ponta Grossa e Doutoranda no Programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Paraná.
 
 
A ESCRITA DE SI E DO OUTRO EM
MISSING MEN – A MEMOIR”, DE JOYCE JOHNSON
 
Joana d’Arc Martins Pupo
Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná
 
 
Introdução
Os gêneros textuais memorialísticos como diários, biografias, autobiografias, memórias e histórias de vida informaram e informam, de modos diversos, as mais diversas pesquisas nas Ciências Humanas, desde a antropologia, a historiografia, a sociologia, e os estudos literários.
Andreas Huyssen, em Present PastsUrban Palimpsests and the Politics of Memory (2003), afirma que a emergência da memória como uma preocupação política e cultural nas sociedades ocidentais foi um dos fenômenos políticos e culturais mais surpreendentes dos últimos anos, configurando-se como “uma virada para o passado que se coloca em forte contraste com o privilégio do futuro tão característico das primeiras décadas da modernidade do século XX” (HUYSSEN, p. 11). Para este historiador cultural e crítico literário, a obsessão pela memória é um sintoma significativo de nosso presente cultural. Para ele, “Nós precisamos tanto do passado como do futuro para articular nossos descontentamentos com o estado presente do mundo”1, ideia que também podemos identificar em muito das preocupações dos estudos feministas e, particularmente, na escrita autobiográfica feminista.
A autobiografia continua sendo um gênero literário central para a escrita contemporânea de mulheres por possibilitar o questionamento de vários aspectos “em relação ao valor e às limitações desta tendência em direção a autorrevelação literária” (FELSKI, 1989, p.86). Segundo Rita Felski, em On Confession (1989), este “ato de confissão” funciona como libertador ao revelar as dimensões que são políticas da experiência pessoal, por questionar as ambiguidades e contradições dos papéis sociais de gênero, ao mesmo tempo em que revela um importante sentido de identificação e solidariedade feminina, tão afim às demandas da práxis feminista.
Este artigo tem como objetivo discutir no romance de Joyce Johnson, Missing Men, a narrativa memorialista em relação com a construção da identidade libertadora de escritora Beat. Este artigo está subdividido em três partes. Primeiramente, discutirei sucintamente características particulares das autobiografias de autoria feminina. A seguir, procurarei situar o papel do gênero literário memorialista para as escritoras da geração beat. E, finalmente, procurarei demonstrar, em Missing Men, a característica relacional que essas memórias de Joyce Johnson assumem. Para tanto, utilizei três paratextos que compõem a obra: a epígrafe de Nabokov e o breve prefácio que antecedem a narrativa e, por último, o título que abre a o último capítulo do livro, Negative Space. Encerro, então, com breves considerações finais.
 
A autobiografia na escrita de mulheres
As mulheres dedicaram-se inicialmente mais à escrita de cadernos e diários episódicos uma vez que, historicamente, sua condição social e cultural de confinamento à esfera privada, sempre sob a tutelagem de uma figura masculina, não possibilitava que desenvolvessem uma tradição na escrita autobiográfica aos mesmos moldes daquela produzida por homens.  Privadas do “motivo central de uma autobiografia – o desejo de sintetizar, de ver a vida de alguém como um todo orgânico, de olhar para trás em busca de um padrão” (FELSKI, 1989, p. 86), e ainda sem ter as bases para assumir o individualismo radical de um eu masculino, que ocupava o lugar de representante da humanidade de modo universalizante – outra característica que marcava os fundamentos da emergência deste gênero literário –, as mulheres ao narrarem suas vidas produziram obras muito particulares e a serviço de suas próprias experiências, aspirações e valores.
Em primeiro lugar, portanto, como bem nos lembra Fatmagül Bertay2,  no artigo  Writing and Reading Autobiographies (1992, s/p.) pensar as autobiografias escritas por mulheres envolve “uma revisão de nossas crenças na verdade, no conhecimento, no eu e na linguagem – crenças que se originaram no Iluminismo e ainda são frequentemente tomadas como certas e que têm servido a cultura ocidental”. Há muito as teorias feministas, juntamente com outras teorias críticas, denunciaram a falência do sujeito uno cartesiano, cujo eu estável, permanente e volitivo acedia ao conhecimento da verdade através da razão. Mas não menos importante para a desconstrução dos arranjos de gênero, tarefa primeira de qualquer perspectiva da crítica feminista, é também a ideia da linguagem como transparente e neutra que subjaz e fundamenta tais concepções.
Assim, os estudos da literatura de cunho confessional produzidas por mulheres a partir da perspectiva da crítica feminista e dos estudos de gênero partem de insights e exigências muito diversos das teorias tradicionais de estudos das biografias e autobiografias, uma vez que estas “foram desenvolvidas dentro de um viés totalmente masculino e, muitas vezes, são de pouca serventia para a discussão de uma tradição autobiográfica de mulheres” (FELSKI, 1989, p.86).
Outro aspecto que é preciso considerar na leitura e interpretação das autobiografias de mulheres é que a distância que já existiu entre o tipo de autobiografias “públicas e sequenciais” escritas por homens e aquelas “desarticuladas e subjetivas” escritas por mulheres, diminuiu tremendamente devido a “uma subjetivização dos textos literários, originando-se de uma ruptura com normas genéricas” (op. cit., p. 87). Deste modo, as autobiografias contemporâneas, tanto de homens quanto de mulheres neste caso, ganharam formas que rompem os limites entre a ficção e a autobiografia, sendo o gênero autobiográfico hoje visto mais “como parte da esfera da literatura em vez de ser uma subcategoria da biografia histórica, como havia sido anteriormente visto” (SPENGEMAN, apud FELSKI, 1989).
Da perspectiva dos estudos de gênero, o que interessa no estudo da autobiografia é, particularmente, a relação que se coloca entre a experiência pessoal das mulheres e os objetivos políticos do feminismo. São inúmeras e diversas as implicações da prática da escrita memorialística de mulheres que vão desde os aspectos da produção – forma, estilos, conteúdo – até os aspectos dos modos de recepção das obras, tanto pela crítica especializada quanto pelo público leitor. Entre algumas dessas especificidades, está o fato de que a individualidade da mulher carrega um traço relacional muito forte. Ou seja, enquanto as autobiografias masculinas são marcadas por um ‘eu’ individual isolado, solitário, as autobiografias e memórias escritas por mulheres são construídas através de narrativas cujo foco oscila constantemente de suas vidas pessoais para a vida dos outros a sua volta. E este será um dos aspectos que exploraremos em nossa análise de Missing Men – a Memoir, de Joyce Johnson e que nos possibilita vislumbrar de que modo, ao narrar a si mesma, Johnson constrói uma clara visão da natureza relacional na construção das subjetividades e, principalmente, das identidades de gênero.
 
As escritoras beat e a escrita autobiográfica
Em se tratando da Geração Beat, as obras mais conhecidas são aquelas de autoria masculina dos ícones do movimento, como Howl (1956) de Allen Ginsberg, On the Road (1957) de Jack Kerouac ou Naked Lunch (1959) de William S. Burroughs. O fato é que durante este mesmo período, os ambíguos anos 1950, e pertencente a esta mesma geração, um grupo de mulheres não só compartilhava com estes autores as inquietações emergentes dos tempos de Guerra Fria como também experimentações literárias que pudessem traduzir seus anseios e visões da época. Ao estarem revolucionando suas vidas pessoais, elas antecipavam a segunda onda do movimento feminista que explodiria, juntamente com outros movimentos sociais pelos direitos humanos, nos anos 1960. Em sua maioria, eram mulheres brancas oriundas de famílias de classe média, algumas judias, que gozavam da estabilidade e prosperidade proporcionada pela posição econômica alcançada pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Sem se importarem com as comodidades e privilégios que perderiam, saíram de casa ainda muito jovens para viver experiências de liberdade inéditas para as mulheres de então. Escrever foi uma de suas ousadias libertárias. E o fizeram com altíssima qualidade.
As escritoras beats produziram os mais diversos gêneros literários, desde poesia, prosa, relatos ficcionais e não ficcionais, mas, segundo a Ann Waldman (apud MLAKAR, 2007), o gênero mais fortemente praticado foi as memórias. A quantidade de obras memorialísticas beat é tão grande que este passou a ser considerado um subgênero desta literatura. Estas obras vêm sendo produzidas por elas desde o final dos anos 60 e, dado que muitas dessas autoras continuam na estrada, prosseguem nos oferecendo novas perspectivas para compreendermos o chamado movimento beat. Sua autoria possibilita reinterpretarmos a natureza do movimento a partir de uma ótica mais abrangente e inclusiva, de um olhar para as relações de gênero, cujos estudos, com certeza, não deixaram incólumes os paradigmas que até então têm definido o movimento como tal.
Para as escritoras da geração Beat, as memórias, porque menos regulamentadas em sua forma e estilo do que as autobiografias, ao proporcionarem maior abertura e flexibilidade, se mostram mais adequadas à narrativa de suas experiências e de uma escrita que se projeta para o futuro. Entre as obras mais conhecidas estão Memoirs of a Beatnik de Diane DiPrima, publicada em 1969; Troia: Mexican Memoirs, de Bonnie Bremser do mesmo ano; Minor Characters – The Romantic Odyssey of a Woman in The Beat Generation, de 1983, e com o qual Joyce Johnson ganhou o National Book Critics Circle Award, entre outras.
Missing Men – a Memoir (2004) é uma das mais recentes obras de cunho autobiográfico publicada por Joyce Johnson e que pode ilustrar de que modo a escrita memorialística de autoria de mulheres é capaz de associar de maneira ideal a história pessoal e história social de uma dada comunidade. Mas, uma vez que qualquer discussão sobre história e trajetória de vida toca diretamente a questão da memória e da construção da identidade, este será o foco principal deste trabalho nesta obra de Johnson.
 
A Escrita de Si e do Outro em “Missing Men – a Memoir
Missing Men – a Memoir é o segundo livro de memórias de Joyce Johnson. Escrito pelo menos vinte anos depois de Minor Characters, suas primeiras memórias, Missing Men é curiosamente por ela dedicado a Peter Pinchbeck, seu segundo marido e de quem se divorciara passados trinta anos de sua escrita. Fato que talvez já nos indique o lugar que a autora escolhe reservar para os homens que, de uma forma ou de outra, se transformaram em ‘ausência’, mas paradoxalmente nunca deixaram de estar presentes durante toda sua vida posterior.
A epígrafe de Vladimir Nabokov escolhida pela autora para abrir o livro: “A busca de (…) padrões temáticos através da vida de alguém deveria ser, acredito, a verdadeira finalidade de uma autobiografia”3 (NABOKOV, apud JOYCE, 2004, p. 36) sugere que a realização de Missing Men significa a busca de Johnson pelos motes e recorrências que a constituíram e determinaram suas escolhas para uma reconciliação, presente e futura, com o outro e consigo mesma. Não é de um estatuto de verdade que se trata, mas de uma busca por coerência que a construção de sentidos através da narrativa memorialista possibilita. E isso exige um trabalho árduo.
As palavras de Nabokov lembram a sugestão de que “o verdadeiro trabalho da memória (…) não se limita à caça aos fatos, mas se dedica a explicar, a compreender, por meio de que engrenagens tudo aconteceu” (RICOUER, 2005, p. 2), e para quem a compreensão não impede de condenar ou louvar, mas “liberta as paixões da sua obsessão, que condena a memória a uma piedade imóvel” (RICOUER, 2005, p. 2). Há condenação e há perdão em Missing Men, portanto, mobilidade.
Piedade e perspicácia, cuidado e malícia, solidariedade e individualismo, compaixão e razão, desentendimento e tolerância parecem ser parte da rememoração que Joyce Johnson realiza em Missing Men, tendo os outros, particularmente os homens de sua vida, como referência. O que não quer dizer que as memórias das mulheres da família não ocupem aí um lugar também vital. Na primeira parte da obra, a narrativa revela que sua compreensão do lugar social e cultural reservado à avó, às tias, e à mãe na sociedade marcadamente patriarcal da época possibilita que Johnson se coloque no presente como contraponto às posições que essas mulheres ocuparam. Mas a Joyce adulta que rememora e narra o faz em duplicidade, conservando-se fiel às impressões da menina e adolescente Joyce e permitindo-se completar as lacunas da memória com referenciais adquiridos de suas experiências posteriores.
Ao mesmo tempo em que a dor do passado se reatualiza na dor em recordar o passado, narrar o que se recorda do passado traz a possibilidade de reinventar não a dor, mas um entendimento daquilo que pode já não doer mais. O título da obra traz a ausência, a falta, o vazio e, na maior parte do tempo, trata-se de uma narrativa suave e densa, mas melancólica. Coerente talvez com um texto que fala da morte. Todavia, o vazio deixado pela(s) morte(s) não desespera a mulher que conta. Não é a voz de quem não tem mais nada, mas a voz de uma mulher que segue em direção à vida, conseguindo, de certa forma, superar as perdas ou conviver com elas, transformá-las em outros caminhos para seguir na estrada.
Na continuação deste trabalho, restringiremos nossa leitura da obra tomando mais dois de seus paratextos4 como guia de nossa interpretação, a saber: o curto prefácio que inicia a obra, e, finalmente, o título Negative Space do último capítulo, momento narrativo em que o passado narrado se aproxima mais estreitamente ao presente vivido da memorialista. Esta escolha está relacionada à nossa compreensão da importância da estrutura da obra para o que acreditamos seja o significado da própria ideia de memória presente em Missing Men.
O prefácio que abre as memórias inicia com a intrigante expressão “Certa vez tive um marido”, expressão que imediatamente nos remete ao início das estórias infantis, passadas em tempos longínquos e lugares distantes, que tanto pode nos sugerir a ficcionalização desta memória quanto a desimportância do que se vai contar para este tempo, momento em que a narração se realiza. Entretanto, ao finalizarmos a leitura de tão breve prefácio, concluímos seu grande valor.
 
Certa vez tive um marido que começou a pintar quadrados obsessivamente _ três quadrados em relações cambiantes entre si no que aparecia uma base plana, um vazio colorido. Ele me explicou que o espaço negativo em seu trabalho era tão importante quanto o positivo, que cada um recebia sua forma do outro. O que o interessava era principalmente a tensão entre eles. Lembro-me de ter ficado fascinada com seu conceito de espaço negativo, apesar de que o termo negativo pareceu-me a palavra inadequada para algo que tinha uma presença tão importante.
Eu ainda era muito jovem então, muito jovem para olhar para minha história e ver o quanto minha vida foi ela mesma moldada por ausências _ primeiramente por acaso, ao final, talvez por escolha (JOHNSON, 2005, p. 39. Minha tradução5).
 
 
A autora faz um paralelo entre a pintura e o desenvolvimento de sua vida, apontando assim o tema central da construção de sua subjetividade. Os espaços positivo e negativo na pintura transformam-se em presença e ausência em sua experiência de vida. E podemos entender a interdependência entre os espaços da tela como a interdependência que se estabelece nas relações pessoais nos níveis tanto afetivo-emocional como no nível da natureza dialética da constituição dos sujeitos, a dependência do outro para a formação do eu – “cada um recebia sua forma do outro”. Por isso, podemos considerar, ainda, a imagem uma boa metáfora para a própria questão da memória na medida em que não há memória individual que não esteja imbricada seja na memória de outrem ou em uma memória social ou cultural. As relações entre os quadrados são também descritas como “cambiantes”, como será cambiante o significado dessas presenças e ausências na vida da autora.
A ideia de espaço negativo será retomada pela autora na parte final da obra, já presente no próprio título do Capítulo três Negative Space, trazendo de volta, desse modo, esta ideia de complementaridade. O espaço negativo é aquele necessário para compor o positivo. Mas apesar das memórias na obra seguirem certa linearidade cronológica, esta linearidade é constantemente entrecortada por observações e análises que se intercalam em idas e vindas no tempo. São memórias de outras épocas, outros lugares, outras pessoas, memórias que se interconectam e que vão revelando o funcionamento da narrativa, não como uma mera descrição de fatos passados, mas como a própria tessitura do passado, sua própria criação no presente.
A primeira parte da obra intitulada Samuel Rosenberg’s Daughters traz as origens de sua trajetória. É onde conhecemos a história da família materna, desde a chegada do avô, poeta e intelectual judeu, cujo suicídio aos trinta e sete anos, provocou a primeira e profunda ausência masculina na vida não só de sua mãe, mas na vida da própria Joyce Johnson. Deste avô, a autora herdará o talento literário e, ao tornar-se escritora, realizará aquilo de que o avô fora privado, cumprindo este mandato geracional. Este primeiro capítulo trouxe ainda a segunda grande ausência na vida da autora: a morte de seu pai, David Glassman, cuja vida fora igualmente marcada por ausências masculinas, com as mortes trágicas e prematuras do irmão e do pai.
A segunda parte, Red, White, and Black, narra a vida de Johnson, depois do fim da relação com Jack Kerouac, e seu primeiro e breve casamento com o pintor James Johnson, interrompido abruptamente com a morte precoce do pintor, tornando-se esta outra grande ausência masculina. Entretanto, ao manter o sobrenome Johnson por toda sua vida, Joyce reescreve permanentemente esta ausência em presença numa demonstração do quanto este outro também compõe sua identidade.
A terceira e última parte de Missing Men é a rememoração de seu segundo casamento, com Peter Pinchbeck, também pintor, época em que realiza o desejo de ser mãe, independentemente da franca oposição dele. A vida de Peter, outrossim, marcada tanto por uma mãe negligente quanto pela ausência completa do pai, indica a mesma recorrência da falta, do vazio. Johnson avalia estas causas como sendo decisivas para tê-lo tornado um homem esquivo a aproximações pessoais mais intensas e a relações afetivas mais profundas. Traço que, segundo ela sugere, talvez tenha colaborado para seu divórcio, somente cinco anos depois. Entretanto, Joyce permaneceria continuamente ligada Peter, ainda que de modo totalmente distinto do que ficara em relação ao primeiro marido. O primeiro parágrafo do capítulo logo nos permitirá vislumbrar tal situação.
 
Naquela primeira semana de setembro havia um ar diferente. O céu tornou-se de um azul imoderado, sem nuvens, sob um fundo ainda mais cinza. A luz derramava-se sobre o jardim evanescente, dourando as folhas que repentinamente tornavam-se secas, glorificando as samambaias que escureciam, tornando cada vermelho ou roxo ou amarelo cádmio resolutos e definitivos. Estava quente o bastante em Vermont para se sentar à varanda, e me lembro de quanto meus pensamentos se voltavam para Peter quando eu estava lá fora _ Peter em sua varanda em Catskills na minúscula casa da qual havia me mandado fotos em julho. Eu o imaginava, sentado, hipnotizado pela luz, observando-a iluminar, escurecer, iluminar. Por toda aquela semana, de um modo curioso, ele parecera presente, silenciosamente muito perto de mim. Talvez por esta razão eu tivesse perdido a noção de que ele deveria estar de volta a Nova York. À medida que os dias se passaram sem nenhum telefonema dele, não me ocorrera perguntar por que (JOHNSON, 2004, p. 2610).
 
 
É ao final da introdução desta terceira fase de suas memórias, ao narrar as típicas visitas de Pinchbeck a sua cabana de veraneio em Vermont, que encontramos a autora, na maturidade da vida – sensivelmente simbolizada na descrição da chegada do outono _ gozando a solidão e a liberdade de uma solteirice conquistada e agora escolhida. Surpreendemo-nos, então, com a constatação de Johnson, que fala então de outro tempo e lugar, de que teria sido capaz de compartilhar com Peter o tempo que lhes restaria da vida:
 
Voltando para casa pelas estradas de terra, eu sentava ao lado dele no escuro, mergulhada no cheiro salgado e de fumaça que era seu, e parecia encher o carro, repreendendo-o algumas vezes por ir muito rápido com tantos cervos nas florestas, soando para todo o mundo como se fosse sua verdadeira esposa, exceto que, uma vez em minha casa, íamos para nossos quartos separados, nossas camas separadas, e aquilo que efetivamente éramos um para o outro ficava claro uma vez mais. Eu ficava acordada, recostada aos travesseiros e o ouvia tossir ou virar ou mudar de posição, esperava então apagasse a luz. Eu ficava acordada, imaginando se o que eu sentia era o fantasma do desejo, decidindo com alívio que não era o caso. Talvez quando nós formos realmente velhos, eu pensava às vezes, Peter e eu terminaremos vivendo juntos, depois de tudo (JOHNSON, 2004, p. 2634. Negrito meu).
 
E havia reciprocidade neste sentimento ambíguo que se apresenta entre um desejo antigo e uma amizade que se constrói entre ambos no presente:
 
“Eu gostaria muito que você viesse aqui.”
Fico ouvindo com frequência estas últimas palavras de Peter. Elas pairam no ar como a fumaça de seu charuto cujo cheiro, às vezes, acredito sentir quando saio à varanda em Vermont. Não havíamos sido feitos para sermos marido e mulher, mas apesar de nossa separação insolúvel, eu sei que houve entre nós uma boa medida de reconhecimento e ternura (JOHNSON, 2004, p. 3619).
 
 
Considerações Finais
 
Em Missing Men – a Memoir, como quem fotografa6 a própria vida, a autora regula o foco de seu olhar, ora distanciando, ora aproximando o foco sobre si mesma. Ora apresentando-se como protagonista, ora escolhendo a posição de um minor character.  Ao narrar as suas memórias entrelaçadas às memórias vividas dos outros, Joyce Johnson nos ensina que o espaço negativo é aquele necessário para constituir o positivo, dando-nos a clara evidência da constituição dialética e relacional dos sujeitos.
Ao relatar não só as experiências conjugais de uma Joyce mais jovem, mas tendo narrado sua infância, a vida da mãe, das tias e da avó, também cria o panorama social que a moldara mulher. Entretanto, a autora não se limita a falar do passado, nos revela, do mesmo modo, a Joyce em idade mais avançada, madura e experiente, capaz de transformar a forte herança familiar de perdas e frustrações em um legado de relações não estereotipadas, de realizações pessoais e profissionais.
Contudo, ao rememorar como, mesmo próximo à morte, Peter não desistira de sua arte e de fazer planos para o futuro, a autora se obriga a pensar em sua própria solidão e finitude:
 
Ainda me pergunto se ele sabia que estava morrendo naquele verão. Primeiramente, a ideia de que ele sabia era insuportável para mim. Eu não parava de pensar que ninguém estava com ele, e na sua solidão eu vi a minha própria. Mas então, quando Daniel e eu estávamos vasculhando seus papéis, encontramos um recorte de jornal que ele tinha, obviamente, arquivado para referência futura em uma pasta marcada ‘Bungalow Deal’. Era um artigo sobre uma casa no deserto do Arizona construída a partir de materiais reciclados e de terra e de vidro, com um teto translúcido inclinado que trazia o céu ocidental para dentro. O interior – 25 x 100, como loft de Peter na Greene Street – estava atraentemente vazio, como que esperando para ser preenchido com inúmeras telas. Penso em Peter ali, naquele espaço, como quando trabalhava na mesa em seu bangalô, portas escancaradas em sua mente aberta para tudo o que ele pintaria a seguir.
Ele morreu antes de sua imaginação. Qualquer artista deseja tal fim. Eu gostaria de ter a sua sorte e a sua coragem (JOHNSON, 2004, p. 3.619. Negritos meus).
 
 
Na última página dessas memórias, Joyce Johnson fecha o círculo, consciente de que a morte é, também, o espaço negativo da vida, e acaba por confirmar que segue fiel a sua escolha: o que importa é fazer-se sujeito e seguir imaginando e escrevendo.
A coragem é dela. A sorte é nossa.
 
BIBLIOGRAFIA
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FELSKI, Rita. Beyond Feminist Aesthetics: Feminist Literature and Social Change. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1989.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990 [1950].
HUYSSEN, Andreas. Present PastsUrban Palimpsests and the Politics of Memory. Stanford, California: Stanford University Press, 2003.
JOHNSON, Ronna C. & GRACE, Nancy M. Girls who wore Black – Women Writing the Beat Generation. New Jersey: Rutgers University Press, 2002.
JOHNSON, Joyce. Missing Men – a Memoir. London: Penguin Books, 2004. Kindle Edition.
JOHNSON, Joyce. Minor Characters – The Romantic Odyssey of a Woman in The Beat Generation. Penguin, 1999.
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. De Rousseau à internet. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.
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POLLAK, Michael. Gestão do indizível, WebMosaica, revista do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, v. 2, n. 1 (jan-jun), 2010.
RICOUER, Paul. O bom uso das feridas da memória. Éditions du Roure, 2005. Em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/o_bom_uso_das_feridas_da_memoria. Acessado em: 24/03/2015.
RICOUER, Paul. Memória, história, esquecimento. 2003. Em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia. Acessado em: 24/03/2015.
SMITH, Sidonie & WATSON, Julia (Eds.). Women, Autobiography, Theory: a Reader. The University of Wisconsin Press, 1998.
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NOTAS AO TEXTO
 
1No original: “We need both past and future to articulate our political, social, and cultural dissatisfactions with the present state of the world.” (HUYSSEN, 2003, p. 6). Todas as traduções dos trechos das obras em inglês são de minha autoria e responsabilidade.
2Diretora do Women’s Studies Research Center (KSAUM) e Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de Istanbul, autora de Being a Woman, Living and Writing (1992) e Woman and Religion (1998).
3No original: The following of… thematic designs through one’s life should be, I think, the true purpose of autobiography” (NABOKOV, apud JOYCE, 2004, p. 36).
4Trabalhamos em realidade a partir de três paratextos, o primeiro tendo sido a epígrafe de Nabokov, comentada anteriormente.
5No original: “I once had a husband who started obsessively painting squares – three squares in shifting relationships to each other on what appeared flat ground, colored emptiness. He explained to me that the negative space in his work was as important as the positive, that each took its form from the other. What interested him most was the tension between them. I remember being fascinated by his concept of negative space though negative seemed the wrong word for something that had so much presence.”
I was still young then, too young to look at my history and see how my life has shaped itself around absences – first by happenstance; ultimately, perhaps, by choice” (JOHNSON, 2004, p. 39).
6É importante lembrarmos que a obra é inteiramente ilustrada com fotos do arquivo da família de Joyce Johnson, num total de vinte e nove fotos.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN COMO SER MULHER E BEAT LIVRO DE MEMÓRIAS DA POETA BEAT DIANE DI PRIMA – Isaura Maria Rigitano de Limas




 

Isaura Maria Rigitano de Limas

Tradutora

“O autor não cria simplesmente um texto; em vez disso um texto – ou mais precisamente uma forma particular de ler o texto – cria um autor” (Rita Felski).
 
 
Resumo: A escritora e poeta beat Diane Di Prima possui uma extensa lista de publicações, mas no Brasil ela é praticamente desconhecida, pois só um livro de sua autoria foi publicado. Este artigo tem como objetivo divulgar Diane Di Prima ao leitor brasileiro por meio de seu livro de memórias e iniciar um diálogo entre a sua produção criativa e as diversas fases da sua vida, refletindo sobre como a poeta reagia criativamente ao que acontecia no seu contexto social e em sua vida pessoal. Para esse propósito, lancei mão de outras obras escritas por ela no mesmo período em que relata suas memórias, buscando referenciais, inquietações e eventos relacionados.
 
Palavras chave: escritoras, Geração Beat, Di Prima, feminismo, poemas.
 
Abstract: The beat poet and writer Diane Di Prima has an extensive file of publications, but she is unkown in Brazil due to the fact that only one of her books had been published. This paper aims to bring Diane Di Prima to light for the Brazilian reader through her memoir book, and to initiate a dialogue between her creative production and different stages of her life, speculating how creatively the poet reacted to what happened in her social context and in her personal life. For that purpose, excerpts from her memoir and other poems published on several works were interspersed, on a search for references, concerns and related events.
 
Key words: Writers, Beat Generation, memoirs, feminism, poems.
 
Currículo: Isaura Maria Rigitano de Limas é bacharel e licenciada em Dança pela PUC-PR. Professora da ESL e tradutora.
 
 
RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN
COMO SER MULHER E BEAT
LIVRO DE MEMÓRIAS DA POETA BEAT
DIANE DI PRIMA
 
Isaura Maria Rigitano de Limas
 
Introdução
O pós-guerra consolidou os Estados Unidos como líder global nos anos 1950. Internamente, foi um período próspero, marcado pela busca por conforto e bens materiais. A mídia reforçava o “estilo americano de vida” para distinguir a sua opção capitalista em oposição ao bloco socialista. Mas nem todos os americanos concordavam com o American way of life.
Inseridos na contracultura, os escritores da geração beat se opunham a esse modelo de vida. Entre eles, Di Prima incorporaria a esse movimento a sua experiência familiar que ia contra os valores sociais de então. Ela conviveu desde criança com os princípios do anarquismo.
Pierre J. Proudhon, um dos precursores do anarquismo, comenta sobre esses ideais:
 
“Ser governado é ser observado, inspecionado, espiado, dirigido, regimentado, numerado, regulado, registrado, doutrinado, controlado, revisado, estimado, avaliado, censurado, ordenado por homens que não têm direito, sabedoria nem virtude para fazê-lo” (Proudhon,1969, p. 294).
 
 
Viver em plena liberdade física, social e econômica. Mas como fazê-lo sendo mulher e vivendo sua juventude no pós-guerra dos anos 1950? Diane Di Prima parece ter conseguido. Ela vivia sob essa premissa. Desde muito jovem conviveu com o seu avô, o imigrante italiano Domenico Mallozzi, um ativo militante anarquista.
Di Prima nutria por ele grande admiração e respeito. Eles ouviam ópera juntos, dividiam xícaras de café expresso. Ele lia Dante Alighieri para ela. O avô disse que a levaria à Itália, mas morreu antes do fim da guerra. Di Prima recorda um de seus primeiros contatos com os ideais anarquistas:
 
“Eu estou no parque com o meu avô, e é noite. Eu quase nunca saio de casa à noite, e eu adoro. Amo a cidade à noite, as luzes e os sons. Cheira a mistério. No parque, Bronx River Park, as estrelas aparecem claramente. Elas são bem brilhantes, elas queimam. Há algum tipo de reunião. Um ‘comício’ é a palavra. Meu avô me levou com ele. E eu sei de alguma forma que é sem a permissão de meus pais. Eles não estão lá para contestar, eu fui visitar meus avós sem eles. Tem um comício no parque – não tenho certeza que tipo de comício. Era de fato uma ocasião particular – talvez um protesto contra a guerra iminente? (Isto deve ter sido no final dos anos 1930). Era rotina? Uma reunião anarquista? Eu não conhecia essa palavra então, é claro, somente que havia muitas pessoas, a maioria delas homens, e a maioria delas não era jovem. (…) Em um certo momento meu avô começa a falar. Todo mundo fica parado para escutar. Isso se passa por um certo tempo, as pessoas falam e outras ouvem, mas essa hora eu escuto também – é o meu avô. Não tenho certeza sobre o que ele está falando, e aí então no fim eu tenho certeza. No fim ele está falando sobre amor” (Di Prima, 2001, p. 13).
 
Apesar da influência anarquista do avô, foi através do íntimo contato com a avó, Antoinette, que ela obtém suas primeiras percepções do universo feminino.
“Minha primeira percepção do que significa ser mulher foi aprendida com minha avó Antoinette Mallozzi, no seu colo. Era uma casa de iluminação escura e branda, como se houvesse lâmpadas de querosene, mas em minha lembrança havia luz elétrica, como em todo lugar… Havia um ar de mistério sutil. A luz recaía sobre as mãos da minha avó, enquanto ela sentava se balançando, rezando o seu rosário. Ela cheirava a limões e óleo de oliva, alho e cera e ervas misteriosas. Eu amava tocar a sua pele” (Di Prima, 2001, p. 1).
 
 
O universo feminino no pós-guerra, quando Di Prima era adolescente, se restringia a alguns estudos controlados pelos pais e, por volta do ensino médio, encontrar um “bom partido” para constituir família. As mulheres viviam às voltas com os afazeres domésticos e dificilmente tinham outro destino. E os imigrantes, como a família de Di Prima, restringiam seu círculo de relacionamento entre os seus. Mantinham suas tradições como um lugar à parte, as regras de conduta norte-americanas contavam pouco. Ela descreve no seu livro de memórias sua experiência aos 12 anos nesse universo:
 
“Como mulher, como filha, segurando a raiva no limite – a dos homens, a nossa própria. Mantendo a alegria no ar. A alegria de viver da família italiana, os homens me apalpando enquanto dançávamos, as mulheres apertando meus seios sob o pretexto de elogiar meu ‘desenvolvimento’” (Di Prima, 2001 p. 53).
 
Esperava-se das mulheres submissão às regras de uma sociedade controladora e baseada na centralização do poder masculino. E isso refletia intimamente nelas, que de alguma forma reagiam. E se se revoltassem, poderiam ser presas, encarceradas em instituições. Essa realidade foi descrita por Phyllis Chesler em seu livro Women and Madness:
 
“Desde que clínicos e pesquisadores, e também seus pacientes e sujeitos concordem com um padrão masculino de saúde mental, mulheres por definição são vistas como psiquicamente comprometidas – enquanto aceitem ou rejeitem o papel feminino – simplesmente porque são mulheres. Dado a esse fato, não surpreende que muitos estudos reportem maiores ‘neuroses’ ou ‘psicoses’ femininas do que masculinas” (2015, p.173).
 
Era esperado das mulheres um comportamento padrão na sociedade. Diane Di Prima quis mais. Ou melhor, quis diferente. Quis ser livre e viver a sua verdade, como o grande ideal anárquico. Ela descreve em seu livro de memórias o que vivenciou e observou do ponto de vista de uma mulher nos círculos boêmios dos anos 1950 e 1960.
Narra com detalhes a construção de sua identidade como escritora e poeta, o que suas escolhas significaram para ela, como era vista pelos demais e como isso influenciava em sua produção criativa. A sua experiência pessoal nos primeiros anos da formação escolar no Brooklin fez com que Di Prima começasse a construir sua subjetividade de uma forma peculiar.
Esse artigo tem como objetivo oferecer à leitora e leitor brasileiros uma primeira aproximação do extenso material produzido pela escritora e poeta Diane Di Prima por meio de seu livro de memórias e de iniciar um diálogo entre a sua produção criativa e as diversas fases de sua vida. Também tem a finalidade de demonstrar como a escritora transformava em produção criativa o que acontecia no seu contexto social e em sua experiência pessoal.
Para tais propósitos, utilizo trechos traduzidos por mim de seu livro de memórias e intercalo com outros poemas e contos publicados em diversas obras de sua autoria, traçando assim um diálogo entre eles. Procurei ressaltar pontos marcantes da sua trajetória, com o objetivo de mostrar as várias facetas de sua personalidade.
 
Escritoras beat: mais do que um acessório
Como aconteceu com outras escritoras que fizeram parte dos ciclos beat, como Joyce Johnson, Hettie Jones e Bonnie Bremser, Di Prima também rompeu com os laços familiares. Ela deixou os estudos no último ano da faculdade e saiu da casa dos pais em busca de autonomia para escrever, quebrando o paradigma da menina branca de classe média. Chegou até mesmo a morar nas ruas, a dividir moradias precárias com outros jovens que também aspiravam uma vida dedicada às artes e à liberdade.
Os ícones da geração beat, que era formada quase sua totalidade por homens, como Kerouac, Ginsberg e Burroughs, viviam de forma a desafiar os costumes da época. Negavam sua participação no “ideal americano”, considerado falso por eles. Tinham como premissa a autonomia, a independência e a liberdade que os permitiam experimentar a vida até o limite. No ir e vir da estrada, cruzavam o país e assim acumulavam experiências que eram transmitidas através de seus escritos.
E as mulheres? Elas também estavam lá, construindo suas trajetórias, lidando com o preconceito ou mesmo o papel secundário que lhes era sutil ou abertamente imposto por parte de seus colegas escritores. Décadas depois, Di Prima seria frequentemente questionada sobre essa condição acessória:
 
“Lendo um dos poetas dos anos 50, seu prefácio para uma antologia, o que ele inadvertidamente revela, eu percebo que existia realmente essa comunidade determinantemente masculina de escritores à minha volta nos anos 50. Eu sou constantemente questionada sobre isso, como: ‘Como você sobreviveu? Onde estavam as mulheres?’ Era realmente essa conspiração masculina: vaidosa, competitiva, glorificando em pequenas aclamações. Postura de ‘Um Homem É O Que Ele Faz’ (Charles Olson)” (Di Prima, 2001 p. 107).
 
 
E como ela lidava com a tensão do relacionamento entre os gêneros, mesmo dentro de um grupo que era supostamente regido pela quebra de paradigmas, pela liberdade?
 
“Eu via esses caras, eu e os outros, como artistas simplesmente. Todo o esforço era pelo Trabalho, e eu os amava por isso. Eu os amava pelo seu melhor, e além do seu melhor como grandes companheiros da Estrada. Minha escolha: ignorar sua supremacia, sua eterna necessidade de estarem certos. Ou eu levava isso como algo sem importância. Uma menor parte dos seus Atos” (2001, p. 107).
 
Viver e escrever como poeta mulher e rebelde naquela época era quase como ser definida como um homem. Mas a negação do padrão de binarismo então vigente não incomodava Di Prima. Ela não pretendia estar inserida em nenhuma categoria. Não se prendia a rótulos. Preferia estar às margens, como uma “outsider”. Talvez porque o que mais importasse em sua trajetória era viver. Viver a experiência, a estrada.
 
“Amava-os ainda. Queridos amigos e companheiros da arte sagrada – a sagrada tarefa de empurrar o contêiner: até que distância ele irá, a língua, a forma, a mente? As possibilidades inseridas no sonho? Como a teoria da bolha da física. Até onde irá sem quebrar, isso o que somos? O quanto conseguimos esticar o corpo, esticar o espírito? Com drogas, com arte, com visão, sexo ou amor. Com risco à nossa própria saúde, além da rima ou razão” (2001, p. 108).
 
A expressão criativa diante das questões sociais
Diane Di Prima passou por grandes revoluções sociais americanas e isso se refletiu em seu trabalho como escritora. Segundo Anthony Libby, ela é a rebelde que estava imersa nas três maiores revoluções culturais americanas do século:“O modernismo, através de sua associação com Pound, os Beat dos 50 e começo dos anos 60, e então a explosão do LSD e os protestos dos anos 60 e 70, quando o romantismo chega às ruas. Três revoluções, com polaridades políticas descontroladamente diferentes, cada uma criou o futuro em uma forma diferente; poucos escritores ou figuras públicas duraram tanto quanto Di Prima no difícil terreno da contracultura sem se queimar” (Johnson e Grace, 2002, p. 45).  No auge da Contracultura e da Guerra Fria, em 1971 ela publicou a sua primeira versão de Revolutionary Letters (Cartas Revolucionárias), que tinham um grande apelo social, ressaltando seu caráter anárquico, uma das mais marcantes características da sua escrita. Posteriormente, foi acrescentando mais e mais cartas e poemas, com sua última versão publicada em 2007, com mais 23 poemas políticos escritos nas últimas duas décadas. Carta Revolucionária n°19Para a campanha dos pobres se o que você quer é empregospara todos, você ainda é o inimigo,você ainda não pensou direito, claramenteo que isso significase o que você quer é moradia, indústria (GE na reserva Navaho)carro para todos, garagem, refrigerador, TV, mais encanamento, via rápidas científicas, você ainda é o inimigo, você escolheu sacrificar o planeta por poucos anos de uma utopia de ficção científica , se o que você querainda é, ou pode ser, escolasonde todas as crianças podem ser moldadas de uma só forma, são ensinadas que é melhor ser americano do que negroou indiano, ou japonês ou porto-riquenho, onde Dick e Jane se tornaram e são o sonho, você se parece como o pai do Dick? não acha que seu filho secretamente desejaria que você fossese o que você quersão clínicas onde a Associação Médica Americanapode te encher de pílulas pra te manter acordado, ou estéril, injetar germes nos seus filhos, enquanto a Merck e Companhia enriquecese o que você queré ajuda psiquiátrica para todosonde terapeutascafetões dessa decadência, podem fazerflorescer para nós, se você quiserse você ainda quer um pedaço um pequeno pedaço do subúrbio, grama verdeespalhada pelo metro quadradoTV a cores, onde a energia radiantemata as células do cérebroonde mensagens subliminaresfazem lavagem cerebral nos seus filhoslevaram seus sonhostítulos de universidades que não são nada além do que senhorios da pocilga, pias purulentas de mentiras, para que você possa ir em frente e mentir para outros em algum campo esverdeadoENTÃO VOCÊ AINDA É O INIMIGO, você está se subestimando, lembre que vocêpode ter o que pedir, peça tudo.
Esse poema mostra a interpretação de Di Prima sobre a sociedade de classe média americana da época, e de como sua visão a levava a pensar que o crescimento social acarretava em uma série de consequências destrutivas para as relações sociais e para a natureza em geral.Segundo Anthony Libby, por baixo da superfície de libertina existia nela o puritanismo tradicional. Em suas primeiras prosas, ela parece ter dúvidas sobre a sua visão de que o universo é basicamente bom, de que a fertilidade é natural, o ritmo do sexo é natural, que são características do puritanismo. O texto a seguir foi publicado no livro Dinners and Nightmares e retrata como, em uma sociedade distópica pós-apocalíptica, as pessoas perdiam o que lhes era de mais humano, a especificidade da espécie em si. “Sem Título (2003, p. 131)
Eles falam dela como a era do ouro, e existem muitos que não acreditam no conto. Eles dizem que naqueles dias, todos os homens eram feitos iguais. Seus membros eram os mesmos em número e moldados da mesma forma, e eles andavam eretos sobre dois deles. Alguns dizem que quase todos podiam falar e andar, e que suas peles eram inteiras e nenhuma parte de seus corpos se torcia e enrugava no nascimento.Muitos não entendem essas coisas. No meu país cada criança é examinada ao nascer por fraquezas e deformações. Existem algumas que são completamente retorcidas e inúteis e essas são deixadas pra morrer.Quando eu era jovem eu não conseguia entender essa lei. Chorei sobre minha irmã recém-nascida e lutei contra os lobos por ela. Finalmente fiquei exausta e dormi, e aqueles do meu vilarejo vieram suavemente e me carregaram para casa. Quando acordei, meu pai me olhou tristemente e falou, e eu concordei e aceitei as regras e o jeito amargo da minha tribo.Meu pai me fez entender que essas leis são necessárias se a tribo quiser permanecer. Cuidamos dos parcialmente cegos, dos coxos e dos muitos que não podem falar, mas aqueles que não serão capazes de fazer nada devem morrer. É a única maneira.Foi então que meu pai me falou da lenda. Ele disse que os anciãos tinham ouvido de um tempo quando todos os homens eram eretos, e as mulheres a se admirar. Não era como hoje quando os líderes da tribo são os que podem falar e ouvir as palavras ditas e ver além. Naqueles dias todos os homens podiam fazer essas coisas. E a terra toda podia suportar o cultivo, meu pai me disse. Não existia o Solo Negro para trazer a morte àqueles que andassem sobre ele, e nem crianças condenadas por aqueles que chegassem muito perto.
Essas pessoas bonitas cresceram em força e entendimento. Elas chamavam nosso Solo Negro de Mãe Terra e cruzaram o grande oceano. Eles entendiam de todas as coisas, mesmo na distância das estrelas brancas. Mas, eu não entendo como aconteceu. Eles ficaram com medo. E os líderes se reuniram e destruíram todas as pessoas bonitas. E a terra se tornou o Solo Negro, e aqueles que sobreviveram à grande destruição apareceram das cavernas e esgotos e tiveram crianças. E as crianças eram retorcidas e estranhas, e muitas morreram.E agora existe uma lei tribal que nos faz sustentar as crianças, embora muitos delas alimentem os lobos. Estamos exaustos, e acasalamento não é uma alegria pra nós. Mas meu pai diz que a tribo deve continuar, porque somos diferentes de outros animais: alguns de nós podem falar, e isso é um dom dos deuses.”  A maternidade como metáforaA exemplo de suas manifestações de forte conotação revolucionária, Diane Di Prima tratava de questões do universo feminino de forma direta e pontual. A maternidade era para ela uma consequência natural da evolução do ser. Quis filhos, e quando os quis, os teve.Em uma entrevista concedida a Toni Moffeit, em 1989, ela disse: “Eu decidi que queria um bebê, mas eu não queria nenhum homem por perto.” Ela se opunha fortemente a todas as formas de controle de natalidade, e quando foi questionada sobre como sustentar uma criança, respondeu: “Consiga pensão, pare de trabalhar, fique em casa, fique chapada e transe” (2002, p. 106).Seu tom era sempre provocador. Quando soube que estava grávida da sua primeira filha, Jeanne, que depois até morou na rua com ela por um período, Di Prima escreveu o seguinte poema, publicado no livro Dinners and Nightmares, em 2003.
Canções para Baby-O, ainda não nascido (2003, p. 126) CorpoDe quem é carneQue cruzou meu destino?Qual noiteComum ou abençoadaSe forma agoraA andar pela terra?
CorpoQual mão Abriu o soloPara aquela cabeça romper?Nos olhosBrotando à vistaQuem eu vou ver?
CorpoSegredo em vocêNasceu esse choro da carne
Agora conto o conto
QueridaQuando você chegar encontraráUma poeta aquiNão bem o que alguém escolheria.
Não prometoQue você nunca sentirá fomeOu que nunca ficará tristeNesse evisceradoQuebradoGloboMas posso mostrar a você BabyAmor suficiente Para partir seu coração Pra sempre. No poema ela exprime como, apesar de não saber e nem se importar quem era o responsável pela paternidade, o desejo de gerar um filho se fazia presente. Sua visão de como deveriam ser as relações afetivas e sociais antecipava o movimento que surgiu na década seguinte, do amor e sexualidades livres, enfatizando quão transgressor era o seu comportamento. Depois de Jeanne Di Prima, nascida em 1957, Diane Di Prima ainda teve outros quatro filhos, Dominique Di Prima, Alex Marlowe, Tara Marlowe e Rudi Di Prima. Ela vivenciava a ideologia da “maternidade natural”, que embora tivesse elementos românticos como se vivesse em uma outra época na qual algum tipo de ‘comunidade orgânica’ fosse possível elevava a sexualidade feminina livre a um lugar central.  As relações afetivas e a produção criativaNos primeiros anos após deixar a casa dos pais, Di Prima conviveu com todo tipo de gente: pintores, atores, escritores, viciados, cafetões. Muitas vezes ela os sustentava e em outras ocasiões era sustentada por eles. Formavam grupos e se dissolviam a todo momento. Os papéis sociais se modificavam à medida da necessidade. Moravam todos juntos e acolhiam a todos que necessitassem. Era o ideal de liberdade plena: “Aqueles primeiros anos em Manhattan foram repletos de fanfarronice e ludicidade. Aprender as leis da sobrevivência ou inventá-las. Antigos e novos amigos entravam e saíam da minha casa. Frequentei a escola. Estudei grego agora, como queria, e cálculo, teoria e números. Estudei italiano e existencialismo. Li insaciavelmente, escrevi quase todos os dias” (2001, p. 109). Alguns desses amigos se transformaram em material para sua produção criativa. Um desses exemplos foi Bret Rohmer, que Di Prima acolheu em seu apartamento em 1955.“Bret era um amigo um pouco recente, um ator infantil que cresceu para se tornar um pintor. Ele estudava agora na Liga de Alunos de Artes e pintava às tardes em frente ao fogo. Ele cobriu nossas paredes com unicórnios e estranhas donzelas no estilo Matisse” (2001, p. 128).  Amigos da estrada acabavam se tornando fonte de inspiração para seus escritos. Por meio de seus poemas ela também resolvia conflitos nos relacionamentos, externava seus descontentamentos e explorava suas relações afetivas. O poema a seguir foi escrito depois de um conflito com Bret Rohmer, o amigo pintor. “Conto para um unicórnio (2003, p. 145)Era uma vez uma poeta e um unicórnio que viviam em uma cidade horrível. Eles eram amigos por muito tempo.Agora para entender sobre poetas e unicórnios, você deve saber que eles pertencem ao reino mítico, que é diferente do reino animal. Todas as criaturas no reino mítico podem se ver mesmo quando são invisíveis à outras espécies e isso faz deles muito ligados entre si.Agora a poeta era uma poeta muito boa, e ela fazia café, tomava pequenas pílulas, e sempre recebia unicórnios e outras criaturas míticas como uma poeta deveria fazer. Entretanto, ela tinha uma falha não muito poética que não deixava os unicórnios muito felizes. A poeta tinha cãibras.Isso acontecia porque ela não dormia muito. Às vezes ela tinha uma cãibra no joelho, ou no seu dedo, o que não era tão ruim, de fato o unicórnio nem ligava quando ela tinha cãibras no pescoço, mas de vez em quando ela tinha cãibras no seu cérebro, e isso deixava o unicórnio realmente muito triste, porque ele não sabia o que fazer para ajudar com tais cãibras, e nem queria, especialmente.(Se você já viu uma poeta com cãibras no cérebro, você entende como o unicórnio se sentiu. Uma cãibra no cérebro de um poeta não é uma coisa com que qualquer um saiba lidar.)Agora, uma noite eles estavam passeando de carro com outros membros dos reinos mítico e animal e a poeta, que estava realmente muito cansada, teve uma cãibra em seu cérebro sobre os amigos do unicórnio. Na verdade, os amigos do unicórnio eram na maioria muito legais, exceto pelo fato de que alguns deles eram híbridos, e pertenciam parcialmente ao reino animal e parcialmente ao reino mítico. Tais criaturas tinham o hábito de aparecer e desaparecer no mundo de uma maneira muito impertinente, e isso aborrecia a poeta, que como todos os poetas pensava que o jogo mítico de reconhecimento secreto era sagrado e não deveria ser interferido.(Poetas tem certas particularidades e na maioria das vezes eles levam coisas muito a sério e outras coisas despreocupadamente, mas sempre todas as coisas invertidas.)De qualquer forma, nesta noite em particular, como eles estavam indo da Terra da Segurança, que eles chamavam de lar, para a antiga Terra da Aventura, que tinha sido assolada na longa guerra entre os reinos animal e míticos, e que ainda usava o nome arcaico de Greenwich Village, a poeta, que tinha uma grande cãibra em seu cérebro, começou a provocar e repreender o unicórnio sobre seus amigos híbridos e sobre um em particular, que eles iriam encontrar naquela mesma noite.Agora unicórnios, qualquer que sejam suas falhas, são criaturas leais, e o unicórnio em questão ficou muito magoado e então muito brabo quando ele ouviu um de seus amigos repreendendo o outro. Enquanto ele ficava mais brabo ele começou a olhar para frente e manteve sua cabeça bem alta, e os músculos da sua mandíbula de sobressaíram, o que é um sinal certo para um unicórnio de que ele estava Realmente Muito Brabo.Entretanto, a poeta, que tinha uma cãibra extraordinariamente grande, disse a si mesma que não se importava e quando todos saíram do carro ela foi pisando forte rua abaixo, com aquela caminhada peculiar que é uma marca característica dos poetas.E o unicórnio, levantando a cabeça mais alto que nunca, saltou para longe através da noite.E muitas horas mais tarde, quando a poeta chegou em casa, com a cãibra não mais em seu cérebro, se sentiu muito triste e arrependida, e muito tola. Tentou pensar em como se desculpar com o unicórnio, mas ela sabe que poetas são orgulhosos e unicórnios são orgulhosos e que desculpas não funcionariam mesmo. Então ela escreveu esse conto.”        No Conto para um unicórnio, Di Prima se utiliza da metáfora sobre seres míticos para externar sua visão sobre papel do artista na sociedade e de como se sentia pertencente a uma outra “categoria”, como se sentia diferente dos demais.
Uma “Outsider”Anthony Libby entende que a força de Di Prima vem em valorizar a experiência que rompe com as categorias comuns. Ela valoriza uma concepção do “self” (eu) que rompe com as formas de “agrupamentos” habituais. Entende a mentalidade de grupo como limitada, estreita, como na identidade política tribal, implícita em qualquer forma de nacionalismo.Por essa razão, ela preferia estar às margens, longe das formas de agrupamentos da sociedade tradicional. Apesar de ser considerada uma das heroicas precursoras da segunda onda do feminismo, sua solidariedade era primariamente direcionada às excluídas, como uma irmandade das “outsiders” (Johnson e Grace, 2002, p. 49).A escrita de Di Prima é contraditória e sagaz, nem sempre politicamente correta e muitas vezes mescla conteúdo político e sexual. Logo que se torna independente e ganha as ruas, sua percepção do forte poder sexual feminino e em como isso se reflete nas mulheres à sua volta é recebida por ela como o rompimento de um paradigma, como uma libertação: Foi mais ou menos nessa época que tomei o que penso como minha decisão de não ser bonita. Na verdade, eu não tinha a menor ideia de como eu aparentava. Muitos anos da programação cansativa nas mãos de Dick, Emma me deixaram cega de mim no espelho. Eu simplesmente não conseguia ver o que havia lá. Mas o que eu sabia era que obtinha resposta dos homens, na maioria homens, enquanto eu quisesse ou não. Eu havia observado o fardo que a beleza era para as mulheres e as garotas à minha volta. Observado como elas se viam, capturadas em um corredor de espelhos onde era difícil ver o fundo das coisas, para possuir a sua paixão. Capturadas em um tipo de auto amor. Via como elas eram observadas por seus amigos e amantes, e então que elas não eram vistas, não verdadeiramente presenças, mas as pinturas, filmes, estátuas do sonho de alguém. Uma peça da mobília. Eu não estou falando aqui somente de objetificação, embora era parte disto. Não somente o ‘eu não sou um objeto sexual’ que nós ouvimos tanto nos últimos dez ou vinte anos. Mas havia uma coisa mais, um véu de gaze, um verniz, entre os homens e mulheres verdadeiramente bonitos em meu mundo, entre eles e o mundo por si só. Formou-se uma barreira entre elas e os eventos das suas vidas. Seus sentimentos. A crueza da amizade ou do amor. Havia uma postura que elas nunca abandonavam.E também, não importando o quão verdadeiramente elas eram amadas, elas nunca eram verdadeiramente amadas. Ou então era o que parecia para mim. Talvez fosse minha cegueira. Minha necessidade de renegar toda e qualquer parte de mim que me levava o meu pai, tios, os homens da minha família a se comportar como faziam. Minha necessidade de renegar qualquer coisa que tivesse feito Emma chorar quando eu coloquei aquele primeiro batom. Talvez o que vi na vida dessas mulheres não foi nada além de projeção, minhas próprias neuroses, mas até hoje eu sinto alguma verdade nisso. Não importa o quanto elas eram amadas, elas nunca eram amadas” (2001, p. 114). Considerações finaisA trajetória de um escritor muitas vezes toma direções contrárias à sua vontade ou intenção. Muitos escritores beat acabaram “seguindo outra estrada”. Alguns encerraram suas vidas precocemente, por excessos ou simplesmente por falta de administração pessoal. Diane Di Prima não traçou seu caminho conscientemente, em busca de fama e reconhecimento. Mas tinha em mente a clareza de seu papel significativo no mundo como escritora, que seria influência para jovens e mulheres ao longo da vida. Que faria a diferença. E ela ainda segue fazendo. E escrevendo: “Quando falo, como às vezes o faço, para os outros sobre a minha vida, quando eles perguntam, ou buscam descobrir o que significou para mim decidir naquela época ser uma poeta e então como isso seguiu, me tornar ‘Uma Escritora’, eles normalmente dizem, ‘Bem, sem dinheiro, é claro, mas a fama, a fama precoce deve ter sido uma recompensa’. E eu olho pra eles estranhando, penso o que eles veem, como eles imaginam aqueles primeiros apartamentos, quartos vazios, caixas como mesas e cadeiras, e eventualmente um bebê em algum canto. Fama, eu digo hesitantemente, havia fama? Não sei, acho que não” (2001, p. 101).  O objetivo deste artigo foi oferecer à leitoras e leitores brasileiros uma primeira aproximação do extenso material produzido por Diane Di Prima, uma das mais prolíficas escritoras da geração beat, já que apenas um dos seus 34 livros foi publicado no Brasil. Também almejei iniciar um diálogo entre a sua vida pessoal e a sua produção literária, através do seu livro de memórias e de vários contos e poemas de outras publicações. Para esse propósito, busquei nessas publicações referencias, inquietações, eventos que pudessem estar relacionados aos relatos no livro de memórias.  BibliografiaCHESLER, Phyllis. Women and Madness. New York: Palgrave Macmillan. 2005.Di PRIMA, Diane. Dinners and Nightmares. Last Gasp of San Francisco. 2003.Di PRIMA, Diane. Recollections of My Life as a Woman: The New York Years. New York: Viking Press, 2001.Di PRIMA, Diane. https://theanarchistlibrary.org/library/diane-di-prima-revolutionary-lettersFELSKI, Rita. Literature after Feminism. Chicago: University of Chicago Press, 2003JOHNSON, Ronna and GRACE, Nancy M. Girls Who Wore Black: Women Writing the Beat Generation. New Brunswick: Rutgers University Press, 2002.PROUDHON, Pierre Joseph. General Idea of the Revolution in the Nineteenth Century. New York, Haskell House, 1969.





Bio fornecida pelo palestrante.

O INDIZÍVEL NOS CADERNOS DE ELISE COWEN – Emanuela Carla Siqueira




 

Emanuela Carla Siqueira

Universidade Comunitária Regional de Chapecó, SC

Resumo: Elise Nada Cowen foi poeta entre os anos de 1950 e começo dos anos 1960. Circulou pelo grupo chamado de Geração beat e cometeu suicídio aos vinte e oito anos, em 1963. As fotos de Elise são raras. Seus escritos foram queimados pela família ou a seu mando, restando apenas um caderno com oitenta poemas. Elise poderia ter recebido a mesma atenção que Allen Ginsberg, ou mesmo Sylvia Plath, que cometeria suicídio apenas um ano depois, mas ficou relegada a poucas homenagens depois de sua morte, com publicações póstumas de poemas, alguns, inclusive, modificados. O presente artigo pretende situar Elise Cowen no espaço e no tempo da contracultura daqueles anos,  além de pensar sua biografia e subjetividade através de seu único caderno deixado – reproduzido e comentado pelo pesquisador Tony Trigilio – memórias de amigos próximos, principalmente as relatadas pela amiga e contemporânea Joyce Johnson em seu livro Minor Characters, de 1983. Além disso, este artigo pretende reconstruir os laços afetivos – até mesmo os inconscientes – que existiram entre as escritoras que circularam entre os beats durante o período estudado, reconstituindo assim o contexto literário e feminista em que essas escritoras viveram.
 
Minicurrículo: Emanuela Carla Siqueira é graduada em Letras-Inglês e Literaturas pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó, SC.
 
 
O INDIZÍVEL NOS CADERNOS DE ELISE COWEN
 
Emanuela Carla Siqueira
Universidade Comunitária Regional de Chapecó, SC
 
 
O contexto da geração beat
 
O que se conhece como Geração Beat hoje é um dos mais importantes movimentos contraculturais do século XX, um embrião para os movimentos como o hippie e o punk, por exemplo. Mas como aponta Cláudio Willer, no livro introdutório Geração beat, a aceitação e definição do termo pelo seu círculo não foi tão simples assim. Ele considera como definitiva a versão apontada por Allen Ginsberg em 1996 (ver Willer, Claudio, 2009, p. 7). Nesta, a expressão beat generation se tornou famosa em 1948, em uma conversa entre os escritores Jack Kerouac e John Clellon Holmes numa discussão sobre a natureza das gerações de escritores. Ambos não sentiam pertencer à lost generation e, na tentativa de nomear o grupo de que faziam parte, Kerouac aceitou a denominação de que eram uma “geração beat”, sem dinheiro, que vivia e escrevia de forma espontânea.
No fim da década de 1940, a geração beat já vivia uma certa consolidação, e escrevia sobre temas como a estrada, sexo, a não conformidade com o American way of life e empregavam a escrita espontânea. Esses temas já faziam parte do vocabulário que percorria entre o underground do Village, em Nova Iorque, e a boêmia, em San Francisco.
Os beats foram uma espécie de vanguarda que estabeleceria relações com alguns grupos hippies nos anos 1960 e outros projetos de hipsters nas décadas posteriores. Barbas, camisas xadrez, declamações de poesia, saraus e reuniões em cafés baratos eram facilmente identificados e apontados como influências vindas de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, a santíssima trindade. Mas é olhando de forma mais atenta para as fotos da época que se encontram figuras femininas, que, embora sempre presentes nas narrativas dos homens, como amantes, nessas imagens são apenas mulheres de preto, trajando calças e cabelos curtos, outras usando vestidos e cabelos bem arrumados, mas sempre estão em segundo plano, sinalizadas apenas como acompanhantes, coadjuvantes de contextos, cenários de uma história que parece ter sido escrita apenas por mãos grossas, revestidas de pelos e testosterona à flor da pele.
Apesar das afirmações dos próprios homens do meio beat (Joyce Johnson, 1983, p. 79), de que uma verdadeira organização artística só podia ser formada por homens, havia mulheres em seu meio. Muitas eram inconformadas com seus papéis desempenhados nessa nova sociedade, recém-saída da segunda grande guerra, em que os homens retornavam para o lar em busca apenas de sossego, uma vida em família e “normal”: longe das armas e conflitos. Percebiam que nada era como antes, pois o mundo poderia entrar em colapso a qualquer momento. E nesse contexto de incertezas, os jovens eram os primeiros a questionar o tradicional.
O Barnard College, por exemplo, famosa escola nova-iorquina dedicada à educação para moças, era um verdadeiro celeiro para as jovens questionavam a repetição dos velhos papéis impostos às mulheres. A própria convivência entre as moças provocava novos conflitos, que se refletiam diretamente em suas ações fora da universidade, e elas terminavam por se opor às tradições familiares, a fugir de casa ou a resolver tomar decisões sobre sua própria vida e seus corpos.
Em Minor Characters (1983), Joyce Johnson define de forma primordial o que sentiam as garotas quando decidiam sair construir uma vida sem ter nenhum exemplo anterior para seguir, tornando-se verdadeiras transgressoras protofeministas:
 
Those of us who flew out the door had no usable models for what we were doing. We did not want to be our mother or our spinster schoolteachers or the hard-boiled career women depicted on the screen. And no one had taught us how to be women artists or writers. We knew a little about Virginia Woolf, but did not find her relevant. She seemed discouragingly privileged, born into literature, connections and wealth. The “room of one’s own” that she wrote about presupposed that the occupant had a small family income. Our college educations enabled us to type our way to fifty dollars a week – barely enough to eat and pay the rent on a tiny apartment in Greenwich Village or North Beach, with little left over for shoes or the electric bill (Johnson, 1983, p. 22-23).
 
Essas pequenas revoluções que se criavam nas principais universidades para garotas eram inspiradas, e em alguns casos simplesmente análogas, à universidades maiores mistas ou apenas para garotos. Bem se sabe que a Universidade de Colúmbia – onde estudaram os principais homens da Geração Beat – eram levados não como locais de obtenção de conhecimento, mas como um lugar onde receitas de tradições eram apenas passadas de geração em geração, moldando mentes que apenas repetiam o eco que ouviam dos intelectuais do passado. No filme Kill your Darlings (2013), do diretor John Krokidas, no qual é relatado o famoso episódio do assassinado de David Kammerer por Lucien Carr e encoberto por Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, são mostradas várias cenas em que alunos como Allen Ginsberg, tomados por um espírito vanguardista, questionam as aulas da Universidade de Columbia que não ensinam Walt Whitman ao invés de Shakespeare, tão distante do tempo deles.
A escritora Diane Di Prima, que frequentou durante um ano e meio a Swarthmore College, relata um ambiente menos movimentado, porém pleno de inconformismo, em Memórias de uma beatnik (2013):
Após a liberdade alegre e um tanto surreal da escola secundária em Manhattan, a faculdade havia sido, de modo geral, uma decepção absoluta: um lugar de estereótipos masculinos e femininos de suéter de caxemira, e festas ruidosas e desagradáveis, regadas a cerveja. Lugar de um corpo docente infeliz com olhares de soslaio para virgens lascivas de Little Rock. Um lugar de partidas de bridge intermináveis, de festas superficiais, de um tédio que se espalhava feito praga por um campus muito bonito e por cada canto e fenda dos prédios cobertos de marfim. Um bom lugar para um assassinato, certamente, em que, em vez disso, ocorria uma média de três suicídios por semestre (Di Prima, 2013, 57).
 
O final dos anos 1940 foi uma época ideal para a maturação de um movimento vanguardista que rompesse com as tradições e redefinisse o sentido de contracultura. A geração, constituída em sua maioria de homens, pegaria a estrada durante essa década e a próxima e seria uma inspiração para algumas garotas que iriam conquistar não as rodovias norte-americanas, mas sua liberdade de ir e vir pelas ruas de metrópoles, pagar aluguéis baratos em lofts com seu próprio trabalho e assim adquirir um teto próprio sob o qual poderiam repensar os seus valores, os limites de seu corpo e a forma que teria sua arte teria.
 
Escritoras na geração beat
 
“Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram, elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava trancá-la. Houve casos, eu as conheci, algum dia alguém escreverá a respeito” (Gregory Corso).
 
Se os nomes de Kerouac, Ginsberg e Burroughs ecoam até hoje é porque a geração beat desenvolveu um papel importante tanto como movimento contracultural, colocando os valores sociais da época em cheque, quanto como movimento literário, promovendo a poesia, a escrita espontânea, os saraus e a boêmia, característica já importante naquele momento para os que escolheram estar na oposição aos bons costumes. Mas, se houve homens, também houve mulheres muito além das conhecidas musas Carolyn Cassady, Joan Kerouac e Edie Parker.
É um trabalho de dedicação encontrar registros e trabalhos das mulheres da época. Toda a produção literária, cartas, diários e imagens, é bastante escassa. Onde quer que se procure “Women of the beat generation” seguida da busca pelo nome de cada escritora, o resultado será pequeno, apenas baseado em poucas fotos de época e em obras publicadas depois dos anos 1990, pelo esforço de pesquisadores que foram acrescentando os nomes delas aos da produção masculina. Diane Di Prima – a escritora ligada ao grupo e mais comentada – parece ter recebido mais atenção graças a seu envolvimento posterior com a cena hippie e os grupos de San Francisco antes do que em sua vivência inicial no cenário literário de Nova Iorque. Hettie Jones, que circulava muito pelo grupo beat – era casada com o único poeta negro do movimento e é primorosamente citada por Joyce Johnson em Minor Characters. Há poucas fotos de sua juventude, e posou para as câmeras só após seus cinquenta anos, pelo menos. Vale salientar que escritoras como Joyce Johnson, Hettie Jones e Elise Cowen – mesmo com seus cadernos queimados – já mostravam bons indícios de produção antes ou durante o mesmo período, proporcionalmente às grandes publicações masculinas de Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Na introdução ao livro de Cowen, Minor Characters (1983), a pesquisadora Ann Douglas procura enumerar alguns motivos para que a autoria feminina do movimento ficasse em segundo plano diante do protagonismo masculino, sem perder o desenvolvimento da sororidade entre elas e descoberta de suas próprias subjetividades como mulheres e escritoras:
 
Minor Characters records the cost the beat generation exacted of its most gifted women. Joan Burroughs and Elise Cowen didn’t survive, in part because they internalized their male Beat models too intimately; Hettie Jones postponed her own public career as poet to further that of LeRoi Jones (later Amiri Baraka), then her husband. Yet, as Barbara Ehrenreich has argued, the male beats provided an example of liberation for the feminists of the next decade, and Minor Characters tell us how a number of beat women found themselves in each other, discovering in the cultural ground their male peers cleared the space for their own self-expression (p. 16).
 
No Brasil, Claudio Willer – provavelmente o principal pesquisador dos Beats por aqui – cita o envolvimento de algumas mulheres com o grupo, em Geração beat (2009). Mas, apesar de se ter conhecimento de mulheres escritoras circulando entre os Beats, praticamente não houve interesse editorial pelo trabalho delas. Isso nem da parte de editoras que visavam o mercado, nem tampouco os divulgadores e tradutores que apresentavam esses escritores em pequenas publicações como zines e revistas independentes.
Foi nos anos de 1990 que surgiram as primeiras tentativas de colocar as mulheres dentro do mapeamento de trabalhos da geração beat. A confusão em tratá-las apenas como amantes, amigas ou companheiras não tornava o trabalho simples e fácil para quem as pesquisasse. Claro que algumas foram figuras atuantes dentro do grupo, mesmo que o mercado editorial, os jornalistas literários e os próprios escritores, as omitisse. Diane Di Prima, por exemplo, sempre fora citada junto aos nomes masculinos. Poeta desde os anos 1950, ela foi associada mais como um membro honorário do que uma figura realmente pertencente à boêmia do momento. Afinal, para a época, não era cabível uma moça ser boêmia, escritora e independente ao mesmo tempo. Se é difícil definir o que, ou quem, foi a geração beat, é ainda mais complicado associar essas mulheres ao grupo. Como se sentir parte de algo que sempre a colocou como coadjuvante?
O trabalho de Ronna C. Johnson, Nancy M. Grace, Ann Douglas, e outras que se dedicaram a divulgar a autoria feminina dentro da geração beat foi fundamental para que finalmente essas escritoras tivessem representatividade. E é refazendo o percurso dos homens, dessa vez sob uma ótica das mulheres que viveram o momento, que se percebe que eles, mesmo sendo transgressores, destituídos da moral e dos bons costumes, vivenciando a bissexualidade e alheios às cobranças da sociedade, ainda assim mantinham uma visão conservadora a respeito da representação feminina.
Para essas mulheres os atos transgressores podem parecer mais levianos e simplórios se colocados em comparação às viagens de carona em beiras de estrada, ao trabalho braçal feito em plantações de algodão ou à busca de um lugar para dormir e um prato de comida enfrentados pela trupe masculina. O fato de apenas sair da casa confortável de seus pais, abandonando o sonho familiar de casamento e submissão, era um dos maiores atos de rebeldia enfrentado pelas mulheres da época.
Boa parte delas acabaram publicando um pouco tardiamente quando comparadas a Allen Ginsberg, por exemplo, um dos maiores influenciadores de escritores de qualquer gênero, na época. Mas, em qualquer pesquisa sobre essas mulheres, nota-se que elas já eram arrematadas escritoras, memorialistas e poetas. No único caderno que sobrou de Elise Cowen, já é possível traçar um panorama dos doze meses em que escreveu suas poesias e anotações, e nele notar uma voz latente e uma série de figuras que se repetem em sua poesia, legitimando um estilo na sua escrita. Como bem definem Ronna C. Johnson e Nancy M. Grace (2002) sobre a importância de se compreender a construção dessas escritoras como sujeitos da geração beat nas suas condições na época:
 
(…) understanding the female subjects inscribed in their writing and restoring this writing to the Beat canon is essential project that illuminates postwar sexuality and discourse the masculine and feminine in Beat culture and literature as well as in those of the mainstream. Beat women writers bring to Beat literature women-centered subjects and themes from the domestic to the sexual to the existencial and by this modification to beat’s exclusionary masculinism expand what it means to be beat (Johnson, Grace, 2002, p. 11).
 
 
 
ELISE COWEN E O QUE SOBROU DE SEUS CADERNOS
 
Elise
Pegou um Greyhound.
Sabotou
alguns relógios

na cidade
me deixou o resto,
e um destino
de um eterno chop suey,
uma cópia surrada d’O Idiota
Ela não tinha muito.
 
Quando as portas fecharam
e o ar-condicionado ligou,
a estrada de couro negro
a levou.
 
Seus amigos
celebraram sua ida
com cerveja e punhos cerrados.
Seus pais
em sua impenetrável sala de estar
cerraram as cortinas.
 
(Joyce Johnson)
Her middle name was Nada – a name of such bleak prophecy it’s astonishing to think of anyone inflicting it upon an infant daughter. (Mine, for example, was Alice, conjuring up the looking-glass child, teas in pinafores on lawns). “Literally it means Nothing – Nothing and Nothingness,” Elise said with a certain melancholy pride (Joyce Johnson, Minor Characters, 1983, p. 54).       


Não é difícil ter empatia, ou mesmo um interesse latente, por Elise Cowen apenas olhando para as poucas fotos que restaram, principalmente uma que parece esboçar um sorriso na imagem que  ilustraria seu passaporte, nunca usado. Os óculos de bibliotecária, tão comuns nos anos 1950, lhe conferiam uma certa personalidade, uma firmeza indescritível no olhar. Não diferente das descrições feitas por Joyce Johnson em Minor Characters, Elise era tão decidida e impulsiva que podia levar quase tudo ao limite, deixando de lado a autoestima e a capacidade de controlar as situações.
Pouco sobrou de Elise Nada Cowen, de sua produção apenas oitenta e três poemas escritos entre o outono de 1959 e a primavera de 1960, período de pouco menos de dois anos antes do seu suicídio. O restante do que deixou, como cartas, diários, cadernos e anotações foram queimados logo após sua morte por parentes próximos e vizinhos do apartamento de seus pais, de onde pulou de uma janela fechada do sétimo andar após passar por uma série de situações com que não conseguiu lidar, no auge dos seus vinte e oito anos.
Joyce Johnson e Leo Skir foram os primeiros a falar de Elise com maior profundidade, apesar de que foi Allen Ginsberg que usou de sua influência para publicar alguns poemas que ficaram com Skir. Segundo os relatos de Skir e Joyce Johnson, nos respectivos Women of the Beat Generation e Minor Characters, ambos não conviviam muito com Elise que flanava entre espaços, sempre silenciosa e impetuosa.
Joyce Johnson conheceu Elise na Barnard College e por cerca de dez anos ambas mantiveram contato, em uma amizade as vezes distante mas muito afetuosa. Pelas descrições de Johnson em Minor Characters, Cowen era bastante cuidadosa com a amiga, aparecendo as vezes para contar alguma situação, tomar um café ou apenas desabafar, sem nunca deixar de pedir que Joyce fosse feliz. O trecho que Johnson relata o primeiro encontro das duas é moldado por um certo tom onírico e saudosista, mostrando que talvez as lembranças do momento sejam mais suntuosas do que ele em si. Mas algo é certo, Joyce jamais esqueceu da amiga e dos pequenos detalhes e cartas trocadas:
 
I did not want to how Elise Cowen, who clearly was not collegiate and whom I could tell at a glance was even beyond the effort of trying. She introduced herself in such low voice I had to ask her to repeat her name. But her eyes insisted, “I do know you. We have been to the same places. And I isn’t it ridiculous for us to be here?” And all the while, in my plaid and lamb’s wool, I’d hoped I blended in so perfectly (Johnson, 1983, p. 51).
 
O livro Women of the Beat Generation (1998), editado por Brenda Knight, traz uma carta de Leo Skir – o qual, junto com uma prima de Elise, é um dos poucos que teve acesso ao único caderno deixado por ela – em que ele conta, em forma de relato, como conheceu Elise Cowen e acompanhou sua trajetória durante os anos em que se relacionou com Ginsberg e Caroline Hiller, mudou-se para San Francisco, sofreu um aborto perigoso, frequentou clínicas psiquiátricas como Bellevue e Hillside e como em um dia aleatório recebe uma ligação de Caroline sobre a morte de Cowen.
O pesquisador americano Tony Trigilio é atualmente o mais dedicado a divulgar o que sobrou da vida e obra de Elise Cowen. Responsável por editar Poems and Fragments (2014), livro composto por todos os poemas do único caderno que sobrou, com comentários, notas e trechos fac-símile do original.
Nascida em 1933, Cowen vinha de uma família de classe média judia, que vivia no simpático bairro de Washington Heights, em Nova Iorque. Como qualquer mulher de sua época, o pós-guerra esperava dela apenas calma e procriação, aguardava-se um futuro incrível para a pequena Elise: uma excelente educação, passando pela faculdade para garotas Barnard College, um posterior bom casamento e a vida que seguia em bom tom.            Mas contrariando todo tipo de expectativa Elise detestava as aulas em Barnard, frequentava lugares onde se encontravam todo de tipo de grupo boêmio da época, tais como beats, artistas, músicos de jazz e inconformado com o velho e falido sonho americano.
Aos treze anos Elise teve um acidente assando brownies para colegas de escola, sendo que boa parte do cabelo e sobrancelhas foram perdidos, depois disso nunca mais se achou bonita e tinha dificuldades em aceitar a sua aparência. Talvez foi nesse momento que surge nela uma certa autopiedade e obsessão em relação à parceiros(as) e como ela deveria se comportar de forma submissa em relação ao outro, fosse como amiga ou amante.
Quando entrou em Barnard aos dezoito anos ela já não tinha intenções de alimentar a figura de moça comportada esperada por sua família. Engatou um relacionamento com o jovem professor de filosofia Donald A. Cook, que iludido com a vida adulta praticava alguns experimentos psicoterapêuticos com seus alunos, os confortando com versos do poeta William Butler Yeats. Como bem descreve Joyce Johnson sobre Elise e Donald (no livro com a alcunha de Alex Greer) “Of course she fell in love with him” (Johnson, 1983, p. 58).
Elise via em Donald uma figura de rapaz mais velho e inteligente, diferente dos garotos que conhecia nos grupos de jovens judeus, nas festas que ambos frequentavam, conta Skir em Women of the beat generation. Donald sabia aproveitar o que Elise tinha para oferecer, estava em um casamento falido e tinha um filho para criar. Elise se saia muito bem como ajudante, fosse na cama ou na cozinha de sua casa. Mais tarde ele iria dar um novo rumo para ela, apresentando Allen Ginsberg, que havia sido seu colega de classe em Columbia, se tornando uma figura recorrente na poesia de Elise.
 
 
A POESIA DE ELISE COWEN
 
“And Isn’t amazing that suicide is illegal when society is so indifferent to human life?” (Johnson, Minor Characters, 1983, p. 65).
 
Elise Cowen sai da casa dos pais com apenas dezenove anos, idade que na época era comum uma garota estar preparando seu próprio casamento, além de estar finalizando o curso superior. Foi também nesse período que aconteceu o primeiro “acidente” de tentativa de suicídio. Quando questionada pela amiga Joyce Johnson sobre o ocorrido, Elise afirma que teve um acidente com cacos de vidro na banheira e, indignada sobre o médico achar que foi uma tentativa de suicídio, ela afirma: “Não é interessante que o suicídio seja ilegal em uma sociedade tão indiferente à vida humana?” (Minha tradução, Johnson, 1983, p. 65).
O caderno deixado por Elise Cowen tem o estilo de um bloco de notas comum. Tony Trigilio descreve-o como pequeno. Na reprodução do texto, o organizador faz o possível para usar a harmonia escolhida pela poeta e em alguns poucos casos reproduz um fac-símile das páginas do caderno.
O caderno não contém apenas poemas, mas possui ainda algumas anotações, tais como fragmentos de possíveis cartas para pessoas próximas como a Betty Gibbs, mãe do amigo Keith Gibbs, e Leah, sendo essa última carta apenas um rascunho riscado. Elise também copia fragmentos, como um trecho de uma poesia de Emily Dickinson, uma de sua maiores influências e figura presente não apenas na estética/forma dos seus poemas, mas também nos temas que envolvem sentimento e natureza. A própria Dickinson figura em duas ou três poesias, como em “Emily White Witch of Amherst”.
“Sonho” é o segundo poema do livro de Cowen e um dos poucos que brinca com a prosa. O poema remete ao estilo espontâneo dos beats, principalmente de Allen Ginsberg, talvez bastante influenciada por Kaddish, obra que ela datilografou para Ginsberg durante o ano de 1959, justamente quando iniciava a escrita desse caderno. Nesse poema existem muitos paralelos com Kaddish: além da forma, a temática perturbada e suicida de Elise, muito próxima da da mãe de Ginsberg, que é o principal tema do livro dele.
Elise já havia realizado algumas tentativas de suicídio, e sua rebeldia incentivava os pais judeus a a colocarem em clínicas psiquiátricas. O conteúdo onírico, sendo praticamente um pesadelo, deixa clara a relação difícil de Elise Cowen com os pais, bem descrita por Joyce Johnson em Minor Characters: “Sonho” destaca uma característica que se torna marcante após a leitura de todos os oitenta e três poemas: a forma com que Elise costuma atuar ou performatizar a questão do gênero na sua poesia. Ela abusa das metáforas e figuras de linguagem com o fito de representar a ambiguidade do órgão sexual. Usando a palavra “gash”, é possível tanto se referir a uma fenda aberta quanto a uma conotação grosseira para vagina.
Todos os poemas abaixo têm minha tradução:
 
Sonho (p. 4)
 
Não consigo lembrar de tudo.
Ar bem limpo. Estou com Mamãe &
Papai. Estão me levando ao médico
já que estou doente, neurótica. Estão
enojados de mim, cansados durante todo
o sonho, especialmente Papai como na
vida (?) real. Depois de falar com o médico,
cujo rosto não lembro, ele, o
médico, senta na cama & retira uma
atadura de sua longa perna, mostrando
uma fenda a secar.
 
“Quero vestir e sair” também possui uma lírica ao estilo beat. O poema tem ritmo, o famoso “tudoaomesmotempoagora” proposto por Jack Kerouac. Mas o que mais encanta nesse poema simples é forma como Elise passeia por dois assuntos muito caros a sua poesia: a liberdade, a busca de autonomia como mulher e a morte. Há um episódio narrado tanto por Joyce Johnson como por Leo Skir, em que Elise havia conseguido um bom emprego como datilógrafa em um estúdio conhecido. Em uma fase boêmia, ela se atrasava e às vezes chegava bêbada ou drogada, até que foi demitida do emprego. Inconformada com a situação, afinal não morava mais com os pais, Cowen    chegou cedo na empresa no dia seguinte, sentou-se imponente diante da máquina de escrever e exigiu uma resposta sobre a demissão, o que resultou em ter de sair do local escoltada pela polícia.
 
Quero me vestir e sair (p. 9)
Quero me vestir e sair e subir em um ônibus pegar um cheque e registrar um
seguro desemprego
Corpo, porque esse sentimento engraçado – pavor
De quê –
Morte? Morte tão desejada?
“Morte da mente” – paz – não, a dissolução a sete palmos
 
A morte é um assunto frequente na poesia de Elise Cowen, pelo menos foi um tema recorrente durante o ano que manteve esse caderno publicado por Tony Trigilio. Alguns dos poemas mais conhecidos de Cowen – os que mais circulam na internet, como “Sem Amor” e “Morte, estou chegando” – tem imagens sobre a morte tão potentes que geralmente são associados como os derradeiros poemas de Elise. Como era uma grande adepta de escrever quase diariamente em seu caderno, é praticamente impossível que o poema em que se despede das pessoas mais próximas seja o último.
Joyce Johnson também relata que Elise, sem salário fixo, acabava por viver muitas vezes em em lugares de condições precárias e pouco iluminados. Referências a uma masmorra, escura e fria podem ser associadas aos períodos de depressão, mas também aos ambientes em que Elise acabava por viver. Nota-se, por exemplo, uma sequência de poemas sobre baratas, quase kafkianos, no quais ora as colocava como dispositivos de divagação, ora as aproximando como companheiras, tratando-as de forma afetuosa, enquanto, em outros momentos, apenas questionando as motivações que levariam uma barata a sobreviver nesse mundo.
 
Às vezes em minha masmorra há algo que rasteja (p.12)
Em algum lugar nesta masmorra
Algo rastejante
Uma lagarta eriçada
Uma vir-a-ser borboleta
Ficará desapontada
Se não houver dia para ver?
 
Se tornar-se uma mariposa?
Que triste visão
Pois não há nada além dessas paredes
Sou o único clarão
 
Morte, pequena mariposa cinza (p. 13)
Morte, pequena mariposa cinza
Obrigada pela corrente curta e gelada
Olhos fechados
Frio
Tentei (p. 39)
Tentei
Tenho tentado
Tentarei de novo
Apesar da fraqueza do meu ser
Não há nada digno
Além de Deus & você
E deus foi dormir
 
Morte, estou chegando (p. 105)
Morte, estou chegando
espere por mim.
Sei que estará
Na estação de metrô
Equipada com galochas, capas, guarda-chuva, vovó
e sua única e simples resposta
para cada sentido
Instituição incorruptível
Desmancha-prazeres cautelosa de sinais
Ouça o que ela diz
“Há uma passagem através das cabanas brancas”
 
Sem Amor (p. 116)
Sem amor
Sem compaixão
Sem inteligência
Sem beleza
Sem humildade
Vinte e sete anos são suficientes
 
Mãe – tarde demais – anos de mesquinhez – me desculpe
Papai – O que houve?
Allen – Me perdoe
Peter – Jovem rosa sagrada
Betty – Tal bravura feminina
Keith – Obrigada
Joyce – Garota tão bela
Howard – Querido se cuide
Leo – Abra as janelas e Shalom
Carol – Faça acontecer
 
Me deixem agora por favor –
– Por favor me deixem ir
Uma barata (p. 14)
Uma barata
Rastejou para dentro
Do meu sapato
Gostou da fragrância da escuridão
Uma barata
Escalou
Meu sapato
Longe do frio & luz
Arrasto minha mão
A
Seguindo
Barata
O melhor que posso fazer por você
É compará-la a o bronze
E judeus
Não é bem-vinda
a usar o meu sapato
Como descanso de viagem
Óbvio
Da sombra da minha mão
Você sempre volta
pelo chão
Mais? – olhe –
 
Você perdeu uma antena
Eu trato você
seriamente afetiva como um bebê
 
Em Poems and Fragments Elise faz referências a outros(as) amantes, mas a figura mais predominante é a de Allen Ginsberg, provavelmente pela proximidade dos períodos em que ela escreveu o caderno e o em que conviveu com ele. Em “Sentada com você na cozinha” ela basicamente faz um carinho, um momento de ternura em meio ao turbilhão de sentimentos que vivia. Relata uma cena na cozinha, um sentimento de saudade e não deixa de brincar com os gêneros. No inglês usa o artigo ‘The’ como “a beautiful, regal, perfect word” para reforçar o indefinível, como se talvez se tratasse dela e de Allen, algo sem definição, fora dos padrões.
 
Sentada com você na cozinha (p.23)
Estar com você na cozinha,
Conversando tranquilamente sobre qualquer coisa
Tomando chá
Amo Você
“O/A” é bela, suntuosa, palavra perfeita
Oh, queria seu corpo aqui
Com ou sem poemas barbados
 
Na introdução de Poems and Fragments, Tony Trigilio relata todos os pormenores do seu trabalho tentando editar a poesia de Elise Cowen e um deles foi que ele acreditava que Leo Skir era o único detentor dos últimos poemas de Cowen. É inegável a importância de Leo na divulgação da obra poética da escritora, graças a ele muitas poesias de Elise – que nunca mostrava para ninguém o seu trabalho – foram publicadas logo após a sua morte. Mas por outro lado Leo fazia modificações estranhas aos poemas e um deles foi “O corpo é uma coisa humilde” modificado para “A mulher é uma coisa humilde” (Body versus Lady). Ambas as palavras dão uma conotação forte ao poema que dá o tom – de maneira tão certeira e rápida – sobre noção de lugar/espaço e corpo da mulher no fim dos anos 1950, em um momento protofeminista e necessário.
 
O corpo é uma coisa humilde (p. 25)
O corpo é uma coisa humilde
Feito de morte & água
A moda é vesti-lo simples
E que a mente seja o molde
 
CONCLUSÃO
 
If you wished to live free, you could not also expect to live wel. (Joyce Johnson, Minor Charcaters, 1983, p. 63).
 
Quando se sabe que o que sobrou da obra de Elise Cowen é apenas um caderno pequeno, com anotações e oitenta e três poesias pode-se muito bem pensar que o estudo se esgota rápido e se fecha no curto ciclo da vida da escritora. Seria um engano trabalhar com tal afirmação pois a obra de Elise e a sua misteriosa vida de vinte e oito anos são um material vasto e prolífico.
Escrevendo e fazendo tentativas de tradução sobre apenas dez poemas escolhidos de Poems and Fragments é inegável sentir que seria possível passar anos se debruçando por uma obra tão repleta de indícios e ousadia sobre a subjetividade feminina na literatura. Os poemas de Elise são profundos e certeiros como de qualquer poeta da época como, por exemplo, a contemporânea Sylvia Plath. Assuntos como família, sexualidade e posição diante de uma sociedade são visíveis e profundamente tratados em versos curtos. Elise Cowen ainda tem muito para mostrar ao mundo mesmo através dos seus cadernos. Resta saber se alguém está disposto a ouvi-los ou lê-los.
 
 
REFERÊNCIAS
Cowen, Elise (2014). Poems and Fragments. Boise: Ahsahta Press.
Di Prima, D. (2013). Memórias de uma beatnik.  São Paulo: Campos.
Grace, N. & Johnson, R. (2001).  Girls who Wore Black;  Women Writing the Beat Generation.  New Brunswick:  Rutgers University Press. [2003]. [2002].
Johnson, J. (1999). Minor Characters.  Introd. Ann Douglas. New York: Penguin. [1983].
Knight, B. (1996). Women of the Beat Generation. Berkeley, Calif.: Conari Press.
Skir, Leo (1996). Elise Cowen: a Brief Memoir of the Fifties. In: Women of the Beat Generation: the Writers, Artists and Muses at the Heart of the Revolution. Ed. By Brenda Knight. Berkeley, Calif: Conari Press.
Willer, C. (2009). Geração beat. Porto Alegre: L&PM.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

MULHERES PERVERSAS: A CARACTERIZAÇÃO DAS FEITICEIRAS CIRCE E JADIS – Isabelle Rodrigues de Mattos Costa




 
 

Isabelle Rodrigues de Mattos Costa

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
Resumo: O objetivo deste trabalho é explorar o conceito da mulher perversa, conforme defendido por Bram Dijkstra em Idols of Perversity (1986), assim como estabelecer um paralelo entre a mulher perversa e a figura da feiticeira. Desse modo, analisaremos de que maneira as personagens Circe, da Odisseia de Homero, e Jadis, de As Crônicas de Nárnia, podem ser consideradas mulheres perversas: além de serem feiticeiras, as duas possuem características tipicamente masculinas e transgridem os papéis tradicionais da mulher. Além disso, estão ligadas aos instintos básicos: se Circe transformava os homens em animais, Jadis comandava um mundo habitado por animais, como se sua própria natureza bestial lhe permitisse reinar sobre eles. Investigaremos, portanto, as semelhanças entre essas duas personagens.
 
Palavras-chave: Mulheres perversas, feiticeiras, Circe, Jadis.
 
Currículo: Mestranda em Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e graduada em Letras – Inglês/Literaturas de Língua Inglesa pela mesma universidade. Atualmente trabalha na Secretaria de Estado de Educação. Recentemente publicou o artigo “O espaço e a assombração: o gótico de Shirley Jackson em The Haunting of Hill House” na revista Versalete (ISSN: 2318-1028).
 
 
MULHERES PERVERSAS: A CARACTERIZAÇÃO
DAS FEITICEIRAS CIRCE E JADIS
 
Isabelle Rodrigues de Mattos Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
 
 
Bram Dijkstra, professor de literatura inglesa da Universidade de Califórnia, Estados Unidos da América, analisou em Idols of Perversity (1986) as representações de mulheres entre os séculos XIX e XX, procurando justificativas para o movimento antifeminista percebido não só na vida social, mas também nas obras literárias e artísticas. Para ele, o preconceito contra a mulher originava-se de alguns preceitos difundidos na sociedade, dentre os quais se repudiava a mulher que mostrasse características tipicamente consideradas masculinas, como agressividade, anseio por poder e sexualidade exacerbada – essa mulher assertiva, que se recusa a aceitar o papel submisso imposto pela sociedade, ele denomina de “mulher perversa”.
Dijkstra estabelece uma oposição dualística: de um lado, a mulher idealizada e do outro, a perversa. O “anjo da casa” era um modelo[1] que vigorou na era vitoriana, idealizando a imagem da mulher como boa mãe e esposa, dócil e submissa. Segundo esse ideal, a mulher deveria ser passiva e assexuada, sendo frequentemente caracterizada como quase etérea e de uma pureza contemplativa, além de, obviamente, obediente à ordem patriarcal.
A mulher perversa então era considerada o oposto do anjo da casa, incorporando aspectos assertivos e tipicamente considerados masculinos. Configurava desse modo uma ameaça ao ideal de mulher, e, portanto, um monstro cultural: para Dijkstra, a recusa dos direitos do homem sobre ela transformava a mulher num predador poliândrico (DIJKSTRA, 1986, p. 334), uma espécie de monstro feminino que aterrorizava a sociedade. Assim, figuras assertivas eram frequentemente caracterizadas como mulheres monstruosas e vilanescas, enquanto a heroína geralmente era representada como dócil e passiva. Não raro, essas figuras predadoras eram caracterizadas também como mulheres masculinizadas ou figuras andrógenas, representando as características “masculinas” que supostamente buscavam usurpar.[2]
A figura da feiticeira – que frequentemente aparece como vilã – representa essencialmente uma mulher perversa, destoante do ideal anjo da casa. Historicamente falando, muitas mulheres acusadas de bruxaria entre os séculos XV e XIX possuíam uma personalidade considerada conturbada: falavam palavrão, questionavam os outros e defendiam fortemente sua opinião, fosse discutindo com o marido ou com autoridades; enfim, eram mulheres de personalidade forte, que não se sujeitavam ao papel submisso que se esperava delas (KARLSEN, 1998, p. 310). Por exemplo, em Northamptonshire, em 1612,
 
This Joane Vaughan, whether of purpose to give occasion of anger to the said Mistris Belcher, or but to continue her vilde, and ordinary custume of behaviour, commited something either in speech, or gesture, so unfitting, and unseeming the nature of woman-hood, that it displeased the most thar were there present: But especially it touched the modesty of this Gentlewoman, who was so much mooved with her bold, and impudent demeanor, that shee could not containe her selfe, but sodainely rose up and strooke her […] taking disdainefuly and beeign also enraged (as they that in this kind having power to harme, have never patience to beare) at her going out told the Gentlewoman that shee [Joane Vaughan] would remember this injury, and revenge it (…) (GIBSON, 2000, p. 163).
 
Algum tempo depois, Belcher adoeceu e Joane Vaughan foi acusada de bruxaria. Muitas outras mulheres de personalidade forte eram frequentemente acusadas. Para Keith Thomas, “uma grande, talvez incomensurável, proporção dos que foram acusados formalmente de bruxaria no período manifestara algum tipo de malevolência para com os vizinhos […] um resmungo, uma maldição proferida entredentes ou uma sutil ameaça velada” (THOMAS, 1991, p. 416).
Se consultarmos o Malleus maleficarum[3] (1486), veremos que se acreditava que as mulheres perversas possuíam maior inclinação à bruxaria. Segundo o tratado, o maior número de praticantes de bruxaria pertencia ao sexo feminino porque a mulher era mais propensa à malícia, e “(…) a mulher perversa é, por natureza, mais propensa a heresiar na sua fé e, consequentemente, mais propensa a abjurá-la – fenômeno que conforma a raiz da bruxaria” (KRAMER; SPRENGER, 2014, p. 117).
Desse modo, essas mulheres perversas, mais dadas à cólera e à inveja, buscariam através das artes mágicas o poder de vingarem-se daqueles que despertassem sua ira, o que não seria incomum, uma vez que “(…) em virtude da deficiência original em sua inteligência (…) por causa da falha secundária em seus afetos e paixões desordenados” (ibid, p. 118), as mulheres perversas odiavam tão intensamente quanto eram capazes de amar, indo de um extremo ao outro com muita facilidade devido às suas emoções inconstantes.
Consta no Malleus ainda que “(…) a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidencia pelas suas muitas abominações carnais (…)” (ibid, p. 116), e que
 
(…) três parecem ser os vícios que exercem um domínio especial sobre as mulheres perversas, quais sejam, a infidelidade, a ambição e a luxúria. São estas, portanto, mais inclinadas que as outras à bruxaria, por mais se entregarem a tais vícios. Como desses três vícios predomina o último, por serem as mulheres insaciáveis etc., conclui-se que, dentre as mulheres ambiciosas, as mais profundamente contaminadas são as que mais ardentemente tentam saciar a sua lascívia obscena (…) (ibid, p. 121).
 
Percebemos então que, segundo o Malleus, a perversidade e a luxúria estavam intimamente ligadas, o que dialoga com o estudo de Dijkstra, para quem a mulher que demonstrasse uma sexualidade exacerbada (ao contrário da frígida dona de casa vitoriana) era considerada perversa – um monstro cultural que recusa seu papel feminino (submisso) ao demonstrar características tradicionalmente masculinas. Para ele, tais mulheres não eram consideradas completamente civilizadas, pois pareciam não ter se adequado às condições modernas da sociedade, já que rejeitavam a subordinação feminina ou os deveres de mãe. Para a sociedade então, essas mulheres subversivas, que procuravam usurpar privilégios masculinos, passaram a ser vistas como criaturas degenerativas e maléficas.
Percebemos então que as mulheres perversas eram na verdade mulheres assertivas e sexualmente ativas, o que escandalizava a sociedade como um todo e fazia com que os outros as considerassem figuras ameaçadoras, pois ameaçavam a ordem patriarcal e todos os costumes sociais que se conhecia.
O Malleus maleficarum considerava a cobiça carnal insaciável nas mulheres (KRAMER; SPRENGER, 2014, p. 121), e acreditava que a bruxaria se originava dessa luxúria. Assim, as feiticeiras eram consideradas duplamente lascivas (por serem mulheres perversas e por praticarem magia), e acreditava-se que estavam dispostas a ter relações sexuais com demônios para aplacarem sua lascívia.
O Malleus destaca ainda sua capacidade de despertar a luxúria através de feitiçaria e obscurecer a razão: eram “(…) capazes de contaminar a mente dos homens pela paixão desenfreada (…) inflamando de tal forma seus corações, ao ponto de persistirem nesse amor, a despeito da vergonha ou do castigo (…)” (ibid, p. 129).
Bram Dijkstra ressalta que essa necessidade de explorar prazeres bestiais delegava às mulheres perversas uma condição incivilizada, uma vez que cediam aos instintos animais em vez de agir conforme se considerava apropriado pela sociedade – a mulher perversa então era associada à condição animal, ao passado primitivo onde os instintos governavam, pois a bestialidade[4] simbolizava sua não-domesticidade (a recusa em assumir um papel passivo).
Como mencionamos anteriormente, não é de estranhar que a literatura represente essas mulheres assertivas como figuras ameaçadoras – poderosas feiticeiras que agiam como vilãs, perturbando a ordem e ameaçando a sociedade. Consideremos a figura de Circe, por exemplo, que é uma das mais antigas feiticeiras a aparecer na literatura[5]. Durante a viagem de regresso à Ítaca, após o fim da Guerra de Tróia, Odisseu e seus companheiros chegam à ilha de Circe, onde são recebidos por ela – que lhes oferece um banquete para em seguida transformá-los em porcos. Somente Odisseu permanece imune à sua magia, pois o deus Hermes o havia ensino como resistir aos encantos de Circe, assim, ela ameaça matá-la com a espada, e Circe cede, implorando por sua vida.
Se considerarmos a situação de Circe antes da chegada de Odisseu, verificamos que ela não possuía marido ou qualquer tipo de companhia masculina: era uma mulher autossuficiente, senhora de seu próprio castelo, que não necessitava de homem algum para sobreviver. Poderosa e independente, Circe era capaz de subjugar qualquer um que dela se aproximasse: “There were wild mountain wolves and lions prowling all round it- poor bewitched creatures whom she had tamed by her enchantments and drugged into subjection” (HOMER, 2007, p. 122).
Assim, ela parecia ser uma mulher dominadora que se divertia com o poder que possuía, escarnecendo dos homens que cruzassem sem caminho, humilhando-os ao reduzi-los à condição de animais.[6] Circe pode ser considerada então uma mulher perversa, pois transgride os limites de gênero, apropriando-se do poder e independência tipicamente masculinos na ausência de um marido. Por não se mostrar uma figura passiva, mas sim autossuficiente, ela usurpa o poder tipicamente masculino, sendo capaz de dominar qualquer homem que dela se aproximasse e aprisioná-los numa condição submissa, como se transferisse para eles a passividade que deveria pertencer a ela.
Se para a sociedade a mulher deveria ser submissa e, portanto, dominada, através da magia ela consegue impor-se como figura dominante, sendo capaz de empregar seus poderes sobrenaturais para fazer qualquer coisa que desejasse. A feiticeira, portanto, é uma mulher poderosa, capaz de subjugar os homens com sua magia. A dominação que Circe exercia era tamanha que não podemos deixar de mencionar a dominação sexual ali implícita.[7] Para subjugá-la, o deus Hermes havia aconselhado Odisseu da seguinte maneira:
 
When Circe strikes you with her wand, draw your sword and spring upon her as though you were goings to kill her. She will then be frightened and will desire you to go to bed with her; on this you must not point blank refuse her, for you want her to set your companions free, and to take good care also of yourself, but you make her swear solemnly by all the blessed that she will plot no further mischief against you, or else when she has got you naked she will unman you and make you fit for nothing (HOMER, 2007, p. 124).
 
A mudança da figura dominadora de Circe para uma mulher dominada é muito interessante, pois enquanto mulher perversa, ela permanecia invencível: uma feiticeira poderosa capaz de dominar qualquer homem. Somente após ser sobrepujada por Odisseu é que ela deixa de mostrar-se hostil e passa a portar-se como uma boa anfitriã.[8] Era como se Odisseu usurpasse sua condição dominante (o papel masculino que até então ela detinha) e impusesse-lhe um papel passivo (tipicamente feminino).
De perversa à boa anfitriã, ao assumir um papel submisso, Circe deixou de ser uma ameaça para Odisseu ou qualquer outro homem, mostrando-se desde então como uma mulher dócil, que prezava a companhia de Odisseu:
 
Circe, who knew that we had got back from the house of Hades, dressed herself and came to us as fast as she could (…). Then Circe took me by the hand and bade me be seated away from the others, while she reclined by my side and asked me all about our adventures (HOMER, 2007, p. 148).
 
De certo modo, Odisseu a “civiliza” ao negar-lhe a condição dominadora, colocando-a no “devido lugar” que uma mulher deveria ocupar: servindo e agradando um homem dominante. Sobrepujada, Circe é derrubada de seu trono e passa a atender as necessidades de Odisseu como uma típica dona de casa.
Jadis, a Feiticeira Branca, é outra figura caracterizada como mulher perversa, muito semelhante à Circe: é descrita como uma feiticeira que encanta as terras de Nárnia, fazendo com que sempre seja inverno, mas que o Natal nunca chegue. Além de serem feiticeiras, ambas possuem características tipicamente masculinas: Jadis, principalmente, pois é muito alta e possui imensa força, o oposto da imagem idealizada da mulher fraca e frágil que necessita da proteção de um homem. Autossuficiente, não só era capaz de se proteger, mas mostrava-se incrivelmente violenta, atacando qualquer um com quem se indispusesse: ela facilmente arrancou uma barra de ferro de um poste em Londres e a usou como arma para bater em policiais.
Tanto Jadis quanto Circe transgridem os papeis tradicionais da mulher. Circe, por governar sozinha numa ilha à época da sociedade extremamente patriarcal que era a Grécia antiga: como afirma Evelien Bracke (2009, p. 91), os homens é que eram encarregados de cantar, e por isso as mulheres não poderiam jamais cantar em público. Por aparecer cantando na Odisseia, Circe adotava um papel de gênero incerto – justamente por não ser humana, e por viver sem a companhia de um homem, é que ela adotava essa prática que de outro modo seria mal vista – como se sua independência e autossuficiência a tornasse de certa forma andrógina, apropriando-se de ocupações masculinas na ausência de homens.
Para Bracke, Circe transgride os limites entre gêneros ao apropriar-se de ocupações tipicamente masculinas da Grécia Antiga, como o canto e seu conhecimento herbário, que a tornam extremamente perigosa:
 
I am not denying Circe’s destructive and fearsome behaviour in the first part of the episode: her danger, however, derives from her transgression of gender-related boundaries rather than from her abilities themselves (…) It is because she is female that her pharmaceutical and singing abilities are dangerous, not because she uses pharmaka and song per se. (BRACKE, 2009, p. 94).
 
Já a feiticeira Jadis, quando foi a Londres, escandalizou as convenções sociais de por vestir-se de maneira inadequada à época: “– Asneira! – disse tia Lera, virando-se depois para a feiticeira. – Saia desta casa imediatamente, sua sirigaita! Ou eu chamo a polícia! – Achava que a feiticeira era artista de circo e, além disso, não consentia braços nus” (LEWIS, 2002, p. 36). Além do traje inadequado, o comportamento de Jadis dissonava completamente do das damas inglesas:
 
Fiz o que pude para mostrar-lhe certas normas de civilidade. E qual foi a minha recompensa? A senhora assaltou – repito a palavra –, assaltou um distintíssimo joalheiro. Levou-me a obsequiá-la com um almoço excessivamente oneroso, para não dizer luxuoso, embora para isso eu tivesse de empenhar meu relógio. E, fique sabendo, minha senhora, nossa família não peca pelo hábito de frequentar casas de penhor, a não ser meu primo Eduardo, quando serviu como voluntário da Cavalaria. Durante aquela indigesta refeição, seu comportamento e sua conversação atraíram a desfavorável atenção de todas as pessoas presentes. Sinto que estou socialmente arruinado. Jamais poderei mostrar o meu rosto outra vez naquele restaurante (LEWIS, 2002, p. 44, grifo nosso).
 
E em outro momento, quando enfrentava uma turba de pessoas e policiais com violência, o tio de Digory novamente chamou-lhe a atenção para seu comportamente socialmente inaceitável:
 
A feiticeira deu-lhe um chute de calcanhar, atingindo-lhe a boca. Com a dor, lábio cortado, a boca cheia de sangue, Digory soltou o pé de Jadis. De algum lugar próximo chegou-lhe o grito tremido de tio André:
– Minha senhora… minha boa senhora… por favor… por favor… comporte-se (ibid, p. 41).
 
Circe e Jadis, como mulheres perversas, têm sua alteridade marcada ainda pelo fato de não serem exatamente humanas: Circe descende dos Titãs e Jadis dos gênios e gigantes. O fato de não serem humanas destaca ainda mais sua caracterização desviante, pois apesar de parecerem humanas, não o são, portanto não se comportam como mulheres normais.
Além de sua altura e força fora do comum, a personalidade de Jadis também não correspondia ao que se esperaria de uma mulher: ela era orgulhosa, ambiciosa, cruel, violenta e sedenta de poder: desejava governar todo lugar ao qual ia. Ela disputara o governo de Charn (seu país de origem) com a irmã, preferindo destruir aquele mundo e todos os seus habitantes do que deixar sua irmã ser a rainha. De fato, seu desejo de governar parecia aliado à sua sede de destruição, sugerindo que ela era incapaz de viver em um reino pacífico:
 
Foi quando soou a voz da feiticeira, clara como um toque de sino e mostrando que, naquele momento pelo menos, ela estava próxima da felicidade.
– Canalhas! Hão de pagar muito caro por isso quando eu tiver conquistado este mundo. Não deixarei pedra sobre pedra nesta cidade. Vou fazer como fiz com Charn, com Felinda, com Sorlois, com Bramandin. (LEWIS, 2002, p. 41).
 
Jadis era indiferente “à alegria, à justiça e ao perdão” (ibid, p. 69): Lewis tentara descrever sua frieza como simples praticidade: “As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas. São de um espírito prático implacável” (ibid, p. 34).
Apesar da personalidade forte, assim como Circe, Jadis possuía incrível beleza: “(…) uma mulher muito alta (…) com um olhar tão aterrador e soberbo que quase tirava o fôlego. Apesar disso, era bela. Muitos anos depois, já velho, Digory chegou a dizer que nunca vira mulher mais bela em toda a sua vida” (LEWIS, 2002, p. 25). A beleza parece uma característica essencial a essas feiticeiras cruéis, pois como mulheres perversas, são também mulheres sensuais: “Como a feiticeira não estivesse com ele [o tio de Digory] na mesma sala, já se esquecera do quanto ficara aterrorizado, passando a pensar no quanto ela era deslumbrantemente bonita. Ficou repetindo para si mesmo: ‘Que mulher! Que mulher! Que criatura impressionante!’” (LEWIS, 2002, p. 35).
No conto “O sobrinho do mago”, Digory fora enviado por Aslam para colher a maçã da eterna juventude, que seria plantada para proteger Nárnia. Mas, ao chegar à árvore, Digory encontrou a feiticeira, que já havia comido o fruto e, semelhante à Eva na passagem bíblica, tentou convencer Digory a comer a maçã ou levá-la para sua mãe doente, seduzindo-o com suas palavras. Outra vítima da sedução de Jadis foi Edmundo Penvensie. Ela ofereceu-lhe manjar turco encantado (para ele sempre querer comer mais) e prometeu fazê-lo príncipe caso levasse seus irmãos até ela. Para persuadi-lo, ela afirmou jamais ter visto um menino tão inteligente e bonito quanto ele, e disse que se fosse príncipe poderia comer todo o manjar turco que desejasse.
Já a figura de Circe, como já mencionamos, exalava certa dominação sexual, e tentara apaziguar Odisseu oferecendo-lhe seus favores sexuais. Como afirma Evelien Bracke, “Circe’s characterization is construed purely in terms of scatological and carnal pleasure, and she is polarized as dominatrix and whore (BRACKE, 2009, p. 156-157).”
Segunda ela, a figura sexualizada de Circe foi sendo reinterpretada ao longo dos anos, e
 
One might wonder how the figure of Circe came to be connected with pleasure. This element was present in the Odyssey, but I propose that the subsequent tradition misinterpreted – or rather, reinterpreted – the Homeric narrative. (…) while she did have a sexual relationship with Odysseus in the Odyssey, it was not elaborated on or rendered in romantic terms, as was the case with Calypso. The development in Circe’s representation, however, did not occur in a vacuum: indeed, from the sixth century BCE onward, 281 scholars/philosophers who started interpreting the Homeric epics symbolically – started “allegorizing” – interpreted the encounter of Circe and Odysseus as a battle between Odysseus as “reason”, and Circe as “pleasure”. Socrates was the first (in extant literature) to suggest that Odysseus avoided being turned into a pig because of his self-restraint; his crew, in contrast, were transformed on account of their gluttony, since they were unable to resist the food which Circe offered them (…) For Diogenes – as presented by Dio Chrysostom – Circe symbolizes “pleasure” in all its facets: indeed, her drugs are the ultimate temptation. Men who are weak are reduced to animals, trapped by the pleasures they pursued; only strong, temperate men such as Odysseus can withstand the temptation.
(BRACKE, 2009, p. 160-161).
 
Já chamamos atenção para o fato de que Jadis e Circe não se comportavam como as outras mulheres da época,[9] o que fazia com que parecessem de certa forma incivilizadas, pois eram incapazes de se adequarem às normas vigentes na sociedade. Esse traço incivilizado transparece ainda em diversos aspectos: a ilha de Circe, por exemplo, era selvagem como ela, pois havia muitas árvores por todo lado e a terra não era cultivada (domesticada) como se encontrava nos campos gregos. Assim, o espaço à volta de Circe refletia sua própria condição indomada. Jadis, por sua vez, governava as terras de Nárnia, habitada por animais e outras criaturas místicas, como gigantes, ninfas e minotauros, mas não humanos. Ou seja, o local a sua volta também era um ambiente incivilizado que refletia sua própria condição:
 
– Que mundo medonho! – exclamou a feiticeira. – Temos de fugir imediatamente. Prepare a magia.
– Estou perfeitamente de acordo, madame! – falou tio André. – Que lugar mais desagradável! Sem qualquer civilização! (LEWIS, 2002, p. 43).
 
Detestando aquele lugar, ela tenta agredir Aslam, que acaba de criar aquele mundo, atirando a barra de ferro em cima dele. Como ele não mostra sinais de que ficou abalado com o ataque, ela corre para longe dali, como se não suportasse permanecer na presença do leão.
É curioso reparar que Jadis chegara à Nárnia no momento de sua criação, mas não fora capaz de conquistá-la naquele momento: Aslam coroou um homem e uma mulher como rei e rainha de Nárnia, e pedira para Digory plantar uma árvore que manteria a feiticeira afastada por muito tempo:
 
E vocês, narnianos, cuidem, antes de tudo, desta árvore, que é o seu escudo. A feiticeira de que lhes falei fugiu para o norte do mundo. Lá viverá e ficará mais forte em magia negra. No entanto, enquanto esta árvore florir, jamais voltará a Nárnia. Não ousará aproximar-se cem quilômetros da árvore, pois seu perfume, que é alegria, vida e saúde para vocês, é morte, horror e desespero para ela (LEWIS, 2002, p. 68).
 
Durante esse tempo – em que a árvore floria e Nárnia possuía seres humanos[10] – a feiticeira não pôde conquistar suas terras. Somente quando os humanos desaparecem de Nárnia é que Jadis retorna e toma o poder, dominando os animais. De igual modo, seu reinado só chega ao fim quando os humanos novamente vão para Nárnia.
Ao escolher que um homem e uma mulher reinassem, Aslam procurava de certo modo civilizar aquela terra, como se os animais, sozinhos, não pudessem fazê-lo. Centenas de anos depois, quando a feiticeira conquista Nárnia e se autointitula sua rainha, não existiam mais humanos por lá, e os animais sequer se lembravam de que já haviam existido, por isso quando os penvensies aparecem em Nárnia, muitos narnianos e a própria feiticeira não os reconhecem como humanos, perguntando que espécie de criatura se tratavam. É interessante reparar que a feiticeira só pudesse reinar enquanto não houvesse humanos em Nárnia: havia uma profecia de que Jadis só seria derrotada quando quatro humanos chegassem à Nárnia para governá-la, pondo fim “à aflição” (LEWIS, 2002, p. 100), ou seja, um lugar incivilizado, governado por uma mulher selvagem, só poderia ter paz se fosse governado por seres humanos, que o civilizariam. Assim, se os humanos eram inimigos da Feiticeira, então a civilização também o era, e Jadis só teria poder em Nárnia enquanto este permanecesse um país incivilizado.
Embora fosse Aslam, o grande leão, quem de fato matou Jadis, ele sozinho não era capaz de enfrentá-la – e a feiticeira somente seria derrotada chegada dos humanos: “Uma velhíssima tradição de Nárnia já anunciava que, quando dois Filhos de Adão e duas Filhas de Eva se sentarem nos quatro tronos, então será o fim, não só do reinado da feiticeira, mas da própria feiticeira” (LEWIS, 2002, p. 100).
Podemos concluir que Aslam, apesar de seu imenso poder e força, não poderia derrotar a feiticeira sozinho porque sua destruição estava atrelada ao advento da civilização em Nárnia, e, “(…) como sabem, ele é selvagem. Não se trata de um leão domesticado (LEWIS, 2002, p. 132, ênfase do autor), portanto Aslam era incapaz de civilizá-la, necessitando da ajuda dos penvensies.
Jadis, como mulher perversa, só permanecia uma figura dominadora enquanto soberana num local dominado pelos instintos animais. A partir da chegada dos humanos, ela perde sua soberania, como se não pudesse sobreviver num mundo habitado por seres humanos – ou seja, os animais eram a condição de seu reinado. Circe, por sua vez, permanecia senhora do seu castelo (e de sua ilha) transformando os homens em animais, que poderia dominar mais facilmente – a dominação exercida por essas mulheres transparece então em seu poder de transfiguração: se Circe transformava os homens em animais, Jadis transformava os animais em estátuas, que deixava espalhadas ao redor de seu castelo, como se fossem peças decorativas celebrando seu poder.
Outro aspecto comum entre Circe e Jadis que deve ser mencionado é que ambas possuem varinhas mágicas: um objeto que canaliza e direciona seu poder mágico. Pelo seu formato fálico, e principalmente por se tratarem de mulheres perversas, podemos interpretá-las como símbolo do poder masculino que essas mulheres usurpavam (em outras palavras, simbolizavam o órgão masculino que lhes faltava na apropriação do outro gênero). Como um objeto mágico, a varinha simbolizaria o poder masculino: ação (ao contrário de passividade), força, potência etc.
Considerando a varinha como centro do poder da feiticeira, anular o poder da varinha (seja destruindo-a, separando-a da feiticeira ou simplesmente neutralizando-a, como faz Odisseu ao carregar ervas que o tornavam imune à magia de Circe) seria o mesmo que anular o poder usurpado pela feiticeira – destruindo assim a ameaça representada por ela e por extensão neutralizando seu papel dominador ao tornar sem efeito o símbolo do poder masculino usurpado por elas: em outras palavras, é como se castrassem essas feiticeiras, relegando-as novamente à condição de passividade feminina. No caso de Jadis, esta se mostrava impossível de ser derrotada enquanto de posse da vara mágica:
 
Foi tudo obra de Edmundo, Aslam! – disse Pedro. – Se não fosse ele, estávamos derrotados. A feiticeira ia petrificando as nossas tropas. Nada havia que a detivesse. Edmundo, lutando sempre, conseguiu abrir caminho entre os ogros e chegar ao local onde ela acabava de transformar um leopardo em pedra. Ele teve o bom senso de arrebentar a vara mágica com a espada, em vez de atacar diretamente a feiticeira, como os outros vinham fazendo, em vão. Quebrada a vara, começamos a ter alguma chance (…) (LEWIS, 2002, p. 130, grifo nosso).
 
Quanto a Circe, só foi sobrepujada por Odisseu porque ele mostrou-se imune ao toque da sua varinha mágica que, não surtindo efeito, deixou Circe indefesa, ao que Odisseu rapidamente explorou, dominando-a com sua força física.
Se a mulher perversa é considerada incivilizada e associada aos instintos animais, essas mulheres poderosas deixam de ser dominadoras no momento em que são “civilizadas”, quando perdem o poder que detinham e são subjugadas em papéis passivos, geralmente impostos por figuras masculinas (no caso, Odisseu[11] e Aslam) e pelo advento da própria civilização, que é levada à Nárnia pelos quatro Penvensies.
 
 
REFERÊNCIAS
 
BRACKE, Evelien. Of Metis and Magic: The Conceptual Transformations of Circe and Medea in Ancient Greek Poetry. Tese de doutorado. Department of Ancient Classics, National University of Ireland, 2009.143f.
DAVIES, Owen. Witchcraft, Magic and Culture 1736–1951. Manchester: Manchester University Press, 1999.
DIJKSTRA, Bram. Idols of Perversity. Oxford: OUP, 1986.
GIBSON, Marion (Ed.).  Early Modern Witches: Witchcraft Cases in Contemporary Writing. London: Routledge, 2000.
GIBSON, Marion (Ed.).  Witchcraft and Society in England and America, 1550–1750. Cornell: Cornell University Press, 2003.
HOMER. The Odyssey. Trad. Samuel Butler. Maryland: Wildside Press, 2007.
KARLSEN, Carol. The Devil in the Shape of a Woman: Witchcraft in Colonial New England. New York: Norton, 1998.
KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2014.
LEWIS, Clive. As crônicas de Nárnia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
THOMAS, Keith. Religion and the Decline of Magic. London: Penguin, 1971.
 
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1] A partir do século XVIII, a imagem idealizada da mulher era um símbolo de passividade e feminilidade, que na época configurava sinônimos para frigidez sexual. Foram escritos vários manuais de etiqueta normatizando determinados comportamentos (casta, delicada, modesta, gentil), assim como obras ficcionais que representavam esse ideal de mulher idealizada.
[2] As Weird Sisters de Macbeth, por exemplo, possuíam barbas.
[3] O mundialmente famoso tratado em prol da caça às bruxas, que foi utilizado como manual em vários tribunais. Escrito por inquisidores católicos, defendia a ideia de que a mulher era inferior ao homem, sendo mais fraca no corpo e na mente, portanto mais impressionável pelo diabo, tendo em vista sua dificuldade em preservar a fé.
[4] Acreditava-se ainda que essas mulheres perversas, por serem lascivas, despertavam a bestialidade no homem, provocando-lhe instintos animais através de sua sexualidade.
[5] Acredita-se que a Odisseia tenha sido escrita por volta do século VIII a.C.
[6] Seu palácio era cercado por animais que ela transformara ao longo dos anos, como se de certo modo ela os “colecionasse”, mantendo-os à sua volta para continuar escarnecendo deles e assim satisfazer o seu sadismo.
[7] Se a mulher perversa despertava instintos animais no homem, no caso de Circe isso ocorreria inclusive literalmente, pois com sua magia ela obrigava os homens a assumirem uma forma animal.
[8] Ela banha Odisseu e lhe oferece um banquete, além de seus favores sexuais.
[9] Circe, como já mencionamos, não se comportava como se esperava de uma mulher na Grécia Antiga. Quanto a Jadis, em O sobrinho do mago, ela fere as normas sociais da Londres do final da era vitoriana (o conto se passa por volta de 1900), época em que as normas sociais eram ainda muito importantes. O outro conto em que Jadis aparece, O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, se passa durante a segunda guerra mundial, momento em que a mulher começava a deixar o ambiente doméstico para ingressar no mercado de trabalho para suprir a mão-de-obra vaga devido à ida dos homes para o front de batalha. Foi um momento de imensa polêmica, pois muitos alegavam que ao assumir serviços tipicamente masculinos (operando máquinas em fábricas, por exemplo) a mulher estava se masculinizando.
[10] O rei e a rainha coroados por Aslam naquela ocasião tiveram muitos descendentes, e a feiticeira não retornou por centenas de anos.
[11] Como já mencionamos, quando Circe é incapaz de transformar Odisseu em um animal, ela perde sua soberania, passando a mostrar-se submissa ao homem que a domina.





Bio fornecida pelo palestrante.

O QUE ESPERAR DE UM CASAMENTO ARRANJADO ENTRE SUJEITOS DIASPÓRICOS, EM “AEROPORTO”, DE PAULINE KALDAS – Priscila Campolina de Sá Campello




 

Priscila Campolina de Sá Campello

Pontifícia Universidade Católicas de Minas Gerais (PUC Minas)

 
 
Sumário: O presente trabalho pretende analisar o conto “Aeroporto”, da escritora egípcio-estadunidense Pauline Kaldas, tendo como ponto de partida as motivações que levaram os dois protagonistas a consentirem em um casamento arranjado, como também as expectativas e justificativas que eles vão apresentando para isso ao longo do texto. Essa análise toma como base as teorias que permeiam a escrita de imigrantes, pois é nessa condição, do imigrante como um ser movente e fluido, que se verifica a necessidade de negociação e adaptação, tanto pelo indivíduo que ainda vive no seu país de origem, quanto por aquele que está a caminho e passará por várias experiências novas e desafiadoras. Nessa discussão, pretende-se também refletir sobre a estrutura do texto de Kaldas, no qual a justaposição de duas histórias vai, aos poucos, revelando os dois polos/indivíduos que serão eventualmente unidos e desvelados ao longo do texto.
 
Palavras-chave: Casamento. Diáspora. Literatura árabe-estadunidense. Pauline Kaldas.
Abstract
This paper aims to analyze Pauline Kaldas’ short story “Airport.” It will take into consideration the motivations that led the two protagonists to consent to an arranged marriage, as well as the expectations and how they justify themselves throughout the text. This analysis is based on the theories that permeate immigrant writing, since it is in this moving and fluid condition that it appears the need for negotiation and adaptation by the individual who lives in his country of origin as the one who is on his way and will face many challenging and new experiences. It also reflects on the structure of Kaldas’ text, in which the juxtaposition of two stories gradually reveals the two poles/individuals that will eventually be united and unveiled throughout the text.
 
Keywords: Marriage. Diaspora. Arab-American Literature. Pauline Kaldas.
Minicurrículo: Priscila Campello é formada em Letras – habilitação Inglês – pela UFMG. Cursou o mestrado em Literaturas de Língua Inglesa e o doutorado em Literatura Comparada, ambos na UFMG, e realizou o doutorado sanduíche na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. É professora adjunta de literaturas em língua inglesa desde 2001 na PUC Minas, onde é colaboradora do Programa de pós-graduação em Letras. Desenvolve pesquisa na área de literatura feminina, com foco nas literaturas de imigrantes, principalmente a árabe-estadunidense.
 
 
O QUE ESPERAR DE UM CASAMENTO ARRANJADO ENTRE SUJEITOS DIASPÓRICOS,
EM “AEROPORTO”, DE PAULINE KALDAS
 
Priscila Campolina de Sá Campello
PUC Minas
 
Uma das práticas mais comuns nas culturas árabes, e amplamente retratadas na literatura de autores de ascendência árabe, nos Estados Unidos, é a do casamento arranjado entre jovens. As razões para isso vão desde a manutenção dos mesmos valores e costumes entre as famílias até a necessidade de se realizar uma união com um indivíduo de uma condição financeira melhor e, assim, garantir um certo status social e também um futuro tranquilo. Além disso, a questão religiosa também é relevante para esse arranjo, pois o casamento constitui “o único canal legítimo para a sexualidade e a reprodução” (SHERIF-TRASK, 2003, p. 135).
No conto “Aeroporto”,[1] da escritora egípcio-estadunidense Pauline Kaldas, apresenta-se uma narrativa que se desenvolve a partir das perspectivas de dois jovens egípcios, Samir e Hoda, que se casarão nos Estados Unidos, celebrando uma união viabilizada por meio de um arranjo estabelecido entre seus parentes. A história se desdobra a partir da memória dos noivos, enquanto o rapaz está em Boston, no aeroporto, à espera da moça, e ela, por sua vez, no Egito, arrumando suas malas para a viagem. Devido à diferença de fuso horário, desenrola-se a produção de duas narrativas paralelas, que apresentam as expectativas e a trajetória dos nubentes antes de se encontrarem no destino final da moça.
Assim, começo essa análise a partir da apresentação dos dois personagens principais. Primeiramente, depara com Samir, um rapaz egípcio de 30 e poucos anos, cujos últimos anos foram vividos nos Estados Unidos. Sua saída do Egito deve-se às poucas possibilidades profissionais oferecidas pelo seu país e ao fato de que, mesmo se tivesse conseguido um diploma universitário, como, inicialmente, se propôs, ao entrar na faculdade de agricultura, acabaria tornando-se um vendedor de cigarros em um quiosque qualquer. Temendo esse malfadado destino, inscreveu-se na “loteria” pelo green card e, por um golpe de sorte, acabou recebendo a licença e mudando-se. Ao chegar ao país hospedeiro, Samir encontra bastante dificuldade em se adaptar, devido ao seu deficiente conhecimento linguístico, baixa escolaridade, pouca disponibilidade financeira e uma enorme insegurança em lidar com as novas situações. Ele, por exemplo, prefere comer sempre no mesmo restaurante e pedir o mesmo prato para não ter que lidar com a possibilidade de não entender o cardápio ou não poder pagar alguma outra escolha.
Abro aqui um parêntese para ressaltar a necessidade que o imigrante tem de encontrar elementos de identificação em meio às novidades e diferenças. Ao repetir, ocasionalmente, o pedido por comidas fritas, no restaurante chinês, conforme aprendera com colegas de trabalho, em uma ocasião em que saíram juntos após o expediente, Samir está recorrendo, justamente, a elementos que lhe são muito familiares, como o gosto e o cheiro de frituras que sua mãe preparava e que lhe trazem sentimentos de segurança, identificação e pertencimento. Segundo Michel de Certeau e outros, em A invenção do cotidiano,
(…) quando alguém é forçado ao exílio pela conjuntura política ou pela situação econômica, o que subsiste por mais tempo como referência à cultura de origem é a comida, se não para a refeição cotidiana, pelo menos para os dias de festa. É uma maneira de mostrar a pertença a outro solo (DE CERTEAU, 2008, p. 250).
 
Dessa forma, Samir mantém o vínculo com a sua terra natal e sua família e reafirma sua condição de sujeito deslocado.
A vida de Samir, no entanto, toma uma guinada mais positiva e promissora a partir do momento em que seu patrão, no restaurante onde lavava pratos, descobre sua habilidade para consertar objetos com defeitos. Ao ser indicado para trabalhar em uma loja especializada em consertos, Samir passa a levar uma vida menos sacrificada, além de estar fazendo algo de que gostava e sabia de fato executar. Há aí uma injeção de confiança em sua autoestima, afinal, havia “achado seu nicho nesse país que podia fazer tantas coisas, mas não sabia como consertar o que quebrava” (KALDAS, 2009, p. 24).
Em paralelo, apresenta-se também Hoda, uma jovem egípcia, de, aproximadamente, 25 anos, mestranda em química, que não está disposta a se casar com qualquer rapaz escolhido por sua família e que deseja trabalhar e ser diferente daquelas mulheres egípcias, cujas vidas se resumem a serem apenas esposas, mães, donas de casa.
Não era que ela não quisesse se casar. Ela sempre teve esperanças de que sua vida seria com um parceiro, e em algum momento ela esperava ter filhos. Mas sabia que não queria a vida que via ao seu redor. Mulheres arrastando seus afazeres como correntes, limpando a casa, lavando roupas, cozinhando, tudo para os outros. Ela havia visto amigas se casarem com 18 e 19 anos, às vezes até com homens de sua própria escolha a quem amavam. No primeiro ano, a vitalidade delas dissolvia-se como cristais de açúcar em água. Prever sua vida desse modo a amedrontava, seus dias preenchidos com os cuidados da casa e da família, seu corpo ficando pesado com a inatividade de seu cérebro (KALDAS, 2009, p. 24).
 
Para ambos, o casamento havia-se tornado uma necessidade. E suas famílias trataram de arranjar os devidos parceiros para os dois. Samir explicitou ao irmão, no Egito, que “precisava de alguém que pudesse ficar nesse mundo ao seu lado, talvez até guiá-lo um pouco”. Ele necessitava de “uma mulher que tivesse estudo, que soubesse bem inglês, que quisesse trabalhar; uma mulher que pudesse nadar em águas profundas” (KALDAS, 2009, p. 25). Já Hoda não queria ser uma solteirona e despertar “pena ou desconfiança”, portanto, casar-se com um homem como Samir seria sua chance de “conseguir um emprego de verdade, fazendo pesquisa, trabalhando com alguém que a levaria a sério (…)” (KALDAS, 2009, p. 25). Se, por um lado, observa-se um protagonista que vive, há anos, distante do seu país de origem e que já está relativamente adaptado ao país hospedeiro, por outro, há uma noiva que está à frente da sociedade conservadora e patriarcal de seu país de origem e aceita essa união por perceber nela a oportunidade de poder realizar os seus desejos e ideais “modernos” e avançados para aquela sociedade.
É possível afirmar que o casamento arranjado resolve questões importantes na vida desses personagens. A primeira delas é, em termos gerais, a que se refere à necessidade de se casar, tanto para o homem, que precisa de uma mulher para cuidar dele e da casa, para lhe dar filhos e continuidade à sua linhagem, como para a mulher, que, em uma sociedade patriarcal, machista e conservadora, não é bem vista como solteira e independente. A segunda questão, considerando que se trata de dois personagens que, de certa forma, fugiram à regra, em seu país de origem (um homem que foi em busca de condições de vida melhores e uma mulher que não quer ser mais uma dona de casa, esposa e mãe), remete à necessidade de reduzir os problemas advindos da diferença cultural. Casar-se com uma pessoa da mesma cultura, mesmo que ela não tenha sido escolhida pelas próprias partes interessadas, em uma união arranjada pelo interesse de suas famílias, minimiza possíveis desencontros e conflitos que possam surgir entre pessoas de diferentes culturas. É um obstáculo a menos a ser enfrentado e menos trabalhoso para ambos os lados. Claro que nada impede o surgimento de problemas de incompatibilidade, como ocorre com tantos outros casais, mas, ao considerar que ambas as partes possuem a mesma origem cultural, linguística, e uma proximidade de valores e costumes, a fase de adaptação e conhecimento cultural possivelmente será bem mais curta e menos problemática. Uma terceira questão ainda a ser considerada, nesse caso, é a da aceitação do modo de ser do outro.
Para Samir, havia a necessidade de encontrar uma mulher independente, estudada, fluente em inglês. Assim, ele não precisaria cuidar dela e ensinar-lhe tarefas básicas, uma vez que Hoda já apresentava desenvoltura suficiente, por ser culta, ocidentalizada, aberta para o novo e resistente a algumas tradições/costumes de seu país de origem. Embora uma mulher com o perfil desejado por Samir pudesse também ser uma fonte de problemas, conforme a opinião de seu irmão, devendo, com essas características, permanecer solteira, Samir não queria ninguém diferente: “Seu irmão argumentou que ele estava procurando confusão, que esse tipo de mulher deveria permanecer solteira. Mas Samir foi insistente e disse que não aceitaria outra coisa” (KALDAS, 2009, p. 25).
Já para Hoda, Samir indicava ser um homem menos conservador e tradicional, por já estar fora do Egito há um certo tempo. Ele já estava relativamente ocidentalizado e aberto a uma mulher que não fosse tradicional, que desejava ser independente, trabalhar e não reproduzir o papel/lugar destinado às mulheres nas culturas árabes. E, além disso, Hoda resolveria uma questão pessoal que era o seu próprio estado civil. Ao se casar com Samir e poder trabalhar, ela não iria fazer exatamente o que mais temia: “cair no padrão repetido por outras mulheres” egípcias (KALDAS, 2009, p. 25).
Desse modo, é possível afirmar que, embora o encontro deles se dê por meio de um casamento arranjado, carregado do que há de mais tradicional e mecânico em uma relação entre dois indivíduos, em que o amor não é a base inicial, é exatamente essa união que funcionará como a salvação de suas condições contraditórias e não convencionais e que também possibilitará que eles se posicionem como seres hifenizados e ansiosos por expressarem suas “reais” identidades.
Ao final do texto, quando Hoda está terminando de fazer suas malas, ela resolve levar apenas metade de tudo que possuía, tanto em relação às peças de roupa quanto aos outros itens pessoais. É justamente nesse ato de separar apenas a metade dos seus pertences que se explicita a divisão interna desse sujeito. Deixar metade para trás demonstra o lugar onde Hoda se encontra, entre dois países, duas vidas, duas culturas, duas línguas, duas experiências. Para Nubia Hanciau (2005, p. 135), o sujeito hifenizado “(…) é alguém que está in/conscientemente situado entre pelo menos dois mundos, duas culturas, duas línguas e duas definições de subjetividade, constantemente mediando entre elas (…)”. A arrumação das malas aponta para um possível comportamento de negociação que Hoda pretende adotar e que lhe ajudará a mediar seu processo de adaptação na nova terra.
Acredito que seja a partir dessa mediação entre os dois mundos, em que o sujeito não rompe definitivamente com a sua origem e o seu passado, que se configurará a sobrevivência de Hoda no novo lugar. E o mesmo ocorre com Samir, ao querer casar-se com uma mulher egípcia com características mais ocidentais. Edward Said afirma que
(…) o exilado vive num estado intermediário, nem de todo integrado ao novo lugar, nem totalmente liberto do antigo, cercado de envolvimentos e distanciamentos pela metade; por um lado, ele é nostálgico e sentimental, por outro, um imitador competente ou um pária clandestino” (SAID, 2005, p. 56).
 
Uma mulher egípcia seria a ligação de Samir com o seu mundo pré-exílio, sua família, língua, origem, e quem sabe até mesmo com as comidas fritas que sua mãe fazia, ou seja, a representação do lado nostálgico e sentimental a que Said se refere. Já a mulher estudada e que queria trabalhar apela para o lado do “imitador competente”, principalmente em uma cultura (no caso, a estadunidense), em que as mulheres já estão concorrendo em pé de igualdade com os homens.
Com fundamento nessas observações feitas até aqui, pode-se dizer que o texto de Pauline Kaldas se constrói à medida que se apresentam, de forma justaposta, os personagens. Os parágrafos se intercalam, ora Samir está em evidência, ora Hoda. Gradativamente, o leitor é apresentado aos personagens, por meio de suas histórias e suas versões, mesmo que em uma narrativa em terceira pessoa. O que chama a atenção é que, em várias passagens, os sentimentos (de dúvida, preocupação etc) e as ações dos noivos se assemelham, demonstrando, assim, que a expectativa e a ansiedade são mútuas, parecidas e até universais. Reforço aqui o caráter universal e humano dos sujeitos diaspóricos, independentemente do caminho a ser trilhado – seja em direção ao país hospedeiro, ou ao país de origem – do tempo no exílio e do objetivo do seu deslocamento geográfico.
Há duas passagens que valem a pena serem citadas para ilustrar o paralelismo e a simultaneidade do que estava ocorrendo com os personagens e que sinalizam para a expectativa que a viagem de Hoda e, consequentemente, o início da vida a dois geravam. A primeira passagem narra o dia da chegada da noiva aos Estados Unidos. Samir acorda cedo para buscá-la e demonstra estar bastante ansioso com a aproximação da hora de ver Hoda. No aeroporto, inclusive, resolve apenas beber uma xícara de café, pois temia que algum outro alimento revirasse seu estômago. O parágrafo assim se inicia: “Eram onze horas da manhã de domingo. Ele havia acordado cedo, um pouco antes das seis, apesar de ter ficado até tarde limpando seu pequeno apartamento”. E assim se fecha: “Estava muito quente para beber, então ele apenas podia ficar sentado, os sons do aeroporto se misturando até que se tornaram um murmúrio constante em sua cabeça” (KALDAS, 2009, p. 20). Hoda também passa pelo mesmo processo, mas sua noite anterior havia sido uma noite de despedidas. “Eram onze horas da manhã de sábado. Ela havia acordado cedo, um pouco antes das seis, apesar de ter ficado até tarde se despedindo de amigos e parentes”. Esse mesmo parágrafo a respeito da noite de Hoda termina assim: “(…) fez uma xícara de café apesar de raramente o beber. (…) Sentou-se na cozinha quase em transe até que seus ouvidos tornaram o barulho do lado de fora em um murmúrio constante em sua cabeça” (KALDAS, 2009, p. 21). O murmúrio na cabeça dos dois reproduz o turbilhão de emoções que a mudança que estava prestes a acontecer estava causando a eles.
Vê-se que, embora em países e culturas diferentes, os dois estavam reagindo da mesma forma diante dos fatos que estavam por vir. As poucas horas de sono, a escolha da mesma bebida, o murmúrio na cabeça, tudo isso ocorre aos dois, independentemente de onde se encontram, do gênero, da idade, da profissão. O fato de optarem pelo café, uma bebida originária da África, mas difundida pelo mundo, por meio do Egito e da Europa, e de grande importância para o mundo árabe, também sinaliza para o fato de recorrerem a algo familiar, aconchegante e protetor, especialmente Samir, que está distante de sua terra natal. Segundo Gláucia Gonçalves, muitos dos personagens retratados por escritores contemporâneos de origem árabe nos Estados Unidos “se agarram à comida [aqui, no caso, à bebida também] (…) como forma de equilibrar a ambivalência de suas próprias existências híbridas” (GONÇALVES, 2010, p. 158).
Um segundo exemplo da simultaneidade e do paralelismo que unem as histórias de Samir e Hoda é a dúvida sentida por ambos em relação a esse outro que estão prestes a encontrar. Como não se conhecem, o texto demonstra que a expectativa passa também pelo medo e desconhecimento, não só diante da situação, mas também desse sujeito que agora fará parte da vida de cada um deles. Samir reflete:
Ela estaria no avião? Foi o irmão dele que havia escrito com as informações do voo. Ele havia recebido uma carta dos pais dela, aceitando seu pedido e dando sua bênção. Todo o resto, assinar os papéis do casamento, processar os documentos da imigração, havia sido feito por seu irmão. E havia demorado mais tempo do que o esperado, quase dois anos preenchendo formulários, apresentando provas disso e daquilo, até que ele sentiu que sua vida havia sido transformada em uma pilha de papéis. De vez em quando, ele se esquecia do propósito por trás de tudo isso, que isso finalmente o levaria a se casar com alguém que ele não conhecia. Às vezes, o medo perpassava pelo corpo de Samir. Talvez ele devesse ter ouvido quando seu irmão havia insistido para que ele retornasse para o Egito, para ele próprio escolher uma esposa” (KALDAS, 2009, p. 21).
 
Talvez, o trecho mais simbólico dessa passagem seja o fato de que Samir não tenha escolhido Hoda sozinho, mas que tenha sido uma escolha do irmão, conforme as suas especificações. O medo e o desconforto, portanto, passam pelo fato de que ele tenha delegado essa tarefa. Assim, que garantia ele teria que ela estaria naquele avião? Que garantia ele teria que aquilo daria certo?
Hoda, por sua vez, também compartilha da mesma dúvida:
Ele estaria lá? O que ela estava fazendo indo para outro país para se casar com um homem que nem conhecia? Seus pais haviam ajudado a convencê-la de que isso seria o melhor para ela. “Ele vem de uma boa família e, além disso, está na América e não são muitas pessoas que conseguem ir para lá”. “Além disso”, seu pai continuou, “essa tal de América é mais apropriada à sua natureza independente”. “Sim”, sua mãe complementou, em um tom resignado, “e lá eles gostam de pessoas com estudo”. (…) “Você tem um diploma universitário”, argumentaram os pais, “e está com 21 anos agora. Procure por um marido. Está na hora de se acomodar” (KALDAS, 2009, p. 22).
 
Os argumentos dos pais de Hoda são uma forte evidência da necessidade de se aceitar esse casamento, mesmo que seja com um desconhecido e em um outro país. Para Hoda ser livre e poder ser quem ela gostaria de ser, ela teria que se submeter a esse arranjo e, necessariamente, distanciar-se fisicamente daqueles que a oprimem (correndo o risco, evidentemente, de Samir reproduzir sua cultura, nos EUA). Essa passagem aponta também para a forma como as mulheres são vistas no Egito. Não há lugar para mulheres independentes e estudadas ali. Além de a reputação feminina ser julgada pelo estado civil, o excesso de independência e o grau de escolaridade também eram mal vistos naquela sociedade.
Desse modo, verifica-se que o movimento diaspórico permite a esses sujeitos que se posicionem entre dois polos, sejam eles linguísticos, culturais, geográficos, e até intelectuais. O casamento, para Samir e Hoda, passa a ser o passaporte para que eles possam realizar-se mais plenamente, mesmo que ele se dê pela via dos interesses de seus familiares. Ambos os personagens encontram, nessa instituição e um no outro, a âncora para a sua sobrevivência em um mundo (e, especialmente, em uma cultura) que demanda e pressiona que as pessoas se casem.
Como se viu, o texto de Kaldas expõe o percurso dos seus dois protagonistas, que se estão preparando para o encontro, que se dará, primeiramente, no saguão de um aeroporto, espaço que, por excelência, reúne sujeitos em trânsito, cheios de expectativas e esperanças no que está por vir. Embora, para Samir, seja bizarro o fato de um país utilizar-se de uma loteria para tomar suas decisões relativas à imigração, tanto ele quanto Hoda apostaram, como em um jogo, que suas vidas poderiam ser melhores a partir de um encontro arranjado entre dois desconhecidos.
 
Referências bibliográficas
DE CERTEAU, Michel et al. A invenção do cotidiano.  Trad. Ephraim Ferreira Alves e Lúcia Endlich Orth. Petrópolis: Vozes, 2008.
GONÇALVES, Gláucia. A memória nossa de casa dia: reflexões sobre comida, literatura e diáspora árabe nas Américas. In: CARIZZO, Silvina L.; NORONHA, Jovita Maria Gerheim (Orgs.). Território e cultura: relações literárias interamericanas. 1ª ed. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2010. p. 151-164.
HANCIAU, Nubia. Entre-lugar. In: FIGUEIREDO, Eurídice (Org.). Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: UFJF, 2005. p. 125-141.
KALDAS, Pauline. Airport. In: KALDAS, Pauline; MATTAWA, Khaled (Eds.). Dinarzad’s Children: An Anthology of Contemporary Arab-American Fiction. Fayetteville: University of Arkansas Press, 2009. p. 19-25.
SAID, EDWARD W. Representações do intelectual. As conferências Reith de 1993. Trad. Milton Hatoum. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SHERIF-TRASK, Bahira. Love, Courtship, and Marriage from a Cross-cultural Perspective: the Upper Middle-Class Egyptian Example. In: HAMON, Raeann R.; INGOLDSBY, Bron B. Ingoldsby (Eds.). Mate Selection cross-Cultures. Thousand Oaks, California: Sage Publications, 2003. p. 121-136.
 
 
 
[1] O título e os excertos do conto aqui analisado foram traduzidos pela autora do artigo.





Bio fornecida pelo palestrante.

A IDEALIZAÇÃO DO AMOR EM “GERTRUDES E SEU HOMEM”, DE AUGUSTA FARO – Suely Leite




 

Suely Leite

Universidade Estadual de Londrina

 
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo discutir as representações femininas e suas bases discursivas no conto “Gertrudes e seu homem”, da escritora Augusta Faro. Em tempos pós-modernos, a autora nos apresenta uma personagem construída sobre bases do pensamento patriarcal e que vem acompanhada de elementos insólitos, o que nos proporciona uma reflexão acerca das condições femininas fundadas em conceitos extremamente cristalizados socialmente e que nos parecem, hoje, estranhos.
 
Palavras-chave: representações de gênero; conto; autoria feminina; Augusta Faro.
 
Abstract: This paper aims to discuss the female representations and their discursive bases in the story “Gertrudes e seu homem”, by Augusta Faro. Writing in the post- modern mode, this author presents a character built on the foundations of patriarchal thinking, but she brings in some unusual elements that make us reflect on women’s conditions. These are based on social concepts that are crystallized to such a point that they appear to us as insolit.
 
Key-words: gender representations; tale; female authors; Augusta Faro.
 
Minicurrículo: Suely Leite é professora adjunta do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina e docente do Programa de pós-graduação em Letras da UEL, com doutorado na área de Letras e pesquisas em literatura feminina e análise do discurso. Atua nas disciplinas de Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Vozes femininas na literatura de autoria feminina. É coordenadora do projeto de pesquisa “Relações de gênero e representações literárias na literatura de autoria feminina” e líder do projeto de pesquisa cadastrado no CNPq, intitulado “Legado intelectual e produção literária de autoria feminina na América Latina”.
 
 
A IDEALIZAÇÃO DO AMOR EM “GERTRUDES E SEU HOMEM”, DE AUGUSTA FARO.
 
Suely Leite
Universidade Estadual de Londrina
 
A escrita feminina contemporânea tem muitos motes, entre eles a questão da condição e da identidade feminina. No rol dessa temática destaca-se a obra de Augusta Faro. Em prefácio escrito pelos organizadores da obra Augusta Faro: contemplações críticas encontramos a seguinte afirmação:
 
Apesar da escritora goiana ter iniciado na poesia e na literatura infanto-juvenil é indiscutível que sua contística reunida em A Friagem (1998) e em Boca benta da paixão (2007) repercutiu no campo literário ao ponto de extrapolar as fronteiras regionais e ser reconhecida por uma parcela da crítica como uma das linhas de força da literatura de autoria feminina contemporânea (Carvalho Brito; Anjos, 2014, p. 7).
 
De fato, a autora tem despertado o interesse sobre sua obra, que percorre os meandros do universo fantástico e da temática sobre as mulheres. Obra lírica e ao mesmo tempo política, seus textos apontam para uma escrita e estilo próprios que fazem de sua ficção contemporânea o terreno próprio do insólito e das discussões sobre gênero.
O conto escolhido para esse trabalho intitula-se “Gertrudes e seu homem”, e foi publicado na antologia 25 Mulheres que estão fazendo a literatura hoje (2004) de Luís Ruffato. (As demais citações serão feitas a partir desta edição). Em 2012, a cineasta Adriana Rodrigues produz o curta homônimo ao conto e ganha a premiação da Mostra Curta Goiás, festival que contava, naquele ano, com doze edições.
Em “Gertrudes e seu homem” o discurso feminino se constrói na relação conturbada que a protagonista tem com as mulheres de sua pequena cidade. Como costureira, Gertrudes recebe muitas clientes em casa e vai, aos poucos, construindo uma imagem de mulher sensual muito amada pelo marido. Tal configuração desperta nas clientes a curiosidade de conhecer o tal marido, o homem amado, amante. A primeira referência que temos sobre a influência desse amor idealizado sobre Gertrudes e as outras mulheres da cidade é uma alusão à vivacidade. Algo existia em Gertrudes e seus tecidos, com vivas cores. Denis de Rougemont, em seu livro O amor no ocidente (1988, p. 15), afirma que o ideário amoroso é uma expectativa na vida de todos nós, é uma promessa “de vida mais viva”. Assim é Gertrudes, encantada pela vida, pelas cores e o grande responsável por essa alegria de viver é Romão.
Partimos do princípio de que esse texto nos permite descortinar a construção das identidades femininas, pelo viés das imagens, símbolos e valores representados na narrativa ficcional. O primeiro parágrafo apresenta a personagem como um ser amargurado, sorriso de penumbra e com um olhar de profunda solidão. A expectativa despertada no leitor é de se confrontar com uma estória triste que descortine dores e apresente uma condição feminina instaurada em decepções e sofrimentos. Porém, o que segue é o relato da mudança de Gertrudes para uma cidadezinha na qual ela monta seu ateliê de costura e começa a tecer uma imagem de mulher prosa, mergulhada na grandeza do amor de seu homem. Mas ainda assim, o narrador alerta o leitor que “as amarguras de Gertrudes iam atrás dela” (p.127), embora apenas narrador e leitor tenham consciência dessa presença triste por trás da mulher amante e amada.
Gertrudes marca sua presença no mundo pela imagem associada a do marido Romão: “todo mundo, que frequentava o ateliê de costura, sempre ouvia as estórias de Romão, esse nome sempre envolto em onírico mistério ruidoso, palpável e, sobretudo, impenetrável” (p.128). A relação entre os dois é sempre descrita por Gertrudes como a mais idealizada possível: são amantes, companheiros, atenciosos um para com o outro. A presença de Romão é marcada por mistério e erotismo, que o narrador faz questão de frisar: “sempre um presente acompanhava o retorno daquele rapaz, escalavrado de vítrea aura impermeável, e que sufocava o ambiente com um perfume de macho saudável, vigoroso e quase satisfeito plenamente” (p.128).
Podemos observar que a representação do feminino é centrada na vida familiar. Gertrudes possuía um exímio talento para plantar, cozinhar, rendar, bordar e arrumar, ou seja, atividades relativas ao lar. As ações de Gertrudes buscam sempre recriar um ambiente doméstico de perfeita harmonia. A relação entre Gertrudes e Romão é uma relação de sujeição. A subordinação da figura feminina diante da masculina é apresentada pelo narrador em dois momentos: um primeiro momento e de maneira sutil, a desigualdade aparece nos papéis sociais em que os dois ocupam. Romão era viajante e não tinha porto, condição que ressalta o lugar do homem na esfera pública e da mulher na esfera privada. Gertrudes era costureira, tinha um atelier em casa e se dedicava em cumprir o seu papel de rainha do lar “e Gertrudes fazia bolo e broa, peta e biscoitos, rocamboles com frutas cristalizadas, tão perfumadas, e abarrotava de quitutes o guarda-comidas” (p. 128).
Sendo assim, a figura de Romão se impõe na narrativa como uma figura dominadora, que transforma sua virilidade física em virilidade simbólica. A imagem que Gertrudes constrói de Romão é embasada na necessidade de o homem se mostrar forte, soberano e competitivo, mas ao mesmo tempo, precisa corresponder ao padrão romântico, idealizado pela mulher: “revelava as noites de amor com aquele potro de legítima gentileza e incansável ternura” (p. 129) legitimando seu papel nas figuras do marido e do amante. A idealização do masculino em Romão pode ser vista com maior clareza quando o narrador descreve a mortalha que Gertrudes bordou em noites de espera pelo marido:
 
(…) inteiramente de vidrilhos cor de água, cor de espuma, em desenhos e arabescos geometricamente riscados e que, olhadas de longe, imitavam uma biga com sete cavalos e um cavaleiro, como aquelas antigas que corriam nos primórdios dos tempos cristãos, na cidade de Roma (p. 129).
 
A referência à figura do cavaleiro, ao tempo cristão e a cidade de Roma remete a origem da família centrada na figura masculina. A masculinidade, como todas as identidades, é social e historicamente construída em cada sociedade. O discurso falocêntrico coloca a hegemonia do poder masculino na sociedade relacionada à potência sexual. O corpo é a materialização da dominação, é o locus do exercício do poder. De acordo com Oliveira (2002) coragem e força física eram elementos importantes na constituição do ideal de masculinidade e estavam sempre relacionados com a iniciativa e ousadia, elementos presentes na virilidade masculina.
Romão é apresentado na narrativa como personagem que se destaca por sua beleza, força física, astúcia e ousadia, é portador de uma imagem apolínea.  Ele traz para si a figura do cavaleiro calcado nos modelos tradicionais e dos predicativos da personalidade do homem, qual seja, machista, viril e heterossexual, ou seja, um homem bem mais próximo dos modelos do cavaleiro medieval, do guerreiro oitocentista e dos grandes soldados, ao passo que agrega também os novos modelos de masculinidade pautados na ternura, compreensão, companheirismo; “ama o lar, mas a profissão o consome” (p. 128).
Já a personagem feminina é construída sobre os arquétipos de uma suposta natureza feminina, pautada em domesticidades, fragilidades, submissão, sentimentalismos, emoções e sensibilidades exacerbadas, movida pela paixão. Contudo, Gerusa também agrega outros aspectos que tem a ver com a multiplicidade de identidades femininas que compõe a sociedade contemporânea. É ela a responsável por proporcionar uma intranquilidade danada no espírito dos homens de todas as idades e um contentamento esfuziante no espírito das mulheres, ao apresentar tecidos de cores primorosas e narrativas de noites apaixonadas junto ao seu homem: “a sociedade amou rapidamente aquela mulher, que dizia com a boca benta da paixão: “meu marido chegou de viagem tarde da noite, afora dorme” (p. 128).
Interessante é perceber que mesmo após várias descrições do estado de paixão que arrebatava Gertrudes, da sua felicidade em deixar a casa arrumada à espera do marido que sempre estava de volta, temos no texto a recorrência do narrador em marcar as amarguras de Gertrudes:
 
Ninguém nunca conseguira explicar o porquê da desatinada amargura que emanava sempre e constantemente da costureira Gertrudes, estando o nobre amo e senhor presente ou estando em suas obscuras ausências de ambulante (p. 130).
 
Gertrudes é apresentada ao mesmo tempo como submissa a Romão, mas também entregue a paixão que esse homem lhe desperta. Para ele todos os cuidados de uma casa bem arrumada, uma mesa bem-posta, o silêncio para não o despertar de seu momento de descanso e ao mesmo tempo a mulher fogosa, dominada pela paixão “às vezes, quando a ausência da viagem era maior, Gertrudes caía de cama, inapetente, pálida e todas as tardes chorava inclementemente” (p. 130).  Ela exibe o perfil de uma ideologia calcada nos moldes patriarcais. Sonhadora, volta-se para a busca de um amor perfeito.
Podemos observar no texto o perfil de mulher voltada para o matrimônio. A escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir em seu O segundo sexo (1980) nos diz que o destino socialmente proposto à mulher é o casamento, é através dele que a mulher passará a integrar a coletividade, se não se casa, transforma-se socialmente em resíduo, o casamento, portanto (antes, durante e depois) é radicalmente diferente para os dois sexos, a mulher se torna praticamente a vassala do homem, é ele o chefe da família,  é dele que ela recebe um nome e é assim vista aos olhos da sociedade. É dessa forma que a mulher tem no casamento a justificativa social de sua existência. Uma vez inserida dentro dos padrões preconizados pela sociedade é que ela se volta à imanência, ou seja, assume o papel da perpetuação da espécie e manutenção do lar. Diante disso é que o casamento faz da mulher dona de um lar, tendo como destino a educação dos filhos e os cuidados domésticos. Sua completude estaria no casamento, discurso que reproduz a estrutura social vigente.
A trajetória da protagonista é marcada pela angústia vivida entre o ideal e o real. Gertrudes encontra-se aprisionada por um ideal de vida que internalizou para si mesma. O conflito vivido entre o desejo do ideal e o fracasso de não o ter alcançado, leva a personagem a construir uma realidade sobre si mesma e sobre sua vida, em busca de uma adequação social.  No conto, o universo feminino, representado além de Gertrudes, pelas moças e mulheres da cidade, é estruturado na idealização da figura de Romão, o homem que possui uma esposa dedicada, realizada e feliz: “a agitação interior das meninas costumava provocar câimbras nos pensamentos delas, as coitadas, ouvintes das confidências pesadas de tão reais” (p. 130).
Elódia Xavier (1991) menciona que, historicamente, a figura feminina foi sendo associada aos cuidados domésticos e familiares, herança de uma sociedade patriarcal, tornando-a, assim, inferior dentro da hierarquia familiar e sacrificando nesta perspectiva sua própria identidade, pois de tanto ser obrigada ideologicamente a viver sob a máscara da aceitação dos valores hegemônicos, perdia-se de si mesma. Gertrudes assim é representada: feliz e perdida na idealização dessa felicidade.
Uma outra situação presente na narrativa é a incompatibilidade entre maternidade e sexualidade. A beleza física, sexualmente atraente, apesar de objeto de desejo masculino, não condiz com a figura materna que este mesmo masculino constrói. Assim, a narrativa sugere que beleza e virtude são incompatíveis, na medida em que uma mulher que provoca desejo sexual não demonstra ser confiável para exercer o papel de mãe e educar os filhos. Por isso, Gertrudes e Romão não tem filhos:
 
A curiosidade de vê-lo era atiçada, fora de toda compreensão, quanto mais casos Gertrudes contava de Romão. De como o conhecera, do dia do casamento, do filho que lhe morreu na barriga, porque um jacaré imenso apareceu rolando limpo no chão (p. 131).
 
Segundo Susana Funck (1999), o paradigma narrativo a partir da década de 1960 será a morte figurada da mãe; esta será a forma de expressão usada pelas escritoras para eliminar os valores tradicionais que ela representa; característica esta que está evidente neste conto. A figura sedutora e misteriosa de Gertrudes é indubitavelmente associada a uma série de imagens femininamente marcadas, como a tentação. A sensualidade de Gertrudes coloca-a como um sujeito que exprime e realiza suas vontades, colocando-se em uma posição contrária à feminilidade ideal, onde as mulheres são apenas objetos contemplados pelo olhar masculino. Na medida em que não aceita se submeter, a mulher está automaticamente ferindo este princípio, o que a exclui, mas não a livra dos efeitos dos mecanismos de dominação.
Gertrudes, símbolo de várias identidades, representa a ideologia do patriarcado que leva as mulheres a crerem no homem enquanto imprescindível para sua felicidade, herança da tradição cultural ocidental que castra na mulher a possibilidade de construir uma vida própria, centrada nos seus próprios desejos e propósitos. Podemos observar que Gertrudes conquista um espaço na cidade em que vive pela figura de Romão. Ela é conhecida pelas estórias que conta de marido. É respeitada por ser sua esposa. A imagem construída perpassa fragmentações e identidades múltiplas. A esposa é a mulher feliz, a que se dedica ao lar e aos cuidados para com o homem amado, é também ao mesmo tempo, aquela que exerce a sua sexualidade nas noites quentes de amor com o marido; todo esse universo feminino acaba por encantar as outras mulheres da cidade, que na ânsia de preencherem seus espaços vazios, se alimentam da imagem de Gertrudes, de suas histórias e da imagem daquele homem, sonhado, idealizado e desejado por todas. O relacionamento do casal passa a ser o assunto da cidade e a curiosidade das mulheres em conhecer aquele homem alimenta a rotina da pacata vila.
Passado mais de um ano, as mulheres decidem invadir a casa no momento da ausência de Gertrudes e se deparam com o corpo apolíneo de Romão coberto por um lençol de linho branco “o resfolegar da serpente interior das fêmeas mugia solene naquela manhã calorenta e pasmada até a raiz das nuvens” (p. 131). A ânsia dessas mulheres em constatar a virilidade de Romão as leva a uma triste constatação: Romão não existe, é apenas um boneco autômato, fruto do desejo de Gertrudes em ter o seu homem, o seu deus grego.
Depois da descoberta e dos atos estranhos das mulheres ao beijar as partes quebradas do boneco e levá-las para casa, o narrador enuncia que “as trevas vieram em forma de aguaceiro sem nome, sem tempo e provocou mediante enchente, lambendo pontes e pinguelas” (p. 132).
O texto de Augusta Faro não se estrutura sobre um evento fantástico, mas nele instaura-se uma aura de mistério, sobretudo, através das personagens que oscilam entre o ser e o parecer, a existência e inexistência. O fantástico aqui aparece infiltrado na representação do cotidiano que substitui o efeito do medo pelo o da inquietude.
Segundo Flávio Garcia (2007), é lícito opor o insólito ao natural, e ao ordinário, pois os acontecimentos insólitos são aqueles que não ocorrem com frequência, contrários às práticas sociais diárias, logo, causam estranheza. O que se observa no conto é a presença de um viés insólito. O cotidiano real, com personagens aparentemente normais, é atravessado por acontecimentos fora da ordem, mas vivenciados como se fizessem parte dela. Aqui, o insólito flui livremente, pois o narrador apresenta no primeiro momento situações totalmente normais para só no futuro proporcionar ao leitor um cenário sobrenatural.
Podemos afirmar que o conto em questão, desperta no leitor esse estranhamento por relatar fatos insólitos: a alternância entre a condição aparente de felicidade de Gertrudes e sua real condição de amargura, a confecção de um boneco para dar vida à imagem idealizada de um homem, a fúria das moradoras da cidade ao perceberem a inexistência desse homem, a resistência em aceitar a realidade a ponto de quebrar o boneco para dividi-lo entre elas, a morte inexplicada de Gertrudes, a condição em que foi encontrada, “perfeita como viva”, suas aparições e sua condição de alguém que mesmo morta, possuía o frescor dos vivos” (p. 133).
Quando o texto se encaminha para o final, entende-se toda a insistência do narrador em marcar a amargura da personagem diante da vida.  Gertrudes desaparece, e não se sabe se isso aconteceu no exato momento da destruição do boneco. A imagem de Romão desaparece e o status de mulher casada da personagem também.
No conto, pode-se supor que não é apenas a perda do marido que assusta a personagem, e sim o status de mulher casada. Subjacente a essas noções encontra-se a ideia de que a mulher apenas se realiza para e por um homem, já que se acredita que uma mulher não consegue realizar-se sem marido e filhos. As amarguras de Gertrudes, marcada no texto pela voz do narrador, em pelo menos três ocasiões, tem sua origem em dois motivos: primeiro por um sentimento de frustração diante da inexistência de Romão, o ideal criado e imposto culturalmente pela sociedade, e em segundo, pela completa impossibilidade de romper as amarras que a mantém prisioneira a esse perfil feminino, que condiciona à felicidade da mulher à presença de um homem.
Gertrudes não consegue romper a estrutura patriarcal, a ponto de forjar a sua própria existência. O narrador não deixa claro como a personagem morreu:
 
Ninguém nunca esclareceu, se a senhora Gertrudes teria morrido na hora exata que descobriram e violentaram seu sagrado segredo, ou se o aguaceiro lhe havia roubado a flor da vida (…). O fato é que até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente (p. 133).
 
A morte simboliza a impossibilidade da libertação da protagonista, pois o narrador afirma que uma semana depois a personagem foi encontrada “na prainha, bem abaixo do matadouro… perfeita como viva” e ainda há a afirmação:
 
(…) a alma de Gertrudes foi vista mais de uma vez; às vezes, tomava forma de pomba sempre esperta e triste” e mais: “até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente (p. 133).
 
A narrativa caminha para o final pelo viés do insólito. Percebe-se então que o texto traz para a cena a questão da loucura e da solidão, temáticas tão presentes na escrita feminina. Para o leitor, fica explícito o modo como essa literatura feminina contemporânea tenta suprir a necessidade da mulher de uma referência do seu próprio ser, a busca da construção de sua identidade social. Enfim, são vozes que se entrecruzam na longa caminhada de um discurso feminino, discurso esse que reúne várias perspectivas e possibilidades de construções identitárias.
 
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, de Simone. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1980.
BRITTO, Clóvis Carvalho; ANJOS, José Humberto R. dos (Org). Augusta Faro: contemplações críticas. Goiânia: Gráfica e Editora América. 2014.
FARO, Augusta. Gertrudes e seu homem. In: RUFFATO, Luiz (Org). 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Record. 2004. p. 125-133.
FUNCK, Susana. Representações da maternidade e paternidade na literatura feminista contemporânea. In: Falas de gênero: teorias, análises, leituras. Florianópolis: Mulheres, 1999.
GARCÍA, Flávio. A banalização do insólito: questões de gênero literário – mecanismos de construção narrativa. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2007. p. 12-23.
OLIVEIRA, Pedro Paulo Martins de. A construção social da masculinidade. Tese de Doutorado em Sociologia. Universidade de São Paulo (USP), 2002.
XAVIER, Elódia. Reflexões sobre a narrativa feminina. In: XAVIER, Elódia (Org.). Tudo no feminino: a presença da mulher na narrativa brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.





Bio fornecida pelo palestrante.

AS TRANSFORMAÇÕES DO IMAGINÁRIO ÉPICO: UMA LEITURA DE DISCORSI DEL POEMA EPICO DE TORQUATO TASSO – Fabrizio Rusconi




Fabrizio Rusconi
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

RESUMO: Este ensaio apresenta uma leitura histórico-comparativa da poesia épica com foco na obra do escritor italiano Torquato Tasso intitulada Discorsi del poema epico. No ensaio são apresentados criticamente os principais conceitos elaborados por Tasso sobre o poema épico a partir de uma tradição (Aristóteles e a Poética) sobre a qual, em parte, Tasso fundamenta seu discurso. Ela é comparada às transformações que interessaram o imaginário da épica, desde Milton até a obra inovadora de Sousândrade.
RIASSUNTO: Il presente saggio tenta una lettura storico-comparativa della poesia epica, indagando l’opera dello scrittore italiano Torquato Tasso intitolata Discorsi del poema Epico. Nel saggio vengono presentati criticamente i principali concetti elaborati da Tasso, sul poema epico a partire da una tradizione (Aristotele e la Poetica), sulla quale Tasso struttura il suo discorso e che viene comparata alle trasformazioni che interessano l’immaginario dell’epica, da Milton all’innovatrice opera di Sousândrade.
Minicurrículo: Fabrizio Rusconi é doutorando da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem experiência na área de Letras, particularmente em Literatura Italiana. Seu projeto de doutoramento versa sobre o escritor italiano Carlo Emilio Gadda e focaliza a problemática da escrita. Em fevereiro de 2016 foi publicado na Itália o livro Guido Morselli, un gattopardo del nord, contendo participação sua, entre outros autores.
AS TRANSFORMAÇÕES DO IMAGINÁRIO ÉPICO: UMA LEITURA DE DISCORSI DEL POEMA EPICO DE TORQUATO TASSO
Fabrizio Rusconi
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
“Os tempos primitivos são líricos, os tempos antigos são épicos, os tempos modernos são dramáticos. A ode canta a eternidade, a epopeia soleniza a história, o drama pinta a vida” (V. Hugo, p. 40).
No ensaio intitulado Discorsi del Poema Eroico (1594), Torquato Tasso retoma a história do gênero épico através da grande operação sistemática realizada por Aristóteles na Poética. A reflexão de Tasso apresenta um notável interesse para o estudioso contemporâneo porque, enquanto documento fiel de um momento histórico peculiar em um contexto de grandes transformações políticas e sociais, mostra quanto mudou a natureza dos problemas em campo e as repercussões no sistema dos gêneros da modernidade. Retomamos, portanto, neste estudo, os pontos mais interessantes da reflexão tassiana sobre o gênero épico à luz da poderosa recodificação ocorrida na literatura com o advento do romance burgês e com a sobrevivência espúria e contaminada, daquele que para Tasso era o gênero mais alto e nobre no panorama literário: justamente o poema épico.
No século XX, a épica sobrevive não mais como gênero puro, nem como gênero ao centro da instituição literária, mas como um timbre, como uma sugestão – às vezes em forma parodiada e irreconhecível –, sobrevive em determinadas soluções, em algumas figuras, como também naqueles textos que têm a ambição de dar voz a um novo epos comunitário e nacional, num contexto no qual as palavras “comunidade” e “nação” tinham se tornado extraordinariamente ambíguas no sentido e pretensiosas no uso. Portanto, um estudo genético do gênero épico conduzido sobre uma base histórica, partindo pela tentativa de redefinição/recodificação feito por Tasso, pode resultar precioso para reconhecer, hoje, os signos e as permanências de um gênero hoje desaparecido.
I Discorsi del poema eroico, publicados em 1594, tiveram grande ressonância em uma Europa que se encaminhava rumo a sua plena modernidade. Os dissídios, até dilacerantes e trágicos, na consciência de Tasso, como homem de fé firme e como poeta, são também os do seu século. O cisma no cristianismo – com a divisão agora inconciliável entre católicos e protestantes – impôs a Tasso uma enorme cautela na direção a ser tomada pelas suas escolhas narrativas e estilísticas. A Contrarreforma (1534-1549) tinha declarado guerra a tudo aquilo que se considerava inconveniente e impuro.
Métrica e estilo
Na Gerusalemme Liberata, Tasso emprega a dúctil e plástica oitava, certamente a forma mais difundida na tradição lírica italiana, típica em particular do poema narrativo. Escreve Tasso, pregando a escolha da oitava para a composição do poema épico: “Ma ne la stanza d’otto versi d’undici sillabe è maggiore uniformità e maggior gravità e maggior costanza e stabilità: la quale non è propia de la scena, ma conviene ai poemi eroici, come dice Aristotele medesimo nei Problemi” (TASSO, Torquato, Discorsi del poema eroico. De agora em diante a obra referida será indicada apenas como: “Tasso, edição digital”. A referência é naturalmente à obra em italiano, portanto a tradução é sempre minha). Tasso destaca também a importância que o endecasillabo tem para fornecer ao poema épico toda sua magniloquência e força: “Ma fra i versi nostri, quel d’undici sillabe è atto al parlar magnifico, ed è quello che riceve maggior ornamento”. A longa tradição de poemas épicos compostos em ottava rima é um motivo suficiente para demostrar a bontade de seu raciocínio:
Scelgasi dunque la stanza, o l’ottava che vogliam dirla, per attissima al poema eroico, oltre tutti gli altri modi di rimare che son propri e naturali de la favella toscana; e seguasi non sol la ragione, ma l’autorità di coloro che l’hanno adoperata in materia d’amore e d’arme: perché, dopo il Boccaccio, in questo verso Luigi Pulci scrisse il Morgante; e il fratello Ciriffo Calvaneo; ed Angelo Poliziano (uomo di gran dottrina e di gran giudizio in quei tempi) l’amore e le giostre di Giuliano dei Medici; e il Boiardo Orlando Innamorato; e l’Ariosto Orlando Furioso; Pietro Aretino Angelica innamorata (…) e il Tasso l’Amadigi (…)” (TASSO, Torquato, ed. dig.)
A lista é longa e continua com outros exemplos. Nomes e títulos que se for lícitos de serem citados como modelos de estilo e versificação, não o são no que concerne aos conteúdos, decididamente licenciosos e carnais. Neste aspecto, a intriga de amor – principal ingrediente da épica fantástica de Ariosto – deixa lugar à paixão em Cristo. Goffredo di Buglione é escolhido por Tasso como herói sem mancha, virtuoso e corajoso, pronto ao sacrifício para reconquistar as terras sagradas aos infiéis.
Seguindo a argumentação típica do tratado aristotélico, que em forma sistemática/silogística alcança o particular partindo de um plano categorial mais genérico, Tasso aborda a pergunta sobre a natureza da poesia épica, tentando responder antes sobre a natureza da poesia em geral: “La poesia ha molte spezie; e l’una è l’epopeia, l’altre la tragedia, la commedia, e quelle che si cantano con la cetera e con le pive o con le sampogne o con altri strumenti pastorali, le quali tutte convengono nell’imitare” (TASSO, Torquato, ed. dig.).
A imitação em versos é súbito enucleada qual o traço caracterizante de toda a poesia. Para uma ulterior separação entre os gênero de poesia, todos imitativos, Tasso tem que proceder a uma distinção, começando pelos conteúdos desta imitação; isso é feito indicando diferenças no tipo de ações que podem ser imitadas: “sendo muitas as espécies de ações, muitas serão as espécies de poemas”. Tasso recorre aos exemplos literários da tradição grego-latina, mas também àqueles renascentistas em língua vulgar. Sua vasta erudição lhe permite fundar sempre os seus argumentos sobre exemplos reais fornecidos pelas obras e pelos grandes nomes da literatura (como quando diz que “o exemplo de Homero e dos trágicos é concentrar todo o esforço da oração para o deleite”) .
Em suma, seguindo um método argumentativo indutivo, que do exemplo deduz uma regra, uma constante, o autor da Gerusalemme Liberata, chega, por graus, a esta definição de épica:
Io dico che il poema eroico è una imitazione d’azione illustre, grande e perfetta, fatta narrando con altissimo verso, a fine di giovare dilettando [educar por meio do deleite], cioè a fine che il diletto sia cagione ch’altri leggendo più volentieri non escluda il giovamento (TASSO, ed. dig.).
Contudo, se o fim é a vantagem, ou seja, a educação moral oferecida pelo grande exemplo, este passa necessariamente pelo deleite, isto é, “o mover as almas com a maravilha”. Tasso discute neste ponto aquilo que tem que se entender com “maravilha”, já que “a nenhuma outra espécie de poesia tanto convém o mover maravilha quanto à epopeia”.
Naturalmente, cada aspecto desta definição é essencial, vital, mesmo para as consequências históricas que esta reflexão terá na poética ocidental. Ao enuclear os aspectos salientes, se vê que o poema heroico não imita quaisquer ações, mas apenas aquelas ilustres e virtuosas. Passando da teoria à prática, esta ação “ilustre, grande e perfeita”, na Gerusalemme, é posta nas mãos de um herói imaculado, Goffredo da Buglione. A ação é representada através da narração: isso significa que não é dramática, mas que é indispensável a presença de um narrador – o cantor – que organiza a matéria e a elabora em “altissimo verso”. Este é tradicionalmente o hendecassílabo: uma escolha métrica que se conforma melhor do que outras à hexâmetro latim, cuja força imprime à matéria um vigor retórico excepcional.
A função da métrica na épica de Homero em diante é instrumental, deve ser posta em correlação com os processos da memorização e da prática da transmissão, de geração em geração, próprias das culturas orais; mas também, nas civilidades da escritura, em que os processos da memorização se tornam secundários. É mais um recurso disponível para provocar comoção e maravilha, graças à sonoridade, o ritmo e obviamente a rima.
Explica Tasso: “podem os poemas heroicos serem cantados com aquela espécie de música que é perfetíssima, como foram cantados os poemas de Homero; e na nossa língua particularmente o poema heroico tem a rima, a qual é mesmo uma harmonia natural” (TASSO, ed. dig.).
A épica, também a tassiana, seleciona aquilo que é memorável, organizando-o através da forma métrica em um discurso altamente formalizado e portanto passível de memorização, mas também “cantado” e fruído em formas musicais.
Veremos como justamente a alta exemplaridade da história, que propõe na arte o preceito da moral, isto é, da “historia magistra vitae”, venha destituída de sentido pela civilização burguesa, interessada mais ao presente do ganho e ao futuro da especulação; é por isso que seu “memorável” baseia-se no caso privado, individual, ou, no máximo, familiar. Enquanto a música, seguindo o destino dos saberes cada vez mais especializados e distintos, separou-se da poesia lírica ou épica, para recortar para si um espaço autônomo e um público já burguês.
Épica e história
A épica e a história não são dois campos separados e distintos. Para Tasso, os materiais com que a épica constrói seus enredos têm que ser de preferência tomados da história, já que esta guarda em si todas as ações dignas de memória. Escreve Tasso:
Os outros que seguiram Homero e ao imitá-lo, todos eles fundaram o poema sobre a história, porque não se pode fazer diversamente, sendo até agora escritas todas as ações memoráveis: portanto aquelas que não são escritas não pareceram ter a dignidade da história (TASSO, ed. dig.).
A história, ou seja, a grande história clássica – mais do que a crônica que registra até mesmo acontecimentos menores, irrelevantes, na ótica de uma história dos heróis – seria para Tasso um tesouro do qual o poeta épico deve possuir a chave. E isso traz um discurso sobre os limites e as sobreposições dos respectivos âmbitos: historiografia e poesia.
Não obstante a diferença entre a historiografia e a poesia, traçada por Aristóteles na Poética, Tasso não é categórico ao considerar os dois campos incomensuráveis. “(…) se na arte dos historiadores tiver alguma influência o número e os ornamentos e as figuras de linguagem, quem não sabe que estas coisas foram quase emprestadas pelo poeta ao orador?” (TASSO, ed. dig.).
Tasso, em suma, reconhece a operação linguística comum, comum tanto ao poeta quanto ao historiador, operação que tem seu centro na retórica, nos tropos, nas figuras da linguagem, na ligação das partes entre si, na coerência textual, que resulta de uma construção, ou seja de uma convenção, de um artifício. Tudo isso vai ao encontro de nosso discurso: a historiografia, também, se constrói a partir de um ponto de vista, de uma ideologia, de uma tropologia, de uma construção de enredo, que segue determinadas estruturas oferecidas pela arte ao discurso histórico .
Ademais, temos que reconhecer que a evolução dos gêneros e das artes na época em que Tasso viveu não conhecia uma clara distinção no campo das humanidades entre historiografia e outras formas de discurso – narrativas ou imitativas que fossem: “na época moderna, num primeiro momento, literatura como corpo de escritos corresponde a um conceito amplo de humanidades, abrangendo, pois, a produção escrita em geral – filosofia, eloquência, história, ciência, carta, prosa ficcional, poesia” (dizionario termos literarios). Além disso, já a antiguidade atribuia à historiografia os recursos de uma construção retórica, a qual não necessariamente envolvia uma distinção radical entre realidade e ficção: “Ver ficção como história ou vice-versa não surpreenderia os antigos, uma vez que Cícero considerava a história uma opus oratorium, não uma ciência” (LOBO, Luiza, 2013, ed. dig.). Tasso reconhece o valor superior da história, isto é, seu poder no que concerne à verdade e ao “ammaestramento de la vita”. No Proêmio da Gerusalemme Liberata, Tasso, após ter invocado a Musa para que, como é na tradiçaõ épica, ela “spir[i] al petto” do poeta “celesti ardori” e “rischiar[i] il [suo] canto”, em seguida, o poeta pede perdão “s’intess[e] fregi al ver s’adorn[a] in parte/ d’altri diletti, che de’ tuoi, le carte” (v. 13-16). É esta uma declaração de poética precisa. A história é assunto sagrado – já que, em uma ótica cristã, ela é parte de um quadro de redenção e salvação ultraterrena. O poeta tem que se desculpar perante às Musas do belo canto, as quais, agora plenamente cristianizadas, não podem admitir uma “falsificação” da história, mas no máximo permitir o “condimento” dos “molli versi” para uma finalidade de deleite que mova a persuasão . A transição da verdade histórica à verossimilhança dá-se como consequência e escolha da operação do poeta épico. O verossímil, já enunciado por Aristóteles como objeto da tragédia, é reafirmado ser um conceito irrenunciável para a grande épica:
(…) ao poema heroico se convém fazer seu fundamento no verdadeiro; e primeiro, devendo o épico procurar em muitas partes o verossímil, não é verossímil que uma ação ilustre, como são aquelas por ele tratadas, não seja escrita e passada para a memória da posteridade graças à pena de qualquer historiador; e os grandes e sortudos acontecimentos não podem ser desconhecidos (TASSO, ed. dig.).
Portanto, entre histórico e épico se registra uma continuidade, cuja fonte é a escrita. A diferença, entre os dois âmbitos ou disciplinas, não é formal. É uma diferença propriamente poiética, não técnica. Assim, lembrando Aristóteles, Tasso escreve que não é o verso a fazer a poesia, especialmente porque “ao fazer-se em versos a história de Heródoto, não seria menos história”. A distinção entre a história e a poesia é teorizada no conhecido assunto aristotélico, segundo o qual a poesia considera “as coisas não como foram, mas nas formas e modos em que poderiam ter sido, visando justamente mais ao universal do que à verdade daquilo que é particular”. No entanto, como sempre, em uma civilidade fortemente hierarquizada e regulada, aquilo que distingue e separa tem natureza prática: uso, função e destinação são fatores caracterizantes. Neste sentido, o fim da poesia deve ser o deleite, o prazer estético. Deste vai nascer “il giovamento” [benefício] e “l’ammaestramento cortese” [a educação cortês]. Expressão de um ethos aristocrata, porem não ainda individualista. Os “molli versi”, o apelo às Musas, o canto inspirado e alto, são meios empregados para nobilitar uma matéria às vezes árida e cruenta, isto é, a que sai da pena do historiógrafo: meios necessários, mas não suficientes para operar esta separação entre história e épica.
Uma outra diversidade não insignificante entre a narração histórica e a épica reside na relação entre fabula e discurso – duas categorias pertencentes à narratologia e que, obviamente, Tasso não conhecia: ignorância que no entanto não influiu na articulação de seu pensamento. O poeta épico pode, aliás deve, para produzir um certo efeito no leitor, intervir na linearidade da fabula. O historiador, diversamente, deveria antes seguir a ordem “reta e natural em que narram-se as coisas que vieram antes”. Escreve Tasso, no que concerne à poesia épica:
(…) algumas dentre as primeiras tem que ser ditas primeiramente, outras adiadas, outras no tempo presente têm que ser deixadas de fora e proteladas a um momento melhor, como ensina Horácio. Em primeiro lugar, devem ser ditas aquelas sem as quais não se teria algum conhecimento do estado das coisas presentes; porém, podem-se calar muitas, as quais diminuem a expectativa e a maravilha (TASSO, ed. dig.).
Imitação e realidade
Há na época de Tasso uma controvérsia sobre o sujeito mais adequado que a imitação em poesia deve visar. A controvérsia centra-se na adequação à noção de realidade histórica ou de verossimilhança, que o poeta tem que respeitar na criação poética, ou da qual pode-se afastar inventivamente. Escreve Tasso, em polêmica com um seu antagonista literário:
Muito menos verdadeiro é aquilo que diz o Mazzone, que a poesia mais perfeita é a fantástica imitação: já que esta imitação é a das coisas que não são e que nunca existiram; porém a perfeitíssima poesia imita as coisas que são, que foram ou que poderão ser: como existiu a guerra de Troia, e a ira de Aquiles, e a piedade de Eneias, e as batalhas entre Troianos e Latinos, e outras que ocorreram ou que poderão ocorrer (TASSO, ed. dig.).
A posição de Tasso marca decididamente a passagem a uma épica na qual o campo do fantástico e do imaginário parece reduzido, enquanto assistimos à consolidação progressiva do dado realístico ou histórico:
Ao longo dos séculos, contudo, foram ocorrendo mudanças profundas no modelo da epopeia clássica e, progressivamente, o dado histórico foi substituindo o maravilhoso na arquitetura narrativa e na configuração do gênero épico. A trajetória percorrida pela epopeia latina, pela epopeia medieval e pela epopeia renascentista ilustra, de maneira bastante nítida, o processo de afirmação do componente histórico em detrimento do maravilhoso (TROUCHE, André, 2006, p. 34).
“Porém, os Centauros, as Harpias e os Ciclopes não são o sujeito principal ou adequado da poesia, nem os cavalos voadores e outros monstros dos quais são cheias as fábulas dos romances”, escreve Tasso restringindo o campo do que é lícito usar poeticamente. Fogem, estas entidades, a uma noção de realidade comumente aceita. No entanto, é necessário se interrogar sobre esta noção em um homem da renascença qual era Tasso. Para ele o conceito de realidade inclui entidades e possibilidades que no mundo hodierno são quimeras. Seu imaginário é a expressão de uma realidade em que ainda não tinha se realizada a separação entre real e fantástico:
Pense-se na menção, no Messaggiero tassiano, à luz como elemento em que mergulham os deuses, e também à afirmação de que os demônios são necessários porque o ar está “adornada” de elementos vitais, não sendo suficientes os pássaros, que no ar não descansam; ou a repetir o conceito neoplatônico e ficiniano do universo como “grande animal vivente” à guisa do homem (ULIVI, Ferruccio, 2015, p. 16).
Neste sentido, a Gerusalemme Liberata estende evidentemente a noção de realidade às entidades e a seres como Belzebu, Satanás, magos e magias, jardins encantados, ninfas, arcanjos combatentes e “exércitos celestiais”, com os respectivos homólogos no “concilio orrendo” dos demônios. A própria noção cósmica universal em Tasso é ainda estritamente aristótelico-tolemaica, portanto medieval e geocêntrica, embora a época tardo-renascentista trouxesse à maturação novas sensibilidades. A cosmogonia tassiana, ainda intocada pela mão reguladora da ciência, pode dar forma a um universo em que a épica dos heróis esteja conforme com a épica dos anjos. Como no Paraíso perdido de Milton, “sob o Eterno e sob os céus, regrados pelas antigas divindades, se estende a terra com o oceano, as montanhas, os “abismos cegos” (ULIVI, Ferruccio, 2015, p. 13).
Gêneros entre Contrarreforma e modernidade
Mais uma vez, enfatiza-se a importância que o texto tem em relação aos seus leitores. Pode-se dizer, sem receio de parecer anacrônicos, que tanto o horizonte de expectativas , quanto o lado da recepção, já eram fatores determinantes na organização de um gênero. De fato, numa época fortemente normativa como a em que Tasso escreveu suas obras: “As noções de gênero são fundamentalmente concebidas como critérios úteis para julgar a conformidade de uma obra a uma norma, ou melhor a um conjunto de regras” (PAPPALARDO, Fernando, 2009, p. 77). Em um horizonte altamente prescritivo como é o da Contrarreforma, cada gênero encontra sua finalidade, sua função, sua disciplina; portanto os discursos, os gêneros e as obras que contradizem este sistema são censurados e eliminados.
As escolhas retóricas e formais são inteiramente limitadas e conformam-se necessariamente às finalidades do discurso e à destinação do gênero: “um dos mecanismos-chave para a estruturação de mensagens e ações dentro das formas culturais é o gênero” (BAZERMAN, Charles, 2007, p. 19); e até mesmo dentro do gênero, as partes que o constituem são diversamente finalizadas para gerar o resultado desejado. Então, com Homero, Tasso escreve: “Opinou [Homero] que a licença dos poetas tivesse três partes: a história, a fábula e a disposição; e que o fim da história é a verdade; o da disposição, a expressão; o da fábula, o deleite” (TASSO, ed. dig.).
Muito tem evidentemente mudado na literatura desde então. No horizonte do gênero épico encontra-se uma categoria de fruidores homogêneos para cultura e valores. Eram príncipes, humanistas, bispos e prelados e, em geral, cortesãos. Eram eles que através da épica tinham que se instruir e conhecer o valor dos grandes feitos. Hoje parece absurdo definir um gênero com base em uma finalidade qualquer. A épica não resistiu à dissolução de uma arte comprometida com seus leitores, tomados como grupos ou como representantes de uma nação. Foram as consequências de eventos poderosos que revolucionaram a cultura humana e seus modelos. No que concerne ao plano técnico e econômico, a Revolução Industrial inglesa, que, num segundo momento se estendeu a outras nações; no que concerne à cultura, Iluminismo e Romantismo determinaram mudanças importantes. Movimentos que exprimiam novas sensibilidades, redesenhando a épica em conformidade com as novas exigências sociais emergentes. Iluminismo e Romantismo em que predomina uma instância irônica, a qual não podia evidentemente não condenar a épica a uma transformação radical, dissolvida e corroída pela paródia ou pela nostalgia (Nietzsche fala da dissolução que afetou a arte trágica, mas talvez poderia ter incluído também a heroica, isto é, a épica: irrenunciável, como veremos, a teoria de Lukács que descreve a transição da épica à civilidade do romance burguês).
A épica evidentemente não pôde prosperar em um cultura, a romântica, em que “a relação entre signo e significado é descontinua, alterna, envolvendo um princípio alheio” (DE MAN, Paul, 1975, p. 267). No Romantismo é no máximo o romance; e o drama, no teatro, a tomarem conta da descontinuidade entre signo e significado, a tematizá-la. Portanto, “é tentador seguir Lukács, ao fazer do romance o equivalente (na história dos gêneros literários) da própria ironia” (in DE MAN, 1975, p. 267). Por outro lado, entre romance e épica parece existir uma certa continuidade, embora seja plausível diferenciá-los com Vico: a épica pertence ao “período dos herois” que é naturalmente poético; o romance pertence à civilidade burguesa e prosaica. Lukács lembra que foi de fato Hegel que definiu o romance “epopeia burguesa”; o romance “na sociedade burguesa faz o papel do epos na sociedade antiga” (LUKÁCS, Gyorgy, 1976, p. 137).
Nesta tempérie romântica, irônica e paródica, inscrevem-se dois poemas de Byron, Childe Harold, que encena a risível viagem de volta à Grécia, no modelo originário da épica odisseica; e Don Juan que faz do protagonista um anti-herói: isto é, o mentiroso, sedutor, perverso libertino (cf. RANCIÈRE, Jacques, 1995, p. 119-121). Este anti-herói declarado se situa aos antípodas comparado à épica tassiana, cujos efeitos dependiam da nobreza e da coragem do herói, no caso, Goffredo da Buglione. O carácter específico do romance burguês, justamente, alertava Lukács, estaria na impossibilidade de encontrar e representar um “herói positivo”.
No entanto, embora as diferenças que o desenvolvimento das sociedades produziu no imaginário coletivo e nas formas de fruição, épica e romance têm a mesma origem. Escreve Lukács, revelando o traço que une épica e romance: “o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente, para a qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática, mas que ainda assim tem por intenção a totalidade”; ademais, em nota de rodapé, o estudioso húngaro lembra a célebre definição de “Hegel [que] concebe o romance como epopeia burguesa”, a qual, acrescenta, “tem seus antecedentes. Pelo menos, desde Blankenburg, o romance é tomado como herdeiro da antiga epopeia” (LUKÁCS, Gyorgy, 2000, p. 55). Porém, Lukács parece ignorar aquilo que Tasso escreveu sobre a épica, dando ele, muito antes das fontes citadas por Lukács, uma contribuição decisiva para a teoria dos gêneros, ao reconduzir o romance – gênero relativamente novo – ao tronco comum e mais antigo da épica. Por meio de uma argumentação rigorosa e consequente, Tasso reconhece que entre os dois modelos literários não há diferença no que concerne aos pontos relevantes, os quais, seguindo de perto o argumento aristotélico, são três. Escreve Tasso:
Apenas três são as diferenças especificas na poesia, como dissemos anteriormente no Discurso: as diversidades das coisas imitadas; a diversidade da imitação; e a diversidade dos instrumentos com as quais se imita. Por estas razões, os épicos, os cômicos, os trágicos são diferentes (TASSO, ed. dig.).
No que concerne às “coisas imitadas”, de fato, tanto o romance quanto a épica têm como objeto as ações ilustres e heroicas. Pelo menos, isso era verdade na origem do romance, que era o de cavalaria, embora como vimos não seja mais assim na época burguesa. Em relação ao segundo aspecto discutido, a “diversidade da imitação”, ela não subsiste, já que tanto a épica quanto o romance imitam em formas narrativas, diegéticas e não dramáticas, as quais implicam a presença de um cantor ou de um narrador. O terceiro ponto, “a diversidade dos instrumentos com os quais se imita”, intende na reflexão tassiana o emprego de “verso nudo”, ao qual não parece necessário nem o ritmo, nem a harmonia, usados na tragédia e na comédia. Com base nestes argumentos, é possível reconhecer a extensão das mudanças, algumas radicais, que interessaram o romance ao longo dos séculos.
Maravilhoso e verossímil
Tasso sanciona o dever que tem o poeta épico de manter juntos “verossímil e maravilhoso”, duas qualidades que parecem discordantes. Ademais, reconhece a relatividade histórica desses dois conceitos. Aquilo que no passado era considerado verossímil, não o é mais na época em que Tasso escreve e organiza sua reflexão. O mesmo pode ser dito do “maravilhoso”, uma vez que, naturalmente, com o mudar dos tempos, mudam os hábitos dos homens, as crenças, o imaginário.
Um uso correto do maravilhoso, faz com que se produza o estupor do leitor, isto é, a maravilha e o deleite, sem os quais qualquer efeito de leitura enfraquece ou se ausenta e, com ele, o benefício que o leitor obtém segundo o preceito clássico e humanista do prodesse e delectare. Para ter sucesso na árdua tarefa, deve-se escolher como matéria épica “a história de um século ou de uma nação longínqua, já que, sendo aquelas coisas sepultadas de tal forma na antiguidade, que permanece delas uma obscura e débil memória, pode o poeta mudá-las e remudá-las, e narrá-las como ele gosta” (TASSO, ed. dig.). Com a história estamos, de fato, no campo do “docere”, conforme ao preceito da historia magistra vitae. Quanto ao “delectare”, a matéria histórica pode se contaminar inventivamente desde que os eventos escolhidos sejam remotos o suficiente para despertar maravilha, graças a um exotismo de maneira que já preanuncia a estética barroca. O afastamento no tempo e no espaço suscitará no leitor aquele necessário estranhamento capaz de preparar a alma à maravilha.
Ademais, como evidenciado pela passagem citada, o poeta pode organizar a própria matéria em um discurso para que se produza aquela “maravilha” que é esperada pela sua atividade, e também pode preencher as lacunas da história através da invenção criativa (poiesis). Finalmente, se a tragédia, como se lê em Aristóteles, é imitação de homens mais excelentes, seria difícil abraçar tal excelência no medíocre tempo presente. À poesia épica aplica-se o mesmo preceito, segundo o Tasso, porque essa ocupa, ao lado da tragédia, a posição mais elevada no sistema dos gêneros. As ações que se mostram mais convenientes para a épica e nas quais são reconhecíveis as virtudes da coragem e da abnegação, são enunciadas por Tasso: essas são “l’eccelsa virtù militare”, “il magnanimo proponimento di morire”, “la pietà”, “la religione”. Esta poética da excelência possui um lado censório, que pode parecer para nós, hoje, muito questionável. Assim, Tasso resulta categórico em excluir do campo da épica, “todas as coisas baixas, todas as populares, todas as desonestas, como na novela da Fiammetta e a do Dottore” (referindo-se naturalmente ao Boccaccio, do qual nem sequer pronuncia o nome para indignidade).
Depois de Jerusalém
Exemplar em conferir forma inventiva à épica pré-barroca com a sua Gerusalemme Liberata, mas também grande teórico e organizador do modelo épico cristão, Tasso será um autor fundamental para as épocas futuras. Antes de tudo, sua Gerusalemme marca a superação do modelo ariostesco e a retomada de preceitos aristotélicos:
A instabilidade na criação epopeica provocada pelo modelo épico-cavaleiresco de Ariosto foi substancialmente dominada a partir da publicação (1581) e consagração europeia da Jerusalém Libertada (Gerusalemme Liberata) de Torquato Tasso e dos textos sobre teoria da epopeia do mesmo autor. Com efeito, a partir da década de 1580 em Itália, logo seguido noutros países, dá-se o declínio da influência de Ariosto na produção e na teoria épicas, substituído pelo padrão agora dominante do poema de Tasso. Com este autor, o Humanismo renascentista conseguiu o produto mais próximo do ideal nutrido ao longo de três séculos e, particularmente, a assimilação mais consagrada da épica ariostesca aos modelos greco-romanos. Atinge-se o maior equilíbrio possível entre as narrações da guerra e da errância (virgilianas), por um lado, e do amor (cavaleiresco), por outro, tudo subordinado ao herói perfeito (Godofredo de Bulhões) e à unidade de acção aristotélica. Esta recodificação foi decisiva e, na generalidade, permanente até ao Romantismo (Hélio Alves, in: E-dicionário de Termos Literários).
O novo imaginário épico que inaugura-se com a Gerusalemme consegue juntar “le donne, i cavallier, l’arme, gli amori, le cortesie e l’audaci imprese” de ariostesca memoria, com o emprego eficaz e bem sucedido da religião e da simbologia cristã. Aspectos ainda demasiadamente pagãos, se tomados individualmente, são consagrados para uma missão santa e justa, ou seja, inscritos em um percurso de redenção histórica válido para todo o ecúmeno cristão.
Os efeitos da cristianização do gênero épico circulam por uma Europa culta, que dialoga em latim e tem como interlocutores os clássicos da tradição latina, grega e judia. Paraíso perdido, do poeta protestante John Milton, é uma épica religiosa cristã, que abrange a inteira história humana, empregando a simbologia bíblica, em uma releitura muito pessoal do Gênesis: da expulsão dos anjos rebeldes do Paraísoà queda dos progenitores míticos devido à obra do tentador Satã ao desenho providencial de Deus em que o sacrifício de Cristo se torna necessário para redimir a humanidade.
Apenas com o Romantismo, por razões que são tanto estéticas quanto políticas, o gênero épico como foi teorizado e praticado por Tasso e Milton entra em crise. Não é possível neste contexto articular um discurso exaustivo sobre as razões desta crise. Basta dizer que no plano estético o Romantismo desmantela a unidade dos gêneros, a conveniência entre estilo e matéria, conferindo plena libertade e autonomia ao artista enquanto gênio. A épica sobrevive em formas híbridas, tocada pela paródia e contaminada pela negação irônica. Luiza Lobo escreve justamente destacando a função autocrítica própria ao Romantismo e reconhecendo já em Victor Hugo, no célebre Prefácio ao Cromwell, a enunciação da “dissolução dos limites dos gêneros” (LOBO, Luiza, 2005, p. 79), que levará a épica a várias formas de contaminação.
Sob o perfil político, as razões universalizantes e ecumênicas, válidas pelo menos até Milton, cedem frente ao surgimento de uma consciência nacional e de um ethos dos povos. Evidentemente esta transformação afeta as formas da arte e seu imaginário. Nascem portanto épicas nacionalistas antes que cristãs. Toda uma simbologia precisa ser adaptada aos novos ideais, muitas vezes laicos e liberais. Assim, em Byron, no Canto I do Childe Harold, “empregou a figura do abutre para representar o mal, e a de uma águia como símbolo da Coroa Espanhola” (LOBO, Luiza, 2005, p. 85); deve notar-se que a mesma figura foi usada por Milton com um significado puramente religioso, “imagem da “ave da rapina” per rappresentare il demonio “com sua “mandíbula devoradora” (“ravenous maw”)”.
As consequências do calor político sobre a épica são tão intensas que fazem com que nela penetrem novos conteúdos e ideais. A história abre-se à utopia revolucionária e se contamina com as paixões da contemporaneidade. O cenário histórico característico da épica, isto é o “passado absoluto” (BAKHTIN, Mikhail, 2001), que a tornava impermeável a qualquer contaminação com o presente, selando-a num passado remoto, vem sendo substituído por épicas que lidam com acontecimentos mundiais inéditos e atuais e que faz agir seus personagens em contextos e ambientes pertencentes cada vez mais ao “incompiuto presente” do qual fala o próprio Hegel. Neste sentido, o Romantismo levou à obsolescência o preceito tassiano segundo o qual a épica teria que ser fundada “sobre a história”, uma vez que é nela que se condensam as ações memoráveis. O tempo absoluto característico da épica clássica e classicista, é gradualmente substituído por um presente que mantém com as épocas históricas passadas relações de continuidade.
Também, no que diz respeito à figura do herói assistimos a transformações profundas e radicais, em comparação com a teoria contida nos Discorsi. O heroísmo puro e abstrato de um Goffredo da Buglione, apto a se sacrificar pelos ideais da cristiandade universal, é substituído por ideais nacionalistas, às vezes com objetivos e argumentos concretamente políticos. São várias as encarnações épicas deste novo herói byroniano e politicizado. Encontra-se um exemplo significativo também no outro lado do Atlântico, em Sousândrade, um sinal da penetração global dos novos conteúdos épicos. O herói, neste caso, chama-se Guesa: “o Guesa é um personagem romântico, como o Childe Harold, de Byron, um rebelde que deseja um governo mais liberal para as nações modernas” (LOBO, Luiza, 2005, p. 94). O perfil do novo herói épico sousandriano é decididamente excêntrico. Há, mesmo neste sentido, inúmeras implicações políticas e ideológicas introduzidas na épica pelo Romantismo:
O Guesa era uma criança roubada aos pais e destinada a cumprir o destino místico de Bochica, deus do Sol. Educado no templo do deus até os 10 anos, deveria então repetir as peregrinações rituais para, afinal, aos quinze anos, ser sacrificado à divindade. Numa praça circular, atado a uma coluna, o Guesa era morto a flechadas por sacerdotes (xeques). Seu coração era arrancado em oferenda ao sol e o sangue recolhido em vasos sagrados. Sousândrade identifica o seu destino pessoal de poeta com o fadário de um novo Guesa. Mas, para além deste drama individual de poète maudit, explicável pelo mal de siècle, há uma forte motivação histórico-social: o poeta hipostasia seu destino no do índio americano explorado pelo conquistador branco (CAMPOS, Haroldo de, 2013, p. 173).
Nesta sucinta síntese da personagem e da sua vida são evidenciados os símbolos do martírio. Em um sincretismo complexo e dinâmico, em que as lendas dos índios misturam-se à mitologia greco-latina e à cristandade, pois o herói do poema, o Guesa, pode ser interpretado como um moderno Prometeu, como um Cristo, como um São Sebastião, mas também como um poeta, um artista, sacrificado à falta de poesia do mundo burguês e em fim, reconhecendo o verdadeiro valor da componente político-ideológica, que simpatiza e identifica-se ao destino dos vencidos, o Guesa é exemplar da tragédia de toda uma cultura, a índia-americana, destruída pelos colonizadores europeus.
Naturalmente à novidade do herói épico Guesa corresponde a novidade do estilo. Assiste-se também no nível estilístico à decisiva ruptura com a teoria enunciada em Discorsi: “i versi alti” de Tasso, adequados a veicular a matéria exemplar da épica e enobrecê-la, são empregados para novas exigências expressivas, para novos conteúdos:
“Essa ousada mistura de tons entre o baixo, da comédia, o médio, do prosaico, e o elevado, do épico, em plena epopeia, configurou-se como uma criação de grande impacto e absoluta originalidade no seu tempo, em toda a literatura mundial (…)” (LOBO, Luiza, 2012, p. 13).
Afinal, a novidade formal e temática desta obra fez de Sousândrade um precursor do Modernismo (também europeu) (cf. LOBO, 2012). Composta em um período de algumas décadas (1867-1884), ela mostra que o destino do gênero épico, não somente na Europa – como foi teorizado por Tasso – se tornou unicamente objeto de estudo acadêmico. A épica, no cânone literário da modernidade e da pós-modernidade, pode aspirar a um espaço seu só se se contaminar, se se hibridizar, se finalmente souber negar ou parodiar sua proveniência nobre e exemplar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EdUSP, 2008.





Bio fornecida pelo palestrante.

CULTURA E IMPRENSA LITERÁRIA: FOLHETINS E ANÚNCIOS FRANCESES NAS “VARIEDADES” DO JORNAL O MERCANTIL (1844-1845) – Caique Franchetto




Caique Franchetto
Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP)

Resumo: A emancipação da leitura nos séculos XVIII e XIX fez com que os autores franceses buscassem alternativas para que seus livros fossem publicados. O jornal, símbolo da leitura de massa, foi a chave para a divulgação da literatura do oitocentos: o folhetim abriu as portas para Dumas, Sue e Alencar publicarem e serem lidos, e os “anúncios” nas “Variedades” divulgavam novas obras e best-sellers editados por livreiros que viam no jornal a publicidade de seus negócios. Com o avanço da produção e da circulação de livros e folhetins, o respaldo nos jornais cariocas foi intenso, revelando efetivas práticas culturais de leitura. Com base nessas informações, este trabalho pretende colaborar com o mapeamento da recepção de folhetins e anúncios do século XIX no jornal O Mercantil, referenciando-se nas leituras sobre a circulação transatlântica de impressos e ideias, sobre a constituição e influência do gênero folhetim e, por fim, sobre as relações entre literatura e imprensa na Europa e no Brasil do século XIX.
Palavras-chave: Imprensa literária; variedades; França e Brasil; século XIX.
Abstract: Culture and Literary Press: French Feuilleton and Advertisement on The “Variétés” of the newspaper O Mercantil (1844-1845) deals with the emancipation of reading on 18th and 19th centuries lead the French writers to look for alternatives in order to publish their books. The newspaper – massive reading symbol – has been the key for the promotion of eighteenth century literature. The feuilleton opens the doors to Dumas, Sue and Alencar. Its advertisement and variétés promoted their new best-sellers, enhancing their business. With growing production and circulation of books and feuilletons, there was an intense support on the part of the cariocas to newspapers. Based on these information, this research intends to contribute to the mapping of the reception of feuilletons and advertisement during the 19th century in the newspaper O Mercantil. It will employ as reference the readings about the transatlantic circulation of printed material and ideas, about the constitution and influence of the genre feuilleton and, at last, about relationship between literature and the press in Europe and in Brazil in the 19th century.
Keywords: Literary press; variétés; France and Brazil; 19th century.
Currículo da autora: Mestrado em andamento em Teoria e História Literária pelo IEL/UNICAMP. Graduação (2011-2015) em Letras (Português/Francês) pela EFLCH/UNIFESP. Desde 2011 tem experiência como professora de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Regular da rede pública e privada de ensino de São Paulo. Atualmente é professor particular de Língua Francesa, pesquisador na área de Teoria e História Literária, Literatura Francesa e Brasileira, circulação e recepção literária (livros e ideias) entre Europa e Brasil no século XIX, e Romantismo e Natureza (Filosofia, História e Literatura) e revisor editorial do periódico acadêmico “De Letra em Letra” do Departamento de Letras da UNIFESP.
CULTURA E IMPRENSA LITERÁRIA: FOLHETINS E ANÚNCIOS FRANCESES NAS “VARIEDADES”
DO JORNAL O MERCANTIL (1844-1845)
Caique Franchetto
Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP)
Introdução
– E por que se entregar ao sofrimento? O que nos custa nossa vida, o assunto que, durante as noites estudiosas, destruiu nosso cérebro. Todas essas incursões pelos campos do pensamento, nosso monumento construído com nosso sangue torna-se para os editores um mau ou um bom negócio (Diálogo entre Lucien e Lousteau, in: BALZAC. Ilusões perdidas, 2010, p. 323).
Abro esse texto a partir da epígrafe acima que retirei das Ilusões perdidas, de Balzac, pois, ela é o ponto de partida do que será tratado ao longo dessas linhas. Antes dos historiadores do livro, Balzac já havia percebido agudamente as relações de circulação do livro entre a imprensa periódica e o sistema editorial. Conservador, ele aponta a mecanização da “aura” da literatura, mas, essas relações entre a imprensa literária e o sistema editorial nos relevam como um livro era produzido, da sua criação até sua circulação e recepção, e revelam também práticas de leitura entre as sociedades ocidentais durante à ascensão burguesa.
No Brasil, boa parte dos romances franceses que influíram na formação da nossa literatura no oitocentos circulou em jornais dentro das rubricas de “Variedades” e de “Folhetim”. Machado de Assis no célebre conto “A missa do galo” (1899) é um desses registros literários. No conto, o narrador lê ebriamente um romance-folhetim, os “Mosqueteiros” do Sr. Dumas, em uma “velha tradução creio do Jornal do Comércio” (ASSIS, 1985, p. 240), o mais importante jornal brasileiro do oitocentos que publicou folhetins e anúncios franceses, além d’A Moreninha, de Macedo, gênese do nosso romance romântico .
Nessa esteira desses autores, esse artigo tem como objetivo a colaboração com o mapeamento da recepção de folhetins, anúncios e outras variedades francesas nos periódicos fluminenses do século XIX, por meio de um estudo e levantamento de dados no jornal O Mercantil em busca de textos franceses e anúncios de livros publicados em seu primeiro ano, entre 1884 e 1845, período no qual se ascendeu a publicação da imprensa literária e a circulação transatlântica de livros entre a França e o Brasil. O estudo dessa circulação além de proporcionar um levantamento de textos literários, permite também que se identifique quais eram os costumes literários no Brasil oitocentista, além de mapear a circulação de livros franceses e suas traduções em língua portuguesa.
Imprensa literária: cultura letrada à francesa e circulação no Brasil oitocentista
Segundo o historiador da imprensa Christophe Charle (2004), a partir das Revoluções de 1789 e 1830, estava presente na França uma política liberal que libertaria a imprensa periódica. Essas “novas formas culturais” (as tipologias da imprensa) pretendiam “todos os tipos de leitores”, difundindo os “saberes” reinventados pela burguesia. O “sucesso social da imprensa” deu-se pelas “rubricas transversais”, que estarão geograficamente em “variedades”, como o “folhetim” ascendendo a “imprensa popular” (CHARLE, 2004, p. 12-15). A partir da imprensa de massa, a “função primeira dos jornais” é democratizar o acesso ao “espaço público” (CHARLE, 2004, p. 20), que ao baratear cada vez a produção e consumo do jornal, possibilita a interação do público com o cotidiano e as novidades culturais, pois, ao possuir um jornal, o leitor poderia ter acesso às “variedades” e aos “anúncios” diversos, inclusive os de livreiros.
Marlyse Meyer (1998) nos diz que, apesar do negativo juízo dos pensadores da estética marxista, o “gênero folhetinesco” (romance-folhetim, fait divers e crônica) dão lugar “às classes laboriosas”, cujo sujeito é “leitor/ouvinte” e lhe é dado “o direito de interpelar o autor e interferir na conduta da ação e dos protagonistas” (MEYER, 1998, p. 124-125). Ou seja, é a primeira vez, e foi possível pela imprensa burguesa, que há uma ideia de “democratização da cultura”, além de que, no caso brasileiro,
Rastrear as Variedades pela imprensa brasileira da primeira metade do século XIX significa tanto ir ao encalço das primeiras manifestações da ficção, como de um espaço livre à criação e à transformação do jornal (MEYER. 1998, p. 127).
Em outro importante escrito de Meyer (2005), folhetim deriva do termo afrancesado do inglês feuilleton, que significa “folha de papel”. No caso da imprensa literária, é uma parte da folha do jornal ou periódico reservada ao final da página, isto é, no “rés-do-chão”, no “rodapé”, ocupando de uma a três páginas, oriundo da antiga rubrica variétés (variedades). Segundo Meyer (2005), o folhetim constitui-se desde o espaço reservado a ele, cuja “liberdade de recriação e recreação” (feuilletes tout court) permitiu que fossem publicados romances, ensaios, crônicas, piadas, relatos, receitas, críticas, esboços, etc., até em um gênero com características estruturais e temáticas específicas: a novela-folhetim, o romance-folhetim e a crônica-folhetim:
(…) inventado pelo jornal, e para o jornal, o feuilleton-roman (…). Nasceu na França, na década de 1830, concebido por Émile de Girardin, que percebeu, na época de consolidação da burguesia, o interesse em democratizar o jornal, a chamada grande presse, e não mais privilegiar só os que podiam pagar por caras assinaturas. Para aumentar o público leitor havia, pois, que barateá-lo (…). Havia já, desde o começo do século, o feuilleton, ou rodapé, tradicionalmente de tom e assunto mais leves que o resto do jornal, muito cerceado pela censura. Podia ser dramático, crítico, tornando-se cada vez mais recreativo. O folhetim vai ser completado com a rubrica ‘variedade’ que é a cunha por onde penetra a ficção, na forma de contos e novelas curtas. O passo decisivo é dado quando Girardin, utilizando o que já vinha sendo feito para os periódicos, decide publicar ficção em pedaços. (…) na origem, e assim vai ser pelo romantismo afora (época em que o romance é o gênero literário dominante), o romance-folhetim é essencialmente uma nova concepção de lançamento de ficção, qualquer que seja seu autor e o campo que abranja. (…) A almejada adequação ao grande público, a necessidade de corte sistemático num momento que deixe a atenção em ‘suspense’ levam não só as novas concepções de estrutura (…) como a uma simplificação na caracterização dos personagens (…). Verifica-se, além disso, genial adaptação à técnica do ‘suspense’ e ao rápido e amplo ritmo folhetinesco dos grandes temas românticos (…) (MEYER, 2005, p. 30-31).
Os romances, novelas e crônicas em folhetim traziam ao leitor temas populares do cotidiano social (público) e familiar (privado); ou seja, o “mundo folhetinesco”, cuja temática girava em torno do crime, da miséria, da prostituição, dos perseguidores e perseguidos, de atrocidades e da História, temas triviais e citadinos, como diria Machado de Assis em suas crônicas. É por meio do folhetim – literatura de baixo custo do jornal – que há a ascensão da leitura de massa; o prazer da leitura de romances-folhetins vem pela representação de ícones da História, como nos romances de Dumas, ou de “tipos” do povo, como Les Mystères de Paris, de Eugène Sue:
Mas o próprio caráter comercial haveria de beneficiar os autores: o jornal é uma plataforma permanentemente aberta aos jovens que querem tentar a carreira literária e experimentar o gênero moderno por excelência que é então o romance (MEYER, 2005, p. 63).
O folhetim é, em primeiro momento espaço, o rez-de-chaussé ou rodapé; depois torna-se um gênero, cuja estrutura é baseada em cortes sistemáticos, diversos núcleos narrativos permeados pelo suspense, e diálogos ligeiros dando ritmo a essa narrativa; por fim, consolida-se como tema, o “folhetinesco”, bebendo da influência do drama romântico e do fait divers, destinado “ao entretenimento” e à “criação imaginativa” da literatura.
Assim como nos lembra Antonio Candido (2006) na Formação da Literatura Brasileira, a burguesia literária se fixa, no Brasil, a partir da “ampliação do público leitor, devida à participação mais efetiva do povo na cultura”, que desenvolve movimentos democráticos como a “imprensa periódica” e a “indústria do livro” (CANDIDO, 2006, p. 430). O romance é a síntese desse desenvolvimento que revela o pensamento romântico que circulava, na maioria dos casos, nos folhetins espalhados pelas páginas dos periódicos:
(…) a intensidade dos folhetins traduzidos diminuiu no momento em que se define a produção local: isto significaria que ela tomou em parte o seu lugar e viria corresponder a necessidade do meio. (…) Os livros traduzidos pertenciam, na maior parte, ao que hoje se considera literatura de carregação; mas eram novidades prezadas, muitas vezes, tanto quanto as obras de valor. (…) Na maioria, franceses, nos títulos o gênero que se convencionou chamar folhetinesco: Quem sabe quais e quantos desses subprodutos influíram na formação do nosso romance? Às vezes, mais do que os livros de peso em que se fixa de preferência atenção (CANDIDO, 2006, p. 439-440).
No Brasil, o interesse pelo romance estava relacionado ao próprio ideal romântico de formação da identidade cultural, artística e literária. Por meio da “importação” do modelo francês, autores como Macedo e Alencar começaram a produzir a “nova narrativa”. Ainda na esteira de Candido (2006), o gênero romance só se fixou no Brasil por conta de Alencar relacionado, justamente, às primeiras manifestações românticas e ao desenvolvimento do jornalismo.
Na primeira metade do oitocentos brasileiro, o preço baixo do jornal e dos romances “pós-folhetim” atraiam leitores de diversas classes sociais. No jornal, esse romance “cortado e seriado” interage com as demais notícias e com os anúncios dos livreiros que divulgavam suas listas de acervo e de chegada de novos romances (traduções ou edições europeias) que se tornariam os best-sellers do século XIX. Surgem, então, sobretudo no Brasil “afrancesado”, novos tipos de espaços e novos gêneros narrativos a serem publicados: as “Variedades” que publicavam textos diversos de e/ou sobre literatura; o folhetim que estrutura o gênero romance-folhetim; os suplementos que publicavam notícias extras e outros romances-folhetim ao mesmo tempo; e, por fim, a rubrica de “Anúncios” que divulgava, como o caso que estudaremos a seguir, livros clássicos e edições traduzidas dos mesmos romances que estavam sendo publicados em folhetim, um ou duas páginas atrás no mesmo jornal. Essa transformação da técnica de produção literária e de mentalidade de apropriação cultural expande o mercado editorial e livreiro, atingindo assim diversas camadas sociais, inclusive o proletariado. Os avanços do jornal e da facilidade de acesso ao livro contribuíram para a ascensão da leitura e da estética moderna.
Folhetins, variedades e anúncios n’O Mercantil
Essa longa contextualização que veio sendo trabalhada até então nos permitiu vislumbrar quais foram as situações nas quais a imprensa francesa e se formou, bem como os gêneros literários vinculados a ela, e como e em quais circunstâncias ela se tornou a matriz importada pelo Brasil em plena formação intelectual, cultural, sócio-política e, sobretudo, literária. A partir da Imprensa Régia, o jornal brasileiro passa por constantes transformações e são fundados diversos títulos para emancipar o mercado editorial e difundir os ideais políticos da cultura letrada formada pela elite vigente no período. Assim como nas pesquisas e nos levantamentos sobre circulação transatlântica de impressos no século XIX, a transição dos anos 1844 e 1845 no jornal O Mercantil apontou a predominância de folhetins e variedades de origem francesa, que eram publicados periodicamente, além de inúmeros anúncios de livros, sobretudo romances franceses, brasileiros e de outras nacionalidades já em traduções em português.
O jornal escolhido nessa pesquisa foi O Mercantil, derivado e fundado pelos mesmos editores-impressores do Correio Mercantil. Herdeiro de um dos principais jornais fluminenses do período, o Mercantil foi imprenso entre os anos de 1844 e 1848, quando deixa e volta a ser intitulado como Correio Mercantil. Independente do título com o qual circulava, o Mercantil era um dos principais concorrentes do Jornal do Commercio, este que era o maior periódico do país até então cujo posicionamento político era o conservador e monarquista. Assim como a problemática e contraditória política brasileira, que se dividia entre dois partidos: os monarquistas a favor do Imperador, e os liberais, estes que se subdividiam entre os republicanos democratas e os socialistas, o Mercantil defendia o liberalismo e o abolicionismo, contudo, não poderia ser considerado um jornal “socialista”, pois, ainda estava ao lado da elite liberal-republicana contra a monarquia. Para Morel & Barros (2003), o jornal revela seu perfil de público leitor, isto é, uma elite que constitui a “opinião pública”:
Dessas proposições, emerge o perfil de um público – se não o existente, pelo menos o desejado: o espelho de uma identidade ao mesmo tempo cultural, social e política. Um público ilustrado e poderoso, integrado por sábios, homens instruídos, lado a lado com ricos proprietários – isto é, um conjunto de cidadãos e leitores ativos (MOREL; BARROS, 2003, p. 39).
Pensando a imprensa como o principal espaço de divulgação e discussão dos assuntos políticos e citadinos da sociedade oitocentista – assim como hoje, ao lado das demais mídias televisivas e digitais – o jornal comum e geral do período equilibrava, entre os editais e rubricas, notícias políticas e de costumes e o folhetim (que poderia ser ficção ou resenhas, sobretudo as teatrais) nas duas primeiras páginas, as “Variedades” e notícias do porto na terceira e, por fim, na quarta página, os anúncios, além dos “Suplementos” ou edições especiais com mais páginas dando enfoque em determinadas notícias e acontecimentos importantes, sobretudo os intensos debates sobre a continuidade ou não do Império independente. Menos político do que o Correio…, o Mercantil era um jornal menor, com apenas quatro páginas, e que dava mais espaço aos folhetins, às variedades e aos anúncios; nesse âmbito, concorria cabeça-à-cabeça com o Jornal do Commercio, publicando concomitante os best-sellers AlexandreDumas e Eugène Sue, nos rodapés e nas colunas em meio às suas páginas.
Dentre os franceses, o principal romance publicado foi Os Mistérios de Paris, de Sue. Retomo mais uma vez o que Meyer (2005) tem a nos dizer quanto ao seu anúncio:
(…) finalmente, chegam ao rodapé, em português, os tão esperados Mistérios de Paris. A data é 1º. de setembro de 1844, tradução de R. (Joaquim José da Rocha). Salvo uma ou outra interrupção, “vem à luz” todos os dias e ocupa praticamente o suplemento dominical inteiro. (…) e ocupa quatro rodapés até o FIM, em 20 de janeiro de 1845. Mas, nem um mês depois de iniciada a publicação, em 1º. de outubro de 1844, sai, pela primeira vez na história do jornal, um reclame enorme, com tipos garrafais, ocupando toda a sua largura, em rodapé: “ACHAM-SE à venda em casa de J. Villeneuve & Cia., rua do Ouvidor, 65, OS MISTÉRIOS DE PARIS. Primeira Parte – um volume – nítida edição – 1$00” (MEYER, 2005, p. 283).
O relato da autora é referente ao … Commercio; no entanto, o mesmo padrão é percebido no Mercantil, conforme o Quadro I, abaixo:
TÍTULO
AUTOR MÊS – ANO DIAS DE PUBLICAÇÃO
O monte do diabo ou o aventureiro E. Sue Setembro – 1844 16, 17, 20, 22, 23, 26, 27, 28, 29
O monte do diabo ou o aventureiro E. Sue Outubro – 1844 2, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 12, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 28, 29, 30, 01 (de Novembro)
Safia, ou os mysterios de Veneza R. de Beauvoir Novembro – 1844 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 14, 15, 16, 18, 19, 20, 21, 22, 24, 25, 26, 27, 29, 30
Os trez mosqueteiros A. Dumas Dezembro – 1844 1, 2, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 12, 13, 14, 16, 17, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 27, 29, 31
Os mysterios de Paris
(em “Suplemento”, caderno à parte do folhetim) E. Sue Dezembro – 1844 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29
Os mysterios de Paris E. Sue Janeiro – 1845 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 (suplemento), 12
Ramalhet das damas
(resenha do anúncio de peça teatral escrita) Torquato e Eleonor Janeiro – 1845 6
Amory A. Dumas Janeiro – 1845 12, 16, 19, 20 [em variedades], 26 [em variedades]
Gérolstein ————- Janeiro – 1845 12
Os trez mosqueteiros A. Dumas Janeiro – 1845 19, 20**, 26, 27, 28, 29, 30
Os trez mosqueteiros A. Dumas Fevereiro – 1845 2, 3, 6, 10, 17, 25, 28
Os trez mosqueteiros A. Dumas Março – 1845 1, 2, 3, 5, 7, 9, 11, 12, 14, 15, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24
Quadro I. Levantamento de folhetins publicados entre setembro de 1844 e março de 1845.
Enquanto o …Commecio iniciava em setembro de 1844 os Mistérios, o Mercantil iniciou, quase diariamente, e por dois meses, a publicação de uma novela do mesmo Sue, O Monte do Diabo ou O Aventureiro, que se estendeu por dois meses, até, enfim, ser publicado no “Suplemento” do mesmo, diariamente, entre dezembro de 1844 e janeiro de 1845. Antes de iniciado os Mistérios de Sue, outros “mistérios” eram publicados: Os mistérios de Veneza, de Beauvoir, revelando a imensa força da “mania dos mistérios”, que fez “pipocar” no curto período de uma década, inúmeros folhetins com o mesmo título, como bem podemos lembrar dos Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco, o Mistérios do Brasil e Mistérios do Rio, publicado no … Commercio entre 1847 e 1854 (MEYER, 2005, p. 285). Seria uma manobra publicitária dos editores do Mercantil publicar os Mistérios de Beauvoir? Estou tentado a dizer que sim, pois, publicou este enquanto não possuía um outro folhetim de força como Os três mosqueteiros, cujo início é a partir de dezembro de 1844 concomitante aos Mistérios de Sue que inicia em 23 de dezembro de 1844 no “Suplemento”.
A transição de Sue para o “Suplemento” permite que seja publicado mais de um romance-folhetim ao mesmo tempo, no caso, o início de outro best-seller, os Mosqueteiros de Alexandre Dumas, que sob pequenas interrupções, domina o rodapé de 1 de dezembro de 1844 até seu fim em 24 de março de 1845. Encerrado os Mistérios, o espaço e a atenção voltam-se a Dumas, publicando, como veremos a seguir, no “Folhetim” e nas “Variedades” a novela Amory junto aos Mosqueteiros.
Enquanto o “Folhetim” estava convenientemente preenchido por Sue e Dumas, as “Variedades” do Mercantil eram mais incertas. Ora elas apareciam ora não, dependendo da demanda de publicações. Para (2005), as “Variedades” eram os espaços para os textos diversos, e esse caráter de liberdade repetia-se no Mercantil, publicando pequenos textos literários, como podemos observar no Quadro II.
TÍTULO AUTOR MÊS – ANO DIAS DE PUBLICAÇÃO
Amory A. Dumas Outubro – 1844 20, 29, 30.
Amory A. Dumas Novembro – 1844 1, 11, 14, 17, 19, 22, 23, 25, 27, 28
Uma viagem de duas mil léguas C. Lagrange Novembro – 1844 12
Amory A. Dumas Dezembro – 1844 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 16, 19, 22
Amory A. Dumas Fevereiro – 1845 7,14, 17
O assassínio. (conto moral) P. Méry Março – 1845 24
Um acto de desespero P. Méry Março – 1845 25, 26
Quadro II. Levantamento das variedades publicadas entre setembro de 1844 e março de 1845.
Devido ao caráter “menos político” do Mercantil, era de se esperar que as “Variedades” fossem preenchidas, em seu primeiro ano, exclusivamente pelo texto literário, no caso, pequenas novelas que caminhavam ao mesmo tempo em que grandes romances-folhetins eram publicados. Com a força do “Folhetim”, o espaço de “Variedades” aparenta ser apenas o “preenchimento” do jornal, logo, sua publicação é permeada de inúmeras interrupções. Um motivo para esse padrão incerto é que o romance no jornal é um triplo negócio: para o autor, que vê na imprensa a oportunidade de publicar e de se profissionalizar; para o leitor, que se alimenta dessa ficção histórica ou realista e assim começa a construir sua visão de mundo; e, por fim, para o editor, que ganha com as vendas do jornal e “o negócio se estende à republicação em volumes” (MEYER, 2005, p. 288) posteriormente.
Como vimos no Quadro I, enquanto era publicada a novela de Sue, Amory preenche as “Variedades” e a “ânsia” de ficção narrativa exigida pelos leitores e editores famintos, até ser publicada concomitantemente aos Mosqueteiros. O Mercantil era nitidamente forrado por Dumas que, pela diversidade de seus escritos, ia do romance histórico à aventura de um herói romântico, atraindo um público leitor mais amplo:
Alexandre Dumas, na esteira de Walter Scott, com as artimanhas do excelente dramaturgo que é, cavouca segredos da alcova e mexericos de outros tempos, ressuscita espadachins e suas bravatas, ministros, rainhas, lançando o caudal do folhetim histórico, aquele que para muitos de nós fez as vezes da verdadeira História (MEYER, 2005, p. 67).
Enquanto não retomava os Mosqueteiros depois do fim dos Mistérios, o “Folhetim” foi preenchido pela novela Amory, de Dumas. Voltando o romance-folhetim, a novela migra novamente às “Variedades” até acabar em 17 de fevereiro de 1845. Encerrada a novela de Dumas, mas ainda ao mesmo tempo dos Mosqueteiros, são publicados dois pequenos contos: O assassínio (conto moral) e Um ato de desespero de Paul Méry, autor pequeno, esquecido atualmente, mas, um autor de “carregação” como diria Candido (2006), muito lido em seu tempo. As “Variedades” do Mercantil estavam ocupadas por ficção, contudo, um fato curioso foi encontrado e percebido em meio às páginas de março de 1845: a rubrica “Litteratura”. Podemos considerá-la uma extensão das “Variedades”, espaço que publicou a então “crítica” e “resenha” como afirmou Meyer (1998) como no Quadro III.
TÍTULO
AUTOR DATA DE PUBLICAÇÃO
Torquato Tasso. Ariosto – Virgílio – Homero Hellum 15 – Março – 1845
Luminares do séc. XIX – Napoleão, Chateaubriand e Bolívar [anônimo] 20 – Março – 1845
Quadro III. Textos publicados no espaço “Litteratura” em março de 1845.
Os dois textos publicados revelam as paradoxais dicotomias entre Antigos e Modernos do Romantismo: o primeiro texto é uma análise comparativa de Torquato Tasso com as obras de Virgílio e Homero, referências clássicas que ainda estavam presentes e faziam parte das práticas de leituras no oitocentos. Já o segundo, é uma análise dos feitos de grandes homens que influenciaram o que o autor anônimo chama de “era moderna”, a partir de seus atos políticos, como Napoleão, e artístico-literários, a partir do Romantismo francês com René-François de Chateaubriand.
Pensando o conceito de best-seller e a lista de títulos mais impressos e pedidos realizada por Martin Lyons (1987), esses nomes que estavam na rubrica “Litteratura”, bem como os demais nos “Anúncios”, eram os mesmos tanto na França como no Brasil.
Uma seleção de best-sellers de longa duração coloca em evidência as estruturas mentais profundas da sociedade francesa moderna. Estas obras representam os gostos literários tradicionais que teriam perdurado; é a sociedade mesma que os haviam designado como representativos de sua própria cultura. Os títulos que se acham em nossas listas de best-sellers sugerem que essa cultura havia sido profundamente marcada pelo classicismo do século XVII e, em menor escala, pelas Luzes do século seguinte (LYONS, 1987, p. 95).
Entre os Clássicos ainda presentes, a audiência era bem dividida com os românticos, como os próprios Chateaubriand e os folhetinistas.
Preenchido devidamente os espaços ficcionais e críticos do Mercantil, eis que podemos avançar para mais um de seus capítulos: a rubrica “Anúncios”, onde também estavam presentes esses best-sellers. Com base no trabalho de Heineberg (2004), percebe-se que os anúncios de livros deste período entre O Mercantil e o … Commercio eram semelhantes, apesar da pequena diferença de quatro meses dos primeiros anúncios dos Mistérios no … Commercio em setembro, e o primeiro anúncio do mesmo romance e edição em volume no Mercantil em 18 de janeiro de 1845, enquanto caminhava para o fim sua publicação em folhetim, conforme podemos ver no Quadro IV.
TÍTULO
AUTOR DATA DE PUBLICAÇÃO
Os mysterios de Pariz E. Sue 18/01/1845
Os três mosqueteiros A. Dumas 25, 26, 27, 28, 29, 30/01/1845
Os três mosqueteiros A. Dumas 04, 06, 08,09, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 26, 27, 28/02/1845
O perigo das paixões Madame d’Uncy
[tradução portuguesa de A. M. Couto] 15/02/1845
Rosa encarnada A. Dumas 15/02/1845
Os Natches Chateaubriand 20/02/1845
Os três mosqueteiros A. Dumas 03, 04, 05, 06, 07, 08, 09, 10, 11, 14, 16, 17, 19, 20, 21, 23, 24, 30, 31/03/1845
Quadro IV: Anúncios de publicados entre janeiro de 1845 a março de 1845 de obras francesas
No Mercantil não havia indicação precisa dos livreiros anunciantes, porém, os endereços das instituições onde poderiam ser encontrados os exemplares eram os mesmos mencionados nos demais jornais anunciantes, bem como os anunciantes eram as tipografias das ruas da Quitanda e do Ouvidor, sobretudo da tipografia de Villeneuve .
O mais curioso dos anúncios, além da publicação acirrada ao mesmo tempo dos folhetins, é que todas as edições anunciadas eram traduções portuguesas ou brasileiras, impressas na França, em Portugal e, inclusive, no Brasil. Não apenas os Mistérios de Sue, mas os Mosqueteiros de Dumas foram anunciados ao mesmo tempo em que eram publicados em folhetim, sobretudo a partir de janeiro de 1845, em que o Mercantil era completamente dumasiano.
Assim como nos lembra Alencar em Como e porque sou romancista, suas preferências de leitura eram esses romances anunciados e publicados em folhetim: “acabei o volume de Balzac; e no resto li o que então havia de Alexandre Dumas e Alfredo de Vigny, além de muito de Chateaubriand e Victor Hugo” (ALENCAR, 2005, p. 40). Das obras de Dumas, sabemos bem o que Alencar lia: os Mosqueteiros e outras novelas publicadas; de Chateaubriand, os Natchez e os Martírios, que circularam assiduamente entre os nossos românticos.
Nesse clima de leituras francesas nas tipografias e nos folhetins, surge no final do ano de 1844 o marco inicial do romance romântico brasileiro: A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, anunciado em todos os jornais fluminenses, inclusive no nosso querido Mercantil, em fevereiro de 1845 e, depois, anunciado constantemente durante o mês de março de 1845. A novidade que o romance de Macedo causa na cultura literária brasileira é tamanha e perceptível quando observamos outras chamadas do mesmo livro publicadas diariamente em março de 1845 fora dos ‘Anúncios’, espalhadas pelos avisos e páginas do jornal, conforme houvesse espaço disponível:
A MORENINHA
Acha-se no prelo, e sairá brevemente à luz, este romance com 5 lindíssimas estampas; subscreve-se na rua da Quitanda n.77, S. José n.64, Ouvires n.127 e largo do Rocio n.64, a 2$rs. por exemplar.
Está iniciado o “tímido” romance no Brasil, entre os modelos romance-folhetim, romance-histórico e romance-realista, permeados pelos costumes franceses, junto à ascensão da imprensa periódica que dominará as práticas culturais dos leitores do século XIX à atualidade.
Considerações finais
Nesse interim, podemos encaminhar algumas reflexões e conclusões. O objetivo desse trabalho não era apenas expor uma série de dados de um levantamento realizado em um jornal brasileiro do século XIX, mas era também retomar discussões que ainda são temas na teoria literária, como o embate da estética e a democratização da cultura. Como vimos em Charle (2004), entre os séculos XVIII e XIX, a transformação social que a Revolução Francesa exige que a nova demanda de produtores e consumidores de cultura criem suportes, gêneros e temas de leitura. Para uma sociedade analfabeta, o jornal torna-se, talvez, a única ferramenta de práticas de leituras, de executar a recém alfabetização obrigatória, além de ser um bom negócio para autores e editores que almejavam enriquecer à custa da “técnica da escrita” em pleno capitalismo. Ainda que massifique, a literatura no jornal nos revela muito mais do que os grandes cânones, como o início da formação e, posteriormente, ampliação de público leitor; formação da estética e temática romântica, bem como foi a possibilidade de acesso à leitura por meio do baixo custo do jornal. Se em Balzac, o mercado editorial aniquila a “aura” literária, em Machado e nos jornais fluminenses, ele revela como os livros franceses chegaram e foram aclimatadas no Brasil. Fazer esse movimento é compreender os processos de formação cultural e literária antes dos livros se tornaram edições canônicas.
O nosso caro O Mercantil não estava atrás de outros jornais como o Jornal do Commercio. Salvo com alguns atrasos e interrupções, esse pequeno jornal nos mostra que o processo de recepção de livros franceses dependia apenas do tempo de viagem rumo ao Brasil, período no qual, o romance era traduzido no navio, pronto para circular imediatamente em sua chegada nas livrarias, bibliotecas, gabinetes de leitura e jornais que estavam nesse “afã” pelo alimento da ficção. Para o bem ou para o mal, jornais como O Mercantil cumpriram seu papel em seu devido momento histórico, democratizando o acesso à informação, à cultura e à literatura a partir das suas questionáveis “missões” e “empreendimentos” civilizadores, como publicou Le Siècle em 1º. de julho de 1836, em Paris.
Referências
ALENCAR, José de. Como e porque sou romancista. 2ª ed. São Paulo: Pontes, 2005.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos 1750-1880. 10ª ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.
CHARLE, Christophe. Le siècle de la presse (1830-1939). Paris: Seuil, 2004.
HEINEBERG, Ilana. La suíte au prochain numéro: Formation du roman-feuilleton brésilien à partir des quotidiens Jornal do Commercio, Diário do Rio de Janeiro et Correio Mercantil (1839-1870). 2004 (Thèse de Doctorat). Université de La Sorbonne Nouvelle – U.F.R. d’Études Ibériques et Latino-Américaines, Paris.
LYONS, Martin. Le Triomphe du Livre: Une histoire sociologique de la lecture dans la France du XIXe siècle. Paris: Promodis, 1987.
MEYER, Marlyse. As mil faces de um herói canalha e outros ensaios. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.
MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
MOREL, Marco; BARROS, Mariana Monteiro. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.





Bio fornecida pelo palestrante.

CARTA DE BABEL: UMAVIAGEM LITERÁRIA NO CAMPO DAS MIGRAÇÕES – Francisco Pereira Smith Junior, Jocélio Jorge Mácola Rente




CARTA DE BABEL: UMAVIAGEM LITERÁRIA
NO CAMPO DAS MIGRAÇÕES

Francisco Pereira Smith Junior
Universidade Federal do Pará

Jocélio Jorge Mácola Rente
Universidade Federal do Pará –
Programa de Pós-Graduação Linguagens e Saberes na Amazônia

Resumo : Neste artigo, objetivamos analisar o movimento migratório humano, por meio da obra literária Carta de Babel, de Luiz Galdino, na qual o autor aborda a experiência vivida por um imigrante, revelando a difícil situação de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo, que são obrigadas a mudar-se do seu local de origem em busca de melhores condições de vida, deixando para trás sua família, sua comunidade e suas características culturais.
Palavras chave: Migração, Literatura, Identidade.
Abstract: In this article we want to discuss the human migration through the literary work The Babel Letter, by Luiz Galdino. In the latter, the author presents the living experience of an immigrant, and reveals the plight of thousands of people around the world who are forced to move out of their place of origin in search of better living conditions, leaving behind their family, their community and their cultural characteristics.
Keywords: Migration, Literature, Identity.
Minicurrículos: Francisco Pereira Smith Júnior é professor Adjunto II da Universidade Federal do Pará, atuando no programa de pós-graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPGLSA).
Jocélio Jorge Mácola Rente é mestrando do Programa de pós-graduação Linguagens e Saberes na Amazônia, especialista em educação ambiental escolar pela Universidade do Estado do Pará – UEPA; é especialista em educação para as relações étnico-raciais pelo instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará – IFPA – e especialista em Saberes Africanos e Afro-brasileiros na Amazônia, desta universidade.
CARTA DE BABEL: UMAVIAGEM LITERÁRIA
NO CAMPO DAS MIGRAÇÕES
Francisco Pereira Smith Junior
Universidade Federal do Pará
Jocélio Jorge Mácola Rente
Universidade Federal do Pará –
Programa de Pós-Graduação Linguagens e Saberes na Amazônia
Introdução
O processo migratório faz parte da vida humana desde que o ser humano surgiu na terra e isso contribuiu para que diversas populações vivessem diferentes estágios de desenvolvimento. Foi a constante busca de novos espaços que em um primeiro momento garantiu sua sobrevivência e em um segundo, lhe proporcionou estabilidade e bem-estar, contribuindo para que o mesmo fosse paulatinamente alargando seus horizontes. Portanto, escrever sobre imigração é tratar de um tema complexo pois envolve um processo dinâmico das sociedades em se reinventar na presença do outro.
Não se pode escrever inocentemente sobre a imigração e sobre os imigrantes; não se pode escrever sem se perguntar o que significa escrever sobre esse objeto, ou, o que é o mesmo, sem interrogar-se acerca do estatuto social e científico desse mesmo objeto (SAYAD, 1998, p. 21).
Desde a primeira diáspora do continente africano para outras partes do mundo, por meio de diferentes rotas migratórias, que a adaptação humana vem ocorrendo de acordo com as condições de clima, relevo, alimentação entre outras. Desse modo, a história humana é marcada por intensa mobilidade populacional, como por exemplo: na fuga do povo hebreu do Egito para a “Terra Prometida”, do fluxo comercial no Mar Mediterrâneo, das expedições de Marco Polo, da expansão marítima pelo Oceano Atlântico, a chegada de Colombo ao “Novo Mundo” e o atual processo de globalização. Esses eventos levaram o ser humano a se aventurar na conquista de novos espaços. Foi essa inquietação que nos fez chegar a outros planetas. Por razões como essas torna-se tão difícil teorizar esse fenômeno visto que o mesmo deve ser observado em uma totalidade, mas também nas particularidades que levam a esses povos contar sua própria história.
Com o avanço do capitalismo, a partir da idade moderna, milhares de trabalhadores imigraram em busca de novas possibilidades de trabalho. Na contemporaneidade, o processo migratório é crescente, levando milhares de pessoas a saírem de seus países por questões políticas, religiosas, econômicas, conflitos bélicos, surtos epidemiológicos, fome, miséria, desemprego etc., obrigando pessoas a se lançarem por diferentes lugares em busca de melhores condições de vida, principalmente nos países mais ricos que recebem enormes contingentes de refugiados, que se sujeitam a viver em condições subumanas, causando uma crise humanitária em todo o mundo.
No Brasil, a situação do migrante não é diferente. Há tempos a população nordestina sai do interior do seu estado para as metrópoles urbanas fugindo da seca, pobreza e miséria. Na região norte, embora com menor intensidade, a população amazônica também se desloca entre os municípios e para a capital em busca de estabilidade.
Nesse sentido, percebemos que as pessoas só deixam seu lugar de origem por não encontrar nele os elementos essências a uma vida digna. Se elas tivessem opção, permaneceriam em suas comunidades ao invés de mudar-se de sua cidade, sem rumo, até desaparecer na poeira da estrada, inviabilizados no turbilhão das ruas dos grandes centros urbanos.
Na ficção, o fenômeno migratório está presente na literatura, na música, na pintura, no cinema. Como podemos observar no romance Os Sertões, de Euclides da Cunha, na música O Estrangeiro, de Caetano Veloso, na tela Os Retirantes de Candido Portinari e no filme Gaijin, caminhos da liberdade, de Tizuka Yamazaki.
Estudo das migrações: Abordagens teóricas
O fenômeno migratório, apesar de antigo, está presente em diferentes estudos, como na Arqueologia, Demografia, Sociologia entre outros. Segundo Braga (2011), A história da humanidade é marcada decisivamente pela mobilidade de indivíduos e coletividades no espaço e no tempo. De fato, as migrações são determinantes para o desenvolvimento de diversos eventos de natureza econômica, social e demográfica que definiram a ocupação e domesticação do espaço. De acordo com Sayad (1998), a imigração é, em primeiro lugar, um deslocamento de pessoas no espaço, e antes de mais nada no espaço físico.
Nesse sentido, para iniciar nossas reflexões acerca do que levam as pessoas a mudar de um lugar para outro é necessário nos apropriar de dois conceitos fundamentais: imigração e emigração. Desse modo:
(…) a imigração é o movimento de pessoas que entram em um país para fixar residência e a Emigração é o processo pelo qual pessoas deixam um país para residirem em outro, combinando-se para gerar os padrões de migração global que ligam os países de origem aos países de destino. GIDDENS (2005, p. 215).
Segundo esse autor, os padrões de migração mundiais podem ser vistos como um reflexo dos laços econômicos, políticos e culturais que estão em rápida mudança entre os países nos séculos XX e XXI. Assim, observamos que os fluxos migratórios pelo mundo, aumentam a cada década, ocasionando inúmeros problemas de ordem global. O autor estima que, na década 1990, a população migrante do mundo foi mais de 80 milhões de pessoas, 20 milhões das quais eram refugiadas. Esse número parece prestes a aumentar nos primeiros anos do século XXI, induzindo alguns estudiosos a rotularem essa época como a “era da migração” (CASTLES e MILLER, 1993, apud GIDDENS, 2005, p.215).
Com base nesses conceitos, Giddens (2015), identifica quatro modelos de migração que descrevem os principais deslocamentos globais. São eles: o modelo clássico, o modelo colonial, o modelo de trabalhadores-visitantes e os modelos ilegais. Este último é o mais característico de nossa década, criando novos fenômenos de deslocamentos globais que exigem estudos mais atualizados, a fim de propor sugestões de enfrentamento a esse novo modelo de Diáspora, muito mais intenso do que as primeiras rotas migratórias do início da história humana.
Desse modo, para entendermos melhor como ocorreu e ocorrem esses modelos de migração, nos apropriaremos do conceito de diáspora:
O termo diáspora refere-se à dispersão, em áreas estrangeiras, de uma população étnica que provém de uma terra natal, ocorrendo, na maioria das vezes, de uma maneira forçada ou sob circunstancias traumáticas. Geralmente, fazem-se referencias às diásporas Judaica e africana para descrever a forma como ocorreu a redistribuição dessas populações pelo globo. Embora os membros de uma diáspora sejam, por definição, espalhados geograficamente, eles se mantêm unidos por fatores como uma história em comum, uma memória coletiva da terra natal ou uma identidade étnica comum que é nutrida e preservada (GIDDENS, 2005, p. 216).
Esse conceito nos leva a pensar sobre este fenômeno, que de acordo com os estudos de Giddens (2005), tomando como base o conceito elaborado por Cohen (1997), no qual sustenta que as diásporas acontecem de diversas formas, embora os exemplos citados com maior frequência sejam aqueles que ocorrem involuntariamente como resultado de perseguição e violência.
Considerando essa discussão, Giddens (2005) apresenta cinco categorias diferentes de diásporas identificadas por Cohen, na obra Global Diasporas (1997), são elas: de vítimas, imperial, de mão de obra, de comercio e cultural. E ressalta que: Apesar de sua diversidade de formas, todas as diásporas possuem determinados aspectos-chave em comum e sugere que todas as diásporas possuem os seguintes critérios:
Um movimento forçado ou voluntario de uma terra natal para uma nova região ou novas regiões; uma memoria compartilhada sobre a terra natal, um compromisso em relação à sua preservação e a crença na possibilidade de um retorno final; uma forte identidade étnica que ultrapassa os limites do tempo e da distancia; um senso de solidariedade com os membros do mesmo grupo étnico que também moram nas áreas da diáspora; um grau de tensão em relação às sociedade-anfitriãs; o potencial de contribuições valiosas e criativas para sociedades-anfitriãs pluralistas (COHEN, 1997, apud GIDDENS, 2005, p. 219).
O autor em tela apresenta ainda novos padrões mundiais de movimentos migratórios que nos levam a examinar quatro tendências que irão caracterizar os padrões de migração nos próximos anos:
Aceleração – A migração através de fronteiras está ocorrendo em números maiores do que já ocorreu anteriormente. Diversificação – Atualmente, a maioria dos países recebe imigrantes de muitos tipos diferentes, ao contrario de antigamente, quando predominavam formas específicas de imigração, como a imigração ou dos refugiados. Globalização – A migração tornou-se mais global por natureza, envolvendo um número maior de países como emissores e receptores. Feminização – Um número crescente de migrantes é formado por mulheres, o que faz com que a migração contemporânea seja bem menos dominada pelo sexo masculino do que foi em épocas anteriores (CASTLES e MILLER, 1993 apud GIDDENS, 2005, p. 215).
Nesse modelo, no tópico sobre Feminização, ressaltamos o papel da mulher nos fluxos migratórios, uma vez que:
O aumento do número de migrantes mulheres está intimamente relacionado a mudanças no mercado de trabalho global, incluindo a demanda cada vez maior de trabalhadoras domésticas, a expansão do turismo sexual e do “tráfico de mulheres”. (CASTLES e MILLER,1993 apud GIDDENS, 2005, p. 215).
Esse enfoque merece uma discussão a parte, já que nos apresenta um novo estudo sobre a questão de gênero no processo migratório, nos possibilitando analisar um novo paradigma sobre o papel da mulher na condição de mantenedora do sustento da família. No Brasil, nas regiões norte e nordeste ainda são comuns verificar meninas, trabalhando em casa de família como “babas” em troca de casa, comida e possibilidade de estudo. Essas necessidades básicas fazem com que essas crianças deixem a família e a comunidade em direção as metrópoles em busca de melhores condições de vida.
Cartas de Babel: A presença do fenômeno da migração na Literatura Brasileira
O drama de milhares de pessoas obrigadas a mudar de seu lugar de origem, aguçou a criatividade e o interesse de artistas que sensibilizados com a saga das vitimas do desterro, encontraram o mote para a criação de suas obras, como podemos verificar nos exemplos a seguir:
a) Na prosa de Fernando Pessoa:
“E como as viagens as leituras, e como as leituras tudo… Sonho uma vida erudita, entre o convívio mudo dos antigos e dos moradores, renovando as emoções pelas emoções alheias, enchendo-me de pensamentos contraditórios na contradição dos meditadores e dos que quase pensaram, que são a maioria dos que escreveram. (…)”.
“O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir – não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer – aldeia ou ermo – que tenha em si o não ser este lugar (…)”.
b) Nas composições de Milton Nascimento e Fernando Brant:
(…) Todos os dias
É um vai e vem
A vida se repete
Na Estação
Tem gente que chega
Pra ficar
Tem gente que vai
Pra nunca mais
Tem gente que vem
E quer voltar
Tem gente que vai
E quer ficar
Tem gente que veio
Só olhar
Tem gente a sorrir
E a chorar (…)”
c) De Caetano Veloso, O Estrangeiro:
“O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara.
O compositor Cole Porte adorou as luzes na noite dela
(…)
O antropólogo Claude Levy- Strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela”.
d) De Chico Buarque de Holanda, Assentamento:
e)
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não manda mais em mim
Francisco Serafim
Vamos embora
f) E de Arnaldo Antunes, Inclassificáveis:
Aqui somos mestiços, mulatos
Cafuzos, pardos, mamelucos, sararás
Crliouros, guaranisseis e judárabes
Orientupis, orientupis
Ameriquítalos, luso, nipo, caboclos
Orientupis, orientupis
Iberibárbaros, indio, ciganagôs
Somos o que somos
Inclassificáveis
Podemos verificar no exemplo acima, que o modelo de diáspora global intensifica o processo de miscigenação étnica por todo planeta, contribuindo para a transculturação e o hibridismo da identidade cultural na contemporaneidade.
Nesse contexto, fazendo um paralelo conceitual entre ficção e epistemologia, iremos analisar trechos do conto Cartas de Babel de Luiz Galdino (2007), tendo como base o referencial teórico de Haesbaert (2005), Ianni (2004), Sayad (1998) e Hall (2006): “Meu pai, como tem passado? Estava mesmo pra lhe escrever, responder sua carta tão plena de anseios e cuidados” (GALDINO, 2007, p. 25).
Nesta frase, percebemos que a carta é o elo de comunicação entre o migrante e a família, tornando-se o espaço pelo qual ambos se encontram para matar a saudade, constituindo-se em um “reduto” de resistência. Desse modo, fica evidente que:
É no campo simbólico ou das representações que o migrante pode melhor se “segurar” a fim de manter um mínimo da territorialidade perdida, no decorrer do seu deslocamento espacial – “geografias imaginárias” (HAESBAERT, 2005, p. 37).
“Mas nos relógios daqui os ponteiros endiabrados disparam sem que a gente se dê conta” (p. 25). O relógio, instrumento característico do sistema capitalista de produção, é o grande ditador do tempo nos grandes centros urbanos, no qual milhares de trabalhadores tem sua vida controlada. Segundo Ianni (2005): Note-se que grande parte da vida do migrante desenvolve-se na cidade, muitas vezes na grande cidade. Diferente da vida no campo, onde o tempo é marcado pelos ciclos sazonais determinados pela natureza, criando um ambiente mais tranquilo. “Sou pássaro ferido que perdeu o rumo na tempestade, bicho acuado que há de viver sofrendo” (GALDINO, 2007, p. 31).
O reconhecimento frustrado pela busca de uma vida melhor, fora do seu lugar de origem, leva os viandantes ao sofrimento e a angustia de não se encontrar na sociedade de destino:
São múltiplas as causas que presidem o ato de emigrar, não se deve perder a dimensão da imigração como fato social no qual trajetórias individuais são contempladas. Nesses deslocamentos que tiveram como pano de fundo a expansão capitalista, foram múltiplas as razões relacionadas com a emigração-imigração, levando a que o “outro”, o de nacionalidade distinta se integrasse de maneira diferenciada na região que os acolheu (SAYAD, 1998 apud EMMI, 2008, p. 108).
“Quero voltar pra junto dos morros com peito de meia-lua, para o meu rio com curvas de mulher madura, pra minha serra com cheiro de alecrim. Quero voltar lá pra Oiticica ” (GALDINO, 2007, p. 31).
Os valores indenitários de um povo, também estão presentes no seu lugar de origem, visto que estes vivenciam seus traços culturais de acordo com o grupo no qual estão inseridos. E a saída de sua comunidade, muitas vezes contribui para a formação de identidade hibrida.
A assim a chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referencia que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social (HALL, 2006, p. 7).
“Deixa voltar pra junto das coisas que conheço, que eu amo, porque só assim terei salvação” (GALDINO, 2007, p.32). Neste apelo, fica evidente o anseio pelo retorno, muitas vezes marcado pelo insucesso de uma viagem imposta por diferentes razões.
Alguns alcançam a ascensão social, realizam-se, chegam a sentir-se vitoriosos. Outros, muitos, a grande maioria, dissolvem-se no meio da multidão solitária que povoa as grandes cidades. (IANNI, 2004, p. 95)
O medo pelo fracasso é algo presente nas comunidades imigrantes, retornar “pior do que saiu” torna-se uma opção desastrosa para esses indivíduos. No entanto, essa última opção torna-se uma tábua de salvação quando não há mais nada a ser feito para sobreviver no país de imigração, pois muitas dessas pessoas preferem retornar para a sua nação, acreditando que “sofrer” somente terá sentido se for próximo de seus semelhantes e de sua história de vida.
Conclusão
As reflexões apresentadas neste artigo nos levam a busca de um desafio, analisar a situação vivida por milhares de migrantes pela ótica ficcional, considerando relevante pensar sobre o processo migratório como um fenômeno mundial da contemporaneidade, no qual há Instabilidade econômica, terrorismo e as incertezas em relação ao futuro de alguns países asiáticos e africanos, contribuindo para uma verdadeira crise humanitária de refugiados em direção ao países do continente europeu e norte-americano.
O reconhecimento da existência dessa problemática tem sido o mote de muitos autores que veem no drama pessoal dos viandantes a inspiração de suas obras. Desse modo, buscamos analisar com base no referencial teórico sobre esta temática, a saga de milhares de pessoas que no vai e vem de suas andanças, buscam “um cantinho de seu pra poder descansar”. Para isso, foram usadas reflexões interdisciplinares, pois as mesmas mostram de que forma todas as formas de expressão artística e cultural veem esse problema e tentam trazer à tona um tema tão importante como o das migrações. Diante disso, pensa-se que estamos longe de esgotar as discussões sobre o tema, no entanto, esperamos que esta breve analise tenha provocado inquietações para que futuros trabalhos venham a somar as reflexões apresentadas neste ensaio.
REFERÊNCIAS
AULETE, Caldas. Minidicionário contemporâneo da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 572.
Holanda, Chico Buarque de. As Cidades. Assentamento. Faixa 07. BMG. s/d 1 CD-ROM.
BRAGA, Fernando Gomes. Conexões territoriais e redes migratórias: uma análise dos novos padrões da migração interna e internacional no Brasil. Belo Horizonte, MG Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional Faculdade de Ciências Econômicas – UFMG, 2011.
Nascimento, Milton; Brant, Fernando. Encontros e despedidas. Faixa 08. Nº 62724509. PolyGram. s/d 1 CD-ROM. Estrangeiro. Caetano Veloso. O Estrangeiro. Faixa 01. Nº 63627014. Philips. s/d 1 CD-ROM.
EMMI, M. F. Italianos na Amazônia (1870-1950): pioneirismo econômico e identidade. Belém: EDUFPA, 2008.
GALDINO, Luiz. Carta de Babel. In: RUFFATO, Luiz. Entre nós. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. p. 25-31.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artimed, 2005.
HAESBART, Rogerio. Migração e desterritorialização. In: NETO, Helion Póvoa e FERREIRA, Ademir Pacelli (Org.). Cruzando Fronteiras Disciplinares: Um panorama dos estudos migratórios. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 37.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. p.
IANNI, Otávio. Capitalismo, violência e terrorismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 95.
Antunes, Arnaldo. Inclassificáveis. In: Matogrosso, Ney. Faixa 13. Nº 0800033. EMI. s/d 1 CD-ROM.
PESSOA. Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 275, 296.
SAYAD, A. A imigração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: EDUSP, 1998.





Bio fornecida pelo palestrante.

POESIA, DANÇA E MÚSICA EM BALÉS, DE BRUNA BEBER – Raquel Beatriz Junqueira Guimarães




Raquel Beatriz Junqueira Guimarães
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

RESUMO: A escritora Bruna Beber tem, em seu livro Balés, a síntese da expressão estética pautada no diálogo entre as várias artes, em especial a dança, a música e a literatura. A poesia de Beber se materializa, desde o título, como movimento, e, ao ser lida, manifesta-se como sonoridade, mostrando a um só tempo os passos de dança e a música que os possibilita e orienta; tudo isso sem negligenciar o necessário trabalho com a palavra. Neste artigo, pretende-se desenvolver uma reflexão na qual se observa a aproximação dessas três artes na obra mencionada de Bruna Beber. Isso será feito na procura de evidenciar ritmos, temas, formas e concepções de Beber, que podem ser vistas em seus Balés.
PALAVRAS-CHAVE: poesia brasileira; música; dança, Bruna Beber.
RESÚMEN: La escritora Bruna Beber tiene, en su libro Balés, la síntesis de la expresión estética que se basa en el diálogo de varias artes, especialmente, la danza, la música y la literatura. La poesía de Beber presentada como danza se materializa, desde el título, como movimiento, y, cuando leída, se manifiesta como sonoridade, mostrando a un sólo tiempo los pasos de danza y la música que los posibilita y los orienta; todo sin negligenciar el necesario trabajo con la palabra. En este artigo, se pretende desarrollar una reflexion en la que se observa el acercamiento de esas tres artes en la obra de Bruna Beber. Para tanto, se pretende revelar ritmos, temas, formas y concepciones presentes en los Balés de la escritora.
PALABRAS-CLAVE: poesia brasileña; música; danza, Bruna Beber.
Minicurrículo: Raquel Beatriz Junqueira Guimarães é professora de Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Em seu trabalho acadêmico dedica-se aos estudos da interface Literatura e Jornalismo e, no campo da poesia, acompanha as manifestações literárias contemporâneas em seus diversos suportes. Entre suas publicações destacam-se a organização da revista Scripta (v. 18, n. 35, 2014), publicação do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros e do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas, cujo tema foi Escritas de mulheres, e os livros Pedro Nava, Leitor de Drummond (2002) e Rastros da leitura, trilhas da escrita: o leitor em Pedro Nava e Graciliano Ramos (2012).
POESIA, DANÇA E MÚSICA EM BALÉS, DE BRUNA BEBER
Raquel Beatriz Junqueira Guimarães
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
A poesia, pra mim, é quando o ordinário se manifesta em qualquer tom, sublime ou coloquial. Eu procuro poesia em todas as coisas, às vezes vejo, às vezes não, mas sei que ela é onipresente (Bruna Beber, 2009).
Bruna Beber é uma escritora carioca, nascida em 1984, na cidade de Duque de Caxias, um dos municípios da baixada fluminense. Vive, atualmente, em São Paulo e teve seu primeiro livro publicado aos 21 anos. Tem tido presença constante em sites, antologias e blogs dentre os quais Escritoras suicidas, Antonio Miranda, e o seu próprio chamado didimocolizemos, numa alusão ao grupo humorístico Os trapalhões.
Suas opiniões podem ser conhecidas por meio de entrevistas, como a que foi dada ao programa Entrelinhas, da TV Cultura, exibido em 27/12/09. Segundo a autora, em 2001 e 2002, ela criou um blog para “mostrar o que escreve” e, a partir daí, passou a encontrar outros escritores que também publicavam em meio eletrônico e seus poemas começaram a ser conhecidos.
Segundo ela, suas publicações eletrônicas a levaram a conhecer poetas de vários lugares e esses contatos possibilitaram que seus poemas fossem publicados em antologias no México, na Argentina e que fossem traduzidos para o alemão e o italiano. Por meio de suas entrevistas pode-se acompanhar suas reflexões sobre o fazer poético e conhecer suas preocupações com a experimentação estética. Pode-se, ainda, observar que a escritora parece ser adepta do que podemos chamar de escrita sem pressa. Exemplo disso, a nosso ver, está nos processos de escrita dos seus livros Balés e Rua da padaria. Ao descrever como preparou a edição de Balés, a autora salienta que, depois de acertada a publicação com a editora Língua Geral, o livro demorou um ano para ser publicado. A autora afirma que ficou todo esse período “mexendo no livro”. Ela diz:
Eu ficava lendo alto pra mim mesma, porque eu queria saber como que era, como que estava o livro. Eu comecei a gravar, eu gravei todos os poemas. Eu ouvia separado, ouvia junto e se tivesse uma palavra que me incomodava eu mudava. Só que eu comecei a ficar meio obsessiva com isso. Eu comecei a colar uns poemas nas paredes que eu mais passo aqui em casa. (…) Um dia eu cheguei e falei, não, eu preciso escolher uma ordem só e fechar esse livro” (BEBER, Bruna, 2009, transcrição nossa).
Essa declaração já demonstra a preocupação da escritora com um trabalho mais sistemático de criação. Destacam-se procedimentos como gravar os poemas, lê-los em voz alta, o que pode ser a evidência de uma preocupação com a sonoridade do texto e, ainda, com a precisão lexical. Outro procedimento aqui registrado é o de colar poemas em paredes. Assim, eles mudam de suporte e a autora passa a lê-los como uma espécie de mural e a ouvi-los como se fossem de outrem. Lidos e ouvidos fora do livro, fora de uma sequencia pré-determinada efetua-se uma mudança de suporte e de contexto editorial dos textos o que oferece ao escritor, agora leitor, uma outra possibilidade de percepção daquilo que está escrevendo. Assim, a escritora torna-se leitora e ouvinte de si mesma e em situações diferentes daquelas experimentadas pelos outros leitores. O processo de escrita é realizado, nesse caso, não só pelo silêncio do momento de escrever, mas também pelo som das palavras gravadas e pelas sensações provocadas quando do encontro dos olhos com o poema na parede.
Situação semelhante ocorre com o modo de criação de seu quarto livro A rua da padaria, composto por 26 poemas. Ao descrever o trabalho de criação dessa obra, em entrevista concedida durante a XI Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP 2013), Bruna Beber afirma que demorou quatro anos para escrevê-lo:
Esse livro eu demorei quatro anos para escrever. Alguns poemas eu musiquei, outros poemas amigos musicaram, eu apliquei esses poemas em objetos, li os poemas em vários lugares, outras pessoas leram, eles foram dissolvidos em artes plásticas. Eu gravei muitos desses poemas, que é uma coisa que eu fazia desde os Balés. Tive bastante tempo para pesquisar (BEBER, Bruna, 2013. Transcrição nossa).
Essa é mais uma evidência de que a autora tanto se preocupa com uma escrita sem pressa, conforme já dissemos, como inclui no processo de escrita elementos da música, tão próprios da tradição poética, desde o século XIX.
Em outra entrevista, concedida a Angélica Castilho, Bruna ainda acentua que, pelo menos no início de sua carreira, a internet era “seu meio de comunicação primordial”. Outro assunto sempre muito relevante para a autora em suas entrevistas é a que estabelece com outros autores. Nessa entrevista, a entrevistadora pergunta sobre o fato de ela já ter declarado que Clarice Lispector não era uma referência para sua escrita, para o que Bruna responde:
Na época da entrevista, eu só tinha lido A hora da estrela. E gostei muito. Depois de tantos anos, já li outros livros. Mas não gosto, não me toca. Reconheço o valor literário e histórico, mas a mim não diz muita coisa. Eu citei Clarice como exemplo por perceber, na época, que várias escritoras que eu conhecia tinham a Clarice como referência principal. E isso me incomodava um pouco, pois eu notava que os discursos estavam ficando muito parecidos. (…) Não sei o que seria de qualquer escritor sem os escritores que ele leu (isso também serve pra todas as artes), a influência é natural. Eu acho que é importante tentar construir uma linha própria de pensamento, mas sem a ingenuidade de achar que está fazendo algo predominantemente novo, quase tudo já foi dito. O jeito agora é dialogar com o que já está feito, e criar a partir disso. Quero dizer que nenhum trabalho artístico vem do “nada”. Mas isso que estou dizendo vai soar óbvio. BEBER, Bruna (In CASTILHO, Angélica, 2012).
Assim, Beber confirma sua condição de leitora, e a importância, para o escritor, da proximidade com a literatura já existente. Pode-se, perceber, ainda, que embora saiba que “tudo já foi dito”, a escritora procura uma dicção própria, fugindo, por isso, dos “discursos muito parecidos”.
Ainda nessa entrevista a Angélica Castilho, Bruna confessa que, além de escrever, é também mobilizada por “ ouvir música e viajar. Atribui as referências musicais presentes em sua obra ao convívio familiar. Segundo ela, em casa sempre teve muita música e de todo tipo. Cresceu ouvindo Roberto Carlos, Martinho da Vila, Rock nacional, Benito de Paula, dentre outros.
Pelas declarações de Beber, encontramos uma autora preocupada com o resultado estético de sua poesia, atenta aos processos de criação e a seus efeitos, adepta da escrita sem pressa e aberta ao trânsito entre as diferentes artes. Demonstra-se, também, antenada ao que está ao seu redor com um “olhar curioso e inventivo” a procura das “coisas mínimas”, sua matéria de poesia, presente em Balés, livro que aqui se procura analisar.
Os ritmos binários e ternários em Balés
Balés é composto por 38 poemas, escritos em estrofes de dois, três ou quatro versos, com um predomínio de poemas constituídos por tercetos e dísticos. Assim “ludíbrio”, “galerie”, “barragem”, “dorsal”, “jardim”, “festa”, dentre outros, são poemas com estrofes de 3 versos; já “março”, “caixinha de música”, “anéis”, “rifa”, “notícia”, “pares”, trazem estrofes com dois versos (BEBER, Bruna, 2009). A autora, nesses e em outros poemas, experimenta a dimensão melódica e rítmica dos versos e, por meio da junção desses dois elementos cria imagens fortes, surpreendentes que irrompem do texto como que desenhadas pelas palavras. Suas estrofes binárias ou ternárias, e mesmo as quadras presentes em alguns poemas formam um conjunto harmônico, leve e preciso como a dança sugerida pelo título. Com a construção de imagens, os versos se apresentam livres de amarras sintáticas e semânticas, principalmente pelo pouquíssimo uso da pontuação, pela escrita lacunar que os caracterizam e pelo inusitado da composição das cenas poéticas como se vê em:
março
atrasado pela tempestade
de lixo
finalmente nosso encontro
em praça pública
à paisana toda lágrima
e todo cuspe
fomos felizes
para sempre (BEBER, Bruna, 2009, p.18).
Em uma quase narração de um encontro, o poema se materializa em quatro dísticos constituídos por imagens como “tempestade de lixo” e “lágrima à paisana”. Traz, ainda, o paradoxo de registrar uma felicidade já vivida, aparentemente efêmera (fomos felizes), ainda presente e perene (para sempre). Tudo isso sem nenhuma pontuação entre os versos, flashes do cotidiano coletados pelo olhar do observador atento que registra momentos da vida.
Numa perspectiva semelhante, o poema “sentido sem título” nos põe diante de uma confissão em três tercetos que nos possibilitam pensar em um olhar lírico perverso e maroto a um só tempo:
sentido sem título
quando penso que queria
que caísse sobre nós
a pedra da gávea
dou aquela risadinha
maligna em seguida
aquela choradinha
invisível, atravessada
entre o olho e a garganta
nem piscando passa (BEBER, Bruna, 2009, p. 20).
O modo de escrita do poema potencializa os efeitos da ausência de pontuação, relativiza as cesuras e os silêncios possíveis. Na passagem da segunda para a terceira estrofe, por exemplo, a ausência da pontuação é que oferece os sentidos possíveis do verso “maligna em seguida” que, sozinho, parece não ter sentido, mas ao ser lido a partir das possibilidades sugeridas pelos versos que o antecedem e o seguem criam-se muitas possibilidades como se demonstra a seguir: dou aquela risadinha/maligna, em seguida,/aquela choradinha; ou: dou aquela risadinha maligna/ em seguida, aquela choradinha; ou ainda: dou aquela risadinha maligna/ em seguida aquela choradinha [invisível].
A partir dessas possibilidades, o sujeito lírico parece ser perverso ou maroto, como dissemos, e ainda irônico ou discreto, de acordo com o ritmo que o leitor escolher para compor o encadeamento dos versos. Tudo isso porque o ritmo da leitura dos versos, sem as amarras proporcionadas por uma pontuação pré-definida pela escritora, faz o sentido oscilar, como se demonstrou ao apontar essas variações. Esse recurso, usado em vários poemas de Balés, possibilita que os textos ganhem novas coreografias a partir de cada leitor. O texto é, portanto, o corpo que dança (e feito para dançar) nesta obra de Beber.
Nessa perspectiva, ganha especial relevância o poema “ultimo tango (BEBER, 2009, p. 33). Tal como a dança e a música portenhas, o poema é repleto de elementos dramáticos. Os amantes se procuram “desolados”, a aventura amorosa é uma “história de terror”, é “o galho que quebra a sombra da lua”. Nesse medo e desespero realiza-se o encontro de “nomes que não eram nossos próprios nomes”. O tango, dança dramática e intensa, desdobra-se em quatro estrofes que, de certo modo, glosam o que está na epígrafe. A imagem inusitada de dar à mulher o “aspecto de plaza de província” se desdobra em “nos procuramos/ em parágrafos onde os hóspedes dormem/ sobre travesseiros de fronhas azuis”, ou ainda em “ao redor da fogueira alguém se amedronta/ com o urso o galho que quebra a sombra da lua”. Essas imagens inusitadas cadenciam a dança de maria e seu par acelerando-os progressivamente.
Os movimentos dos bailarinos do último tango estão conformados por versos com palavras polissílabas como “desolados”, “parágrafos”, “travesseiros”, na primeira estrofe e cadenciados por versos relativamente longos, considerando o conjunto da obra.
A primeira estrofe parece expressar a caminhada dos bailarinos, espécie de passo básico do tango argentino. Essa é a cadência das duas primeiras estrofes, em crescendo, e, na terceira, nota-se o corte realizado no nono verso do poema (que estalam com o fogo). Mais uma vez, a nosso ver, expressa-se a dança de que se fala tanto pela interrupção repentina do verso, quanto pela imagem que emana de suas palavras – a intensidade própria da paixão. Por esses caminhos, os poemas trazem para o baile o encontro casual em praça pública (sentido sem título) e a desmesura da paixão (último tango), transformados em passos de balé pelo olhar inventivo de Bruna Beber.
Sons de Balés
Junto à captura imagética do cotidiano, aqui transformado em passos de dança, em em Balés, ouve-se um conjunto musical sólido fazendo do texto o corpo que dança, como dissemos anteriormente, e o instrumento que ressoa a música que a orienta. Poemas como “caixinha de música” e “sonata” são a evidência do trabalho de aproximação entre palavra e música. Mas não só nesses poemas essa aproximação se dá. Conforme verificamos pela entrevista da autora, ela recorre, frequentemente, a métodos de composição que valorizam os aspectos sonoros como gravar os poemas para ouvi-los posteriormente, lê-los para si mesma, e a confissão de que ela se pauta em algumas referências musicais para compor. Cabe aqui lembrar da aproximação entre Bruna e Bandeira feita no texto, sem autoria identificada, da orelha do livro em análise:
(…) encontram-se diversos aspectos díspares em Balés: o clássico e o popular, o tradicional e o renovador, o tom contido e o exagerado, entre muitos outros. Daí a possibilidade de a sua obra também remeter os leitores à poesia de Manuel Bandeira e de Mário de Andrade. (Grifo nosso)
Nesse trecho da apresentação da autora, ela é aproximada a dois ícones do modernismo. Sobre a aproximação com Mário de Andrade há um gesto autoral que o realiza, pois é desse autor paulista a epígrafe de Balés: “E dizem que os polichinelos são alegres”, verso retirado de Tristura, de Paulicéia Desvairada. No que diz respeito à remissão do leitor a Manuel Bandeira a relação já não é tão evidente, pois não se pode antever, antes de entrarmos detalhadamente nos poemas-danças presentes em Balés, os motivos que levam a essa aproximação. Mas ao lermos os textos presentes no livro vamos percebendo alguns elementos que a justificariam. A nosso ver, isso se dá, dentre outros motivos, pela musicalidade dos poemas de Bruna e pelo modo como essa musicalidade se apresenta. Retomemos as palavras de Bandeira sobre seu desejo de incursão pela música:
Não há nada no mundo de que eu goste mais do que de música. Sinto que na música é que conseguiria exprimir-me completamente. Tomar um tema e trabalhá-lo em variações ou, como na forma sonata, tomar dois temas e opô-los, fazê-los lutarem, embolarem, ferirem-se e estraçalharem-se e dar a vitória a um ou, ao contrário, apaziguá-lo num entendimento de todo repouso… creio que não pode haver maior delícia em matéria de arte. Dir-me-ão que é possível realizar alguma coisa de semelhante na arte da palavra. Concordo, mas que dificuldade e só para obter um efeito que afinal não passa de arremedo (BANDEIRA, Manuel, 1986, p. 50).
Como já dissemos em artigo escrito anteriormente (GUIMARÃES, 2015), parece que Bandeira abre mão de tentar compor sua “forma sonata”. Bruna Beber, diferentemente do que fez Bandeira, escreve sua “sonata”:
sonata
não me emociona o heroísmo
o que arranha as unhas nas paredes
do precipício deixo cair
a saudade que se sente,
o faz de conta, aquela fantasia
não me emocionam mais
meu coração parou de bater e agora
o que você chama de amor
eu não atendo mais (BEBER, Bruna, 2009, p. 40).
Embora receba o nome de sonata, nesse poema observam-se variações de um mesmo tema, o afastamento amoroso, que vem desenvolvido em três perspectivas, uma em cada estrofe: o heroísmo, a evasão, a emoção. Todas essas perspectivas dadas ao afastamento amoroso são negadas pelo eu lírico que declara a dissonância, ou separação, dos amantes: “o que você chama de amor/ eu não atendo mais”. Observa-se, portanto, que não é exatamente uma ‘forma sonata’, forma que se constitui pelas oposições, pela disputa entre dois temas, e pela força dos silêncios que dessa disputa irrompem. Definida frequentemente como oposição de temas breves e fáceis de serem memorizados, a forma sonata é também um diálogo entre o feminino e o masculino. O primeiro tema é considerado masculino, e o segundo, mais doce e melódico é considerado feminino. Esse poema parece ser a confissão de um único sujeito que percebe o momento em que o desencontro amoroso se consolida. Diferente de Bandeira, portanto, Beber se arrisca, burla a forma convencional de sonata e lança para o público seu poema-sonata a procura de sua dicção pessoal.
Ainda nesse poema, chama-nos atenção a procura das aliterações que ecoam em palavras como “emociona”, “heroísmo”, “chama”, “amor”; ou em “arranha as unhas”; “saudade que se sente”. Outros poemas também exemplificam o jogo sonoro desenvolvido pela autora. É o caso de “vestidos” onde se vê as seguintes escolhas lexicais: “transparentes”, “teia”, “túnica”, “tarrafa”, “mosquiteiro”; ou ainda em “trident melancia”, em que se lê/vê/ouve: “perfumar a fumaça”, “faço festa”, “tinta preta”. Já em “anéis” o leitor é envolvido pelos jogos sonoros, mas também pelo tom do texto: “quero alegria pro poema/ mas os versos saem em mi”.
Balés se apresenta, portanto como a junção da literatura, da dança e da música para desenvolver temas cotidianos num cuidadoso trabalho estético da autora, valorizando o movimento, a sonoridade e a construção imagética. Não se trata de um jogo pelo jogo. A poesia de Bruna Beber, em Balés, parece mesmo ser a manifestação do ordinário em tons sublimes ou coloquiais, conforme ela mesma disse. Essas são as danças de Balés: as relações amorosas (meu amor perdeu/ todos os dentes/ não pode mastigar os cacos/ de vidro da dor) metaforizadas no caos aéreo (caos aéreo/ tchup tchup tchuru); o movimento da vida urbana (os véus transparentes/ colocados nos edifícios em construção); os sons inventados no dia a dia, (pleqpleqpleqpleqpleq); jogos rotineiros, como as rifas, objetos simples como os cata-ventos, e acontecimentos prosaicos como as notícias, e, claro, a reflexão sobre o fazer poético (escrever é dedicar/ os dedos à marcenaria/ de qualquer jardim). E, por fim, cabe dizer que os versos musicais de Bruna não deixam de ser confessionais na medida em que a escrita o permite: canto para esquecer/ a grande confusão das coisas simples// não sei de que material seco são feitas/ as perdas. Todos esses elementos fazem parte da poesia de Bruna Beber, que a vê em todo lugar, afinal, para ela “a poesia é onipresente”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARNOLD, Denis (1988). Sonata. Dictionnaire encyclopédique de la musique. Université d’Oxford. Paris: Robert Laffont. Tomo I.
BANDEIRA, Manuel (1986). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.
BEBER, Bruna (2009). Balés. Rio de Janeiro: Língua Geral.
BEBER, Bruna. (2009). Entrelinhas. Entrevista concedida a Paula Picarelli. Disponível em http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas.
BEBER, Bruna. (2013). Festa Literária Internacional de Paraty. Entrevista. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=DPtkN44uLZM.
CASTILHO, Angélica (2012). Bruna Beber: Literatura contemporânea em foco. Disponível em http://mcfaculdadeccaa.blogspot.com.br/2012/12/bruna-beber-literatura-contemporanea-em.html?view=sidebar.
GUIMARÃES, Raquel (2015). “Bandeira e Drummond e a nova poesia brasileira”. Comunicação apresentada durante o V SIMELP. Itália: Lecce. Resumo disponível em http://simelp.it/node/84#simposio19. (Texto completo inédito).





Bio fornecida pelo palestrante.

PERDENDO A MAJESTADE – Gilberto Santos da Rocha




Gilberto Santos da Rocha
Psicanalista

Minicurrículo: GILBERTO ROCHA é psicólogo/psicanalista, autor do livro A introdução da Psicanálise no Brasil, é mestre em Filosofia-PUC/RJ e doutor em Saúde Coletiva/UERJ.    

“Eu e o Hélio somos amadores do berro. Sim, o Hélio tem a tendência da ópera e alguém já disse, talvez eu mesmo, que ele é a própria ópera. O poeta vira-se para mim e, com a ênfase de um dó-de-peito, faz-me esta acusação horrenda: –
–“Reaça!”. Tremo em cima dos sapatos” (RODRIGUES, 1997, p. 80).
É acreditando que o autor interpreta o mundo social à sua volta e que é possuidor de um simbolismo que cria representações acerca de uma cidade, a obra do autor dramático Nelson Falcão Rodrigues é um referencial para a literatura nacional. Pelo fato de escrever sobre a condição trágica do ser humano frequentemente em seus romances, contos e peças teatrais, aproximou-se de temas tratados pela psicanálise.
A sexualidade no universo rodrigueano é onipresente. Através de temas como a interdição do incesto, paixões, homossexualismo, taras, ménage à trois, romances familiares, curras, intrigas e castração, ela está sempre presente.
Universo que revela o problema da insegurança e da autoflagelação masculina, motivadas pela falência dos valores morais do pater familias no mundo moderno. A sua primeira peça teatral A mulher sem pecado (1941), já contém todos os principais ingredientes de sua obra: declínio do poder paterno, traição e incesto. O tema declínio da figura paterna fazia parte de sua dramaturgia desde o início, transformando-se em tema de discussão da intelectualidade nacional anos depois. “Traição” é o tema que durante dez anos pontuou todos os 2.000 folhetins escritos para a coluna “A vida como ela é” para o jornal Última Hora, enquanto o tema incesto era banalizado em suas histórias.
Nelson Rodrigues é considerado o fundador do moderno teatro brasileiro, autor polêmico, contraditório, reacionário e defensor da ditadura militar instalada a partir de 1964 no Brasil. Sua obra teatral é dividida em três partes: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. Por escolher temas que envolviam a deterioração do conceito de família era censurado. A peça teatral Álbum de Família, por exemplo, levou mais de vinte anos para ser liberada pela censura.
Para ele, a angústia gerava culpa, clamava por punição e se aninhava quando o sujeito se opunha a um mundo em desencanto. Contraditoriamente acreditava que a salvação e o encanto da existência encontravam-se no amor.
Apesar de considerado reacionário, há na estilística rodrigueana uma forma singular de pensamento político em relação aos excluídos sociais brasileiros, como o pobre e o negro. O exemplo abaixo diz respeito ao pobre brasileiro e recebeu do autor o nome de Humildade (RODRIGUES, 1997, p. 81):
O que tem sido o brasileiro desde Pero Vaz de Caminha? Vamos confessar a límpida, exata, singela verdade histórica: o brasileiro é um pau-de-arara. Vamos imaginar esse pau-de-arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica. Sem falar nos piolhos que o devoram, e nas brotoejas que o perseguem. E ainda querem que ele seja humilde! Mas a humildade é um defeito de reis, príncipes, duques, rainhas. O justo, o correto, o eficaz é que disséssemos ao pau-de-arara: “Tudo, menos humildade! Seja arrogante! Erga a cabeça! Suba pelas paredes! Ponha lantejoulas na camisa!”
Para a antropóloga Adriana Facina, o modelo rodrigueano é baseado em histórias de fundo moral baseada no modelo gilbertiano:
Embora as famílias que aparecem na dramaturgia rodriguiana não sejam patriarcais, a dramatização da ruína da hierarquia familiar, com ênfase na perda do poder do pater familias e no rompimento de interdições – como o incesto e a traição – nas relações interpessoais, coloca o modelo descrito por Freire como uma espécie de pano de fundo moral das histórias (FACINA, 2004, p. 107).
Os textos rodrigueanos eram geralmente ambientados no subúrbio carioca, lugar que para suas tragédias fazia mais sentido, pois era onde ainda se cultivavam valores morais mais tradicionais e onde o amor ainda era capaz de produzir tragédias no cotidiano:
Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saens Pena. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte (RODRIGUES, 1997, p. 181).
Os valores sociais do subúrbio carioca eram diferentes do centro da cidade e da beira-mar, lugares onde a cultura do indivíduo balizava as relações sociais e onde já existia certo relativismo moral. De acordo com Facina, o dramaturgo encontrava-se inserido num momento de passagem de valores tradicionais para a assunção de valores mais modernos:
Nelson Rodrigues fala de um momento em que a desagregação da família patriarcal, fruto de um processo histórico de modernização, colocou em xeque valores tradicionais. Essas famílias em cena traduzem o dilaceramento dos indivíduos num mundo onde esses valores não foram substituídos por algo que pudesse nortear as suas vidas (FACINA, 2004, p. 25).
O crepúsculo do patriarca
Para enfocar a majestade perdida pelo homem na obra rodrigueana selecionamos os seguintes textos: sua primeira criação teatral, A mulher sem pecado, o conto A dama do lotação e o romance Asfalto selvagem – Engraçadinha e seus pecados.
No drama em três atos, A mulher sem pecado (RODRIGUES, 1981), podemos observar que o motivo que vai caracterizar o enfraquecimento da autoridade do “chefe de família” é a insegurança de um amor doentio retratado no ciúme sem limite do protagonista, Olegário, que logo nas primeiras páginas da peça, no diálogo travado com a empregada Inésia e o motorista Humberto, tem seu perfil desenhado pelo autor:
Olegário (com maior interesse):
– Hum! Voz de mulher, mesmo? (Aproxima-se). Tem certeza que não era voz de homem disfarçada?
Inézia (hesitante) – Não. Pelo menos, não parecia. Não, era voz de mulher,
Olegário – Você perguntou quem queria falar com ela?
Depois, repete o mesmo questionamento com o motorista:
Olegário (embolsando o telegrama) – O que é que há? A senhora saiu, aonde foi?
– Umberto (mascando qualquer coisa). – Saiu depois do almoço. Mais ou menos umas duas horas. Voltou às cinco horas.
Olegário – E você viu o quê? (com desconfiança). Eu acho que você me esconde as coisas! Eu pago para obter informações! (noutro tom) – Ela foi aonde? (RODRIGUES, 1981, p. 48).
O ciúme de Olegário era justificado de três maneiras: pela ameaça de descontrole sexual de sua mulher gerado por sua impotência, pelas idéias modernas representadas pela autarcia psicológica e sexual feminina e pela desconfiança de incesto da esposa, com o irmão de criação dela, Maurício. Idéias que por sinal, sua mulher não possuía e com as quais ela entrou em contato graças às inseguranças, confusões e pelo fracasso das idéias delirantes do protagonista.
Em A mulher sem pecado, Olegário encontra-se no centro do conflito familiar, ameaçando com expurgo econômico sua mãe, Lídia sua mulher, a mãe de Lídia, o irmão de criação dela e três empregados caso eles se insurgissem contra suas incertezas e autoridade.
Imerso num mundo que defendia a repressão dos valores modernos, Olegário, sem conseguir extravasar suas emoções e ansiedades, punia a si mesmo simulando uma paralisia inexistente. Fingia ser paralítico desde quando começou, há cerca de sete meses, com a idéia de testar a fidelidade de sua esposa, perseguindo-a com desconfianças. Acreditava que tinha nascido nela o desejo de trair. Pois, se ele próprio apreciava uma bela mulher, porque ela não apreciaria a beleza masculina? “Lídia (sardônica) – Um marido dizendo essas coisas! Sugerindo! Metendo coisas na cabeça da mulher. Eu acabo, nem sei!” (RODRIGUES, 1981, p. 59).
As informações obtidas e requeridas por Olegário, principalmente de Inezia, a criada, e de Umberto, o motorista, sobre com quem Lídia se relacionava ou o que fazia, demonstram a fragilidade psicológica do chefe dessa família. Fragilidade denunciada também por admoestações morais de caráter repressivo sexual, como a de uma frase retirada de um diálogo travado entre Olegário e Lídia, quando ele, discutindo, diz para a mulher: “O fato de você mesma olhar o próprio corpo é imoral. Só as cegas deviam ficar nuas…” (RODRIGUES, 1981, p. 55).
Quando Lídia comenta seu desconhecimento sobre as coisas do amor, afirma que sua passagem no colégio interno foi mais proveitosa para saber sobre o amor entre duas pessoas do que seu casamento. Nelson Rodrigues parece nesta passagem representar na personagem Lídia uma mulher comum daqueles dias, oprimida pelo universo masculino e pelos valores morais do seu casamento, considerados na atualidade, antigos, abusivos e patriarcais.
O desfecho do drama em três atos se aproxima quando o protagonista finalmente se convence de que Lídia não o traía. Tarde demais… a esposa, cansada depois de tantas humilhações sofridas, aceita o assédio de Umberto, o motorista, e em sua companhia corta as amarras que a ligava a um casamento que para ela tornou-se frustrante, repressivo e fonte de mal-estar. Imprensado entre a razão e a desrazão, arrasado pela culpa, sem forças para enfrentar a situação que fora criada por ele mesmo, Olegário comete suicídio.
Os 112 capítulos do romance Asfalto selvagem – Engraçadinha seus amores e seus pecados foram escritos originalmente para o jornal carioca “Última Hora” de agosto de 1959 a fevereiro de 1960. Foram publicados em livro pela primeira vez em 1961 em dois volumes: livro 1, Engraçadinha dos doze aos dezoito e livro 2, depois dos trinta (1994)). Este livro foi um dos dois romances em que Nelson Rodrigues não usou o pseudônimo costumeiro de Suzana Flag ou de Myrna. Neste romance ele retoma o tema do abandono / suicídio / declínio da autoridade paterna, logo nas primeiras páginas do primeiro capítulo, através da discrição de dois personagens suicidas e de um outro personagem que se intimidava com a própria mulher. Nelson Rodrigues deixa logo entrever a inquietude masculina diante da iminência da independência feminina.
O primeiro suicídio foi motivado pela mulher que abandonou o marido levando os filhos. O segundo foi cometido por um homem bem-sucedido e respeitável, orador, advogado e deputado possuidor de valores arcaicos. Declarou certa vez na tribuna da Câmara Estadual do Espírito Santo que havia casado virgem (coisa que o dramaturgo sarcasticamente menciona argumentando que tal declaração do deputado não se propunha ser uma declaração de bens, tal como a virgindade era para as mulheres). Zózimo, o outro personagem, tem sua fraqueza demonstrada pelo vício da bebida e pela sua maneira de amar. Tinha medo e insegurança de sua bonita esposa protestante indiferente e sem paixão, dona Engraçadinha, pela qual ele, seu marido, se remoia por não ter com ela a menor intimidade conjugal.
Em sua obra, Nelson Rodrigues usa diversas vezes da dramaticidade do suicídio, para demonstrar o nefasto sentimento de desamparo sentido por seus personagens “chefes de família”.
No conto A dama do lotação, o tema da traição feminina no casamento retorna. A insegurança masculina novamente se instala pela via da traição, mas desta vez tem motivo de existir. Originalmente este conto tinha 130 linhas e havia sido publicado na coluna “A vida como ela é” do jornal Última Hora. Foi adaptado para o cinema em 1977 tendo Rodrigues ajudado no roteiro do filme criando situações e personagens novos.
Por causa de uma fatalidade, surpreendida traindo com os pés sob a mesa de um jantar, Solange transforma-se aos olhos de Carlinhos, seu marido. Transforma-se de uma recatada mulher aliada ao regime patriarcal, numa mulher com independência sexual e afetiva do casamento. Após interrogatório e confirmado as suspeitas de que o homem com quem sua esposa o tinha traído era o Assunção, amigo de infância de ambos, Carlinhos enraivecido grita:
“Vou matar esse cachorro do Assunção! Acabar com a raça dele!”
A mulher, até então passiva e apenas espantada, atracou-se com o marido, gritando:
– Não, ele não!
– Agarrado pela mulher, quis se desprender, num repelão selvagem. Mas ela o imobilizou, com o grito:
– Ele não foi o único! Há outros!” (RODRIGUES, 1992, p. 221).
Na família de nossa dama brasileira, “havia de tudo: médicos, advogados, banqueiros e, até, ministro de Estado”. Solange via no lotação o cenário perfeito para a quebra da monotonia de sua vida e da prática de sua tara sexual, que consistia em todas as tardes pegar o lotação e capturar um macho para a satisfação de seus desejos sexuais:
Sem excitação, numa calma intensa, foi contando. Um mês depois do casamento, todas as tardes, saía de casa, apanhava o primeiro lotação que passasse. Sentava-se num banco, ao lado de um cavalheiro. Podia ser velho, moço, feio ou bonito; e uma vez – foi até interessante – coincidiu que seu companheiro fosse um mecânico, de macacão azul, que saltaria pouco adiante. O marido prostrado na cadeira, a cabeça entre as mãos, fez a pergunta pânica:
– Um mecânico?
Solange, na sua maneira objetiva e casta, confirmou:
– Sim” (RODRIGUES, 1992, p. 222).
Para Carlinhos, seu marido, os desconhecidos não o preocupavam. O que lhe amofinava mesmo de verdade, eram os conhecidos:
Mecânico e desconhecido: duas esquinas depois, já cutucara o rapaz: “Eu desço contigo”. O pobre diabo tivera medo dessa desconhecida linda e granfa. Saltaram juntos: e esta aventura inverossímil foi a primeira, o ponto de partida para muitas outras. No fim de certo tempo, já os motoristas dos lotações a identificavam a distância; e houve um que fingiu um enguiço, para acompanhá-la. Mas esses anônimos, que passavam sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos. Além do Assunção, quem mais? Começou a relação de nomes: fulano, sicrano, beltrano… Carlinhos berrou: “’Basta! Chega!”. Em voz alta, fez o exagero melancólico: a metade do Rio de Janeiro, sim senhor! (RODRIGUES, 1992, p. 222).
Não conseguindo conviver com a dor da traição, Carlinhos nega a situação, afirmando ter morrido para o mundo e entrando num estado de catatonia e autoflagelação, que requeria a atenção de Solange. Todavia ela não se deixa levar pela chantagem emocional que poderia advir com a “morte” de Carlinhos e após a noite e a manhã passada, dedicada junto à cabeceira do marido, escapole à tarde para passear de lotação, retomando o seu rosário horas depois, resignadamente, a fim de continuar “o velório do marido vivo” (RODRIGUES, 1992, p. 223).
Ele é um dos autores que captou em sua literatura uma mudança nas formas de existência baseada na autoridade paterna. Sua obra está imersa em um momento em que a utilização de explicações de cunho psicológico aumentaram significativamente. Período em que a produção de subjetividade foi abalada, enfraquecida e destituída, devido aos avanços do sistema capitalista, junto com a figura do pai autoritário e da repressão sexual.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
FACINA, A. Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
ROCHA, G. S. Entre fronteiras: estudo das relações entre a psiquiatria e a psicanálise. Tese de doutorado em Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social/UERJ, 2005.
RODRIGUES, N. A vida como ela é… O homem fiel e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
RODRIGUES, N. Asfalto selvagem: Engraçadinha seus amores e seus pecados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
RODRIGUES, N. Flor de obsessão: as mil melhores frases de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
RODRIGUES, N. Nelson Rodrigues – Teatro completo. Peças psicológicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. v. 1.





Bio fornecida pelo palestrante.

DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO – Luiza Puntar Muniz Barreto




DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO

Luiza Puntar Muniz Barreto

Universidade Federal Fluminense

 
RESUMO: A contemporaneidade trouxe, devido à aceleração da globalização e ao aprimoramento das tecnologias, mudanças estruturais no modo como percebemos o tempo e o espaço. Nossa relação com o mundo torna-se cada vez mais imediatista, o mundo parece cada vez menor, as fronteiras parecem se diluir. Nessa conjuntura, vemos aumentar o número de sujeitos em trânsito, cujas identidades plurais estão também em deslocamento. A questão da migração tem sido tema recorrente na literatura contemporânea, que problematiza, especialmente, a relação dos indivíduos migrantes com os espaços por onde transitam. No romance Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa, a personagem Vanja é uma menina de apenas 13 anos quando decide emigrar do Brasil para os EUA em busca do pai. Sua trajetória evidenciará a experiência de trânsito do sujeito contemporâneo, passando pelo estranhamento e pelo desafio que representam as relações afetivas na perspectiva estrangeira.
 
Palavras-chaves: deslocamento, migração, estrangeiro, identidade
 
ABSTRACT: The acceleration of globalization and enhanced technology brought, in contemporary times, structural changes in the way we perceive space and time. Our relationship with the world became increasingly immediate: the world seems smaller, the boundaries seem more diffuse. There is a growing number of individuals in transit, whose plural identities are also on the move. The issue of migration has been a recurrent theme in contemporary literature that discusses especially the relationship of migrant individuals and the spaces where they transit. Adriana Lisboa’s novel Blue Crow (2010) presents the character, Vanja, who is only 13 when she decides to emigrate from Brazil to the US to search her father. The course of her life will illustrate the experience of contemporary displacement and the affectionate relationships in a foreign perspective.
 
Keywords: displacement, migration, foreign, identity
 
CURRÍCULO: Luiza Puntar Muniz Barreto é formada em Letras – Português/Literatura pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em 2014. Atualmente cursa o Mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense, sob a orientação da Prof. Drª Stefania Chiarelli, tendo como temas da pesquisa as questões da migração, desterritorilização e deslocamento na contemporaneidade, com a defesa da dissertação prevista para março de 2017. Seus objetos de estudo são o romance Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa e o filme Terra estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas.

DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS
 
DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO
 
Luiza Puntar Muniz Barreto
 
Universidade Federal Fluminense
 
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo investigar os deslocamentos e experiências pelas quais passam os sujeitos em trânsito. Ao migrar, no âmbito do deslocamento espacial, o indivíduo passa por um processo de estranhamento em relação ao lugar e ao Outro; porém, como veremos, tal experiência externa acaba se refletindo internamente.
Nesse contexto, o sujeito migrante revela um desajuste tanto em relação ao espaço quanto à cultura desse novo lugar em que tenta fixar-se, passando por uma experiência de desabrigo e solidão, frutos não só do estranhamento, mas também da dificuldade de se firmar subjetivamente nesse espaço e, portanto de nele reconhecer-se.
As relações dos sujeitos migrantes com seus espaços de trânsito, o descentramento subjetivo e o desenraizamento pelo qual passam são os temas em torno dos quais se desenvolve a narrativa de Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa, que será nosso objeto de estudo. No romance narrado em primeira pessoa, a personagem narradora, Vanja, vivencia esse duplo deslocamento experienciado pelo sujeito em trânsito.
Adriana Lisboa é uma escritora brasileira, que já viveu na França, no Japão e hoje mora e leciona nos Estados Unidos. É, portanto, uma, dos muitos escritores, que integraram o grande contingente de sujeitos migrantes na contemporaneidade. Tal experiência, logicamente, se reflete nas obras desses autores. Dado o seu papel de crítica, discussão e debate acerca das questões sociais e políticas de seu tempo, não é de surpreender que os sujeitos deslocados migrantes e os espaços pelos quais transitam sejam os grandes temas da literatura em todo o mundo nesse início do século XXI.
Como salienta Sandra Regina Goulart, os escritores da fase pós-colonial, principalmente no início do século XXI, passaram a refletir a tendência deslocada e descentrada da contemporaneidade, modificando a ideia que se têm hoje de literaturas nacionais. Dessa forma,
(…) as escritoras e escritores que fazem do espaço transnacional seu território enunciativo desestabilizam esse centro trazendo para o bojo desse espaço um olhar de alhures, de outros espaços nacionais e outras localidades, prefigurando um espaço de traduções culturais ou um espaço literário transnacional (GOULART, 2013, p. 69).
 
As narrativas desses autores, autobiográficas ou não, aparecem, grande parte das vezes, em primeira pessoa e partilham o caráter autorreflexivo, quase confessional de um indivíduo centrado no Eu, que, de tão descentrado em si, tão refletido, misturado e ao mesmo tempo tão inacessível ao Outro, busca (re)construir sua identidade através de seus relatos.
A essa postura parece corresponder Adriana Lisboa em Azul corvo, com a construção da personagem Vanja. A narrativa em questão se inicia quando Vanja, então com 13 anos, perde a mãe. Morando de favor com a irmã de criação de sua mãe, Elisa, a menina decide viajar para os Estados Unidos, lugar onde nasceu e viveu até os 2 anos de idade, à procura do pai biológico que nunca conhecera. Para realizar tal empreitada, a menina conta com a ajuda de Fernando, ex-marido de sua mãe, que lhe oferecerá abrigo em sua casa no subúrbio de Lakewood, na cidade de Denver, Colorado.
Acompanhando a narrativa, fruto do relato de Vanja feito nove anos mais tarde, tomamos conhecimento de que a personagem, em seu processo migratório, acaba encontrando muito mais do que pretendia: outra cultura, outra paisagem, um outro homem com quem desenvolve o afeto paternal e a si mesma.
No presente artigo, pretendemos investigar a condição do estrangeiro a partir do olhar de George Simmel, a (re)construção identitária, operada pela convivência com outra cultura e possibilitada pelas relações afetivas travadas pelos sujeitos em trânsito, será analisada com base nas teorias sociológicas de Stuart Hall, já as dificuldades de relação com os espaços por onde transitam os sujeitos migrantes, serão abordadas à luz da teoria de Marc Augé a respeito dos não-lugares.
 
DESLOCAMENTO ESPACIAL E INDETITÁRIO-AFETIVO
O espaço contemporâneo tem estado em voga entre muitos estudiosos e parece ser um dos elementos que mais passa por modificações e maiores implicações traz nessa época de grande trânsito mundial de massas e de informações. É no intercruzamento desse espaço multifacetado e do tempo, cada vez mais acelerado, que se formam, nas palavras de Homi Bhabha, “figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão” (2007, apud GOULART, 2013, p. 66).
É em meio a essa conjuntura de dualidades que ocorrem as migrações no século XXI. Diferentemente das migrações de exílio por motivos econômicos ou políticos, os sujeitos em trânsito dessa época experienciam a errância e o desenraizamento em nível também subjetivo, resultado da constante sensação de não pertencimento que acompanham os seus deslocamentos espaciais.
Nesse contexto, como consequência da desestabilização de centralidade em relação ao espaço, podemos verificar também um descentramento referente ao próprio sujeito, que deixa de possuir uma subjetividade construída em torno de referenciais culturais únicos e passa a ser composta de forma tão plural e dialógica quanto os espaços pelos quais transita.
Tal sensação de transitoriedade subjetiva aparece logo nas primeiras páginas de Azul-corvo: “Eu parecia me transformar lentamente em outra coisa, como se estivesse passando por uma lenta mutação.” (LISBOA, 2010, p.12), diz Vanja ao relatar a sua chegada à cidade de Denver, Colorado.
Depois da morte da mãe, Vanja perde suas referências identitárias e afetivas, ficando totalmente desabrigada. A menina nunca conhecera o pai, no entanto, sabia que este morava nos Estados Unidos e que ela, nascida nesse mesmo país, havia sido fruto de uma relação a qual sua mãe não quis levar adiante. Por isso, voltaram para o Brasil quando tinha apenas dois anos.
Passando por uma luta interna a respeito de como encarar os fatos e seguir com a vida depois desse acontecimento, Vanja decide viajar para os Estados Unidos com o objetivo de procurar o pai. A menina deixa claro ainda que sua viagem não é de entretenimento, nem de fuga, mas de busca. Tal busca visa preencher as lacunas afetivas e identitárias deflagradas pela sua orfandade, e, com efeito, delineará um caminho para uma (re)construção subjetiva, a qual, vale lembrar, soma-se ao fato de Vanja ser uma adolescente.
Não demora muito para que Vanja nos revele o constante desconforto que sente em relação a Denver, paisagem estranha com a qual se vê obrigada a dialogar, sem conseguir, contudo, acessá-la com êxito. A paisagem natural, o clima e a arquitetura da cidade aparecem como primeiras fontes de estranhamento e inquietações:
 
Plana, lisa, seca, tediosa, poeirenta, contínua, constante, chata, sem graça: essa seria minha primeira impressão da planície, nos meses por vir. O que existia ali era uma ditadura do espaço, uma infinidade de chão para a direita, uma infinidade de montanhas para a esquerda, uma infinidade de céu encapotando tudo (LISBOA, 2010, p. 22).
 
A incapacidade de compreensão desse espaço implicará também numa inacessibilidade dos códigos desse novo ambiente que consequentemente a conduzirá a uma incomunicabilidade tanto com o espaço como com as pessoas: uma solidão imposta pelo espaço, dirá a menina, que, com efeito, se encontra situada no entrelugar do sujeito que procura fixar-se numa terra estrangeira, num espaço estranho.
Essa nova categoria de migração é fortemente marcada por um efeito de flutuação, pelo lugar entre que os sujeitos em trânsito ocupam nas culturas, nos países, na identidade, nas relações afetivas, seguidos de uma incessante e eterna busca pela identidade. Vanja evidencia ao longo da narrativa toda a duplicidade desse migrante, que se insere, como aponta George Simmel, tanto na disposição do “mover-se” quanto na do “fixar-se” e, portanto, trava uma relação igualmente dupla com esse espaço do Outro a que se tenta acessar.
Para Simmel, o estrangeiro irá refletir a composição antitética e plural do espaço contemporâneo na medida em que se destaca como um estranho por não pertencer, ao menos de imediato, a esse novo espaço, uma vez que não partilha de sua cultura e códigos; também não sendo possível nele se inserir por meio das qualidades que traz de seu lugar de origem, evidenciando uma condição “transfronteiriça”:
 
(…) embora não siga adiante, ainda não superou completamente o movimento do ir e vir. Fixo dentro de um determinado raio espacial, onde a sua firmeza transfronteiriça poderia ser considerada análoga ao espaço, a sua posição neste é determinada largamente pelo fato de não pertencer imediatamente a ele, e suas qualidades não podem originar-se e vir dele, nem nele adentrar-se (SIMMEL, 2005, p. 265).
Nossa protagonista aparece como um sujeito migrante que se fixa, ou ao menos tenta se fixar, nessa terra estrangeira, mesmo que num movimento alongado de passagem, já que sua migração, em princípio temporária para os Estados Unidos, é norteada por uma busca que, em sua própria natureza, já representa transitoriedade.
Podemos afirmar que a narrativa de Azul corvo, se desenha em torno de dois grandes momentos: o de total estranhamento e desabrigo provocados pela nova paisagem e pela cultura do Outro, e o momento de negociação entre a identidade cultural de origem de Vanja e a cultura daquele novo espaço, e, por conseguinte, a (re)construção de sua própria identidade, o que, como veremos, somente se torna possível a partir do desenvolvimento de relações afetivas.
O primeiro momento se revela logo no início dos relatos da menina, nos quais fica claro o seu estranhamento com a paisagem e com o clima do lugar, sempre revelado em contraponto com a geografia de sua terra natal, o Rio de Janeiro:
 
(…) eu olhava pela janela e via a imensidão do céu cutucado pelas montanhas a oeste, Havia algum verde, sim, mas era tão pouco que pra mim não contava. No meu entender, verde ou era exuberante e denso, ou não era verde. Eu desconsiderava aquelas plantinhas raquíticas do deserto […] Antes eu estava habituada a caminhar por baixo das árvores. Atravessava as ruas estreitas e sujas de Copacabana e suas calçadas esbugalhadas com telhados de árvores presentes o ano inteiro. Agora, naquela cidade semiárida, as ruas eram largas e limpas e sem sombra (LISBOA, 2010, p. 18).
 
O Rio de Janeiro, mais especificamente Copacabana, irá aparecer durante quase toda a narrativa como ponto de referência em que Vanja pudesse, de alguma forma, se sentir abrigada e pertencente, já que lá, ainda que carente dos referencias paternos, a menina possuía uma identidade e podia situar-se em relação ao restante do mundo. Assim, a evocação da paisagem marítima, que aparece a todo o momento cortando os relatos da narradora, equivale a um apelo para a superação do desconforto provocado pela paisagem desértica, pelo clima seco e pelos hábitos estranhos que a menina reconhece em Denver. Essa constante evocação estabelece, ao longo da narrativa, um marcante contraste com Lakewood, que irá se configurar antes como um lugar transformado em não lugar pela experiência migratória.
Os não lugares se configuram como espaços tipicamente de passagem, onde os sujeitos não são capazes de experienciar senão a própria individualidade e a solidão por ela causada. Tais espaços de trânsito, além de se apresentarem como solitários, ainda se revelam extremamente inóspitos, dificultando o desenvolvimento das relações afetivas entre os sujeitos que por eles transitam. Em Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade, Marc Augé afirma que: “Se um lugar pode se definir como identitário relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, definirá um não lugar” (AUGÉ, 2012, p. 73).
Mais do que um lugar meramente de passagem consideramos que Lakewood se configura para Vanja como algo semelhante ao que Augé chama de “o não lugar como lugar”, aquele que nunca chega a existir por completo sob uma forma pura, já que está em constante transformação, sendo incessantemente recomposto por outros lugares, tornando dialógica a relação entre lugar e não lugar, que, nas palavras do antropólogo, “são, antes, polaridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se realiza totalmente – palimpsestos em que se reinscreve, sem cessar, o jogo embaralhado da identidade e da relação” (AUGÉ, 2012, p. 74).
A tentativa de superação do desconforto operado por aquela nova paisagem seca e desértica se dará via memória. Na expectativa de encontrar algum abrigo nesse espaço que para ela se apresenta tão hostil, a narradora opera um constante retorno ao passado, do qual emergem lembranças e imagens sensoriais que, de forma evanescente, parecem formar um caminho que irá norteá-la nesse espaço.
Nessa narrativa orientada pelo passado, vemos confrontadas as imagens de duas paisagens que se apresentarão como diametralmente opostas pela a narradora: o mar de Copacabana e o deserto do Colorado. A paisagem marítima, evocada sempre de forma afetiva a partir das memórias de sua infância, remete a um ambiente mágico, onde Vanja se sente confortável, onde é possível fixar-se, sonhar e ser feliz.
O aspecto mais expressivo da desterritorialização pela qual passa a personagem, irá consistir, portanto, nessa oposição mar/deserto, que irá concretizar a dicotomia lugar/não lugar e revelar a crise subjetiva da personagem principal. Se, nas palavras de Stefania Chiarelli, “o mar surge como presença concreta ou miragem do passado[…], o deserto, espaço da busca paterna, fala de uma incontornável ausência como móvel das narrativas.” (CHIARELLI, 2016).
A praia de Copacabana aparece, portanto, como o lugar em que ela se localiza afetiva e identitariamente e que, para além da imagem, ao evocar cheiros, sabores e sons, se configura como um lugar místico, onde a narradora pode encontrar abrigo e segurança, não obstante sua natureza móvel. Desse modo, a paisagem marinha representava para a narradora um lugar passível de se encontrar, de dialogar: “Toda uma outra vida, outro registro, mas era possível, mesmo para um ser humano, nadar entre eles (…)” (LISBOA, 2010, p. 29), em oposição ao não lugar que irá se revelar o deserto do Colorado.
Ao descrever a arquitetura da cidade de Denver, Vanja ironiza a existência de tantos arranha-céus, mansões e campos de golfe que tentam, de forma frustrante, conferir alguma vida “no meio de uma aridez de quase deserto” (LISBOA, 2010, p. 22). O termo aridez aqui empregado vai além de uma nomenclatura aplicada ao clima, ele representa a hostilidade, a falta de suavidade e de brandura, e o desabrigo presentes nesse espaço.
É nesse cenário desértico e hostil, que nossa protagonista começa a experienciar a solidão e a se dar conta da perda das referências nas quais costumava pautar sua identidade. Depois de mencionar a solidão imposta por aquele espaço, Vanja completa: “Você perde um pouco a certeza de si mesmo quando confrontado com isso(LISBOA, 2010, p. 23).
Aqui, é importante lembrar que a falta do pai é a motivação da viagem de Vanja, cujo objetivo, como sabemos, é a busca não somente dele, mas das referências identitárias e afetivas que representa. Ao rememorar o episódio em que decide partir, a menina analisa: “Seria preciso coragem, isso sim, para ficar parada onde eu estava, ponto fixo no espaço, acalentando como a um animalzinho doente a ideia de que nada tinha mudado, de que nada era diferente, caminhando pelas mesmas ruas, alimentando os mesmos hábitos, me fingindo” (LISBOA, 2010, p. 65, itálicos nossos).
Fica, portanto, evidente a necessidade do trânsito para que Vanja encontre não somente o pai, mas a si mesma. Nesse contexto de deriva e de busca, a viagem da personagem se dá justamente para um espaço desértico. Podemos associar, portanto, a intensificação da sensação de perda e deriva sentidos pela narradora ao chegar em Denver com a categoria incorpórea, aporética e inóspita evocada pelo deserto (CHIARELLI, 2016).
Reafirmando esse caráter transitório e desfavorável às relações afetivas, próprio dos não lugares a que parece corresponder a paisagem desértica de Denver, Vanja faz a seguinte reflexão:
 
Existe algo de intermediário nos desertos. Muitos viajantes disseram isso. É como se eles não fossem destinações, mas caminhos apenas. Grandes paisagens inóspitas onde você não se demora, que você apenas percorre entre um e outro ponto mais afável do mapa (LISBOA, 2010, p. 147).
 
Mongin (1991, apud CHIARELLI, 2016) reitera a importância da conquista do deserto para conferir “um pouco de substância e de vigor ao vazio de dentro”. A conquista desse espaço parece corresponder ao preenchimento de suas lacunas, ao ato de dar uma forma ao caos interno de um indivíduo em constante redefinição de si próprio e de suas percepções em relação ao mundo e aos lugares, como é o caso do indivíduo contemporâneo, mais especificamente, do viajante. Tais características se agudizam ainda no caso de Vanja que, vale lembrar, empreende uma viagem de busca.
Essa conquista do deserto de que fala Mongin somente se torna possível, ainda que parcialmente, para a narradora de Azul-corvo a partir das relações afetivas que ali se delineiam. A superação do vazio afetivo encarado pelos sujeitos em trânsito aparece, portanto, como um possível caminho para uma reterritorialização, fenômeno a partir do qual os (não) lugares, que se revelam os espaços de migração, possam abandonar, pelo menos em parte, sua categoria inóspita, se configurando como um lugar acolhedor e seguro, ainda que eternamente plural e em constante (re)construção.
Quando Vanja consegue travar relações afetivas, sua relação com o espaço também se modifica. Assim, aquela paisagem caótica de Lakewood, se transforma em um “lugar antropológico”, definido por Merleau Ponty “como um espaço ‘existencial’ como lugar específico de uma experiência de relação com o mundo de um ser essencialmente situado ‘em relação com o meio’” (AUGÉ, 2012, p. 75).
Para Michel de Certeau, o lugar é um espaço praticado. O ato de praticar esse espaço consiste em “repetir a experiência jubilosa e silenciosa da infância: é, no lugar, ser outro e passar ao outro” (1990, apud AUGÉ, 2010 p. 78). Assim, o espaço até então tão vazio de práticas próprias e tão lotado de outras práticas, se torna um lugar na medida em que Vanja consegue enxergar o outro em contrapartida a si mesma, ainda que numa relação dialógica de permanente reescritura de sua identidade e da alteridade.
Vanja encontra o caminho da reterritorialização através dos laços afetivos que forma com Carlos, o menino com quem constrói uma relação de irmão que nunca teve e, principalmente, com Fernando, o pai que (não) esperava encontrar.
É assim que nossa narradora vai, aos poucos, preenchendo seus vazios, (re)formando sua identidade:
 
Era o tempo de eu me remodelar, quem sabe eu também tinha (devia ter) aquele interior mole e albino de inseto entre um e outro esqueletos externos. Era preciso pegar aquela gosma e, depois de ter conseguido protegê-la da fulminante piedade alheia, moldá-la agora em algum formato com o qual eu me reidentificasse (LISBOA, 2010, p. 78).
 
A apropriação do espaço do Outro, no entanto, nunca se dá de forma completa. Como assinala Simmel, o estrangeiro irá aparecer como alguém de natureza essencialmente móvel que, embora se revele enquanto sujeito por meio de contatos específicos, não chega a se vincular organicamente a nada e a ninguém (SIMMEL, 2005, p. 267).
Ao longo da narrativa, Vanja se mostra uma mistura de brasileira e norte-americana. É americana na certidão de nascimento e quando consegue, sem maiores tropeços, aderir ao cotidiano daquele lugar:  ir à escola, contar aos colegas sua história e ser cool; mas é brasileira demais para pronunciar os fonemas do inglês com a perfeição suficiente de modo a não denunciar o seu estrangeirismo, é brasileira demais para comemorar o dia de ação de graças ou para encarar com naturalidade a enxurrada de abóboras vendidas juntamente com instrumentos para esculpi-las no mês de outubro.
Dessa forma, constatamos que fica reservado à Vanja o lugar entre dos estrangeiros: entre culturas, entre fronteiras, “entre parênteses”, como aponta ela. Habitar esse lugar significa estar em um constante e permanente processo de negociação com todos esses elementos que flutuam em torno do sujeito migrante, de modo que este se encontra com uma perna fincada em cada um dos lados, configurando o que Stuart Hall chama de nova diáspora pós-colonial.
Podemos afirmar que na época pós-colonial, como Hall define o tempo em que vivemos, não há mais um centro difusor de cultura e identidades, como ocorreu durantes os séculos de colonização. Graças à globalização, vemos surgir uma nova ideia de identidade nacional. Uma ideia não soberana, na qual os países colonizados encontram espaços para negociar suas culturas de origem com a cultura absorvida por seus colonizadores, num processo dialógico de transculturação, em que consiste a experiência Diaspórica dos estrangeiros de que fala Hall:
(…) é importante ver essa perspectiva diaspórica de cultura como uma subversão dos modelos culturais tradicionais orientados para a nação. Como outros processos globalizantes, a globalização cultural é desterritorializante em seus efeitos. Suas compressões espaço-temporais, impulsionadas pelas novas tecnologias, afrouxam os laços entre a cultura e o ‘lugar’ (HALL, 2008, p. 36, grifo nosso).
 
Trazendo a experiência diaspórica das culturas colonizadas para o âmbito subjetivo, é correto afirmar que o estrangeiro se vê obrigado a negociar sua identidade cultural e suas referências identitárias próprias com aquelas encontradas nesse novo espaço, desestabilizando, no plano concreto, a ideia de nação e, no plano subjetivo, sua identidade e seu pertencimento. O sujeito migrante opera, portanto, o que Hall chama de “tradução cultural”, dissolvendo as fronteiras físicas e culturais e apontando para uma interpenetração desses elementos a nível global.
 Ao relatar o primeiro momento de sua experiência de migração, percebemos o apagamento das referências de seu lugar de origem: “Um fenômeno curioso acontece quando você passa muito tempo longe de casa. A ideia do que seja essa casa – uma cidade, um país – vai desbotando como uma imagem colorida exposta diariamente ao sol. Mas você não adquire logo outra imagem para pôr no lugar” (LISBOA, 2010, p. 70).
Diante do desajuste em relação àquele novo ambiente e àquelas novas pessoas, com os quais não é capaz de se reconhecer, a narradora deixa transparecer um desesperado desejo de pertencer: “Tente: aja como, vista-se como, fale como as pessoas ao seu redor. Use as gírias, frequente os lugares mais frequentados, se esforce para compreender os espaços políticos[…] Faça tudo isso, aja como” (LISBOA, 2010, p. 70).
Nesse processo de tradução cultural, o que vemos ocorrer é antes uma coexistência dos referenciais culturais e identitários que uma mera substituição desses, resultando numa paradoxal manifestação do sentimento de pertencimento: o sujeito em trânsito não irá mais se identificar completamente com o seu lugar de origem, nem conseguirá pertencer plenamente ao novo espaço, que, sempre se apresentará como estranho para ele em alguma medida:
 
Depois que você passa tempo demais longe de casa, vira uma interseção entre dois conjuntos, como naqueles desenhos que fazemos na escola. Pertence aos dois, mas não pertence exatamente a nenhum deles. Você passa a ter uma memória sempre velha, sempre ultrapassada de casa (LISBOA, 2010, p.72).
Podemos concluir, que Vanja, tal qual o estrangeiro de que fala Simmel e o sujeito traduzido de Hall, procura equilibrar-se na corda bamba da identidade/alteridade, se revelando como um sujeito híbrido, impuro, e plural; experienciando um paradoxal sentimento de (não)pertencimento ao lugar para onde migra, que não é bem um lugar, antes uma interseção na qual “duas coisas inteiramente distintas dão a impressão de se encontrar” (LISBOA, 2010, p. 72), sem, contudo, encontrar-se de fato.
Essa promessa de não realização do encontro pleno, no entanto, não impede que Vanja dê continuidade à sua vida plural, de subjetividade híbrida, e faça daquele espaço uma espécie de lugar na qual consegue, em certa medida, encontrar o que precisava: “Depois, descobri que a vida fora de casa é uma vida possível. Uma, dentre muitas vidas possíveis” (LISBOA, 2010, p. 72).
 
CONCLUSÃO
Waldenfels, em Topographie de l’étranger (1997), aponta o lugar como uma característica indispensável ao sujeito, que só manifesta a sua subjetividade a partir de um ponto de referência através do qual possa diferenciar-se do Outro, que para ele, apresenta-se como um estranho.
Tal lógica da alteridade baseada na diferença permanece válida nos dias atuais, porém, como já sabemos, a ideia de lugar é outra. Se o lugar onde se insere o sujeito determina quem é o estranho, na medida em que superamos a centralidade – da ideia de nação, de sujeito e de cultura das quais fala Stuart Hall em Identidade cultural na pós-modernidade – todos passam a ser estranhos e, ao mesmo tempo, evidenciam um potencial de não mais o serem em sua totalidade. Vemos, desse modo, relativizarem-se as referências sobre as quais se fundaram, desde o início da história humana, o Eu e o Outro.
O fenômeno da migração nos permitiu olhar com mais cuidado para a questão do estrangeiro como estranho, tradicionalmente considerado ameaçador por viver sobre outras normas que não a do Eu, por dele destoar. No entanto, ao compreendermos que a unidade desse Eu é uma ilusão, percebemos que, como afirmou Freud, somos estranhos a nós mesmos; ao constatar que a subjetividade só se forma em contato dialético com o Outro, passamos a enxergar esse Outro não mais como um estranho que nos coloca em perigo, mas como uma fonte de descobertas construtiva, com um valor positivo.
Adriana Lisboa constrói, conforme observamos, uma personagem que sintetiza em sua narrativa de trânsito essa experiência de redescoberta do Outro e de sua própria subjetividade a partir da vivência de uma migração. Para além da história pessoal dessa personagem, Lisboa nos conduz à uma reflexão a respeito do importante papel que a nova diáspora protagonizada pelos sujeitos migrantes do século XXI tem no enfraquecimento dos centros difusores de poder e cultura, bem como na desconstrução da ideia de nação.
Pudemos constatar também que o resultado desses processos, em instância subjetiva, reforça o descentramento do sujeito contemporâneo, que se apresenta cada vez mais plural, multifacetado e híbrido, sempre flutuando entre duas (ou mais) fronteiras, línguas, culturas e hábitos. Vanja é a encarnação desse sujeito do entrelugar, no qual fundem-se de forma paradoxal a sensação de nunca pertencer totalmente a lugar algum: não mais ao de origem e nem ainda ao de destino.
Entre deslocamentos espaciais e identitário-afetivos, há sempre um sujeito, em maior ou menor grau, desajustado. A pesonagem Vanja representa magistralmente a experiência desses sujeitos migrantes de nosso século que, mais do que nunca, evidenciam uma condição existencial transfronteiriça e uma identidade híbrida.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CHIARELLI, Stefania. Forasteiras – Adriana Lisboa e Paloma Vidal, percursos itinerantes na ficção contemporânea. No prelo, EDUFF, 2016.
 
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Hall, Stuart. Da diáspora: identidade e mediações culturais. 2ª reimpr. rev. Trad. Adelaine Garcia Resende et al. Belo Horizonte: EdUFMG, 2008.
 
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LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
 
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http://www.cchla.ufpb.br/rbse/RBSEv4n12dez2005.pdf. Acesso em 24/08/2015.





Bio fornecida pelo palestrante.

O VAMPIRO DE CURITIBA ENTRA EM CENA: A DRAMATURGIA NO TEXTO DE DALTON TREVISAN – José Luiz Matias




O VAMPIRO DE CURITIBA ENTRA EM CENA: A DRAMATURGIA NO TEXTO DE DALTON TREVISAN

José Luiz Matias

Universidade Federal Fluminense (UFF)

 
Resumo: Com acentuado tônus dramático, a obra de Dalton Trevisan tem sido alvo constante do interesse de encenadores, que se apropriam dos seus textos com a finalidade de desenvolverem transcriações mediadas por representação teatral. Os exemplos mais expressivos nos quais ocorrem esta performance são as montagens de Mistérios de Curitiba e de Ademar Guerra; No ventre do Minotauro e Pico na veia, de Marcelo Marchioro. Tais realizações ampliam o universo midiático (MÜLLER, Adalberto, 2012, p. 169) do texto trevisaniano, abrindo-lhe novas perspectivas de fruição estética.
 
Palavras-chaves: dramaturgia; Dalton Trevisan; representação teatral.
 
Abstract: Dalton Trevisan’s work has an intensive dramatic tone, and has received a well-deserved interest on the part of theater directors who adapt his stories into dramas. The most important examples are the plays Mistérios de Curitiba, by Ademar Guerra, and No ventre do Minotauro and Pico na veia, by Marcelo Marchioro. These plays expand the media aspects (MÜLLER, Adalberto, 2012, p. 169) present in Trevisan’s work while they open new perspectives for an aesthetic enjoyment.
Keywords: drama; Dalton Trevisan; theatrical performance.
 
Minicurrículo: José Luiz Matias é Doutor em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde defendeu a tese Interconexões da literatura e do cinema em Dalton Trevisan e Joaquim Pedro de Andrade. É professor contratado para ministrar cursos de Pós-Graduação na Associação Educacional Dom Bosco (AEDB), em Resende-RJ.

O VAMPIRO DE CURITIBA ENTRA EM CENA:                  
 
A DRAMATURGIA NO TEXTO DE DALTON TREVISAN
 
José Luiz Matias
 
Universidade Federal Fluminense (UFF)
 
No proscênio: os mistérios de Curitiba
No abrangente artigo Visões de Curitiba em cena, Marta Morais da Costa oferece um amplo panorama das encenações que têm a cidade como tema, mostrando a diversidade de perspectivas com que tem sido levada à cena teatral, indo desde o ufanismo amoroso à mais severa crítica do seu modus vivendi (COSTA, 1998, p. 37). Nos contos reunidos na coletânea Mistérios de Curitiba, de Dalton Trevisan, e em outros de semelhante teor, os encenadores encontram o apelo dramático permeado pela visão crítica do autor.
É com amargura e negatividade que Dalton Trevisan desliza do horizonte limitado pelas adjacências de onde mora e extrapola seu voo literário para um radical estranhamento do provincianismo de Curitiba, materializando-a bem distante da fama de Cidade Humana pela qual é conhecida. A própria figura do autor, solitária e enigmática, lhe rende o epíteto de Vampiro de Curitiba.  A cartografia da cidade não se restringe a funcionar como pano de fundo para o enunciado dos contos, mas dele participa em tensão visceral com o autor e sua escrita. Daí a iniciativa desta abordagem em selecionar três textos mediante os quais os encenadores criam suas representações no palco, formando um painel memorável sobre a cidade. Inicialmente se estendem os versos irônicos de Curitiba revisitada, para depois destroçar a cidade, lançando-a num caos amaldiçoado com as Lamentações de Curitiba e, por fim, a leitura nostálgica com Em busca da Curitiba perdida.
Os versos de Curitiba revisitada representam uma crônica em que o narrador desmitifica a imagem criada em torno da cidade civilizada, amplamente gabada por candidatos a prefeitos e por marqueteiros durante a propaganda eleitoreira, tal como ocorre nas seguintes estrofes:
 
Curitiba alegre do povo feliz
esta é a cidade irreal da propaganda
ninguém não viu não sabe onde fica
falso produto de marketing político
ópera bufa de nuvem fraude arame
cidade alegríssima de mentirinha
povo felicíssimo sem rosto sem direito sem pão
 
dessa Curitiba não me ufano
não Curitiba não é uma festa
os dias da ira nas ruas vêm aí
TREVISAN, Dalton, 2007, p. 143; grifos do autor
 
O desmascaramento da Curitiba ideal mostra seu avesso, como se fosse um produto falso a ser impingido a crédulos admiradores (Curitiba alegre do povo feliz), cujos grifos demonstram ironicamente o discurso oficializado que não se coaduna com a visão flagrada pelo narrador. Os versos, dispostos sem nenhuma pontuação, derramam frases aos borbotões, sem suportar qualquer contestação. O narrador rebate o clima de otimismo pelo esboço de um retrato sem retoques do povo “sem rosto sem direito sem pão” e, por isso, sem razão alguma para possuir a felicidade a ele atribuída – ou talvez empurrada abaixo por sua goela, pois na verdade não há nada a festejar, uma vez que “Curitiba foi, não é mais” (TREVISAN, 2007, 143, 149). Nota-se, no verso final da segunda estrofe (“os dias da ira nas ruas vêm aí”), uma preparação para o próximo episódio na composição deste painel, como num filme seriado.
Em Lamentações de Curitiba o clima é apocalíptico, com a chegada do Senhor para derramar sobre a cidade o juízo final, mediante um cataclismo que varre toda a população, lhe infligindo um sofrimento dantesco, pois
No dia de suas aflições, os vivos serão levados pela mão dos mortos para a morte horrível. Da cidade não ficará um garfo, aqui uma panela, ali uma xícara quebrada, ninguém informará onde era o túmulo de Maria Bueno. (…)
O que fugir do fogo não escapará da água, o que escapar da peste não fugirá da espada, mas o que escapar do fogo, da peste e da espada, esse não fugirá de si mesmo e terá morte pior (TREVISAN, 1974, p. 70).
 
   A alegoria do Deus vingador mesclado com São Miguel Arcanjo, empunhando a espada justiceira com que extirpará os pecados curitibanos, aproxima o enunciado da dicção messiânica dos beatos do sertão brasileiro, à maneira de Glauber Rocha em Deus e o diabo na terra do Sol. Por evocar uma crença das mais temidas da cristandade – o juízo final –, quando o fiel será chamado a prestar contas à divindade de seus feitos terrenos, o narrador se esmera em esboçar um cenário de ruínas com o horripilante destino dos curitibanos. “Este é o povo que morreu de espada: cento e noventa e sete mil almas e mais uma; todas as almas perdidas numa hora e sem um só habitante” (TREVISAN, 1974, p. 70).
    Nesta instância, a catarse do narrador não se perfaz apenas nestas cenas de horror explícito, mas também veicula uma chave humorística, quando visualiza que “os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados como roupa secando no arame” e, logo adiante, “de assombro as damas alegres da Dinorá atearão fogo ao vestido gritando nas janelas o fim dos tempos” (idem). Note-se que os enforcados terão sua performance justamente na praça intitulada Tiradentes, num viés metonímico para transformar o vulto histórico em patrono dos enforcados, os quais, por sua vez, estarão “como roupa secando no arame”, panorama até certo ponto idílico na rotina de uma cidade, mas totalmente inusitado na cena aterrorizante. Já as prostitutas atingem a sacralidade ao atear fogo às vestes, como fazem os monges tibetanos em protesto. O amálgama do sagrado com o profano revela um paradoxo que remete as prostitutas à santidade.
   Para arrematar, o golpe final: “A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais” (TREVISAN, 1974, p. 72). Portanto, o juízo final na concepção trevisaniana provém de uma atuação cirúrgica da divindade, pois o narrador tranquiliza os municípios vizinhos – São José dos Pinhais e Colombo. Haveria de ser hecatombe circunscrita a Curitiba, como a reedição da maldição bíblica lançada com chuva de enxofre e fogo apenas sobre Sodoma e Gomorra, não atingindo outras cidades da região.
    Mas nem tudo se resume à terra arrasada da combalida Curitiba, tão castigada pelo oráculo de sua desgraça planetária. O idealizado fascínio da cidade surge no conto hibridizado em crônica Em busca da Curitiba perdida. Por meio dele o narrador se propõe a viajar por ela, redescobrindo seus arrabaldes. Mostra-se agora seduzido pela possibilidade de vê-la de maneira intimista e afetuosa, na tentativa de desvendar seus mistérios. Para isso, despe-se de qualquer animosidade e se posta num ângulo nostálgico, porém procura visualizá-la no seu perfil mais autêntico, apartado de um anverso plasmado pelo artificialismo do discurso oficial e ufanista.
    Para Sueli de Jesus Monteiro, na concepção deste conto Curitiba ficaria dividida em duas: a convencional e a marginal. “Dalton Trevisan declararia viajar a primeira e ser viajado pela segunda. Estrangeiro o autor em sua terra, os textos lamentariam uma cidade que se perdeu nas malhas do discurso oficial” (MONTEIRO, Sueli, 2012, p. 106). Como antes, não lhe interessa o olhar embotado pela hipocrisia do pitoresco, pois intenciona se deparar com a “Curitiba que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja” (TREVISAN, Dalton, 1974, p. 139).
   A Curitiba provinciana, mas ao mesmo tempo fagueira, é desejada pelo narrador e será por ela que seguirá viagem. A Curitiba do bom-mocismo é renegada, pois o narrador não encontra em seu modus vivendi a suficiente motivação para caracterizá-la: “Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a do Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo” (TREVISAN, Dalton, 1974, p. 140-141). Esta é a cidade dos parnasianos radicais, do ufanismo patriótico e do beletrismo inócuo; daí não lhe interessa percorrê-la. Valendo-se da inspiração transmutada em viagem é que Dalton Trevisan vai encontrar a “Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar – esta Curitiba e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo” (TREVISAN, Dalton, 1974, p. 141). A nostalgia desta descrição, mediante sua paisagem e habitantes pitorescos, convive com a execração de suas instituições falso-moralistas, num manifesto sentimento contraditório de amor e repulsa.
    Foi com base em textos como os mencionados que Ademar Guerra (1933-1993) vinha encenando a peça Os mistérios de Curitiba.  O encenador reconheceu a densidade dramática do texto trevisaniano, coletou aqueles que mais se alinhavam à mensagem e os deixou fluir livremente pela interpretação visceral de seus atores. A crítica teatral dá conta de que o ator, ao interpretar o personagem Nelsinho, se desnudou completamente diante do público enquanto recitava sua fala (PELLANDA, 2014). A impactante presença do corpo desnudo no palco passa pela constatação de que “o corpo no discurso ficcional é uma construção simbólica. Por isso mesmo, cada vez mais tem sido um observatório privilegiado dos imaginários” (NUNES, 2011, p. 31). Esta Curitiba que se quer representada precisa ser um “caleidoscópio movente” (NUNES, 2011, p. 29) que se apresente com todas as facetas, sem pudor ou acanhamento, e não apenas exiba aquelas faces calcadas na imagística artificiosa da propaganda oficial.
 
Percorrendo o labirinto no ventre do Minotauro
Esta peça foi primeiramente montada por Marcelo Marchioro, em 2001, empreendendo uma tradução cênica, cujo ponto de partida foi o conto Orgias do Minotauro, no qual o protagonista é o advogado enfeitiçado pela cliente – uma “macieira iluminada em flor suspirosa de abelha” (TREVISAN, 2007, p. 96). O Minotauro do conto é uma paródia do mito grego, perdido no seu labirinto de paixões, que tenta com muita lábia conseguir os favores sexuais da cliente, pois “toda família curitibana tradicional […] tem um louquinho preso no porão (…). Ó maldito Minotauro uivando e babando no próprio labirinto” (TREVISAN, 2007, p. 103). Se o Minotauro da lenda exigia sete virgens e sete rapazes para se alimentar com sua carne, o do conto trevisaniano precisa apenas de uma jovem para aplacar seu desejo, por meio de troca de carícias e outras eventuais possibilidades.
Repetindo o tema constante nos contos trevisanianos, o narrador daqui se confunde com o personagem e, por meio de um diálogo que vai minando pouco a pouco a resistência da interlocutora, o Minotauro avança no labirinto do seu corpo: desde a mão até outras partes mais íntimas. A desvairada comparação de partes da anatomia feminina com o ato de comer e beber reforça o erotismo antropofágico da cena:
Me achego e beijo a face – sem pintura, que maravilha. Fagueira penugem de nêspera madurinha.
– De uma [mulher], o seio raso da taça de champanha. De outra, bojudo copo de conhaque para aquecer a palma da mão.  
Uma empadinha recheada de camarão e premiada com azeitona preta.
Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas (TREVISAN, Dalton, 2007, p. 95; 97; 98; 99; 100 – grifos nossos).
 
Essa metaforização fescenina evidencia a intenção do narrador-personagem. Nesta conotação hibridizada Marcelo Marchioro se inspirou para selecionar 40 contos de Dalton Trevisan, dos quais retirou pequenos textos ou segmentos, e os organizou na versão teatralizada de No ventre do Minotauro, em forma de esquetes, representados com a destacada participação de Mário Schoemberger. Este ator foi fundamental para o sucesso do espetáculo durante cerca de um ano e meio nos teatros paranaenses, pois soube mais que ninguém captar o verdadeiro sentido a ser transmitido ao público durante a temporada: “Os contos se situam sempre no registro entre Eros e Tânatos. Essa dualidade aparece o tempo todo em seus contos” (SCHOEMBERGER, apud Estadão Digital, 2014).
Segundo a crítica, “a cenografia da peça (criação do grupo Usina das Artes) é simples e evocativa: cabideiros feitos de pinho estão espalhados na cena, numa referência também à imagem dos numerosos pinheiros que revestem a paisagem da região Sul do País” (Estadão Digital, 2014). A observação procede, pois a metáfora dos pinheiros remete à percepção de que os dramas se desenrolam na capital paranaense, entre os personagens são caracterizados tal como estão no texto trevisaniano. Neste caso, Marchioro produziu a sequência de diálogos para lhe imprimir a dramaticidade pretendida, num alcance muito maior que a evidenciada Curitiba, pois, à medida que procuram enfatizar o grotesco das situações, passam a ocupar “um entrelugar categorial, reconhecido por propriedades não consistentes, voltadas para a sugestão de um ser, cujas características encontram-se além do alcance da linguagem, ou seja, numa esfera afim à da representação e à da visão de mundo melodramáticas” (DIAS, 2013, p. 22-23 – grifo da autora).
Nos cabideiros é posta uma variedade de chapéus com os quais o ator compõe o figurino de cada personagem a ser representado, portanto, com um cunho universal. As sucessivas transformações são feitas diante do público, requerendo muita versatilidade do ator, em virtude da gesticulação e a entonação das falas, que têm de ser reatualizadas a cada mudança de papel. Assim, No ventre do Minotauro se aproxima da estética do melodrama mesclado à farsa, à medida que o monólogo desfiado por Schoemberger descamba para o exagero cuja intencionalidade sublinha o desempenho destacado do ator (BENTLEY, 1967, p. 188).
 
E para finalizar: um pico na veia
Conforme se constata até aqui, é inesgotável o potencial de teatralização do texto de Dalton Trevisan. Embora Roland Barthes considere que a teatralidade seja “o teatro menos o texto”, que submerge diante da exterioridade dos “corpos, dos objetos, das situações”, o crítico não deixa de reconhecer ser qualidade presente “desde o primeiro germe escrito de uma obra, pois ela é um dado de criação” (BARTHES, 2009, p. 58).
    De fato, a estética de Dalton Trevisan se funda no exagero melodramático, indo às raias da transgressão do politicamente correto, com a intenção de fazer emergir os conflitos que se querem recônditos entre as copas do cinismo da sociedade. O autor permite seja desvendada em sua escritura as diversas nuances que a credenciam como congênere do modo melodramático, como os textos selecionados no livro Pico na veia, justamente por apresentar uma coletânea de micronarrativas cuja propensão cênica se assemelha a esquetes de representação teatral. São minicontos e haikais, numerados de 1 a 205 com uma economia bem definida desde o texto nº 3: “Um bom conto é pico certeiro na veia” (TREVISAN, 2008, p. 9), frase-síntese que poderia ser apropriada como epígrafe de toda sua obra.
Já no texto nº 204 são mencionadas apenas duas frases: “Lição de estilo: o último bilhete do suicida. Lição de vida: um pedaço de papel em branco – o último bilhete” (TREVISAN, 2008, p. 238). O último bilhete do suicida é a alegoria da idealização característica do autor, conhecido pela disposição obsessiva em estar sempre reescrevendo seus textos em busca da melhor expressão. Revela, na iminência da morte, o desejo de capturar o definitivo, a última palavra, sem abrir mais qualquer oportunidade à contestação. O esgar do escritor suicida intui o simulacro da pseudoverdade definitiva que, entretanto, acaba contrariada pela própria finitude acarretada pela morte, pois o sonho com a morte elimina qualquer compromisso com o real, pois ele está prestes a apagar a existência.
    Daí, a última encenação, antes de cair o pano, faz com que o escritor suicida esteja à beira do abismo e se jogue no precipício, mas logo retornará como um Sísifo redivivo, fadado a reiniciar a trama em cada texto a ser (re)produzido. Assim, a reprodutibilidade de seu texto se tornará bastante previsível com o déjà vu ficcionalizado das peças populares, nas quais as tramas se resumem aos conflitos conjugais, à angústia amorosa dos namorados, ao crime anônimo das ruas, coonestando o próprio cotidiano atribulado do leitor.
    Ao encenar Pico na veia (2005), Marcelo Marchioro se propõe a exibir manifestamente o teor dramático dos textos trevisanianos, com sua consistência compacta, resumida, enxuta, porém impressa com cores indeléveis no receptor, trazendo as marcas de uma representação que questionam a indecibilidade das relações humanas no seio da sociedade.  Para isso, o encenador atribui a seus atores o papel de narradores-protagonistas de suas histórias e, ao mesmo tempo, a função de espectadores. Embora o título do espetáculo se identifique com o mesmo de um dos livros mais pungentes de Dalton Trevisan, Marchioro se valeu de outros textos do autor, proporcionando uma performance convincente de seu elenco: “São os atores que dão corpo e voz às micronarrativas de Trevisan, formando a ponte e o texto e o olhar através do jogo, tornando visível o universo verbal do contista, transposto para uma nova experiência estética coletiva” (CAMATI, Anna, 2006, p. 61, 63).
    Para alcançar tal resultado, Marchioro se apropria de textos viscerais como o nº 2, no qual se desenvolve o monólogo de uma jovem usuária de crack. No relato, ela atua como doublée de personagem e narradora, revelando que perambula pelas ruas da cidade para assediar as demais pessoas, a fim de exigir uns trocados ou lhes aplicar golpes, cujo produto é todo destinado aos alucinógenos: “Isso não é roubo, é viração” (TREVISAN, 2008, p. 6). A personagem naturaliza sua condição de genuína credora da ajuda alheia, construindo uma lógica sui generis, pois para ela pedir seria uma humilhação e roubar é uma justa apropriação de algo que lhe é negado, mas que também lhe pertence.
    Esta personagem representa um indivíduo cuja anomia alcança o universo de usuários de droga entregues à própria sorte, desintegrados num processo de abjeção que é o espaço da dessemelhança e da não-identidade (VILLAÇA, 2008, p. 181). Assim, no discurso fragmentado da jovem não há elementos que possam estabelecer sua identidade, senão os qualificativos autoproclamados de “doidona”, “zoada”, “chapada”, “viciada”, “adoidada”, “louca” e “pirada”. A breve história de sua vida também exterioriza, com cores sinistras, um percurso macabro: “Comecei com cigarro, benzina, maconha, cola, éter. Depois pedra. Se dá, pico na veia. Foi por safadeza mesmo e pra vingar do puto do pai. Só queria fazer sacanagem. A pedra não é o mal. O mal é as pessoas mesmo” (TREVISAN, 2008, p. 7). Como se deduz, trata-se de texto cuja concepção já traz embutida uma intensa carga melodramática, por isso o elenco precisa contribuir com a dosagem certa na interpretação, a fim de não cair na armadilha da pieguice. Aquilo que consegue arrecadar canhestramente nas ruas a personagem canaliza para a droga que, pouco a pouco, corrói sua existência, enquanto tem os momentos da agonizante clarividência dos moribundos: “Entrei nessa de babaca. Se quisesse, tava numa boa (…). Fui eu que ferrei com minha vida. Acho que a pedra me comeu a cabeça” (TREVISAN, 2008, p. 8).
O monólogo perfaz uma retórica patética em que sentimentos contraditórios emergem à flor da pele, levando à plateia as sensações plasticamente concretizadas (BROOKS, 1995, p. 41) mediante a exteriorização pungente de tudo que tem a revelar, numa intensa “compulsão confessional” identificada como característica fulcral dos personagens rodrigueanos (DIAS, 2013, p. 25). Mais que a autoexpiação da culpa, o monólogo revela o conflito psíquico provocado pela configuração do reprimido mediante o sacrifício do próprio corpo da personagem (BROOKS, 1995, p. XI). A personagem jaz ancorada à indecidibilidade, e soterrada no conflito entre viver ou se submeter à degradação física e moral. Pontifica neste monólogo a revelação da jovem que se autoimola no incerto mundo da euforia transitória, enredada numa trama em que cada dia é uma aventura autofágica.
Ao direcionar o foco da narrativa para a jovem usuária que recita seu monólogo em meio ao palco da vida, fica impresso na cena o denominado “caráter sinestésico” de sua visualidade, provocando o desconforto do mal-estar acarretado pelo convívio com a miséria do mundo, tornando-se conivente dela, embora este sentimento não chegue a sensibilizar muitos que ainda permanecem atrás do confortável escudo da indiferença, ao preferir não ouvir, nem ver, nem falar sobre este dilema (CAMATI, 2006, p. 71).
 
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WALDMAN, Berta. Ensaio: no ventre do Minotauro, Cândido, Curitiba, nº 11, jun. 2012. Disponível em:
<http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/ conteudo.php? conteudo=80>. Acesso em: 13 jul. 2012.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O CORPO/TEXTO TATUADO NO LIVRO DE PRAGA, DE SÉRGIO SANT’ANNA – Sara Cristina Pagotto




O CORPO/TEXTO TATUADO NO LIVRO DE PRAGA, DE SÉRGIO SANT’ANNA
Sara Cristina Pagotto
Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
 
RESUMO: Apresenta-se, neste artigo, uma abordagem crítico literária de um capítulo que se intitula “O texto tatuado” na obra O livro de Praga, de Sérgio Sant’anna.  O estudo se concentra no conceito da transgressão da linguagem, precisamente na questão erótica. Através de um belo corpo apresentar-se-á um texto tatuado, cuja autoria é do poeta e escritor Franz Kafka. Deste modo conduziremos esta análise por meio do belíssimo “Prefácio à Transgressão”, teorizado por Foucault, como também o erotismo abordado por Georges Bataille.
 
PALAVRAS-CHAVE: Corpo, Tatuagem, transgressão, linguagem
 
ABSTRACT: The article The tattooed body and The Book of Praga, by Sérgio Sant’Anna, presents a literary-critical approach of a chapter called “The Tattooed Text” in this novel by Sérgio Sant’Anna. The article focuses on the concept of transgression of language, in which,  through a beautiful erotic body it is presented a tattooed text whose author is the poet and writer Franz Kafka. We will base this analysis on the beautiful “Preface to Transgression”, theorized by Michel Foucault, as well as on the approach on eroticism by Georges Bataille.
 
KEYWORS: Body, tattoo, transgression, language
 
RESÚMEN: El cuerpo/texto tatuado en El libro de Praga, de Sérgio San’Anna, presenta un enfoque de la crítica literaria de un capítulo llamado “El texto Tatuado” en la novela El libro de Praga, de Sérgio Sant’Anna.  Este trabajo se centra en el concepto de transgresión del lenguaje, donde a través de un hermoso cuerpo erótico se enseñará  un texto tatuado, cuya autoría es el poeta y el escritor Franz Kafka. Llevamos a cabo este análisis por medio del belísimo “Prefacio a la transgresión”, teorizado por Foucault, así como del estudio del erotismo por Georges Bataille.
 
PALABRAS CLAVE: Cuerpo, tatuaje, transgresión, lenguaje.
 
CURRÍCULO DA AUTORA: Mestranda em Letras – Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Católica de Goiás. Especialista em Ensino de Língua Espanhola pela Faculdade Ávila. Licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás e atua como professora de língua portuguesa e língua espanhola na rede estadual de ensino de Goiás, Goiânia.

 
O CORPO/TEXTO TATUADO NO LIVRO DE PRAGA,
 
DE SÉRGIO SANT’ANNA
 
Sara Cristina Pagotto
Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)
 
 

  • O CORPO: TEXTO TATUADO

 
O presente estudo consiste em uma abordagem crítica literária de um capítulo da obra O livro de Praga de Sérgio Sant’anna, que se denomina “O texto tatuado”. Partiremos do conceito da transgressão, teorizado por Foucault, bem como de erotismo, abordado por Bataille.
Trataremos inicialmente sobre o termo transgressão enquanto elemento que move o processo criador na narrativa deste capítulo/conto na obra de Sérgio Sant’anna, O livro de Praga.
A transgressão é a marca para o ato narrativo quiçá criativo que vai quebrando e ultrapassando os limites para possíveis diálogos com a arte contemporânea, cheia de volúpia e dissoluta, arte essa é a literatura, movida de sutilezas eróticas e transgressivas que dialogam com o corpo, um corpo tatuado, metamorfoseado na narrativa em Praga.
Antes de adentrar na análise propriamente dita sobre o objeto de estudo, o capítulo “O texto tatuado”, relataremos sobre a obra em si no qual é uma reflexão sobre a arte, isto é, a arte interagindo com outras artes – interartes.
Esta obra evidencia e nos apresenta a arte em estreita relação com a experiência do amor e do sexo. E ao mencionar o sexo, nos deparamos com o corpo o qual é tratado de maneira inapelável, de forma transgressiva, acionando múltiplas possibilidades de gerar prazer e dor. O apelo ao corpo, nesta obra enfatiza a experiência artística no contexto dos novos meios de comunicação de massa com o intuito de sensibilizar os leitores para a compreensão da arte.
Na obra O livro de Praga cada capítulo enfatiza experiências com as várias modalidades artísticas: a música, a escultura, o teatro e a própria literatura, invoca-se o corpo para um verdadeiro confronto com o objeto artístico. Afirmamos que o elemento corpo transgride em todos os sentidos para ultrapassar os limites de compreensão da arte.
De acordo com Foucault,
“(…) a transgressão é um gesto relativo ao limite: é aí, na tênue espessura da linha, que se manifesta o fulgor de sua passagem, mas talvez também sua trajetória na totalidade, sua própria origem. (…) A transgressão leva o limite até o limite do seu ser: ela o conduz a tentar para a sua desaparição iminente, a se reencontrar naquilo que ela exclui, a sentir sua verdade positiva no movimento de sua perda. E, no entanto, nesse movimento de pura violência, em que direção a transgressão se desencadeia senão par o que a encadeia em direção ao limite e aquilo que nele se acha encerrado” (FOUCAULT, 1963, p. 32).
 
A transgressão está ligada pelo limite de forma espiral, ou seja, um movimento progressivo, construtivo e que transpõe. Logo, o corpo tatuado com um texto inédito de Kafka será um instrumento que conduzirá a compreensão da arte “tatuada” de forma a ultrapassar as barreiras do limite.
Neste capítulo é construída uma narrativa erótica e intensa. Antônio Fernandes é um escritor e apreciador de arte, que, estando em Praga chega até Jana, uma moça com o corpo tatuado por um texto inédito supostamente escrito por Kafka, por meio de seu irmão gêmeo Peter.
O personagem Peter “encontra” Antônio Fernandes em um bar chamado “A Dançarina”, neste local, dialogam a respeito do trabalho de Jana e a trajetória da história a respeito do texto de Kafka tatuado no corpo pelo professor e amante de Jana. O irmão gêmeo de Jana é uma espécie de dândi (ser passante, que conhece os pontos e lugares da vida urbana, bem como a cultura e as artes e nesse caso, na obra propriamente dita, Peter conhece a noite e seus movimentos) contemporâneo, que conduz Antônio até sua belíssima irmã, detentora do texto de conteúdo amoroso e erótico impresso em seu belo corpo. O texto havia sido tatuado em letras impressas fosforescentes.
O corpo expressa linguagem e na arte contemporânea, o artista é simultaneamente sujeito e objeto de sua obra, eis que o objeto de estudo “O texto tatuado”, suposto texto inédito de Kafka tatuado no belo corpo da atriz Jana, episódio este que contempla a linguagem por meio do corpo de modo a expressar e comunicar performaticamente a arte.
O corpo humano, desde muito, é tema privilegiado para as artes, no entanto, a partir da década de cinqüenta do século XX, deixa de ser uma simples representação para a arte e passa a ser expressão de si mesmo. Mais do que a representação de um ideal de beleza, as ações performáticas empreendidas por diversos artistas colocam em evidência o corpo que passa a ser explorado como suporte para experimentos de diferentes linguagens.
Ao estudar a obra de Sérgio Sant’anna observamos esse movimento inovador na estética do corpo que é apresentado pela personagem Jana, esta personifica a literatura em forma de texto, um texto escrito (tatuado) em seu corpo.
Interessante notar que sendo o corpo objeto de arte, o artista contemporâneo em ações performáticas propõe a diluição desse objeto artístico e, conseqüentemente cultural, na corporeidade biológica, empreendendo experimentações fomentadas por representações do pensamento simbólico que levantam questionamentos de um corpo híbrido, produtor de imagens invariantes da conduta humana como comportamento simbólico em confluência com suas possibilidades e limitações físicas.
A performance é uma linguagem artística enquanto o artista se serve do corpo para levantar questionamentos sobre fatos sociais bem como expressar-se artisticamente, no contexto de nossa análise, Jana, representa performaticamente e eroticamente o suposto inédito texto de Kafka.
 
 

  • LINGUAGEM ERÓTICA E TRANSGRESSORA

 
O cenário erotizado através de um corpo que apresenta o texto tatuado nos remete ao que nos explica Bataille sobre o erotismo “é a dança, propriamente humana, que se dá entre este dois pólos: o do interdito e o da transgressão”. Essa transgressão é o ápice do humano e o erotismo é a experiência interior: do segredo e da ruptura que está exposta e nua.
Ainda segundo Bataille, “o erotismo é, de forma geral, infração à regra dos interditos: é uma atividade humana. Mas, ainda que ele comece onde termina o animal, a animalidade não deixa de ser o seu fundamento”.
Durante a encenação há um diálogo erótico entre os dois personagens onde Jana inicia a encenação falando/recitando o texto de Kafka em francês, nesta cena até a voz é alterada com características ora masculinas ora femininas, ou seja, incorporando com muita propriedade o tema do texto em seu corpo, ou melhor, o corpo-texto.
Jana inicia a sua fala, na língua francesa, com uma voz próxima do masculino, sem dúvida uma voz que representava a de Kafka.
Observamos esse recurso na estética da obra de Sérgio Sant’anna onde um texto narrativo está tatuado no corpo desta jovem que teatraliza, ou melhor, contracena, sutilmente essas sensações e confidências eróticas do próprio Kafka à sua amante “como as notas de uma composição que gostaria de talhar em teu corpo, que está a me dizer”.
E logo, Jana muda a voz para um gracioso tom feminino: “Ah, nossos lábios e línguas que se misturam, num desses raros beijos de conhecimento que não devem se repetir continuadamente para não se tornarem um hábito vazio. Melhor, então, depois, explorar outras partes muito sensíveis do meu corpo”. Na sequência voz e expressão tornam-se sensuais:
“(…) tua língua áspera em meus seios, sentindo os seus grãos minúsculos, e repara que, à simples menção disso, os bicos destes seios, que também deves morder de leve, se tornaram durinhos… E há também os lábios de baixo, onde sinto palpitações, e deves trazer aqui a tua língua e teus próprios lábios no meu sexo úmido, e sentirás também outros grãos e um gosto único, e quem sabe  poderás decifrar neles, como na leitura dos cegos, a inscrição: labirinto do amor. Ou escolhe outras palavras, obscenidades, por que não?” (SANT’ANNA, 2011, p. 117).
 
Interessante notar como essa linguagem transgressora vai ultrapassando os limites e extasiando o seu receptor, o conduzindo ao prazer erótico da narração. Octavio Paz define muito bem a relação entre linguagem e erotismo:
“A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota idéias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora” (PAZ, 1994, p. 12).
 
Observamos que a abordagem desta linguagem erótica além de seduzir o receptor, Antônio Fernandes também o leva a querer praticar o ato descrito. “Seu poder de convencimento era tal que me ergui e já quase me ajoelhava para praticar o que estava marcado no texto, mas ela estendeu a mão para que eu me detivesse: Aqui é a linguagem que comanda tudo, só a linguagem”. Vemos aqui que o corpo representa o texto que vai comunicar eroticamente na voz ora feminina e ora masculina da personagem Jana.
Além do corpo-texto aqui analisado, pontuamos a posição do homem, que “sentado”, representa um estado passivo, mas que quer assumir a posição ativa (do ato sexual), ele se “levanta” para assumir a posição ativa de homem, mas o corpo-linguagem o impede.
Logo a seguir notamos que a narração do texto e a exibição de Jana para Antônio Fernandes mudam de posição, o corpo vai representar a linguagem erótica do texto posicionando-se de forma passiva: “(…) pois foi ela, Jana, quem se ajoelhou diante de mim, estando eu de pé”.
Bataille nos explica que,
“A passagem do estado normal ao de desejo erótico supõe em nós a dissolução relativa do ser constituído na ordem descontínua. Esse termo, dissolução, corresponde à expressão familiar vida dissoluta, ligada à atividade erótica. No movimento de dissolução dos seres, o parceiro masculino tem em princípio um papel ativo, a parte feminina é passiva. É essencialmente a parte passiva, feminina, que é dissolvida enquanto ser constituído” (BATAILLE, 1994, p. 41).
 
Embora a ação de ajoelhar-se seja passiva, a linguagem do corpo se torna ativa, representando assim eroticamente o texto tatuado.  Observamos explicitamente neste trecho do capítulo no qual a personagem Jana diz a Antônio Fernandes: Já que falarei como que com tua virilidade em minha boca, prefiro a língua alemã para o som deliciosamente obsceno de uma mulher falando com um pau em sua boca, para o êxtase dela e de seu homem”.
Logo, o personagem Antônio Fernandes usa a sua linguagem obscena em resposta à representação de Jana: “Assim você me mata de desejo de gozar dentro de sua garganta, viu, sua puta obscena?”, mas ao chamá-la dessa maneira “puta obscena”, comparando-a a uma puta, Jana retruca afirmando que o corpo não é a mercadoria e sim o texto tatuado. A puta vende o corpo, Jana está vendendo o texto que está tatuado no seu corpo.
Antônio Fernandes questiona e duvida da autoria do texto tatuado: “Kafka? Como saber? Kafka jamais desceu ao pornográfico. E fiquei em dúvida se você não inventava tudo na hora”.
Segundo Jana, o texto é um amor emergencial escrito por Kafka em um sanatório de tuberculosos para ser enviado a sua namorada, Julie. Jana ainda menciona que Kafka nunca o leu para os amigos no café Arcos nem mesmo o mostrou a Max Brod.
A seguir a personagem continua a recitar o texto de amor emergencial de Kafka:
“Atravessas o meu corpo que é igual a um corredor de castelo, ou de um museu, em que estão dependurados pedaços de sonhos, quadros vivos, com cenas em que sou o objeto de desejo e prazer, e também eu sinto o prazer e a delicia de ser penetrada nessa cópula da carne e das palavras. Um corredor ébrio em que se ouvirão gemidos e suspiros e se verão letrinhas talhadas que são como insetos ou vaga-lumes na escuridão vagando sobre mim, nua. E conheço segredos que retardam ao máximo o gozo de um homem, meu sexo que te envolve com a textura aveludada das flores úmidas e te ensinam os segredos das sacerdotisas desse templo do amor em que se ouve uma música quase silenciosa, e te deixas levar, teu corpo teu corpo e teu espírito, o concreto e o abstrato, e é isso, principalmente que tenho a te oferecer, e fodo com as palavras e sou fodida por elas” (SANT’ANNA, 2011, p. 119).
 
Atrevo-me a afirmar que nessa passagem, até as palavras servem como espécie de corpo de linguagem, são penetradas e penetram saciando assim o desejo dos amantes como também erotizando o corpo-texto de Jana o qual recepciona Antônio Fernandes.
A cena continua e Jana, dá dois passos para trás e senta-se em uma poltrona negra, as letras tatuadas continuam visíveis em seu corpo. Segue o texto de Kafka:
“E eis que tu entras em mim e sentes os meus seios como se fossem teus, e assim também o meu sexo, e te tornas um dos raros homens a conhecer em si o que é o prazer feminino sem limites, o que é ser mulher, tu desaparecendo em mim, estás sentindo? E sou capaz de pronunciar palavras que de hábito não poderia pronunciar, mas também as palavras cruas, mete em mim, Franz, o teu pau se perde em meu interior, essa febre dos tísicos que te toma, esse arrepio que te acaricia, o meu perfume único entre todos os perfumes, e nossos tremores como que agônicos, esse desfalecer, essa pequena morte” (SANT’ANNA, 2011, p. 119).
 
Para Bataille, o ser humano é um ser descontínuo. Nasce só. Morre só. O paradoxo é que se, por um lado, queremos sempre conservar essa descontinuidade (tememos a morte), por outro, sentimos falta da continuidade perdida ao nos percebermos como ‘indivíduos’ (desejamos a morte).
Considerando que o erotismo é sagrado e divino, porque possuem, em sua base, a violência e a intensidade do erótico, ambos participam do mesmo impulso, desta forma, essa “pequena morte” representa para o teórico Bataille o “orgasmo”, o “gozo”. O diálogo com a arte acontece, portanto, na liberdade que resulta da consciência, e mesmo da vivência, desse erotismo.
De volta à narrativa, notamos que possivelmente esse foi o último trecho do texto tatuado de Kafka encenado pela atriz Jana. Podemos observar que a personagem representa também esse “desfalecer” e a “pequena morte” da mesma maneira do texto representado em seu corpo. Segue parte da narração do conto que nos permite ilustrar a cena:
“(…) e de repente ela ficou em silêncio, ressonava suavemente abandonada na poltrona e perguntei-me se ela não teria mesmo tomado drogas no banheiro com Peter. O texto devia ter terminado ali, ou não, mas o certo era que ela se calara e dormia, e a luz do refletor fora desligada e procurei Peter com os olhos e só pude ver sua sombra no sofá e ele também parecia dormir de rosto virado para a parede” (SANT’ANNA, 2011, p.119-120).
 
A linguagem erotizada que observamos ao longo das citações do corpo-texto nos remete a Foucault, que afirma a sexualidade como experiência contemporânea. Essa sexualidade,
“(…) encontrou uma verdade natural, somente hoje nossa perspicácia positiva permite decifrar. Essa erotização, jamais teve um sentido mais natural e sem dúvida só tenha conhecido como “felicidade de expressão”, isto, no mundo cristão dos corpos decaídos e do pecado” (FOUCAULT, 1963, p. 28).
 
Ainda de acordo com Foucault, “a mística e espiritualidade provam que não podiam absolutamente dividir as formas contínuas do desejo, embriaguez, penetração, êxtase, extravasamento, porque faz desfalecer”.
Estes movimentos pareciam conduzir sem interrupção nem limite ao centro de um amor divino do qual eles eram o último extravasamento e a fonte, neste caso o princípio.
A sexualidade moderna, mencionada por Foucault, não foi ter encontrado de Sade a Freud, a linguagem da razão ou da sua natureza e sim a violência dos seus discursos.
A linguagem, na violência do discurso, é corrompida, ou melhor, como aplica Foucault “desnaturalizada”. Ela é “lançada a um espaço vazio, onde ela só encontra a forma tênue do limite”.
Não liberamos a sexualidade, mas a levamos, exatamente, no limite: limite de nossa consciência, já que ela dita finalmente a única leitura possível, para a nossa consciência, de nossa inconsciência: limite da lei, conteúdo universal do interdito, limite de nossa linguagem.
Nada é negativo nessa linguagem transgressiva, a transgressão afirma o ser limitado, levando-o a existência.
O olho de Bataille, em sua novela, “História do olho”, define o espaço de vinculação da linguagem e da morte, lá a linguagem descobre seu ser na transgressão dos seus limites.
 
 

  • A TATUAGEM NO CORPO-ARTE

 
A arte tatuada neste corpo é um suposto texto de Kafka. Como sabemos a tatuagem sempre existiu na cultura humana. Antes, de forma ritualística em alguns povos e tribos, para diferenciar castas sociais ou o poder hierárquico. Hoje, em nossos tempos modernos, como uma atitude. Para alguns, como moda; para outros, como um estilo de vida. A questão é que, independente das razões ou motivos, ter no corpo impressos – por meio da tatuagem – desenhos, signos e até textos nos leva a ver o corpo como um livro que conta uma experiência, um modo de ser, de ver e sentir o mundo.
Neste capítulo da obra de Sérgio Sant’anna, o elemento corpo transgride as perspectivas vigentes normativas, pois o corpo da personagem é inteiramente tatuado, considera-se que são matizes da arte, mergulhados em sentimentos e sentidos que interpretamos como corpos maculados e marginalizados devido suas intervenções textuais cravadas na pele.
A cada nova experiência, seja ela de amor, dor, aprendizagem, representação (como encenou Jana para Antônio Fernandes) ou mesmo, pelo viés da estética, o corpo assume cores tantas com textos e imagens capazes de transcender meros dizeres de sentimentos e sensações. Enquanto exibe seu corpo nu e recita para Antônio o texto kafkiano que tem impresso no corpo, Jana coloca em evidência o caráter teatral, encenado – estamos aqui em pleno domínio da representação – de sua performance literária e dramática.
A pele passa a se tornar uma epiderme, o corpo/texto metamorfoseado por Jana nada mais representa a própria arte, ou melhor, o texto de Kafka tatuado em sua pele que desperta em seu receptor sensações e desejos eróticos de possuir esse corpo linguagem.
A transgressão, conforme Foucault, não opõe nada a nada, não triunfa sobre os limites que ela apaga, ela afirma o ser ilimitado abrindo-o à existência. A transgressão é pensada como a ultrapassagem de limites históricos. O limite está dentro do jogo da lei. A transgressão derruba o limite e a lei, não gira em torno deles. É no movimento do limite e transgressão, onde a resistência entrará nesse jogo, que num dado momento algo é perdido, o limite fica para trás, e, diante do ser ilimitado que se abre, a transgressão movida pela resistência cria um novo limite, um novo assujeitamento, e assim incessantemente.
Bezerra nos anuncia em seus estudos:
“O corpo que transgride seus limites através da pele, dando-lhe possibilidade de vislumbrarmos painéis vivos como se fora um corpo-grafite, é senão, um corpo que reiventa-se para continuar sua caminhada subvertendo as ações cotidianas do sentir e fazendo-o parar a partir da escrita cravada na pele. Esta arte que modifica a pele e a deixa viva salta aos olhos dos outros e se faz significar” (BEZERRA, 2014, p. 6).
Interessante notar que há uma imersão do sujeito no social. Bataille nos afirma que “A transgressão organizada forma com o interdito um conjunto que define a vida social.” Intitulamos de organizada por serem pictografias com sentido coletivo. Bezerra (2014) ainda acrescenta que não se tatua em qualquer lugar, qualquer signo e para qualquer um ver. Constatamos tatuagens que têm sentidos muito íntimos e abriga verdades compartilhadas por determinados sujeitos.
Desse modo, o corpo-arte, ou seja, o corpo tatuado da personagem Jana desvincula-se de culpas e assume diversas possibilidades artístico-discursivas com variados significados.
 
 

  • CONSIDERAÇÕES FINAIS

 
Transgredimos pelo prazer. No objeto de estudo “O texto tatuado” observamos que o jogo da arte está acontecendo, o gozo, essa transgressão, ou seja, a arte se criando.
Há um desejo de intimidade com o universo que lança o excesso a seu ponto de fuga. Tudo acontece como se, no limite, as ações devassas do narrador respondessem a uma exigência superior, a insaciabilidade da devassidão por parte de Antônio Fernandes seria uma passagem desse ser social e animal, humano e desumano que ao projetar-se além recria de maneira incessante.
Não apenas o capítulo estudado como também O livro de Praga possibilitam uma fruição artística que deixa efetivamente marcas – de uma tatuagem no corpo – na sensibilidade do receptor.
Refletindo sobre o objeto “O texto tatuado”, e como aponta Nascimento,
“(…) o autor da obra (Sérgio Sant’anna) ousadamente transita nos dois reinos, o real e o irreal. Todavia sensível ao belo e à modernidade cambiável e fluída, ele transgride profundamente tudo o que o impede o aparecimento de um novo ser artístico (…) a transgressão é o compasso para o ato narrativo mais criativo, pois sensível ao fato de a obra de arte se circunscrever a determinados empecilhos que a separam da realidade mesma do ser humano, Sérgio Sant’anna a inscreve em seu texto espaço” (NASCIMENTO, 2015, p. 3).
O autor hábil criador literário seduz o leitor com sua narrativa enxuta e ágil e ao mesmo tempo constrói um conto intrigante e fascinante. Busca arte, não apenas dentro de um museu, mas sim na rua, em um pub, em lugares subterrâneos, às vezes com pouca luz, como no cenário do conto estudado, o qual Peter conduz Antônio Fernandes à encenação/performance do corpo-texto. Dessa forma leva o leitor a situações reais e irreais, dá voz ao narrador que flana nas ruas de Praga em busca da arte para escrever um livro.
Nessa interartes a obra dialoga com outras artes: música, escultura, teatro, literatura; enfim nos conduzindo a um caminho cheio de transgressões que se consolida na construção da arte, onde nesse transgredir exercitamos a plena liberdade enquanto ser pensante na literatura.
O corpo, no conto “O texto tatuado” é um livro para ser lido e contemplado por dentro e por fora, devemos sair do tradicional e ver o mundo às avessas. A arte que não provoca estranhamento não é arte.
Tal qual Sade, “O texto tatuado” possui uma relação visceral com a arte.  Essa arte representada como a literatura e o corpo como espécie de linguagem nos apresenta supostamente um inédito texto de Kafka, ou seja, a arte – literatura que está tatuada no corpo- linguagem. Essa linguagem que fala, estala, encena e transmite eroticamente, loucamente, ultrapassa o racional, o real pra projetar o irreal, o irracional. Atrevo-me a citar Bataille, “sendo inorgânica, a literatura é irresponsável. Nada pesa sobre ela. Pode dizer tudo”.
 
 

  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 
BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
BATAILLE, Georges. História do Olho. Tradução de Eliane Robert Moraes. São Paulo; Cosac Naify, 2003.
BEZERRA, S. Josenildo.  Corpo-arte, Corpo-sentido, Corpo-linguagem. A constituição da sociedade/ sujeitos transgressores a partir de tatuagens. Actacientifica.servicioit.cl/biblioteca/gt/GT26/GT26_SoaresBezerra.pdf, 2014.
FOUCAULT, M. “Prefácio à transgressão”. In Ditos e escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1963. V. III.
NASCIMENTO. Maria Teresinha Martins do. Estética contemporânea como transgressão aos cânones literários tradicionais. (texto). 2015.
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Trad. Wladir Dupont. São Paulo:
Siciliano, 1994.
SANT’ANNA, Sérgio.  O livro de Praga – narrativas de amor e de arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 102-122.





Bio fornecida pelo palestrante.

O SOCIAL E O PSICOLÓGICO NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO, DE VIDAS SECAS – Gabriela Pacheco Amaral




O SOCIAL E O PSICOLÓGICO NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO, DE VIDAS SECAS

Gabriela Pacheco Amaral

Universidade Federal de Minas Gerais

RESUMO: O objetivo deste trabalho é compreender como a personagem principal, Fabiano, do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, sofre pela constante alternância de identidade, uma vez que o mesmo está sempre em busca de estabelecer para si uma identificação, ora com um animal, ora com um homem. Com a intenção de reconhecer como Fabiano realiza uma imagem de si na narrativa, identificaremos algumas categorizações que ocorrem ao longo da narrativa a partir dos pressupostos de Lorenza Mondada e Danièle Dubois (2003) e Bakhtin (1992). Além disso, discutiremos teoricamente como Vidas secas aborda tanto os aspectos sociais quanto os psicológicos, com base nos pensamentos de Candido (2006) e Cristóvão (1986), dentre outros.
 
Palavras-chave: Social e Psicológico; Identidade; Categorização; Vidas secas; Graciliano Ramos.
 
ABSTRACT:  This study aims to understand Fabiano, the main character of Graciliano Ramos’ novel Vidas secas, and how he suffers to identify himself either with an animal or with a human being, while striving to get an image of himself. We will envisage some categorizations in the novel departing from Lorenza Mondada and Danièle Dubois (2003) and from Bakhtin (1992). We will present a theoretical analysis of the novel employing the approach by Candido (2006), Cristóvão (1986), and others, in order to see how this narrative deals with social and psychological aspects.
Key-words: Social and Psychological; Identity; Categorization; Vidas secas; Graciliano Ramos.
 
Currículo da autora: Mestranda em estudos linguísticos, na área da Análise do Discurso, pela Universidade Federal de Minas Gerais. A pesquisa de dissertação busca analisar os conflitos ideológicos e as formações discursivas nos pensamentos, nas ações e principalmente no silenciamento do protagonista do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos. Graduada em Licenciatura Plena Português/Inglês pela Universidade Estadual de Minas Gerais em 2014. Como trabalho de conclusão de curso realizou uma monografia intitulada “O ethos nos conflitos de Fabiano em Vidas secas: uma perspectiva discursiva da identidade”, no qual dialogou entre os estudos literários e os estudos linguísticos, e, mais especificamente, na Análise do Discurso.
 
O SOCIAL E O PSICOLÓGICO
 
NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO,
DE VIDAS SECAS
 
Gabriela Pacheco Amaral
 
Universidade Federal de Minas Gerais
 
INTRODUÇÃO
Ao ler a narrativa, percebemos a complexidade de como a identidade da personagem de Fabiano é construída no enredo. Em alguns contextos sociais do protagonista ao longo da obra, torna-se possível notar o discurso de identidade percorrendo a trama narrativa, atribuindo um tom especifico à dicção do sertanejo. Tais pressupostos são considerados a partir de uma leitura do romance em que percebemos a relação de Fabiano com a sociedade. Essa relação pode ser construída através de diversas injustiças e desigualdades sociais que perpassam a vida do sertanejo e de sua família. Nossa hipótese de pesquisa é que essa relação conflituosa de Fabiano com o seu meio social acarreta em diversas identificações e nuances de identidade.
O livro tem 13 capítulos e alguns deles foram publicados inicialmente como contos e depois reunidos no romance. Por esse motivo Rubem Braga, citado por Antonio Candido, conceitua a obra de Graciliano como um “romance desmontável”, com a justificativa de não existir elo entre os capítulos já que eles foram publicados separadamente (CANDIDO, 2006, p. 63). Diante desse posicionamento de Braga, Candido utiliza de uma metáfora para argumentar sobre o discurso contínuo do romance, independente da sequência ou da publicação dos capítulos.  Nesse sentindo, ele considera Vidas secas um “anel de ferro”, “anel” porque o último capítulo se encontra com o primeiro, e “ferro”, pois, o enredo mostra como a sociedade “esmaga” a vida da família de retirantes. A característica da narrativa em que o último capítulo encontra com o primeiro cria um desenho circular em Vidas secas. O romance inicia com uma fuga e termina em outra. Por decorrência desse círculo, em consonância com Candido, notamos que Fabiano e sua família voltarão para a mesma situação de fuga da seca e serão incessantemente “sufocados pelo meio” (idem, p. 67). Em razão dessa característica, o estudioso estima em Graciliano Ramos uma “poderosa visão social”, em face do “desenho geral” do romance permitir enxergar o mundo opressivo diante de uma “visão dramática”.
Fernando Cristóvão também utiliza de uma metáfora para explicar os capítulos de Vidas secas. Segundo o qual, o romance é um “jogo de dominó”, pois se houvesse uma combinação diferente dos capítulos haveria também outras formas de interpretar a vida da família de retirantes. Nesse raciocínio, com o capítulo Mudança e Fuga nos extremos da obra, adquire-se uma articulação que cria um “sentido lógico” e uma “linha temporal contínua” na narrativa (CRISTÓVÃO, 1986, p. 97).
Similarmente, Luís Bueno (2006, p. 650) acredita na continuidade e na unidade do romance, mesmo os capítulos não tendo uma sequência na construção da narrativa. Segundo esse autor, não existe somente uma ligação entre o primeiro e o último capítulo, há que se considerar também outras ligações na narrativa. A título de exemplo temos Cadeia e O Soldado Amarelo. Em Cadeia, acontece a prisão de Fabiano, em O Soldado Amarelo, ocorre a finalização do conflito de Fabiano com o soldado amarelo. Nos pressupostos de Bueno, os capítulos se relacionam como pares na construção do romance em que um corresponde ao outro. Em suma, qualquer outra ordem dos capítulos “destruiria” o movimento da narrativa, assim como a unidade da obra. Desse modo, não é possível considerá-lo como sendo um “romance desmontável”, mas sim como um “romance cuidadosamente montado” e com perfeição de elaboração de “suas peças” (idem, p. 658).
 
O DRAMA DE FABIANO
Fabiano é um homem “esmagado” tanto pela sociedade quanto pela natureza, não é como Paulo Honório, em São Bernardo, e Luís da Silva, em Angústia, que “pensam, logo existem”: “Fabiano existe, simplesmente” e sofre tanto pela fome quanto por sua existência. O “eu” interior do protagonista é “nebuloso”, na mesma medida o primitivo do homem é “puro” em Fabiano (CANDIDO, 2006, p. 63). Nessa linha de raciocínio de Antonio Candido, percebemos como a identidade de Fabiano está em debate. Visto que o autor distingue Fabiano dos demais protagonistas das outras obras de Graciliano Ramos. O protagonista de Vidas secas, não tem muita habilidade para se expressar verbalmente com as pessoas. Porém não é somente a falta de comunicação que silencia essa personagem na trama narrativa. Podemos notar que o ambiente opressivo ao qual ele é submetido pode contribuir tanto para o seu silenciamento quanto para os seus conflitos internos. Essa última consideração faz parte do objetivo dessa pesquisa em analisar o “eu” interior de Fabiano e sua relação com o meio.
Vidas secas, de acordo com Antonio Candido (2006, p. 66), corresponde ao entrosamento do sofrimento humano vinculado ao tormento que a natureza proporciona. A similaridade do sofrimento geográfico com o problema social perpassa no romance e adquire significado pela “elevada qualidade artística” que Graciliano deu a sua narrativa. A “seca lucidez” de Vidas secas possibilita uma das abordagens “mais honestas” na nossa literatura sobre o homem e a vida (CANDIDO, 2006, p. 99). Com base nesses pressupostos de Candido, acreditamos que os sofrimentos de Fabiano não são ocasionados somente pela seca, mas sim por um conjunto de injustiças, desigualdades e desrespeitos ao qual ele é submetido ao longo de sua vida no enredo do romance. Devido à esses fatores podemos perceber dimensões de identidades discursivas do protagonista sendo formadas ao longo da narrativa que possivelmente são acarretadas por essas circunstâncias sociais.
Para Fernando Cristóvão (1986, p. 132), o principal na narrativa é o sociológico e o psicológico. Essas duas tendências literárias são perceptíveis logo no título da obra, pois “vidas” apresenta um significado “metaforicamente” indicado para um estudo psicológico. Ao passo que, por intermédio do termo “secas”, temos um significado de punho sociológico que indica um romance realista regionalista. Desse modo, é possível identificar como Vidas secas abrange essas duas tendências, visto que aborda tanto o social quanto o psicológico (CRISTÓVÃO, 1986, p. 38).
Como bem abordado por Candido e Cristóvão, o enredo do romance se baseia em uma fusão dos problemas sociais com as questões psicológicas das personagens (dentre outras possíveis dimensões de leituras). Uma das hipóteses dessa pesquisa é a relação da sociedade com a construção da personagem na narrativa. Em suma, não é somente o fator da seca que torna Vidas secas uma obra que pondera a respeito do homem e a sua existência. Outros aspectos como a escassez da linguagem, falta de convivência com a sociedade dentre outros, tornam possíveis as leituras em torno do íntimo da personagem. Como também levamos em consideração a razão de Fabiano incessantemente desejar estabelecer sua identidade. Salientamos que essas não são as únicas peculiaridades da obra, várias outras chaves de leituras podem ser feitas na narrativa. Como exemplo disso, podemos citar o desejo de Sinhá Vitória em ter uma cama; a humanização de Baleia; a imagem do governo e da sociedade capitalista dentre diversas outras possibilidades de observação na narrativa. Tendo isso vista, notamos o posicionamento de Candido ao afirmar que Vidas secas é uma visão distinta do homem e a da vida. Pois, o âmago de cada personagem na obra é abordado de forma a se compreender a dimensão íntima e social de suas vidas.
 
O SILÊNCIO E O NARRADOR
Outra singularidade do romance: a linguagem é feita a partir do silêncio das personagens. Diante da falta de diálogo e comunicação na narrativa, Antonio Candido explica que Graciliano Ramos foi capaz de mostrar sua “força” artística ao criar um forte discurso a partir das personagens que não sabem se comunicar (CANDIDO, 2006, p. 145). Nessa linha de reflexão, Fabiano não conversa muito com sua família nem com outras pessoas, se tenta fazê-lo raramente obtêm sucesso, visto que ele se comunica através de gestos e poucas palavras. No decorrer da narrativa não existem diálogos, não existe conversa, não existe comunicação. Por essa característica, Candido ressalta o aspecto silencioso de Vidas secas. Se é possível perceber os sentimentos e os pensamentos das personagens, deve-se ao fato do narrador obter o papel de mostrá-los aos leitores. Nessa circunstância, o foco narrativo da terceira pessoa e o discurso indireto livre suprem a deficiência linguística das personagens; cabe ao narrador “falar” por elas.
O silêncio, na perspectiva da Análise do Discurso, adquire sentido de implícito, partindo do pressuposto de que o que não foi dito, por isso mesmo, diz. Ao optar por não dizer algo, o silêncio possibilita diversas alternativas de sentidos e interpretações. Segundo Eni Orlandi, ele pode indicar que o sentido pode ser outro, como podemos observar em:
 
Este [o silêncio] pode ser pensado como a respiração da significação, lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. É o silêncio como horizonte, como iminência de sentido. Esta é uma das formas de silêncio, a que chamamos silêncio fundador: silêncio que indica que o sentido pode sempre ser outro. Mas há outras formas de silêncio que atravessam as palavras, que “falam” por elas, que as calam (ORLANDI, 2001, p. 83).
 
Seguindo nesse pensamento, notamos que Vidas secas adquire uma linguagem do silêncio, e isso como Orlandi explica, tem significado. Nesse sentido, a construção do silêncio no romance adquire possíveis dimensões de interpretações, uma delas é sob o ponto de vista de Maria Celina Novaes Marinho (1997). Segundo a qual, Fabiano tem o conhecimento de sua carência do domínio da linguagem oral, com isso ele se coloca em posição de uma pessoa que é observada e julgada por essa deficiência. Por conseguinte, ele sente-se censurado ao tentar comunicar com outras pessoas, pois leva-se em consideração a possibilidade do erro e do não entendimento. De acordo com Marinho, no pensamento de Fabiano a linguagem não o pertence, ela cabe somente aos homens, e diante de Fabiano não se ver como um homem, a linguagem não o compete, não faz parte de sua existência (MARINHO, 1997, p. 251).
Ainda nos pressupostos de Marinho, um dos recursos utilizados para expressar os sentimentos e os pensamentos de Fabiano é o uso do discurso indireto livre e o discurso direto. Conforme a autora, “a voz reprimida e abafada” do protagonista se manifesta na voz do narrador com o uso do discurso indireto livre. Em algumas situações, o discurso direto representa a exteriorização dos pensamentos da personagem.
Quando Fabiano fala, é para si mesmo ou em voz baixa. O uso desses recursos, de acordo com Marinho (1997, p. 255) representa a tentativa de Fabiano em estabelecer sua identidade. No momento em que Fabiano sente a necessidade de se sentir como um homem ele deseja falar alto, matar o soldado amarelo e pensa em até entrar para o cangaço (inferimos nessa situação o uso do discurso direto livre). Já, quando ele se identifica como um bicho, permanece em silêncio e fala em voz baixa (observarmos nesse contexto o uso do discurso indireto livre). Marinho ressalta que esse desejo interno não é direcionada a nenhuma outra pessoa, fica somente nos pensamentos e no interior de Fabiano (Idem). Pretendemos relacionar tais recursos linguísticos com a construção da imagem discursiva de Fabiano na narrativa.
Assim sendo, em Vidas secas, o narrador de terceira pessoa possibilita uma leitura em dois pontos de vista: um parte de uma visão mais ampla da sociedade – o narrador nos apresenta um contexto de exploração financeira e política –, o segundo mostra o interior das personagens, nas quais são narradas os seus pensamentos (MARINHO, 1997, p. 252). Esse aspecto da obra permite realizar uma possível relação de como o contexto social pode influenciar no íntimo das personagens, haja vista a dialética do foco narrativo em apresentar o social e o psicológico. Sob essa reflexão, notamos que o narrador apresenta o contexto social juntamente com os pensamentos e sentimentos das personagens.
 
OS CONFLITOS E A CATEGORIZAÇÃO DE SI
Levaremos em consideração os pressupostos de Lorenza Mondada e Danièle Dubóis (2003, p. 20 – 22). Segundo as autoras, a categorização é uma atividade humana, cognitiva e linguística que estrutura e atribui sentido ao mundo. O sujeito realiza as categorias por meio das atividades sociais ao qual ele está inserido. Além do mais, há uma multiplicidade de categorizações que permitem identificar uma pessoa, um objeto e assim por diante, portanto, geralmente são instáveis, variáveis e flexíveis. As categorizações são formadas na interação do indivíduo com o mundo e variam conforme o contexto e o ponto de vista de sua produção. Ainda nesse sentido, em consonância com Luiz Antônio Marcuschi (2007, p. 88), compreendemos que a categorização é um dos processos básicos que possibilitam a reflexão humana.
Para a análise as categorizações em Vidas secas adotaremos as abordagens citadas acima, como também as considerações de Mikhail Bakhtin sobre a palavra. Segundo o autor, a palavra é um “signo neutro” que obtém significado de acordo com o seu contexto, além disso, a palavra é transformada e sofre alterações de sentido na evolução histórica (BAKHTIN, 1992, p. 79). Desse modo, buscaremos verificar a possível significação da palavra e as transferências de sentido para as categorizações de Fabiano.
A categorização é uma atividade reflexiva do sujeito quanto à nomeação ou referenciação de algo do mundo. Geralmente as categorias são mutáveis e dependem do seu contexto de produção. Desse modo, associamos esses conceitos para a análise das categorias interligadas a Fabiano em Vidas secas.
Iremos, pois analisar alguns enunciados mais representativos como: “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”; “Você é um bicho, Fabiano.”; “Um bicho, Fabiano”; “Você é um bicho, Baleia” e “Um homem, Fabiano”. Estas nomeações que o protagonista faz de si estão no segundo capítulo do romance, Fabiano, que narra os pensamentos do protagonista quanto a sua própria existência. Ele busca definir sua identidade, seja tentando se identificar com animais ou com homens.
As palavras “homem” e “bicho” – utilizadas nas produções das categorizações – no contexto social de Fabiano, vão além do significado biológico que elas possuem, abrangendo uma significação moral e simbolizando a representação do papel social da personagem na sociedade. Tal consideração é justificada por intermédio das análises das situações em que Fabiano se vê obrigado a passar devido à seca. Ele sente que seu papel perante sua família e o mundo não é de um homem capaz de sustentar e criar seus filhos, mas sim de se ver forçado a viver como bicho, fugindo da seca e escondendo em matos e casas abandonadas. Respaldamos essa reflexão no ensinamento de Mikhail Bakhtin (1992). Como já vimos, segundo o autor, a palavra é um signo neutro, de modo que ela adquire sentido dependendo do contexto social e histórico de sua produção.
Nesse sentido, podemos perceber que as categorizações com as palavras “homem” e “bicho” podem ser um recurso utilizado no processo mental de Fabiano para se autorreferenciar no mundo. Essa tentativa de se reconhecer pode ser uma forma de Fabiano projetar a imagem que ele tem de si através das referenciações produzidas.
De acordo com Stuart Hall (2006) a identidade está sempre em processo de formação e depende do contexto social em que o indivíduo está inserido. Além disso, a identidade é construída por intermédio da identificação que o sujeito realiza com algum referente no mundo, ou seja, o indivíduo constrói sua identidade realizando um processo de analogia com esse referente externo.
Desse modo, realizamos um diálogo entre a categorização e o processo de identificação com um referente. Tal diálogo, nós o justificamos pela razão de que, se Fabiano usa a nomeação – mesmo que inconscientemente – como recurso para estabelecer qual a sua identidade, esta acontece por intermédio da identificação que ele faz com um referente.
Partiremos agora para a análise das categorias, a primeira pode ser percebida em:
 
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.
Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se fumar regalado.
– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
RAMOS, 2010, p. 18. (Grifo nosso).
 
Nessa passagem da obra, podemos observar que Fabiano faz uma retrospectiva dos últimos acontecimentos. Ele se lembra da situação da seca, da caminhada no mato sem alimentação e de quando eles chegaram na fazenda. Ao relembrar dessas circunstâncias, Fabiano percebe que agora ele e sua família estão em um lugar seguro.
Associando esse contexto juntamente com o ensinamento de Hall, em que a identidade do sujeito depende do seu contexto social, inferimos que o referente de identificação para Fabiano, nessa situação, é o “homem”. Como vimos, o termo “homem” é carregado de significados que depende do seu contexto de produção. Nesse aspecto, a simbologia dessa palavra pode significar uma posição social de prestígio para a personagem. Uma vez que nessas circunstâncias Fabiano tem um emprego e encontra-se hábil para sustentar sua família e adiar a morte. Portanto, Fabiano se vê como um homem na sociedade.
Analisando a estrutura da sentença, nota-se que o termo “Fabiano” é colocado em primeiro lugar e depois é usada uma vírgula, essa estrutura sintática possui a função vocativa. Percebemos assim, que Fabiano chama sua própria atenção para afirmar que ele é um homem. Ele tenta impor para si mesmo sua identidade, uma vez que a partir daquele momento ele tem uma casa, pode cuidar da esposa e filhos e não precisa fugir constantemente da seca como um animal. A explicação do narrador, “exclamou em voz alta”, permite inferir que Fabiano fala em voz alta com a tentativa de afirmar veementemente sua identidade de homem nesse contexto. Nessa situação, ele tem segurança e certeza quanto ao seu papel social diante de sua família. Essa afirmação que a personagem realiza no discurso direto acarreta na sua seguinte reflexão:
 
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
– Você é um bicho, Fabiano.
RAMOS, 2010, p. 18. (Grifo nosso).
 
Como se vê, o discurso indireto livre apresenta as reflexões de Fabiano, pois ele não consegue se comunicar com as outras pessoas e não tem habilidade na linguagem, com isso, fica por conta do narrador contar quais são os pensamentos de Fabiano através do uso do discurso indireto e indireto livre. Quando se é usado o discurso direto como em “ Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”, trata-se de uma exteriorização dos seus pensamentos. Nessa fala de Fabiano, percebe-se como ele precisa afirmar para si mesmo que ele é um homem. Tal consideração pode ser realizada através do argumento que quando alguém diz algo em voz alta significa tentar impor o seu discurso. Isso, observamos na fala de Fabiano, pois ele tenta estabelecer para si mesmo a sua identidade.
Porém, depois dessa tentativa de se afirmar como homem, o uso do discurso indireto livre distorce essa possibilidade, como nota-se em: “E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.” Desse modo, identificamos que o conflito interno de Fabiano é mostrado essencialmente pelo uso do discurso indireto livre. O dilema interno vivido por ele se dá na procura de tentar se identificar como homem ou como bicho. Diante disso, seus pensamentos e autorreflexões buscam essa solução de identidade.
Ao realizar sua identificação como um “homem”, em voz alta, Fabiano mostra-se arrependido e considera que sua afirmação é uma “frase imprudente”. Nos pensamentos narrados, a personagem repensa sobre seu enunciado e chega à conclusão de que ele não é um homem. O argumento que o leva a essa dedução refere-se ao fato de que a casa e os animais os quais ele está cuidando não são dele. Além do mais, ele se acha inferior em relação aos outros homens. Diante dessa reflexão sobre seus status, ele muda seu referente de “homem” para “bicho”. Vale acrescentar que ao contrário da categorização anterior proferida em voz alta, essa é apenas murmurada, ou seja, se Fabiano tinha a certeza de sua identidade agora nem tanto assim.
Um aspecto interessante nessa transição de uma autonomeação para a outra, é a maneira como as características fisionômicas de Fabiano são apresentadas. Conforme vimos anteriormente, os aspectos físicos da personagem sofrem um contraste de cor fria e quente, respectivamente, azul e vermelho. Estas cores podem remeter a um conflito entre o interno e o externo de Fabiano, já que consideramos que a cor dos olhos podem sugerir o âmago da personagem, ao passo que a vermelhos pode representar às injustiças sociais.
Essa inserção da fisionomia nesse contexto em que Fabiano está em conflito quanto a estabelecer sua identidade, consideramos ser associada às aflições da personagem. Desse modo, quando o narrador mostra as características de Fabiano, podemos inferir que o protagonista desenvolve uma reflexão sobre sua imagem. A personagem pode até ter os mesmos aspectos físicos que os outros homens, todavia ela se vê como um bicho.
Voltemo-nos para a análise da categorização “- Você é um bicho, Fabiano”. Nela, notamos que a personagem muda de ideia quanto ao seu papel diante da sociedade. Fabiano não se considera mais um “homem”, mas sim um “bicho”. Logo após essa afirmação, ele faz a seguinte reflexão: “Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha” (Idem, p. 19). Nesse aspecto, percebemos que a palavra “bicho” ganha outra significação, a transferência de sentido para “bicho” se dá como forma positiva. Para Fabiano, “bicho” equivale a ter força e determinação para vencer os obstáculos. Essa identificação torna-se motivo de orgulho para ele, pois um bicho é capaz de passar por situações difíceis e insuportáveis.  Em seguida, a personagem reflete novamente sobre a representação simbólica do termo “bicho” relacionada com sua identidade. Isso podemos observar em:
 
Um bicho, Fabiano.
Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se de desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
RAMOS, 2010, p. 19. (Grifo nosso).
 
Nessa categorização, “– Um bicho, Fabiano”, a transferência de significados para a palavra “bicho” equivale às condições subumanas as quais Fabiano se encontrava, já que ele viu-se obrigado a invadir uma casa alheia e alimentava-se de raízes e sementes. Essa identificação com um bicho não provoca orgulho como na nomeação anterior, mas sim um sentimento de tristeza e desgosto para Fabiano. Essa analogia com o bicho faz com que o protagonista reflita sobre algumas de suas condições, como por exemplo, o fato de não dispor de casa e nem condições de providenciar alimentação adequada para sua família.
Em suma, percebemos que Fabiano tem um dilema interno quanto a estabelecer sua identidade. Essa última consideração pode ser entendida na perspectiva que a construção da identidade do protagonista é influenciada pelo modo como ele se vê diante do mundo. Quando ele reflete sobre as situações em que ele se viu obrigado a enfrentar, como a falta de alimento, moradia, água, estudo e principalmente respeito, ele não se vê como um homem diante da sociedade, mas sim como um bicho.
Relacionando essas três referenciações que Fabiano faz de si, analisadas até o momento, podemos perceber uma degradação quanto à extensão das frases: “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”; “Você é um bicho, Fabiano” e “Um bicho, Fabiano”. Segundo Marcel Cressot (1980), as frases longas podem remeter a sensações de doçura ou fluidez, ao passo que as frases curtas possivelmente apontam para uma fragmentação quanto as informações apresentadas, elas também são mais secas e objetivas. Observando a primeira categorização, “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”, notamos que sua estrutura é maior em relação às outras. Do mesmo modo, identificamos que ela foi produzida em contexto no qual Fabiano pensava nas coisas boas do seu presente. Já na segunda, “Você é um bicho, Fabiano”, o termo “Fabiano” é trocado de posição. Na primeira, a ênfase do enunciado está em “Fabiano”, nessa última o realce está em “Você é um bicho”. Atentando para a terceira, “Um bicho, Fabiano”, identificamos que ela perde os termos “Você” e “é”, tornando-se um enunciado mais seco e objetivo.
Associamos essa última reflexão com o contexto da personagem, constatamos que Fabiano está triste ao refletir sobre sua semelhança com um bicho. Nesse sentido, inferimos que os sentimentos de Fabiano são alternados quanto à produção dessas categorizações de si. Nas duas primeiras, ele faz uma identificação positiva com os referentes “homem” e “bicho”, porém, na terceira, seu referente “bicho” assume simbolização negativa. Por conseguinte, percebemos que os sentimentos de Fabiano são ajustados quanto ao estilo das produções das categorias.
Retornamos para as análises das categorizações de Fabiano. Nesse sentido, reparemos em:
[Fabiano] Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se:
Você é um bicho, Baleia.
Vivia longe dos homens, só se dava com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias.
RAMOS, 2010, p. 20. (Grifo nosso).
 
Como observamos, as três categorizações analisadas eram direcionadas diretamente para a figura de Fabiano. Todavia, em “Você é um bicho, Baleia”, em um primeiro momento podemos acreditar não haver ligações entre essa com as anteriores.
Contudo, inferimos que enquanto as outras referenciações estavam associadas ao contexto social, histórico e econômico de Fabiano, essa última está relacionada com seus aspectos físicos e comportamentais. Como também identificamos ser possivelmente uma categorização implícita do protagonista. Ou seja, quando Fabiano categoriza a cachorra Baleia, o narrador apresenta algumas semelhanças de Fabiano com animais. Isso percebemos pelo fato de serem tecidas algumas informações a respeito dos comportamentos e os aspectos físicos da personagem que são equivalente aos dos animais, como a dificuldade em se comunicar com as outras pessoas e a maneira cambaleante de andar.
Nossa reflexão sobre a categorização pode ser relacionada com a produção da identidade de Fabiano, ao qual identificamos o processo de incluir e excluir semelhanças com algum referente. Para isso, podemos atentar à explicação posterior da categorização, visto ser realizado o processo de inclusão de características animalescas na corporalidade de Fabiano, como em: “Montado, confundia-se com cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem”.
Ao final do capítulo, Fabiano volta a pensar na seca e na possibilidade de sua extinção. Em seguida, ele teme o retorno da seca e de sua morte. O protagonista não deseja morrer, pelo contrário, seu desejo é viver muito e tornar-se um homem capaz de andar de cabeça erguida. Isso podemos observar nas seguintes reflexões:
 
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queira morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
Um homem, Fabiano.
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
RAMOS, 2010, p. 24. (Grifo nosso).
 
Averiguando esse fragmento, podemos notar o desejo de Fabiano em viver, uma vez que o enunciado “Não queria morrer” é utilizado duas vezes no primeiro parágrafo, alcançando-se assim uma ênfase de expressão. Além do mais, o protagonista sente o desígnio de conhecer pessoas importantes e sentir-se como um homem. Desse modo, a autonomeação utilizada “Um homem, Fabiano” pode representar sua vontade em ter sua identidade equivalente à de um homem.
Não obstante, após ter bons pensamentos sobre seu futuro, ele chega à conclusão de que provavelmente ele continuaria se identificando como um “bicho”. Esse pensamento é construído na consciência de Fabiano quando ele tem a percepção sobre sua condição de subordinado aos outros homens. Nesse sentido, seu contexto social de retirante, ao qual não lhe permite ter uma casa, um emprego fixo, educação, alimentação adequada e assim por diante influencia no modo como ele constrói a imagem de si.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, é possível observar como as categorizações podem funcionar como um recurso de processamento psicológico da personagem Fabiano, no qual ele identifica um referente externo e realiza um reconhecimento de si através do significado simbólico desse referente. Por conseguinte, ao se autorreferenciar, o protagonista, possivelmente, arquiteta sobre alguns aspectos de sua identidade.
Outra consideração a ser feita a respeito das categorizações é que elas são apresentadas na narrativa na forma do discurso direto, ao passo que as reflexões na mente de Fabiano estão no discurso indireto livre. A relação entre essas duas formas discursivas na narrativa permite perceber que os conflitos internos de Fabiano são representados pelo uso desses dois recursos. Geralmente, quando o protagonista fala por meio do discurso direto ele apresenta uma certeza quanto à sua identidade, porém são nos pensamentos dele que as dúvidas, as incertezas e os conflitos surgem. Estes que são apresentados para os leitores por meio do narrador com o recurso do discurso indireto livre.
Enfim, podemos perceber que os aspectos sociais influenciam, em certa medida, no psicológico, e consequentemente, nas identificações que Fabiano faz de si. Assim há uma constante dialética entre o social e o psicológico no âmago da personagem, que influencia em seus pensamentos e ações. Dessa forma, podemos ver que Vidas secas é uma obra que retrata muito mais além do que a seca nordestina.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. (V. N. Volochínov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. 6ª ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Edusp/Campinas: Ed. Unicamp,
2006.
CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
CRESSOT, Marcel. O volume da frase. In: O estilo e suas técnicas. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 260-271. (Coleção Signos).
CRISTÓVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Atividades de referenciação, inferenciação e categorização na produção de sentido. In: Cognição, linguagem e práticas interacionais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 82-104.
MARINHO, Maria Celina Novaes. Transmissão do discurso alheio e formas de dialogismo em Vidas secas, de Graciliano Ramos. In: BRAIT, Beth. Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. p. 249-259.
MONDADA, Lorenza; DUBOIS, Danièle. Construção dos objetos de discurso e categorização: uma abordagem dos processos de referenciação. In: CAVALCANTE, Mônica Magalhães (Org). Referenciação. São Paulo: Contexto, 2003. p. 17-52.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 3ª ed. Campinas: Pontes, 2001.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 114ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

VOO 147: DEUSES E HOMENS EM O JOGO DA AMARELINHA, DE JULIO CORTÁZAR – Leonardo Mendes Neves Félix




VOO 147: DEUSES E HOMENS EM O JOGO DA AMARELINHA, DE JULIO CORTÁZAR

Leonardo Mendes Neves Félix
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Resumo: Este trabalho objetiva analisar detidamente o capítulo 147 do romance O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar. Procuramos dialogar com o crítico Jaime Concha e averiguar sua afirmação de que nesse capítulo estaria contida a “filosofia da história” de seu romance. Embora a constatação do crítico se confirme, os métodos em que baseia seu julgamento ideológico destoam do tipo de conhecimento defendido pelo romance. Nesse sentido, nosso percurso se concentra em explorar a alternativa cortazariana ao conhecimento conceitual, fincado no paradigma da escrita, e ao impasse a que nos levou. É nesse sentido que deve ser compreendido o afastamento dos homens em relação aos deuses, mitológicos ou ontológicos, operado por sua literatura.
 
Palavras chaves: Conceito, literatura, homens, deuses.
 
Resúmen: Este trabajo tiene el objetivo de analisar detenidamente el capítulo 147 de la novela Rayuela de Julio Cortázar. En diálogo con el crítico Jaime Concha, tratamos de determinar su afirmación de que en este capítulo estaba contenida la “filosofía de la historia” de su novela. Aunque se confirmó el hallazgo del crítico, los métodos en los que embasa su juicio ideológico desentona con el tipo de conocimiento preconizado por la novela. En este sentido, nuestro curso se centra en la exploración de la alternativa cortazariana al conocimiento conceptual, atrapado en el paradigma de la escritura, y al callejón sin salida al que nos ha llevado. En este sentido hay que entender la separación de los hombres en relación con los dioses, mitológicos o ontológicas, operado por su literatura.
 
Palabras clave: Concepto, literatura, hombres, dioses.
 
Currículo do autor: Leonardo Mendes Neves Félix é graduado em Licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mestre em Letras (Estudos Literários) pelo PPGL/UFES e desenvolve a tese de doutorando intitulada “Distantes dos deuses erramos pela Rayuela” no programa de pós-graduação de Ciência da Literatura da UFRJ, em Teoria Literária, sob orientação do professor Titular Eduardo de Faria Coutinho.
 
VOO 147: DEUSES E HOMENS EM
 
O JOGO DA AMARELINHA, DE JULIO CORTÁZAR
 
Leonardo Mendes Neves Félix
 
Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
Por que tão longe dos deuses? Talvez por perguntá-lo.
E daí? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto, as perguntas afastam-nos vertiginosamente das respostas. Que epifania podemos esperar se estamos nos afogando na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo é preciso lançar a janela e nós com ela” (CORTÁZAR, 1987, cap. 147 p. 505).
 
Como medir a distância entre nós e os deuses? A resposta levanta a hipótese de que a pergunta seja a medida. Essa designação genérica, a pergunta, descreve a face abstrata, a face universal contida pelo pronome neutro “lo”. Disto se conclui que não se trata da pergunta em si, mas da feita num momento anterior, distante no tempo apenas por poucas palavras. O pronome “lo” posto no fim da frase frustra a esperança por uma reposta, pois retorna ao início, quando a distância já está pressuposta, assim como o sentido da busca está predeterminado em direção à causa.   
A segunda dessas duas pressuposições que formam a pergunta é a causadora da contradição entre as duas primeiras frases do capítulo 147 de O jogo da amarelinha, pois a apresentação da causa não estabiliza o movimento da pergunta, desde logo por ser afrouxada pelo advérbio “talvez”, que adianta toda a imprecisão da resposta. Somado a isso o verbo pronominal inverte o sentido da pergunta em direção a ela mesma. O pronome é como a ponta do rabo do escorpião, onde pesa o veneno sobre o próprio corpo com um rabo cuja ponta possui um veneno concentrado no pronome neutro “lo”, que lança o leitor para trás antes de poder retomar o curso da leitura. É uma construção espiralar, já que não se pode voltar à pergunta com a mesma desatenção de outrora. É também uma estrutura reflexiva, um escorpião encalacrado (ver ARRIGUCI JR., 1973), um parafuso.
O verbo “perguntar” abstrai toda particularidade da ação da frase anterior que não seja a interrogação, enquanto o pronome neutro retém o movimento generalizante. A pergunta ganha uma completude que encerra em si mesma a resposta. Ela possui um princípio e um fim em si mesma, ela espera ser olhada como quem se demora diante de um enigma, diante da esfinge ou do parafuso. Essa interrogação que se encerra em si, que crava em sua pele as unhas que pode, é a causa e a consequência da resposta especular, pois ao mesmo tempo em que se inclina sobre a resposta sofre um efeito retroativo.
A virtualidade da interrogação refletida em sua representação dialética nega o anseio de se dissipar a potência da pergunta na resposta, nega, por assim dizer, sua natureza, para lhe conceder sua autossuficiência, contraditoriamente. Se o leitor aceitasse esse caminho percorrido nas duas frases, haveria de concordar que tal representação altera o representado, ajuda a perdê-lo, a distraidamente negá-lo.
Existe uma resistência da resposta causada pela organização da própria pergunta. As duas se abordam em uma relação de necessidade. Basta permutar “por que” por “quando” ou “em que” para dimensionar a diversidade dos desdobramentos. A causa se esgueira entre as letras e desaparece diante dos olhos do leitor. Sua potência se insinua e se desdobra nessas duas frases, até retornar ao início. As palavras são o movimento em direção ao Outro em que a causa se dissipa sem se mostrar e retorna à sua existência potencial. Mas esse retorno não é ao mesmo.
A duração da pergunta subverte a suposição de uma causa fora dela mesma. Cortázar abre brechas no muro rígido da linguagem para possibilitar ao leitor essa demora e a sua imersão no texto. Há um grande esforço para comunicar a falta primordial de um fim, de um fundo, de um único ponto de chegada que eliminasse a mediação, a parcialidade ou a incurável alienação do homem na linguagem.  
Davi Arrigucci Jr. constrói uma analogia entre a imagem do escorpião encalacrado, retirada do capítulo 28 de O jogo da amarelinha, e a série de técnicas empregadas na sua própria construção. A tensão entre o crítico e o escritor é o principal causador desse efeito, que ameaça a realização do projeto, qual seja, a escrita cortazariana, morelliana. O crítico desloca engenhosamente essa imagem para lançar luz à sintaxe de O jogo da amarelinha, contorcida sobre si mesma. Seu comentário é preciso:
 
A descontinuidade sintática concretiza a destruição da linguagem lógico-discursiva da ficção tradicional e instaura um novo tipo de coerência interna, em função da lábil organização dos segmentos. Com a espacialização da estrutura, que daí decorre, torna-se evidente a relação de conformidade entre o tratamento da linguagem e a visão da realidade: um princípio fundamental do universo cortazariano, sua indeterminação (a porosidade ambígua que põe em contacto os seres mais heterogêneos), se consubstancia no próprio nível sintático, como uma forma de abertura para a combinação poliédrica e simultânea de significantes e significados (ARRIGUCCI JR., 1973, p. 295).
 
A correção e universalidade do comentário, no entanto, levam a perder muitas vezes a materialidade do texto de Cortázar. Por isso, a precisão do comentário, que pode ser verificada em muitos níveis da obra, carece de uma demonstração que não paire pela aura fetichizada de Cortázar, ilhando o sentido do texto no autor, pior, em sua consciência fora do tempo e inalcançável ao leitor, tal como os pensamentos do napolitano diante do parafuso.
O napolitano contado por Morelli, contado por Horácio no capítulo 73 de O jogo da amarelinha, se demorou diante do parafuso e negou a ligação entre sua forma e sua função, retirou-o de “la gran costumbre” para torná-lo símbolo da paz. Libertou o parafuso do seu destino como utensílio. A demora diante de um objeto tão utilitário aguça a curiosidade dos vizinhos, provoca conjecturas, fofocas, desejo; de modo que após a morte do napolitano o objeto está perdido na opacidade de sua atitude contemplativa, que não deixa de ser ativa na medida em que produz algo novo: “Do parafuso a um olho, de um olho a uma estrela… Por que entregar-se ao Grande Costume? É possível escolher a tura, a inveção, ou seja, o parafuso ou o automóvel de brinquedo” (CORTÁZAR, 1987, cap. 73, p. 338). A real efetividade do parafuso é alterada. É claro que a prova dessa alteração só pesa de fato quando e porque o parafuso é roubado e, portanto, se evidencia sua nova cifra resultante da pequena opacidade compartilhada pelos vizinhos.
Poderia se supor que algo no napolitano ou no parafuso aconteceu de extraordinário para provocar essa atitude, mas isso nós não sabemos, nem tampouco os vizinhos, que, aliás, se colocam como mediadores da recepção do objeto pelos leitores, recepção do parafuso e do napolitano entrelaçados. A caracterização de um ou de outro é nula, eles são totalmente e somente presença na demora.
A intenção do napolitano permanece obscura, está para sempre perdida, como a intenção do autor. Mas é justamente este vazio, o oco de sua atitude, que possibilita ao narrador do capítulo 73 a passagem do parafuso a um olho, de um olho a uma estrela e à cidade de Paris, que destrói nosso herói Horácio vagarosamente.
Não se pode afirmar nada de substancial sobre o napolitano ou sobre o parafuso, a não ser que a esse se agregou uma dimensão reflexiva enquanto àquele foi concedida toda sua singularidade. A demora em poder sair da pergunta inicial do capítulo 147, como uma primeira volta do parafuso, corrói as formas gregárias para transcender a determinação da língua, sobretudo a determinação de que haveria uma única causa para que nos tenhamos distanciado dos deuses.  
O movimento da representação dialética (“perguntar/lo”) retira a obviedade dos elementos que compõem a pergunta. A transformação simbólica de toda a pergunta acaba por justificar a resposta, já que seu anseio em se realizar em um outro não ocorre. Mas esse retorno nunca é ao mesmo. A pergunta deixa de ser ela mesma para se desdobrar na realidade do afastamento dos deuses.
O aspecto generalizante da palavra perguntá-lo se concretiza na definição de homem com que se inicia o parágrafo subsequente, em uma sentença cuja certeza destoa da dúvida instalada pelo advérbio “talvez”: “E daí? O homem é o animal que pergunta”. Antes da definição há um dar-se de ombros que indica certa impaciência com o impasse inicial. Esse incômodo é o que precipita a frase seguinte. Podemos observar a instalação de uma impaciência tal como aquela de Horácio, ao ver-se desenhado por seu próprio pensamento.  
Até o fim desse período o clima impessoal impera com a utilização de três frases nominais e da oração atual em que o sujeito é determinado e universal, “o homem”, ou seja, não representa um indivíduo contingente. Dito de outra maneira, o sujeito nega qualquer aqui e agora. Apenas na oração seguinte aparece a primeira pessoa do plural, embora estivesse pressuposta na definição do homem por conta de a sentença ser escrita com uma linguagem manipulada por nós mesmos. O artigo definido, que precede o substantivo “homem”, marca a generalização da espécie, caracterizada pelo substantivo “animal” a que se agrega a faculdade de perguntar.
Embora a definição de homem como “animal que pergunta” concentre a explicação da causa na diferença humana em relação aos outros animais, a estrutura reflexiva da pergunta impede a aceitação passiva da organização da frase categórica. Isso porque ela é dependente da pergunta inicial em tudo. De tal maneira que sua imagem nos é concedida através desse meio reflexivo. É como se além de se refletirem mutuamente, essas duas frases permitissem um olhar para fora, como quem olha através do vidro de uma janela e além do reflexo consegue enxergar o lado de fora.    
A precariedade da asserção universal se justifica pelo delineamento do conteúdo difuso da pergunta e da reposta iniciais numa palavra: o homem, o sujeito dessa oração que se projeta no predicado, que por sua vez retoma a breve cadeia da pergunta. É outra volta do parafuso. O que essa volta agrega é o movimento em direção ao conceito e a inclusão do gênero animal, ou a imersão da espécie humana nesse gênero. Nessa taxonomia a pergunta é o que singulariza o homem, que é o animal mais distante dos deuses por simplesmente perguntar. Mas, pelo avesso da universalidade, as perguntas determinadas realizadas pelo homem durante a história são as responsáveis pelo afastamento em relação aos deuses, que poderia ser superado por uma correção, bastante presunçosa mas não desnecessária.
O capítulo 86 de O jogo da amarelinha reproduz uma citação que destaca um ascpecto muito importante para a correção aludida. Trata-se do fato de o binarismo da linguagem limitar o pensamento humano por meio das classificações entre sim e não, entre positivo e negativo. Embora o intuito do romance seja muito claro em superar esse binarismo, tal tarefa é extremamente difícil se levarmos em conta as opções binárias de leitura do próprio romance, a oposição entre França e Argentina, marcada pelas duas primeiras seções do livro, ou mesmo as opções que nos são apresentadas diante da janela: a morte ou o voo. Ao afirmar que essa característica é inerente à linguagem, parece haver apenas um caminho, ir de encontro a ela para descobrir o que há entre o sim e o não, entre o Yin e Yang. A própria citação nos apresenta uma outra forma de abordar a questão:
 
Para consegui-lo, deveria mudar de estado, seria necessário que outras máquinas, diferentes das usuais, começassem a funcionar no cérebro, que o racioncínio binário fosse substituído por um consciência analógica que assumisse as formas e assinalasse os ritmos inconcebíveis dessas profundas estruturas (CORTÁZAR, 1987, cap. 86, p. 365).
 
A análise por nós empreendida pretende mostrar como o próprio capítulo 147 de O jogo da amarelinha é um exemplo dessa substituição, com a construção da analogia entre a tarefa a que se propõe o romance e a imagem das janelas. Cortázar aproxima poesia e analogia em seu texto “Para uma poética”, a referência à poesia se aproxima de uma experiência antropológica bastante distante da existência de um ocidental, o que descartaria, de início, a homônima figura moderna.
O mago e o shamán são figuras engajadas diretamente com a estrutura da comunidade de que participam, e por isso possuem uma posição de destaque, muito diversa do poeta moderno, que caminha em direção à autonomia da obra de arte. Deixando momentaneamente de lado a precisão histórica dos termos empregados nessa comparação, a análise do texto crítico de Cortázar justifica a ligação feita por Saúl Yurquievich entre a O jogo da amarelinha e a poesia. Como vemos na seguinte citação:
Os fatos são simples; de certo modo a linguagem inteira é metafórica, autenticando a tendência humana à concepção analógica do mundo e validando o ingresso (poético ou não) das analogias nas formas da linguagem […]. Essa direção analógica do homem, superada pouco a pouco pelo predomínio da versão racional do mundo, que no ocidente determina a história e o destino das culturas, persiste em estratos e com graus distintos de intensidade em todo indivíduo.
 
O que está em jogo, portanto, é a restauração de uma capacidade humana enturvada pelo predomínio da razão e pela configuração do conhecimento científico. A duras penas somos encurralados a rejeitar toda sorte de associações que não se enquadrem na versão racional do mundo e com isso toda a competência analógica e metafórica se esconde numa retórica impotente, incapaz de sair do restrito campo individual. Isto é, a metáfora e a analogia aparecem como adornos à linguagem, e não como fundadoras dessa mesma linguagem; o que nos leva a crer erroneamente que existe um uso metafórico, não raramente atribuído ao poeta, e um uso prosaico, mais próximo ao referencial.
Essa contraposição, no entanto, não se sustenta se nos concentrarmos em O jogo da amarelinha. A literatura de Morelli se esforça profundamente para nos levar a este estado de competência criativa diante do mundo, e esse esforço exige a todo o tempo a reflexão, não apenas do autor na construção do texto, mas também do leitor no apodrecimento da linguagem. O personagem escritor se vê impulsionado pelo desejo de compartilhar a ponte, ou a passagem, que o deslocou para uma construção diversa da realidade. É o movimento de ir ao outro.  
A motivação desses coágulos que captam as experiências com imagens inteligíveis não é a causalidade, ou o encadeamento lógico. Como na maioria das definições de poesia da vanguarda, as negações e os contrastes são mais volumosos do que propriamente as proposições e afirmações.
A pergunta, ensimesmada, não é suficiente para garantir o diálogo prometido ou profetizado por esse texto que bem poderíamos atribuir a Cortázar, a Morelli ou a Horácio: “Por ahora las preguntas nos alejan vertiginosamente de las respuestas”. Como encarar a hipótese dessa voz do capítulo 147 de O jogo da amarelinha segundo a qual são as próprias perguntas que nos distanciam das respostas, e que respostas são essas? Há uma correspondência entre os deuses, as respostas e a “epifania” que aparece logo na frase seguinte. Esse conjunto de referências aponta para alguma cosmologia mítica, mesmo que seja a dos novos deuses erigidos pelo pensamento científico, ou para o objeto perdido que poderia estancar o movimento do desejo humano. A busca (ou pergunta) pelo sentido do mundo, por sua ordenação numa sintaxe, é a tarefa a que se presta o logos diante do cosmos, é o impulso comum à mitologia e às ciências.
Razão e pergunta poderiam se opor apenas se fossem tomadas separadamente, como certeza e dúvida, mas podem ser facilmente compreendidas como etapas de um mesmo acontecimento, como a resposta que sucede à hipótese na pesquisa científica. O problema da razão e do racionalismo é ter se imposto como meta-discurso, subtraindo seu lugar de emissão, isto é, a ligação entre as condições de produção de sentido e as formas cristalizadas dos enunciados proferidos. Em última instância, o racionalismo não levou a razão às últimas consequências por medo de ferir as bases do mundo onde obtiveram conforto.
O efeito devastador desse caminho tomado inicialmente pelos europeus e depois imposto ao restante do mundo é sentido pela barbárie institucionalizada como cultura e civilização. O massacre da colonização, o capitalismo, a bomba atômica são frutos de uma razão inaceitável. Não há negociação possível com essa forma de pensamento, por isso faz-se necessário um novo instrumento de verdade. Podemos conjecturar que o sintagma “que pregunta” queira resgatar um sentido mais radical ou originário da razão e se afastar dos que se prenderam a determinada interpretação e práticas dela derivada da definição de homem como animal racional.
A sutura do sulco (“hendidura”) aberto pela razão grega, a que se refere Jaime Concha, de fato caracteriza a “filosofia da história” de O jogo da amarelinha. Observemos a fala do crítico:
 
(…) Por estas fórmulas simples: Novum organum de verdade, o homem é o animal que pergunta, pode-se inferir sem dificuldade a filosofia da história subjacente ao Jogo da Amarelinha. De acordo com ela, o mal havia começado na Terra Santa, ou em Atenas, ou em algum ponto próximo. A razão grega produziu um sulco no mundo, da qual este ainda não se recuperou.
 
O intento de restaurar a unidade nunca se cumpre no romance de Cortázar, embora esteja presente na nostalgia do reino milenar e do éden perdido, que atestam certo parentesco entre deuses e homens. O jogo da amarelinha não é nem mesmo um livro único.
Com o lado animal daquela dialética do homem concorre o lado mais distante e diferenciado, aquele que aponta necessariamente para a insatisfação diante da ausência de explicação, aquele que pergunta e exige narrativas, lógicas, razões, que nega a inessencialidade do contingente. Jaime Concha passa incólume ao fato de que a humanidade do homem é fruto da fissura entre si mesmo e o mundo; caso não fosse assim seria impossível a existência da pergunta.
A promessa não se cumpre nem tampouco para aquele personagem que procura a unidade, o centro; o metafísico que quer se apoderar do romance que lhe concede existência. Etienne afirma: “Até agora, pelo menos, não há grande coisa de matafísica em Morelli, a não ser que você, Horácio Curiácio, seja capaz de encontrar metafísica numa lata de tomates” (CORTÁZAR, 1987, cap. 99, p. 401). Vasta é a resistência que o texto oferece a essa dominação do personagem e à sua ideia fixa na unidade, a começar pela expressa negação do fetiche da individuação moderna sintetizada na imagem da literatura de Morelli e que em grande parte é executada pelo romance de Cortázar. Em última instância a radicalidade do romance consiste no apagamento do ponto de onde jorrasse seu significado.
O significado, ou mesmo a ordenação dos capítulos, não é propriedade de ninguém. O leitor é chamado a tomar o seu lugar, pleno de direitos, pois ele é o único personagem que realmente importa. Apesar de identificar um movimento muito importante do texto, Jaime Concha perde sua dialética, perde as contradições que se abrem, como fendas, à inserção do leitor. Ele iguala as fórmulas (“Novum Organum de verdad, el hombre es el animal que pregunta”) sob a égide do simples, sem se dobrar à diferença de cada aparição singular; subestima a filosofia da história de O jogo da amarelinha, é quem melhor não a compreende.
O texto de Concha possui a qualidade inestimável de tomar o romance como um problema ético, e não estético, como a maioria dos críticos, que apenas assinalam o aspecto extraliterário, reduzindo-o a uma contingência vanguardista. É como se a destruição da literatura almejada pelo romance O jogo da amarelinha fosse apenas uma atualização do que os surrealistas e dadaístas haviam feito algumas décadas antes.
A mudança de tom operada pela inserção da primeira pessoa do plural no capítulo 147 de O jogo da amarelinha ganha destaque quando se observa a crítica feita à maneira como os homens perguntamos, causa da ausência de diálogo. A crítica interna age em favor da alteração de tom da narrativa, que se torna mais pessoal. Embora a inserção da primeira pessoa ainda permaneça totalizante, a voz narrativa se aproxima do leitor, se acerca como quem quer ser seu camarada. Poderia se objetar que essa alteração da voz narrativa apenas maquia o fato de que tanto a oração de terceira pessoa do singular quanto a de primeira pessoa do plural se referem a um mesmo ente, portanto, a diferença seria meramente formal. A forma, por assim dizer, é um momento de localização, de aproximação paulatina a este conteúdo: o homem. Não é possível se chegar a ele a despeito da estrutura reflexiva da pergunta e reposta iniciais, experimentadas com este conteúdo ainda precário, deduzido frouxamente pela oposição aos deuses. Não se pode deixar falsear o movimento dialético do texto, tomando como fixas as diferenças entre as categorias antitéticas, sem se compreender o momento de verdade de cada uma delas.
A diferença aparente entre as duas sentenças pode indicar formas distintas de construir afirmações sobre o homem, ou ainda, formas diversas de conhecimento. A configuração do conhecimento abstrato alterou as perguntas, as respostas e o destino dos indivíduos envolvidos em tais ordenações da realidade. Sua pré-história pode ser acompanhada desde as primeiras fixações do mito, e a negociação entre homens, semideuses e deuses até nas práticas de discurso laico das assembleias deliberativas de guerreiros, que deixou a abstração como herança permanente para a democracia, pois que os interesses individuais deveriam ser abandonados em prol de um bem comum.
Entre o auge do mito e a época crítica, tendo como ponto de comparação a possessão da verdade, a organização do discurso passou de uma linguagem fortemente pessoalizada a uma mais objetiva, com a expulsão dos deuses e antropomorfismos do mito em prol das categorias ontológicas. O texto de Cortázar opera um caminho inverso ao real desenvolvimento do conhecimento no Ocidente; ele começa com sentenças impessoais para depois partir para dentro da pessoa, com a aproximação ao gênero humano, até desembocar no entrelaçamento de imagens que de maneira afirmativa e cifrada são a ponte para a saída do atoladeiro em que estamos metidos.  
Se, por um lado, a pergunta nos afasta dos deuses e define o campo humano, por outro, não garante eficácia na busca pela liberdade e pela comunicação. A promessa de diálogo está condicionada ao abandono da dialética judaico-cristã na construção das perguntas, tarefa árdua à qual o romance O jogo da amarelinha se entrega e nos presenteia com passagens para outros lados. A sequência do capítulo 147 é uma passagem da definição abstrata do homem para uma imagem que quiçá condense muito mais elementos significativos para a busca por si, que deve se realizar com e nos outros, do que a linguagem abstrata e alienada de sua proximidade consigo. A esterilidade da frase abstrata consiste na limitação do espaço de criação do leitor, seu campo de ação é limitado, já que se concentra nos estratos menos contraditórios do espírito humano, menos ambíguos. A grande eficácia dos escritos de Morelli está justamente no inverso, em potencializar a ambiguidade de tal maneira que seus leitores sintam na carne suas consequências.
A definição dialética do homem como animal que pergunta é clara, objetiva, taxonômica, ocorre com a síntese da base comum que nutrimos com a natureza, “animal”, e do que nos diferencia em relação a ela, “que pergunta”. Ela não possui as sombras que resistem à estagnação, como as imagens dos passos necessários para se partir desde a dialética até à janela. Se se agrega a esta constatação toda a mudança operada pela primeira pessoa do plural, a certeza da asserção categórica sobre a essência humana é mais abalada, e pode ser considerada fruto de uma pergunta mal feita. A rigidez da definição universalizante é estremecida, além do mais, pela rejeição à dialética judaico-cristã. As palavras do excerto não sucedem rapidamente em uma direção linear, como impõe a sintaxe; elas atraem rapidamente as projeções de sentido anteriores a uma avaliação severa.
Eis os primeiros caminhos a serem percorridos: “(…) é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua”. Isto porque apesar de jogar as janelas fora, as possibilidades que se abrem ao se lançar ainda se apresentam em par, “es la muerte, o salir volando”. A progressão vertiginosa da imagem sugere o suicídio ao leitor que executasse os comandos do romance, alguém que levasse muito a sério a “momentânea suspensão da incredulidade” diante de um texto literário. Entretanto, a morte só seria inevitável se desconsiderássemos de todo a possibilidade de se aprender a voar.
O primeiro passo para construirmos perguntas corretas é a destituição do que possuímos, é um esvaziamento paulatino do interior desse ambiente conectado ao exterior pelas janelas; até que possamos enfim nos desfazer delas e de nós mesmos e chegar à indiferença entre interior e exterior. Esse intuito é identificado pelos membros do Clube da Serpente como caro à obra de Morelli: “(…) [Morelli] Parecia propor – embora jamais chegasse a formulá-lo – um caminho que se iniciasse a partir dessa liquidação externa e interna” (CORTÁZAR, 1987, cap. 124, p. 453).
As etapas sugeridas nesse procedimento não devem ser subestimadas, nem tampouco parece ser possível serem puladas. O primeiro comando, “(…) é preciso (…) lançar tudo para a rua”, basta para imaginarmos a dificuldade do desafio, apesar de ser o de mais fácil visualização em nossa era cibernética. Desfazer-se dos objetos adquiridos até o presente requer um desapego quase franciscano, pois com eles vão todo o esforço empregado em sua conquista e muito dos afetos condensados em coisas que nos remetem a pessoas ou experiências que julgamos serem formadoras do que somos. Por essa via, o último passo, lançar-mo-nos pela janela, parece ocorrer simultaneamente ao primeiro, deixando de levar os comandos ao pé da letra. Seria a memória suficiente para manter viva a imagem de si? Ao menos está-se sem dúvidas abdicando da autoconservação, como atesta o terceiro comando: o suicídio. A imagem unificada de nós mesmos deve ser abandonada desde sua base num passado que determine o presente, como o erro trágico, a hamartia.
A abertura ao presente, o tempo possível da liberdade, exige o abandono das representações conhecidas e o confronto com o que ainda não fora simbolizado. O grande desafio é manter as contradições imprescindíveis ao movimento do saber, dificultar a compulsão à repetição e à identidade. O passado não deve pesar como pedras no estômago de um presente que se arrasta cegamente para seu destino. É a esse saber a que se presta a literatura de O jogo da amarelinha, como um campo de investigação do humano.
 
Referências bibliográficas
ARRIGUCCI JR., Davi. O escorpião encalacrado: a destruição poética em Julio Cortazar. São Paulo: Perspectiva, 1973.
CONCHA, Jaime. “Criticando Rayuela”. In: CORTÁZAR, Julio. Rayuela. Edición crítica: Julio Ortega y Saúl Yurkievich (Coordinación). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1994.
CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.
CORTÁZAR, Julio. Obra crítica/2. 2a ed. Jaime Alazraki (Coordinación). Buenos Aires: Alfaguara, 2014.
YURKIEVICH, Saul. “La pujanza insumisa”. In: CORTÁZAR, Julio. Rayuela. Edición crítica: Julio Ortega y Saúl Yurkievich (Coordinación). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1994.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS – Jaqueline de Oliveira Brandão




A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS

 

Jaqueline de Oliveira Brandão

Universidade do Estado de São Paulo (UNESP – ASSIS)

 
RESUMO: As conexões históricas e culturais entre Portugal, Brasil e África cada vez se estabelecem mais, e o resultado contribui para a construção de um sentido eminente através da literatura. Na expectativa de cooperar com mais um diálogo possível no âmbito da literatura, faz-se necessário pensar em Eça de Queirós (1845-1900), sobretudo na obra A correspondência de Fradique Mendes (1900), na qual foi instaurado um produtivo intertexto por intermédio da personagem Fradique Mendes. Esta nos leva a refletir sobre a permanência desse escritor nos romances contemporâneos, principalmente aqueles que retomam a personagem Carlos Fradique Mendes. Tal recuperação caracteriza-se pelas relações intertextuais e a possibilidade de transitar na literatura comparada, para asseverar, a partir das obras selecionadas Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, de José Eduardo Agualusa (1997) e O manuscrito perdido, de José Barahona (2012), a subsequência predominante da personagem principal, Fradique Mendes.
PALAVRAS-CHAVES: Fradique Mendes; Intertextualidade; A correspondência de Fradique Mendes; Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes; O manuscrito perdido.
 
ABSTRACT: The cultural and historical connections between Portugal, Brazil and Africa are increasingly established and literature has an outstanding contribution in this process. In order to contribute to it we propose a possible dialogue with a productive intertextuality through the character Fradique Mendes, by Eça de Queirós (1845-1900), especially in his work A correspondência de Fradique Mendes (1900). It leads us to reflect on the permanence of this writer in contemporary novels, especially those who have recovered Carlos Fradique Mendes as their character. Such recovery is characterized by intertextual relations and the possibility of displacement in the field of Comparative Literature, as we can assert, from the two selected works Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, by José Eduardo Agualusa (1997) and O manuscrito perdido, by José Barahona (2012), which both employ Queiroz’s protagonist Fradique Mendes.
KEYWORDS: Fradique Mendes; Intertextuality; A correspondência de Fradique Mendes; Nação crioula: A correspondência secreta de Fradique Mendes; O manuscrito perdido.
 
Currículo da autora: Professora contratada na rede estadual paulista de ensino de línguas portuguesa, inglesa e espanhola e aluna de Letras com habilitação em espanhol na Universidade Estadual Paulista – UNESP/Assis. Mestranda em letras na Universidade Estadual Paulista – UNESP-Assis.

A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS
 
Jaqueline de Oliveira Brandão
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP – ASSIS
 
Um escritor que não ensina outros escritores não ensina ninguém (BENJAMIN, 1994, p. 132).
 
Através das obras de Eça de Queirós, em especial A correspondência de Fradique Mendes, a qual este trabalho está voltado, percebemos que ele se incumbe da tarefa de propagar seus ideais a cerca de temas sociais. Sempre preocupado com temas existenciais e principalmente coletivos, ele utiliza-se da personagem Fradique Mendes para transpor suas aspirações e assim difundi-las.
Carlos Fradique Mendes é uma personagem criada no ano de 1868-69 por Jaime Batalha Reis, Antero de Quental e Eça de Queirós. De acordo com Simões, tal conjunto explicou a criação da personagem da seguinte forma: “pensamos em suprir uma das muitas lacunas lamentáveis criando, ao menos, um poeta satânico. Foi assim que apareceu Carlos Fradique Mendes” (SIMÕES, 1978, p. 181) no jornal lisboeta, Revolução de setembro, com alguns poemas satânicos reunidos e denominados Lapidárias.
Sua primeira aparição foi em uma das cartas do romance policial, O mistério da Estrada de Sintra, de autoria conjunta de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão em 1870. Após alguns anos desaparecida, esta personagem é retomada em 1888 por Eça de Queirós, para efetivar seu ideal a partir da veemência em fazer dela uma personagem real e não ficcional. Para tanto, planeja reunir as cartas de Fradique e, a partir delas, revelar as incríveis reflexões do seu (suposto) autor após a sua morte, fazer com Fradique Mendes o que era de costume fazer com as grandes personalidades que haviam morrido: publicar suas cartas particulares. Desta maneira A correspondência de Fradique Mendes foi esboçada.
Primeiramente Carlos Fradique Mendes pode ser visto como uma personagem literária, que ganhou identidade e, posteriormente, foi considerada uma grande personalidade da época, a partir desse ponto de vista foi colocada em prática à intenção de Eça de Queirós de dar propriedade a tal personagem, fazendo com que Fradique Mendes fosse visto como um homem real, no ponto de vista físico, e ideal, em relação às suas infindáveis qualidades: “Assim, a personalidade de Fradique Mendes ganha uma consciência ideológico-cultural que o coloca numa posição diversa da que é própria das personagens dos romances ou dos contos”. Pondera Reis (2005, p. 35), além de Simões:
Carlos Fradique Mendes não é propriamente uma criação novelística, nem tão pouco uma personalidade real: a idealização de um certo conceito de humanidade. (…) Fora um ‘grande homem’ e um grande homem só pode ser retratado maior que o natural (SIMÕES, 1978, p. 185).
 
Ramos (1945) evidencia em seus estudos tal caráter criador e idealizador de Eça de Queirós em relação à sua personagem em que o próprio Eça comunica parte do segredo a um amigo: “Fradique não existe; é uma criatura feita de pedacinhos dos meus amigos. A robustez física, por exemplo, tirei eu do Ramalho” (p. 38). Contudo conclui que “n’A correspondência de Fradique Mendes não estão apenas os seus amigos, está o próprio Eça” (p. 9).
Ao chegarmos a este ponto, também há de se comentar sobre as aproximações entre criador e criatura, ou seja, entre Eça de Queirós e Fradique Mendes. Pois não há como desconsiderar alguns conceitos a respeito da heteronímia de Eça em Fradique, o que nos leva às reflexões feitas por Fradique em suas cartas que correspondem aos ideais de Eça, nos fazendo acreditar que o autor “se escondia por detrás do disfarce ideal do seu herói” (Da Cal, 1969, p. 63), no caso Fradique, há de se notar a presença de Eça, principalmente ideológica, em suas obras, contudo sua compleição em A correspondência de Fradique Mendes é praticamente física, pois ao longo da obra percebemos essa invasão, como pondera Da Cal:
Este ideal inatingível, esta vã tentativa de lograr uma forma “tão dúctil, penetrante, transcendente, que pudesse modelar o invisível e dizer o indizível”, é a meta que Eça se propunha, consciente da sua impossibilidade de alcançá-la. O drama psicológico de sua impotência diante deste ideal está obliqua e dolorosamente expresso na atitude de Fradique, que, desejando criar “uma prosa que ainda não há”, desiste de escrever (DA CAL, 1969, p. 63).
 
As semelhanças ideológicas arraigadas aos valores sociais relacionados à cultura e aos costumes da nação entre Eça e Fradique reflete a trajetória do próprio Eça de Queirós, revelando sua voz no discurso textual e como o objetivo deste era criar um ser que não fosse confundido com uma personagem de ficção, o que realmente ocorre, Fradique ganha personalidade e identidade próprias e assim difunde seus ideais:
Fradique aproxima-se, de facto, do estatuto e da linguagem de heteronímia, tendendo a ser um outro, autônomo em relação a quem o criou e não confundível com uma personagem de ficção; com isso, Fradique assume uma autonomia ideológica que permite dizer dele que possui um pensamento próprio: chamamos precisamente fradiquismo a esse pensamento e podemos entendê-lo como mais um dos ismos que proliferam na nossa cultura e na cultura europeia de fim de século. O facto de este ismo pode ser motivado por um proposito crítico, relativamente a essa prolixidade de movimentos e modas culturais, não lhe retira legitimidade; por outro lado, o fradiquismo pode ser entendido como alternativa ideológica ao pensamento da geração de 70, de que o Eça dos anos 80 se ia distanciando, sem assumir claramente esse distanciamento como ruptura: em certa medida, é ao fradiquismo que cabe cumprir essa função (REIS, 2005, p. 94).
 
Em A correspondência de Fradique Mendes, a personagem principal tem sua existência circunscrita num período marcante, que é durante as décadas finais do século XIX, o que o transforma num personagem finissecular, além de aproximá-lo das tendências dos homens deste período, que se caracteriza por ser arraigado a um sentimento de pessimismo, além do Dandismo, que de certa maneira substitui à boêmia, a qual os criadores da personagem, por volta de 1869, vivam os efeitos.
Hauser (1972) esclarece que em um dandy não é seu exterior marcado pelos trajes elegantes e modos requintados que realmente interessa, mas sim sua “superioridade íntima e a independência, a inobjetividade prática e o desinteresse da vida e da ação”. Para isso utiliza-se das explicações de Baudelaire para evidenciar as singularidades da filosofia do dandismo:
Para Baudelaire, o dandy é a acusação viva de uma democracia estandardizada. Reúne em si todas as virtudes do cavalheirismo ainda hoje possíveis; está sempre a altura de qualquer situação e nada o assombra; nunca é vulgar e conserva sempre o sorriso frio e estoico. O dandismo é a última manifestação do heroísmo numa época de decadência, um acaso, o último feixe de luz radiante do orgulho humano (HAUSER, 1972, p. 1.087).
 
Além disso, Medina (1974) confirma a obsessão por esse sentimento de decadência no país, evidenciando o anseio e preocupação de Eça e outros intelectuais em utilizar-se de tal sentimento de declínio:
A obsessão da decadência nacional, dum progressivo e inelutável declínio de todo o País, complexo de morbos, reações, profecias e desesperos que poderíamos resumir na expressão de miséria portuguesa, atravessa todas as grandes obras literárias da segunda metade do século XIX português (MEDINA, 1974, p. 33).
 
E faz uso das palavras de Antero de Quental, quando este se refere às condições de Portugal, de forma simbólica e metafórica, ao dizer que a nação portuguesa encontra-se doente em tal período:
Portugal é uma nação enferma do pior gênero de enfermidade, o langor, o enfraquecimento gradual, que sem febre, sem delírio, consome tanto mais seguramente quanto se não vê órgão especialmente atacado, nem se atina com o nome da misteriosa doença. A doença existe, todavia. O mundo português agoniza, afetado de atonia, tanto na constituição íntima da sociedade, como no movimento, na circulação da vida política (Antero de Quental, Portugal perante a revolução de Espanha – 1868 (Apud João Medina. Eça político. Lisboa: Seara Nova, 1974, p. 33).  
 
Portanto, Eça de Queirós utiliza-se da personagem Fradique em A correspondência de Fradique Mendes, numa época em que a Europa passava por uma crise, mas a situação de Portugal atingia matizes ainda mais acentuados, pois era o último país da Europa, por seu atraso e ineficácia em todas as instituições, talvez por esse motivo a personagem ganha características físicas, mas principalmente ideológicas conforme o momento histórico vigente, assim como elucida Simões:
Em maio de 1888 já se vislumbravam os primeiros sintomas de uma decadência que, se não atingia a virilidade estilística do grande romancista, pelo menos lhe afetava seriamente o desassombro e a irreverência críticas. Com efeito, por essa altura concebia Eça de Queiros a Correspondência de Fradique Mendes, primeiro passo para a entronização da figura agora, por assim dizer, o avesso da personalidade modelada pelo Cenáculo (SIMÕES, 1945, p. 77).
 
Tal período também culmina com a última fase da vida literária de Eça de Queirós, segundo Miguel Real (2006) em “O último Eça”. É como se Eça revisitasse e revisasse, com intenção de melhorar, toda sua criação literária, para isso passa a alicerçar sua estratégia discursiva em três pontos centrais, basicamente voltados à: revisão subjetiva das impressões psicológicas; revisitação de cada momento e tema e, por fim, se vale do método comparativo.
Deste modo, podemos notar que A correspondência de Fradique Mendes não privilegia apenas a realidade social exterior, como a fase realista de Eça, mas sua realidade interior, adotando principalmente o método comparativo, que conforme Miguel Real é “a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entre fases diversas de uma mesma civilização” (REAL, 2006, p. 133).
Dentre suas características, podemos destacar que Fradique Mendes é uma pessoa totalmente civilizada, elegante, possuidor de grande fortuna e de uma vasta inteligência, por isso sofisticado e intelectual, além de ser extremamente culto e inovador em todos os aspectos, mas principalmente por seus ideais revolucionários pela época.
Por ser um viajante incansável, sempre por onde quer que ele fosse, ou seja, em todo e qualquer país que visitasse, ele se adaptava e era bem recebido, tornava-se parte integrante e atuante, quase nativo dos lugares que visitava, um verdadeiro cosmopolita.
Fradique é perfeito em seus atos, nunca deixa a desejar ou exagera, mas sua tendência ao perfeccionismo não permite que ele publique seus escritos, portanto ele se recusa a demonstrar suas elucubrações, muitas vezes por considerar não ter propriedade para dedicar-se a tão nobre atividade.
Carlos Fradique Mendes não é só um modelo de homem e cidadão para os demais de sua geração, como intencionava seu criador a princípio, mas por ter preocupações de ordem sociais, também se torna um paradigma atemporal pela sua capacidade de percepção crítica, sendo um chamariz para outros escritores quando estes anseiam fazer da arte uma expressão da sociedade, interessados dessa forma, nos problemas existenciais de ordem social.  
Por ser essa personagem tão singular e representar uma provocação à apatia da sociedade, Fradique Mendes mexe com o imaginário de escritores, especialmente por criarem a partir da possibilidade de existir outras cartas, artifício adotado por eles, fazendo com que se apropriem dessa personagem significativa de Eça de Queirós para, assim como ele, criarem obras expressivas e, portanto, eternizar tanto o criador (Eça de Queirós), quanto à criatura (Fradique Mendes).
Deste modo, a construção de obras como Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido nada mais é do que a (re)apropriação significativa principalmente da personagem, ou seja,  os diálogos existentes entre as três obras literárias possuem a princípio e explicitamente a personagem Fradique Mendes, como eixo de suas produções.  
Como marca característica nas literaturas do século XIX, o intento em reconstruir a identidade nacional, ou pelo menos reafirmá-la faz com que os escritores retomem antigos paradigmas para engendrar e recuperar elementos da cultura contidos pelos fatos históricos recorridos neste período.
Há, portanto, a necessidade de elucidar um dos recursos de que José Eduardo Agualusa e José Barahona se valem, que é a intertextualidade, de tal modo empregada, acaba por revelar a relação existente entre as literaturas portuguesa, angolana e brasileira.
Tais intertextos estabelecidos com a obra A correspondência de Fradique Mendes, nos faz elucidar o conceito de intertextualidade, que conforme Julia Kristeva, a qual aclarou as definições propostas por Mikhail Bakhtin e concluiu que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de um outro texto” (KRISTEVA, 1974, p. 64).
Kristeva ainda complementa dizendo que o texto literário nunca é uma produção pronta e acabada, mas sempre se refere a outro. Sendo assim é: “um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras: do escritor, do destinatário (ou da personagem), do contexto cultural atual ou anterior” (KRISTEVA, 1974, p. 62).
Nesta mesma vertente, explica José Luiz Fiorin (1999, p. 29) que “a intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”, desse processo resulta a literatura, visto que ela se realiza através de diálogos constantes de textos, ou seja, a literatura contemporânea é o fruto das obras anteriores, portanto a intertextualidade revitaliza a literatura.
Ao entendermos que a intertextualidade é a presença de um texto em outro, percebemos que esse evento ocorrido contribui para o enriquecimento e até mesmo o enobrecimento tanto do hipotexto (texto fonte) quanto do hipertexto (texto derivado), ao estabelecer novas e diferentes interpretações.
Sendo assim, é através da intertextualidade que são elucidados elementos que Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido evocam de A correspondência de Fradique Mendes, contudo também é necessário demarcar a importância de mais um procedimento crucial para o estudo, que é a literatura comparada, visto que ela trata das interrelações entre duas ou mais literaturas.
Dentre as inúmeras vertentes da Literatura Comparada, aqui será dada ênfase, sobretudo, ao estético, ou seja, aos elementos estruturais das obras analisadas e suas noções históricas, pois como explica Carvalhal:
A literatura comparada permite que ampliem os horizontes do conhecimento estético, (…) leva-nos para o amplo jogo dos discursos e faz-se também leitura do texto na História. Eis a dimensão que a literatura comparada reintroduz nos estudos literários de hoje: a da historicidade contextual (CARVALHAL, 2003, p. 5).
 
Além de ser uma eficiente estratégia de leitura e forma eficaz de investigação ao confrontar textos, a literatura comparada é um recurso que possibilita uma exploração apropriada nos estudos literários, assim como pondera Carvalhal:
Pode-se dizer, então, que a literatura comparada compara não pelo procedimento em si, mas como recurso analítico e interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo literário uma exploração adequada de seus campos de trabalho e o alcance dos objetivos a que se propõe. Em síntese, a comparação mesmo nos estudos comparados, é um meio, não um fim (CARVALHAL, 1992, p. 7).
 
Deste modo, é através dessas duas vertentes que alcançamos uma análise mais significativa e singular a respeito das revisitações da obra de Eça de Queirós A correspondência de Fradique Mendes, principalmente em relação ao personagem principal e outros elementos da narrativa e dos aspectos sociais, que nortearam as produções de José Eduardo Agualusa e José Barahona, fazendo reviver e dialogar a tradição literária, a partir de revisitações de temas, traços culturais e históricos, além de algumas particularidades de estilo.
Dentre muitos elementos em comum nas três obras, o realce primordial está na personagem Fradique Mendes, também há de se destacar outras características que culminam, como por exemplo, a preferencia pelo gênero epistolar, além da temática que demonstra sempre um pensamento voltado às questões sociais.
Através do diálogo entre literatura e história em que as obras são construídas, percebemos esta retomada do passado para recontá-lo a partir de outros vieses, abordando o colonialismo português, a escravidão, o tráfico negreiro, aludidos, em especial, em Nação crioula.
Já em O manuscrito perdido, entramos em contato com o resultado de todo este processo para a formação da sociedade brasileira, que hoje convive com os resquícios deste período, como o que sobrou das aldeias indígenas, o estado lamentável em que os descendentes de escravos africanos se encontram, além da necessidade de se formar um movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST).
Tais relações explícitas de intertextualidade nos põem a par das reconstruções da memória cultural dos espaços percorridos por essa personagem tão significativa, que é Fradique Mendes, a partir destas novas inserções das cartas em espaços angolanos e brasileiros, dá-se um diálogo com a história de vida do imortal Carlos Fradique Mendes e nos permite legitimar o transito intertextual relacionado ao contexto, ao tempo e ao espaço em que se dão os fatos narrados nas três obras.
A correspondência de Fradique Mendes, em relação a sua estrutura, foi dividida em duas partes: a primeira, considerada introdutória, denominada “Memórias e notas” é uma espécie de biografia idealizada, engendrada numa situação narrativa testemunhal, comum de gênero de relato. Ramos pondera a respeito de tal parte do livro:
Ora o livro traz o seguinte subtítulo, muito significativo: Memórias e Notas, que aproxima-nos de um memorialista de ideias, de impressões literárias e de gostos estéticos (…) trata-se agora de fazer principalmente a biografia intelectual de Carlos Fradique Mendes, “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível” (RAMOS, 1945, p. 181).
 
A segunda parte é composta pelas cartas particulares escritas por Fradique, ou seja, o que sobrou dele, nas quais ele expõe muitos de seus pensamentos a respeito de fatos da época, os quais ele mostrava suas inquietações diante do esfacelamento da sociedade lusitana causada pelas constantes transformações políticas e sociais, chegando a criticar seu país e tudo o que lhe pertence, ao dizer, logo em sua segunda carta: “Tudo tende a ruína num país de ruínas” (carta a Madame de Jouarre, p. 49), além de tecer considerações sobre religião e literatura, por exemplo.
Agualusa em Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes também evidencia a mestiçagem entre a narrativa ficcional e a narrativa histórica. A obra corresponde ao autêntico gênero epistolar, pois se estrutura apenas por cartas, através das quais conhecemos, além de ideologias de Fradique em relação ao sistema escravocrata, seus ideais a respeito do movimento abolicionista e também se aprofunda numa vertente mais romântica, ao por em destaque a relação amorosa entre o protagonista e a personagem, também expressiva, Ana Olímpia.
Fradique Mendes de Agualusa, agora inserido num novo contexto, faz parte de uma ficcionalização de acontecimentos históricos referentes ao último navio negreiro que zarpou de Angola rumo ao Brasil, de extrema relevância estabelecida pelo diálogo do contexto histórico de Angola, Brasil e Portugal.
Notamos, ainda, que o subtítulo da obra Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes faz referência evidente ao título da obra primeira do autor Eça de Queirós A correspondência de Fradique Mendes, apenas com o acréscimo do adjetivo “secreta” conferindo, desta maneira, um tom de mistério a respeito da vida de Fradique Mendes, que Eça de Queirós não teve acesso, por isso não incluiu em sua obra.
Através da leitura da correspondência que antes era secreta, descobrimos novos pensamentos de Fradique através das cartas remetidas aos seus destinatários, inclusive o próprio Eça de Queirós, transformado, desta forma, em personagem, portanto com essas novas cartas conhecemos um outro lado de Fradique que ainda não nos havia sido apresentado.   
Sendo assim, tanto A correspondência de Fradique Mendes quanto Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes representam a realidade do contexto em que são inseridas e as memórias da personagem principal. Ambas as obras dialogam com a história, já que contextualizam determinados acontecimentos factuais.
Já o livro O manuscrito perdido é uma adaptação do documentário da mesma forma intitulado, que conforme seu criador afirma, foi idealizado a partir das obras de Eça de Queirós e José Eduardo Agualusa. Ao ser transcrito em livro também remete ao romance epistolar por ser uma troca de correspondência entre o cineasta e o escritor angolano, autor de Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes.
José Barahona evidencia a utilização do gênero epistolar e também sua inspiração para a criação do livro a partir da sigla P.S. expressão latina “post scriptum”, que significa depois de escrito, usada comumente em finais de cartas para acrescentar informações não contidas no corpo da carta:
P.S.
Este livro foi adaptado do filme “O Manuscrito Perdido”, que por sua vez foi livremente inspirado nos livros “A correspondência de Fradique Mendes”, escrito por Eça de Queirós, e “Nação crioula, a correspondência secreta de Fradique Mendes”, escrito por José Eduardo Agualusa (BARAHONA, 2012, p. 99).
 
Contudo, a intenção agora é de percorrer o caminho feito no Brasil por Fradique de Eça de Queirós e Agualusa, ou seja, do final do século XIX, porém nos dias de hoje, em busca de um manuscrito perdido, que continha reflexões acerca da origem da sociedade brasileira e questões sociais, como a escravidão e a luta dos índios, entretanto, nessa busca Barahona entra em contato com o resultado desse período anterior e relata para seu destinatário, José Eduardo Agualusa.
Portanto, tais intertextualidades enfatizam a permanência de Eça de Queirós e confirmam a atualidade de sua criação, concretizando, desta forma, sua imortalidade, pois ele se faz presente ao conseguir manter sua obra permanentemente na memória dos leitores e por conservar a personagem Fradique Mendes viva no universo literário.
A presença de Eça de Queirós é constante em seus legatários, por isso este olhar voltado à influência de tal escritor nas obras supracitadas de Agualusa e Barahona, levando em conta a personagem que Eça, Batalha e Antero de Quental criaram transita entre o mundo transato e o contemporâneo, comprovando, deste modo, que a permanência de A correspondência de Fradique Mendes através das revisitações desta obra queirosiana por escritores contemporâneos, ratifica sua perpetuidade.
A correspondência de Fradique Mendes nos permite inferir, ainda, uma nova perspectiva de compreensão das condições sociais do período discutido, mas ao ser intensamente revisitada nos proporciona uma ampliação de elementos fundamentais presentes em obras como Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido e assim como o legado deste ínterim na atualidade, também porque coloca em evidência as intrincadas relações das obras com a escravidão, a sociedade e outras questões históricas e existenciais relevantes.
Sendo completamente possível legitimar a afirmativa de que Eça de Queirós é uma das expressões maiores na literatura de língua portuguesa, principalmente ao que se referem às suas produções, em especial A correspondência de Fradique Mendes, que podem ser consideradas fontes de estudos, recriações e inspirações para seus sucessores, pois através de suas obras entramos num mundo do qual não nos apetece sair, visto que aproxima nações, recupera o passado e instaura bons caminhos para o futuro, especialmente no campo cultural.
 
NOTAS
 
AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula – a correspondência secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.
BARAHONA, José. O manuscrito perdido. São Paulo: Tordesilhas, 2012.
BENJAMIN, Walter, Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
BOTOSO, Altamir; DOCA, Heloisa Helou. Estudos de literatura africana contemporânea. Bauru, SP: Canal 6, 2012.
CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio: ensaios de Literatura Comparada. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1992.
DA CAL, Ernesto Guerra. Língua e estilo de Eça de Queiroz. Rio de Janeiro: Editora da USP, 1969.
FIORIM, José Luiz. Polifonia textual e discursiva.In: FIORIM, José Luiz; BARROS, Diana Luz Pessoa de. Dialogismo, polifonia e intertextualidade. São Paulo: Edusp, 1999.
GUIMARÃES, Luiz de Oliveira. O espírito e a graça de Eça de Queiroz. Lisboa: João Romano Torres, 1945.
HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. Trad. Walter H. Geenem. 2a

  1. São Paulo: Mestre Jou, 1972. 2 v.

KRISTEVA, Julia. A palavra, o diálogo e o romance. In: KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Tradução de Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.
MACEDO, Tânia; CHAVES, Rita. Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas – Angola. São Paulo: Arte & Ciências, 2007.
MEDINA, João. Eça político (Ensaios sobre aspectos políticos-ideológicos da obra de Eça de Queiroz). Lisboa: Seara Nova, 1974.
QUEIRÓS, Eça. A correspondência de Fradique Mendes. In: Obras de Eça de Queiroz. Lisboa: Lello & Irmão, s. ed. v. 2.
RAMOS, Feliciano. Eça de Queirós e os seus últimos valores. Lisboa: Edição da revista Ocidente, 1945.
REAL, Miguel. O último Eça. Lisboa: Quidnovi, 2006.
REIS, Carlos. O essencial sobre Eça de Queirós. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005.
SIMÕES, João Gaspar. Eça de Queirós – a obra e o homem. 3ª ed. Lisboa: Arcádia, 1978.
SIMÕES, João Gaspar. Eça de Queirós – o homem e o artista. Lisboa: Dois Mundos, 1945.





Bio fornecida pelo palestrante.

LONDON AND THE ROMANTIC POETRY OF BLAKE AND WORDSWORTH – Sophia Celina Diesel




LONDON AND THE ROMANTIC POETRY OF BLAKE AND WORDSWORTH
 
Sophia Celina Diesel
Pontifícia Universidade Católica (PUC – RS)
 
Summary: The present essay compares and contrasts the treatment of the city of London in two classic poems of the English literature – London, by William Blake, and Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1803, by William Wordsworth. Rather than focusing solely on the writers’ attitudes towards the city, I concentrate on the formal end technical elements of their approaches and on the relationship between the experience of the city and the modes and styles of authorial engagement with it.
 
Key words: William Blake, William Wordsworth, London, English Literature
 
Sophia Celina Diesel has a degree in English, Portuguese and respective literatures at PUC-RS, completed in 2010, Specialization in Brazilian Literature, also at PUC-RS, completed in 2012 and a Master’s degree in English Literature – Victorian pathway – at Loughborough University, UK, completed in 2013. At present she is taking a Master’s degree at PUC-RS in Literary Theory, supervised by Professor Dr Pedro Theobald, to be finished in 2016. Her research project focus on English Literature in the Victorian period, with emphasis on the works by Charles Dickens, George Gissing, the Bronte sisters, and George Elliot, among others.

LONDON AND THE ROMANTIC POETRY
OF BLAKE AND WORDSWORTH
 
Sophia Celina Diesel
 
Pontifícia Universidade Católica (PUC) – RS
 
         London is a place that can be seen from many different perspectives. It is impossible to define it as one kind of city; there are so many representations of it that we end up with an uncountable number of ‘Londons’ that coexist or antagonise each other. London is that kind of place everybody knows, even if they have never been there in their whole lives. It happens because the representations of the city reach so far and such a number of people that its corners are explored from every place in the world. In modern terms, we have TV, movies, literature and many other kinds of media with their eyes in the city. But if we go back in time, more precisely to the Romantic period I intend to discuss in this essay, around the end of the eighteenth and the beginning of the nineteenth-century, we can see that literature played an extremely important role in creating these many different images of the city that was the first metropolis in its proportions.
         There was anything like London before. Growing in an amazing speed, by the fourteenth century it was the triple size of Bristol, the second largest city in England, in 1520 London was ten times as large as Norwich and by 1600 London’s population surpassed that its ten rival combined together. Ten per cent of the population of England and Wales lived in London around 1750 and from then on numbers continued to increase impressively (MANLEY, 2011, p. 6).
         The fascination towards the city that seemed to grow almost as a living organism inspired artists throughout the centuries. And in their attempts to understand it and convey to their public the image they had of London, writers brought many versions of the city to life, which remain in the imaginary of the entire world. The most illustrious writers who had London as their subject, like William Blake, Lord Byron, Charles Dickens, William Wordsworth, Oscar Wilde and George Gissing among others, wrote a city that was always in movement, ‘a city in the act of becoming’, ‘always in the process of self-transformation’ that, as we know, became the economic and cultural centre of the world in the nineteenth century (WOLFREYS, 1998, p. 7).
         In this essay I intend to explore a little of two of the most famous poems that possess the characteristic of depicting the city through the eyes and feelings of their authors. London by William Blake and Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1803 by William Wordsworth are two important bricks in the construction of the imagery of London; image which was not simply of a large metropolis, but also of a place where Romantic principals were challenged. The natural world was contrasted with a totally man-made place. It is the way Blake and Wordsworth deal with this ‘unnatural’ world that is my main focus here. I want to think of how they were able to make of London, the city of stone and multitude, a subject of their Romantic literature.
         William Blake was born in London in 1757. He lived with his family in a house on Broad Street from where he had a god view of the sun rising above the dome of St Paul’s and declining westwards into Kensington Gardens (ACKROYD, 1999, p. 5-6). Since his childhood he was found of solitary walks and made of the institutions near his house – the overcrowded parish workhouse, a school of industry for indigent children and an infirmary – recurring subjects in his poetry. He had a very strong sense of place and his whole life was strongly connected with the city. His urban sensibility sets him, beside Dickens and Turner, as one of the great artists of London (ACKROYD, p. 18-9). He knew the streets and he saw the living conditions of its people.
         The poem London follows this attitude. Blake’s description of the city cannot be detached from the people who lived there. Social injustice and other urban problems were a reality and shaped its context. London was composed between 1789 and 1793 and although it seems an accessible poem requires a careful approach in order not to fall for a literal reading, which according to E. P. Thompson, is a mistake because it ‘does not fit the poem’s meaning’ (THOMPSON, 1993, p. 181). I will mention more of Thompson’s criticism during the analysis.
 
London  
William Blake
 
I wander thro’ each charter’d street,
Near where the charter’d Thames does flow,  
And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.
  
In every cry of every Man,  
In every Infant’s cry of fear,
In every voice, in every ban,
The mind-forg’d manacles I hear.   
  
How the Chimney-sweeper’s cry
Every black’ning Church appalls;  
And the hapless Soldier’s sigh  
Runs in blood down Palace walls.
  
But most thro’ midnight streets I hear
How the youthful Harlot’s curse  
Blasts the new-born Infant’s tear  
And blights with plagues the Marriage hearse.
(BLAKE, 1970, p. 150)
 
         In the first stanza a simple walk through the streets of London the narrator encounters charter’d streets and a charter’d Thames. The repetition is a strong characteristic of the whole poem as it emphasizes the tone of indignation towards the way the people of London have been suffering the consequences of the current economic model. The word charter’d, refers to a clear definition of the spaces in London, as each part of it seems to be owned by someone. Even the river, which more than anything else is a natural and should not belong to anybody, is limited and confined by its definition (MANKOWITZ, 1979, p. 132). According to Simon Korner, the word chater’d is loaded with a critical sense, repeated to sharpen the ironic point to suggest the oppressive nature of early capitalism. Differently from the politically empty dirty used in the original version, Korner affirms that this meaning would have been easily understood by Blake’s contemporary readers. The following repetition of the word mark, highlights how ‘Londoners are branded with visible signs of sickness and misery’. It also brings the narrator closer to these people with the introduction of I (KORNER, 2013).
         The marks of despair are emphatically spread through every soul and every action in the city culminating in the mind-forg’d manacles the narrator hears in the second stanza. Such a strong image not only reinforces the idea of suffering, but also suggests that the charter’d quality is also due to a certain psychological predisposition. To illustrate the ‘interdependent misery’ of Londoners, Wolf Mankowitz points to the fourth and last stanza where the curses and diseases inherited from generation to generation through prostitution enters the ‘respectful’ family’s home carried by unfaithful husbands (MANKOWITZ, p. 132).          
         Back to the third stanza, we have the emblematic figures of the chimney-sweepers and the hapless soldiers, related consecutively to the church and the palace walls. According to Korner, these relations are more complex than they seem in a first look. The well-knows boy sweeps were controversial figures in the streets of London. They were in the lowest kind of child exploitation and often turned to crime and begging. The Church here does not work as an institution that saves these children, but also exploits them. The criminal sweeps end up being a more a menace to the Church than the Church to the sweeps. The soldiers who should be strong and brave are hapless and sigh. The reference to blood down palace walls probably refers to protests involving the suffering of these soldiers who lived in terrible physical and psychological conditions (KORNER, 2013).   
         The last stanza, as mentioned before, culminates in how all the suffering of Londoners is connected through corrupt institutions that not always are a pure act of the government, but involve people’s corrupted behavior in the city. The Harlots present their babies with diseases that plague even the bosom of the middle class and upper class in a vicious circle. The strong image of the marriage hearse provokes a consideration on how marriage and family are undermined by London life.

  1. P. Thompson says in his book Witness Against the Beast that London is a literal poem and also an apocalyptic one. Instead of being a simple listing of London’s problems, unrelated abuses and suffering, it takes us to the city streets and shows us what Blake saw around him in his walks. The first verse works basically like this, while in the other three we change from seeing to hearing and reduce the sense of distance and immerse “us within the human condition through which he walks” (THOMPSON, p. 187). Going back to this idea of the poet as an observer of the city, I would like to pass to Wordsworth and his poem Composed Upon Westminster Bridge. Although apparently very much connected to Blake’s poem, Wordsworth’s creates a different image of the city.

         William Wordsworth was born in Cockermouth, Cumberland, in the English Lake District in 1770 (GILL, 2003, p. x). He is one of the most important writers in terms of mapping London through his writing and contributing in the search for the city’s identity. The question of identity in London was always a matter of great concern among writers of the city. Julian Wolfreys mentions a certain phobia London generates in some writers due to its ‘constant mutability, states of upheaval and change’. This insecurity, manifested by Wordsworth himself in Book VII of The Prelude: ‘Residence in London’, is caused by the loss of control over identity that happens when imagining the city (WOLFREYS, 95-100). In Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1802, Wordsworth imagination and anxiety are exercised in a way that would never come to him again. The poem conveys a serene London, apparently asleep, quiet and still.     
Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1802
William Wordsworth
 
Earth has not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
                      The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres, and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
                      Never did sun more beautifully steep
In his first splendour, valley, rock, or hill;
Ne’er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! the very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!
(WORDSWORTH, 1995, p. 320)
 
         Although perfectly aware of London as a metropolitan heart, through which the life of the land circulates, he describes the city as if it were in some sort of suspended animation. This stillness may lead to a parallel to the poet’s frequent connection between extreme quiet and death in his poetry (ALEXANDER, 1987, p. 121). The appreciation of the calmness in the metropolis may also remind us of the poet’s profound Romantic soul that sees nature and the natural world as a true symbol of perfection. The city could only be seen in a positive angle by Wordsworth when he is able to make this link to what he truly treasures.
         Surprisingly the poem starts with a rather polemic verse in which the beauty of London can not only be compared to natural beauty, but surpass it. The city is appreciated from Westminster Bridge in a fair morning when the silence fits it like a garment. In the second verse Wordsworth lists what is in his sight. Being on Westminster Bridge, his vision was privileged because he had a wide view of many of the main buildings, but on the other hand he was very far from the majority of them, so the building’s tops were what best distinguished each one. Apart from the ships that were spread along the Thames, all the towers, domes, theatres, and temples end up in the sky and in the smokeless air. Due to this smokeless air, only possible while the city sleeps, the sun comes wonderfully in the third verse bringing images of nature, but still all the splendor and calm is superior in the city. The personification of London takes place in moments like when its garments are mentioned and in the fact that it seems to be asleep. To Carl Woodring, the spontaneous expletive Dear God! secures a deeper analogy with nature because it sounds like as a prayer. (WOODRING, 1965, p. 166-7) The river here glideth at his own will before the houses and the mighty heart awake. The stillness of the city is actually the stillness of the people. When the inhabitants of London are awake the city is spoiled and even the river loses his free will (charter’d Thames?). Interestingly the presence of same hands that made all that beauty superior to any other are responsible for transforming it each day into an ugly and noisy place. Perhaps Wordsworth was not interested enough in people to go to them (as Blake does in his poem) and see that the true city is made by its people. The sight of an empty or asleep London does not seem to match to what the city really is. The poet humanizes it and makes it feels like a living organism, but at the same time this organism would never ‘live’ without its inhabitants.
         Comparing both poems we notice the difference in terms of optimism towards the City. In his London, Blake does not like what he sees because he does not limit himself to what his eyes catch. He wanders in the physical streets, but he sees beyond them. Blake feels the suffering of the people who surround him. He knows they are tied up in a kind of living that leaves few possibilities of improvement and of having a good life. The population lives at the mercy of early capitalism, which exploits the poor and marginalizes them. Wordsworth never gets as close as that in his Composed Upon Westminster Bridge. The distance he is from the city he is describing prevents the viewer to see the reality of the streets. Even the lack on motion he notices is not necessarily true. Since he cannot really see whether most of the streets are empty or not, he may be simply think they are empty while workers and other people who are up early already circulate. His distance from the crowd prevents him of thinking of them and idealization is much stronger.
         The idea of the observant poet narrating what he sees from an apparent detached point of view is a typical figure of the Eighteenth century. Blake actually starts his poem in a similar way, although he eventually gets very much involved as it develops. Through the modifications he made, for instance the one I already mentioned of substituting dirty for charter’d implies that he got more politically involved with the passage of the time. For Wordsworth, the detachment is kept until the end and we do not seem to feel the same passion. J. H. Alexander calls our attention to what kind of poet Wordsworth was: ‘Much of Wordsworth’s poetry seeks repose, an extreme quietness, which approaches a timeless nirvana, and which may strike some readers as sepulchral’ (ALEXANDER, p. 4). However, he argues that in some of the poet’s best works energy and repose coexist and are experienced simultaneously rather than successively. The energy found in Wordsworth’s poem is different from Blake’s in terms of where it is concentrated. He focuses on the architecture and the amazing group of man-made beauty and sees it as something that could have a life of its own.
         There is another poem by William Wordsworth that is considered a counterpart to William Blake’s London, written a decade later, as a passage in Book VII of The Prelude lost:
 
                                            
Amid the moving pageant, ’twas my chance
Abruptly to be smitten with the view
Of a blind beggar, who, with upright face,
Stood propped against a wall, upon his chest
Wearing a written paper, to explain
The story of the man, and who he was.
My mind did at this spectacle turn round
As with the might of waters, and it seemed
To me that in this label was a type
Or emblem of the utmost that we know
Both of ourselves and of the universe,
And on the shape of this unmoving man,
His fix’d face and sightless eyes, I looked,
As if admonished from another world.
(WORDSWORTH, 1995, p. 815)                
 
         Now here we have a very similar reaction in relation to the horrors of seeing things from a closer point of view. The blind beggar is like the harlot in Blake. He is the symbol of a social reality sent from heaven as a warning. “Stopped in his tracks by a visual short-circuit, the poet is ‘admonished from another world’ for his inability to read past his own blindness, into the lives of others and into the story of the beggar” (SHARPE, 2011, p. 124). In the end both poets are not contrary to one another.
         London and Composed Upon Westminster Bridge show different perspectives of the city, but not necessarily opposite ones. Although Wordsworth’s city seems much calmer and inviting, people will eventually wake up in the morning, crowd the streets like they always do and break all the magic he describes. Blake is there in the middle of this crowd and points the shameful marks of misery he sees with a more critical and sharp language. Both poets contributed to the many layers created during the centuries that produced the London ‘everyone’ knows and visits even without being there personally. Their words do not define the city, which no one could ever do, but are part of it, like the very buildings, streets and the river.  
 
REFERENCES
Primary Texts
BLAKE, William. London. In: Songs of Innocence and Experience. Oxford: Oxford University, 1970. p. 150.
WORDSWORTH. William. Book Seventh: Residence in London. In: The Collected Poems of William Wordsworth. London: Wordsworth editions, 1995. p. 815.
WORDSWORTH, William. Composed Upon Westminster Bridge, September 3, 1802. In: The Collected Poems of William Wordsworth. London: Wordsworth editions, 1995. p. 320.
 
Secondary Texts
ACROYD, Peter. Blake. London: Vintage, 1999.
ALEXANDER, J. H. Reading Wordsworth. London: Routledge, 1987.
GILL, Stephen. Wordsworth Chronology. In: The Cambridge Companion to Wordsworth. Stephen Gill (Ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. x-xiii.
KORNER, Simon. William Blake’s London. In: 21st Century Socialism. Available at <http://21stcenturysocialism.com>. Accessed on: 12 Mar. 2013.
MANKIWITZ, Wolf. The Songs of Experience. In: Songs of Innocence and Experience: A Selection of Critical Essays. Margaret Bottrall (Ed.). London: Macmillan Press, 1979. p. 123-159.
MANLEY, Lawrence (Ed.) Introduction. In: The Cambridge Companion to the Literature of London. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. p. 1-18.
SHARPE, William, London and Nineteenth-Century Poetry. In: The Cambridge Companion to the Literature of London. Lawrence Manley (Ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 2011), p. 119-41.
THOMPSON, E. P., Witness Against the Beast. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
WOLFREYS, Julian. Writing London. London: Macmillan Press, 1998.
WOODRING, Carl. Wordsworth. London: Oxford University Press, 1965.





Bio fornecida pelo palestrante.

DE LA PASSANTE AU CYGNE : UNE ANALYSE DES VEUVES DE BAUDELAIRE – Thaïs Chauvel – Thaïs Chauvel




DE LA PASSANTE AU CYGNE :

UNE ANALYSE DES VEUVES DE BAUDELAIRE

 

Thaïs Chauvel

Universidade do Estado de São Paulo (USP)

 
Resumo: Este artigo apresenta uma análise contrastiva dos poemas “À une passante” e “Le Cygne”, nos quais Charles Baudelaire descreve duas viúvas em meio à cidade de Paris. Autor do célebre ensaio intitulado “O pintor da vida moderna”, Charles Baudelaire trabalhou em alguns de seus poemas mais admirados o motivo da vida urbana, e as transformações sociais resultantes da metamorfose de uma metrópole do século XIX. Apoiando-se na perspectiva apresentada pelo crítico Antoine Compagnon, autor de Baudelaire, l’Irréductible (2014), em que argumenta que a obra baudelairiana exibe ricas contradições irredutíveis à categorização, este artigo propõe analisar algumas das contradições, tanto de forma quanto de conteúdo, apresentadas em ambos os poemas que retratam viúvas, com o objetivo de entender de que maneira elas são reveladoras da poesia de Baudelaire.
Palavras-chave: Baudelaire; poesia; modernidade; luto.
 
Currículo: Franco-brasileira, a autora Thaïs Chauvel tem diploma de Bacharelado francês em Literatura, obtido com menção honrosa em 2009. Formada em Letras, habilitação em língua e literatura francesas pela Universidade de São Paulo, atualmente é mestranda do programa de pós-graduação em estudos linguísticos, literários e tradutológicos em francês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

DE LA PASSANTE AU CYGNE :
UNE ANALYSE DES VEUVES DE BAUDELAIRE
 
Thaïs Chauvel
 
Universidade do Estado de São Paulo (USP)
 
Charles Baudelaire, dont les ambitions littéraires étaient nombreuses, avait sans doute l’intention d’écrire une oeuvre bien plus vaste que celle qu’il a légué à la postérité. De ses projets de romans et de drames, il ne reste que de brefs commentaires éparpillés dans sa correspondance ou mentionnés dans les fragments de Mon coeur mis à nu et des Fusées. Toutefois, ce poète pour qui le Travail était une véritable difficulté, laisse une oeuvre hétéroclite qui réunit des écrits critiques sur l’art, tel que le célèbre essai  « Le Peintre de la vie moderne », des poèmes en prose publiés à sa mort sous le titre de Spleen de Paris, et son recueil intitulé Les Fleurs du mal, publié en 1857. Ces « fleurs maladives » dedicacées à Théophile Gautier, chef de file du cénacle Parnassien,  démontrent de façon exemplaire toutes les tensions qui feront de Baudelaire ce poète « irréductible », pour reprendre l’expression d’Antoine Compagnon. En effet, ce poète chrétien ne cesse de parler de Satan, il prône la forme épurée tout en mélangeant les registres et convoque la tradition classique afin de rechercher la modernité, tout cela au nom d’une seule « déesse » : la Beauté qui exècre la nature au nom de l’artificiel – mais pas toujours.
Il semblerait donc inutile de tenter de réduire ce flâneur qui échappe obstinément aux catégories critiques, telles que romantique, ou encore réaliste. Si l’on ne veut pas ignorer les contradictions de la poésie baudelairienne il faudrait, au contraire, tenter de les dévoiler au grand jour ; telle est la finalité de cet article, qui propose une lecture analytique contrastive de deux poèmes issus de la session des « Tableaux Parisiens » des Fleurs du mal à savoir « Le cygne » et « À une passante ». Dans un premier temps, ces deux poèmes (dont la reproduction intégrale est disponible en annexe) seront présentés afin de souligner les tensions qui opèrent au sein de leur construction : le souci de la forme classique, comme le sonnet, et le thème moderne de la foule en mouvement dans la métropole. Ou encore, la convocation des mythes traditionnels de la littérature occidentale, comme Andromaque, et le motif urbain – radicalement moderne – de la ville de Paris en plein changement. Dans ces deux poèmes, la forme traditionnellement fixe et classique rencontre un registre de langue familier dans un « bric à brac confus ». Ensuite, on s’interrogera  sur la représentation de ces deux veuves du « Cygne » et de  « À une Passante ». Cette lecture analytique repose sur les interprétations de Walter Benjamin, Erich Auerbach et Antoine Compagnon afin de mieux suivre la passante, et compte sur celles de Dof Oehler, Jean Starobinski et Karlheinz Stierle pour éclairer le cygne et le signe.
Le poème intitulé « À une passante » est un sonnet, forme poétique traditionnellement attribuée à Pétrarque qui l’utilisait volontiers pour faire l’éloge de la femme aimée dans sa poésie lyrique. Baudelaire reprend ici le sonnet de Pétrarque pour que le moi poétique puisse proclamer son admiration pour une femme endeuillée qu’il a apperçue dans la rue. De ce fait, si la forme poétique choisie est belle et bien classique – car les romantiques ne s’en servaient guère, douze vers ne suffisant pas à exprimer le cri du coeur de cette génération –, le motif sur lequel se construit le poème est radicalement moderne. Il s’agit bien de la foule, nullement mentionnée de façon explicite d’ailleurs, surlaquelle repose néanmoins tout le développement du poème, comme le remarque Walter Benjamin. En effet, ce dernier observe que “a visão que fascina o habitante da cidade grande – longe de ele ter na multidão apenas uma rival, apenas um elemento hostil –, lhe é trazida pela própria multidão” (BENJAMIN, 1995, p. 117). Ainsi, la veuve qui passe dans la rue et attire l’attention du flâneur se donne à voir grâce à la foule, mais est aussi perdue de vue à cause de celle-ci – ce qui constitue l’ambivalence du mouvement de cette « rue assourdissante ». Walter Benjamin conclut son commentaire par une formule désormais célèbre selon laquelle « o encanto desse habitante da metrópole é um amor não tanto à primeira quanto à última vista » (BENJAMIN, 1995, p. 117).
Pour Antoine Compagnon, « Baudelaire a crée, ou definitivement consacré, l’un de grands mythes féminins modernes, la femme inconnue, inaccessible, apperçue hâtivement dans la foule et perdue de vue aussitôt » (COMPAGNON, 2014, p. 69). Ce critique argumente qu’il s’agit là d’un « fantasme moderne », puisque la « société, autrefois, n’était pas anonyme ». La « déperdition de l’identité dans les grandes métropoles » est donc un thème moderne retravaillé par Baudelaire dans une forme classique : il se sert d’un canon traditionnel pour faire l’éloge de la femme admirée disparue aussitôt dans la précipitation de la rue, qui est selon Walter Benjamin « uma despedida para sempre, que coincide, no poema, com o momento do fascínio » (BENJAMIN, 1995, p. 117). Ce sonnet est tout ce que le poète a pu fixer de cette « fugitive beauté » qui correspond bien à la définition de moderne selon Baudelaire dans Le Peintre de la vie moderne, où il affirme que la modernité, « c’est le transitoire, le fugitif, le contingent, la moitié de l’art, dont l’autre moitié est l’éternel et l’immuable » (BAUDELAIRE, p. 11). Toutefois, aussi fugitive que soit la beauté de la passante endeuillée, « sa jambe de statue » pétrifie le mouvement, tranformant la femme moderne en statue classique que Baudelaire loue dans « l’éloge du maquillage » dans lequel ce-dernier affirme que la poudre de riz « rapproche immédiatement l’être humain de la statue, c’est-à- dire d’un être divin et supérieur » (BAUDELAIRE, p. 24).
La dicotomie entre le classique et le moderne se retrouve aussi dans le poème « Le cygne », dedicacé à Victor Hugo, chef de file du cénacle romantique. Observons que Baudelaire construit ce poème en deux parties et en vers alexandrins dans lesquels il évoque « la lointaine et mythique Andromaque » (STIERLE, 2004, p. 531), l’épouse et veuve d’Hector, personnage épique d’Homère, certes, mais aussi d’Eurypide, de Virgile, et de Racine. Il s’agit donc d’une référence à la fois mythique et littéraire appuyée sur la tradition classique. Toutefois, il faut convenir que « Le Cygne » est avant toute chose un poème urbain, car bien qu’il fasse appel à Ovide, le poète ici n’est « qu’un seul flâneur » (STIERLE, 2004, p. 537) qui décrit dans ces vers la ville de Paris en proie aux travaux du Second Empire qui remplacent les rues médiévales par des boulevards Haussamannien. Karlheinz Stierle, s’interroge sur « le chemin qui conduit de la conscience de la ville à Andromaque, puis au cygne » ; d’après celui-ci, c’est « avec le souvenir des flaques d’eau » qui intervient comme « élément minimal de corrélation qui se reproduit dans sa mémoire » en rapprochant l’image de l’antique veuve d’Hector à celle du cygne évadé de l’ancienne ménagerie. La constatation des transformations de la ville de Paris déclenche une réflexion (ne pourrait-on pas dire aussi réflection ?) sur la perte, qui replace des personnages mythologiques et allégoriques dans le contexte urbain de la métropole moderne.
Or, cette tension entre le classique et le moderne dans le « Cygne » se prolonge au delà du fond et de la forme fixe par le biais du mélange de style : au sein du registre classique, se trouvent des expressions familières, telles que « tout ce camp de baraques » (v. 9), « ces tas » (v. 10) et les « gros blocs » (v. 11), ou encore le « bric-à-brac » (v. 12). La formule lyrique « je pense à » dont Baudelaire se sert à quatre reprises tout au long du poème, se situe selon Karlheinz Stierle « encore dans la tradition de Pétrarque ». Ce-denier aurait compris le pensare « comme unité de la perception, du souvenir, de la pensée et d’une émotion inconsciente antérieure à la pensée » qui était pour Pétrarque « à la fois l’objet et l’accomplissement du poème lyrique où s’exprimait un moi entré en conflit avec lui-même » (STIERLE, 2004, p. 530). La formule apparaît à la fois dans l’apostrophe emphatique du premier vers – « Andromaque, je pense à vous !» – et dans l’invocation énigmatique de la deuxième partie – « Je pense à la négresse ». Ainsi, la symétrie qui s’impose par la répétition de la formule pétrarquienne réunit l’antique Andromaque de Virgile et de Racine, à la négresse « amaigrie et phtisique,/ piétinant dans la boue » (p. 41-42) contemporaine de Baudelaire.
Il convient à présent de s’interroger sur la figure d’Andromaque qui, pleurant la disparition de son époux Hector, devient une « grande figure de remémoration, de la douleur du deuil et de l’exil » (STIERLE, 2004, p. 538). Selon l’interprétation de Karlheinz Stierle, le poème propose une « image mnésique idéale d’Andromaque en exil qui, dans la douleur profonde d’une remémoration passionnée », se libère de l’opprobre de l’exil imposé par la « concentration dans l’Un et l’Absolu, Hector » par laquelle naît le sublime du poème (STIERLE, 2004, p. 539). En outre, ce critique explique que l’épisode auquel Baudelaire fait allusion est extrait de L’Enéïde de Virgile, ne manquant pas de remarquer que « l’immense majesté de vos douleurs de veuve » (v. 3) est non seulement « un écho de la formule par laquelle Racine définit l’essence du tragique, elle évoque en même temps la « tristesse majestueuse » de l’Andromaque racinienne » qui, pour Racine, fait « tout le plaisir de la tragédie » (STIERLE, 2004, p. 528). Aussi, dans ce poème de Baudelaire, Andromaque peut-elle être « vil bétail » (v. 38) tout en incarnant la figure exemplaire de la mémoire endeuillée de la mémoire collective occidentale (STIERLE, 2004, p. 539).
L’image de cette veuve mythique représentée dans « Le Cygne » correspond à un commentaire des  Fusées XVI  dans lequel Baudelaire définit la beauté ainsi: « Je ne prétends pas que la Joie ne puisse pas s’associer avec la Beauté, mais je dis que la Joie est un des ornements les plus vulgaires, tandis que la Mélancolie en est pour ainsi dire l’illustre compagne ». De ce fait, le poète associe la Beauté à la Mélancolie au point où celui-ci ne peut concevoir « un type de Beauté où il n’y ait du Malheur ». Cette constatation de Baudelaire permet de comprendre pourquoi la figure de la veuve, en tant que femme endeuillée dont la disparition de l’époux provoque une « tristesse majestueuse », est reprise maintes fois dans ces poèmes. En effet, la Passante de Baudelaire correspond bien à sa definition du Beau : « c’est quelque chose d’ardent et de triste, quelque chose d’un peu vague, laissant carrière à la conjecture », qu’il applique à un objet sensible, à savoir, la femme.
Cet objet sensible apperçu au deuxième vers de « À une passante » définit comme « longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse » (v. 2) ne devient sujet qu’au dernier vers du poème : « ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais ! ». Alors que le premier hémistiche pose la passante comme l’objet complément direct par le biais de l’utilisation du pronom relatif « que », la passante devient objet aimée dans le dernier hémistiche du poème, lorsque le pronom relatif « qui » la transforme en sujet. D’autrepart, le parallélisme de l’expression marqué par l’anaphore « ô toi » emphatise le douloureux contraste entre le concept iréel du passé, souligné par le subjonctif plus-que-parfait « eusse aimée » de nature déréalisante –, et la certitude de l’imparfait « savait ». Selon Antoine Compagnon, ce dernier vers réduit l’observateur « au désir et à la nostalgie ». Pour ce critique, la passante de Baudelaire « annonce (…) les femmes du roman de Proust, qualifées d’êtres de fuites, à jamais impossible à fixer » (COMPAGNON, 2014, p. 70).
Antoine Compagnon analyse le statut historique des veuves à l’époque, qui seraient les seules « femmes libres » qui constituent « un fantasme qui traverse toute la littérature du siècle », celui de « la jeune veuve vivant sa vie comme elle l’entend (…) ; elle a des désirs, et elle jouit de son indépendance » (COMPAGNON, 2014, p. 71). De plus, la veuve « en grand deuil » (v. 2) porte l’habit noir que Baudelaire considère comme « la pelure du héros moderne » dans le Salon de 1846. Toutefois, Antoine Compagno remarque encore que le noir est aussi la couleur de la nouvelle tenue des hommes sur les boulevards. Dans ce sens, « il y a donc quelque chose de masculin, de viril, chez les veuves » : leur indépendance (COMPAGNON, 2014, p. 71).
Cette analyse contribue à la compréhension de la veuve contemporaine à Baudelaire dans son poème « À une passante », néanmoins, elle ne pourrait guère s’appliquer à l’Andromaque du « Cygne », identifiée ci-dessus comme la figure mythique de la mémoire endeuillée. Sur ce point, le critique allemand Dolf Oehler propose une interprétation qu’il convient de présenter ici. Ce-dernier analyse la « relação dialética entre opressão e libertação constitui o cerne de O cisne » (OEHLER, 2004, p. 111). Son premier argument repose sur la dédicace à Victor Hugo, exilé depuis le coup d’État de Napoléon III, et qui « não cessava de menoscabar em prosa e verso o imperador Napoleão III, le petit » (OEHLER, 2004, p.111). Ensuite, Dolf Oehler rapelle que Baudelaire a vécu deux révolutions en soutenant les révoltés. De ce fait, « as correspondências entre o cisne e a revolução remetem inequivocamente às lutas fracassadas de junho de 1848 ». (OEHLER, 2004, p. 112). Le commentateur prend l’exemple du vers 18, où les pieds palmés du cygne « frottant le pavé sec » feraient allusion à l’expression « être sur le pavé » qui désignait la misère. S’appuyant sur le principe baudelairien de « a exatidão matemática das metáforas poéticas » (OEHLER, 2004, p. 113), Dolf Oehler affirme que “as imagens monádicas do cisne e de Andrômaca surgem agora como partes de uma série de estandartes e emblemas revolucionários; » (OEHLER, 2004, p. 113).
Andromaque, butin de guerre de Pyrrhus, est léguée à Hélénus, frère cadet d’Hector, étant ainsi contrainte d’épouser son ancien beau-frère, cette séquence « faz pensar na genealogia do bonapartismo » (OEHLER, 2004, p. 113). De plus, Louis-Napoléon arrache la république des mains de Cavaignac qui : « conhecido por sua arrogância e de fato um superbe Pyrrhus, teria chamado os massacrados de “vil bétail”» (OEHLER, 2004, p. 114). D’autrepart, Dolf Oehler souligne encore que « La République figurava nas representações alegóricas como uma mulher majestosa», ainsi, « Andrômaca é a mulher forçada a se casar – é notável, aliás a semelhança entre a cadência e a fonética de République e Andromaque » (OEHLER, 2004, p. 114). Afin de renforcer la métamorphose de la France/la Répulique/Andromaque, le critique expose du matériel complémentaire, mais extérieur au poème qui ne sera pas présenter ici. Toutefois, l’intérprétation qu’il donne de la négresse convient d’être mentionné : elle rapellerait le postulat de la révolution de 1848 qui proclamait l’égalité universelle et l’abolition de l’esclavage, de cette manière : « Também a negra está entre os órfãos da república, também ela é filha de Andrômaca, e também para ela, como para todos os órfãos da França, a dor foi mãe adotiva » (OEHLER, 2004, p. 116). Enfin, le commentateur explique cette métamorphose politique d’Andromaque évoquant « o mascaramento de conteúdos políticos sob formas mitológicas ou zoológicas é parte do método da retórica republicana-socialista, que se refinou continuamente depois das leis de censura » (OEHLER, 2004, p. 118).
Les deux veuves représentées dans « À une passante » et « Le Cygne » se revêtent ainsi de significations différentes. D’une part, la « fugitive beauté » apportée et emportée par la foule de la métropole moderne, d’autre part, la figure mnésique de la mémoire endeuillée, interprétée par Dolf Oehler comme la personnalisation de la République déchue. Cependant, malgré leurs divergences, toutes deux réunissent la tension fondamentale de la poésie baudelairienne, à savoir la dicotomie entre le classique et le moderne, à l’oeuvre sur le fond et la forme dans ces poèmes. En outre, le concept de la veuve, qui porte sur elle la mort, se rapproche de la conception du Beau de Baudelaire qui exclame dans l’Hymne à la Beauté que « L’amoureux pantelant incliné sur sa belle/ A l’air d’un moribond caressant son tombeau ». De ce fait, la mort et la beauté semble intrinsèquement liées chez Baudelaire, qui conclut ses Fleurs du mal dans « Le Voyage » en invoquant la mort, ce « vieux capitaine, il est temps ! levons l’ancre ! », afin de « plonger au fond du gouffre (…)/ Au fond de l’Inconnu pour trouver du nouveau !».
 
ANNEXES
 
« À une passante »
 
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;
 
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
 
Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité ?
 
Aillleurs, bien loin d’ici ! Trop tard ! Jamais peut-être !
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !
 
« Le Cygne »
À Victor Hugo
 
I
Andromaque, je pense à vous ! Ce petit fleuve,
Pauvre et triste miroir où jadis resplendit
L’immense majesté de vos douleurs de veuve,
Ce Simoïs menteur qui par vos pleurs grandit,
 
A fécondé soudain ma mémoire fertile,
Comme je traversais le nouveau Carroussel.
Le vieux Paris n’est plus (la forme d’une ville
Change plus vite, hélas ! que le coeur d’un mortel) ;
 
Je ne vois qu’en esprit tout ce camp de baraques,
Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts,
Les herbes, les gros blocs verdis par l’eau des flaques,
Et, brillant aux carreaux, le bric-à-brac confus.
 
Là s’étalait jadis une ménagerie ;
Là je vis, un matin, à l’heure où sous les cieux
Froids et clairs le Travail s’éveille, où la voirie
Pousse un sombre ouragan dans l’air silencieux,
 
Un cygne qui s’était évadé de sa cage,
Et, de ses pieds palmés frottant le pavé sec,
Sur le sol raboteux traînait son blanc plumage.
Près d’un ruisseau sans eau la bête ouvrant le bec
 
Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre,
Et disait, le coeur plein de son beau lac natal :
« Eau, quand donc pleuvras-tu ? quand tonneras-tu, foudre ? »
Je vois ce malheureux, mythe étrange et fatal,
 
Vers le ciel quelquefois, comme l’homme d’Ovide,
Vers le ciel ironique et cruellement bleu,
Sur son cou convulsif tendant sa tête avide,
Comme s’il adressait des reproches à Dieu !
II
Paris change ! mais rien dans ma mélancolie
N’a bougé ! Palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,
Et me chers souvenirs sont plus lourds que des rocs.
Aussi devant ce Louvre une image m’opprime :
Je pense à mon grand fygne, avec ces gestes fous,
Comme les exilés, ridicule et sublime,
Et rongé d’un désir sans trêve ! et puis à vous,
 
Andromaque, des bras d’un grand époux tombée,
Vil bétail, sous la main d’un superbe Pyrrhus,
Auprès d’un tombeau vide en extase courbée ;
Veuve d’Hector, hélas ! et femme d’Hélénus !
 
Je pense à la négresse, amaigrie et phtisique,
Piétinant dans la boue, et cherchant, l’oeil hagard,
Les cocotiers absents de la superbe Afrique
Derrière la muraille immense du brouillard ;
 
À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve
Jamais, jamais ! à ceux qui s’abreuvent de pleurs
Et tettent la Douleur comme une bonne louve !
Aux maigres orphelins séchant comme des fleurs !
 
Ainsi dans la forêt où mon esprit s’exile
Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor !
Je pense aux matelots oubliés dans une île,
Aux captifs, aux vaincus !… à bien d’autres encor !
 
BIBLIOGRAPHIE
AUERBACH, Erich. As flores do mal e o sublime. In: Ensaios de literatura ocidental. Tradução de Samuel Titan Jr. e José M. M. de Marcelo. São Paulo: Editora 34/Duas Cidades, 2007, p. 331-332.
BAUDELAIRE, C. Oeuvres complètes I. Paris: Gallimard, 1975.
BAUDELAIRE, C. « Le Peintre de la vie moderne », disponible sur : http://baudelaire.litteratura.com/ressources/pdf/oeu_29.pdf
BENJAMIN, W. « Sobre alguns temas em Baudelaire » In : Obras Escolhidas III. São Paulo: Brasiliense, 1995.
COMPAGON, A. Un été avec Baudelaire. Paris : Équateurs France Inter, 2014.
OEHLER, D. Um socialista hermético In: Terrenos vulcânicos. Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 99-126.
FRIEDRICH, Hugo. Structure de la poésie moderne. Paris : Livre de Poche,1999.
STAROBINSKI, J. A melancolia diante do espelho, três leituras de Baudelaire. Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Editora 34, 2014.
STIERLE, K. Le groupe des Tableaux parisiens. In : La capitale des signes, Paris et son discours. Paris : Éditions de la Maison des Sciences de l’Homme, 2001. p. 451-543.





Bio fornecida pelo palestrante.

UMA RETROSPECTIVA DO USO DO TERMO LITERACIA: SENTIDOS ATRIBUÍDOS E DERROTADOS ENTRE O FINAL DO SÉCULO XIX E MEADOS DO SÉCULO XX – Beatrice Bonami Rosa




Universidade de São Paulo
 
Resumo: O presente artigo delimita as nuances semânticas do conceito literacia (tradução do inglês literacy) a fim de compreender seu constante uso dentro do campo da Comunicação e Educação. Para tanto, mapeia o uso do termo no perímetro epistemológico da Literatura e dos Estudos Culturais desde o final do séc. XIX até a década de 1980. É possível esboçar que Literacia leva em seu gene etimológico um leque semântico, o qual se encaixa em suas atribuições de sentidos atuais com designações próximas aos conceitos de alfabetização e letramento, porém em um sentido mais interdisciplinar e afirmativo em relação ao desenvolvimento humano.
 
Palavras-chaves: Literacias, Alfabetização e Letramento, Estudos Culturais, Nuances Semânticas.
 
Abstract: This paper defines the semantic nuances of the concept of literacy (originally an English word) in order to understand its constant use in the Communication in the Educational field. To this end, it maps the use of the term in the epistemological area between Literature and Cultural Studies from the end of the 19th Century until the 1980s. It is possible to sketch that literacy contains a wide semantic range in its etymology, which can adapt to its current uses in Portuguese. Those relate to concepts that approach the designation of literacy and reading learning, but which are employed in a more interdisciplinary and humanistic sense.
 
Key Words: Literacies, Reading learning, Cultural Studies, Semantic Nuances.
 
Currículo: É natural de São Paulo e aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – PPGCOM/ECA/USP. Graduada em Artes Visuais e Mídia pelo Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia – IArte/UFU. É pesquisadora associada do Observatório da Cultura Digital do Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Escola do Futuro da Universidade de São Paulo – NACE – EF/ECA/USP. Tem experiência nas áreas de Comunicação e Educação, Ensino Especial, Educação Artística e Fotografia.
 

UMA RETROSPECTIVA DO USO DO TERMO LITERACIA: SENTIDOS ATRIBUÍDOS E DERROTADOS ENTRE O FINAL DO SÉCULO XIX E MEADOS DO SÉCULO XX

 

Beatrice Bonami Rosa

Universidade de São Paulo

 
 
Introdução
A palavra literacia, em sua origem na língua inglesa (final do século XIX), denotava alfabetização/letramento. Em sua associação com a mídia, a informação e a tecnologia, o termo foi estendido para definir habilidades e competências envolvendo a busca, a seleção, a análise, a avaliação e o processo da informação, considerando os meios, contextos e ambientes em que se encontra e se produz o conhecimento.  Historicamente, foi um conceito associado ao crescimento e à evolução das sociedades, mas somente em meados do século XX, acadêmicos se interessaram pelo real sentido da palavra. Ela não mais denotou um sentido vinculado somente ao “letramento”, mas foi associada a um processo educacional mais amplo, que envolve práticas sociais e culturais.
A questão “O que é literacia?”, tanto é difícil de se perguntar quanto de se responder. As discussões sobre o conceito se tornaram comuns desde a década de 1960 e chegou a se colocar que o número de definições da palavra é diretamente proporcional à quantidade de usuários. Na educação, ideias como novas literacias, múltiplas literacias, multiliteracias, entre outras, proliferaram no discurso do professor e no discurso literário. Por ser um termo amplo e interdisciplinar, é preciso defini-lo para não se tornar vago.
 
Literacias no Contexto Cultural
O termo tem sido abordado no Brasil nos últimos anos na área da “Comunicação na Educação” para designar novas habilidades desenvolvidas pelo sujeito exposto às novas mídias, informações e tecnologias. Comumente articulada a outros conceitos, literacia se torna um termo composto, tal como: literacias digitais ou literacias em mídia e informação. Na língua portuguesa, a palavra “literacy” (do inglês) é oficialmente traduzida como letramento ou alfabetização, sendo assim ligada ao campo da pedagogia e da literatura.
Em referência aos termos compostos também no inglês – “digital literacy” e “media and information literacy” – surgiram expressões tais como: letramento informacional, alfabetização informacional, habilidade informacional e competência informacional. No entanto, existe uma tendência em utilizar no lugar dessa tradução, uma expressão mais literal, daí o uso da palavra “literacia”. A tradução literal abarca a abrangência do radical da palavra original, já que o conceito, desde seu uso mais primórdio, já contemplava habilidades para além do letramento (escrita e leitura), mas também noções de interpretação e produção relativas à área da literatura e da cultura.
É aberto um leque semântico em relação à palavra, e essa amplitude é fruto do desenvolvimento do termo desde o final do século XIX até a década de 1980. Foram selecionados três autores que investigaram e delimitaram conceitualmente o radical. O primeiro, Raymond Williams, foi propositor de um procedimento metodológico para investigação semântica de palavras em que usou e pontuou o termo “literacy” dentro da história. Além dele, Richard Hoggart e Eric Donald Hirsch foram autores selecionados pelo extensivo uso do termo aplicado na área da cultura, uma virada semântica importantíssima, pois o termo era primordialmente associado a noções de alfabetização.
Raymond Williams (1921-1988), acadêmico, crítico e novelista galês, publicou em 1977 o livro Key-Words (traduzido no português como Palavras-chaves, São Paulo, BoiTempo, 2007). Em sua publicação, Williams relaciona os processos de construção semântica das palavras ao longo da história. Sua motivação para a escrita do livro foi a sua volta do serviço militar na Segunda Guerra Mundial, evento que interrompeu seus estudos em Cambridge. Ao seu regresso, detectou alguns termos articulados de maneira diferente e empregados em outros círculos sociais, em especial a palavra “cultura”. Passou a investigar esses processos de construção de sentido dentro da língua britânica.
Seu propósito era articular conceitos de linguagem que apresentassem os limites e as pressões das ações humanas, já que toda palavra é subordinada ao uso e contexto sociais. Desse ângulo, ao longo de cada verbete, é preciso entender quais foram as opções de sentido derrotadas, quais foram impostas e a serviço de quê. Apesar da estrutura (e do posicionamento na ala de Referências da Biblioteca), o livro não consiste de um dicionário ou glossário de um assunto acadêmico específico. Trata-se de uma investigação a respeito de um vocabulário que percorre o perímetro entre duas palavras: cultura e sociedade.
Naturalmente, nem todas as questões semânticas são entendidas por simples análises de palavras, valendo-se da descrição do contexto, bem como de fenômenos históricos associados com conceitos que elucidem o verbete. Contudo, o significado não pode dissolver-se nesse contexto, apesar da palavra não ser autônoma e estar no processo social da língua.
Algumas palavras, verbetes por assim dizer, são interessantes destacar como “comunicação” que somente no século XX passou a se referir à mídia (ou meio); ou então a palavra “indivíduo” em que atribui o seu significado do resultado de pensamentos científicos, políticos e econômicos, pois originalmente, seu significado seria “indivisível” ou aquilo oposto ao “geral”. Exemplos à parte, como o objetivo deste estudo é a investigação do uso do termo “literacias”, foi dirigida a atenção ao verbete de “literatura”.
Literatura correspondia aos significados de “literacy”, originalmente traduzido como “letramento”, uma palavra nova do final do século XIX. O termo literacy significava tanto a capacidade de ler quanto a condição de ser muito lido (em outras palavras, de ser culto). Literacy (letramento) e illiteracy (analfabetismo) tornaram-se conceitos cruciais em uma perspectiva muito mais ampla.
Desde o século XVIII, o termo “analfabetismo” indicou a incapacidade geral de ler e escrever, enquanto “letramento” foi uma palavra usada para expressar a obtenção e a posse de competências vistas como, cada vez mais, gerais e necessárias. Segundo Williams, “literacy” comporta uma abrangência em seu significado, abrindo um leque referente a quais competências o indivíduo poderia desenvolver, mesmo que no campo da literatura.
Não obstante, o autor atribui uma perspectiva libertária à literacia, pois, uma vez que o indivíduo aprende a ler, ele passa a compreender seu contexto. Quando um sujeito se torna letrado, ele atribui sua habilidade de acordo com a demanda que lhe convier. Como exemplo, em outro livro (Television: Technology and Cultural Form, 1975), Williams expõe que na Revolução Industrial Britânica, primordialmente, só se ensinava o indivíduo a ler, e não a escrever, para absorver os significados culturais, bem como instruções escritas no trabalho e ensinamentos morais religiosos pela Bíblia. No entanto, sem poder reproduzi-los através da escrita, fator considerado irrelevante em sua educação, já que raramente os trabalhos demandavam a palavra escrita. Mas, segundo o autor,
 
There was no way to read the Bible which did not also enable him to read the radical press. A controlled intention became an uncontrolled effect. Yet the acquisition of literacy, then as now, almost always involve submission to a lengthy period of social training – education – in which quite other things than literacy or similar skills were taught” (WILLIAMS, 1975, p. 131)[1].
 
 
 
Em confluência com esse tema apontado por Wiliams em um de seus verbetes, pode-se citar HOGGART (1957). Richard Hoggart (1918-2014), acadêmico e sociólogo britânico, escreveu o livro “The Uses of Literacy” (1956) traduzido para o português como “As Utilizações da Cultura: aspectos da vida cultural da classe trabalhadora” (Lisboa, 1957). Em seu livro, Hoggart faz uma análise dos aspectos culturais da vida do proletariado desde o final da década de 1910 (após a Revolução Russa de 1917), observando as mudanças significantes traduzidas pela cultura de massa e pelos novos meios de comunicação: o rádio e a televisão. Primeiramente, ele define quem é esse “povo” à que a cultura de massa está direcionada e como é a vida do povo (a posição do gênero, a família, a comunidade e a religião). Depois, passa-se à análise literária das publicações populares:
 
Deve-se tentar ver, para além dos hábitos, aquilo que os hábitos representam, ver através das declarações e respostas o que estas realmente significam (significado que pode ser oposto a essas próprias declarações), detectar os fatores emocionais subjacentes às frases idiomáticas e observâncias ritualísticas” (HOGGART, 1957, p. 20).
 
 
O autor dispõe que a linguagem é de grande importância no desenvolvimento cultural da população e, por conseguinte, as produções em literatura:
 
Uma vez que o ensaio estuda a modificaçã cultural[ii] interessa sobretudo outros aspectos mais sutis do estilo de vida que caracteriza o proletariado. A linguagem será de grande utilidade, e em particular o conjunto das frases de uso comum. As maneiras de falar, os dialetos, sotaques e entoações, sejam provavelmente mais úteis” (HOGGART, 1957, p. 25).
 
 
Notas
 
1 Não há maneira de ler a Bíblia sem que isso permita o indivíduo ler a imprensa “radical”. Uma intenção de controle assume um efeito incontrolável. Além disso, a aquisição do letramento, agora como antes, quase sempre envolve submissão a um longo período de estágio social – educação – no qual outras coisas além da alfabetização ou habilidades são ensinadas. (Tradução livre).
2 Sendo modificação cultural tradução equivalente ao termo “literacy” na obra de Hoggart (1957).
 
No livro, o termo “literacy” é associado ao termo “cultura” ligado ao campo da literatura (já que a expressão literária é um fator importante na composição cultural de um grupo comunitário). Além disso, a competência cultural (literacy) está mais próxima ao literário do que ao linguístico, assumindo uma definição generalizada que permite o livre arbítrio entre expressões, observações e pensamentos relevantes na literatura.
A correspondência entre “cultura” e “literacy” é exata quando se refere à multiplicidade e amplitude que ambos os termos empregam. Essa representação é encarada nesse estudo como uma virada semântica importante na construção do termo literacia. Tal associação ainda é próxima do termo “Cultural Literacy” cunhado pelo acadêmico e crítico literário Eric Donald Hirsch (nascido em 1928 nos Estados Unidos) em seu livro “Cultural Literacy: what every american needs to know” (Literacia Cultural – o que todo americano precisa saber – Boston, 1987). Na publicação, Hirsch cunha o termo “cultural literacy” (que em português foi traduzido como alfabetização cultural) referindo-se à habilidade de compreender e participar em uma cultura, e não só ser fruto dessa:
 
English teachers by profession are committed to the ideology of literacy. They cannot successfully avoid the political implications of that ideology by hiding behind the skirts of methodology and research. Literacy implies specific contents as well as formal skills. Extreme formalism is misleading and evasive” (HIRSCH, 1987, p. 161).[1]
 
 
 
O termo é uma analogia à “literacy proper” (linguística apropriada – que foi exposta pelo autor como a habilidade de ler e escrever cartas) definindo, não uma pessoa alfabetizada/educada que saiba o suficiente de língua, gramática e vocabulário, mas uma pessoa culturalmente alfabetizada/educada que saiba propriedades linguísticas e semióticas (signos e símbolos) da cultura ao qual se identifica, tais como linguagem, dialetos, histórias, costumes etc. Segundo o autor, ao final do ensino uma pessoa deveria já ter adquirido essas habilidades e competências necessárias para se viver em sociedade e participar ativamente da cultura.
A associação entre Hoggart e Hirsch desloca o termo “literacy” do campo literário e o realoca em um contexto educacional mais amplo, que não se restrinja à capacidade de leitura e escrita. Foi parte do início dos questionamentos dos currículos escolares, que antes da década de 1960, consideravam o estudante parte de uma cultura e, a partir de então, o consideravam um integrante ativo, como ele cita “Literacy is not just a formal skill; it is also a political decision. The decision to want a literate society” (HIRSCH, 2002, p. 162)[2].
Talvez, a correspondência entre o termo na literatura e na cultura é porque “Knowledge of words is an adjunct to knowledge of cultural realities signified by words, and to whole domains of experience to which word refer” (HIRSCH, 2002, p. 159)[3]. Esse breve relato descreve um importante “turning point” (ponto de inflexão) da semântica do termo “literacy”: que antes era referente à literatura e passou a se referir à cultura como um todo. E pode ser ilustrada pelo testemunho de Hoggart no “Journal of Basic Writing”, quando alega:
 
We all need literacy, imaginative and intellectual literacy; because it is an essential part of our movement towards greater critical self-awareness brought to bear on our own lives and on what society offers us as the desirable life. We all need the continued nourishment, which can be given by contact with other, finer, minds” (HOGGART, 1980, p. 80).[4]
 
 
 
A década de 1970, foi um período chave em que a informação e a mídia foram repensadas dentro do quadro social. Assim, começou a profunda investigação sobre quais conjuntos de habilidades eram necessários para o uso da informação e dos meios de comunicação.
A transição, de uma visão canônica de letramento às múltiplas formas de expressão aplicadas à convergência das mídias em um contexto multicultural, trouxe novas investigações sobre as literacias. Porém, para entender os impactos e aplicações do termo, não se pode se restringir às teorias ou mesmo à pedagogia. É preciso compilar diferentes documentos, discursos, vozes e pesquisas sobre como ter uma experiência significativa ao se conectar com os meios de comunicação, sejam eles digitais ou analógicos. Sem essa síntese, as questões acerca da palavra serão incompletas.
 
Novas Literacias
Não existe uma teoria sobre literacias e sim várias delas, mas de maneira geral se leva em consideração seu contexto sociocultural além do contexto educacional. Essa perspectiva tem sido presente por décadas:
 
Some may argue that this treatment reflects the relative ‘newness’ of the acceptance of sociocultural perspectives on literacy development; however, sociocultural and sociolinguistic theories on literacy development and practice have been influential for decades” (PERRY, 2012, p. 51).[5]
 
 
 
 
 
Essa abordagem sociocultural é uma coleção de teorias relacionadas que incluem contextos sociais e culturais nos quais as literacias são trabalhadas. As maiores perspectivas teóricas estão relacionadas à literacia como prática social e como conjunto de várias habilidades.
 
A literacia, uma vez compreendida como conjunto de práticas sociais e não apenas como simples e específica habilidade cognitiva, depende de uma série de recursos, tais como: artefatos físicos (livros, revistas, jornais, periódicos, computadores); conteúdo relevante sendo transmitido por esses meios; habilidades apropriadas, conhecimento e atitudes por parte do usuário; e tipos mais adequados de suporte social e da comunidade” (PASSARELI, 2010, p. 74).
 
 
Isso contribui para uma constelação de termos compostos como: literacia sociocultural, literacias digitais emergentes, multi-literacias, literacias de mídia e informação com implicações que vão além do perímetro escolar e dos artigos acadêmicos:
 
Metaphors for literacy do not stand on their own. They are part of a particular view on literacy that has implications for how we think about learners, how we think about what they ought to learn and how this could be achieved” (PERRY, 2012, p. 52).8
 
 
A perspectiva sociocultural é derivada do contexto sócio linguístico, já que a língua (idioma, fonética, símbolos e significados) é parte fundamental de uma cultura. Naturalmente, a linguagem tem bagagens como: as relações sociais; os modelos culturais; e as dinâmicas econômicas e políticas de uma sociedade. No contexto das literacias, elas envolvem ações e competências abarcadas na prática cultural, como por exemplo a expressão escrita da pessoa.
Perry em seu artigo “What is Literacy? – A critical overview of sociocultural perspectives” (O que é literacia? Um panorama crítico das perspectivas socioculturais) publicado em 2012, sugere as literacias como práticas em contexto social (coletivo) referentes aos diferentes domínios da vida. Algumas delas se tornam mais dominantes dependendo dos ambientes de aplicação.
É importante perceber como é sua construção histórica em uma perspectiva macro (sociedade) e micro (focada no indivíduo) percebendo os eventos envolvendo literacias (onde elas podem ser observadas) e práticas que as envolvem (onde é preciso inferir sua utilização). A perspectiva das literacias como práticas sociais não explica como o sujeito aprende ou se engaja em conteúdos, porém, Perry (2012) afirma que ela ajuda a descrever quais tipos de conhecimento são necessários para realizá-las como atividades.
Quando se compreende as diversas maneiras que diferentes pessoas fazem uso de suas literacias, é possível melhor entender o processo educativo e de construção do conhecimento como um todo. Naturalmente, toda teoria, ou conjunto de teorias tem limitações e controvérsias, por exemplo, o fato da própria palavra “literacia” ser, por vezes, somente associada ao sentido de “letramento”.
Devido à convergência com os significados de letramento, competência e alfabetização é preciso de cautela em associar esses conceitos dentro do campo da Comunicação e da Informação. Por exemplo, ao empregar a palavra “alfabetização” em situações que os sujeitos sejam letrados ou já tenham completado os ensinos básicos de educação, pode-se atribuir um sentido pejorativo, sugerindo que o indivíduo seja um “analfabeto informacional”. O mesmo acontece ao se referir à “competência”, abrindo a sugestão de que, quem não as desenvolve se tornaria um “incompetente informacional”. As literacias em seus termos compostos dispensam essas divergências ou mesmo conflitos em relação ao sentido empregado das palavras, e propõem uma posição afirmativa do sujeito que aprende essas novas habilidades e competências sem diminuir seu histórico escolar tradicional.
Os estudos a consideram muito mais ampla e por vezes desvinculada do próprio campo literário ou da alfabetização. Deve sim ser aproximada ao campo educacional, mas na perspectiva de “conscientização” e de “desenvolvimento”. A palavra é tão ampla, que se encontra no limiar de se tornar sem significado, e por isso é preciso ser criterioso em seu uso. Contudo, ela pode ser definida como “any form of communication/thinking” (PERRY, 2012, p. 64)9.
 
O que precisa ser compreendido é como o desenvolvimento das discussões acerca do termo ocorre em uma gama de contextos – sendo a educação formal apenas um deles, pois todo ambiente tem também sua parcela educativa.
O desenvolvimento do radical como conjunto de habilidades e competências praticado e desenvolvido pelo sujeito em contextos educacionais e socioculturais leva à questão de como se relacionar com conteúdos, informações e mídias, partes tão importantes do convívio social. Ainda, como esses fatores influenciam o processo educativo já que a cultura de massa tem um alcance exponencial devido às novas tecnologias.
 
Considerações Finais
A constante articulação do termo “literacia” em pesquisas relacionadas à Comunicação e à Educação foi a motivação desse trabalho. Por vezes, essa abordagem parece ser construída como uma simples substituição ao termo “alfabetização informacional”. Por outro lado, é também encarada como uma criação de uma nova tendência nesse mesmo perímetro epistemológico. Não obstante o conceito foi revisado em seus diferentes vértices com a Literatura e a Cultura. Foi observado que o termo tem em seu gene etimológico um caráter amplo e flexível, apropriado ao seu emprego nas atuais pesquisas. A construção semântica ganha notoriedade na década de 1980, enfatizando o processo cultural e social sobre a pesquisa de novas mídias e as novas maneiras de se pensar a informação. Os estudos em comunicação, educação e tecnologia as observam dessa maneira, como um mediador e não como um agente. O agente transformador é o sujeito exposto a elas que desenvolve as habilidades necessárias para praticar as múltiplas ações exigidas pela rede contemporânea. Junto com as novas tecnologias se acopla a convergência das mídias e também das informações.
A perspectiva das literacias tem se difundido e consolidado de tal forma, que a United Nation of Educational, Scientific and Cultural Oraganization (UNESCO) já há algum tempo discute o tema, reconhecendo-o como um direito humano fundamental, devido ao seu caráter construtivo e afirmativo tão necessários nos processos linguístico e educacional. A tradução literal para o termo “literacy” se emprega justamente por essa flexibilidade da palavra ao se movimentar e integrar novas associações. Para além do triângulo informação, tecnologia e mídia, há uma vasta gama de literacias emergentes desenvolvidas na sociedade da informação.
Os estudos no campo estão em desenvolvimento e carecem de pesquisas sobre o tema tanto para delimitar as nuances conceituais, quanto para definir aplicações práticas no contexto educacional brasileiro. Não obstante, esse artigo pretende incentivar novas pesquisas na área, bem como integrar um referencial teórico em construção.
3 Professores de línguas eficientes estão comprometidos com a ideologia da alfabetização. Eles não conseguem evitar eficazmente as implicações políticas da ideologia oculta nas saias da metodologia e da pesquisa. Alfabetização implica conteúdos específicos, bem como as competências formais. O formalismo extremo é enganador e evasivo. (Tradução Livre).
4 A alfabetização não é somente uma habilidade formal, é também uma decisão. A decisão de se querer uma sociedade alfabetizada. (Tradução Livre).
5 O conhecimento das palavras é um complemento ao conhecimento das realidades culturais significadas pelas palavras, e também a todo o domínio da experiência a que se refere a palavra. (Tradução Livre).
6 Todos nós precisamos de literacias, letramento imaginativo e intelectual, porque é uma parte essencial do nosso movimento em direção a uma maior autoconsciência crítica exercida sobre nossas próprias vidas e sobre o que a sociedade nos oferece como vida desejável. Todos nós precisamos do alimento contínuo, que pode ser dado pelo contato com outras mentes. (Tradução Livre).
7 Alguns podem argumentar que este tratamento reflete a “novidade” em relação à aceitação de perspectivas socioculturais no desenvolvimento das literacias; no entanto, as teorias socioculturais e sociolinguísticas sobre o desenvolvimento das literacias e suas práticas foram influentes ao longo de décadas. (Tradução Livre).
8 Metáforas para a literacia não se levantam por conta própria. Elas fazem parte de uma visão particular que tem implicações na forma como pensamos sobre os alunos, como pensamos sobre o que eles devem aprender e como isso pode ser alcançado. (Tradução Livre)
9 Qualquer forma de comunicação/pensamento. (Tradução Livre).





Bio fornecida pelo palestrante.

LEITURA LITERÁRIA E MEDIAÇÃO: DESAFIOS DOCENTES – Dinéa Maria Sobral Muniz, Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima




   LEITURA LITERÁRIA E MEDIAÇÃO: DESAFIOS DOCENTES


Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima

Universidade Estadual de Feira de Santana/

Universidade Federal da Bahia

Dinéa Maria Sobral Muniz

Universidade Federal da Bahia

RESUMO: Neste artigo, buscamos discutir se há efetiva contribuição por parte dos cursos de formação inicial (graduações) para a aproximação dos discentes com os objetos culturais de leitura e, especificamente, na formação de leitores e de mediadores de leitura. Hoje sabe-se que o aprendizado da leitura não se limita ao ato de aprender a ler, uma vez que ele se insere numa prática social e cultural. Nele relatam-se práticas de leitura por meio da metodologia dos Círculos de leitura e da prática de contação de histórias como estratégias de aproximação dos alunos à leitura literária. Apontam-se os desafios existentes e a forma de criar estratégias de mobilização, de incentivo, de oferta de vivências leitoras e de práticas culturais de leitura, visando a uma formação leitora plena e sólida, propiciando práticas atraentes, significativas e mobilizadoras de novas aprendizagens.

 
Palavras-chave: Leitura literária; práticas culturais de leitura; formação de leitores; círculo de leitura; mediação.
 
ABSTRACT: In this article we discuss if the undergraduate courses effectively contribute to prepare students to teach and make them aware of the importance of the cultural aims of reading, and most specifically to the formation of readers and reading teachers. We all know that reading goes beyond this simple act but that it is inserted in a social and cultural frame. This article presents practices of reading through the methodology of Reading Circles and that of story-telling as effective strategies to make students get used to literary reading. It also discusses the present challenges and proposes mobilization strategies to stimulate and offer new reading practices within a cultural frame, aiming at the preparation of students.
 
Key-worls: Literary reading ; cultural practices of reading; formation of readers; reading circle; mediation.
 
Currículos:
Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima é Mestre em Educação e Contemporaneidade pela  UNEB, Professora Assistente do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), membro do Núcleo de Leitura Multimeios da UEFS, Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem – GELING/UFBA.
 
Dinéa Maria Sobral Muniz é Doutora em Educação e Professora Associada do Departamento de Educação II da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), é membro do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem – GELING/UFBA.

 
   LEITURA LITERÁRIA E MEDIAÇÃO:
 
DESAFIOS DOCENTES
 
Rita de Cassia Brêda Mascarenhas Lima
Universidade Estadual de Feira de Santana/
Universidade Federal da Bahia
Dinéa Maria Sobral Muniz
Universidade Federal da Bahia
 
Introdução
 
“Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver”.
Tzvetan Todorov
 
Para início de conversa queremos dialogar com Todorov, mais especificamente com sua obra A literatura em perigo, quando este nomina um de seus capítulos com o título “O que pode a Literatura?”. Esta questão tão instigante nos remete a pensar se esta tem sido mote de reflexão e análise nos espaços institucionais de formação de leitores. Para Todorov,
 
A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. (…) ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro (TODOROV, 2012, p.76).
 
Se a literatura pode tanto a ponto de nos alegrar, nos entristecer, nos mobilizar a viajar por entre tempos, culturas, linguagens, por que efetivamente ainda não possui um lugar assegurado, respeitado e valorizado nos processos formativos tanto dos alunos quanto dos professores?
Na história da leitura muitos são os exemplos de tentativa de restringir o acesso à leitura às mulheres, à grande massa, pois se reconhece que a leitura pode inspirar desejos, reflexões, análises, empoderar as pessoas e transportá-las para lugares e posições incontroláveis.  
Historicamente, tem sido reservada ao espaço escolar certa prioridade ou exigência de ensinar aos sujeitos o ato de ler. Entretanto, todos nós sabemos que a prática da leitura é uma prática social e cultural; logo, acontece de forma contínua e frequente nos mais variados espaços.
Portanto, formar leitores proficientes deve ser encarado como responsabilidade da escola, mas, considerando as múltiplas práticas de leitura que permeiam o contexto sociocultural, não cabe apenas à instituição formal assumir tal responsabilidade. Emilia Ferreiro, na década de 80 do século XX, já afirmava que nossas crianças não nos pedem licença para aprender a ler. Logo, é possível perceber que as vivências cotidianas, os encontros variados com os materiais impressos e com as várias linguagens impõem aos sujeitos, desde muito cedo, o exercício de seu poder criativo e curioso para desvelar os mistérios oferecidos diuturnamente.
Essa temática ainda nos mobiliza nos dias atuais. Mesmo com todos os avanços nos estudos e nas pesquisas que tematizam as práticas de leitura e a formação de leitores, percebemos a necessidade de focar o olhar para brechas oriundas do processo formativo nos espaços das universidades, locus privilegiado de formação docente. Tanto quanto à necessidade de sensibilização para a formação do professor leitor de textos de literatura quanto para a ampliação dos repertórios literários oferecidos aos graduandos dos cursos de licenciaturas no seu percurso formativo.  
Neste artigo, buscamos discutir até que ponto os cursos de formação inicial (graduações) vêm efetivamente contribuindo para a aproximação dos discentes com os objetos culturais de leitura e, especificamente, se tem contribuído na formação de leitores e, consequentemente, na formação de mediadores de leitura.
Muitos são os teóricos e as pesquisas que discutem na atualidade as práticas culturais de leitura, as histórias de leitura e as políticas públicas de leitura. Entretanto, pesquisar sobre o impacto e/ou contribuição dos cursos de formação inicial, especificamente os cursos de licenciaturas de Universidades Públicas na Bahia, na formação de leitores, constitui o foco deste trabalho, haja vista ser este o locus de nossa atuação como docentes.
 
O ambiente escolar como espaço privilegiado de encontro com a Literatura
 
“Ler é evitar que a alma enfarte”
Jorge de Souza Araujo
 
Os espaços de aprendizagens em uma sociedade globalizada como a nossa vêm se alargando a cada dia. Assim, cabe à universidade, como instituição formadora, trazer para o seio do debate as questões que envolvem e circundam os processos formativos dos seus discentes/professores. Algumas questões são pertinentes para nos ajudar a pensar sobre o lugar da Universidade na formação, e mais precisamente, analisar se os cursos de formação de professores têm oportunizado práticas de aproximação e sensibilização para a leitura literária? Que lugar a literatura vem assumindo no planejamento pedagógico dos professores? Sala de aula e literatura: é possível estabelecermos uma relação de complementaridade? A que literatura estamos nos referindo?
Sabemos que a década de 90 do século XX foi marcada pela busca por formação inicial oferecida nos espaços acadêmicos. Assim, visando atender aos pleitos legais, muitas parcerias foram instituídas entre as prefeituras municipais e as Universidades, com vistas a qualificar o quadro docente e atender as exigências expressas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Lei nº 9.394/96.  
Desse cenário, surge uma importante questão que é compreender até que ponto a universidade tem efetivamente contribuído na formação de professores mediadores de leitura? As práticas leitoras oferecidas/desenvolvidas nos cursos de licenciaturas têm sensibilizado os graduandos para o encontro com a literatura?
Se “o pleno exercício da democracia representativa impõe a completa inexistência de cidadãos de segunda classe, de excluídos sob qualquer natureza ou determinação. Logo, todos temos direito assegurado constitucionalmente à informação, à leitura, ao debate, à participação na vida coletiva”, como afirma Araújo (2006) então, o curso que tem como papel maior a formação de professores não pode prescindir dessa responsabilidade.
Aliado a essas reflexões não podemos desconsiderar o fato de que muitos currículos dos cursos de licenciaturas não oferecem disciplinas que tenham como foco a leitura literária e as práticas com a Literatura. A ausência de disciplinas com este propósito nos currículos vem sendo analisada como um equívoco teórico-epistemológico, pois, se nós desejamos formar discentes leitores e professores mediadores de leitura, precisamos em primeiro lugar garantir aos professores a oportunidade também dessa formação, pois só conseguiremos despertar e sensibilizar o gosto pela leitura, se nós também tivermos gosto, desejo e competência em ler. As consequências dessa formação lacunar podem ser referendadas quando Aguiar afirma:
 
Na verdade, a escola preocupa-se em transmitir ensinamentos sobre literatura e não em ensinar a ler. A educação formal tem por objetivo repassar dados sobre a história dos autores e das obras, cobrar exercícios de análise de textos para emissão de juízos, buscando fazer de todo leitor um conhecedor de literatura. O resultado, em nosso contexto, é o fracasso: o aluno não se torna um especialista nem se converte em leitor (AGUIAR, 2013, p. 76-77).
 
E assim, presenciamos, mais uma vez, um grande fosso entre os discursos e as intenções presentes na academia e as práticas cotidianas com a literatura no ambiente escolar. Para apimentar ainda mais essa análise, como dito em outro texto, “desconfiamos que, não raramente, a escola costuma ser muito medrosa quando se trata de arriscar, de experimentar novidades, ou melhor, de mudar” (MUNIZ, 2014, p. 111).
É importante salientar que muitos dos nossos discentes, dos cursos de licenciaturas, já são professores em efetivo exercício da docência, ou seja, já atuam na Educação Básica, seja na educação infantil ou nos anos iniciais do ensino fundamental. Portanto, atuam com o público que desejamos que se tornem leitores. Assim sendo, tratar da articulação universidade e Educação Básica é hoje uma discussão necessária e instigante.
Pensar o papel da leitura, e mais detidamente, o papel da leitura literária na formação/sensibilização/encantamento dos sujeitos que lidam ou lidarão na formação de outros tantos sujeitos, é uma questão emergente. Afinal,
 
O processo de leitura pressupõe, portanto, a participação ativa do leitor, que não é mero receptor de uma mensagem acabada, mas ao contrário, interfere na construção dos sentidos, preenchendo os vazios textuais de acordo com sua experiência de leitura e de vida. Isso se dá porque a obra fornece pistas a serem seguidas pelo leitor, mas deixa muitos espaços em branco, nos quais ele não encontra orientação e precisa mobilizar seu imaginário para continuar o contato (AGUIAR, 2013, p. 153).
 
Portanto, compreender a leitura como uma prática social, cultural, individual e coletiva, ou seja, tratá-la numa perspectiva formadora e formativa é reconhecer um novo momento e um desafio atual para a escola como agência de letramento.  Acerca deste desafio, salienta Cordeiro:
 
Recuperar a leitura literária no espaço escolar é uma tarefa de construção de novas formas de lidar com a literatura e de desconstrução de amarras e regras que a pedagogia teima em prescrever e rotular segundo a classificação das obras em escolas e gêneros literários, sem falar nas fichas de leitura, nos velhos exercícios de interpretação e nos breves comentários sobre o autor, a obra, seu tempo e a escola literária à qual pertence (CORDEIRO, 2006, p. 92).
 
Assim sendo, cabe a nós como professores formadores e como mediadores de leitura, responsáveis em muitos casos pelo encontro do discente com a leitura literária, oportunizar e criar situações que possam provocar neles o desejo, o gosto, a vontade de ouvir, de manusear livros, de continuar a leitura para além do espaço da sala de aula.
A recente pesquisa Retratos da leitura no Brasil revelou que há um decréscimo do nível de leitura quando os sujeitos concluem suas trajetórias estudantis, seja na educação básica ou nível superior. Estes dados revelam a forte relação do ato de ler às obrigatoriedades das tarefas escolares. É necessário, portanto, refletirmos sobre os objetivos das práticas de leitura e as vivências leitoras oportunizadas nos espaços escolares, posto que as pesquisas têm revelado que estas tem sido encaradas apenas como práticas escolares e, consequentemente, não tem sido agregadas à vida sociocultural dos estudantes quando estes finalizam seus processos formativos nas instituições formais de ensino.
Frente a essa constatação e ao nos darmos conta de que as experiências de leitura vivenciadas na academia têm sido majoritariamente voltadas para as exigências didático-pedagógicas, secundarizando as leituras literárias, leituras de fruição, de entretenimento, leituras consideradas “despretensiosas”, verificamos estar, pois, diante de um desafio, que não é pequeno. Repensar as práticas, as concepções de formação de leitor e, quiçá, contribuir para provocar as mudanças necessárias nos próprios currículos dos cursos de formação de professores. Pois, se na universidade, lugar privilegiado de formação desses professores, a leitura literária acaba sendo, muitas vezes, negligenciada, como então exigir desse profissional um trabalho diferenciado com a leitura literária nos seus espaços atuais ou futuros de atuação? Acaba sendo, no mínimo, uma exigência questionável.
É responsabilidade da escola, logo dos professores, garantir aos alunos o acesso ao livro, como afirma Paiva (2012, p. 19) ao defender que “… é na escola que a maioria das crianças e jovens brasileiros terá contato com o texto literário e, por conseguinte, cabe a essa instituição garantir o acesso a esse bem cultural: o livro”. Se assim entendermos, então, precisamos criar modos e práticas de encontros e aproximações do aluno com a literatura. E uma alternativa encontrada, por alguns docentes no ensino superior, tem sido a inclusão, em seus planejamentos, da prática dos círculos de leitura ou da contação/leitura de histórias, contos, crônicas como procedimentos para a aproximação desses discentes do mundo da literatura.
O Círculo de leitura se configura como uma metodologia de trabalho em que o leitor-guia lê em voz alta textos previamente selecionados, para o grupo, fazendo, geralmente, leituras literárias. A leitura é compartilhada e o diálogo, após a leitura, logo se estabelece. Segundo Yunes (2012, p. 120), a realização dos círculos de leitura “precisa de um leitor que seja o guia, uma espécie de líder do encontro. É esse leitor-guia que vai apresentar o texto para seus convidados, um texto de que ele goste (muito!) e que ache que vai interessar (muito!) aos participantes do círculo – seus convidados”. Yunes ainda defende (2012, p. 123) que “O diálogo sobre o texto lido ou contado é a alma de um círculo de leitura!”. Por isso é que do leitor-guia são requeridos cuidados no momento da preparação dos círculos.
A prática de contação/leitura de histórias vem sendo compreendida como um dos caminhos possíveis de aproximação das crianças, jovens e adultos com o texto literário. Segundo Gregório Filho (2002, p. 136),
 
Somos aquilo que vamos adquirindo ao longo da vida. Os primeiros jogos, as brincadeiras, as cantigas, os contos vão imprimindo em nós um pouco daquilo que vamos ser quando adultos. Não somos passivos às experiências e, a cada uma aprendida, incorporamos informações, transformamos, acrescentamos parte de nossa própria experiência e vamos construindo nosso jeito de olhar a nós mesmos e ao mundo.
 
E, foi acreditando nessa possibilidade, que começamos a trazer para o espaço da academia, a prática de contar/narrar histórias. Como afirma Gregório Filho (1998, p. 83), “a contação de história não vem substituir as leituras dos livros. Ao contrário, está comprovado que funciona como estimuladora, incentivadora para que as pessoas busquem conhecer aquelas histórias que ouviram e muitas outras (…)”. Assim, passamos a garantir a presença do texto literário no espaço da sala de aula. E o que é melhor, de forma leve, sedutora, envolvente.
 
Narrando histórias, formando leitores… relato de uma prática
 
“A literatura faz viver as experiências singulares”
Tzvetan Todorov
A experiência dos Círculos de Leitura e da contação/leitura de histórias nos cursos de formação de professores na UEFS e na UFBA tem rendido bons frutos, contrariando, felizmente, as expectativas de Benjamin (2012, p. 213) quando este afirma que “a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente”. Na tentativa de aproximação dos licenciados com a literatura, foram organizados muitos banquetes literários com objetivo de atrair e seduzir os discentes para o encontro com os livros. Cada dia um livro, um autor, uma história a ser contada. Assim, muitos já povoaram o espaço/lugar nas aulas dos licenciandos: Eduardo Galeano, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Câmara Cascudo, Bartolomeu Campos Queirós, Francisco Gregório Filho, Marina Colassanti, Cora Coralina, Clarice Lispector, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Conceil Corrêa da Silva, Daniel Munduruku, Rubem Alves, Mem Fox, e muitos outros.
Segundo a discente Tânia (aluna do curso de Pedagogia, da UEFS) “eu fazia de tudo para não me atrasar, pois sabia que a história que seria lida com certeza me emocionaria”. Em outras oportunidades de conversas informais com a turma, muitas discentes relatavam que o texto lido em sala ganhava outro tom. Essa sensação pode ser expressa com a fala da discente Diana (professora já em exercício) que revelou sua surpresa após a escuta do texto Felicidade clandestina de Clarice Lispector “eu fiquei encantada, primeiro porque eu já conhecia o conto, mas parece que estava ouvindo pela primeira vez. Acho que eu lia sem dar sentido e entonação correta”. Outros sentidos, outras marcas e entrecruzamentos de vida e ficção ocorreram após a leitura do livro “A moça tecelã” de Marina Colasanti. Em uma das turmas, formada majoritariamente por mulheres, ao escutar esse conto, as discentes teceram inúmeras análises, comparações, analogias e revelações. A discente Ana Cláudia desabafou “A personagem da história fez o que eu sempre quis fazer: destecer as coisas que me machucam, me fazem sofrer, mas ainda não tenho coragem. A vida é assim pró – não é fácil, é preciso ter coragem e estrutura para mudar”. A discente dialoga com o conto de Colasanti, a partir de sua própria experiência e se sente motivada a expressar desejos de mudanças na sua história. Percebemos como a literatura empodera, faz pensar e arriscar mudanças de comportamentos, mudanças de rota e tomadas decisões.  
Essa declaração nos ajuda a arriscar que ao oportunizarmos e envolvermos os discentes no mundo da leitura literária estamos contribuindo não apenas para a ampliação do repertório literário, mas sem dúvida, provocando-os a sentir e viver emoções, ou como afirma Todorov (2012, p. 77) “viver as experiências singulares”.
As experiências possibilitadas pelo encontro do leitor com o texto são singulares. Cada leitor estabelece relações e conjecturas a partir das suas próprias vivências. Para Cosson (2012, p. 27). “O bom leitor, portanto, é aquele que agencia com os textos os sentidos do mundo, compreendendo que a leitura é um concerto de muitas vozes e nunca um monólogo. Por isso, o ato físico de ler pode até ser solitário, mas nunca deixa de ser solidário”.  Assim, cabe ao professor mediador de leituras oportunizar situações significativas de aproximações entre os alunos e as leituras. Segundo Yunes (2003, p. 10) “quem lê o faz com toda a sua carga pessoal de vida e experiência, consciente ou não dela, e atribui ao lido às marcas pessoais de memória, intelectual e emocional”.
Reconhecendo que a formação docente requer não apenas os saberes didático-pedagógico, saberes humanos e saberes da competência técnica, a autora Graça Paulino (2004) defende a inclusão dos saberes literários como saberes necessários à docência, posto que
 
(…) se entendemos a formação de professores de modo mais amplo, em sua produção histórica e social que envolve, além de competências cognitivas stricto sensu, também sensibilidade, emoções, ligações afetivas, interações, transformações pessoais, temos de pensar na possibilidade de que um desses saberes seja de natureza literária (PAULINO, 2004, p. 57).
 
Desse modo, se defendemos a formação de docentes numa perspectiva de mediadores de leitura não podemos prescindir na formação dos professores da inclusão dos saberes literários como saberes próprios à docência. Com esta inclusão amplia-se ainda mais o espectro de saberes necessários à docência, pois para o escritor canadense Tardif (2003) os saberes dos professores emanam de variadas fontes sociais, ou seja, da família, da escola primária, dos vários espaços/estabelecimentos de formação dos professores, da prática do ofício, entre outros, ou seja, o professor constrói o corpus da profissão quando articula as suas várias experiências e saberes elaborados e acumulados nas suas multirreferencialidades.
Sendo a leitura uma prática individual e também coletiva faz-se necessário a diversificação dos materiais de leitura na perspectiva de ampliação dos acervos pessoais e coletivos. No compartilhamento de leituras cada sujeito mobiliza e faz “emergir a biblioteca vivida, quer dizer, a memória de leituras anteriores e de dados culturais” como afirma Goulemot (2001, p. 113). Desse modo, no espaço da sala de aula as múltiplas formas e modo de ler precisam ser acolhidos, pois na intimidade com o texto coletivo, no prazer de ouvir outras pessoas lendo, imprimindo uma entonação peculiar, percebemos o poder do encantamento e da sedução que o livro provoca. O importante é que a escola assuma, para si, a responsabilidade na formação de leitores, ou seja, que a escola traga para dentro de seus muros, para dentro das suas salas de aula a prática da leitura e o prazer de ler.
A contação de história pode ser um dos caminhos possíveis para entrecruzar universidade e literatura na perspectiva de formação de leitores. Segundo Pennac (1993, p. 84) “aquilo que lemos de mais belo deve-se, quase sempre, a uma pessoa querida”. Portanto, não há dúvida do papel primordial que a família e a escola (como instituições de formação) podem desempenhar no processo de aproximação, formação do gosto e encantamento das crianças/jovens/adultos com os livros. Principalmente, se admitirmos que muitas crianças, hoje em dia, não têm mais no ambiente familiar as ricas experiências de ouvir histórias, da presença de um adulto lendo em voz alta, ou seja, de experiências que os aproximem do mundo letrado.
A condição sine qua non para o contador de histórias é gostar de histórias, gostar de ler, é participar do pacto ficcional que toda história exige, ou melhor, precisamos educar, ensinar, sensibilizar e encantar nossos alunos e convidados para a leitura.  
Afinal, a aprendizagem da leitura, do gosto e do sabor de ler um livro pode resultar de práticas que precisam ser ensinadas. Pois, assim como os livros, as histórias precisam do leitor para ter vida, ganhar sentido, as crianças, os jovens/adultos precisam dos contatos prazerosos, das vivências sedutoras e da intimidade cotidiana com a leitura. E esse papel também é nosso!
 
Mediar leituras, formar leitores: desafios docentes
 
“De tudo o que conto aqui daquela época, minha única mentira, se existe, é ter erigido meus sonhos em realidade, não ter confessado logo que fui, pela força das coisas, desde a primeira infância, um sonhador acordado e impenitente”.
Jean Marie Goulemot
 
Atuar no cenário educacional nos dias atuais vem exigindo dos docentes muitas habilidades e saberes múltiplos. Ao docente não basta apenas ter conhecimentos dos conteúdos previamente selecionados para ministrar suas aulas. É preciso dominar sim os conteúdos escolares, mas é preciso também se apropriar cada vez mais dos saberes literários, das tecnologias da informação e da comunicação, das informações veiculadas nos meios de comunicação, dos conteúdos e interesses próprios às faixas etárias, que cada vez é mais precoce.
Segundo Márcia Abreu (2006, p. 59),
 
A avaliação estética e o gosto literário variam conforme a época, o grupo social, a formação cultural, fazendo que diferentes pessoas apreciem de modo distinto os romances, as poesias, as peças teatrais, os filmes. Muitos, entretanto, tomam algumas produções e algumas formas de lidar com elas como as únicas válidas. E aí reclamam porque o brasileiro não lê e não tem interesse pela cultura (…).
 
É justamente neste cenário que reside um dos nossos desafios, ou seja, ao presenciamos avolumar nas prateleiras das livrarias, supermercados e bancas de revistas muitos best seller estrangeiros, novas séries de autores que seduzem cada vez mais nossos adolescentes, nós, professores, precisamos nos equipar teoricamente e  nos desvencilhar de certos preconceitos e ou concepções limitadas do que é ser leitor.
Afinal, se a leitura é prática sociocultural, é interação e construção conjunta de texto/sentido, então, cada texto fomenta e mobiliza reações, desejos, conhecimentos, saberes e sabores muito singulares. Dessa forma, o que precisamos não é coibir, cercear, discriminar e estabelecer o que é dito como certo ou como errado. Nosso desafio é possibilitar aos nossos alunos/leitores que a cada leitura construam/produzam sentidos, ou seja, novos textos e que se tornem autônomos para buscar outros livros que atendem as suas variadas expectativas, pois como afirma Chartier (1999, p. 19) “Cada leitor, cada espectador, cada ouvinte produz uma apropriação inventiva da obra ou do texto que recebe”.
Mas, cabe à escola investir em situações didáticas que primem pelo trabalho com a leitura numa perspectiva da competência leitora crítica. Para Silva (2009, p.28) “as competências de leitura crítica não aparecem automaticamente: precisam ser ensinadas, incentivadas e dinamizadas pelas escolas para que os estudantes, desde as séries iniciais, desenvolvam atitudes de questionamento perante os materiais escritos”. Sem dúvida, esse é o grande desafio docente.
É desafio docente também criar diferentes estratégias de mobilização, de incentivo, de oferta de vivências leitoras e de práticas culturais de leitura, posto que se queremos colaborar para uma formação plena e sólida dos nossos alunos, então faz-se necessário propiciar práticas atraentes, significativas e mobilizadoras de novas aprendizagens. Pois como afirma Todorov:
 
É por isso que devemos encorajar a leitura por todos os meios – inclusive a dos livros que o crítico profissional considera como condescendência, se não com desprezo, desde Os três mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilizam a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas (TODOROV, 2012, p. 82).
 
E para arrematar os fios tecidos ao longo do texto na tentativa de articular leitura literária e mediação docente, reafirmamos a ideia de que o maior importante é tornar nosso aluno leitor, independentemente das suas escolhas, dos seus gostos ou preferencias. O desafio está lançado e aceitá-lo cabe a todos nós professores.
 
REFERÊNCIAS:
ABREU, Márcia. Cultural letrada: Literatura e leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
AGUIAR, Vera Teixeira. A formação do leitor literário. In: PINHEIRO, Alexandra Santos; RAMOS, Flávia Brocchetto (Orgs.). Literatura e formação continuada de professoresdesafios da prática educativa. Campinas: Mercado de Letras; Dourado, MS: Editora da Universidade Federal da Grande Dourados, 2013.
AGUIAR, Vera Teixeira. O saldo da leitura. In: DALVI, Maria Amélia; REZENDE, Neide Luzia de; FALEIROS, Rita Jover (Orgs.). Leitura de Literatura na escola. São Paulo: Parábola, 2013.
ARAÚJO, Jorge de Souza. Letra, leitor, leituras: reflexões. Itabuna: Via Litterarum, 2006.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.394/96.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do livro ao navegador. Trad. Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo 1999.
COLASANTI, Marina. A moça tecelã. São Paulo: Global, 2004.
CORDEIRO, Verbena Maria Rocha. Escritores e leitores. In: CARVALHO, Maria Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena (Orgs.). Práticas de leitura e escrita. – Brasília: Ministério da Educação, 2006.
COSSON, Rildo. Letramento literário – teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2012.
GOULEMOT, Jean Marie. Da leitura como produção de sentidos. In: CHARTIER, Roger. Práticas de leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
GOULEMOT, Jean Marie. O amor às bibliotecas. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
GREGÓRIO FILHO, Francisco. Práticas leitoras (de cor… coração): algumas vivências de um contador de histórias. In: Eliana, YUNES (Org.). Pensar a leitura: complexidade. (p.136-151). Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
MUNIZ, Dinéa Maria Sobral. Best-Seller, medo e desejo. In: CORDEIRO, Verbena Maria Rocha; LIMA, Elizabeth Gonzaga de (Orgs.). Modos de ler: oralidades, escritas e mídias. Curitiba: Arte & Letra, 2014.
PAIVA, Aparecida (Org.). Literatura fora da caixa: o PNBE na escola – distribuição, circulação e leitura. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.
PAULINO, Graça. Saberes literários como saberes docentes, Presença Pedagógica, v. 10, nº 59, set./out. 2004: p. 55-61.
PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Criticidade e leitura: Ensaios. São Paulo: Global, 2009.
TARDIF, Maurice. Saberes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro, DIFEL, 2012.
YUNES, Eliana & OSWALD, Maria Luiza (Orgs.). A experiência da leitura. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
YUNES, Eliana; REZENDE, Nilza (Orgs.). Almanaque do agente de leitura. Rio de Janeiro: Compostela Comunicação, 2012.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA – Shirley Maria de Jesus




ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA

 

Shirley Maria de Jesus

Universidade Federal de Minas Gerais/FALE

 
RESUMO: Este artigo pretende ressaltar na obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade (1998), que em sua lírica pessoal a exterioridade apresenta-se como depositário de memórias que carregam conteúdo social, cultural e histórico. Estas, consoante Charaudeau & Maingueneau (2012), representam um reinvestimento de imagens (internas e externas), levantadas na leitura dos poemas, e refletem aspectos estéticos, retóricos e ideológicos. A partir desses autores, de Mendes (2010) e outros, far-se-ão análises de alguns poemas a fim de possibilitar o acesso aos discursos e suas imagens. Nossa hipótese será de que a preocupação do autor (1998) era tão profunda que ele vivenciou o eu do outro de um modo totalmente diferente do que vivenciou seu próprio eu. De uma maneira geral, o autor “absorve” o mundo externo e por, às vezes, não saber quem é, será vários: Carlos, José, Robinson Crusoé… mas gauche.
Palavras-chave: Antologia poética; Carlos Drummond de Andrade; lírica pessoal; reinvestimento.
 
ABSTRACT: This article aims to highlight, in the work Poetic Anthology, by Carlos Drummond de Andrade (1998), in its lyrical aspects, stressing that exteriority is a repository of memories carried with social, cultural and historical meanings. According to Charaudeau & Maingueneau (2012), while reinvestments of images (external and internal), raised in the reading of the poems, reflect aesthetic, rhetorical and ideological aspects. The analysis of some poems will enable access to discourse and images, based on the above authors and Mendes (2010), among others. This study will consider  the hypothesis that the author’s preoccupation (1998) was so profound that he experienced the I of the other in a totally different way that he experienced his own self. In general, the author “absorbs” the external world, and sometimes not knowing who he is, decides to be several: Carlos, José, Robison Crusoe… always as a gauche.
 
Keywords: Antologia poética; Carlos Drummond de Andrade; personal lyric; reinvestments.
 
Currículo: Doutoranda em Linguística do Texto e do Discurso pela UFMG (FALE) em 2013, é bolsista da CAPES. Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2002). Graduada em Letras por esta universidade em 1999. Tem pós-graduação em Consultoria Empresarial pelo Centro Universitário Newton Paiva (2006). Suas áreas de atuação são Gramática Tradicional, Língua Portuguesa, Linguística do texto e do discurso, Leitura e Produção de Textos, Literaturas de Língua Portuguesa, Teoria Literária, Comunicação Oral e Escrita, Comunicação Empresarial, Metodologia Científica. 

ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA
 
Shirley Maria de Jesus
Universidade Federal de Minas Gerais/FALE
 

Poema de sete faces

 

Quando nasci, um anjo torto  

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida. (…)

ANDRADE, 1998, p. 13

 
Introdução
 
O presente trabalho pretende destacar na obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade (1998), como o autor transforma sua lírica não somente em memória pessoal, mas também em reinvestimento de captação (MAINGUENEAU, 2012) de imagens (internas e externas) que, em seus poemas, refletem tanto ressonâncias pessoais quanto coletivas. Segundo Maingueneau (2012, p. 94): “A captação consiste em transferir para o discurso reinvestidor a autoridade relacionada ao texto ou ao gênero fonte: o pregador cristão que imita uma parábola, o slogan que imita um provérbio ou o gênero proverbial.” O reinvestimento, portanto, sugere que o destinatário perceba sempre da mesma maneira o discurso fonte já que o texto / gênero inscrito na memória é portador de autoridade.
Em Antologia poética, o poeta (1998), ao falar do cotidiano e do presente-passado, utiliza linguagem lúdica, mas puramente artesanal e, portanto, que não se fixa em uma corrente estética apenas. Para demonstrar essas questões, far-se-á análises de alguns poemas de forma crítica a fim de possibilitar o acesso à linguagem dos discursos, considerando, às vezes, aspectos estéticos e ideológicos. Alguns teóricos a serem utilizados nesta pesquisa são: Aumont (2012), Charaudeau & Maingueneau (2012), Mendes (2010), dentre outros.
Após esse preâmbulo, propomos algumas considerações sobre a exterioridade na lírica de Carlos Drummond de Andrade (1998).
 
2 A exterioridade na lírica drummoniana
Ao observarmos a organização da obra Antologia poética, percebemos que ela reflete as principais linhas de força da poética drummoniana. As partes intituladas “Um eu todo retorcido”, “Uma província: Esta” e “A família que me dei” enunciam algumas dessas linhas: a apresentação do poeta (1998) enquanto sujeito histórico empenhado em materializar, na escrita, o universo familiar-patriarcal e seus reflexos no autor enquanto reinvestimento de captação. A exterioridade na lírica pessoal de Drummond (1998) apresenta-se como depositário de imagens, principalmente, familiares, fato que se torna evidente mediante o trabalho com a memória do autor (1998), que será uma das pedras de toque de sua poesia e / ou uma pedra “no meio do caminho”. E essa memória pessoal no poema drummoniano, enquanto reinvestimento de captação (MAINGUENEAU, 2012) de imagens (interna e externa), carregam conteúdo social, cultural e histórico. Esses conteúdos apontam-nos, por exemplo, que o poeta gauche, ao falar de si, chega à autonegação provocada pelo sentimento de culpa e de limitação, cujo remédio é a automutilação, conforme podemos perceber no poema “A mão suja”:
 
Minha mão está suja.
É preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
(…)
Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 22-24)
 
Esse poema revela a expressividade externa que o autor (1998) percebe a partir da sensação interna e revela-nos que o processo de captação opõe uma espécie de resistência ao imaginar-se “de dentro”, em categorias de valores totalmente diferentes – meu eu que ama, quer, sente, vê, conhece – e que não são diretamente aplicáveis a nossa expressividade externa: “Minha mão está suja. / É preciso cortá-la”. Não se trata de subversão no sentido de “(…) desqualificar a autoridade do texto ou do gênero fonte”, no caso, o poema. (MAINGUENEAU, 2012, p. 94) Mas do fato de a percepção interna e a própria vida parecem se inserir no “eu” que imagina e vê, não no “eu” imaginado e visto. É, portanto, um reinvestimento de captação de imagens internas e externas carregadas de uma memória interior e que, às vezes, entra em choque com a memória exterior.
Drummond (1998) apresenta, ainda, um sentimento de repulsa por fazer parte daquilo com que não concorda e por achar vil o mundo em que vive. Revela que seu papel como intelectual deve ser o do crítico voltado para a arte e essa deve estar a serviço do povo e não da política em si. Sua arte, portanto, revela-se também enquanto reinvestimento de captação de imagens que carregam conteúdo social, cultural e histórico partilháveis. Como artesão das palavras não abre mão do maior valor: o pensamento. Seus poemas, portanto, reinvestem tanto o que o poeta defende quanto o que não defende.
Fala (1998) também de si e, ao fazê-lo, fala de nós mesmos, criando um reinvestimento de captação de vários ‘eus’ – um eu-autor, um eu-leitor, mas que já é outro eu-autor (transfigurado) e outro eu-leitor (transfigurado também). Ao desentranhar reinvestimentos nos quais os vários ‘eus’ entram em contato – mediante a memória, a saudade e ao descobrir elementos de um mundo em expansão –, o eu-autor não é ele e sim o reinvestimento de alguém que ficou no passado, mas que emerge na contemporaneidade através das palavras nesse seu passado-presente. Nesse processo de reinvestimento, o autor (1998) nos revela sua multiplicidade e nos impele a descortinar as camadas de ‘eus’ que estão dentro de cada eu-autor.
 
3 Antologia poética e sua ficcionalidade
Antologia poética está inserida no gênero poesia. Conforme Mendes (2010, p. 201): “(…) no interior de cada gênero, há um entrelaçamento de efeitos de real, efeitos de ficção e efeitos de gênero.” Para a autora (MENDES, 2010, p. 200), a ficcionalidade, que é definida como “a simulação de um mundo possível”, pode ocorrer de três modos: a) de maneira constitutiva, quando é inerente ao fenômeno; b) de modo colaborativo, quando participa da constituição de algum gênero, mas não altera seu estatuto de real; c) de maneira predominante, quando o gênero possui estatuto ficcional, havendo, desse modo, maior ocorrência de simulações de mundos possíveis.
Dentro dessas possibilidades de simulações, nota-se, na poesia de Drummond (1998), que de maneira predominante, ele faz recortes da realidade – de diferentes épocas – vivenciada por ele desde criança, simulando / reinvestindo em sua obra mundos possíveis. Sua arte, portanto, instaura, em seu repertório pictórico, memórias, ideologias e a busca de uma nova construção estética e, às vezes, social. Isso nos remete ao conceito de realismo que, segundo Aumont (2012, p. 106), trata-se de um “conjunto de regras sociais, com vistas a gerir a relação entre a representação e o real de modo satisfatório para a sociedade que formula essas regras”. O efeito de realidade designa o efeito produzido no destinatário pelo conjunto de índices de analogia mediante imagens representativas que os poemas suscitam. Isso quer dizer que existe um “catálogo de regras representativas que permitem evocar, ao imitá-la, a percepção natural” (Aumont, 2012, p. 113). Desse modo, Antologia poética, enquanto retrato pessoal, que faz aflorar, inclusive, os reflexos do universo familiar-patriarcal no eu-autor, apresenta-se como uma obra com efeitos de real, em busca de reflexão sobre a existência humana. Ou ainda, de acordo com Maingueneau (2012), trata-se de uma captação no sentindo de nos remeter, mediante a poesia drummoniana, a uma realidade material do mundo por intermédio da ilusão de realismo criada pelo poeta (simulação do mundo possível). O que implica dizer que o eu-leitor acredita que o que “vê” – já que o discurso do eu-autor suscita imagens que articulam o real e a ficção – existiu ou pode existir.
Vejamos, agora, o fazer poético de Drummond (1998), a partir da perspectiva de Bystrina, citada por Guimarães (2003, p. 1), que declara que é imprescindível dizer o indizível por intermédio da criatividade e que
 
(…) para sua sobrevivência psíquica, o homem constrói sobre a estrutura da primeira realidade sensível, predeterminada biofisicamente, uma outra realidade, operada pela cultura. Essa “segunda realidade”, concebida pela criatividade, imaginação e fantasia humana, tem um caráter sígnico e é essencialmente narrativa (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1).
 
Se retomarmos o pensamento de Maingueneau (2012) acerca do reinvestimento de captação e o associarmos ao de Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1), podemos notar que o eu-autor ao usar a criatividade, a imaginação, para fundir o “vivido e o inventado” em Antologia poética enquanto criação literária, pelo viés da sobreposição / reinvestimento de captação das realidades (percepção natural / percepção coletiva), elabora um fazer poético “que têm caráter sígnico”, consoante Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1), ao carregar imagens que também refletem conteúdo sócio-histórico-cultural narrados por um autor (1988) que reflete as próprias experiências, ou seja, sua primeira realidade sensível.
A partir das considerações de Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1) e de Maingueneau (2004), retomamos Mendes (2010) a fim de afirmar que a ficcionalidade na obra de Carlos Drummond de Andrade (1998) é construída também de modo colaborativo uma vez que a obra participa da constituição do gênero poesia, mantendo simulações de mundos possíveis, inclusive, com o mundo retratado pelo eu-autor – temos nela, portanto, efeitos de real e de ficção. As imagens que o autor (1998) cria através de suas palavras se definem como objetos produzidos em um determinado dispositivo para transmitir a seu leitor, sob a forma simbolizada, um discurso sobre o mundo “real” (mesmo valendo-se de aspectos ficcionais) ou sobre um aspecto da realidade.
O reinvestimento de captação, na poesia de Drummond (1998), portanto, parece supor a relação entre imagens externas e internas (imagens de lembranças, de memórias, imagens de impressão visual armazenadas pelo autor, imagens que fomentam outras imagens vistas ou simplesmente imaginadas). E ao fazer intervir o saber prévio, o destinatário da poesia de Drummond (1998) pode ser capaz de suprir o não representado, as lacunas da representação em todos os níveis. Isso nos permite perceber uma nova relação na qual poema e destinatário são parecidos na medida em que pensamos que há um paralelismo entre o “trabalho” do “fabricante” das imagens e o “trabalho” do poema.
Assim, se abordarmos a exterioridade na lírica drummoniana, ou seja, os aspectos físicos, certamente, nos perguntariam como o autor (1998) vive o próprio aspecto físico e como vive o aspecto físico do outro. A expressividade do nosso corpo e nosso aspecto físico são vividos por nós internamente. Assim, é somente como fragmentos díspares, ligados a nossa percepção interna, que nossa exterioridade – e a do eu-autor -– é captada no campo das nossas sensações externas e, acima de tudo, no campo da nossa visão. Mas essas sensações externas não representam a nossa última instância, mesmo quando acontece de nos perguntarmos se se trata realmente do nosso próprio corpo, e a resposta só nos é fornecida por nossa percepção interna que assegura também a unidade das imagens fragmentárias que temos da nossa expressividade externa e as traduz em linguagem interna. De acordo com Bakhtin (2000, p. 48), essa percepção emerge na “fronteira do mundo” no qual o eu-autor se insere.
Mediante o exposto, Antologia poética deixa entrever a percepção do eu-autor acerca das fronteiras exteriores que configuram o ser humano. Essa percepção é indissociável do aspecto físico: registra uma relação com o homem exterior e com o mundo exterior que engloba e circunscreve o homem no mundo. Entretanto, a consciência vive suas próprias fronteiras exteriores de uma maneira diferente, vive-as numa relação consigo mesma, portanto, apenas o outro pode, de maneira convincente, no plano estético (e ético), fazer o poeta viver o finito humano, ou seja, viver sua materialidade empírica delimitada.
 
4 O fazer poético de Carlos Drummond de Andrade
O fazer poético de Drummond (1998) traduz-se, ainda, em profunda indagação / captação do mundo, de sua infância, de seus medos, sobre o tempo, sobre sua vivência nas cidades de Itabira e Rio de Janeiro, sua família (sobre a figura paterna principalmente), sobre seus amigos poetas (Mário de Andrade, Manuel Bandeira…) e daqueles que lhe chamaram a atenção (Charlie Chaplin, García Lorca…). Sua poesia torna-se contemplativa e nela parece desconfiar de si e de sua maneira de ver o mundo. O autor (1998), aos poucos, nos revela que buscou dialogar com o velho e com o novo e indagar sobre a própria poesia. É um poeta em ação: luta sempre com a expressão e não espera passivamente. E, por isso, ele deixa transparecer que se deve penetrar “surdamente no reino das palavras” conforme percebemos no poema O lutador:
 
O lutador
 
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos mal rompe a manhã.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 182-185)
 
No poema Conclusão, percebemos que Drummond (1998) revela que “estar-no-mundo”, mediante o uso da captação, pode significar, inclusive, o desencantamento com a própria indagação sobre seu ofício e, portanto, sobre o fazer poético:
 
Conclusão
 
(…)
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
(ANDRADE, 1998, p. 190)
 
Nesse seu trabalho com as palavras, percebemos que Drummond (1998) transitou do uso gramatical esteticamente correto ao uso desordenado da sintaxe proposta pelos modernistas para nos atingir com uma linguagem excepcional, como percebemos em “Os materiais da vida”.
 
Dris? Faço meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em clavilux
camabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx
(ANDRADE, 1998, p. 192)
 
Já em outros momentos, como “Prece de mineiro no rio”, sendo usuário da língua, não procurou defender nada, a não ser o direito de poder dizer o indizível com ela mesma.
 
Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão da cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça […]
(ANDRADE, 1998, p. 56)
 
Nesse poema, o poeta nos revela, mediante o reinvestimento de suas memórias pessoais – ao nos remeter a sua “pertença” ao estado de Minas Gerais – sua necessidade de conservar em si parte do que foi um dia em Itabira. Para isso, materializa, em suas palavras, o “Espírito de Minas”. Entretanto, faz questão de declarar que o fazer poético não se trata de atividade sem preparo técnico e intelectual:
 
Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos (ANDRADE, 1944, p. 1.344).
 
Como se pode depreender da citação, Drummond (1944) faz esforço para realizar uma poesia bem construída. O poema, para ele, é um artefato e não obra de puro lirismo ou inspiração. Portanto, encontrará poesia não só nas grandes coisas, mas também em notícias de jornais – “Desaparecimento de Luísa Porto” (ANDRADE, 1998, p. 129-134) e “Morte do leiteiro” (ANDRADE, 1998, p. 134-137). Irá trabalhar com o cotidiano a partir de um prisma onde predominam a emoção e a sensibilidade. E ao fundir / reinvestir o vocabulário com o tema, o autor (1998) acaba guardando sua dimensão coloquial, levando o gênero, antes apenas jornalístico, a ultrapassar os próprios limites se ingressando nos domínios da literatura. E, por isso, o poeta tem a necessidade de refletir e questionar a própria atitude poética para compreender a si e a humanidade ao reinvestir tanto imagens do mundo real quanto do ficcional conforme notamos no Poema-orelha:
 
Poema-orelha
 
(…)
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 189-190)
 
Abordaremos, agora, a importância da terra natal na poesia drummoniana (1998).
Ao falar de Itabira, o eu-autor fala também de todo o estado de Minas Gerais, evocando / captando cenários e hábitos mineiros, conseguindo exprimir o elemento humano e universal, o telurismo e a revelação da pasmaceira de uma “Cidadezinha qualquer” do interior, focalizando o chão brasileiro sem ufanismos e idealismos, que envolvem o destinatário. Faz, inclusive, uma “Romaria” reinvestindo o barroco ao caráter arrependido.
 
Romaria
 
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 44-46)
 
Drummond (1998), ausente de sua terra natal, sabe que traz o lugar reinvestido dentro de si e na parede é apenas uma fotografia… enquanto captação de uma época da vida do eu-autor, “Mas como dói”. Chega ao reconhecimento de que “o hábito de sofrer, que tanto me diverte, / é doce herança itabirana”. Deslocado espacialmente de sua terra, tenta recuperar o tempo passado, vencer a distância que o separa das terras mineiras, na medida em que percebe que o passado se torna presente pelo reinvestimento de lembranças e através da herança legada pela terra onde nasce conforme percebemos na Confidência do itabirano.
 
Confidência do itabirano
 
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
(…)
(ANDRADE, 1998, p. 46-47)
 
Herança que o poeta (1998) carrega como parte constitutiva do seu ser e que tem suas raízes nos ancestrais longínquos, cujos retratos foram carcomidos pelo tempo. Tempo que “Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava / que rebentava daquelas páginas.”
 
5 Considerações finais
Em um mundo que lhe é exterior, o outro se oferece por inteiro à visão de Drummond (1998), enquanto elemento constitutivo deste mundo. A cada instante, ele vive distintamente todas as fronteiras do outro, podendo, dessa maneira, captá-lo, reinvesti-lo por inteiro com a visão, o tato e as imagens compartilhadas pelo eu-autor e pelos destinatários mediante as ressonâncias coletivas. No mundo exterior, o outro parece se mostrar por inteiro à sua frente e sua visão / captação pode esgotá-lo enquanto objeto entre os outros objetos, sem que nada venha ultrapassar o limite de sua configuração, venha romper sua unidade plástico-pictural, visível e tangível. E ao percebemos em Drummond (1998) a consciência histórica, a capacidade de abranger toda uma pauta de sentimentos e a catolicidade, podemos dizer que encontramos os atributos de um verdadeiro clássico.
Com muitas veredas do conhecimento humano, nosso poeta (1998) atinge, com sua poesia, o homem (esse sonhador incansável), o mundo e seu peso, o humor, a sátira, a ironia, a mensagem social, o clã familiar, o amor à terra natal, a crítica a um presente que valoriza a máquina, enfim, um conjunto que seria impossível, talvez, a qualquer outro autor. E para que tudo isso? Para chegar à demonstração de que o homem é apenas homem, coisa inexplicável e sem perspectivas de definição. Um ser que se caracteriza por um contínuo desajustamento entre a sua realidade e a realidade exterior de acordo com o poema Especulações em torno da palavra homem:
Especulações em torno da palavra homem
(…)
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
(ANDRADE, 1998, p. 215-219)
Carlos Drummond de Andrade (1998), lido e relido por décadas, pode ser considerado o poeta que ultrapassa gerações. Ele adota, em sua poesia, desde o humor até o pessimismo e nos mostra que não deixou de ser o intelectual preocupado com a difusão da arte. Mostra-nos também que vivencia o eu do outro de um modo totalmente diferente daquele como vivencia seu próprio eu ao valer-se do reinvestimento de captação. Trata-se de uma distinção essencial para a estética. Basta lembrar o princípio da disparidade dos valores entre eu e o outro do ponto de vista da moral cristã: não se deve amar a si mesmo, mas deve-se amar ao outro; não se deve ser indulgente consigo mesmo, mas deve-se ser indulgente com o outro. De uma maneira geral, deve-se aliviar o outro de seus fardos e assumi-los para si mesmo. E ao assumir esses fardos e por não saber, às vezes, quem é, será vários: Carlos, José, Robinson Crusoé … gauche.
 
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1998.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 1944.
AUMONT, Jacques. A imagem. Trad. Estela dos Santos Abreu e Cláudio C. Santoro. 16ª ed. Campinas: Papirus, 2012.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. 3ª ed. Coordenação da tradução Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2012.
GUIMARÃES, Luciano. As cores da mídia. A organização da cor-informação no jornalismo. São Paulo: Annablume, 2003.
MAINGUENEAU, D. Diversidade dos gêneros de discurso. In: MACHADO, I. L. & MELLO, R. (Orgs.). Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004.
MENDES, Emília. Publicidade e imagem: uma proposta de estudo. In: Fórum Internacional de análise do discurso, 2, 2010, Rio de Janeiro, Anais do II Fórum Internacional de Análise do Discurso – discurso, texto e enunciação. Homenagem a Patrick Charaudeau. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010, p. 91-102.
NATIVIDADE, Cláudia; PIMENTA, Sônia. A semiótica social e a multimodalidade. In: LIMA, C. H.; PIMENTA, S. M. O.; AZEVEDO, A. M. T. (Orgs.). Incursões semióticas: teoria e prática da gramática sistêmico-funcional, multimodalidade, semiótica social e análise crítica do discurso. Rio de Janeiro: Livre Expressão Editora, 2009. p. 21-29.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

TECER CRIATIVO POÉTICO NO POEMA CERÂMICA, DE DRUMMOND – Carila Aparecida de Oliveira




TECER CRIATIVO POÉTICO
NO POEMA CERÂMICA, DE DRUMMOND

Carila Aparecida de Oliveira

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

 
RESUMO: Sob a égide intencional de interpretar uma das mais belas obras de Drummond, Cerâmica, este artigo faz uma peregrinação entre alguns conceitos de poesia e de poema, além de outras questões que se espiam, numa imbricação simbólica que conversam com a arte. A literatura drummondiana se posiciona com liberdade inventiva, tendo sua base estruturante própria, mas supera os obstáculos do processo de tessitura de criação. A originalidade abre passagem para o imaginário de sua significância poética.
 
Palavras-chave: Cerâmica (poema). Criativo poético. Originalidade. Significância.
 
ABSTRACT: Weaving creative poetic in the poem Ceramic, by Drummond, discusses one of the most beautiful poems by Carlos Drummond de Andrade, titled Ceramics. The analaysis wanders among some concepts of poetry and the poem which symbolically interact with art. Drummond’s writing affirms itself with creative freedom and has its own structure, which supersedes all the usual obstacles related to the creative process. Originality opens the way to the imaginary and  poetic significance.
 
Keywords: Ceramic (poem). Originality. Poetic creation. Significance.
 
Currículo da autora: Mestre em Letras-Literatura e Crítica Literária pela PUC Goiás e bolsista da CAPES, em 2015. Graduação em Pedagogia pela FAESP, em 2015 e em Letras/ Português/ Inglês pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, em 2013. Atuou como monitora voluntária e participou do Projeto de Iniciação à Docência como bolsista PIBID/CAPES, durante a Graduação em Letras pela PUC-Goiás, por um ano. É revisora de livros, periódicos e trabalhos em geral.

 
TECER CRIATIVO POÉTICO
 
NO POEMA CERÂMICA, DE DRUMMOND
 
Carila Aparecida de Oliveira
 
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
 
Cerâmica
 
Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
Ela nos espia do aparador.
 
Carlos Drummond de Andrade
 
Diante da imensurável importância da biografia do escritor modernista Carlos Drummond de Andrade, seus leitores ficam desnorteados pela sua significação na literatura brasileira, be como na mundial. Este trabalho procura interpretar a arte do poeta sem vincular autor e obra, seguindo parâmetros da crítica. Um dos poemas mais belos do artista, na sua gama sígnica imagística, sem se esquecer das outras imagens da sua poética, é Cerâmica. Neste poema, vemos que “Poesia é conhecimento, poder, salvação, abandono. Operação capaz de transformar o mundo” (Otávio Paz, 1982, p. 15),
Poesia é uma palavra que se origina do grego poèsis, de poien, que significa criar. Na poesia lírica, seu objeto é o eu. É um exercício espiritual e um método de libertação interior. Revela esse mundo, ao mesmo tempo em que cria outro. Trilha a senda da epifania, presença; súplica do vazio. Dialoga com a ausência e a condensação do inconsciente. É fruto do cálculo, jogo, visão, musicalidade, símbolo, fazendo-se um caracol por onde ressoa música do mundo. Contudo, há poema sem poesia da mesma forma que esta pode existir sem poema.
Drummond, pela sua originalidade, cria uma obra além dessas aparentes distinções. Seu poema se faz no antilirismo. O entremeio modernista nem se prende ao eu, nem se centra no prosaico do não eu, mas pende para ambos os lados. A obra vê a si mesma e também contempla o outro ser. O tecer da obra é feito de forma consciente, nada é por acaso. Assim, os signos funcionam como cacos que são colados para formar outra coisa, isto é, o ser estranho que é a arte não nasce para imitar ou representar apenas um objeto criativo, pois, se assim o fosse, a nova criação não seria concebida como arte.
O poético drummondiano acontece no mosaico onde ocorre a condensação do acaso ou uma cristalização de poderes e circunstâncias alheias à vontade de criação do poeta, mas trabalhadas pela artista. O poema pode ser considerado como um organismo verbal vivo que contém, suscita ou emite poesia, porém, não limitando sua criação a si mesmo.
Em seu cultural estilístico, o artista condensa a forma e a substância da arte, que são vistas como a mesma coisa, mas cada poema é único, irredutível e irrepetível, feito com uma técnica que morre com o autor, pois ela não é repassada ou transmissível como uma receita. Dessa feita, é invenção apenas de seu criador e também para ele. Destarte, há um estilo que confina com a técnica, fazendo emergir uma época, uma cultura, um indivíduo ou grupo que sugerem ser vistos ali, naquela forma de apresentação da arte.
 
A poesia prolonga e exercita em nossos tempos a obscura e imperiosa angústia de posse da realidade, essa licantropia inserta no coração do homem que não se conformará jamais – se é poeta – com ser somente um homem. Por isso o poeta se sente crescer em sua obra. Cada poema o enriquece em seu ser. Cada poema é uma armadilha onde cai um novo fragmento da realidade. (…) a imagem é forma lírica da ânsia de ser sempre mais, e a sua presença incessante na poesia revela a tremenda força que (…) atinge nele a urgência metafísica de posse (CORTÁZAR, 1993, p. 101).
 
Quando um poeta adquire um estilo, passa fazer seus artefatos literários; o artista representa um tempo, mas modifica esses materiais, fazendo uma obra única. Tais estilos não são daquele que cria a arte, mas de sua época, sendo, portanto, históricos, e o poeta se alimenta deles. “Os estilos nascem, crescem e morrem. Os poemas permanecem e cada um deles constitui uma unidade autossuficiente, um exemplar isolado, que não se repetirá jamais” (PAZ, 1982, p. 21).
O poema parte da palavra que é um ser dotado do significante com seus múltiplos significados. Os silêncios ou lacunas poéticas estão povoados de signos: “No discurso as palavras aspiram a se constituir em significado unívoco” (…) Cada palavra (…) encerra uma pluralidade de sentidos. Assim, a atividade do prosador se exerce contra a natureza própria da palavra” (PAZ, 1982, p. 25). A linguagem tem sua originalidade primitiva recuperada no poema. Em liberdade, a palavra mostra as suas entranhas totalitárias com seus múltiplos sentidos e alusões.
Como a operação da poesia moderna é contrária à manipulação técnica tradicionalista, o poeta trabalha o universo das palavras, pondo em liberdade sua matéria prima. A palavra poética torna-se ritmo, cor, significado, imagem: ela converte as coisas em imagens. O poema está além da linguagem, mas só consegue ser assim por meio dela. Um quadro será poético se estiver além da linguagem pictórica. Poema é algo histórico ao mesmo tempo em que nega a história. Então, poesia é o jogo de tempo e ritmo perpetuamente criador.
O círculo se torna renovador, fazendo o homem se ver inseparável das palavras, pois é um ser de palavras, feito por elas, tornando-se sem elas inapreensível. Não há pensamento sem linguagem, nem tampouco objeto de conhecimento. O que ignoramos é o inominado, pois até no silêncio há preenchimentos ou espaços repletos de signos, por isso ele nos diz alguma coisa. Assim, indicação, emoção e representação são elementos presentes na linguagem. “Sem uso” são termos que retratam esses aspectos.
Por meio da palavra, o homem como qualquer coisa torna-se uma metáfora em si mesmo. Drummond é um especialista nisso: “A criação poética se inicia como violência sobre a linguagem. O primeiro ato dessa operação consiste no desenraizamento das palavras. (…) O segundo ato é o regresso da palavra” (PAZ, 1982, p. 47). O poema é feito de palavras, não quaisquer umas, mas as necessárias e insubstituíveis. Como não há sinônimos, cada palavra do poema é única e irremovível. Daí ser impossível ferir uma delas sem ocorrer o mesmo com todo o poema, como também mudar uma vírgula sem transtornar todo o edifício ou ato criativo da obra. O poema é uma totalidade viva, feita de elementos insubstituíveis.
O universo verbal do poema é feito da comunidade, para se ter vozes vivas. O poema se vale do mesmo caráter complexo e indivisível da linguagem, como suas partículas celulares, como a frase. Entretanto, o poema é formado para ser uma totalidade encerrada dentro de si mesma – é formação e condensação do todo. A expressão se faz de unidades compactas e inseparáveis. A célula ou núcleo do poema é a frase poética. A unidade da frase que o constitui é o ritmo. A criação poética consiste também nessa utilização sedutora ritmada. Esta é tempo original com uma direção, um sentido, está dentro de nós, é visão do mundo, estando o próprio silêncio inferido no ritmo presente na obra.
Como exemplo disso, “O silêncio de Mallarmé nos diz nada, que não é o mesmo que nada dizer. É o silêncio anterior ao silêncio” (PAZ, 1982, p. 67-68). O tempo do poema é arquetípico. O poeta lírico convoca o passado que é o futuro, fazendo tempo vivo. No poema, toda forma verbal se manifesta plenamente, sendo sua condição. As origens da poesia bem como seu fim se confundem com a linguagem. O poema se apresenta como uma ordem fechada ou esférica, voltando-se para si mesmo, repetindo e se recriando de forma circular. Tal recriação é ritmo, por isso, fluxo e refluxo rítmico. Entretanto, há outros aspectos figuradores dele, como a analogia, por exemplo. A palavra serve como música própria à poesia, daí ela ser canto:
 
Todo poeta parece ter sentido sempre que cantar um objeto (um “tema”) equivale a apropriar-se da essência dele; que só seria possível ir em direção a outra coisa e ingressar nela por via da celebração. O que um conceito conota e denota é, na esfera poética, o que o poeta celebra e explica liricamente (CORTÁZAR, 1993, p. 98, grifos do autor).
 
A riqueza de artes se dialogam num poema, já que a conversa vertical e/ou horizontal é celebrada na essência do poético. Nas direções apontadas pela arte, que parecem desencontrar o que seus signos trazem à baila em seu discurso, a poesia depara com o conhecimento, mas não se faz meio de conhecimento, pois o poeta não “perde tempo” em comprovar o seu conhecimento, nem se detém a corroborá-lo. A comprovação possível das suas vivências não tem sentido algum para ele:
 
O poeta é aquele que conhece para ser; todo o acento recai no segundo, na satisfação existencial, em face da qual toda complacência circunstanciada de saber se aniquila e dilui. Por esse conhecer se vai ao ser; ou melhor, o ser da coisa apreendida (…) poeticamente, irrompe do conhecimento e se incorpora ao ser que o anseia. (…) o poeta é o que anseia ser. (Em termos da obra: o poeta é o seu canto.) (…) Magia (…) é concepção fundamentalmente assentada na analogia, e suas manifestações técnicas apontam para um domínio, para uma posse da realidade (CORTÁZAR, 1993, p. 100).
 
Poesia é posse: o poeta agrega ao seu ser as essências do que canta: por isso e para isso há o canto. Ao avaliar o alcance da inspiração e da composição do poeta, entendendo-se pela primeira o crédito que Poe (apud CORTÁZAR, 1993) concedia aos produtos poéticos nascidos de uma intuição pura, e pela segunda, a estrutura minuciosamente articulada de elementos escolhidos, inventados, preferidos, que integrariam um poema. Originar consiste em combinar cuidadosa, paciente e compreensivamente. O conjunto dos signos da obra compõe-se de metáforas que formam a totalidade de sua significância. A metáfora do ser se concretiza no mistério do homem.
Nessa perspectiva discursiva, as categorias metafóricas são vistas pelas imagens das palavras e expressões linguísticas. O termo cerâmica do grego κέραμος é entendido como argila queimada ou κεραμικὀς, translit. Keramikós, de argila. A própria estrutura do todo de uma cerâmica é de ser um fragmento, da mesma forma que a palavra cacos. “Cerâmica. Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara” (DRUMMOND).
A palavra cerâmica pode ser compreendida como a arte ou técnica de produção de objetos em que se usa a argila como matéria prima. Esta é entendida como qualquer classe de material sólido inorgânico, não metálico, que seja submetido a temperaturas acima de 540 °C na manufatura. Normalmente, o elemento cerâmica é óxido metálico, boreto, carbeto, nitreto, ou mistura que pode incluir aniões. Ela se divide no grupo da cerâmica tradicional ou da avançada. Nessa análise, a cerâmica do poema é artística, bem como os cacos que são colados, isto é, trabalhados pela matéria prima da palavra.
Uma das características mais intrigantes da poesia de Drummond é a vitalidade de sua manipulação das palavras. O intuito é de extrair o máximo de significação de cada uma delas. Essa habilidade com o objeto da poesia é assumida pelo poeta. Ele penetra em seu universo para lidar com a máquina de sentidos, sendo também uma máquina que cria. A palavra, ao ser trabalhada, volta às suas origens, como se regressasse a sua pureza. Isto é arte.
Nessa performance interpretativa, a palavra pode ser originária ou derivada, assim como a vida humana é formada pela sua história individual e coletiva. Cada ser carrega a essencialidade do todo ou a essência da espécie, como também a sua singularidade ou individualidade que o faz ser único, apesar das semelhanças. “Os cacos da vida, colados, formam…”. A junção dos cacos não basta, é preciso estarem colados, imbricados, como se um ser só fosse. A mistura não se torna uniforme, mas estranha, pois os cacos “formam uma estranha xícara” (DRUMMOND).  
O estranhamento proposto por Victor Chklovsky conversa com a literatura drummondiana.  A xícara criada a partir de cacos ou fragmentos, assim como a arte, não tem função de uso. Ela apenas espia, sem funcionalidade de nada expiar ou fundir no outro que é o leitor. Ela não procura mudar a época tradicional nem se tornar um tradicionalismo para as épocas vindouras. Entretanto, a arte faz o homem se reconhecer, convidando a viver. Sua posição perpassa a sua espacialidade para outros lugares e temporalidades. “Sem uso. Ela nos espia do aparador”. Além dos diálogos entre artes, o poema se relaciona vertical e horizontalmente com a tessitura da obra.
A metáfora metamorfoseante está na personificação da imagem da xícara, aparecendo como um estranhamento afrouxado da vida e das ações que dela decorrem. Assim, estranhar significa substituir o simples pelo singular, pelo desvio do comum, do normal, é desautomatização da percepção: construir circunstâncias singulares de percepção. A arte é construída com um significado próprio, sem estar presa ao do referente, é autônoma no universo deste; cria-se “uma sintaxe que gera uma semântica interna ao texto criativo que se revigora nas próprias estruturas insólitas que nele se produzem” (FERRARA, 2009, p. 35).
O poema se mostra pela sua criação estrutural semântica. A base é metaforizada pelo signo do aparador. Isto é, aquilo que apara, que se coloca entre o antes e o depois, entre o alto ou o porvir e antevir. O centro é o cerne da modernidade literária. A poética de Drummond apresenta-se em forma de poema, sem formalidades fixas ou tradicionais, sem rimas confluentes. Mas sua poesia se transcende em pluralidades sígnicas, em torno de si mesma. O aparador é um objeto que se encontra no meio do caminho das artes, ao mesmo tempo em que ele é base para a estrutura moderna.
Pela sua simbologia de se colocar no meio, no entre, o poema tem poesia completa. O ser da obra espia a si mesmo e o outro. Seu posicionamento privilegiado pode analisar o antecedente e consequente. O entrelugar também vê e desnuda o entretempo. A obra assim se eterniza no vazio, no nada. A arte se forma neste nada. Mas este está completo de significado e significante, perfurando a significância que vai além de sua simples estrutura da obra. A ação de espiar, “xícara que espia”, não é um estado de lentidão ou estagnação diante do visível, mas, pelo contrário, é uma atitude de busca centrípeta e centrífuga.
A imagem é a realização de uma atividade imaginativa. A interação do real com o mundo simbólico que acontece por meio das palavras. Trata-se de deixar o texto falar. Bachelard (2013), ao colocar a imagem antes da percepção, provoca uma inversão ontológica. Muda o ser da imagem. Imaginar será uma função do irreal. O filósofo afirma que a expressão literária tem vida autônoma. Mudando a funcionalidade do sonho, a teoria bachelardiana acusa Freud, Jung e Sartre de intelectualistas, pois eles teriam sequestrado a força criadora e libertadora da imaginação.
Assim, como a vida, as possibilidades de leitura de uma obra são efêmeras e amplas de cada instante de luz ou de signo contemplativo. O olhar não está limitado ao setor do mundo visível, sendo o corpo, numa percepção esférica da matéria, considerado como um ícone que é visível, que abre o interior para o visível (MERLEAU-PONTY, 2009). Assim, a obra parece instaurar os reflexos daquilo que é natural ou real, para dissimular a própria crítica da metalinguagem de sua expressão significativa. A xícara vê, estando à exposição, para também ser vista. ”Ela nos espia do aparador” (DRUMMOND).
O poder do poeta transcende e incorpora a obra. A poesia se transforma de objeto do poeta a uma vivência própria de quem a lê. Isso pode ser encarado como a teoria da recepção iseriana. Ela transcende ao autor, às épocas, à história e à abrangente receptividade do leitor, que participa da obra no momento da leitura, simplesmente cumprindo o seu papel de ser arte. Sem interpretação única, clara e denotacional de sentido.
A engenhosidade pertence ao poeta e transcende na e da obra poética. O artista se imerge no reino das palavras e, através do seu árduo trabalho transpirante, a obra imerge e vive com capacidade independente do seu criador e cumpre sua função de ser exposta de forma única, e puramente arte, mas ao mesmo tempo ela é universal, complexa, pois dá margem a diferentes interpretações no tocante ao tempo, ao lugar. Assim, o romantismo artístico, no cortejo da obra drummondiana, propõe mudanças da forma da arte e suas relações com os tempos históricos, num diálogo das formas artísticas variadas, contemporânea e não tradicional, entre as idades, num espaço de desrealização da arte que figura a imposição de formas.
Diante dessas caracterizações, a compreensão da obra poética se refere justamente a não rotulá-la, não interpretá-la como uma arte que explica alguma coisa por tais efeitos linguísticos de sentidos, porque isso leva a uma semantização estática de compreensão. O que vale numa crítica é simplesmente se deixar refratar pela obra, com uma análise relacionada ao significando da obra com sua própria desconstrução do real.
Num conceito realístico de interpretação complexa, nem mesmo o autor sabe interpretar sua obra, pois ela o transcende numa significação do nada. Por isso, não cabe ao crítico procurar a estática fórmula de saber o que tal autor quis dizer. Entretanto, é necessário considerar que o nada não retrata o vazio, mas um esvaziamento conceitual do ser, para uma transfiguração do existir da obra. Esse nada se enche de sentidos desmembrados ou separados dos conceitos da realidade que, na verdade, independe do lugar e do tempo.
Assim, o papel do crítico não é de procurar interpretar uma obra, mas de coparticipá-la numa interatividade transcendente no dialógico do conotativo discursivo. É evidente que os elementos históricos, os geográficos, entre outros, são importantes, mas a poética de Drummond se relaciona com outros contextos epocais. Assim como o poeta, também o crítico enfrenta obstáculos das circunstâncias narrativas, mas se deve colocar como “grego e troiano”, para não estaticizar as marcas da literariedade poética.
O poeta de Itabira entende a poesia segundo seus próprios poemas, olha-a a partir da preferência pelo irônico, pelo antilirismo intencional, acrescido de uma exploração dos elementos materiais da palavra. Os objetos transpostos pela palavra são simples, conhecidos por todos. O poema em análise tem por signos substantivados os termos: cerâmica, cacos, vida, xícara e aparador. Num primeiro momento, os verbos são vistos pelas derivações: formam, espiam e usam. Este referente pode ser classificado com o artigo, formando “o uso”, portanto, transformando-se em substantivo. Ou ainda sendo adverbalizado pelo termo sem uso, isto é, os cacos formam algo sem funcionalidade para ser usado; é estática do advérbio. Nesse jogo transcendente de sentidos, os cacos são colados e sem uso. Nessa metamorfose, os cacos se transformam em xícara. Esta é vista como imagem centralizadora da arte poética. Ela se personifica, adquirindo sentidos, como a visão; “(…) uma estranha xícara. (…) Ela nos espia do aparador” (DRUMMOND).
Num bailar poético, autor e obra têm uma relação dialógica num ritmo semelhante, e se entrelaçam intimamente, numa aventura consciente, no subconsciente freudiano, como numa viagem clandestina, enfrentando as peripécias de um pirata, com um enfoque de mesmo interesse nessa influência da engenhosidade da obra. Drummond, semelhante a Poe (apud CORTÁZAR, 1993), imerge em sua própria poesia, que é feito rio. A concavidade da xícara serve para ser preenchida:
 
Por mais que às vezes nade contra a corrente, Poe não pode sair do rio da sua própria poesia. Sua poética é como que uma tentativa de negar o tronco da arvore e afirmar, ao mesmo tempo, seus ramos e sua folhagem; de negar a irrupção veemente da substância poética, mas aceitar suas modalidades secundárias. (…) admitirá na sua poética e nos seus poemas, julgando-as fruto da imaginação e do pensamento, as modalidades que nele vêm do irracional, do inconsciente: a melancolia, a noturnidade, a necrofilia, o angelismo e a paixão desapaixonada (…) determinada morta, por alguém que já não pode ameaçá-lo deliciosamente com a presença temporal (CORTÁZAR, 1993, p. 114).
 
Os traços gerais desse tipo de poética tornam-se precisos, Poe os chamou de princípio poético. O poema exalta ou eleva a alma do leitor. Esse princípio psicológico elementar demonstra que a exaltação não pode ser mantida por muito tempo. É preciso, pois, condicionar o poema à capacidade de exaltação; o tema e a forma devem submeter-se a essa principiologia. O poema breve exaltará a alma, ao fazê-la entrever a beleza extraterrena, ao dar-lhe, por via estética, um desses vislumbres de eternidade:
 
O poema é coisa estética, seu fim é a beleza. (…) Se o belo é naturalmente verdadeiro e pode ensinar algo, tanto melhor; mas o fato de que possa ser falso, isto é, fantástico, imaginário, mitológico, não só não invalida a razão do poema, mas também, quase sempre, constitui a única beleza verdadeiramente exaltadora (CORTÁZAR, 1993, p. 115).
 
O poema visa, por via da beleza, a mostrar ao homem o paraíso perdido, a entreabrir as portas que a vida terrena mantém fechadas. A poesia é a criação rítmica de beleza: a definição é funcional, pragmática, artística. O indefinido é um elemento da verdadeira poiesis. A beleza é o território do poema. Baudelaire (apud Cortázar, 1993, p. 168-169) diz que a poesia tem intenções: “se todo poeta é um estranho, nem todo estranho é um poeta na acepção genérica do termo”. A gênese do poético nasce de um estranhamento.
Para Poe (apud MORENO, 1987), a poesia aspira ao belo e conduz ao sentimento. Já conforme Massaud Moisés (1973, p. 36) “uma poesia lírica (…) não pode ser meramente lírica, mas sim participa em modos e graus diferentes de todos os outros gêneros. Apenas uma primazia do lírico nos obriga a chamar líricos os versos dessa poesia”. Em espécies, a poesia se divide em lírica e épica. O lírico desdobra-se para dentro de si, numa autocontemplação solitária. Moisés diz que a poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical, é a expressão natural dos mais violentos modos de emoção pessoal.
Por meio do olhar, acontece a construção poética, assim se dá a passagem de um mundo interior para o exterior, e deste para aquele. Simbolicamente, também, ocorre a aproximação do leitor com a obra, através da fruição da leitura. Mais profundamente ainda, como diz Cortázar (1993), é como se a obra já existisse e estivesse de pronto esperando pelo escritor, para se concretizar ou se materializar por meio das palavras ou signos não expressos ou totalmente verbalizados. É o que diz Drummond no poema Procura da poesia: o poeta “penetra surdamente no reino das palavras”. Assim a xícara se faz o ser que já era e está no mundo, que se formou pela genialidade de sobreposição da sua essencialidade. Esta é tão estranha quanto a sua própria formação; como os cacos da vida podem formar uma xícara?
Na higidez da própria matéria, os cacos são semelhantes aos fragmentos momentâneos da vida humana. No entanto, essa aparente proximidade de sentidos é meramente um jogo performático da arte poética encontrado na obra Cerâmica. Esta faz bricolagem com seu próprio sentimento de pensar, e o leitor se vê ali nas entrelinhas, por isso se sente como um daqueles cacos que formam o todo. Sua vida também está implícita, juntamente com a dos outros seres.
A aparência lógica é de que só o ser humano tem a capacidade de ver. Mas o poema se coloca no entre a esse pensamento tão tradicional. Ele vê além do homem com sua simples espacialidade e temporalidade. A criação se concentra em uma época, mas não se prende a ela, transcendendo-se no além do instante, conversando com o passado e o futuro que aparenta o inimaginário. Daí sua eternização pela sua própria significância plurissignificativa com sua forma estrutural.
O sujeito se constrói pelas suas experiências durante as colagens proporcionadas pelos atos da vida. O poeta contempla ideias particulares, subjetivas, em certo sentido universais e verdadeiras: o ‘eu’ descreve uma curva e regressa ao ponto de partida, o próprio ‘eu’. O exterior aparece no poema de forma interiorizada, isto é, o eu procurando a própria imagem refletida na superfície do mundo: “a poesia é a expressão do eu pela palavra, quer dizer, a expressão duma situação em que o eu torna-se espectador e ator ao mesmo tempo, ou, por outra, sujeito e objeto simultaneamente” (MOISÉS, 1973, p. 50).
No tecido literário, “o que fica por dizer é muito mais do que o que fica dito: um simples lembrete, espuma evanescente dum imenso mar de sensações inefáveis e desencontradas” (MOISÉS, 1973, p. 51). O poema é uma soma de signos que o poeta usa para se comunicar. É uma constelação de metáforas ou uma polimetáfora. O poema é um reservatório de signos em que a poesia é conduzida para preservá-la de esvair-se.
Por isso, a força da arte está naquilo que não se vê, no que está desmembrado da realidade, nas lacunas e ausências, já que a arte não se liga ao real, mas ao irreal, à abstração. Depois de ser considerada como acabada, a arte deve ser exposta para a apreciação que lhe dá vida. “Ela nos espia do aparador” (DRUMMOND). Com o passar o tempo a obra continua como se fosse recém criada, parecendo úmida, pois a cada época social, pessoal, histórica, psicológica a obra se movimenta sem sofrer alteração de sua essência, mantém seu aspecto e papel de ser arte.
De modo descontínuo, que é a forma de linhas cortadas em versos, ou contínuo, que é a forma de linha inteira, a poesia drummondiana mantém sua expressão metafórica do eu que dialoga com o não eu, tanto em verso quanto em prosa. Pessoas e objetos dividem o mesmo plano de importância. Coisas são personificadas: “a xícara”. Através das palavras toda representação criativa pode acontecer. Palavras são signos, que são imagens, que formam o ícone unívoco da obra com suas plurívocas significações; eixos se articulam para formar o todo.
No contexto do modernismo brasileiro, o poeta mineiro consagra sua obra pelas suas formas de apresentação e ação. Com metáforas tão literárias, os jogos formam o conjunto ou a grande metáfora do todo, isto é, o ícone completo da obra. Com signos que representam múltiplas coisas, pela sua significância, as figuras de linguagem, como a aliteração do “s”, dão ao ritmo poético um som sibilante paradisíaco pelos cortes advindos dos referentes que seguem o ziguezaguear do poema.
O poeta enfrenta o sobe e desce de reflexão. Os cacos são metáfora de pedra que cria obstáculos. Há conflitos do poeta consigo mesmo, com os outros, com o tradicionalismo da forma, com seu próprio objeto, que é a palavra. Nesse processo de construção, tem uma “pedra no meio do caminho”. Mas ao mesmo tempo que ela se porta no entre, a criação literária também ali está. A existência de ambas se faz necessária. É pela posição do tradicional que o contraste do moderno mais se ascende e transcende sua eternização.
O poeta precisa e sente a necessidade de se precipitar num tempo e espaço como se fosse uma boca enorme, cheia de dentes ativos. Serve-se de suas garras elementares da raiva ducassiana, para se movimentar com refinamento, ao mesmo tempo delicado e ligeiro. Para agarrar, é preciso estar vivo. A garra é a pata, é também o bico, como o da águia que rasga. Nessas linhas de ação, uma natureza profunda comanda os desejos de ações especificas que são os fantasmas. A produção de tudo isso se dá pela imaginação motora, sendo a criação de uma brutalidade o verbo de violência.
Ocorre uma explosão semântica, o verbo destruidor de Lautréamont e dos surrealistas é feito mais para ser desejado em sua alegria de decidir. Drummond imerge no universo surdo das palavras. É uma desconstrução do simples significado para a construção da plurissignificação. Sua significação é compreendida pela indução ativa e nervosa induzidas. A poesia tem “uma tendência quase invencível a retornar à vida, na vida, a viver docilmente o tempo continuo da vida” (BACHELARD, 2013, p. 75). O artista permanece isolado no mundo da arte, afastando-se das habitualidades da vida própria, para que a obra de gênio seja antítese da realidade.
A poesia comanda a vida, comunicando-se ela cria o novo, misturando a beleza com a forma, faz o ser contido e pertencente à obra seduzir o outro. A vivência do humano está repleta da causa formal, que é de ordem energética. A poesia se configura em espécies, sendo cada uma destas um destino, com sensibilidade humana. O homem deseja um porvir, por isso, o belo artístico deve ser produzido. Assim, “a poesia cumpriria a função de despertar o leitor ou ouvinte para a contemplação da beleza absoluta entrevista por seu criador” (MOISÉS, 1973, p. 308):
 
A poesia prolonga e exercita em nossos tempos a obscura e imperiosa angústia de posse da realidade, essa licantropia inserta no coração do homem que não se conformará jamais – se é poeta – com ser somente um homem. Por isso o poeta se sente crescer em sua obra. Cada poema o enriquece em ser. Cada poema é uma armadilha onde cai um novo fragmento da realidade. (…) a imagem é forma lírica da ânsia de ser sempre mais, e a sua presença incessante na poesia revela a tremenda força que (…) atinge nele a urgência metafísica de posse (CORTÁZAR, 1993, p. 101).
 
Usando imagens simples, Drummond escolhe as coisas e objetos temáticos cotidianos. A obra alarga horizontes, mas, ela é em si propriamente contemplativa e cheia de significação de um instante. Sendo oferecida ou exposta para os que a contemplam, seu sal afugenta a interpretação fechada e acabada, mas tempera e permeabiliza os contrastes, pois a obra carrega em sua essência as múltiplas infinidades de possibilidades de ser interpretada,/lida. A arte moderna contém muita agudeza de detalhes ao tocar o sentimento e a imaginação do ser humano.
Observando isso, deduzimos que a arte, independentemente de sua forma, compõe-se, essencialmente, da abstração com seus ícones de valores artísticos dos objetos representados por seu signo totalizante: a obra. A incógnita da arte comporta-se como aquilo que merece contemplação, movimentando a mente do observador que a contempla sem descobrir se há princípios ou quais princípios a adotar para sua interpretação, porque as possibilidades de leitura são infinitas. “A arte é única enquanto ser de linguagem, (…) nos limites do icônico que cria uma mera possibilidade de significado nas características sintáticas engendradas na linguagem” (FERRARA, 2009, p. 118).
A arte, mesmo considerada perfeitamente acabada, dá a impressão de que sempre poderia ser ainda aperfeiçoada, mas sugestivamente a obra se vale por si mesma. Mas ninguém poderia tentar aperfeiçoá-la sem destruir sua linha de nascimento. Era como se ela só pudesse se aperfeiçoar por si mesma, se isso fosse possível. Essa é a liberdade inventiva de que a obra é autônoma ao autor, parecendo ser feita de misturas que sequer foram apalpadas, sentidas ou imaginadas por seu assinado criador.
Assim, no meio do caminho, ocorre a transparência superativa dos obstáculos. As palavras são trabalhadas como objetos que, ao serem colados um ao outro, formam seu grande signo ou metáfora. Qualquer vocábulo ou palavra torna-se objeto, que ganha imagem sígnica proposicional. Assim, xícara e homem veem, mas a arte se movimenta pelo estranhamento que almeja o estranho com seus sentidos, transcende a sua simples forma. A retomada do centrífugo pelo centrípeto abre passagem para o imaginário do ato criativo drummondiano, marcando sua originalidade e tessitura poética.
 
Referências
 
AGUIAR, Vera Teixeira. O saldo da leitura. In: REZENDE, Maria Neide Luzia de; FALEIROS, Rita Jover. Leitura de literatura na escola. São Paulo: Parábola, 2013.
 
ARISTÓTELES. Poética. Disponível em: <www.domíniopublico.com.br>. Acesso em: 10 out. 2014.
 
BACHELARD, Gaston. Lautréamont. Tradução de Fábio Ferreira de Almeida. Goiânia: Ricochete, 2013.
 
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1993.
 
FERRARA, Lucrécia D’Aléssio. A estratégia dos signos: linguagem/espaço/ambiente urbano. São Paulo: Perspectiva, 2009.
 
GONÇALVES, Aguinaldo José. Signos (em) cena: ensaios. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2010.
 
MOISÉS, Massaud. A criação literária: introdução à problemática da literatura. 6ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1973.
 
MORENO, Armando. Biologia do conto. Coimbra: Livraria Almedina, 1987.
 
PAZ, Otávio. O arco e a lira. 2ª ed. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
 
TODOROV, Tzvetan. Teorias do símbolo. São Paulo: Martins Fontes, 1977.





Bio fornecida pelo palestrante.

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO: O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES – Lucimar Simon




MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO:   O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES

Lucimar Simon

Universidade Federal do Espírito Santo

 
Resumo: Trata-se de uma análise simples e resumida sobre aspectos da Música Popular Brasileira e a histórica e conturbada carreira do músico capixaba Sérgio Sampaio, artista caracterizado como um dos “malditos” da MPB. Nesse texto buscamos destacar dentro da trajetória pessoal do cantor e compositor capixaba uma assimilação com o momento histórico brasileiro no que tange alguns aspectos gerais da música a partir da década de 1960.
 
Palavras-Chaves: Sérgio Sampaio, Música, Cultura, Política.
 
Resúmen: Es un análisis simple y breve de aspectos de la Música Popular Brasileña (MPB) y la histórica y conturbada carrera del cantante Sérgio Sampaio, artista destacado como uno de los “malditos” de la MPB. En este texto se busca resaltar dentro de la trayectoria personal del cantante y compositor de Estado de Espíritu Santo (capixaba) una asimilación con el momento histórico de Brasil y con algunos aspectos generales de la música desde la década de 1960.
 
Abstract: This is a simple and brief analysis of some aspects of Brazilian Popular Music (MPB) and the historic and troubled career of the musician Sérgio Sampaio, born in Espírito Santo State (capixaba), an artist considered as one of the “damned” in MPB. In this text, we try to highlight the personal story as singer and songwriter of Sampaio and his assimilation of some aspects of Brazilian history since the 1960s.
 
Currículo: Lucimar Simon nasceu em Linhares – Estado do Espírito Santo em 1977 e vive em Vitória desde 2001. Possui, pela Universidade Federal do Espírito Santo, graduação (Licenciatura e Bacharelado) em História em 2011; graduação (Licenciatura) em Letras – Português e Espanhol – em 2015; pós-graduação lato sensu, em nível de Especialização, no curso Ensino e Interdisciplinaridade – História e Literatura: Texto e Contexto, em 2013 e pós-graduação lato sensu, em nível de Especialização, em Artes Corporais para Educação Integral, em 2014.
 

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO:
O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES
 
Lucimar Simon
Universidade Federal do Espírito Santo
 
Introdução
Desde o final dos anos 50 o Brasil lutava para se libertar do complexo de “país de segunda classe”. Nossas culturas, populares e musicais resultantes de miscigenação das culturas europeia, africana e indígena estavam tomando seus primórdios caminhos ao reconhecimento nacional e internacional. De fato a música é considerada uma expressão artística que contém um forte poder de comunicação, principalmente quando se difunde pelo universo urbano, alcançando ampla dimensão da realidade social.
Se de fato essas condições, já identificadas são reais e se estabelecem dessa maneira, aparentemente a música poderia constituir-se em acervo importante para se conhecer melhor ou revelar zonas obscuras das histórias do cotidiano dos diversos segmentos sociais. A música pode ser encarada como uma rica fonte para compreender certas realidades da cultura popular e desvendar a história de setores da sociedade pouco lembrados pela historiografia.
Todavia, tais investigações raramente têm ocorrido e por diversas razões os trabalhos historiográficos que tratam de desvendar as relações entre história, música e produção do conhecimento enfrentam uma série de intermináveis dificuldades. Estas são a dispersão das fontes, a desorganização dos arquivos, a falta de especialistas e estudos específicos, escassez de apoio institucional, por isso, as pesquisas, não raro, acabam resumindo-se a trabalhos individuais de campo e de arquivos isolados de investigações sistemáticas e de longa duração.
Com relação à música popular urbana moderna, os problemas ganham nova e grave dimensão, ampliando e dificultando em todos os sentidos o desenvolvimento das pesquisas. As universidades e agências financiadoras tradicionalmente menosprezaram as pesquisas em torno dessa temática. Ao cederam espaços às investigações sobre a música popular, sempre o fizeram quando havia relações ou com a música erudita ou a folclórica, delimitando-se estas exclusivamente a esses respectivos departamentos e núcleos.
Infelizmente, a bibliografia da história da música, como mais um elemento da história da arte, de modo geral apenas reforçou essa postura e pouco contribuiu para ultrapassar esses limites e restrições. Ao contrário, suas linhas e tendências predominantes quase sempre serviram para reforçar limitações e preconceitos. O universo popular, por exemplo, geralmente é esquecido pela historiografia da música, e quando se refere a ele, reforça apenas as perspectivas românticas, nacionalistas ou folclóricas.
Isto ocorre porque, de modo geral, ela está fortemente marcada por um paradigma historiográfico tradicional, normalmente associado àquela concepção de tempo linear e ordenado, em que os artistas, gêneros, estilos e escolas sucedem-se mecanicamente, refletindo e reproduzindo, assim, uma postura bastante conservadora no quadro da historiografia contemporânea.
 
Momento histórico
A canção é porta-voz do Brasil, tão importante como a História, a Literatura, o Teatro, o Cinema e as Artes plásticas. A música brasileira tem recebido alguns estudos e análises, embora a escassez de títulos venha sendo revertida ultimamente e a maioria deles priorize a biografia de cantores e compositores. A música nos dias atuais tem sido objeto de estudo de cientistas políticos, historiadores, sociólogos entre outros grupos de atuação. É com esse empenho que ela chega a uma verdadeira reformulação com objetivo de concretizar-se e harmonizar-se entre os diversos campos dos saberes.
O sucesso da bossa nova com aceitação internacional e outras conquistas de afirmação nacional fizeram da década de 60 um período de grande exacerbação de nacionalismo. Além disso, também aumentou o grau de conscientização política dos problemas e carências do povo brasileiro acirrando as disputas ideológicas entre os vários segmentos da população. Após o desastre da administração do presidente Jânio Quadros e com a ascensão de João Goulart em 1961 aumentaram os conflitos sociais, resultando no golpe militar de 1964.
Historicamente, 1964 foi um ano profundamente marcante para o Brasil. O golpe militar de 31 de março anularia de vez o sonho modernizante que vinha do governo Juscelino Kubitschek e as possibilidades de reformas sociais que foram propostas na época por João Goulart. O país deixava de olhar o futuro e passava a acompanhar o ritmo soturno da Ditadura Militar que se prolongaria por mais de 20 anos.
No início, o general Castelo Branco deu surpreendentes concessões aos setores culturais, permitindo assim que as vanguardas pipocassem e formidáveis arranjos artísticos se realizassem. Em 1968 é o ano mais importante da década de 60 e um período divisor de águas para o século 20. Nesse período, a juventude do Ocidente passava a exigir mudanças, rupturas e atitudes arrojadas. Em maio de 1968, milhares de pessoas saem às ruas de Paris, em protestos que misturavam política, ideologias e traçavam novos rumos de pensamentos.
 
A cultura musical brasileira
A cultura musical brasileira acompanhou todas as mudanças ocorridas no país, com a afirmação da bossa nova e o surgimento das músicas de cunho social apresentadas principalmente nos “Festivais de Música Brasileira”, principalmente os da TV Excelsior e TV Record surgiram composições de diversos artistas como Sérgio Ricardo, Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Torquato Neto, Heraldo do Monte, Hilton Acioli e muitos outros. Marcos Napolitano afirma que
Apesar de combatida pelos críticos mais exigentes, a música popular, cantada ou instrumental, se firmou no gosto das novas camadas urbanas, seja nos extratos médios da população, seja nas classes trabalhadoras, que cresciam vertiginosamente com a nova expansão industrial na virada do século XIX para o século XX (NAPOLITANO, 2005, p. 16).
 
Compositores não engajados nos movimentos sociais também passaram a compor músicas de cunho social em função da censura imposta pelos governos militares da época.  A grande divulgação de cantores americanos de rock através do cinema e gravadoras ajudou também para o nascimento do rock brasileiro que contou com ampla divulgação da mídia nos anos 60.
Um dos principais incentivadores, o compositor e radialista Carlos Imperial fundou em 1958 o Clube do Rock, no Rio de Janeiro, onde se apresentavam e se reuniam os amantes do rock; nesse clube iniciaram suas carreiras Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A parcela de público que preferia músicas oriundas do rock passou a ter seu espaço musical com programas específicos na televisão cujo ápice foi o programa “Jovem guarda” iniciado em 1965 com Roberto, Erasmo e Vanderleia permanecendo no ar pela TV Record durante vários anos.
Sob a influência da Jovem guarda e dos Beatles nasceu em 1967 o Tropicalismo, movimento de vanguarda liderado por Caetano Veloso, Rogério Duprat, Gilberto Gil, Júlio Medaglia e outros; suas principais composições foram “Tropicália”, “Domingo no parque” e “Alegria, alegria” onde era incentivada a universalização da música brasileira inclusive com utilização de guitarras elétricas e absorção de vários gêneros musicais: pop-rock, música de vanguarda, frevo, samba, bolero, etc.
Assim na década de 60 três novas grandes vertentes musicais podem ser identificadas: “Bossa nova, músicas sociais de festivais e rock da jovem guarda”; evidentemente músicas com ritmos tradicionais como samba, samba canção, músicas de carnaval e músicas regionais continuaram a ter seu espaço, mas com menos divulgação e menor sucesso que as três citadas.
 
Os representantes
A música popular brasileira também reservou aos cantores e compositores ditos “marginais” os capítulos mais interessantes de sua história. Donos de carreiras irregulares e, não raros, com existências trágicas, os “artistas malditos” sempre estiveram no acostamento do sucesso. Embora o folclore que os cerca sirva para torná-los figuras ímpares, quase míticas, a realidade para esses artistas não teve o mesmo lirismo que se costuma creditar a eles:
 
A uma certa altura da década de 70, virou lugar-comum chamar de “maldito” todo artista com aura de louco e contestador, de comportamento extravagante, fora dos padrões, apresentando um trabalho hermético, “difícil”, anticomercial. Lutávamos dentro da ditadura. Nossas palavras, atitudes e nossas músicas nos levaram a um ponto que a indústria fonográfica não sabia como catalogar. Maldito naquela época era elogio. O Brasil era um país amaldiçoado (MOREIRA, 2003, p. 206).
 
O carioca Jards Macalé foi um dos agraciados com o rótulo de maldito. Junto a ele acrescenta-se Tom Zé, Sérgio Sampaio e outros como Luiz Melodia e Jorge Mautner.
 
Sérgio Sampaio
Sérgio Sampaio foi um desses artistas, ditos “malditos”. Marginalizado pelas gravadoras, pelo público e, talvez, até por ele mesmo, chegou a passar fome. Mas, se não conseguiu sucesso e reconhecimento imediatos, ao menos Sampaio agregou em torno de si, poucos, mas fervorosos seguidores que ainda hoje carregam seu nome e suas músicas.
Assumindo uma postura de “maldito” numa época em que nomes importantes da MPB estavam no exílio, trabalhando sob o impacto esmagador da extraordinária geração surgida nos festivais de canção da segunda metade dos anos 1970, Sérgio Sampaio estreou com um álbum que combinava samba, rock e marcha-rancho, entre outros gêneros, e que resumia com perfeição o clima de baixo-astral do momento histórico.
Embora a faixa-título tenha sido o único sucesso obtido pelo autor em toda sua carreira, “Eu quero é botar meu bloco na rua” contém um punhado de canções notáveis, como “Filme de terror”, “Pobre meu pai” e “Eu sou aquele que disse”. Elas retomam alguns dos principais temas do momento, o elogio da loucura, a sensação de marginalidade, a paranoia generalizada, o estranhamento entre as gerações:
 
Antes de sua morte prematura, Sérgio Sampaio ainda pôde lançar dois outros discos, deixando inacabado um quarto, lançado postumamente; mas sua obra-prima é sem dúvida seu trabalho de estreia, de importância fundamental para a compreensão do período da história da nossa música popular entre o fim da era dos festivais e a eclosão do rock – Brasil dos anos 1980 (BRITTO, 2009, p. 96).
 
Houve um ápice na obra e na carreira do cantor e compositor Sérgio Sampaio (1947-1994), mas quase tudo acabou sufocado pelo sucesso estrondoso da marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”, lançada em 1972. Avesso à superexposição e às exigências da indústria fonográfica, Sampaio meteu os dois pés na jaca e, às margens da fama do conterrâneo Roberto Carlos e do parceiro Raul Seixas, construiu uma carreira pouco sólida, embora muitíssimo rica e feita de canções que tratavam sem meias-palavras das angústias, dos amores, dos desafetos, dos desejos e das frustrações que o artista capixaba colecionou em 47 anos de vida.
Uma delas, “Eu sou aquele que disse”, dá nome ao livro que celebra os 60 anos de nascimento deste botafoguense fanático que fez troça da própria loucura, desprezou tanto a ditadura militar quanto a luta armada que se propunha a derrubá-la, Sérgio Sampaio, elegeu o “desbunde” como solução política e existencial num mundo paranoico e destrutivo:
 
Sérgio experimentou uma grande identificação com o estilo de vida dos poetas românticos do século XVIII, que viviam intensamente a arte, o amor e as madrugadas a céu aberto, e morriam jovens quase sempre de tuberculose. Ele até mesmo acreditava que morreria jovem como eles. Mas tarde, seriamente interessado em literatura escreveria seus próprios contos, herméticos e kafkianos, de difícil interpretação. Fazia uns contos que ninguém entendia (MOREIRA, 2003, p. 23).
 
Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947-Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro e, no dizer do cantor Lenine, um nome marginalizado que equipara a Tim Maia e Raul Seixas. Como um dos “malditos” da música popular brasileira. Suas composições permeiam vários estilos musicais, indo dos folclóricos samba e choro, ao rock’n roll, blues e balada.
Sobre a poética de suas composições presenciamos elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, autores que ele lia e apreciava. Declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento:
A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea (NASCIMENTO, 2007, p. 41).
 
Filho de Raul Gonçalves Sampaio, dono de uma tamancaria e maestro de banda, e de Maria de Lourdes Moraes, professora primária, era primo do compositor Raul Sampaio Cocco (autor de sucessos na voz do conterrâneo Roberto Carlos). Assistiu o pai compor a canção “Cala a boca, Zebedeu”, quando tinha 16 anos e que veio a gravar mais tarde. Tocando violão, era um artista nato que buscava mostrar seus trabalhos. Segundo João Moraes Machado, Sérgio Sampaio estava sempre sedento para mostrar suas músicas, precisava de uma orelha e nunca fez doce para tocar entre os amigos:
 
Sempre que posso aplico alguém no mundo Sampaio, sempre que deixam, ou não, toco suas canções. Vivo redescobrindo sua obra e lembrando de tempos já escorridos na vazante da história, nossa história de família e de amizade. Lembro do bar do Auzílio, do Sérgio lendo Kripta, Kafka e Alan Poe, no quartinho dos fundos da velha casa em Marataízes, das muitas canções compostas em minha casa, o velho gravador, a risada e os olhos sem mais tamanho (MACHADO, 2007, p. 7).
 
Aficcionado pelos programas de rádio, onde acompanhava os cantores da época como Orlando Silva, Sílvio Caldas ou Nelson Gonçalves, que o inspiravam, veio a tornar-se imitador de radialistas como Luiz Jatobá e Saint-Clair Lopes, conseguindo trabalho numa emissora da cidade natal, a XYL-9. Em 1964 tentou trabalhar no Rio de Janeiro na Rádio Relógio, retornando para sua cidade natal após quatro meses.
Em fins de 1967 muda-se definitivamente para o Rio, inicialmente para tentar a carreira como radialista, embora não tenha conseguido firmar-se em nenhum trabalho por frequentar a vida boêmia carioca, atraído pela música e a bebida; morou em pensões baratas e até na rua, chegando a mendigar comida. Sérgio tinha passado a cantar na noite, em bares, até que em fevereiro de 1970 demite-se da Rádio Continental para dedicar-se integralmente à música.
Nos primeiros anos na cidade maravilhosa Sérgio Sampaio viveu intensamente as noites cariocas. Tão intensamente que não se firmou em emprego nenhum, por “nunca recusar um convite, a qualquer hora do dia ou da noite, para um programa envolvendo música e bebida” (MOREIRA, 2003, p. 26). Sérgio Sampaio sempre pautou sua força criativa na palavra. Escrevendo em primeira pessoa, fazia de suas letras uma espécie de crônica musicada do seu mundo, visto a partir de um olhar lírico, melancólico, irônico, crítico, revoltado.
Enfim, um olhar diferenciado, de um artista indócil que jamais se encaixou em rótulos e em modelos preestabelecidos, no fundo, a obra de Sérgio Sampaio gravita em torno do amor e de suas desventuras. Fazia-o ao seu modo, sem sentimentalismo, porém com intensidade, humor, originalidade. E o ritmo e ou gênero musical funcionavam, para ele, como veículos para expressar seus sentimentos em forma de canção; daí a razão pela qual jamais se prendeu a um único estilo, passeando pelo choro, samba, marcha-rancho, rock, blues etc.
A trajetória errática do capixaba Sérgio Sampaio sempre desafiou explicações. Depois de sacudir o país em 1972 com a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”, um sucesso estrondoso, que realmente marcou época, o compositor viu pouco a pouco sua carreira estagnar.
Difícil de entender porque um artista de evidente talento, melodista sensível, poeta inspirado, expressivo cantor, violonista competente acabou por não alcançar, em seu tempo, a popularidade e o prestígio devidos. Há quem diga que o sucesso foi da música, não do cantor e compositor, uma análise um tanto simplista, mas não desprovida de certo fundo de verdade. 
Apesar de suas músicas primarem pela simplicidade harmônica e suas letras pela linguagem cotidiana, Sérgio nunca conseguiu popularizá-las. Essa culpa o perseguiu durante toda a vida: “Quem faz um Bloco na Rua só pode ser povão”, dizia ele, um típico homem do povo que podia ser visto nos botecos, tomando em pé a sua pinga (Moreira, 2003, p. 79). O rótulo de “maldito” que as gravadoras e a mídia pregaram-lhe na testa acabou atravancando sua carreira, antes mesmo que ela pudesse realmente começar.
Na verdade, é a partir do Festival Internacional da Canção de 1972 que Sérgio Sampaio vislumbra seu ingresso no clube fechado da MPB. Feita em dezembro de 71, a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua” acabou sendo, segundo Rodrigo Moreira, “uma síntese artística e existencial de tudo o que o compositor viu e viveu; uma projeção de anseios tão pessoais quanto identificados com a coletividade naquele momento histórico”. Vale lembrar que o Brasil atravessava seu pior momento político nas mãos do regime militar.
 
Conclusão
O altar da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, não é habitado apenas pelo trono do rei Roberto Carlos. Existe outro importante nome da música popular brasileira, que reina como o mais maldito entre os malditos da MPB. O capixaba Sérgio Sampaio foi daqueles artistas não reconhecidos, ou melhor, não adequadamente avaliados em seu tempo. Em plena ditadura Médici, estourou nacionalmente com “Eu quero é botar meu bloco na rua”, histórica marcha-rancho, considerada um dos mais eloquentes protestos da MPB contra a ditadura. Ainda jovem e imaturo demonstrou toda sua categoria e versatilidade como cantor e compositor, mas parecia estigmatizado por aquela música tão marcante. Viva Sampaio!
Em síntese, as questões realçadas no texto alcançaram pelo menos três aspectos relevantes para a reflexão do pesquisador que pretende trabalhar com a canção popular: a linguagem da música, a visão de mundo que ela incorpora e traduz, e, finalmente, a perspectiva social e histórica que ela revela e constrói. Essas questões, levantadas de modo introdutório, também servem, de certo modo, para recolocar alguns temas na discussão das relações entre história e música, literatura e música entre outros pontos de abordagens gerais.
E, tentando ultrapassar a tradicional concepção de estudo sobre a história da música procuramos refletir e organizar alguns elementos para compreender melhor as múltiplas relações entre a música popular e o conhecimento histórico, pois é bem provável que as músicas possam esclarecer muitas coisas na história contemporânea que às vezes se supõem mortas ou perdidas na memória coletiva.
 
Referências
BRITTO, Paulo Henriques. Eu quero é botar meu bloco na rua. De Sérgio Sampaio/Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. 96 p.
MACHADO, João de Moraes, Eu sou aquele que disse. João Moraes Machado (Org.). Vitória: PPGL/MEL, 2007. 103 p.
MOREIRA, Rodrigo. Eu quero é botar meu bloco na rua: a biografia de Sérgio Sampaio. 2ª

  1. Niterói: Muiraquitã, 2003. 240 p.

NAPOLITANO, Marcos. História e Música: história cultural da música popular. 2ª ed. rev. pelo autor. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 117 p.
NASCIMENTO, Jorge Luiz do. Lugares suspeitos, terras de ninguém: alguns territórios de Sérgio Sampaio. In: MACHADO, João de Moraes. Eu sou aquele que disse. João Moraes Machado (Org.). Vitória: PPGL/MEL, 2007. p. 31-49.





Bio fornecida pelo palestrante.

POESIA, MAGIA E ENCANTAMENTO: A SEDUÇÃO POÉTICA NAS LETRAS DE CARLOS VENTTURA – Claudia Vanessa Bergamin




POESIA, MAGIA E ENCANTAMENTO: A SEDUÇÃO POÉTICA NAS LETRAS DE CARLOS VENTTURA
 

Claudia Vanessa Bergamini

Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) / Assis

Resumo: Este artigo apresenta considerações acerca da composição musical de Carlos Venttura, músico brasileiro. Trata-se de letras de canções nas quais se evidencia uma forte essência poética no trato da mulher e das sensações inerentes ao amor. Com delicadeza e maestria, o compositor constrói imagens sensuais de extrema beleza, contribuindo para a elaboração de uma poesia de melopeia (melodia) e de fanopeia (imagem), dentro dos moldes pensados na Antiguidade. O corpus que compõe este artigo debruçou-se sobre duas de suas composições, a saber: Primavera e Sedução. O estudo permitiu delinear um conjunto de palavras empregado pelo compositor para se referir à mulher. Conjunto este que fez das letras, aqui analisadas, verdadeira exaltação do universo feminino.
 
Palavras-chave: construções imagéticas; mulher; amor; poesia.
 
Abstract: Poetry, Magic and Charming: The Seduction in Poetic Lyrics of Carlos Venttura presents considerations about musical composition of Carlos Venttura, a Brazilian musician. The lyrics of his  songs evince a strong poetic essence while dealing with women and sensations inherent to love. The composer builds skillfully and delicately sensual images of extreme beauty, contributing to the development of poetry melopoeia (melody) and fanopeia (images) following the modelo of Antiquity.  The corpus proposed here consists of two of his compositions, namely Spring and Seduction. The study allows to outline a set of words used by the composer to refer to women, which consist a  true exaltation of the feminine universe.
 
Keywords: imagetic constructions; woman; love; poetry.
 
Currículo da autora:  Doutoranda em Letras em Estudos Literários (UNESP/ASSIS), Mestre em Literatura Brasileira-Letras (UEL), autora de material didático sobre Literatura Brasileira para cursos de Letras e Ensino Médio.

POESIA, MAGIA E ENCANTAMENTO:
 
A SEDUÇÃO POÉTICA NAS LETRAS
 
DE CARLOS VENTTURA
 
Claudia Vanessa Bergamini
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) / Assis
 

  1. INTRODUÇÃO

 
Não é novidade dizer que música e poesia convivem de forma amalgamada. O encontro desses dois gêneros, cuja origem direciona o olhar para a Antiguidade e, por conseguinte, leva a valorizar os elementos orais que os perpassam, há muito que vem sendo estimado por estudiosos da Literatura. O crítico português Hernani Cidade (1959) apresenta com maestria esta relação, ao se voltar para as cantigas medievais e encontrar nelas toda essência poética e musical.
De igual maneira, podem ser citados os aspectos melopaicos que compuseram poemas de períodos distintos da Literatura. A exemplo, cita-se toda a musicalidade dos poemas árcades de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, os quais valorizaram sobremaneira a mulher em seus textos, em especial o último, para quem a musa foi sua grande inspiração para compor a obra prima, Marília de Dirceu, obra poética do século XVIII. Pode-se ainda citar o Modernismo Brasileiro, cujas composições de poetas como Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes deram à poesia um ritmo cotidiano e doce, por meio do qual a mulher e o amor foram valorizados sobremaneira.
Há entre música e poesia uma relação tênue, a qual não se perdeu com as propostas vanguardistas que chegaram ao Brasil com o Modernismo Brasileiro. Tais propostas voltaram-se à desconstrução do modelo clássico (rimas, métrica, preferência por formas fixas como o soneto) e enfatizavam os versos livres, brancos e os poemas assimétricos. É por meio dessa forma que os modernistas e, por conseguinte, os poetas e compositores que os sucederam, valeram-se de recursos outros para compor textos nos quais a imagem e a melodia marcavam a construção de uma poesia delicada e significativa.
De igual maneira, pode-se afirmar que as composições de Carlos Venttura também apontam para a construção dessa poesia de fanopeia (imagem) e melopeia (ritmo), por meio dos quais ele direciona seu interlocutor a vivenciar o que é apresentado em cada canção.
Com vistas a demonstrar como isso ocorre nas suas letras, analisam-se as composições de Venttura: “Primavera” e “Sedução” (ver Anexo).
 

  1. SEDUÇÃO E ENCANTAMENTO: A MULHER VIROU POESIA

 
Em tempos nos quais a figura feminina tem sido tão depreciada em letras de gêneros musicais diversos, encontra-se em Carlos Venttura um compositor dedicado à valorização da mulher. Grande parte de suas composições falam dela, exaltando-a e a colocando como grande musa na vida do eu-lírico que se apresenta nas letras. O resultado são imagens delicadas, construídas por meio de metáforas que não ficam somente na delicadeza, haja vista que, muitas vezes, ganham ares de sensualidade acentuada.
Em ‘Sedução’, o interlocutor depara com uma metáfora que ventila duas ideias: a da sedução da boca feminina e, ao mesmo tempo, permite a construção fanopaica de um eu encantado com a beleza dessa mulher.
 
A sua boca poderosa rosa,
Me conduz, e me seduz.
Descortinando os brancos dentes num sorriso luz,
Lábio tom rosa carmim.
VENTTURA, CARLOS, Sedução
 
Nota-se que ocorre uma rima rica emparelhada entre o segundo e o terceiro versos; porém, esta rima não ganha sequência nos demais versos, fato que não é empecilho para que o compositor construa sua poesia melopaica, visto que a escolha lexical de palavras como ‘rosa’, que na estrofe tem dois significados – cor da boca e o fato de a própria boca ser uma rosa – e ‘carmim’ contribuem para a imagem poética da mulher descrita.
Na sequência, verifica-se a preferência por palavras soltas que sugerem todo o encantamento do eu diante da nudez feminina e ocorre também a sugestão da intimidade.
 
Pele,
Nuca,
Costas,
Bunda.
Pernas a serpentear,
Na selva dos lençóis da cama,
Ama, ama, ama…
E me leva a sonhar.
(E vive a Sonhar)
(VENTTURA, CARLOS, Sedução)
 
Mais uma vez é preciso destacar a riqueza da escolha lexical ao se referir aos movimentos serpenteantes embaixo dos lençóis, ao amor e ao fato disso tudo levar o eu ao sonho. A delicadeza dessa construção permite ao interlocutor construir uma imagem bela e sugestiva do ato sexual e nem mesmo a nudez retratada nos primeiros versos da estrofe diminui a mulher, ao revés disso, valorizam-na ainda mais.
Em ‘Primavera’, uma vez mais para se referir à mulher é construída uma imagem ligada à flor, desta vez a preferência foi pelo perfume do jasmim:
 
Amanheceu luz do Sol,
No ar um cheiro de Jasmim.
Quanta beleza ao meu lado.
Pensei que era sonho,
Mas estava acordado.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
 
Faz-se mister destacar que a imagem feminina se faz por meio do perfume e, na sequência, o interlocutor tem construída a imagem do sonho, já que a beleza da mulher é algo que coloca o eu em dúvida sobre a realidade.
Nos versos posteriores, tem-se uma imagem sensual apresentada:
 
Anjo, Mulher, Quimera,
Esfinge me devora.
Não decifrei quem era,
Pudera.
Dormi e acordei com a primavera.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
 
As rimas tomam a estrofe, sendo elas alternada, nos versos 1 e 3, e emparelhada em 4 e 5. No entanto, o compositor não deixou de se valer de outros recursos. No primeiro verso ocorre a gradação, tendo em vista que a mulher é colocada como ‘anjo’, algo intocável, ‘como ‘mulher’, algo real, por fim, como ‘quimera’ que, na mitologia grega, é concebida como uma fera, uma figura mítica de forma similar a um dragão. Nessa construção, observa-se que a mulher passa por estágios que a colocam como surreal (anjo), real (mulher) e mito (quimera). Para finalizar a estrofe, mais uma vez ocorre a relação entre mulher e flores, já que essa é retomada como ‘primavera’, a sugerir uma bela imagem sinestésica da mulher. A sinestesia inclusive é um recurso que segue na canção:
 
E é só fechar os olhos pra sentir,
Seu doce perfume. Impregnado em mim.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
 
Observa-se a sinestesia logo no primeiro verso, em que a sensação é aguçada pelo olhar e pelo paladar, haja vista que ao fechar os olhos o eu é capaz de sentir o doce perfume. Cabe lembrar que a sinestesia consiste na produção de duas sensações diferentes. Neste caso, o olfato e o paladar.
 

  1. A MAGIA E O SONHO: MULHER INTOCÁVEL

 
Toda vez que se cria uma relação entre letra e melodia tem-se uma canção. No cotidiano, estar-se-á sempre a relacionar som e palavra. No entanto, enquanto a fala é passageira, a canção eterniza uma imagem, uma melodia e as relações que com elas se estabelece.
Diante da leitura e da audição das letras/músicas de Carlos Venttura, fica evidente que as relações entre palavra e voz são ínfimas a permitir a posteridade daquilo que é cantado. Especificamente, pode-se dizer que o compositor tem dileção pela construção de relações que colocam a mulher em estado de idealização. Nota-se que ela é comparada a flores, cujo perfume, por mais suave que seja como o é o das rosas, é raro. De igual maneira o jasmim, de aroma marcante e único. Outro aspecto que permite pensar na mulher idealizada é a presença de imagens oníricas.
Em ‘Sedução’, tem-se o verso “E me leva a sonhar”, para se referir ao efeito que a mulher tem sobre o eu. Outra sugestão nessa letra se encontra em: “Pensamento voa”, em que se pode vislumbrar se tratar o ato sexual somente uma divagação do eu.
Já em ‘Primavera’, tem-se: “Sonhar depois foi minha inspiração”, ainda que os versos estejam colocados depois da afirmação do eu de que acordou com a primavera, ou seja, com a mulher, acredita-se ser possível uma imagem onírica uma vez que a mulher é anjo e quimera, palavras que sustentariam tal interpretação.
Ainda é possível destacar a preferência pelo compositor pelo perfume para identificar esta mulher. Nesse sentido, entende-se que, tal qual a leveza das flores, essa mulher intocável só permite que seu olor fique no ambiente.
 

  1. O GOZO: PLENITUDE DO AMOR

 
As construções poéticas são capazes de expressar, de forma singular, momentos selvagens de intimidade. O olhar de Venttura para tais momentos é especial, haja vista que consegue converter, em poesia, instantes únicos de prazer, sejam eles simulacros ou reais.
Neste trecho de ‘Sedução’, pode-se observar tal característica do compositor:
 
O seu misterioso olhar vem me revelar,
Como é tão bela.
Seu universo em verso e prosa,
Orvalhada rosa,
A me tentar.
Tão fascinante o seu gozar.
VENTTURA, CARLOS, Primavera
 
A metáfora que chama a atenção constrói-se com a rosa, neste caso, a orvalhada rosa sugere o êxtase feminino, o que se sustenta com a colocação do último verso em que há fascínio no eu ao ver a mulher em instante mágico. Percebe-se que a construção poética, marcada por rimas que se acentuam com a presença da vogal ‘a’, ganha ares refinados e delicados para tratar de algo que, comumente, vem sendo mencionado de forma rebaixada por alguns estilos musicais.
A esse respeito, não se pode deixar de retomar aqui as ideias de Ítalo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio (1990), acerca da leveza nos textos literários. Para o italiano, a leveza está relacionada à capacidade do compositor/autor permitir ao leitor/interlocutor que vivencie a sensação que se busca construir com as palavras. Para tanto, valendo-se de elementos linguísticos, da precisão na linguagem, com vistas a estimular, sobretudo, a percepção, por meio de metáforas e outras figuras que permitem essa sugestão verbal.
Nas composições de Carlos Venttura, a leveza é elemento preponderante e, com êxito, o compositor constrói imagens e ritmos que, de fato, estimulam a percepção do interlocutor.
 

  1. PALAVRAS FINAIS

 
À guisa de concluir as considerações aqui tecidas a respeito das composições de Carlos Venttura, cabe retificar as características que foram suscitadas, a saber: a construção de metáforas imagéticas ligando a figura feminina a flores; a construção de sinestesias sugerindo o tato e o paladar também por meio das flores; a presença de algumas rimas que dão ao texto leveza e dinamismo, corroborando o conjunto delicado de letra e música.
Por fim, ressalta-se que neste estudo somente foi possível destacar duas dessas canções, mas o conjunto composicional de Carlos Venttura reforça a ideia de que se trata de um compositor marcado pela leveza na hora de tematizar a mulher. Suas composições, para além de músicas que são verdadeiras poesias, contornam-se por elementos de magia e encantamento do eu em relação ao ser feminino.  
 
REFERÊNCIAS
 
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Trad. Ivo Cardoso. São Paulo: Companhia das letras, 1990.
 
CIDADE, Hernâni. Lições de Cultura e Literatura Portuguesas. Lisboa: s. ed. 2 vol. 1933, 1959.
 
VENTTURA, Carlos.  Sedução. Disponível em: http://letras.mus.br/carlos-venttura/1673779/ Acesso 11 nov. 2015.
 
VENTTURA, Carlos. Primavera. Disponível em:  http://letras.mus.br/carlos-venttura/1599460/. Acesso 11 nov. 2015.
 
ANEXOS
 
SEDUÇÃO
Carlos Venttura
 
A sua boca poderosa rosa,
Me conduz, e me seduz.
Descortinando os brancos dentes num sorriso luz,
Lábio tom rosa carmim.
 
Pele,
Nuca,
Costas,
Bunda.
Pernas a serpentear,
Na selva dos lençóis da cama,
Ama, ama, ama…
E me leva a sonhar.
(E vive a Sonhar)
 
O seu misterioso olhar vem me revelar,
Como é tão bela.
Seu universo em verso e prosa,
Orvalhada rosa,
A me tentar.
Tão fascinante o seu gozar.
 
Bicos,
Peitos,
Fartos,
Jeitos,
Aquarelas de amor.
Seu cio,
Um rugir leoa,
Pensamento voa.
Mais uma noite de Amor…
 
PRIMAVERA
Carlos Venttura
 
Amanheceu luz do Sol,
No ar um cheiro de Jasmim.
Quanta beleza ao meu lado.
Pensei que era sonho,
Mais estava acordado.
 
Anjo, Mulher, Quimera,
Esfinge me devora.
Não decifrei quem era,
Pudera.
Dormi e acordei com a primavera.
 
Sonhar depois foi minha inspiração,
Pra delirar, talvez numa canção.
Poema imensurável,
Meu Dilema,
Com versos carregados de emoção.
 
E é só fechar os olhos pra sentir,
Seu doce perfume. Impregnado em mim.
 
Anjo, Mulher, Quimera,
Esfinge me devora.
Não decifrei quem era,
Pudera.
Só sei que acordei,
Com a Primavera





Bio fornecida pelo palestrante.

CIDINHA, DE PROFESSORA A PROSTITUTA: PERFORMANCES NO CONTO A LÍNGUA DO “P”, DE CLARICE LISPECTOR – Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres e Adelia Miglievich-Ribeiro




Adelia Miglievich-Ribeiro

Universidade Federal do Espírito Santo

 

Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres

Universidade Federal do Espírito Santo

 
 
RESUMO
 
Este artigo, ao examinar a literatura de Clarice Lispector, elege o debate sobre as relações de gênero e os sujeitos femininos a fim de identificar na narrativa e nos personagens clariceanos o mote crítico para pensar as identidades transitórias e as performances de gênero em detrimento de um discurso moderno que impôs identidades monolíticas e acabadas. Analisa a personagem Cidinha, protagonista do conto A Língua do “P”, do livro A via crucis do corpo (1991), no diálogo com o pós-estruturalismo e o pós-colonial, a fim de pensar “entre lugares” e hibridez, observa os fluxos de identidades, a sexualidade e a subalternidade, transgressão e deslocamentos, que permeiam a história da professora e viajante performática.
 
 
Palavras-chave: Clarice Lispector. Relações de gênero. Identidades transitórias. Performances.
 
 
RESÚMEN
 
En este artículo, al examinar la literatura de Clarice Lispector, elige el debate sobre las relaciones de género y los sujetos femeninos para identificar en la narrativa y en  los personajes clariceanos el lema crítico para pensar las identidades transitorias y performances de género en detrimento del discurso moderno que impuso identidades monolíticas y acabadas. Analisa el personaje llamada Cidinha, protagonista del cuento A Língua do “P”, presente en  el libro A via crucis do corpo (1991), por medio del diálogo con el postestructuralismo y el postcolonial, para pensar “entre lugares” y hibridez, observa los flujos de identidades, la sexualidad y la subordinación, la transgresión y desplazamientos, que impregnan la historia de la professora y viajante performática.
 
 
Palabras-clave: Clarice Lispector. Relaciones de género. Identidades transitorias. Performances.
 
 
ABSTRACT
 
This article chooses the debate on gender relations and female subjects in Clarice Lispector’s Literature and it has as main aim identify within narrative and Clarice’s characters the critic motto to think over temporary  identities and performance of gender in detriment of a modern discourse which imposes monolythics and finished identities. It analyzes Cidinha, main character of the tale The Language of “P”, from the book The via crucis of the body (1991), in dialogue with the post-structuralist movement and post-colonial critic, for the purpose of thinking “in-between  places” and hibridity, observe stream of identities, the sexuality and the subordination, transgression and displacements, which  permeate the story of the performer teacher and  traveler.
 
 
Key-words: Clarice Lispector. Gender relations. Temporary Identities. Performances.
 
 
CIDINHA, DE PROFESSORA A  PROSTITUTA: PERFORMANCES NO CONTO A LÍNGUA DO “P”, DE CLARICE LISPECTOR
 
 

Adelia Miglievich-Ribeiro

Universidade Federal do Espírito Santo

 

Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres

Universidade Federal do Espírito Santo

 
 
Um conto de Clarice Lispector, presente no livro A via crucis do corpo, possibilita-nos identificar o fluxo de identidades na personagem que o protagoniza, bem como o poder da performance na (des)construção da personagem. Trata-se do conto A língua do “P”. O livro que o guarda é composto por 13 narrativas, mais uma explicação, através da qual a autora justifica a produção da obra.
Esta foi, das obras de Clarice Lispector, a que sofreu mais críticas, à época, dado o teor erótico das narrativas. Abarca um período de sua escrita literária entendido por alguns como de adesão ao “mau gosto”, à literatura ao rés do chão, conforme nos mostra Cunha (2012). A própria Clarice Lispector (1991), na Explicação, pontapé inicial da obra revela a postura dos refratários à sua obra: “Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo” (LISPECTOR, 1991, p. 20). O trecho citado marca ainda a consciência que a escritora tem da complexidade de seu texto, mas também de sua importância no cenário literário brasileiro.
 
Do ‘lixo’ Clarice retira as fantasias eróticas que alimentam os sonhos incomunicáveis de seres criados à sombra das repressões; do ‘mundo cão’ ela colhe os fantasmas sexuais que assombram as consciências quando assaltadas repentina e inesperadamente pelos desejos mais recalcados, transformando a vida das pessoas em verdadeiras correntes cujas argolas podem, a qualquer momento, se romper, dada fragilidade da resistência, frente aos apelos sedutores de uma carne que reclama prazer e liberdade (LUCCHESI, 1991, p. 8).
 
É desde um contexto que inibe a sexualidade feminina, que delimita padrões de comportamentos que Clarice Lispector age de modo subversivo, trazendo à tona os desejos, as carências e as experiências femininas invisibilizadas por trás do véu do pudor e tabu social. Ao conto A língua do “P” nos dedicaremos a partir das próximas linhas.
O conto A língua do “P” conta a história de Maria Aparecida, apelidada de Cidinha. Uma professora que vivia em Minas Gerais, segundo o narrador. Tratava-se de uma moça remediada, não era rica, mas tampouco era pobre. O foco narrativo na terceira pessoa vem recheado de fluxos de consciência, o que permite que os pensamentos dos personagens cheguem ao leitor. A personagem empreende uma viagem para o Rio de Janeiro, ponto de partida para outra viagem maior, pois de lá iria para Nova Iorque, com o intuito de aperfeiçoar o inglês. A viagem de trem que a leva para o Rio muda o seu destino a partir do encontro e da tradução da língua do p. O vagão em que se instalou a professora estava vazio, só tinha uma velhinha, até que:
 
Na próxima estação subiram dois homens que se sentaram no banco em frente ao banco de Cidinha. O trem em marcha. Um homem era alto, magro, de bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca. Eles olharam para Cidinha. Esta desviou o olhar, olhou pela janela do trem (LISPECTOR, 1991, p. 87).
 
A atenção dos homens logo se voltou para Cidinha, jovem, bonita. A moça também notou que estava sendo olhada e, portanto, que era alvo do desejo daqueles homens. Esta situação modificou o ambiente do vagão e fez com que a jovem refletisse sobre sua condição:
 
Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade? (LISPECTOR, 1991, p. 88).
 
Apresentando-se numa condição de fragilidade, o sujeito subalterno feminino que é Cidinha pensou logo no próprio corpo e no signo de sua pureza diante da sociedade de cunho patriarcal, a sua virgindade. Observamos, nesse contexto, o reflexo do controle da sexualidade, neste caso, feminina; a fim de criar o corpo disciplinado de que nos fala Foucault (2008). A importância dada pela sociedade para a preservação da virgindade feminina, condição sine qua non para definir a mulher honrada, digna do respeito social, expressava um comportamento geral de controle do corpo feminino.
Com a entrada dos homens no trem, Maria Aparecida sentiu-se ameaçada em seu íntimo. Para completar, os homens falavam de modo estranho, mas que lhe soara familiar, embora não lembrasse ao certo. Até que “de repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do ‘p’” (LISPECTOR, 1991, p. 88). Este conto apresenta-nos traços de crueldade justamente por ter uma brincadeira infantil introduzida na obra, fazendo com que uma invenção inocente de crianças, do seu mundo secreto de aventuras, passasse a servir para a realização de atos perversos pelos adultos. Conhecer a língua que partia de seu opressor fez com que Cidinha pudesse pensar em alternativas para fugir de sua condição subalterna. Eles falavam assim: “– Vopocêpê reperaparopoupu napa mopoçapa boponipitapa? – Jápá vipi tupudopo. Épé linpindapa. Espestapa nopo papapopo. Queriam dizer: você reparou na moça bonita? Já vi tudo. Está no papo” (LISPECTOR, 1991, p. 88). Apesar de compreender o que os rapazes diziam, a personagem sabiamente finge nada entender e monitorando a conversa deles descobre as suas verdadeiras intenções:
 
–  Queperopo cupurrapar apa mopoçapa. Epe vopocepê?
–  Tampambempem. Vapaipi serper nopo tupunepel.
Queriam dizer que iam currá-la no túnel… o que fazer? Cidinha não sabia e tremia de medo. Ela mal se conhecia […].
Se resistisse podiam matá-la. Era assim então […].
Matá-la com um punhal. E podiam roubá-la (LISPECTOR, 1991, p. 89).
 
O que fazer diante de tal situação? Cidinha, temendo a real possibilidade do estupro, pensou também em falar que não era rica, apesar de parecer. No entanto, tinha consciência de que qualquer atitude sua poderia antecipar o seu próprio fim. A solução veio através da urgência:
 
Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.
Então levantou a saia, fez trejeitos sensuais – nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida ela era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra. Os homens de súbito espantados.
(…)
Está doida, queriam dizer (LISPECTOR, 1991, p. 89).
 
Maria Aparecida encontrou uma saída para seu problema através da performance, ou seja, por meio de sua transformação de moça recatada em prostituta, sedutora e dona de sua sexualidade. Pouco a pouco essa nova identificação foi sendo descortinada dentro dela. Havia a professora e a prostituta na mesma mulher.
Ao trazermos para a análise a questão da performance, lembramo-nos da pós-estruturalista feminista de Judith Butler (1998) quando postula a teoria da performatividade aplicada à conceituação do gênero. De acordo com a estudiosa, é o discurso que acaba por formatar o nosso corpo, assim como as identidades. Haveria uma reiteração constante entre gênero e corpo que acaba por desencadear atos performativos que, por sua vez, reiteram de um conjunto de normas.
 
Hacer, dramatizar, reproduzir, parecen ser algunas de las estructuras elementales de la corporeización. Este ir haciendo el género no es meramente, para los agentes corporeizados, uma manera de ser exteriores, a flor de piel, abiertos a la percepción de los demás. La corporeización manifiesta claramente un conjunto de estratégias, o lo que Sartre hubiera tal vez llamado um estilo de ser, o Foucault “uma estilística de la existencia”  (BUTLER, 1998, p. 300).
 
Através do ato performático é que a prostituta Cidinha vai ganhando corpo em detrimento da professora Maria Aparecida:
 
E ela a se requebrar que nem sambista de morro. Tirou da bolsa o batom e pintou-se exageradamente. E começou a cantarolar.
Então os homens começaram a rir dela. Achavam graça na doideira de Cidinha. Esta desesperada. E o túnel? (LISPECTOR, 1991, P. 89).
 
Percebendo a reação de estranhamento, depois de “gozação” da parte dos homens, a personagem vai intensificando sua dramatização ou, podemos também dizer, embasados em Stuart Hall (2014)[i], que trouxe à tona uma de suas múltiplas identidades, nenhuma essencial ou verdadeira em oposição à falsa, mas todas performáticas e apenas situacionalmente encobertas ou reveladas, elementos fluidos de identidades que se constituem mutuamente indefinidamente. Afinal, o autor supracitado explicita que o sujeito, compreendido anteriormente como portador de uma identidade única e estável, está se fragmentando, ou seja, tal sujeito passa a compor-se de identidades que podem ser inclusive contraditórias e não resolvidas. Hall (2014), chama a nossa atenção para o surgimento do sujeito pós-moderno, aquele que não possui identidade fixa, essencial ou permanente, ao contrário disso, ele (o sujeito) passa por um processo de formação e transformação de acordo com os sistemas culturais a sua volta. Nesse sentido, as sociedades que compõem o que o autor chamou de modernidade tardia acabam produzindo várias “posições do sujeito” ou “identificações”, através delas é que poderemos obter uma melhor explicação a respeito das identidades na pós-modernidade.
Cidinha toma para si o protagonismo de sua sexualidade e do seu corpo, que foge ao estereótipo da disciplina. Desse modo, ao tomar posse do falo, do desejo, a personagem inverte a colonialidade do poder (QUIJANO, 2013), desestabiliza os sujeitos à sua volta, haja vista que não esperavam tal atitude dela e, por isso, chamaram-na de louca.
Cabe, neste momento uma reflexão sobre o conceito de colonialidade exposto. O colonialismo, enquanto sistema de conquista, aculturação e dominação de povos e espaços, pode ter acabado, porém, a colonialidade continua presente no dia-a-dia do cidadão contemporâneo. Disto fala o sociólogo peruano Aníbal Quijano (2013, p. 1) ao propor sua reflexão sobre a colonialidade do poder, do saber e do ser. Para o autor, “a colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial de poder capitalista”, que incorpora ainda critérios de base racial/étnica, que teve como berço e se divulgou a partir das Américas. Ao aprofundar a ideia de diferenciação (hierarquização), relacionando-a ao universo do trabalho, à raça e ao gênero, o capitalismo consolidou um método eficaz de manutenção de seu poder mediante o papel central exercido pela colonialidade. Assim, podemos compreender como faz Maldonado-Torres (2013), que a “[…] ‘colonialidade do poder’ é um modelo de poder especificamente moderno que interliga a formação racial, o controle do trabalho, o Estado e a produção do conhecimento” (p. 29). Novamente, nas palavras de Quijano:
 
(…) o poder, nesta perspectiva, é uma malha de relações de exploração/dominação/conflito que se configuram entre as pessoas na disputa pelo controle do trabalho, da “natureza”, do sexo, da subjetividade e da autoridade. Portanto, o poder não se reduz às “relações de produção”, nem à “ordem e autoridade”, separadas ou juntas. E a classificação social refere-se aos lugares e aos papéis das gentes no controle do trabalho dos seus recursos (incluindo os da “natureza”) e seus produtos; do sexo e seus produtos; da subjetividade e dos seus produtos (antes de tudo o imaginário e o conhecimento); e da autoridade, dos recursos e dos seus produtos (QUIJANO, 2013, p. 46).
 
Assim como as relações de poder, o campo epistemológico ganha contornos de colonialidade, fazendo com que a produção do conhecimento seja favorável à manutenção do status quo, daí a hierarquização entre ciência e senso comum cujos efeitos se dão na criação e manutenção de relações sociais desiguais, já que aquele que tem seu saber subestimado também é ele próprio (pessoa, comunidade) rebaixado. Maldonado-Torres (2013, p.32) revela, então, que “a relação entre poder e conhecimento conduziu ao conceito de ser”.
 
Este ser-colonizado emerge quando poder e pensamento se tornam mecanismos de exclusão (…). É verdade que o ser-colonizado não resulta do trabalho de um determinado autor ou filósofo, mas é antes o produto da modernidade/colonialidade na sua íntima relação com a colonialidade do poder, com a colonialidade do saber e com a própria colonialidade do ser (MALDONADO-TORRES, 2013, p. 32).
 
No hibridismo que desloca as tradições, Maria Aparecida pede socorro à Virgem Maria que lhe dá o nome, fazendo menção à religião, símbolo do controle da sexualidade feminina, para conseguir uma saída para seu desespero. A saída vem pela desinibição no uso do corpo que a liberta da fantasia da castração, de maneira que, como propõe Magali Mendes (2014), inspirada em Derrida (2014), tem-se a produção de subjetividades ilimitadas que ultrapassam os papéis sexuais dicotômicos: “Desse modo, falar de uma différence é falar de algo que não nasce da dualidade, mas que irrompe com um determinismo ontológico, com armaduras que possam, desse modo, fixar papéis” (MENDES, 2014, p. 2-3).
Ao analisar a mulher na obra de Nietzsche, Derrida (2014) observa três condições: a primeira se refere à mulher condenada, humilhada, entendida como potência de mentira; já na segunda, a condição de condenada persiste, mas agora a mulher ganha ares de verdade. Enquanto na terceira condição, que supomos mais próxima da performática Cidinha, pode-se dizer que:
 
La mujer es reconocida, más allá de esta doble negación, afirmada como potencia afirmativa, disimuladora, artista, dionisíaca. No es que sea afirmada por el hombre, sino que se afirma ella misma, en ella misma y en el hombre.
En el sentido que decía antes, la castración no tiene lugar. El anti–feminismo es a su vez invertido. Condenaba a la mujer sólo en la medida en que se encontraba y respondía al hombre desde las dos posiciones reactivas (DERRIDA, 2014, p. 56).
 
Através da mímica, Cidinha consegue desviar a atenção dos homens que ali estavam, provocando-os no processo de “(…) se-dar-para desarticular as fronteiras, promovendo para cada termo a desapropriação de uma identidade definida” (CONTINENTINO, 2002, p. 84). É também o que nos diz Bhabha:
 
(…) a visibilidade da mímica é sempre produzida no lugar da interdição. É uma forma de discurso colonial que é proferido inter dicta: um discurso na encruzilhada entre o que é conhecido e permitido e o que, embora conhecido, deve ser mantido oculto, um discurso proferido nas entrelinhas e, como tal, tanto contra as regras quanto dentro delas (BHABHA, 2013, p. 152).
 
Assim, ela, sujeito subalterno[ii] (SPIVAK, 2010)  que era, ocupante de uma posição inferior em relação ao sexo masculino assume uma postura protagonista, o que provoca estranhamento nos homens, que também perdem sua identidade pré-definida, já que não esperam uma atitude dessas por parte da moça do vagão. A relação dominador-dominado é desestabilizada.  Mas, não só os que os potenciais estupradores que pretendiam currá-la são afetados por sua ação, de pronto as autoridades do trem apareceram e a mulher é recriminada:
 
Apareceu o bilheteiro. Viu tudo. Não disse nada. Mas foi ao maquinista e contou. Este disse:
–  Vamos dar um jeito, vou entregar ela pra polícia na primeira estação.
E a próxima estação veio.
O maquinista desceu, falou com um soldado por nome José Lindalvo. José Lindalvo não era de brincadeira. Subiu no vagão, viu Cidinha, agarrou-a com brutalidade pelo braço, segurou como pôde as três maletas, e ambos desceram (LISPECTOR, 1991, p. 90).
 
A polícia aparece como elemento repressor, é um dos agentes da cerca apresentada por Foucault (2008) e tem por objetivo manter a disciplina. No caso de Cidinha, sua atitude fez com que ela fugisse à regra, destoando do estereótipo do corpo dócil. A repressão demonstra o receio social em torno dessa mulher e lembramos mais uma vez de Bhabha (2013) que nos fala do medo que o colonizador também tem do sujeito colonizado.
A imagem da prostituta, apesar de presença comum em todas as cidades, é indesejada porque incômoda, a sexualidade não dissimulada, não reprimida gera constrangimentos e reprimendas: “Na pequena estação pintada de azul e rosa estava uma jovem com uma maleta. Olhou para Cidinha com desprezo. Subiu no trem e este partiu” (LISPECTOR, 1991, p. 90). Assim como a mulher de burca, no contexto argelino descrito por Bhabha (2013) –  ao tratar da obra de Fanon –  precisa ser vigiada, a mulher que se traveste de prostituta e ousa mostrar-se assim num espaço público também. Maria Aparecida, enquanto prostituta, conseguiu ameaçar aqueles dois homens e os funcionários do trem, imaginemos o que faria ela se descobrisse a força quem têm? Ela é o sujeito colonizado que ainda não descobriu totalmente a sua força perante o colonizador, não conseguiu perceber o medo que este tem de que aquele sujeito se rebele. Nesse contexto, o olho da vigilância recai sobre ela:
 
Cidinha não sabia como se explicar ao polícia. A língua do “p” não tinha explicação. Foi levada ao xadrez e lá fichada. Chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias. Deixavam-na fumar. Fumava como uma louca, tragando, pisando o cigarro no chão de cimento. Tinha uma barata gorda se arrastando no chão (LISPECTOR, 1991, p. 90).
 
A personagem livrou-se de um destino cruel que consistiria na violação de seu corpo, no entanto, teve de experimentar a reclusão e as ofensas. Na cadeia, passou por um processo de transformação, reassumia a identidade anterior: “(…) Tinha lavado a cara, não era mais prostituta” (LISPECTOR, 1991, p. 90). Quando pôde sair da cadeia, pegou um novo trem para o Rio de Janeiro. Neste momento, um pensamento a preocupava: “(…) quando os dois haviam falado em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa” (LISPECTOR, 1991, p. 90). Cidinha percebeu que não existia somente uma identidade dentro de Maria Aparecida, a virgem, professora, recatada, com ares de rica, podia conviver com a mulher ousada, dona de sua sexualidade, representada pela prostituta. No entanto, o peso moral ainda a deixa cabisbaixa.
Mal tinha se dado conta do grande perigo de que se livrara, justamente por fazer uso de uma imagem marginalizada. Ela se deu conta, por acaso, vagando por Copacabana, lamentando a sua “desgraça”.
 
Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal O Dia. Não saberia dizer por que comprou.
Em manchete negra estava escrito: “Moça currada e assassinada no trem”.
Tremeu toda. Acontecera, então. E com a moça que a desprezara (LISPECTOR, 1991, p. 91).
 
Cidinha sentiu-se mal, sequer quis saber os detalhes do acontecido. Fora salva por pouco: sua destreza, o conhecimento da língua do “p” e a performance. Mal sabia a jovem que a olhou com desprezo na estação, que a reprimiu, que o destino lhe seria “implacável” e que aquela viagem acabaria mal.
Entretanto, para Maria Aparecida o saldo foi positivo. Ela deu lugar às múltiplas identidades dentro dela, descobriu que poderia ser agente de sua história, de seu corpo e de sua sexualidade. Fez uso dos artifícios e da força que o colonizado tem diante de seu opressor, revelando que a passividade não é característica inerente e definitiva do sujeito subalterno. Ela agiu, de modo a ser vista, garantindo a sua sobrevivência e existência no mundo.
 
 
REFERÊNCIAS
 
 
BHABHA, Homi K. O local da cultura. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
 
BUTLER, Judith. Actos performativos y constitución de género: un ensayo sobre fenomenología y teoría feminista. Debate Feminista, 1998, pp. 296-314. Disponível em: www.debatefeminista.com. Acesso em: julho de 2014.
 
CONTINENTINO, Ana Maria Amado. Derrida e a diferença sexual para além do masculino e feminino. In: DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar (org.). Às margens: a propósito Derrida. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002.
 
CUNHA, Betina Ribeiro Rodrigues da (org.). Clarice: olhares oblíquos, retratos plurais. Uberlândia: EDUFU, 2012.
 
DERRIDA, Jacques. Espolones los estilos de Nietzsche. Disponível em: www.uruguaypiensa.org.uy Acesso: agosto/2014.
 
ESCOSTEGUY, Ana. Os Estudos Culturais. Disponível em: PUC/RS. Acesso: 07/06/2015.
 
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 35ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.
 
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.
 
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.
 
LUCCHESI, IVO. A paixão do corpo entre os fantasmas e as fantasias do desejo. In: LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.
 
MALDONADO-TORRES, Nelson. A topologia do ser e a geopolítica do conhecimento. Modernidade, Império e Colonialidade. In: SANTOS, Boaventura de Sousa, MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul (livro eletrônico). São Paulo: Cortez, 2013.
 
MENDES, Magali. Um texto no Feminino atravessado pela Diferença: uma leitura de Nietzsche através de Derrida. Disponível em:  ASAFTI. Acesso em: agosto/2014.
 
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa, MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul (livro eletrônico). São Paulo: Cortez, 2013.
 
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
[i] Stuart Hall é  um dos expoentes dos Estudos Culturais. Esta consiste numa área de estudos em que diferentes disciplinas interatuam e tem como objetivo o estudo dos aspectos culturais da sociedade. Seu surgimento, mais organizado, situa-se, segundo Ana Escosteguy (2015), no final da década de 1950, vinculada ao Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS). Para saber mais sobre o tema consultar clique aqui.
 
[ii] Um estudo importante para pensarmos a noção de sujeito subalterno é a produção de Gayatri Chakravorty Spivak. Em Pode o subalterno falar? (2010), a autora reflete sobre a representação do ser colonizado, identificado por ela como subalterno. Esse sujeito colonial é identificado como um ser sem voz ativa, pois geralmente são os intelectuais que falam por eles e são quem os constituem como o outro. Spivak (2010) chama especial atenção para a condição da mulher em meio a essas relações de subalternidade, que além de estar submetida ao sistema, vive sob a égide do sujeito masculino, subalterno ou não.





Bio fornecida pelo palestrante.

RELAÇÕES ENTRE ESPAÇO E ESCRITA NA LETRA DE LUIZA LOBO – Nonato Gurgel




 

Nonato Gurgel

 Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

 
 
é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço
 
(Ana C., “Cenas de Abril”)
 
 
Resumo: Estudo sobre a obra de Luiza Lobo, composta de contos e ensaios. Com base em Homi Bhabha, Stuart Hall e aspectos da literatura contemporânea brasileira, o texto estuda as diferentes facetas imagéticas da autora.
Palavras-chaves: Luiza Lobo – Antiviagens – Estranha aparição – contos – globalização.
Summary: A study on Luiza Lobo’s essays and short stories based on Homi Bhabha, Stuart Hall and some aspects of Brazilian contemporary literature, taking into account the several dimensions of the imagery employed by the author.
Key-words: Luiza Lobo – anti-travels – Strange Apparition – short stories – globalizat-ion.
Minicurrículo: Nonato Gurgel tem doutorado em Ciência da Literatura na UFRJ, onde participou do SPTC – Seminário Permanente de Teorias Contemporâneas – UFRJ/CNPq e trabalhou como consultor literário da Biblioteca Virtual de Literatura do PACC-UFRJ. Publicou o livro Gênero e representação na Literatura Brasileira, Belo Horizonte, UFMG, 2002; e textos nas revistas Acervos Literários (UFOP), Odisseia (UFRN), Terceira Margem (UFRJ) e Ipotesi (UFJF) e em jornais, como O Galo (RN) e Suplemento Literário (MG).
 
 

RELAÇÕES ENTRE ESPAÇO E ESCRITA

NA LETRA DE LUIZA LOBO

Nonato Gurgel
 
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
 
 
Na leitura deste texto, parto de uma “antiviagem” na qual o navio do poema de Ana C. simula a própria narrativa que se deseja recuperada, enquanto o espaço no qual esse navio deseja ancorar é aqui lido como metáfora do espaço de inscrição de quem narra.
Afogada e dissolvida a grande “metáfora da navegação” que engendrou a narrativa épica, partimos de uma pergunta: qual seria nesta leitura, nesta “antiviagem”, a dificuldade encontrada pelo navio – a narrativa – para ancorar no espaço de sua inscrição? Esta, a indagação norteadora deste texto. Sei, de antemão, não existir uma única resposta para nomear essa dificuldade. No entanto, uma possível senha pode ser colhida em “Antiviagens”[1] – ensaio de Luiza Lobo no qual a autora propõe “uma leitura textual a partir da noção de antipériplo, antiépica ou de uma antiviagem ou viagem ao revés”. Referindo-se à desconstrução do gênero épico e sua travessia do epos, canto “coletivo e melódico” de um povo, para uma “produção” individualizada, a autora situa essa transformação épica numa história que ostenta o seguinte roteiro:
 
…uma história cada vez menos totalizadora e universal, porque dedica menos espaço ao sobrenatural, ao mitológico, e mais importância aos acontecimentos factuais e à forma como são vividos, tornando-se mais fragmentária e existencial…
 
Assumindo colher na leitura da modernidade de Walter Benjamin sua senha, Luiza nos dá um possível ponto de partida para a “antiviagem” empreendida a partir daquela indagação inicial: qual a dificuldade da narrativa para ancorar – inscrever-se – no espaço da escrita? Uma outra possível resposta para esta dificuldade pode estar na leitura das relações entre o espaço e a escrita, sugeridas no conto “O chupador acadêmico”[2] – o sexto dentre os dez textos que compõem o volume de Estranha Aparição. Nesse conto Luiza Lobo estetiza uma pesquisadora acadêmica, cujas “narinas de fera sanguinária” farejam as empoeiradas páginas de uma antiga biblioteca universitária. Em seu “passeio lodoso pelas catacumbas do saber”, essa narradora contata um velho professor que está escrevendo uma enciclopédia, e vivifica.[3]
 
…um universo linguístico de quando a literatura era a rainha do mundo e único instrumento de lazer, uma era dourada anterior ao rádio, ao cinema, à televisão e ao vídeo, à história em quadrinhos e ao telefone.
 
 
Acrescente-se a esses suportes materiais o computador. Com base neste cenário maquínico e virtual e naquela história fragmentada – na qual a noção de totalidade perdeu o sentido – inscreve-se a escrita da geração de Luiza. Neste cenário circula um sujeito órfão dos “valores mítico-históricos e heróicos da Idade Média”[4], dos ideais humanísticos herdados do Renascimento e das ideias de representação e de produção do sentido cultivadas pela modernidade.
Se aos modernos coube a releitura dos valores transcendentes e a representação da cena do assassinato divino, à geração da autora restou uma simulação meio “portátil”: questionar a construção dos modernos valores metafísicos e transplantar o céu – antigo espaço de leitura do conhecimento – para a tela luzidia do computador. Um “céu” no qual, convenhamos, anjos, demônios e “chupadores” virtuais “navegam” por cenários em ruínas inscrevendo o mal-estar da civilização, da pós-modernidade.
É a partir deste espaço mutante – problematizado pela intensificação da ação da letra nele “ancorar”, ou seja, inscrever-se – que se projeta a escrita contemporânea. A leitura dessa escrita pode ser ouvida no registro de uma voz representativa da própria geração da autora: “Luiza Lobo lançou um muito belo livro de contos”[5]. Com essa frase, a poeta Ana Cristina Cesar encerrava uma carta de 1976 para Cecília Londres – sua ex-professora de Letras na PUC –, que se encontrava na Europa.
O livro ao qual a poeta de A teus pés faz referência intitula-se Por trás dos muros. Depois dele Luiza lançou, além de vários textos ensaísticos, Vôo livre (1982), Maçã mordida (1992), Sexameron (1997) e Estranha aparição (2000).[6] Na orelha deste quinto livro de ficção, o poeta Sebastião Uchoa Leite ressalta uma letra erótica que incursiona por zonas de estranhamento e indefinição, recorrendo freqüentemente ao humor. Mas, segundo o poeta de A ficção Vida , é de uma certa “mescla cultural” “que Luiza Lobo retira a súmula do seu poder inventivo”.
Esse “poder inventivo” da autora pode ser aferido já no conto “As ostras do sexo” que abre o volume de Estranha aparição. No referido texto estão presentes alguns dos procedimentos estéticos dos quais a autora lançará mão nos contos seguintes. Dentre esses procedimentos destaca-se a predileção por uma escrita que possui na visibilidade um dos principais sentidos de sua inscrição. Plugado numa dimensão sensorial que aciona inusitadas comparações, o referido texto é fortemente centrado no sentido da visão, no “efeito da cor sobre a carne”.
Mas em Estranha aparição – conto homônimo ao título do volume – a ação do olhar parece se fazer ainda mais visível. Constrói-se no referido texto uma espécie de didática do olhar atestada no uso de lexias[7], como: “dardejado um olhar”, “chegado ao olho mágico”, “olhos eram de louco”, “os olhos lhe perfurando o cérebro”, etc. Essa ação óptica presente no livro Estranha aparição define, em textos como “As ostras do sexo”, a utilização de um recorte vocabular voltado para artes imagéticas como a fotografia e o cinema (cena, off, Setting, flashback, luz branca vazada, the end, ending…). Além disso, destaca-se em vários contos do mencionado volume o repertório da referida “mescla cultural”, como atesta o vasto intertexto histórico e literário tecido pela autora.
A predileção de Luiza Lobo pela linguagem visual é também visível em sua produção ensaística, como lemos no texto “Globalização e ideologia”[8]. Neste ensaio, a autora reflete acerca das mutações ocorridas nos espaços da arte e da cultura, a partir das mudanças de percepções acionadas pela reprodutibilidade técnica, cuja inscrição se dá com base na recepção óptica de Walter Benjamin e na dialética da negatividade de Theodor Adorno. Segundo Luiza,
 
… a linguagem visual e cinematográfica apresenta a simultaneidade de sons, falas, movimentos, que se intercalam numa ordem aparentemente aleatória e numa velocidade impressionante.
 
Com base nessa linguagem, o conto “As ostras do sexo” apresenta – como numa montagem cinematográfica – imagens que se multiplicam na memória, sugerindo vários epílogos possíveis no decorrer da própria narrativa. Nesta inscreve-se uma letra que possui no intertexto com Stern, Drummond, Mário de Andrade, Marx e Mallarmé, dentre outros, sua base. A autora sabe que “a literatura pós-moderna se constitui de antipériplos, intertextualidades e antiviagens”[9].
Além desses autores com os quais Luiza aciona o procedimento da intertextualidade, dois poderosos mitos passeiam de mãos dadas neste espaço textual: Eros – promotor da vida e da desordem, e Mnemosyne – a deusa da reminiscência. Mas é aqui imperativo ressaltar a incompletude memorialística (“ostras boiando na memória apagada”), e a vivência de uma afetividade e uma sexualidade que geralmente descambam para o espaço dos questionamentos existenciais. Isso é notório na conclusão do citado conto, “As ostras do sexo”, onde a narradora cala e seu discurso interrogativo compartilha com o leitor a palavra final: “Não haveria um limite, um princípio, uma medida, uma causa, um enredo, afinal? Sorvia o café e não atinava com a resposta[10].
A indagação final da pesquisadora parece reportar à própria dificuldade de inscrição da letra num espaço no qual as noções de “medida” e “limite” foram destruídas pelas vanguardas. Podem, sobretudo, remeter aos princípios dos paradigmas artísticos e culturais desconstruídos pelo Estruturalismo e à releitura identitária acionada pelos estudos culturais; nestes, o espaço de inscrição da identidade passa a ser enquadrado a partir do “espaço da escrita” e não mais do “campo de visão” do sujeito. Ou seja: para Homi Bhabha importa “o lugar discursivo e disciplinar de onde as questões de identidade são estratégica e institucionalmente colocadas”[11]. Com base nessa revisão histórica, esses estudos se voltam para o passado relendo a cultura não como viagem de retorno, mas como produção sintonizada com um devir; o que possibilita indagar o que poderemos fazer com nossa tradição e não o que ela, a tradição, poderá fazer conosco (Stuart Hall). Neste olhar para a cultura e a tradição, vislumbra-se também a releitura dos valores que fundamentam o cânone literário – um dos itens mais abordados no nível temático de textos como ”O chupador acadêmico”.
Podemos imaginar ainda que a falta de respostas e as indagações conclusivas da narradora de “As ostras do sexo” traduzem um tempo no qual a utopia parece debilitada e o sujeito cata uma causa, uma ideologia a partir da qual possa elaborar algum trajeto político e/ou existencial. Da narrativa tecida a partir desta problemática – os limites formais das vanguardas, a desconstrução canônica, a perda do sentido, a releitura identitária e o vazio ideológico – não restou mais do que uma viagem via linguagem. Uma “antiviagem”. Ou, como diz o “Chupador Acadêmico”, existe apenas “um simulacro de mistura de enredos”.
 
Ancorando o navio no espaço
É justamente neste conto – “O chupador acadêmico” – onde talvez possa ser vislumbrada, com mais nitidez, uma resposta àquela indagação inicial – a dificuldade encontrada pela escrita contemporânea para “ancorar” no espaço de sua inscrição. No referido texto Luiza utiliza-se, dentre outros, dos mesmos procedimentos entrevistos em “As ostras do sexo”: o repertório da “mescla cultural”, a mixagem de imagens visuais, a inscrição de Eros e Mnemosyne como mitos a partir dos quais o discurso da narradora se constrói e o intertexto literário.
Além da intertextualidade, em “O chupador acadêmico” – como o próprio título sugere – predominam procedimentos artísticos de apropriação da escrita e de vampiragem estética, como a simulação, a colagem e o “mosaico de citações” (Walter Benjamin). A partir disso, tornam-se audíveis no texto de Luiza as vozes de, dentre outros, Castro Alves, Olavo Bilac, Jane Austen, Machado de Assis, Shakespeare e Borges.
Essas vozes são audíveis num espaço no qual à escrita impressa imprime-se forte polifonia, e à letra virtual resta a releitura do nosso vasto arquivo de formas. Com a mesma desenvoltura, a narradora transita pelo polifônico espaço físico da página e da biblioteca e pelo imagético espaço da virtualidade. É interessante confrontar as diferenças entre esses espaços pelos quais ela circula. Enquanto os espaços da página e da biblioteca se prestam a um “passeio lodoso pelas catacumbas do saber”, ao virtual cabe a seguinte descrição[12]:
 
A cultura lépida e ‘clean’ da informática puritana tinha colocado em desuso velhos ranços da tradição parnasiana acadêmica, com seus lápis, canetas e fitas de máquina que borravam as mãos e deixavam os dedos rançosos de manuscritos herdados de velhos eremitas.
 
Neste asséptico espaço da cultura lépida e clean, uma nova escrita se inscreve. Ela se produz sob as bênçãos do computador – um “novo deus Thot” (o antigo deus da escrita), possibilitando a produção de um pensamento “de forma vulcânica, não aristotélica, pós-cartesiana e não dicotômica”[13]. Assim ocorre no conto “O chupador acadêmico”: a interação entre a escrita e o espaço físico, a página literária e o espaço virtual se dão de forma eminentemente sincrônica.
Ao imergir no espaço da escrita persuasiva de Jane Austen[14], a narradora tem a “ideia” “tétrica e delirante, mas também prática e atraente” de permanecer trancada por uma noite no deserto subterrâneo da biblioteca. Desse espaço de imersão – nas entranhas da biblioteca e depois na página de Jane Austen – a pesquisadora salta para o espaço da virtualidade, ao “ouvir um cicio como de uma cobra ou de um drive sujo de algum computador com problemas de hardware[15]. É aqui que os três espaços da escrita – delineados pela movência de quem narra e sua sensorial demanda corporal – se articulam: o físico, o literário, o virtual.
Rastreemos, pois, o roteiro espacial da narradora, após adentrar os subterrâneos bibliotecários. Mergulhada no espaço do texto de Austen, ela colhe na página literária a senha para a sua permanência no espaço físico – o subterrâneo deserto da própria biblioteca; daí ela alcança o espaço da virtualidade onde contata o “Chupador acadêmico”, sua fome intelectual de recarga e sua predileção pelos clássicos. Após ouvir o “ruído estranho” que a colocaria em interação com o “Chupador…”[16], a personagem sentiu-se
 
…envolvida num manto de esquecimento, como se o seu corpo tivesse desaparecido, e apenas os olhos vermelhos e empoeirados penetrassem nas páginas das obras, numa imensa web, sem comandos de sua parte.
 
Sem comandos de sua parte… Enquanto no espaço físico da biblioteca e no espaço da página literária a narradora comandava, de certa forma, os atos de ler e refletir, no espaço virtual ela passa a ser dirigida pelo “Chupador”. Nestes dois primeiros espaços físicos – a biblioteca e a página do livro –, o diferencial operado pelos sentidos comanda as ações e as reflexões da pesquisadora; enquanto no espaço da virtualidade essas ações passam a ser delineadas e traçadas pelo “Chupador acadêmico” – presença virtual sem a qual a personagem assume não mais conseguir viver.
Apesar disso, é nos personagens literários das “páginas empoeiradas dos livros”, que a pesquisadora busca a sensual “presença” daquele que “constantemente” suga sua mente, suas forças. No espaço da página escrita ela tenta diariamente contatar o “Chupador acadêmico”. Ou seja: para “ancorar” no espaço de sua inscrição, o “navio” da narrativa contemporânea requer a sincronia entre vários e diferenciados tempos e espaços. Principalmente o espaço da página escrita – espaço a partir do qual Luiza inscreve a letra de sua Estranha aparição.
 
Referências bibliográficas
 
BHABHA, Homi. “Interrogando a identidade” in: BHABHA. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila et al. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
CÉSAR, Ana Cristina. Correspondência incompleta. Freitas Filho, Armando; Holanda, Heloísa Buarque de. (Orgs.). Rio de Janeiro: IMS/Aeroplano, 1999.
CÉSAR, Ana Cristina. A teus pés. 6ª ed. São Paulo: Brasiliense, s/d.
LOBO, Luiza. Estranha aparição. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
LOBO, Luiza. “Globalização e ideologia”. In: Globalização e literatura. Discursos Transculturais. Vol. 1. LOBO, Luiza. (Org.). Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
LOBO, Luiza. “Antiviagens”. In: Revista Terceira Margem. Viagens & Outros ensaios. Revista da Pós- Graduação em Letras da UFRJ. Ano IV/V, 1997-1998: nº 5-6.
LOBO, Luiza. “A der(rota) na metáfora da navegação, de Jorge de Lima a Ana Cristina Cesar”. In: Perspectivas Modernidades. Rio de Janeiro: UFRJ, 1988.
SANTOS, Roberto Correia dos; SZKLOS, Gilda Salém. “Leitura em fragmentos”. In: Perspectivas 2. Ensaios de Teoria e Crítica. Rio de Janeiro: UFRJ, 1985.
[1] Lobo, L. in Terceira Margem. 1997-8. p. 80.  Daqui por diante referido como TM.
[2] Lobo, L. “Estranha aparição”. In: LOBO. Estranha aparição, 2000. p. 83-101. Daqui por diante referido como EA.
[3] Lobo. EA, 2000. p. 94.
[4] Lobo. TM, 1997-8. p. 80.
[5] Cesar. “Correspondência incompleta”. 1999. p. 133.
[6] Em 2011, publicou o romance de nova história Terras proibidas: a saga do café no vale do Paraíba do Sul (Rio de Janeiro, Rocco, 2011, 494 p.). [Nota da redação de Literatura e Cultura, revista on-line].
[7] Aqui lida como espaço de possibilidades para a construção do sentido.
[8] Lobo. “Globalização e literatura”. 1999. p. 39.
[9] Lobo. TM, 1997-8. p. 84.
[10] Lobo. “Estranha Aparição”. EA, 2000. p. 32.
[11] Bhabha. “O local da cultura”. 1998. p. 81.
[12] Lobo. EA 2000. p. 91.
[13] Lobo. Op. Cit. 1999. p. 40.
[14] Da autora da Ilustração inglesa, Luiza traduziu o romance Persuasão (Rio de Janeiro, Francisco Alves).
[15] Lobo. Op. Cit. 2000. p. 95.
[16] Lobo. Op. Cit. 2000. p. 99.





Bio fornecida pelo palestrante.

A CONTRIBUIÇÃO DOS NEGROS NA ARTE DE REPRESENTAR E CANTAR NA CIDADE CARIOCA: JOAQUINA LAPINHA QUEBRA BARREIRAS NO UNIVERSO ARTÍSTICO LÍRICO




Resumo: Este artigo se propõe a descrever aspectos relacionados à arte de representar e cantar na cidade carioca, evidenciando a exclusão das mulheres das artes, bem como apresentar a inclusão de atores negros nas apresentações públicas, uma vez que a arte de representar não era almejada pelos bem-nascidos socialmente. Nesse período que compreende os séculos XVIII e XIX, esse grupo étnico pintava o rosto de branco e se travestia de mulheres, inclusive usando perucas loiras, para representar personagens brancas. A mulher negra neste período quebrou preconceitos da sociedade patriarcal, ao se inserir nas representações teatrais e musicais. E neste contexto, abordaremos sobre a cantora lírica negra Joaquina Maria da Conceição, conhecida no mundo artístico como Joaquina Lapinha. A referida artista foi reconhecida nos teatros lusitanos pelo seu imponente canto lírico e presença de palco, ganhando assim notoriedade no mundo das representações artística.
 
 


 
A contribuição dos negros na arte de representar e cantar na cidade carioca: Joaquina Lapinha quebra barreiras no universo artístico lírico
 

Cristina da Conceição Silva

José Geraldo da Rocha

 
Introdução
Navegar no universo das concepções e concretização do carnaval é uma verdadeira imersão em um grande laboratório literário. Isso de certo modo ressignifica o nome “escola” presente em todas as agremiações que fazem o carnaval carioca desde os desfiles na Intendente Magalhães até os desfiles na avenida Marquês de Sapucaí.
Este artigo surgiu a partir da divulgação do enredo da Escola de Samba Inocente de Belford Roxo de 2014, intitulado O triunfo da América: o canto lírico de Joaquina Lapinha.  Joaquina Lapinha foi uma cantora lírica negra que venceu preconceitos, ou seja, uma joia de raro talento para o século XVIII, e que pode ser considerada emancipadora da mulher no mundo das artes de representação teatral e do canto lírico. Logo, ao ouvirmos os refrãos do samba-enredo, composição de Altamiro / Tico do Gato / Vinicius Ferreira / Claudinho / Chiquinho do Bar / Manelão / Abilio Mestre Sala / Paulo / Juruna Zona, que descreve Joaquina Lapinha assim:
 
Desfrutando talento, venceu preconceito / Cobrou seu direito, superou desafio / Seguiu seu destino, mostrando ao mundo / O valor de uma mulher (aplaudida de pé)… / Lisboa aplaudiu o sonho brilhou / O príncipe ouviu a notícia ecoou / Oh! Negra mulher…
 
E foi no furor dos festejos de momo, que nos encantamos pela personagem e vislumbramos investigar literaturas que abordassem a respeito da cantora lírica, todavia, falar do negro para nós é uma questão identitária. Logo, as literaturas que descrevem acerca da cantora nos enveredaram para o papel do negro no universo teatral e musical, e assim, percorremos os caminhos dos homens e mulheres negras no universo artístico carioca. E nesse universo observamos que os negros de uma forma jocosa, foram inseridos pelo branco no contexto teatral e pelas entidades religiosas na música de cunho religioso. Todavia, esse papel era destinado aos gêneros masculinos, mas a mulher negra adentrou nesse mundo masculino e abriu as portas para as mulheres brancas nas apresentações e representações artísticas nos séculos posteriores. Na atualidade identificamos que tanto homens como mulheres negras, são submetidos a cotas para serem inseridos no mundo das representações e quanto arte musical especialmente a lírica, poucos são os afro-brasileiros que são representados nesta modalidade musical.
Assim sendo, este artigo visa percorrer o caminho de homens e mulheres negras nas artes musicais e de representações, e como destaque desse grupo étnico, abordaremos sobre o sucesso da mulher negra Joaquina Lapinha, nas artes de representar e cantar.
 

  1. Rio de Janeiro cidade musical

Leeuwen (2009) observa que a cidade do Rio de Janeiro nos meados período setecentista, conhecida no período como cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, tornou-se capital do vice-reino do Brasil, substituindo a cidade de Salvador na Bahia. E que a partir deste momento ocorre um processo de desenvolvimento e renovação da geografia, fato também intensificado por conta do declínio da exploração da mineração em Minas Gerais.
Para a autora é importante ressaltar que muitos estudos apontam a importância do Rio de Janeiro, após a chegada da família real no ano de 1808, logo, a produção historiográfica da cidade no período setecentista é bastante escassa. Neste contexto, Cardoso (2006) identifica que a vida social e cultural da cidade do Rio de Janeiro, passa a ter mais visibilidade com a presença da nobreza que se fixou na cidade neste período, ao contrário de Salvador que foi a primeira capital e de Minas Gerais que apresentava glamour em função da descoberta do ouro. A cidade carioca era uma geografia por onde passavam mercadorias, era local de grande comércio e espaço geográfico onde se carregava todo o tráfico da América e se descarregava todo o peso do governo de Minas Gerais e São Paulo. No primeiro quinquênio do século XVIII, a vila do Rio de Janeiro, passa a ter importância militar, mas, também pelo porto que passa escoar preciosos minerais para a Europa e passa a ser o centro de abastecimento das regiões minerais.
E por conta desse desenvolvimento, declara Cardoso (2006) que a produção artística da cidade, mesmo se comparada à de Minas Gerais, foi muito significativa no que se refere à musicalidade carioca, com a chegada da corte portuguesa. A música passa a fazer parte da cultura da cidade, no período oitocentista, e se elevou acima do que se apresentava anteriormente, o que ocorria nos desfiles de batalhões ou nos entreatos das dramaturgias nos teatros. Logo, a música começa a circular na boca do povo, em canções populares e animando as danças nos salões e nas ruas da cidade, a música era também era executada nas igrejas nas comemorações aos santos de devoção popular e nas residências das famílias cariocas. A banda dos barbeiros, orquestra composta por negros que eram músicos, se fazia presente nas quermesses católicas. Os choros cariocas, e outras modalidades musicais passam a ser contemplados em grandes templos artísticos e festas religiosas da cidade do Rio de Janeiro. A partir destas práticas festivas, observasse a presença da música em inúmeros eventos da cidade carioca, desde os mais nobres aos populares, ocorrendo desde eventos religiosos aos denominados profanos e na dramaturgia, segundo LEEUWEN (2009) e CARDOSO (2006).
Embora Recife e Salvador fossem geografias de grandes tradições culturais, o Rio de Janeiro ganhava espaço neste quesito, tendo em vista a chegada dos monges-músicos e de bons músicos de importantes centros urbanos de Minas Gerais.  Pacheco (2006) aborda que, ao longo do século XVIII, o Rio de Janeiro sofre muitas mudanças em função de sua expansão urbana. Logo alguns espaços do Centro da cidade apresentam novas configurações, com o surgimento de inúmeras edificações religiosas. Declara ainda o autor que as alterações urbanas da cidade carioca não paravam de ocorrer, e que no período setecentista foi construído o Passeio público, segundo plano de Mestre Valentim, e a casa da Ópera, fundada por Manuel Luís Ferreira. Assim, surgem as primeiras referências de espaços de representações dramáticas, e com isso se manifesta a presença da música de outros gêneros, embora a música religiosa fosse a de maior relevância para a sociedade carioca:
 
Lembramos que, como herança portuguesa, as relações entre a Igreja católica e o Estado no Brasil se deram pela instituição do padroado, assim, identificamos o monarca português como o verdadeiro chefe da Igreja. Dessa forma, em 1808, Dom João foi o responsável pela criação da Capela Real do Rio de Janeiro. (LEEUWEN, 2009, p. 42).
 
Cardoso (2008) menciona que a música na cidade do Rio de Janeiro apresentava manifestações em espaços populares e religiosos e que diferentes gêneros musicais e danças ofereciam aos estrangeiros que chegavam na cidade uma variedade de experiências sonoras. Entre tais experiências estavam os ritmos da modinha e do lundu, presentes tanto na cultura popular quanto na música palaciana no Brasil e em Portugal. Esta interculturalidade entre metrópole e colônia, que se difundia nas ruas e nos salões aristocráticos, revelou circularidade cultural estabelecida através das revelações musicais europeias e africanas. Fato que levou ao surgimento de novos gêneros reconhecidos como tipicamente brasileiros: o lundu e a modinha.
 
Após a chegada da corte portuguesa, identificamos a Real Câmara como a principal responsável pela produção da música de câmara, que incluía a execução de serenatas e cantatas entre outras, em locais como o Paço de São Cristóvão – também chamado Real Quinta da Boa Vista, residência habitual de Dom João VI, e a Real Fazenda de Santa Cruz. (LEEUWEN, 2009, p. 45).
 
Aponta Leeuwen (2009) que o teatro e a igreja eram pontos obrigatórios de encontros sociais, e que esses espaços difundiram a música e deram visibilidades a cantores e músicos, além de transforma prática musical pública, e não mais restritas aos ambientes privados.
A prática musical no Rio de Janeiro setecentista e nos primórdios oitocentistas surge com novas roupagens da cidade carioca, a exemplo: crescimento populacional, acolhidas de missões (especialmente a Missão Artística Francesa), visitas de estrangeiros à cidade e expansão econômica intensa. Logo, com todos estes aspectos surgem as demandas culturais e, assim, os palcos improvisados, em terrenos abandonados, praças e ruas da cidade, os quais surgem como espaço de representação artística. Tempos depois, esses espaços utilizados pela massa popular passaram a ter local próprio para expressão artística, com a efetivação do teatro público. No século XIX, surge o Teatro Padre Ventura, que acolheu óperas e teatros de marionetes. Todavia, existem autores que apresentam divergências sobre os títulos das óperas apresentadas no Rio de Janeiro nesse período. Tais desencontros também aparecem quanto à nomenclatura do teatro; entretanto, o que é comum nos relatos entre diversos estrangeiros que pela cidade passaram, é que o referido espaço separava homens e mulheres nas acomodações, evidenciando a diversidade entre os gêneros, identifica Leeuwen (2009).
 

  1. A presença feminina na arte musical

A educação feminina, aponta Leeuwen (2009), no final do período colonial no Brasil, era voltada para a liderança doméstica, ou seja, nas atividades da costura, bordados, pois geralmente as mulheres não aprendiam a ler e escrever e a contar. Logo, a educação recebida pelas mulheres era prioritariamente para economia doméstica e para criar os filhos. Pacheco (2006) identifica que os dogmas da igreja católica confinavam as mulheres, especialmente as casadas, para diferenciá-las das solteiras e mundanas, apresentando o discurso do pecado da luxúria e valorizando o papel do casamento. Em virtude deste pensamento moral, que assolava os costumes da sociedade na época, era questionável a presença feminina nas artes de interpretar, bem como na música em apresentações públicas no Brasil oitocentista. A presença feminina, especialmente as de tez negra ou descendentes de negros na música não era de agrado para a sociedade carioca do século XIX, mas elas se entregaram à arte de cantar, dançar e representar.
Pacheco (2006) aponta que a história da música apresenta uma postura conservadora, em que a participação das mulheres era ínfima, o que denota a conspiração do universo masculino, que ignorava a presença feminina no mundo musical no Brasil colônia, bem como em outras artes.
A participação das mulheres públicas na música, que participavam de confrarias, ocorria na função de copistas, ofício esse que necessitava de grande conhecimento teórico e prático no século XIX, e era pequena a expressão do grupo feminino que exercia essa função. Todavia, Pacheco (2006) identifica a relevante atuação da cantora Joaquina Lapinha nesse período, além de observar a participação de outras duas mulheres no ambiente musical do Brasil colonial e imperial. Nesse universo, Pacheco (2006) também destaca Dona Mariana, uma senhora de fino trato do Rio de Janeiro, que obtinha grande habilidade no piano e que compôs belas modinhas. Assim também, a Sra. Gardiner, filha de médico e esposa de professor de química da academia militar do Rio de Janeiro, era exímia pianista.
O papel da mulher atuando como profissional na música era restrito à separação de raça e classe social. Assim sendo, encontravam-se nos concertos privados as fidalgas, geralmente ao piano ou como cantoras. Na atuação nos teatros, encontravam-se as mulheres públicas, ou seja, as não pertencentes às famílias de fino trato da cidade e as afrodescendentes. Pacheco (2006).
No século XIX além da separação por gênero no teatro, alguns viajantes que pelo Brasil passaram identificam a grande presença de mulatos, que cobriam suas faces com maquiagem branca e vermelha, e as mulheres públicas, que representavam um vil objeto. Fato que, segundo Pacheco (2006), caracterizava a presente percepção sexualmente carregada do homem europeu sobre a mulher brasileira. Assim sendo, tais demonstrações sobre a figura feminina denotam que a mulher de carreira artística não tinha uma boa reputação, o que restringia à função desse ofício às mulheres de cor.
Contudo, relata Pacheco (2006), que as mulheres afrodescendentes tinham no ofício artístico uma forma de ascensão social, ao se apresentarem nos palcos e salões da corte. Elas, através do oficio da música, criaram uma ambiguidade no seio da sociedade. Sociedade essa que as ignorava e não as respeitavam; porém, com o oficio da música e da arte, passam a serem consideradas verdadeiras divas, e serem aceitas e notadas como artistas. Desse modo, elas não eram mais vistas como um vil objeto, mas sim reconhecidas pelos locais públicos por onde frequentavam como pessoas famosas.
Para essas mulheres, que viviam em uma sociedade patriarcal, elevar-se na sociedade como artista era sair da invisibilidade para a visibilidade, e nessa conjuntura a mulher “negra” atingia seu status social (SANTOS, 2002). Neste contexto o autor acredita que a mobilidade social do afrodescendente pela participação no meio artístico foi um acontecimento que aproximou negros e brancos, fato que não aconteceu com os afrodescendentes que não pertenciam ao universo da música e da dramaturgia.
 
De certa forma o que assistimos desde o período colonial é uma certa manipulação das ideias através de um vocabulário, que classifica grupos na sociedade através de castas com pigmentação diferente, dando a falsa ideia de quanto mais clara for a pigmentação, mais próximo estarão do dominador (SANTOS, 1998, apud LEEUWEN 2009, p. 65).
 
Neste sentido, Cardoso (2006) relata que a questão da pigmentação da pele é bastante complicada, pois, mesmo que os mulatos se aproximem dos brancos pela sua atuação artística, percebe-se que o “defeito da cor” não deixou de estar presente. Entretanto, o autor supõe que a presença da “mulatice” nos espetáculos devia-se ao aumento de mulatos na população brasileira da época colonial, conforme atestam documentos do início de século XVIII. A participação da figura dos mulatos nas apresentações teatrais, como também de músicos, era de certa forma uma elevação social deste grupo marginalizado pela sociedade carioca (SANTOS, 2004).
 

  1. A presença dos mulatos nos palcos

O fenômeno do mulatismo, segundo Santos (2004), e a ascendência do mulato na prática musical foi um advento que aconteceu nos meados dos anos setecentistas, período que ocorreu à inclusão dos negros nas igrejas católicas. Evento que devesse a reforma pombalina, que era fundamentada na eliminação de preconceito de raça e que visou incorporação de gente da terra nas estruturas dogmáticas e administrativa da religião católica.  Todavia, a inclusão do mulato na música não foi concedida, mas sim conquistada, pois esse grupo étnico sempre estivera sujeito a preconceitos e discriminação pela cor da pele.
Leeuwen e Hora (2012) observam que, frente a esse cenário, o pudor que implica na separação de gênero no período setecentista quanto à presença da mulher nas apresentações teatrais foi transgredido pela presença das mulatas nas representações teatrais e musicais, e isso foi um avanço da categoria feminina. Isso porque o Brasil vivia sob a administração portuguesa e que em Portugal durante o governo de Maria I era proibida a presença feminina nos palcos portugueses.
No Brasil, em cidades como Cuiabá e Salvador, persistiram os gostos e práticas teatrais da primeira metade do século XVIII, ou seja, com a apresentação exclusivamente de homens nas representações. Da mesma forma, evidenciam Leeuwen e Hora que no Rio de Janeiro havia interpretações com um elenco fundamentalmente masculino. Eles também possuíam uma boa casa da ópera, onde comumente se representava ópera duas vezes por semana, assim como nos feriados. Nessas ocasiões não se apresentavam mulheres no palco, e elas eram representadas por homens, de forma muito desajeitada em suas ações artísticas (Leeuwen e Hora, 2012).
Esses atores de pele escura, observa Santos (2011), muitas vezes se apresentavam de perucas loiras, e as peças eram mal traduzidas, mal ensaiadas e repetitivas; portanto, mal representadas, segundo os paramentos de uma cena frontal e centrado no bom falar do texto, o que denotava amadorismo. Isso também se dava em virtude de o branco, especialmente os bem-nascidos, entenderem que a função de ator não tinha futuro; daí a aceitação dos mulatos e mulatas na atuação como atores.
Declara Machado Neto (2008) que a presença das mulheres mestiças nas apresentações nas colônias está relacionada aos ideais iluministas, que eram contrários a personagens travestidos em apresentações. E o mesmo ocorre com a inserção dos mulatos nas práticas musicais das igrejas católicas, no que se refere à não discriminação de raças, exigida pelo Marquês de Pombal.
A participação feminina, segundo Leeuwen e Hora (2012), foi marcada pela presença das mulatas: as cômicas Violante Monica, Anna Joaquina, Joanna Maria e Antônia Fontes, entre outras no território nacional. Entre estas, também, a importante Joaquina Maria da Conceição, a Joaquina Lapinha, a única cantora brasileira de tez negra, de que se tem notícia na época, a ter atuação internacional em realizações de concertos no Porto e em Lisboa, entre 1795 e 1796.
 

  1. Joaquina Lapinha

Segundo Leeuwen e Hora (2012) a cantora e atriz dramática de origem brasileira atuou tanto no Brasil quanto em Portugal, no período que compreende o final do século XVIII e início do século XIX. De acordo com os escritos de Leuween e Hora, Joaquina Maria da Conceição, conhecida como Joaquina Lapinha, é a única intérprete feminina, negra e brasileira de que se tem conhecimento de atuação artística originária da então colônia portuguesa, o Brasil. No que se refere às origens de Joaquina Lapinha, não se tem grandes informações, porém, em virtude de o período do vice-reino de Salvador ter se deslocado para o Rio de Janeiro, e do declínio da mineração, que trouxe muitos músicos de Minas Gerais para a cidade carioca, acredita-se que Joaquina Lapinha fazia parte desse grupo de músicos mineiros, que para a cidade carioca vieram em virtude da falência do território mineiro. Quanto às evidências da participação da cantora nos elencos dos teatros cariocas setecentistas, as fontes utilizadas são secundárias. Outras referências sobre a atuação de Lapinha no Rio de Janeiro são encontradas somente a partir de 1808, devidamente documentadas, como é o caso dos manuscritos musicais de obras profanas de Nunes Garcia. Nesses escritos ele identifica a apresentação de Lapinha como intérprete e em um coro no ano de 1808, nos dramas Ulisseia e O triunfo da América, ambas compostas em 1809 (Leeuwen e Hora, 2012).
Lapinha participou nos palcos portugueses por seis meses, em um primeiro momento, em concertos vocais pelo país lusitano. Logo após ser autorizada a participação de mulheres nos palcos portugueses, todavia, ela retornou a Portugal em outras ocasiões para representar sua arte (Leeuwen, 2009).
Segundo Cardoso (2008), os comentários acerca das três mulheres autorizadas pela realeza a se apresentarem se voltam para Lapinha, quando atestam que entre as mulheres uma era natural do Brasil. E que, sendo ela filha de uma mulata, tinha pele escura, porém que esse inconveniente foi remediado com cosméticos, mas que, fora isso, era uma figura imponente, com boa voz e muito sentimento dramático.  Segundo o autor, Lapinha participou em obras musicais de autores europeus, a exemplo de La modista raggiratrice, Il fanatico in Berlina, La Molinara ou l’amor contrastato e Il Barbiere di Siviglia, de autorias de Paisiello, entre outras obras de autores diversos.
Leeuwen e Hora (2012) destacam a existência de documentos que possibilitam, ao menos, situar o período em que a cantora brasileira permaneceu em Portugal, confirmando sua participação no elenco português. Ou seja, pelos pedidos para que fossem emitidos licença ou passaporte, necessários para o trânsito entre Brasil e Portugal, podemos inferir que Lapinha esteve na metrópole entre os anos de 1791 e 1805. Esses documentos, presentes no Arquivo Ultramarino, em Lisboa, são:
 
Ofício do Secretario de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, ao Vice-Rei do Estado do Brasil, conde de Resende, D. José Luís de Castro, comunicando que fora concedida a licença solicitada por Maria da Lapa e sua filha Joaquina Maria da Conceição [Lapinha] para irem ao Reino. 1791, Maio, 16. [P-Lahu/AHU_ACL_CU_017, Cx. 141, D. 11029, rolo 159]; Oficio de Tomé Barbosa a José Manoel Plácido de Moraes, solicitando Passaporte para o Rio de Janeiro para Maria da Lapa e sua filha Joaquina Maria Lapinha, duas libertas Eva e Inacia [6 de agosto de 1805]21 [P-Lahu/AHU_ACL_CU_017, Cx. 229, D. 15673, rolo 23] (LEEUWEN, 2012, p. 8).
 
Observam Leeuwen e Hora (2012) que os documentos confirmam sua ida a Portugal e retorno ao Brasil, acompanhada de sua mãe e de duas escravas libertas. Tais deslocamentos entre os dois países nesse período levam os autores a admitir que Lapinha e sua mãe desfrutavam de uma condição econômica abastada.
Ainda sobre as apresentações de Lapinha em terras lusitanas, Leeuwen e Hora (2012) apontam que notícias da Gazeta de Lisboa sobre concerto realizado no Teatro de São Carlos fazem elogios a Joaquina Maria da Conceição Lapinha. Ali foi noticiado que em 6 de fevereiro de 1795 que a harmoniosa execução do seu canto excedeu a expectativa de todos, e que Lapinha recebeu muitos aplausos, e que sua voz firme e de sonoridade agradável foi reconhecida pelo público presente. O mesmo jornal, afirmam os autores, em 2 de fevereiro de 1796, informa que, devido ao grande público que compareceu ao teatro para assisti-la, a cantora se viu obrigada a voltar para contemplar aqueles que não tinham conseguido lugar no teatro para admirar tão bela apresentação.
De volta ao Rio de Janeiro, Lapinha deu novo impulso ao teatro. Além dela, havia as cantoras Francisca de Paula, Maria Jacinta, Genoveva Inês e Maria Cândida; entre os cantores, Manuel Rodrigues Silva, Ladislau, Luiz Inácio e Geraldo, músico excelente. E o célebre baixo João dos Reis. Com esta companhia foram à cena Semíramis, Romeu e Julieta, O barbeiro de Sevilha, Ouro não compra amor e Louco em Veneza, entre outras (Leeuwen e Hora, 2012).
O seu talento como atriz em terras cariocas – declaram Leeuwen e Hora (2012) –  se apresentou no Theatro de Manoel Luiz, frequentado pela melhor sociedade da época. Nele Lapinha apresentou danças como a desnalgada, e sapateando a fofa, o lundum, o sarambeque, o arrepia, o oitavado e outras. A cantora e atriz Joaquina Lapinha também participou de concertos privados, como consta na Gazeta do Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1809, na residência de Madama D’Aunay, cômica e cantora que se apresentava nos teatros de Paris e Londres.
Ainda no Rio de Janeiro, Lapinha se apresentou como primeira atriz, em 1811, no Teatro Régio, dirigido por Manoel Luiz Ferreira. Seu grande sucesso era em Erícia ou A Vestal, tragédia de Dubois Fontenelle, traduzida do francês pelo poeta português Manuel de Barbosa du Bocage, no ano de 1805 (ver Andrade, 1967).
Nos anos setecentistas e oitocentistas, a cantora e atriz se fez presente em obras musicais e representações teatrais, algumas devidamente comprovadas por libretos e outras apresentadas por circunstâncias com poucas comprovações, conforme declaram Leeuwen e Hora (2012).
 
Considerações finais
Considerando o papel do negro nas artes musicais e de representações teatrais, nos séculos XVII e XIX, remetemos nossas observações à situação atual, pois nos meados do século XX e na virada do século XXI mudou o cenário da atuação desse grupo étnico nas representações teatrais.
Assim sendo, entendemos que este papel de ator era destinado à figura do mulato, conforme apontam as fontes citadas nesse artigo, porque a arte, para as famílias abastardas, não oferecia futuro para os seus jovens. Na atualidade, percebemos que existe uma necessidade de se destinarem cotas para que os negros e mulatos tenham acesso, especialmente na arte de representar. No que se refere ao espaço musical, o negro tem no samba o maior espaço de representação musical, perfil menos observado na música clássica no território brasileiro.
Ao trazermos em evidência a história de Joaquina Lapinha, observamos que os pesquisadores aqui citados, para obterem dados sobre o papel de Lapinha na arte, contaram com libretos de teatros, recortes de jornais e documentos ultramarinos para descrever a importância da mesma na história da música e do teatro.
Essa brasileira, mulher afrodescendente, que atuou e mostrou seus atributos vocais em composições líricas de sucesso, só teve sua história acessível ao público de classe popular brasileira, devido à grande cultura de origem africana na cidade do Rio de Janeiro. Tenha-se em vista que foi através do samba de enredo da Escola de samba Inocentes de Belford Roxo que esta personagem brasileira afrodescendente foi homenageada na avenida Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2014.  Foi através desse evento popular que Joaquina Lapinha passou a ser conhecida no Brasil e em vários países que assistiram os desfiles carnavalescos, como cantora de repertório soprano e atriz que levou para o continente europeu no século XVIII a diversidade brasileira.
É neste contexto que enaltecemos a cultura do Carnaval das Escolas de samba, pois é através de seus enredos que surgem algumas curiosidades, que nos levam a nos debruçar na busca de informações sobre fatos e personagens do nosso território brasileiro. É por conta dessa curiosidade que nos provocou esse enredo sobre Joaquina Lapinha que surgiram outras evidências acerca da participação do negro na cultura teatral do Rio de Janeiro e a exclusão das mulheres do ambiente artístico, espaço que foi conquistado pelas mulheres afro-brasileiras.
 
REFERÊNCIAS
Andrade, Ayres de. Francisco Manuel da Silva e seu tempo: 1808-1865: uma fase do passado musical do Rio de Janeiro à luz de novos documentos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967. 2 v.
Cardoso, AndréA música na corte de D. João VI: 1808-1821. São Paulo: Martins Editora, 2008.
Leeuwen, Alexandra van. A cantora Joaquin Lapinha. Sua contribuição para o repertório de soprano coloratura no período colonial brasileiro. Campinas, SP: UNICAMP, 2009.
LEEUWEN, Alexandra van; HORA, Edmundo Pacheco. LAPA, Joaquina Maria da Conceição da [conhecida por Joaquina Lapinha]. In: Dicionário biográfico Caravelas, Núcleo de Estudos da Historia da música luso-brasileira. Belo Horizonte, fevereiro 2012. Em www.caravelas.com.pt. Acesso em 23/01/2015.
MACHADO NETO, Diósnio. Administrando a festa: Música e Iluminismo no Brasil colonial. São Paulo: USP, 2008.  Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/>.  Acesso em julho de 2014.
PACHECO, Alberto José Vieira. O canto antigo italiano: uma análise comparativa dos tratados de canto de Pier Tosi, Giambattista Mancini e Manuel P. R. Garcia. São Paulo: Annablume, 2006.
Santos, Antônio Carlos dos. O timbre feminino e negro da música antiga brasileira (séc. XIX). In: Encontro de Musicologia histórica, 5, 19-21 jul. 2002, Juiz de Fora, MG. Anais… Juiz de Fora, MG: Centro Cultural Pró-Música, 2004 .
SANTOS, Adriana Patrícia dos. Atores negros e atrizes negras: das companhias ao teatro de grupo Florianópolis. Florianópolis, SC: UESC, 2011.
 
Nota da revista Literatura e Cultura: Assim como não chamamos chineses de amarelos, ou indígenas de vermelhos, gostaríamos de utilizar o termo afrodescendente ou afro-brasileiro, mas respeitamos o texto como está, segundo determinação dos autores.





Bio fornecida pelo palestrante.

PRODUÇÃO DE MUNDO E EXPERIMENTAÇÃO POLÍTICA: UMA ANÁLISE DO CONTO BLOODCHILD, DE OCTAVIA BUTLER – Carlos Calenti




 

Carlos Calenti

 Doutorando em Comunicação e Cultura, UFRJ

 

Resumo: Esse artigo discorre sobre o conto Bloodchild, da autora norte-americana Octavia Butler, pensando em como a obra reflete e problematiza a experiência dos excluídos do mundo, ao mesmo tempo em que aposta no encontro com o outro e na celebração da diferença para a construção de novos mundos possíveis. O artigo também procura refletir sobre como a ficção científica, gênero escolhido pela escritora em questão, é um meio privilegiado para pensar sobre os problemas sociais e políticos da contemporaneidade e para experimentar novas formas de estar junto.
 
Palavras-chave: Octavia Butler – devir – política – ficção científica.
 
Abstract: This article discusses the short story Bloodchild, by the North-american writer Octavia Butler, taking into account the ways in which the story reflects the experience of the excluded in our world at the same time that it affirms the Other and the difference as possibilities for the construction of new possible worlds. This paper also considers science fiction as a privileged genre to think about new ways of being together and to think about the political and social problems of today’s world.
 
Key-words: Octavia Butler – the future – politics – science fiction.
 
Minicurrículo: Carlos Calenti é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo e é Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ. Atualmente cursa o doutorado nesta instituição e escreve uma tese sobre a obra do autor norte-americano William Burroughs, particularmente seu livro Almoço nu, na qual reflete sobre questões políticas das Sociedades de Controle, assim como formas de subjetivação encontradas na obra de Burroughs. Também pesquisa temas relacionados à literatura de ficção cientifica, principalmente suas vertentes feminista, queer e afro-futurista.
 
 
 
Produção de mundo e experimentação política: uma análise do conto Bloodchild,
de Octavia Butler
 
Carlos Calenti
 
Doutorando em Comunicação e Cultura, UFRJ
 
Esse artigo se propõe a analisar o conto Bloodchild, da autora norte-americana Octavia Butler, para explorar algumas questões importantes que perpassam a obra dessa escritora feminista e afro-futurista e que, acreditamos, refletem também problemáticas fundamentais para o entendimento do nosso mundo contemporâneo. Antes de entrarmos em contato direto com o conto de Octavia Butler, no entanto, gostaríamos de tecer algumas considerações rápidas sobre a forma como pretendemos trabalhar o gênero da ficção científica e por que o consideramos importante nessa reflexão.
 
Ficção-científica e experimentação
A ficção científica é um campo privilegiado de investigação das questões contemporâneas por explorar, intrinsecamente, as relações cada vez mais híbridas entre o homem e a técnica, o homem e a ciência. Nesse sentido, a ficção científica se revela uma moldura artística pronta para explorar a técnica, o futuro e as diversas possibilidades de estar e viver no mundo que o homem pode engendrar na sua relação com essas transformações. Assim, retomando a relação íntima do gênero com o futuro, consideramos a ficção científica como uma prática investigadora de devires. Não se trata de exercício de futurologia. Trata-se – como no próprio objeto de reflexão fundador do gênero, a ciência – de especulação. Em Bergson encontramos uma noção de tempo que não é mais linear, mas de um passado, uma memória, que está sempre no presente nos jogando para o futuro. A memória é “co-extensiva” (abrangente), simultânea a toda a nossa vida e à nossa percepção. Ela se mantém virtual até que uma experiência nos faça atualizar alguma(s) de suas imagens, que nos fornecerão, então, ferramentas para lidarmos com o que nos acontece. Ao intervalo entre a ação que nos afeta e a nossa reação, Bergson chama zona de indeterminação. Essa zona de indeterminação se abre ao futuro, à criação do novo, a partir, é importante ressaltar, do arcabouço que são as imagens da nossa memória. Maria Cristina Franco Ferraz nos diz: “(…) para Bergson a memória do homem – ser dotado de preciosa capacidade de hesitar – consistia no manancial inesgotável de novos futuros possíveis” (FERRAZ, 20/12/2013). E é exatamente nesse ponto que queríamos chegar – acreditamos na ficção científica como forma peculiar de articular as relações complexas entre passado, presente e futuro, ao especular, agenciar, transformar em arte esses futuros virtuais, não com intuito de prevê-los, mas de refletir sobre as potencialidades latentes do nosso próprio tempo e mundo histórico.
De forma parecida, recorremos a Deleuze para pensarmos, nietzscheanamente, na “nuvem não-histórica” que acompanha a história. A história seria uma compilação dos devires que se atualizaram e se tornaram estados de coisa. Nesse processo, o que ela perde dos acontecimentos, o que lhe escapa, são todos os devires que o acontecimento pôs em circulação, todas as experimentações possíveis de estar no mundo que não se atualizaram. Deleuze afirma:
 
Nietzsche fala do que se faz, do acontecimento mesmo ou o devir. O que a história capta do acontecimento é sua efetuação em estados de coisa, mas o acontecimento em seu devir escapa à história. A história não é experimentação, ela é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa à história. Sem a história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a experimentação não é histórica (DELEUZE, Gilles, 1992a, p. 210).
 
Apostamos, então, na ficção científica como um campo de narrativas que se filia mais ao devir que à história, que coloca em jogo as potencialidades do nosso tempo, e, ao articular suas linhas de forças e possibilidades de subjetivação, experimenta, especula, investiga. Assim, ficção científica não é metafórica ou alegórica. Essa é uma noção que perpassa parte da teoria voltada ao gênero. Acreditamos, sim, que a ficção científica articula questões que circulam no nosso mundo, que são contemporâneas à sua produção – mas não apenas através de metáforas ou alegorias, e sim através das relações complexas que essas obras estabelecem com o mundo ao seu redor, através dos afetos que colocam para circular em suas páginas. A ficção científica não emula o nosso mundo, ela produz outros mundos a partir dos devires que circulam no nosso. Ela não reproduz, ou representa, ela experimenta. Assim, consideramos a ficção cientifica como uma prática criadora de mundos possíveis. A teórica feminista Donna Haraway utiliza o termo worlding para falar exatamente da prática de fazer mundos nos textos de ficção cientifica (e extrapola o termo para pensar, por exemplo, a construção de mundos baseados nas relações inter-espécies, para além de qualquer humanismo). Ressaltamos o conceito de Haraway, pois o que a autora articula aqui é uma ideia de construção de mundo que está sempre se fazendo. Daí ela usar a palavra mundo, world no gerúndio, –ing, no sentido especulativo, em constante experimento.
Não é apenas a ficção científica que explora as virtualidades do nosso tempo e cria mundos nesse processo. De fato, Deleuze nos lembra, esses são atributos que as melhores obras de arte compartilham. Acreditamos, no entanto, que, ao lidar diretamente com a tecnociência, parte inextricável do desenvolvimento do capitalismo desde a modernidade, e ao se orientar constantemente para o futuro, para o porvir, a ficção cientifica tem uma forma peculiar de misturar política e criação artística que nos instiga a embarcar em suas reflexões e participar de seus processos de subjetivação.
 
Bloodchild
E então chegamos finalmente ao conto de Octavia Butler, Bloodchild, ganhador dos prêmios Hugo e Nebula, as mais importante laureações da ficção cientifica mundial, como melhor conto em 1985. Ela é uma autora feminista e afro-futurista; seus trabalhos geralmente tematizam questões de gênero, raça e classe, sendo ela  uma escritora negra num campo largamente dominado por homens brancos. Bloodchild é certamente um conto eminentemente politico, explorando algumas dessas questões com muita destreza. A narrativa se passa num futuro indeterminado, em um planeta distante, onde humanos, chamados aqui de terranos, vivem confinados na Reserva, dominados pelos alienígenas nativos, os Tlics. Donna Haraway, falando sobre a autora, deixa claro:
 
Todo o trabalho de Butler como uma escritora de ficção científica é fixado na questão da destruição e do difícil florescimento – não apenas sobrevivência – no exílio, diáspora, abdução e transporte – o dom e o fardo terreno dos descendentes de escravos, dos refugiados, imigrantes, viajantes e dos indígenas também (HARAWAY, Donna, 2013a, p. 140).
 
Certamente essas são temáticas que atravessam Bloodchild – o exílio, a desterritorialização e as complexas possibilidades de reconstrução. A obra da autora constantemente se volta para esses dilemas, seja em romances como Kindred, em que uma mulher negra contemporânea volta no tempo para a época da escravidão norte-americana, ou na trilogia Lilith’s Brood, em que uma mulher negra deve se reproduzir com alienígenas para repopular uma Terra destruída pela guerra nuclear. Mas as narrativas de Butler não são marcadas apenas pelo desespero, também se ancorando na relação com o outro, com a diferença, como formas de buscar soluções e construir mundos novos, contradizendo assim seus cenários desesperadores com os afetos que faz circular, com as complexas relações que cria.
Bloodchild é narrado em primeira pessoa pelo jovem Gan, um terrano. Ele e sua família têm uma relação muito próxima com T’Gatoi, uma política da raça alienígena Tlic. Foi o pai de Gan quem gestou T’Gatoi dentro de si. Nessa sociedade, híbrida entre terranos e Tlics, os corpos humanos, masculinos ou femininos, são perfeitos para a gestação dos ovos alienígenas. Na sua geração, Gan foi o escolhido entre as irmãs para gestar os ovos de T’Gatoi. A particularidade é que essa escolha se deu antes mesmo de ele nascer. Ela participou da sua criação e envolveu-se ainda mais com a família durante o crescimento do garoto, algo relativamente novo no universo do conto e, na verdade, o trunfo político de T’Gatoi. Antes de T’Gatoi e sua facção política dominarem, os Tlics utilizavam qualquer terrano como hospedeiro e, através dos ovos, que têm efeitos alucinógenos e afrodisíacos, juntavam casais aleatoriamente para que se reproduzissem, garantindo assim futuras gerações de incubadores dos seus filhotes. T’Gatoi mudou as regras do jogo ao supervisionar a união de famílias, protegendo a Reserva da avidez Tlic.
 
T’Gatoi era perseguida do lado de fora. Seu povo queria mais de nós disponíveis. Apenas ela e sua facção política estavam entre nós e as hordas que não entendiam o motivo da Reserva – porque nem todo terrano pode ser cortejado, pago, selecionado, estar de alguma forma disponível para eles. Ou eles entendiam e, em seu desespero, não se importavam. Ela nos entregou em parcelas para os desesperados e nos vendeu para os ricos e poderosos em troca de apoio político. Desse modo, éramos ao mesmo tempo necessidades, símbolos de status e um povo independente. Ela supervisionou a união de famílias, colocando um fim no que restava do sistema anterior de dividir as famílias terranas para satisfazer a impaciência dos Tlics (BUTLER, 2005, p. 5).
 
O que Octavia Butler articula aqui, através das manobras politicas de T’Gatoi, são princípios claros de gestão biopolítica. O biopoder, típico das sociedades modernas, é um poder que age sobre a espécie, “no corpo-espécie, no corpo transpassado pela mecânica do ser vivo e como suporte dos processos biológicos” (FOUCAULT, 1988, p. 152). E sobre esse corpo-espécie, o biopoder cuida de processos como nascimentos e mortalidades, da saúde da população (doenças e epidemias, por exemplo), da longevidade etc. O biopoder é a gestão da vida como um todo, técnicas de poder sobre o biológico, que vira central nas discussões políticas. Modificá-lo, transformá-lo, aperfeiçoá-lo são objetivos do biopoder, e, é claro, produzir conhecimento, saber sobre ele, para melhor manejá-lo. Ora, organizar os corpos terranos, distribuí-los no espaço (a Reserva), em busca de um processo de reprodução mais eficiente, em nome da sobrevivência da própria espécie Tlic, são ações biopolíticas por excelência. Michel Foucault diz que, nas sociedades capitalistas modernas, cabe ao biopoder “distribuir os vivos em um domínio de valor e utilidade” (FOUCAULT, 1988, p. 157), exatamente como T’Gatoi e os Tlics fazem.
Além disso, o mundo que Bluter constrói é um mundo de prisões, pelo menos para os terranos. Temos, primeiramente, a maior prisão de todas, a Reserva. A Reserva é um lugar de proteção, que separa os humanos de Tlics mais ávidos por suas capacidades reprodutivas, mas também de confinamento. Qui, o irmão mais velho de Gan, além do próprio Gan, reconhece: na situação em que se encontram não há meios ou lugares de fuga. Ele diz: “Sim. Estúpido. Fugindo dentro da Reserva. Dentro de uma jaula”. E não é só aí que a ideia de aprisionamento se manifesta: a família de Gan é proprietária de um criadouro de animais locais, cujas peles vendem, e o fundo de sua casa está cheio de jaulas (“Eu fui em direção às jaulas, do lado de fora, e atirei no maior achti que pude encontrar”). A própria relação dos membros da família com T’Gatoi está marcada pelo signo da jaula. Os Tlics são alienígenas com corpos segmentados, longos, e em cada segmento há dois pares de membros. T’Gatoi gosta de sentir o calor dos terranos contra o seu corpo e para isso os faz deitar ao seu lado e os aprisiona com as patas: “Eu sempre achei confortável deitar-me dessa forma, mas, exceto por minha irmã mais velha, ninguém da família gostava. Eles diziam que os fazia se sentir enjaulados”, diz Gan em determinado momento.
Tudo isso, as práticas biopolíticas, os signos de aprisionamento, nos fazem supor uma sociedade distópica, onde os terranos são apenas dominados, onde não há escapatória. É importante ressaltar, no entanto, que as relações tlicenses-terranas são de mútua dependência – não que não haja poderes, hierarquias, dominações em jogo, mas há também colaboração, produção de novos sentidos e novas formas de dividir e construir o espaço. T’Gatoi diz, por exemplo:
 
“Os animais que nós usávamos começaram a matar quase todos os nossos ovos depois da implantação, muito tempo antes dos seus ancestrais chegarem”, ela disse calmamente. “Você sabe dessas coisas, Gan. Porque o seu povo chegou nós estamos reaprendendo o que significa ser um povo saudável, próspero. E os seus ancestrais, fugindo do seu planeta natal, da sua própria espécie, que os teria matado ou escravizado – eles sobreviveram por nossa causa. Nós os vimos como pessoas e os demos à Reserva quando eles ainda tentavam nos matar como vermes” (BUTLER, 2005, p. 25).
 
Além disso, há o fato de a relação de Gan e T’Gatoi ser uma experiência, em que a política o escolhe ainda na barriga da mãe e participa do seu desenvolvimento, de uma nova forma de conexão Tlic-terrana que ela tenta disseminar, um embaralhamento de fronteiras que tem como norte o bem-estar, ou pelo menos um avanço no bem-estar, das duas espécies. Só esses fatores já complicariam uma tese unicamente baseada no poder como dominador, punitivo, quando, Foucault nos ensina e Butler também parece afirmar, o poder é negativo ao mesmo tempo que é positivo; ele produz relações que não passam apenas e necessariamente pela repressão.
Mas é, de fato, na relação complexa entre Gan e T’Gatoi que vamos encontrar ainda mais razões para uma leitura não distópica do conto. Gan sabe há muito o que o futuro lhe reserva. O conto começa com uma cena familiar, mais ou menos tranquila. A mãe, o irmão e as irmãs do garoto estão sob o efeito dos ovos narcóticos, Gan está deitado com T’Gatoi, e tudo parece correr bem. Até que um N’Tlic (um terrano “grávido” de um Tlic) aparece na vizinhança da casa, passando mal, em pleno trabalho de parto. É essa contingência que atropela a aparente calma do cenário e coloca a relação de Gan e T’Gatoi em dúvida. Gan tem que ajudar T’Gatoi na operação e acaba presenciando toda a dor, o sangue e as vísceras do ato sobre o qual, descobre, ele não sabe tanto quanto imaginava. Ele vê as larvas que nascem, que comem as cascas de seus ovos e estão prontas para comer a carne do hospedeiro caso não sejam retiradas a tempo (“Toda vez que fechava os olhos eu via larvas vermelhas rastejando em carne humana mais vermelha ainda”). Gan fica abalado e dividido. Por um lado ele está completamente assustado, pela primeira vez entendendo o escopo do poder que se investe sobre o seu corpo; por outro… ele ama T’Gatoi.
Butler constrói essas afecções a partir do próprio corpo de Gan. Aqui temos um ponto importante: Octavia, como a mulher negra que é, entende que é sobre os corpos que o biopoder se investe e também que os corpos possuem capacidades de resistência e subjetivação que dobram esse poder. Por toda a narrativa de Bloodchild Gan percebe as coisas com o seu corpo antes de entendê-las intelectualmente (não muito diferentemente da própria definição de afeto dada por Deleuze). Antes de voltar ao cômodo onde o parto acontecia, Gan narra: “Por vários segundos fiquei parado em frente à porta fechada, perguntando-me o porquê daquele súbito medo”. Depois que a operação é concluída, ele vai vomitar do lado de fora: “Quando acabou me levantei tremendo, lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não sabia por que eu estava chorando. Mas eu não conseguia parar”. E, nesse sentido, a palavra amor não é jamais mencionada, mas percebemos, ao longo do conto, o quanto a relação entre Gan e T’Gatoi é baseada numa simbiose profunda. De novo, é no corpo e na forma como Gan percebe o corpo de T’Gatoi que essa ligação é melhor demonstrada. O garoto a observa, fascinado:
 
Ela tinha ossos – costelas, uma longa espinha, um crânio, quatro conjuntos de ossos dos membros a cada segmento. Mas quando ela se movia daquele jeito, torcendo-se e lançando-se em quedas controladas, correndo junto ao chão, ela parecia não apenas invertebrada, mas aquática – algo nadando no ar como se ele fosse água. Eu amava observá-la se mover. (BUTLER, 2005, p. 9).
 
E chega um momento em que Gan tem que escolher. A irmã mais velha de Gan, Xuan Hoa, sempre quis ser a escolhida para carregar os filhotes de T’Gatoi; a política, quando percebe o efeito que os eventos da noite tiveram sobre Gan, exige que ele escolha se quer manter o combinado ou se ela deve procurar Hoa. E Gan escolhe a simbiose com T’Gatoi. A princípio, ele se convence de que o faz para proteger a irmã, mas logo reconhece diante de T’Gatoi que esse não foi seu único motivo:  “‘Mas você veio a mim. Para salvar Hoa’. / ‘Sim’. Eu encostei minha testa nela. Ela era veludo frio, enganosamente macia. ‘E para manter você para mim’. Eu disse. Era isso. Eu não entendia, mas era isso” (BUTLER, 2005, p. 30). T’Gatoi implanta os ovos em Gan nessa mesma noite e Octavia descreve o ato sexual em detalhe, o acoplamento dos corpos terrano e Tlic, humano e alienígena: “Eu senti a picada familiar, narcótica, levemente prazerosa. Então a sondagem cega do seu ovipositor. A punção era indolor, fácil. Era tão fácil. Ela ondulou lentamente contra mim, seus músculos forçando o ovo do seu corpo até o meu” (idem).
O que o conto opera, a nosso ver, é a construção de um mundo que aposta na diferença, no encontro com o outro, mas não elimina os problemas, as linhas de força que perpassam esses encontros. Elas não se resolvem facilmente e o conto, inteligentemente, deixa suas questões em aberto. Acreditamos que a relação simbiótica entre Gan e T’Gatoi, os afetos que circulam entre os seus corpos, constroem um outro mundo. São, de fato, worlding. Inclusive, como já ressaltamos, por ser uma relação-experimento, está pronta para ser difundida para outros Tlics e terranos. Donna Haraway, em seu famoso Manifesto Ciborgue, diz que o manifesto “é um argumento em favor do prazer da confusão de fronteiras, bem como em favor da responsabilidade em sua construção” (HARAWAY, 2013b, p. 37). E aqui a verve feminista de Butler se mostra também em seu prazer e responsabilidade: o conto subverte posições naturalizadas em nossa sociedade ocidental moderna (é o garoto que engravida; na espécie Tlic são as mulheres que se envolvem em política. são os alienígenas com aparência animal que utilizam os humanos, por causa das suas funcionalidades), deslocando assim o foco do Homem (branco, heterossexual, ocidental etc.) e apostando na diferença, no encontro com o Outro como produtor de novas realidades, novas formas de estar no mundo. Mas ela não se limita a celebrar o encontro, também o problematiza.
Nesse sentido, não enxergamos Bloodchild nem como utópico, nem como distópico. Recorremos aqui ao filósofo italiano Antonio Negri, cuja noção de desutopia constitutiva nos parece particularmente interessante para pensar a ficção científica que mais nos interessa. A desutopia manteria a luta em aberto, não a fecharia numa teleologia, num fim determinado: “uma desutopia, ou seja, o sentido de uma atividade constitutiva, intensa como a utopia, mas sem ilusões, plena de materialidade” (NEGRI, 2002, p. 27). A desutopia entende que os desejos da multidão (a figura política por excelência do pensamento negriano) e sua luta com o poder constituído nunca terminam, mas sempre se rearticulam, enfrentam limites, os ultrapassam, para então encontrar outros limites mais à frente. Para nós o conto de Butler se coloca exatamente nesse lugar, nem a utopia de uma sociedade perfeita nem a distopia de um fracasso total, mas uma constatação das possibilidades de transformação que o encontro com o outro proporciona e os limites a ainda serem ultrapassados no processo.
O conto de Butler nos apresenta, a princípio, uma cena familiar, de aparente tranquilidade, para então desmontar toda a familiaridade através do incidente com o N’Tlic que eles têm que socorrer. Gan tem que desconfiar de toda a visão de mundo que lhe era dada, tem que enxergar tudo como alienígena para que sua escolha fosse realmente sua e não algo que lhe foi imposto. E que ele decida por T’Gatoi, pelo salto no escuro, pela abertura ao desconhecido, é o que nos faz acreditar em Bloodchild como um conto repleto de positividade. E de amor. Gan entende também a sua responsabilidade, agora que ele sabe. Por isso ele exige de T’Gatoi um tratamento horizontal (“‘Se nós não somos seus animais, se essas são questões adultas, aceite o risco. Há riscos, Gatoi, em lidar com um parceiro’”) e ainda insemina em T’Gatoi, ao mesmo tempo em que ela implanta seus ovos nele, a ideia de que todos os humanos merecem saber, entender os riscos que correm e assim poder decidir com clareza. Gan também se torna político nesse momento mais pessoal. Fronteiras são transpostas, enquanto outras continuam latentes e novas se apresentam. E é uma aposta no encontro com a diferença, na abertura, no devir, que Octavia Butler nos exige em sua desutopia.
Nada está resolvido, é preciso continuar lutando.
 
Referências bibliográficas
 
BUTLER, Octavia. Bloodchild. In: Bloodchild and other stories. Nova Iorque: Seven Stories Press, 2005.
DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992a.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1988.
FERRAZ, Maria Cristina Franco. Tecnologia, memória e esquecimento: da modernidade à pós-modernidade. In:
http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/famecos/article/viewFile/439/366. Acesso em 20/12/2013.
HARAWAY, Donna. Sowing Worlds: a seedbag for terraforming with earth others. In: GROBOWICZ, Margret, MERRICK, Helen (Orgs.). Beyond the cyborg: adventures with Donna Haraway. Nova Iorque: Columbia University Press, 2013a.
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NEGRI, Antônio. O poder constituinte: ensaio sobre as alternativas da humanidade.
Rio de Janeiro: DP&A, 2002.





Bio fornecida pelo palestrante.

BÁRBARA DE ALENCAR, DE INIMIGA DO REI A HEROÍNA NACIONAL: PERCURSOS DA IMAGINAÇÃO HISTÓRICA E MODELOS DE REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA – Cláudia Luna




Cláudia Luna

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
RESUMO: Durante a tarefa de resgate da participação feminina nas lutas pela independência do Brasil, nos deparamos com a figura ímpar de Bárbara de Alencar. Matriarca do Crato e ativa na Revolução de 1817, será considerada inimiga do Rei pela historiografia oficial. No entanto, sob o viés do imaginário popular e regional, será progressivamente enaltecida e valorizada como heroína. Neste trabalho, apresentaremos uma visão geral das obras literárias em que foi representada, destacando alguns processos de construção do mito, a partir da figura da mártir cristã e da transculturação com figuras-chave do imaginário de matriz africana. Ao mesmo tempo, destacaremos alguns elementos do diálogo entre discurso historiográfico e relato ficcional, em especial o romance de extração histórica.
 
PALAVRAS-CHAVE: Bárbara de Alencar – independência –- poder – imaginário – literatura e história
 
ABSTRACT: Searching for women participation in the fights for the independence of Brazil, we find the unique figure of Bárbara de Alencar, a  matriarch from the city of Crato, in Ceará, who participated in the Revolution of 1817 and was considered the King’s enemy by the official historiography. However, with time she became appreciated as a heroine by the popular and regional imaginary. This paper will present an overview of her representation in Brazilian literature and will analyze some processes of the construction of her as a myth, through her association with the Christian martyrs and by the transculturation process with the African imaginary. It will also present some elements of the dialogue between the historiographic discourse and some literary works, especially novels with historic impregnation.
 
KEYWORDS: Bárbara de Alencar – independence – power – imaginary – literature and history
 
MINICURRÍCULO: Cláudia Luna é Professora Associada do Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Coordena o Diretório de Pesquisa MAR (Modernidade/alteridade/representação), certificado pelo CNPq. Tem artigos publicados em periódicos como Gragoatá, Ipotesi, Excavatio, Anuario de Estudios Hispánicos, Versus, entre outros. Publicou (em coautoria com Suely Reis Pinheiro) o livro Do riso e da luta: ensaios sobre Manuel Scorza; tem capítulos em livros do Brasil e do exterior. Participa como pesquisadora da REDE DE ESTUDOS ANDINOS e do CEMHAL (Lima); é membro do GT Mulher e Literatura, da Anpoll.
 
BÁRBARA DE ALENCAR, DE INIMIGA DO REI A HEROÍNA NACIONAL: PERCURSOS DA IMAGINAÇÃO HISTÓRICA E MODELOS DE REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA
Cláudia Luna
 
  Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
O SOLDADO: Sob as ordens do Rei, Senhora, o Capitão-Mor impõe-vos prisão por alta traição.
DONA BÁRBARA: Do que seja traição não tendes noção.  Se traí, sim, ao Rei, não traí à Nação.                                                        
O SOLDADO: Pouco importa, Senhora, vossa austeridade: Sofrereis punição por lesa-majestade! 
Álvares Aquino
Um dos mais férteis campos de estudo, atualmente, tem sido o do resgate da participação feminina em momentos chave da história, revisando os padrões da historiografia oficial, que as relegava a figurantes. Entre 1809 e 1825 se tornaram independentes as principais nações do continente latino-americano. De nossa independência, emergem algumas “heroínas”, como Joana Angélica ou Maria Quitéria, figuras de exceção num universo masculino.
No entanto, outras mulheres tiveram participação ativa nas lutas de emancipação do Brasil, embora sua atuação tenha ocorrido em outras trincheiras. Neste trabalho vamos examinar a figura de Bárbara de Alencar, as formas como passou à posterioridade, na historiografia, e como tem sido representada em termos literários. Matriarca do Crato (Cariri) participou na Revolução de 1817, no Nordeste brasileiro, um movimento que antecipava os anseios de libertação da metrópole, preconizando o modelo republicano em pleno período colonial. Como analisa o historiador Denis Bernardes:
 
Ao quebrar um dos pilares secularmente construídos da identidade portuguesa, o da tradicional fidelidade dos vassalos de sua Majestade Fidelíssima, 1817 foi a mais ousada e radical tentativa de enfrentamento até então vivido pela Monarquia portuguesa em toda a sua história (2006, p. 205).
 
Funda-se uma nova soberania em solo real, e “uma parte importante da monarquia funda uma outra soberania e lança-se no crime de separar-se do corpo do Rei, de não ser mais simbólica e praticamente, parte dele” (ibidem, p. 205). Por esta razão, embora a República tenha durado poucos dias, sua repressão durou cerca de quatro anos e a “consequente restauração da ordem monárquica” somente se fecha em 1821, com a revolução do Porto.
Em 1817, Bárbara, já viúva, administrava os negócios da família e tinha grande influência na vida política e cultural da região do Cariri. Portanto, seu apoio ao movimento terá grande repercussão. Trazido por seu filho, José Martiniano, o movimento rebelionário proclamará a República, no Crato, em três de maio, com adesão de parte do clero e da elite local. No entanto, em poucos dias a repressão avança sobre a região, liderada pelo Capitão-mor José Pereira Filgueiras, inimigo político da família Alencar. Primeiramente são presos os filhos de Bárbara; dias depois, ela é aprisionada e levada para o calabouço do Forte, em Fortaleza. Daí, penará em prisões de Recife e Salvador. Libertada em fins de 1820, somente em inícios de 1821 os tribunais declaram nula a devassa contra os insurgentes.
Em nossas pesquisas sobre a personagem, não encontramos documentos de sua lavra. No entanto, vários estudiosos fazem referência a seu letramento e cultura, como Irineu Pinheiro, um dos principais historiadores cearenses, que comenta sobre correspondência trocada entre Bárbara e o filho; ao mesmo tempo, é sabido que ela tinha contato estreito com o padre maçom Manuel de Arruda Câmara e com os ilustrados pernambucanos, em Olinda. Talvez a queima dos documentos no Crato, logo após as prisões, para impedir a devassa (o que, afinal, permitiria o perdão real, anos depois), tenha destruído material importante de sua autoria. De toda forma, como observa Ariadne Araújo, “De rica, com prestígio moral e político, Bárbara de Alencar retorna envelhecida, sem os bens que herdara e comprara e com a alcunha de traidora da pátria” (2002, p. 33).  Além disso, seus inimigos políticos começam a acusá-la de adúltera.
Em 1824, ocorre a Confederação do Equador, da qual participará novamente a família Alencar, com o saldo de nove mortos, dentre eles seu filho Tristão Gonçalves.    Com a abdicação de Pedro I, em abril de 1831, partidários da Restauração lideram revolução violenta no Nordeste, liderada pelo caudilho Pinto Madeira, inimigo pessoal dos Alencar. Dona Bárbara, temendo a violência que costumava rondar a família nos períodos de turbulência política, abriga-se no Piauí, mas não resiste às agruras da viagem e morre, em 1833.
Em suma, a participação de Bárbara é registrada em diversos documentos, lembrada e reivindicada por muitos de seus parentes, descendentes e correligionários. Evidentemente a notável carreira política do filho fará com que a família mantenha íntima relação com a vida pública do país. Afinal, José Martiniano, pai do autor de Iracema, foi presidente da Província do Ceará e Senador do Império, considerado o político de maior prestígio em todo o Nordeste, segundo Capistrano de Abreu. É certo que a presença dos Alencar e dos Araripe se estende até hoje no país, incluindo políticos e intelectuais, artistas e pesquisadores. De certa forma, poderíamos associá-los a uma vertente da historiografia brasileira que não foi a vitoriosa, nos inícios do IHGB, ao contrário do projeto de Varnhagen, baseado nos grandes feitos dos grandes homens. Como já vimos, se vincula a outra linhagem, à de Capistrano de Abreu, que propõe um modelo de história que contempla o regionalismo e a diversidade, acolhendo a memória oral e as culturas populares.
Se a voz do povo é, afinal, a voz de Deus, será através deste viés que se perpetuará dona Bárbara de Alencar. Como lembram Raquel de Queiroz (uma de suas descendentes) e Heloisa Buarque de Hollanda, no já mencionado estudo: “A Corte não perdoou a ousadia de Bárbara. Durante cerca de quatro anos, ela, bem como os filhos, andou presa, algemada, constantemente transferida de uma capital para outra, do Ceará à Bahia. (…). A matriarca, avó do escritor José de Alencar, morreu na década de 60 do século XIX” (          QUEIROZ, s/d).
O emprego do termo não é casual. Se investigamos a figura da matriarca e sua linhagem chegamos à matriz bíblica. No Antigo Testamento, mais precisamente, no Pentateuco, utilizam-se com frequência os termos “patriarca” e “matriarca” como referência aos ancestrais fundadores.  Como explica John Baldoch, “devido às repetidas promessas dadas por Deus às matriarcas de que seus filhos se tornariam ‘uma grande nação’, as histórias das matriarcas provêm das origens genealógicas dos grupos tribais e nações que povoaram o Oriente Médio” (p. 22). Ao mesmo tempo, algumas das maiores matriarcas, como Sara, Rebeca e Raquel eram estéreis, e somente concebem por atos da vontade divina.
É notório que o Nordeste brasileiro é uma região marcada por intensa religiosidade e por uma grande influência cultural de modelos populares advindos da Península Ibérica, como os autos ou festas populares. Ao lado da cultura letrada, grandes manifestações populares e um extenso calendário religioso se processam. Da mesma forma, pode-se imaginar a leitura da Bíblia como ato coletivo, unindo as famílias e agregados, após as lides do dia. Pois o modelo retórico ali está, repetidamente. Trata-se de dado de identificação pessoal, através da genealogia. O recurso é quase uma constante, por exemplo, nos artigos da Revista Itaytera, publicação do Instituto Cultural do Cariri, e nos prólogos de alguns das obras aqui analisadas.
Da Bíblia também podemos recolher os primeiros relatos sobre as mártires.  Em Macabeus (BALDOCK, p. 186) há referência a uma mulher martirizada pelo governador selêucida Antíoco IV, que combatia os judeus e ataca Jerusalém no século II A.C. Ante a recusa da mulher e de seus sete filhos em profanar sua religião, mesmo após tortura, o governador executou seis de seus filhos na frente da mãe. Quanto ao último filho, ele propôs a ela que o convencesse a renunciar a sua religião, mas ela, ao contrário, o encorajou ao sacrifício. Furioso, o governador ordena que mãe e filho sejam trucidados de forma cruel. Temos, portanto, também, o padrão retórico da mãe valente, da mãe coragem, que não se intimida ante o sacrifício de seus filhos.
Examinando a santidade feminina na Antiguidade e na Idade Média, delineiam-se alguns perfis, como as duas Macrinas, a Velha, viúva caridosa, e a Nova, modelo de virgem consagrada. Finalmente, o da rainha santa, cujo modelo fundador foi a da imperatriz Elena, mãe de Constantino. Explica a medievalista Miriam Impellizieri Silva que “são três os papéis da mulher, não apenas na sociedade, mas também na santidade. Virgem, viúva, mãe.” (ibidem, p. 179-180).  Sob este prisma, podemos perceber o quanto a figura de Bárbara assimila diversos aspectos destes modelos hagiográficos, associando-se a personagens e situações bastante comuns ao universo popular.
O certo é que em 1917, quando se comemorou o Centenário da Revolução de 1817, organizaram-se festas cívicas em Belém, das quais participou o autor José Carvalho, com o drama “D. Bárbara”. Em artigo de 1920, para a Revista do Instituto do Ceará, Carvalho refuta as críticas à honra de Bárbara, assegurando sua virtude através do testemunho de sua própria bisavó: “D. Luísa, que sempre conviveu com D. Bárbara, foi toda a vida, no seio da família, uma calorosa defensora das austeras virtudes de sua sogra” (CARVALHO, 1920, p. 297). No decorrer do século XX o nome de Bárbara de Alencar será reivindicado como modelo e exemplo de mulher guerreira, símbolo da resistência e luta pela liberdade.
Nos anos setenta do século passado, o poeta Caetano Ximenes de Aragão publica o Romanceiro de Bárbara, conjunto de poemas em que exalta a heroína da liberdade, obra que dialoga claramente com o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Um dos mais belos poemas é “Dia da libertação”, onde canta que:
 
“(…) pelas vertentes da noite/ a manhã já se fazia/ quando Iansã abriu as grades/ das cadeias da Bahia/ pra ver Bárbara passar/ por dentro da luz do dia// dia pleno de orixás/cavalgando a ventania/Ogum Oxum Olorun/ vento alvo alvenaria/ de cabelos cor de cal/ que de seu rosto escorria// do corpo dos encantados/ a noite se fez em dia/ tocaram todos os sinos/ das igrejas da Bahia/ pra ver Bárbara passar/ por dentro da luz do dia” (1975, p. 66).
 
Percebemos aqui, outro tópico que colabora na construção do mito Bárbara de Alencar. Trata-se do processo de transculturação que ocorre entre a pernambucana e duas homônimas: Santa Bárbara e Iansã. A hagiografia da santa, expressa em autos, como o Auto de Santa Bárbara, de Afonso Álvares, se detém nos martírios e vexames que sofre a donzela por sua fidelidade ao nascente Cristianismo. Quanto a Iansã, Orixá dos raios e das tormentas, era divindade africana do Rio Niger, que chega ao Brasil nos navios negreiros.
Os exemplos de transculturação estão presentes em diversas manifestações culturais, como na arte santeira, onde ocorre a representação de imagens dos ibeiji com anatomia de anjos barrocos, ou peças articuladas de madeira, onde ocorre o sincretismo entre a figura africana e a católica. Tais elementos ocorrem na maioria das obras em que será retratada e representada, nas artes plásticas (como o belíssimo quadro “Bárbara de Alencar: heroína do Ceará/ Mãe da Independência e da República do Brasil”, de Oscar Araripe) ou no cancioneiro popular (vide a canção “Passeio Público”, do compositor Ednardo), entre outras manifestações.
Em termos literários, pudemos encontrar uma série de obras que transitam entre o histórico e o literário, o biográfico e o ficcional. Sua biografia será apresentada em diversos gêneros, que têm em comum o caráter laudatório, e busca do efeito de fidelidade histórica, através das listagens bibliográficas que finalizam a maioria delas; ou a vinculação da heroína a um dos estados brasileiros do Nordeste. Ela será reivindicada em Pernambuco, onde nasceu; no Ceará, onde viveu os grandes episódios revolucionários e foi presa; no Piauí, onde se abrigou no final da vida e morreu. É evidente ocaráter de resgate que tais obras apresentam, reivindicando para o panteão nacional dos heróis da pátria a figura de Bárbara, o que, aliás, se concretizou há poucos anos, a partir de projeto de lei de Ana Arraes.
Dentre tais obras, destacaríamos algumas.No MemorialdeBárbaradeAlencar, de Alves Aquino, escrito trinta anos após o Romanceiro, de Aragão, o autor faz sua sequencia simbólica, associando elementos intertextuais com a dramaturgia, em especial Morte e vidaSeverina, de João Cabral de Mello Neto, e a estética da cinematografia de Glauber Rocha, em especial, DeuseoDiabonaTerradoSol, com quem dialoga nos poemas de sua “Glauberiana” (2011, p. 91-92). O Memorial consta de 64 poemas, em que o autor enfatiza o sofrimento nas prisões, como no poema 38, em que Bárbara fala aos insetos: “Irmãos de exílio e de gueto/ Sabei que vos tenho afeto:/não difere em nada quem/ se sente inseto também” (p. 54); ou no poema 48: “1-2 passos e a baliza./ 1-2 passos e barreira./ (Tão circunscrita a fronteira/ quanto a mente monarquista)” (p. 60).
Em 1992 é publicado O romance de Bárbara, de Luciana Barbosa Nobre. Nele, através do recurso ao onírico, a narradora dialoga com a própria Bárbara que lhe narra a história, relatando sua luta e os ideais que movia seu grupo. No dizer da personagem: “não era a Coroa que nos seduzia, mas a possibilidade de podermos escolher livremente os nossos mandatários” (NOBRE, 1992, p. 30). Ao final da narrativa há bibliografia, atestando a veracidade dos dados ficcionalizados.
Quanto ao romance Bárbara de Alencar, a guerreira do Brasil (2001), de Roberto Gaspar, merecem destaque dois episódios. Um deles é a versão para a queima dos documentos, que teria sido feita por Dona Mathilde Teles, antiga inimiga e senhora do sítio Miranda, que, no entanto, acolhe Bárbara em sua fuga e manda recolher os documentos: “Meu filho, diz Mathilde, traga estes documentos: os Proclamas, os Decretos e a Ata assinada por todos os presentes àquela sessão. Não quero que ninguém do Crato seja morto por causa desses papéis” (GASPAR, 2001, p. 48).
O outro é o relato do nascimento de Bárbara: “O silêncio da noite foi quebrado por um choro muito fraco de criança. Uma estrela vermelha brilhou no céu, ofuscando o dia. Haveria em tudo isso uma predestinação?” (p. 72). Batizada Bárbara em homenagem à Santa, “Bárbara ou Barbinha, chorava, sem grandes chances de sobreviver, mas, resistiu e sobreviveu” (p. 72). O narrador relata o ataque dos índios Açus liderados por Itamaragibe à fazenda Caiçara, local onde se situara no passado a taba de seus antepassados. A casa de taipa foi incendiada, mas o bebê foi resgatado por Maria Preta, que fugiu com Teodora. Posteriormente os fazendeiros derrotaram os índios, e “no local da casa de taipa da fazenda Caiçara, ergueu-se uma casa de pedra, com paredes colossais, resistentes ao fogo, à bala e até, ao próprio tempo, a fim de que servisse de testemunha secular às gerações vindouras” (p. 73).
Outro texto a mencionar é o libreto BárbaradeAlencar (avódoromancistaJosédeAlencar): vida e mortenosertãodoPiauí, impresso em 2011, na cidade de Fronteiras. O padrão retórico aqui é o bíblico, como já vimos.  Na obra se exalta a heroína, ressaltando seu exílio forçado no Piauí, no fim da vida, e sua morte na cidade de Fronteiras. Ao mesmo tempo, destaca a grande descendência ali deixada: Alencar, Arraes e Antão, em suas palavras, uma “prole imensurável”. Exalta-a como grande guerreira, grande heroína, grandiosa Nordestina, orgulho local.
Neste poema narrativo apresenta o relato da vida da heroína e seus feitos, sob modelo épico. No caso, o regional, o Cariri. Constam os seguintes tópicos: a luta pela independência em relação a Portugal; a figura do herói perseguido e sofredor; a passagem da glória à execração e à solidão. O narrador assume a função de um justiceiro, do vate popular, que resgata para a história a figura da heroína. Insere-se claramente no modelo do cancioneiro popular: trata-se de relatos paralelos à história oficial. Pode-se observar a semelhança, por exemplo, com o CantoGeneral, de Neruda.
Finalmente, em fevereiro de 2014 é publicado o romance Semíramis, da escritora Ana Miranda. Podemos considerá-lo uma narrativa de extração histórica. Nela, o romancista José de Alencar torna-se personagem do relato da personagem-narradoraIriana. Através das cartas trocadas entre esta e sua irmã, Semíramis, recria-se a trajetória romanesca de Alencar, ali tratado como o Cazuzinha, que Iriana conheceu ainda no berço. A autora estabelece diálogo tanto com a série literária, no caso, os romances de Alencar, como com outros gêneros discursivos, como as cartas e os diários. Na verdade, a estrutura da obra dialoga com os processos de verossimilhança típicos do romance do século XIX: o efeito de fidelidade e o efeito do real. A obra elabora versões para a gênese de alguns romances, em um processo de espelhismo em que se simula dissolver as fronteiras entre história e imaginação, revelando a invenção dentro da invenção.Iriana, a mediadora entre os acontecimentos e o leitor, destaca atenção especial a uma certa figura: dona Bárbara de Alencar, caracterizada como figura de poder na região e objeto da devoção de seu avô, para desgosto da avó da menina. Através do olhar enternecido e respeitoso do avô, desenha-se a homenagem da autora.
Neste cenário em que “as lembranças ainda galopavam pelas ruas, dando tiros” (p. 15), mencionam-se a chegada de Arruda Câmara à vila do Crato, em 1810, e fragmentos de sua carta testamento. Destaca-se a bravura e o caráter excepcional da matriarca: “Dona Bárbara flanava num mundo de grandes tramas” ou “Dona Bárbara estava acima de qualquer desdita política” (MIRANDA, 2014, p. 15). Representante da “aristocracia guerreira” local,é descrita como afável e seca, franca e impressiva; capaz, experimentada, rude e corajosa. Nada acontecia na região sem passar por seu crivo. O perfil idealizante se acentua: “Dona Bárbara não era só poderosa na região; ela atraía, tinha uma força estranha” (ibidem, p. 29).
Seguramente a figura da pernambucana tem canalizado o interesse de escritores e intelectuais do Nordeste Brasileiro, servido de referencial para perseguidos políticos e movimentos de resistência ao longo do século XX e no presente.  Nesse cenário, ocorre um de diálogo permanente entre os documentos históricos, os relatos orais e as memórias familiares, formas da cultura popular e textos de perfil literário. Cada um deles contribui, a seu modo, para a exaltação da personagem histórica e a construção do mito Bárbara de Alencar.1
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ÁLVARES, Afonso. Auto de Santa Bárbara. Obra da vida da Bem-aventurada Santa Barbara Virgem, e Martyr, filha de Diofcoro Gentio, em o qual então as figuras, que no principio da obra lefeguem. Lisboa: Oficina de Francisco Borges de Sousa, 1786. http://purl.pt/11479/4/1692525_PDF/1692525_PDF_24-C-R0150/1692525_0000_rosto-24_t24-C-R0150.pdf. Acesso em 08 de julho de 2015.
ARAGÃO, Caetano Ximenes. Romanceiro de Bárbara. Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense, 1975.
ARAÚJO, Ariadne. Bárbara de Alencar. 3. ed. ver. E atual. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002. (Coleção Terra Bárbara, 1)
BALDOCK, John. Mulheres na Bíblia. Valorização e participação das mulheres nas histórias da Bíblia. São Paulo: M. Books, 2009.
BERNARDES, Denis Antonio de Mendonça. O patriotismo constitucional: Pernambuco, 1820-1822. São Paulo: Hucitec; Fapesp; Recife: UFPE, 2006.
CARISE, Icary. Deuses africanos, o sincretismo e o barroco. Rio de Janeiro: Fundação Mokiti Okada, s.d. (Box contendo gravuras e estudo introdutório).
CARVALHO, José. Heroína Nacional: Bárbara de Alencar. Revista do Instituto do Ceará. 1920.p. 199-220. In: http://www.institutodoceara.org.br/revista/Rev-apresentacao/RevPorAno/1920/1920-HeroinaNacionalBarbaradeAlencar.pdf.
Acesso em 08 de julho de 2015.
GASPAR, Roberto. BárbaradeAlencar: a guerreira do Brasil. 3. Ed., Fortaleza: Gráfica Tiprogresso, 2001.
GOMES, Juran. Bárbara de Alencar (avó do romancista José de Alencar). Vida e morte no sertão do Piauí. Fronteiras. PI: Gráfica Brito, 2011
LUNA, Cláudia. Antagonismo de projetos na independência do Brasil: representação e poder em Carlota Joaquina e Bárbara de Alencar. In: GUARDIA, Sara Beatriz, ed. Las mujeres en los procesos de Independencia de América Latina. (Primer Congreso Internacional). Lima: CEMHAL; USMP, 2014. p. 137-147.
MEIA-TIGELA, O poeta de. (Pseudônimo de Alves de Aquino).  Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas. 2ª ed. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2011.
MIRANDA, Ana. Semíramis. Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
NOBRE, Luciana Barbosa. O romance de Bárbara. Rio de Janeiro: Editora Revista das Academias de Letras, 1982.
QUEIROZ, Raquel & HOLLANDA, Heloisa Buarque. Matriarcas do Ceará. D. Federalina de Lavras. www.heloisabuarquedehollanda.com.br/matriarcas-do-ceará-d-fidelina-de-lavras. Acesso em 8 de julho de 2015.
SILVA, Miriam Impellizieri. Santidade feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers. In: CÂNDIDO, Maria Regina, org. Práticas religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/ PPGH/UERJ, 2011. p. 175-189.
TROUCHE, André. América: história e ficção. Niterói: EdUFF, 2006.
 
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NOTA
1 Neste artigo apresentamos um recorte de nossa pesquisa de Pós-doutorado na USP sobre “Mulheres Independentes/mulheres nas independências: representação e poder em Carlota Joaquina e Bárbara de Alencar”, com supervisão de Maria Lígia Coelho Prado.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CÁRCERE E LIBERTAÇÃO: UMA LEITURA COMPARATIVA DE “CAMBIO DE ARMAS” DE LUISA VALENZUELA E “A IMITAÇÃO DA ROSA” DE CLARICE LISPECTOR – Cristiane Lira




 

Cristiane Lira

Universidade da Geórgia

 
 
Resumo: Este artigo propõe uma leitura comparativa entre dois contos, “Cambio de armas”, de Luisa Valenzula e “A imitação da rosa”, de Clarice Lispector. Nestes, a subjetividade e a linguagem apresentam-se como uma forma de herança. Elas são fabricadas pelos usos sociais e normativos para se incorporarem a um falso discurso prévio que circunda os ideais de casamento e a maneira como as duas personagens principais tentam fugir dessas definições hegemônicas. O encarceramento é a metáfora utilizada para descrever a condição das protagonistas. Embora os meios sejam diferentes, os mecanismos de tentativa de escape são os mesmos. No primeiro texto, Laura é torturada, e no segundo, Laura foge da realidade.
 
Palavras-chave: Valenzuela e Lispector“Cambio de armas” – “A imitação da rosa” –  cárcere – libertação.
 
Abstract: This article presents a comparative reading of “Cambio de armas”, by Luisa Valenzula, and “A imitação da rosa”, by Clarice Lispector. In the two short stories, subjectivity and language are inherited. They are fabricated by social and normative usages to become incorporated into an already existing, albeit untruthful, body of reality surrounding marriage and the way the two main characters try to escape from these hegemonic definitions. Entrapment is the metaphor used to describe both protagonists. The means are different, but the escape mechanisms are not. On the first short story, Laura is tortured, on the second Laura flees from reality.
 
Keywords: ValenzuelaLispector“Other weapons”, “The imitation of the rose” – entrapment – liberation.
 
Minicurrículo da autora: Cristiane Lira está cursando o Doutorado na Universidade da Geórgia, onde escreve sua tese a respeito da representação das mulheres guerrilheiras que lutaram contra o regime ditatorial no Brasil e na Argentina desde a década de 1960 até a de 1980. O corpus analítico com o qual está trabalhando inclui narrativas literárias, fílmicas, testemunhos e poesia. Além dos estudos pós-ditatoriais, ela também se interessa pela relação entre memória e gênero, e a representação da mulher na literatura brasileira e latino-americana contemporânea. Ela tem artigos publicados na Revista Karpa, da Universidade Estadual da Califórnia, Revista Carandá, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Revista Crioula, da Universidade de São Paulo, entre outros periódicos. (Currículo completo disponível em: http://www.rom.uga.edu/directory/cristiane-lira).
 
 
 
Cárcere e libertação:
Uma leitura comparativa de
“Cambio de armas” de Luisa Valenzuela e
“A imitação da rosa” de Clarice Lispector
Cristiane Lira
 
Universidade da Geórgia
 
 
 
Pai, o que é isso que dentro da minha cabeça não para nunca?
Chama-se pensamento, é como uma maquininha atrás da testa fabricando as palavras: nuvem, cadeira, mãe. Então por um tempo imaginei que eram as palavras que produziam as coisas. Palavras tomavam a palavra e tinham voz, falavam acenando com franjas e beiradas de segredos para quem soubesse escutar.
Tudo existiria primeiro dentro de cada um, antes de se montar externamente com objetos, paisagens, cores e cheiros.”
 
(LUFT, 2002, p. 30)
 
 
O trecho acima do romance de Luft questiona, diante do olhar de uma criança – recuperada pela memória de uma pessoa adulta –, uma das condições da linguagem: trata-se de algo estabelecido. O pensamento, portanto, responsável por “fabricar as palavras”, pode ser compreendido como uma reprodução do que já existe, das normas e regras sociais que antecedem o processo de aquisição da linguagem. Nesse sentido, a linguagem é parte de um corpo já existente com os seus valores e pressupostos e sua aquisição dá-se por um mecanismo de reprodução. O trecho supracitado demonstra que este processo de aprendizagem consciente se dá com o amadurecimento da criança, contudo revela também que havia uma crença inicial, relacionada ao universo particular, àquilo que reside dentro de cada um – sua subjetividade, identidade – para transformar, mais tarde, em objetos. Esse processo de aprender fundado na linguagem, a sua relação com os objetos e coisas, além dos elementos comuns entre “Cambio de armas” (1981), de Luisa Valenzuela e “A imitação da rosa” (1960), de Clarice Lispector são os aspectos que exploramos neste estudo.
Em “Cambio de armas”, temos a história de Laura. A protagonista é construída através de elementos de surpresa e a existência de um segredo que vai sendo desenvolvido e revelado à medida que a própria personagem vai percebendo os arredores dela. Quase ao final do texto, tomamos conhecimento de que Laura é uma espécie de guerrilheira e que era a potencial assassina do coronel Roque. O mesmo Roque que, como sabemos, é desenvolvido na história como o esposo de Laura, além de ser, de alguma forma, seu algoz, posto que a submete à violência física, além da psicológica por meio da presença de um chicote nos momentos de envolvimento sexual.
Em “A imitação da rosa” de Clarice Lispector, a personagem central também se chama Laura. A narração é construída de maneira também a nos apresentar um segredo que vai sendo revelado pouco a pouco. A história se concentra nos detalhes que parecem evidenciar a mentalidade organizada e sensível de Laura, destacando o seu prazer em ter tudo no seu devido lugar e ser a esposa perfeita, ter o marido perfeito, a relação perfeita, culminando na impossibilidade de se saber possível de alcançar tal perfeição. Além disso, o texto sugere uma possível loucura, haja vista que a personagem estivera hospitalizada e exerce suas funções domésticas sempre com a lembrança de que deve seguir rituais específicos para que aquilo que lhe aconteceu previamente, do qual não somos plenamente conscientes, não volte a acontecer. Ao final, porém, vemos que o estágio anterior ao do momento do conto retorna.
Cabe, agora, destacar as razões para o estabelecimento de um diálogo entre estes dois textos, “Cambio de armas” e “A imitação da rosa”. Além do nome das protagonistas ser o mesmo, Laura, compreendemos as duas narrativas como tentativas de libertar, em alguma medida, os gritos reprimidos das vozes femininas. Isto ocorre através da proposição de liberdade dentro do próprio cárcere discursivo, ou seja, é uma escritura de mulher que vai em busca de criar rupturas no discurso hegemônico. Em outras palavras, valendo-nos das observações de Luisa Valenzuela, em “So-called Latin American Writing” (1993), ao falar sobre Clarice Lispector, através da linguagem e das tentativas de fazê-la tomar forma e renascer, vê-se a criação de pérolas, mas, também, de monstros. Ainda segundo Valenzuela, “[i]t is mainly for the sighting of such monsters that we write, and it is because of them that we withhold writing during long and painful periods of time, in the struggle of trying to say what resists being said” (VALENZUELA, 1993, p. 211-12). Logo, trata-se de uma escrita que se faz reveladora, justamente, pela necessidade de trazer à tona os bastidores, os elementos relegados da história, tratando de incorporá-los, permitindo, assim, em alguma medida, a sua libertação.
No caso dos dois textos analisados, o processo de fragmentação e conexão pelo qual as histórias são narradas lembra, certo modo, um mosaico (sobretudo em “Cambio de armas”). Assim, somente a justaposição dos elementos, na tentativa de recompor os objetos, criando uma atmosfera que faça algum sentido, parece tornar possível a compreensão do todo. No caso de “A imitação da rosa”, embora o texto não apresente na sua corporalidade uma divisão, é possível observarmos em sua tessitura, a tentativa de reconstruir os sentidos através de um itinerário que tanto a protagonista desconhece quanto nós leitores. Logo, podemos dizer que o texto trabalha com uma espécie de segredo e o tecer narrativo trata de desenvolver um percurso possível de revelação.
O conto de Lispector, logo no princípio, estabelece a ideia de que o percurso a ser desenvolvido no presente está relacionado a um passado recente, afinal, “[m]as agora . . . ela estava de novo ‘bem’” (LISPECTOR, 1998, p. 34), impondo, portanto, a pergunta: quais acontecimentos antecederam o estágio aqui reconhecido como mau? Com o desenrolar dos fatos, temos também a noção de que ela, Laura, de “A imitação da rosa”, estava de volta, sugerindo, em um primeiro momento, que ela estivera em outro lugar. Contudo, sabemos, com o encerramento do texto, que algo “[v]oltou” (LISPECTOR, p. 52). Com isso, tomamos consciência de que o percurso estabelecido por Laura é o de alguém que teve uma espécie de surto, evadindo-se da realidade, voltara através de tratamento e, agora, em casa, retoma a vida, tentando com certo desespero e muita ansiedade, não fugir de si mesma novamente.
Em “Cambio de armas” a via-crucis do segredo é explorada no corpo da personagem e no corpo do texto. A narrativa vai se desenvolvendo em um tom de suspeita, mas, tal e qual a personagem, quase kafkiana, desconhece o poder que a oprime, em vista de ter a memória em frangalhos, também os leitores são conduzidos sem o saber. O texto, como já dissemos, é dividido em partes e vai se encaixando até que temos a revelação plena ao final. Em alguma medida, em decorrência da escolha do desenvolvimento, o texto permite que vejamos a questão da esfera do poder em mais de um nível. Embora seja um texto que evidentemente critica o regime militar, não o faz somente no campo político e social, senão através do olhar para a instituição do matrimônio, desenvolvendo a crítica a essa relação autoritária no âmbito do privado.
Ainda com relação ao segredo, em ambos os textos a voz narrativa se vale de um símbolo para circundá-lo. Trata-se da figura de um gato que invade o texto. Em “A imitação da rosa” temos, “[c]omo um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando” (LISPECTOR, 1998, p.34). Este trecho é relativo à construção da volta de Laura. Ela se compara ao gato e, com isso, é possível que o leitor vá se preparando para a revelação. Em um primeiro momento, fica evidente a noção de fugacidade. Laura, personagem de Lispector, é aquela que “passou a noite fora” e que depois, “como se nada tivesse acontecido” volta para casa e ainda encontra o alimento à sua espera.
Além disso, se pensarmos na noção de cárcere discursivo, a utilização do gato não nos parece inocente. Segundo Chevalier e Gheerbrant, “o gato é associado à serpente: indica o pecado, o abuso dos bens deste mundo” (2007, p. 462 grifos no original). Logo, se ampliarmos esta noção à condição de Laura em “A imitação da rosa”, podemos ler a tentativa da voz narrativa de denunciar os mecanismos do poder atuando sobre Laura, porque ela estabelece uma análise de si mesma calcada em um símbolo fugidio, pecador, tal e qual a construção da mulher que não segue – evade-se – dos pressupostos discursivos impostos pelo patriarcado.
Com relação ao modo como foi utilizado o mesmo símbolo na revelação do segredo em “Cambio de armas,” vemos que a fugacidade da imagem é trazida ao texto na própria conotação da lembrança, que surge desviada, isto é, um movimento leva a outro, em alguma medida reinventando a linguagem ou ressignificando-a. No momento em que Roque, depois de ter feito os nervos de Laura entrarem em choque, ao mostrar el rebenque para ela, temos: “[E]l pidiendo disculpas, algo inimaginable pero así es: discúlpame, cálmate, ron ron, casi dice él como un gato y la idea de gato la envuelve a ella con tibieza y detiene de manera instantánea sus convulsiones. Ella piensa gato y se aleja de él” (VALENZUELA, 1982, p.131-2). Logo, o gato se transforma em uma espécie de conexão entre o presente da protagonista e o seu passado. O animal, pois, não só liga os fragmentos da memória como é o rompante que lhe traz a presença do ser amado e faz com que ela se dê conta de que ele está morto. O discurso que é cárcere por reproduzir movimentos de dominação e poder indiretos (“A imitação da rosa”) é resgatado como despertar da consciência, fulcro de conexão e caminho para a liberdade e o conhecer (“Cambio de armas”).
Notamos, então, que “A imitação da rosa” e “Cambio de armas”, embora distintos, mantêm um diálogo muito aproximado. Os objetos concretos, em ambas narrativas, adquirem a noção da realidade, como se fossem a única forma de conservar as personagens conectadas ao espaço e ao tempo no qual se encontram sem que passem por um processo de evasão completa. Situação, porém, almejada por todos ao redor das protagonistas, pois em “Cambio de armas” faz-se um imenso esforço na criação de uma família visando que Laura não recupere a memória que ela não tem consciência plena de ter perdido. Como vemos, por exemplo, no trecho, “[l]a foto está alli para atestiguarlo, sobre la mesita de luz. Ella y él mirándose a los ojos con aire nupcial, ” (VALENZUELA, 1982, p.116) que, ao final, revela a criação da fotografia para atestar uma verdade inventada.
Já em “A imitação da rosa” esta estrutura aparece, sobretudo, nas palavras do médico de Laura, “[a]bandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade” (LISPECTOR, 1998, p. 36). A tentativa é, portanto, de que ela faça um esforço em lembrar que precisa esquecer. O ato de lembrar, associado a um saber prévio, torna-se uma ameaça que precisa, constantemente, ser rechaçada do cotidiano.
Para que o esforço de manter a sanidade (“A imitação da rosa”) e o controle (“Cambio de armas”) seja alcançado, as protagonistas são mantidas no lar, impelidas a uma espécie de prisão da qual não parecem ter completo conhecimento. Neste espaço, que deveria representar proteção e segurança, vemos que ambas estão em situações que refletem perigo. Em decorrência das circunstâncias nas quais se encontram, posto que desconhecem a verdade – conhecendo, somente, uma verdade construída por aqueles que detêm o poder –, elas desenvolvem específicos mecanismos de defesa para se protegerem do (des)conhecido.
No caso de “A imitação da rosa,” o processo de defesa desenvolvido pela protagonista dá-se através da repetição de específicos rituais. O texto, aliás, apresenta-os enumeradamente como representação do pensamento de Laura. Além disso, reforça que ela tem “gosto minucioso pelo método” (LISPECTOR, 1998, p. 35). Destaca-se, com isso, que a própria forma como a protagonista pretende manter a sanidade é reveladora de uma aproximação com a loucura. Contudo, este estado que é visto por Laura como uma maneira de não atingir o que é esperado socialmente dela, isto é, a sanidade, não lhe parece completamente terrível. Trata-se, antes, de um abismo que a atrai. Estar louca, nessa situação de limbo, é uma forma de ela se refugiar do próprio mundo que não consegue habitar por já não se sentir parte, por não suportar o teatro diário de viver.
Além disso, vemos que a sanidade está ligada ao controle, aproximando-se de “Cambio de armas”, ao mesmo tempo em que o controle neste está relacionado, justamente, à não recuperação da memória, em alguma medida também sanidade, de Laura. Portanto, as duas protagonistas se aproximam no diálogo da subjugação e submissão a outrem, sendo desenhadas como fruto, certo modo, de uma experiência traumática – que deve ser esquecida ou não recordada, cuja alteração é fotografada na maneira como utilizam a linguagem.
De acordo com Kalí Tal, ao falar sobre uma leitura da literatura de trauma, “[t]raumatic experience catalyzes a transformation of meaning in the signs individuals use to represent their experiences” (1996, p.16). No caso dos textos analisados, acreditamos que esta modificação é capturada por meio da representação da linguagem. Betina Kaplan, em sua leitura de “Cambio de armas,” propõe que “para Laura las palabras están vacías de significado. Este quiebre del signo le da una percepción de su entorno en estado de desconstrucción” (KAPLAN, 2007, p. 69). As palavras da crítica embasam a ideia que exploramos aqui, apresentadas desde a epígrafe, da existência da necessidade de uma justaposição das palavras para que, em alguma medida, seja possível o resgate ou a tentativa de construção de algum significado relevante para ela.
Ampliando as observações de Kaplan acerca de “Cambio de armas” para “A imitação da rosa”, cremos ser possível notar o mesmo vazio de significado no texto através da ritualística empreendida por Laura. Além disso, talvez uma forma de vermos os arredores de Laura em seu estado de desconstrução, ainda de acordo com Kaplan, seja através do silêncio capturado através da presença de inúmeras reticências no texto. Algumas delas, aliás, seguidas pela sugestão de um “salto” na realidade propiciado pelo sonhar acordada, “[m]as, como ela ia dizendo, de marrom com a golinha… – o devaneio enchia-a com o mesmo gosto que tinha em arrumar gavetas” (LISPECTOR, 1998, p. 42). A voz narrativa apresenta a noção de devaneio, sugerindo a criação de um mundo à parte, ao qual nós, leitores, não temos acesso e só é sugerido pela presença das sentenças cortadas, “‘ele’ me disse que eu não me esforce por conseguir, que não pense em tomar atitudes apenas para provar que já estou…” (LISPECTOR, 1998, p. 45). Como leitores, por antecipação, esperamos um desfecho. A narrativa, porém, vai nos negando as explicações à medida que o texto vai se desenvolvendo, convidando-nos a intervir e propor alguns percursos de leituras possíveis.
Ainda a respeito da questão do trauma, debruçando-nos especificamente sobre “Cambio de armas,” é possível destacar o proposto por Elaine Scarry em The body in pain de que “[p]hysical pain does not simply resist language but actively destroys it, bringing about an immediate reversion to a state anterior to language, to the sounds and cries a human being makes before language is learned” (SCARRY, 1985, p.4). Durante a leitura, há vários momentos em que esse processo de insufiência linguística é trazido à tona pela voz narrativa através da descrição da dor da personagem. Veja-se, por exemplo, o momento em que Roque mostra el rebenque para Laura e “ella se pone a gritar desesperada, a aullar como si fueran a destriparla o a violarla con ese mismo cabo del talero” (VALENZUELA, 1982, p. 131). A dor que o objeto, sem ao menos tocá-la, é capaz de despertar nela, revela a experiência do trauma que passa por um processo de desvio metonímico do qual o objeto se torna, mesmo na sua inutilidade – não fora usado por Roque naquele momento – um instrumento de tortura psicológica que implica a memória da dor física.
Partindo disso, propomos uma leitura que recupera as observações de Kaplan de que, “[l]a violencia es considerada por las lecturas feministas desde la década del [19]70 como el lugar privilegiado en el que se ponen en evidencia los mecanismos del control patriarcal sobre las mujeres” (KAPLAN, 2007, p. 6). Nos contos analisados, a violência é o motor pelo qual se exerce o poder. Todavia, nos textos, a representação desta é divergente. Enquanto no conto de Valenzuela ela se dá como um grito em construção – à medida que vamos, nós leitores, desvendando os andros e meandros da história – na narrativa de Lispector, a violência é silenciosa, apresentando-se nos interstícios do próprio discurso que se vai tecendo.
O grito em construção em “Cambio de armas” surge, como já mencionamos brevemente, através da maneira como se articula o desenvolvimento da revelação dentro do conto. A narrativa explora, em um crescendo, o desmantelamento da instituição matrimonial, apresentando-a como uma performance. Em alguma medida podíamos, aliás, utilizar a metáfora que Lispector esculpe para seu livro de contos, Laços de família – do qual “A imitação da rosa” faz parte – de que os mesmos laços que juntam são aqueles que sufocam, isto é, aquilo que une também é o que aprisiona. Com o emblema de esposo, Roque, em “Cambio de armas,” utiliza-se do corpo de Laura para satisfazer-se sexualmente. Ela, por outro lado, tem o corpo penetrado e posto em evidência, amparado pelo arcabouço do patriarcado, afinal, foi construída como a esposa dele no texto. Conforme aponta Kaplan, valendo-se das contribuições de MacKinnon, “en el sistema patriarcal las relaciones sexuales consensuales son un mito para las mujeres, ya que no tienen libertad de elección.” Assim, “la violación se transforma en una metáfora de las relaciones sexuales bajo el patriarcado” (KAPLAN, 2007, p.24). Observamos, porém, que, uma vez que Laura se encontra neste espaço de limbo, chamado por ela de el pozo, no qual ela desconhece a sua relação exata com Roque, a narrativa não se nega à descrição do seu prazer. Com isso, parece-nos que ela subverte a ânsia de Roque de adestrá-la, pois, uma vez que não tem consciência, como pode o regime de torná-la obediente ser, de fato, eficiente?
Como sabemos, no momento da revelação, Roque diz a Laura que as ações dele estão fundadas no desejo que ele tinha de interromper a vontade dela, de transformá-la, pois ela, supostamente, era a sua potencial assassina. Assim, ela, que o odiava, passou por um processo de aprendizagem para que fosse obrigada a querê-lo, dependendo dele como uma recém-nascida, assumindo, ainda, que estes eram os seus dispositivos de poder, as suas armas (VALENZUELA, 1982, p. 144-5). Portanto, no caso de “Cambio de armas” vemos as observações de Rodolfo Franconi sobre quando a atividade sexual não funciona como ato erótico – isto é, enquanto caminho a uma realização plena através do prazer sexual – mas reduz-se a mero instrumento do poder (FRANCONI, 1997, p. 32). Violentar o corpo de Laura é a maneira que Roque encontra para executar o seu poder.
Ocorre, porém que, se por um lado é possível dizer que Roque obteve o poder desejado sobre o corpo de Laura, por outro, uma vez que ela vivia em um espaço de limbo, ele nunca a possuíra completamente. Sua intenção, de certa forma, aparece desviada. Embora tenha destruído a linguagem de Laura e a sua conexão com o passado, deixando-lhe, somente, entre um e outro, fragmentos e a imensa cicatriz nas costas, além de ter penetrado o seu corpo, sua incapacidade de penetrar-lhe a alma, o que lhe é mais intrínseco, também é apresentada no texto, haja vista, por exemplo, o trecho: “[e]s esa la voz que a veces la llama sin poder penetrar su cáscara” (VALENZUELA, 1982, p. 139). De certa forma, isto nos faz pensar na questão do grande fracasso do discurso do patriarcado e do poder. Ainda que as marcas se inscrevam nos corpos dóceis, como propõe Foucault[1], sempre é possível a criação de um espaço exterior para que seja possível o refúgio[2].
Com relação ao texto “A imitação da rosa,” acreditamos que este espaço de limbo também existe e se trata daquele reservado à loucura, isto é, o lugar de onde a protagonista, aparentemente, voltou, e tenta organizar a vida no seu cotidiano cheio de certezas, para que não rompa o espaço concreto da casa e retorne ao que, em “Cambio de armas” a voz narrativa nomeia como “la nebulosa en la que transcurre su vida” (VALENZUELA, 1982, p. 113). As tentativas de Laura de manter a sanidade, de pertencer, as atividades de ser dentro do teatro do patriarcado são os motes que geram a violência silenciosa dentro do texto de Lispector.
O conto inicia já com o desejo de recuperar um imaginário existente, “[a]ntes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente” (LISPECTOR, 1998, p. 34). Aqui temos a pintura da mulher esperando o homem, a figura máxima da submissão, cujo sentido da vida dá-se em gravitar em torno do homem. Esta figura dialoga com as observações de Raimunda Bedasee, de que “Laura é a atriz que procura representar com perfeição o papel que já se confundiu consigo mesma enquanto pessoa: Laura não é Laura. Laura é ‘a esposa perfeita’. A Perfeição a atrai. Na busca dessa perfeição ela se perde e se encontra, na saída do pequeno mundo de dona de casa competente e de esposa satisfatória” (BEDASEE, 1999, p. 40). Dessa maneira, o esforço de Laura de se encaixar ao modelo de esposa ideal, típico dos pressupostos e esforços sociais que ela mesma se impõe, castiga-a e retira todas as suas forças, ao ponto em que ela não consegue mais representar, invadindo um espaço paralelo.
A violência de ser perfeita, de atingir a sua melhor nota na performance de viver, de se aproximar do divino, “Cristo era a pior tentação,” (LISPECTOR, 1998, p. 36) sufocam-na de maneira tão firme que Laura não resiste e vai espalhando as suas imperfeições ao lado do tom confessional que se estabelece com a voz narrativa – em quase fusão – apresentando as suas falhas. De um lado, “[p]or acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera?” (LISPECTOR, 1998, p. 35). Por outro, a sensação plena da falha: “[e]la, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem, reencontrava grata sua parte diariamente falível” (LISPECTOR, 1998, p. 37). Laura é, então, uma personagem em tensão. Seu desequilíbrio é gerado, exatamente, da constante consciência de ser falha, incompleta, de não conseguir pertencer completamente ao elenco da família perfeita, com a sua “insuficiência ovariana” (LISPECTOR, 1998, p. 41) e a impossibilidade de completar o quadro da performance[3] patriarcal. Desse modo, a violência é gerada no e pelo discurso, metaforizando a casa de Laura como o seu cárcere.
Em ambos os textos, o signo casa surge invertido. O lar que deveria ser sinônimo de lugar seguro converte-se em uma prisão. Se pensarmos, porém, em uma das possíveis definições do termo, de acordo com o Dicionário de símbolos, veremos que “[a] casa significa o ser interior” (2007, p. 197). Assim, a tentativa das duas personagens se refugiarem em um universo à parte do que habitam talvez possa ser lida como uma libertação psicológica apesar do aprisionamento físico.
Em “Cambio de armas,” à medida que vamos sendo conduzidos na narrativa, temos acesso ao interior da casa e, também, às limitações da personagem. Num determinado momento acessamos a consciência da personagem e a sua sensação de estrangeirismo, “[e]xtraña es como se siente. Extranjera, distinta” (VALENZUELA, 1982, p. 118). Laura sente que não é parte daquela encenação na qual vive. As reflexões que vai estabelecendo em torno da disposição das coisas na casa vão apontando isso, “[s]entada ante la ventana con una estéril pared blanca frente a los ojos y vaya una a saber qué oculta esa pared” (VALENZUELA, 1982, p. 124). Ela reconhece, e através do olhar dela também os leitores, que aquele lugar no qual ela está é a fantasia de uma casa, mas, por trás do véu do teatro, trata-se de uma cadeia.
Com Laura de “A imitação da rosa,” o processo não é muito distinto. Ainda que não existam limites definidos para ela, vemos que a situação de exílio é algo que Laura cria para si mesma, “[s]entou-se no sofá como se fosse uma visita na sua própria casa que, tão recentemente recuperada, arrumada e fria, lembrava a tranquilidade de uma casa alheia” (LISPECTOR, 1998, p. 37). Para Laura, portanto, é necessária a sensação de não-pertencer, de transitar sentindo um incômodo que ela mesma cria, como fruto da punição de não fazer parte do novelo pelo que ela tanto anseia: o teatro do patriarcado.
Ainda com relação ao espaço da casa, cabe ressaltar que é nesta localidade onde ocorrem as atrocidades. Sob a fachada de lar, em “Cambio de armas” temos a violação praticamente cotidiana de Laura que se transforma em uma espécie de escrava sexual de Roque. Vale ressaltar, porém, que tanto quanto Laura, só adquirimos conhecimento dessa condição à medida que ela toma ciência do fato. Em “A imitação da rosa,” de acordo com o que já mencionamos, a atrocidade surgirá nos intervalos e não de maneira física. A imposição de seguir um modelo que Laura parece impossibilitada de alcançar, transforma a casa em um ambiente hostil: passar as camisas de Armando, arrumar a casa, comprar a carne, “com o mesmo gosto que tinha em arrumar gavetas, chegava a desarrumá-las para poder arrumá-las de novo,” (LISPECTOR, 1998, p. 42) na tentativa de medir, de alguma forma, as habilidades dela de ser mulher.
Em decorrência dos processos sofridos pelas inscrições discursivas em seus corpos dóceis, as personagens adquirem, junto aos leitores, ciência da sua fragmentação. Em um primeiro momento, através da progressão da consciência delas de que talvez sejam uma terceira pessoa, “[e]n cuanto a ella, le han dicho que se llama Laura pero eso también forma parte de la nebulosa en la que transcurre su vida” (VALENZUELA, 1982, p. 113) em “Cambio de armas” ou “Carlota se surpreenderia com a delicadeza de sentimentos de Laura, (…) [n]esta cena imaginária e aprazível (…), ela chamava a si mesma de ‘Laura’, como a uma terceira pessoa” (LISPECTOR, 1998, p. 44) em “A imitação da rosa.”
Mais tarde, através das metonímias que delimitam a capturação do corpo de Laura no espelho enquanto Roque se satisfaz no seu corpo, “ella va descubriendo el despertar de sus propios pezones, ve su boca que se abre como si no le perteneciera pero sí, le pertenece, siente esa boca, y por el cuello la lengua que la va dibujando le llega hasta misma boca pero sólo un instante” (VALENZUELA, 1982, p. 123) vemos o afastamento entre o corpo que sente e a mente que problematiza o toque. Com isso, a fragmentação da personagem torna-se quase física, existe um espaçamento entre o ser e o estar. O corpo que está não é o mesmo corpo que é.
Em “A imitação da rosa” temos também o mirar-se no espelho, que assinala, conforme proposto por Benedito Nunes, “o desdobramento do sujeito, que se vê como um outro, objetivo e impessoal” (1989, p. 107 grifos no original). Assim, “[s]eu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher” (LISPECTOR, 1998, p. 35). O processo de distanciamento e fragmentação, aqui, dá-se entre a mulher que olha e aquilo que ela vê. Inicialmente, temos acesso ao quanto ela se afasta do modelo da amiga, Carlota. Depois, vemos que as partes mencionadas de seu corpo relacionam-se ao tom marrom[4]. Em alguma medida, é como se o que ela visse pelo espelho assumisse uma única tonalidade, quase sem vida, lembrando, ainda, os próprios tons pastéis mencionados em “Cambio de armas” como sendo a cor das paredes, “con sus tonalidades pastel que no pueden haber sido elegidas por ella aunque ¿qué hubiera elegido ella?” (VALENZUELA, 1982, p. 119). A fragmentação ocorre dentro de um processo de ordem, de uniformização, na quase tentativa de não chocar, apresentando-se quase transparente no cotidiano.
A noção de ser cindido, em “A imitação da rosa” parece se tornar ainda mais forte diante da tensão existente entre a personagem Laura e a sua amiga Carlota. Em alguma instância, a ansiedade que Laura sente em ser mestre no papel de mulher entra em atrito com o fato de que Carlota parece não ter a mesma ânsia. Assim, a maneira como Carlota reage gera instabilidade para Laura, pois ela não compreende a forma como a outra atua. Ainda que tente apresentar uma visão crítica de Carlota, o narrador, que parece adquirir o olhar de Laura, julga a outra, entretanto, ao invés de criar no leitor a noção de uma mulher vulgar, cuja marca é ser totalmente diferente de Laura, cria a noção de uma inveja intrínseca. Além disso, demonstra que Laura não se sente bem porque, embora critique Carlota, intimamente deseja ser como ela. Quando Laura pensa a respeito do marido e o quanto ele podia ser malicioso (LISPECTOR, 1998, p. 41), a protagonista imagina, “Carlota ficaria espantada se soubesse que eles [Laura e o esposo] também tinham vida íntima e coisas a não contar” (p. 41). A ponte entre o ser Laura e o querer ser Carlota é, assim, o poço no qual se encontra Laura.
De certa forma, este embate no qual se encontra a personagem ressoa as questões dos papéis de mulher. Laura, ao desejar e, ao mesmo tempo, refutar o jeito de ser da amiga, coloca em xeque a questão de que talvez seja impossível a coexistência das duas em uma só. Logo, uma mulher que serve aos ideais do patriarcado de esposa e mãe, por exemplo, não pode ser realizada sexualmente, ou, ao menos, não pode falar sobre estes assuntos que são tabu. Em alguma medida, portanto, dialoga com o apresentado por Susana Pravaz em Três estilos de mulher: a doméstica, a sensual, a combativa de que “desde as origens da estrutura social em que vivemos existiram mulheres-para-fazer-filhos, mulheres-para-fazer-amor, mulheres-para-lutar, enclausuradas em categorias que as especializam com as vantagens e desvantagens consequentes” (1981, p. 19). Laura reproduz os ecos das inscrições de controle do discurso hegemônico através da clausura que ela se impõe.
Em via oposta, porém, no texto de Valenzuela é possível capturarmos uma convivência aparentemente harmônica entre os diversos papéis estipulados à mulher. Em decorrência da maneira como o texto é estruturado, sugere-se que Laura tem acesso aberto à própria sexualidade, desprovida de tabus. Ao mesmo tempo também é a esposa que aparece na foto com ar conjugal, ou seja, leva em seu escopo a inscrição de dois papéis que parecem ser contrastantes. Em nosso ponto de vista, todavia, a tessitura narrativa apresenta, já desde o princípio, algumas pistas que sugerem os motivos pelos quais é possível o flagrante de certa estabilidade, ainda que seja falsa. Uma vez que temos, “[n]o le asombra para nada el hecho de estar sin memoria, de sentirse totalmente desnuda de recuerdos” (VALENZUELA, 1982, p. 113), como a frase que abre o conto, lemos como hipótese que um dos caminhos possíveis para a convivência entre as atividades contrastantes que podem constituir o sujeito feminino é, justamente, o desnudar-se de recordações. Entendendo-se por recordações, sobretudo, as inscrições corporais feitas ao longo do desenvolvimento histórico. Prova-se, com isso, que é necessário o esquecimento dos discursos anteriores e a aprendizagem de novos discursos, jamais vistos como próximos, posto que eram automaticamente colocados em sentidos opostos. Ainda que não seja uma proposta embasada em completo sucesso, haja vista que Laura consegue transitar harmonicamente pelos dois papéis contrários em decorrência de não ter memória, é possível afirmar que “Cambio de armas,” em alguma medida, apresenta uma sugestão para a cura da ansiedade de Laura em “A imitação da rosa”.
Além dos diálogos que apresentamos aqui entre os textos analisados, acreditamos que há ainda um ponto de contato entre eles que é o mais perene. Trata-se da presença da planta/rosas nos contos. Em “Cambio de armas” a planta surge como uma espécie de recuperação do desejo. Laura, que já não desejava, na sua nebulosa constante, quer algo. A planta se torna, como apresentado por Kaplan “el único objeto que Laura pide, funciona como uma metáfora para Laura” (2007, p. 69). Assim, o ser inanimado é uma extensão física de Laura e denota o seu próprio movimento de “flor amarilla, tiesa, muy bella, que se fue marchitando por suerte, como corresponde a una flor por más tiesa y más bella que sea,” (VALENZUELA, 1982, p. 120) revelando a condição de efemeridade da vida e a força que o ambiente exerce sobre ela. Também captamos a questão de que, uma vez tomada como metáfora de Laura, quando ela se conscientiza da quase artificialidade da planta, “la planta parecía artificial pero estaba viva y crecía y la flor iba muriéndose y esto también era la vida, sobre todo eso, la vida: una agonía desde el principio con algo de esplendor y bastante tristeza” (VALENZUELA, 1982, p. 121-2) parece demonstrar que está ciente, por extensão, da sua própria artificialidade. A vida de Laura, ainda que seja uma espécie de subvida – não tem memória, não reconhece o ambiente, sente-se estrangeira – ainda é algum tipo de vida.
Laura, de “A imitação da rosa,” também mantém uma relação aproximada com as rosas. Como Kaplan menciona a respeito de “Cambio de armas,” as rosas no conto de Lispector também são, em alguma medida, uma metáfora de Laura. Ao menos, na forma de perfeição que ela gostaria de alcançar sem, contudo, fazê-lo. Além disso, Laura, ao mesmo tempo em que observa a beleza, “[e]ram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo,” (LISPECTOR, 1998, p. 43) tem ciência de que a perfeição, em alguma medida, não é um aspecto completo da natureza, afinal, “[e]ram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais! Disse em surpresa” (LISPECTOR, 1998, p. 43). Ser perfeito, portanto, parece apontar a desconfiança de ser artificial, o natural é, assim, imperfeito e não pode conter em si tamanha beleza.
Este embate entre o ser e o não ser, tão perene em todo o conto, alcança o nível mais alto enquanto Laura observa as flores e decide dá-las à amiga Carlota. Esta decisão, porém, resulta em um novo contraste, afinal, por que dá-las a alguém quando eram tão lindas, únicas e somente dela? As rosas, assim, funcionam como o motivo detonador, a claridade dentro das certezas que havia em torno de Laura, a delicada membrana da sanidade, diante de tamanha perfeição e a constatação da impossibilidade de alcançá-la sugam Laura para o outro lado, ou seja, ela adentra a nuvem, alcança a sua paz na loucura, num “trem. Que já partira” (LISPECTOR, 1998, p. 53). A chegada do marido, ao final do conto, atesta a distância de Laura. Ela ainda tem tempo de dizer para ele que “[v]oltou, Armando. Voltou,” (LISPECTOR, 1998, p. 52) mas não se trata da volta dela, senão da volta do estado de nuvem, seu poço interior havia, novamente, engolindo-a. Lá estava “ela sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável” (LISPECTOR, 1998, p. 53). O silêncio entre ambos, quando o marido se aproxima, sugere a ideia da linguagem penetrando um território que está além daquele do presente. Em alguma medida, em sua mudez, “[e]nvelhecido, cansado, curioso,” (LISPECTOR, 1998, p. 53) Armando compreende a partida de Laura. Com isso, vemos que embora exista o esforço dos ecos da perfeição – calcados no discurso do patriarcado – eles são impedidos de exercer quaisquer forças sob Laura, pois ela partiu. Invadiu um espaço especial que é, para esses ecos, inalcançável.
Com relação a “Cambio de armas” vemos que a planta conscientiza Laura da sua condição, mas não é a responsável pelo momento de iluminação da protagonista. A epifania, pelo contrário, ocorre com a destruição da linguagem dela quando ela vê el rebenque. Assim, tanto quanto as rosas, em “A imitação da rosa,” são um motivo detonador da fina membrana de uma verdade inventada e frágil, em “Cambio de armas” a imagem de el rebenque faz esse papel. Aliás, a narrativa menciona que el rebenque é como “un detonante,” (VALENZUELA, 1982, p. 133) que, de certa forma, torna-a mais alerta da sua própria condição, observando o fato que Uno y Dos estão sempre à porta, por exemplo. Logo, embora na dor extrema, “en un rincón como animal herido,” (VALENZUELA, 1982, p. 131) Laura passa por um momento de iluminação que faz com que ela comece a conectar elementos nomináveis com a experiência incompreensível da qual ela não tem memória.
Aproximando-nos do fim desse diálogo entre as narrativas que nós nos dispusemos a analisar, acreditamos que foi possível observar muitos momentos nos quais os textos, embora tão distantes no tempo e no espaço, reconhecem-se e trabalham, de alguma forma, com as mesmas temáticas, sobretudo com o exercício da violência agenciada pelo poder. As marcas do poder aparecem em suas diversas formas: tanto nos ecos de um discurso historicamente construído sobre os papéis de mulher e a necessidade de ser perfeita para que se possa atuar no teatro do patriarcado quanto como ato de erotismo deslocado, transformando o sexo em uma arma que inscreve no corpo do outro a violência. Dessa forma, ainda que os textos apresentem a noção de cárcere através do aprisionamento das protagonistas a um sistema fechado, cujas saídas aparentemente não existem, sugerem, também, que mesmo diante de uma impossibilidade física é possível criar um universo paralelo que não só serve de refúgio como também significa libertação. Esta libertação dá-se por meio dos recursos da própria linguagem desenvolvida pelas autoras para denunciar a violência silenciosa experienciada por suas protagonistas, como através da atuação das personagens no corpo do texto que não permitem um desfecho catártico para as narrativas. As duas Lauras, assim, evadem-se do espaço que as aprisiona, seja por meio da sugestão e ambiguidade na cena final de “Cambio de armas”, seja pela entrada “na nuvem” em “A imitação da rosa”.
 
 
Referências Bibliográficas
 
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NOTAS AO TEXTO
 
[1] Ver Vigiar e punir: história da violência nas prisões (1987).
[2] Através da análise proposta por Betina Kaplan em seu livro, Género y violencia en la narrativa del Cono Sur (1954-2003) é possível notar a existência deste espaço de limbo como uma sugestão a um espaço dedicado exclusivamente à resistência aos aparatos do poder. Veja-se, por exemplo, dentre as obras que a autora analisa, o caso de Los vigilantes de Diamela Eltit (1994).
[3] Quando tratamos de performance estamos nos voltando às observações de Judith Butler em Gender Trouble ao discutir a construção dos paradigmas que modulam a identidade feminina. Para a autora,  “acts, gestures, and desire produce the effect of an internal core or substance, but produce this on the surface of the body, through the play of signifying absences that suggest, but never reveal, the organizing principle of identity as a cause.  Such acts, gestures, enactments, generally construed, are performative in the sense that the essence or identity that they otherwise purport to express are fabrications manufactured and sustained through corporeal signs and other discursive means. (…) This also suggests that if that reality is fabricated as an interior essence, that very interiority is an effect and function of a decidedly public and social discourse, the public regulation of fantasy through the surface politics of the body, the gender border control that differentiates inner from outer, and so institutes the “integrity” of the subject (BUTLER, 2008, p. 185-186, grifos do original). Laura, portanto, reproduz o que pensa ser seu desejo, mas é o eco da construção do discurso do patriarcado em seu corpo. Nesta medida, estar no limbo é, também, evadir-se dessa estrutura.
[4] Lembramos ainda que a cor marrom é mencionada muitas outras vezes no texto de Lispector, “o vestido marrom combinava com seus olhos e a golinha de renda creme dava-lhe alguma coisa de infantil, como um menino antigo” (1998, p. 40) e “e ela castanha. Ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser” (1998, p. 41). Além disso, logo depois de comentar sobre as paredes em tom pastel, também se menciona o marrom no texto de Valenzuela, “[t]onos más indefinidos, seguramente, colores solapados como el color del sexo de él, casi marrón de tan oscuro” (VALENZUELA, 1982, p. 119). Parece-nos que a recorrência da cor sustenta uma atmosfera de mesmice, repetição, marcada pelo tédio. Além disso, trazendo as observações de Chevalier e Gheerbrant de que o castanho “faz lembrar também a folha morta, o outono, a tristeza. É uma degradação, uma espécie de casamento rebaixador das coisas puras,” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2007, p. 198) podemos compreender o marrom como uma extensão das próprias personagens. Conforme exploramos mais tarde em nosso trabalho, tanto em “Cambio de armas” com a presença da planta, quanto em “A imitação da rosa” com a presença das flores, acontece uma fusão entre as protagonistas e esse ser que, embora inanimado, é repleto de vida.
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

AS HISTÓRIAS HÍBRIDAS EM MALINCHE: UMA VIAGEM AO PASSADO – Fernanda Aparecida Ribeiro, Kátia Rodrigues Mello Miranda




Fernanda Aparecida Ribeiro

Universidade Federal de Alfenas

 

Kátia Rodrigues Mello Miranda

Universidade Estadual Paulista

 
 
RESUMO: Um dos propósitos do romance histórico atual latino-americano é a releitura crítica do fato histórico com o motivo de preservar ou recuperar a(s) identidade(s) de América, por meio da problematização da reinterpretação de seu passado. O romance Malinche (2005), da escritora mexicana Laura Esquivel (1950-), considera tanto a história da mulher na expedição dos espanhóis em terras mexicanas como a função de problematizar as relações de literatura e história por meio da voz feminina, convertendo-se no que Magdalena Perkowska (2008, p. 42) nomeia de “histórias híbridas”: outras possibilidades, outros discursos a partir da releitura crítica dos relatos de viagem da Conquista.
 
PALAVRAS-CHAVE: Literatura e História – Literatura e Mulher – Laura Esquivel – Malinche.
 
RESÚMEN: Uno de los propósitos de la novela histórica actual latinoamericana es la relectura crítica del hecho histórico con el motivo de preservar o recuperar la(s) identidad(es) de América, por medio de la problematización de la reinterpretación de su pasado. La novela Malinche (2005), de la escritora mexicana Laura Esquivel (1950-), considera tanto la historia de la mujer en la expedición de los españoles en tierras mexicanas como la función de problematizar las relaciones de literatura e historia por medio de la voz femenina, convirtiéndose en lo que Magdalena Perkowska (2008, p. 42) llama de “historias híbridas”: otras posibilidades, otros discursos a partir de la relectura crítica de los relatos de viaje de la Conquista.
 
PALABRAS-LLAVE: Literatura e Historia – Literatura y Mujer – Laura Esquivel – Malinche.
 
Minicurrículo: Fernanda Aparecida Ribeiro é professora adjunta na Universidade Federal de Alfenas, no conjunto das disciplinas de literatura hispano-americana. Doutorou-se em Letras na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e tem experiência na área de Literatura, com ênfase em literatura latino-americana, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura latino-americana, romance histórico contemporâneo e literatura escrita por mulher.
 
Minicurrículo: Kátia Rodrigues Mello Miranda é professora assistente doutora da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), no conjunto das disciplinas de língua espanhola. Tem experiência na área de Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de professores de língua, ensino e aprendizagem de língua estrangeira (espanhol) e literatura no ensino de espanhol como língua estrangeira.
 
 


As histórias híbridas em Malinche:
uma  viagem  ao  passado
 
Fernanda Aparecida Ribeiro
Universidade Federal de Alfenas
 
Kátia Rodrigues Mello Miranda
Universidade Estadual Paulista
 
Publicado em 2005, Malinche é o último romance da escritora mexicana Laura Esquivel (1950-). Trata-se de uma narrativa ficcional de tema histórico; uma viagem ao passado por meio da literatura, em que se sobressaem a reinvenção das crônicas de conquista e colonização, resgatando as aventuras de Hernán Cortés na viagem à América, e posterior Conquista do México, e a atuação da indígena Malinche, considerada como a “culpada” pela vitória dos espanhóis frente aos indígenas.
Na América em meados do século XX, quando a problematização da reinterpretação do passado latino-americano leva os escritores do continente a procurarem recursos literários que traduzam a memória e a visão de história que possuem, que é muito distinta da visão otimista e positivista da Europa do século XIX – quando nasceu o romance histórico, segundo Lukács (1977) –  encontram-se várias singularidades, como a intertextualidade, a ficcionalização dos personagens históricos e a releitura crítica – e algumas vezes conflitiva – da história, com o objetivo de proporcionar uma nova perspectiva da interpretação do passado.
Muitos são os estudos sobre a relação da literatura e história na América Latina, de modo especial na segunda metade do século XX; contudo, de todos os aspectos delineados pelos críticos sobre o romance histórico contemporâneo, acredita-se que um dos principais seja aquele que Magdalena Perkowska aponta na introdução de seu livro Historias híbridas (2008, p. 42):
 
(…) los novelistas dibujan un nuevo mapa para el concepto de la historia y su discurso. Vista desde esta perspectiva, la novela histórica latinoamericana no cancela la historia sino que redefine el espacio declarado como “histórico” por la tradición, la convención y el poder, postulando y configurando en su lugar las historias híbridas que tratan de imaginar otros tiempos, otras posibilidades, otras historias y discursos.
 
 
Talvez essa seja a principal finalidade dos autores latino-americanos: a realização de uma leitura atenta, pormenorizada e crítica da história, não com o objetivo de anular seu discurso ou propósito, mas sim de recolocar a história em um espaço em que se permitem outros tempos, várias versões e diversos discursos que contribuem na interpretação do passado.
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, em seu texto “La verdad de las mentiras” (1990, p. 7), faz uma defesa de como a ficção (tida como “fingimento”, “invenção”) colabora para a interpretação do passado: “En efecto, las novelas mienten – no pueden hacer otra cosa – pero esa es solo una parte de la historia. La otra es que, mintiendo, expresan una curiosa verdad, que solo puede expresarse disimulada y encubierta, disfrazada de lo que no es”.
Assim, pode-se notar que os romancistas manuseiam a ficção como uma forma de acercar-se à realidade e de expressar a sua leitura própria, a chamada “curiosa verdade” apontada por Vargas Llosa. Concordando com o escritor peruano, Mercedes Giuffré (2004, p. 23-24) também informa que no romance histórico não há mentira e que a narrativa é simplesmente “una forma de pensar el pasado y de repensar la escritura de la historia. No miente sino que interpreta, e intenta comprender el presente que resulta del pasado, valiéndose de las herramientas que aporta la imaginación”.
Um dos propósitos do romance histórico latino-americano atual é a releitura crítica do passado histórico com o motivo de preservar ou recuperar a(s) identidade(s) da América, por meio da problematização da interpretação do seu passado. André Trouche (2006, p. 44) declarou que esse tipo de literatura provoca o diálogo com a história de forma “transgressora”, pois implica novas visões e versões sobre o discurso instaurado. Nesse contexto, encontramos o romance Malinche, que oferece um novo olhar para a viagem de Cortés à América, resgatando as aventuras da Conquista do México através do olhar da personagem principal, que dá nome ao livro.
Laura Esquivel evidencia o relato da vida da mulher indígena que participou dos acontecimentos históricos como intérprete do conquistador espanhol. Contudo, a visão oferecida pela autora não será a mesma de muitos escritores que tratam Malinche como a traidora de seu povo. Existe, assim, uma ideologia que permeia todo o romance de Esquivel e que pode ser analisada a partir dos princípios básicos da Crítica Feminista, que discute a posição e a representação da mulher nos textos literários escritos tanto por homens como por mulheres e que problematiza as causas da opressão feminina frente ao patriarcado, debatendo o espaço a que a mulher é relegada na sociedade e desconstruindo a oposição homem/mulher.
Conforme sistematiza Lúcia O. Zolin (2005, p. 189), a Crítica Feminista tem sua origem com a publicação de Sexual Politics, de Kate Millet, em 1970, uma obra que “traz à tona discussões acerca da posição secundária ocupada pelas heroínas dos romances de autoria masculina, como também pelas escritoras e críticas literárias”. Em sua tese, Millet parte da discussão de que o patriarcado gera a opressão feminina por meio de um rígido sistema que distingue os papéis sexuais, em que tudo o que se refere ao papel masculino é “universal” e “oficial”, oprimindo o lado feminino. A Crítica tem como um de seus objetivos desmascarar a repressão dos papéis femininos legitimados pela ideologia dominante na sociedade e pela literatura canônica.
Dos três enfoques feministas atuais – o britânico, orientado pelas teorias marxistas; o francês, que se baseia na psicanálise; e o norte-americano, que é essencialmente textual – destaca-se aqui o último, por ter o foco no texto literário. Uma importante representante é Elaine Showalter, que analisa os textos de escritoras inglesas do século XIX, em “A Literature of Their Own” (1986), e propõe uma classificação das fases históricas dessas subculturas literárias escritas por mulheres dos Estados Unidos: feminine, feminist e female.
A primeira, que se pode traduzir por “feminina”, é o momento em que as autoras seguem o padrão e os modelos da tradição da literatura dominante (leia-se: masculina). A segunda, traduzida como “feminista”, é uma fase de protesto, de sublevação frente à condição subordinada da mulher na sociedade e na sua representação na literatura. Já a última fase, muitas vezes traduzida para o português como “da mulher” (em espanhol, “autodescubrimiento”), aponta para uma identidade e autonomia feminina, na qual as mulheres adquirem o conhecimento de si mesmas e dos problemas em questão, e o interesse se volta para os textos escritos por elas mesmas. Essa classificação pode ser válida para literaturas escritas por mulheres de outros países, como Brasil e América Hispânica.
Ao resgatar o passado, principalmente uma figura feminina cuja interpretação histórica tem tanto um lado positivo como um negativo, Esquivel reivindica a possibilidade de mostrar uma versão a partir do olhar da mulher, buscando uma interpretação para as ações da personagem histórica.
Malinche era uma indígena que foi escravizada por algumas tribos, até que foi dada como “presente” a Hernán Cortés. Logo, descobriu-se que ela falava as línguas maia e asteca, e, junto com Aguilar (um europeu náufrago, que aprendeu a língua maia), participou de uma rede de comunicação entre espanhóis e índios, tornando-se a intérprete de Cortés.
O nome da personagem histórica provavelmente era Malinalli ou Malintzin; após o batismo cristão, foi nomeada de doña Marina, mas o nome que a tornou conhecida foi Malinche. No livro de Esquivel, a personagem sempre será nomeada como Malinalli, mas aqui na nossa exposição, a trataremos de Malinche, que é o nome mais conhecido.
O signo de “traidora de seu povo” provém dos discursos nacionalistas do século XIX, em especial do autor Carlos María de Bustamante, que desqualifica Malinche e a culpa por trair seu povo no episódio de Cholula – quando revela a Cortés que os indígenas estariam armando uma cilada para os espanhóis. Assim, segundo esses discursos, Malinche estaria a favor dos conquistadores e seu conhecimento sobre o universo indígena teria sido um fator decisivo para a vitória dos espanhóis. Tais discursos foram frequentes nessa época e eram difundidos nas escolas e livros de história.
Já no século XX, aparecem outros autores, que contestam a versão de Malinche como traidora de seu povo e, principalmente, de que a vitória dos espanhóis tenha se dado por causa da indígena. Nessa esteira, Cristina González Hernández (2002, p. 34) insiste que “el triunfo de los españoles sobre la hegemonía de Tenochtitlán se debió a la debilidad del propio sistema, a los enfrentamientos internos y a la insumisión de los pueblos tributarios que el mal llamado imperio azteca no había conseguido dominar de manera efectiva.”
Muito já se discutiu sobre o descobrimento da América que, segundo González Hernández (2002, p. 25-26), que afirma que “se encuadra en una perspectiva renacentista, marcada por la curiosidad y el afán de dar cuenta, de narrar los acontecimientos y las novedades, que busca nuevos espacios y configura otra imago mundi”.
González Hernández (2002, p. 25-26) ressalta, ainda, que a sociedade espanhola se destacava por “la religiosidad, el espíritu de aventura y la mentalidad nobiliaria, características impregnadas de medievalismo que quedarán reflejadas en la Conquista de México”. Tais características podem ser observadas em Cortés, que, em suas Cartas de Relación (1519), deixa explícito o espírito de Santa Cruzada, comparando os índios aos mouros.
O romance de Esquivel toma tanto a história de Cortés como a de Malinche com o objetivo de problematizar as relações de literatura e história por meio da voz feminina, convertendo-as em “histórias híbridas”, conforme a nomenclatura de Magdalena Perkowska (2008, p. 42). Para obter esse resultado, Esquivel utiliza Malinche como foco narrativo eixo da narração, apresentando ao leitor um romance de formação, segundo a terminologia de K. Morgenstern, comentada por Carlos Ceia. [Conferir o verbete de Bildungsroman no e-dicionário de Termos Literários]: “Ao centrar o processo de desenvolvimento interior do protagonista no confronto com acontecimentos que lhe são exteriores, ao tematizar o conflito entre o eu e o mundo, o Bildungsroman dá voz ao individualismo, ao primado da subjectividade e da vida privada.”
Assim, a história de Malinche inicia com o nascimento da protagonista – descrito com muitos símbolos, especialmente o da água, como sinal de vida –, retrata sua infância ao lado da avó, que deixou os principais ensinamentos para sua vida, relata sua experiência com os espanhóis ao longo de todo o percurso da Conquista, e, por fim, narra os últimos anos de sua vida. É possível traçar a transformação da personagem no decorrer da narração e perceber que o romance tenta representar a visão da mulher sobre a Conquista do México, e, principalmente, o romance se apresenta como uma versão do que Malinche poderia ter pensado/falado, já que não há registro histórico do que a personagem histórica pensava/acreditava sobre os espanhóis e a Conquista.
Por se tratar de uma narrativa escrita por uma escritora feminista, a representação da protagonista terá características específicas, como a demonstração de uma consciência nítida sobre sua condição de mulher dentro da sociedade, bem como a intenção de modificar a situação opressora em que vive. Como os pensamentos e sentimentos de Malinalli são o cerne do enredo, o romance propõe, através desse recurso, um questionamento do mito de traidora de sua pátria. Assim, por meio da ficção, o narrador oferece uma versão da vida de Malinalli que não está contemplada na história oficial:
 
Malinalli estaba en total desacuerdo con la manera en que ellos [los indígenas] gobernaban, se oponía a un sistema que determinaba lo que una mujer valía, lo que los dioses querían y la cantidad de sangre que reclamaban para subsistir. Estaba convencida de que urgía un cambio social, político y espiritual. (ESQUIVEL, 2006, p. 24).
 
Tendo em vista essas reflexões, acreditamos que a intenção do romance Malinche não é simplesmente recontar a versão dos cronistas ou reafirmar o mito de traidora de sua pátria, conforme os discursos nacionalistas do século XIX. Ao contrário, a narrativa tem como finalidade apresentar uma interpretação diferente para a história da personagem, desconstruindo os discursos apresentados ao longo dos séculos.
Para lograr tal objetivo, o narrador apresenta as convicções de sua personagem sobre os espanhóis e o seu desejo de liberdade: “A Malinalli le urgía tanto el regreso del señor Quetzalcóatl – principal opositor de los sacrificios humanos – que hasta estaba dispuesta a creer que su dios tutelar había elegido el cuerpo de los recién llegados a estas tierras para que ellos le dieran forma a su espíritu” (ESQUIVEL, 2006, p. 24).
Para superar a dupla opressão sofrida (de ser mulher e de ser escrava), Malinalli começa a acreditar que os espanhóis são os (enviados dos) deuses que o povo indígena esperava. Se ela estivesse certa, como queria, eles trariam a libertação para o seu povo. Assim, a narrativa começa a justificar a atitude de Malinalli em ser a informante dos espanhóis, pois ela estaria servindo aos deuses e nada lhes podia negar nem ocultar.
A narrativa descreve que Malinalli, durante o convívio com os espanhóis, vai adquirindo a consciência de que eles não são os (enviados dos) deuses que ela e seu povo tanto aguardavam, mas preferiu calar, conforme o trecho a seguir, quando soube dos temores de Moctezuma (o imperador dos astecas) sobre o fim de seu império:
 
Malinalli podía impedir que esto sucediera, podía proclamar que los españoles no eran enviados de Quetzalcóatl y en un segundo serían destruidos…, pero ella sería asesinada junto a ellos, y no quería morir como esclava. Tenía muchos deseos de vivir en libertad, de dejar de pasar de mano en mano, de llevar una vida errante. (ESQUIVEL, 2006, p. 74).
 
Assim, a protagonista realiza uma viagem de formação, em conflito consigo mesma e com o contexto em que está inserida, intervindo consciente e ativamente no encontro de dois mundos distintos, contundindo-se a cada instante com os acontecimentos, mas descobrindo-se cada vez mais como mulher, como participante de um momento único da história de seu povo. Atinge o discernimento a cada sofrimento que passa, fortalecendo suas ideias próprias e, principalmente, buscando a sua identidade em meio a vários grupos sociais dominados pelo homem. Assim como no romance de formação, “o seu encontro consigo mesmo significa também uma compreensão mais ampla do mundo”.
O romance de Laura Esquivel compreende várias viagens em uma única história: a viagem ao passado, resgatando os acontecimentos históricos da Conquista do México; a viagem dos espanhóis e de Malinche pelo território mexicano e, principalmente, a viagem de formação da protagonista, que se destaca na narrativa por ser uma pessoa de palavras e atitudes – diferentemente do que ocorreu nos registros históricos, quando a mulher teve sua voz silenciada. O que prevalece na narrativa é o intuito de reaver a memória de um povo através da recriação do passado histórico, convertendo-se em outras possiblidades, outros discursos a partir da releitura crítica dos relatos de viagem da Conquista.
 
­­­­­­_______________
*Esse texto foi apresentado em forma de comunicação oral no Encontro Internacional Viaxeiros: do Antigo ao Novo mundo, nos dias 3 a 13 de junho de 2015, em Santiago de Compostela.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
CARLOS CEIA: s.v. Bildungsroman. e-Dicionário de Termos Literários (EDTL). Coord. de Carlos Ceia. Retirado de <http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_
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Bio fornecida pelo palestrante.

RUTH GUIMARÃES – UMA VOZ DE MUITAS VOZES – Severino Antônio




Severino Antônio

Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL

 
 
Resumo: Este artigo traz algumas considerações sobre a obra e a vida de Ruth Guimarães (1920-2014), em diálogo com diferentes autores, dentre os quais Antonio Candido e José Paulo Paes, que ressaltam a relevância da autora, primeira escritora negra de reconhecimento significativo na literatura regionalista do modernismo brasileiro, tanto em sua ficção – romance, contos, crônicas e histórias infantis – como em seus estudos de cultura popular e folclore. O artigo reitera também a importância das histórias para a formação de leitores, para a educação da sensibilidade e da imaginação.
 
Palavras-chave: Ruth Guimarães – literatura – regionalismo – cultura popular.
 
Abstract: This article discusses the work and life of Ruth Guimarães (1920-2014), in dialogue with different authors, among which Antonio Candido and José Paulo Paes. These highlight the relevance of the author, the first of all black writer to achieve with significant recognition in regionalist literature of Brazilian modernism, both in his fiction – novel, short stories, chronicles and children’s stories – as in his study of popular culture and folklore. This article also reaffirms the importance of reading stories in the formation of readers and for the education of their sensitivity and imagination.
 
Keywords: Ruth Guimarães; literature; regionalism; popular culture.
 
Minicurrículo: Professor do Mestrado em Educação Sociocomunitária na Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL-SP). Doutor em Educação pela UNICAMP, é Conselheiro do Instituto ALANA. Há  quarenta anos trabalha com ensino de Redação e Leitura, Literatura, Filosofia, e também com formação de professores. Escreveu vários livros, dentre eles: Constelações – uma escuta poética da infância (Adonis, 2014); Poetizar o pedagógico (Biscalchin, 2014); Uma pedagogia poética para as crianças – com Katia Tavares (Adonis, 2013); Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento (Paulus, 2009); O visível e o invisível (Verus, 2008).
 
 


 
RUTH GUIMARÃES UMA VOZ DE MUITAS VOZES
 
 
 
Severino Antônio
 
Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL
 
 
 
 
 
Introdução
De modo constelar, este artigo faz considerações sobre algumas dimensões da obra de Ruth Guimarães, a partir de diálogos com alguns de seus textos e com autores que escreveram sobre o seu trabalho literário e cultural, de muitas vozes, e sobre sua dimensão humana.
Por que escrever sobre Ruth Guimarães, sua obra, sua vida?
Mais de duzentos milhões de habitantes. Mais de sete milhões de universitários matriculados no Ensino Superior. Tiragem média de um livro de literatura brasileira: os que conseguem ser publicados, em sua imensa maioria, têm edição de mil a dois mil exemplares.
Um breve andar pelas livrarias ou um olhar de sobrevoo às listas dos livros mais vendidos já evidenciam o domínio da lógica da última novidade do mercado de best sellers, geralmente lançados em todo o mundo, de modo semelhante à maquinaria da industria do cinema comercial.
A extensão dessa miséria amplia-se pela permanente crise de leitura, dentro e fora das escolas. Ao término do Ensino Fundamental, e mesmo do Ensino Médio, quantos são os alunos capazes de ler compreensivamente um texto lógico expositivo um pouco mais elaborado, com raciocínio mais complexo? E a leitura das entrelinhas e das palavras criadoras de sentido, e de mais sentidos, do texto literário?
Exatamente por isso, é imprescindível o trabalho de formação de leitores, que não se separa da formação de professores – que leiam e que chamem seus alunos a ler, que despertem o desejo e o gosto pela leitura. Para esse despertar, as histórias são fundamentais, pelos seus poderes de empatia, de identificação dos leitores com os personagens e os enredos, assim como pela capacidade de desenvolver curiosidade e imaginação, que ampliam as margens da vida. A convivência com a literatura revela-se, assim, experiência de educação da sensibilidade, em ambos os sentidos inscritos etimologicamente na palavra educar: conduzir na vida, na cultura, na sociedade; extrair, despertar e desenvolver, de dentro para fora, potencialidades humanas.
Este artigo reitera também a necessidade da descoberta e redescoberta de autores do patrimônio cultural, tanto brasileiro como da humanidade. Dentre esses autores, é significativo o conhecimento – e o reconhecimento – de vozes pioneiras, como a de Ruth Guimarães, primeira escritora negra a ocupar espaço significativo na literatura modernista, e que traz, tanto em sua ficção como em seus ensaios, as vozes dos deserdados da terra, vozes raramente escutadas.
 
Uma tessitura de vozes
Poucos dias depois da morte de Ruth Guimarães, Antonio Candido escreveu:
 
Com a morte de Ruth Guimarães, a vida cultural do Brasil perde uma de suas grandes damas, o que ela de fato era, no sentido pleno das palavras. À capacidade intelectual e fidelidade à vocação, juntava uma distinção rara, realçada pela serena reserva.
Dois anos mais velho do que ela, e sendo crítico literário do Diário de São Paulo, pude comentar a sua estreia brilhante, com o romance Água funda.
(…)
Nem sempre os escritores são, como pessoa, tão relevantes quanto os seus textos. De Ruth Guimarães pode se dizer que era. A sua integridade, a sua distinção pessoal, o corte sóbrio de sua conduta na República das Letras faziam dela uma personalidade respeitada e encantadora (CANDIDO, 2014, s. p.).
 
 
No dia mesmo da morte da escritora, Noemi Jaffe assim expressou-se, em artigo para o jornal Folha de São Paulo (on line), com a colaboração de Cesar Soto, artigo de que são recolhidos alguns excertos:
 
A escritora Ruth Guimarães morreu às 14h desta quarta (21), aos 93 anos, em Cachoeira Paulista, cidade onde nasceu. (…) Como com Guimarães Rosa, para quem “o sertão é o mundo”, também para ela “ser caipira” era uma condição antes espiritual e ontológica do que exclusivamente regional. (…) foi amiga pessoal de Mário de Andrade e a primeira escritora negra a obter repercussão nacional, em 1946, com o romance Água funda (…).
Assim é que a autora (…) misturava a Grécia a sacis, perfazendo uma literatura cronística, poética e romanesca, sem deixar de ser “contação de causos”, recuperação de nossas raízes negras (…). Ruth Guimarães teve nove filhos, escreveu romances, contos, poesia, palestras sobre educação, política, cultura, fez crítica literária, escreveu para alguns dos jornais mais importantes do país –publicou crônicas semanais para a Folha durante os anos 1960 – e era membro da Academia Paulista de Letras. Mas, para muitos, permanece anônima, principalmente nas grandes cidades. Certamente não no Vale do Paraíba, onde é um nome fundamental. É um caso a se pensar e, mais ainda, a reparar. Ela deixa quatro filhos e quatro netos (JAFFE, 2014).
 
 
Fabio Lucas, confrade da escritora na Academia Paulista de Letras, assim se expressou:
 
 
Ruth Guimarães projetou-se, desde cedo, como personalidade ímpar na literatura brasileira. Pesquisadora do folclore, desvendou organizadamente um dos pilares da formação da nacionalidade, até então ofuscada pelo preconceito. Ficcionista, levou à criação o cerne de nossa origem. Pedagoga, ofertou às crianças os encantos e a massa crítica do mundo maravilhoso (LUCAS, 2014, p. 130).
 
 
Quase sessenta anos antes, em 1956, no lançamento de Grande sertão: veredas, o criador de Riobaldo e Diadorim escreve-lhe como dedicatória:
 
A Ruth Guimarães,
 
parenta minha; e uma das pessoas mais simpáticas que já encontrei na vida; e que escreve como uma Fada escreveria –, com o grato apreço e a amizade do Guimarães Rosa (Rio, 11.VII. 56).
 
 
A questão da linguagem e da literatura regionalista
Uma obra vasta e plurívoca, de mais de quarenta volumes, de diferentes gêneros, com muitas dualidades: ao mesmo tempo regionalista e cosmopolita, feminina e universalista. Uma obra multifacetada, mas com uma concepção unitária de cultura e de literatura, que permanece coesa pela existência inteira.
Uma das mais expressivas dualidades pode ser assim apresentada: de um lado, a romancista de Água Funda, escrito aos vinte e um anos, e publicado em 1946, por Edgard Cavalheiro, autora que se reconhece e reitera sua identidade no pertencimento à literatura regionalista, à cultura caipira do Vale do Paraíba; de outro lado, a tradutora erudita, a latinista que faz uma admirada tradução de O asno de ouro, de Apuleio, estudada em diversas universidades, tradutora também de autores clássicos franceses, como Balzac e Daudet, assim como autora de um dicionário de mitologia grega, adotado em muitas faculdades.
Mesmo no campo específico de sua narrativa, há fecundas polaridades, faces diferentes e complementares, nunca dicotômicas, que propiciam chaves interpretativas que ampliam o diálogo e o reconhecimento da complexidade de sua criação. Uma das chaves é a que reconhece a dualidade de sua linguagem, unidade da diversidade, em oculta harmonia: a contadora de histórias do Vale do Paraíba, em especial de Cachoeira Paulista, traz a linguagem caipira, a fala viva das personagens; traz também, quase sempre na voz dos narradores, uma linguagem de feição clássica da língua portuguesa, que se espelha e inspira em Machado de Assis – não nas digressões, mas na concisão machadiana, autor que é a referência maior no cânone da autora, que leu Dom Casmurro aos nove anos de idade, do começo ao fim, “embalada pela música de suas frases”.
De muitos momentos possíveis, seguem dois, respectivamente representativos dessas duas faces inseparáveis da linguagem de Ruth Guimarães. Primeiramente, a voz das personagens caipiras:
 
Não, Irmã. Ela não está trabalhando. Eu sei. Percebo quando chega. O passo é leve, mal escuto. Entra em todas as peças da casa, sem sossego. Depois vai ficando vagarosa, pesada, parece que dá um passo e pensa, dá mais outro e pensa. E aí chega perto de mim e fala qualquer coisa, ligeiro, por comprazer. Outra hora escuto, longe, no terreiro, ou na sala, a batida de quem dança. Fala comigo sem paciência. Não, Malaquias; já vou Malaquias. Eu já não disse, Malaquias? Correu duas vezes, antonte, foi ficar na porta. Ficou um tempo. Quando voltou, perguntei: Foi enterro? E ela falou com um jeito desacorçoado: Também, Malaquias, a gente aqui nesta lonjura… (…) – peguei um passarinho na arapuca. – A voz do homem estava cansada e distante. – Coração dele ficava batendo na palma da minha mão. Única coisa que ele queria era escapar. Inda ’trodia, Maria se aprontou. Ia pro emprego. Tudo igual a todo dia, mas não sei o que tinha ficado diferente. “Espera um pouco, Maria, quero ver você.” Eu disse. Passei a mão no ombro dela. (…). Então dei um empurrãozinho nela e disse: “Vai que é tarde.” “Vou, sim.” E ficou parada um tempão. A freira esperou. Cego Malaquias também. No fim de uma expectativa um pouco ansiada, ele contou: – passei a mão no cabelo dela. Tinha uma flor (GUIMARÃES, 1996, p. 7 e 8).
 
E a voz do narrador, concisa, substantiva, de frases curtas e coordenadas: “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez” (GUIMARÃES, 1946).
É necessário lembrar sempre que a contadora de histórias, que escreve desde dentro da vida e da linguagem caipira, convive, o tempo inteiro, com a pesquisadora de folclore e de cultura popular, autora de obras como o pioneiro Os filhos do medo, de 1940, só publicado em 1950, lido nos originais por Mario de Andrade, que se torna amigo e uma espécie de mestre permanente da jovem escritora, e como Calidoscópio – a saga de Pedro Malazarte, vasta pesquisa feita por muitos anos, finalmente publicada em 2006, em volume de mais de trezentas páginas.
Em estudo para uma edição especial da obra O mundo cabloco, de Valdomiro Silveira, Ruth Guimarães escreve palavras que poderiam ser ditas sobre a sua condição de escritora e a sua própria literatura regionalista:
 
Refere-se a homens da terra pã-anímicos, sendo a expressão de uma experiência restrita, no campo da civilização, expressão do primitivo, visto de dentro para fora, revelado por si mesmo. (…).
Vamos dizer que logo se pôs um subproblema e era usar a língua na sua integridade gramatical e ortográfica, ou ao contrário empregá-la tal como a emprega o primitivo. Primitivo neste assunto e audacioso para o momento, sumamente perfeccionista no estilo em que vivia e escrevia, Valdomiro Silveira rompeu cânones a usar (pela primeira vez se usava) a linguagem dos mestiços do subtrópico em geral, e a do paulista em particular. Ou o valeparaibano, caipira, ou o santista, caiçara. Em Os Caboclos compareceu a linguagem falada do caipira (GUIMARÃES, 1974, p. xxii).
 
Ruth Guimarães sempre reivindicou sua condição de caipira, seu pertencimento à literatura regionalista caipira, o que é acompanhado de estruturas clássicas de narrativas, tanto na organização do enredo como na apresentação das personagens. Essa identidade é reconhecida por muitos dos seus leitores críticos, como José Paulo Paes. Em resenha publicada no jornal O Estado de São Paulo, a respeito do livro Contos de Cidadezinha, de 1996, ele escreve:
 
Ruth Guimarães continua praticando a narrativa de tipo tradicional. compraz-se em contar histórias com começo meio e fim e (…) a fala acaipirada de seus personagens e a miúda vida interiorana sobre que ela amorosamente se debruça denunciam-lhe logo a filiação a um regionalismo dado como irremediavelmente morto pela crítica de plantão. (…). Em comum com Costa Dantas, tem Ruth Guimarães o mesmo gosto coloquial e a mesma capacidade de descobrir, no dia a dia da gente mais simples, as raízes da humana condição. (…). Seja como for, o importante é a maestria de fatura e o poder de convencimento da arte narrativa de Ruth Guimarães, bem como a variedade de soluções a que recorre para dar interesse aos seus textos (PAES,1996).
 
 
Mais de cinquenta anos antes, quando do lançamento do romance Água funda, o então jovem crítico Antonio Candido resenhou o livro para o jornal Diário de São Paulo. Nela, já reconhece que a jovem autora unia “o português clássico à linguagem da gente humilde”. Ao final da resenha, afirma: “(…) não há dúvida que o seu romance (se for romance) encanta pelo equilíbrio da narrativa e o puro sabor das coisas naturais. Quem começa desta maneira irá, certamente, muito alto na carreira de escritor” (CANDIDO, 1946).
Na edição de 2003 de Água funda, Antonio Candido faz o prefácio da obra, em que assevera:
 
 
Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa afiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. (…). O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico (CANDIDO, 2003, p. 7 e 9).
 
 
 
A imagem de si mesma
 
Ruth Guimarães não se tornou conhecida do grande público, apesar de ter feito inclusive reportagens para revistas de elevada tiragem, como Realidade e como Quatro Rodas, e apesar de ter publicado centenas de crônicas, como no jornal Folha de São Paulo em que, na década de 1960, alternava-se com Cecília Meireles e Carlos Heitor Cony.
Ao ler os textos a respeito de sua obra, uma outra questão emerge: o que a autora fala sobre si mesma, sobre sua condição de mulher, escritora, negra, pesquisadora, com uma vida singular, que raros romances seriam capazes de conceber e imaginar?
A condição de órfã desde cedo, de irmã que cuida dos irmãos; o casamento com o primo, o fotógrafo José Botelho Neto, casamento de mais de cinquenta anos, que nunca separou vida e literatura; a mãe de nove filhos, três dos quais com graves limitações provocadas pela síndrome de Alport; a romancista aos vinte anos; a estudante de letras clássicas, nos tempos da fundação da USP, aluna de Fidelino de Figueiredo e de Roger Bastide, dentre outros; a professora de português, por trinta e cinco anos, em escolas públicas do estado de São Paulo; a professora universitária em muitas faculdades no Vale do Paraíba; a animadora cultural, criadora de museu de folclore, diretora e secretária de Cultura em muitos municípios do Vale; a participação na Academia Paulista de Letras em que, com oitenta e oito anos, assume a cadeira vinte e dois…
Uma vida de muitas vidas. Ruth Guimarães pouco escreve e pouco fala de si mesma. Em uma das raras vezes em que se expressa diretamente sobre sua condição de mulher negra e escritora, em 1982, em entrevista a Heloneida Studart, para a revista Manchete, afirma: “Não é fácil ser mulata. (…). Esse louvor gratuito à mulata é coisa do Rio, de Copacabana, divertimento de intelectuais. A realidade é outra. Em qualquer ponto do país, a mulata é vítima do sistema duas vezes: como mulher e como negra” (GUIMARÃES, 2014, p. 49).
Em 2008, é eleita para a Academia Paulista de Letras. No discurso de posse, em 18 de setembro, faz breve menção a si mesma, a sua história vivida: “Eu não tinha ainda dezoito anos e vim para São Paulo, para abrir caminho na vida. E isto me palpitava obscuramente escrever. Sozinha. Arranjei trabalho modesto de datilógrafa correspondente, do outro lado do Arouche” (GUIMARÂES, 2014, p. 125).
Há uma passagem muito significativa que revela a imagem da autora sobre si mesma, sobre sua condição de mulher e de escritora, sobre sua concepção de literatura, sobre o seu processo de criação: trata-se do texto de abertura da obra Contos de cidadezinha. Um prefácio, chamado Duas palavras, um texto síntese de sua visão. Neste prefácio, enuncia algumas indagações fundamentais:
 
Escrevo para quê, afinal?
Indago de mim mesma e encontro inúmeras respostas, possivelmente nenhuma correta: Para obter honra e glória? Para poder dizer tudo o que penso? Para me aproximar do meu semelhante? Para tentar derrubar o muro que separa um ser de outro ser? Para apreender o sortilégio da vida, que de outro modo não alcanço? Para justificar essa minha existência? Para deixar impresso no mundo o traço da minha passagem? (GUIMARÃES, 2006, p. 3 e 4).
 
 
Responde a essas questões com uma prosa poética:
 
 
Ah! Eu conto histórias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim. Quem me dera escrevesse com suficiente profundeza, mas claramente e simplesmente, para ser entendida pelos simples e ser o porta-voz dos seus anseios (GUIMARÃES, 2006, p. 4).
 
 
Imagens expressivas da autora sobre si mesma poderiam ser encontradas em seus poemas. Mas eles ficaram praticamente inéditos. Alguns foram reunidos em um número especial da revista Ângulo, de homenagem póstuma à autora. Os poemas são um outro continente, uma espécie de face oculta da criação literária de Ruth Guimarães. Não pertence à linhagem regionalista. São textos de temática existencial. Revelam-se como uma voz feminina, em enfrentamentos que não cessam – com dilemas, determinações e finitudes – em um mundo também assinalado de anunciações, mas sem transcendência. Escreve ela:
 
Itinerário
 
Pelos corredores do tempo/eu fui, / como se soubesse o caminho./Como se distinguisse o caminho./ Como se houvesse um caminho./E, sem saber de mim,/ continuadamente/ retorno ao ponto de partida (GUIMARÃES, 2014, p.100).
 
 
O texto a seguir, poema em prosa de que foi retirado um fragmento, traz um campo de imagens marítimas, imagística estranha ao mundo das personagens das pequenas cidades e das montanhas de passagem para Minas Gerais, espaço geográfico e existencial das suas narrativas:
 
Um dia eu serei marinheira no mundo, quando não sei, por que não sei. Há barcos de muito jeito. E se não for de outro modo, vou no barco do esquecimento, marinheira no mundo, nesse mesmo eu vou. Talvez entre algas, talvez entre luas e plumas. Os peixes passarão diante dos meus olhos abertos. E oceanos de silêncio se erguerão de todos os lados intransponíveis. Estarei viajando para onde ninguém me alcança, marinheira no mundo (GUIMARÂES, 2014, p. 24).
 
 
Retornando à questão do seu pertencimento à cultura caipira e à necessidade de trazer a voz genuína das personagens, Ruth Guimarães sempre discorda do processo de invenção de palavras na literatura. Para a autora, a palavra é criação comunitária e social. Se inventada, torna-se artificial, sem vida. O ficcionista precisa de enraizamento, não somente na linguagem, mas na existência.
Aos noventa e três anos, em entrevista para o jornal da União Brasileira de Escritores (UBE), assim discorre:
 
A minha literatura é regionalista, porque eu sou caipira. O escritor regionalista tem que ser uma pessoa do povo, que vive o que o povo vive, e que tenha burilado sua linguagem a ponto de ser capaz de transmitir com fidelidade e apuro linguístico a maneira de pensar e de viver do homem do povo. Eu sou caipira. Eu vivi a cultura da cidade pequena, e contei uma história( no romance Água funda, de 1946) que respeita o pensamento e a linguagem caipira. E não só isso, mas respeitando a maneira do caipira de contar uma história, a sua maneira de pôr a linguagem (GUIMARÂES, 2013, p. 14).
 
 
Sobre a necessidade de convivência com histórias e personagens mitopoéticas do folclore e da cultura popular, Ruth Guimarães sempre reiterou energicamente a implicação pedagógica da literatura, como forma genuína e insubstituível de educação, tanto no sentido do acesso ao patrimônio cultural, como no sentido do enriquecimento da sensibilidade e da imaginação. Já no prefácio ao seu primeiro livro infantil, o Lendas e fábulas do Brasil, de 1972, escreveu:
 
Os contos de encantamento obram, pois, outras maravilhas: sonhos do homem acordado, são também o aflorar do subconsciente, esse laboratório de alquimia da alma, onde cada um resolve os mistérios da sua própria vida. O viver continua encantado e miraculoso. E enigmático. E desconhecido. Contando às crianças os contos encantados, nós as ajudaremos a solver os seus mistérios, sem choques e sem ansiedades.
Ouvindo essas estórias de contar à noite, as crianças dormirão no embalo dos cavalos alados, dos prinspos e prinspas, do papagaio que virou gente, de madrinhas que transformam abóbora em carruagem. Trata-se de restos de ilusões do homem que, nesta era tecnológica e maquinal, no seu sentido mais terrível, maquinático e maquinâmico, perdeu a fantasia e a capacidade de criar novos desejos. (…). Dá pena saber que há crianças que nunca ouviram casos narrados assim (GUIMARÃES, 1972, p. 2 e 3).
 
 
Nas duas últimas décadas de sua longa vida, pensava um romance, sempre por escrever, sempre inacabado – O livro da bruxa, que poderia ser interpretado como uma metáfora, como um símbolo da sua condição, ela que afetuosamente era chamada de bruxa por muitos de seus amigos, inclusive por seu conhecimento de plantas medicinais.
Décadas depois da publicação de Lendas e fábulas do Brasil, retoma a publicação de contos de base folclórica Histórias de onça; Histórias de jabuti – que mesclam pesquisa e criação, para leitores de todas as idades. Sobre essas histórias, que comporiam um conjunto de nove livros, afirma:
 
Que continuemos, pois, a contar, ler e narrar contos folclóricos universais, pois que pertencem indestrutivelmente também a uma universalidade do ser. Mas que conheçamos as histórias brasileiras, que nos integrarão à nossa cultura, ao nosso pensar, agir, sentir e fazer de brasileiros. Elas constituem lições profundas, verdadeiras e indispensáveis de brasilidade (GUIMARÂES, 2008, p. 5).
 
 
Na época de seus noventa anos, organizava uma outra pesquisa: conversas, com pessoas mais velhas de Cachoeira Paulista e de outras cidades do Vale do Paraíba, sobre a memória das histórias que ouviam e que liam quando crianças.
Uma dificuldade física tornava-se dramática. Ruth Guimarães sempre escreveu os seus textos diretamente em uma antiga máquina de escrever. Com o tremor das mãos, a dificuldade de datilografar era cada vez maior. Muitas vezes ela se recusava a gravar ou a ditar os textos. Reiteradamente explicava que suas mãos é que pensavam, elas é que criavam os textos.
 
Considerações finais
Mesmo aqueles que não se identifiquem com a literatura regionalista e com a concepção de linguagem e de cultura de Ruth Guimarães, também eles podem reconhecer a fecundidade de sua leitura, da escuta de suas múltiplas vozes, como uma experiência literária, cultural e humana.
A voz da jovem negra, que cria os irmãos. A voz da mãe de nove filhos. A voz da contadora de histórias – em romance, contos, crônicas, que trazem as vozes de homens e mulheres raramente escutados. A voz da tradutora de clássicos do latim e do francês. A voz da pesquisadora de folclore e cultura popular. A voz da professora de português e literatura. A voz da animadora cultural. A voz da discípula de Mario de Andrade, parenta de Guimarães Rosa,  amiga de Antonio Candido.
Uma voz de muitas vozes, para quem se pode dizer o que Manuel Bandeira escreveu a Mario de Andrade: sua vida continua na vida que você viveu.
 
Referências Bibliográficas
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CANDIDO, Antonio (1946). Notas de crítica literária: Água funda, jornal Diário de São Paulo, 18 set. 1946.
GUIMARÃES, Ruth (1946). Água funda. Rio de Janeiro: Globo.
GUIMARÃES, Ruth (1950). Filhos do medo. Rio de Janeiro, Globo.
GUIMARÃES, Ruth (1972). Lendas e fábulas do Brasil. São Paulo: Cultrix.
GUIMARÃES, Ruth (1972). Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix.
GUIMARÃES, Ruth (1974). O mundo caboclo de Valdomiro Silveira, Rio de Janeiro:                              Livraria José Olympio Editora/Secretaria de Cultura, Estado de São Paulo/Instituto Nacional do Livro/MEC.
GUIMARÃES, Ruth (1996). Contos de cidadezinha, Lorena, SP: Centro Cultural Teresa D’Ávila.
GUIMARÃES, Ruth (2003). Água funda. Prefácio de Antonio Candido. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
GUIMARÃES, Ruth (2006). Calidoscópio a saga de Pedro Malazarte. São José dos                                                  Campos, SP: JAC Editora.
GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de onça. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.                                                   
GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de jabuti. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.
GUIMARÃES, Ruth (2014). Não é fácil ser mulata – entrevista para revista Manchete, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.
GUIMARÃES, Ruth (2014). Discurso de posse na Academia Paulista de Letras, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.
GUIMARÃES, Ruth (2013). Leitura e brasilidade – entrevista para o jornal O Escritor, da UBE (União Brasileira de Escritores), nº 13, abril 2013.
GUIMARÃES, Ruth (2014). Poemas, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.
JAFFE, Noemi (2014). Morre Ruth Guimarães, da Academia Paulista de Letras, aos 93 anos, in Folha de São Paulo, 21/05, Folha on line.
LUCAS, Fábio (2014). Depoimento sobre Ruth Guimarães in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.
PAES, José Paulo (1996). Uma contista do interior revive sua fala, in Caderno Especial, jornal O Estado de São Paulo, 15 set. 1996.





Bio fornecida pelo palestrante.

O FEMININO OSCILANTE NAS OBRAS DE HILDA HILST E FRIDA KAHLO – Verônica Daniel Kobs




Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs

Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE, PR) e

Faculdade de Administração e Economia (FAE, PR)

 
SUMÁRIO: Este artigo tem como objetivo a análise da inconstância como traço característico das obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo. Com base na ginocrítica (termo criado por Elaine Showalter) e nos estudos de Teresa de Lauretis, Susana Funck e Jane Flax, este estudo adota o método comparativo e privilegia textos e telas, sob a perspectiva do diálogo interartes e das questões de gênero e identidade.
 
PALAVRAS-CHAVE: literatura – pintura – feminino – inconstância.
 
ABSTRACT: This article aims at presenting inconstancy as a characteristic of works by Hilda Hilst and Frida Kahlo. It is based on the term gynocriticism, created by Elaine Showalter, and on studies by Teresa of Lauretis, Susana Funck and Jane Flax. This article adopts the comparative method and analyzes texts and painting which contemplate an interartistic dialogue and themes related to “gender” and “identity”.
 
KEYWORDS: literature – painting – feminine – inconstancy.
 
Minicurrículo da autora: Verônica Daniel Kobs é doutora em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), professora do curso de Mestrado em Teoria Literária do Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE, Paraná), professora do curso de Graduação de Letras da Faculdade de Administração e Economia (FAE, PR), consultora de Língua Portuguesa e Linguagens da RPC TV (Rede Globo, PR) e membro de grupos de pesquisa credenciados junto ao CNPq. É autora de diversos artigos sobre Literatura e Estudos Interartes.
 
 
 
 
 


 
O FEMININO OSCILANTE NAS OBRAS DE HILDA HILST E FRIDA KAHLO
 
 
Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs
Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE, PR) e
Fundação de Assistência ao Estudante (FAE)
 
 
Introdução
Nos textos literários de Hilda Hilst e nas telas de Frida Kahlo, o feminino é representado de diversas maneiras. Essa multiplicidade é resultado dos inúmeros papéis atribuídos ao gênero feminino, o que é inerente à identidade contemporânea[1], daí a impossibilidade de se resumir a função da mulher a um perfil apenas. Os críticos referem-se a essa pluralidade como uma “inconstância”, espécie de subterfúgio para a revisão do gênero feminino, tal como é definido pela visão patriarcal, e para o forjamento de novos papéis associados a ele: “A inconstância é força criativa, na medida em que significa a recusa, por parte da mulher, em se deixar fixar ou silenciar e significa sua insistência numa maneira própria de ser” (TELLES, 1999, 328-9). Esse processo revela-se complexo, pelo fato de a mulher ter sido “gendrada”[2] de um modo a corresponder a um perfil atribuído ao gênero feminino. Isso começa a ser alterado, com a inserção das mulheres nas artes, não mais como aquelas que são representadas (criaturas), mas como sujeitos de boa parte dessas representações (criadoras).
De acordo com a ginocrítica[3] essa transformação possibilitou a expansão da arte, que passou a ser vista como objeto de estudo da sociedade e das relações entre os gêneros. É como se a arte feita por mulheres servisse, a partir de então, como crítica e como História, na medida em que se faz simultânea e paralelamente à arte produzida por homens. Elaine Showalter classifica a ginocrítica como a segunda fase da crítica feminista. Susana Funck menciona algumas propriedades desse período: “Esta segunda fase (…) teve o grande mérito de mapear um território até então desconhecido (…). E é a partir daí que começa a criar corpo o conceito de uma estética feminina (…)” (FUNCK, 1994, 18). Veremos neste artigo como a inconstância refletida na reescrita do universo feminino é o ponto comum entre as obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo, de modo a relacionar a visão tradicional dos gêneros com a recepção crítica das autoras.
 
Afirmação e recusa do gendramento[4]
Elaine Showalter considera a arte das mulheres “um ‘discurso de duas vozes’ que personifica sempre as heranças social, literária e cultural tanto do silenciado quanto do dominante” (SHOWALTER, 1994, 50). Para a autora, essa posição “inconstante”, volúvel e aparentemente contraditória não é mera característica da produção artística feminina; ela é inevitável e possibilita o engendramento de uma nova perspectiva da questão dos gêneros. A “primeira voz” é responsável pela retomada dos estereótipos, e, no momento seguinte, a “segunda voz” encarrega-se de subvertê-los, em uma clara crítica às qualidades e às funções que a sociedade patriarcal associa ao feminino e ao masculino. Frida Kahlo, em O ônibus, exemplifica bem esse processo. Em meio aos passageiros retratados na tela, três mulheres chamam a atenção. Seus perfis são totalmente diferentes e, da esquerda para a direita, relacionam-se às seguintes representações: dona de casa, mãe e socialite. 
 
    O ônibus (1929), de Frida Kahlo[5]
 
É inegável a conformidade das representações femininas de Frida Kahlo em relação ao gendramento. No entanto, a pintura separa o que a convenção costuma agregar em um mesmo perfil, investindo na contradição da expectativa ufanista de que a mulher deve, obrigatoriamente, desempenhar com perfeição todos os papéis que lhe são impostos pela sociedade. A separação proposta no quadro não deixa de celebrar a multiplicidade, mas acrescenta a importância da individualidade e da liberdade de ser e talvez até de deixar de desempenhar por convicção, interesse, e até mesmo por temperamento, um dos papéis geralmente atribuídos ao gênero feminino.
Hilda Hilst, trabalhando as mesmas questões, carrega no tom cômico e critica mais fortemente o gendramento. Em Fluxo-floema, há vários exemplos da paródia dos comportamentos atribuídos ao feminino e ao masculino. O primeiro é perceptível nos perfis dos protagonistas, Osmo e Mirtza: “Aí, eu falava, falava, e nas primeiras noites ela ouvia […], depois ela queria fazer amor e eu fazia amor direitinho e tudo o mais, mas eu queria continuar falando depois. […]. Aí, ela não me ouvia mais. Comecei a compreender que a Mirtza só me ouvia antes de fazer amor, e então pensei: essa mulher é uma vaca […]” (HILST, 1970, 75). Nesse trecho, a característica de falar demais, geralmente associada às mulheres, é dada ao homem. Dessa forma, os papéis se invertem e, no jogo da sedução, não é mais o homem, mas a mulher que ouve, apenas por obrigação, tudo o que o homem diz, a fim de alcançar sua tão esperada recompensa: o sexo.
Em outro texto do mesmo livro, Hilda Hilst desconstrói o mito da beleza feminina, ao apresentar o desabafo de uma personagem que revela o quanto era difícil estar sempre bonita, alegre e saudável, diante do parceiro. Em sua revolta, ela fala: “[…] que vontade enorme de soltar a barriga, […] de dizer que eu tenho flebite (ah, é?) e que as minhas pernas doem quando eu faço o amor” (HILST, 1970, 128). Esse trecho demonstra bem as obrigações impostas pelo gendramento, bem como evidencia o cansaço e a dificuldade de o personagem feminino obedecer a elas. A inversão dos comportamentos masculino e feminino é enfatizada também em Bufólicas, mais especificamente em Filó, a fadinha lésbica. O jogo que a escritora faz, ao descrever o personagem, atende à ambivalência de Filó, que era mulher, biologicamente, mas agia como homem: “Mas à noite… quando dormia… / Peidava, rugia… e… / Nascia-lhe um bastão grosso” (HILST, 2014c).
Assim como Hilda Hilst, Frida Kahlo apresenta uma inversão do clichê feminino, com a tela Autorretrato de cabelos cortados. A crítica e a desconstrução da visão tradicional do papel da mulher ficam evidentes quando o quadro em questão é comparado a um autorretrato da artista, que ela deu de presente a Trotski, um de seus amantes, no ano de 1937. Na tela de 1940, Frida faz uma representação feminina masculinizada. Um dos símbolos da feminilidade, os cabelos longos, são cortados e os vestidos coloridos dão lugar a um terno escuro e austero. Na parte superior do quadro, há o seguinte texto: “Mira que si te quise, fué por el pelo, Ahora que estás pelona, ya no te quiero.”[6] A tela relaciona feminilidade e desejo. No entanto, há total ausência de submissão da mulher ao homem, já que a mulher do retrato, a própria Frida Kahlo, ainda está com a tesoura na mão, depois de cortar os cabelos. Foi dela a escolha de se masculinizar e de, consequentemente, afastar-se de seu amante. Esse retrato, pela forma masculina que a pintora confere a si mesma, em nada lembra o colorido esfuziante e a extrema feminilidade evidenciados na tela de 1937.
 
Autorretrato (1937) e Autorretrato de cabelos cortados (1940), de Frida Kahlo
 
É sabido que a questão dos gêneros deve ser abordada no âmbito relacional, já que os gendramentos atendem a uma expectativa que opõe masculino e feminino, a partir de determinados comportamentos. Por isso, Sônia Missagia Matos, em seu artigo Repensando o gênero, faz referência à teoria de Marilyn Strathern, ao associar a alteridade à ativação da sexualidade: “[…] uma pessoa elicita na outra uma forma sexual correspondente. Assim ele é totalmente masculino (all male), ou ela é totalmente feminina (all female) em relação a aquele outro” (MATOS, 1999, 51-2). Porém, quando não há tal ativação, segundo a autora, predomina o estado que ela chama “cross-sex”, que prevê, no mesmo indivíduo, características atribuídas, convencionalmente, ao masculino e ao feminino. Nas obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo aqui analisadas, o desequilíbrio entre alteridade e sexualidade privilegia o “cross-sex”, o que garante a crítica e a revisão do gendramento.
 
Casamento, maternidade, ego e alter
Se o “cross-sex” resulta do desequilíbrio da relação entre os gêneros, os papéis de esposa e mãe necessitam do equilíbrio entre as partes, já que são as relações de alteridade que os determinam. De acordo com a visão androcêntrica, no casamento, sobretudo, há a necessidade da oposição extrema. Essa perspectiva desconsidera particularidades e retoma a equação que Teresa de Lauretis usa para explicar uma das limitações da Psicanálise: “mulheres = Mulher = Mãe” (LAURETIS, 1994, 230). Essa fórmula social não permite escolhas e está em conformidade com o que a mesma autora problematiza neste trecho: “Agora pergunto, isto não é o mesmo que dizer que a letra F assinalada no formulário grudou em nós […]? Ou que, embora pensássemos estar marcando o F, na verdade era o F que estava se marcando em nós?” (LAURETIS, 1994, 220).
O mesmo não se dá em exemplos como este, que investe na dissociação e na crise gerada por papéis radicalmente opostos e muito bem delineados: “Aflição de ser eu e não ser outra. / Aflição de não ser, amor, aquela / que muitas filhas te deu, casou donzela / e à noite se prepara e se adivinha / objeto de amor, atenta e bela” (HILST, 2014b). Nesse poema, é perceptível o relevo dado às “obrigações da mulher casada”, de acordo com a concepção androcêntrica, de modo que os versos revelam, além do aspecto relacional, o de dominância, que caracteriza a questão dos gêneros e que Susana Funck menciona nesta passagem: “Aliada de seu desejo e sem o controle de seu corpo, a mulher aparece como objeto erótico do prazer masculino, perpetuada e aprisionada em papéis dicotômicos de amante submissa ou de perigosa devoradora de homens” (FUNCK, 2014). Um pensamento de Catherine MacKinnon, o qual Jane Flax considera redutor, ajuda a reforçar a disparidade entre masculino e feminino que é apresentada no poema de Hilda Hilst e na citação de Susana Funck, configurando a relação de dependência: “Socialização de gênero é o processo através do qual as mulheres passam a se identificar como seres sexuais, como seres que existem para os homens” (FLAX, 1992, 244).
A mesma ideia de dependência e passividade perpassa o poema Dez chamamentos ao amigo, da coletânea intitulada Hilda Hilst. Nele, o eu-lírico, ligado a terra, elemento feminino e perene, busca a mutabilidade da água, do masculino, para a satisfação plena de seus desejos: “Entendo que sou terra. Há tanto tempo / espero / que o teu corpo de água mais fraterno / se estenda sobre o meu. […]” (HILST, 2014a). Os versos servem para ilustrar a relação entre os gêneros, tanto no casamento quanto na maternidade, já que, na visão patriarcal, toda união deve resultar em filhos, além do fato de a maternidade ser tratada como condicionante para a felicidade feminina, como se, sem ela, a mulher não se realizasse totalmente. Hilda Hilst, de modo acentuadamente irônico, reproduz essa postura androcêntrica neste trecho de Fluxo-floema: “Olha como anda a tua mulher, […], nunca mais sorri, se parece às nossas mulheres? […]. Essa minha, […] olha o brilho do olho, olha o ventre crescido. A tua teve dois, é pouco, a minha seis e o sétimo que vem, essa aqui teve dez, e olha o cobre da pele, vê que contente, que limpa” (HILST, 1970, 184).
Na tela Raízes, Frida Kahlo também representa uma mulher que, em decorrência do gendramento, ressente-se por não poder ter filhos. No quadro, a mulher retratada é a própria pintora, que teve abortos sucessivos. O que aproxima a imagem do quadro daquela apresentada pelos versos de Hilda Hilst é a relação entre a mulher e a terra, pela simbologia de fertilidade desse elemento. No entanto, em Raízes, as folhas verdes que parecem brotar do corpo da mulher, sobretudo do ventre, entram em contradição com o solo árido, infértil e em tom pálido, que a cerca, conflito que simboliza o desejo e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de ser mãe.
 
Raízes (1943), de Frida Kahlo
 
Na tela acima, percebe-se um flagrante desequilíbrio, o qual, por sua vez, impede que a mulher corresponda a um papel que lhe é imposto pela sociedade. Sendo assim, nesse caso, o desejo e a impossibilidade de ser mãe, somados ao poder do gendramento, são impositivos e contrariam não apenas uma expectativa social, mas também um ideal de realização pessoal (ideal esse também formado pelo gendramento), sobretudo considerando o fato de que Frida Kahlo era mexicana, cultura que tem muito bem delineados os papéis correspondentes aos gêneros masculino e feminino.
 
Considerações finais
Por meio das análises das obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo, foi possível discutir a construção e a reconstrução do gênero como representação. De acordo com Norma Telles, essa inconstância chega mesmo a ser imprescindível no fazer artístico, por seus aspectos social e crítico, razão pela qual, com base nos estudos de Nelly Richard, as obras de Hilda Hilst e Frida Kahlo podem ser relacionadas à “feminização”, “que se produz a cada vez que uma poética […] extravasa o marco de retenção/contenção […], para desregular a tese do discurso majoritário” (RICHARD, 2002, 133).
Embora, em nenhum momento, Hilda Hilst e Frida Kahlo assumam o “discurso combativo” das feministas (o que eliminaria a insconstância), as análises aqui apresentadas demonstraram que as produções de ambas desafiam “a constituição ideológica dos modos predominantes de representação” (RICHARD, 2002, 136) e é essa postura de ruptura e continuidade que delineia a contribuição social da arte dessas duas autoras: “[…] uma prática da diferença interrompe o sistema da identidade e da repetição oficiais” (RICHARD, 2002, 136). Sem dúvida, tal interrupção representa um avanço nos estudos de gênero e também está em conformidade com os estudos de Teresa de Lauretis, para quem o afastamento da base androcêntrica é o ponto zero da revisão das representações de gênero.
 
Referências bibliográficas
 
BURRUS, Christina. Frida Kahlo. Pinto a minha realidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
FLAX, Jane. Pós-modernismo e relações de gênero na teoria feminista. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. p. 217-250.
FUNCK, Susana Bornéo. Da questão da mulher à questão do gênero. In: FUNCK, Susana Bornéo (Org.). Trocando ideias sobre a mulher e a literatura. Florianópolis: Pós-graduação em Inglês/UFSC, 1994. p. 17-22.
FUNCK, Susana Bornéo. Descolonizando a sexualidade feminina: as marionetes e as vampiras de Angela Carter. Disponível em: <http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/ 13susanabh.htm>. Acesso em: 07 out. 2014.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
HILST, Hilda. Fluxo-floema. São Paulo: Perspectiva, 1970.
HILST, Hilda. Hilda Hilst. Disponível em: <http://www.lunaeamigos.com.br/fragrancia/ hilda.htm>. Acesso em: 31 out. 2014a.
HILST, Hilda. Hilda Hilst – Cristal poesia prosa. Disponível em: <http://cristalpoesia.ne t/hilda.htm>. Acesso em: 31 out. 2014b.
HILST, Hilda. Poemas. Disponível em: <http://www.angelfire.com/ri/casadosol>. Acesso em: 31 out. 2014c.
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). Tendências e impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 211-234.
MATOS, Sônia Missagia. Repensando o gênero. In: AUAD, Sylvia Maria Von Atzingen Venturoli (Org.). Mulher: cinco séculos de desenvolvimento na América. Capítulo Brasil. Belo Horizonte: O Lutador, 1999, p. 19-57.
RICHARD, Nelly. “A escrita tem sexo?” In: RICHARD, Nelly. Intervenções críticas. Arte, cultura, gênero e política. Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 127-141.
SHOWALTER, Elaine. “A crítica feminista no território selvagem”. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 32-54.
TELLES, Norma. “A mulher e a literatura”. In: AUAD, Sylvia Maria Von Atzingen Venturoli (org.). Mulher: Cinco séculos de desenvolvimento na América — Capítulo Brasil. Belo Horizonte: O Lutador, 1999, p. 325-331.
 
NOTAS
[1] Stuart Hall (2001) refere-se a isso a partir do termo “identidade pós-moderna”, caracterizado por ele como múltipla e fragmentada.
[2] Teresa de Lauretis (1994) usa esse termo para se referir à contribuição dada pelos discursos institucionais e artísticos, entre outros, à perpetuação dos estereótipos que definem e diferenciam masculino e feminino.
[3] Termo criado por Elaine Showalter (1994) e que designa o estudo de textos literários escrito por mulheres.
[4] Termo que se relaciona à palavra “gendrada”, usada por Teresa de Lauretis.
[5] Todas as telas de Frida Kahlo reproduzidas neste trabalho são digitalizações das ilustrações contidas no livro Frida Kahlo, de Christina Burrus.
[6] Christina Burrus sugere esta tradução para o trecho citado: “Lembre-se de que se a amei, foi por seu cabelo. Agora que está careca, já não a amo mais” (BURRUS, 2010, 73).
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

PALAVRAS DA FOME: NOTAS SOBRE UM LIVRO DE RECEITAS ESCRITO EM THERESIENSTADT- Fabiano Dalla Bona e Josiane Rodrigues Neves




Fabiano Dalla Bona

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

 

Josiane Rodrigues Neves

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / CAPES

 
 
 
Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas,
vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos:
Pensem bem se isto é um homem…
(LEVI, 1988, p. 9)
 
 
Resumo: A memória alimentar foi um importante elemento de autopreservação e de esperança aos prisioneiros dos Lager (depósitos) nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Falar de comida, trocar e escrever receitas, simular grandes banquetes, e até sonhar com comida, de certo modo, contribuiu a resgatar aquele pouco de identidade/humanidade dos prisioneiros “animalizados” pela violência alemã. O corpus do presente artigo compõe-se de relatos de deportadas tchecas do campo de Theresienstadt, In Memory’s Kitchen, e podemos observar que, para essas mulheres, a alimentação é um traço identitário e cultural muito importante que nem mesmo o sofrimento nos campos de extermínio conseguiu apagar ou cancelar.
 
Palavras-chave: In Memory’s Kitchen – livro de receitas – memória alimentar – memórias de guerra – holocausto
 
Abstract: Food memory was an important element of self-preservation and hope to prisoners of Nazis’ Lager (warehouses) during World War II. Speaking of food, exchanging and writing recipes, simulating large banquets and even dreaming about food in a way helped to rescue that little prisoners’ identity/humanity “animalized” by German violence. The corpus of this paper consists of reports of Czech deportees to Therensienstadt published under the title In Memory’s Kitchen. As we can see, for these women food is a very important cultural and identitary trait that not even the suffering of extermination camps could erase or cancel.
 
Keywords: In Memory’s Kitchen – cookbook – food memory – war memories – Holocaust.
 
Minicurrículo: Fabiano Dalla Bona é mestre em Letras de Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo (2003) e Doutor em Letras Neolatinas em Literatura Italiana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor adjunto do Departamento de Letras Estrangeiras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desenvolve pesquisa relacionada ao tema Literatura e gastronomia, com ênfase na produção literária italiana do século XX e XXI. Publicou artigos em conceituadas revistas científicas brasileiras e também em revistas especializadas em gastronomia. É vice-presidente da Associação Brasileira de Professores de Italiano (ABPI). Atua também como parecerista ad hoc de revistas científicas, dentre as quais a Revistas Letras da UFPR e Interfaces da UFRJ.
 
Minicurrículo: Josiane Rodrigues Neves é mestranda do Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bolsista da CAPES, sob a orientação do Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona. Desenvolve a pesquisa de dissertação de Mestrado intitulada Il cibo caldo e i visiamici: fome e memória alimentar em Primo Levi.
 
 
 
 


 
Palavras da fome: notas sobre um livro de receitas escrito em Theresienstadt
 
 
Fabiano Dalla Bona
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
 
Josiane Rodrigues Neves
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / CAPES
 
O que queremos saber, através da leitura de documentos de prisioneiros e de sobreviventes do holocausto: como era a vida nos campos de extermínio? Como era viver provisoriamente, à beira da morte iminente? Como os prisioneiros lidavam com as demandas conflitantes de conviver com a penúria e se esforçar para estender sua sobrevivência por pelo menos mais um dia?
Por muito tempo a memorialística de guerra foi considerada um gênero menor na produção literária. Títulos significativos foram impressos na maior parte dos casos por pequenas editoras, muitas vezes as custas do próprio autor. Mesmo Primo Levi (1919 – 1987) sofreu esse tipo de problema por parte de grandes editores, e após a publicação de É isto um homem? (1947) e de A Trégua(1963), convenceu-se de ter exaurido o dever de testemunhar sobre aquilo que a sociedade dele esperava.
Mas o problema do testemunho é também um problema de gênero. Privilegiou-se, durante certo tempo, as narrativas de vítimas do sexo masculino. Segundo Lillian Kremer (1991, p. 1-2) um dos obstáculos para o pouco interesse verificado pelas representações literárias femininas sobre a Shoahaté algumas décadas atrás, é determinado pelo gênero das testemunhas, derivado da opinião corrente que, separando as vozes femininas daquela coletiva – masculina – arriscava-se abrandar a potência de um único coro de testemunhas, e que se arriscava-se, enfim, diminuir a importância da “unicidade do evento” segundo a tese defendida por Lawrence Langer, além de estabelecer uma “hierarquia dos sofrimentos”.
Lucamente (2007, p.78), sempre sobre a questão do gênero, adverte que
 
Marginalidade e escasso interesse conotaram, em geral, a figura da deportada e sobrevivente hebraica, e essa postura em relação a elas alinha-se ao vetor interceptado pelo discurso historiográfico sobre a Shoah, articulado essencialmente ou ao redor do homem como promotor ou vítima de eventos históricos, ou do ser humano mais genericamente, sem distinções. Se as mulheres constituíam um ingentíssimo número de vítimas da Shoah, e, portanto, eram importantes no interior da coletividade oprimida por tal tragédia, as vozes delas, as experiências delas audíveis através dos seus escritos, ficaram, ao invés, inauditas por muito tempo.
 
Nas últimas duas décadas, porém, a historiografia e a crítica literária fazem uma tentativa de recuperar o terreno perdido, e a memorialística e a narrativa de testemunho vem ganhando vigor e espaço, oferecendo uma série de interessantíssimas vozes. Nesse âmbito, um dado interessante revela-se aquele da publicação de vozes femininas, principalmente nos Estados Unidos, Itália e França. Paralelamente surgem obras incomuns, muito diferentes dos livros de memórias, de autobiografias e biografias, e de relatos de ex-deportados de campos de concentração nazistas.
Falamos aqui de livros de cozinha escritos nos campos de concentração. Imediatamente o leitor perguntar-se-á: como é possível que livros dessa natureza tenham sido escritos em campos de extermínio onde, como bem se sabe, os prisioneiros morriam de inanição? De fato é surpreendente, mas abordaremos uma obra que despertou a atenção de estudiosos, de sionistas, jornalistas e de leitores comuns sobre a temática da Shoah: In Memory’s Kitchen: Alegacy from the Women of Terezín, publicado nos Estados Unidos em 1996.
Trata-se de textos clandestinos, produzidos no escuro dos alojamentos, escritos em minuta caligrafia sobre pedaços de papel reaproveitados de calendários, cantos não impressos de jornais, páginas rasgadas de livros, e que, milagrosamente conseguiram sobreviver e ultrapassar as cercas de arame eletrificado dos campos após a sualiberação. Tal testemunho é uma prova desesperada para quem, como qualquer homem livre que vive hoje em paz e harmonia; parece-nos ingênuo, e nem sempre somos capazes de compreender porque exatamente tal tipo de obra fora escrita.
Hirsch e Spitzer (2007, p. 143) sugerem que os objetos materiais, a memorabília, aqueles fatos ou objetos dignos de serem rememorados e que se guardam na lembrança ou como lembrança (desenhos, cartas, livros, roupas, móveis, etc.), que pertenceram às vítimas ou sobreviventes do Holocausto, são documentos de primordial importância e dignos de uma análise cuidadosa, e quetais documentos podem nos ajudar a reconstruir um passado “opaco e inimaginável”.
In Memory’s Kitchen é o resultado do trabalho coletivo de mulheres deportadas no campo de Terezín ou Theresienstadt, na antiga Tchecoslováquia, legado por Mina Pachter (1872 – 1944), judia residente em Praga, deportada em 1941 ou 1942 com o restante dos judeus remanescentes do gueto da capital tcheca, aos 67 anos de idade. Graças às privações sofridas naquele lager (depósito), com a saúde bastante debilitada, a ex-matrícula nº 5651573, faleceu de inanição naquele campo no dia de Yom Kippur, o Dia do Perdão, do ano judaico de 5704 ou 1944, aos 72 anos de idade.
Todavia, antes de sua morte deixou sob a custódia de um amigo, também prisioneiro, um pacote e o pedido que o mesmo fosse entregue à sua filha, que na época, residia na Palestina Britânica(atual Israel). Começa, então, a epopeia do referido pacote. Após a liberação do campo de Theresienstadt, em abril de 1945, o pacote estava nas mãos do amigo Arthur Buxbaum, negociante de antiguidades de Teplice, Tchecoslováquia; ele sabia que o destinatário era a filha de Mina, Anny, que morava em Israel, mas não tinha ideia de como aquilo chegaria às mãos da mulher. Certa ocasião, em 1960, Buxbaum recebeu a visita de uma prima, de partida para Israel: confiou-lhe, então o pacote, indicando o seu destinatário. Uma vez em Israel, a mulher procurou por Anny Stern, filha de Mina Pachter e logo soube, através de amigos dela, que ela havia partido para os Estados Unidos. De volta aos Estados Unidos, a prima de Buxbaum não encontrou Anny; após esse episódio, não se sabe em mãos de quem o pacote foi parar. Finalmente, uma década depois, em 1969, um estranho procedente de Ohio desembarcou em Nova York à procura de judeus tchecos, conseguiu localizar Anny, na época com 62 anos de idade, e entregou-lhe o pacote.
 
“A primeira vez que abri o livro e vi a caligrafia de minha mãe, precisei fechá-lo”, disse Anny sobre o dia em que recebeu o pacote. “Guardei-o e somente muito mais tarde tive coragem de olhar, meu marido e eu tínhamos medo dele. Era algo sagrado. Após todos esses anos, era como se a mão fosse estendida para mim desde muito tempo atrás” (SILVA, 1996, p. 22).
 
 
O embrulho continha cartas jamais enviadas, poemas sobre as companheiras de Mina e sobre o campo e um caderno costurada à mão, com frágil linha e uma capa de papelão onde estava escrito Kochbuch, livro de receitas. Tratava-se de uma reunião de receitas escritas por diversas mãos além daquelas de Mina. Obviamente não eram receitas a serem preparadas no próprio campo por tratarem-se de sofisticadas iguarias da tradição tcheca, preparadas por aquelas mulheres antes de sua deportação. Famintas e na iminência de serem mortas, aquelas mulheres tentaram manter seus espíritos aliviados através das memórias da boa cozinha antiga, cozinhando simbolicamente.
Segundo o historiador alemão Rüsen (2009, p. 167-168),
 
A memória pode ser classificada de acordo com diferentes critérios, incluindo o modo pelo qual o passado é representado. Em um sentido tipológico ideal há duas possibilidades: responsiva ou construtiva. A memória responsiva é acionada pela intensidade de uma experiência específica que grava a si mesma nas mentes das pessoas, por assim dizer. A memória fere e uma força quase autônoma compele as pessoas a reagir, a interpretá-la e superá-la. Esse tipo de memória imprime-se no espírito trazendo o passado para o presente como uma imagem poderosa e persistente. Um dos mais relevantes exemplos dessa memória é o Holocausto. O conceito dominante para analisar esse modo de experiência na memória histórica é o conceito de trauma. No modo construtivo, o passado rememorado é matéria para discursos, narrativas e uma comunicação contínua. Aqui, a memória moldou o passado em uma história significativa e aqueles que lembram parecem ser os mestres de seu passado na medida em que eles colocam a memória em uma perspectiva temporal com a qual podem articular suas expectativas, esperanças e medos.
 
Nasce aqui, espontaneamente, uma pergunta: por que toda essa atenção voltada para um simples livro de receitas, já que existe toda uma vasta literatura sobre o holocausto, certamente muito mais importante e muito mais descritiva?
Livros como esse tornam-se escritos imbuídos de mensagens edificantes, mostrando que mesmo em tempos extremamente árduos, as pessoas tentam se agarrar à normalidade, e a memória é uma componente importante nesse tipo de operação. O manuscrito, hoje conservado no Museu do Holocausto de Washington, nos Estados Unidos, não trata de uma heroica história de resistência ideológica, mas prova que mesmo em condições extremas aqueles seres humanos procuravam agir como qualquer outro ser humano livre, em uma espécie de (quase) normalidade. É o que nos dizem Hirsch e Spitzer (2007, p. 139) sobre o livro:
 
Como um livro de receitas, criadas e trocadas entre mulheres, legadas de mães para filhas, In Memory’s Kitchen nos convida a pensar sobre como atos de transferência podem ser gerados e gerar leituras feministas. As receitas incorporam e perpetuam as tradições e práticas culturais evidentes das mulheres, tanto no seu conteúdo como no comentário que acompanha algumas delas. Mas, em um livro sobre comida escrito em um campo de concentração, as considerações de gênero também rapidamente desaparecem da vista quando consideramos a vontade nazista de exterminar todos os judeus, e destruir a memória de sua própria existência.
 
 
É um livro que fala diretamente às mulheres, pois é uma história de e sobre mulheres, e porque cozinhar, colecionar e redigir/copiar receitas também é uma atividade familiar às mulheres. O melhor que aquelas mulheres puderam fazer foi lembrar e registrar suas memórias para a posteridade. Pois, como nos relata Primo Levi (1990, p. 43)
 
A desnutrição, a privação e os outros sofrimentos físicos, que é tão fácil e econômico provocar e em que os nazistas eram mestres, são rapidamente destrutivos e, antes de destruir, paralisam; ainda mais quando são precedidos por anos de segregação, humilhação, maus-tratos, migrações forçadas, dilaceramento dos laços familiares, ruptura dos contatos com o resto do mundo.
 
 
Todavia na opinião do psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905 – 1997), sobrevivente do campo de Bergen-Belsen, na Alemanha e criador da Logoterapia, “não se deve provocar o organismo com essas imagens de iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele [o prisioneiro] já conseguiu, em termos, adaptar-se às reduzidíssimas rações e quantidades de calorias”. (FRANKL, 2008, p. 46) Ele ainda nos dá o seguinte relato:
 
Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a “regressão” da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal. Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de trabalho, num momento em que estão sendo tão vigorosamente vigiados. A primeira coisa de que começam a falar é de comida. Imediatamente alguém começará por perguntar ao colega que trabalha ao seu lado na vala, qual seu prato favorito. Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidar-se mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em casa. (FRANKL, 2008, p. 45)
 
 
Foi através da memória alimentar que a esperança de salvação e de liberdade aflorou entre as detentasdeTheresientadt. Escrever e narrar são lenitivos para superar o trauma. Para Rüsen (2009, p.195),
 
 
Ao destruir os conceitos efetivos de sentido como sistemas de orientação, o trauma é um obstáculo para a vida prática. Aqueles que tiveram uma experiência traumática precisam lutar para superá-la. Eles tentam dar-lhe nova forma de um modo que faça sentido novamente, isto é, que se insira em padrões eficazes de interpretação e compreensão: omitem ou suprimem o que ameaça a efetividade e validade desses padrões. Pode-se falar em um estranhamento ou falsificação da experiência, de modo a que se concilie com ela. Todos estão familiarizados com essa distorção e com essa alienação. Isso ocorre habitualmente quando se tenta falar sobre uma experiência única e profundamente perturbadora para a própria mente daquele que fala. Isso é verdade não somente para experiências negativas com qualidade traumática, mas também para experiências positivas. Aqueles que têm essas experiências são levados além dos limites de suas vidas cotidianas, de sua visão de mundo e autocompreensão. Todavia, sem palavras, um evento de qualidade perturbadora não pode ser mantido no horizonte da memória e da consciência identitária. É no terreno da linguagem que os envolvidos precisam se haver com tais eventos. Mesmo na jaula escura da supressão, essas experiências tendem a encontrar expressão: se as pessoas não podem falar sobre elas, elas são forçadas a substituir a carência de linguagem e pensamento por atividades compulsivas, por falhas e lacunas em seus modos de vida. Tais falhas, lacunas e atividades precisam ‘falar’ sobre tais pessoas nessa ‘linguagem além das palavras’, simplesmente porque essas experiências se tornaram parte deles e eles precisam se conciliar com este fato.
 
 
Na opinião da linguista americana Linde (1993, p.114),as narrativas unem pessoas, pois, contar histórias cria um sentimento de pertencimento ao grupo e de solidariedade entre seus membros. Em tempos de incerteza e de ansiedade, elas funcionam como canais de interpretação da realidade ao tentar domesticar e disciplinar a estranheza e a inteligibilidade. Em outras palavras, Mina e as outras detentas de Theresientadttentam reconstituir o sistema de significados e de representações que dava sentido ao mundo, ajudando-asa superar a aporia aberta pela crise.
Tal posição é compartilhada por Ross (2002, p. 305) que sustenta que “as narrativas são especialmente relevantes para grupos e indivíduos presos em situações de grande incerteza e alto estresse”. Quando os indivíduos se encontram desorientados, prossegue Ross, eles tentam dar sentido àquilo que experimentam sensorialmente. As narrativas coletivas reafirmadas dentro da coletividade ajudam-nos a encontrar consolo e a lidar com a ansiedade. Por essas razões, as narrativas “não saem de um mesmo saco”: elas têm de estar ancoradas em experiências e em anseios interpretados seletivamente para que possam ter ressonância na coletividade.
No prefácio de In Memory’skitchen, Michel Berenbaum (1996, p.10), diretor do United States Holocaust Research Intitute, fala sobre a importância desse manuscrito:
 
 
Para alguns, a maneira de lidar com esta fome era reprimir o passado, e viver apenas no presente, pensar só no hoje, nem no ontem nem no amanhã. Não foi assim para a mulher que compilou este livro de receitas. Elas falaram do passado, atreveram-se a pensar em comida, naquilo que lhes fazia falta – potes e panelas, uma cozinha, casa, família, convidados, refeições, entretenimento. Portanto, este livro compilado por uma mulher em Theresienstadt, por mulheres famintas em Theresienstadt, deve ser visto como mais uma manifestação de desafio, de uma revolta espiritual contra a dureza das condições que lhes eram dadas. É um voo da imaginação de volta ao passado, quando havia alimentos, quando as mulheres tinham casas e cozinhas e podiam oferecer uma refeição aos seus filhos. A fantasia deve ter sido dolorosa para as autoras. Recordar receitas foi um ato de disciplina que as obrigava a suprimir a fome atual e pensar no mundo comum antes dos campos – e, talvez, ousar a sonhar com um mundo depois deles.
 
 
E nada poderia demonstrar melhor o poder dos alimentos como um marcador de identidade, e seu uso como uma potente forma de resistência psicológica, uma forma de arrancar força, e para reforçar quemse é, enquanto a própria cultura está sob o julgo inimigo e em perigo de ser destruída. A escrita carrega as tradições de suas autoras, como elas mesmas não puderam fazê-lo, demonstrando um extraordinário poder de constância e de fortaleza, repleto de relevância histórica e contemporânea, deixando-nos uma marca indelével. Essa marca da identidade é reforçada por Goldenberg (2003, p. 164) ao afirmar que
 
No contexto do Holocausto, a comida tem um peso simbólico e emocional, especialmente em relação às mulheres. A comida, tradicionalmente influencia a autodefinição das mulheres e de seu status e, na cultura judaica, a reputação delas como balabusta (dona-de-casa). A mesa/tish de uma mulher era a evidência de sua criatividade, de sua generosidade e do valor de suas habilidades femininas.
 
As receitas no livro evocam lembranças de dias melhores: o strudelde ameixas servidono Rosh Hashaná, com instruções para fazer umstrüdel “alto e belo”; Gesundheitskuchen Pachter, ou bolos da “boa saúde” de Pachter, tradicionalmente consumidos pelas mães de recém-nascidos, a Linzertorten servida durante a Jause, o café da tarde em Viena e Praga, e mazelokich, um pão ázimo em camadas com sobremesa de frutas, tipicamente servido pelos judeus tchecos durante os dias de Pesach, a Páscoa.
É importante observar que, no contexto de Theresienstadt, onde a arte só era permitida se servisse aos propósitos da propaganda nazista, escrever um objeto clandestino, principalmente tratando-se de um livro de receitas, foi um gesto de recusa e ato de clara resistência à autoridade nazista.
Cara de Silva, jornalista, estudiosa da alimentação e organizadora da obra, na Introdução, faz o seguinte questionamento: “Nascido do abismo, é um documento que pode ser compreendido apenas nos confins da mente? Anotar receitas teria trazido conforto em meio ao caos e a brutalidade? Será que isto trouxe a esperança para alguém de preparar novamente uma refeição a partir delas [as receitas]?” (SILVA, 1996, p. 21)
As folhas de papel amareladas são frágeis como as folhas de outono que caem das árvores, relembrando a poesia de Eugenio Montale; a mudança de caligrafias vacilantes de página para página, em um marrom esmaecido, são quase indecifráveis. As receitas, certas vezes, são imprecisas e faltam medidas exatas e ingredientes, lacunas são preenchidas com ilustrações dolorosas sobre as condições de vida em Theresienstadt. Sobre essas imprecisões na composição das receitas, comentam Hirsch e Spitzer (2007, p. 139):
 
Memory’s Kitchen, por exemplo, carrega poderosos significados pessoais, históricos, culturais e simbólicos que excedem em muito o seu conteúdo aparentemente comum, extraído do mundo doméstico cotidiano de suas autoras. Não podemos cozinhar a partir das receitas deste volume – a maioria delas deixa de fora os ingredientes ou modos de fazer, ou refletem o racionamento dos tempos da guerra apelando para o uso de sucedâneos (para a manteiga ou café, por exemplo), ou por usar ovos opcionalmente. Mas certamente podemos usá-las para tentar imaginar uma vontade de sobreviver, o compromisso determinado com a comunidade e a colaboração que produziu este livro extraordinário.
 
 
Certamente Mina jamais pode imaginar que um dia aquele singelo manuscrito encadernado à mão pudesse ser impresso por uma editora, ganhar as páginas dos principais noticiários pelo mundo afora e, inclusive, ter suas receitas preparadas, quiçá, pelas mãos de outras tantas mulheres.
Portanto, seria lógico perguntar aqui: poderia um objeto/testemunho da Shoah falar por si só, sem algum intérprete humano? Hirsch e Spitzer (2007, p. 159) afirmam que
 
As receitas de Terezín, assim, tornam-se mais do que microcosmos e emblemas dos campos nos quais foram produzidas – são emblemas para o próprio processo de leitura de gênero no contexto da catástrofe. Como ponto de memória, elas de fato, provocaram uma visão penetrante que atravessa o tempo e o espaço – a incongruência de gênero e Holocausto, sua oscilação entre primeiro e segundo plano, a sua legibilidade e ilegibilidade.
 
 
E concluímos com as palavras de Rego (2006, p. 17):
 
 
Escrever implica, pois, repetição e ausência. A escrita é algo ausente que pode vir a ser, que remete ao futuro, e, porque tratar-se de vestígios, nunca é completamente representacional. Este vestígio é uma marca, uma cicatriz na matéria. A escrita apresenta a língua como uma série de marcas físicas que operam na ausência do autor e devem ser legíveis mesmo na ausência de um leitor. Traços que unem espaço e duração, e questionam o movimento teleológico do querer-dizer. O sentido de um escrito não se reduz ao que quer dizer o autor, nem ao que quer entender o leitor. A significação da escrita ocorre nesse espaço entre um e outro.
 
 
Em meio à massa desventurada de cento e quarenta e quatro mil Häftlinge (inimigos) que passaram pelo campo, onde quase todos tinham a mesma aparência, o mesmo cheiro, sentiam a mesma fome e desespero, Mina Pachtertentou preservar a sua identidade escrevendo e coletando receitas de cozinha. Ela deixou de ser simplesmente um número e com a publicação de seu trabalho ganhou status de protagonista da história. Gagnebin (2006, p. 47) postula que a história atual, tal qual asmemórias de Mina Pachter, precisa “transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados”.
 
 
REFERÊNCIAS
 
 
BERENBAUM, Michel. (1996) Foreword, org. SILVA, Cara de. In Memory’s Kitchen: a Legacy from the Woman of Terezín. Lanham: Rownan & Littlefield Publishers. p. 6-12.
FRANKL, Viktor Emil (2008). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25ª ed. Trad. de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. São Leopoldo: Editora Sinodal.
GAGNEBIN, Jeanne Marie (2006). Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34.
GOLDENBERG, Myrna (2003). Food Talk: Gendered Responses to Hunger in Concentration Camps. In: BAER, Elizabeth R. e GOLDENBERG, Myrna (Org.). Experience and expression: Women, the Nazis and the Holocaust. Michigan: Wayne State University Press. p. 161-179.
HIRSCH, Marianne; SPITZER, Leo (2007). Testimonial objects: memory, gender and trasmission. In: BARONIAN, Marie-Aucle; BESSER, Stephan; JAWSEN, Yolande (Org.) Diaspora and memory: figures of displacement in contemporary literature, arts and politics. Amsterdam-New York: Editions Rodopi, p. 137-164.
 
KREMER, Lillian (1999). Women’s Holocaust writing: memory and imagination. Lincoln: University of Nebraska Press.
LEVI, Primo (1988). É isto um homem? Tradução de Luigi Del Re. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco.
LEVI, Primo (1990). Os afogados e os sobreviventes. Trad. de Luiz Sérgio Henriques. São Paulo: Paz e Terra.
LINDE, Charlotte (1993). Life Stories: the Creation of Coherence. Oxford: Oxford University Press.
LUCAMANTE, Stefania. Non soltanto memoria: la scrittura delle donne della Shoah dal dopoguerra ai giorni nostri. In: SPEELMANN, Reinier et alii (Org.) Scrittori italiani di origine ebrea ieri e oggi: un approccio generazionale. Italianistica Ultraiectina 2. Utrecht: Igitur, Utrecht Publishing & Archiving Services, 2007, p. 77-95.
ROSS, Marc Howard (2002). The Political Psychology of Competing Narratives: September 11 and beyond. In: CALHOUN, C.; PRICE, P; TIMMER, A. Understanding September 11. New York: New Press. p. 303-320.
RÜSEN, Jörn (2009). Como dar sentido ao passado: questões relevantes da meta-história. História da historiografia. Ouro Preto, nº 2, março, p. 163-209.
SILVA, Cara de (Org.) (1996). In memory’s kitchen: a legacy from the woman of Terezín. Lanham: Rownan& Littlefield Publishers.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A LITERATURA E A MULHER – Davi da Silva Oliveira




Davi da Silva Oliveira

 
Centro Universitário Adventista de São Paulo-Engenheiro Coelho (UNASP-EC)
 
 
RESUMO: O presente artigo faz uma referência histórica a respeito da presença da mulher na literatura, privilegiando as manifestações populares no mundo do cordel, dando destaque a três repentistas: Chica Barrosa, Rita Medeiros e Maria Tebana, dedicando um espaço maior à primeira. Acrescente-se que esta, além de carregar o “jugo” de ser mulher, é também negra. Mesmo assim navegou contra a maré do machismo e outros preconceitos, adquirindo fama no ambiente artístico-literário.
 
Palavras chave: Literatura – cordel – afrodescendente – Chica.
 
ABSTRACT: This paper makes a historical reference to the presence of women in Brazilian oral string literature (cordel), giving special  attention to the literature of Chica Barrosa, Rita Medeiros, and Maria Tebana. Its focus falls upon the former, not only because she was a female black author but because she also fought misogyny and racial prejudice, becoming famous as an artist who championed women’s cause against chauvinism and discrimination.
 
Keywords:  Literature on a string – cordel – Afro-Brazilian woman – Chica.
 
Minicurrículo: Davi da Silva Oliveira é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, professor de literatura no UNASP-EC.


 

A literatura e a mulher

 
 
DAVI DA SILVA OLIVEIRA
 
Centro Universitário Adventista de São Paulo-Engenheiro Coelho (UNASP-EC)
 
 
INTRODUÇÃO
 
Apesar de ter acontecido por trás da cortina do remoto tempo, a Inquisição reencarna-se nas obras contemporâneas, quando, na década de 1980 os romances que alcançavam largo sucesso traziam no seu bojo a temática da violência inquisicional. Como este episódio tomava por base o delito da opinião, algumas obras vieram à tona órfãs, como uma blindagem de segurança para seus progenitores.
Já livres do poder nefasto da Inquisição, no século XIX, Camilo Castelo Branco assume a paternidade de obras como Cavar em ruínas, A caveira do mártir e, adicione-se que o autor de Amor de perdição edita um poema de António Serrão de Castro: Os ratos da Inquisição. Por estas obras, corre o sangue nas veias das palavras que descrevem o poder demoníaco dos agentes inquisitórios (sic).
Na ênfase do lastro pelo qual se manifestam as marcas da Inquisição, encontramos as obras O físico prodigioso, A casa do pó e o Memorial do convento, respectivamente de Jorge de Sena, Fernando Campos e José Saramago, todas paridas no berço do século XX. A leitura dessas obras atua como uma releitura da História de Portugal, História ressuscitada e relida, com a liberdade do romancista de apresentar a sua verdade livre das algemas do poder repressor e cruel do Santo Ofício.
 
MULHER VERSUS HISTÓRIA
Com o passar do tempo, apagadas luzes pouco a pouco se acendem, erguendo a mulher através de alguns movimentos, outorgando-lhe algum papel na sociedade. Daí, já a encontramos atuando no expediente de contar histórias ou em alguma atividade religiosa, dentro dos limites da família. Isto, com a observação dos homens da casa: pai, irmão e marido. O papel destes era fazer uma triagem prévia, uma espécie de censores que selecionavam a atividade ou o texto apropriado para uma mulher. No campo da religião, ela atua no gênero das rezas, porque exercer algum papel literário não seria moral ou ético.
Sob a tutela do marido, do pai ou da sociedade, à mulher era negado o direito de estudar e de ler, porque, segundo era alegado, isso poderia lhe conferir um saber que ameaçaria a sociedade. Era, de certa forma, como cortar o mal pela raiz. A mulher do século XIX e início do século XX condicionava-se a ser uma dona de casa, tendo em reino a obrigação de cuidar dos filhos e do marido. Fora isso, as atividades, entre elas a intelectual, eram vistas como uma rebeldia e ameaça, porque não deveria fazer parte da formação feminina.
Disto resultou a ausência da mulher nos meios intelectuais de então, inclusive na literatura de cordel. Daí que, por ser considerada uma inconveniência uma autoria feminina, o registro dela como assinando algum folheto, no caso da literatura de cordel, é inexistente ou, quando muito, nebuloso.
 
MULHER VERSUS LITERATURA
Nesse ligeiro apanhado, consideramos que a mulher da história também adentrou no espaço da literatura, as marcas da presença feminina marginalizada na história passaram para a mulher esquecida e anonimada na literatura, inclusive de cordel. No entanto, na literatura dita clássica, as mulheres obtiveram seu merecido espaço.
Algumas vezes, uma mulher produzia alguma obra como poesias verbalizadas oralmente pelos seus pais ou maridos, ou também, que a mesma tenha atribuído a autoria ao esposo. Fora isso, ela aparece como leitora, lendo silenciosamente ou em voz alta no seio da família.
Sobre o papel das mulheres na literatura de cordel, Santos (2008, p. 16) declara:
 
(…) contudo, elas cantavam e produziam suas poéticas da maneira mnemônica da tradição, a exemplo daquelas que com suas violas em punho desafiaram o paradigma a elas imposto, caso das cantadoras cujos nomes ficaram gravados na memória dos nordestinos: Zefinha do Chamocão, Chica Barrosa, Terezinha Tietre, Maria de Lourdes, Vovó Pangula, entre outras.
 
Uma pergunta precisa ser elaborada: por que as mulheres contavam suas histórias e estas eram impressas por algum cordelista homem? Elas teriam condições de escrever o seu próprio folheto? A compreensão para este fato vem da formação da sociedade feminina, onde a presença do homem, diga-se do machismo, seria um bloqueio para que se materializasse a composição explícita de folhetos produzidos pela mulher.
Seria um escândalo vermos uma escritora circulando por gráficas e feiras tentando levar avante um projeto de escrita ou venda de folhetos. Pais e maridos seriam alvejados com os mais menosprezados adjetivos. No passado, muitas mulheres também eram analfabetas.
É bom sabermos que, com embrionária aceitação do folheto de cordel, alguns escritores eram os responsáveis pela impressão e venda de suas obras. Vale registrar o nome de Leandro Gomes de Barros, que foi o primeiro cordelista que passou a viver exclusivamente dos seus folhetos.
Nesse jogo de escritor e proprietário (editor) do folheto, encontramos o palco da marginalização da mulher no mundo da literatura de cordel. O proprietário da gráfica tinha o direito de imprimir o folheto e também de abstrair o nome do escritor, passando a autoria do folheto a ser conhecida não atribuída a quem o escreveu, mas ao editor. Segundo declara Abreu (1999, 102), o proprietário “(…) adquiria também o direito de suprimir o nome do autor dos folhetos publicados ou mesmo substituí-los por seu próprio.”
Para corrigir esse absurdo, alguns editores acrescentavam a expressão “editor-proprietário”. Neste ínterim, supõe-se que as mulheres poderiam ter escrito alguns folhetos, mas teriam passado o direito de autoria a algum editor homem. Isto é uma “oficialização” materializada do exercício masculino na autoria da literatura de cordel.
Citemos como exemplo o caso da poetisa Maria das Neves Batista que, em 1938 publica o folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade. Neste folheto, não encontramos o nome dela. Em lugar disso, registra-se o pseudônimo Altino Alagoa, que era o apelido do seu esposo. O fato de se esconder atrás de um pseudônimo remete ao resguardo de se expor.
Veja o depoimento da cordelista registrado por Queiroz (apud SANTOS, p. 2009, p. 8): “Todos os folhetos que foram vendidos na livraria de meu pai ou que foram impressos, tinham nome de homem, eram homens que faziam, não existia naquele tempo, folheto feito por mulher, e eu, para que não fosse a única, né?, meu nome aparecesse no folheto, não fosse eu a única, então eu disse:
– Eu não vou botar meu nome.
Aí meu marido disse:
– Coloque Altino Alagoano.”
 
Para termos um vislumbre da discrepância entre o número de homens cordelista em relação ao de mulheres, veja no quadro de Queiroz (2006, p. 17) a os dados numéricos dos títulos e as autorias femininas:
 
Acervos de Literatura de Cordel pesquisados
 

Período Jun/2004 a Nov/2005 Instituição/Órgão Localização No.de títulos de cordel Títulos autoria feminina
USP/IEB São Paulo (SP) 1.555 5
Fundação Cultural de São Paulo São Paulo (SP) 3.500 14
A B L C Rio de Janeiro (RJ) 4.000 6
FUNARTE Rio de Janeiro (RJ) 6.000 10
Fundação Cultural da Bahia Salvador (BA) 5.000 37
UFBA/PEPLP Salvador (BA) 50 10
Fund.Casa J.Américo João Pessoa (PB) 1.000 5
UFPB João Pessoa (PB) 4.000 8
UFCG Campina Grande (PB) 6.000 25

 
 
A mesma autora (idem) apresenta-nos outro quadro, desta feita, com um fator positivo em meio ao caos, ou seja, um registro de 70 cordelistas encontradas num universo de 170 títulos. Vejamos o quadro:
 
 
 
 
RELAÇÃO DE CORDELISTAS POR REGIÃO
 

            Período da coleta: jun/ 2004 a nov/2005 ESTADO No DE AUTORAS TÍTULOS DE CORDEL
ALAGOAS 1 4
BAHIA 6 13
CEARÁ 29 91
GOIÁS 1 3
MINAS GERAIS 1 1
PARAÍBA 13 34
PERNAMBUCO 1 1
RIO GRANDE NORTE 5 5
RIO DE JANEIRO 7 8
SERGIPE 1 1
SÃO PAULO 3 5
SEM IDENT.REGIÃO 2 4
TOTAL 70 170

 
 
Tenho em casa dois volumes produzidos pela ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel –, onde, evidentemente, estão registrados os melhores cordelistas, segundo aquela instituição. São exatamente 31 escritores e nenhuma escritora. Isto não quer dizer que não haja mulheres que escrevam cordel, mas, creio que, mesmo existindo cordelistas, não foram contempladas pela oportunidade de serem reconhecidas.
Numa pesquisa aleatória, causa surpresa a maioria esmagadora de escritores e uma ausência congelante de mulheres escritoras. Isso foi pacificamente aceito. Pior, ainda hoje, não se questiona muito, apesar das reivindicações em prol da inserção da mulher no mercado.
Segundo relata Santos (2009, p. 8): “No site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel a exclusão das mulheres também é visível, são homens os vinte e sete poetas apresentados como os grandes cordelistas dos séculos XIX, XX e XXI. O quadro acadêmico, composto por quarenta cadeiras, nenhuma grafada com nomes de poetisas, também não se mostra receptivo às mulheres, elegendo apenas cinco para fazer parte do grupo seleto.”
Resumindo as palavras de considerações da “participação” da mulher na literatura de cordel, poderíamos dizer que foi imposto um silêncio histórica à mulher nos folhetos, relegada ao esquecimento. A participação delas fica restrita às folhas onde é descrito todo o ranço da masculinidade. Somente no século XX é que há um emergir de escritoras femininas assinando a produção da literatura cordelista.
 

CHICA BARROSA

Merece a nossa atenção as palavras de Santos (2009, p. 207), numa matéria sob o título: Cantadoras e repentistas do século XIX: a construção de um território feminino: “Foi somente na transição entre os séculos XX e XXI, no ano 2000, que uma das mais importantes obras sobre a produção de autoria feminina na literatura brasileira do século XIX, organizada por Zahidé Lupinacci Muzart, veio à tona, e por uma editora de mulheres. Até então, quase nada sabíamos sobre essas mulheres que, apesar de a crítica literária as ter excluído do seu cânone, escreveram e publicaram no seu tempo, a exemplo de Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Idelfonsa Laura César, entre tantas outras.”
A citação acima é um registro do que constatamos na prática, ou seja, a abstinência autoral de mulheres na literatura, mormente, de cordel, onde a imperiosa marca masculina merece menção.
De pais escravos alforriados, ele se chamava João Francisco dos Santos e a mãe, Josefa da Conceição Silva, ambos nascidos no quilombo de Mãe d’Água. Como o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, os irmãos de Chica Barrosa não tinham pendor para o repentismo.
Sabe-se que a viola era para Chica Barrosa uma peça sagrada, devido ao uso constante e diferenciado que a repentista dedicava a este instrumento. Dizem até que, mesmo quando a pombalense estava bebendo, nunca deixava a sua companheira ao léu.
Chica Barrosa, Francisca Barrosa ou Francisca Maria da Conceição faz parte de uma sociedade de pessoas de cor que habitaram a região nordestina, hoje conhecida como o município de Pombal, no estado da Paraíba.
Chica destaca-se pela habilidade do improviso, sendo uma genialidade em pessoa.  Nasceu em 10 de julho de 1897, data em que aquela comunidade já havia passado da categoria de vila a cidade. A repentista foi assassinada na mesma localidade por José Pedro da Silva exatamente no dia 3 de outubro de 1916. Tudo indica que a motivação do assassinato foi passional. Diz-se que a repentista havia discutido com o futuro assassino num baile. Este lhe desferiu alguns golpes de faca, podando a vida da mais conhecida repentista mulher de então.
Medeiros (2009, p. 54) registra a opinião de estudiosos da época sobre Chica Barrosa: “(…) grande cantadeira sertaneja, gabada como a primeira lutadora do seu sexo que enfrentou os nomes mais ilustres da cantoria. Era alta, robusta, mulata, simpática, bebia e jogava com qualquer boêmio, e tinha voz regular. Paraibana, seus desafios correm mundo, despertando aplausos. O seu combate mais célebre foi com o cearense Manuel Martins de Oliveira, conhecido como Neco Martins, de São Gonçalo do Amarante. Mesmo quando vencida, a mulata improvisara magnificamente, deixando forte impressão entre os cantadores. Com Manuel Francisco de Pombal, bateu-se longamente, vencendo-o, assim como ao cantador José Bandeira. Chica Barrosa assim se autodefinia: “A negra Chica Barrosa é faceira e é dengosa.”
A fama de Chica Barrosa foi além dos limites do município de Pombal, ou mesmo da Paraíba. A história do seu talento correu pelos torrões da Paraíba, Ceará e do Rio Grande do Norte.
Certamente, precisaríamos de mais espaço para citar alguns versos marcantes na carreira da repentista. No entanto, registremos ao menos alguns, citados por Irani Medeiros:
Num proverbial embate entre Chica Barrosa e Neco Martins, veja como a repentista se saiu de uma enrascada:
 
Canta Neco:
 
Ô BARROSA, me responda,
Seja por mal ou por bem:
Em cima daquela serra
Quantos pés de capim “tem”?
 
Então, Chica Barrosa responde:
 
Se a seca não matô
Ou os bichos não comeu,
Em riba daquela serra,
Tem os capim que nasceu! (apud SANTOS, p. 12).
 
Mais poesia do embate.
 
Barrosa
 
Me danei numa certa ocasião,
Fiz água do mar parar o açoite,
Fiz o dia nascer à meia-noite,
Transbordando a noite num clarão.
Fui ao céu escanchada num trovão,
Um corisco me vendo, se escondeu;
Um raio ia descendo, não desceu!
Fiz, da lua, um planeta vagabundo…
Coloquei quatro rodas neste mundo,
Mandei a terra correr, ela correu! (apud SANTOS, p. 111).
 
 
Resposta de Neco:
 
Pra enganares os tolos deste mundo,
Uma bela mentira tu constaste:
O açoite do mar, tu não paraste,
Que o mar é incrível, iracundo!
O abismo dos céus é tão profundo,
Que, num simples trovão, é inatingível!
Nascer o Sol à meia-noite é impossível!
Segundo as leis da física celeste:
Fica, assim, pois, desfeito o que fizeste,
De ninguém dar-te crédito, estás passível (apud SANTOS, p. 112).
 
 
Segundo o relato de Medeiros (2009, p. 54), a plateia que assistia ao embate pedia um palavreado mais apimentado. Isso favorecia a Chica Barrosa, por ser dotada de uma capacidade acima do normal para o improviso. Neste contexto, dizem que ela foi merecedora de mais aplausos, o que deixou o Neco em situação desfavorável, levando-o a apelar para a violência, sacando mão de uma “marca” para desferir seus projéteis palavrórios sobre a repentista. Claro que, não esperando por tempos ruins, a repentista não teve outra saída a não ser correr.
Passado o calor do momento, a repentista desponta com um improviso de despedida:
 
Nesta nossa cantoria,
Estremeceram-se os céus;
Até os mortos ouviram
No fundo dos mausoléus;
Com o abalo, acabou-se
A raça dos fariseus,
Com o destino, findou-se
A raça dos prometeus!
Só o mundo tem liberdade,
E o infinito tem Deus!
Colega Neco Martins,
Aceite meu triste adeus (apud SANTOS, p. 112).
 
Cognominada de “a rainha negra do repente”, Chica Barrosa é uma das representantes pontualmente relatadas na literatura de cordel. A princípio, seria de bom senso atualizarmos o termo “negro” para não incorremos em interpretações dúbias. Segundo (Giddens, 2005, p. 207): “A palavra ‘negro’ era um rótulo pejorativo atribuído aos afrodescendentes por brancos.” Foi somente na década de 1960 que os norte-americanos e os britânicos de origem africana “reclamaram” o termo e aplicaram-no a si mesmos de modo positivo. A palavra “negra” tornou-se uma fonte de orgulho e de identidade, em vez de um estigma racial, nos Estados Unidos.
Sendo materializada como negra, sabe-se que os cantadores que a enfrentavam estavam diante de duas premissas. A primeira, mesmo cristalizado o preconceito de cor, os cantadores a aceitavam como uma repentista talentosa. Em segundo lugar, eles reconheciam que a marginalização da negra cantadora estava mais por conta da história do que por parte deles mesmos.
De acordo com Santos (2009), há necessidade de um estudo mais acurado sobre a presença do negro na literatura de cordel, tendo em vista que, sempre que se adentra neste estudo, percebe-se a presença do homem de cor atuante nas cantorias e nos cordéis.
Merece destaque, conforme Santos (2009, p. 227), o contexto do encontro entre Neco e Chica: “Segundo depoimentos do ilustre conterrâneo e intelectual de saudosa memória, Dr. Adolfo Barbosa Pinheiro, e ratificado pelo Sr. João de Paula Gomes, coletor de São Gonçalo do Amarante, Ceará, e pela senhora Francisca Eulália de Sousa Morais, era Manuel Martins de Oliveira (Neco Martins) rico fazendeiro, político e cantador, residente em São Gonçalo do Amarante. Neco Martins, segundo essas testemunhas, jamais recebeu qualquer pagamento por suas cantorias. Além de entregar ao companheiro todo o dinheiro da contribuição dada pelos ouvintes, ainda completava com o de seu bolso, caso a arrecadação fosse pequena. Neco, aproximadamente no ano de 1910, foi o genial repentista desafiado pela famosa negra cantadeira paraibana, Francisca Maria da Conceição, conhecida por ‘Chica Barrosa’, para não dar a conhecer o fato à sua esposa, dona Filomena, que se opunha a esse tipo de atividade, escolheu como local do duelo sua fazenda Suíte, distante duas léguas de São Gonçalo. Disse à esposa que nessa fazenda iria vender umas vacas paridas a um amigo de Fortaleza. Na qualidade de homem branco e membro de uma das melhores famílias do Ceará, Neco disse, em menoscabo a sua rival:
 
Eu, agora, estou ciente,
Que nego não é cristão:
Pois a alma dessa gente
Saiu debaixo do chão,
E lá na mansão celeste,
Não entra quem é ladrão!” (MEDEIROS, 2009, p. 58)
 
O embate culmina com duas magistrais estrofes, uma de cada repentista.
 
Me danei numa certa ocasião,
Fiz a água do mar parar o açoite,
Fiz o dia nascer à meia-noite,
Transformando-se a noite em clarão,
Fui ao céu escanchada num trovão,
Um corisco me vendo se escondeu,
Um raio ia descendo não desceu!
Fiz, da lua, um planeta vagabundo…
Coloquei quatro rodas neste mundo,
Mandei a terra correr, ela correu! (MEDEIROS, 2009, p. 111)
 

  1. Pra enganares a todos deste mundo,

Uma bela mentira tu contaste:
O açoite do mar, tu não paraste,
Que o mar é irascível, iracundo!
O abismo dos céus é tão profundo,
Que, num simples trovão, é inatingível!
Nascer o Sol à meia-noite é impossível!
Segundo as leis da física celeste;
Fica, assim, pois, desafio o que fizeste,
De ninguém dar-te crédito, estás passível (MEDEIROS, 2009, p. 112).

O AFRODESCENDENTE BRASILEIRO

Para valorizarmos ainda mais o despontar de uma mulher, acima de tudo de cor, veja-se como era visto o afrodescendente naqueles idos. A seguir, cito os versos de poetas daquele tempo, catalogados por Irani Medeiros (2009, p. 121-122):

 
Branco é filho de Deus,
E mulato é enteado,
O cabra não tem parente,
Negro é filho do diabo.
Homens e mulheres afrodescendentes, tanto como cantadores quanto como criadores do “eu” lírico das poesias marcam o cenário cordelista. Entre os cordelistas, podemos citar Inácio da Catingueira, Preto Limão, Manuel Caetano, Fabião das Queimadas e a Negra Francisca (Chica) Barrosa. Eles figuram como estrelas deste céu afro-brasileiro.
 

RITA MEDEIROS

Tão pálida é a importância dada às mulheres cordelistas que a existência de algumas delas é colocada em cheque. Veja o que diz (Almeida e Sobrinho, 1978, p. 179) em seu Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada, (apud Francisca Pereira, 2010, p. 239) sobre Rita Medeiros: “(…) certamente, pelo menos como cantadora ou emboladora de coco, Rita Medeiros nunca existiu”. Se existiu como mulher, virou personagem musical. Em Sertão Alegre, os autores fazem referência à Rita Medeiros ou Medero, como o zé-povinho a chamava, sem nada acrescentar às vagas informações correntes sobre ela.
O contraponto desta afirmação é registrado por Luís Wilson, em Roteiro de velhos cantadores e poetas populares (apud Pereira, 2006, p. 239): “(…) do sertão, fala que Rita Medero ou Mêdera existiu e residiu no Retiro da Boa Esperança, município de Barras, Estado do Piauí, era casada com Henrique Medeiros, ‘marido complacente que permitia que abandonasse o lar durante semanas e semanas ou que a fossem tirar de casa, alta noite, para festas e fuçanatas”. Segundo Wilson (1986, p. 108), essa mulher que era ‘bonita, bebia como um gambá, era pornográfica e os versos dela ninguém repete, morreu sexagenária em 1901 ou 1902”. Novamente aparece a figura do cantador do século XIX como um boêmio, perfil recorrente, que vale tanto para os homens quando para as mulheres.
 

MARIA TEBANA

Palidamente, Rodrigues de Carvalho registra a vida da repentista desta forma: “(…) fazia as delícias dos apreciadores da trova do povo, cantando admiravelmente e tocando viola, acompanhada de um cortejo de admiradores de chapéu de couro e cacete” (CARVALHO, 1967, p. 340).
O mesmo Carvalho faz uma referência a Maria Tebana num embate com Manuel do Riachão na obra Cancioneiro do Norte (2002, p. 137):
 

  1. – Nego preto, cô da noite

Do cabelo pixaim,
Primita Nossa Senhora
Bacaiau seja o teu fim!
 

  1. – Você me chama de nego

Do cabelo pixaim
Queria que ocê dissesse
Que dinheiro deu pra mim…
 

  1. – Nego preto, cô da noite

Do cabelo pixaim,
Primita Nossa Senhora
Bacaiau seja o teu fim! (Maria Tebana e Manuel do Riachão, apud Mota, 2002a, p. 137-9).
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Deduz-se das rarefeitas citações acima a existência bibliográfica das mulheres cantadoras ou repentistas que desfilaram na literatura de cordel. Lembramos ainda que estas mulheres apresentavam suas poesias oralmente, no entanto, ouvintes e observadores registraram seus versos. Acreditamos, devido a algumas circunstâncias, entre elas, o imperioso domínio machista, uma operação de proposital abstinência na lista de mulheres escritoras na literatura de cordel.
Materializamos o citado acima quando percebemos o diminuto espaço dedicado, principalmente às duas últimas mulheres, mencionadas neste artigo que já nos leva a inferir sobre a pouca importância dada a elas na produção e pesquisa sobre as mesmas.
Quer o anonimato, quer o pálido surgimento de um ou outro nome feminino entre os cordelistas, não quer dizer, de forma alguma, que a qualidade literária dos versos produzidos por estas mulheres marginalizadas está aquém daquelas de autoria masculina.
Demos ênfase a apenas três dessas mulheres e, dentre elas, privilegiamos o nome de Chica Barrosa, mas, certamente, há tantas outras que o tempo e os pesquisadores haverão de ressuscitar das cinzas do preconceito para a glória literária no Nordeste e do Brasil.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABREU, Márcia. Histórias de cordéis e folhetos. Campina: Mercado das Letras, 1999.
ALMEIDA, Átila Augusto F. de e SOBRINHO, José Alves (1978). Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada. Tomo I e II. João Pessoa: Editora Universitária – UFPB.
ALMEIDA, Átila Augusto F. de e SOBRINHO, José Alves (1978). Cantadoras e repentistas do século XIX: a construção de um território feminino. s. l., s. ed.
BATISTA, Otacílio; LINHARES, Francisco. Antologia Ilustrada dos Cantadores. 2ª ed. fortaleza: Imprensa Universitária, 1982.
CARVALHO, Rodriguez. Cancioneiros do norte. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1967.
CASCUDO, Câmara. Vaqueiros e Cantadores. São Paulo: Ediouro, s/d.
GIDDENS, Anthony (2005). Sociologia. Porto Alegre: Artmed.
MARTINS, Neco. Biblioteca de cordel. Introdução e Seleção: Gilmar de Carvalho. São Paulo: Hedra, 2002.
MEDEIROS, Irani. Chica Barrosa – a rainha negra do repente. João Pessoa: Ideia, 2009.
MOTA, Leonardo (2002a). Cantadores poesia e linguagem do sertão cearense. 7ª ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora.
MOTA, Leonardo (2002b). No tempo de Lampião. 3ª ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora.
QUEIROZ, Doralice Alves de. Mulheres cordelistas: percepções do universo feminino na literatura de cordel. (Mestrado Literatura Brasileira) – Faculdade de Letras da UFMG, Belo Horizonte, 2006. Disponível em:
www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/ALDR-6WEK7J – 10k.
Acesso em 28/10/2014.
QUEIROZ, Julio de. Salma Ferraz (org.) A mulher na humanidade. Florianópolis: FAPESB: Blumenau: Edufurb, 2014.
RIBEIRO, Luís Filipe. Mulheres de papel. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. [1ª ed. Niterói, EdUFF, 1995].
SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na sociedade de classes: mito ou realidade. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1979.
SANTOS, Francisca Pereira. Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel. Cariri: SESC, 2008.
SANTOS, Francisca Pereira. Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel. Cariri: SESC, 2008.
VASCONCELOS, Normando. Cantiga de viola. Maceió: Arte-Digital, 1966.





Bio fornecida pelo palestrante.

UMA MULHER EM FESTA: MÍSTICA E SIMBOLISMO EM TRÊS PUBLICAÇÕES POUCO CONHECIDAS DE CECÍLIA MEIRELES – Camila Marchioro




 

Camila Marchioro

Universidade Federal do Paraná/CAPES

 
 
 
RESUMO: O objetivo deste ensaio é discutir três contribuições de Cecília Meireles para a revista Festa ainda não analisadas pela crítica literária. Pretende-se mostrar como tais publicações consistem em um importante corpus de textos que compreendem uma fase (1927 a 1935) anterior à publicação de Viagem (1939), e revelam um amadurecimento da poetisa em relação à estética e temática de seus primeiros poemas publicados. Com efeito, visa-se evidenciar que tais textos, usados na forma, demostram que Cecília Meireles investiu em um tratamento diferente do tema da mística, que passa a ser abordado de modo mais intenso futuramente. Sendo uma das poucas vozes femininas do grupo espiritualista, os textos publicados pela poetisa dão espaço para a representação da mulher num âmbito ainda não muito explorado pela literatura brasileira: a ascensão espiritual.
 
PALAVRAS-CHAVE: Cecília Meireles, revista Festa, mística, simbolismo.
 
ABSTRACT: This essay intends to discuss three contributions of Cecília Meireles to the Festa magazine which have not yet been reviewed by the critics. It is intended to show how these publications are inserted in an important text corpus which covers a previous poetic phase, from 1927 to 1935, before the publication of Viagem (1939). These texts unveil a process of maturity on the part of the poet in relation to the aesthetic and thematic of her first published works. Thus, it is intended to demonstrate that in the selected texts, each in a distinct form, Cecília Meireles handled differently the mystical theme, which happens to be addressed more intensely in the future. One of the few women’s voices among the spiritualist group, the texts published by the poet lay a space for the representation of women in a context not much exploited by Brazilian literature: the spiritual ascension.
 
KEYWORDS: Cecília Meireles, Festa magazine, mysticism, Symbolism.
 
Minicurrículo: Camila Marchioro possui bacharelado em Letras pela Universidade Federal do Paraná e é Mestre pela mesma instituição com a dissertação Cecília Meireles e os símbolos do Absoluto. Contribui para o projeto da revista Versalete como parecerista. Desde 2014 cursa o doutorado em Letras também pela UFPR e é bolsista de doutorado sanduíche pela CAPES, pelo que atualmente encontra-se na Universidade do Porto, Portugal, em pesquisa para sua tese: Caminhos do Oriente: a água e o tempo na poesia de Cecília Meireles e Camilo Pesssanha.


 
 
Uma mulher em Festa: mística e simbolismo
em três publicações pouco conhecidas
de Cecília Meireles
 
 
Camila Marchioro
 
Universidade Federal do Paraná/CAPES
 
 
Introdução
 
Cecília Meireles é, dentre as mulheres de nossa poesia, um dos nomes mais conhecidos Brasil afora. Prezando pelos ideais de não violência, a poetisa jamais vinculou-se a movimentos feministas, uma vez que julgava que, à época, estes pregassem a segregação sexual, o que contrariava seus princípios espiritualistas de comunhão e respeito universais. Tal posicionamento da poetisa faz com que tenhamos a notícia de que nos anos 20 do século passado Cecília Meireles não fosse a única voz feminina a manifestar-se no meio artístico e literário brasileiro. Embora abafadas pelo estrondo do modernismo, não foi pouca a produção feminina e feminista daquele período:
 
Não que não tivéssemos escritoras naquele tempo. Havia – tanto poetas, dramaturgas, como ficcionistas –, mas por um motivo ou outro, não receberam convite.  O sucesso literário tem dessas coisas: é preciso acertar o timing, estar no lugar certo na hora certa; e,   principalmente,   olhar   na   mesma   direção.  Se relacionamos as escritoras mais produtivas daquela década,  verificamos  como  elas estavam  distantes  do  projeto  modernista  tal  como  ele  foi  elaborado,  e  o  quanto estavam  envolvidas  em  um  outro  projeto  –  não  necessariamente  estético – mas principalmente  ideológico,  visando  à  emancipação  da  mulher  (DUARTE, 2011, p. 45).
 
Por destoar tanto dos ideais feministas quanto dos ideais do grupo modernista, a autora foi pioneira em seu caminho poético e ainda hoje é difícil situá-la no panorama modernista da literatura do século XX. Acabou por entrar de fato para o cânone da literatura brasileira, o que infelizmente não se deu com outras profícuas escritoras da época. Cecília Meireles recebeu reconhecimento primeiramente em Portugal, e, pelo seu livro Viagem (1939), foi a primeira mulher a receber prêmio da Academia Brasileira de Letras. Aderiu, assim, ao grupo formador da revista Festa, mas, também por não concordar com certos aspectos ideológicos do grupo, acabou por desvincular-se em meados da década de trinta. Como ela mesma disse em seu poema “Beira Mar”: “porque isto é mal de família, / ser de areia, de água, de ilha…” a sua natureza “insular” a fez seguir sozinha pelo seu caminho. A sua poética tem como um dos traços mais fortes a aceitação da possibilidade de ser eterna diante de um mundo material e a tentativa de equilibrar-se ante a vida mesquinha dos homens da Terra e a vastidão do Mar Eterno.
Desse modo, a autora apresentou-nos uma proposta mística em sua poesia, se entendermos por misticismo/mística como sendo a busca da comunhão com o Absoluto (divindade, verdade espiritual) através da união direta, intuição, instinto ou insight. Em grego mustikós significava mistérios, em especial relacionava-se aos “mistérios de Elêusis”. Foi o Pseudo Dionísio Areopagita quem modificou o significado do termo. A nova acepção foi fixada na Idade Média e consagrada pelos místicos cristãos posteriores. Com efeito, o sentido original, e que vigorou por longo tempo, do termo mística e de seus derivados diz respeito a uma forma superior de experiência, de natureza religiosa, ou religioso-filosófica, que se desenrola normalmente num plano transracional – não aquém, mas além da razão – mas, por outro lado, mobiliza as mais poderosas energias psíquicas do indivíduo. (VAZ, H. apud BRANDÃO, 2007, p. 153).
Portanto mística e mistiscismo em Cecília Meireles podem ser entendidos como a busca ou a união com algo que está além das razões humanas, ou seja, o divino. A fim de facilitar a compreensão, chamaremos aqui este “divino” de Absoluto. Na busca por desvelar o mistério da vida, a autora deparou com um conhecimento compartilhado e desabrochado nas mais diversas culturas ao longo de séculos, notadamente com a ideia de que há uma verdade perene e eterna que a tudo subjaz, há algo que está em tudo, que tudo gera, mas não é gerado, algo a que pertencemos e não é pertencido, criador de si mesmo e do qual tudo emana. Foi no Oriente que Cecília teve contato com um conhecimento místico ainda vivo e ao qual ela mais se vinculou simbolicamente.
Dada a sua vertente espiritualista, a poetisa encontrou no grupo Festa um lugar para divulgar sua poesia. Assim, para este ensaio foram selecionados três excertos de contribuições da poetisa na supracitada revista com o intuito de verificar, dado o teor da publicação, como é retratada a espiritualidade nesses excertos. Estes escritos não foram ainda analisados pela crítica especializada e caíram no esquecimento dado o fato de não terem sido publicados posteriormente em livro. Os textos são de 1927 e 1928 e, na esteira de seus primeiros livros. Em 1927 a autora já havia publicado Espectros, Nunca mais… e Poema dos poemas e Baladas para El-Rei – livros que foram excluídos por ela mesma quando da organização de sua Obra poética (1958) e da Antologia poética (1963). Trazem um forte apelo místico, todavia com uma abordagem diversa: os temas colhidos por Cecília Meireles na filosofia indiana, por exemplo, estão presentes em Festa e são abordados com a mesma maturidade que só se consolidaria poeticamente, para o grande público, na publicação de Viagem, em 1939.
O grupo de jovens escritores que originaram a revista Festa era formado em especial por católicos que “defendiam a renovação de nossas letras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico” (DAMASCENO, 1967, p. 11). Cecília Meireles jamais se comprometeu doutrinariamente com algum grupo, todavia essa vinculação, segundo Darcy Damasceno, demonstrava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo. Os postulados da corrente eram: velocidade da expressão (surpreender), totalidade (o artista permeando por todas as realidades a fim de recriá-las em sua arte), brasilidade (valorizar principalmente a realidade brasileira) e universalidade (compreender o Brasil como integrado na realidade universal).
Representado principalmente por Tasso da Silveira e Andrade Muricy, os valores do grupo contrariavam a liberdade de ideias do movimento modernista paulistano. Diferenciava-se ainda pelo fato de os espiritualistas não se preocuparem em romper com formas literárias anteriores. Segundo Darcy Damasceno, a renovação do grupo Festa dava-se mais no plano ideológico e, no que diz respeito à métrica, julgavam válidos os instrumentos herdados, unidos ao verso livre decadentista, cujas qualidades rítmicas eram diversas daquelas propostas pelos modernistas de Klaxon. Assim, mesmo utilizando metros tradicionais, Cecília Meireles foi apontada como exemplo das novas possibilidades de que a corrente espiritualista se julgava dotada (DAMASCENO,1967, p. 13).
O grupo espiritualista retomava a escola simbolista, congregando-se em torno de uma visão mística. A revista teve duas fases, a primeira em 1927-1928 e a segunda em 1935. A autora contribui para as duas, tanto com poemas e prosa quanto com desenhos e ilustrações. Entre 1930 e 1933 Cecília Meireles dirigiu, no Diário de Notícias, a página de educação, onde começou a publicar suas opiniões sobre a Escola Nova. Em meados da década escreveu para A Nação e a Gazeta, desvinculando-se, assim, com o fim da revista Festa, do grupo espiritualista. Uma vez que era a favor da Escola Nova, a autora passou a criticar a obrigatoriedade do ensino religioso, pois era adepta do ideal de uma educação laica, universal e plural. Aponta-se este como um dos motivos da sua desvinculação do grupo, já que os demais prezavam pela obrigatoriedade do ensino do catolicismo nas escolas.
Cecília Meireles tinha uma compreensão diferente da universalidade. Enquanto os católicos brasileiros se apropriavam das ideias de universalidade a fim de justificar uma união nacional (nacionalista), a autora não promovia os limites nacionais. Pelo contrário, buscava uma unidade humana acima de qualquer nacionalidade, raça ou religião; provavelmente por isso não se ligou nem a grupos estéticos nem a grupos religiosos.
 
Uma mulher rumo ao Absoluto
O primeiro trecho escolhido para análise dos aspectos místicos que já se esboçavam na sua poética naquela época é, do ponto de vista da forma, bastante peculiar. No corpo do texto há uma denominação como “poema”, mas sua forma é híbrida, o que nos leva a uma prosa poética. Há aí, portanto, uma demonstração da consciência da poetisa no que diz respeito à forma ou à concepção de “poema”. Todavia, a estrutura do “poema” é de conto e há, inclusive, um personagem principal: um menino poeta que não compreende o valor e a utilidade dos presentes que recebe. Há, portanto, um profundo questionamento sobre o próprio fazer poético. Dados outros escritos de Cecília Meireles, sabemos de sua visão humanista do poeta, por isso permito-me, neste conto, reconhecer o menino como símbolo para o próprio poeta e os presentes como símbolos do dom ou dádiva a serem usados pelo poeta para falar da “verdade”. Assim, entramos naquilo que é a “mística”, ou o sagrado. O fazer do poeta é posto como similar ao ofício do profeta, tal qual encontramos em Petrarca e Camões, por exemplo. Por tal motivo, o “poema” abaixo retoma a história de Jesus e de Osíris:
 
O teu brinquedo novo tem a forma da Terra
e é cortado de paralelos roxos, vermelhos, azuis…
O teu brinquedo novo é o retrato do mundo,
e as tuas mãozinhas, guardando-o, têm o egoísmo
e o domínio da mão de um conquistador. (…)
 
(…) Este foi o terceiro brinquedo que o Paizinho te trouxe: um brinquedo com pernas, braços, cabeça… Um homenzinho de celuloide…
E martirizaste-o todo… Abriste-lhe a cabeça, arrancaste-lhe os braços, rebentaste-lhe as pernas…
Pobre homenzinho de celuloide, inteiramente sacrificado por ti! Brinquedo reduzido a nada para alegria do teu capricho efêmero! Pensar que um dia, quando cresceres, verás desses brinquedos símbolos por toda parte… E verás sacrifícios assim, totais e inúteis para a infância, para a vida, para a morte – três coisas transitórias – como esse teu primeiro capricho.
Um dia, meu menino, quando puderes ler este poema, eu te contarei o mistério de Osíris, a crucificação de Jesus… (MEIRELES, 1928, p. 2).
 
 
Os presentes são muito sugestivos: um é representativo do mundo, o segundo é um urso e o terceiro representa o homem. O menino poeta, egoísta, perdido nos seus desejos, destruiu seus brinquedos a fim de realizar seus caprichos. Não compreendendo nem o mundo, nem o animal, nem o homem, distorceu seus brinquedos a seu bel prazer e acabou sacrificando-os, inutilizando-os. Nesse poema o místico se confunde com o esotérico, “quando puderes ler este poema”, um conhecimento não revelado e que demanda um amadurecimento do menino. Antes, para conhecer “o mistério de Osíris”, o menino terá de se livrar do seu egoísmo (“e as tuas mãozinhas, guardando-o, têm o egoísmo”) e da sua mão conquistadora, que acabou por destruir os brinquedos. Aparece, nesse poema, uma das primeiras menções que liga as mãos aos desejos, e tal simbolismo será muito profícuo em toda a sua posterior poesia.
Desse modo, o menino não consegue lidar com os brinquedos que recebe. Expandindo para a interpretação do menino como poeta, é o poeta que não sabe o que fazer com o seu dom de escrita. Todavia, foquemos esta análise nas questões místicas que são mais evidentes.
Osíris foi um dos deuses mais populares da mitologia egípcia. Relacionado à vida no Além, era o responsável por julgar os mortos. A ele estavam relacionados mistérios, como o próprio mistério da vida após a morte. Em De Iside et Osiride, um dos aspectos referidos por Plutarco é o caráter misterioso dos cultos a Osíris e Ísis. Osíris estava relacionado à ideia de morte e ressurreição, representados pelos ciclos naturais tanto da vida humana quanto dos elementos da natureza terrestre. Osíris, portanto, também era tido como um deus ligado à natureza, especialmente à agricultura. Nas suas representações, sua pele poderia ser verde ou negra, cores que os Egípcios associavam à fertilidade e ao renascimento.
Na mitologia egípcia (recontada em livros como o de Plutarco, no texto das pirâmides e também no texto dos sarcófagos e no Livro dos Mortos), Osíris é esquartejado em quatorze pedaços por seu irmão Seth. Ísis, sua esposa e irmã, o traz novamente à vida, mumificando-o e o ressuscitando por meio da magia. A partir daí Osíris passou a governar o mundo dos mortos.
A ideia presente nos mistérios egípcios de que a semente enterrada no solo geraria uma vida nova, fez com que o homem antigo comparasse seu destino com o da semente. Sob esse aspecto, a morte do corpo seria o começo de uma nova existência. Essa reflexão explicaria a associação de Osíris com o grão por meio do mistério da sua morte e renascimento, fazendo com que os iniciados acreditassem que o seu conhecimento sobre tais mistérios garantia sua imortalidade. Assim, pode-se dizer que o mito de um deus sofredor que dá a vida vencendo a morte era considerado a principal característica dos cultos de mistério. Da mesma forma, Cristo ressuscitou dos mortos, portanto, no texto de Cecília Meireles, estão similarmente colocados como aqueles que venceram a morte, que estão além dos mistérios desta e da vida. A relação entre as duas figuras citadas e os três brinquedos recebidos pelo menino poeta, interpreta-se aqui, está justamente no fato da transcendência dos limites da própria vida, do sofrimento gerado por ela. Apegado aos modos da existência, o menino ainda não está preparado para compreender o que está por trás do destino ao qual ele está fadado: a morte (representada pelo homenzinho de celuloide), assim o homem de celuloide, à semelhança de Osíris, é esquartejado e martirizado pelo menino.
Já o primeiro brinquedo, o retrato do mundo, representa o desejo de conquista do menino e de domínio sobre a matéria, a Terra. O menino cuida do brinquedo para que não se perca, a poetisa simboliza desse modo o apego pela vida corpórea. O segundo é um urso amarelo pelo qual o menino demonstra carinho e quer cuidá-lo tanto que não pode largá-lo. Esse brinquedo pode representar os próprios desejos do menino, anseios estes relacionados ao âmbito dos sentimentos, não pertencentes ao mesmo nível que o da matéria, mas ainda consistindo em impedimentos para a superação da morte. Ao jogar com cada brinquedo o menino se prende aos estados da existência que o impedem de conhecer o Absoluto.
Cecília Meireles foi leitora ávida, como já dito, da filosofia hindu, em especial do Vedanta. Por esse motivo, tomemos como base o conteúdo do Bhagavad-gita (livro sagrado hindu, que reproduz, em forma épica, os princípios filosóficos e éticos dos Upanishads, que foram lidos por Cecília Meireles) para evidenciar a relação do poema com a filosofia. Neste último livro hindu, Krishna explica a Arjuna sobre a natureza do Absoluto e os modos da existência material. Assim o deus lhe afirma que todos os estados de existência – sejam eles bondade, paixão ou ignorância – manifestam-se por sua energia e que, num certo sentido, ele é ao mesmo tempo tudo e independente de tudo, não estando assim sob a influência dos modos da natureza material. Aquele que está iludido pelos três modos não pode conhecer o Absoluto, que está acima dos modos e é inesgotável (PRABHUPADA, 2011, v. 12, p. 379, v. 13, p. 381).
Nesse sentido, os três modos estão representados no poema pelos três brinquedos, e o menino só estaria pronto para conhecer o Absoluto quando fosse capaz de “ler o poema”, ou seja, superar os modos da existência e assim poder compreender o mistério de Osíris e a crucificação de Cristo. A Compreensão desses dois significaria, no texto de Cecília Meireles, ser capaz de superar a própria morte. “Ler o poema” leva-nos, mais uma vez, para a metalinguagem em que o poema surge como locus da revelação da verdade, e assim como no renascimento, a poetisa coloca as humanae literae ao lado das sacrae literae. O sagrado, para Cecília Meireles, é entendido não apenas como sendo do âmbito divino, mas como algo que é, também, digno de respeito:
 
(Porque estes orientais têm pela Poesia um respeito análogo ao que se costuma ter pela religião. A Poesia não é um versejar fútil: é uma espécie de iluminação interior, uma espécie de santidade e profetismo. A palavra do Poeta não é uma habilidade superficial, um diletantismo, – e sim um exemplo, uma revelação, um ensinamento através de sons e ritmos… Que alegria, respirar num país onde ainda se pensa desse modo! Que esperança de vida! Que renovação de fé na humanidade!) (MEIRELES,1999, p. 266).
 
 
Em número anterior da mesma revista a autora publicou um conto que relata a personagem despindo-se do eu e dos modos da natureza material, chegando à união total com o Absoluto, reconhecendo a sua própria natureza divina, imperecível e suprema. A personagem, de certa forma, ainda que por instantes, supera o medo da morte, identificando-se com o Absoluto. Interessante é notar que a voz feminina ceciliana não é rara na poesia, mas constituiu numa pérola inigualável quando o assunto é a experiência mística. Talvez o texto que se segue, ainda que suposta ficção, seja um dos poucos a retratar a experiência mística do ponto de vista de uma mulher. A poetisa abre espaço para retratar a ascensão e iluminação de uma mulher:
 
(…) Sinto-me tão vasta… Cheia de vozes, de fisionomias, de gestos.
Acordo às vezes da minha monotonia: e encontro em mim, continuando a viver, as imagens que a vida em mim refletiu… São tantas… São todas! (…)
Vejo-me, assisto-me… Sou tudo. Tenho tudo comigo.
Caminho para lá da infância… Prossigo para lá da morte… Saio da minha … própria vida… Continuo no que vive em torno. (…)
Abriu os braços na sombra. E o vestido aberto escorregou-lhe pelos ombros e caiu. Silenciosa: o silêncio do seu corpo: o grande silêncio antigo do seu espírito em que a vida pusera a ilusão das palavras e dos pensamentos falando…
 
Vinha da noite um presságio ardente de morte. E as aparências todas se desvaneciam; todos os contornos se diluíam; todas as coisas com existência recuavam… Ficava apenas a intenção do primitivo milagre: o sentido que as formas esconderam e esqueceram.
Era a ruína, em torno. Era uma transfiguração.
— Mas, então os seus olhos nunca tinham visto?
E o que a sua boca dissera…
Tudo o que ouvira a si mesma.
E a sua vida… (Mas, onde, a vida?). E era o infinito silêncio de tudo a aguardá-la, a absorvê-la, — e um medo vago de não se encontrar mais naquele silêncio, e a certeza de ir sendo lentamente, fortemente impelida…(…) (MEIRELES, 1927, p. 4-5).
 
Pode-se entender este conto como um relato do exato momento da comunhão com o Absoluto. O ser humano sendo sem predicados, desvencilhando-se do “eu” e afastando-se da superfície das formas para penetrar no seu mais profundo. “Vejo-me, assisto-me… Sou tudo. Tenho tudo comigo” (idem), nesse ponto a personagem (voz que às vezes se mescla à do narrador) contempla-se na sua completude, começa a entender-se enquanto ser, sente-se ligado a algo maior que os contornos do “eu”. Há uma profunda identificação com o todo, o sujeito sente-se ligado às multidões, sente que elas moram nele. Depois, a personagem identifica-se com a própria morte e tudo que tem existência recua, para dar lugar ao Nada e ao princípio de toda a criação, ao formador de todas as formas.
A personagem se despe não apenas do vestido, mas de si própria, das suas categorizações do mundo e do ego. “Vinha da noite um presságio ardente de morte” (idem), esta frase anuncia a morte do próprio “eu”. “E as aparências todas se desvaneciam; todos os contornos se diluíam; todas as coisas com existência recuavam… Ficava apenas a intenção do primitivo milagre: o sentido que as formas esconderam e esqueceram” (idem). Aqui as categorizações vão se desfazendo para restar apenas a forma pura, o puro silêncio, o puro ser.
A personagem começa a lembrar de si e assim desfaz-se de seu ego compreendendo que nunca havia deixado de ser, mas estava perdida em si mesma crendo nos seus olhos e nas suas palavras, que eram, na realidade, o desvio do verdadeiro sentido. Finalmente o silêncio. E a personagem depara-se com aquilo que é ela mesma, tattvamasi (“aquilo que és tu”), como fora dito no texto hindu Chandogya Upanishad. No final, a personagem contempla-se no espelho diante de um dilema que é o dilema que perpassa toda a poesia ceciliana: a prisão na condição humana em oposição a liberdade encontrada na sua natureza divina. O “eu” estava retornando, mas há algo de diferente, então, com um sorriso sobre-humano, a personagem aceita sua condição, que é ser humana (na prisão do “eu” e do corpo material), todavia com a recordação da sua essência divina: Absoluta.
Outra contribuição interessante é o seguinte poema:
 
Eu fui a terra nua de uma idade sem data
E as minhas árvores têm medidas que não param,
Crescendo sempre pelas raízes e pelas frondes…
Eu sou essa mata indômita,
Mar magro e farfalhante
E impenetrável… (MEIRELES, 1928, p. 3-4).
 
 
Este poema é relativamente diverso daqueles que a consagraram como a poetisa que foi. Pode-se dizer que está muito próximo de uma poesia como a de Walt Whitman, poeta que também foi identificado como influência para Cecília Meireles. O trecho reproduzido acima serve como exemplo desse diálogo. O eu-lírico, nesse caso, está identificado com a natureza, sentindo-se parte do todo, está além do tempo e além das formas. Há, no poema, um eu-lírico que se dissolve em imagens, que é tudo, gigantesco e que a tudo penetra, mas ainda repousa impenetrável. Pode-se verificar, portanto, a profundidade mística dos textos de Cecília Meireles e a sua busca poética pelo Absoluto presente já nos escritos de Festa, mais de dez anos antes da publicação de Viagem.
 
Conclusão
Embora ainda não revisados pela crítica e não constituindo em elemento crucial para a compreensão da poética ceciliana, os excertos aqui analisados mostram alguns aspectos importantes do período em que Cecília Meireles não publicou nenhum livro. Nota-se que o amadurecimento que está em Viagem estava sendo moldado já em 1927, mais de dez anos antes. Outro aspecto é o cariz místico dessas publicações, enquanto em seus primeiros livros a experiência mística estava porta por meio do desejo de união com um amado (casamento místico) deixava explícitas as influências literárias da autora (Verlaine, Augusto dos Anjos, RabindranathTagore) tornando seu estilo uma mescla dessas influências, em Festa já temos uma emancipação autoral na qual Cecília Meireles começa a trabalhar o tema que lhe é caro a seu próprio modo, modelando uma nova estética, nesse momento ainda muito experimental, mesclando prosa e verso, mas que parece de extrema relevância para a criação de uma poética que dominou o verso livre como poucos poetas o foram capazes de fazer. Assim, revela-se a riqueza desses e dos demais escritos cecilianos de Festa, revista que caiu no esquecimento dado o estrondo de Klaxon e dos modernistas paulistas. Mais um ponto que se revelou na análise dessas publicações foi a abordagem de algo que é de rara recorrência tanto nas humanae literae quanto nas sacrae literae: a possibilidade de uma mulher alcançar uma elevação espiritual. Tal tratamento do texto ceciliano aproxima a autora de poetisas com Santa Teresa d´Ávila, no Ocidente, e Mira Bai, no Oriente, mas, sobretudo, aproxima-a do pioneirismo das mulheres do século XX, que abriram espaço tanto para uma nova atuação da mulher na sociedade, quanto para uma nova representação desta na literatura. Desse modo, Cecília Meireles ajudou a abriras portas para uma renovação da figuração da mulher na poesia do Ocidente, insistindo em simbolizá-la no âmbito onde talvez fosse mais difícil uma mulher fazer-se ouvir.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRANDÃO, Bernardo. Só em direção ao só: considerações sobre a mística de Plotino.
Horizonte (Belo Horizonte), v. 6, p. 15-160, 2007.
DAMASCENO, Darcy. Cecília Meireles: o mundo contemplado. Rio de Janeiro: Orfeu, 1967.
DUARTE, Constância Lima. A literatura de autoria feminina no modernismo dos anos 30. In: ZOLIN, Lúcia O.; GOMES, Carlos M. (Orgs.). Deslocamentos da escritora brasileira.  Maringá: Eduem, 2011. p. 45-62.
HUXLEY, Aldous. A filosofia perene. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 19717
LOUNDO, Dilip. Cecília Meireles e a Índia: viagem e meditação poética”. In: Ensaios sobre Cecília Meireles. São Paulo: Humanitas; Fapesp, 2007, p. 129-178.
MEIRELES, Cecília. Cecília Meireles: Poesia completa. Antonio Carlos Secchin, org. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
_____. Três brinquedos do menino poeta”. Festa, Ano I, 1928, nº 12, p. 2.
_____. Aceitação. Festa, Ano I, 1927, nº 6, p. 4-5.
_____. Sem título. Festa, Ano I, 1928, nº 8, p. 3-4.
PRABHUPADA, A. C. BhaktivedantaSwami. Bhagavad-gita como ele é. São Paulo: The Bhaktivedanta Book Trust, 2011.
 
_________________________
 
O texto deste ensaio faz parte da dissertação Cecília Meireles e os Símbolos do Absoluto (2014), todavia foi revisado, adaptado e expandido para a publicação na revista.
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

VIRGINIA WOOLF: DO SUICÍDIO FEMININO EM JULIA KRISTEVA À ANDROGINIA – Davi Pinho




 
 

Davi Pinho

 Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 
 

Resumo: O presente ensaio parte da discussão de Julia Kristeva sobre o suicídio feminino em Des Chinoises (1974) para confrontar o uso que ela faz do suicídio de Virginia Woolf como resultado da impossibilidade de um sujeito feminino na linguagem. Em um diálogo com o movimento conhecido como écriture féminine, percorreremos a obra de Virginia Woolf para identificarmos os momentos de vida que afirmam a experiência feminina na linguagem, o que nos dará acesso ao que ela chama de androginia. Virginia Woolf não quer não ser, como formula Kristeva. Ela quer ser muitos, todos; ela quer ser.

Palavras-chave: androginia; écriture féminine; suicídio; Virginia Woolf.

Abstract: This essay departs from Julia Kristeva’s discussion on female suicide in Des chinoises (1974) to confront her use of Virginia Woolf’s suicide as a result of the impossibility of a feminine subject in language. In dialogue with the écriture féminine movement, we will survey Virginia Woolf’s oeuvre in order to identify the moments of life that affirm women’s experience in language, which will grant us access to what she calls androgyny. Virginia Woolf does not want not to be, as Kristeva formulates. She wants to be many, everyone; she wants to be.

Keywords: Androgyny; écriture féminine; suicide; Virginia Woolf.

Minicurrículo: Davi Pinho é professor adjunto de literatura inglesa do Departamento de Letras Anglo-germânicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor de Imagens do feminino na obra e vida de Virginia Woolf (Curitiba, Appris, 2015). Foi pesquisador visitante da Birkbeck College, University of London (2012-2013), e trabalhou nos manuscritos de Virginia Woolf na British Library e na University of Sussex no mesmo período.

Virginia Woolf: do suicídio feminino em Julia Kristeva à androginia

 

 

Davi Pinho

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

I meant to write about death, only life came breaking in as usual. I like, I see, to question people about death. I have taken it into my head that I shan’t live till seventy. Suppose, I said to myself the other day, this pain over my heart suddenly wrung me out like a dish cloth and left me dead? – I was feeling sleepy, indifferent, and calm; and so thought it didn’t much matter, except for L. Then, some bird or light I daresay, or waking wider, set me off wishing to live – wishing chiefly to walk along the river and look at things.

Virginia Woolf, de seu diário, 17/02/1922

Eu quero não ser: é assim que Julia Kristeva intitula o quinto capítulo de seu polêmico Des Chinoises (1974), no qual discorre sobre o suicídio feminino. Contundente em sua formulação, esta que seria continuada no célebre Le temps des femmes (1979), Kristeva delimita a crise do sujeito da representação no que tange as possibilidades linguísticas para um sujeito feminino dentro da linguagem que a crítica francófona de seu tempo qualifica como falocêntrica. O resultado está em seu título: para a mulher, a única possibilidade de subjetificação dentro da linguagem historicamente masculina seria o lugar do não, da transgressão final, da morte. O não ser feminino adviria do impasse da mulher moderna no que tange ocupar um lugar de sujeito. Kristeva diz que ela, a mulher, se vê presa entre concretizar a falta de Freud a partir da linguagem – o que significaria se tornar sujeito nomeador e objetificador como o pai, reafirmando o phallus –, e o misticismo que apenas o tempo do sujeito matrilinear imporia. Esse, para Kristeva, seria o impasse de Virginia Woolf, para o qual a resposta seria o não. O propósito deste ensaio é apresentar a obra de Woolf como uma outra resposta, a do sim, da vida, da volta à linguagem.

Em seu processo de subjetificação, Kristeva diz que a mulher seria chamada a uma identificação com a mãe, mas se perderia na palavra do pai, no mundo da linguagem comunicativa. Em seu desespero para se identificar no tempo linear, no tempo histórico, na ordem dos nomes do pai que lhe daria um lugar na esfera pública, essa mulher seria levada à loucura de se saber Outra do mundo. Desse lugar Outro viriam as múltiplas vozes, a dissolução “primeiro do superego, depois do ego”, até que a “própria vida não consiga segurar-se: a morte silenciosamente adentra” (KRISTEVA, 1974, p. 15.[1]

Destarte, os suicídios de Sylvia Plath, Maria Tsvetaeva, e, claro, o de Virginia Woolf são idealizados aos moldes da resistência da antiga mulher oitocentista, cuja única saída para o sujeito era o não ser – cuja escolha era a de negar-se ser.

Quando um homem se mata, ela insinua em suas comparações, “é para provar que sua vontade é maior que a de Deus” (KRISTEVA, 1974, p. 158). Mas o suicídio feminino tenta negar Deus, a palavra, para então negar a posição Outra de um sujeito feminino. A morte da suicida seria então uma constatação da impossibilidade de um sujeito feminino dentro da linguagem corrente para Kristeva, um movimento que ansiaria, a partir da potência de não, por “dissolver o próprio ser, livrá-lo da palavra, do self, de Deus” (KRISTEVA, 1974a, p. 158). Dessa forma, não nos surpreende que Kristeva visse no movimento liderado por Hélène Cixous, a écriture féminine, ou escritura feminina, um encerramento nos tempos cíclicos e monumentais; ou seja, um matrilinearismo que poderia resultar em um certo misticismo religioso[2],  o que, para ela, reafirmaria uma das muitas visões do sujeito masculino sobre o feminino.

A obra de Kristeva sempre aponta para uma terceira possibilidade, uma mulher que conseguiria em vida realizar o que o suicídio feminino realizaria – aquela morte do sujeito masculino e a afirmação da diferença feminina como um sujeito possível, ou melhor, um Outro possível. Seu prognóstico, no entanto, parece desconsiderar o que Cixous, Irigaray e Clément enxergavam como a qualidade da nova escrita feminina: as múltiplas vozes, os múltiplos olhares, o que já havia sido antecipado por Woolf. Ou seja, a possibilidade de se viver a loucura que Kristeva vê silenciosamente adentrar no feminino que se quer sujeito. Elas insinuariam assim, diferentemente de Kristeva, que não se trata da morte do sujeito masculino, mas do nascimento de um novo sujeito dentro do mundo da linguagem, do nome do pai, que se recuse a repetir o pacto da subjetificação, e que assim crie um terceiro caminho.

Woolf concorda que, até seu momento histórico, a mulher ainda não conseguira usar da linguagem masculina para se tornar sujeito se não por meio de imitação, ódio, ou riso da linguagem vigente. As mulheres, em sua crítica, aparecem atreladas à demanda masculina, refletindo a relação do homem com ele mesmo e com o mundo.[3] No entanto, as imagens do feminino na obra de Virginia Woolf, mesmo que presas ao mundo objetal, escondem um outro valor. Seja ao tentar remontar uma perspectiva que contribua para o tempo da história e um outro tipo de conhecimento, como Lily Briscoe ao pintar seu quadro em To the Lighthouse (1927); ao tentar acessar uma linguagem diferente da linguagem comunicativa do mundo público, como o poema espontâneo de Terrence Hewet ao ouvir Helen e Rachel em The Voyage Out (1915); ou ao apontar para as muitas perspectivas que inundam a visão individual, como faz Bernard no monólogo final de The Waves (1931), sempre há nas personagens de Virginia Woolf uma vontade de conciliar o privado e o universal, o feminino e o masculino culturalmente construídos, para além de uma posição estável, uma posição de sujeito homem ou mulher. Tal desejo aponta para a possibilidade de uma vida outra, de uma outra linguagem que não se revela totalmente, mas que tem como princípio um enclave do sujeito que vê e daquilo que é visto ao/no mesmo tempo; uma linguagem que quer fazer do silêncio poético um modo de refletir todas as perspectivas de outros indivíduos.

Logo, ao trazer o suicídio de Woolf como uma resposta para o dilema da mulher no mundo da linguagem, Kristeva esquece as possibilidades de vida em sua obra. Lembro-me de Mrs. Dalloway (1925) e o embate final entre a morte e a vida que fecha o romance, ao qual Virginia Woolf faz referência em nossa epígrafe retirada de seu diário. Na famosa festa que serve de fio condutor da narrativa de Woolf, Clarissa Dalloway sente a chegada de uma intrusa insólita, a morte. Quando ela se retira para um quarto vazio para pensar sobre a história que acabara de ouvir acerca do suicídio de Septimus Warren Smith, sentimos a narradora tentando compreender o impulso da mulher tanto quanto nós, leitores. Septimus, o veterano de guerra que durante o dia, em vida, transitara pelas mesmas ruas que Clarissa mas nunca conseguira contato, agora, na morte, torna-se um intruso na festa, e seu suicídio parece comunicar alguma coisa a Clarissa. O que nós, leitores, recebemos são imagens: Clarissa Dalloway à janela sozinha, como se pronta para repetir o ato de Septimus e jogar-se rumo ao concreto. Dali ela vê uma idosa que primeiramente a olha diretamente nos olhos, mas logo caminha lentamente em direção à cama em um apartamento oposto à sua casa. O contraste entre a vida que borbulhava em sua festa, o suicídio de um jovem veterano de guerra, e a senhora que agora apagara a luz para dormir, parece significar alguma coisa que nem a narradora nem os leitores podem tocar, mas que dá à Clarissa a vontade de delimitar um lugar que afirme a festa, a vida.

Ainda à janela, a narradora nos diz que o relógio continuara martelando, “um, dois, três,” e com esse tempo martelando ela não poderia ter pena de Septimus, pois Clarissa parece ver em Septimus a vontade de viver o tempo individual, do privado, como se a morte fosse seu desafio derradeiro para achar o centro, a unidade, um lugar dele e só. As batidas do relógio formam círculos ao entorno de Clarissa que vão se dissolvendo: ela observa a luz que se apaga no apartamento da anciã, pensa na coragem de Septimus, mas decide que precisa descer. “Ela precisa reunir”, nos diz a narradora (WOOLF, 1925, p. 158).

Reunir parece ser uma palavra-chave: Clarissa precisa, com seus convidados, montar, coligar, passar do tempo privado para o público, e achar, mesmo que com as batidas do relógio devorador, uma maneira de achar um lugar na vida, na festa. O suicídio parece figurar aqui como a rebeldia desse mundo particular em querer negar o lugar do sujeito da representação, em querer permanecer incomunicável. No entanto, a última imagem do romance é a da afirmação da festa, do se pôr no mundo em rebeldia ao tempo que bate. Peter, ao se sentir em êxtase, percebe que é a imagem de Clarissa, seu retorno à festa, que o leva a um momento de arrebatamento, com o qual a narradora termina o romance: “pois lá estava ela” (WOOLF, 1925, p. 165). É com a mera existência de Clarissa, com seu ali estar, que Virginia Woolf nos deixa, não com a resposta de Kristeva. Clarissa vai criar uma nova forma de vida, dentro da linguagem, pois a linguagem é a sua única chance de criar uma imagem para si mesma no mundo. Woolf, seja a ensaísta ou a romancista, não quer não ser; pelo contrário, ela quer ser muitos.

Sempre que Virginia Woolf discute um mundo que escape da visão de apenas um sujeito, ela parece apontar para a possibilidade de um sujeito múltiplo, formado de outros sujeitos, que não tenha um objeto fixo por oposição. Em outras palavras, ela revela uma posição para além de sujeito e objeto, uma posição que afirma os outros muitos sujeitos no sujeito que vê, o que é pura afirmação de multiplicidade. Assim, em toda sua obra, a vida da mulher é afirmada, pensada, intuída como resposta aos modos de subjetificação masculinos.

Mrs. Ramsay, o farol de To the Lighthouse (1927), cujo primeiro nome nunca descobriremos, que é apenas a mãe de James à janela, ou esposa de Mr. Ramsay, é representante de um tipo de conhecimento que Lily precisa trazer para o mundo através de seu quadro. Rachel, de The Voyage Out (1915), cuja linguagem quebrada parece unir Hewet à natureza das folhas que ele amassa entre os dedos, é símbolo do silêncio que o permitiria criar um romance inovador sobre o conhecimento que jaz nas coisas não ditas. Clarissa Dalloway, que tenta ininterruptamente remontar sua vida durante a tarefa prosaica de organizar uma festa, quase sucumbe aos poderes da morte ao perceber que tivera apenas tomado parte na ordem das coisas, nos nomes que recebera (esposa/mãe), mas volta à festa por perceber que sua existência, estar lá, sua outra perspectiva, poderia dar um outro significado ao mundo. Ela volta à linguagem, ao ser. Também Bernard em The Waves (1931), cujas vozes são masculinas e femininas, que viveu tomado pelo olhar de dois outros homens, e três outras mulheres, parece querer dizer que há um espaço, no silêncio da imagem poética, para uma linguagem que transcenda a representação do corpo, o sexo.

Em toda a obra de Woolf fica então a questão de como alargar essa posição de sujeito, e a questão é: como quebrar a própria palavra, os nomes. Em “Men and Women” (1920), ela repete a frase de Bathsheba, que no romance de Thomas Hardy[4] diz ter os sentimentos de uma mulher, mas a linguagem de um homem. A questão então é “testar as formas aceitas, descartar as inadequadas, e criar outras mais adequadas” (WOOLF, 1920, p. 67). Em “Women Novelists” (1918), ela imagina que os pseudônimos das escritoras vitorianas fossem não somente para ter julgamento justo, mas para que lembrassem da tirania do sexo, e rissem. E afirma que algumas escritas parecem conseguir escapar dos limites dessa linguagem destruidora que cristaliza posições de sujeito e objeto, o que em 1924, em seu artigo para a Vogue, “Indiscretions”, ela chama de uma escrita sem sexo. Fica claro, assim, que o percurso crítico de Woolf, que culmina nesse trânsito do sexo para o sem sexo, da mulher para o que ela chamaria de andrógino em A Room of One’s Own (1929) e Three Guineas (1938), quer transcender os limites epistemológicos de seu tempo e achar a quebra ontológica que uniria os fragmentos e nos permitira todos ser, para além de sujeito e objeto. O feminino culturalmente construído parece, assim, ser uma outra instância dessa linguagem que quer ser reavaliada e usada na obra de Woolf.

Em vinte de abril de 1937, enquanto Virginia Woolf fazia pesquisa para o seu Three Guineas, ela concede uma entrevista para a BBC intitulada “Crafsmanship”, parte de sua série simbolicamente chamada “Words Fail Me”. [5]

Na única amostra existente de sua voz, a escritora parece calma, mas decisivamente afirmar a liberdade que jaz na palavra, que para ela tem que ser entendida para além de craftsmanship: uma brincadeira com a palavra craft, que no inglês pode significar tanto criar coisas úteis, como no substantivo artesanato, quanto astúcia, engano, magia. Para ela, as palavras estão para além de seu sentido utilitário, para além da pretensão daqueles que tentam encaixá-las para anular as múltiplas realidades. As palavras, quando usadas em sua liberdade, mostram o que querem, ou seja, mostram todo e qualquer leitor, todos magica e arduamente condensados em uma posição de Um constante. Em suma, a prática de “fechá-las em um sentido, em seu sentido prático” é o motivo pelo qual Woolf diz não existir um grande poeta, um grande crítico, ou um grande escritor em seu tempo (WOOLF, 1937, p. 154). Woolf, assim, pensando este como o momento de Three Guineas, mostra que a prática de domar as palavras para que elas tenham apenas um sentido, representem apenas um sujeito, quando poderiam apresentar vários, é um problema que a mulher terá que profanar na escrita.

A posição da mulher entre as posições de sujeito e objeto, que parecia ter sido uma escolha entre o demônio e as profundezas do mar para Woolf, [6] entre a vida e a morte, transforma-se em um terceiro caminho para mulheres e homens. Ao final de sua jornada de ensaios em busca do lugar da mulher na literatura, Woolf conclui que há de se viver entre o demônio e as profundezas, no pensamento: “think we must” (WOOLF, 1938, p. 243). A mente andrógina que Woolf imagina é a possibilidade de uma mente que esteja para além da afirmação do mesmo, e negação do outro, e nesse sentido ela é uma afirmação, ou efetivação, da diferença. Ela é livre de seu sexo, sua nacionalidade, dos nomes antigos. É significativo que tanto Hélène Cixous, na década de 70, quanto Woolf, na de 30, enxerguem em Shakespeare essa habilidade de se retrair e nutrir, de entrever um mundo literário que seria como um ventre sempre produtivo, de onde nascem seres humanos dos mais diversos cujas perspectivas seriam afirmadas em suas diferenças. [7]

Ventre, aqui, é metáfora para um novo lugar da escrita; uma afirmação daquilo que que antes era puramente feminino, inerente ao corpo, enquanto possibilidade na linguagem, na escrita de todos.

Dizemos ser significativa a referência a Shakespeare porque a imagem se desprende do corpo feminino, e mostra como a androginia de Woolf é cultural, e simbólica, como também é a écriture féminine de Cixous. Quando Woolf declara que “enquanto mulher, eu não tenho país”, e continua, “enquanto mulher eu não quero país. Enquanto mulher, meu país é o mundo inteiro” (1938, p. 313), ela ressalta o porquê da mulher ser a porta-voz da mudança, o porquê de Cixous chamar a escrita de feminina décadas mais tarde. Diferentemente mesmo de Shakespeare, nem mesmo a um país pertenciam as mulheres, o que as desligava de mais um dever que aprisiona a mente: o patriotismo. Esse seria apenas um dever pater, já que até mesmo uma nacionalidade estável era negada à mulher pelas leis de seu tempo. Como Rachel diz para Hewet em The Voyage Out, a mulher gozava de uma certa liberdade por não ser representante do progresso. É em sua diferença, no legado silencioso do Anjo do Lar, que a mulher agora encontra uma nova possibilidade de subjetificação, o lugar do andrógino.

Androginia – aberta em Woolf, uma mente que não é informada por seu sexo, que permite uma infinidade de perspectivas, poética, silenciosa, e ao mesmo tempo uma possibilidade visível de resposta para os problemas da mulher e do homem no mundo, um preso na semelhança, e outro na diferença – parece mesmo estar para o que Cixous e Irigaray pensariam. O exercício da mente andrógina é o de reabrir a linguagem, de testar a memória das palavras. “E esta é uma das principais dificuldades de escrevê-las hoje – que elas estejam tão amontoadas de sentidos, de memórias, que elas tenham adquirido tantos casamentos famosos”, diz Woolf sobre a dificuldade de ressignificar as palavras (1937, p. 157). Sua questão é, desse modo, criar uma nova forma que desse às palavras sua liberdade para lembrar todos os seus sentidos, sem negar nenhum, mas criando novos sentidos em novos casamentos de palavras, o que as impediria de perpetuar os antigos casamentos, pois “combinar novas palavras com velhas palavras é fatal para a constituição da frase” (WOOLF, 1937, p. 157). Cixous, quando escreve seu prefácio para o The Hélène Cixous Reader (1994), organizado por Susan Sellers, diz a mesma coisa em palavras surpreendentemente parecidas:

Nós somos os cuidadores sabidos ou ignorantes de várias memórias. Quando eu escrevo, a língua lembra sem o meu conhecimento ou mesmo com o meu conhecimento, lembra a Bíblia, Shakespeare, Milton, toda a literatura, cada livro. Então, eu que escrevo, eu inscrevo uma memória adicional na língua (…) (CIXOUS 1994, p. xxi).

Ou seja, essa nova écriture quer promover novos, diversos, casamentos de palavras, o que significa adicionar uma nova memória à linguagem. Quando alguém fala, ambas apontam, a língua lembra. Trata-se de uma escolha entre perpetuar as combinações conhecidas dos nomes – mãe-privado-imanência contra pai-público-transcendência – ou de uma reorganização da linguagem em que todas as possibilidades de conexões seriam exploradas. Escrever, então, seria achar outros sentidos, outras conexões para além das combinações cristalizadas na linguagem.

Logo, se usadas em sua liberdade, as palavras podem dizer para além dos discursos vigentes. Isso significa dizer que há possibilidade de várias mensagens quando uma só palavra é escrita, e assim a palavra fala “em nome de ninguém”, o que significa dizer que o sujeito se dissolve nele mesmo através dos diálogos que tem os outros em si mesmo. [8]

A écriture féminine é então uma efetivação dessa posição de outro, só que agora um outro que fala; este que é um, sem ser ninguém; que é um Outro. Trata-se de um “embaçar os espelhos”, como Cixous diz em seu First Names of No One (1974a, p. 33), de uma afirmação dos elos pré-linguísticos entre o self and m/other. A analogia de Cixous é entre o lugar da escrita e a mãe, esse Outro-mãe, lugar que enquanto ventre permite uma experiência de sermos dois em um, experiência esta explorada em seu livro The Newly Born Woman (1975), escrito em parceria com Catherine Clément.  Ali, ela define écriture féminine como um lugar que

(…) não está economicamente ou politicamente em dívida com toda a vileza e o pacto. Que não é obrigado a reproduzir o sistema. Que é escrita. Se há um outro lugar que consiga escapar dessa infernal repetição, ele está nessa direção, onde ele[9] escreve ele mesmo, onde ele sonha, onde ele inventa novos mundos (CIXOUS, 1975, p. 79).

Ou seja, essa escrita é um lugar que permite que as palavras mostrem as múltiplas relações possíveis entre sujeitos, que passam a ser chamados de Outros, pois se misturam e se desconstroem. Esse lugar não promove na diferença entre esses Outros uma relação de poder, mas sim o que ela é: diferença. É a própria escrita, como lugar, que tem o poder de se criar, se inventar, se sonhar, e não o escritor ou escritora. Um universo de perspectivas possíveis em que nenhuma delas é negada, a escrita feminina é um mundo de milhares de imagens. Écriture féminine é assim uma afirmação da diferença, a subjetificação a partir da afirmação dessa outra experiência, culturalmente feminina.

O pacto para o qual Cixous aponta na citação, a vileza, é o acordo velado que todo sujeito faz ao se afirmar em oposição ao outro. É contra a constatação de Freud de que “todo o progresso da sociedade repousa sobre a oposição entre gerações sucessivas” (FREUD, 1909, p. 298) que Cixous vislumbra uma escrita que seja pura afirmação da diferença, já que a linguagem nunca é neutra,[10] mas múltipla, e que promova a efetivação dos tempos cíclicos e monumentais apontados culturalmente como femininos. Efetivar o tempo do corpo feminino, em oposição ao tempo do progresso, significa perceber que tanto o masculino quanto o feminino contribuem para o tempo da história. É por perceber que o feminino culturalmente construído está mais próximo dessa escrita possível – escrita que ela enxerga claramente em Shakespeare, como vimos, mas também em Clarice Lispector[11]–, que ela propõe que a mulher efetive essa escrita das múltiplas vozes, uma escrita louca que, na contramão do argumento de Kristeva quanto ao suicídio feminino, faz da arte o lugar para a afirmação desse novo sujeito múltiplo. Ou seja, ao mantermos os antigos discursos lineares, do tempo do progresso, em que um conhece o outro ao se estabelecer em oposição a ele, mantemos a ideia de um sujeito que objetifica outro – ideia que se perpetua quando usamos as palavras em seus antigos casamentos: pai/alma/poder, mãe/corpo/submissão. A questão aqui é como conhecer o outro sem ter que possuí-lo, e consequentemente, destruí-lo.

Da sanidade à afirmação da loucura, essa também é a afirmação de Woolf: quero ser muitos, ao mesmo tempo, em círculos, todos em mim. A própria forma do romance que Woolf revigora metaforiza esse tempo feminino, cíclico e monumental. O fluxo de consciência pode ser entendido como uma tentativa de quebrar o tempo masculino com o feminino, como uma nova combinação temporal. Se o tempo da história se define, culturalmente, como o tempo dos grandes desbravadores, dos conquistadores, do progresso, esta outra temporalidade se define como objeto desse tempo, o tempo da permanência. O tempo matrilinear foi definido culturalmente por seu lugar fora da história, e à mulher então afixou-se o tempo cíclico – que metaforiza-se corriqueiramente pelo ritmo biológico feminino –, e o monumental – tempo resultante do cíclico, que dá à eterna repetição dos ciclos femininos uma aura mística, como se ela sempre ficasse, se renovasse, permanecesse. [12]

O tempo do romance modernista tenta remontar esse tempo cíclico e monumental, culturalmente feminino, como ondas que nos passam por muitos outros de nós mesmos, mas que ainda assim organizam uma história. A escrita de Woolf faz da arte, da escritura de vida e obra, um lugar de possibilidade para um novo sujeito e seu novo tempo, nem masculino nem feminino.

Cixous aponta essa escrita como a “passagem, a entrada, a saída, a morada dos outros em mim – os outros que eu sou e não sou, não sei como ser, mas que eu sinto passando, que me fazem viva – que rasga-me, me perturba, me muda, quem?” (CIXOUS, 1975, p.86). Écriture féminine, então, é uma ultrapassagem tanto da linguagem masculina quanto da feminina; é reconhecer o nutrir da escrita – nutrir, que antes se opusera à linguagem no binário corpo/alma. Está aqui a imbricação da escrita feminina com a androginia de Woolf. O escritor da écriture féminine, ao escrever, sabe que toma parte de uma tradição milenar, que as palavras têm um passado, e as combina como em uma pintura, permitindo que todo seu passado se abra, que vários mundos sejam refletidos. Esse reconhecimento da possibilidade de Outros, da validade de outras visões e experiências que não se pode eliminar para afirmar a visão individual, só é acessado quando o feminino é efetivado em uma linguagem que é em sua gênese masculina. O verbo que no princípio era, era o verbo do pai. Os escritores agora exercitam o verbo da mãe, que é a possibilidade de todos os verbos. Assim, através dessa escrita de outros, nasce a mente andrógina.

Orlando (1928) é, nesse sentido, a grande imagem da androginia na obra de Virginia Woolf. Seu romance, que se quer a biografia de um ser humano que nasce menino no Renascimento Inglês, vive por quase 400 anos sem envelhecer mais que trinta e seis anos, muda de sexo ao acordar de um de seus transes, e fecha sua história como uma mulher casada e mãe de um filho à espera de seu marido, é um exercício dessa mente andrógina no mundo. Orlando pode ser lido como uma declaração do poder da escrita enquanto ressignificação da linguagem vigente. A vontade de Orlando é a de escrever, mas escrever seu poema, The Oak Tree, leva quase quatrocentos anos, pois ele/a precisa viver a experiência tanto do menino inglês, quanto da cigana nas montanhas da Turquia, e por fim da mulher moderna. Ele/a é todos ao mesmo tempo, e seu corpo acompanha sua mente: ele/a nasce homem, transforma-se em mulher, e termina andrógino. A preocupação de Woolf é então revelar o humano de Orlando, para além de suas posições enquanto sujeito da representação.

Somente em seus escritos derradeiros Woolf nos dará sua visão organizada, sem medo de chamá-la de sua filosofia. Ela escrevia o que seria uma coleção de memoirs quando se entregou ao rio Ouse em 1941, aos 59 anos, quando exercitou sua potência de não ao cometer o suicídio. Moments of Being, momentos de vida/ser, foi publicado em 1974, quando Kristeva começava a discutir o suicídio de Woolf. Esses momentos de ser são momentos de conexão, momentos em que a superfície é perfurada e que as profundezas são aventadas. Como em um tecido que revela seus pontos quando observado de perto, Woolf nos diz que esses momentos pareciam dar a ela uma noção de que somos constituídos por conexões para além de nosso entendimento, para além da representação do corpo.

Ou seja, como Orlando, somos muitos. Tais momentos vêm em choques, nos diz Woolf, novamente como os de Orlando, que conectavam a escritora com uma outra temporalidade, com outros corpos e mentes, e a permitiam, podemos acrescentar, a androginia de Shakespeare. Em meus percursos pelas imagens da obra de Woolf, percebi que seus momentos de vida são aqueles nos quais a prosa do dia a dia é tomada pela obscuridade da poesia; momentos de troca entre êxito prosaico e fracasso poético. Chamarei então aqui esses moments of being de momentos andróginos, que acontecem entre o demônio e as profundezas do mar, para usar as palavras da autora. Eles são momentos que desafiam o Eu, o Outro, e que agrupam toda a experiência humana em um aglomerado de experiências diversas, como as múltiplas possibilidades no palco que é o mundo, como uma abertura no fechamento. Enfim, Woolf quer ser muitos, não quer não ser, pois aprende em choques que

(…) por trás da lã de algodão está escondido o padrão; que nós – quero dizer todos os seres humanos – estamos ligados a ele; que o mundo inteiro é uma obra de arte; que somos partes da obra de arte. Hamlet ou um quarteto de Beethoven é a verdade sobre esta vasta massa que chamamos de mundo. Mas não há Shakespeare, não há Beethoven; certamente e enfaticamente não há Deus; somos as palavras; somos a música; nós somos a própria coisa (WOOLF, 1978, p. 84).

Referências Bibliográficas

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WOOLF, Virginia. To the Lighthouse. London: Oxford University Press, 2006. [1927]

WOOLF, Virginia. Women Novelists. In: WOOLF, Virginia. Women and Writing. London: Harcourt, p. 68-72, 1980. [1918]

NOTAS AO TEXTO

[1] As traduções no presente ensaio são minhas.

[2] “Certain  contemporary thinkers consider […] that modernity is characterized as the first epoch in human history in which human beings attempt to live without religion. In its present form, is not feminism becoming one?” (KRISTEVA, 1979, p. 200).

[3] Cf. A Room of One’s Own (1929) e Three Guineas (1938).

[4] Far From the Madding Crowd (1874).

[5] Publicada postumamente como um ensaio em Death of the Moth and Other Essays (1942).

[6] “Simply, you reply, that we, daughters of educated men, are between the devil and the deep sea. Behind us lies the patriarchal system; the private house, with its nullity, its immorality, its hypocrisy, its servility. Before us lies the public world, the professional system, with its possessiveness, its jealousy, its pugnacity, its greed” (WOOLF, 1938, p. 90).

[7] “There was that being-of-a-thousand-beings called Shakespeare. I lived all the characters of his worlds: because they are always either alive or dead, because life and death are not separated by any pretense, because all is stunningly joined to nothing, affirmation to no, because, from one to the next, there is only one kiss, one phrase of bliss or tragedy, because every place is either abyss or summit, with nothing flat, soft, temperate. There man turns into woman, woman into man – a slaveless world: there are villains, powers of death. All the living are great, more than human” (CIXOUS, 1974b, p. 98).

“For though we say that we know nothing about Shakespeare’s state of mind, even as we say that, we are saying something about Shakespeare’s state of mind. The reason perhaps that we know so little about Shakespeare […] is that his grudges and spites and antipathies are hidden from us. (…) All desire to protest, to preach, to proclaim an injury, to pay off a score, to make the world the witness of some hardship and grievance was fired out of him and consumed. Therefore, his poetry flows from him free, unimpeded. If ever a human being got his work expressed completely, it was Shakespeare. If ever a mind was incandescent, unimpeded, (…) it was Shakespeare’s mind” (WOOLF, 1938, p. 63).

[8] Cf. CIXOUS, 1974a, p. 28.

[9] Do inglês it: o lugar se inventa, se sonha.

[10] Neutro é uma palavra de interessante uso. Poderíamos dizer que os sexos, os gêneros e as nacionalidades, como tudo mais, se neutralizam na escrita da diferença, já que não existe um olhar sobre o outro, mas entreolhares, apenas outros. A escrita não é neutra porque não é indiferente a tais olhares, mas afirma a possibilidade de todos. Cixous tem um livro intitulado Neutral (1972), um de seus primeiros grandes escritos, em que discute, em prosa, poesia, ensaios e crítica, que é “impossível pensar o um sem o outro e sem tanto o um quanto o outro: o apropriado aqui empalidece, o coração escurece” (1972, p. 8). Ou seja, a escrita é ao mesmo tempo um trabalho de neutralização e desneutralização. De neutralizar, anular, tornar imparcial, o acesso ao mundo da linguagem, e ao mesmo desneutralizar, afirmar, a diferença.

[11] Em seu ensaio “The Apple in the Dark: The Temptation of Understanding”, de sua coletânea sobre suas leituras das obras de Lispector, Reading with Clarice Lispector (1990), ela diz: “Clarice does not lose herself in the silliness of sublimation. She stays where love stories take place, near the body and the unconscious. Two beings never reach each other in the way of Tristan and Isolde. In Clarice, protagonists burn themselves while en route; they fall down and do all the kinds of things that signify: I do not want to. The more one wants, the more one does not want to. That is what Clarice signals. Otherwise, there would be neither love nor desire” (p. 81-82).

[12] Para uma discussão sobre matrilinearismo, conferir Stabat Matter, de Julia Kristeva (1986).

 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

POÉTICAS INTERSEMIÓTICAS: UM OLHAR CLARICEANO NA RELAÇÃO LITERATURA E CINEMA – Marta Francisco de Oliveira




 

Marta Francisco de Oliveira

 
Universidade do Estado de São Paulo/Assis –
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
 
Resumo: Este artigo traz à cena a obra de uma escritora essencial da literatura brasileira, Clarice Lispector, considerando como seu fazer literário desenvolve uma poética da percepção empregada em outros sistemas semióticos, com destaque para a linguagem cinematográfica.  De fato, ler os textos clariceanos é um convite à análise da produção literária de uma mulher que, ousando romper com padrões tradicionais de gênero e escritura, soube inscrever seu nome entre os grandes escritores brasileiros, numa época em que este ainda era um espaço predominantemente masculino, sem dever nada aos considerados ‘grandes mestres’. Sua escritura, textos em prosa repletos de imagens poéticas, exige uma postura participativa dos leitores em uma abordagem de leitura de aproximação dos textos clariceanos com as técnicas empregadas em outros sistemas semióticos, resultando em belas ‘pinturas com palavras’.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura, mulher, Clarice Lispector, cinema.
Resúmen:  Este trabajo pone de relieve la obra de una esencial escritora de la literatura brasileña, Clarice Lispector, buscando comprender como su creación literaria desarrolla una poética de la percepción empleada en otros sistemas semióticos, destacándose el lenguaje cinematográfico. De hecho, leer los textos de esa escritora es una invitación al análisis de la producción literaria de una mujer que se atrevió a romper los patrones tradicionales de género y escritura, subscribiendo su nombre entre los más grandes escritores brasileños aún cuando la escritura era comprendida como un territorio dominado por hombres, haciéndolo con la misma calidad que los llamados ‘grandes maestros’. Su escritura, prosa narrativa llena de imágenes poéticas, exige de los lectores su participación y un abordaje de lectura que pueda acercar sus textos a las técnicas empleadas en otros sistemas semióticos, resultando en hermosas ‘pinturas con palabras’.
PALABRAS-CLAVES: Literatura, mujer, Clarice Lispector, cine.
Minicurrículo: Marta Francisco de Oliveira é professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, atuando no curso de Letras do campus de Coxim, nas áreas de literatura, teoria literária e língua espanhola. É autora do livro: “Que quer dizer cultura? Uma leitura de A hora da estrela, de Clarice Lispector”, publicado em 2014 pela Editora UFMS. Atualmente é doutoranda em Letras, área de concentração Estudos Literários na Unesp/Assis, onde pesquisa a obra de Clarice Lispector. Possui mestrado em Estudos Literários pela UFMS/CPTL, e teve sua dissertação publicada. Possui especialização em Língua, Literatura e Cultura Espanhola e o título de Experto em Língua e Literatura Espanhola, outorgados pela Agencia Española de Cooperación Internacional, órgão vinculado ao Ministério de Educação e Cultura da Espanha.
POÉTICAS INTERSEMIÓTICAS: UM OLHAR CLARICEANO
NA RELAÇÃO LITERATURA E CINEMA
 
Marta Francisco de Oliveira
 Universidade do Estado de São Paulo/Assis –
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
 
 
A obra e o fazer ficcional de Clarice Lispector colocam em primeiro plano o feliz resultado do trabalho literário de uma mulher que rompeu padrões estéticos tradicionais e inscreveu seu nome entre os grandes escritores da Literatura Brasileira, angariando também destaque e reconhecimentos internacionais.  Ao procurar estabelecer um diálogo entre o fazer ficcional literário de Clarice e as relações intersemióticas que se apresentam em outras artes, com destaque para o cinema, este artigo atualiza a leitura de obras produzidas entre as décadas de 1940 e 1970, destacando a modernidade da literatura de Clarice Lispector, bem como os aspectos inovadores que servem de inspiração para muitos escritores contemporâneos.  Com vasta fortuna crítica, parece-nos válido destacar os comentários de críticos que fazem referência ao modo como a escritora se vale da linguagem para apresentar a seus leitores palavras com grande poder de evocar imagens, mas imagens incomuns, pouco usuais, distantes da ideia simples ou simplista de figuração, retrato ou paisagem. Mas em Clarice parece que repetidas vezes o leitor se posiciona diante de uma imagem, ora congelada como uma pintura, ora com leves movimentos que permitem perceber suas nuances.
O diálogo profícuo da literatura clariceana com a pintura já é bastante conhecido. Não obstante, a questão da imagem literária é mais complexa, pois extrapola os limites da inércia de uma imagem criada pela fotografia. Claro está, a imagem da pintura tem outro estatuto, bem como a fotografia moderna, tomada como arte. No entanto, é válido recordar como Roland Barthes, em 1984, empenhou-se em analisar a evolução da imagem (da fotografia), a partir de sua apreensão, pois de certo modo fundou uma base para o estudo literário moderno da mesma. Através da captação da luz por meio das lentes da objetiva de uma câmara, o homem eterniza uma imagem que, espera, eternize o instante fugidio de sua apreensão. Assim, daquele ‘momento’ emoldurado, é possível proceder o tratamento da imagem e criar novas e modernas formas de se relacionar com sua captação. Nesta linha de raciocínio, portanto, um diálogo entre artes abarca também a arte cinematográfica, o emprego da imagem em movimento, aliada a todos os demais recursos que se podem apreender em uma tomada ou numa sequência, como os sons, o próprio movimento, rápido ou lento, e as variações da mesma imagem. E, considerando como a mídia explora cada vez mais e de variadas formas a imagem na atualidade, a crítica da argentina Beatriz Sarlo torna-se bastante relevante para pensarmos como uma cultura imagética vem sendo desenvolvida desde a década de 1940 no Brasil, estendendo-se para além da década de 1970, período de plena produção literária da escritora ucraniana naturalizada brasileira. Sarlo (1997) analisa como a vida ‘pós-moderna’ se constrói através da criação e veiculação de imagens que promovem tipos e comportamentos individuais e coletivos, muitas vezes ilusórios, mas pautados na estimulação dos desejos. ‘Pisando no momento atual’, para empregar uma expressão bem clariceana, qualquer pessoa, munida de um dispositivo eletrônico, como um celular, e da internet, pode se converter em autor de imagens e cenas que em questão de minutos serão visualizadas, repetidas, comentadas e compartilhadas por milhões de pessoas ao redor do globo.
Portanto, no âmbito da literatura, a imagem é também um recurso valioso e amplamente empregado. Em contraste com outros sistemas semióticos, a arte literária exige maior abstração e participação intelectual e emocional do que a maioria das outras manifestações artísticas, fato que a coloca em risco de perder leitores mais atentos, posto que a atenção de muitos destes agora se volta para outras formas de fruição artística com maior apelo visual, sonoro, interativo.  Entretanto, o que Clarice Lispector propunha já nos anos 1940 era uma leitura mais dinâmica, a um só tempo poética e plástica de palavras em um texto desenhado sobre o papel, uma narrativa na qual o olhar atua em suas múltiplas funções de percepção de sentidos, texturas, sensações, cores e lentos e complexos movimentos de linhas e curvas ao perambular por entre palavras que se revestem de poder evocativo de grande intensidade. Seu texto é uma matéria em metamorfose, uma proposta de ruptura que escapa às ideias mais ou menos definidoras de arte, literatura, gênero.
Ana Cristina de Rezende Chiara, na apresentação da nona edição de O lustre, em 1995, pela Francisco Alves Editora, menciona que “ler Clarice… significa deixar-se guiar, pela maestria da mão que escreve, num mundo de estranha beleza e cruel realismo” (CHIARA, 1995, p. 1). A obra aqui destacada foi publicada em 1946, sendo o segundo romance da escritora, e é considerada, por muitos críticos, um momento de continuidade e ruptura de um percurso circular da autora, rompendo com a apresentação de personagens com fortes características individuais, ao mesmo tempo em que dá continuidade a um projeto de enfoque no sujeito, conforme aponta Regina Pontieri (2001). Assim, O lustre é uma continuidade do projeto literário clariceano iniciado com Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, de 1943, mas é também uma ruptura com o que Clarice desenvolverá depois. Apesar de certo silêncio da crítica sobre a obra na época de seu lançamento, principalmente depois de aclamar o primeiro romance, O lustre é uma peça importante na trajetória literária de Clarice Lispector, exigindo um olhar mais atento. É um convite a um passeio pelo campo da ficção que permite desfrutar da ‘estranha beleza’ que se desvenda aos olhos do leitor.
De fato, Regina Pontieri busca dar maior destaque ao papel do olhar na ficção clariceana. A plasticidade que se faz presente no texto é o ponto de conexão entre a literatura e outros sistemas semióticos, promovendo uma experiência estética que podemos aproximar do cinema. O olhar exerce protagonismo, embora muitas vezes deslocado, hora colado à personagem, portanto interno, hora exteriorizado porque adere à voz narrativa;  mas seguir a leitura das palavras é evocar mentalmente as imagens criadas e captar a perspectiva e a percepção  do olho por trás da ‘objetiva’. Tanto em cenas estáticas, como as descrições de objetos, como naquelas que transcorrem como sucessão lenta ou abrupta de quadros, a técnica empregada confere ao leitor (ou dele exige) a cumplicidade compartilhada com o espectador.
Mas o olhar desperta a sensação. A estreita relação entre essas percepções pode explicar nosso interesse na imagem e como esta alcançou o protagonismo que tem nas sociedades atuais, na maioria das quais já não basta ver as imagens filmadas por outros, mas fazer-se autor de algo que muitos outros também poderão acessar. Está em voga a possibilidade de produzir, que não suprime a necessidade e a curiosidade de ver as produções feitas por outros.  Por isso é relevante analisar como as obras de Clarice Lispector se aproximam da linguagem empregada no cinema, principalmente quando nos remetemos a um contexto de escrita dos anos de 1940 e 1950, que abarca tanto o Brasil como países estrangeiros, uma vez que Clarice esteve dezesseis anos fora do Brasil, entre a Europa e os Estados Unidos.
Avellar (2007), ao aproximar as linguagens literária e cinematográfica, destaca que para fazer poesia seria conveniente passar – passear, vaguear, diria eu – os olhos pelo cinema; sem querer contestar a afirmação, relevante para as considerações do estudioso, neste artigo preferimos destacar o oposto, sem dúvida mais profícuo para o cinema, pois este só tem a lucrar e se engrandecer com a leitura da literatura, seja para fazer adaptações ou não. Questões clássicas relacionadas às duas artes não parecem pertinentes neste momento, pois não tratamos de adaptação ou fidelidade, termos caros ao processo de transição de uma linguagem para outra. Nosso interesse se concentra em analisar como Clarice consegue estabelecer uma relação intersemiótica no texto, de tal modo que possa ser compreendida pelo leitor. Sem o auxílio da câmera literal, do objeto que captura a imagem em movimento, o texto em si apresenta o vaguear do olhar conforme a obsessão cinematográfica de acompanhamento da cena: a objetiva é o próprio olhar que, ao passar pelas linhas do texto escrito, projeta a imagem em sequência na mente: a imagem é mental, mas nem por isso sem a ilusão de real e de proximidade que o cinema conseguiu criar e desenvolver, ainda mais se nos referimos ao que chamam de ‘experiência’ 3D nas salas de projeção cinematográfica.
Para além das influências cinematográficas perceptíveis em seu texto literário, empregados também em obras como A cidade sitiada e A maçã no escuro, a escritora demonstrou como o cinema passou a ter um papel de protagonista nas grandes cidades quando o coloca em evidência na novela A hora da estrela. Nesta obra de 1977 é o local em si, no espaço físico em que o público se posta diante da grande tela que a personagem miserável Macabéa sente uma espécie de conexão com o mundo e tem certa noção do outro como possível exemplo para si mesma. A jovem alagoana frequenta ‘cinemas poeira’ e se conecta com as atrizes Greta Garbo e Marilyn Monroe, numa menção explícita ao cinema hollywoodiano e sua propagação pelo mundo, em um processo que não manteve imunes nem mesmo as classes mais baixas da sociedade. O acesso à sala escura era um luxo permitido às vezes até mesmo para alguém que passava fome. No entanto, a fome cultural nascida e desenvolvida sob a égide da sétima arte também precisava ser saciada, talvez até com mais urgência do que a fome física, literal. E o desejo, criado e nutrido via filmes com as estrelas internacionais, era justamente o de ser Marilyn, pois a ‘altiva Greta Garbo’ parecia muito distante para Macabéa, sempre humilde e subserviente. Ainda assim, o mundo dos sonhos de Hollywood parecia ser real, e diante do espelho do escritório talvez seu rosto se metamorfoseasse para deixar de refletir aquele rosto magro e cheio de manchas brancas, os ‘panos’, marca de saúde fragilizada da subnutrida nordestina.
Em contrapartida a essa menção explícita ao cinema, nas obras do período até 1960 a aproximação se dá pelos modos de produção artística. O que queremos destacar é o que Pontieri chama de uma poética do olhar, que é perpassada pela ideia de Tadié (1994) de um relato poético, porque se constrói como narrativa subjetiva, poetizada e reveladora da capacidade do texto literário clariceano de captação de vários elementos sonoros, visuais, sensoriais, fazendo-os conviverem na mesma cena, propiciando a fruição que o cinema conseguiu conferir de modo mais pleno ao espectador, como uma exigência a mais ao leitor para o uso do suporte da imagem mental.
Se a ação da câmera poupa a abstração, o esforço imaginativo de criação mental dos objetos, paisagens e conceitos, apresentando-os como dados factuais da realidade ficcional, também restringe a percepção, embora as imagens mantenham uma importante e vasta carga de informações sugeridas. Mas por vezes a restrição é essencial, sobretudo no que se refere à Clarice Lispector. Alguns estudiosos nos auxiliam a pensar em como as artes se relacionam, e é possível fazer o exercício de aproximação das linguagens literária e cinematográfica de modo a chegar à conclusão de que há pouca diferença entre as imagens conceituais que a linguagem verbal evoca e os conceitos provocados pela imagem não verbal. Aliado a isso, ambas se baseiam em uma forma de narratividade, sobretudo o cinema, no qual esta se converte em traço hegemônico. Na contramão, talvez a procura da ausência da narratividade convencional seja perceptível na ficção clariceana, como se esta priorizasse a imagem em seu lento desfilar diante dos olhos, sem ações, apenas insinuando os contornos, as cores, as formas e suas implicações, como se tentasse eliminar o suporte narrativo para trazer para o primeiro plano o suporte descritivo mas estanque, como quadros sem o fio condutor na narração que os conecta uns aos outros; todavia, o ponto de contato reside no destinatário, projetado em sua mente e em seu imaginário.
Para exemplificar o exposto acima com a ficção da autora, tomemos O Lustre, obra de 1946, iniciada no Brasil e concluída na Europa. O título já remete a um objeto de descrição bastante complexa, que por sua vez tem seu uso diretamente ligado à luz, essencial para a imagem em sua nitidez. A capacidade de ver está a ele intrinsecamente relacionada, e é crucial a observação do lustre na sala da casa de Granja Quieta, território da infância de Virgínia, para a compreensão da personagem. Uma descrição lenta e detalhada é preterida em favor de uma condensada, restrita à metáfora, ao campo conceitual que a relaciona ao aracnídeo cheio de olhos, remetendo ao episódio da caixa de aranhas de Daniel, o irmão de Virgínia, responsável por seu olhar estrábico, ‘vesgo’. É essa descrição que permite o vaguear dos olhos e a percepção de como aquele objeto posicionado no centro da sala é revelador, cena que funcionaria bastante bem numa filmagem cinematográfica, guiando as lentes da câmera: não mera imagem estática, mas em movimento para abarcar o todo, os detalhes, aproximando-se, distanciando-se. Assemelhando-se a uma pintura, independente, capaz de evocações que tocam diretamente os reinos incomunicáveis do espírito, a linguagem desejada pela autora tenta transformar sonhos, sensações e evocações em pensamento, comunicar sensações tão particulares, individuais, a ponto de existirem por conta própria.
Porém, é recurso da linguagem trabalhada pela autora a busca de apoio em elementos que a fazem criar imagens sugestivas. Como resultado, em O lustre a descrição da escada, da sala vazia e do próprio objeto ‘lustre’ reveste-se de uma beleza plástica, pictórica, captada através do jogo de luz, sombras, cores e movimento do olhar se dirigindo àquilo que o momento de apreensão deve capturar:
 
Os degraus subindo sinuosos alcançavam uma graça firme tão leve que Virgínia perdia a sua percepção quase ao possuí-la e interrompia-se à sua frente vendo apenas madeira empoeirada e veludo encarnado, degrau, degrau, ângulos secos. Sem saber por quê, detinha-se no entanto, abanando os braços nus e finos; ela vivia à margem das coisas. A sala. A sala cheia de pontos neutros. O cheiro de casa vazia. Mas o lustre! Havia o lustre. A grande aranha escandecia. Olhava-o imóvel, inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo. Uma vez! Uma vez a um relance – o lustre se espargia em crisântemos e alegria. Outra vez – enquanto ela corria atravessando a sala – ele era uma casta semente. O lustre. Saía pulando sem olhar para trás (LISPECTOR, 1995, p.14,15).
 
 
Observando as considerações mais específicas sobre a relação cinema/literatura, podemos olhar o texto clariceano com base nos conceitos e técnicas de montagem que deslocam o olhar do diretor e da câmara como algo externo para dar lugar à percepção que o próprio personagem possa ter do mundo ficcional, o que faz com que o narrador desapareça. No texto, essa informação é apresentada de modo complexo, pois há uma voz aparentemente em terceira pessoa que se confunde com a da personagem. A sequência de frases é como uma montagem, por vezes em aparente desconexão entre o que se apresentaria como sendo a lógica da narrativa e a cena descrita. Porém, com o uso de técnicas de montagem cinematográfica, as peças desconexas poderiam, não encontrar seu elo de ligação, que certamente existem, mas demonstrar como a imagem e a percepção (da personagem e do leitor/espectador) se aliam: “degrau, degrau, ângulos secos”; “ela vivia à margem das coisas”; a sala cheia de pontos neutros”; “a grande aranha escandecia”.
Há uma espécie de ‘montagem’ operada com a sucessão rítmica das imagens, congregando outros recursos que fornecem a percepção geral dos elementos narrados, mas sempre direcionados por um olhar a um só tempo interno e externo. Além disso, é muito emblemático que a própria protagonista tenha um certo defeito no olhar, pois em Clarice Lispector o olhar se converte em elemento essencial para sua estética. No texto da escritora brasileira, o exercício da leitura é realizado a partir do vaguear dos olhos pelas cenas que se desenvolvem – mas não se desenvolvem em ações –, para delas extrair uma interpretação. A autora, sem dúvida, se destaca ao criar as imagens que farão a ponte entre mundo real e mundo ficcional invocado na imaginação leitora, numa forma própria de uso da estética cinematográfica e ao tudo-imagem, tomando uma expressão de Barthes (1984), que esta propicia.  O olhar do leitor, então, também foge ao convencional, pois de outro modo a primeira impressão de estranheza do texto literário não permitiria a apreciação de todas as suas nuances.  A forma de olhar deve, portanto, assemelhar-se ao olho de Virgínia, após espiar a caixa de aranhas de Daniel, em mais um dos jogos cruéis de seu irmão, quando ameaçava com a abertura da caixa a qualquer desobediência de sua parte. Uma primeira vez Virgínia espiou a caixinha, entretanto “recusou enojada. Mas terminou colando um olho no buraco da caixinha e nada vendo senão movimentos vagarosos na escuridão.” (LISPECTOR, 1995, p. 37). Somente depois de mencionar que um dia a caixa afogou-se na água da chuva que invadiu o esconderijo e Daniel decidiu se desfazer de suas aranhas, o narrador nos informa que
 
(…) o olho com que ela espiara as aranhas doía. Durante dias lacrimejara torto, caído e de manhã ela não podia abri-lo até que o calor do sol e de seus próprios movimentos acordava-o. Inchou depois, insensível e sem sangue. Quando tudo passou, já não era o mesmo, tornara-se imperceptivelmente vesgo e menos vivo, mais lento e úmido, mais amortecido que o outro. E se escondia com uma mão o olho são, via as coisas separadas dos lugares onde pousavam, soltas no espaço como numa assombração (LISPECTOR, 1995, p. 37, 38).
 
 
 
A partir de então, o modo como Virgínia vê o mundo é meio distorcido, levemente irreal, fantasmático, o que pressupõe uma nova experiência com o real e com sua representação, sugerida pela autora. O olhar, sempre requisitado, pode ser o dos personagens ou do próprio leitor, não importa; importa acompanhar o vaguear dos olhos da voz narradora, que não narrará os quadros vistos como se os representasse tal como são, mas conforme se descortinam diante de sua subjetividade, prenunciando experiências mais radicais com o real que, no contexto de 1940, ainda estavam por vir, tanto no campo literário como nas experimentações do cinema.
Quanto à obra A cidade sitiada, ainda o olhar se destaca, trazendo o cenário para o primeiro plano, pleno de imagens e exíguo de ações (enquanto acontecimento e sucessão de fatos, ações, cenas). A maçã no escuro, obra iniciada em 1952 e terminada em 1956, apresenta um protagonista masculino que se encontra na impossibilidade de dominar a realidade circundante, e é a ela submetido através do exercício de sua reconstrução, uma reconstrução da realidade que acarreta uma relação com o espaço no qual se desenvolve. Aliado à vontade de se desvencilhar do passado, do mundo anterior, para Martim era também necessário buscar refúgio e paz, e essa busca prossegue até o fim da narrativa, mesmo que seja uma busca não exterior, mas interna e em si mesmo:
 
 
Mas para encontrar essa paz, teria que esquecer os outros. Para encontrar esse refúgio, teria que ser ele mesmo: aquele ele mesmo que nada tem a ver com ninguém. Mas tenho direito a isso!, reivindicou cansado, que diabo! Que tenho a ver com os outros! Há um lugar onde, antes da ordem e antes do nome, eu sou! E quem sabe se esse é o verdadeiro lugar-comum que saí para encontrar? Esse lugar que é nossa terra comum e solitária, e aí é apenas como cegos que nos apalpamos  – mas não é só isso o que queremos? Eu te aceito, lugar de horror onde os gatos miam contentes, onde os anjos tem espaço para na noite bater asas de beleza, onde entranhas de mulher são o futuro filho e onde Deus impera na grave desordem da qual somos os felizes filhos (LISPECTOR, 1998, p. 319, 320).
 
 
As considerações da voz narrativa deixam entrever outro ponto de contato da narrativa literária com a fílmica, na qual a intertextualidade é bastante aplicável, numa sucessão de citações quase infinitas em suas possibilidades, alimentando-se da própria arte, incorporando outras formas artísticas e gerando uma multiplicidade de significados. Incorporar habilmente os elementos de outras linguagens artísticas permite compor mais ou menos sutilmente os caracteres que se desejam apresentar aos espectadores. A narratividade é recurso inesgotável da cinematografia, e neste ponto está em conexão com a literatura, seja em prosa ou em verso, mas que também se utiliza deste recurso. Não se negam as grandes diferenças entre a página escrita e a tela do cinema, entre a percepção descrita em palavras e aquela feita através de imagens em movimento ou mais ou menos estáticas. Mas em ambos os casos o imaginário é acionado, quase sempre acompanhado de sentimentos, de sensações, o que era tão caro a Clarice Lispector. Hoje em dia, as mídias se alimentam incessantemente de todas as variadas formas artística e da intertextualidade, tornando corriqueiro o fluxo entre as artes, apesar dos sistemas semióticos serem distintos. Porém, ambas tocam o público e seus recursos se assemelham ora em modo ora em resultado. Por isso, parece acertado analisar e aprofundar a questão dos modos de fazer que remetem à busca do tudo do cinema – para além da imagem – no que chamamos de captura do olhar ou uma poética intersemiótica na obra de Clarice Lispector.
Devido ao fato de que a escritora antecipava, em sua ficção, elementos que mais tarde se converteriam em cenas cotidianas da vida nas sociedades ocidentais, a leitura de sua obra contém uma chave de leitura para a percepção do processo de valorização da imagem e seu deslocamento para a própria constituição da contemporaneidade. A relação intersemiótica entre duas linguagens com tanta penetração na vida diária do homem ocidental – e mesmo oriental, funda as bases essenciais para a compreensão da vida social, bem como para qualquer análise atualizada da configuração das sociedades humanas. Projeto árduo e ambicioso, sem dúvida, para os estudiosos da obra de uma autora que se contentava em olhar poeticamente para o mundo aparente das imagens, para daí extrair a percepção do invisível.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AVELLAR, José Carlos. O chão da palavra: cinema e literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BONNICI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Osana (Orgs). Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2009.
ECO, Umberto. Da árvore ao labirinto: estudos históricos sobre o signo e a interpretação. Trad. Mauricio Santana Dias. Rio de Janeiro: Record, 2013.
LISPECTOR, Clarice. O Lustre. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
LISPECTOR, Clarice. A cidade sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Francisco Alves,1993.
PONTIERI, Regina . Clarice Lispector – uma poética do olhar. Cotia: Ateliê Editorial, 2001.
SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e vídeo-cultura na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.
TADIÉ, Jean-Yves. Le récit poétique. Paris: Gallimard, 1994.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

ADÍLIA LOPES E SYLVIA PLATH: UMA LÍNGUA MUTILADA – Ana Beatriz Affonso Penna




 

Ana Beatriz Affonso Penna

Universidade Federal Fluminense
 
 
RESUMO: O presente artigo intenta contribuir com os estudos de poesia contemporânea através da perspectiva de gênero pela leitura e análise das obras de Adília Lopes e Sylvia Plath, investigando a escrita lírica enquanto um jogo de significação contínuo que se faz em confrontação, apropriação e reconstrução com as forças intra- e extralinguísticas.
 
Palavras-chave: Adília Lopes; Sylvia Plath; poesia contemporânea; gênero.
 
ABSTRACT: The present paper intends to contribute to contemporary poetry studies by analyzing Adília Lopes’s and Sylvia Plath’s work with a gender perspective. In order to better understand the relationship between poetry and gender, this essay investigates poetry writing as a multi-layered practice that is continuously produced by appropriation, reconstruction and confrontation with intra and extra linguistics forces.
 
Key words: Adília Lopes; Sylvia Plath; contemporary poetry; gender
 
Minicurrículo: Ana Beatriz Affonso Penna é doutoranda em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense e professora credenciada do Programa de Formação de Professores do curso de Língua Inglesa da Universidade Federal do Amazonas. No momento sua pesquisa está destinada ao estudo da poesia portuguesa e inglesa contemporâneas, tendo como foco a problematização da relação entre poesia, cânone e gênero.
 
 
Adília Lopes e Sylvia Plath:
uma língua mutilada
 
 
Ana Beatriz Affonso Penna
Universidade Federal Fluminense
 
Poeta contemporânea que começa a publicar na metade da década de 1980, Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, é, como uma significativa parcela de poetas portugueses contemporaneíssimos, uma poeta da zona de cruzamento entre a esfera da tradição poética e a da realidade reificada, com suas referências à cultura pop, publicidade, seus cortes cinematográficos, linguagem radicalmente coloquial e/ou popular e motivos aparentemente banais. Todavia, chama-me atenção que em Adília o tratamento poético dos diferentes discursos que intersectam a linguagem social parece perpassar necessariamente pelo lugar de fala de mulher enquanto posição subjetiva, linguística e social em seu texto/corpo, sugerindo-me uma espécie de esforço ético tanto para questionar os “saberes discursivamente consignados”[1] da posição discursiva de mulher, conforme afirma Rosa Maria Martelo em seu artigo “Adília Lopes: ironista”,  como também para experimentar as condições do discurso feminino no gênero lírico. Preocupação essa que parece irmanar-se com a de, confessadamente, uma de suas grandes influências poéticas: a poeta americana Sylvia Plath.[2]
Tal como Adília, Sylvia Plath ficou conhecida pelo seu investimento num aparente pacto biográfico, principalmente naquilo que concerne à aderência entre a imagem da autora mulher às suas personas poéticas. Seu suicídio em 1963 foi convertido por determinada crítica adepta ao biografismo em evento significador de toda sua obra poética, reatualizando o que em Plath era procedimento estético: a criação de personas literárias – agora vendida como selo de verdade. De igual maneira, vê-se em Adília a arquitetura de uma série de personas ou vários outros que, já na escolha da autora pelo uso de um pseudônimo, se manifestam. Esta configuração da poesia enquanto um corpo misto onde nele não se distinguem claramente as fronteiras entre estética e vida parece apontar para uma consciência de ambas as poetas sobre a não possível total coincidência entre autor e eu-lírico.
A percepção do eu-lírico enquanto um lugar necessariamente linguisticamente formulado dá-nos a impressão de expandir-se nas poetas para uma consciência do registro discursivo feminino também como construto: um construto densamente habitado por imagens e definições do “ser” mulher. No entanto, deve-se atentar que tal percepção do eu-lírico e do registro discursivo feminino enquanto artificio não é acompanhada de uma redentora liberdade criativa total, pois perceber-se enquanto prática discursiva leva também à consciência de que o discurso não se dá em um vazio, uma vez que todo ato discursivo é minunciosamente regulamentado dentro de uma comunidade discursiva. Um enunciado para significar precisa constituir-se a partir de possibilidades discursivas socialmente reconhecidas, ainda que seja para delas distanciar-se. Assim, dizer enquanto mulher em poesia implica pensar tanto em como expectativas e ideologias de produtores e consumidores desse gênero literário influenciam na determinação de formas verbais poéticas legítimas como em quem tem o direito de falar o que e de que maneira. E quando digo mulher logo gostaria de atentar para o entendimento de voz feminina enquanto uma expressão linguística semantizada por um sujeito não essencialmente definido, que possui as suas condições de discurso atravessadas por manifestações sociais, históricas e ideológicas (FOUCAULT, 2009), evitando-se assim qualquer compreensão que sugira propriedades imutáveis ao ser socialmente reconhecido como mulher. Para melhor fazer compreendida minha preocupação quanto à imutabilidade do feminino, detenho-me um pouco mais sobre a disputa pela não-essencialidade do gênero.
Nascido no início dos anos 70, o movimento teórico conhecido como écriture féminine notabilizou-se por sugerir uma analogia entre a existência de uma autora mulher e a produção de uma escrita inerentemente “feminina”. Entretanto, ainda que essa linha teórica tenha sido responsável por abordagens de relevante significância para os estudos literários e de gênero, a corrente de modo geral não pensa enquanto problema que uma abordagem que parte do princípio da essencialidade feminina só pode devolver aos estudos de gênero a consagração de uma já existente imagem social de mulher. Afinal, tendo em vista a diversidade de contextos econômicos, culturais e psicológicos nos quais a posição mulher se insere, o único denominador comum ao qual se poderia recorrer para ancorar a essencialidade dessa posição seria o discurso fisiológico. No entanto, uma visão exclusivamente biológica da existência do gênero não é suficiente para descrever o processo de criação da mulher como categoria social, conforme já alertava a existencialista Simone de Beauvoir: “Uma sociedade não é uma espécie: nela a espécie realiza-se como existência (…). Não é enquanto corpo, é enquanto corpos submetidos a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza” (BEAUVOIR, 1970, p. 56-57).
A proposta pelo “eterno feminino”, com uma dinâmica de funcionamento similar aos conceitos de “alma negra” e o “caráter judeu” (BEAUVOIR, 1970, p. 8), tem-se mostrado às mulheres uma armadilha que apenas pode oferecer-lhes o que elas já possuem como seu, uma vez que o discurso da essencialidade feminina pode servir ao reforço de estereótipos do tipo mulheres melhor cuidam dos outros, ou homens são viris e dominadores, perdendo-se assim um espaço valioso para a experimentação do gênero. Dessa maneira, procuro no conceito de categoria sexual de Monique Wittig um recurso alternativo para pensar a existência social e textual do gênero feminino.
Coleção dos ensaios de maior destaque da teórica feminista Monique Wittig, The Straight Mind and Other Essays (1992) constitui um marco para a questão lésbica e o feminismo materialista. Apesar de controverso em vários pontos de análise, o texto abre caminho para pensar a mulher enquanto categoria sexual. Por categoria sexual, Wittig entende um grupo com interesses que diferem de outros grupos no interior da sociedade devido à posição que ocupam dentro de um regime produtivo de heterossexualidade pautado na reprodução. Aproximando-se do conceito de classe marxista, Wittig afirma que a ideologia de diferenciação sexual não está no terreno do biológico, mas sim do sócio-histórico, uma vez que é a opressão que cria o sexo e não o contrário (WITTIG, 1992, p.2). Segundo a autora, as características comuns que as mulheres partilham são resultado da repressão que sofrem enquanto categoria e não de uma essencialidade feminina, sendo importante para a teórica salientar a mulher enquanto um produto de relações sociais que gera uma formação imaginária (WITTING, 1992, p.14). Esta concepção da mulher como uma classe social e histórica que rompe com o ideário de “eterno feminino” significa para minha pesquisa um importante investimento teórico na formulação de uma hipótese acerca da voz lírica na poética de Adília Lopes e Sylvia Plath.
Passo então a compreender o registro discursivo feminino na obra literária de Lopes e Plath enquanto uma prática textual que envolve gestos de confrontação, apropriação e reconstrução com o sistema linguístico e suas forças sociais e subjetivas, ou seja, como uma prática que confronta a formação imaginária e social do feminino enquanto consequência de uma repressão estrutural comum, impactando e integrando assim o processo de escrita. Ainda a refletir nos modos de relação das forças sociais, subjetivas e do sistema linguístico na composição da linguagem poética, penso em como formalmente tais manifestações sociais do gênero organizam-se na lírica das poetas, assim como na maneira pela qual suas obras trabalham com as expectativas discursivas para o feminino. Ao explorar a criação de personas, a inserção de vozes dialogantes na tessitura do poema e os efeitos da marcação do gênero na escrita, seja pelo uso da desinência e suas flexões gramaticais ou pela escolha vocabular, Lopes e Plath deparam com a difícil tarefa de pensar e fazer o corpo textual feminino nas tensões de sua enunciação. Dessa forma, ouso postular que para Adília e Sylvia dizer um eu declaradamente feminino em poesia implica enfrentar os discursos corriqueiros das esferas sociais como também a tradição literária ocidental, tanto feminina como “neutra”[3], para, através das feridas abertas por esse confronto, encontrar uma forma outra de relocar sentidos que seja eticamente fiel à sua condição de um corpo que escolheu ser mulher em linguagem.
A fim de dar prosseguimento a essa análise, leio primeiro o terceiro poema do livro de Lopes A pão e água de colónia, de 1987, o qual pode nos servir como uma espécie de arte poética, onde Adília fala-nos de sua Musa e da relação sacrificial que esta lhe impõe. Transcrevo-o integralmente:
 
A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprender a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra (LOPES, 2014, 30).
 
 
O recurso que me salta à primeira leitura é o uso das repetições como dispositivo de sentido. “A minha Musa” do primeiro verso já no segundo, apesar de idêntica na repetição nominal, não mais possui o mesmo referente. Antes de cortar-lhe a língua, “a minha Musa” era outra coisa que não “a minha”, pois o gesto que realiza o pertencimento é o corte sacrificial. No entanto, ainda que o eu-lírico nos situe diante de duas Musas – uma minha pelo sacrifício e outra anterior ao pertencimento, a Musa não própria só existe textualmente enquanto “a minha”. Penso nos discursos prosaicos e nas vezes em que contei aos amigos, por exemplo, sobre o passado da minha cachorra antes dela ser minha. Minha ela aparece na fala, pois todo o seu passado não pertencido, após tornar-se parte minha, só pode ser lido através do seu pertencimento. Este pertencimento obviamente pode passar-se pelo viés autoritário da propriedade, em que a posse faz-se apenas em uma direção – apenas eu tenho a cachorra, ela não me tem – entretanto, há a possibilidade que ele faça-se pelo afeto, em que, da mesma forma que eu tenho a cachorra, a cachorra me tem, como acontece aos namorados, os quais, para que sejam nossos, precisamos ser deles. Dessa maneira, abre-se ao poema a possibilidade de ler a relação do eu-lírico com a Musa tanto como uma relação autoritária, em que apenas uma das partes detém a outra, ou como uma relação de afetos recíproca, em que ambas as partes se possuem. Opto por ler de maneira atravessada, pois percebo que uma relação de afetos, ainda que em certa medida possa ser reconhecidamente recíproca, possui graus de reciprocidade e relações de poder não balanceadas em seu interior. “A minha Musa é cruel” e para cantar, para que a Musa se realize enquanto “minha”, ela “custa uma língua”.
Para Roland Barthes, a língua, mesmo quando proferida “na mais profunda intimidade do sujeito” (BARTHES, 1997, p. 10), é um objeto em que se inscreve o poder, sendo, portanto, “sua expressão obrigatória” (BARTHES, 1997, p. 15). Assim, em vista da necessária condição da escrita enquanto código transfigurativo e constrangedor de uma determinada representação de real, para Barthes o sujeito que emerge da linguagem não poderia ser concebido enquanto uma pessoa/autor dado que não existe um sujeito para além da enunciação, para além do código (BARTHES, 1987, p. 58). No entanto, contra aquilo que a língua obriga a dizer, Barthes postula sua ideia de literatura enquanto lugar de trapaça, competindo a essa um deslocamento sobre o fascismo da língua (BARTHES, 1997, p.15) Nessa leitura, ao escritor apenas caberia “manter ao revés e contra tudo a força de uma deriva e espera” (BARTHES, 1997, p.16) no entrecruzamento do “imenso halo de implicações, de efeitos, de repercussões, de voltas, de rodeios, de redentes” que consiste a língua (BARTHES, 1997, p. 17). “Cantar”, portanto, seria nos termos do poema e de Barthes exigente de um desfazimento da língua pessoal. Porém, percebe-se no desfazimento do poema tons de crueldade, perversão e autoritarismo a fim de que “Musa” e “cantar” pertençam-se: o preço a se pagar na carne contém um misto de prazer e dor.
Não é a primeira vez que na poética de Adília recorre-se ao tema da proibição e transgressão moral, os quais são frequentemente relacionados à sexualidade. Basta lembrar de poemas como “Desobediência castigada” ou a segunda parte do livro O decote da dama de espadas, intitulada “As meninas exemplares”.  A ideia de castigo é recorrentemente resgatada, associada aos contos infanto-juvenis ou à literatura historicamente reservada às mulheres, com o intuito de separar as más das boas meninas, ainda que muitas vezes haja no poema uma contestação desse julgamento. Esta contestação que se dá a priori como já malograda não deixa de conter uma forma de prazer masoquista que se excita com o castigo ou proibição destinados à transgressão e, posteriormente, com o malogro da contestação, o qual dimensiona uma ideia ainda maior de justeza para a transgressão. A falar de castigos, é sintomático que no poema analisado se pague com o corpo a transgressão, tendo em vista o significado do corpo para a questão da constituição de gênero e o problema da desigualdade, uma vez que se convencionou na lógica heterossexual binária ser o corpo a marca natural de gênero. Mas por que compactua o eu-lírico com o jogo perverso da Musa, por que entra ele no circuito masoquista de prazer?
Lembro-me de Sylvia Plath, mais especificamente do poema “The Courage of Shutting Up” de seu livro Ariel. Começo a pensar que a dobra perversa, pois desviante, que Lopes opera não lhe é exclusiva. Transcrevo o poema de Plath:
 
The courage of the shut mouth, in spite of artillery!
The line pink and quiet, a worm, basking.
There are black disks behind it, the disks of outrage,
And the outrage of a sky, the lined brain of it.
The disks revolve, they ask to be heard —
 
Loaded, as they are, with accounts of bastardies.
Bastardies, usages, desertions and doubleness,
The needle journeying in its groove,
Silver beast between two dark canyons,
A great surgeon, now a tattooist,
 
Tattooing over and over the same blue grievances,
The snakes, the babies, the tits
On mermaids and two-legged dreamgirls.
The surgeon is quiet, he does not speak.
He has seen too much death, his hands are full of it.
 
So the disks of the brain revolve, like the muzzles of cannon.
Then there is that antique billhook, the tongue,
Indefatigable, purple. Must it be cut out?
It has nine tails, it is dangerous.
And the noise it flays from the air, once it gets going!
 
No, the tongue, too, has been put by,
Hung up in the library with the engravings of Rangoon
And the fox heads, the otter heads, the heads of dead rabbits.
It is a marvelous object—
The things it has pierced in its time.
 
But how about the eyes, the eyes, the eyes?
Mirrors can kill and talk, they are terrible rooms
In which a torture goes on one can only watch.
The face that lived in this mirror is the face of a dead man.
Do not worry about the eyes—
 
They may be white and shy, they are no stool pigeons,
Their death rays folded like flags
Of a country no longer heard of,
An obstinate independency
Insolvent among the mountains (PLATH, 2007, p. 24).
 
 
Já na primeira leitura, percebem-se como abundantes são as imagens corporais relacionadas à violência no poema. A língua, “the line pink and quiet, a worm, basking”, encontra-se imobilizada. Foi cortada fora e agora, junto a prêmios de caça, está pendurada numa biblioteca, um espaço de institucionalização e desvitalização. Reprimida, busca outras vias. Ousa inscrever-se nas imagens de um corpo exibicionista e escandaloso, como o de uma celebridade hollywoodiana, sem, no entanto, esconder o que no fetiche da femme fatale é violência. A exuberância por vezes exagerada de suas imagens (“silverbeast”, “darkcanyons”, “foxheads” etc) corrobora para a construção de uma ideia disruptiva de beleza que partilha com a violência a noção de corte. A dor e a coerção de sua manifestação são pervertidas no prazer “Of a country no longer heard of,/Na obstinate independency / Insolvent among the mountains”. O silêncio, que tradicionalmente foi ligado a uma ideia de submissão, na escrita do poema revela-se uma prática resistente ao demonstrar que esse nunca foi ausência de expressão e que nele existe uma coragem. E é também sintomático que o título inicial “The Courage of Quietness” tenha sido mudado para “The Courage of Shutting Up”, agregando uma noção de agência e agressividade não existente no vocábulo “quietness”.
Volto ao poema de Adília: para o eu-lírico não existe outra Musa que lhe seja de conhecimento. Penso então na Musa enquanto o Simbólico e nas sucessivas teses sobre o locus da mulher nos modos de Simbolização através da linguagem. Em resposta a Lacan que declarou que “não há Simbolização para mulher enquanto sexo” (LACAN, 1996, p. 176)[4]e discutiu a possibilidade de um gozo para além da Simbolização, como também em resposta a Julia Kristeva, a qual estabeleceu o conceito de chora como uma estrutura pré-edipiana, portanto anterior ao patriarcado do Simbólico, Judith Butler postula a ideia do gênero feminino enquanto uma prática discursiva contínua, aberta a intervenções e ressignificações, que necessariamente precisa fazer-se no interior das relações de poder existentes, uma vez que:
 
Se a sexualidade é construída culturalmente no interior das relações de poder existentes, então a postulação de uma sexualidade normativa que esteja “antes”, “fora”, ou “além” do poder constitui uma impossibilidade cultural e um sonho politicamente impraticável (BUTLER, 2003, p. 55).
 
 
Assim, Butler sugere-nos que, sendo a sexualidade e poder coextensivos, não há a possibilidade de postulação de uma sexualidade subversiva ou emancipatória que possa estar livre da lei. A escrita que se volta contra o espaço masculino e hegemônico do Simbólico obrigatoriamente precisa operar seu deslocamento pelo seu interior, pelas suas arestas. Se para Adília a Musa cruel cobra na carne o preço que é uma língua, o canto impõe à Musa um deslocamento. Da mesma forma, em Plath, o eu-lírico encontra na violência contra um corpo seu lugar de expressão. A transgressão masoquista, ao permitir ao eu-lírico a visão simultânea de um sujeito e objeto, consegue perverter a lógica objetificadora da violência patriarcal ao encontrar um ponto de viragem em que o objeto, ao ver-se violentamente desejado, violentamente deseja. Assim, se a estratégia de corporização dos sujeitos para fins de exploração ou extermínio promoveu um colamento do corpo ao sujeito, garantindo um maior controle sobre populações minoritárias, hoje tal movimento de identificação é espaço de confluência para a articulação de uma luta que ancora na experiência corpórea, portanto na experiência política e histórica, a escrita de um tempo e sujeito.
 
 
Referências bibliográficas
 
BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. António Gonçalves. Lisboa, Edições 70, 1987. [Le Bruissement de la Langue, 1984].
BARTHES, Roland. Aula. 7ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Fatos e mitos (v. 1). 4ª ed. São  Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
KRISTEVA, Julia. Revolution in Poetic Language. Trans. by Margaret Waller. New York: Columbia University Press, 1984.
LACAN, Jacques. On Feminine Sexuality, The Limits of Love and Knowledge, 1972-1973. The Seminar of Jacques Lacan XX, Encore. Tradução de Bruce Fink.New York: W. W. Norton, 1998.
LOPES, Adília. Dobra: poesia reunida.  Lisboa, Assírio & Alvim, 2014.
MARTELO, Rosa Maria. Adília Lopes – ironista. SCRIPTA, Revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Cespuc, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, v. 8, nº 15, 2º semestre de 2004, p. 106 -116.
PLATH, Sylvia. Ariel. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz  de Macedo. São Paulo: Verus, 2007.
WITTIG, Monique. The Straight Mind and Other Essays. Boston: Beacon Press, 1992.
 
 
 
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1]              Expressão retirada do artigo “Adília Lopes: ironista” de Rosa Maria Martelo, publicado no oitavo volume da revista Scripta em 2004.
[2]              Em 2004, a revista Relâmpago realizou um dossier em torno da pergunta “Como se faz um poema?” Entre os dezoito poetas que responderam a este inquérito encontrava-se Adília Lopes, a qual, ao abordar o processo de sua criação poética, também mencionou suas influencias literárias: “As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia [de Mello Brayner], Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler” (LOPES, 2004).
[3]              E aqui lembro que o registro discursivo masculino enquanto regra só pode estar no lugar da não-marcação e o feminino enquanto diferença.
[4]Tradução minha: “There is no symbolization of woman’s sex as such” (LACAN, 1993, p. 176).
 
 
 
NOTAS AO TEXTO
 
[1]              Expressão retirada do artigo “Adília Lopes: ironista” de Rosa Maria Martelo, publicado no oitavo volume da revista Scripta em 2004.
[1]              Em 2004, a revista Relâmpago realizou um dossier em torno da pergunta “Como se faz um poema?” Entre os dezoito poetas que responderam a este inquérito encontrava-se Adília Lopes, a qual, ao abordar o processo de sua criação poética, também mencionou suas influencias literárias: “As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia [de Mello Brayner], Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler” (LOPES, 2004).
[1]              E aqui lembro que o registro discursivo masculino enquanto regra só pode estar no lugar da não-marcação e o feminino enquanto diferença.
[1]Tradução minha: “There is no symbolization of woman’s sex as such” (LACAN, 1993, p. 176).
 
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "Americanah": Chimamanda Adichie – Patricia Maria dos Santos Santana




RESENHA
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 516 p.
 

Patricia Maria dos Santos Santana

 

UFRJ/CAPES

 
 
Minicurrículo da resenhadora: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas.
 
Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana contemporânea que se tornou bastante conhecida após a sua participação na música “Flawless” da cantora norte-americana Beyoncé. Escreveu obras como Hibisco roxo (2003), Meio sol amarelo (2007), mas Americanah (2013) destaca-se por toda inquietação e denúncia que a obra carrega. O romance de 516 páginas, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, tem como pano de fundo uma história de amor para desenvolver e debater assuntos polêmicos.
Nos anos 1990, os então jovens Obinze e Ifemelu vivem um caso de amor. Nesse tempo, a Nigéria passa por momentos difíceis devido ao duro governo militar que possui.  Assim, Ifemelu precisa partir e deixar o namorado nigeriano do colegial para tentar viver uma vida digna em outro continente. As greves acadêmicas devido à ditadura militar colocavam em risco a formação universitária de jovens nigerianos e aqueles que conseguiam visto para estudar em outros países eram considerados pessoas de muita sorte. Ifemelu é uma dessas pessoas agraciadas com o visto norte-americano. A garota foi morar com sua tia e primo que já residiam na América e, depois do episódio de 11 de setembro, tornou-se impossível um reencontro para o jovem casal. O amor que construíram com base numa grande cumplicidade é consumido pela distância. Nos Estados Unidos, Ifemelu consegue se formar tornando-se uma mulher vitoriosa financeiramente. Mas ao longo do processo, tudo traz muito sofrimento à moça, um sofrimento relacionado à sua situação como imigrante e também ao fato de ser mulher e negra. O livro toca intimamente em questões universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero. As primeiras folhas da obra se encarregam em mostrar ao leitor a cultura americana pelo olhar do estrangeiro, ou seja, a árdua tarefa que o indivíduo que deixou seu país precisa passar ao entrar em contato com uma cultura diferente e agressiva, impregnada de racismo, velado ou não.
Ainda nos Estados Unidos, a personagem mostra o desejo de voltar definitivamente para seu país de origem, deixando incrédulos todos que tomavam conhecimento de sua vontade. Quando descobriam que nem mesmo oferta de emprego ela tinha na Nigéria, as pessoas ficavam ainda mais admiradas. Por que Ifemelu, que se tornara cidadã americana formada em comunicação e mestranda em Princeton, com uma vida promissora nos EUA, desejava morar num país africano paupérrimo e abandonar definitivamente a América? A impressão que temos ao longo da obra é a de que existe um tom autobiográfico e nostálgico na escrita de Adichie. A autora estudou Medicina na Universidade da Nigéria por um ano e meio. Com 19 anos, Adichie deixou a Nigéria e  mudou-se para os Estados Unidos.  Depois de estudar Comunicação e Ciência Política na Universidade de Drexel, na Filadélfia, ela foi transferida para Eastern Connecticut State University para morar mais perto de sua irmã, que tinha um consultório médico em Coventry. Recebeu diploma de bacharel de Leste, onde se formou summa cum laude em 2001. Em 2003, ela completou o mestrado em Escrita Criativa na Universidade Johns Hopkins. Em 2008, recebeu a titulação de Master of Arts em Estudos Africanos pela Universidade de Yale. Em 2008, Adichie foi premiada com a MacArthur Fellowship. Ela também foi premiada com uma bolsa nos anos de 2011 e 2012 pelo Instituto Radcliffe de Estudos Avançados da Universidade de Harvard.  Hoje, a autora divide o seu tempo entre a Nigéria, onde ensina oficinas de escrita, e os Estados Unidos.  Assim, Adichie aproveita o romance para mexer com questões pessoais, ressaltando a todo momento problemas de gênero e raça para discussões nas linhas da obra. São questões latentes que não conseguem se dissociar do ser. Antônio Pierucci salienta que a mulher negra carrega em um único corpo dois traços impossíveis de serem disfarçados ou apagados. Esta sobreposição raça/gênero traz dois pesos, representando: “dois processos diferentes, perfeitamente individuáveis em seus efeitos, mas irredutíveis um ao outro, cada qual com sua própria lógica, em constante tensão e contínua transformação, não raro se enfrentando em conflitos insolúveis apesar de entrelaçados para sempre” (PIERUCCI 1999, p.136).
O termo “americanah” é uma gíria usada por Ifemelu e seus amigos para se referirem aos nigerianos que voltavam de temporadas nos Estados Unidos.  Esses que retornavam acabavam por forçar um sotaque para ostentar a viagem realizada e, assim, parecerem superiores, uma vez que representava status social viajar e passar um tempo em países como os EUA e a Inglaterra.
Ifemelu retorna à sua terra natal após quinze longos anos e encontra um país  diferente a seus olhos. Também decide rever e retomar seu caso com o antigo amor de juventude. E se ela apresentava uma enorme vontade de se mudar de vez para a Nigéria quando ainda estava nos Estados Unidos, a situação muda bastante quando ela chega em sua antiga terra. Por dentro de Ifemelu parece existir curiosamente o impasse do não-lugar também em sua cidade natal.  Ela que já tinha se deparado com o problema crucial de despertencimento, ou seja, de não-lugar nos Estados Unidos, ironicamente o sente também na Nigéria.  Nos Estados Unidos, a moça não é vista ou aceita como uma cidadã americana e a repulsa da sociedade é mostrada com vigor no que tange à  rejeição de imigrantes no seio social americano, principalmente no caso de imigrantes vindos de países pobres, não europeus. Em seu país, por conta de tanto tempo imersa na cultura americana, sua cidadezinha Lagos também causa estranheza e certa repulsa na personagem. É que o estrangeiro aos poucos se naturaliza e absorve, muitas vezes inconscientemente, os modos nativos do lugar onde está. Assim, Ifemelu vive uma eterna tentativa de achar-se no mundo. E talvez por causa disso o livro seja tão fascinante porque ele tem na mulher a sua principal figura. Virginia Woolf em Um teto todo seu relata esse eterno ‘sentir-se estrangeira em relação ao mundo’ pelas mulheres. Woolf diz que a presença das mulheres na literatura, nas artes em geral e nas ciências ocorre mais como tema e não como autora.  Woolf conclui que todas as obras do espírito humano (as ciências, as artes, as leis) foram feitas pelos homens. Se a história humana é androcêntrica, cabe às mulheres mudá-la, seja como for e Adichie encontra seus meios particulares de enfrentamento.
O livro é bastante irônico e apresenta uma escrita fluida com muita crítica social.  Parece ter sido escrito com o propósito de incomodar. Os personagens são frutos de uma história de preconceito possível de ser vista em muitos lugares. Ademais, a obra lança perguntas no ar: será que o estrangeiro pode mesmo retornar para casa? Será que existe uma casa para a qual ele realmente possa voltar?
 
 
REFERÊNCIAS
 
PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença. São Paulo: Ed. 34, 1999.
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.1





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "O Drible": Sergio Rodrigues – Patricia Maria dos Santos Santana




RESENHA
RODRIGUES, Sérgio. O Drible. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.  224 p.

Patricia Maria dos Santos Santana

UFRJ/CAPES

 
Minicurrículo da resenhadora: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas.
 
A paixão que o futebol desperta no brasileiro é imensa e foi a partir desse envolvimento que o escritor Sérgio Rodrigues decidiu escrever as linhas de seu último livro. Diz a sabedoria popular que o homem pode trocar de camisa, de profissão, de nacionalidade e até de mulher, mas não troca o seu time do coração.  Nos mais remotos locais deste país, sempre há alguém que tenha uma bandeira, um escudo ou a camisa de seu time. Nas tardes de domingo, existem rádios sintonizados no jogo da vez, esperando por um grito de gol do locutor.  O futebol é conhecido como “o esporte bretão”, pois, oficialmente, nasceu na Inglaterra, Londres, em 1863, quando representantes de dez clubes definiram suas regras e criaram a The Football Association, mas foi no Brasil que ele ganhou lar. Quando ouvimos que o futebol tem a cara do Brasil, consideramos o fato de que a prática do mencionado esporte, ao contrário da prática de outros esportes como o tênis, o golfe ou o ciclismo, não exige altos recursos, nem mesmo equipamentos caros ou áreas especiais para se jogar. Com duas pedras, dois tijolos ou um par de chinelos já se tem o espaço do gol formado. Os garotos brasileiros aprendem a jogar descalços no asfalto, na areia ou na terra batida.
O autor Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé, Minas Gerais, no ano de 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, crítico literário e jornalista, ele é autor também dos romances Elza, a garota (2009) e As sementes de Flowerville (2006).  O Drible (2013) é o terceiro romance do autor. Foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras e tornou-se o grande vencedor do 12o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, o mais importante do país. No livro, Murilo Filho é um famoso cronista esportivo que, aos oitenta anos, descobre portar uma terrível doença e se vê à beira da morte. Ele rememora os acontecimentos da época de ouro do futebol enquanto tenta se reaproximar de seu único filho, Neto, com quem brigou e rompeu relações há mais de vinte anos. Toda semana, em pescarias dominicais, Murilo Filho procura preencher com interessantes histórias de craques do passado o enorme abismo que o separa do filho já cinquentão. Neto, por sua vez, é um medíocre revisor de livros de auto-ajuda obcecado pela cultura pop dos anos 1980, que leva uma vida sem graça colecionando quinquilharias e conquistando mulheres que trabalham no pequeno comércio perto de sua casa, situada no bairro carioca da Gávea. Desde os cinco anos, quando a mãe se suicidou, sente-se desprezado pelo pai famoso e o culpa pela morte precoce da genitora.  O pai ganhou fama nos anos áureos do Jornal dos Sports, era celebridade da praia e da noite do Rio de Janeiro, foi companheiro de redação de Nelson Rodrigues e parceiro de Millôr nos jogos de praia. A tentativa de reconciliação de Murilo acaba sendo falha e, assim, Neto descobre um terrível segredo de família enterrado nos porões da ditadura militar.
Em O Drible, temos como núcleo do romance um problema familiar mal resolvido, um ajuste de contas do passado que o filho se encontra obrigado a fazer com o pai. O texto é construído através dessa tensa história entre pai e filho abrindo brechas para a magia futebolística na história de Peralvo, relembrado nas linhas do livro pelo narrador Murilo Filho como um jogador fenomenal que teria todas as habilidades possíveis para se tornar um ídolo maior e melhor que Pelé caso não morresse de forma precoce e trágica. O cronista esportivo vai recordar a sua própria trajetória e a carreira de Peralvo ao longo do livro: torcedor do América, Murilo Filho chega ao Rio em 1960 e vai trabalhar no Jornal dos Sports, comandado por Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que também escrevia no jornal. Peralvo é da mesma cidade de Murilo, Merequendu, e chega à cidade dois anos depois para jogar justamente no América. O garoto é craque e, com a ajuda das empolgadas reportagens de Murilo, rapidamente passa a ser comparado a Pelé.
A memorável cena do drible que Pelé deu no goleiro uruguaio Mazurkiewicz na semifinal da Copa de 1970 é utilizada por Sérgio Rodrigues para retomar antigas questões sentimentais. A citada cena é vista e revista por pai e filho num antigo aparelho de TV, para explicar décadas de um problema familiar. Desse jeito, a trama estabelece novos sentidos narrativos para a palavra “drible” no livro. Como menciona o antropólogo Roberto Da Matta no clássico ensaio intitulado “Futebol: ópio do povo ou drama de justiça social?”, o futebol pode ser tomado como uma metáfora da própria vida, por meio da qual “nossa sociedade fala, apresenta-se, revela-se, exibe-se, deixando-se descobrir” (1986, p. 105).  De um acontecimento real, ou seja, de um drible dado em um jogo por Pelé, temos a oportunidade de ver o desenrolar de ideias e do próprio romance, concluindo o jogo de criação do autor. O livro coloca, de forma particular, o futebol como um dos personagens da história. Um personagem bastante decisivo.
O autor prova que é possível criar ficção lidando com os valores e com as tradições, com os absurdos e com as memórias, com a arte e com a imaginação que o futebol deposita em cada um dos brasileiros. Sua construção é feita através das pitadas do real (Pelé, Jornal dos Sports etc), do imaginário (Peralvo, o craque que nunca existiu, mas que seria maior que Pelé) e da história do Brasil (o regime militar) que se imbricam para formar o todo. Também podemos observar na obra uma crítica profunda à mídia, na análise de que o futebol brasileiro deve muito de sua evolução ao hábito do forjar, ou seja, na afirmação de que existe uma falta de veracidade ou uma mania de exagerar nos fatos sobre a realidade daquilo que acontecia em campo pelas narrações de futebol feitas no rádio. A proposta levantada se baseia, exatamente, no esforço que muitos jogadores tiveram de fazer para ficar à altura dos exageros que os radialistas diziam, corroborando a seguinte afirmação de Michel de Certeau: “algo na narração escapa à ordem daquilo que é suficiente ou necessário saber e, por seus traços, está subordinado ao estilo das táticas” (1994, p.154).  Era, então, a tática da exaltação como estratégia de vitória além dos gramados, adentrando também nas locuções e nas redações futebolísticas.
Apesar de ser considerado o país do futebol, o tema é ainda raro na literatura brasileira e ler o livro significa mergulhar nos últimos quarenta anos da história do Brasil e da crônica esportiva. O Drible procura ressaltar, de um jeito todo seu, a nossa cultura.
 
REFERÊNCIAS
 
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano 1: as artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
DA MATTA, Roberto. “Futebol: ópio do povo ou drama de justiça social?”. In: DA MATTA. Explorações – ensaios de sociologia interpretativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A MULHER EX-CÊNTRICA E SUA SUBALTERNIDADE: UMA LEITURA DE NIKETCHE – Vivian Leme Furlan




 

Vivian Leme Furlan

Universidade Federal de São Carlos

 

Jorge Vicente Valentim

Universidade Federal de São Carlos

 
 
RESUMO: Este artigo pretende fazer uma breve leitura do romance Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane, a partir de reflexões sobre o ex-cêntrico e subalterno, pela necessidade de se refletir, em meio as grandes contemplações poéticas da obra, sobre o ser (e estar) da mulher como sujeito na sociedade, especialmente quando a tradição foi potencializada pelas estruturas pós-coloniais. As considerações que tentaremos alcançar, embora se façam presentes no contexto problemático tratado no romance, superam os limites da poligamia na cultura africana, mas apresentam-se em diversos contextos e estratos sociais em que a mulher sofre subalternidade.
 
Palavras-chave: Mulher; Subalternidade; Tradição; Pós-colonial.
 
 
ABSTRACT: This article intends to read Paulina Chiziane’s novel Niketche: A Tale on Polygamy from an ex-centric and subordinate perspective, having in mind the importance of reflecting, among the novel’s great poetic contemplation, what it means to be a woman, as an individual, in society, especially in one  where tradition was enhanced by post-colonial structures. Our considerations will try to go beyong the problematic context treated in the novel, to overcome the limits of polygamy in African culture, and to present conclusions in relation to different contexts and social strata in which women suffer subordination.
 
Keywords: Woman; Subordination; Tradition; Post-colonial society.
 
Minicurrículo: Miriam Leme Furlan é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFSCar (PPGlit), fomentada pela CAPES/ ProPG-UFSCar.
 
Minicurrículo: Jorge Vicente Valentim é professor do Departamento de Letras da UFSCar, Coordenador do PPGLit (Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura) / UFSCar, Coordenador do GELPA (Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos) / UFSCar e Bolsista Pós-Doutorado Sênior (CAPES/Universidade do Porto/2013).
 
 
 
A MULHER EX-CÊNTRICA E SUA SUBALTERNIDADE:
UMA LEITURA DE NIKETCHE
 
 
Vivian Leme Furlan
Universidade Federal de São Carlos
 
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos
 
 
 
INTRODUÇÃO:
A sociedade e também a cultura, de uma maneira geral, são presumidas em torno de um centro homogêneo e hegemônico (masculino, heterossexual, branco, ocidental), caracterizando tudo que está à parte disto como marginal. Neste sentido, a mulher pode ser considerada ex-cêntrica, subalterna (e o termo subalterno é aqui referido também pela perspectiva de pessoas e grupos que estão fora do poder desta estrutura hegemônica). Linda Hutcheon (1991, p. 96) define ainda como ex-cêntrico o “ficar na fronteira ou na margem, ficar dentro e apesar disto, fora”. Um (não) lugar que se assemelha muito ao que ocupam as mulheres de Niketche. No romance, temos a história de uma mulher moçambicana, Rami, e a descoberta da vida poligâmica de seu marido, Tony, depois de muitos anos de um casamento monogâmico e cristão. Rami, no começo da narrativa, demonstra uma proximidade muito grande com a ideia de família tradicional, no desejo de reconquistar o amor do marido. Entretanto, ao descobrir que Tony possui diversas amantes, Rami parte em busca dessas mulheres, e além da grande hipocrisia velada de seu marido, ela encontra não inimigas, mas mulheres como ela, de diferentes espaços, mas todas também vítimas de uma sociedade desigual, onde homens e mulheres não têm os mesmos direitos.
 

A TRADIÇÃO POTENCIALIZADA: PODE A MULHER FALAR?

Assim como a teórica e crítica Gayatri Chakravorty Spivak (2010), faz-se necessário também o questionamento sobre a fala da mulher enquanto sujeito subalterno. É evidente que Paulina Chiziane, enquanto romancista e mulher, dá voz e cria um espaço à mulher africana, porém como fazê-lo diante do sujeito que é socialmente emudecido e como criar esse lugar que é incômodo? Os questionamentos de Spivak (2010) em Pode o subalterno falar? remetem justamente à preocupação em teorizar como intelectuais e críticos podem exprimir o sujeito subalterno, já que ele mesmo não pode ao menos ocupar uma categoria monolítica, pois esse sujeito é irredutivelmente heterogêneo. Spivak (2010) irá afirmar que, por ser o discurso do subalterno um discurso obliterado, e a mulher negra e pobre encontra-se em uma posição ainda mais periférica devido aos problemas inerentes ao gênero e as condições que enfrenta:
Pode o subalterno falar? O que a elite deve fazer para estar atenta a construção contínua do subalterno? A questão da mulher parece ser a mais problemática nesse contexto. Evidentemente, se você é pobre, negra e mulher, está envolvida de três maneiras (SPIVAK, 2010, p. 85).
 
As mulheres de Niketche, coexistemcomo vítimas de violência física e moral, em um ambiente em que a tradição foi potencializada pelo (pós) colonialismo em África. Mulheres afetadas por uma tradição impregnada no cotidiano. A mulher negra, aqui, é duplamente oprimida, pois sofre o peso de sua condição de gênero e racial, e também as consequências da exploração que a colonização gerou em seu país. O horizonte de luta e enfrentamento da mulher africana está calcado em um país onde “não há estrada, nem emprego, nem perspectivas. As pessoas nunca viram um carro nem luz eléctrica. O mais importante é procriar. Quanto mais filhos, melhor, morrem uns tantos, mas sobram outros para apoiar na velhice” (CHIZIANE, 2004, p. 313).
Tendo em vista que o pós-colonial é muito mais uma questão epistemológica do que cronológica, o contexto de Niketche supera os limites do período pós independência, pois é um romance retratado quase trinta anos após a independência do país, não obstante a subalternidade, principalmente a feminina, é ainda muito viva. O explorador já não é mais o estrangeiro. A tradição está incrustada no cotidiano africano. As caravelas do passado foram embora, mas ainda clamam-se mudanças:
No passado os homens deixaram-se vencer pelos invasores que impuseram culturas, religiões e sistemas a seu bel-prazer. Agora querem obrigar as mulheres a rectificar a fraqueza dos homens. No regime cristão, as mulheres são educadas para respeitar um só rei, um deus, um amor, uma família, por que é que vão exigir que aceitemos o que nem eles conseguem negar? Negar não é gritar: é olhar a lei, mudar a lei, desafiar a religião e introduzir mudanças (CHIZIANE, 2004, p. 93).
 
Os atuais estudos culturais e literários intentam por introduzir transformações através do desvelamento dos meandros dos padrões e pensamentos hegemônicos. Linda Hutcheon (1991) dirá ainda sobre a necessidade em refletir sobre aquilo que chama de ex-cêntrico, pois o pós-modernismo questiona esses sistemas centralizados, “totalizados, hierarquizados e fechados” (HUTCHEON, 1991, p. 65), contudo, não os destrói. Ora, essas questões se fazem presentes no contexto Moçambicano retratado em Niketche, principalmente no período posterior a independências das colônias, que como vemos, não significou uma ruptura total com os padrões repressores, gerando um esgotamento da antiga utopia de liberdade colonial, e, atrelado a isso, uma extrema dificuldade em se definir a identidade de um povo de tempo e culturas fronteiriças. Inocência Mata (2003), em seus estudos sobre o pós-colonial, ao dizer sobre esse processo de descolonização afirmará que:
Ora, sendo a descolonização um processo (e não um estado) essa reconstituição identitária não tem que pressupor uma ruptura com os discursos hegemônicos, mas um agenciamento das estratégias discursivas que visem contribuir cumulativamente para esse novo código (MATA, 2003, p. 55).
 
A proposta de Inocência Mata (2003) pode ser tratada, principalmente em romances de escritores como Paulina Chiziane, como ela mesma propõe, pelo “agenciamento tanto da catarse dos lugares coloniais como as tensões pós-coloniais” (MATA, 2003, p.59), onde, ao invés de haver a invenção de um lugar totalmente novo, a proposta que surge é de deslocamento radical dento de um mesmo lugar. Essas estratégias, novos códigos, poderão ser notados em Niketche, quando mulheres, partindo de um contexto de subalternidade, reagem positivamente através da união de forças. Além disso, esse aspecto é notado pela evolução das personagens femininas e pela maneira que Chiziane conduz a narrativa, indicando um percurso e também uma evolução, partindo de mesmo lugar que é o matrimônio confuso da poligamia velada por Tony. As ações de Rami, em ir à procura das amantes do seu marido, incentivá-las a autonomia, e ainda oficializar o matrimônio de Tony com todas elas, demonstram um diálogo entre o que já estava estabelecido (o hegemônico) e o que podia ser transformado. Ou seja, a hegemonia pode até permanecer, mas readaptada, agenciada por Rami, através das estratégias do texto.
Além disso, a poligamia, mesmo que signifique uma subordinação, é tida como solução para algumas mulheres que vivem em condições de extrema pobreza e, falta de esperanças, sem perspectiva nenhuma. Esse estado parece nítido na fala de algumas mulheres de Niketche: “E disse-me: eu sou pobre. Sem país, nem emprego, nem dinheiro, nem marido. Se não tivesse roubado o teu marido, não teria nem filhos, nem existência.” (CHIZIANE, 2004, p.66-67). Portanto, por mais subalternas que sejam, as situações do romance demonstram uma constante busca da vitalização da presença feminina, mesmo andando lado a lado com a tradição, uma procura igualmente constante e universal pela reconfiguração da identidade nacional no cenário histórico e cultural de Moçambique.
O romance pode ser lido por múltiplos olhares, ora pelo exemplo de união da força feminina, ora pela representação multicultural de representação da identidade da nação, mas também por um olhar totalizante dos gêneros pelo poder feminino. Linda Hutcheon, apoiada em Derrida, apontam uma perspectiva descentralizadora onde masculino e feminino não devem se opor, mas formarem “um pseudo todo que o pós-modernismo contesta por meio de sua valorização do ex-cêntrico e do envolvimento que dá à diferença” (DERRIDA, 1984,89apud HUTCHEON,1991, p.95). As mulheres de Niketche podem representar esta retórica pluralizante, pois no desfecho, mesmo dentro de um contexto totalmente desfavorável, ex-cêntricas, todas elas mostram-se capazes de se sobreporem ao homem e lutarem pela independência financeira e amorosa. Rami despertará o sentimento de poder andar ao lado do homem e não a sua sombra. Entretanto, este olhar pode muitas vezes ser interpretado como utópico, embora seja o caminho textual escolhido por Chiziane, talvez objetivando cumprir a tarefa de valorização feminina e criação deste “pseudo todo” dos gêneros.  Em diversos momentos as personagens femininas demonstram isso, como em uma das falas de Rami:
 
Atravessaremos o mar com a nau dos nossos olhos porque saberemos navegar até ao além-mar e levaremos a mensagem de solidariedade e fraternidade às mulheres dos quatro cantos do mundo. Ensinaremos aos homens a beleza das coisas proibidas: o prazer do choro, o paladar das asas e patas de galinha, a beleza da paternidade, a magia do ritmo do pilão a moer o grão. Amanhã, o mundo será mais natural, e os nossos bebés, tanto meninas como rapazes, terão quatro a hora de nascer, as meninas serão também recebidas com cinco salvas de tambor, no tecto do lar paterno e na sombra da árvore dos seus antepassados. Marcharemos ao lado dos homens, como soldados fardados de suor e lama, na machamba, na mina, na fábrica, na construção, e levaremos um beijo de mel à boca de cada criança. Seremos mais ricas de pão e de paixão. Olharemos para os homens com amor verdadeiro e não para as cifras das notas de banco que pendem nos bolsos das calças. Ao lado dos nossos namorados, maridos e amantes, dançaremos de vitória em vitória no niketche da vida. Com as nossas impurezas menstruais, adubaremos o solo, onde germinará o arco-íris de perfume e flor” (CHIZIANE, 2004, p. 294).
 
As personagens femininas de Niketche, em muitos momentos deste processo de evolução apresentado pelo enredo, fazem um mesmo “percurso espiralar” (MATA, 2003, p. 50) que é proposto por Inocência Matano contexto da nação moçambicana e do movimento diacrônico dos sonhos da nação. A teórica suscita a ideia de que a nação, no percurso de descolonização, passa por momentos de utopia, distopia, atopia e heteropia, onde há primeiramente uma esperança e euforia frente ao projeto de liberdade colonial, seguindo de uma desilusão com o momento do pós-independência, caracterizado pelo desencantamento perante a não ruptura com as tradições coloniais, pelas muitas guerras civis pelo poder, e assim, emergindo para uma “amarga lucidez e angústia do desencontro com a história” (MATA, 2003,p.50). Para o sujeito subalterno, esse percurso suscitou em conflitos diversos, pois agora, além de conviver com as opressões a própria tradição impõe, o sujeito ex-cêntrico vive uma espécie de “descolonização colonizada”.
A independência esgotou o anterior filão e, em consequência, arrastou outras temáticas mais ajustadas às novas realidades. Os temas em voga são agora outros. O combate é muito diferente. A ameaça já não está no colonizador, na falta de afirmação de uma identidade nacional, mas na necessidade de criar uma nova utopia. Uma sociedade mais justa, baseada na igualdade de oportunidades e de direitos. A renúncia da corrupção tornou-se uma necessidade imperiosa e foi ganhando expressão crescente.  (FRADE, 2007, p. 16).
 
O combate não está mais no colonizador, mas a ressonância da colonização continua forte no pós-independência. A religião também é reflexo disso. Rami está presa não a Tony, mas ao cristianismo como um todo, que sufoca ainda mais a mulher e o sujeito subalterno na sociedade. O cristianismo vibra como insígnia do colonialismo ainda presente:
A igreja e os sistemas gritaram heresias contra essas práticas [alongamento das genitais], para destruir um saber que nem eles tinham (…). Até a escola de ballet eu fiz – imaginem! Aprendi todas aquelas coisas das damas europeias, como cozinhar bolinhos de anjos, bordar, boas maneiras, tudo coisas da sala. Do quarto, nada! (…). Por que é que a igreja proibiu estas práticas tão vitais para a harmonia de um lar? (…). O colonizador é cego. Destrói o seu, assimila o alheio, sem enxergar o próprio umbigo (CHIZIANE, 2004, p. 44-45).
 
A mulher é silenciada por uma forte herança cristã, salientando ainda mais sua subalternidade enquanto sujeito. Mas este silenciamento tem raízes mais profundas que o cristianismo, pois a opressão feminina é realidade em diferentes contextos de subalternidade.
 

CONCLUSÃO:

 
Chiziane, em uma entrevista diz: “Eu nasci no chão, eu venho do chão, então é o chão que eu conheço, mais nada, e é esse chão que eu vou escrever” (LEITE, 2012, p. 185), demonstrando a cumplicidade que tem com a escrita, e muito mais, demonstrando ser parte dela. É como se, para ela, escrever fosse algo natural, apenas um exercício de tradução do que seus olhos e seus pés passaram. A autora, agente intelectual e conhecedora da crítica pós-colonial, está longe de estar em uma posição de cumplicidade silenciadora, como a que ocorre com muitos intelectuais e é criticada por Spivak (2010). Segundo ela, a tarefa do intelectual pós-colonial é criar espaços para que o sujeito subalterno possa falar, e que quando o faça ele possa ser ouvido (SPIVAK, 2010, p. 85). Chiziane está bem próxima da tarefa de agenciadora entre falante e ouvinte, onde reproduz as experiências do sujeito subalterno que, segundo ela mesma, é fruto do chão que ela conhece.
Além do mais, Paulina Chiziane aproxima-se, com muita cumplicidade da voz feminina, e embora faça questão de se distanciar de um discurso feminista, possui um olhar agudo e sensível do lugar da mulher, que está muito longe da posição, muitas vezes impositiva e institucionalmente privilegiada do intelectual citado por Spivak (2010). Chiziane (2002) deixa muito claro o lugar que exerce na escrita, afirmando que:
Eu sou uma mulher e falo de mulheres, então eu sou feminista? é simplesmente conversa de mulher para mulher, não é para reivindicar nada, nem exigir direitos disto ou daquilo, porque as mulheres têm um mundo só delas e é isso que eu escrevi, e espero que isso não traga nenhum tipo de problemas, porque há ainda pessoas que não estão habituadas e não conseguem ver as coisas com isenção (Paulina Chiziane, Entrevista ao Maderazinco, 2002).
 
Niketche insere o leitor ao “mundo só delas” (CHIZIANE, 2002) através de uma linguagem muito peculiar, que é ao mesmo tempo oral e lírica, como se realmente fosse instaurada uma conversa entre mulheres, mas com espaços para adentrarmos ao universo íntimo dos pensamentos da mulher Rami. Transita-se, ao mesmo tempo, por uma certa indignação pela personagem que deseja e ama Tony, um homem infiel e grosseiro, e pela admiração que surge pela força advinda desta mesma personagem, que consegue reverter uma poligamia velada, enxergando a beleza de todas as “rivais”,  evoluindo com e através delas, desagregando assim, muitos padrões sociais perturbadores e conceitos patriarcais que foram potencializados pela estrutura do período pós colonial.
Inocência Mata, grande reconhecedora dos meandros pós-coloniais em narrativas africanas e defensora da necessidade de uma “descolonização sobretudo téorica”,  (MATA, 2014, p. 34), afirmará sobre a autora:
Paulina Chiziane trouxe para a ficção moçambicana uma visão feminina da realidade, melhor, uma visão dos meandros invisíveis, mas extremamente presentes no mundo tradicional que determinam a vida da mulher na sociedade tradicional (…). Paulina Chiziane nomeia o lugar incômodo da mulher em relação ao casamento, ao adultério, à poligamia, enfim, a condição feminina numa sociedade em que os limites da mulher estão traçados com as margens das proibições. De facto o que Paulina Chiziane diz fazer na sua obra é escrever “a realidade do seu mundo com todos os seus prazeres, mágoas, tristezas e frustrações (MATA, 2000, p. 136).
 
A grandiosidade e importância para a escrita feminina de Paulina Chiziane não está somente com o romance Niketche, mas também em seus outros romances, como em Balada de amor ao vento, pela sua maneira de escrever a realidade. Através da construção de personagens fortes, em sua maioria femininas, que transitam por temas problemáticos, Chiziane questiona a as relações marcadas pela tradição intensificada pela ideologia colonial .
Spivak (2010), ao abordar o espaço inquietante e silenciado da mulher no contexto pós-colonial, dirige um apelo final as mulheres intelectuais (como Paulina Chiziane por exemplo), pois afirmará que a elas cabem a tarefa de criarem espaços e condições de autorrepresentação e questionamentos, além de referenciarem o seu próprio lugar de enunciação e sua cumplicidade com esses questionamentos, como intelectual que são:
O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído a “mulher” como um item respeitoso nas listas das prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual, como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio (SPIVAK, 2010, p. 126).
 
É com olhar sensível frente às tradições que a mulher e intelectual Paulina Chiziane nunca rejeita esta tarefa, mas ao contrário, está sempre iluminando esta abertura pela voz (e porque não grito?) feminino.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 
ÁLVARES, Cláudia. Teoria pós-colonial, uma abordagem sintética. Revista de Comunicação e Linguagens,  Tendências da Cultura Contemporânea, J. Bragança de Miranda e E. Prado Coelho (Orgs.), Lisboa, Relógio de Água, 2000.
CABRAL, João Pina. Crises de fraternidade: literatura e etnicidade no Moçambique pós-colonial. Horiz. antropol.,v.11 no 24, Porto Alegre, July/Dec. 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832005000200011&script=sci_arttext.
Acesso em: 15/05/2014.
CHIZIANE, Paulina. Niketche. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
CHIZIANE, Paulina. Ser escritora é uma ousadia!!!. Entrevista ao Maderazinco. Revista Literária Moçambicana, [http:www.maderazinco.tropical.co.mz], 2002.
FRADE, Ana Maria Duarte. 2007. A corrupção no Estado pós-colonial em África. Duas visões literárias. Porto: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Disponível em:  http://www.africanos.eu. Acesso em: 15/05/ 2014.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Stuart Hall e Liv Sovik (Orgs.). Tradução Adelaine La Guardia Resende et alii. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
HALL, Stuart. A questão da identidade cultural. Textos didáticos. São Paulo: IFHC/Unicamp, 1998.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo – História, teoria, ficção. Tradução Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LEITE, Ana Mafalda, CHAVES, Rita & APA, Lívia (Orgs.). Entrevista com Paulina Chiziane. Literatura e Vida. In: Nação e narrativa pós-colonial II: Angola e Moçambique, Entrevistas. Lisboa: Colibri, 2012.
MATA, Inocência.  A condição pós colonial das literaturas africanas de língua portuguesa: algumas diferenças e convergências e muitos lugares comuns. In: Contatos e ressonâncias literaturas africanas de língua portuguesa. Angela Vaz Leão (Org.). Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.
MATA, Inocência. Paulina Chiziane: uma colectora de memórias imaginadas. In. Metamorfoses 1. Lisboa: Cosmos, 2000, p. 135-142.
MATA, Inocência. Estudos pós-coloniais: desconstruindo genealogias eurocêntricas. Dossiê Diálogos do Sul. Civitas, Porto Alegre: v. 14 no 1, p. 27-42, jan./abr. 2014 Disponível em:
http://revistaseletronicas.pucrs.br/civitas/ojs/index.php/civitas/article/view/16185/10957
SHOHAT, Ella. Crítica da imagem eurocêntrica. Tradução: Marcos Soares, São Paulo: Cosac Naify, 2006.
SHOHAT, Ella. Notes on the “Post-Colonial”. Social Text, no 31/32, Third World and Post-Colonial Issues, Duke University Press, p. 99-113, 1992. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/466220.
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar?  Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.





Bio fornecida pelo palestrante.

ENTREVISTA COM O MÚSICO SÉRGIO TANNUS




 

Nina Barbieri Pacheco

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

 
Minicurrículo: Nina Barbieri Pacheco é doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.
 
Resumo: Entrevista com um músico natural de Niterói da atualidade.
 
Palavras-chave: Sérgio Tannus – música contemporânea – contexto luso-brasileiro
 
Summary: Interview with a contemporary Brazilian musician.
 
Key-words: Sérgio Tannus – contemporary music – luso-Brazilian context
 
 
ENTREVISTA COM O MÚSICO SÉRGIO TANNUS
 
Nina Barbieri Pacheco
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
 
 
Sérgio Tannus é um músico multi-instrumentista natural de Niterói que reside em Santiago de Compostela há quase uma década. Em sua carreira na Europa ele faz parcerias com galegos e músicos de vários países lusófonos. No CD Son Brasilego, lançado em dezembro de 2012, Sérgio explora essas relações e misturas em uma riqueza musical enorme.
O caldo cultural lusófono e a relação com o galego (para muitos, parte da comunidade de língua portuguesa por direito) é o enfoque desta entrevista. Na cultura contemporânea, de mundo globalizado e relações transnacionais, a língua galega e a cultura popular que ela carrega ganham vida e espaço. E a música deste brasileiro pode ter um papel de peso nessa jornada.
 
Entrevista:

  1. Nina Barbieri – Sérgio, como você tomou conhecimento da situação da língua galega na Espanha?

Sérgio Tannus – Eu tomei conhecimento em Niterói, quando a cidade promoveu um encontro que se chamava Niterói encontra Espanha. Nesse evento promoveram um intercâmbio cultural e vieram muitos artistas espanhóis: literatura, baile, pintura e, é claro, música. E foi ali, nesses concertos, onde havia grupos vindos de várias partes da Espanha, que conheci (hoje meus grandes amigos) a Uxía, Fran Perez, Pepe Sendón e Marcos Teira. Foi através deles que me interessei e apaixonei especialmente pela música, língua e cultura galega.
 

  1. Nina Barbieri – O seu primeiro CD traz no título o termo brasilego. Por que você se autodenomina assim?

Sérgio Tannus – Ser brasilego é sentir-se brasileiro, mas com a alma já com um jeitinho galego. Não cheguei por ali com a intenção de propagar somente a tão conhecida e respeitada musica brasileira. Cheguei com o intuito de trocar ideias, aprendizados, escutar coisas novas, buscar novas sonoridades e tentar reproduzir isso na minha música. Forjar em forma de música o elo que liga essa irmandade que poucos sabem que existe. E por esse motivo fui adotado musicalmente e pessoalmente por essas bandas. Hoje, no meu meio e círculo de amizades, a cada dia me sinto mais brasilego.
 

  1. Nina Barbieri – Sabemos que você tocou com a cantora galega Uxía Senlle por alguns anos e que vocês ainda mantêm parceria. Ela sempre buscou divulgar a cultura popular e a música tradicional da Galiza. Isso teve influência na sua carreira?

Sérgio Tannus – Uxía para mim é como uma irmã e madrinha ao mesmo tempo. Nossa relação começou com a admiração mútua (nos meus dois primeiros anos ali) até chegarmos a tocar realmente juntos. Ela me apresentou estilos, bandas, ritmos, instrumentos etc. Um dia sentamos, ensaiamos umas coisinhas, vimos que a química era boa e que poderíamos criar algo bonito juntos. Nos encontros, fomos misturando essas influências e estilos dos nossos países e chegamos a um resultado super interessante, de total mistura. Formamos um duo galego-brasileiro. Então, em janeiro de 2011, gravamos o Meu Canto nos estúdios Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, e desde então me tornei o seu produtor musical, músico de palco e parceiro de produção e composição em inúmeros projetos daqui. Então, não tenho dúvidas de que ela, por sua influência e importância na música galega, mais sua enorme capacidade de receber e agregar as pessoas como eu ao seu redor, teve grande influência e “culpa” no êxito da minha vida artística e musical por essas bandas galegas.
 

  1. Nina Barbieri – Você tem uma afinidade especial com a Galiza há alguns anos. De que forma isto aparece no seu trabalho?

Sérgio Tannus – Aparece em forma de total fusão sonora. O Son Brasilego foi justamente o resultado dos seis anos (na época) de convivência com a cultura e com a música galega. Esse convívio me inspirou e levou a colocar instrumentos típicos da música galega em ritmos e canções brasileiras. Todos os artistas que convidei a cantar ou a tocar nesse projeto (e foram 43), em algum momento estiveram no palco ou gravando comigo. Então essa brasileguidade surgiu naturalmente, pouco a pouco e está estampada no som do cd e nos concertos que faço hoje. Baião junto a uma gaita de fole, um samba acompanhado por um violino, um rock pop com um vibrafone e assim por diante.
 

  1. Nina Barbieri – Como você vê a proximidade entre a língua galega e a portuguesa?

Sérgio Tannus – A proximidade é maior do que muitos imaginam. A língua galega (me desculpem os portugueses e livros que não dão muito ênfase a esse fato) é a nossa real língua mãe. O português de Portugal e do Brasil são filhos diretos da mesma mãe… que já existia há algumas centenas de anos antes de existir o reino de Portugal. A língua é tão próxima que muitos galegos dizem que entendem melhor os brasileiros do que os portugueses que vivem ali ao lado…e vice versa. Muitos brasileiros também comentam diversas vezes que entendem melhor os galegos e os portugueses do norte, do que o português falado em Lisboa, por exemplo. Creio que a proximidade é enorme, pouco proporcional ao número de pessoas que têm o conhecimento disso. O galego-português deveria ser muito mais divulgado e valorizado do que foi e é até hoje.
 

  1. Nina Barbieri – E o que o seu CD, Son Brasilego, traz de contribuição para as relações lusófonas?

Sérgio Tannus – Penso nesse CD como uma PONTE. Como diz a letra de Lula Queiroga e Lenine: uma ponte que não é para ir nem para voltar… que é somente para atravessar. Minha intenção ao gravá-lo foi juntar tudo que vivi e aprendi na Galiza com esses talentos lusófonos e construir essa ponte. Juntar e botar para gravar juntos, sem barreiras ou preconceitos, artistas galegos, portugueses, africanos e brasileiros em torno das canções de um brasilego foi como botar o concreto dessa ponte. Me sinto muito agradecido e honrado por ter sido o idealizador e engenheiro dessa alegre e original ponte imaginária e real.
 

  1. Nina Barbieri – Você tinha consciência que a relação entre a Galiza e os países lusófonos poderia se estreitar através da música?

Sérgio Tannus – Até eu chegar aqui e conhecer a Uxia e a força que tem essa música e cultura, não. Com o tempo vi que a força desse povo e da sua língua supera fronteiras. Vi a grande influência do Zeca Afonso na luta e sonhos dos galegos. Vi os inúmeros projetos musicais de mistura, especialmente um que promove a Uxía, chamado Cantos na Maré, que acontece todos os anos e que sempre conta com um representante de cada país da lusofonia. No concerto fazem duos, trios e terminam a noite todos juntos no palco cantando numa só língua. A música foi e sempre será decisiva na função de estreitar essa relação.
 

  1. Nina Barbieri – Você vê mudanças acontecendo no meio cultural em relação à língua galega e ao espaço que a Galiza ocupava na Espanha e no mundo há alguns anos atrás?

Sérgio Tannus – Creio que a cultura galega, por meio desses grandes artistas e incansáveis impulsionadores que mencionei antes, ganhou mais representatividade e espaço no meio musical da Espanha e do exterior. Mas por questões políticas e históricas, não o suficientemente na Espanha, que ainda guarda muita resistência em aceitar e incentivar distintas línguas e culturas dentro de seu próprio território. Tenho tocado com a Uxía muito fora do país. Portugal, Bélgica, Holanda, Argentina, Brasil, e no momento estamos programando uma turnê pela África, entre outros lugares, onde antes seria impossível chegar. Além disso, o mercado destinado ao público infantil cresceu muito aqui na Galiza pela iniciativa desses mesmos artistas e editoras locais. Eu mesmo produzi ou colaborei musicalmente em mais de oito CDs infantis cantados em língua galega nesses últimos seis anos. Aqui há um movimento de editar livros-discos (que normalmente leva um conto acompanhado de um CD de áudio), que certamente está incentivando as crianças a escutarem mais músicas em galego e, como resultado, a falarem mais a sua língua mãe no dia a dia. Junto a esses livros-discos também existe um incentivo dado por um órgão chamado Política Linguística, que financia os concertos infantis desses projetos – em média 40 num período de três meses – com grupos tocando ao vivo nos colégios e auditórios das pequenas e grandes cidades, para essas crianças. Tenho certeza de que essa iniciativa vai criar ainda mais visibilidade à língua e uma nova geração de falantes de galego.
 

  1. Nina Barbieri – Há uma discussão no meio musical galego hoje acerca da aproximação desta cultura com a lusófona e das possibilidades que esta união poderia gerar para a difusão do galego dentro e fora da Galiza. Você acredita, como músico que vive a cultura galega, que esses laços com os países de língua portuguesa podem ser estratégicos para romper as fronteiras e atingir um mercado maior.

Sérgio Tannus – Acredito totalmente que quanto mais se estreitem esses laços, mais alcance teremos para difundir a língua. Mas é claro que, na minha opinião, as melhores iniciativas são aquelas que são feitas com respeito a todos os outros idiomas e culturas. A ideia é agregar e somar… nunca impor e separar. Esse movimento de intercâmbio é importante para chamar a atenção do mundo em geral, mas principalmente dos países da lusofonia, de que é possível juntarmos nossas vozes e forças sem perdermos a nossa própria identidade cultural e linguística. Falta muito ainda para se cumprir, mas acho que estamos no caminho correto. Portugal, Galiza, Brasil, alguns países da África e de todo o mundo lusófono, já estão dando os primeiros passos nessa direção desejando que essa total aproximação se realize em breve.
 

  1. Nina Barbieri – Conte-nos um pouco sobre seu novo projeto, o CD Alegría.

Sérgio Tannus – O meu mais novo projeto, Alegría – que em galego tem acento (risos) –,  considero um filho e resultado de tudo que mencionei acima. Exatamente como o Son Brasilego, a minha intenção foi de aproximar as nossas culturas, mostrar na prática que é possível estabelecer naturalmente essa irmandade. Ele é fruto de todo o meu percurso e desejo que essa língua seja escutada e valorizada como merece. Foram 40 anos de ditadura onde o galego foi proibido, mesmo dentro das suas próprias casas. Escrevi um conto sobre “Alegra” (uma lagarta) que queria descobrir o segredo da felicidade. E que para isso saiu a caminhar pelo mundo, perguntando às pessoas que encontrasse no caminho o que as fazia felizes. No final ela descobre que a felicidade não tem uma fórmula, que dentro das diferenças existiam inúmeros caminhos para ser feliz. Cada um a sua maneira, o que importa é se nos dedicamos ou não aos nossos sonhos com verdade e amor, desenvolvendo o sentido da tolerância, amor ao semelhante e respeito às diferenças.  Ao descobrir isso, ela ficou tão feliz que um dia voltando da sua viagem dormiu numa folha e acordou borboleta. Resumindo: a beleza não foi o motivo que a fez alcançar a felicidade. Mas a sua felicidade incondicional foi o que a tornou bela. Então encaro esses projetos infantis como uma grande oportunidade para dar bons exemplos, mostrar que as diferenças fazem da vida algo belo e único. Falar e cantar em galego a ALEGRÍA é tentar reverter toda a injusta situação anterior de proibição e repressão, plantando pouco a pouco nessa nova geração o orgulho de serem galegos. Mostrando na prática que hoje todos nós podemos falar, cantar, alegremente e sem preconceitos, no nosso idioma original.
Obrigado, Nininha, pela oportunidade e a todos que estarão lendo e refletindo sobre esse assunto tão interessante e apaixonante.





Bio fornecida pelo palestrante.

A IMPRENSA COMO TRIBUNAL E A LITERATURA COMO MORAL: RESSURREIÇÃO E A FIGURAÇÃO FEMININA




 

Vagner Leite Rangel

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Real Gabinete Português de Leitura

 
Resumo: Este artigo objetiva apresentar a notação crítica da sensualidade nesta obra de Machado de Assis e explorar a sugestão de erotismo e sensualidade em Ressurreição (1872), o primeiro romance do autor. Para tanto, priorizará o terceiro capítulo desta obra, intitulado “Ao som da valsa”, visando a observar que a recepção coeva ao livro, feita sob a forma de censura à obra, é prova da presença do erotismo nas páginas do romance. Nossa hipótese é de que a sugestão de sensualidade em Ressurreição, como presente num ensaio publicado na imprensa em 1872-1873 censurando de modo explícito tais páginas, evidencia uma das lições de Antonio Candido em Formação da literatura brasileira a respeito da mundivisão do Romantismo brasileiro: a união entre literatura e moral.
Palavras-chave: Século XIX – Machado de Assis – romance – erotismo.
Abstract: This paper aims to present the existing criticism of sensuality and eroticism in relation to Ressurreição (1872), the first novel published by Machado de Assis. It presents the idea that the novel contains a suggestion of eroticism and sensuality. To prove it, this paper priorizes the third chapter of Ressurreição, titled “Ao som da valsa”. As a conclusion, it is discussed the relation between a book review published in the press in 1872-1873 criticizing eroticism in Ressurreição and Antonio Candido’s statement in Formação da literatura brasileira about the Weltanschauung of Brazilian Romanticism: to unite literature and moralism.
Keywords: 19th century – Machado de Assis – novel – eroticism.
Minicurrículo: Vagner Leite Rangel é Mestrando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Pesquisador Júnior do Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), sob os auspícios da Fundação Calouste Gulbenkian. Publicou alguns artigos sobre Machado de Assis (ver bibliografia).


A imprensa como tribunal
e a literatura como moral:
Ressurreição e a figuração feminina
 
Vagner Leite Rangel
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Real Gabinete Português de Leitura
 
 
INTRODUÇÃO
Não se costuma associar o erotismo à literatura de Machado de Assis. Costuma-se, ao contrário, tomá-la como exemplo de comedimento e submissão às formas canônicas. E há razões para tal costume, tanto na prosa de ficção quanto na poesia, há inúmeros exemplos de referências à moral e aos bons costumes. Por conseguinte, O Dicionário de Machado de Assis, de Castelar Carvalho, na seção temática, nos explica no verbete “Erotismo” que “Essa presença do erotismo na literatura já se faz sentir nas narrativas românticas de José de Alencar, mas em um autor recatado como Machado de Assis pode causar estranheza ao leitor” (CARVALHO, 2010, p. 261). E nós concordamos, porque, embora o autor de Dom Casmurro seja reconhecido por diversas facetas, – tanto em termos de gêneros praticados quanto em termos de temas explorados – nenhuma delas é erótica. Ao mesmo tempo, caberia investigar a razão de ser de tal ausência – não é outro o nosso objetivo. Do contrário, não entenderemos por que erotismo e Machado de Assis são antinomias. Quer dizer: a faceta erótica de Machado de Assis não tem sido explorada, o que explica o sentimento de estranheza. Contribuir para diminuir este sentimento é um dos objetivos deste artigo.
Retornando ao verbete do Dicionário de Machado de Assis e à explicação de Carvalho (2010, p. 261), lemos: “Mas não nos esqueçamos de que Machado era mais propriamente dissimulado do que recatado e, desde os primeiros romances e contos, percebe-se forte presença do erotismo em sua obra de ficção.” Com efeito, e a dissimulação em Machado de Assis tem estado presente nas análises de seus intérpretes, mas, como dito, a dissimulação tem sido explorada em termos de despiste – a personagem Capitu ilustra tal exploração hermenêutica. Portanto, o exemplo mais ilustrativo talvez seja Dom Casmurro. O que reforça o exposto: dissimulação e sensualidade não têm sido amplamente exploradas na ficção machadiana. Entre as faces deste autor de mil e umas facetas, a erótica permanece, em comparação com as outras, à margem. Por esta razão, a informação a respeito do erotismo na literatura de Machado de Assis termina por causar estranheza e parece ser um contrassenso, sobretudo porque a palavra erotismo remete à sensualidade e ao corpo – palavras incomuns na fortuna crítica a respeito da obra de Machado de Assis.
 
MACHADO DE ASSIS, UM GRANDE SENSUAL?
Em relação aos intérpretes de Machado de Assis, Lúcia Miguel Pereira “foi quem, pela primeira vez, chamou a atenção para os aspectos sensuais presentes na ficção machadiana” (CARVALHO, 2010, p. 261-2). O autor do Dicionário de Machado de Assis está se referindo ao clássico Machado de Assis: estudo crítico e biográfico, publicado pela primeira vez em 1936, de L.M. Pereira. O subtítulo demonstra a metodologia empregada pela intérprete: a crítica biográfica. Nele, encontramos a seguinte explicação: “É verdade que, com o seu ar sonso e frio, Machado de Assis foi, no fundo, um grande sensual” (PEREIRA, 1988, p. 239).
É difícil concordar com a assertiva crítica, pois não podemos saber se ele foi ou não foi um grande sensual ou sonso. A dificuldade provém da leitura das obras: pode-se optar tanto pela negativa quanto pela afirmativa: há quem ateste a fidelidade de Capitu, apesar de algum atributo da personagem, e há quem ateste o contrário. É uma questão de ponto de vista. E, como ficou dito, o da autora é biográfico – o que parece levá-la à conclusão de que o autor era no fundo um sonso e grande sensual. Observando a sugestão do aspecto sensual na literatura de Machado de Assis, importa destacar, para além da referida dificuldade, o feito crítico da autora: chamar a nossa atenção para a faceta que objetivamos explorar: “as passagens em que se destacam as descrições (ou insinuações) de partes do corpo feminino, como lábios, língua, olhos, seios, cabelos, braços, olhares, meneios de corpo, descrições sempre impregnadas de sutis intenções eróticas” (CARVALHO, 2010, p. 262, citando L. M. Pereira).
Para tanto, exploraremos a sugestão de erotismo em Ressurreição (1872), que é o primeiro romance do autor, sendo o último Memorial de Aires (1904). Do primeiro ao último romance, são vinte e dois anos de distância. Margem de tempo que deve ser levada em consideração, quando se quer empreender a análise do tema da sensualidade, uma vez que Ressurreição foi a obra publicada no período mais próximo da juventude do autor (1872), quando o Romantismo brasileiro perdera a força mas não a influência sobre o sistema literário nacional. A prova desta influência encontra-se na recepção crítica de Ressurreição, que apontou a ausência de cor local deste romance como defeito, sendo esta uma marca do Romantismo pós-alencariano, evidencia-se a vigência do Romantismo.[1] Para nossa análise do romance, priorizaremos o terceiro capítulo, intitulado “Ao som da valsa”, buscando situar a sugestão de sensualidade e erotismo nessa obra do autor.
 
CAPÍTULO III – AO SOM DA VALSA
Os dois capítulos que precedem “Ao som da valsa” intitulam-se: “Capítulo I – No dia do ano bom” e “Capítulo II – Liquidação do ano velho”. Resumidamente, o leitor é apresentado, no primeiro capítulo, ao herói do romance:
 
Félix entrava então nos seus trinta e seis anos, idade em que muitos já são pais de família, e alguns homens de Estado. Aquele era apenas um rapaz vadio e desambicioso. A sua vida tinha sido uma singular mistura de elegia e melodrama; passara os primeiros anos da mocidade a suspirar por coisas fugitivas, e na ocasião em que parecia esquecido de Deus e dos homens, caiu-lhe nas mãos uma inesperada herança, que o levantou da pobreza. Só a Providência possui o segredo de não aborrecer com esses lances tão estafados no teatro.
Félix conhecera o trabalho no tempo em que precisava dele para viver; mas desde que alcançou os meios de não pensar no dia seguinte, entregou-se corpo e alma à serenidade do repouso. Mas entenda-se que não era esse repouso aquela existência apática e vegetativa dos ânimos indolentes; era, se assim me posso exprimir, um repouso ativo, composto de toda a espécie de ocupações elegantes e intelectuais que um homem na posição dele podia ter (ASSIS, 1962, I, p. 115).
 
 
Abastado e avesso à ideia de união estável, Félix tem os predicados do galanteador. Mal comparando, é um dândi da capital do Rio de Janeiro da metade do século XIX que se opõe ao padrão de relacionamento burguês: primeiros encontros, namoro, noivado e casamento – são costumes que aborrecem Félix, que se considera um bon vivant. Na contramão da tradição, Félix, no segundo capítulo, põe fim ao seu relacionamento com Cecília, jovem apaixonada por ele – e por outros, é verdade, pois representa o exemplo de mulher a não ser seguido pela leitora. O leitor tem acesso, portanto, ao perfil do personagem no segundo capítulo:
 
– Eu te digo, respondeu Félix; os meus amores são todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para meu coração um ano é uma eternidade. Não há ternura que vá além de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento – mau hóspede (ASSIS, 1962, I, p. 121-2).
 
Terminara o relacionamento com Cecília porque o amor só lhe apraz como um capítulo curto. No ano novo, Félix está solteiro – e o leitor, com base nos dois primeiros capítulos do romance, pode deduzir que o próximo relacionamento do herói não será diferente. No terceiro capítulo, participando de uma festa na casa do Coronel Morais – casa de família, diga-se de passagem – Félix encontra Lívia. Acresce que o leitor entenderá que a casa de família representa os valores da tradição. Nela, símbolo da moral, os valores são seguidos à risca. E a filha do coronel, a virgem Raquel, é exemplo de moralidade. É como se Raquel fosse o antídoto contra a possível influência negativa de Cecília. Conforme a configuração dos capítulos antecedentes e o terceiro, o nosso dândi oitocentista está na presença de personagens representativas de uma tradição bem específica e delimitada nas páginas iniciais de Ressurreição: a moral e os bons costumes do Brasil da época. O conflito entre as personagens acontecerá posteriormente. O leitor, porém, já tem acesso ao princípio desta desarmonia entre a mundivisão das personagens:
 
Lívia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma coisa semelhante à tranquilidade da força. Nenhum gesto seu revelava o amor-próprio geralmente inseparável das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma razão de harmonia e de ordem nas coisas terrestres. Afear as suas graças, parecia-lhe um crime; tirar orgulho delas, frivolidade (ASSIS, I, 1962, p. 128).
 
 
Note-se que ela, mesmo tendo uma beleza estonteante, não é vaidosa. Tem consciência de sua singularidade física, porém, age de modo diametralmente oposto aos modos de Félix, cuja beleza o narrador põe em xeque: “Não direi que fosse bonito, na significação mais ampla da palavra; mas tinha as feições corretas, a presença simpática, e reunia à graça natural a apurada elegância com que vestia” (ASSIS, I, 1962, p. 115). O contraste de caracteres está desenhado. O dândi, então, encontra a despojada jovem alucinante de vinte e quatro anos:
 
 
Félix examinou-lhe detidamente a cabeça e o rosto, modelo de graça antiga. A tez, levemente amorenada, tinha aquele macio que os olhos percebem antes do contato das mãos. Na testa lisa e larga, parecia que nunca se formara a ruga da reflexão; não obstante, quem examinasse naquele momento o rosto da moça veria que ela não era estranha às lutas interiores do pensamento: os olhos, que eram vivos, tinham instantes de languidez; naquela ocasião não eram vivos nem lânguidos; estavam parados.
Sentia-se que ela olhava com o espírito (ASSIS, I,1962,p. 128).
 
 
A passagem destaca a beleza de Lívia, “modelo de graça antiga”, aos olhos do moderno Félix, cujo olhar observa o rosto, os olhos, mas a voracidade do olhar não o deixa perceber as “lutas interiores do pensamento” (ASSIS, I, 1962, p. 128), pois é o narrador que frisa tal detalhe: “quem examinasse naquele momento o rosto da moça veria que ela não era estranha às lutas interiores do pensamento” (ASSIS, I, 1962, p. 128). Não sabemos o motivo do pensamento, mas sabemos que ela está absorta. Enquanto Lívia olha “com o espírito”, o parágrafo seguinte especifica o tipo de olhar empregado por Félix:
 
 
Félix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim; o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína. Félix recompôs na imaginação a estátua toda, e estremeceu. Lívia acordou da espécie de letargo em que estava. Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão. Félix apressou-se a apanhar-lho.
– Obrigado, murmurou ela distraída (ASSIS, 1962, I, p. 128).
 
O olhar de Félix mirou o rosto de Lívia, os olhos, o corpo e as curvas acentuadas pela vestimenta, o busto volumoso e os braços descobertos em contraste com o vestido escuro – todo o corpo da jovem, mas não percebe a referida luta no semblante de Lívia por uma razão: a volúpia. Toda a descrição assinala o erotismo do olhar de Félix, cujo corpo de Lívia, objeto deste olhar, é, de fato, descrito como voluptuoso. O contraste entre a pele de Lívia e a cor do vestido sugere a imagem de “um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína” (ASSIS, 1962, I, p. 128) a Félix, que, imaginando a estátua em toda a sua corporeidade material, sente ainda mais a volúpia do corpo feminino – sobretudo pela sugestão da nudez do corpo. A sensualidade de Lívia não só desperta o olhar dele como também o seu desejo. A beleza, embora não seja supervalorizada por ela, acaba sendo aos olhos de outrem, neste caso Félix – posteriormente por Luís Batista e Moreirinha.
Retornando à descrição anterior, após a imaginação de Félix completar a imagem fragmentada pela vestimenta de Lívia, o corpo do herói responde à imagem recomposta na imaginação: o estremecimento do herói evidencia a volúpia ensejada pelo erotismo da cena, que se completa quando Lívia parece responder da mesma forma: “Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão” (ASSIS, 1962, I, p. 128). Se antes não sabíamos em que ela estava pensando, temos agora uma sugestão. A sugestão do erotismo do olhar, que influencia a imaginação, criando a imagem erótica da personagem por completo em sua mente tal como uma estátua, e a resposta física com o estremecimento dos dois personagens parece ratificar a referida sugestão. Como se nota, a sensualidade é bem sutil. Ou, para usar a palavra corrente na fortuna crítica, dissimulada. Mas o verbo-chave deste mistério é estremecer: o corpo responde quando os costumes prescrevem o silêncio. Lívia, que parecia alheia ao olhar de Félix, responde, em alguma medida, ao olhar libidinal do herói.
Da sugestão narrativa da resposta física de Lívia ao olhar libidinal de Félix, o parágrafo seguinte parece não deixar dúvida de uma resposta positiva de Lívia, porque nele observaremos que ela se recompõe. Ora, se ela parecia ter estremecido, a recomposição afirma a alteração, isto é, resposta física ao olhar ambicioso de Félix. Em outras palavras, o desejo de Félix foi correspondido por Lívia. Em termos simples, o erotismo dos corpos veio à tona e a vergonha expressa por Lívia, no parágrafo seguinte, pode ser o significante do referido significado:
 
Depois, parecendo envergonhada daquele longo silêncio, pretextou um incômodo nervoso; levantaram-se e dirigiram-se ao salão. Ali, no meio da conversa e do bulício, readquiriu ela o império de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria. A viúva era um pouco sarcástica, mas daquele sarcasmo benévolo e anódino, que sabe misturar espinhos com rosas. Pela primeira vez Félix a conhecia, porquanto apenas a tinha visto duas vezes, e não basta ver uma mulher para a conhecer, é preciso ouvi-la também; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a não conhecer jamais (ASSIS, 1962, I, p. 128).
 
 
Ao recuperar o império de si Lívia recompõe-se, isto é, comporta-se de acordo com a expectativa moral, o que reforça a resposta corporal – a sugestão de erotismo dos corpos. E vale recordar que ela está no lar dos Morais. Ou seja, a presença de personagens principais e partícipes de uma cena erótica na casa de família.
Como vimos, o erotismo em Ressurreição não ultrapassa os limites da sugestão. A prerrogativa libidinal parece ser masculina, visto que o narrador faz torneios linguísticos para representar ficcionalmente o desejo feminino. Sugere-se o desejo em lugar de afirmá-lo. Por isso, o verbo estremecer torna-se a chave de afirmação da sugestão. Considerando a forma empregada para representar o desejo masculino, pode-se inferir que até mesmo esta representação está eivada de certa visão negativa da libido. Ou seja, se o desejo masculino é mal visto, na metade do século XIX, podemos imaginar a situação do feminino. Esta, no que tange a libido, parece interdito pela moral em voga, tanto do ponto de vista da ficção, porque, como dito, o autor emprega formas que informam de modo dissimulado – “Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão” (ASSIS, 1962, I, p. 128) e “parecendo envergonhada daquele longo silêncio” (ASSIS, 1962, I, p. 128). Negação dupla: a moral parece não legitimar este tipo de representação ficcional, e o modelo de representação literária parece corresponder à expectativa do status quo, pois, o autor, consoante com os dois primeiros elementos da equação, utiliza-se de formas que dizem de modo oblíquo. O resultado é claro: a personagem, ao responder ao desejo corporal e ao desejo de outrem, sente-se envergonhada, sendo então necessário o ato seguinte: “readquiriu ela o império de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria” (ASSIS, 1962, I, p. 128) – o emprego do prefixo “re” (readquiriu) com o verbo adquirir no passado afirma, às avessas, o que o corpo sentira mas o que os bons modos oitocentistas, o comportamento oficial feminino, negavam. O desejo é seguido de reparação.
 
MORAL, IMPRENSA E CENSURA
Das nove resenhas jornalísticas dedicadas ao livro publicado em 1872, apenas um dos leitores coevos do primeiro romance de Machado de Assis, José Carlos Rodrigues, notou que o que chamamos de sugestão de erotismo e desejo corporal interdito – pelo menos para a figura feminina – estava bem claro à época e, por esta razão, deveria ser combatido.
O artigo crítico de Rodrigues foi publicado originalmente em O Novo Mundo, em 23 de dezembro de 1872, em Nova Iorque. Rodrigues, crítico e proprietário do jornal, registrou que “O final da página [de Ressurreição] é imperdoável; a estátua do final da página […] bem podia ser omitida” (RODRIGUES, 2003, p. 91). O censor não explica os motivos pelos quais censura a referida sugestão de erotismo no romance. Considerando a Formação da literatura brasileira, no entanto, encontramos algumas explicações dignas de consideração para o nosso estudo: em primeiro lugar, “todo o período romântico foi de consciência aguda de fundação da nossa literatura; logo, de justificação da sua existência, proclamação da sua originalidade, etc.” (CANDIDO, 1993, p. 304, ênfase no original). Ressurreição é posterior ao auge da moda romântica – note-se que é posterior ao auge e não posterior ao fim da moda romântica. Portanto, o horizonte de expectativa da literatura feita à época estava sob a influência da razão de ser do Romantismo. Opor-se ao propósito romântico, é opor-se à justificativa romântica. Logo, a crítica romântica tem a prerrogativa de exigir que o aspirante à posição de escritor legítimo da literatura brasileira corresponda ao padrão estabelecido. Notamos o caráter deste padrão legitimador do autor de literatura brasileira em outra lição considerável da Formação, que também serve como explicação da justificativa romântica: “Acresce ainda, no Brasil, a circunstância de o Romantismo não ter aparecido como ruptura, mas, de um lado, como continuação; de outro, como início de um período auspicioso, logo incorporado à ideologia oficial, nas formas moderadas e transicionais com que surgiu” (CANDIDO, 1993, p. 306). Como se vê, o resenhista é mais do que um crítico proferindo um determinado juízo sobre o romance. É um censor da moral, e a imprensa é uma espécie de tribunal do Romantismo nacional.
Pode-se argumentar que só a posição de Rodrigues não seria o suficiente para propor a analogia entre imprensa e tribunal romântico, até mesmo por que ele não era crítico literário, mas sim dono e editor de O Novo Mundo. Na época, o posto de editor e a pena de jornalista eram condições suficientes para que um articulista tivesse voz no sistema literário oitocentista, pois a crítica ainda não era profissional, mas sobretudo impressionista. Críticos como Quintino Bocaiúva, José de Alencar, e o próprio Machado de Assis, reclamaram deste amadorismo, e exigiram uma crítica imparcial. “O ideal do crítico” (1865), de Machado, é testemunho histórico desta reclamação. Segundo João Roberto Faria (1989; 2004), este não seria mais do que a expressão da ideia de um Quintino Bocaiúva, que, em 1857, publicara Estudos críticos e literários: lance d’olhos sobre a comédia e a sua crítica. De 1857 a 1865, autores e críticos posicionarem-se contra o impressionismo crítico, o que prova a presença e – o pior – a aceitação do amadorismo. É por esta razão que a simples publicação de opiniões impressionistas, por mais que fossem destituídas de fundamentos teóricos, como alega Machado naquele texto, era o suficiente para a glória ou derrocada de um autor. Ser editor e/ou chefe de um jornal era, em alguma medida, a obtenção de passaporte para participar ativamente do sistema literário nacional. Lembramos aqui que a inserção do jovem Alencar se deu a partir das cartas que escreveu contra A Confederação dos Tamoios – obra que tinha o apoio de D. Pedro II –, quando Alencar não passava de um aprendiz de escritor. Independentemente da condição alencariana à época, o fato é que a oposição à obra de Magalhães lhe conferiu nomeada, que lhe ajudou a divulgar O Guarani (1857). Daí a analogia entre imprensa e tribunal. No caso brasileiro, em relação à Ressurreição, pesa ainda outra circunstância: o Romantismo brasileiro era um movimento em favor da moral e dos bons costumes e, como tal, não tolerava obras com sugestões eróticas. Logo, a oposição de um resenhista, por mais que este não fosse um crítico na acepção da palavra, não parece ser algo que se pudesse ignorar. Por fim, outro dado extraliterário parece comprovar a possível influência de José Carlos Rodrigues, no sistema literário nacional, é a futura atuação dele como diretor do Jornal do Comércio – “Jornalista e advogado, emigrou para os Estados Unidos em 1867, após uma tentativa de fraude contra o Estado. Em Nova Iorque, fundou e dirigiu O Novo Mundo, revista que durou de 1872 a 1879. De volta ao Brasil, tornou-se um homem influente e de prestígio, dirigindo o Jornal do Comércio durante 25 anos” (MACHADO, 2003, p. 89).
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As páginas precedentes parecem subsidiar a seguinte conclusão: da resenha de Ressurreição à censura do erotismo nas páginas do romance, Rodrigues parece estar autorizado a desempenhar o papel de crítico e censor da literatura brasileira, visto que, com base na relação de continuidade entre Romantismo e tradição brasileira oitocentista (CANDIDO, 1993) – que não foi um movimento cultural de oposição mas sim de afirmação do status quo cristão – a presença do erotismo nas páginas de Ressurreição é duplamente contrária ao padrão estabelecido: afeta a justificativa do Romantismo brasileiro e opõe-se ao decoro exigido pelo crítico. Talvez por isso o crítico sinta-se à vontade para afirmar que o final do capítulo é imperdoável e deve ser omitido numa próxima edição. É por esta razão que se afirmou que a imprensa oitocentista, tomando como exemplo a configuração do sistema literário brasileiro e a resenha de Rodrigues no Novo Mundo, funcionou, para Ressurreição, como tribunal do Romantismo brasileiro, visto que o resenhista sugere a retificação do terceiro capítulo do livro. Pelo avesso, o veto do tribunal à presença da sugestão de erotismo nas páginas de Ressurreição admite tal presença, pois, para negá-la, foi preciso admitir a presença, ainda que sugestiva.
Chegamos, assim, perto de outra conclusão: considerando os romances posteriores da primeira fase, não estaria aí uma possível explicação para a ausência do erotismo, ou a sua presença dissimulada? Um crítico machadiano aponta, Ivan Teixeira (1987), – e outros concordam –, no que tange à primeira fase, que os romances posteriores – A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) –, se comparados com a experimentação feita em Ressurreição, são mais convencionais, uma vez que se encaixam nos moldes do romance ortodoxo, o romance brasileiro pós-alencariano, e nós perguntamos: não teríamos aqui alguns indícios desse retorno ao modelo de romance vigente? Afinal, é verdade, de A mão e a luva até Iaiá Garcia, dos personagens, que se mesclam através do encontro entre classes sociais distintas, até a afirmação da moral, que se acentua de modo espantoso, a partir de A mão e a luva, percebe-se que o autor opta pelo caminho batido pela tradição. Por isso, fica a pergunta, já que esta é outra história…
 
REFERÊNCIAS
ASSIS, Machado de. Ressurreição. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. v. I, II, III. Afrânio Coutinho (Org). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1962.
PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis: estudo crítico e biográfico. 5ª ed. Rio de Janeiro, 1988.
CARVALHO, Castelar. Dicionário de Machado de Assis: língua, estilo, temas. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.
CANDIDO, Antonio. A consciência literária. In: CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 1993. v. 2. p. 282-327.
FARIA, João Roberto. “Retrato de um republicano quando jovem”. REVISTA USP, São Paulo, n.77, p. 65-78, Set, out. e nov. 1989. Disponível em:
< http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25481/27227> Acessado em 29 ago. 2015.
FARIA, João Roberto. “Machado de Assis, leitor e crítico de teatro”. Estudos avançados. [online]. 2004, vol.18, n.51, pp. 299-333. ISSN 1806-9592. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n51/a20v1851.pdf> Acessado em 29 ago. 2015.
 
MACHADO, Ubiratan. Machado de Assis: roteiro da consagração (crítica em vida do autor). Rio de Janeiro: UERJ, 2003.
 
RANGEL, Vagner Leite. “Do triângulo literário à república das letras: os prefácios rumorejantes”, in Nau Literária (UFRGS), v. 11, p. 1-12, 2015.
 
RANGEL, Vagner Leite. “Machado de Assis, intérprete do Rio de Janeiro oitocentista”. in Guavira Letras (UFMS),  v. 1, p. 565-580, 2014.
 
RANGEL, Vagner Leite. “Releituras: linguisticamente patrícios, literariamente rivais”,
in Virtual de Letras (UFG),  v. 15, p. 199-211, 2015.
 
RANGEL, Vagner Leite. “A presença da fábula em Ressurreição”, in Scripta Alumni (UNIANDRADE), v. 1, p. 18-31, 2015.
 
RODIGUES, José Carlos. Um romance fluminense. In: MACHADO, Ubiratan. Machado de Assis: roteiro da consagração (crítica em vida do autor). Rio de Janeiro: UERJ, 2003, pp. 89-92.
 
TEIXEIRA, Ivan. Apresentação de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
 
_______________________
 
NOTA AO TEXTO
 
1Sobre a recepção de Ressurreição, recomenda-se a leitura de Machado de Assis: roteiro de consagração (crítica em vida do autor), de Ubiratan Machado (2003).
 
[1]





Bio fornecida pelo palestrante.

A INTERVENÇÃO DA LEITURA NA VIDA DO PERSONAGEM MÁRIO, O CARTEIRO DO FILME O CARTEIRO E O POETA




Thaís dos Santos Souza

Universidade Federal de Uberlândia

 
RESUMO: O propósito deste trabalho é analisar à luz da leitura literária a intervenção da leitura na vida do personagem Mario Ruoppolo, o carteiro do filme O carteiro e o poeta, dirigido por Michael Radford. É neste contexto que se pretende analisar a formação e a experiência do personagem leitor, observando de que modo a produção de leitura do leitor é representada no filme, isto é, os modos de se chegar à leitura e os modos de ler do personagem em questão.
 
Palavras-Chaves: Leitura literária – formação de leitor – filme O carteiro e o poeta – Mario Ruoppolo.
 
ABSTRACT: The purpose of this paper is to analyze, in the light of  Literary Reading, the intervention of reading in the life of the character Mario Ruoppolo, the postman in the film Il Postino, directed by Michael Radford. It in this context that the formation and experience of this reading character will be examined. It will be observed how the production of the act of reading on the part of this character is represented in the film, so that we can point what are the ways of reading of this character.
 
Keywords: Literary reading – formation of the reader –  film The Postman and the Poet –  Mario Ruoppolo.
 
Minicurrículo: Thaís dos Santos Souza é graduanda em Licenciatura plena em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia e Bacharelanda em Direito pela Universidade de Uberaba. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua portuguesa, literatura e linguística.
 
 
 
A INTERVENÇÃO DA LEITURA NA VIDA DO PERSONAGEM MÁRIO, O CARTEIRO
DO FILME O CARTEIRO E O POETA
 
Thaís dos Santos Souza
 Universidade Federal de Uberlândia
 

  1. INTRODUÇÃO

O carteiro e o poeta foi um dos grandes sucessos do cinema europeu (1994). Dirigido por Michael Radford, ele aborda uma forte amizade entre dois homens separados por diferenças, que são quebradas por um diálogo mediado pela poesia.
Após se exilar de seu país, Pablo Neruda migra para a ilha italiana do Mediterrâneo, onde Mário habita. A maioria dos homens que vivem nessa ilha são pescadores, porém Mário não se conforma em seguir a mesma vida de seu pai, um velho pescador, e, por isso, procura outro emprego. Dessa forma, Mário encontra uma vaga de carteiro para um único endereço, que é a do grande poeta recém-chegado à ilha.
No início, o contato entre o carteiro e o poeta é pouco efetivo, reduzindo-se apenas à entrega de cartas. Contudo, a curiosidade de Mário sobre a Poesia acaba rompendo essa barreira de contato entre eles, e, aos poucos, vão se tornando grandes amigos.
Diante disto, faremos um estudo acerca do personagem Mário, o carteiro, retratando suas experiências de leitura, abordando os modos que chegou à leitura, seu modo de ler e o quanto a leitura interfere em sua vida, procurando abordar, também, o conceito de leitura literária, tentando discorrer sobre a produção do que seja leitura literária e como ela é representada no filme.
 

  1. FORMAÇÃO DE LEITOR E LEITURA LITERÁRIA NO FILME O CARTEIRO E O POETA

“Para formarmos leitores, precisamos ter prazer; o prazer da audição, de se encontrar consigo mesmo, de ser ator e espectador, mesmo que [ela] ainda não [se] saiba ler”. É a partir dessa assertiva de Ana Paula Maranhão1 que iniciaremos nosso estudo sobre a experiência de leitura e sua interferência na vida do personagem Mário, do filme O carteiro e o poeta.
Como bem afirma Ana Paula Maranhão, para a formação de leitores é necessário que o sujeito tenha prazer de ler, mas fica a seguinte questão: Como se faz nascer esse prazer de ler? A resposta está bem relatada nas palavras de José Morais, em seu livro A arte de ler, no qual ele afirma que “Os prazeres da leitura são múltiplos. Lemos para saber, para compreender, para refletir. Lemos também pela beleza da linguagem, para nossa emoção, para nossa perturbação. Lemos para compartilhar. Lemos para sonhar e para aprender a sonhar…”2
Dessa forma, observamos que, para nascer esse prazer de ler, é preciso que o sujeito encontre um interesse no que está lendo, ou seja, é preciso que ele ouça suas emoções; como raiva, tristeza, medo, alegria, liberdade, entre muitas outras sensações. E é por meio das histórias que o leitor irá fazer frutificar esse prazer, abrindo-lhe caminhos novos, fazendo com que ele explore, por meio da leitura, os perigos do mundo, como defende Bruno Bettelheim3. Segundo esse autor, as histórias literárias ajudam o leitor a explorar os perigos do mundo num nível simbólico, não oferecendo regras simplistas ou enigmáticas, mas encorajando o leitor a confiar e a desenvolver seu sistema natural de proteção, seus próprios instintos, suas emoções.
Assim, por meio das emoções se formarão seres pensantes, capazes de estabelecer pontes entre o imaginário e o possível, proporcionando, assim, um conhecimento acerca de nossos sentimentos mais íntimos. Dessa forma, para uma leitura chamar atenção de um leitor, ela deverá despertar essas emoções. Contudo, para isto, ela deverá despertar principalmente a sua curiosidade e imaginação.
Posto isto, passemos a observar esses aspectos relatados no personagem Mário Ruoppolo, homem semianalfabeto, nativo de uma ilha italiana, que se recusa a seguir o mesmo destino de seu pai; um pobre pescador. Ele é um dos personagens-protagonistas do filme O carteiro e o poeta, de Michael Radford. No desenrolar do drama, ele consegue um emprego temporário como carteiro de um único endereço, o de Pablo Neruda, poeta chileno (Prêmio Nobel de Literatura) que chega à ilha em 1953, após ser exilado de seu país por ser comunista.
O contato que passa a ter com o poeta acaba encantando Mário, despertando-lhe a vontade de se tornar poeta também. Mas, no inicio, esse contato não é muito forte. Entretanto, tal relação vai se desdobrando de uma forma significativa, criando-se um laço de amizade muito forte entre o carteiro e o poeta Neruda.
Esse rompimento de barreira de comunicação entre o poeta e Mário é fruto da curiosidade do pobre carteiro acerca da Poesia. Dessa forma, ao perceber o interesse de Mário por poesia, Neruda ensina-lhe um recurso textual bastante presente na poesia, que são as metáforas. Neruda explica para Mário que as metáforas são um recurso verbal/textual, no qual se dirá algo por meio de outra expressão, com forte característica visual, o que enriquece o texto poético. A partir daí, Mário fica encantado com a beleza da linguagem e começa elaborar e refinar seu pensamento literário criando metáforas.
Assim sendo, diante de todo esse novo aprendizado sobre a linguagem e sobre o gênero literário poético, Mário depara com um novo sentimento, que fará florescer ainda mais seu prazer pela leitura literária. Esse novo sentimento é despertado quando Mário conhece a jovem Beatrice, por quem ele irá se apaixonar perdidamente. (Lembre-se aqui que Beatriz é a musa de Dante Alighieri…).
Essa nova paixão fará com que o humilde carteiro se desdobre por meio dos poemas por ele criados, com a ajuda de Neruda, para conquistar a jovem moça. Tal conquista se dá por intermédio de metáforas construídas por Mário e de poemas escritos por Neruda.
Com isso, percebe-se o quanto a leitura literária mudou a vida do humilde carteiro, uma vez que o florescimento do prazer de ler despertou em Mário os prazeres mais belos e profundos que existem, que são a paixão e o amor. Esses sentimentos ajudaram Mário a enriquecer e aperfeiçoar sua linguagem literária.
Diante de tudo isso, Mário foi se tornando um leitor frequente/habitual, rompendo as fronteiras entre as palavras, fazendo com que compreendesse e utilizasse melhor as figuras de linguagem. Com isso, o nível linguístico e literário do carteiro foi aumentando, dando-lhe a oportunidade de observar e descobrir o universo da leitura pela voz, pela entonação e pelo sentido das coisas ao seu redor, frutificando os subsídios cognitivos e linguísticos.
Percebe-se que Mário se encaixa no chamado “nível afetivo”, que, segundo Ana Paula Maranhão, “é o nível no qual o leitor descarrega todas as suas emoções e seus sentimentos, sempre lhes dando um novo significado”4. Nesse momento, ele consegue compreender a função social da leitura, sendo, assim, considerado um leitor formado.
Parafraseando uma passagem de Maria Dinorah, professora e escritora, o livro literário tem o poder de desenvolver no sujeito leitor a criatividade, a sensibilidade, o senso crítico, a sociabilidade e a imaginação. No caso de Mário, a paixão pela poesia e o encantamento pela figura literária desenvolveram nele essa criatividade, essa sensibilidade, esse senso crítico, essa sociabilidade e a imaginação que tanto defende Maria Dinorah.
Dessa forma, ainda nas palavras de Maria Dinorah, para formar um verdadeiro leitor, um leitor no mundo que o rodeia, deve-se ler para aprender a ler, a escrever e a interpretar. E isso que é retratado no filme O carteiro e o poeta, como já dizia Cecília Meireles, confirma que “A literatura melhor é a que o sujeito lê com prazer”.
Foi possível observar que, para a formação de um leitor, é necessário que haja prazer e, mais, que o texto literário provoque uma curiosidade no leitor a ponto de fazê-lo se surpreender e se encantar no decorrer da leitura. Esse prazer nos ajuda a compreender o que seja leitura literária, uma vez que é por meio dela que florescem as emoções discutidas até então, fazendo com que desperte no leitor a imaginação, criatividade e os sentimentos diversos que a leitura literária lhe proporciona.
Assim, fica clara a importância da leitura literária em nossas vidas, uma vez que é por meio dela que é feita a elaboração de um pensamento crítico e coerente que nos permite superar o senso comum. É isso que proporciona ao leitor informações culturais e novas oportunidades. Uma delas é a de conhecer o mundo em que se vive de uma maneira diferente, através das palavras. A leitura literária alimenta à imaginação do sujeito leitor, oferecendo conforto e liberdade, e despertando, assim, o desejo e o prazer de ser um verdadeiro leitor.
Por meio deste estudo, percebemos o poder que as palavras evocam: as metáforas trazidas pelo texto poético propiciam ao leitor um melhor entendimento do mundo. Essas diversas palavras poéticas fazem com que o leitor saboreie as diversas palavras retratadas por meio das figuras de linguagem, recriando, assim, um olhar de mundo totalmente diferente da realidade, o que irá encantar o leitor, palavra por palavra.
A história do carteiro não se prende à tela do cinema, nem às páginas dos livros; ela está presente em nossa realidade, pois convivemos com uma multidão de leitores, que apresentam as mesmas características de Mário. Este, aos poucos, foi conhecendo o ato de ler, o fazer poético, o que fez com que a leitura interferisse totalmente em sua vida.
 
REFERÊNCIAS
ALIARDI, Fabiana Sana; ROCHA, Marcelo da Silva.  A representação da ideologia na obra O carteiro e o poeta. Disponível em: <http://facos.edu.br/publicacoes/revistas/e-lato_sensu/outubro_2012/pdf/a_representacao_da_ideologia_na_obra_o_carteiro_e_o_poeta.pdf>.Acesso em: 22 de jun. 2014.
BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. 11ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. Disponível em: <http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/apsicanalisefadas.pdf>. Acesso em: 24 de jun. de 2014.
LINO, Vitor Ferreira; VILELA, José Henrique. Análise do filme O carteiro e o poeta (Il Postino). Programa Especial de Graduação (PEG 2009). Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais. Orientação: Professora Rosemary DoreHeijmans. Belo Horizonte, maio de 2009. Disponível em:
<http://www.fae.ufmg.br/setimaarte/images/pdf/O%20carteiro%20e%20o%20poeta.pdf>. Disponível em: 22 de jun. de 1014.
MARANHÃO, Ana Paula. Formação do leitor. Disponível em:
< http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=623> . Acesso em: 24 de jun. de 2014.
MORAES, José. A arte de ler. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora UNESP, 1996. p.12.
 
SCORSOLINI-COMIN, Fabio; SANTOS, Manoel Antônio dos.  Poesia mediada: dialogismo, linguagem e comunicação do filme O carteiro e o poeta. Disponível em:
< http://legacy.unifacef.com.br/rec/ed04/ed04_art03.pdf>. Acesso em: 22 de jun. de 2014.
 
TURCHI, Maria Zaira; SILVA, Vera Maria Tietzmann. Leito formado, leitor em formação. Leitura literária em questão. São Paulo: Cultura acadêmica; ASSIS, SP: ANEP, 2006.
 
NOTAS
[1]MARANHÃO, Ana Paula. Formação do Leitor. Disponível em:
<http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=623> . Acesso em: 24 de jun. de 2014.
2 MORAES, José. A arte de ler. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora UNESP, 1996. p.12.
3BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. 11ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. Disponível em: <http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/apsicanalisefadas.pdf>. Acesso em: 24 de jun. de 2014.
4MARANHÃO, Ana Paula. Formação do Leitor. Disponível em:
<http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=623>. Acesso em: 24 de jun. de 2014.
 
 
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

DO CHÃO À POESIA: UMA GEOPOÉTICA SUL-MATO-GROSSENSE




 

Angela Cristina Dias Rego Catonio

Universidade Católica Dom Bosco – MS

 
 
Resumo: Este artigo faz um estudo inicial sobre a apresentação da paisagem natural e cultural de Mato Grosso do Sul em sua produção poético-literária, estabelecendo relações e diferenças entre o espaço geográfico e o modo como estes se inserem no contexto da geopoética, à luz da fenomenologia bachelardiana. Busca-se ainda evidenciar a elaboração imagética do ambiente geográfico e fronteiriço, natural e cultural, na produção poética sul-mato-grossense, mediante a realização de análises fenomenológicas de poemas construídos por poetas do Estado, com enfoque na perspectiva geopoética. Almeja-se também realizar a análise da produção poética do MS em seu aspecto transfronteiriço, no tanto em que se ressalta a vinculação entre a poesia e o espaço, isto é, no seu viés geopoético, revelado na linguagem dos poetas, na fotografia que seus versos fazem dos diferentes tipos de paisagens, naturais e culturais, da região.
 
Palavras-Chave: Geopoética. Poesia sul-mato-grossense. Fenomenologia. Cultura.
 
Minicurrículo: Angela Cristina Dias do Rego Catonio é graduada em Letras, mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e doutoranda pela UNESP/Assis em Literatura e Vida Social. É professora nos cursos de Letras, Licenciatura Geral e de pós-graduação da Universidade Católica Dom Bosco e coordenadora no Programa de Educação e Diversidade da UCDB. Atua também, nessa Universidade, como coordenadora da UCDB Idiomas. Atualmente, tem desenvolvido estudos e pesquisas em literatura, comunicação e linguagem.
 


 
DO CHÃO À POESIA:
UMA GEOPOÉTICA SUL-MATO-GROSSENSE
 
ANGELA CRISTINA DIAS DO REGO CATONIO
Universidade Católica Dom Bosco – MS
 
INTRODUÇÃO
O Estado de Mato Grosso do Sul é conhecido pela peculiaridade de seu espaço geográfico e exuberância da fauna e flora. O Pantanal, um dos mais importantes sistemas ecológicos do mundo, ocupa uma imensa planície que, em sua maior porção, estende-se pelos Estados brasileiros de Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso, espraiando-se pelos vizinhos países da Bolívia e Paraguai, até a Argentina.
Considerado a maior reserva ecológica do planeta, na qual convivem milhares de espécies da fauna em meio a uma flora exuberante, sua importância internacional foi consagrada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, que declarou Patrimônio da Humanidade o Complexo de Conservação do Pantanal, agrupamento de quatro áreas protegidas com uma área total de 187.818 hectares.
Na construção poética da região são frequentes alusões sobre a terra e a natureza vibrante, em uma tentativa de figurar o Pantanal como um espaço privilegiado. As paisagens naturais e manifestações culturais são fonte de inspiração para os poetas que as moldam em palavras e as transformam em imagens poéticas, fruto de uma postura imaginativa-figurativa do ambiente advindas da imaginação e experiências pessoais de cada autor.
Investigar esta geopoética, inserção do espaço geográfico e caracterizações culturais derivadas da relação espaço-homem na poesia, é o foco deste estudo e, mais além, de que maneira o conceito de ambiente adentra o espaço literário da poesia sul-mato-grossense.
 
IMAGENS POÉTICAS
A linguagem poética transcende a esfera real e concreta da vida cotidiana em que cada indivíduo se insere. A inter-relação dos elementos linguísticos, sociais e do ambiente contidos na poesia favorecem seu entendimento e significado, em que o conhecimento transcende as barreiras do geral para o que é mais particular e subjetivo. Por isso, o fenômeno da imagem poética emerge da consciência mais profunda do ser na sua atualidade, ou seja, a “fenomenologia da imaginação” (BACHELARD, 1978, p. 184).
É assim que os interlocutores promovem as mais diversas possibilidades expressivas, cujos significados são os mais variados possíveis, envolvendo os diversos aspectos que envolvem a cognição, fato que determina como cada um constrói o sentido com base em seus conhecimentos e experiências, que por sua vez derivam do ambiente em que se insere:
A imagem, em sua simplicidade, não precisa de um saber. Ela é a dádiva de uma consciência ingênua. Em sua expressão, é uma linguagem jovem. O poeta, na novidade de suas imagens, é sempre origem de linguagem. Para especificarmos bem o que possa ser uma fenomenologia da imagem, para frisarmos que a imagem existe antes do pensamento, seria necessário dizer que a poesia é antes de ser uma fenomenologia do espírito, uma fenomenologia da alma (BACHELARD, 1978, p. 185).
 
 
Desse modo, a proposta apresentada por Bachelard (1978) é a de que o fazer poético e a imagem poética se relacionam às questões ontológicas muito mais do que a um ato racional.
A observação dos vínculos que se estabelecem entre poesia e geografia, entre a linguagem poética e a figuração espacial, faz com que os olhares sobre obras literárias, sejam elas romances, contos ou poemas, estejam passando por modificações no sentido de apreensão da paisagem nos estudos mais recentes, conforme esclarecem Gustavo Menegusso e Nelci Müller (2011, p. 109), acrescentando que:
 
A inserção da geografia no meio literário acarreta transformações, principalmente, no domínio da estética e da identidade cultural. Nos últimos anos, têm se acentuado os estudos sobre a importância do espaço na narrativa, e um objeto geográfico vem conquistando a atenção de pesquisadores de diferentes áreas: a paisagem.
 
A partir dessa vinculação, tem-se elaborado o conceito de geopoética, que, nas palavras de Ronaldes de Melo e Souza (2009, p. 1), autor da tese que gerou o livro A geopoética de Euclides da Cunha, a geopoética é “a poética da terra”.
A seu turno, o método fenomenológico da imagem investiga a imagem a partir da consciência individual e seu processo de figuração subjetiva e transubjetiva, uma vez que não se pode ter uma noção imagética pelo simples ato de descrição objetivo: “a imagem poética é essencialmente variacional.” Nesse sentido, vale destacar que a relação entre o pensamento e a palavra deve ser um processo dinâmico, a conexão entre esses dois elementos não foi previamente formado no indivíduo ao nascer, mas, sim, na sua vivência de vida e no decurso de suas experiências:
 
Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
E fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
Frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.
 
(Manuel de BARROS, 2004, p. 45)
 
Falar em significado dos fenômenos remete necessariamente a Edmund Husserl, filósofo que formulou o método da fenomenologia, considerada uma ciência de essências, a qual busca investigar como as experiências se formam no indivíduo e como se manifestam e repercutem no campo da consciência. Com essa noção, Husserl abre as portas para a concepção de que é possível apreender o abstrato do concreto, reconhecer o caráter intencional e privilegiado da consciência na formação das próprias experiências. Embora os estudos fenomenológicos tenham a preocupação de mostrar os fenômenos, não fazem uma análise explicativa deles, uma vez que
 
(…) a significação intencionada não se prende às palavras pronunciadas, não faz parte das significações ligadas por elas de uma maneira rígida e geral. Ora, como não podemos abrir mão do fato de que o sentido do enunciado unitário reside no ato global do visar que eventualmente o fundamenta – quer ele se estampe plenamente em palavras, em virtude de suas significações gerais quer isso não aconteça – teremos que admitir, ao que parece, que a percepção, trazendo para a intuição um estado de coisas que o enunciado exprime em forma de juízo, presta sua contribuição para o teor de significação desse juízo. (HUSSERL, 1975, p. 26)
 
Para Husserl, a concepção de intencionalidade estabelece a relação entreo que é subjetivo e objetivo, pois o sentido e a significação, impulsionados pela consciência, conferem ao objeto a razão de sua existência.  Com isso, podemos afirmar que a linguagem poética está liberta dos liames da imposição convencional e restrita da concretização de signos. Ela se faz no tecido das relações humanas, intimamente ligada ao contexto cultural e temporal de uma sociedade, constituindo um momento de apreensão do exterior, captado pela consciência, incapaz de alcançar intelectualmente a plenitude de sua essência.
Em seu livro Investigações filosóficas, Ludwig Wittgenstein (2012) usa a expressão “esboço de paisagem” para explicar o que se tornou a “teoria da significação”. Conforme a acepção desse filósofo, as formas de percepção visual podem ser também consideradas como jogos de linguagens. Assim como as palavras não são capazes de apreender a integralidade dos objetos a que se referem, nós também não vemos as coisas como são; apenas observamos determinados aspectos que variam conforme a nossa própria perspectiva. A conexão entre os vocábulos (nomes) e seus significados (referentes) determina a associação mental entre palavra e objeto e enseja as práticas em que o emissor enuncia as palavras e o receptor reage de acordo com elas, cada qual segundo a compreensão que desenvolveu a seu respeito.
Quando Bachelard propõe sua fenomenologia da imaginação e Wittgenstein adota a expressão “esboço de paisagem”, têm por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento. O leitor produz os sentidos conforme os valores e conhecimentos adquiridos dentro de um contexto sócio-histórico-cultural. Assim se observa nos versos extraídos do poema “Autorretrato falado” (BARROS, 2010, p. 324), em que o poeta sul-mato-grossense se apresenta descrevendo o ambiente em que cresceu como herança de suas preferências pessoais:
 
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
 
 
Na referência a uma produção de sentidos numa travessia fenomenológica, pode-se afirmar com Gratão que:
 
(…) esse vínculo afetivo ou relacionamento primordial Homem e Terra como base de existência; relação seminal. Geopoética, porque é uma geografia do interior; que brota de dentro do ser; o lado humano de criação, de arte, do sentimento além do pensamento; das demarcações da liberdade; do ser; inserção do homem no mundo. Uma geografia concebida pelos caminhos fenomenológicos. Uma geografia que alia o rigor da ciência à observação pessoal e poética (GRATÃO, 2006, p. 179).
 
São as experiências individuais que determinam as diferentes formas de leitura e de sentidos compreendidos no texto, uma vez que os fatores que envolvem o entendimento de um texto dependem do conhecimento linguístico, dos esquemas cognitivos, da bagagem cultural e circunstâncias em que o texto foi produzido e lido: são os contextos de produção e de uso. A capacidade de construir o sentido do texto se faz pela observância de vários aspectos que determinam a compreensão da leitura. O primeiro deles é o conhecimento da língua; o segundo, a situação mediata, fatores adjacentes às condições sócio-político-culturais e, por último, o contexto cognitivo dos interlocutores, os conhecimentos adquiridos pelo indivíduo e que precisam ser ativados no momento da leitura. Conforme Bakhtin (2002, p. 16) explica, a palavra é indissociável do social, de forma que a enunciação, compreendida como uma réplica do diálogo social, constitui um discurso interior (diálogo consigo mesmo) ou exterior. Ela é de natureza social, portanto ideológica. Não existe fora de um contexto social, já que cada locutor tem um “horizonte social”. O signo e a situação social estão indissoluvelmente ligados.
Seguindo também por outro viés, mas não conflitante com as ideias já apresentadas, o conceito de espaço geográfico pode estar carregado de significados, uma vez que estão inseridas aí as relações entre o homem, sociedade e ambiente natural. “Considerada em si mesma, a paisagem é apenas uma abstração, apesar de sua concretude como coisa material. Sua realidade é histórica e lhe advém de sua associação com o espaço social” (SANTOS, 1999, p. 87). Daí entender-se que a percepção de espaço está associada à experiência que os homens têm da sua terra, forma pela qual eles a modelam e constroem sua identidade social.
A caracterização do Pantanal e sua beleza no poema “Pantanais”, da poetisa Raquel Naveira, traz à tona o sentimento de pertença a terra, destacando a sensação, ou seja, a imagem intuitiva e emocional com a realidade do ambiente pantaneiro,
 
Quem poderá esquecer esses carandazais,
Que abanam com seus leques o rio Paraguai?
Quem poderá esquecer esses canais
Que se abrem entre camalotes e lodaçais?
[…]
Quem, estando longe ou perto,
Poderá esquecer o que não se esquece jamais?
(NAVEIRA, 2001, p. 90)
 
A ambiência geográfica da poesia inúmeras vezes se espraia na produção de Raquel Naveira (1993) com conotações históricas que traduzem a violência sofrida na construção das fronteiras em muitos versos dos poetas regionais:
 
LEÃO BRITÂNICO
 
“O leão ruge,
Impera,
Domina,
Quer o mundo a seus pés,
Usa as garras,
A força,
A violência…”
 
 
 
 
 
GUERRA ENTRE IRMÃOS
 
Os homens do Paraguai estão mortos,
Restaram meninos e velhos,
Onde a virilidade?
A força?
Os homens do Paraguai estão mortos
As casas vazias e tristes
(Como são tristes e vazias as casas sem pai, sem marido!)
Como povoar esta terra,
Reconstruir a Pátria,
Enorme útero úmido?”
 
É nesse contexto da interação (mar de possibilidades) entre a literatura e a geografia que a geopoética se insere como forma de representação de um povo, cultura ou região. A investigação do apelo imagético e da representação da paisagem da pantaneira pelo viés literário envolve a exploração criativa das potencialidades da linguagem poética dos autores da região.
Sendo assim, este trabalho se justifica pela relevância de estudos que investiguem a manifestação da literatura sul-mato-grossense sob o prisma da caracterização do espaço como fonte de inspiração e identificação de um povo mestiço e, que além de receber influências da grande imigração dos mais variados estados brasileiros, assimilou também aspectos das culturas de seus países vizinhos, Paraguai e Bolívia. Portanto, pesquisar a relação entre literatura e geografia significa desvendar os liames de tão complexo cenário do espaço literário do Mato Grosso do Sul.
Podemos observar essas imbricações culturais no poeta Douglas Diegues que em sua produção literária mistura o português, espanhol e o guarani em uma linguagem denominada por ele mesmo de “portunhol selvagem” que“…brota de las selvas de loskuer postriple fronteros, se inventa por si mismo, acontece ou non…” (DIEGUES, 2002, p. 9) e se plasma em poemas candentes:
 
burguesa patusca light ciudade morena
el fuego de la palavra vá a incendiar tua frieza
ninguém consigue comprar a sabedoria alegria belleza
vas a aprender agora com cuanto esperma se hace um buen poema
 
esnobe perua arrogante ciudade morena
tu inteligência burra – oficial – acadêmica – pedante
y tu hipocondríaca hipocrisia brochante
son como um porre de whiski com cibalena
 
postizasonriza Barbie bo-ro-co-chôciudade morena
por que mezquina tanto tanta micharia?
macumba pra turista – arte fotogênica
 
 
yalo ensinaram Oswald – depois Manoel – mas você no aprendeu – son como [desinteria
falsa virgem loca ciudade morena
vas a aprender ahora com quanto esperma se faz um bom poema.
 
O soneto faz alusão à capital Campo Grande, conhecida carinhosamente por seus habitantes – devido à sua terra vermelha – por “Cidade Morena”, porém apresentada neste poema em tom ácido e irônico. O sujeito poético apresenta Campo Grande como uma cidade fútil e leviana “esnobe perua arrogante”, de “inteligência burra” e “pedante”, relacionando a verve do eu-lírico com o “El fuego de la palavra” como solução à frieza “brochante” da cidade.
Assim como defende Antonio Candido (2006, p. 39), que “o eixo do trabalho interpretativo é descobrir a coerência das produções literárias, seja a interna, das obras, seja a externa, de uma fase, corrente ou grupo”, levando-se em conta que para o autor a “coerência” está ligada a fatores como meio, vida, ideias, imagens, etc., formando uma diretriz que explicaria a obra como fórmula, resultado da produção do autor.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mato Grosso do Sul – assim como Tocantins – é fruto da divisão do Estado de Mato Grosso, por isso ainda está em fase de construção de sua identidade, o que o faz carecer de uma imagem que o caracterize de forma plena e distintiva perante os outros Estados no cenário nacional.  E é por isso que ao investigar as possibilidades de hibridismos na poesia sul-mato-grossense, em seus processos complexos e multifacetados, tem-se um amplo painel dos traços da poesia pantaneira e, por extensão, da sua cultura.
Na produção poética da região, percebe-se o flagrante cruzamento da perspectiva geográfica do Estado evidenciada em uma fenomenologia de representação imagética do ambiente, de forma a manifestar seu aspecto transfronteiriço e o destaque à vinculação entre a poesia e o espaço, isto é, no seu viés geopoético, revelado na linguagem dos poetas, na fotografia que seus versos fazem dos diferentes tipos de paisagens, naturais e culturais, da região.
Sendo assim, estas linhas não encerram os estudos da geopoética do MS, bem pelo contrário, abre um horizonte imenso para os estudos literários sob o prisma da caracterização cultural como fonte de inspiração e identificação de um povo mestiço que recebeu influências de inúmeros povos e culturas por meio das internalizações migratórias de contingentes de outros países e de outras regiões brasileiras. Entender como a poesia do Estado se arquiteta figura-se de relevante importância para entender um povo e perceber como se arranja a tessitura da produção poética sul-mato-grossense.
 
REFERÊNCIAS
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1978.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 2002.
BARROS, Manoel dePoemas rupestres. Rio de Janeiro: São Paulo: Record, 2004.
BARROS, Manoel de. In: Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos. 8ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2006.
DIEGUES, Douglas. Dá gusto andar desnudo por estas selvas – sonetos salvajes.  Curitiba: Travessa dos Editores, 2002.
GRATÃO, Lúcia Helena Batista. Da projeção onírica bachelardiana, os vislumbres da
geopoética. In: OLIVEIRA, Lívia et al.  Geografia, percepção e cognição do meio
ambiente. Londrina, Humanidades, 2006.
HUSSERL, Edmund. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
MENEGUSSO, Gustavo; e MÜLLER, Nelci. A geopoética na literatura gaúcha: uma leitura da paisagem nos romances Ana Terra e Ana Sem Terra. In R. Língua & Literatura. Frederico Westphalen v. 13 n. 20 p. 109-123 Ago. 2011.
NAVEIRA, Raquel. Guerra entre irmãos. Campo Grande: Edição independente, 1993.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
SOUZA, Ronaldes de Melo. A geopoética de Euclides da Cunha. 2009. Disponível em: <http://www.casaeuclidiana.org.br/artigos-exibe.php?artId=20>. Acesso em: 19 jan. 2013.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. 7ª ed. São Paulo: Editora Universitária São Francisco, 2012.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O CASAMENTO E A SOCIABILIDADE BURGUESA EM HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, DE MACHADO DE ASSIS




 

Dayane Mussulini

(Doutoranda em Letras – UNESP/Assis)

 
 
RESUMO: “Ernesto de tal”, “As bodas de Luís Duarte” e “O relógio de ouro” são produções de Machado de Assis integradas à sua segunda coletânea de contos, Histórias da meia-noite, de 1873. As três narrativas apresentam como temática o casamento, abordado em três momentos distintos: a primeira narra o namoro; a segunda, a celebração do matrimônio e a última, um episódio conflituoso na vida de um casal. A presente leitura dessas histórias, sendo assim, visa a um flagrante na sociabilidade burguesa do período, desvendada a partir da crítica do autor fluminense sobre a concepção romântica do casamento. Com essas questões, é possível observar um escritor sempre atento às questões literárias e culturais de seu país.
 
Palavras-chave: Machado de Assis; narrativas; casamento; sociabilidade burguesa.
 
ABSTRACT: “Ernesto de tal”, “As bodas de Luís Duarte” and “O relógio de ouro” are short stories by Machado de Assis included in his second collection, Histórias da meia-noite, published in 1873. All three narratives have marriage as their main theme, which comes up in three different moments: the first one narrates courtship; the second, a wedding celebration, and the last one, an episode of conflict in the life of a couple. Therefore, our reading of these stories seeks to present a glimpse of the bourgeois sociability of the period, unveiled by the author’s critical view of the romantic conception of marriage. Our purpose is to observe Machado as a writer who is very thoughtful of the literary and cultural matters of his country.
 
Keywords: Machado de Assis; narrative; marriage; bourgeois sociability.
 
MINICURRÍCULO: Dayane Mussulini é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras “Literatura e Vida Social” da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP. Defendeu sua Dissertação de Mestrado em março de 2015, intitulada Uma ponte entre o Brasil e a França: Histórias da meia-noite, de Machado de Assis, em que analisa a presença da literatura e da cultura francesas na construção de sentido das narrativas da segunda coletânea de contos de Machado de Assis. Atualmente estuda, também sob orientação da Profª. Drª Daniela Mantarro Callipo, a importância da crítica literária francesa do século XIX na elaboração de uma escritura crítica de Machado de Assis.
 
 
 
 
 
 
O CASAMENTO E A SOCIABILIDADE BURGUESA EM HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, DE MACHADO DE ASSIS
 
 
Dayane Mussulini
 
(Doutoranda em Letras – UNESP/Assis)
 
 
INTRODUÇÃO
 
Histórias da meia-noite é a segunda coletânea de contos de autoria machadiana, publica        da em 1873. As seis narrativas ali inseridas foram todas publicadas, originalmente, no Jornal das Famílias (1863-1878), importante revista mensal que tinha como principal programa o ensinamento moral e o entretenimento das famílias burguesas do Rio de Janeiro, sobretudo das mulheres.
Para cumprir o propósito do periódico, os volumes eram compostos de várias histórias com forte caráter moral e, em alguns casos, religioso, sendo Machado de Assis um de seus principais colaboradores. No entanto, recentes pesquisas acadêmica[1]
 
apontam para um caso de subversão do autor fluminense, pois, na medida em que ele atendia algumas das propostas da revista, o fazia de modo diferenciado. Isto é, embora seja possível perceber certo tom de moralidade em suas narrativas, elas contêm ambiguidade e ironia, quando não humor, capazes de desassociar a ideia de moralidade com aquela de correção de vícios e indicando apenas uma observação dos costumes da sociedade contemporânea. Esse traço característico da produção machadiana pode ser encontrado nas obras dos moralistas franceses, como La Rochefoucauld, por exemplo, que denunciava os hábitos da população, não com o intuito de ensinar uma maneira de corrigi-los, mas de possibilitar a reflexão sobre eles.
Um dos temas frequentes nos textos de Machado pertencentes à revista de Garnier era o matrimônio, motivo pelo qual essas narrativas foram consideradas, durante muito tempo, românticas e de pouco proveito para o cânone da literatura brasileira. A partir de um novo olhar sobre a produção machadiana, contudo, essa perspectiva preconceituosa passa a ser redirecionada, dedicando-se, então, a uma análise minuciosa de seus detalhes, que revelam a preocupação do autor fluminense em discutir os problemas da sociedade contemporânea por meio de seus escritos.
É preciso considerar que as histórias publicadas no Jornal das Famílias, todavia, fazem parte dos anos de formação de Machado de Assis, sendo um espaço muito profícuo para a prática de sua escritura. Sonia Brayner (in BOSI, 1982) denomina esse espaço de laboratório ficcional, pois é onde ele desenvolveria a sua escrita. Sílvia Azevedo (1990), nesse sentido, chama a atenção para a imensurável importância da revista para o processo de amadurecimento do gênero conto dentro da ficção machadiana e, até mesmo, nacional, tendo em vista que, naquela época, o gênero era pouco praticado em nosso meio. Por isso, é comum que os primeiros enredos tenham dificuldades de ser considerados contos. Na verdade, opta-se pelo termo narrativas e, somente a partir da coletânea Papéis avulsos (1882), é possível enquadrá-los no gênero com mais facilidade. Porém, embora haja essa problemática na classificação dos textos, não se pode deixar de lado a sua importância para a construção da literatura brasileira[2].
Pensando nessas questões, o presente artigo tem como objetivo apresentar três narrativas de Histórias da meia-noite, “Ernesto de tal”, “As bodas de Luís Duarte” e “O relógio de ouro”, a partir da temática do casamento, discutindo o seu papel fundamental para a manutenção da sociedade burguesa do século XIX brasileiro. Os três textos também carregam marcas de intertextualidade com a literatura e a cultura francesas, o que auxilia na discussão da própria literatura e cultura nacionais, dada a importância da França como centro irradiador da cultura ocidental.
 
O namoro em “Ernesto de tal”
Dividido em seis capítulos, “Ernesto de tal” estampou as páginas do Jornal das Famílias nos meses de março e abril do mesmo ano de 1873, quando foi inserido em Histórias da meia-noite, com a mesma divisão, marcada por algarismos romanos. A história gira em torno da personagem homônima, um jovem disposto a todos os riscos para se unir a Rosina, moça loureira que, por sua vez, deseja sobretudo casar-se.  
Alguns capítulos do enredo dão conta de apresentar, cada um, as personagens que compõem o triângulo amoroso. Ernesto, sendo assim, está em foco na primeira parte, momento em que o narrador heterodiegético cria um clima de mistério ao fazer uma série de suposições sobre a identidade do protagonista e, dessa forma, estabelece, também, uma relação íntima com o leitor, em uma espécie de tête-à-tête. Na segunda subdivisão, é a vez de Rosina aparecer no centro das atenções, por meio de uma descrição física, em especial de seus olhos e de seus rápidos movimentos, denunciando o seu espírito namoradeiro. O rapaz de nariz comprido, por seu turno, presente desde o segundo capítulo, porém, com a sua personalidade levada mais a fundo apenas no quarto.
Enquanto as personagens entram em cena, os conflitos vão, de igual modo, surgindo e intensificando a tensão da narrativa. Tendo como objetivo principal o matrimônio, “as intenções de Rosina, leitor curioso, eram perfeitamente conjugais. Queria casar, e casar o melhor que pudesse […] e havia uma coisa pior que casar mal, que era não casar absolutamente” (ASSIS, 1977, p. 135)[3]. Por isso, a donzela acumulava pretendentes, a fim de que seus planos, de algum modo, fossem consumados.
Armava encontros concomitantes com Ernesto e o rapaz de nariz comprido, o que alimentou as desconfianças de ambos os namorados sobre a infidelidade da moça, logo comprovada e vingada conjuntamente pelos dois. No entanto, ela conseguiu se redimir com Ernesto e, no desfecho da história, o narrador nos informa que eles se casaram e o rapaz de nariz comprido tornou-se amigo íntimo do casal.
Em um outro artigo[4], discutimos a possibilidade de “Ernesto de tal” ser lido como uma paródia da comédia francesa Le barbier de Séville,
 
de Beaumarchais. A ideia parte da escolha do nome Rosina, visto ser incomum em território brasileiro e, também, uma forma aportuguesada do epíteto Rosine, protagonista da obra francesa em questão. A partir de então, a intertextualidade se sustenta com a aproximação incontestável de ambos os enredos, a qual, aliás, é estendida com relação às semelhanças formais. A prosa machadiana contém características próprias do gênero dramático; por exemplo, a divisão em capítulo, assim como são os atos e cenas das peças teatrais, e a dinâmica da narrativa por meio dos constantes diálogos e mudanças de cenários, traço também pertencente ao drama. A paródia se confirma, portanto, devido às diferenças fundamentais de um texto para o outro, apontando a presença da comédia francesa como uma tentativa de memória da literatura. Ou seja, o narrador machadiano escolhe esse intertexto para elucidar que a literatura se (re)cria por meio de si mesma. No caso, defendemos a hipótese de que a partir de outras literaturas, inclusive estrangeiras, torna-se possível a construção da literatura nacional.
Essa intertextualidade, entre outras coisas, permite uma interpretação do significado do matrimônio, não apenas na opinião de Rosina, como também na de grande parte da – senão na de toda – população brasileira oitocentista burguesa. O casamento, sendo assim, instala-se como possibilidade de solução para os seus desejos, uma vez que a moça “não era inteiramente avessa aos impulsos do coração e à filosofia do amor; mas tinha ambição de figurar alguma cousa, morria por vestidos novos e espetáculos frequentes, gostava enfim de viver à luz pública” (idem, p. 131). Isto é, para que pudesse participar da sociabilidade burguesa da época, era preciso ter o título de esposa. Nesse sentido, o casamento tornava-se mais urgente que a posição econômica. Embora tenha tido o cuidado de tentar atender ambas as questões – motivo pelo qual preferia o rapaz de nariz comprido, que tinha condições financeiras um pouco superiores àquelas de Ernesto –, não obteve sucesso nas duas empreitadas, já que o rapaz de nariz comprido era mais difícil de ser enganado que Ernesto, considerado pela própria donzela um palerma.
Outro aspecto presente na citação acima é o descompasso entre o matrimônio e o sentimento amoroso, confirmado com consciência por Rosina. Amor e casamento, como sabemos, fazem parte de uma combinação do século XIX, que o Romantismo fez questão de cultivar. Embora a produção inicial de Machado de Assis seja classificada de romântica, raros são os casos em que vemos o amor como o centro das decisões das personagens. Rosina, nesse sentido, seria a representação da união conjugal enquanto contrato social, basilar para a manutenção da sociedade tal e qual e, consequentemente, para que tivesse um papel a ser desempenhado naquele ambiente. Ernesto, por outro lado, ainda está preso às concepções românticas do casamento, uma vez que é um jovem ingênuo, desejoso sobremaneira da tranquilidade amorosa por meio de sua união com a moça namoradeira.
Com perspicácia, Rosina se aproveita do espírito e do sentimento de seu namorado para obter sucesso em sua empreitada, fingindo sofrer com o rompimento deles. As características da jovem compõem uma personagem muito distinta daquelas criadas em nosso meio literário oitocentista, uma vez que não carrega em si a ingenuidade e a crença no amor idealizado. Ao contrário, apesar de estar ciente de sua posição naquela sociedade, é ela quem arquiteta os planos para ter suas ambições alcançadas. A sua preocupação, portanto, era com o status e a vida pública, razões pelas quais desejou sobremaneira o matrimônio como forma de concretizar esses anseios.
A dissimulação de Rosina, no entanto, permite a construção de uma personagem ambígua. De um lado, a aversão pelo seu comportamento loureiro e pelas vezes que enganou seus namorados, sobretudo Ernesto. Neste aspecto, o narrador contribui com a empatia pelo protagonista, utilizando adjetivos como “pobre”, “mísero” e “desgraçado”, por exemplo, para caracterizá-lo. O que também estaria expresso no título da narrativa, tendo em vista que o pronome “tal” sugere, ao menos, duas ideias antitéticas: uma de peculiaridade, como na expressão coloquial “aquele cara é o tal”, denotando a sua superioridade; e a outra, o oposto, significando falta de especificidade, como em “fulano de tal”. De outro lado, a heroína machadiana pode ser percebida como modelo da mulher moderna, capaz de ter o total controle sobre o seu amado.
O matrimônio é notado, portanto, a partir de uma ótica irônica, que aponta para a falácia do casamento por amor. Rosina, tendo consciência desse fato, busca uma maneira de casar o melhor que pode, respeitando os contratos sociais e, mais do que isso, querendo neles se inserir.
 
A celebração de “As bodas de Luís Duarte”
Acertados os detalhes do consórcio, é chegado o momento de sua celebração.  Assim, “As bodas de Luís Duarte”, também publicadas em 1873 no Jornal das Famílias, nos volumes de junho e julho e inseridas no final do mesmo ano em Histórias da meia-noite, narram os preparativos e a festa de casamento entre Carlota e Luís Duarte.
O início da história, dando-se in media res, coloca em foco José Lemos, pai da noiva, ocupado com a decoração da casa para recepcionar os convidados. Desde então observa-se o seu pedantismo, ao fazer questão de dar aparência de um erudito sem realmente sê-lo. Exemplo disso é a escolha que faz dos quadros para enfeitar a casa: a Morte de Sardanápalo e a Execução de Maria Stuart. A primeira pintura foi criada por Eugène Delacroix, em 1827 e é baseada na obra de Lord Byron que, por sua vez, conta a história do antigo rei da Babilônia, Sardanápalo, cuja ameaça de queda levou a ordenar o assassinato de suas mulheres. A tela, por meio de suas cores vibrantes, com a proliferação do vermelho e do dourado, bem como de seus contornos que dão movimento ao quadro, foi considerada uma afronta aos modelos neoclássicos, pois rompia com essa estética. Embora D. Beatriz aponte para a incoerência das pinturas com respeito às bodas, há a preocupação de José Lemos em se mostrar um erudito, um conhecedor da História e, igualmente, um admirador das belas artes, de modo que pouca relevância tinha o conteúdo dos quadros em relação à festa. O que importava, de fato, era a aparência de conhecedor da alta cultura. Já a segunda pintura poderia estar representada em várias telas, dentre as quais La mort de Marie Stuart, do francês Abel Pujol e Execution of Mary, Queen of Scots, do escocês Robert Inerarity Herdman. Apesar dessa indefinição, o tema do quadro seria o mesmo, trazendo em cena o dia da execução de Maria Stuart, que fora rainha da França e depois da Escócia e, tendo sido retirada de seu trono por conspiração, pediu ajuda à sua prima, rainha Elizabeth da Inglaterra, que se sentindo ameaçada, ordenou a prisão e, anos mais tarde, a morte de Mary Stuart.
Apesar dos quadros indicarem incoerência temática com respeito à festa nupcial, o que foi notado por D. Beatriz, eles apontam para o jogo de poder, também encenado no ambiente dessa narrativa, onde cada personagem desempenha um papel que lhe é próprio dentro da sociedade burguesa do século XIX brasileiro. Dessa forma, então, percebemos que a escolha do narrador não é gratuita, uma vez que os quadros impõem à história esse alerta.
Ao longo da narrativa aparecem cenas e personagens que dão sucessão à sociedade de aparências, preocupada, sobretudo, com o efeito de seus atos, deixando de lado a essência dos acontecimentos. Com uma espécie de câmera cinematográfica, sendo assim, o narrador machadiano percorre todas as personagens presentes na cerimônia, tecendo comentários sobre elas ou flagrando algumas de suas ações. A intenção é de apresentá-las de modo irônico e ambíguo, causando humor na leitura.
O narrador, contudo, por meio de um discurso jocoso e dissimulado, faz-se de desentendido ao dar a falsa impressão de que as características levantadas das personagens são definidas por terceiros. Dessa maneira, embora compactue com essas opiniões, gostaria de se ausentar de sua responsabilidade, de forma a mostrar que não é ele o autor de maliciosos comentários, sendo apenas o responsável por torná-los de conhecimento do leitor.
As descrições caricaturais, todavia, são mais sutis em relação às personagens femininas. Com a exceção das moças, o narrador utiliza o pronome de tratamento “Dona” para as demais senhoras, sendo que os homens são apenas chamados pelos seus nomes próprios – exceto Dr. Valença que era advogado e, em alguns momentos, quando opta por chamar José Lemos de Sr., quase sempre na tentativa de ironizar este tratamento mais formal, pois condizia com a superficialidade da personagem que tratava a filha com formalidades no momento em que era necessário um comportamento mais íntimo. Com isso, o narrador aponta para a questão social da mulher, ou seja, qual seria o seu papel representado naquela sociedade. Se à mulher cabia a submissão ao marido, pelo menos se vista de fora, no ambiente interno pode ser que tivesse um pouco mais de “autonomia”, por falta de melhor expressão. D. Beatriz, por exemplo, foi a responsável em dar as ordens aos escravos da família, enquanto o marido se incumbia de decorar, ele próprio, a casa. Também, o narrador deixa claro era D. Beatriz quem decidia muitos assuntos dentro de casa (ASSIS, 1977, p. 106):
 
O pai da noiva inclinava-se a que o casamento fosse celebrado depois do jantar, e nisto era apoiado pelo jovem Rodrigo, que com uma sagacidade digna de estadista, percebeu que, no caso contrário, o jantar sairia muito tarde. Prevaleceu entretanto a opinião de D. Beatriz.
 
A possibilidade de a mulher mandar e desmandar no ambiente doméstico, sendo a dona da(e) casa, explica o pronome de tratamento empregado para indicá-la. Essa “autonomia”, entretanto, é restringida ao espaço doméstico, uma vez que os assuntos externos, como a política e a economia, eram responsabilidades exclusivas do marido. Pela primeira vez em Histórias da meia-noite, o narrador traz em cena o núcleo familiar burguês do século XIX completo, com o homem, a mulher e sua prole, sem deixar de aludir, em raros momentos, à extensão da família, ocupada pelos criados, que assim como na narrativa, ficavam à margem da estrutura familiar do período.
Em meio a tantas personagens e situações, o leitor, ansioso pelo caso de romance que o título sugere, frustra-se ao perceber que Carlota e Luís Duarte não ocupam senão o mesmo espado que as outras personagens. A intenção do texto, portanto, está direcionada na representação de uma festa de casamento, bem como dos preparativos da mesma, de forma que o ponto de vista do narrador seja de cima, isto é, de alguém que observa esse evento social, dando atenção igual a todos os presentes, sejam eles os noivos, os pais, os padrinhos ou os outros convidados. Como em uma narrativa de costumes, o importante é trazer em cena o passo a passo de uma cerimônia essencial para a manutenção daquela sociedade. Para tanto, o narrador opta por oscilar entre as cenas e os sumários, na medida em que ora assume a sua posição de contador da história, ora permite que as personagens sejam mostradas por si; porém, sem nunca abandonar o seu posto de editor do texto. Convidados e noivos são, destarte, igualmente importantes: “Passava o tempo, e nem o noivo, nem o tenente Porfírio davam sinais de si” (ASSIS, 1977, p. 110), posto que, aos olhos de José Lemos, tanto o “orador de sobremesa” quanto o noivo eram, da mesma maneira, imprescindíveis para a realização da cerimônia.
Acreditamos que a narrativa tece uma crítica, não em relação ao matrimônio de maneira ampla; entretanto, ao apresentar um enredo em que o casamento, já expresso no título, não aparece senão como pano de fundo, o narrador tem como intuito criticar a união conjugal excessivamente idealizada pela escola romântica. Embora ironizada, e até levada ao ridículo, em muitos aspectos, a família não é de todo satirizada. A censura aos costumes familiares só existe ao passo que há a prevalência do parecer em oposição ao ser. O que pode ser explicado a partir da atuação vazia e superficial de José Lemos com sua filha, em contrapartida, a relação terna e sincera de D. Beatriz com a moça.
A celebração, assim sendo, que parece ter começado com impaciência e tédio por parte dos convidados, termina com um “animadíssimo” baile, “que durou até às três da manhã”, regado a champagne e a vinho. Para o narrador, todavia, a história se encerra com a mesma ironia que se principia: “Mas o verdadeiro brinde dessa festa memorável, foi um pequerrucho que viu a luz em janeiro do ano seguinte, o qual perpetuará a dinastia dos Lemos, se não morrer na crise da dentição” (idem, p. 122). Dessa forma, parece estar claro que a ideia não é abominar o matrimônio, mas sim a idealização do mesmo que não se efetiva na prática. Além disso, ao sugerir uma possível “crise de dentição”, o narrador elucida um aspecto realista – sem deixar a ironia de lado – presente em seu texto. O mesmo tom de realismo, aliás, encontra-se nos pormenores descritivos, tanto os dos preparativos da festa quanto os das personagens e suas ações, permitindo, assim, afirmar que a narrativa é uma espécie de flagra na sociedade burguesa do Oitocentos brasileiro.
O flagrante também ocorre no que concerne à presença francesa, dado a sua importância no contexto fluminense daquele tempo. Tanto a personagem como o narrador dão, desse modo, mostras de sua erudição por meio de objetos oriundos da cultura francesa.
 
O casamento em “O relógio de ouro”
Após a festa das bodas é que o casamento se inicia, de fato. “O relógio de ouro”, neste sentido, responsabiliza-se por trazer ao livro um fato ocorrido na rotina de um casal que, até então, desfrutava a mais perfeita e invejável vida conjugal, ao menos se vista de fora. O conto, aparecendo pela primeira vez no Jornal das Famílias nos números de abril e maio de 1873, é a penúltima narrativa de Histórias da meia-noite.
O tom de mistério, já existente nas outras narrativas da coletânea, é praticado de modo mais enfático em “O relógio de ouro”, dado que o enigma move toda a trama e apenas se desfaz nas linhas finais da história. É, então, o enredo com maior contenção e tensão em sua estrutura, aproximando-se das definições clássicas do gênero conto praticado ao longo do século XIX.
O narrador onisciente começa a história dando pistas da sua autoridade enquanto organizador da narração, ao mesmo tempo em que parece querer estabelecer uma ligação com os textos anteriores, dando ideia de sequência. Mais uma vez, assim sendo, o leitor acredita que pode confiar nesse narrador quando ele não sabe dar todas as informações sobre as personagens. É preciso, contudo, estar sempre atento, já que este é o responsável pelo andamento da narrativa e, por conseguinte, pelas conjeturas que aquele pode realizar durante a sua leitura. O narrador, portanto, tem o domínio sobre os dados que escolhe tornar conhecidos do leitor. Luís Negreiros, dessa forma, ao chegar em sua casa e se deparar com um relógio masculino que não era seu, interroga a sua mulher diversas vezes e, não obtendo respostas, faz uma série de considerações, que podem ser as mesmas realizadas pelo narratário. Leitor e personagem, então, têm o conhecimento das mesmas coisas e desvendam juntos o mistério.
Luís Negreiros é o típico marido burguês oitocentista brasileiro. É o provedor da casa e, por esse motivo, o chefe da família. Passa parte do dia fora, trabalhando em seu escritório. Clarinha, por seu turno, é a esposa-modelo dessa sociedade; obediente e portadora de cândidos traços e trejeitos, responsável pelo cuidado com o lar. Notamos o furor de Luís Negreiros aumentar ao passo que Clarinha recusava-se a colaborar com o interrogatório proposto por ele. Mergulhada em uma aparente indiferença, levou o marido a gestos brutos com ela. Foi durante a discussão que se deu o aparecimento de Meireles, pai da moça, que habitualmente ia jantar na casa da filha.
A presença de Meireles é muito importante para a estrutura e o desenvolvimento narrativo, pois lhe dá movimento e faz com que o leitor, pela primeira vez, desvie sua desconfiança de Clarinha para Luís Negreiros. Em primeiro lugar, o sogro relembrou ao genro de que no dia seguinte seria o seu aniversário, de modo que este encontrasse aí a explicação para o tal enigma. Em segundo, após a entrada de Meireles, o narrador faz uma breve digressão para apresentar a vida de solteiro de Luís Negreiros, mostrando-o um galanteador, amante das noitadas e da vida mundana. É então, a partir da inserção desses detalhes, que o narrador chama a atenção do leitor sobre um passado que poderia comprometer a resolução dos acontecimentos presentes.
Essa digressão permite, de igual forma, que se conheça um pouco mais dessa sociedade fluminense. Observa-se que Meireles tinha receio da infelicidade da filha ao aceitar o seu casamento com Luís Negreiros, uma vez que conhecia os “costumes pouco austeros” do rapaz. Por insistência da moça, porém, o pai acabou cedendo e consentindo no matrimônio, também com a promessa de que o “leão impetuoso” se tornaria um “pacato cordeiro”. Ademais, o próprio Meireles havia sido um “marido pouco exemplar”, de sorte que essa revelação possibilita um panorama da sociabilidade exercida no período. Ainda que os homens pareçam não apresentar um perfil para a monogamia, assim como estava prescrita na Constituição do país, eles precisavam da união conjugal com uma mulher para dar continuidade aos interesses e à própria manutenção da burguesia. O casamento, dessa maneira, era a peça chave para os jogos de poder da época e, por isso, na maioria dos casos, sobretudo dentre a classe mais alta da sociedade, ele não se realizava por amor, mas sim por convenção social. Para a satisfação do prazer carnal, no entanto, era comum que os homens tivessem amantes.  Algumas vezes, esses relacionamentos adúlteros tinham como fruto filhos bastardos.
Como vimos em outras narrativas, as mulheres, muitas vezes, tinham o conhecimento dessa prática e, ainda assim, desejavam o matrimônio, tendo em vista que gostariam, também, de desempenhar o seu papel nessa sociedade. Se continuassem solteiras não teriam nenhum tipo de autonomia, nem mesmo a doméstica, tal como representa D. Beatriz, em “As bodas de Luís Duarte”. Além do mais, elas foram criadas para o casamento, daí a importância de revistas como O Jornal das Famílias, fundamentais para a reafirmação desses hábitos.
Em “O relógio de ouro”, portanto, encena-se mais um exemplo do consórcio enquanto manutenção dos interesses da sociedade burguesa oitocentista. O amor, se existisse, seria um item acessório e não teria nenhuma relação com a paz conjugal. Clarinha e Luís Negreiros, sendo assim, viviam um casamento, aparentemente, perfeito, cuja tranquilidade foi interrompida devido ao aparecimento de um objeto que denunciava o adultério. Este, por sua vez, pode até ser consentido, desde que escondido, pois quando trazido às claras fica mais difícil de ignorá-lo.
Como o marido não conseguia tirar nenhuma informação de sua esposa, achou necessário tomar uma atitude decisiva. Luís Negreiros, assim, realizou uma série de conjeturas, de modo a resumir o comportamento de sua mulher, que ora a mostrava vítima, ora culpada. O recurso narrativo é interessante pois convida o leitor a fazer as mesmas suposições. A carga dramática da história, dessa forma, chega ao seu ápice no momento em que o homem está prestes a ameaçar Clarinha de morte, caso ela não resolvesse o mistério. A mulher, por fim, entregou ao marido uma carta que viera acompanhada do relógio, na qual revelava ser este um presente de aniversário para Luís Negreiros de sua amante.
Cabe ressaltar o tom irônico e ambíguo empregado pelo narrador na construção de seu enredo. Algumas vezes, contou também com certo humor, por exemplo, ao descrever a reação do marido ao descobrir o objeto desconhecido: “Luís Negreiros gostava de charadas, e passa por ser decifrador intrépido; mas gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpáveis ou cronométricas, e sobretudo sem conceito, não as apreciava Luís Negreiros” (ASSIS, 1977, p. 184).
Brincando com os trocadilhos que as palavras permitem, o trecho ilustra não um caso isolado da dificuldade em lidar com a traição, mas sim como essa questão era problemática para aquela sociedade, desde que a desconfiança do adultério recaísse sobre a mulher. A ambiguidade do narrador, assim sendo, foi necessária para manter a expectativa do leitor, sendo a ironia capaz de ampliá-la e de possibilitar um desfecho surpreendente, ao mesmo tempo em que catártico.
O narrador, entretanto, já revelava a posição de cada personagem diante da infidelidade conjugal a partir da escolha de seus nomes. Clarinha, de um lado, é o diminutivo de Clara, cuja origem latina remete ao significado de brilhante, ilustre. O nome adjetivo é também usado com a intenção de mostrar algo transparente, sereno e sem ambiguidade, bem acentuado. É nesse sentido, então, que o nome Clarinha prefigurava a sua condição de vítima, no que é auxiliada com o uso do diminutivo, trazendo a ideia de fragilidade. Luís Negreiros, por outro lado, possui um sobrenome relativo à cor negra, ao que é obscuro e escondido, indicando, assim, o oposto daquilo que é claro, tendo em vista que a ausência de luz impossibilita de se enxergar com clareza. O nome Luís Negreiros, portanto, pressupunha a sua responsabilidade no ato adúltero. Não obstante as designações transparentes das personagens, o narrador lança mão de estratégias narrativas na tentativa de confundir o leitor, indiciando em diversas vezes o comportamento suspeito de Clarinha, ao mesmo tempo em que absolvia Luís Negreiros em sua empreitada angustiante na solução do mistério.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As três narrativas analisadas, entre outras coisas, têm como semelhança a temática do casamento, cada uma ocupada em narrar um momento distinto desse acontecimento social. Se, durante muito tempo, esse tópico foi encarado com depreciação por parte da crítica machadiana, já há algumas décadas, os pesquisadores se esforçam para mostrar a sua relevância. Com a tese de Doutorado da professora Sílvia Maria Azevedo (1990), neste sentido, começou a ser percebida a subversão do narrador machadiano na composição de suas personagens femininas. Como a maioria de suas narrativas, nesse período, eram destinadas ao Jornal das Famílias, a subversão fica ainda mais evidente como maneira de “desautomatizar” as leitoras, até então acostumadas com leituras românticas amenas, produzidas a partir de um modelo esquemático pronto, oriundo, sobretudo, dos folhetins melodramáticos franceses.
Tivemos o intuito de mostrar como Machado de Assis reagia sobre a concepção do matrimônio e de sua importância para a manutenção da sociedade burguesa daquela época. Para isso, foi preciso tecer personagens femininas capazes de buscar um espaço, ainda que mínimo, nesse ambiente, colaborando, também, para a dissociação do casamento com o sentimento amoroso.
Ao colocar em cena essas histórias, percebemos que as mulheres não se iludiam com o casamento, uma vez que tinham consciência do seu real significado: a possiblidade de participar da sociabilidade burguesa de seu tempo. Ao constituir uma família, teriam um papel a desempenhar; sem ela, dificilmente o fariam. Por isso, suportariam o adultério, entretanto, não conseguiriam conviver com ele às claras, por questões que vão além dos hábitos de uma ou de outra época.
As primeiras narrativas machadianas, portanto, embora abordem o tema das bodas, não o fazem de maneira romântica. Ao contrário, fazem criticando, justamente, a concepção romântica idealizada do matrimônio, que não existia em meio à burguesia, preocupada em manter os seus privilégios. A crítica, sendo assim, também não se dirige ao casamento enquanto contrato social, mas apenas à tentativa de escondê-lo atrás de uma fantasia romântica.
Com isso, Machado de Assis coloca em foco questões fundamentais para a manutenção da sociedade na qual vivia, de modo a pode ser considerado um formador de leitores e leituras atuantes, ainda que com a aparência de amenidades.
 
 
REFERÊNCIAS
 
ASSIS, Machado de. Histórias da meia-noite. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
 
AZEVEDO, Silvia Maria de. A trajetória de Machado de Assis: do Jornal das Famílias aos contos e histórias em livro. Tese (Doutorado em Letras). São Paulo: USP, 1990.
BARTHES, Roland. O efeito de real. In: Idem. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 158-65.
BOSI, Alfredo et al. Machado de Assis: antologia e estudos. São Paulo: Ática, 1982.
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Trad. Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. Org. Haroldo de Campos e Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Perspectiva, 2006.
CRESTANI, Jaison L. Machado de Assis colaborador do Jornal das Famílias: da periferia do Romantismo para o centro da literatura brasileira. Dissertação (Mestrado em Letras). Assis: UNESP, 2007.
MUSSULINI, Dayane. Uma ponte entre o Brasil e a França: Histórias da meia-noite, de Machado de Assis. Dissertação (Mestrado em Letras). Assis: UNESP, 2015.
SAMOYAULT, Tiphaine. A Intertextualidade. Trad. Sandra Nitrini. São Paulo: Hucitec, 2008.
 

NOTAS AO TEXTO
[1] Como exemplo disso, ressaltamos a leitura de AZEVEDO, Silvia Maria. A trajetória de Machado de Assis: do Jornal das Famílias aos contos e histórias em livro. Tese (Doutorado em Letras). São Paulo: USP, 1990. E de CRESTANI, Jaison L. Machado de Assis colaborador do Jornal das Famílias: da periferia do Romantismo para o centro da literatura brasileira. Dissertação (Mestrado em Letras). Assis: UNESP, 2007.
[2] Vale lembrar que nessa época a maioria da população era analfabeta, sendo as narrativas publicadas em periódicos imprescindíveis para a criação de um público leitor e, consequentemente, da própria literatura.
[3] Em todas as citações, respeitamos a grafia original das palavras.
[4] O artigo aludido chama-se “A intertextualidade em ‘Ernesto de tal’: a presença de Le barbier de Séville como memória da literatura”, a ser publicado no número 5 da revista Non Plus, ISSN: 2316-3976.
 
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

REPRESENTAÇÃO DA FIGURA FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA: O CASO LENIZA MAYER EM A ESTRELA SOBE – Rosa Maria Santos, Danglei De Castro Pereira




Rosa Maria SANTOS – UEMS

Danglei de Castro PEREIRA – UnB

 
Resumo: O artigo discute a obra A estrela sobe (1938), de Marques Rebelo, pseudônimo de Edi Dias da Cruz. A ideia central é valorizar a obra do autor e, neste percurso, comentar aspectos específicos de sua produção ao abordar os limites do cânone literário nacional quanto à diversidade do romance e heterogeneidade de produções no século XX. Acreditamos ser pertinente considerar aspectos da configuração feminina na tradição literária brasileira e refletir sobre o lugar de Leniza Mayer nesta tradição e, na medida do possível, apresentar um autor pouco conhecido ao público leitor não especializado ao comentar aspectos específicos de sua obra por meio da discussão de nosso corpus.
 
Palavras-chave: Rebelo. Marques Rebelo. Modernismo. Revisão do cânone.
 
Abstract: This article aims to discuss the novel A estrela sobe (1938, The Star Rises), by the Brazilian writer Marques Rebelo, pen name for Edi Dias da Cruz. Its central idea is to trace the author’s form of work and to comment on specific aspects of his production in order to understand the boundaries of the literary canon of the Brazilian novel in the 2oth century in terms of its diversity and heterogeneity. We think that it is suitable to the corpus of our research to consider the place of Leniza Mayer in the female configuration of the Brazilian literary tradition. Furthermore, this article will try to present to the non-specialized reader Marques Rebelo, as he is an author generally speaking little known, by commenting on certain specific aspects of his work.
 
Keywords: Rebelo. Marques Rebelo. Modernism. Canon revision.
 
INTRODUÇÃO
É comum encontrarmos referências às obras e autores do Modernismo brasileiro e nestas percebermos a ausência de apreciação crítica mais detida da obra de Marques Rebelo. São escassos os trabalhos científicos de maior fôlego que focalizem a obra do autor e, quase sempre, as referências às obras de Marques Rebelo compreendem aspectos temáticos associados a sua produção, deixando implícita a qualidade estética de seus textos.
A abordagem do romance A estrela sobe (1938), em nosso ponto de vista, garante a possibilidade de focalizar a diversidade de obras na tradição literária brasileira no século XX, fato importante para o amadurecimento de questões em torno da formação do cânone literário e, mais especificamente, o mapeamento da produção literária de autores como Marques Rebelo no contexto modernista no Brasil.
Nosso objetivo, neste estudo, é apresentar a trajetória diegética de Leniza Mayer, tendo como pano de fundo a representação da figura feminina no romance A estrela sobe, corpus específico da discussão.
 
MARQUES REBELO E A FIGURA FEMININA: UMA PROBLEMÁTICA
Marques Rebelo (pseudônimo de Edi Dias da Cruz) nasceu em 1907, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Viveu parte de sua infância em Vila Izabel e no Trapicheiro, bairros cariocas e, posteriormente, em Barbacena/MG. Morreu em 1973 no Rio de Janeiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e produziu diversas obras, dentre as quais, destacamos: Oscarina (1931); Três caminhos (1933); Marafa (1935); A estrela sobe (1938); Stela me abriu a porta (1942); O espelho partido I (1959), O trapicheiro (1959); O espelho partido II (1963); A Mudança (1963); O espelho partido III (1969) e A guerra está em nós (1969).
Neste estudo focalizaremos o romance A estrela sobe. Esta obra aborda a trajetória de Leniza Mayer, moça humilde, que sonhava alcançar o sucesso como cantora de rádio, mas que vê seus sonhos diluídos ao longo de uma trajetória marcada pela convivência, nem sempre harmônica, com uma sociedade machista e preconceituosa. Entendemos que a trajetória de Leniza estabelece uma tensão em relação a personagens representativas da tradição literária brasileira no que se refere à representação da figura feminina, o que focalizaremos de maneira mais detida ao longo do estudo.
Um exemplo do que podemos denominar trajetória paradigmática da representação da figura feminina é a construção da musa romântica. Na caracterização da personagem Cecília em O guarani, por exemplo, prevalece o caráter idealizado e sentimental em muito sob a influência da figura feminina descrita como casta e submissa aos padrões patriarcais, o que compreende um dos paradigmas sociais esperados da figura feminina na sociedade brasileira no século XIX com desdobramentos nos dias atuais.
Vejamos como Alencar materializa em seu romance a personagem Cecília:
 
Caía a tarde.
No pequeno jardim da casa de Paquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente numa rede de palha presa aos ramos de uma acácia silvestre, que estremecendo deixava cair algumas de suas flores miúdas e perfumadas.
Os grandes olhos azuis, meio cerrados, às vezes se abriam languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavam de novo as pálpebras rosadas.
Os lábios vermelhos e úmidos pareciam uma flor de gardênia dos novos campos, orvalhada pelo sereno da noite; o hálito doce e ligeiro exalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco (sic) de algodão, tingia-se nas faces de uns longes cor-de-rosa, que iam, desmaiando, morrer no colo de linhas suaves e delicadas. (ALENCAR, 1998, p. 32-33).
 
 
A fragilidade e pureza da sonhadora Cecília se confirmam no decorrer do romance de José de Alencar. A jovem que tem os lábios como “uma flor de gardênia dos novos campos” e uma “perfeição admirável” assume uma representação frágil e dócil, sendo objeto de desejo de personagens masculinos como Álvaro, Peri e Loredano. Não fosse a proteção de seu pai, Dom Antonio de Mariz, de Álvaro, espécie de herói medieval deslocado para o interior do Brasil inexplorado, e do índio Peri, que arrisca a própria vida para defendê-la inúmeras vezes no romance, Cecília sucumbiria à mercê de Loredano, anti-herói de O Guarani.
A personagem Aurélia, de Senhora, também de José de Alencar, possui, como Cecília, características frágeis que indicam a idealização romântica. Esta personagem, no entanto, traz certa ambiguidade que não impede sua ternura e ingenuidade; sob a égide do enlace passional que organiza a composição do romance:
 
O coração de Aurélia não desabrochara ainda; mas virgem para o amor, ela tinha não obstante a vaga intuição do pujante afeto que funde em uma só existência o destino de duas criaturas e, completando-as uma pela outra, forma a família.
(…)
Como todas as mulheres de imaginação e sentimento, ela achava dentro de si, nas cismas do pensamento, essa aurora d’alma que se chama o ideal, e que doura ao longe com sua doce luz os horizontes da vida. (ALENCAR, 2005, p. 87).
 
Após sofrer com o abandono do amado e receber uma herança do avô, Aurélia cria um plano para casar-se com Seixas e, com isso, “o ideal” de pureza da personagem parece ser questionado em uma trajetória diegética que se orienta, preliminarmente, por uma vingança:
 
A riqueza que lhe sobreveio inesperada, erguendo-a subitamente da indigência ao fastígio, operou em Aurélia rápida transformação; não foi, porém, no caráter, nem nos sentimentos que se deu a revolução; estes eram inalteráveis, tinham a fina têmpera (sic) do seu coração. A mudança consumou-se apenas na atitude, (…), dessa alma perante a sociedade. (ALENCAR, 2005, p. 213 – 114).
 
Inferimos que na descrição de uma permanência da “fina têmpera (sic) do seu coração” o narrador dá indícios de que não permitirá que Aurélia perca suas características frágeis de mulher submissa e casta para assumir a visão enigmática da musa realista com a qual sua trajetória diegética flerta. Na condução de seu plano de vingança e na forma distanciada e severa com que lida com Fernando Seixas e seu tutor ao longo de grande parte do romance, Aurélia vislumbra a independência por meio de uma aparente manipulação dos personagens masculinos.
Ao final do romance, apesar da decepção sofrida pelo abandono do amado em um primeiro momento, Aurélia perdoa Fernando Seixas e, inclusive, ajoelha-se diante dele:
 
A moça travara das mãos de Seixas e o levara arrebatadamente ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo ajoelhado a seus pés a cruel afronta:
Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando teu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma.
Seixa ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara a seus pés; os lábios de ambos se uniam já em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou no espírito do marido. Ele afastou de si com gesto grave a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza.
Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre.
A moça desprendeu-se dos braços do marido, correu ao tocador, e trouxe um papel lacrado que entregou a Seixas.
O que é isto, Aurélia?
O meu testamento.
Ela despedaçou o lacre e deu a ler a Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido e o instituía seu universal herdeiro.
Eu o escrevi logo depois do nosso casamento; pensei que morresse naquela noite, disse Aurélia com um gesto sublime.
Seixas contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas.
Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver meu Fernando. É o meio de a repelires. Se não for o bastante, eu a dissiparei. (ALENCAR, 2005, p. 237-238).
 
Entendemos, no entanto, que ao planejar a vingança e direcioná-la a Fernando Seixas Aurélia demonstra, mesmo que de forma sutil, um questionamento à submissão à figura masculina. O desfecho de Senhora revela, novamente, Aurélia como uma figura feminina submissa e casta diante do herói romântico “de longe seus olhos encontraram os de Aurélia, que fugiram para voltar tímidos e submissos” (ALENCAR, 2005, p 94). A trajetória de Aurélia anuncia, timidamente, um questionamento à submissão ao paternalismo descrito como um dos paradigmas na representação da figura feminina na tradição brasileira.
Esse perfil questionador, apenas vislumbrado na trajetória de Aurélia, encontra em Capitu, em Dom Casmurro, uma possibilidade de reconfiguração para trajetória da figura feminina dentro da tradição literária brasileira. Descrita de forma mais objetiva e irônica Capitu confronta os traços helênicos de Cecília e a submissão de Aurélia. O aspecto moreno e a ambiguidade psicológica de Capitu encontram na representação ambígua da personagem uma forma irônica de expressão das transformações sociais pelas quais passa o Brasil ao final do século XIX, aspecto apenas anunciado em Aurélia:
 
Que tem, tem – interrompeu Capitu. – E, se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?… Ele é atendido; se, porém… É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
– Teimo; hoje mesmo ele há de falar.
– Você, jura?
– Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha me lembrado da definição que José Dias dera deles: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada. (ASSIS, 1995, p. 50).
 
A personagem machadiana pode ser entendida como questionamento à submissão da figura feminina perante as convenções sociais do século XIX, mas demonstra na busca pelo matrimonio com Bentinho uma das poucas possibilidades de reorganização da trajetória individual de uma personagem feminina ao final do século XIX.
Ao apresentar uma inquietação diante dos valores da sociedade burguesa/aristocrática que fazem, muitas vezes, da mulher um objeto de desejo e/ou contemplação, Capitu impõe sua vontade de cigana dissimulada ao jovem Bento e, com isso, contribui para o questionamento da submissão e passividade relacionada à figura feminina. A personagem de olhos de “cigana oblíqua e dissimulada” enfrenta Bentinho o impelindo a agir e a assumir as rédeas de sua vida, chegando a ordenar que o namorado, inseguro e ingênuo, “teime” com José Dias em busca de sua liberdade e, metonimicamente, de um novo caminho para sua trajetória na narrativa.
Este aspecto de imposição de uma forma de pensar, em nosso entendimento, possibilita uma aproximação entre a construção da personagem Capitu e Leniza, personagem central do romance A estrela sobe, de Marques Rebelo. Capitu, como demonstraremos em seguida, e Leniza são personagens que refletem as mudanças na sociedade no final do século XIX, indicando novos paradigmas para as primeiras décadas do século XX em relação à representação da figura feminina neste contexto.
Ressaltamos que não é objetivo do estudo estabelecer uma comparação minuciosa entre Capitu e Leniza; antes discutir a relação destas personagens com o contexto histórico do qual emergem e, com isso, valorizar aspectos específicos da constituição da personagem feminina no romance A estrela sobe, objeto de nossa discussão.
Feitas estas considerações preliminares sobre aspectos da representação de algumas personagens femininas na tradição literária brasileira iniciamos, na próxima sessão deste estudo, a focalização da personagem Leniza.
 
LENIZA: CIGANA DISSIMULADA?
Leniza pode ser entendida como representação das tensões sociais que envolvem a mulher real na primeira metade do século XX. Descrita como uma mulher que não vê no casamento uma saída e não hesita em usar seus dotes físicos e sexuais para alcançar seus objetivos a personagem inaugura um caminho distinto para a mulher brasileira no início do século XX. Ao se tornar uma cantora de sucesso e desejar a liberdade, Leniza torna-se uma personagem contraditória diante da submissão feminina descrita há pouco como paradigma na representação da figura feminina em um contexto paternalista como o do Brasil; mesmo nos dias atuais.
Lembremos que Leniza Mayer rejeita a situação de amante e o matrimônio e, com isso, busca o equilíbrio econômico através de ações individuais, o que demonstra o traço contraditório em relação às expectativas geralmente associadas à figura feminina no século XIX e início do século XX:
 
Um médico, Dr. Oliveira, que ela visitara muitas vezes e com quem fizera boa camaradagem, falara claro, de olhos untuosos, pegando-lhe na mão, que lhe montaria casa, lhe daria criados, automóvel…
O que mais?
Ele não percebeu a zombaria:
Jóias, vestidos, tudo.
Não acredita?
Talvez acredite, mas não me interessa agora. Pode ser que um dia…
Sabida!
Acha? – fez ela, arregalando os olhos, com ar muito moleque.
Da mesma espécie, recebera outra proposta. Era um médico também gordo, velhote, antipático. Fora feroz, gritando quase para que a ouvissem na sala de espera cheia:
Por que não propõe isso à sua irmã? (REBELO, 2001, p. 19-20).
 
Conforme o excerto, a protagonista, deixando implícito que não deseja ser amante de nenhum homem, pelo menos “agora”, rejeita a condição de amasia, mesmo manifestando sentimentos afetivos ao longo da narrativa por Oliveira.
Fica implícito que Leniza entende que a situação de amante e protegida implica no abandono do sonho de conquistar seu próprio espaço na sociedade e, ingenuamente, vê na carreira artística um caminho para este objetivo. Em um diálogo tenso com Oliveira que sentencia: “– engana a você mesma. Por que, afinal, que é que você quer? Que é que você espera da vida?”. Sua postura diante da consideração de Oliveira é contestadora e evidencia que seu desejo é algo distinto à condição de mulher amada e dócil ao afirmar que espera “– (…) muito, ora! Mais do que supões. Quero ser livre, Oliveira! Dispor de mim, você não compreende? Dispor de mim. Fazer o que entender” (REBELO, 2001, p. 23).
Oliveira insiste em unir-se a ela que sentencia: “– Não sei o que quero, Oliveira. Sei é que não quero o que você me tem proposto” (REBELO, 2001, p. 21). Diferentemente de Cecília, Aurélia e, mesmo, Capitu; Leniza não deseja a proteção masculina e/ou o casamento para atingir a condição de equilíbrio social por entender que ao aceitar o casamento, no caso a concubinagem, estará desistindo de si mesma e de seus sonhos. Ao contrário, o que a personagem deseja é a “liberdade”, materializada na passagem “quero ser livre, Oliveira! Dispor de mim”.
Entendemos que a trajetória de Leniza é importante na representação da personagem feminina na tradição brasileira no que se refere a um questionamento à submissão da figura feminina em termos históricos no Brasil. Sua trajetória no romance, no entanto, reflete a marginalidade da mulher nessa sociedade, aspecto materializado na narrativa pela forma com que a personagem é penalizada pelas escolhas que faz ao longo da diegese. Em outros termos: ao escolher a liberdade Leniza deve aceitar as consequências impostas pela narrativa, entre elas, o sofrimento financeiro, a humilhação e, em alguns casos, as cenas que beiram a prostituição em uma utilização consciente do próprio corpo como moeda de troca.
Podemos dizer que o título do romance A estrela sobe é irônico e a trajetória da personagem e sua atitude contestadora indica uma não adesão do narrador ao percurso escolhido pela personagem, o que configura um traço irônico no interior da narrativa. A ironia está na apresentação de um percurso narrativo de ascensão de Leniza; mas que tem como focalização a queda e a punição da personagem. Temos, então, um narrador onisciente que, paradoxalmente, apresenta um percurso de esperança à personagem; mas demonstra ao leitor o preço que as opções da personagem geram em sua trajetória individual.
A ironia do narrador não permite que a liberdade almejada Leniza signifique tranquilidade e harmonia, o que entra em consonância com a linha paternalista presente na sociedade brasileira, em linhas mais gerais. Exemplos deste percurso irônico na narrativa de Marques Rebelo é apresentado na focalização das demais personagens femininas que compõe a trama de A estrela sobe. A focalização de vedetes de rádio novela, cantoras e mulheres da noite que, naquele período, tentavam romper as regras impostas pela sociedade e acabam vivendo de aparências ao passar de mão e mão, como Nair e Dulce, e, posteriormente, Leniza são metonímias de uma trajetória de decadência para mulheres que ousam deixar a proteção paternalista.
Descritas como mulheres vulgares, até mesmo na fala de Dona Antônia, Nair e Dulce são exemplos de comportamentos “perigosos” associados à trajetória feminina:
 
– Seiscentos bagarotes, me disseram. Que mina heim!… Não queres saber mais de outra vida, não é? (e pensava: esta aí está na vida)
Mas Leniza pediu desculpas, ia entrar, estava muito cansada do ensaio, (Dona Antônia comentava o tal “cansaço do ensaio” ao seu modo: – que vaquinha! Também nunca se enganara com ela… Era só ver aquela cara…) Depois, com calma, vira contar tudo. Era o que Dona Antônia pedia, exigia: tudo! Queria saber tudo! Diziam que este negócio de rádio, lá dentro é uma pouca vergonha, uma grossa bandalheira. Nunca acreditara, nunca! Só acreditava no que via. Levantava piedosamente os olhos para o céu: Deus é testemunha. Agora tinha a prova. Ela que era uma menina direita (carregava no “direita”), não se iria meter lá dentro se fosse como diziam.
– Falam muito, Dona Antônia – (Que bandida! Era de se escarrar na cara!) (REBELO, 2001, p. 56).
 
Percebemos o tom de preconceito quanto à profissão de cantora de rádio “que vaquinha”. O narrador, através de sua onisciência, se mostra preconceituoso ao induzir o leitor a criticar o comportamento das mulheres que cantavam no rádio no que descreve como um espaço de “bandalheira”.
A busca individual por liberdade de Leniza esbarra, então, na representação que a sociedade faz de sua condição de órfão e pobre em um espaço de trabalho que tende à promiscuidade. Ao invés de reforçar a liberdade individual da personagem, o narrador parece compactuar com a descrição de decadência moral associada a sua profissão, o que acabará por destruir Leniza, nas palavras do narrador, “antes era uma menina direita” (REBELO, 2001, p. 56).
A trajetória de Leniza representa a de muitas mulheres trabalhadoras do início do século XX que eram e, ainda hoje, são tratadas com inferioridade e à mercê de alguns homens inescrupulosos. Na fábrica de balas, por exemplo, Leniza é assediada pelo responsável da “seção, a antipatia em pessoa, era um rapaz de costeletas e bigodinho caprichado, ‘O Irresistível’. Só admitia uma maneira de justiça: fossem gostoso com ele. Moça nova que entrasse tinha que se submeter aos seus ataques de ternura” (REBELO, 2001, p. 14). No laboratório de especialidades farmacêuticas, segundo emprego da personagem, as funcionárias eram obrigadas a “servirem de cobaias para as novas fórmulas de seus depurativos e fortificantes” (REBELO, 2001, p. 14).
Como forma de fugir a este espaço agressivo, Leniza vale-se de suas qualidades: a inteligência e a beleza. A personagem vale-se de sua condição de mulher inteligente e bonita para ascender socialmente; mas também para sobreviver em um contexto de precariedades sociais. Fica implícita a intenção machista e preconceituosa do narrador, mas ao descrever a trajetória da personagem o foco narrativo apresenta uma forma inusitada de representação da figura feminina na literatura brasileira ao tangenciar a submissão da personagem e evidenciar as consequências desta opção na trajetória da personagem.
Leniza, nesse sentido, foge à submissão e torna-se algo distinto do que se espera da figura feminina na primeira metade do século XX, ou seja, a esposa correta e dedicada, aparentemente feliz, de acordo com padrões sociais vigentes no período. Esta trajetória parece encontrar em Dona Manuela, mãe de Leniza, que “aprendeu a ler, a escrever, a contar, trabalhos de agulha, trabalhos domésticos” (REBELO, 2001, p.11) um paradigma irônico, pois o que ela consegue é revelar-se “uma extraordinária cozinheira”.
A trajetória de Leniza é, por isso, um caminho possível: optar pela individualidade e liberdade em suas ações. Esta opção, porém, traz, metonimicamente, o sofrimento e as dificuldades enfrentadas pela mulher no início do século XX.
 
LENIZA: “ESTRELA QUE CAI”
Ao iniciar a obra descrevendo Dona Manuela como “mestiça disfarçada” que ficou órfã aos seis anos de idade e fora criada por um coletor federal para, por fim, ser transformada numa “excelente cozinheira”; o narrador deixa uma pista de sua linha de representação irônica diante da trajetória da personagem Leniza. Esta observação é ampliada pela forma com que o narrador apresenta o lugar que pobres e mestiços, principalmente mulheres, ocupam nas primeiras décadas do século XX na sociedade:
 
Viúva, sem filhos, que alugava cômodos. A casa ficava numa ladeira da Saúde. Estreita, iluminada a gás, um lampião aqui, outro lá em cima, a ladeira era iluminada à antiga, com grandes pedras desiguais, que um capim raquítico parecia separar. Quando chovia um pouco mais, transformava-se numa cascata, que impossibilitava o acesso. Não tinha saída. Terminava junto ao corte a prumo da pedreira. A casa era exatamente a última do lado direito, quase colada à pedra, velha, maltratada, um forno! Comprimiam-se as três no quarto da comadre, porque os outros estavam alugados (REBELO, 2001, p. 11).
 
 
Neste excerto, percebemos que o narrador faz questão de apresentar detalhes da pobreza do lugar em que as personagens viviam. Leniza, Dona Manuela, a comadre, o porteiro, Seu Alberto e os outros hóspedes da pensão eram agrupados como animais em um espaço de precariedades. Mais adiante, ao apresentar a costureira Judite, outra moradora do bairro, como uma mulher que se deu mal na vida. Judite evidencia as consequências de transgredir as regras sociais, dando mostras dos perigos que rondam as mulheres em seu enredo, metonimicamente, na sociedade: “Judite, uma vizinha que fora desencaminhada com promessas de casamento (…)” (REBELO, 2001, p. 15).
Outro detalhe em relação a ironia do narrador é o preconceito com que apresenta as personagens. O percurso estilístico é alinhar características físicas a profissão e cor de pele dos personagens. Por exemplo: “A enfermeira – uma mulatinha magra, simpática, mas de guarda pó impecavelmente limpo (…)” (REBELO, 2001, p.52). A primeira vez que o Julinho, pianista da rádio, é citado na obra é chamado de “mulatinho do piano” (REBELO, 2001, p. 53). Em outro trecho, o narrador faz questão de colocar “o mulatinho mostrou a dentadura – dente sim, dente não” (REBELO, 2001, p. 60). Estes detalhes “guarda pó impecavelmente limpo”, “tocador de piano”, “dente sim, dente não”, entre outros evidenciam um narrador preconceituoso que também direciona o olhar face às inovações sociais das primeiras décadas do século XX a uma hierarquização social de origem étnica de difícil solução, mesmo nos dias atuais.
Fica implícito que apesar de os personagens adquirirem certa cultura e aprenderem a ler, escrever, “tocar piano” e “cantar”, o que determina sua trajetória social não são suas qualidades intelectuais, antes o lugar em que se encontram na estratificação social. No caso da figura feminina, este espaço parece ter uma possibilidade de alteração em linha positiva, qual seja, a adesão a uma proteção social, ou seja, encontrar um homem que fosse responsável por ela; no caso de Dona Manuela, mãe de Leniza, o coletor federal e o marido morto:
 
A filha tinha, então, seis anos, e a família do coletor federal aceitou-a para criar, Aprendeu a ler, a escrever, a contar, trabalhos de agulha, trabalhos domésticos. Revelou-se uma extraordinária cozinheira. Quando o advogado de maior prestígio na cidade foi eleito deputado federal e transferiu-se para o Rio com a família, o coletor, por chaleiramento, fez questão que a trouxessem como cozinheira (REBELO, 2001, p. 11).
 
Fica implícito pelo encadeamento narrativo que a trajetória de Leniza e sua mãe é determinada pela morte do patriarca ainda na infância da menina. A primeira, Dona Manuela, aceita seu destino de viúva pobre, enquanto Leniza parece lutar contra esta trajetória. Para sobreviver, Dona Manuela tem que lavar roupas para os hóspedes. Esta situação de empregada dos hóspedes, todos homens, mostra o nível de relacionamento entre homem e mulher na narrativa. A convivência com os hóspedes na juventude da menina Leniza é um dos índices da rebeldia da personagem, mais uma vez, denunciando o tom pejorativo na focalização do romance, pois para o narrador, esta visão “impura do mundo” é provocada pelo contato com o cortiço, o que determina, prematuramente, “rasgaram-se (…) muitos dos mistérios da vida” (REBELO, 2001, p.12).
A personagem perde a ingenuidade da donzela frágil e indefesa aos moldes de Aurélia e Cecília e começa a descobrir os perigos e os prazeres de ser mulher e viver próxima de muitos homens, pois “via-os constantemente nus, nos quartos de portas abertas, de propósito ou não, no chuveiro e latrina comuns; ouvia as suas conversas livres, seus ditos pesados, suas anedotas bocagianas” (REBELO, 2001, p.12).
O aspecto irônico, nesse percurso, é mostrar que a saída mais tranquila para Leniza é permanecer na submissão e aceitar a corte de Oliveira. Ao focalizar uma personagem em busca de novos paradigmas como é o caso de Leniza e evidenciar, nas entrelinhas, as regras da sociedade, o narrador apresenta a vida miserável de mulheres abandonadas como, por exemplo, o caso da comadre, que após a morte do marido fica sozinha, esquecida por todos.
Esta mesma projeção negativa é feita à Leniza e sua mãe, o que, em parte, parece justificar a trajetória da protagonista do romance. O resultado, no entanto, é apresentado, metonimicamente, na decadência de Nair e Dulce, espécie de antecipação da trajetória lacônica de Leniza ao final da narrativa:
 
Não a abandonei, mas, como romancista perdi-a. Fico, porém, quantas vezes, pensando nessa pobre alma tão fraca e miserável quanto a minha. Tremo: que será dela, no inevitável balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado de suas vaidades (REBELO, 2001, p. 115)?
 
Notemos que, no final deste romance, o narrador não explicita o desfecho para Leniza e, com isso, deixa implícita sua visão negativa diante da personagem que, para salvar-se, deve aceitar uma luz vinda do céu “que ilumine o outro lado de suas vaidades”.
O romance apresenta algumas inovações formais que alinham o romance ao espírito inovador do Modernismo. Uma destas inovações é a focalização em cortes espaciais e digressões temporais que interrompem o fluir da leitura, criando lacunas no enredo. As interrupções criam espaços vazios no relato, fragmentando o enredo e abrindo caminhos para as inferências metonímicas como a inevitável decadência da personagem ao final da narrativa.
Um exemplo deste processo é o momento em que Leniza discute com Oliveira pondo fim ao estranho relacionamento entre os personagens. O corte temporal é apresentado como cisão da ingenuidade de Leniza que, sem nenhuma explicação por parte do narrador, no próximo parágrafo, aparece na cama com Mário e “vende” sua virgindade em troca da indicação de um “lugar” como cantora:
 
Não há luz, nem estrelas no retângulo negro da janela. A luz do abajur põe o quarto numa penumbra vermelha, reles e suspeita. O elevador sobe, desce, desce, sobe… Vem o quebrar das ondas fracas contra o cais, vem o chiado das ondas vencidas, fugindo por entre as pedras. Vem o vento do mar que balança, leve, as cortinas, que arrepia, leve, os corpus nus suando. Vem a dor do amor que leva Leniza da terra para o céu, numa vertigem (REBELO, 2001, p. 70 – 71).
 
 
Com a descrição eufêmica do “elevador que sobe e desce” e a “dor do amor que leva Leniza da terra para o céu”, o narrador quebra o último fio que liga Leniza à ingenuidade. O prolongamento é, ao mesmo tempo, a fama e a liberdade e, posteriormente, a dor e o sofrimento. Temos a sensação de que o narrador quer mostrar que ela escolheu o caminho difícil ao invés de ficar com o mais “fácil” , aproximar-se de Oliveira e ser sustentada por ele na condição de amasia.
Ao fugir à trajetória de sua mãe e buscar a “liberdade”, Leniza delimita sua trajetória de decadência, algo já previsto pela condição de órfã e de difícil solução na construção da personagem. Marques Rebelo ao focalizar a presença da mulher no mercado de trabalho, a chegada do rádio, a industrialização e a movimentação das pessoas nas ruas apresenta o contraste entre a pobreza e a riqueza ao focalizar, segundo Bernd (2011), trajetórias narrativas dos que eram excluídos e formam a diversidade social brasileira ao serem objetos de focalização em muitos dos romances do século XX.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo apresentamos aspectos da construção da personagem Leniza no romance A estrela sobe, de Marques Rebelo. Nossa reflexão considerou a importância de autores como Rebelo na renovação temática em nossa ficção literária. Ao confrontarmos a personagem feminina de Marques Rebelo com outras personagens femininas na tradição literária brasileira percebemos que a submissão da mulher perante a figura masculina permanece de forma irônica no romance, o que, para nós, é o legado do romance.
Entendemos, por isso, que a ironia do romance é aspecto estrutural da narrativa ao revelar que, mesmo em personagens femininas que tentam enfrentar o mundo como Leniza, a trajetória libertadora a ser construída implica em sofrimento e dificuldades. Como reflexão final deste estudo, esperamos contribuir para o avanço da fortuna crítica de Marques Rebelo e evidenciar, sobretudo, a qualidade estética de sua produção, aspecto entendido como relevante no estudo de sua obra.
 
REFERÊNCIAS
 
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NUNES, B. Estética e correntes do Modernismo. In: ÁVILA, A. O Modernismo. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 39-53.
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ROSENFELD, A. Literatura e personagem. In: CANDIDO, A. A personagem de ficção. 12ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 9-50.
XXXTELES, G. M. Vanguarda europeia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1977.
TODOROV, T. A literatura em perigo. 4ª ed. Trad. MEIRA, Caio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2012.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: “Nasceu uma poetisa”: Marialzira Perestrello – Gilberto Rocha




NASCE UMA POETISA
 
GILBERTO ROCHA
Psicanalista
Minicurrículo: GILBERTO ROCHA é psicólogo/psicanalista, autor do livro A introdução da Psicanálise no Brasil, é mestre em Filosofia-PUC/RJ e doutor em Saúde Coletiva/UERJ.
Resumo: Biografia e citações de poemas da saudosa psicanalista Marialzira Perestrello, recentemente falecida.
 
 
 
NASCE UMA POETISA
 
GILBERTO ROCHA
Psicanalista
 
Meus versos são humildes
eu tão orgulhosa.
Meus versos são generosos
eu tão egoísta.
Meus pobres versos são ricos
Às vezes choram e gemem,
às vezes cantam e dançam.
Meus versos, quem são vocês? (1)
 
Marialzira Perestrello
 
Jardim de Palermo, Buenos Aires, 1962. Uma mulher observa as árvores. A cena toca de modo particular sua sensibilidade. Quarenta e seis anos, cabelos castanho-escuro fartos, olhos amendoados, pouca pintura no rosto, nem magra nem gorda, sobriamente vestida. De súbito, sentiu uma necessidade de escrever entre aquelas árvores despidas de folhas. Veio aquela vontade inesperada de escrever no papel todos aqueles sentimentos de uma maneira estética, um consolo para quem estava se sentindo desvitalizada pela morte da mãe em 1959 aos sessenta e três anos.
Estas árvores desconsoladas de Palermo,
é bem dentro que me fazem mal.
Estes braços angustiados ao céu,
estes gritos,
o lamento dos leprosos…
Oh! estas árvores ermas de Palermo! (2)
 
Seus primeiros poemas eram quase todos para ela, poemas de elaboração de luto. (3) Marialzira orgulhava-se em dizer que sua mãe, Maria Beatriz Pontes de Miranda, juntamente com Berta Lutz e outras senhoras da sociedade, participaram das discussões para defender o voto feminino, que nesta época era proibido no Brasil. Essas pioneiras se uniram na luta para mudar a legislação eleitoral brasileira, finalmente reformulada em 1933. (4)
A mãe de Marialzira era filha do político Tomaz Cavalcante Albuquerque, deputado federal pelo Ceará. Durante a segunda guerra mundial, Maria Beatriz foi enfermeira voluntária, prática que mais tarde a motivou a cursar enfermagem e entrar para a Cruz Vermelha. Posteriormente foi eleita presidente da Escola de Enfermagem dessa instituição(5). Na criação de suas filhas, Maria Beatriz influenciou-as sempre no sentido de todas concluírem o curso superior e cultivarem o espírito independente. Tomaz Cavalcante de Albuquerque, seu pai, possuía um sítio em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Gostava de plantar pés de frutas, muitas nordestinas, que trazia de sua terra natal. Esse sítio era o local onde a família de muitos tios e primos se encontravam nos domingos e feriados, e onde as brincadeiras aconteciam, deixando na lembrança de Marialzira, filha mais velha de uma prole de quatro meninas, boas recordações de seu tempo de garota. O fato de ter sido criada por sua mãe, sem ajuda de governantas ou babás, era uma recordação acalentadora. A dedicação com que cuidava das filhas não foi esquecida pela primogênita, que o relembra. Com Maria Betriz aprendeu que a educação melhora o ser humano.
Foi no Jardim de Palermo que a psicanalista brasileira começou a traçar seu caminho na trilha da poesia. Só restou um único verso solto, escrito em 1959, de uma experiência poética anterior. O tempo transforma, e o sol aos poucos apareceu cada vez mais. Era o fim do inverno em Buenos Aires, e a pessoa a quem podia imediatamente mostrar seus primeiros poemas era Marie Langer:
 
Aquelas duas portas
me vêm, às vezes,
tão vivas.
Eu, tímida, olhando.
Tu, compreensiva,
sorrindo.
Da porta da rua
por que não joguei
um beijo?
E tu, de tua porta,
não me acenaste
com a mão?
Evitei o braço.
Mas adiei
o adeus! (6)
 
Marie Langer, psicanalista austríaca, veio contribuir com a Associação Argentina de Psicanálise, motivada pelas condições geradas pela Segunda guerra mundial, na Europa:
 
Vejo-te
olhos cerrados.
Falo-te
em diálogos calados.
Amo teu olhar belo demais
teu sorriso quase lágrimas
tu que não és tu
tu além de ti mesmo
tu algo de mim mesma
tu… (7)
 
 
Inicialmente, Marialzira fez sua análise com Pichon Rivière. Em seguida, quatro reanálises nos anos de 1958, 1962, 1969 e 1970, sempre com Marie Langer. Antes disso, elas já haviam cruzado seus caminhos duas vezes. A primeira, quando a psicanalista austríaca foi sua professora na formação psicanalítica em Buenos Aires e a segunda, por ocasião de uma visita ao Brasil. Nessa visita, Marialzira foi escolhida para acompanhá-la em sua permanência no Rio de Janeiro. O que motivou a escolha de Marie Langer para fazer suas reanálises foi principalmente a admiração que nutria pela cultura humanística da psicanalista radicada na Argentina.
Após voltar de sua segunda reanálise, ao comentar com seu filho Sigmund e o marido Danilo que nessa estada em Buenos Aires  havia escrito poemas, serviu como motivo de troça. Achavam que sua verve poética era episódica. Timidamente, nada mais comentou sobre seus poemas nem os mostrou a mais ninguém. Não tinha intenção alguma de publicá-los. Funcionavam como uma válvula de escape. Sentia um enorme prazer em planejá-los e construí-los. Além disso, a poesia neste momento já a havia ajudado a elaborar o luto pela morte de sua mãe, como podemos perceber em vários poemas, publicados em seu primeiro livro de poesia.
 
Mãos macias, assim,
nunca vi, nunca senti, nunca tive.
Mas teu sorriso encontro em mim.
E, tristemente, sorrio teu sorriso,
O sorriso, as mãos,
lembranças suaves e boas,
cinzentas de saudades,
tão próximas, tão vivas,
tão distantes,
tão mortas. (8)
 
 
Contudo, o acaso se fez, e numa recepção encontrou com o poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca (mais ou menos dez anos após o inverno no Jardim de Palermo), e ele ficou sabendo, casualmente, que ela também escrevia poesia. Interessou-se. Após ler vários de seus poemas, incentivou-a a publicá-los e indicou alguns caminhos para viabilizar a publicação, em 1972, do seu primeiro livro de poesia, Há um quadrado de céu que não viram. Nesse ano, Marialzira Perestrello já havia participado da fundação da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, escrito vários trabalhos sobre a teoria e técnica psicanalítica, além de ter participado de vários congressos e encontros internacionais e nacionais de Psicanálise.
Dirceu Quintanilha, Roberto Martins e Sergio Paulo Rouanet são alguns que escreveram sobre os dotes camaleônicos da psicanalista/escritora, e continuaram em dúvida se ela era uma psicanalista com sensibilidade poética ou uma poetisa com sensibilidade psicanalítica. Na carta do Pen Club do Brasil, em que é comunicado a Marialzira sua eleição para a galeria dos seus titulares (lugar que seu pai Francisco Cavalcante Pontes de Miranda já havia ocupado), novamente são enaltecidos os dotes intelectuais da escritora: “A poesia e o ensaio científico é conjunção de valores bem pouco frequente num mesmo escritor”:
 
Pai, faz um verso bonito,
um verso fácil
só para mim.
Destes que a gente canta, contente,
que a gente chora baixinho. (9)
 
Marialzira contava que Pontes de Miranda recebia muitas visitas em casa. Intelectuais, jovens desejosos de receber alguma orientação, cientistas, médicos, como o inventor da abreugrafia, Manoel de Abreu, e o psiquiatra Juliano Moreira, escritores e artistas. Nenhuma das quatro filhas do destacado jurista quiseram fazer a faculdade de Direito. Porém, todas elas seguiram carreiras profissionais que ele admirava: dos cientistas, matemáticos e artistas. Seu pai começou a escrever livros aos dezenove anos e vários deles foram e são adotados nos cursos de Direito. Foi seu gosto pelos amigos cientistas, o que fez com que Marialzira optasse inicialmente por fazer um curso em Manguinhos. Ela morava no “deserto” de Ipanema, e naquela época a distância entre sua casa e Manguinhos, na então longínqua Avenida Brasil, fez com que desistisse de fazer esse curso de ciências. Mais tarde, encaminhou-se para o de Medicina, sem saber ao certo que especialidade iria seguir. Em 1940, logo após tê-lo completado, foi para Bogotá, pois seu pai foi nomeado embaixador do Brasil na Colômbia. Lá chegando, estudou e trabalhou em Fisiologia. Regressando, depois de algum tempo, casou-se com Danilo, seu colega da faculdade de Medicina.
Anos mais tarde, foi novamente a poesia que iria ajudá-la a elaborar outro luto, dessa vez de seu marido Danilo Perestrello, conhecido psicanalista carioca, que ficou durante treze anos enfermo, antes de falecer:
 
Vejo-te como dantes,
por vezes, por engano;
tu forte, tu protetor.
Eu a perguntar, escutar,
vejo-te como dantes.
Às vezes, um instante.
Mas desperto sem Deus:
Tu fraco, indagando.
Eu fraca, a proteger. (10)
 
 
Danilo Perestrello foi outra figura marcante na vida da psicanalista/poetisa. Quarenta e oito anos de casamento e um relacionamento mais antigo ainda. Os dois já se conheciam desde o útimo ano do primário, no colégio Benett. Tinham ambos onze anos de idade. Anos depois, voltaram a encontrar-se casualmente num bonde na Praia Vemelha, aos dezessete anos, quando ambos se preparavam para o exame de admissão ao curso de Medicina. Os dois foram aprovados. Cursaram a mesma faculdade, na mesma turma. Tempos depois, deram início ao namoro. Após terem concluído o curso de Medicina, em 1939, Marialzira separou-se de Danilo durante seis meses. Esse período foi o tempo determinado por seu pai para ver se o amor dos dois resistiria.
Aproveitando-se do fato de que iria mudar-se com a família para Bogotá, o jurista Francisco Pontes de Miranda, estava determinado a levar junto com ele sua filha primogênita: “Mas papai e mamãe não via com bons olhos esse namoro. Em nossa casa, iam muitos jovens advogados, jovens juízes… Com certeza ele queria que um daqueles jovens encarreirados para genro e não um colega de turma da faculdade que não era ninguém!” (11)
Seis meses depois, voltou de Bogotá e, após muitas dificuldades, casaram-se em 2 de janeiro de 1941. Somente no civil, em cerimônia para os mais íntimos. Seu pai não pode comparecer, pois ainda residia no exterior.
Inicialmente, a vida de casal impôs à Marialzira a necessidade de trabalhar. Como concursos para médicos não surgiam com frequência (e não queria usar o prestígio do pai para conseguir colocação em algum emprego), foi trabalhar fora da Medicina, no laboratório do Departamento de Compras do Instituto de Tecnlogia, analisando papéis e tecidos fornecidos para o governo.
Após o parto de uma criança morta, a gravidez de Sigmund foi cercada de grande cuidado. O nascimento dele fez com que ela adiasse seus projetos profissionais. Seu marido, assistente da cadeira de clínica médica e já interessado na Psiquiatria, fazia plantões em hospitais psiquiátricos e iniciava os estudos para o concurso do Serviço Nacional de Doenças Mentais. Marialzira acompanhava o movimento de Danilo, atentamente.
Em 1945, Arnaldo Rascoviski, psicanalista argentino, proferiu uma palestra no Rio de Janeiro intitulada A formação psicanalítica. Esta palestra motivou várias pessoas da platéia a pensar em fazer uma formação psicanalítica na Argentina, como Walderedo Oliveira, Alcyon Bahia e o casal Perestrello.
A jovem médica fez sua formação psicanalítica de 1946 a 1949 e se tornou membro em 1952 da Associação Psicanalítica Internacional, tornando-se a primeira mulher no Rio de Janeiro a ser qualificada pela associação.
Os primeiros movimentos para a criação da Sociedade Brasileira de Psicanálise coincidiram com a adolescência do filho único do casal Perestrello, Sigmund. E por essas coincidências que ninguém consegue explicar (nem Freud), também se tornou psicanalista. Publicado em 1998, Cartas a um jovem psicanalista é a ele dedicado. Em estilo epistolar, a psicanalista faz uma analogia com o livro de Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. O seu Cartas a um jovem psicanalista descreve algumas situações vividas pela psicanalista em seus mais de quarenta anos de experiência clínica e enfatiza a importância da pluralidade das técnicas: “Em meu trabalho de analista uso também uma visão artística, literária e não somente científica, e dentro da técnica, penso (e digo aos meus alunos ) que cada paciente ‘indica’ a técnica a empregar”. (12)
Atravessando a década de seus oitenta anos, Marialzira trabalhava três horas por dia em consultório, dava cursos, palestras, seminários clínicos e ainda tinha tempo para outros interesses. Sua família, poemar, estudar alemão e escrever trabalhos, são alguns exemplos. Existem inúmeros outros, como a Casa Branca, sua casa na bucólica ilha de Paquetá, que tão bem rima com seus versos, era considerada pela escritora seu canto predileto. Depois de tantos anos, depois de tantas mudanças, lá continuava sendo o seu cantinho. Canto de reflexão, onde a Serra dos Órgãos e as águas da baía de Guanabara testemunharam uma mulher amadurecer, envelhecer, tornar-se mais tolerante e benevolente. Uma mulher que ambicionava fazer poesia de sua própria vida. “Vivo sozinha, mas não sinto solidão; estou sempre acompanhada dos livros e da música. Escrevo e estudo ouvindo música, e a poesia me acompanha”. (13)
O interesse profundo pelo outro, como tão bem percebeu José Paulo Moreira da Fonseca, somado à grande sedução que as palavras sempre exerceram sobre ela, surgem como os principais motivos para a parceria composta por ela entre o exercício teórico e prático da Psicanálise com a poesia.
Médica, psicanalista, mãe, professora, escritora e poetisa. (14). Em seus poemas, podemos reconhecer a alma curiosa e inquieta da autora. Ora apaixonada pela vida, ora revoltada, ora esperançosa. Quando em sua poesia celebra a vida, é possível imaginar a vida pulsando nela como no poema dedicado a sua neta, “Bênção”. Bella Josef, na introdução do livro A música persiste, de Marialzira, comenta que ao traçar sua geografia pessoal, a perda era um dos temas que mais se manifestava na emergência da sua poesia. Reconhece-se nos versos da autora uma necessidade de superar os sentimentos de perda que a vida lhe impôs através da palavra. Em alguns versos, a dor é o fio condutor que direciona as palavras em Elegia II, ou no poema dedicado a sua filha morta prematuramente, em que a dor chega às raias do insuportável. Quando Marialzira se refere a Paquetá, a Casa Branca, suas palavras adquirem, como na poesia XXII em Há um quadrado de céu que não viram, contornos nostálgicos, mas que de modo algum a impediam de viver o HOJE, pois até na morte ela desejava seguir vivendo, conforme escreve em Encontro com a vida (1997) (15): “Eu queria morrer de repente, morrer lúcida! e sobretudo morrer viva…”.
 
NOTAS AO TEXTO

  • Perestrello, Marialzira. Há um quadrado de céu que não viram. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editores, 1972, p. 27.
  • Idem, ibid, p. 18.
  • Este texto baseou-se principalmente em quatro horas de entrevista gravada entre o autor e Marialzira.
  • Tal como sua mãe, Marialzira Perestrello na história da psicanálise do Rio de Janeiro, foi pioneira.
  • Conforme entrevista acima citada.
  • Perestrello, Marialzira. Há um quadrado de céu que não viram. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editores, p. 37.
  • Idem, ibid, p. 39.
  • Idem, ibid, p. 41.
  • Idem, ibid p. 31.
  • Perestrello, Marialzira. Ruas Caladas. Rio de Janeiro, 1978, p. 43.
  • Conforme entrevista entre o autor e Marialzira.
  • Perestrello, Marialzira. Cartas a um jovem psicanalista. Rio de Janeiro, Imago, 1998, p. 60.
  • Goldfeld, Zelia (org). Encontros de vida. Rio de Janeiro, Record, 1997, p.
  • Marialzira Pontes de Miranda Perestrello nasceu no Rio de Janeiro em 5 de março de 1916, e morreu em 27 de janeiro de 2015.
  • Goldfed, Zélia (org), idem, p. 178.

 





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Resenha: Florência diante de Deus: Eliezer Moreira – Luiza Lobo




RESENHA

Eliezer Moreira, Florência diante de Deus. São Paulo, Patuá, 2015. 215 p. ISBN 978-85-8297-164-2.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
O original livro de Eliezer Moreira, Florência diante de Deus (2015), que é o seu segundo, chama a atenção pelo título “religioso” nesses tempos pós-modernos em que tanta gente procura em seitas e cultos uma resposta linear e harmônica para o desconcerto do mundo atual. No entanto, o aspecto religioso é por ele tratado de forma agnóstica, não só na voz do narrador externo quanto na perspectiva da própria personagem, Florência. Há um anjo no enredo, já anunciado logo no primeiro capítulo, mas a ênfase na novela – não ousaria chamá-la de romance, direi por que depois – está mais na relação entre as personagens e o eco de suas ações e da biografia da protagonista na pequena cidade. Apesar de Jair Ferreira dos Santos, em seu percuciente posfácio, escrever que o enredo poderia “acontecer em qualquer época e lugar”, inclino-me a imaginar o livro transcorrendo na cidade de Juazeiro da Bahia ou em Januária (citada na epígrafe), no médio São Francisco, cidade de Minas a apenas 150 km da Cocos natal de Eliezer. Referências ao rio São Francisco permeiam o texto, a epígrafe e a própria estrutura do livro.
Seja como for, creio que o arcabouço da literatura do Nordeste, com seus cordelistas e cantadores, tão presentes até recentemente, até o advento da televisão, está no cerne da concepção da obra. O enredo é linear, como uma forma simples – segundo nos foi apresentada por André Jolles em seu famoso livro As formas simples. Isso não vem em demérito do livro, mas sim como característica de seu enredo: inicialmente nos é apresentado um problema. Haverá um anjo ou Deus que possa intervir diretamente no desfecho da vida humana? Em seguida este mesmo tema ou hipótese é perseguido página a página, até o final, sem intervenção de outros fatores a não ser a atuação das personagens da cidadezinha onde se dá a trama. Já um romance teria de introduzir diferentes núcleos e intrigas, peripécias, clímax, novos temas e lugares, incursões até mesmo no passado, através da memória, possivelmente maior impregnação do imaginário, até chegar a um desfecho por vezes desconectado com as páginas iniciais. O romance corresponde, até certo ponto, ao que chamamos de novela, nos seriados de televisão: um encadeado de novellas, como a de Boccaccio, interligadas pelas personagens em comum. Tanto é assim que a forma do romance não está incluída no livro clássico de Jolles, já que o romance é uma forma complexa. Desse modo, eu chamaria Florência diante de Deus de novela, não a da televisão, mas uma novella enquanto forma oriunda do período medieval-renascentista, em que um jongleur, jogral ou menestrel relata histórias extraordinárias nos castelos ou nas feiras populares. Exatamente o que foi transplantado para o Nordeste do Brasil, entre cantadores e contadores de histórias, e que está na raiz da composição que Eliezer Moreira empregou aqui. Ao mesmo tempo, a história de Florência tem tudo a ver com a fábula, tão próxima da literatura oral, uma das principais formas simples estudadas por Jolles.
Oriundo de Cocos, na Bahia, não é à toa que Eliezer mostra sua admiração por Jorge Amado logo na epígrafe: “A Jorge Amado, grande e sempre vivo”, e que no posfácio Jair Ferreira dos Santos mencione A morte e a morte de Quincas Berro d’Água como fonte ou inspiração para a escrita deste livro. A tradição oral está presente em Jorge Amado, dadas as suas vivências desde a infância numa cultura oral tão forte quanto a que existe na Bahia, pois nasceu numa fazenda em Ferradas, distrito de Itabuna. É preciso notar que o enredo de Quincas (1959), também uma novela, se dá inteiramente post-mortem, como no caso do genial romance de Machado de Assis Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). Já em Florência o enredo é prévio à morte, e nada sabemos sobre o seu desenlace no além.
Roteirista e especialista em cinema – trabalha atualmente na Unitevê, canal universitário da Universidade Federal Fluminense – Eliezer não se mostrou isento da técnica oral, performativa e teatral do in media res que constitui a base do gênero dramático, apresentando sua história no presente do indicativo, cena a cena. Nada mais condizente com a tradição literária oriunda dessa literatura popular nordestina. Impossível criar histórias ligadas ao passado se a memória oral não pode acumular tantos fatos quanto o texto escrito possibilita; e daí a ênfase no dramático e na representação do atual, do presencial e do fato presente.
Eliezer Moreira não está sozinho nesta rica tradição oriunda da literatura oral brasileira, que data pelo menos da tradição sertaneja do Romantismo, com José de Alencar, Bernardo de Guimarães, Simões Lopes Neto e, no romance de 1930, com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, e, posteriormente, Jorge Amado e até mesmo, em alguns aspectos, João Guimarães Rosa.  Tradição reforçada pelas obras de Câmara Cascudo e Mário de Andrade e que se tornou um pouco abandonada nos nossos tempos urbanos e pós-modernos, em que o interior agrícola do país foi abandonado e a população se acumula em aglomerados citadinos e megalópoles centopeicas, com forte reflexo na literatura, onde já não entram cavalos e carroças, mas sim automóveis, motocicletas e aviões. A novela dialoga mais com o público mais velho e menos ligado às maquininhas da vida urbana, tais como o celular e o computador, como bem lembra o posfaciador, que fala em arcaísmos e eruditismos do texto, isso porque o interior do Nordeste – como também o de Minas Gerais, Goiás e dos dois Matos Grossos – guarda ainda algumas estruturas frasais e modos de dizer de antanho.
Enfim, todo esse comentário permite igualmente traçar uma correspondência com Gabriel García Márquez e sua literatura do realismo mágico, como bem lembrou Jair Ferreira dos Santos. A obra se liga, assim, à tradição latino-americana, não na linha de Miguel Angel Asturias, Alejo Carpentier e Nélida Piñon, que elaboraram extremamente sua linguagem, ou como Guimarães Rosa, mas na forma essencialmente típica de García Márquez que sempre foi fiel às histórias que ouvia contarem na infância ao longo de toda a carreira, mantendo-as na sua autêntica linearidade, como um verdadeiro contador de histórias.
Parabéns a Eliezer, por este segundo livro, que continua o sucesso de A Pasmaceira (Rio de Janeiro, Record, 1990), ganhador do prêmio Graciliano Ramos, da União Brasileira de Escritores.





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Resenha: Reflexos & reflexões: Marco Alexandre de Oliveira (Gringo Carioca) – Luiza Lobo




reflexaoRESENHA
Reflexos & reflexões, Gringo Carioca (pseud. de Marco Alexandre de Oliveira), Rio de Janeiro, Oito e meio, 2014. 87 p. ISBN 978-85-63883-60-5.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
É inegável a impregnação concretista, neste Reflexos & reflexões (2014), de Marco Alexandre de Oliveira, que o publica com o pseudônimo de Gringo Carioca, e nem poderia deixar de ser. Em seus trabalhos em congressos e na própria tese de Doutorado estudou bastante a poesia de base concretista, em suas idas e vindas entre os Estados Unidos e o Brasil. Brasileiro, mas educado nos Estados Unidos, há alguns anos decidiu aventurar-se e fixar-se aqui, o que lhe rendeu a confortável posição de bilíngue.
O livro de poesia, se não me engano o seu primeiro, surpreende pela maturidade do autor – embora tal surpresa não devesse ocorrer, dada a quantidade de estudos que este aluno de “honours” nos EUA já realizou. Chegando ao Brasil, logo desbravou os espaços do ensino, saltando do IBEU para a PUC, como quem vai e volta até a esquina.
O livro se abre muito inventivo, trazendo definições dicionários de reflexo e de reflexão, seguindo o modelo modernista de Eliot, no Waste Land, que nos preparou boas armadilhas em forma de boutade com supostas fontes utilizadas no seu The Waste Land. Mas aqui Marco segue à risca a ideia de reflexo, em que a verossimilhança entre objeto e imagem é estilhaçada, o que nos leva à reflexão.
Passado o susto inicial, deparamos com um índice – realmente índice, indício de palavras-guias, e não sumário, a rigor – de três páginas, que são um primor de súmula do pós-moderno. A maior parte dos títulos tem uma ou duas palavras, por vezes artigo e substantivo. Já este “índice” indica a linha concretista paródica e crítica escolhida pelo jovem autor: um corte seguro nas palavras e na realidade cotidiana levando a metáfora a tal extremo que esvazia a poesia de todo substrato sentimentalóide que em geral permeia a poesia contemporânea. Menos Drummond, nos seus momentos mais piegas, e mais Cabral, Augusto e Haroldo de Campos, ou Décio Pignatari nas suas fases mais cortantes.
Este corte no senso comum fica evidente em títulos como “sem zen”, “senso (in)comum”, “só lido”, “zazen” etc. Para completar o espírito de criatividade, o rapaz ainda faz uma intertextualidade com os dois sumários de Guimarães Rosa em Tutameia, que apresenta diversos jogo com as letras do alfabeto, seja nos sumários, seja no nome das personagens. Assim, os poemas vão de a a z, e todos os títulos vêm em minúsculas.
O famosíssimo Poema de sete faces, de Alguma poesia (1929), de Drummond, Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida, tão parodiado, inclusive na conhecida versão de Torquato Neto, ganha aqui uma inventiva releitura carioca, intitulada “poema de 7 caras”, que começa: “Quando nasci, um anjo malandro / desses que vivem na Lapa / disse: Vai, gringo! ser carioca na vida.”  Engenhoso também na sua penúltima estrofe, quando apresenta este auto-retrato: “Mundo mundo vagabundo / se fosse profundo / seria até bacana, não seria esse lixão. / Mundo mundo vagabundo / mais vago que nem palavrão. // Eu devo acrescentar / que esse sol / que esse sotaque / deixam a língua enrolada como outra” (2014, p. 57).
Mas há outras páginas menos paródicas com relação à poesia lírica modernista, mesmo que ainda tenham um travo do “para que tantas pernas, meu Deus?” da última estrofe do Poema de sete faces: “Eu não devia te dizer / mas essa lua /
mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo” e que mergulham mais profundamente no concretismo, como o “para poesia pura”: para que poesia, / poesia para quê? // para poesia, / “poesia para” // poesia que para, / para que poesia // para poesia, / “poesia pura” (2014, p. 52).
Já noutros momentos a opção concretista é um fato – mas que não perde o sentido de mensagem, o que às vezes desaparecia no excessivo afã visual, na poesia concretista. É o caso do poema “perguntas”, título que aparece no índice, mas que na pág. 55 tem apenas ao alto sete pontos de interrogação; o poema se compõe exclusivamente de pontos de interrogação formando um enorme ponto idem. O recurso da interrogação tem uma variante cujo título, no índice, é “charadas”, mas que na pág. 31 surge apenas como vários pontos de interrogação em negrito sugerindo diversas perguntas, enigmas ou charadas.
“Tão alone” (2014, p. 79) é um poema bilíngue que diz tudo com muito pouco: “tão alone / So só”, no qual duas palavras são em português, tão e só, e duas em inglês, alone e so – que por acaso também significa tão, o que reduz a estrutura desse poema a dois versos redundantes, misturando línguas. “Zazen” (2014, p. 85), o último poema da mostra, joga com as letras z e a palavra zazen na forma de uma pessoa meditando e faz jus ao título do livro, reflexos & reflexões.
O espelhamento de sílabas, ecos, indagações, palavras, na sua unidade mínima, nos despertam, neste livro, para o vazio do sentido da maior parte de nossas ações diárias, e nos remete para a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida. Isso talvez responda ao verso do poema “para poesia pura” (2014, p. 52) “poesia para quê”. É o próprio poeta que nos responde, no poema visual “por q” (2014, p. 61): ainda uma interrogação dentro de um ovo contém a palavra “quê”, que nada mais é senão um óvulo. Aí está tudo que é um nada. Palavra precisa e certa. Excelente livro.
 
 
 
 
 





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Resenha: El cuaderno granate: Maryse Renaud – Luiza Lobo




cadernoEL CUADERNO GRANATE, Maryse Renaud. Buenos Aires, Corregidor, 2009. 144 p. ISBN 978-950-05-1857-4.
Luiza Lobo
Rio, março 2015
Maryse Renaud resolveu escrever este seu primeiro romance, El cuaderno granate (2009), numa das línguas que domina perfeitamente, o espanhol, sua língua natal, pois é natural da ilha de Martinica, como um desafio, pois sempre morou na França. Foi professora titular de língua e literatura espanhola na Universidade de Poitiers. Trata-se, assim, de uma primeira experiência na área criativa da ficção, como uma viagem sentimental pela língua e a memória da infância, havendo várias referências, no livro, à “ilha”.
De qualquer forma, a epígrafe é retirada de Balzac: “No existe, o mejor dicho, raras veces existe, criminal que seja totalmente criminal”.
Nos primeiros capítulos nos familiarizamos com a protagonista, Clarysse, e o olhar do narrador mergulha no seu interior e acompanha os seus gestos pela casa. À página 21, capítulo 3, somos apresentados ao nó do enredo: Clarysse se sente alijada do núcleo familiar, imaginando que seu marido, Edgar, que é médico, e seu filho, Miguel, advogado de 39 anos, viveram em “mundos paralelos” ao seu e apartados dela. Pior: o pai teria inculcado no filho reserva e aversão à mãe. Ela, pintora, sente que vivera encerrada num mundo estético cheio de Leonardos da Vinci, telas e tintas, e sem tempo para alterar essa situação ou capacidade para despertar mais interesse da parte dos outros dois. Quando a obra se inicia, ela enfim se dá conta de quanto o afastamento é profundo, e conclui que é tarde demais para repará-lo.
A relação cúmplice (“criminosa”?) entre pai e filho é engenhosamente trabalhada através de uma grande metáfora que se estende por diversos capítulos: a batalha de Aníbal, nas segundas guerras púnicas, quando o cartaginês resolveu avançar pelos Alpes com seus elefantes, tentando derrubar Roma. Ao mesmo tempo, Aníbal sempre fora excessivamente temeroso e cegamente obediente à figura paterna e patriarcal de Amílcar, seu pai. Clarysse transforma, assim, o seu sentimento individual de alijamento familiar num grande sentimento do mundo contra o patriarcalismo e o autoritarismo presentes nas famílias em geral, e mostra que mesmo entre guerreiros há lugar para o sentimento de covardia e submissão do filho em relação ao pai autoritário.
Ao mesmo tempo, desde o início do romance travamos contato com “a Escandalosa”, Emma, sua cunhada, que era meio-irmã de Edgar, “la hija adulterina de su padre, a quien la família Granval había tenido que aceptar a regañadientes” (cap. 4, p. 23).  Na ilha (presume-se que da Martinica), a Escandalosa fora amante por cinco anos de um médico mulato, e ambos correram de norte a sul fazendo propaganda contra os abusos neocoloniais dos grandes terratenentes. Nem sequer se casaram, pensa Clarysse, com despeito. Logo Emma foi expatriada para a França pela família Granval, de grande riqueza e prestígio na ilha, pois esta já não suportava mais os escândalos de seu comportamento pouco convencional.
No capítulo 6, “Revelaciones”, lemos o confronto entre Emma e Clarysse, na casa da primeira, nos “altos de Montmartre”. Clarysse vai visitá-la, e já desconfia de uma relação incestuosa entre Emma e o sobrinho, ou seja, seu filho Miguel. Nesse encontro, Emma lhe conta sobre o mundo secreto do filho, revelando que ele saía frequentemente com ela para visitar cinematecas e exposições, que ficara até mesmo noivo de uma holandesa, e que abandonara a profissão de advogado e se desligara de tudo, pois “Miguel se había hartado de la hipocresía burguesa, del mercantilismo actual que lo corrompia todo, hasta el amor. Aspiraba a algo más que a um vulgar erotismo de pacotilla. Se había forjado una filosofia para su uso personal, no pretendia difundirla, ni grabarla en el mármol, pero se la había expuesto más de una vez y dureza era reconocer que no carecia de gracia” (2009, p 29-30).  Ao perceber que a tia e seu filho são amantes, desmaia. Neste encontro, Emma lhe passa o caderno grená, que é um diário confessional do filho, que partira para o México, deixando este encargo a Emma.
Este o núcleo do conflito do livro El cuaderno granate. Um drama de família que não se esgota no familiar, mas se estende à questão das convenções sociais e do preconceito racial, dos conflitos metrópole-ex-colônia e do capitalismo e a hipocrisia burguesa em contraste com o desejo de um tipo de vida mais livre e espontâneo.
O romance é bem urdido, utiliza um estilo e um vocabulário refinados. Entre os fiapos do cotidiano o leitor vai percebendo os conflitos das duas personagens femininas, cada uma a seu modo. Emma, mais livre, espontânea, e Clarysse, sensível, pintora, mas ainda apegada à tentativa inútil de salvar um casamento que desde o início se mostrara impossível. A narrativa é sempre construída a partir do olhar feminista de uma narradora externa que penetra no âmago das duas personagens femininas principais, em diversos triângulos conflituosos em relação basicamente a Miguel.
Numa espécie de libertação a três para seguir o próprio destino, o desfecho do livro é romântico e um voto de esperança na coragem para as pessoas seguirem seu próprio caminho. O México, em lugar das Antilhas, sugere o novo, a América, o mundo latino e mais livre das convenções. Nomes, lugares, planos no novo continente apontam para o imaginário que se distancia dos caminhos já traçados no passado francês e europeu.
Maryse Renaud já publicou dois outros romances, La Mano en el canal, também pela Corregidor de Buenos Aires, e este ano de 2015 Junglas, este pela editora Verbum, da Espanha. Pelo visto emprega na ficção a mesma disciplina que demonstrou na sua vida acadêmica. Personalidade vulcânica, instintiva, afirmativa, vai abrindo caminhos pela selva das letras, pois para ela não há obstáculos.





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Resenha: "Os anos da juventude (um romance): Francisco Venceslau dos Santos – Luiza Lobo




osanosdajuventudeRESENHA
Francisco Venceslau dos Santos, Os anos da juventude (um romance). Rio de Janeiro, Caetés, 2014. 150 p. ISBN 978-85-86478-88-8.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
Francisco Venceslau, professor de Teoria Literária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nascido em Francisco Santos, Piauí – cidade que tem quiçá nome de um antepassado seu – e emigrado na capital do seu estado e, desde 1963, no Rio de Janeiro – lançou-se, neste romance Os anos de juventude (2014), à difícil tarefa que é transformar em ficção o que é lembrança, memória, sentimento difuso, vida. A carpintaria exigida para esta metamorfose passa pela transformação de fragmentos, trapos, escórias, lembranças difusas, em matéria nobre, clara, inteligível, escorreita, e a transformação de imagens vagas, fotografias apagadas, em fotogramas gráficos, vivos e presentes. O método empregado por Venceslau foi recuperar a história, mais cultural que cronológica e política, no seu caso, através da descrição minuciosa da geografia das ruas, casas, praças, bares e lugares da cidade, não só pela pesquisa na Internet, que contém mapas, roteiros, informações das mais diversas, como pelo recurso à memória pessoal ligada à cultura dos anos 1960. Contudo, ele não se limitou a essas fontes, pois baseou-as num enredo, o que é fundamental para a criação da narrativa ficcional, e nele inseriu Augusto, o protagonista e seu alter-ego, que vive momentos de luta cotidiana ao lado de Linda, Janice, o poeta Caetano, entre outros amigos daquele tempo memorialístico.
No reino das recordações, a mais forte é a presença da música da década de 1960: “Ele voltou-se para os neons coloridos do bar (…) pediu uma Coca-Cola. Tocava Please, Please, dos Beatles” (2014, p. 78). Ou: “‘oi, Augusto, vamos dar as boas-vindas às ondas curtas que estão chegando’, e todos fizeram um círculo entre as prateleiras de discos e cantaram When I got Troubles (1959), de Bob Dylan” (2014, p. 16). Venceslau exagera aqui ao dar a data da música de Bob Dylan – e não o faz em relação à dos Beatles ou outras. Mas pontua o texto com detalhes de época, como beber uma Coca-Cola e as tais “ondas curtas” que devem se referir ao rádio – mas não sei como interferiram na vida dessas personagens que ouvem Bob Dylan.
Outra forte referência no texto é o cinema. Enquanto Linda, nessa mesma página 16, aparece “com o seu vestido rosa solto no corpo de vizinha da rua Simplício Mendes”, “Ali perto, na rua Barroso, aproximava-se, como uma atriz de nouvelle vague, a prima Silvana, olhos vivos, o vestido de organdi (…)” (2014, p. 16). Na página seguinte toca Celly Campello cantando “Tomo banho de lua” e um jingle anuncia as qualidades do Leite de Rosas (2014, p. 17).
Por vezes Francisco Venceslau exagera na descrição de detalhes sobre elementos que caracterizam a época, o cenário ou os acidentes geográficos, como por exemplo na pergunta da jovem Raquel, que enfatiza essa tendência: “‘Por que não ir tomar banho no rio Parnaíba?’” (2014, p. 10). Ora, o nome do rio deveria ser informado pelo narrador externo, uma vez que a pergunta assim elaborada pela personagem se torna muito artificial. Enfim, quantos rios passam por Teresina? O rádio que abre o romance é marca Sharp (2014, p. 9) – e assim por diante. Contudo, em contraste com a menção de praças, ruas, bibliotecas, colégio, não nos é informado o nome da cidade onde se encontram todos os logradouros: “Acertou com Joachim um encontro na varanda do café O Sol, na movimentada esquina da rua Paissandu com a praça Pedro II” (2014, p. 18). O leitor (brasileiro) imagina que se refira à capital, Teresina, mas isso só lhe é confirmado no início da parte II: “‘Alô, é o Augusto, acabei de chegar de Teresina, queria saber se posso dar um pulo aí’” (cap. 1, 2014, p. 47).
Minucioso ao extremo na referência e descrição das casas onde habitou, na localização das livrarias, pontos de encontro, ruas e bibliotecas, no entanto essa cuidadosa enumeração de pormenores e minúcias, típicas da preocupação didática do professor de literatura, muitas vezes quebra o encanto da memória, que transparece no esmerado manuseio da linguagem literária, como nesta passagem:
 
“De repente ele não teve dificuldade de acreditar que na década de 1960, no Brasil, havia pessoas que amavam outras pessoas, mas se aproximava a hora como num filme deslembrado. Desde o início, ele pressentiu o inesperado na montagem daquela cena, em 1964; uma tesoura invisível cortara a película, deixando-a esquecida na estante de uma cinemateca qualquer, e o desejo do eterno retorno do reencontro com o amor” (2014, p. 79).
 
São muitas as referências a obras literárias e políticas importantes, de autores como Blake, Donne, Allen Ginsberg, Drummond, Marx, Alencar, Eça, Lispector, ao lado de cantores de música popular da época e figuras importantes do cinema, entre atores e diretores: Fellini, Antonioni, Rita Hayward, James Dean, Nathalie Wood, Casablanca etc.
A Parte II se inicia na página 47, também por referências indiretas ao cenário da cidade do Rio de Janeiro: “No Flamengo, usou o telefone da União Nacional dos Estudantes, ligou para Janice, a garota que residia na praia de Botafogo” (Parte II, cap. 1, 2014, p. 47).
A memória urbana nem sempre é fácil de recuperar, como no trecho em que a personagem de Augusto, alter-ego do autor, “deu um salto de cabrito montês, na avenida Rio Branco, em frente ao palácio Monroe e ao obelisco” (2014, p. 49). Creio que os bondes entravam pela praça Mahatma Ghandi. Contornando o Passeio Público, e portanto um tanto distante do palácio Monroe e o obelisco, que lhe ficava em frente – demolido, hoje existe um grande chafariz, ali. Também passavam pela rua Santa Luzia, cortando do Passeio Público rumo à avenida Nilo Peçanha, mas não me consta que passassem pela praia diante da avenida Rio Branco, em frente ao obelisco e ao antigo palácio Monroe:
 
“O trajeto inicial foi da curva do antigo Teatro Lírico [no largo da Carioca], subindo a rampa da rua Senador Dantas, rua do Passeio, cais da Lapa, Russell e Flamengo e, entravam nas oficinas da Companhia na rua Dois de Dezembro”
(http://diariodorio.com/bondes-no-rio-de-janeiro-antigamente, acesso em 18 mar 2015).
 
Creio que nunca houve trilho de bonde na avenida Rio Branco, uma vez que ele vinha pela Glória, onde perto batia o mar, antes da criação do Aterro do Flamengo, entrava pelo Passeio Público, seguia pela calçada do cinema Odeon e quem sabe pela rua Senador Dantas para chegar à estação no Tabuleiro da Baiana, grande estação terminal, bem no centro do largo da Carioca, como explicita a citação acima. Na Avenida Rio Branco, via de luxo e grandes prédios da Paris tropical que foram postos abaixo, corriam os carros elegantes, lotações e ônibus, e até a década de 1950 existiam os canteiros centrais.
É certo, conforme lemos na página da Internet indicada acima, que os bondes existiram no Rio até setembro de 1962 e 21 de maio de 1963, com exceção de algumas linhas que duraram até 1965, 1966 e 1967, trafegando até o Alto da Boa Vista e Cascadura, sendo que a linha de Santa Teresa resistiu até 27 de agosto de 2011. O livro de Francisco Venceslau refere-se ao “fim de 1963”, algumas páginas pouco adiante (p. 56), o que está correto. Também a imagem de Augusto pulando do bonde e deixando de pagar a passagem refere-se a fato comum na época – e bastante revoltante para as mulheres, que não andavam nos estribos e não saltavam dos bondes, às vezes em movimento – sendo que o próprio trocador registrava muito menos passagens do que o dinheiro que efetivamente arrecadava nas viagens. (Roubar parece um hábito profundamente arraigado na sociedade brasileira, talvez porque aqui o capitalismo ainda seja uma forma política incipiente, “para inglês ver”).
Francisco cria uma elegia da cidade, que foi capital até 1960. Prende-se à vida e ao trabalho do herói, Augusto, cuja voz não se mistura ao do narrador externo da obra:
 
“Contornaram a orla do mar, chegaram a Copacabana, no posto seis, desceram quase em frente ao Forte, atravessaram a pista; sentaram em torno de uma mesa, na calçada, ao lado da saída da galeria Alaska, depois seguiriam para o Michel. (…)” (2014, p. 74).
 
 
Por vezes o narrador se torna interno, para melhor se voltar ao dia a dia das personagens, ao prazer, à sensualidade, música, trabalho, passeios e, sempre, descrever a maneira de vestir-se, em geral das mulheres:
 
“Agora é fevereiro, sente o cheiro de 68, nos bares, nas ruas, nas salas de aula, e ainda não é março, quando 68 chega realmente ao Brasil. Neste instante sagrado, veste uma calça Lee e uma camisa vermelha, e Linda, uma blusa branca, uma saia plissada azul-claro, andam sob o sopro do vento que vem do mar com suas ondas de sonho.
Na cantina do Ministério da Fazenda (até o AI-5 era território do subterrâneo insurgente), aqui a conversa gira em torno da estreia de Roda viva, Linda conta para todos: ‘Em Paris, os jovens querem ter o direito de livre circulação de moças e rapazes, nas residências estudantis’” (2014, Parte II, cap. 19, p. 121).
 
À ditadura, não faz muitas referências, senão vagas, como no trecho acima, a Marighela (não Maringhela, p. 105). Nos capítulos finais do livro, que se passa na Paris de maio de 1968, voltam as cenas da época da ditadura, no Rio: a morte do estudante Edson Luís, no Calabouço, restaurante estudantil localizado no final do Aterro do Flamengo, próximo à Faculdade de Filosofia, e de Carnaval. Continua a vida de sonhos relativos ao cinema e ao trabalho com editoras de Augusto; mas a ação interrompe-se abruptamente, entre a promessa de um road movie sobre uma viagem ao deserto da América – imagino que seja o de Atacama, no norte do Chile e parte da Argentina. O script é deixado em aberto, como a Obra aberta de Umberto Eco, que é de 1962, e bem ao gosto da década de 1960. O romance termina em suspense ou em suspenso, sem se encerrar o difícil salto entre a pesquisa histórica e a criação de uma história ficcional.
Creio que todos apreciarão esse voo pelo passado.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

RAMI: A MULHER, A REALIDADE E A TRAJETÓRIA NA NARRATIVA DE PAULINA CHIZIANE – Denise Maria Soares Lima




 Denise Maria Soares Lima

Universidade Católica de Brasília

 
 
Resumo: Este artigo propõe uma reflexão acerca da representação da mulher moçambicana na obra Niketche: Uma história de poligamia, de Paulina Chiziane.  A análise centra-se na resistência feminina que emerge nos discursos da protagonista Rami, cujas estratégias de luta diante dos infortúnios, adversidades e violências inauditas são construídas e reconstruídas ao longo da ficção, que elege a poligamia para discutir as condições sociopolíticas da mulher africana em diferentes territórios.
 
Palavras-chaves: Paulina Chiziane, Rami, mulher moçambicana, poligamia
 
Abstract: This article proposes a reflection about the representation of Mozambican women in the work Niketche: A History of Polygamy, by Paulina Chiziane. The analysis focuses on the feminine resistance that emerges in Rami’s discourses, the protagonist whose fighting strategies in the face of misfortunes, adversities and unprecedented violence are constructed and reconstructed throughout her fiction, which elects polygamy to discuss the sociopolitical condition of African women in different territories.
 
Keywords: Paulina Chiziane, Rami, Mozambican Women, Polygamy
Minicurrículo: Denise Maria Soares Lima é escritora de contos, poesia e artigos científicos, desde 2010. Publicou nas edições 34, 35 e 37 dos Cadernos Negros (São Paulo) e em revistas científicas nacionais e internacionais, como por exemplo Dialogia e Eccos (SP, Universidade Nove de Julho), Teias (eletrônica, UERJ, Pós-graduação em Educação, ProPed), Interacções (Campo Grande, MS, Univ. Católica Dom Bosco), IberoAmericana de Educación (Madri, Org. de Estados Iberoamericanos), Educere (Mérida, Venezuela), entre outras. Doutoranda e Mestra em Educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB), é bolsista CAPES e membro integrante voluntário da Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade. Tem experiência na área de educação, atuando principalmente nos temas da Educação para as Relações étnico-raciais, Lei Federal n. 10.639/2003, Educação de Jovens e Adultos, educação antirracista e Educação a distância.
 


 
RAMI: A MULHER, A REALIDADE E A TRAJETÓRIA NA NARRATIVA DE PAULINA CHIZIANE
 
 
Denise Maria Soares Lima
 
Universidade Católica de Brasília
 
 
Introdução
 
Paulina Chiziane é moçambicana, nasceu em 1955, em Majacaze, província de Gaza, região sul do país. Primeira escritora em seu país a publicar um romance, nomeado Balada de amor ao vento, em 1990. Em sua bibliografia, destaca-se a obra em estudo Niketche: uma história de poligamia com a qual foi agraciada com o Prêmio José Craveirinha, em 2003, instituído pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).  Em suas obras, Chiziane aborda questões femininas e a cultura moçambicana. Em relação à escrita literária, assim declarou a autora em entrevista:
 
O fato é que sou uma mulher e escrevo sobre temas que me tocam nessa minha condição. O que me incomoda é que, quando é o homem escrevendo, as pessoas não o chamam de machista e nós, mulheres, quando escrevemos, somos chamadas de feministas. É verdade que eu escrevo muito forte sobre o feminino, sobre as questões que interessam de perto às mulheres (DIOGO, 2010, p. 174).
 
Dessa forma, a autora contesta o estigma de feminista, entretanto afirma, na mesma entrevista, que em Niketche sua intenção era colocar mulheres para falarem sobre sexo, além de problematizar os sistemas monogâmico e poligâmico dominantes em Moçambique.
Nascida no período colonial, Chiziane inicia a publicação de suas obras no período pós-independência de Moçambique, que data de 1975. Como outros autores moçambicanos, suas publicações são em língua portuguesa.  Quanto a isso, Lopes (2000) observa que a tradição oral ou acústica, como a designa, marcante em Moçambique, não impediu que a produção literária se desenvolvesse com forte influência da língua do colonizador, no caso, o português.  Essa mescla do tradicional com o novo, da escrita com a oralidade, para o autor, se harmoniza e traz modernidade às literaturas africanas. Chiziane, certamente, contribui para essa fruição, como se observará no presente ensaio.
Quanto à obra, Niketche: Uma história de poligamia, contém quarenta e um capítulos, todos narrados em primeira pessoa. O cenário que permeia todo o romance ocorre no dia-a-dia urbano de Moçambique, contudo o espaço geográfico apresentado não está circunscrito à cidade. De norte a sul, de leste a oeste, a obra percorre todos esses limites e tradições das terras moçambicanas para expor, refletir e compreender suas diferenças culturais, cujos marcos divisórios são pontuados em toda a narrativa. Quanto ao espaço temporal, o parágrafo inaugural anuncia: “Um estrondo ouve-se do lado de lá. Uma bomba. Mina antipessoal. Deve ser a guerra a regressar outra vez” (CHIZIANE, 2004, p. 1), há, neste trecho, indícios de que as ações militares, que sucederam à independência em 1975, ainda é uma ameaça, pois, nesta visão, podem regressar.
Nesses espaços de tensão, o enredo se estrutura em torno da história contada por Rosa Maria, Rami. Esta mulher moçambicana, casada, se desloca à procura das demais mulheres de seu marido, Tony. Essa peregrinação, que inicialmente é uma caça em busca de presas, vai ao longo da história assumindo novos contornos, e as rivais vão adquirindo novos papéis sociais: amigas, sócias, confidentes. Cada mulher, uma realidade, uma trajetória, um território moçambicano a ser examinado e compreendido, onde comportamentos são explorados, principalmente em relação à organização familiar no que diz respeito à ocupação da figura feminina nestes ambientes dando ensejo para discutir as sociedades matriarcal e patriarcal, a poligamia, o lobolo, a tradição e a modernidade. Desse modo, a narrativa íntima e reflexiva de Chiziane é um convite a compreender as relações de gênero em África, quase sempre invisíveis nos estudos ocidentais.
 
Rami: desejos e desígnios
Quem é Rami, a protagonista? A trajetória da narradora-personagem é um conjunto de desejos e desígnios, dos quais ela busca incessantemente questioná-los e projetá-los. Reconstruída a cada sequência, a personagem torna a reflexão sua tônica discursiva: “Derrotada? Não. Nunca combati. Depus as armas antes de as empunhar. Sempre me entreguei nas mãos da vida. Do destino. Nunca mexi um dedo para que as coisas corressem de acordo com os meus desejos. Mas será que algum dia tive desejos?” (p. 18). Segue-se a esse pensamento, em três parágrafos seguintes: “Desperto inspirada. Hoje quero mudar o meu mundo. Hoje quero fazer o que fazem todas as mulheres desta terra” (p. 19).
Esse movimento íntimo que marca a fala da personagem consigo mesma é representado e estabelecido ao longo do romance utilizando o artificio do espelho: “Vou ao espelho descobrir o que há de errado em mim. (…). De quem será esta imagem que me hipnotiza e encanta?” (CHIZIANE, 2004, p. 15). Há, assim, diversas passagens onde o diálogo reflexivo com a imagem é realizado: “Corro para meu espelho e desabafo.” (p. 48). Contudo, não se trata apenas de um monólogo, neste embate Rami projeta-se, declina-se, ergue-se. Segundo Palo (2008, p. 30), em Niketche: “A imagem é roubada pelo espelho e, no afã de tentar considerar-se o Outro, coloca a experiência espetacular, entre a percepção e a significação, além do verbal. Aqui a voz poética assume a memória e a profecia”. Neste encontro, ao transformar seu irreal em confessor e julgador, Rami dota a imagem de poderes, poderes especiais: a imagem-Rami é testemunha de conflitos, dissabores e desejos, ao mesmo tempo em que desmascara a realidade existente e, por vezes, cria uma Rami existente apenas na imagem.
No entanto, as reflexões de Rami são apenas parte do conjunto da obra; à Rami reflexiva soma-se a Rami que se coloca em ação, que transita da voz passiva para ativa, em busca de respostas acerca de sua posição feminina perante a mulher, o homem, a família, as tradições, a religião, o estado e a cultura e da superação de conflitos vivenciados individuais e coletivos.
 
Rami, suas mulheres e Tony: o hexágono amoroso
Ao discorrer sobre as relações desiguais e conflitivas entre homens e mulheres, Touraine (2011), sugere, hipoteticamente, que se o homem é o mantenedor e beneficiário das desigualdades de gênero, combatendo-o, dar-se-ia um basta à dominação masculina e ponto final. Contudo, acresce que não só essa premissa é falsa como o argumento: hoje, as mulheres têm interesses não apenas centrados em justar posições, mas em “(…) recompor numa totalidade os elementos que por muito tempo foram separados” (CHIZIANE, 2004, p. 82).  Essa construção de consciência feminina coletiva, na obra em estudo, se dá a partir de disputas individuais que permitem às personagens femininas discutirem seus papéis sociais, confrontando-os. Esses confrontos são promovidos pela personagem principal, que de modo inusitado vai ao encontro de suas rivais. Ao fim do quinto capítulo, Rami declara:
 
O coração do meu Tony é uma constelação de cinco pontos. Um pentágono. Eu, Rami, sou a primeira dama, a rainha mãe. Depois, vem a Julieta, a enganada, ocupando o posto de segunda dama. Segue-se a Luísa, a desejada no lugar de terceira dama. A Saly, a apetecida, é a quarta. Finalmente a Mauá Sualé, a amada, a caçulinha, recém-adquirida. O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso (CHIZIANE, 2004, p. 58).
 
Dentre as oposições marcadas na narrativa, destaca-se a cena quando o privado torna-se público. A personagem principal ao se dar conta da existência das demais mulheres na vida de Tony, seu marido, aproxima-se destas e propõe:
 
Cada uma de nós é um ramo solto, uma folha morta, ao sabor do vento – explico. –Somos cinco. Unamo-nos num feixe e formemos uma mão. Cada uma de nós será um dedo, e as grandes linhas da mão a vida, o coração, a sorte, o destino e o amor. Não estaremos tão desprotegidas e poderemos segurar o leme da vida e traçar o destino (CHIZIANE, 2004, p. 82).
 
A partir de então, uma nova família legalizada é reformulada, neste novo perfil familiar, as mulheres Julieta, Luísa, Saly e Mauá Sualé são incluídas, assim como seus filhos. Há um “ciclo de lobolos” para esse ajuste social, contudo, essa família é reconstruída em torno de Rami e suas mulheres – como provoca o subtítulo acima – pois é ela que expõe publicamente o que era privado: “– É verdade que reuniste todas as mulheres, à vista de toda a gente? – Sim. – Graças a Deus! Não foi só a tua vontade, minha vontade, Rami. Os antepassados guiaram os teus passos para a reunião da grande família, no grande dia. És uma grande mulher” (CHIZIANE, 2004, p. 114).
Desse modo, desde os primeiros capítulos, Rami toma ciência da existência das demais mulheres e das posições que cada uma ocupa. O lar polígamo é, então, o pretexto para discutir diferenças culturais, sejam de gênero, de origem ou de religião. A poligamia é censurada, defendida e combatida: “As culturas são fronteiras invisíveis construindo a fortaleza do mundo. Em algumas regiões do norte de Moçambique, o amor é feito de partilhas. Partilha-se mulher com o amigo, com o visitante nobre, com o irmão de circuncisão” (CHIZIANE, 2004: 39). “Nunca ninguém me disse a origem da poligamia. Por que é que a igreja proibiu estas práticas tão vitais para a harmonia de um lar? Por que é que os políticos da geração da liberdade levantaram o punho e disseram abaixo os ritos de iniciação? É algum crime ter uma escola de amor? (…). O colonizador é cego. Destrói o seu, assimila o alheio, sem enxergar o próprio umbigo” (CHIZIANE, 2004, p. 45).
Nesses fragmentos, a tradição das famílias matriarcais, ao norte, se opõe ao projeto unificador dos políticos da geração da liberdade (Frente de Libertação de Moçambique, FRELIMO), impondo a família monogâmica, na qual o marido é o chefe de família. De acordo com Pinho (2012), nessa nova ordem política, o poder masculino passa a representar a modernidade e o progresso, portanto, condenando quaisquer manifestações de base matrilinear. A voz narrativa pontua essas diferenças: “Conheço um povo sem poligamia: o povo macua. (…). Conheço um povo com tradição poligâmica: o meu, do sul do meu país. Inspirado no papa, nos padres e nos santos, disse não à poligamia (…). Praticam uma poligamia do tipo ilegal, informal, sem cumprir os devidos mandamentos: um dia dizem não aos costumes, sim ao cristianismo e à lei. No momento seguinte, dizem não onde disseram sim, ou sim onde disseram não” (CHIZIANE, 2004, p. 92).
Quanto à organização familiar das terras do norte e do sul, no que diz respeito à representação feminina, há nítidas diferenças na narrativa: “Na minha aldeia, o amor é solenemente partilhado em comunhão como uma hóstia” (CHIZIANE, 2004, p. 82).  “Muito me espanta esta cultura do sul! – conclui Mauá. – Para nós, o amor e o prazer são muito importantes. Quando um desses elementos falha, mudamos de parceiro. Para que sofrer?” (p. 174). “No sul as mulheres são exiladas no seu próprio mundo, condenadas a morrer sem saber o que é amor e vida” (p. 175). Esses contrastes são evidenciados em relação à sexualidade: “– Eu tenho magia no corpo inteiro (…) comecei a ter lições de amor a partir dos oito anos” (p. 177). “És virgem, apesar dos teus cinco filhos. (…). – O que me aconselhas? – Faz um alongamento genital, que é bom. Esta prática, que muitos condenam sem conhecer, traz mais soluções que problemas” (p. 180).  Tais práticas de sedução com fins eróticos e estéticos não foram incorporadas ao projeto modernizante da FRELIMO, conforme observa Pinho (2012, p. 972):
 
Ao arrepio da pregação cristã e da moral revolucionária da Frelimo, demonizava-se a sexualidade da mulher e via-se, por exemplo, nas prostitutas, especialistas da ars erótica, a imagem incorporada da devassidão e degradação moral do colonialismo.
 
Touraine (2011, p.130) afirma que “A sexualidade é inteiramente desejo, relação com o outro e construção de si. Ela cria uma identidade e, principalmente, uma vontade de construir a unidade sempre ameaçada entre o erotismo e a fecundidade”, em Niketche sexualidade é uma experiência integrada: aproxima o feminino, cria uma identidade coletiva em torno do sujeito masculino, busca o conhecimento de si e do outro, e, particularmente para Rami é a superação de conflitos entre a moral instituída e o desejo. É a possibilidade de correr riscos, de vivenciar o hexágono amoroso.
 
Rami e Vuyazi: princesas insubmissas
No conjunto da obra, como já exposto, há contextos antagônicos que expõem tanto a fragilidade como a força determinantes na construção das relações individuais e sociais. Essas manifestações, geralmente estereotipadas em masculino=força e feminino=fragilidade, assumem orientações que subvertem o instituído, dois desses momentos na obra ocorrem nas narrativas míticas de Vuyazi e Niketche. O primeiro é apresentado em um contexto em que o marido, Tony, queixa-se aos familiares mais velhos (conselho de família) da má conduta de suas mulheres. Na sequência, uma anciã inicia: “Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza mas tinha o coração de pobreza. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a natureza” (CHIZIANE, 2004, p. 157). Então, discorre sobre Vuyazi, que foi castigada por desobediência aos costumes e descumprimento de obrigações impostas às mulheres. E finaliza:
 
É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua. É a Vuyazi, estátua de sal, petrificada no alto dos céus, num inferno de gelo. É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez por mês, apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi (CHIZIANE, 2004, p. 157).
 
O segundo momento ocorre quando conversam acerca da fragilidade flagrante de Tony: “– Podemos usar nossa nudez para assustá-lo, torturá-lo, arrepiá-lo até a medula e à medida da sua maldade” (CHIZIANE, 2004, p. 160). Nesse instante, uma das mulheres, Mauá, envolve as demais de curiosidade, ao falar sobre Niketche: “– Uma dança do amor, que as raparigas recém-iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Estamos prontas para vida” (CHIZIANE, 2004, p.160). Assim, enquanto a liberdade da insubmissa Vuyazi se deu pela opressão, Niketche é a expressão da liberdade no combate à opressão pela arte; em ambos os casos, força e fragilidade são atitudes de resistência, que compõem o coletivo feminino na narrativa. Atitudes essas que estão presentes na personagem Rami, que diante dos infortúnios cria mecanismos de luta, que mesclam tolerância, vingança e aquiescência. Diante desses comportamentos discrepantes e, muitas vezes, inusitados, tal qual a princesa Vuyazi, que coloniza a lua (CHIZIANE, 2004, p. 293), Rami, a insubmissa tem uma trajetória singular: decide a própria existência, na qual “escreve e ler as linhas nosso destino (…). Com as nossas impurezas menstruais, adubaremos o solo, onde germinará o arco-íris de perfume e flor” (CHIZIANE, 2004, p. 294).
 
Conclusão
A obra Niketche: Uma história de poligamia retrata a experiência humana, diante do inesperado. A personagem Rami descobre-se traída. A partir desse evento, vai lidar com seu destino de modo inusitado. Rami poderia se adaptar ao fato de ser mais uma mulher do seu marido e seguir a tradição? Sim, contudo, a protagonista, assente a poligamia para questioná-la (eis o paradoxo da obra!). Assim, provoca uma mudança de comportamento em todas as personagens, mobilizando-as, principalmente o elenco feminino, que passa a se dar conta de sua capacidade de empoderamento – superando a dependência socioeconômica e buscando a emancipação individual. Desse modo, a narrativa articulada de Pauline Chiziane marca a presença dos sujeitos (femininos), dos lugares de onde vêm (África), e do tempo em que se encontram (colonialismo/pós-colonialismo) sob múltiplos enfoques.
 
Referências
CHIZIANE, P. (2004). Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras.
DIOGO, R. E. G. (2010). “Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino”, Scripta, Belo Horizonte, 14 (27), p. 173-182.
LOPES, J. de S. M. (2010). “Cultura acústica e cultura letrada: o sinuoso percurso da literatura em Moçambique”, Afroletras: revista de artes, letras e ideias, (5), p. 38-44.
PALO J. P. (2008). “Confluências discursivas no romance Niketche de Paulina Chiziane: faces e vozes na reeducação de uma escritura denunciada”, XI Congresso Internacional da ABRALIC, São Paulo.
PINHO, O. (2012). “Descolonizando o feminismo em Moçambique”, Estudos Feministas, (20) 3, p. 955-972, 2012. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2012000300026&lng=pt&nrm=iso&tlng=en>. Acesso em: 30 set. 2014.
TOURAINE, A. (2011). O mundo das mulheres. Petrópolis (RJ): Vozes.





Bio fornecida pelo palestrante.

ENCAIXAR A MEMÓRIA: O CONHECIMENTO SITUADO DA REPÚBLICA DOS SONHOS – María Antonia Miranda González




María Antonia Miranda González

Orientadora: Nancy Rita Ferreira Vieira

 
 
Resumo: O objetivo do artigo é refletir sobre as potencialidades que a literatura traz para ampliar o significado do conhecimento situado, que abarca o entendimento da objetividade e do subjetivo, como experiência válida para a produção de uma teoria feminista que dialoga com a escrita das mulheres. Está baseado no romance de Nélida Piñon, A República dos Sonhos (1984), e utiliza como os principais referenciais teóricos os aportes de Boaventura de Sousa Santos (2008) e da Donna Haraway (1991).
 
Palavras-chave: objetividade, subjetividade, posicionamentos, memória, política.
 
Minicurrículo: María Antonia Miranda González possui graduação (2004) e mestrado (2009) em Sociologia na Universidade de Havana. É formada no Centro de Formação Literária Onelio Jorge Cardoso (Cuba, 2004). Foi professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Havana em 2004-2007. Pesquisadora do Instituto Cubano de Investigações Culturais – ICIC. Foi colaboradora do Centro Félix Varela e da Revista Digital Cubaliteraria (2008-2011). É uma das autoras do livro intitulado: Convergencias en género, apuntes desde la sociología, lançado em 2011. Atualmente realiza estudos de doutorado no Programa de Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, gênero e feminismo – PPGNEIM – da UFBA.
 
Minicurrículo: Nancy Rita Ferreira Vieira é Doutora em Letras pela UFBA e Professora Adjunto do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da UFBA. É Professora do Membro do Programa de Pós-graduação de Literatura e Cultura – PPGLitC do Instituto de Letras da UFBA e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo – PPGNEIM.
 
 
Encaixar a memória: o conhecimento situado da
República dos Sonhos
 
María Antonia Miranda González
Nancy Rita Ferreira Vieira
 
Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a autoorganização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.
(Boaventura de SOUZA SANTOS).
 
O argumento fundamental é que a ação humana é radicalmente subjetiva.
(Boaventura de SOUZA SANTOS).
 
Começo a escrever desse lugar, na verdade, um entre-lugar que se perde, às vezes, nas leituras sociológicas, nas leituras das ciências humanas e no literário como fonte, e com A República dos sonhos (PIÑON, 1984) aberta em uma página qualquer à minha frente, talvez pedindo para ser julgada como arte, ou será que todos esses fantasmas que pulam dentro dela concordam com meu ato de trazer essa leitura que se anima a declarar que: “os objetos têm fronteiras cada vez menos definidas; são constituídos por anéis que se entrecruzam em teias complexas com os dos restantes objetos, a tal ponto que os objetos em si são menos reais que as relações entre eles”1 (SOUZA SANTOS, 2008, p. 56).
Começo a escrever desse lugar e trago essa ideia de Boaventura de Souza Santos (2008) porque já me resulta difícil avançar por um texto sem a admiração que me provocam certas interdependências, inclusive apagamentos de limites, como aqueles que são manejados por Piñon (1984), quando escreve sobre a conformação de um Brasil a partir do alimento dos mitos que lhe chegaram de fora, através da travessia pelo Atlântico. Os mitos de Sobreira, contados pelo Xan, os de Dom Miguel passados para a filha Eulália, ou aqueles recortados pelos sonhos de Venâncio, formando uma mistura compacta que acabaria “nas mãos” da personagem que mais me fascina, a Breta2.
Essa travessia inconclusa simbolicamente conforma uma “república dos sonhos”. Esta ainda pode ser sonhada por todos/as os que, de alguma forma, se preocupam com os roteiros da América. Há aí vários aspectos enriquecedores para o entendimento da polêmica da objetividade que preocupa as feministas e os estudos sobre o feminismo. Isto porque, sobretudo, segundo Breta, “Falar é também um método de luta” (PIÑON, 1984, p. 264).
E, como acredito que a teoria feminista, em sua perspectiva acerca da objetividade do seu conhecimento3, poderia dialogar de forma fecunda com fontes como a escrita das mulheres, para ampliar o que tem se sedimentado como espécie de conclusão sobre a temática, e que tem a ver, na maioria dos casos, com uma defesa da teoria do lugar e mais recentemente com o debate sobre as posicionalidades4:
 
As análises feministas são inerentemente avaliativas e não podem, portanto, pretender uma simetria que é metodologicamente impossível (porque todo conhecimento e toda análise é sempre situada) e politicamente indesejável (porque é preciso identificar e denunciar as assimetrias de poder associadas ao gênero) (GARCIA, 1999, p. 52 – minha tradução).5
 
 
Assim nos adentramos na ideia de “conhecimento situado”, a partir dos distintos lugares em que se coloca a fala das personagens, como um conceito que faz referência à postura epistemológica, acunhado por Donna Haraway (1991), na sua obra Ciência, cyborgs e mulheres: a reinvenção da natureza, inscrita dentro da epistemologia pós-moderna, que nasce da crítica à epistemologia feminista do “ponto de vista feminista”. Com este conceito, ela se propõe a falar dos objetos de estudo colocando em evidência o lugar desde o qual se parte, insistindo em que todo mundo parte da sua própria subjetividade, assim como do seu contexto cultural (seja ou não consciente disso).
Nesta ordem e participando de uma lógica como a anterior, posso ter dois caminhos à minha frente, ou tentar enquadrar, nesse pressuposto, minha análise dos fantasmas que pulam e dialogam com a Sociologia, ou tentar me desviar, em algum sentido, que atenue o enquadramento, sem renunciar à denúncia do assimétrico, mas permitindo à literatura uma conceitualização aberta e por que não “diferente”? E a diferença radica em tornar líquido, no sentido de fluido como gosta de escrever Bauman (2009)6, os conteúdos que tentam preencher a categoria “do situado”. Por esse motivo, achei válido destacar, para resolver este ponto, o fato de que na República dos sonhos, encontramos a personagem Eulália, que dispõe de caixas para arquivar o passado, num sentido que me remete à ideia de lugar construído ou da criação de um lugar privilegiado para a “subjetividade”.
Nessa posição, “a caixa” confunde sua dimensão física com sua função dentro do relato e passamos a interagir com um objeto volátil que não mostra seu verdadeiro conteúdo, no entanto, se refere constantemente às afetações e implicações que ele tem, impedindo-nos do exercício de imaginá-lo com exatidão. Por isso mesmo, nos oferece essa liberdade criativa que a imagem literária provoca. Por outro lado, é uma liberdade que se compromete, com a tarefa de desenhar, a partir de suas “minúcias”, alguns dos fios soltos para restituir o que, na figura do personagem Venâncio7, se ressalta como utópico. Ao se tratar de recipientes habilitados para guardar um tecido único composto pelos fios que emaranham as experiências dos sujeitos da história da narrativa com os acontecimentos da política formal, cada uma dessas caixas se torna testemunha de fatos que imbricam “realidades” arrancadas à América, ao Brasil e à humanidade dos seres de carne e osso que as alimentaram. A metáfora se explica a partir da violência que esses seres enfrentaram, e a partir do fato da realidade ser uma construção social, coletiva.
Não obstante, começando pelo ato da denúncia, queria primeiro apontar que, a manifestação “subjetiva”8 de “situações-posições” das mulheres recriadas na obra da romancista brasileira, em resumidas palavras, obedece a uma reacomodação paulatina de papéis que se explicam sempre através dos relacionamentos que as personagens mantêm com os/as outros/as: Eulália, Odete, Antônia, Esperança, Breta. O mecanismo que selecionei, por achar pontos nodais e de conflito, passa pelas relações entre Eulália mãe-esposa, encarnando a mulher-anjo, vinda da própria Europa, com valores religiosos e saúde fraca, sempre precisando de cuidados. Da mulher negra Odete, vinda da África, que se constitui como outridade, com a tarefa do serviço e o cuidado, e que passou a vivenciar a experiência unicamente através do corpo e sentimentos da dona branca, desistindo de uma história pessoal, como instrumento. As duas, todavia, igualadas no momento em que, nessa hierarquia doméstica, são circunscritas ao espaço da casa e praticamente ao quarto. Produzem, porém, essas personagens, conhecimento? Ou devemos entendê-las como arquétipos de um conhecimento legitimado que aponta dados sobre a estrutura social dessas mulheres que são confrontadas entre si?
Como falam as caixas de Eulália do despertar à condição imposta desde “fora”, produto de classificações segundo um gênero, uma classe, uma geração? Estamos conscientes das estruturas objetivas dentro das quais vivemos e nos desempenhamos – o questionamento é meu a partir da expressão de Mies (1998, p. 97)? Ou será do modo como escreve Boaventura de Souza Santos (2008, p. 36), que: “os seres humanos modificam o seu comportamento em função do conhecimento que sobre ele se adquire”. A consciência é reconvertida num lugar compartilhado socialmente. E, se esse é um sitio compartilhado, formado e definido pelas relações, representações sociais, normas, tipos ideais, que a atravessam, não estará igualmente esse conhecimento em múltiplos sítios, ressituado constantemente como um fluxo, e como um fluxo, deslocado?
Nesse sentido, uma das primeiras preocupações gira em torno de discutir se a escrita das mulheres, como no caso de Nélida Piñon, trabalha com a promessa de ter algo novo a dizer sobre a construção da subjetividade e consequentemente também alguns detonantes imprevistos na objetividade e nos pontos de partida? Se, em algo concordo, é com a afirmação de que “o novo que essa escrita tem a dizer” começou pelo fato de evidenciar o omitido, o silenciado, fazendo críticas e expondo a violência material9 sobre os corpos das mulheres, pondo à vista os desafetos e as partes abjetas da maternidade, casamento e das instituições como a própria família, montada sobre a égide dos valores e normas patriarcais. Essa escrita em varias ocasiões também se preocupou em deslocar e ressignificar as mulheres.
Penso que não é por acaso que Piñon (1984) começa sua República com uma Eulália moribunda, mas com um plano almejado para esse momento:
 
Eulália começou a morrer na terça-feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. À cabeceira, Madruga presidia os festejos e os hábitos implantados na casa desde sua chegada à América (PIÑON, 1984, p. 7).
 
 
Eulália está morrendo no início da República dos sonhos, mas por que a história dessa América deve começar com uma mulher pronta para morrer? É como se a autora colocasse num nível de fala invisível uma postura que altera as mortes femininas de tantas personagens de autores homens, que de modo geral se apresentam como mortes nos finais, punitivas, de escarmento, as lições finais para as heroínas, essas figuras dissonantes com o meio social. Uma morte, no começo da história, muda a panorâmica exemplaridade que se prepara para as transgressoras. Assim sendo, todas as personagens massacradas estão no leito de Eulália, que se prepara para morrer uma morte tranquila. Não há a intenção do terrível e sim a conquista de uma outra morte: essa que desde o espaço do silêncio fala, para construir paralelamente outros sonhos e intencionar deste modo novos referentes e significantes da política.
Aparece certo jogo, em que a autora doa uma característica pouco usual à personagem, a possibilidade de produção de uma forma de conhecer, de aceder ao conhecimento. O interessante é que de repente isto aparece como um ato liberatório que desmancha as paredes e proporciona um alcance maior para esta personagem angelical. Ela é recolocada como uma arquiteta da memória, e seu desejo é deixar a memória como herança: “Vamos, Eulália, fale de uma vez com quem vai ficar a minha história? E para onde vão seguir os sonhos, que tanto prezas?” (PIÑON, 1984, p. 20).
Fabricar um senso de memória é o ponto de partida do texto, relacionando esse conceito à própria fabricação da história pessoal conectada com a história de um país. E relativiza, ao mesmo tempo, a estabilidade ilusória do termo situar, introduzindo um paradoxo entre a impossibilidade de cristalizar, fixar as experiências e, simultaneamente, lhes outorgar uma materialidade concreta no lugar dos objetos acumulados sob sua perspectiva.
Os filhos, uma filha, e a neta estão prontos para receberem as caixas com seus nomes. São as caixas da mãe (e avó) que veio da Espanha para fazer a América junto com o esposo, Madruga10. Na sua dupla situação, a personagem Eulália não vai falar de si, no entanto, parece que só é dela que fala, no ato de catar as lembranças que fazem sentido para ela, no que seria o material, a partir do qual os outros, os filhos e a filha, conseguiriam dar continuidade ao relato da identidade olhando para o passado, se encontrando com sua história, porém sempre alheia, construída pelo olhar materno:
Eulália dispunha de cinco dessas caixas, todas distintas entre si. Cada qual correspondendo a um filho, e a que só ela tinha acesso. Sem que Madruga jamais se questionasse sobre o que havia dentro. Um material que no futuro permitiria aos filhos contarem suas histórias por meio de fatos ali armazenados11 (PIÑON, 1984, p. 183).
 
Trata-se de histórias que não conformam um espelho com a capacidade de representá-los e sim de provocar se sentirem estranhos ou confrontados por elas (como imagens que se olham umas às outras em forma de réplicas desfiguradas). Há um poder, nesta presença subjetiva que se afirma a si mesma, e sinaliza uma ruptura com os limites impostos à sua condição-posição, já que “Ultimamente Eulália observava Madruga como se lhe pesasse o encargo de partilhar o cotidiano com o marido” (PIÑON, 1984, p. 8). Esta ótica de Eulália coloca as mulheres não só como espectadoras do que acontece ao seu redor, senão como as principais fabricantes da memória12.
Nesse ato de acumulação de objetos pessoais, Eulália queria oferecer aos filhos/as uma oportunidade de materialização do “real”, restituir a legitimidade de vidas que aconteceram no entremeio das identidades nômades. Evidencia o caráter bifurcado e transitório da “identidade” como “entidade” trabalhada durante a penosa jornada de se apegar aos objetos que sinalizem pertença ao entorno, começando pela apropriação do nome.  Do mesmo modo, Eulália outorga ao espaço da caixa a capacidade não só de configurar um sítio para o íntimo, mas também a erige como performance do espaço que se converte em lugar de fala. Um espaço no qual o íntimo é reaberto a cada instante. Não se trata de uma intimidade como uma ideia fechada ou enterrada que descansa em algum resquício do inconsciente coletivo, é um íntimo que se sacode e remove, respeitando a ordem do seu poder de manipulação. Então, se abre como proposta de um território de domínio oposto à dominação oficial, mas em diálogo com ela, para prosseguir com suas analogias e também para desacreditá-las.
Esse objeto instalado na caixa também insinua faltas e ausências que enaltecem o que foi selecionado como substituição tangível do momento que fugiu, para voltar emergindo dentro de novas conotações discursivas. É o vazio dessa filosofia existencial que preenche os espaços entre os objetos, o lugar no qual os personagens criam as perguntas sobre eles/as mesmos/as e conseguem acomodar multíplices possibilidades de percepção: “Acaso sou invejoso, padrinho? A quem invejo nesta casa? (…) Não sei, Tobias, também eu tenho perguntas difíceis a me fazer” (PIÑON, 1984, p. 676).
É o ato de sair coletando pedaços da realidade, os restos da existência, a maioria deles resgatados do lixo, convertidos em objetos de lembrança através da construção simbólica –
partes de frases, bilhetes com pequenos discursos – que Venâncio colocava no berço de Tobias, e iam parar  no fundo da sua caixa para serem digeridos com justiça no futuro, o que conforma o entendimento de uma história que se conta a partir do fato da recopilação.
Essa recopilação fala da construção do lugar e do posicionamento que estão assim atrelados – como no caso da personagem Eulália – a interesses e problemáticas relativas ao poder. Essa problemática que nos permite falar da ação de situar, porque “Ninguém quer perder sua cota de poder, ainda que reduzida” (PIÑON, 1984, p. 157). Esse trecho parece confirmar o argumento de que esse lugar, esse ponto de vista, que a Haraway (1991) sinaliza como “a subjetividade”, não é um lugar só, ou simplesmente uma zona a percorrer com limites definidos. O subjetivo goza de multiplicidade, de mudanças, de conflitos, é tão contraditório quanto fragmentado, daí seu caráter parcial e relativo, potencializa a validez do pós-moderno para operar nos recortes dos objetos, nas formas de conhecer “o real”13. É essa Eulália que, desde o umbral da morte, detém as provas da existência dos personagens, e cada um deles dá um jeito de se desfazer do conteúdo das caixas, como uma virada para a ênfase na subjetividade e como a negação dos limites dos encaixamentos da experiência e da própria produção dos sujeitos, numa dialética que simultaneamente nega e reconstrói a memória:
 
Os netos já lhes rondavam a casa, prontos a devorar as lembranças ingenuamente acumuladas nos anos de América. Não tinha importância. Há muito os objetos vinham-lhe pesando. E depois queimar retratos, documentos, bilhetes, era a tarefa inadiável dos sobreviventes, pensou com certa angústia (PIÑON, 1984, p. 15).
Não lhe disse que a memória é ingrata? O que se vive uma vez é sepultado para sempre, disse Eulália, uma frase aliás constantemente repetida  (PIÑON, 1984, p. 69).
 
E Piñon escreve: “A gente só pode esquecer, se inventa depressa, para nada ficar faltando” (1984, p. 80). O fato de trazer, como exercício da consciência, uma seleção de elementos da experiência pessoal para justificar o lugar de onde se fala, exclui, seguramente, outros elementos dessa mesma experiência, e, simultaneamente, os modifica, porque são recriados através dos discursos. Isso aparece de modo explícito na narrativa como uma advertência: “Cuidado, Eulália, desconfie das palavras. Elas tanto afirmam quanto desdizem” (PIÑON, 1984, p. 14). E continuo com as perguntas: quem decide os aspectos importantes para situar o conhecimento? Essa escolha é ingênua? Bento, um dos filhos de Eulália, coloca os objetos recordados em envelopes para serem abertos depois da sua morte. Ele exacerba o significado de morte e perda, porém, dentro do contra-jogo às formas de silenciamento tradicionais, fortalecendo a ideia de objeto arqueológico preparado para ser rastreado, e com uma força bem antiga, a da intenção de transcendência dos sujeitos. De certa forma, seu desejo é prolongar a missão que Eulália arquitetou, a de legado. Então, essa narrativa se explica paralelamente como a oportunidade de criação de uma fonte explicativa, não necessária em termos racionais logofalocêntricos, e sim em termos da conjunção de poética e política, que recoloca as mulheres, talvez, num referente diferenciado de sujeito histórico.
Esse potencial literário, de conexões intersubjetivas, fala de uma política que não fica no pessoal (no que vive uma pessoa na suposta esfera íntima-privada), assume a ambiguidade do “de adentro e o de fora”, a intersubjetividade, que representa e recria, é o pessoal feito público, o público feito pessoal, portanto, a intersubjetividade é política. Trata-se também da política da imaginação, da utopia do possível, já que “a potencialidade também tem uma certa realidade” (MORIN, 2008, p. 131), o que Piñon acompanha com as frases de seus personagens: “Não se pode conviver com a justiça social sem uma clara visão poética da realidade (…). E repito ainda: fora do estabelecimento de regras poéticas com que pautar o mundo, sobrevém a perdição e o escárnio público” (PIÑON, 1984, p. 130).
Com esse conjunto das caixas no armário repousando num silêncio desestabilizador, acho possível o resgate da dimensão imaginação-ficção, porque as caixas anunciam que nós, como os personagens, não estamos e não existimos, unicamente dentro de posições inteligíveis, visíveis, senão também em outras, invisibilizadas, susceptíveis de interpretação e tradução, porque cada posição é um palimpsesto de superposições, interseccionalidades, de imbricações, entre variáveis como gênero, classe, raça e geração, e outras, como a profissão, relação com a história de antepassados, sistema de crenças, religião, ideologia, expectativas, e o acesso às oportunidades, Neste ponto, trago uma autora que repara como:
 
A imaginação deixa de ser negativa e a realidade material já não deve ser a única referência na enunciação de si, da mesma forma que, para além do pensamento racional, o que é sentido, e muitas vezes não chega sequer a ser posto em palavras, todo campo da afetação e dos movimentos desejantes, passa a ser necessariamente reconhecido como fundamental na experiência que cada um pode ter de si mesmo e da relação com o outro (CUNHA, 2009, p. 68).
 
Não por acaso cada personagem manifesta seu temor diante do que vai encontrar como objeto de lembrança:
 
A mãe nada mais fez que selecionar memórias e guardá-las nesta caixa. Mas por que não me consultou antes, para saber se eu estava de acordo? Tinha a mãe o direito de colecionar fragmentos da minha vida, da mesma forma como se colecionam mariposas espetadas com um alfinete na cortiça? (PIÑON, 1984, p. 647).
 
 
A partir daí, começa a necessária autorrelativização do observador, que pergunta “quem sou eu?”, “onde estou eu?” (MORIN, 2008, p. 21). Será que nós não temos como fugir, que nós não temos como situar fixamente, que, como lembra Berman (1986), “tudo que é sólido desmancha no ar”? De onde vem a necessidade de situar, justificar, o que conhecemos, e como o conhecemos?
 
Há muitas pessoas que consideram essas perguntas um convite ao relativismo. Reformulando-as em seus próprios termos favoritos, elas nos perguntam se gostaríamos de dar à falsidade os mesmos direitos que à verdade, ou se gostaríamos que sonhos fossem tratados com a mesma seriedade que relatos de realidade (FEYERABEND, 2011, p. 99).
 
 
Entretanto, como esta escrita de Piñon me permite assinalar, não existe uma relação direta causal, linear, entre posição, situação e nosso arsenal cognitivo (ainda que sejam simultaneamente tanto objetivas como subjetivas). Isto porque, como o próprio desenvolvimento da história debate-se em diversas dialéticas, nossa história pessoal não está isenta desse conflito.
As cinco caixas de Eulália na República dos sonhos me remetem à necessidade de localizar a objetividade dos posicionamentos na construção das identidades para, ao final, trazer uma lição maravilhosa, mesmo que venha do discurso da ficção: essa necessidade de materialização fixa poderia não fazer mais sentido, e sim o ato de entender sua dinâmica que pode ser preservada através da construção do próprio discurso, que cada personagem renova sobre si, inseridos em seus conflitos de poder.
Portanto, me permito finalizar dizendo que o conhecimento é situado, mas não é somente situado, também ele é ressituado, recolocado, traduzido, translocalizado, construído nos espaços de entre-lugares e entre-tempos. E que o literário encerra potencialidades de visualizar as mulheres como protagonistas da sua própria história, a saber, com seus constructos tanto objetivos como subjetivos: o qual se faz evidente em Nélida Piñon quando declara, como outras tantas autoras das Américas, que “narra porque é mulher”.
 
NOTAS
1 Esta ideia discute, assim, as noções de objetividade ligadas ao “real”.
2 Breta é a personagem escritora do romance, jornalista e neta de Eulália. Breta representa um novo paradigma de mulher e, ao mesmo tempo, é a responsável pela escrita da história de Madruga, como uma história que se confunde com o mito de fundação do Brasil e da própria América.
3 El conocimiento ya no es una “representación” o un “reflejo” de la realidad, una actitud de creencia y aceptación de un contenido proposicional; sino una relación, una interacción concreta entre los agentes del conocimiento y sus objetos de estudio (GARCIA, 1999, p. 48).
4 Alguns de nossos pontos nodais (COSTA, 2002), isto é, identificações que servem em uma situação concreta para unirmos na consecução de fins políticos que dão coerência aos movimentos (neste caso, feministas), não é condição suficiente para situar, de uma vez por todas, o conhecimento. Porém, ele apareça como situado nesse momento, mas esse processo não responde a toda objetividade para “o feminismo”. Senão há uma estratégia política como no caso da teoria do standpoint e do essencialismo estratégico.
5 Los análisis feministas son inherentemente evaluativos y no pueden, por tanto, pretender una simetría que es metodológicamente imposible (porque todo conocimiento y todo análisis es siempre situado) y políticamente indeseable (porque es preciso identificar y denunciar las asimetrías de poder asociadas al género) (GARCIA, 1999, p. 52).
6 Zygmunt Bauman (1925), sociólogo polonês escritor de diversas obras sobre pós-modernismo, entre elas, Vida líquida (2005) e Tempos líquidos (2006).
7 Venâncio é o amigo de Madruga, personagem que o acompanha na travessia pelo Atlântico no sonho de fazer a América, também seu alterego. Madruga delegou nele a capacidade de sonhar.
8 O subjetivo é objetivo num entendimento dialético da relação O-S, que defendo desde a postura marxista de sua compreensão. Para começar, concordo com que “existe uma ligação inaudita entre a intersubjetividade e a objetividade” (MORIN, 2008, p. 42). E aproveito para revelar que a minha postura, neste ponto, é principalmente marxista, porque acredito na presença do subjetivo no objetivo, e vice-versa, como unidades inseparáveis que caracterizam nossos modos de produção e reprodução, como seres sociais. Neste sentido, de se colocar frente à problemática da relação objeto-sujeito, também encontramos o consenso da objetividade presente nos feminismos, sobretudo quando se fala e se defende que o conhecimento é situado.
9 E também sutil, simbólica, da dominação masculina nos termos do sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002).
10 A saga de Madruga é uma narrativa constante sobre a alteridade e seus dilemas pessoais que colocam os indivíduos num cenário que às vezes é usurpado pela falta de legitimidade social que provoca a migração como uma marca.
11 Como se, de algum modo, inexplicável pudessem se armazenar os fatos.
12 Essa imagem remete ao outro romance de Piñon, Vozes do deserto (2004). Podemos destacar esta ideia como uma preocupação da autora por posicionar as mulheres diante da memória como recurso que lhes outorga poder político nesse sentido neste romance de 2004 ela resgata a personagem de Scherazade.
13 “Não é dar a receita que fecharia o real numa caixa, é fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto – o idealismo –, que crê que o real se pode deixar fechar na ideia e que acaba por considerar o mapa como o território, e contra a doença degenerativa da racionalidade, que é a racionalização, a qual crê que o real se pode esgotar num sistema coerente de ideias” (MORIN, 2008, p. 140).
 
 
REFERÊNCIAS
 
CUNHA, Eduardo Leal. Indivíduo singular plural: a identidade em questão. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.
COSTA DE LIMA, Claudia, O sujeito no feminismo. Cadernos Pagu (19) Campinas, Unicamp, 2002: p. 59-90.
BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
FEYERABEND, P. A ciência em uma sociedade livre. In: idem. A ciência em uma sociedade livre. São Paulo: Unesp, 2011.
GARCIA, M. I. G. El estudio social de la ciencia en clave feminista: género y sociología del conocimiento científico. In: BARRAL, M.J. et al. Interacciones ciencia y género: discursos y prácticas científicas de mujeres. Barcelona: Icaria, 1999: p. 39-63.
HARAWAY, D. Ciencia, cyborgs y mujeres: la reinvención de la naturaleza. Madrid, Cátedra, 1991.
MIES, M. ¿Investigación sobre las mujeres o investigación feminista? In: BARTRA, E. Debates en torno a una metodología feminista. México (DF): Universidad Autónoma Metropolitana, 1998. p. 35-63.
MORIN, E. Ciência como consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
PHILLIPS, Anne. Las pretenciones universales del pensamiento político. In. BARRET, M. e PHILLIPS, A. Desestabilizar la teoria. Debates feministas contemporáneos. México: PUEG/UNAM. 2002. p. 203-222.
PIÑON, Nélida, A república dos sonhos. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1984.
SCHMIDT, Rita Terezinha. A crítica na mira da crítica. Florianopólis: Editora da UFSC, 1996, p. 103-125.
SOUSA SANTOS, Boaventurade. Um discurso sobre as Ciências. São Paulo: Cortez, 2008.
VIANNANETO, Arnaldo Rosa. Américas sem nome: Cartografias narrativas de Nélida Piñón. RevLet – Revista Virtual de Letras, v. 03, nº 02, ago/dez, 2011: p. 152-164.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

FIAMA: A IMAGEM DE ESCRITA E A IMAGEM DESCRITA – Wellington Alves Toledo




Wellington Alves Toledo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 
Resumo: Ao logo de diversas leituras e releituras de poemas de Fiama Hasse Pais Brandão, principalmente os que compuseram sua antologia Âmago (2010), constatamos que a transfiguração e a transcrição da imagem através de um olhar poético marcavam presença em sua obra. Porém, longe de uma pura e simples representação narrativa e/ou descritiva da natureza, sua escrita se nos apresentou permeada de cenas do cotidiano pessoal, captadas em seus aspectos mais complexos. Diante da presença do objeto depurado, a autora buscou dar forma às coisas através de um olhar em constante suspensão, colocando a metáfora representativa da paisagem lírica sempre em um estágio de deslocamento, não de condensação. Tudo isso sem esterilizar a temática da herança literária e cultural portuguesa.
 
Palavras-chave: imagem; grafiama; tradição; tradução.
 
 
Abstract: Throughout many readings and re-readings of the poems by the Portuguese poet Fiama Hasse Pais Brandão, especially those included in her anthology Âmago (Cern, 2010), we concluded that she performs a transfiguration and a transcription of images through her poetic look, in a movement that is typical of her work. However, far from presenting a simple narrative or a descriptive representation of nature, she presents a writing that is impregnated by her personal experience of everyday scenes, although she catches them in their most complex aspects. When confronted with reality, she presents objects through a most refined shape, looking at things in a state of constant suspension. As a result, her lyrics are represented by metaphor in a moving atmosphere, and objects are never allowed to condensate. Besides, this is done without letting the cultural heritage of Portuguese literature sterilize.
 
Key-words: image; grafiama; tradition; translation.
 
Minicurrículo: Wellington A. Toledo é formado em Letras e trabalha como professor concursado na rede pública de ensino da Prefeitura de Magé. Atualmente conclui o curso de Mestrado em Literatura Portuguesa pela UFRJ, sob a orientação da Professora Doutora Gumercinda Nascimento Gonda, com o tema da problemática da forma e de gênero em Mensagem, de Fernando Pessoa. Além da finalização de sua dissertação, também está envolvido com a publicação de um livro de poesia.
 
 

FIAMA: A IMAGEM DE ESCRITA E A IMAGEM DESCRITA

 
 
 

Wellington Alves Toledo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
Introdução
Buscando nas frinchas do cotidiano escrever o extraordinário da realidade ou o real imaginado, a imagem do mar mítico português e os traços culturais da nação ainda não foram esvaziados na poética intra e intertextual de Fiama Hasse Pais Brandão. Persiste em seu trabalho um convívio harmonioso de receber, conceber e imitir imagens da representação teatral do espetáculo do mundo através de seus resíduos com o constante ato de leitura e escrita da tradição, num processo que perpassa pelo Medieval ao Moderno. A escritora portuguesa procura na captação daquilo que se insere entre os ecos de cultura ocidental e da natureza vertentes para o seu ofício de escritu(o)ra.
As imagens, duplas e únicas, transfiguram para Área branca (1978) do papel, em seu duplo de penumbra e de sombra, a necessidade perene da autora de interpretar, autointerpretando-se, a cultura literária de Portugal e de replicar Toda a natureza que lhe coube nas pupilas. 
Há mesmo no que escreve um deliberado espaço de resistência ao hábito, à ordem, ao senso comum, à mesmice. Até o tratamento dado aos mitos que configuram o imaginário da pátria dá-se de maneira enigmática, cabendo ao decodificador encontrar os traços implícitos nas cavidades das palavras grafiamadas. Suas menções, embora epigráficas, principalmente com relação à figura camoniana, seu poeta mais revisitado, não são gratuitas. Portanto, contrastando a primeira espera, os temas de natureza histórica ou os mitos da nacionalidade portuguesa são abordados sob um novo prisma, quase sempre crítico, nunca se deixando seduzir pela gramaticidade mítica ou pela obrigação intertextual. Seu diálogo em (re)visita não é análogo puro e simplesmente. Não é transladando os ossos de Camões para o corpus textual ou se encenando na coterie pessoana que Fiama irá buscar a redenção com o passado. Interessa-nos, então, objetivar o uso que a poeta faz da herança literária, de como ela traduz esses mitos para os seus mitos pessoais, numa espécie de jogo de tradição e tradução, e de como, a partir do âmago desse arquivo mitopoético, são presentificados, no corpo dos textos, a memória cultural dos livros e a memória do humano.
Sua leitura não atua “como”, atua, sobremaneira, “com” os “fantasmas” poéticos, também responsáveis por sua formação, transformando em forma a metamorfose de sua obra e, de certa forma, (de)formando-se em um ser que escreve, inscreve-se e se (re)edita no abismo do mar mítico. Interpenetrando nos interstícios das histórias sublimadas pelo inconsciente português, o Ultramar, Camões e seus Os Lusíadas, a ditadura, o 25 de Abril.
Sua poética está em sincronia com o “Desconcerto”, com o “Desassossego” e com o “Testemunho”. Espécie de lírica do “Acompanhamento” e/ou do “Pertencimento”. Uma poética que é excludente por incluir e que inclui na exclusão. Está em constante deslocamento, em suspensão, fazendo-nos (con)viver as metáforas com a linguagem do cotidiano, mas nos obrigando a conferir nos dicionários a sua veracidade. Mostra-nos, de uma forma didática, pedagógica até, que o lugar cativo da escrita moderna não é o da memória, mas o da suspeita. E, assim como Mallarmé experimentou no fim do século XIX, em “Um lance de dados”, a tentativa extraordinária de criar um poema, utilizando-se de átomos/moléculas/resíduos/palavras a partir do nada, a escritora irá se valer do residual, dos resquícios, do resto que lhe resta por se filha dos heróis do mar.
A trajetória da sua poesia se inscreve de maneira muito interessante, fincando-se de forma singular e bem excêntrica. Tecendo uma cadeia de textos bastante hermética, estruturada numa depuração formal e num rigor sobremaneira influenciado pelos movimentos de vanguarda, Fiama se detinha numa renovação da linguagem poética por meio do retorno ao significante e do sentido em sua camada de carne mais profunda, com uma preocupação latente de ressaltar a palavra isolada ou em sintagmas mais minimalistas, tais como propugnava a poesia Concreta, que se caracterizava por ser antidiscursiva, evidenciando o signo linguístico quase sempre de maneira sintética ou isolada.
Exercendo no ato da escrita um controle das emoções, seu texto se nos apresenta afastado do lugares comuns da metáfora sacralizada. Fiama busca uma escritura impessoal, sem marcas autobiográficas, uma copilagem formal econômica em sua grandeza. Assim, encontramo-nos diante de uma poesia com pouca transitividade interpretativa, mas não de interpretações. Espécime de criptografia linguística, no qual o signo poético não se deixa decodificar numa primeira investida do leitor, mas que depois se liquefaz em um mar aberto a se buscar. O sujeito se torna cada vez mais acidental, porém, comumente à poesia da década de 60, não se verifica um sujeito que se subjetiva, mas sim um sujeito que se reescreve obliquamente.
O que há em Fiama é um exercício diário. Quase um jogo ascético em seu esteticismo. Um compromisso assumido entre leitor e leitura. Como Drummond dizia O que muda na mudança / se tudo em torno é uma dança? (ANDRADE, 2005, p. 123), as palavras, na escrita brandoniana, obedecem a uma lei atômica, microscópica e, por vezes, macroscópica, na qual o poema realiza uma ideia de “visão nuclear” da poesia; cada verso e cada palavra se relacionam umas com as outras numa cadeia infinita de possibilidades, palavras no campo do acaso e da necessidade, atômicas.
Embora tenha se pautado sempre por construir uma de poesia sem confessionalismos, a impessoalidade e o distanciamento não anularam a matéria-vida da qual os poemas estão impregnados, sobretudo das imagens extraídas da natureza e sua dinâmica, configurando uma belíssima síntese de um saber da poesia como forma de acesso ao real. Ao ser retida no subconsciente da memória afetiva, a imagem capturada vai se interseccionando com a primeira memória e uma outra que se vai efetivando em efervescência, transformando-se num de esplendor que se punge por debaixo desse tríplice tudo.
Fiama diz e mostra a importância da visualidade, situando-a em todos os níveis de construção discursiva. Sua obra dá-nos uma das mais elaboradas meditações sobre a relação entre poesia e imagem. A poetisa reconhece na natureza o dom de replicar as imagens, de transformá-las, a partir do lodo, em licor cristalizado em seu modo de estar na natureza e se de ler a cor que se transfigura e, desculpem-nos o trocadilho, de escrever a partir do seu modo de “ler cor”.
Ela vai atuar no método dos impressionistas de estar presente no momento das pinceladas, capturando aquela imagem no exato instante, muito mais como um processo de visão do que de memória. Mas essa imagem não se apresenta estagnada. Uma imagem gera sempre um desfilar de imagens profusas se interpenetrando, uma tensão entre atual e virtual que se faz num itinerário que vai das retinas à pena da mão, num processo que necessariamente induz uma leitura ativa por parte do leitor. Como Monet pintou a fonte de seu jardim em diferente luminosidade ou falta dela, a poesia de Fiama irá restringir a imagem em um plano fixo, mas simultaneamente replicando-o e multiplicando-o, nunca restringindo o que é visível num só plano. São imagens que atravessam, dúplices, cujas figuras, personalíssimas, estão à contraluz, entreabertas entre o imaginado e o verdadeiro. Como se atesta em Cenas Vivas (2000) em:
 

Ao Raiar do Sol, ainda dormia,

ouvi bater de leve, de fora da janela,

no chão de tojo e fetos, a enxada

Abri os olhos e vi riscos de luz

cruzarem as paredes, como sempre

(…)

Quando, enfim, levantada, abri a porta

diante do Sol universal límpido,

duas figuras curvas, a contraluz

compunham uma imagem silenciosa

(…)

Água lhes trouxe apenas, da Sombra

(…)

da porta imaginada e verdadeira.

E, como imagem vem atrás de imagem,

à tarde, ao apagar do Sol ouvi calar

por fim o som de enxadas e dos passos.

E só meus olhos recolheram a oferta

(FIAMA, 2010, p. 139)

 
 
 
É incontável a semanticidade da palavra imagem.  Por um lado, porque a noção de imagem tem uma abrangência extremamente vasta que se prende com a própria historicidade do termo, com o seu uso em diferentes disciplinas e por referência a diferentes campos das artes. Segundo Michel Collot, em seu Do Horizonte da paisagem ao horizonte dos poetas (2010), a paisagem é definida num percurso que vai desde o elemento depreendido pelo olhar num determinado espaço-temporal limitadamente físico, que é o horizonte humano, até um campo de visão muito mais subjetivo, que perpassa a priori pela depuração desse horizonte objetivo até o que Collot classifica como sendo o horizonte dos poetas.
A paisagem, subjetiva ou não, é delineada por contornos definidos por certos pontos de vista. Assim, ela se afigura como um mosaico aberto, preenchido às vezes por metáforas visuais, mitos, suposições e por elementos responsáveis pela (re)construção da linguagem, desde as mais remotas origens humanas até a escrita contemporânea.
De acordo com o filósofo francês, não existe paisagem sem horizonte. Assim, o horizonte se apresenta como a fronteira que permite ao ser se apropriar da paisagem, correspondida pelo observador como sendo apenas uma parte do país em que ele se encontra. Desta maneira, a paisagem passa a ser não apenas vista, mas, sobretudo, habitada. E acrescenta:
 

O que os poetas modernos pedem ao horizonte quase não é mais que o acesso a um Outro mundo, mas a revelação de que nosso mundo é diferente do que se crê, pois ele recebe uma reserva inesgotável de novas perspectivas; não é mais a imagem semelhante de uma identidade própria, mas a distância interior de uma íntima alteridade (COLLOT, 2010, p. 217).

 
A eleição que um ser faz de um determinado horizonte implica automaticamente na busca de si próprio. O olhar para o horizonte é o percurso que a visão faz rumo a um precipício chamado futuro, através de um universo infinitamente subjetivo. A paisagem, refém da limitação da visibilidade humana, torna-se um espaço estruturalmente incompleto. Ora, cabe aos poetas e aos seres que possuem o viés artístico, por intermédios de uma nova semanticidade, preencher as lacunas deixadas pelo campo de visão restritivo da objetividade. Por ser poético o horizonte, a paisagem conclama a ele a todo instante para ser recriada. Afinal, parafraseando Borges n’Esse ofício do verso (BORGES, 2000, p. 11), o que é paisagem senão somente ocasiões para a poesia?
Fiama não se exprime só com palavra, mas também com imagens, transferido delas para o papel em branco o âmbito, o contorno, as fronteiras, conformando os objetos em sua singularidade, em sua individualidade, apresentando-os, encenando-os, duplicando-os. Vejamos:
 

Na casa antiga, cada um de nós levava

consigo um candeeiro, com que arrastava

o seu duplo de penumbra e de sombra.

A chama do petróleo ardia junto à boca,

Podíamos devorar a própria luz.

(FIAMA, 2010, p. 142)

 
 
Como sendo um ser capaz de descer a níveis mais profundos do absurdo humano, faz emergir, por meio de imagens, elementos constituintes do Imaginário; no caso aqui tratado, a escritora portuguesa procede de modo a equacionar e problematizar fenômenos e objetos que a circundam, numa atitude filosófica, detendo-se com mais atenção e com muita propriedade sobre questões ontológicas e estéticas. O objeto passa a frequentar a imagem da imagem do objeto. Uma superposição de imagens. E, nessa aventura por imagens platônicas, a poeta vai, através de um amor total à cena presenciada, impercebendo o perceptível, algo apenas equacionável pelo olhar da linha tênue do Chão dos olhos.
 

Amor um olhar total, que nunca pode

ser cantado nos poemas ou na música,

porque é tão-só próprio e bastante,

em si mesmo absoluto táctil,

que me cega, como a chuva cai

na minha cara, de faces nuas,

oferecidas sempre apenas à água.

(FIAMA, 2010, p. 140)

 
 
 
Ao tecer a imagem para Área Branca (1978) que se apresenta em um quarto vazio do intelecto, o poema meio que devolve às palavras a força original de ter sido arte pictórica, de ter sido ícone, antes de se tornar um código sistematizado, verbalizado e viabilizado, formado por signos abstraídos de forças ou elementos advindos da natureza contemplada e vivenciada pelos nossos antepassados. Como Jorge de Sena e de sua caça abatida nas cavernas antes mesmo de ser caça.
Ao fazer sempre essa ponte entre a palavra (metáfora) e a imagem, ou até mesmo quando busca cindir a imagem pura e a palavra (ametaforizada), acaba criando um intrincado estilo, na verdade sem uma dicção propriamente sua que a seguisse em toda sua trajetória poética. Fiama parece estar sempre se modificando, sempre buscando um(ns) modo(s) de escrever, pois via a poesia como processo vivo, humano e pulsante.
Ela está sempre na área corrosiva entre a imagem que cresce e sua criação dentro do texto. Está entre o cosmo e o caos. Está no limbo entre a morte e o desfalecimento. Está na doença. Está num ponto em que seus olhos perscrutam o derredor, com seus objetos estáticos ou com a dinamicidade que a tudo preside, lenta ou ligeira. No espaço intervalar é onde o seu sentido poético se produz. Assim sendo, o hipotético atua como realidade do literário, pois, embora seu campo de visão seja ilimitado e panorâmico, ele não se torna totalizante, antes, pelo contrário, atua de forma fragmentada e se dispõe em telas repartidas em ângulos assimétricos.
Sua poética prefere respirar a atmosfera caótica da sua experiência autêntica (LOURENÇO, 2009, p. 133) a sucumbir ao mimetismo pronto, ou seja, prefere atuar em cenas estéreis a fertilizar o campo arado. Dessa forma, converte o objeto captado em uma imagem interior e a transforma em texto. Mas não com uma mimesis da natureza percebida, mas se recriando a partir do seu ponto cego. Dessa natureza, não pretende extrair o grito nem o silêncio, mas um restolho de eco, ecoado na terceira / fala, mensageiro sem início. E, através de uma sintaxe nova, que se expande entre a economia e o excesso, ela quer recolher em escrita o pungente “terceiro tom” que O simples dom de ver que o olhar emite ou colhe.
Atuando quase sempre em um espaço intervalar, intercalado entre o doméstico e o exterior, entre o macrocósmico e o microcósmico, seus olhos arcados, deglutidores de paisagens que atravessam a cavidade do texto, irão sorver e transpor para a área em branco da palavra, a tonicidade mais soturna da noite. Irão figurar nas cenas vivas do universo particular o lado mais pungente da morte, denotando um sujeito em constante formação e reformulação, descentralizado de um corpus poético pronto. Tudo isso intercalado com o compromisso de não esterilizar o passado cultural português herdado. Mesmo que para tal intento tenha que calçar os pés anfíbios de uma literatura que do mar retorna à terra e hoje escreve em seu território de lodo.
 
 
 
Considerações finais
Ao tecer-se como uma voz de um sujeito / que imagina o pensamento dessa figura / comparada a uma ruína, seu corpo se confunde com a própria coisa avistada. A partir de então, a imagem que se particulariza através da partícula, torna a paisagem pública em privada, através daquilo que só o olhar do poeta consegue privatizar como seu. Um olhar que teme a revelação que busca, mas que, amando o sentido da visão e os sentidos múltiplos revelados pelos olhos, alcança, enfim, o jubilo silencioso de mais um verso escrito a se reescrever.
 
 
Referências
 
ADORNO, T. Lírica e sociedade. In: Benjamin, Walter et alii. Textos escolhidos. Trad. Rubens Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 193-208. [Os pensadores].
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 55ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2001.
BENJAMIN, Walter. A origem do drama barroco alemão. Rio de Janeiro, Brasiliense: 1984.
BENJAMIN, Walter. Magia, técnica, arte e política. Rio de Janeiro, Brasiliense: 2004.
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Âmago: antologia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Obra breve: poesia reunida. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.
COLLOT, Michel. Do Horizonte da paisagem ao horizonte dos poetas. In: ALVES, Ida Ferreira e FEITOSA, Márcia Manir. Literatura e paisagem: perspectivas e diálogos. Tradução de Eva Nunes Chatel. Niterói: EdUFF, 2010. p. 191-217.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A: 2001.
LOURENÇO, M. S. Os degraus do Parnaso. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.
MARTELO, Rosa Maria. Em parte incerta – estudos de poesia portuguesa moderna e contemporânea. Porto: Campo das Letras, 2004.
SILVEIRA, Jorge Fernandes da. Lápide & versão: o texto epigráfico de Fiama Hass Pais Brandão. Rio de Janeiro, Bruxedo: 2006.
SILVEIRA, Jorge Fernandes da. Verso com verso. Coimbra: Ângelus Novus: 2004.





Bio fornecida pelo palestrante.

O NÃO-LUGAR EM ELIZABETH BISHOP: ESPAÇO E DESCOLONIZAÇÃO DE SI – Tiago Barbosa da Silva




 
 

Tiago Barbosa da Silva

 

Doutorado em Teoria Literária

– Universidade Federal de Pernambuco

 
 
Resumo: As composições de Elizabeth Bishop refletem uma atitude que caracteriza os lugares por onde transitou como não-lugares; fragmentos do espaço nos quais não há uma relação forte entre o espaço e o sujeito (SÁ, 2006), que vive marcado pela constante sensação de não pertencimento. Com base em Hall (2006), pode-se dizer que isso é típico do sujeito traduzido, marcado pela ausência de uma fixação identitária ao lugar, o que pode, em nível interpessoal, originar-se da imposição de um poder colonizador sobre o indivíduo (QUIJANO, 2005). Nesse trabalho, observaremos como se dá essa relação, definindo não-lugar a partir das discussões de Augé (1995), para assim revelar como a obra de Bishop representa essa relação diferenciada com o espaço.
 
Palavras-Chave: Elizabeth Bishop, espaço, não-lugar, descolonização de si.
 
Abstract: Elizabeth Bishop’s compositions depict an attitude that characterizes the places she has been to as non-places; spaces of transience that do not hold enough significance to attach individuals (SA, 2006). To Hall (2006), translated subjects endure this particular relation with space as they lack the sense of belonging. In interpersonal level, this may be a result of ‘colonizing forces’ acting over individuals (Quijano, 2005). In this paper, we define non-place after Marc Augé (1995) and analyze how Elizabeth Bishop represents it in her work.
 
Key words: Elizabeth Bishop, space, non-place, decolonization of the self.
 
 
Minicurrículo: Possui graduação em Letras – Língua Inglesa pela Universidade Federal de Campina Grande (2008), graduação em Direito (2009) e mestrado em Desenvolvimento Regional (2012) pela Universidade Estadual da Paraíba. Atualmente, é professor de língua inglesa no Instituto Federal de Sergipe e aluno no Programa de Pós-graduação em Letras, com foco em Teoria Literária, da Universidade Federal de Pernambuco, onde tem se dedicado ao estudo das representações do não-lugar nas literaturas de língua inglesa contemporâneas, atuando na linha de pesquisa Literatura, Sociedade e Memória.
 
 

O NÃO-LUGAR EM ELIZABETH BISHOP: ESPAÇO E DESCOLONIZAÇÃO DE SI

 
 

Tiago Barbosa da Silva

 

Doutorado em Teoria Literária

– Universidade Federal de Pernambuco

 
 
Introdução
Em seu Non-lieux, Marc Augé (1995) trata da supermodernidade e de suas três principais características: a superabundância de eventos, a superabundância de espaço e a individualização das referências, sendo o nosso tempo marcado pelo excesso desses três elementos, que produzem, em certo sentido, não-lugares. Na versão inglesa de seu livro, o título em francês, non-lieux, foi traduzido por John Howe como non-places, reforçando a ideia de que lugar é onde o sujeito se sente em casa, já que place é coloquialmente utilizado para substituir home. Essa ampliação do sentindo de lieu ajuda a entender o não-lugar – um fragmento do espaço com o qual não se forma uma relação histórica, relacional e identitária, sendo, portanto, oposto aos lugares antropológicos. Em razão disso, instaura-se uma pulsão permanente pelo deslocamento. Esse trabalho defende a tese de que a vida e a obra de Elizabeth Bishop refletem uma relação com o espaço assim, constituída ainda muito cedo, quando de sua remoção para os Estados Unidos, onde não compartilhava os modos e práticas culturais que regiam a forma de habitar, revelando uma identificação recorrente com elementos marginais, com pessoas externas ao núcleo familiar, com espaços vazios e com um espaço do afeto ausente e diferente. Assim, passou a ocupar uma posição gauche e a habitar a viagem; comportamento/característica reforçada por deslocamentos constantes que sobrepuseram novas espacialidades a sua original – Great Village, alçada a condição de grande referência, a partir da qual dava sentido a sua movimentação e ao mundo ao redor. A posição gauche ou queer que ocupou no mundo é também uma forma de revolta individual contra a ordem instituída, contra o padrão de poder prevalente, contra, em nível interpessoal, o ‘poder colonizador’ que normaliza os sujeitos e os insere dentro de um sistema, cuja marca principal é a inferiorização de alguns.
 
Espaço, lugar e não-lugar
Para Santos (1988, p. 10), o conceito de espaço só pode ser encontrado a partir de relações com outras realidades, já que ele é um conjunto indissociável composto, de um lado, por objetos geográficos, naturais e sociais e, por outro, pela “vida que os prende, que os preenche e os anima”; cada elemento do todo maior, cada forma presente no espaço contém e ao mesmo tempo está contida nele (SANTOS, 1986). O espaço, obviamente, não é uniforme, nem acabado, podendo ser compreendido como um processo permanente de “tornar-se”, uma “espacialização” que existe enquanto processo de confluência, interrupção e coagulação de fluxos para a qual não existe uma “última instância” (Haesbaert; Bruce, s/d). Brandão (2007) apresenta uma distinção entre espaço e lugar. O primeiro seria uma espécie de universo indeterminado no qual estão inseridos os lugares; já o segundo diz respeito às referências contextualizadas responsáveis pela atribuição de concretude às personagens. Em outras palavras, o espaço se configuraria como um todo maior no qual as realizações humanas aconteceriam e que, em razão das pressões exercidas em diferentes níveis, se fragmentaria em partes menores, em lugares, criando diferenças individuais, culturais, sociais, históricas etc.
É nas pequenas partes dessa fragmentação, construídas a partir de relações sociais, que se realiza o vivido, que se garante a constituição de uma rede de significados e sentidos originados do processo histórico e cultural, que se cria a identidade homem-lugar. Por conseguinte, o lugar “se define, inicialmente, como a identidade histórica que liga o homem ao local onde se processa a vida” e é nele que se “manifestam os desequilíbrios, as situações de conflito e as tendências da sociedade” (CARLOS, 2007, p. 22). Para Walter (2012, p. 140):
 

(…) a maneira como as pessoas habitam um lugar – seu imaginário, episteme cultural, língua, gestos, maneira de falar vestir, etc – é determinada por este lugar: o que é verdade/realidade num lugar e para um determinado grupo necessariamente não o é para outro.

 
Essa relação com o lugar, contudo, nem sempre é tão forte, já que pode-se estar em um fragmento do espaço e não necessariamente assentir com sua episteme, com seu jeito de habitá-lo. Para Augé (1995), somente alguns fragmentos do espaço apresentam essa característica: os lugares antropológicos, que são identitários, históricos e relacionais. Aqueles que não apresentam, característicos da supermodernidade, são não-lugares, pois pressupõem um desligamento do sujeito com o espaço imediato e não permitem a vinculação/fixação da identidade com o lugar em que a pessoa se encontra, já que esse tem um caráter transitório. Para Sá (2006), o lugar e o não-lugar se configuram a partir da relação que cada indivíduo mantém com o fragmento do espaço; o não-lugar, assim, também compreende posturas e atitudes individuais do sujeito. São essas posturas e atitudes individuais que acredito estarem representadas na obra de Elizabeth Bishop, cuja vida foi marcada por deslocamentos constantes.
Aos oito meses de idade, perdeu seu pai. Alguns anos depois, sua mãe foi outra vez internada em um manicômio, de onde nunca mais saiu. Até os cinco anos de idade, Elizabeth morou em Great Village, Nova Escócia, Canadá, com os avós maternos, sendo posteriormente removida para Worcester, Massachusetts, para a casa dos pais de seu pai. Esse período é objeto de alguns textos de memória escritos quando viveu no Brasil, como The Country Mouse, no qual fala de sua mudança ‘forçada’ para os Estados Unidos e sobre suas primeiras experiências nesse novo fragmento de espaço.
A casa dos avós paternos, por sua localização em uma antiga área agrícola, não compunha o cenário urbano, nem o rural – uma casa estranha, explorada pela narradora como uma gata – sorrateira, silenciosa e solitária. Na maior parte do tempo, ocupava a sala da frente, seu cômodo preferido, raramente utilizado pelos outros membros da família; via-se como uma outcast; uma exilada que não participava do núcleo familiar. A casa é vista como um lugar triste, escuro, velho e grande, com alterações em sua arquitetura original que desconsideravam seu estilo colonial pré-revolucionário, formando uma espécie de Frankenstein arquitetônico, preservado a todo custo assim como os dentes do avô. Sua relocalização nesse fragmento do espaço, do qual não compartilha o imaginário, a episteme cultural, o jeito de falar a língua, o jeito de se vestir, pode ser responsável por sua inserção em um mundo de não pertencimento, já que não se estabelece uma relação direta entre sua memória e a experiência vivida.
A partir do que revela em The Country Mouse, pode-se dizer que Bishop manteve uma conexão muito mais forte com a casa dos avós maternos; com os erres invertidos dos canadenses de Nova Escócia; com a simplicidade desse lugar e com o olho de vidro de sua avó materna. A casa de Great Village faz parte de seu cotidiano enquanto ausência, como o lugar em que gostaria de estar, sendo portanto her place; aquele fragmento do espaço com o qual mantinha uma relação histórica, relacional e identitária. Podemos dizer, então, que é a partir dele que significa as movimentações de sua vida e com o qual estabelece uma identificação mais forte, construída através de relações sociais concretizadas no plano do vivido e que garantiram a constituição de uma rede de significados e sentidos tecidos por sua história e cultura.
Reencontrar esse lugar tornou-se uma questão representada de forma recorrente em sua obra. Se tomarmos o caranguejo desgarrado de Strayed Crab como exemplo disso, os versos das primeiras linhas do texto poderiam ser expressões da pequena Elizabeth: “This is not my home. How did I get so far from water? It must be over that way somewhere”.1 O caranguejo não se sentia parte do espaço imediato no qual está inserido, uma superfície macia e estranha. Seu desconforto é o de quem está perdido e busca encontrar seu lar: “But on this strange, smooth surface I am making too much noise. I wasn’t meant for this. If I maneuver a bit and keep a
sharp lookout, I shall find my pool again.
Watch out for my right
claw, all passersby
”.2  Contudo, não há como saber onde é casa desse eu que, para Sperling (2012), habita o deslocamento; é essencialmente desgarrado, como pode ser mais uma vez visto na última estrofe de Questions of Travel (Questões de viagem):
 
 

Continent, city, country, society:the choice is never wide and free.
And here, or there… No. Should we have stayed at [home,
wherever that may be?
Continente, cidade, país: não é tão sobejaa escolha, a liberdade, quanto deseja.
Aqui, ali… Não. Teria sido melhor ficar em [casa,
Onde quer que isso seja?

 
 
Além dessa incompletude permanente, Bishop empreende, ao longo de sua vida, deslocamentos espaciais recorrentes, representado uma pulsão constante, um desejo invencível de migrar. Assim, graças à herança que recebeu de seu pai, passou boa parte da vida viajando. Em uma apreciação dos títulos dos poemas reunidos em seus livros, pode se perceber que a geografia, a viagem, o ser diferente, de tipo gauche (queer), são motivos recorrentes em suas composições. Em North and South, livro publicado em 1946, temos: The Map (O Mapa); The Imaginary Iceberg (O Iceberg Imaginário); Florida (Flórida); Paris, 7 a.m. (Paris, 7 da Manhã); The Man-Moth (O homem mariposa); The Weed (A Erva), a erva daninha. No livro Questions of Travel (Questões de viagem), publicado em 1965, além do poema que dá nome ao livro, temos: Arrival at Santos (Chegada em Santos); Brazil, January 1, 1502 (Brasil, 1º de Janeiro de 1502); e referências a bichos esquisitos e seres humanos excêntricos, no sentido de fora do centro, como The Armadillo (O Tatu); Manuelzinho; The Riverman (O Ribeirinho) e The Burglar of Babylon (O ladrão da Babilônia).
Em Crusoe in England (Crusoé na Inglaterra), fala de um pesadelo no qual infinitas ilhas surgiam e se somavam a sua ilha solitária, nem redescoberta, nem rebatizada. As ilhas se multiplicam, como ovos de sapos se transformando em girinos, diante de um sujeito ciente de que teria que viver em cada nova ilha, registrando sua fauna, flora e geografia. Essa era sua “sina3”, viver por muitas eras, na condição de forasteira. Há, apesar do distanciamento e descrição que a poeta sempre fez questão de manter, um reconhecimento de sua condição de ser em deslocamento. Sua relação com a viagem é tão marcante que em, Edgar Allan Poe and the Juke-Box (2006), que reúne textos não concluídos datados entre 1911 e 1979, a editora Alice Quinn usa a geografia como critério de classificação das composições; além de períodos de tempo, menciona as cidades das quais a poeta fala. Assim, as composições escritas no período do Brasil, aparecem agrupados da seguinte forma: 1951-1956 – Brazil, Seatle, New York. Nos textos, referências geográficas e a outros deslocamentos aparecem frequentemente.
Já em One Art (Uma arte), publicado no livro Geography III (Geografia III), representa uma tomada de consciência de sua condição de desenraizada, que precisa desfazer-se, de tempos em tempos, de sua própria vida. Esse desfazer-se transcorre com dificuldade em alguém que perde três casas, duas cidades, dois rios, reinos, e, até mesmo, um continente. Para o eu do poema, as coisas já contêm em si o intento de serem perdidas, ou retiradas dela, que não se acostumou com o pertencer, mas com a viagem. Assim, comprou uma casa em Ouro Preto, uma “casa de brincar” (MARTINS, 2006), nomeada de Casa Mariana, em homenagem à poeta Marienne Moore, e que representa seu último vínculo com o Brasil, enquanto dividia-se entre Ouro Preto, o Rio de Janeiro e Seattle, onde começou a dar aulas no final de 1965.
Em cartas, Bishop revela que aceitou o convite para lecionar por sentir que tinha que ir embora. Vai, então, morar em São Francisco, Califórnia, de onde escreveu para uma velha amiga (apud BRITTO, 2012): “O apartamento é bem grande, claro e ensolarado. Mas, meu Deus, como tenho saudades do Brasil!” e reconheceu que, apesar de São Francisco ser uma cidade muito bonita, “depois de morar em Samambaia e no Rio, nunca mais vou achar graça em paisagem nenhuma”. Contraditório, no entanto, perceber que desde o início de sua estada no Rio de Janeiro sempre demonstrou seu desagrado por essa cidade, descrita por ela como um lugar de muita bagunça, debilitante, “uma mistura de cidade do México e Miami” (ibid).
Em 1969, regressa para sua terra natal, a região de Boston, passa a morar em Cambridge e torna-se poeta residente da Universidade de Harvard. Lá, conhece Alice Methfessel, sua última companheira, e reassume suas raízes na região da Nova Inglaterra, Estado de Massachusetts. Desse novo fragmento do espaço, outro passa a ser referência permanente – o Brasil, particularmente, o Rio e Samambaia, espaços que, juntamente com a figura de Lota nunca estão muito longe e, assim, passam a representar outro espaço-tempo do afeto e do pertencimento perdido.
 
Estigma e resistência: por uma descolonização do ser
Nem todos os sujeitos se submetem voluntariamente a uma nova ordem, particularmente uma ordem opressiva e que empurrava alguns para à ribeira. Num contexto assim, não pertencer, ocupar a margem é uma alternativa viável frente à exclusão, já que há uma redução da liberdade e há uma discrepância em termos de poder e de participação entre os indivíduos, que, oprimidos, desejam evadir das más “condições de existência (as relações sociais, o meio ambiente, as assimetrias do poder, o acesso à esfera pública de participação, a liberdade dos seres humanos etc)” (CAVALCANTI, 2007, p. 10). Nesse sentido, a resistência a assimilação das regras e valores excludentes é um tipo de oposição, uma oposição ao lócus opressor, um sinal que aponta para um outro lugar e tempo, poderoso para a formação política (ibidem) e consequentemente para a desarticulação do estigma.
Resistir à assimilação é lutar contra o peso simbólico negativo que é atribuído, em determinado contexto, a uma característica do sujeito. Para Goffman (1963, p. 12), o efeito dessa atribuição é o de reduzir o sujeito a uma de suas características, posicionando-o como “pessoa estragada e diminuída”. Isso acontece em razão da nossa tendência de “inferir outras imperfeições a partir de uma imperfeição original” (ibidem, p. 15). Resistir, no entanto, não significa eliminar a pressão estigmatizadora, já que “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias” (ibidem, p. 11), que funcionam como gaiolas ou prisões que são, constantemente, impostas a sujeitos que buscam, constantemente, escapar.
A partir do que e de como narra em The Country Mouse, pode-se perceber que Elizabeth resistiu e ‘adotou’ a margem como seu lugar. Na casa dos avós paternos, nunca tinha seus desejos e necessidades reconhecidos e as coisas trazidas da Nova Escócia com as quais se identificava, até seus erres invertidos, eram rejeitados pelos novos familiares, de quem pouco sabia. Essa interpretação da realidade a configura como um sujeito marginal, queer, um tipo gauche e excêntrico; por um lado, afastada do centro familiar/social, deslocada e desenraizada, e, por outro, incompatível com o meio sociocultural (MARTINS, 2006), como pode ser visto no fragmento a seguir:
 

I had been brought back unconsulted and against my wishes to the house my father had been born in, to be saved from a life of poverty and provincialism, bare feet, suet puddings, unsanitary school slates, perhaps even from the inverted r’s of my mother’s family. With this surprising extra set of grandparents, until a few weeks ago no more than names, a new life was about to begin. It was a day that seemed to include months in it, or even years, a whole unknown past I was made to feel I should have known about, and a strange, unpredictable future (BISHOP, 2011, p. 89).4

Em outra passagem, demonstra como suas bonecas foram tidas como velhas e inadequadas pela avó e substituídas por bonecas novas; uma destas foi vestida pela avó com roupas monocromáticas escuras e nomeada com o nome Drussilla, tão desagradável para a garotinha que a própria Bishop chamava-a apenas de the doll.  Desse modo, não conseguia simplesmente ser/pertencer e desfrutar disso, como é explicitado no fragmento abaixo:
 

Yes, I was beginning to enjoy myself a little, if only Grandma hadn’t had such a confusing way of talking. It was almost as if we were playing house. She would speak of “grandma” and “little girls” and “fathers” and “being good” – things I had never before considered in the abstract, or rarely in the third person. In particular, there seemed to be much, much more to being a “little girl” than I had realized: the prospect was beginning to depress me. And now she said, “Where’s your doll? Where’s Drussila?”5 (BISHOP, 2011, p. 88).

Em razão dessa ‘opção política’, simbolizada na recusa do nome da boneca, Bishop escolhe o mundo como casa e transforma-se em permanente estrangeira, reduzindo as escalas, proliferando imagens e referências, a partir de deslocamentos constantes, significando sua movimentação a partir de dois lugares: Nova Escócia, o lugar do afeto e do acolhimento, e Samambaia, no Rio de Janeiro, o lugar do amor romântico. Nesse sentido, transformou-se em ser diaspórico, mantendo vínculos com um lugar prévio de forma suficientemente forte a resistir ao desmantelamento por meio de processos normalizadores como o esquecimento, a assimilação e o distanciamento (CLIFFORD, 2011).
Ao mesmo tempo em que transfere novas regras e valores, o processo de educação ao qual foi submetida reforça o seu não pertencimento e insatisfação. A incompreensão dos padrões culturais desse novo lugar, que lhe eram transferidos de forma muito abstrata, pareciam-lhe construir uma autoimagem deficitária, incompleta e inadequada frente ao que era esperado dela pela avó. Assim, sem saber onde era o seu lugar, projeta-se em um movimento de prospecção de um outro, um bom-lugar, sempre ausente. Partindo de Quijano (2005), seus deslocamentos são importantes para a reconfiguração do “padrão de poder” existente em seu fragmento de espaço imediato, já que desarticula as formas de controle e a hegemonia que imperam e reduzem um ser e sua forma de habitar a algo inferior.
 
Considerações finais
Nesse ensaio, partimos do pressuposto de que a obra e a vida da escritora Elizabeth Bishop revelam um processo típico do nosso tempo – uma relação com o não-lugar. Impossibilitada de negociar os termos e condições de vida da casa em que morou a partir dos cinco anos de idade, adotou a margem como posição primeira e passou a habitar a viagem. Essas escolhas são também um gesto político, que a liberta do peso de viver estigmatizada em uma ordem em que as práticas de poder, em certo sentido, também colonizadoras, impunham-lhe um condição de inferior. Para Hall (2006), adota a condição de ser ‘traduzido’; de ser transferido entre fronteiras, já que seu processo de formação identitário é atravessado por várias culturas, várias casas, vários lugares, que permanecem, mesmo ausentes, interferindo em suas relações com o espaço-tempo presente.
A partir dos cinco anos de idade, em suas inúmeras mudanças e viagens, Bishop, como representou em suas composições, viveu construindo e desconstruindo agenciamentos com novos e recorrentes espaços-tempos. Em certo sentido, a expansão de seu espaço, ou a sobreposição de uma nova espacialidade àquela anteriormente conhecida, reduz o seu lugar, Great Village, a uma referência. Retomando Marc Augé (1995), a expansão do espaço do homem, simbolizado pelos primeiros passos da humanidade no espaço sideral, reduz o nosso próprio espaço a um ponto infinitesimal, provocando uma mudança de parâmetros perceptível na própria mudança de escala. Em outros termos, ao expandir seu espaço, Bishop se percebeu diferente dos novos outros e a vila canadense deixou de ser o centro de sua experiência vivida, permanecendo, no entanto, como espaço afetivo, histórico, relacional. Suas obra e vida são, portanto, marcadas por reações de estranhamento; como se fosse forasteira em cada nova situação – a garotinha da Nova Escócia posta, novamente, em um mundo que não é seu.
 
NOTAS
 
1Quando não indicado em nota de rodapé, a tradução será, como essa, de Paulo Henriques Brito (2012): “Aqui não é a minha casa. Como fui parar tão longe da água? Deve ser para lá.”
2Mas nessa superfície estranha, lisa, faço barulho demais. Não fui feito para isto. Se eu manobrar um pouco e ficar de olho atento, hei de reencontrar minha poça. Cuidado com minha garra direita, passantes!
3A palavra sina é utilizada na tradução de Britto (2012).
4Tradução nossa: Eu fui levada de volta sem ser consultada e contra a minha vontade para a casa na qual meu pai havia nascido, para ser salva de uma vida de pobreza e provincialismo, uma vida de pés descalços, de pudins de sebo, de escolas insalubres revestidas de pedras de ardósia, talvez, para ser salva, até mesmo, dos erres invertidos da família de minha mãe. Com esse surpreendente par de novos avós, poucas semanas atrás não mais que um par de nomes, uma vida nova estava prestes a começar. Era um dia que parecia incluir meses dentro dele, ou até anos, todo um passado desconhecido que eu me fiz sentir que devia conhecer, e um estranho, imprevisível futuro.
5Tradução nossa: Sim, eu começava a me divertir um pouco; se ao menos vovó não tivesse um jeito confuso de falar. É quase como se nós estivéssemos brincando de boneca. Ela falava de “vovó” e de “garotinhas” e de “pais” e de “ser boa” – coisas que eu nunca tinha considerado em abstrato antes, ou raramente na terceira pessoa. Em particular, parecia existir muito, muito mais em ser uma garotinha do que eu podia perceber: a expectativa começava a me deprimir. Então ela disse: – Onde está sua boneca? Onde está Drussila?
 
Referências
 
AUGÉ, Marc. (1995). Non-places: Introduction to an Anthropology of Supermodernity. Translated by John Howe. Great Britain: Biddles Ltd.
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http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/issue/view/97/showToc. Acesso em 28 de agosto de 2013.
BRITTO, Paulo Henriques. (2012). Poemas escolhidos de Elizabetinh Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras.
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http://www.uesc.br/seminariomulher/anais/mesas.html. Acesso em 30 de agosto de 2013. Salvador-BA: Seminário Mulher e Literatura.
CLIFFORD, James. (2011). Diasporas. Em: Nattie Golubov (org.). Diásporas: Reflexões teóricas. México D.F.: CISAN/UNAM. p. 85-126.
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HALL, Stuart. (2006). A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A.
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Bio fornecida pelo palestrante.

NOVAS CARTAS E DEPOIS: AINDA CONTRA A PERIFERIA DO FEMININO – Tatiana Pequeno da Silva




 

Tatiana Pequeno da Silva

Universidade Federal Fluminense

 
 
RESUMO: O objetivo do presente trabalho é discutir e problematizar a produção poética de mulheres a partir de um recorte que leva em consideração as literaturas de língua portuguesa numa perspectiva comparada. Com efeito, pretende-se trazer à leitura a poesia de duas autoras tanto brasileiras (Mônica Menezes e Rita Santana) quanto portuguesas (Maria Sousa e Margarida Vale de Gato) e ainda as vozes de Paula Tavares e Odete Semedo como eco de muitas Áfricas representáveis. Para tanto, serão utilizados materiais teóricos que (re)pensem o feminino e a ideia de menoridade literária enquanto temática e autoria, a partir do que propõem Deleuze & Guattari em Kafka: para uma literatura menor e  Gayatri Spivak em Pode o subalterno falar?, dentre outros.
 
PALAVRAS-CHAVE: gênero; Literaturas de língua portuguesa; literaturas africanas, literatura brasileira.
 
 
ABSTRACT: This text intends to discuss and to question the poetic production of women in Portuguese literature from a comparative perspective. It proposes two readings by two Brazilian poets, Monica Menezes and Rita Santana; two Portuguese poets, Maria Sousa and Margarida Vale), and the writings of Paula Tavares and Odete Semedo as representative voices of African literature. In order to do (re)think the female as theme and as authorship it will employ theories by Deleuze and Guattari and by Gayatri Spivak, among others.
 
KEYWORDS: Gender; Portuguese literature; African literatures, Brazilian literature.
 
Minicurrículo: Tatiana Pequeno da Silva nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É Professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense (Niterói/ RJ, Brasil) e membro da equipe brasileira de investigação do projeto internacional “Novas Cartas Portuguesas – 40 anos depois”, liderado pela Professora Ana Luísa Amaral, da Universidade do Porto. Possui graduação, mestrado e doutorado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e é autora do livro de poemas Réplica das urtigas (Rio de Janeiro, Oficina Raquel, 2009).
 
 
 

NOVAS CARTAS E DEPOIS: AINDA CONTRA A PERIFERIA DO FEMININO

 

Tatiana Pequeno da Silva

Universidade Federal Fluminense

 
 
O legado deixado por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa não consiste apenas na concretude da obra reificada em livros. Antes, a herança que nos chega é a de uma concepção revolucionária do discurso feminino diante de um cenário aceito, àquela época, como distópico porque autocrático, totalitário e intolerante. Muitos poderiam objetar que as Novas Cartas Portuguesas são um livro datado. Aliás, sobram lugares comuns quando o assunto é a leitura de um lugar feminino na e para a literatura, certamente porque este ponto, nem de longe pacífico, desloque pressupostos simbólicos e reificados de poder frente ao cânone masculino, eurocêntrico e heterossexual.
Pensar, quarenta anos depois, numa obra de língua portuguesa que estabeleça diálogos ou simplesmente reverbere os sinais daquele fogo epistolográfico assinado pelas três autoras é confirmar a necessidade de discussão sobre a permanência de um discurso que não se institui como exercício a pretexto de vingança ou de nostalgia, como se verifica na primeira carta. Com ela, iniciamos esta pequena reflexão: “E de nós, o que faremos?” (NCP, p. 9). O que foi feito e o que fizemos de nós nestes quarenta anos que nos distanciam do projeto político denominado Novas Cartas Portuguesas? Decididamente, há o que comemorarmos em tempos de recorrentes feminicídios? O que é um corpo como o de Eliza Samúdio, dessacralizado e dado aos cães, por exemplo? Quantas Marias da Penha tiveram suas colunas e os seus eixos quebrados para que enfim uma lei que as protegesse fosse promulgada? Quantas travestis, transexuais e outro@s quaisquer com identidade de gênero feminino precisarão sucumbir para que ser, estar ou sentir-se mulher não seja algo menor? Em que medida a literatura repercute as implicações do gênero no seu discurso?
Contemporaneamente poderíamos observar na obra de duas poetas portuguesas uma enunciação que, embora não esteja mais conectada ao princípio revolucionário ou reivindicatório das lutas femininas, necessariamente assume uma reflexão sobre este gênero. Neste sentido, os livros de poemas de Maria Sousa e Margarida Vale de Gato tratam de um enfrentamento cujo principal cenário evoca, desde os seus títulos, uma diferença (e, portanto, uma nomeação) de locução. Mulher Ilustrada e Mulher ao Mar são, respectivamente, livros de poesia que reelaboram um discurso que rediscute os sentidos e os efeitos da crise, conforme se verifica no poema de Maria Sousa:
 

a mulher

organiza as sombras para evitar o escuro

na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas

que pousam no dia

(SOUSA, 2013, p. 26)

 
A poesia, nesse caso, é um espaço no qual a linguagem flui, espécie de fonte por meio da qual o exercício de uma potencialidade lírica se desdobra, dando azo a uma vida interior que deve não apenas “organizar” as sombras para não formalizar seus escuros como também acessa a “prudência” nos embates diante do silêncio crescente e difícil. Assim, no poema a seguir, de Margarida Vale de Gato, intitulado “Coping”, é possível também encontrar como matéria poética uma reflexão sobre os lugares previsíveis atribuídos ao feminino:
 

Ficar quieta é técnica que já

aplico com rigor, e no preciso

sítio em que pulsa paraliso

tudo, quem está morto livre está.

Creio que começou quando cedeu

o avô. Alguém disse: afinal

o coração não aguentou. Eu

pensei: mais vale declinar o abalo.

Mas também não cheguei nessa altura

até ao fim. Escangalhei-me na novena

aos degredados filhos de Eva.

Iniciei-me então nos barbitúricos

e hoje passo bem melhor. Às vezes

é um jogo, em que recorro ao coito

antes da apanhada, e se esgoto

essa via, dedico-me à mimese,

diluo-me com os objectos, tudo

me toca mas nada dá por mim, tão

imóvel que me ignora a dor, não

há como acordar um corpo mudo.

Por exemplo agora que não veio

o homem, podia ter-me ferido

ou saído a buscar outro, e perdido;

mas pratico com vantagem a apneia

e a domesticidade. É pena

que me esqueça tanta coisa; foi

sorte saber da lamela – eia, pois,

advogada nossa – dormir serena.

(GATO, 2010, p. 39-40).

 
De sintaxe difícil, o poema cogita uma ladainha em que a oração católica “Salve Rainha” intervém na docilização do corpo que Foucault já investigava no Vigiar e Punir. Neste caso, para além de uma certa ironia adiliana, há também uma verticalização no tratamento de duas tópicas muito caras aos estudos de gênero: as relações do feminino com o doméstico e com a passividade. O sujeito lírico feminino pouco ou nada – talvez valha aqui um destaque à trapaça irônica que já identificamos – subverta o cenário para o qual a semântica deste poema se dirige, isto é, para o encontro com o sono e com o alheamento conforme se verifica nos belos versos: “diluo-me com os objectos, tudo/ me toca mas nada dá por mim, tão/ imóvel que me ignora a dor, não/ há como acordar um corpo mudo.”
Mais afeita à melancolia pode ser a lírica de Maria Sousa que, comprometida com o propósito de ilustrar a (in)definição da mulher, acaba por circunscrevê-la a uma dicção de enfrentamento da perda ou daquilo que Conceição Evaristo tão bem captou com o poema “A Noite não adormece nos olhos das mulheres”. A reiteração das abstrações na poesia de Maria Sousa pode ser estratégia para nominalizar o que, afinal, é falta ou objeto inominado. Portanto, quando a voz lírica do poema informa “sei que falar de ausência é chamar-te para o poema” (SOUSA, 2013, p. 33) esta evocação sinaliza a partilha difícil da “mulher que escreve” e “Ritualiza gestos em palavras e responde com/ perguntas onde os pássaros se encostam”.
Embora Margarida Vale de Gato e Maria Sousa tragam em seus títulos referências claras a uma perspectiva e de uma locução feminina, nítido fica que para ambas a experiência do feminino é com certeza bem menos engajada e combativa, como demonstra o poema “Ressabiadas”, da primeira: “Talvez lá no fundo acredite/ que os seres humanos são todos sensivelmente/ os mesmos em toda a parte, mas então/ necessariamente as mulheres são mais.”
Para efetuar a ultrapassagem das fronteiras seria interessante ouvir a formulação da indiana Gayatri Spivak que no importante Pode o subalterno falar? sentencia: “Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade.”. Para problematizar a questão da subalternidade feminina no contexto (pós)colonial é interessante exemplificar a poesia de autoria feminina com nomes contemporâneos que discutam, em alguma medida, a condição feminina mais ou menos expressa do ponto de vista do conteúdo na cena editorial. Para tanto, serão abordadas duas poetas baianas contemporâneas: Mônica Menezes e Rita Santana.
A poética de Mônica Menezes, publicada pela primeira vez sob o selo das Cartas Bahianas – edições comprometidas em lançar autores contemporâneos como Ângela Vilma e Kátia Borges, por exemplo –, pode ser pensada a partir de uma estética do mínimo que acaba por valorizar não apenas a singeleza estrutural de versos curtos, por exemplo. Por meio de seus pequenos Estranhamentos recorre-se a uma economia de afetos que orienta o “Amor, os territórios do desejo e uma nova suavidade”, a partir de uma singeleza que não abdica do vertical: “Poema quase seco: o extenso rio da minha infância/ tornou-se/ lama/ entre/ meus/ dedos” (MENEZES, 2010. P. 22).
Ainda que geminada a princípios orientais (do haikai e de certa poesia chinesa), a escrita de Mônica Menezes parece buscar a limpidez e a justeza como formas enquanto a temática convoca na sua perspectiva feminina um certo compromisso com um novo tipo de devir-mulher. Félix Guattari identifica esta necessidade a partir da recolha feita por Suely Rolnik em Cartografias do desejo:
 

A “nova suavidade” faz parte desse tema que estamos discutindo o tempo todo, que é o da invenção de uma outra relação com o corpo, por exemplo –, relação esta presente nos devires animais. Sair de todos esses modos de subjetivação do corpo nu, do território conjugal, da vontade de poder sobre o corpo do outro, da posse de uma faixa etária por outra, etc. Portanto, para mim, a nova suavidade é o fato de que, efetivamente, um devir-mulher, um devir-planta, um devir-animal, um devir-cosmos, podem inserir-se nos rizomas de modos de semiotização, sem por isso comprometer o desenvolvimento de uma sociedade, o desenvolvimento das forças produtivas e coisas assim. Quero dizer que, antes, as máquinas de guerra, as máquinas militares, as grandes máquinas industriais eram a única condição para o desenvolvimento. Era a força física, a força militar, a afirmação dos valores viris que funcionavam como garantia da consistência de uma sociedade. Sem elas, a devastação era total. Isso existe ainda na Rússia, em todos os países fascistas, nos EUA, etc. Mas hoje em dia as margens, as novas formas de subjetividade, também podem se afirmar em sua vocação de gerir o mundo, de inventar uma nova ordem social sem que, para isso, tenham de nortear-se por esses valores falocráticos, competitivos, brutais. Elas podem se expressar por seus devires de desejo (ROLNIK, 2005, p. 341-342).

Assim, investindo na poesia como território em que a prática do desejo acessa uma subjetividade menos assertiva porque atenta à brandura, ao trânsito e ao singelo, Mônica Menezes também repensa o feminino como condição. Vejamos o poema “Mulher”:

quis para mim a graça

do sonho de ser tua

e penteei meus cabelos

e pintei minha boca

e escolhi no espelho

meu melhor olhar de mulher

mas tuas mãos não são livres

teu coração já tem dona

e eu voltei para casa

menina

trazendo a máscara na mão.

(MENEZES, 2010, p. 16)

 
Semelhante à narradora do conto “Restos do Carnaval” de Clarice Lispector, o sujeito lírico do poema assinala que mesmo diante de uma identidade de gênero mais ou menos definida (que se verifica no título do poema), é possível operar devires outros que o uso da máscara operacionaliza. Não obstante, o verso “meu melhor olhar de mulher” liquefaz qualquer previsão sobre um feminino monolítico. Nesta poesia e mulher é, sobretudo, movência do desejo.
Na poesia de Rita Santana, entretanto, encontramos outros ecos que harmonizam identidades de força a partir do que pode ser entendido como uma poesia negra feminina: “Quilombola tecendo/ o algodão doce/ das dúvidas/ dos dias.” Nesse sentido, o título do livro aqui sugerido coincide com uma busca que parece ser consequência bem recente de liberdades conquistadas: Alforrias. Com efeito, os poemas de Rita Santana encenam um permanente estado de luta que não diz respeito apenas às identidades negra e alforriada, mas realoca os sentidos de um feminino resistente:

A noite acortinou-se sobre o meu sorriso

E nada mais seria, desde então:

Comunhão de corpos, inclusão de membros,

Festejamento de carnes,

Nem mesmo amplidão de águas.

Vi-me no falecimento das ânsias

A sangrar sobre o vinhaço.

Corria mansidão sobre o meu desespero

E em tempos desiguais o querer perdeu-se

No despenhadeiro da distância.

O gosto perverso da separação

Ventilou minha boca de mulher que ama.

Ninguém viu o sabor na língua.

Ninguém viu o sofrer dos dentes.

(SANTANA, 2012, p. 27)

Certamente a reflexão sobre o feminino não cede a espaços de periferia na poesia de Rita Santana, apesar de ser possível verificar em seu texto uma “Agrestidade” que recolhe para o poema uma tensão natural que necessariamente cria uma mudança, uma passagem. Esta “Agrestidade” ou “Acridez” são, com isso, elementos dissolvidos pela experiência poética que pulveriza qualquer indício de ressentimento, uma vez que à metade do poema a própria voz lírica areja o trabalho do luto, reelaborando a linguagem da falta: “O gosto perverso da separação/ Ventilou a minha boca de mulher que ama.”.
É importante destacar que a poesia de Rita Santana, marcada a partir de uma prática discursiva que reivindica lugares de fala, poderia autenticar certos lugares comuns que costumam negativizar quaisquer tentativas de empoderamento por parte do feminino, questão insistentemente pensada por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa nas Novas cartas portuguesas:
 

E nesta volta do amor à história e à política veio a visita de fundo ao nosso intercâmbio; porque desentulhamos o que de assustador temos para nós – e porque não “pacto com o demónio”, se dessacralizado, desmistificado, se soubermos “o diabo que temos na mão”? – e o que de assustador, monstruoso, equívoco, nos cometerão os outros – lembremo-nos, sim, que um negro extremista é já respeitável, mas que uma feminista é vituperada, assustadora do ainda indiscursível, incómoda, ridícula, mesmo para os cavaleiros bem pensantes de toda a libertação – talvez seja o primeiro caminho para desmontarmos nossas circunstâncias históricas e políticas (BARRENO, COSTA, HORTA, p. 108).

Rumo à África, uma das autoras que merece o nosso destaque é Odete Semedo, nascida em Bissau. Uma das obras mais relevantes da poeta é, sem sombra de dúvida, o “cantopoema” (p. 15) No fundo do canto (SEMEDO, 2007). Já no prefácio podemos encontrar elementos importantes a respeito dessa poética marcadamente testemunhal, apesar do tom lírico, às vezes (anti)épico:
 

Não será épica a minha poesia, pois não cantarei nem as armas nem os barões. Lírica? Se nem do passado consigo me lembrar nesta kambansa, e nem me despedi antes de partir por ser este momento tão macabro. Voltei para trás, voltei para dentro de mim, para encontrar algo que me fizesse entender o mundo de outras terras que não o da minha, voltei para trás tentando encontrar uma explicação para tudo aquilo que eu não conseguia entender naquele momento. Por que tudo isso? Qual o porquê destas páginas que se abrem ante os meus olhos? (SEMEDO, 2007, p. 15).

Intimista, portanto e testemunhal é o fundo do canto de Semedo que abdica do épico tradicional enquanto valoriza o detalhe, a compleição e o subjetivo em detrimento da grandiloquência, muito embora esta poesia seja fundamentalmente seja imagem da partilha do terror: “um grito/ um grito/ retumbante/ escancarou as janelas/ e eu chorei/ mais pelas mulheres/ que pelos segredos da vida (…) / irrompeu revoltado/ sem pedir licença (…) era fúria/ injúria/ raiva/ (sobre)vivência/ pobreza/ ódio/ ganância/ miséria/ Como são largos os passos do vaticínio” (SEMEDO, 2007, p. 58).
Na obra de Odete Semedo, quase sempre a pátria violada é imagem para a qual também se compreende o feminino. Tal procedimento parece importante de ser assinalado uma vez que se pensamos, conforme sugere o livro de Moema Parente Augel, em certa literatura guineense como um desafio a partir dos escombros e da ruína, talvez fosse conveniente analisar como o feminino aí opera e resiste:
 

Bissau não quis acreditar
no que via
no que estava a sentir

Bissau despediu-se de seus filhos
nua deitou-se de bruços
para receber chicotadas
para receber açoite
com ramos espinhosos
de nhára-sikidu

Bissau não quis acreditar

(SEMEDO, 2007, p. 49)

 
 
Por meio dos frutos lentos, a dicção feminina em língua portuguesa vai assumindo a partos largos as vertentes de quem pode falar e evocar as memórias amargas do corpo. Como sentencia Inocência Mata no prefácio da edição brasileira de Amargos como os frutos: “A figuração do feminino gera uma iluminação em que a escrita se transforma em iniciação à vida plena, para neutralizar o vazio que, no meio das vivências femininas, tem tendência a crescer insondável” (TAVARES, 2011, p. 12). Ou seja: é no alcance da escrita e na potencialização da voz lírica que a mulher ressignifica o mundo e seus territórios, aproveitando-se de tal experiência para elaborar a dialética entre silêncio e locução, livrando-se progressivamente dos vários assujeitamentos políticos por que passa.
O corpo que se imprime na poesia de Ana Paula Tavares é também uma cartografia telúrica da mulher que “esconde muito tímida/ o cerne encantado” (TAVARES, 2011, p. 41), onde a iniciação da palavra recorre aos corpos frutados mas não doces, de formas e cores que remetem sempre ao caroço, à origem da “Frágil vagina semeada/ pronta, útil, semanal/ Nela se alargam as sedes// no meio/ cresce/ insondável/ o vazio” (TAVARES, 2011, p. 31). Nesse sentido, enquanto aguardam as cerimónias de iniciação para cair, os frutos se sustentam por um caule gramatical cuja seiva irriga a ultrapassagem da palavra puramente comunicacional para aquela cuja língua é imagética, plural e insubmissa porque inapreensível:
 

Mukai (1)

Corpo já lavrado

Equidistante da semente

É trigo

É joio

Milho híbrido

Massambala

Resiste ao tempo

Dobrado

Exausto

Sob o sol

Que lhe espiga

A cabeleira.

(TAVARES, 2011, p. 89)

 
 
Ainda que não possamos categorizar tais textos escritos por mulheres como práticas excelentemente feministas (o que também exigiria pensar as diversas diferenças a partir de outras especificidades como o feminismo latino-americano, feminismo negro e um pós-feminismo que vem sendo configurado a partir de meados da década de 1990), pode-se afirmar que diante de uma história e de uma prática de silenciamentos, a própria constituição de uma poesia de autoria feminina valida o desfazer dos fios da espera. A escrita, neste sentido, reúne uma comunidade de mulheres. Possivelmente sem conhecer a máxima llansoliana que afirma serem leitura e escrita um chamamento ao combate, estes diversos nomes empenhados na transmissão de uma escrita marcadamente feminina porque orientadas por uma preocupação ontológica do feminino:
 

Seja qual for o meu destino, aí selei um contrato com o vivo, e dei o passo irreversível que tanto hesitei em dar para um texto capaz de conferir uma expressão actual a gritos humanos e não-humanos, abafados pelo “assim é” da história, do mundo, do poder de espezinhar.

Não quantas vezes sentada na minha cadeira a ouvir as discussões, dificuldades e dúvidas, senti finalmente que outros, a seu modo, entravam por uma porta não muito diferente da por onde eu entrara. Senti que se procurava a chave sob a maçã, o mistério não é o medo que tolhe os passos, mas a servidão que trazemos acorrentada às mãos e nos impede de tactear a chave sob a impotência e o júbilo de viver, senti-me estranhamente bem, sem o peso de carregar sozinha uma escrita que fez de mim um ser com aura, permitindo-me reatar o meu caminho para o humano, de ser alguém de único entre únicos também, únicos não querendo significar especiais nem revelados, mas tão-só responsáveis pelo dado indiscutível de que cada um é irrepetível, quer goste quer não. a perseverança dos outros deu-me coragem vi que não era uma singularidade vã.

(LLANSOL, 2002, p. 323)

 
Por meio de seus tão diferentes lugares-litorais do mundo, estas vozes procuram uma chave sob a maçã que não nos aparte da potência da diferença. Maria Gabriela Llansol, ainda que não seja uma escritora empenhada, entende que a literatura, a manifestação dessa voz é fundamentalmente interventiva no Mundo.
 
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MENEZES, Mônica. Estranhamentos. Salvador: P55 Edições – Cartas Bahianas, 2010.
SANTANA, Rita. Alforrias. Ilhéus: Editus – Editora da UESC, 2012.
SOUSA, Maria. Mulher ilustrada. Coimbra: Edição: do lado esquerdo, 2013.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: EDUFMG, 2010.
TAVARES, Paula. Amargos como os frutos. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CONOTAÇÃO E FIGURA EM KATHERINE MANSFIELD E EM CLARICE LISPECTOR – Patricia Gonçalves Tenório




 

Patricia Gonçalves Tenório

 

Universidade Federal de Pernambuco

 
Resumo: O presente estudo é fruto das disciplinas Bases da Teoria (2014-1), ministrada pela Prof. Dra. Lucila Nogueira, e Metodologia da Pesquisa Literária (2013-2), ministrada pelo Prof. Dr. Antony Bezerra no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Faremos uma aproximação entre os contos Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield e Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, utilizando os conceitos de conotação, tratado por Roland Barthes em S/Z e de figura, trabalhado por Erich Auerbach em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental.
 
Palavras-chave: Katherine Mansfield, Clarice Lispector, conotação, figura.
 
 
Abstract: This study is derived from the disciplines Bases of Theory (2014-1), taught by Prof. Dr. Lucila Nogueira, and Methodology of Literary Research (2013-2), given by Prof. Dr. Antony Bezerra, in the Post-graduate Program of Linguistics and Literature of Federal University of Pernambuco, Brazil. Here we will approach the short stories Bliss, by Katherine Mansfield, and “Felicidade clandestine” (Clandestine Happiness), by Clarice Lispector, employing the concepts of connotation, as used by Roland Barthes in S/Z, and figure, employed by Erich Auerbach in Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature.
 
Keywords: Katherine Mansfield, Clarice Lispector, connotation, figure.


 

Conotação e Figura em Katherine Mansfield e EM Clarice Lispector

 
 

Patricia Gonçalves Tenório

Universidade Federal de Pernambuco

Sobre Katherine Mansfield

 
Kathleen Beauchamp Mansfield nasceu a 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zelândia, terceira filha entre os seis descendentes do casal inglês Sir Harold Beauchamp, comerciante e banqueiro abastado, e Annie Burnell Dyer, dona de casa. Em 1893, a família se mudou para Karori, próximo a Wellington, onde Kathleen vai adquirir belas recordações que serão utilizadas na sua futura obra.
Desde cedo foi reconhecida a sua vocação para a escrita, quando aos nove anos venceu um prêmio da escola com um texto chamado The Sea Voyage. Em 1903, mudou-se para estudar com as duas irmãs mais velhas em Londres, e, entre idas e vindas da Nova Zelândia, terminou por convencer os pais a firmar moradia na capital inglesa e aí viver até o fim de sua vida, aos trinta e quatro anos (1923), vítima de tuberculose.
Inquieta, inteligente e extremamente criativa, ao mesmo tempo dotada de uma personalidade muito forte, teve muitos problemas de relacionamento. Aos treze anos apaixonou-se por Arnold Trowell, violoncelista, o que a fez ter aulas de música com o pai de Arnold, fato que pode ter influenciado na cadência rítmica de seus contos. Aos vinte anos, em três semanas, conheceu, casou-se e separou-se no outro dia do primeiro marido, George Bowden.
Em 1908, após uma gravidez indesejada e um aborto espontâneo, foi rejeitada por sua mãe, Annie Dyer, que a excluiu do testamento por causa do comportamento sexual da filha. A partir de então, Kathleen Mansfield passa a ser conhecida por Katherine Mansfield, por sentir que precisava se afastar da família e da terra natal para se transformar numa escritora de verdade. Conheceu John Middleton Murry em 1908, com quem veio a casar-se em 1918, sendo ele o responsável pelos direitos autorais de sua obra após a sua morte.
Foram 88 contos escritos por K.M., como costumava assinar na revista The Athenaeum, editada pelo marido John Middleton Murry. Publicou três livros: In a German Pension (1911), Bliss (1920) e The Garden Party (1922). Os contos de K.M. vão de encontro aos padrões dos contos clássicos vigentes na época, que consistiam na preocupação com o enredo de ação e o tema principal, enquanto os dela utilizavam a linguagem poética na narrativa, eram narrados sem enredo, prevalecendo o tratamento da epifania, o que os aproximava da prosa poética. Por esses e outros fatores foram considerados contos modernos.
Ricardo Piglia, em Formas breves (2004), ao diferenciar o conto moderno do conto clássico, considera que na Modernidade, após a Revolução Industrial, há a fragmentação da “unidade da vida”, e, consequentemente, fragmentação da “unidade da obra”, que passa do enredo com o início, meio e fim do conto clássico para um enredo “sem ação principal”, em que “os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros”. O conto “abandona o final surpreendente e a estrutura fechada”, trabalhando “a tensão entre as duas histórias, sem nunca resolvê-las”: a história que poderíamos chamar de aparente, no primeiro plano, e a história secreta, no segundo plano.
 
Sobre S/Z
S/Z foi escrito por Roland Barthes no intuito de analisar a novela de Honoré de Balzac, Sarrasine (1830), a partir de um “ouvir dizer”, ou melhor, “ouvir ler” de um estudo de Jean Reboul sobre ela, sendo que “sua própria escolha era devida a uma citação de Georges Bataille”. A utilização de S/Z para analisar os contos Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield, e Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, também se deveu a esse jogo de escolhas sem fim e à coincidência de citações e títulos quase homônimos de alguns contos de Mansfield e Lispector.
Sarrasine narra a história do escultor com este nome, narrada por um jovem diante de sua amada em uma festa. As camadas de história se repetem em abismo e, ao significar a camada mais profunda – o segredo do escultor –, o narrador, a amada, e nós leitores vamos nos significando e transmitindo um para o outro o mesmo estranhamento: a castração de Zambinella, amor proibido de Sarrasine.
Trazendo a novela de Balzac “de frente para trás”, Roland Barthes nos apresenta, frase por frase, a estrutura do texto. Utiliza cinco códigos na análise – hermenêutico (enigmas), sema (sentido), proiarético (ações seriadas), simbólico (profundidade e segredo) e cultural (citações de uma ciência ou de uma sabedoria). Construindo os conceitos de tecido das vozes, antítese, conotação e denotação, ironia, paródia, personalidade, figura, (…) entre tantos outros, ao mesmo tempo em que os aplica no texto Sarrasine, Barthes, no seu “fazer-fazendo” de S/Z, aos poucos desvenda os segredos da ficção e nos fornece instrumentos para que nós mesmos desvendemos, aqui, os segredos do conto Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield, além de colocá-lo em contato com Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector.
Felicidade (Bliss) de Katherine Mansfield foi provavelmente escrito entre 1915 e 1919, e foi publicado na revista The English Review e posteriormente no livro Bliss and other stories (1920). Trata-se da estória de Bertha Young, uma jovem esposa e mãe de família de classe média alta da Londres do início do século XX que, certo dia, sente-se tomada por um sentimento indefinível, que não consegue nomear. Poderíamos dizer que o conto narra a estória do encontro de Bertha com ela mesma, inédito nessa jovem mulher acostumada com os pequenos momentos de felicidade proporcionados por acontecimentos exteriores, de fora para dentro, e que agora pareciam estar sendo vivenciados de dentro para fora. Talvez seja esse o motivo do conto se chamar Bliss, Êxtase, em português, e não Happiness, que indicaria uma felicidade externa. A “felicidade” de Bertha é provocada pelo encontro com a amiga Pearl Fulton, que guarda o segredo da própria traição com o marido de Bertha, Harry.
 
Conotação e denotação
Roland Barthes assim define os conceitos de conotação e denotação em S/Z:
 

Estruturalmente, a existência de dois sistemas considerados diferentes, a denotação e a conotação, permite ao texto funcionar como um jogo, pois cada sistema reenvia para outro, de acordo com a necessidade de criar uma certa ilusão. Ideologicamente, por fim, este jogo assegura vantajosamente ao texto clássico uma certa inocência; dos dois sistemas, denotativo e conotativo, um deles evidencia-se: o da denotação; a denotação não é o primeiro dos sentidos, mas finge ser; sob tal ilusão, ela não é, finalmente, senão a última das conotações (aquela que, simultaneamente, parece inaugurar e fechar a leitura) (…). (BARTHES, 1970, p. 15).

Aplicando os conceitos de conotação e denotação em Felicidade (Bliss) encontramos metáforas que apontam, relacionam, anunciam, prefiguram um acontecimento futuro a partir de um acontecimento presente, ou seja, conotam o que virá (ainda) a acontecer. Podemos tomar como exemplo dois trechos elencados da dissertação de mestrado de Patrícia Peter dos Santos Zachia Alan, “A tradução da prosa poética de Katherine Mansfield em português: um estudo comparado” (2011, UFRS) quando trata da tradução de Bliss por Ana Cristina César e dois outros trechos por nós elencados na tradução de Maura Sardinha:
 

Um gato cinzento, arrastando-se pelo chão, atravessou furtivamente o gramado, seguido por um gato negro, como se fosse a sua sombra. A passagem dos dois gatos, tão precisa e rápida, provocou em Bertha um estranho arrepio.

“Gatos são coisas aflitivas!” (MANSFIELD, in CÉSAR, 1999, p. 314).

E então ela partiu, Eddie atrás, como o gato negro seguindo o gato cinzento. (MANSFIELD, in CÉSAR, 1999, p. 322).

 
Patrícia Alan considera que os personagens Eddie (escritor) e Pearl (amiga de Bertha e amante de Harry) são o preenchimento da configuração anteriormente anunciada nos gatos negro e cinzento que rondavam o jardim da enigmática pereira de Bertha Young.
Seguem agora os trechos elencados por nós com o mesmo sentido de conotação/denotação explicitado por Roland Barthes em S/Z:
 

Havia tangerinas e maçãs, coloridas com o rosa dos morangos. Algumas peras amarelas, macias como seda, umas uvas verdes cobertas por fina camada prateada e um grande cacho das vermelhas. Estas últimas tinham sido compradas para combinar com o novo tapete da sala de jantar. Sim, isso parecia um pouco exagerado e absurdo, mas foi a real razão de tê-las comprado. Pensara na loja: – Preciso de umas vermelhas para trazer o tapete para a mesa. – E isso lhe parecera bastante sensato na ocasião (MANSFIELD, 1997, p. 9).

Eram queridos – queridos – e ela adorava tê-los ali, a sua mesa, oferecendo-lhes deliciosos vinhos e comidas. Na verdade, ansiava por lhes dizer como eram encantadores, e que grupo decorativo formavam, como pareciam realçar um ao outro e como a faziam lembrar de uma peça de Tchecov! (MANSFIELD, 1997, p. 22).

 
As frutas decorativas anunciam, prefiguram, conotam o grupo decorativo dos amigos de Bertha e Harry Young: o Sr. e a Sra. Norman Knight, Eddie Warren e Pearl Fulton. Um amigo (uma fruta) realçava o(a) outro(a), um texto ilumina o outro, feito se relacionando os dois tempos “aparentemente” desconexos.
 
Quando Clarice Lispector encontra Katherine Mansfield
O primeiro contato da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector com a escrita de Katherine Mansfield ocorreu quando Clarice era ainda muito jovem.
 

(…) aos quinze anos, com o primeiro dinheiro ganho com trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E, de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield. (LISPECTOR, 2004, p. 22).

Nascida Haya Pinkhasovna Lispector (em russo: ??? ?????????? ?????????) numa família judaica, Clarice Lispector foi a terceira filha de Pinkhas Lispector e de Mánia Krimgold Lispector. Nasceu a 10 de novembro de 1920 em Tchechelnyk, Ucrânia, enquanto seus pais percorriam várias aldeias do país fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1920, chegando ao Brasil quando tinha um ano e dois meses de idade. No Brasil, por questão de segurança, seu pai mudou o nome de todos com exceção da sua irmã Tânia que era um nome brasileiro comum na época. Clarice morou em Recife durante toda a sua infância. Aos nove anos sua mãe morreu e aos quinze anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Clarice fez a faculdade de Direito e se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Percorreu diversos países acompanhando seu marido, entre eles, Itália, Estados Unidos e Suíça. Divorciou-se em 1959, passando a residir no Rio de Janeiro com os dois filhos, o mais velho, Pedro, esquizofrênico.
Clarice Lispector escreveu diversos livros de romances, crônicas e contos, entre eles, Perto do coração selvagem (1943), Maçã no escuro (1961), Paixão segundo G. H. (1964), A legião estrangeira (1964), Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969), Água viva (1973), A hora da estrela (1977), além de escrever crônicas para o Jornal do Brasil e a revista Veja. Segundo a pesquisadora Susana de Sá Klôh (2005), “é comum encontrarmos, quando se fala em Clarice Lispector, o termo epifania: seus textos frequentemente levam a uma revelação, a uma descoberta que só é feita através de uma entrega aos sentidos, nunca pela racionalização”. Clarice Lispector faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, vítima de câncer.     
Comparando os dois contos das autoras, verificamos que eles convergem e divergem ao mesmo tempo em alguns pontos. Além do título do primeiro em inglês, Bliss, remeter literalmente a Êxtase, em português, feito vimos antes, e não a Felicidade, o que poderíamos supor uma felicidade superficial, o sentimento que no caso da personagem Bertha Young é inominável, é claramente nomeável em Clarice Lispector:
 

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada (LISPECTOR, 1971; in 1998, p. 12).

Felicidade clandestina é um pequeno conto de Lispector, aparentemente autobiográfico (porque a autora realmente morou na infância em Recife, cidade-cenário do texto), que narra a estória de uma pobre menina atormentada pela menina rica, filha de um dono de livraria, lugar que Clarice “gostaria de morar”. A pobre menina atormentada pela menina rica por esta última reter e não emprestar, dia após dia, As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Ao final do conto, a mãe da menina rica descobre assustada a maldade da própria filha e libera a pobre-menina-Clarice a ter o livro por “quanto tempo quiser”.
 

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados (LISPECTOR, (1971 in) 1998, p. 10).  

Enquanto em K.M. ocorre esse apontamento conotativo-metafórico do que irá se realizar e preencher no futuro, em C.L. o jogo é sempre adiado, a entrega do livro da menina rica para a menina pobre é adiada dia após dia, ou como Roland Barthes indica, “cada sistema reenvia para outro”, na “necessidade de criar uma certa ilusão”. Ou mesmo como Wolfgang Iser afirma, um adiamento do fim do jogo do texto quando então se encontrará o sentido.
 

Se considerarmos ser o significado o resultado do jogo textual, então este só pode provir da suspensão do movimento do jogo que, com alta frequência, envolve a tomada de decisões. Mas qualquer decisão eclipsará inúmeros aspectos provocados pela mudança e interação constantes e, daí, pela reiteração variada de posições do jogo, de modo que este, por si mesmo, se contrapõe a chegar ao fim (ISER IN LIMA, 1979, p. 108).

Poderia se dizer que o conto Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield influenciou na escrita de Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Talvez sim. Mas se considerarmos o título em inglês, Bliss (Êxtase) como uma felicidade de fora para dentro em contraposição ao sentimento que aquecia o peito dessas duas personagens, Bertha Young e a pobre-menina-Clarice, sentimento que brota, jorra de dentro para fora, apesar de ser uma “coisa clandestina”, poderíamos apontar como divergência o fora para dentro em Bertha, o dentro para fora em Clarice, mas poderíamos considerar ao mesmo tempo convergente por ser esse sentimento inominável para Bertha e clandestino para Clarice, o que possivelmente, essa ambiguidade, essa relação antitética de nominável/inominável deva-se a uma relação ambígua entre a personagem Bertha Young e a personagem Pearl Fulton, entre a menina rica e a pobre menina, uma relação de amor e ódio, de desejo e repulsa coexistindo nas mesmas almas, na alma de Bertha/Katherine, na alma de Clarice/Clarice.
 
Sobre figura
No prefácio de Figura, de Erich Auerbach, Modesto Carone, seu tradutor para o português, resume o pensamento do filólogo alemão: “(…) na ‘figura’ um acontecimento terreno é elucidado pelo outro; o primeiro significa o segundo, o segundo ‘realiza’ o primeiro” (CARONE, in AUERBACH, 1997, p. 9).
A partir da tentativa dos primeiros Padres da Igreja Católica de unir figuras do Antigo Testamento (Davi, Moisés, Elias) com a figura do Cristo no Novo Testamento para angariar novos seguidores, Auerbach, em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, elege diversas obras, desde Homero até Virgínia Woolf, mostrando uma obra apontando para a outra, uma prefigurando a outra, até chegar ao romance moderno.
Trazendo esse exemplo para o nosso estudo, se no primeiro conto as metáforas conotativas apontam, prefiguram em um trecho anterior o que será realizado, preenchido por outro trecho posterior, o adiamento do empréstimo do livro no segundo conto também se adequa ao sistema de conotação/denotação/figura sem fim da menina rica para com a menina pobre, sendo esta última preenchida de “felicidade”, apesar de “clandestina”, ao final do texto.
Além da conotação/denotação, prefiguração/preenchimento no interior dos textos, consideramos os mesmos procedimentos de aplicação desses conceitos na vida dessas autoras que tanto se assemelham: a mudança dos nomes, os casamentos infelizes, a solidão criadora, a introspecção narrativa. E, apesar da diferença no tempo e no espaço, o que foi prefigurado na escrita de Katherine Mansfield, mais de 50 anos antes, foi preenchido na escrita de Clarice Lispector, nesse enredo “sem ação principal”, em que “os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros”, como se confirmasse a constatação de Clarice Lispector diante da escrita de Katherine Mansfield: “Mas esse livro sou eu!”
 
Referências Bibliográficas
ALAN, Patrícia Peter dos Santos Zachia. A tradução da prosa poética de Katherine Mansfield em português: um estudo comparado, 2011, 215 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Comparada), Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. Disponível em:
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/54084/000851155.pdf?sequence=1 Acesso em 13 de junho de 2014.
AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, 2011.
AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997.
BARTHES, Roland. S/Z. Tradução Maria de Santa Cruz e Ana Mafalda Leite. Lisboa, Portugal: Edições 70, (1970 in) 1999.
CÉSAR, Ana Cristina. Crítica e Tradução. São Paulo: Ática, 1999.
GOTLIB, Nádia Battella.  Clarice Fotobiografia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
ISER, Wolfgang. O jogo do texto. In: A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Tradução e Organização Luís da Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
MANSFIELD, Katherine. As filhas do falecido coronel e outras histórias. Tradução Luiza Lobo e Maura Saldanha. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
MANSFIELD, Katherine. Diários e cartas. Tradução Julieta Cupertino. Rio de Janeiro: Revan, 1996.
PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
SALAMON, Julie. An enigmatic author who can be addictiveThe New York Times, 11 de março de 2005.
http://www.nytimes.com/2005/03/11/books/11sala.html?_r=2&adxnnl=1&oref=slogin&adxnnlx=1190410388-ADSqGRk9GJuvqkwRgvNAHg&.
Acesso em 13 de junho de 2014.
WIKIPEDIA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector#Obra.
 
 
Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br





Bio fornecida pelo palestrante.

ENTRE MORTOS E AGONIZANTES: A IMPOSSIBILIDADE DE AGIR EM ESTE É O MEU CORPO, DE FILIPA MELO – Patricia Maria dos Santos Santana




 Patricia Maria dos Santos Santana

 Universidade Federal do Rio de Janeiro/Capes

 
 
Resumo: A vida e a morte coexistem no espaço do corpo desde o nascimento. O presente estudo tem como objetivo investigar as leituras de morte apresentadas no livro Este é o meu corpo, de Filipa Melo, obra onde a autora problematiza a necessidade de um aprofundamento sobre o tema com inúmeros questionamentos sobre a angústia e o medo que envolvem o homem diante da morte e, paradoxalmente, diante da própria vida em si.
 
Palavras-Chave: morte; vida; luto; literatura portuguesa; contemporaneidade.
 
Abstract: Life and death coexist in the body since birth. The present study aims to investigate the readings about death presented in the book Este é o meu corpo, written by Filipa Melo,  work in which the authoress discusses the need of a deepening on the subject with innumerous questions about anguish and fear that involve man facing death and, paradoxically, life itself.
 
Key-Words: Death. Life. Mourning. Portuguese Literature. Contemporaneity.
 
Minicurrículo: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas nacionais.
 

ENTRE MORTOS E AGONIZANTES: A IMPOSSIBILIDADE DE AGIR EM Este é o Meu Corpo, DE FILIPA MELO

 
 

Patricia Maria dos Santos Santana 

Universidade Federal do Rio de Janeiro/Capes

 
 
 

A morte é um espelho no qual o inteiro

significado da vida é refletido.

 

(Sogyal Rinpoche)

 
 

Introdução

A certeza de finitude que nos acompanha traz descontentamento e inquietação. Freud (1986) afirma que o homem é um “desamparado” que, fora do útero da mãe, caminha para a morte. E da morte, o homem nada sabe. O medo é o sentimento que surge dessa incerteza. Ameaçador, nebuloso, flutuante, líquido, o medo é parte da natureza humana e compartilhamos com os animais esse sentimento. Nos homens, porém, quando expostos ao perigo, a sensação de vulnerabilidade está presente, pois somente eles têm consciência da possibilidade da morte. A vida e a morte coexistem no espaço do corpo desde a concepção e, apesar de antagônicos, tornam-se um só num diálogo em que nunca desaparecerão. Assim, o início e o fim falam à natureza humana, habitando o corpo com a ideia paradoxal de vida e de morte.
Estamos conscientes de que dos nossos quartos, das ruas, de nossos locais de trabalho, das pessoas com quem nos relacionamos e até do que ingerimos, o medo da morte está sempre à espreita, por perto, nos cercando. Esse medo parece estar sempre a caminho, disposto a nos causar angústia. No ambiente líquido-moderno, o combate ao medo se tornou tarefa árdua. A morte se apresenta na lista de medos que carregamos, latejando no vácuo da imprecisão de quando ocorrerá aquilo que é certo e inevitável. Bauman (2007, p. 31) explica que “esses medos são aterradores por serem  difíceis de compreender; porém mais aterradores ainda pelo sentimento de impotência que provocam (…). Os perigos que tememos transcendem nossa capacidade de agir…”
O livro Este é o meu corpo, romance de Felipa Melo, é um livro sobre a morte, mas é também um livro sobre medo e sobre a impossibilidade de agir diante de fatos da vida. O livro parece querer traduzir um vácuo. Uma lacuna estranha sobre o que há entre o viver e o morrer.
Filipa Melo nasceu em 1972, em Angola, na cidade de Silva Porto, atual Cuíto. Estudou Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e, em 1991, começou a trabalhar como tradutora.  Em 1992, iniciou a sua atividade como jornalista. Desde então, colaborou com diversas publicações e com as estações de televisão SIC e RTP. Integrou a revista Visão entre 1994 e 1999 e foi responsável, em 1996, pela reformulação e edição da revista Livros de Portugal, da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. Entre 1996 e 2000, atuou na direção do Sindicato de Jornalistas. Recebeu Menção Honrosa, Prémio Revelação 1995, pelo Clube de Jornalistas de Lisboa, e o Prémio Nacional de Cultura Sampaio Bruno 1996 pelo Clube de Jornalistas do Porto.  Foi nomeada para o Prémio Bordalo da Imprensa Escrita em 1998. Como jornalista free-lance, Felipa foi editora do suplemento ‘Mil Folhas’, do jornal Público. Organizou várias comunidades de leitores na livraria Almedina. Este é o meu corpo é seu primeiro romance e foi traduzido para o espanhol, francês, inglês, italiano, grego, holandês e servo-croata.
 

  1. O corpo e seu fim através da morte

Freud afirma que  
 

Nós, criaturas civilizadas, tendemos a ignorar a morte como parte da vida. No fundo, ninguém acredita na própria morte, nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida. (2009, palestra “Nós e a Guerra” de 1915)

 

 
Freud (1915) menciona o fato de o homem matar seu inimigo desde sua época mais primitiva até os dias atuais, havendo um ponto comum entre o homem primitivo e o civilizado, no que diz respeito ao desejo de destruir quem o ameaça ou lhe oferece perigo. Ele afirma que nosso inconsciente comporta-se de maneira semelhante ao do homem primitivo, pois este não acredita na própria morte, apesar de vê-la rondando e de abater seu próximo com frequência. Todavia, o consciente, como era de se esperar, apavora-se com a ideia da morte e, portanto, daí está gerado o conflito existencial. Freud diz que nossa atitude civilizada perante a morte é muito irreal e que vivemos psicologicamente acima de nossos meios, enquanto deveríamos conceder um espaço maior em nossas vidas para a morte, para que a vida se tornasse suportável conscientemente, embora sabendo de sua finitude e de suas consequências. Assim, o homem vive sob o impacto da morte, pois ela significa o fim irrecuperável e irrevogável. Com o pavor da morte, único evento na vida sem retorno, cabe ao homem também a negação dela, sua desconstrução e banalização. Tentamos incessantemente mostrar uma tendência a colocar a morte de lado, a suprimi-la da vida, como se isto fosse resolver o problema da morte.
Freud ainda diz que temos o hábito de enfatizar a morte através de causalidades como acidentes, doenças, infecções, idades avançadas, pois, dessa maneira, revelamos o esforço de reduzir a morte de fatalidade à oportunidade.  Para Freud, tal redução ou desconstrução está intimamente relacionada ao discurso da modernidade. O que se vê é que quando se aplica a ideia reducionista para os modos de se morrer, exclui-se o fato de a morte ser algo biologicamente determinado entre os seres humanos.
Este é o meu corpo causa proposital estranheza no primeiro contato. É um livro que revela os mistérios de um assassinato, de forma extremamente poética, através do olhar de um médico legista. Com a solenidade exigida de um ato religioso e com a ternura de uma carícia de amantes, um corpo será desvelado através dos cortes profundos do bisturi do médico que é obcecado pelos segredos que lhe contam os mortos. Ele costuma dizer: “Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam” (MELO, 2004, p. 19). É dos reflexos desta morte na vida dos que ficam que trata este romance.  Um enigma que envolve outros corpos e as marcas da vida e da morte dentro deles. Apresenta o corpo humano em seus mais intangíveis mistérios, que se apresentam não apenas na morte como também na vida.
A compreensão do modo pelo qual a sociedade se relaciona com o corpo é uma questão fundamental na medida em que Bauman (2007) nos propõe que devemos conceber o corpo como potencialidade elaborada pela cultura e desenvolvida nas relações sociais. Para Le Breton (2006), o corpo é objeto das representações e do imaginário. Um local por onde se constrói a relação do homem com o mundo. No corpo estará o âmago dessa relação homem-mundo, pois dele nascem e se propagam as significações que fundamentam a existência individual e coletiva:
 

Pela corporeidade, o homem faz do mundo a extensão de sua experiência, transformá-lo em tramas familiares e coerentes, disponíveis à ação e permeáveis à compreensão. Emissor ou receptor, o corpo produz sentidos continuamente e assim insere o homem, de forma ativa, no interior de dado espaço social e cultural (LE BRETON, 2006, p. 8).

 
Entendemos, pois, que a morte é o momento natural de desfazer a existência do corpo trabalhado, vivido, experimentado, relacionado, profundamente inserido no mundo no curso da vida. Morte e morrer são palavras que as pessoas evitam proferir. Essa dificuldade de conviver e de trabalhar com a ideia da morte atrapalha a sua elaboração e impede que se lide com tranquilidade com as perdas, que são naturais e que ocorrem inevitavelmente ao longo da vida. A morte faz parte da vida e é um ritual de passagem do qual não se pode esquivar. Mas apesar de se reconhecer a inevitabilidade da morte ainda existe muito tabu diante deste fato e o silêncio é utilizado como um subterfúgio para melhor lidar com o acontecimento.
Em resumo, a morte é concebida pelo ser humano como algo que causa medo, angústia, mas que, ao mesmo tempo, como num jogo, é melhor ser ignorada, esquecida, banalizada, desconstruída para que o homem consiga realizar a difícil tarefa de viver, ou seja, para conseguir realizar, acima de tudo, as suas obrigações sociais.
 

  1. Os agonizantes em contraste com a morta da obra

O corpo de uma jovem mulher é encontrado após um telefonema anônimo para a delegacia. Está à beira de uma estrada, com os pés amarrados e sinais de violência. O médico legista é chamado para descobrir o que aconteceu e ajudar a polícia a desvendar o caso. Esse médico legista, cujo nome desconhecemos, ajudará a contar a história que é a história desse corpo e o que ele revela. Também conheceremos as histórias de outras pessoas, inclusive a do próprio médico, em suas vidas envoltas em solidão, com vozes narrativas intercaladas a cada novo personagem que é apresentado na obra.
Bauman (2007) menciona que a banalização da morte torna o confronto do homem com ela como um evento quase corriqueiro. A banalização leva a experiência única da morte para o domínio da rotina diária dos mortais, transformando suas vidas em perpétuas encenações de morte, familiarizando indivíduos com a experiência do fim e desfazendo o horror que transpira da total e absoluta incognoscibilidade da morte.
A morte, que não deixa de ser algo sublime, perde seu vigor ao ser negada e rejeitada em todos os seus aspectos, uma vez que o homem tornou-se um ser criado para viver intensamente, para a produção e consumo. Então, ele deixa de ser útil para a sociedade quando é impossibilitado de atuar conforme o mercado impõe.
 

Eis aí que a sociedade ocidental contemporânea reduziu a morte e tudo a que ela está associado: um nada. (…) A sociedade mercantil vai além ao transformar a morte num resíduo irreconhecível. Ela já não é mais um destino. O que existe é uma relação negativa com o sistema de produção, de troca e de consumo de mercadorias. É o estado de não-produção, de não-consumação. Ao negar a experiência da morte e do morrer, a sociedade realiza a coisificação do homem. (MARANHÃO, 1998, p. 19).

Quem não está morto de fato, mas se enquadra nesse processo de não consumação, não produção e não viver, simplesmente vira um vivo-morto e agoniza. Maranhão aponta que
 

Na sociedade industrial não há lugar para os agonizantes: são indivíduos que não produzem, não consomem, não acumulam, não respondem aos seus apelos, não competem, não se incomodam com o progresso, com o tempo nem com o dinheiro (MARANHÃO, 1998, p. 15).

Ao longo da narrativa encontramos personagens agonizantes em confronto com a morta Eduarda. Esses personagens sofrem parálise e não conseguem agir, tomar as rédeas de suas vidas. “Há momentos em que o sujeito fica tão acuado que parece não-viver. E esse não-viver pode ser equivalente a morrer.  Então surge a  situação paradoxal,  em que a pessoa está morta, mas “esqueceu” de morrer: tem a chamada morte em vida” (KOVÁCS, 2003, p. 3).  A autora completa seu raciocínio mencionando que são nos momentos em que não há lugar para a morte é que ela se faz mais presente, espreitando-se em todos os cantos, pois entrelaçamos vida e morte em todos os processos de nosso desenvolvimento vital. (op.cit., p. 2)
De acordo com Heidegger (2001), a morte pertence à própria estrutura essencial da existência, pois a existência do homem é um ser-para-a-morte. Ela não vem de fora, não é um acidente. Não caímos na morte de repente, mas caminhamos para ela passo a passo. Morremos a cada dia. O homem começa a viver tendo idade suficiente para morrer.
Os personagens apresentados na obra, os vivos-mortos, ou melhor, os agonizantes sofrem uma espécie de morte em vida designada por conta de perdas, de dores, de sofrimentos. Kovács diz que “a única morte experienciada é a perda, quer concreta, quer simbólica” e “é nesse sentido que a perda pode ser chamada de morte consciente ou de morte vivida” (2003, p. 38).
Nenhum personagem aproveita o momento. Todos se apropriam da dura tarefa de viver sem gozo e sem felicidade. São frustrados. De um lado, temos os vivos do livro que atuam como mortos, com vidas desfeitas, não vividas, abatidas e aparentemente ceifadas. De outro, temos uma morta que é ouvida e parece ter o poder de contar tudo o que aconteceu com ela como se revivesse, estivesse viva pelo menos no efêmero momento no qual podia se revelar: o da autopsia. De fato, a premissa do livro é a de que o corpo morto fala e tem a capacidade de dizer tudo o que lhe aconteceu para que chegasse naquela situação, no breve momento de uma autopsia, parecendo mais forte que os corpos que ainda se mantêm vivos ao longo da narrativa.  E na figura do médico legista recai o poder de dar voz a quem não pode mais falar; o poder de respirar para quem não tem mais vida; o poder da ressurreição mesmo que rápida e impossível.
O silêncio dos personagens, que não sabem expressar seus sentimentos, pois sofrem e vivem em solidão, em dor, é algo fundamental na obra. O corpo morto desvenda os silêncios dos vivos em suas vidas medíocres e desinteressantes. Encontramos o silêncio do pai de Eduarda, que sem saber como lidar com a perda da mulher, por quem nunca expressou o seu amor, afasta cada vez mais a filha de seu convívio por conta de sua dificuldade de afeto e contato físico.
O ápice de afastamento e indiferença é retratado quando o pai passa pelo corpo da filha, na estrada, já morto, cheirado pelo cão e não enxerga nenhum traço familiar para um possível reconhecimento. Diante da morte do outro que está na estrada, da morte tornada banalizada na contemporaneidade, o pai, agonizante e também quase morto por dentro, segue seu passeio. O cão parecia mais incomodado com o cadáver que o homem:
 

Quando o homem se aproximou da ponte, já o cão rodeava o corpo. Cheirava-o, roçando o focinho nas carnes, veias e ossos que pareciam triturados. Conservavam os contornos intactos. Estendiam-se em duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça de borco entre o passeio e o alcatrão (…) (MELO, 2004, p. 11).

Todavia, com o corpo daquele cadáver que ele não sabia ser de sua própria filha, o pai de Eduarda se identificou morbidamente, como prova do vivo-morto que é: “estranhamente, sentiu-se em paz na companhia daquela massa ensanguentada (…). Julgou que desfalecia e deitou-se ao comprido imitando a forma do corpo inerte e agarrando-se à terra com as mãos” (MELO, 2004, p. 18).
Alda é outra viva-morta da narrativa. Ela é a mulher de Jacinto, o assassino, e sofre em silêncio a opressão de um casamento frustrado e sem amor, onde o diálogo nunca existiu. Jacinto, que a abandona por alguns meses, movido por uma paixão avassaladora por Eduarda, retorna ao lar depois de assassinar a moça, sendo aceito sem quaisquer questionamentos. Reflete a falta de opção de uma pessoa que já morreu em vida pelo simples fato da vida não lhe oferecer melhores condições de sobrevivência. Por ter perdido a vontade de viver, aceita tudo passivamente, submissa até o fim: “Alda pensa que não importa onde ele esteve (…) é suficiente a certeza de que a caminhada terminou e de que, por fim, é ela quem o recebe (…)” (MELO, 2004, p. 121).
Miguel, colega de trabalho de Eduarda, há anos nutre seu amor por ela em silêncio.  Quando descobre a morte da moça, sofre demais por não ter se confessado. Mais uma vez são os silêncios que falam mais que os personagens. É outro vivo-morto da narrativa, pois é incapaz de se expressar ou agir:
 
 

Desceu as escadas do prédio e só na rua, caminhando pelo passeio, pode chorar a morte de Eduarda. Chorou por ela e, sobretudo, por si próprio. Um choro miudinho.

Foi enquanto chorava que desejou ter tido coragem para um dia a ter abraçado, nem que tivesse sido apenas uma vez (…) (MELO, 2004, p. 96).

 
Assim, Miguel é mais um personagem construído pelo viés da parálise.
Os personagens apontados carregam um traço de comportamento que beira a neurose, cada um a seu jeito: o pai da morta é extremamente egoísta, Alda é submissa e Miguel é inseguro, medroso. Não são felizes por causa da impossibilidade de realização de felicidade em sociedade, desenvolvendo suas fobias e ansiedades. Freud, em O mal-estar da civilização, escreve: “descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe (…)” (FREUD, 1986, p. 106).  Desejos e pulsões não realizados provocam mal-estar. Um conflito entre a pulsão que quer se realizar e o superego que impede esta realização provocam mal-estar. Os sintomas advindos do conflito provocam mal-estar.  Vida e sociedade reprimiram cada um deles.
Retomando as palavras de Maranhão (1998, P. 15), “na sociedade industrial não há lugar para os agonizantes”. E cada um dos personagens apresentados parece excluído socialmente, recluso em seu mundo particular.  Eles agonizam porque não produzem, não consomem, não competem, não se incomodam… Miguel é conformado e não pensa em crescer profissionalmente; Alda e o pai de Eduarda conformam-se com os rumos que a vida dispõe. Todos agonizam em vida. Não vivem, apenas existem.
 

  1. Médico e Senhor da Morte

O médico legista, com toda a descrição dos passos da autópsia que faz no corpo de Eduarda, estabelece uma relação quase poética com os cadáveres com os quais lida diariamente, filosofando sobre a vida, como se com esses corpos ele realmente pudesse conversar. A força do texto de Filipa impressiona nas descrições precisas da autopsia e na paixão que coloca no trabalho desse médico que, em sua vida pessoal, também sofre de imensa solidão, sem conseguir estabelecer relação sólida com as pessoas.  O narrador assim o define:
 

Sujeito introvertido, propenso à depressões e a especulações absurdas. “Bicho-do-mato”, “individualista feroz” é o que dizem os amigos, esses que conto pelo dedo de uma só mão. Solteiro, inábil no trato com a generalidade dos seres humanos vivos, em especial com os seres humanos femininos. Perfeccionista, voluntarioso.  Obcecado pela morte e por suas manifestações terrenas. Capaz de momentos de intensa euforia interior, mas habitualmente incapaz de os exteriorizar (MELO, 2004, p. 69).

À medida que conhecemos a história de Eduarda, a mulher que foi assassinada poucos dias após dar luz a um menino em um dos hospitais da cidade, pelo próprio amante e pai da criança, por estar inconformado com o fim do relacionamento,  Melo vai descrevendo aos poucos o personagem do médico-legista. Com a solenidade de um ato religioso, com a violência de uma violação, com a ternura de uma carícia, esse corpo será desvelado através dos cortes profundos do bisturi de um médico-legista apaixonado pelos segredos que lhe contam os mortos que passam por suas mãos. O corpo humano encerra os mais intangíveis mistérios e Este é o meu corpo arrasta-nos para uma viagem ao fundo de nós mesmos, conduzidos por um estilo profundo, cirúrgico. O médico legista age como um verdadeiro “senhor da morte”, homem incapaz de se relacionar com os vivos, mas proativo para elucidar com presteza as artimanhas e os mistérios da morte. Essa fervorosa e íntima relação do médico legista com seu objeto de estudo lembra a afirmação feita por Kovács sobre a importância do estudo do cadáver antigamente:
 

Ariès introduz o tema da vida no corpo morto e o início da influência da medicina na história da morte, substituindo os homens do clero (…).

O cadáver é ainda um corpo, pois mantém resquícios de vida e de sensibilidade.  Isto casa com a superstição popular de que o corpo ainda ouve e se lembra; por isso é necessário ter cuidado, não falar em sua presença. Ocorre uma certa confusão entre vida e morte, pois o corpo morte apresenta alguns movimentos, mesmo que de maneira diferente dos vivos. Pelos, unhas e dentes continuam a crescer. Nos enforcados pode se observar a ereção do pênis, o que justifica muitos enforcamentos porque a falta de ar causa excitação e na busca desta sensação muitos erraram e acabaram morrendo. É uma estranha relação entre a vida e a morte.

Os primeiros estudos dos médicos apresentavam a ideia de que o morto ainda tivesse algum tipo de personalidade. Este conceito foi abandonado no século XIX, quando a morte passa a ser a separação entre a alma e o corpo.  A morte é a negatividade, e é estudada em função da doença. Assim, os cadáveres passam a adquirir grande importância porque contêm os segredos da vida e da morte, tornando-se objetos de estudo. Ou seja, o estudo dos cadáveres proporcionou um grande desenvolvimento da medicina, transformando os médicos nos grandes senhores da morte (…) (KOVÁCS, 2003, p. 53-54).

 
O “senhor da morte” do livro de Filipa Melo compreende sua estranha loucura e assim se apresenta à morta:
 

Este é um monólogo disfarçado de conversa. Um diálogo morto.

Não tenho ilusões. Entendo a minha loucura mascarada pelo delírio da morte nos corpos que corto. A morte é um diabo louco numa dança macabra dentro dos corpos. É com ela que eu falo: numa conversa de loucos.

Segundo dizem, para a morte e para o sol não se olha de frente. Por isso, continuo cego, a olhá-la. A olhar-me nela. A olhar-te. Cego e louco (MELO, 2004, p. 93).

 
 
Com o cadáver de Eduarda, o médico legista dialoga, se expõe, confessa a necessidade de seus gestos, enamora-se macabramente. Kovács menciona que  erotismo, volúpia e morte se inter-relacionam: “Eros e Thanatos se aproximam nessa relação de prazer com sofrimento, do amor com a morte” (2003, p. 55).  O médico legista sussurra à jovem cadáver:
 
 

Hesito. Confesso que tento manter no discurso a pose distante de quem te observa de fora. Comporto-me como um apaixonado e apercebo-me novamente disso. Tento cativar-te. A ti, imagina, estendida, esventrada à minha frente, rodeada da luz crua das lâmpadas fluorescentes e dos reflexos baços dos azulejos. O cenário é tudo menos romântico e eu ficciono-o para te poupar à crueza dos meus gestos.
Mas é verdade. Abro-te para te extrair os segredos e te deixar partir.
O meu corpo responde também. Sinto as mãos úmidas dentro das luvas, a testa quente, a boca áspera, depois inundada pela saliva, que engulo em pequenos goles. Quero deixar as formalidades e gritar-te que preciso que me ajudes.

Ajuda-me.

Regresso à técnica e acalmo-me. (MELO, 2004, p. 76).

 
 
Na insistência de seu monólogo amoroso e macabro, expõe sua vontade insana de ouvir Eduarda falar. Quer palavras. Quer saber mais sobre aquela que é mistério para ele. Então, disseca o corpo e descobre que Eduarda parira há pouco tempo:

As palavras não chegam.

(…)

Eu não sei nada. Nem de ti, nem da morte que te estancou as feridas e se prepara para reduzi-las a pó. Nem da vida que deixaste para trás.

Alguém ficou de ti. Confirmo-o agora.

Alguém que antes não era e que, quando morrer, nunca mais voltará a existir. Alguém que, como eu, te procurará por entre os despojos de ti, e que saberá encontrar-te, e desvendar os teus sinais (MELO, 2004, p. 90-91).

 
 
Como um verdadeiro deus, sussurra à morta a realidade dura da vida, parecendo o grande e único conhecedor da verdade:
 

Ninguém nasce duas vezes. Conheço a nossa individualidade composta de carne e sangue. Manobro a sua evidência na mesa de autópsias. Nascemos de uma só maneira, morremos segundo fórmulas infinitas. É a direcção que seguimos entre as duas etapas o que as estreita ou separa. O que nos destina a sobrevivermos na memória dos outros como um exemplar vivo ou um espécime morto. E a encerrarmos as nossas contas com eles. Não existem fórmulas para a vida. Em vão desejamos herdá-las. Em vão ansiamos fazer delas um legado. Em vão (MELO, 2004, p. 91-92).

Ao mencionar a falta de fórmulas para se viver feliz, o médico declara a impossibilidade de alcançar a satisfação em vida. É o grande porta-voz da autora na narrativa. Sem fórmulas não deve haver tentativas para se viver feliz, apenas a direta constatação dessa impossibilidade. Esse é o grande problema da condição do homem em sociedade. Mas Melo não deseja explicar nada, só deseja mostrar que o mundo é o ambiente certo para agonizar.
Norbert Elias traz à tona o problema da morte e, muito claramente, salienta a quem esse problema se destina: “A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na terra, a morte se constitui um problema só para os seres humanos” (ELIAS, 2001, p. 10).  Na autopsia, o morto se despe de todos os seus problemas. O médico, vivo, assume os problemas do morto, inclusive o problema da própria morte que se apresenta. Esta é uma significativa construção no livro de Melo. A morte de Eduarda não foi chorada. Tida como indigente, levou-se um tempo para descobrir a sua partida. Na extinção do luto de seu passamento, uma realidade também na sociedade contemporânea conforme afirmam estudiosos como Ariès (1982) e Kovács (2003), o médico legista chora simbolicamente, por poucos minutos, a morte daquele corpo feminino do qual desconhece o nome e nada sabe sobre sua vida.  Enluta-se por alguns momentos, entristece-se por ele, para depois rapidamente retornar ao seu mundo contemporâneo, efêmero e se entregar ao prazer das roscas gordurosas da padaria próxima ao Instituto Médico Legal. Sim, ele também se apresenta como uma espécie de neurótico no que diz respeito ao seu relacionamento com os vivos, mas, apesar de tudo, o médico é quem está mais apto para simbolizar o verdadeiro elo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. É como se a mensagem de Melo fosse mesmo mostrar que todos os problemas do mundo estão nas pessoas. Ademais, o médico é o único personagem que não sofre parálise e procura agir, mesmo que seja nos limites de seu ofício de legista. Também é o único personagem que não ignora a morte e dá a esta o seu valor necessário, livre das desconstruções banalizadas da pós-modernidade.
 
Considerações finais
O ato de morrer pertence à vida, assim como o ato de nascer. Não há vida sem morte e, inevitavelmente, cada vida humana chega ao seu final.  Morrer é uma interrupção abrupta que o homem nunca estará, de fato, pronto para entender. É uma obrigação radical de se retirar do mundo. Por sua vez, morrer em vida apresenta-se como uma opção de existência e podemos observar isto em torno dos personagens da obra Este é o meu corpo. Opção de quem não quer fazer muito esforço ou já não acredita mais na vida.
Encontramos os personagens da obra de Filipa Melo, solitários, sem esperança e sem capacidade de entender suas realidades no mundo que os cerca. Apresentam um nível de conformismo muito grande que reflete a vida como algo tão inexorável como a morte em si. Para tais, a vida é frustrante e numa construção que beira o absurdo, é a finada da narrativa a personagem capaz de abrir questionamentos para o entendimento de tudo. Uma narrativa poética onde os vivos encontram-se mortos e a pessoa morta, mais viva que nunca. Isso para afirmar uma inquietação contemporânea, para justificar o abandono e o mal-estar do “desamparo” humano (FREUD, 1986). Enredos que  mostram os problemas da condição do homem em sociedade. Um pessimismo essencial para despertar angústia naqueles que terminam a leitura da obra.  A autora não procura  explicar nada do que é abordado, uma vez que a vida não pode ser explicada. Ela só anseia mostrar o caos contemporâneo existente, mostrar os variados agonizantes que perambulam aqui e ali.
 
Referências bibliográficas
 
ARIÈS, Philippe.  O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.
BAUMAN, Zygmunt. Medo Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
FREUD, Sigmund. Escritos sobre a guerra e a morte. Covilhã: Lusosophia Press, 2009.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. XXI, 1986.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo – Parte II.  Petrópolis: Vozes, 2001.
KOVÁCS, Maria Júlia. Educação para a morte: temas e reflexões. São Paulo: Casa do Psicólogo: FAPESP, 2003.
LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis: Vozes, 2006.
MARANHÃO, José Luiz de Souza. O que é morte. São Paulo: Brasiliense, 1987.
MELO, Filipa. Este é o meu corpo. São Paulo: Planeta, 2004.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

EL TESTIMONIO DE RITA ANDRÉ TOMÁS, “MEMÓRIAS DA LUTA DE LIBERTAÇÃO” EM ANGOLA – Margarida Paredes





 
 

Margarida Paredes

(CRIA, ISCTE-IUL)

Resumo: Este artigo é uma reflexão sobre o livro autobiográfico Memórias da Luta de Libertação (s/d) da guerrilheira do MPLA, Rita André Tomás, inspirada no trabalho de John Beverley sobre o Testimonio, On the Politics of Truth (2004). Este autor é um dos principais teóricos da escrita testemunhal, um género que se desenvolveu na América Latina e nas Caraíbas aqui deslocalizado para um espaço africano e para a escrita do “eu” de uma mulher ex-combatente que se vê na contingência de ter que lutar pelo reconhecimento do seu passado na Luta de Libertação.
 
Palavras-chave: Memórias, Testimonio, Luta de Libertação, guerrilheira.
 
 

EL TESTIMONIO DE RITA ANDRÉ TOMÁS, “MEMÓRIAS DA LUTA DE LIBERTAÇÃO” EM ANGOLA

 

 

Margarida Paredes

(CRIA, ISCTE-IUL)

Introdução
O livro de Rita André Tomás, Memórias da Luta de Libertação (s/d.), um pequeno livro de 51 páginas tem a particularidade de ser a única autobiografia publicada por uma antiga guerrilheira do MPLA, em Angola. O Diário de um Exílio sem Regresso (2003) escrito por Deolinda Rodrigues foi publicado pelo irmão Roberto de Almeida, 35 anos depois da morte da malograda guerrilheira. Nesta área de estudo são os dois únicos registos publicados de escrita autobiográfica de mulheres guerrilheiras angolanas.
A obra foi lançada em Luanda, em setembro de 2005, com o patrocínio do presidente da República, e em novembro do mesmo ano a ex-combatente foi condecorada por José Eduardo dos Santos com a Ordem dos Combatentes da Liberdade do primeiro grau, atribuída a cidadãos nacionais que se destacaram durante a luta pela independência nacional, condecoração igualmente atribuída a Arminda Faria, combatente da luta clandestina anticolonial¹ que tem uma biografia ficcionada editada em Lisboa, Arminda, Uala ni Angola ku Muxima (2012), de autoria de Álvaro Manuel de Faria.
 
Uma escrita do “eu”
As primeiras linhas da Introdução da biografia de Rita André Tomás interpelam o leitor diretamente:
 

Sou Rita André Tomás, filha de André José Tomás, pedreiro de profissão e de Rita Manuel, agricultora e quitandeira. (…) Estas minhas memórias são apenas uma parte onde exprimo como participei na luta directa de libertação nacional, como vivi no MPLA então movimento, com os nossos líderes e as façanhas que assisti de perto (s.d, p. 11).

A narrativa escrita na primeira pessoa, “Sou Rita André Tomás…”, uma ‘escrita do eu’, versa sobre a Luta de Libertação a partir de quem a protagonizou e de quem sente que tem autoridade para a narrar. Ou seja, um sujeito enunciador, que através de uma escrevivência, para utilizar o conhecido conceito da poeta afrobrasileira Conceição Evaristo, ao referir uma escrita da existência contra­?hegemónica e que incomoda, relata a sua história individual no feminino, entrelaçada com a história coletiva canonicamente narrada no masculino.
Richard Rorty, em Solidarity or Objectivity (1985), define o “desejo de solidariedade” ou o “desejo de objetividade” como as duas grandes razões que levam os autores a escrever as suas biografias. Rita André Tomás pertence à categoria dos que apelam ao “desejo de solidariedade”: “There are two principal ways in which reflective human beings try, by placing their lives in a larger context, to give sense to those lives. The first is by telling the story of their contribution to a community. (…) I shall say that stories of the former kind exemplify the desire of solidarity” (1985, p. 3).
Um artigo de jornal divulgado no site da Angoflash², a 4 de fevereiro de 2004, intitulado “A guerrilheira que sonha com uma junta médica”, contribui para entendermos as motivações da autora ao recorrer à escrita biográfica. Segundo o jornalista:
 

Hoje, 41 anos depois de ingressar na luta armada, a sua maior aspiração é conseguir uma junta médica para extirpar um tumor na cabeça, detectado na Namíbia, em 1997. Residente num pequeno apartamento, nas imediações da Escola Mutu Ya Kevela, Rita Tomás lamenta não poder dar nem uma simples cama aos seus filhos. ‘Tive que vender a aparelhagem para comprar medicamentos’, exemplifica. Visivelmente desgastada pela doença descreve as condições sociais em que vive. Mostra os quartos dos filhos, desprovidos de camas. ‘A minha pensão é de dois mil kwanzas’, diz. Reclama ainda do dinheiro [a] que diz ter direito, ‘como brigadeiro das FAA na reserva’, mas não recebe.

 
A história de vida de Rita Tomás não pode ser desvinculada do conjunto de acontecimentos que fazem parte da trajetória do sujeito. Para enfrentar a doença e para dar testemunho da situação de carência que vivia, o recurso à escrita biográfica apresentou-se como uma nova arma para quem já tinha sido uma ativa combatente da Luta de Libertação. “The situation of narration in testimonio has to involve an urgency to communicate, a problem of repression, poverty, subalternity, imprisonment, struggle for survival, implicated in the act of narration itself” (BEVERLEY, 2004, p. 32).
 
El Testimonio
A reflexão sobre este livro de Rita André é inspirada no trabalho Testimonio, On the Politics of Truth (2004) de John Beverley, um dos principais teóricos da escrita testemunhal, um género que se desenvolveu na América Latina e nas Caraíbas. Berveley define o Testimonio como uma narrativa, contada na primeira pessoa por um narrador que também é o protagonista ou testemunha dos acontecimentos que narra (2004, p.3) e cuja unidade de narração é geralmente uma “vida” ou uma experiência de vida significativa, ligada à “luta política” e/ou a movimentos revolucionários de libertação nacional, que aparece “at the margin of literature in forms sanctioned more by the social sciences such as ‘life history’ or ‘oral history’ (2004, p. xiii) (…) which signifies the need for a general social change” (2004, p. 41) e onde os leitores “are being asked to participate” (2004, p.37).
O editor, no início da obra de Rita Tomás, numa rubrica intitulada “Explicação Necessária”, diz­?nos que a autora “não quer que a julguem como escritora e que o livro é um testemunho do muito que Rita Tomás viu e viveu durante a guerra de libertação nacional” (s.d, p. 9) confirmando que a protagonista “esteve nas matas [e] prejudicou a sua saúde, hoje debilitada”. Para o editor o livro destina-se a contribuir para um propósito maior, ou seja, a redação de “verdadeira história de Angola” ³ (s.d., p. 9). Resgatar as memórias da Luta de Libertação, dialogar com a história e a memória e colocar­?se como ator da história de Angola, como sujeito que viveu a “verdadeira história” e fez parte da Luta de Libertação nacional, são alguns dos objetivos do livro. Rita Tomás, neste processo de criação, resgata o “testemunho” e recusa que a sua obra seja apreciada como um texto literário.
 

The dominant formal aspect of the testimonio is the voice that speaks to the reader in the form of an ‘I’ that demands to be recognized, that wants or need to stake a claim on our attention. This presence of the voice of a real rather than a fictional person, is the mark of a desire not to be silenced or defeated, a desire to impose oneself on an institution of power such as literature, from the position of the excluded or the marginal (BEVERLEY, 2004, p. 34).

Rita André Tomás, reivindica como lugar de pertencimento a cidade de Luanda, município do Sambizanga, onde nasceu a 17 de julho de 1943 (s.d, p.12) e revela ao leitor que tem ascendência étnica e cultural múltipla, Cabinda, Caxito, Golungo Alto, Muxima e Luanda. Filha de um carpinteiro, como já foi referido, coloca a família a viver nas margens sociais do estado colonial, “tanto é que tínhamos que ajudar a mãe a lavar a roupa de alguns patrões” (s.d., p. 12).
A condição das mulheres negras no colonialismo português, constantemente sujeitas a controlo da polícia e encaminhadas para trabalhos forçados, contraria mitos enraizados na história coletiva portuguesa como o da excecionalidade de um “império não­?racializado” e “o modo especial como os portugueses se miscigenavam com os seus colonizados” ou ainda a fábula de a colonização ter sido ‘branda’: a autora relata que “Havia rusgas de fichas; os cipaios (chimbas) prendiam as jovens e senhoras a fim de trabalharem em casas de ‘senhoras’ brancas, como criadas e lavadeiras. Por isso quando fôssemos ao mercado era obrigatório levar­?se o Bilhete de Identidade ou cartão da escola para nos identificarmos” (s.d., p. 16).
Apesar da condição subalterna da família durante a ocupação colonial portuguesa, a autora revela pertenças marcantes à elite fundadora do nacionalismo angolano, nomeadamente protestante, do início dos anos 50 do século XX.
 

Estudei a iniciação e a primeira classe (…) na escola do Samba Kimunga, com a professora Maria Silva Neto, mãe do saudoso Guia Imortal, Dr. António Agostinho Neto (s.d., p. 12).

(…)

O meu pai foi membro da Associação da Caixa Preventiva e Socorro Mútuo da mesma Congregação religiosa onde faziam parte outros contemporâneos seus, alguns dos quais do Processo 50 dentro eles, Sebastião Gaspar Martins e Pascoal Veríssimo da Costa. Após a prisão destes, a PIDE prendeu o meu pai e o meu tio Domingos André Tomás (s.d., p. 13).

Estas pertenças fazem parte da identidade do sujeito e a autora envolve­?se na luta clandestina anticolonial ainda em Luanda:
 

A minha entrada na vida política foi em companhia de familiares e demais jovens (…) no Bairro Operário. Após a prisão dos camaradas do Processo 50, muitos de nós com familiares presos, entre pais, tios e primos, fomos alvo de atenção de agentes informadores (bufos) da PIDE (s.d., p.13).

A família foi alvo de perseguição política por parte da PIDE, tendo o pai, tio e irmãos sido presos por vários meses e posteriormente sujeitos a residência fixa. Pertencer a uma congregação religiosa, a uma associação desportiva ou a um grémio cultural eram razões suficientes para os angolanos serem detidos pela PIDE e acusados de ações terroristas. Marissa Moorman no seu livro Intonations, a Social History of Music and Nation in Luanda (2008), ao focar a relação entre cultura e política no fim da era colonial, defende que as práticas culturais estavam entrelaçadas com a política e era através dessas práticas que a nação era ‘imaginada’, vivida e resistia ao colonialismo (2008, p. 1­?13) sobretudo nos musseques de Luanda.
Rita Tomás descreve a fuga em 1962, para Boma no Congo, através de Cabinda, aos 19 anos, informando o leitor sobre quem preparou a fuga e com quem fugiu, ficando subentendido no texto que a motivação da viagem, sem os pais terem sido informados, se deveu à repressão que a família sofria por parte da PIDE e ao desejo da jovem se juntar ao MPLA e lutar contra o colonialismo português. Quando chegou a Leopoldville residiu numa casa do movimento e dividiu o quarto com Deolinda Rodrigues, Luzia Paim, Evangelina e Maria Luísa Júnior (Vastok), combatentes históricas do MPLA.
Em vez de focar a intensidade das experiências vividas, a memória de Rita Tomás tende a resgatar as pessoas com quem se cruzou na Luta de Libertação na tentativa de comprovar a veracidade do seu relato, “Ainda no CVAAR4 [onde trabalhou] frequentei como assistente o curso de enfermagem, e tive como professores os doutores Américo Boavida, Edmundo Rocha, Traça, Rui de Carvalho, Pestana, Manuel Boal, João Vieira Lopes e Manuel Videira” (s.d., p.22). “Compiladores” é o nome que os críticos da escrita testemunhal usam para excluir o Testimonio do cânone literário, no entanto parece que o que está em questão não é a literariedade deste género textual, mas, sim, o não reconhecimento da escrita testemunhal como uma espaço onde o subalterno pode ser ouvido, como nos diz Spivak em Pode o Subalterno Falar? (2010) ao recomendar que o intelectual pós­?colonial trabalhe “contra” a subalternidade, “criando espaços nos quais o subalterno possa se articular e, como consequência, possa também ser ouvido” (S. ALMEIDA apud SPIVAK, 2010, p. 14).
Quando a autora faz considerações sobre a realidade vivida, fá­?lo para sublinhar as dificuldades da guerrilha e as consequências de quem se envolvia: “alguns [camaradas] só queriam luta política; desprezavam a luta armada, talvez por medo, pois, o maqui exigia muito sacrifício e riscos à saúde” (TOMÁS s.d., p. 22).
Beatriz Sarlo cuida que no testemunho se misturam “argumentos de sua verdade, suas legítimas pretensões de credibilidade e sua unicidade, sustentada na unicidade do sujeito que enuncia com a própria voz, pondo­?se como garantia presente do que diz…” (2007, p. 37). A escrita da história confronta­?nos com memórias em conflito e o MPLA tem todo um historial de “narrativas oficiais” que têm sido postas em causa por memórias dissidentes e pelos historiadores. Rita Tomás, ao relatar a experiência da divisão interna do MPLA em 1963, Leopoldville, conflito do qual foi testemunha entre os “ex­?dirigentes Matia Miguéis, Graça Tavares e Viriato da Cruz” por um lado e por outro o MPLA dirigido por Agostinho Neto, chama a atenção para um conflito interno e desafia a historiografia oficial, expondo pessoas e acontecimentos silenciados no MPLA.5  A autora vincula-se “à amizade [que esses ex­?combatentes fizeram] com Holden Roberto” da FNLA, e relata que durante a reunião a 7 de julho de 1963 “ouviu­?se três tiros [e] um tiro bateu precisamente onde eu e a Maria Carneiro estávamos sentadas, e caso não aplacássemos, uma de nós seria morta. (…) Quando saímos, Holden Roberto estava defronte do jardim do CVAAR a apreciar o sucedido! Isto é verdade, porque estive presente”. E remata: “Esta é uma grande lição da história que não posso esquecer; cresci no MPLA e muita coisa tenho comigo. Estava assim, dividida a nossa juventude” (s.d., p. 25­?26). A autora usa na escrita dispositivos da literatura oral com a intenção de enunciar um sentido de veracidade e autenticidade. A seguir, ainda sobre este incidente comenta, “Gostaria de esclarecer que o Dr. Mário Pinto de Andrade, no dia 7 de julho de 1963, não esteve em Leopoldville, aquando dos incidentes com a Facção Viriato da Cruz. (…) Por isso, quando algumas pessoas falam que o Dr. Mário Pinto de Andrade estava presente, isso não constitui verdade. Sou testemunha viva. Ele, após o reconhecimento do GRAE, 6 ausentou­?se. Não gostava de confusão, era doente e dizia­?nos sempre que nunca aguentaria fazer uma longa marcha” (s/d., p. 48). “More than an interpretation of reality”, notes Jara (…) what is important about testimonio is that it produces, if not the real, then certainly a sensation of experience the real” (BEVERLEY, 2004, p. 40).
Em novembro de 1963 a autora seguiu, integrada num grupo de dez jovens, para a URSS, onde fez o “Curso Médio completo de enfermagem” na cidade de Luvov. Anos depois, para cumprir a palavra de ordem de Agostinho Neto “todos para o interior”, regressou ao maquis em 1968, através de Dar­?es­?Salem na Tanzânia e fez treinamento militar com combatentes moçambicanas da FRELIMO antes de se juntar aos camaradas colocados no interior do país, na 3ª Região Político­?militar, tendo atuado como guerrilheira e enfermeira na zona B, da Base Mandume III.
São frequentes os silêncios e a ausência de qualquer comentário sobre uma estadia longa de cinco anos na URSS levando o leitor a se interrogar o porquê desta omissão. A passagem pela Tanzânia condu­?la, no entanto, a solidarizar­?se e a prestar homenagem à camarada Margarida Chipenda, que “conduzindo camiões pesados de marca Magiros e outros (…) foi uma mulher incansável (…) nos seus afazeres de logística no Porto de Dar­?es­?Salem” (TOMÁS, s/d.,p.29). “Each individual testimonio evokes an absent polyphony of other voices, other possible lives and experiences” (BEVERLEY, 2004, p. 34), afirma Beverley.
Na mata, respondendo a uma pergunta da Delegação do Comité de Libertação da OUA de visita às zonas libertadas, sobre o papel das mulheres na Luta, a autora escreve: “Nós mulheres, embora poucas em número, respondemos que estávamos ali por vontade própria e dispostas a cumprirmos com as Palavras de Ordem: Todos Para o Interior e a Vitória ou Morte” (s.d., p.36). Mais à frente acrescenta, “Para que se recorde os nossos nomes: Rita Tomás, Alice Kolombo (Lemba), Lídia Cadete, Luísa Quarta e Margarida Ferreira (Guida Ferreira) no VC (…) aqui fica expresso o meu testemunho” (s.d., p.47), um testemunho que recusa o silenciamento e a lembrar que as mulheres também estiveram na mata e participaram na Luta de Libertação.
As memórias são um campo de batalha e em 1972/73, Rita Tomás coloca o leitor perante outra divisão no seio do MPLA e atribui a conspiração à fação Chipenda na Frente Leste e a camaradas “oportunistas e desonestos” que, “quando estavam com Agostinho Neto tinham um procedimento e com o Chipenda diziam outra coisa, à volta de grandes manjares, copos e prostitutas. As cabeças de todas estas confusões, raras vezes estiveram no interior” (s/d., p.39). Na descrição das razões deste conflito (que viria a dar origem ao Reajustamento da Frente Leste, quando Agostinho Neto foi confirmado na presidência e Chipenda se afastou­ do MPLA), o tom subjetivo marca o depoimento que se quer instrumento da verdade, mas como Sarlo defende, “todo o testemunho quer ser creditado, mas nem sempre traz em si mesmo as provas pelas quais se pode comprovar a sua veracidade” (2007, p.37).
No capítulo intitulado “Entrada em Angola – 1975”, após o fim da Luta de Libertação e início da Guerra Civil, nos confrontos com a UNITA, a autora relata que participou da defesa da sede do MPLA no Lobito, com a sua filha Tomásia às costas e sob o comando do comandante Katondo, seu marido. No meio da guerra é celebrada a proclamação da Independência da República Popular de Angola:
 

Mais alegre fiquei aquando da proclamação, no dia 11/11/1975, na voz do nosso saudoso Guia Imortal, o Presidente António Agostinho Neto, da independência nacional, porque o MPLA cumpria assim com o seu programa mínimo. E com coragem vencemos, foi mesmo a Vitória Certa! (TOMÁS, s.d., p. 44)

Com alguma nostalgia de uma época considerada heroica e numa retórica triunfalista e acrítica, a autora confirma nas entrelinhas dos não­?ditos que a Luta de Libertação, a estratégia da luta armada valeu a pena, sendo este livro (apesar das divisões internas enunciadas) sobre uma comunidade de vencedores. E do ponto de vista pessoal? O que aconteceu à guerrilheira que sonhava com a junta médica um ano antes do lançamento do livro? Conseguiu a assistência médica que o seu estado de saúde reclamava? Como já foi dito, o livro foi editado com o apoio do presidente da República, apoio que a autora reconhece nos “Agradecimentos” e onde aproveita para invocar José Eduardo dos Santos como antigo companheiro de luta:
 

A Sua Excelência o Senhor Presidente da República de Angola, Engenheiro José Eduardo dos Santos, meu antigo companheiro de luta contra a opressão colonial portuguesa, pelo apoio brindado para que esta obra deixasse de ser apenas um sonho (TOMÁS s.d., p.7).

No lançamento também estiveram presentes membros do Comité Central do MPLA e da OMA (Organização da Mulher Angolana), o que parece indicar que a autora conseguiu mobilizar apoios institucionais do Estado e do partido MPLA para a sua causa e, através de uma escrita vinda das margens sociais, capturar o “centro”, associando-se assim à elite política dos que venceram no MPLA.
Em 2004/2005, a situação dos Antigos Combatentes da Luta de Libertação Nacional era de grande insegurança pessoal. O ministério estimava em 120.000 os Antigos Combatentes que participaram na Luta e apenas um quarto beneficiava do fundo de pensões. O processo de atribuição da patente de brigadeiro a Rita Tomás já tinha sido concluído na altura em que o artigo foi difundido e podemos especular que a pensão da Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas concedida aos oficiais na reforma, também terá começado a ser paga no seguimento da divulgação da sua situação na comunicação social e do livro que estava a escrever. Ao contrário do artigo, a ausência de vitimização no livro impresso confirma a cogitação. Rita Tomás, através dum processo de empoderamento, terá utilizado a arma do testimonio e o trabalho de memória e da escrita para conseguir ultrapassar a situação de subalternidade em que se encontrava no MPLA e assim transformar a sua vida, o que não invalida o valor testemunhal que a obra encerra ao inscrever-se como guerrilheira na Luta de Libertação através da narrativa.
Esta incursão de Rita Tomás na escrita biográfica, o testemunho do seu passado na guerra, o desejo que manifesta de participar na “vida concreta” como ator social, a determinação de intervir no mundo que a rodeia recusando o papel de mulher sem voz, revela a ênfase do seu agenciamento ou gender empowerment (ORTNER, 2007) que emergiu da sua experiência de vida como pessoa e sujeito da sua própria história. West na esteira de Fanon (1967) aponta que as mulheres que combateram de armas nas mãos demonstram grande confiança e autoestima com a sua participação na guerrilha (WEST, 2000, p.109) e Paredes (2014) defende que a participação das mulheres na Luta Armada reforçou a luta pela emancipação feminina ao assumirem papéis que lhes estavam interditos anteriormente (2014, p.i). Por outro lado Pranee Laimputtong (apud NEVES, 2012, p.77) diz-nos que “as vidas individuais carregam um legado coletivo, contendo elementos que ilustram também a memória social de um grupo ou de uma comunidade” e este pequeno livro de memórias no feminino sobre a Luta de Libertação em Angola revela-nos que, se por um lado as antigas guerrilheiras combateram na guerra, na paz passaram a ter que se bater pelo reconhecimento dos seus passados de luta para não ficarem relegadas às margens da nação. A obra de Rita André Tomás mostra como as representações de género que estão a ser construídas em Angola para homens e mulheres ex-combatentes não são simétricas e instituem uma hierarquia de subordinação na qual os homens que combateram representam a nação numa posição superior à das mulheres combatentes (PAREDES, 2014, p.206). As memórias de Rita André Tomás destabilizam essa narrativa quase hegemónica da Luta de Libertação no masculino, promovem um espaço de representação das mulheres combatentes no imaginário nacional e questionam a ilusão do sonho nacionalista.
 
NOTAS
1Arminda Faria, enfermeira foi uma mulher à frente do seu tempo, em 1956 foi para Paris fazer uma especialização em “parto sem dor”, tendo introduzido em Angola esta terapêutica.
2Site Angoflash, edição especial de 4 de fevereiro de 2004, da Embaixada da República de Angola, Serviço de Impresa, Moscovo, “A guerrilheira que sonha com uma junta médica”, p. 5, em:,  http://www.docstoc.com/docs/114180036/angoflash­?2004­?02­?04, consultado a 18­?05­?2013.
3A “verdadeira história” em Angola é vista como uma versão da História que foi silenciada, é inédita nas fontes escritas e não corresponde à história oficial.
4CVAAR, Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados
5No entanto Rita Tomás não comenta o facto de, na sequência desses embates, Matia Miguéis e José Miguel terem sido assassinados, mortes atribuídas ao MPLA de Agostinho Neto.
6GRAE, Governo Revolucionário de Angola no Exílio.
 
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
BEVERLEY, John (2004). Testimonio, on the Politics of Truth. Minneapolis, University of Minnesota Press.
FARIA, Álvaro Manuel de (2012). Arminda, Uala ni Angola ku Muxima, Lisboa, Chiado Editora.
MOORMAN, Marissa (2008). Intonations, a Social History of Music and Nation in Luanda, Angola from 1945 to Recent Times. Athens, Ohio University Press.
NEVES, Sofia (2012). “Investigação feminista qualitativa e histórias de vida: a libertação das vozes pelas narrativas biográficas”, in Maria José Magalhães & al. Pelo fio se vai à meada. Percursos de investigação em histórias de vida. Lisboa, Ela por Ela, p. 69­?81.
ORTNER, Sherry B. (2007). “Poder e projetos: reflexões sobre a agência”, in Miriam Grossi & al. (org.). Conferências e diálogos, saberes e práticas antropológicas. Goiânia, ABA, Associação Brasileira de Antropologia. Blumenau, Nova Letra, p. 45-80.
PAREDES, Margarida (2014). Mulheres na luta armada em Angola, memória, cultura e emancipação. Tese de doutoramento, ISCTE-IUL.
RODRIGUES, Deolinda (2003). Diário de um xxílio sem regresso. Luanda, Editorial Nzila.
RORTY, Richard (1985). “Solidarity or Objectivity”, in John Rajchman (org.). Post Analytic Philosophy. New York, Columbia University Press.
SARLO, Batriz (2005). Tempo passado, cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo, Companhia das Letras; Belo Horizonte, UFMG.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty (2010). Pode o subalterno falar? Belo Horizonte, Editora UFMG.
TOMÁS, Rita André (s.d.). Memórias da luta de libertação. Luanda, Artimagem. (Lançado em Luanda no dia 9 de setembro de 2005).





Bio fornecida pelo palestrante.

DO ENSAIO COMO DEFESA DO PENSAMENTO MATRISTA: BREVES CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE NATÁLIA CORREIA – Jorge Vicente Valentim




 

Jorge Vicente Valentim

Universidade Federal de São Carlos/FAPESP

 
RESUMO: Atravessando quase toda a segunda metade do século XX, a obra de Natália Correia apresenta uma contribuição relevante para a consolidação de uma literatura de autoria feminina em Portugal, não apenas pelo que produziu em termos de poesia, teatro e ficção, mas também, e sobretudo, pela sua obra ensaística. O presente trabalho tem como objetivo abordar alguns dos seus textos críticos e como a expressão comumente utilizada por ela (o “matrismo”) relacionava-se com os feminismos em voga, tanto num movimento de aproximação, quanto de interrogação. Seus ensaios podem ser lidos, portanto, num viés de afirmação desta intelectualidade feminina em Portugal.
 
PALAVRAS-CHAVE: Feminismo – Matrismo – Ensaio – Natália Correia.
 
 
ABSTRACT: Spanning almost the entire second half of the twentieth century, the work of Natalia Correia presents an important contribution to the consolidation of a literature of female authorship in Portugal, not only for what she has produced in terms of poetry, drama and fiction, but also, and above, by their essays. This paper aims to address some of her critic texts, pointing out how the expression she often employed (“matrismo”) was related to the feminisms then in vogue and indicated both a movement of approach as of questioning. Her essays can therefore be read as an affirmative statement of this feminine intellect in Portugal.
 
KEY WORDS: Feminism – Matrismo – Essay – Natalia Correia.
 
Minicurrículo: Jorge Vicente Valentim é doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. É professor adjunto de literaturas de língua portuguesa (literatura portuguesa e literaturas africanas de língua portuguesa) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),  vice-coordenador do Programa de pós-graduação em estudos de literatura (PPGLit/UFSCar) e professor colaborador do Programa de pós-graduação em estudos literários da UNESP/Araraquara. O presente texto foi elaborado a partir de pesquisa realizada em Portugal, em outubro de 2014, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
 

DO ENSAIO COMO DEFESA DO PENSAMENTO MATRISTA: BREVES CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE NATÁLIA CORREIA

 

Jorge Vicente Valentim

(Universidade Federal de São Carlos/FAPESP)

 
 

É no facto de a amada existir como só ela sabe existir, na possibilidade de provocar o delírio da presença absoluta, que ela é portadora da decifração de todos os enigmas. O rosto do ser amado sobrepõe-se à imagem da divindade, ocupa o lugar de deus. O amor sexualiza o universo, que toma a fisiologia da eleita. Assim, cada objecto da paixão absoluta encerra uma cosmogonia. A mulher resume todas as formas, todos os mistérios da Natureza.

(NATÁLIA CORREIA, O surrealismo na poesia portuguesa).

 
Poeta, ficcionista, dramaturga, ensaísta, política e ativista, Natália Correia (1923-1993) foi, acima de tudo, uma intelectual engajada com as questões reivindicadoras de sua época. Dona de uma escrita singular, manifesta nas suas mais distintas veias de um eruditismo deslumbrante, a autora portuguesa, nascida no arquipélago dos Açores, tornou-se um nome de citação obrigatória quando se fala na literatura portuguesa de autoria feminina na segunda metade do século XX.
Para além do seu trabalho como uma artista produtiva e uma figura controversa e assertiva nas suas convicções, Natália Correia deixou uma obra que ainda carece de leitores atentos, sobretudo, quando se considera que a sua produção se consolidou exatamente numa época conturbada da política portuguesa. Do final dos anos de 1940 até início da década de 1990, a escritora vivenciou desde os anos de chumbo da ditadura salazarista até às expectativas de um processo tenso de redemocratização, criando textos que ora efabulavam nos mais diversos gêneros situações muito próximas do seu contexto político-social, ora refletiam de maneira pontual e direta no âmbito do ensaio sobre a situação dos intelectuais e o silêncio imposto sobre estes pela censura do Estado Novo português.
Valendo-me, portanto, de um recorte específico, mais próximo desta segunda postura, quero aqui recuperar brevemente alguns momentos da produção ensaística de Natália Correia, bem como a sua relevância no cenário cultural português, sobretudo, nas décadas que tal veio criativo e analítico se desencadeou. Ou seja, num período de pouco mais de 40 anos, de 1947 a 1988, a escritora produziu um elenco significativo de reflexões sobre questões várias que vão desde a situação da mulher e sua repercussão na sociedade portuguesa, o papel de Portugal e da língua portuguesa nos cenários europeu e mundial, as múltiplas subjetividades das diversidades sexuais, o culto incoerente ao infantocentrismo, além, é claro de suas posições sobre escritores e obras da literatura portuguesa, dentre eles, Fernando Pessoa, Alamada Negreiros, José Régio, Mário Cesariny e Ary dos Santos.
Na sua prática reflexiva, Natália Correia desenvolveu várias atividades contínuas de ensaísmo, seja no campo jornalístico, publicando em periódicos de projeção no cenário português (Jornal de Letras, Artes e Ideias, Diário de Notícias, Sol e A Capital)[1], seja na produção de obras específicas, tais como Breve História da Mulher (1947), Poesia de Arte e Realismo Poético (1959), A questão académica de 1907 (1962), Uma estátua para Herodes (1974), Somos todos hispânicos (1988) e A Ibericidade na dramaturgia portuguesa (1989).[2]
A par destes títulos, o grande papel de Natália Correia reside exatamente na sua prática ensaística inconformada com o esquecimento e o abandono que certa crítica literária deixou sobre determinados temas e épocas, procurando revisitá-los com um olhar inquieto e desassossegado. Nesta perspectiva, gosto de pensar que foi exatamente na manutenção de uma memória cultural e artística que a autora portuguesa apostou toda a sua atenção de pesquisa e registro de resultados. Em outras palavras, o inconformismo com uma prática de recolha sem qualquer tipo de explicação ou nota informativa parece ter sido o motor do seu trabalho como antologista.
Não será gratuito, por exemplo, perceber que todas as suas compilações vem acompanhada de um extenso e cuidadoso exercício de prefação e apontamentos informativos importantes para a compreensão do objeto selecionado. Estes paratextos funcionam como verdadeiros ensaios, no sentido de que aliam a função introdutória e apresentadora dos prefácios a uma necessidade de reflexão, de “interrogar tudo de novo, numa incessante peripécia da inteligência” (BARRENTO, 2010, p. 34) que a práxis analítica convoca a seu executante.
Destarte, ao olhar para períodos da literatura e da cultura portuguesa pouco habituados a uma leitura menos convencional, como faz em Cantares dos trovadores galego-portugueses, em 1970, quando procura evidenciar, no rastreio sobre a poesia provençal, o espírito de uma época marcada “por um acentuado feminismo” (CORREIA, 2004b, p. 44), evocando pelos textos de Afonso Eanes de Coton, Bernaldo de Bonaval, Joan de Guilhade, Pero da Ponte, Pero Meogo e Pero Velho de Taveirós, dentre outros, a “emancipação da mulher” (CORREIA, 2004b, p. 44); ou em Antologia da Poesia do Período Barroco, em 1982, exatamente numa época em que outros antologistas, tais como Ana Hatherly, por exemplo, interessavam-se por investigar a literatura seiscentista e setecentista; não deixa Natália Correia de imprimir nas páginas dessas duas antologias, bem como nos esclarecedores ensaios que as antecedem, uma criação marcada pela impossibilidade de ceder a modismos, porquanto informa, esclarece e explica com uma perspectiva singular e inovadora os principais eixos condutores dos escritores eleitos e da época em que viveram e produziram.
Não deixa de ser, neste sentido, um ensaísmo de primeira mão, diríamos mesmo avant la lettre, que evoca o espírito da presença feminina, ainda que apenas tematicamente, e que não se conforma com lugares-comuns, reiterando, acima de tudo, a manutenção de uma memória cultural portuguesa, que, apesar de se constituir um bem coletivo, passa necessariamente também pela subjetividade pessoal do antologista. São estes nomes, pertencentes àquela “cúpula da cultura” (CORREIA, 2004a, p. 89), que irão formar o pensamento e a atividade criadora de Natália Correia. O seu ensaísmo, portanto, aparece marcado por uma profunda insatisfação diante da “conjura provinciana” (CORREIA, 2004b, p. 35) que, na sua concepção, impede os espíritos libertários de viverem as suas experiências estéticas até às últimas consequências.
Interessante observar que, já nesta antologia dos Cantares, a insistência sobre a recorrência à imagem da mulher, numa época, até então considerada predominantemente masculina, constitua o avatar do pensamento de Natália Correia, no sentido de defender não uma posição feminista, como seria de esperar, numa intelectual de esquerda, que sempre se posicionou na defesa dos ideais libertários do pensamento feminino. Na verdade, toda a exposição da escritora portuguesa centra-se num inconformismo em aceitar o feminismo enquanto perspectiva cerceadora do homem. Segundo o pensamento de Natália Correia, aceitar o feminismo sem interrogar certos pontos de sua pauta significaria submeter-se cegamente a uma disciplina, e, para ela, esta só é aceitável quando demonstrada enquanto “necessidade ética ou criadora” (CORREIA, 2004b, p. 61). Daí a sua resistência à expressão e a sua adequação a uma outra, capaz de resumir a sua linha de raciocínio. Em 1983, em entrevista a Antónia de Souza, afirma:
 

Acho que não vale a pena a mulher libertar-se para imitar os padrões patristas que nos têm regido até hoje. Ou valerá a pena, no aspecto da realização pessoal, mas não é isso que vem modificar o mundo, que vem dar um novo rumo às sociedades, que vem revitalizar a vida. Ora bem, a mulher deve seguir as suas próprias tendências culturais, que estão intimamente ligadas ao paradigma da Grande Mãe, que é a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para os impor ao mundo ou pelo menos para os introduzir no ritmo das sociedades como uma saída indispensável para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. É no paradigma da Grande Mãe que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e não feminismo (CORREIA, 2004b, p. 65).

Ora, a partir de sua defesa de um pensamento matrista, capaz de revelar o poder libertário das ações femininas, Natália Correia não nega as discussões e as reivindicações das correntes feministas. Na verdade, a sua postura é de interrogar o feminismo enquanto disciplina cerceadora da criação, daí que a sua preferência resida exatamente na expressão “matrista”, por aquilo de libertário e de união a uma força cosmogônica maior e criadora que evoca. É possível seguir este caminho de leitura da autora sobre a forma de refletir sobre o mundo e a sociedade portuguesa, no sentido de que, ao ser interrogada sobre as heranças deixadas pela Revolução dos Cravos, ela não hesita em pontuar “o surto de uma literatura feminina e de um comportamento feminino que ofertam à nossa sociedade [a portuguesa] uma reinterpretação da vida, uma outra visão da vida” (CORREIA, 2004b, p. 63), como uma das grandes conquistas do evento de 1974.
No entanto, mesmo antes do alvorecer da Revolução dos Capitães de Abril, Natália Correia parece estar decidida a apontar a presença feminina e a sua junção com uma cosmogonia que valida a união com a Grande Mãe como os eixos norteadores para se pensar o momento inaugural da poesia portuguesa. Tendo consciência de que a produção trovadoresca medieval galego-portuguesa encontrava-se inserida no “seio de uma sociedade teocrática” (CORREIA, 1978, p. 15) e, portanto, patrista por excelência, Natália Correia propõe um outro viés de leitura, fora dos padrões já comumente utilizados, ao privilegiar “a originalidade da temática trovadoresca e o porquê de sua deflagração revolucionária” (CORREIA, 1978, p. 15).
Todo o seu rigor de seleção e apuro crítico vão incidir sobre a percepção aguda desta “revolucionária concepção do amor, enraizada na descoberta do espírito feminino” (CORREIA, 1978, p. 15), presente nas mais diferentes cantigas recolhidas na antologia, sempre com o intuito de evidenciar um “verdadeiro culto prestado à mulher” (CORREIA, 1978, p. 15). Na contramão, portanto, de historiadores e críticos que, já nas décadas de 1960 e 1970, sublinhavam a Idade Média como uma época de confirmação de uma Idade dos Homens, a ensaísta portuguesa prefere abordar a produção literária deste contexto, ou seja, de autoria masculina, sob a égide de uma valoração daquele “espírito feminino”.
Parece-me significativo e, portanto, não gratuito, o fato de Natália Correia investir todo o seu tempo na publicação desta obra, tendo em vista que, na França, por exemplo, Georges Duby, movido pelos ideais da corrente da Nova História, já propunha uma leitura da Idade Média por estes caminhos. Basta lembrar, por exemplo, de L’économie rurale et la vie des campagnes dans l’Occident médiéval, de 1962; Hommes et structures du Moyen Âge; e Guerriers et paysans, viie???xiie siècles, ambos de 1973. Em Portugal, os estudos de Manuel Rodrigues Lapa (Lições de literatura portuguesa: época medieval, de 1934, com sucessivas reedições posteriores; e Miscelánia de língua e literatura medieval, 1965) também caminhavam por esta senda. No entanto, não se trata, aqui, de pôr em xeque o valor e a qualidade dos estudos dos dois renomados críticos e historiadores, mas sim de pontuar um nítido inconformismo de Natália Correia em relação ao ponto de vista essencialmente masculinista adotado, que parecia não agradar a concepção da compiladora e investigadora portuguesa.
Destarte, a sua recusa a determinados procedimentos de análise, crítica e recolha que “deixam na sombra os pressupostos éticos sem os quais é inapreensível a substância desse florescimento poético” (CORREIA, 1978, p. 16). Por isso, os mais reconhecidos poetas desta corte (Martim Codax, Pero da Ponte, Pero Meogo e D. Afonso X, dentre outros) não deixam de comparecer com os mais diferentes tipos de cantigas, em que a imagem icônica da mulher emerge como cerne e elemento inspirador das composições poéticas.
Gosto de pensar, portanto, que o ensaio de Natália Correia pode ser lido como uma forma também de se reinterpretar determinadas etapas da história da literatura portuguesa e de ofertar uma outra visão da cultura portuguesa, fora dos eixos de uma “racionalidade masculina”. A atenção da ensaísta concentrar-se-á, inclusive, em temas esconjurados pelo provincianismo arraigado no cenário artístico português. Tanto que a sua Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, de 1965, logo sentiu o bafo da censura ao ser recolhida pela PIDE diante da constatação que o conteúdo da obra feria o ato instituído pelo Estado Novo de “educar os espíritos para o bom gosto” (CABRERA, 2013, p. 28). Não será à toa, portanto, que David Mourão-Ferreira, em sua breve apresentação, chama a atenção do leitor para o fato de que a coragem da compiladora iria despertar incômodos nos espíritos mais ortodoxos e tradicionais, acomodados ao “bom gosto”, imposto pela política da época:
 

Como é possível que uma Antologia como esta ainda não tivesse sido realizada? Mas devemos antes felicitarmo-nos pelo facto de só agora ser empreendida. Com efeito, ninguém melhor do que Natália Correia – com a profundidade e com a extensão de sua cultura, com a indiscutível garantia do seu génio poético, com as provas exemplares da sua coragem cívica – poderia superiormente desempenhar-se desta empresa. Obra de erudição, de criação e de civismo, há-de constituir, para os vindouros, um documento indispensável e o nome da sua autora tornar-se-á credor da mais legítima gratidão; mas é provável que também suscite, em meia dúzia de paranoicos, em duas ou três dezenas de recalcadas, a sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (apud CORREIA, 1999, p. 9-10).

Apesar do tom laudatório e positivo do grande poeta e ficcionista português, nada impediu o corte que a obra sofreu. Interessante observar que todas estas contrariedades acabaram por sedimentar aquele espírito inconformista com a imposição de regras que marcaria o pensamento intelectual de Natália Correia. Aliás, ela própria deixa esta postura em evidência, quando, em entrevista, declara tacitamente: “Descobri, mais tarde, particularmente em trabalhos para que se exigiam disciplina e estrutura, que não podia vergar-me a regras que me fossem impostas de fora. Eu é que as tinha de criar” (CORREIA, 2004b, p. 40).
Por esta perspectiva, não será difícil perceber que a inadaptação movimenta o pensamento e a produção intelectuais da ensaísta, visto que, em sequência destes fatos, ela ainda iria publicar as antologias A mulher e o surrealismo na poesia portuguesa, ambas em 1973. Desta díade, interessa-me, sobretudo, a última obra, já que, a exemplo da Antologia de 1965 – onde persegue, de Martim Soares (1220ca-1260ca) a Dórdio Guimarães (1938-1997), as temáticas do “desfasamento satírico com uma irreprimível feição licenciosa” (CORREIA, 1999, p. 23) e da “fulguração carnal da mulher” (CORREIA, 1999, p. 31) – também nesta, de 1973, Natália Correia debruça-se sobre uma corrente de vanguarda e desata os nós historicistas que a prendem temporalmente ao século XX, num longo e extenso estudo de casos perceptíveis na literatura portuguesa.
Aliás, é precisamente contra uma concepção historicista castradora que Natália Correia se posiciona, talvez, porque entenda tal forma de pensar os passos de uma expressão artística como uma força disciplinadora pouco produtiva. Daí a sua compreensão da história como “o ponto de vista que menos convém aplicar à unidade poética do surrealismo” (CORREIA, 1973, p. 7), posto que qualquer redução histórica sobre as propostas estéticas do ato vanguardista “obscureceria as aparições espontâneas que organizam o movimento surrealista” (CORREIA, 1973, p. 7).
Vale destacar que não se trata simplesmente de pensar o Surrealismo enquanto uma corrente anarquista que pregava uma liberdade sem medida. Seu pensamento aponta para a reconhecida corrente estética do século XX como um movimento transistórico, capaz de ultrapassar as barreiras cronológicas e de abarcar diferentes ciclos epocais. Segundo Natália Correia, aí estaria a singularidade do pensamento criador dos surrealistas, qual seja, numa liberdade que transcende as amarras historicistas e reverbera em diferentes contextos artísticos, conforme deixa claro no ensaio “A insurreição do saber surrealista contra o conhecimento”, de 1972:
 

Coube ao Surrealismo compreender o drama desta polaridade da literatura fatalizada pelo histórico e é contra este que as vozes surrealistas erguem o protesto de uma ultrarracionalidade que quer devolver a literatura à sua essência sapiencial. É neste sentido que o Surrealismo toma severas precauções contra o literário que concerne uma literatura historicizada, entendendo-a como a expressão de uma sabedoria fundante que se exerce contra a relatividade do histórico.

Enquanto presa dessa relatividade, o homem não é livre. Só o será quando puder aplicar a cognoscibilidade que o desprendimento surrealista do histórico lhe confere (CORREIA, 2004a, p. 155).

 
Nesta busca por uma compreensão da fuga de relativismos historicizantes, Natália Correia propõe, assim, uma espécie de antologia transistórica, em que o Surrealismo seja perceptível não apenas em escritores com uma sintonia singular (tais como Mario Cesariny, Cruzeiro Seixas e Alexandre O’Neil), mas em autores anteriores, contemporâneos e posteriores ao movimento de vanguarda (como são os casos de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Raul Brandão, Maria Teresa Horta e Luísa Neto Jorge, por exemplo).
Ora, não deixa de ser ousada a posição de Natália Correia, não apenas em termos estéticos, porque abre a conceituação da corrente vanguardista para uma abordagem epistemológica que transcende as considerações contextuais, mas também em termos ideológicos, já que, ainda num clima de insegurança política, em 1972-73, a escritora revigora o seu posicionamento reivindicativo ao falar abertamente de vozes literárias que “erguem o protesto” e do homem, enquanto presa de um condicionalismo que impede o pleno exercício de sua liberdade.
Se, por um lado, esta proposta repousa no próprio cerne da estética em questão, conforme sugerida no Primeiro Manifesto, de 1924, em que André Breton, “cioso da autonomia da abordagem surrealista, não se exime, por coerência com a doutrina cinética do surrealismo, a reconhecer-lhe antepassados” (CORREIA, 1973, p. 7), por outro, ela também não deixa de colocar em evidência a reivindicação de um discurso feminino que chama para si a responsabilidade de pensar os caminhos da arte e da literatura portuguesas fora dos padrões patristas (como bem preferia chamar Natália Correia).
Parece-me, portanto, significativo que, nesta postura ensaística de Natália Correia, se reconheça uma poética de afirmação matrista, num contexto português em que as conquistas alcançadas pela segunda leva dos feminismos ainda carecia de propagação, em virtude do controle exercido pelas forças cerceadoras do Estado Novo salazarista sobre os veículos culturais. Vale lembrar, neste sentido, que os anos de 1960 e 1970 foram, talvez, os mais duros para a classe intelectual, sobretudo, para as mulheres. Segundo Manuela Tavares, estas duas décadas tinham em comum um mesmo quadro de fundo, “um país onde a luta contra ditadura salazarista, cerceadora das mais elementares liberdades, continuava a absorver todas as energias e onde as dimensões de classe e de género não se cruzavam” (TAVARES, 2010, p. 536-537).
Neste sentido, concordo com Manuela Tavares, quando afirma que, neste cenário árido para a consolidação das conquistas feministas em Portugal, sobressaiam as Novas cartas portuguesas, uma obra de tríplice autoria feminina (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa), que desestabilizou definitivamente as certezas masculinistas na percepção da sociedade portuguesa. Mas, não se poderá negar que, de igual modo, também, no mesmo ano desta publicação, em 1972, Natália Correia já iniciara seu projeto de antologia d’O Surrealismo na poesia portuguesa, sem falar nas suas inúmeras contribuições, registradas em jornais de Angola e Portugal, em ensaios reivindicativos, tais como “A emancipação feminina ou o triunfo da beleza” (Notícia, Luanda, 1969), “Vêm aí as amazonas” (Notícia, Luanda, 1969), “Cultura feminina” (Diário de Notícia, Lisboa, 1970), “A verdade e a moda” (Notícia, Luanda, 1970), “O manifesto S.C.U.M” (A Capital, Lisboa, 1970), “A morte de Elsa” (Notícia, Luanda, 1970), “As feministas inglesas que sempre foram assexuadas” (Notícia, Luanda, 1970) e “O pingue-pongue das feministas: pouca ou muita vergonha?” (Notícia, Luanda, 1970).
Longe, portanto, de se afastar das questões e das pautas feministas, o pensamento matrista de Natália Correia vem dar uma contribuição definitiva para o pensamento intelectual e literário de Portugal, na segunda metade do século XX. Basta observar, por exemplo, as suas propostas emancipadoras e ousadas, contidas no capítulo conclusivo de Breve História da Mulher (“A legitimidade dos direitos femininos”), e publicadas já em 1947: “Se a mulher é eleitora e elegível, se tem voto consultivo na orientação política e económica dum país, porque levantar-lhe obstáculos à execução das decisões que também trazem a firma do seu voto?” (CORREIA, 2003, p. 112). Olhado no seu contexto específico, tal ousadia não deixa de ter repercussões proféticas já que, somente em 1979-1980, Portugal teve uma mulher em exercício no cargo de Primeiro-Ministro (Maria de Lourdes Pintassilgo).
Seja, portanto, pelo ponto de vista ideológico, seja pela perspectiva estética, a práxis ensaística de Natália Correia não deixa de reivindicar uma defesa do pensamento matrista, bem como aponta para uma possibilidade outra de se repensar a cultura e a literatura portuguesas, reintegrando-as dentro de uma perspectiva que ousa rasurar os racionalismos patristas.
Se, conforme tentamos demonstrar, este “escasso número de casos decisivos” (CORREIA, 2004a, p. 89) é composto por nomes e títulos eleitos pela escritora para formar a sua biblioteca particular, não se pode esquecer que tais objetos literários, que vão desde os Cantares medievais às transposições transistóricas do Surrealismo, constituem o alvo de uma paixão absoluta da autora, e, por isto mesmo, carregam consigo toda uma cosmogonia que Natália Correia intenta deslindar.
Talvez, por isso, Natália Correia, em suas considerações sobre O Surrealismo na poesia portuguesa não hesite em afirmar que “todos os mistérios da Natureza” (CORREIA, 1973, p. 82) se encontram resumidos na mulher, porque somente ela seja capaz de exercer este poder remissivo, analítico e concentrador.
 
 
Referências bibliográficas:
CABRERA, Ana. “Censuras e estratégias censurantes na sociedade contemporânea”. In: CABRERA, Ana, coord. (2013). Censura nunca mais: a censura ao teatro e ao cinema no Estado Novo. Lisboa: Aletheia, 2013, p. 15-75.
CORREIA, Natália (1999). Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Lisboa: Antígona.
CORREIA, Natália (2004a). A estrela de cada um. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria Editora.
CORREIA, Natália (2003). Breve história da mulher e outros escritos. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria.
CORREIA, Natália (1978). Cantares dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Estampa.
CORREIA, Natália (2004b). Entrevistas a Natália Correia. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria Editora.
CORREIA, Natália (1973). O surrealismo na poesia portuguesa. Lisboa: Edições Europa-América.
TAVARES, Manuela. (2010). Feminismos: percursos e desafios (1947-2007). Porto: Texto Editores.
 
 
NOTAS
 
[1] Sobre a prática de publicação de textos em jornais, que, muitas vezes, absorvem aspectos genológicos de empréstimo, Helena Carvalhão Buescu alerta para o fato de que não se deve “negligenciar a produção jornalística onde, nomeadamente através do uso da forma ‘crónica’, é possível encontrar intervenções que, em nosso entender, tem um lugar definido adentro da prática ensaística” (1997, col. 290). Em outras palavras, não se pode negar que o ensaísmo circula também entre títulos produzidos para e publicados pela imprensa.
[2] Alguns desses títulos não foram publicados em forma de volume em vida da autora. Breve História da Mulher e outros escritos, por exemplo, veio à lume postumamente, graças ao trabalho cuidadoso de edição de Zetho Cunha Gonçalves, em 2003.





Bio fornecida pelo palestrante.

UMA POÉTICA DO SILÊNCIO: A POESIA INTIMISTA DE GLÓRIA DE SANT’ANNA – Giulia Spinuzza




 
 
 

Giulia Spinuzza

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

 
Sumário: O presente trabalho pretende analisar um aspecto da obra de Glória de Sant’Anna, poeta de origem portuguesa que esteve radicada em Moçambique de 1951 até 1974. Para demostrar que sua escrita rasura o problemático limite entre o dizível e indizível, será abordada a temática do silêncio enquanto elemento fundamental dessa poética intimista de autoria feminina. Veremos de que forma o silêncio molda o discurso poético de Glória de Sant’Anna e quais as possíveis interpretações críticas deste elemento temático, que questiona a representação da identidade e intimidade poética da autora.
 
Palavras-chave: silêncio, poesia moçambicana, intimismo, autoria feminina.
 
Currículo da autora: Mestre em Estudos brasileiros e africanos, é actualmente doutoranda da Faculdade de Letras de Lisboa com uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É membro colaborador do CEsA (ISEG, Universidade Tecnológica de Lisboa). Atualmente desenvolve uma tese sob orientação da Professora Ana Mafalda Leite (UTC) e co-orientação da Professora Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco (UFRJ). Em 2012 publicou o capítulo “Reconfiguração da nação em Janela para Oriente de Eduardo White” na colectânea de ensaios Nação e narrativa pós-colonial I: Angola e Moçambique (Leite et al., orgs.).  Em junho de 2013, publicou o artigo “O cânone poético em construção na literatura moçambicana” na revista Mulemba.
 
 
Uma poética do silêncio: a poesia intimista
 
de Glória de Sant’Anna
 
 
 
Giulia Spinuzza
 
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
 
 
Glória de Sant’Anna (1925-2009) é uma poeta de origem portuguesa que esteve radicada durante duas décadas em Moçambique. O mar, a viagem, o silêncio e a solidão são algumas das marcas da sua escrita introspectiva. Começa a publicar em 1951, ano de chegada à sua terra adoptiva e afectiva.
A poesia de Glória de Sant’Anna, que se insere na linha da lírica intimista, estabelece um diálogo com outros poetas moçambicanos das décadas de 1950 e 1960 e a sua obra será retomada por poetas que se afirmam logo após a independência do país. É possível encontrar na escrita dessa poeta ecos de outras vozes femininas de língua portuguesa, como é o caso, por exemplo, de Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen. São as temáticas aquáticas, as linguagens submarinas e as viagens náuticas alguns dos elementos que acomunam a escrita destas autoras.
A obra poética de Glória de Sant’Anna desenvolve dois grandes núcleos temáticos, um veiculado à poesia sobre os “outros”, da qual emergem mulheres, meninos e pescadores moçambicanos, para além do drama da guerra colonial, e outro mais intimista, centrado sobretudo na solidão e no silêncio.
A poesia lírica intimista privilegia uma visão introspectiva, na qual a representação do mundo é, na maioria dos casos, veiculada à função de “espelho” do sujeito. O olhar introspectivo tenta definir os limites e percursos da própria intimidade a partir da imagem do mundo exterior. Todavia, no percurso poético introspectivo há algo que é silenciado, porque há uma luta constante entre o que é dito e o que não é dito; por esta razão, a poesia de Glória de Sant’Anna rasura o limite entre o dizível e o indizível. Como escreve Clarice Lispector em A hora da estrela: “a minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não tem uma só palavra que a signifique” (2002, p. 13). Também a poesia de Sant’Anna nega a possibilidade de exprimir-se plenamente através da palavra, pelas limitações conexas à linguagem: “A palavra/ é uma leve medida onde não me contenho/ e meu cílio parou sobre o pensamento” (1954, p. 37). Dessa impossibilidade emerge a vocação para o silêncio, que não corresponde exclusivamente ao não dito porque, como afirma Eni Puccinelli Orlandi, “o silêncio não fala, ele significa” (2011, p. 42).
Partindo do pressuposto de que, como diz Max Picard, “o silencio é mais do que uma simples renúncia à palavra” (1953, p. 1, tradução livre), propomos analisar as várias formas do silêncio na poética de Glória de Sant’Anna com o apoio de alguns textos críticos e filosóficos, numa perspectiva de análise já inaugurada por Guilherme de Sousa Bezerra Gonçalves (2013).
O silêncio está presente em diferentes meios de expressão artísticos, como a literatura, a pintura e o cinema. Na literatura, o silêncio tem adquirido, assim como em outras formas de expressão artísticas, funções e significados diferentes ao longo das épocas. O silêncio, por exemplo, pode estar conexo à censura, ao interdito ou ao pudor. No nosso caso, a temática do silêncio combina-se com outros elementos, entre os quais o secretismo, o pudor da intimidade, a solidão, a necessidade de definição de um limite verbal e existencial, a incomunicabilidade da intimidade do sujeito e o horror da guerra. Como sugere Picard, “o silencio adquire mil formas diferentes” entre as quais predomina “a imagem do silêncio do nosso interior” (1953, p. 10, tradução livre). As conexões estabelecidas a partir do silêncio demonstram então a complexidade do tecido poético estruturado à volta deste elemento.
Na capa do primeiro livro publicado por Glória de Sant’Anna recém chegada a Moçambique, Distância (1951), entre uma fracção riscada e uma mancha de tinta, apresenta-se o seguinte verso: “Tão grande o silêncio/ trazido”. O silêncio é o elemento propulsor da poética desta autora desde o primeiro livro publicado. Tal como sugere o auto-retrato traçado pela poeta, o silêncio é a medida de significação do sujeito e a marca do seu perfil: “Aqui me tens ajoelhada,/ de mãos abstractas/ e pálpebras descidas no silêncio” (SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 67).
No segundo poema de Distância, o silêncio é associado ao tempo e à noite, como podemos ler nos seguintes versos: “O relógio/ marca o silêncio do Tempo:/ a noite/ veste o silêncio/ nas casas que dormem/ Eu tenho um oásis/ na alma/ de penumbra verde/ da calma noite” (SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 11). Relativamente ao binómio tempo/silêncio, Picard nota que estes dois elementos são estritamente ligados, porque silenciosamente avançam os dias e as estações ao longo do ano (1953, p. 85, 88). O tempo, que se dilata silenciosamente, é acompanhado e definido pelo silêncio que o habita e só o relógio contraria esta natural afiliação, ao marcar os instantes que irrevogavelmente avançam.
Se a imagem do silêncio e do tempo é menos comum, a do silêncio e da noite é mais recorrente. Noite e silêncio partilham a ideia de ausência, de luz, no primeiro caso, e de som, no segundo. Para além disso, a noite tem em comum com o silêncio a ideia de amplitude e vastidão, sendo que o poder de ambos é penetrar nos espaços privados e protectores, as casas, durante o momento mais vulnerável do homem, o sono. Também Picard sublinha a relação entre noite e silêncio: “à noite, o silêncio aproxima-se da terra; (…). O silêncio da noite dissolve as palavras do dia (…)” (1953, p. 108, tradução livre). A ideia de dissolução das palavras pode estar associada à ausência de memória, como demostram os versos de outro poema, “Ausência”, de Livro de água, que combinam a ideia de noite e de silêncio com a de memória:

Hoje nem saudade. O antigo vento é morto.

Dentro da noite

anda um silêncio absorto,

sem peso nem memória.

As casas pardas. Ausente a grande lua.

Dentro da noite,

cresce uma vã ternura

que ficará lá fora […].

(SANT’ANNA, Glória de, 1961, p. 30)

 
A temática da ausência de memória, conexa à da nulidade do passado e à da transitoriedade do presente, tem a ver com uma específica concepção do tempo, relacionada à efemeridade da vida humana. A noite, que exerce sua atracção sobre o silêncio, faz prevalecer a ideia de ausência, que dá o título a esse poema.
A este ponto perguntamos se é possível estabelecer uma relação entre silêncio e memória. Se, por um lado, o silêncio pode ser considerado um elemento propulsor da memória, porque favorece o processo de retrospecção necessário para lembrar o passado, por outro lado, pode evocar o nada, o vazio, o leve e o efémero. A ideia do silêncio-vazio, que remete para a concepção do silêncio enquanto ausência de som, contrasta com o facto de o silêncio ser muitas vezes relacionado à musicalidade. A relação silêncio/música integra a reconhecida relação entre a poesia e a música.
Como sabemos, a poesia lírica implicava a presença de um acompanhamento musical, a lira, desde o tempo dos gregos e dos romanos; também na época medieval as produções poéticas eram criadas para serem cantadas pelos trovadores. A poesia moderna e contemporânea reelabora criativamente e de formas distintas a questão da música e da musicalidade; é por isso que Steiner refere a existência de um topos que vê a poesia enquanto um caminho que, em sua intensidade máxima, conduz à música (1988, p. 62). Ainda segundo Blanchot, o verso orienta a linguagem segundo um movimento, uma trajectória rítmica, que aproxima a poesia da música (1999, p. 41). Considerando o facto de que o silêncio, pode ser visto não tanto em oposição às palavras, mas enquanto sua realização máxima, porque com as palavras é possível criar o silêncio (BLANCHOT, Maurice, 1999, p. 42), podemos dizer que este é presente na poesia como harmonia perceptível, enquanto música (PICARD, Max, 1953, p. 13).
Na poética de Glória de Sant’Anna a associação entre música e poesia é feita através da presença do silêncio, porque este representa a harmonia interior, que é reconduzível à musicalidade:
 
Silêncio aberto
de plenitude
como uma ilha
num lago fundo.
 

Silêncio exacto

cheio de música

vindo de nada

contendo tudo.

É este agora

deste momento

em que estando

me ausento.

(SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 33)

 
 
No poema citado há uma comunhão entre elementos aparentemente oximóricos: silêncio>música e nada>tudo. Todo o poema constrói-se através de categorias opostas: a ilha, que é o elemento de comparação do “silêncio aberto”, é na verdade uma porção de terra fechada pela água; e o silêncio, “cheio de música”, reconfigura a harmonia interior do sujeito e da poesia.
A última estrofe deste poema evidencia outra ambivalência: a do homem e a do sujeito poético; porque, para ser poeta, o eu-lírico tem que se “ausentar” do homem. O poema reafirma a ideia de Octávio Paz segundo o qual “a poesia nasce no silencio (…), mas aspira irresistivelmente a recuperar a linguagem enquanto realidade total” (1992, p. 282). Nesse sentido, podemos dizer que, no caso de Glória de Sant’Anna, o silêncio permite recuperar a harmonia do sujeito com o mundo à sua volta, através da linguagem poética.
A relação entre música e poesia, enunciada pelo poema citado, leva-nos a reflectir sobre o título de outro livro de Glória de Sant’Anna: Música ausente (1954). O livro funda-se na presença-ausência da memória e do passado, sendo que o sujeito, despojado de seus limites temporais, já não se reconhece no espelho do tempo. Assim, o título pode ser lido como uma referência à ausência da lembrança e da sua música interior, substituídas pela presença avassaladora do silêncio da poesia.
A ausência do passado, da memória, da lembrança e a ideia de um sujeito errante num espaço e tempo indefinidos remetem para o questionamento da identidade. O caminho da poesia vivencia então a impossibilidade de comunicar o indizível da alma:
 

Aqui estou inteira:

de memória ausente,

sem fisionomia

– como uma medalha.

Aqui estou inteira

para ser guardada

no fundo do tempo

onde não há nada.

(SANT’ANNA, Glória de, 1954, p. 61)

 
O sujeito mantém sua integridade, porém o seu limite se desfaz, num percurso de anulação temporal e espacial. Este poema, que sublinha o desmoronar-se das coordenadas temporais, complementa a imagem de outro poema, no qual se apresenta o movimento de dispersão do sujeito:
 

Força esta

que me dispersa…

Eu venho do brado das quedas da água,

e da melodia das ondas do mar,

e do céu infindo,

quando há lua cheia.

(SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 9)

 
 
Aqui, o sujeito reencontra a sua origem primordial nos elementos da natureza, cujas forças de dispersão o desprendem das amarras terrestres e lhe permitem alcançar o espaço infinito do mar e do céu. Ao lado deste movimento de expansão, notamos que há também um percurso paralelo de introspecção. E, nesta indagação interior, o silêncio torna-se no elemento que melhor define a intimidade do eu lírico, porque cela o indizível, o segredo.
Relativamente à relação entre secretismo e silêncio, podemos dizer que na poesia intimista a palavra não dita (ou, neste caso, escrita) deriva do facto de que, como bem explica Paula Morão, “a natureza do enigma reside no segredo da própria linguagem, e na luta travada entre um eu que se quer conhecer dizendo-se e a obscuridade da palavra. Escrever sobre o eu, e sobre o eu íntimo, é desafiar a esfinge e, como Édipo, incorrer nos perigos de tal empresa (…)” (2011, p. 49). Assim, o silêncio é também fruto das limitações da palavra e da linguagem no percurso de (re)conhecimento interior.
No “Segundo poema da solidão” (SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 47) a imagem do secretismo é criada através da referência ao elemento aquático que, devido à sua fluidez, não pode ser “capturado”. O movimento da água reflecte não só a transitoriedade do próprio sujeito, mas a sua inteligibilidade relacionada ao secretismo:
 

Serei tão secreta

como o tecido da água

e tão leve

e tão através de mim deixando passar

toda a paisagem

e todo o alheio pecado

do gesto, da presença ou da palavra

que logo que a tua mão me prenda

me não achará:

serei de água.

(SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 47)

 
 
Neste texto, s poesia viaja até os meandros do eu e o sujeito cumpre uma leitura da própria imagem no reflexo da água para descobrir, por intermédio da palavra, os lugares mais recônditos da própria alma. Podemos dizer que o intimismo está conexo ao narcisismo, na medida em que indagar sobre o eu permite concentrar-se na própria imagem. Mas, ao contrário de Narciso, o poeta vê na água muito mais do que a própria imagem. Define-se, assim, uma paisagem animizada e em permanente trânsito, impossível de se fixar temporal ou geograficamente.
O silêncio deve ser lido como um dos aspectos da poesia intimista que definem não só a escrita da poeta, mas também o seu enigmático rosto: “Este é o silêncio:/o silêncio exacto/ que permanece/ na curva do meu lábio” (SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 45). Nestes versos o silêncio torna-se parte constitutiva do ser, porque “o rosto humano é a fronteira entre o silêncio e a palavra (…). O silêncio é como um órgão do rosto (…)” (PICARD, Max, 1953, p. 73, tradução livre). Relativamente aos versos citados, é interessante notar que o silêncio se coloca na boca, ou seja, no órgão de emissão da palavra, porque é o lábio fechado que mantém o secretismo.
Consideradas as relações entre silêncio e secretismo, notamos que este último pode ser muito dramático porque, para além de carregar o peso do silêncio, pode esconder as inquietudes do sujeito. No poema “Mágoa”, por exemplo, o lábio fechado simboliza o silêncio que esconde a dor:
 

No tempo

é marcado

meu gesto amargo.

Morto o sentimento

– fechado meu lábio

por seu segredo.

(SANT’ANNA, Glória de, 1954, p. 87)

 
 
O segredo é a essência do sujeito e marca a sua origem e o seu destino indefinidos: “Eu nada sou/ Minhas raízes/ é que definem o que não digo./ E donde partem/ e aonde vão/ é um segredo já antigo” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 29). Então, o desconhecimento e a incomunicabilidade derivam de um não-estar no mundo enquanto sujeito “histórico”, com um passado, um presente e um futuro. A aniquilação do ser não é uma renúncia, mas uma tomada de consciência da instabilidade e efemeridade do próprio percurso geográfico, histórico e existencial.
Sendo impossível encontrar um lugar do ser, definido por coordenadas espaço-temporais, o eu lírico, devido às limitações da linguagem, não encontra palavras que o signifiquem. Em consequência disso, o sujeito nota a falha intrínseca da linguagem, à qual substitui o silêncio; as palavras, então, deixam de ter significado real e, ao ficarem desajustadas, contribuem à dispersão do sujeito: “Palavras me trespassam./ Claras frases. (Sem densidade quase)./ Tão exactas,/ diluindo meu contorno (que inda sou).” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 59). Dessa forma, as palavras, incapazes de reproduzir a ideia do real, deixam lugar ao silêncio, como testemunha o seguinte poema: “A essência das coisas é senti-las/ tão densas e tão claras,/ que não possam conter-se por completo/ nas palavras./ A essência das coisas é nutri-las/ tão de alegria e mágoa,/ que o silêncio se ajuste à sua forma/ sem mais nada” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 43).
Notamos então que a escrita de Glória de Sant’Anna dilui-se à medida que se aproxima da percepção do mundo e de si, porque, como declara Picard, a poesia nasce do silêncio (1953, p. 112) e o seu objectivo é recuperá-lo através das palavras.
Em conclusão, devemos notar também que a poética de Glória de Sant’Anna fundada no silêncio, não pode ser compreendida na sua totalidade, se não for relacionada à imagem do mar. O título de um livro da autora, Um denso azul silêncio (1965), pode fornecer uma interessante leitura acerca da relação entre o silêncio e o mar. De facto, Um denso azul silêncio evoca metaforicamente a imagem do céu e do mar e conjuga sinestesicamente os diferentes sentidos: o tacto (a densidade), a visão (o azul) e a audição (o silêncio). No poema “Nocturno”, que faz parte deste livro, ecoam as palavras do título:
 

Dentro dos finos dedos das árvores quietas

a noite dorme um longo sono transparente

junto das tépidas aves de olhos ausentes

da clara madrugada que ainda não surgiu.

O esparso e denso azul silêncio ressente-se

e simula agitar-se a uma brisa ténue que não existe,

(e contornaria os muros pálidos e inertes

sem tocar o secreto e desconhecido íntimo das pedras).

tudo se contém no contorno fixo do seu limite.

Só o mar se desdobra e reflecte a inquietamente

vigília inútil e cansada das estrelas.

(SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 65)

 
A profunda ligação entre o mar e o silêncio deve-se, como demonstra P. Orlandi, à origem etimológica da palavra silêncio, sileo, que remete para a ideia de tranquilidade e era empregada com referência à noite, ao vento e, sobretudo, ao mar: “Silentium, mar profundo. E aí deparamos com o aspecto fluido e líquido do silêncio” (2011, p. 33). O azul silêncio que emerge do mar e do céu acomuna os dois elementos naturais, todavia, neste aparente quadro de tranquilidade, perante a presença constante, e por isso “cansada”, das estrelas, a irreverência do mar, espelho do sujeito, marca a sua presença. Ao contrário do limite que marca e define os elementos naturais, o mar reivindica a sua força expansiva.
A força expansiva dos elementos naturais, conexa à ideia de imensidão, é uma imagem frequente na poesia de Glória de Sant’Anna. De facto, os elementos naturais, como o céu, o vento, as estrelas e o mar, estabelecem uma relação metafórica com o sujeito lírico. Porque a consciência da vastidão do mundo permite experimentar, como afirma Bachelard, “a consonância da imensidade do mundo com a profundidade do ser íntimo” (2008, p. 194). Assim, a natureza transforma-se num espaço sem limites, onde mergulha o eu lírico.
Em conclusão, podemos dizer que o silêncio é, como afirma Eni Puccinelli Orlandi, “tão ambíguo quanto as palavras”, porque “trabalha nos limites do dizer, o seu horizonte possível e o seu horizonte realizado” (2011, p. 101, p. 91). É dentro desses possíveis horizontes que devemos interrogar os textos escritos, porque o espaço do silêncio não se limita a preencher o vazio das palavras. Nesse sentido, a escrita de Glória de Sant’Anna, não é só um testemunho importante do lirismo intimista de autoria feminina, mas interroga também a capacidade da poesia de interpretar e desvelar os lados mais recônditos da intimidade poética. Se, como nota Blanchot, “a literatura pretende fazer da linguagem o absoluto, e reconhecer nesse absoluto o equivalente do silencio” (1999, p. 68), Glória de Sant’Anna procura, através da palavra poética, o absoluto silêncio da poesia.
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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STEINER, George (1988). Linguagem e silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. São Paulo: Companhia das Letras.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CAROLINA MARIA DE JESUS: EXCLUSÃO SOCIAL, LINGUAGEM E PRECONCEITO – Daniele Ribeiro Fortuna, Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima, José Geraldo Rocha, Marcio Luiz Correa Vilaça




Daniele Ribeiro Fortuna1

Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima2

José Geraldo Rocha3

Marcio Luiz Correa Vilaça4

Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO)

 

“Não somente esta forma de exclusão é relativa, mas ela se revela, sobretudo, nela mesma, das relações de interdependência entre as partes constitutivas de uma larga estrutura social (…). A exclusão singular a qual os pobres são sujeitados pela comunidade que os assiste é característica da função que eles preenchem na sociedade como membros dela numa situação particular.” (Simmel, 1998, p. 16).

 
Resumo: Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma importante escritora da Literatura Brasileira. O artigo busca contextualizar a época em que Carolina Maria de Jesus de Jesus viveu, bem como o lugar de onde falava, para, em seguida, analisar como, contrariando todas as expectativas e lutando contra diversas formas de preconceito, Carolina tornou-se uma importante escritora.
 
Palavras chaves: Carolina Maria de Jesus – literatura afrobrasileira – lugar da fala.
 
Abstract: Carolina Maria de Jesus is recognized as an important writer of Brazilian literature. The article seeks to contextualize the time in which Carolina Maria de Jesus lived. We will examine the standpoint of her speech and how she could become an important writer, in spite of all the odds and prejudice she suffered.
 
Key-words: Carolina Maria de Jesus – Afrobrazilian literature – standpoint of speech.
 
 

Carolina Maria de Jesus: exclusão social, linguagem e preconceito

 
 
 

Daniele Ribeiro Fortuna 1

Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima2

José Geraldo Rocha3

Marcio Luiz Correa Vilaça4

 
Introdução
Atualmente, Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma importante escritora da Literatura Brasileira. Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo, a crítica questionava se seus textos eram de fato literatura. O tempo, a força, a inovação e atualidade de sua escrita contribuíram para colocá-la num lugar de destaque no cenário cultural brasileiro – talvez ainda não o que lhe é devido, mas um lugar um pouco menos invisível.
Invisibilidade, aliás, é a palavra que perpassa toda a discussão deste artigo: invisibilidade de uma mulher miserável, catadora de lixo e moradora da favela; uma mulher que mal sabia escrever, mas que, ainda assim, possuía uma visão de mundo perspicaz e irônica; uma mulher que, por ser negra, era vítima de um preconceito ainda mais ferrenho por parte da sociedade conservadora dos anos 1950 e 1960.
Para abordar estes temas, porém, o artigo busca contextualizar a época em que Carolina Maria de Jesus viveu, bem como o lugar de onde falava, para, em seguida, analisar como, contrariando todas as expectativas, Carolina, apesar de pouca escolaridade e por não se encaixar no perfil de autora que escreve na norma culta, conseguiu se tornar uma importante escritora, conquistando espaço e superando diversas formas de preconceito.
Em seguida, o texto trata da questão da mulher negra no cenário cultural brasileiro e, por fim, revela como todos os temas acima apresentados estão presentes no livro Quarto de despejo.
 
Um pouco sobre Carolina Maria de Jesus
A escritora negra Carolina Maria de Jesus viveu entre 1914 e 1977. Nascida na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, teve uma infância miserável e estudou apenas o suficiente para aprender a ler e escrever. Com cerca de 30 anos, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde exerceu diversas atividades para sobreviver: artista de circo, faxineira de hotel, vendedora de cerveja etc.
Durante muito tempo, foi empregada doméstica, trabalho que teve que abandonar em função de ter tido três filhos – um de cada pai. Por isso, resolveu ser catadora de lixo.
Na década de 1950, foi morar na favela do Canindé, em São Paulo. Lá começou a fazer um diário, no qual relatava sua vida naquele lugar, a dificuldade de criar três filhos, sua revolta com os políticos, seus sonhos, impressões, vivências, enfim.
A catadora de lixo foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas que, ao fazer uma reportagem no Canindé, acabou conhecendo sua história e se interessando por editar seu diário. Embora até hoje haja controvérsias sobre o papel que o jornalista teria exercido na vida da escritora e até que ponto ele teria interferido em seu texto, foi graças a ele que Carolina Maria de Jesus conseguiu publicar em 1960 seu maior sucesso, o livro Quarto de despejo, no qual foram reunidos diversos trechos de seu diário.
Carolina escreveu diversas obras: peças de teatro, romance, antologia poética, mas ficou realmente conhecida por seu diário. Imediatamente, o livro tornou-se um sucesso editorial, fazendo com que ela conseguisse realizar seu grande sonho: comprar uma casa de alvenaria. Entretanto, embora tenha tido grande repercussão, a escritora não conseguiu repetir o feito com suas outras obras e foi relegada ao ostracismo.
No ano em que Carolina Maria de Jesus completaria cem anos de vida, várias homenagens foram realizadas, fazendo com que seu nome viesse à baila novamente. Até hoje, sua obra é considerada importante e inovadora, pois, como afirma Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Segundo Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.
Mas exatamente de onde falava Carolina Maria de Jesus?
 
O lugar de Carolina
O ponto de partida para se pensar o lugar de Carolina, isto é, de onde ela escreve – a favela – está em estabelecer parâmetros entre a ideia de pobreza que sempre se constituiu no Brasil, pelo menos desde o século XIX, bem como na Europa, a partir da constatação de que esta significava um problema social. Algo que colocaria em xeque as apreensões de toda a sociedade e, não mais somente das pessoas consideradas pobres. Isto no Brasil desencadeou noções de interdependência em diversas áreas, o que fez com que as ações em prol da pobreza se dividissem entre o chamado sertão e a cidade, entre médicos e eugenistas, entre tradição e modernidade.
Enfim, se pensava todo tipo de tensões e contradições que pobreza versus riqueza poderiam oferecer. Mas podemos ressaltar que a pobreza não era um problema específico da economia de mercado. Ela é um problema estrutural e tem seu sentido transformado, dependendo da sociedade na qual ela incida. E no Brasil, desde os primeiros anos do século XX, ela está muito relacionada a este locus denominado favela.
Anthony e Elizabeth Leeds, em seu livro A sociologia do Brasil urbano (1978), mostram que, muito embora os temas da pobreza e da habitação popular fossem preocupações desde o século XIX, as favelas só aparecem, tanto fisicamente quanto como constituição de um problema, mais tarde, nos primeiros anos do século XX, já nas abordagens de Everardo Beckheuser (1906).
No Brasil, perigo e marginalidade sempre foram corroborados pelas doenças e insalubridade, no que diz respeito às favelas. No entanto, as ações em prol da pobreza tinham que se dividir entre o sertão e a cidade. Durante o século XX, o interior do Brasil muito foi investigado através de expedições científicas que acabaram por mostrar quão difícil era a vida dos habitantes do interior, mas, em contrapartida, mostrava-se um ambiente mais saudável que a cidade. Além disso, foi no interior que os investimentos tecnológicos apareceram como melhoria para o local e um sentido de ordenamento e progresso.
Outra questão importante nestes espaços é a tentativa de transformação das identidades da população considerada pobre e sua relação com uma memória e um projeto que dão sentido ao fato do deslocamento físico e às ideias de transferência e fragmentação da sociedade. Sair da favela caracteriza uma ascensão não só financeira, mas social e cultural. Como Carolina como moradora da favela acaba sendo estigmatizada e que tipos de representações sociais se fazem dela?
Conclui-se, assim, que a pobreza é um fenômeno sociológico singular, porque não é só definida como um número de indivíduos que ocupam uma posição orgânica na sociedade, mas que possuem um papel ratificado por um grupo. Na verdade, a categoria pobre, seja ela favelada ou não, revela uma amplitude da sua verdadeira significação, pois ao categorizá-las, abre-se um caminho maior para justificar as ações do governo e até mesmo da sociedade como um todo.
Mas como definir ou conceituar a pobreza? Torna-se necessário construir noções e conceitos no plural, para identificarmos que tal categoria se transforma de acordo com o tempo e o espaço, ou seja, deve ser contextualizada. De categoria moral, como vítima e marginalizado, a elemento perigoso, o pobre sofreu classificações sociais diversas. Historicamente, o homem pobre medieval era somente o contrário do rico. A passagem para o chamado homem moderno, como explica Sprandel (2004), fazia com que a pobreza fosse encarada como diferenciação econômica, o que já mostra seu poder de ameaça quando passa a ser associado à marginalidade. Vale lembrar que também é neste momento que a pobreza se desenvolve em função do crescimento do mercado. Com o passar do tempo, a pobreza foi, então, conhecendo considerações e percepções distintas. Era, portanto, associada ao trabalho, à mestiçagem, à violência, à insalubridade e à vadiagem. E é neste contexto que nasce e vive Carolina.
Neste cenário, é comum perceber que as pessoas têm dificuldade de se expressar – não apenas de forma oral, mas principalmente no que diz respeito à escrita. Por isso, cabe agora refletir sobre a escrita propriamente dita na obra de Carolina Maria de Jesus.
 
Educação, língua e preconceito linguístico
Veremos aqui brevemente que Carolina de Jesus contraria qualquer imagem recorrente de escritor.
A prática da escrita é, em geral, a habilidade linguística menos empregada nas práticas quotidianas.  Isto significa que, embora vivamos uma cultura que valoriza a escrita e a considera muitas vezes como modelo de padrões linguísticos, a produção de textos é pequena se comparada, por exemplo, à leitura. Na escola, no ensino de língua portuguesa, observa-se com frequência que o ensino de gramática e leitura ocupa espaço central nas práticas pedagógicas. Em parte, como consequência disso, há uma afirmação bastante frequente de quem lê muito escreve bem, embora, na prática, isso não seja tão verdadeiro quanto parece. A leitura pode contribuir para o desenvolvimento da produção textual, mas nos dois casos fazemos usos de estratégias discursivas diversificadas. No caso de uma obra literária, seja poesia ou prosa, a questão fica ainda mais complicada. Podemos observar que é relativamente pequeno o número de professores de língua ou literatura que escrevem literatura ou que pelo assuma esta tarefa. Assim, podemos perceber que a capacidade de analisar literatura e o domínio da língua não garante a produção literária.
Ainda na questão da produção textual, carece ainda perguntar: o que é escrever bem? Com certa frequência, podemos encontrar livros que buscam objetivamente apresentar as regras do bem escrever. Em muitos casos, escrever bem é visto como manter-se dentro de normas linguísticas prestigiadas. Assim, toma-se por sinônimo, em algumas publicações, que escrever bem é escrever corretamente, ou seja, seguindo padrões da comumente chamada de norma culta. A literatura e o jornalismo, historicamente, são dois espaços empregados às vezes para a identificação de modelos de escrita e de normas. É comum, por exemplo, que fragmentos literários sejam empregados como modelo de construções sintáticas.
Essa breve discussão aqui exposta não pretende incluir a produção de textos, seja em prosa ou poesia, da autora. Pretendemos aqui, na verdade, gerar uma reflexão sobre a criação literária de Carolina Maria de Jesus, que, pela biografia anteriormente apontada, está longe de ter vivido em condições favoráveis a práticas de leitura e produção de texto. No entanto, parece estar claro que os eventos de letramento pelos quais a escritora passou, mesmo com tantas adversidades, contribuíram para despertar o interesse pela criação literária.
Conforme apontado pelos historiadores Bom Meihy e Levine (1994, p. 17), Carolina de Jesus “aprendeu a ler e a escrever rudimentarmente e desde os primeiros anos da escola primária nunca mais deixou os cadernos”.  Fortuna (2014, p. 99) sintetiza a formação de Carolina ao afirmar que ela “estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida”.
Logo, Carolina rompe diretamente com a tradição de escritores com elevados níveis de instrução formal e letramento. Ressalta-se, portanto, que este elemento deve ser visto como uma quebra de paradigma. Não se trata, no entanto, de simplesmente relacionar educação formal com capacidade de escrever.
Precisamos ter em mente que a autora teve, principalmente até a publicação de sua obra, poucas oportunidades de leitura e, portanto, este deve ter sido um obstáculo a mais. Além disso, por sua história, é inegável reconhecer que a escritora precisou lutar contra uma série de preconceitos, inclusive o linguístico. O sociolinguista Marcos Bagno aponta que as variedades linguísticas estigmatizadas são “empregadas predominantemente pelos falantes das camadas sociais de menor poder aquisitivo e de menor escolarização” (2013, p. 65). Trata-se de uma variante linguística estigmatizada socialmente e que não goza de prestígio.  Sobre o preconceito linguístico, o experiente pesquisador faz uma observação bastante impactante ao relacioná-lo a outras formas de preconceito:
 

O preconceito linguístico é tanto mais poderoso porque, em grande medida, ele é “invisível”, no sentido de que quase ninguém se apercebe dele, quase ninguém fala dele, com exceção dos raros cientistas sociais, que se dedicam a estuda-lo. Pouquíssimas pessoas reconhecem a existência do preconceito linguístico, que dirá sua gravidade como um sério problema social. E quando não se reconhece sequer a existência de um problema, nada se faz para resolvê-lo (BAGNO, 2009, p. 23-24).

 
Logicamente não se pretende aqui discutir a criação literária ou ainda o preconceito linguístico a partir de Carolina de Jesus. Em termos objetivos, o que se pretende apontar aqui é que Carolina de Jesus contrariou uma série de adversidades e, dentre as diferentes formas de preconceito pelas quais passou, certamente o linguístico foi um deles. Por esse motivo, mas que uma criação literária, a obra de Carolina deve ser, sobretudo, reconhecida como um ato de resistência.
Resistência também no que diz respeito ao seu papel de mulher – e negra – na sociedade das décadas de 1950 e 1960, como veremos no item que se segue.
 
A mulher negra no cenário cultural brasileiro
A vida da mulher na sociedade é historicamente marcada por diversos tipos de violências. Inúmeros estudos atestam o quanto à questão da violência afeta suas vidas, desencadeando outros problemas que vão influenciar definitivamente na sua qualidade de vida.
 

A violência generalizada contra a mulher tem se caracterizado como um grave problema de saúde publica mundial… especificamente sobre a mulher há inúmeros estudos sobre as violências que a vitimam e que fundamentam tais afirmações, os quais apresentam vários pontos em comum, como por exemplo, o fato de que os resultados da violência na avida da mulher são devastadores para a saúde mental e física, aumentando o risco a longo prazo, da manifestação de outros problemas de saúde como dores crônicas, incapacidade física, abuso de drogas e álcool e depressão.(GIORDANI,2006, XVII)

 
Pode-se falar de violência física, a mais facilmente entendida e compreendida no senso comum. Há, entretanto, outros tipos de violências que nem sempre são pautadas na cotidianidade das discussões. Aqui pode-se exemplificar a violência verbal, quando as palavras e xingamentos são utilizados como forma de ofensas e acarretam diminuição do autoestima da mulher. O machismo e o moralismo incrustrados no imaginário, na mente e nas estruturas sociais. Uma outra forma de violência é a negação das contribuições femininas nos diferenciados campos do saber e do conhecimento. Trata-se de uma espécie de “sequestro da imagem, da voz e da atuação” de mulheres, e de modo especial de mulheres negras.
As discussões e os debates em torno das questões de gênero nas últimas décadas têm evidenciado que a mulher negra ainda está muito aquém do lugar de destaque na vida nacional em todas as suas dimensões. É possível afirmar a existência de uma realidade de invisibilização da mulher negra como protagonista. Não raras são as vezes em que elas aparecem subalternizadas, sem família, sem história e sem perspectivas de vida, a não ser a dependência de uma família “branca boazinha”.
 

A irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silencio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória, e ainda mais da história, este relato que por muito tempo esquece as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (PERROT, 2005, p. 9).

 
O fenômeno da invisibilidade dos escritores e escritoras negras na literatura brasileira produz um tipo de cegueira paradigmática, conforme atesta Morin (2011), segundo o qual os critérios para o reconhecimento literário são normatizados numa perspectiva de exclusão e marginalização da produção desses escritores e escritoras.
Tornar alguém ou um grupo invisível em uma sociedade é uma humilhação social e uma atitude política. No contexto das relações raciais no Brasil, isso implica sua negação indenitária.
 

A invisibilidade compõe não tanto aos sofrimentos gerais, sofrimentos de totós nós, quanto aqueles que estão no centro da alma… não deveríamos simplesmente vincula-los aos males gerais de uma sociedade de massas, em todo o rosto é amortecido e vira mascara indiferente. Não haveria ai também, no núcleo de tudo, um conflito propriamente político, um conflito de classe? (COSTA, 2004, p.45).

No campo da literatura, tal invisibilidade da mulher negra expressa “um desejo” da cultura dominante no que tange ao embranquecimento da produção literária.
Escarafunchar! Talvez esse seja um dos termos mais apropriados para significar o ato de perscrutar na literatura nacional as produções e seus autores, que por tanto tempo foram invisibilizados em função processo de embranquecimento. É possível afirmar que a cor da escritora negra representou elemento fundante da sua exclusão .
A cultura de dominação caracterizada pelos valores eurocêntricos, em detrimento dos valores originados dos povos indígenas e negros na sociedade brasileira, jogou historicamente papel decisivo no processo de invisibilização das mulheres negras na cotidianidade da vida. O lugar e o papel relegados nessa cultura à mulher negra a tornaram um segmento à margem da história. Em virtude da padronização cultural de beleza associada à cor branca, as mulheres negras passaram a ser compreendidas como a encarnação da “não beleza” ou da feiura. Nos diferentes níveis de participação social, ela foi colocada, quando muito a um segundo plano. A situação de exclusão, discriminação e marginalização afeta todas as esferas da vida humana. No campo da produção de conhecimento, além de um número reduzido de mulheres negras se fazerem presentes, essas poucas ainda têm sua produção pouco visível em função de um modo de pensar branco e machista.
Nas últimas décadas, com as lutas dos movimentos sociais negros associados a alguns pesquisadores e estudiosos nas academias brasileiras, alguns nomes de mulheres negras têm sido retirado das “profundezas” do abismo do não reconhecimento. Esses vão, assim, como que renascendo das cinzas. Escritoras negras, que principalmente, no campo da literatura foram por muito tempo ocultadas pelos processos de dominação cultural associados às práticas racistas que negam aos negros ressurgem. E no caso particular as mulheres negras passam a ter o reconhecimento e a visibilidade na história nacional.
É corrente na literatura brasileira uma representação da mulher negra construída pelos escritores brancos, cujas concepções se fundamentam e reportam ao período colonial no qual a mulher branca era para casar, negra para trabalhar e mulata para sexo. A literatura brasileira se apropriou dessa concepção e estereotipou a mulher negra, atribuindo a ela o papel de empregada doméstica no cenário literário brasileiro, ao passo que a mulata passou a significar o objeto de desejo, de consumo sexualmente falando.
No Brasil, é possível falar de um certo apagamento da escrita da mulher negra na literatura nacional. Embora saibamos da existência de mulheres como Teresa Margarida da Silva, Maria Firmina dos Reis, Anita de Souza, Antonieta de Barros, seus escritos ainda soam como estranhos no universo literário das academias. Nessa perspectiva, é que se pode lançar um olhar particularizado sobre a obra e sobre a autora Carolina Maria de Jesus. Colocar essa escritora no lugar de seu merecimento na literatura brasileira é, sem sobra de dúvida, reconhecer uma dívida para com todas as mulheres negras invisibilizadas na história.
 
Quarto de Despejo: o relato de ‘dentro’ da pobreza
Carolina Maria de Jesus revelava em seu diário a necessidade de escrever e de como dedicar-se à escrita a ajudava a compreender o mundo, a política, a fome e, principalmente, a resistir à miséria e às inúmeras dificuldades que enfrentava – “(…) creio, que não poderei viver sem escrever porque os dramas continuam [a] acontecer enquanto vivemos (sic)” (JESUS, 1996, p. 54). Ou ainda: “Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo” (sic) (JESUS, 1997, p. 19).
A escrita era, para Carolina, uma forma de sentir-se menos invisível. Na verdade, foi graças à publicação de seu diário, saiu da invisibilidade na qual estava imersa como mulher negra e miserável. Seu texto é o relato de ‘dentro’ não apenas da sua invisibilidade, mas do apagamento vivenciado por todos que a cercavam na favela.
Mulher, negra, mãe solteira de três filhos, miserável… Os trechos de Quarto de despejo, a todo momento, trazem à tona essa realidade. E embora Carolina Maria de Jesus não domine as normas cultas da língua padrão, sua escrita demonstra uma visão de mundo aguda, perspicaz e crítica.
Em seu diário, os dias começam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água” (sic) (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Dêixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (sic)  (JESUS, 1997, p. 61).
O leitor que ainda desconhece a escrita de Carolina talvez espere um relato despretensioso de um cotidiano banal, o testemunho de alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas logo Carolina Maria de Jesus ‘decepciona’ esse leitor e revela um texto que, como afirma Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”, como se vê neste trecho: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (sic) (JESUS, 1997, p. 55).
O trecho a seguir mostra ainda uma descrição do lugar de onde fala Carolina: “Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos” (sic) (JESUS, 1997, p. 48). Traz, principalmente, o testemunho da fome:
 

27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (sic) (JESUS, 1997, p. 39).

Para lidar com essa dura realidade, a escrita era sua válvula de escape: “Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo” (JESUS, 1997, p. 19). Esse tipo de situação é recorrente em seu diário: apesar do cansaço, da fome, da miséria e das injustiças, Carolina encontrava sempre tempo para dedicar-se à escrita.
Seus relatos mostram ainda que ser negra tornava tudo ainda mais difícil. No dia 22 de maio, Carolina Maria de Jesus relembra que, em junho de 1957, ficou doente e, por isso, percorreu “as sedes do Serviço Social” (JESUS, 1997, p. 37) para pedir auxílio financeiro. De lá foi encaminhada para vários lugares até chegar à Santa Casa, onde – não fica claro exatamente por que – um funcionário manda prendê-la: “Prende ela! Não me deixaram sair. E um soldado pois a baioneta no meu peito” (sic) (JESUS, 1997, p. 38).
Mais adiante Carolina revela que escrevia peças que apresentava a diretores de circo, os quais lhe diziam: “É pena você ser preta” (JESUS, 1997, p. 58). Pouco adiante, nesse mesmo trecho, a escritora se recorda ainda de um diálogo com um homem branco, que lhe disse: “Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem” (sic) (JESUS, 1997, p. 58).
Parte dos críticos brasileiros considerava que a escritora mostrava-se um tanto alienada no que dizia respeito à sua cor. Nesse sentido, Joel Rufino dos Santos (2009, p. 20) ratificava o pensamento desse setor da crítica: “ela se colocava quase sempre do lado contrário ao da sua condição de mulher negra favelada e, ao mesmo tempo, foi autônoma com relação ao mundo em que viveu”.  Santos afirma ainda que: “Entre o eu e o nós, preferiu a literatura” (SANTOS, 2009, p. 22). Porém, considera que “qualquer juízo sobre Carolina e sua obra não deve esquecer que elas são três: a mulher, a escritora e a personagem criada pela escritora” (SANTOS, 2009, p. 21).
Por meio da leitura de alguns trechos de Quarto de despejo, entretanto, é possível perceber que, em alguns momentos, a escritora tinha consciência e orgulho de sua negritude: “adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico. (…) Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta” (sic) (JESUS, 1997, p. 58). Além disso, não se conformava com a pretensa superioridade que os brancos afirmavam possuir: “O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe [também]. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém” (sic) (JESUS, 1997, p. 58).
Alienada ou não, fica evidente que Carolina Maria de Jesus via o mundo e tecia suas próprias conclusões. Não se valia da opinião de ninguém, não criava subterfúgios. A realidade era dura e ela não fugia disso. Sua escrita continua inovadora e atual justamente por causa disso: é o relato fiel, sincero e cruel de uma realidade excludente e desigual.
 
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SPRANDEL, Márcia Anita. A pobreza no Paraíso Tropical: interpretações e discursos sobre o Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004.
 
 
Sobre os Autores
1Daniele Ribeiro Fortuna é professora do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Tem pós-doutorado em Comunicação (UERJ), doutorado em Literatura Comparada (UERJ) e mestrado em Literatura Brasileira (UERJ).
2Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima é Coordenadora e professora do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Pós-doutorado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
3José Geraldo Rocha é professor do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Tem doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
4Marcio Luiz Correa Vilaça é Coordenador Adjunto e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas da Unigranrio. Tem doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.





Bio fornecida pelo palestrante.

INFINITAS DESCOBERTAS DO CORPO NA ESCRITA POÉTICO-ERÓTICA DE MIRIAM ALVES – Cristian Souza de Sales 




 Cristian Souza de Sales

 

Universidade Federal da Bahia

RESUMO: O presente artigo busca refletir sobre os poemas de autoria de Miriam Alves e como a escrita feminina contemporânea tem buscado construir outras formas de dizer o corpo. Miriam Alves integra uma geração de escritoras negras brasileiras que têm produzido textos literários interessados em marcar olhares que registram outras configurações para o corpo negro, rompendo com um silenciamento imposto historicamente às mulheres de origem afrodescendente dentro e fora universo ficcional. São vozes literárias que investem e buscam inscrever outras formas de escrita do corpo através de versos que surgem munidos de desejo, sedução e erotismo, cujas representações diferenciam os seus discursos poéticos das imagens e dos sentidos depreciativos disseminados em inúmeras produções da literatura nacional.  Neste articulo, recorreu-se aos estudos teóricos de Dallery (1997), Souza (2005), Soares (2006), Gomes (2006), Hooks (2006), entre outros.
 
Palavras-chave: escrita feminina, literatura, corpo negro, erotismo.
 
RESUMEN: Este artículo pretende reflexionar sobre los poemas escritos por Miriam Alves y como la escritura de la mujer contemporánea ha tratado de construir otras formas de decir el cuerpo. Miriam Alves integra una generación de mujeres negras brasileñas que han producido textos literarios que registran otros ajustes, rompiendo con un silenciamiento históricamente impuesto a las mujeres de ascendencia africana, dentro y fuera del universo de la ficción. Esas voces literarias invirtien y buscan otras formas de escribir el cuerpo a través de los versos que vienen equipados con el deseo, la seducción y el erotismo, cuyas representaciones diferencian sus discursos poéticos de las imágenes y sentidos despectivos diseminados en numerosas producciones de la literatura nacional. En este artículo se utilizaron los estudios teóricos de Dallery (1997), Souza (2005), Soares (2006), Gomes (2006), Hooks (2006), entre otros.
 
Palabras clave: escritura de las mujeres, la literatura, el cuerpo negro, el erotismo.
 
Currículo da autora: Cristian Souza de Sales é doutoranda pelo Programa de Pós- Graduação em Literatura e Cultura (PPGLICULT), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Mestre pelo Programa em Estudo de Linguagens (PPGEL) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É bolsista da Fundação de Apoio e Amparo à Pesquisa da Bahia (FAPESB) e integrante do Grupo de pesquisa EtniCidades: escritoras/es e intelectuais afro-latinos(as), da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Desenvolve pesquisas sobre a escrita de mulheres negras latino-americanas contemporâneas, inclusive Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, focalizando questões como escrita de si, escrita do corpo e memória.
 

INFINITAS DESCOBERTAS DO CORPO NA ESCRITA POÉTICO-ERÓTICA DE MIRIAM ALVES

  

Cristian Souza de Sales

 

Universidade Federal da Bahia

 

  1. Escrita do corpo e discurso afirmativo

 
 

 Passos ao mar

[…]

Os pés alisando a areia molhada

arrepiando o corpo a cada passo

Os passos dirigindo-se às águas salgadas

O sol a água banhado-me

[…]

Razão de sentir um único desejo

Desejo adulto forte

bom solto

quase completo

O rosto sorrindo

Esvaindo-se prazerosamente

sensação

Areia, mulher, luar, sorriso

Completando o inevitável

Natureza seguindo seu curso

Mar

Mulher cumprindo o seu curso

Vida

(ALVES, 1979, p. 37, grifos meus)

 
As metáforas, os sentidos e os significados acionados pelo poema Passos ao Mar, de autoria de Miriam Alves, colocam o corpo negro feminino em outras cenas literárias e inscreve-o em outras imagens ficcionais, distanciadas daquelas que normalmente vemos circular no imaginário coletivo, construídas sob a ótica da dóxa masculina pela literatura brasileira, no que diz respeito à existência de um corpo-objeto ou corpo-sexual 1. Segundo é possível interpretar, os versos se enunciam impregnados de desejo, sedução e erotismo, sem, no entanto, recorrer às estereotipias raciais ou sexuais mencionadas, o que evidencia uma das preocupações políticas da escrita feminina afrobrasileira contemporânea.
É uma escrita feminina que se insinua poeticamente, revertendo preconceitos, rompendo com tradições, com convenções, com modelos instituídos, problematizando projetos ideológicos falocêntricos e etnocêntricos. Na escrita de Miriam Alves, a poesia oferece um espaço único de fruição do desejo de transformação e mudança, materializando-se em cada verso repleto composto de musicalidade. Assim, a natureza contemplada, seu ritmo e seu fluxo são a fonte de inspiração do sujeito lírico: “areia molhada, luar, sol, mar, as águas salgadas”. A sua força e potência discursiva faz movimentar a vida, o corpo e o universo. Movimenta outras formas de encenação do corpo que mobilizam outras performances discursivas e configurações de si.
Neste modo de escrita feminina poético-erótica, é possível constatar que, no processo de criação e recriação de imagens, Miriam Alves resgata esse elo considerado sagrado e espiritual que serve a poetisa de inspiração: mulher, corpo e natureza. A partir desta comunhão, as sensações corpóreas se expressam nas linhas do texto em uma linguagem sinestésica e melodiosa, propagando-se de modo suave, delicado e sensual.
A escrita feminina afrobrasileira segue buscando cumprir um de seus principais rituais: desconstruir para restabelecer ao corpo o que lhe foi retirado, segregado e negado pela doxa masculina. Em Passos ao mar, os pés alisando a areia molhada, o rosto feminino sorrindo, o desejo adulto vindo forte à tona, as águas banhando o corpo, deixam aflorar a sensualidade da mulher negra. Uma sensualidade feminina restituída e reconfigurada no discurso poético de Miriam Alves, que se une a beleza da terra, da natureza, iluminada pela luz do sol e da lua, abençoada pelas águas salgadas do mar, o que marca um ciclo de abalos em supostas verdades e mobiliza um discurso de autoafirmação identitária. Aspectos que serão encontrados e reiterados em outras poesias da escritora.
 

  1. Corpo negro, erotismo e desmitificação

Nascida em São Paulo, nos finais da década de cinquenta do século passado, Miriam Alves é uma escritora que integra uma geração de intelectuais e militantes do movimento negro, os quais produzem a partir de 1970, uma literatura que aqui, considerando a efervescia das discussões, a emergência dos discursos referentes à existência de uma produção de autoria negra ou afrodescendente, quanto às definições, percursos, outras trajetórias, características e conceitos, chamaremos de afrobrasileira contemporânea2.
Integrante do Grupo Quilombhoje Literatura até 1989, autora de antologias nacionais e internacionais, traduzidas para o inglês, o espanhol e o alemão, de textos não ficcionais (ensaios, resenhas e artigos) nos quais aparecem reflexões ligadas à literatura afrobrasileira, ao fazer literário de autoria feminina negra, Miriam Alves se filia a um projeto ideológico que revela o seu comprometimento artístico e intelectual.
Quanto à circulação de seus textos, os seus poemas e contos podem ser encontrados, tanto na antologia Cadernos Negros, periódico no qual publica seus trabalhos desde a década de oitenta do século XX, assim como em publicações individuais.3 Completando quase trinta e cinco anos de trajetória intelectual, tendo publicado Momentos de busca, seu livro de estreia em 1983, e o segundo Estrelas no dedo, em 1985, Miriam Alves elege a(s) mulher(es) negra(s) como temática, personagem e assunto, em verso ou em prosa.
Trata-se de uma escrita feminina negra contemporânea, conforme são exemplares as poesias Passos ao mar, Despudor, Necessidade e Íntimo véu, que vão se inscrevendo nas bordas do vazio, das ausências, dos silêncios impostos, das frestas, buscando recompor o tempo de alguma forma ou de muitas formas, formatos, jeitos e modos de dizer. Nos textos mencionados, reaparece o desenho de um rosto, de um corpo feminino negro, cujos contornos são delineados em outras grafias, figurações e linguagem poética, marcado o pertencimento étnico do autor, nesse caso, da autora Miriam Alves.
Ocupando este outro lugar, o da busca por uma visibilidade social, pela liberdade de expressão do corpo e da voz feminina, produzindo literatura afrobrasileira, as escritoras negras contemporâneas deslocam a eloquência dramática e dolorosa de outros momentos históricos e memorias relegadas ao esquecimento, adotando um tom incisivo e autoafirmativo do discurso identitário. Suas textualidades demonstram uma preocupação em exibir a face do corpo mulher negra como símbolo de um território reconquistado por mãos calosas, exaustas, sensíveis e firmes. São mulheres que estão ansiosas para falar de e sobre si.
Nos poemas de sua autoria, Miriam Alves constitui imagens alternativas e diferenciadas para o corpo feminino negro, geradas no interior de um processo de convivência, muitas vezes, tensa e problemática com a cultura ocidental hegemónica no que concernem aos padrões estéticos instituídos. Por isso, seus textos literários  lutam para  se expressar  e expressar-se com rosto, voz, corpo, tinta e papel, deixando impressas as suas digitais, acrescentando ao universo patriarcal e hegemônico um estilo literário outro, agora o feminino negro.
Miriam Alves segue no manuseio da/com a palavra, do fio (linguagem) e do tecido (poesia), tecendo e desenhando de um modo especial os corpos negros que surgem entrelaçados a muitas histórias, memórias e identidades. A escritora traz consigo um coro de vozes que formam um rosário de contas unidas por  fios de resistência. Uma produção literária afrobrasileira que sugere caminhos de ação e insubordinação contra o racismo e o sexismo, mas que também falam/expressam o afeto, o amor, a sexualidade, com beleza, encanto, sedução e erotismo, segundo é possível interpretar em Despudor:
 
 

Arregacei as vestes

Deitei sem seu regaço

Sonhei meu nego tolo

Tolas coisas

O seu calor esquentando

O meu corpo

Nos meus ouvidos

Respiração entrecortada

O encontro a confirmação

Você em mim.

Suas mãos possuidoras

Calorosamente, despudoramente

Confirmam afirmam

AMOR

(ALVES, 1978, p.54, grifos meus)

 
Sem timidez, sem medo e sem receio, desvestindo o seu corpo, o sujeito literário expõe questões internas como a sexualidade e a sensualidade da mulher negra, explicitando o seu ponto de vista sobre estes assuntos cercados ainda de mitos e tabus na sociedade brasileira. Mitos que representaram as mulheres de origem afrodescendente como criaturas distorcidas, desumanizadas, cujos corpos diferenciados dos padrões brancos de beleza, eram e são descritos como possuidores de uma temida atividade sexual, classificados pela dóxa masculina como repulsiva, suja, obscena e apresentada como mulher ou tipo físico menos aceitável socialmente.
Em O feminino corpo da negrura, Leda Maria Martins (1996) constata que, no plano ficcional, a relação submissão e dominação das mulheres, colocaram o corpo da mulher negra em um jogo de imagens e de símbolos, sob a ótica do “alheio e do alienante”, com base na lógica racial e sexista (MARTINS, 1996, p. 112). De acordo com suas pesquisas, nas “cenas literárias nacionais”, a autora destaca que “os corpos femininos da negrura” aparecem sob as seguintes miragens da “doxa masculina” e visão falocêntrica: “(…) a mãe preta, a empregada doméstica, uma espécie de força bruta assexuada, de rosto indiferenciado, e a insinuante mulata, corpo erotizado em excesso, objeto dos desejos “ocultos” do homem branco” (MARTINS, 1996, p-112, grifos da autora).
Já Lélia Gonzalez (1983), em seu trabalho pioneiro sobre Racismo e o sexismo na cultura brasileira, denuncia como essas formas de representação das mulheres negras e de seus corpos, mencionados por Martins, determinaram os lugares ocupados pelas mulheres negras na sociedade brasileira através das relações de poder mantidas entre brancos e negros historicamente. Para Gonzalez, nessas figurações mencionadas e em muitas outras, expressam-se “os modos de rejeição contra a negra e a mulher”, assim como os aspectos “simbólicos do racismo e do sexismo”, os quais devem ser pensados em termos de contextos e lugares, funções e papeis sociais “naturalmente” atribuídos à mulher negra. (GONZALEZ, 1983, pp.226-227).
Atenta a estas reflexões, desvencilhando-se dessas codificações falocráticas, de sua opressão, de sua censura, de sua repressão e do silêncio, a escrita que chamamos de poético-erótica de Miriam Alves busca desmitificar e desconstruir a sexualidade feminina negra pela ótica do negativo, do desprezo e da aversão, utilizando a literatura afrobrasileira e seus recursos disponíveis. Através de um sonho, o olhar feminino negro nos descreve um encontro amoroso que culmina no ato sexual entre um casal, investindo em outras formas de enunciação de sua intimidade (ALVES, 1978, p.54, grifos meus). Nesse momento dos corpos em fricção, ela grafa o gozo e o desejo.
Por outro lado, em Vivendo de amor, bell hooks (2006, p. 188) afirma que muitas mulheres negras sentem que em “suas vidas existe pouco ou nenhum amor” 4. E essa é uma de “nossas verdades privadas” e inquietações que raramente são discutidas em público. Trata-se de uma realidade que é tão dolorosa para as mulheres negras, da qual dificilmente, elas falam à vontade sobre o assunto. Para intelectual afroamericana, um dos motivos que explica este nosso comportamento social é a herança deixada pelo sistema escravista e as divisões raciais estabelecidas entre os brancos e os/as afrodescendentes pelo racismo e pelo sexismo, tanto nos Estados Unidos, assim como no Brasil.5 Por isso, “nós negros (as) temos sido profundamente feridos”:
 

(…) feridos até o coração, e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e, consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando. […] Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. (…). Mas, a vontade de amar tem representado um ato de resistência (HOOKS, 2006, p. 189, grifos meus).

 
 
Conforme sugere a autora, a opressão patriarcal, o racismo e a violência, agindo juntos, experimentados de todas as formas por nossas ancestrais africanas, colaboraram para afetar, distorcer e “impedir”, “embora não fosse impossível”, a capacidade que as mulheres de origem afrodescendente, na condição de escravas ou libertas, tinham “de amar e de sentirem amadas”.
De acordo com hooks, foram às mulheres que sofreram castigos físicos e “testemunharam seus filhos sendo vendidos” – “seus amantes – familiares – companheiros – amigos apanhando sem razão” – sendo punidos de “forma cruel”. Acrescento ainda que, nesse contexto, elas foram expostas à violência sexual e definidas pela cultura dominante como corpo-objeto, como objetos sexuais, corpos negros anormais e sexualizados em excesso, logo, elas não poderiam ter saído dessa conjuntura, nem entender aquilo que se chama de “amor” (HOOKS, 2006, p. 188). Contudo, foram e ainda são experiências amargas e dolorosas que deixaram marcas profundas para essa geração, assim como para as gerações posteriores vide a violência física e simbólica praticada, enraizando-se nos corações das mulheres negras sob a forma de “feridas emocionais” (HOOKS, 2006: 188-189).
Segundo hooks, no atual contexto, essas “feridas emocionais” estão sendo revertidas e curadas com doses altas de autoestima e autoafirmação. A autoestima e a afirmação do lugar étnico-racial e de gênero têm possibilitado às mulheres negras cultivarem o seu “amor interior”, especialmente produzido literatura. Dessa forma, muitas escritoras negras brasileiras demonstram que têm superado através da escrita literária os complexos de inferioridade e de incapacidade de sentir e de amar incutidos pelo racismo e pelo sexismo, ao longo da história colonial, o que provocado mudanças significativas fora e dentro do universo ficcional.
Assim, entendemos que uma “sociedade racista e machista”, conforme nos faz compreender hooks, muitas mulheres de origem afrodescendente, “não recebem muito amor”, não percebem a sua presença, assim como também não nos sentem amadas. Elas não aprendem a “reconhecer que a sua vida interior também é importante”, dedicando-se exclusivamente parte de sua militância política, às lutas e às conquistas de seu grupo. (HOOKS, 2006, p.197).
Contrariando os discursos hegemônicos, é possível identificar que Miriam Alves está interessada construir formas de dizer os corpos negros, cujas imagens e sentidos têm procurado explorar esta vida interior mencionada pela pesquisadora afroamericana. Trata-se de uma escrita feminina negra feita no Brasil que tem buscado acessar um universo de emoções e sentimentos dos quais as mulheres negras estiveram privadas historicamente em função, também, dos muitos preconceitos de que foi e é vítima.
O discurso poético-erótico de Miriam Alves tem descoberto as várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais ao empreender transformações significativas:
 
 

Necessidade

Os lamentos soltos

Esfarrapam minhas vestes

Descobrem os meus pensamentos

Fico só

Emano ondas de calor

Endurecidos nos medos

Amolecidos nos abraços

Prontos para amar

(ALVES, 1985, p. 43, grifos meus).

 
Por meio da voz lírica, a mulher negra revela outras necessidades que emanam de seu corpo – amar e sentir prazer – sem, no entanto, repetir ou apelar para formas depreciativas de exposição de sua intimidade.  Trata-se de uma escrita feminina negra que traz à cena uma voz poética transbordando em desejos que são transmitidos no corpo por “ondas de calor”. Um corpo de onde emergem vontades secretas que vão substituindo os “lamentos soltos”, descobrindo-se em pensamentos novos, ainda que “endurecidos” por medos e receios, parecendo que a voz poética se recorda das marcas negativas deixadas pelo passado colonial. Apesar disso, das interdições sofridas no discurso da tradição cultural hegemônica, o corpo se diz pronto, finalmente pronto para viver sensações novas.
Por esse motivo, as mulheres negras através da literatura afrobrasileira têm pensado na sexualidade como tema e pauta política, assim como em dimensões socioafetivas, não apenas como uma questão pessoal ou privada, mas, sobretudo, elas imprimem um discurso poético que trazem em sua essência, reivindicações coletivas, cujas ações individuais desejam mobilizar questões sócio-políticas que precisam ser exploradas, debatidas e problematizadas em nossa sociedade.
Os poemas de Miriam Alves apresentam modificações atravessadas por um olhar interno que vai desvelando a intimidade do corpo, expondo uma nudez quase envergonhada, apropriando-se de um repertório linguístico e semântico, cujo conteúdo e sentidos das palavras desconstroem, reconstroem, ressignificam e desvelam com muita ousadia:
 

Íntimo véu

Arregaço o ventre
corcoveio no ar
gemo
Você?
tira o meu último véu.

(ALVES, 1986, p. 60).

 
 
O corpo é a primeira forma de visibilidade humana que desperta interesses, teorias e interpretações em diferentes áreas do conhecimento. Da medicina às artes, da biologia à cultura, multiplicam-se explicações quanto aos seus aspectos anatômicos, étnicos e estéticos. No campo natural e biológico, o corpo físico é dado como uma materialidade finita. Contudo, para além de seu caráter biológico, o corpo humano sofre interferências ideológicas, culturais, religiosas, políticas, assim como de gênero, raça e classe.
Em Corpo, conhecimento e educação: notas esparsas, Carmem Soares (2006, p. 3) afirma que em um sentido mais “agudo” de sua presença, como “materialidade polissêmica”, constituído por múltiplas significações, o corpo “invade lugares” exige compreensão, determina funcionamentos sociais, mas também sofre “determinações pedagógicas”. Nele, a sociedade “circunscreve o seu retrato”, impondo “limites sociais e psicológicos” a sua conduta moral.
Esta também fixa seus “sentidos e seus valores”, submetendo o corpo a normatizações, a “disciplinamentos e as coerções”, além de privilegiar um dado número de atributos físicos e padrões estéticos que o “transformam” e o definem dentro de uma escala entre o aceitável e o inaceitável. E o modo como este se move e modifica-se “revela trechos da história do contexto histórico-social a que pertence” (SOARES, 2006, p. 110).
Em uma vertente de reflexão mais restrita, Nilma Lino Gomes (2006, p. 261), em Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo de identidade negra, corroborando com as reflexões propostas por Soares, diz que para além do princípio de apreensão do corpo em sua “especificidade biológica” ou mesmo em suas funções “puramente fisiológicas”, aproximando-o das “relações de sentido e de significação”, interpretado em sua “materialidade simbólica”, o corpo está localizado em um “terreno social e subjetivamente conflitivo”.
Segundo Gomes, ao longo da história, o corpo se tornou “emblema étnico”, símbolo a ser explorado, manipulado e transformado nas “relações de poder e de dominação” para marcar “assimetrias sociais”, “classificar, hierarquizar” e estabelecer desigualdades na “distribuição de poder” entre grupos raciais distintos por causa de fenótipos como a cor da pele. Assim, a sua aparência física passou a difundir mensagens e a integrar significados ideológicos relacionados a “atributos negativos e positivos”, introjetados por regras sociais, padrões estéticos, códigos de comportamento moral, transformando-se em “objeto de reflexão e de apelo da cultura” dominante, sendo por ela, “tocado, modelado, modificado”, violentado e agredido. (GOMES, 2006, p. 261-262).
Nesse sentido, a autora passa a discorrer sobre o corpo negro, pois segundo ela, “no processo histórico, cultural e político brasileiro”, o corpo negro foi “tocado, modificado”, agredido e violentado nas relações de poder mantidas entre os brancos e os afrodescendentes. Gomes explica que o corpo negro foi usado como um dos “sinais diferenciadores” mais evidentes pelo racismo para estabelecer hierarquias entre as classes sociais no Brasil e para marcar a “referência negra” de um sujeito, e, dessa forma, justificar sua posição social subalterna (GOMES, 2006, p. 261). Sobre este, agiram duplamente a violência física e simbólica, investindo no controle de sua aparência, em seus movimentos, em seus gestos, em suas expressões, em seus desejos, em suas vontades, afetividade e sexualidade.
Na escrita do corpo feita por Miriam Alves, promovendo o processo de recriação de imagens, a voz poética “libera” o corpo feminino negro para usufruir, definitivamente de uma rede infinita de prazeres sexuais e para vivenciar as suas próprias fantasias e fetiches, desafiando, mais uma vez, a ordem social controladora sobre si. Uma escrita feminina poético-erótica promove o autoconhecimento, a retomada de consciência do próprio corpo e de sua relação com o desejo sexual, colocando a mulher negra como o sujeito na cena amorosa, e não mais como objeto, o que contribui para demolir princípios patriarcais arraigados.
Nas linhas do texto de Íntimo Véu, repletas de libido e erotismo, podemos flagrar através do uso da expressão verbal “gemer”, o momento exato da explosão do gozo e o instante da fruição do orgasmo feminino – do toque naquelas zonas do corpo que provocam a excitação sexual no sujeito poético, as chamadas zonas erógenas: “ouvidos, pernas, coxas, ventre, rosto e pele”.
Assim, os véus (as máscaras sociais alicerçadas em valores falocêntricos) que encobrem este corpo são retirados completamente para que o eu lírico possa desfrutar de certas sensações corporais com mais liberdade e vivenciar a experiência erótica extraordinária do prazer sexual sem limites ou demarcações sociais negativas. O poema torna-se o lugar da encenação e da enunciação plena do desejo, de infinitas descobertas do corpo que se revelam por meio de uma linguagem poética cheia de sedução, ritmos, ecos, sons, dissonâncias e ressonâncias.
 

  1. Outras infinitas descobertas do corpo

De acordo com Florentina Souza (2005, p.127), em Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal MNU, “o discurso, a imagem e o poder” nos textos literários afrobrasileiros de autoria feminina estão interligados e são indispensáveis para que interfiram nas “várias instâncias de prestígio e de poder”: resgatando a “autoestima da mulher negra”. A literatura afrobrasileira promove “condições políticas e sociais de respeito à sua diversidade cultural e à igualdade de direitos” quanto às questões de gênero e raça, considerados como elementos indispensáveis que resultam em um “grande esforço” para “remapear e reconfigurar o imaginário instituído”.
Redesenhados nas falas da escrita feminina afrobrasileira, rostos e corpos femininos negros surgem desejosos de existência, ambicionando outras formas de visibilidade social, segundo interpretamos nas poesias de Miriam Alves. Ambos vão sendo (re)esculpidos e redefinidos por outros contornos formados por linhas que são preenchidas por vontades, sentidos próprios, expressões, performances e movimentos, não mais sob olhares e discursos discriminatórios (eurocêntricos, etnocêntricos, falocêntricos etc ), mas como forma de representação de uma atitude de afirmação e autoafirmação da identidade do sujeito mulher negra.
Nas poesias de Miriam Alves, o corpo é compreendido em sua materialidade polissêmica que mobiliza interpretações infinitas. Apresenta-se como um corpo feminino negro que pode agora, enfim, (re)composto na visão de Miriam Alves, solto, alforriado, vivenciar a sua liberdade individual. Corpo-território onde o ser-mulher-negra pode exercer e organizar a sua liberdade de transformação.
Segundo interpretamos, trata-se de um corpo feminino negro ou corpos que produzem questionamentos e constroem respostas as suas interpelações, inquietações e frustrações. Corpos femininos negros em luta que se movimentam e se contrapõem a todas as formas de opressão. Corpos femininos negros que guardam vontades reprimidas. “Falam de amor à vida e ao outro”, mas que também refletem sobre sua sexualidade (ALVES, 2010, p. 70).
Miriam Alves (2010), em Literatura feminina negra no Brasil: pensando a sua existência, reflete sobre o papel da mulher negra enquanto escritora e intelectual e analisa a importância de sua atuação e de demais vozes femininas no movimento que ela chama de literatura de autoria negra. É preciso dar visibilidade a questões que foram relegadas ao silêncio e ao esquecimento pela sociedade brasileira, a exemplo do corpo, da afetividade e sexualidade, tratada sempre com um assunto tabu pelas próprias mulheres e escritoras.
Segundo Alves, ao assumir sua voz-mulher negra, as escritoras afrobrasileiras ampliam o significado da escrita feminina brasileira, revelando uma identidade-mulher que não é mais o “outro” dos discursos. Ao contrário, elas afirmam uma identidade-mulher-negra que revela que sempre esteve lá, no “lugar do silêncio”, permeada por singularidades e subjetividades experimentadas por elas no cotidiano em contato com a sociedade: ser mulher e negra simultaneamente (ALVES, 2010, p. 186).
De acordo com Arleen B. Dallery (1997, p. 64-65), no ensaio A Política da Escrita do Corpo: Écriture féminine, através da escrita ou reescrita do corpo, a mulher tem a possibilidade de liberá-lo do discurso normatizador, da “objetificação e da fragmentação do desejo masculino”.6  Escrever o e sobre corpo “celebra as mulheres” como sujeitos autônomos.
Logo, é preciso ressaltar que neste processo de reconstrução, a relação sexual aparece nas poesias como uma ação compartilhada que se concretiza pelo desejo dos dois, pela cumplicidade dos corpos e pelo vínculo afetivo que une o casal. Trata-se de uma visão sobre as mulheres negras que desconstrói e transgride os discursos literários nacionais sexistas, concernentes ao comportamento obsceno do corpo negro, à sua sexualidade infrene, voraz e submissa. Ao invés de estar subjugada ao desejo masculino, nas poesias Íntimo véu e Despudor, ela quer e ele consente, em um movimento de completude dos corpos. Isto permite ao eu lírico celebrar a sua autonomia na escrita literária na busca pela realização de seus desejos.
Em Crítica literária e estratégias de gênero, Vera Queiroz (1997, p.120) aponta que uma das questões centrais para a “crítica feminista” é a discussão em torno do “sujeito que lê e do sujeito que escreve”. A questão da autoria e da construção da subjetividade feminina em termos de representação literária só pode ser enfrentada se colocada em perspectiva, ou seja, a partir de uma relação dialógica, cujo “olhar está interessado” em reconhecer nos possíveis “elementos da trama”, “as condições ideológicas e sociais contemporâneas que configuram as vidas de mulheres transformadas pelo feminismo” (QUEIROZ, 1997, p. 131, grifos da autora).
A escrita literária produzida por Miriam Alves segue essa direção e assume esse posicionamento descrito por Queiroz, no que concerne, principalmente, à desconstrução das imagens literárias depreciativas elaboradas pela ótica masculina para as mulheres de origem. No traçado do verso, na comunicação em prosa, no uso do tom e do som das palavras que saem pronunciadas em voz alta em diferentes ritmos, sons e timbres, a escritora afrobrasileira tem buscado construir outras escritas do corpo, deixando impressas em suas produções as digitais femininas.
Finalmente, nas quatro poesias analisadas de Miriam Alves, é possível identificar a celebração e o arrebatamento da escritora ao falar sobre o corpo negro feminino, colocando em relevo uma linguagem poético-erótica. Os corpos negros femininos aparecem envoltos em uma atmosfera de erotismo, lirismo e muita sensualidade, valorizando suas formas e contornos, experimentando outras sensações e sentimentos em tessituras afrobrasileiras.
 
 
NOTAS
[1]Cito como exemplo os sonetos atribuídos ao escritor Gregório de Matos dedicados à mulata Jelu; as características da personagem Vidinha, no romance Memórias de um sargento de milícias, de Joaquim Manuel de Almeida (1854); as imagens construídas pelo narrador para as personagens afrodescendentes Eufêmia, Esméria e Lucinda, em As Vítimas-algozes: quadros da escravidão, de Joaquim Manuel de Macedo (1869); os poemas de Castro Alves (1868) nos quais o escritor se refere ao processo de escravização dos negros africanos em nosso país; a representação da personagem Rosa, em A escrava Isaura, romance escrito por Bernardo Guimarães (1875); a figuração das personagens Rita baiana e Bertoleza, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo (1891); o conto intitulado Negrinha, de autoria de Monteiro Lobato (1918); o poema Essa negra Fulô, de Jorge de Lima (1929); a imagem da mulher negra presente na poesia Irene, de Manuel Bandeira (1930); as personagens afrodescendentes do livro Casa-grande senzala, de Gilberto Freyre (1930); os Poemas da negra, de Mário de Andrade (1929); e, finalmente, as incontáveis personagens das obras do escritor baiano Jorge Amado, entre elas, destaco o romance Gabriela, cravo e canela (1958), entre outras (os).
2 Estou adotando o termo afrobrasileira em consonância com as reflexões propostas por Florentina Souza (2005), em Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal MNU. Acredito que a autora, além de utilizar o termo afrobrasileira para definir a literatura produzida por escritoras de origem afrodescendente, apresenta um conceito sobre esse tipo de produção textual que está em análise. Chamo atenção de que há outras denominações para a literatura de autoria negra que tem sido adotada por pesquisadores e estudiosos, a exemplo dos termos negra, afrodescendente ou negro-brasileira.
3 Os Cadernos Negros são publicados desde 1978 e estão sob a organização do grupo Quilombhoje Literatura desde 1980. Esta antologia literária se tornou o principal veículo de divulgação da literatura afrobrasileira na contemporaneidade produzida por autores, cujo posicionamento discursivo e temática abordada, tanto em verso, como em prosa, evidencia uma preocupação ou comprometimento do(a) escritor(a) com as questões ligadas ao cotidiano da população negra. Este ano os Cadernos chegam ao seu número 37, alterando poemas (números impares) e contos (número pares), completando quase quarenta anos de existência.
4bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escritora afro-americana, que escolheu esse apelido para assinar suas obras como uma forma de homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó. Grafo o seu nome em letras minúsculas, atendendo ao pedido da própria autora que afirma o seguinte: “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”.
5A autora discorre sobre a realidade das mulheres afro-americanas. Embora construa suas reflexões em um lugar geograficamente distante, procuro aqui estabelecer uma aproximação com a realidade vivenciada pelas mulheres negras brasileiras, pensando que essa situação descrita pela autora é comum a todos nós, independente do espaço onde nos localizamos
6 Publicado no livro organizado por Alison Jaggar e Susan Bordo, Gênero, Corpo e Conhecimento. Écriture  féminine trata-se de uma teoria desenvolvida no contexto do feminismo francês, enraizado em uma tradição da filosofia, da linguística e da psicanálise europeias, a qual situa o feminino como aquilo que é “reprimido, mal representado nos discursos da cultura e do pensamento ocidentais”. Com base na alteridade radical da diferença sexual da mulher.
 
REFERÊNCIAS
ALVES, Miriam.(1983). Momentos de Busca. São Paulo: Do Autor.
ALVES, Miriam. (1985). Estrelas de Dedo. São Paulo: Do Autor.
ALVES, Miriam. A literatura negra feminina no Brasilpensando a existência. Revista ABPN, v. 1, n. 3 – nov. 2010 – fev. 2011, p. 181-189.
CADERNOS NEGROS 9. (1986). São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CADERNOS NEGROS 17. (1993) São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CADERNOS NEGROS 25. (2002). São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CADERNOS NEGROS 31. (2008). São Paulo: Quilombhoje Literatura.
CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1969.
DALLERY, Arleen (1997). A política da escrita do corpo: écriture féminine. In: BORDO, Susan & JAGGAR, Alison. (Orgs.). Gênero, corpo e conhecimento. Trad. Brítta Lemos de Freitas. Rio de Janeiro: Record.
GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz: Corpo e Cabelo como símbolo da Identidade
Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
GONZALEZ, Lélia. (1983). Racismo e sexismo na cultura brasileira. Brasília: ANPOCS.
HOOKS, Bell. (1995). Vivendo de amor. In: WERNECK, Jurema et al. (Orgs.). O livro da saúde das mulheres: nossos passos vêm de longe. Trad. Maísa Mendonça, Marilena Agostina e Maria Cecília MacDowell dos Santos. 2ª edição. Rio Janeiro: Pallas, p.188-198.
MARTINS, Leda. (1996). O feminino corpo da negrura. Revista de Estudos de Literatura.  v. 4, p. 111 -121, Out.
QUEIROZ, Vera. Crítica Literária e Estratégias de Gênero. Rio de Janeiro: UFF, 1997.
SOARES, Carmem. (Org). Corpo, conhecimento e educação: notas esparsas. In: Corpo
e História. Campinas: Autores Associados, 2006.
SOUZA, Florentina da Silva. (2005).  Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal MNU. Belo Horizonte: Autêntica.
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

CADERNOS PARA JOGAR: A ENCENAÇÃO LUTUOSA NA ESCRITURA DE CAROLA SAAVEDRA – Cassiana Lima Cardoso




  CADERNOS PARA JOGAR: A ENCENAÇÃO LUTUOSA NA ESCRITURA DE CAROLA SAAVEDRA

 

Cassiana Lima Cardoso

Universidade Cândido Mendes

 
Resumo: Neste ensaio buscamos uma breve leitura da obra Inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra. Partindo da premissa de que a obra de arte, na contemporaneidade, se nos oferece repleta de rasuras e fendas, como que num convite ao diálogo, pensaremos as lacunas deixadas pela narrativa da autora, em seu processo metaficcional, como um jogo. Entretanto, ao contrário do jogo de xadrez, no qual cada peça tem uma função específica e o jogador carece de competência para movê-las, os fios propositalmente desordenados de sua narrativa farão jornadas espirais. Histórias dispersas, que encenam o desencontro do mundo e das subjetividades; o descompasso entre as narrativas individuais e coletivas, mas que, à revelia da vontade do narrador, coexistem e seguem seu curso. Uma atmosfera de solidão e abandono, na qual nem o amor romântico nem o amor paterno inspiram redenção; sendo, antes, o ensejo para a encenação lutuosa de uma realidade em estilhaços.
 
Palavras-chave: luto, melancolia, jogo, metaficção, contemporaneidade.
 
Resumen: En este ensayo buscamos una breve lectura de la obra “Inventario de las cosas ausentes”, de Carola Saavedra. Partiendo del supuesto de que la obra de arte, en la contemporaneidad, se nos da repleta de tachones y fisuras, como que en una invitación al diálogo, pensaremos en las lagunas dejadas por la narrativa de la autora, en su proceso de metaficción, como un juego. Sin embargo, al contrario del ajedrez, donde cada pieza tiene una función específica y el jugador carece del poder para moverlas, los hilos deliberadamente desordenados de su narrativa harán jornadas en espiral. Historias dispersas, que ponen en escena el desajuste del mundo y de las subjetividades; la brecha entre las narrativas individuales y colectivas, mas que, en desacato a la voluntad del narrador, coexisten y siguen su curso. Una atmosfera de soledad y abandono, en la que ni el amor romántico ni el amor paterno inspiran la redención; siendo, mas bien, la oportunidad para la lúgubre escenificación de una realidad astillada.
 
Palabras clave: duelo, melancolía, juego, metaficción, contemporâneo.
Minicurrículo: Cassiana Lima Cardoso é professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Pesquisadora do Colégio do Brasil, com orientação do professor Eduardo Mattos Portella. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (2003) mestrado e doutorado em Letras (Ciência da Literatura) na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No mestrado, estudou a obra O Dia do Juízo, do escritor mineiro Rosário Fusco. Doutora em Literatura Comparada com a tese: Samuel Beckett, o jogador melancólico. Atualmente é professora de Comunicação Específica da Universidade Candido Mendes, para os cursos de Moda e Design de Interiores. Atua, principalmente, nos seguintes temas: literatura, teatro, melancolia, jogo, ironia e infância.

  CADERNOS PARA JOGAR: A ENCENAÇÃO

LUTUOSA NA ESCRITURA

DE CAROLA SAAVEDRA

 

Cassiana Lima Cardoso

Meu enleio vem de que o tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar – uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer despencar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras.1

Clarice Lispector

Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.2

Carola Saavedra

 
Inventariar é a possibilidade de discriminar, catalogar, listar, minuciosamente, o espólio de um morto. O que fazer, no entanto, com a herança de um cadáver que não deseja morrer? Ou: como arrolar bens deixados sob a forma de rasura, corporificadas em linhas íntimas e confessionais?
Amar é não morrer.3 A escrita, em Inventário de coisas ausentes é a encenação melancólica de um amor que perdeu, irremediavelmente, seu objeto. O amor a Nina ou ao pai, além de todas as outras narrativas nas quais encontros e desencontros são enredados e desenredados, são apenas subterfúgios para a tentativa de aproximação com uma ausência; num jogo que encena4, em seu próprio curso, a inconstância e a impossibilidade de domesticar em um conceito ou em uma forma literária, a experiência subjetiva entre os seres.

Nina foi embora, eu nem sabia para onde e fiquei ali com aqueles diários. Senti um ódio enorme, como se atrevia? Demorei alguns meses para ler o primeiro.  Digressões sem sentido, filosofias baratas, histórias de família.  Não que houvesse ali alguma pretensão literária, para ela a literatura parecia tão distante quanto um tabuleiro de xadrez.  De qualquer forma, Nina tinha dezessete cadernos completos. Prolixa. Por que decidira deixá-los comigo eu nunca consegui compreender (SAAVEDRA, 2014, p. 26).

Dezessete diários. É esse o legado de Nina para o narrador do livro, que surgem como objetos a partir dos quais ele encena seu luto, na forma de duas narrativas que parecem se escreverem na presença do leitor, convidando-o, desse modo, à participação quase instantânea ao ato da escrita.
Nessa narrativa em processo, as rasuras, os silêncios e o fragmento, apresentam uma escritura que se corporifica a partir de sua própria fragilidade, tentando pôr em cena, relações marcadas por uma série de inseguranças, desencontros e ausências. Mas haveria outra(s) forma(s) de amar se não pela falta?  Cabe ao narrador, também ele, uma instância ficcional urdida na tessitura da trama, escrever uma história com os vestígios e as cifras que restam; transformando essa herança pouco convencional em uma separação amorosa (cadernos íntimos de sua parceira) em uma possibilidade de compreensão do que se passou, ao mesmo tempo em que tenta, sem êxito, alinhavar os elementos constitutivos de sua ficção.
É que, em Inventário das coisas ausentes, a tentativa de coesão, quando a narrativa tenta desenhar árvores genealógicas ou descrever caracteres, vem acompanhada de um impulso corrosivo, pois o narrador vai se dando conta de que não se trata de traçar um perfil psicológico dos personagens ou mapear sua genealogia, mas compreender o que se passa nas relações interpessoais, no entrechoque de subjetividades; fotografar, sem melindres, a explosão silenciosa dos afetos:
 

Vou até o armário. Tiro de lá uma caixa vermelha, dentro dela dezessete cadernos dos quais não consegui me livrar. Penso, o que será do passado quando os rastros se forem e ficar apenas a memória. Como se os rastros dissessem alguma coisa. Os rastros contam sempre uma outra história.  Abro um dos cadernos, leio com cuidado o primeiro parágrafo, sinto como se o lesse pela primeira vez. (…) As palavras parecem ter perdido sua substância, como uma fruta que tivesse perdido sua carne e restasse apenas a casca. A casca das palavras é frágil e ressecada (SAAVEDRA, 2014, p. 64).

O romance é dividido em duas partes: “Cadernos de anotações” e “Ficção”, mas seria um engodo pensar que o narrador consegue ordenar seu material, quando, supostamente, na segunda parte do livro, o alça ao estatuto de uma narrativa.  Ao contrário, a relação tensa com o pai (agora testamentário dos dezessete cadernos) torna a sensação de desencontro de perspectivas ainda mais aguda, tornando a escrita uma experiência na qual os paradoxos são insistentes, marcando, notadamente, a impossibilidade de domar as várias formas de experiência afetiva, via escritura.
Lembrando, em muito, como já foi observado, a Carta ao pai, de Franz Kafka, a figura paterna, na segunda parte do livro, transfere para o narrador, assim como Nina, a obrigação de entendê-lo a partir de seus diários. Como se a posse daqueles cadernos fosse suficiente para a restituição da comunhão perdida; e ele, como escritor, fosse obrigado a dar forma àquele material e explicar tudo, dirimir tudo; aparar todas as arestas:

Ele continua, estes são os diários que eu escrevi nestes últimos dezessete anos, um longo exercício de rememoração, a infância, a adolescência, os anos de faculdade, a prisão, eu que nunca falei do tempo em que estive preso, está tudo aí, tudo o que vivi, o que eu pensei, as pessoas, suas frases, seus nomes, está tudo aí, todo o tempo que eu passei lá (…).  Está tudo aí, os anos no exílio, a vida desses anos (…). Quantas vezes eu tive que reconstruir tudo, está tudo aqui, nestes cadernos, até os últimos anos, as mudanças, coisas que você jamais imaginaria, toda uma vida, toda uma vida, dezessete cadernos, foi do jeito que está aqui, você entende? Eu olho para aqueles cadernos e não penso em nada (SAAVEDRA, 2014, p. 26).

Nina é uma personagem apresentada aos leitores, como uma jovem chilena, que muito cedo veio para o Brasil e aqui, à época da Faculdade, conhece o narrador do romance, com quem tem relacionamento amoroso. O namoro é rompido bruscamente por ela, sem que haja maiores explicações para seu parceiro, deixando-o atônito.
No decorrer da escritura, o narrador tenta reinventá-la na instância da narrativa para compreendê-la, ao mesmo tempo em que deseja estruturar os elementos constitutivos de sua ficção. São recorrentes os apontamentos, que aparecem como parábases, à medida que a narrativa começa a se desenhar, sobre personagens, tempo, espaço. Cada peça é apresentada ao leitor sem pressa, como matrihoskas, reveladas no momento de sua fabricação e que, às vezes, não se encaixam bem, carecendo de alguns ajustes:
 
 

Ainda não sei nada sobre a história. Apenas umas ideias desconexas, um homem velho, uma casa, diários. Um filho  (SAAVEDRA, 2014, p. 12).

(…)

A história começa a se delinear. Será uma história de família (SAAVEDRA, 2014, p. 13).

(…)

O livro é sobre um lugar. Uma casa. E a descrição detalhada dos móveis da casa, suas janelas, corredores. É também sobre o tempo nesse lugar. Uma pequena engrenagem da memória (SAAVEDRA, 2014, p. 24).
 
 
O jogo metaficcional é a possibilidade de tornar Nina corpórea; de tornar a ausência, presença, nesse duelo entre o dito e o não-dito. A escrita fragmentada, que segue o itinerário de um caderno de anotações e seus intervalos, deixa campo aberto para o leitor interagir com o que não está explícito nas linhas, mas aparece nas entrelinhas. Desse modo, justamente quando se põe em evidência a fragilidade, a vulnerabilidade de sua ficção em encarnar o real, a escrita de Inventário de coisas ausentes revela sua maior potência; uma força paradoxal, que se serve de sua própria impossibilidade para convocar a presença do leitor:
 

Volto a sentar diante do computador. Abro o arquivo. Escrevo: Nina quebrou a coluna em três lugares. Nina não sustenta a si mesma, precisa de ossos, uma estrutura, que lhe dê concretude. Sem essa estrutura ela apenas o espaço vazio, essa constante incerteza. Escrevo. Escrevo para Nina uma medula, escrevo também um fígado, e um estômago. Escrevo vísceras, sim, muitas vísceras. A barriga estufa. Escrevo vértebras e toda uma nova coluna. Dou atenção aos espaços, escrevo uma vagina, escrevo um útero, escrevo ovários, trompas, uma placenta, e escrevo também um filho que ainda não existe no útero de Nina. (…) Escrevo o nada. Cubro-o delicadamente com uma rede, as palavras incessantes à sua volta. Depois penso, com tristeza, mas também com certo alívio, o corpo de Nina é apenas o corpo de Nina (SAAVEDRA, 2014, p. 47).

 
A susceptibilidade dessa ficção abre espaço para o olhar do outro, ela contempla e se oferece à contemplação. Assim como os leitores são chamados à conversação mediante as lacunas e frestas que o texto apresenta, um personagem; Pedro, melhor amigo do narrador, também aparece como alguém a quem o autor submete seu texto e pede aprovação:
 

No bar entrego a Pedro os primeiros capítulos, é só um rascunho, não revisei ainda. É a história de que te falei. Ele não diz nada, passa os olhos no primeiro parágrafo, eu tento ler na expressão do seu rosto algum indício de simpatia ou desprezo (SAAVEDRA, 2014, p. 21).

 
Pedro materializa o desejo de adivinhar o outro, de supor seus juízos no ato de leitura. É o crítico, aquele que com sua interpretação, poderia dar uma resposta esclarecedora às questões que movem aquele texto, reduzindo-as a simples ficção. Mas Pedro é, sobretudo, o amigo; não o ouvinte cego de emoções; racional e judicativo, mas sim aquele contagiado pelo afeto, também partícipe da história, a quem uma parte dela é sempre vedada:  “Pedro acomoda-se em sua sala de estar com vista para a Lagoa, coloca o manuscrito sobre a mesa, abre a primeira página. Pedro é péssimo personagem” (SAAVEDRA, 2014, p. 43).
As narrativas individuais misturam-se aos relatos coletivos. Uma interpenetração entre a razão dos fatos e razão das histórias que são contadas torna indivisível literalidade e historicidade. Como observou Rancière5, “escrever a história e escrever histórias pertencem ao mesmo regime de verdade”. Desse modo, os personagens anônimos, invisíveis à história oficial, nos fazem revisitar, via uma poética fragmentada, o embate subjetivo com a História, que, à parte de vencedores e vencidos, nunca foi unilateral, linear ou conclusiva. Testemunho e ficção, nessa perspectiva, passam a habitar um mesmo regime de sentido. Trata-se, nesse caso, não de um empirismo radical discursivo, proposto como voz única de uma verdade inconteste, mas de uma apreensão do real em que a metaficção, no processo contínuo de uma escritura que reflete sobre si mesma, se rasura, em forma de rastros e vestígios. “O real precisa ser ficcionalizado para ser pensado 6” E se a realidade não se oferece plena e legível, a ficção deve apresentar esta inconclusividade e embaçamento em seu próprio arranjo, em sua composição.
Com efeito, os relatos dos antepassados de Nina e as histórias paralelas de ilustres desconhecidos que o narrador intercala, possuem, sobretudo, o traço comum de apontarem para a pluralidade de vozes que habitam o real.  Uma Medeia em Viena, anônima, que se mata ao final da história, tem a mesma importância que os relatos sobre uma de suas bisavós, por exemplo; (esta última, uma das passagens mais divertidas, quando ela mesma se descobre personagem de um romance cujo título era “Paloma Negra”7).
Assim, se passa também, com a história paralela de Joana e Guido, um caso de romance que se inicia pela internet e termina em suicídio; e o avô de Nina, um jovem cineasta socialista e ateu que irá se converter em um pastor presbiteriano e morre de morte natural, em idade avançada. Não há moral ou mensagem a ser extraída dessas histórias que se cruzam; a ficção não é mais apenas um disfarce para aproximação do real; mas a única forma de encená-lo sem trair a coexistência de múltiplas narratividades que compõe o caleidoscópio do mundo.
Parece-me que esses diários, confiados às mãos desse narrador ficcional de forma tão abusiva, insinuam, em Inventário de coisas ausentes, uma interessante alegoria a respeito da literatura em nossos dias. Ela, a literatura, já não tem obrigação de se constituir como obra total, nem destilar conselhos, nem explicar a inexplicável inoperância dos homens quando o assunto é o outro. Não lhe cabe o papel de mediadora ou redentora dos seres. Enfastiada, ela nega sua instrumentalidade, e, como sempre quis, encena (é verdade que, às vezes, também, com certo espanto) o desejo que os homens têm que se decida por eles o que devem ser ou fazer.
Assim, contra um princípio absoluto de apreensão total da realidade, a pluralidade de vozes no mundo contemporâneo, performatizada nesse romance, nos propõe também “uma escuta do silêncio, na diferença do corte”.8 As várias narrativas que se sobrepõem, em sua incompletude, matizam o enigma do amor e suas possibilidades. Quase todas contêm o refrão que indica esse impasse: “… ah, então isso deve ser o amor.” A indefinição, a inconclusividade, na forma desse paradoxo, é o principal indício deste recado – não mensagem. A narrativa termina em suspensão: nem Édipo, nem Hamlet; matar ou morrer não é mais o dilema. A tarefa, agora, é jogar o jogo da ficção, que, afinal, assim como o amor, se move pela falta; ampliando vazios e encenando perdas; presentes, ausentes.
 
NOTAS
 
[1]LISPECTOR, Clarice. Os desastres de Sofia. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 100.
2SAAVEDRA, Carola. O inventário das coisas ausentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 64 -65.
3LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 125.
4“O jogo esclarece o luto, escreve Pierre Fédida, que lembra a referência freudiana ao Trauerspiel (…). Enquanto não se está morto, se finge sempre morrer[1]”. Cf. DIDI-HUBERMAN, Georges.  O que vemos, o que nos olha. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 85.
5RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Trad. Mônica Costa Neto. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 58.
6Idem, p. 58.
7Trata-se de um romance de cerca de quinhentas páginas escrito pelo avô de Nina, que versava sobre todas as suas traições à mulher, que, sadicamente, o fizera sofrer em silêncio em um casamento  bastante infeliz.  Paloma Negra é uma alusão à “Palomita Branca”, clássico romance chileno, de Enrique Lafourcarde.
8PORTELLA, Eduardo. Curso “Os caminhos do paradoxo (do Alto Romantismo à Baixa Modernidade)”. Anotações em sala de aula do curso ministrado no 1º semestre de 2011.
 
Notas bibliográficas
DIDI-HUBERMAN, Georges.  O que vemos, o que nos olha. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998.
PORTELLA, Eduardo. Curso “Os caminhos do paradoxo (do Alto Romantismo à Baixa Modernidade)”. Anotações em sala de aula do curso ministrado no 1º semestre de 2011.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Trad. Mônica Costa Neto. São Paulo: Editora 34, 2005.
SAAVEDRA, Carola. O inventário das coisas ausentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

AS COISAS QUE MORREM NÃO SE DEVEM TOCAR: UMA LEITURA DE O RETORNO, DE DULCE MARIA CARDOSO – Carina Lessa




Carina Lessa
Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
 
 
Resumo: Este artigo pretende versar sobre O retorno, de Dulce Maria Cardoso, romance publicado no Brasil em 2012, com uma narrativa que retrata os efeitos da descolonização de Luanda. Muito diferente dos romances que nos têm chegado sobre as ex-colônias africanas, a autora opta por apresentar o ponto de vista de um adolescente que sofre a marca de estar no entre-lugar. Mais do que construir uma escrita sobre o sofrimento dos retornados, realidade sobre a qual poucos ousaram falar, a autora nos dá a medida certa ao demonstrar a ruína do império português por meio das impressões de um adolescente – ainda pouco calejado pela vida e que pouco recebe informações sobre os fatos. Apenas observa e apreende a vida malograda dos seus familiares e companheiros, franqueada pelas perdas e as marcas abjetas que jamais serão reestabelecidas.
 
Palavras-chave: Dulce Maria Cardoso; Literatura Portuguesa; entre-lugar; memória.
 
 
Abstract: This article discusses the novel The Return, by Dulce Maria Cardoso, published in Brazil in 2012, with a narrative that portrays the effects of decolonization in Luanda. It is very different from other novels that reflect on the former African colonies, since its author chooses to present it through a teenager’s point of view. One that suffers the effect of living in an in-between place. More than building her writing on the plight of returnees, a reality over which few dared to speak, the author gives us the right measurement to prove the ruin of the Portuguese Empire through this teenager’s impressions, someone who is still little jaded by life and who has received little information about the facts. He only observes and captures the ill-fated lives of his family and companions flanked by losses and abject marks that will never be reestablished.
 
Keywords: Dulce Maria Cardoso; Portuguese literature; in-between; memory.
 
Carina Lessa é bacharel em Letras, mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Literatura Brasileira. Participa de projeto sobre literatura contemporânea associado à Stanford University. Publicou a obra A esquizofrenia do escritor (São Paulo, Batel, 2011).
 
 
AS COISAS QUE MORREM NÃO SE DEVEM TOCAR:
 UMA LEITURA DE O RETORNO, DE DULCE MARIA CARDOSO
  

Carina Lessa

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sagrado e profano representam, pois, na máquina do sacrifício, um sistema de dois polos, no qual um significante flutuante transita de um âmbito para outro sem deixar de se referir ao mesmo objeto. Mas é precisamente desse modo que a máquina pode assegurar a partilha do uso entre os humanos e os divinos e pode devolver eventualmente aos homens o que havia sido consagrado aos deuses. (“Elogio da profanação”, Giorgio Agamben)

 
 
O retorno é um romance de perdas. Perdas e só. O leitor só tem acesso às reminiscências sobre o impacto da perda. Rui, o narrador-personagem, “é o imperativo do verbo ruir”, como a própria autora afirma em entrevista ao “Prosa e Verso” – a propósito de sua vinda ao Brasil para falar na Flip. Como adolescente, o personagem não viveu os momentos da glória portuguesa, apenas assistiu e viveu a ruína final. Sua percepção é falha na medida ideal para a narrativa proposta.
Rui perde a casa em Luanda, a cachorra, a alegria solar e os amigos. Retorna com a mãe e a irmã a Portugal e passa quase todo o romance sem saber se irá rever o pai, que some de maneira misteriosa. Já em Portugal, é alojado com a família num hotel cinco estrelas e desde sua chegada percebe as manobras que a diretora faz para roubar o dinheiro que o Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais pagava para sustentá-los. Dentre tantos trechos e frases que se repetem, há um que lateja profundamente no decorrer da narrativa, uma espécie de mentira que Rui tentava fazer-se acreditar “um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa” (p. 163).
Apresentado o argumento do romance de Dulce Maria Cardoso, devemos dizer que, por meio dos silêncios e lacunas da perda que Rui vai tentando completar e justificar no fluxo narrativo, os leitores estão diante de um mundo de possibilidades para penetrar na memória do trauma – não só individual, mas também coletiva – que nós, e nem mesmo o narrador, podemos tocar.
Segundo Agamben, uma sociedade precisa “desativar seus dispositivos, afim de tornar possível um novo uso”, tal frase, apresentada na quarta capa do seu Profanações (2007), faz lembrar uma forte tendência da literatura contemporânea de escrever a história daqueles que foram varridos da historiografia, por estarem à margem da sociedade. Entre homens e deuses, o sagrado e o profano devem agora perambular de modo a inverter suas particularidades.
Aqui, Dulce Maria Cardoso faz a transfusão das células exemplarmente. A autora injeta no povo africano a sua carga de crueldade, manchando de sangue as mãos do povo visto como vítima de Portugal e, em contrapartida, injeta delicadeza e sofrimento no povo branco visto como explorador e preconceituoso. Uma profanação ousada e, talvez, nunca vista na recente literatura escrita em Portugal sobre os países africanos de língua portuguesa.
“As coisas que morrem não se deve tocar” (2012, p. 150) é uma frase dita por Glória, mãe de Rui, já em fins do romance. Usualmente, os autores de um texto se utilizam de uma frase ou trecho de outros escritores para introduzir seus leitores ao tema a ser abordado. Em O retorno, curiosamente, Dulce Maria opta por uma frase de Dulce María Loynaz1 que, invertendo o costume, finaliza o romance – tal qual uma lápide em cima de um túmulo fechado em absoluto. Calado e intocável.
É interessante pensar essa frase sob a égide de um paradoxo que não se resolve, no que diz respeito à memória, se analisarmos o ato de morrer também metaforicamente. Num romance prenhe de memorialismo faz-se necessário pensar que, mais do que a morte física e moral, devemos pensar naquela morte que nos distancia da verdade – a morte dos fatos. Memória traumática ou não, sempre será reescrita e refeita, sempre em função da necessidade e autoridade do presente. Henri Bergson, em Matéria e memória, faz uma distinção muito interessante entre lembrar e recordar: lembrar como um ato involuntário, por derivar de um fato ou questão que se impõe e que não está sob controle, enquanto que recordar remete ao esforço voluntário de rememorar fragmentos do passado. A lembrança desse fato histórico parece ter se imposto de modo vigoroso para a realização do romance.
Rui narra a partir das impressões diretas que recebe da sua condição de retornado. Recebe e sofre a realidade dos fatos e suas perdas, procura intensamente preencher as lacunas. Sob a visão do narrador não se impõe o processo de rememoração porque ele ainda não está distante dos acontecimentos. Portanto, nós, leitores, recebemos aquilo que ele nos pode oferecer como verdade dos fatos que o cercam. Em contrapartida, Dulce Maria Cardoso, também retornada de Luanda, procura reproduzir por meio desse adolescente suas vivências e impressões sobre a vida de retornada.
Ambas as verdades – a de Rui e a de Dulce – se esbarram e se entrelaçam, de modo a nos fornecer os dois processos: a lembrança e a rememoração. Mas a lembrança continua presa às raízes do passado, reflete o presente, realiza o estado de espírito atual da autora que pode visualizar de perto tal realidade, mas já agora personifica-se e, podemos até dizer que preenche as lacunas deixadas – é o instinto de sobrevivência. A autora rememora e preenche espaços, justifica o porquê do presente. O romance da vida do personagem fictício Rui, que temos em mãos, realiza de modo grandioso a lacuna, desfaz-se da memória. Joga de lado o excesso de historicismo e lida, podemos dizer, muito bem com a perda da mesma memória. Tudo que está morto não se deve tocar, quer seja do império ou, simplesmente, da vivência individual de cada retornado.
O título do romance, O retorno, não diz respeito apenas à volta para o país de origem, mas também o retorno a um passado que não se pode dizer. O leitor tem a mesma sensação que um retornado pode ter, ouvimos o seu grito desesperado e também vivenciamos e tentamos preencher suas lacunas. Esse movimento entre a reescrita do passado e a evasão da memória possibilita a escrita de um passado ignorado por boa parte dos portugueses 2, marcando sua existência, ao passo que mostra a incapacidade de se dar corpo a esse passado de modo efetivo. Podemos afirmar que este romance está inserido no que Hutcheon diz ser:
 

A postura pós-modernista de confrontar os paradoxos da representação fictícia/histórica, do particular/geral e do presente/passado. E, por si só, essa confrontação é contraditória, pois se recusa a recuperar ou desintegrar qualquer um dos lados da dicotomia, e mesmo assim está mais do que disposta a explorar os dois” (HUTCHEON, 1991, p. 142).

 
Ao recuperar os dois lados da dicotomia, a autora se utiliza de alguns recursos estilísticos que intensificam a realidade à qual somos submetidos como meros espectadores distantes – espacial e temporalmente. Estamos diante de um romance que possui caráter histórico e, em consequência, que está revestido de elementos que adquirem historicidade, seja por se tratarem de fatos verídicos ou por se tratar de ficção contaminada pelo universo narrativo no qual estão inseridos. Segundo Alcmeno Bastos, em Introdução ao romance histórico:
 

É sempre oportuno lembrar que o modelo de romance histórico ideal para Lukács assentava justamente na atribuição do papel de herói não a uma figura reconhecidamente histórica, mas a uma figura inventada ou de pouca expressão na cena histórica reconstituída. No primeiro caso, puramente ficcional, portanto; no segundo, com débil poder de evocação do quadro histórico, uma marca registrada fraca. E, tanto num caso quanto no outro,  marca registrada suposta” (BASTOS, 2007, p. 93).

Devemos dizer que a narrativa de Dulce Maria Cardoso está longe de ser tradicional, com começo, meio e fim, ou ainda, movida pela trajetória de um herói. Mas não temos nenhuma dúvida de que a escolha de Rui e todos os personagens que o cercam foi fundamental para se chegar ao objetivo desejado. Visitamos uma história nunca antes mencionada pela literatura, obtemos informações verídicas sobre a condição dos retornados por meio de personagens fictícios. Tal opção nos serve muito bem para receber e avaliar os fatos que foram velados pela história, digamos assim, oficial. Sem citar nomes conhecidos, participamos de uma memória individual que, indiscutivelmente, dá conta da memória coletiva.
Como já foi dito, o não distanciamento dos fatos foi uma moeda de grande valor original para a obra da autora em questão. Temos em mãos um relato direto, no momento exato dos acontecimentos. Mas é preciso fazer uma divisão entre a memória da autora – junto com sua opção narrativa e modelo de escrita – e a visão do adolescente que nos permite vivenciar o horror dos fatos sem distanciamento, portanto repleto de lacunas. Um romance que, seguindo a leitura de Jeanne-Marie Gagnebin sobre a escrita em Platão3, manifesta a consciência de que o texto, seja ele falado ou escrito, possui limites internos de comunicação:
 

A crítica platônica da escrita não apontaria, portanto, para a existência de doutrinas que Platão teria se recusado a transmitir em sua obra, “mas chamaria mais atenção para o fato que existem limites internos à comunicabilidade”. Segundo Wieland, portanto, não há verdadeira contradição em chamar “atenção num texto para tudo aquilo que, enquanto tal, um texto não pode produzir” (GAGNEBIN, 2005, p. 49).4

Há um paradoxo muito interessante em torno da memória. A autora Dulce Maria Cardoso conhece a debilidade do processo de rememoração: sempre falho, principalmente ao ser verbalizado. Ao reconstruir a memória dos retornados, a autora opta por um personagem que está no fervor dos fatos. Para ele não existe a lembrança ou a ansiedade de rememoração.
Não há quase nenhuma referência direta aos fatos históricos. A estrutura narrativa será a maior arma de combate, digamos assim, para denunciar e/ou anunciar a realidade camuflada sobre o impacto na vida dos retornados. O romance é dividido em quatorze capítulos, treze deles são textos corridos de fluxo de consciência de Rui. Conhecemos todos os outros personagens e suas falas por meio do discurso indireto.
O primeiro capítulo anuncia a necessidade de retorno a Portugal. Para o adolescente, a espera de uma grande novidade, principalmente no que diz respeito às raparigas. Rui constrói um discurso comparativo entre as moças de Luanda e as de Portugal, bem como vai enchendo-se de expectativas para uma vida melhor na metrópole. Há um delineamento da situação em Angola, da necessidade de partir e das marcas de despedida. O adolescente descreve o ritual do dia a dia familiar, e, ao fazer isso, perfaz um movimento de ida e vinda ao passado – um processo de rememoração típico da nostalgia sobre aquilo que se vai perder.
Neste momento, podemos verificar, talvez com maior exatidão, uma estrutura narrativa que vivifica o título desse romance: marcado sempre pelo retorno ao passado. Rui relembra a história (sempre repetida por sua mãe) sobre o casamento de seus pais. Relembra com autoridade, dando voz aos seus pais utilizando-se de verbos no presente do indicativo. Aqui, as vozes se misturam e também os tempos verbais – circulamos entre pretérito perfeito, imperfeito e presente – que parecem nos lembrar a indiscernibilidade entre ambos os tempos. O uso do discurso indireto livre já anuncia, desde já, a necessidade que o narrador tem de preencher as lacunas deixadas a sua volta. Dessa forma, lhe é permitido entrar na cabeça daqueles que agora se tornaram personagens de sua história:
 

A mãe de costas para o mar, sem reconhecer o pai, sem conhecer a terra que tinha em frente, os guindastes pareceram-me mais altos do que as nuvens, o porto tão grande, cabiam ali cem cabeços de macieiras. A mãe teve medo dos pássaros que gritavam como os de Lisboa, o vosso pai disse-me que se chamavam gaivotas. Dos pretos não tive medo, não tinham nada de especial, eram só pretos. O porto tinha um cheiro ácido, como se o mar tivesse azedado, o porto em Lisboa não cheirava mal (2012, p. 25).

Mais ainda do que reconhecermos a marca do discurso indireto livre, que será uma marca constante no decorrer do romance, recebemos informações sobre a chegada da mãe em Luanda. Suas primeiras impressões que carregam a primeira morte simbólica do pai: a mãe constata que ele já não era o homem que a deixara em Portugal.
A mãe, seguindo a tradição portuguesa, havia bordado uma toalha de mesa que agora o pai resolvera rasgar aos poucos, como se transformasse em ruínas o império em decadência. Rasgar as dálias parece ser um ato de destruir aos poucos o passado. É interessante pensar que, ao retirar apenas as dálias, buracos são deixados. Espaços em branco que marcam a presença e/ou ausência daquilo que foi e não mais será: “O pai pega na faca de cortar a carne e com a ponta afiada começa a rasgar uma das dálias que a mãe bordou. Devagarinho, como se houvesse uma maneira certa de rasgar as dálias e o pai a tivesse aprendido tão bem como a mãe aprendeu a bordá-las” (2012, p. 21).
O pai desaparece misteriosamente após a “visita” de alguns soldados negros que estão procurando o carniceiro do Grafanil. A mãe e a irmã não ficam sabendo sobre o ocorrido, apenas Rui que estava ao lado do pai quando isto aconteceu. Rui irá se culpar até o retorno do pai, já em fins do romance, por ter sido covarde e ter desmaiado naquele dia.O tio de Rui faz com que eles retornem antes do pai, com o argumento de que este ficaria mais alguns dias para resolver coisas relativas à casa e seus pertences.
O capítulo seguinte é bem curto, cinco páginas após as quase sessenta do primeiro capítulo. A família, sem o pai, está no aeroporto a esperar vagas no avião para que retornasse a Portugal. Enquanto isso, Rui culpa-se pelo sumiço do pai e por nada ter feito. O capítulo perfaz dezoito parágrafos que terminam sempre com uma sentença fatídica sobre o que de fato teria acontecido ao pai. Tal recurso empregado pela autora é muito interessante, porque constrói um movimento de parábase – típico da tragédia grega –, no qual um coro revela a verdade sobre os fatos da tragédia:
 

(…) quando chegar a vossa vez têm de ir, o meu coração bate mais depressa e mais forte como se o tio Zé me tivesse ameaçado, quando chegar a vossa vez têm de ir. O sangue do pai no asfalto.

(…) não trouxemos nada a mais, saímos à pressa, as malas ficaram por encher, tanto para levar e afinal tivemos de fechar as malas à pressa e deixámos quase tudo. O pai metido à força no jipe (p. 61).

Depois de tantas expectativas, o terceiro capítulo resume-se à seguinte frase: “Então a metrópole afinal é isto” (p. 65). O espaço em branco parece dramatizar a decepção automática, ao passo que também está prenhe da morte de um passado que não se pode mais tocar. Aquilo que foi perdido e que é irrecuperável.
Como havíamos dito, treze dos quatorze capítulos do romance são movidos pelo fluxo de consciência de Rui. E aqui vai o quarto capítulo, o único que possui uma outra voz que parece falar por Portugal inteiro: a diretora do hotel, no qual Rui se instala com a família, revela um monólogo imperioso (claramente preconceituoso) por sete páginas. Sabemos que sua fala sofre a interferência da mãe de Rui, que está preocupada com as malas, em função das respostas que a diretora dá. A voz da senhora é calada, não é digna de fazer interjeições e conhecer a situação na qual se encontra. Esta habilidade narrativa de Dulce Maria Cardoso foi mais uma construção de grande valor que reflete, de modo velado e sutil, a condição do retornado:
 

Sejam bem-vindos a este hotel. Façam o favor, entrem, podem sentar-se nessas poltronas. É o meu escritório, estejam à vontade, aqui no hotel todos querem ajudar, chegaram a bom porto. Sei pelo que estão a passar, mas infelizmente não são os únicos. Não se preocupe com as malas, minha senhora, o recepcionista toma conta delas (p. 67).

Rui não precisou de muito tempo para sentir-se imerso numa legião de preconceitos, frustrando todas as expectativas anteriores. Ao frequentar a escola, reage com agressividade às inclinações depreciativas sobre ele. A professora chega a fazer separação por fila, na sala de aula. Por serem retornados e ainda não terem se estabelecido financeiramente, recebem roupas usadas de uma instituição denominada IARN e tíquetes para se alimentarem na hora do intervalo escolar. Sua irmã, Milucha, não usa o tíquete para se desvencilhar da marca de exclusão. Ambos sofrem e reagem de formas distintas, no entanto encontram-se sob a égide do entre-lugar.
Sabemos que aquela era uma geração em que a questão do nacional se impunha e suas leis de convivência eram rigorosas, principalmente num país com caráter de Metrópole – tal qual Portugal. Mas, já agora, em pleno século XXI, misturada a essa narrativa que denuncia um passado renegado pela historiografia, a autora coloca em cena com igual vigor duas vivências culturais diferentes e que se complementam. Um exemplo disso é a tentativa de cura da mãe de Rui. Uma mulher que é descrita por uma doença que pode ser espiritual ou psicológica. Frequentou rituais de desobsessão, bem como fez orações para que melhorasse. Em pleno hotel, cercado de pessoas, diante de uma crise que não cessava, o filho chega a fazer um ritual de exorcismo que resulta na cura da mãe.
O romance também é marcado pela mistura vocabular de Luanda e Lisboa. Os leitores se deparam com uma nova realidade estilística, compatível com a condição da sociedade atual e que comporta as seguintes assertivas de Antonio Candido e Denilson Lopes 5, no seu No coração do mundo:
 

Sabemos que somos parte de uma cultura mais ampla, da qual participamos como variedade cultural. E que, ao contrário de que supunham, por vezes ingenuamente, os nossos avós, é uma ilusão falar em supressão de contatos e influências. Mesmo porque, num momento em que a lei do mundo é a inter-relação e a interação, as utopias da originalidade isolacionista não subsistem no sentido de atitude patriótica (…) (CANDIDO, 1987, p. 154).

(…) o entre-lugar não é uma abstração, um não lugar, mas uma outra construção de territórios e formas de pertencimento; não simplesmente “uma inversão de posições” no quadro internacional, mas um questionamento desta hierarquia a partir da antropofagia cultural, da traição da memória e da noção de corte radical. O entre-lugar está embasado teoricamente no simulacro e na diferença, a fim de propor outra forma de pensar o social e o histórico, diferente das críticas marcadas por uma filosofia da representação (LOPES, 2012, p. 25).
 
Apesar de os personagens do romance de Dulce Maria Cardoso viverem à margem da sociedade portuguesa e, mais ainda, já não pertencerem mais à realidade africana, a autora revela por meio de sua estrutura narrativa um elo – um processo de ligamento que os retira do entre-lugar, pelo menos no sentido tradicional do termo. Um elo que refaz o modo de pensar a sociedade e constrói um novo modo de pertencimento, como afirma Lopes no seu “Do entre-lugar ao transcultural”.
O pai de Rui foi um personagem fundamental para efetivar esse ideal de elo cultural e social. Após sofrer o que chamamos de sua primeira morte simbólica, Rui passa a acreditar que o pai morrera quando, finalmente, é chegado o dia da Independência de Angola. Ele sempre ouvira falar que, quando este dia chegasse, quem não tivesse retornado não retornaria mais. Nós, meros leitores, acompanhamos sua angústia e acreditamos.
No meio do romance recebemos o impacto da notícia, uma frase (parágrafo) solitária a anunciar o que já esperávamos desde o início: “O pai morreu” (p. 153). Esta será a mesma frase que encerrará o curto capítulo. Rui, diante de sua ruína, parece quase gritar a um interlocutor indeterminado – que bem poderia ser todos nós leitores: “Sejas tu quem fores, tens de existir para que eu não espere mais. Sejas tu quem fores, existes e eu não espero mais. Sejas tu quem fores, existes e eu não espero mais. Sejas tu quem fores escolheste matar-me o pai” (p. 154).
Depois dessa segunda e falsa morte, o pai retorna quase ao final do romance. Nenhuma palavra fora dita sobre o que acontecera ao pai, pelo menos ao Rui. Ele observa e, como sempre, procura preencher os vazios. “Às coisas que morrem não devem tocar”, e o pai de fato “morrera” – constata o narrador-personagem. Aquele pai sorridente que, por muitas vezes, protegera-o em suas atitudes sexuais de jovem rapaz ficara em Luanda:
 

O pai nunca falou da prisão. Nem uma palavra. Talvez por isso eu não consiga olhar para as cicatrizes do pai quando o vejo em tronco nu. O silêncio do pai faz com que as cicatrizes contem coisas mais terríveis do que as que o pai poderia alguma vez contar, as cicatrizes mostram-me as feridas a serem abertas, o pai a gritar, a implorar, o pai deve ter chorado (…) (p. 251).

       Neste fragmento podemos verificar, mais uma vez, a tentativa de preencher as lacunas deixadas pela ruína do império português. Mais uma vez Rui está derrotado por uma lembrança que jamais será sua. No entanto, a vinda do pai pôs uma pedra quase lapidar no sofrimento da vida de retornado, pelo menos no que diz respeito ao sentimento de estar sem lugar. Até então, Rui tentava acreditar repetitivamente no fato de que, não havendo mais esperanças, aquele hotel poderia ser sua casa. No fim, o pai que tanto sofrera calado, será o mensageiro de boas esperanças. Apesar de sua morte (ainda que simbólica) e de todas as cicatrizes no corpo que marcaram para sempre o seu passado tortuoso, ele chega prenhe de expectativas e possibilidades. O retorno do pai, o retorno mais esperado no decorrer do romance, será ironicamente o fim do sentimento de fracasso:
 

Talvez o pai tenha razão, talvez o pior possa ainda estar para vir. Mas não vou pensar nisso agora, tenho de ser capaz de pensar numa coisa de cada vez, vamo-nos embora do hotel e eu tenho de estar contente sem me pôr a pensar noutras coisas, aquele quarto e aquela varanda com vista para o mar não eram a nossa casa, a nossa casa é um quarto e uma sala com janelas coladas ao teto, a nossa casa não tem varanda e é longe do mar mas é a nossa casa. (p. 242)

 
O romance de Dulce Maria Cardoso, mais do que a primeira e óbvia impressão de ter como mote o retorno das famílias a Portugal, perfaz uma história de esperança da família com a volta do pai. O patriarca seria capaz de mudar tudo, de libertá-los daquela vivência cheia de preconceitos no hotel? De restituir à família uma vivência digna e feliz? Passeamos desde a situação macro à micro, do coletivo ao individual. A grande vítima da ruína de Portugal não é aquele que traria à literatura o caráter testemunhal. Tal qual o tema, recebemos apenas as ruínas, mais do que as ruínas de um país por séculos glorioso, recebemos as ruínas psicológicas dos homens torturados. Não dos deuses que exploraram as terras africanas, mas dos homens pequenos que se viram desalojados das terras que lhes trouxeram um dia a esperança de uma nova vida.
 
NOTAS
[1] Poetisa cubana (1902-1997), ganhadora do prêmio Miguel de Cervantes 1992.
2 “Dulce volta e meia recebe mensagens de portugueses que nunca souberam das mais de meio milhão de pessoas que tiveram que sair das colônias de Portugal”. (Suzana Velasco, no Prosa e Verso, em 2012)
3 “Morte da memória, memória da morte: da escrita em Platão”. In: 7ete – sete aulas sobre linguagem, memória e história.
4 Citações feitas por Jeanne Marie Gagnebin, retiradas do livro de Wolfgang Wieland.
5 Citação de Denilson Lopes, em No coração do mundo, 2012, p. 22.
 
Referências Bibliográficas
AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.
BASTOS, Alcmeno. Introdução ao romance histórico. Rio de Janeiro: Eduerj, 2007.
BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito.Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
CARDOSO, Dulce Maria. O retorno. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2012.
GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LOPES, Denilson. No coração do mundo: paisagens transculturais. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.





Bio fornecida pelo palestrante.

“DURAR É MELHOR QUE ARDER?” – A VIA CRUCIS DA PAIXÃO EM MARIA TERESA HORTA E EM CLARICE LISPECTOR – Ângela Beatriz de Carvalho Faria




“DURAR É MELHOR QUE ARDER?” – A VIA CRUCIS DA PAIXÃO EM MARIA TERESA HORTA E EM CLARICE LISPECTOR

Ângela Beatriz de Carvalho Faria

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
Resumo: O presente artigo pretende apontar as consonâncias e dissonâncias entre A paixão segundo Constança H. (Maria Teresa Horta) e A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). Em ambos os romances, o pathos e a hybris, vivenciados pelas personagens femininas, estarão “correlacionados ao desencantamento do mundo e à fratura de uma identidade, assinalada por um caráter, intrinsecamente, agônico e agonístico.” Assim, Eros (pulsões de vida) e Thanatos (pulsões de morte) coexistem na interioridade do sujeito, capaz de perguntar a si próprio: “E agora, como é que eu vou viver com um coração aceso?”. Em ambas as personagens, a paixão que as consomem é o desejo de ser. Em ambos os romances, observa-se a crise da representação e uma pergunta incontornável: Como narrar a o inenarrável; o inelutável e, intrinsecamente, cruel; as experiências traumáticas plenas de “ardência”?
Palavras-chave: A paixão segundo Contança H. – Maria Teresa Horta; A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector.
 
Abstract: This article intends to point out consonances and dissonances between A paixão Segundo Constança H. (Maria Teresa Horta) and A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). The pathos and hybris will be experienced by female characters in both novels and they will be ‘correlated to the disenchantment of the world and a fractured identity, marked by a character inherently agonistic and agonizing.’ It is thus that Eros (the life drives) and Thanatos (the death drives) coexist in the interior of the subject, who is able to ask himself: ‘And now, how am I going to live with a burning heart?’ The passion that consumes both characters is the desire to be themselves. There is a crisis of representation in both novels and an unavoidable question: How can one narrate the unspeakable, the inevitable, the inherently cruel, the traumatic experiences, full of burning?
 
Keywords: A paixão segundo Contança H. – Maria Teresa Horta; A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector.
 
Currículo: Ângela Beatriz de Carvalho Faria, Doutora em Literatura Portuguesa, é Professora Associada III da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde orienta Monografias do Curso de Especialização, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas. Autora de artigos em Anais de Congressos, periódicos especializados e capítulos de livros da área em questão, também é líder do Grupo de Pesquisa do CNPq “A (im)possibilidade de dar corpo ao passado na arte e na narrativa do século XXI”.
 
 

“DURAR É MELHOR QUE ARDER?” – A VIA CRUCIS DA PAIXÃO EM MARIA TERESA HORTA E EM CLARICE LISPECTOR

Ângela Beatriz de Carvalho Faria

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 

E agora, como é que eu vou viver com um coração aceso?

(HORTA, Maria Teresa, A paixão segundo Constança H).

 

A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela.

(LISPECTOR, Clarice, A paixão segundo G.H.).

 

O que seria da paixão sem a sua lembrança, resguardada pela ausência?

(GOTLIB, Nádia, “Um fio de voz: histórias de Clarice”).

Trinta anos após a publicação de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector (1964), Maria Teresa Horta publica A paixão segundo Constança H. (1994). A semelhança entre os títulos e a sedução, inerente a eles, levou-nos à releitura de ambos os romances e à sua possível interpretação, capaz de apontar as consonâncias e dissonâncias existentes entre as ficções, brasileira e portuguesa, de autoria feminina, passíveis de focalizarem a fratura de uma identidade, envolta na via crucis do prazer e da dor. Ambas as personagens femininas “oscilam entre os dois lados, as duas faces da paixão”, e se perguntam, como na ficção de Schelling – intertexto presente no romance: “Por que razão durar é melhor que arder?” (HORTA, 2010, p. 46). E, porque a paixão que as consome é o desejo de ser, mergulham no “excesso” e no “abismo”, buscam reintegrar-se à sua própria identidade cindida, assinalada pela lacuna ou pela omissão que cerca o nome completo: G.H. (iniciais gravadas em uma valise de viagem, signo de uma máscara ou persona social) e Constança H. (inicial que traz, em seu cerne, a despersonalização do “eu” situado em tempos e espaços diferenciados). Tal fato evidencia-se a partir de uma das epígrafes presentes no romance de Maria Teresa Horta e de autoria de Clarice Lispector: “…estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?”.
Assim, o romance-interrogação desvia-se, propositalmente, de certezas definidas no que se refere, inclusive, às estratégias narrativas canônicas e à construção da subjetividade do sujeito. A obra A paixão segundo Constança H. apresenta, em sua composição, histórias reais ou inventadas, superpostas no tempo e no espaço, plenas de acontecimentos traumáticos; a inserção de poemas em que a cartografia erótica do desejo e do corpo se imprime, a fim de “se prolongar a dor e o prazer que simultaneamente corroem o sangue” da personagem feminina; inúmeras epígrafes que ocupam, isoladamente, as páginas em branco (algumas encontram-se entre parênteses como se o sujeito apenas confessasse a si próprio o mais íntimo de seu ser); títulos e citações de outras obras circunscritas às paixões avassaladoras que espelham os sentimentos vividos; ecos de outras vozes e gritos atemporais e femininos,  resultantes da opressão de uma sociedade estratificada e coercitiva; reflexões permitidas ou interditas; o registro de sonhos e alucinações de ordem mística; a reprodução de  “estranhas cartas, com letras diferentes, mas todas com a mesma assinatura: Constança H.” (HORTA, 2010, p. 55) e que talvez revelem uma “crise de despersonalização psiquiátrica”;  extratos de diários assinados e/ou atribuídos à Constança H. –  ela própria ou a outra (a mulher que existe nela e que ela desconhece)? Em suma, todos esses fragmentos textuais apresentados e que formam um caleidoscópio funcionam como álibis de veracidade e/ou de verossimilhança, capazes de revelar os simulacros da interioridade do sujeito problemático, consumido pelo pathos e enclausurado “na cela nua de uma prisão de mulheres ou na enfermaria de um hospital psiquiátrico” (HORTA, 2010, p. 33), aonde recebe eletrochoques para que aceda ao esquecimento, após ter cometido um crime e transgredido a lei. No centro desse universo multifacetado, encontra-se, como vemos, a personagem Constança H. que se “deixará consumir pela paixão até ao sangue” (HORTA, 2010, p. 295) e que, conscientemente, pouco antes afirmara: “Perder a minha paixão será a dissolução total, mas o entregar-me a ela é a minha loucura” (HORTA, 2010, p. 287).  Para vingar-se da traição do marido (Henrique H.) e do abandono e da rejeição da mãe (ocorridos na infância), mata a sua própria amante, Adele, a adolescente negra, para quem leu A paixão segundo G.H., e, por quem nem sequer sentia desejo, ajudada por um cão que “apareceu uma tarde vindo não se sabe de onde” (HORTA, 2010, p. 41) na casa da praia e que será o seu próprio reflexo e o seu desdobramento (o cão – signo da melancolia –, referido em Origem do drama barroco alemão, de Walter Benjamin?). Adele será, portanto, uma interposta pessoa, vítima sacrificial (o homo sacer, teorizado por Agamben?), um perfil, uma personagem de um filme de Truffaut – Adele H., a filha de Victor Hugo, também consumida pela paixão, pelo abandono e pela loucura (HORTA, 2010, p. 145). A sublimação da perda ou a impossibilidade dela levará a personagem Constança H. a inventar histórias como se fosse outra e a “querer apagar o passado para que nunca tivesse existido”: “Constança pretende esquecer a memória, que para ela é uma farpa enterrada na carne a roer-lhe o sangue” (HORTA, 2010, p. 75). Consciente de que “o temor avassalador pela paixão, ou por aquilo a que a paixão poderá obrigar” – “uma “insubordinação submersa” – ou abrigar, acabará levando-a a caminho do abismo, uma vez que “não conseguirá voltar atrás” e nem “fugir da criança que fora”, marcada, para sempre, pelo medo, pela loucura da mãe, pelo abandono e pelo suicídio” (HORTA, 2010, p. 152). “Consciente da sua desagregação, da sua desorganização interior, do seu caos e da depressão cada vez maior” (HORTA, 2010, p. 136), Constança H. “ficará do lado das trevas, do negrume de si própria, tacteando por dentro dos seus sentidos e pulsões mais escondidos” (HORTA, 2010, p. 110). Aqui, vivencia “a noite escura da alma” de São João da Cruz e está a um passo da hybris ou desmedida da tragédia clássica. Eros (pulsões de vida) e Thanatos (pulsões de morte) coexistem na interioridade do sujeito. No espaço textual, várias palavras assinalam a paixão desmedida ou “insensata”, tais como: “voragem”, “fome”, “desassossego”, “veneno” e “vício” (“Henrique era um vício doloroso de suportar” (HORTA, 2010, p. 72). E, embora seja necessário esquecer, reluta diante do tratamento que lhe é imposto, pois “não quer conhecer de novo aquele espaço negro onde se afunda a caminho do nada” (HORTA, 2010, p. 57). O seu “corpo”, antes “úmido de prazer” é substituído por outro “seco”, “ferido” e “gretado”. E é interessante observar que a sensação de nihilismo existencial e a presença de determinados adjetivos, relacionados à constituição dos seres ou ao seu estado, também estão presentes no romance de Clarice Lispector. Em ambos os romances, o êxtase místico marcará a vivência das personagens femininas. Em Maria Teresa Horta, há visões dos anjos do Apocalipse, a visita de um arcanjo, o que estabelece uma analogia entre a personagem Constança H. e Teresa d’ Ávila – paradigma feminino de transgressão, sonhos e visões. A personagem G.H., de Clarice Lispector também passará pela experiência da náusea, da ascese e da perda da própria individualidade, pelo “momento do rapto da alma e do desprendimento do próprio Eu” (HORTA, 2010, p. 105), em um outro nível, como veremos mais adiante. Henrique, por sua vez, personagem de A paixão segundo Constança H., que “nunca conseguira explicar a si mesmo porque se deitara com outra” (HORTA, 2010, p. 130), movido pelo remorso e pelo vazio, pela ausência incontornável e insuportável do outro, suicida-se, após a prisão de Constança H. Seu corpo é encontrado pelos filhos que ficam petrificados diante da cena dos pulsos cortados e do sangue a escorrer da banheira. E o leitor pergunta-se: Como narrar o inenarrável, o inelutável e intrinsecamente cruel, as experiências traumáticas e eróticas plenas de “ardência”?
O romance de Maria Teresa Horta circunscreve-se, dessa forma, na crise da representação e na Estética da Crueldade: mostra-nos o derramamento de sangue verdadeiro e de situações sutilmente ou inelutavelmente cruéis, o excesso de sentimentos através da vivência do pathos e da hybris, a presença de repetições e paroxismos, na estrutura discursiva (capítulos que possuem ligeiras modificações ou são repetidos, na íntegra, ratificam as situações traumáticas fixadas na memória – mortes, abandonos e perdas irreparáveis), as múltiplas versões de um mesmo fato, exemplificando a indecidibilidade de uma escrita que transita no limite entre a realidade e o imaginário, pleno de alucinações e imagens fantasmáticas, inerente a um sujeito que “deixava que os sonhos chegassem para os apanhar de viagem” (HORTA, 2010, p. 299). E, ao final do romance A paixão segundo Constança H., lemos que “os sentimentos ultrapassavam o entendimento” e “nada se cumpria” (HORTA, 2010, p. 299). A personagem continua a simular que engole os comprimidos, escondidos debaixo do colchão e continua a ser, violentamente, injetada. “Os ferozes predadores do deserto do seu caos interior” (HORTA, 2010, p. 251) permanecem e a ardência do desejo não se reduz a cinzas. Façamos nossas as palavras de Marilena Chauí, em seu ensaio, “Laços do desejo”:
 

Seja como desejo de reconhecimento, seja como desejo de plenitude e repouso, o desejo institui o campo das relações intersubjetivas, os laços de amor e ódio e só se efetua pela mediação de uma outra subjetividade. Forma de nossa relação originária com o outro, o desejo é peculiar porque, afinal, não desejamos propriamente o outro, mas desejamos ser para ele objeto de desejo. Desejamos ser desejados. Donde a célebre definição do desejo: o desejo é desejo do desejo do outro (CHAUÍ, 1990, p. 25).

Constança H. deseja ser desejada por Henrique e enlouquece quando ele se aproxima de outra que precisará ser eliminada, por ela, simbolicamente. Afinal, “O inferno mesmo é o do amor”, [já] dizia Clarice Lispector” (HORTA, 2010, p. 133). O extrato abaixo, inserido no livro de Maria Teresa Horta, assim o confirma:
 

(Com os seus silêncios.

Constança ficava horas imaginando como po-

deria ter sido o desejo de Henrique pela outra.

Mas esquecia-se de tudo quando na cama fica-

vam agarrados os dois, os corpos muito juntos.

Colados.

Sentia como o pénis dele se entesava no calor

das suas coxas.

Com os seus silêncios ele defendia-se de Cons-

tança; da sua loucura?

Desmesura.

Constança olhava a nesga do céu cinzento pelas

grades estreitas da pequena janela.) (HORTA, 2010, p. 181).

 
Em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, deparamo-nos com o fluxo de consciência da personagem feminina que também vivencia o pathos (a paixão) e a hybris (desmesura ou desmedida), em decorrência do desencantamento do mundo. Ao buscar a sua “verdade”, a personagem G.H. conscientiza-se de que “havia fundado toda uma esperança em vir a ser aquilo que não era” e se pronuncia: “Até que ponto até agora eu havia inventado um destino, vivendo no entanto subterraneamente de outro?” (LISPECTOR, 1997, p. 39). Além disso, a “esperança” de uma vida anterior é posta em dúvida e abandonada, diante do exercício de uma “coragem” e de uma “curiosidade mortal”, ao deparar-se com o neutro e com o inumano, representados, a princípio, pelo desenho a carvão do contorno do corpo de uma mulher, encontrado na parede do quarto da empregada que se despedira, na véspera, e, logo depois, pela “massa amorfa” e “branca” de uma barata, esmagada pela cintura, na porta do guarda-roupa, e que acabará por colocar na boca, num “ato de gustação totêmica” (LISPECTOR, 1997, p. 109). Tal gesto será o “único a reunir o corpo e a alma” (LISPECTOR, 1997, p. 106) e a melhor “prova de transmutação” do sujeito em si mesmo, plena de redenção e de “transcendência” (LISPECTOR, 1997, p. 107). Segundo os comentários críticos de Benedito Nunes, implícitos à edição de A paixão segundo G.H. (ALLCA XX / Scipione Cultural), “uma das formas de comunicação vital, no texto clariceano, é a que se consuma pelo olhar. Existe, em sua visão de mundo, uma espécie de erótica (eros do olhar), que pode levar à vertigem, ao êxtase epifânico” (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 38), em que o “divino” acaba por se aproximar do “real” (LISPECTOR, 1997, p. 107). O olhar, portanto, dirigido ao desenho vazio na parede e à barata (ambos, metáfora da própria mulher), permitirá a instauração do “inexpressivo”, “demoníaco” ou “diabólico”, capaz de “designar a busca secreta de G.H.” (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 64-65). Implícito a isso, encontram-se a “orgia de ser” e o sentido do “inferno”, marcado pela “aceitação cruel da dor, [pela] solene falta de piedade pelo próprio destino; amar mais o ritual de vida que a si próprio – esse era o inferno, onde quem comia a cara viva do outro espojava-se na alegria da dor” (LISPECTOR, 1997, p. 78). Semelhante postura – a presença de uma “avidez colérica e assassina”, encontrada, também, em A paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta –, transmuta-se, na ficção de Clarice Lispector, em uma “cólera sagrada e vital”, de ordem metafísica. Em comum, a “tentativa de violentação do próprio sujeito”, responsável por “aumentar infinitamente o pedido que nasce da carência” (LISPECTOR, 1997, p. 96-97). Assim, a personagem clariceana, ao tocar na essência da barata, toca no que é “proibido” ou “imundo”, no “núcleo do vivo”, na “raiz”, no “neutro”, no “sem adornos”, o que permite à narradora estabelecer um diálogo intertextual, pelo avesso, com o Deuteronômio.[1] Em A paixão segundo G.H., o confronto entre as duas personagens – G.H. e a barata – acaba por estabelecer uma analogia entre elas: ambas são “várias em suas “cascas”, de que vão “se desvencilhando”, “neste percurso de desnudar-se até a sua essência máxima” (GOTLIB, 1997, p. 175). Em ambos os romances, os bichos (o cão e a barata) constituem uma “simbologia do Ser” (NUNES, 1969, p. 125).
A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, apresenta, portanto, a temática da “despersonalização como a grande objetivação de si mesmo”, o que “implica o encontrar ou reconhecer o outro sob qualquer disfarce” (LISPECTOR, 1997, p. 112). E, por isso, a personagem feminina “deseroiciza-se”, opta pelo ínfimo, assume-se como alguém destituído de um nome próprio e, “porque se despersonaliza, a ponto de não ter o seu nome, responderá a cada vez que alguém lhe disser: eu” (LISPECTOR, 1997, p. 112). Evidencia-se, assim, “o despojamento do EU e a renúncia da individualidade egoística” (NUNES, 1969, p. 111). Em A paixão segundo Constança H., vimos que o próprio nome, assinalado pela fragmentação presente na abreviatura, poderia ser estendido a várias mulheres, situadas em tempos e em épocas diferenciados, como atestam as enunciações discursivas inerentes às cartas. Revela-se, assim, na narrativa, a não contradição do ser-no-mundo, a constatação de que “todas as figuras humanas criadas pela romancista são sempre iguais, de que todas as suas personagens resumem-se em uma só personagem” (NUNES, 1969, p. 116). Isso permite-nos constatar que estaríamos diante do “amor do neutro – da coisa a que se reduzem todas as coisas” (NUNES, 1969, p. 111) ou todos os seres.
Segundo Benedito Nunes, em A paixão segundo G.H., “os seis travessões, que iniciam e finalizam a narrativa, marcam a ruptura de G.H. com o seu mundo” (NUNES, 1997, p. 9). “O silêncio, desistência da compreensão e da linguagem, é o termo final da aventura espiritual de G.H., que principia pela náusea e culmina no êxtase do Absoluto, indiscernível do Nada e tal aventura é a via crucis de uma paixão” (NUNES, 1997, p. 115). E como a personagem “só pode amar a evidência desconhecida das coisas” (LISPECTOR, 1997, p. 115), é inevitável a “ausência de compreensão daquilo que é dito”. E o romance, experiência-limite do sujeito e da linguagem transgressora, termina, enfatizando o silêncio, assinalado, graficamente, por seis travessões: “A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro. – – – – – –” (LISPECTOR, 1997, p. 115). Tal recurso estilístico, segundo Benedito Nunes, indica os seis reinos de Salomão e marca essencialmente a oposição da criatura ao criador, em um equilíbrio indefinido.[2] Convém lembrar que, na ficção de Clarice Lispector, a paródia de textos bíblicos afirma a condição humana.
Parece-nos, portanto, que ambas as romancistas, ao levar ao limite a indagação sobre as possibilidades ontológicas da linguagem, acabam por revelar um preceito socrático: “a tomada de consciência de si através da consciência da significação das palavras” (PESSANHA, 1990, p. 110) ajuda os sujeitos a descobrir a “verdade de si mesmos”, necessária ao seu crescimento. Em ambas as romancistas, a questão da linguagem entrelaça-se com as duas formas de desejo, na ótica platônica: o “desejo-aspiração” e o “desejo-apetite”.
José Américo Motta Pessanha, em seu ensaio “A água e o mel”, inserido em O desejo, afirma o seguinte:
 

Assistimos, no interior da obra de Platão, ao confronto entre duas formas de desejo: de um lado, o desejo enquanto aspiração, enquanto anelo, a remeter a alma ascensionalmente, na direção de sua condição originária; de outro lado, o desejo enquanto apetite, que crava a alma no corpo, prendendo-o à horizontalidade da imediatez, do factual, do empírico. O primeiro é impulso de liberação, o segundo aprisiona. O primeiro é nostálgico anseio de retorno à incorporeidade pura, apontando para alhures; e o segundo persegue vorazmente, na sofreguidão do corpóreo, o aqui e o agora. Cada qual subentende um tipo de vínculo com a temporalidade e associa-se a uma espécie de memória. Mais: esse embate entre desejos voltados para objetos de diferentes naturezas – um, o claro objeto de aspiração, o outro, o obscuro objeto dos conturbados apetites – cria uma tensão permanente, que ultrapassa o nível psicológico e se desdobra nos planos epistemológico, ético, político, constituindo um dos focos irradiantes da sempre reaberta construção do platonismo (PESSANHA, 1990, p. 91).

Segundo Marilena Chauí, em “Laços do desejo”, ensaio inserido na coletânea acima citada, a própria origem etimológica da palavra “desejo” (do verbo desidero) acaba por instaurar o significado de desiderium, que “significa uma perda, privação do saber sobre o destino, queda na roda da fortuna incerta”, e ainda, “desejo ou apetite de possuir alguma coisa cuja lembrança foi conservada”. E continua: “O desejo chama-se, então, carência, vazio que tende para fora de si em busca de preenchimento, aquilo que os gregos chamavam “hormê”. (CHAUÍ, 1990, p. 23). No entanto, isso não anula “a vontade consciente nascida da deliberação”, vontade de se tomar o “nosso destino em nossas próprias mãos” (CHAUÍ, 1990, p. 22), o que pressupõe uma atitude ética e política. No entanto, Marilena Chauí, no ensaio referido, nos alerta de que “quando procuramos, nos primeiros filósofos modernos, a palavra que traduzimos por desejo, descobrimos que não empregam desiderium e sim appetitus, tendo como referência os vocábulos gregos oréxis e hormê” (CHAUÍ, 1990, p. 27). Detenhamo-nos em oréxis, vocábulo que nos irá permitir tecer uma consideração sobre o romance A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Vejamos:
 

Oréxis,ação de tender para algo ou alguém, donde apetite e desejo, vem de orégô,, tender, estender, dar, oferecer, estender as mãos para implorar e, na voz média, orégomai, significa estender-se, alongar-se com as mãos, tentar pegar, tocar com as mãos, visar e procurar atingir alguém para feri-lo (assim são as flechas de Eros-Cupido), lançar-se, expandir-se de alegria, aspirar (à verdade, à glória, à riqueza), puxar para si alguma coisa, donde desejar (CHAUÍ, 1990, p. 27).

No romance citado, “G.H, dialoga com um interlocutor imaginário” (o leitor?) “e, metonimicamente, esse interlocutor é identificado, ao longo da narrativa, com a mão que ela segura” (NUNES, 1997, p. 13). “Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria” (LISPECTOR, 1997, p. 13). Simbolicamente, tal frase está gravada no túmulo de Clarice Lispector, no Cemitério judaico do Caju, no Rio de Janeiro.  E, segundo Benedito Nunes, a “mão anônima” é a “mão do leitor” – “o suporte necessário de sua narrativa” (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 105). Vejamos:
 

– Ah, não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda /. . ./ mas não retires tua mão, mesmo que eu já saiba que encontrar tem que ser pelo caminho daquilo que somos, se eu conseguir não me afundar definitivamente naquilo que somos (LISPECTOR, 1997, p. 48).

Pensamos que tal embate entre as duas formas de desejo (o “desejo-apetite” e o “desejo-aspiração”) está representado em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector e em A paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta, através da via crucis das personagens femininas. Situadas entre a “casa” e a “cave” (espaços metonímicos representantes do metafórico social), descobrem que a trajetória existencial da via crucis “não é um descaminho”, mas uma “passagem única”, a “trajetória não é um modo de ir”, “somos nós mesmos”, em “meio ao esplendor de se ter uma linguagem” capaz de “anteceder a posse do silêncio” (LISPECTOR, 1997, p. 113). Essa trajetória é marcada pelos travessões (sinais gráficos de ausência), no texto de Clarice. Índices de que “é melhor silenciar acerca do que não pode ser expressado’? (NUNES apud LISPECTOR, 1997, p. 127).
Temos, assim, em A paixão segundo Constança H. e em A paixão segundo G.H., duas visões ou versões sobre a paixão, a partir da consciência reflexiva das personagens femininas que, movidas pelo desejo de ser e de “atingir a existência universal em sua nudez” (NUNES, 1969, p. 127), preferem “arder” a “durar”.
 
 
Referências bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. “Laços do desejo”. In: CHAUÍ, Marilena (et al.). O desejo. Adauto Novaes (org.). São Paulo: Companhia das Letras; Rio de Janeiro: Funarte, 1990. p. 19-66.
DIAS, Ângela; GLENADEL, Paula (orgs.). Estéticas da crueldade. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2004.
GOMES, Renato Cordeiro. Narrativa e paroxismo: será preciso um pouco de sangue verdadeiro para manifestar a crueldade? In: Estéticas da crueldade. Ângela Maria Dias e Paula Glenadel (orgs.). Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2004.
GOTLIB, Nádia Battella. “Um fio de voz: Histórias de Clarice”. In: GOTLIB, Nádia Battella (et al.).
HORTA, Maria Teresa. A paixão segundo Constança H. Lisboa: Bertrand Editora, 1994, 2010.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Edição Crítica Benedito Nunes (Coordenador). Madrid, Paris, México, Buenos Aires, São Paulo, Lima, Guatemala, São José da Costa Rica, Santiago de Chile: Scipione Cultural / ALLCA XX, 1997. (Col. Archivos, 13).
NUNES, Benedito. O mundo imaginário de Clarice Lispector. In: NUNES, Benedito. O dorso do tigre. Ensaios. São Paulo: Editora Perspectiva, 1969. (Col. Debates, 17). p. 93-142.
NUNES, Benedito. Comentários feitos na Edição Crítica. In: LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Benedito Nunes (Coordenador). Madrid, Paris, México, Buenos Aires, São Paulo, Lima, Guatemala, São José da Costa Rica, Santiago de Chile: Scipione Cultural / ALLCA XX, 1997. (Col. Archivos, 13). p. 6-115.
PESSANHA, José Américo Motta. A água e o mel. In: PESSANHA, José Américo Motta (et al.). O desejo. Adauto Novaes (org.). São Paulo: Companhia das Letras; Rio de Janeiro: Funarte, 1990. p. 91-124.
 
NOTAS:
 
[1] Veja-se a citação explícita em Levítico ou Deuteronômio: “E tudo o que anda de rastos e tem asas será impuro, e não se comerá.” (LISPECTOR, 1997, p. 47). Observe-se, agora, outra afirmação implícita no mesmo capítulo de A paixão segundo G.H., indiciadora da transgressão cometida: “Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo.” (LISPECTOR, 1997, p. 47).
[2]Segundo Benedito Nunes, tal “oposição” não configura uma contradição, mas, antes, “uma distinção”, o que remete para a origem da ambivalência do número seis e sua significação: bem ou mal; união com Deus ou revolta; número do destino místico; referenciado, no Apocalipse, como o número do pecado, representa o homem físico sem o seu elemento salvador, sem essa parte suprema de si mesmo que lhe permite entrar em contato com o divino.





Bio fornecida pelo palestrante.

A CASA COMO REFLEXO DO EU – Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri




A CASA COMO REFLEXO DO EU

 

Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri

 Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
RESUMO: Este artigo tem como objeto de estudo o conto de Lygia Fagundes Telles, “Apenas um saxofone” – inserto no livro de contos Antes do baile verde, publicado pela escritora em 1970.  Propõe a leitura da narrativa sob uma perspectiva topoanalítica, procurando observar como as casas habitadas pela narradora-protagonista refletem o seu estado emocional e por que a casa do presente seria para ela um espaço topofóbico – lugar do medo e da aversão – e a casa do passado, um espaço topofílico – lugar feliz.  O estudo pretende ainda mostrar como a passagem do tempo interfere nessa percepção que a narradora-protagonista tem do espaço habitado.
 
Palavras-chave: casa – análise topoanalítica – topofilia – topofobia – Lygia Fagundes Telles.
 
ABSTRACT: This article aims at studying Lygia Fagundes Telles’s tale “Just a Saxophone.” It was published in her book Before the Green Ball (1970). It proposes the reading of the narrative in a topoanalitic perspective. It analyses in which way the house inhabited by the narrator-protagonist reflects her emotional condition, why it meant a topophobic space for her, that is, a place of fear and loathing, and why her home of the past meant for her a topophilic space, that is, a happy place. The article also focuses on how the passage of time affects the narrator-protagonist’s perspective about her living space.
 
Keywords: home – topoanalitic analysis – topophilic space – topophobic space –  Lygia Fagundes Telles.
 
Curriculo:
Doutoranda em Literatura Portuguesa, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve o título de Mestre em Literatura Portuguesa e de Especialização em Literaturas Portuguesa e Africanas. É professora de Língua Portuguesa e Literaturas da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro.
 
 

A CASA COMO REFLEXO DO EU

 

Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri

 Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas,

Eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face?
(Cecília Meireles)
           

“Quero deixar bem claro que a única coisa que existe para mim é a juventude, tudo o mais é besteira, lantejoulas, vidrilho. (…) Ele era a minha juventude (…)”.

(Telles, Apenas um saxofone, p. 36).1

 
 
 
O eu lírico do poema de Cecília Meireles constata melancolicamente a passagem do tempo e se pergunta em que espelho ficou perdida a sua face, não se reconhece no rosto de hoje; a narradora-protagonista do conto de Lygia Fagundes Telles, “Apenas um saxofone”, se pergunta “Onde?”, em que espaço indeterminado do passado ficou perdido o seu grande amor, a sua juventude. Nossa leitura pretende analisar o conto “Apenas um saxofone – inserto no livro de contos Antes do baile verde2, publicado por Lygia Fagundes Telles em 1970 – sob uma perspectiva topoanalítica;3 interessa-nos observar como o espaço da casa reflete a relação que a narradora mantém com o passado e com o presente, mais do que isso, como reflete o seu estado emocional e as suas escolhas.  Afinal, como ensina Gaston Bachelard, “a casa, mais ainda que a paisagem, é um estado de alma” (1989, p. 84).
Luisiana, narradora-protagonista do conto, assusta-se com a velocidade do tempo ao se dar conta de que já chegou aos quarenta e quatro anos: “Quarenta e quatro anos e cinco meses, meus Jesus. Foi rápido, não? Rápido” (AUS, p. 31).  Esse fato faz com que ela comece a refletir sobre sua existência e chegue à conclusão de que tudo que amealhou ao longo dos anos, todo o conforto, o luxo, as viagens, enfim tudo o que conquistou não a faz feliz.  Num momento de solidão, Luisiana percebe que jogou fora sua chance de felicidade quando trocou a vida simples, ao lado de seu grande amor – um saxofonista que simbolizava a própria juventude dela –, por uma vida de ostentação.
Márcio Seligmann-Silva, ao falar sobre testemunho em períodos de catástrofes, ressalta a “profunda relação entre a memória e o espaço” (2003, p. 56).  Referindo-se à memória topográfica, explica que ela é sobretudo imagética, pois “na arte da memória conectam-se as ideias que devem ser lembradas a imagens e, por sua vez, essas imagens a locais bem conhecidos”4 (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 56). A reflexão de Luisiana acerca do passado é motivada pela imagem de um retrato sobre a lareira da sala; no entanto, é ouvindo interiormente os sons de um antigo saxofone que penetra profundamente na memória “e transporta-se para outro espaço de sua vida” (LIMA, 2009, p. 134):
 

Onde agora?  Às vezes eu fechava os olhos e os sons eram como voz humana me chamando, me envolvendo, Luisiana, Luisiana! Que sons eram aqueles? Como podiam parecer voz de gente e serem ao mesmo tempo tão mais poderosos, tão puros? E singelos como ondas se renovando no mar, aparentemente iguais, só aparentemente. “Este é o meu instrumento”, disse ele deslizando a mão pelo saxofone.  Com a outra mão em concha, cobriu meu peito: “e esta é a minha música” (AUS, p. 33).

 
A transcendência de Luisiana para um outro lugar e um outro tempo, por meio de uma percepção auditiva, remete-nos ao estudo de Ozíris Borges Filho sobre o relacionamento dos personagens de uma obra literária com o espaço do ponto de vista sensorial. O pesquisador estabelece uma gradação entre o espaço e os gradientes sensoriais (os cinco sentidos) em termos de distância/proximidade: a visão capta o espaço em seu distanciamento máximo, é o primeiro sentido através do qual entramos em contato com o mundo; já o paladar percebe o espaço em seu distanciamento mínimo.  Esse não deve ser, segundo Ozíris Borges Filho, o único nível de interesse do topoanalista pelos gradientes sensoriais, é válido “verificar as múltiplas possibilidades de sentidos criados no texto literário. Sentidos esses que podem ser tanto denotativos quanto conotativos” (BORGES FILHO, 2009, p. 169).5  Para ele, o topoanalista deve procurar saber, por exemplo, se, numa percepção predominantemente auditiva do espaço, o personagem se encontrava num momento de silêncio ou de barulho; no caso de predomínio da percepção visual, deve observar as cores predominantes, se há incidência de luz ou escuridão no ambiente etc.  Considerando sempre que cada detalhe observado exercerá conotações positivas ou negativas sobre o personagem e apenas no interior do texto literário poderá discernir tais conotações.
O conto de Lygia Fagundes Telles reforça a afirmação de Ozíris Borges Filho de que os “olhos captam informações do espaço de maneira mais abundante e precisa que os ouvidos. No entanto, muitas vezes, somos mais sensibilizados pelo que ouvimos do que pelo que vemos” (BORGES FILHO, 2009, p. 176).  Luisiana recupera na memória o momento em que conheceu o rapaz do saxofone e relata como sua música tinha o poder de sensibilizar e acalmar as pessoas:
 

A melodia era mansa, mas ao mesmo tempo tão eloquente que fiquei imersa num sortilégio. Nunca tinha ouvido nada parecido, nunca ninguém tinha tocado um instrumento assim. Tudo o que tinha querido dizer à mulher e não conseguira, ele dizia agora com o saxofone: que ela não chorasse mais, tudo estava certo quando existia o amor. Tinha Deus, ela não acreditava em Deus? perguntava o saxofone. E tinha a infância, aqueles sons brilhantes falavam agora da infância!… A mulher parou de chorar e agora era eu que chorava. Em redor, os casais ouviam num silêncio fervoroso e suas carícias foram ficando mais profundas, mais verdadeiras porque a melodia também falava do sexo vivo e casto como um fruto que amadurece ao vento e ao sol (AUS, p. 37-38, sic).

 
 
Ao refletir sobre sua vida, Luisiana contrapõe presente e passado, consequentemente, contrapõe dois espaços: a casa habitada no presente e a casa habitada no passado.  Através de seu fluxo de consciência, a narradora vai descrevendo os dois espaços e o leitor pode constatar que a casa rica e luxuosa do presente constitui-se para ela como um espaço frio e melancólico, um lugar topofóbico; enquanto o quarto simples e humilde do pequeno apartamento em que passou parte da juventude ao lado de seu amor constitui-se como um espaço aconchegante, topofílico6:
 

Meu tapete é persa, todos meus tapetes são persas, mas não sei o que fazem esses bastardos que não impedem que o frio se instale na sala.  Fazia menos frio no nosso quarto, com as paredes forradas de estopa e o tapetinho de juta no chão, ele mesmo forrou as paredes e pregou retratos de antepassados e gravuras da Virgem de Fra Angelico, tinha paixão por Fra Angelico (AUS, p. 31-32, sic).

 
A descrição feita pela narradora-protagonista sugere que a casa atual é para ela fria e inóspita, um lugar em que não se sente aconchegada. A sala traz uma sensação de vazio que leva Luisiana a ressentir-se do antigo quarto do saxofonista “com as paredes forradas de estopa e o tapetinho de juta no chão” (AUS, p. 31).  No livro Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade (1992), o antropólogo Marc Augé diferencia as expressões “lugar” e “não lugar”.  Segundo ele, a casa teria o status de “lugar” por ser o espaço em que o personagem “fica à vontade na retórica das pessoas com as quais compartilha a vida. O sinal de que se está em casa é que se consegue se fazer entender sem muito problema, e (…) se consegue entrar na razão de seus interlocutores sem precisar de longas explicações.” Enquanto o “espaço do não lugar não cria nem identidade singular nem relação, mas sim solidão e similitude” (apud XAVIER, 2012, p. 18).
A representação que Luisiana faz, no presente, do antigo quarto em que viveu com o namorado confirma a visão positiva do espaço casa; no entanto, a sala da casa atual contraria tal visão, pois está para a personagem como uma espécie de não lugar.  O conto “Apenas um saxofone” reforça as palavras de Elódia Xavier na apresentação de A casa na ficção de autoria feminina – livro em que competentemente analisa a representação da casa em textos de uma série de escritoras brasileiras: “Talvez a representação da casa no imaginário feminino possa comprovar ou refutar esta abordagem “topofílica” da casa em oposição à “topofobia” da rua” (p. 18).  Este artigo se propõe a observar o que levou a narradora-protagonista a abrir mão do lugar que pode ter sido o “seu canto no mundo” (BACHELARD, 1989, p. 24) e a construir uma casa que se tornou um espaço de melancolia e solidão.  Pretendemos levantar indícios que sustentem o argumento de que a representação da casa do presente reflete o estado emocional da protagonista.
Luisiana vivia uma vida feliz ao lado de seu saxofonista: “Nossa vida foi tão maravilhosamente livre! E tão cheia de amor, como nos amamos e rimos e choramos de amor naquele décimo andar (…)” (AUS, p. 38).  À época não tinha consciência dessa felicidade, incomodava-se com a falta de ambição do namorado, que se contentava com aquela vida simples.  Ele só queria viver ao lado da mulher amada e tocar seu saxofone: “Luisiana, você é a minha música e eu não posso viver sem música” (AUS, p. 39).  Ela sentia medo do futuro, precisava de segurança, conforto, angustiava-se com a possibilidade de envelhecer na pobreza.  Escolheu afastar esse amor de forma definitiva e mesmo cruel: “preferi que nosso amor apodrecesse, que ficasse tão insuportável que quando ele fosse embora saísse cheio de nojo, sem olhar para trás” (AUS, p. 39).
Durante a juventude, a narradora-protagonista de Lygia Fagundes Telles associou felicidade à conquista de bens materiais. E, para tanto, fez muitas concessões, submeteu-se aos caprichos de seus amantes ricos, cultivou falsas amizades; mas tudo isso fazia parte de seu projeto de enriquecimento:
 

(…) quando o velho me deu a pérola, achou originalíssimo escondê-la no fundo do aquário e me mandar procurar: “Está ficando quente, mais quente. Não, agora esfriou!…”. E eu me fazia menininha e ria quando minha vontade mesmo era dizer-lhe que enfiasse a pérola no rabo e me deixasse em paz. Me deixa em paz! (AUS, p. 35).

 
Em O mal-estar da pós-modernidade, Zigmut Bauman aponta para o indivíduo pós-moderno que constrói uma identidade rasurável para ajustar-se às condições de sobrevivência social, uma espécie de identidade palimpsesto: “a identidade que se ajusta ao mundo em que a arte de esquecer é um bem não menos, se não mais, importante do que a arte de memorizar, em que esquecer, mais do que aprender, é a condição de contínua adaptação (…)” (BAUMAN, 1998, p. 37, grifo nosso).  Luisiana usou várias máscaras identitárias para atingir sua meta, conviveu com pessoas que também adotaram uma segunda pele como forma de sobrevivência.  Um personagem que nos parece ilustrar muito bem essa afirmação é Renê, o decorador oportunista e falsário que Luisiana contratou:
 

Nem o pano era do Afeganistão nem ele era tão viado assim, tudo mistificação, cálculo. Surpreendi-o certa vez sozinho, fumando perto da janela, a expressão fatigada de um ator que já está farto de representar.  Assustou-se quando me viu, como se o tivesse apanhado em flagrante roubando um talher de prata. Então retomou o gênero borbulhante e saiu se rebolando todo para me mostrar o oratório, um oratório falsamente antigo, tudo feito há três dias, mas com furinhos na madeira imitando caruncho de três séculos (AUS, p. 32, sic).

 
A narradora-protagonista leva o simulacro de sua vida pessoal também para o espaço da casa, justo o lugar que se espera ser de intimidade, onde as máscaras deveriam ser retiradas.  Todas as “relíquias” na casa do presente são falsas, dos tapetes persas aos anjinhos de Aleijadinhos, e Luisiana comprava tudo conscientemente, o seu prazer consistia em viver a ostentação, o não autêntico: “E eu sabendo que estava sendo enganada e não me importando, ao contrário, sentindo um agudo prazer em comer gato por lebre” (AUS, p. 33).
O exagero fazia parte da casa e da vida pessoal de Luisiana, gastou “um saco de ouro” com a decoração da sala; mantinha relações com três homens, um velho rico, um jovem ardente e um “sábio” filósofo. Naturalmente, a casa se tornou fria e impessoal – afinal, “o excesso de pitoresco de uma morada pode ocultar a sua intimidade” (BACHELARD, 1989, p. 32) – e os três amantes apenas serviam para atender as necessidades materiais, sexuais e culturais de Luisiana, nunca se envolveu emocionalmente com nenhum deles.  A citação a seguir ilustra os relacionamentos superficiais da personagem, aliás, vale destacar o tom irônico, podemos mesmo dizer sarcástico, que Lygia Fagundes Telles dá à narrativa para retratar o distanciamento afetivo entre a narradora-protagonista e seus amantes:
 

Onde?… Tenho um iate, tenho um casaco de vison prateado, tenho uma coroa de diamantes, tenho um rubi que já esteve incrustado no umbigo de um xá famosíssimo, até há pouco eu sabia o nome desse xá.  Tenho um velho que me dá dinheiro, tenho um jovem que me dá gozo e ainda por cima tenho um sábio que me dá aulas sobre doutrinas filosóficas com um interesse tão platônico que logo na segunda aula já se deitou comigo. Vinha tão humilde, tão miserável com seu terno de luto empoeirado e botinas de viúvo que fechei os olhos e me deitei. Vem, Xenofonte, vem (AUS, p. 34).

 
Com a chegada da idade madura, Luisiana percebe que a riqueza só lhe trouxe conforto material, pois, emocionalmente, sente-se só e desprotegida.  As pessoas que se aproximam dela só o fazem por interesses econômicos; sua casa também não lhe serve de abrigo, ao contrário, intensifica o sentimento de arrependimento pelo rumo que deu à sua vida.  Principalmente, porque essa casa representa metonimicamente a sua própria vida.

E eu mal tenho forças para acender o cigarro. Estou aqui sentada faz não sei quanto tempo. Desliguei o telefone, me enrolei na manta, trouxe a garrafa de uísque e estou aqui bebendo bem devagarinho para não ficar de porre, hoje não, hoje quero ficar lúcida, vendo uma coisa, vendo outra. E tem coisa à beça para ver tanto por dentro como por fora, ainda mais por fora, uma porrada de coisas          que comprei no mundo inteiro, coisas que nem sabia que tinha e que só vejo agora, justo agora que está escuro.  É que fomos escurecendo juntas, a sala e eu. Uma sala de uma burrice atroz, afetada pretensiosa (AUS, p. 32, grifo nosso).

 
Segundo Monica Figueiredo, “quando o real é hostil, lugar de privação e de frustração permanentes, as certezas do indivíduo são abaladas” (2011, p. 183).  Durante a juventude, Luisiana acreditou que para ser feliz seria necessário conquistar segurança econômica e muitos bens. Agora que tem tudo isso, constata dolorosamente que é infeliz.  Tanta raiva ao falar da sala de sua casa talvez represente a raiva que sente pela própria “burrice”, pela própria pretensão de achar que poderia ser feliz sem um amor verdadeiro. Luisiana sofre por só ver a felicidade que tinha “justo agora que está escuro”.  Ao pedir que seu amor se matasse, não sabia que estava simbolicamente matando a si mesma.
Com o conto “Apenas um saxofone”, Lygia Fagundes Telles nos brinda com a construção de uma personagem extremamente rica, capaz de despertar no leitor os mais contraditórios sentimentos. Por vezes, comovemo-nos com suas angústias, com seu arrependimento; por outras, sentimos repúdio por suas atitudes egoístas e até cruéis.  A nosso ver, Luisiana constitui-se como uma personagem que não deve ser lida, maniqueisticamente, como uma simples representação da ambição e da perversidade humanas.
 
NOTAS
 
1 Para as citações do conto “Apenas um saxofone”, utilizaremos a abreviação AUS, seguida do número da página.
2 O livro Antes do baile verde levou a escritora a receber o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros na França, em 1970.
3 Segundo Gaston Bachelard, “a topoanálise então é um estudo psicológico sistemático dos locais de nossa vida íntima”. (1999, p. 28)
4 Para ilustrar a relação entre memória e espaço, Seligmann-Silva recordou uma anedota da tradição clássica sobre o poeta Simônides de Ceos (apr. Ss6-468 a.C.), considerado o pai da mnemotécnica (arte da memória). Achamos interessante reproduzi-la: Simônides é salvo do desabamento de uma sala de banquete onde se comemorava a vitória do pugilista Skopas.  Os parentes das vítimas não conseguiram reconhecer os seus familiares mortos que se encontravam totalmente desfigurados sob as ruínas. Eles recorreram a Simônides – o único sobrevivente – que graças à sua mnemotécnica conseguiu recordar-se de cada participante do banquete, na medida em que recordou do local ocupado por eles. (apud, SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 55)
5 Interessa-nos, principalmente, para a leitura de “Apenas um saxofone” a percepção da realidade pela visão e pela audição.
6 “Topofilia” é expressão empregada para designar o espaço acolhedor, feliz (cf. BACHELARD, 1989). Ozíris Borges Filho (cf. XAVIER, 2012, p. 19) utiliza o termo “topofobia” para se referir a espaços do medo, da aversão.
 
 
BIBLIOGRAFIA
BACHELARD, Gaston.  A poética do espaço.  Trad. Antonio de Pádua Danesi.  São Paulo: Martins Fontes, 1989.
 
BAUMAN, Zygmunt.  O mal-estar da pós-modernidade.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
 
BORGES FILHO, Ozíris. “Espaço, percepção e literatura”. In: BORGES FILHO, Ozíris; BARBOSA, Sidney (orgs.).  Poéticas do espaço literário.  São Carlos, SP: Editora Claraluz, 2009.  p. 167-189.
 
FIGUEIREDO, Monica.   No corpo, na casa e na cidade: as moradas da ficção.  Rio de Janeiro: Língua Geral, 2011.
 
LIMA, Susana Moreira de. “O envelhecimento feminino na escrita de Lygia Fagundes Telles”.  Interdisciplinar – Revista de Estudos de Língua e Literatura, Ano IV, vol. 8, jan-jun de 2009: p. 133-138.
 
SELIGMANN-SILVA, Márcio.  “Apresentação da questão – A literatura do trauma”. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). História, memória, literatura – o testemunho na era das catástrofes.  Campinas, SP: Unicamp, 2003. p. 45-88.
 
TELLES, Lygia Fagundes.  “Apenas um saxofone”. In: TELLES, Lygia Fagundes.   Antes do baile verde.  São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 31-40.
 
XAVIER, Elódia. A casa na ficção de Autoria Feminina. Florianópolis: Mulheres, 2012.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

JORGE DE SENA: TRANSITANDO EM VIAS DE FATOS – Wellington Alves Toledo




 
Wellington Alves Toledo
 
Universidade Federal do Rio de Janeiro ? UFRJ
 
 
 
Resumo
 
A busca de um lugar onde a liberdade fosse um item primário inevitavelmente não pode deixar de ser associada à biobibliografia do poeta português Jorge de Sena. A relação de amor e abandono de seu país de origem, Portugal, mais as experiências vividas em suas pátrias madrastas, fizeram parte do seu percurso humano e literário. Assim, o presente trabalho, pretende, pois, refletir sobre essa transitoriedade identificada na poética do autor, não só o que concerne às mudanças territoriais em curso, mas, sobretudo, as constantes deambulações que caracterizaram sua escrita, como a transmutação da consciência poética individual para um estado de transnacionalidade, a busca de uma identidade literária nacional contrapondo ao compromisso intertextual universal, além do pensar a própria obra sob a égide de perpassar o extenso legado cultural português.
 
Palavras-chave: Poética. Poesia narrativa. Transitoriedade. Pátrias. Deambulações.
 
Abstract
 
The pursuit of a place where freedom was a primary item should inevitably be associated with the Portuguese poet Jorge de Sena’s bio-bibliography. His love relation to his birth country, Portugal, and later his leaving it, besides the experiences he had in other foster homelands, were part of his human and literary trajectory. Therefore, this paper intends to reflect about the transience that can be identified with the author’s narrative poetry, not only in what concerns the territorial changes in course, but, above all, the constant ramblings that characterized his writing. Among these, the transmutation of the individual poetic consciousness to a state of transnationality, the search for a national literary identity in opposition to the universal intertextual commitment, and the thinking of his own work under the light of the extensive cultural Portuguese legacy.
 
Key-words: Poetics. Narrative poetry. Transience. Homelands. Ramblings.
 
Currículo do autor
 
Wellington A. Toledo é formado em Letras e atualmente termina o Mestrado em Literatura Portuguesa pela UFRJ, com a professora Doutora Gumercinda Nascimento Gonda, sobre a problemática da forma e de gênero da Mensagem de Fernando Pessoa, com defesa prevista para fevereiro de 2015. Essa dissertação foi apresentada no decorrer da disciplina Escrever Portugal, ministrado pelas professoras Cleonice Berardinelli e Gilda Santos, no primeiro semestre de 2013. É professor concursado na rede pública de ensino da Prefeitura de Magé. Tem um livro de poesia com publicação prevista em dezembro de 2014.
 
 
JORGE DE SENA: TRANSITANDO EM VIAS DE FATOS
 
Wellington Alves Toledo
 
Universidade Federal do Rio de Janeiro ? UFRJ
 
 
 
Introdução
 
 
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…
 
(PESSOA, 1981, p. 293- 294)
 
 
Comecemos, portanto, com a famosa asserção pessoana da relação de inaptidão do escritor com o espaço cívico. O artista, como um ser contestador do seu tempo, sente-se às vezes incapaz de se enquadrar em qualquer modo institucionalizado de vida. Assim, transfere à arte a responsabilidade de criação de um ambiente no qual possa dar perfeitamente um livre sentido à sua existência. Desta forma, vida e obra se interagem, embora, tumultuosamente.
As somas de toda sua trajetória pessoal obrigaram-no a conviver com os sentimentos de deslocação e de pertencer sempre a um espaço de intervalo. Sentimentos que ajudaram formar uma figura personalíssima, contestadora de seu estado social e, principalmente, um ser que fez da procura por libertação ? talvez utópica ?, do amor à pátria, da incompreensão humana e do resgate da herança literária, veios temáticos de sua vasta produção artística.
Poeta acima de tudo, como se considerava o próprio escritor português, difícil não correlacionar grande parte de seu histórico de vida com o que produziu de mais substancial durante anos de esteta das palavras. Com uma linguagem simples, embora detentor de um elitismo cultural e de um conhecimento literário grandíssimo, Sena fez de sua obra uma espécie de diário íntimo, no qual não só se refletiam dados autobiográficos, mas também versos reveladores de um homem que foi um cidadão do mundo.
 

  1. Peregrinatio ad pátrias infectas

 
Embora Nascido em Portugal, de pais portugueses, sua postura contestadora diante das contingências políticas de seu país reclamará para si ares mais respiráveis, capazes de lhe conferir a liberdade de se expressar contra todo o tipo de repressão humana. O Brasil se afigura então como um terreno fértil para seus inúmeros projetos. Por outro lado, esse espaço alheio e desconfortável instaura no autor um contraponto para a saudade e mágoa para com aquele que o renegou. Nisso, intensifica-se em sua escrita a tentativa de manter vivo, através da arte, o laço à distância com o país que amou e se viu obrigado a abandonar, ao mesmo tempo em que busca não perder as particularidades que o caracterizam como o ser de sua pátria natal, mesmo que contaminado por uma nova unidade sociocultural. Em meio a tanta diversidade de cultura a ele imposta pelas circunstâncias, o sujeito da enunciação lírica se fecha em sua própria consciência individual, manifestando um encontrar fora de si só a povoada solidão mortal. A palavra torna-se então residência fixa de um discurso poético que transita do eu-expatriado para o transnacional e, finalmente, assim pôde a poesia ser hábito de exercício de sobrevivência.
Estabelecido o exílio territorial, a lírica seniana projetará uma poesia emigrante; reflexo de suas muitas peregrinações pelo mundo. Situado entre dois polos ambíguos ? a mãe-pátria renegada e o quarto de hóspede oferecido pelo parente distante ?, o poeta opta por construir um exílio mais profundo e subjetivo, transformando a ausência de “colo” em material lírico por excelência e da existência pessoal senda de superação de uma identidade nacional fragmentada. Sobre essa errância da figura dos poetas, vale a pena destacar o que a poetisa russa Marina Tsvetáieva aponta:
 
Todo o poeta é por essência um emigrante […]. Um emigrante do reino dos Céus e do paraíso terrestre da natureza. O poeta (todos os artistas, mas sobretudo o poeta) leva sempre a marca especial do descontentamento, graças à qual mesmo na sua própria casa é impossível reconhecê-lo. É um emigrante da Intemporalidade no tempo, um exilado do seu céu (TSVETAIEVA,1993. p. 63-64).
 
O exílio, seja ele voluntário ou punitivo, ancorou durante os séculos a poesia, não só portuguesa como também em âmbito universal. É comum notar no lirismo de autores expatriados a presença de um sentimento de consciência ambígua. Um sentir que os fazem mesclar em seus discursos poéticos a repulsa e o desejo pelas paisagens perdidas de sua pátria mãe e o anseio em tomar para si aquilo que se vislumbra com um novo acolher materno. Assim, convém destacar o que Julia Kristeva aponta sobre o ser exilado:
 
No ponto mais longínquo em sua memória remota, ela está deliciosamente magoada: incompreendido por uma mãe amada e contudo distraída, discreta e preocupada, o exilado é estranho à própria mãe. Ele não a chama, nada lhe pede. Orgulhoso, agarra-se altivamente ao que lhe falta, à ausência, a qualquer símbolo (KRISTEVA, 1994, p. 12-13).
 
Porém, nota-se na lírica seniana, embora ornada de um amor passional à terra natal, o testemunho de que ter pátria é um estar no presente de um determinado local, enraizado ou não. Muito mais uma noção do que nação de fato. Ser de Portugal, por que lá nasceu, embora ao mundo pertença.  Como camisa que se despem, / se usam e se deitam fora (SENA, 2006, p. 215-217), irá reforçar a ideia de que a verdadeira nação não é a genética nem a adotada, mas sim aquela fecundada dentro de si mesmo; que nacionalidade não é o que se registra em cartório, mas a que se traz na alma.
Essa espécie de símbolo de transferência, apontado por Kristeva, Sena parece retomar, de forma irônica talvez, no poema Raiz, inserido no livro Jorge de Sena: Ressonâncias e cinquenta poemas. Nele, através de uma viagem temporal por diversos escritores exilados e/ou nômades, o poeta se vale primeiramente do significado atribuído à palavra-título, para em seguida desmitificá-la de toda a conotação comum a ela imposta, na qual se subentende que ter nascido em uma terra não é garantia de patriotismo. A propósito, tomemos emprestada a voz do escritor de Metamorfoses através dos fragmentos do poema acima referido:
 
Raízes
 
Raízes? Nem mesmo todas as plantas têm,
e o termo cheira às gritarias de Barrés
(ou voulez-vous que je m’enracine? ? perguntava-lhe Gide)
ou quejandas companhias galicanas pré-facistas,
quando desejavam ? patriotas ? que francesas fossem
 
[…]
 
Raízes outras há: os mortos que nos dormem
na terra que nascemos, na terra onde morreram,
e nos vivem na vida que não tendes nesta Europa finis ?
pilritos fêmeas de outros mundos machos. (SENA, 2006, p. 228-229)
 
Embora não vivesse em Portugal grande parte da vida, Sena foi um escritor português em todos os lugares em que esteve. Autor de uma extensa produção poética, publicada em vida e/ou póstuma, além de uma gama considerável de estudos críticos a ele creditados, imprimiu à sua poesia uma perseguição ascética de uma escrita lusitana, de cantar a sua terra ? às vezes ácida até ?, da mobilização social através da construção artística e de resgatar o legado literário português, principalmente a herança camoniana; poeta de maior apreço pessoal, ao mesmo tempo em que também refletiu o próprio ato de fazer poesia.
O poeta escreveu num período de verdades garantidas pela polícia e, no que tange à produção textual, num contexto em que o fingimento pessoano causou uma neurastenia na originalidade literária portuguesa. Parecia impossível um merecimento autoral sem o crivo assombroso do fenômeno heteronímico e sem o olhar esfíngico da Mensagem. E, embora Sena não fosse uma presença confortável para Portugal durante o regime Salazarista, tão pouco deixou de incomodá-lo, mesmo quando residia no Brasil. Discutiu o proibido até quando se era proibido discutir, antecipando o tempo de responsabilidade democrática que faltava ao povo de Portugal, silenciado deveras pelo medo de seu representante maior e também pela conivência com a surdez criativa de seus escritores. Porém, mesmo sendo talvez o crítico mais radical do cenário português da segunda metade do século passado, não se deve reduzir sua obra à mera militância política e restringir sua figura à sentinela do vazio poético de sua geração. Ela é demasiado emblemática para isso. Sua gordura filosófica se diluiu em pedaços mil ao longo de seu extenso corpo poético. Como um reflexo corajoso do cotidiano, o humanismo seniano se exerceu sobre o circunstancial de sua nação e sobre o estágio atual de um mundo não muito seguro de se viver, embora ciente de que não houvesse outro possível. Tanto, que fazia questão de datar suas poesias, realçando todo seu comprometimento com a contemporaneidade. Um Drummond português, conjugado no presente imperfeito daquele tempo.
Sena sempre esteve imbuído em refletir sobre o ser português, independentemente de sua residência pessoal, mesmo que para isso tivesse que “atacar” o contexto político de seu país de origem e até o seu idioma. Os constantes ataques rotineiramente aconteciam numa tonicidade canora e belicosa (CAMÕES, 2009, p. 26), como se verifica no poema A Portugal, texto no qual derrama toda sua indiferença e revolta contra a “medeia” pátria. Mas, ao negar seu país, evocado em suas estâncias poéticas como metonímia da incompreensão humana e injustiça, o sujeito da enunciação não estaria fazendo um desabafo amoroso a Portugal? Somente os seres acometidos por uma paixão insistentemente não correspondida seriam capazes de testemunhar tão passionalmente um sentimento. Tomemos então por empréstimo os dizeres de um aviso que, em forma de discurso poético, de Amor e de poesia e de ter pátria se quis retratar:
 
A Portugal
 
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela (SENA, 2006, p. 239-240).
 
Não nos cabe aqui reproduzir o poema por completo, mas, mesmo através de uma leitura superficial, nota-se em A Portugal uma poética de consciência lírica paradoxal que, partindo das vivências do sujeito enunciador, busca captar uma realidade fora delas. Ambos, universo subjetivo e realidade vivida, mesclam-se, transferindo para um mundo distinto e mais amplo do que qualquer nacionalidade específica o espaço ansiado; espaço capaz de abrigar um ser exilado dentro si, antes mesmo de qualquer exílio espacial. A madrasta pátria evocada passa a ser então instância primária da dor da vida finita, exercida, todavia, em toda sua imortalidade, mas não o seu ponto final. Cabe então ao ser mortal a perseguição fiel da dignidade humana e deixar testemunhado sua dedicação à honra de estar vivo.
Mesmo adotando uma violência vocabular, Jorge de Sena não se exime de registrar em sua “cantiga de escárnio” a sua preocupação de resgatar o passado histórico-cultural e literário de sua terra. Principia-o ao alevantar, através de um recorte poético, a figura camoniana ? osso filosofal da literatura portuguesa e de grande parte da escrita de Sena ?, mapeando o seu discurso em uma ordem histórico-evolutiva mais ou menos linear. Perpassa-o por suas origens mais remotas até o que, na terceira estância, identifica-se como sendo um arquétipo do urbanismo moderno. Um cenário de progresso que se contrasta ao mesmo tempo com os porcos transeuntes pelas ruas. Mas, muito além de uma voz denunciadora do atraso estrutural e econômico da nação portuguesa, ecoa em A Portugal o descontentamento daquele que observa estanque em uma morada estrangeira a estagnação secular da literatura de sua terra-museu, dirigindo-se contestadoramente, sobretudo, aos poetas seus contemporâneos. Assim, para melhor reforçar o encontro de uma consciência lírica que protesta contra o “estilo” de vida levado por uma mãe displicente, recortemos um trecho de Jorge de Sena, um poeta sem fronteiras, ensaio de Silvio Renato Jorge, no qual ressalta que:
 
Ao exílio, corresponde uma imagem angustiosa da solidão. Acusa-se uma consciência de que, ao desviver a pátria, na sua materialidade objetiva, é possível contemplá-la criticamente. Por não atribuir à origem o peso que o senso comum atribui, compreende em sentido mais amplo o descompasso entre memória e seu objeto, substituindo a saudade, fórmula recorrente na Literatura Portuguesa, pela mágoa ou pelo desprezo… (JORGE. In: SENA, 2006, p. 113-114).
 
Ainda com relação ao exílio na lírica seniana, acreditamos encontrar, conforme referido anteriormente, traços significativos que ultrapassam uma simples reflexão saudosista da pátria. Embora seja uma temática caríssima ao longo de sua obra poética, sua complexidade impede que nos estacionemos apenas nesse único aspecto. Suas multiressonâncias são, além disso, o testemunho do cotidiano do seu tempo, a busca em dar sentido à existência humana e, acima de tudo, o comprometimento do escritor em fazer da vida um exercício poético.
Indissolúvel às vezes no que escreve, o anseio em ter de volta a pátria furtada e o desejo de se reestabelecer em uma casa alheia servem de primeiro plano para uma escrita que vagueia por múltiplas vertentes. Esse passeio ? entendido aqui por nós como deambulação poemática ? perpassa por questões patrióticas, pela documentação da vida presente, pelo resgate cultural e literário ? transitando do clássico ao moderno, das letras portuguesas à literatura ocidental ? pela reflexão da ação poético-construtiva, pela análise da própria poesia, além das mudanças de matizes no decorrer dessa mesma poesia. Antes de nos debruçarmos sobre esses influxos temáticos, convém registrar o apuro com que o poeta sempre idealizou o ato transformador da palavra escrita:
 
Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte constituirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas, principalmente, de outros que nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o seja de fato. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer consciência ou nos afetos tudo, recusando ao mesmo tempo as disciplinas em que outros serão mais eficientes, os convívios em que alguns serão mais prodígios, ou o isolamento de que muitos serão mais ciosos ? eis o que foi, e é, para mim, a poesia (GILDA. In SENA, 2006, p. 165).
 
 

  1. As diversas deambulações de quem muito viu

 
 
Em creta, com o Minotauro
 
I
 
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de
gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.
 
(…)
 
III
 
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu,porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.
 
(…)
 
V
 
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café (SENA, 2006, p. 215-217).
 
Escrito, convém lembrar, após o golpe militar de 1964, ao nível mais exemplar, o poema parece mexer com o dedo sujo nas origens de velhas feridas. Em outro sentido, Jorge de Sena vê novamente nascer, agora no Brasil, a dor de haver nascido em Portugal. É certo que o convívio em solo tupiniquim não lhe angariaram um abrir e fechar despojados a “geladeira” de todas as intimidades dessa casa alheia. Porém, também furtada essa outra roupagem-asilo, que durante alguns anos vestiu com todo o respeito e aprendeu a amar, o poeta transparece uma vontade máxima em deixar registrada sua decepção, não com o país em si, mas com a sensação de ser vendida a novos donos autoritários a pátria onde prestou serviço à arte de fazer poesia.
Ao debruçar sobre a experiência pessoal da diáspora, o poeta visa transpassá-la a um nível de transnacionalidade.  Elege então em versos uma ilha. Não a Grã-Canária, nem a camoniana Ilha do Amores, nem a de Moçambique, onde Camões dejetava o seu lirismo, mas uma ilha-metáfora, sonhada, poeticamente possível, Creta, mas não a Creta dos gregos que não eram gregos ainda. Esta porção de terra onírica corresponde um lugar capaz de abrigar, sob o olhar de deuses sem vergonha, dois seres híbridos em essência: o Minotauro e o sujeito fragmentado que se apresenta nas primeiras linhas do ato inicial. Essa estruturação formal a partir da tragédia clássica, aliás, ressalta os caracteres sobre-humanos, o pathos da personagem central que, consciente de sua situação labiríntica, prevê no esquecimento e no esquecimento de qualquer sentido de nacionalidade o reencontro de si próprio.
E o Minotauro compreendê-lo-á. Ser mitológico tripartido, fruto de uma simbiose entre o que de humano e de deus lhe constitui, não é semideus. É, antes de tudo, um monstro em sua humanidade em pedaços repartida. Essa coisificação em sua essência o aproxima do eu-lírico, porque ambos, fazendo um eco com Álvaro de Campos em sua Tabacaria, são incapazes de reconhecer no espelho as marcas indistintas de seus próprios rostos enrugados.             Trazendo o Minotauro à contemporaneidade insular das chávenas de café, o poeta busca credenciar ao filho adúltero e zoofílico de Pasifaë a depuração total dos signos catárticos de seu poema-peça, justamente por essa natureza dúplice que os particulariza. O café, um dos símbolos modernos dos escritores do século passado, serve de estreito, ao ligar afetivamente numa linguagem afônica, dois seres sem pátrias e sem espírito, / sem nada, nem ninguém (SENA, 2006, p. 215-217).
O estilo pessoano de representação cênica da linguagem poética parece retomado no poema. Mas, enquanto o criador dos heterônimos suscitava a representação da totalidade do mundo através de personalidades recriadas a partir de si, o poeta expatriado prioriza a totalidade de si por meio das personagens do mundo literário. Obra de cunho dramático, dirigida e representada por quem concedeu a si próprio o conteúdo de vida para a composição do roteiro, Em Creta, com o Minotauro seria a encenação autobiográfica de um poeta que atigira o mais elevado grau de sua maturidade artística.
Quando dizemos que Jorge de Sena realiza um percurso deambulatório em sua criação, sobretudo quando nos valemos exemplarmente do poema referido acima, queremos demonstrar o constante trânsito temático inserido em sua escrita. A problemática do exílio implica às vezes o erro de uma análise simplista de sua obra, justamente por propiciar aos seus leitores de pouca humanidade uma zona de conforto. O caráter intimista inicialmente empregado é, a priori, o rito de passagem de uma viagem iniciática que se quer desembarcar em sentidos muito mais profundos. O próprio poeta nos facilita o trabalho ao credenciar à língua portuguesa o modo único de ser realizar a pátria transformada em matéria lírica.  As outras possíveis, no indivíduo, realizam-se.
Muito além de uma simples canção do exílio portuguesa, há no poema uma tensão discursiva mais substancial e plurissignificativa do que o mero patriotismo ufanista ou um vandalismo vexatório com a imagem do país. Helder Macedo defende a perspectiva de que Sena, pretendendo elevar a questão da expatriação a um nível semântico mais representativo, subverte a tríade “Deus, pátria e família”, propagada pelo ditador português, Salazar, ao redecodificá-la em “amor, poesia e pátria”, suplantando assim seus limites. Pátria, exercida, porém, como forma de vida e não de morte, como requisitaram pra si alguns autores. Portanto:
 
“Pátria” e “poesia” (ou língua) revelam-se assim como o mesmo exercício da livre humanidade na perspectiva definida por Jorge de Sena. E o lugar do Deus imposto na tríada salarazarista é ocupado pelo amor, desde o da carne àquele que só de si se move, como dirá no Aviso de Porta de Livraria. Por isso, no arquétipo de eternidade representado na Creta do Minotauro não há lugar para um Deus que tudo unificasse, há deuses, metáforas plurais (e aliás também camonianas) da infinita humanidade (MACEDO, 2007, p. 191).
 
Em sua complexidade, O estilo seniano condiciona quase tudo o que a literatura portuguesa considera como o modo português de escrever. O pensar o processo de criação antes e durante de realizá-lo, atesta a ética com a qual o autor tratava a palavra transformada em arte, justamente por seu modo característico de buscar o sentido da existência humana através da estetização da vivência, já que, segundo o seu entendimento, a arte não poderia ser deslocada da vida.
Seu olhar indagador incita um questionamento sobre a real capacidade transformadora do artista. Mas, antes de se ater à elaboração metapoética pura e simplesmente, sua espantosa erudição nos condiciona uma leitura que, a partir da interdisciplinaridade de seu interesteticismo poético e de suas experimentações temáticas, aponta para o passado um itinerário infinito de formas de recriação de um presente para o futuro. Objetos de investigação, os acervos artísticos e históricos humanos servem de pilares exemplares para uma escrita que, embora esteja radicalizada no processo testemunhal de seu tempo, vê no regresso consciente ao mitológico e às personalidades marcantes da história um veio de questionar a sociedade de sua época. Próprio da modernidade, o retorno aos cânones literários tem em Sena, talvez, um dos seus maiores porta-vozes. Longe, porém, de incorrer em uma eleição arbitrária, o poeta credencia somente as personagens que melhor dialogam com a temática posta em xeque. Essa seleção consciente permite ao artista adotar por vezes uma postura dessacralizadora do passado mitificado.
Compulsoriamente resgatado na lírica seniana, o fantasma camoniano ressurge então, através do criador de Peregrinatio ad loca infecta, como a voz magoada do memorial português. Contudo, o Camões seniano, é pertinente mencionar, não é o Camões exumado por leitores delicados e de vis propósitos patrióticos, mas, antes mesmo de um busto de bronze, um homem “assinalado” nas dores sofridas de uma língua nova.
Alevantado outro valor da língua portuguesa por entre as colônias, o que o autor busca agora é um novo canto que deponha contra o esvaziamento linguístico do século XX. A condição mítica do Minotauro permite que haja uma correspondência entre ambos, mesmo que numa língua também mitificada, o volapuque. Assim, os dois estariam livres para investigar, com um fálico dedo, as partes íntimas da vida, já que, nessa ilha-metáfora, sem pátria e sem idioma, portanto, liberta de tudo, apenas o café que os ata. E finalmente a paz ? a morte, a velhice ou que seja ? poderá dizer da grandeza de estar vivo.
 

  1. 3. Considerações finais

Dono de um acervo criativo diverso, conflituoso e questionador, Jorge de Sena foi a base tutelar dos poetas da geração de 1970 e, sobretudo, uma senão a mais representativa das figuras da poesia portuguesa no cenário pós-Fernando Pessoa. Criador da poética do testemunho, nela o autor imprimiu à sua arte o compromisso diário de catalogar a experiência humana através da escrita. Essas múltiplas mundivivências, insertas num contexto histórico social tumultuado e na constante fuga da repressão ditatorial, servirão de fonte de arquivo para a gênese de seus textos. Mesclando a vida burocrática de um homem simples com um intelectualismo apurado e o fenômeno do exílio com o reencontro de si próprio, sua obra se nos revelará como um processo criativo em constante trânsito. Vale lembrar que a liberdade formal também teve cadeira cativa em sua vida; novas formulações refletidas, sobretudo, em seus recorrentes diálogos interestéticos; na intersecção entre o histórico e o ficcional; na transição de gêneros literários; na multiplicidade de estudos críticos e ensaísticos; na interlocução entre prosa e lírica; em sua experimentação de uma língua autoral e, principalmente, pela violência verbal, pela qual buscou varrer para fora dos tapetes da psique humana, questões que muitos preferiam esconder.
 
Referências
 
ALVES, Ida Ferreira. Jorge de sena e a ética da poesia: “Um testemunho para os poeta de 70”. In. Jorge de Sena: Ressonâncias e cinquenta poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
 
BENJAMIN ,Walter (1994). Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura história da cultura. 7ª Ed. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense.
 
CAMÕES, Luís Vaz de (2009). Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM.
 
JORGE, Silvio Renato. Jorge de Sena: “Um poeta sem fronteiras”. In. Jorge de Sena: “Ressonâncias e Ciquenta Poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
 
KRISTEVA, Julia. Estrangeiro para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
 
MACEDO, Helder. “De amor e de poesia e de ter pátria. In: Trinta leituras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Presença, 2007.
 
MACEDO, Helder. Jorge de Sena, a Grã-Canária e a Ilha do Amor. In: Trinta leituras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editorial Presença, 2007.
 
PESSOA, Fernando. Obra poética: volume único. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1981.
 
SANTOS, Gilda (Org.). Introd. a Jorge de Sena: “Quarenta anos de pública servidão poética”. In: Jorge de Sena: “Ressonâncias e cinquenta poemas”. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
 
SENA, Jorge de. Jorge de Sena: “Ressonâncias e cinquenta Poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
 
TSVETAIEVA, Marina. O poeta e o tempo. Lisboa: Cosmos, 1993.





Bio fornecida pelo palestrante.

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE: POR OUTRAS HISTÓRIAS DA ÁFRICA – Rafaella Cristina Alves Teotônio




 
Rafaella Cristina Alves Teotônio
Universidade Federal de Pernambuco
 
Resumo:
O artigo busca revelar e discutir como a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie consegue diluir os estereótipos acerca da África e de seus povos. Nascida na Nigéria, Adichie é uma escritora em contundente desabrochar literário, reconhecido criticamente por sua postura política e pelo sucesso de seus livros publicados. A autora, que comunga de bastante sucesso também por suas palestras veiculadas na internet, tenta representar em suas narrativas o cotidiano de homens e mulheres de diversos estratos sociais, econômicos, educacionais e culturais. Revelando uma África bem mais diversa e plural do que se ousa saber a partir dos olhos ocidentais. A escrita de Adichie reclama para o seu continente a oportunidade de contar uma “nova história”, além de provocar, como convém o pensamento de Walter Mignolo (2008), uma “desobediência epistêmica”.
 
Palavras chaves: Autoria feminina; teoria pós-colonial; desconstrução; África.
 
Abstract:
This paper aims at revealing and discussing how Chimamanda Ngozi Adichie dilutes stereotypes about Africa and its people in her writing. Born in Nigeria, Adichie is an astonishing writer, critically recognized for her political stance and for the success of her published books. The author, also known for her lectures in TED (as in “The Danger of the Single Story” and “We Should All Be Feminists”), attempts to represent in her narratives men and women from different social economic, educational and cultural strata, revealing a much more diverse and plural Africa than we dare know in western eyes. In her writing she advocates for the right to tell a “new story” for her continent, provoking, as suggests Walter Mignolo (2008), “epistemic disobedience”.
 
Keywords: Female authorship; Postcolonial theory; Deconstruction; Africa.
 
Currículo da autora: Rafaella Teotônio é doutoranda em Teoria da Literatura pela UFPE, mestre em Literatura e Interculturalidade e graduada em Letras pela UEPB. Seu projeto de pesquisa no doutorado centra-se no estudo dos romances do autor luso-africano Valter Hugo Mãe, em específico as questões acerca do humano em suas narrativas.  Desde o mestrado tenta desenvolver pesquisas sobre Literaturas de Língua Portuguesa, em relação também com autores contemporâneos de outras línguas, alguns ainda com pouca fortuna crítica, como Valter Hugo Mãe e Chimamanda Ngozi Adichie. Também se interessa por estudos comparativos, crítica feminista e representações de minorias.
 
Histórias importam
Contar novas histórias acerca de um continente reconhecido por uma única história tem sido o empenho da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Nascida em Abba, Nigéria, em 1977, vinda de uma família de classe média, a autora tenta representar em sua literatura imagens de uma África diferente da que foi escrita pelo Ocidente. Em suas obras, as diferenças se cruzam em relações de conflito ou de troca, dependendo das estratégias identitárias e dos afetos mantidos pelos personagens. Retratos de uma Nigéria pós-colonial, marcada por guerras e tentativas de desenvolvimento.
Ao contar várias histórias sobre um mesmo lugar, Chimamanda Ngozi Adichie prioriza em sua escrita uma diversidade temática acerca da África e principalmente de seu país de origem.  A preocupação da autora em negar os estereótipos africanos criados pelo imaginário ocidental tem como influência significativa sua experiência de vida. Adiche estudou nos Estados Unidos e na Inglaterra, tendo passado a infância e adolescência no campus universitário de Nsukka, cidade nigeriana. Filha de pais professores universitários, a autora teve contato com um mundo africano diferente daquele reconhecido somente pela miséria e por guerras.
Com três romances publicados, dentre eles, Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2003), Hibisco roxo (Purple Hibiscus, 2006) e Americanah (Americanah, 2013), além do livro de contos A coisa à volta do teu pescoço (The Thing Around Your Neck, 2009) e o de poemas Decisions (1997),  a autora, a partir da variedade de personagens de suas obras, tenta enriquecer a complexidade de suas histórias e tornar fiel a representação do hibridismo de seu país. No universo de sua literatura podemos encontrar pessoas ricas e pobres, vindas da cidade ou de aldeias, instruídas e não instruídas, intelectuais, mulheres submissas, mulheres empresárias, estrangeiros, nativos alienados pela cultura europeia, dentre outros. Uma Nigéria moderna dividida entre as tradições e o processo de modernização, um país pobre, um país rico, um país em guerra, um país de mulheres independentes e de homens revolucionários. Entre suas temáticas versam a tentativa de entender a identidade nigeriana, a diversidade de religiões e crenças, o contato com o mundo estrangeiro e as diversas questões que permeiam o universo de seu país.
Em discurso no evento Technology, Entertainment and Design (TED), organização não-governamental que proporciona conferências sobre Tecnologia, Entretenimento e Design, Adichie fala da infância feliz em Nsukka, morando na casa em que também morou o escritor Chinua Achebe, dos livros estrangeiros em que encontrava climas, frutas e bebidas diferentes das que conhecia, das histórias que escrevia durante a infância imitando os escritores estrangeiros, do período de escassez alimentar e do contato com os livros africanos que lhe proporcionaram uma maior identificação com a literatura.
Nesse discurso, pronunciado em 2009 e publicado no YouTube, intitulado “O perigo de uma única história”[1], Adichie tenta alertar para o perigo de uma única história acerca de um lugar, como foi criada a visão estereotipada que via os africanos como selvagens, além de demonstrar sua preocupação em mostrar a diversidade cultural existente na África através da sua ficção.
Ao iniciar a sua fala, a autora conta como ficou surpresa ao descobrir que a família do garoto que trabalhava em sua casa tinha produzido um cesto lindo de ráfia seca, feito artesanalmente. Quando criança, Adichie só podia pensar no garoto da forma que sua mãe falava dele, enfatizando a pobreza de sua família, não conseguindo imaginar que eles pudessem ter a capacidade de confeccionar tal objeto. Assim, a autora começa a discorrer sobre O perigo de uma única história, sobre como uma única face de uma história pode influenciar o pensamento de quem a ler ou a escuta. Ao falar acerca da família de Fide, o criado de sua casa, como o seu personagem Ugwu de Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2003), ela diz: “Sua pobreza era minha única história sobre eles”. Esse artigo tenta observar como a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie encontra nas várias histórias de um povo a forma de diluir e problematizar visões monolíticas sobre lugares, crenças, identidades e afetos.
 
Uma visão pós-colonial
Chimamanda Ngozi Adichie refaz em seus escritos a África, reconta histórias que foram deformadas pelo colonialismo e pelo imperialismo. Tal estratégia encontra na Teoria pós-colonial um fundamento, trata-se de uma tentativa de revisão do olhar europeu sobre os sujeitos e nações pós-coloniais, relocando a voz e colocando tais sujeitos em condição de atores, dessa vez, protagonistas de suas próprias histórias.
Adichie alertou para o estereótipo que se criou acerca da África e acerca de muitos povos do oriente a partir dos olhos ocidentais. A autora termina sua palestra no TED dizendo: “histórias importam, muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno, mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar”.
A partir da fala da escritora africana pode-se compreender como as narrativas foram usadas de diferentes modos pelas culturas e pelos povos, e como a disseminação delas criou imagens e estereótipos sobre lugares e grupos de pessoas, favorecendo a luta pelo poder, mas também dignificando ou dando existência a pessoas e lugares. Edward Said (2011), em seu livro Cultura e imperialismo, buscou analisar como a literatura inglesa construiu e influenciou o imaginário do colonialismo. Analisando obras como O coração das trevas, de Joseph Conrad, Said propôs reinventar a história sobre os povos colonizados, dando a esses o lugar de protagonistas. De acordo com Said, a literatura inglesa do século XIX colaborou com o estereótipo da África enquanto lugar misterioso, selvagem, “das trevas”, assim como também foi referência para ações e atitudes imperialistas.
O principal objeto de disputa no imperialismo é, evidentemente, a terra; mas quando se tratava de quem possuía a terra, quem tinha o direito de nela se estabelecer e trabalhar, quem a explorava, quem a reconquistou e quem agora planeja seu futuro – essas questões foram pensadas, discutidas e até, por um tempo, decididas na narrativa. Como sugeriu um crítico, as próprias nações são narrativas. O poder de narrar, ou impedir que se formem e surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui umas das principais conexões entre ambos (SAID, 2011, p.11).
A teoria pós-colonial, da qual Said é um de seus representantes, tenta reinventar a história do colonialismo pela ótica do colonizado (MATA, 2007). Trata-se de analisar as consequências e influencias do colonialismo nas nações pós-coloniais. A literatura é um dos objetos de estudo mais analisados pela Teoria pós-colonial, pois ela exprime enquanto documento histórico e objeto estético as décadas de silenciamento dos povos colonizados e das mudanças ocorridas nas nações emergentes com a independência. Foi a partir da literatura, enquanto campo de batalha e protesto, que muitas nações foram influenciadas a resistirem ao imperialismo, sendo as literaturas africanas as mais representativas para esse debate. Trata-se de provocar estratégias que tentam desautorizar narrativas tidas como absolutas, provocar uma “desaprendizagem”, como Walter Mignolo (2008) observa, numa maneira de aprender novas epistemologias e reinscrever as vozes daqueles que foram silenciados.
Mais importante, as grandiosas narrativas de emancipação e esclarecimento mobilizaram povos do mundo colonial para que se erguessem e acabassem com a sujeição imperial; nesse processo, muitos europeus e americanos também foram instigados por essas histórias e seus respectivos protagonistas, e também eles lutaram por novas narrativas de igualdade e solidariedade humana (SAID, 2011, p. 11).
Durante o período de independência, as literaturas dos países africanos, sendo as detentoras mais urgentes de saberes, em comunidades com sérios problemas educacionais, tiveram papel importante para a compreensão do período e para a luta anticolonial, o que se pode entender também pela adesão da escrita literária por muitos intelectuais ativistas.  As literaturas africanas, assim como outras, tentaram afirmar as identidades de seus países, saqueados culturalmente pelo colonialismo, culminando num movimento nacionalista e de resistência, em que a obra literária era usada por muitos escritores como arma na guerra colonial.
Assim como na literatura brasileira, no romantismo e no modernismo, as literaturas dos países africanos tentaram reinventar signos, mitos e imagens sobre a África, tentando resistir à exterminação cultural e buscando enfatizar um sentimento de identidade. Porém, contemporaneamente, o desgaste dessa necessidade identitária surge da autoconsciência dos escritores perante a impossibilidade de reconstituição de tradições e o alerta para os problemas internos gerados pela independência, assim como a homogeneização trazida pela globalização.
Essa autoconsciência torna ainda a cultura na África problemática e gera um debate recorrente em suas literaturas, como nas obras de Mia Couto, Paulina Chiziane, como também nas de Adichie. Teria a África e suas literaturas que lidar sempre com o passado colonial? Russel Hamilton (1999) diz que os africanos avançam para o futuro “de costas”. Mia Couto, em edição de 2012 da Fliporto falou sobre a importância de esquecer o passado, numa tentativa de exorcizar o ressentimento. Tais questões são discutidas pela Teoria pós-colonial e não chegaram a uma conclusão.
É fato que as culturas africanas sofreram com a violência exercida pelos anos da colonização e alguns danos não conseguiram ser reparados, porém, como discute Said, o colonizado, o nativo, nunca foi passivo nessa batalha e, se as comunidades hibridas africanas são o resultado da colonização, os costumes e valores estrangeiros não foram todos impostos pelo colonizador.
Ella Shohat criticou em A crítica da imagem eurocêntrica este estigma do ex-colonizado e de suas comunidades como hibridas. Discutindo que a Europa também foi formada por diversas culturas.  A preocupação da estudiosa é de esclarecer a Teoria pós-colonial e desmascarar certas tendências que culminam numa lógica ainda eurocêntrica.  Segundo a autora, o elogio à diferença e a autoafirmação da identidade subalterna pela Teoria pós-colonial pode “santificar” ou justificar a violência cultural exercida pelo colonialismo.
Voltando a discussão sobre o passado ainda presente na África e em suas literaturas, é preciso que se busque um entendimento da África na sua contemporaneidade, na defesa de uma cultura ativa e não numa identidade auto-excluída que apela para o ressentimento e a folclorização do passado (que tende a ser mastigado pela globalização como mercadoria exótica), na vanguarda de suas literaturas e na riqueza de sua diversidade, sem com isso arrancar da história o passado que agora deve ser reinventado, como um passado de resistência e não de escravidão.
Tal visão pode encontrar nas obras de Chimamanda Ngozi Adichie uma representação. No vídeo O perigo de uma única história, Adichie lembra que quando criança lia muitos livros britânicos e americanos, era uma escritora precoce e, nas histórias que escrevia seus personagens sempre eram brancos, de olhos claros e comiam maçãs como nesses livros, porém, sua vida não era compatível com essas histórias, tão pouco com os personagens que encontrava nelas. A autora conta como foi importante o encontro com as literaturas africanas e com escritores como Chinua Achebe e Camara Laye:
As coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e nem eram tão fáceis de encontrar como os estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele de cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura.
Ao contar sua experiência pessoal com a descoberta das literaturas africanas e com as várias faces de uma história, Adichie aborda a importância da literatura no reconhecimento das identidades, na disseminação de imagens acerca de povos e lugares que podem perpetuar os preconceitos ou trazer visões diferentes acerca de um mesmo lugar. Essa mesma postura desconstrucionista pode ser encontrada em outra palestra da autora para o TED, em Sejamos todos feministas (We Should All Be Feminists) Adichie alerta: “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura”. Foi com esse posicionamento contundente que a autora provocou em seus romances discussões acerca dos costumes machistas perpetuados por algumas tradições, buscando discernir entre o resgatar a tradição extirpada pela colonização, tema intrínseco as literaturas africanas, e o entender o papel dela na contemporaneidade. Em suas obras a autora privilegia as várias histórias sobre a Nigéria, as diversas histórias com as quais ela teve contato e das quais ouviu falar ou criou para dar corpo aos debates contemporâneos acerca da diferença, desigualdade e alteridade presente na sociedade nigeriana. Como compreende Anderson Bastos Martins (2011, p. 111):
Chimamanda representa uma das várias oportunidades que o continente africano possui hoje de reclamar para si o espaço simbólico internacional que os séculos de exploração colonialista lhe negaram. Ela é a mulher negra que desconstrói a gama de estereótipos que o Ocidente disseminou a fim de justificar sua empreitada imperialista.
Adichie é uma das escritoras contemporâneas africanas que escreve sobre a África numa perspectiva transcultural, em que as diversas identidades dos sujeitos africanos são compreendidas em suas obras no debate sobre as relações de alteridade, nos conflitos internos marcados pela experiência da independência e pela influência externa da modernização.
No debate acerca da alteridade, tema presente nas obras de Adichie, pode-se perceber um recurso que leva o leitor a compreender a contemporaneidade dos debates sociais e culturais africanos a partir das relações internas entre os personagens. Esse jogo entre o local e o global, privado e público, revela a tentativa da autora em aproximar o leitor, familiarizá-lo com as situações vividas pelos personagens. As literaturas africanas, ainda estigmatizadas por uma visão essencialmente nacionalista, em que seus temas discorrem acerca do social e sobre as suas culturas que parecem estranhas aos leitores ocidentais, acabam por se distanciar desses mesmos leitores influenciados por uma crítica que potencializa a análise social dos textos literários africanos.
Entretanto, o texto de Adichie parece aproximar esses leitores “estrangeiros”, pois ela tenta criar uma visão diferenciada sobre a África, o que se configura na escolha por personagens de classe média, empresários, intelectuais, universitários, urbanos, cristãos, e, claro, sem esquecer dos personagens pobres, sem escolaridade, rurais e tradicionalistas. A gama de personagens diferenciados, das diversas camadas sociais, financeiras e educacionais, traz o horizonte próximo à realidade dos leitores “ocidentais” que se impressionam com a desmistificação do estereótipo que tinham acerca das sociedades africanas, das quais creditavam ser constituídas somente por uma imagem exótica.
Adichie se preocupa em representar os vários lugares de uma Nigéria constituída pela diversidade, ao caracterizar os espaços urbanos e os indivíduos escolarizados e, muitas vezes, eurocêntricos. Ao fazer isso, ela instala a modernidade nas literaturas africanas, uma modernidade que não tenta se igualar à homogeneização proposta pelos processos de modernização impostos pelo Ocidente, mas uma modernidade local, própria, marcada pelos processos decorrentes da globalização, mas que também negocia com o global a partir de suas singularidades locais, instaurando uma modernidade complexa, transcultural e problemática (TEOTÔNIO, 2013).
Na escolha pela desmistificação dos estereótipos, a maneira com que Adichie prioriza o discurso acerca da diferença e da alteridade é apresentando ao leitor a partir das situações familiares de muitos africanos. Em seus livros, a escolha de núcleos em que despontam histórias de relações entre sujeitos que possuem parentescos revela a tentativa da autora em tornar os personagens familiares aos leitores, além de tentar proporcionar uma normalidade a temas que muitas vezes fogem à realidade de leitores estrangeiros, como também representar as semelhanças entre as histórias contadas no Ocidente com as contadas na África. A estratégia de Adichie é moderna e tenta também afastar as literaturas africanas do rótulo de uma literatura com fins sociais, sem, contudo esquecer de abordar os problemas sociais, mas a partir da comunicação entre o privado e público, proporcionar ao leitor a reflexão acerca dos velhos e novos problemas africanos.
 
Muitas histórias importam
Em Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2008), o retrato de uma época de duras transformações na Nigéria é feito por Chimamanda Ngozi Adichie com minúcia, caracterizada num grupo de personagens diversos, tão híbridos quanto a nação nigeriana. Os personagens principais do romance, as irmãs Olanna e Kainene e o professor catedrático Odenigbo, também namorado de Olanna, trabalham ativamente na tentativa de tornar  Biafra independente. A residência de Odenigbo e Olana na narrativa é visitada por diversos intelectuais que discutem acerca da situação política e social do mundo e, em especial, da África. Em meio a esse ambiente, Ugwu, menino que veio da aldeia para trabalhar como criado na casa do professor descobre-se maravilhado com o novo universo que encontra distante da vida tradicional da aldeia. Enquanto isso, Richard, tímido britânico com aspirações a escritor, por mais que represente a cultura do colonizador, não demonstra nenhum preconceito pela cultura africana, o que se torna visível na obra em suas relações com os personagens nativos e em sua paixão devotada por Kainene.
Em Hibisco roxo (Purple Hibiscus, 2011) personagens diversos se cruzam e se chocam revelando as diferenças constituintes de uma sociedade como a nigeriana. No encontro com a diversidade, a autora representa um mundo onde os diferentes convivem cotidianamente, em relações que podem ser conflituosas, segregacionistas ou apaziguadoras. Na narrativa, Kambili é a personagem-narradora capaz de emprestar ao leitor um olhar adolescente, observador e descobridor de um mundo de diferenças e contradições. A partir do seu olhar o leitor pode descobrir uma sociedade em que as identidades foram deformadas e transformadas pela presença do colonizador. Com a personagem é possível observar a origem dos preconceitos e suas contradições. Numa família de educação rígida e cristã, a protagonista sofre com o fanatismo religioso de seu pai, Eugene (também chamado, na narrativa, de Papa), rico empresário com sérias dificuldades de aceitação das práticas religiosas tradicionais, revelando um comportamento ambíguo e violento. Beatrice, mãe de Kambili, é uma esposa submissa e maltratada pelo fanatismo do marido.
Kambili e seu irmão Jaja viajam para Nsukka, cidade universitária da Nigéria, para passarem uns dias na casa de Tia Ifeoma, mulher progressista, professora universitária que cria os filhos de maneira libertária, diferentemente de sua cunhada Beatrice. Ao estarem na companhia dos primos Amaka, Obiora e Chima, do Padre Amadi e do avô Papa-Nnukwu, Kambili e Jaja encontram um novo universo, onde a modernidade provocou relações íntimas entre as crenças e obrigou comunidades pobres a buscar pelo progresso depois da derrocada do Estado de Biafra[2].
A comunicação estabelecida entre o público e o privado é um sintoma presente nas literaturas africanas contemporâneas e demonstra a maneira com que essas literaturas tentam encontrar esta “modernidade própria” e se livrar do nacionalismo literário desgastado pelas outras gerações de escritores africanos. Homi K. Bhabha (2005) entende a aproximação do privado e o público, no discurso dessas literaturas, como reconhecimento de um período conturbado de diversidade cultural em que a história invade o espaço doméstico. O indivíduo sente-se estranho ao lar, que na metáfora colonial é o seu lugar de pertença, ao qual ele revela estranhamento por esse estar demasiado transformado pela invasão estrangeira. Sua primeira reação é a de recusa e de rememoração do passado em que o seu lar era familiar, mas logo depois ele permite o encontro e há o reconhecimento do intercultural. Traduzida a metáfora colonial no discurso das literaturas africanas, essas abordam o reconhecimento do encontro, as situações cotidianas que revelam a interferência do público no privado.
Tal prerrogativa pode ser analisada também no livro de contos A coisa à volta do teu pescoço (The Things Around Your Neck, 2009), que sucumbe o social ao privado, buscando tratar das relações familiares, principalmente dos africanos ou descendentes de africanos radicados em outros lugares, como os que vivem nos Estados Unidos.
 
Conclusão
Chimamanda Ngozi Adichie entende a importância de não apagar da memória a exterminação cultural que a colonização proporcionou. Trata-se de entender a impossibilidade de restituição do passado sem que, com isso, seja promovido o esquecimento da violência física e cultural sofrida pelos africanos durante a colonização. Se, na narrativa de Adichie, podem-se perceber os personagens em polos contrários, com o intuito de colocar em debate a exaltação dos costumes europeus, o preconceito às tradições ou até mesmo a crítica ao patriarcalismo dos costumes africanos e a ineficácia de algumas tradições na contemporaneidade, podem-se observar também personagens híbridos que se mantem no “entre-lugar”.
Chimamanda Ngozi Adichie é uma das escritoras contemporâneas que buscam compreender a África em sua complexidade, sem mistifica-la ou imacula-la. Entende que a colonização e o imperialismo, assim como os conflitos internos gerados por uma elite política, são apenas uma das muitas faces de uma história chamada África.
 
Referências bibliográficas:
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco roxo. Tradução Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio Sol Amarelo. Tradução Beth Vieira.  São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A coisa à volta do teu pescoço. Lisboa: Dom Quixote, 2010.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. Lisboa: Dom Quixote, 2013.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
CHAVES, Rita. O passado presente na literatura africana. Revista Via Atlântica, n. 7. out. 2004, p. 147-161.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Tradução Adelaine La Guardia Resende.  Belo Horizonte: Editora, UFMG, 2009.
HAMILTON, Russel. A literatura dos PALOP e a Teoria Pós-colonial. Rio de Janeiro: Revista Via Atlântica, n.3, dez, 1999.
MARTINS, Anderson Bastos. Interlúdio: Duas mulheres nigerianas, uma experiência privada. Revista Olho D’água. São José do Rio Preto, 2011.
MATA, Inocência.  A literatura africana e a Crítica pós-colonial: Reconversões. Luanda: Editorial Nzila, 2007.
MIGNOLO, Walter. Desobediência epistêmica. A opção descolonial e o significado de identidade em política. Rio de Janeiro. Cadernos de Letras da UFF. Dossiê Literatura, língua e identidade. Nº 34, 2008.
SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
SHOHAT, Ella. STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. Tradução de Marcos Soares. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
TEOTÔNIO, Rafaella Cristina Alves. Por uma modernidade própria: o transcultural nas obras Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie e O sétimo juramento, de Paulina Chiziane. Anais do XIII Congresso Internacional da ABRALIC: a internacionalização do Regional. Campina Grande, PB, 2013. Disponível em: http://editorarealize.com.br/revistas/abralicinternacional/trabalhos/Completo_Comunicacao_oral_idinscrito_593_6188c383826e024bbade87b654b074a5.pdf
 
 
 
 
[1] O vídeo O perigo de uma única história (The Danger of the Single Story) pode ser visto através do link: http://www.youtube.com/watch?v=O6mbjTEsD58.
[2] No pós-1945, os povos iorubás tentaram estabelecer um estado independente, culminando com a resposta dos ibos, traduzida numa eleição para presidência do Estado ibo, institucionalizando as diferenças entres os povos da Nigéria, que, a cada dia, mais enfraqueciam os elos, havendo, portanto, confrontos que terminaram na criação do Estado independente de Biafra. No entanto, a guerra pela fundação desse Estado independente de Biafra não teve êxito e a Nigéria conseguiu unificar seu território com o apoio da Grã-Bretanha e da URSS.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

 A INTERNET COMO UM NOVO MURO: A POPULARIZAÇÃO SEM GRAFITE DA OBRA DE PAULO LEMINSKI – Patricia Maria dos Santos Santana




Patricia Maria dos Santos Santana
 
Doutoranda em Literatura Comparada – UFRJ
 
 
 
Currículo: Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas nacionais.
 
Resumo: Paulo Leminski tornou-se um dos escritores mais lidos da Era Digital.  Seus poemas rápidos encaixam-se com facilidade na comunicação breve do Twitter e do Facebook.  É a Internet possibilitando a popularização de obras e de escritores que antes somente transitavam num circuito mais privado. Sinais de um novo tempo.
 
 
Palavras-chave: Internet. Poesia. Popularização. Paulo Leminski.
 
Abstract: Paulo Leminski became one of the most reading writers of the Digital Age. His fast poems easily fit in the brief Twitter and Facebook ways of communication. It is Internet giving opportunities to the popularization of works and writers that used to be in a private space. These are signs of a new time.
 
Key Words: Internet. Poetry. Popularization. Paulo Leminski.
 
 
 
A INTERNET COMO UM NOVO MURO: A POPULARIZAÇÃO
SEM GRAFITE DA OBRA DE PAULO LEMINSKI
 
           
Patricia Maria dos Santos Santana
 
Doutoranda em Literatura Comparada – UFRJ
 
 
 
 
                                                         O mundo aparece assim como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem ou se combinam e, por meio disso, determinam a textura do todo.
 
(Heisenberg)
 
 
Introdução
 
Na década de oitenta, o escritor Paulo Leminski alegava que ao grafitar em Curitiba, sua cidade natal, ele podia ter um grande número de leitores para sua obra e pensamento. Afirmava que numa esquina bem movimentada, cerca de quinze mil pessoas por dia podiam ler um grafite. Perguntava-se, então: “Qual poeta no Brasil conseguiria tantos leitores em livros?”. Por ironia da vida, Leminski também conseguiu tornar-se bastante lido mais tarde, já falecido, sem precisar utilizar seus grafites capazes de chamar a atenção dos mais desavisados. Ele tornou-se um dos autores mais lidos noutro forte veículo de expressão, mais contemporâneo, menos underground que um muro e igualmente radical: a Internet. Leminski mostra-se, apesar de morto, mais vivo que nunca.
É um traço cultural da era pós-moderna. A sociedade contemporânea passa por uma hibridização entre práticas tradicionais e digitais. A Internet ganhou ênfase nos rumos que ditam os comportamentos e gostos sociais. Uma mistura que fez com que todas as áreas e níveis da sociedade contemporânea fossem atingidos e, assim, a Literatura, devido a sua relevância social, não poderia ficar imune ao processo. É algo tão intenso que Coscarelli (2009) mencionou que o digital está impregnado em nós, pois vivemos, somos e fazemos o digital… Isso faz parte de nós, cidadãos inseridos no mundo contemporâneo. E tudo isso abre caminho para que as práticas tradicionais se reinventem. Como as novas gerações de leitores são fortes usuárias da Internet e dos recursos por ela disponibilizados, ficou mais fácil divulgar no heterogêneo cenário comunicacional da rede. Ademais, no universo da Web, os leitores não são espectadores passivos. Eles atuam como coprodutores de Cultura nesse momento onde tudo possibilita gerar um compartilhamento da parte do público. Esse fenômeno ocorre porque, como apontou Jenkins (2009), nessa nova era os consumidores estão reivindicando o direito de participar da Cultura, sob suas próprias condições, quando e onde desejam. Apropriam-se disso porque as redes sociais viabilizam essa enorme divulgação de autores, poemas, romances, etc., uma vez que quem lê seus autores prediletos facilmente consegue postar trechos de suas obras na rede. Devido a este momento cultural específico, pesquisas apontam que Leminski tornou-se, juntamente com outros autores (como Clarice Lispector, por exemplo), um dos grandes nomes da atualidade. Paradoxalmente, um escritor da geração mimeógrafo, geração de escritores que nos anos oitenta compreendia um número seleto de autores que escreviam para um também seleto grupo de leitores, torna-se um dos nomes mais lidos atualmente por conta da fama que seus poemas e aforismos receberam na Web.
 
Eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
 
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
 
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois.
 
(LEMINSKI, 2013, p. 401)
A sopa de Leminski, há tempos, já engrossou.
 
A poesia leminskiana e o novo leitor
Com a facilidade de disseminação que a Internet possui não é difícil ver escritores que alcançam a fama com rapidez, despertando em seus leitores a vontade de buscar por determinado livro ou até mesmo mais trabalhos daquele autor.  Hoje em dia, as editoras nacionais têm no Facebook ou no YouTube suas maiores formas de divulgação de lançamentos. Bem ou mal, a Internet propaga a leitura. E, no caso específico de Leminski, sua literatura tem o poder de cativar novos públicos com facilidade. Foi justamente por intermédio de sua popularidade nas redes sociais que uma conceituada editora dedicou a Leminski uma série de livros em forma de coletânea. Um fato jamais ocorrido na obra do autor anteriormente. Um fenômeno motivado pela ajuda, mesmo que indireta, dos usuários das redes sociais, leitores ativos, coparticipantes, que não apresentam medo de percorrer novos campos.  Como nos diz Roger Chartier (1998), o leitor é um verdadeiro caçador que percorre terras alheias. Desbravando novas terras, esse leitor pisou em terras leminskianas, abrindo-as ao mundo e tornando Leminski mais pulsante e vivo entre nós, fazendo-nos lembrar de seu poema “Sintonia para pressa e presságio”, onde o poeta nos diz:
 
Escrevia no espaço
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
(…)
 
(LEMINSKI, 2013, p. 251)
 
Fazendo uma leitura do citado poema, poderíamos ironicamente afirmar que Leminski parecia entender o que estava reservado para ele no futuro. Sintonizado ao presságio do título, sentia que não escreveria mais no espaço de um muro, pois estaria para sempre escrito no infinito do tempo e na alma de todos, graças ao poder de certa força arrebatadora do momento, uma luz contemporânea chamada Internet. A poesia de Leminski tornou-se essencial na atualidade no que tange essa mistura bem-vinda do modo de composição de seu trabalho, numa escrita híbrida, cheia de oralidade, contaminada com um falar e pensar pulsantes, fragmentando ideias, criando rotulações para essa vida rápida na qual estamos inseridos. Assim, sua poesia cai no gosto do público por ser breve, rápida, cabendo direitinho nos caracteres do Twitter e nos quick posts do Facebook.
Heloisa Buarque de Holanda (1998) menciona que mesmo considerando um aquecimento do mercado de poesia, não seria possível afirmar que a facilidade de sua publicação corresponda também a uma facilidade similar no escoamento e circulação dessa produção. De todos os gêneros artísticos, a poesia é o que está mais alijado do mercado. Esse alijamento se traduz em escassez de leitores, confinando quase que fatalmente o público leitor de poesia aos próprios poetas e simpatizantes. Com isso, temos mais um ponto a favor de Leminski. Hoje, seus poemas tornaram-se tão admiráveis que o autor é líder em vendas. Fato altamente rentável às editoras que o publicam.
Não podemos nos esquecer de que nesse novo tempo de Internet, os fragmentos parecem falar pelo todo e nos proporcionam outras possibilidades de contemplação de leitura. Em um momento onde a leitura é mais dinâmica e bastante fragmentada, não é difícil observar também pseudoleitores que afirmam ter lido obras de determinados autores sem nunca, de fato, terem lido sequer um livro desses autores por completo. Na facilidade da Internet que permite o colar, salvar, recortar, nós observamos uma falsa intimidade entre leitores e obras. Todavia, estudiosos depositam confiança nessa relação metonimística, digamos assim. Alegam que ocorreu nessa nova era o aparecimento de um novo perfil de leitor e esta situação é bem-vinda, pois são leitores que conseguem fazer diversas atividades num mesmo tempo, atendendo atuais demandas modernas.  Beiguelman afirma que
 
Celulares e PDAS remetem, acima de tudo, a situações em que o indivíduo está sempre envolvido em mais de uma atividade (dirigindo e falando, por exemplo), interagindo com mais de um dispositivo e desempenhando tarefas múltiplas e não correlatas (2003, p. 79).
 
 
Lucia Santaella (2003) menciona que o leitor virtual desenvolveu um sexto sentido conectado ao clique do mouse e quanto maior a interatividade, mais profunda será a experiência de imersão do leitor. O leitor pós-moderno, está acostumado a toneladas de informações sobre ele, mas não se achata com elas, uma vez que é um indivíduo acostumado com a rapidez dessas informações.
 
Na era do efêmero
Inegavelmente, a Internet é um marco no modo de ler, na medida em que há mais acesso aos livros. A leitura e o leitor se modificaram e as novas tecnologias dinamizam e potencializam o processo de consulta a obras.  Temos economia de tempo, socialização da consulta e da pesquisa. O acesso tornou-se mais fácil. Os textos agora permitem intervenções, alterações, colaborações e, inclusive, dúvidas quanto à autoria. O ciberespaço é interativo, efêmero, reciclável, mediado, fluído, líquido…  A Internet age, então, como uma alavanca para o bem ou para o mal. Numa nova era obcecada por e-books e pelos textos rápidos que cabem nos posts do Facebook, Twitter, do extinto Orkut e de outras redes sociais, Leminski caiu no gosto popular. A existência de comunidades que indicam livros, autores, séries, sagas e trilogias e que também disponibilizam o download rápido de diversos títulos, veio agitar mais o mundo literário. E quando um e-book apresenta-se tão caro quanto um livro físico, rapidamente aparece um leitor interessado em disponibilizar a mesma obra de forma digitalizada, ou seja, copiada através de scanner.
A Internet também reorganiza o clássico e o novo. Rearruma o que passou com o que acabou de surgir. Dá um sentido democrático à literatura garantindo o acesso a autores que fazem parte do cânone, que não fazem parte do cânone, que se tornaram celebridades atuais do dia para a noite e autores em fase de divulgação de seus primeiros trabalhos. Ela parece lutar para tirar das mãos de um seleto grupo o poder de conceituar a chamada “literatura de qualidade”, num momento onde tudo pode gerar um texto literário e todos parecem fazer literatura.
A Modernidade Líquida definida por Bauman (2003) nos permite apreciar que mudanças significativas na vida da sociedade que se cristalizaram por séculos e décadas, agora não duram mais que meses ou semanas.  Vivemos numa sociedade marcada por sentimentos de mobilidade e individualidade, do ponto de vista das relações sociais, comportamentos individuais, hábitos de consumo, vida amorosa… A impressão que se tem é que a estabilidade e a solidez perderam seus sentidos, sendo substituídas pela autonomia e pela necessidade de renovação e reorganização. Tudo é líquido, leve e não pode ser ‘preso pelas mãos’.
Nascimento nos mostra que temos na atualidade um sujeito descentralizado e
 
relacionado a uma gama de transformações culturais emergidas no âmbito da modernidade, a constituir um tema bastante atual e amplo, discutido em diversas áreas do conhecimento, entre elas, a literatura. A noção de sujeito centrado, dotado de razão e consciência, conhecido como sujeito cartesiano, referência às discussões filosóficas de Descartes, aos poucos, vai dando lugar a uma concepção mais social do sujeito, uma exigência da complexidade que caracteriza a sociedade moderna (NASCIMENTO, 2011, p. 541).
 
Na observação incessante de si e do mundo, no encontro com o que está fora tentando entender o que há por dentro, Leminski se confessa e, ao mesmo tempo, se torna porta-voz de diversos homens atuais. Isto tornou seu trabalho extremamente relevante na atualidade, fazendo de Leminski o grande representante poético da era virtual pelas telas dos computadores brasileiros. Com poucas linhas Leminski consegue fazer com que o leitor sinta, viaje, pense. A escrita é leve, porém violenta, tornando difícil colocar em palavras o impacto que essa leitura causa. São sentimentos conflitantes, mas que, paradoxalmente, se encaixam com perfeição. Leituras que falam sobre o amor, sobre a vida, sobre medos, sobre alegrias e tristezas. Fala sobre assuntos comuns, temas corriqueiros, mas que ganham alma e abordagens diferentes nas mãos do poeta marginal. Seus poemas curtos são precisos na descrição, mas refletem a profunda desestabilidade do sujeito contemporâneo:
 
Hamburger preconiza sobre a existência, na modernidade, de “um eu que se tornou fluido e volátil”, ratificando a questão da identidade descontínua. Essa crise do sujeito relativizado concorre, muita vez, para o projeto de uma “poesia objetiva”, formulada por uma subjetividade cravada, como dissemos, na alteridade. Sintomático dessa perda de estabilização do sujeito é também a opção pelo poema curto que, filiado ao prosaico, ao popular, ao humor, buscados no haicai japonês, corrobora também o parentesco com Oswald de Andrade. Em Leminski, tais poemas tendem a valorizar o fragmentário e o aparentemente trivial, a constituírem formas de captar instantes de um mundo objetivo e exterior, onde o eu – lírico encontra-se, muita vez, ausente. A elisão do sujeito expressa uma certa objetividade a permitir que as coisas possam existir, sem interferência e /ou olhares particulares.
(…)
Assim, o sujeito, quando sente esboroar sua integridade, assumindo-se fragmentado, se afugenta na própria linguagem, fazendo dela não mais um espaço onde tradicionalmente se pronuncia a si e/ou se confessa, mas onde se encontra com o que está “fora”, revelando a postura de um sujeito que observa a si e aos outros, tanta vez, a esgarçar as fronteiras entre o lírico e o narrativo (…) (NASCIMENTO, 2011, p. 544-545)
 
Leminski encontra-se e se perde. Está presente e, ao mesmo tempo, ausente. Fala de tudo e de nada.  É ele mesmo, é todo mundo e não é ninguém. Nos temas banais sublima as dores do mundo no mesmo momento que debocha delas. Leminski escorrega, torna-se fluído, líquido. Talvez assim possamos melhor entender seu sucesso nesse momento.
 
Grafitando nas telas dos computadores: o novo muro
A poesia de Leminski é a do fast thinker. Fast como a WebFast como a demanda do mundo atual. Escreveu seus poemas numa época onde não havia Internet, tampouco Facebook, mas de forma surpreendente, sua poesia se encaixa e se completa nesse espaço que contempla o formato minimalista, sucinto de falar das coisas que nos cercam. Os poemas de Leminski foram facilmente aceitos pelos usuários da Web porque são breves e carregam um pouco da inquietação que reflete a angústia do tempo atual. Poemas que traduzem a ideia de liberdade que, mais do que uma ambição na época em que foram escritos, época da ditadura militar brasileira, se tornou uma constante e indispensável exigência contemporânea, pois alimenta as inquietações pós-modernas. Poemas criados pelo viés dessa liberdade individual como condição e demanda, mas que não quer demarcar limites.  Poemas que enfatizam determinadas transformações nas formas de conduzirmos nossas vidas para colocar em questão algumas exigências dos espaços e tempos que habitamos e que nos habitam.
As frases rápidas de Leminski, carregadas de musicalidade e sentidos dão um nó no pensamento lógico cartesiano. Em 2014, completam-se 70 anos de nascimento do autor.  Será que, de fato, ele gostaria de ser classificado como cânone?
 
nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
 
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
 
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
— cala a boca
e pro relógio
— abaixo os ponteiros
(LEMINSKI, 2013, p. 61)
 
Difícil imaginar o que Leminski diria de sua fama atual e da proporção que seu trabalho ganhou no mundo virtual, local onde sua poesia se encaixa e desfila com desenvoltura, fazendo da Internet o seu muro curitibano. Com três reimpressões, a obra Toda Poesia se encaminha para vender 21 mil exemplares. Muito desse sucesso deve-se ao gosto popular no qual sua poesia caiu. Leminski criou uma poesia que teve sucesso por manter o aspecto lúdico do confronto com a linguagem. E essa característica sempre foi muito apreciada por seus leitores, especialmente os jovens, para os quais Leminski nunca deixou de ser pop. Sua obra é uma feliz combinação do erudito e do popular misturando a liquidez de nossa era. Brinda a celebração de liberdade combinada à necessidade de rebelião. Mexe na angústia pós-moderna.
Através do Twitter e do Facebook, quem está conectado sente-se livre para postar suas preferências literárias. Como Leminski não exige pré-requisito para ser lido, seus poemas (ou parte deles) foram facilmente compartilhados entre os internautas:
 
Os serviços propiciados pela rede nos trouxeram uma nova realidade: navegar na Internet tornou-se a mais moderna forma de aquisição de informações, sobre praticamente qualquer assunto, já que um usuário tem acesso a uma imensa quantidade de dados, espalhados por toda a rede, de forma prática e amigável. Como muitos endereços estão oferecendo diversos serviços gratuitamente, a informação está cada vez mais acessível (SILVA, 2007).
 
Dos quinze sites mais utilizados para download de livros na Internet, treze possuem obras completas de Leminski.  Nos cinco maiores sites de busca da atualidade (Google, Yahoo, Bing, Ask.com e HAO 123) encontramos disponibilizados para download diversos livros de Paulo Leminski em pdf como, por exemplo, Não fosse isso e era menos, Catatau, Distraídos venceremos, Caprichos e relaxos, Vida, Agora é que são elas, 40 clics em Curitiba, Gozo fabuloso, Um milhão de coisas, La vie em close, Metamorfose, Polonaises. Livros que chegam a ser vendidos com três dígitos em livrarias convencionais devido à raridade das obras. A obra Toda poesia, uma coletânea  das obras completas de poesia do autor, lançada em 2013, também já se encontra disponível em pdf, com suas 421 páginas.
 
Considerações Finais
Achando que o muro fosse a melhor forma de alguém divulgar o próprio trabalho, nos anos 80, perguntava-se Leminski: “Qual poeta no Brasil conseguiria tantos leitores em livros?”. Não sabia, então, que o destino reservaria o poder da Web para ele.
Leminski cabe bem nos 140 caracteres do Twitter, encaixa-se nas postagens do Facebook. Nossos novos muros virtuais. Talvez Leminski agradecesse a mais essa oportunidade de expressão de seu trabalho com um poema:
 
Não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

 
(LEMINSKI, 2013, p. 398-99)
 
Nós, certamente, nos tornamos gratos pela exposição de sua obra aos que antes a ignoravam e por seu merecido culto na atualidade.  O mundo inteiro saiu ganhando.
 
 
 
 
 
Referências  bibliográficas
 
 
 
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
 
BEIGUELMAN, Giselle. O livro depois do livro. São Paulo: Peirópolis, 2003.
 
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Trad. Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
 
COSCARELLI, Carla. “Linkando as ideias dos textos”. In: ARAÚJO, Júlio César e DIEB, Messias (Orgs). Letramentos na Web: gêneros, interação e ensino. Fortaleza: Edições UFC, 2009.
 
HEISENBERG, Werner. A parte e o todo. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.
 
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 1998.
 
JENKIS, Henry. Cultura da convergência. Trad. Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2008.
 
LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
 
NASCIMENTO, Leidiane Alves do. “Descentramento do sujeito na poesia de Paulo Leminski”. 2011. II SINALEL. Universidade Federal de Goiás. Disponível em http://sinalel_letras.catalao.ufg.br/up/520/o/40.pdf.  Acesso em 17 de outubro de 2014, às 20h.
 
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.
 
SILVA, Rafaela Teixeira. “A influência da Internet nos hábitos da leitura”. 2007. Disponível em http://pedagogiaaopedaletra.com/influencia-internet-habitos-leitura  Acesso em 20 de agosto de 2014, às 23h.
 
 
 
Patricia Maria dos Santos Santana é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ e bolsista da CAPES. Lançou três livros de crítica literária e publicou diversos artigos científicos em renomadas revistas nacionais.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A VIOLÊNCIA MISÓGINA COMO ESTRATÉGICA AO SUSPENSE DE ALFRED HITCHCOCK, UMA ANÁLISE DE JAMAICA INN (ESTALAGEM MALDITA, 1939) – Luiz Souza




 
Luiz Souza
 
Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia
 
 
 
Resumo: O presente trabalho se propõe a uma análise do filme Jamaica Inn (Estalagem Maldita, 1939), de Alfred Hitchcock. O principal operador conceitual ao qual recorreremos é a teoria feminista do cinema, com as pesquisadoras Tania Modleski (2005), Paula Marantz Cohen (1995) e Laura Mulvey (1996, 2009). Pretendemos analisar a narrativa em questão com a perspectiva de apurar como a violência misógina aciona emoções ambivalentes no espectador e torna-se artefato central à estratégia de composição do suspense hitchcoquiano.
 
Palavras Chave: Literatura e Cultura, Estudos de Gênero, Teoria Feminista do Cinema, Alfred Hitchcock
 
Abstract: This paper proposes an analysis of the film Jamaica Inn (Estalagem maldita, 1939), Alfred Hitchcock. The main conceptual operator to whom we turn is feminist film theory, with researchers Tania Modleski (2005), Paula Marantz Cohen (1995) and Laura Mulvey (1996, 2009). We intend to analyze the narrative concerned with the prospect of investigating how the misogynistic violence triggers ambivalent emotions in the viewer and becomes the central artefact of composition hitchcoquiano suspenseful strategy.
 
Currículo do pesquisador: Luiz Carlos de Souza é doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (ILUFBa), sob orientação da Profa. Dra. Nancy Rita Ferreira Vieira e Mestre, pela mesma instituição. É jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da UFBa (FACOM/UFBa) e estudante de graduação em Letras pelo ILUFBa. A sua pesquisa é sobre representações de violência misógina na obra de Alfred Hitchcock.
 
 
 
 
A VIOLÊNCIA MISÓGINA COMO ESTRATÉGICA AO SUSPENSE DE ALFRED HITCHCOCK, UMA ANÁLISE DE JAMAICA INN (ESTALAGEM MALDITA, 1939)
 
Luiz Souza
 
Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia
 
À guisa de introdução
A obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock tem sido amplamente estudada no meio acadêmico brasileiro, porém são poucos os trabalhos que atentem à perspectiva de analisar a questão da violência[1] misógina como artefato estratégico à composição do suspense hitchcoquiano e componente fundamental do seu universo ficcional. O presente trabalho tem como objetivo colaborar para que tal lacuna seja preenchida, pois a obra do diretor foi de fundamental importância para a constituição do operador conceitual teoria feminista do cinema, no qual consta análises diversas narrativas hitchcoquianas, como Rear Window (Janela Indiscreta, 1954), North by Northwest (Intriga Internacional, 1958) e Psycho (Psicose, 1964), empreendidas por teóricas como Tania Modleski (2005), Paula Marantz Cohen (1995) e Laura Mulvey (1996, 2009).
Por violência misógina compreendemos as agressões dirigidas a todas aquelxs que ocupem uma posição feminina, dentre os quais os sujeitos mulheres[2], privilegiados na presente análise. Partimos de uma perspectiva de que as identidades de gênero são fruto de uma construção social, não sendo, portanto, intrínsecas às pessoas, mas produzidas a partir de uma série de rituais regentes da interação entre os sujeitos (BUTLER, 2010). Aqui não se pretende um denuncismo, no sentido de buscar colocar em evidência a suposta misoginia hitchcoquiana, mas consiste numa tentativa de se compreender como imaginário androcêntrico colabora para a construção de um inconsciente social (Mulvey, 2009) que autoriza e mesmo demanda por filmes e produtos culturais nos quais a violência misógina é perpetrada.
O filme no qual nos deteremos no presentem trabalho é Jamaica Inn (Estalagem Maldita, 1939), narrativa que traz em seu âmago a violência misógina praticada por mais que um agressor. Há um sujeito intelectualizado e de alto status social associado a um personagem mais forte do ponto de vista físico e susceptível à perpetração de agressões físicas. A perspectiva de um Próspero associado a um Calibã, na constituição do quadro da violência misógina é algo que se repete na filmografia hitchcoquiana, numa diversidade de filmes. A tendência é perceptível em North by Northwest, que seria lançado pelo menos 20 anos depois de Jamaica Inn.
A questão é percebida por Truffaut, na série de entrevistas que Hitchcock o concedeu, com a perspectiva de que o vilão seja representado como “alguém muito chique, distinto e sedutor” (TRUFFAUT, p. 105). Hitchcock cita, precisamente, North by Northwest como referência em relação ao assunto, ao considerar que escolheu de James Mason para interpretar o vilão pois pretendia alguém “suave e distinto. Mas, ao mesmo tempo ameaçador, e isso é difícil de conciliar. Então, dividi o vilão em três pessoas: James Mason, que era bonito e meigo, seu secretário, de aspecto sinistro, e o terceiro, o louro, o capanga de aspecto rude e brutal” (TRUFFAUT, p. 106).
O recorte que vamos proceder é a questão da homossocialidade[3] como componente misógino capaz de fazer com que as mulheres permaneçam a distância, dada uma cumplicidade entre os homens agressores. Porém, ao mesmo tempo, o espectador é francamente convocado a simpatizar pelas personagens em perigo, que, nas narrativas em questão, continuam seguindo a tendência do cinema hitchcoquiano, no qual as mulheres são geralmente os personagens que mais demandam os sentimentos de solidariedade e compaixão por parte da audiência. Por outro lado, a violência misógina comparece como forma de sublimar as possíveis pulsões homossexuais latentes na relação de cumplicidade entre os homens, aqui referida como homossocialidade.
Jamaica Inn é o último filme da fase inglesa de Alfred Hitchcock, visto que, no ano seguinte ao lançamento do filme, em 1940, ele se transferiria para os EUA, a fim de trabalhar com o produtor David O. Selznick. O filme é baseado no romance homônimo de Daphne du Maurier. Além de Jamaica Inn, outras duas narrativas hitchcoquianas foram baseadas em trabalhos da escritora: Rebecca (Rebeca, a Mulher Inesquecível, 1940) e The Birds (Os Pássaros, 1960).
Em Jamaica Inn, a jovem Mary Yellen (Maureen O’Hara) decide, após a morte dos pais, viver com a sua tia Patience (Marie Ney) numa estalagem, localizada na Costa de Cornwall, na Inglaterra do fim do século XVIII. A jovem ignora que o marido da tia, Joss Merlyn (Leslie Banks) faz parte de uma quadrilha de criminosos. O bando provoca naufrágios a partir do uso de luzes à guisa de um farol, fazendo os navios chocarem-se contra as rochas. Em seguida, matam os marinheiros e pilham a carga. O chefe da gangue, porém, é o Juiz de Paz, Sir Humphrey Pengallan (Charles Laughton), a quem Mary recorrem, em busca de ajuda, sem saber o perigo no qual se envolveria, ao se aproximar do magistrado.
 
Perspectiva de leitura: delineando um caminho
A psicanálise como perspectiva de leitura de textos fílmicos foi algo constante no período dos anos 70, até que se tornou questionável como perspectiva analítica, dada a fixidez com que alguns teóricos lançavam mão de conceitos da disciplina, como se esta fosse capaz de dar conta da totalidade do texto em sua complexidade. Aqui recorremos à psicanálise, num procedimento que repete estratégias de antanho, mas esta é uma repetição na diferença, ou seja, num contexto diferente, com força e perspectivas renovadas. De acordo com a perspectiva de Laura Mulvey (2009) a psicanálise seria componente fundamental à teoria feminista do cinema, pois consistiria numa arma política. O uso político da psicanálise, defendido por Mulvey vem no sentido de descobrir como o fascínio do filme é construído a partir de padrões preexistentes no imaginário da sociedade androcêntrica.
Não se trata, portanto, de aplicar a psicanálise à obra de arte, pois, como pondera Quinet (2013), a psicanálise como tratamento pelo discurso só se aplica a sujeitos. A nossa perspectiva, porém, a partir de um método interdisciplinar no qual a psicanálise é apenas uma das disciplinas com as quais se pretende manter um profícuo diálogo a fim de investigar como se caracteriza o olhar masculino na fruição da narrativa fílmica ora analisada. Em contraposição a uma perspectiva de análise que possa dar conta do texto fílmico como um todo, Aumont e Marie (2004) convocam a experimentação, como procedimento de análise, no sentido de reafirmar a inexistência de uma teoria global do cinema. Em contraposição a possíveis “chaves” interpretativas, os autores argumentam que cada analista deve habituar-se à ideia de que precisará construir o seu próprio método de análise – este talvez válido apenas para o filme analisado.
Propomo-nos, a partir destes pressupostos, a investigar os desejos acionados em função de um olhar masculino. Este não seria, porém, o olhar do homem, mas uma contingência, uma posição a qual uma mulher poderia ocupar, inclusive. Os filmes de Hollywood, ainda que estruturados em torno do prazer masculino, oferece às mulheres a possibilidade de uma identificação com o ponto de vista ativo, perpetrador da violência, assim, “permitem que a mulher espectadora redescubra este aspecto perdido de sua identidade sexual, que é a pedra angular, nunca inteiramente reprimida da neurose feminina” (MULVEY, 2005, p. 382). O ato de reconhecer em si impulsos destrutivos pode ser uma perspectiva libertadora para as mulheres, pois há a oportunidade de que elas os realizem na ficção – “Agressividade impedida parece envolver grandes danos; realmente é como se tivéssemos que destruir outras coisas, outras pessoas, para não destruirmos a nós mesmos, para nos guardar da tendência de autodestruição”, observa Freud (2010, p. 255), numa constatação, segundo ele, triste para os moralistas.
 
A Estalagem Maldita
Nas cenas iniciais do filme, fica evidente ao espectador que o Jamaica Inn goza de uma péssima reputação entre os moradores da região da Costa de Cornwall, com isso, o cocheiro que transporta a jovem Mary termina por deixa-la próxima à casa de Pengallan. O Juiz de Paz é sofisticado, bem relacionado, mas flerta com a loucura, visto que convoca à sala de jantar, diante de convidados, uma égua, constantemente comparada a uma jovem mulher. O Imperador Calígula (31 de agosto de 12 d.C.-22 de janeiro de 41 d.C.) nomeou seu cavalo Incitatus como senador, demonstrando seu desprezo àquela casa. O imperador e o Juiz de Paz demonstram, na verdade, um desprezo pela civilização e pelos rituais sociais, estes frequentemente representados em Hitchcock como vazios de significação. Zizek (2010) observa que grande parte da interação social seria regida por atos performativos, realizados apenas para manter as relações entre as pessoas. Porém Pengallan sabota os ritos sociais, algo do âmbito do incivilizado. O magistrado, por alguns instantes, deixa a máscara cair e se mostra avesso às convenções e incapaz de dominar suas pulsões.
Sob os auspícios da égua adentrando à sala de jantar, Mary conheceria o Juiz de Paz e se afeiçoaria a ele, apesar do olhar desejoso que lhe lança, algo ignorado pela moça – mas não pelo espectador. Pesa sobre as mulheres hitchcoquianas uma constante ameaça de serem estupradas. Na década de 60, com Marnie (Marnie, confissões de uma ladra, 1964) as constantes comparações entre mulheres jovens e equinos ganhariam o seu maior grau, envolvendo uma série de metáforas antropomórficas e insinuações no âmbito sexual. Há, portanto, uma constante desumanização das mulheres, algo, contudo, associado a um constante apelo de solidariedade e simpatia para com elas. A ambiguidade hitchcoquiana em relação às mulheres remonta a uma tradição literária, demarcada por Bloch (1995), quando do seu estudo acerca da misoginia medieval. O teórico aponta que a mulher, no universo simbólico cristão, seria, simultaneamente, a esposa de cristo e o portão do inferno. A angústia em relação à nudez da mulher acionaria este universo imaginário perverso, pois a visão dos genitais femininos convoca o fantasma da castração (MULVEY, 2009). Portanto, o suspense hitchcoquiano é construído na dimensão do olhar, conforme aponta o diálogo entre Mary e Pengallan:
 
Pengallan: Me faria o favor de tirar seu abrigo, senhora?
Mary: Por que?
Pengallan: Fiz uma aposta [de que a moça seria bonita]. Sempre gostei das apostas. Permita-me. – avança na direção dela e lhe despe do abrigo. É de uma figura esquisita. Querida, você é uma beleza. – e se curva em sinal de respeito (…) “Caminha bela, como a noite/trunfo claro céu de estrelas/Todo glamour, brilho e mistério unem-se nela e refletem-se nos seus olhos.”
 
O diálogo se pauta por um leve deslize em direção a impulsos perversos, por parte de Pengallan. A crueldade misógina se insere, de maneira sutil, como que inserida nos rituais sociais, algo subjacente até mesmo na literatura convocada pelo personagem como gracejo em relação à convidada. O suposto cavalheirismo de Pengallan é misógino, pois traz o germe da objetificação da mulher, considerada por ele como um algo a ser visto, fator que coloca em xeque a humanidade da jovem, a esta altura vista como objeto do gozo escópico do rico anfitrião.
Na relação entre o Juiz de Paz e Mary se insere algo referido por Zizek (FIENNES, 2014), quando da análise de Titanic. O estudioso considera que a narrativa se organiza em torno de um suposto direito que os ricos teriam de se renovar a partir da relação com pessoas das classes trabalhadoras. Pengallan, então, terá algo de vampiresco, monstruoso. O filósofo argentino José P. Feinmann (2013) afirma a tendência de que o cinema dos anos 30 registre, de maneira constante, uma presença monstruosa e terrível, no que seria uma antecipação do Hitler. O magistrado carrega o título de Sir Humphrey Pengallan, um homem, portanto, distinto, mas a nobreza conferida pela distinção não o impede de cometer crimes, encarnando a antecipação hitchcoquiana do nazista monstruoso. Quando do diálogo com Joss, o magistrado se vangloria de conhecer o valor das mercadorias roubadas, algo impossível ao gerente da estalagem, que não é “filósofo nem cavalheiro”.
A narrativa hitchcoquiana passa a ser sintomática em relação aos valores eurocêntricos humanistas e de pretensão universal ao nos colocar diante de um personagem refinado, de alto status social, mas de comportamento cruel e terrível, algo sintomático em relação a uma suposta decadência da cultura ocidental. A perspectiva se torna novamente inserida na análise quando os convidados de Pengallan se jogam em direção ao dinheiro que ele arremessa à mesa. A estátua na decoração do hall de entrada da sua sala de estar, possivelmente de inspiração Grega, testemunha a reverência ao que seria o berço da cultura ocidental, enquanto a moça, colocada num patamar superior do hall ali estaria como num display, o que a consagra como uma coisa a ser vista. Há um plano médio de Pengallan, a partir das suas costas, enquadramento capaz de sugerir ao espectador uma cumplicidade em relação ao desejo perverso do Juiz de Paz (fotograma 12 min 06 seg)[4].
Por outro lado, aquele que seria o alter ego do agressor, a sua versão Calibã, o Joss, sujeito morador de um lugar “muito ruim, um lugar não à altura da senhorita”, conforme aponta Pengallan. O encontro de Joss com a sobrinha da mulher é pautado pela violência, pois o sujeito carrega uma arma e a aponta para a moça como se visse nela uma ameaça e lhe demandasse sua identificação. A arma ase projeta fálica em relação à jovem, como se ali estivesse presente a principal ameaça a pesar sobre si, a ameaça da violação sexual. O comportamento grosseiro faz a jovem pensar ser um criado o homem ameaçador que lhe pede um beijo, se comporta de maneira impertinente – atitude mantida mesmo após a chegada da Tia Patience. O espectador é convocado a suspeitar que a esposa de Joss sofra violência física a partir das cenas nas quais a violência psicológica lhe é imposta, dadas as imprecações do marido e o tom meio gutural no qual se dirige à esposa. Há outro possível paralelo em relação a Joss e Pengallan.
O proprietário da estalagem, como o Juiz de Paz, também teatraliza os rituais sociais. Quando abraça a esposa e se apresenta como tio de Mary dramatiza um papel familiar, daquele que assume o compromisso de cuidar dos filhos dos parentes, quando estes faltam, mas nós sabemos que este é um papel esvaziado e as palavras de Joss são vazias. A narrativa parece se organizar em torno da falência de uma família pensada como um clã, no qual os jovens migram para casa de parentes, por questões de sobrevivência e ali encontram o risco de abusos, em vez de abrigo para enfrentar tempos difíceis.
A Tia Patience parece atenta aos olhares e investidas de Joss em relação à jovem e parece se colocar entre os dois, de forma a proteger a moça. Porém, a situação da tia é ainda mais tensa, pois ela ainda tem que guardar segredo em relação às falcatruas perpetradas pelo marido bandido – Mary tem que ser mantida na ignorância em relação aos atos de naufrágio cometidos pelo bando de Joss, até mesmo para sua própria proteção. Ainda assim, Patience, apesar de todas as evidências em contrário, nega que sofra violência, e defende o marido: “Sem dúvida, sua mãe falou de mim. Ela pensava que eu estava mal por ter saído de casa. Ela estava equivocada. Joss tem sido um bom esposo, não mudaria nada nele se pudesse”, considera a tia, num diálogo com a sobrinha. A cena do diálogo, porém, tem uma peculiaridade, dado que, durante a fala de Patience, a atenção do espectador é convocada à reação de Mary, fazendo com que o espectador suspeite que a mãe da moça a havia alertado para os perigos que envolveria um relacionamento com homens como Joss. Patience, em inglês, Paciência, convoca o aspecto resilente da tia em relação aos abusos do marido, ao mesmo tempo, a questão de conseguir ver nele aquilo que supostamente ele teria de melhor, em detrimento da sua face mais terrível.
Tia Patience tem, assim, um conhecimento em relação à violência do marido e aqui nos referimos à questão de uma violência no âmbito sexual. O segredo do qual a tia em idade madura pretende proteger a jovem sobrinha é em relação a uma possível relação sexual traumática, incestuosa e niilista, dados os seus efeitos potencialmente destrutivos sobre os sujeitos. Porém, a moça não está a salvo de violências como esta, visto que, no terço final do filme, Pengallan a sequestra, sem que seja dado ao espectador saber o que se passou com Mary enquanto ela esteve em poder do seu algoz, ainda assim, algumas cenas trazem o sadismo do Juiz corrupto que amarra a sua vítima e a arrasta quando da fuga. Bloch observa que, no universo judaico-ocidental e cristão, a mulher é vista como uma ambiguidade, sendo, ao mesmo tempo, Esposa de Cristo, mas, simultaneamente, como o Portão do Inferno. A obra de Hitchcock dialoga com este imaginário e a dualidade em relação à mulher é apaziguada com a violência que se lhe perpetra.
Camille Paglia (1994) observa que os crimes sexuais seriam uma vingança dos homens contra as mulheres, tendo em vista que elas passam por uma série de mudanças corporais que definem a sua identidade sexual adulta, ao passo que eles não. De acordo com a estudiosa, a violência misógina estaria ligada, dentre outros fatores, a uma insegurança em relação à própria masculinidade. A perspectiva encontra eco em Fávero (2011), quando a pesquisadora observa que a agressão contra mulheres está associada à incapacidade do homem de impor a sua vontade, pois encontra resistência e apenas consegue fazer valer as prerrogativas do patriarcado mediante o uso da força. Numa entrevista concedida por Camille Paglia (1993, p. 70) à revista SPIN, a entrevistadora, a jornalista Celia Farber, que revelou ter sofrido agressão sexual, manifesta a sua opinião em relação ao assunto:
 
Num caso de estupro, o homem tem que usar a força bruta para obter algo que a mulher possui – seu próprio sexo. Assim, naturalmente, ela é mais fraca no aspecto físico e sempre será fisicamente oprimida por ele. Mas, no momento em que ele decide que a única maneira de obter dela o que ele quer emocionalmente, ou sexualmente, seja lá o que for, é estuprando-a, está confessando uma fraqueza total. É ela quem sofre o abuso, mas é ele quem é absolutamente trágico e patético. Uma coisa é temporária, a outra permanente.
 
Kaufman (1999, p. 3) observa que a violência se transforma num agente compensador em relação às angústias de homens emocionalmente perturbados em função da perda do seu poder em relação às mulheres:
 
(…) para alguns homens, respostas violentas ao medo, dor, insegurança, rejeição ou o sentimento de ser depreciado ou desprezado não são incomuns. Isto é particularmente verdadeiro quando há a sensação de perda do controle e poder. Este tipo de sentimento potencializa as inseguranças masculinas: se masculinidade é algo sobre poder e controle, não ser poderoso significa que você não é um homem. Novamente, a violência consiste num meio de provar isso a si próprio e aos outros.
 
O estudioso ainda observa que, apesar dos complexos motivos psicológicos e sociais determinantes da violência contra a mulher, contribui para a situação um universo de permissividade social, explícita ou tácita. Os discursos legitimadores da violência estariam numa série de lugares, como os costumes, os códigos legais ou mesmo as doutrinas religiosas. Por outro lado, há uma violência que transcendo ao aspecto físico, mas se insere numa perspectiva simbólica de fixar a mulher no lugar do Outro, do objeto – indiretamente culpando-a por seus desejos.
Reveladora em relação a isso é a fala de um dos cúmplices de Joss, na série de naufrágios e assassinatos. Trata-se de um homem velho, com olhar vazio que cumpre uma função de sábio, aquele capaz de, a partir da sua experiência de vida, prever o futuro, bem como ocupar uma posição de ascendência em relação aos capangas componentes da quadrilha. Na fala, está a questão da desvalorização dos sentidos, do corpo, como aliados à opressão das mulheres. A fala do velho antecipa o suicídio de Pengallan nas sequencias finais do filme: “[Vocês] só pensam em mulheres. Vaidade da carne. Seguindo saias irão pelo caminho da perdição eterna. (…) Você ri agora, mas será outro a cair quando arder na fogueira que acesa nos espera a todos, inclusive a mim”.
Logo em seguida, o velho homem afirma que todos dentre os comparsas estarão presos em breve e correntes estarão atadas a seus pés. O bando, assim, seria punido não tanto por seus crimes, mas por seus desejos perversos, sublimados a partir de uma homossocialidade potencialmente destrutiva, manifestada na sua união para cometer crimes. Porém, dentre eles, há um elemento que não comunga dos valores desta masculinidade perversa. Trata-se daquele que seria um dedo suro, mas que, na verdade, é um policial infiltrado no bando a fim de desbaratar a quadrilha, o oficial Jem Trehearne (Robert Newton). A questão de uma masculinidade perversa torna-se mais evidente a partir do instante no qual Patience ousa adentrar àquele recinto para falar com o marido, mas, porém, é severamente repelida por ele, sob a ameaça de uma agressão. O alvo do grupo passa a ser, então, Trehearne. O bando trama fazer algo terrível ao rapaz, quando o aspecto misógino de uma versão perversa da masculinidade torna-se presente na narrativa, a partir da declaração de um dos componentes da quadrilha, antes da tentativa de assassinato: “Espere. Deixe-me ver se as mulheres estão por perto. Não quero interferência” – uma evidência a mais de uma homossocialidade perversa, que mantém as mulheres a distância como forma de reforçar os laços de cumplicidade entre os criminosos.
Há, porém, uma discussão entre os comparsas acerca da ética em relação ao assassinato, tentativa da qual Trehearne consegue se livrar – os criminosos vacilam em relação a matar um homem que está inconsciente ou mesmo sobre a validade de roubar do cadáver. Há uma ética e uma estética da violência, apesar da crueza da cena de tortura e agressão contra o jovem rapaz. Tanto no civilizado jantar de Pengallan no início do filme, quanto na cena da agressão a Trehearne há ritos sociais envolvidos e a pergunta em relação ao humanismo e à intelectualidade como garantidores da dignidade humana persiste. Joss é a versão recalcada de Pengallan, a sua alteridade isolada no Jamaica Inn, a pousada de aspecto sinistro e má fama. Mas, ainda assim, a clivagem entre os dois não é estanque, algo que pode ser conferido quando de uma das falas do magistrado ao gerente da estalagem maldita, quando da fuga de Trehearne e Mary: “Se você não consegue manter a calma não venha me importunar. Quando não se tem cérebro, o corpo morre e não é necessário lembrar que nesta organização você e os rapazes são só o corpo”, pondera Pengallan.
Com contraposição à associação criminosa e a uma sociedade falida, na qual o acesso a alta cultura não garante ética ou dignidade, o amor romântico se torna uma perspectiva de redenção dos sujeitos, no universo ficcional hitchcoquiano. Uma mesma ação se repete em dois filmes de Hitchcock, separados por quase vinte anos. Trata-se das sequencias finais de North by Northwest, quando o publicitário Roger O.Thornhill ergue Eve Kenall e lhe dá o status de mulher casada, a afastando de ocupar um status precário no universo adrocêntrico – ela agora é uma esposa e não mais uma mulher que joga com a sexualidade em trabalhos de espionagem para o governo americano.
Uma cena parecida ocorre entre Mary e Trehearne, quando da fuga do rapaz da quadrilha criminosa. Escondido no teto de um celeiro componente da propriedade de Joss, ele ergue a moça e a protege da perseguição. Apesar de romântico e cavalheiresco, o gesto é misógino, pois pressupõe que apenas sob a tutela de um homem a mulher pode ter segurança e dignidade numa sociedade dominada pelo masculino.
 
Considerações Finais
A representação das mulheres nos filmes de Hitchcock é conflituosa. Patience é emblemática em relação a este aspecto, pois, apesar de todas as agressões sofridas, ela inda protege Joss e demonstra amor pelo marido. Há uma cena reveladora em relação a este aspecto, no momento no qual a senhora flagra o marido saindo do quarto da sobrinha, o olha com severidade, mas não manifesta irritação. Logo em seguida, tenta afastar a sobrinha da propriedade do Jamaica Inn. A atitude é conflituosa, pois, ao mesmo tempo em que age para salvar a moça, parece estar a eliminar a concorrência de uma rival indesejada, jovem e bonita. É como se, apesar de toda a situação de violência e tortura psicológica na qual vive, haveria um certo gozo naquela situação, por mais perversa que esta possa nos parecer.
A ambiguidade novamente volta a comparecer quando, no final da narrativa, Mary lamenta pelo suicídio de Pengallan. A moça manifesta piedade pela situação do magistrado – Requena (2004) considera que uma das peculiaridades dos vilões hitchcoquianos é que o espectador é convocado a desejar a sua punição pelos dolos cometidos ao longo do filme – Pengallan é um assassino, ladrão, mas, ainda assim, humano, demasiado humano. O magistrado representa, talvez, a decadência de uma determinada classe social, envolta em crise financeira, por conta dos percalços da economia mundial na década de 30, período no qual o filme foi lançado. Há um pessimismo perceptível, inclusive, pela produção intelectual europeia durante o período, como o Mal Estar da Civilização, de Freud (2010), ou a perspectiva heideggeriana (1996), da angústia como constitutiva do ser humano.
A nossa perspectiva foi verificar como as emoções de desejo pela violência misógina se somam enquanto vetores da produção do suspense e angústia, tendo por base um inconsciente androcêntrico constituinte das representações audiovisuais no sentido de culpar as mulheres por suas aspirações e desejos, pois este lugar de ser desejante sempre lhe foi tradicionalmente negado.
 
Referências:
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BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro. Ed: Civilização Brasileira, 2010.
BLOCH, R. Howard. Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental.   Rio de Janeiro: Ed.34, 1995.
FÁVERO, Maria Helena. Psicologia do gênero: psicobiografia, sociocultura e transformação. Curitiba: EDUFPR, 2011.
Feinmann, Jose P. Filosofia aquí y ahora: Heidegger. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=USgevHoaMUQ acessado em 20/11/2014
FIENNES, Sophie. Zizek: Guia do perverso para a ideologia ROOKS NEST Enterteiment, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XM2qIJTlDgo, acessado em 20/11/2014
FREUD, Sigmund. O mal estar da civilização. Novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. Obras completas. São Paulo. Companhia das Letras, 2010. v. 18.
HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1996.
KAUFMAN, Michael. The Seven P’s of Men’s Violence, 1999. Disponível em: http://www.michaelkaufman.com/wp-content/uploads/2009/01/kaufman-7-ps-of-mens-violence.pdf, acessado em 28/10/2012, às 00:59.
LAURETIS, Teresa de. Alice Doesn’t: Feminism Semiotics Cinema. Indiana: Indiana University Press, 1984.
MODLESKI, Tania. The Women Who Knew Too Much: Hitchcock and Feminist Theory. New York: Taylor & Francis Group, 2005.
PAGLIA, Camile. Sexo, arte e cultura americana. Tradução de: Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras: 1993.
TRUFFAUT, François. Hitchcock/Truffaut: entrevistas. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004.
QUINET, Antônio. Abertura do I Colóquio de Arte e Psicanálise. Disponível em: http://coloquioarteepsicanalise.blogspot.com.br, acessado em: 20/11/2014
REQUENA, Jesús Gonzalez. Clásico, manierista e postclásico: los modos del relato en el cine de Hollywood. Valladolid, Espanha: Castilla Ediciones, 2004.
ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
 
[1] A partir de Maria Fávero (2011, p. 75) destacamos que o conceito de violência misógina “é entendido hoje de forma ampla abrangendo as diversas formas de discriminação e as diversas manifestações de relações de poder. Trata-se, em última análise, de considerar essas formas de violência e de relações de poder desiguais, como formas de violação dos direitos das mulheres, que fazem parte dos direitos humanos universais, tal como reconhecido desde 1993 pela Conferência Mundial dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, a chamada violência de gênero consta no texto da Declaração como incompatível com a dignidade e o valor da pessoa humana”.
[2] Na introdução de Alice Doesn’t, Teresa de Lauretis (1984, p. 6) demonstra a preocupação de definir o que se pode entender por mulher: a pesquisadora afirma que, por “mulher” eu menciono os seres reais que não podem ser definidos de maneira exterior às formações discursivas, mas que, apesar de tudo, têm existência material concreta. As relações entre as mulheres como sujeitos históricos e a noção de mulher como produto dos discursos hegemônicos não constituem uma relação direta de identidade, uma correspondência um por um, nem uma simples relação de implicação. Como todas as outras relações expressas na linguagem, esta é arbitrária e simbólica, ou seja, construída no âmbito da cultura.
[3] Homossocialidade é aqui referida como o companheirismo e cumplicidade entre os sujeitos masculinos, sem que este relacionamento envolva, necessariamente, a homoafetividade.
[4] Neste trabalho, optamos por não recortar os fotogramas componentes da citação do filme, mas apontar o momento no qual se inserem na narrativa.





Bio fornecida pelo palestrante.

“CASO DO VESTIDO” E “MEDEIA” – UMA COMPARAÇÃO – João Pedro Fagerlande




 
João Pedro Fagerlande
Faculdade de Letras – UFRJ
 
 
João Pedro Fagerlande é mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela UFRJ, com orientações de Antonio Carlos Secchin e Eucanaã Ferraz. Coordena o programa de formação de leitores “Grande Poetas Brasileiros” em escolas municipais do Rio de Janeiro, com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura. Foi assessor de literatura no Departamento Nacional do SESC (2009 a 2011), coordenando os projetos Prêmio SESC de Literatura, Feiras de Livros e Revista Palavra. Autor dos livros “Peludo” (poesia, ed. Baluarte, 2013), “Lúcio de Mendonça” (série Essencial, ed. Academia Brasileira de Letras / Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e “Desfiando o ‘Caso do vestido’, um poema drummondiano” (crítica literária, ed. Baluarte, 2012).
 
 
Resumo: O artigo estabelece uma comparação entre o poema “Caso do vestido”, publicado por Carlos Drummond de Andrade no livro Rosa do povo, e a tragédia clássica Medeia, de Eurípedes. Primeiramente são comentadas as características dramatúrgicas do texto drummondiano para em seguida apontar suas relações com a tragédia grega. O ponto central da comparação são as personagens femininas traídas pelos respectivos maridos: a mãe de “Caso do vestido” e Medeia. A investigação aborda as reações de cada uma, que servem para compreender o perfil de cada personagem.
Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade. Medeia.Poesia e dramaturgia. Traição.
 
 
Abstract: This paper proposes to compare the poem “Caso do vestido”, published by Carlos Drummond de Andrade in the book Rosa do povo, and the classic tragedy Medeia, by Euripedes. Firstly we comment the dramatic characteristics of the poem and then its relations with the Greek tragedy. The main point of this study are the female characters who were betrayed by their husbands, and how each one reacts to it.
 
 
 
 
Das criaturas todas que têm vida e pensam,
somos nós, as mulheres, as mais sofredoras.
“Medeia”, Eurípedes
 
 
 
O poema “Caso do vestido”, publicado por Carlos Drummond de Andrade no livro Rosa do povo, é provavelmente o texto em que o autor mais se aproxima do gênero dramático. Embora Drummond não tenha escrito especificamente para teatro, detendo-se apenas na tradução de peças (Dona Rosita, a solteira, de Federico García Lorca, e As artimanhas de Scapino, de Molière), o poema em questão emprega recursos como movimentação cênica, alternância de vozes, coro, apagamento de um narrador externo, dentre outros aspectos caracteristicamente dramáticos.
Nossa busca nesse estudo é ressaltar os aspectos teatrais de “Caso do vestido”, aproveitando também para comparar sua protagonista, a mãe, com uma das maiores protagonistas do teatro ocidental, Medeia. Sendo ambas esposas de personagens de grande poder nas respectivas tramas, a comparação servirá para evidenciar a construção do perfil feminino na tragédia e no poema, permitindo-nos observar como Drummond dialoga com a tradição dramatúrgica em seu texto.
Comecemos, portanto, com “Caso do vestido” (ANDRADE, 2008, p.160-165). Primeiramente devemos dizer que o texto não trata apenas de uma traição. Afirmar isto seria considerar a obra como simples concatenação de eventos, isto é, seria resumi-la a um enredo em que o marido se apaixona por outra mulher, sai de casa para viver com ela e depois volta arrependido. O poema é mais que isso. Ele trata dos efeitos da traição, de como este acontecimento irá impactar a subjetividade da protagonista. Não é, portanto, um poema centrado nas ações, mas sim no drama das paixões.
Percebemos isso desde o começo do texto, quando a mãe deseja se calar sobre o acontecimento. Diante de um vestido pregado na parede, fora de seu lugar habitual, as filhas a impelem a falar. Elas percebem uma alteração na ordem doméstica e exigem explicação. A mãe procura desconversar, ela não quer abrir as chagas do passado – mas ao mesmo tempo deixou o vestido da amante para todos verem. Ora, o efeito da traição sobre a mãe é tão forte que chega a causar um impacto ambivalente: ela não quer voltar ao passado, não quer narrar o caso para as filhas, mas paralelamente não quer esconder o vestido, mas sim expô-lo como um troféu em sua parede, mostrando que saiu vitoriosa no desfecho da trama. A força de contraste presente no vestido – ao mesmo tempo chaga e troféu – serve para comprovar que não se trata de um drama de ações, mas antes um drama de paixões.
Esta paixão irá gerar um discurso de alta tensão poética, visto que a mãe se situa entre dois polos, um que a impele a falar – as filhas – e outro que a incita a calar – o marido, que nunca chega à cena, mas paira ao redor, como uma sombra 1.   Este medo, esta atmosfera de suspense em que a qualquer momento o pai pode subir a escada e chegar ao espaço em que as mulheres conversam sobre algo sigiloso, configura um estado dramático, isto é, repleto de expectativa e tensão.
 
A dramaturgia de “Caso do vestido”
 
Várias características aproximam o poema a uma forma dramatúrgica. Não existe uma voz externa conduzindo o poema, isto é, todos os versos são falas dos personagens em cena, a mãe e as filhas, como no gênero dramático. A mãe, porém, se desdobra em dois outros personagens, a amante e o pai, representando as falas destes como uma atriz, uma contadora de histórias.
A alternância das vozes colabora para o ritmo do texto, em que as filhas ocupam as lacunas deixadas pela mãe. A primeira lacuna é o próprio vestido, que merece explicação. A segunda aparece no choro da mãe, quando as filhas oferecem um lenço para suas lágrimas.
Nessa passagem há uma pausa na fala da protagonista, que realiza em silêncio duas ações cênicas – chorar e apanhar o lenço. A movimentação é fundamental para as características dramatúrgicas do texto, visto que os personagens não se constituem apenas pelas palavras, mas também pelos gestos realizados no palco imaginário. O pai se fechando, chorando “no prato de carne”, batendo na mãe – todas estas ações servem para representar seu estado anímico apaixonado, fora dos padrões habituais. O gesto de pedir à esposa para que o ajude a conquistar a “dona de longe” também se revela crucial para o estatuto dramático da obra, ao desempenhar uma ação cruel, trágica. A dona de longe também realiza um gesto fundamental para o texto, quando, ao pedir perdão, entrega o vestido para a mãe. Estes dois gestos teatrais devem ser compreendidos não apenas como movimentações físicas, mas como atos simbólicos que efetuam transições fundamentais para o texto: a saída e o retorno do pai.
Esses movimentos de saída e retorno estabelecem uma simetria no poema, tendo como eixo o verso “O mundo é grande e pequeno”. O verso serve como divisor de águas entre o primeiro e o segundo movimentos, dois pilares na estrutura arquitetônica de “Caso do vestido”. Quanto à estrutura binária, podemos ressaltar também os espelhamentos entre a dona de longe e a dona casada, entre a mãe e as filhas, entre o vestido e o lenço (uma metonímia do primeiro). Tais aspectos demonstram uma sofisticada organização racional da obra, acompanhada de uma profunda força emotiva, aproximando-a das tragédias clássicas.
Ainda nas características teatrais, podemos considerar que as filhas nos remetem ao coro do teatro grego tradicional, constituindo-se como personagem coletivo. O coro era composto por cidadãos de menor status social – como o são as filhas na família patriarcal representada –, e participava dos acontecimentos como comentador, informante, conselheiro e observador (Margot Berthold, 2004, p.114). O coro, no texto, observa a estranheza do dado inicial (o vestido no prego) e exige uma explicação ao protagonista, a mãe, que se configura neste papel pela tenacidade do coro (“Minhas filhas, escutai / palavras de minha boca.”).
Podemos observar também que, logo no início, já existe uma indicação cenográfica para o poema teatral. Há um elemento cênico, o vestido, a partir do qual toda a trama irá se desenvolver. Ele está pregado – não se diz onde, mas podemos inferir que se trata de uma parede. Ao longo do texto iremos perceber que o espaço em questão é o andar superior de uma casa, que também possui pátio. Tais elementos colaboram para desenhar a cena diante do leitor, dotando o texto de apelo visual. Sábato Magaldi (1985, p.7) nos lembra que a etimologia grega de teatro (theatron) “dá ao vocábulo o sentido de miradouro, lugar onde se vê”, ou seja, o local da plateia, que assiste o espetáculo. Teatro, neste sentido, implica necessariamente em ver a cena, estar diante dela. Este é mais um dos aspectos que servem para aproximar o poema do gênero dramático.
 
“Caso do vestido” e Medeia
 
Escrita por Eurípedes e representada pela primeira vez em Atenas, em 431 a.C., a tragédia Medeia apresenta algumas características que suscitam comparação com “Caso do vestido”. Ambas abordam o tema da mulher traída, abandonada pelo marido. No poema de Drummond, porém, o marido retorna à família, ao perceber que se tratava de uma paixão passageira. Na peça grega o desfecho é mais trágico, em que a protagonista busca se vingar assassinando os próprios filhos, além de matar a nova esposa e o novo sogro de Jasón.
Se Medeia, portanto, aborda a vingança, o ódio, “Caso do vestido” apresenta uma espécie de resignação, de impotência feminina diante do masculino 2. A força trágica do poema se concentra também nesse aspecto, pela sujeição sofrida pela protagonista.
É importante consideramos o contexto das duas personagens para entendermos a diferença. Medeia é uma feiticeira, filha do rei Aietes e portanto neta do Sol. Com seus poderes, ela havia ajudado Jasón a realizar quatro tarefas hercúleas num mesmo dia, como nos lembra Mário da Gama Kury:
 
 
1ª, domar um touro de cascos e chifre de bronze, que soprava chamas pela boca e pelas narinas; 2ª, arar com esse touro um campo consagrado ao deus da guerra (Ares); 3ª, semear naquele campo os dentes de uma serpente monstruosa de cujo corpo sairiam guerreiros armados, prontos a exterminar qyen tebtasse arar o campo sagrado; e 4ª, matar um dragão ferocíssimo, que montava guarda noite e dia ao pé da árvore em cujos galhos estava pendente o tosão de ouro (2007, p. 12).
 
Percebemos, portanto, que Medeia é uma mulher poderosa, diferente da mãe de “Caso do vestido”, que se apequena diante do marido. Esta mãe se encontra num regime patriarcal-católico, em que deve se curvar diante do marido e aceitar todo o tipo de sofrimento e humilhação, sem jamais se revoltar. Seguindo o modelo cristão, ao perder o esposo para a “dona de longe”, a personagem passa por uma via-crúcis:
 
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.
 
Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.
 
Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,
 
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
 
tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.
 
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,
 
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
 
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
 
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
 
Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
 
No último dístico, cumpre ressaltar a semelhança da fala da mãe (“Vosso pai sumiu no mundo”) com a de Cristo em sua morte, ao fim do calvário: “Pai, por que me abandonaste?”  3  . Observemos também que, na resignação católica, cabe à mãe o gesto teatral de realizar o “pelo-sinal”, curvando-se ao poderio do pai.
Na visão de Medeia, porém, tal resignação é impossível de ocorrer para a mulher traída:
 
Vezes sem número a mulher é temerosa,
covarde para a luta e fraca para as armas;
se, todavia, vê lesados os direitos
do leito conjugal, ela se torna, então,
de todas as criaturas a mais sanguinária! (2007, p.29)
 
Medeia valoriza em seu discurso a vingança, a revolta “sanguinária”, que será praticada no desfecho do enredo trágico. Lembremos que, para chegar a tal sentimento, ela passou por um calvário semelhante ao da mãe de “Caso do vestido”. Observemos sua situação no começo da peça, a partir da fala da Ama:
 
[Medeia] jaz sem alimento, abandonando o corpo
ao sofrimento, consumindo só, em pranto,
seus dias todos desde que sofreu a injúria
 
do esposo; nem levanta os olhos, pois a face
vive pendida para o chão
(id ibid, p.19 e 20)
 
Ambas, portanto, sofrem com a perda do marido, o que difere são as reações de cada uma. Medeia opta por externar seu ódio através de gestos sanguinários, ao passo que a mãe de “Caso do vestido” prefere guardar o sentimento para si, embora o demonstre na tensão poética de seu discurso, ao ser interpelada pelas filhas. Trata-se de uma diferença de caráter: Medeia tem “o coração impetuoso”, como diz a Ama (id ibid p. 20), e a protagonista drummondiana parece acovardar-se (“Minhas filhas, vosso pai / chega ao pátio. Disfarcemos.”). Mas Medeia lembra que os caracteres humanos nem sempre são homogêneos:
 
Que ninguém me julgue
covarde, débil, indecisa, mas perceba
que pode haver diversidade no caráter:
terrível para os inimigos e benévola
para os amigos. Isso dá mais glória à vida. (id., ibid, p.53)
 
Do mesmo modo, a mãe do poema não se constitui apenas pelo medo, pois revela rastros de coragem ao expor o vestido no prego, em vez de silenciá-lo num armário.
Vale à pena comparar também os traços de caráter dos maridos em cada obra. Em “Caso do vestido” o pai é tomado por uma paixão devastadora, que o transtorna, chegando a oferecer bens valiosíssimos para que a “dona de longe” aceite seus pedidos. O ápice de sua perdição é quando pede a sua esposa para que intervenha junto à outra mulher, convencendo-a a aceitar os apelos apaixonados:
 
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
 
E ficou tão transtornado
se perdeu tanto de nós,
 
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
 
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
 
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
 
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
 
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
 
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
 
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
 
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
 
que tivesse paciência
e fosse dormir com ele… (2008, p.161)
 
 
Este processo de perdição mostra a condição de vítima do pai frente aos impulsos da paixão. Ele perde o controle de suas próprias ações, se fecha, se devora, bebe e bate em sua esposa. É importante ressaltarmos aqui, portanto, que o ato de pedir a ela para que intervenha junto à “dona de longe” não se configura apenas com um ato de domínio sobre a esposa no regime patriarcal, mas também como um ato de submissão frente a uma paixão fulminante, diante da qual ele não consegue se impor.
Seu retorno, porém, é marcado pelo silêncio e por uma fala corriqueira, como se nada houvesse acontecido. Não existe uma conversa entre os dois, mesmo após tanto sofrimento. Eles querem apenas retornar à ordem doméstica, evitando falar sobre o passado traumático.
 
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,
põe mais um prato na mesa.
(id ibid p.165)
 
O marido em “Caso do vestido” parece regido pelo silêncio, projetando-o também sobre sua esposa, que evita falar sobre a peça de roupa com as filhas. O único momento em que ele manifesta sua interioridade é no processo de paixão tormentosa, quando implora pelo amor da dona de longe.
Na tragédia de Eurípedes, Jasón conversa com Medeia. Suas falas, porém, não chegam a aliviar o espírito da esposa traída. O discurso de Jasón busca apresentar uma explicação lógica para seus atos, para que Medeia compreenda a razão de seu afastamento e o perdoe.  Mas tal mecanismo discursivo não funciona diante do “coração tempestuoso” – dificilmente uma explicação racional poderia amenizar a ira de uma feiticeira traída. Ao perceber que suas palavras de nada servem, Jasón desabafa:
 
Mas as mulheres são assim; nada lhes falta
se o leito conjugal é respeitado; se ele
recebe um dia o menor golpe, então as coisas
melhores e mais belas vos parecem péssimas.
Se eu pudesse ter de outra maneira os filhos
não mais seriam necessárias as mulheres
e os homens estariam livres dessa praga!
(id. ibid. p.40)
 
A retórica de Jasón mostra-se ineficaz diante da potência emotiva de Medeia. Percebemos isso principalmente no momento em que ela decide matar seus filhos, ao afirmar que “Deste momento em diante / quaisquer palavras passarão a ser supérfluas.” (p.53). Não servem para nada as tentativas de convencimento, os acordos. Medeia tem consciência de que irá sofrer com a perda dos filhos, mas sabe que “maior / do que minha vontade é poder do ódio, / causa de enormes males para nós, mortais!” (p.64).
Percebemos, portanto, que o modo de reagir de cada um dos maridos é bem diferente. Em “Caso do vestido”, o amor está próximo de um caso de doença que acomete o pai e o faz perder o juízo, levando-o a cometer injúrias terríveis contra a mãe. Em Medeia, existe uma relação interessada de Jasón, visto que sua nova esposa é filha de Creonte, rei de Corinto, o que assegurará grande poder a ele e seus descendentes. No poema drummondiano podemos considerar que o pai não se manifesta verbalmente por sofrer uma paixão doentia, tornando-se também uma vítima de seu impulso sexual. Jasón não é uma vítima, mas um homem que age racionalmente para ascender na sociedade. Por isso a reação de Jasón é criar um discurso racional que busca explicar sua decisão, enquanto o pai de “Caso do vestido” não tem o que falar, expressando-se apenas através de gestos e silêncios.
Outro dado curioso para observarmos em nossa comparação é o destino de cada esposa após o abandono. Em “Caso do vestido”, a mãe permanece em casa, é o pai quem sai. Embora a mãe realize um percurso da perdição saindo em sua via-crúcis (“andei pelas cinco ruas, / passei ponte, passei rio”), embora ela tenha que arcar com as despesas familiares (“costurei, lavei, fiz doce”, “minha corrente de ouro / pagou conta de farmácia”), o espaço doméstico permanece sob seu domínio.
Já Medeia perde o direito de viver em sua cidade, um dos maiores castigos para o cidadão grego. O rei Creonte a expulsa de Corinto, com medo de que a feiticeira trame algo contra sua filha, agora casada com Jasón. Logo após o diálogo com o rei, em que este anuncia a expulsão, Medeia começa a formular seu plano de vingança, o que nos permite considerar que o banimento é a gota d’água para a feiticeira:
 
Vêm-me à mente
vários caminhos para o extermínio deles,
mas falta decidir qual tentarei primeiro,
amigas: incendiarei o lar dos noivos,
ou lhes mergulharei no fígado um punhal
bem afiado, entrando a passos silenciosos
na alcova onde está preparado o leito deles?
Mas uma dúvida me ocorre e me detém:
se eu for surpreendida traspassando a porta
na tentativa de atingi-los com meus golpes,
rirão de mim, vendo-me morta, os inimigos.
Melhor será seguir diretamente a via
que meus conhecimentos tornam mais segura?
Vence-los-ei com meus venenos. Que assim seja!
(id. ibid. p.34)
 
Tomada pela vingança, a primeira vítima de Medeia será a nova esposa de Jasón. Aliás, este é um traço comum entre as duas obras, o sofrimento da “outra”. Tanto a esposa de Jasón quanto a “dona de longe” passam por situações terríveis, sendo que a primeira morre e a segunda se arrepende dos atos luxuriosos. Observemos a agonia por que passa a vítima de Medeia, conforme o relato do Mensageiro a Jasón:
 
do diadema de ouro em seus lindos cabelos
saía uma torrente sobrenatural
de chamas assassinas; o véu envolvente
– presente de teus filhos – consumia, ávido,
as carnes alvas da infeliz. Ela inda pôde
erguer-se e quis correr dali, envolta em fogo,
movendo em todos os sentidos a cabeça
no afã de se livrar do adorno flamejante,
mas o diadema não saía do lugar
e quanto mais a moça agitava a cabeça
mais se alastravam as devoradoras chamas.
Ela caiu no chão, por fim, aniquilada
e tão desfigurada que somente os olhos
do pai foram capazes de reconhece-la.
Não se podiam distinguir sequer as órbitas
nem ver de forma alguma o rosto antes tão belo;
corria muito sangue de sua cabeça
e misturava-se com as chamas; suas carnes,
roídas pelos muitos dentes invisíveis
de teus venenos, desprendiam-se dos ossos,
e à semelhança da resina dos pinheiros
desintegravam-se numa cena horrorosa.
(id. ibid. p.67 e 68)
 
Em “Caso do vestido” a “dona de longe” não chega a morrer, mas passa por uma via-crúcis semelhante à da mãe, o que colabora para a força estrutural do poema, reforçando também o espelhamento entre as duas:
 
Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
(id. ibid. p.163 e 164)
 
Em seguida, a mãe de “Caso do vestido” descreve a dona de longe oferecendo seu vestido e pedindo perdão. Nesse momento há uma mudança de caráter na personagem, que deixa de ser a “mulher do demo” para se redimir frente à “dona casa”, num gesto que simboliza sua conversão, seu ritual de transição dentro da mundividência cristã presente no poema. Não deixa de ser também a morte simbólica da pecadora, que renasce por meio de uma redenção.
 
Considerações finais
 
Medeia é um texto fundamental para a história da literatura no Ocidente. A força trágica da esposa traída, que se vinga matando os próprios filhos, desdobra-se em várias releituras, recriações e diálogos, fazendo o texto reviver em diversas tradições literárias. O poema “Caso do vestido” apresenta pontos de contato com Medeia, sendo mais uma de suas ramificações culturais.
Porém, o poema drummondiano não se esgota numa simples recriação de Medeia. A esposa não mata suas filhas para se vingar do marido, apaixonado pela “dona de longe”. O texto apresenta outro desdobramento para a traição. A morte dos filhos, aqui, é antes de tudo uma morte simbólica: a morte da inocência. Ao tomarem conhecimento da história trágica vivida pela família, as filhas perdem a visão pueril do casamento harmonioso – visão esta que a mãe a todo custo tenta/tentava manter, através do silêncio. A mãe, ao narrar o caso de traição, apresenta para elas o caráter trágico da vida, suas perdas – mas também seus ganhos, ainda que dolorosos.
Do mesmo modo que nós, leitores da tradição ocidental, crescemos com as narrativas trágicas, as filhas crescem escutando as trajetórias da mãe, do pai e da amante. Trata-se do famoso tópico “o ensinamento pelo sofrimento”, que, em “Caso do vestido”, representa simbolicamente a passagem das filhas para a vida adulta.
 
 
Notas
 
1 A este respeito, podemos lembrar da observação de Marlene de Casto Correia (2002) de que a poesia de Carlos Drummond de Andrade se situa entre a expansão e a retração, dotando-a de “inconfundível dramaticidade”. No poema, as filhas incitam a expansão da mãe, enquanto o pai provoca sua retração.
 
2 Lembremos a observação de Alcides Villaça sobre o sentimento de impotência na poesia drummondiana: “As impotências reverberam, assumidamente, no âmbito da expressão mais lúcida e iluminadora, constituindo-se assim o paradoxo dramático e nuclear da poética de Drummond.” (2006, p.13). Trata-se, portanto, de um tema recorrente em sua obra, desde seu primeiro livro, Alguma poesia, que configura o sujeito gauche.
 
3 Trata-se de um tópico abordado em outros momentos da poesia drummondiana, como no “Poema de sete faces” (2008 p.5), na estrofe “Meu deus, por que me abandonaste / se sabias que eu não era deus / se sabias que eu era fraco”. Percebemos aí o sujeito gauche, desamparado, em diálogo com a tradição bíblica.
 
 
Referências  bibliográficas
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.
BERTHOLD, Margot. História mundial do teatro.  São Paulo: Perspectiva, 2004.
CORREIA, Marlene de Castro. Drummond: a magia lúcida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
EURÍPEDES. Medéia; Hipólito; As troianas. Trad. Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. São Paulo: Ática, 1985.
VILLAÇA, Alcides. Passos de Drummond. São Paulo: Cosac Naify, 2006.





Bio fornecida pelo palestrante.

VALTER HUGO MÃE NA CENA LITERÁRIA CONTEMPORÂNEA – Danilo Sales de Queiroz Silva




 
DANILO SALES DE QUEIROZ SILVA
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
DOUTORANDO EM LITERATURA E CULTURA (BOLSISTA FAPESB)
 
Resumo: Levando em consideração o surgimento e, principalmente, a posição de destaque que ganha o autor angolano no campo literário atualmente, propomos entender sua participação na cena literária por meio dos fios discursivos presentes em sua ficção (formando uma espécie de “família literária”, que pode salvar-nos da solidão) e também através de suas aparições públicas, com destaque para a participação na Festa Literária de Paraty de 2011, investigando como se promove e se imputa uma assinatura que, em muito, beneficia o escritor.
Palavras-chave: Valter Hugo Mãe, autoria, Literatura Comparada, Literatura contemporânea.
 
 
Abstract: Due to the top position reached by the Angolan author, we try to analyze his participation in the contemporary literary field, through the discursive threads on his fiction – imaginary structuring a “literary family”, a perception that literature can save us from solitude – and through Valter Hugo Mãe’s public showings, particularly his participation in the literary festival in Paraty, 2011, investigating how Mãe’s signature is formed and the way it can profit the writer.
Keywords: Valter Hugo Mãe, author, Comparative Literature, Contemporary Literature.
 
 
 
“Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”. A frase, retirada do romance O filho de mil homens e aplicada ao protagonista (Crisóstomo), poderia também servir ao escritor de origem angolana. Durante a Festa Literária de Paraty em 2011, com 39 anos, Valter Hugo Mãe – que à época ainda assinava em minúsculas – revelou ter grande desejo de ter um filho.
Coincidência, representação ficcional de seu desejo, puro artifício na construção de um personagem que em nada reflete sua vida. Nenhuma das hipóteses descartadas, seguimos neste trabalho a ideia de que um ponto importante no surgimento e destaque que ganha o escritor contemporaneamente na cena literária advém do entrelaçamento entre sua vida e obra, ou melhor – para retirar o caráter algo determinista desse enlace “vida e obra” –, da simpatia causada pela figura carismática que Mãe apresenta durante suas aparições – conquistando cada vez mais leitores, como foi possível perceber na FLIP de 2011. Em outras palavras, durante suas aparições públicas, o autor, cujos romances já foram aclamados por instituições de prestígio (ganhou os prêmios Almeida Garret, José Saramago e dois Telecom), chama a atenção do público pela sua participação comovente, emocionante, sensível ou brincalhona: durante a FLIP arrancou lágrimas e aplausos da plateia; em entrevista circular dada ao programa Roda Viva, foi muito aclamado pelos debatedores.
Propomos um estudo sobre a posição do escritor angolano Valter Hugo Mãe no campo literário, levando em consideração que uma das estratégias mais fortes seja a criação de uma espécie de “teia” literária – com outros autores, outros campos artísticos em que atua – dando a ele lugar de distinção na circulação literária atual. Consideramos importante analisar de que modo sua rede de conexões tornou possível ou, ao menos, facilitou essa ascensão aos louros da crítica e do público. Também tentaremos, simultaneamente, entender como essa teia foi responsável pela formação/ratificação de uma assinatura: já anunciada no tom religioso com que fecha o romance supracitado (O filho de mil homens), parece ter ganhado ainda mais força após seu discurso emotivo na festa, garantindo ao autor os mais variados (e “doces”) epítetos – doravante citarei, sempre entre aspas, os epítetos utilizados pelas matérias midiáticas que cito na bibliografia (notadamente a Veja e a GloboNews). Antes de prosseguir, delimitamos o estudo à interpretação de seus romances e à maneira como o escritor foi acolhido pelo público e crítica brasileiros, enfocando na sua participação na FLIP – momento em que Mãe passou de quase desconhecido a “queridinho” – e na recepção que aqui teve.
Faz-se necessário introduzir duas premissas que foram colocadas no parágrafo anterior. Primeiro, em relação à importância do seu nome na cena literária atual, considero o autor de grande fama por alguns aspectos. Pela sua posição de destaque devido aos diversos prêmios literários, dentre eles o José Saramago em 2007, que rendeu para o escritor uma fala muito emocionada e elogiosa do autor que deu nome ao prêmio. Saramago disse ter, por vezes, assistido a um novo nascimento da língua portuguesa, classificou o livro O remorso de Baltazar Serapião como um tsunami literário e classificou Mãe como promessa de um arejamento na língua e literatura. Usando daquilo que Bourdieu denomina “poder de consagração”, Saramago nos parece ser o pontapé inicial para a formação da trajetória de sucesso do autor angolano. Não seria, entretanto, uma ratificação feita ao acaso: com traços que foram marcadamente atribuídos a Saramago (uso diminuído de pontuação, diálogos intercalados com a narrativa, além do trabalho com a linguagem), Mãe recebeu os louros da crítica especializada, já acostumada e seduzida pela estética da narrativa utilizada pelo escritor português.
Vale lembrar que o nome do protagonista de Mãe remete ao nome de um dos personagens caros a Saramago (Baltasar), e a trama d’O Remorso compartilha um “ambiente” (a pobreza, a família reunida, o trabalho extenuante), em alguns aspectos, similar àquele apresentado durante a narrativa do Memorial do Convento. Apesar de tais fatos não constituírem para nós objeto de crítica negativa, já que a influência de um autor sobre outro nos parece processo constitutivo natural de toda escrita, é interessante notar essa situação como uma espécie de continuidade de um círculo literário estável. Diríamos que se embasa aí, nessa continuidade e nessa consagração por autor de grande prestígio, a posição privilegiada alcançada por Mãe, alçando-se a uma posição dentro da hierarquia interna do campo literário por uma demanda dos autores já “consolidados” e da crítica institucionalizada. Consideramos, contudo, que sua posição também é galgada por uma “expectativa e (…) sanção anônimas do mercado” (BOURDIEU, 2010, p.247), visto que a expansão de sua fama não coincide diretamente com os elogios e prêmios recebidos, mas antes se dá pela sua diferença em relação aos antecessores. Falamos aqui, mais especificamente, sobre a ideia de que o surgimento (ou reconhecimento) da narrativa e da performance do escritor está provavelmente coadunada com uma espécie de demanda do público e do mercado editorial, que encontrou em Valter Hugo Mãe terreno fértil para a exposição de características que parecem estar, simultaneamente, em falta e em procura. São elas, basicamente, a empatia e o carisma, mas voltaremos a esse ponto mais adiante.
Além de muito laureado (como já foi dito, ele acumula até agora quatro prêmios de grande valor no campo literário), desde 2012, Mãe tem um programa de entrevistas na televisão portuguesa. Também é cantor e compositor de Governo, uma banda caracterizada pelo escritor como “pós-fado”. As letras das músicas do grupo – muitas de autoria do angolano – levaram-no a certo sucesso e a uma “descoberta”, por parte de curiosos, de suas primeiras obras literárias – poemas de difícil acesso ainda no Brasil. Essa inserção em diversos espaços é constitutiva da teia literária de que falamos antes, e constitui a segunda premissa que carecia de definição.
Chamo de “teia” um conjunto muito díspar de conexões. No campo literário, seja como autor – em que fala de escritores estimulantes (os quais ele denomina de “pais e mães” na “nota do autor” em O filho de mil homens) –, seja como editor – publicando obras de portugueses e brasileiros com os quais busca ter mais proximidade –, o escritor tenta criar uma espécie de família literária para dar lastro ao seu discurso ficcional. Chamo aqui de família uma tentativa dupla: a de criar laços afetivos com os demais artistas e a de indicar uma filiação, uma influência mais “profunda” do que indicaria uma simples leitura dos seus predecessores. Além disso, seu trabalho em outras áreas, como a música e a televisão, também conferem ao nome dele grande circulação na cena artística em geral.
Tomo as palavras de Mãe na “nota do autor” que aparece ao final do livro O filho de mil homens, uma espécie de prólogo explicativo ou suplemento ao livro. Depois de contar uma história convencional sobre uma criança na ânsia de conseguir alguns biscoitos (supostamente o autor na infância, posto que inscreve essa história fora dos demais capítulos do romance), Mãe desloca o momento que – parece-nos – seria o mais esperado: o momento de devorá-los. Nessa história, contudo, a criança gostaria de consegui-los para, em seguida, guardá-los. Numa espécie de mundo místico, envolto pela pureza e pelo tom sacrificial das imagens dos santos católicos na casa da senhora que oferecia os biscoitos, o menino imaginava as almas daqueles santos recheando os biscoitos que o faziam estremecer, e imaginava-se impuro se os comesse, “assim como achava terrível que se comesse o corpo de deus nas hóstias”.
Refletindo sobre essa atitude da criança, em tom saudoso, Mãe fala de um sentimento que parece guardado às crianças e que gostaria de retomar:
 
[O] sentimento, que na sua plenitude talvez se reserve às crianças, de acreditar que alguém cuida de nós segundo o nosso mérito. Quando se perde essa convicção, fica-se irremediavelmente sozinho. Os pais e os filhos são o único modo de interferir positivamente nessa solidão

Sei bem que sou filho de mil homens e mais mil mulheres. Queria muito ser pai de mil homens e mais mil mulheres. (MÃE, 2010, p. 203-204)
 
De tom inicialmente religioso, a narrativa passa a falar de um sentimento que está como base de um medo e de uma graça – o escuro da casa da senhora e o rosto dos santos em piedade deixam o menino acuado, enquanto a possibilidade de se fazer um menino melhor aparece na sua diferenciação em relação aos demais, afinal de contas, ele recusa o prazer da “gula”.
O sacrifício que faz o menino para guardar os biscoitos (descobrimos depois que ele possui uma vasilha onde estão armazenadas várias outras guloseimas) parece, então, a solução encontrada por ele para manter-se longe do outro lado da moeda sacra: a carnificina. Esse tema – o embate entre o sagrado e o mundano, o divino e o infernal, a virtude e o vício, vida e morte – de forte orientação cristã foi abordado pelo escritor em outras obras, como é o exemplo de Nosso reino, romance em que dois garotos fazem um pacto em favor da santidade, formando um par oposto a outro personagem do livro – um monstro triste e sombrio, de aspecto melancólico e sobrenatural, que vaga nas ruas assustando as pessoas e devorando lixo. Neste romance, a exigência de santidade de um dos meninos chega ao ápice pela recusa a tudo aquilo que seja fruto da dor, mantendo-se firme no propósito de fazer o bem e ser santo. O desenlace da narrativa, porém, mostra a faceta contrária da santidade, quando o menino, depois da morte de seu amigo com quem fez o pacto e por conta das suas escolhas, vira ele mesmo o substituto do monstro triste que ronda o bairro.
Citamos o romance por considerarmos aí, especialmente pelo entrelaçamento do viés adotado na narrativa de ambas as histórias, o surgimento de uma assinatura que apela para o universo da moral e conduta religiosas. Dialogando majoritariamente com o cristianismo dos países de língua portuguesa – referimo-nos a Brasil e Portugal, países em que Mãe já goza de bastante prestígio –, o autor se faz valer dos pressupostos dessa cultura para criar a sua assinatura, que, parece-nos, assume uma posição ambígua, entre a admiração por alguns conceitos e a crítica ao comportamento extremado. Com essa posição, acreditamos que o autor criou uma marca que, se não permite identidade pelo caráter instável de toda assinatura, foi constantemente modulada nos romances iniciais e parece, ao menos a partir de O filho de mil homens, ter atingido um sinal de contestação crítica maior do que o observado anteriormente.
Quando do seu estudo sobre Machado de Assis, Abel Barros Batista explicita, na esteira de Derrida, o valor e a função da assinatura:
 
(…) não é exatamente o nome próprio de autor que difere dos outros, mas a operação de assinatura que o cinde, permitindo-lhe continuar a designar um indivíduo, anterior à obra e seu primeiro agente, do mesmo passo que descreve já não o indivíduo, mas a obra: por efeito da assinatura, o nome converte-se em nome de obra, mais ainda, em nome de certa maneira, de certo estilo, ou, em termos machadianos, de certa “feição do livro”, imitável, repetível, reprodutível sem laço necessário com alguma interioridade ou individualidade original. (BAPTISTA, 2003)
 
E é desse modo que pensamos esta assinatura que agora imputamos a Mãe a partir da nossa interpretação dos seus romances. Apelamos a uma assinatura que incorpora o autor a certo estilo, a certa “feição do livro”. Pensamos que a percepção de um tema como centro do trabalho do autor pode nos ajudar a discutir sua ascensão no campo literário – sem, com isso, estancar os sentidos dos romances, posto que a assinatura é por nós imputada e, portanto, criação do nosso trabalho. Portanto, analisamos agora o investimento que percebemos estar em obras do autor: pensar uma conduta moral, dentro do catolicismo majoritário dos países com que tem maior diálogo. A reflexão sobre tal conduta parece despontar tanto na criação dos seus personagens quanto nas suas aparições públicas. Tento, doravante, explicitar estas hipóteses.
No romance A desumanização, o escritor narra os dias de uma menina que perde a irmã gêmea ainda criança, e, a partir desse eixo da morte como interrupção abrupta da pureza, também nos é apresentado o mundo de uma infância que se segue em meio à perda. Via de mão dupla, esse novo romance parece tensionar as duas oposições colocadas anteriormente sob o nome de assinatura: o emparelhamento ou confronto entre a vida e a morte, assim como certa admiração/rechaço pela cultura cristã. Explicamos: o fato de as irmãs serem gêmeas provoca um movimento duplo, a saber, por um lado, a vida e morte parecem coexistir, já que sempre foram tratadas como iguais (a mãe das meninas, que entra em depressão profunda e fica sorumbática, pensa que não tem mais filha e, ao ver a gêmea que ainda vive, acaba por se multilar), por outro lado, a gêmea viva fica responsável pela salvação da alma de ambas, uma tarefa tão bela quanto sacrificial e impraticável. Detemo-nos aqui, tirando da nossa interpretação apenas as conclusões que parecem servir também ao romance O filho de mil homens e à assinatura que a partir deste livro formulamos para o autor.
Por um lado, o tom emotivo nessa e em outras histórias referentes à vida ou a infância do escritor aparece não só como uma ode à bondade, mas também como formador do mito do aspecto ultra emotivo que circunda a figura de Mãe. Falo aqui no termo figura, porém, com uma concepção simples de imagem que nos chega a partir de seus livros, seus relatos, entrevistas, etc. Parece interessante pensar em como esse aspecto tem uma relação forte com o país escolhido pelo autor – vale lembrar que mãe é angolano de nascimento, mas, filho de portugueses, mudou-se para o país europeu com dois anos e lá mora até hoje – cuja cultura se baliza muitas vezes pela “sentimentalidade, ligada à história nacional” (LOURENÇO, 1999). Sentimentalidade investida pelo autor, que é também cantor de fados, ou pós-fados, como prefere assumir.
Tal aspecto, qual seja o mito criado em torno do escritor angolano como “emotivo por excelência”, deu-lhe inclusive o epíteto “fofo”, como ficou conhecido depois da participação em Paraty (Veja, Julho de 2011). O mesmo aplicar-se-ia às suas postagens e comentários nas redes sociais, além de sua escrita, com metáforas imagéticas (uma noiva que se veste de luz “como se caísse de um candeeiro” ou um homem que, consumido pelos pensamentos, entrava em queda livre e “caia para dentro de si mesmo”, ambas imagens do romance O filho de mil homens) e diálogos com ensinamentos sobre retidão moral e delicadeza. O escritor diz preocupar-se em fazer de suas narrativas mais do que um trabalho intelectual, transformando seus livros em “máquinas de fazer sentir” (como dito em entrevista à GloboNews).
Se esse tom emotivo nos leva a pensar na mitificação da figura do autor (que nos parece algo corroborada pela postura de Mãe), parece possível traçar um paralelo com a ideia esboçada por Mukarovsky no seu texto sobre “A personalidade do artista”.
Falando sobre as modificações por que passa o conceito de “artista” e da circulação desse nome enquanto figura no campo literário, o autor deste texto detém-se no exame dos diversos aspectos distintivos que funcionaram como conceituação da figura do artista. Entre as diversas valorações que Mukarovsky traz à baila para definir como essa personalidade funcionou no decorrer da história, chama a atenção o modo como este autor trata a ideia de gênio, inventada no Romantismo e definida como uma “espontaneidade criadora”. No texto, em discussão posterior, quando, percebendo o agonizar dessa concepção datada (artista como gênio inspirado e criador por natureza), Jan Mukarovsky afirma que, mesmo sofrendo diversas modulações, não temos uma história de ruptura em relação a esse conceito de artista, mas sim uma continuidade (MUKAROVSKY, 1993, p.276-281). Essa continuidade diz respeito à personalidade diferenciada do artista – excêntrico, exótico ou de qualquer modo diferente. Essa ideia de personalidade artística nos parece de grande valia para pensar a ascensão do escritor emotivo Valter Hugo Mãe.
Tentamos explicar-nos melhor: se a personalidade do artista estava conectada à ideia de gênio criador, agora, ousaríamos dizer, talvez a “personalidade do artista” paire sobre a ideia – muito generalizadora, muito aberta, talvez muito própria à nossa época – de diferenciação. Assim funcionaria a criação de uma imagem de artista à nossa época: menos por uma genialidade original do que por uma diferenciação em relação aos demais escritores. No caso de Mãe, uma diferença que o marca como emotivo, apaixonado ou “fofo”, dando vazão talvez para uma retomada da ideia de que o escritor se exprime/expressa.
Tal ponto nos remete a uma ideia esboçada anteriormente: a de que a consagração de Valter Hugo não dependeu exclusivamente do poder exercido pelos autores canônicos, nem foi determinada por um sistema interno que recoloca diversos autores em posições já estabelecidas, nem mesmo de que o seu reconhecimento seria fruto de uma estrutura permanente. Parece-nos que a posição ocupada pelo escritor angolano é fruto de uma espécie de dialética de duas demandas consideradas por Bourdieu: as forças dominantes externas (os grandes centros produtores e difusores) e as revoluções internas (as mudanças e os espaços abertos ou transformados dentro do campo literário). Consideramos ainda mais: o reconhecimento atingido pelo escritor deve corresponder a uma expectativa de mercado que, acreditamos, talvez com mais esperança do que pessimismo, corresponda a uma necessidade do público de um tom emotivo, tal como o empregado por Mãe. Sobre essa expectativa e necessidade falaremos mais adiante, cabe agora entender o funcionamento desse tipo de tom discursivo (ficcional ou não) no campo literário de que participa.
De que forma esse tom, encontrado nos seus textos literários, reafirmado nas suas entrevistas e condensado no discurso comovente da FLIP de 2011, corroborado por suas canções sentimentais entoadas em voz grave nos fados portugueses que ele reelabora – enfim, de que forma esse tom funciona? Não seria (também) uma estratégia de ficcionalizar o escritor e forjar sua identidade artística dentro do universo literário do qual participa? Reinaldo Marques, em seu texto sobre as imagens do escritor, fala sobre a “inserção do escritor no espaço da mídia”, destacando especificamente o funcionamento da Festa Literária Internacional de Paraty como o planejamento da guinada dos escritores (MARQUES, 2012, p. 61). Foi justamente nessa festa que o escritor ganhou destaque para os leitores brasileiros, tendo depois diversos livros seus publicados por editoras brasileiras de grande circulação.
Na citada matéria da Veja, o escritor afirmou ter sido acompanhado na FLIP todo o tempo por um cinegrafista carioca, contratado pelo seu editor. Preparou um texto comovente sobre uma família brasileira de quem foi vizinho e que muito o agradou por serem tão solidários – o texto foi publicado após a participação. Recebeu pedido de casamento por uma leitora no momento do autógrafo e afirmou em entrevista a vontade de ter um filho. Cantou um dos fados, emocionou novamente os ouvintes e falou jocosamente sobre as diferenças entre os sotaques do português europeu e brasileiro. Tornou-se figura carismática na feira – a mesma revista chegou a publicar que o nome cotado para “estrela literária” seria a escritora argentina Pola Oloixarac e que os dois teriam “trocado farpas”. Além disso, sua identidade foi ficcionalizada para receber o nome mãe. Tudo isso destaca o funcionamento de uma exposição controlada para promover um escritor. E é nesse sentido que entendemos o funcionamento desse tom emotivo também em função de uma exposição midiática programada com fins de estrelato dentro do campo literário. Mas não apenas.
De que forma esse tom emotivo empregado nos discursos (no discurso ficcional, os protagonistas são esperançosos e solidários, seres notadamente idealistas e bondosos; nas aparições, Mãe faz questão de contar histórias sobre pessoas e acontecimentos que revelam uma esperança na humanidade), essa familiarização dentro do campo literário, ou – avançando um pouco mais, com o perigo de ser paternal com o meu objeto, dada a minha escolha de leitor também esperançoso – de que forma essa “empatia” não é uma forma de colocar em voga uma sensibilidade deixada de lado devido à intelectualização e profissionalização do campo literário? É nesse sentido que considero a consagração de Mãe uma possibilidade que estava latente no campo literário.
Diz-nos Bourdieu:
 
(…) é preciso perguntar não como tal escritor chegou a ser o que foi – com o risco de cair na ilusão retrospectiva de uma coerência reconstruída –, mas como, sendo dadas a sua origem social e as propriedades socialmente constituídas que ele lhe devia, pôde ocupar ou, em certos casos, produzir as posições já feitas ou por fazer oferecidas por um estado determinado do campo literário (etc.) e dar, assim, uma expressão mais ou menos completa e coerente das tomadas de posição que estavam inscritas em estado potencial nessas posições. (BOURDIEU, 2010, p. 244)
 
É exatamente nesse espaço colocado por Bourdieu que se inscreve nossa hipótese de que talvez existissem (e ainda existam) expectativa de mercado e necessidade do público por um escritor que condense emoções nos discursos. Notamos claramente a funcionalidade dessa sensibilidade como estratégia de reconhecimento, mas também apelamos a isso como uma possível estratégia de reconciliar a magnitude das emoções ao processo intelectual, a formação ou consolidação talvez de uma razão que envolva o mundo das paixões – próximo ao conceito de razão sábia proposto por Rouanet em seu texto sobre “Razão e paixão” (CARDOSO, 1987, p. 437-467).
Tornar-se narrador é, em acordo com o princípio de empatia, colocar-se na pele do outro (WOOD, 2010), um ensinamento que parece permear todo o enredo de O filho de mil homens e a postura do autor, em sua ânsia de tornar-se comum – apesar de seu contínuo roçar com a linha tênue do diferenciado. Parece-nos que, para o escritor, o livro surgiu como oportunidade de desenvolver ideias que já estavam sutilmente anunciadas em alguns escritos anteriores e que estão presentes também nos livros posteriores a esse romance: de que forma a imaginação de um mundo melhor – o que vale dizer, a formação de utopias – e a empatia sentida pelos homens podem transformar o mundo?
Talvez, dado o universo em desencanto em que parecemos viver, a empatia – conceito amplo a que se aderem aspectos do ágape grego, da compaixão cristã, do humanismo renascentista e da universalidade constante no socialismo utópico – seja uma característica deixada de lado. Torna-se importante então pensar na postura de Mãe também como um escritor acreditando que a literatura seja, hoje, um espaço para o exercício dessa qualidade.
 
REFERÊNCIAS
BAPTISTA, Abel Barros. A Formação do Nome. Duas interrogações Sobre Machado de Assis. S.P. Unicamp, 2003.
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: Genese e estrutura do campo literário. Cia das Letras, 2010.
GLOBONEWS. Escritor valter hugo mãe em participação na flip 2011. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=l0WLfxnPCy8>
LOURENÇO, Eduardo. Mitologia da saudade, seguido de Portugal como destino. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
MARQUES, Reinaldo. “O arquivo literário e as imagens do escritor”. In: O futuro do presente. Arquivo, gênero e discurso. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2012, p. 59-88.
MÃE, valter hugo. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
MUKAROVSKY, Jan. “A personalidade do artista”. In: Escritos sobre estética e semiótica da arte. Editorial Estampa, 1993, p. 273-290
NUNES, Maria Leonor. As grandes minúsculas de valter hugo mãe. Jornal de Letras, Artes e Ideias, jan., 2010. Disponível em: <http://visao.sapo.pt/as-grandes-minusculas-de-valter-hugo-mae>. Acesso em: 18 jul. 2014.
RODRIGUES, Sérgio (2011). “A musa e o xodó: Pola Oloixarac e Valter Hugo Mãe”. Veja, 8 de Julho de 2011. Página consultada em 5 de junho de 2014. Disponível em: <HTTP://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/vida-literaria/a-musa-e-o-xodo-pola-oloixarac-e-valter-hugo-mae/>
Veja Livros (2011), “Valter hugo mãe, o fofo da literatura”, 15 de Julho de 2011. Página consultada em 5 de junho de 2014. Disponível em <HTTP://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/valter-hugo-mae-o-fofo-da-literatura>
WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: Cosac&Naify, 2010.
 
DANILO SALES DE QUEIROZ SILVA: Graduado pela UFBA em 2010 em Letras Vernáculas, foi bolsista FAPESB durante a graduação sob orientação de Mirella Márcia Longo Vieira Lima, vinculado ao projeto de pesquisa Artes Tardias. Mestre pela UFBA, titulado em 2013, e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura também da UFBA, iniciado em 2014, bolsista FAPESB, atuo principalmente nas áreas de Literatura Comparada, Literatura Brasileira e Portuguesa, com ênfase em estudos sobre as representações literárias da família e do entrelaçamento com a sociedade.
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O ECO DE LOUCURA EM SOROCO – Daniele Fernanda Eckstein




 
O ECO DE LOUCURA EM SOROCO
 
Daniele Fernanda Eckstein
Universidade de Coimbra
 
 
Breve biografia
 
Estudante de mestrado em Estudos Literários e Culturais, opção Literatura e Cultura Brasileira, pela Universidade de Coimbra. Tendo-se licenciado em Psicologia pela Universidade Estadual de Máringa, Brasil, com posterior curso de Formação em Psicanálise Lacaniana pela EBP, secção SC. Vem se dedicando aos estudos literários por meio do mestrado e outras instâncias sociais, inclusive através da escrita e leitura de poemas.
 
 
Resumo
Este trabalho propõe a análise de um dos aspectos da problemática das narrativas do fim, precisamente no que toca a? loucura, a partir do conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, de Guimarães Rosa. Tem como fundamentação teórica “O mal-estar na civilização”, postulado por Freud (1996), e o conceito de loucura em Foucault (1978), os quais reúnem motivos centrais para pensar o desconsolo humano expresso nas peculiaridades do modo de escrita de Guimarães Rosa. Assim, esta abordagem possibilitará a análise consistente do tema de estudo e a averiguação do lugar deste tipo de discurso na contemporaneidade. Sob os efeitos da modernidade, a marginalização da loucura e o extermínio daqueles que nela habitam são usados como solução para a regeneração da humanidade, práticas sociais que constituem o sentido que criamos do mundo. A impotência perante a dureza do real em “Soroco, sua mãe, sua filha” e o lugar social do sofrimento humano, que oscila entre a esperança e o desespero, serão aqui contemplados como narrativas do fim.
 
Palavras-chave: ficção, loucura, Freud, sofrimento e consolo.
 
 
 
O ECO DE LOUCURA EM SOROCO
 
Daniele Fernanda Eckstein
Universidade de Coimbra
 
 
“Soroco, sua mãe, sua filha” é o terceiro conto que compõe o livro “Primeiras Estórias” de João Guimarães Rosa, publicado em 1962. O livro ganha destaque na obra do escritor não só pela inovação estilística, mas também pelo enfoque na abordagem social presente nos 21 contos, apresentando, em diferentes perspectivas, sujeitos que estão à margem da sociedade.
Sendo o primeiro livro de histórias curtas do escritor, motivo pelo qual a obra é intitulada Primeiras, os contos ambientam-se todos no sertão brasileiro, apresentando como forte característica uma literatura regionalista, permeada pelo uso da linguagem coloquial e por  neologismos tipicamente roseanos. Como aquele que aparece no título “estórias”, termo emprestado do inglês, em referência ao termo “história”, para designar o carácter mais próximo do ficcional. Enquadrado na terceira fase do modernismo brasileiro, este livro, bem como toda a obra do escritor, impõe-se como um marco na evolução da literatura brasileira.
Ao mesmo tempo em que o regionalismo de Guimarães Rosa consegue enfatizar as particularidades regionais dos personagens, com dizeres e comportamentos típicos do sertanejo, abarca ainda características universais que atingem toda a humanidade. Ao abordar temáticas de conflito do ser humano com o meio em que vive, o sertão roseano é amplamente metafórico. Mas também, é lugar político, económico e metafísico, ancorado, sobretudo, na linguagem.
Em Primeiras estórias, os personagens marcados por problemas sociais atravessam estágios emocionais distintos que vão desde a tristeza de um menino que vê transformado um peru em comida, ao desespero de personagens que deparam com o processo de separação, ou melhor, com algum tipo de fim. Exibindo forte crítica social, Primeiras Estórias apresenta muitos personagens com características estranhas, em que a componente da loucura é amplamente tratada, como é o caso de “Soroco, sua mãe, sua filha”.
O conto retoma a problemática da retirada dos loucos para o hospício que ficava na cidade de Barbacena em Minas Gerais. Este local de facto existiu e era o polo de retirada dos desajustados da sociedade, no início do século XX. O despacho e a vida dos internos eram bancados pelo governo que aderia, junto à intelectualidade brasileira, às ideias de eugenia – apresentando uma utopia inerente, não obstante o prenúncio de uma violência avassaladora (ALBEX, 2014).
Aparecendo como discurso que pairava, não só no Brasil, mas em todo o mundo ocidental, a eugenia defendia ideias de purificação e higienização da humanidade, os quais modelavam as concepções de vida dos indivíduos. Tal ideal encontrou apoio também na literatura com o movimento futurista de Marinetti, bem como no pensamento de alguns dos primeiros modernistas, e teve a adesão de escritores brasileiros como Monteiro Lobato e outros.
Neste cenário político social, em que a eugenia foi fortemente praticada, a figura do louco aparece não como aquele que sofre de transtornos mentais, mas vem embutida na classificação dos indivíduos excluídos da sociedade, daqueles que não atendem aos padrões do ideal social. Cria-se desta forma, um desatino uniforme, como um mecanismo social de regeneração, purificação e exaltação da virtude humana.
No entanto, esta característica de estigmatizar, de modo uniforme, aqueles que não respondiam aos comportamentos e valores sociais vigentes, já é apontada por Foucault (2005) em História da loucura. Segundo o escritor, na era clássica a loucura começou a ser apreendida “na sua obscuridade”, como desordem familiar e perigo para o Estado. Esta percepção foi sendo modificada aos poucos, com a estruturação dos conhecimentos da medicina que enquadrou como doença o que antes era tido como “mal-estar da sociedade”.
Este avanço aparente da psiquiatria de dar à loucura um lugar que nunca existiu, não é de todo verdadeiro. Marcada pelos ideais do mundo moderno de eliminar aqueles que se apresentavam como antissociais, a loucura passa a ser duplamente excluída; assinalada pela diferença, foi excluída dos asilos, das prisões, e de todos os outros tipos de confinamento, numa exclusão estritamente moral:
 
“[O louco] foi reconhecido como estranho à sociedade que o havia escorraçado e irredutível às suas exigências; ele se tornou então, para maior tranquilidade de nosso espírito, o candidato indiferenciado a todas as prisões, a todos os asilos, a todos os castigos. Na realidade não é mais que o esquema de exclusões superpostas” (FOUCAULT, 2005, p. 81).
 
O hospício a que se refere o conto que analisamos foi fundado em 1906, e, ainda que levasse este nome, de local de confinamento para “loucos”, enquadra-se na estigmatização uniforme, servindo para abrigar, além de indivíduos que sofriam de transtorno mental, outros que apresentavam como sintoma a tristeza, o alcoolismo, a prostituição, o homossexualismo, o “mendiguismo” e os demais sintomas que ameaçavam a ordem social, sendo considerados inadequados para uma época em que dominavam coronéis e latifundiários no Brasil (ALBEX, 2014).
A Colônia, como era chamada, funcionou como tal até ao ano de 1986 quando, por conta da reforma psiquiátrica do Brasil, foi transformado em Hospital psiquiátrico. E mesmo com os avanços da reforma para acabar com os leitos e avançar com o tratamento através dos centros de apoio psicossocial – CAPS e CAPSAD – o hospital ainda existe, sendo motivo de estudo de instituições voltadas a saúde pública brasileira.
Cercando toda essa problemática social, o conto narrado em terceira pessoa traz já nas primeiras linhas este contexto desencontrado de humanidade que o escritor revela em tom de denúncia social. Ao anunciar que “não era um vagão comum de passageiros” insinua que se tratava de uma locomotiva especial em que numa das alas tinha grades e servia para levar presos: “A gente reparando, notava as diferenças. Assim, repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos (…). Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre.”
É possível também, fazer um paralelo desse trecho do conto com a sátira “Naus dos loucos”, de Sebastian Brant, que teria possivelmente influenciado a pintura, de mesmo nome, de Hieronymus Bosh. Ambas as obras retratam a loucura, enfatizando o uso de transporte que servia para levar os “loucos” para um outro lugar, fora da sociedade.
No trecho que se segue fica mais evidente a lucidez do escritor, que nos remete para Naus de onde foram despachados os loucos que há muito se tem notícia na Literatura: “O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava. (…) Parecia coisa de invento de muita distância.”
A sátira de Brant, escrita no século XV, mostra que há muito tempo a loucura e o louco são personagens “queridos” da Literatura que remexe e retoma incansavelmente este discurso. A representação do louco em viagem, transportado de um local para outro, é apontada por Foucault (2005) por meio de diferentes obras literárias, no entanto, ele também aponta para o registro real de onde teria surgido esta figura essencial da loucura, o navio:
 
“(…) a Narrenschiff é a única que teve existência real, pois eles existiram, esses barcos que levavam sua carga insana de uma cidade para outra. Os loucos tinham então uma existência facilmente errante (…). Não é fácil levantar o sentido exato deste costume. Seria possível já pensar que se trata de uma medida geral de expurgo que as municipalidades fazem incidir sobre os loucos em estado de vagabundagem” (FOUCAULT, 2005, p. 9-10).
 
Personagens que são representados na literatura tanto na simbologia do bobo, do ridículo, como do portador da verdade, ou ainda, representando o estigma dos excluídos da ordem social. Um fenómeno antigo que não perde a atualidade, e não deixa de provocar o pedaço de humanidade que habita em cada um de nós.
Neste conto, a figura do louco representa a fatalidade diante do real, a impossibilidade de “lidar com”. Revelando a miséria humana, a loucura em “Soroco, sua mãe, sua filha” é contagiosa. Pertencente a um universo moral, ela atinge no outro a resignação, o sem nome do estado de compaixão.
O nome escolhido para o personagem central, Soroco, revela a perspicácia roseanana para expressar este desalento advindo da condição em que o personagem se encontra. Numa leitura paragramatical é possível descobrir palavras que saem de dentro do nome, e que se assemelham com a condição abordada no conto: soro, oco, só loco. E ainda o trocadilho com a palavra socorro, anunciando um grito que ecoa a procura de amparo, que vem tanto das próprias personagens que representam a desrazão, como de Soroco, que é atormentado pela loucura ao longo da narrativa e, por isso mesmo, a incorpora.
A insanidade que atravessa a narrativa se passa numa estação de trem, um local que só existe enquanto símbolo de passagem. A passagem remete tanto para um encontro quanto para uma despedida, criando no conto um jogo de ambiguidade que vai para além da estação, aparecendo em diferentes pontos do texto.
O contraste Razão x Loucura é enfatizado no conto através da voz do povo, que anuncia o gozo do estado de ser que a razão lhes proporciona: “As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas”. Neste trecho, Guimarães Rosa faz um elogio à razão, ao colocá-la em complementaridade com a loucura, manifestando-o através do cuidado e da insistência das pessoas em demonstrar coesão na fala. O “porfiar” apresenta uma ambiguidade de sentido, trazendo o prenúncio do que irá acontecer no final do conto, com a adesão das pessoas ao canto.
Outro contraste, que revela a presença de opostos, aparece na descrição do traje dos personagens para aquele dia, que vem a ser um acontecimento na pequena cidade sertaneja, em que se parece tanto com um casamento, quanto com um enterro: “Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro.”
Mesmo não sendo o portentor deste “mal”, o convívio com a loucura marca profundamente a existência de Soroco, que além de suportar o ato de cuidar, por longo tempo, das únicas familiares que lhe restava, tem de lidar com a dificuldade da separação, que a loucura já tratava de marcar. Entre o alívio do fardo familiar, provocado pela partida, e o desespero da perda dos parentes que tinha, Soroco fica “sem eira, nem beira”, tomado de desolação.
Fundada no seio das relações humanas, a separação, provocadora de angústia pelo afastamento daqueles por quem desenvolvemos os mais profundos afetos, faz tornar mais difícil ainda qualquer possibilidade de minimização do sofrimento, mesmo com o fim do fardo, tornando evidente que o estorvo da loucura não foi embora no trem.
Freud (1996) em Mal-estar na civilização afirma que a vida nos causa sofrimento e desilusões que tendemos a abrandar através de paliativos, uma vez que o verdadeiro anseio do ser humano está em encontrar a felicidade e evitar o desprazer. No entanto, a felicidade é um fator episódico e só existe enquanto contrastada com o desprazer, por isso resulta difícil permanecer em estado de felicidade eterna.
A partir disto, Freud (1996) define neste ensaio as três principais fontes de sofrimento humano: a decadência do corpo; o mundo exterior; e os relacionamentos humanos. É com base nestes três fatores, que o ser humano tende a moderar sua ânsia por alcançar um estado pleno de felicidade, uma vez que se vê em contato inevitável com estes fatores.
Ao tentar lidar com a dualidade prazer/desprazer inerente à sua constituição, o ser humano desenvolve o sentimento de culpabilidade, que entra em ação a todo momento que se tenta resolver o conflito psíquico, que surge desta dualidade e se manifesta através da necessidade de punição.
Em “Soroco, sua mãe e sua filha” a impotência perante o real inscrito no âmago da loucura, e a falta de um lugar social para sofrimento humano, levam Soroco para além do sentimento de culpabilidade, tomado que foi pela desistência. Ele não tem mais força pra lutar “ele não dava mais conta, teve de chamar, que foi preciso”, identificando-se, inevitavelmente, com as estratégias e soluções de confinamento que o Governo apresentava.
Aqui Soroco, aparece como o Sor/oco, o Senhor Oco que carrega o vazio em si, como fruto da loucura, não conseguindo sequer ter um pensamento reflexivo que o leve a um caminho de resistência, porque não consegue lidar com, ou talvez não consiga aceitar este outro que é estigmatizado por sua condição dentro de uma sociedade opressiva e desumana.
Por outro lado, o sentimento de compaixão aparece como um dos elementos estruturantes do texto. O povo se compadece perante a brutalidade do real e a falta de suporte, que podemos aqui entender como falta de suporte dos órgãos reguladores da sociedade, que deveriam dispor de um suporte digno para todos. Nascido da revolta e da indignação, o estado de compaixão, que não vem de um indivíduo, mas é representado pelo povo, é evocado para abrandar a impotência da situação: “todos diziam a ele seus respeitos de dó.”
Soroco apresenta-se como cúmplice da vulnerabilidade humana e o povo da rua, ao compadecer-se, torna-se testemunha do sofrimento humano, que é intensificado pelo desamparo social advindo da insuficiência das instituições, que estando sob o domínio de sujeitos moral e eticamente desumanizados, não cumprem devidamente a função de regular as relações entre os seres humanos na sociedade.
Elevando à ideia de regeneração, ou limpeza da sociedade, ao status de solução para os males enfrentados neste período a que se refere o conto, as instâncias de poder acabam por inverter o seu papel de reguladoras e protetoras da sociedade, deixando esta num estado de abandono, maior do que aquele que já é próprio da natureza humana, expondo o ser humano às variantes de perigo, como a própria loucura.
Esta narrativa da loucura que perpassa o conto, no antes e no depois daquilo que acometia a “insanidade” da sociedade brasileira no século XX, ou mesmo transposta ao mundo ocidental, pode ser enquadrada no conceito de narrativa apocalíptica discutida por Kermode, no livro Sensibilidade apocalíptica (1997).
O teor apocalíptico aparece na fatalidade da loucura e no discurso de regeneração, que rege o mundo neste período, encontrado nas entrelinhas do texto, em que as ideias de eugenia pervertem os valores de humanidade e defendem o extermínio. Tendo por necessário destruir o que não se enquadra no padrão estabelecido, a eugenia cria uma possibilidade utópica de regeneração. Juntamente com a fatalidade da loucura, ou seja, a proximidade com a morte, estes elementos perfazem o enredo da narrativa apocalíptica:
 
“E enquanto outrora a loucura dos homens consistia em ver apenas que o termo da morte se aproximava (…) agora a sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda parte, em ensinar aos homens que eles não são mais mortos e que se o fim está próximo, é na medida em que a loucura universalizada formará uma só e mesma entidade com a própria morte” (FOUCALT, 2005, p. 16).
 
Embora Rosa se baseie na dura realidade da existência de “um lugar chamado Barbacena”, que servia para esconder e acabar pouco a pouco com os “doidos”, ele o faz inscrevendo-a na ficção. Sendo próprio desta insinuar um comprometimento com o real, ao mesmo tempo que nos coloca no imaginário das possibilidades do que poderia ser.
Neste fator imaginário do “como se” encontramos o que Kermode (1997) aponta sobre o elemento de redenção presente nos textos literários, nomeadamente uma liberdade que desconstrói a realidade contingente. Segundo o autor, a ficção existe para buscarmos o sentido, porque necessitamos criar sentido, o que nos permite projetar os nossos desejos na realidade. E desta forma, inventamos, ou usamos artifícios para pensar o fim, no sentido de minimizar a angústia de nada saber sobre ele.
Freud (1996), no ensaio “Perturbação com a morte”, afirma que, através da ficção, encontramos um substituto para o medo da morte, uma vez que a ideia do fim nos é inconcebível. Em função desta dificuldade de dar à morte o lugar que lhe é devido, tendemos a afastarmo-nos dela, convencendo-nos da nossa imortalidade, em nível inconsciente, onde tudo é possível:
 
“(…) iremos procurar na ficção, na literatura, ou no teatro, um substituto para a perda da vida. É aí que podemos ainda encontrar homens que sabem morrer, que conseguem até matar. É aí que vigora ainda a condição que poderia reconciliar-nos com a morte, a saber, que para além das vicissitudes da vida contássemos sempre com uma vida extra intocável” (FREUD, 1996, p. 136).
 
Este medo que temos da morte perpassa toda a nossa trajetória temporal, através da qual a psyque absorve e interioriza o sentido do tempo instituído pela sociedade, tendendo a abrandar à medida que vamos criando artifícios para pensar o fim. Por meio destes artíficios, no quais a tessitura narrativa se inscreve, é que a nossa experiência com o tempo se torna significativa e menos dolorosa.  Ainda que a ficção não defina o tempo, confere-lhe uma estrutura de sentido, através da qual nos é possível apreendê-lo. Esta estrutura de sentido que atravessa o tempo é representado por Cronos, como um desencadear consecutivo dos factos, que nos prende numa realidade onde só o tempo de Kairós consegue a façanha de quebrar, por sua natureza de corte em relação ao que constitui a determinação histórica da narrativa.
O acontecimento do canto proposto por Guimarães Rosa na trama é “um ponto no tempo cheio de significado”, é Kairós que “carrega uma intenção derivada da sua relação com o fim”. O canto é apresentado como um elemento de libertação, ou mesmo de saída utópica diante da eminência catastrófica inerente à loucura, bem como, diante da partida “eterna” daqueles queridos por Soroco: “acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente”. Neste momento do texto, a ficção tira-nos do fardo do tempo, ao desafiar os sentidos que temos da realidade, deixando-nos livres de Cronos:
 
“O tempo é uma transição infinda de um estado de infelicidade para outro, ‘uma paixão sem forma nem épocas’, que não será terminada por parousia. É um mundo que grita por formas e épocas, e pelo Apocalipse; tudo o que recebe é a vã temporalidade, o influxo antitético, louco e multiforme” (KERMODE, 1997, p. 116-117).
 
Devido à necessidade que temos de estar em paz com o tempo, não no sentido de conformismo, mas como um ato de consolação diante do fim, somos capazes de aflorar o sentimento da esperança, numa possibilidade de criar outros sentidos para lidar com a contingência, ou seja, com essas “pequenas” descontinuidades que nos assaltam.
Em “Soroco, sua mãe sua filha” Guimarães Rosa dá voz ao louco, e o faz aproximando o interlocutor do texto, através de um estado empático que é visível tanto em nível da narrativa, quanto ao uso de recursos da linguagem coloquial: “E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido – ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho pra si – e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.”
Neste conto, como também acontece nos outros contos do escritor, a peripécia acaba por desencadear o final da “estória” como um desenlace inusitado e consolador:
 
“Ora, a peripécia depende da confiança que o fim nos merece; é uma desconfirmação seguida por uma consonância; o interesse de termos as nossas expectativas falsificadas está obviamente relacionado com o nosso desejo de alcançar a descoberta ou o reconhecimento por um caminho inesperado e instrutivo” (KERMODE, 1997, p. 34).
 
Ao tratar o conceito de complementaridade, Kermode (1997) afirma que precisamos de narrativas de consonância, ou seja, narrativas que usam o passado como elemento fundamental da trama, mas que, além disto, estão destinadas a relatar eventos inexplicáveis de forma a que sejam humanamente aceitáveis, o que denomina de ficção-concórdia.
Estas ficções-concórdia variam ao longo do tempo, porque se altera o mundo e, com ele, o sentido que damos ao enredo da vida sofre modificações. No entanto, a nossa necessidade de consonância é contínua, porque ela trata da nossa emergência em preencher o tempo de forma a que nos dê contentamento:
 
“(…) a necessidade que continuamos a sentir é uma necessidade de concórdia e nós proporcionamo-la com ficções-concórdia cada vez mais variadas. Mudam como mudam a realidade na qual nós, em ‘o mais no meio possível’, buscamos uma amostra de contentamento; porque ‘o tempo muda’” (KERMODE, 1997, p. 72).
 
O estabelecimento desta concordância aparece no ato do canto, onde a barreira que separa a loucura da razão desaparece. E o que separa o coletivo do indivíduo também se dilui no movimento do canto, numa compreensão trágica da vida. O canto também nos remete para uma linguagem à procura do diferente, uma vez que Guimarães Rosa exclui, com o artifício deste acontecimento, a lógica da exclusão, criando a possibilidade de um outro vir-a-ser.
O canto, expressão vocal do signo da loucura, e símbolo das manifestações mais arcaicas de socialização, não aparece como sarcasmo de uma esperança que nunca virá, mas muito mais como consolo, como um canto de socorro, ou ainda como o desalento consolo do canto.
Ao imitar o canto das “doidas”, Soroco, resignado pela fatalidade da loucura, é incapaz de suportar a culpa que poderia lhe assolar pelo abandono das “suas” mulheres. Em estado de desistência, atinge ele mesmo a desrazão de ser no mundo. E faz respingar no povo a verdade mais profunda das incertezas humanas: “A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo. A gente… E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos de uma vez, de dó de Soroco, principiaram também a acompanhar aquêle canto sem razão. E com as vozes tão altas!”
O conto nos leva a pensar que o lugar do sofrimento humano só existe fora da sociedade. No confinamento, a expressão da morte pode ser mais controlada, gerando uma falsa segurança sobre a dificuldade do ser humano em lidar com o fim. Sendo a loucura a própria morte, afastada, ela não nos assola tanto. No entanto, no final do conto a ideologia eugenista é pervertida e a loucura se torna o normal. Ao fazer com que todos os personagens descortinem o seu “oco” entregando-se ao canto, Guimarães Rosa atinge o imaginário do leitor que balança entre o desalento e a esperança. Partindo de um microcosmos, o escritor atinge o universal discutindo elementos que trespassam as barreiras culturais. Ele consegue criar uma reflexão profunda sobre a falta de um lugar social para o sofrimento humano e a impotência perante a dureza do real.
De todos os males que afligem a humanidade, a loucura é uma destas evocações, remetendo para o valor de humanidade e suplicando ao outro um estado de compaixão. Ao escancarar a vulnerabilidade gritante da nossa própria natureza, ela reduz o ser humano ao nada. Sem capacidade de se auto-gerir, porque “não soube” arranjar-se no mundo, desajustado à ordem social, o que resta ao louco é apenas uma existência suportável, e a nós, através dele, o resgate daquilo que dignifica a humanidade: “A gente estava levando agora o Soroco para a casa dêle, de verdade. A gente, com ele, ia até onde ia aquela cantiga.”
 
Bibliografia
ARBEX, Daniela. O holocausto brasileiro. Guerra e Paz, 2014.
FOUCAULT, Michel. Histo?ria da loucura na idade cla?ssica. Traduc?a?o de Jose Teixeira Coelho Netto. Sa?o Paulo: Perspectiva, 2005.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilizac?a?o. In: Obras psicolo?gicas completas de Sigmund Freud. Edic?a?o standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Perturbação com a morte. In: Obras psicolo?gicas completas de Sigmund Freud. Edic?a?o Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KERMODE, Frank. A sensibilidade apocalíptica. Tradução de Melo Furtado.  Lisboa: Edições Século XXI. Coleção Fundamentos, 1997.
ROSA, Joa?o Guimara?es. Soroco, sua ma?e, sua filha. In: Primeiras esto?rias. 15ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 62-66.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

LITERATURA FINLANDESA: PROBLEMA DE TRADUÇÃO E DE COLOCAÇÃO NO CÂNONE EUROPEU – Azzurra Rinaldi




 
 
Azzurra Rinaldi
Universidade de Coimbra
 
Resumo: Quando se fala de cânone da literatura há que ter presente que está em causa uma escolha de textos e autores feita por instituições académicas, júris de prémios literários, críticos, escritores de antologias e enfim, as escolhas de alguém que tem um certo peso no interior da sociedade cultural e que detém o poder de decidir qual obra deixar ficar na lista de textos que irão compilar o cânone e quais serão as obras que saem ou que nunca entrarão. Este trabalho quer demonstrar como a escolha de um cânone europeu pode influir e provocar dano nas literaturas de nações que são consideradas marginais, seja por uma questão linguística ou seja por outra, como a geográfica. Em concreto, aborda-se a marginalidade da Literatura Finlandesa, já que a sua particularidade geográfica, linguística e literária explicam a problemática global da criação de um cânone europeu.
 
Palavras chaves: Literatura finlandesa, cânone, tradução, marginalidade.
 
Currículo da autora: Azzurra Rinaldi é Doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa: Investigação e Ensino na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Colóquios: “La Nostra Africa” quinto dia do 1°ciclo de conferências sobre a África Lusófona, 11 de Maio de 2012, Departamento DISUCOM, Universidade da Tuscia (Viterbo); “A questão da Lusofonia e as literaturas de língua portuguesa: estudo de caso”, no Colloque Internacional Langues et Littératures Errantes – Horizontes et Frontières des Espaces Italophone, Lusophone et Hispanophone, 20-21 de Novembro de 2014. Publicações: Tradução de italiano para português do artigo Humanismo Africano e kimbundo em Agostinho Neto, Miguel Pedro Francisco, in «A Noção de ser, Textos Escolhidos sobre a Poesia de Agostinho Neto», Pires Laranjeira e Ana T. Rocha (organizadores), Luanda, Fundação Dr. António Agostinho Neto, 2014.
 


 
LITERATURA FINLANDESA:
PROBLEMA DE TRADUÇÃO E DE COLOCAÇÃO
NO CÂNONE EUROPEU
 
Azzurra Rinaldi
Universidade de Coimbra
 
A marginalidade da Finlândia
A nação finlandesa coloca-se muito a Norte, quase na mesma latitude do Alasca sendo todavia direcionada para o Leste, encontrando-se na mesma longitude da Polónia, da Eslováquia e da Hungria. A capital – Helsínquia – é mais próxima de Mosca, do que de Copenhaga, sendo por isso possível dizer que a Finlândia é uma terra de fronteira entre o Ocidente e a Rússia (McRAE, Kenneth, 1999, p. 9).
A Finlândia é um país multilingue, onde a maioria da população fala finlandês e apenas uma pequena parte fala sueco, sendo que mais ao Norte, na zona da Lapônia, falam-se as línguas Sami. Agora, focando-nos no contexto europeu, a língua finlandesa encontra-se marginalizada. Este idioma não pertence ao grupo Indo-Europeu, mas ao Ugro-fínico. Portanto se acaso as línguas românicas, germânicas e eslavas podem ter uma origem comum, a língua finlandesa e também a estónia já partem de uma situação de exclusão.
O papel marginal da Finlândia não é apenas devido aos fatores em cima descritos. A sua história também traz um peso importante, já que esta nação só conseguiu a independência depois de 1917. Desde a Idade Média, este território fazia parte do Reinado da Suécia tendo depois sido cedido à Rússia em 1809. É uma nação, de facto, bastante jovem. Portanto, a Finlândia passou a maioria da sua história como anexo de outras nações. E isto dá-lhe ainda uma maior carga de marginalidade (McRAE, Kenneth, 1999, p. 30).
Do ponto de vista literário a formação de uma própria literatura começa muito tarde (primeira metade do século XIX) e é um fenómeno único na Europa (THOORENS, Léon, 1977, p. 357). Só a partir do domínio russo é que se começa a fazer despertar uma literatura nacional; antes a literatura que era escrita no território pertencente à Suécia consistia apenas de pequenos textos de pouca importância: hinos religiosos e umas poesias, mas também a literatura em língua sueca era bastante exígua, só obras religiosas, teatro e nenhum romance (LAITINEN, Kai, 1995, p. 48).
O primeiro centro cultural nasceu em 1640, a Academia de Turku, onde se utilizava, como língua o sueco e o latim. A língua finlandesa, dividida em variantes dialetais diferentes, era apenas falada pelas classes baixas (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 21).
O nascimento da literatura finlandesa leva a data de 10 de outubro de 1870. Neste dia foi publicada a primeira obra realmente literária (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 27), ou seja, de criação original e não de tradução. Um texto finlandês, o romance Seitsemän veljestä: os sete irmãos de Aleksis Kivi (1834-1872). Ainda hoje, nessa data, celebra-se o dia da literatura (suomalaisen kirjallisuuden päivä).
Antes deste autor havia uns textos escritos em finlandês, que pertencem ao século XVI e basicamente narram lendas sobre a criação do mundo de origem não cristã. Estes poemas eram acompanhados musicalmente por um instrumento a cordas chamado kantele. O metro utilizado ignora a rima, mas faz um uso abundante da aliteração (LAITINEN, Kai, 1995, p. 23-24). O metro fínico é o runo, ou seja, o octossílabo troqueu com aliteração. Tais líricas eram cantadas por dois laulajat: o primeiro dizia o verso, o segundo repetia-o logo depois para dar ao primeiro cantor o tempo de lembrar ou de inventar o verso seguinte (PAVOLINI, P.E, 1909, p. XV).
Mikael Agricola (c.1510-1557), o primeiro bispo protestante na “Finlândia” foi o pioneiro na normatização do finlandês, tomando como base os dialetos do Sul-Oeste (LAITINEN, Kai, 1995, p. 35) e tendo escrito o abecedário (1537) e traduzido o Novo Testamento (1542-1548). A sua ideia era de reescrever a Bíblia completa em finlandês, mas não conseguiu concluir a obra (MOCCIA, Franco, 1967, p. 10).
Apesar destas poucas compilações, antes do romance Os setes irmãos o texto fundamental que realmente despertou as almas do povo foi o Kalevala de Elias Lönnrot (1802-1884), poema épico, que vê na sua primeira versão editada em 28 de Fevereiro 1835 (Dia Nacional do KalevalaKalevalanpäivä) 32 cantos e 12000. A segunda edição foi ampliada em 22795 versos divididos em 50 cantos e foi editada em 1849 (THOORENS, Léon, 1977, p. 359). Esta obra foi construída tomando como base os cantos populares das zonas de fronteira com a Rússia, a Carélia. Através destas líricas populares o autor conseguiu compor uma épica que constituiu o ponto de partida de uma construção de uma identidade finlandesa e foi uma obra que levou a conhecimento da Finlândia grande parte da Europa, enquanto, logo a partir da sua publicação, o Kalevala foi traduzido em várias línguas, inspirando os textos dos folcloristas estonianos F. K. Fahlman e F. R. Kreutzwald autores de Kalevipoeg e do escritor americano Henry Wordsworth Longfellow para The Hiawantha’s song (DRAGOMIR, Elena, 2005, p.34). Apesar disso, parece que a obra se tenha tornado moda em Paris. (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 238). A sua importância e sucesso deve-se principalmente ao facto de o autor ter deixado a convicção de que a “Finlândia” possuísse uma obra única ao mundo, inspirando confiança nas próprias possibilidades e capacidades intelectuais e artísticas (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 20). O Kalevala espalhou a ideia entre os finlandeses que se um povo “sem letras” podia criar uma obra tão importante como esta, então devia ter uma grande cultura e não podia ser uma raça sem história e tradição (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 238).
É fundamental lembrar que a altura dos primeiros movimentos literários (ou seja a partir do Kalevala) a Finlândia encontrava-se sob o domínio russo. A mudança devida à passagem da Suécia à Rússia, em 1809 criou um choque cultural que alimentou o pensamento independentista. A Finlândia encontrou-se sujeita a um império muito diferente, enquanto a língua e o relativo alfabeto, a religião e até o calendário eram (e são ainda hoje) diversos (McRAE, Kenneth, 1999, p. 30). De facto, já a partir de 1915, os intelectuais tinham como máxima: “Nós não somos suecos, não queremos tornar-nos russos, devemos ser finlandeses” (THOORENS, Léon, 1977, p. 358).
Portanto a literatura finlandesa nasceu sob a dominação russa na metade do século XIX. A influência do Romantismo alemão definiu o nacionalismo finlandês, os autores tomam como temática das suas obras a cultura local da era pagã (MOCCIA, Franco, 1967, p. 11). A partir de 1840 foram fundadas pelas classes cultas (de língua sueca) sociedades culturais onde os participantes se empenhavam a escrever em finlandês. Estes estudavam a língua misturando-se com a gente do povo (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 263). A vontade de escrever em finlandês, uma língua não literária e sem tradição académica (como, pelo contrário, tinha a língua sueca), deve-se ao facto dos intelectuais estarem preocupados com a construção de uma identidade nacional (DRAGOMIR, Elena, 2005, p. 27). Isto não significa que se deixou de escrever em sueco: o poeta Johan Ludvig Runeberg (1804-1877), fundamental para a formação da identidade nacional, escreveu poemas patrióticos sobre a guerra de Finlândia entre 1808 e 1809 (ano em que a Finlândia passou a ser russa) e foi o primeiro a tratar um tal assunto. O canto de abertura Vårt land (em finlandês Maamme – A nossa terra) da obra Os contos do Alferes Stål (Fänrik Ståls sägner – em dois volumes: o primeiro de 1848 e o segundo publicado em 1860) tornou-se hino nacional (MOCCIA, Franco, 1967, p. 48). Como aconteceu pelo Kalevala de Lönnrot, também a obra de Runeberg, mesmo sendo em sueco, oferece ao povo finlandês a ideia de ter um passado glorioso (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 24).
Foi com Aleksis Kivi que a língua finlandesa ganhou dignidade literária. O autor de “Os sete irmãos” conseguiu dar uma forma artística a um idioma que era falado apenas pela classe baixa. Kivi cria assim um estilo próprio que servirá aos sucessores como modelo literário, usando palavras deletais e frases amplas para dar à sua obra um caráter mais épico (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 26-27). Este escritor deu origem também à tradição teatral em finlandês (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 238). A língua de Kivi foi aperfeiçoada por Juhani Aho (1861-1921), que conseguiu levar o novo idioma literário ao nível de prestígio ao par das outras línguas europeias (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 31).
A partir do nascimento de uma literatura de língua fínica, a Finlândia mantém duas literaturas paralelas, em finlandês e em sueco. Muitos autores que escreviam em sueco eram nacionalistas – como Runeberg – e eram apreciados tanto na Suécia como na Finlândia; só que na pátria, por causa da língua utilizada, as obras em sueco eram menos lidas já que só uma pequena parte da população conseguia entender esta língua. No entanto, os textos finlandeses tinham uma maior abrangência no interior da nação em formação.
A literatura de língua finlandesa deu mais importância à natureza, paisagem, animais, vida no campo. Marcou-se marcada pelo realismo e pelo fantástico. As personagens são submetidas às forças elementares sejam estas da natureza, seja do ser humano. Pelo contrário, a literatura de língua sueca focou-se nas descrições de vida burguesa (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 5, 29, 59).
A literatura em língua finlandesa foi fundamental para despertar o Volksgeist e também para o desenvolvimento linguístico que suplantou a língua sueca tornando-a a um estatuto de marginalidade (McRAE, 1999, p. 39), mas que, apesar de tudo, ainda continua a oferecer obras literárias.
Portanto, a literatura nacional finlandesa surge como um produto do Romantismo que, sendo a Finlândia uma zona de periferia, chegou atrasado em respeito a propagação que teve na Europa. As primeiras obras foram escritas em torno de 1830, sendo que nesta altura a Europa já está na fase literária do Realismo (DRAGOMIR, Elena, 2005, p. 31). A nacionalidade, o uso de uma língua popular em vez do sueco implica uma vontade forte de separação e de independência.
A literatura, por sua vez, nesta altura e contexto, sendo a Finlândia ainda apenas uma utopia, funcionou como fronteira geográfica, como afirmou Pascal Casanova: “A tarefa principal dos fundadores da literatura é, em qualquer maneira, a de ‘fabricar diferenças’” (citado por CUNHA, Carlos Manuel, 2002-2005, p. 25).
A literatura torna-se uma cultura literária que abrange as formas imaginativas de uma comunidade, tornando-se um meio de comunicação de crenças, imagens e histórias, e constituindo portanto um imaginário comunitário, revelando o cânone estético e a identidade da sociedade onde a cultura literária nasceu (CUNHA, Carlos Manuel, 2011, p. 48-49).
A literatura é um bem primário comum ao povo inteiro, sendo esta o intérprete de um país e espelho de uma nação; segundo Laitinen (1995, p. 158-159), a literatura na Finlândia tem uma ressecção muito maior do que nos outros países, à causa da sua importância na constituição de uma identidade e, sobretudo, por ter oferecido à língua finlandesa o valor artístico e literário.
 
O problema da Literatura Finlandesa no contexto europeu
Eduardo Lourenço (2005, p.17) no prefácio ao livro “Cartas da Europa. O que é europeu na literatura europeia?” Escreve: “Sempre haverá no coração da cultura europeia esta inescusável ignorância do ‘outro’ tão europeu como os mais conhecidos entre eles”.
Esta citação explica muito bem o contexto literário europeu. A Europa é composta por vinte e sete países, mas muito deles resultam duma marginalidade de tipo literário e também linguístico. Países como a Polonia, a Lituânia, a Roménia entre outros, ficam na União Europeia, mas estão todavia afastados do centro cultural que domina o contexto literário. Nações tipo Alemanha, França e Reino Unido resultam responsáveis de uma espécie de centralização de poder cultural devido à posição (Alemanha), à língua (Reino Unido) e à importância cultural que tiveram no decurso da história (França).
A única maneira de fazer circular as obras mais marginais é a tradução, como dizia Umberto Eco “A língua da Europa é a tradução” (citado por FOCK, Holger, 2010, p.42) e por isso a língua de literatura europeia também deve ser a tradução. O problema é que as versões são feitas basicamente a partir da língua inglesa e só uma mínima parte das obras em outros idiomas tem a sua correspondência em outras línguas. Isto tem a ver também com uma forte circulação de textos norte-americanos e com a formação dos tradutores. Normalmente quem traduz a partir de línguas “marginais” não são tradutores profissionais (FOCK, Holger, 2010, p.42), o que pode criar certos problemas inerentes à originalidade da linguagem utilizada no texto de partida quanto ao estilo do autor e ao valor artístico da obra literária. É verdade que traduzir implica sempre um certo grau de perca, mas é também verdadeiro que um tradutor profissional aprendeu as ferramentas para limitar que a arte do autor se perca completamente.
O facto de traduzir principalmente da língua inglesa é devido à paga dos tradutores que em muitas nações (como a Espanha), resulta ser muito baixa. Portanto, prefere-se traduzir obras que são mais fáceis para que seja possível trabalhar com mais textos, os quais possam ter uma maior abrangência de público. Fazer versões de textos em inglês é mais simples, enquanto a maioria das obras que se escrevem são de língua inglesa (FOCK, Holger, 2010, p. 45).
A jornalista Gabriela Gönczy (2010, p. 51) explica, em poucas palavras, o que acontece quando os textos não forem traduzidos: “Se um autor importante do leste europeu não está disponível em alemão, inglês ou francês, talvez nunca venha a ser lido no país vizinho”. E quando, pelo contrário, estejam traduzidos: “Se o Romance de um homem sem destino não tivesse sido um tal sucesso na Alemanha, nunca o livro teria sido traduzido para inglês, nem Kertész recebido o Nobel da literatura”.
Como confirma Eduardo Lourenço, citado por Cunha (2011, p. 19), existe uma Europa hegemónica, uma “pátria da razão” que se tornou abusiva. Esta Europa, a mais poderosa também sob o fator económico, fundou um ideal de cultura que se identificou como mais universal marginalizando a outra parte de Europa.
Segundo a antologia Um cânone para a Europa, organizada por Helena Carvalhão Buescu, Maria Graciete Silva e Cristina Almeida Ribeiro, o cânone europeu seria composto apenas por uns autores que nem abrangem todos os países europeus: Homero, Shakespeare, Dante, Petrarca, Boccaccio, Camões, Kafka, Tolstói, Dostoiévski, Cervantes, Baudelaire, Proust, Goethe e Joyce. Aqui poderiam faltar, por exemplo, o finlandês Aleksis Kivi e outros autores canônicos das outras nações marginais.
Esta antologia foi uma tradução do original italiano que tem o título Letteratura Europea: il Canone. A colocação do artigo determinado italiano “il” oferece a ideia não da proposta de um cânone literário europeu, mas a de como se este cânone já tivesse sido estabelecido e fosse imutável. Coisa que não aparece na versão portuguesa, onde o artigo indeterminado “um” deixa entender uma certa mobilidade naquela lista de textos e autores que foram escolhidos. O cânone tratado foi proposto em um colóquio na Universidade “La Sapienza” de Roma em 2007 a partir da análise de uma sondagem que envolvia docentes de cerca quinze universidades de cinco países da União Europeia: Alemanha, Espanha, Itália, Portugal e Roménia (BUESCU, Helena, 2012, p. 7).
Uma escolha para um cânone europeu que só toma em consideração obras de apenas nove nações (como a Rússia, com Tolstói e Dostoiévski) mas deixa fora as outras dezoito, faz entender que existe um certo desconhecimento para com tudo aquilo que envolve a literatura dos países europeus. Esta é uma demostração de que no interior da União Europeia as diferentes nações não estão no mesmo nível. Parece pertinente citar, outra vez, Gabriella Gönczy (2010, p.50): “A maioria das obras literárias da Europa é escrita em línguas minoritária” – e isto leva a uma “fraca visibilidade dos textos e a uma dificuldade crescente no contexto da globalização”. Efetivamente, o que se nota é que o património literário e intelectual europeu implica familiaridade com os autores acima citados, mas não um conhecimento profundo da tradição literária polaca, por exemplo. (DONNER, Jörn, 2005, p. 72).
Como afirmou o professor Vítor Manuel Aguiar e Silva (2004, p. 243-244), a criação de um cânone literário sempre prevê autores e textos centrais e outros periféricos que ficam em um estado de subalternidade, mas isto não significa que aqueles escritores ou obras sejam menos importantes. A escolha de textos canônicos reflete o contexto histórico em que a seleção é efetuada, o que significa que o cânone não é fixo, mas muda diacronicamente em base às modas do período. Para a formação de um cânone nacional as obras escolhidas são as que manifestam melhor o sentimento étnico e cultural próprio de cada nação. No caso finlandês: Elias Lönnrot, Aleksis Kivi e Johan Ludvig Runeberg; ou como no caso português Camões, Garrett, Pessoa, Eça de Queirós e daí por diante.
Pode contudo acontecer ainda que quem esteja num lugar periférico consiga influenciar o centro. Donner (2005, p. 72) faz o exemplo de Joyce, que sendo irlandês não pertencia ao centro cultural europeu, mas o escritor finlandês de língua sueca justifica o impacto dele na literatura europeia pelo facto de ter escrito em um idioma importante como o inglês.
A construção de um cânone europeu é mais complexo quando cada nação tem uma sua identidade e a sua cultura. É possível comparar a problemática da criação de um cânone europeu com a de um estado multicultural e multilingue como a dos Estados Unidos. Na Europa, como já vimos, há nações que ficam marginalizadas e no contexto estadunidense existem comunidades minoritárias que são condenadas à subalternidade. A consciência de se ser marginalizado desperta uma voz crítica que faz com que o cânone criado tenha uma maior fragilidade. De facto, isto é o que acontece na sociedade norte-americana que está caraterizada por uma dimensão multiétnica e multicultural (AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel, 2004, p. 246). O continente europeu também tem esta mesma caracterização, sendo ele próprio uma união de nações que têm uma história, uma língua e uma cultura próprias. É importante também indagar sobre a existência do leitor europeu, ou seja, sendo a Europa composta por culturas diferentes, um leitor – por exemplo – de português poderia compreender uma obra de um outro autor finlandês mesmo em tradução? Provavelmente não entenderia os duplos sentidos, ou as críticas sociais, isto porque durante o processo de leitura o leitor constrói categorias para melhor captar e organizar a informação textual e semânticas. Estas mesmas categorias são constituídas a partir do conhecimento prévio do leitor. Se ele estiver completamente sem conhecimento sobre os factos narrados, não compreenderá a fundo a obra literária, no entanto se ele tiver conhecimento do período histórico de um determinado país, por exemplo, será mais fácil entender o texto. Este processo é chamado: “processamento de informação e compreensão do texto” (SCHNEIDER, Ralf, 2001, p. 620).
Portanto, a diferença cultural que se reflete nos textos pode implicar que uma obra de grande sucesso na Finlândia possa ser completamente indiferente em Portugal e vice-versa (IVASKEVICIUS, Marius, 2005, p. 109-115).
Na Finlândia existe uma elevada percentagem de publicação de livros, uma das mais altas do mundo em relação à sua população. Em 1991, cerca de 90% das obras editadas eram traduções, mas os textos que a Finlândia conseguia exportar através da tradução tocava apenas o 8% e a maioria deles eram em sueco (McRAE, Kenneth, 1999, p.332). Portanto a problemática linguística que determina a introdução de obras finlandesas no cânone europeu é efetivamente tangível.
 
Conclusão
A dificuldade em encontrar um cânone europeu depende principalmente da uma má circulação de obras escritas em línguas minoritárias. Tudo isto traz consigo o problema das traduções efetuadas por pessoas não profissionais, portanto os textos perdem o valor artístico original. Um exemplo desta problemática é o de Harold Bloom. No seu conhecido O cânone ocidental, o professor não coloca nenhum texto pertencente à literatura brasileira, mas no livro Génio, apesar de não tratar apenas autores literários mas também filósofos, coloca Machado de Assis como autor canónico.
Ter em conta um texto como o de Harold Bloom pode ser muito significativo para ter uma ideia de quais são os autores que efetivamente passam a ser globais e não há dúvidas que não se encontram patentes autores finlandeses, já que tal como foi abordado, a marginalidade linguística deles faz com que haja poucas traduções e uma grande parte destas seja feita a partir de outras traduções posteriores.
A literatura finlandesa é só um exemplo de como a criação de um cânone literário deve ter em conta fatores muitos diversos e deve tomar por isso grande cuidado. É possível ver a construção de um cânone europeu como um conjunto mais pequeno no interior de um ambiente mais amplo que contém já o cânone ocidental e que, por sua vez, está inserido no maior cânone global que se pode chamar de Literatura Mundial.
O domínio da literatura de língua inglesa, das numerosas traduções que se fazem desta língua para as outras, marginaliza ainda mais as literaturas nacionais que se exprimem numa língua diferente. Osvaldo Silvestre, citado por Cunha (2011, p. 77, nota), fala de “Anglo-Globalism” para identificar as obras que pertencem à lista do cânone mundial, sendo também um termo pertinente para definir a maioria das obras que circulam na Europa que descem de originais em língua inglesa.
Léon Thoorens (1977, p. 364), falando sobre a literatura da Finlândia, afirma que esta tem mais uma importância do ponto de vista histórico, patriótico, do que estético. Sendo a estética de uma obra fundamental para a sua entrada no cânone, uma literatura que talvez tenha pouca originalidade, e que porém seja importante; mas pela nação onde nasceu nunca irá fazer parte de um cânone europeu, ocidental e ainda menos global. Segundo Bloom (2011, p. 14), as obras que tem de fazer parte do cânone são aquelas que mostram uma certa originalidade e cujos “grandes autores” que não entram no cânone não conseguiriam igualar os que são realmente grandes.
Os autores e as obras finlandesas parecem assim estar excluídos porque não alcançam os objetivos da originalidade e da estética. Nenhum autor acima citado toma em consideração o facto de que algumas obras não possam entrar no cânone porque basicamente não há conhecimento da existência destas. Saber que existe uma obra pressupõe a circulação desta, mas sem as devidas traduções uma obra não pode circular.
Seguindo a história literária da Finlândia parece que o cânone finlandês dá mais importância ao ideal romântico da obra, ou seja, são tomadas em consideração as que fazem parte de um “imaginário nacional” de matriz popular para legitimar os valores e o sentido histórico da comunidade independente (CUNHA, Carlos Manuel, 2002-2005, p. 26). A obra de Aleksis Kivi, utiliza uma linguagem que ainda não tem a possibilidade de ser refinada e/ou elegante como as outras línguas que pelo contrário já tiveram uma longa tradição artística. Apesar disso, o autor de Os sete irmãos é a base do cânone finlandês mesmo pela sua importância identitária.
O cânone prevê uma restrição, também porque é impossível ler tudo aquilo que a literatura de uma nação, de um continente nos propõe. A imagem utópica do escritor lituano Marius Ivaskevicius (2005, p. 109) refere bem esta impossibilidade do leitor de ler e compreender todos os textos:
 
O verdadeiro leitor europeu teria de saber mais de trinta idiomas, ter visitado não só todas as capitais europeias, mas também as aldeias mais remotas, ter lido na língua original pelo menos os dez livros mais importantes de cada país europeu e ter lido pelo menos um livro de história e de história da cultura desse país. Sabendo-se tudo isto, tudo quanto o leitor deveria ter feito durante a vida, chega-se à conclusão de que deveria ser muito velho, solitário e um pouco doido.
 
Nota
1  Não existe uma versão em português da obra
 
 Bibliografia
AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de (2010), As humanidades, os estudos culturais, o ensino da literatura e a política da língua portuguesa. Coimbra: Almedina.
AHIKAS, Jaakko A. (1975). Prose finlandaise. Brive: Seghers.
BLOOM, Harold (2011). O cânone ocidental. Lisboa: Círculo de Leitores.
CUNHA, Carlos Manuel Ferreira da (2002-2005), O nacionalismo do cânone literário português em contexto escolar: entre o ético e o estético. In: Ave Azul. Revista de Arte e Crítica de Viseu. Verão 2002-2005. p. 25-53.
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SCHNEIDER, Ralf (2001). Toward a Cognitive Theory of Literary Character: the Dynamics of Mental-model Construction. Style, vol. 35, n°4, Winter 2001: p. 607-640  
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THOORENS, Léon (1967). Panorama des Littératures. Verviers: Marabout Université. v. 4.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "La mano en el canal de maryse renaud en el vortice de un conflicto dentitario: Emiliano Coello Gutiérrez – Emiliano Coello Gutiérrez




LA MANO EN EL CANAL, DE MARYSE RENAUD: EN EL VÓRTICE DE UN CONFLICTO IDENTITARIO
Reseña de Renaud, Maryse. La mano en el canal. Buenos Aires, Ediciones Corregidor, 2012.
 
Emiliano Coello Gutiérrez
 
La novela La mano en el canal (2012), última obra de la escritora martiniquesa Maryse Renaud, es una muestra más de lo que ya comienza a ser un mundo literario genuino e inconfundible, una realidad ficticia marcada por unos personajes en perpetua liza de su yo problemático con el mundo, en la más estricta tradición de la narrativa burguesa. En En abril, infancias mil (2008), libro de cuentos de la autora, se trataba de una niña contestataria y juguetona que con las poderosas armas del humor y de la fantasía se rebelaba contra el entorno de los adultos, marcado por los prejuicios, el desencanto y una jerarquía que en muchas ocasiones esconde el miedo que les provoca a los “mayores” eso que llamamos vida. El cuaderno granate (2009) representa de igual modo el cuestionamiento de unas leyes sociales (la idea de progreso, el honor familiar, el triunfo a toda costa) cuyo ciego seguimiento puede consumir el germen de la vida, como ocurre con la familia Granval, cuyo patriarca Edgar, prototipo del hombre moderno (exitoso, rico y políticamente comprometido), echa a perder con su fanatismo dogmático la vida de su mujer Clarysse y la de su hijo Miguel, hasta que este último decide sublevarse contra la tiranía de unas señas de identidad prestadas que impiden el libre desarrollo de su creatividad y de su individualidad. Si en En abril, infancias mil el conflicto principal lo configuraba el enfrentamiento de una niña con el concepto de Autoridad forjado por los adultos, y en El cuaderno granate el meollo de la trama supone la puesta en entredicho que hace Miguel de los dogmas de la modernidad (“les grands récits” sobre la nación, el progreso o el compromiso ideológico), en La mano en el canal la esencia del problema tiene que ver con la interacción entre el yo complejo del psicoanalista Axel y el impermeable discurso identitario de la sociedad que lo rodea.
Axel es un expatriado más de la literatura de Maryse Renaud, un hombre nacido en La Martinica cuya vida se desarrolla en la metrópoli, un exiliado que por esa misma razón mira el mundo desde una óptica diferente a la de quienes no han tenido que plantar la raíz de sus vidas en otro suelo. El infierno de Axel Grangier tiene un nombre y un apellido precisos, Hugo Grangier, su hermano gemelo, su doble físico pero no espiritual, su “alter ego” que como todo sosia provoca sentimientos encontrados de admiración y de repulsión. Hugo fue siempre el protegido de los dioses, el objeto del cariño y de la atención de la madre Roxane, el niño feliz que, según el dictamen común, debería desembocar en el adulto exitoso. Otro es el caso de Axel, quien desde su más tierna infancia se ve obligado a abandonar su tierra por París y a sustituir el amor materno por los cuidados de una tata abnegada, de nombre Alba. El resultado de este desequilibrio es la forja de dos personalidades completamente distintas, ya que Hugo afronta la vida de un modo épico, mientras que Axel la concibe de un modo dramático, y hasta patético. Hugo es el prototipo del emprendedor, el aventurero que renuncia a una vida de comodidades para internarse en la caótica Guatemala de los años ochenta. Axel es el psicoanalista hastiado de una vida monótona e invadido por los dilemas (a menudo banales) de los pacientes-clientes de su prestigiosa consulta parisina. Axel siempre quiso ser su doble, y malgasta buena parte de su vida intentando encajarse un traje ajeno que ni siquiera le viene completamente a la medida a su hermano, porque no es otra cosa que una abstracción cultural, y la epopeya es, tiene que ser forzosamente maniquea.
Sin embargo, el transcurso de esta última novela de Maryse Renaud roe y diluye este bifrontismo épico al enfrentarlo (como hizo la novela realista con la romántica) a la diversidad de la vida y sobre todo a la sustancia poliédrica de la psicología del individuo, y de esta suerte sabemos que Hugo no es ni fue nunca tan perfecto, completo y cerrado como los otros y él mismo quisieron hacer creer, y que es Axel y no su doble aventurero el arquetipo del amado, el personaje ambiguo cuya doble cara (a modo de dandi balzaciano) provoca la pasión de las mujeres, como lo prueba el caso de Celia.
Pero Axel tampoco quiere para sí esta otra fijación, porque ha aprendido patéticamente (en el sentido etimológico del término) el alto coste que significa adaptar los recodos laberínticos de la personalidad individual a unas señas identitarias establecidas, clausuradas, cerradas y determinadas. De este modo la novela se cierra con unas líneas que unen nuestro más inmediato presente con aquella remota filosofía griega del devenir, esa cuya resonancia se salta varios siglos de religión y de modernidad dicotómicos para propugnar hoy un equilibrio natural basado en la perennidad, el cambio y la unidad de los opuestos: “Se siente feliz, confiado. Ha renunciado a impaciencias, a escalar un imposible cielo. Mira fijamente sus pies, anclados en la tierra. En sus labios flota una indefinible sonrisa”. Los personajes de las obras de Maryse Renaud son, como se ve, abiertos, complejos e indefinibles como la literatura y la vida de la que se nutren, y es precisamente esta parcela de misterio que irradian la que conforma su innegable interés.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Oda insolita a la mano un asedio a la mano en el canal de maryse renaud – David Osorio




ODA INSÓLITA A LA MANO: UN ASEDIO A LA MANO EN EL CANAL, de MARYSE RENAUD
Reseña de Renaud, Maryse. La mano en el canal. Buenos Aires, Ediciones Corregidor, 2012.
 

David Osorio

 
Esta novela de la escritora francesa de origen martiniqués Maryse Renaud nos guía por la trayectoria vital o, mejor dicho, a través de las múltiples sendas de Axel Grangier, psicoanalista antillano de cierto renombre en el hormiguero parisino. No por ello nuestro hombre está exento, desde su más tierna, pero también conflictiva y accidentada infancia, de una existencia abundante en recodos y de un destino zigzagueante. A la vez, su corazón diseña, o quizá sigue, un trazo de picos y valles, impulsado por un profundo drama personal y los electrochoques del capricho.
Nuestro protagonista no sólo gravita en torno a su mente permeada por dilemas y conflictos o alrededor de su mundo poblado de perfiles más o menos desequilibrados, aquellos que irrumpen en su consultorio o acceden discretamente, en busca de la serenidad racional y emocional de la que él mismo carece. Igualmente ronda alrededor de Roxana y de Alba, madre y nodriza, astros femeninos cuyo brillo y fuerza centrípeta, confundidos, alumbran y deslumbran a Axel, y de los que él voluntariamente se hace satélite. Asimismo, él se siente indefectiblemente ligado  o completamente arrancado, enteramente fundido o indudablemente separado de su hermano gemelo Hugo, su doble y su álter ego, mímesis y Némesis, el modelo y la copia. Dos individuos diferentes y un mismo cigoto verdadero: eso son Axel y Hugo, índice y pulgar, que aun tras un mismo fin y enfocados en la misma direcciôn adoptan posturas y movimientos diferentes, inclusive opuestos.
Como sucede frecuentemente en el español de Latinoamérica, “mano” es mi hermano, a quien, por trascendentales tonterías, suelo tender la mano sin reservas, pero con quien puedo ir fácilmente a las manos ante idénticos motivos. Así una mano más otra mano, son más que dos manos, dan inicio a un mano a mano. Y es aquí donde aflora, a mi juicio, ese protagonista, tan silencioso como notorio, tan explícito como subyacente, que recorre la historia antes que ser recorrido por ella. Ese actor o esa actriz estelar, de cinco puntas, que aun inerte goza de vida propia, que inclusive desprovisto del cuerpo que lo ha de sostener se las arregla para permanecer autónomo, incólume. Que mima con ternura al niño enfermizo y temeroso y empuña firmemente el fusil contra el traidor, aunque, muchas veces, también contra el justo; que agrede como acaricia. Esta parte del ser, ser de carne y hueso, tan capaz de salvar al hombre de su propio cieno como de sumergirlo en él, se revela siniestramente diestra, y orienta como confunde. Se erige en maestra del estrangulamiento y de la resucitación, según cómo y dónde apriete, dependiendo de los designios, las causas y las ideologías que la muevan y que pueden, en fin, ser las suyas propias.
Mucho más viva, vívida, aunque rígida o lívida que aquella paródica, aunque evocadora, que se desliza por alguna película de horror humorístico, nuestra extremidad deja de serlo sin abandonar para nada su habilidad prensil, su sensibilidad táctil, su vena creadora y creativa. Es ella quien pasa por nosotros las páginas, haciendo avanzar la historia atormentada del psicoanalista antillano aclimatado en el frío corazón de l’Île-de-France, como fruta tropical que se confina por su propia voluntad en un invernadero. Esta suma de apéndices estruja suavemente corazones curtidos de luchadoras viajeras y de virilidades tan aplomadas como indecisas, al tiempo que preserva rudamente vulnerables corazones de pajarillos desorientados. A veces cree haber torturado,  muchas otras realmente lo ha hecho. Así como nutre labios infantiles, rompe cejas adultas y, no sabemos si por descuido o adrede, esparce las huellas de su anonimato. Pretenciosos, buscamos leer el destino en la mano, sin querer convencernos de que es ella quien lo escribe, lo garrapatea, lo teclea a golpes o a palpos. Cruza el océano, prescindiendo de un cuerpo para lograrlo y hasta se las arregla, no sólo para hacer dinero, sino para contarlo sin ayuda de un ojo que la supervise y, mejor o peor aún, para evidenciar cuán poco vale este dinero. Prefiere entonces contar objetos, sentir texturas y percibir temperaturas sin precio, invaluables. Allí está siempre, sola o acompañada, apartando a quien se cree su dueño de apuros triviales, afectivos, financieros, laborales, intelectuales, irracionales, dolorosos, placenteros, más o menos de vida o muerte. E involucrándonos en otros, más o menos de vida o muerte. La que, como juzga, delinque, aprieta gatillos y firma sentencias, redacta leyes que luego vuelve jirones; como degenera, rehabilita; como hurta, dona; como prescribe, proscribe; como cura, infecta; como estropea, repara. Inflige castigos e infringe normas. Diagnostica y pronostica y esto sin precisar de videncia. Es ella quien navega en el canal, enigmática, al final de la novela, por debajo de las esclusas.  Decide si lo construye, lo destruye o lo obstruye; si respeta su cauce o lo altera. Si remonta la corriente, desciende al mar o retoza en aguas calmas. Cinco ramas y una palma, cinco yemas y una clara, que se apartan como se reúnen, perfecta sinergia presta a empuñar una guitarra bonaerense, interpretar crustáceos  caribeños o sazonar paisajes parisinos. O inclusive para improvisar malabares con la comedia humana o con el bastón hurtado de algún escritor romántico.
Tales son, en esta fábula áspera y decididamente solidaria, las entrañables —concretas y simbólicas— modalidades de la mano.
 





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REVISTA SELEÇÕES: ARQUIVO DE PESQUISA DE IMAGENS REFERENTES ÀS MULHERES DA DÉCADA DE 1950




 

Eliane Maria de Oliveira Giacon1

Universidade do Estado do Mato Grosso do Sul

Resumo: O artigo pretende apresentar o objeto de pesquisa as revista Seleções, em um período de dez anos, a década de 1950. Para tanto foi feito um recorte de alguns dados referentes à revista, à imagem e à posição da mulher neste período. Bem como foi necessário localizar o acervo, dizer o porquê de selecionar um período histórico e por fim fazer a análise de algumas imagens, a fim de observar de que forma a mulher é representada na revista Seleções.

Palavras-chave: Mulher, revista, imagem.

Origem da pesquisa sobre as revista Seleções

O objeto pesquisado e os desdobramentos dele vão ao encontro de um processo que passa pela seleção de um foco dentro de um projeto maior. O projeto em questão é do Laboratório de Acervos Pessoais financiado pelo FUNDECT/CNPq, que propiciou a pesquisa in loco da biblioteca do Centro de Memórias Jindrich Trachta, sitiada em Batayporã-MS.

Ao separar com um conjunto de documentos, livros, anotações do filólogo Jindrich Trachta percebeu-se que se abria ali uma oportunidade de pesquisa para historiadores, linguístas, sociólogos, antropólogos, literatos, psicólogos, jornalistas, agrônomos, pedagogos, que terão a oportunidade de caminhar por dentro das escolhas de leituras e escritas depositadas no Centro de memória Jindrich Trachta..

Jindrich Trachta foi um filólogo de formação, que veio para o Brasil, depois e 1950 e trabalhou na empresa de Jean Antonin Bata, sendo responsável pela formação da região, onde hoje se encontra a cidade de Batayporã/MS. No decorrer de sua vida ele adquiriu muitos livros e coleções de revistas. Após sua morte 2000, a família Trachta iniciou o projeto do Centro de Memória, que recebe o nome do filólogo.

Desde 2011, a professora doutora Eliane Maria de Oliveira Giacon, docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, iniciou um projeto junto à FUNDECT/CNPq, intitulado Laboratório de Acervos Pessoais, que pretende discutir as opções de leitura dos fundadores do Estado de Mato Grosso do Sul, sendo que a primeira fonte de pesquisa é o Centro de Memória Jindrich Trachta.

No decorrer da pesquisa, um dos setores selecionados foi a hemeroteca do acervo, na qual há a uma coleção das revistas seleções de 1942 até o ano de 2000. A princípio, quando nos deparamos com a hemeroteca verificamos que havia a necessidade de catalogar, contudo isso implicaria um trabalho exaustivo, que foi realizado em parte pela acadêmica Amanda Henrique do curso de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, em 2011. Durante a orientação da aluna, percebeu-se que havia a possibilidade de recortar um período de estudos desta revista, que se fixou na década de 1950.

A década de 1950 produz um momento de mudanças, políticas, sociais e econômicas, que vão ao encontro de um posicionamento da mulher em relação às suas opções de compra e de sua posição em relação à sua casa e família, pois a mulher aos poucos passa a ser de acordo com Marie Susuki Fujisawa (2006), quem decide os produtos, que entram em sua casa e consequentemente ela se tonar o alvo das propagandas de revistas, televisão, cinema, jornais e demais meios de comunicação.

A mulher, que toma seu lugar nas escolhas do que pode usar em sua casa, também passa a ser vista como mais um elemento da cadeia de consumo, que precisa ser convencido sobre o que comprar. O processo de envolvimento passa por um meio de comunicação, que foi incentivado a partir de 1942, quando a revista Seleções do Reader’ s Digest em plena segunda Guerra Mundial, quando a pedido de Nelson Rockefeller diretamente ao Departamento de Estado Brasileiro, pois o mesmo de acordo com Maria Junqueira(2001, p.147) tinha preocupação quanto à possibilidade do nazismo atingir as colônias alemães do sul do Brasil.

A revista Seleções, que era sucesso desde 1922 nos Estados Unidos passou a partir de 1942 a ter uma versão brasileira idealizada pelos proprietários americanos da revista DeWitt Wallace e Lila Wallace, que atingiu sucesso junto a classe média e alta brasileira. O resultado, que as edições da década seguinte, do pós-guerra passam a ser um veículo, que pretende trazer para uma fatia da população brasileira o estilo de vida americano, no qual os produtos a serem consumidos são direcionados à mulher.

A revista Seleções na Década de 1950

A pesquisa de Amanda Henrique (2011) apresenta um perfil dos sumários das revistas Seleções de 1951 a 1960. O trabalho traz dados impressionantes sobre cada revista, que será o objeto de pesquisa e de estudos a partir de agora, pois ela catalogou o sumário deste grupo de revistas bem como suas capas. Far-se-á um recorte, visto que se pretende observar como a confecção de uma revista, que a princípio é voltada para o público masculino, pois o marido era quem comprava as revistas e as colocava em casa e aos poucos, a revista inicia um processo de incorporação da mulher como promotora do vem estar da família e da sociedade.

O público, no Brasil, era composto na maioria por homens, que assinavam estas revistas, logo boa parte dos artigos interessava a eles, mas como, no interior da família, as mulheres também tinham acesso, havia seções que atendiam às mulheres. Uma delas é a “Seção de romances” e “Flagrantes da vida real”. O incentivo à leitura das mulheres aparece em textos como “Mandei minha esposa para a escola” de janeiro de 1952. Neste sentido e pelo fato de a revista viver em busca de leitores, há a preocupação de colocar alguns artigos e seções, que atendam às mulheres. Ainda há uma seção, na qual os vocábulos tanto em português quanto em inglês são apresentados aos leitores como forma de enriquece o vocabulário. Há a preocupação exaustiva com a língua e com o ensino de ler e falar bem, visto que o fator civilizatório americano passa por postura, língua e conhecimento.

No meio de algumas edições aparecem artigos como: “Você tem em casa uma esposinha habilidosa”, “Se sua mulher é cacete” e “Mandei reformar a minha mulher”. São artigos, que trazem um conteúdo machista e sexista, pois invocam o poder masculino do homem sobre a mulher. Ao apresentar esta posição sobre a mulher, há de se observar, que era a década d 1950, quando a estrutura social e o pós-guerra permitia a existência de uma sociedade, que não via estes textos como machistas, mas com riso e humor.

Por outro lado é possível perceber outras características da revista Seleções , que são textos fixos, em seções pré-determinadas, cujos textos mudam os temas, mas não o formato incisivo de tentar convencer o leitor. A função fática é extrema, que muitas vezes, o leitor contemporâneo pergunta-se: “Como os leitores não viam isso”, mas é o mesmo que ocorre, hoje, quando uma revista ou um grupo de revistas se torna como que uma leitura obrigatória de um país. Aquilo é visto como verdade, como se não houvesse outra saída a não ser aceitar.

Há também uma dicotomia entre as capas e os textos, pois muitas delas, da década de 1950 a 1954 trazem fotos de localidade e personalidades brasileiras, contudo os textos são voltados para a expansão americana, que valorizam sua cultura, ciência e língua. De 1955 em diante iniciam reportagens sobre o Brasil a partir de suas riquezas naturais como o amazonas, Belém, cataratas, bem como a vida de algumas populações brasileiras como os gaúchos. Em outubro de 1955 aparece o artigo sobre a Nação brasileira ao imigrante.

Os temas mais frequentes são: guerra fria; remédios; religião; descobertas científicas; mecânica das coisas; sexo e doenças; história, cultura, geografia, turismo e literatura dos Estados Unidos; combate ao comunismo; emprego e façanhas masculinas. Algumas seções são bem delimitadas: “enriqueça seu vocabulário”, “romances, flagrantes da vida real”, bem como “entre aspas”, que inicia em 1955. O ano de 1955 traz mudanças para a editoração da revista, que persiste no material estudado, até 1960.

A mulher na revista Seleções

Se a mulher americana, no período da Segunda Guerra Mundial assumiu muitos papéis da sociedade, ela a partir do final da guerra vê que os postos alcançados não poderiam ser deixados agora, só porque os homens retornaram, visto que muitos deles não voltaram e a reorganização do país dependia dela também.

O mercado de bens de consumo via nela uma possível consumidora, mas também alguém que necessitava de informação e de conhecimentos sobre o mundo que a rodeia. Assim as revistas passam a fornecer informações das mais variadas, tendo revistas de cunho romântico como as fotonovelas, quanto às de informação e venda de produtos como a Seleções.

A revista Seleções, que há mais de 20 anos era publicada nos Estados Unidos vem para o Brasil e aqui se transforma em um misto de informações pedagógicas, na tentativa de ensinar aos brasileiros, de como a classes média e alta poderiam se manter longe primeiro do nazismo e depois do comunismo e como se educar para o mundo capitalista.

A imagem da mulher apresentada para o Brasil era da dona de casa, que necessitava de produtos, que fossem bons para fazer alimentos para sua família; eletrodomésticos de qualidade superior e produtos de limpeza. A vida desta mulher precisava ser facilitada, porque ao melhorar as condições de trabalho doméstico, ela “se apaixona” pelos bens de consumo e não e interioriza a condição de dependente do capitalismo.

Ao mesmo tempo a mulher da década de 1950, no Brasil continua sendo a dona de casa, aquela que cuida dos filhos e salvo poucos casos, ela trabalha ou tem uma vida financeira independente. O lugar da mulher estava definido dentro de uma “família modelo dessa época, os homens tinham autoridade e poder sobre as mulheres e eram os responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos. A mulher ideal era definida a partir dos papéis femininos tradicionais […]. (BASSANAZI, 2006, p. 608) .Os papéis femininos são reforçados pela revista Seleções, contudo o mesmo veículo de informação passa a ver nesta mulher uma consumidora do que havia de melhor, em matéria de consumo. Entre textos, artigos, que se volta para discussões sobre políticas, informações sobre o que se passa nos Estados Unidos, informações sobre a Europa e América Latina e novelas folhetinesca, há espaços para a propaganda e do convencimento por parte dos produtores da revista às consumidoras brasileiras.

A leitora brasileira desta revista encontra temas literários nas seções: romances e flagrantes da vida real, contudo existem outras partes, que apresentam artigos voltados para esta mulher com dicas sobre serviço doméstico, como educar filhos, depoimentos de homens que mandaram as mulheres para a escola, sugestões sobre etiqueta e um artigo de outubro de 1954, que invoca as mulheres a pararem de levar pratos. O texto intitulado “Chega de lavar pratos” pressupõe uma realidade de máquinas, que lavem pratos, que ao lê-lo hoje, percebe-se uma mudança socioeconômica, na qual a mulher teria mais tempo para si mesma e para a família.

Apesar de não ser a princípio uma revista com temas específicos para as mulheres, no decorrer da década um aumento de artigos e seções, que atendem a leitura deste leitor feminino em formação. O que em termos pode ser complementado com as imagens de propaganda, que percorrem todas as edições.

Para efeito deste artigo e pelo espaço exíguo, iremos analisar somente algumas destas imagens, sendo algumas de propaganda e outras de capas, pois de acordo com Joly (1996, p. 71): “A imagem publicitária […] essencialmente comunicativa e destinada à leitura pública, oferece-se como o campo privilegiado de observação dos mecanismos de produção de sentido pela mensagem.”, log tanto o primeiro grupo das capas e o segundo das propagandas internas da revista Seleções vêm ao encontro da necessidade de produzir sentido a uma mensagem.

Do primeiro grupo o das capas, há um a preocupação do uso de cores vibrantes como vermelho, amarelo, azul e verde na composição de um cenário tropical com imagens de mulheres brancas, bonitas, cujas peles refletem o sol. As roupas em geral são americanizadas, pois as modelos destonam do ambiente tropical, no qual elas estão inseridas nas fotos.

A capa da revista Seleções de 1954:

Seleções de Reader’s Digest, Rio de Janeiro: Ipiranga, mar/1954, nº 145.

Em todas as edições, cujas imagens femininas aparecem em primeiro plano há sempre o distanciamento desta figura do dado local, exposto na parte escura da imagens. A imagem da mulher sobreposta à feira próxima ao vendedor e os barcos. Demonstra uma sobreposição de imagens. A primeira ao fundo são os barcos, que estão mais distantes da imagem da mulher do que do vendedor de frutas, log a proporção entre elas é desconexa, o que evidencia uma forma grosseira de ocultar a realidade brasileira. O tom discordante é a mulher, que em primeiro plano atrai a atenção do leitor e tende a se sobrepor aos demais itens da imagem. A mulher não é brasileira, ela veste-se de maneira a tentar parecer com uma brasileira, mas faltam-lhe traços físicos, que a aproximariam do biótipo de brasileiras, mesmo de cor branca, que vivem nas regiões próximas ao mar.

Se por um lado as capas trazem a busca constante de imprimir uma mentalidade de distanciamento da figura feminina do dado local e sua sobreposição como sendo um ser fora do contexto social do Brasil, pois ela é sempre uma visitante dentro da imagem, por sua vez as imagens de propaganda tendem a usar o texto para convencer a leitora sobre um produto.

O primeiro caso a ser observado é quanto à lavagem de roupas, pois as roupas brancas seriam lavadas com o produto Q BOA, que até hoje é vendido em larga escala como alvejante no Brasil. As cores são mais sóbrias, pois é preciso evidenciar o branco da roupa

Revista SELEÇÕES. Rio de Janeiro: Ypiranga, 1954, nº144: p. 9.

A primeira chamada da página diz que as roupas brancas são preciosas, faça-as durar para sempre. Observa-se que em 1954 comemorava-se quase uma década do fim da II guerra Mundial, logo a preocupação com a paz se torna evidente, quando se remete a ideia de que a roupa branca é preciosa, depois aparecem os efeitos positivos do uso do produto, inclusive, que ela protege a saúde da família. A ação descritiva do produto precede a imagem do vidro, que fica no canto direito inferior da imagem próximo aos dizeres da indústria que fabrica. O alvo é a mulher e a sua capacidade de comprar um produto, que atenda ás necessidades de sua família. A preocupação é vender um produto para a família e não só para diminuir o trabalho da mulher.

A preocupação com a diminuição do tempo de trabalho da mulher com os serviços domésticos é centralizada na venda de tecnologias, que são anunciadas, nos artigos da revista, pois as leitoras leem sobre os avanços tecnológicos para diminuir o tempo com o trabalho e em seguida, em outras edições há propagandas voltadas para vender produtos, que pretendem retirar o fardo milenar do trabalho doméstico da mulher.

O texto mais uma vez se sobrepõe à imagem, pois ele clama para que a mulher termine o serviço em menor tempo e possa se dedicar à família. O relógio, ao lado da imagem da mulher marca quase onze horas, horário, que no Brasil, da década de 1950, tanto nas grandes como pequenas cidades todas as classes operária e patronal paravam para o almoço.

Para a mulher o relógio de parede funcionava como um aviso de que, depois daquele horário, ela teria de colocar o almoço à mesa, almoçar, atender a família. O trabalho dela deveria estar pronto até aquele momento e sendo assim, o aspirador de pós a faria terminar o serviço em tempo hábil para atender mais uma exigência capitalista, que era servir à sua família, a fim de que o seu marido e filhos pudessem servir à busca de riquezas, que por sua vez poderiam comprar os bens de consumo.

RevistaSELEÇÕES, Rio de Janeiro,Ypiranga, 1954, nº 149: p. 153.

As facilidades de utilizar o equipamento são demonstradas em um espaço pequeno do lado direito, enquanto que o equipamento aparece em primeiro plano da esquerda para direita ocupando um espaço superior à figura da mulher. O texto explicativo diz quais são as qualidades do produto e quais as expectativas, que a mulher deve ter em relação a ele.

Ao comparar as três imagens é possível perceber, que a figura da mulher sofre uma transmutação nas capas, pois ela sempre destoa do restante da foto como se fosse uma montagem ou ela é posta, em segundo plano, nas propagandas. Embora a intenção da revista fosse vender produtos ou inserir a mulher dentro do contexto da revista, ela o faz com que a mulher brasileira, seja colocada em posição de mais um detalhe dentro da ótica masculina a qual a revista Seleções direciona seus artigos e reportagem. Os locais bem delimitados das seções também se aplicam a conjuntura social da família, na qual para a mulher ficaria relegado o trabalho de estruturar com seu trabalho doméstico e sua prole a sociedade capitalista.

Referências Bibliográficas

BASSANAZI, Carla. Mulheres dos anos dourados. In: DEL PRIORE, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2006.

FUJISAWA, M.S. Das Amélias às mulheres multifuncionais. São Paulo: Summus, 2006.

JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.

PEREIRA, A. H. Memória na revista Seleções: um estudo do perfil da mulher na década de 1950. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Letras) 2012. Campo Grande, Universidade Estadual de Mato Grosso. Orientador: Eliane Maria de Oliveira Giacon.

REVISTA SELEÇÕES, Rio de Janeiro: Ypiranga, 1950-1960.

1 Doutora em Letras/Literatura pela UNESP/Assis. Professora da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, leciona Literatura e Identidade e Teoria da Literatura na graduação e no mestrado. Autora de vários artigos e do livro Literatura e identidade: uma leitura de Viva o povo brasileiro (PACO). Coordena a editoração da web-revista Linguagem, educação e memória.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

GÊNERO E SEXO: ONDE HÁ DIFFERÁNCE?




Alexandre de Oliveira Fernandes

DOUTORADO – UFRJ

RESUMO DO CURRÍCULO:

Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado da Bahia. Mestre em Letras: Linguagens e Representações pela Universidade Estadual de Santa Cruz/UESC. Doutorando em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Professor de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação Tecnológica da Bahia – IFBA/Porto Seguro. Desenvolve pesquisas nas áreas de culto aos orixás, mitologia, semiótica, antropologia das religiões, linguística, literatura, leitura e escrita, currículo, educação, pós-estruturalismo, Michael Foucault e Jacques Derrida.

Resumo: O presente ensaio problematiza a suposta oposição gênero/sexo, denunciando categorias metafísicas, como resultado de relações de poder e dominação. Trata esses pares de opostos não essencialmente pela diferença, mas pela relação entre condição e condicionado, com mútua implicação cultural, transferência contínua, vazamento e fluidez, dando lugar à desconstrução da oposição. A diferença entre “gênero” e “sexo” não os opõem, antes, sugere a multiplicidade, a heterogeneidade, a pluralidade. Trata-se de um movimento de resistência à tirania do Um.

Palavras-chave: gênero; sexo; relações de poder.

Resumen: Este ensayo discute la supuesta oposición de género/sexo, denunciando categorías metafísicas como resultado de las relaciones de poder y dominación. Estos pares de opuestos no son tratados esencialmente por la diferencia, pero por la relación entre condición y condicionado, con implicación cultural mutuo, transferencia continua, llevando a la deconstrucción de la oposición. La diferencia entre “género” y “sexo” no se opone, además, sugiere la multiplicidad, la heterogeneidad, la pluralidad. Se trata de un movimiento de resistencia a la tiranía del Uno.

Palabras clave: género; sexo; las relaciones de poder.

A mi entender, la tarea de todos estos movimientos consiste en distinguir entre las normas y convenciones que permiten a la gente respirar, desear, amar y vivir, y aquellas normas y convenciones que restringen o coartan las condiciones de vida.

Judith Butler

Identidades lésbicas, gays, travestis, transgêneros, transexuais, dragqueens e dragkings, do “homem do século XXI”, da mulher solteira e independente, fazem chacoalhar a heteronormatividade compulsória, abalam o que se entendia anteriormente por mulheres e homens estáveis, quando em fato, somos diferença:

(…) nossa razão é a diferença dos discursos, nossa história é diferença das épocas, nossos eus são a diferença das máscaras. Essa diferença, longe de ser a origem esquecida e recuperável, é essa dispersão que somos e fazemos (FOUCAULT, 1997, p.151).

Neste sentido, cabe acolher o gênero como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado, isento e a-histórico? A oposição entre “masculino” e “feminino” é atemporal, neutra e universal? O sexo é biológico (apenas) ou tem uma história? Como tratar estas categorias sem essencializá-las?

Estas questões se contrapõem à ideia de origem absoluta e presença imaculada, pois apontam para o aparato de produção do significado transcendental, que insiste, por um lado, em “produzir uma traduzibilidade absolutamente pura, transparente e unívoca” (DERRIDA, 2001, p. 26) e, por outro lado, em esvaziar a vida e a potência do pensamento.

A metafisica ocidental é a sistematização dessa ilusão ou desse delírio de presença, construído sobre a percepção de oposições: masculino e feminino; sexo e gênero; heterossexual e homossexual; azul é para menino, rosa para menina; meninos são fortes, meninas são dóceis e gentis; banheiros devem ser separados por sexo, assim como profissões, roupas, costumes.

Com Jean-Louis Houdebine, questionamos: “que se passa, então, com essas ‘diferenças’ que, efetivamente, não caíram do ceú?” (DERRIDA, 2001, p.88).

Símbolos e significados, sistemas de representação são construídos a partir desse saber (de diferença sexual, da categoria “gênero”, transformados em dispositivos de saber e poder) e utilizados para a compreensão das relações entre homens e mulheres. Desenvolvem técnicas de normatização, correção e educação sexual que, ao invés de ser o reflexo transparente do “eu”, resultado de uma verdade externa (ou interna), resultam de produção discursiva de conhecimento sobre o “self” (SCOTT, 1999. p.45). São estes discursos fortemente reiterados na sociedade, construindo subjetivações coercitivas, as quais produzem sujeitos coagidos, interditados e constrangidos.

Isto quer dizer que, o sistema de representação dual (menino/menina, homem/mulher, marido/esposa), gera uma ordem simbólica com uma série de regras que ordenam, sustentam, convalidam o sentido da realidade e a cultura. Explicam, portanto, as relações sociais, dão sentido e reconhecimento, numa ordem compulsória, que exige deferência total à relação entre um sexo, um gênero e um desejo/prática heteronormativos.

Doravante, para respirar um pouco, retomemos a epígrafe deste texto e com Judith Butler (2002) propomos que a viabilidade da vida depende do exercício de autonomia corporal e das condições sociais que possibilitam esta autonomia. Viver e ser feliz podem estar relacionados à proliferação de prazeres fora do contexto bem marcado das normas.

Se a metafísica é código de conduta, uma forma de pensar o mundo, uma norma de reconhecimento pela qual o humano se deixa ver, então, torna-se fundamental a luta pelo direito de outros exercícios, que potencializem o pensamento e a vida.

A metafísica é capaz de disciplinar o desejo pelo discurso (e o sujeito que não é mais racional e autônomo como queria o Iluminismo), mas, há espaço para que o desejo se insurja como um indisciplinado. Isto tem lugar na constante ressignificação da linguagem como expressão do pensamento em palavras, em gestos e toda sorte de expressão da atividade psíquica.

Estamos nas malhas das questões da linguagem, do poder e da disputa, na arena de luta e violência que é a sociedade e a cultura. “Quem está no poder controla a história” (HUTCHEON, 1991, p. 250). A cultura não é transparente, autossuficiente, natural, mas espaço de luta, contestação, em que jogos performáticos e dialógicos, jogos de poder, proporcionam um “fenômeno cultural inter-relacionado de uma forma complexa com outros fenômenos” (BUTLER, 2002, p. 171). Os objetos da cultura que tentam se mostrar como transparentes e não inventados, são exatamente aqueles do delírio da presença, os quais, tentam ocultar as performances de sua invenção.

A luta por direitos pode provocar (e ampliar) normas e convenções que deem a outras experiências de ser e viver a legitimidade cultural e legal necessária. Vide por exemplo, os embates sobre outras formas de parentesco, a adoção de crianças por casais homoafetivos, os direitos do matrimônio a casais gays, o acesso à tecnologia reprodutiva.

E quando se diz luta por direitos, deve-se pensar também no direito de significar, ou seja, de constituir e movimentar discursos, de provocar subjetividades, haja vista que sujeitos são constituídos discursivamente. Ser construído discursivamente implica que nossas experiências estão atreladas a uma teia de significados compartilhados, significados culturais nos termos de Clifford Geertz (1989). A experiência, paradoxalmente, já é uma interpretação do mundo e algo a ser interpretado, é a história do sujeito (e não do indivíduo) – monumental, estratificada, contraditória, fruto de repetição e rastro. A linguagem é o local onde essa história é encenada, logo, urge lutar pelo poder de dizer.

Não ignoramos que todo sonho tem seu contra sonho. A sociedade é uma arena de luta e embate em todos os aspectos e sentidos. Judith Butler (2002, p. 168) argumenta que está em curso uma retomada de teorias estruturalistas na França, no horizonte político contemporâneo. O tabu do incesto está sendo utilizado, no contexto francês, para justificar um projeto racista e garantir a fantasia da nação universal e homogênea. Deste modo, sustentaria a pureza cultural francesa, contra as ameaças dos novos padrões de imigração, o crescente número de relações inter-raciais, a mestiçagem, a desestruturação de fronteiras.

Noções como família, parentesco, sexo, gênero são mais bem compreendidas sob rasura, como espaços de movimento de sentido e cena de escritura, em que interveem toda uma economia sígnica, atravessada pela formação das identidades nacionais e transnacionais, as cosmologias, as religiões, as hierarquizações em torno da raça, do gênero, das taxonomias das espécies, dos modos de pensar e se fazer ciência, a medicina, o judiciário, a tecnologia, as diásporas, a globalização, a economia e a política global, a saúde, a bioteconologia, a biomedicina. Tais intervenções não podem ser compreendidas sob a clausura da oposição porque além de excludente e preconceituosa, demonstra-se falível.

A oposição que tenta aprisionar os corpos mostra-se ineficiente porque o “real” e o “sexualmente fatual” dão lugar a contravenções. Estamos dizendo com isso que, a quimera da oposição, seu delírio e ilusão não abarcam a dinâmica da sexualidade. Impõem ações aos sujeitos (por meio de desejos inventados), as quais nunca se tem realmente acesso. Pergunta Butler (2003, p.210): “Será que isso oferece a possibilidade de uma repetição que não seja inteiramente cerceada pela injunção de reconsolidar as identidades naturalizadas?”

Quando há tantas expressões de gênero porque assumir a categoria mulher como a única que se opõem à categoria homem? Tantas coisas são possíveis com homens e mulheres para além do “familiar”. A genética, o desenvolvimento tecno-científico liberam nossa imaginação.

Qual o perigo e a que preço (sociais, afetivos, psíquicos), o mundo está sendo entendido em termos de entes e essências fixas, definidas com base em diferenças identificáveis? Não é assim que grupos fundamentalistas tratam categorias, a saber, infância, família, sexualidade, religião, como um dado-dado associado à natureza e retirado da ação humana? Não é esta a artimanha da metafísica, capaz de intervir em diversos domínios da vida social – sustentando tradições –, tratando-os como se fossem únicos, isentos de histórias, como se fosse possível um significado transcendental e autorreferente?

Recentemente, Kleber Kruger, professor do curso de ciência da computação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, defendeu o fim de cursos de “formadores de bichonas” em sua página no Facebook1. E sem grandes preocupações agrediu: “Depois eles tomam uma surra, morre um viado lá no Campus, sai no jornal e pronto!” Kruger é metonímia de discursos fundamentalistas que incitam à violência com vistas a convalidar o desejo heterossexual autorreferente, o qual, por definição não se cruza jamais com nenhum desejo homossexual. Para além deste caso que colocamos aqui em relevo, importa o estudo de Debora Diniz (2014), “O escândalo da Homofobia: imagens de vítimas e sobreviventes”, ensaio em que analisa imagens de homofobia em veículos de notícias no Brasil.

Ora, nenhum signo tem uma existência independente de suas relações com outros signos. A “origem” é dual. A dualidade é a referência. A origem é produto da sociedade, da cultura, das relações de poder. Nenhum signo possui tal fixidez que não seja passível de acréscimos ou comentários. Ele não deve ser lido de modo linear, com correlações simples e única variável porque está ligado a todo um sistema de implicações, a uma máquina de produção de sentido. Qualquer movimento de “fazer leitura” põe a trabalhar todo o sistema.

O signo é “desde já” o resultado de economia de verdade, uma entidade fluida, que não existe como um sozinho no mundo, mas dá-se a perceber a partir de relações fluidas e movimentos de diferença. A isto, Jacques Derrida (2001, p. 33) denomina de différance: “o jogo sistemático das diferenças, dos rastros de diferenças, do espaçamento, pelo qual os elementos se remetem uns aos outros”.

A diferença é estável e linear, a différance é movimento, não tem limite, nem espelho, ou seja, não toma a si mesma como seu ponto zero, não há a mesmidade. A différance é a diferença que toma como referência outra coisa que não a si.

A différance problematiza o delírio da presença porque aponta para o deslizamento do código linguístico, um movimento performativo dos jogos da linguagem que possibilita interpretações diversas, levando, inclusive, a uma desconstrução possível da hierarquia. Assim, neste “jogo”, não se chega à verdade, mas a substituição de uma interpretação por outra. Isto apaga o mito de uma origem presente.

Se deslocamos nosso olhar para a estruturalidade da estrutura, se buscamos “compreender como alguma coisa está construída, o que requer reconstruí-la, desmancha-se uma edificação” (GABILONDO, 2001, p.171). A metafísica da presença se desmantela, porque a (suposta) onto-presença remete, inevitavelmente, para outras presenças. Vê-se, portanto, diferida, adiada, implodida num processo de interpretação de interpretação. A ontologia é assim, não uma fundação, uma instituição intocável e sólida, mas uma injunção normativa que, instalada no discurso filosófico, político, jurídico, amealhada à sociedade e à cultura institui-se como fundamento capaz de assinar a si mesma.

Aquilo que percebemos (o significante) e o significado que apreendemos (o significado) não têm relação necessária. A isto, Ferdinand Saussure chamou de “arbitrariedade do signo”, ou seja, qualquer significante é “vazio” antes de se tornar um signo. A princípio, qualquer “coisa” poderia ser chamada de qualquer “coisa”.

Por que então, o significado teria de ser percebido a partir de um dado significante? Ao opor diferenças num sistema de valor fixo e inviolável, a metafísica leva-nos a pensar o mundo por meio de uma ontoteologia perigosa, rígida e excludente que guia as relações com o futuro. A forma através da qual lemos o mundo pode nos contar muito sobre como a análise de algo foi dirigida.

Além de perigosa, a visão diádica é pouco humilde. Não corrobora com o pressuposto de que a complexidade da existência é tamanha que sempre há uma dimensão que desconhecemos. Este não saber é condicionante da sexualidade.

Michael Foucault, em “A história da sexualidade”, defende que o discurso unívoco do “sexo” aponta para a regulação e controle social de suas práticas. Isto reduz, oculta, fixa o sexo artificialmente e determina uma “essência” sexual que deve ser perseguida pelos sujeitos. Por meio de uma unidade enigmática e incerta, justificam-se práticas sexuais. Aqueles desejos, sensações e prazeres que não se coadunam com o discurso unívoco, são tratados como desviantes.

Mas, é possível romper com a metafísica? Jacques Derrida (2001) propõe que “há” uma transgressão (im)possível, porque, ao agredir, ao tentar transgredir a metafísica, utilizamo-nos de um código ao qual a metafísica está invariavelmente ligada. Recorremos a esta herança no afã de detê-la e romper com ela. Ao fazê-lo, colocamos a metafísica em movimento e voltamos a nos encerrar em seu interior.

Todavia, se não podemos “viver” sem o suporte da metafísica, tampouco, podemos aceita-la como está, ato contínuo, somos desafiados a movimentá-la, com o trabalho que se faz de um lado e de outro do limite da metafísica, modificando seu interior. Assim, certa transgressão tem lugar porque movimenta, esgarça, borra seus limites. Ao questionar, ao problematizar a metafísica, colocando sob suspeita os pares de opostos, uma movimentação “transgressiva” acomete a metafísica, marca e afrouxa seus limites.

Nas palavras de Jacques Derrida (2001, p. 30), o embate com a metafísica deve

…. transformar os conceitos, desloca-los, volta-los contra seus pressupostos, re-inscrevê-los em outras cadeias, modificar pouco a pouco o terreno de trabalho e produzir, assim, novas configurações; não na ruptura decisiva, na unicidade de um ‘corte epistemológico’, como se diz hoje, com frequência.

Não há o “corte epistemológico” em definitivo, mas movimentar as estruturas sociais, questionar a metafísica e seus pressupostos como não sendo condição sine qua non para a cultura, viabiliza o acolhimento de outras narrativas culturais, as quais, podem dar suporte a outras formas de ser e existir, bem como transformar (e ser transformada por) saberes como o jurídico e a psicanálise.

Questionado por Elisabeth Roudinesco, acerca de os casais homossexuais buscarem ser tão “normais” quanto os casais tradicionais, a ponto de imitá-los de maneira caricatural, o que ela chama de desejo de normalidade frente as discriminações e os discursos de exclusão, interpõe Jacques Derrida (2004, p. 50):

Será que um casal de homens homossexuais propõe ou impõe dois pais masculinos para seu filho? Não estou certo disso. Será que um casal de mulheres homossexuais engendra duas mães? Será que não existem sempre, em todas essas situações, “no nosso mundo”, um pai e uma mãe, o pai e a mãe? Incluindo até avós, tias e tios, todo tipo de alternâncias e substitutos, como sempre, entre os amigos etc? Para além de qualquer interpretação jurídica, pergunto-me sobretudo como (e se) o modelo familiar, referência bastante estável e fundadora para a teoria psicanalítica, poderá, ao se transformar, transformar a psicanálise.

As histórias e fábulas ocidentais que nos contam de como Deus criou Adão e Eva ou a que nos reporta ao mito de Édipo, com suas visões heterossexistas, servem de referência a um garoto que tenha sido adotado por pais homoafetivos? Servem a um garoto que em dado momento de sua vida se perceba gay? Servem a uma menina cujos pais recorreram à inseminação artificial? Não seria mais produtiva uma visão de mundo que refletisse narrativas não fixas, que se modificam e se interrompem ao longo do tempo, resultado de lutas (invenção) culturais?

Há, em curso, o deslocamento do modelo familiar estável, o que implica o desmonte da abordagem psicanalítica que sustentou a metafísica até o momento. Isto cabe para o aparato jurídico, antropológico, médico etc. O contrário disso – não acompanhar as mudanças em curso –, transformaria, qualquer ciência em uma deontologia, em que, forçosamente, seus praticantes seriam censores, promotores (talvez não da ciência, mas da moral, da religião, dos bons costumes).

Apoiada em pares de opostos hierárquicos, imbricadas a relações desiguais de poder, a metafísica leva à caricatura do segundo termo, esconde a trama violenta ali engendrada, passando tal relação por bondosa e natural. Esta pureza originária, contestada por pensadores como Jacques Derrida, Joan Scott e Judith Butler, é cindida, fragmentada, diferida, porque infectada pelo que se segue dela.

A origem (dos sexos!) tem uma história, sendo ela também originada, forjada, inventada, construída, em parte, como uma cadeia infinita de relações. Isto nos possibilita uma estrutura e um movimento que não se deixam mais pensar a partir da oposição presença/ausência.

O sonho de pureza ignora sistematicamente contribuições de estudos referentes à polissemia, à polifonia e à disseminação. Ora, é possível que um texto seja homogêneo? Não depois de Babel como o mito da tradução, a relação que se dá entre a vida de um texto, sua sobrevivência, sua não-sobrevivência na tradução. É possível um sujeito soberano e responsável capaz da interpretação perfeita? Não depois de Sigmund Freud e o inconsciente – com seu texto (do inconsciente) permeado de rastros e diferenças que combinam força e sentido, um texto que não está em lugar algum, cujos arquivos são “desde já” transcrições (DERRIDA, 2001). Não depois dos estudos da forma narrativa, do intertexto, das estratégias de representação, da “microfísica do poder” e da “genealogia” foucaultiana – que desloca nosso olhar da história das coisas para a história dos discursos, ou seja, ao invés de historiar os fatos e dizer quais são os válidos e os não válidos, importa descrever como os fatos (resultados de jogos de força política e relações de poder) legitimam uma forma de explicar o mundo.

Se a origem do “signo-dado” é significada em textos, em sistemas de representação, em economia da verdade, signos fazem-se necessários. A “economia da verdade”, é movimento (por vezes irônico) que tenta apagar a trama que envolve a produção de sentido. Mas, não se consegue apagar. A supressão torna-se sobreimpressão. Apagando, aparece. Apagando, tudo acontece. Deixa rastros, rastros de supressão, decalque materializado que irrompe. Não é este o caso do recalcado? Não é este o pesadelo do discurso único, parasitado como Sísifo, ad aeternun, por aquilo que se esforça em manter reprimido?

O sentido é, em fato, diferido e não uma verdade. Diferido porque o sistema de diferença exige que para que haja sentido, para que um elemento “funcione”, é necessário remetê-lo a outro elemento, numa economia de rastros. Estes rastros, quando apagados, encobertos, ignorados, são a verdade (suspostamente!). A verdade é a economia de rastros que não se deixa ver. A verdade só se dá numa faxina delirante e violenta contra os rastros.

Signos arrastam consigo contextos, histórias, apartes, futuros, intrigas, concordâncias e dissenções. Nenhum signo está ileso aos signos a seu redor. Para que funcione (como num “fiat lux”) há o movimento de um cadeia infinita de significantes que lhe deixa marcas, desde a origem (inventada). Estas marcas são rastros que denunciam o caráter performativo dos signos, os processos que lhe deram existência.

O pleno só “existe” na relação com a alteridade e, logo, deixa de ser pleno. O “eu” não existe sozinho senão na relação com o Outro. É na relação com o outro que a identidade é forjada, por isso, impossível de ser fixa e estanque senão fluida e plástica. Para que produza sentido o (suposto) pleno-presente, deve se relacionar com outra coisa que não ele mesmo – o sujeito idêntico a si não existe –, guardando em si a cena desse contato, as marcas do elemento passado e deixando-se molhar pelas marcas da sua relação com o elemento futuro (DERRIDA, 1991, p. 55).

O gênero não é, portanto, um conceito neutro porque tem uma história, tem uma assinatura, uma contra-assinatura, um copyright2, um lugar, um tempo, uma língua, uma traduzibilidade. É produto e produtor de ideologias, como a ideologia patriarcal e o poder desigual legado a mulheres e homens: homem/marido, mulher/esposa.

Estudá-lo implica questionar não só como o sexo é exercido em sociedade, mas como as relações que travamos com o desejo e as normas sociais constituem sujeitos aceitos e não aceitos, sujeitos de valor e depreciados, sujeitos acolhidos e monstros, sujeitos da norma e abjetos. Define-se, ato contínuo, quem é humano e quem não o é, quais sexualidades são permitidas e quais devem ser patologizadas.

Ao longo da vida, por meio de sistemas de interdição, coação e repetição de atos, gestos e signos, corpos masculinos e femininos são produzidos, num exercício de gênero intencional, um gesto performativo que produz sentidos necessários à identidade corporal.

Sabe-se que a atribuição da feminilidade aos corpos (femininos) não é uma propriedade natural, mas, resultado de múltiplas relações sociais que, a depender da época, dos limites geopolíticos e das interdições culturais sofre mutações.

Ainda na barriga da mãe, logo que o ultrassom determine um pênis ou vagina – portanto, “é um menino”, “é uma menina” –, o desejo deverá corresponder, compulsoriamente, a atração pelo sexo oposto. E se olhássemos para este determinismo biológico com ceticismo? E se perguntássemos em que “lugar” está a biologia e sua determinação incondicional dos papéis sexuais dos sujeitos? Tem lugar a biologia em um vácuo? Pode ela sustentar uma identidade fixa?

Se a identidade fosse fixa, os sujeitos teriam atitudes constantes e sempre verificáveis, quando o que ocorre é um câmbio social. Pensar a identidade como flutuante permite que sujeitos heterossexuais possam se mobilizar na luta contra a homofobia, por exemplo. Se fixa fosse sua identidade, isto seria improvável.

Conceber a ideia do que é ser “pai” na contemporaneidade, borra o sentido fixo que se pretende para esta palavra. Quem é o pai quando uma família é gerida pela mulher? Quem é o pai quando uma criança é resultado da doação de esperma? Os amantes furtivos e ocasionais são o pai de uma criança que jamais verão? Como defender uma noção fixa de parentesco quando esta está condicionada às inovações da biotecnologia, às questões das relações mercantis e comércio de crianças?

Contrariar a simplicidade da oposição, retardar a resposta (negativa ou afirmativa), esquivar-se de uma definição essencialista de gênero e sexo, abre à imprevisível liberdade. Dá-nos uma chance de mirar horizontes impensáveis para além da armadilha do binarismo.

Gustavo Benevides, estudante de 21 anos, foi expulso de casa porque assumiu relacionamento com a transgênero Bruna Marx3. Bruna Marx é servidora pública, provavelmente será aposentada de modo compulsório, porque fora diagnosticada como sujeito com transtorno de gênero, e não aceita fazer uma operação para mudança de sexo. Gustavo Benevides não se sente gay e vive com Bruna. Marcela Ohio, Miss Internacional Queen, namora Felipe Ávila. Marcela Ohio diz que Felipe prefere relações com mulheres e não é gay. Declara Ohio que durante as relações sexuais com Felipe este lhe faz sexo oral e ela tem orgasmos normalmente4. Em entrevista, pergunta Marília Gabriela a Marcela Ohio: “Você goza pelo pênis. Quando você tirar isso, como será o prazer?” Para Ohio, “quando eu operar vai ser uma nova vida. Vou ter de descobrir novos prazeres, onde sinto tesão”. Laerte Coutinho, cartunista, veste-se de mulher desde 2009, usa brincos e pinta suas unhas, e diz não se enquadrar em nenhuma categoria de gênero: “É, eu não sou completamente heterossexual.5” Léo Moreira Sá nasceu e foi chamado Lourdes Helena. Baterista de banda punk feminista, hoje é ator e iluminador teatral. Ativista transexual, faz parte da diretoria da Associação Brasileira de Homens Trans. Foi casado durante dez anos com a travesti Gabriela Bionda. Casaram-se no civil e não no religioso porque não tiveram a permissão da igreja. Na mesma vertente de Laerte, afirma Léo Moreira Sá: “não sou homem nem mulher. Não acredito em gênero. Por que vou deixar de ser uma mulher que nunca fui, para ser um homem que nunca serei?”6. Léa T, transexual desde 2012, diz conhecer várias outras transexuais que mesmo tendo feito a cirurgia prosseguem com uma subjetividade transgênero7. Ryland, filho de Jeff e Hillary Whittington tem aparecido nos sites de notíciais como a menina que disse aos pais, aos cinco anos de idade: “Sou menino”. Segundo os pais, Ryland nasceu com um problema auditivo grave e com um ano de idade precisou ser submetido a um implante coclear. Ryland deixou seus pais confusos porque foi criado em um espaço decorado e pensando para meninas, seu quarto tinha este tipo de decoração e era sempre vestido como garota. Assim que aprende algumas palavras, declara de modo peremptório: “Sou menino”. Preocupados com os altos índices de suicídios envolvendo pessoas que não se identificam com o gênero dado, decidiram cortar os cabelos do filho, comprar roupas novas, redecorar seu quarto. Trata-se de uma menina que se tornou menino aos cinco anos de idade8. Os jogadores Cristiano Ronaldo e David Beckham costumeiramente tem sua sexualidade questionada porque cuidam do corpo, sobrancelhas, se depilam, pintam as unhas e não se furtam a usar roupas ditas femininas ou flor no cabelo.

Estas formas de exercer a complexidade da vida (e inclusive o fascínio que despertam: não são sucessos midiáticos, guardadas as proporções, Laerte, Marcela Ohio, Léa T, Cristiano Ronaldo e David Beckham?), desafiam o pressuposto humanista do eu unificado e de uma consciência permanente. Injetam por meio da subversão problemas para a subjetividade coerente, contestando os privilégios da ideologia dominante.

O que ocorre efetivamente quando um sujeito não se sente dragqueen porque não se veste de mulher para fazer performances, tampouco não é transexual porque não tem interesse em submeter-se à cirurgia de mudança de sexo e nem está insatisfeito com seu corpo biológico? Até onde vão as nomenclaturas e seu enquadramento? É possível o pós-gênero? É possível o sujeito sem gênero? É possível a indecidibilidade?

Estas questões corroem a noção de originalidade e a autoridade da presença porque demonstram que todas as práticas sociais são culturalmente fundadas, manietadas por um texto ideológico, contraditório e político, que sustenta as suas próprias condições de produção e de sentido.

A identidade, numa perspectiva desconstrucionista, se existe, não se nomeia, resiste à análise, permanece sempre por analisar, é dividida, multiplicada, conjugada, fragmentada, partilhada desde sempre. Importa como tarefa fundamental situar estratégias subversivas (promovidas dentro da construção que pensa poder enclausurar corpos em sua totalidade), afirmar possibilidades de intervenção, contestando identidades bem marcadas.

Neste aspecto, o corpo hermafrodita, o desbunde dos transformistas, a paródia das dragqueens (que trabalham dentro e fora dos contextos “permitidos” cuja ironia e intertextualidade solapam o discurso da unicidade), a presença do transgênero nas baladas, o corpo transexual denunciam e refutam categorias e estratégias de regulação.

Este movimento contraria o pensamento metafísico, a injunção normativa, todo o delírio da oposição e seu interesse em estabilizar definitivamente a identidade de gênero. Acolhe em hospitalidade absoluta um devir outro, um nada-querer-dizer sobre identidades sexuais e seus deslocamentos constantes. Tenta, tende e aporeticamente, detém-se no ponto de esgotamento do querer-dizer.

O pensamento binário está carcomido porque, em sua lógica excludente, não auxilia à compreensão daquilo que escapa, do errante e da incerteza. Que alto preço, psíquico e social, não se paga ao circunscrever corpos normatizados dentro de narrativas heterossexuais?

Tais narrativas devem ser questionadas, pois, o processo de ser e estar no mundo, a relação complexa que travamos com o Outro, não é diádica apenas. Se assim o fosse, o “eu” permaneceria no centro do desejo do Outro, numa vertente puramente narcisista da relação. Mas, se aceitamos que o desejo não é algo simples de traçar, se compreendemos que o desejo não segue normas rígidas, cartesianas e matemáticas, corre-se à agonia do deslizamento e do indecidível.

O indecidível é uma espécie de travesti, uma referência irredutível. Está lá e cá, dentro e fora, sorrateiro ri, ironicamente nega-se a dar respostas simples porque sabe que, por meio de uma consciência semiótica todos os signos mudam de sentido ao longo do tempo e do processo de tradução. A legibilidade é, portanto, feita de rastros que se tornam legíveis na e sobre a linguagem. Por que então a nostalgia e a atração pelo consenso e o axioma seguro (e empoeirado) de coisas antigas, fixas e estanques? A différance de gênero e sexo passa pelo indecidível, pelo amor ao inacessível, pela alteridade e a hospitalidade infinita, um importante alerta contra a sedimentação dos discursos, da linguagem que utilizamos e das armadilhas que se nos armam.

Referências bibliográficas

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DERRIDA, Jacques. Limited Inc. Campinas, São Paulo: Papirus, 1991.

DERRIDA, Jacques. Margens da filosofia. Campinas: Papirus, 1991.

DERRIDA, Jacques. De que amanhã: diálogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

DINIZ, Débora. O escândalo da homofobia: imagens de vítimas e sobreviventes. Revista Écops: Comunicação e conflitos políticos. v. 17. n. 1., 2014.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

GABILONDO, Angel. La vuelta del otro. Diferencia, identidad, alteridad. Madri: Editorial Trotta, 2001.

GEERTZ, Cliford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Traduzido pela SOS: Corpo e Cidadania. Recife, 1990.

SCOTT, Joan. Experiências. In: Falas de gênero: teorias, análises, leituras. Florianópolis: Mulheres, 1999.

1 Cf. http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/professor-universitario-defende-fim-de-cursos-formadores-de-bichonas.html.

2 Sobre os direitos da cópia, vale conferir Jacques Derrida, Limited Inc. (1991).

4 Cf. https://www.youtube.com/watch?v=ie539Oyid78

5 CAROS AMIGOS, São Paulo: Editora Casa Amarela, ano VII, n. 84, março 2004.

6 Cf. Entrevista para Programa de Marília Grabriela: https://www.youtube.com/watch?v=SYSecegZi_0.

7 Cf. https://www.youtube.com/watch?v=POxl8OqesG4

8Cf. http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2014/05/30/menina-se-torna-garoto-aos-cinco-anos-de-idade.htm#fotoNav=11





Bio fornecida pelo palestrante.

ÚRSULA: A VOZ DOS EXCLUÍDOS DO SÉCULO XIX NO ROMANCE DE MARIA FIRMINA DOS REIS




ÚRSULA: A VOZ DOS EXCLUÍDOS DO SÉCULO XIX

NO ROMANCE DE MARIA FIRMINA DOS REIS

José Geraldo da Rocha¹

Unigranrio

Patricia Luisa Nogueira Rangel²

Unigranrio

Resumo: Este artigo objetiva analisar as representações das classes excluídas no século XIX, como mulheres e negros no romance Úrsula, de Maria Firmina Reis. A autora se destaca por ser mulher e negra, mostrando, assim, a importância feminina na literatura como reconstrução da história, o que está de acordo com o conceito de Walter Benjamim, dar voz aos que foram calados pela classe dominante. O romance Úrsula tem papel importante para a preservação dos sentimentos, valores e saberes africanos, além de as personagens femininas transgredirem as normas patriarcal da época. Ao quebrar as representações do negro e mulher na literatura brasileira do século XIX, a autora do romance torna-se a percussora da mulher na literatura negra. Maria Firmina dos Reis dentro de sua narrativa traz reflexões sobre a questão escravocrata e da mulher.

Palavras chaves:Úrsula – Maria Firmina Reis – literatura – Mulher – Negro

Resumen: Este artículo tiene como objetivo analizar como se dan las representaciones sociales de las excluidas en el Siglo XIX, mujeres y negros en la novela Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. La autora se destaca por ser mujer y negra, mostrando, así, un importante aporte en la literatura femenina en la reconstrucción de la historia, que, segundo el concepto de Walter Benjamin, significa dar Voz a los que fueran silenciados por las clases dominantes. La novela Úrsula tiene papel importante para la preservación de los sentimientos, valores y saberes africanos. Además, demuestra como las personajes femeninas traspasan las normas patriarcales de su tempo al romper con las representaciones. En cuanto negra y mujer brasileña en la literatura del siglo XIX, la autora se torna una precursora de la mujer en la literatura de autoría negra. Maria Firmina dos Reis, en su narrativa, hace reflexionar sobre la situación de la mujer en el contexto de la esclavitud.

Palabras clave: Úrsula – Maria Firmina Reis – literatura – Mujer – Negro

Introdução

Este artigo possibilitará a análise de representações de elementos excluídos pela sociedade do século XIX, como mulheres e negros, dentro do romance Úrsula de Maria Firmina dos Reis.

A autora é considerada a primeira escritora brasileira, e por ser negra, também assume a categoria de primeira escritora da literatura que aborda temas sobre o negro. Sua literatura, portanto, revela a importância da mulher na literatura brasileira, como reconstrução da história.

A literatura afrobrasileira é uma grande fonte histórica, em que ocorre o resgate da identidade de negros escravizados, os quais sofreram com tentativas de aculturação de uma classe dominante. O livro Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance que trata do tema escravidão, em que a oralidade dos personagens retoma os saberes africanos, de forma que esta obra resgatou uma nova construção do sentido e perspectiva histórica, pois deu voz aos negros para expressar seus pensamentos, sentimentos e contar a sua história.

Outra questão abordada por Firmina foi a questão da mulher no sistema patriarcal da época. Suas personagens, Úrsula e Luísa B…, fogem ao padrão da época. Luísa B… casa-se contra a vontade do irmão e, quando viúva, assume as responsabilidades de casa. Úrsula se apaixona por Tancredo e não se submete ao casamento com seu Tio. Reis apresenta mulheres fortes. A narrativa Úrsula trata do romance entre Úrsula e Tancredo, no entanto, surge um terceiro, Fernando F…, tio da mocinha, que a deseja e, para tê-la, é capaz de ir até as últimas consequências. Surgem na trama, como aliados do casal, os escravos: o jovem Túlio e a Velha e boa Suzana.

Enfim, o trabalho em questão evidencia o resgate de uma escritora do século XIX, por meio do seu romance, de uma herança histórica, política, literária e revolucionária.

1. Maria Firmina dos Reis: a autora e a obra

Maria Firmina dos Reis nasceu em 1825, na cidade em Ilha de São Luís, capital da província do Maranhão. Mestiça e filha ilegítima de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Aos cinco anos mudou-se para Vila de Guimarães, município de Viamão, ainda no mesmo estado, em que sofreu forte influência do primo, por parte da mãe, Sotero dos Reis, escritor maranhense. Segundo Mendes (2006), Firmina era autodidata e seus conhecimentos se deram através de muitas leituras, inclusive, lia e escrevia francês fluentemente.

Martin (1988), segundo a pesquisa de José Nascimento Moraes Filho (1975), declara que, em 1847, Maria Firmina foi a única aprovada no concurso de professora primária na Vila de Guimarães, se aposentando em 1881. Em 1880, aos 55 anos, ela fundou a primeira escola mista de Maranhão, no entanto, Mendes (2006) comenta que esta escola foi fechada em 1890. Faleceu em 1917, pobre e cega, aos 92 anos.

De acordo com Martin (1988), o romance Úrsula foi publicado em 1859, no entanto, o nome da autora era representado por um pseudônimo “uma Maranhense” e começa a circular em 1860. Esta obra foi o primeiro romance abolicionista e o primeiro escrito por uma mulher. No entanto, Lima (2009) comenta que embora Reis tivesse escrito sua narrativa antes de o Poeta dos escravos, Castro Alves, escrever seu poema expressivo “Navio negreiro”, em 1869, somente no século XX é que recebe o reconhecimento devido, após sua morte.

A partir de 1860, Maria Firmina dos Reis começa a colaborar com diversos textos literários de sua autoria em diversos jornais da época, como A Imprensa, O Jardim dos Maranhenses, Porto Livre, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, e outros do estado, conforme Martin (1988). Firmina não assinava seu nome em seus trabalhos, mas as iniciais M.F.R., tática usada para maior aceitação na sociedade.

Ainda segundo o autor, citando José Nascimento de Moraes Filho (1975), o romance Úrsula foi recuperado através do pesquisador Horácio de Almeida, em 1962, quando comprou um lote de livros usados e entre eles se encontrava o único exemplar que se conhece do romance. Nesse momento, Maria Firmina dos Reis ficou reconhecida como a primeira escritora brasileira e da literatura negra. Em 1973, José Nascimento Morais Filho (1975) encontrou outras obras da escritora e as registrou na Seção de Livros Raros da Biblioteca Pública Benedito Leite, em 10 de dezembro do mesmo ano.

Mendes (2006) declara que Firmina escreveu, esteticamente, dentro do contexto da realidade na época, com dificuldades econômicas e geográficas por sempre viver em Guimarães e São Luís (MA), e inserida numa sociedade patriarcal. Seus temas eram o que escritores de seu tempo negavam, de forma que demonstrava não só sua contemporaneidade, como também consciência política e social fora dos padrões da sociedade interiorana daquele século.

Mendonça (1999, p. 68) comenta que a leitura de obras escritas por mulheres, além do reconhecimento de suas presenças, como escritora, também funcionam como sujeito histórico que participa de diferentes contextos discursivos. Firmina, antecipadamente, propõe “a necessidade de um redirecionamento da história do país, sugerindo sutilmente a valorização e o resgate das minorias (negro, índios e até detentos), para que também elas fizessem parte do contexto histórica”.

Schmidt (1999, p. 37) comenta que os textos literários de autoria de mulheres possibilitam críticas, pois sua “função e valor são produzidos em relação a contextos culturais e sociais que são historicamente específicos”:

À medida que a herança literária deixada por mulheres se torna visível e suas continuidades começam a se somar em direção ao mapeamento de uma nova cartografia simbólica, desarticula-se a visão canônica do passado literário e se instala a demanda pela reescritura da história literária (SCHMIDT, 1999, p. 37).

No prólogo de Úrsula, Maria Firmina se justifica por não seguir os padrões da época e apresenta seu livro como sendo humilde e certa de que passaria pelo indiferentismo de uns e deboche de outros. Ela enfatiza a desvalorização do romance por ser mulher, além de pouca escolaridade, numa sociedade em que os homens dominam.

Sei que pouco vale este romance escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens iletrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo (REIS, 1988, p. 19).

No final do prólogo, ela compara seu livro a uma donzela que a natureza negou a formosura, e solicita que deixem seu livro circular, apesar de sua humildade para que ela própria venha escrever coisa melhor ou que sirva de incentivo para outras.

A narrativa do romance Úrsula é uma crítica feita por Maria Firmina Reis da sociedade do século XIX, pelas vozes dos personagens, dando visibilidade aos pensamentos de mulheres e de negros escravos, de maneira que, as personagens apresentam características diferentes, com suas individualidades e experiências, fugindo do estereótipo definido pela sociedade literária da época.

A partir da obra, se desestabiliza a linha divisória da história, pois são várias vozes, e não uma só, da classe dominante, de forma que a história se transforma em blocos de verdades. Enquadrando-se ao que Walter Benjamin (1987, p. 222) entende por história, uma postura de narrar e colocar-se ao lado dos oprimidos, além de “levar em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história”, questionando assim, o conceito de verdade.

2. Negros e escravos

Maria Firmina dos Reis aborda a temática do negro, situando-o no tempo e espaço do sistema colonial, uma sociedade patriarcal e escravocrata, com discurso ideológico, refletindo assim “uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido” (BENJAMIN, 1987, p. 231). A favor dos escravos, Firmina apresentou, ao leitor, o negro com outra visão – bom, generoso, fiel, com memória, sofrido e, principalmente, como ser humano.

Através de seu romance, é possível uma leitura nas entrelinhas o que era ser negro naquela sociedade, levando o leitor a refletir sobre o universo escravista. Benjamin (1987) declara que o cronista ao narrar os acontecimentos, não faz distinção entre os grandes e os pequenos, levando em consideração a verdade de cada um, porque não se pode descartar a experiência vivida e o que um dia aconteceu não pode ser considerado perdido para a história.

Um dos personagens negros em Úrsula é Túlio, jovem que socorreu Tancredo, jovem cavaleiro branco e melancólico, ferido em uma queda de cavalo.

Caiu, e de um jato perdeu o sentimento da própria vida; porque a queda lhe ofendeu o crânio, e aturdido, e maltratado, desmaiou completamente. Para mais desastre o pobre animal no último arranco do existir, distendendo as pernas, foi comprimir acerbamente o pé direito do mancebo, que inerte e imóvel, como se fora frio cadáver, nenhuma resistência lhe opôs (REIS, 1988, p. 23).

Reis (1988) apresenta Túlio como uma pessoa que sofria com o cativeiro, considerando-se mísero escravo, pois a condição escravo era de infelicidade, levando uma vida mesquinha. Mas apesar do rigoroso desprezo dos homens brancos, Túlio não se tornou desumano, porque

Os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como a sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista (REIS, 1988, p. 25).

Maria Firmina mostra o negro numa visão positiva, considerando-o nobre por se dispor em ajudar alguém que não conhecia e se compadecer da dor do mesmo, mas essa característica não foi obtida com o convívio com os brancos, mas era próprio de Túlio como ser humano. “Túlio observava-o com angústia: as dores do mancebo senti-as ele no coração” (REIS, 1988, p. 32). Dessa maneira, Firmina desconstrói a ideologia de que os negros eram coisas ou animais, mas possibilita uma nova visão sobre eles ao mostrá-lo como seres humanos com sentimentos.

O escravo tinha um amor desinteressado e tinha empatia, se colocando no lugar do outro e como resultado foi alforriado pelo jovem Tancredo como símbolo de gratidão e amizade. O jovem negro ansiava pela liberdade, “a liberdade era tudo quanto Túlio aspirava; tinha-a – era feliz!” Mesmo livre decidiu acompanhar Tancredo, porque não significava trocar “cativeiro por cativeiro”, e sim, trocar “escravidão por liberdade, por ampla liberdade!” (REIS, 1988, p. 37, 81). De forma que a autora reforça que a amizade e relação interpessoal entre etnias diferentes, branco e negro, é possível.

Apesar de jovem, Túlio discursa em conformidade com a razão, de forma sensata, quando reconhece que seu corpo pode ser escravizado, mas sua mente não. O escravo tem os seus pensamentos livres, no entanto, o corpo não. Ele geme e sofre.

Cadeia infame e rigorosa, a que chamam: – escravidão?!… E, entretanto este também era livre, livre como pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo. Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios da sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma lho compreende. Oh! A mente! Isso sim ninguém a pode escravizar! Nas asas do pensamento o homem remonta-se aos ardentes sertões da África… E a realidade opressora lhe aparece – é escravo e escravo em terra estranha! Fogem-lhe os areais ardentes, as sombras projetadas pelas árvores, o oásis no deserto, a fonte e a tamareira – foge a tranquilidade da choupana, foge a doce ilusão de um momento, como ilha movediça; porque a alma está encerrada nas prisões do corpo! Ela chama-o para a realidade, chorando, e o seu choro, só Deus compreende! Ela não se pode dobrar, nem lhe pesam as cadeias da escravidão; porque é sempre livre, mas o corpo geme, e ela sofre, e chora; porque está ligada a ele na vida por laços estreitos e misteriosos (REIS, 1988, p. 35, 36).

Túlio é um personagem secundário na trama, mas de grande importância, pois foi o responsável pelo encontro de Tancredo e Úrsula e está diretamente ligado a eles na Trama, tornando-se amigo fiel e companheiro dos dois, a ponto de perder a vida. Também, foi o personagem responsável pelas vozes da escrava Susana e do escravo Antero, porque foi para ele que discursaram ideologicamente sobre a escravidão e trouxe a realidade da África.

Benjamin (1985) diz que narrar é intercambiar experiência, é uma troca dialógica em que um enriquece o outro. Em Úrsula, foi justamente Túlio, o outro, enriquecido pelas narrativas de uma velha escrava de Luísa B…, Suzana.

Trata-se de uma escrava que narra suas reminiscências e no seu romance, Firmina chama atenção para a brutalidade do processo de escravidão, através da voz e experiência de Suzana. De acordo com Benjamin (1987), o historiador precisa articular o passado, ou seja, apropriar-se das reminiscências, ao momento do perigo (presente), a fim de responder os questionamentos do momento.

E logo dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira – era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome da minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi possível… a sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava – pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar!… Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até abordarmos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda porca: vimos morrer ao nosso lado companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos! (Reis 1988, p. 82, 83).

A voz da escrava, que experimentou a liberdade/escravidão, assume um papel social e histórico. A narrativa de Suzana não se trata de um simples discurso ao Túlio, mas a representação de todo processo escravagista, desde que é arrancada de sua terra natal até o momento em que chega numa terra estranha e é tratada como objeto do homem branco para o trabalho.

A história se apropria das recordações do passado para preservar a memória e provocar reflexões no presente, enquanto a classe dominante se prevalece da memória fraca das pessoas para que sua ideologia permaneça.

A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de ‘agoras’, que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx (BENJAMIN, 1987, p. 229, 230).

Em Úrsula, quando o jovem negro perguntou “para que essas recordações?”, a escrava mostrou quão importante são as recordações. Ela respondeu que “não matam, meu filho. Se matassem, há muito que morrera, pois vivem comigo todas as horas.” (REIS, 1988, p. 82).

Benjamin (1987) assinala que o narrador relata suas experiências, incorporando à experiência da outra pessoa, tratando-se de uma forma artesanal, imprimindo a marca do narrador, que não está interessado em transmitir a coisa narrada como uma informação ou relatório. Através de suas experiências, a escrava Susana acreditava que a verdadeira liberdade só poderia acontecer na sua terra natal e não somente com a alforria, como Túlio acreditava ter.

Liberdade! Liberdade… ah! Eu a gozei na minha mocidade! – continuou Susana com amargura. – Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor, eu corria às descarnadas e arenosas praias, e aí com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias… (REIS, 1988, p. 81).

Firmina também aborda, através de Suzana, outra ideia de liberdade, a morte. Quando oferecida a oportunidade de fuga antes de ser condenada a morte, Suzana recusou por ser inocente.

Outra inovação de Firmina é com respeito à caracterização. Freyre (1998) comenta sobre como as mulatas e negras eram vistas pelos homens naquela sociedade:

Provocação de mulatinhas e negras da casa se arredondando, em moças; de molecas criando peitos de mulher; e tudo fácil, ao alcance da mão mais indolente… Parece que as negras não ficavam velhas tão depressa, nos trópicos, como as brancas; aos quarenta anos dão a impressão de corresponder às famosas mulheres de trinta anos dos países frios e temperados. Uma preta quarentona é ainda uma mulher apenas querendo ficar madura; ainda capaz de tentações envolventes… O intercurso sexual de brancos dos melhores estoques – inclusive eclesiásticos, sem dúvida nenhuma, dos elementos, mas seletos e eugênicos na formação brasileira – com escravas, negras e mulatas foi formidável (FREYRE, 1998, p. 442).

A caracterização das negras era a exploração do lado sexual, enquanto Susana é descrita como reflexo de sua amargura e sofrimento. De acordo com Reis (1988, p. 80), a velha escrava usava “saia com grosseiro tecido de algodão preto, cuja orla chegava-lhe ao meio das pernas magras e descarnadas como todo o seu corpo” e na cabeça um lenço encarnado e amarelo, que mal tampava os cabelos brancos.

Outra caracterização que acontece em Úrsula é o da África sem nunca ter estado lá e, através da voz da escrava, envolve o leitor, a ponto de transportá-lo ao local e mostrá-lo que lá, na África, eles tinham uma vida comum – casavam, tinham filhos, eram felizes, desmistificando a ideia de uma sub-raça, conforme Mendes (2006).

Outra figura negra que aparece é do pai Antero. Apesar de pequena participação no romance não é tão grande quanto de Túlio e da escrava Susana, mas sua experiência é valiosa, pois através de suas recordações, resgata uma particularidade da cultura africana – as festas e a bebida.

Pois ouça-me, senhor conselheiro: na minha terra há um dia em cada semana que se dedica à festa do fetiche, e nesse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca, e bebe. Oh! Lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor que a cachaça, e ainda que tiquira (REIS, 1988, p. 143).

Conforme a autora Reis (1988, p. 141), “Antero era um escravo, que guardava a casa, e cujo maior defeito era a afeição que tinha a todas as bebidas alcoolizadas.” Mesmo em condição servil, o personagem revela o negro num aspecto diferente da escravidão, aparecendo como um escravo saudosista, que sente pela pátria perdida e lembra-se o quão feliz era, fazendo referência às festas e bebidas que tomava. Lamenta a vida como escravo e afirma que somente o vício da tiquira lhe permite suportar a escravidão.

A identidade cultural desse escravo não foi ignorada, mas suas lembranças resgatadas por permitir que conversasse com Túlio. Benjamim (1987, p. 225), assinala que “o processo de transmissão de cultura”, pode “escovar a história a contrapelo”, ou seja, por narrar as experiências vividas, pode levar o outro a refletir sobre pensamentos, ações e outros elementos que a classe dominante definiu como natural e lógico.

Através da voz do escravo Antero, Firmina aborda a questão do trabalho. Quando criticado por Túlio por fumar e beber, o velho escravo disse ser o único vício que tem e o conserva, até porque não prejudica ninguém. E acrescenta que quando vivia na África, “bebia muitas vezes, embriagava-me, e ninguém me lançava isso no rosto; porque para sustentar meu vício não me faltava meios. Trabalhava, e trabalhava muito, o dinheiro era meu, não o esmolei” (Reis, 1988, p. 143).

Firmina mostra que na África, os negros trabalhavam para se manterem e se divertiam nos dias de descanso. E através do trabalho podiam comprar produtos de boa qualidade, tendo assim uma vida tranquila e satisfatória, diferente da vida que levavam no Brasil, em que como escravo tinha o pior tratamento e lhe sobravam o pior de tudo.

Enfim, Maria Firmina dá, historicamente, visibilidade ao negro e as relações sociais entre eles e os seus senhores, compondo, assim, a realidade em que os escravos se encontravam, concedendo-lhes dignidade humana, sentimentos e memória. Eles passam a ser agente, sujeito de sua história.

3. Mulher no sistema patriarcal

Segundo Martin (1988), no século XIX, raros livros expunham a tirania do homem com respeito à mulher, como Reis descreveu. Schmidt (1999) comenta que em obras resgatadas de escritoras do passado, mesmo com dificuldade em instituir sua autoria, questionam e discutem aspectos relacionados a personagens femininas, provocando deslocamentos semânticos significativos do campo convencional e tradicional sob a ótica masculina. A ideia de autor no século XIX estava diretamente associada à identidade masculina, como pai da obra, e não mãe, e era ele que tinha direito a voz.

Tais deslocamentos abrem espaços de resistência, de não submissão dos textos à coerção ideológica dos scripts impostos pelo contexto histórico-social e pelos valores estéticos da época em que os mesmos foram produzidos (SCHMIDT, 1999, p. 37).

A representação das mulheres brancas em Úrsula é uma visão crítica do papel delas na sociedade patriarcal no século XIX. Mendonça (1999) expõe que enquanto o poder patriarcal se impunha sem contestações, essa nova perspectiva quanto à posição da mulher, considerada inferior, se instaurava imperceptivelmente livre de questionamento. Ainda de acordo com a autora, uma das características do Romantismo era a preparação de uma nova perspectiva de mudanças sociais, econômicas, que iriam influenciar as ideologias da época. E foi nesse período, século XIX, Maria Firmina dos Reis rompe com a ideologia da época e promove uma mudança de posturas, ou seja, surge uma nova relação identitária.

Reis (1988) mostra a personagem como a típica heroína romântica: tão caridosa; bela; olhos negros, formosos e melancólicos; tímida, ingênua e singela em todas as ações. A personagem é apresentada como sendo uma donzela frágil e desamparada é disputada pelo bom moço, Tancredo, e o vilão, seu tio Fernando P… De acordo com Mendes (2006), na tentativa de estar em sincronia com os padrões literários da época, Reis reproduz alguns Estereótipos femininos que atenda a perspectiva masculina.

Mendonça (1999) declara que as personagens femininas desestabilizaram a ordem patriarcal, fazendo, sob o ponto de vista imaginário, outras escolhas. Reis (1988) narra que a casa de Luísa B… e de Úrsula era diferente dos padrões da época, em que não havia um homem para assumir o comando: eram as duas e os escravos. Além disso, a casa era simples e modesta, porém agradável.

Simples e solitária era essa casa implantada sobre um pequeno outeiro, donde a vista dominava a imensidade dos campos. Um aspecto de nobre singeleza apresentava; pouca extensa era, mas coroava-a um agradável mirante, orlado de largas varandas, por onde uma onda de ar tépido divagava rumorejando (REIS, 1988, p. 29).

Conforme Mendes (2006), a casa da matriarca na narrativa é um espaço privilegiado, pois representa o lugar em que a mulher reina como soberana, detentora do poder. Na visão da autora, o casa também simboliza o refúgio, a proteção e o seio materno.

A obra fala de Luísa B…, mãe de Úrsula, levou uma vida de sofrimento com o irmão Fernando P… e depois com o marido e mãe de Tancredo que sofreu sob o jugo do marido opressor.

Tancredo comenta sobre sua mãe, que não tem o nome revelado, ser uma mulher santa e humilde, pois convivia com seu pai, Comendador P…, homem impiedoso e orgulhoso, que a magoava a ponto de chorar de infelicidade e desgosto. O personagem continua contando seu passado, mostrando o quanto o sistema patriarcal era forte, porque ele ficou afastado de sua mãe por seis anos para estudar direito e ela estava cheia de saudades. Ela sofria a sua ausência, “porque era vontade de seu esposo”, além de temê-lo e respeitá-lo, conforme Reis (1988, p. 49).

Nesse sentido, a mãe de Tancredo, submissa ao marido, é a representação do sistema patriarcal do século XIX. Mendes (2006) conta que Maria Firmina usa um homem, Tancredo, para denunciar e criticar a relação hierárquica entre homem e mulher naquela época, em que era natural o mundo ter comando masculino, demonstrando o desejo de igualdade de gêneros, uma vez que a mulher era vista como ser inferior.

Meu pai era o tirano de sua mulher; e ela, triste vítima, chorava em silêncio, e resignava-se com sublime brandura. Meu pai era para com ela um homem desapiedado e orgulhoso – minha mãe era uma santa e humilde mulher (REIS, 1988, p. 49).

Ainda no núcleo dramático de Tancredo, surge Adelaide, por quem se apaixonara quando retornou da faculdade de direito para casa e que o fizera sofrer de amor até encontrar Úrsula. A personagem Adelaide, bela e encantadora, era órfã de pai e mãe e foi acolhida pela mãe de Tancredo como uma filha. Comendador P… não aceitava a união dos dois, mas após muitas insistências, permitiu o casamento entre eles, desde que o filho esperasse um ano, trabalhando em outra província. Tancredo aceitou a proposta do pai: “Baixei os olhos, meditei por largo tempo, e submeti-me a sua vontade férrea. Saí do seu quarto prostrado de amargura, e porque a dor era funda em meu coração” (REIS, 1988, p. 58).

Quando retorna para casa, devido à morte de sua mãe e na tentativa de encontrar seu amor, Adelaide, é surpreendido com o casamento entre ela e seu pai.

Mulher infame! – disse-lhe – perjura… onde estão os teus votos? É assim que retribuíste a estremecida paixão que te rendi? É com um requinte de vil e vergonhosa traição que compensaste o ardente afeto da minha alma?… Monstro, demônio, mulher fementida, restitui-me minha pobre mãe, essa que também foi tua mãe, que agasalhou no seio a áspide que havia de mordê-la!… (REIS, 1988, p. 66).

Mendes (2006) explana que Adelaide representa a mulher do povo, que submete a tudo pela sobrevivência, aceitando determinadas práticas em prol da sobrevivência. Ela inicialmente é apresentada como uma pessoa sofredora e de repente reverte o jogo, ou seja, passa de agregada à amante. Adelaide, portanto, representa a imagem das diabas, sereias e medusas, simbolizando a luxúria.

Luísa B…, mãe de Úrsula, na trama é uma mulher paralítica, que sofre com o ódio do irmão, após contrariá-lo, uma vez que ele reprovava seu casamento.

Seu coração só se abriu uma vez, foi para o amor fraterno. Amou-me, amou-me muito; mas quando tive a infelicidade de incorrer no seu desagrado, todo esse amor tornou-se em ódio, implacável, terrível, e vingativo. Meu irmão jamais me poderá perdoar… Amou-me na infância com tanto extremo e carinho que o enobreciam aos olhos de meus pais, que o adoravam, e depois que ambos caíram no sepulcro, ele continuou a sua fraternal ternura para comigo. Mais tarde, um amor irresistível levou a desposar um homem que meu irmão no seu orgulho julgou inferior a nós pelo nascimento e pela fortuna. Chamava-se Paulo B… (REIS, 1988, p. 73, 74).

O ódio de Fernando P… surgiu com o casamento de Luísa B… com Paulo B…, porque julgava o cunhado de nível inferior a sua irmã. Uma transgressão de valores na época, em que se uma mulher cria um conflito com o detentor do poder no sistema patriarcal da época.

Paulo B… não compreendeu a grandeza do amor de Luísa B…, e ela cumulou desgostos e aflições, pois seu esposo desrespeitava seus deveres conjugais, gastando sua fortuna com amantes. Seu marido foi assassinado e, meses depois, ela ficou paralítica e com muitas dívidas, que foi comprada por seu irmão, deixando-as no infortúnio. A sua alegria, no casamento, foi a sua filha Úrsula.

Com a morte de Luísa B…, Tancredo a leva para o convento, como proteção de Fernando P…, que tenta de todas as formas possíveis tomar sua sobrinha em casamento.

Pouco antes do casamento entre os dois protagonistas, Tancredo e Úrsula, Túlio é capturado, mas consegue escapar do cativeiro. Túlio é morto antes de avisar ao amigo da perseguição de Fernando P…, de forma que o tio de Úrsula encontra o casal feliz por ter sua amada como esposa e mata Tancredo antes de consumar o matrimônio. Úrsula fica louca até a morte. Mendes (2006) aponta que Úrsula sofre duplo martírio, um grande sofrimento, perda do esposo e da razão, ao amar Tancredo e sofrer com os assédios do tio e as consequências disso: Seu amado assassinado pelo tio antes da consumação do matrimônio.

Novamente, Reis (1988) reforça, de modo crítico, o poderio do homem naquela sociedade. Tanto o Comendador P… como o Fernando P… são representações do machismo da época. Segundo Mendes (2006), eles simbolizam a encarnação do mal, o vilão que destruiu a vida de várias pessoas para alcançar os seus objetivos, assumindo assim o papel de antagonista.

Considerações finais

Esse artigo permitiu uma análise do romance Úrsula, que possibilita conhecer a história, não nas vozes dos dominantes, mas nas dos excluídos, como mulheres e negros, mas com perspectivas diferentes dos demais escritores de sua época.

Maria Firmina dos Reis, como mulher e afrodescendente, foi uma escritora, que, por muito tempo, teve suas obras esquecidas, sendo reconhecida após sua morte, como a primeira escritora brasileira, quando um pesquisador encontra um único exemplar do livro Úrsula, que é considerado o primeiro romance abolicionista na literatura brasileira. O resgate dessa produção literária, ao ser escrita por uma mulher, e que assumiu uma posição inferiorizada, pois diante do domínio literário masculino, traz à tona uma nova história que permite rediscutir conceitos sobre negros e mulheres no século XIX.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Obras escolhidas; v. 1).

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Obras escolhidas; v. 1).

FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 1998.

LIMA, Omar da Silva. O comprometimento etnográfico afrodescendente das escritoras negras Conceição Evaristo & GeniGuimarães. Tese de Doutorado em Literatura. UnB – Universidade de Brasília – DF. 2009. Disponível em

<http://repositorio.bce.unb.br/handle/10482/4137> Acesso em 03/12/2012.

MARTIN, Charles. Introdução.In:REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Rio de Janeiro: Presença Edições; Brasília, INL. Coleção coordenada por Luiza Lobo. 1988.

MENDES, Algemira Macêdo. Maria Firmina dos Reis e Amélia Beviláqua na história da literatura brasileira: Representação, imagens e memórias nos século XIX e XX. Tese de Doutorado em Teoria da Literatura. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do SuL – RS. 2006. Disponível em <http://www.academicoo.com> Acesso em 06/11/2012.

MENDONÇA, Maria Helena. A literatura de autoria feminina: (re)cortes de uma trajetória. In: Literatura e feminismo – Propostas teóricas e reflexões críticas. Org. Christina Ramalho, Angélica Soares e Luiza Lobo. Rio de Janeiro: Elo, 1999.

SCHMIDT, Rita Therezinha. Recortes de uma história: a construção de um fazer/saber. In: Literatura e feminismo – Propostas teóricas e reflexões críticas. Org. Christina Ramalho, Angélica Soares e Luiza Lobo. Rio de Janeiro: Elo, 1999.

1 Jose Geraldo da Rocha é Doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente é Professor Adjunto Doutor no Programa de Pós Graduação em Letras e Ciências Humanas da Unigranrio; Bolsista de Produtividade em Pesquisa 1A Funadesp/Unigranrio; Líder do Grupo de Pesquisa Relações Raciais, Desigualdades Sociais e Educação do CNPq.  Ativista nas lutas dos movimentos sociais. Como humanista prioriza as questões relacionadas às relações etnicorraciais, diversidade cultural, religiosidades numa perspectiva de promoção da igualdade de oportunidades.

2 Patricia Luisa Nogueira Rangel é mestranda em Letras e Ciências Humanas pela UNIGRANRIO, desenvolvendo dissertação na Linha de Pesquisa – Gênero, Etnia e Identidade, com foco no estudo da Cultura Brasileira, em especial, sobre o movimento funk na Baixada Fluminense. Formada em Português/ Grego e respectivas literaturas pela UERJ. Pós-graduada (lato sensu) em Língua Latina pela UERJ e Gestão e Coordenação Pedagógica pela AVM. 





Bio fornecida pelo palestrante.

EROS E THANATOS ENTRE VARIADOS DISPAROS: uma leitura da obra Atire em Sofia de Sônia Coutinho




 

EROS E THANATOS ENTRE VARIADOS DISPAROS:

uma leitura da obra Atire em Sofia de Sônia Coutinho

Patricia Maria dos Santos Santana

Doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ/Bolsista CAPES

Resumo: Uma mulher presa ao casamento e ao lar; uma mulher com vontade de ser ela mesma, de se conhecer e conhecer o mundo: dentro de Sofia, os vigores de Eros e Thanatos pulsam tomando conta da história de vida da personagem. Sônia Coutinho nos mostra, em sua escrita ousada e feminista, a construção da trama em torno da personagem que anseia por conhecer o seu próprio eu, permitindo que a realidade não seja apenas aquilo que fora injetado em sua mente durante a vida inteira.

Palavras-chave: Eros. Thanatos. Conhecimento. Erotismo.

Abstract: A woman stuck to marriage and home; a woman longing to be herself, longing to know herself and the world: inside Sofia, the zips of Eros and Thanatos pulse taking control of the character’s life story. Sônia Coutinho, through her bold and feminist writing, reveals to us the plot she constructs around the character who yearns to know herself. Thus, she infers that reality is not only what was injected in one’s mind during one’s lifetime.

Key words: Eros. Thanatos. Knowledge. Eroticism.

E o que Sibila queria dos seus Amados,

explicava o Amigo Homossexual, era divisar

aquilo que existe por trás das aparências,

ah… muito por trás: as Paisagens da Alma.

(Sônia Coutinho, Os venenos de Lucrécia)

Introdução

A escritora baiana Sônia Coutinho morreu aos 74 anos, na noite de 24 de agosto de 2013, no Rio de Janeiro. Jornalista, contista e tradutora, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1968. Ela se destacou na ficção brasileira a partir dos anos 1960 (seu primeiro livro, O herói inútil, foi lançado em 1964). Teve 11 livros publicados e traduziu outros 30. Recebeu o Prêmio Jabuti em duas ocasiões: em 1979, pelo Os venenos de Lucrécia, e em 1999, pelo livro Os seios de Pandora. Nascida em Itabuna, em 1939, Sonia era filha do poeta simbolista e político Nathan Coutinho e irmã do sociólogo Carlos Nelson Coutinho. Além do Jabuti, ela recebeu, em 2006, o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, pelo livro de contos Ovelha negra e amiga loura. Outros livros de destaque de sua autoria são Uma certa felicidade, Mil olhos de uma rosa, O caso Alice e O jogo de Ifá. Coutinho teve livros lançados nos Estados Unidos, França e Alemanha.

Em diversas sociedades encontramos a mulher numa posição de subalternidade diante dos homens. A eles são oferecidos todos os privilégios, desde o acesso à educação, a liberdade de ser, até a oportunidade de crescer intelectualmente. A elas se reservam apenas o espaço doméstico, a responsabilidade de cuidar dos filhos e a imposição à passividade, mantendo, assim, a supremacia falocêntrica. Vivendo debaixo das regras do patriarcalismo, este é que irá reger todas as espécies de relações interpessoais. Os relacionamentos interpessoais e, por consequência, a personalidade, também são marcados pela dominação e violência que têm sua origem na cultura e instituições do patriarcalismo (CASTELLS, 2001). Essas representações sociais, permeadas pelas construções simbólicas, colocam o homem como norma. Podemos dizer que foi através do feminismo que muitas autoras tiveram a oportunidade de se libertar como seres humanos. O feminismo é um movimento político transformador que contempla discursos das variáveis etnias, classes, raças, e o próprio sexo biológico na constituição do sujeito “mulher”. Assim,

sua emergência pode ser conceitualizada como uma série de eventos históricos que criaram as condições necessárias para o nascimento de um discurso que: começou a nomear e descrever os fenômenos de maneira diferenciada; se desenvolveu e se solidificou após ser elaborado com extrema seriedade cognitiva; reconheceu como seu objetivo político a desarticulação da ideologia patriarcal e das práticas sociais, psicológicas e afetivas que a acompanham (CARSON, 1995, p. 194).

Embora o conceito de gênero tenha adquirido força com o movimento feminista e destaque enquanto instrumento de análise das condições das mulheres, ele não deve ser utilizado como sinônimo de “mulher”. Ele deve ser apenas considerado para distinguir e descrever as categorias mulher e homem, para examinar as relações estabelecidas entre ambos; deve ser “um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (SCOTT, 1990, p. 16).

Para Pierre Bourdieu (2005), o corpo é o lugar no qual estão inscritas as disputas pelo poder. Nele está demarcado todo o capital cultural; é a primeira forma de identificação desde o nascimento. Por conseguinte, o sexo define a posição de dominado ou de dominador. O corpo é a materialização da dominação, o lugar do exercício do poder por excelência. A personagem Sofia, de Sônia Coutinho na obra Atire em Sofia, se apresenta predestinada a uma desarticulação de estereótipos (re)forçados pela sociedade que mantém o vínculo de dominação ligados a gênero e corpo. Buscar atrair caminhos e olhares do mundo. Não se apresenta “apagada”. Procura o inatingível. Não se mostra submissa.

Certas formas de expressão e representação da mulher na literatura de Coutinho ocorrem de forma intencional, uma vez que a autora amarra em suas obras essa estranheza para justificar uma espécie de escritura de libertação. Prefere desfazer as concepções de feminino criadas pela sociedade, despreza os mitos construídos pela tradição que relacionam e encarceram a mulher com a maternidade e os cuidados com o lar, muito bem refletidos no pensamento patriarcal:

A dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo ser (esse) é um ser-percebido (percipi), tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até apagadas. (BOURDIEU, 2005, p. 82)

Mudando a perspectiva sustentada pelas tecnologias de gênero patriarcais (DE LAURETIS, 1994, p. 228), a postura da personagem marca, principalmente, a apresentação da mulher como dona do próprio corpo e do próprio desejo. Assim, a mulher sai de uma posição inferior e desfaz a visão essencialista do feminino (MOI, 1989), abrindo-se para uma atuação totalmente transformadora da condição da mulher. Ela subverte os padrões sociais e morais de uma sociedade conservadora, reavaliando tipos de condutas ou estereótipos limitadores.

Albuquerque (1973), em um estudo sobre escritores que se inclinaram no gênero policial, inclui pouquíssimas mulheres. A primeira mulher a escrever no gênero foi Anna Katharine Green (1846-1935). No Brasil, poucas autoras, até hoje, se enveredaram no gênero de romance policial. Lúcia Machado de Almeida tornou-se a primeira escritora oficial do gênero quando, em 1956, lançou O escaravelho do diabo. Antes, somente Raquel de Queiroz e Dinah Silveira haviam contribuído com um capítulo cada na elaboração do clássico romance O mistério dos MMM, na década de 20. Sônia Coutinho nos deixou três romances do gênero: Atire em Sofia (1989), O caso Alice (1991) e Os seios de Pandora (1998).

A origem do nome Sofia, que é dado à protagonista do livro que estudamos, vem do grego e significa ‘sabedoria’, ‘a sábia’. Nas inúmeras possibilidades de representações do nome é que Coutinho cria o universo da personagem que é mutável, inconformada, sempre parecendo procurar saciar uma fome de conhecimento latente dentro dela. Digamos que o conhecimento de si mesma é o elemento norteador da personagem. Existe no livro uma espécie de permissão para Sofia experimentar todas as possibilidades de vida real que podem ser oferecidas à mulher contemporânea em sua busca por entendimento de vida. As personagens feministas de Coutinho são capazes de nos apresentar e revelar novos modos de ver a vida. Atravessar o eu e suas barreiras de vida conduz a personagem a uma aventura de autoconhecimento, no intuito de encontrar respostas para a sua invisibilidade social.

Como fora mencionado, poucas são as mulheres que se enveredaram pelos chamados romances policiais. O tom memorialista se faz presente na obra, como se quisesse unir presente e passado para entendê-los. De acordo com Salvatore Donofrio, o fator social mais importante no desenvolvimento desse tipo de narrativa foi a Revolução Industrial, que determinou a concentração da população em cidades. O fato de as histórias policiais se passarem em grandes centros é propício:

A aglomeração é propícia ao aumento da criminalidade, pois é fácil ao assassino quer a realização do crime, quer a fuga posterior, no meio da multidão de prédios e de homens. De outro lado, a luta pela ascensão social, determinada pela rivalidade de classes que induz à aquisição de bens de consumo cada vez mais modernos e caros, motiva o uso de meios ilícitos (DONOFRIO, 1995, p. 168).

Contudo, em Atire em Sofia isto não acontece. O assassinato da personagem principal ocorre justamente em seu retorno à pequena cidade onde nasceu e se criou, como se a autora quisesse nos mostrar que a pequenez humana está em todo lugar, a todo e qualquer tempo. Coutinho, assim, também nos mostra que Sofia pagou com a própria vida pela escolha de ser livre. É espécie de punição. É espécie de compensação fatal de uma escolha, pois “Eros, nosso desejo supremo, não exalta nossos desejos senão para os sacrificar” (ROUGEMONT, 1988, p. 53).

1. Eros e Thanatos na obra

Eros e Thanatos significam, entre os gregos, o  Amor  e a  Morte  personificados. Identificam-se nestas figuras da mitologia grega dois princípios vitais: Vida e Morte. Freud utilizou-as para identificar duas categorias de pulsões humanas: instinto de vida (Eros) e instinto de morte (Thanatos). Estas duas pulsões geram entre si um conflito que dinamiza nosso psiquismo humano. Este conflito tem origem nos obstáculos que o indivíduo encontra na realização das pulsões e reflete a luta entre várias instâncias no psiquismo humano.

Podemos observar em Atire em Sofia uma construção cíclica entre Eros e Thanatos conduzindo as ações da personagem principal. Numa procura de entendimento do próprio eu, vemos na obra um primeiro momento da vida de Sofia voltado para Thanatos e relacionado à insatisfação de sua vida pessoal; depois temos uma busca de forças em Eros, no momento que a personagem decide deixar tudo e ter uma nova vida no Rio de Janeiro; o ciclo se fecha quando Sofia retorna à cidade, mais de vinte anos após a sua partida. É a retomada de Thanatos, como um terrível e cruel inquisidor de uma vida inteira; é sua derrocada para a morte real.

Eros nos ensina a amar, a cultivar amizades, a apreciar tudo de bom, belo e prazeroso que existe no mundo. “Eros é o desejo total, é a aspiração luminosa” (ROUGEMONT, 1988, p. 50). Dá-nos a energia necessária para nos deixar motivados, cheios de entusiasmo e alegria, para conduzir a vida com sentido, e contribuir com nossa parcela de talento para o progresso da humanidade. Por sua vez, Thanatos nos atrai para a morte. Ele extrai do nosso ser toda energia, toda vitalidade. Existimos sem propósito, sentimo-nos apáticos, carentes de motivação. Tudo é fastio, insatisfação, constrangimento. Experimentamos uma existência de ver os dias e as noites passarem, sentindo o final inevitável se aproximar. Eros nos convida à vida, à sensualidade. Thanatos nos induz à solidão e à tristeza. Sofia experimenta esses dois lados na obra. Vive seu momento com intensidade no Rio de Janeiro para chegar à conclusão que a solidão lhe serve melhor. Estimula-se em Eros, mas aceita, posteriormente, a ótica de Thanatos. Fica impassível, esperando a chegada da morte, acomodada ao nada.

Também como parte da retomada em Thanatos, Sofia vê sua impossibilidade de viver em liberdade, ao retornar à sua cidade natal, cheia de preconceitos. Existe um jogo definido de ida e de volta, de descentramento e de retorno ao centro. O não lugar marcará essa insatisfação de Sofia no Rio de Janeiro, que apesar de lhe abrir um novo mundo, ela nunca será vista em seu local de direito, o centro onde foi parida e de onde surgiu para a vida. Em nossa cultura, o centro é local sagrado por excelência, devido ao fato de diversas religiões acreditarem que a alma está situada no “centro do corpo” e também pelo fato de todas as cidades antigas terem sido edificadas em torno de um centro sagrado natural ou artificial, marcado por um monte, um lago, um templo, um obelisco ou qualquer outro tipo de monumento. Somente em torno desse centro considerado sagrado é que as comunidades poderiam se criar. Na obra, o centro é assim mencionado:

O Farol, um grande centro devorador. O umbigo do mundo, um Omphalós. Na Índia, o grande centro era o Monte Meru. Entre os germanos, havia um freixo gigantesco, o Iggdrasil, cuja copa tocava o céu e as raízes desciam aos infernos. Na Palestina, o Tabor, palavra que corresponde a tabur, umbigo. (COUTINHO, 1989, p. 183)

Assim, retornar às origens torna-se fundamental à Sofia em sua construção de total conhecimento. A história dela se apresenta a partir de um determinado locus marcado. Da revolta contra este mundo e da infração aos códigos deste gênero fechado e marcadamente masculino, surgem mudanças em sua vida. Sofia precisava retornar à cidade. Precisava fechar o ciclo para reconhecer sua finitude: “Mas, de repente tranquila, neste fim de tarde em esparso cinza, então pensa que entende, afinal, a lição da cidade – a de que vai ter de morrer, a dádiva da cidade, o aprendizado da morte, sua sedução”. (COUTINHO, 1989, p. 90)

No jogo de reunir simbolicamente ideias de desdobramentos e conhecimentos de si, Coutinho torna a procura de Sofia uma metáfora da própria mulher tentando se encontrar na sociedade patriarcal. Isto é algo bastante frequente na produção de autoria feminina e basilar para a crítica feminista, uma vez que seu sentido está relacionado diretamente à discussão sobre a identidade feminina, mostrando, através da reflexão de personagens, temas para se defrontarem com os outros, principalmente no que diz respeito ao violento e inadequado construto androcêntrico. A busca e a inércia, ou seja, o Eros e o Thanatos trabalhado simbolicamente na ação feminina contemporânea da personagem tornam-se a alma do processo de conhecimento de Sofia. É através disso que ela passa pela transformação necessária. Porém, além da configuração da mulher que segue em busca do seu verdadeiro conhecimento e da realização desse eu, uma pergunta se faz lançada nas entrelinhas do livro: realmente existe saída para a mulher nessa sociedade onde vivemos?

2. O desejo e o próprio corpo como elementos transgressores

O ato de amor para Sofia é uma expressão de liberdade. É expressão do vigor de Eros em sua vida. É se regozijar no delírio de ser possuída e de possuir ao mesmo tempo. Numa construção carnavalizada do ato de amar em nossa sociedade patriarcal, Coutinho inverte o jogo da sedução no ponto de vista da sociedade conservadora e posiciona sua personagem como também dona do ato carnal na hora de sua consumação. Não admite uma atitude submissa na construção do desejo da carne, uma vez que a construção da noção do desejo para a mulher na sociedade androcêntrica é reprimida. Em seu livro O Erotismo, Georges Bataille (1987) apresenta análises dos aspectos fundamentais da natureza humana, tecendo o limite entre o natural e o social, o humano e o não humano. O Erotismo é uma espécie de resistência do homem, pois a transgressão é um elemento inerente na sua compreensão. Sendo assim, ele se constitui como uma experiência interior, na medida em que seu sentido último está em conduzir o sujeito a um estado de interioridade plena, como afirma Bataille:

O Erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Se não damos conta disso, é porque o Erotismo busca incessantemente fora dele um objeto de desejo. Esse objeto, contudo, corresponde à interioridade do desejo… O Erotismo é, na consciência do homem, o que leva a pôr o ser em questão (BATAILLE, 1987, p. 25).

O Erotismo vai, enquanto resistência do sujeito, além do comportamento sedutor, como algo instintivo e espontâneo que busca na sua existência interior superar os limites e, como jogo sedutor, quebrar leis e restrições, ao observarmos que existimos por dentro, não havendo limites para essa existência, na qual o existir corresponde a não haver limites para a interioridade. Apresenta-se constante em todos os homens, ao mesmo tempo em que a cultura se instaura em seu interior configurando-o com intervenções segundo as variações no contexto sociocultural, concebendo restrições como proibições.

Enquanto Sofia se busca e tenta se conhecer temos a representação da pulsão de Eros dentro dela. Contudo, sua mãe sempre foi para ela um parâmetro inverso, uma pulsão de morte, a representação de Thanatos, ou seja, era uma perigosa porta-voz do sistema e Sofia tinha de ter cuidado com qualquer um de seus conselhos:

Os casamentos aqui na geração de minha mãe eram longos exercícios de ódio. A mulher deveria permanecer sempre criança, para agradar e servir sempre ao homem. (…) Gerações inteiras de mulheres de que não temos nenhuma notícia, de cuja vida não ficou registro nenhum. (COUTINHO, 1989, p. 50)

Coutinho traz um discurso transgressor exatamente para mostrar as barreiras sociais das mulheres que são preparadas para o casamento, mesmo que este ocorra ou não, lembrando a fala de Simone de Beauvoir, no Segundo Sexo, ao afirmar que “O destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento. Em sua maioria, ainda hoje, as mulheres são casadas, ou o foram, ou se preparam para sê-lo, ou sofrem por não o ser” (BEAUVOIR, 1980, p 198). Coutinho opta por desfazer essa cultura de submissão em sua escrita. Para isso teria de “matar o anjo do lar, a doce criatura (…) e teria de enfrentar a sombra, o outro lado do anjo, o monstro da rebeldia e da desobediência” (TELLES, 2009, p. 408).

A professora e pesquisadora Luiza Lobo (1997) pontua que a literatura feminina necessita de temas relacionados à linha da “livre escolha” dentro do universo da mulher, ficando, pois, a temática da insubmissão erótica bastante aceitável para se reconstruir e questionar a identidade feminina na sociedade atual:

Do ponto de vista teórico, a literatura de autoria feminina precisa criar, politicamente, um espaço próprio dentro do universo da literatura mundial mais ampla, em que a mulher expresse a sua sensibilidade a partir de um ponto de vista e de um sujeito de representação próprios, que sempre constituem um olhar da diferença. A temática que daí surge será tanto mais afetiva, delicada, sutil, reservada, frágil ou doméstica quanto retratará as vivências da mulher no seu dia-a-dia, se for esta sua vivência. Mas o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje. 1

O primeiro marido de Sofia, Pedro, apesar de rico, era quase mulato e isso o tornava inviável aos olhos da mãe. Quando vieram as filhas, a mãe o aceitou. Tentando fugir desse esquema sufocante e querendo viver uma experiência humana mais ampla e integral, envolve-se com um jornalista e não luta pelas filhas quando Pedro descobre o caso, propondo a separação legal. Ele fica com a custódia das meninas e não lhe dá dinheiro. Sofia vai embora, as filhas ficam. Mais tarde, casa-se com Jacinto e as filhas lhe visitam poucas vezes, uma vez que não gostavam dele. Nos outros relacionamentos não quisera envolver as garotas.

Coutinho cria, por intermédio do sexo, formas de enfrentar a ordem social vista como modelo, como padrão. Bataille diz que essa transgressão é que dá os contornos de uma nova definição social:

Se a transgressão propriamente dita, opondo-se ao desconhecimento do interdito, não tivesse esse caráter limitado, ela seria uma volta à violência – à animalidade da violência. Mas não é isto, na realidade. A transgressão organizada forma com o inderdito um conjunto que define a vida social (BATAILLE, 1987, p. 61).

A mulher que escreve, que se conhece bem e que deseja uma ruptura das tradições paternalistas faz do erotismo um modo de mudança social. O desejo está para as escritoras como um ponto de partida às mudanças que querem. A criação e divulgação, pela mulher, de uma escrita que radicaliza os modos libertários de vivenciar o desejo mostram sua parcela de contribuição no necessário processo de transformação social, uma vez que os novos valores, explícitos ou implícitos nas imagens do corpo feminino livre para o prazer, abalam alicerces de resistentes estruturas de dominação masculina. O desejo se posiciona como uma espécie de linha emancipatória do pensamento machista:

Claro que poderia, se tivesse feito as necessárias concessões (…), ter ficado pelo menos com alguns daqueles homens que passaram por sua vida. Se não ficou, pensa, foi porque achou preferível, de alguma forma, continuar sozinha. (COUTINHO, 1989, p. 29)

O próprio corpo também funciona como o maior elemento emancipatório de uma tradição imposta:

O corpo está no centro de toda relação de poder. Mas o corpo das mulheres é o centro de maneira imediata e específica (…). Enclausurá-las seria a melhor solução: em um espaço fechado e controlado, ou no mínimo sob um véu que mascara sua chama incendiária. Toda mulher em liberdade é um perigo, e, ao mesmo tempo, está em perigo, um legitimando o outro. Se algo de mau lhe acontece, ela está recebendo apenas aquilo que ela merece.

O corpo das mulheres não lhes pertence. Na família, ele pertence a seu marido que deve ‘possuí-lo’ com uma potência viril. Mais tarde, a seus filhos que as absorvem inteiramente. Na sociedade, ele pertence ao senhor. As mulheres escravas eram penetráveis ao seu bel prazer (…) (PERROT, 2005, p. 447)

Por estar ciente da importância do corpo para a mulher, Sônia cria uma personagem de atitudes libertárias. Todavia, diante de tantas experiências e já no auge de sua vida, a personagem admite que o melhor para ela, apesar de tudo, é mesmo a solidão:

Minha solidão não é de brincadeira. Talvez seja uma solidão política, por assim dizer. Um protesto, uma defesa. Sou solitária por não ter feito concessões, eu sei, por não ter entrado no esquema nem atendido ao modelo. Mas o resultado é solidão mesmo, sem apelação. (COUTINHO, 1989, p. 162-163)

A solidão acaba sendo o preço que Sofia paga pela insubmissão. Ela deveria compor o quadro de mulher submissa que, em nossa sociedade, constitui uma violência. Paga por pensar e se rebelar historicamente. Segundo Chartier (1995), a relação de dominação contra a mulher é uma relação histórica, cultural e linguisticamente construída e afirmada como uma diferença de ordem natural, radical, irredutível e universal.

3. Várias Sofias em Sofia

Viver em busca de outras vidas e de reconstruções de si mesma é vigor de Eros. Sofia deixa as filhas, muda-se para o Rio de Janeiro onde vive por vinte anos. É uma mulher de quase 40 anos, sozinha, depois de dois casamentos frustrados e várias relações mal sucedidas. No Rio, ela vivencia diversas relações que a tornam uma mulher realizada sexualmente. A Sofia do Rio de Janeiro se permite e se abre ao mundo. A Sofia do Rio se entregava aos mais diversos amores: jovens, velhos, solteiros, casados… A Sofia do Rio de Janeiro era diversas Sofias ao mesmo tempo: Sofias (ou ‘sabedorias’) que ela nem mesmo sabia que existiam dentro dela. Contudo, ao retornar à cidade que nasceu, dentro do seu íntimo, após todas essas relações experimentadas, ela se autopune com um imenso sentimento de culpa repetindo para si mesma que ‘não passa de uma grande puta’. Deixa o Rio e retoma seu processo de vivência em Thanatos ao voltar à cidade natal:

novamente nesta cidade que tinha ficado dentro dela, por tantos anos, como coisa má ou amor-ódio, esta cidade que sempre lhe doeu, de maneiras diferentes. Talvez jamais tivesse conseguido deitar raízes fundas no Rio, só tentara uma vez durante seu segundo casamento, com Jacinto. O resto fora viver à superfície, ameaçada de submergir a qualquer momento fosse por falta de dinheiro ou por excesso de solidão. (COUTINHO, 1989, p. 14)

Nesse processo de busca de Eros, observamos que Thanatos procura ganhar na luta interior e espiritual. É como se nunca pudesse ser feliz de fato. É como se um peso do passado a impedisse de buscar a felicidade. Apesar de toda transgressão que faz ao seguir suas decisões, a sensação de impedimento na culpa se faz maior.

Mas em suas buscas por si mesma, diante do vigor de Eros, Sofia define-se como muitas ao longo do livro. Em uma de suas buscas pelo prazer incondicional Sofia é Lilith, é poderosa e representa o poder da mulher que ocasiona o maior orgasmo possível ao homem, que depois sofrem crises de melancolia. Lilith, na tradição cabalística, seria o nome da mulher criada antes de Eva, ao mesmo tempo que Adão, não de uma costela de homem, mas ela também diretamente da terra. Ela se tornará instigadora de grandes conflitos e amores ilegítimos, a perturbadora de leitor conjugais. Uma das mais famosas figuras do folclore hebreu, Lilith faz, assim, parte de um grupo de espíritos malignos identificados com a noite. Na Babilônia, aparece como uma ninfa vampiro que dá aos filhos do homem o leite venenoso dos sonhos. Sua função principal, contudo, seria alertar as mulheres: aquela que não segue a lei de Adão será rejeitada, eternamente insatisfeita e fonte de infelicidade. É um ser poderoso e, principalmente, livre. Sofia se admite Lilith:

Eu, Lilith. A primeira companheira de Adão, a mulher suja de sangue e saliva que lhe perguntou: “Por que devo me deitar embaixo de você? Por que devo me abrir debaixo do seu corpo? Por que ser dominada por você? Mas eu também fui feita de pó e por isso sou sua igual”.

Voei então para muito longe, em direção às margens do Mar Vermelho, e Jeová decretou: “O desejo de mulher é para seu marido. Volte para ele.” Ao que eu respondi: “Não quero mais nada com meu marido”.

(…) Estava cercada de criaturas das trevas, quando chegaram anjos enviados por Jeová. Disse a eles: “Não vou, este é meu lugar.” E fiquei, e conquistei minha liberdade e minha solidão. (COUTINHO, 1989, p. 12)

Assim, essa Lilith-Sofia descobre-se indomada. Um ser “quase homem” de tanto exercer o ofício da liberdade de não se prender a ninguém: “Tenho um lado masculino que exerço de maneira muito consciente, não quero gravitar em torno de ninguém, faço questão de ser a dona do meu nariz.” (COUTINHO, 1989, p. 84)

Ao longo do livro vemos que Sofia do Rosário é muitas mulheres poderosas em uma só: em alguns momentos ela se nomeia tais personagens, em outros, personagens como Fernando ou João Paulo a descrevem numa multiplicidade de representações do gênero feminino. Com isso, Sofia também é Hécate, Empusa, Equidna, Circe, Harpias, Medusa, Laura Luedi, Maria Quitéria… Sofia é todas e apenas uma: a mulher que decidiu buscar a si mesma.

4. Da morte e da conformação

Thanatos em Atire em Sofia, como também na própria vida real, nos mostra que é poderoso, um poder com o qual não se pode lutar. João Paulo, amigo e amante de Sofia, não consegue aceitar sua força e traça sua morte. Ele a mata duas vezes: através de seu romance e com três tiros reais em “um verão esquisito”. A força e sensualidade de Sofia levam João Paulo à loucura, assim como o maior orgasmo imaginável provocado por Lilith leva os homens à melancolia. Ao matar Sofia, João Paulo mata simbolicamente também sua própria mãe, com quem teve uma relação de amor e ódio, por ter sido uma prostituta linda, que o fazia sentir-se envergonhado junto aos colegas. Mata igualmente todas as mulheres por quem sempre sentia um “misto de fascinação e nojo, uma parecença insuportável com sua mãe – bonita, temperamental, ‘rapariga’” (COUTINHO, 1989, p. 41). Mais uma vez, Sofia torna-se a representação social de todas as mulheres que não tiveram vergonha de lutar e que, de alguma forma, causaram inquietação social.

Ao criar seu romance, João Paulo mescla realidade e ficção e cria uma história onde ele próprio é um dos personagens principais. Sofia torna-se para João Paulo a ex-Miss Brasil Laura Luedi. No livro, de forma paralela, Sofia sente-se como se fosse no mínimo duas mulheres: a da cidade pequena e a do Rio, a mulher reprimida e a mulher liberal. No livro, o personagem João Paulo mata Laura Luedi, ao mesmo tempo em que o jornalista João Paulo faz o mesmo com Sofia do Rosário.

Fernando conclui que não foi simplesmente João Paulo quem puxou o gatilho e matou Sofia. Na verdade, foi um crime cometido por diversas mãos. A cidade provinciana, que por baixo de uma falsa modernidade mantém ainda a hipocrisia antiga, rancorosa, que condena aqueles que ousam ser diferentes, foi a primeira a matar Sofia. “Damas que se casaram na igreja e pela lei” (COUTINHO, 1989, p. 114), fazendo o que lhes era confiado, famílias inteiras que se sentiam ameaçadas pela quebra de tradições, mães que criaram seus filhos, a mãe de Sofia e seu irmão que cortaram relações com ela, e o próprio Fernando, observador passivo, amigo de todos e de ninguém, foram também assassinos de Sofia. Se Sofia não tivesse retornado à pequena cidade, poderia estar viva. Se tivesse cortado definitivamente o cordão umbilical, estaria viva. Mas, sem retornar, não completaria o processo cíclico de sua busca real.

Considerações Finais

As personagens femininas das histórias de Sônia Coutinho são envolvidas com enredos problematizadores de suas condições na sociedade. A personagem Sofia, de Atire em Sofia, não foge à citada regra. O tema do livro recai na condição feminina em seus desafios e dilemas perante uma sociedade que ainda mantém muita resistência ao fato de ver mulheres que lutam pela conquista de seus espaços.

O romance possui alguns temas que perpassam pela discussão da teoria feminista. O livro apresenta, já no início, o rompimento de Sofia, com a tradição, demonstrando como a mulher não se sente representada socialmente, pois necessita de uma ruptura, não se sentindo acomodada nos modelos pré-estabelecidos. Sônia Coutinho não quer passar uma espécie de receita pronta para fazer com que a mulher lute nesse mundo machista. Isso nem seria possível, pois sua personagem Sofia encontra-se, de fato, sem saída por fazer parte das mulheres que não se moldaram dentro dos costumes tradicionais. Existe uma espécie de vazio no final da obra, uma espécie de pessimismo. Contudo, ele é essencial para provocar uma inquietação necessária naqueles que terminam a leitura de seu livro. Confrontando a heroína com a sociedade em que vivemos, encontramos as pulsões de Eros e Thanatos aparecendo na obra. Pulsões que oscilam e que trabalham juntas, representando no caso específico da mulher, a distante e impossível arte de ser completa e totalmente feliz num mundo pensado por e para os homens.

Referências bibliográficas:

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BATAILLE, Georges. O Erotismo. Trad. Antonio Carlos Viana. Porto Alegre: LP&M, 1987.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

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CARSON, Alejandro. “Entrelaçando consensos: reflexões sobre a dimensão social da identidade de gênero da mulher”. In:Cadernos Pagu, Campinas, 4: 187-218, 1995.

CASTELLS, Manuel. O Poder da Identidade. Trad.: Klauss Brandini Gerhardt. Vol.II. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

CHARTIER, Roger. “Diferença entre os sexos e dominação simbólica”. In: Cadernos Pagu, Campinas, n.4, 1995.

COUTINHO, Sônia. Atire em Sofia. Rio de Janeiro, Rocco, 1989.

COUTINHO, Sônia. s venenos de Lucrécia. São Paulo, Ática, 1978.

DE LAURETIS, Teresa. “A tecnologia do gênero”. Trad. Susana B. Funck. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org). Tendências e impasses; o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

DONOFRIO, Salvatore. “O conto policial de Allan Poe”. In: __. Teoria do texto 1 – prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Ática, 1995.

FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização. Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

LOBO, Luiza. “A Literatura de Autoria Feminina na América Latina”. 1997. Disponível em: http://members.tripod.com/~lfilipe/llobo.html Acesso em 01 de maio de 2012, às 21h.

MOI, Toril. “Feminist, Female, feminine”. In: — et alii. The feminist reader.London, Macmillan, 1989. p. 117-132.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Trad. Viviane Ribeiro. Bauru. SP: EDUSC, 2005.

ROUGEMONT, Denis de. O amor e o Ocidente. Trad. Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapuz. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

TELLES, Norma. “Escritoras, escritas, escrituras”. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009.

SCOTT, Joan W. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. In: Educação e realidade, Porto Alegre, 1990: p. 5-12.

12 LOBO, Luiza, “A Literatura de Autoria Feminina na América Latina”, 1997. Disponível em: http://members.tripod.com/~lfilipe/llobo.html.Acesso em 01 de maio de 2012, às 21h.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

REQUIEM FOR A CAT




DAVID FERGUSON

I

He didn’t answer. That was what he did. Not that she was being ignored. No such mercy. Ralph went beyond listening. He absorbed – her thoughts, gestures, moods. Always discerning. Judgements compressed in the cylinder of his mind. They propelled him like the engine bringing them home. Judgements. That’s what got her down.

“Well?’

“Well what?” he replied as if nothing had happened.

No witness to corroborate the claim of either side. Hazardous. Discrepancies linger. Especially when one of them refuses to agree that anything happened. Who’s to say? Claire felt stranded at a station looking at weeds where trains no longer ran, leaving a matter of fact to the whim and weight of will. Like country music filling up the car, an interest it didn’t matter that she failed to share. Though she allowed as how “Crazy” by Patsy Klein struck home. Took her back to the feel of a time so far from her now it might as well have been someone in another life.

“What is your problem?”

“You don’t want to know,” replied Claire.

The fairgrounds passed, deserted now, the barn-high sign peeling to expose the weathered wood beneath, even as memories, tattered and torn, all those festive gatherings of family and friends that still somewhat replenished her, though left to wandered now between them as through ghostly rooms dusting furniture, far now from the consequential silliness that so diminished their interest in the origins of opera they took off to chance upon a carnival, the tangle of delighted awareness unraveling in an irresistibly familiar equanimity, like an echo from the other side of consciousness, never really lost, with which she drifted in and out of touch, as they made their way down this road, a leopard in her lap, that Spanish dancer doll seated in the back like the girl they never had. Whatever became of them, those trophies he once won for her, darts of luck popping off so many dangling sad balloons? Lost with the universe they once composed unto themselves, untouched by lights that beamed their way through drifts of fog, paired as they were, like headlights on their way from here to there, unpredictably inevitable.

At least she could deny Ralph the satisfaction of catching her in a furtive glance at the speedometer, thought Claire, as she recalled the many times his speeding led her to wonder how their orphaned son would get along. “How about a beer?” The words had just popped out as they passed The Dew Drop Inn.

The needle relaxed to 50 as Ralph turned to give Claire the full benefit of his displeasure at that fretful lack of candor. “Slow enough?” Asking him to slow down would only have caused him to accelerate, especially since she also knew that, despite pushing the envelope now and then, driving was one of Ralph’s more celebrated skills, along with sailing, though not one to evince pride in anything he did well. Never mind his passing up any chance to mention the fact that she had turned him onto sailing those many years ago. How was it that such trivial omissions come to verify a litany of personal disappointments? Like no-see-ems – the bite of twilight in the air.

It was then he hit the cat. Avoiding the glare Ralph turned on her about the beer, she’d noticed the cat crouching ahead on the road, assuming it would take oncoming cars into account. It had, in fact, but not that Ralph, returning his eyes to the road, in an unfortunately timed reflex, would swerve to miss the cat and thereby hit it. “We killed a cat.”

Ralph said nothing. When she wasn’t slyly indirect she was painfully obvious.

“We can’t just leave it there.”

“Why not?’

“You went out of your way.”

“I meant the creature no harm.”

“I wouldn’t hurt thee for worlds, but thou standest in the way of where I am about to drive.”

“Hey lady, you can’t pin this one on me. It was suicide.”

Claire stuck her head out the window. The hot, moist air blasted her with about as much relief as there was fun left in his one-up-and-to-the-sidesmanship. Ralph took guilt as a useless self-indulgent impediment to honesty. Of that she was painfully aware. “Whether or not you meant to hit the cat you did. What if it isn’t dead?”

“Everything I say may be held against me.”

“You bounced it off like a bug.”

“That’s what you get for riding with a desperate man.”

Her turn to be silent. With hardly time enough for her to nurture this confirmation of his implacable nature Ralph turned abruptly onto the median strip. “The cat is dead. Long live the cat.” Retorts came, dry and tart with a subversive afterglow, savored as he would a wine.

Just like him to deny her the meager comfort of having predicted the tack he would take for the curiously less rewarding pleasure of appearing to have had some effect. And why couldn’t he have driven a little further and taken the overpass? No, he had to live dangerously, cutting into speeding traffic from the median. Better not to ask.

II

So this was it, the ultimate stillness toward which we speed, thought Ralph as they stood, anonymous mourners at the side of the road caressed by the whoosh of passing cars. The cat’s black fur shown gray in the dusty bright light, a little silver bell around its neck. A bird-lover’s cat, thought Claire, going on to imagine the pet death grief that would surely descend upon the house where it once purred.

“If you hadn’t been speeding this wouldn’t have happened.”

He left her with that bare thread she had chosen to salvage from the knot of causation to rummage in the trunk into which Claire declined to delve for all the junk. At least blame made the world comprehensible.

“Alright.” he announced, emerging triumphantly with his old army trenching tool, one small vindication of a packrat’s diligence. Probably the only reason he returned to the scene of the crime, Claire thought sourly.

“And what do you propose to do with that?”

Ralph started across the soggy soil of a grassy knoll and up the embankment. “Bring the cat,” he shouted as he made his way over the stone wall’s crumbled persistence.

“Sorry” wasn’t what she meant to say. Just came out as it often did much to Ralph’s dismay. Fortunately, this infraction of his law of “no apologies” was drowned out by an eighteen wheeler enveloping them in its exhaust with the great grayness closing in. Besides, there was nothing to be sorry about, thought Claire, not in the least abject, merely wearied of always feeling responsible as she scrambled up the embankment.

“Do you really think we ought to be doing this?” she brought herself to hazard, making her way, one arm outstretched to balance herself as she handed Ralph the still warm lump of fur.

“It’s the only civilized thing to do.” She had to admire the effortless command with which he held sincerity’s pedestrians at bay.

“What the hell do you think you’re doing?” boomed a voice from out of the trees.

“Burying a cat,” Ralph replied, as if the question came as no surprise, assuming a conversational equanimity born of delight at the absurdity of the situation.

“Not on my land, you don’t,” said the man from the woods, bearing his age with dignified care as he approached Ralph. “Not on my land,” he repeated, looking Ralph in the eye with a calm, almost tender authority. Kindness made him fierce. There was no getting around it. He didn’t need a gun.

As with most things, Ralph was passionately ambivalent about property. On the one hand he found excessive preoccupation with ownership distasteful. On the other he couldn’t help but admire the crotchety independence of staking out the boundaries of one’s home.

“We’re sorry…” Ralph shot a look the meaning of which was clear. “Well, I am sorry,” continued Claire, determined to acknowledge the indefensibility of their position. “You see, we hit this cat by accident.”

“We all make mistakes,” said Ralph.

The man took a closer look. “That’s no mistake. That’s the cat’s been a pestering our birds. Never got one though. Old cat. Smart birds. Know when they’re wanted. Bell helped. Still, don’t want it dead on my land neither. Least ways not so close to the house,” said the old man, casting an appreciative look in the direction of their derelict Dodge, its lose hood chained to the bumper, a vehicle Ralph preferred to simply call “transportation”, which the perverse pride of friends had christened, The Blue Shark, in recognition of the gap between the grill and the hood.

“Summer people?” inquired the old man, hoping they might be more local folks, taking in the woeful condition of their car. Rain began, softly at first.

“Yup,” said Ralph. Claire hastened to neutralize Ralph’s appropriation of the local dialect, saying she’d grown up not far from there. Ralph reveled in mimicry of local talk, not that he meant to condescend, but for the laconic humor it concealed beneath a patina of artlessly dower sense. But to imitate people where they stood hardly qualified as flattery. That she found to be hurtful to her mind.

The rain came now in larger drops accompanied by distant thunder and that sweetly earthen smell of a bygone day.

“No sense standing in the rain. How ‘bout a beer?” Something about the old man’s voice brushed the margins of Claire’s memory.

“We got some ways to go,” said Ralph, looking back through woods to the gray suggestion of a house, settled in, eventful as a rock, uncompromised by paint, held together by its history, its shingles in the grip of wisteria’s beautifully ruinous embrace, alongside of which a distant cousin of the Blue Shark was parked.

“Why not?” agreed Ralph without even a fleeting consultation of eyes, as if the whole expedition had been his idea..

“Name’s Jack.” The man extended a large, weathered hand, “Jack Brumble.”

“Ralph, and this here’s Claire.” Claire cringed again.

“Just set those muddy shoes by the door.”

“That you, Boe?” came a voice from within.

“Course it is. Who else would it be?” How often, thought Claire, those words must have been exchanged, customary as the screen door’s slam. Ralph thought he could detect a hint of stew in the comfortable scent of old smoke that hung about the room where he imagined embers of many a winter’s night had glowed in the fieldstone fireplace.

“Got some folks with me.”

“I can see that,” said the round woman pushing herself up with effort from the chair, taking in the visitors – Claire, still in her Monday-go-to-lawyer’s blouse, Ralph in his shorts and both in bare feet like kinsfolk in from down the road.

“Caught ‘em red-handed trespassing.”

“Can’t have that,” said Lucy, with that amiably factious banter, familiar as the carpet of moss on adjacent rocks, while she made her way uneasily, pressing the table for support.

“This here’s my wife, Lucy,” said Jack, explaining the presence of their guests with a satisfaction reserved for hunters of big game. “Killed the cat’s been pestering our birds. Looks to be Bertha’s Belle a’ the Ball.”

“That’s a blessing anyway,” sighed Lucy, lowering herself back into the chair. “No particle of sense – all them cats and this here one’s got to scramble all the ways up over them rocks – as if there weren’t no birds down there. Make your selves ta home, why don’t cha?” Claire perched on a chair opposite Lucy while Ralph disappeared in the pummeled comfort of the couch. “Well now, don’t you look like the blushing bride and groom,” chirped Lucy much to Claire’s incredulous surprise. Lucy must have thought it was their second time, maybe even third. Lucy’s adding, “Ain’t you the pretty one though,” didn’t help, especially since it was true, though Claire would be the last to draw attention to herself.

Lightning flickered behind leaf laced windows just as thunder thumped the roof, prelude to a load of hail.

“Perpendicular,” said Jack, pointing to locate the storm just above the house.

“Coffee then?” asked Lucy as Claire declined the beer, becoming convinced she didn’t know Jack.

“Don’t go to any trouble.”

“There’s trouble and there’s trouble.” said Jack, touching his raised, bushy, gray eyebrow with his little finger, keeping the middle three down, the thumb upright, as if the last “trouble” had some mysterious significance, the sort of quirk that would make Ralph’s day.

“I’d love a cup of coffee,” said Claire, assessing Ralph as he warmed up to their aging hosts, quite pleased with the unexpectedness of it all. Still, Claire viewed the scene uneasily. She never knew what to expect from the roiling just beneath the tectonic plates of Ralph’s nominal civility. Especially with strangers. Though exceedingly articulate and temperate when he chose to speak, something might just trigger an obscenely inappropriate remark, like a bolt intent upon some mischief made for mortals to endure.

“Killed the cat, did you?” said Lucy.

“We didn’t mean to.” said Claire.

“There’s meaning and then there’s meaning,” said Jack touching his eyebrow again as a hand is used to indicate a phone,

“I grew up not far from here,” said Claire.

“Did’ja now?,” said Lucy as if a cloud of awkwardness had just blown away.

“Did my senior year at Dunmore High.”

“Well now, if that don’t beat all,” said Lucy, “Same as Jimmy, Bertha Tugwell’s son. Married our Amanda, he did. Haven’t they been the ones to bless us with a passel of little critters.”

“Pesky bunch if you’s ask me,” Jack interjected with a grand-fatherly twinkle.

“Take after their grand-paw, don’t they Jack?”

“More like Jimmy, truth be told. ‘Member Bertha’s cat – chased up that Sycamore?” said Jack, throwing Lucy the ball of talk.

“Ol’ man Jenkins’s Doberman, near as I recall – scared that cat half to death – what with that big ol’ dog prancing an a pawing down there round the tree – barking an growling liken he got hisself a leo-pard. Well sir, before you could say, Jack be nimble, half the town got wind – wasn’t a one among ‘em didn’t have a way ta get that critter down – an’ there comes Jimmy on his Harley, kicking up dust – roaring round that crowd liken they was a herd a goats till he ups an’ says, ‘Shoot the damn cat, that’ll bring ‘er down.’ Well now, Robbie, didn’t much care for talk like that – near came to blows, what with them being brothers an’ all.”

“Now, Lucy, you knows there ain’t no way to herd a goat.”

“Mind you,” continued Lucy, undeterred, “ Robbie were a one to stand up for his mama’s cats. Come across them did you at school, James and Robert?”

“Must have been after my time.”

“More coffee?” asked Jack.

“Just a drop, thank you.”

“Another beer?”

“No Thanks, I’m driving,” replied Ralph, indifferent as to whether or not his ironical tone got picked up.

“They was always at it – specially over Bertha’s cats. No telling how many after the ol’ man died. Run-in with a bear they say. More like the drink, if you ask me. Jimmy counted twenty-eight. Last I was down to the house you couldn’t look but that a cat looked back – cupboards, tables, chairs. Couldn’t step but on a tail. And sit – nowhere but that you come down on a cat. If it weren’t a cat it were the hair. Covered every stick they had, like as if it were a quilt. An’ don’t come wearing black. Well sir, come that there fracas over the road – same as the road you come by – widened right through Bertha’s house. Damn near took ours into the bargain, didn’t it Jack?”

“Don’t think….” was as far as Jack was able to get, sorry now he got her started.

“Since they was moving anyways Jimmy didn’t want no cats in the house the dang Company put ‘em in down by the crick. Said they weren’t no earthly use anyhow. Made him sneeze. Kept saying they didn’t do mama’s health no particular good neither. But Robbie wasn’t having any. Life’s short enough, he says – and mama sure were partial to them cats.”

“Don’t think our guests would be interested,” said Jack, mistaking Ralph’s silence for indifference.

“Anyways, no one with the sense God gave ‘em wanted the damn road no wider than it were – what with the blasting an all. Had to tape the windows up. An ‘ them buzz-saws bringing down them trees – all the day like hornets they was. Scared them birds away – like time they brung that there pike right through grandpa’s stand. So Jimmy, being’s how the Fourth were a coming up, sets them rockets off – whole kit an’ caboodle – sputtering up – crackers popping like it were a war. Least ways must a seemed to them what knowed how fired up we was – right down there where they was a blasting at the crick. Sight ta behold, weren’t it Jack? No never-mind to where the buzz-saws dropped. Off them dozers fast as spit, big as they was – like the devil his-self were a snapping at their heel – yella hats a squatting ‘hind the same dang rock they just blowed up.”

Feeling left out, Jack turned to Ralph. “Getting on real good those two – peas in a pod,” only to be met again with no response. Ralph wasn’t much for casual comradery the obvious purpose of which was to leave the women out, she’d give him that. There were nights, after dinner with his buddies over wine, Claire took in stride, being an early-to-bedder, as much a habit as a need when it came to getting up for work. Though there were times in the wee hours when the distant murmur of men earnestly saving the world or souls or God knew what, when the banter of those boisterous boys, egos all ablaze, woke her up. Nights when Claire would lie there waiting for the next spasm of uproarness in which Ralph’s voice was seldom heard. Couldn’t recall last time she’d heard him laugh, the sort that comes up from the gut.

“Some kind a garden you got there,” said Ralph, finally taking Jack up on his opening, hoping to avoid the downhill rush of another embellished narrative, having had his fill of the colloquial repertoire.

“Keeps my hand in.”

“Best around,” said Lucy. “Corn, beans, radishes, beets, squash, carrots and some real fine tomatoes.”

“If the white flies don’t get to ‘em.”

“Or if God don’t get to you first for working like a damn fool. Just won’t let up. Don’t make no sense,” she added, hoping for support from Claire.

Claire thought of how from time to time she imagined growing old with Ralph, as she said, “Looks like more rain. Not that we need it.”

“Here for that were you? Never seen the like. Came near asking around about the ark.”

“Good greens,” said Ralph, looking through the screen door at such rain-weighted leaves as survived the hail to glisten in the sunlight steaming the rain away above the scramble of squirrels at the fallen feeder.

“Jack, show Claire and Ralph your collection, why don’t cha.”

“Oh, I don’t think…”

After the ritual coaxing Jack brought out a few of his favorite fanciful whiskey bottles: a lighthouse and two skunks on a log, one tail being the cap.

None of the world’s follies could leave Ralph in such a funk that the nooks and crannies of an authentic life, some unexpected novelty, wouldn’t bring him around all perked up. Such pleasure as Claire could muster at the display of Jack’s novelties – with which, as it turned out, she was familiar – came from the barely apparent gradient of Ralph’s delight at watching the Elvis bottle revolve to “Love Me Tender”.

“Had our own little what some here calls a dive – Dew Drop Inn – sold out now near ten years. City folks snapped it up. Moved it to the Mall. Thing is, Jack don’t even like the stuff, just these bottles. Prettied-up the place behind the bar, don’t cha know.”

Jack had Ralph’s attention now since he’d lately entertained just such an establishment for his retirement – a bar somewhere Downeast close to the coast where locals came to hang; a college town nearby to keep his mind engaged, a modest place off the track that tourists trod. Though his leisurely reconnaissance hadn’t turned up anything close to what he’d had in mind., the trip had been its own reward as Ralph recalled the overlook across a craggy bay, down to the dock below, where he surveyed the color of crabs unloaded there. Not blue enough to suit this initiate of the culinary arts. Shouting down through the seaside silence, “What kind of crabs you got there?” he was met with this reply, “Fucking crabs.”

“Don’t mean to pry,” began Lucy, sensing Ralph’s interest, “ just wondered what it is you did by way of work?”

Claire held her breath. This question was sure to tick Ralph off.

“I play with myself,” replied Ralph with congenial defiance.

“What’s cha play? Wouldn’t be country, would it?”

Ralph, eyebrows raised, pointed to Lucy with the exaggerated gesture of a game-show host in mute, mock acknowledgment as if to say, “You win the prize!”

“No business of ours,” said Jack, attempting to be stern.

“New friends here, Jack. No harm in being curious.”

“Killed the cat,” said Jack before he could catch himself. “Didn’t mean…”

“No harm done,” said Claire, reddened with fury and shame, relieved that Ralph had been so perfectly misunderstood, trying to imagine Ralph in a local dive cranking out the blues on a fanciful guitar. Still, flustered, snatching ambiguity from the very jaws of the worst averted, she blurted out, “He’s in a band.”

Lucy sat expectantly, waiting for the other shoe to drop. “A one man band,” she finally asserted, pronouncing the words with such authority as to preclude further discussion, though not without a touch of exasperation at Ralph’s obscenely obstinate reticence. It sometimes seemed there was nothing beneath his camouflage but another layer of camouflage like those Russian dolls, with the real Ralph encased somewhere within an infinite regression of identities. “Money in that these days,” offered Jack, not adverse to affecting knowledge he didn’t mind not having. Touching his eyebrow he added in tones reserved for things about which he could see no useful purpose in having an opinion, “That’s the way of it today.”

Silence followed like a prelude to farewells. Can’t have that, thought Lucy, least ways not until something she could only intuit as the roundness of the time had come to its rightful end. “Our daughter’s in business.”

“No such thing. She’s a beautician.”

“If that ain’t a business, Mister, tell me what it be.” Though tempted as Claire to cheer Lucy on, Claire sensed the bloom was off the rose for Ralph as he downed the last swig of his beer.

“Jack, why don’t cha get the photos out?”

“Lucinda, I don’t think…,” which is as far as Jack got before Lucy’s enthusiasm washed away any prospect of useful resistance. No need to read Ralph’s mood to know nothing would finish off a wilting rose like family photographs.

“There’s Amanda – wasn’t but a few days old.” Lucy pushed the book across to Ralph who glanced down at the bundle of pink flesh with a dismay he felt constrained to conceal as being too grossly obvious.

Putting her faith in Ralph’s saving grace as a go-with-the-flow kind of guy, Claire allowed herself to be drawn into the retrospective naivety of another family’s photographs, that collective past into which the present fondly disappears.

To Claire’s surprise she recognized something of the place from which, however briefly, she had come – the weathered face of an uncle there, a grandchild here, even the bottle-bright wall of the previous Dew Drop Inn where, she now recalled, she had been, but not with Ralph. No need to go there now – not that he would care. She was another person now, one that Jack had failed to recognize as she had him. No wonder. Many faces passed. Another person wondering how she would have looked on the lakefront dock among those faces smiling out of time, caught like characters in a play, fixed in the splash of youth, the bend of age, as if any part of a life contained the whole of it – photographs, nothing more, looking back at Claire in the futility of a captured happiness that spoke to her through the precious tedium of it all.

Seeing Ralph’s attention lapse, Jack offered him another brew.

“I’m good,” said Ralph, immersed in his immense distaste for the feckless celebration of one’s own kith and kin frozen in snaps of happiness as if the world began and ended with one’s own precious progeny; all these people, connected, held in place by sentiments attached to certain other people; all possessed by a specious belief in the unique value of endlessly propagating some semblance of themselves.

“And there’s Amanda’s Beauty Salon. Quite the place, wouldn’t you say? And there’s Bertha,” squealed Lucy, triumphantly turning the glassine page, “one of Amanda’s first and most loyal customers. And there’s Jimmy and Amanda feeding each other wedding cake – there be Robbie off to the left. Best man, don’t cha know?”

Despite his aversion to this solipsistic exercise, Ralph could no more resist a view of Bertha than he could the view of King Tut’s tomb. It was one of Ralph’s more endearing qualities that for him there were no absolutes, not even his own.

Claire leaned in to inspect the curl of black with its little bell in Bertha’s lap. Over her shoulder, Ralph marveled at Bertha’s nose, how it survived the sad excitement of cosmetic chemistry, rising with simple distinction like some volcano from a sea of paint. “How ‘bout the way Amanda done her up round the eyes?” said Lucy, her heavy arm reaching out to turn the page.

You never knew with Ralph, thought Claire, as he kept the page from turning. Robert J. Tugwell, it had to be. No mistaking that smile tilting up the left side of his mouth, morphing even then into a sneer; or that sloping frontal lobe even under hanks of high school hair, annotated in the yearbook, much to Ralph’s delight, as “most likely to recede”, a face even then trying to portray the confidence he lacked, “the bland man’s bluff”, as Ralph had tagged the captain under whom he’d crewed the month before. How could he have failed to pick up on a name like that? Too much of an improbable coincidence, he decided, the kind of gratuitous turn of events certain to unhinge the willing suspension of disbelief in any manuscript he might have otherwise enjoyed

“And the hair…,” began Claire, looking more closely at Bertha.

“Oh, that’s a wig. Bertha always wanted to be a blond. Knockout, don’t cha think?”

“Whatever became of Robbie?” asked Ralph. Claire knew the look. Ralph was keeping something to himself again. He kept so much the wonder of it was he didn’t just explode.

“Don’t rightly know for sure. Haven’t seen him in donkey’s years – making out real well they say – in New York City, would you believe? Robbie, out of all them kids come to be the one lands on his feet? Least ways that’s tha last we heard of him. Transacting or some such thing. Got himself a boat they say. Never pictured him the sailing type. Sees Bertha don’t go without, I’ll give him that. Least ways she’s always at the Mall shopping up a storm. Says she’s only collecting the bags so’s the cats can jump around in them.”

“Paid, he did, for that fancy medicine, don’t you forget. Damn near saved her life, what with that tricky ticker ‘an all,” said Jack.

“Now hold them horses, Boe – wasn’t I just about to get to that? But you tell me – Bertha feeling poorly – laid up come a month – them doctors crowding round – not a body there but Jimmy and Amanda. You tell me if you see’d him anywhere’s around come Christmastime – never so much as set his thankless foot inside her door all these years – down there a sailing round with all them fancy folks – ‘nough ta break a mother’s heart, I’d say. Plain truth an’ no mistake – that boy got one powerful lot a makin’ up ta do.”

Having kept his head down as if in prayer, Jack looked up at Lucy with a cautionary smile. “Don’t get yourself so riled up you come near fogettin’ folks we got right here.”

“They was asking what Robbie were doing,” said Lucy, somewhat chastened as she turned another page. “Ain’t that something though. Make a pair – Amanda an her dad a boiling the maple down. Yes Mam, we do some fine syrup – first prize, year come June, didn’t we Jack?”.

“Brumble’s Best,” confirmed Jack, lighting up with pride.

“Take home a jar, why don’t cha? – on the house cause’n you’s real good people. After all, you ‘bout to take that troublesome critter far as you can.”

“But shouldn’t you give Bertha a call?” said Claire. The question hung there in the air, a presumption Claire herself couldn’t help but marvel at. “After all, it was her cat.”

“Some might say, right thing to do. Still and all, a body needs be mindful of considerations,” replied Lucy looking up as if at a fly she meant to swat.

“There’s right and then there’s right,” said Jack, eyebrow up and pinky at the point. “Bound to blame us, don’t cha know – unnecessary upset.”

“There’s some might say, ‘With all them cats what’s the chance of missing one?’” said Lucy. “Truth be told, that there cat were Bertha’s fav’rite best since ‘fore the ol’ man died. Got to be a tender time. Now Jack, how about you just get these nice folks here a prime jar of Brumble’s Best?”

“New Yorkers,” Lucy was heard to say with some surprise, a shade of disappointment in her voice, as she looked at the book she’d had them sign on their way out. Hushed though Lucy’s voice had been it reached them through the screen.

III

The atmosphere, in which they had been for a time enclosed, faded with Lucy’s voice, like the smoky scent that clung there briefly to their clothes as they made their way through the tall wet grass into the brambles of a still and steamy afternoon. “Good people,” said Claire, stepping cautiously, Brumble’s Best held close to her chest, while the other hand repelled the occasional branch like a fullback in slow motion warding off what felt to her like the reach a sinister hand.

“Salt of the earth,” said Ralph, echoing her sentiment as if reflected from dark glasses upon which she could only see herself, while he remained immune to feelings as if they were some kind of moral fault. No, she thought, pushing away a branch that had snapped back at her from Ralph’s determined forward progress, he was chock-a-block with feelings, carried with such an intricate ambivalence they didn’t count. It chewed her up to think that she still let his vision of her become her own, each subsequent diminishment serving only to vindicate a perception to which he was predisposed. Come to think of it, no one asked what she did to bring the bacon home – the better part of it in fact. Even the prospect of the change she was about to make couldn’t quell the anger she felt welling up.

Emerging from the raspberry patch, somewhat the worse for the wear, they could see how far they were from the path by which they’d come. Having made their way along the wall they came to the cat. The car still parked there at the shoulder of the road across the stretch of soggy grass. Ralph pitched the shovel over the wall. “What about the cat?” said Claire.

“What about it?” Ralph replied, sensing a challenge well beyond the mundane disposition of the road-kill they were looking at.

“We can’t just leave it here.”

“What did you have in mind?”

Clearly, any proposal to accommodate the battered body of a stinking, fly flecked cat in the heat of the car would be a hard sell. She would have to make do with the first flimsy pretext that came to mind. “We could put it in the crabby bag and drop it in a dumpster on the way home. At least it would put that old bag to some use. After all, we promised the Brumbles.”

Ralph bristled at this tedious, implausible, manipulative rationale for getting him to do something that made no sense. On the other hand, Claire had raised the stakes. He was up for that. In fact, he would raise her one. Besides, that bag had been cluttering up the trunk ever since he’d filled it with those oddly colored crabs and stashed it in the trunk. He should have known the tavern he’d had in mind to reconnoiter would turn out further than he thought. And then, distracted by the sibling havoc of his sons he’d let those fucking crabs just slip his mind, a whiff of which still lingered after all these years in the weave of that recycled plastic bag as a tribute to their potency.

Far from condoning accumulation for its own sake, Ralph saw himself more as the custodian of oddments whose use in time would be revealed. This being so, he had to admit, retiring that otherwise indestructible memento of a dinner gone wrong had its appeal. The occasion required a gesture. The irony that nails you may not be your own, thought Ralph, briefly considering how quickly flies arrived, the hum of nature’s fastidious economy digesting death. Then, griping the pool of soggy, fly-fringed fur by the tail to the tinkle of its little silver bell, he raised it over his head, swinging it round and round with the ardor of an Olympian, until he let the sorry carcass go. Claire stood there transfixed by this unprecedented display of her husband’s bazar abilities no less than by the cat’s macabre trajectory as it hurtled well beyond the wall, landing with a thud upon the windshield from which it presently slid, coming to rest upon the Blue Shark’s hood.

“Was that necessary?”

“There’s necessary and then there’s necessary,” Ralph proclaimed with a serious approximation of Jack’s incomprehensible salute. The laugh escaped the way a sneeze sneaks up, overriding the part of her that still remained appalled. The more she tried to squelch the laugh the more she laughed. Ralph’s stoical demeanor only made it worse the way the sternness of librarians only aggravates the need to sneeze. Between the picture of this statuesque, athletic, beared paragon of gravitas and the sight of Ralph in full-fledged maniacal abandonment, there loomed an incongruity, a gap over which sparks of laughter leapt, even as Ralph accepted the jar of Brumble’s Best. Betting he would “see” her yet, he helped her up and over the rocks.

Delving into the hidden recesses of the this attic on wheels to ferret out the bag from miscellaneous tools and junk, Claire came across that Spanish dancer doll wedged under the seat these many years, its glamour gone along with its right arm. Hardly tempted to assume the doll survived on sentiment, Claire retrieved the plastic bag as an image out of the past occurred to her – their sons playfully tossing a compliant Palestrina back and forth. Soured thought again deliquesced into hilarity as she supposed that tossing cats might be a family trait. Thankful that the Belle of the Ball had mercifully out-flown her winged entourage, Claire worked her hands into over-sized gloves from the copious trunk. Catching her breath in an interlude of horrified sobriety, Claire dropped the limp, battered form into the bag and closed the trunk.

Since the cat came down on the passenger’s side Claire viewed the world through somewhat of a smudge. Here at least Ralph had met with only mixed success, thought Claire, seizures giving way to an intermittent laugh with the syncopated persistence of hiccups. Ralph’s impassively handsome face, that European look, with its barely perceptible hint of satisfaction, hardly helped. It wasn’t till they turned in at the Mall that Claire, almost reluctantly, regained her composure, mirth giving way to hunger and thirst.

IV

They’d probably find a dumpster round back. First they’d have to wash up before siting down at The Dew Drop Inn, whose prominent logo beckoned from across the crowded parking lot. The car would be too hot for a dead cat. They would place the bag next to the car on the shady side. As a further precaution against the likelihood of flies, Claire placed the amputated doll over the cat, arranging its gown like a tent.

Despite its noisy ambience, the relentless thump of tuneless songs and baseball’s ubiquitous flicker, they welcomed the Dew Drop’s cool relief, refreshing as the first sip of a cold beer on a hot day. Washed up and settled in, Ralph immersed himself in the crossword puzzle while slowly sipping the Dew Drop’s own Autumn Amber – always the leisurely connoisseur. There were, of course, things she might bring up, but they could wait, thought Claire, glancing to observe one young couple conversing silently in what seemed to her some sign-language of their own. How could the nuance of a thought compete with a din like this, much less come to terms with the sorting out of hearts? Hard enough for her as she opened the book she kept in her purse.

It wasn’t long before Claire looked up beyond her salad to reflect upon a particularly horrendous passage in which the captive, at the mercy of besieged rebels, having been dragged through the Columbian jungle with its nasty ants and ravenous mites, forced, ragged and half starved, from one desolate encampment to another, only to be captured after her most recent failed escape, after which they chained like a dog to a tree. It was from this vantage point she examined once again the fragile remnant of her dignity. We cannot help, thought Claire, turning out more as well as less than we intend.

They had taken no notice, accustomed as they were to sirens, possessing as well, prodigious powers of concentration, until something said emerged from the ambient chatter to penetrate even their disciplined consciousness. Claire quickly closed her book, hardly ready to believe the words that startled her. Ralph, munching the last of the fries, on the verge of calling up from the depths of his mind that last twenty letter word beginning with “C” and ending with “ion”, had his attention commandeered as well by voices from the table next to them.

“Check this out,” said a boisterous youth, passing his phone around. “A doll in the jaws of a “84 Dodge.” There followed a smattering of “awesomes” punctuated by a “cool”.

“Black cat, bad vibes, duh!” came the high, shrill voice cutting through the loudness of the room like an adaptation girls acquired to be heard.

“Only if you walk on after they’ve passed across your path.”

“Where you there when the old lady went totally down?”

“Opened the bag and over she went.”

“Major TLC could make that baby hum.”

“Heat stroke, man, that’s what happens when like you get like old.”

“Bet a beer it’s Cardiac arrest.”

The waitress shouted after them, “You haven’t paid your tab!”

At the far end of the lot paramedics closed the ambulance doors, having just thrown in the shopping bag to keep the patient company. By the time they’d crossed the lot there wasn’t much to see but the blond wig where it had rolled under the car.

The utter lack of pretense on his face got to her as he winched the car door open and slipped into the seat. He had feelings, even if it took a stranger to bring them out. After all, hadn’t it been that very knot of ineluctable passion, among other things, that had drawn her to him? What was it that had intervened between the music, the care they shared for the written word, those gastronomical delights prepared for their family and many friends? Together all these years, albeit ever more precariously, like circling above an event horizon’s deadly gravity, a place not without its dangers, its frightful episodes, but rich withal – a life.

What if the other woman in his life had been instead the angel of death inviting him to that hypothetical place beyond in which neither of them believed? Like the fright that attended her the time he just collapsed in the green-market, an episode about which doctors didn’t have a clue, instilling apprehension daily chores suppressed despite the low-grade fever that followed him around, sometimes for months.

They’d passed a hospital some 20 miles from where they were. Nothing insurmountable. But what to say when they got there? Why say anything? Just find out how she is. Still, the staff would want to know who the hell they were. Their relationship to her. With proof. They couldn’t even claim that they were friends. Ralph turned off at the first exit they came to. “Now what?” exclaimed Claire.

“Nature calls,” replied Ralph, reverting to his old enigmatic self.

The waitress, quite pleased to see them and to accept the more than generous tip, inquired, were they Bertha’s friends?

“Acquaintances several times removed,” responded Ralph.

“Bertha was a regular here, you know, loyal to a fault.”

It was the “was” that troubled Ralph. “How’s she doing?” Claire took note of how these simple words conveyed his genuine concern.

“Haven’t heard. Hospital’s just down the road.”

“You wouldn’t happen to have the number…?” The waitress eagerly supplied the number and a phone.

There was that face again, the face of the man she’d married, stroking his mustache to conceal his voice. The nurse was adamant. “I’m sorry, sir, we can’t give out patient information unless you’re a relative, a close relative.”

“I’m her son,” said Ralph.

“I’m sorry, sir, but her son is here.”

“I’m the other son, Robbie, up from New York to see my mother,” said Ralph, once again impressing Claire with how well he could take a part that his heart was in. Why then, thought Claire, couldn’t he have been more of a father to their sons?

“Just a minute,” said the nurse. He hung on, with a sadness in his look as if he’d taken on the weight of that war-torn world out of which he’d come.

“Jimmy said he would like to talk with you,” said the nurse.

“Don’t have time… Broke down near the Mall. About to be towed. I’ll see him by and by,” said Ralph so convincingly that Claire almost believed him.

“Well,” said the nurse, “you’ll find out how she is whenever you get here.”

“Look, I know I haven’t been everything a son might be, but I’m here now and I just want to know she’s okay.” How was it, thought Claire, that this shame-faced artifice revealed humanity?

Another pause. Then a doctor took the phone. She had had some kind of shock. Resting quietly now. They would keep her overnight for observation. However, he was sorry to have to report that the cat was dead.

V

Ralph stood, looking at the front end of their car, picturing the doll in the maw of the grill, placed no doubt by one of those grotesquely imaginative kids, as an installation at the Whitney. Claire retrieved the wig from under the car. Then, yanking the doll from the grip of the grill, she threw it onto the back seat. “That goes into the dumpster.”

With Ralph at the wheel, Claire took on the task of transcribing. “Collectivization?” offered Clair. “Short by four. ‘A method of simultaneously holding mutually incompatible thoughts.’” Nothing annoyed him more than Claire’s helpful intervention. “Compartmentalization!” he finally announced in the matter-of-fact way he had of being right.

“What about poor Bertha left thinking Robbie’s come to see her from New York?” said Claire, overcome by a bout of extraneous empathy. “And Robbie, unaware that he’d showed up there like a ghost, not knowing that she’d think he didn’t care enough to make it to the hospital? We can’t just leave it at the cat.”

“Let sleeping cats lie,” said Ralph, wishing Claire would just this once leave well enough alone.

“We can’t just barge into other people’s lives and leave so many loose ends.”

“What’s life without a few loose ends?” replied Ralph, adding, on the off-chance his comment might be mistaken for an intentional profundity, “You heard it here first.” Still, a few miles down the road he considered the probabilities sure to follow from his presumptuous concern, consequences unintended though they surely were. Torn between Tugwell’s unappealing personality and the novelty of the conversation they would have he promised himself that he would call. Not that Ralph had given up upon his qualm, the troubled provenance still weaving in and out before him in the traffic of his mind, seasoning his thoughts like the pungent residue of off-color crabs for which no recipe would do – a conundrum only there for him to puzzle out even as the rhythm of the ride, his eyes upon the road, lessened his ability to remain ostensibly incredulous. After all his little qualm was nothing to the endless stream of unsettled aberrations in the news, the prevalent insanity so quickly chalked up in the public mind to some preordained mendacity, accepted with a shrug of cultivated ignorance as if all it came down to someone else’s history.

“We could look him up. Can’t be hard to find with a name like that.”

“All will be well.”

“Easy for you to say.”

“There’s easy and then there’s easy,” said Ralph, taking one hand off the wheel for the requisite salute.

“Must you always be oblique?” said Claire, determined not to be amused, sensing something there he wasn’t about to share.

“It’s my job. Scourge of the earth and all of the inhabitants thereon.”

Claire gazed away to consider Blake’s “Tiger, tiger burning bright in the forest of the night” and how their cat came by its name – paws upon the keys to strike the devil’s interval, that augmented fourth forbidden in Palestrina’s time, an instinctive sacrilege it then amused them to suppose. Still, what moved the cat to stalk her mouse with no apparent intent to kill, looking up by and by surprised her playmate had given up the game? What possessed a cat to pounce upon a string, no life in it but that imparted by the hand at the other end, a blatant deception that troubled the cat not at all?

Did the vulnerable crumble into fear, assuming culpability or anger as may be, open to anticipate the worst that fear invites to settle like a fly upon their marmalade? Claire tried to shake the sense that we were all puppets at the end of our own string. Ironical reticence was as much a part of Ralph as the hand that held the wheel, even as she sometimes felt compelled to imagine some hypothetical inadequacy, even as the mouse appeared complicit in its own demise.

No more of that, thought Claire, as she took another tack. How could they remain, with all they had in common, out of touch – tides under the sway of a mutual moon, breaking up on different shores, the wreck of hope exposed as the tides recede? Fractious continuity doled out as a kind of consolation prize? For a moment only, Claire stood witness to her world. So much wanting. Might-have-beens enthralling thought. Nothing there reprisal could redress. No way around his enigmatic dignity. Most of all the unalloyed joy his grandsons filled him with.

Not that there hadn’t been moments when the harsh wind of betrayal brought with it a glimpse of “Good riddance”, only to reveal in the stark clarity of the storm’s wake tokens of such value as to overwhelm the bitter edge left bare. The gift of a book with pages stained. Reviewing the day’s unlikely episodes Claire paused upon his gratuitous fling, her thoughts coming at last to rest upon the moment he betrayed his camouflaged humanity – the last doll in the nest. A modicum of faith took hold – not that everything would turn out well – too much beyond retrieval now – but that whatever happened she would not disappoint herself.

They were close enough now to pick up the station they preferred, in time for the last of Mozart’s Requiem. She would think more clearly about the day’s events in that quite time before the sleep that had of late eluded her. Smiling, Claire dozed off.

Berlioz accompanied Ralph barreling along the thruway of his own acerbic consciousness, propelled with an inertial conscientiousness even the ultimate start and stop of traffic couldn’t break as cars streamed in from everywhere, taillights in a glow of rows up hill and down, red ribbons stretching out in twilight’s waning haze. How many in those cars, struggled day by day, their future’s sleepy faces safely tucked away, while they grumbled, foot from gas to brake and back again, still content with themselves in the docile wisdom of their fatalistic mediocrity?

Lucky in the end to find a parking space, Ralph satisfied himself that the author of his life had come up with this stretching of coincidence to tip the dreamer off that all he had so patiently discerned was nothing but a dream from which he half expected to awaken.

Neither of these solitary souls took time exactly to reflect upon how in the end they had both been willing participants in the odd involvement of their improbable encounter, crossing into a world many a couple on their way home would have passed up as a bridge too far. There was, after all, no need.

© David Ferguson 2012

David Ferguson, 411 West 22nd Street, New York, NY 10011

212 989-0519 Dferguson25@nyc.rr.com





Bio fornecida pelo palestrante.

FRAGMENTS OF A CONTINUITY




DAVID FERGUSON

Fragments of a Continuity

The Room
Summer soot falls.
Winter, he sings to the gray snow
that settles on the sill.
Some days the child above
bounces time upon a ball.
Spring the wall presents the creek
of a bed till someone cries, “Enough!”
Below, a line of little ones, pale kids
clothed in the dust of a powdery gray
hardened yard on which they play
follow-the-leader as in a silent film until
the oldest, seriously dissatisfied
with the performance of her train
turns with the sum of her displeasure,
“She-it,” as the Angelus next door
summons nuns to pray.
Every now and then,
the tell-tail sounds, mixed with relief,
explode through the small, high window
years of paint closed off
above what he now realized
had clearly been the bathroom sink
even as an inch worm takes
the measure of a leaf
at the end of a branch reaching in
the window where he sits
upon his bed where once a bathtub sat
watching autumn season trees.
A Nickel’s Worth of News
What if he should then expand
upon the confidence on which we stand
like children building castles in the sand
or set it down as true
traffic alternates between
the envy of incentive green
and redness through which love is seen?
There must be something better to do.
One Sunny Halloween
Scrawny trees where the brick-bright light
fell at autumn’s ease. No one in sight.
Narrow shares of sidewalk make their way
passed loading docks, bare stages for a play
set in space where no one would appear
till out of place, a mask of fear,
an odd nod grinning sightlessly
like a mannequin in ivory
large enough to house a man within,
unspecified stuff from out of a bin,
dry goods refused, sunshine defined
to haunt the disused warehouse of the mind
with infernal chiming hard to ignore
miming there at the warehouse door.
Someone grown up, equal to the task,
might have shown up under the mask
as mischievous eyes cheerfully chance
with elfin surprise in silk purple pants.
Monologue
Looking up at the rim
of her khaki cap pulled down,
she leans around the iron wall
so no one will see
her muttering most privately
to no one at all.
Then up, she rushes out –
turns about. Wrong stop.
The door slides, pausing
as if for her, before its rubber lip is shut.
“Go right on,
pay me no mind.
I’ll get along jus’ fine.”
The train pulls out just as she said.
Curbed
Faithfully placed, they take their stand,
brass, bonnets and heaven’s countermand.
Close by, a solitary beggar squats,
a string of thoughts rolled up in knots,
shaggy, ragged, nothing clear,
few cents short of a beer,
a child of love repealed
or shattered on a battlefield
of dreams that nightly detonate
to shake him in a sweat awake.
Keeping to their beat, the band is free
at the very verge of harmony
with all the traffic horning in
out of time, a sentimental sin
to which impatient drivers will attest,
their destiny’s as manifest
as winds in gutters whip
cyclones taking papers up
spinning news in gusts of dust
to freeze the very heart of trust,
chilling lips at instruments that sear
those ears cold trumpets fail to cheer.
Put a nickel in the pot,
save another drunken sot.
God is love, your shelter in a nuclear age.
Grimy hands, palm to palm
breathed upon, held up as if in prayer
for all that outside angels cannot calm
facing life barely there.
Put a nickel in the pot
and you’ll be saved.
Enterprise
Oatmeal cookies compliment
a cup of coffee well enough
for thoughts of time as yet unspent
when a hobbled soul and gruff
jerked his way from stool to stool.
“B-b-buy m-mm-my pen-encils.”
Nerves that played him for a fool,
fingered for a cup of spills,
arms and legs in spastic dance,
grasping pencils as he came
to the dreamer with a glance
that made the sale as he was lame
enough to whisper in the buyer’s ear
as he might later order grub,
confiding, roughly still sincere,
“Thanks bub.”
A Consignment of Pan’s Pipes
Eyes that war themselves on any skit
undo the joy with which they flirt
where pipes infatuate the fair
with figures dancing on the air.
Calculated measures cheat
the innocent of their conceit.
He merely sells the bamboo shoot.
Holes alone only make the flute.
Vision’s Widow
Short, fat, disheveled woman
shuffling back and forth
with empty eyes askew
and little tin cup,
would you have my beans?
Your sight filled up
my own poor belly’s elf.
From A Village Coffee Shop
A cross-eyed peddler at the corner,
one eye for the cops
and one for the customers,
wound up his little metal men
who wound up in a coffee shop.
Pronouncements followed.
THINGS ARE BAD ENOUGH proclaimed the first
YOU WANT TO MAKE THEM WORSE affirmed the second
GO GET YOURSELF A POLAR BEAR exclaimed a third
I CAN PROVE YOU DON’T EXIST decided a fourth, delightedly
whereupon they came full stop
and had to be wound up again.
Upon their return
they issued a joint communiqué:
THE SKY IS NOT ABOUT TO FALL
whereupon it did
and they were out again.
All that remained was this terse note,
cut in the tabletop –
I told you so –
cut, no doubt, with all the zeal
little metal men can feel
clearly in a bind
with no one left to wind.
In No Sense Innocent
From out of the dark
through crimson mist
and the iron design
of the silhouetted banister
comes the derelict
in apocalyptic cockney:
“THA OUNLY SIN IS IGNORANCE.
Now I ‘aven’t been ta no
wot ya mite call university
but I maybe noouw a thing a tow
an’ wot I size is this;
“THA OUNLY SIN IS IGNORANCE.
an’ ignorance is bliss
an’ ‘ere’s a bloke wot’s ‘appy
oo’d ask wot none ‘ud miss,
a dime ta kipe ‘im as ‘e is.
Dylan Thomas Remembered
I have to the paneled seaman’s bar
where seamen never come no more
to reckon where it is they are
coming about with pints on shore,
where once a voice reigned in the raging room
down the crowded hour’s throat
with such a belling out of sail, of boom
swung round to shake the bone-bound note
till bells in tepid towers tolled
willing waves to catch the prize,
wind-worn work they handless hold,
the tear-topped bird wild skies
where now lowered lights curl
neon like a moon gone blue
upon the gathering about a girl
when a ruddy gent brave as brew
at twenty passed finally filled in
up to the silence next to her and said,
“I’d introduce you to Dylan
but he’s dead.”
So Much for That
Upon hearing that great gray lady,
to whose stories they would stray,
life lifted lightly as a draft
to which the three would toasting laugh,
had had her first love turned out daft,
before she met her better half.
“Drowned altogether, in my cups
when, saints be praised, Johnny turns up.
Now he’s gone too, God rest his soul.”
His companion, expecting something droll,
youthfully world-wearied, sighs,
“The usual thing,” and rubs her eyes.
Mutually Alone
Intervals of streetlight chafe
the sidewalk where he walks
bent in thought about just why
flecks of mica sparkle there
beneath his feet like stars
that rise about him into space
as the dark wet space recedes
where snowflakes hurry down
to disappear into the pavement
of the night on which he floats
tightrope-like upon the cracks
when into the silence rowdy crowds
flow down stairways to disperse
like phantoms in a void
with nothing else to contemplate.
Identified
Pillowed by the curb, a man,
red in slashes down his chest.
A handcart, unattended,
pile with carefully selected refuse,
unmolested,
sporting sprigs
of gladiolas, red,
what, from a distance,
looked like blood.
Louie’s
Close overhead stalactite dust
feeds upon the atmosphere
in a plaster catacomb.
Memories associate
with the issue of beer-soaked floors,
the not quite disinfected air
stale as a sleeper’s breath.
The dull cave shines in the glass
of the bottle-bright wall,
the gleaming liquids all distilled
to melt the climate of the mind
or brace ironically convivial
postures at the bar,
faces bruised by pink and lingering smoke.
Against the wooden pillars,
figures, leaning, spill
as if hung there by their coats
nursing a beer in hopes
someone will appear.
to shape their emptiness.
Tunes too smooth bring times to mind,
imperfect pleasures passing
into yet to be remembered
elbows on a checkered cloth,
futures pictured in
arrangements, blue
like a kind of happiness.
The Kettle of Fish
The mist floats by
a solitary light.
Inside fish-eyed figures
swim,
wanting wine for want
of what.
They rise in pride,
on feet/ resolved/ then
diminuendo,
end of the reel,
the self
caught in a wince
upon the silver-surfaced wall.
Something always
tangles us
in quiet violence
upon the looked-for hook.
To One Who Traffics in Sorrow
Moondog, howling in the graveyard,
had he such a sorrow
he would be more proud
before the murderous moon.
Reprieve
In the thousandth car
a girl peeps out
to smile
from behind her clown doll.
Just A Thought
What if beauty were a bird
fleeing his possessive hand
to leave him at a loss transformed
as if he were the bird
and beauty then the hand?
The Scream
The city sounded silent.
The window imposed his room upon the night,
smoke slowly curling through the cone of light
to tangle space in swirling blue-gray shapes
like the interior of marble when
somewhere silence twisted
as with a piece of steel.
They’d hear it all before
but they would send a car.
Somewhere – it seemed from there.
Perspectives down the stair –
the hall’s dull green incandescent emptiness
and down the bleached, abstracted street.
Nothing but the color killing light.
Quiet again. Screaming only in his mind.
Somewhere, if not here, the blade strikes home.
Smoke still curled in the friendly light
where a face gazed in
to find himself pale upon the pane.
Morning
We, out of the tunnel,
climb as silently
as we stand on platforms,
silently as we ride the night
past seemingly permissive stars.
Nothing but the sound of shoes
shuffling on the stair
into the blaze of day,
into the scented air
from a novelty shop
at the top of the stair.
So many, in the same direction,
climb perpetually,
climb blind to the towers
sheathed in orange dawn,
blind to the oil in rainbows
down the drain, so many blind
as I have been to them.
The Terminal
No crystal palace
but a place
so large
a man
could stand
and not feel small.
I couldn’t help
taking it in –
it’s coming down.
I caught sunlight
muffled in dust,
billowing up
the ribs picked clean
to sky. Birds
never flew
from afternoon illumined
rusty rafters,
not till after
the shutter closed.
I wasn’t there
when they took
the eagle down
but I remember it
from photographs.
Stones are not as shy.
The lens looked up
an entrance as elaborate
and high
as a temple, in silver scaffolding;
an arch through which to see
a garden
of geometry.
Ragged canvas
snapped
in the wings
of the recent
ruin. I caught
the workmen
on a beam
undoing it.
sparks struck
the set in sprays
of white-hot rain
daylight erased.
Coming up the stair
I caught the very top of it,
the iron pattern
shattered by light
bursting through
the sweep of steel.
Underneath,
a darkened segment
of the coming roof,
signed, Bethlehem.
The eye can’t fix
what it takes in.
I caught the clock,
stopping outside,
but failed in the interior.
Picture it:
that circumscribed infinity
above the rush
of a multitude, seemingly
unmindful
of this departure.
Commuters
in a certain light,
gray and powdery,
set off two men
down at the center,
a little to the right,
their helmets gleaming
less in the richer
insufficiency – two men,
the value of Caravaggio,
form,
with the column to their right,
a heavy L
the composure of paint.
Two figures
at a transit, sighting?
A tableau…
But it didn’t print.
Nothing there
but the gloss black
negative. The easy
radical
transformation
could not take place
without more light.
The scene
so nicely placed
upon the scene
is lost and the loss
is placed upon the scene
for my development.
Contrast makes for art
as we find our way
in the basement
of the onetime day.
The Garden
is under construction,
A hatbox large enough
to hold a circus in.
There’s nothing like
the architecture
of despair
to fill
unnecessary
space.
The Lionkeeper’s Pretense
They come to see the mighty in a cage,
to gape and point and then move on
through corridors of terror, safe
but for the stench.
My lion,
sad, fantastic cat, no room to rage,
more often moans to cheer the crowd.
They are satisfied that he is proud.
I cannot name the thing that made him roar —
it wasn’t spite that broke from his great throat,
nor was it anger, nothing heard before
in this hollow house where echoes float.
Emptiness captures eloquence
but cannot tame it to a use,
not this resonance the stones still quote
beyond the nerveless ribs of circumstance.
Silence. The crowd resumes in noisy relief.
Nothing left to fear or to be feared by.
A shaggy endorsement of public belief
will flesh a tooth painlessly
till meet to leave his little room and die.
We inflict our care upon his will,
not that brutal glory belongs to grief,
but to sustain our own still savage eye.
The Highclimber
wheresbruce wheresbruce wheresbruce
chanted the parakeet from the dresser
atop a dime store jewel box.
Then hopped he down
to the dusting powdered plain,
past bobbiepins and whatnot,
into the forest of bottled beauty aids.
By the window, a woman, sizably round
upon legs thin as a pair of stilts,
wiped another plate.
At the kitchen table another woman,
significantly proportioned,
filled the room
with sounds of scooping
till spoon clicked bowl
like a broken bell.
“It won’t be long now, deary,
he’ll be home before ya’ know it.”
“Imagine a man in his condition,
walking, mind you, as if as good as new.”
wheresbruce wheresbruce
“He’ll be home as whole as ever he was.”
The plate was long since dry.
Pigeons clapped the air
where thick sky reduced the sun
to a disk of red,
cloud quenched below its diameter.
“Ya’ know, Molly, ya’ never told me
how come it was he lost his leg.”
“Great one for walking he was.
Think nothing of it from Central Park to the Battery.
And dance?.”
“Must a been a crackerjack.”
“And skate ?. Graceful as ever a bird
turning in the sky.”
“Don’t mean to pry,
but how’d he lose the leg?”
“Highclimber, that’s the job he loved,
painting signs, Times Square and all.”
“A human fly, that’s what he was.”
“Most of all he liked the jobs
others wouldn’t take. The first,
I think, an eagle gold it was.
Talked all night about that day,
how like a toy the city seemed,
with people no bigger than ants,
how far away the traffic sounded,
where paint spilled on a bird
before it hit?.”
wheresbruce wheresbruce
“That where he lost his leg?”
“Another time, a few feet from the street,
when his boss jumped the scaffold without warning.
Bruce fell backwards standing up –
fractured his heel on the curb.
Infection set in.
been spreading ever since.
Twelve operations,
each time taking a little more.”
“Luckless man. Who would have thought?
Never so much as a word.
And what you must have gone through.
Twelve, you say. My heart goes out to him.
People are so careless
with other people’s lives.
Isn’t that always the way?
Why, just the other day I read
where a tank of butane gas blew up
right near a picnic ground.
You must a seen the photograph?
bodies all aflame.
Some torn limb from limb,
arms, legs and what have you.
O Lord, spare me the infant’s cry.
If life isn’t tragic, what is?”
Her neighbor’s voice trailed off
into other people’s nightmares.
The iridescent disk of sun,
antiquated by smoke,
sat like a molten plate
end up on a table of tenements.
“He must a sued ‘em good.”
“Never took a penny. That proud he is.”
“Tch, tch.”
“Doctors told him not to overdo.”
“No telling what gets into a man.”
“But there he goes, looking for a job.”
“Men are a strange lot. Must have hurt,
what with the artificial limb and all.”
“Tries to act like nothing’s wrong,
keeps it to himself and leave me out.
But he can’t keep it out of his dreams.
Mostly, he makes a soundless whistle.”
“Whistle?”
“Like a kettle when the whistle’s broke.
When he does this I know he hurts
and the knowing burns through me.”
“Seemed like such a happy man.
You never know.”
“I’m so fearful?”
“Don’t you worry Molly, he’ll be back.
Well, got to be running along.
Old man ‘ll be wanting supper.
Thanks for the eats.”
Wheresbruce wheresbruce wheresburce
Molly surveyed herself.
It seemed almost easier
for a man to lose his leg
than for a woman to lose her looks.
wheresbruce wheresbruce
How playfully she had taught the bird.
Gulls wheeled in the darkening sky.
Something in the air her mind could not secure.
She turned to the door.
“Molly, Molly, it’s Bruce.
I found him down there
leaning in the hall.”
They helped him to the bed.
Bruce turned to his wife.
“Wasn’t that some sunset though?”
whereupon he died.
The bird hopped down upon his chest and cried
wheresbruce wheresbruce wheresbruce
From the window
a solitary gull
flashed with light,
then climbing,
swerved from sight
I Should Live So Long
If I could live
to write my own obituary
I would fix the Fates.
Why let them cut me out?
There’s always an alternative
mythical hags can’t calculate.
Let them diagnose my home
or trace it to my chromosomes,
I’ll stumble on
a way to free myself
from their archaic symmetry.
Should I succeed,
they’ll call themselves
historians
and come up with a remedy
to find me at the new design,
the place they meant my effort to define.
And so at last
I am part of their embroidery,
the struggle of the unicorn
in ancient tapestry,
dancing to the ritual of the past.
Bip and the Butterflies
after Marcel Marceau
I.
There and there and here
upon my nose and here
fluttering in my hand
as if my hand were fluttering
like a tiny fan.
Then flip so fitfully
as if,
out of a paper house,
you knew the way to die
all of a sudden
like a leaf
settled there.
There’s another one.
Don’t worry, little friend,
I’ll set you on a breeze
and watch you sail
way out in sunlight
like a flower without a stem.
II.
Footlights were the sun
when Harlequin portrayed
that hapless happy one
who strayed
after what his eye
brought to mind,
a butterfly
his hand
at first
would hold
till death dispersed
the joy his art controlled.
Nodding described the flight.
Twice the puppet,
strung by his delight,
wings he would not cup, yet
on the way to lips
with such a breathless care
the sun could not eclipse
and leave, less hurt, the air.
with a wave of his hand
he set the fragile free,
the loss with which he planned
to leave the company.
More Like
Alone upon a stage
bare as this page
was, a man stands
more like a statue
than the statues
pigeons verify, more like
the articulated stillness
than a stone,
yet with an eye alive
to the vendor
tied to a sky
of blue balloons,
more like the vendor
bending to a boy,
his sun up on a string
to run with, red and round:
the foot, weightless, walks
into another, young
at twenty, kicking leaves
and looking at his wrist
as if his dreams passed there,
more like the arrived surprise,
the chatter past
an attendant
sweeping after trees,
the wrinkled reach
of leaves blown past
two old ladies knitting
on a bench, tongues
busier than hands
and hands than minds:
an act abstract as words
peopling the page,
more like a fountain
tossing broken water back
in fragments to the sun.
they fall into the pool again
beneath a man upon a stage,
alone.
The Calliope and the Siren
We, beneath a willow,
in the shade of melancholy,
listen to the turning of a tune
upon an old calliope
to make the horses rise and fall
according to the carousel.
Exhilarated
children whip enamel stallions,
sure they set their plaster horse to prance
round orange blazing foggy suns
with nostrils fierce and foamless bit –
their laughter is what masters it.
Like atoms dancing
out of place to break up nature,
tuneless spheres cut in where sirens sting
with scenes into which all worlds blur.
Carnivals of neon fire clouds
above the banshee in the crowd.
Little ones dismount,
climbing up in time to pleasure
giddily in varied chariots.
Behind our power we’re secure,
invested in amusement’s tent
long after childhood’s gift is spent.
The Destruction of the Lilies
The great round leaf
on the water
is paint.
That zinc white flowering’s
a water lily
where clouds in copies
float.
Water distorts the stem
to its disappearance
in actual fact.
The now we know
holds the above beyond
and the dream below
our knowing.
The surface of an eye
is eyed
in the excitement of paint
and hazardous technique
lovely in itself
and the mind’s content.
Alone and closed
fumes of oil ignite
atoms of the water
lilies’ burst.
The air distribute ashes
seeding
ashes.
Fire’s merely
the flowering
of death.
These words also
are combustible,
but not their saying,
the sifted sense
in molecular spread
light years to stars
unhindered by ears
from an eliminated
world.
Footings
Out to visit a friend in a loft,
lost in thought
or maybe you coughed
taking your eyes from the street
only to find
what had slipped your mind,
the print of something soft.
Then, turning up defeat
on one foot,
looking at the sole
to examine what was put
there out of our control –
the humble product of a mutt –
deposit great, of a Dane;
a case that’s open and shut,
the sense of which is plane.
No matter where you invest,
no matter how well you’ve dined,
a destiny manifest,
however liberally inclined,
makes graffiti as we meet
the spontaneity of the feat.
With No Part
For Elizabeth Culbert
in the tower we say of ourselves
from which so many view
fellows on their shelves,
something she saw through
confined in her career,
the fiercely quiet privacy
of her accommodation here
where all that she could see
were the leaves that grounded her,
the window’s sweet ambivalence
of words to carefully prefer,
making perfect sense,
close to the argument within
the fascination that she found
more than anything that she might win
for some astounding sound,
comfortable in her wonderment,
yet never resting so secure
in the confidence she spent
as to find herself for sure
in an attitude of stone
clothed in those deposits
pigeons come to briefly own
to which celebrity submits.
Not for all the world
of time’s rapacious theft
would she begrudge the joy that’s curled
in the memories she left,
obstinate as paradise
she’d willingly forfeit
without the room to be precise,
completed now as she is there to question it.
Ode to an Odor
Ah, romantic aroma
of a corona corona:
you ought
to be bottled and bought
so much per fume;
instead you loom
in front of insensitive noses
like those unfortunate roses of success
hanging limply from a mess
of wire twisted into
a horseshoe.
You float up from glowing
tobacco, never knowing the truth
of that flame
from which you came,
for in a flick of time’s lashes
you’re almost all ashes
and, in the end,
if you ask my friend,
that matchless old chap, King Tut,
you will be but a butt.
The Going Thing
I’ve never
been able
to figure
it out
and I
prefer
to sing.
But that’s
the way
it goes,
one foot
follows
the other.
They’re wearing
thin,
but that’s
the thing
and this
the end
of it.
My foot.
Vengeance Comes About
Melville’s Great White Whale
was something of a sport,
out upon a spree,
bringing up the sea
in a fountain-like spout.
And yet did Ahab sail,
one leg a trifle short,
timbers, crew and harpoon,
hot after his high noon
to face that monstrous snout.
Nor would a pint of ale
mellow him in port.
He’d break those wicked teeth
from fathoms underneath
that brought his own blood out.
For this blatant betrayal,
as of the cosmic sort,
he’d kill the evil prey
he’d lost a leg to slay
with never so much as a doubt.
Looking Out
In the scarf and purple swirl
of the banished sun, a frail.
despair’s quizzical charms fail
watching water pool and rush
cargos of assorted trash
fragile as a globe of dreams
suspended over cosmic streams
hopes that still will not relent
though the light within’s been spent,
shattered like an ornament
of ice from some once polar height
melting there, a lost delight
at windows of an empty sight,
where in the street the slant of rain
needles flowing neon stains –
inundation once again.
Offering
God said, “Offer it unto Me.”
But they kept it.
It was their belief.
After Reading Dostoevsky’s “Notes from Underground”
He, proud that he has the guts to endure
the hard music of his own despair
must have the nerve to dance no less
to the wildest fiddle of happiness
Talk
What’s with this talk of death?
No one’s seen him if he has a face
nor been there if a place.
Like a waste of breath.
Yet it can hold the eyes awake.
In time what we most trust
may be measured against our dust.
These words are what the silence breaks.
Free Thought
At the margin of the mind
shells of anything
we’ve come to understand
slip beneath the sea
from an expanse of sand,
waves curl
spontaneously planned.
Egyptian Eyes
They lose the day in expectation of the night,
and night n fear of the dawn.
Seneca, “On the Shortness of Life”
So little time
to build a worthy tomb.
Days drop light
like onion skins,
translucent scales
the wind will spin.
A dancer’s veil conceals
the stuff a leper peals.
I populate the sand
with all the souls I can command.
I have been told
mutterings,
complaints of old,
meaningless things.
Disconsolate priests.
Beatitude
of sacred beasts.
Ministers digress, grow dry,
neglect my enterprise.
Gratitude
upsets their feast.
They grow, with the dropped sun, cold,
wrinkled with a concern
for the flow of gold.
They troop in twos and threes
come to me on bended knees –
the mentioning of treasuries.
Warriors scratch dispatches
brandishing the past,
drift uneasily in the East,
fearing too much peace.
Always northern hordes at last,
the dwindling
of our estate.
Wife wearied
sweet tangles
fall, worried away
to the blue air,
solitude
of my release.
Let them go to the gods for help.
I dwell upon the door of hope
painted just below the eyes,
threshold of the soul’s surprise,
through which I am to pass at will –
such is my physician’s skill.
After public lamentation,
after the dancing,
feasts and chants,
I will be borne in state
down the silver-tithed Nile
in a golden boat
with a linen sail
and when at last my bark is set
forever in my monument,
after the requisite obsequy,
when as I am I am no more,
pillowed in my fragrant room,
in the secrecy of air
surrounded by no sound,
I shall restore
all that I have known
from the turquoise of my chair.
Squinting intellect may solve
the puzzle of my tomb,
scattering bits of bone
like so many stars?
Yet the sun survives
the fractured fact of night.
Certainly some future noon
will hold these stones
in a perpetual amplitude of light.
The material of the mind
comes, at last, through the eyes.
It is of little consequence.
But if my heart
coming forth by day,
should testify against me,
dropping opposite that feather,
the clerk of the scale
watching it slip
to the crouched mouth,
waiting,
there to be cracked
like a beetle
between those teeth,
this voice
choking with it
in the throat?
Am I not son of the sun,
lord o the twofold crown,
giver of laws, the mighty one,
beloved of the people
and a breaker of skulls?
They are free
to curse the stones
they haul for me
till they drop the ropes
and hurry down the ramps,
over the pockmarked, bone-stuffed hills
an eternal wind rolls.
The sun, for them,, comes up again,
with a simple fingering.
It is more difficult,
in this jarred heart,
to carry up the dream.
Death is easy as the need
for sleep, blanket and bowl
in those accustomed to the hum
of flies about their ears
and not this pestilence of time
eating up the years.
Mine is the windowless house of light.
Let cities settle in their dust.
I will be prosperous.
The Call to Colors
Stand, clear
eyes, right
step, light
patriots
in review.
It must be grand
to march in time
with other men
who march in time
to heart, high,
fearlessly
in sympathy
with other men
who march in time
to God-gratified
authority –
and grand to feel
yourself so much
at liberty.
Finger touch
fire falls
Grand to walk
with a fate so free
and so pronounced.
Sinews taut,
the glittering sword
a sliver of sun,
comes down
to split the opposing
one.
Ancient combatants,
untroubled by blood,
settled their difference
with a simple skill.
Possibly honor
found an arm
when no benign cosmology
inhibited the hero
sweating out
what we assume
to have been a sport.
Games change.
The atom multiplies
the horse. The trick
is easily turned.
Alternatives
narrow down
to the suicide
of the mind.
Fear sights fear
in the camouflage
and fingers trigger fear
like so many atoms
at the critical mass
confused in their release.
Some were angry
at the Greeks.
In time they started Rome
and lasted longer.
Is power absolute?
Not an unhappy man
but one who could not stand
in the silence of his mind
the cathedral
emptied of its ritual
and sounding about his ears
like a whirlwind.
He cradled the child awhile
then set her down nearby
and spoke in a tongue of flame
near the Pentagon
where they had no doubt.
Other people’s pain
can turn so easily
into a kind of play.
There’s beauty
in the accurate
trajectory. Death
conscripts the mind
with its mysterious
precision.
And we come upon people
exchanging whatever
people exchange
in a village street,
we fall from the blue
ahead of sound
in a silver fuselage
upon children pointing out
metallic birds
that stripe the sky with clouds.
The mother smiles, perhaps,
at their little wonder why
and takes their hands
in confidence, perhaps.
Fingers touch
fire falls
The pilot wondered why
they didn’t run.
And a well-placed voice explains
the resilience of the orient:
Human attrition means nothing
to such people looking forward
to their pick of all
the golden little dancing girls
in Paradise. Bomb them back
to the stone age.
Who belongs to the wrong god?
Every power possesses one such
Neanderthal of oil and steel.
But nations sink
when they see their interest
through a narrow glass.
Drain the sea to save the ship.
The word is dissociated
from the act, delivering
a necessarily dissonant,
if regrettable
counterpoint.
Power sophisticates.
Since The Prince
this distance
passes for intelligence
or something comparable
to common sense
or at the worst, reality.
Prop the inclining domino
with prevention’s
ever heavier ounce;
contain the regimented
alien economy.
We are no longer a simple people.
Out of the woods at night they came
talking of land and school and rice
.
I died tied to my gun.
The future, wearily dressed
in every fashionable
inevitability
may retaliate.
We arrive
at interests
by way of wanting
what? We have no business here
but death.
Who said, Forgive them
for they know not what they do,
also commanded
the secular authority
be obeyed.
No one comes up
with an order larger
than the one that went before
who doesn’t trade
in antiquated rivalry,
the passion pasted on a wall.
The object of loyalty remains
unrevised, including nothing
like the world.
Words wear out
meaning
I am free
to say
ignored
or not
which is more
than some
forgiving much
not all.
Justice
is approximate
the untheatrical offering
while stones
in motion
have priority
and these
few thousand years
for precedence.
The bull
lunges
at the dancing cape.
Targets
manipulate the force.
Who are we
to intervene
with placards pushing peace?
History
if left alone
will grind out
the equivalent ideal.
Yet what is history
if not the pushing
of men by men?
Wars have always been
You mean you trust Athenians?
Murder is routine
It is trying
The Senator assumes
to kill
our boys die
a man you don’t know
if not happily
well enough
at least proud.
to hate.
The question is
We have nothing to fear
who will raise
but the narrow glass.
The net worth of
our position, as of
the world.
And so we’ll try
The dialectic
a reasonable
that saves you
incentive
may not be your own.
Everyone’s
What would I do
inflammable,
if I were called
only the meaning
upon to kill?
. remains.
Where would we be
Without armies
and where would
armies be
if every Tom
Dick and …
America, America
but what
God shed his grace
about the world?
to crown
Where’s the majesty?
Thy good
the power
with brotherhood
and the glory?
From sea to shining
For I would
according to Thy will
be proud
world without end
Amen.
Double Negative
Ostensibly against the war,
the bald and bearded,
tidy and unkempt
prophets file before the mind:
reflecting on
the presidential genitals;
or diseases, unperceived,
listed for the syllables;
or images, obscurely relevant,
the way we feel
before the explicit kills;
or beard and gay beret
duet to organ and bells,
effete Dionysians
wiggle to the East;
queer muses spew
profound obscenities
without release, their punch lines cheer
inverted Puritans,
fingers snapping to the beat,
the big beat;
and one among them wonders
if anyone’s at the wheel;
a said-to-be-poet
hip with hate,
tough at the microphone,
choked up, shouts out
a two-bit curse,
the dull purpose of a bullet breaks
as if the bombs all fell on him,
the world, his weight;
some dragged Whitman in,
pieces of free form,
sprawled out harangues,
ironical blasphemies
recited like a creed;
one among them wonders
if anyone’s at the wheel;
and a crew cut, bespectacled elder,
at the lecture, always asking,
“Any water?” and the chorus,
“Water, but no cups,”
this dry senior, called for,
late, confides
adultery’s mechanical,
nerveless as the grass
spilled cocktails kill.
Many went down with a joke.
Laughs pass for truth.
At last, the psychedelic,
shaggy bearded eminence
caught his crowd
with a vision of himself
disappearing in a neon wilderness.
He left in a poof,
left the turned up faces
fumbling for their coats,
while on the stage
parties parted,
names exchanged,
connections made,
careers advanced,
careers maintained.
Through the gallery
of modern art,
that clown in a gay beret,
hair halfway to his sandaled heel,
the parodied hermaphrodite,
shoulders his portable organ
like the coffin of a child.
We grow accustomed
to the photograph
of suffering, the faces.
twisted in an ache
that laughs like an ancient mask,
accustomed to the liturgy
of our mistakes,
the children crippled
in our name, accustomed
to the screech
of wheels on steel
splitting the ear.
No one sees the frantic dance
in the light of the hurtling car.
Severed bodies do not jar
commuters open to the sports
or comic page. Idle eyes
scan details of a rape.
The sergeant conscience
cannot raise his voice
above the noise of news.
Such is the weight of the wheels.
Nothing worse than images
burst upon the mind.
Sunset
Where else in the jar
of this bent light,
an emptiness
comprehensible
as love,
can we see the world edge
except against our star,
night tilting up
like a stone
carved in the yard
of our altered world
while we
move
imperfectly
aware
Finally
No end
to ending.
The last line
draws the next.
There’s always
one more
reference.
Only the pencil
stops.
At the End of the Day
A Question of Survival
Here, where pigeons war with wing and beak,
precariously in air, to snatch a share of ledge,
roosts in the adjacent vacant place refused,
preferring, instead, their fearful fuss, the sun sets.
What is it that we want,
of which we do not have enough,
that we, like pigeons, in a feathered fury,
aggravate the air? Worth such trust as Midas had,
who failed to feel the way his wish would work,
we, with engines harvest the whole of hills
for coal, transmuting forests into gold,
as streams – ingenious, babble, digressing
in the shade of their necessary grace,
in the dance down, flowered flowing home
of so many creatures, large and small —
shrivel in the treeless heat of greens,
roots exposed as banks erode,
closing in on trickles of liquidity,
dry as numbers, cursing thirst for the cost of it,
the drastic alchemy of sinks that spill
over roads paving our escape,
exhausted, from the gilding of a world, wounded,
as if no more than microbes on a globe, tripping
on the trap of gas whipping weather with its warmth
into expressions of a devastating energy;
even as we, in our ignorant ability,
reconfigure seeds, trying our hand at what brought us about,
sowing what our clever minds can never mend,
beyond bureaucratic powers to recall or arm of law
or bother with what weeds children down the road will hoe,
even as we, in unworried ways,
treat the fruitful and abundant soil
to toxins we concoct
in sterile closets of corporate thought.
We have become a virulence upon the land
that was once ours to love,
consuming the earth that nurtured us.
We need no enemy to ravage us,
no gift at the gate of a horse
no pall of a sky-thrown stone,
equestrians of the apocalypse,
nor stumble in the millennium,
no, nor God to strike us down
from some mysterious proximity
before the golden calf of our ingratitude,
nor other Armageddon than we bring,
day by day, upon ourselves,
pawning what we hardly can redeem
under a trinity of burnished spheres,
the spent spin within, without and beyond,
seemingly preeminent,
at the mercy only of those dreams
in which we busily materialize,
confusing abundance merely of things
with approval of a deity, lately lighting lawns,
manifest as fat, cut out for laughs, a bag on his back,
to worship what we weakly want,
wrapped up in our packages, saying,
“There, but for the wickedness of others,
we might have saved the day.”
What have we in mind
more than pigeons on a ledge,
that we, with wild wings, waste the world,
the very gift upon which we have come to thrive?
When, at the edge of night, will we be fit to survive?
FRAGMENTS OF A CONTINUITY
The Room
A Nickel’s Worth of News
One Sunny Halloween
Monologue
Curbed
Enterprise
A Consignment of Pan’s Pipes
Vision’s Widow
From A Village Coffee Shop
In No Sense Innocent
Dylan Thomas Remembered
So Much for That
Mutually Alone
Identified
Louie’s
The Kettle of Fish
To One Who Traffics in Sorrow
Reprieve
Just A Thought
The Scream
Morning
The Terminal
The Lionkeeper’s Pretense
The Highclimber
I Should Live So Long
Bip and the Butterflies
More Like
The Calliope and the Siren
The Destruction of the Lilies
Footings
With No Part
Ode to an Odor
The Going Thing
Vengeance Comes About
Looking Out
Offering
After Reading Dostoevsky’s
Talk
Free Thought
Egyptian Eyes
The Call to Colors
Double Negative
Sunset
Finally
At the End of the Day
© David Ferguson, 2013





Bio fornecida pelo palestrante.

Biography




David Windsor Stuart Ferguson was born in San Francisco, California, on 1st March 1934. He is a poet, a playwright, a composer and an environmental activist. He was the editor of Box749, a literary and music magazine issued in New York from 1972 to 1982.

His play and The Widow’s House was performed by the Hamm and Cloves Company on off-Broadway in 1974 and a review in The Village Voice said that it was “like a Chinese print come to life.”

The Mind Conscripted, a selection of poems by David Ferguson, a Selection of Poems by David Ferguson, was published in New York by the Printable Society in 1994 (ISBN 0-937035-12-2).

In 1967 an anti-Vietnam war poem titled “Norman Morrison” appeared in the anthology Where is Vietnam? (New York, Doubleday), and the New York Times Book Review stressed the quality existing in particularly three of the authors: Robert Lowell, James Dickey, and David Ferguson.

As a composer, David Ferguson wrote a string quartet that was used by the Harkness Ballet for a pas-de-deux in the mid-1980s. It was favorably reviewed in the New York Times.

He also works to protect the watersheds of New York City as the vice-president of Community Watersheds Clean Water Coallition Inc. (CWCWC) and has also fought for affordable housing in this city.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Terras proibidas: Luiza Lobo – Giovanni Ricciardi




 

GIOVANNI RICCIARDI

 
Amém, amém! Fazia tempo que não acabava a leitura de um romance de muitas páginas – quase 500 – com alegria e satisfação e tendo lido tudo, tintim por tintim, página após página. Acompanhou-me ao longo de quase um mês, um tempo enorme para um leitor profissional, como penso merece ser chamado esse professor aposentado que continua mexendo e deleitando-se com livros. Isso me acontece quando gosto de um livro e fico saboreando-o aos poucos, sem pressa, bem sentadinho, tranquilo, despreocupado, como aquele leitor de que falava Ítalo Calvino in Se una notte d’invernoun viaggiatore.
Trata-se do romance de Luiza Lobo, Terras proibidas, publicado pela Rocco no ano de 2011, que traz como subtítulo A saga do café no Vale do Paraíba do Sul, uma estória local, portanto, limitada geograficamente à ex-província do Rio de Janeiro e temporalmente ao período 1840-1884, o período de maior surto da cultivação do café naquela região, que porém assume um valor exemplar, quase a demonstração daquele célebre ditado da Imitação de Cristo: Sic transit gloria mundi,  assim passa a gloria do mundo, assim acontece com a história dos homens. Também a autora – que é uma professora e portanto uma pessoa que sabe refletir e tirar consequências – escreve:
 
…não era só a Cachoeira Grande que caía; era tudo o Vale. O abandono e pauperização das terras, primeiro prósperas com a árvore do anil, depois com o café, em seguida ocupadas por gado e suínos e finalmente dedicadas ao turismo, nos fazem pensar no nascimento, decadência e morte das civilizações (p. 482).
 
Tudo acontece em Vassouras, o umbigo do mundo ao longo de todo o romance, que de simples lugarejo torna-se antes vila (1833), depois cabeça de comarca (1837) e, finalmente, cidade  (1857) e tudo acontece em torno de poucas famílias, entrelaçadaspara, como de costume, não desperdiçar o patrimônio: os Teixeira, os Ferreira  Leite, os Leite Ribeiro, os Furquim e os Almeida: comerciantes, banqueiros, mas também plantadores de café, fazendeiros, políticos, maçons, mecenas, idealistas num tempo áspero e turbulento, sobretudo pelo problema da escravidão, visionários encanecidostambém  em querer construir uma ferrovia que ligasse Vassouras ao Rio de Janeiro para melhor e mais velozmente escoar as safras de café.
Com o fim da escravidão tudo rui: as famílias, o trem, o café, a cidade, a fazenda Cachoeira Grande, hoje habilitada ao turismo cultural, onde, vejam só, “alguns hóspedes escutam, na casa-grande, ruídos de correntes arrastadas do porão” (p. 484).
Porém, que grandeza, que esplendor, que faustos nas fazendas do Vale do Paraíba do século XIX, o maior centro cafeeiro do mundo! Patético e fiel retrato dessa grandeza é o último banquete na Cachoeira Grande que foi oferecido à Princesa Isabel, acompanhado pelo Conde d’Eu, esperando com isso “que a princesa interviesse junto aos bancos, obtendo o adiamento da cobrança das dívidas de hipotecas vencidas, problema de todos os barões e fazendeiros do Vale do Paraíba” (p. 475): louça de Sèvres cor-de-rosa, francês o cozinheiro, vindo da corte, franceses os vinhos e todo o menu. Mas nada adiantou. As hipotecas vencidas foram cobradas e tudo ruiu. Sic transit gloria mundi!
Esse é o período que Luiza Lobo pesquisa e retrata com afinco e paixão, apoiando-se em cinco páginas de atenta bibliografia específica e pormenorizada e não esquecendo os 15 volumes de História do café no Brasil de Affonso d’Escragnolle Taunay, que é também personagem da história. Nada lhe escapa: o nome histórico de uma rua ou de um lugarejo e o seu nome atual, as genealogias das grandes famílias protagonistas:
 
O sobrenome Teixeira, assim como de outros cristãos-novos, aparece registrado em documentos a partir do século XII, quando passa a se usar em Portugal e na Galícia… (p. 243).
 
A reconstrução minuciosa dos ambientes da Cachoeira Grande e o gosto pelos pormenores, como nesta descrição da hora do chá ou, como preferiam os homens, do cafezinho:
 
Na sala principal do primeiro andar havia uma enorme mesa lateral coberta de doces, enquanto mucamas serviam bolos de aipim e broas de milho, alternando-os com frutas frescas – fatias de abacaxi, laranja e carambola – e toda sorte de docinhos: de coco, goiaba, ameixa, marmelo, mamão verde, ovos e, o auge do luxo, chocolate. Sobre a mesa também repousava uma imensa bandeja de prata repleta de quadradinhos de frutas cristalizadas, a última moda de Nantes, ao lado dos cristalizados nacionais: pedaços apreciáveis de mamão, abacaxi, laranja, goiaba, araçá, romã, carambola, envoltos em açúcar cristal e postos ao sol para secar em cima dos telheiros, é verdade que sem grande preocupação com higiene (p. 70).
 
Querendo retratar uma época não podia a autora desconhecer as ideias que pairavam sobre o Brasil naqueles anos e discuti-las com as personagens, começando pelo abolicionismo, as ideias republicanas, o gobinismo, os problemas entre o Estado e a igreja.  De tudo diz, de tudo o que se passava no Vale e nas outrora “terras proibidas” naqueles anos a autora se interessa e escreve. Talvez até demais e até por demais pormenorizado.
Mas Terras proibidas, ainda que tenha uma capa  que mais leva o possível leitor a pensar em um belo ensaio de história, é um romance, porque a autora inventa o que há entre e além dos documentos, porque tem personagens e tipos, porque tem sentimentos e paixões, porque tudo, do começo ao fim, do enforcamento do escravo Manoel Congo até o último banquete em honra da princesa Isabel, é eivado de um sentimento dramático e decadente, sem falar na estrutura profundamente… romanesca. Poderia dizer, lembrando os versos iniciais da Ode marítima de Fernando Pessoa, que este romance é, como o paquete pessoano, “clássico à sua maneira”. É um bom romance, legível, gostoso, que ultrapassa a Luiza de por trás dos muros (1974), Voo livre ( 1982) e Maçã mordida (1992) e a Luiza dos muitos contos esparramados em revistas e antologias. A experimentação acabou, o solilóquio exacerbado cedeu lugar ao gosto pela escrita e pela narratividade, características que estavam em nuce, sobretudo em Voo livre, se devo reconhecer como minhas algumas notas que eu escrevia enquanto lia o livro, de onde tiro este trecho de um forte panteísmo:
Mais uma vez lhe voltava a sensação do corpo, mesmo dorido, de existir, sendo, e voltar, amando, à matéria primeira, o ser. Sob o véu de espuma do mar que cobria, fumaça inexplicável toda a praia, sentiu subir-lhe pelo corpo uma onda de reconhecimento.
Sentindo nas mão o calor da areia, percebendo, ao longe, a perder de vista, o mar, sabendo, finalmente, que já não tinha dentro de si nenhum pedaço do mundo – gozou plenamente, uma, duas vezes – pois por fim completara o eterno abraço com a essência de si-mesma (p. 68).
 
Eis, se uma temática continua também no romance é a mulher, antes, nos contos, como  reivindicação do papel da mulher, de sua liberdade e atuação nas estórias do dia a dia contemporâneo, agora, no romance, como pietas, como compaixão pelas mulheres daquelas fazendas e sobretudo da fazenda Cachoeira Grande: Maria, a primeira mulher de Francisco José Teixeira: “Sua seiva fora roubada, devastada, como a terra foratraída” (p. 133); Ambrósia, “misteriosa, calada, ensimesmada… não fosse filha do barão…não entrava na história. Ficaria morta e enterrada e lembrada apenas por uns poucos familiares que lastimariam a sua triste sina” (p.141-142);  Maria Paula, condenada a se casar com o primo Caetano, viúvo de Ambrósia, ela com 18 anos, esse com 37; Ana que também teve de se casar com o cunhado Francisco, quando Maria, sua irmã, morreu, mas continuando a sentir-se uma estranha na casa. Rematando o retrato de cada uma dessas mulheres, a autora escreve à maneira de epígrafe: “Nenhuma mulher foi feliz na Cachoeira Grande”. Salva-se apenas Eliza, neta de Francisco José, porque é uma “irregular”, pois  “é dada a bruxarias, se mete em macumba e em perigosos rituais ciganos” (p. 187). As outras, as mulheres normais são “importantes na medida em que trazem fazendas ou sesmarias de dote de casamento e que têm idade para casar e procriar. Baú recheado, prole e terras produtivas” (p. 132).
São essas as páginas dedicadas às mulheres, as mais íntimas e delicadas, as mais ternas de todo romance. Um romance histórico, portanto, bem dentro da definição que desse gênero deu-me numa entrevista, ainda não publicada, o saudoso José Saramago, que, recusando para si a designação de romance histórico, assuntava:
Eu acho que esta designação de romance histórico teve algum sentido talvez em fins do sec. XIX, por exemplo, com romances que eram reconstituições arqueológicas. Era como se cada romancista agarrasse numa máquina fotográfica e fizesse uma viagem ao passado e lá chegadofizesse umas fotografias e depois pusesse as fotografias diante de si  e escrevesse para ser fidelíssimo àquilo que tinha fotografado….
 
Luiza Lobo fez tudo isso: agarrou a sua bela e clássica máquina fotográfica, tirou fotografias de tudo o que viu e entreviu nas suas cinco páginas de bibliografia e nos 15 volumes da História do café no Brasil de Taunay, visitou os lugares, as fazendas e as terras proibidas todas, depois sentou e tudo reinventou, lindamente.
 
 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Amor




Autor: Odylo Costa Filho
Título: Amor, Solo Amor
Idiomas: port, esp
Tradutor:
Data: 29/12/2004

UN SOLO AMOR

 

Soneto do amor teimoso

Odylo Costa Filho

 
Amo-te hoje do mesmo amor teimoso
daquele dia em que te vi primeiro
e se te amei desde o primeiro instante
hei de te amar até o derradeiro.
Somam-se em mim para te amar a vida
e a morte: nem jamais eu suspeitara
que do capricho pela adolescente
viesse esta força indefinida e rara.
Amor feito resina, porque chora,
calado como as coisas, como o chão,
mas capaz de irromper – estranha lava –
numa festa de flor, só flor, mais nada,
cobrindo o tronco velho e os galhos secos
como as quaresmas que teu filho amava.
 
 
 

UN SOLO AMOR

Soneto del amor obstinado

Odylo Costa Filho

 
Amote hoy de amor tan obstinado
como en el día en que te ví primero
y si te amé desde el primer instante
he de amarte así mismo hasta el postrero.
Súmanse en mí para este amor la vida
y la muerte: jamás yo sospechara
que del capricho por la adolescente
esta fuerza naciese incierta y rara.
Amor hecho resina, porque llora,
mudo como las cosas, como el suelo,
mas capaz de irrumpir – extraña lava –
en una fiesta de flor – flor y más nada –
cubriendo el viejo tronco y ramas secas
como aquel árbol que tu hijo amaba.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Astronauta




Autor: Odylo Costa Filho
Título: O Astronauta, Astronauta
Idiomas: port, esp
Tradutor: Abelardo Sánchez León(esp)
Data: 29/12/2004

O ASTRONAUTA

Odylo Costa Filho

 
Ia um astronauta
pelo céu sozinho:
deixou seu foguete,
perdeu seu caminho.
Era tudo branco
– por dentro ou por fora –
porém não chorava,
porque homem não chora.
Pediu: – “Meu Senhor,
acabai com a Guerra,
mesmo que eu não possa
voltar para a Terra!”
Foi Deus e mandou
um anjo levar
o moço, na Páscoa,
de volta pro lar.
E exércitos de asas
vieram pelo ar
com palmas e rosas
a Guerra acabar.
____
Fonte: Costa Filho, Odylo. Os bichos no céu. Rio de Janeiro: Artenova, 1972. p. s.n.

EL ASTRONAUTA

Odylo Costa Filho

Iba un astronauta
solitario por el cielo:
dejó su cohete,
perdió su camino.
Era todo blanco
– par dentro o por fuera –
pero no lloraba,
porque los hombres no lloran
Pidió: “Mi señor
acaba con la guerra
aunque yo no pueda
retornar a la Tierra”.
Fue Dios y mandó
a un ángel llevar
en Pascuas al joven
de vuelta a su hogar.
Y ejércitos de alas
vinieron por el aire,
con palmas y rosas,
la Guerra acabar.
 
Fonte: Costa Filho, Odylo. Los Bichos en el cielo. Traducción de Abelardo Sánchez León. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1979. p. s.n.





Bio fornecida pelo palestrante.

Os Bichos




Autor: Odylo Costa Filho
Título: Os Bichos, Bichos
Idiomas: port, esp
Tradutor: Abelardo Sánchez León(esp)
Data: 29/12/2004

OS BICHOS NO CÉU

O gavião

Odylo Costa Filho

Ia um bem-te-vi
apanhando palha,
tecendo seu ninho
na mais alta galha
daquele cajueiro
detrás do capão,
e nem viu que vinha,
flechando, um gavião.
Outro bem-te-vi
passava por lá.
Juntos, quase matam
o caracará,
que, depois da surra,
foi de déu em déu
fazer penitência
para entrar no Céu

LOS BICHOS EN EL CIELO

El gavilán

Odylo Costa Filho

Iba un gorrión
recojiendo paja
para tejer su nido
en la más alta rama
de aquel manzano
detrás de la mata,
y ni vio que venía,
raudo, un gavilan.
Otro gorrión
pasaba por allá.
Juntos, casi matan
al caracará.
que, después de la zurra,
fue de puerta en puerta
a hacer penitencia
para entrar al cielo.
Costa Filho, Odylo. Los Bichos en el cielo. Traducción de Abelardo Sánchez León. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1979. p. s.n.





Bio fornecida pelo palestrante.

Serenidade





Autor: Odylo Costa Filho
Título: Serenidade
Idiomas: port, esp
Tradutor: Homero Icaza Sanchez(esp)
Data: 29/12/2004

SERENIDADE

Odylo Costa Filho

Meu coração é hoje um mar moreno
onde brincam sereias inocentes.
Peixes cegos do mar que o desnorteiam
calaram sua luz fosforecente.
Mesmo os mortos que pesam no meu sangue,
e me fazem andar torto de um lado,
ajudam-me a marchar, leve lembrança,
numa respiração transfigurada.
Afundo os pés sem vê-los nos sargaços,
com os olhos postos longe, onde nem asas
cortam silêncios pelo céu que dorme.
Vem comigo nos barcos uniarbóreos.
Espera-nos a máquina do mundo
entre o folguedo astuto das baleias.
 
_____
Fonte: Costa Filho, Odylo. Um solo amor: antologia bilíngüe. Traducción de Homero Icaza Sanchez. Buenos Aires, Centro de Estudios Brasileños, 1979. p. 16, 56.
 

SERENIDAD

 

Odylo Costa Filho

Mi corazón es hoy un mar moreno
donde juegan sirenas inocentes.
Peces ciegos del mar que lo confunden
apagaron su luz fosforescente.
Aún los muertos que pesan en mi sangre,
y el caminar me tuercen hacia un lado,
me ayudan a marchar, leve recuerdo,
marcando un respirar transfigurado.
Sin ver hundo los pies en los sargazos,
los ojos puestos lejos, donde ni alas
cortan silencios por el cielo en sueños.
Ven conmigo a los barcos de un solo árbol.
La máquina del mundo nos espera
entre un sagaz retozo de ballenas.
 

____

Fonte: Costa Filho, Odylo. Um solo amor: antologia bilíngüe. Traducción de Homero Icaza Sanchez. Buenos Aires, Centro de Estudios Brasileños, 1979. p. 17, 57.





Bio fornecida pelo palestrante.

A força do destino




Autor: Nélida Piñon
Título: A força do destino, La force du destin
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevi?ve Leibrich(fra)
Data: 29/12/2004

LA FORCE DU DESTIN

I

Nélida Piñon

La fruite avait été préparée minutieusement. Alvaro avait demandé à Leonora de n?oublier aucun des détails notés sur la fiche de blanchisserie. L?essentiel est que ton père ne s?aperçoive de rien, les nobles sont immanquablement retors et doués d?un grand pouvoir de perseuasion. Les deux amants savaient que le vieux gentilhomme s?opposait à leur union. Outre l?amour d?Alvaro, Leonora pouvait compter sur la loyauté de as servante Curra, censée l?accompagner dans as fruite. Car jamais Leonora ne pourrait se passer de ses services; chaque matin, Curra lui apportait une bassine d?eau chaude, ses ablutions traînaient interminablement.

Le sang des amants s?échauffait tellement au fil des heures – on aurait pu se servir de la vapeur brûlante qui s?en dégageait pour préparer le thé – qu?ils décidèrent de fixer le rendez-vous pour minuit. Plus tôt, ils n?auraient pas bénéficié du concours de la lune. Et si nous remettions notre fugue à demain mardi, suggéra Leonora.

Demair les problèmes seront les mêmes, sans parler du supplice de l?attente amoureuse, Alvaro s?efforçait de dissiper les doutes de Leonora. Si nous ne décampons pas d?ici, jamais nous ne pourrons être l?un à l?autre. Et si nous nous aimions ici-même, Alvaro, dans le jardin, comme de simple culs-terreux? Je t?en prie, Leonora, ne me casse pas les pieds veux-tu. Comment ferais-je de toi ma femme si nous ne quittons pas au moins les domaines de ton père. Tu ne t?imagines tout de même pas que je vais te baiser dans l?ombre redoutable de ta maison invencible.

Alvaro avait l?air si soucieux que Leonora finit par céder. Ok, Alvaro. En ce temps-là, il y a deux siècles, la seule solution pour une fille c?est de contrarier la volonté de son père en s?enfuyant avec son fiancé. Mais qu?adviendra-t-il plus tard, lorsque l?heure de la misère aura sonné?

Curra était prévoyante. A sa naissance, elle savait déjà qu?elle serait la servante de Leonora, avant même que celle-ci n?eût vu le jour. Elle en était presque arrivée à frapper à la porte du ventre de la marquise de Calatrava pour accéléres la venue de celle qui allait recevoir le prénom de Leonora sur les fonts baptismaux. Curra mourait d?envie de prendre ses fonctions, elle rêvait surtout d?asperger de parfum les mou choirs de soie.

Quand elle fut mise au courant du projet de fruite, elle réfléchit longuement à ses devoirs. Devrait-elle dérroncer Alvaro aux sbires du marquis, ou bien, de son propre chef, injecter du poison dans le postérieur de Leonora de façon à lui paralyser les jambes et l?empêcher ainsi de répondre au sifflement de son amant en faction près du portail?

Nuit après nuit, elle arpenta les couloirs du palais, délibérant, s?efforçant de deviner quel serait le meilleur destin pour Leonora. Puisque Leonora aimait Alvaro et que le marquis ne voulait pas entendre parler d?Alvaro, Curra décida que le mieux serait de suivre les amants, plutôt que d?être abandonnée dans le palais, comme un meuble rare de plus à partager entre les héritiers après la mort du marquis. Elle n?oublia pas de fourrer dans un balluchon les plus beaux joyaux de la famille. Elle passa toute une aprèsmidi à les choisir. On eût dit um diamantaire tant ses yeux calculaient rapidement la valeur de charque pierre sur le mande d?Amsterdam, pour le cas où les amants et elle échoueraient un joeir dans cette ville.

Alvaro se sentait l?âme d?un Anglais, non pas à cause de son habillement, mais en raison de son ardeur à consulter as montre de gousset, il était miniut pile.

Il dut encore attendre Leonora une bonne dumiheure. Quand elle arriva enfin, feignant d?avoir couru, énervée – elle n?avait pas trouvé la clé de son bonheur à venir – au lieu de prendre la poudre d?escampette les deux amants perdirent um temps infini à échanger des serments, Alvaro jurant je t?aime, Leonora exagérant ses craintes.

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Fonte: PIÑON, Nélida. La force du destin. Traduit du brésilien par Geneviève Leibrich. Paris: Des Femmes, 1987.

A FORÇA DO DESTINO

 

I

Nélida Piñon

A fuga foi minuciosamente planejada, Álvaro pedia que Leonora não esquecesse os detalhes apontados no rol de roupa. O importante é teu pai não descobrir; a nobreza é sempre esperta e convincente. Ambos sabiam que o velho nobre opunha-se aquela união. Leonora tinha a seu favor, além do amor de Álvaro, a lealdade da criada Curra acompanhando-a na fuga. Jamais dispensaria seus serviços, já pelas manhãs trazendo-lhe a bacia de água quente, as abluções arrastavam-se por longos minutos.

O sangue dos dois esquentava-se tanto ao passar das horas, poderiam até preparar o chá com o seu vapor, que marcaram o encontro para a meia-noite. Mais cedo, não teriam contado com o socorro da lua. E se deixarmos para amanhã. Terça-feira, disse Leonora.

Amanhã, enfrentaremos os mesmos problemas, sem contar com os males do amor, Álvaro queria cancelar-lhe as duvidas. E se não for assim, jamais nos uniremos. E se nos amássemos no jardim mesmo, Álvaro, como a doce plebe? Por favor, Leonora, não enche, sim. Como vou faze-la minha mulher, se não abandonamos ao menos as propriedades do teu pai. Não pense jamais que vou trepar sob o poder da tua casa invencível.

As dificuldades do mancebo estampavam-se no rosto, afinal Leonora deu-lhe ganho de causa. Ok, Álvaro, nestes tempos de dois séculos atrás, não pode a mulher fazer outra coisa senão contrariar a vontade paterna fugindo com o noivo. Mas, como será mais tarde, no tempo da miséria?

Curra era previdente. Nasceu sabendo que ia ser criada de Leonora, antes também que ela nascesse. Só faltou bater à porta do ventre da Marquesa de Calatrava, para acelerar o nascimento de quem, na pia batismal, haveria de ganhar o nome de Leonora. Ansiava em desempenhar suas funções, espargir especialmente perfume sobre os lenços de seda.

E, sabedora da fuga, muito meditou sobre seus deveres. Se devia denunciar Álvaro aos esbirros do marquês, ou de iniciativa própria espetar nas nádegas de Leonora veneno que, imobilizando-lhe as pernas, a impedisse de atender ao assovio do amante à porta?

Durante noites venceu os corredores do palácio tentando descobrir que destino seria melhor para Leonora. Uma vez, porém, que Leonora amava Álvaro, e não era Álvaro desejado pelo marquês, decidiu que melhor seria segui-los, antes que a deixassem no palácio, como mais um móvel raro a partilhar-se entre os herdeiros, após a morte do marquês. Cuidou em recolher numa trouxa as melhores jóias da família. Gastou uma tarde na seleção. Seus olhos pareciam de joalheiro, pois lhe diziam rapidamente o valor de cada uma delas no mercado de Amsterdã, caso fossem parar ali.

Álvaro sentiu-se inglês, não pelos trajes, mas conferindo o relógio, meia-noite em ponto. Teve que esperar Leonora meia hora ainda. E quando ela veio fingindo que corria nervosa, não havia encontrado a chave a indicar-lhe a felicidade, perderam-se por muito tempo em juras, ele pronunciava amor, ela exaltava o temor, em vez de botarem as pernas no mundo.

O que será de minha honra, Álvaro? Que honra, Leonora, casando-se comigo você recupera automaticamente a honra perdida com a fuga. É uma questão só de horas. Leonora abraçava-o aflita, não será fácil, você precisa compreender a virgindade de uma mulher, é um castelo com ponte levadiça, só se ergue com a autoridade do rei. E daí, maiôs difícil será se ficarmos aqui, os lamentos só fazem crescer as águas do rio, elas transbordam e quem há de beneficiar-se com tais exageros? Mas, Álvaro, dar o primeiro passo para deixar a donzela é sempre doloroso, é como enfiar a adaga no peito autoritário e bondoso do pai.

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FontePIÑON, Nélida. Força do destino. 3? ed, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Fundador




Autor: Nélida Piñon
Título: O Fundador, Fundador
Idiomas: port, esp
Tradutor: Ida Vitale(esp)
Data: 29/12/2004

O FUNDADOR


I


Nélida Piñon

Raramente abandonava a loja. Um esconderijo adequado após a peregrinação pelo mundo. Para dormir refugiava-se no quarto dos fundos. Vida simples, nem animal saberia escolher tão bem. Ptolomeu não tinha amigos, uma agressividade a que jamais revidou.Ainda que às vezes quisesse gritar, ensinar-lhe maneiras.
Sempre a mesma coisa. Joe aproximava-se dos balcões averiguando os livros.Ptolomeu cuidava em substituí-los à medida que se vendiam, para que Joe notasse e protestasse, ou perdesse o hábito de manuseá-los. E embora o surpreendesse o empenho de Joe pela mercadoria de sua loja, jamais indagara as razões de sua curiosidade.
– Então, os porcos continuam consumindo seu material indecente, velho?
Ptolomeu sorria. Sua apreciação pelas criaturas iniciara-se através de Joe. Uma aprendizagem difícil.
– È de primeira.
– O encontro sai esta semana.A qualquer momento viajo. O padre concordou.
– Cuidado, Joe. Eles acabam descobrindo.
– Pensa que sou covarde, nasci para ser castrado, oferecer os testículos para eles me esmagarem?A fúria de Joe recorria aos mesmos processos. Rasgava os retratos recolhidos de alguma gaveta, pedaço por pedaço, ameaçando lança-los à rua.
– Cuidado com a polícia, Joe.
– Já não agüento mais, Ptolomeu. Nem sei porque fico nesta cidade. Não tomo outras decisões. Busco uma outra terra.
– Para onde quer ir?
– Qualquer lugar serve.Onde eu me sinta homem.
– Se quiser, faço uma terra só para você.
– Piada besta, Ptolomeu.
– Joe tirou o bloco do bolso. Rabiscava devagar, às vezes o traço escorregando violento no papel. Ptolomeu afastava-se ainda que por minutos. Atendia um cliente, os pedidos que antecipadamente conhecia. Compravam depressa, alguns passando o polegar pelos dentes, como que substituíram a escova. Um gesto de gozo, ele identificava depressa. Regressando a Joe cuidadoso.
– Para quando é o encontro?
– Semana que vem, espero.Já não é sem tempo. Se não for dessa vez, eu desisto. É mais fácil encontrar o Papa Camilo.
– É que o papa não pode fazer o que ele está fazendo.
– Afinal, abandonou o túmulo, Ptolomeu.
O velho largou Joe, fixando-se no mapa antigo dependurado na parede, Joe veio atrás, agarrou-o pelo braço:
– De onde você veio, Ptolomeu? Indagando a sua origem pela primeira vez.
Ptolomeu indicou o mapa na parede, a peça mais preciosa de sua loja.
– Foi seu homônimo quem fez esse mapa? Brincou Joe precipitado.
Ptolomeu olhou-o severo, assumindo uma nova autoridade.
– Desta vez errou. Joe Smith.
– Por não ser homônimo Ptolomeu, ou porque pretendia explicar-me coisa diferente?
– Você fala demais, Joe.A quem saiu tão brigão? Ptolomeu procurou conciliar.
– Se não confessa de onde saiu esta velhice, também não lhe digo de que terra herdei minha agressividade. Empatados?
Ptolomeu trocou a loja pelo corredor dos fundos, retornando trazia cerveja. Joe serviu-se sem cerimônia.
– O melhor do negócio você destina aos outros.
– O que queria?
– Você excita estes animais em troca de uns miseráveis cents, e eles gastam o grosso do dinheiro com os intermediários.
– O mais importante você não disse. Ptolomeu ria complacente. Quase segurando Joe Smith no colo. – Não quero dinheiro. Nunca desejei.
Joe sentia o amigo entregue a um passado que jamais se esclareceu, quando realmente procurou realmente saber. – Uma vez que está no negócio, mergulhe nele por inteiro. Encarava-o como inimigo. Atingindo aquela exasperação que o próprio Joe exigia para regressar à indiferença habitual.
– É melhor não falarmos. Hoje, você está irritado.
– Sou sempre assim. Ou se esqueceu?
O velho sentou-se na cadeira de balanço, estranho objeto naquela loja. A luz sobre seu rosto, uma perspectiva de tempo assinalando marcas. Parecia ultrapassar cem anos, embora nele sobressaísse um vigor jovem, transitando em seu corpo maravilhas e graças, o rosto renovado pelos sucessivos entalhes. Não importava a Joe a velhice do amigo. A amizade tão natural. Antes, a zanga diária uninido-os. E dizia-se Ptolomeu: se eu tivesse gerado um filho naquela época seria como Joe e o teria tornado o homem mais poderoso da terra.
– Logo eu o deixarei, esforçava-se em ser natural, sem excluir amor do que dissesse.
– Vai viajar? Perguntou Joe.
A cadeira balançava. Para frente e para trás. Ele indicou o corpo, a nau das longas viagens. Escondendo a emoção. Joe reprovaria as evidências de um sentimento intolerável.
– Qualquer dia eu morro.
– Qual nada, velho. É capaz de negociar com a morte. Morrendo quando quiser. Fumou um cigarro apressado. Buscando outros interesses.
– Já fiz os tratos possíveis. Não posso mais revogar. Joe condenaria suas palavras, talvez se afastasse da loja, para regressar dias depois. Arrependia-se da explicação.
– Morrer é coisa de macho. E não se pode ser macho na sua idade. Riu para que o outro o acompanhasse. Ptolomeu seguiu o ritmo da cadeira. O pêndulo de um relógio, ou de um alfanje.
– A quem devo a imortalidade, Joe Smith? E disfarçou.
Joe desabotoou a camisa, batendo o peito em sucessivos golpes.
– O corpo está preparado. Mas, antes enfio muita bala nestes gringos.
Desde criança, Joe freqüentava sua loja, adotando idiomas que nunca identificou. Calava-se, o menino defendendo a exclusividade de uma língua que pretendia ser soberana, sempre que se aproximava.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Fundador. 2.ed., Rio de Janeiro: Editorial Labor do Brasil, 1976. p. 9, 10, 11, 12.

FUNDADOR


I


Nélida Piñon

Raramente abandonaba el negocio. Un esconderijo adecuado después de su perigrinación por el mundo. Para dormir se refugiaba en los cuartos del fondo. Una vida simple; ni un animal sabría elegir tan bien. Ptolomeo no tenía amigos, desde que llegó a la ciudad. Sólo Joe Smith lo visitaba, con una agresividad a la que nunca replicó. Aunque a veces quisiera gritarle, enseñarle buenos modos.
Siempre era igual. Joe se acercaba a los mostradores investigando los libros. Ptolomeo se preocupaba por sustituirlos a medida que se vendían, para que Joe no notase y protestase, o perdiera el hábito de manosearlos. Y aunque lo sorprendiese la obstinación de Joe por la mercadería de su comercio, nunca averiguaba las razones de su curiosidad.
–¿ Así que los cerdos siguen consumindo su material incidente, viejo?
Ptolomeo sonreía. Su estima por las criaturas se habían iniciado a través de Joe. Un díficil aprendizaje.
– Es de primera.
– El encuentro se hace esta semana. En cualquier momento salgo de viaje. El padre está de acuerdo.
– Cuidado, Joe. Ellos siempre terminan por descubrir.
–¿ Tú crees que soy cobarde, que nací para ser castrado, para ofrecer los testículos y que ellos me los aplasten?– La furia de Joe recorría los mismos procesos. Rasgaba en pedazos retratos sacados de algún cajón, amenazando tirarlos a la calle.
– Cuidado con la policía, Joe.
– No aguanto más, Ptolomeo. Ni sé porque me quedo en esta ciudad. No tomo otras decisiones. Busco otra tierra.
–¿ Adónde quieres ir?
– Cualquier lugar me sirve. Donde me sienta hombre.
– Si quieres hago una tierra sólo para ti.
– Qué animal chistoso, Ptolomeo
Joe sacó el bloc del bolsillo. Garrapateaba despacio, aunque a veces el trazo se deslizaba violento sobre el papel. Ptolomeo se alejaba por unos minutos. Atendía a un cliente, a pedidos que conocía por antecipado. Compraban de prisa, algunos mientras se pasaban el pulgar por los dientes, como sustituyendo un cepillo. Un gesto de gozo, que él identificaba de inmediato. Volvía solícito donde estaba Joe.
–¿ Para cuando es el encuentro?
– La semana que viene, espero. Ahora se hace con tiempo. Si no es esta vez desisto. Es más fácil encontrar al Papa que a Camilo.
– Porqué el Papa no puede hacer lo que él está haciendo.
– Al final abandonó el sepulcro, Ptolomeo.
El viejo dejó a Joe, fijándose en el mapa antiguo colgado de una pared. Joe lo siguió, agarrándolo por un brazo:
–¿ De dónde eres, Ptolomeo? –Indagaba su origen por primera vez.
Ptolomeo indicó el mapa de la pared, el objeto más precioso de su negocio.
–¿ Fue tu homónimo quien hizo este mapa? –bromeó Joe enseguida.
Ptolomeo lo miró severamente, asumiendo una nueva autoridad.
– Esta vez te equivocaste, Joe Smith.
–¿ Por qué no es de tu homónimo Ptolomeo, o porque querías explicarme otra cosa?
– Hablas demasiado, Joe. ¿A quién saliste tan peleador?
– Ptolomeo buscó la paz.
– Si no me confiesas de donde salió esta vejez, tampoco te digo de qué tierra heredé mi agresividad. ¿Empatados?
Ptolomeo abandonó el local por el corredor de los fondos, y volvió trayendo cerveza. Joe se sirvió sin ceremonia.
– Lo mejor de tu negocio se lo destina a los demás.
–¿ Y qué quieres?
– Excitas a estos animales a cambio de unos miserables centavos y ellos gastan la mayor parte del dinero con los intermediarios.
– No dices lo más importante –Ptolomeo reía complaciente, casi apretando a Joe Smith por el cuello–. No quiero dinero. Nunca lo deseé.
Joe presentía al amigo entregado a un pasado que nunca, cuando quiso realmente saberlo, quedo aclarado– . Una vez que estás en el negocio te zambulles en él por completo.
– Lo encaraba como un enemigo, alcanzando aquella exasperación que el mismo Joe exigía para volver a la indiferencia habitual.
– Mejor no hablar. Hoy estás irritado –argumentó Ptolomeo.
– Siempre soy así. ¿O se te olvidó?
El viejo se sentó en el sillón de hamaca, objeto extraño en aquel local. Con la luz sobre el rostro, una perspectiva de tiempo señalaba marcas. Parecía superar los cien años, aunque sobrealiese en él un vigor joven, que concitaba en su cuerpo maravillas y gracias, el rostro renovado por sucesivos tallados. A Joe no le importaba la vejez de su amigo; era una amistad natural. Las riñas diaria los acercaban. Y Ptlomeo se decía: si yo hubiese engendrado un hijo en aquella época sería como Joe y lo había convertido en el hombre más poderoso de la tierra.
– Pronto, voy a dejarte- esforzábase en ser natural, sin excluir el amor de lo que decía.
–¿ Vas a viajar? –preguntó Joe.
El sillón se hamacaba, para adelante y para atrás. Se señaló el cuerpo, la nave de sus largos viajes, escondiendo la emoción. Joe reprobaría las evidencias de un sentimiento intorelable.
– Cualquier día me muero.
– Cualquier día nada, viejo. Eres capaz de negociar con la muerte, muriéndote cuando se te dé la gana.
– Fumó apresurado un cigarrillo, buscando otro tema.
– Ya hice mis arreglos. No puedo revocarlos. –Joe condenaría sus palabras, tal vez se fuese del negocio, para no volver por muchos días. Se arrepentía de la explicación.
– Morir es cosa de machos. Y a tu edad no se puede ser machos. –Rió para que el otro lo acompañase. Ptolomeo seguía el ritmo del sillón. El péndulo de un reloj o de un alfanje.
–¿ A quién debo la inmortalidad, Joe Smith? –Y disimuló.
Joe se desprendió la camisa, golpeándose el pecho con golpes sucesivos.
– El cuerpo ya está preparado. Pero antes meterá mucha bala a estos gringos.
Desde niño, Joe frecuentaba su negocio, adoptando un idioma con el que nunca se identificó. Siempre que él se acercaba, callaba, mientras defendía la exclusividad de una lengua que pretendía ser soberana.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Fundador. Traducción de Ida Vitale.Buenos Aires: Emecé, 1973.
p. 13-6.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Tempo das Frutas




Autor: Nélida Piñon
Título: O Tempo das Frutas, Le temps des fruits
Idiomas: port, fra
Tradutor: Violante do Canto et Yves Coleman(fra)
Data: 29/12/2004

LE TEMPS DES FRUITS

FLEUR ÉPHÉMÈRE

Nélida Piñon

 

Son inconsistance était ativique– la sûre orientation du sang de ses ancêtres. Au milieu d’une lucidité de cristal, la douceur de ses pas parcourant ciel et terre, telle était sa façon d’être, ses élans désordonnés. Les admonestations de ses amis la désorientaient et elle riait aux éclats devant les pierres, qu’elle trouvait cocasses. Elle allait jusqu’à les déchiffrer, à démonter des secrets, maintenant qu’elle avait acquis depuis peu le don de la parole. Jouer à cachecache en émerveillant les hommes la divertirait. Ils devraient se mettre à sa recherche, chaque fois qu’ils la sentiraient perdue. Plaisante était l’agression qu’ils commettaient contre elle, pour qu’elle vibrât et prît conscience d’elle– même. D’une façon ou d’une autre elle recollait les morceaux casses et mettait une robe neuve, brillant à la lumière du jour.
Certains soirs, devant le miroir, elle regardait son corps jusqu’à se réjouir de son bien– être et de ses sensations. Son visage ne rougissait pas à la pensée qu’elle serait un jour émerveillée par les investigations minitueuses et exaltées de la chair. Elle éclairait ainsi une zone qu’elle avait toujours imaginée sombre et immonde. Et, dominant ce miracle, elle courait sur la plage, les sables avançaient au gré du vent.
Assise sur une pierre, elle se dit: Maintenant je peux décrypter n’importe quelle attente. Et elle eut mal au ventre, comme lorsqu’elle mangeait trop de chocolat, ou lorsque s’étaient produits les premiers changements dans son corps, l’effroi face à cette abondance de sang inattendue et aussitôt après la conscience qu’elle devenait femme. Elle devint délurée et effrontée devant ces nouvelles richesses. Se mettant à deviner les réponses, elle apprenait et respirait soulagée.
Les hommes passaient devant elle en pensant: comme c’est chouette, une fille si jeune, et toutce que je posséderai chez elle, parce qu’il y en aura bien une qui m’attendra pour que je la conduise vers de verts pâturages, et même si ce n’est pas cette fille, mais une autre, je commence déjà à en jouir, et ce sera possible tant que je vivrai.
Elle se lassa de la glacê qu’elle mangeait. Mais elle devait lutter, parce que le soleil brillait encore. Près d’elle glissaient de petites bêtes, choses nerveuses protégées par une coquille, lassant une trace brillante sur leur passage. Elles étaient si amusantes mais l’étonnaient plus qu’elles ne lui tenaient compagnie. A n’importe quel moment elle pourrait découvrir en elles un monde que son savoir rudimentaire devrait définir. Elle attrapa un colimaçon, elle avait envie d’y enfoncer sa langue. Mais, envahie par l’impudeur de la petite créature tellement prisonnière d’elle– même qu’elle s’était précipitée et perdue, échappant ainsi à l’ordre de son espèce et de son mystère, la jeune fille parvint à comprendre cette ruse. Tout en désirant enfoncer sa langue dans la petite ouverture du colimaçon, elle craignait d’aller à la recontre de cette chose molle, de briser son secret, de boulever cette chose molle, de briser son secret, de bouleverser sa fragilité, cette façon inconséquente d’écarter les jambes sans pouvoir réagir, de se laisser emporter par le flux de la vie.
Elle craignit alors que, pour elle aussi, lorsque l’heure serait venue, rien ne s’opposât jamais à son obligation de créer toutes choses, même les choses perdues sans raison d’être, dont la cause est indéfendable.
Par la suite, d’autres hommes, différents des premiers, essayèrent de se livrer à des initiatives plus hardies, assauts ayant pour but de mettre sous leur joug les femmes légères ou sérieuses qui, au printemps, se laissent protéger après avoir fait leur miel de douceurs rares.
– Je m’appelle Pedro.
Effronté, il s’assit à côte d’elle, remuant la terre, feignant l’embarras, l’attention dispersée. La jeune fille, passant d’une Pierre plus haute à une Pierre plus basse, ne dit rien. Dédaigneux, le garçon, protege par la fumée de as cigarette, cria:
– Et toi, comment tu t’appelles?
Un peu sorcière, elle retórqua:
– Une jeune fille n’a pas de nom.
Tel un cavalier serein malgré la nervosité de sa monture, détenteur de principes et d’épées incandescentes, il lui répondit:
– A partir de maintenant si tu n’as pas de nom, tu as un mâitre.
Ensuite, elle rangea sa maison et s’occupa de la végétation sauvage; elle décorait la table pour rendre hommage à la vie. Elle nettoyait délicatement les objets. Jusqu’au moment où elle tomba enceinte et embellit, en proie à la violemce de ce qui poussait en elle. En ressentant ces effets, elle n’avait pas bien compris, car elle était un peu simple, si grande était sa pudeur. Chaque jour, le jeune homme envahissait la maison, perdant peu à peu ses égards et son respect. Assis sans gêne dans le fauteuil, il s’étirait, ensuite il l’entraînait vers le lit. La jeune fille se laissait faire, miirritée, mi–subjuguée. C’était devenu une habitude: l’homme lui ôtait toute volonté et toute élan. L’orientation de sa nature se définissait mal.
Ils vécurent ainsi jusqu’au jour où l’enfant naquit. Solide et audacieux comme son perè, ils s’épanouissait sans que s’instaurât en lui une beauté qui s’altérait aussitôt après. Le jeune perè décida de disparaître, et l’on ne retrouva jamais sa trace. Ce qui troubla profondément la jeune fille. Bien qu’elle ne rêvât plus de trajectoires aussi extravagantes, elle continuait à regarder les étoiles, avec la même intensité. Elle pressentait vaguement que n’importe quelle affection la libérerait et la réconforterait, lorsqu’elle disposerait de la farine qui ennoblit l’homme, agrémentée d’un ferment délicat. Elle se consacra à de petits détails que la mémoire fait enter doucement dans l’esprit, jusqu’au moment où elle se sentit épuisée. Alors seulement elle prit un peu de repos. Pour s’unir à un nouveau compagnon, au lit et à table.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Temps des fruits. Traduit du brésilien par Violante do Canto et Yves Coleman. Paris: Des femmes, 1993. p. 37-41.

TEMPO DAS FRUTAS

BREVE FLOR

Nélida Piñon

 

A sua inconsistência era a raça. A segura orientação do sangue. No meio da lucidez de cristal, a suavidade dos seus passos percorrendo céu e terra, tal o seu arcabouço, o ímpeto desgorvenado. Perdera o rumo entre admoestações dos amigos, e gargalhava solitária entre a graça das pedras. Até decifrá-las, desmanchar segredos, agora que recente adquirira o dom das palavras. Brincar de esconder deslumbrando os homens, seria o seu gracejo. Haveriam de procurá-la sempre que a pressentissem perdida. Engraçada era a ofensa, que sobre ela cometiam, para que vibrasse, e desse acordo de si. De um jeito ou do outro, emendava os destroços e punha vestido novo, brilhando a luz do dia, a tessitura da sua matéria.
Em certas noites, bem diante do espelho, afugentava a descoberta do corpo. Olhava até desfrutar, do conforto e da sensação. Não corando o rosto por pensar que ainda viria a se deslumbrar quando dos exames minuciosos e exaltados da carne. Assim, clareava uma zona sempre imaginada escura e imunda. Dominando o milagre, corria pela praia, as areias avançavam na medida do vento, fazendo cócegas que sempre irritam, embora a inocência.
Sobre uma pedra pensou: agora posso decifrar qualquer espera. E teve dor de barriga, como quando comia chocolate em excesso, ou como quando se deu a primeira modificação de seu corpo, alterando seus fluxos sanguíneos, o susto daquela abundancia inicial perturbando-a, a compreensão de se fazer mulher. Após o entendimento, ficou esperta e atrevida diante do exagero dos recursos recebidos. Adivinhando dispensava resposta, até aprender e respirar.
Passavam os homens pensando, como é bom uma mulher tão moça, aquilo que nela ou numa outra que surgirá sem dúvida eu dominarei, porque hei de possuir quem me aguarda para se fazer conduzir aos verdes campos, e não sendo esta moça uma outra nela já desfruto, enquanto eu viver.
Tomando sorvete cansou-se. Embora a sua coragem de continuar, porque o sol ainda brilhava. A companhia dos pequenos bichinhos, coisas nervosas protegidas por uma casca, e deixando lastro, molécula que se descobre pelo brilho. Tão engraçados, e mais do que companhia ofereciam-lhe espanto, a qualquer momento descobriria um mundo imediato, surgido e acabado pela sua precária ciência, que tudo adivinha.
Apanhou um caramujo, com vontade de enfiar dentro a língua, na restrição daquela abertura, provar o sabor e graça. De repente invadida pela torpeza do pequeno animal e compreender sua artimanha, escondido lá dentro, tão preso em si mesmo que se arrebatou e foi perdido, já fugindo à ordem da sua espécie e do seu mistério. E a menina querendo por a língua temia o encontro, da língua e a coisa mole a se desfazer, até que quebrasse ela o segredo, arrebatando a fragilidade do bichinho, a secura íntima de quem inconseqüente abre as pernas, sem seleção, engolfadas no fluxo vital dos recursos estranhos.
A moça teve medo de que tendo chegado a hora, jamais se impedisse a obrigação de procriar, coisas melhores e mais sérias, ou coisas perdidas que não cedem ante a vigência da graça e do seu capricho, que é também perfeição.
Atirou longe o animal, a sua verdade, após o amadurecer necessário da sua raça inconsciente. Depois, outros homens diferentes dos primeiros, ensaiaram iniciativas mais atrevidas dispostos aos avanços que disciplinam as raças. Como se empreendessem tarefas que dominam mulheres vagas e circunspectas. Que na primavera se deixam amparar, por qualquer domínio, após armazenarem em mel a virtude os doces e paladares raros.
Pedro é meu nome, disse-lhe um, e atrevido aguardava a queda das frutas. Mexendo na terra, fingindo embaraço, atenção dispersa, sentou-se a seu lado. A moça, mudando de pedra, da mais alta para a mais baixa, nada disse. Desdenhoso o rapaz fumou um cigarro, protegido pela fumaça gritou, e o seu, como é? Feiticeira ela disse: uma moça não tem nome. Como um cavalheiro sereno com as inquietações do seu cavalo, cheio de regras e espaldas incandescentes, respondeu-lhe: de agora em diante se você não tem nome, já tem dono.
Depois, ela arrumou a casa, cuidou dos vegetais selvagens, enfeitava a mesa para consagrar a vida. Delicada com a limpeza dos objetos. Até que ficou grávida e bonita, a violência do crescimento. Mal percebera porque era simples, sentindo os seus efeitos, e tal a sua modéstia. Diariamente o rapaz ocupava a casa, perdendo cerimônia e graduação do respeito. Esfregava-se abusado pela poltrona, após o que a arrastava para a cama. A moça, ainda deslumbrando-se, deixava-se ir, entre irritada e exaltada. Tendo-se tornado um hábito, extraía-lhe o homem à vontade e o ímpeto. Mal se definiam as orientações da sua natureza.
E assim iam-se pondo até que a criança nasceu. Forte e atrevido como o pai, desabrochando contínuo sem que nele se estabelecesse uma beleza que logo a seguir não se alterasse. Resolveu o rapaz desaparecer, sem que jamais o encontrassem de novo. O que perturbou a moça profundamente. Embora passasse a dispensar trajetórias tão violentas, continuava olhando estrelas, a mesma intensidade. Precariamente intuía a liberdade de qualquer estima que haveria de confortá-la, disporia de farinha que enobrece o homem após a mistura delicada de algum fermento. Só então repousou um pouco. Para unir-se na cama e na mesa a um novo companheiro.
A princípio a estranheza, as hesitações de um outro corpo, a imposição de outros hábitos. Aquele riso amarelo e deslumbrado que sempre dominava o homem mesmo fazendo amor, como se também isto fosse parte do rito. Após o que, seus dentes foram caindo de tanto que se exibiram, e descobriu-se a moça unida a um velho que além de feio também impunha-lhe a sordidez da sua carne agora relaxada. Embora com dificuldade expressasse o nojo, a visão daquelas gengivas, mal agüentava o vômito, a penúria de um convívio intenso. Corria para o banheiro e ali desfazia-se abundante atrás da esperança, após a abolição de tantas coisas. Ainda assim era maciça a presença do homem, ocupando além de seu corpo, toda a casa, a cobiça do ouro na sua cara. Um dia pegou o filho já bem crescido e abandonou a casa. Afastando-se da cidade à medida que se transferia de tantos abrigos, a força de novas perturbações. Pois perdera as noções essenciais do convívio, e pretendendo gentileza descontrolava-se a toa, no tormento de querer bem viver.
Quando um outro homem a escolheu, como se escolhe leviano o que se dispõe em seguida a jogar fora. E ela aceitou confundida. Foi criar galinhas, sadia e matutina, cuidar das vacas, teimosa ficando as mãos nos ubres fartos, até sua vida modificar-se, como também o cheiro de sua pele. Ainda assim seguia a trajetória da estrela, e o seu falso brilho, como se a liberdade se experimentasse deste jeito, pelo seu excesso. Todas as manhãs friccionava as vacas, após o homem ter-lhe friccionado o corpo. Iludida de que repousaria quando ficassem velhos. Como isto demorava, e o filho crescia rápido e exagerado, a mulher hesitava diante da inovação daquele mundo que se desligara do seu ventre, marginal e operante. A luta parecia dura e brava.
Um dia, arrastando o filho, foram à cidade, depois de uma longa ausência. Delicados contemplavam a passagem épica dos homens. E tomaram sorvete, que ela tanto gostava, capitulando na apreciação vital de cerrar os olhos e gozar, o deslize da língua sem exigências maiores. Como se ao menino ensinasse futuros procedimentos quando se invade a área do prazer. E se o menino imitava a mãe, era porque fazia-lhe bem a intimidade daquela cara, que se tornara uma poderosa aparência e por dever descobrir uma expressão que nele também acusasse o gozo que haveria de sentir quando, mesmo descuidado, não conseguiria poupar seu corpo das necessárias exibições. Depois, forma outras coisas, sórdidas e coloridas, que alcançam fundo.

_________________

Fonte: PIÑON, Nélida. Tempo das frutas. Rio de Janeiro: José Álvaro, 1979.





Bio fornecida pelo palestrante.

Tebas do meu Coração




Autor: Nélida Pi?on
Título: Tebas do meu Coração, Tebas de mi Corazón
Idiomas: port, esp
Tradutor: Angel Crespo(esp)
Data: 29/12/2004

TEBAS DE MI CORAZÓN

Trecho

Nélida Piñon

A pesar de todo, aquel primero de julio Eucarístico empezó a tumbar los árboles prometidos a sus hijos como herencia para después de muerto. Avisada de que la familia estaba perdiendo sus más nobles galas, y a manos de Eucarístico, Magnólia salió a su encuentro. Le pedió que se tomase, por lo menos, tres días para pensarlo. No era cosa de destruir el patrimonio de toda una vida dando hachazos durante unas pocas horas. Eucarístico no lograba oír una sola palabra y Maginólia se arrodilló y se puso a rezar por los árboles mientras él los tumbaba.

La furia le duró unos días, quién sabe si devido a razones caras a su corazón, para que nada le sobreviviese. El alborozo de aquella nueva fantasía no parecía estar destinado a Santísimo, presentían los que presenciaban su actividad. Y, habiéndose encerrado Eucarístico en el taller, previamente ampliado, primero hacia el cielo y después hacia los lados izquierdo y derecho de la tierra, no se podía adivinar lo que esta vez construiría, para necesitar tanta madera y espacio al mismo tiempo. Unos meses después, al derribar las paredes del taller con el mazo, mientras Magnolia seguía protestando, hasta que no quedó un ladrillo en pie, nadie más dudó de la classe de trabajo que venía ralizando obsesivamente. Ante todos aparecía la barriga amplia y audaz de un barco, al que faltaban el timón, los remos, las velas y el mástil.
Por fin iba el Alvarado a sentir emociones que jamás le habia proporcionado la gente de Santísimo. No se contaba en la historia de aquellas aguas disputas en torno a peces espada, sirenas fulgurantes, ante cuyas escamas se alimentasen esperanzas de fabricar cajitas de madreperla, o incluso visitas que les enseñasen extravagantes maneras de hacer punto de media. Los piratas y bandeirantes, que por ventura habían llegado a Santísimo con ayuda del río, habían actuado indudablemente con discreción, casi siempre de madrugada, para que no les molestasen las corrientes, más bravías a la luz del sol. Unicamente Eulalia, por capricho o terquedad, hermoseó el río durante breves horas cuando lo escogió como túmulo. Incluso en el momento de morir, tuvieron que censurar su gusto. No dudó en adular a Asunción, pueblo de sus amores, dejándoles una sombra de miedo que se sorprendía en ciertos rostros, sobre todo en aquellas casas que no encalaban sus paredes apenas anunciado el mes de mayo.

Los botecillos que hasta allí hacían incursiones admitían la propia desdicha, les había fallado el mapa que los conducía por la tierra, o ya no disponían de la firmeza de antaño en el manejo del timón y los remos. Nadie dejó allí el corazón para que fueran a buscarlo más tarde. Iabeshad jamás los abandonó. Aunque les amenazase con la certeza de otros mundos, y dejase en la mercería de Bonifacio larvas que se reproducían bajo la forma de brújulas, relojes, candelabros, alfiler con piedra nutrida a profundidades superiores a los mil metros.

Magnolia se resentía de que su marido no volviese a casa y escogiese el barco por morada. Eucarístico no se dejaba convencer, debilitaba sus argumentos con el silencio. Hacía mucho que había afrimado por medio de gestos que el verbo, además de borrarse con tinta negra, azul, rosa, se enunciaba y ya pasaba a no existir, cualquier red lo filtraba, que no le presentasen ya el presumible rostro y su febril vaso sanguíneo.

– Por lo menos, acepta la comida, dijo Magnolia. Y trató de saber si se opondría a que ella y los hijos le llevasen empanadas los domingos, gallina asada, otras golosinas, como si hubiese verbena. Eucarístico admitiría visitas breves, apenas el tiempo de desmenuzar los asados, comerlos con avidez, y despedirse en seguida. La avidez de la visita quedaría restringida al alimento, y a una rápida inspección ocular.

Durante los domingos siguientes, se instalaban en torno al barco, pues Eucarístico les había prohibido que subiesen a él, a su juicio la embarcación no había atracado. La mujer y sus hijos se vestían con sus mejores trajes, aun arriesgándose a mancharlos de grasa. Al principio, consideraban al barco como un objeto de culto, ante el que se hacían discretas reverencias, evitando pasar cerca, aunque para ello tuviesen que rodear los árboles que habían sobrevivido. No obstante, les había bastado a los hijos una sola mirada y el primer domingo de todos los siguientes para saciarse, puesto que no volvieron a contemplarlo.

– Insensibles, dijo Hermengarda, al enterarse de las visitas.

Ansioso por terminar el barco, Eucarístico trabajaba el día entero. Por todas partes se hacían promesas de celebrar con fuegos artificiales, globos, batatas asadas, la botadura del barco en aguas del Alvarado. Un río que, según Rectus, que había desdoblado revistas polvorientas, debía su bautismo a un extranjero precisamente castellano, que exajeraba la r y la j, de ahí su altiva ascendencia. Respaldo se encargó de apuntar en el cuaderno la fecha prevfista para la terminación del trabajo. Era preciso respetar un calendario, aunque cargado de santos y otras fiestas, si pretendían en serio dar un toque de singularidad a aquel velero.

Eucarístico se negó a explicarle unos planos que dependían de la investigación y continuas reparaciones, trataba de atraer a la eternidad con el único propósito de ajustar con perfección la curva final de la proa. No comprendía que precisamente las criaturas que todavía se las habían con la carne cruda, salvajes en en consecuencia, viniesen a investigar a qué hora le diría adiós a la paisón que era toda su vida. Con un gesto en dirección al sol, le comunicó la seguridad de que antes de dar por terminada una obra que se conciliaba con vientos y aguas bravías, fatalmente se consumiría él mismo.

Respaldo se disculpó. La educación primaria no le había permitido aprender a contender con un artista, o respetar dictámenes de lo que se llamaba una obra de arte.

-¿Y no es artístico lo que trajina con el agua y el tiempo simultáneamente? En Santísimo, la cuenta de las horas no era regresiva, pero avanzaba muy poco hacia el futuro. De modo que bien podían esperar, así como las aguas del Alvarado. La envergadura de la nave le conmovía, en todo se parecía a la ballena que Rectus le había descrito después de sorprenderla en sueños.

-Si el arca del Señor jamás se terminó de construir, menos todavía el barco del hombre, dijo Eucarístico.

Próstatis reaccionó con candor. Por primera vez no le veía registrar a gritos los episodios de Santísimo. Como se le hubiesen conocido con naturaleza amena.

-Temo que le hayamos perdido para siempre, dijo no más.

Hermengarda rechazaba la divulgación de aquella verdad. Sonreía más que los demás. Procuró esconderse por los jardines, para que Filomena no sorprendiese la congoja que tendía a aumentar en su corazón, si por fin se confirmaba la versión de que Eucarístico había abandonado la tierra para siempre. Se había conformado con perderlo para Magnolia, por comprender que no se habría cumplido con ella su intenso destino manual. Eucarístico llegó a firmarle que el amor le confundía. Jamás llegaría a amarla con la voracidad que le exigía Hermengarda, y hacer al mismo tiempo de la madera el registro de su tumulto interior. Al principio, Hermengarda reaccionó, buscando un desquite. Le miraba a la cara con desprecio, le ofrecía alimentos despachurrados con el tenedor y no le ahorró palabras amargas. Cómo podría comprender divisiones de esta clase, que para el cumplimiento de una vocación debiese abstenerse Eucarístico de la actividad amorosa. La invitación que él le hizo fue delicada, en su compañia visitaría el centro de la tierra. Señalando al más venerado árbol de Santísimo, pasó los brazos en torno a la cintura nudosa, parecía gozar con los ojos cerrados. Hermengarda se negaba a creer lo que estaba viendo.

-¿Acaso sentiría lo mismo contigo? dijo él.

A pesar del dolor, Hermengarda le acompañó a la iglesia para que se uniese a la otra. Magnolia le aceptó sabiendo que Hermengarda le perseguiría toda la vida. Sin necesidad de estar cerca, para que se prolongase la sombra que había sobre él, antes de la boda, como sopa ardiente, y cuyas quemaduras habían quedado en la piel. Incluso cocinando para Ofelia, el trabajo diario de engordar a la sobrina, Hermengarda se sentía con derecho a amarle.

-En cuanto sea maestro y se consagre a la madera, le sabré mío para siempre.

Cuando, en los primeros díasl, le habían comunicado el nacimiento de otro hijo de Eucarístico y Magnolia, una soberana incredulidad le afloró al rostro. Jamás aceptó una verdad tan absurda, aunque viese a distancia dilatarse la barriga de Magnolia, y a los hijos crecer. La única amenaza al amor, a su grata memoria, era que Eucarístico se apegase al barco y se abstuviese de otra madera en que trabajar con igual fervor. Le trepidaba el corazón, no se le secaban las lágrimas. Al contrario que Filomena, Hermengarda era menos tibia, menos magra, mucho más alta.

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Fonte: Piñon, Nélida. Tebas de mi corazón. Traducción de Angel Crespo. Alfaguara, 1978. p. 13-18.

TEBAS DO MEU CORAÇÃO

Trecho

Nélida Piñon

Naquele primeiro de julho, porém, Eucarístico começou a abater as árvores prometidas aos filhos como herança, logo que morresse. Avisada de que a família perdia as pompas mais nobres, e pelas mãos de Eucarístico, Magnólia foi ao seu encontro. Pediu que se desse ao menos três dias para pensar. Não se destruía o patrimônio de uma vida inteira em poucas horas de machado. Eucarístico não conseguia ouvir uma única palavra e Magnólia ajoelhou-se rezando pelas árvores enquanto ele as abatia.

Durante dias sua fúria prosseguiu, atingindo quem sabe razões caras ao coração, para nada sobreviver a ele. O alvoroço daquela nova fantasia não parecia destinar-se a Santíssimo, pressentiam os que lhe acompanhavam o ato. E trancando-se Eucarístico na oficina, previamente ampliada, primeiro em direção ao céu, depois em direção ao lado esquerdo e direito da terra, não se podia adivinhar o que desta vez construiria, para precisar de tanta madeira e espaço ao mesmo tempo. Meses depois, ao derrubar as paredes da oficina com a maceta, sob os protestos ainda de Magnólia, até não sobrar um tijolo de pé, ninguém mais duvidou da espécie de trabalho que vinha executando com obsessão. Diante de todos expunha-se o bojo amplo e atrevido de um barco, a que faltavam leme, remos, as velas e o mastro.
Finalmente iria o Alvarado conhecer emoções que a gente de Santíssimo jamais lhe regalou. Não se contavam na história daquelas águas disputas em torno de peixes-espada, sereias cintilantes, de cujas escamas se alimentassem esperanças de construir caixinhas de madrepérola, ou mesmo visitas que lhes ensinassem excêntricas modalidades de se fazer crochê. Os piratas e bandeirantes, que porventura alcançaram Santíssimo com o concurso do rio, agiram sem dúvida com descrição, quase sempre de madrugada, de modo a não os molestarem as correntes, mais bravias à luz do dia. Unicamente Eulália, por capricho ou teimosia, enfeitiçou o rio por breves horas, quando o escolheu como túmulo. Mesmo no momento da morte, houve que lhe censurar o gosto. Não hesitou em cortejar Assunção, cidade do seu amor, deixando-lhes sombra de medo que se surpreendia em certos rostos, sobretudo naquelas casas que não caiavam suas paredes, logo anunciado o mês de maio.

Os pequenos botes que até ali incursionavam admitiam a própria desdita, falhara-lhes o mapa que os conduzia pela terra, ou já não dispunham da firmeza de antes na direção do leme e os remos. Nenhum ali deixou o coração, que o viessem buscar mais tarde. Iabeshad jamais os abandonou. Ainda que os ameaçasse com a certeza de outros mundos, e deixasse no armazém de Bonifácio larvas que se reproduziam sob forma de bússolas, relógios, candelabros, alfinete com pérola nutrida em profundidade superior a mil metros.

Magnólia ressentia-se que não voltasse o marido à casa, elegendo o barco como moradia. Eucarístico não se deixava convencer, enfraquecia-lhe os argumentos com o silêncio. Há muito com gestos afirmara que o verbo, além de borrar-se com tinta negra, azul, rosa, enunciava-se e já passava a não existir, qualquer rede o filtrava, que não mais lhe apresentassem o presumível rosto e o seu febril vaso sanguíneo.

– Ao menos aceite a comida, disse Magnólia. E buscou saber se se oporia a que ele e os filhos aos domingos trouxessem até ele pastelões, galinha assada, outras guloseimas, como se fosse verbena. Eucarístico aceitaria breves visitas, o tempo apenas de destrincharem assados, comê-los com avidez, e logo se despedirem. A cupidez da visita se restringiria ao alimento, e rápida inquirição visual.

Nos domingos que se seguiram, instalavam-se em torno do barco, pois proibira-lhes Eucarístico que subissem nele, a seu juízo a embarcação não havia atracado. Vestiam-se mulher e filhos com os melhores trajes, ainda se arriscando a manchá-los de gordura. A princípio, consideravam o barco um objeto de cerimônia, a que prestavam discretas reverências, evitavam passar perto, ainda que para isto contornassem as árvores que sobraram. No entanto, bastaram aos filhos um único olhar e o primeiro domingo de todos que se seguiram, para se saciarem, uma vez que não voltaram a contemplá-lo novamente.

– Insensíveis, disse Hermengarda, sabendo das visitas.

Ansioso em terminar o barco, Eucarístico trabalhava o dia inteiro. Havia por toda parte promessas de festejarem com aparatos luminosos, balões, batata assada o lançamento do barco nas águas do Alvarado. Um rio que, segundo Rectus alisando revistas poeirentas, devia seu batismo a um estrangeiro precisamente castelhano, que carregava no r e no j, daí a sua ascendência altiva. Respaldado encarregou-se de apontar no caderno a data prevista para o término do trabalho. Urgia respeito a um calendário, ainda que povoado de santos e outras festas, se pretendiam de verdade dar um toque de excepcionalidade àquele veleiro.

Eucarístico recusou-se a descrever-lhe planos que dependiam de inventiva e contínuos reparos, buscava atrair a eternidade com o único propósito de acertar com perfeição a curva final da proa. Não compreendia que precisamente as criaturas que ainda lidavam com carne crua, selvagem pois, viessem investigar a que exata hora diria ele adeus à paixão, que era toda a sua vida. Com gesto em direção ao sol transmitiu-lhe a certeza de que antes de dar por terminada obra que se conciliava com ventos e águas bravias, fatalmente ele se consumiria.

Respaldo desculpou-se. Não lhe permitiria a educação primária aprender a lidar com um artista, ou respeitar ditames do que se chamava obra de arte.

– E não é artístico o que lida com água e o tempo simultaneamente? Em Santíssimo, a contagem de horas não era regressiva, mas muito pouco avançava no futuro. De modo que podiam bem aguardar, assim como as águas do Alvarado. A envergadura da nave o comovia, em tudo se semelhava à baleia que Rectus lhe descrevera após a surpreender em sonho.

– Se a arca de Deus jamais se terminou de construir, menos ainda o barco do homem, disse Eucarístico.

Próstatis reagiu com candura. Pela primeira vez não o viam aos gritos registrar os episódios de Santíssimo. Como se o tivessem conhecido de natureza amena.

– Temo que o tenhamos perdido para sempre, disse apenas.

Hermengarda recusava a divulgação daquela verdade. Sorria mais que todos. Procurou esconder-se pelos jardins, para Filomena não lhe surpreender a mágoa tendendo a aumentar no coração, se afinal se confirmasse a versão de que Eucarístico abandonara a terra para sempre.Conformara-se em perdê-lo para Magnólia, por compreender que não se teria cumprido com ela seu intenso destino manual. Eucarístico chegou a afirmar-lhe que o amor o confundia. Jamais viria a amá-la com a sofreguidão que lhe exigia Hermengarda, e ao mesmo tempo fazer da madeira o registro do seu tumulto interior. A princípio, Hermengarda reagiu, partindo para a desforra. Olhava-o no rosto com desprezo, ofertava-lhe alimentos machucados pelo garfo, e não lhe poupou palavras amargas. Como poderia compreender divisões desta espécie, que para o cumprimento de uma vocação devesse Eucarístico abster-se da atividade amorosa. O convite que ele lhe fez foi delicado, em sua companhia visitaria o centro da terra. Indicando a mais veneranda árvore de Santíssimo, passou os braços em torno da cintura nodosa, de olhos fechados parecia gozar. Hermengarda recusava acreditar no que via.

– Acaso eu sentiria o mesmo com você? disse ele.

Apesar da dor, Hermengarda o acompanhou à igreja, para unir-se a outra. Magnólia o aceitou sabendo que Hermengarda o perseguiria ao longo da vida. Sem precisar estar próxima, para se prolongar a sombra que havia ela derramado sobre ele, antes do casamento, como sopa escaldante, e as queimaduras ficaram na pele. Mesmo cozinhando para Ofélia, o trabalho diário de engordar a sobrinha, Hermengarda sentia-se com direito a amá-lo.

– Enquanto ele for mestre e devotar-se à madeira, eu o saberei meu para sempre.

Quando lhe comunicavam nos primeiros anos o nascimento de mais um filho de Eucarístico e Magnólia, uma soberana incredulidade surgia-lhe no rosto. Jamais aceitou verdade tão absurda, ainda que visse à distância a barriga de Magnólia dilatar-se, e os filhos crescerem. A única ameaça ao amor, sua grata memória, era Euicarístico apegar-se ao barco dispensando outra madeira em que trabalhar com igual fervor. Trepidava-lhe o coração, não lhe secavam as lágrimas no rosto. Ao contrário de Filomena, Hermengarda era menos tépida, menos magra, muito mais alta.
(…).

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Fonte: Piñon, Nélida. Tebas do meu coração. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974. p. 7-11.





Bio fornecida pelo palestrante.

O VISIONÁRIO: POEMAS




Autor: Murilo Mendes
Título: O vision?rio
Idiomas: port, esp
Tradutor: Carlos German Belli(esp)
Data: 29/12/2004

O VISIONÁRIO: POEMAS


Murilo Mendes


Choro do poeta atual

Deram-me um corpo, só um!
Para suportar calado
Tantas almas desunidas
Que esbarram umas nas outras,
De tantas idades diversas;
Um nasceu muito antes
De eu aparecer no mundo,
Outra nasceu com este corpo,
Outra está nascendo agora,
Há outras, nem sei direito,
São minhas filhas naturais,
Deliram dentro de mim,
Querem mudar de lugar,
Cada uma quer uma coisa,
Nunca mais tenho sossego.
Ó Deus, se existis, juntai
Minhas almas desencontradas.


Pré-história

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

O filho do século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa “Danúbio Azul”
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus amor puro
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Me esperam lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora do fuzilamento, da raiva suprema
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos
Misérias de todos os países uni-vos
Os anjos aviões fogem a galope
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço estáveis porque me abandonastes.

__________________________

Fonte: MENDES, Murilo. O visionário: poemas. São Paulo: R. Kempf, 1986. p. 34, 37, 98.

29 POEMAS


Murilo Mendes


Lamentación del poeta actual

¡Me han dado un cuerpo, sólo uno!
Para soportar callado
Tantas almas desunidas
Que chocan unas con otras,
De cuán diversas edades;
Una nació mucho antes
Que yo aparezca en el mundo,
Otra nació con mi cuerpo,
Otra está naciendo ahora,
Hay otras, ni lo sé bien,
Son mis hijas naturales,
Deliran dentro de mí,
Quieren mudar de lugar,
Cada una quiere una cosa,
Nunca más tengo sosiego.
Oh Dios, si existes, juntad
Mis almas que no se encuentran.

Prehistoria

Mamá vestida de encajes
Tocaba piano en el caos.
Una noche abrió las alas
Cansada de tantos sones,
Se equilibró en el azul,
Embobada no más mira
Ni a mí ni a nadie, y cae
En el álbum de retratos.
 

El hijo del siglo

Nunca más andaré en bicicleta
Ni conversaré en el portón
Con niñas de cabellos rizados
Adiós vals Danubio Azul
Adiós tardes perezosas
Adiós aromas del mundo sambas
Adiós puro amor
Arrojé al fuego la medallita de la Virgen
No tengo fuerzas para proferir un gran grito
Caeré en el suelo del siglo veinte
Me aguardan allá afuera
Las multitudes hambrientas justicieras
Sujetos con gases venenosos
Es la hora de las barricadas
Es la hora del fusilamiento, de la rabia mayor
Los vivientes piden venganza
Los muertos minerales vegetales piden venganza
Es la hora de la protesta general
Es la hora de los vuelos destructores
Es la hora de las barricadas, de los fusilamientos
Hambres deseos ansias sueños perdidos
Miserias de todos los países uníos
Fugan a galope los ángeles-aviones
Cargando el cáliz de la esperanza
Tiempo espacio firmes por qué me abandonasteis.
_________________
Fonte: MENDES, Murilo. 29 poemas. Introducción de José Guilherme Merquior. Traducción de Carlos German Belli. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978. p. 33, 35, 39.





Bio fornecida pelo palestrante.

Menotti Del Picchia




Autor: Menotti Del Picchia
Título: SALOM
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

SALOM?
 
 

Parte II

Capítulo II

 
 

Menotti Del Picchia

 
 
Salom? saiu para o terreiro quando o sol j? doirava toda a fazenda. Eram nove horas da manh?.
-Seu Roque, chegue aqui!
O preto vinha do paiol fronteiro e trazia sob o bra?o um punhado de espigas de milho. Ia para a cocheira lev?-las ao cavalo de Salom?.
-Que ?, sinhazinha?
-Voc? ainda se lembra de mim?
O preto fixou nela os olhinhos turvos. Desembainhou duas presas de marfim velho, ?ltimos dentes que lhe restavam nas gengivas roxas. Riu. Parecia, com o cr?nio redondo, uma velha foca de ?bano.
-Se lembro, sinhazinha… Mec? era uma coisinha deste tamanhico ? e exagerou a exiguidade da estatura da crian?a que ele conhecera desde os cueiros, fazendo com a m?o livre um gesto de quem calcula um tamanho.? Era uma bichinha levada do Capeta… Cruz, credo!
Salom? riu. E apareceram, com esse riso, os dentes mais lindos do mundo.
-Que ? que eu fazia, Roque?
-Mec? deixava todos n?is maluco! Chi… Um dia mec? desapareceu… Toca campi?, campi?… Fiquemo todos zonzo… Percuremo por toda a parte. S? na boca da noite demo com mec? numa moita com um cabritinho que tinha quebrado uma perna querendo consert? ela com um peda?o de graveto amarrado com a fita do seu cabelo… Qu?… Qu?… Qu?!…? e desembainhou suas presas de foca que quando ria n?o eram agressivas, apenas grotescas. -Outra vez, amarr? uma lata no rabo do Foguete e tocou formicida nele… Nossa Senhora! O bicho dava cada pinote!
Olhava para Salom? com os olhinhos sang??neos.? Ela escutava retomando vaga posse desse passado divertida e encantada. ? Outra v?is foi pio… Mec? tac? fogo na palho?a do Lot?rio. Foi uma bruta trabalhera pr? apag? o fogo e arrast? mec? pra casa… Batia o p?! ?N?o v?, n?o v?! Quero v? as labareda!? E quase que a fogueira pega fogo na sua saia… O pobre do Lot?rio saiu de l? chamuscado…
Salom? fechou o cenho. Gritou para o preto:
-Isso ? mentira!
O preto assustou-se.
-Mentira? Pregunte pr? iai?… Pregunte…
Salom? virou-lhe as costas. J? n?o pensava no preto, nem na inf?ncia. A paisagem entrava em golfadas de luz e de cor nos seus olhos orientais, grandes, que devoravam o ouro fosforescente que palpitava na superf?cie das coisas. Suas narinas dilatavam-se ao aspirar o ar fresco, como se o farejassem e tentassem distinguir todas as nuan?as do aroma que vinha do vale. Correu para a ponta do terreiro. O horizonte, dali, era mais largo. Voltou-se ent?o para Roque, j? distante, que rumava para a cocheira:
-Encilhe o Corisco. Ponha o selim ingl?s. Depressa!
Roque nem ouviu. Era quase surdo. Salom? dava com o chicote pranchadas firmes nas botas altas. A culote de casimira azul estava grudada ?s suas formas. Seu cabelo negro e solto vibrava ao vento.
Chegara ? noite com Antunes. A m?e n?o fora esper?-la a bordo. D. Santa recebera-a prevenida e policial. A filha percebeu que a teria aos seus calcanhares. E antegozava suas f?rias. ?Vai ficar uma fera…? ? e sorriu.? ?A mim ? que n?o me p?e freio.?
Gozava agora o contraste: o bucolismo do mato ap?s a velocidade da metr?pole. Sentia-se bem. Tudo era im?vel, horizontal, como um cen?rio para o seu movimento. Atravessou o terreiro, desceu aos saltos a escada de pedra e entrou no piquete. Roque segurava o Corisco pelo freio. O animal olhava Salom? de esguelha. Olhava-a com olhos faiscantes como olharia para um advers?rio ou para um perigo.
-Cuidado, sinhazinha, ? passarinheiro…
Salom? mirava deslumbrada o animal: parecia um enorme galgo branco.
-? brabo?
-Tem mania…
Quando Salom? quis segurar a barbela o cavalo deu uma brusca guinada com o queixo. Os ferros do freio tiniram: ?Quieto!? O cavalo nitriu. Um fr?mito correu-lhe a espinha. Parecia ter recebido a carga de uma corrente el?trica. Salom? tamb?m vibrava. O nervosismo do animal circulava nela. ?Quieto!? P?s o p? no estribo e saltou. Corisco tentou tirar o corpo, mas a mo?a j? estava engarfada no seu lombo, r?deas firmes na m?o.
-Abra a porteira, Roque.
Roque abriu. O cavalo dera para saltitar numa dan?a mi?da que n?o sa?a do lugar. A m?o de Salom?, na camur?a da luva, afagava o pesco?o do animal assustado.? Ent?o, que ? isso? ? O primeiro ?mpeto de Corisco, nessa manh? caprichoso e nervoso, foi cuspir da sela Salom?. Deu um pinote inofensivo mas a dor aguda que sentiu na boca com a implac?vel press?o do freio e a chicotada que lhe riscou a anca, aquietaram-no. Ent?o ele, de um arranco, lan?ou-se a galope. Roque tremeu de susto. Era uma corrida doida na manh? toda de ouro.
-? maluca…? murmurou o preto.
Fechou o port?o do piquete. Outros cavalos relinchavam nas baias. Uma galinha andava por ali ciscando. Da cerca rompeu um bando de pipilantes pintos, beliscando o ch?o, vivos, amarelinhos, m?veis, como se fossem brinquedos caricatos. Roque olhou a v?rzea. N?o viu mais Salom?.
-Maluca… Maluca mesmo…
No terreiro encontrou dSanta. Parecia procurar algu?m. Viu Roque:
-E Salom??
-Saiu neste instante no Corisco…
-No Corisco? Por que voc? deixou?
-Ela quis, iai?…
D. Santa entrou na casa. Nesse instante Salom? alcan?ava a estrada da vila. Corisco esgotara-se na violenta galopada. Seguia agora a passo, suado, frouxo, dominado e passivo. Salom? olhava para as orelhas do animal. Sentia uma alegria toda f?sica, a alegria da carne catando ru?dos. ?Ent?o? Onde est? sua f?ria? Vai murcho e com um ar de sonso…? Afagava o pesco?o do animal. Pelo atrito do vento a pele se lhe afogueava e o sangue escorria-lhe f?cil, bem oxigenado. ?Viver… Basta viver… A vida por si mesma ? uma finalidade…? E pensou: ?O que falta ao homem ? dar import?ncia ? vida, compreender que ele n?o passa de uma vida entre outras vidas circundantes…? Pensou em Berta. ?O erro de Berta ? procurar sua vida nos outros quando toda a sabedoria est? em descobrir a vida que est? em n?s…? Atingira a estrada e cercava-a a floresta, uma floresta decorativa e muito verde. Para Salom? esse verde era sedativo. Trazia-lhe alguma coisa que ficara nela como abortada, uma esp?cie de inf?ncia inconclu?da e que agora se refazia numa plenitude de inoc?ncia. Mais que por aquelas copas, o sol que as tornava de um verde doirado, resplandecia nela mesma. Parecia-lhe ter peda?os de alma esquecidos e afundados na terra que agora subiam pelas ra?zes rebentando festivamente nas folhas. Dilu?a-se assim por tudo tirando de tudo um inef?vel bem-estar. Nesse instante sentia-se vasta, boa, feliz.
L? adiante, num barranco, viu uma pequena mancha preta. ? medida que Corisco avan?ava a mancha tomava forma. Era um padre. Salom? teve vontade de rir. Que faria ali no barranco esse padre sem chap?u? Quando chegou perto, estacou o cavalo. Somente nesse instante deu com a presen?a de Salom?.
-Bom dia, reverendo.
-Bom dia, senhorita ? disse o padre com simplicidade como se fosse a coisa mais natural do mundo estar ele sentado num barranco no meio de uma estrada deserta e encontrar-se com uma linda mo?a montada num espl?ndido cavalo. Salom? examinava-o curiosa e divertida.
-Desculpe minha indiscri??o ? disse ela mordendo o l?bio, pois a figura do reverendo parecia-lhe grotesca. ? Est? fazendo versos? O lugar, de fato, ? bonito…
O padre n?o deu pelo ar trocista da mo?a. Replicou candidamente:
-Qual verso, qual nada, senhorita… O que estou ? esfalfado e com os p?s em fogo… Sentei-me aqui porque n?o ag?ento mais. Acho que os calcanhares est?o com bolhas.
E olhava para as sapatorras cambadas e cheias de poeira:
-Meus p?s parecem duas frigideiras… Imagine que eu n?o calculei bem a dist?ncia da vila ? fazenda. Os caboclos costumam dizer: ?? ali…? Botei na cabe?a fazer o caminho a p? para pagar uma visita ao sr. Tot?nio e o sr. Eduardo.
Salom? simpatizou com o padre. Tinha os olhos bons e era pitoresco.
-Tot?nio? O administrador l? de casa?
-A senhorita ?…
-Salom?. A filha de d. Santa.
-Ah…
O padre levantou-se. Julgou seu dever fazer uma apresenta??o em regra:
-Eu sou o padre Nazareno, o novo vig?rio da vila.
-Muito prazer, reverendo.
Como sempre, levada por um ?mpeto e sem a m?nima reflex?o, Salom? imaginou uma solu??o para o caso. De fato: era absurdo largar o pobre vig?rio ali.
-Pois eu posso lev?-lo ? fazenda. Suba na garupa.
O padre hesitou. N?o que lhe parecesse inconveniente montar na garupa. O dif?cil era subir. Corisco era alto. Nazareno estava derreado. Mas Salom? fez o cavalo recuar e aproximou-se do barranco.
-Espere um pouco. Trepe no barranco…
Padre Nazareno subiu. ?Upa!? Com um suspiro, caiu com todo o peso do corpo no lombo do animal.
-Eu n?o ag?entava o resto da caminhada. A senhorita ? um anjo!
-Pode segurar na minha cintura se tiver medo…
-N?o h? perigo, senhorita… Iremos devagar. Como bom crist?o me agarro no Santo Ant?nio…
Salom? tocou o cavalo.
Tomaram o caminho da fazenda. As ?rvores que ficavam atr?s pareciam chegar at? os bordos do barranco para espiar do alto os estranhos viajantes. Quando atravessaram o pasto os camaradas que carpiam largaram as enxadas para ver o grupo. Isso tudo deixava Salom? radiante. Nazareno, aliviado da canseira, retomava o bom humor. Estava pilh?rico e fazia a mo?a rir. Pouco depois alcan?aram a casa do administrador. Marciana, do alpendre, correu assustada a avisar o marido. Tot?nio e Eduardo apareceram na porta. U?? Que era aquilo? Mas j? os dois saltavam do cavalo alegres como duas crian?as. Riam e faziam grandes gestos.
-Encontrei uma Nossa Senhora de culote que me trouxe para o Egito ? gritou Nazareno apontando para Salom?.? Juro que se n?o fosse ela ter-me-ia deitado na estrada… Santa Virgem! N?o ag?entava mais…
E avan?ou para Tot?nio com a m?o enorme em riste, manquejando ainda, pois, nos calcanhares devia de fato ter bolhas.
 

*

 
Salom? subiu aos pulos a escada que dava acesso ao terreiro. Largara Corisco no piquete. Sentia uma fome tremenda.
-Nego v?io, venha c?…
Roque regressava do pomar com uma cesta cheia de frutas.
-Que ? isso?
O preto aproximou-se.
-Deixe ver.
Roque apresentou a cesta. Salom? pegou num caqui. Mordeu-o. O sumo escorreu-lhe pelos l?bios. ?Esplendido!? Pegou noutro. ?Verde?. Escolheu outro. ?Otim?ssimo!? Comia com voracidade besuntando as m?os no caldo da fruta. O preto estendia a cesta como se fosse bandeja e, como era muito velho, suas pernas em arco tremiam.
-Segure bem! Aten??o! Um, dois e…
Pl?! com um pontap? certeiro atirou a cesta para o ar. O preto ficou estatelado: ? Sinhazinha… ? Aos seus p?s os caquis se esborracharam. Salom? ria. Roque, atarantado, pisava nas frutas, olhava para a mo?a. Nesse instante, por?m, da porta da casa-grande, a voz ?spera de d. Santa bradou:
-Salom?!
Salom? voltou-se. Sua alegria morreu. A m?e olhava-a tempestuosa e fremente.
-Bonitas maneiras… Sim senhora.
-Estava brincando com o Roque, mam?e…
-? uma criancinha… Aprendeu isso em Paris? Venha c?.
Salom? entrou na casa com passo firme. Atirou as luvas de montaria com o chicote em cima de uma cadeira. Previa o serm?o. Dentro do seu culote azul colado ao corpo, o cabelo ca?do em ondas sobre as costas, curto, luzidio, parecia um rapaz, mas um rapaz de beleza resplandecente. Procurava permanecer s?ria. Fazia para isso um evidente esfor?o. Sentou-se numa cadeira com ar de resigna??o, evidentemente falso, mas calculadamente defensivo. D. Santa n?o se sentou. Deu uns passos pela sala. Salom? provocou:
-Que h??
A m?e n?o respondeu.
-Vamos, mam?e… Comece o serm?o. Que h??
D. Santa voltou-se. Sua voz era calma e grave. Passava por ela um tremor:
-Creio que voc? deve estar persuadida de que isto n?o ? Paris… Os costumes aqui s?o outros.
-Mas o que ? que eu fiz, mam?e?
-N?o me refiro ao que fez. Previno-a pelo que far?.
Ficou silenciosa. Percebia na atitude falsamente passiva da filha uma displicente petul?ncia, uma forma despreziva de renunciar a qualquer combate. Sabia que tudo o que lhe dissesse n?o a atingiria. Fingiria ouvir com uma aten??o compungida mas no fundo Salom? se riria dela. ?Duas mentalidades diferentes… Dois mundos em choque…? Conhecia essa cantiga. Salom? era o pai: um ser estranho cujo esp?rito lhe parecera esquivo porque ela nunca tornara sua alma propicia ? compreens?o. D. Santa era autorit?ria. Habituara-se a impor sua vontade. Salom?, com sua aguda intui??o, sabia de tudo isso. Violenta e passional vigiara e defendera sua personalidade. Defendia-se com sua b?rbara e orgulhosa independ?ncia. Alguma coisa nela tentara vingar a ang?stia calada do pai sacrificado. Ela n?o procurava tomar consci?ncia dessa ?ntima vingan?a. Era a for?a do sangue.
-Vamos falar claro, mam?ezinha. Que ? que farei?
A voz de d. Santa n?o escondeu o rancor:
-Voc?? N?o sei, mas alguma coisa me diz que voc? ? capaz de tudo.
Salom? deu um salto. Vibrava de c?lera. Dominou-se.
-Est? terminada a audi?ncia…
Com passo nervoso partiu rumo do quarto. Durante esse trajeto percebeu que perdera toda a alegria que trouxera consigo do passeio t?o divertido com o padre na garupa. Inda teve vontade de rir ? id?ia daquele grotesco vig?rio engarfado no Corisco balan?ando as pernas enormes. ?Um p?ndego ou um santo?. Atirou a blusa de camur?a sobre a cama. Seus seios hirtos pareciam furar a camiseta de cambraia. Apertou o bot?o da campainha. Isaura apareceu.
-Prepare meu banho. Depressa!
Estirou-se na cama. ?Tudo aquilo seria t?o bom se n?o a amolassem…? Paris… Fora divertido o ?ltimo ano que passara com Berta. Tudo r?pido, tudo imprevisto, tudo novo. Homens estranhos, c?rebros man?acos, artistas ex?ticos, um mundo agitado e heter?clito, enervado e enfarado, preso a uma inquieta??o sem objetivo. Parecia percorrer por tudo aquilo uma pressa in?til, pressa dirigida para nenhum lugar destinada a criar uma ilus?o de a??o e de movimento tentando assim aumentar a extens?o da vida por uma intensidade interior. Isso ou o esbanjamento da vida pelo terror do t?dio… Pobre gente. Realizavam uma exist?ncia vertical, mas a verticalidade est?ril de formiga que sobe at? a ponta de um graveto para regressar ? sua base, ao ponto inicial da partida sem ter obtido outra coisa al?m da canseira da escalada. ?Aqui no mato a vida ? diferente. Parece horizontal. O homem p?ra e a vida ? que passa sobre ele. Poupa-se ao menos o esfor?o de ir ao encontro da sua inutilidade e do seu vazio…? Por que n?o se entregar a essa nova experi?ncia? Isso para Salom? teria o gosto de uma descoberta. Tot?nio lhe parecia curioso na sua humanidade franca e rude. Eduardo, um pouco m?rbido. D. Marciana, boa. O padre Nazareno, ?um n?mero?. N?o sabia defini-lo de outra forma: um n?mero.
Isaura bateu na porta.
-Que ??
-O banho est? pronto, senhorita…
?E esta? Chama-me de senhorita… N?o sou mais sinhazinha. A preta tamb?m est? contaminada pelo dem?nio do progresso.? Certas palavras violentam um ritmo. Penetram toda uma ordem moral, transmudam um cl?ssico sistema de id?ias. ?Mam?e deve ficar por conta quando esta pretinha pronuncia certos termos. Certas aud?cias s?o uma provoca??o ao seu mundo…? Pensou nisso com vontade de rir. Na aus?ncia da m?e, sua hostilidade era ironia.
-J? vou. V? me esperar no banheiro.
Saltou da cama. Tirou a camiseta, as cal?as de montar, a combina??o.
Nua, fez r?pidos movimentos gin?sticos, depois envolveu o corpo num peignoir cor de ouro. Quando saiu, parecia que seus m?sculos se haviam tornado luminosos. Sugeriam, marcado o corpo pela seda, uma nudez estilizada e excitante. No corredor encontrou Antunes.
-Bom dia, Salom?.
-Bom dia, coronel. J? fiz minha cavalgada e agora vou para o banho.
O coronel ficou parado. Seus olhos fixaram-se nesse corpo. A seda n?o o escondia porque parecia denunciar com mais vigor seu juvenil equil?brio e a incompar?vel beleza das suas formas.
(…).
 
 
_________________
 
Fonte: DEL PICCHIA, Menotti. Salom?: romance. 6?ed. Rio de Janeiro: Jos? Olympio, 1991. p. 148 ? 155.





Bio fornecida pelo palestrante.

Zapato Florido




Autor: Mario Quintana
Título: Zapato Florido
Idiomas: esp
Tradutor: Hugo Guti?rrez Vega(esp)
Data: 29/12/2004

ZAPATO FLORIDO


Mario Quintana

 
¿Qué habrá en el cielo?
Si no hay sillas mecedoras en el cielo…
¿qué pasará con mi Tía Elida
que para allá se fue?
El poema
Una hormiguita atravesó en diagonal la página
todavía en blanco. Esa noche, él no escribió
nada. ¿Para qué?, si por esa página ya habían
pasado la inquietud y el misterio de la vida.
Nada más para ella
Doña Cómoda tiene tres cajones y un aire
satisfecho de señora rica. En esos cajones
guarda cosas de otros tiempos nada más
para ella. Siempre fue así Doña Cómoda:
gorda, cerrada, egoísta.
Madrugada
Trotan, trotan desbarrancando mi sueño,
los innumerables burritos de la madrugada.
¿Llevan naranjas? ¿llevan repollos? ¿llevan calabazas? No.
Llevan colores: verdes tiernos, amarillos
vivaces, morados, rosas, ocres.
Son los burritos pintores.
Carrito
Amar es cambiar el alma de domicilio.
Horror
Con sus oooes de espanto, sus errres guturales
y su hirsuta h, horror es una palabra con los
cabellos erizados, asustada de su propio
significado.
La adolescente
Va andando y va creciendo.
Todo en ella es alto y flaco:
la voz, los gestos, las piernas…
¡Antílopes! Veo antílopes cuando pasa,
Pinta al pasar un friso de antílopes,
de bambúes al viento, de lunas caminantes,
mutables, crecientes…
Nocturno
El reloj pespuntea, meticulosamente, quilómetros
y quilómetros de silencio nocturno.
De vez en cuando, los viejos roperos crujen
como huesos.
En la isla del patio, el perro ladrando.
Es la luna.
Y, al recordar otra luna, los ojos de Lilí
sorprendidos, se abren en la obscuridad.
_______________________________
Fuente: QUINTANA, Mario. Zapato florido. Traducción de Hugo Gutiérrez Vega. (www.fuentes.csh.udg.mx)/.





Bio fornecida pelo palestrante.

Amar, Verbo Intransitivo




Autor: Mário de Andrade
Título: Amar, Verbo Intransitivo, Aimer, Verbe Intransitif
Idiomas: port, fra
Tradutor: Maryvonne Lapouge-Pettorelli(fra)
Data: 29/12/2004

AIMER, VERBE INTRANSITIF


Extrait

Mário de Andrade

L’amour est une chose qui s’enseigne? Je tiens que non. A moins que si. Fräulein areait une méthode bien à elle. Le dieu patient l’avait élaborée, à la facon dont les prisonniers confectionnent ces joliè petits paniers garnis de fleurs et de fruits colorés. Faits entièrement, si délicats, avec de da mie de pain!

L’amour doit naître de correspondances, d’excellences intérieures. Spirituelles, se disart-elle. Les deux protagonistes se sentent bien ensemble. La vie leur sourit. Ils s’en répartissent le soin: quatre épaules sont plus efficaces que deux. Sur terre, il faut travailler: les quatre épaules travaillent à égalité. Il faut avoir des enfants… Les quatre épaules portent leurs enfants, aussi nomlereux que la fécondité en décide, de sorte que l’Allemagne grandit. Le soir, um opéra de Wagner, Brahms. Brahms est considérable. Cette profondeur, ce sérieux. Il y a aussi des concerts d’orgue. Et des possibilités de chant choral… Nos deux protagonistes out de belles voix. Ils fréquentent la chorale municipale. Gesellschaft. Ceci, pour ce qui est des Allemands, mais pour les autres? Disons: la même chose ou presque… Seulement un peu plus devérité pratique et moins de Wagner. Et le service de Fräulein consiste seulement à former des hommes.

L’homme doit veiller à la tranquillité du foyer. Il doit être attaché à son foyer. Et l’homme commande. Sans imposer néanmoins. Il pourvoit. L’épouse, il est vrai participera. Elle participera substantiellement, en donnat parci par-là quelques cours de langue, en accompagnant au piano lés répétitions de la Panzschuele, et c’est elle qui se chargera de la cuisine, elle qui préparera des friandises, elle aussi qui arrosera les fleurs et conduira les oies blanches au pré, et elle n’oubliera pas de piquer des petites marguerites dans ses beaux cheveux…

C’est tout juste si, se prenant à délirer de la sorte, Fräulein ne rareale pas un remords. Protestations du dien incarcéré. L’homme-de-la-vie vent effacer tous ces nuages, il affirme sèchement qu’il y a méprise, il ne s’agit en rien d’un pareil programme: sa profession se borne à enseigner les premiers pas, à dessiller les yeux, de facon à prévenir les brebis inexpérimentées des chausse-trapes que leus préparent certaines mains âpres au gain. Et à leus éruter les maladies qui hypothèquent si lourdement le bonheur du futur couple. Prophylaxie. Ici, l’homme-du-rêve se cabre, il se rebelle contre le franc-parler du bon sens et hurle: prophylaxie, non! Mais il faucha bien, une fois établie un peu plus d’intimité, disserter sur ces ” prostituées ” qui sucent le sang des corps sains. Le sang doit être pur.

Voyez par exemple l’Allemagne. Existe-t-il une population, une race qui soit plus solide. Aucune. C’est précisément pourquoi la notion de famille est chez les Allemands plus puissante: indestructible. Les enfants naissent forts. Les femmes sont grandes, et le teint clair. Elles sont fécondes. Le destin de l’homme, sa noblesse, c’est de se garder sain de corps et d’esprit et de se procurer une épouse prodigieusement saine. Une femme de race supérieure, comme elle, Fräulein. Les Noirs sout de race inférieure. Les Indiens aussi, les Portugais aussi.

Mais cette dernière vérité, Fräulein nén souffle pas mot à ses élèves. Elle a lu cette information le jour où un ovrage de Reimer lui est tombé entre les mains: Reimer démontrait l’infériorité des Latins. Une irrécusable vérité, car qui est Reimer? Reimer est un grand savent Allemand. Les Portugais appartiennent à une race inférieure. Mais alors ces Brésiliens hybrides? De cela également, Fräulein ne poureait souffler mot. Parce que adaptée. Ou alors, uniquement en compagnie d’amis trés proches, et Allemands. Quant aux Indiens, aux Noirs, qui soutiendra qu’ils ne sont pas des races inférieures?

Qu’il est beau le destin d’un couple supérieur. Travail, tranquillité. Les quatre épaules travaillent tranquillement, elle au foyer, le mari hors du foyer. Qu’il réintègre en fin de journée, la ville en train déja de sombrer dans l’obscurité… Il va poser ses livres sur le bureau… Vient enseute lui déposer un baiser sur le front… Un baiser paisilele… Un baiser de principe… En noir de la tête aux pieds une épingle en or à sa cravate. Le nez long, presque diaphane, racé… Tonte sa personne évoquee la clarté, la transparence… Il tousserait, aurait rayé ses lunettes sans monture… Il tousserait sans descontinuer… Et cette tache de sang sur les pommetes, irrégulière… Ils dîneraient sans presque se parler… Tout s’est bien passé?… Normalement, et lui? Encore trois mois, et il espère bien avoir terminé le second volume de L’Appel de la nature dans la poésie des Minnesänger… Cela lui vandra un poste à l’Université… Le dîner se terminerait… Il se plongerait dans ses livres… Elle arrange de nouveau la nappe sur la table. N’oublie pas que nous avons le concert de la Phillarmonique demain soir. Elle éminère le programme. L’Ouverture de Spohr, la Pastorale de Beethoven, Strauss, l’Hymme au soleil de Mascagni et Wagner. La Pastorale? Chic. Et de Wagner? Siegfried-Idylle et Götterdãmmerung. Siegfried-Idylle? Siegfried-Idylle. Ah! Ils auraient pu dormer l’Héroïque. Nous anous bien entendu cinq fois la Pastorale cette aimée… ils pourrarent faire un effort… Mais l’Héroïque… Napoléon… Une chose en tous les cas qu’on ne peut nier: Napoléon a éte un grand général… Il est mort en prison, à Saint-Hélène.

Ici, Fräulein réalise que de nouveau l’homme-du-rêve s’est suletilenient substitué à l’homme-de-la-vie. C’est parce que ce dernier se manifeste iniquement lorsqu’il s’agit de vivre agir remeur. L’autre, je l’ai déjà dit, est tout intériorité. Bien sur, prusque la pensée est intérieure, elle n’est même pas volition, qui déjà participe de l’acte. L’homme-de-la-vie agit , il ne pense pas. Fräulein pense, elle réfléchit. L’homme-de-la-vie ne lui a pas non plus représenté, à proprement parler, qu’elle n’enseigne guère plus que les premiers pas de l’amour, il le dosme à entendre à travers la manière obstinée et nurette qu’il a de se comporter. Franchenient: se quélle pratique c’est cela et ce n’est que cela.

Mais allez dire à un Allemand qu’il transporte en lui pareil homme-de-la-vie… Il niera énergiquement, il n’a de sa vie fréquenté cette maison. Et avec raison. L’homme-du-rêve, oui, l’Allemand le reconnait, parce qu’il rêve, parce qu’il pense. Il n’y a de vrai, pour un idéaliste, que ce qui est metaphysique. Ce qui est matière est muet. Les âmes pensant, elles parlent. Et donc, s’agissant d’amour-thése, d’une théorie de l’amour, d’amourologie, l’Allemand est ce prisonner patiemment occupé à écraser de la nue de pain, à peindre et à sculpter de rarussanter petits paniers destinés à décorrer l’appartement bien arrangé et bien tene que Fräulein a en tête.

La conscience, tonte fois, qui n’est ni de la vie ni du rêve et appartient à Dieu, lui représente comment a opéré l’homme-de-la-vie. Il s’est comtenté d’enseigner les premiers pas, de dessiler les yeux. Il a été pratique. Il a été parfait. Mais pour Fräulein, cette seule verte ne suffit pas, d’où un remords. À vrai dire, un bien petit remords, vague, très effiloché. Et elle va continuer à délirer, à délirer dans sa mièvre petite tête. Elle déguise ainsi les agissements de l’homme-de-la-vie à l’aide de rêves simples et austères, pour nous en tenir à ces qualificatifs. Et sonores également. Wiegenlied, de Max Reger, opus 76.

Lento.

… La petite chambre baigne dans l’obscurité. Marie berce l’enfant nouveau-né dans son pauvre petit berceau. Les fenêtres ouvertes dorment sur la grande nuit bleutée, presque mystique. Comme surgies du plancher, les deux colonnes obliques du clair de lune sortent par les fenêtres. Silence. L’été. Murmure en bas, au boin, des eaux sacrées du Rhin. L’on respire le parfum pauissant, immortel et fécond du ventre d’Erda. La chanson est faite pour les tont petits enfants. Et, comme dans ime rêveirer elle est en mélange, une succession d’associations. La mélodie de Reger fart suite an lied de Körner:

“Geht zur Ruh’!
Schlisst die müden Augen zu!
Stille wird es auf den Strassen
Nur den Wächter hört man blasen,
Und die Nacht ruft allen zu:
Geht zur Ruh’!…”

La chanson n’est pas faite pour les petits enfants? Si. Elle résonne, sérieuse, honnête, populaire… La conscience de Fräulein s’endort.

____

Fonte: ANDRADE, Mário de. Aimer, verbe intransitif. Traduit du portugais par Maryvonne Lapouge-Pettorelli. França: Gallimard, 1995. p. 38-42.

AMAR, VERBO INTRANSITIVO

Trecho

Mário de Andrade

É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim. Fräulein tinha um método bem dela. O deus paciente o construíra, tal qual os prisioneiros fazem essas catitas cestinhas cheias de flores e de frutas coloridas. Tudo de miolo de pão, tão mimoso!

O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima. Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois. A gente deve trabalhar… os quatro ombros trabalham igualmente. Deve-se ter filhos… Os quatro ombros carregam os filhos, quantos a fecundidade quiser, assim cresce a Alemanha. De noite uma ópera de Wagner. Brahms. Brahms é grande. Que profundeza, seriedade. Há concertos de órgão também. E a gente pode cantar em coro… Os quatro ombros freqüentam a Sociedade Coral. Têm boa voz e cantam. Solistas? Só cantam em coro. Gesellschaft. Porém isso é para alemães, e pros outros? Sim: quase o mesmo… Apenas um pouco mais de verdade prática e menos Wagner. E o serviço dela entende só da formação dos homens. O homem tem de ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Provê. É certo que a mulher o ajudará. O ajudará muito, dando algumas lições de línguas, servindo de acompanhadora pra ensaios na Panzschuele, fazendo a comida, preparando doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos no prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas…

Fräulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. Queixumes do deus encarcerado. O homem-da-vida quer apagar tantas nuvens e afirma ríspido que não trata-se de nada disso: a profissão dela se resume a ensinar primeiros passos, a abrir olhos, de modo a prevenir os inexperientes da cilada das mãos rapaces. E evitar as doenças, que tanto infelicitam o casal futuro. Profilaxia. Aqui o homem-do-sonho corcoveia, se revolta contra a aspereza do bom senso e berra: Profilaxia, não! Mas porém deverá parolar, quanto mais chegadinho o convívio, sobre essas “meretrizes” que chupam o sangue do corpo sadio. O sangue deve ser puro.

Vejam por exemplo a Alemanha, que-dê raça mais forte? Nenhuma. E justamente porque mais forte e indestrutível neles é o conceito da família. Os filhos nascem robustos. As mulheres são grandes e claras. São fecundas. O nobre destino do homem é se conservar sadio e procurar esposa prodigiosamente sadia. De raça superior, como ela, Fräulein. Os negros são de raça inferior. Os índios também. Os portugueses também.

Mas esta última verdade Fräulein não fala aos alunos. Foi decreto lido a vez em que um trabalho de Reimer lhe passou pelas mãos: afirmava a inferioridade dos latinos. Legítima verdade, pois quem é Reimer? Reimer é um grande sábio alemão. Os portugueses fazem parte duma raça inferior. E então os brasileiros misturados? Também isso Fräulein não podia falar. Por adaptação. Só quando entre amigos de segredo, e alemães. Porém os índios, os negros quem negará sejam raças inferiores?

Como é belo o destino do casal superior. Sossego e trabalho. Os quatro ombros trabalham sossegadamente, ela no lar, o marido fora do lar. Pela boca da noite ele chega da cidade escura… Vai botar os livros na escrivaninha. Depois vem lhe dar o beijo na testa… Beijo calmo… Beijo preceptivo… Todo de preto, com o alfinete de ouro na gravata. Nariz longo, quase diáfano bem raçado… Todo ele é claro, transparente… Tossiria, arranhando o óculos sem aro… Tossia sempre… E a mancha irregular do sangue nas maçãs… Jantariam quase sem dizer nada… Como passara?… Assim, e ele?… Talvez mais três meses e termina o segundo volume de O Apelo da Natureza na Poesia dos Minnesänger… Lhe davam o lugar na Universidade… A janta acabava… Ele atirava-se ao estudo… Ela arranja de novo a toalha sobre a mesa… Temos concerto da Filarmônica amanhã. Diga o programa. Abertura de Spohr, a Pastoral de Beethoven, Strauss, Hino ao Sol de Mascagni e Wagner. A Pastoral? A Pastoral. Que bom. E de Wagner? Siegfried-Idill e Götterdãmmerung. Siegfried-Idill? Siegfried-Idill. Ah! podiam dar a Heróica… Já ouvimos cinco vezes a Pastoral, este ano… podiam levar a Heróica… Mas a Heróica… Napoleão… Em todo caso a gente não pode negar: Napoleão foi um grande general… Morreu preso em Santa Helena.

Aqui Fräulein repara que aos poucos o homem-do-sonho se substituíra de novo ao homem-da-vida. É porque este aparece unicamente quando trata-se de viver mover agir. O outro é interior, eu já falei. Ora, pois o pensamento é interior, nem sequer é volição, que participa já do ato. O homem-da-vida age não pensa. Fräulein está pensando. Nem o homem-da-vida, propriamente, lhe disse que ela ensina apenas os primeiros passos do amor, dá a entender isso apenas, pela maneira com que obstinada e mudamente se comporta. Franqueza: o que pratica é isso e apenas isso.

Porém vão falar a um alemão que ele traz consigo tal homem-da-vida… Energicamente negará, nunca morou nesta casa. E com razão. Reconhece o homem-do-sonho porque este pensa e sonha. Ora de verdadeiro, pro idealista só o que é metafísico. As matérias são mudas, as almas pensam e falam. Tratando-se pois de amor-tese, teoria do amor, amorologia, é o prisioneiro paciente quem amassa o miolo de pão, esculpe e colore cestinhas lindas, pra enfeite do apartamento arranjado e limpo que Fräulein tem no pensamento.

A consciência, porém, que não é nem da vida nem do sonho e a Deus pertence, lhe mostra como atuou o homem-da-vida. Unicamente ensinou primeiros passos, abriu olhos. Foi prático. Foi excelente. Porém pra Fräulein tal virtude não basta, e a conseqüência é um remorso. Porém remorsico vago, muito esgarçado. E ela continuara divagando, divagando, açucaradamente divagando em seu pequeno pensamento. Assim enfeita os gestos do homem-da-vida com o sonho sério severo e simples, pra usar unicamente esses. E sonoro. Wiegenlied, de Max Reger, ópus 76.

Langsam.

… O quartinho é escuro. Maria embala no bercinho pobre o filho recém-nascido. Janelas abertas, dando para a grande noite azulada, facilmente mística. Nascem do chão, saem pelas janelas as duas colunas inclinadas do luar. Verão. Silêncio. Murmúrio embaixo, longe, das águas sagradas do Reno. Respira-se possante, fecundo, imortal, o aroma do ventre de Erda. A canção é para criancinhas. E, como na cisma tudo é mistura e associação, à melodia de Reger vem continuar o Lied, de Körner:
“Geht zur Ruh’!
Schlisst die müden Augen zu!
Stille wird es auf den Strassen
Nur den Wächter hört man blasen,
Und die Nacht ruft allen zu:
Geht zur Ruh’!…”

A canção não é pra criancinhas? É. Soa severa, honesta, popular… A consciência de Fräulein adormece.

____

Fonte: ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo. 16a. ed.. Belo Horizonte: Villa Rica, 1944. p. 63-65.





Bio fornecida pelo palestrante.

MACUNAÍMA




Autor: Mário de Andrade
Título: Macunaíma
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

MACUNAÍMA

1º Capítulo

Mário de Andrade

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:

– Ai! que preguiça!…

E não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no girau de paziúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E tembem espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e freqüentava com aplicação a murúa a poracê o torê o bacororô a cacuicogue, todas essas dansas religiosas da tribu.
Quando era pra dormir trepava no camurú pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.

Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto era sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que “espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”, e numa pagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói era inteligente.

Nem bem teve seis anos deram água num chocalho pra ele e Macunaíma principiou falando como todos. E pediu pra mãe que largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia largar da mandioca continuou chorando. No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que a mãe principasse o trabalho. Então pediu pra ela que largasse de tecer o paneiro de guarumá-membeca e levasse ele no mato passear. A mãe não quis porque não podia largar o que levasse o menino. A companheira de Jiguê era bem moça e chamava Sofará. Foi se aproximando ressabiada porém desta vez Macunaíma ficou muito quieto sem botar a mão na graça de ninguém. A moça carregou o piá nas costas e foi até o pé de aninga na beira do rio. A água parara pra inventar um ponteio de gozo nas folhas do javari. O longe estava bonito com muitos biguás e biguatingas avoando na entrada do furo. A moça botou Macunaíma na praia porém ele principiou choramingando, que tinha muita formiga!… e pediu pra Sofará que o levasse até o derrame do morro lá dentro do mato. A moça fez. Mas assim que deitou o curumirim nas tiriricas, tajás e trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo. Andaram por lá muito.

Quando voltaram pra maloca a moça parecia muito fatigada de tanto carregar piá nas costas. Era que o herói tinha brincado muito com ela. Nem bem ela deitou Macunaíma na rede, Jiguê já chegava de pescar de puçá e a companheira não trabalhara nada. Jiguê enquisilou e depois de atar os carrapatos deu nela muito. Sofará agüentou a sova sem falar um isto.

Jiguê não desconfiou de nada e começou traçando corda com fibra de curauá. Não vê que entrara rasto fresco de anta e queria pegar o bicho na armadilha. Macunaíma pediu um pedaço de curauá pro mano porém Jiguê falou que aquilo não era brinquedo de criança. Macunaíma principiou chorando outra vez e a noite ficou bem difícil de passar pra todos.

No outro dia Jiguê levantou cedo pra fazer armadilha e enxergando o menino tristinho falou:

– Bom-dia, coraçãozinho dos outros.

Porém Macunaíma fechou-se em copas carrancudo.

– Não quer falar comigo, é?

– Estou de mal.

– Por causa?

Então Macunaíma pediu fibra de curauá. Jiguê olhou pra ele com ódio e mandou a companheira arranjar fio pro menino, a moça fez. Macunaíma agradeceu e foi pedir pro pai-de-terreiro que trançasse uma corda pra ele e assoprasse bem nela fumaça de petum.
Quando tudo estava pronto Macunaíma pediu pra mãe que deixasse o cachiri fermentando e levasse ele no mato passear. A velha não podia por causa do trabalho mas a companheira de Jiguê mui sonsa falou pra sogra que “estava ás ordens”. E foi no mato com piá nas costas.

Quando o botou nos carurus e sororocas da serrapilheira, o pequeno foi crescendo foi crescendo e virou príncipe lindo. Falou pra Sofará esperar um bocadinho que voltava pra brincarem e foi no bebedouro da anta armar um laço. Nem bem voltaram do passeio, tardinha, Jiguê já chegava também de prender a armadilha no rasto da anta. A companheira não trabalhara nada. Jiguê ficou fulo e antes de catar os carrapatos bateu nela muito. Mas Sofará agüentou a coça com paciência.

No outro dia a arraiada inda estava acabando de trepar nas árvores, Macunaíma acordou todos, fazendo um bué melhonho, que fossem! que fossem no bebedouro buscar a bicha que ele caçara!… Porém ninguém não acreditou e todos principiaram o trabalho do dia.

Macunaíma ficou muito contrariado e pediu pra Sofará que desse uma chegadinha no bebedouro só pra ver. A moça fez e voltou falando pra todos que de fato estava no laço uma anta muito grande já morta. Toda a tribo foi buscar a bicha, matutando na inteligência do curumim. Quando Jiguê chegou com a corda de curauá vazia, encontrou todos tratando da caça. Ajudou. E quando foi pra repartir não deu nem um pedaço de carne pra Macunaíma, só tripas. O herói jurou vingança.

No outro dia pediu pra Sofará que levasse ele passear e ficaram no mato até a boca-da-noite. Nem bem o menino tocou no folhiço e virou num príncipe fogoso. Brincaram. Depois de brincarem três feitas, correram mato fora fazendo festinhas um pro outro. Depois das festinhas de cotucar, fizeram a das cócegas, depois se enterraram na areia, depois se queimaram com fogo de palha, isso foram muitas festinhas. Macunaíma pegou num tronco de copaíba e se escondeu por detrás da piranheira. Quando Sofará veio correndo, ele deu com o pau na cabeça dela. Fez uma brecha que a moça caiu torcendo de riso aos pés dele. Puxou-o por uma perna. Macunaíma gemia de gosto se agarrando no tronco gigante. Então a moça abocanhou o dedão do pé dele e engoliu. Macunaíma chorando de alegria tatuou o corpo dela com o sangue do pé. Depois retesou os músculos, se erguendo num trapézio de cipó e aos pulos atingiu num átimo o galho mais alto da piranheira. Sofará trepava atrás. O ramo fininho vergou oscilando com o peso do príncipe. Quando a moça chegou também no tope eles brincaram outra vez balanceando no céu. Depois de brincarem Macunaíma quis fazer uma festa em Sofará. Dobrou o corpo todo na violência dum puxão mas não pode continuar, galho quebrou e ambos despencaram aos emboléus até se esborracharem no chão. Quando o herói voltou da sapituca procurou a moça em redor, não estava. Ia se erguendo pra busca-la porém do galho baixo em riba dele furou o silêncio o miado temível da sussuarana. O herói se estatelou de medo e fechou os olhos pra ser comido sem ver. Então se escutou um risinho e Macunaíma tomou com uma gusparada no peito, era a moça. Macunaíma principiou atirando pedras nela e quando feria, Sofará gritava de excitação tatuando o corpo dele em baixo com o sangue espirrado. Afinal uma pedra lascou o canto da boca da moça e moeu três dentes. Ela pulou do galho e jugue! tombou sentada na barriga do herói que a envolveu com o corpo todo, uivando de prazer. E brincaram mais outra vez.

Já a estrela Papacéia brilhava no céu quando a moça voltou parecendo muito fatigada de tanto carregar piá nas costas. Porém Jiguê desconfiando seguira os dois no mato, enxergara a transformação e o resto. Jiguê era muito bobo. Teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu e chegou-o com vontade na bunda do herói. O berreiro foi tão imenso que encurtou o tamanhão da noite e muitos pássaros caíram de susto no chão e se transformaram em pedra.

Quando Jiguê não pode mais surrar, Macunaíma correu até a capoeira, mastigou raiz de cardeiro e voltou são. Jiguê levou Sofará pro pai dela e dormiu folgado na rede.

____

Fonte: Andrade, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 4ª. ed. São Paulo, Martins, 1965. Cap. 1. p. 3-8.





Bio fornecida pelo palestrante.

PAULICEA DESVAIRADA




Autor: Mário de Andrade
Título: Paulicea Desvairada
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

PAULICEA DESVAIRADA


Mário de Andrade

Prefácio Interessantíssimo

“Dans mon pays de fiel et d’or j’en suis la loi”.

E. Verhaeren
Leitor:
Esta fundado o Desvairismo.
Este prefácio, apesar de interessante, inútil.
Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para
quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos
terão prazer em descobrir minhas conclusões,
confrontando obra e dados. Para quem me
rejeita trabalho perdido explicar o que, antes
de ler, já não aceitou.
Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem
pensar tudo o que meu inconsciente me grita.
Penso depois: não só para corrigir, com para
justificar o que escrevi. Daí a razão deste
Prefácio Interessantíssimo.
Aliás muito difícil nesta prosa saber onde
termina a blague, onde principia a seriedade.
Nem eu sei.
E desculpe-me por estar tão atrasado dos
movimentos artísticos atuais. Sou passadista,
confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez
das teorias-avós que bebeu; e o autor deste
livro seria hipócrita si pretendesse representar
orientação moderna que ainda não compreende
bem.
Livro evidentemente impressionista.
Ora, segundo modernos, erro grave o
Impressionismo.
Os arquitetos fogem do gótico como da arte
nova, filiando-se, para além dos tempos
históricos, nos volumes elementares: cubo,
esfera, etc. Os pintores desdenham Delacroix
como Whistler, para se apoiarem na calma
construtiva de Rafael, de Ingres, do Grecco. Na
escultura Rodin é ruim, os imaginários africanos
são bons. Os músicos desprezam Debussy,
genuflexos diante da polifonia catedralesca de
Palestrina e João Sebastião Bach. A poesia…
“tende a despojar o homem de todos os seus
aspectos contingentes e efêmeros, para apanhar
nele a humanidade…” Sou passadista, confesso.
“Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada
de sonhos confusos e incoerentes. Não é
inspiração provinda de Deus, mas criada pelo
autor. Maomé não é profeta, é um homem que
faz versos. Que se apresente com algum sinal
revelador do seu destino, como os antigos
profetas”. Talvez digam de mim o que disseram
do criador de Alá. Diferença cabal entre nós
dois: Maomé apresentava-se como profeta;
julguei mais conveniente apresentar-me como
louco.
Você já leu São João Evangelista? Walt
Whitman? Mallarmé? Verhaeren?
Perto de dez anos metrifiquei, rimei. Exemplo?
 
ARTISTA
O meu desejo é ser pintor – Liornado,
cujo ideal em piedades se acrisola;
fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola
do sonho ilustre que em meu peito guardo…
Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo
da vida, a cor da veneziana escola,
dar tons de rosa e de ouro, por esmola,
a quanto houver de penedia ou cardo.
Quando encontrar o manancial das tintas
e os pinceis exaltados com que pintas,
Veronese! teus quadros e teus frisos,
irei morar onde as Desgraças moram;
e viverei de colorir sorrisos
nos lábios dos que imprecam ou que choram!
 
Os Srs. Laurindo de Brito, Martins Fontes,
Paulo Setúbal, embora não tenham
evidentemente a envergadura de Vicente de
Carvalho ou de Francisca Júlia, publicam seus
versos. E fazem muito bem. Podia, como eles,
publicar meus versos metrificados.
Não sou futurista (de Marinetti). Disse e
repito-o. Tenho pontos de contacto com o
futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me
de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da
existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi
o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era
vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho
orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade.
Pensei que se discutiriam minhas idéias (que
nem são minhas): discutiram minhas intenções.
Já agora não me calo. Tanto ridicularizariam
meu silêncio como esta grita.
Andarei a vida de braços no ar, como o
“Indiferente” de Watteau.
“Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia
citada) não compreenderam logo. Creio mesmo
que é impossível compreender inteiramente à
primeira leitura pensamentos assim
squematizados sem uma certa prática. Nem é
nisso que um poeta pode queixar-se dos seus
leitores. No que estes se tornam condenáveis é
em não pensar que um autor que assina não
escreve asnidades pelo simples prazer de
experimentar tinta; e que, sob essa
extravagância aparente havia um sentido
porventura interessantíssimo, que havia
qualquer coisa por compreender”. João Epstein.
Há neste mundo um senhor chamado Zdislas
Milner. Entretanto escreveu isto: “O facto duma
obra se afastar de preceitos e regras aprendidas,
não dá a medida do seu valor”. Perdoe-me dar
algum valor a meu livro. Não há pai que, sendo
pai, abandone o filho corcunda que se afoga,
para salvar o lindo herdeiro do vizinho. A
ama-de-leite do conto foi uma grandíssima
cabotina desnaturada.
Todo escritor acredita na valia do que escreve.
Si mostra é por vaidade. Si não mostra é por
vaidade também.
Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.
O ridículo é muitas vezes subjetivo. Independe
do maior ou menor alvo de quem o sofre.
Criamo-lo para vestir com ele quem fere nosso
orgulho, ignorância, esterilidade.
Um pouco de teoria?
Acredito que o lirismo, nascido no
subconsciente, acrisolado num pensamento claro
ou confuso, cria frases que são versos inteiros,
sem prejuízo de medir tantas sílabas, com
acentuação determinada.
Entroncamento é sueto para os condenados da
prisão alexandrina. Há porém raro exemplo dele
neste livro. Uso de caximbo…
A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer
impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte,
que, somada a Lirismo, dá Poesia¹, não
consiste em prejudicar a doida carreira do
estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas
de arame do caminho. Deixe que tropece, cáia
e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de
repetições fastientas, de sentimentalidades
românticas, de pormenores inúteis ou
inexpressivos.
Que Arte não seja porém limpar versos de exagêros colo-
ridos. Exagêro: símbolo sempre
novo da vida como do sonho. Por ele vida e
sonho se irmanam. E, consciente, não é defeito,
mas meio legítimo de expressão.
“O vento senta no ombro das tuas velas!”
Shakespeare. Homero já escrevera que a terra
mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas
você deve saber que há milhões de exagêros na
obra dos mestres.
Taine disse que o ideal dum artista consiste em
“apresentar, mais que os próprios objetos,
completa e claramente qualquer característica
essencial e saliente deles, por meio de alterações
sistemáticas das relações naturais entre as suas
partes, de modo a tornar essa característica mais
visível e dominadora”. O Sr. Luis Carlos, porém,
reconheço que tem o direito de citar o mesmo
em defesa das suas “Colunas”.
Já raciocinou sobre o chamado “belo horrível,
É pena. O belo horrível é uma escapatória criada
pela dimensão da orelha de certos filósofos para
justificar a atração exercida, em todos os
tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me
venham dizer que o artista, reproduzindo o feio,
o horrível, faz obra bela. Chamar de belo o que é
feio, horrível, só porque esta expressado com
grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou
desconhecer o conceito da beleza. Mas feio =
pecado… Atrai. Anita Malfatti falava-me outro
dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita
Malfatti ainda não leu Emilio Bayard: “O fim
lógico dum quadro é ser agradável de ver.
Todavia comprazem-se os artistas em exprimir
o singular encanto da feiúra. O artista sublima
tudo”.
Belo da arte: arbitrário, convencional,
transitório – questão de moda. Belo da
natureza: imutável, objetivo, natural – tem a
eternidade que a natureza tiver. Arte não
consegue reproduzir natureza, nem este é seu
fim. Todos os grandes artistas, ora consciente
(Rafael das Madonas, Rodin do Balzac,
Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do
Braz Cubas), ora inconscientemente (a grande
maioria) foram deformadores da natureza.
Donde infiro que o belo artístico será tanto mais
artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se
afastar do belo natural. Outros infiram o que
quiserem. Pouco me importa.
Nossos sentidos são frágeis. A percepção das
coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil
véus, provenientes das nossas taras físicas e
morais: doenças, preconceitos, indisposições,
antipatias, ignorâncias, hereditariedade,
circunstâncias de tempo, de lugar, etc… Só
idealmente podemos conceber os objetos como
os atos na sua inteireza bela ou feia. A arte
que, mesmo tirando os seus temas do mundo
objetivo, desenvolve-se em comparações
afastadas, exageradas, sem exatidão aparente,
ou indica os objetos, como um universal, sem
delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder
de nos conduzir a essa idealização livre,
musical. Esta idealização livre, subjetiva
permite criar todo um ambiente de realidades
ideais onde sentimentos, seres e coisas, belezas
e defeitos se apresentam na sua plenitude
heróica, que ultrapassa a defeituosa percepção
dos sentidos. Não sei que futurismo pode existir
em quem quase perfilha a concepção estética de
Fichte. Fujamos da natureza! Só assim a arte
não se ressentirá da ridícula fraqueza da
fotografia… colorida.
Não acho mais graça nenhuma nisso da gente
submeter comoções a um leito de Procusto para
que obtenham, em ritmo convencional, número
convencional de sílabas. Já, primeiro livro, usei
indiferentemente, sem obrigação de retorno
periódico, os diversos metros pares. Agora
liberto-me também desse preconceito. Adquiro
outros. Razão para que me insultem?
Mas não desdenho baloiços dançarinos de
redondilhas e decassílabos. Acontece a comoção
caber neles. Entram pois às vezes no cabaré
rítmico dos meus versos. Nesta questão de
metros não sou aliado; sou como a Argentina:
enriqueço-me.
Sobre a ordem? Repugna-me, com efeito, o que
Musset chamou:
“L’art de servir à point un dénoument bien cuit”.
Existe a ordem dos colegiais infantes que saem
das escolas de mãos dadas, dois a dois. Existe
uma ordem nos estudantes das escolas
superiores que descem uma escada de quatro
em quatro degraus, chocando-se lindamente.
Existe uma ordem, inda mais alta, na fúria
desencadeada dos elementos.
Quem leciona História no Brasil obedecerá a
uma ordem que, certo, não consiste em estudar
a guerra do Paraguai antes do ilustre acaso de
Pedro Álvares. Quem canta seu subconsciente
seguirá a ordem imprevista das comoções, das
associações de imagens, dos contactos exteriores.
Acontece que o tema às vezes descaminha.
O impulso lírico clama dentro de n6s como
turba enfuriada. Seria engraçadíssimo que a esta
se dissesse:
“Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem
tiver o argumento mais forte, guarde-o para o
fim!” A turba é confusão aparente. Quem
souber afastar-se idealmente dela, verá o
imponente desenvolver-se dessa alma coletiva,
falando a retórica exata das reivindicações.
Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela;
não abuso. Sei embridá-la nas minhas verdades
filosóficas e religiosas; porque verdades
filosóficas, religiosas, não são convencionais
como a Arte, são verdades. Tanto não abuso!
Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me.
Costumo andar sozinho.
Virgílio, Homero, não usaram rima. Virgílio,
Homero, têm assonâncias admiráveis.
A língua brasileira é das mais ricas e sonoras.
E possúi o admirabilíssimo “ão”.
Marinetti foi grande quando redescobriu o
poder sugestivo, associativo, simbólico,
universal, musical da palavra em liberdade.
Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez
dela sistema. É apenas auxiliar poderosíssimo.
Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo
é grande demais para mim, e inda bebo no copo
dos outros.
Sei construir teorias engenhosas. Quer ver?
A poética está muito mais atrasada que a
música. Esta abandonou, talvez mesmo antes
do século 8, o regime da melodia quando muito
oitavada, para enriquecer-se com os infinitos
recursos da harmonia. A poética, com rara
exceção até meados do século 19 francês, foi
essencialmente melódica. Chamo de verso
melódico o mesmo que melodia musical:
arabesco horizontal de vozes (sons) consecutivas,
contendo pensamento inteligível.
Ora, si em vez de ùnicamente usar versos
melódicos horizontais:
“Mnezarete, a divina, a pálida Phrynea
Comparece ante a austera e rígida assembléia
Do Areópago supremo…”
fizermos que sigam palavras sem ligação
imediata entre si: estas palavras, pelo fato
mesmo de se não seguirem intelectual,
gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras,
para a nossa sensação, formando, não mais
melodias, mas harmonias.
Explico milhor:
Harmonia: combinação de sons simultâneos.
Exemplo:
Arroubos… Lutas… Setas… Cantigas…
Povoar!…”
Estas palavras não se ligam. Não formam
enumeração. Cada uma é frase, período elíptico,
reduzido ao mínimo telegráfico.
Si pronuncio “Arroubos”, como não faz parte
de frase (melodia), a palavra chama a atenção
para seu insulamento e fica vibrando, à espera
duma frase que lhe faça adquirir significado e
Que NAO VEM. “Lutas” não dá conclusão
alguma a “’Arroubos”; e, nas mesmas condições,
não fazendo esquecer a primeira palavra, fica
vibrando com ela. As outras vozes fazem o
mesmo. Assim: em vez de melodia (frase
gramatical) temos acorde arpejado, harmonia,
– o verso harmônico.
Mas, si em vez de usar só palavras soltas, uso
frases soltas: mesma sensação de superposição,
não já de palavras (notas) mas de frases
(melodias). Portanto: polifonia poética.
Assim, em “Paulicea Desvairada” usam-se o
verso melódico:
“São Paulo é um palco de bailados russos”; o
verso harmônico:
“A cainçalha… A Bolsa… As jogatinas…”;
e a polifonia poética (um e às vezes dois e
mesmo mais versos consecutivos):
“A engrenagem trepída… A bruma neva…”
Que tal? Não se esqueça porém que outro virá
destruir tudo isto que construí.
Para ajuntar à teoria:

Os gênios poéticos do passado conseguiram dar
maior interesse ao verso me1ódico, não só
criando-o mais belo, como fazendo-o mais
variado, mais comotivo, mais imprevisto. Alguns
mesmo conseguiram formar harmonias, por
vezes ricas. Harmonias porém inconscientes,
esporádicas. Provo inconsciência: Victor Hugo,
muita vez harmônico, exclamou depois de ouvir
o quarteto do Rigoletto: “Façam que possa
combinar simultâneamente várias frases e verão
de que sou capaz.” Encontro anedota em Galli,
Estética Musical. Se non é vero…

Há certas figuras de retórica em que podemos
ver embrião da harmonia oral, como na lição das
sinfonias de Pitágoras encontramos germe da
harmonia musical. Antítese – genuína
dissonância. E si tão apreciada é justo porque
poetas como músicos, sempre sentiram o grande
encanto da dissonância, de que fala G. Migot.

Comentário à frase de Hugo. Harmonia oral não
se realiza, como a musical, nos sentidos, porque
palavras não se fundem como sons, antes
baralham-se, tornam-se incompreensíveis. A
realização da harmonia poética efetua-se na
inteligência. A compreensão das artes do tempo
nunca é imediata, mas mediata. Na arte do
tempo coordenamos atos de memória
consecutivos, que assimilamos num todo final.
Este todo, resultante de estados de consciência
sucessivos, dá a compreensão final, completa
da música, poesia, dança terminada. Victor Hugo
errou querendo realizar objetivamente o que
se realiza subjetivamente, dentro de nós.

Os psicólogos não admitirão a teoria… É
responder-lhes com o “Só-quem-ama” de Bilac.
Ou com os versos de Heine de que Bilac tirou o
“Só-quem-ama”. Entretanto: si você já teve por
acaso na vida um acontecimento forte,
imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se
do tumulto desordenado das muitas idéias que
nesse momento lhe tumultuaram no cérebro.
Essas idéias, reduzidas ao mínimo telegráfico da
palavra, não se continuavam, porque não
faziam parte de frase alguma, não tinham
resposta, solução, continuidade. Vibravam,
ressoavam, amontoavam-se, sobrepunham-se.
Sem ligação, sem concordância aparente –
embora nascidas do mesmo acontecimento –
formavam, pela sucessão rapidíssima,
verdadeira simultaneidade, verdadeiras
harmonias acompanhando a melodia enérgica
e larga do acontecimento

Bilac, Tarde, é muitas vezes tentativa de
harmonia poética. Daí, em parte ao menos, o
estilo novo do livro. Descobriu, para a língua
brasileira, a harmonia poética, antes dele
empregada raramente. (Gonçalves Dias,
genialmente, na cena da luta, Y-Juca-Pirama).
O defeito de Bilac foi não metodizar o invento;
tirar dele tôdas as conseqüências. Explica-se
històricamente seu defeito: Tarde é um apogeu.
As decadências não vêm depois dos apogeus.
O apogeu já é decadência, porque sendo
estagnação não pode conter em si um progresso,
uma evolução ascensional. Bilac representa
uma fase destrutiva da poesia; porque toda
perfeição em arte significa destruição. Imagino
o seu susto, leitor, lendo isto. Não tenho tempo
para explicar: estude, si quiser. O nosso
primitivismo representa uma nova fase
construtiva. A nós compete squematizar,
metodizar as lições do passado.
Volto ao poeta. Ele fez como os criadores do
Organum medieval: aceitou harmonias de
quartas e de quintas desprezando terceiras,
sextas, todos os demais intervalos. O número
das suas harmonias é muito restrito. Assim,
“… o ar e o chão, a fauna e a flora, a erva e o
pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a hera,
a água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e a fera”
dá impressão duma longa, monótona série de
quintas medievais, fastidiosa, excessiva, inútil,
incapaz de sugestionar o ouvinte e dar-lhe a
sensação do crepúsculo na mata².
Lirismo: estado afectivo sublime – visinho da
sublime loucura. Preocupação de métrica e de
rima prejudica a naturalidade livre do lirismo
objectivado. Por isso poetas sinceros confessam
nunca ter escrito seus milhores versos. Rostand
por exemplo; e, entre nós, mais ou menos, o Sr.
Amadeu Amaral. Tenho a felicidade de escrever
meus milhores versos. Milhor do que isso não
posso fazer
Ribot disse algures que inspiração é telegrama
cifrado transmitido pela actividade inconsciente
à actividade consciente que o traduz. Essa
actividade consciente pode ser repartida entre
poeta e leitor. Assim aquele não escorcha e
esmiuça friamente o momento lírico; e
bondosamente concede ao leitor a glória de
colaborar nos poemas.
“A linguagem admite a forma dubitativa que o
mármore não admite”. Renan.
“Entre o artista plástico e o músico está o poeta,
que se avisinha do artista plástico com a sua
produção consciente, enquanto atinge as
possibilidades do músico no fundo obscuro do
inconsciente”. De Wagner.
Você está reparando de que maneira costumo
andar sòzinho…
Dom Lirismo, ao desembarcar do Eldorado do
Inconsciente no cáis da terra do Consciente, é
inspeccionado pela visita médica, a Inteligéncia,
que o alimpa dos macaquinhos e de toda e
qualquer doença que possa espalhar confusão,
obscuridade na terrinha progressista. Dom
Lirismo sofre mais uma visita alfandegária,
descoberta por Freud, que a denominou
Censura. Sou contrabandista! E contrário à lei
da vacina obrigatória.
Parece que sou todo instinto… Não é verdade.
Há no meu livro, e não me desagrada, tendência
pronunciadamente intelectualista. Que quer
você? Consigo passar minhas sedas sem pagar
direitos. Mas é psicologicamente impossível
livrar-me das injecções e dos tónicos.
A gramática apareceu depois de organizadas as
línguas. Acontece que meu inconsciente não sabe
da existência de gramáticas, nem de linguas
organizadas. E como Dom Lirismo é
contrabandista…
Você perceberá com facilidade que si na minha
poesia a gramática às vezes é despresada, graves
insultos não sofre neste prefácio
interessantíssimo. Prefácio: rojão do meu eu
superior. Versos: paisagem do meu eu profundo.
Pronomes? Escrevo brasileiro. Si uso ortografia
portuguesa é porque, não alterando o resultado,
dá-me uma ortografia.
Escrever arte moderna não significa jamais
para mim representar a vida actual no que tem
de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Si
estas palavras frequentam-me o livro não é porque pense com
elas escrever moderno, mas
porque sendo meu livro moderno, elas têm nele
sua razão de ser.
Sei mais que pode ser moderno artista que se
inspire na Grécia de Orfeu ou na Lusitânia de
Nun’Alvares. Reconheço mais a existéncia de
temas eternos, passíveis de afeiçoar pela
modernidade: universo, pátria, amor e a
presença-dos-ausentes, ex-gôso-amargo-de-
infelizes.
Não quis tambem tentar primitivismo vesgo e
insincero. Somos na realidade os primitivos
duma era nova. Estèticamente: fui buscar entre
as hipóteses feitas por psicólogos, naturalistas e
críticos sobre os primitivos das eras passadas,
expressão mais humana e livre de arte.
O passado é lição para se meditar, não para
reproduzir.
“E tu che sè costí, anima viva,
Pártiti da cotesti che son morti”.
Por muitos anos procurei-me a mim mesmo.
Achei. Agora não me digam que ando à procura
da originalidade, porque já descobri onde ela
estava, pertence-me, é minha
Quando uma das poesias deste livro foi
publicada, muita gente me disse: “Não entendi”.
Pessoas houve porém que confessaram:
“Entendi, mas não senti”. Os meus amigos…
percebi mais duma vez que sentiam, mas não
entendiam. Evidentemente meu livro é bom.
Escritor de nome disse dos meus amigos e de
mim que ou éramos gênios ou bestas. Acho que
tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos,
o anseio do farol. Si fossemos tão carneiros a
ponto de termos escola colectiva, esta seria por
certo o “Farolismo”. Nosso desejo: alumiar. A
extrema-esquerda em que nos colocámos não
permite meio-termo. Si gênios: indicaremos o
caminho a seguir; bestas: naufrágios por evitar.
Canto da minha maneira. Que me importa si me
não entendem? Não tenho forças bastantes
para me universalizar? Paciência. Com o vário
alaúde que construí, me parto por essa selva
selvagem da cidade. Como o homem primitivo
cantarei a princípio só. Mas canto é agente
simpático: faz renascer na alma dum outro
predisposto ou apenas sinceramente curioso e
livre, o mesmo estado lírico provocado em nós
por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei-de
achar tambem algum, alguma que se embalarão
à cadência libertária dos meus versos. Nesse
momento: novo Anfião moreno e caixa-d’óculos,
farei que as próprias pedras se reunam em
muralhas à magia do meu cantar. E dentro
dessas muralhas esconderemos nossa tribu.
Minha mão escreveu a respeito deste livro que
“não tinha e não tem nenhuma intenção de o
publicar”. Jornal do Comércio, 6 de Junho. Leia
frase de Gourmont sobre contradição: 1.º
volume das “Promenades Littéraires”. Rui
Barbosa tem sobre ela página lindíssima, não
me recordo onde. Ha umas palavras tambem em
João Cocteau, “La Noce Massacrée’”.
Mas todo este prefácio, com todo o disparate das
teorias que contém, não vale coisíssima
nenhuma. Quando escrevi “Paulicea Desvairada”
não pensei em nada disto. Garanto porém que
chorei, que cantei, que ri, que berrei… Eu vivo!
Aliás versos não se escrevem para leitura de
olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se,
choram-se. Quem não souber cantar não leia
Paisagem n.º 1. Quem não souber urrar não leia
Ode do Burguês. Quem não souber rezar, não leia
Religião. Despresar: A Escalada. Sofrer:
Colloque Sentimental. Perdoar: a cantiga do
berço, um dos solos de Minha Loucura, das
Enfibraturas do Ipiranga. Não continúo.
Repugna-me dar a chave de meu livro. Quem
fôr como eu tem essa chave.
E está acabada a escola poética “Desvairismo”.
Próximo livro fundarei outra.
E não quero discípulos. Em arte: escola =
imbecilidade de muitos para vaidade dum só.
Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o
Prefácio Interessantíssimo. “Toda canção de
liberdade vem do cárcere”.
POESIAS
INSPIRAÇÃO
“Onde até na força do verão havia
tempestades de ventos e frios de
crudélissimo inverno”.
Fr. Luis de Sousa
São Paulo! comoção de minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…
São Paulo! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!
 
O TROVADOR
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…
Sou um tupí tangendo um alaúde!
 
OS CORTEJOS
Monotonias das minhas retinas…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…
Todos os sempres das minhas visões! “Bon giorno, caro.
Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades…
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! os tumultuários das ausências!
Paulicea – a grande boca de mil dentes;
e os jôrros dentre a lingua trissulca
de pús e de mais pús de distinção…
Giram homens fracos, baixos, magros…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…
Estes homens de São Paulo,
todos iguais e desiguais,
quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
parecem-me uns macacos, uns macacos.
 
A ESCALADA
( Maçonariamente. )
-Alcantilações!… Ladeiras sem conto!…
Estas cruzes, estas crucificações da honra!…
-Não há ponto final no morro das ambições.
As bebedeiras do vinho dos aplaudires…
Champanhações… Cospe os fardos!
(São Paulo é trono.) – E as imensidões das escadarias!…
-Queres te assentar no píncaro mais alto? Catedral?…
-Estas cadeias da virtude!…
-Tripinga-te! (Os empurrões dos braços em segrêdo.)
Principiarás escravo, irás a Chico-Rei!
(Há fita de série no Colombo.
“O Empurrão na Escuridão”. Filme nacional.)
-Adeus lírios do Cubatão para os que andam sòzinhos!
(Sono tre tustune per i ragazzini.)
-Estes mil quilos da crença!…
-Tripinga-te! Alcançarás o sólio e o sol sonante!
Cospe os fardos! Cospe os fardos!
Vê que facilidades as tais asas?…
(Toca a banda do Fieramosca: Pa, pa, pa, pum!
Toca a banda da polícia: Ta, ra, ta, tchim!)
És rei! Olha o rei nu!
Que é dos teus fardos, Hermes Pança?!
-Deixei-os lá nas margens das escadarias,
onde nas violetas corria o rio dos olhos de minha mãe…
-Sossega. És rico, és grandíssimo, és monarca!
Alguem agora t’os virá trazer.
(E ei-lo na curul do vêsgo Olho-na-Treva.)
 
RUA DE SÃO BENTO
Triângulo.
Ha navios de vela para os meus naufrágios!
E os cantares da uiara rua de São Bento…
Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas,
as minhas delícias das asfixias da alma!
Ha leilão. Ha feira de carnes brancas. Pobres arrozais!
Pobres brisas sem pelúcias lisas a alisar!
A cainçalha… A Bolsa… As jogatinas…
Não tenho navios de vela para mais naufrágios!
Faltam-me as fôrças! Falta-me o ar!
Mas qual! Não ha siquer um pôrto môrto!
“Can you dance the tarantella?” – “ach! ya.”
São as califórnias duma vida milionária
numa cidade arlequinal…
O Clube Comercial… A Padaria Espiritual…
Mas a desilusão dos sombrais amorosos
põe majoration temporaire, 100% !…
Minha Loucura, acalma-te!
Veste o water-proof dos tambens!
Nem chegarás tão cedo
à fabrica de tecidos dos teus êxtases;
telefone: Além, 3991…
Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas,
vê, lá nos muito-ao-longes do horisonte,
a sua chaminé de céu azul!
 
O REBANHO
Oh! minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos,
sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,
sairem de mãos dadas do Congresso…
Como um possesso num acesso em meus aplausos
aos salvadores do meu estado amado!…
Desciam, inteligentes, de mãos dadas,
entre o trepidar dos taxis vascolejantes,
a rua Marechal Deodoro…
Oh! minhas alucinações!
Como um possesso num acesso em meus aplausos
aos heróis do meu estado amado!…
E as esperanças de ver tudo salvo!
Duas mil reformas, tres projectos…
Emigram os futuros nocturnos…
E verde, verde, verde!…
Oh! minhas alucinações
Mas os deputados, chapéus altos,
mudavam-se pouco a pouco em cabras!
Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas…
E vi que os chapéus altos do meu estado amado,
com os triângulos de madeira no pescoço,
nos verdes esperanças, sob as franjas de oiro da tarde,
se punham a pastar
rente do palácio do senhor presidente…
Oh! minhas alucinações!
 
TIÊTÊ
Era uma vez um rio…
Porém os Borbas-Gatos dos ultra-nacionais esperiamente!
Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo
as monções da ambição…
E as giganteas vitórias!
As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho..
Arroubos… Lutas… Setas… Cantigas… Povoar!…
Ritmos de Brecheret!… E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!… E o hoje das turmalinas!…
-Nadador! vamos partir pela via dum Mato-Grosso?
-Io! Mai!… (Mais dez braçadas.
Quina Migone. Hat Stores. Meia de seda.)
Vado a pranzare con la Ruth.
 
PAISAGEM N.1
Minha Londres das neblinas finas!
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Ha neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio…
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas…
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!…
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralálá… A guarda-civica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste…
Enquanto o.cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento…
Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gôsto de lágrimas na boca…
 
ODE AO BURGUÊS
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos:
e gemem sangues de alguns milreis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o “Printemps” com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fóra os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“-Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-Um colar… -Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas venta!s oh! carecas!
Odio aos temperamentos regulares!
Odio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Odio à soma! Odio aos secos e molhados!
Odio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Odio e insulto! Odio e raiva! Odio e mais odio!
Morte ao burguês de giôlhos,
cheirando religão e que não crê em Deus!
Odio vermelho! Odio fecundo! Odio cíclico!
Odio fundamento, sem perdão!
Fora! Fú! Fora o bom burguês!…
 
TRISTURA
“Une rose dans les ténèbres”
Mallarmé
Profundo. Imundo meu coração…
Olha o edifício: Matadouros da Continental.
Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios…
Minha alma corcunda como a avenida São João…
E dizem que os polichinelos são alegres!
Eu nunca em guisos nos meus interiores arlequinais!…
Paulicea, minha noiva… Ha matrimónios assim…
Ninguém os assistirá nos jamais!
As permanências de ser um na febre!
Nunca nos encontrámos…
Mas ha rendez-vous na meia-noite do Armenonville…
E tivemos uma filha, uma só…
Batismos do snr. cura Bruma;
agua-benta das garôas monótonas…
Registei-a no cartório da Consolação…
Chamei-a Solitude das Plebes…
Pobres cabelos cortados da nossa monja!
 
DOMINGO
Missas de chegar tarde, em rendas,
e dos olhares acrobáticos…
Tantos telégrafos sem fio!
Santa Cecília regorgita de corpos lavados
e de sacrilégios picturais…
Mas Jesus Cristo nos desertos,
mas o sacerdote no “Confiteor”… Contrastar!
-Futilidade, civilização…
Hoje quem joga?… O Paulistano
Para o Jardim América das rosas e dos ponta-pés!
Friedenreich fez goal! Corner! Que juiz!
Gostar de Bianco? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso!…
-Futilidade, civilização…
Mornamente em gazolinas… Trinta e cinco contos!
Tens dez milreis? vamos ao corso…
E filar cigarros a quinzena inteira…
Ir ao corso é lei. Viste Marília?
E Filis? Que vestido: pele só!
Automóveis fechados… Figuras imóveis…
O bocejo do luxo… Entêrro.
E tambem as famílias dominicais por atacado,
entre os convenientes perenemente…
-Futilidade, civilização…
Central. Drama de adultério.
A Bertini arranca os cabellos e morre.
Fugas… Tiros… Tom Mix!
Amanhã fita alemã… de beiços…
As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã…
As romas de Petronio…
E o leito virginal… Tudo azul e branco!
Descansar… Os anjos… imaculado!
As meninas sonham masculinidades…
-Futilidade, civilização…
 
O DOMADOR
Alturas da Avenida. Bonde 3.
Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira
sob o arlequinal do céu oiro-rosa-verde…
As sujidades implexas do urbanismo.
Filets de manuelino. Calvícies de Pensilvânia.
Gritos de goticismo.
Na frente o tram da irrigação,
onde um Sol bruxo se dispersa
num triunfo persa de esmeraldas, topásios e rubis…
Lânguidos boticellis a ler Henry Bordeaux
nas clausuras sem dragões dos torreões…
Mario, paga os duzentos réis.
São cinco no banco: um branco,
um noite, um oiro,
um cinzento de tísica e Mario…
Solicitudes! Solicitudes!
Mas… olhai, oh meus olhos saudosos dos ontens
esse espetáculo encantado da Avenida!
Revivei, oh gaúchos paulistas ancestremente!
e oh cavalos de cólera sanguínea!
Laranja da China, laranja da China, laranja da China!
Abacate, cambucá e tangerina!
Guardate! Aos aplausos do esfusiante clown,
heroico sucessor da raça heril dos bandeirantes,
passa galhardo um filho de imigrante,
loiramente domando um automóvel!
 
ANHANGABAÚ
Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora…
Oh larguezas dos meus itinerários!…
Estátuas de bronze nu correndo eternamente,
num parado desdem pelas velocidades…
O carvalho votivo escondido nos orgulhos
do bicho de mármore parido no Salon…
Prurido de estesias perfumando em rosais
o esqueleto trêmulo do morcego…
Nada de poesia, nada de alegrias!…
E o contraste boçal do lavrador
que sem amor afia a foice…
Estes meus parques do Anhangabaú ou de Paris,
onde as tuas águas, onde as mágoas dos teus sapos?
“Meu pai foi rei!
-Foi. – Não foi. – Foi. – Não foi.”
Onde as tuas bananeiras?
Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros,
contando histórias aos sacis?…
Meu querido palimpsesto sem valor!
Crônica em mau latim
cobrindo uma écloga que não seja de Virgilio!…
 
A CAÇADA
A bruma neva… Clamor de vitórias e dolos…
Monte São Bernardo sem cães para os alvíssimos!
Cataclismos de heroismos… O vento gela…
Os cinismos plantando o estandarte;
enviando para todo o universo
novas cartas-de-Vaz-Caminha!…
Os Abéis quási todos muito ruins
a escalar, em lama, a glória…
Cospe os fardos!
Mas sôbre a turba adejam os cartazes de “Papel e Tinta”
como grandes mariposas de sonho queimando-se na luz…
E o maxixe do crime puladinho
na eternização dos tres dias… Tripudiares gaios!…
Roubar… Vencer… Viver os respeitosamentes no crepúsculo…
A velhice e a riqueza têm as mesmas cans.
A engrenagem trepida… A bruma neva…
Uma síncope: a sereia da polícia
que vai prender um bêbedo no Piques…
Não ha mais lugares no boa-vista triangular.
Formigueiro onde todos se mordem e devoram…
O vento gela… Fermentação de ódios egoismos
para a caninha-do-Ó dos progredires…
Viva virgem vaga desamparada…
Malfadada! Em breve não será mais virgem
nem desamparada!
Terá o amparo de todos os desamparos!
Tossem: O Diário! A Platea…
Lívidos doze-anos por um tostão
Tambem quero ler o aniversário dos reis…
Honra ao mérito! Os virtuosos hão-de sempre ser louvados
e retratificados…
Mais um crime na Moóca!
Os jornais estampam as aparências
dos grandes que fazem anos, dos criminosos que fazem danos…
Os quarenta-graus das riquezas! O vento gela…
Abandonos! Ideais palidos!
Perdidos os poetas, os moços, os loucos!
Nada de asas! nada de poesia! nada de alegria!
A bruma neva… Arlequinal!
Mas viva o Ideal! God save the poetry!
-Abade Liszt da minha filha monja,
na Cadilac mansa e glauca da ilusão,
passa o Oswald de Andrade
mariscando gênios entre a multidão!…
 
NOCTURNO
Luzes do Cambuci pelas noites de crime…
Calor!… E as nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores…
Gingam os bondes como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
cuspindo um orifício na treva cor de cal…
Num perfume de heliotrópios e de pôças
gira uma flor-do-mal… Veio do Turquestan;
e traz olheiras que escurecem almas…
Fundiu esterlinas entre as unhas roxas
nos oscilantes de Ribeirão Preto…
– Batat’assat’ô furnn!…
Luzes do Cambuci pelas noites de crime!…
Calor… E as nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores…
Um mulato cor de oiro,
com uma cabeleira feita de alianças polidas…
Violão! “Quando eu morrer…” Um cheiro pesado de baunilhas
oscila, tomba e rola no chão…
Ondula no ar a nostalgia das Baías…
E os bondes passam como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
ferindo um orifício na treva cor de cal…
-Batat’assat’ô furnn!…
Calor!… Os diabos andam no ar
corpos de nuas carregando…
As lassitudes dos sempres imprevistos!
e as almas acordando às mãos dos enlaçados!
Idílios sob os plátanos!…
E o ciume universal às fanfarras gloriosas
de sáias cor de rosa e gravatas cor de rosa!…
Balcões a cautela latejante, onde florem Iracemas
para os encontros dos guerreiros brancos… Brancos?
E que os cães latam nos jardins!
Ninguem, ninguem, ninguem se importa!
Todos embarcam na Alameda dos Beijos da Aventura!
Mas eu… Estas minhas grades em girândolas de jasmins
enquanto as travessas do Cambuci nos livres
da liberdade dos lábios entreabertos!…
Arlequinal! Arlequinal!
As nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores…
Mas sôbre estas minhas grades em girândolas de jasmins,
o estelário delira em carnagens de luz,
e meu céu é todo um rojão de lagrimas!…
E os bondes passam como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
jorrando um orifício na treva cor de cal…
-Batat’assat’ô furnn!…
 
PAISAGEM N. 2
Escuridão dum meio-dia de invernia…
Marasmos… Estremeções… Brancos…
O céu é toda uma batalha convencional de confetti brancos;
e as onças pardas das montanhas no longe…
Oh! para além vivem as primaveras eternas!
As casas adormecidas
parecem teatrais gestos dum explorador do polo
que o gêlo parou no frio…
Lá para as bandas do Ipiranga as oficinas tossem…
Todos os estiolados são muito brancos.
Os invernos de Paulicea são como entêrros de virgem…
Italianinha, torna al tuo paese!
Lembras-te? As barcarolas dos céus azuis nas aguas verdes…
Verde – cor dos olhos dos loucos!
As cascatas das violetas para os lagos…
Primaveral – cor dos olhos dos loucos!
Deus recortou a alma de Paulicea
num cor de cinza sem odor…
Oh! para além vivem as primaveras eternas!…
Mas os homens passam sonambulando…
E rodando num bando nefário,
vestidas de electricidade e gazolina,
as doenças jocotoam em redor…
Grande funcção ao ar livre!
Bailado de Cocteau com os barulhadores de Russolo! Opus 1921.
São Paulo é um palco de bailados russos.
Sarabandam a tísica, a ambição, as invejas, os crimes
e tambem as apoteoses da ilusão…
Mas o Nijinsky sou eu!
E vem a Morte, minha Karsavina!
Quá, quá, quá! Vamos dansar o fox-trot da desesperança
a rir, a rir dos nossos desiguais!
 
TU
Morrente chama esgalga,
mais morta inda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
e de longe em longe uma chávena da treva bem forte!
Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das tôrres de São Bento!
Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,
toda insultos nos olhos,
toda convites nessa boca louca de rubores!
Costureirinha de São Paulo,
ítalo-franco-luso-brasílico-saxônica,
gosto dos teus ardores crepusculares,
crepusculares e por isso mais ardentes,
bandeirantemente!
Lady Macbeth feita de névoa fina,
pura neblina da manhã!
Mulher que és minha madrasta e minha irmã!
Trituração ascensional dos meus sentidos!
Risco de aeroplano entre Mogi e Paris!
Pura neblina da manhã!
Gosto dos teus desejos de crime turco
e das tuas ambições retorcidas como roubos!
Amo-te de pesadelos taciturnos,
Materialização da Canaan do meu Poe!
Never more!
Emílio de Menezes insultou a memória do meu Poe…
Ohl Incendiária dos meus alens sonoros!
tu és o meu gato preto!
Tu te esmagaste nas paredes do meu sonho!
este sonho medonho!…
E serás sempre, morrente chama esgalga,
meio fidalga, meio barregã,
as alucinações crucificantes
de todas as auroras de meu jardim!
 
PAISAGEM N. 3
Chove?
Sorri uma garôa cor de cinza,
muito triste, como um tristemente longo…
A casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação…
Mas nêste largo do Arouche
posso abrir o meu guarda-chuva paradoxal,
este lírico plátano de rendas mar…
Ali em frente… – Mário, põe a máscara!
-Tens razão, minha Loucura, tens razão.
O rei de Tule jogou a taça ao mar…
Os homens passam encharcados…
Os reflexos dos vultos curtos
mancham o petit-pavé…
As rôlas da Normal
esvoaçam entre os dedos da garoa…
(E si pusesse um verso de Crisfal
No De Profundis?…)
De repente
um rádio de Sol arisco
risca o chuvisco ao meio.
 
COLLOQUE SENTIMENTAL
Tenho os pés chagados nos espinhos das calçadas…
Higienópolis!… As Babilônias dos meus desejos baixos .. Casas nobres de estilo… Enriqueceres em tragédias…
Mas a noite é toda um véu-de-noiva ao luar!
A preamar dos brilhos das mansões…
O jazz-band da cor… O arco-íris dos perfumes…
O clamor dos cofres abarrotados de vidas…
Ombros nus, ombros nus, lábios pesados de adultério…
E o rouge – cogumelo das podridões…
Exércitos de casacas eruditamente bem talhadas…
Sem crimes, sem roubos o carnaval dos títulos…
Si não fosse o talco adeus sacos de farinha! Impiedosamente…
-Cavalheiro… – Sou conde! – Perdão.
Sabe que existe um Braz, um Bom Retiro?
-Apre! respiro… Pensei que era pedido.
Só conheço Paris!
-Venha comigo então.
Esqueça um pouco os braços da visinha…
-Percebeu, hein! Dou-lhe gorgeta e cale-se.
O sultão tem dez mil… Mas eu sou conde!
-Vê? Estas paragens trevas de silêncio…
Nada de asas, nada de alegria… A Lua…
A rua toda nua… As casas sem luzes…
E a mirra dos martírios inconscientes…
-Deixe-me pôr o lenço no nariz.
Tenho todos os perfumes de Paris!
-Mas olhe, em baixo das portas, a escorrer…
-Para os esgôtos! Para os esgôtos!
-a escorrer
um fio de lágrimas sem nome!…
 
RELIGIÃO
Deus! creio em Ti! Creio na tua Bíblia!
Não que a explicasse eu mesmo,
porquê a recebi das mãos dos que viveram as iluminações!
Catolicismo! sem pinturas de Calixto!… As humildades!…
No poço das minhas erronias
vi que reluzia a Lua dos teus perdoares!…
Rio-me dos Luteros parasitais
e dos orgulhos soezes que não sabem ser orgulhos da Verdade;
e os mações, que são pecados
 

 





Bio fornecida pelo palestrante.

Among the leaves of the green O




Autor: Marina Colasanti
Título: Among the leaves of the green O
Idiomas: eng
Tradutor: Viviane de Guanabara Mury(eng)
Data: 29/12/2004

Among the leaves of the green O

Marina Colasanti

In the first doe that ran,
he missed.
And in the second doe, he hit.
And kissed.
And the third one retreated in the
youth’s heart.
She is among the leaves of the
green O.
The prince woke up gladly. It was the day of hunting. The dogs barked on the castle’s courtyard. He dressed the leather waistcoat, put the boots. The horses were hoofing underneath the windows. He took the gloves and went down.
The yard seemed a feast. The harnesses and the animal’s fur shone at the sun. Shone the open teeth in laughs, the weapons, the horns blowing the call to start.
In the woods, the horn and the noise were also heard. Everybody knew they were coming. And each one hid as they could.
Only the maiden did not hide. She was woken up by the horn sound, and she was leant by the stream when the hunters arrived.
The prince saw her like that. Half woman, half doe, drinking in the stream. The woman, so beautiful. The doe, so fast. The woman, he wanted to love; the doe, he wanted to kill. Getting close, would she flee? He touched the branch; she arose the head listening. So, the prince prepared the bow, aimed the arrow and shot right in the right foot. And when the doe-woman bended over her knees trying to snatch the arrow away, he ran and held her, calling out men and dogs.
They took the doe to the castle. The doctor came and treated the wound. They put the doe in a closed room.
Everyday the prince visited her. Only he had the key. And he fell in love more and more. But the doe-woman spoke only the language of the woods and the prince only knew the language of the Palace.
Then, they remained hours looking at each other, with so many things to say.
He wanted to say how much he loved her, that he wanted to marry her and have her forever in the castle. He would cover her with clothes and jewellery, that he would call the best wizard in the reign to turn her into a complete woman.
She wanted to say how much she loved him, that she wanted to marry him and take him to the woods. She would teach him how to like the birds and the flowers and she would ask the Queen of Does to give him four quick hoofs and a beautiful brown fur.
But the prince had the key of the door. And she did not have the secret of the word.
Everyday they met. Now, they hold their hands. And on the day the first tear came out of her eyes, the prince thought he had understood it and called the wizard.
When the doe woke up, she was no longer a doe. Just two long legs, a white body. She tried to get up but did not succeed in. The prince gave her his hand. The jewellers came and covered her with jewels. The masters of dance came to teach her how to walk Only the word she did not have. And the desire to be woman.
It took seven days until she learned seven steps. And in the eighth morning day, when she woke up and saw the door opened, gathered seven steps and seven more, crossed the corridor, went down the stairs, crossed the courtyard and ran to the woods, searching for her Queen.
The sun still shone when the doe came out from the woods, only doe, no woman anymore. And it started grazing underneath the Palace windows.

From: Uma idéia toda azul. Translated by Viviane de Guanabara Mury.





Bio fornecida pelo palestrante.

SELECCIÓN DE POEMAS




Autor: Marco Lucchesi
Título: Sele??o de Poemas, Selecc?on de Poemas
Idiomas: port, esp
Tradutor:
Data: 29/12/2004

SELECCIÓN DE POEMAS


Marco Lucchesi


El Outro

 
El otro
Perdido
en la trama
de la noche
bajo los rayos
de luna
en la sombra
de los vivos
en el sueño
de los muertos
un ángel
chueco y fatigado
un ángel
de polvo y llanto
vagaba
por mi cuarto
(había
un fuerte
olor de azufre)
rostro
descompuesto
y alas de hollín
vagaba
por mi cuarto
siguiendo
la sombra
de los muertos
rostro
descompuesto
y alas de hollín
sin saber
de cierto
a dónde voy
en la sombra
de los vivos
en el sueño
de los muertos.
Fuente: : (www.fuentes.csh.udg.mx)/ Traducción de Hilda Figueroa

Las pléyades

¡Son más de mil
demonios
que pueblan,
estrellas
solitarias!,
el vórtice
de la noche…
Orión
dirige
a las pléyades
su arco
luminoso
y la flecha
puntiaguda
torna
más frío
nuestro dolor
y más
denso…
Flecha
súbita
hiere
y arrebata
los más de mil
demonios
que pueblan
el vórtice
del tiempo,
la noche
fría.
Basel, 4.3. 94
Fuente: (www.fuentes.csh.udg.mx)/ Traducción de Hilda Figueroa


SELEÇÃO DE POEMAS


Marco Lucchesi


O Outro

O Outro
Perdido
na trama
da noite
sob os raios
do luar
na sombra
dos vivos
no sonho
dos mortos
um anjo torto e
alquebrado
um anjo
de pó e de pranto
vagava
pelo meu quarto
(havia
um forte
cheiro de enxofre)
rosto
decomposto
e asas de fuligem
vagava
pelo meu quarto
seguindo
a sombra
dos mortos
rosto
decomposto
e asas de fuligem
sem saber
ao certo
onde me vou
na sombra
dos vivos
no sonho
dos mortos.
Fonte: (www.fuentes.csh.udg.mx)/
 

 

As Plêiades

São mais de mil
demônios
que povoam,
estrelas
solitárias!,
o vórtice
da noite…
Órion
volta
para as Plêiades
seu arco
luminoso
e a flecha
pontiaguda
torna
mais fria
nossa dor
e mais
espessa…
Súbita
flecha
fere
e arrebata
os mais de mil
demônios
que povoam,
no vórtice
do tempo,
a noite
fria.
Basel, 4.3. 94
Fonte: (www.fuentes.csh.udg.mx)/





Bio fornecida pelo palestrante.

MATELOT TRISTE




Autor: Manuel Bandeira
Título: Marinheiro Triste, Matelot Trste
Idiomas: port, fra
Tradutor:
Data: 29/12/2004


MATELOT TRISTE


Manuel Bandeira

 



O matelot triste
Qui reviens à bord,
Quelles pensées,
celles
Qui te préoccupent?
Serait-ce une femme,
Amante d?un jour,
Abandonnée loin
Dans un port d?escale?
Mais ton amertume,
Dis, peut-être a-t-elle
Tout autres racines,
Vastes, fraternelles,
Plus nobles, profondes?
O matelot triste
D?un lointain pays,
Près de moi passé,
À tout étranger,
Tu n?as pas senti
Cette onde virile
De fraternité
Dont je rayonnais.
Je serai bientôt
Chez moi.
Toi tu rentres
A bord d?un bateau
Sale, hostile, au ventre
Amarré au quai.
Et, lucide, triste,
Comme toi, je vais,
Comme toi, je marche,
O matelot triste.
Quand tu partiras
Demain tu auras
Le vent de la mer
Le vent du grand large,
L?horizon immense
Qui danse, qui danse
Et le sel amer.
Mais moi, matelot?
____ 


Fonte:
 Lorraine, Bernard. Matelot triste. In : Poèmes du Brésil. France : Ouvrières / Dessain et Toira, 1985. p. 68-69. Les deux textes ci-joints sont dans le livre Poèmes du Brésil. La version originel en portugais de ces deux poèmes de Manuel Bandeira sont dans le livre Antologia Poética Bandeira, Rio de Janeiro: Sabiá, 1969.

MARINHEIRO TRISTE
Manuel Bandeira
Marinheiro triste
Que voltas par bordo
Que pensamentos são
Êsses que tu ocupam?
Alguma mulher
Amante de passagem
Que deixaste longe
Num pôrto de escala?
Ou tua amargura
Tem outras raízes
Largas fraternais
Mais nobres mais fundas?
Marinheiro triste
De um país distante
Passaste por mim
Tão alheio a tudo
Que nem pressentiste
Marinheiro triste
A onda viril
De fraterno afeto
Em que te envolvi…
E eu que para casa
Vou como tu vais
Para o teu navio,
Feroz casco sujo
Amarrado ao cais,
Também como tu
Marinheiro triste
Vou lúcido e triste.
Amanhã terás
Depois que partires
O vento do largo
O horizonte imenso
E sal do mar alto!
Mas eu, marinheiro ?

Fonte: LORRAINE, Bernard. Marinheiro triste. In : Poèmes du Brésil. France : Ouvrières / Dessain et Toira, 1985. p. 68-69. Ambos os textos se encontram no livro Poèmes du Brésil. A versão original em português desta obra de Manuel Bandeira está no livro Antologia Poética – Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá, 1969.





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A Carteira




Autor: Machado de Assis
Título: A Carteira
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/02/2006

A CARTEIRA

Machado de Assis

 
… De repente, Hon?rio olhou para o ch?o e viu uma carteira. Abaixar-se, apanh?-la e guard?-la foi obra de alguns instantes. Ningu?m o viu, salvo um homem que estava ? porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
? Olhe, se n?o d? por ela; perdia-a de uma vez.
? ? verdade, concordou Hon?rio envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, ? preciso saber que Hon?rio tem de pagar amanh? uma d?vida, quatrocentos e tantos mil-r?is, e a carteira trazia o bojo recheado. A d?vida n?o parece grande para um homem da posi??o de Hon?rio, que advoga; mas todas as quantias s?o grandes ou pequenas, segundo as circunst?ncias, e as dele n?o podiam ser piores. Gastos de fam?lia excessivos, a princ?pio por servir a parentes, e depois por agradar ? mulher, que vivia aborrecida da solid?o; baile daqui, jantar dali, chap?us, leques, tanta cousa mais, que n?o havia rem?dio sen?o ir descontando o futuro. Endividou-se. Come?ou pelas contas de lojas e armaz?ns; passou aos empr?stimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilh?o perp?tuo, uma voragem.
? Tu agora vais bem, n?o? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C…, advogado e familiar da casa.
? Agora vou, mentiu o Hon?rio.
A verdade ? que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgra?a perdera ultimamente um processo, em que fundara grandes esperan?as. N?o s? recebeu pouco, mas at? parece que ele lhe tirou alguma cousa ? reputa??o jur?dica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
D. Am?lia n?o sabia nada; ele n?o contava nada ? mulher, bons ou maus neg?cios. N?o contava nada a ningu?m. Fingia-se t?o alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites ? casa dele, dizia uma ou duas pilh?rias, ele respondia com tr?s e quatro; e depois ia ouvir os trechos de m?sica alem?, que D. Am?lia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indiz?vel prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de pol?tica.
Um dia, a mulher foi ach?-lo dando muitos beijos ? filha, crian?a de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
? Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da mis?ria. Mas as esperan?as voltavam com facilidade. A id?ia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princ?pio da carreira: todos os princ?pios s?o dif?ceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a m?s horas.
A d?vida urgente de hoje s?o uns malditos quatrocentos e tantos mil-r?is de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor n?o lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Hon?rio quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assembl?ia ? que viu a carteira no ch?o, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.
Durante os primeiros minutos, Hon?rio n?o pensou nada; foi andando, andando, andando, at? o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, ? enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se da? a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Caf?. Pediu alguma cousa e encostou-se ? parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia n?o achar nada, apenas pap?is e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflex?es, a consci?ncia perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. N?o lhe perguntava com o ar de quem n?o sabe, mas antes com uma express?o ir?nica e de censura. Podia lan?ar m?o do dinheiro, e ir pagar com ele a d?vida? Eis o ponto. A consci?ncia acabou por lhe dizer que n?o podia, que devia levar a carteira ? pol?cia, ou anunci?-la; mas t?o depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasi?o, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ningu?m iria entregar-lha; insinua??o que lhe deu ?nimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase ?s escondidas; abriu-a, e ficou tr?mulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; n?o contou, mas viu duas notas de duzentos mil-r?is, algumas de cinq?enta e vinte; calculou uns setecentos mil r?is ou mais; quando menos, seiscentos. Era a d?vida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Hon?rio teve tenta??es de fechar os olhos, correr ? cocheira, pagar, e, depois de paga a d?vida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guard?-la.
Mas da? a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para qu?? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-r?is. Hon?rio teve um calafrio. Ningu?m viu, ningu?m soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo… Hon?rio teve pena de n?o crer nos anjos… Mas por que n?o havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas m?os; depois, resolvia o contr?rio, n?o usar do achado, restitu?-lo. Restitu?-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
?Se houver um nome, uma indica??o qualquer, n?o posso utilizar-me do dinheiro?, pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que n?o abriu, bilhetinhos dobrados, que n?o leu, e por fim um cart?o de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas ent?o, a carteira?… Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dois cart?es, mais tr?s, mais cinco. N?o havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. N?o podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato il?cito, e, naquele caso, doloroso ao seu cora??o porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a ?ltima gota de caf?, sem reparar que estava frio. Saiu, e s? ent?o reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dois empurr?es, mas ele resistiu.
?Paci?ncia, disse ele consigo; verei amanh? o que posso fazer?.
Chegando a casa, j? ali achou o Gustavo, um pouco preocupado, e a pr?pria D. Am?lia o parecia tamb?m. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
? Nada.
? Nada?
? Por qu??
? Mete a m?o no bolso; n?o te falta nada?
? Falta?me a carteira, disse o Gustavo sem meter a m?o no bolso. Sabes se algu?m a achou?
? Achei-a eu, disse Hon?rio entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Hon?rio como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste pr?mio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explica??es precisas.
? Mas conheceste?a?
? N?o; achei os teus bilhetes de visita.
Hon?rio deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Ent?o Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro n?o quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Am?lia, que, ansiosa e tr?mula, rasgou-o em trinta mil peda?os: era um bilhetinho de amor.
 


Texto cedido pela ?Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro? http://www.bibvirt.futuro.usp.br. A Escola do Futuro da Universidade de S?o Paulo.





Bio fornecida pelo palestrante.

A Cartomante




Autor: Machado de Assis
Título: A Cartomante, La Cartomancienne
Idiomas: port
Tradutor: Adrien Delpech(fra)
Data: 29/12/2004

LA CARTOMANCIENNE

Machado de Assis

Hamlet fait observer à Horacio qu’il y a plus de choses sur la terre et sous les cieux que n’en imagine notre philosophie. Cette même explication, la belle Rita la donnait au jeune Camille, un vendredi de novembre de 1869, alors qu’il se moquait d’elle, parce qu’elle était allée, la veille, consulter une cartomancienne. La différence, c’est qu’il employait d’autres paroles.
— Ris, ris. Les hommes sont ainsi faits; ils ne croient à rien. Eh bien! sache que je suis allée chez elle, et qu’elle a deviné les motifs de ma visite avant même que je lui eusse dit de quoi il s’agissait. A peine a-t-elle commencé à étaler les cartes qu’elle s’est écriée: «Vous aimez quelqu’um…» J’avouai que oui, et alors elle a continue d’aligner les figures, de les combiner, et elle m’a enfin declare que j’avais peur que tu ne m’oubliasses, mais que c’était à tort…
— Elle s’est trompée, interrompit Camille, en riant.
— Ne dis pas cela, Camille. Si tu savais combien j’ai couru à cause de toi. Tu le sais; je te l’ai dit. Ne ris pas de moi, ne ris pas.
Camille lui prit les mains, la regarda, sérieux et fixe. Il jura qu’il l’aimait beaucoup et que ses craintes étaient puériles. En tous cas, quand elle aurait peur, la meilleure cartomancienne c’était encore lui-même. Ensuite, il la gronda; quelle imprudence d’aller dans cette maison. Villela pouvait le savoir, et ensuite…
— Allons donc! toutes mes precautions étaient prises en entrant.
— Où demeure-t-elle?
— Tout près d’ici, rue da Guarda-Velha; personne ne passait à ce moment. Rassure-toi: je ne suis pas folle.
Camille rit une autre fois:
— Vraiment, tu crois à ces choses? Lui demanda-t-il.
Ce fut alors que, traduisant Hamlet, sans le savoir, en prose vulgaire, elle lui dit qu’il y avait en ce monde beaucoup de choses mystérieuses et réelles. S’il n’y croyait pas, tant pis! il n’en était pas moins vrai que la cartomancienne avait tout deviné. Quoi encore? La meilleure prevue, c’est qu’elle était maintenant tranquille et rassérénée.
Elle pensait qu’il allait lui donner la réplique, mais il se retint, ne voulant pas lui enlever de ses illusions. D’ailleurs, dans son enfance, et même plus tard, il était demeuré superstitieusement emprisonné au milieu d’un arsenal de croyances que sa mere lui avait inculquées, et qui s’étaient évanouies vers sa vingtième année. Le jour qu’il laissa tomber toute cette végétation parasite, et qu’il ne resta plus que le tronc de la religion, il enveloppa, dans un même doute d’abord, puis dans une negation totale, ces deux enseignements qu’il avait reçus de sa mere. Camille ne croyait à rien. Pourquoi? Il n’aurait pu le dire, il ne possédait aucun argument, se limitant à tout nier. Et je m’exprime mal; car nier, c’est encore affirmer, et il ne formulait pas son incrédulité. Devant le mystérieux, il se contenta de hausser les épaules et de passer son chemin.
Il se séparèrent contents, lui surtout. Rita était certaine d’être aimée. Camille, non seulement possédait cette certitude, mais encore il voyait sa maîtresse trembler et se risquer pour lui, courir les tireuses de cartes, et bien qu’il la censurât, il ne pouvait s’empêcher d’être flatté. La maison de rendez-vous se trouvait dans l’ancienne rue dos Barbonos, où demeurait une femme née dans la même province que Rita. Celle-ci descendit par la rue das Mangueiras, dans la direction de Botafogo, où elle habitait. Camille prit la Guarda-Velha, et regarda, au passage, la maison de la cartomancienne.
Villela, Camille et Rita, trois noms, une aventure et aucune explication préalable. Donnons-en. Les deux premiers étaient amis d’enfance Villela suivit la carrière de la magistrature; Camille entra dans le fonctionnarisme, contre la volonté de son père, qui voulait le voir médecin. Mais le père mourut, et Camille préféra n’être rien du tout, jusqu’au jour où sa mere lui trouva un employ public. Au commencement de 1869, Villela revint de sa province, où il s’était marié avec une personne jolie et frivole; il abandonna la magistrature, et ouvrit un cabinet d’avocat. Camille lui trouva une maison du côté de Botafogo, et alla le recevoir à bord.
— C’est vous, Monsieur, s’écria Rita en lui tendant la main. Vous ne vous imaginez pas à quel point mon mari est votre ami. Il parle sans cesse de vous.
Camille et Villela se regardèrent avec tendresse. Ils étaient vraiment amis. Ensuite Camille s’avoua à lui-même que la femme de Villela ne démentait pas les lettres du mari. Et vraiment elle était gracieuse et vive dans sés gestes, avec sés regards chauds, as bouche fine et interrogative. Elle était un peu plus âgée qu’eux. Elle avait trente ans, Villela vingt-neuf et Camille vingt-six. Cependant le port grave de Villela le faisait paraître plus âgé que sa femme, tandis que Camille était un ingénu dans la vie morale et dans la vie pratique. Il lui manquait aussi bien l’action du temps que ces lunettes de cristal que la nature met dans le berceau de quelques-uns pour anticiper sur les années. Ni expérience, ni intuition.
Ils firent vie commune. La frequentation assidue les rendit intimes. Peu après, la mere de Camille mourut, et, dans ce désastre (c’en fut un vraiment), Villela et Rita entourèrent Camille de leur amitié. L’un s’ocuppa de l’enterrement, des messes et de l’inventaire, l’autre soigna le cœur du jeune homme, et personne ne s’entendait mieux à cela.
Comment ils em arrivèrent à l’amour, il ne lê sut jamais. En vérité, il se plaisait à passer les heures pres d’elle. Elle était son infirmière morale, presque um sœur, mais surtout elle était femme et jolie. L’odor de femina: voilà ce qu’il respirait d’elle, autour d’elle, ce dont il s’imprégnait. Ils lisaient les mêmes livres, allaient ensemble au théâtre et à la promenade. Camille lui enseignait les dames, les échecs, et ils y jouaient, la nuit: – elle mal, – lui un peu moins mal, et pour lui être agréable: voilà pour l’ambiance. Quant à l’actoin personnelle, les yeux insistants de Rita, qui cherchaient souvent les siens, qui le consultaient avant le mari, les mains glacées, les attitudes insolites… Un jour d’anniversaire, il reçut de Villela une jolie canne en cadeau, et de Rita, une simple carte de visite, avec un compliment écrit au crayon, et ce fut à cette occasion qu’il lut dans son propre cœur. Il ne pouvait détourner les yeux du billet. Les paroles étaient banales; mais il y a des banalities sublimes, ou pour le moins délectables. Le vieux fiacre ou l’on s’est pour la première fois promené, stores baissés, avec la femme aimée, vant le char d’Apollon. Tel est l’homme, Telles sont les choses qui l’entourent.
Camille voulut sincèrement fuir; mais déjà il ne pouvait plus. Rita comme un serpent s’approcha de lui, l’enveloppa tout entire, fit craquer ses dans un spasme, et, goutte à goutte, lui versa le poison dans la bouche. Il en demeura étourdi et subjugué. Embarras, remords, craintes, desires, il éprouva tout en même temps. Mais la bataille fut courte et la victoire delirante. Adieu, scrupules! La sandale prit bien vite la forme du pied, et tous deux s’en furent par le grand chemin, les mains jointes, merchant légèrement sur les herbes et les graviers, sans éprouver autre chose que des regrets, quand ils étaient éloignés l’un de l’autre. La confiance et l’estime de Villela demeuraient inaltérables.
(…)

___________________

Fonte: ASSIS, Machado de. Quelques contes: La Cartomancienne. Traduit du portugais par Adrien Delpech. Paris, Garnier Frères Libraires-éditeurs, 1910, p. 3-10.

A CARTOMANTE

Machado de Assis

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois…
— Qual saber! tive muita cautela ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi assim que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa mentirosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda firmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separam-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, o Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmo livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites – ela mal –, ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dela, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estamos ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
(…)

Fonte: ASSIS, Machado de. Várias Histórias: A Cartomante. 4ª ed. São Paulo, Ática, 2000, p. 13-15.





Bio fornecida pelo palestrante.

A causa secreta




Autor: Machado de Assis
Título: A causa secreta
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

CASA VELHA

Trecho

Machado de Assis

CAPÍTULO I
ANTES E DEPOIS DA MISSA

Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial:
— Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer cousa melhor.
Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates, documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.
— Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
— Por que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do que for possível, e com autorização dela.
— Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração, que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver, e far-se-á o que for possível.
Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando; mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia o devido respeito à memória do marido consentindo que alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo acompanhei o Padre Mascarenhas.
A casa, cujo lagar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.
Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao rés do chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente à dona da casa, e às senhoras da família ou hóspedas, que entravam pelo interior; os homens, os fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o Padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais de prata, para as toalhas finas e alvíssimas, para o chão em que não havia uma palha.
— Todos os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário? Pequeno, mas um primor.
Não havia coro nem órgão. Já disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorrência à missa era tal que até na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiéis. Mascarenhas faz-me notar à esquerda da capela o lagar em que estava sepultado o ex ministro. Tinha o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que guardava, das alusões freqüentes na conversação.
— Lá verá na biblioteca o retrato dele, disse-me.
Começaram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados, saíam, outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham também escravos da casa. Um destes era o próprio sacristão; tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da capela, mas também ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina’ com muita perfeição. Fomos achá-lo diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com argolas de prata nos gavetões, concluindo os arranjos preparatórios. Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte anos mais ou menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o Padre Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
— Já sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de papai?
Confiei-lhe rapidamente a minha idéia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, também de vinte anos, um velho parente, Coronel Raimundo, e uns dous ou três hóspedes. Félix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na borda da cômoda, ia dizendo alguma cousa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos lábios, voltando a cabeça a miúdo para um ou outro. Félix tratava o com benevolência e até deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel não fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
— Parece que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela: — Mamãe já está na tribuna. Vamos?
Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças. Cumprimentei as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que tratavam de mim, falando umas às outras. Felizmente o padre entrou daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo a ambas. Não falamos do meu projeto; tão somente a dona da casa disse-me delicadamente:
— Está entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.
A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, voltamos à sacristia, onde o Padre Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão, descemos dous degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa. Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal.
D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido.apenas duas vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos,— Félix, e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da Europa, donde trouxe idéias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.
Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, não disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma cousa, era baixinho, às duas moças, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. Félix, eu e o Padre Mascarenhas falávamos de política, do ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra cousa que me chamou a atenção foi que a mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e redobrei de atenção com o filho. Fi-la sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma cousa, naquilo, a necessidade de captar toda a afeição da casa. por motivo do meu projeto.
Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o tecto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre Mascarenhas.
— Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles.
— Creia que agradeço muito…
— Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
— Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. . .
— Como ?
— Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.ª, esposa de ministro. . .
D. Antônia deu de ombros.
— Ah! eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas cousas.
— Tudo pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer cousa de nada, pode valer muito.
Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saía, e só foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira vez teve muito medo, e só o perdeu por se lembrar a tempo de um dito do avô.
— Saí de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à corte; pelas portinholas do coche via muita gente olhando parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz, confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente, lembrou-me um dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério que ele tinha às vezes: “Menina, uma Quintanilha não trame nunca!” Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha não tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e não lhe pediria nada; e depois falei de outras cousas. Parece que estava de veia, se não é que a conversação da viúva me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e posso afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.
CAPÍTULO II

ANTES DE ME DESPEDIR deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um só lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos infólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e filosofia, não raros em latim e italiano. Eu via os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o Félix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idéia. Esta idéia cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos, possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.
— Será o exemplar truncado? disse eu.
— Truncado? repetiu Félix.
— Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16 do lv. XVI. Uma cousa indigna: In quest’anno medesimo nacque un caso… Não vale a pena ler; é imundo.
Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti o subjugado. Nem confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava apenas trinta e dous anos. A verdade é que era tão somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de cousas religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto à parte que imediatamente me interessava, achei muitas cousas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o Félix me disse estarem cheias de manuscritos.
Havia ali dous retratos, um do finado ex ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza dos olhos.
— Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde poderá trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.
Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois. Só então revelei a Monsenhor Queirós, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma história do Primeiro Reinado. E revelei-lho com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor político. Monsenhor Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me faz o que sou, menos a tendência política, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja também o eram do Estado. Não aprovou a idéia: mas não gastou tempo em tentar dissuadir-me. “Conquanto, disse-me ele, que você não prejudique sua mãe, que é a Igreja. O Estado é um padrasto.”
A meu cunhado e minha irmã, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irmã pediu-me que a levasse lá, alguma vez, para conhecer a casa e a família.
Na quarta feira comecei a pesquisa. Vi então que era mais fácil projetá-la, pedi-la e obtê-la, que realmente executá-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contíguo, com os livros e papéis à minha disposição, senti-me constrangido, sem saber por onde começasse. Não era uma casa pública, arquivo ou biblioteca, era um lugar onde, no que tocava a papéis e manuscritos, podia dar com alguma cousa privada e doméstica. Para melhor haver-me, pedi ao Félix que me auxiliasse, disse-lhe até com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu. polidamente, que tudo estava em boas mãos. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacristão; pedia, porém, licença naquele dia porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde terça feira até sábado, estaria na roga. Voltaria sábado à noite, e daí até o fim, estava às minhas ordens. Aceitei este convênio.
Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e opúsculos. Conhecia alguns deles, outros não, e não eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Félix acompanhou-me nesse trabalho, e daí em diante até seguir para a roga. Eu, em geral chegava às dez horas, conversava um pouco com o dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falávamos das cousas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me à biblioteca com o filho do ex ministro. As duas horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condição do obséquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licença. Tudo isso com tão boa cara que era impossível teimar na recusa. Jantava. Entre três e quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho até anoitecer.
Um dia, quando ainda o Félix estava na roga, D. Antônia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu trabalho, que lhe não interessava nada. Na véspera, ao jantar, disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente França e Itália, e talvez ali fosse daí a meses. D. Antônia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.
— Eu, minha senhora?
— Não se admire do pedido; eu já reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverendíssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade ele cede.
— Não creio que tenha mais força que sua mãe. Já lhe tem lembrado isso?
— Já, respondeu D. Antônia com uma entonação demorada que exprimia longas instâncias sem efeito.
E logo depois com um modo alegre:
— As mães como eu não podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez; ele recusa sempre dizendo que não quer separar-se de mim. Mentira! A verdade é que ele não quer sair daqui. Não tem ambições, faz estudos incompletos, não lhe importa nada. Há uns parentes nossos em Portugal. Já lhe disse que fosse visitá-los, que eles desejavam vê-la, e que fosse depois à Espanha e França e outros lugares. José Bonifácio lá esteve e contava cousas muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou então repete que não quer separar-se de mim.
— E não acha que esta segunda razão é a verdadeira?
D. Antônia olhou para o chão, e disse com voz sumida:
— Pode ser.
— Se é a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo, era irem ambos, e eu com ambos, e para mim seria um imenso prazer.
— Eu?
— Pois então?
— Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverendíssima está caçoando. Daqui para a cova. Não fui quando era moça, e agora que estou velha é que hei de meter-me em folias… Ele sim, que é rapaz,– e precisa…
Tive uma suspeita súbita:
— Minha senhora, dar-se-á que ele padeça de alguma moléstia que…
— Não, não, graças a Deus! Digo que precisa, porque é rapaz, e meu avô dizia que, para ser homem completo, é preciso ver aquelas cousas por lá. E só por isso. Não, não tem moléstia nenhuma; é um rapaz forte.
Era impossível, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a razão secreta deste pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo à conversação dizendo que ia convidar o rapaz. D. Antônia agradeceu-me, declarou que não, me havia de arrepender do companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras cousas; ela, porem, teimava no assunto da viagem, para familiarizarmos com a idéia, e moralmente constranger-me a realizá-la. No dia seguinte voltou à biblioteca, mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de rapé, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfeição. Não tive dúvida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembrança do finado. Aceitei a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei só.
Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, provavelmente sérias. As instâncias de D. Antônia, as razões dados, as reticências, e finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava que cismar. Na noite desse dia fui à casa do Padre Mascarenhas para sondá-la; perguntei-lhe se sabia alguma cousa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. Mascarenhas não sabia nada.
— Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que só vou lá aos domingos.
— Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
Félix voltou da roga dous dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na segunda feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo; respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas não podia. Teimei, pedi-lhe razões, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:
— Foi mamãe que lhe pediu.
— Não digo que não; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir à Europa, daqui a alguns meses, e ela então falou-me do senhor e das vezes que já lhe tem aconselhado uma viagem. Que admira?
Félix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha consciência. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:
— Nada: não posso ir.
— Por quê?
Aqui teve ele um gesto quase imperceptível de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da índole dele, ou do meu caráter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Félix sorriu e confessou que não podia separar-se da mãe. Eu, a rigor, não devia dizer mais nada, e encerrar-me no exame dos papéis; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda repliquei alguma cousa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia começar por ver os homens, e não restringir-se à vida simples e emparedada da família. Demais, o contacto de outras civilizações necessariamente nos daria têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:
— Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos disto; pode ser… E o seu trabalho, está adiantado?
Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclusão do trabalho, e despregar-me de uma intimidade que podia trazer complicações ou desgostos. As horas que então passei foram das melhores, regulares e tranqüilas, ajustadas a minha índole quieta e eclesiástica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me à biblioteca até a hora de jantar, que não passava das duas. O café ia à grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim chamado, por ter um lindo renque dessas árvores, e eu retirava-me antes do pôr do sol. Félix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e quando não me ajudava é porque saíra a caçar, ou estava lendo, ou teria ido à cidade a passeio ou a negócio de a passeio ou a negócio de casa.
Vai senão quando, um dia, estando só na biblioteca ouvi rumor do lado de fora. Era a princípio um chiar de carro de bois, de que não fiz caso, por já o ter ouvido de outras vezes; devia ser um dos dons carros que traziam da roga para a Casa Velha, uma ou duas vezes por mês, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontrão dos dous veículos. Fui à janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro não pôde conter logo as bestas, nem o carro fugir a tempo, mas não houve outra conseqüência além da vozeria. Quando eu cheguei à janela já o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto. não foi tão pouco o tempo que eu não visse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma moça que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. Não lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pescoço, mas dai a nada, parando a sege à porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. “Hão de ser visitas”, pensei comigo.
Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de D. Antônia; vinha da praça, aonde fora cedo, para tratar de um negócio do tio coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e não atendendo, ou atendendo mal às respostas. Não me lembraria disto agora, nem nunca mais, se não se tivesse ligado aos acontecimentos próximos, como veremos. A prova de que não dei então grande importância ao estado do espírito dele, é que daí a pouco quase que não lhe respondia nada, e continuava a ver os papéis. Folheava justamente um maço de cópias relativas à Cisplatina, e preferia o silêncio a qualquer assunto de conversa. Félix demorou-se pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para acudir ao jantar. Daí a pouco estávamos à mesa.
Era costume de D. Antônia vir para a mesa acompanhando a irmã (a senhora idosa que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali foi), e assim o fez agora, com a diferença que outra senhora a acompanhava também. Disseram-me que era amiga da família, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antônia perguntou à hóspeda:
— Onde está Lalau?
— Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu um pires de melado com farinha.
— A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda.
— Não, senhor; ainda esperou por nós.
— Seu irmão está bom?
— Está; minha cunhada é que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo natal, nunca ficou boa de todo.
Creio que disseram ainda outras cousas; mas não me interessando nada, nem a conversação, nem a hóspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos: deixei-me estar comigo. Já tinha compreendido que a hóspeda era uma das que chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e finalmente que. alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atrás do pavão, em vez de estar à mesa conosco. Mas, em resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabeça a história de um imperador.
Lalau não se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma cousa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.
— Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau.
Lalau aproximou-se de D. Antônia, que lhe compôs o cabeção do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao pé da outra hóspeda. Realmente, era uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto pareça exagerado a uns e vago a outros, mas não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei a alguns instantes com infinito prazer. Fiei m e do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o resto da pessoa. Não digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.
Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um oficio mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roga, e, segundo me disse a própria D. Antônia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.
Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo pé de outras relações; eram menos agregadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, que chegava a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava pouco; em compensação, amava sinceramente a casa e a família. Tendo ficado órfã desde 1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda.
Foi D. Antônia quem me deu essas noticias, naquela mesma tarde, ao café, acrescentando que achava bom casá-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco em 1835.
Nisto a menina veio a nós, olhando muito para mim. Estávamos na varanda.
— Vou confessá-la, disse-lhe eu; mas olhe lá se me nega algum pecado.
— Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu não tenho pecado. Nhãtônia é que anda inventando essas cousas. Eu, pecado?
— E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em vez de ficar séria e pensar em Deus, enfiou a cabeça por entre as cortinas para fora, rindo como uma criança.
— Que é ela senão criança? ponderou D. Antônia.
Lalau olhou espantada.
— Onde estava o senhor padre? Estava no céu, espiando.
— Ora! diga onde estava.
— Já disse: estava no céu.
— Adeus! diga onde estava!
— Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Antônia já sabia tudo, pois ali um acontecimento de nada ou quase nada era matéria de longas conversações. Não obstante. a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensações alegres. Confessou que não tinha medo de nada, e até que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a conversação dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa lá em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que não, quis saber o que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; creio que achou entre os nossos espíritos algum ponto de contacto.
A verdade é que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns papéis, ouviu-me atenta, pagou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me várias perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, peça que raramente se abria. Conhecia os retratos, distinguiu os logo; ainda assim parecia tomar gosto em vê-los, principalmente o do ex ministro; quis saber se ela o conhecia; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado então parecia um rei. Seguiu-se um grande silêncio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moça, entre si e Deus:
— Muito parecido…
— Parecido com quem? perguntei.
Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. Não era preciso mais; adivinhei tudo. Infelizmente tudo não era ainda tudo.

Fim do capítulo II.





Bio fornecida pelo palestrante.

A SEGUNDA VIDA




Autor: Machado de Assis
Título: A SEGUNDA VIDA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

A SEGUNDA VIDA

 
 

Machado de Assis

 
 
Monsenhor Caldas interrompeu a narra??o do desconhecido:
? D? licen?a? ? s? um instante.
Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
? Jo?o, vai ali ? esta??o de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha c? com um ou dous homens, para livrar-me de um sujeito doudo.
Anda, vai depressa.
E, voltando ? sala:
? Pronto, disse ele; podemos continuar.
? Como ia dizendo a Vossa Reverend?ssima, morri no dia vinte de mar?o de 1860, ?s cinco horas e quarenta e tr?s minutos da manh?. Tinha ent?o sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espa?o, at? perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espa?o em que n?o havia mais nada, e era clareado t?o-somente por uma luz difusa.
Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas s?o incombust?veis. A sua pegou fogo alguma vez?
? N?o, senhor.
? S?o incombust?veis. Fui subindo, subindo; na dist?ncia de quarenta mil l?guas, ouvi uma deliciosa m?sica, e logo que cheguei a cinco mil l?guas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de ?ter e plumas. Entrei da? a pouco no novo sol, que ? o planeta dos virtuosos da terra. N?o sou poeta, monsenhor; n?o ouso descrever-lhe as magnific?ncias daquela est?ncia divina.
Poeta que fosse, n?o poderia, usando a linguagem humana, transmitir-lhe a emo??o da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os ?xtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma cousa indefin?vel e incompreens?vel. S? vendo. L? dentro ? que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordin?rias que me fizeram, e que duraram dois s?culos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, conclu?das as festas, convidaram-me a tornar ? terra para cumprir uma vida nova; era o privil?gio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas n?o havia recusar. Era uma lei eterna. A ?nica liberdade que me deram foi a escolha do ve?culo; podia nascer pr?ncipe ou condutor de ?nibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverend?ssima no meu lugar?
? N?o posso saber; depende…
? Tem raz?o; depende das circunst?ncias. Mas imagine que as minhas eram tais que n?o me davam gosto a tornar c?. Fui v?tima da inexperi?ncia, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa raz?o. Ent?o lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: ? ?Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!? Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condi??o de nascer experiente.
N?o imagina o riso universal com que me ouviram. J?, que ali preside a prov?ncia dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci.
Da? a pouco escorreguei no espa?o: gastei nove meses a atravess?-lo at? cair nos bra?os de uma ama de leite, e chamei-me Jos? Maria. Vossa Reverend?ssima ? Romualdo, n?o?
? Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.
? Ser? parente do padre Sousa Caldas?
? N?o, senhor.
? Bom poeta o padre Caldas. Poesia ? um dom; eu nunca pude compor uma d?cima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverend?ssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando…
 
Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que Jos? Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, p?lido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almo?ar, e pediu-lhe uma entrevista para neg?cio grave e urgente. Monsenhor f?-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lun?tico.
Perdoava-lhe a incoer?ncia das id?ias ou o assombroso das inven??es; pode ser at? que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato cl?rigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agress?o de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, Monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabe?a, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, pol?tica ?til com os loucos, as mulheres e os potentados.
Jos? Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou: ? Renasci em cinco de janeiro de 1861. N?o lhe digo nada da nova meninice, porque a? a experi?ncia teve s? uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para n?o apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e da? me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas ?rvores, saltar pared?es, trocar murros, cousas t?o ?teis, nada disso fiz, por medo de contus?o e sangue. Para falar com franqueza, tive uma inf?ncia aborrecida, e a escola n?o o foi menos. Chamavam-me tolo e moleir?o. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo n?o escorreguei, mas tamb?m n?o corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabe?as quebradas de outro tempo com o t?dio de hoje, antes as cabe?as quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no per?odo dos amores… N?o se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverend?ssima sabe o que ? uma ceia de rapazes e mulheres?
? Como quer que saiba?…
? Tinha dezenove anos, continuou Jos? Maria, e n?o imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia… Ningu?m esperava tal cousa de um rapaz t?o cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, ?s apalpadelas. Fui ? ceia; era no Jardim Bot?nico, obra espl?ndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. H? de crer que n?o comi nada? A lembran?a de tr?s indigest?es apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar.
Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se ? minha direita, para curar-me; outra levantou-se tamb?m, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim. Voc? cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram l?pidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o cora??o e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retra?-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em v?o. Vim de l? de manh?, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu Jos? Maria pondo as m?os nos joelhos, e arqueando os bra?os para fora.
? Com efeito…
? N?o lhe digo mais nada; Vossa Reverend?ssima adivinhar? o resto. A minha segunda vida ? assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experi?ncia virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao pr?prio cad?ver…
N?o, a compara??o n?o ? boa. Como lhe parece que vivo?
? Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um p?ssaro, batendo as asas e amarrado pelos p?s…
? Justamente. Pouco imaginoso? Achou a f?rmula; ? isso mesmo. Um p?ssaro, um grande p?ssaro, batendo as asas, assim…
Jos? Maria ergueu-se, agitando os bra?os, ? maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no ch?o; mas ele n?o deu por ela. Continuou a agitar os bra?os, em p?, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um p?ssaro, um grande p?ssaro… De cada vez que batia os bra?os nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cad?ncia de movimentos, e conservava os p?s unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabe?a; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada. Tudo sil?ncio. S? lhe chegavam os rumores de fora: ? carros e carro?as que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhan?a. Jos? Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:
? Um p?ssaro, um grande p?ssaro. Para ver quanto ? feliz a compara??o, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consci?ncia, uma paix?o, uma mulher, uma vi?va, D. Clem?ncia. Tem vinte e seis anos, uns olhos que n?o acabam mais, n?o digo no tamanho, mas na express?o, e duas pinceladas de bu?o, que lhe completam a fisionomia. ? filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe t?o bem que eu ?s vezes digo-lhe rindo que ela n?o enviuvou sen?o para andar de luto. Ca?oadas! Conhecemo-nos h? um ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo.
Sa?mos namorados um do outro. J? sei o que me vai perguntar: por que ? que n?o nos casamos, sendo ambos livres…
? Sim, senhor.
? Mas, homem de Deus! ? essa justamente a mat?ria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e n?o nos casamos: tal ? a situa??o tenebrosa que venho expor a Vossa Reverend?ssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicar?, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clem?ncia morava com o velho pai, e um irm?o empregado no com?rcio; relacionei-me com ambos, e comecei a freq?entar a casa, em Mata-cavalos. Olhos, apertos de m?o, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e est?vamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo… Perdoe estas cousas, monsenhor; fa?a de conta que me est? ouvindo de confiss?o. Nem eu lhe digo isto sen?o para acrescentar que sa? dali tonto, desvairado, com a imagem de Clem?ncia na cabe?a e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida ?nica; determinei pedir-lhe a m?o no fim da semana, e casar da? a um m?s.
Cheguei ?s derradeiras min?cias, cheguei a redigir e ornar de cabe?a as cartas de participa??o. Entrei em casa depois de meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as muta??es ? vista nas antigas pe?as de teatro. Veja se adivinha como.
? N?o alcan?o…
? Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descal?ar as botas, lembrou-me cousa pior: ? podia ficar o fastio. Conclu? a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canap?, pensei que o costume, a conviv?ncia, podia salvar tudo; mas, logo depois, adverti que as duas ?ndoles podiam ser incompat?veis; e que fazer com duas ?ndoles incompat?veis e insepar?veis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paix?o era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha… Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Tamb?m podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, pen?ria, doen?as; podia vir alguma dessas afei??es esp?rias que perturbam a paz dom?stica… Considerei tudo e conclu? que o melhor era n?o casar. O que n?o lhe posso contar ? o meu desespero; faltam-me express?es para lhe pintar o que padeci nessa noite… Deixa-me fumar outro cigarro? N?o esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor n?o podia deixar de admirar-lhe a bela cabe?a, no meio do desalinho pr?prio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes m?rbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse homem? Jos? Maria continuou a hist?ria, dizendo que deixou de ir ? casa de Clem?ncia, durante seis dias, mas n?o resistiu ?s cartas e ?s l?grimas. No fim de uma semana correu para l?, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. ? A resposta de Jos? Maria foi uma pergunta.
? Est? disposta a fazer-me um grande sacrif?cio? disse-lhe eu. Clem?ncia jurou que sim. ?Pois bem, rompa com tudo, fam?lia e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado.? Compreendo que Vossa Reverend?ssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de l?grimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
? N?o, senhor…
? Como n?o? Sou um monstro. Clem?ncia veio para minha casa, e n?o imagina as festas com que a recebi. ?Deixo tudo, disse-me ela; voc? ? para mim o universo.?
Eu beijei-lhe os p?s, beijei-lhe os tac?es dos sapatos. N?o imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a not?cia da morte de um tio meu, em Santa Ana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. ?Entendo, disse a Clem?ncia, voc? sacrificou tudo, porque tinha not?cia da heran?a.? Desta vez, Clem?ncia n?o chorou, pegou em si e saiu. Fui atr?s dela, envergonhado, pedi-lhe perd?o; ela resistiu. Um dia, dous dias, tr?s dias, foi tudo v?o; Clem?ncia n?o cedia nada, n?o falava sequer.
Ent?o declarei-lhe que me mataria; comprei um rev?lver, fui ter com ela, e apresentei-lho: ? este.
Monsenhor Caldas empalideceu. Jos? Maria mostrou-lhe o rev?lver, durante alguns segundos, tornou a met?-lo na algibeira, e continuou:
? Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condi??o: doar os vinte mil contos ? Biblioteca Nacional. Clem?ncia atirou-se-me aos bra?os, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. H? de ter lido nos jornais…
Tr?s semanas depois casamo-nos. Vossa Reverend?ssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora ? que chegamos ao tr?gico. O que posso fazer ? abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clem?ncia. N?o lhe falo de outras emo??es truncadas, que s?o todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgar?am no ar, nem das ilus?es de saia rota, nem do tal p?ssaro… pl?s… pl?s… pl?s…
E, de um salto, Jos? Maria ficou outra vez de p?, agitando os bra?os, e dando ao corpo uma cad?ncia. Monsenhor Caldas come?ou a suar frio. No fim de alguns segundos, Jos? Maria parou, sentou-se, e reatou a narra??o, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfian?as. N?o podia comer um figo ?s dentadas, como outrora; o receio do bicho diminu?a-lhe o sabor. N?o cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupa??es, desejos, ?dios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas por umas tr?s quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. N?o conseguia dar um jantar que n?o ficasse triste logo depois da sopa, pela id?ia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de servi?o podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampi?o. A experi?ncia dera-lhe o terror de ser empulhado.
Confessava ao padre que, realmente, n?o tinha at? agora lucrado nada; ao contr?rio, perdera at?, porque fora levado ao sangue… Ia contar-lhe o caso do sangue. Na v?spera, deitara-se cedo, e sonhou… Com quem pensava o padre que ele sonhou?
? N?o atino…
? Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos l?rios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. ?Toma, disse-me ele; s?o os l?rios da Escritura; segundo ouviste, nem Salom?o em toda a pompa, pode ombrear com eles. Salom?o ? a sapi?ncia. Sabes o que s?o estes l?rios, Jos?? S?o os teus vinte anos.? Fitei-os encantado; eram lindos como n?o imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse tamb?m. N?o lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um r?ptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Ent?o, o Diabo, escancarando uma formid?vel gargalhada: ?Jos? Maria, s?o os teus vinte anos.? Era uma gargalhada assim: ? c?, c?, c?, c?, c?…
Jos? Maria ria ? solta, ria de um modo estridente e diab?lico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, t?o depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele, aflita e desgrenhada. Os olhos de Clem?ncia eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces tamb?m fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos p?s…
Neste ponto a fisionomia de Jos? Maria estava t?o transtornada que o padre, tamb?m de p?, come?ou a recuar, tr?mulo e p?lido. ?N?o, miser?vel! n?o! tu n?o me fugir?s!? bradava Jos? Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as t?mporas latejantes; o padre ia recuando… recuando… Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de p?s.
 
_________
 
Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. ?A segunda vida?. In: Obra Completa.
Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Casa Velha




Autor: Machado de Assis
Título: Casa Velha
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

CASA VELHA

Trecho

Machado de Assis

CAPÍTULO I
ANTES E DEPOIS DA MISSA

Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial:
— Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer cousa melhor.
Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates, documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.
— Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
— Por que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do que for possível, e com autorização dela.
— Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração, que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver, e far-se-á o que for possível.
Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando; mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia o devido respeito à memória do marido consentindo que alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo acompanhei o Padre Mascarenhas.
A casa, cujo lagar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.
Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao rés do chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente à dona da casa, e às senhoras da família ou hóspedas, que entravam pelo interior; os homens, os fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o Padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais de prata, para as toalhas finas e alvíssimas, para o chão em que não havia uma palha.
— Todos os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário? Pequeno, mas um primor.
Não havia coro nem órgão. Já disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorrência à missa era tal que até na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiéis. Mascarenhas faz-me notar à esquerda da capela o lagar em que estava sepultado o ex ministro. Tinha o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que guardava, das alusões freqüentes na conversação.
— Lá verá na biblioteca o retrato dele, disse-me.
Começaram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados, saíam, outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham também escravos da casa. Um destes era o próprio sacristão; tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da capela, mas também ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina’ com muita perfeição. Fomos achá-lo diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com argolas de prata nos gavetões, concluindo os arranjos preparatórios. Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte anos mais ou menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o Padre Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
— Já sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de papai?
Confiei-lhe rapidamente a minha idéia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, também de vinte anos, um velho parente, Coronel Raimundo, e uns dous ou três hóspedes. Félix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na borda da cômoda, ia dizendo alguma cousa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos lábios, voltando a cabeça a miúdo para um ou outro. Félix tratava o com benevolência e até deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel não fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
— Parece que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela: — Mamãe já está na tribuna. Vamos?
Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças. Cumprimentei as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que tratavam de mim, falando umas às outras. Felizmente o padre entrou daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo a ambas. Não falamos do meu projeto; tão somente a dona da casa disse-me delicadamente:
— Está entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.
A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, voltamos à sacristia, onde o Padre Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão, descemos dous degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa. Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal.
D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido.apenas duas vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos,— Félix, e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da Europa, donde trouxe idéias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.
Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, não disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma cousa, era baixinho, às duas moças, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. Félix, eu e o Padre Mascarenhas falávamos de política, do ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra cousa que me chamou a atenção foi que a mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e redobrei de atenção com o filho. Fi-la sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma cousa, naquilo, a necessidade de captar toda a afeição da casa. por motivo do meu projeto.
Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o tecto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre Mascarenhas.
— Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles.
— Creia que agradeço muito…
— Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
— Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. . .
— Como ?
— Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.ª, esposa de ministro. . .
D. Antônia deu de ombros.
— Ah! eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas cousas.
— Tudo pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer cousa de nada, pode valer muito.
Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saía, e só foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira vez teve muito medo, e só o perdeu por se lembrar a tempo de um dito do avô.
— Saí de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à corte; pelas portinholas do coche via muita gente olhando parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz, confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente, lembrou-me um dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério que ele tinha às vezes: “Menina, uma Quintanilha não trame nunca!” Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha não tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e não lhe pediria nada; e depois falei de outras cousas. Parece que estava de veia, se não é que a conversação da viúva me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e posso afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.
CAPÍTULO II

ANTES DE ME DESPEDIR deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um só lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos infólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e filosofia, não raros em latim e italiano. Eu via os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o Félix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idéia. Esta idéia cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos, possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.
— Será o exemplar truncado? disse eu.
— Truncado? repetiu Félix.
— Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16 do lv. XVI. Uma cousa indigna: In quest’anno medesimo nacque un caso… Não vale a pena ler; é imundo.
Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti o subjugado. Nem confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava apenas trinta e dous anos. A verdade é que era tão somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de cousas religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto à parte que imediatamente me interessava, achei muitas cousas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o Félix me disse estarem cheias de manuscritos.
Havia ali dous retratos, um do finado ex ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza dos olhos.
— Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde poderá trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.
Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois. Só então revelei a Monsenhor Queirós, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma história do Primeiro Reinado. E revelei-lho com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor político. Monsenhor Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me faz o que sou, menos a tendência política, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja também o eram do Estado. Não aprovou a idéia: mas não gastou tempo em tentar dissuadir-me. “Conquanto, disse-me ele, que você não prejudique sua mãe, que é a Igreja. O Estado é um padrasto.”
A meu cunhado e minha irmã, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irmã pediu-me que a levasse lá, alguma vez, para conhecer a casa e a família.
Na quarta feira comecei a pesquisa. Vi então que era mais fácil projetá-la, pedi-la e obtê-la, que realmente executá-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contíguo, com os livros e papéis à minha disposição, senti-me constrangido, sem saber por onde começasse. Não era uma casa pública, arquivo ou biblioteca, era um lugar onde, no que tocava a papéis e manuscritos, podia dar com alguma cousa privada e doméstica. Para melhor haver-me, pedi ao Félix que me auxiliasse, disse-lhe até com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu. polidamente, que tudo estava em boas mãos. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacristão; pedia, porém, licença naquele dia porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde terça feira até sábado, estaria na roga. Voltaria sábado à noite, e daí até o fim, estava às minhas ordens. Aceitei este convênio.
Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e opúsculos. Conhecia alguns deles, outros não, e não eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Félix acompanhou-me nesse trabalho, e daí em diante até seguir para a roga. Eu, em geral chegava às dez horas, conversava um pouco com o dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falávamos das cousas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me à biblioteca com o filho do ex ministro. As duas horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condição do obséquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licença. Tudo isso com tão boa cara que era impossível teimar na recusa. Jantava. Entre três e quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho até anoitecer.
Um dia, quando ainda o Félix estava na roga, D. Antônia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu trabalho, que lhe não interessava nada. Na véspera, ao jantar, disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente França e Itália, e talvez ali fosse daí a meses. D. Antônia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.
— Eu, minha senhora?
— Não se admire do pedido; eu já reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverendíssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade ele cede.
— Não creio que tenha mais força que sua mãe. Já lhe tem lembrado isso?
— Já, respondeu D. Antônia com uma entonação demorada que exprimia longas instâncias sem efeito.
E logo depois com um modo alegre:
— As mães como eu não podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez; ele recusa sempre dizendo que não quer separar-se de mim. Mentira! A verdade é que ele não quer sair daqui. Não tem ambições, faz estudos incompletos, não lhe importa nada. Há uns parentes nossos em Portugal. Já lhe disse que fosse visitá-los, que eles desejavam vê-la, e que fosse depois à Espanha e França e outros lugares. José Bonifácio lá esteve e contava cousas muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou então repete que não quer separar-se de mim.
— E não acha que esta segunda razão é a verdadeira?
D. Antônia olhou para o chão, e disse com voz sumida:
— Pode ser.
— Se é a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo, era irem ambos, e eu com ambos, e para mim seria um imenso prazer.
— Eu?
— Pois então?
— Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverendíssima está caçoando. Daqui para a cova. Não fui quando era moça, e agora que estou velha é que hei de meter-me em folias… Ele sim, que é rapaz,– e precisa…
Tive uma suspeita súbita:
— Minha senhora, dar-se-á que ele padeça de alguma moléstia que…
— Não, não, graças a Deus! Digo que precisa, porque é rapaz, e meu avô dizia que, para ser homem completo, é preciso ver aquelas cousas por lá. E só por isso. Não, não tem moléstia nenhuma; é um rapaz forte.
Era impossível, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a razão secreta deste pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo à conversação dizendo que ia convidar o rapaz. D. Antônia agradeceu-me, declarou que não, me havia de arrepender do companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras cousas; ela, porem, teimava no assunto da viagem, para familiarizarmos com a idéia, e moralmente constranger-me a realizá-la. No dia seguinte voltou à biblioteca, mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de rapé, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfeição. Não tive dúvida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembrança do finado. Aceitei a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei só.
Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, provavelmente sérias. As instâncias de D. Antônia, as razões dados, as reticências, e finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava que cismar. Na noite desse dia fui à casa do Padre Mascarenhas para sondá-la; perguntei-lhe se sabia alguma cousa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. Mascarenhas não sabia nada.
— Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que só vou lá aos domingos.
— Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
Félix voltou da roga dous dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na segunda feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo; respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas não podia. Teimei, pedi-lhe razões, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:
— Foi mamãe que lhe pediu.
— Não digo que não; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir à Europa, daqui a alguns meses, e ela então falou-me do senhor e das vezes que já lhe tem aconselhado uma viagem. Que admira?
Félix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha consciência. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:
— Nada: não posso ir.
— Por quê?
Aqui teve ele um gesto quase imperceptível de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da índole dele, ou do meu caráter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Félix sorriu e confessou que não podia separar-se da mãe. Eu, a rigor, não devia dizer mais nada, e encerrar-me no exame dos papéis; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda repliquei alguma cousa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia começar por ver os homens, e não restringir-se à vida simples e emparedada da família. Demais, o contacto de outras civilizações necessariamente nos daria têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:
— Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos disto; pode ser… E o seu trabalho, está adiantado?
Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclusão do trabalho, e despregar-me de uma intimidade que podia trazer complicações ou desgostos. As horas que então passei foram das melhores, regulares e tranqüilas, ajustadas a minha índole quieta e eclesiástica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me à biblioteca até a hora de jantar, que não passava das duas. O café ia à grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim chamado, por ter um lindo renque dessas árvores, e eu retirava-me antes do pôr do sol. Félix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e quando não me ajudava é porque saíra a caçar, ou estava lendo, ou teria ido à cidade a passeio ou a negócio de a passeio ou a negócio de casa.
Vai senão quando, um dia, estando só na biblioteca ouvi rumor do lado de fora. Era a princípio um chiar de carro de bois, de que não fiz caso, por já o ter ouvido de outras vezes; devia ser um dos dons carros que traziam da roga para a Casa Velha, uma ou duas vezes por mês, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontrão dos dous veículos. Fui à janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro não pôde conter logo as bestas, nem o carro fugir a tempo, mas não houve outra conseqüência além da vozeria. Quando eu cheguei à janela já o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto. não foi tão pouco o tempo que eu não visse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma moça que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. Não lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pescoço, mas dai a nada, parando a sege à porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. “Hão de ser visitas”, pensei comigo.
Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de D. Antônia; vinha da praça, aonde fora cedo, para tratar de um negócio do tio coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e não atendendo, ou atendendo mal às respostas. Não me lembraria disto agora, nem nunca mais, se não se tivesse ligado aos acontecimentos próximos, como veremos. A prova de que não dei então grande importância ao estado do espírito dele, é que daí a pouco quase que não lhe respondia nada, e continuava a ver os papéis. Folheava justamente um maço de cópias relativas à Cisplatina, e preferia o silêncio a qualquer assunto de conversa. Félix demorou-se pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para acudir ao jantar. Daí a pouco estávamos à mesa.
Era costume de D. Antônia vir para a mesa acompanhando a irmã (a senhora idosa que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali foi), e assim o fez agora, com a diferença que outra senhora a acompanhava também. Disseram-me que era amiga da família, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antônia perguntou à hóspeda:
— Onde está Lalau?
— Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu um pires de melado com farinha.
— A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda.
— Não, senhor; ainda esperou por nós.
— Seu irmão está bom?
— Está; minha cunhada é que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo natal, nunca ficou boa de todo.
Creio que disseram ainda outras cousas; mas não me interessando nada, nem a conversação, nem a hóspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos: deixei-me estar comigo. Já tinha compreendido que a hóspeda era uma das que chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e finalmente que. alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atrás do pavão, em vez de estar à mesa conosco. Mas, em resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabeça a história de um imperador.
Lalau não se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma cousa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.
— Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau.
Lalau aproximou-se de D. Antônia, que lhe compôs o cabeção do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao pé da outra hóspeda. Realmente, era uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto pareça exagerado a uns e vago a outros, mas não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei a alguns instantes com infinito prazer. Fiei m e do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o resto da pessoa. Não digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.
Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um oficio mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roga, e, segundo me disse a própria D. Antônia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.
Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo pé de outras relações; eram menos agregadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, que chegava a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava pouco; em compensação, amava sinceramente a casa e a família. Tendo ficado órfã desde 1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda.
Foi D. Antônia quem me deu essas noticias, naquela mesma tarde, ao café, acrescentando que achava bom casá-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco em 1835.
Nisto a menina veio a nós, olhando muito para mim. Estávamos na varanda.
— Vou confessá-la, disse-lhe eu; mas olhe lá se me nega algum pecado.
— Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu não tenho pecado. Nhãtônia é que anda inventando essas cousas. Eu, pecado?
— E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em vez de ficar séria e pensar em Deus, enfiou a cabeça por entre as cortinas para fora, rindo como uma criança.
— Que é ela senão criança? ponderou D. Antônia.
Lalau olhou espantada.
— Onde estava o senhor padre? Estava no céu, espiando.
— Ora! diga onde estava.
— Já disse: estava no céu.
— Adeus! diga onde estava!
— Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Antônia já sabia tudo, pois ali um acontecimento de nada ou quase nada era matéria de longas conversações. Não obstante. a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensações alegres. Confessou que não tinha medo de nada, e até que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a conversação dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa lá em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que não, quis saber o que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; creio que achou entre os nossos espíritos algum ponto de contacto.
A verdade é que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns papéis, ouviu-me atenta, pagou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me várias perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, peça que raramente se abria. Conhecia os retratos, distinguiu os logo; ainda assim parecia tomar gosto em vê-los, principalmente o do ex ministro; quis saber se ela o conhecia; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado então parecia um rei. Seguiu-se um grande silêncio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moça, entre si e Deus:
— Muito parecido…
— Parecido com quem? perguntei.
Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. Não era preciso mais; adivinhei tudo. Infelizmente tudo não era ainda tudo.

Fim do capítulo II.





Bio fornecida pelo palestrante.

Dom Casmurro




Autor: Machado de Assis
Título: Dom Casmurro
Idiomas: port, eng, esp, ita, fra
Tradutor: Liliana Borla(ita)Helen Caldwell(eng)Francis de Miomandre/ revue par Ronald de Carvalho(fra)
Data: 29/12/2004

Dom Casmurro

I

Do Título

Machado de Assis

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos podem ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou par que ele interrompesse a leitura e metesse os verbos no bolso.

– Continue, disse eu acordando.

– Já acabei, murmurou ele.

– São muito bonitos.

Vi- lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando- me Dom Casmurro. Os vizinhos que não gostam do meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles por graça, chamam- me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, Domingo vou jantar com você.” – “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”. – “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote; dou- lhe chá, dou- lhe cama; só não lhe dou moça”.

Não consultes dicionário. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir- me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso do seus autores; alguns nem tanto.

Fonte: MACHADO DE ASSIS, J. M. Dom Casmurro. 35ª edição. São Paulo, Série Bom Livro, 1998.

Dom Casmurro

I
Titolo

Machado de Assis

Notti orsono, mentre venivo dalla città verso l’Engenho Novo , trovai sul trenó della centrale um giovane Del mio quartiere, Che conosco appena di vista. Mi salutò, mi si sedette accanto, parlò della luna e dei ministri e finì col recitarmi dei versi. Il viaggio era breve ed i versi può darsi non fossero del tutto brutti. Accade però che, preso dalla stanchazza, chiusi gli occhi tre o quattro volte; tanto bastò a far sì che egli interrompesse la lettura ed infilasse i versi in tasca.

– Continui – gli dissi, svegliandomi.

– Ho già terminato – ripose.

– Sono belli.

Gli vedi fare um gesto per trarli di nuovo di tasca, ma non fu che um gesto; era imbronciato. Il giorno dopo cominciò a dir male di me e terminò col soprannominarmi, “Don Casmurro” . I vicini, che non amano le mie maniere chiuse e riservate, diedero corso all’appellativo, che infine attecchì. Non per questo mi sono adirato. Raccontai l’aneddoto agli amici in città ed essi, per celia, mi chiamano così, alcuni persino nei biglietti: “Don Casmurro, domenica vengo a colazione da te”. “Vado a Petropolis , Don Casmurro; la casa è la stessa della Renania; vedi un po’se puoi lasciare codesta caverna dell’Engenho Novo e vieni a trascorrere uma quindicina di giorni con me”. – “Mio caro Don Casmurro, non credere che domani ti dispensi dal teatro; Vieni e dormirai con me qui in città; ti offro il palco, ti offro il tè, ti offro il letto; solo donne non ti offro”.

Non consultare i dizionari. Casmurro non si trova qui nel senso che essi gli diedero ma in quello, attribuitogli dal volgo, di uomo silenzioso e chiuso in sé. “Don” fu aggiunto per ironia, per darmi arie da nobile. Tutto ciò, perchè sonnecchiavo! D’altra parte, non ho trovato titolo migliore per questo racconto. Il mio poeta del treno potrà così sapere che non gli serbo rancore e con piccolo sforzo, dato che il titolo è suo, potrà crdere che anche l’opera sia sua. Ci sono libri che hanno appena ciò dei loro autori; altri nemmeno tanto.

(…)


Fonte: Assis, Machado de. “Il Títolo”. In: —. Dom Casmurro. Traduzione dal portoghese di Liliana Borla. Milano: Fratelli Bocca, 1954. p. 5-6.

Dom Casmurro

The Title
I

Machado de Assis

One night not long ago, as I was coming from the city to Engenho Novo1, on the Brazil central, I ran into a young man from here in the neighborhood, with whom I have a bowing acquaintance. He spoke, sat down beside me, talked of the moon and the government, ended by reading me some verses. The trip was short, and the verses may not have been entirely bad. It happened, however, that as I was tired, I closed my eyes three or four times – it was enough to make him stop reading and put the verses in his pocket.

“Go on”, I said, rousing myself.

“I’ve finished”, he muttered.

“They are very fine”.

I saw him make a gesture to take them out of his pocket again, but it did not pass beyond a gesture. He was offended, The next day he said some hard things about me and gave me the nickname Dom Casmurro. The neighbors, who do not like my taciturn, recluse – like habits, took up the nickname: it stuck. This did not make me angry. I told the story to my friends in the city, and they, in fun, call me by it and write to me: “Dom Casmurro, I am coming to have dinner with you Sunday.” “I am going to my old place at Petropolis2. Dom Casmurro. See if you can’t tear yourself away from that cave in Engenho Novo3 and come spend a couple of weeks with me.” “My dear Dom Casmurro, don’t imagine that you are going to scape my theather party tomorrow night. You can stay overnight in the city. I promise you a box at the theather, tea, and a bed. The only thing I don’t promise you is a girl.”

Don’t consult your dictionaries. Casmurro is not used here in the meaning they give for it, but in the sense in which the man in the street uses it, of a morose, tightlipped man withdrawn within himself. The Dom was for irony: to impute to me aristocratic airs. All for dozing off! Well, I have found no better title for my narrative; if no better occurs, let it stand! My poet of the train will know that I do not bear him a grudge. And, with a little effort, since the title is his, he will be able to decide that the work is his. There are books which owe no more to their authors; some, not so much.
(…)

1 – A section of Rio de Janeiro.
2 – A city near Rio where the summer court of Emperor Dom Pedro I was located.
3 – A section of Rio de Janeiro.

Fonte: Assis, Machado de. Dom Casmurro. Translated and with an Introduction by Helen Caldwell. New York:Avon Books, 1980. p. 21-22.

Dom Casmurro

Du Titre

I

Machado De Assis

Une de cer denières nuits, comme je rentrais de la ville à Engenho Novo, je recontrai dans le train de la “Central” un jeune homme de mon quartier, que je connaissais pour l’avoir déjà vu et salué. Il me donna un coup de chapeau, s’assit aurès de moi, me parla de la lune et du ministère et finit par me réciter des vers. Le voyage était court et il se peut bien que les vers ne fussent pas tout à fait mauvais. Néanmoins; comme j’etais fatigué, il m’arriva de fermer les yeux trois ou quatre fois : ce qui suffit pour qu’il interromît sa lecture rt remît les vers dans sa poche.

– Continuez ! lui dis-je, me ressaisissant.
– J’ai fini ! murmura-t-il.
– Ils sont fort bons.

Je le uis faire un geste pour les tirer une seconde fois de sa poche, mais ce ne fut qu’ un geste : il était vexé. Le lendemain, il disait de moi pis que pendr, et il finit par me surrnommer Dom Casmurro. Me voisins qui ne trouvainet pas à leur gôut mes allures de solitaire et de silencieux, firent un sort au sobriquet, qui finalement me resta. Je ne me troublai pas pour si peu. Je racontrai l’anecdote à mes amis de la ville, et eux, par plaisanterie, m’appellent ainsi, certains même dans leurs lettres: “Dom Casmurro, j’irai dîner di manche avec vous.” – “Je vais à Petropolis, Dom Casmurro ; toujours dans la maison de la Rhenania : lânchez donc cette caverne d’ Engenho Novo, et venez passer une quinzaine avec moi.” – “Mon cher Dom Casmurro, ne croyez pas que je vous dispense du téâtre demain. Venez et vous coucherez ici, en ville. Je vous offre le lit. Il n’ y a que la jolie fille que je ne puisse vous offrir.”

Ne consultez paz de dictionaires. Casmurro n’est pas pris ici dans le sens qu’ ils donnent à ce mot, mais dans l’acception vulgaire d’ homme silencieux et absorbé. Dom a été ajouté par ironie, comme pour me donner des prétentions nobiliaires.

Et tout cela parce que, l’ autre jour, je dormassais un peur ! Aussi bien n’ ai-je point trouvé de meilleurtitre pour mom récit ; s’ il ne m’ en vient pas d’ autre d’ ici la fin du livre, nous garderouns celui-lá. Mon poète du train saura ainsi que je ne lui garde pas rancure. Et, pour un peru, comme le titre est de lui, il pourra penser que l’ oeuvre l’ est aussi. Certains livres doivent à leurs auteurs, tout juste titres ; et d’ autres même pas cela.

Fonte : Machado de Assis, [Joaquim Maria]. de. Dom Casmurro. Traduction du français de Francis de Miomandre/ revue par Ronald de Carvalho. Paris, Éditions Albin Michel, 1956. p. 13, 14.

Don Casmurro

El Título

Primer Capítulo

Machado de Assis

Hace unas noches, viajando de la ciudad a Ingenio Nuevo, encontré en el tren de la Central a un muchacho de mi barrio, que solamente conozco de vista. Me saludó y se sentó a mi lado, me hablo de la luna, de la política, y terminó recitándome unos versos. El viaje era corto, y puede que no fueran enteramente malos. Pero sucedió que como yo estaba cansado, cerré los ojos tres o cuatro veces; bastó eso para que interrumpiese la lectura y se metiese los versos en el bolsillo.

– Continué – dije yo despertando.

– Ya terminé – murmuró el.

– Son muy bonitos.

Hizo un gesto como para sacarlos otra vez del bolsillo, pero no pasó del gesto; estaba enfurruñado. Al día seguiente empezó a hablar mal de mí poniéndome nombres feos, y terminó adjudicándome el mote de “Don Casmurro”. Los vecinos, a quienes no les hacen gracia mis hábitos reclusos y callados, dieron curso al mote que al final me quedó. No por eso me enojé. Conté la anécdota a los amigos de la ciudad, y ellos, por gracia, llamáronme así, algunos hasta lo escrebieron en los recados que me mandaban: “Don Casmurro, el Domingo iré comer con usted”. “Voy a Petrópolis, Don Casmurro; la casa es la misma de la calle Renania. A ver se deja esa caverna de Ingenio Nuevo, y va allá a passar unos quinces días conmigo.” “Mi querido Don Casmurro, no crea que le perdono ir al teatro mañana; venga y dormirá aquí en la ciudad, le doy habitación, le doy té, le doy cama; lo único que no le doy es mujer.”

No consulten diccionarios. “Casmurro” no está allí en el sentido que ellos le dan, no el que le da el vulgo, de hombre callado y metido consigo mismo. El Don, es una ironía; me lo pusieron para atribuirme humos de hidalgo. !Todo por haberme adormecido! Como no encontré mejor título para mi narración, si no encuentro otro de aquí al final del libro, dejaré este mismo. Que quede sabiendo mi poeta del tren que no le guardo rencor. Y con un pequeño esfuerzo, siendo el título suyo, podrá creer que la obra es de él. Hay libros que apenas tienen eso de sus autores; algunos ni eso.

Fonte: MACHADO DE ASSIS, [Joaquim Maria] Don Casmurro. Buenos Aires: Acme, 1953.





Bio fornecida pelo palestrante.

Esaú e Jacob




Autor: Machado de Assis
Título: Esaúe Jacob, Esau and Jacob, Esaú e Jacob
Idiomas:
Tradutor: Estela dos Santos(esp), Helen Caldwell(eng)
Data: 29/12/2004

ESAÚ E JACOB

I
COISAS FUTURAS!

Machado de Assis

 

Dico, che quando l’anima mal nata…
Dante

Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo. Começaram a subir pela Rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca foi lá, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá por os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo.
Natividades e Perpétua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas o morro do Castelo, por mais que ouvissem falar dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes tão estranho e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés às duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse penitência, devagarzinho, cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo movimento; mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados para elas, que aliás vestiam com grande simplicidade; mas há um donaire que se não perde, e não era vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: “Você quer ver que elas vão à cabocla?” E ambos pararam a distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.
Com efeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o número da casa da cabocla, até que deram com ele. A casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada à aventura. Quiseram entrar depressa, mas esbarraram com dois sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.

– Perdem tempo o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito disparate…

– É mentira dele, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.
Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do primeiro eram sinal certo da vidência e da franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividades podia ser miserável, e então… Enquanto cogitavam, passou fora um carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé, mas tinham também vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às escondidas.
Velho caboclo, pai da advinha, conduziu as senhoras à sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que lembrasse o mistério ou incutisse pavor, nenhum petrecho simbólico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões. Quando muito um registro da Conceição colado à parede podia lembrar um mistério, apesar de encardido e roído, ma no metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.

– Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?

Natividade deu o nome de batismo somente, Maria, como um véu mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão, – porque a consulta era só de uma, – com o número 1.012. Não há que pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa, e vinha de muitos meses. Também não há que dizer do costume, que é velho e velhíssimo. Relê Ésquilo, meu amigo, relê as Eumênides, lá verás a Pítia, chamando os que iam à consulta: “Se há aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o uso, na ordem marcada pela sorte”… A sorte outrora, a numeração agora, tudo é que a verdade se ajuste à prioridade, e ninguém perca a sua vez de audiência. Natividade guardou o bilhete e ambas foram à janela.
A falar a verdade, temiam o seu tanto, Perpétua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo possível. Não ponho aqui os seus gestos: imaginai que eram inquietos e desconcentrados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha nó na garganta. Felizmente, a cabocla não se demorou muito, ao cabo de três ou quatro minutos, o pai trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.

– Entra, Bárbara.

Bárbara entrou, enquanto o pai pegou a viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. Já vai nisto um ouço de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.

– Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?

– São.

– Cara de um é cara de outro.

– São gêmeos; nasceram a pouco mais de um ano.

– As senhoras podem sentar-se.

Natividade disse baixinho à outra que “a cabocla era simpática”, não tão baixinho que esta não pudesse ouvir também; e daí pode ser que ela, receosa da predição, quisesse aquilo mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se à mesa redonda que estava no centro da sala, virada para as duas. Pôs os cabelos e os retratos defronte de si. Olhou alternadamente para eles e para a mãe, fez algumas perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabelos, boca aberta, sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que ascendeu um cigarro, mas digo porque é verdade, e o fumo concorda com o ofício. Fora, o pai roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do Norte:

Menina da sai branca
Saltadeira de riacho…

Enquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. Bárbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabelos em cada mão; e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a afetação que porventura aches nesta linha.

_____________________

Fonte: 

ESAÚ Y JACOB

I
¡ Cosas futuras!

Machado de Assis

Dico, Che quando l’anina mal nata…
Dante

Era la primera vez que ambas iban al cerro del Castillo. Comenzaron a subir por el lado de la calle del Carmen. Hay en Río de Janeiro mucha gente que no ha ido nunca, mucha habrá muerto, mucha nacerá sin poner nunca los pies allí. No todos pueden decir que conocen una ciudad entera. Un viejo inglés que, sin embargo, infantigable viajero confesóme ha muchos años en Londres que de Londres sólo conocía bien su club, y que era cuanto necesitaba conocer de la metrópoli del mundo.
Natividad y Perpetua conocían otros sitios fuera de Botafogo; pero por mucho que oyeron hablar de él y de la indiecita que allí reinaba en 1871, el cerro del Castillo era para ellas tan extraño y lejano como el club. Lo áspero, lo desigual, lo mal pavimentado de la cuesta, mortificaba los pies de las pobres damas. No obstante, seguían subiendo, como por penitencia, despacito, con ojos en el suelo y el velo echado a la cara. La mañana provocaba cierto movimiento: hombres, mujeres, niños que bajaban o subían, lavanderas o soldados, uno que otro empleado, uno que otro comerciante, uno que otro sacerdote, las miraban sorprendidos aunque vistieran con mucha sencillez: hay un donaire que no se pierde y que no era común en aquellas alturas. La misma lentitud del andar comparada con la rapidez de los otros, hacía sospechar que iban allí por primera vez. Una criolla dijo a un sargento:

– ¡Ya verá cómo van a casa de la india!

Y ambos se detuvieron a cierta distancia, invadidos por el invencible deseo de conocer vidas ajenas, que constituye muchas veces toda la necesidad humana.
Las dos señoras buscaban en efecto, disimuladamente, el número de la casa de la india. Por fin lo encontraron. La casa estaba, como las demás, trepada en el cerro. Subíase a ella por una escalerilla estrecha, sombría, adecuada a la aventura. Quisieron entrar de prisa; pero tropezarón con dos sujetos que salían, y que tuvieron que pegarse al portal. Uno de ellos les preguntó familiarmente si iban a consultar a la adivina.

– Pierden el tiempo- agregó furioso, – y van a oír muchos disparates.

– ¡Mentira!- corrigió el otro, riendo. – La india sabe perfectamente dónde tiene las narices.
Las damas vacilaron un tanto; pero luego calcularon que las palabras del primero eran segura señal de clarividencia y franqueza de la adivina: todos no pueden tener la misma suerte. La de los hijitos de Natividad podía ser desgraciada, y en ese caso… Mientras meditaban pasó un cartero, que las hizo subir más de prisa, para escapar a otras miradas. Tenían fe; pero también tenían verguenza del qué dirían, como un devoto que se persignase a las escondidas.
Un indio viejo, padre de la adivina, la condujo a la sala. Ésta era sencilla, de paredes desnudas, sin nada que evocase misterio, ni infundiese pavor, adorno simbólico, animal disecado, esqueleto ni dibujo de miembros enfermos. Cuando mucho, una imagen de la Concepción pegda a la pared podía recordar un misterio, aunque estuviese mohosa y destrozada; pero no daba miedo. Sobre una silla, una guitarra.

– Mi hija viene enseguida- dijo el viejo- ¿Cómo se llaman las señoras?

Natividad dio su primer nombre solamente – María- como un velo más espeso que el de la cara, recibió una tarjeta, porque ella solo consultaba con el número 1,012. No hay que asustarse de la cifra: la clientela era numerosa y partía de muchos meses atrás. Tampoco hay que hablar de la costumbre, que es vieja, viejísima. Vuelve a leer a Esquilo, amigo mío, vuelve a leer Euménides, y allí verás a la Pitia llamando a los que iban a consultarla.

– Si hay aquí Helenos, vengan, acérquense, como es uso, en el orden determinado por la suerte…

La suerte antiguamente, la numeración ahora; todo es que la verdad se ajuste a la prioridad, y que nadie pierda su turno en la audiencia. Natividad guardó la tarjeta, y ambas se acercaron a la ventana.
A decir verdad, no dejaban de tener su poquito de miedo, Perpetua menos que Natividad. La aventura parecíales audaz, y posible algún peligro. No describo sus ademanes: imagina que eran inquietos e incoherentes. Ninguna decía nada. Natividad confesó después que sentía un nudo en la garganta. Por suerte la adivina no tardó mucho; al cabo de tres ó cuatro minutos el padre la introdujo de la mano, levantando la cortina del fondo.

– Entra, Bárbara.

Bárbara entró, mientras su padre tomaba la guitarra y se iba al corredor de piedra. Era una muchachita leve y breve, de saya bordada y chinelas en los pies. No podía negársele un cuerpo airoso. Los cabellos, atados en lo alto de la cabeza con un pedazo de cinta aceitosa, formábanle un solideo natural cuya borla suplía un ramito de ruda. Ya en esto hay algo de sacerdotisa. El misterio estaba en los ojos. Éstos eran opacos, no siempre ni tanto que no fuesen también lúcidos y penetrantes, y en este último estado eran hermosos también; tan hermosos y tan penetrantes, que entraban por el cuerpo abajo, revolvían el corazón y salían otra vez, prontos para una nueva entrada y otro revoltijo. No te miento al decir que ambas señoras sintieron cierta fascinación. Bárbara las interrogó; Natividad dijo a lo que iba, y le entregó los retratos, según le dijeran.

– Sí, basta- confirmó Bárbara. – ¿Son hijos suyos estos niños?

– Sí.

– Los dos tienen la misma cara.

– Son gemelos. Nacieron hace poco más de un año.

– Siéntense ustedes.

Natividad dijo muy quedo a su compañera que “la muchacha era simpática”; pero no tan quedo que ésta pudiese oírla también, y aun puede ser que, temerosa de la predicción, lo hiciese de intento por obtener un buen destino para sus hijos. La indiecita fue a sentarse a una mesa redonda que se hallaba en el centro de la habitación, vuelta hacia ellas. Púsose delante los retratos y los cabellos. Miró alternativamente a éstos y a la madre, hizo algunas preguntas y luego se quedó contemplando retratos y cabellos con la boca abierta y las cejas juntas. Cuéstame decir que encendió un cigarro; pero lo que digo porque es la verdad y porque el humo concuerda con el oficio. Afuera, el padre rozaba las cuerdas de la guitarra, murmurando una canción de los bosques del Norte:

Niña de la saya blanca
Que saltas los arroyuelos…

Mientras iba subiendo el humo del cigarro, la cara de la adivina cambiaba de expresión, ya sombría, ya radiosa, ora interrogante, ora explicativa. Bárbara se inclinaba hacia los retratos, oprimía un rizo en cada mano, y los miraba, los olía, los escuchaba, sin afectación que quizá halles en estas líneas.

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Fonte: ASSIS, Machado de. Esaú y Jabob. Traducción de Estela dos Santos.Buenos Aires: Biblioteca de La Nación, 1905. (pg:09 a14).
 

Esau and Jacob


I. Things Fated to Be

Machado de Assis

It was the first time they had ever gone to the Morro do Castello. The began to climb from the Rua do Carmo side. There are many people in Rio de Janeiro who have never gone there, many n doubt have died, many more will be born and die without ever once setting foot on that rock. Not everyone can say they know a whole city. An old Englishman who had wandered widely over other lands confided to me many years ago in London that all he really knew of London was his club and it was all needed to know – of the metropolis and of the world.
Natividade and Perpetua knew other neighborhoods besides Botafogo, but the castle tock, Morro do Castello, for all the talk there had been about it and about the cabocla that reigned there in 1871, was as strange to them, as remote, as the Englishman´s club. The stupness, the unevenness of the cobblestones mortified the poor ladies´ feet. Still, they continued to climb, as if it were a penance, slowly, eyes on the ground, with lowered veil. The morning was filled with a certain bustle: women, men, children, going up, coming down, washer-women and soldiers, a clerk, a shopkeeper, a priest, all looked at them in amazement. Though they were simply dressed, still, there is a certain ladylike air that cannot be concealed, and it was not common there on high. Even the slowness of their gait, compared with the briskness of other people, made on suspect that this was the first time they had come.
A negress said to a sergeant, “Wait and see if they don´t go to the cabocla’s!” And both stopped at a distance, overpowered by that invincible desire to pry into the lives of others, which is often all a man wants here below.
As a matter of fact, the two ladies were covertly looking for the number of the cabocla´s house. Finally, they found it. Like the other houses, it, too, climbed the hillside, and was approached by a little stairway narrow, shadowy, suited to an adventure. They had intended to slip in quickly, but there way was blocked by a couple of men coming out, and they shrank back against the wall of the house.
One fo the men asked them in a familiar manner if they were going to consult the fortuneteller. “You are wasting your time”, he added furiously, “you will only hear a lot of nonsense”.
“It´s a big lie”, the other mand said with a laugh. “The cabocla knows very well what he is up to”.
They hesitated a moment. Then they decided that the first man´s remark was a sure sign of the clairvoyance of the fortuneteller; not all could have the same happy lot. But the lot of Natividade´s babies might be wretched, and then… While they paused in thought, a postman came by, and this made them go up the steps more quickly, to escape further curious glances. They had faith, but they also had a fear of public opinion, like a devote man who blesses himself in secret.
An old caboclo, the father of the fortuneteller, showed them into the parlor. It was a simple room: bare walls, nothing to suggest mystery or inspire fear, no symbolic gear, neither stuffed creature nor skeleton, or picture of mosntrosities. A copy of the Dogma of the Imaculate Conception, stuck up on the wall, might suggest a mystery, even in its grimy, frayed condition – but it did not inspire fear. There was a little guitar lying on a chair.
“My daughther is coming”, said the old man. “What are Natividade gave only her Christian name Maria, as a veil still thicker than the one she wore over her face, and received a card – the appointment was for but one – with the number I, 012. There is no need to be astonished at the figure, the patronage was heavy and went back for many months. Neither is it necessary to comment on the custom, which is ancient. Reread Aechylus, my friend, reread The Eumenides, there you will find the Pythia calling those who came to consult the oracle: “If there are Hellenes present, come, approach in the customary way, in the order appointed by lot…”By lot in the old days, by numbers now; the main thing is that truth conform to priority and that no one lose his turn for an audience. Natividade put away the ticket, and the two women went to the window.
To tell the truth, they were a little fearful. Perpetua less so than Natividade. The adventure seemed bold, and possibly dangerous. I won’t describe their looks and gestures. You can imagine, they were uneasy and restless. Neither said a word. Natividade later confessed she had a lump in her throat. Happily, the cabocla did nor keep them waiting. At the end of three or four minutes, her father led her in by the hand, raising the curtain at the back of the room.
“Enter, Barbara.”
Barbara entered, while her father picked up the guitar and went out to the stone landing thought a door to the left. She was a light little thing, her skirt bordered with lace, a tiny slipper on her foot you could not deny she had an airy, elegant figure. Her hair caught up on the top of her head with a bit of crumpled ribbon made a natural zucchetto, whose tassle was supplied by a sprig of white rue. Here we have a touch of the priestess. The mystery was in her eyes. They were opaque. Yet not completely so, nor so much so that they were nor sometimes clear and sharps, and then they were also intense – so intense, so sharp that they entered deep inside a person, rummaged in his heart, and returned, ready to do it all over again. I do not exaggerate when I say that the two women felt a kind of fascination. Barbara questioned them. Natividade told why she had come, and handed her son’s pictures and loks of their hair, since, she said she had been told this would be all that was necessary.
“It is”, Barbara assured her “The babies are your sons?”
“Yes”.
“The face of one is the face of the other.”
“They are twins. They were born a little over a year ago.”
“You may sit down, ladies.”
Natividade said to her sister in a low voice that the cabocla was “friendlier”. Not in such a low voice, however, that the cabocla could not hear. Perhaps Natividade feared the prophecy and wanted to make sure of a favorable destiny for her sons. The cabocla went and sat down at a round table in the center of the room, and facing the two women. She placed the locks of hair and the pictures before her. By turns she looked at these and at the mother, asked the latter several questions, then remained staring at the pictures and the locks of hair, her lips parted, her brows drawn together. It pains to say that she lit a cigarette, but I must say it, because it is the truth, and the smoke accords with the rites. Outside, her father drew his fingers across the guitar and softly sang a ballad of the tropic Northern Wilderness:
Naiad with skirts of white…
Over the stream with a leap…

While the smoke from the cigarette curled upward, the face of the fortuneteller changed expression radiant, somber, now questioning, now full of answers. As she leaned over the pictures, she clasped the locks of hair in either hand, and held them to her face, staring at them, smiling them, listening to them. And none of this seemed strange or ridiculous, as it does in the telling.

____

Fonte: ASSIS, Machado de. Esau and Jacob. Translated by Helen Caldwell. London: Peter Owen, 1966. p. 5-10





Bio fornecida pelo palestrante.

LIÇÃO DE BOTANICA




Autor: Machado de Assis
Título: LIÇÃO  DE BOTANICA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

De LIÇÃO  DE BOT?NICA

 
 

Machado de Assis

 
 
PESSOAS
D. HELENA
D. LEONOR
D. CEC?LIA
BAR?O SEGISMUNDO DE KERNOBERG
Lugar da cena: Andara?
 

ATO ?NICO

Sala em casa de D. LEONOR. Portas ao fundo, uma ? direita do espectador.
 

CENA PRIMEIRA

D. LEONOR, D. HELENA, D. CEC?LIA
 
(D LEONOR entra, lendo uma carta, D. HELENA e D. CEC?LIA entram do fundo.)
D. HEL. J? de volta!
D. CEC. (a D. HELENA, depois de um sil?ncio). Ser? alguma carta de namoro?
D. HEL. (baixo). Crian?a!
D. LEO. N?o me explicar?o isto?
D. HEL. Que ??
D. LEO. Recebi ao descer do carro este bilhete: ?Minha senhora. Permita que o mais respeitoso vizinho lhe pe?a dez minutos de aten??o. Vai nisto um grande interesse da ci?ncia?. Que tenho eu com a ci?ncia?
D. HEL. Mas de quem ? a carta?
D. LEO. Do Bar?o Segismundo de Kernoberg.
D. CEC. Ah! o tio de Henrique!
D. LEO. De Henrique! Que familiaridade ? essa?
D. CEC. Titia, eu…
D. LEO. Eu qu??… Henrique!
D. HEL. Foi uma maneira de falar na aus?ncia. Com que ent?o o Sr. Bar?o Segismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de aten??o, em nome e por amor da ci?ncia. Da parte de um bot?nico ? por for?a alguma ?gloga.
D. LEO. Seja o que for, n?o sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos. J? o viram alguma vez?
D. CEC. Eu nunca.
D. HEL. Nem eu.
D. LEO. Bot?nico e sueco: duas raz?es para ser gravemente aborrecido. Nada, n?o estou em casa.
D. CEC. Mas quem sabe, titia, se ele quer pedir-lhe… sim… um exame no nosso jardim?
D. LEO. H? por todo esse Andara? muito jardim para examinar.
D. HEL. N?o, senhora, h? de receb?-lo.
D. LEO. Por qu??
D. HEL. Porque ? nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, enfim, porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distinto.
D. LEO. N?o me lembrava do sobrinho. V? l?; aturemos o bot?nico. (Sai pela porta do fundo, ? esquerda).
 

CENA II

D. HELENA, D. CEC?LIA
 
D. HEL. N?o me agradeces?
D. CEC. O qu??
D. HEL. Sonsa! Pois n?o adivinhas o que vem c? fazer o bar?o?
D. CEC. N?o.
D. HEL. Vem pedir a tua m?o para o sobrinho.
D. CEC. Helena!
D. HEL. (imitando-a). Helena!
D. CEC. Juro…
D. HEL. Que o n?o amas.
D. CEC. N?o ? isso.
D. HEL. Que o amas?
D. CEC. Tamb?m n?o.
D. HEL. Mau! Alguma cousa h? de ser. Il faut qu’une porte soit ouverte ou ferm?e. Porta neste caso ? cora??o. O teu cora??o h? de estar fechado ou aberto…
D CEC. Perdi a chave.
D HEL. (rindo). E n?o o podes fechar outra vez. S?o assim todos os cora??es ao p? de todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do lugar. N?o escolheste mal, n?o; ? um bonito rapaz.
D. CEC. Oh! uns olhos!
D. HEL. Azuis.
D. CEC. Como o c?u.
D. HEL. Louro…
D. CEC. Elegante…
D. HEL. Espirituoso…
D. CEC. E bom.
D. HEL. Uma p?rola… (Suspira) Ah!
D. CEC. Suspiras?
D HEL. Que h? de fazer uma vi?va, falando… de uma p?rola?
D CEC. Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.
D. HEL. N?o tenho, n?o; meu cora??o j? n?o quer j?ias.
D. CEC. Mas as j?ias querem o teu cora??o.
D. HEL. Tanto pior para elas: h?o de ficar em casa do joalheiro.
D. CEC. Veremos isso. (Sobe) Ah!
D. HEL. Que ??
D. CEC. (olhando para a direita). Um homem desconhecido que l? vem; h? de ser o bar?o.
D. HEL. Vou avisar titia. (Sai pelo fundo, esquerda).

CENA III

D. CEC?LIA, BAR?O
 
D. CEC. Ser? deveras ele? Estou tr?mula… Henrique n?o me avisou de nada…
Vir? pedir-me?… Mas n?o, n?o, n?o pode ser ele… T?o mo?o!… (O BAR?O
aparece).
BAR?O (? porta, depois de profunda cortesia). Creio que a Excelent?ssima Senhora D. Leonor Gouveia recebeu uma carta. . . Vim sem esperar a resposta.
D. CEC. ? o Sr. Bar?o Segismundo de Kernoberg? (O BAR?O faz um gesto afirrnativo) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (? parte) Devo estar vermelha…
BAR?O (? parte, olhando para CEC?LIA). H? de ser esta.
D. CEC. (? parte). E titia n?o vem… Que demora!… N?o sei que lhe diga…
estou t?o vexada… (O BAR?O tira um livro da algibeira e folheia-o). Se eu pudesse deix?-lo… ? o que vou fazer. (Sobe).
BAR?O (fechando o livro e erguendo-se). V. Ex.? h? de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; ? obra que vai fazer revolu??o na ci?ncia; nada menos que uma monografia das gram?neas, premiada pela Academia de Estocolmo.
D. CEC. Sim? (? parte) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.
BAR?O. As gram?neas t?m ou n?o t?m perianto? A princ?pio adotou-se a negativa, posteriormente… V. Ex.? talvez n?o conhe?a o que ? o perianto…
D. CEC. N?o, senhor.
BAR?O. Perianto comp?e-se de duas palavras gregas: peri, em volta, e anthos, flor.
D. CEC. O inv?lucro da flor.
BAR?O. Acertou. ? o que vulgarmente se chama c?lice. Pois as gram?neas eram tidas… (Aparece D. LEONOR ao fundo) Ah!
 

CENA IV

OS MESMOS, D. LEONOR
 
D. LEO. Desejava falar-me?
BAR?O. Se me d? essa honra. Vim sem esperar resposta ? minha carta. Dez minutos apenas.
D. LEO. Estou ?s suas ordens.
D. CEC. Com licen?a. (? parte, olhando para o c?u). Ah! minha Nossa Senhora!
(Retira-se pelo fundo).
CENA V
D. LEONOR, BAR?O
(D. LEONOR senta-se, fazendo um gesto ao BAR?O, que a imita).
BAR?O. Sou o Bar?o Segismundo de Kernoberg, seu vizinho, bot?nico de voca??o, profiss?o e tradi??o, membro da Academia de Estocolmo, e comissionado pelo governo da Su?cia para estudar a flora da Am?rica do Sul. V. Ex?. dispensa a minha biografia? (D. LEONOR faz um gesto afirmativo) Direi somente que o tio de meu tio foi bot?nico, meu tio bot?nico, eu bot?nico, e meu sobrinho h? de ser bot?nico. Todos somos bot?nicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.
D. LEO. Oh! o meu jardim ? composto de plantas vulgares.
BAR?O (gracioso). ? porque as melhores flores da casa est?o dentro de casa. Mas V. Ex?. engana-se; n?o venho pedir nada do seu jardim.
D. LEO. Ah!
BAR?O. Venho pedir-lhe uma cousa que lhe h? de parecer singular.
D. LEO. Fale.
BARRO. O padre desposa a igreja; eu desposei a ci?ncia. Saber ? o meu estado conjugal; os livros s?o a minha fam?lia. Numa palavra, fiz voto de celibato.
D. LEO. N?o se case.
BAR?O. Justamente. Mas, V. Ex?. compreende que, sendo para mim ponto de f? que a ci?ncia n?o se d? bem com o matrim?nio, nem eu devo casar, nem… V. Ex?. j? percebeu.
D. LEO. Cousa nenhuma.
BAR?O. Meu sobrinho Henrique anda estudando comigo os elementos da bot?nica. Tem
talento, h? de vir a ser um luminar da ci?ncia. Se o casamos, est? perdido.
D. LEO. Mas…
BAR?O (? parte). N?o entendeu. (Alto) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, h? pouco. Impus-lhe que n?o voltasse a esta casa; ele resistiu-me. S? me resta um meio: ? que V. Ex.? lhe feche a porta.
D. LEO. Senhor Bar?o!
BAR?O. Admira-se do pedido? Creio que n?o ? polido nem conveniente. Mas ? necess?rio, minha senhora, ? indispens?vel. A ci?ncia precisa de mais um obreiro: n?o o encadeemos no matrim?nio.
D. LEO. N?o sei se devo sorrir do pedido…
BAR?O. Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Ter? os meus agradecimentos e as b?n??os da posteridade.
D. LEONOR (sorrindo). N?o ? preciso tanto; posso fech?-la de gra?a.
BAR?O. Justo. O verdadeiro benef?cio ? gratuito.
D. LEO. Antes, por?m, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar outra. (O BAR?O curva-se) Direi primeiramente que ignoro se h? tal paix?o da parte de seu sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Su?cia estes pedidos s?o usuais.
BAR?O. Na geografia intelectual n?o h? Su?cia nem Brasil; os pa?ses s?o outros: astronomia, geologia, matem?ticas; na bot?nica s?o obrigat?rios.
D. LEO. Todavia, ? for?a de andar com flores… deviam os bot?nicos traz?-las consigo.
BAR?O. Ficam no gabinete.
D. LEO. Trazem os espinhos somente.
BAR?O. V. Ex?. tem esp?rito. Compreendo a afei??o de Henrique a esta casa.
(Levanta-se) Promete-me ent?o…
D. LEO. (levantando-se). Que faria no meu caso?
BAR?O. Recusava.
D. LEO. Com preju?zo da ci?ncia?
BAR?O. N?o, porque nesse caso a ci?ncia mudaria de acampamento, isto ?, o vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.
D. LEO. N?o lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar um pedido ineficaz?
BAR?O. Quis primeiro tentar fortuna.
 

CENA VI

D. LEONOR, BAR?O, D. HELENA
 
D. HEL. (entra e p?ra). Ah!
D. LEO. Entra, n?o ? assunto reservado. O Sr. Bar?o de Kernoberg…. (Ao BAR?O)
? minha sobrinha Helena. (A HELENA) Aqui o Sr. Bar?o vem pedir que o n?o perturbemos no estudo da bot?nica. Diz que seu sobrinho Henrique est? destinado a um lugar honroso na ci?ncia, e… conclua, Sr. Bar?o.
BAR?O. N?o conv?m que se case, a ci?ncia exige o celibato.
D. LEO. Ouviste?
D. HEL. N?o compreendo…
BAR?O. Uma paix?o louca de meu sobrinho pode impedir que… Minhas senhoras, n?o desejo roubar-lhes mais tempo …. Confio em V. Ex?., minha senhora…
Ser-lhe-ei eternamente grato. Minhas senhoras. (Faz uma grande cortesia e sai).
 

CENA VII

D. HELENA, D. LEONOR
 
D. LEO. (rindo). Que urso!
D. HEL. Realmente.
D. LEO. Perd?o-lhe em nome da ci?ncia. Fique com as suas ervas, e n?o nos aborre?a mais, nem ele nem o sobrinho.
D. HEL. Nem o sobrinho?
D. LEO. Nem o sobrinho, nem o criado, nem o c?o, se o houver, nem cousa nenhuma que tenha rela??o com a ci?ncia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Cec?lia h? tal ou qual namoro?
D. HEL. Se promete segredo… h?.
D. LEO. Pois acabe-se o namoro.
D. HEL. N?o ? f?cil. O Henrique ? um perfeito cavalheiro; ambos s?o dignos um do outro. Por que raz?o impediremos que dous cora??es…
D. LEO. N?o sei de cora??es, n?o h?o de faltar casamentos a Cec?lia.
D. HEL. Certamente que n?o, mas os casamentos n?o se improvisam nem se projetam na cabe?a; s?o atos do cora??o, que a Igreja santifica. Tentemos uma cousa.
D. LEO. Que ??
D HEL Reconciliemo-nos com o Bar?o.
D LEO. Nada, nada.
D. HEL. Pobre Cec?lia!
D. LEO. ? ter paci?ncia, sujeite-se ?s circunstancias… (A D. CEC?LIA que entra). Ouviste?
D. CEC. O que, titia?
D. LEO. Helena te explicar? tudo. (A D. HELENA, baixo) Tira-lhe todas as esperan?as. (Indo-se) Que urso! que urso!
 
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Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. De ?Li??o de Bot?nica?. In: Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.





Bio fornecida pelo palestrante.

Memórias póstumas de Brás Cubas




Autor: Machado de Assis
Título: Mem?rias p?stumas de Br?s Cubas, Epitaph of a small Sinner
Idiomas: port, eng
Tradutor:
Data: 29/12/2004

THE DEATH OF THE AUTHOR

from Epitaph of a Small Sinner

Machado de Assis

 

I hesitated some time, not knowing whether to open these memoirs at the beginning or at the end, i. e., whether to start with my birth or with my death. Granted, the usual practice is to begin with one’s birth, but two considerations led me to adopt a different method: the first is that, properly speaking, I am a deceased writer not in the sense of one who has written and is now deceased, but in the sense of one who has died and is now writing, a writer for whom the grave was really a new cradle; the second is that the book would thus gain in merriment and novelty. Moses, who also related his own death, placed it not at the beginning but at the end: a radical difference between this book and the Pentateuch.

Accordingly: I expired at two o’clock of a Friday afternoon in the month of August, 1869, at my lovely suburban home in Catumby. I was sixty-four, sturdy, prosperous, and single, was worth about three hundred contos, and was accompanied to the cemetery by eleven friends. Only eleven! True, there had been no invitations and no notices in the newspapers. Moreover, there was a fine drizzle, steady and sad, so steady and so sad, in fact, that it led one of those faithful friends of my last hour to work this ingenious thought into the discourse that he offered at the edge of my grave: “You who knew him may well affirm with me that Nature herself appears to be weeping her lamentation over her irreparable loss, one of the most beautiful characters that ever honored humanity by his presence in our poor world. This sombre air, these drops from heaven, those dark clouds covering the blue like a crepe of mourning, all manifest the harsh and cruel grief that gnaws at her deepest entrails and the praise that heaven itself bestows upon our great and dear departed.” Good and faithful friend! I shall never regret the legacy of twenty government bonds that I left him.

And thus I arrived at the end of my days; thus I started on the road to Hamlet’s “undiscovered country”, with neither the anxiety nor the doubts of the young prince, but slow and halting, like a person who has lingered in the theatre long after the end of the performance. Tardy and jaded. Some nine or tem people saw me go, among them three ladies: my sister Sabina, who was married to Cotrim; her daughter, a real lily of the valley; and… Have patience! In a little while I shall reveal the identity of the third lady. Be content for the moment to know that this anonymous lady, although not a relative of mine, suffered more than the relatives. You must believe me: she really suffered more. I do not say that she tore her hair, nor that she rolled on the floor in convulsions. For there was nothing dramatic about my passing. The death of a bachelor at the age of sixty-four does not take on the proportions of high tragedy. And even if it did, nothing could have been more improper than that this anonymous lady display the intensity of her sorrow. Standing at the head of the bed, eyes glazed and mouth half open, she could hardly believe I had gone.

“Dead! Dead!” she repeated to herself.

And her imagination — like the storks that a famous traveler saw setting out in flight from the Ilissus to the African shores, heedless of the time and of the ruins — her imagination flew above the desolation of the moment to the shores of an ever youthful Africa.

Let her go; we shall go there later. We shall go there when I return to my early years. At present, I wish to die calmly, methodically, hearing the sobs of the ladies, the soft words of the men, the rain drumming on the taro leaves, and the piercing noise of a razor being sharpened by a knife-grinder outside in front of the door of a leather craftsman. I assure you that the music of this orchestra of death was much less sad than my appear. After a certain time, it was actually pleasurable. Life was shaking my body with the force of a great wave, my consciousness was fading away, I was descending to a physical and mental state of utter immobility, and my body was becoming a plant, a stone, clay, nothing at all.

I died of pneumonia; but, if I were to tell the reader that the cause of my death was less the pneumonia than a great and useful idea, possibly he would not believe me, yet it would be true. I am going to explain the matter to him briefly. Let him judge for himself.

The Delirium

So far as I know, no one has yet related his own delirium. I shall do it, and science will be grateful to me. If the reader has no taste for the contemplation of psychological phenomena, he may skip the chapter; let him go straight to the story part of the book. But, however lacking he may be in curiosity, I should like him to know that what occurred in my head during this period of twenty or thirty minutes is extremely interesting.

First, I took the form of a Chinese barber, rotund and skilful, shaving a mandarin, who paid me for my work with candy and pinches — mandarin whimsicality.

Soon after, I felt myself being transformed into St. Thomas’ Summa Theologica, printed in one volume and bound in morocco with engravings and a silver lock — an idea that gave my body the most rigid immobility; and I still remember that, as my hands were the two overlapping parts that locked, I crossed them on my chest, and someone (Virgilia, doubtless) uncrossed them because they gave me the appearance of a corpse.

Finally, back in human form, I saw a hippopotamus approach. He carried me off. I remained silent and did not resist, whether through fear or because of confidence in him I do not know; but, within a short time, we were proceeding at such a dizzy speed that I ventured to speak to him, and tactfully remarked that the trip seemed to me to have no preconceived destination.

“You are mistaken,” replied the animal; “we are going to the beginning of the ages.”

I insinuated that it must be very far off; but the hippopotamus did not hear me or did not understand me, unless he was merely feigning one or the other. As he apparently could talk, I asked him whether he was a descendant of Achilles’ horse or of Balaam’s ass, and he replied with a gesture common to quadrupeds of both species: he wiggled his ears. For my part, I closed my eyes, relaxed, and abandoned myself to fate. I am not ashamed to confess that I felt a certain itch of curiosity to know just where the beginning of the ages was, whether it was as mysterious as the origin of the Nile, and above all whether it was more important or less important than the end of the ages: reflections of a sick brain. As I kept my eyes closed, I did not see the road. I remember only that the feeling of cold continually increased in intensity, and that after a time it seemed to me that we were entering the region of eternal glaciers. I opened my eyes and saw that my animal was galloping across a plain white with snow, with snow mountains here and there, snow vegetation, and various big snow animals. Everything of snow; we were even frozen by a sun of snow. I tried to speak, but could only grunt anxiously, “Where are we?”

“We have gone beyond the Garden of Eden.”

“I see. Let’s stop at the tent of Abraham.”

“How can we if we are traveling towards the past!” derisively replied my mount.

I became annoyed and a little dizzy. The journey began to seem tiresome and absurd, the cold uncomfortable, the method of transportation violent, and the result uncertain. And afterwards — a sick man’s thoughts — even if we arrived at the stated destination, maybe the ages, irritated by the trespass upon their origin, would crush me between their nails, which must be as frightfully old as the ages themselves. While I was thinking about these things, we were eating up the road, and the plain was flying beneath our feet, until the animal suddenly stopped and I was able to look more calmly about me. To look only; I saw nothing but the immense whiteness of the snow, which by now had even invaded the sky. Perhaps I saw an occasional plant, enormous, brutish, its broad leaves swaying in the wind. The silence of this region was like that of the tomb: one might have said that the life in things had become stupefied in the presence of man.

Did it fall from the air? Did it rise from the earth? I do not know. I know only that an immense shape, the figure of a woman, then appeared before me, with its eyes, shining like the sun, fixed upon me. Everything about this figure had the vastness of the primeval; it was indeed all too much for human perception, for its contours were lost in the surroundings, and what appeared at first to be dense turned out, in many cases, to be diaphanous. Stupefied, I said nothing, I did not even cry out; but, after a short time, I asked who she was and what she was called — curiosity born of delirium.

“They call me Nature or Pandora. I am your mother and your enemy.”

On hearing this last word, I drew back in fear. The figure loosed a fierce laugh, which produced about us the effects of a whirlwind; the plants were contorted, and a long wail broke the silence of the surroundings.

“Do not be afraid,” she said, “my enmity does not kill; it is through life that it affirms itself. You are alive: I wish you no other calamity.”

“Am I alive?” I asked, digging my nails into my hands as if to make certain.

“Yes, worm, you are alive. You have not yet lost that tattered cloak of which you are so proud; you will taste for a few hours more the bread of pain and the wine of misery. You are alive; even though you have gone mad, you are alive; and, if your consciousness regains a moment of lucidity, you will say that you want to live.”

As she said this, the vision extended one of her arms and lifted me into the air as if I had been a feather. Then for the first time I could see her enormous face close up. Nothing more pacific in the world; no violent contortion; no suggestion of hate or ferocity. Its sole, all-pervasive expression was that of eternal isolation, of changeless will, of the impassivity of complete egoism. Wrath, if she experienced it, remained suppressed in her heart. At the same time, in this face with its glacial expression there was an air of youth, a combination of energy and freshness before which I felt like the weakest and most decrepit of beings.

“Do you understand me?” she said, after a period of mutual contemplation.

“No,” I replied, “nor do I wish to understand you. You are an absurdity, a fable. I am surely dreaming, or, if in truth I have gone mad, you are nothing but a psychopath’s figment, a vain and empty thing, which reason, being absent, cannot govern. You, Nature? The Nature that I know is mother only and not enemy. She does not make of life a scourge nor does she wear such a face, indifferent as the tomb. And why Pandora?”

“Because I carry in my bag all good things and all evils, and the most remarkable of all, hope, man’s consolation. Are you trembling?”

“Yes. The way you look at me…”

“I know; for I am not only life, I am also death, and you are soon to give me back what I loaned you. Come, my great lecher, the voluptuousness of extinction awaits you.”

When these words had reechoed like thunder in that vast emptiness, I thought that it would be the last sound ever to come to my ears; of a sudden I felt as if I were being decomposed. Then I looked at her with suppliant eyes and begged a few more years.

“A few years would seem like a minute!” she exclaimed. “Why do you want to live longer? To continue to devour and be devoured? Are you not sated with the show and the struggle? You have experienced again and again the least vile and least painful of my gifts: the brightness of morning, the gentle melancholy of dusk, the quietness of night, the face of the earth, and, last of all, sleep, my greatest gift to man. Poor idiot, what more do you wish?”

“Just to live, I ask nothing more. Was it not you who gave me life and placed in my heart the love of life? Then why should you do yourself injury by killing me?”

“Because I have no more need of you. Time finds interest not in the minute that is already passing, but only in the minute that is about to come. The new-born minute is strong, merry, thinks that it carries eternity in its bosom; it brings only death, and perishes like its predecessors. But I do not perish. Egoism, you say? Yes, egoism; I have no other law. Egoism, self-preservation. The tiger kills the lamb because the tiger’s philosophy is that, above all, it must live, and if the lamb is tender so much the better; this is the universal law. Come, see for yourself.”

As she said this, she snatched me up and lifted me to the summit of a mountain. I looked down and, far off through a mist, contemplated for considerable time a curious thing. Just imagine, reader, a procession of all the ages, with all the human races, all the passions, the tumult of empires, the war of appetite against appetite and of hate against hate, the reciprocal destruction of human beings and their surroundings. This was the monstrous spectacle that I saw. The history of man and of the earth had thus an intensity that neither science nor the imagination could give it, for science is too slow and imagination too vague, whereas what I saw was the living condensation of history. To describe it one would have to make the lightning stand still. The ages moved along in a whirlwind, but nevertheless, because the eyes of delirium have a virtue of their own, I was able to distinguish everything that passed before me, afflictions and joys, glory and misery, and I saw love augmenting misery, and misery aggravating human debility. Along came voracious greed, fiery anger, drooling envy, and the hoe and the pen, both wet with sweat, and ambition, hunger, vanity, melancholy, affluence, love, and all of them were shaking man like a baby’s rattle until they transformed him into something not unlike an old rag. They were the several forms of a single malady, which would attack now the viscera, now the psyche, and would dance eternally, in its harlequin trappings, around the human species. Pain would give way to indifference, which was a dreamless sleep, or to pleasure, which was a bastard pain. Then man, whipped and rebellious, ran beyond the fatality of things in pursuit of a nebulous and elusive figure made of patches — a patch of the intangible, another of the improbable, another of the invisible — all loosely sewn together with the needle of imagination; and this figure, nothing less than the chimera of happiness, either eluded them or let them hang on to its skirt, and man would hug the skirt to his breast, and then the figure would laugh in mockery and would disappear.

Upon seeing such misfortune, I could not repress a cry of anguish, which Nature, or Pandora, heard with neither protest nor ridicule; and — I do not know by what psychological law of inversion — it was I who began to laugh, with a laughter immoderate and idiotic.

“You are right,” I said, “the thing is amusing and worth seeing; a bit monotonous, perhaps, but worth seeing. When Job cursed the day he had been born, it was for want of seeing the show from up here. All right, Pandora, open your belly and devour me; the thing is amusing, but devour me.”

Her reply was to force me to look down and to see the ages continuing to go by, fast and turbulent; generation upon generation, some sad like the Hebrews of the captivity, some merry like the libertines of Commodus’s reign, and all arriving punctually at the grave. I wanted to flee, but a mysterious force paralyzed my legs. Then I said to myself, “If the centuries are going by, mine will come too, and will pass, and after a time the last century of all will come, and then I shall understand.” And I fixed my eyes on the ages that were coming and passing on; now I was calm and resolute, maybe even happy. Each age brought its share of light and shade, of apathy and struggle, of truth and error, and its parade of systems, of new ideas, of new illusions; in each of them the verdure of spring burst forth, grew yellow with age, and then, young once more, burst forth again. While life thus moved with the regularity of a calendar, history and civilization developed; and man, at first naked and unarmed, clothed and armed himself, built hut and palace, villages and hundred-gated Thebes, created science that scrutinizes and art that elevates, made himself an orator, a mechanic, a philosopher, ran all over the face of the globe, went down into the earth and up to the clouds, performing the mysterious work through which he satisfied the necessities of life and tried to forget his loneliness. My tired eyes finally saw the present age go by end, after it, future ages. The present age, as it approached, was agile, skilful, vibrant, proud, a little verbose, audacious, learned, but in the end it was as miserable as the earlier ones. And so it passed, and so passed the others, with the same speed and monotony. I redoubled my attention; I stared with all my might; I was going at last to see the end — the end! — but then the speed of the parade increased beyond the speed of lightning, beyond all comprehension. Perhaps for this reason, objects began to change; some grew, some shrank, others were lost in the surroundings; a mist covered everything — except the hippopotamus who had brought me there, and he began to grow smaller, smaller, smaller, until he became the size of a cat. Indeed, it was a cat. I looked at it carefully; it was my cat Sultan, playing at the door of the bedroom with a paper ball…

ÓBITO DO AMOR

de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

Algum tempo hesitei se devia abrir esta memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introdutório, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava — uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: – “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isto é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.”

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, — a filha, um lírio do vale, — e… Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentes. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática… Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúne em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.

– Morto! morto! dizia consigo.

E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vão desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, — a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil… Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor não me creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.

O Delírio

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos; caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de S. Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fecho de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

— Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos.

Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me intendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Baleão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o animal galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:

— Onde estamos?

— Já passamos o Éden.

— Bem; paremos na tenda de Abraão.

— Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois — cogitações de enfermo — dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o Sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.

— Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.

— Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo.

— Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

— Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

— Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

— Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

— Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

— Sim; o teu olhar fascina-me.

— Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

— Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

— Viver somente, não te peço mais nada. Que me pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, — flagelos e delícias, — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.

— Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.

A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Comodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: – “Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade.” E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel…

BIBLIOGRAFIA:

ASSIS, Machado de. Epitaph of a small winner. Translated from the Portuguese by William L. Grossman. New York: Noonday Press, 1952. p. 19-21, 30-36.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: O Globo/Klick Editora, 1997. p. 17-18, 26-33.





Bio fornecida pelo palestrante.

MISSA DO GALO




Autor: Machado de Assis
Título: MISSA DO GALO
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

MISSA DO GALO

 

Machado de Assis

Nunca pude entender a conversa??o que tive com uma senhora, h? muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos ? missa do galo, preferi n?o dormir; combinei que eu eria acord?-lo ? meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escriv?o Meneses, que fora casado, em primeiras n?pcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Concei??o, e a m?e desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparat?rios. Vivia tranq?ilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas rela??es, alguns passeios. A fam?lia era pequena, o escriv?o, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. ?s dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; ?s dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasi?es, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam ? socapa; ele n?o respondia, vestia-se, sa?a e s? tornava na manh? seguinte. Mais tarde ? que eu soube que o teatro era um eufemismo em a??o. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Concei??o padecera, a princ?pio, com a exist?ncia da combor?a; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Concei??o! Chamavam-lhe ?a santa?, e fazia jus ao t?tulo, t?o facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes l?grimas, nem grandes risos. No cap?tulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um har?m, com as apar?ncias salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O pr?prio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simp?tica. N?o dizia mal de ningu?m, perdoava tudo. N?o sabia odiar; pode ser at? que n?o soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escriv?o ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu j? devia estar em Mangaratiba, em f?rias; mas fiquei at? o Natal para ver ?a missa do galo na Corte?. A fam?lia recolheu-se ? hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ningu?m. Tinha tr?s chaves a porta; uma estava com o escriv?o, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
? Mas, Sr. Nogueira, que far? voc? todo esse tempo? perguntou-me a m?e de Concei??o.
? Leio, D. In?cia.
Tinha comigo um romance, Os Tr?s Mosqueteiros, velha tradu??o creio do Jornal do Com?rcio. Sentei-me ? mesa que havia no centro da sala, e ? luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me ?s aventuras. Dentro em pouco estava completamente ?brio de Dumas. Os minutos voavam, ao contr?rio do que costumam fazer, quando s?o de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas ? de jantar; levantei a cabe?a; logo depois vi assomar ? porta da sala o vulto de Concei??o.
? Ainda n?o foi? perguntou ela.
? N?o fui, parece que ainda n?o ? meia-noite.
? Que paci?ncia!
Concei??o entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roup?o branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de vis?o rom?ntica, n?o disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canap?. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
? N?o! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos n?o eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam n?o ter ainda pegado no sono. Essa observa??o, por?m, que valeria alguma cousa em outro esp?rito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez n?o dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me n?o afligir ou aborrecer J? disse que ela era boa, muito boa.
? Mas a hora j? h? de estar pr?xima, disse eu.
? Que paci?ncia a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! N?o tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
? Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.
? Que ? que estava lendo? N?o diga, j? sei, ? o romance dos Mosqueteiros.
? Justamente: ? muito bonito.
? Gosta de romances?
? Gosto.
? J? leu a Moreninha?
? Do Dr. Macedo? Tenho l? em Mangaratiba.
? Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances ? que voc? tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Concei??o ouvia-me com a cabe?a reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as p?lpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a l?ngua pelos bei?os, para umedec?-los. Quando acabei de falar, n?o me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabe?a, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos bra?os da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
?Talvez esteja aborrecida?, pensei eu.
E logo alto:
? D. Concei??o, creio que v?o sendo horas, e eu…
? N?o, n?o, ainda ? cedo. Vi agora mesmo o rel?gio, s?o onze e meia. Tem tempo. Voc?, perdendo a noite, ? capaz de n?o dormir de dia?
? J? tenho feito isso.
? Eu, n?o, perdendo uma noite, no outro dia estou que n?o posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas tamb?m estou ficando velha.
? Que velha o qu?, D. Concei??o?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranq?ilas; agora, por?m, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impress?o singular. Magra embora, tinha n?o sei que balan?o no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa fei??o nunca me pareceu t?o distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posi??o de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o c?rculo das suas id?ias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto ?, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e n?o queria perd?-la.
? ? a mesma missa da ro?a; todas as missas se parecem.
? Acredito; mas aqui h? de haver mais luxo e mais gente tamb?m. Olhe, a semana santa na Corte ? mais bonita que na ro?a. S. Jo?o n?o digo, nem Santo Ant?nio…
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no m?rmore da mesa e metera o rosto entre as m?os espalmadas. N?o estando abotoadas as mangas, ca?ram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos bra?os, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista n?o era nova para mim, posto tamb?m n?o fosse comum; naquele momento, por?m, a impress?o que tive foi grande. As veias eram t?o azuis, que apesar da pouca claridade, podia, cont?-las do meu lugar. A presen?a de Concei??o espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da ro?a e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo ? boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para faz?-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela n?o eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
? Mais baixo! mam?e pode acordar.
E n?o sa?a daquela posi??o, que me enchia de gosto, t?o perto ficavam as nossas caras. Realmente, n?o era preciso falar alto para ser ouvido: cochich?vamos os dous, eu mais que ela, porque falava mais; ela, ?s vezes, ficava s?ria, muito s?ria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta ? mesa e veio sentar-se do meu lado, no canap?. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi s? o tempo que ela gastou em sentar-se, o roup?o era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Concei??o disse baixinho:
? Mam?e est? longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, t?o cedo n?o pegava no sono.
? Eu tamb?m sou assim.
? O qu?? ? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canap? e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincid?ncia; tamb?m ela tinha o sono leve; ?ramos tr?s sonos leves.
? H? ocasi?es em que sou como mam?e, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, ? toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
? Foi o que lhe aconteceu hoje.
?  N?o, n?o, ? atalhou ela.
N?o entendi a negativa; ela pode ser que tamb?m n?o a entendesse Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto ?, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma hist?ria de sonhos, e afirmou-me que s? tivera um pesadelo, em crian?a. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa Quando eu acabava uma narra??o ou uma explica??o, ela inventava outra pergunta ou outra mat?ria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
? Mais baixo, mais baixo.
Havia tamb?m umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, n?o sei se apressada ou vagarosamente. H? impress?es dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas ? que em certa ocasi?o, ela, que era apenas simp?tica, ficou linda, ficou lind?ssima. Estava de p?, os bra?os cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; n?o consentiu, p?s uma das m?os no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canap?, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
? Estes quadros est?o ficando velhos. J? pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal neg?cio deste homem. Um representava ?Cle?patra?; n?o me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo n?o me pareciam feios.
? S?o bonitos, disse eu.
? Bonitos s?o; mas est?o manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas s?o mais pr?prias para sala de rapaz ou de barbeiro.
? De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
? Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de mo?as e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de fam?lia ? que n?o acho pr?prio. ? o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, n?o gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Concei??o, minha madrinha, muito bonita; mas ? de escultura, n?o se pode p?r na parede, nem eu quero. Est? no meu orat?rio.
A id?ia do orat?rio trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis diz?-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com do?ura, com gra?a, com tal moleza que trazia pregui?a ? minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devo??es de menina e mo?a. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminisc?ncias de Paquet?, tudo de mistura, quase sem interrup??o. Quando cansou do passado, falou do presente, dos neg?cios da casa, das canseiras de fam?lia, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas n?o eram nada. N?o me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
J? agora n?o trocava de lugar, como a princ?pio, e quase n?o sa?ra da mesma atitude. N?o tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar ? toa para as paredes.
? Precisamos mudar o papel da sala, disse da? a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da esp?cie de sono magn?tico, ou o que quer que era que me tolhia a l?ngua e os sentidos. Queria e n?o queria acabar a conversa??o; fazia esfor?o para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a id?ia de parecer que era aborrecimento, quando n?o era, levava-me os olhos outra vez para Concei??o. A conversa ia morrendo. Na rua, o sil?ncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, ? n?o posso dizer quanto, ? inteiramente calados. O rumor ?nico e escasso era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela esp?cie de sonol?ncia; quis falar dele, mas n?o achei modo. Concei??o parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: ?Missa do galo! missa do galo!?
? A? est? o companheiro, ? disse ela, levantando-se. ? Tem gra?a; voc? ? que ficou de ir acord?-lo, ele ? que vem acordar voc?. V?, que h?o de ser horas; adeus.
? J? ser?o horas? ? perguntei.
? Naturalmente.
? Missa do galo! ? repetiram de fora, batendo.
? V?, v?, n?o se fa?a esperar. A culpa foi minha. Adeus, at? amanh?.
E com o mesmo balan?o do corpo, Concei??o enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Sa? ? rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Concei??o interp?s-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto ? conta dos meus dezessete anos. Na manh? seguinte, ao almo?o falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Concei??o. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversa??o da v?spera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em mar?o, o escriv?o tinha morrido de apoplexia. Concei??o morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
 
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Fonte: Machado de Assis, J. M. ?Missa do galo?. In: Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2; reimp. de Nupill, N?cleo de Pesquisas em Inform?tica, Literatura e Ling??stica. Apoio CNPq. UFSC / PRPG / Funpesquisa.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Alienista




Autor: Machado de Assis
Título: O Alienista, L?Ali?niste
Idiomas: port, fra
Tradutor: Maryvonne Lapouge(fra)
Data: 29/12/2004

O ALIENISTA

I

De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates

Machado de Assis

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas da preocupação de um sábio, – D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, – explicável mas inqualificável, – devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis”, – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para a gasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe “que estava com desejos”, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, voltando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.
— Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o caminho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, – e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, – porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates.

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Fonte: ASSIS, Machado de. O alienista. Rio de Janeiro, Ediouro, 1996, p. 17-27.

L’ALIÉNISTE

 

1

Où il est raconté comment Itaguaï s’enrichit d’une maison des fous

Machado de Assis

Les chroniques de la petite cité d’Itaguaï rapportent comment, il y a fort longtemps, un certain médecin, du nom de Simon Bacamarte, fils d’un noble du pays et le plus grand parmi les médecins du Brésil, du Portugal et des Espagnes, s’y rendit célèbre. Le jeune homme avait étudié à Coimbra et Padoue. A trente-quatre ans, le roi n’ayant pu obtenir de lui qu’il demeurât soit à Coimbra pour présider aux destinées de l’université, soit à Lisbonne pour y expédier les affaires de la monarchie, il était rentré au Brésil. — Je n’ai d’autre emploi, avait il représenté à Sa Majesté, que la science, et Itaguaï est tout mon univers.
Ce qu’ayant dit, il se retira à Itaguaï et se consaera corps et âme à l’étude, alternant les cures avec les lectures et faisant la preuve des théorèmes avec des cataplasmes. La quarantaine franchie, il épousa Dona Evarista da Costa e mascarenhas, une jeune femme de vingt-cinq ans, veuve d’un juge de district, ni bien jolie ni sympathique. Un oncle de Simon Bacamarte, réputé grand chasseur devant l’Eternel autant que pour son francparler, s’étonna d’un pareil choix et le lui dit. Le neveu répliqua que Dona Evarista reúnissait des conditions psychologiques et anatomiques de premier ordre, elle digérait sans difficulté, dormait sans problème, avait un pouls régulier, une vue excellente : toutes qualités qui faisaient d’elle la femme indiquée pour lui donner des fils robustes, intelligents et sains. Si, en plus de ces dons – seuls dignes de l’intérêt d’un savant – les traits de Dona Evarista laissaient à désirer, loin de le déplorer, il en remerciait le ciel : ainsi serait-il protégé de négliger les impératifs de la science dans la contemplation exclusive, étriquée et vulgaire de son épouse.
Dona Evarista déçut les espérances du docteur Bacamarte, ni fils robustes, ni fils chétifs elle ne lui fit. Le naturel propre à la science est la longanimité : notre médecin attendit trois années, puis quatre, et bientôt cinq. Au bout de quel temps, il se plongea dans l’étude détcuilée du phénomène, relut les auteurs, arabes et autres, ramenés avec lui à Itaguaï, manda le résultat de ses examens et investigations aux universités allimentaire particulier. L’illustre dame, nourrie exclusivement de belle et tendre viande porcine du pays, ne daigna pas davantage répondre aux admonestations de son époux ; de sorte que nous devons à son – explicable, mais inqualifiable – résistance l’extinction définitive des Bacamarte.
Mais la science possède cet ineffable don de guérir toutes les misères ; notre médecin se plongea entièrement dans l’étude et la pratique de la médecine. C’est alors qu’entre toutes les ramées et ramifications de cette discipline, l’une d’elle retint particulièrement son attention – le domaine psychique, l’examen de la pathologie cerébrale. Il n’y avait alors dans toute la Colonie, et jusque dans le Royaume, aucune autorité en semblable matière, mal explorée, ou pratiquement inexplorée. Simon Bacamarte comprit que la science lusitanienne, et la science brésilienne au premier chef, pouvait là se couvrir de «lauriers immarescibles», – telle fut son expression, mais dans un moment d’envolée restreinte à l’intimité domestique ; en société, il était modeste, ainsi qu’il convient à un savant.
— La santé de l’âme, s’exclama-t-il, est la préoccupation la plus digne du médecin.
— Du véritable médecin, corrigea Crispim Soares, l’apothicaire du pays, et l’un de ses amis et commensaux.
Entre autres tares relevées par la chronique, la commune d’Itaguaï avait ce éfaut de ne faire aucun cas des déments. De sorte que les fous furieux étaient verrouillés chacun dans le secret d’une alcôve, à l’intérieur de leur propre maison, jamais ne guérissant, mais dégénérant aussi longtemps que la mort ne ocnait pas leur soutirer le bénéfice de la vie ; quant aux innocents, ils déambulaient à loisir dans le pays. Simon Bacamarte résolut sans plus attendre de réformer une coutume aussi déplorable ; il fit une demande d’autorisation auprès du Conseil municipal pour abriter et traiter dans l’établissement qu’il se proposait de faire construire tous les fous d’Itaguaï et des agglomérations avoisinantes, moyennant une allocation que le Conseil lui verserait lorsque les familles des malades ne seraient pas en condition de le faire. Sa proposition suscita la curiosité de tout le pays, et provoqua une immense résistance, tant il est vrai que les habitudes les plus absurdes, et jusque désastreuses, se laissent difficilement déraciner. L’idée même de rassembler les fous et de les faire vivre sous le même toit fut interprêtée comme un symptôme de démence, et ne manqua pas la langue charitable pour glisser l’insinuation jusqu’auprès de la propre femme du médecin.
— Ecoutez, Dona Evarista, lui dit le Père Lopes, le curé du lieu, vous devriez suggérer à votre mari de faire un petit voyage à Rio de Janeiro. Etudier comme il fait, sans relâche, fatigue le cerveau, ça ne lui vant rien.
Dona Evarista en resta atterée, elle s’ouvrit à son mari, lui dit «qu’elle avait des envies» – celle en particulier d’aller à Rio de Janeiro et de manger tout ce qui lui avait été conseillé à certaine fin. Mais avec la sagacité rare qui le distinguait, le grand homme pénétra la manœuvre de son épouse et lui rétorqua en souriant de ne point s’inquiéter. Sur ce, il courut à la Mairie où les conseillers débattaient sa proposition, et il la défendit avec une telle éloquence qu’une majorité trancha sur le champ en faveur de ce qu’il avait demandé, votant même dans la foulée un impôt destiné à pourvoir à l’entretien, au logement et à la subsistance des malades mentaux sans ressources. Trouver sur quel chapitre lever cette contribution ne fut pas facile. Tout, dans Itaguaï, tombait sous l’impôt. L’accord se fit, après bien des spéculations, pour autoriser l’emploi de deux plumets sur les attelages, lors des enterrements. Qui désirerait emplumer les chevaux tirant le corbillard paierait deux testons à la commune pour chaque heure écoulée entre le décès et la bénédiction ultime audessus de la sépulture. Le greffier s’embrouilla dans ses calculs en voulant chiffrer le rendement éventual de la future taxe ; et l’un des conseillers, qui n’accordait aucun crédit à l’enterprise du médecin, demanda qu’on dispensa le malheureux d’un travail aussi inutile.
— Nous n’avons aucun besoin de claculs, dit-il, car le docteur Bacamarte n’arrivera à rien. A-t-on jamais vu rassembler tous les fous sous un même toit ?
Le digne magistrait se trompait ; le médecin vint à bout de tout. Aussitôt l’autorisation en poche, il commença la construction des bâtiments. Sis dans la rue Neuve, la plus belle rue d’Itaguaï, à l’époque, l’établissement avait cinquante fenêtres de chaque côté, un patio au centre, et un grand nombre de cellules pour les futurs hôtes. Arabisant de longue date, Simon Bacamarte, dans le Coran, découvrit que Mahomet tenait les fous pour vénérables, pour la raison qu’Allàh les privait de jugement afin qu’ils ne puissent se rendre coupables de péché. Cette considération lui parut jolie et judicieuse, et il la fit graver sur le frontispice de l’établissement. Mais craignant d’indisposer le curé, et son évêque par personne interposée, il attibua la sentence au pape Benoit VIII, mensonge fort pieux, du reste qui lui valut de la bouche du Père Lopes, lors du déjeuner d’inauguration, le récit de la vie de l’éminent pontife.
L’asile prit le nom de la Maison Verte, par allusion à la couleur des fenêtres, les premières fenêtres peintes en vert dans Itaguaï. L’inauguration eut lieu en grande pompe ; une foule immense accourut des communes et agglomérations avoisinantes, et jusque de Rio de Janeiro, pour assister aux cérémonies qui durèrent sept jours pleins. Déjà, un nombre considérable de déments avaient été hospitalisés, Et les familles purent apprécier avec quelle sollicitude paternelle, quelle chrétienne charité ils allaient être traités. Plus que ravie par les honneurs dévolus à son époux, Dona Evarista s’était vêtue luxueusement et parée de soies, de fleurs et de bijoux. Elle fut une véritable reine pendant ces journées mémorables ; réelle entorse aux us modestes et casaniers du temps, nul n’omis de lui rendre visite deux ou trois fois, non point uniquement our la saluer mais pour la complimenter car tous voyaient en elle l’epouse – détail qui parle hautement en faveur de la société de l’époque – l’épouse comblée d’un grand esprit, d’un homme illustre dans la force de l’âge, et, s’ills l’enviaient, c’était de la noble et sainte envie d’admirateurs.
Au bout de sept jours, les festivités publiques expirèrent ; Itaguaï possédait enfin sa maison des Fous.

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Fonte : ASSIS, Machado de. L’Aliéniste. Traduit par Maryvonne Lapouge. Paris, Éditions A. M. Métailié, 1984, p. 25-9.





Bio fornecida pelo palestrante.

Teoria do medalhão




Autor: Machado de Assis
Título: Teoria do medalhão
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

TEORIA DO MEDALHÃO
(DIÁLOGO)

 

Machado de Assis

– Estás com sono?
– Não, senhor.
– Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?
– Onze.
– Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…
– Papai…
– Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; ou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, eu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
– Sim, senhor.
– Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
– Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
– Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos…
– É verdade, por que quarenta e cinco anos?
– Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.
– Entendo.
– Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.
– Mas quem lhe diz que eu…
– Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança, No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
– Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.
– Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspeção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.
– Como assim, se também é um exercício corporal?
– Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.
– Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?
– Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos, – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…
– Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando…
– Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant, consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! – E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.
– Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.
– Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: – ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas; no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira esperta e afreguesada, – que, segundo um poeta clássico,
Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,
Menos monte alardeia de retalhos;
e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.
– Upa! que a profissão é difícil!
– E ainda não chegamos ao cabo.
– Vamos a ele.
– Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante, ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?
– Percebi.
– Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a “alavanca do progresso” e o “suor do trabalho” vencem as “fauces hiantes” da miséria. No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos repórteres dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.
– Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.
– Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desajetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.
– E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da vida?
– Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.
– Nem política?
– Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.
– Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?
– Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; – é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.
– Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
– Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.
– Nenhuma filosofia?
– Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.
– Também ao riso?
– Como ao riso?
– Ficar sério, muito sério…
– Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente, – e este ponto é melindroso…
– Diga…
– Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?
– Meia-noite.
– Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.
_________________
Fonte: Machado de Assis, J. M. “Teoria do medalhão”. In: Os melhores contos de Machado de Assis. 2ª ed. São Paulo: Global, 1985. p. 21-29.





Bio fornecida pelo palestrante.

TU SÓ, TU, PURO AMOR




Autor: Machado de Assis
Título: TU SÓ, TU, PURO AMOR
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

TU Só, TU, PURO AMOR[*]

COMÉDIA

 

Tu só, tu, puro amor, com for?a crua,

     Que os cora??es humanos tanto obriga…

(Lus?adas 3 CXIX)

PESSOAS

CAM?ES                                                                                      D. MANUEL DE PORTUGAL
D. ANT?NIO DE LIMA                                                     D. CATARINA DE ATAIDE
CAMINHA                                                                                 D. FRANCISCA DE ARAG?O

Sala no pa?o

CENA PRIMEIRA
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL

 
(CAMINHA vem do fundo ? esquerda; vai a entrar pela porta da direita quando lhe sai D. MANUEL DE PORTUGAL, a rir)
CAM. Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rel alguma cousa graciosa, decerto…
D. MAN. N?o; n?o foi El-rei. Adivinhai o que seria, se ? que o n?o sabeis j?.
CAM. Que foi?
D. MAN. Sabeis o caso da galinha do Duque de Aveiro?
CAM. N?o.
D. MAN. N?o sabeis? Pois ? isto: uns versos mui galantes do nosso Cam?es. (CAMINHA estremece e faz um gesto de m? vontade) Uns versos como ele os sabe fazer. (? parte) D?i-lhe a not?cia. (Alto) Mas, deveras, n?o sabeis do encontro de Cam?es com o Duque de Aveiro?
CAM . N?o .
D. MAN. Foi o pr?prio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei…
CAM. Que houve ent?o?
D. MAN. Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta…
CAM. (com enfado). O poeta! o poeta! N?o ? mais que engenhar a? uns pecos versos, para ser logo
poeta! Desperdl?ais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel. Poeta ? o nosso S?, o meu grande S?! Mas, esse arruador, esse brig?o de horas mortas…
D MAN. Parece-vos ent?o?…
CAM. Que esse mo?o tem algum engenho, muito menos do que lhe diz a presun??o dele e a cegueira dos amigos; algum engenho n?o lhe nego eu. Faz sonetos sofr?veis. E can??es… digo-vos que li uma ou duas, n?o de todo mal alinhavadas. Pois ent?o? Com boa vontade, mais esfor?o, menos soberba, gastando as noites, n?o a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vlr a ser…
D MAN. Acabai.
CAM. Est? acabado: um poeta sofr?vel.
D. MAN. Deveras? Lembra-me que j? isso mesmo lhe negastes.
CAM. (sorrindo). No meu epigrama, n?o? E nego-lho ainda agora, se n?o fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo por desenfado, n?o por ?dio… Dizei, que tal vos pareceu ele?
D. MAN. Injusto, mas gracioso.
CAM. Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenh?veis. N?o era imposs?vel que assim fosse. Intrigas da corte d?o azo a muita injusti?a; mas principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso… Juro-vos que ele me tem ?dio.
D. MAN. O Cam?es?
CAM. Tem, tem…
D. MAN. Por qu??
CAM. N?o sei, mas tem. Adeus.
D. MAN. Ide-vos?
CAM. Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante (Corteja-o e dirige-se para a porta ela direita. D. MANUEL dirige-separa o fundo).
D. MAN. (andando).
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro…
 
CAM. Recitai versos?…S?o vossos?…N?o me negueis o gosto de vos ouvir.
D. MAN. Meus n?o; s?o de Cam?es… (Repete-os descendo a cena)
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro;
CAM. (sarc?stico). De Cam?es?… Galantes s?o. Nem Virg?lio os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro…
E depois? V?, dizei-me o resto, que n?o quero perder iguaria de t?o fino sabor.
D. MAN. O Duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha da sua mesa; mas s? lhe mandou um assado. Cam?es retorquiu-lhe com estes versos, que o pr?prio duque me mostrou agora, a rir:
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro
Mas, n?o vi, por vida minha,
Vender vaca por galinha
Sen?o ao Duque de Aveiro.
Confessai, confessai, Senhor Caminha, v?s que sois poeta, confessai que h? a? certo pico, e uma simpleza de dizer… N?o vale tanto decerto como os sonetos dele, alguns dos quais s?o sublimes, aquele, por exemplo:
De amor escrevo, de amor trato e vivo…
ou este:
Tanto do meu estado me acho incerto…
Sabeis a continua??o?
CAM. At? lhe sei o fim:
Se me pergunta algu?m por que assim ando
Respondo que n?o sei, por?m suspeito
Que s? porque vos vi, minha senhora.
(Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora… Sabeis v?s, decerto, quem ? esta senhora do poeta como eu o sei como o sabem todos… Naturalmente amam-se ainda muito?…
D. MAN. (? parte). Que querer? ele?
CAM. Amam-se por for?a.
D. MAN. Cuido que n?o.
CAM. Que n?o?
D. MAN. Acabou como tudo acaba.
CAM. (sorrindo). Andai l?; n?o sei se me dizeis tudo. Amigos sois e n?o ? imposs?vel que tamb?m v?s… Onde est? a
nossa gentil senhora D. Francisca de Arag?o?
D. MAN. Que tem?
CAM. Vede: um simples nome vos faz estremecer de c?lera. Mas, abrandai a c?lera, que n?o sou vosso inimigo, mui ao contr?rio; amo-vos, e a ela tamb?m… e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita).

CENA II
D. MANUEL DE PORTUGAL

 
Este homem! Este homem!… Como se os versos dele, duros e insossos… (Vai ? porta por onde Caminha saiu, e
levanta o reposteiro.) L? vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma cousa. Que n?o sejam versos (Ao fundo aparecem D. Ant?nio de Lima e D. Catarina de Ata?de).

CENA III
D. MANUEL DE PORTUGAI, D. CATARINA DE ATAIDE, D. ANT?NIO DE LIMA

 
D. ANT. Que espreitais a?, senhor D. Manuel?
D. MAN. Estava a ver o porte elegante de nosso Caminha. N?o vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, l? vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.
D. ANT. Tamb?m eu. Tu, n?o, minha boa Catarina. A rainha espera-vos. (D. CATARINA faz uma rever?ncia e caminha para a porta da esquerda.) Ide, ide, minha gentil flor… (A D. MANUEL) Gentil, n?o a achais?
D. MAN. Gentil?ssima.
D. ANT. Agradecei, Catarina.
D. CAT. Agrade?o; mas o certo ? que o Senhor D. Manuel ? rico de louvores…
D. MAN. Eu podia dizer que a natureza ? que foi convosco pr?diga de gra?as; mas, n?o digo; seria repetir mal aquilo que s? poetas podem dizer bem. (D. ANT?NIO fecha o rosto.) Dizem que tamb?m sou poeta, ? verdade; n?o sei; fa?o versos. Adeus, Senhor D. Ant?nio… (Corteja-os e sai. D. CATARINA vai a entrar, ? esquerda. D. ANT?NIO det?m-na.)

CENA IV
D. ANT?NIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE

 
D. ANT. Ouviste aquilo?
D. CAT. (parando). Aquilo?
D. ANT. ?Que s? poetas podem dizer bem? foram as palavras dele. (D. CATARINA aproxima-se.) V?s tu, filha? T?o
divulgadas andam j? essas cousas, que at? se dizem nas barbas de teu pai!
D. CAT. Senhor, um gracejo…
D. ANT. (enfadando-se). Um gracejo injurioso, que eu n?o consinto, que n?o quero, que me d?i… ?Que s? poetas podem dizer bem!? E que poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que ? esse atrevido, o que vale a sua poesia… Mas, que seja outra e melhor, n?o a quero para mim, nem para ti. N?o te criei para entregar-te ?s m?os do primeiro que passa, e lhe d? na cabe?a haver-te.
D. CAT. (procurando moder?-lo). Meu pai…
D. ANT. Teu pai, e teu senhor!
D. CAT. Meu senhor e pai… juro-vos que… juro-vos que vos quero e muito… Por quem sois, n?o vos irriteis contra mim!
D. ANT. Jura que me obedecer?s.
D. CAT. N?o ? essa a minha obriga??o?
D. ANT. Obriga??o ?, e a mais grave de todas. Olha-me bem filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.

CENA V
D. ANT?NIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE, D. FRANCISCA DE ARAG?O

 
D. ANT. Mas n?o, n?o v?s sem falar ? senhora D. Francisca de Arag?o, que a? nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora mesmo, ou como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi h? tantos anos, por tempo do nosso
seren?ssimo Senhor D. Manuel… Velho estou, minha formosa dama…
D. FRA. E que dizia a farsa?
D. ANT A farsa dizia:
? bonita como estrela,
Uma rosinha de abril,
Uma frescura de maio,
T?o manhosa, t?o subtil!
Vede, que a farsa adivinhava j? a nossa D. Francisca de uma frescura de maio, t?o manhosa, t?o subtil…
D. FRA. Manhosa, eu?
D. ANT. E subtil. N?o vos esque?a a rima, que ? de lei (Vai a sair pela porta da direita; aparece CAM?ES).

CENA VI
OS MESMOS, CAM?ES

 
D. CAT. (? parte). Ele!
D. FRA. (baixo a D. CATARINA). Sossegai!
D. ANT. Vinde c?, senhor poeta das galinhas. J? me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que n?o vos custaria mais tempo a faz?-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito… E o duque? O duque, ainda n?o emendou a m?o? H? de emendar, que n?o ? nenhum mesquinho.
CAM?ES (alegremente).Pois El-rei deseja o contr?rio…
D. ANT. Ah! Sua Alteza falou-vos disso?… Contar-mo-eis em tempo. (A D. CATARINA com inten??o.) Minha filha e senhora, n?o ides ter com a rainha? eu vou falar a El-rei. (D. CATARINA cortejaos e dirige-se para a esquerda; D. ANT?NIO sai pela direita).

CENA VII
OS MESMOS, menos D. ANT?NIO DE LIMA

 
(D. CATARINA quer sair, D. FRANCISCA DE ARAG?O det?m-na)
D. FRA. Ficai, ficai…
D. CAT. Deixai-me ir!
CAM?ES Fugis de mim?
D. CAT. Fujo… Assim o querem todos.
CAM?ES Todos! todos quem?
D. FRA. (indo a CAM?ES). Sossegai. Tendes, na verdade, um g?nio, uns esp?ritos… Que h? de ser? Corre a mais e mais a not?cia dos vossos amores… e o Senhor D. Ant?nio, que ? pai, e pai severo …
CAM?ES (vivamente, a D. CATARINA). Amea?a-vos?
D. CAT. N?o; d?-me conselhos… bons conselhos, meu Lu?s. N?o vos quer mal, n?o quer… Vamos l?, eu ? que sou desatinada. Mas, passou. Dizei-nos l? esses versos de que fal?veis h? pouco. Um epigrama, n?o ?? H? de ser t?o bonito como os outros… menos um.
CAM?ES Um?
D. CAT. Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasf?.
CAM?ES (com desd?m). Que monta? Bem frouxos versos.
D. FRA. N?o tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo s?o os que se fazem a outras damas. (A D. CATARINA.) Acertei? (A CAM?ES.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, n?o a mim, que j? o sei de cor, por?m a ela que ainda n?o sabe nada… E que foi que vos disse El-rei?
CAM?ES. El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua real vista, e disse com brandura: ?Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem com galinhas, porque assim nos alegrareis com versos t?o chistosos?.
D. FRA. Disse-vos isto? ? um grande esp?rito El-rei!
D. CAT. (a D. FRANCISCA) N?o ?? (A CAM?ES) E v?s que lhe dissestes?
CAM?ES Eu? nada… ou quase nada. Era t?o inopinado o louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora… agora que recobrei os esp?ritos… dir-lhe-ia que h? aqui (Leva a m?o ? fronte.) alguma cousa mais do que simples versos de desenfado… dir-lhe-ia que… (Fica absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.) Um sonho… As vezes cuido conter c? dentro mais do que a minha vida e o meu s?culo… Sonhos… sonhos! A realidade ? que v?s sois as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor ? a alma do universo!
D. FRA. O amor e a espada, senhor brig?o!
CAM?ES (alegremente). Por que me n?o dais logo as alcunhas que h?o de ter posto os poltr?es do Rocio? Vingam-se com isso, que ? a desforra da poltroneria… N?o sabeis? Naturalmente n?o; v?s gastais as horas nos lavores e recreios do pa?o; mora aqui a doce paz do esp?rito…
D. CAT. (com inten??o). Nem sempre.
D. FRA. (a CAM?ES, sorrindo). Isto ? convosco; e eu, que posso ser indiscreta, n?o me detenho a ouvir mais nada. (D? alguns passos para o fundo).
D. CAT. Vinde c?…
D. FRA. Vou-me… vou a consolar o nosso Caminha, que h? de estar um pouco enfadado… Ouviu ele o que El-rei vos disse?
CAMOES Ouviu; que tem?
D. FRA. N?o ouviria de boa sombra.
CAM?ES Pode ser que n?o… dizem-me que n?o. a D. CATARINA) Pareceis inquieta…
D. CAT. (a D. FRANCISCA). N?o vades, n?o vades; ficai um instante.
CAM?ES (a D. FRANCISCA). Irei eu.
D. FRA. N?o, senhor; irei eu s?. (Sai pelo fundo).

CENA VIII
CAM?ES, D. CATARINA DE ATA?DE

 
CAM?ES (com uma rever?ncia). Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ata?de! (D. CATARINA d? um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda
D. CAT. N?o… vinde c? (CAM?ES det?m-se) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (CAM?ES aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de mim?
CAM?ES Cuido que me quer?eis ausente.
D. CAT. Lu?s! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes… falarmos a s?s… Duvidais de mim?
CAM?ES N?o duvido de v?s, n?o duvido da vossa ternura; da vossa firmeza ? que eu duvido.
D. CAT. Receais que fraqueie algum dia?
CAM?ES Receio; chorareis muitas l?grimas, muitas e amargas… mas, cuido que fraqueareis.
D. CAT. Lu?s! juro-vos …
CAM?ES Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela ? sincera, subiu-me do cora??o ? boca. N?o posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por diz?-la sem rebu?o. Assim me fez a natureza, assim irei ? sepultura.
D. CAT. N?o, n?o fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, at? a c?lera de meu pai. Vede l?, estamos a s?s; se nos vira algu?m… (CAM?ES d? um passo para sair.) N?o, vinde c?. Mas, se nos vira algu?m, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? N?o sei que pensaria; tinha medo h? pouco, j? n?o tenho medo… amor sim… O que eu tenho ? amor, meu Lu?s.
CAM?ES Minha boa Catarina.
D. CAT. N?o me chameis boa, que eu n?o sei se boa, nem m?.
CAM?ES Divina sois!
D.CAT. N?o me deis nomes que s?o sacril?gios.
CAMOES Que outro vos cabe?
D. CAT. Nenhum.
CAM?ES Nenhum? Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ata?de, uma ninfa do pa?o, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem reparar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Cam?es, ir? morrer em ?frica ou ?sia…
D. CAT. Teimoso sois! sempre essas id?ias de ?frica…
CAM?ES ou ?sia. Que tem isso? Digo-vos que, ?s vezes, a dormir, imagino l? estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora…
D. CAT. N?o imagino nada; v?s sois meu, t?o-s? meu, t?o-somente meu. Que me importa o gentio, ou o turco, ou que quer que ?, que n?o sei, nem quero? Tinha que ver, se me deix?veis, para ir ?s vossas ?fricas… E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAM?ES N?o faltar? quem vo-los fa?a, e da maior perfei??o.
D. CAT. Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos… como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes v?s.
CAM?ES (recitando).
Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase for?ado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso…
D. CAT. N?o acabeis, que me obrigar?eis a fugir de vexada.
CAM?ES De vexada! Quando ? que a rosa se vexou, porque o sol a beijou de longe?
D. CAT: Bem respondido, meu claro sol.
CAM?ES Deixai-me repetir que sois divina. Nat?rcia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, n?o ? assim? Deixai-me cr?-lo, ao menos; deixai-me crer que h? um v?nculo secreto e forte, que nem os homens, nem a pr?pria natureza poderia j? destruir. Deixai-me crer… N?o me ouvis?
D. CAT. (enlevada). Ou?o, ou?o.
CAM?ES Crer que a ?ltima palavra de vossos l?bios ser? o meu nome. Ser??… Tenha eu esta f?, e n?o se me dar? da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.
D. CAT. Acabai!
CAM?ES Que mais?
D.CAT. N?o sei; mas ? t?o doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, n?o, n?o acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.
CAM?ES Ai de n?s! A perpetuidade ? um simples instante, um instante em que nos deixam s?s nesta sala! (D. CATARINA afasta-se rapidamente) Olhai; s? a id?ia do perigo vos arredou de mim.
D. CAT. Na verdade, se nos vissem… Se algu?m a?, por esses reposteiros… Adeus…
CAM?ES Medrosa, eterna medrosa!
D. CAT. Pode ser que sim; mas n?o est? isso mesmo no meu retrato?
Um colhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento…
CAM?ES
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o m?gico veneno
Que p?de transformar meu pensamento.
D. CAT. (indo a ele). Pois ent?o? A vossa Circe manda-vos que n?o duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, t?o pr?prios do lugar e da condi??o; manda-vos crer e amar. Se ela ?s vezes foge, ? porque a espreitam; se voc? n?o responde, ? porque outros ouvidos poderiam escut?-la. Entendeis? ? o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta… e agora… (Estende-lhe a m?o) Adeus!
CAM?ES Ide-vos?
D. CAT. A rainha espera-me. Audazes fomos, Lu?s. N?o desafiemos o pa?o… que esses reposteiros…
CAM?ES Deixa-me ir ver!
D. CAT. (detendo-o). N?o, n?o. Separemo-nos.
CAM?ES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda; CAM?ES, olha para a porta da direita).
D. CAT. Andai, andai!
CAM?ES Um instante ainda!
D. CAT. Imprudente! Por quem sois, ide-vos, meu Lu?s!
CAM?ES A rainha espera-vos!
D. CAT. Espera.
CAM?ES T?o raro ? ver-vos!
D. CAT. N?o afrontemos o c?u… podem dar conosco…
CAM?ES Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e ? f? que o faria respeitar!
D. CAT. (aflita, pegando-lhe na m?o). Reparai, meu Lu?s, reparai; onde estais, quem eu sou, o que s?o estas paredes… domai esse g?nio arrebatado. Pe?o-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?
CAM?ES Viva a minha cor?a gentil, a minha t?mida cor?a! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!
D. CAT. Adeus!
CAM?ES (com a m?o dela presa). Adeus!
D. CAT. Ide… deixai-me ir!
CAM?ES Hoje h? luar; se virdes um embu?ado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e ent?o, j? n?o ? o sol a beijar de longe uma rosa, ? o goivo que pede calor a uma estrela.
D.CAT. Cautela, n?o vos reconhe?am.
CAM?ES Cautela haverei; mas que me reconhe?am, que tem isso? Embargarei a palavra ao importuno.
D.CAT. Sossegai. Adeus!
CAM?ES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda, e p?ra diante dela, ? espera que CAM?ES saia. CAM?ES corteja-a para um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. ? Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece CAMINHA. ? D. CATARINA d? um pequeno giro e sai precipitadamente. ? CAM?ES det?m-se. Os dous homens olham-se por um instante).
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Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. De ?Tu, s? tu, puro amor?. In: Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.



[*] O DESFECHO dos amores palacianos de Cam?es e de D. Catarina de Ata?de ? o objeto da com?dia, desfecho que deu lugar ? subseq?ente aventura de ?frica, e mais tarde ? partida para a ?ndia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas m?os. N?o pretendi fazer um quadro da corte de D. Jo?o III, nem sei se o permitiam as propor??es m?nimas do escrito e a urg?ncia da ocasi?o. Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse contempor?neo de seus amores, n?o lhe dando fei??es ?picas, e, por assim dizer, p?stumas.
Na primeira impress?o escrevi uma nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma cousa explicativa. Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Cam?es ao Duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe n?o possa fixar data, usara desta por me parecer um curioso rasgo de costumes. E aduzi: ?Engana-se, creio eu, o Sr. Te?filo Braga, quando afirma que ela s? podia ter ocorrido depois do regresso de Cam?es a Lisboa, alegando, para fundamentar essa opini?o, que o t?tulo de Duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o ilustre escritor, porque eu encontro o Duque de Aveiro, cinco anos antes, em 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa, D. Joana, noiva do pr?ncipe D. Jo?o (veja Mem. e Doc., anexos aos Anais de D. Jo?o III, pp. 440 e 441); e, se Cam?es s? em 1553 partiu para a ?ndia, n?o ? poss?vel que o epigrama e o caso que lhe deu origens fosse anteriores?.
Temos ambos raz?o, o Sr. Te?filo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro s? foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o t?tulo desde muito antes, por merc? de D. Jo?o III; ? o que confirma a pr?pria carta r?gia de 30 de agosto daquele ano. Textualmente inserta na Historia General, de D. Antonio Caetano de Sousa, que cita em abono da asser??o o testemunho de Andrade, na Cr?nica Del-Rei D. Jo?o III. Naquela mesma obra se l? (Liv. IV, cap. V) que em 1551, na transla??o dos ossos del-rei D. Manuel estivera presente o Duque de Aveiro. N?o ?, pois, imposs?vel que a anedota ocorresse antes da primeira aus?ncia de Cam?es.




Bio fornecida pelo palestrante.

Antes do baile verde




Autor: Lygia Fagundes Telles
Título: Antes do baile verde, Antes del baile verde
Idiomas: port, esp
Tradutor: Santiago Kovadloff(esp)
Data: 29/12/2004

ANTES DO BAILE VERDE
Da colet?nea Antes do baile verde

Lygia Fagundes Telles

 

O Rancho Azul e Branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres, debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo flutuar a capa encharcada de suor.
– Ele gostou de você – disse a jovem, voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. – O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
– Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa de cabeceira. O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.
– Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo… Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.
– Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.
– Acabei o que, falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar um raio de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel-crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça.
– O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
– Tem tempo, sossega – atalhou a jovem. Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. – Não sei como fui me atrasar desse jeito.
– Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!
– E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-se de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.
– Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote…
– Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?… Que tal?
A mulher sorriu.
– Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde, você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.
– Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!
– Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.
– Não faz mal – disse a jovem, limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorreu pelo dedo. – Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beca. O que está me endoidando é este calor, não agüento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente? Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a testa e baixou o tom de voz.
– Estive lá.
– E daí?
– Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseram-se a cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa frigideira: A coroa do rei não é de ouro nem de prata…
– Parece que estou num forno – gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. –Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.
– Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine você então…
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom sombrio:
– Você acha, Lu?
– Acha o quê?
– Que ele está morrendo?
– Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.
– Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.
– Radiante? – espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. – E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.
– Mas quando fui lá ele estava dormindo tal calmo, Lu.
– Aquilo não é sono. É outra coisa.
Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu-se à preta.
– Quer?
– Tomei muita cerveja, se mistura dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.
– Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou… Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.
– Você está bebendo demais. E nessa correria… Também não sei por que essa invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E o pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina…
– Você é chata, não, Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taque-taque-taque! Esse cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longínquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando…
– No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei.
– E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me esbaldar.
– E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no pote.
– Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você quer? Quer que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando, não é isso que você está querendo? – Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi deixando no saiote o dedal cintilante. – Que é que eu posso fazer? Não sou Deus, sou? Então? Se ele está pior, que culpa tenho eu?
– Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho nada com isso, ele é seu pai, não meu. Faça o que bem entender.
– Mas você começa a dizer que ele está morrendo!
– Pois está mesmo.
– Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre dormindo daquele jeito.
– Então não está.
A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na calçada, um bando de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana, esguichando água um na cara do outro. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. “Minha lindura, vem comigo, minha lindura!” – gritou o moleque maior, correndo atrás do homem. Ela assistia à cena com indiferença. Puxou com força as meias presas aos elásticos do biquíni.
– Estou transpirando feito um cavalo. Juro que, se não tivesse me pintado, metia-me agora num chuveiro, besteira a gente se pintar antes.
– E eu não agüento mais de sede – resmungou a empregada, arregaçando as mangas do quimono. – Ai! uma cerveja bem geladinha. Gosto mesmo é de cerveja, mas o Raimundo prefere cachaça. No ano passado, ele ficou de porre os três dias, fui sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos, representava um mar. Você precisava ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! Bem lá em cima, dentro de uma concha abrindo e fechando a rainha do mar coberta de jóias…
–Você já se enganou uma vez – atalhou a jovem. – Ele não pode estar morrendo, não pode. Também estive lá antes de você, ele estava dormindo tão sossegado. E hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois sorriu. Você está bem, papai?, perguntei e ele não respondeu, mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse.
– Ele se fez de forte, coitado.
– De forte, como?
– Sabe que você tem os seu baile, não quer atrapalhar.
– Ih, como é difícil conversar com gente ignorante – explodiu a jovem, atirando no chão as roupas amontoadas na cama. Revistou os bolsos de uma calça comprida. – Você pegou meu cigarro?
– Tenho minha marca, não preciso dos seus.
– Escuta, Luzinha, escuta – começou ela, ajeitando a flor na carapinha da mulher. – Eu não estou inventando, tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. Acho que nessa hora sentiu alguma dor, porque uma lágrima foi escorrendo daquele lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca. Chorou só daquele lado, uma lágrima tão escura…
– Ele estava se despedindo.
– Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até parece que você quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?
– Você mesma pergunta e não quer que eu responda. Não vou mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Agachou-se mais, roçando os cabelos verdes no chão. Levantou-se, olhou em redor. E foi-se ajoelhando devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola.
– E se você desse um pulo lá só para ver?
– Mas você quer ou não que eu acabe isto? – a mulher gemeu exasperada, abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola. – O Raimundo tem ódio de esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápida num andar de bicho na jaula. Chutou um sapato que encontrou no caminho.
– Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem que disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!
-Mas, Tatisa, ele não é meu pai, não tenho nada com isso, até que tenho ajudado muito, sim senhora, como não? Todos esses meses quem é que tem agüentado o tranco? Não me queixo, porque ele é muito bom, coitado. Mas tenha a santa paciência, hoje não! Até que estou fazendo muito aqui plantada quando devia estar na rua.
Com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário. Olhou-se no espelho. Beliscou a cintura.
(…).

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Fonte: TELLES, Lygia Fagundes. “Antes do baile verde”. In: —. Antes do baile verde: contos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 39-45.

ANTES DEL BAILE VERDE

De la Antologia Quince cuentistas brasile?os de hoy

Lygia Fagundes Telles

El rancho azul y blanco desfilaba con sus passistas vestidos a lo Luis XV y su portaestandarte de peluca plateada en forma de pirámide, los rizos desmoronados en la cabeza, la cola del vestido de satín arrastrándose ensuciada por el asfalto. El negro del bombo hizo una profunda reverencia ante las dos mujeres apoyadas en la ventana y prosiguió con su sombrero de tres picos, haciendo revolotear la capa empapada de sudor.
–Le gustaste – dijo la joven dirigiéndose a la mujer que aún aplaudía–. El cumplido fue en tu dirección, ¿viste qué distinguido?
La negra dio una risita.
–Mi hombre es mil veces más guapo, por lo menos en mi opinión. Y ya debe estar llegando, quedó en recogerme a las diez en la esquina. Si me atraso, empieza a protestar y, listo, ya no sale.
La joven la tomó por el brazo y la arrastró hasta la mesa de luz. El cuarto estaba revuelto como si un ladrón hubiera pasado por allí y tirado cajas y cajones.
–¡Estoy atrasadísima, Lu! ¡Ese disfraz es terrible…! Ten paciencia, pero me has de ayudar un poquito.
–¿Pero aún no terminó?
Sentándose en la cama, la joven abrió sobre las rodillas el vestido verde. Usaba bikini y medias de malla, también verdes.
–Acabé, pero aún falta pegar todo esto, mira… ¡Me fui a inventar una franja de colombina dificilísima!
La negra se aproximó, alisando con las manos el quimono de seda brillante. Prendido en el pelo traía un crisantemo de crêpe rojo. Se sentó al lado de la joven.
–Raimundo ya debe estar llegando, se pone hecho una fiera si me atraso. Vamos a ver los ranchos, hoy quiero ver todos.
–Hay tiempo, cálmate – atajó la joven. Se apartó los cabellos que le caían sobre los ojos. Levantó el velador de la mesita–. No sé cómo pude atrasarme de esta forma.
–Pero no puedo perder el desfile, ¿oyó, Tatisa? Todo menos perder el desfile.
–¿Y quién dijo que vas a perderlo?
La mujer metió el dedo en el pote de cola y lo bajó suavemente sobre las lentejuelas del platito. Enseguida llevó el dedo hacia el vestido y allí dejó las lantejuelas formando una constelación desordenada. Tomó una lentejuela que había escapado y delicadamente la encoló. La depositó en la falda, fijándola con pequeños movimientos circulares.
–Pero si tengo que pegar las lantejuelas en toda la falda…
–¿Ya empezamos con las quejas? Creí que había tiempo y ahora no puedo largar el trabajo por la mitad, ¿entiendes? Si me ayudas acabamos en un momento, ya me pinté, mira, ¿qué tal mi cara? No dijiste nada, bruja, eh… ¿Qué tal?
La mujer sonrió.
–Quedó bien, Tatisa. Con ese cabello verde parece una alcachofa, tan gracioso. Lo que me gusta es ese verde en las uñas, queda raro.
En un movimiento brusco, la joven levantó la cabeza para respirar mejor. Se pasó el dorso de la mano por el rostro acalorado.
–Pero son las uñas las que dan la nota, tonta. Es un baile verde, los disfraces tiene que ser verdes, todo verde. Pero no necesitas quedarte mirando, vamos, no pares, puedes hablar sin dejar de trabajar. ¡Falta más de la mitad, Lu!
–Estoy sin anteojos, no veo bien.
–No importa – dijo la joven, limpiando en la sábana el exceso de cola que se le había escurrido por el dedo–. Ve pegando de cualquier forma que allí dentro nadie se va a dar cuenta, total habrá un montón de gente. Lo que me está volviendo loca es este calor, no aguanto más, tengo la impresión de estarme derritiendo, ¿no sientes? ¡Qué barbaridad!
La mujer intentó sujetarse el crisantemo que le había resbalado por el cuello. Frunció la frente y bajó el tono de voz.
–Estuve allí.
–¿Y?
–Se está muriendo.
Un coche pasó por la calle, bocinando frenéticamente. Algunos niños se pusieron a cantar a gritos, el compás marcado por los golpes en una sartén: “La corona del rey no es de oro ni es de plata…”
–Parece que estoy en un horno – gimió la joven, dilatando las narinas sudorosas–. Si hubiera sabido, habría inventado un disfraz más liviano.
–¿Pero qué es esto? ¡Si está casi desnuda, Tatisa! Yo iba a ir de hawaiana, pero sólo porque se me ve un pedazo de cadera, Raimundo ya arma un escándalo. Imagina, entonces…
Con la punta de la uña, Tatisa recogió una lentejuela que se había enredado en la malla de la media. La dejó caer en la pequeña constelación que iba armando en el borde de la falda y se quedó rascando pensativamente un resto reseco de cola que le había caído en una rodilla. Vagaba la mirada por los objetos, sin fijarse en ninguno. Habló con tono sombrío:
–¿Te parece, Lu?
–¿Me parece qué?
–¿Qué se está muriendo?
–Ah, sí. Entiendo bien de eso, ya vi a un montón de gente morirse, sé muy bien cómo es. No pasa de esta noche.
–Pero te equivocaste una vez, ¿te acuerdas? Dijiste que se iba a morir, que estaba en las últimas… Y al día siguiente él ya pedía leche, radiante.
–¿Radiante? – se asombró la sirvienta. Cerró en un movimiento los labios pintados de rojo-violeta–. Y además yo nunca dije que se iba a morir, dije que estaba mal, eso fue lo que dije. Pero hoy es diferente, Tatisa. Espié desde la puerta, ni necesito entrar para ver que se está muriendo.
–Pero cuando fui estaba durmiendo tan tranquilo, Lu.
–No era sueño, era otra cosa.
Apartándose bruscamente la falda abierta en las rodillas, la joven se levantó. Fue hasta la mesa, tomó la botella de whisky y buscó un vaso en medio del desorden de los frascos y cajas. Lo encontró debajo de la polvera. Sopló el fondo lleno de polvos de arroz y bebió a largos tragos, apretando los maxilares. Respiró con la boca abierta. Se dirigió a la negra:
–¿Quieres?
–Tomé mucha cerveza, si mezclo voy a ponerme muy ansiosa.
La joven vertió más whisky en el vaso.
–¿Mi pintura no se está derritiendo? Fijaste si no se me borró el verde de los ojos… Nunca transpiré tanto, siento que la sangre me hierve.
–Está bebiendo demasiado. Y con tanto apuro… La verdad, no sé por qué esta ocurrencia de la falda bordada, las lantejuelas se van a despegar todas en la aglomeración. Y lo peor es que no puedo hacer las cosas bien, pensando en el Raimundo allá en la esquina…
–Eres pesada, ¿eh, Lu? Mil veces repites la misma cosa, ¡taque-taque-taque-taque-taque! ¿Ese tipo no puede esperar un poco?
La mujer no respondió. Oía con expresión de éxtasis la música de un bloco * que pasaba a los lejos. Canturreó en falsete: “Terminó llorando… terminó llorando…”
–En el otro carnaval entré en un bloco de sujos y me divertí en grande. Hasta se me reventaron los zapatos de tanto que bailé.
–Y yo en la cama, podrida de gripe, ¿te acuerdas? En éste me quiero divertir como nunca.
Lentamente la joven fue limpiando con el pañuelo las puntas de los dedos blanqueados de cola. Tomó un trago de whisky. Volvió a hundir el dedo en el pote.
–Quieres que me quede aquí llorando, ¿no es eso lo que quieres? Quieres que me cubra la cabeza con ceniza y me quede de rodillas rezando, ¿no es cierto? – Se quedó mirando la punta del dedo, cubierto de lentejuelas. Dejó en la falda el dedal centelleante– ¿Qué puedo hacer? No soy Dios, ¿o sí? Entonces, sí él está peor, ¿yo qué culpa tengo?
–No estoy diciendo que tenga la culpa, Tatisa.
No tengo nada que ver, es su padre, no el mío. Haga lo que le parezca.
–¡Pero empiezas a decir que se está muriendo!
–Pues lo está.
–No es verdad. También me fijé, está durmiendo, nadie se muere durmiendo así.
–Entonces no está.
La joven fue hasta la ventana y ofreció su rostro al cielo violeta. En la vereda, un grupo de chicuelos jugaba con tubos de plástico en forma de banana, se arrojaban agua a la cara unos a otros. Interrumpieron el juego para burlarse de un hombre vestido de mujer, que pasó tambaleándose sobre los zapatos de taco altísimo: –“Mi lindura, ven conmigo, mi ligadura”– gritó el granuja mayor, corriendo tras el hombre. Ella asistía a la escena con indiferencia. Se estiró con fuerza las medias prendidas a los elásticos del bikini.
–Estoy transpirando como un caballo. Juro que si no me hubiese pintado me metía ahora debajo de la ducha, ¡qué estúpida fui de haberme pintado antes!
–No aguanto más de sed – rezongó la sirvienta, arremangándose las mangas del quimono–. ¡Ay!, qué ganas de tomar una cerveza bien heladita. Lo que más me gusta es la cerveza, pero Raimundo prefiere cachaça . El año pasado estuvo tumbado tres días, tuve que ir sola al desfile. Había un carro que fue el más bonito de todos, representaba un mar. Tenía que ver aquel montón de sirenas envueltas en perlas. Había pescadores, piratas, pulpos, de todo. Y allí arriba, dentro de una concha que se abría y se cerraba, la reina del mar, cubierta de joyas…
–Ya te equivocaste una vez – interrumpió la joven–. No puede estar muriéndose, no puede ser. También estuve allí antes que tú, se estaba durmiendo tan tranquilo. Y hoy temprano hasta me reconoció, se quedó mirándome, mirándome y después sonrió. ¿Estás bien, papá?, pregunté, y él no respondió, pero noté que entendió perfectamente lo que dije.
–Se hizo el fuerte, pobrecito.
–¿Cómo el fuerte?
–Sabe que usted tiene su baile y no quiere molestar.
–Uf, qué difícil es conversar con gente ignorante – explotó la joven, tirando al suelo las ropas amontonadas en la cama. Revisó los bolsillos de un pantalón–. ¿Tomaste mis cigarrillos?
–Tengo mi marca, no necesito los suyos.
–Escucha, Luzinha, escucha – comenzó ella, arreglando la flor en el pelo de la mujer–. No estoy inventando, y estoy segura de que aún hoy él me reconoció. Creo que en ese momento sintió algún dolor, porque una lágrima se le escurrió de su lado paralizado. Nunca lo había visto llorar de aquel lado. Lloró sólo de aquel lado, una lágrima tan oscura…
–Se estaba despidiendo.
–¡De vuelta, mierda! Deja de hacerte el cuervo, hasta parece que quieres que sea hoy. ¿Por qué tienes que repetir eso, por qué?
–Usted misma pregunta y no quiere que conteste. No voy a mentir, Tatisa.
La joven miró bajo la cama. Empujó un zapato. Se agachó más, rozando los cabellos verdes en el suelo. Se levantó y miró alrededor. Y se fue arrodillando despacito, ante la negra. Agarró el pote de cola.
–¿Y si pasara por allí, sólo para ver?
–Pero, ¿quiere o no que acabe esto? – gimió la mujer, exasperada, abriendo y cerrando los dedos resecos de cola–. Raimundo detesta esperar, ¡va a ver que hoy todavía cobro!
La joven se levantó. Lloriqueó, andando rápida con paso de animal enjaulado. Pateó un zapato que encontró en el camino.
–Aquel médico miserable. Todo por culpa de aquel maricón. Yo bien dije que no podía quedarme con él aquí en casa, dije que no sé cuidar enfermos, ¡no sé, no puedo! Si hubieras sido buena me habrías ayudado, pero no pasas de ser una egoísta, una pesada que no quiere saber de nada. Egoísta.
–Pero, Tatisa, no es mi padre, yo no tengo nada que ver con esto. Además la ayudé mucho, no me lo puede negar. Todos estos meses, ¿quién es la que se aguantó el fardo? No me quejo por él, es muy bueno, pobre. ¡Pero tener la santa paciencia, hoy, no! Hasta estoy haciendo demasiado aquí plantada, cuando debía estar en la calle.
Con un gesto fatigado, la joven abrió la puerta del armario. Se miró al espejo. Se pellizcó la cintura.
(…).

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Fonte: Telles, Lygia Fagundes. “Antes del baile verde”. In: Quince cuentistas brasileños de hoy. Traducción de Santiago Kovadloff. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1978. p. 9-17.





Bio fornecida pelo palestrante.

As meninas




Autor: Lygia Fagundes Telles
Título: As meninas, Las meninas
Idiomas: port, esp
Tradutor: Estela dos Santos(esp)
Data: 29/12/2004

LAS MENINAS


Uno


Lygia Fagundes Telles

Me senté en la cama. Era temprano para darme un baño. Me eché hacia atrás, abracé la almohada y pensé en M. N., lo mejor del mundo no es tomar el agua de un coco verde y después orinar en el mar, el tío de Lião dijo eso pero él no sabe, lo mejor es estar pensando lo que M. N. va a decir y hacer cuando caiga mi último velo. ¡El último velo! escribiría Lião que es sublime cuando escribe, comenzó la novela diciendo que en diciembre la ciudad huele a durazno. Imagínate, durazno. Diciembre es época de duraznos, claro, a veces uno encuentra que los carritos de frutas en las esquinas expanden olor a plantación frutal a su alrededor pero sacar de allí que la ciudad entera está perfumada es sublime. Le dedicó la narración a Guevara con un importantísimo pensamiento acerca de la vida y la muerte, todo en latín. Imagínate cómo debe entrar el latín en el esquema guevarista. ¿O entra? Si a él le gustaba el latín. ¿A mí no me gusta? En los momentos de ocio echado sobre el suelo, las manos debajo de la cabeza, se quedaba mirando las nubes y latinando, la muerte combina bien con el latín, no hay nada que combine tanto con el latín como la muerte. Pero aceptar que esta ciudad huele a durazno, es una exageración. ¿Qué ciudad será ésa?, preguntaría él con la mayor perplejidad. ¿Tercer Mundo? El Tercer Mundo. ¿Y huele a durazno? ¿ En opinión de Lía de Melo Schultz, huele.
Entonces él cerraría los ojos donde tenía los ojos y sonreiría una sonrisa donde tenía la boca. Estoy bien listo con esas mis discípulas. En fin, problema de ella o mío es M. N., un M. N. desnudo, en pelo, mucho más en pelo que yo, es bastante peludo, como el mono de origen. Pero un mono lindo, de cara tan intelectual, tan rara, el ojo derecho un poco más chico que el izquierdo y tan triste, todo un lado de su cara es infinitamente más triste que el otro. Infinitamente. Podría quedarme repitiendo infinitamente… infinitamente… Una simple palabra que se extiende por ríos, montes, valles, infinitamente largos como los brazos de Dios. Las palabras. Los gestos se renuevan como la piel de la cobra irrumpiendo lisa bajo la piel vieja. Y no es viscosa, la toqué en la estancia, era verde y espesa pero no viscosa. El gesto de M. N. también nuevo, no es verdad que todo ha de ser como las otras veces, él vendrá con piel limpia, inventando o inventado en sus minucias. Si Dios está en los pormenores, el goce más agudo debe estar también en lo menudo, ¿oíste esta M.N.? Ana Clara contó que tenía un novio que se volvía loco cuando ella se quitaba las pestañas postizas, el espectáculo del biquini no tenía la menor importancia pero apenas comenzaba a quitarse las pestañas, era la gloria. Los ojos desnudos. En verdad os digo que llegará el día en que la desnudez de los ojos será más excitante que la del sexo. Pura convención decir que el sexo es obsceno. ¿Y la boca? Inquietante la boca mordiendo, masticando, mordiendo. Mordiendo un durazno. ¿Te acuerdas? Si yo escribiera empezaría una narración con ese nombre, El Hombre del Durazno. Lo vi desde una esquina mientras tomaba un vaso de leche: un hombre cualquiera con un durazno en la mano. Me quedé mirando el durazno maduro que él movía y palpaba entre sus dedos, cerrando un poco los ojos como si quisiera aprenderle el contorno. Tenía rasgos durar y la barba crecida acentuaba sus arrugas como filos de carbón, pero toda la dureza desaparecía cuando olía el durazno. Quedé fascinada. Alisó los vellos de la cáscara con los labios y con los labios aún fue recorriendo toda su superficie como había hecho con la punta de los dedos. La nariz dilatada, los ojos estrábicos. Yo quería que todo terminara de una vez pero parecía no tener ningún apuro: casi con rabia refregó el durazno contra su mentón mientras con el borde de la lengua, haciéndolo rodar entre los dedos, buscó la punta. ¿La encontró? Yo estaba recostada en el balcón del café pero lo veía como en un telescopio: encontró la punta rosada y comenzó a acariciarla con la lengua en un movimiento circular, intenso. Pude ver que la punta de la lengua era del mismo rosa que la punta del durazno, pude ver que pasó a lamerlo con una expresión que ya era de sufrimiento.
Cuando abrió la boca y le dio un mordisco que hizo correr largo el zumo, casi escupí en mi leche. Todavía me contraigo entera cuando me acuerdo, oh Lorena Vaz Leme, ¿no te da vergüenza?
“No” – dice en voz alta el Ángel Seductor. Enciendo deprisa una tableta de incienso, oh mente pervertida. Querría ser santa. Pura como ese perfume de rosas que me envuelve y me da sueño, Astronauta también sentía sueño cuando yo encendía el incienso. Y se desperezaba como me desperezo, con él aprendí a desperezarme. Gato aventurero, ¿por dónde anda usted, eh? Daba clases diarias de pereza y lujuria pero nunca repetía los movimientos, todos los bailarines deberían tener un gato. La astucia. Al mismo tiempo, el abandono. El desprecio por las cosas realmente despreciables. Y aquel cálculo y fijación. Todo hecho de delicadezas peligrosas, gato mío. ¿O Demonio? En las pausas de las lecciones se quedaba mirándome, tanto más consciente que yo en mi inconsciencia, ¿cómo iba a saber yo? Todavía no conocía a M. N., no me quedaba horas y horas fabulando como he fabulado, ay Padre mío. Sólo Jesús comprende y perdona, solo Él que ya sufrió como nosotros, Jesús, ¡Jesús cómo te amo! Voy a poner un disco en su homenaje, ofrezco música como Abel ofrecía ovejas, lógicamente la oveja es mucho más importante, pero Jesús sabe que le tengo horror a la sangre, mis ofrendas sólo pueden ser musicales. ¿Jimi Hendrix? Escucha, mi amado, escucha esta última musiquita que hizo antes de morir, murió drogado el pobrecito, todo ellos mueren drogados, pero escucha, sé que vas a bajar la mano hasta su mota llena de sudor y polvo, dear Jimi!…
Con un salto elástico, Lorena se levantó de la cama de hierro dorado, del mismo color que el papel de la pared. Ensayó algunos pasos de baile, levantó la pierna hasta tocar con el pie descalzo la barra de hierro y dio un salto cayendo sobre la estrecha raya azul de la alfombra de yute. Se levantó, sacudió la cabellera hacia atrás y, mirando hacia adelante, fue haciendo equilibrios sobre la raya hasta alcanzar el tocadiscos.
–Jimi, Jimi, ¿dónde estás? – preguntó examinando la pila de discos en el estante. Llevaba un leve pijama blanco con florcitas amarillas y en el cuello una cadena con un corazoncito de oro. Tomó el disco con la punta de los dedos.
–¿Y vos, Rómulo? ¿Adónde ahora?
Cerró los ojos húmedos y co1ocó el disco en el plato. Mansamente levantó el brazo y la condujo como el pico de un pájaro ciego hasta la vasija de agua. Lo dejó caer.

–¡Lorena!
La voz venía del jardín. Rápidamente se recogió el pelo, la sostuvo en la nuca y se puso en puntas de pie. Abrió los brazos. Fue andando sobre la raya en caracol de la alfombra, tensa como una equilibrista sobre un hilo de alambre.
–¡Lorena, asómate a la ventana, te quiero hablar!
Vaciló peligrosamente, el pie derecho plantado en la raya y el izquierdo suspendido en el aire. Se alivió cuando consiguió posar el izquierdo frente al otro sin perder el equilibrio: había llegado al fin del viaje. Se inclinó hacia los dos lados en una profunda reverencia, los brazos arqueados hacia atrás, las manos tocándose como bordes de alas entreabiertas. Agradeció retrocediendo un poco, la modesta sonrisa hacia el suelo. Agarró una flor en el aire, la besó, la arrojó triunfante por las galerías y girando se volvió hacia la ventana. Le hizo señas a la joven que esperaba con los brazos cruzados en medio de la alameda. Colocó sus manos sobre el lado izquierdo del pecho y suspiró con énfasis:
–Amada mía, sé bienvenida. ¡Mira qué día! Es primavera, Lião, primavera. Vera, es verdad, prima, naturalmente primera, la verdad primera. ¿Eh? En una mañana así me tengo que atar para no salir volando, ¡mira las margaritas, todas se abrieron! – Señaló el cantero debajo de la ventana.– ¡Qué cosa más hermosa! ¡Buen día, margaritas mías!
–Lorena, ¿me vas a prestar atención?
–Habla, Lía de Melo Schultz, habla.
Con un movimiento brusco, Lía se levantó las gruesas medias blancas hasta las rodillas. La cartera de cuero resbaló al suelo pero ella se concentraba en las medias, atentamente, como si esperase verlas caer en seguida. Recogió la cartera,
–¿Tu mamá me podrá prestar el auto mañana? Después de comer. Digamos a las nueve.
–Se te caen las medias.
–O me ajustan las rodillas o se me caen. Fíjate. Al principio el elástico me apretaba tanto que me dejaba la pierna roja.
–Pero qué idea, querida, usar medias con este calor. Y zapatones de alpinista, ¿por qué no te pusiste las sandalias? Las marrones hacen juego con la cartera.
–Hoy tengo que caminar el día entero, putz. Y sin medias me salen ampollas en los pies.
Probablemente en las plantas. Qué barbaridad. Peor que las ampollas sólo los juanetes de la Hermana Bula. Juanete debe venir de Juana, hubo una antigua Juana con los primeros pies deformados y los nietos heredaron la deformación y aparecieron los juanetes. Ay Padre mío. Primavera, yo enamorada y Lião hablando de las ampollas de los pies.
–Tengo unas medias preciosas, todavía no las usé, ¿las queréis?
–Sólo si son francesas.
–Son suizas, queridita.
–No me gusta Suiza, es demasiado limpia.
Y no le van a servir, imagínate, debe calzar cuarenta. Qué idea usar medias que abultan los tobillos, la pobre tiene piernas de elefante. Aún así, adelgazó, la subversión adelgaza.
– Lião, Lião, estoy tan enamorada. Si M. N. no telefonea, me mato.
(…).

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Fonte: TELLES, Lygia Fagundes. Las Meninas. Trad. de Estela dos Santos. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1978. p. 11-17.

AS MENINAS


Um


Lygia Fagundes Telles

Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M. N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M. N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu! escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego. Imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano. Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as nuvens e latinando, a morte combina muito com latim, não tem coisa que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade cheira a pêssego, exorbita. Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior perplexidade. Tercer Mundo? Terceiro Mundo. Y huele a durazno? Na opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca. Estoy bien listo con esas mís discípulas. Enfim, problema dela, o meu é M. N., um M. N. nu em pêlo, muito mais em pêlo do que eu, ele é peludo à beça, assim na base do macaco. Mas um macaco lindo, a cara tão intelectual, tão rara, o olho direito um pouco menor do que o esquerdo e tão triste, todo um lado da sua cara é infinitamente mais triste do que o outro. Infinitamente. Eu poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos como os braços de Deus. As palavras. Os gestos se renovando como a pele da cobra rompendo lisa sob a pele velha. E não é viscosa, toquei nela na fazenda, era verde e espessa mas não viscosa. O gesto de M. N. também novo, não é verdade que tudo será como das outras vezes, ele virá de pele limpa, inventando o inventado nas suas minúcias. Se Deus está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu isto, M. N.? Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse, começaria uma história com esse nome, O Homem do Pêssego. Assisti de uma esquina enquanto tornava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mas toda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada. Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico. Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote, que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?
“Não” – diz em voz alta o Anjo Sedutor. Acendo depressa um tablete de incenso, oh mente pervertida. Queria ser santa. Pura como esse perfume de rosas que se enrola em mim e me dá sono. Astronauta também sentia sono quando eu acendia o incenso. E se espreguiçava como me espreguiço, foi com ele que aprendi a me espreguiçar. Gato à-toa, por onde você anda. Hein? Dava aulas diárias de preguiça e luxúria mas nunca repetia os movimentos, todo bailarino devia ter um gato. A astúcia. Ao mesmo tempo, o abandono. O desprezo pelas coisas realmente desprezíveis. E aquele cálculo e fixação. Todo feito de delicadezas perigosas o meu gato. Ou Demônio? Nas pausas das lições ficava me olhando, tão mais consciente do que eu na minha inconsciência, como é que eu podia saber? Ainda nem conhecia M. N., não ficava horas e horas minhocando como tenho minhocado, ai meu Pai. Só Jesus compreende e perdoa, só Ele que já curtiu como nós, Jesus, Jesus como eu te amo! Vou pôr um disco em sua homenagem, espera, ofereço música assim como Abel oferecia ovelhas, é lógico que ovelha é muito mais importante mas Jesus sabe que tenho horror de sangue, minhas oferendas só podem ser musicais. Jimi Hendrix? Escuta, meu amado, escuta esta última musiquinha que ele fez antes de morrer, morreu drogado o pobrezinho, todos eles morrem drogados, mas ouça e sei que você vai baixar a mão até sua carapinha cheia de suor e poeira, dear Jimi!…
Num salto elástico, Lorena se atirou na cama de ferro dourado, da cor do papel da parede. Ensaiou alguns passos de dança, levantou a perna, até tocar com o pé descalço na barra de ferro e saltou para cair na estreita listra azul do tapete de juta. Aprumou-se, sacudiu a cabeleira para trás e, olhando em frente, foi se equilibrando na listra até chegar ao toca-discos.
–Jimi, Jimi, onde você está? – perguntou ela examinando a pilha dos discos na prateleira da estante. Vestia um leve pijama branco com florinhas amarelas e tinha no pescoço uma corrente com um coraçãozinho de ouro. Segurou o disco nas pontas dos dedos. – E você, Rômulo? Onde agora?
Apertou os olhos úmidos e colocou o disco no prato. Mansamente levantou a agulha e a conduziu como o bico de um pássaro cego até a vasilha d’água. Deixou-a tombar.

–Lorena!
A voz vinha do jardim. Rapidamente ela arrepanhou a cabeleira, torceu-a na nuca e pôs-se nas pontas dos pés. Abriu os braços. Foi andando na listra em caracol do tapete, tensa como uma equilibrista num fio de arame.
–Lorena, bota a cabeça na janela, quero falar com você!
Ela vacilou perigosamente, o pé direito plantado na listra, o esquerdo em suspenso no ar. Descontraiu-se quando conseguiu pousar o esquerdo na frente do outro sem perder o equilíbrio: chegara ao fim da travessia. Inclinou-se para os lados numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase:
–Minha amada, seja bem-vinda. Veja que dia! É primavera, Lião, primavera. Vera, é verdade, prima, naturalmente primeira, a verdade primeira. Hum? Numa manhã assim tenho que me segurar senão saio voando, olha as margaridinhas, abriram todas! – apontou o canteiro embaixo da janela. – Coisa mais jóia. Bom-dia, minhas margaridinhas!
–Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção?
–Fala, Lia de Melo Schultz, fala.
Com um movimento brusco, Lia puxou as grossas meias brancas até os joelhos. A sacola de couro resvalou para o chão mas ela se concentrava nas meias, atenta como se esperasse vê-las escorregar em seguida. Apanhou a sacola.
–Será que amanhã sua mãe podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende.
Lorena debruçou-se na janela. Sorriu.
–Suas meias estão caindo.
–Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha ai. No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa.
–Mas que idéia, querida, usar meia com este calor. E sapatões de alpinista, por que não calçou a sandália? Aquela marrom combina com a sacola.
–Hoje tenho que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia, dá bolha no pé.
Provavelmente nas solas. Cafonérrimo. Pior do que bolhas só os tais joanetes de Irmã Bula. Joanete deve vir de Joana, houve uma antiga Joana com os primeiros pés deformados e os netos herdaram a deformação e viraram os joanetos. Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé.
–Tenho umas meias tão bacanas, ainda nem usei, quer ir com elas?
–Só se forem francesas, entende.
–São suíças, minha queridinha.
–Não gosto da Suíça, é limpa demais.
E nem vão servir, imagine, ela deve calçar quarenta. Que idéia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece.
–Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M. N. não telefonar, me mato.
(…).

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Fonte: TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas. 16ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 07 – 11.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Crachá nos meus Dentes




Autor: Lygia Fagundes Telles
Título: O Crach? nos meus Dentes, Le Badge entre les Dents
Idiomas: port, fra
Tradutor: Maryvonne Lapouge(fra)
Data: 29/12/2004

LE BADGE ENTRE LES DENTS

Lygia Fagundes Telles

Je commence par me présenter. Je suis un chien, voilà tout. Il est venu tant de races se déverser en moi ainsi que vont se perdre et se retrouver au hasard avec le temps les affluents des petits cours d’ eau, mais laquelle parmi ces races a fini par se révéler au total la plus vigoureuse, je ne saurais le dire. C’est mieux ainsi. Je m´en tiens au résultat sans m’interroger quant aux origines. Là où je vis je peux presque passer inaperçu au milieu des autres qui portent eux aussi des badges accrochés au cou comme les étiquettes des carafes de whisky. Que personne ne se donne la peine de lire attentivement, tous les gens sont bien trop occupés pour s’intéresser véritablement à un être proche, unique et multiple en dépit de sa seule identité.Parfois, la colère me prend, mon poil se hérisse et je serre les mâchoires en me tortillant et en poussant des petits cris, je cherche à m’efuir, à mordre.Mais mes phases de chien fou ne durent pas. Dans ces moments-là, je bombe le torse, ainsi que j’ai entendu dire à l’etraîneur, je ne sais pas en quoi cela consiste de bomber le torse, je ne sais pas, mais c’est ce que je fais lorsque je soupçonne que je ne suis pas en odeur de sainteté : Je bombe le torse et reviens à l’attitude normale d’un chien gentil. Conciliant.

Le propriétaire du cirque, un entraîneur qui sai y faire dans son habit rouge à boutons dorés, a fini par m’apprendre une foule de choses, telles que parler au téléphone, danser, faire des pirouettes.Quand je donne du fil à retordre, il vient brûler mes pattes de devant avec le bout d’une cigarette allumée, ill s’aperçoit que je vacille dans la position verticale et il se précipite et chuiiiii…brûle les pattes rebelles jusqu’à me faire ces trous. Alors je me lève à toute vitesse et je sors en dansant dans ma jupe de tulle bleu. Mais j’ai été humain lorsque je suis tombé amoureux et je suis devenu un mutant qui a duré le temps qu’a duré la passion. Brûlante. Et éphémére. Jái caché les petits objets qui m’auraient trahi et qui n’étaient pas nombreux, le collier, l’os et le tutu des soirs de gala. J’ai regardé le soleil en face. Je dois rappeler que je traversais comme une flèche en salivant de peur les arcs de flammes et voici que la peur a complètement disparu lorsque je me suis découvert en liberté, tout le feu à présent nevenait pul que de l’intérieur, de mon coeur, Je devins une flamme ardente. Je pense aujourd’ hui que je flambai trop fort et mon amour qui paraissait heureux a fini par’s inquéter, c’était un amour fragile, un amour ombrageux. Je tentai de dissimuler la démesure de cette intensité, la peur d’avoir peur. Viens, viens avec moi ! je voulais crier et je n’émettais qu’un murmure.Je me suis mis à parler tout bas, en choisissant mes mots, mes gestes, et même comme ça l’amour a commencé à prendre du recul. Délicatement, c’est certain, mais il a pris du recul tandis que mon désir augmentait au cours d’ une véritable descente aux enfers.C’est que j’aime pour la vie ! aurais-je pu dire. Mais je me suis retenu,ah, le soin avec lequel jje chevauchai ce corps qui se fermait, qui est devenu un coquillage. Ne m’abandonne pas ! j’allai jusqu’à implorer en hurlant lors de notre dernière rencontre. Je me suis mis à lui écrire des billets, des lettres tellement enflammées, je lui adressai plusieurs télégrammes avec le, même texte : Amour Immense Inextinguible Point d’Exclamation.

Il faisait nuit lorsque je me suis retrouvé seul. Je m’enfermai dans ma chambre et contemplai la lune qui était pleine, sa face de pierre sclérosée. Les étoiles, Je m’enlaçai de mes propres bras avec le plus da force possible et je commençai à chercher, où ? J’allai jusqu’au grand lit blanc, nous étions étreints sur ce lit tant et tant de fois et avec une telle fiévre et ce fróid maintenant, je flairai, grattai sous l’oreiller, les couvertures, où ? Mais où ? La recherche désespérée se poursuivit pendant que je dormais, je rêvais que je creusais le sol. Je me réveillai épuise, statue de bue, en poussant des hurlements.

Je n’ai pas eu besoin d’aller jusqu’à la glace pour savoir que j’étais de nouveau redevenu un chien. Le jour se levait.J’ai pris le badge entre mmes dents, repris le chemin du cirque. L’entraîneur m’a examiné avec une attention accrue et, sur un ton de bonne humeur, il a fait cette observation, je devenais vieux. Pour le reste, tout a couru sans autre nouveauté, comme s’il n’y avait eu auçune interruption.Je n’ai regretté mes doigts qu’après les avoir perdus ils me seraient bien utiles en ce moment pour me débarrasser des puces. Ou pour me gratter àl’intérieur de l’oreille ou pour nettoyer la morve qui me coule autour du museau lorsque je suis enrhumé. Avec ces doigts j’ai joué de la flûte mais, et n’est-ce pas étrange ? je ne me suis pas masturbé tout ce temps où j’ai été un humain,jamais pendant tout ce temps je ne me suis masturbé. Il n’y a d’ailleurs pas que cela d’étrande. J’ai aussi appris à prier. Et j’aime beaucoup écouter de la musique et rester a contempler les nuages. Mais je suis un chien et lorsque quelqu’un semble en douter, je montre les coussinets brûleés de mes pattes de davant.

Fonte: Telles, Lygia Fagundes. ” Le badge entre les dents “. In : —. La nuit obscure et moi. Nouvelles traduites du brésilien par Maryvonne Lapouge. Paris : Éditions Payot & Rivages, 1998. p. 45-47.

O CRACHÁ NOS MEUS DENTES

Lygia Fagundes Telles

Começo por me identificar, eu sou um cachorro. Que não vai responder a nenhuma pergunta, mesmo porque não sei as respostas, sou um cachorro e basta. Tantas as raças vieram desaguar em mim como os afluentes de pequenos rios se perdendo e se encontrando no tempo e no acaso, mas qual dessas raças acabou por vigorar na soma, isto eu não sei dizer. Melhor assim. Fico na superfície sem indagar da raiz, agora não. Aqui onde estou posso passar quase despercebido em meio de outros que também levam os crachás dependurados no pescoço como os rótulos das garrafas de uísque. Que ninguém lê com atenção, estão todos muito preocupados para se interessar de verdade por um próximo que é único e múltiplo apesar da identidade. Às vezes, fico raivoso, meu pêlo se eriça e cerro os maxilares rolando e ganindo, quero fugir, morder. Mas as fases de cachorro louco passam logo. Então, componho o peito, conforme ouvi o treinador dizer, não sei em que consiste isso de compor o peito, não sei, mas é o que faço quando desconfio que não estou agradando: Componho o peito e volto à normalidade de um cachorro manso. Doce.

O dono do circo, um hábil treinador de roupa vermelha com botões dourados, acabou por me ensinar muitas coisas, tais como falar no telefone, fazer piruetas e dançar. Quando resisto, ele vem queimar as minhas patas dianteiras com a ponta de um cigarro aceso, percebe de longe que estou vacilando na posição vertical e vem correndo e chiiii…-queima as patas transgressoras até fazer aqueles furos. Então me levanto depressa e saio dançando com saiote de tule azul. Mas fui humano quando me apaixonei e virei um mutante que durou enquanto durou a paixão. Abrasadora. E breve. Escondi os pequenos objetos reveladores e que não eram muitos, a coleira, o osso e o saiote das noites de gala. Olhei de frente para o sol. Devo lembrar que eu varava feito uma seta salivando de medo os grandes arcos de fogo e eis que o medo desapareceu completamente quando me descobri em liberdade, todo o fogo vinha apenas aqui de dentro, do meu coração. Fiquei flamejante. Penso agora que flamejei demais e o meu amor que parecia feliz acabou se assustando, era um amor frágil, assustadiço. Tentei disfarçar tamanha intensidade, o medo de ter medo. Vem comigo! Eu queria gritar e apenas sussurrava. Passei a falar baixinho, escolhendo as palavras, os gestos e ainda assim o amor começou a se afastar.Delicadamente, é certo, mas foi se afastando enquanto crescia o meu desejo numa verdadeira descida aos infernos. É que estou amando por toda uma vida! eu podia ter dito.Mas me segurei, ah, o cuidado com que montava nesse corpo que se fechava, ficou uma concha. Não me abandone! cheguei a implorar aos gritos no nosso último encontro. Desatei a escrever-lhe cartas tão ardentes, bilhetes, repeti o mesmo texto em vários telegramas: Imenso Inextinguível Amor Ponto de Exclamação.

Era noite quando fiquei só. Tranquei-me no quarto e olhei a lua cheia com sua face de pedra esclerosada. As estrelas. Abracei com tanta força a mm mesmo e comecei a procurar, onde? Fui até à larga cama branca, ali nos juntamos tantas vezes, tanto fervor e agora aquele frio, fucei o travesseiro, as cobertas, onde? Onde. A busca desesperada continuou no sonho, sonhei que escavava a terra. Acordei exausto e enlameado, aos uivos. Nem precisei ir ao espelho para saber que tinha virado de novo um cachorro. Amanhecia. Tomei o crachá nos dentes e voltei ao circo. O treinador me examinou mais atentamente e fez uma observação bem-humorada, que eu estava ficando velho. De resto, tudo correu sem novidade, como se não tivesse havido nenhuma interrupção. Dei valor aos meus dedos só depois que os perdi, podiam me servir agora para catar pulgas.Ou para coçar lá dentro do ouvido ou limpar o ranho do focinho quando estou resfriado. Com aqueles dedos toquei flauta mas não me masturbei, nunca me masturbei enquanto fui um ser humano, não é estranho isso? Há ainda outras estranhezas, não importa. Aprendi também, a rezar. Gosto muito de ouvir música e de ficar olhando as nuvens. Mas sou um cachorro e quando alguém duvida, mostro as palmas das minhas patas queimadas.

Fonte: Telles, Lygia Fagundes. Contos. In: —. A noite escura e mais eu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 65-69.





Bio fornecida pelo palestrante.

A GUERRA DOS ORIXÁS




Autor: Luiza Lobo
Título: A GUERRA DOS ORIXÁS
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

A GUERRA DOS ORIXÁS


Luiza Lobo

Foi um total acaso Xangô esbarrar naquele imenso tabuleiro na floresta. Machista e guerreiro, se sentiu desafiado. Quem arrumara aquele tabuleiro daquele jeito, bem no meio do seu caminho? Não via a farinha de dendê, nem a garrafa de cachaça, nem os adereços de fita de cetim vermelho. Não via as cores do seu terreiro nem a espada em sua homenagem. Não encontrou sobre o tabuleiro os usuais alimentos: acarajés, feijão preto, farofa, arroz de dendê; nem os usuais objetos de sacrifício: um carneiro, um cágado, um bode, nem mesmo um galo que fosse. Deu a volta do tabuleiro, intrigado, vestido em sua saia quadriculada vermelha e branca e seu colar de miçangas da mesma cor, mas não entendia nada. Aquilo não era um opanifá conhecido. Era um tabuleiro de xadrez, quadriculado de branco e negro. Xangô, o rei dos trovões, ficou rubro de raiva. Rugiu e o tempo fechou. Mandou raio e mandou trovão, contra seus invisíveis inimigos. Xangô tinha chegado na floresta caminhando em paz, riscando a velha fórmula de seu pai Oxalá na velhice, o orixá iorubá da criação dos homens. Pisavam-lhe nos calos, oh, sim, e ele estava muito irritado com o que encontrou. Então ele assumiu a forma de seu pai na mocidade, jovem guerreiro cheio de vigor e nobreza, e tomou as dores de seu povo sofrido e exilado, no maior êxodo de todos os tempos. Não se importava com o tal segundo livro da Bíblia. Seu povo sofreu muito mais. Transformado no Grande Pai, o Orixalá, bateu no peito e esperou, dardejando seus raios e trovões. O tempo fechou. Mas nada aconteceu. Aí o senhor das pedreiras esperou que uma idéia lhe cruzasse a mente. Não atinou com nada, senão chamar Ossanha, o deus irado das folhas da floresta, chegou na sua saia de chitão branco, verde, rosa, amarelo, marrom e na mão o ferro de sete hastes pontudas, tendo na do meio um pássaro. “Eu-eu!” – gritou em sua saudação. “Kauô Kabiecile!” – saudou Ossanha em resposta. – O que está havendo aqui, ó grande rei das matas? – Olhe, meu orixá das plantas curativas, veja que tabuleiro tão esquisito este, onde não vejo minhas oferendas prediletas deixadas, como de costume, na floresta! – respondeu Xangô. – Mas não é? E para mim não veio o ossé anual, nem cabra, nem galinha, nem farofa, feijão, milho verde com mel, e para o sacrifício não vejo bode, nem galo. Mas que peji mais estranho, meu deus! Vou chamar meu amigo Oxosse. Então chegou o deus da caça, o rei e o caboclo das matas do clã de Ogum, chefe da linha dos caboclos chefes de legião ou falange. Segurava seu ofá. Era o seu símbolo, o fetiche dos orixás, o arco e a flecha de ferro, em miniatura, junto ao otá. Ficou espiando o grande e estranho tabuleiro e rodando na mão a longa faixa do ojá , que prendia sua saia estampada de azul e verde claro sobre a calça branca rendada. Estavam todos vestidos para dia de festa: – “Okê, Okê Arô!” – saudaram Oxosse. – O que está acontecendo aqui nesta floresta? – gritou Ogum. Vou chamar os caboclos meus representantes – e sua dança imitava a caçada. Então Oxosse, Rei de Ketu, Caboclo e Rei das Matas voltou-se para a árvore sagrada da jurema e invocou seus Caboclos: – Venham, meus caboclos-índios, de pele vermelho-acobreada, entidades índias que baixam em nossos terreiros, venham com sua pele bronzeada ajudar seu pai. Venha vindo, guia-chefe da linha de Oxosse, Caboclo Araribóia; venha, Caboclo Arranca-Toco, entidade-guia, e Caboclo Arruda e Caboclo Cobra-Coral e Caboclo Guiné e Caboclo Pena Branca, entidades-guia, na linha de Oxosse; e venham vindo, Caboclo da Pedra Branca, entidade-chefe de falange ou legião e Caboclo das Sete Encruzilhadas e Caboclo do Sol e da Lua e Caboclo do Vento e Caboclo Treme-Terra, entidades-chefes da falange, na linha de Xangô; e Caboclo Malembá, entidade representante de Oxalá, venham todos descer no meio da floresta para decifrar este estranho tipo de otá. E os Caboclos baixaram todos, com seus cocares de pena, dançando em volta da cabaça, e falaram suas falas em misto de iorubá e tupi. E cruzaram suas linhas, suas falanges e legiões, mas não atinaram com o sentido daquele quadrado de madeira. Rodearam o tabuleiro e cantaram os pontos de cada orixá, e fizeram com o giz, a pemba, o ponto riscado, e o ponto de segurança, o ponto de abertura, o ponto de chamada, o ponto de defumação, o ponto de descarrego, falando na sua língua arrevesada de iorubá e tupi, mas não atinaram com o sentido daquele quadrado de madeira. Xangô ficou zangado. Rugiu e o tempo fechou. Mandou raio e mandou trovão, mas nada aconteceu. Não decifrou o sentido da afronta. Os Caboclos acenaram entre si e resolveram chamar os Pretos Velhos, que estão no quarto plano da hierarquia espiritual, logo abaixo deles, para fazerem magia branca e desfazerem magia negra, e resolverem aquela complexa questão, com sua sabedoria simples de antigos escravos purificados. Desceram os Pretos Velhos chefes de falange, da Linha Africana e da Linha de Yorimá. Três Pretos Velhos da Linha Africana baixaram ali e saudaram as divindades e os caboclos. Perguntados sobre o que era aquele tabuleiro, disseram: – Isso é um opanifá diferente. O tabuleiro não tem a forma achatada de bandeja, nem tem a cara de Exu esculpida na borda, entre outras figuras e sinais simbólicos. E é por isso que devemos invocar Exu. – Mas Exu? Ele não devia ter sido chamado primeiro? – argumenta um Caboclo. – Talvez ele traga mensagem especial sobre este estranho objeto – completa outro. E chegou Exu, com sua saia vermelha e preta enfeixada por uma ojá vermelha, o gorro e os búzios, seus colares de contas vermelhas e pretas alternadas, aguardando o sacrifício do galo e do bode preto. Mas só encontrou a estranha bandeja, o opanifá diferente. Exu olhou desconfiado para toda aquela gente reunida, todos aqueles deuses cercando o tabuleiro, perplexos com a raiva de Xangô, e se saiu com essa: – Isso é guerra! É guerra declarada! Temos de chamar nosso pai, Ogum, o deus guerreiro, do ferro e da agricultura. Ogum chegou. O Orixá iorubá, filho de Iemajá e de Oranhiã, chegou para resolver as demandas, vestido com sua espada de metal prateado e seu fetiche posto num prato, a “ferramenta de Ogum”, uma penca de sete instrumentos de ferro para a lavoura, a guerra e a caça. Gritaram “Ogunhê!”, e Ogum chegou. Ogum procurou seu acarajé, o feijão preto e fradinho, o inhame assado, e não os encontrou; e nem sinal de bode, de galo ou de conquém . Ogum bradou guerra. Xangô mandou raios e trovões. Mas nada aconteceu. Então Ogum invocou o Exu Tranca-Ruas, o Exu das Almas, que trabalha com todos os orixás e protege as giras dos terreiros. Chegou um homem de torso nu, pele acobreada, pés de bode e orelhas pontiagudas. Exu procurou algum trabalho para ele numa encruzilhada, mas na floresta só tinha árvores, e foi difícil encontrar quem tinha posto aquela “coisa feita” ali, bem diante de Xangô, o rei dos Trovões. Então Exu confabulou com Ogum e Xangô. E o Exu de Sete Cabeças, ou Exu de Sete Covas, Exu de Sete-Capas, que trabalha para Oxalá, o grande deus, e o mensageiro Exu de Sete-Catacumbas, e das Sete-Encruzilhadas, e das Sete Legiões das Trevas se lembrou: – Gente, vamos botar mesa, gente. Vamos chamar Ifá, o grande orixá da adivinhação e do destino e grande mensageiro da luz, para jogar os búzios e ler o nosso futuro. – E Exu exigiu, para si, o sacrifício de um bode preto, e com a força do sacrifício clamou pela presença de Ifá. E logo chegou Ifá, acompanhado de seu babalaô africano. Usava o opelé e segurava seus búzios furados para ver de que lado caía a sorte. O Ifá se plantou, solene, ao lado de um dendezeiro da floresta, sua árvore sagrada, e olhou o grupo com seus dezesseis olhos, como são 16 as contas da grande adivinhação, cada combinação acompanhada de uma história sagrada, o que o ajudava na adivinhação. E o babalaô ou sacerdote de Ifá segurou as contas do seu colar sagrado, o opelé Ifá, com oito meias-nozes de dendê abertas. Ora o segurava por uma ponta terminada em nó, que simbolizava
o lado masculino, ora pela outra, com 4 ou 5 fios de palha da Costa, o lado feminino. E o Babalaô, sacerdote de Ifá, o grande orixá da adivinhação e do destino, o deus de 16 olhos, disse aos presentes que veriam se desenhar na palha o seu destino, que seria formado a cada odu, ou jogada, pelo formato das contas de seu opelê. Com uma varinha anotou na areia o número de cada uma das oito jogadas sagradas do Ifá no seu estranho tabuleiro de madeira para adivinhação do destino. As contas do seu opelê ifá caíram em forma de U, com o lado aberto voltado para si. O babalaô ia anotando as quatro combinações possíveis das odus, ou jogadas, num total de 16 combinações possíveis. E naquela única jogada do opelé obteve as 16, mas não se sentiu esclarecido. E fez mais uma jogada ligada à anterior – obtendo 256 combinações. E tentou mais 16 combinações com cada uma das novas jogadas; poderia chegar a 4.096 combinações, até conseguir as respostas dos orixás. E cada odu ou resposta tinha sua história correspondente, e ia anotando cada novo desenho da queda dos odus no tabuleiro de madeira, o opanifá. De cada vez contava uma história no opanifá. E desta vez o opanifá não era o tabuleiro pequeno de madeira, onde aparecia a cara de Exu, mas o próprio tabuleiro quadriculado em branco e preto que Xangô encontrara na floresta, no meio de seu caminho. Os Orixás, sentados ao lado do babalaô, sabiam que algo muito grave se passava em seu destino. E os dias e as noites se sucediam, e as grandes chuvas e o sol se intercalavam no céu, e todos sentados à volta do babalaô, sob a guarda de Ifá, aguardavam o final da recitação da sorte, ouvindo atentamente a leitura das histórias de cada odu, muitas das quais já sabiam de cor. E quando o babalaô, que era o chefe do terreiro, afinal revelou a sorte, a maioria das divindades já sabia que se tratava de uma grande e séria guerra no qual precisariam empenhar todas as suas forças para vencer: – Isto é um tabuleiro de xadrez. E foi posto aqui na floresta como “coisa feita” para dizimar o nosso rito e a nossa raça. Nós devemos nos precaver muito contra esse jogo. É um jogo inventado pelos brancos e foi colocado aqui para uma partida de força destrutiva contra nossa terra africana e nossa fé na umbanda e no candomblé. Xangô clamou aos raios e trovões e invocou as cachoeiras e pela proteção da pedra, que estavam cortando e destruindo e exportando para países de brancos; Oxosse invocou seu ofá, o arco e flecha unidos em metal branco, o qual simbolizava seu poder de proteger a caça nas florestas fechadas do Brasil, ameaçadas de extinção; o babalaô preparou suas oferendas, com as substâncias brancas do poder genitor masculino: a seiva branca do seu sêmen, o seu cuspe, o seu hálito, e jogou álcool, aguardente e sumo da palmeira sobre todo o tabuleiro; em seguida jogou água pura, a substância branca veiculadora da força genitora feminina, o axé, sem a qual não há oferendas. Invocou as lami, mães ancestrais, que propiciam os mistérios e acalmam o espírito. Aí pôs a oferenda junto das substâncias pretas, representando o escuro seio da matéria geradora, ligada ao poder genitor feminino e ao elemento procriado. E invocou os objetos rituais à disposição, as pedras, vasilhas, instrumentos simbólicos e indumentárias com as três cores-símbolos do reino da natureza: o branco masculino, o negro feminino e o vermelho do dendê, do sangue do bode sacrificado ali, do sangue menstrual feminino, do ossum, ou pó de urucum e do mel, do cobre e do bronze, simbolizando cada orixá. Terminado o sacrifício, feito sobre o estranho tabuleiro, ribombou um grande estrondo e apareceu uma figura imensa, musculosa, de sandálias, saiote amarelo e capacete, muito esquisita. – Qual é a sua origem, sua linha de vibração? – perguntou-lhe Xangô, o grande orixá, deus do Trovão. O estranho ser ficou inquizilado por aquela questão. Não compreendia bem a língua e nem o sentido das palavras do santo negro. – É iniciado? – Pergunta-me se sou homossexual? – Qual é o seu Orixá, afinal? – Não sei do que me falam. – Bem, então quem colocou este tabuleiro aqui na floresta, cruzando o meu caminho? – insiste Xangô, com sua voz de baixo. – Isto foi idéia de Zeus, o rei dos Trovões. – Deve haver algum engano, porque o rei dos Raios e dos Trovões sou eu – interveio Xangô. – Ah, mas não é mesmo. – E quem é você para me dizer o que é e o que não é? – Eu sou Teseu, e matei o Minotauro, monstro em forma de homem e touro, que vivia num obscuro labirinto construído para o rei Minos II, em Creta. Se não fosse por mim até hoje doze rapazes e doze moças estariam sendo sacrificados todo ano a este homem-touro, na verdade fruto dos amores escusos de Pasífae e Minos II. – Tem certeza? – vociferou Oxalá. – Olhe, já viajei por todo o mundo e nunca ouvi falar dessa tal gruta de Creta. Nem ouvi falar desse tal monstro. Isso deve ser história muito antiga. – É verdade. – E que história é essa de filho com forma de touro? Isso não pode acontecer. Vocês nunca estudaram biologia? – Sabe, nós, gregos, amamos a fantasia, a reunião de todas as formas animais e humanas: casamos cisnes com Zeus, nosso rei dos Trovões, bodes e cavalos com homens, habitamos árvores e rios com ninfas, dotamos cavalos de asas… – Estou achando essa conversa muito bonita, mas não estou gostando nada dessa história de a toda hora falar desse tal de rei dos Trovões de vocês. Não dá para você o invocar logo de uma vez? – voltou a falar Xangô. Teseu alçou os ombros, mas não precisou nenhuma arte de magia para invocar Zeus, porque ele logo apareceu, com seu rosto ardiloso de deus maior do Olimpo. – Me chamaram, irmãos? – Este vem com cara de político esperto – comentou Oxosse, deus das florestas, que se desgostava de toda a esperteza das cidades. – Sou filho de Cronos, o tempo, e de Rea, a Grande Mãe dos deuses, que por sinal era sua mulher e sua irmã. Já tomei todas as formas possíveis para casar com minhas sete mulheres: chuva de ouro para conquistar Dánae, sátiro para conseguir os amores de Antíope; cisne para me casar com Leda – e tivemos dois filhos gêmeos, ambos cisnes; touro branco para raptar Europa; chama ígnea para devorar Egina. Para me estabelecer no Olimpo, lutei contra os Titãs, os Cíclopes, os Hecantoncheiros, gigantes de 300 mãos, filhos de Urano com Géa, a Terra, lutei contra Prometeu e muitos outros. Por isso não tenho medo de lutar contra vocês, africanos. Foi por isso que coloquei este tabuleiro aqui. – E que tipo de opanifá é este, que não conhecemos? – perguntou, respirando fundo, Ifá. – Como? Esta palavra não conheço, mas este tabuleiro serve para se jogar xadrez. Temos de deslocar a rainha, o rei, os cavalos, os peões, e os movimentos têm de ser pensados, calculados, racionalmente, até se empurrar o rei ou a rainha para uma armadilha – esta situação sem saída se chama de échec et mat, isto é, vencido e abatido, mas que o vulgo sói chamar de “xeque-mate”. – E quem ganha tem de se incorporar, receber a entidade, ser possuído por seu orixá, como bom filho de santo? – perguntou Oxosse. – Não sei de nada do que o companheiro está falando: basta acompanhar intelectualmente o movimento do rei e da rainha… – Olhe, nós, da África, não temos esse negócio de colocar rei e rainha em armadilha, não. Andamos de roupa de pano, pé no chão e comemos comida gostosa: inhame, acarajé com muito dendê, mesa posta com muita cor e arte. Esses luxos de corte estão fora de nossa tribo; somos povos da floresta, amamos a terra, a pedra, a água, a chuva e o sol. Acho que seria bom fazer um irê, um ritual de iniciação com este tal de Zeus, não é mesmo, gente? Os deuses aprovaram com um sinal de cabeça, enquanto Zeus não escondia sua ira. – Vamos chamar Hércules. Hércules vai dar uma lição nestes neguinhos. Hércules chegou com as sandálias de couro de bode amarradas quase até as coxas. Sua musculatura continuava intacta, apesar dos longos anos de uso,
contrastando com a cabeça microcéfala dos pouco inteligentes e muito musculosos. – Então, vamos ou não vamos? Se não querem jogar xadrez por bem, vamos resolver a parada pela força, não é mesmo? Meu amigo Teseu e eu até vencemos umas mulheres guerreiras, as amazonas, que têm um peito só – oh, Teseu, elas viviam em terras por onde esses aí andam hoje em dia, não é mesmo? Estamos aqui para isso. Vencer esta batalha, mesmo que seja à custa de nosso próprio Panteão. – É, vocês falam muito complicado, cheios de efes e erres, com seus reis e rainhas. Eu quero saber é se sabem fazer uma boa mandinga, se sabem se defender de uma boa pajelança de umbanda, quimbanda, macumba, umbanda traçada . Eu aqui sou o mensageiro de todas as forças das trevas e das profundas dos cemitérios, e faço qualquer sortilégio contra vocês e seu tal de xadrez. – Olhe aí, Hércules, acho que temos de chamar Hermes. Esse aí se diz mensageiro. Hermes é que é o único mensageiro de todos os tempos; ele, sim, conduz as almas até o Hades, o reino dos mortos. Hermes chegou célere, voando pela força de suas talarias ou sandálias aladas, seu petarius ou capacete de asas, e o caduceu, a vara mágica com serpentes entrelaçadas no alto. – Hermes – interpelou-o Zeus – dê uma lição de norma culta nesta gente dos terreiros. – Minha função é mais de leva-e-traz, não é, camaradas? Talvez pudéssemos chamar Prometeu, para uma mãozinha mais humana aí. Esse pessoal me parece meio sem cultura geral – acho que nunca ouviram falar em xadrez. Vocês não iam jogar uma partida de xadrez fatal? – É o caso, mas temos problemas lingüísticos e culturais de comunicação. Que venha Prometeu! – gritou Zeus, a plenos pulmões, muito irritado com tudo, e agora ainda mais por ter de pedir auxílio a seu originalmente arquiinimigo, o ladrão que roubou o fogo dos deuses para o revelar aos homens. Na verdade, fora o próprio Prometeu que os criara do barro. Antes daquela facécia do fogo, ele já lhes ensinara também as plantas medicinais, o cultivo da terra e a domesticação dos cavalos. Enfim, um deus que, embora tenha finalmente se juntado ao Olimpo, politicamente estava na oposição, pintado em excelentes cores por todos os viados românticos: Shelley, Byron, Coleridge, Dante Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning e até por um tal de Joaquim de Sousa Andrade, conhecido como Sousândrade. – Xangô, você já leu um tal de Sousândrade, nascido no Maranhão? – perguntou Zeus, um tanto desatento. – Nosso povo não é lá muito de leituras, Alteza. Como já lhe disse e tresdisse, nossa atividade principal é mais ligada à terra, aos elementos da natureza, o vento, a chuva, o sol, a energia vital. – Hum… economia de subsistência – ridicularizou Zeus. – Chame Vossa Alteza do jeito que quiser. Mas é assim que viemos da África e até hoje moramos no coração de africanos e brasileiros. E vocês, onde estão que não os vejo? – Estamos nos livros escolares! – falou rápido Hefaístos ou Vulcano, que surgira rápido como o fogo, apesar de ser manco. – Todos esses ornamentos que vocês ostentam aí na sua cintura foram feitos por mim, na minha oficina que fica dentro de um vulcão, no coração do Monte Etna, em aliança com os Cíclopes, gigantes de um olho só. Apesar deste meu grupo de amigos não ser considerado muito simpático pela humanidade, nossa fama atravessou o mar Mediterrâneo e chegou até a Cecília, Roma, toda a Itália, o norte da África, e hoje somos estudados por toda a civilização ocidental. – Mas que sujeitinho mais pretensioso – intrometeu-se Exu. Grandes coisas ir da Grécia para a Itália, é logo ali do lado, naquele marzinho pequeno. Nós, sim, é que atravessamos o grande Oceano Atlântico desde a África, até o Brasil, o Caribe, a América do Norte, do Sul, chegando até o Pacífico, e estamos vivos na fé das pessoas até hoje. Somos consultados, reverenciados, recebemos oferendas de todas as linhas e tipos de fé, e culto de todas as raças e classes sociais. – É religião de gente pobre e subdesenvolvida. – Isso é o que dizem os safados dos protestantes, que têm preconceito racial – rebateu Exu. E Oxalá interveio: – Crime inafiançável no Brasil. Zeus ficou nervoso. Nada o deixava mais nervoso que uma longa conversa mole e a incontinência sexual. Desenvolvia cacoetes. Fungava, coçava o pau. – Ora, não conhecemos nada de sua gente inculta e nem essas leis de países bárbaros. O que importa é: vocês vão ou não vão jogar xadrez comigo? Apolo ou Hélio já vai alto no seu carro alado que ilumina o céu. Ele não pode descer até aqui, pois está transportando sua carruagem de um lado para o outro do dia, mas lá do alto está acompanhando nossa guerra. Oxosse não se conteve: – Mas ora vejam que ignorância, eles que se dizem tão cultos e civilizados. Um carro com asas trazendo o dia! É muita falta de conhecimento científico. – São imagens poéticas! – E o que vocês fazem o dia todo, além de iluminar o dia e fazer poesia? – Bem, nós, basicamente, amamos. Fazemos filhos híbridos e conquistamos sempre novos amores – falou com despeito Zeus, coçando o saco. – Mas que civilização mais egoísta – retomou Oxosse. – E não têm um pensamento para a humanidade? – Oh, claro que sim – gente, ele não leu Homero, nem a Ilíada nem a Odisséia, de Homero, e nem a Eneida, de Virgílio. É claro que nos grandes momentos épicos, nós intervimos. Mas na maior parte do tempo estamos muito ocupados; temos de comer nossos favos de mel, nossa ambrosia, nos deleitar com o vinho fresco do Olimpo… e nos defender das acusações de adultério, ora essa. A própria Diana, que é a deusa da caça, passa o dia caçando bichos, pois não poderia se privar de um dos seus maiores prazeres, na sua longa vida. – Mas isso é um escândalo! – interferiu Exu. – É por essas e outras que nasceu um Marx. – A humanidade foi relegada ao último escalão social por essa religião elitista de vocês. Só dá vocês, vocês e mais vocês. – E além do mais, são antiecológicos, caçando animais silvestres por puro prazer! Quanta inutilidade! – Não vejo o que há de errado nisso. É o que se chama de classicismo! A Idade de Ouro! – falou Zeus, zombeteiro. – Classicismo? Isso é deísmo! É sociedade de classes, e até de castas! Vocês vivem numa sociedade fechada e corporativa. Não plantam, não protegem as pessoas, não lêem a sorte delas, não as aconselham, não baixam em seus destinos, quando estão necessitadas… – falou Ossanha, pela primeira vez. – Ora, para isso podem ir ao Oráculo de Delfos! É lá que ouvirão as previsões de que necessitam e em que acreditam tanto! – revidou Zeus, entre gargalhadas de bon vivant. – Mas o senhor é um debochado, um desclassificado social! – interveio Oxalá, com sua voz tonitruante de deus máximo. – Em que acredita, nesse seu classicismo? – Eu acredito no prazer! Eu acredito na beleza, na estética, nas curvas perfeitas, na medida áurea, nos templos bem construídos, e na mens sana in corpore sano. – Mas a humanidade não é sempre assim! A maioria das pessoas nasce torta, por dentro e por fora, e precisa de uma reza forte por parte de todos os deuses e orixás. Vocês só tratam do lado de fora, da beleza exterior, e as almas que se danem… – Ah! essa coisa de alma e de transmigração da alma já é do departamento de filosofia. Quem se interessa por isso é Platão, que escreveu vários diálogos, aliás numa outra persona, sem assumir nada, colocando suas palavras delirantes na boca de Sócrates. (E assumindo ares íntimos, abraçou o ombro de Xangô) – Olhe, amigo, posso chamá-lo de amigo, não é? Vou lhe confessar uma coisa. Não acredito em nada dessas coisas de religião. Meu negócio é prazer, esbórnia, luxúria, mulheres bonitas, muita ambrosia, vinho, carneiro assado, cultos a Dionísio e suas procissões debochadas, escapar da perseguição de Hera, que vive com ciúmes doentios de mim. Enfim, viver, aproveitar tudo o que nos proporciona nossa exist
ência privilegiada de deuses no Olimpo, o nosso céu. – Xeque-mate! Você mesmo se condenou, irmãozinho. Não acredita em você mesmo! – gritou Xangô, com os olhos injetados de sangue. – É no que dá a cultura desconstrucionista, que vocês mesmos lançaram, há tanto tempo atrás! Vocês não podem acreditar nem em si mesmos, de tão intelectuais que são! – gritou Exu-Rompe-Mato. – Ainda bem que para vencer você nesta demanda pedi auxílio a meus irmãos Oxumaré, orixá do arco-íris e Omolu ou Obaluaiê, cujo verdadeiro nome não posso pronunciar aqui, porque pode trazer a varíola e demais doenças, pois são da mesma linha. Ou vencia ou não me chamava Oni! Não seria Xangô iorubá nagô, deus do raio e do trovão, filho de Iemanjá e de Oranhiã, não seria Xangô Abomi, Xangô Afonjá, Xangô Agodô, Xangô Agogô, Xangô Airá, Xangô Alfin, Xangô Alufã, Xangô Caô, Xangô Dadá, Xangô de Ouro. E à medida que ia referindo os seus nomes, a força destes ia “excomungando” os deuses brancos, que recuavam, apavorados – e o tabuleiro de xadrez estava todo pisoteado. – Não precisamos de tabuleiro de xadrez nenhum para disputar nosso poder com vocês, porque temos nosso opanifá de adivinhação. E Ifá nos contou como vocês vieram, saídos de seus livros de mitologia para nos amedrontar. Mas nós não temos medo de zumbis brancos, com suas línguas mortas nos museus europeus. Vocês têm uma religião morta, uma cultura que virou turismo, e nem falam mais a sua língua nem acreditam na cultura grega clássica. Mas nós estamos aqui, vivos, na dança, no canto e no culto do povo. – “Kauô Kabiesile”, eu te saúdo, Xangô, rei dos Raios e dos Trovões! – Zeus foi liderando a debandada, se curvando e saudando Xangô, o rei dos Raios e dos Trovões, com muita vontade de salvar a própria pele. E foi assim – contam os antigos – que terminou a Guerra dos Orixás. O babalorixá de Ifá relatou que, desde então, os meninos brasileiros não estudam mais mitologia grega. Preferem ver televisão o tempo todo. Mas no dia de Ano Novo vão acender suas velas na praia para Oxumaré, o orixá de dois sexos, morde a própria cauda, símbolo do eterno, do arco-íris, a grande serpente das profundezas morde que vem beber o céu. E tudo é divulgado nas telas de televisão para o mundo inteiro, entre fogos de artifício e shows de roqueiros, entre turistas, por jornalistas estrangeiros, que cercam os grupos de branco, e explicam, falando em inglês, de modo simplificado, o sentido das velas, do charuto, da cachaça e dos pontos riscados nas areias de Copacabana.

Do livro de contos: Estranha aparição. Rio de Janeiro, Rocco, 2000. p. 129-49.





Bio fornecida pelo palestrante.

Die Hochzeit




Autor: Luiza Lobo
Título: Die Hochzeit
Idiomas: deu
Tradutor:
Data: 29/12/2004

DIE HOCHZEIT

Luiza Lobo

Sie wußte nicht, woher sie die Kraft genommen hatte, das ganze Leben Grundschullehrerin zu sein. Ihre schönsten Träume hat sie in den Tränen auf dem Kopfkissen gelassen. Lateinamerika ist sehr gewaltsam. Nicht einmal hat sie sich eingemischt, aus Angst, einen Schuß in den Kopf zu bekommen. Und danach, es könnte ja sein, ihr Körper würde aus einem Flugzeug heruntergeworfen werden. Ihr Vater, autoritär, hat ihr immer klar gemacht, daß sie zu Hause eine Last war. Aber sie hat nie getraut, ihren Posten als Lehrerin zu verlassen. Sie klammerte sich an die magische Nummer ihres Registers. Nach all den Jahren, das winzige Gehalt, die miserablen sozio-ökonomischen Verhältnisse ihrer Beschäftigung, die Aussichtslosigkeit in ihrem Leben haben sie entdecken lassen, daß sie keine offenen Türen finden würde. Das „Sesam, öffne dich„ der bürgerlichen Ausbildung, die sie bekommen hat, war nichts wert. Was hat die angebliche Stabilität gebracht oder die nicht in Frage zu stellende Respektwürdigkeit ihres Postens als Erzieherin, in einer gewalttätigen kapitalistischen Gesellschaft, wo das einzige Gesetz der Kampf um die Macht des Geldes war?
Sie hat Englisch, Französisch, Klavier spielen, Ballett tanzen gelernt, soviel hat der Vater in Hinblick auf eine perfekte Erziehung bezahlt, was sich hinterher in Form einer angemessenen Eheschließung, weit über ihre sozialen Verhältnisse hinaus, natürlich begleichen würde. Das war eine Art langfristige Investition. Und der Vater würde dafür stabile Aktien bekommen, und zwar solche wie die der New Yorker Börse, nicht wie diese einheimischen aus Rio und Sao Paulo, die wie eine richtige one-man-show sind (inszeniert durch den Naharas, der ganz allein die Börse hoch und runter ließ). Eine ernsthafte und sichere Investition. Sie, verheiratet, und er könnte seinen Freunden gegenüber beim Whiskey-Trinken erwähnen, während er die Eiswürfel hin und her schaukeln würde: „Das ist meine Tochter. Sie ist verheiratet mit Herrn Soundso. Wissen Sie, der Sohn von Herrn X. Er arbeitet bei der Firma von Herrn Y, erinnern Sie sich? Ja, genau der. Exakt. Sie haben ein Haus an der Lagoa Rodrigo de Freitas. Übrigens, es ist lobenswert, daß sie dieses große Haus mit der Steinmauer behalten haben, während alle andere ihre Häuser an große Bauunternehmen verkauft haben.„
Schlimmer als jedes Jahr ärmer zu werden, war die Tatsache, daß sie nicht geheiratet hat. Sie hat es nicht geschafft, zu heiraten. Alle Freundinnen haben geheiratet. Diejenigen, die nicht geheiratet haben, sind ausgewandert oder ins Exil gegangen. Aber sie hat nichts davon gemacht. Sie ist bei den Eltern geblieben, stehen geblieben, ihr Register als Grundschullehrerin geprägt, gedrückt, eingraviert in ihrem Gesicht. Auf der Stirn. Sie würde als Grundschullehrerin sterben. Mit einer winzigen Rente und noch abhängig vom Vater, auch dann, wenn alles für sie vorbei sein würde – das heißt, wenn sie nicht mehr bis zur mittleren Spur des Leopoldina Bahnhofes schleichen mußte, mit dem gehobenen Finger, um zum weiten Santa Cruz zu trampen. Das würde sie dem Vater nie erzählen! Eine gewaltsame Stadt, eine Stadt, die sich haßte, aber was solls, sie mußte unbedingt sparen! Mit diesem Hungergehalt.
Und dann, eines Tages, ist ER erschienen! Sie hat ihn kennengelernt mit seiner Art eines fleißigen Gringo, Frank war gekommen, um die öffentlichen Schulen im Großraum Rio de Janeiro zu inspizieren, mit dem Zweck der Entscheidung über einen Kredit von amerikanischen Banken für die Erziehung in Brasilien (Oh, mein Gott! Noch mehr Auslandsschulden für noch eine Generation). Und dann, wie in einem Hollywoodfilm – ein Glück, das nur Gott erklären kann – war die Direktorin nicht da, und da sie die älteste Englischlehrerin der Schule war (alle anderen hatten mit Hilfe von einflußreichen Politikern ihre Versetzung in die Zona Sul erhalten) wurde sie gerufen, um diese Gruppe von Verwaltungsbeamten zu empfangen – einige von denen sprachen nur Englisch. Sie wurde so rot und so zittrig und so unsicher, da ihr Akzent britisch war, ob das wohl gut wirken würde? Vielleicht würde sie wie eine Portugiesin klingen, die in Brasilien spricht oder umgekehrt? Wahrscheinlich, trotz der puritanischen Maske, würden sie sie innerlich auslachen. Es ging alles so schnell. Er hat ihr angeboten, sie im Auto zur Zona Sul mitzunehmen, gleich nachdem die Inspektion zu Ende war. Es war furchtbar schwierig, die Küchenangestellte davon zu überzeugen, daß sie den Rest Kaffeepulver (die Lehrer legten zusammen, um ihn wöchentlich zu kaufen) für die Besucher aufbrauchen sollte, und es war unmöglich zu überspielen, daß die Tassen gesprungen und fleckig waren und nicht zu den Untertassen paßten.
Im Auto hat sich Frank als eine fast zu extrovertierte Person gezeigt. Er schien sogar ein bißchen verrückt zu sein. Er lachte ganz laut ohne Grund. Er hat gestanden, daß sein Lieblingshobby das Lesen von Krimis war. Jedoch war was ihn wirklich interessierte der psychologische Aspekt der Opfer. Ihre Reaktionen. Die Auflösung ihres Lebens. Das Verbrechen, die Tat, die Bewegung der Handlung waren ihm nicht wichtig. Sie hörte stumm zu, die Augen festgenagelt auf die Avenida Brasil, ihm von der Seite Blicke wie Pfeile zuwerfend, von Schüchternheit festgefroren. Er fragte sie, wie sie es machte, jeden Tag zur Arbeit zu kommen, so weit entfernt. Sie antwortete, daß sie jeden Tag per Anhalter fuhr (sie nutzte nicht die regelmäßigen, gesetzlich erlaubten freien Tage, sondern arbeitete strikt jeden Tag, anders als die meisten Lehrerinnen an öffentlichen Schulen, die Armen, die drei Tage im Monat fehlten, freigestellt wegen der Menstruation, obwohl es drei auseinanderliegende Tage waren – in letzter Zeit nutzen sogar Männer diese Gelegenheit, aber sie verurteilte niemanden). Während sie sich weiter mit Aspekten ihrer Arbeitsauffassung und Bürgerpflicht auseinandersetzte, fuhr er in ein großes Kaufhaus. Sie stoppte, als sie gleichzeitig bemerkte, daß sie zuviel redete und sie diesen ungewöhnlichen Weg nahmen. Frank – wie romantisch war sein Name, genau wie in den Filmen der wilden Jugend der 50er Jahre, sie war Fan von James Dean und Elvis Presley, sie mußte gestehen, daß der Vater es natürlich nicht wußte – begab sich zur Waffenabteilung, kaufte einen riesigen silbernen Revolver und gab ihn ihr. Damit sie sicher zur Arbeit gehen könne, sagte er ihr in seinem texanischen Cowboy-Englisch. Der Revolver paßte kaum in ihre Tasche, die vollgestopft war mit Übungsblättern der Schüler, Farbstiften und Anis-Bonbons. Schwer und mächtig. Furchterregend. Der Waffenschein würde in einer Woche abgegeben werden. Von dort hat er sie zur Autoabteilung geführt. Frank war sehr entschlosssen. Er hat ein importiertes Auto ausgesucht, rot und imponierend. Der Wagen würde später geliefert werden, schon mit Nummernschild. Es hat ihr nicht genützt zu sagen, daß sie nicht fahren konnte. Was würde sie mit einem Auto anfangen? Sogar darin würde sie vom Vater abhängig sein, hat sie gesagt. Und was würde sie ihm sagen? Wie würde sie die Geschenke erklären? Aber gleich bereute sie es, von ihren Schwächen gesprochen zu haben; Frank wirkte so resolut. Und die große Menge an Dollarscheinen, die er aus der Tasche gezogen hatte, sorgfältig gefaltet. Alle Frauen in den USA fuhren Auto. Überhaupt alle. Sogar die Hausangestellten, die stundenweise arbeiteten, fuhren mit dem Auto zur Arbeit. Und verdienten mehr, wirklich viel mehr, hatten viel mehr Wissen, wie man sich in Gesellschaft bewegt als sie, eine einfache Grundschullehrerin, unterbezahlt von der Gemeinde. Aber er sagte: – Du brauchst dich nicht darum zu kümmern, ok? In einem Monat, wenn ich mit meiner Aufgabe in Brasilien fertig bin, kommst Du mit mir mit in die USA und heiratest mich, in der Kirche, ok? Bis dahin hast Du fahren gelernt, ok? Du hast ja das Auto zum Üben.
Sie traute sich nicht zu fragen, in welcher Kirche sie heiraten würden, methodistisch, puritanisch, baptistisch?
– Aber…, und das Auto? – hat sie schüchtern gefragt, als ob sie an der Sicherheit auf vier Rädern hängen würde.
– Du kannst üben, lernst das Autofahren, richtig? Später schenkst Du das Auto Deinem Vater. Er braucht ein neues Auto. Ihr kommt mit dem Auto zum Flughafen, er fährt mit dem Auto zurück nach Hause. Kann er nicht fahren?
Aber wozu das Auto, wenn sie in die USA fliegen würde? – das hat sie gedacht, aber sie fand den Gedanke kleinlich, detailliert, materialistisch, idiotisch. Wie konnte sie nur so schäbig sein vor diesem Mann, der ihr alles gegeben hatte, alles: ein nagelneues Auto, rot, einen riesigen silbernen Revolver und sogar das Versprechen zu heiraten, im Hochzeitskleid? Aber er hatte eine impulsive Art, pragmatisch, und machte sich nicht offensichtlich so viele Sorgen um diese Fragen.
– Schau, in einem Monat komme ich von meiner Inspektionsreise zurück und Du triffst Dich mit mir am Internationalen Flughafen, ok? Wir fliegen mit der Western genau am 5. nächsten Monats. Sei am Schalter der Western um 8 Uhr abends. Ich werde ein Ticket für Dich reservieren.
– Aber kommst Du jetzt nicht zu mir, um mit meinem Vater zu sprechen, um ihm alles zu erklären?
– Ich muß jetzt weiter, die Schulen inspizieren. Muß sofort weg. Wir reden am Flughafen. Am 5. nächsten Monats, um 8 Uhr abends, ok? Vergiß es bitte nicht. Hier ist meine Karte. Ach, hier, nimm noch einige Dollars und kauf Dir was Du brauchst. Nimm mit was Du willst, ok? Mach Dir keine Sorgen um Übergepäck. Die Interamerikanische Bank zahlt alles. Wir heiraten in Iowa in der presbiterianischen Kirche. Macht es Dir was aus?
Sie war nicht-praktizierende Katholikin, wie alle Brasilianer, und an Sylvester führte sie Rituale für Yemanja aus, aber jetzt würde sie nicht alles kaputt machen, nicht wahr? Nein es ist gut so, die puritanische, nein, die presbiterianische Kirche ist wunderbar. Es ist doch Christentum letztendlich, nicht wahr?
– Dann reden wir später, weil ich mein Gepäck aus dem Hotel holen muß, und in einer Stunde nach Bom Jesus de Itabapoana, oder so was ähnliches. Wir sehen uns, ja?! Paß auf Dich auf.
Wie würde sie es dem Vater erzählen? Wie würde sie das ganze Geld erklären, das Auto, die ungewöhnliche Einladung. Über den Revolver würde sie nichts sagen, nicht mal ein Wort. Er würde es nie verstehen. Das war nur ihre Sache. Was hatte er damit zu tun? Außerdem, er würde in ihrer Tasche bleiben, wenn sie zur Arbeit ging oder irgendwohin, wo es gefährlicher war (aber heutzutage waren alle Orte in Rio gefährlich). Sie würde nichts sagen und fertig. Aber warum dachte sie nur an den Revolver, wenn es viel schwierigere Dinge mit ihm zu besprechen gab? Wie würde sie es anfangen? Er lebte eingeschlossen, seit Jahrhunderten, in diesem nüchternen Büro, vom Boden bis zur Decke mit Büchern vollgestopft, aus dem er nur zum Arbeiten, Essen und Schlafen rausging. Glücklicherweise hatte sie mit ihm ausgemacht, daß er ihr jede Woche etwas Geld – zusätzlich zu dem Gehalt – gab, so konnte sie die unangenehmen wöchentlichen Zusammenkünfte vermeiden, in denen sie ihm um Geld bitten mußte. Aber jetzt war Schluß damit! Sie würde mit ihm dieses schreckliches Gespräch führen, unangenehm, aber endgültig. Danach würde sie für immer frei sein! Für immer! Verheiratet! Im Ausland wohnen, wie alle, die das Land verlassen konnten! Was würde Maria Alice sagen, wenn sie ihr alles erzählte? Es wäre ein Schock! Ach! Sie konnte auf den 5. kaum warten. Der Tag der großen Befreiung ihres Lebens!
Sie kam nach Hause ganz ruhig fing an, die Tür sorgsam zu schließen, eine Vorsichtsmaßnahme gegen die Diebe. Seit wie vielen Jahren machte der Vater dann in ritueller Weise die Bürotür auf und fragte – „Bist Du es, Maria Eugenia? Vergiß nicht, die Tür richtig zu schließen, ja?“ Und die Bürotür schloß sich wieder, ein anti-„Sesam, öffne dich“ in ihrem Leben, und er verschwand bis zum Abendessen, mit jenem Gesichtsausdruck eines verwitweten Vaters, der alles für das Wohl seiner Tochter getan hatte, der seit Jahren nichts für sich ausgab, um die besten privaten Schulen für die Tochter zu bezahlen, um die besten Schuhe und Kleider, alles, im Grunde nur damit sie heiraten konnte. Und sie, nichts. Nie hatte sie diese Schuld bezahlt, nie! Sie würde bleiben und bleiben, für immer, eine Last auf seinem Rücken, belastend, lästig, bis zu seinem Tod! Sie hatte sich sogar an dieses müde Gesicht gewöhnt, das durch die Tür schaute, es war eine Sicherheit, die gleiche Sicherheit wie ihre Stelle als Grundschullehrerin, mit einem Gehalt, das kaum für Verkehrsmittel und Imbiß reichte. Aber es gab ein Register, eine offizielle Nummer, eine Stabilität. Einen Anker überhaupt. Sie würde sich jetzt aber nicht von den Emotionen leiten lassen. Was sie machen würde, sie würde eine Geschichte erfinden über diesen gesegneten Mann, der ihr Leben verändern würde. Oh, ja, mit Gottes Hilfe! Er war von Gott gesegnet, ein Botschafter aller Heiligen im Himmel, Gott mußte ihre Gebete gehört haben, ihre angestrengten Kirchgänge zu der Igreja de Nossa Senhora da Pena, in Jacarepaguá, ein halbes Kilometer da oben im Fels eingraviert, in einem Stein, wo sich nur wenige Fahrer mit dem Auto trauten! Und wie oft, als sie im Zentrum war, war sie auf einen Sprung in der Kirche von Santo Antonio, wie Tausende von Frauen in jedem Alter, aus allen Klassen und Rassen, wie oft hat sie um Mitleid für ihren hoffnungslosen Fall gebeten? Immer, wenn sie konnte, hat sie einen Strauß weißer Nelken gekauft, wenn sie die Treppen der Kirche von Santo Antonio, dem Heiligen der Ehe hochging.
Während sie die Handtasche sorgsam ganz hinten im Kleiderschrank versteckte, immer mit keinen Diebstählen – auch zu Hause – im Kopf, konnte sie es nicht vermeiden, sich an eine Erzählung von Fitzgerald zu erinnern, in der das Mädchen, dumm, in einem Maskenball, von einem richtigen Pfarrer mit einem Kamel verheiratet wurde. Dabei waren die Buckel zwei Freunde, die auf das Mädchen nicht verzichten wollten. Betrogen! Würde sie auch betrogen werden? Positiv denken. Sie hat die Daumen gedrückt und die Augen nach oben gerichtet. Frank würde sie nicht wie eine dumme Gans behandeln! Sie hielt seine Visitenkarte in der Hand, lernte seinen Namen und seine Adresse auswendig und, auf dem Bett sitzend, als ob sie die Lektion für einen Englischtest vorbereiten würde, in dem die Noten immer eine Null, eine Fünf oder eine Zehn waren (wie die brasilianischen Lehrer das Schlimmste aus dem puritanischen Sadismus absorbierten, sie waren königlicher als der König!), hat sie angefangen, eine zusammenhängende Geschichte über das Erscheinen jenes Mannes zu erfinden, ein wahres Wunder, und versuchte dabei zu vermeiden, daß sich ihre Gedanken auf Schaufenster konzentrierten, in denen die Nachthemden aus Seide und Spitzen und die sinnliche Unterwäsche ausgestellt waren, die sie mit seinem Geld kaufen würde! Sie, eine Jungfrau bis zu dem Alter von dreißig und mehr Jahren! Ob er ihr im Bett gefallen würde? Wie könnte sie einen völlig Unbekannten heiraten? Naja, wenn er im Bett nicht gut wäre, brauchte sie nur die Augen zu schließen und etwas vorzutäuschen. Dieses Opfer zu bringen würde sich lohnen, nicht wahr? Sie würde keine andere Gelegenheit bekommen, nie wieder, diese war die Antwort der Götter auf ihre innigsten Wünsche und Gebete. Endlich, dank ihres starken Glaubens, war sie auf dem guten, richtigen Weg! Aber sie war so nervös! Sie hat sich niedergekniet um zu beten und Santo Antonio zu danken. Und ihre Gedanken wollten sich nicht auf die Gebete konzentrieren, die sie in der Kindheit von der Mutter – einer frommen Frau – gelernt hatte, die an dem Tag gestorben ist, an dem ihre Bewerbung für die Stelle als Englischlehrerin angenommen wurde. Das hat die ganze Freude zerstört. Ihre Gedanken waren jetzt immer wieder bei den Regalen in den Läden, auf der Suche nach Schuhen und Kleidern – oder vielleicht einem französischen Parfüm? Nein, das wäre zu viel! Dann ging sie alle Geschichten durch, die sie jemals gelesen hatte – sie hatte keine eigene Phantasie, leider, so viel Lernerei, immer mit der Note eins, hat ihre Vorstellungskraft vernichtet – und suchte nach einer Kurzgeschichte, nach einer Erzählung, nach einem Gedicht, das sie vor dem Vater retten würde, angesichts dieser Not. Vielleicht „Der Pater und das Mädchen“, wie in dem Gedicht von Drummond? Nein, das war nicht der Fall, er war kein Priester, und sie würde nicht wie eine Bäuerin auf einem Pferd wegreiten, durch die Felsen, weg vom Vater! Sie wurde nicht einmal einem anderen versprochen! Alles müßte zivilisiert ablaufen. Sie würde fliegen, auf eine moderne Art und Weise. Sie mußte sich konzentrieren und in ihrem Gedächtnis nach einer literarischen Geschichte suchen, ähnlich wie ihre Geschichte, obwohl das sehr, sehr schwierig war, da keine literarische Figur aus der ersten Welt so sein könnte, wie sie. Sie wollte nicht daran denken. Mit einem Schauder hat sie sich dann an eine Erzählung von Joyce erinnert, „Eveline“, in den Dubliners, in der die Frau im entscheidenden Moment nicht den Mut hatte, die Familie zu verlassen, den autoritären Vater – einen Alkoholiker -, die armen Brüderchen, unterernährt, um sich in die Freiheit des schönen Leben zu begeben, mit Frank, einen abenteuerlichen Seemann. Die Schiffssirene klang am Hafen und sie machte die Augen zu, voller Angst, regungslos, es nicht zu schaffen, für immer wegzugehen, in das südamerikanische Abenteuer hinein. Gottseidank, es war nicht umsonst gewesen, sich das ganze Leben mit Literatur in englischer Sprache zu beschäftigen – nordamerikanische, englische, irische, schottische, galische, senegalische, rodesische, kanadische, aus Puerto Rico, Karibik, Guayana, von Chaucer bis Doris Lessing und von Marlowe bis Ezra Pound. Und jetzt würde sie in einer so offenkundigen Weise die feige Haltung einer Figur aus einem Buch von Joyce – eins der ersten Erzählungsbände, allerdings sehr realistisch, die sie in dem Englischkurs gelesen hatte – nachmachen. Jetzt würde sie ihre Kenntnisse in den Wohnzimmergespräche benutzen können, mit Frank, nach dem Abendessen. Vielleicht eine andere Figur aus der hispano-amerikanischen Literatur, aber dann würde sie in dem magischen Realismus landen, und sie hatte so viel Angst, verrückt zu werden! Ob sie alles erfunden hatte, in einem psychotischen Anfall? Aber die Karte war da. Sie würde seine Karte nicht verlieren. Und, wie eine gute Schülerin, aus Sicherheitsgründen, hat sie seinen Namen und Adresse in ihr kleines Telefonbuch geschrieben. Und wenn er verheiratet wäre? Und wenn er gelogen hätte? In dieser Geschichte könnte ein Verbrechen versteckt sein! Eine Verschleppung? Nein! Dazu war sie viel zu alt…
* * *
Der Morgen war verregnet, das Gepäck war riesig, der alte Vater würde es sicher nicht schaffen, den Koffer in das rote, glänzende Auto zu packen. Das Schlimme war, er war sehr nervös. Ihr Weggehen war keine Erleichterung für ihn. Es war kein gutes Gefühl, zu wissen, daß er ab jetzt allein leben würde, für immer. Er hat sich immer so viel wegen der Kosten beklagt, die sie verursachte, und in dem Moment, wo er endgültig für immer diese Kosten los sein würde, zeigte er sich hochunglücklich. Nicht einmal das Auto war ein Trost! Er hatte immer von dem Tag gesprochen, in dem er ein neues Auto kaufen würde! Jetzt war alles zu Ende. Er würde das große rote Auto behalten, das Geld nur für sich, er könnte alles machen, was er immer für verboten hielt, in die Bars trinken gehen (aber er trank nicht mal), essen gehen (er haßte das, allein zu essen, was würde er machen?). Sie wollte nicht daran denken, das war sein Problem. Durch ihren Kopf ging das Stück von John Lennon: „We gave her everything that our money could buy. She is leaving home after living alone for so many years. Our baby is gone. Bye-bye!“. Und sie war sehr stolz auf sich. Sie hätte das vor zwanzig Jahren machen sollen, in irgendeinem Moment in ihrer Hippie-Phase, als die Mutter noch lebte, aber zu der Zeit hatte sie Mut zu nichts, und sie hätte niemals irgendeinen Schritt getan. Ihre Mutter war so katholisch! Selbst in der Hippie-Ära mußte sie jeden Sonntag mit ihr zur Messe!
Ihr Vater schrie! Er hat immer geschrien, als er nervös war, und er war fast immer nervös. Er hat es nicht geschafft, zu lernen, wie man den Kofferraum aufmachte, es war so ein luxuriöses Auto. Sie hatte zum Schluß aufgegeben und ihm gebeten, sie zur Schule zu fahren. Er beschwerte sich sehr, weil er die Arbeit stehenlassen mußte, um sie hinzufahren und später abzuholen. Es war so weit weg. Und wenn er auf sie warten würde, könnte er sich in der engen Schulbibliothek voller Dachtraufen auf die Anwaltsprozesse nicht konzentrieren, während sie die Vormittagsstunden gab. Es brachte nichts, zu argumentieren, daß es nur für einen Monat war. Nicht alle Lehrerinnen hatten das große rote Auto gesehen. Aber sicherlich hatten die anderen davon gesprochen. Das Schlimmste war, da sie noch nicht fahren konnte, hatte sie wieder angefangen, mit dem Finger nach oben per Anhalter zu fahren, täglich. Und das neue Auto stand dummerweise in der Garage. Der einzige Unterschied war, daß sie jetzt bewegungslos mitfuhr, ohne zur Seite zu schauen, in der Hand jene wunderbare Maschine, silbern, sauber und nagelneu, die in ihrer Tasche steckte, mit sechs Ultrapatronen in der Trommel. Den Revolver, den trug sie immer dabei, in der Tasche, als Zeichen einer inneren Revolution, die sie in ihrem gescheiterten Dasein ausgelöst hatte. Sie würde jetzt jemand sein. Der Vater schrie noch einmal. Er wollte einen Hocker aus der Küche haben, damit er den Koffer darauf stellen konnte und den größeren Koffer ins Auto schieben konnte. Halt! Warte! So würde er das Leder des Koffers und den Lack des Autos zerkratzen. Sie rannte zur Küche, um den Hocker zu holen. Verdammter Hocker – sie, ganz klein, benutzte ihn, um an die Lebensmittel heranzukommen, die Schränke waren immens hoch, für Giganten. Und wenn der Vater es nicht schaffte, das Auto bis zum Flughafen zu fahren? Sie würde ein Taxi nehmen, die Koffer liegenlassen, was interessierte sie das? Sie würde auf jeden Fall fahren, mit dem Revolver und dem Paß in der Tasche!
Sie würde durch die Hölle gehen, um zum Paradies ihrer Freiheit zu gelangen! Ob der Vater diesen Schlitten bis zum Flughafen fahren konnte? Er hatte kaum geübt, aus Angst, das Auto zu beschädigen. Nur gut, daß sie so früh losfahren konnten, wie er das immer machte!
Es waren Stunden riskanter Jonglierkünste, um Unfälle vorbei und mit milimetrischen Abstand um andere Autos vorbeifahrend, wobei die Fahrer schrien und gestikulierten wie Verrückte zu dem Vater, der nichts sah bei seinen Bemühungen, mit seinen kurzsichtigen Augen in der rush-Stunde überhaupt fahren zu können! Sie schwitzte und verkrampfte die Hände um den Revolver. Wie hätte sie wissen können, daß der Verkehr in der Zona Norte so sein würde, wenn alle aus der Arbeit im Zentrum kamen? Und mit einer Grimasse, die ihre Falten kaum versteckten, beschuldigte sie sich selber, weil sie so naiv gewesen war, zu denken, daß sie um diese Zeit ein Taxi finden würde, in diesem Chaos, zu dieser Stunde! Es sah so aus, als ob sie milimeterweise vorankamen. Und es war möglicherweise auch so in der Realität. Warum hat sie das nicht vorausgesehen und war nicht bereits am Morgen zum Flughafen gefahren? Sie würde den ganzen Tag dort warten, und um acht Uhr würde sie vor dem Schalter der Western auf ihn warten, in ihrer besten Kleidung, die sie in Ipanema gekauft hatte. Aber sie schwitzte! Ihre Hände klebten am neuen Leder der Handtasche.
Es war fünf vor acht, als der Vater, nach vielen Irrtümern das Auto bis zur Allee geschafft hatte, die zum Flughafen führte. Die Wahrheit ist, keiner von beiden war jemals auf dem Flughafen gewesen. In ihrer Kindheit, in einer Zeit, in der es der Familie gutging, war sie einige Male auf dem Hafen gewesen, um eine oder zwei Tanten zu empfangen, in der Erwartung, Geschenke zu bekommen. Frank würde nicht auf sie warten. Sie sollte schon beim check in sein! Er war ein entschlossener Mann, und wenn sie nicht am richtigen Ort wäre, zu der abgemachten Zeit, würde er einfach weggehen, für immer. Er würde hinterher keine Entschuldigungen akzeptieren. Und wie würde sie erklären, daß sie das Autofahren noch nicht gelernt hatte? Sie war eine Versagerin, eine komplette Versagerin. Einen wie ihn hat sie sicherlich nicht verdient! Ihr Märchenprinz war erschienen, und sie hatte nicht einmal eine Kutsche finden können, um zum Ball zu kommen! Sie war es nicht wert, befreit zu werden. Ganz weit weg konnte man schon den Flughafen sehen, die Lichter leuchtend in der Nacht.
Vorsicht! Vater, nein! Geh auf die Bremse! Nein! – Jetzt schrie sie, aber es war zu spät. Sie fuhren gegen ein altes Auto, das aber ein sehr resolutes Pärchen drin hatte, das schon rausging, um um Erklärung zu bitten. Nein! Vater! Nicht fliehen! Laß mich mindestens raus! Ich muß heute wegfliegen! Ich kann nicht in einen blöden Verkehrsunfall verwickelt werden! Verstehst Du nicht, Vater, kannst Du das nicht verstehen? Bremse doch, Vater! Bremse! Aber der Vater war wie ein tobsüchtiger Heranwachsender am Steuer, und der ständige Verteidiger der Moral und der Gerechtigkeit floh jetzt niederträchtig vom Tatort, wobei er der einzige Schuldige war. Sie fuhren mit hoher Geschwindigkeit, in die Gegenrichtung zum Parkplatz, auf der leeren Allee! Sie konnte es nicht glauben, was sie sah! Vater! Halte sofort! Das ist ein Befehl! Halt, Vater! Halt! Das andere Auto fuhr hinter ihrem Auto her, klebte an ihnen, und alles geschah zu schnell. Ich sage Dir, halte diese Scheiße an! Das war das erste Schimpfwort in ihrem ganzen Leben. Sie war so nervös, daß sie die Kontrolle verlor und das Steuerrad in Richtung Wiese drehte. Der Unfall war unvermeidbar. Das Auto überschlug sich mehrmals an diversen Plakaten vorbei, alle mehrfarbig und ein leichtes, schmackhaftes und komfortables Leben versprechend. Alles stand in einem Übermaß an Stille. Der Vater machte die Tür auf und sprang wie einem Verrückter aus dem Wagen. Er floh über die Wiese. Die Angst davor, einen Fehler gestehen zu müssen, war so groß, daß er den Kopf verlor. Es blieb ihm nichts an Würde. Ein Mann, der immer ohne Fehler die Gesetze befolgt und die Pflichten erfüllt hatte, unerbittlich, der immer DIE ANDEREN hinter Gitter gebracht hat, weil er WUSSTE, das es gerecht war! Und jetzt schob das Pärchen die Hände durch das offene Fenster an der Seite des Vaters (ihr Fenster blieb immer geschlossen, es war gefährlich, bei offenem Fenster in Brasilien zu fahren, besonders abends und nachts, hat man ihr beigebracht). Und sie würden sie am Hals packen, sie würden sie zu weiß Gott was zwingen, sie würden ihr weh tun, sie würden sie umbringen, sie waren wütend wegen des zerknitterten Autos! Sie hatte keine Mittel, irgend etwas zu bezahlen! Nichts! Nichts! Es sei denn, sie würde den Schalter der Western erreichen, der immer unerreichbarer wurde, wie in einem furchtbaren Alptraum! Sie würde nie rechtzeitig ankommen! Frank war bestimmt schon weg! Er würde diese Geschichte nie akzeptieren! Er würde ihr nie glauben! Alles, was ihr im Leben geschah, war so absurd, und das absurdeste war, daß sie geboren wurde! Und eine Eveline wollte sie nicht sein! Als sie wieder zu sich kam, hatte sie schon zwei Schüsse abgefeuert, gegen die Gesichter, die etwas Unverständliches schrien. Sie ging auf die Wiese und versuchte, über den Zaun zu springen, Richtung Flughafenpiste, das Rohr des Revolvers, heiß, an ihrem Bein, endlich, sie ging durch die Weide, es war nicht anders als die Flucht des Mädchens bei Drummond am Hals eines Pferdes, aber bei ihr mußte es anders sein, vielleicht würde sie das Flugzeug mit Gewalt anhalten müssen, immer näher an der Abflugpiste, die Füße tief im Schlamm der Weide, die Schuhe waren jetzt kaputt, sie würde barfuß fliegen müssen, gleich da vorne war die leuchtende Piste mit magischen Lichtern, wo die Glücklichen Richtung gelobtes Land abfliegen würden!





Bio fornecida pelo palestrante.

La Guerra De Los Orichas




Autor: Luiza Lobo
Título: La Guerra De Los Orichas
Idiomas: esp
Tradutor: Dominica Diez(esp)
Data: 29/12/2004

LA GUERRA DE LOS ORICHAS


Luiza Lobo

Fue por pura casualidad que Xangô tropezó com aquel inmenso tablero en medio del monte. Machista y guerrero, se sintió provocado. ¿Qién organizó aquel tablero de esa forma, justo en su camino? No veía la harina de dendé, ni la botella de aguardente, ni los adornos de cinta de santín rojo. No veía los colores de su casa de santo, ni la espada en su homenaje. No encontró en su tablero los alimentos usuales: grageas, frijoles negros, harina de yuca, arroz de dendé, ni los usuales objetos de sacrificio: un carnero, una jicotea, un chivo, ni siquiera un gallo. Viró el tablero intrigado, vestido com su saya de cuadros rojos y blancos y su collar de cuentas de mismo color: no entendía. Aquello no era el opinafá conocido. Era un tablero de ajedrez, cuadriculado en blanco y negro. Xangô, el rey de los truenos, se puso rojo de rabia. Rugió y todo se oscureció. Lanzó rayos y truenos contra sus invisibles enemigos. Xangô había llegado al monte caminando tranquilamente, cual la imagen de su padre en la vejez, Oxalá, el oricha yoruba creado por los hombres. Pero le pisaron los callos, ¡Oh!, sí, y se disgustómucho com lo quese encontró. Y asumió la forma de su padre en la mocedad, joven guerrero lleno de vigor y nobleza, y cargó com los dolores de su pueblo sufrido y exiliado en el mayor éxodo de todos los tiempos. No era cuestión del tal segundo libro de la Biblia. Su pueblo sufrió mucho más. Transformado en el Gran Padre, Orixalá se golpeó el pecho, lanzando sus rayos y truenos como dardos. Pero no sucedió nada. El cielo se nubló. Pero no se sucedió nada. Ahí, el señor de las piedras rugió para sus adentros: “Kauô, Kabiesile”, y esperó a que algo se le ocurriera. No atinó sino a llamar a Ossana, el dios iracundo de las hojas curativas del monte. Ossana llegó com su saya de percal blanco, amarillo, marrón, y en la mano, el hierro de siete astas puntiagudas, com un pájaro en la del medio.
– “¡Eu, eu! ” –gritó com su habitual saludo. ¿Qué está pasando aquí, ¡oh gran rey de los montes!? –Vea, mi santo de las plantas curativas, mire qué tablero tan raro, donde no veo colocadas mis ofrendas predilectas, como de costumbre, en el monte.
– Pero…, ¿no está? Y yo no veo mi ossé anual: ni cabra, ni gallina, ni harina, frijoles, maíz com miel, tampoco el chivo, ni el gallo para el sacrificio. Pero, ¡qué peji más extraño, Dios mío! Voy a llamar a mi amigo Oxosse. Entonces llegó el día de la caza, el rey y el cabloco de los montes del clan de Ogum, jefe por la línea de los cablocos jefes de legión o falange. Sostenía su ofá. Era su símbolo, el fetiche de los orichas, el arco y la flecha de hierro, en miniatura, junto al otá. Se puso a analizar el grande y extraño tablero, dándole vueltas a su ancha faja de ojá en la mano, vestido com su saya estampada en azul y verde claro, sobre sus pantalones de encaje blanco. Estaban todos vestidos como para un día de fiesta, pero atraídos por un pedazo de madera en el suelo. ” ¡Okê, Okê, Arô!” –saludaran todos a Oxosse. ¿Qué es lo que está pasando aquí en el monte? –gritó Ogum. Voy a llamar a los cablocos, mis representantes –y con su danza imitaba la cacería. Entonces Oxosse, Rei de Ketu, Cabloco y Rei das Matas, invocó a sus Cablocos: –Vengan, mis guerreros-indios de piel cobriza, entidades indias que bajan a nuestro terreno, vengan com su piel bronceada de indio a ayudar su a padre. Vayan viniendo, jefes-guía de la línea de Oxosse, Cabloco-araribóia; y vengan Cabloco Arranca-Toco, entidad-guía y Cabloco-Arruda, y Cabloco Cobra-Coral y Cabloco Guiné y Cabloco Pena Branca, entidades-guía, en la línea de Oxosse; y vengan en la línea de Xangô; y Cabloco Malembá, entidad representante de Oxalá, vengan todos y desciendan en medio de este monte para decifrar este extraño tipo de otá. Y las entidades indígenas bajaron todas, com sus penachos de plumas, bailando alrededor de una calabaza cubierta com un encaje de cuentas de Santa María, usada como instrumento musical en los candomblés; y hablaron sus lenguas, mezcla de yoruba y tupi. Y entrecruzaron sus líneas, sus falanges y legiones; pero no atinaron a dar com el sentido de aquel cuadro de madera. Rodearon el tablero y entonaron los cantos rituales de cada oricha, e hicieron com yeso, (la pemba), los dibujos que simbolizan a los espíritus y los hacen descender a la casa de santo: punto de seguridad, punto de apertura, punto de llamada, punto de quema de hierbas aromáticas, punto dedescarga, hablando en su enrevesada lengua, mezcla de yoruba y tupi; pero no dieron com el sentido de aquella tabla cuadrada. Xangô se puso bravo. Rugió y el día se nubló, lanzó rayos y truenos, pero no descifró el sentido de la afronta. No sucedió nada. Los cablocos intercambiaron señas y decidieron llamar a los Petros Velhos, que están en el cuarto nivel de la jerarquía espiritual, inmediatamente a continuación de ellos para hacer magía blanca, deshacer la magía negra y resolver aquella compleja cuestión com su sabiduría simple de los antiguos esclavos purificados. Bajaron los Petros Velhos, jefes de falange de la Línea Africana y de la Línea Africana de Yorimá. Tres Petros Velhos de la Linha Africana bajaron y saludaron a las divinidades y a los cablocos. Al preguntarles qué era aquel tablero, dijeron:
– Eso es un opanifá diferente. No tiene la forma achatada de la bandeja, ni tiene esculpida en el borde la cara de Exu, entre otras figuras y señales simbólicas. Por esa debemos invocar a Exu.
– ¿Cómo a Exu? ¿Y a él no se le debía haber llamado primero? –argumentó un cabloco.
– Tal vez traiga un mensaje especial sobre este extraño objeto –completó el otro. Y llegó Exu, com su saya roja y negra, adornado com una ojá roja, el gorro y los caracoles, sus collares de cuentas rojas y negras alternando, y a la espera del sacrificio del gallo y el chivo prietos. Mas sólo encontró la extraña bandeja, el opinafá diferente. Exu miró desconfiado a toda aquella gente allí reunida, a todos aquellos dioses inmóviles debido a la rabia inicial de Xangô, y dijo así:
– ¡Esto es guerra! ¡Es guerra declarada! Tenemos que llamar a nuestro padre Ogum, el dios guerrero, del hierro y de la agricultura. Ogum llegó. El oricha yoruba, hijo de Iemanjá y de Oranhiã, llegó para resolver las demandas, vestido com su espada de metal plateado y su ídolo colocado en un plato, “la herramienta de Ogum”, un mazo de siete instrumentos de hierro usados para la labor, la guerra y la caza. Ogum llegó y gritó: “¡Ogunhê!”, buscando su gragea, su frijol de carita, el frijol negro, el ñame asado, y no los encontró; y no encontró ni señal de chivo, de gallo o de conquém. No sucedió nada. Entonces Ogum invocó al Exu Tranca Ruas, al Exu das Almas, que trabaja com todos los orichas y protege todas las vueltas de las casas de santo. Llegó un hombre de torso desnudo, piel cobriza, pies de chivo y orejas puntiagudas. Exu buscó algún trabajo dedicado a él en un cruce del camino, pero en el monte sólo había árboles, y fue dificil encontrar quién había puesto aquel “maleficio” allí, justo frente a Xangô, el rey de los Truenos. Ogum cambió impresiones com él. Entonces el Exu de Sete Cabeças, o Exu de Sete Covas, Exu de Sete-Capas, que trabaja para Oxalá, el gran dios; y el mensajero Exu de Sete-Catacumbas y de las Sete-Encruzilhadas y de las Sete Regiõs das Trevas, sugirió:
– Gente, vamos a abrir la sesión. Vamos a llamar a Ifá, el gran oricha de adivinación y del destino, gran mensajero de la luz, para que tire los caracoles y lea nuestro futuro. –Así, Exu exigió para si el sacrificio de un chivo prieto; y con la fuerza del sacrificio clamó para la presencia de Ifá. Enseguida llegó Ifá, acompañado por su babalao africano. Usaba el opelé y agarraba sus caracoles perforados para ver de que lado caía la suerte. Ifá se puso de pie solemnente, al lado de una palmera del monte, su arból sagrado, y miró al grupo com dieciséis ojos, como dieciséis son las cuentas de la gran adivinación. Cada combinación era acompañada por una historia sagrada, lo que ayudaba a interpretar los designios. El babalao o sacerdote de Ifá agarró las cuentas de su collar sagrado, el opelé de Ifá. Era un collar abierto de ocho medias nueces de palma. Unas veces lo agarraba por una punta terminada en nudo, que simbolizaba el lado masculino, y otras, por el outro extremo, com cuatro o cinco hijos de paja de la Costa, que representaba el lado femenino. Y el babalao, el sacerdote de Ifá, el gran oricha de la adivinación y del destino, el dios de los dieciséis ojos, dijo a los presentesque verían dibujarse en la paja, al lado, su destino, que se formaría en cada odu, o jugada por la forma que tomaran las cuentas de su opelé, o collar. Com una varita anotó en la arena, en su extraño tablero de madera, el opanifá, el número de cada una de las ocho jugadas sagradas del Ifá, para la adivinación del destino. Las cuentas de su opelé ifá cayeron en forma de U, com el lado abierto vuelto hacia él. El babalao iba anotando las cuatro combinaciones posibles de los odus, o jugadas, en un total de dieciséis combinaciones posibles. En aquella única jugada del opelé obtuvo las dieciséis combinaciones, pero no se sintió conforme. Hizo una nueva jugada ligada a la anterior y al mismo tiempo subordinada a ella, com la que obtuvo doscientas cincuenta y seis combinaciones. Intentó dieciséis combinaciones más com cada una de las nuevas jugadas subordinadas, lo que hacía unas cuatro mil noventa y seis combinaciones para preparar las respuestas de los orichas. Y cada odu o respuesta tenía su historia correspondiente, e iba anotando cada nuevo diseño según la caída de los odus en el tablero de madera, el opanifá. Y así contaba su historia en el opanifá. Pero esta vez el opanifá no era el tablero pequeõ de madera, donde aparecía la cara de Exu, sino el mismo tablero com cuadros blancos y negros que encontrara Xangô en el monte, en medio de su camino. Los Orichas, sentados al lado del babalao, sabían que algo muy grave pasaba com su destino; los días y las noches se sucedían, y las intensas lluvias alternaban com el sol, en el cielo. Todos sentados en torno del babalao, bajo la protección de Ifá, aguardaban el final de la recitación de la suerte, oyendo atentamente la lectura de las historias de cada Odu, o letra de Ifá, muchas de las cuales ya sabían de memoria. Y cuando el babalao, que era el jefe de la casa de santo, al final reveló el vaticino, la mayoría de las divinidades ya sabía que se trataba de una grande y sería guerra en la que se precisaría todas sus fuerzas para vencer.
– Esto es un tablero de ajedrez. Y fue puesto aquí en el monte como “brujería” para diezmar nuestro rito y nuestra raza. Debemos protegernos mucho de esse juego. Es un juego inventado por los blancos y fue colocado aquí para una partida de fuerza destructiva en contra de nuestra tierra africana y de nuestra fe en el candomblé. Xangô clamó por los truenos e invocó a las cataratas y a los rayos para la protección de la piedra que estaba cortando, destruyendo y exportando hacia los países de los blancos; Oxosse invocó a su ofá, el arco y la flecha unidos, de metal blanco, que simbolizava su poder como protetor de la caza en el monte espesso de Brasil, amenazado de extinción, el babalao preparó sus oferendas, con las sustancias blancas del poder engendrador masculino: la savia blanca de su semen, su saliva, su aliento, y echó alcohol, aguardiente y el zumo de la palmera sobre todo el tablero; inmediatamente echó agua pura, la sustancia blanca conductora de la fuerza engendradora femenina, el aché, sin el cual no hay ofrendas. Invocó a las lami, madres ancestrales que propician los misterios y calman el espíritu. Puso la ofrenda ahí, junto a las sustancias negras, que representan el oscuro sello de la materia engendradora, ligada al poder genital femenino y al elemento procreado. E invocó los objetos rituales a su disposición: las piedras, vasijas, instrumentos simbólicos e indumentarias que en aquella ceremonia eran hechas en los tres colores-símbolos del reino de la naturaleza: el blanco, masculino, el negro, femenino, y el rojo del dendê, de la sangre del chivo sacrificado, de la sangre menstrual femenina, del ossum, o polvo de azafrán y miel, del cobre y del bronce de los símbolos de cada oricha. Terminado el sacrificio, hecho sobre el extraño tablero, retumbó un gran trueno y apareció una figura inmensa, musculosa, com sandalias, con una túnica corta amarilla y capa; muy extraño.
– ¿Cuál es su origen, su línea de vibración? –le preguntó Xangó, el gran oricha, dios del Trueno. El extraño ser se sintió molesto por aquella pregunta. No compreendía bien la lengua, ni el sentido de las palabras del santo negro.
– ¿Es un iniciado?
– ¿Mi pregunta si soy homossexual?
– En fin, ¿Cuál es su oricha?
– No sé de qué hablan.
– Bien, entonces, ¿Quién colocó este tablero aquí en el monte, atravesando mi camino? –insiste Xangô, com su voz de bajo.
– Esa fue idea de Zeus, el rey de los Truenos.
– Debe haver alguna equivocación, porque el rey de los Rayos y de los Truenos soy yo –intervino Xangô.
– ¡Ah!, pero no es verdad.
– ¿Y quién eres tú para decirme lo que es y lo que no es verdad?
– Yo soy Teseo, y maté al Minotauro, monstruo con cuerpo de hombre y cabeza de toro, que vivia en un oscuro laberinto construido para el rey Minos II, en Creta. Si no hubiera sido por mí, hasta hoy doce muchachos y doce muchachas estarían siendo sacrificados cada año a este hombre-toro, en verdad, fruto de los amores ocultos de Pastifae y Minos II.
– ¿Estás seguro? –vociferó Oxalá Mira, ya yo viajé por todo el mundo y nunca oí hablar de esa tal gruta de Creta. Ni oí hablar de esse tal monstruo. Eso dbe de ser una historia muy antigua.
– Bien, es verdad.
– ¿Y, qué historia es esa del hijo com forma de toro? Eso no puede ser. ¿Usted nunca estudiaran biología?
– Bueno, nosotros, los griegos, amamos la fantasía, la reunión de todas las formas, animales y humanas: casamos cisnes con Zeus, nuestro rey de los Truenos, piedras con ríos, chivos y caballos con hombres, dotamos de alas a los caballos…
– Estoy encontrando toda esa conversación muy bonita, pero no me está gustando nada esa historia de a toda hora hablar de esse tal rey de los Truenos de ustedes. ¿No es posible que lo invoques de inmediato? –volvió a hablar Xangô. Teseo se encogió de hombros, pero no necesitó de ningún arte demagía para invocar a Zeus, porque este apareció enseguida, com su rostro astuto de dios mayor del Olimpo.
– ¿Me llamaron, hermanos? –Este viene com cara de politico experto –comentó Oxosse, dios de los montes, que se disgustaba por todas las sutilezas de las ciudades.
– Soy hijo de Cronos, el tiempo, y de Rea. Ya tomé todas las formas posiblaes para casarme con mis siete mujeres: lluvia de oro, para conquistar a dánae: sátiro, para alcanzar los amores de Antíope; cisne, para casarme con Leda –y tuvimos dos hijos cisnes, gemelos; toro blanco, para raptar a Europa; llama ígnea, para devorar a Egina.Para estabelecerme en el Olimpo, luché contra los Titanes, los Cíclopes, los Hacantonquiros, gigantes de trescientas manos, hijos de Urano con Gea, la Tierra; luché contra Prometeo y muchos otros. Por eso no tengo miedo de luchar contra ustedes, africanos. Fue por eso que coloqué aquí esse tablero.
– ¿Y qué tipo de opanifá es éste, que no conocemos? –preguntó, respirando profundamente, Ifá.
– ¿Cómo? No conozco esa palabra, pero ese tablero sirve para jugar ajedrez. Tenemos que mover la reina, el rey, los caballos, los peones, y los movimientos tienen que ser pensados, calculados racionalmente, hasta empurrar el rey o la reina o una trampa –esta situacción sin salida si llama échec et mat, es decir, vencido y abatido, pero el vulgo acostumbra a llamar “jaque mate”.
– ¿Y quien gana tiene que incorporarse, recibir la entidad, ser posuído por su oricha, como buen hijo de santo? –preguntó Oxosse.
– No sé nada de lo que el compañero está hablando: basta con acompañar intelectualmente el movimiento de el rey y de la reina…
– Mira, nosotros, los de la África, no tenemos ese negocio de colocar al rey y a la reina en una trampa, no. Andamos con ropas de paño, los pies en el suelo y comemos comidas sabrosas: ñame, frituras con mucho aceite de dendé, y la mesa puesta con mucho color y arte. Esos lujos cortesanos están fuera de la vida de nuestra tribu; somos pueblos del monte, amamos la tierra, la piedra, el agua, la lluvia y el sol. Creo que sería bueno hacer un iré, un ritual de iniciación, con este tal de Zeus, ¿no creen ustedes? Los dioses aprobaron con un movimiento de cabeza, mientras Zeus no disimulaba su ira.
– Vamos a llamar a Hércules. Hércules les dará una lección a estos negritos. Hércules llegó con las sandalias de cuero de chivo amarradas casi hasta los muslos. Su musculatura se mantería intacta, a pesar de los largos años de uso, y contrastaba con la cabeza microcéfala de los musculosos pero poco inteligentes.
– Entonces qué ¿vamos o no vamos? Si no quieren jugar alejedrez está bien, resolveremos este asunto por la fuerza, ¿no es así? Mi amigo Teseo y yo, que además vencimos, en nuestro gran viaje de argonautas, a unas mujeres guerreras, las amazonas, que tienen un solo pecho
– ¡Oh Teseo!, si ellas vivían en tierras por donde esos de ahí andan hoy en día, ¿no es verdad? –Pues estamos aquí para eso: para vencer en esta batalla, incluso a costa de nuestro propio Panteón.
– Sí, ustedes hablan muy complicado, llenos de efes y erres, con sus reyes y reinas. Lo que yo quiero saber es si ustedes saben hacer una mandinga bien hecha, si se saben defender de una buena pajelanca de umbanda, quimbanda, macumba, umbanda tracada. Aquí yo soy el mensajero de todas las fuerzas tenebrosas y de las profundidades de los cemeterios, y puedo hacer cualquier sortilegio en contra ustedes y de su tal ajedrez.
– Mira eso, Hércules, creo que tenemos que llamar a Hermes. Este dice que es mensajero. El único y mejor mensajero de todos los tiempos, es Hermes; él, sí, y es quien conduce las almas hasta el Hades, el reino de los muertos. Hermes llegó enseguida, volando por la fuerza de sus talarias o sandalias aladas, su petarius o capa con alas y el caduceo, la vara mágica con serpientes entrelazadas en la punta.
– Hermes –lo interpeló Zeus–, dé una lección de norma culta a esa gente de las casas de santo.
– Mi funcción es más bien de lleva y trae, ¿no es así, camaradas? Tal vez pudiéramos llamar a Prometeo, para poner una manita más humana en esto. Esta gente me parece medio sin cultura general, ceo que nunca oyeron hablar de ajedrez. ¿Ustedes no iban a jugar una partida de ajedrez fatal?
– Ese es el caso, pero tenemos problemas de comunicacción, lingüísticos y culturales. ¡Que venga Prometeo! –gritó Zeus, a pleno pulmón, muy irritado con todo, y ahora más, por tener que pedir auxilio a su originalmente archienemigo, el ladrón que robó el fuego de los dioses para entregarlo a los hombres. En verdad, él mismo los creó del barro, tambien les enseñó las plantas medicinales, el cultivo de la tierra y a domesticar caballos. En fin, un dios que a pesar de que finalmente se unió al Olimpo, siempre fue politicamente incorrecto; y que fue pintado por excelentes colores por todos los viajeros románticos: Shelley, Byron, Coleridge, Dante Gabriel Rossetti, hasta por Elizabeth Barrett Browning y un tal de Joaquim de Sousândrade.
– ¿Ya usted leyó a un tal de Sousândrade, nascido en Maranhão? –preguntó Zeus a Xangô, un tanto descortés.
– Nuestro pueblo no es de lecturas, Alteza. Como ya le dije y le repetí, nuestra actividad principal está más ligada a la tierra, a los elementos ligados a la naturaleza: el viento, la lluvia, el sol, la energía vital.
– Hum… economía de subsistencia –ridiculizó Zeus.
– Llámelo Vuestra Alteza de la forma que quiera. Pero es así como vinimos de África y hasta hoy vivimos en el corazón de africanos y brasileños. Y ustedes, ¿dónde están que no los veo?
– ¡Estamos en los libros escolares! –contestó de inmediato Hefestos o Vulcano, que surgiera rapidamente, como el fuego, a pesar de ser cojo. –Todos esos adornos que ustedes ostentan ahí, en su cintura, fueron hechos por mí, en mi taller, que está dentro de un volcán, en el corazón del monte Etna, en alianza con los Cíclopes, gigantes de un solo ojo. Nuestra fama atravesó el mar Mediterráneo y llegó hasta Sicilia, Roma, toda Italia, el norte de África, y hoy somos estudiados por toda la civilización occidental.
– Pero que tipejo más pretencioso –se entrometió Exu. Gran cosa esa de ir de Grecia a Roma, eso está inmediatamente allí al lado, en aquel mar pequeñito. Nosotros sí, nosotros que atravesamos el Gran Oceano Atlánctico y estamos vivos en la fe de las personas hasta hoy. Somos consultados, reverenciados, recibimos ofrendas y cultos provenientes de todas las líneas y tipos de fe, de todas las razas y clases sociales que habitan África y Brasil.
– Esa es la religión de gente pobre y subdesarollada.
– Eso es lo que dicen los cínicos protestantes, que tienen prejuicios raciales –rebatió Exu. Y Oxalá intervino.
– Crimen sin finanza en Brasil. Zeus se puso nervioso. Nada, además de la incontinencia sexual, lo dejaba más inquieto que una conversación vacía y larga. Los tics nerviosos se desataron. Refunfuñaba y se rascaba la entrepierna.
– Mire, no sabemos nada de su gente inculta ni de esas leyes de países bárbaros. Lo que importa es saber si ustedes van o no van a jugar ajedrez conmigo. Apolo o Helio ya va muy alto en su carro alado que ilumina el cielo. Él no puede descender hasta aquí, pues está transportando el día en su carruaje, de un lado para otro, pero desde allá arriba está acompañando nuestra guerra. Oxosse no se contuvo:
– Pero miren qué ignorancia, ellos que se dicen tan cultos y civilizados. ¡Un carro con allas trayendo el día! Es mucha falta de conocimiento científico.
– ¡Son imágenes poéticas!
– ¿Y qué es lo que ustedes hacen durante todo el día, además de iluminar el día y hacer poesía?
– Bien, nosotros, básicamente, amamos. Hacemos hijos híbridos y conquistamos siempre nuevos amores –dijo con despecho Zeus, rascándose la entrepierna.
– Pero qué civilización más egoísta –retomó Oxosse.
– ¿Y no tienen un pensamiento para la humanidad?
– ¡Oh, claro que sí! –Señores, él no leyó la Iliada y la Odisea, de Homero, ni la Eneida, de Virgilio. Está claro que en los grandes momentos épicos, nosotros intervenimos. Pero la mayor parte del tiempo estamos muy ocupados; comemos nuestros panales de miel, la ambrosía, nos deleitamos con el vino fresco del Olimpo…y nos defendemos de las acusaciones de adulterio, no faltaba más. La propia Diana, que es la diosa de la caza, se pasa el día cazando venados, pues no podrías privarse de unos de sus mayores placeres en su larga vida.
– ¡Pero eso es un escándalo! –intervino Exu. –Es por esa y otras razones por las que nació un Marx. La humanidad fue relegada al último escalón social por esa religión elitista de ustedes. Sólo importan ustedes, ustedes, y nada más que ustedes. ¡Y, además de eso, son inmorales y antiecológicos: cazan venados y otros animales silvestres, por puro placer! ¡Cuánta inutilidad!
– No veo lo que hay de malo en eso. ¡Es lo que se llama clasicismo! –dijo burión Zeus.
– ¿Clasicismo? ¡Eso es deísmo! ¡Es sociedad de clases, y hasta de castas! Ustedes viven en una sociedad cerrada y corporativa. No plantan, no protegen a las personas, no adivinan su futuro, no las aconsejan, no profundizan en sus destinos cuando están necesitadas… –habló Ossanha por primera vez.
– ¡Bueno, para eso pueden acudir al Oráculo de Delfos! ¡Es allá donde oirán las profecías que necesitan y en las que tanto creen! –dijo Zeus entre carcajadas de bon vivant.
– ¡Pero usted es un cínico, un desclasado social! –intervino Oxalá, con su voz tronante de dios principal. ¿En qué cree ese humanismo suyo?
– ¡Yo creo en el placer! Creo en la belleza, en la estética, en las curvas perfectas, en la medida áurea, en los templos bien construidos, y en la mens sana in corpore sano.
– ¡Pero la humanidad no es siempre así! La mayoría de las personas nace imperfecta, por dentro y por fuera, y necesita un rezo fuerte por parte de todos los dioses y orichas. Ustedes sólo se ocupan del lado de afuera, de la belleza exterior, y las almas que se jodan…
– ¡Ah!, eso del alma y la transmigración del alma ya es cosa del departamento de filosofía. Quien se ocupa de eso es Platón, que escribió varios diálogos, además, en otra persona, sin asumir nada, colocando esas palabras delirantes en boca de Sócrates. (Y asumiendo aires de intimidad, le echó el brazo por el hombro a Xangô). Oiga, amigo, puedo llamarlo así, ¿no? Le voy a confesar una cosa. No creo en nada de esas cosas de religión. Lo mío es el placer, la lujuria, la orgia, mujeres bonitas, mucha ambrosía, vino, carnero asado, cultos a Dionisos y a sus pproseciones pervesas, escapar de la persecución de Hera, que vive con unos celos locos de mí. En fin, vivir, aprovechar todo lo que nos proporciona nuestra existencia privilegiada de dioses del Olimpo, nuestro cielo.
– ¡Jaque-mate! Usted mismo se condenó, hermanito. ¡No cree ni en usted mismo! –gritó Xangô con los ojos inyectados de sangre.
– Es lo que da la cultura desconstruccionista que ustedes mismos lanzaron, hace ya tanto tiempo. Ustedes no pueden creer ni en sí mismos, de tan intelectuales que son! –gritó Exu-Rompe-Mato.
– Menos mal que para vencerlos en esta lucha pedí auxilio a mis hermanos Oxumaré, oricha del arcoiris, y Omolu u Obaluie, cuyo verdadero nombre no puedo pronunciar aquí, porque podría traer la viruela y demás enfermedades, pues son de la misma línea. ¡Lo vencía o dejaba de llamarme Oní! No sería Xangô yoruba nagô, dios del Rayo y el Trueno, hijo de Iemanjá y de Oranhiã, no sería Xangô Abomi, Xangô Afonjá, Xangô Agodó, Xangô Aira, Xangô Alfin, Xangô Alufá, Sango Cao, Xangô Dadá, Xangô de Ouro. Y en la medida en que iba refiriendo sus nombres, la fuerza de éstos iba exorcizando a los dioses blancos, que retrocedían amedrentados –y el tablero de ajedrez quedaba todo pisoteado.
– No necesitamos de ningún tablero de ajedrez para discutir nuestro poder con ustedes, porque tenemos nuestro opanifá de adivinación. E Ifá nos contó que ustedes vendrían, salidos de sus libros de mitología, para asustarnos. Pero nosotros no le tenemos a zumbis blancos, venidos de lenguas muertas y museos europeos. Ustedes tienen una religión muerta, una cultura que se convertió en turismo, y ni hablan ya su lengua, ni creen en la cultura griega clásica. Pero nosotros estamos aquí, vivos en la danza, en el canto y en culto del pueblo.
– “Kauô Kabiesile”, yo te saludo Xangô, rey de los Rayos y Truenos! –dijo Zeus y se fue lidereando la desbandada, inclinándose y saludando a Xangô, rey de los Rayos y Truenos, con muchos deseos de salvar su pellejo. Y fue así que terminó la Guerra de los Orichas. El sacerdote de Ifá contó después que, desde entonces, los niños brasileños no estudiaron más mitología griega. Prefieren ver televisión todo el tiempo. Pero el dí de Año Nuevo, van a encender sus velas en la playa para Oxumaré. Y todo es divulgado por las pantallas de televisión para el mundo entero, entre fuegos artificiales y shows de roquero, después explican, simplificando el sentido de las velas, del tabaco, del aguardiente, y de los puntos rayados en las arenas de Copacabana.

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Notas de la Autora, Traducidas:

Opanifá Tablero pequeño, de madera, de formas variadas: circular, semicircular o rectangular, con un borde achatado y ancho, ligeramente elevado, tallado con figuras y senãles simbólicas. En esa especie de bandeja se marca, sobre un polvo especial, con el dedo, por el babalao o jefe de la Casa de Santo, el odu, o resultado de una jugada de la suerte, que sale en el lanzamiento de Ifá.
Ossé Ofrenda
Pejí Altar
Ofá El símbolo. Ofetiche de los orichas, el arco y la flecha de hierro, en miniatura, que en ese caso, representa a Ogum.
Otá Piedra de monte, la piedra de santo o piedra negra de salto de agua, donde se fija, en un ritual especial, la fuerza mística del oricha, que constituyye el “asentamiento” principal del dios. Cada dios (oricha) tiene su propia otá piedra del río, de mar, de monte, de mineral de hierro, de mármol, meteorito, etc., la que puede ser clara o oscura, lisa o rugosa, según el carácter de cada cual.
Ojá Faja usada por las entidades como cinto.
Demanda Desentendimiento, litigio, lucha entre orichas y entre personas o Casas de Santo, en la que Ogum es tenido como protector y como quien resuelve dichos conflictos.
Conquém Perro, en África.
Ifá Gran oricha de adivinación y del destino. Mensajero de la luz de Orumilá (uno de los títuços de dios supremo), mientras Exu es el mensajero de las tinieblas. Su sacerdote es el babalao que usa el opelé (collar) o cocos de dendé, en el pasado, o, actualmente, caracoles para recibir la respuesta del oráculo.
Opelé Especie de collas abierto o cadena, usado para la adivinación, formado por ocho media nueces de dendé o caracoles con el fondo cortado, unidos por eslabones de metal o trenza de paja de la Costa. Su uso es privilegio exclusivo del sacerdote de Ifá.
Mandinga Hechizo, en quimbundo. Plaga, encantamiento.
Pajelanca Rituales indígenas mezclados con influencias espíritas y católicas. Culto originalmente popular en la Amazona y Piauí, al que se unieron influencia africanas, que invoca a los “encantados”, espíritus de la naturaleza que viven en los ríos, fuentes, montes, con la finalidadde cura mágica. En el ritual, se usa sólo una especie de marcas adornadas con plumas.
Tracado Culto de Casa de Santo que usa más de un tipo de ritual, generalmenteumbanda, con rituales e indumentaria del nagô, de Angola, entre otras.

Fonte: Cuento publicado in: Revolución y Cultura, La Havana, Cuba, nº 4, julio-agosto de 2000: p. 40-44. Traducido por Dominica Diez. Extrahído del libro de cuentos: Estranha aparição. Rio de Janeiro, Rocco, 2000. p. 129-49.





Bio fornecida pelo palestrante.

The bitten apple




Autor: Luiza Lobo
Título: The bitten apple
Idiomas: eng
Tradutor: Luiza Lobo(eng)
Data: 29/12/2004

THE BITTEN APPLE


Luiza Lobo

It is hard to describe the beauty of this person who walks amongst men but who belongs to the world of gods. When his blue and innocent eyes first met mine. I felt greatly moved. It is as if I had always known him through the lines of his face, framed by his blond hair, the minute riddles which barely formed an angelical whole. Lucifer or Gabriel, we met in a church at a rock concert. I immediately wanted to know who was that character who had just come out the long verses of Milton, already wishing to pull him from Paradise Lost to meet him again in Paradise Regained. I was informed that he dedicated himself to strange experiences with matter and that he was a person of great mystery and discretion.
Our first lunch, at Magoo’s, was an exchange of dreams and expectations. Both gave one another the impression of being deeply busy, and none of us not for one moment gave one step towards approaching the other. So many phone calls just to end up in a sandwich! Well, an elaborated sandwich, for we spent more than four hours, until sunset, discussing art, cities, personal tastes and life. I came out with the sensation that everything was quite correct, and that a great number of phone calls would follow aimlessly.
Really, a long time afterwards, on a Sunday, quite late at night, I got a phone call from him which really surprised me. He came from a trip and invited me for a beer at East Village. As a coincidence, at the same bar where I had heard proposals of disgusting love, of very bad recollection; but coincidences exist so that we can link the knots of the chain, and to prove that love is reborn from the Phoenix.
I met him at the bar which was crowded with big boys – always a very constraining situation for a woman who left her a book behind, jumped out of bed, took a shower and threw herself at the street, towards a bar in which she arrives alone and puffing, and feels that she is examined from head to feet by her rivals. I fiercely returned their stare, and thanked for the bench that was offered to me at the counter, as a prize for my triumphal victory. There we began to discuss the world’s fate, revolution versus education and culture, atomic war and militarism, individual dreams and the capitalist system. I did not cease to observe that face of a gothic angel, chiseled without the exaggeration and the fats of the Baroque, with absolutely correct lines – thinking that he had them so perfect because as a child he had eaten corn flakes and vitamin-D reinforced milk. A feminine look in a masculine whole, sensibility associated with the lightness of movements which made everything spin as if driven by the beauty of his voice.
From there we crossed the city, from Chinatown to the Meat Market at West 14th, as far as Washington Square, without feeling a bit tired, in spite of the lateness of being so late at night. His voice was an oasis in the noisy city, and when he laughed his eyes dropped small sapphire bids on the filthy sidewalks, where beggars, foreseers and addicted sat. Each minute at his side was the discovery of a new boreal dawn.
When I tried to find out where his faults lay, I thought that he had none. He explained to me that he had flat feet, which explained why he did not go to Vietnam War – and therefore, this was no fault, but a virtue! Besides, his knees were slightly turned inside. I could not help but smiling before such a narcissistic innocence that made him truly believe that these were his only faults. This dialogue inspired me a drawing that I began to do hour after hour, until I gathered courage enough to show it to him. It was the drawing of Christ at the cross. He had a crown of thorns and his knees were turned inside, due to the weight and the pain of the nails – but his face and his cock were stiff. He was red to the roots of all his hairs. He said that in a country with such a Presbiterian tradition this drawing could drive me into jail. I asked how a drawing that represents love in its purest dimension and in its most infinite spirituality could lead anyone to prison. Would it not be better to arrest the generals of the Vietnam or the Gulf Wars or the CIA agents? His eyes looked as if he was still in the Luray Caves, in North Virginia, which he had recently visited.
When he took me to his house, I was enchanted with its location, which looked to me a mystic sign: it was on East Second Street with Second Avenue. Beside it, a sober neo-Gothic Presbiterean church, covered with the black smoke of the city, mysteriously hid amongst the trees, as if it was and at the same time was not there. The land before it was a delicious cemetery, tiny and abandoned, still tidy in its white stones amongst the high and smooth grass, and without the exaggerated ornaments of the Roman and Florentine tradition. Not one cross. Some sparse saints, figures that were more human than celestial, which were barely above the ground, as if to show a humble and pragmatic religion. Other statues reminded one of angels looking from behind the fences, as if in prison. Little countryside flowers spread on the grass, so that it would be difficult to penetrate in those thumbs without stepping on the flowers and smashing them completely. The cemetery was lively. The sun fell directly on a tree that knit nets of black branches on the bright marble. The sound of a flute in the street lent it an atmosphere of the Garden of Delights.
To reach his apartment it was necessary to beat six gigantic flights of stairs, high enough for an athlete. “This is good, it keeps me in shape”- he commented, while I puffed behind him. To come in it was necessary to wait for a voice sunk into a bathtub to give us permission to get in the room. When I saw a room that could be barely called an apartment, my heart sunk and fell sorry for him. Poor one! To live in a sofa all in rags, in the middle of the room! Everywhere men’s underwear, tennis shoes, socks and pictures mixed up to paint and photographs at normal size. Fortunately there was no cat to mix up its smell to that visual chaos. I imagined mice and cockroaches inhabiting the same space as him, but I did not want to think very deeply on that. The television, always on, showed a phlegmatic tennis set. A nice breeze came from the window, where a fire escape staircase projected above New York City. From there one could see my two immense favorite trees: the two metal towers that changed color and aspect depending on the weather and season. Their tree-tops faded in the smoke of their more than hundred stores and received the earth-juice through their powerful elevators. Sometimes they were radiant with sunshine, sometimes they were unhappy, depending on the result of the Stock Exchange.
He changed his clothes, throwing the dirty ones below the table. Seeing my gaze of amazement, he commented: “Now you know it all.” He also changed his sunglasses. At every corner he bought new sunglasses, each time darker and more insane, cheaper and “made in Taiwan.” That day the sky was blue and had crystalline limpidity, which at least justified his sunglasses. But why wear them at night?
From underneath the sofa he took out a white poster, covered with glass. There, letters in nankeen announced his exhibition the previous year, providing titles to several surfaces of yellowish color, which were very hard to define.
“What is this?”- I asked him.
“ This is a poster announcing my exhibition.”
“This I know. But what kind of exhibition?”
“Skins. Human skins. It was a very tough work. I lay down for hours in the sunshine until my skin got loose, so that I could use it in one of my works. I also ran after people, when they left the beach on a very sunny day, begging them to let me pull at least one little layer of skin from their back, until I could complete 40 pictures made of human skin. Real maps of life.”
“And did you sell a lot?”
“No! Not one picture was sold! People left horrified, with their hands to their heads!”
“Which shows how difficult it is the conviviality of humanity with human nature.”
For a moment, thinking where he had left something, maybe a checkbook or a pack of cigarettes, he stopped by the table against the light. I felt a thrill. It is as if the beautiful figure of Prince Charming had materialized, the mysterious Dorian Gray, appeared before me. Or would it be the Happy Prince, from the height of his socket, deprived of his sapphire eyes, taken away by a sparrow? I had the impression that he, while stepping towards the window, where he stopped and turned to me, would continue to look at me forever, even when blind, even if through his heavy sunglasses.
Little by little I noticed that I did not need to talk for him to guess my wishes. It was comfortable and amazed. One day he exclaimed: “What should we do this morning is to spend the day out, in a park!”- and this was exactly what I would love to do and had been thinking for the whole week. After getting to a bench in the park, he asked me if I would not like to place my head on his lad, and “Wow!” how could he guess? Before all this he only smiled, as if he knew what I did not know: the mystery hanging in the air.
My contacts with my Blond Apollo became more and more amalgamated. We lived one reality inside the other. One always openly sunny, the other only hinted at. His femininity, for example. Such a constant theme when men unmask their repressed sensibility sometimes seemed to me excessive. The syndrome of the century: a narcissistic hedonistic sex in which all tried to find only the image that would not hurt or deviate from the same in the other. Sex had neither frontiers nor divisions. His kisses burned me and froze my face, covering me with fright and passion. As if he tried to suck me to his inside – an experience that one only feels with his primitive mother and which we thought we had forgotten and which she malevolently reenlivens in the baby-feeding act. And, according to him, we walked at the brim of an abyss, suffering from the “extremes of life and emotions.”
I commented that his beauty was perhaps excessive for daily life, feeling me much incapable to any kind of reciprocation, but he contested: “Don’t worry, your beauty is all in your soul, and it is your soul that interests me in you. It comes out from all your pores, and from your eyes, and from your mouth, when you smile. Then you transform yourself completely and become ageless, and only then become and is forever.” – I confess that I felt flattered, but at the same time worried; was my body then decrepit and horrible? I was only tranquilized when I recollected, with my sparse arithmetical knowledge, that the “reciprocate is not always true,” and tried not to think on the subject anymore. What is love, afterwards, if not a brief passing moment, transient as life itself and is undone as soon as it is touched? Women, as Lord Henry used to say, with their mania to plan and worry about the future, destroy the germ of love in its source. An act of self-immolation, of masochism, I would add.
In spite of my attempt at self-control, each day I felt nearer my Enchanted Prince, or maybe the image that he projected on me, at light speed. I walked at his side with a jumpy step, while he had big footsteps, indifferent to his flat feet, and I felt lifted above the noise and the confusion of pizzas, tequilas, milk-shakes and sushi-bars, stifling subways, all kinds of cheap trifles sold on the sidewalk. I hovered above it all in the clouds, among pairs of seagulls, there where the armadillos and turtles lived, in a far-away Sky Party.
I spent more and more time at his laboratory of holography, those strange bright three-dimensional photographs made with laser beam. He began to visit me at dawn, and many times before dawn he left running so that his holograms could have a correct exposure time to certain chemical substances. The plates captured the reflected dimension of energy in the balance existing in every body and reproduced the objects in their form of light. Thus he explained to me in the laboratory and chose the substances that he would employ in his next development, always tending to purple, orange and yellowish tones: gold, blood, light. The other side of image – for thus were the objects pictured. When they were ready, they lay in the space, defying Newtonean physics, animated by a light beam. Without this, the photo would disappear forever. But in a dark environment, with light coming from behind, images glittered as in the haunted light of an amusement park.
I felt embarassed to admit that those lessons on the process of holography tired me as much as my classes of Organic Chemistry at school. I only understood the general philosophical meaning of it, and even amused myself in finding sentences of Cabalists who had already foreseen that process of transforming matter, antimatter and atoms. He gathered the small pieces of paper with the quotations that I gave him, put them inside a briefcase and said that one day he would write an article about all that.
A nightly being in a modernized medieval laboratory, he spoke to me, in ernst: “From darkness there came light – as states the Bible. – This is what we are, light, not matter; light, loose energy floating in the air. Unstable as light beams, but in a much higher density than these holograms. – And as if to prove his theory, he crossed these floating images with his hands, fantastic photos that disappeared with light.”
Listening to all these theories on light reflection and incidence, I asked myself why he only photographed solid objects, which had no interest whatsoever.
“Well,” – he commented, with a doctoral air – “this is due to the present stage of the development of holography… It is a question related to atoms, molecules, loose cathodes…”
“But I don’t see how grapes can be less unmoving than a steel box.”
It was useless. I insisted. I bought one pound of red and green grapes and gave them to him. Dawn was barely approached. It was a Sunday. He became happy with the idea of making this experience and threw himself out towards the Sunday antiquity fairs that spread on the streets of Tribeca (Triangle below Canal Street). He explored them buying all kinds of trifles: sunglasses (particularly), silver food-pushers (for children), 78-rotation records (in the era of laser), nostalgic tapes. From there he brought quite a kitsch glass plate from the 1950s and, very excited, he locked himself in the laboratory to do another experience with the grapes holography.
(I finished by thinking that my idea was not that good, after all).
He locked himself in his lab for days, a dark cubicle, and afterwards he told me that the photo was a success. But the truth was that I never managed to see that hologram of the grapes – which did not hinder us from discussing it for hours on end in yuppie Chinese restaurants, tasting a Peking duck or in Italian cafés, drinking coffee late in the morning.
He also showed three-dimensional photos of the Luray Caves taken with a Russian light hand camera to me. Very interesting. And there was that three-dimensional photo in which he photographed me on the mirror while photographing his image on the mirror photographing me. It was in Chinatown, very near the metal towers, my favorite trees in New York City. And near the street where, in a perhaps unusual gesture, he, paler than ever, pulled me by the hand to cross the street among the cars. How romantic I found that! (It is true that it was only to reach a bank open).
I was once horrified to see the body of one of his faithful helpers reproduced in a shiny green and red hologram, all cut by muscles, tissues and excessively tense ligaments. The devoted woman had exposed herself directly to the effects of the laser beam only to allow him to obtain that horrible experience! A hologram of the inside of the human body!
“Never mind”- he explained in a tone that seemed to be unbearably controlled. – “This is done in a harmless intensity for the human body. As if to contradict him, a black cat he used to feed suddenly jumped out from a corner in the lab, in a sad omen.
In a certain way it was strange that to live his modern Monetian theory he had to lock himself every night in a dark cubicle. When I asked him if he was not working too hard, he justified himself:
“Well, at least it is better, as a job, than to be paid by the hour selling on the telephone deodorizing crystals to put inside the thoraxic chest of the deceased, inside the coffin.”
“What? Did you do that?”
“Yes, I did! You sell it on the telephone! They make an incision inside the deceased’s chest and insert the deodorant.”
We were then approaching Madison Square Park, on East 23rd, between the Fifth and Madison Avenues. In truth we had planned to go for a nice walk as far as Central Park, but, to my frustration, due to his tiredness, after we lunched octopus at a chicano restaurant on West Eight Street we emerged in that noisy park surrounded by buses and pollution. He smiled with a specially pale face and deep shadows under his eyes, and I suspected that he did not always spend his evenings at the lab. On that afternoon he confessed to me, before the Church of Transfiguration, that my suspicions were not without a motive.
All that took place on that afternoon when I photographed him with my prosaic Nikkon F-2.
One evening we were walking past his house, and a very beautiful full moon, outlined the metal and brick trees with windows, where vases of flowers lay. Shadows appeared behind the closed window-panes, lit from behind, by the television light, looking like puppets gesticulating towards the air. We talked about a music that was in fad. I suggested that we should go up the stairs to pick up a tape to listen to it immediately in his walkman. He became intensely restless. “No, no” – he reacted, vehemently. I was immediately intrigued. “Why not?” – I asked. “Because there may be too many people up there at home.” I looked up to the last floor where only one little window in the attic filtered an emaciated light. “Your friends must be listening to music right now.” He changed the subject, showing a growing restlessness. He either proposed that we should walk to the bars at Saint Mark’s Place, or, giving up drinking, he suggested going for a walk, showing an unusually nervous behavior for him. He lit up several cigarettes that he extinguished half smoked. And, looking at his hands, he repeated: “I need to stop smoking, I need to stop smoking” – as if he were a convict. All the while, his voice seemed perfectly calm. He seemed to live at the same time two contradictory feelings – as if his body did not obey to his will or to an inner drive.
Seeing that he was exceedingly restless, I blamed it at the full moon. I was always told that it influences the sensitive souls, taking out their sleep and endowing them with a strange power of communication with unknown dimensions. When I finally proposed that we should go to my place, I noticed that he felt great solace then. I do not deny that it pleased me to acknowledge this, that even having the largest flower-bed city at hand, he preferred to cultivate my little small garden.
It was already two in the morning when we arrived at my place. As usually, we would certainly wake up very late, when he would lock himself in the lab (our record was a Sunday on which we slept until four thirty in the afternoon). It was an underground life of guerilla and bandit hiding-places, but I confess that I did not like it, and I finished my upbringing as a nocturnal but happy being.
I offered him tea. He accepted it, but in truth he was much more interested in the candles that he carefully lit as if for a ceremony. I feared a fire in the centenary apartment, as it had occurred in the previous week, on the other side of the street, a frightening experience of being a mouse trapped behind fenced windows. I commented on the danger, but he only said pssst with a finger on his lips, and added: “Take it easy, nothing will happen.” I limited myself to observing him without any comment, waiting for the sad whistle from the kettle that announced the boiling water. (“When the whistle of the factory of fabric come hurt my ears…”) Ah! Noel Rosa’s samba, so shiny. Who knows if life would not be simpler if I were a worker with her manager, while that popular samba composer played these notes for me on the piano? No, the bourgeoisie always has these dreams of sophisticated fantasies, as if the poor did not also face problems, immersed in the stupidity to which rich has relegated them.
Stark naked, he went on lightening candles all over the house, especially in my bedroom, and he radiated as if in a dream: a saint coming out of a shrine. He pulled me to bed, which was surrounded by candles, and under the oscillating light I thought that I saw in him more than one person. He always presented more than one face: a face from a dead or lost in time past, someone who had remained in the recollection but retired from this world, sometimes a mischievous face with a half-face of Lucifer, a half-face of an angel of light: before and after fall. When he lowered his eyes or raised up my face, his profile went through a metamorphosis of one thousand personalities and effects. Or would it be the result of my imagination? In truth I did not know who I had in my arms. Besides the fact that no one ever gets to know anyone, that was a person whom I had run into by chance, on a casual encounter, introduced by superficial acquaintances.
I could not imagine what his intention was that night, or the reason for that ritual, while I, in bed, smoothed his silken skin, soft as plush, made rose-pink in the candlelight. Did he prepare some surprise in contrast with our sweet and deep practices? (I confess that a second reading of the Kama-Sutra ten years later provoked a great disillusion on me – except for a few athletic positions impossible to perform).
No, it was no Kama-Sutran dream of holding me upside down or in a sea-saw position against the wall; he began to caress me slowly, and I corresponded to it, smoothing his skin from the feet soles to his man’s nipples, which were more fascinating than women’s, because they were more discreet and subtle. We treated each other as equal, except in one detail that completed us.
While he put his hands forward to my hair, holding them up, I thought that I had seen my face surrounded by an aura of shadow and light – probably only the consequence of the candlelight. His eyes presented a glassy coloring, and the crystal-blue had changed into violet – as his holograms always did. I do not know why, this made me recollect of gypsies in an open air scene on a lawn.
His eyes shone as if in the Dream Lake of the Luray Caves. I began to walk amongst the red stalactites, and approached flying, in a low flight, the blue waters of the inner lakes. I felt immerging slowly, but this did not affect the immovable surface of the waters, engulfed by their deep and dangerous infinitude that contained all the epochs.
I began to think that he was a product of my imagination, or worse, of my nightmares, in which shadows invaded my bedroom and pulled me violently out of bed, pushing me inside a coffin. Perhaps I had read too many Celtic tales or tales of horror. Who was that man? Where did he come from and how did I meet him? He was not an ever-brother, from the same tribe, by whom we are born already marked by a family-half, but rather a product of chance. Perhaps my own idealization? He one whom I would like to be? A continuous projection of holograms changing at my will?
Little by little while these questions formed in my mind, barely bubbling at the conscious surface, it seemed to me to distinguish a long road that departed from a scenery of a gypsy camp and went down an abyss over on the sea. I felt that I was going to utter a shriek of horror when a sudden lightness, the fluctuation of flying elevated me in space, and, clinging to him I crossed the continents as if I saw the Earth from above, from the Moon, in the most absolute silence, eternally.
He held my hair upwards, having a strange scintillation in his eyes. In the mutual immobility I felt him as part of myself, inside me, as if he was I. My heart beat strongly, throbbing in the veins of my neck. My hands tightened in his arms and the initial tenderness had gone, replaced by trembling and an intensity that was almost painful. Little by little drops of sweat formed in my hands, and our temperatures went up. My hands reached to him as if there was a danger of his suddenly projecting us in the infinite abyss, where sharp stones waited for us at the bottom of the sea. I thought that I could never get loose from his arms, and I also did not want that. Immobile, glued one to the other, we became a statue above which eternity seemed to be hanging. There was a luminous intensity spread all over the bedroom. We did not know anymore whether it came from the candlelight that oscillated or if reality failed around us. Now he held my hair more strongly, almost hurting it in the roots, but I did not have sufficient courage to scream or complain. Then I perceived, although he did not say anything, the image of his voice that came to me I did not know how: “Let me,” he said, but without opening his mouth. I trembled. But with the calm of a wave that prepares to break, attracted by that moment of fluctuating eternity that would never cease, or, if it ceased, would had been worth it, I felt that all my inside went out of my head. And, although I did not open my mouth as well, and said nothing, but making sure that he had heard my “yes,” in a secret and mysterious marriage, our heads approached and at the same time we gave ourselves to a pleasure without any movement or effort, in a painful jet of immense pleasure, his teeth thrust in my jugular, as if my neck was made of butter. Slowly we flanked the abyss, towards an island on the other side of the ocean, in an exotic mirage filled with forests and canoes, rivers and hissing sugar-canes. There we glimpsed the cave where he had prepared an already open coffin, the same coffin with which I had been dreaming for all those years in which I had already waited for him without knowing it.

Translated by the Author





Bio fornecida pelo palestrante.

O Banquete de Antinoos




Autor: Luiza Lobo
Título: The banquet of Antinous, Das bankett von antinoos, O Banquete de Antinoos
Idiomas: deu, eng, port
Tradutor: Marco A. de Oliveira (eng)
Data: 29/12/2004

DAS BANKETT VON ANTINOOS

Luiza Lobo

Neusa war eine gutsituierte berufstätige Frau, eine sehr ernste Strafverteidigerin. Sie war so ernst, daß viele sie auslachten, besonders die Laufburschen und Putzfrauen, einfaches Volk, modernere Menschen, die es ihr anmerkten, wie démodée ihr Verhalten war. Das waren diese Leute, die ihre kleine Stände am Ende des Korridors des Tribunals aufbauten, um Kondome, Schmieröl??Gleitmittel? und besonders anregende chinesische Salben zu verkaufen.
Neusa hatte geheiratet, weil sie es brauchte, psyschisch. Sie haßte es, wenn sie sich einsam und hilflos fühlte, weil sie bald schon über 40 sein würde. Nelson ist ihr zur richtigen Zeit erschienen. Er sieht sogar gut aus, nur ein bißchen gaunerisch??? – außerdem müßte er nicht so laufen, mit den Füßen nach außen gedreht, wie um zehn vor zwei, den Schuhe an die Seiten zertretend. Und er müßte damit aufhören, sich in Kaufhäusern einzukleiden; aber er ist ihr treu, oder er sagt es, und sie ist sehr glücklich; er ist nicht reich, oh, das nichts, aber man kann sich nicht so viel wünschen; Gesundheit ist ihr genug, und Geld verdient sie mit ihrer Arbeit. Wo einer ißt, essen auch zwei, ja, das Alter ist bereits vorbei, um Kinder zu bekommen, man braucht nicht viel Geld, nur eventuell ein Wochenende auf den Bergen, ein Abendessen bei Kerzenlicht, einmal in der Woche, ein Theaterstück und ein Film wöchentlich und einige Kosmetikprodukte, inklusive ein Fläschen importiertes Parfüm, ein Haarwaschmittel von der Marke, die frisch auf dem Markt ist, etwas modernes make-up, solche Sachen. Aber sie ist nicht oberflächlich, man kann sie nicht als oberflächlich bezeichnen, aber nach 40 muß man sich ein bißchen mehr pflegen, nicht wahr? Wichtig ist, daß sie verheiratet ist. Verheiratet! Sie kann aus dem Tribunal kommen und die Pantoffeln und einen Bademantel anziehen und sich ausstrecken, neben jemandem, der nur ihr gehört! Gewiß, sie bringt auch Akten mit nach Hause, ganz dicke, die ihre ganze Aufmerksamkeit verlangen, und es ist schwierig, sie zu analysieren, während er den Fernseher anhat und eine Seifenoper nach der anderen sieht, danach will er ein Süppchen haben und der Abend vergeht so und sie hat noch fast keine Akte gelesen, und am nächsten Tag ist die Verhandlung mit den Parteien. Aber es ist schön zu sehen, daß die Monate vergehen, ohne daß etwas Außerordentliches passiert! Nichts. Bis zu dem Tag, wo ihr ein Gedanke durch den Kopf geht: Ihr Mann ist ihr nicht treu. Wieso hat sie das nicht vorher gemerkt? Alle Männer, die Frauen heirateten, die über 40 und reicher waren als sie, waren ihnen nicht treu. Logisch. Logisch. Sie fängt an, sich gehen zu lassen. Sie zieht es vor, ihn zu beobachten. Sie findet es verdächtig, daß er nach der letzten Seifenoper ausgeht, um Zigaretten zu kaufen. Da sie aber sehr schläfrig ist, weiß sie nie, wann er wieder ins Bett geht. Die sexuellen Kontakte werden rarer. Alles wird suspekt um sie herum. Deswegen ist sie Strafverteidigerin geworden. Da ist etwas faul. Eines Abend entschließt sie sich, ihn zu verfolgen, nach der letzten Seifenoper. Sie fängt auch an, kleine Einkäufe zu machen, entweder eine spezielle Zeitung am Kiosk am Ende Leblons, oder ein schwarzes Brot weiß-ich-nicht-wo. Sie ist unruhig, schlecht angezogen. Sie findet, daß die Augenringe sie noch älter machen. Sie ist todmüde bei der Arbeit. Fühlt sich unsicher.
Dann kommen die kleinen schriftlichen Nachrichten. In Wirklichkeit sehen sie sich kaum noch. Es ist nicht absichtlich. Aber tagsüber arbeitet Neusa. Und nachts geht Nelson Zigaretten kaufen. Sie macht sich nicht mehr die Mühe, zum Abendessen hochzugehen. Sie ißt zu Abend bei McDonald’s, gleich gegenüber, noch in Arbeitskleidern – von dort aus kann sie ihn beobachten, wenn er nach der Seifenoper ausgeht. Deswegen bleibt sie bis spät bei der Arbeit, und überprüft Akten. Sie hat sich daran gewöhnt, ein Paar flache Schuhe mitzunehmen, für den Nachtlauf. Sie entdeckt, daß er in viele Nachtclubs hineingeht. Meistens gibt sie auch und wartet nicht auf ihn, so müde ist sie. Sie verliert einen Fall, weil der Mörder der Sohn von einem wichtigem Menschen ist, und sie nicht in der Lage war, den Fall gegen das Netz der brasilianischen Vetternwirtschaft genügend zu begründen. Sie fürchtet sich vor der definitiven Demoralisierung in den Anwaltskreisen. Sie war zu naiv, hat dem Fall nicht genügend Aufmerksamkeit geschenkt, macht sich jetzt Vorwürfe. In der Zwischenzeit läuft der Schuldige frei herum, fährt sein importiertes BMW. Es ist empörend. Was ist denn das für ein Land? Es ist ihre Schuld, denkt sie. Morgens geht sie früh aus dem Haus, und läßt ihn wie einen Engel schlafen. Sie diskutieren nie darüber, was passiert. Samstag und Sonntag verbringen sie mit Tennisspielen, Schwimmen, Abendessen und Theaterabenden, und sich unterhalten geht eben nicht. Dieses unruhige Leben heutzutage! An einem Samstag, an dem er am späten Nachmittag nach Petrópolis fährt, unter irgendeinem Vorwand, bereitet sie sich vor, ihm zu folgen. Sein Auto – allerdings ein Geschenk von ihr – gleitet in Richtung Alto da Boa Vista. Sie verfolgt ihn und hält einen großen Abstand. Er bremst vor einem Tor, in der Höhe von Furnas. Hupt dreimal. Das Tor wird von einem Diener mit Handschuhen geöffnet. Sie hat weit weg geparkt und wartet im Auto. Aber er fährt nicht mehr raus. Sie läßt das Auto einfach so stehen und nimmt sich vor, zu entdecken, was auf der anderen Seite der durch hohe Pflanzen geschützten Mauer geschieht. Es war doch nicht umsonst, daß sie fast das ganze Leben gelernt und studiert und diverse Spezialisierungskurse in Strafverteidigung gemacht hat. Sie dringt in das Haus von der Gartenseite ein, springt über eine niedrige Mauer. Die Temperatur ist sehr niedrig, weil der Wald so nah ist. Beinahe stolpert sie am Ufer eines Sees, so dunkel ist es. Sie hat große Angst. Von weit weg kommt eine anziehende Musik, die an arabische Lieder – wie beim Bauchtanz – erinnert, nur etwas langsamer. Sie ist von der Ruhe des orientalischen Stils des Gartens fasziniert, der irgenwie zen ist, sehr einfach und sauber, aber sie ist nicht vorbereitet auf die Szene, die sie durch das Glas der Veranda erblickt, worauf sie stößt, so groß ist der Schrecken. Eine Reihe von nackten Männern spielt kleine Elefanten, schleicht auf den Knien über den persischen Teppich im Wohnzimmer, bei Bauchtanzmusik. Als ersten der Reihe sieht sie den Schnurrbart ihres Mannes, der seine Anhängsel zeigt, an denen der zweite kleine Elefant hängt! Er schwankt, stößt an einen Aschenbecher auf dem Metalltisch, der Aschenbecher zerbricht auf dem Keramikboden der Veranda, der Lärm verrät sie, und sie kann nicht einmal laufen, so groß sind die Angst und die Verwirrung. Sie merkt, daß jemand Hunde freigelassen hat, sie kann nicht schreien, ihre Stimme bleibt im Hals stecken! Die scharfen Hunde kommen näher in der Dunkelheit, kommen in ihre Richtung – sie spüren ihren Geruch, den Geruch einer Frau, so anders als das Übliche hier, es sind trainierte Hunde, sie hat keine Kraft, um den Tisch, der auf sie gefallen ist, zu heben, der erste springt an ihren Hals, ein anderer zerreißt ihre Kopfhaut, ein Auge rollt durch die Veranda, Zähne zermahlen ihr Bein – und zerreißen ihre importierten Nylonstrümpfe. Und inmitten von Knurren, Geheule, hört sie, daß die Schiebetür der Veranda geöffnet wird, erkennt den sehr gut bekannten Schnurrbart, und fühlt sich in das All versetzt, während eine weibische Stimme schreit: Ruhig, Ninja! Ruhig, Schwarzenegger! Ruhig, Tarzan! Ein durch das verbleibende Auge – voller Blut – erblickter Mond, beleuchtet das Gesicht mit dem Schnurbart. Er hält sie jetzt in den Armen, leicht, in seinen starken Armen; für einen Moment träumt sie von ihren Flitterwochen, leichte Feder, die das Grasfeld überquert. Schade ist nur, daß der Schmerz unerträglich ist, aber es ist ein Mond aus Blut, während er sie davonträgt, weil er ihr den Hals quetscht. Im Wasser, die roten und goldenen Fische vom japanischem See verwandeln sich in Piranhas, die den Rest ihres Körpers zerfleischen, und nur die nackten Knochen übrig lassen.

THE BANQUET OF ANTINOUS

Luiza Lobo

Neusa was a successful professional, a very serious criminal lawyer. She was so serious that many laughed at her, especially the office runners and cleaning women, everyday people, who saw how old fashioned she was. And then there were these people who put up stands at the end of the hallway just outside the courthouse, selling condoms, oil lubrificants, and especially arousing Chinese ointments.
Neusa got married because she needed to – psychologically, at least. She was horrified by the thought of feeling lonely and abandoned, for soon she would be in her forties. Nelson appeared to her at just the right time. He was quite presentable, only a little rough around the edges; for example, he didn’t need to walk with his feet pointing outward. And he needed to stop with that habit of dressing in department stores. But he was faithful to her, or at least he said so, and she was very happy. He wasn’t rich, not at all, but she felt that at this point she couldn’t really ask for too much. She was content with just being healthy, and she made enough money to live comfortably with her job. Where one eats two eat. Oh, she was past the age of having kids, so a lot of money wasn’t necessary – only a weekend trip to the mountains every now and then, a candlelight dinner once a week, periodic visits to the theater, the movies, and of course a few necessary items for her toilette, such as imported perfume, the newest shampoo brands, some new make up, things like these. She was not frivolous, and was never taken to be. It’s just that, at 40, one needs to take a little more care of oneself, right? What was important was that she was married. Married! She could arrive from the courthouse and put on a pair of slippers and a robe after her bath and sprawl out next to someone that was all hers. It was true that she brought legal processes home her workload was excessive and demanded all of her attention and It was very difficult to analyze and with the television turned on. He would watch one program after another, then ask for some soup, and the night would go on like this, without her having read almost anything. The next day there would be a hearing with all the parties involved. But it was great to see the months passing by without anything extraordinary happening. Nothing!
Then one day an idea crosses her mind: her husband is not faithful. Why hadn’t she realized this sooner? All men who marry richer women over 40 aren’t faithful to them. Of course, of course. She begins not to care much for her make up; she prefers to check up after him. She thinks it is suspicious that he goes out after the last TV show to buy cigarettes. Since she is usually very sleepy, she never checks what time he comes back to bed. Their sexual relations are scarcer. Everything becomes suspect around her. It is precisely for this reason that she had studied Criminal Law. One night she decides to follow him after the last show is over. She also pretends she has to do a little shopping, a special newspaper at the newsstand at the end of Leblon, another night a loaf of stale black bread from who knows where. She becomes more agitated, restless, and dresses carelessly. She feels insecure, can hardly stay awake at work, and shadows grow under her eyes, adding a few more years to her age.
Neusa and Nelson begin to leave each other notes. Eventually, they seldom see each other at all. However, it is not on purpose. During the day, Neusa works. And at night Nelson goes out to buy cigarettes. With Nelson out she doesn’t even bother going upstairs to eat dinner anymore. She eats right after work at the McDonald’s across the street. From there, she can spy on him when he leaves after the show. She stays late at work looking over legal processes. She acquires the habit of bringing a pair of low-heeled shoes with her for the night chase. She discovers that he goes into nightclubs. Most of the time she doesn’t have the energy to wait for him to leave. This affects her work. She loses a case because the assassin is the son of somebody influential. Actually, she didn’t establish her case well enough. She fears complete demoralization in her legal circle. She had played naive and didn’t give enough attention to the case, and now she condemns herself. Meanwhile, the guilty one is loose on the streets, with his imported BMW. It was revolting. What kind of country is this? She blames herself. In the morning, she leaves early, while he sleeps like an angel. They never discuss what is happening. Saturday and Sunday are spent amongst tennis matches, swimming, dinners and plays, and it is really almost impossible to talk about anything. Life is so agitated these days!
On Saturday afternoon, when he was going to Petrópolis, with whatever excuse of his, she prepares to follow him. His car – actually, a present of hers – glides in the direction of Alto da Boa Vista. She follows him at a distance. He brakes in front of a gate, near Furnas. He honks three times. A butler wearing gloves opens the gate. She waits inside the car, parked at a safe distance. But he doesn’t come out anymore. She leaves the car where it is and decides to find out what is happening on the other side of the wall, protected by thick vegetation. It wasn’t for nothing that she had studied her entire life taking various specialized courses in Criminal Law, all right! She penetrates by the garden, jumping over a short wall. The temperature is cooler because of the forest nearby. She almost trips over the ledge of a pond in the darkness. She is very afraid. From afar, a faint sound of music comes to her ears. It reminds her of Arabian music, as if for belly-dancing, in its slowest form. She is taken aback by the tranquil arrangement of the garden. It has a Zen flavor – very simple and clean. She is in no way prepared, however, for the scene she witnesses through the window of the veranda, which causes her to stumble, such was the shock. A line of naked men playing elephant, dragging on their knees across a Persian rug to the sound of belly-dancing music. In the lead is her husband´s mustache, who has other trinkets showing, by which the second elephant holds on! She staggers, and stumbles over a metal table. An ashtray shatters into pieces on the tile floor of the veranda, the noise betrays her, and she is paralyzed from dread and bewilderment. She realizes that someone has let the dogs loose, and she can’t scream, her voice gets caught in her throat! In the dark the guard dogs approach, coming in her direction, sensing a different smell than usual, her woman’s scent. They are trained breeds, and she isn’t strong enough to lift the table that had fallen on her. The first one jumps at her throat, the other rips into her scalp, one eye rolls on the veranda, and teeth take pieces out of her leg – her imported pantyhose is torn to shreds. In the middle of the growls and snarls that lacerate her, she hears the sound of the veranda door sliding open, recognizes a well-known mustache, and feels herself being lifted up while a womanly voice shouts: Quiet, Ninja! Quiet, Schwarzenegger! Quiet, Tarzan! Bathed in blood, the eye that remained glimpses at the moon, which illuminates the face with the mustache that now holds her, light, in his strong arms; for a moment she reminisces over her honeymoon, light as a feather crossing the grass. What a pity, such unbearable pain, but now it is a bloodymoon. As he carries her away, he squeezes her by the throat. In the water, the red and gold fish in the Japanese pond become piranhas that finish off devouring the meat, leaving only bare bones.

Translated by
Marco A. de Oliveira
____

(*) Lobo, Luiza. O banquete de Antinous. In: —. Sexameron. Novelas sobre casamentos. Contos. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997. p. 19-23.
Luiza Lobo teaches Comparative Literature and Theory of Literature at the Federal University of Rio de Janeiro. She is a translator of Virginia Woolf, Edgar Allan Poe, Jane Austen and others, and she has published five books of short stories: Por trás dos muros (1976), Vôo livre (1982), A maçã mordida (1992), Sexameron (1997) e Estranha aparição (2000).
Email: litcult@infolink.com.br
Marco de Oliveira graduated in Religious Studies from the University of South Carolina Honors College and is currently preparing for his graduate work in Comparative Literature.
Email: mahaviira_marco@hotmail.com

O BANQUETE DE ANTINOOS

Luiza Lobo

Neusa era uma profissional bem-sucedida, uma advogada criminal muito séria. Tão séria que muitos chegavam a rir dela, principalmente os mensageiros e faxineiras, gente do povo, mais moderninha, que percebe como ela era démodée em seu comportamento. Dessa gente que monta barraquinhas de camelô no final do corredor do tribunal, vendendo camisinhas, óleos lubrificantes e pomadas chinesas especialmente excitantes.

Neusa se casou porque precisava, psicologicamente. Tinha horror a se sentir sozinha e desamparada, pois logo ia passar dos quarenta. Nelson lhe apareceu em boa hora. Até que ele é bem apessoado, só uma pontinha cafajeste – além disso, não precisava andar com os pés ligeiramente abertos, tipo dez para as duas, calcando lateralmente os sapatos. E precisava terminar com aquele hábito de se vestir em lojas de departamentos. Mas ele lhe é fiel, ou assim o diz, e ela está muito feliz, não é rico, oh, isso não, também não pode querer muito. Saúde já lhe basta, e dinheiro ela obtém com seu trabalho. Onde come um, comem dois, oh, já passou da idade de ter filhos, não é preciso muito dinheiro, só um fim de semana eventual nas montanhas, um jantar à luz de velas, uma vez por semana, um teatro e um cineminha semanais e algumas comprinhas para a toalete, incluindo um perfuminho importado, um xampu de marca recém-lançada, alguma maquiagem nova, coisas assim. Mas ela não é fútil, não a tomem por fútil, é que depois dos quarenta é preciso caprichar um pouco mais, não é mesmo? O importante é que está casada. Casada! Pode chegar do tribunal e colocar chinelos e um roupão após o banho e se espreguiçar ao lado de alguém só seu! É verdade que traz processos para casa, são gordíssimos e requisitam toda a sua atenção, e é muito difícil analisá-los enquanto ele tem a televisão ligada e assiste a uma novela atrás da outra, depois pede uma sopinha e a noite vai assim e ela não leu quase processo nenhum, e no dia seguinte haverá audiência com as partes. Mas é bom ver os meses se passarem sem que nada de extraordinário aconteça! Nada. Até o dia em que uma ideia lhe cruza a cabeça: seu marido não lhe é fiel. Como não percebera isso antes? Todos os homens que se casavam com mulheres de mais de quarenta anos e mais ricas do que eles não lhes eram fieis. Lógico. Lógico. Começa a descuidar da maquiagem. Prefere espreitá-lo. Acha suspeito que saia após a última novela para comprar cigarros. Como ela tem muito sono, nunca verifica a hora em que ele volta para a cama. Espaçam as relações sexuais. Tudo se torna suspeito a sua volta. Por isso estudou advocacia criminal. Aí tem dente de coelho. Uma noite resolve segui-lo, após a última novela. Ela também dá para sair para fazer comprinhas, é um jornal especial na banca do final do Leblon, é um pão preto não sei onde. Está inquieta, mal vestida. Parece-lhe que as olheiras aumentam sua idade. Morre de sono no trabalho. Sente-se insegura.

Começam os bilhetinhos. Na verdade, já quase não se encontram. Não é de propósito. Mas de dia, Neusa trabalha. E de noite, Nelson sai para comprar cigarros. Ela nem se dá ao trabalho de subir para jantar. Come no McDonald’s em frente, ainda vestida com a roupa da rua, de onde pode vigiá-lo quando sai, após a novela. Por isso, fica no trabalho até mais tarde, conferindo processos. Adquiriu o hábito de levar consigo um par de sapatos baixos, para a corrida da noite. Descobre que ele entra em muitas boates. Na maioria das vezes, desiste de esperá-lo sair, de pura exaustão. Perde uma causa, porque o assassino é filho de alguém importante e ela não fundamentara a causa suficientemente para enfrentar a rede de compadrios brasileira. Teme sua desmoralização definitiva no meio advocatício. Bancou a ingênua, não deu suficiente atenção à causa, condena-se. Enquanto isso, o culpado fica solto na rua, com sua BMW importada. Era revoltante. Que país é esse? A culpa era dela, pensava. De manhã, ela sai cedo, deixando-o adormecido como um anjinho. Nunca discutem o que está acontecendo. O sábado e o domingo são passados entre jogos de tênis, natação, jantares e teatros, e quase não dá mesmo para conversar nada. Esta vida tão agitada de hoje em dia! Num sábado em que ele vai a Petrópolis ao entardecer, com uma desculpa qualquer, ela se prepara para segui-lo. O carro dele – presente dela, aliás – desliza na direção do Alto da Boa Vista. Ela o segue a grande distancia. Ele freia diante de um portão, na altura de Furnas. Buzina três vezes. O portão é aberto por um mordomo de luvas. Ela estacionara o carro a distancia. Fica aguardando dentro do carro. Mas ele não sai mais. Ela larga o carro por ali mesmo e resolve descobrir o que se passa do outro lado do muro protegido por alta vegetação. Não foi à toa que estudou a vida inteira e fez diversos cursos de especialização em Advocacia Criminal, ora. Penetra na casa pelo lado do jardim, pulando um muro baixo. A temperatura está bastante fria, devido à floresta próxima. Quase tropeça na beirada de um lago, tal a escuridão. Sente muito medo De longe, vem uma música insinuante, lembrando canções árabes do tipo dança do ventre, na sua forma mais lenta. Está tomada pela tranquilidade do arranjo oriental do jardim, que tem uma faceta zen, muito despojado e limpo, mas não está nada preparada para a cena que avista do outro lado da vidraça da varanda, em que esbarra, tal é o susto. Uma fila de homens nus brincam de elefantinho, arrastando-se de joelhos sobre o tapete persa da sala, ao som da música do ventre. Puxando a fila estão os bigodes de seu marido, que tem outros penduricalhos à mostra, aos quais se agarra o segundo elefantinho! Cambaleia, esbarra num cinzeiro sobre a mesa de metal, o cinzeiro se espatifa no chão de ladrilho da varanda, o estardalhaço a denuncia e nem consegue correr de tanto pavor e atordoamento! Percebe que alguém soltou cachorros, não consegue gritar, sua voz se prende na garganta! Aproximam-se cães filas no escuro, vêm em sua direção, sentindo o seu cheiro de mulher, diferente do habitual ali, são filas treinados, ela não tem forças para levantar a mesa que caiu sobre ela, o primeiro salta em sua garganta, outro lhe rasga o couro cabeludo, um olho rola pela varanda, dentes estraçalham sua perna – rasgaram sua meia de náilon importada. Em meio a rosnados, uivos, dilacerando-a, ouve o ruído da porta de correr da varanda que se abre, reconhece uns bigodinhos muito íntimos, sente-se alçar no espaço enquanto uma voz efeminada grita: Quieto, Ninja! Quieto, Schwarzenegger! Quieto, Tarzan! Uma lua entrevista pelo olho que restou, banhado em sangue, ilumina o rosto de bigodinho, que agora a segura, leve, em seus braços fortes; por um momento, sonha com sua lua-de-mel, pluma leve atravessando o gramado. Pena é a dor, insuportável, mas é uma lua de sangue, enquanto ele a carrega para longe dali, pois ele lhe aperta o pescoço. Dentro da água, os peixes vermelhos e dourados do lago japonês se transformam em piranhas que terminam de dilacerar-lhe as carnes, deixando só ossos nus.

Fonte: Lobo, Luiza. O banquete de Antinoos. In: Lobo, Luiza. Sexameron. Novelas sobre casamentos. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997. p. 19-23.





Bio fornecida pelo palestrante.

Crônica da Casa Assassinada




Autor: Lucio Cardoso
Título: Crônica da Casa Assassinada, Chronique De La Maison Assassin
Idiomas: port, fra
Tradutor: Mario Carelli(fra)
Data: 29/12/2004

Crônica da Casa Assassinada

1

Diário de André

(conclusão)

Lucio Cardoso

18 de… de 19… – (…meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de rezar neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas…
Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentidos e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.)
… Durante o dia inteiro vaguei pela casa deserta, sem coragem nem sequer para entrar na sala. Ah, com que intensidade eu sabia que ela já não me pertencia mais, que era apenas uma coisa despojada, manejada por mãos estrangeiras, sem ternura e sem entendimento. Longe de mim, bem longe agora, iriam descobrir suas formas indefesas – e com esse triste afã dos indiferentes, trabalhariam sua última toilette, sem sequer imaginar que aquela carne já fora viva e estremecera em tantos assomos de amor – que já fora mais moça, mais esplendorosa do que toda juventude que se pudesse supor desabrochada por esse mundo afora. Decerto não era aquela a sua morte, pelo menos eu não a imaginara assim, nos raros, nos difíceis momentos em que conseguira imaginá-la – tão brutal e positiva, tão arrancada do fundo como uma planta nova extirpada da terra, tão injusta, na violência da sua agressão.
Ah, era inútil relembrar o que ela fora – mais do que isto, o que havíamos sido. A explicação se achava ali: dois seres atirados à voragem de um acontecimento excepcional, e subitamente detido – ela, crispada em seu último gesto de agonia, eu, de pé ainda, sabia Deus até quando, o corpo ainda vibrando ao derradeiro eco da experiência. Nada mais apetecia senão vaga pelas salas e corredores, tão tristes quanto uma cena de que houvesse desertado o ator principal – e todo o cansaço dos últimos dias apoderava-se do meu espírito, e a sensação do vazio me dominava, não um vazio simples, mas esse nada total que substitui de repente, e de modo irremissível, tudo o que em nós significou impulso e vibração. Cego, com gestos manobrados por uma vontade que não me pertencia, abria as portas, debruçava-me às janelas, atravessava quartos: a casa não existia mais.
Sabia disto, e qualquer consolo me era indiferente, nenhuma palavra de afeto ou de revolta poderia me atingir. Como um caldeirão já retirado do fogo, mas em cujo fundo ainda fervem e fumegam os detritos em mistura, o que me dava alento eram os restos daquele período que eu acabara de viver. No entanto, como movido por uma força que mal acabara de repontar em meu ser, um ou duas vezes me aproximei da sala em que ela jazia, entreabri a porta, olhei de longe o que se passava. Tudo era de uma repugnante banalidade: dir-se-ia a mesma cena que estava acostumado a ver desde a infância, caso não a transfigurasse, como um sopro potente, invencível, esse hálito sobrenatural que percorre todo ambiente tocado pela presença de um cadáver. Da mesa da sala de jantar, que já servira em sua longa vida para tantas refeições em comum, para tantas reuniões e concílios de família – ela mesma. Nina, quantas vezes não fora julgada e dissecada sobre aquelas tábuas? – haviam feito uma, essa provisória. Nos cantos, dispostas por essas mãos que a pressa inventa exatamente para momentos semelhantes, quatro velas solitárias. Velas comuns, recendendo a comércio barato, provavelmente vindas do fundo de alguma gaveta esquecida. E dizer-se que isto era a paisagem do seu último adeus, o cenário que comportava sua derradeira despedida.
(…)
 
Fonte: Cardoso, Lúcio. Crônica da cassa assassinada. 2ª.ed. Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1963. p. 7-9.

CHRONIQUE DE LA MAISON ASSASSINÉE

1. JOURNAL D’ANDRÉ

(Conclusion)

Lúcio Cardoso

Le 18… 19… (… Mon Dieu, qu’ est-ce que la mort? Puisqu’elle s’est éloignée de moi, que la terre abritera bientôt sa dépouille mortelle, combien de temps devrai-je refaire en ce monde le chemin de son enseignement, de son admirable leçon d’amour. Chez quelles femmes retrouverai-je tantôt lê velours d’um baiser – “c’était ainsi qu’elle m’embrassait” – ou une manière de sourire, ou encore lê mouvement d’une mèche rebelle, parmi toutes ces femmes que chacun rencontre au long d’une vie, et qui m’aideront à recomposer, dans la douleur et la nostalgie, cette image unique disparue pour toujours? Pour toujours, que signifie ce pour toujours, oh! mon Dieu – dans un écho cruel et grandiloquent, ces mots résonnent dans les couloirs dépeuplés de l’âme – en réalité, ce pour toujours ne signifie rien, il est imperceptible à l’instant où nous l’imaginons, et pourtant c’est notre seul bien, la seule chose définitive dans le pauvre vocabulaire de nos possibilités terrestres…
Qu’est-ce que ce pour toujours sinon l’écoulement continu de l’existence, de ce qui est libéré de toute contingence et qui se transforme, évolue et débouche sans arrêt sur des sensations mouvantes? Un instant encore, juste un instant, mai lui aussi échapperait à mon effort pour le saisir, et je coulerais et passerais et, avec moi, comme des épaves, mon amour, mon tourment et jusqu’ à ma fidélité. Oui, qu’est-ce que ce pour toujours sinon la dernière image de ce monde, pas de ce monde-ci exclusivement, mais de tout le monde qui s’apparente à une architecture de rêve et de permanence, la représentation de nos jeux et de nos plaisirs, de nos malaises et de nos peurs, de nos amours et de nos trahisons – en somme, la force qui modèle non pas celui que nous sommes tous les jours mais l’autre, le possible, celui que nous n’atteignons jamais, celui que nous poursuivons comme on suit la trace d’un amour inaccessible et qui en fin de compte n’est que le souvenir d’un bien perdu – quand? – dans un lieu que nous ignorons, mais dont la perte nous brise le coeur et nous pousse, tout entier, dans ce rien ou dans ce tout enflammé, juste ou injuste, où nous nous confondons pour toujours avec le général, l’absolu, le parfait dont nous manquons tant.)
…Toute la journée, j’ai erré dans la maison déserte sans même avoir le courge d’entrer dans le salon. Comme je savais déjà qu’elle ne m’appartenait plus, qu’elle n’était qu’une dépouille, manipulée par des étrangers sans tendresse ni compréhension. Loin de moi, très loin maintenant, ils allaient découvrir ses formes vulnerábles – et avec l’empressement des indifférents, ils lui feraient sa dernière toilette, sans imaginer que cette chair avait été vivante et qu’elle avait vibré à la naissance de tant d’amours – qu’elle avait été plus jeune et plus éblouissante que toute autre. Ce n’était assurément pas une mort pour elle ; du moins, jamais je n’avais pu l’imaginer ainsi, une mort si réelle et brutale, un arrachement tellement injuste, si violent.
Ah ! pourquoi rappeler ce qu’elle avait été et même ce que nous avions été ? L’explication se trouvait là : deux êtres attirés par le gouffre d’une dernière étreinte, soudain interrompue – elle, crispée dans un geste d’agonie, moi, debout, Dieu sait pour combien de temps, le corps vibrant encore au dernier écho de cette communion. Plus rien ne m’attirait, j’errais dans les pièces et les couloirs aussi tristes qu’une scène désertée par l’acteur principal – et toute la fatigue des derniers jours envahissait mon esprit, une sensation de vide me dominait, un vide absolu qui remplaçait tout ce qui en nous était élan et vibration. Aveugle, gouverné par une volonté qui ne m’appartenait plus, j’ouvrais les portes, je me penchais aux fenêtres, je traversais les chambres : la maison n’existait plus.
Je le savais et toute consolation m’était indifférente, nulle parole d’affection ou de révolte ne pouvait me toucher. Je n’étais plus que le souvenir de cette période que je venais de vivre. Pourtant, comme si j’étais poussé par une force qui venait de surgir en moi, une ou deux fois je me suis approché du salon où elle gisait, j’ai entrouvert la porte et regardé de loin ce qui se passait. Tout était d’une banalité répugnante : c’étaient les lieux que j’avais l’habitude de voir depuis non enfance, mais transfigurés par ce souffle surnaturel, invincible, qui traverse tous les endroits où se trouve un cadavre. Ils avaient transformé en catafalque la table de la salle à manger qui avait servi à tant de repas communs, de réunions et de conseils de famille, et où Nina elle-même avait été si souvent juguée et condamnée. Aux quatre coins, comme il se doit à ces moments-là, quatre bougies disposées en hâte. Des bougies quelconques, oubliées sans doute au fond d’un tiroir. Et dire que c’était le décor de son dernier adieu.
(…).
_____
Fonte : Cardoso, Lúcio. Chronique de la Maison Assassinée : Roman. Traduction du portuguais (Brésil) et postaface de Mario Carelli. Paris : A. M. Paris, Metailié ; Mazarine, 1985. p. 7-8.





Bio fornecida pelo palestrante.

A NOVA CALIFÓRNIA




Autor: Lima Barreto
Título: A NOVA CALIF?RNIA
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

A NOVA CALIFÓRNIA

(Conto de A Nova Calif?rnia)

 

Lima Barreto

 
Ningu?m sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspond?ncia que recebia. E era grande. Quase diariamente, o carteiro l? ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um ma?o alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em l?nguas arrevesadas, livros, pacotes…
Quando Fabr?cio, o pedreiro, voltou de um servi?o em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
? Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de t?o extravagante constru??o: um forno na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabr?cio p?de contar que vira bal?es de vidros, facas sem corte, copos como os da farm?cia ? um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utens?lios de uma bateria de cozinha em que o pr?prio diabo cozinhasse.
O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a chiar, e olhava a chamin? da sala de jantar a fumegar, n?o deixava de persignar-se e rezar um ?credo? em voz baixa; e, n?o fora a interven??o do farmac?utico, o subdelegado teria ido dar um cerco ? casa daquele indiv?duo suspeito, que inquietava a imagina??o de toda uma popula??o.
Tomando em considera??o as informa??es de Fabr?cio, o botic?rio Bastos concluir? que o desconhecido devia ser um s?bio, um grande qu?mico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos cient?ficos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, m?dico tamb?m, porque o doutor Jer?nimo n?o gostava de receitar e se fizera s?cio da farm?cia para mais em paz viver, a opini?o de Bastos levou tranq?ilidade a todas as consci?ncias e fez com que a popula??o cercasse de uma silenciosa admira??o a pessoa do grande qu?mico, que viera habitar a cidade.
De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente as ?guas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do cresp?sculo, todos se- descobriam e n?o era raro que ?s ?boas noites? acrescentassem ?doutor?. E tocava muito o cora??o daquela gente a profunda simpatia com que ele tratava as crian?as, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
Na verdade, era de ver-se, sob a do?ura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava aquelas crian?as pretas, t?o lisas de pele e t?o tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e tamb?m as brancas, de pele ba?a, gretada e ?spera, vivendo amparadas na necess?ria caquexia dos tr?picos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a raz?o de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua ternura com Paulo e Virg?nia e esquecer-se dos escravos que os cercavam…
Em poucos dias a admira??o pelo s?bio era quase geral, e n?o o era unicamente porque havia algu?m que n?o tinha em grande conta os m?ritos do novo habitante.
Capit?o Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de Tubiacanga, ?rg?o local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o s?bio. ?Voc?s h?o de ver, dizia ele, quem ? esse tipo… Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladr?o fugido do Rio.?
A sua opini?o em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival para a fama de s?bio de que gozava. N?o que Pelino fosse qu?mico, longe disso; mas era s?bio, era gram?tico. Ningu?m escrevia em Tubiacanga que n?o levasse bordoada do Capit?o Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem not?vel l? no Rio, ele n?o deixava de dizer: ?N?o h? d?vida! O homem tem talento, mas escreve: ‘um outro’, ‘de resto’…? E contra?a os l?bios como se tivesse engolido alguma cousa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores gl?rias nacionais. Um s?bio…
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola sa?a vagarosamente de casa, muito abotoado no seu palet? de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar ? um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se t?o-somente a ouvir. Quando, por?m, dos l?bios de algu?m escapava a menor incorre??o de linguagem, intervinha e emendava. ?Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que…? Por a?, o mestre-escola intervinha com mansuetude evang?lica: ?N?o diga ‘asseguro’ Senhor Bernardes; em portugu?s ? garanto.?
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo. A chegada do s?bio veio distra?-lo um pouco da sua miss?o. Todo o seu esfor?o voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia t?o inopinadamente.
Foram v?s as suas palavras e a sua eloq??ncia: n?o s? Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas, como era generoso? pai da pobreza ? e o farmac?utico vira numa revista de espec?ficos seu nome citado como qu?mico de valor.
 

II

Havia j? anos que o qu?mico vivia em Tubiacanga, quando, uma bela manh?, Bastos o viu entrar pela botica adentro. O prazer do farmac?utico foi imenso. O s?bio n?o se dignara at? a? visitar fosse quem fosse e, certo dia, quando o sacrist?o Orestes ousou penetrar em sua casa, pedindo-lhe uma esmola para a futura festa de Nossa Senhora da Concei??o, foi com vis?vel enfado que ele o recebeu e atendeu.
Vendo-o, Bastos saiu de detr?s do balc?o, correu a receb?-lo com a mais perfeita demonstra??o de quem sabia com quem tratava e foi quase em uma exclama??o que disse:
? Doutor, seja bem-vindo.
O s?bio pareceu n?o se surpreender nem com a demonstra??o de respeito do farmac?utico, nem com o tratamento universit?rio. Docemente, olhou um instante a arma??o cheia de medicamentos e respondeu:
? Desejava falar-lhe em particular, Senhor Bastos.
O espanto do farmac?utico foi grande. Em que poderia ele ser ?til ao homem, cujo nome corria mundo e de quem os jornais falavam com t?o acendrado respeito? Seria dinheiro? Talvez… Um atraso no pagamento das rendas, quem sabe? E foi conduzindo o qu?mico para o interior da casa, sob o olhar espantado do aprendiz que, por um momento, deixou a ?m?o? descansar no gral, onde macerava uma tisana qualquer.
Por fim, achou ao fundo, bem no fundo, o quartinho que lhe servia para exames m?dicos mais detidos ou para as pequenas opera??es, porque Bastos tamb?m operava. Sentaram-se e Flamel n?o tardou a expor:
? Como o senhor deve saber, dedico-me ? qu?mica, tenho mesmo um nome respeitado no mundo s?bio…
? Sei perfeitamente, doutor, mesmo tenho disso informado, aqui, aos meus amigos.
? Obrigado. Pois bem: fiz uma grande descoberta, extraordin?ria. . .
Envergonhado com o seu entusiasmo, o s?bio fez uma pausa e depois continuou:
? Uma descoberta… Mas n?o me conv?m, por ora, comunicar ao mundo s?bio, compreende?
? Perfeitamente.
? Por isso precisava de tr?s pessoas conceituadas que fossem testemunhas de uma experi?ncia dela e me dessem um atestado em forma, para resguardar a prioridade da minha inven??o… O senhor sabe: h? acontecimentos imprevistos e…
? Certamente! N?o h? d?vida!
? Imagine o senhor que se trata de fazer ouro…
? Como? O qu?? fez Bastos, arregalando os olhos.
? Sim! Ouro! disse, com firmeza, Flamel.
? Como?
? O senhor saber?, disse o qu?mico secamente. A quest?o do momento s?o as pessoas que devem assistir ? experi?ncia, n?o acha?
? Com certeza, ? preciso que os seus direitos fiquem resguardados, porquanto…
? Uma delas, interrompeu o s?bio, ? o senhor; as outras duas, o Senhor Bastos far? o favor de indicar-me.
O botic?rio esteve um instante a pensar, passando em revista os seus conhecimentos e, ao fim de uns tr?s minutos, perguntou:
? O Coronel Bentes lhe serve? Conhece?
? N?o. O senhor sabe que n?o me dou com ningu?m aqui.
? Posso garantir-lhe que ? homem s?rio, rico e muito discreto.
? E religioso? Fa?o-lhe esta pergunta, acrescentou Flamel logo, porque temos que lidar com ossos de defunto e s? estes servem…
? Qual! E quase ateu…
? Bem! Aceito. E o outro?
Bastos voltou a pensar e dessa vez demorou-se um pouco mais consultando a sua mem?ria… Por fim, falou:
? Ser? o Tenente Carvalhais, o coletor, conhece?
? Como j? lhe disse…
? E verdade. E homem de confian?a, s?rio, mas…
? Que ? que tem?
? E ma?om.
? Melhor.
? E quando ??
? Domingo. Domingo, os tr?s ir?o l? em casa assistir ? experi?ncia e espero que n?o me recusar?o as suas firmas para autenticar a minha descoberta.
? Est? tratado.
Domingo, conforme prometeram, as tr?s pessoas respeit?veis de Tubiacanga foram ? casa de Flamel, e, dias depois, misteriosamente, ele desaparecia sem deixar vest?gios ou explica??o para o seu desaparecimento.
 

III

Tubiacanga era uma pequena cidade de tr?s ou quatro mil habitantes, muito pac?fica, em cuja esta??o, de onde em onde, os expressos davam a honra de parar. H? cinco anos n?o se registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas s? eram usadas… porque o Rio as usava.
O ?nico crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato por ocasi?o das elei??es municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a v?tima da oposi??o, o acontecimento em nada alterou os h?bitos da cidade, continuando ela a exportar o seu caf? e a mirar as suas casas baixas e acanhadas nas escassas ?guas do pequeno rio que a batizara.
Mas, qual n?o foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem mem?ria! N?o se tratava de um esquartejamento ou parric?dio; n?o era o assassinato de uma fam?lia inteira ou um assalto ? coletoria; era cousa pior, sacr?lega aos olhos de todas as religi?es e consci?ncias: violavam-se as sepulturas do ?Sossego?, do seu cemit?rio, do seu campo-santo.
Em come?o, o coveiro julgou que fossem c?es, mas, revistando bem o muro, n?o encontrou sen?o pequenos buracos. Fechou-os; foi in?til. No dia seguinte, um jazigo perp?tuo arrombado e os ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa. Era gente ou dem?nio. O coveiro n?o quis mais continuar as pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a not?cia espalhou-se pela cidade.
A indigna??o na cidade tomou todas as fei??es e todas as vontades. A religi?o da morte precede todas e certamente ser? a ?ltima a morrer nas consci?ncias. Contra a prolana??o, clamaram os seis presbiterianos do lugar ? os b?blicos, como lhes chama o povo; clamava o Agrimensol Nicolau, antigo cadete, e positivista do rito Teixeira Mendes; clamava o Major Camanho, presidente da Loja Nova Esperan?a; clamavam o turco Miguel Abudala, negociante de armarinho, e o c?tico Belmiro, antigo estudante, que vivia ao deus-dar?, bebericando parati nas tavernas. A pr?pria filha do engenheiro residente da estrada de ferro, que vivia desdenhando aquele lugarejo, sem notar sequer os suspiros dos apaixonados locais, sempre esperando que o expresso trouxesse um pr?ncipe a despos?-la ?, a linda e desdenhosa Cora n?o p?de deixar de compartilhar da indigna??o e do horror que tal ato provocara em todos do lugarejo. Que tinha ela com o t?mulo de antigos escravos e humildes roceiros? Em que podia interessar aos seus lindos olhos pardos o destino de t?o humildes ossos? Porventura o furto deles perturbaria o seu sonho de fazer radiar a beleza de sua boca, dos seus olhos e do seu busto nas cal?adas do Rio?
Decerto, n?o; mas era a Morte, a Morte implac?vel e onipotente, de que ela tamb?m se sentia escrava, e que n?o deixaria um dia de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemit?rio. A? Cora queria os seus ossos sossegados, quietos e comodamente descansando num caix?o bem feito e num t?mulo seguro, depois de ter sido a sua carne encanto e prazer dos vermes…
O mais indignado, por?m, era Pelino. O professor deitara artigo de fundo, imprecando, bramindo, gritando: ?Na est?ria do crime, dizia ele, j? bastante rica de fatos repugnantes, como sejam: o esquartejamento de Maria de Macedo, o estrangulamento dos irm?os Fuoco, n?o se registra um que o seja tanto como o saque ?s sepulturas do ‘Sossego’. ?
E a vila vivia em sobressalto. Nas faces n?o se lia mais paz; os neg?cios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, ? noite, todos ouviam ru?dos, gemidos, barulhos sobrenaturais… Parecia que os mortos pediam vingan?a…
O saque, por?m, continuava. Toda noite eram duas, tr?s sepulturas abertas e esvaziadas de seu f?nebre conte?do. Toda a popula??o resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo ? fadiga e ao sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, j? n?o havia nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino misterioso.
Organizaram ent?o uma guarda. Dez homens decididos juraram perante o subdelegado vigiar durante a noite a mans?o dos mortos.
Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na terceira; mas, na quarta, quando os vigias j? se dispunham a cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar dous dos vampiros. A raiva e a indigna??o, at? a? sopitadas no animo deles, n?o se contiveram mais e
Deram tanta bordoada nos macabros ladr?es, que os deixaram estendidos como mortos.
A not?cia correu logo de casa em casa e, quando, de manh?, se tratou de estabelecer a identidade dos dous malfeitores, foi diante da popula??o inteira que foram neles reconhecidos o Coletor Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente da C?mara. Este ?ltimo ainda vivia e, a perguntas repetidas que lhe fizeram, p?de dizer que juntava os ossos para fazer ouro e 0 companheiro que fugira era 0 farmac?utico.
Houve espanto e houve esperan?as. Como fazer ouro com ossos? Seria poss?vel? Mas aquele homem rico, respeitado, como desceria ao papel de ladr?o de mortos se a cousa n?o fosse verdade!
Se fosse poss?vel fazer, se daqueles m?seros despojos f?nebres se pudesse fazer alguns contos de r?is, como n?o seria bom para todos eles!
O carteiro, cujo velho sonho era a formatura do filho, viu logo ali meios de consegui-la. Castrioto, o escriv?o do juiz de paz, que no ano passado conseguiu comprar uma casa, mas ainda n?o a pudera cercar, pensou no muro, que lhe devia proteger a horta e a cria??o. Pelos olhos do sitiante Marques, que andava desde anos atrapalhado para arranjar um pasto, pensou logo no prado verde do Costa, onde os seus bois engordariam e ganhariam for?as…
?s necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, satisfazer e felicit?-los; e aqueles dous ou tr?s milhares de pessoas, homens, crian?as, mulheres, mo?os e velhos, como se fossem uma s? pessoa, correram ? casa do farmac?utico.
A custo, o subdelegado p?de impedir que varejassem a botica e conseguir que ficassem na pra?a, ? espera do homem que tinha o segredo de todo um Potosi. Ele n?o tardou a aparecer. Trepado a uma cadeira, tendo na m?o uma pequena barra de ouro que reluzia ao forte sol da manh?, Bastos pediu gra?a, prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida. ?Queremos j? sab?-lo,? gritaram. Ele ent?o explicou que era preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos ? trabalho longo que s? poderia ser entregue impresso no dia seguinte. Houve um murm?rio, alguns chegaram a gritar, mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado.
Docilmente, com aquela do?ura particular ?s multid?es furiosas, cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabe?a um ?nico pensamento: arranjar imediatamente a maior por??o de ossos de defunto que pudesse.
O sucesso chegou ? casa do engenheiro residente da estrada de ferro. Ao jantar, n?o se falou em outra cousa. O doutor concatenou o que ainda sabia do seu curso, e afirmou que era imposs?vel. Isto era alquimia, cousa morta: ouro ? ouro, corpo simples, e osso ? osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de uma cousa outra era ?besteira?. Cora aproveitou o caso para rir-se petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua m?e, Dona Emilia, tinha f? que a cousa era poss?vel.
? noite, por?m, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu em direitura ao cemit?rio; Cora, de p?s nus, com as chinelas nas m?os, procurou a criada para irem juntas ? colheita de ossos. N?o a encontrou, foi sozinha; e Dona Em?lia, vendo-se s?, adivinhou o passeio e l? foi tamb?m. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, sa?a; a mulher, julgando enganar o marido, sa?a; os filhos, as filhas, os criados ? toda a popula??o, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao sat?nico rendez-vous no ?Sossego?. E ningu?m faltou. O mais rico e o mais pobre l? estavam. Era o turco Miguel, era o professor Pelino, o doutor Jer?nimo, o Major Camanho, Cora, a linda e deslumbrante Cora, com os seus lindos dedos de alabastro, revolvia a s?nie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu rega?o at? ali in?til. Era o dote que colhia e as suas narinas, que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, n?o sentiam o f?tido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta…
A desintelig?ncia n?o tardou a surgir; os mortos eram poucos e n?o bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cacha??es. Pelino esfaqueou o turco por causa de um f?mur e mesmo entre as fam?lias quest?es surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho n?o brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta crian?a de onze anos, at? aconselhou ao pai: ?Papai vamos aonde est? mam?e; ela era t?o gorda…?
De manh?, o cemit?rio tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existencia. Uma ?nica pessoa l? n?o estivera, n?o matara nem profanara sepulturas: fora o b?bedo Belmiro.
Entrando numa venda, meio aberta, e nela n?o encontrando ningu?m, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas ?guas sobre o ?spero leito de granito ? ambos, ele e o rio, indiferentes ao que j? viram, mesmo ? fuga do farmac?utico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas.
 
10-11-1910

FIM





Bio fornecida pelo palestrante.

CLARA DOS ANJOS




Autor: Lim aBarreto
Título: CLARA DOS ANJOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 01/07/2005

CLARA DOS ANJOS
 
 

I

 
 

Lima Barreto

 
 
O carteiro Joaquim dos Anjos n?o era homem de serestas e serenatas; mas gostava de viol?o e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que j? foi muito estimado em outras ?pocas, n?o o sendo atualmente como outrora. Os velhos do Rio de Janeiro, ainda hoje, se lembram do famoso Calado e das suas polcas, uma das quais ? ?Cruzes, minha prima!? ? ? uma lembran?a emocionante para os cariocas que est?o a ro?ar pelos setenta. De uns tempos a esta parte, por?m, a flauta caiu de import?ncia, e s? um ?nico flautista dos nossos dias conseguiu, por instantes, reabilitar o mavioso instrumento – del?cia, que foi, dos nossos pais e av?s. Quero falar do Pat?pio Silva. Com a morte dele a flauta voltou a ocupar um lugar secund?rio como instrumento musical, a que os doutores em m?sica, quer executantes, quer os cr?ticos eruditos, n?o d?o nenhuma import?ncia. Voltou a ser novamente plebeu.
Apesar disso, na sua simplicidade de nascimento, origem e condi??o, Joaquim dos Anjos acreditava-se m?sico de certa ordem, pois, al?m de tocar flauta, compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.
Uma polca sua ? ?Siri sem unha? – e uma valsa ? ?M?goas do cora??o? – tiveram algum sucesso, a ponto de vender ele a propriedade de cada uma, por cinq?enta mil-r?is, a uma casa de m?sicas e pianos da Rua do Ouvidor.
O seu saber musical era fraco; adivinhava mais do que empregava no??es te?ricas que tivesse estudado.
Aprendeu a ?artinha? musical na terra do seu nascimento, nos arredores de Diamantina, em cujas festas de igreja a sua flauta brilhara, e era tido por muitos como o primeiro flautista do lugar. Embora gozando desta fama animadora, nunca quis ampliar os seus conhecimentos musicais. Ficara na “artinha” de Francisco Manuel, que sabia de cor; mas n?o sa?ra dela, para ir al?m.
Pouco ambicioso em m?sica, ele o era tamb?m nas demais manifesta??es de sua vida. Desgostoso com a exist?ncia med?ocre na sua pequena cidade natal, um belo dia, a? pelos seus vinte e dois anos, aceitara o convite de um engenheiro ingl?s que, por aquelas bandas, andava a explorar terras e terrenos diamant?feros. Todos julgavam que o “seu” mister andasse fazendo isso; a verdade, por?m, ? que o s?bio ingl?s fazia estudos desinteressados. Fazia puras e plat?nicas pesquisas geol?gicas e mineral?gicas. O diamante n?o era o fim dos seus trabalhos; mas o povo, que teimava em ver, pelos arredores da cidade, o ventre da terra cheio de diamantes, n?o podia supor que um ingl?s que levava a catar pedras, pela manh? e at? ? noite, tomando notas e com uns instrumentos rebarbativos, n?o estivesse com tais gatimonhas a ca?ar diamantes. N?o havia meio do mister convencer ? simpl?ria gente do lugar que ele n?o queria saber de diamantes; e dia n?o havia em que o s?dito de Sua Graciosa Majestade n?o recebesse uma proposta de venda de terrenos, em que for?osamente havia de existir a preciosa pedra abundantemente, por tais ou quais ind?cios, seguros aos olhos de ?garimpeiro? experimentado.
Logo ao chegar o ge?logo, Joaquim empregou-se como seu pajem, guia, encaixotador, servente, etc., e tanto foi obediente e serviu a contento o s?bio, que este, ao dar por terminadas as suas pesquisas, o convidou a vir ao Rio de Janeiro, encarregando-se de movimentar a sua pedregulhenta ou pedregosa bagagem, at? que ela fosse posta a bordo. O s?bio comprometeu-se a pagar-lhe a estadia no Rio, o que fez, at? embarcar-se para a Europa.
Deu-lhe dinheiro para voltar, um chap?u de corti?a, umas perneiras, um cachimbo e uma lata de fumo Navy Cut; Joaquim j? se havia habituado ao Rio de Janeiro, no m?s e pouco em que estivera aqui, a servi?o do Senhor John Herbert Brown, da Real Sociedade de Londres; e resolveu n?o voltar para Diamantina. Vendeu as perneiras num belchior e o chap?u de corti?a tamb?m; e p?s-se a fumar o saboroso fumo ingl?s no cachimbo que lhe fora ofertado, passeando pelo Rio, enquanto teve dinheiro. Quando acabou, procurou conhecidos que j? tinha; e, em breve, entrou para o servi?o de empregado de escrit?rio de um grande advogado, seu patr?cio, isto ?, mineiro.
-N?o te darei coisa que valha a pena – disse-lhe logo o doutor – mas aqui ir?s travando conhecimentos e podes arranjar coisa melhor mais tarde.
Viu bem que o “doutor” lhe falava a verdade, e toda sua ambi??o se cifrou em obter um pequeno emprego p?blico que lhe desse direito a aposentadoria e a montepio, para a fam?lia que ia fundar. Conseguira, ao fim de dois anos de trabalho, aquele de carteiro, havia bem quatro lustros, com o qual estava muito contente e satisfeito da vida, tanto mais que merecera sucessivas promo??es.
Casara meses depois de nomeado; e, tendo morrido sua m?e, em Diamantina, como filho ?nico, herdara-lhe a casa e umas poucas terras em Inha?, uma freguesia daquela cidade mineira. Vendeu a modesta heran?a e tratou de adquirir aquela casita nos sub?rbios em que ainda morava e era dele. O seu pre?o fora m?dico, mas, mesmo assim, o dinheiro da heran?a n?o chegara, e pagou o resto em presta??es. Agora, por?m, e mesmo h? v?rios anos, estava em plena posse do seu “buraco”, como ele chamava a sua humilde casucha. Era simples. Tinha dois quartos; um que dava para a sala de visitas e outro para a sala de jantar, aquele ficava ? direita e este ? esquerda de quem entrava nela. ? de visitas, seguia-se imediatamente a sala de jantar. Correspondendo a pouco mais de um ter?o da largura total da casa, havia, nos fundos, um puxadito, onde estavam a cozinha e uma despensa min?scula. Comunicava-se esse puxadito com a sala de jantar por uma porta; e a despensa, ? esquerda, apertava o puxado, a jeito de um curto corredor, at? ? cozinha, que se alargava em toda a largura dele. A porta que o ligava ? sala de jantar ficava bem junto daquela, por onde se ia dessa sala para o quintal. Era assim o plano da propriedade de Joaquim dos Anjos.
Fora do corpo da casa, existia um barrac?o para banheiro, tanque, etc., e o quintal era de superf?cie razo?vel, onde cresciam goiabeiras, dois p?s ou tr?s de laranjeiras, um de lim?o-galego, mamoeiros e um grande tamarineiro copado, bem aos fundos.
A rua em que estava situada a sua casa se desenvolvia no plano e, quando chovia, encharcava e ficava que nem um p?ntano; entretanto, era povoada e se fazia caminho obrigado das margens da Central para a long?nqua e habitada freguesia de Inha?ma. Carro??es, carros, autocaminh?es que, quase diariamente, andam por aquelas bandas a suprir os retalhistas de g?neros que os atacadistas lhes fornecem, percorriam-na do come?o ao fim, indicando que tal via p?blica devia merecer mais aten??o da edilidade.
Era uma rua sossegada e toda ela, ou quase toda, edificada ao gosto antigo do sub?rbio, ao gosto do chal?. Estava povoada e edificada quase inteiramente, de um lado e de outro. Dela, descortinava-se um lindo panorama de montanhas de cores cambiantes, conforme fosse a hora do dia e o estado da atmosfera. Ficavam-lhe muito distantes, mas pareciam cerc?-la, e ela, a rua, ser o eixo daquele redondel de montes, em que, pelo dia em fora, pareciam ser iluminados por proje??es luminosas, revestindo-se de toda a gama do verde, de tons azuis; e, pelo crep?sculo, ficavam cobertos de ouro e p?rpura.
Al?m dos cl?ssicos chal?s suburbanos, encontravam-se outros tipos de casas. Algumas relativamente recentes, uns certos requififes e galanteios modernos, para lhes encobrir a estreiteza dos c?modos e justificar o exagero dos alugu?is. Havia, por?m, uma casa digna de ser vista. Erguia-se quase ao centro de uma grande ch?cara e era a caracter?stica das casas das velhas ch?caras dos outros tempos; longa fachada, pouco fundo, teto aca?apado, forrada de azulejos at? a metade do p? direito. Um tanto feia, ? verdade, que ela era, sem garridice; mas casando-se perfeitamente com as mangueiras, com as robustas jaqueiras e os coqueiros petulantes e com todas aquelas grandes e pequenas ?rvores avelhantadas, que, talvez, os que as plantaram n?o as tivessem visto frutificar. Por entre elas, onde se podiam ver vest?gios do antigo jardim, havia estatuetas de lou?a portuguesa, com letreiros azuis. Uma era a ?Primavera?; outra era a “Aurora”; quase todas, por?m, estavam mutiladas; umas, num bra?o; outras n?o tinham cabe?a, e ainda outras jaziam no ch?o, derrubadas dos seus toscos suportes.
Os muros que cercavam a casa, a razo?vel dist?ncia, e mesmo aquele em que se apoiava o gradil de ferro da frente do im?vel, estavam cobertos de hera, que os envolvia em todo ou em parte, n?o como um sud?rio, mas como um severo, cerimonioso e vivo manto de outras ?pocas e de outras gentes, a provocar saudades e evoca??es, animando a ru?na. Hoje, ? raro ver-se, no Rio de Janeiro, um muro coberto de hera; entretanto, h? trinta anos, nas Laranjeiras, na Rua Conde de Bonfim, no Rio Comprido, no Andara?, no Engenho Novo, enfim, em todos os bairros que foram antigamente esta??es de repouso e prazer, encontravam-se, a cada passo, longos muros cobertos de hera, exalando melancolia e sugerindo recorda??es.
Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “ch?cara” habitada pelos propriet?rios respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos “b?blias”. Os seus c?nticos, aos s?bados (era o seu dia da semana de descanso sagrado), entoados quase de hora em hora, enchiam a redondeza e punham na sua audi?ncia uma soturna sombra de misticismo. O povo n?o os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freq?entavam-nos, j? por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, j? por procurarem, em outra casa religiosa que n?o a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, al?m das dores que seguem toda e qualquer exist?ncia humana.
Alguns, entre os quais o Jo?o Pintor, justificavam freq?entar os “b?blias”, porque estes -dizia ele – n?o eram como os padres, que, para tudo, querem dinheiro.
Esse Jo?o Pintor trabalhava nas oficinas do Engenho de Dentro, no of?cio de que proviera o seu apelido. Era um preto retinto, grossos l?bios, malares proeminentes, testa curta, dentes muito bons e muito claros, longos bra?os, manoplas enormes, longas pernas e uns tais p?s, que n?o havia cal?ado, nas sapatarias, que coubessem neles. Mandava-os fazer de encomenda; mas assim mesmo, mal os punha hoje, no dia seguinte tinha que os retalhar ? navalha, se queria dar alguns passos e manquejar menos at? o ?Mafu??.
Dizia o ?Turuna?, adepto do Padre Sodr?, capel?o do Santu?rio de Nossa Senhora de Lourdes, que Jo?o Pintor se metera com os “b?blias”, porque estes lhe haviam dado um quarto, na ch?cara, para ele morar de gra?a, com certas obriga??es pequenas a cumprir. Jo?o Pintor contestava com veem?ncia; o certo, por?m, ? que ele morava na ?ch?cara?.
Chefiava os protestantes um americano, Mr. Quick Shays, homem tenaz e cheio de uma eloq??ncia b?blica, que devia ser magn?fica em ingl?s; mas que, no seu duvidoso portugu?s, se tornava simplesmente pitoresca. Era Shays Quick ou Quick Shays daquela ra?a curiosa de yankees fundadores de novas seitas crist?s. De quando em quando, um cidad?o protestante dessa ra?a que deseja a felicidade de n?s outros, na terra e no c?u, ? luz de uma sua interpreta??o de um ou mais vers?culos da B?blia, funda uma nov?ssima seita, p?e-se a propag?-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais n?o sabem muito bem por que foram para tal nov?ssima religi?ozinha e qual a diferen?a que h? entre esta e a de que vieram.
L?, na sua terra, como aqui, esses pequenos luteros fazem pros?litos; l?, mais do que aqui. Mr. Shays obtinha, nas vizinhan?as do carteiro Joaquim dos Anjos, n?o pros?litos, mas muitos ouvintes, dos quais uma quinta parte afinal se convertia. Quando se tratava de iniciar uma turma, os novi?os dormiam em barracas de campanha, erguidas ao redor da casa, nos v?os existentes entre as velhas ?rvores da ch?cara, maltratada e desprezada.
As cerim?nias preparat?rias ? inicia??o, na religi?o de Mr. Quick Shays, duravam uma semana, farta de jejuns e c?nticos religiosos, cheios de un??o e apelos contritos a Deus, Nosso Pai; e a velha propriedade de recreio, com as barracas militares e salmodias cont?nuas, adquiria um aspecto esquisito e imprevisto, o de convento ao ar livre, mascarado por uma rebarbativa carranca de acampamento guerreiro. Dir-se-ia um destacamento de uma ordem de cavalaria mon?stico-guerreira, que se preparava para combater o turco ou o mouro infiel, na Palestina ou em Marrocos.
Da redondeza, n?o eram muitos os adeptos ortodoxos ? doutrina??o religiosa de Mr. Shays; entretanto, al?m das esp?cies que j? foram aludidas, havia as daqueles que assistiam ?s suas pr?dicas, por mera curiosidade ou para deliciar-se com a orat?ria do pastor americano. O templo estava sempre cheio, nos seus dias solenes.
Os freq?entadores dessa ou daquela natureza l? iam sem nenhuma repugn?ncia, pois ? pr?prio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante am?lgama de religi?es e cren?as de toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e moment?neas agruras de sua exist?ncia. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela para a feiti?aria; se se trata de curar uma mol?stia tenaz e renitente, procura o esp?rita; mas n?o falem ? nossa gente humilde em deixar de batizar o filho pelo sacerdote cat?lico, porque n?o h?, dentre ela, quem n?o se zangue: ?Est? doido! Meu filho ficar pag?o! Deus me defenda!?
Joaquim dos Anjos n?o freq?entava Mr. Shays nem o reverendo Padre Sodr?, do Santu?rio de Nossa Senhora de Lourdes, pois, apesar de ter nascido numa cidade embalsamada de incenso e plena de ecos sonoros de litanias e o cont?nuo repicar de sinos festivos, n?o era animado de grande fervor religioso. Sua mulher, Dona Engr?cia, por?m, o era em extremo, embora fosse pouco ? igreja, devido ?s suas obriga??es caseiras. Ambos, por?m, estavam de acordo num ponto religioso cat?lico-romano: batizar quanto antes os filhos, na Igreja Cat?lica Apost?lica Romana. Foi assim que procederam, n?o s? com a Clara, o ?nico filho sobrevivente, como com os demais, que haviam morrido.
Eram casados h? quase vinte anos, e esta Clara, sua filha, sendo o segundo filho do casal, or?ava pelos seus dezessete anos.
Era tratada pelos pais com muito desvelo, recato e carinho; e, a n?o ser com a m?e ou pai, s? sa?a com Dona Margarida, uma vi?va muito s?ria, que morava nas vizinhan?as e ensinava a Clara bordados e costuras.
No mais, isto era raro e s? acontecia aos domingos, Clara deixava, ?s vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do M?ier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava a acompanh?-la, porque Joaquim n?o se prestava, pois n?o gostava de sair aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predileto de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher n?o s? n?o gostava de sair aos domingos, como em outro dia da semana qualquer. Era sedent?ria e caseira.
Os companheiros habituais do solo com Joaquim eram quase sempre estes dois: o Senhor Ant?nio da Silva Marramaque, seu compadre, pois era padrinho de sua filha ?nica; e o Senhor Eduardo Laf?es. N?o variavam. Todos os domingos, a? pelas nove horas, l? batiam ? porteira da casa do “postal”; n?o entravam no corpo da habita??o e, pelo corredor que mediava entre ela e a vizinha, dirigiam-se ao grande tamarineiro, aos fundos do quintal, debaixo do qual estava armada a mesa, com os seus tentos, vermelhos e pupilas negras, de gr?o de aroeira, o seu baralho, os seus pires, um c?lice e um litro de parati, ao centro, muito pimp?o e arrogante, impondo um c?nico desafio ?s conveni?ncias protocolares.
Joaquim dos Anjos j? esperava, lendo o jornal de sua predile??o. Mal chegavam, trocavam algumas palavras, sentavam-se, “molhavam a palavra”, no litro de cacha?a, e punham-se a jogar. Ficha a vint?m.
Horas e horas, esperando o “ajantarado”, que quase sempre ia para a mesa ? hora do jantar habitual, deixavam-se ficar jogando, bebericando aguardente, sem dar uma vista d’olhos sobre as montanhas circundantes, nuas e pedroucentas, que recortavam o alto horizonte.
De quando em quando, mas sem grandes espa?os, Joaquim gritava para a cozinha:
-Clara! Engr?cia! Caf?!
De l?, respondiam, com algum amuo na voz:
-J? vai!
? que as duas mulheres, para preparar o caf?, tinham que retirar, de um dos dois fogareiros de carv?o vegetal, uma panela do ?ajantarado? que aprontavam, a fim de aquecer o caf? reclamado; e isto lhes atrasava o jantar.
Enquanto esperavam o caf?, os tr?s suspendiam o jogo e conversavam um pouco. Marramaque era e sempre havia sido mais ou menos pol?tico, a seu modo.
Embora atualmente fosse um simples cont?nuo de minist?rio, em que n?o fazia o servi?o respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparal?tico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de bo?mios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita pol?tica, h?bito que lhe ficou. Quando veio a revolta de 93, a roda se dissolveu. Uns foram acompanhar o Almirante Cust?dio; e outros, o Marechal Floriano. Marramaque foi um destes e at? obteve as honras de alferes do Ex?rcito. Por a? ? que teve a primeira congest?o, isto ?, nos fins do governo do marechal, em 94.
A sua roda n?o tinha ningu?m de destaque, mas alguns eram estim?veis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava epis?dios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Lu?s Murat. N?o mentia, enquanto n?o confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo liter?rio. Os que o conheciam, daquela ?poca, n?o ocultavam o t?tulo com que partilhava a honra de ser membro de um cen?culo po?tico. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu car?ter fizeram-lhe ver logo que n?o dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um h?bil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de bo?mia liter?ria, poetas e literatos, improvisavam do p? para a m?o, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de cont?nuo, para ter com que viver. Os seus m?ritos e saber, por?m, n?o estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. Tivera, em mo?o, uma boa conviv?ncia. Estava a? o segredo de sua ilustra??o. Marramaque, apesar de tudo, do seu estado de sa?de, da sua dificuldade de locomover-se, n?o deixava a mania in?cua da pol?tica e ia votar, com risco de se ver envolvido num barulho de sufr?gio universal, puxado a navalha, rabo-de-arraia, cabe?adas, tiros de rev?lver e outras eloq?entes manifesta??es eleitorais, das quais, em raz?o do seu prec?rio estado de pernas, n?o poderia fugir com seguran?a e a necess?ria rapidez.
Tendo vivido em rodas de gente fina – como j? vimos – n?o pela fortuna, mas pela educa??o e instru??o; tendo sonhado outro destino que n?o o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento – Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista. Naquele domingo, ele o tirara para falar mal do doutor Saulo de Clapin.
-Voc?s v?o ver: o Clapin est? a?, est? morto na pol?tica. Teve o topete de ir contra a corrente popular, espetou-se. Quem ganhou foi o barbudo Melo Brand?o, esse judeu mesti?ado. ? um safad?o, mas ? mestre na pol?tica.
Joaquim se interessava mediocremente por essa hist?ria de pol?tica: mas Laf?es tinha as suas paix?es no neg?cio e acudiu:
-Qual o qu?! Ent?o voc? pensa, Marramaque, que um homem inteligente, t?o superior, como o doutor Clapin, vai deixar-se embrulhar por um trapaceiro de atas e coisas piores como o Melo Brand?o! Qual o qu?! Demais, o operariado…
-O que ? que ele tem feito pelo operariado? – pergunta Marramaque.
-Muito.
Laf?es n?o era oper?rio, como se poderia pensar. Era guarda das obras p?blicas. Portugu?s de nascimento, viera menino para o Brasil, isto h? mais de quarenta anos; entrara muito cedo para a reparti??o de ?guas da cidade, chamara a aten??o dos seus superiores pelo rigor de sua conduta; e, aos poucos, fizeram-no chegar a seu generalato de guarda de encanamentos e de torneiras que vazassem nos tanques de lavagem das casas particulares. Vivia muito contente com a sua posi??o, a sua portaria de nomea??o, a sua carta de naturaliza??o, e, talvez, n?o estivesse tanto, se tivesse enriquecido de centenas de contos de r?is. Assim tudo fazia crer, pois era de ver a import?ncia ing?nua do camp?nio que se faz qualquer coisa do Estado, e a solenidade de maneiras com que ele atravessava aquelas virtuais ruas dos sub?rbios.
Trazia sempre a farda de c?qui e o bon? com as iniciais da reparti??o; um chap?u-de-sol de cabo, que, quando n?o o trazia aberto, a proteg?-lo contra os raios do sol, manejava como a bengala de um vig?rio de aldeia portuguesa, furando o ch?o e levantando-o, para pous?-lo de novo, ? medida que executava as suas longas passadas.
Laf?es respondeu assim a Marramaque:
-Muito. Em todas as comiss?es por que o doutor Clapin tem passado, sempre procura dar trabalho ao maior n?mero de oper?rios.
-Grande servi?o! Arrebenta as verbas; no fim de dois ou tr?s meses, despede mais da metade… Isto n?o se chama proteger; chama-se engazopar.
-Seja, mas ele ainda faz isso, e os outros? N?o fazem nada. De resto, ? um homem democrata. Desde muito que se bate pela igualdade entre os servidores da na??o. N?o quer distin??o entre funcion?rios p?blicos e jornaleiros. Quem serve ? na??o, seja em que servi?o for, ? funcion?rio p?blico.
-Honrarias! Isto n?o enche barriga! Por que ele n?o trabalha para diminuir a carestia da vida e dos alugu?is de casa?
-Homessa, Marramaque! Voc? n?o leu o projeto dele sobre constru??o de casas para fam?lias pobres e modestas? Voc? n?o leu, Joaquim?
O carteiro, que vinha ouvindo a conversa sem dar opini?o, ? interpela??o de Laf?es, interveio:
-Li, de fato; mas li tamb?m que ele havia aumentado os alugu?is de suas casas, que s?o in?meras, de quarenta por cento.
-? isto! – acudiu com pressa Marramaque. – Clapin ? muito generoso com o dinheiro dos outros, do Estado. Com o dele, ? de uma sovinice de judeu e de uma gan?ncia de agiota. Jesu?ta!
Felizmente Clara chegava com o caf?. A conversa apaixonada cessava, e os dois convivas de Joaquim recebiam os cumprimentos da menina:
-A b?n??o, meu padrinho; bom-dia, Seu Laf?es.
Eles respondiam e punham-se a pilheriar com Clara.
Dizia Marramaque:
-Ent?o, minha afilhada, quando se casa?
-Nem penso nisso – respondia ela, fazendo um trejeito faceiro.
-Qual! – observa Laf?es. – A menina j? tem algum de olho. Olhe, no dia dos seus anos… ? verdade, Joaquim: uma coisa.
O carteiro descansou a x?cara e perguntou:
-O que ??
-Queria pedir a voc? autoriza??o para c? trazer, no dia dos anos, aqui da menina, um mestre do viol?o e da modinha.
Clara n?o se conteve e perguntou apressada:
-Quem ??
Laf?es respondeu:
-? o Cassi. A menina…
O guarda das obras p?blicas n?o p?de acabar a frase. Marramaque interrompeu-o furioso:
-Voc? d?-se com semelhante p?stula? ? um sujeito que n?o pode entrar em casa de fam?lia. Na minha, pelo menos…
-Por qu?? – indagou o dono da casa.
-Eu direi, daqui a pouco; eu direi por qu? – fez Marramaque transtornado.
Acabaram de tomar caf?. Clara afastou-se com a bandeja e as x?caras, cheia de uma forte, tenaz e mals? curiosidade:
-Quem seria esse Cassi?
 
 
___________________________
 
Fonte: BARRETO, Lima. Clara dos Anjos: romance. Pref?cio de S?rgio Buarque de Holanda. S?o Paulo: Brasiliense, 1956. p. 31-43.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

OS BRUZUNDANGAS




Autor: Lima Barreto
Título: OS BRUZUNDANGAS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/02/2006

OS BRUZUNDANGAS

 
 

Lima Barreto

Hais tous maux o? qu’ils soient,

tr?s doux Fils.

Joinville. S?o Lu?s.

 
 
PREF?CIO
 
Na Arte de furtar, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, h? um cap?tulo, o quarto, que tem como ementa esta singular afirma??o: “Como os maiores ladr?es s?o os que t?m por oficio livrar?nos de outros ladr?es”.
N?o li o cap?tulo, mas abrindo ao acaso um exemplar do curioso livro, achei verdadeira a cousa e boa para justificar a publica??o destas despretensiosas “Notas”.
A “Bruzundanga” fornece mat?ria de sobra para livrar?nos, a n?s do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos. Sua miss?o ?, portanto, como a dos “maiores” da Arte, livrar?nos dos outros, naturalmente menores.
Bem precisados est?vamos n?s disto quando temos aqui ministros de Estado que s?o simples caixeiros de venda, a roubar?nos muito modestamente no peso da carne?seca, enquanto a Bruzundanga os tem que se ocupam unicamente, no seu of?cio de ministro, de encarecerem o a??car no mercado interno, conseguindo isto com o vend??lo abaixo do pre?o da usina aos estrangeiros. L?, chama?se a isto prover necessidades p?blicas; aqui, n?o sei que nome teria…
E semelhante ministro daqueles “maiores” de que a Arte nos fala, destinados a ensinar?nos como nos livrar dos nossos modestos caixeiros de mercearias ministeriais.
N?o contente com ter dessas cousas, a Bruzundanga possui outras muitas que desejava enumerar todas, pois todas elas s?o dignas de apre?o e portadoras de ensinamentos proveitosos.
Como n?o poder?amos aproveitar aquele caso de um doutor da Bruzundanga, ele mesmo a?ambarcador de cebolas, que vai para uma comiss?o, nomeada para estudar as causas da carestia da vida, e prop?e que se adotem leis contra os estancadores de mercadorias?
? que este doutor dos “maiores” de que nos fala o c?lebre livrinho sabia perfeitamente que n?o estancava e tinha o h?bito de reservas mentais. N?o a?ambarcava, mas “aliviava” logo uma grande por??o de mercadorias para o estrangeiro, por qualquer cousa, de modo que… Le pauvre homme! Podia at? iludir o nosso pobre Peckmann!
Com este exemplo, os menores daqui poder?o ser denunciados por este grandalh?o de l?, t?o generoso e desinteressado, e o nosso povo poder? livrar?se deles.
Conheci na Bruzunganga um rapaz (creio que est? nas “Notas”), de rabona de sarja e ares de familiar do Santo Of?cio, mas tresandando a Comte, sen?o a anticlericalismo, que, de uma hora para a outra, se fez reitor do Asilo de Enjeitados, apandilhado com padres e frades, depois de ter arranjado um rico casamento eclesi?stico, a fim de ver se, com o apoio da sotaina e do solid?u, se fazia ministro ou mesmo mandachuva da Rep?blica. Que “maior” n?o acham?
E aquele que, tendo sido ministro do imperador da Bruzundanga e seu conselheiro, se transformou em a?ougueiro para vender carne aos vizinhos a dez mil?r?is de mel coado, gra?as ?s isen??es que obteve com o prest?gio do seu nome, dos seus amigos, da sua fam?lia e das suas antigas posi??es, enquanto os seus patr?cios pagavam?lhe o dobro?
Quantos exemplos de l?, bem grandes, nos ir?o precaver contra os pequeninos de c?… A Arte fala a verdade…
Outra cousa curiosa da Bruzunganga, das grandes, das extraordin?rias, ? a sua “Defesa Nacional”.
L?, como em toda a parte, se devia entender por isso a aquisi??o de armamentos, muni??es, equipamentos, adestramento de tropas, etc., mas os doges do Kaphet (vide texto) entenderam que n?o; que era dar?lhes dinheiro, para elevar artificialmente o pre?o de sua especiaria. De que modo? Retendo o produto, proibindo?lhe a exporta??o desde certo limite, conquanto se houvessem tenazmente oposto a que semelhante medida fosse tomada no que toca ?s utilidades indispens?veis a nossa vida: cereais, carnes, algod?o, a??car, etc.
? preciso notar que tais utilidades, como j? fiz notar, iam para o estrangeiro por metade do pre?o, menos at?.
Aprendamos por a? a conhecer os nossos “menores”.
Poderia muito bem falar de outros grossos casos de li, capazes de nos livrar doa tais pequenos daqui; mas, para qu??
As p?ginas que se seguem v?o rev??los e eu me dispenso de narr??los neste curto pref?cio, Pobre terra da Bruzundanga! Velha, na sua maior parte, como o planeta, toda a sua miss?o tem sido criar a vida e a fecundidade para os outros, pois nunca os que nela nasceram, as que nela viveram, os que a amaram e sugaram?lhe o leite, tiveram sossego sobre o seu solo!
Ainda hoje, quando o ge?logo encontra nela um queixal de Magatherium ou um f?mur de Propithecus tem vontade de oferecer ? Minerva uma hecatombe de bois brancos!
Vivos, os bona s?o tangidos daqui para ali, corridos, vexados, se t?m grandes ideais; mortos, os seus ossos esperam que os grandes rios da Bruzunganga os levem para fecundar a terra dos outros, l? embaixo, muito longe…
Tudo nela ? caprichoso, e v?rio e irregular. Aqui terreno f?rtil, ?bere; acol?, bem perto, est?ril, arenoso.
Se a jusante sobra cal, falta ?gua; se h? para montante, falta cal…
As suas florestas s?o caprichosas tamb?m; as ess?ncias n?o se associam. Vivem orgulhosamente isoladas, tornando?lhes penosa a explora??o. Aqui, est? uma esp?cie e outra semelhante s? s? encontrar? mais al?m, distante…
Envelheceu, est? caduca e tudo que vem para ela sofre?lhe o cont?gio da sua antiguidade: caduquece!
Contudo, e talvez por isso memmo, os seus costumes e h?bitos podem servir?nos de ensinamento, pois, conforme a Arte de furtar diz: “os maiores ladr?es s?o os que t?m por of?cio livrar?nos de outros ladr?es”.
Por interm?dio dos dela, dos dessa velha e ainda rica terra da Bruzundanga, livremo?nos dos nossos: ? o escopo deste pequeno livro.
 

LIMA BARRETO

Todos os Santos, 2?9?1917.





Bio fornecida pelo palestrante.

Os samoiedas




Autor: Lima Barreto
Título: Os samoiedas
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/06/2006

 

CAPÍTULO ESPECIAL

 
Os samoiedas
 

Vazios estais de Cristo, v?s que vos justificais

pela lei; da gra?a tendes ca?do.

 

S?o Paulo, aos G?latas

 
 
Queria evitar, mas me vejo obrigado a falar na literatura da Bruzundanga. E um cap?tulo dos mais delicados, para tratar do qual n?o me sinto completamente habilitado. Dissertar sobre uma literatura estrangeira sup?e, entre muitas, o conhecimento de duas cousas primordiais : id?ias gerais sobre literatura e compreens?o f?cil do idioma desse povo estrangeiro. Eu cheguei a entender perfeitamente a l?ngua da Bruzundanga, isto ?, a l?ngua falada pela gente instru?da e a escrita por muitos escritores que julguei excelentes; mas aquela em que escreviam os literatos importantes, solenes, respeitados, nunca consegui entender, porque redigem eles as suas obras, ou antes, os seus livros, em outra muito diferente da usual, outra essa que consideram como sendo a verdadeira, a l?dima, justificando isso por ter fei??o antiga de dous s?culos ou tr?s. Quanto mais incompreens?vel ? ela, mais admirado ? o escritor que a escreve, por todos que n?o lhe entenderam o escrito.
Lembrei?me, por?m, que as minhas noticias daquela distante rep?blica n?o seriam completas, se n?o desse algumas informa??es sobre as suas letras; e resolvi vencer a hesita??o imediatamente, como agora ven?o.
A Bruzundanga n?o podia deixar de t??las, pois todo o povo, tribo, cl?, todo o agregado humano, enfim, tem a sua literatura e o estudo dessas literaturas muito tem contribu?do para n?s nos conhecermos a n?s mesmos, melhor nos compreendermos e mais perfeitamente nos ligarmos em sociedade, em humanidade, afinal.
Seria uma falha minha nada dizer eu sobre as belas?letras da Bruzundanga que as tem como todos os pa?ses, a n?o ser o nosso que, conforme sentenciou a Gazeta de Not?cias, n?o merece t??las, pois o literato n?o tem fun??o social na nossa sociedade, provocando tal opini?o o protesto de um soci?logo inesperado. Devem estar lembrados deste epis?dio ? creio eu. Continuemos, por?m, na Bruzundanga.
Nela, h? a literatura oral e popular de c?nticos, hinos, modinhas, f?bulas, etc; mas todo esse folclore n?o tem sido coligido e escrito, de modo que, dele, pouco lhes posso comunicar.
Por?m, um canto popular que me foi narrado com todo o sabor da ingenuidade e dos modismos peculiares ao povo, posso reproduzir aqui, embora a reprodu??o n?o guarde mais aquele encanto de frase simples e imagens familiares das an?nimas narra??es das coletividades humanas.
Na vers?o dos populares da curiosa rep?blica, o conto se intitula ?o General e o diabo? ? havendo uma variante sob a alcunha de ?O padre e o diabo?. Como n?o tivesse de cor nem as palavras da vers?o mais geral, nem as da variante, aproveitei o tema, alguma cousa do corpo da “hist?ria” e narro?a aqui, certamente muito desfigurada, sob a crisma de:
 
SUA EXCEL?NCIA
 
O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento, Ansiava estar s?, s? com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coup? depressa, s?frego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, for?a, valor, vaidade.
Todo ele era um po?o de certeza. Estava certo do seu valor intr?nseco; estava certo das suas qualidades extraordin?rias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a defer?ncia universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convic??o geral de ser ele o resumo do pa?s, a encarna??o dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determina??es das coisas, acertadamente, haviam?no erguido at? ali, e mais alto lev??lo?iam, visto que s? ele, ele s? e unicamente, seria capaz de fazer o pa?s chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham…
E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou?se do seu discurso de ainda agora: ?Na vida das sociedades, como na dos indiv?duos?…
Que maravilha! Tinha algo de filos?fico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou?se dele por inteiro:
 
?Arist?teles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como S?lon, Justiniano, Portalis e Bhering, todos os fil?sofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes?…
 
O olhar, muito brilhante, cheio de admira??o ? o olhar do leader da oposi??o ? foi o mais seguro penhor do efeito da frase…
E quando terminou! Oh!
 
?Senhor, o nosso tempo ? de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!?
 
A cerim?nia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.
O audit?rio delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande sal?o iluminado, pareceu?lhe que recebia as palmas da Terra toda.
O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um s? tra?o de fogo; depois sumiram?se.
O ve?culo agora corria vertiginosamente dentro de uma n?voa fosforescente. Era em v?o que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; n?o havia contornos, formas, onde eles pousassem.
Consultou o rel?gio. Estava parado? N?o; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua sa?da da festa.
? Cocheiro, onde vamos?
Quis arriar as vidra?as. N?o p?de; queimavam.
Redobrou os esfor?os, conseguindo arriar as da frente.
Gritou ao cocheiro:
? Onde vamos? Miser?vel, onde me levas?
Apesar de ter o carro algumas vidra?as arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as gr??cruzes magn?ficas. Gra?as a Deus, ainda n?o se haviam derretido. O Le?o da Birm?nia, o Drag?o da China, o Ling?o da ?ndia estavam ali, entre todas as outras, intactas.
? Cocheiro, onde me levas?
N?o era o mesmo cocheiro, n?o era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, n?o era o seu fiel Manuel!
? Canalha, p?ra, p?ra, sen?o caro me pagar?s!
O carro voava e o ministro continuava a vociferar:
? Miser?vel! Traidor! P?ra! P?ra!
Em uma dessas vezes voltou?se o cocheiro; mas a escurid?o que se ia, aos poucos fazendo quase perfeita, s? lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, met?lico e cortante. Pareceu?lhe que estava a rir?se.
O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. N?o podendo suportar o calor, despiu?se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as cal?as…
Sufocado, estonteado, parecia?lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus bra?os, seu tronco e sua cabe?a dan?avam, separados.
Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu?se vestido com uma reles libr? e uma grotesca cartola, cochilando ? porta do pal?cio em que estivera ainda h? pouco e de onde, sa?ra triunfalmente, n?o havia minutos.
Nas proximidades um coup? estacionava.
Quis verificar bem as coisas circundantes; mas n?o houve tempo.
Pelas escadas de m?rmore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu?lhe isso) descia os degraus, envolvido no fard?o que despira, tendo no peito as mesmas magn?ficas gr??cruzes…
Logo que o personagem pisou na soleira, de um s? ?mpeto aproximou?se e, abjectamente, como se at? ali n?o tivesse feito outra coisa, indagou:
? Vossa Excel?ncia quer o carro?
Como esta h?, na Bruzundanga, muitas outras ?hist?rias? que correm de boca em boca e se transmitem de pai a filho.
Os literatos, propriamente, aqueles de bons vestu?rios e ademanes de encomenda, n?o lhes d?o import?ncia, embora de todo n?o desprezem a literatura oral. Ao contr?rio: todos eles quase n?o t?m propriamente obras escritas; a bagagem deles consta de confer?ncias, poesias recitadas nas salas, m?ximas pronunciadas na intimidade de amigos, discursos em batizados ou casamentos, em banquetes de figur?es ou em cerim?nias escolares, cifrando?se, as mais das vezes, a sua obra escrita em uma plaquette de fantasia de menino, colet?neas de ligeiros artigos de jornal ou num ma?udo comp?ndio de aula, vendidos, na nossa moeda, ? raz?o de quinze ou vinte mil?r?is o volume.
Estes tais s?o at? os escritores mais estimados e representativos, sobretudo quando empregam palavras obsoletas e s?o m?dicos com larga freguesia.
S?o eles l?, na Bruzundanga, conhecidos por “expoentes” e n?o h? mo?a rica que n?o queira casar com eles. Fazem?no depressa porque vivem pouco e menos que os seus livros afortunados. H? outros aspectos. Vamos ver um peculiar.
O que caracteriza a literatura daquele pa?s, ? uma curiosa escola liter?ria l? conhecida por “Escola Samoieda”.
N?o que todo o escritor bruzundanguense perten?a a semelhante rito liter?rio; os mais pretensiosas, por?m, e os que se t?m na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. Digo “caracteriza”, porque, como os senhores ver?o no correr destas notas, n?o h? na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao ?mago das cousas que fingem amar, de decifr??las pelo amor sincero em que as t?m, de quer??las totalmente, de absorv??las. S? querem a apar?ncia das cousas. Quando (em geral) v?o estudar medicina, n?o ? a medicina que eles pretendem exercer, n?o ? curar, n?o ? ser um grande m?dico, ? ser doutor; quando se fazem oficiais do ex?rcito ou da marinha, n?o ? exercer as obriga??es atinentes a tais profiss?es, tanto assim que fogem de executar o que ? pr?prio a elas. V?o ser uma ou outra cousa, pelo brilho do uniforme. Assim tamb?m s?o os literatos que simulam s??lo para ter a gl?ria que as letras d?o, sem querer arcar com as dores, com o esfor?o excepcional, que elas exigem em troca. A gl?ria das letras s? as tem, quem a elas se d? inteiramente; nelas, como no amor, s? ? amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com f? cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam?se com as apar?ncias liter?rias e a banal simula??o de notoriedade, umas vezes por incapacidade de intelig?ncia, em outras por instru??o insuficiente ou viciada, quase sempre, por?m, por falta de verdadeiro talento po?tico, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfar?ar os defeitos com pelotiquices e passes de m?gica intelectuais.
Tendo convivido com alguns poetas samoiedas, pude estudar um tanto demoradamente os princ?pios te?ricos dessa escola e julgo estar habilitado a lhes dar um resumo de suas regras po?ticas e da sua est?tica.
Esses poetas da Bruzundanga, para dar uma origem altissonante e misteriosa ? sua escola, sustentam que ela nasceu do poema de um pr?ncipe samoieda, que viveu nas margens do ?rtico, nas proximidades do ?bi ou do Lena, na Sib?ria, um original que se alimentava da carne de mamutes conservados h? centenas de s?culos nas geleiras daquelas regi?es.
Essa esp?cie de alimenta??o do long?nquo pr?ncipe poeta dava aos olhos de todos eles, singular prest?gio aos seus versos e aos do fundador, embora pouco eles os conhecessem.
O pr?ncipe chamava?se Tuque?Tuque Fit?Fit e o seu poema Parik?ithont Vakochan, o que quer dizer no nosso cal?o. ? O sil?ncio das renas no campo de gelo.
Tuque?Tuque Fit?Fit era descrito pelos “samoiedas” da Bruzundanga como sendo uma beleza sem par e triunfal entre as deidades daquelas regi?es ?rticas.
Tudo isto era fant?stico, mas gra?as ? credulidade dos s?bios do pa?s, s? um ou outro desalmado tinha a coragem de contestar tais lendas.
Como todos n?s sabemos, a ra?a samoieda ? de estatura baixa, pouco menos que a dos lap?es, cabelos longos, duros e negros de jade, vivendo da carne de renas, de urso branco, quando a felicidade lhe fornece um. Tais homens andam em tren?s e fazem kayacs de peles de renas ou focas que eles empregam para capturar estas ?ltimas.
As suas concep??es religiosas s?o reduzidas, e os seus ?dolos, manipansos hediondos, tocos de pau besuntados de pinturas incoerentes. Vestem?se, os samoiedas, com peles de renas e outros animais hiperb?reos.
Entretanto, na opini?o dos poetas daquela rep?blica, que dizem seguir as teorias da literatura do Oceano ?rtico, n?o s?o os samoiedas assim, como o contam os mais autorizados viajantes; mas sim os mais belos esp?cimens da ra?a humana, possuindo uma civiliza??o digna da Gr?cia antiga.
Esta Gr?cia serve para tudo, especialmente na Bruzundanga…
Em geral, os vates bruzundanguenses adeptos da tal escola samoieda, como os senhores v?em, n?o primam pela ilustra??o; e, quando se conteste no tocante ? beleza de tais esquim?s, respondem categoricamente que a devem ter extraordin?ria, pois quanto mais fria ? a regi?o, mais belos s?o os tipos, mais altos, mais louros, e os samoiedas vivem em zona frigid?ssima.
N?o h? como discutir com eles, porque todos se guiam por id?ias feitas, receitas de julgamentos e nunca se aventuram a examinar por si qualquer quest?o, preferindo resolv??las por generaliza??es quase sempre recebidas de segunda ou terceira m?o, dilu?das e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabe?a para outra cabe?a.
Atribuem, sem base alguma, a esse tal Tuque?Tuque a funda??o da escola, apesar de nunca lhe terem lido as poesias nem a sua arte po?tica.
Sempre procurei saber por que se enfeitavam com esse ex?tico avoengo; as raz?es psicol?gicas, eu as encontrei na vaidade deles, no seu desejo de disfar?ar a sua in?pia po?tica com um padrinho esquisito e misterioso; mas o n?cleo da lenda, o gr?ozinho de areia em torno do qual se concretizava o mito ?rtico da escola, s? ultimamente pude encontrar.
Consegui descobrir entre os livros de um ingl?s meu amigo, Senhor Parsons, um volume do Senhor H. T. Switbilter, de Bristol (Inglaterra) ? Literature of the Stingy Peoples; e encontrei nele alguns versos samoiedas.
S?o an?nimos, mas o estudioso de Bristol declara que os recolheu da boca de um certo Tuck?Tuck, samoieda de na??o, que ele conheceu em 1867, quando foi encarregado pela Sociedade Paleontol?gica de Bristol de descobrir na embocadura dos grandes rios da Sib?ria monstros antediluvianos conservados no gelo, como escaparam de encontrar, quase intactos, o naturalista Pallas, nos fins do s?culo XVIII, e o viajante Adams, em 1806. A hist?ria do tal pr?ncipe Tuque?Tuque alimentar?se de carne de elefantes f?sseis, parece ter origem no fato bem sabido de terem os c?es devorado as carnes do mamute, cujo esqueleto Adams trouxe para o museu de S?o Petersburgo; e o pr?ncipe j? sabemos quem ?.
O Senhor Switbilter pouco acrescenta a algumas poesias que publica; e as que est?o no volume, traduzidas, s?o por demais monstruosas, sempre com um mesmo pensamento denunciando uma concep??o estreita da vida e do universo, muito explic?vel em b?rbaros glaciais.
O viajante ingl?s que conhece o samoieda, entretanto, diz aqui e ali, que elas s?o enf?ticas, sem quantidade de sentimento ou um acento musical agrad?vel e individual, descaindo quase sempre para a melop?ia ou o “tant?” ignaro, quando n?o alternam uma cousa e outra.
Mas n?o foi no livro do Senhor Switbilter que os augustos poetas da Bruzundanga foram encontrar as bases da sua escola. Eles n?o conhecem esse autor, pois nunca os vi cit??lo.
Eles, os “samoiedas” da Bruzundanga, encontraram o mestre nos escritos de um tal Chamat ou Chalat, um aventureiro franc?s que parece ter estado no pa?s daquela gente ?rtica, aprendido um pouco da l?ngua dela e se servido do livro do viajante ingl?s para defender uma po?tica que lhe viera ? cabe?a.
Esse Chamat ou Chalat, Flaubert, quando esteve no Egito, encontrou?o por l?, como m?dico do ex?rcito quedival; e ele se ocupava nos ?cios de sua prov?vel mendic?ncia em rimar uma trag?dia cl?ssica, Abdelc?der, em cinco atos, onde havia um c?lebre verso de que o grande romancista nunca se esqueceu. ?, o seguinte:
 
“C’est de Id par Allah! qu’ Abd?Allah s’en alla”.
 
O escul?pio do Cairo insistia muito nele e esfor?ava?se por demonstrar que, com semelhante “harmonia imitativa” como os antigos chamavam, obtinha traduzir, em verso, o sonido do galope de cavalo.
Havia mais belezas de igual quilate e outras originalidades. N?o obstante, quando apareceu, foi um louco sucesso de riso muito parecido com o do Tremor de terra de Lisboa, aquela c?lebre trag?dia do cabeleireiro Andr?, a quem Voltaire invejou e escreveu, entretanto, ao receber?lhe a obra, que continuasse a fazer sempre cabeleiras ? ?toujours des perruques?, Senhor Andr?.
Chalat afrontou a cr?tica e n?o podendo defender?se com os cl?ssicos franceses, apelou para a poesia em l?ngua samoieda, que conhecia um pouco por ter sido marinheiro de um baleeiro que naufragou nas proximidades da terra desses lap?es, entre os quais passou alguns meses. N?o desconhecia o livro do Senhor Switbilter, como tive ocasi?o de verificar nos fragmentos de um seu tratado po?tico, citado na tradu??o da obra de um seu disc?pulo basco por onde os “samoiedas” da Bruzundanga estudaram a escola que verdadeiramente Chalat ou Chamat fundara.
O seu desafio ? cr?tica, escudado na po?tica e est?tica das margens do glacial ?rtico, trouxe?lhe logo uma certa notoriedade e disc?pulos.
Estes vieram muito naturalmente, pois, dada a indig?ncia mental daquela esp?cie de esquim?s, a sua pobreza de impress?es e sensa??es, a sua incapacidade para as id?ias gerais, os hinos, os c?nticos, os rond?s dos mesmos, citados pelo medicastro, facilitavam muito o of?cio de fazer verso, desde que se tivesse paci?ncia; e a facilidade seduziu muitos dos seus patr?cios e determinou a admira??o dos bardos bruzundanguenses.
Os disc?pulos de Chalat ou Chamat tiraram da sua obra regras infal?veis para fazer poetas e poesias e um certo at? aplicou a teoria dos erros ? sua arte po?tica.
A instru??o do grosso dos menestr?is bruzundanguenses n?o permitia esse apelo ? matem?tica; e contentaram?se com umas regras simples que tinham na ponta da l?ngua, como as beatas as rezas que n?o lhes passam pelo cora??o, e outros desenvolvimentos te?ricos.
Era pois essa po?tica e essa est?tica que dominavam entre os literatos da Bruzundanga; era assim como o seu dogma de arte donde se originavam as suas f?rmulas lit?rgicas, o seu ritual, os seus esconjuros, enfim, o seu culto ? tal harmonia imitava, que tanto prezava Chalat.
Al?m desta deusa, havia outras divindades: o ritmo, o estilo, a nobreza das palavras, a aristocracia dos assuntos e dos personagens, quando faziam romances, contos ou drama e a medi??o dos versos que exigiam fosse feita como se se tratasse da base de uma triangula??o geod?sica. Ningu?m, no entanto, podia sacar?lhes da cabe?a uma concep??o geral e larga de arte ou obter o motivo deles conceberem separados da obra d’arte, esses acess?rios, transformando?os em puros manipansos, fetiches, isolando?os, fazendo?os perder a sua fun??o natural que sup?e sempre a obra liter?ria como fim.
? ela, a sua concep??o, a id?ia anterior que a domina e o seu destino necess?rio, que unicamente regulam o emprego deles, graduam o seu uso, a sua necessidade, e como que ela mesma os dita.
Todos os samoiedas limitavam?se quando se tratava dos tais assuntos, a falar muito de um modo confuso, esotericamente, em forma e fundo, com trejeitos de feiticeiros tribais.
N?o nego que houvesse entre eles alguns de valor, mas os preconceitos da escola os matavam.
A maioria ia para ela, porque era c?moda no fundo, pois n?o pedia se comunicasse qualquer emo??o, qualquer pensamento, qualquer importante revela??o de nossa alma que interessasse outras almas; que se dissesse usando dos processos art?sticos, novos ou velhos, de um pouco do universal que h? em n?s, alguma cousa do mist?rio do universo que o nosso esp?rito tivesse percebido e determinasse transmiti?la; enfim um julgamento, um conceito que pudesse influir no uso da vida, na nossa conduta e no problema do nosso destino, empregando os fatos simples, elementares, as imagens e os sons que por si s?s n?o exprimiriam a id?ia que se procura, mas que se acha com eles e se vai al?m por meio deles.
Isto de Hegel, de Taine, de Bruneti?re n?o era com os samoiedas; a quest?o deles era encontrar uma esp?cie de tabuada que lhes fizesse multiplicar a versalhada. Como as tais regras po?ticas do suposto pr?ncipe eram bem acess?veis ? sua paci?ncia de correcionais, adotaram?nas como artigos de f?, exageraram?nas at? ao absurdo.
Convinham elas por ir ao encontro da sua falta de uma larga intelig?ncia do mundo e do homem e facilitar?lhes uma cr?tica terra?a?terra de seminaristas mnem?nicos.
Para mais perfeito ensinamento dos leitores vou?lhes repetir um trecho de conversa que ouvi entre tr?s dos tais poetas da Bruzundanga, adeptos extremados da Escola Samoieda.
Quando cheguei, eles j? estavam sentados em torno da mesa do caf?.
Acabava eu de assistir uma aula de geologia na Faculdade de Ci?ncias do pa?s; o meu esp?rito vinha cheio de silhuetas de monstros de outras ?pocas geol?gicas. Eram ictiossauros, megat?rios, mamutes; era do sinistro pterod?ctilo que eu me lembrava; e n?o sei por que, quando deparei os tr?s poetas samoiedas, me deu vontade de entrar no botequim e tomar parte na conversa deles.
A Bruzundanga, como sabem, fica nas zonas tropical e subtropical, mas a est?tica da escola pedia que eles se vestissem com peles de urso, de renas, de martas e raposas ?rticas.
? um vestu?rio barato para os samoiedas aut?nticos, mas car?ssimo para os seus parentes liter?rios dos tr?picos.
Estes, por?m, crentes na efic?cia da vestimenta para a cria??o art?stica, morrem de fome, mas vestem?se ? moda da Sib?ria.
Estavam assim vestidos, naquela tarde, quente, ali naquele caf? da capital da Bruzundanga, tr?s dos seus novos e soberbos vates; estavam ali: Kotelniji, Wolpuk e Korspikt, o primeiro que tinha aplicado o vernier para “medir” versos.
Abanquei?me e pude perceber que acabavam de ouvir uma poesia do poeta Worspikt. Tratava de lua, de iceberg ?, descobri eu por uma e outra considera??o que fizeram.
Nenhum deles tinha visto um iceberg, mas gabavam os ouvintes a mo??o com que o outro traduzira em verso o espet?culo desse fen?meno das circunvizinhan?as dos p?los.
Num dado momento Kotelniji disse para Worspikt:
? Gostei muito desse teu verso: “h? luna loura linda leve, luna bela!”
O autor cumprimentado retrucou:
? N?o fiz mais do que imitar Tuque?Tuque, quando encontrou aquela soberba harmonia imitativa para dar id?ia do luar ? “Loga Kule Kulela logalam”, no seu poema “Kulelau”.
Wolpuk, por?m, objetou:
? Julgo a tua excelente, mas teria escolhido a vogal forte “u”, para basear a minha sugest?o imitativa do luar.
? Como? perguntou Worspikt.
Eu teria dito: Ui! “lua uma pula, tu moo! sulla nuit!”
? H? muitas l?nguas nela, objetou Kotelniji.
? Quantas mais melhor, para dar um car?ter universal ? poesia que deve sempre t??lo, como ensina o mestre, defendeu?se Wolpuk.
? Eu, por?m, aduziu Kotelniji, conquanto permita nos outros certas licen?as po?ticas, tenho por princ?pio obedecer ?s mais duras e r?gidas regras, n?o me afastar delas, encarcerar bem o meu pensamento. No meu caso, eu empregaria a vogal “a” para a harmonia em vista.
? Mas Tuque?Tuque… fez Worspikt.
? Ele empregou o “e” no tal verso que voc? citou, devido ? pronuncia??o que essa letra l? tem. ? um “e” molhado que evoca bem o luar deles, mas…
? E com “a”, como ?? indagou Wolpuk.
? O “a” ? o espanto; seria ai o espanto do homem dos. tr?picos, diante da estranheza do fen?meno ?rtico que ele n?o conhece e o assombra.
? Mas Kotelniji, eu visava o luar.
? Que tem isso? Na harmonia em “a” tamb?m entra esse fen?meno que ? o provocador do teu espanto, causado pela sua singularidade local, e pela hirta presen?a do iceberg, branco, fant?stico, que, a lua ilumina.
? Bem, perguntou o autor da poesia; como voc? faria, Kotelniji?
? Eu diria: “A lua acaba de calar a cara?a parva”.
? Mas n?o teria nada que ver com o tema da poesia, objetou Wolpuk.
? Como? O iceberg toma as formas mais variadas… Demais, h? sempre onde encaixar, seja qual for a poesia, uma feliz “imitativa”.
? Voc? tem raz?o, aplaudiu Wolpuk.
Worspikt concordou tamb?m e prometeu aproveitar a maravilhosa trouvaille do amigo de letras.
Kotelniji era considerado como um grande poeta “samoieda” e tinha mesmo estabelecido com assentimento de todos eles, as leis cient?ficas da escola perfeita, “a samoieda”, que ele definia como tendo por escopo n?o exprimir cousa alguma com rela??o ao assunto visado, ou dizer sobre ele, pomposamente, as mais vulgares banalidades.
Dentre as leia que estatu?a, eu me lembro de algumas. Ei?las:
1. Sendo a poesia o meio de transportar o nosso esp?rito do real para o ideal, deve ela ter como principal fun??o provocar o sono, estado sempre prof?cuo ao sonho.
2. A monotonia deve ser sempre procurada nas obras po?ticas; no mundo, tudo ? mon?tono (Tuque?Tuque).
3. A beleza de um trabalho, po?tico n?o deve ressaltar desse pr?prio trabalho, independente de qualquer explica??o; ela deve ser encontrada com as explica??es ou coment?rios fornecidos pelo autor ou por seus ?ntimos.
4. A composi??o de um poema deve sempre ser regulada pela harmonia imitativa em geral e seus derivados.
E muitas outras de que me esqueci, mas julgo que s? estas ilustram perfeitamente o absurdo da qualifica??o de leis cient?ficas da arte. Alhos com bugalhos!
Denuncia tal denomina??o, de modo cabal, a sua incapacidade para grupar id?ias, no??es e imagens. Que pensaria ele de ci?ncia? Qual era a sua concep??o de arte? Ser? poss?vel decifrar essa hist?ria de “leis cient?ficas da arte”? Qual!
Era assim o grande poeta samoieda.
Al?m de uma gramaticazinha que n?s aqui chamamos de tico?tico e da arte po?tica de Chalat aumentada e explicada com uma l?gica de gafanhotos, n?o possu?a ele um acervo de no??es gerais, de id?ias, de observa??es, de emo??es pr?prias e diretas do mundo, de julgamentos sobre as cousas, tudo isso que forma o fundo do artista e que, sob a a??o de uma concep??o geral, lhe permite fazer grupamentos ideais, originalmente, criar enfim.
A import?ncia do vate lhe vinha de redigir A Kananga, ?rg?o das casas de perfumarias, leques, luvas e receitas para doces, onde alguns rapazes, sob o seu olhar cioso, escreviam, para ganhar os cigarros, algumas coisas ligeiras.
O bardo samoieda tomava, entretanto, a cousa a s?rio, como se estivesse escrevendo para a Revue de Deux Mondes uma f?rmula de m?e?benta; e evitava o mais poss?vel que algu?m tomasse p? na pueril A Kananga. Era essa a sua m?xima preocupa??o de artista.
De todos os posti?os liter?rios, usava, e de todas as mesquinhezas da profiss?o, abusava.
Era este de fato um samoieda t?pico no intelectual, no moral, no f?sico. Tinha fama.
Poderia mais esclarecer semelhante escola, os seus processos, as suas regras, as suas supersti??es; mas n?o conv?m fazer semelhante cousa, porque bem podia acontecer que alguns dos meus compatriotas a quisessem seguir.
J? temos muitas bobagens e s?o bastantes.
Fico nisto.
I





Bio fornecida pelo palestrante.

RECORDAÇÕES DO ESCRIV?O ISA?AS CAMINHA




Autor: Lima Barreto
Título: RECORDA??ES DO ESCRIV?O ISA?AS CAMINHA
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

RECORDA??ES DO ESCRIV?O ISA?AS CAMINHA

 
 
 

I

 
 
 

Lima Barreto

 
 
A tristeza, a compreens?o e a desigualdade de n?vel mental do meu meio familiar, agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de intelig?ncia. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em come?o, na minha primeira inf?ncia, estimulou-me pela obscuridade de suas exorta??es. Eu n?o tinha ainda entrado para o col?gio, quando uma vez me disse: Voc? sabe que nasceu quando Napole?o ganhou a batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: quem era Napole?o? Um grande homem, um grande general… E n?o disse mais nada. Encostou-se ? cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem entrar na significa??o de suas palavras; contudo, a entona??o de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!…
O espet?culo do saber de meu pai, real?ado pela ignor?ncia de minha m?e e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de crian?a, como um deslumbramento.
Pareceu-me ent?o que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembara?o de linguagem, a sua capacidade de ler l?nguas diversas e compreend?-las constitu?am, n?o s? uma raz?o de ser de felicidade, de abund?ncia e riqueza, mas tamb?m um t?tulo para o superior respeito dos homens e para a superior considera??o de toda a gente.
Sabendo, fic?vamos de alguma maneira sagrados, deificados… Se minha m?e me parecia triste e humilde ? pensava eu naquele tempo ? era porque n?o sabia, como meu pai, dizer os nomes das estrelas do c?u e explicar a natureza da chuva…
Foi com estes sentimentos que entrei para o curso prim?rio. Dediquei-me a?odadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo foram-se desdobrando as minhas primitivas no??es sobre o saber.
Acentuaram-se-me tend?ncias; pus-me a colimar gl?rias extraordin?rias, sem lhes avaliar ao certo a significa??o e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspira??es indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir…
Ouvia uma tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo instante, na minha gl?ria futura. Agia desordenadamente e sentia a incoer?ncia dos meus atos, mas esperava que o preenchimento final do meu destino me explicasse cabalmente. Veio-me a pose, a necessidade de ser diferente. Relaxei-me no vestu?rio e era preciso que minha m?e me repreendesse para que eu fosse mais zeloso. Fugia aos brinquedos, evitava os grandes grupos, punha-me s? com um ou dois, ? parte, no recreio do col?gio; l? vinha um dia, por?m, que brincava doidamente, apaixonadamente. Causava com isso espanto aos camaradas: Oh! O Isa?as brincando! Vai chover…
A minha energia no estudo n?o diminuiu com os anos, como era de esperar; cresceu sempre progressivamente. A professora admirou-me e come?ou a simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu hoje), ela imaginou que lhe passava pelas m?os um g?nio. Correspondi-lhe ? afei??o com tanta for?a d?alma, que tive ci?mes dela, dos seus olhos azuis e dos seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu ent?o dois anos de escola e doze de idade. Da? a um ano, sai do col?gio, dando-me ela, como recorda??o, um exemplar do Poder da Vontade, luxuosamente encadernado, com uma dedicat?ria afetuosa e lisonjeira. Foi o meu livro de cabeceira. Li-o sempre com m?o diurna e noturna, durante o meu curso secund?rio, de cujos professores, poucas recorda??es importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles tinha os olhos azuis de Dona Ester, t?o meigos e transcendentes que pareciam ler o meu destino, beijando as p?ginas em que estava escrito!…
Quando acabei o curso do liceu, tinha uma boa reputa??o de estudante, quatro aprova??es plenas, uma distin??o e muitas sabatinas ?timas. Demorei-me na minha cidade natal ainda dois anos, dois anos que passei fora de mim, excitado pelas notas ?timas e pelos progn?sticos da minha professora, a quem sempre visitava e ouvia. Todas as manh?s, ao acordar-me, ainda com o esp?rito acariciado pelos nevoentos sonhos de bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido: Vai, Isa?as! vai!… Isto aqui n?o te basta… Vai para o Rio!
Ent?o, durante horas, atrav?s das minhas ocupa??es quotidianas, punha-me a medir as dificuldades, a considerar que o Rio era uma cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de ego?smo, onde eu n?o tinha conhecimentos, rela??es, protetores que me pudessem valer…
Que faria l?, s?, a contar com as minhas pr?prias for?as? Nada… Havia de ser como uma palha no rodamoinho da vida ? levado daqui, tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro… ladr?o… b?bado… t?sico e quem sabe mais? Hesitava. De manh?, a minha resolu??o era quase inabal?vel, mas, j? ? tarde, eu me acobardava diante dos perigos que antevia.
Um dia, por?m, li no Di?rio de *** que o Fel?cio, meu antigo condisc?pulo, se formara em Farm?cia, tendo recebido por isso uma estrondosa, dizia o Di?rio, manifesta??o dos seus colegas.
Ora o Fel?cio! pensei de mim para mim. O Fel?cio! T?o burro! Tinha vit?rias no Rio! Por que n?o as havia eu de ter tamb?m ? eu que lhe ensinara, na aula de portugu?s, de uma vez para sempre, diferen?a entre o adjunto atributivo e o adverbial? Por qu?!?
Li essa not?cia na sexta-feira. Durante o s?bado tudo enfileirei no meu esp?rito, as vantagens e as desvantagens de uma partida. Hoje, j? n?o me recordo bem das fases dessa batalha; por?m uma circunst?ncia me ocorre das que me demoveram a partir. Na tarde de s?bado, sai pela estrada fora. Fazia mau tempo. Uma chuva intermitente caia desde dois dias.
Sai sem destino, a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada.
Passava por um largo descampado e olhei o c?u. Pardas nuvens cinzentas galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada nelas. A mancha aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim, um bando de patos negros passou por sobre a minha cabe?a, bifurcado em dois ramos, divergentes de um pato que voava na frente, a formar um V. Era a inicial de ?Vai?. Tomei isso como sinal animador, como bom aug?rio do meu prop?sito audacioso. No domingo, de manh?, disse de um s? jato ? minha m?e:
? Amanh?, mam?e, vou para o Rio.
Minha m?e nada respondeu, limitou-se a olhar-me enigmaticamente, sem aprova??o nem reprova??o; mas minha tia, que costurava em uma ponta da mesa, ergueu um tanto a cabe?a, descansou a costura no colo e falou persuasiva:
? Veja l? o que vai fazer, rapaz! Acho que voc? deve aconselhar-se com o Valentim!
? Ora qual! fiz eu com enfado. Para que Valentim? N?o sou eu rapaz ilustrado? N?o tenho todo o curso de preparat?rios? Para que conselhos?
? Mas olhe Isa?as! voc? ? muito crian?a… N?o tem pr?tica… O Valentim conhece mais a vida do que voc?. Tanto mais que j? esteve no Rio…
Minha tia, irm? mais velha de minha m?e, n?o tinha acabado de dizer a ?ltima palavra, quando o Valentim entrou envolvido num comprido capote de baeta.
Descansou alguns pacotes de jornais manchados de selos e carimbos; tirou o bon? com o emblema do Correio e pediu caf?.
? Voc? veio a prop?sito, Valentim. Isa?as quer ir para o Rio e eu acabo de recomendar que se aconselhasse com voc?.
? Quando voc? pretende ir, Isa?as? indagou meu tio, sem surpresa e imediatamente:
? Amanh?, disse eu cheio de resolu??o.
Ele nada me disse. Calamo-nos e minha tia saiu da sala, levando o capote molhado, e logo depois voltou, trazendo o caf?.
? Quer para ti, Valentim?
? Quero.
Revolvendo lentamente o a??car no fundo da x?cara, meu tio continuou ainda calado por muito tempo. Tomou um gole de caf?, depois um outro de aguardente, esteve com o c?lice suspenso alguns instantes, descansou-o na mesa automaticamente e, aos poucos, a sua fisionomia de largos tra?os de ousadia foi revelando um grande trabalho de concentra??o interior. Minha m?e nada dissera at? ali.
Num dado momento, pretextando qualquer coisa, levantou-se e foi aos fundos da casa. Ao sair fez a minha tia uma insignificante pergunta sobre o arranjo dom?stico, sem aludir ? minha resolu??o e sem despertar meu tio da cisma profunda em que se engolfara.
Ansioso, deixei-me a ficar ? espera de uma resposta dele, notando-lhe as menores contra??es do rosto e decifrando os mais t?nues lampejos de seu olhar. Houve um segundo que ele me pareceu ter suspendido todo o movimento exterior de sua pessoa. A respira??o como que parara, tinha o cenho carregado, as rugas da testa larga e quadrada fixadas, como se tivessem sido vazadas em bronze, e os olhos im?veis, orientados para uma fresta da mesa, brilhantes, extraordinariamente brilhantes e salientes, como que a saltar das ?rbitas, para farejar o rasto prov?vel da minha vida na intrincada floresta dos acontecimentos. Gostava dele. Era um homem leal, valoroso, de pouca instru??o, mas de cora??o aberto e generoso. Contavam-lhe fa?anhas, bravatas portentosas, levadas ao cabo, pelos tempos em que fora, nas elei??es, esteio do partido liberal. Pelas portas das vendas, quando passava, cavalgando o seu simp?tico cavalo magro, com um saco de cartas ? garupa, murmuravam: ?Que songamonga! J? liquidou dois…?
Eu sabia do caso, estava mesmo convencido de sua exatid?o; entretanto, apesar das minhas idiotas exig?ncias de moral inflex?vel, n?o me envergonhava de estim?-lo, amava-o at?, sem mescla de terror, j? pela decis?o do seu car?ter, j? pelo apoio certo que nos dera, a mim e a minha m?e, quando veio a morrer meu pai, vig?rio da freguesia de ***. Animara a continuar os meus estudos, fizera sacrif?cios para me dar vestu?rio e livros, desenvolvendo assim uma atividade acima dos meus recursos e for?as.
Durante os dois anos que passei, depois de ter conclu?do humanidades, o seu car?ter atrevido conseguia de quando em quando arranjar-me um ou outro trabalho. Desse modo, eu ia vivendo uma doce e med?ocre vida roceira, sempre perturbada, por?m, pelo estonteante prop?sito de me largar para o Rio. Vai Isa?as! Vai!
Meu tio ergueu a cabe?a, passou a olhar demoradamente sobre mim e disse:
? Fazes bem!
Acabou de tomar o caf?, pediu o capote e convidou-me:
? V?, comigo. Vamos ao coronel… Quero pedir-lhe que te recomende ao doutor Castro, deputado.
Minha tia trouxe o capote, e quando ?amos saindo apareceu tamb?m minha m?e, recomendando:
? Agasalhe-se bem, Isa?as! Levas o chap?u-de-chuva?
? Sim senhora, respondi.
Durante quarenta minutos, patinhamos na lama do caminho, at? ? casa do Coronel Belmiro. Mal t?nhamos empurrado a porteira que dava para a estrada, o vulto grande do fazendeiro assomou no portal da casa, redondo, num longo capote e coberto de um largo chap?u de feltro preto. Aproximamo-nos.
? Oh! Valentim! fez pregui?osamente o coronel. Voc? traz cartas? Devem ser do Trajano, conhece? S?cio do Martins, da Rua dos Pescadores…
? N?o senhor, interrompeu meu tio.
? Ah! ? seu sobrinho… Nem o conheci… Como vai, menino? N?o esperou a minha resposta; continuou logo em seguida:
? Ent?o, quando vai para o Rio? N?o fique aqui… V?… olhe o senhor conhece o Azevedo?
? ? disso mesmo que v?nhamos tratar. Isa?as quer ir para o Rio e eu vinha pedir a Vossa Senhoria…
? O qu?? interrompeu assustado o coronel.
? Eu queria que Vossa Senhoria, senhor coronel, gaguejou o tio Valentim, recomendasse o rapaz ao doutor Castro.
O coronel esteve a pensar. Mirou-me de alto a baixo, finalmente falou:
? Voc? tem direito, Seu Valentim… ?… Voc? trabalhou pelo Castro… Aqui para n?s: se ele est? eleito, deve-o a mim e aos defuntos, e a voc? que desenterrou alguns.
Riu-se muito, cheio de satisfa??o por ter repetido t?o velha pilh?ria e perguntou amavelmente em seguida:
? O que ? que voc? quer que lhe pe?a?
? Vossa Senhoria podia dizer na carta que o Isa?as ia ao Rio estudar, tendo j? todos os preparat?rios, e precisava, por ser pobre, que o doutor lhe arranjasse um emprego.
O coronel n?o se deteve, fez-nos sentar, mandou vir caf? e foi a um compartimento junto escrever a missiva.
(…)
 
 
 
____________________
 
Fonte: BARRETO, Lima. Recorda??es do Escriv?o Isa?as Caminha. Rio de Janeiro, Ediouro, 1990, p. 27-31.





Bio fornecida pelo palestrante.

SOUVENIRS D?UN GRATTE-PAPIER




Autor: Lima Barreto
Título: SOUVENIRS D?UN GRATTE-PAPIER
Idiomas: fra
Tradutor: Monique Le Moing et Marie-Pierre Maz?as(FRA)
Data: 03/06/2005

SOUVENIRS D?UN GRATTE-PAPIER

 
 
 

I

 
 
 

Lima Barreto

 
 
La tristesse, l?impression d??touffement et la conscience de l?in?galit? intellectuelle de mes parents out agi sur moi de fa?on curieuse : elles m?ont donn? des d?sirs d?intelligence. Mon p?re qui ?tait sup?rieurement brillant et instruit m?a, avant toute chose, d?s ma premi?re enfance, stimul? par ses propres ?nigmatiques. Je n??tais pas encore entr? au coll?ge qu?il me dit un jour : ? Sais-tu qui est n? quand Napol?on gagna la bataille de Marengo ? ? J?ouvris de grands yeux et demandai : ? Qui est Napol?on ? ? ? Un grand homme, un grand g?n?ral ?… Et il n?ajouta rien. Il s?adossa ? sa chaise et poursuivit sa lecture. Je ne fis aucun effort pour p?n?trer le sens de ses paroles ; cependant, l?intonation de sa voix, son geste et son regard sont rest?s grav?s en moi pour toujours. Le spectacle du savoir de mon p?re, mis en valeur par l?ignorance de ma m?re et de toute sa famille, s?imposa ? mes yeux d?enfant comme un myst?re fascinant.
Il me sembla alors que son ?tonnante capacit? ? tout expliquer, sa grande facilit? d??locution, son aptitude ? lire plusieurs langues et ? les comprendre, constituaient non seulement une source de bonheur, d?abondance et de richesse, mais aussi une justification ? un profond respect des hommes, ? une plus haute estime de tous.
Gr?ce au Savoir, nous ?tions en quelque sorte sacr?s, d?ifi?s… Si ma m?re m?apparaissait triste et humble ? pensais-je ? l??poque ? c??tait parce qu?elle, elle ne savait pas, comme mon p?re, appeler les ?toiles par leur nom ni expliquer le ph?nom?ne de la pluie… C?est avec ce genre de sentiments que j?entrai ? l??cole primaire. Je me consacrai avec z?le ? l??tude. Je brillai, et peu ? peu mes premi?res notions sur le Savoir s??panouirent.
Certaines tendances se manifest?rent en moi : j?avais pour point de mire des destins hors du commun, sans en ?valuer vraiment la signification et l?utilit? et, au fond de mon ?me, une profusion d?aspirations et de d?sirs ind?termin?s. C??tait comme si le monde n?attendait que moi pour continuer ? tourner…
J?entendais ? toute heure et ? tout moment une sibylle tentatrice me parler de ma gloire future. J?agissais de fa?on d?sordonn?e et j??tais conscient de l?incoh?rence de mes actes, mais j?attendais que l?accomplissement de mon destin m??claire une fois pour toutes. J?entrais dans ma phase de marginalit? et de besoin de me distinguer. Je me laissais aller dans ma mise et il fallait que ma m?re me rappelle ? l?ordre pour que j?en prenne plus de soin. Je fuyais les yeux, j??vitais les rassemblements, faisant bande ? part avec un ou deux ?l?ves pendant la r?cr?ation, un jour arriva o? je me mis ? jouer comme un fou, avec passion. Je provoquai ainsi la stupeur de mes camarades : Tiens ! Isa?as qui joue ! Il va pleuvoir…
Mon ardeur ? l??tude ne diminua pas avec les ann?es… comme on aurait pu s?y attendre : elle ne fit que se confirmer patit ? petit. Mon professeur, ?tonn?e, se prit de sympathie pour moi. Au fond d?elle-m?me (je le soup?onne aujourd?hui), elle imagina qu?un petit g?nie lui passait entre les mains. Je r?pondis ? son affection de toute mon ?me : quand elle se maria ? avec ses yeux bleus et ses cheveux ch?tains ? je crus qu?on me l?arrachait… Il y avait deux ans que j?allais ? l??cole, j?avais douze ans. Un an plus tard, je quittais le coll?ge ; elle me donna en souvenir un exemplaire du Pouvoir de la Volont? luxueusement reli?, avec une d?dicace affectueuse et pleine d??loges. J?en fis mon livre de chevet. Il ne m?a quitt? ni le jour ni la nuit pendant toutes mes ?tudes secondaires dont les professeurs ne m?ont laiss? que des souvenirs peu marquants.
Aucun d?eux n?avait les yeux bleus de Dona Esther, si doux, si clairvoyants qu?ils semblaient lire mon destin quand je d?posais des baisers sur les pages o? il ?tait inscrit !…
A la fin de mes ?tudes au lyc?e, j?avais une solide r?putation de b?cheur, je comptais quatre succ?s, une distinction et de nombreuses compositions excellentes. Je restai encore deux ans dans ma ville natale, deux ans que je passai hors de mon ?tat normal, exalt? par mes notes exemplaires et par les pronostics de mon professeur ? qui je rendais r?guli?rement visite et ? qui je pr?tais une vreille tr?s attentive. Tous les matins, au r?veil, l?esprit encore caress? par de myst?rieux r?ves de bon augure, la sibylle me disait ? l?oreille : ? Pars, Isa?as ! Pars ! Ici, c?est trop petit pour toi… Va ? Rio ! ?
Alors, pendant des heures et des heures, au cors de mes occupations quotidiennes, je tentais de mesurer les difficult?s, de me faire ? l?id?e que Rio ?tait une grande ville, pleine de richesses, gorg?e d?ego?sme, o? je n?avais ni connaissances, ni relations, ni protecteurs qui puissent m??tre utiles…
Que ferais-je l?-bas, tout seul, ne pouvant compter que sur mes propres forces ? Rien… Je serais comme un brin de puille dans le tourbillon de la vie ? emport? par-ci, rejet? par-l? ? et, pour finir, englouti dans l?ab?me… voleur… ivrogne… phtisique et qui sait pire encore. J?h?sitais. le matin, ma volont? ?tait presque in?branlable mais, l?apr?s-midi venue, je fl?chissais face aux dangers que j?entrevoyais.
Un jour, cepudant, je lus dans le journal que F?licio, mon ancien condisciple, avait r?ussi sa pharmacie et avait re?u pour cela ? disait le journal ? une retentissante ovation de ses camarades.
Quoi ! F?licio ! Pensais-je en moi-m?me. F?licio ! Cet ?ne ! Il r?ussissait ? Rio ! Et pourquoi pas moi, moi qui lui avais enseign? en classe de portugais, une bonne fois pour toutes, la diff?rence entre l?adjectif attributif et l?adverbial ? En quel honneur ?
Je lus cette nouvelle le vendredi et, durant tout le samedi, je pesai dans mon esprit les avantages et les incov?nients d?un d?part.
Aujourd?hui, je ne me souviens plus tr?s bien des phases de ce combat int?rieur ; un d?tail me revient cependant ? l?esprit, parmi ceux qui me dissuad?rent de partir. Le samedi apr?s-midi, je sortis marcher un peu. Il faisait mauvais temps. Une pluie intermittente tombait depuis deux jours. Maussade, je sortis sans but, au hasard, profitant d?une accalmie. Arriv? en rase campagne, je regardai le ciel. Des nuages couleur de cendre galopaient et, au loin, incrust?e, une toute petite tache un peu plus sombre semblait courir. Elle se rapprochait et peu ? peu je la vis se subdiviser, se multiplier ; alors un vol de canard noirs passa au-dessus de moi et, dessinant un V, se d?tacha de celui qui volait en t?te. C??tait la premi?re lettre de ? Va ?. J?interpr?tai cela comme un signe d?encouragement, augure propice ? mon projet audacieux. Le dimanche matin, je dis d?un seul trait ? ma m?re :
? Demain, M?re, je pars pour Rio.
Celle-ci ne r?pondit rien. Elle se contenta de me regarder avec perplexit?, sans approuver ni d?sapprouver ; mais ma tante qui cousait ? un bout de la table releva l?g?rement la t?te, posa sa couture sur ses genoux et dit d?un ton persuasif :
? Fais attention ? ce que tu vas faire, non gar?on ! Il me semble que tu devrais demander conseil ? Valentin.
? Quoi ! fis-je avec v?h?mence. Pourquoi Valentin ? Ne suis-je pas un gar?on instruit ? N?ai-je pas fait ma prop?deutique ? Et pourquoi des conseils ?
? Ecoute, Isa?as ! Tu es encore un enfant… Tu n?as pas d?exp?rience… Valentin conna?t mieux la vie que toi… D?autant plus qu?il a d?j? v?cu ? Rio…
A peine ma tante, s?ur a?n?e de ma m?re, avait-elle prononc? le dernier not, que Valentin entra, envelopp? dans un long manteau de flanelle.
Il d?posa quelques paquets de journaux macul?s de timbres et de tampons, retira sa casquette ? l?embl?me des Postes et demanda du caf?.
? Tu tombes ? pic, Valentin. Isa?as veut aller ? Rio et je lui recommandais justement de prendre conseil aupr?s de toi.
? Quand penses-tu partir, Isa?as ? demanda aussit?t mon oncle, peu surpris.
? Demain, dis-je, tout ? fait r?solu.
Il n?ajouta rien. Nous nous t?mes ; ma tante sortit de la pi?ce, emportant le manteau mouill?, et revint aussit?t avec du caf?.
? Tu en veux, Valentin ?
? Oui.
Tout en remuant lentement le sucre au fond de la tasse, mon oncle resta silencieux un bon moment. Il avala une gorg?e de caf?, puis une d?eau-de-vie, retint le verre ? liqueur un instant en l?air et le reposa machinalement sur la table. Alors, son visage aux traits grossiers et hardis r?v?la progressivement un grand effort de concentration int?rieure. Ma m?re n?avait rien dit jusque-l?.
A un moment donn?, sous un pr?texte quelconque, elle se leva et se dirigea vers le fond de la maison. Au moment o? elle sortait, ma tante posa une question insignificante sur l?organisation domestique, sans ?voquer ma r?solution et sans tirer mon oncle des cogitations profondes dans lesquelles il ?tait absorb?.
Inquiet, je me pris ? attendre une r?ponse de sa part, notant les moindres contractions de son visage et d?chiffrant les plus furtives ?tincelles dans son regard. L?espace d?une seconde, il me sembla qu?il avait suspendu tout mouvement ext?rieur de sa personne. Sa respiration s??tait comme arr?t?e ; il avait l?air s?v?re et renfrogn?, les rides de son large front carr? ?taient figg?s, comme si elles avaient ?t? coul?es dans du bronze : ses yeux, fix?s sur une fente de la table, brillaient, brillaient extraordinairement, saillants, pr?ts ? jaillir de leur orbite, pour suivre la piste probable de ma vie dans le maquis broussailleux des ?v?ments.
Je l?aimais bien. C??tait un homme loyal, valeureux, peu instruit, mais au c?ur franc et g?n?reux. Depuis l??poque o? il avait ?t? porte-drapeau du Parti lib?ral aux ?lections, on mettait ? son compte quelques prouesses et bravades insolites et bien men?es. Aux portes des boutiques, quand il passait, chevauchant son sympathique et maigre cheval, un sac de courrier en croupe, on murmurait : ? Quel hypocrite ! Il en a d?j? liquid? deux… ?
J??tais au courant de l?affaire, et vraiment convaincu de son exactitude ; cependant, malgr? les exigences idiotes de ma morale implacable, je n?avais pas honte de l?estime que j?avais pour lui ; mieux, je l?aimais, sans la moindre trace de crainte : je l?aimais pour son caract?re d?cid?, je l?aimais pour le soutien solide qu?il nous avait apport? ? ma m?re et ? moi, ? la mort de mon p?re, Vicaire de la paroisse de ***. Il m?avait pouss? ? poursuivre mes ?tudes, avait fait des sacrifices pour me donner livres et v?tements, d?ployant dans ce but une activit? au-dessus de ses moyens et de ses forces.
Pendant les deux ann?es qui suivirent mes Human?t?s, gr?ce ? son temp?rament audacieux, il avait r?ussi de temps ? autre ? me trouver quelque emploi. De cette fa?on, je continuais ? mener une douce et m?diocre vie campagnarde perp?tuellement troubl?e par l??tourdissant dessein de mettre les voiles pour Rio. Va, Isa?as ! Pars !
Mon oncle leva la t?te, posa longuement son regard sur moi et dit :
? Tu fais bien !
Il finit son caf?, demanda son manteau et me proposa :
? Viens avec moi. Nous allons chez le Coronel… Je veux qu?il te recommandre au d?put? Castro.
Ma tante lui apporta son manteau et, au moment o? nous sortions, ma m?re apparut et me recommanda :
? Couvre-toi bien, Isa?as ! Tu ne prends pas ton chapeau de pluie ?
? Si M?re, r?pondis-je.
Pendant une quarantaine de minutes, nous avons pataug? dans la boue du chemin jusqu?? la demeure du Coronel Belmiro. A peine avions-nous pouss? le portail qui donnait sur la route, que la silhouette du fazendeiro, massif et rondouillard dans son long manteau, un grand chapeau de feutre noir sur la t?te, apparut ? la porte de la maison. Nous nous approch?mes…
? Tiens donc ! Valentin ! fit paresseusement le Coronel. Tu apportes du courrier ? ?a doit ?tre de Trajan, tu sais qui c?est ? L?associ? de Martins, de la rue des P?cheurs…
? Non, patron, interrompit mon oncle.
? Ah ! C?est ton neveu… Je ne le connaissais pas… Comment ?a va, petit ?
Il n?attendit pas ma r?ponse et poursuivit sur le champ :
? Alors, quand pars-tu pour Rio ? Ne reste pas ici… Pars… Dis-donc, Valentin, tu connais Azevedo ?
? C?est exactement pour parler de ?a que nous sommes venus. Isa?as veut aller ? Rio et j??tais venu vous solliciter…
? Quoi donc ? coupa le Coronel sur ses gardes.
? Je voulais, s?il vous pla?t, Monsieur, bredouilla l?oncle Valentin, que vous recommandiez ce jeune homme au d?put? Castro.
? C?est bien m?rit?, mon brave Valentin… Oui… puisque tu as travaill? pour Castro. Entre nous sois dit, s?il a ?t? ?lu, il le doit ? moi et aux ?mes mortes, mais ? toi aussi qui en a rapatri? quelques-unes…
Il rit grassement, tr?s satisfait d?avoir ressorti une si vi?ille plaisanterie et demanda ensuite avec amabilit? :
? Qu?est-ce que tu veux que je lui demande exactement ?
? Si je peux me permettre, vous pourriez dire dans la lettre qu?Isa?as va poursuivre ses ?tudes ? Rio ? sa prop?deutique est d?j? faite ? et qu?il a besoin, puisqu?il est pauvre, que le d?put? Castro lui trouve un travail.
Le Coronel ne se fit pas prier, il nous fit asseoir, envoya chercher du caf? et alla dans une pi?ce voisine ?crire la missive.
(…)
 
 
____________________
 
Fonte : BARRETO, Lima. Souvenirs d?un gratte-papier. Traduit du br?silien par Monique Le Moing et Marie-Pierre Maz?as. Paris, ?ditions L?Harmattan, 1989, p. 19-25.





Bio fornecida pelo palestrante.

A Carne




Autor: Júlio Ribeiro
Título: A Carne
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

A CARNE
 
 

Capítulo I

 
 

Júlio Ribeiro

 
 
O doutor Lopes Matoso não foi precisamente o que se pode chamar de um homem feliz.
Aos dezoito anos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso de preparatórios, perdeu pai e mãe com poucos meses de intervalo.
Ficou-lhe como tutor um amigo da família, o coronel Barbosa, que o fez continuar com os estudos e formar-se em Direito.
No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a gerência da avultada fortuna que lhe coubera, dizendo:
-Está rico, menino, está formado, tem um bonito futuro diante de si. Agora é tratar de casar, de ter filhos, de galgar posição. Se eu tivesse filha você já tinha noiva; não tenho, procure-a você mesmo.
Lopes Matoso não gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com uma prima de quem sempre gostara, e junto à qual viveu felicíssimo por espaço de dois anos.
Ao começar o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma filhinha.
Lopes Matoso vergou à força do golpe, mas, como homem forte que era, não se deixou abater de vez; reergueu-se e aceitou a nova ordem de coisas que lhe era imposta pela imparcialidade brutal da natureza.
Arranjou de modo seguro seus negócios, mudou-se para uma chácara que possuía perto da cidade, segregou-se dos amigos, e passou a repartir o tempo entre o manusear de bons livros e o cuidar da filha.
Esta, graças às qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu sadia e robusta, tornando-se desde logo a vida, a nota alegre do eremitério que se constituíra Lopes Matoso.
Visitas de amigos raras tinha ele, porque mesmo não as acoroçoava: convivência de famílias não linha nenhuma.
Leitura, escrita, gramática, aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, francês, espanhol, natação, equitação, ginástica, música, em tudo isso Lopes Matoso exercitou a filha porque em tudo era perito: com ela leu os clássicos portugueses, os autores estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de mais seleto na literatura do tempo.
Aos quatorze anos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida, forte, de caráter formado e instrução acima do vulgar.
Lopes Matoso entendeu que era chegado o tempo de tornar a mudar de vida, e voltou para a cidade.
Lenita teve então ótimos professores de línguas e de ciências; estudou o italiano, o alemão, o inglês, o latim, o grego; fez cursos muito completos de matemáticas, de ciências físicas, e não se conservou estranha às mais complexas ciências sociológicas. Tudo lhe era fácil, nenhum campo parecia fechado a seu vasto talento.
Começou a aparecer, a distinguir-se na sociedade.
E não tinha nada de pretensiosa, bas-bleu: modesta, retraída mesmo, nos bailes, nas reuniões em que não de raro se achava, ela sabia rodear-se de uma como aura de simpatia, escondendo com arte infinita a sua imensa superioridade.
Quando, porém, algum bacharel formado de fresco, algum touriste recém-vindo de Paris, ou de New York queria campar de sábio, queria fazer de oráculo em sua presença, então é que era vê-la. Com uma candura adoravelmente simulada, com um sorriso de desdenhosa bondade, ela enlaçava o pedante em uma rede de perguntas pérfidas, ia-o pouco a pouco estreitando em um círculo de ferro e, por fim, com o ar mais natural do mundo, obrigava-o a contradizer-se, reduzia-o ao mais vergonhoso silêncio.
Os pedidos de casamento sucediam-se: Lopes Matoso consultava a filha.
-É i-los despedindo, meu pai, respondia ela. Escusa que me consulte. Já sabe, eu não me quero casar.
-Mas, filha, olha que mais cedo ou mais tarde é preciso que o faças.
-Algum dia talvez, por enquanto não.
-Sabes que mais? estou quase convencido de que errei e muito na tua educação: dei-te conhecimentos acima da bitola comum e o resultado é ver-te isolada nas alturas a que te levantei. O homem fez-se para a mulher, e a mulher para o homem. O casamento é uma necessidade, já não digo social, mas fisiológica. Não achas, de certo, homem algum digno de ti?
-Não é por isso, é porque ainda não sinto a tal necessidade do casamento. Se eu a sentisse casar-me-ia.
-Mesmo com um homem medíocre?
-De preferência com um homem medíocre. Os grandes homens em geral não são bons maridos. Demais, se os tais senhores grandes homens escolhem quase sempre abaixo de si, por que eu que, na opinião de papai, sou mulher superior, não faria como eles, escolhendo marido que me fosse inferior?
-Sim, para teres uns filhos palermas…
-Os filhos puxariam por mim: a filosofia genésica ensina que a hereditariedade direta do gênio e do talento é mais comum da mãe para o filho.
-E do pai para a filha, não?
-De certo, e por isso é que eu sou o que sou.
-Lisonjeira!
-Lisonjeiro é papai que quer à fina força que eu seja moça-prodígio, e tanto tem feito que até eu já começo a acreditar. Voltando ao assunto, sobre casamento temos conversado, não falemos mais nisso.
E não falaram. Lopes Matoso ia despedindo os pretendentes com grandes afetações de mágoa – que a menina não queria casar, que era uma original, que ele bem a aconselhava, mas que era trabalho baldado, mil coisas enfim que suavizassem a repulsa.
Sempre no mesmo teor de vida chegou Lenita aos vinte e dois anos, quando um dia amanheceu Lopes Matoso a queixar-se de um mal-estar indescritível, de uma opressão fortíssima no peito. Sobreveio um acesso de tosse, e ele morreu de repente sem haver tempo de chamar um médico, sem coisa nenhuma. Matara-o uma congestão pulmonar.
Lenita quase enlouqueceu de dor: o imprevisto do sucesso, o vácuo súbito e terrível que se fez em torno dela, a superioridade e cultura do seu espírito que refugia a consolações banais, tudo contribuía para acendrar-lhe o sofrimento.
Dias e dias passou a infeliz moça sem sair do quarto, recusando-se a receber visitas, tomando inconscientemente, a instancias dos famulos, algum ligeiro alimento.
Por fim reagiu contra a dor: pálida, muito pálida nas suas roupas de luto, ela apareceu aos amigos do pai, recebeu os pêsames fastidiosos do estilo, procurou por todos os meios afazer-se à vida solitária que se lhe abria, vida tristíssima, erma de afetos, povoada de lembranças dolorosas. Tratou de dar direção conveniente aos negócios da casa, e escreveu ao coronel Barbosa, avisando-o de que se retirava temporariamente para a fazenda dele.
Os negócios da casa nenhuma dificuldade ofereciam: a fortuna de Lopes Matoso estava quase toda em apólices e ações de estradas de ferro. Sendo Lenita, como era, filha única, não havia inventário, não havia delonga alguma judicial.
A resposta do coronel Barbosa não se fez esperar – que fosse, que fosse quanto antes; que sua velha esposa entrevada folgara doidamente com a notícia de ir ter junto de si uma moça, uma companheira nova; que com eles só morava um filho único, homem já maduro, casado, mas desde muito separado da mulher, caçador, esquisitão, metido consigo e com os seus livros; enfim que se não demorasse com aprontações, que atabulasse, e que marcasse o dia para ele a ir buscar.
Uma semana depois estava Lenita instalada na fazenda do velho tutor de seu pai: tinha levado consigo o seu piano, alguns bronzes artísticos, alguns bibelotscuriosos e muitos livros.
 
 

Capítulo II

 
 
Pior do que na cidade, horrível foi a princípio o isolamento de Lenita na fazenda.
A velha octogenária, além de entrevada, era muito surda. O coronel Barbosa, pouco mais moço do que a mulher, sofria de reumatismo, e, às vezes, passava dias e dias metido na cama. O filho, o divorciado, estava caçando havia meses no Paranapanema.
O trabalho da fazenda era dirigido por um administrador caboclo, homem afável, mas ignorantíssimo sobretudo o que não dizia com a lavoura.
Lenita comia quase sempre só na vastíssima varanda; depois de almoçar ou de jantar ia conversar com o coronel, e fazia esforços incríveis para conseguir fazer-se ouvir da velha que, resignada e risonha, aumentava com a mão trêmula a concha de orelha para apanhar as palavras.
Tal entretenimento cansava a moça, e ela recolhia-se logo aos seus cômodos para ler, para procurar distrair-se.
Tomava um livro, deixava; tomava outro, deixava; era impossível a leitura.
Apertava-lhe, constringia-lhe o animo a lembrança do pai. E tudo lho fazia lembrar – uma passagem marcada a unha em um livro, uma folha dobrada em outro.
Saía, ia de novo conversar, tornava a voltar, tornava a sair, era um inferno.
A mulher do administrador, carinhosa já por índole, recebera do patrão recomendações especiais a respeito de Lenita.
A todo o momento eram copos de leite quente, copos de garapa, café, doces, frutas.
Lenita ora recusava, ora aceitava uma ou outra coisa, indiferentemente, só por comprazer à boa mulher.
O coronel Barbosa dera a Lenita uma sala independente, um quarto amplo com duas janelas, e uma alcova; pusera-lhe às ordens, para seu serviço especial, uma mulatinha esperta, de alta trunfa e cor deslavada, e também um molecote acaboclado, risonho, de dentes muito brancos.
Lenita, por vezes, passava horas e horas à janela, contemplando as dependências da fazenda.
Estava esta a meia encosta de um outeiro a cuja fralda corria um ribeirão. Em frente estendia-se o grande pasto. A monotonia de verdura clara era quebrada aqui e ali pelo sombrio da folhagem basta de alguns paus-d’alho deixados propositalmente para sombra, e pelo amarelo sujo das reboleiras de sapé. Ao fundo, de um lado, em corte brusco, a mata virgem, escura, acentuada, maciça quase, confundindo em um só tom mil cores diversíssimas; de outro em colinas suaves, o verde-claro alegre e uniforme dos canaviais agitados sempre pelo vento; mais além, os cafezais alinhados, regulares, contínuos, como um tapete crespo, verde-negro, estendido pelo dorso da morraria. Em um ou outro ponto, a terra roxa de pedra-de-ferro, desnudada, punha uma nota estrídula de vermelho-escuro, de sangue coagulado.
E sobre tudo isso, azul, diáfano, puro, cetinoso, recurvava-se o céu em uma festa de luz branca, vivificante, mordente…
Quando se embruscava o tempo a paisagem mudava: o céu pardacento, carregado de nuvens plúmbeas, como que se abaixava, como que queria afogar a terra. O revestimento verde perdia o brilho, empanava-se, amortecia em um desfalecimento úmido.
Lenita deu em sair, em passear pelas cercanias, ora a pé, acompanhada pela mulata, ora a cavalo, seguida pelo rapazinho.
Mas o exercício, a pureza do ar, a liberdade do viver da roça, nada lhe aproveitou.
Uma languidez crescente, um esgotamento de forças, uma prostração quase completa ia-se apoderando de todo o seu ser: não lia, o piano conservava-se mudo.
Com a morte do pai, parecia ter-se-lhe transformado a natureza: já não era forte, já não era viril como em outros tempos. Tinha medo de ficar só, tinha terrores súbitos.
Ia para o quarto da entrevada, recostava-se em uma cadeira preguiçosa, e aí se deixava ficar quieta horas e horas, mal respondendo às perguntas solícitas do coronel…
Quando voltava para os seus aposentos, tomada em caminho por um pavor inexplicável, agarrava-se trêmula à mulata.
Não podia comer, tinha um fastio desolador, cortado por desejos violentos de coisas salgadas, de coisas extravagantes.
Sobrevieram-lhe salivações constantes, vômitos biliosos quase incoercíveis.
Uma manhã não se pôde levantar.
Acudiram apressados o coronel e a mulher do administrador; abeiraram-se do leito, instando com a enferma para que tomasse um chá de erva-cidreira, um remédio qualquer caseiro, enquanto não vinha o médico que se tinha mandado chamar a toda a pressa.
Quando este chegou estava Lenita abatidíssima: emaciada, lívida, com os olhos afundados em uma auréola cor de bistre, comprimia o peito, estertorava sufocada. Uma como bola subia-lhe do estômago, chegava-lhe à garganta, estrangulava-a. No alto da cabeça, um pouco para a esquerda, tinha uma dor circunscrita, fixa, lancinante, atroz: era como se um prego aí estivesse cravado.
E seu sistema nervoso estava irritadíssimo: o mais ligeiro ruído, o jogo de luz produzido pelo abrir da porta arrancava-lhe gritos.
O doutor Guimarães, médico já velho, de fisionomia inteligente e bondosa, aproximou-se da cama, examinou a enferma detidamente, em silêncio, sem tomar-lhe o pulso, sem incomodá-la na mínima coisa, baixando-se muito, com as mãos cruzadas nas costas, para ouvir-lhe a respiração, para escutar-lhe os gemidos, para atentar-lhe nas contrações da face.
-Quando começou isto, coronel? perguntou.
-Doente tem ela estado desde que aqui chegou, mas assim, ruim, é só hoje.
-Sufoco! acudam-me! gritou de repente Lenita e, revolvendo-se, escoucinhando, dilacerava a camisa com as mãos ambas, arranhava o peito. Um rubor súbito, vivíssimo, colorira-lhe o rosto, brilhavam-lhe os olhos de modo insólito.
-Sei o que isto é, disse o médico; tenho pela frente um conhecido velho, não me dá cuidado, volto já.
E saiu.
Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma seringuinha de Pravaz.
-Dê-me o braço, minha senhora; vou fazer-lhe uma injeção, e verá como daqui a pouco nada mais há de sentir.
Lenita estendeu a custo o braço nu, e o doutor, tomando-o, pôs-se a beliscá-lo morosamente, demoradamente, em um lugar só, na altura do bíceps; depois segurando a parte malaxada entre o dedo índice e o polegar da mão esquerda, com a direita fez penetrar por baixo da pele a agulha do instrumento e, calcando no cabo do pistão, injetou todo o conteúdo do tubo de vidro.
Lenita, apesar de seu estado de irritabilidade nervosa, nem pareceu sentir.
O efeito foi pronto. Dentro de pouco tempo as faces descoraram, cessaram as crispações nervosas dos membros, ceifaram-se os olhos, e um suspiro de alívio intumesceu-lhe o peito.
Adormeceu.
-Deixemo-la assim, disse o médico, deixemo-la dormir, quando acordar estará boa. Todavia vou receitar: não dispenso para estes casos o meu brumureto de potássio.
E saíram nos bicos dos pés. Junto de Lenita ficou a mulher do administrador.
 
 
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Fonte: RIBEIRO, Júlio. A carne. São Paulo: Editora Três, 1972. p. 23-30.





Bio fornecida pelo palestrante.

Cais da Sagração




Autor: Josué Montello
Título: Cais da Sagração, Muelle de la Consagración
Idiomas: port, esp
Tradutor: María José Crespo(esp)
Data: 29/12/2004

MUELLE DE LA CONSAGRACIÓN

Capítulo I

Josué Montello

Antes de alcanzar lo alto de la ladera Maestre Severino se paró jadeante, tratando de llenar su magro pecho con la brisa que venía de la playa; luego volvió a sentir que no podía respirar. Permaneció inmóvel con la mano derecha extendida sobre el corazón, ceño fruncido, fisonomía tensa, hasta que el aire, al momento, lentamente, volvió a llegarle a los pulmones.

Allá en lo alto, casi enfrente de la iglesia, se volvió a parar, todavía jadeante, esta vez para buscar entre las casas bajas del Largo da Matriz, el alero saliente del domicilio donde el Dr. Estévão habia reabierto su consultorio después de una temporada en São Luís.
– Es aquella de ventanas verdes con una placa junto a la puerta -la reconoció, poniéndose en camino.

Recibiendo de lleno el sol de la tarde que reverberaba en la arena suelta del suelo y bailaba en el polvo que el viento levantaba, sin la sombra de un árbol que le amainara el cruce, Maestre Severino repasó de refilón su noche en blanco, la cabeza apoyada en los ganchos de la red, los pies rozando la estera de paja, en el cuarto iluminado por la llama del candelero. Acostado sentía el pecho oprimido con una sensación de sofocación; con la cabeza levantada podía respirar mejor, y la sensación de ahogo sofocante, que a veces lo atormentaba durante el sueño agitado, parecía dispersarse sin que el aire le faltase del todo.

-Vé a consultar al doctor, hombre terco -le había dicho la Lourença, desde el cuarto contiguo, al levantarse para traerle una vez más el té de toronjil-. En dos segundos el doctor dará con el porqué de esa falta de aire que sientes.

Y él, llevándose a la boca el cigarrillo de paja, después de reprimir la carraspera crónica:

-Si el doctor diese con el porqué de las dolencias, el doctor no moriría.

De entrada, Maestre Severino atribuyó la disnea a la gripe mal curada de su último viaje. Pero la gripe se fue con su resto de tos convulsiva, y la opresión quedó, unos días más, otros menos, dándole frecuentemente la impresión de que iba a morir sofocado. Además, le venían mareos que lo obligaban a cerrar los ojos, sujetándose en los muebles o en las paredes, la vista nublada en un comienzo de vértigo.

-Siento la casa bailando, como el barco en alta mar -le confesó a Lourença en uno de esos accesos.

Después de un silencio, la vieja trató de calmar a su compañero, al verlo todavía lívido, intentando absorver el aire que se le escapaba.

– Es la fuerza de la costumbre, Maestre Severino. De tanto viajar, tu cuerpo piensa que está en el barco, cuando está en la tierra. Eso pasa.

Infelizmente no pasó. Las crisis se sucedían más a menudo, con sudores fríos, dolores en el pecho y sofocación. Cuando se espaciaban venían más fuertes, aturdiéndolo. Durante el día, distraído en su barco junto al depósito a la orilla del mar, Maestre Severino lo pasaba mejor. Era de noche, con la humedad de la playa que entraba en la casa por los tragaluces y rendijas y también por los huecos del tejado, cuando la opresión se repetía más intensa, más angustiante, sacándole el sueño, obligándolo a permanecer sentado con la boca entreabierta.

Como adquiriera con algún provecho en sus míseros años de prisión el hábito escapista de la lectura, tenía siempre a mano un viejo ejemplar, ya engrasado por el uso, y con el que también se distraía cuando la calma retornaba. Leía allí historias de viajes y naufragios, consultaba las tablas de las mareas, veía las fases de la luna, interesábase por la vida de los santos, hacía cálculos conjeturales con el calendario perpetuo. Casi siempre terminaba sumergido en el sueño con el almanaque sobre las piernas, sin haber disminuido la luz del candelero.

Por eso, le decía la Lourença:

-Tú, cuando no tienes sueño, pasas la vista por encima del libro y terminas por dormir; yo, como no sé leer, tengo que quedarme rezando, con la red de aquí para allá y de allá para acá, hasta que Dios Nuestro Señor me cierra los ojos despacito, como con pena de mí.

Ultimamente, sin embargo, no era para dormir que ella agarraba las cuentas de vidrio de su rosario. Se afligia cada vez más con las crisis repetidas de Maestre Severino ante el temor de una enfermedad grave, y trataba de recurrir a la protección divina, imaginando lo peor.

– Sí él me falta, ¿qué va a ser de mí, sola en este mundo con el Pedro que no es más que un chico? ¡Ah, Dios mío, no me dejes ahora atontada y sin saber para donde ir! Estoy ya vieja, sufrí mucho, apiádate de mí.

Y fue ella que, cuando la comadre Noca volvió de Alncântara, trajo de lejos a la curandera para bendecir al viejo barquero, con la esperanza de que la enfermedad no fuese más que un mal de ojo.

Muy alta y flaca, con su, infaltable baraja y el ramo de ruda que sacaba del fondo de una bolsa de cuero, la comadre Noca había bendecido al Maestre Severino siete veces seguidas, bajo la invocación de São Cipriano. Al fin, como las crisis volvió, y más fuerte, ella pasó a la galería, desparramó la baraja encima de la mesa, colocó las cartas en fila en silencio, una arruga vertical en el medio de la frente, y no tardó en reconocer:

– No es mal de ojo; es realmente una enfermedad, y seria. El compadre tiene que ir a ver al doctor, y cuanto antes.

Maestre Severino, aún con la mano sobre el pecho, levantó la voz decididamente:

– Ni me hable de eso, comadre. ¿Entonces, usted cree que yo, con setenta y seis años encima del lomo, voy a dejar que el doctor me haga desnudar y me manosee todo, para después sacarme mi dinero? No, señora: llegué a esta edad sin precisar ir al médico y he de morir sin pasar por ese vejamen.

La Lourença de allí en adelante, siempre más alarmada a cada nuevo acceso, comenzó a reñir con Maestre Severino, todas las veces que le faltaba el aire:

– Vete a ver al doctor. Si no quieres ir por ti, ve por mí y por tu nieto. ¿Qué te cuesta hacer lo que te pido? Vaya, no seas cabezón.

Maestre Severino dejó pasar una semana. La dolencia así como había venido de sorpresa podía también irse de sorpresa. ¿ Si él todavía tenía ánimo y fuerzas para salir mar afuera, al timón de su barco, porqué no tendría que estar bien? Estaría. Tendría que tener un poco más de paciencia. De pronto no sentiría nada más. ¿No había sucedido así con la punzada en la espalda, que lo atormentara por más de un mês, antes de la gripe?

– Dios lleva de este mundo a los que no tienen nada más que hacer aquí. Y mi tarea aún no há terminado -se dijo el viejo, en la mitad de la última noche en blanco, al enroscar un nuevo cigarrillo en el hueco de la mano.

Mientras que, en la mañana, al salir para su barco, había tenido la impresión depresiva de que había llegado realmente su hora. De sopetón sintió que el corazón se le contraía, como si dos manos de uñas afiladas lo aferraran ahogándole dentro del pecho. Se detuvo junto a la ventana de la sala mareado y sin respiración. Esperó um momento con la cabeza apoyada en la falleba, los ojos semicerrados, el sudor corriéndole por el rostro lívido. Le parecía que de la cintura para arriba le estaban arrancando las vísceras.

-Y ahora – llegó a decir.

Y como el aire le faltaba en una asfixia de ahogado, levantó la cabeza, torció impulsivamente el cerrojo de hierro de la falleba y rompió la ventana. Y fue entonces cuando dio con la mirada atónita de Pedro.

-Va a pasar, abuelo, va a pasar -le dijo el nieto con las cejas alzadas, compartiendo su desesperación.

Afortunadamente, a aquella hora en la larga calle de arena cubierta de sol matinal, pasaba solamente el viento húmedo levantando su nube de polvo. Pero el lanudo perro, que dormitaba en una acera de enfrente, irguió el hocico, de oído fino, al ruido de la ventana destrozada, y ladró al azar.

-Tome, abuelo. Tome, que va a pasar.

Y Maestre Severino, todavía atontado, la cara lavada de sudor, pudo al fin decirle al nieto, que se movía aturdido frente a él ofreciéndole la copa de agua:

-Ya está pasando, Pedro.

Con la mano extendida encima del pecho, la respiración entrecortada, se dejó caer en una silla, esperando que le volviesen las fuerzas, al mismo tiempo que la figura magra de la Lorença, con la taza de té en las manos trémulas, irrumpía por el vano de la puerta.

-Por el amor de Dios -le pidió la vieja al darle la taza- ve hoy al doctor.

Ahora, allí en el Largo da Matriz, era el recuerdo del mirar afligifo de Pedro que lo iba llevando a Maestre Severino a atravesar la plaza desierta bajo el sol de la tarde.

Al pasar frente a la puerta de la iglesia, a mitad de camino entre la escalinata del atrio y el crucero de piedra, vio salir de la nave del templo enjugándose la papada en un pañuelo grande y sucio, al inmenso Abdala, sin afeitar y con la cabellera despeinada. Antes de que le hablase fue el turco el que le preguntó pasándose el puñuelo por el cuello desabrochado:

-Maestre Severino, ¿cuándo es que sale su barco?

-A más tardar, el miércole de la semana que viene.

-Tal vez precise pedirle un favor -continuó Abdala, al pie de la escalinata-. Un gran favor, Maestre Severino. Un favor que no tiene precio. Recién acabo de disgustarme con el Padre Dourado. Me estoy dando cuenta de que tendré que recurrir a usted.

Maestre Severino disminuyó el paso intrigado, se detuvo en el borde de la acera. Sin embargo el outro, con el mismo pasito corto y nervioso, siempre enjugándose la papada, continuó su camino, dejando tras de sí esta vaga explicación que intrigó al viejo aún más:

-Cuestiones de familia, Maestre Severino. Las eternas cuestiones de familia. No quiera saber. Sólo yo sé lo que he sufrido.

Maestre Severino ya sobre la acera, acompañó al turco con los ojitos asombrados, lo vio casi rodar en el sol de la plaza, la gordura fofa danzando dentro de los pantalones flojos, los hombros caídos, la mano izquierda aferrando el pañuelo mojado. Al fin también le dio la espalda, camino de la acera estrecha del consultorio. Sin detenerse volvió nuevemente la cabeza, vio todavía una vez más, allá adelante, al gordo Abdala gesticulando: sonrió, se encogió de hombros, enderezó la mirada.

Frente a la puerta del consultorio, Maestre Severino hesitó intimidado, al ver sentados en un banco de madera a lo largo del extenso corredor que iba a la sala del doctor, a los pacientes que esperaban su turno para la consulta. ¿Sentarse también él allí? Se detuvo en el umbral de piedra y se puso a limpiar sus sandalias en el felpudo de hierro; palpó su bolsillo trasero en busca del cigarrillo y los fósforos, viendo que todas las miradas se habían vuelto en su dirección.

Un señor delgado, que ocupaba la extremidad del banco, cerca de la puerta, se arrimó hacia la izquierda dejándole espacio a su lado. Y en una voz fina que parecía ajustarse a su figura esquelética, invitó al viejo:

-Acérquese a los buenos, Maestre Severino. Espere su turno junto a mí. Déme ese placer.

Antes de responder, Maestre Severino volvió a restregar sus sandalias en el felpudo, ya con el cigarro en el borde de la boca, la vista baja, rojo, una sensación de calor subiéndole al rostro.

Encendió el cigarro, sopló la primera bocanada. Y sólo entonces fijó su mirada en el señor magro, que todavía no había abandonado del todo el gesto con que le ofrecía el lugar en la punta del banco:

-Agradecido, Mayor. Yo no vine “a consultarme”: sólo vine a hablar un momentito con el doctor. Como ya estoy casi de viaje, quiero saber si él desea alguna cosa de São Luís.

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Fonte: Montello, Josué. Muelle de la consagración. Traducción de María José Crespo. Buenos Aires: Macondo Ediciones, 1979. Cap. 1. p. 25-29.

CAIS DA SAGRAÇÃO

Capítulo I

Josué Montello

Antes de alcançar o topo da ladeira Mestre Severino parou ofegante procurando encher o peito magro com a brisa que vinha da praia; logo voltou a sentir que não podia respirar. Permaneceu imóvel com a mão direita espalmada sobre o coração, sobrancelhas travadas, fisionomia tensa, até que o ar, aos poucos devagarinho, tornou a alcançar-lhe os pulmões.
Lá no alto, quase em frente à igreja, voltou a parar, ainda ofegante, desta vez para procurar, entre as casas baixas do Largo da Matriz, a meia-morada de beiral saliente onde o Dr. Estevão tinha reaberto o seu consultório, depois de uma temporada em São Luís.

– É aquela de janelas verdes, com uma placa junto da porta – reconheceu, dando de andar.

Recebendo em cheio o sol da tarde, que rebrilhava na areia solta do chão e bailava no pó que o vento levantava, sem a sombra de uma árvore para amenizar-lhe a travessia, Mestre Severino repassou de relance a sua noite em claro, a cabeça apoiada nos punhos da rede, os pés roçando a esteira de palha, no quarto iluminado pela chama do candeeiro. Deitado, sentia o peito oprimido, numa ânsia de sufocação; de cabeça levantada, podia respirar melhor, e a sensação sufocante de arrocho, que por vezes o atormentava durante o sono agitado, parecia espaçar-se, sem que o ar de todo lhe faltasse.

– Vá se consultar com o doutor, homem teimoso – tinha-lhe dito a Lourença, do quarto contíguo, ao levantar-se para lhe trazer mais uma vez o chá de erva-cidreira – Em dois tempos, o doutor dá um jeito nessa sua falta de ar.

E ele, levando à boca o cigarrinho de palha, depois de reprimir o pigarro renitente:

– Se doutor desse jeito em doença, doutor não morria.

De início, Mestre Severino atribuía a dispnéia à gripe mal curada de sua última viagem. Mas a gripe se fora, com seu resto de tosse convulsa, e a opressão ficara, uns dias menos, outros mais, dando-lhe freqüentemente a impressão de que ia morrer sufocado. Além do mais, vinham-lhe acessos de tontura, que o obrigavam a cerrar os olhos, amparando-se nos móveis ou nas paredes, a vista escura, num começo de vertigem.

– Sinto a casa jogando, como barco em alto mar – confessou ele à Lourença, num desses acessos.

Após um silêncio, a velha procurou acalmar o companheiro, vendo-o ainda lívido, a tentar sorver o ar que lhe fugia:

– É a força do costume, Mestre Severino. De tanto viajar, seu corpo pensa que está no barco quando está na terra. Isso passa.

Infelizmente não passara. As crises tinham-se amiudado, com suores frios, dores no peito, sufocação. Quando espaçavam, vinham mais fortes, atordoando-o. Durante o dia, distraído no seu barco junto ao trapiche, Mestre Severino passava melhor. Era de noite, com a umidade da praia a entrar na casa pelas frestas das portas e pelos vãos do telhado, que a opressão se repetia, mais intensa, mais angustiante, tirando-lhe o sono, obrigando-o a permanecer sentado, de boca entreaberta.

Como adquirira com algum proveito, nos seus arrastados anos de cadeia, o hábito evasivo da leitura, tinha sempre à mão um velho almanaque, já ensebado pelo uso, e com que também se distraía quando a calma lhe voltava. Lia ali histórias de viagens e naufrágios, consultava a tábua das marés, via as fases da lua, interessava-se pelas vidas de santos, fazia cálculos a esmo com o calendário perpétuo. Quase sempre terminava mergulhando no sono, com o almanaque em cima da perna, sem ter diminuído a luz do candeeiro.

Por isso, dizia-lhe a Lourença:

– Você, quando não tem sono, passa a vista por cima do livro, e acaba dormindo; eu, como não sei ler, tenho de ficar rezando, com a rede daqui pra lá e de lá pra cá, até Deus Nosso senhor me fechar os olhos devagarinho, com pena de mim.

Ultimamente, porém, não era para dormir que ela se agarrava às contas de vidro de seu terço. Afligia-se cada vês mais com as crises repetidas de Mestre Severino, no temor de uma doença grave, e tratava de recorrer à proteção divina, imaginando o pior.

– Se ele me falta, que é que vai ser de mim, sozinha neste mundo com o Pedro, que não passa de um menino? Ah, meus Deus, não deixe eu ficar no ora-veja, tonta, sem saber para onde me virar. Estou velha, já penei muito, tenha pena de mim.

E foi ela, assim que a Comadre Noca voltou de Alcântara, quem trouxe de longe a rezadeira para benzer o velho barqueiro, na esperança de que a doença dele não passasse de um mau-olhado.

Muito magra e alta, sempre munida de um baralho e um ramo de arruda, que retirava do fundo de uma bolsa de couro, a Comadre Noca tinha benzido o Mestre Severino sete vezes seguidas, sob a invocação de São Cipriano. Por fim, como a crise voltasse, e mais forte, ela passou à varanda, espalhou em cima da mesa o baralho, enfileirou as cartas, em silêncio, uma ruga vertical no meio da testa, e não tardou em reconhecer:

– Não é mau-olhado; pe doença mesmo, e braba. O Compadre tem que ir ao doutor o quanto antes.

Mestre Severino, ainda com a mão em cima do peito, arquejando, levantou a voz decidida:

– Nem me fale nisso, Comadre. Então a senhora acha que eu, com setenta e seis anos em cima do lombo, vou deixar que o doutor me ponha nu e me apalpa todo, para depois tomar meu dinheiro? Não senhora: cheguei a esta idade sem precisar de ir ao médico, hei de morrer sem passar por esse vexame.

A Lourença, daí em diante, sempre mais alarmada a cada novo acesso, passou a teimar com Mestre Severino, todas as vezes que o ar lhe faltava:

– Vá ao doutor. Se não quer ir por você, vá por mim e por seu neto. Que é que lhe custa atender meu pedido? Vá. Não seja cabeçudo.

Mestre Severino deixou passar uma semana. A doença, assim como viera de surpresa, de surpresa podia ir também. Se ele ainda tinha ânimo e força para sair barra a fora, no leme de seu barco, por que não haveria de ficar bom? Ficaria. Devia ter um pouco mais de paciência. De repente não sentiria mais nada. Não tinha sido assim com a pontada nas costas, que o atormentara por mais de mês, antes da gripe?

– Deus só leva deste mundo quem não tem mais o que fazer aqui. E a minha tarefa ainda não terminou – reconheceu o velho, em meio da última noite em claro, a enrolar um novo cigarrinho de palha na concha da mão.

No entanto, pela manhã, ao sair para o barco, tinha tido a impressão aflitiva de que havia chegado mesmo a sua hora. De supetão sentiu o coração contrair-se, como se duas mãos de unhas afiadas se fechassem sobre ele, sufocando-o dentro do peito. Parou junto à janela da sala, tonto, respiração suspensa. Demorou uns momentos com a cabeça junto à rótula, olhos semicerrados, o suor a lhe descer do rosto lívido. Parecia-lhe que suas vísceras, da cintura para cima, estavam sendo arrancadas.

– É agora – chegou a dizer.

E como o ar lhe faltasse, numa asfixia de afogado, levantou a cabeça, torceu impulsivamente o ferrolho da rótula, escancarou a janela. E foi então que deu com o olhar atônito do Pedro.

– Vai passar, vovô, vai passar – disse-lhe o neto, de sobrancelhas levantadas, compartindo o seu desespero.

Felizmente, àquela hora, na longa rua de areia coberta de sol matinal, só o vento úmido passava, levantando a sua nuvem de pó. Mas o cão felpudo, que dormitava numa calçada fronteira, ergueu o focinho, de orelhas fitas, ao ruído da janela escancarada, e latiu a esmo.

– Tome, vovô. Tome, que vai passar.

E Mestre Severino, ainda tonto, rosto lavado de suor, pôde afinal dizer ao neto, que se movia atarantado à sua frente a lhe oferecer o copo de água:

– Já está passando, Pedro.

Com a mão espalmada em cima do peito, a respiração curta e repetida, ele se deixou cair numa cadeira, à espera de que as forças lhe voltassem, ao mesmo tempo que a figura magra da Lourença, com a xícara de chá nas mãos trêmulas, irrompia pelo vão da porta.

– Pelo amor de Deus – pediu a velha, ao lhe dar a xícara – vá hoje ao doutor.

Agora, ali no Largo da Matriz, era ainda a lembrança do olhar aflito de Pedro que ia levando Mestre Severino a atravessar a praça deserta sob o sol da tarde.

Ao passar defronte da porta da igreja, a meio caminho entre a escadaria do adro e o cruzeiro de pedra, ele viu sair da nave, a enxugar a papada num grande lenço encardido, o imenso Abdala, a calça folgada presa pelos suspensórios, em mangas de camisa, barba por fazer, cabeleira despenteada. Antes que lhe faltasse, foi o turco que lhe perguntou, correndo o lenço pelo vão do colarinho desabotoado:

– Mestre Severino, quando é que sai seu barco?

– O mais tardar, terça-feira da semana que vem.

– Talvez eu precise de lhe pedir um favor – continuou o Abdala, já ao pé da escadaria – Um grande favor, Mestre Severino. Um favor que não tem preço. Agora mesmo me abri com o Padre Dourado. Estou vendo que terei de apelar para o senhor.

Mestre Severino, intrigado, diminuiu o passo, parou à borda da calçada. Porém o outro, no mesmo passinho curto e nervoso, sempre a enxugar a papada, continuou o seu caminho, deixando atrás de si explicação vaga, que intrigou ainda mais o velho:

– Questões de família, Mestre Severino. As eternas questões de família. Nem queira saber. Só eu sei o que tenho sofrido.

Mestre Severino, em cima da calçada, acompanhou o turco com os olhinhos espantados, viu-o rebolar ao sol da praça, a gordura fofa dançando dentro das calças frouxas, os ombros caídos, a mão esquerda amarfanhando o lenço molhado. Por fim, deu-lhe também as costas, a caminho da calçada estreita do consultório. Lá adiante, sem se deter, voltou novamente a cabeça, viu ainda uma vez o gordo Abdala gesticulando; sorriu, deu de ombros, endireitou o olhar.

Em frente à porta do consultório, Mestre Severino hesitou, intimidado, ao ver sentados num banco de pau, ao longo do corredor comprido que ia ter à sala do doutor, os doentes que esperavam a vez da consulta. Sentar-se ali, também ele? Parou na soleira de pedra, pôs-se a limpar as alpercatas no capacho de ferro, apalpou o bolso traseiro da calça em busca do cigarro e da caixa de fósforos, vendo que todos os olhares se tinham voltado em sua direção.

Um senhor magro, que ocupava a extremidade do banco perto da porta, arredou-se para a esquerda, abrindo espaço ao seu lado. E numa voz fina, que parecia ajustar-se à sua figura esquelética, convidou o velho:

– Chegue-se aos bons, Mestre Severino. Espere a sua vez aqui junto de mim. Me dê esse prazer.

Antes de responder, Mestre Severino tornou a esfregar as sandálias no capacho, já com o cigarro no canto da boca, vista baixa, vermelho, uma sensação de calor subindo-lhe ao rosto. Acendeu o cigarro, soprou a primeira fumaça. E só então firmou o olhar no senhor magro, que ainda não desfizera de todo o gesto com que lhe oferecia o lugar na ponta do banco:

– Obrigado, Seu Major. Eu não vim me consultar: só vim dar uma palavra rápida ao doutor. Como estou quase de viagem, quero saber se ele deseja alguma coisa de São Luís.

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Fonte: Montello, Josué. Cais da sagração: romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 5ª edição, 1981. Cap. 1. p. 25-30.





Bio fornecida pelo palestrante.

Noite Sobre Alcantara




Autor: Josué Montello
Título: Noite Sobre Alcantara, Natt Över Alcantara
Idiomas: port, deu
Tradutor: Margareta Ahlberg(deu)
Data: 29/12/2004

NATT ÖVER ALCÂNTARA

KAPITEL I

Josué Montello

Fran utsidan av huset lkste han den tunga porten av andiroba-trä, det knarrade nar han vred nyckeln i dubbla slag i laset. Sedan han tva ganger forsäkrat sig om att dörren var stängd genom att knuffa till den inat korridoren, kunde han inte lata bli att skratta at sin försiktighet. Sa manga ar i följd hade han rutinmässigt utfört samma rörelse, upprepat vad vicomten alltid gjort, att han fann sin omsorg lustig när han nu visste att han inte mer hade intresse av villan, inte heller av de ting som fanns därinne.

Han sag sig förstrött om, som skulle han tilltala den svarte, som borde sta där och vänta pa honom:

– Nu kan vi ge oss av.

Han spanade efter kreolen, som skulle bära hans koffert till mäster Ambrósios bat, men han sag varken kreol eller koffert där pa torget. Var höll den förbannade Florindo hus? Han ropade pa honom i irriterad ton och höjde rösten medan han stoppade nyckeln i bakfickan pa byxorna. Och allt han fick som svar i gatans omfangsrika tystnad var skallet fran en mycket mager och sorgsen hund, som envisades med att vakta stenportalen till Manduca Farias hus. Den väntade ständigt pa sin herre, som ocksa hade flyttat till São Luis.

Med käppen under armen sköt han upp manschetterna pa skjortan innan han tog de första stegen i riktning mot uppförsbacken. Han rättade sa till handskarna och tog tag i silverkryckan pa sin käpp. Den höga hatten gjorde hans magra gestalt ännu längre och smärtare i den rnörka igenknäppta kavajen som kontrasterade mot de vita linnebyxorna, och hans granade har spretade ut under brättet. I knapphalet en röd ros. Pa slipsens knut en vacker pärla. Och fran den ena sidan till den andra av västen löpte guldkedjan till klockan som vicomtessen skänkt honom när han atervände fran kriget.

Han hade fortfarande ett stiligt krigiskt utseende trots att det var trettio ar sen han han tog av sig majors-uniformen. Hela hans gestalt stralade där den framstod helt och fullt i eftermiddagsljuset, framförallt de svarta ögonen och det silverglänsande skägget. De sammandragna ögonbrynen, de välskräddade kläderna och den energiska gangen, det vill säga den siste adelsmannen av Alcântara, fortfarande lyckosam, med tjänare och vagn, trots ruinerna som omgav honom. Icke desto mindre hade det varit han, sonson till baronen, son till vicomten, som pa Largo da Matriz i en folksamling och mellan knallarna fran raketer, i sällskap av Bezerra de Meneses och Cunha Machado, hade tillkännagivit monarkins fall, utropandet av republiken och bannlysningen av den kejserliga familjen.

När han var högst uppe i backen och skulle ga nerför fick han syn pa Florindo, som redan befann sig i änden av gränden som gick mot Largo do Carmo. Han stannade upp ett ögonblick, log av beundran över den svarte som balanserade kofferten pa huvudet. Han sag ut som en dansör, med vänster hand pa höften och den andra handen följde, som lösgjord fran kroppen, rörelsen hos de bara fötterna. Sa gjorde kreolen en snabb krängning, med ko-reografisk lätthet, och svängde runt hörnet. Under sin sista maltid i huset, även den här dagen, hade han enträget hävdat att Florindo skulle komma med honom. Trots sina dryckesperioder, da han föll i gatan utan ork att ta sig uppför trappan, hade den svarte goda egenskaper: han var slug och en stöttepelare när det gällde att halla ordning i huset och han log med stora vita tänder utan att ge sken av de femtiosex ar han hade firat i augusti med ett rejält dryckeslag.
– Här i Alcântara känner alla mej, majorn. I São Luís är det annorlunda. Här
föddes jag, här vill jag sluta.

– Res ut ett tag. Om du inte tycker om det, sa res tillbaka.

– Det är just vad jag ar rädd för. Jag vill inte ga ner till Praia do Jacaré och
se ut som jag angrar rnig. Det är bättre att inte ge sig i väg alls.
Inte heller Manduca Farias strimmiga hund förstod sig pa att leva nagon annanstans. Och han, major Natalino, gjorde han själv det? Han tog käppen under armen, kastade en blick bakat, som var det ännu ett farväl. Där stod fortfarande hunden vid ytterdörren, med de sma ögonen halvslutna. Ingen mer pa torget. Och husen i omgivningen var tillbommade. Längre fram, under klängväxternas lövverk, ruinerna av kyrkan. Fran hörnet började det redan stupa nerat, han sag att de laga husen saknade tegel pa taken, och i ett av takskäggen spirade den oljiga ricinväxten.

– Det här gar at skogen, suckade han.

Än en gang betraktade han huset och kände att han blev rörd inför dess släta fasad och terrassen. Varför skulle han fästa sig vid det gamla huset, om där bara fanns kvar nagra gamla möbler och vicomtessens piano som var angripet av termiter? En dag kunde en kraftig vindstöt under vinterns stormar fa husets bakre del att rasa ner, eftersom väggarna redan var hotade av sprickor och sa skulle bara stengrunden bli kvar, med blinda fönster över det tomma torget.

Ensam, vad skulle han göra i det tysta Alcântara? Pa senare tid, när han atervände hem efter sina eftermiddagsturer ner till staden, blev han betryckt vid vissheten om att alla hans gamla vänner och kamrater, om de inte gett sig i väg genom att byta Alcântara mot São Luís, vilade under jorden med ett kors ovanför, i kyrkogardens övergivenhet.

Därvid kände han hur nagot snuddade vid hans högra ben, i knähöjd. Han böjde sig ner för att smeka den tigrerade hunden, som kommit för att lukta pa hans byxor, och som viftade pa sin förtorkade svans.

– Nu, nu maste du ocksa titta pa mitt hus, meddelade ban hunden.

Medan hunden fortfarande viftade med sin skrumpna svans höll han huvudet sänkt och rörde det fram och tillbaka, ögonen var sorgsna, sa skällde han pa mafa, som för att tala om att han inte tänkte ge sig i väg, och atervände till sin plats vid ytterdörren.

Natalino betraktade honom medlidsamt, noterade att han var mera dämpad och skröplig än förut och gissade att det inte skulle dröja länge förrän han lag död pa gatan med nosen mellan tassarna, som om han sov. Vad kunde han göra för hunden? Att ta honom därifran vore grymt. Be Florindo ta hand om honom? Ja, det vore det klokaste: tills han dog skulle han da atminstone ha ett ben att gnaga pa och en skal med vatten.

Sa slutligen, när Natalino kom ihag baten som väntade pa honom, började han ga gatan nerför. Varje gang han satte ner höger ben kände han mot njuren trycket av portnyckeln i byxfickan. Varför skulle han bära med sig den där nyckeln, om han inte hade planer pa att atervända till huset? Beslutsamt dök hans hand ner i bakfickan, och kastade in nyckeln pa en vissen gräsplätt till höger. När han hörde ljudet, erfor han att genom denna handrörelse hade ban befriat sig fran sitt förflutna för att börja ett nytt liv.

Han började inse att svarare än att leva, är att pa ett harmoniskt sätt, begränsa sitt liv, utan bitterhet eller protest, i fred med omvärlden som han lämnade. Alcântara med sina tömda hus, överallt samma tystnad, inget piano att spela pa, inga barn som sprang omkring och lekte, ingen röst fran nagon kvinna som sjöng vid vaggan. Istället för det lätta klappret fran negressernas sandaler vindens tjutande, sam förenade sig med de häftiga vindstötar
som skakade lövverken.
(…)

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Fonte: Montello, Josué. Natt över Alcântara. Aus dem Portugieschen von Margareta Ahlberg. s. l. Nordan Comunidad, s.d. p. 21-24.

NOITE SOBRE ALCÂNTARA

CAPÍTULO PRIMEIRO

Josué Montello

Do lado de fora do sobrado, ele fechou a pesada porta de andiroba, rangendo a chave na dupla volta da fechadura, e depois de experimentar, por duas vezes, se estava mesmo bem fechada, empurrando-a no sentido do corredor, não pode deixar de sorrir daquele seu cuidado. Tantos anos seguidos havia feito maquinalmente o mesmo movimento, repetindo o que sempre vira fazer o Visconde, que não podia agora deixar de achar graça na cautela com que, por distração, tornara a empurrar a porta, sabendo que não tinha mais interesse pela casa nem pelas coisas que lá ficavam.

E noutro impulso distraído, como se falasse ao preto que devia estar ali perto a sua espera:

– Agora, podemos ir.

Olhou em volta, à procura do crioulo que lhe carregaria o baú ate o barco de Mestre Ambr6sio, e não viu mais, ali no largo, nem crioulo nem baú. Onde se metera o diabo do Florindo? Chamou por ele, em tom irritado, alteando a voz, enquanto recolhia a chave da porta ao bolso traseiro da calca, e tudo quanto ouviu, como resposta, no silencio espaçoso da rua, foi o latido de um grande cão rajado, muito magro e triste, que teimava em guardar o portal de pedra da casa do Manduca Faria, sempre a esperar pelos donos, que também já se tinham mudado para São Luis.

De bengala sobraçada, puxou os punhos da camisa, antes de dar os primeiros passos no sentido do alto da ladeira; depois, segurando as luvas, empunhou a bengala pelo castão de prata. 0 chapéu alto tornava mais esguia a sua figura magra, de derramados cabelos grisalhos, abotoada num casaco escuro que contrastava com a alvura da calça de brim. Na botoeira, uma rosa vermelha. Por baixo do laço da gravata, uma vistosa pérola. De um lado a outro do colete, enfeitando o peito erguido, corno que exibia a corrente de ouro do relógio que a Viscondessa lhe tinha dado quando voltara da guerra.

Afinal deu de andar, pisando firme e cheio. Tinha ainda um belo ar marcial, a despeito de já fazer trinta bons anos que despira a farda de Major. Toda a sua figura resplandecia, batida em cheio pela luz da tarde, sobretudo os olhos negros e a barba prateada. De sobrancelhas contraídas, a roupa bem talhada e o passo enérgico, dir-se-ia o derradeiro fidalgo de Alcântara, ainda pr6spero, com criados e carruagem, por entre as ruínas que o cercavam. No entanto, havia sido ele, precisamente ele, neto de Barão, filho de Visconde, quem anunciara no Largo da Matriz., entre os vivas do povo e o estampido dos foguetes em companhia do Bezerra de Meneses e do Cunha Machado, a queda da Monarquia, a proclamação da Republica e o banimento da família imperial.

Do topo da ladeira, antes de começar a desce-la, avistou afinal o Florindo, já quase ao fim do beco que ia dar no Largo do Carmo. Parando um momento, voltou a sorrir, admirando o andar ligeiro do preto com o baú equilibrado na cabeça. Parecia um bailarino, com a mão esquerda no quadril e a outra acompanhando o movimento dos pés descalços, afastada do corpo. E nisto o crioulo deu uma volta rápida, com a leveza perfeita de um passo coreográfico, desaparecendo na dobra da rua.

No correr de seu ultimo almoço no sobrado, ainda naquele dia; tornara a insistir com o Florindo, querendo levá-lo consigo. Apesar das carraspanas que espaçadamente tomava, deixando-se cair na calçada da rua, sem forças para subir os degraus da escada, o preto tinha qualidades: era ladino, e pau para toda obra nos arranjos da casa, sempre a reluzir os grandes dentes alvos, sem aparentar os cinqüenta e seis anos que havia comemorado em agosto com uma vasta bebedeira.

– Aqui em Alcântara todo mundo me conhece, Seu Major. Em São Luis é diferente. Nasci aqui, aqui quero acabar.

– Vais por uns tempos. Se não gostares de lá, voltas.

– É disso que eu tenho medo. Não quero descer na Praia do Jacaré com cara de arrependido. Melhor não ir.

Também o cão rajado do Manduca Faria não saberia viver em outro sugar. E ele, Major Natalino, saberia? Tornou a sobraçar a bengala, olhou em volta, como em nova despedida. Lá estava ainda o cão junto ao portal, a acompanhá-lo com os olhinhos entrefechados. Ninguém mais no largo. Em redor, as casas fechadas. Adiante, sob a ramagem das trepadeiras, os escombros da igreja. A meia-morada da esquina já começara a cair, com o teto destelhado, os caibros à mostra, e um pe de mamona a crescer numa das pontas da cumeeira.

– Isto vai mal – suspirou.

E fixou mais uma vez a vista no sobrado, sentindo que se emocionava ante a sua fachada lisa e o seu mirante. Por que haveria de apegar-se à velha casa, se ali só restavam uns velhos trastes e o piano da Viscondessa atacado pelo cupim? Mais dia, menos dia, ao golpe de uma rajada mais forte dos vendavais de inverno, toda a parte traseira do sobrado, já ameaçada pelas rachaduras das paredes, podia vir abaixo, para apenas restar a frontaria de pedra, com as janelas cegas sobre o largo deserto.

Sozinho, que ficava fazendo no silencio de Alcântara? Ultimamente, pelo quebrar da tarde, nas suas voltas na cidade, regressava ao sobrado com a certeza opressiva de gue quase todos os seus velhos amigos e companheiros, se não tinham ido embora, trocando Alcântara por São Luís, jaziam debaixo da terra, com uma cruz por cima, no abandono do cemitério.

E nisto sentiu que lhe roçavam a perna direita, à altura do joelho. Depois do susto, abaixou-se para afagar o cão rajado, que viera farejar-lhe as calças, sacudindo a cauda murcha.

– Agora, terás de olhar também o meu sobrado.

Sempre sacudindo a cauda, o cão rodeou-o de cabeça baixa, os olhos tristes, depois latiu a esmo, como a dizer-lhe que não fosse embora, e volveu ao seu lugar junto ao portal.

Compadecido, Natalino seguiu-o com a vista, notando-lhe ainda mais a expressão vencida e trôpega, e adivinhou que não tardariam a dar com ele morto, naquele mesmo trecho de calçada, o focinho entre as patas, como adormecido. Que podia fazer pelo cão? Tirá-lo dali seria uma crueldade. Recomendar ao Florindo que cuidasse dele? Sim, era o mais acertado: pelo menos, até morrer, teria ao pé de si um pedaço de osso e um caneco de água.

Em seguida, lembrando-se do barco que estaria já à sua espera, Natalino começou a descer a ladeira. E a cada passo da perna direita, que o declive da rua favorecia, sentia contra o rim a pressão da chave da porta no bolso da calça. Por que levar consigo aquele trambolho, se não tinha pianos de voltar ao sobrado? E mergulhando no bolso traseiro a mão resoluta, arremessou a chave incomoda por cima de um tufo de mato cerrado, no terreno baldio à sua direita. Ao ouvir-1he o tinido, logo depois, experimentou a curiosa sensação de que, nesse gesto, se libertava de seu passado, para viver novo destino.

Ele começava a reconhecer que, mais difícil do que viver, é saber encerrar harmoniosamente a vida, sem azedumes nem resmungos, em paz com o mundo que ficaria para trás. Alcântara, com a seqüência de suas casas vazias, como que o oprimia e esmagava. Por toda parte, nas ruas retilíneas, o mesmo silencio, sem um piano a tocar, sem correrias de meninos, sem uma voz de mulher cantando ao embalo da rede. Em vez do pleque-pleque das sandálias das negras nas calçadas, o uivo do vento, longo, esfuziante, misturando-se ao ruído das ramagens que a rajada fresca sacudia.
(…).

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Fonte: Montello, Josué. Noite sobre Alcântara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Cap. 1. p. 19-23.





Bio fornecida pelo palestrante.

Os Tambores de São Luís




Autor: Josué Montello
Título: Os Tambores de São Luís, Les Tambours Noirs)
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jacques Thiériot, Marie-Pierre Mazeas, Monique Le Moing(fra)
Data: 29/12/2004

LES TAMBOURS NOIRS

Chapitre 1

Josué Montello

Jusque-là les tambours de la Maison des Minas avaient accompagné ses pas, et il apercevait encore les trois tambourinaires, sur la gauche de la véranda, qui battaient à grands coups leurs instruments rituels sur fond de clarines et de calebasses, tandis que la grande prêtresse Andréza Maria laissait glisser son châle sur ses avant-bras pour recevoir l’esprit de Toï-Zamadone, le maître de lieu.

De temps à autre, le vent se calmait ou changeait de direction,son pas décidé sur la chaussée déserte étouffait le martèlement des tambours soudain muets dans le silence de la nuit. Mais presque aussitôt, leur battement et l’image de la grande prêtresse, entourée de ses novices tout de blanc vêtues, revenaient à son esprit, portés par une bourrasque rafraîchissante : il revoyait sa maigreur altière, son port de reine et les premiers fils d’argent de sa chevelure.

Elle était venue en personne le chercher à l’entrée du quérébétan. Il n’avait d’autre intention que d’écouter les tambours et de regarder les danses quelques instants, assis sur le grand banc de la véranda, le visage tourné vers l’espace sacré parsemé de bougies. Le banc était déjà entièrement occupé. De nombreux fidèles étaient assis sur le sol de terre battue, les mains croisées autour des genoux ; d’autres restaient debout adossés au mur. Mais la grande prêtresse, qui l’avait conduit par la main, avait invité l’un d’eux à céder sa place sur le banc ; de là, il pouvait de façon vraiment privilégiée voir battre les tambours et danser les novices dans le clappement des calebasses, au son métallique des clarines.

Il sentait par moments le besoin d’y aller, irrésistiblement poussé par une nostalgie maladive qu’il n’aurait su lui-même définir ou expliquer, malgré toute l’acuité de son intelligence supérieure. Oui, à écouter battre les tambours rituels, il se sentait réintégrer le monde magique de ses origines africaines : une sensation nouvelle de paix l’envahissait jusqu’au plus profond de son être.

Il en sortait étrangement apaisé : son corps semblait plus léger et plus exquises ses journées, comme si la divinité qui accompagne sur terre les pas de chaque Noir lui fût à nouveau propice.

Dans le ciel, un mince croissant de lune au-dessus de l’église de Saint-Pantaleón ; pourtant sur la ville endormie glissait une douce clarté violacée et une multitude d’étoiles scintillaient dans cette nuit d’été. A chaque coin de rue un réverbère en sentinelle et le chuintement de son bec de gaz ; l’enfilade des maisons fermées. Tout près, vers la rue de l’Envie, le roulement accéléré d’un fiacre ; le galop du cheval sur les pavés de la chaussée. Et toujours le martèlement frénétique et régulier des tambours, tantôt lointain, tantôt proche, mais bien plus vif que le claquement des fers des chevaux.

A l’angle de la rue de la Promenade et de la rue du Mocambo (1), avant de passer sur le trottoir d’en face, Damien s’arrêta un instant, aveuglé par la clarté du gaz.

Protégé de l’humidité par son feutre anglais, dernier cadeau de Noel du gouverneur Louis Domingues, le dos droit, le corps sec et raide, les épaules hautes, il avait l’air plus grand. A quatre-vingts ans, avec cette lueur vive dans les yeux, cette démarche assurée, ce port de tête, il en faisait soixante… moins peut-être. Jusqu1au début du sièle, il n’avait pas quitté la canne à pommeau d’argent avec laquelle, pour la première fois, il avait pénétré dans le palais de justice, sa serviette d’avocat occasionnel sous le bras, pour défendre un autre Noir comme lui. Il s’habillait maintenant avec simplicité, toujours impeccable, rasé de près, le veston boutonné jusqu’au menton, une épingle en or fixée à sa cravate.

– Excusez-moi…

Damien sursauta en entendant la voix rauque qui venait de derrière son épaule droite, du côté de la rue du Mocambo. Il n’avait perçu aucun bruit de pas. Il se retrouva face à Satyre Cardoso, tout petit mais bien fait, mal fagoté dans son habit défraîchi de magicien, le faux-col remonté, les joues creuses, moustachu, une étincelle de folie dans les yeux ; et qui d’emblée lui dit, en lui présentant du bout des doigts un morceau de papier imprimé:

– Voilà une invitation pour mon prochain spectacle.

– Toujours pour La Chute du drapeau.

– Oui ! Le public la redemande. Et c’est lui qui commande.

Damien voulut savoir pourquoi le vieux magicien préférait cette heure de la nuit pour distribuer ses invitations, alors que toutes les maisons étaient fermées.

– Le jour, rétorqua-t-il, les gamins me courent après, et m’appellent Troïre. Ils vont même jusqu’à pousser les chiens à me mordre. La nuit, c’est plus calme : les gamins dorment.

Là-dessus, il descendit la rue du Mocambo, et glissa ses bouts de papier sous les portes, sans bruit, effleurant à peine le trottoir de son pas léger.

Il y avait déjà plusieurs années que Damien voyait apparaître en ville cette silhouette caricaturale, toujours par monts et par vaux, avec son haut-de-forme noir, son habit, ses souliers éculés, sa serviette en cuir, noire elle aussi, sous le bras, et qui se présentait sur la place des Carmes, au palais du gouverneur, à la rédaction des journaux, au lycée, à l’évêché, et aussi à la porte des églises, aux messes dominicales et aux mariages, comme l’ ” illusionniste du Maranão”. Quelques jours après leur première rencontre, par pure curiosité, Damien avait assisté, au théâtre Saint-Louis, à son premier spectacle, qui s’était redonné, depuis, chaque année : un tour de magie bien au point, intitulé La Chute du drapeau. Satyre montait jusqu’au dernier barreau d’une échelle installée au beau milieu de la scène et de là-haut, déployant un drapeau, il déclamait un interminable galimatias sans queue ni tête, écrit dans une langue supposée de son invention, le grammazin, dont il présentait d’abord le principe sur un tableau : “Le A de l’alphabet grammazin est semblable au A de l’alphabet portuguais, avec cette différence qu’il s’écrit la tête en bas et se prononce bé.” Puis il se drapait dans l’étendard. Un coup de feu sec éclatait, l’assistance sursautait. Et sans hésiter le magicien prenait son envol et… tombait avec fracas au pied de l’échelle, sur les planches de la scène.

– Bis, bis, lui criait-on du poulailler.

Et Satyre répétait son monologue, une fois, deux fois, encore et encore, avec le même coup de feu et la même chute, jusqu’à ce que Damien, bouleversé par sa folie, se mît à protester : “Assez ! Ça suffit !” Alors le magicien finissait par se retirer en boitant, une main sur sa hanche blessée, tandis que le rideau tombait sous les cris et les sifflets.

Avant que Satyre ne disparaisse, toujours occupé à glisser ses imprimés sous les portes, Damien changea de trottoir, suivi du battement obstiné des tambours. Dans l’axe derrière lui s’étendait le cimetière du Vautour où reposaient dans la sainte paix du Seigneur le père Polycarpe, Geneviève Pia, Aparecida, ,maître Celso de Magalhães, dame Benben, dame Pascale, dame Calu et ce cher baron, chacun dans son caveau ou sa tombe. En face, la place de la Caserne ; plus loin, vers la droite, la rue des Potagers, la place de la Prision, la place du Jenipapier et enfin le quartier du Cognassier, avec la maison de son arrière-petite-fille, sur une colline verte qui dévalait vers la mer.

C’est Tian en personne, dans la voiture avec laquelle il était allé chercher la sage-femme, qui lui avait apporté la nouvelle : au crépuscule, Béa, toute, retournée de mettre au monde son premier enfant, avait senti de violentes douleurs.

– D’accord, j’irai la voir. Mais pas maintenant. Le premier accouchement donne souvent de fausses alertes. A mon avis ce sera pour le milieu de la nuit.

Et avant que Tian ne reparte:

– De mon temps, les plus jeunes attendaient les plus vieux.

– Aujourd’hui, tout change.

Toute la famille, affolée par l’arrivée du premier arrière-arrière-petit-fils, l’avait laissé seul avec la domestique qui avait expédié le service du dîner… avant de courir à son tour chez Béa. Damien s’habilla lentement, conscient qu’il était inutile de se presser et il s’accorda même un petit somme dans la chaise à bacule de la véranda ; malgré les aboiements et l’agitation de Velours, en plein rut insatisfait, il lui confia la garde de la maison.

Il était resté un bon bout de temps au coin de la rue des Spondias, à attendre l’apparition d’un fiacre qui l’emménerait au quartier du Cognassier. Il avait fini par admettre que si cela devait dépendre d’une voiture, il ne connaîtrait son arrière-arrière-petit-fils que dèjá grand. La seule solution, c’était d’y aller à pied, en profitant de la fraîcheur de la nuit.

En entrant dans la rue de Saint-Pantaleón, à une bonne distance du cimetière des Anglais, il éprouva soudain une sensation de froid de la tête aux pieds, comme si un courant d’air glacé l’eût saisi par-derrière. Il respira un grand coup et poursuivit son chemin, sans accélerer ni ralentir le pas ; il tentait de se convaincre que la rafale venait de la rue de l’Alouette ; il s’arrêta un peu plus loin, palpa les poches de son pantalon, à la recherche de son paquet de cigarettes. Il les avait bien prises, mais pas sa boîte d’allumettes.

– Eh oui ! Voilà c’ que c’est qu’ d’être vieux : quand on se souvient d’une chose, on en oublie une autre. Faut se faire une raison !

Très digne, il reprit son chemin, essayant de distraire so regard de la solitude de la longue rue. Le vent se remit à souffler, mais cette fois plus fort, comme si le temps allait changer. Le ciel dégagé le tranquillisa cependant. Une fenêtre claqua ; une branche d’arbre se brisa sur un mur et s’abattit sur le trottoir ; plus loin, une vitre vola en éclats sous le choc violent d’une autre fenêtre ; une boîte de conserve vide roula le caniveau.

Avant même d’arriver au bout du pâté de maisons, il eut l’impression qu’il se passait quelque chose d’étrange, lié à sa propre personne. Il essaya de se libérer de cette impression désagréable, mais elle le reprit, insidieuse, oppressante, avec l’insistance d’un mauvais présage. Il pensa à Béa. Non, il ne popuvait s’agir d’elle : le médecin l’avait vue le matin même et avait garanti que l’accouchement serait normal. Tout allait bien, l’enfant était bien placé ; il n’y avait plus qu’à attendre le bon vouloir de la nature, sous la surveillance attentive de l’experte commère Ludovine.

-Et elle y est déjà !

Mais alors dans la Maison des Minas, tout près de lui, éclata le fracas des tambours ; ni le tintement des clarines ni le bruit de crécelle des calebasses ne réussirent à couvrir leur roulement accéléré et nerveux qui emportait les novices dans un tourbillon sans fin. Chaque battement semblait vouloir rattraper le suivant, sans qu’aucun tambourinaire rompe le rythme vertigineux. Seul ce battement frénétique était perceptible, étouffant le son des autres instruments ; et c’est lui seul que le vent emportait de tous côtés et dispersait dans la grande nuit d’août qui enveloppait la ville.

Une fois de l’aure côté de la rue, Damien s’aperçut qu’il était sur le trottoir du Quérébétan.
Il ralentit le pas dans l’idée d’y entrer. C’était à l’angle de la ruelle des Créoles, une maison basse, au toit saillant, récemment chaulée, avec des volets et une porte à deux battants qui donnait sur la rue de Saint-Pantaléon. Un seul battant était ouvert. Planté sur le seuil, Damien jeta un coup d’oeil à l’intérieur ; le couloir et la véranda étaient déjà pleins, les novices dansaient autour de la grande prêtresse Andréza Maria. Il s’apprêtait à entrer dans le couloir quand celle-ci remonta son chalê sur ses épaules, imposant aux tambourinaires une trêve inattendue, aussitôt rompue par un battement plus fort, sur un autre rythme ; elle s’avança alors vers la porte, au milieu de la foule qui s’écartait pour lui laisser le passage. Damien fit encore un pas et attendit qu’elle vienne le chercher.

Plus tard, quand il sortit, il n’aurait su dire au juste combien de temps il y était resté. Vingt minutes ? Une demi-heure ? Davantage ? Sans doute davantage. L’important, c’est qu’après avoir écouté les tambourinaires et assité aux danses rituelles, il se sentait prêt à aller à la recontre de son arrière-arrière-petit-fils. Assis sur le banc à regarder les novices danser au milieu des bougies, il redevenait ce Noir, pur descendant de sa race, si proche de ses lointaines racines africaines. Et, dans cer état d’esprit, après avoir descendu la ruelle des Créoles, il s’engagea dans la rue de la Promenade, toujours accompagné des tambours.

Longue et rectiligne, elle lui semblait interminable : de chaque côté, des maisons aux carreaux de faïence, des grilles en fer finement ouvragées, des vitres de couleur dans l’éventail des fenêtres, et ici et là un portail de pierre. Faute de montre pour regarder l’heure (la sienne était chez Manec-orfèvre pour un nettovage complet du mécanisme depuis déjà une semaine), c’était en vain que Damien vérifiait de temps en temps la position de la lune, qui tantôt se cachait derrière les greniers les plus élevés, tantôt réapparaissait un peu plus loin, courbe et pointue comme la corne du bumba-meu-Boi, qui pénètre sur le terre-plein.

A l’angle de la rue Sainte-Anne, le bec de gaz était sur le point de s’éteindre, réduit à une toute petite flamme qui se recroquevillait dans le globe poussiéreux, comme apeurée par la nuit et l’obscurité qui se refermait sur elle. Le tintamarre d’une poubelle bringuebalée sur les pavés le fit à nouveau sursauter : un chien maigre n’ayant que la peau et les os et traînant la patte la poussait de son museau dans les ordures qui se répandaient sur le trottoir plongé dans l’obscurité. Au bruit des pas de Damien, tout proche, le chien prit peur à son tour ; il retira aussitôt sa tête de l’intéricur de la poubelle, et, claudiquant, courut vers l’autre côté de la rue, un os dans la gueule.

Un peu plus loin, du côté de la rue de la Butte, Damien entend soudain le son maladroit d’un piano. Et tandis qu’il tend l’oreille pour essayer de retrouver les mesures de la valse, à la hauteur de l’hôpital portugais, un fiacre débouche de la rue de la Promenade. Le piétinement des chevaux et le fracas des roues sont si proches qu’il attend que la voiture le dépasse à toute allure, en direction de la place de la Caserne. Comme elle tarde à passer, il se retourne et ne la voit pas : dans la rue déserte, seul le chien ronge son os à la lueur d’un autre réverbère. Le fiacre a tourné dans la rue du Mocambo et le vacarme s’éloigne vers la place de la Joie ; le piano se tait et là-bas, dans le sanctuaire des Minas, le battement des tambours résonne à nouveau.
Damien se souvint que dame Anne Jansen, tous les vendredis, au beau milieu de la nuit, sortait de sa tombe et faisait un tour complet de la ville, dans un carrosse tiré par un quadrige sans tête, conduit par un squelette brandissant un fouet.

– Racontars ! réagit Damien. Une histoire à dormir debout, inventée par les ennemis politiques de la vieille ! Les morts ne veulent que le repos.

Et palpant à nouveau la poche de son pantalon, il en sortit une cigarette qu’il prit entre ses lèvres. Un peu plus loin, le bistrot du coin de la Grand-Rue était peut-être encore ouvert. Comment avait-il pu oublier ses allumettes ? Surtout lui qui en vieillissant ne se privait jamais de ses petites cigarettes nocturnes pour attendre le sommeil…

Il se revit sortant au petit matin de la chambre de Marie Quiterie, au rez-de-chaussée d’une demeure de la rue de l’Étoile. Un peu plus loin, dans la montée de la rue de Nazareth, au-delà de l’escalier de la rue de la Craie, il fut surpris par un fracas assourdissant de vaisselle brisée. Intrigué, il ralentit. On cassait de la vaisselle sans répit, pièce par pièce ou par lots, et les morceaux volaient de tous côtés sous des coups réguliers.

Du haut de l’escalier, dans la clarté du jour qui naissait, il vit en contrebas, sur la dernière marche de la demeure du commandeur Antoine Meireles, un groupe de Noirs armés de gourdins qui cassaient à un rythme accéléré des piles et des piles de vases de nuit en faïence entassés sur le trottoir.

Damien descendit les marches quatre à quatre, et avant d’arriver en bas, devinant ce qui se passait, il se mit à rire.

Depuis des mois déjà, tout Saint-Louis en faisait quotidiennement des gorges chaudes, dans les conciliabules de la place des Carmes, dans les conversations de la promenade publique, dans les messes basses de sacristie. Ennemi juré de dame Anne Jansen avec il vivait à couteaux tirés, le commandeur Meireles avait fait venir d’Angleterre un millier de superbes pots de chambre en faïence décorés dans le fond du portrait de la vieille, dans le but de les vendre pour une bouchée de pain. Dame Anne Jansen, mise au courant, supporta patiemment les ricanements de la ville. Elle se garda bien de réagir sur le coup ; elle laissa faire le temps, mais fit acheter à la boutique du commandeur, par deux, par trois, et même par dix, les pots de chambre à son effigie, jusqu’au jour où elle eut la certitude qu’elle avait bien mis la main sur tout le lot.

Par simple curiosité, et contenant à grand-peine son envie de rire, Damien demanda à l’un des Noirs :

– De qui êtes-vous les esclaves ?

– De dame Anne Jansen.

Ils étaient une trentaine, costauds, bien baraqués, et tous sans exception fracassaient les pissoirs avec une rage insolente. Les coups redoublaient et le moindre choc faisait voler la porcelaine en éclats. Ce tintamarre inhabituel avait peu à peu réveillé tout le voisinage. Des visages encore endormis apparaissaient aux volets entrouverts des étages ; quelques curieux se penchaient même aux balcons ; d’autres, en pantoufles et en robe de chambre au beau milieu de la rue, riaient à gorge déployée devant le massacre des pots de chambre. Une insupportable odeur d’urine fétide se dégageait d’un vase de nuit déposé dans un coin ; il était presque trois fois plus grand que les autres et fermé d’un couvercle, en faïence lui aussi.

– Et celui-là ? s’enquit Damien.

– Ma maîtresse a dit d’vider l’urine sur la tête du commandeur s’il vient demander des explications.

Sans interrompre ses gestes vigoureux, le Noir ouvrit vers Damien une bouche rieuse pourvue d’une dentition impressionnante, et, entre deux pots de chambre, conclut par ce commentaire:

– Dame Anne Jansen c’est pas un être humain. J’ l’ai assez dit. S’y frotter c’est donner des verges pour se faire battre. Vous pouvez me croire!

Une cigarette éteinte au coin des lèvres, Damien se dirigea vers la Grand-Rue : il se demandait où il pourrait bien trouver une boîte d’allumettes dans le quartier. Mais avant même d’atteindre le coin de la rue, il aperçut en face d’une vaste demeure aux fenêtres ogivales la porte entrebâilllée d’un bistrot.

Et toujours le son des tambours qui le suivait pas à pas, les jeux de cache-cache de la pleine lune et le scintillement des étoiles dans le firmament. Le vent sifflait, s’engouffrant dans la rue déserte, balayant les trottoirs pour s’évanouir enfin dans la valse diabolique d’un tourbillon.

Dans le bistrot, seule brillait une lampe à huile suspendue au mur enfumé par un support métallique. La flamme vacillante dans son verre noirce tombait sur le comptoir, mais laissait en partie dans la pénombre les quelques tables vides de la petite salle. Derrière le comptoir, personne.

Damien franchit la marche de la porte d’entrée, fit quelques pas et frappa dans ses mains. En attendant qu’on s’occupe de lui, il promena son regard dans la pièce et s’approcha du comptoir. Sur sa droite, il découvrit soudain entre les deux première tables, gisant dans une mare de sang, la maigre et longue silhouette d’un Noir, plutôt bien habillé, à plat ventre, un couteau planté dans le dos à la hauteur du coeur. Figé d’épouvante, il le fixa un bon moment. Il ne distinguait que sa nuque et une partie de son cou, mais ne pouvait voir son visage. Ainsi vêtu, il n’était sans doute pas du coin. Il déplaça légèrement le corps dans l’espoir d’y trouver encore un souffle de vie : celui-ci resta inerte, le bras droit écrasé sous le torse, dans la position où il était tombé.

La flamme mourait doucement. Damien, les sourcils froncés, regarda autour de lui. Dans le fond, s’entassaient sur une table un verre cassé, un cendrier rempli de mégots et de cendres et des bouteilles d’alcool presque toutes renversées sur la plaque de marbre. Quand il avança en direction de la lampe, les débris de verre crissèrent sous la semelle de ses bottines. Alors, mû par un soupçon, il regarda derrière le comptoir : un autre cadavre était étendu sur le carrelage, le tête probablement fendue par un coup violent. Il était de face, le buste à demi appuyé entre le comptoir et les étagères à bouteilles. La lumière rougeâtre et de plus en plus ténue qui tombait sur lui permit à Damien de reconnaître sans hésiter le visage couvert de sang coagulé de l’homme corpulent aux moustaches en crocs, qui, quelques jours auparavant, ici même, lui avait vendu un paquet de cigarettes.

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Fonte : Montello, Josué. Les tambours noirs. La saga du nègre brésilien : roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot, Marie-Pierre Mazeas, Monique Le Moing. France : Flammarion, 1987. Chap. 1. p. 11-19.

NOTA

Mocambo : Il s’agit du lieu où se réfugiaient les esclaves en fuite dans la forêt. (N. d. T.).

OS TAMBORES DE SÃO LUÍS

Capítulo 1

Josué Montello

Até ali os Tambores da Casa-Grande das Minas tinham seguido seus passos, e ele via ainda os três tamboreiros, no canto esquerdo da varanda, rufando forte os seus instrumentos rituais, com o acompanhamento dos ogãs e das cabaças, enquanto a nochê Andreza Maria deixava cair o xale para os antebraços, recebendo Toi-Zamadone, o dono do lugar.

Por vezes, no seu passo firme pela calçada deserta, deixava de ouvir o tantantã dos tambores, calados de repente no silêncio da noite, com o vento que amainava ou mudava de direção. Daí a pouco Damião tornava a ouvi-los, trazidos por uma rajada mais fresca, e outra vez a imagem da nochê, cercada pelas noviches vestidas de branco, lhe refluía à consciência, magra, direita, porte de rainha, a cabeça começando a branquear.

Fora ela que viera buscá-lo, à entrada do querebetã. A intenção dele era apenas ouvir um pouco os tambores e olhar as danças, sentado no comprido banco da varanda, de rosto voltado para o terreiro pontilhado de velas. Já o banco estava repleto. Muitas pessoas tinham sentado no chão de terra batida, com as mãos entrelaçadas em redor dos joelhos; outras permaneciam de pé, recostadas contra a parede. Mas a nochê, que o trouxera pela mão, fez sair do banco um dos assistentes, e ele ali se acomodou, em posição realmente privilegiada, podendo ver de perto os tambores tocando e as noviches dançando, por entre o tinir de ferro dos ogãs e o chocalhar das cabaças.

Vez por outra sentia necessidade de ir ali, levado por invencível ansiedade nostálgica, que ele próprio, com toda a agudeza de sua inteligência superior, não saberia definir ou explicar. O certo é que, ouvindo bater os tambores rituais, como que se reintegrava no mundo mágico de sua progênie africana, enquanto se lhe alastrava pela consciência uma sensação nova de paz, que mergulhava na mais profunda essência de seu ser. Dali saía misteriosamente apaziguado, e era mais leve o seu corpo e mais suave o seu dia, qual se voltasse a lhe ser propício o vodum que acompanha na Terra os passos de cada negro.

Embora só houvesse no céu uma fatia de lua nova, por cima da igreja de São Pantaleão, uma tênue claridade violácea descia sobre a cidade adormecida, com a multidão de estrelas que faiscavam na noite de estio. Em cada esquina, a sentinela de um lampião, com seu bico de gás chiante. Todas as casas fechadas. Perto, para os lados da Rua da Inveja, o apressado rolar de um carro, com o ruído do cavalo a galope nas pedras do calçamento. E sempre o baticum dos tambores, ora fugindo, ora voltando, sem perder a cadência frenética, muito mais ligeira que o retinir das ferraduras.
No canto da Rua do Passeio com a Rua do Mocambo, antes de passar para a calçada fronteira, Damião parou um momento, batido em cheio pela claridade do gás.

Resguardado do sereno pelo chapéu de feltro inglês, presente do Governador Luís Domingues no último Natal, parecia mais comprido, a espinha dorsal direita, o corpo seco e rijo, os ombros altos. Aos oitenta anos, dava a impressão de ter sessenta, ou talvez menos, com muita luz nos olhos, o passo seguro, a cabeça levantada. Até o começo do século, não dispensava a bengala de castão de prata com que entrou pela primeira vez no sobrado do Foro, sobraçando a sua pasta de solicitador, para defender outro negro. Agora, trajava com simplicidade, muito limpo, a barba escanhoada, o paletó abotoado acima do peito, um alfinete de ouro junto ao laço da gravata.

– Faça favor…

Damião assustou-se com a voz rouca que lhe vinha por trás do ombro direito, do lado da Rua do Mocambo. Não tinha sentido rumor de passos. E deu de frente com o Sátiro Cardoso, pequenino, enxuto, metido na sua sovada casaca de mágico, o colarinho alto, o rosto encovado, bigode, nos negros olhos uma faísca de loucura, e que logo lhe disse, com um pedaço de papel impresso na ponta dos dedos:

– É o convite para o meu próximo espetáculo.

– Outra vez A queda da Bandeira?

– É. O pessoal pede sempre. E o público é quem manda.

Damião quis ainda saber por que o velho mágico preferia aquela hora da noite, com as casas fechadas, para distribuir os seus convites.

– De dia – redargüiu ele, dando-lhe outro convite – os moleques vêm atrás de mim, me chamando de Troíra. Chegam a atiçar cachorros para me morder. De noite é mais calmo: os moleques estão dormindo.

E lá se foi, Rua do Mocambo abaixo, a enfiar o papelucho por baixo das portas, sem ruído, apenas roçando o chão da calçada com seu passo macio.

Já fazia alguns anos que Damião vira aparecer na cidade aquela figura caricata, debaixo de uma cartola preta, casaca, sapatos cambados, a andar acima e abaixo, com uma pasta de couro, também preta, e apresentando-se no Largo do Carmo, no Palácio do Governo, na redação dos jornais, no Liceu, no Paço Episcopal, e também à porta das igrejas, nas missas dominicais e nos casamentos, como – o Ilusor Maranhense. Dias depois, apenas por curiosidade, tinha ido assistir, no Teatro São Luís, ao seu primeiro espetáculo, que daí em diante se repetia todos os anos: a caprichada mágica intitulada A queda da Bandeira. Sátiro subia uma escada, até o último degrau, bem no centro do palco, e dali, com uma bandeira desfraldada, recitava comprido bestialógico, cheio de palavras abstrusas, numa suposta língua de sua invenção, o gramazino, da qual proporcionava antes um pano de amostra com esta explicação: “O A do alfabeto gramazino é a mesma coisa que o A do alfabeto em português, com a diferença de que se escreve de cabeça para baixo e tem o som de bé.” Em seguida, enrolava-se na bandeira. Um tiro de pólvora seca estrondava, assustando a platéia. E eis que o mágico se atirava lá do alto, em arremesso, como se fosse voar, e caía pesadamente cá embaixo, nas tábuas do chão.

– Bis, bis – gritavam-lhe da torrinha.

E Sátiro repetiu o monólogo, uma, duas, várias vezes, com o mesmo tiro e a mesma queda, até que Damião, compadecido de sua insânia, começou a reclamar – Chega! Chega! – e o mágico afinal se retirou, manquejando, uma das mãos no quadril machucado, enquanto o pano do teatro vinha descendo, debaixo de gritos e assobios.

Antes que ele desaparecesse, sempre a enfiar o impresso por baixo das portas, Damião mudou de calçada, ainda ouvindo o baticum dos tambores. Para trás, em linha reta, ficava o Cemitério do Gavião, com o Padre Policarpo, a Genoveva Pia, a Aparecida, o Dr. Celso de Magalhães, a Dona Bembém, a Dona Páscoa, a Dona Calu, o amigo Barão, cada qual no seu jazigo ou na sua cova rasa, na santa paz do Senhor. À frente, era o Largo do Quartel; em seguida, torcendo para a direita, a Rua das Hortas, o Largo da Cadeia, a Praia do Jenipapeiro e por fim a Gamboa, com a casa de sua bisneta, num cômoro verde que escorregava para o mar.

O próprio Tião, no mesmo carro em que fora buscar a parteira, viera dar-lhe a notícia de que, antes do anoitecer, a Biá começara a sentir fisgadas fortes, no alvoroço de dar à luz do primeiro filho.

– Deixei sua bisneta gemendo. A casa já está cheia de parentes. É bom que o senhor também esteja lá, para receber o seu trineto.

– Sim, irei – concordara. – Mas não já. O primeiro parto dá muito rebate falso. Isso é coisa para o meio da noite.

E antes do Tião sair:

– Eu sou do tempo em que os mais moços esperavam pelos mais velhos.

– Hoje, tá tudo mudando – emendou o Tião.

E como o tinham deixado só, no rebuliço do primeiro trineto da família, apenas com a criada que lhe servira apressadamente o jantar (e também se fora para a casa da Biá). Damião se vestiu devagar, sabendo que não adiantava ter pressa, e ainda passou por um cochilo, na cadeira de balanço da varanda, antes de deixar a casa entregue ao Veludo, que andava na fase de latir e correr, próprio do cio insatisfeito.
Levara bom tempo na esquina da Rua das Cajazeiras, a ver se aparecia um carro que o transportasse à Gamboa. Terminara reconhecendo que, se dependesse mesmo de um carro, só iria conhecer o trineto depois de grande. O jeito era ir a pé, aproveitando a fresca da noite.

Ao entrar na Rua de São Pantaleão, já distante do Cemitério dos Ingleses, experimentou de repente uma sensação de frio, que lhe desceu da cabeça aos pés, como se um sopro gelado o tivesse apanhado por trás, em toda a extensão do corpo. Respirou fundo, e prosseguiu no seu caminho, sem aumentar nem diminuir o passo, ao mesmo tempo que procurava convencer-se de que a rajada viera da Rua da Cotovia. Parou adiante, apalpando os bolsos da calça, à procura do maço de cigarros. Tinha trazido os cigarros, mas esquecera a caixa de fósforos.

– Velho é assim mesmo: quando se lembra de uma coisa, esquece outra. Paciência.

Senhor de si, voltou a caminhar, procurando espairecer os olhos no ermo da rua longa. De novo o vento soprou, agora mais forte, como se o tempo fosse mudar. O céu limpo tranqüilizou Damião. Uma janela bateu; por cima de um muro, estalou um galho de árvore, que resvalou para a calçada; adiante, uma vidraça partiu, no bater violento de outra janela; uma lata vazia rolou pelo meio-fio.

Antes de alcançar o fim do quarteirão, ele teve a impressão de que algo estranho, que se associava à sua pessoa, estaria ocorrendo naquele momento. Tentou sacudir de si a impressão aborrecida, e esta retornou, insidiosa, opressiva, com a teimosia de um mau presságio. Pensou na Biá. Não, não seria nada com ela: o médico tinha-a visto pela manhã, e assegurara que seu parto seria normal. Tudo bem, e a criança no seu lugar; era só esperar agora pela reação da natureza, sob a vigilância experiente da Comadre Ludovina.

– E a Comadre Ludovina já está lá.

Foi então que escutou o romper dos tambores, ali perto, na Casa-Grande das Minas. Quase no mesmo instante tiniram os ogãs e sacudiram as cabaças, mas não suplantaram os tambores, que iam acelerando o tantantã nervoso que obriga as noviches a girarem sobre si mesmas. Dir-se-ia que uma batida queria alcançar a seguinte, sem que um tamboreiro destoasse dos outros na vertigem do compasso. E só esse baticum frenético se impunha agora, apagando o som dos outros instrumentos, e também só ele o vento levava, rua abaixo e rua acima, dispersando-o na grande noite de agosto que se fechava sobre a cidade.

Depois de passar para o outro lado da rua, Damião deu consigo na calçada do querebetã, e ali retardou a caminhada, querendo entrar. Era uma casa baixa, de beiral saliente, caiada de novo, na esquina do Beco das Crioulas, com janelas de rótulas e porta de duas folhas, sobre a Rua de São Pantaleão. Só uma banda da porta estava aberta. Parado na soleira, ele olhou para dentro e viu o corredor e a varanda já repletos, com as noviches dançando em volta da nochê Andreza Maria. E ia dar o primeiro passo no corredor, quando a nochê subiu o xale para os ombros, compelindo os tamboreiros a uma pausa brusca, logo interrompida por um bater mais forte, em outro ritmo, e veio caminhando para a porta, no espaço que se ia abrindo para lhe dar passagem. Damião tinha dado outro passo, e ali esperou que ela o levasse.

Quando saiu, ele não saberia dizer ao certo quanto tempo ali permanecera. Vinte minutos? Meia hora? Ou mais ainda? Mais ainda, certamente. O importante é que, depois de ouvir os tamboreiros e assistir às danças rituais, se sentia preparado para ir ao encontro de seu trineto. Sentado no banco, a olhar as noviches dançando rodeadas de velas, era outra vez o negro puro, filho de sua raça, em contato com as remotas raízes africanas. E assim entrou na Rua do Passeio, descendo pelo Beco das Crioulas, sempre acompanhado pelo tantantã dos tambores.

A Rua do Passeio, longa, retilínea, parecia não ter fim. Casas de azulejos de um lado e de outro, com grades de ferro rendilhadas, vidros coloridos no leque das janelas, um ou outro portal de pedra. Sem relógio para ver as horas (o seu andava na loja do Maneco Ourives, para limpeza geral da máquina, já fazia uma semana), era debalde que Damião consultava de vez em quando a posição da lua, que ora se escondia por trás dos mirantes mais altos, ora repontava adiante, curva e pontuda como um chavelho de bumba-meu-boi entrando no terreiro.

No canto da Rua de Santana, o bico de gás do lampião estava prestes a apagar, reduzido a uma chamazinha débil, que se encolhia no bocal empoeirado, com medo da noite, a escuridão a se fechar à sua volta. E outra vez Damião se assustou, agora com a zoada de uma lata de lixo, que ia sendo arrastada nas pedras do chão. Era um cão magro, só pele e osso, com uma pata traseira pendurada, que arrastava com o focinho, enquanto o lixo se esparramava na calçada escura. Ao pressentir os passos de Damião, já bem perto, o cão assustou-se também retirou depressa a cabeça de dentro da lata, e correu para o outro lado da rua, capengando, com um osso na boca.

Um pouco além, Damião ouve o som de um piano mal tocado, para os lados da Rua do Oiteiro. E enquanto apura a orelha, tentando identificar os compassos da valsa, uma carruagem dispara pela Rua do Passeio, à altura do Hospital Português, e é tão próximo o tropel dos cavalos e o estrondo das rodas, que ele fica esperando que ela passe ao seu lado, seguindo a toda brida na direção do Largo do Quartel. Como demore passar, ele se volta para trás, e não vê: na rua deserta, só o cão rói o seu osso, à luz de outro lampião. A carruagem dobrou a Rua do Mocambo, e seu rumor se afasta no sentido da Praça da Alegria, ao mesmo tempo que o piano se cala, e volta a ressoar, um pouco mais distante, o baticum dos tambores, na Casa-Grande das Minas.

Damião se lembrou que Donana Jansen saía de seu túmulo, nas noites de sexta-feira, e dava uma volta comprida pela cidade, numa carruagem puxada por duas parelhas de cavalos sem cabeça, com um esqueleto na boléia brandindo o chicote. Só se ouvia o ruído das rodas e das ferraduras, despencando ladeia abaixo.

– Bobagem – reagiu Damião. – História inventada pelos inimigos políticos da velha. Quem morreu quer sossego.

E apalpando novamente o bolso da calça, tirou fora um cigarro, que deixou no canto da boca. Mais além, talvez ainda estivesse aberto o botequim da esquina da Rua Grande. Como fora esquecer de trazer a caixa de fósforos? Logo ele que, depois de velho, não dispensava os cigarrinhos da noite, para esperar o sono…

E nisto se viu saindo do quarto da Maria Quitéria, nos baixos de um sobradinho da Rua da Estrela, já querendo amanhecer. Na subida da Rua de Nazaré, estranhou uma zoada ressoante de louça quebrada, a poucos passos, adiante da escadaria da Rua do Giz. Retardou o andar, intrigado. Era uma louça atrás da outra, e muitas a um só tempo, debaixo das mesmas pancadas firmes, que faziam voar para todos os lados os cacos partidos.

Do patamar da escadaria, estendeu o olhar para baixo.

Ao pé do último socalco, à porta do sobrado do Comendador Antônio Meireles, na claridade do dia que ia rompendo, um bando de negros em ação, cada qual com seu porrete de pau-roxo, quebrava depressa pilhas e pilhas de vasos de louça empilhados na calçada.

Damião desceu os socalcos quase a correr, e antes de chegar cá embaixo começou a rir, adivinhando o que se passava.

Dias e dias, já fazia alguns meses, era o assunto de São Luís inteira, nas rodas do Largo do Carmo, nas conversas do Passeio Público, no cochicho das sacristias. Inimigo de Donana Jansen, com quem vivia às turras, o Comendador Meireles tinha mandado preparar na Inglaterra, para vendê-los quase de graça, um milheiro de belos penicos de louça, com cara da velha no fundo do vaso. Donana Jansen soube do fato e suportou com paciência o riso da cidade. Não reagiu logo: deu tempo ao tempo, enquanto ia mandando comprar, aos dois, aos três, às dezenas, na loja do Comendador, os penicos com seu retrato, até ter a certeza de que, agora, sim, só ela os possuía.

Apenas por perguntar, mal contendo o frouxo de riso, Damião perguntou a um dos negros:

– De quem vocês são escravos?

– De Donana Jansen.

Eram mais de trinta negros, todos fortes, espadaúdos, e iam quebrando os urinóis com uma fúria divertida, repetindo as cacetadas rijas, que desfaziam a louça apenas com uma pancada. A vizinhança ia despertando com a zoadaria estranha. Caras estremunhadas entreabriam as rótulas, nas janelas dos sobrados, e já algumas pessoas se debruçavam das sacadas, enquanto outras, na rua, em chinelos, no chambre de dormir, riam alto, vendo as matanças dos penicos. Um cheiro insuportável de mijo podre desprendia-se de um vaso à parte, por sinal que maior que os outros, quase o triplo, e coberto com uma tampa também de louça.

– E esse aí? – quis saber Damião.

– Minha sinhá deu ordem pra despejar o mijo dele na cabeça do Comendador, se ele aparecer pra tomar satisfação.

E sem interromper as pancadas seguras, o negro abriu para Damião a dentadura farta, que lhe encheu a boca feliz, rematando com este comentário, entre um penico e outro:

– Donana Jansen não é gente. Tou cansado de dizer. Quem se mete com ela tem sarna muita pra se coçar. Ora se tem!

Ainda com o cigarro apagado no canto da boca, Damião aproximou-se da Rua Grande, pensando onde ia encontrar, ali perto, uma caixa de fósforos para comprar. E não tinha chegado à esquina, defronte de um casarão de altas janelas ogivas, quando viu entreaberta a porta do botequim.

Sempre o ruído dos tambores seguindo-lhe os passos, com a lua nova a se esconder e a brilhar, na faiscação do céu estrelado. E agora o assobio do vento, que disparava na rua deserta, varrendo as calçadas, para se desfazer no giro doido de um remoinho.

Dentro do botequim, a única luz era a chama de um candeeiro a óleo, suspenso da parede esfumaçada por um suporte de metal. Essa luz mortiça, por trás do bocal enegrecido, caía por cima do balcão, mal dando para clarear uma parte da saleta pontilhada de mesas vazias. Dentro do balcão, ninguém.

Damião subiu o degrau da porta, avançou uns passos, bateu palmas. Enquanto esperava que o atendessem, olhou em volta, aproximando-se do balcão. E foi aí que viu por terra, entre as duas primeiras mesas à sua direita, o vulto de um negro magro, comprido, bem trajado, caído de bruços numa poça de sangue, com uma facada nas costas, à altura do coração. Parado, ficou um momento a fitá-lo, de olhos crescidos. Não lhe podia ver o rosto, só a nuca e uma parte do pescoço. Pela roupa, era gente de fora. Empurrou-o de leve, para ver se lhe restava um alento de vida, mas o corpo permaneceu imóvel, com o busto achatando o braço direito, na posição em que tinha caído.

Na claridade que ia esmorecendo, Damião olhou em volta, de sobrancelhas travadas. Numa das mesas, mais para o fundo da saleta, acumulavam-se garrafas de bebida, quase todas tombadas sobre o tampo de mármore, juntamente com um copo quebrado e um cinzeiro atulhado de cinza e pontas de cigarro. Cacos de vidro rangeram debaixo da sola de suas botinas, assim que deu outro passo, na direção do candeeiro. E ali, com uma suspeita, espiou para dentro do balcão. Outro morto jazia no ladrilho do piso, com a cabeça fendida por uma paulada. Estava de frente, com o busto maio apoiado no ângulo entre o balcão e a prateleira. E a luz que descia sobre ele, muito tênue, levemente avermelhada, permitiu que Damião prontamente identificasse, pelo rosto coberto de sangue pisado, o senhor gordo, de bigode em ponta, que, dias antes, ali mesmo, lhe tinha vendido um maço de cigarros.

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Fonte: Montello, Josué. Os tambores de São Luís: romance. 5ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Cap. 1. p. 11-20.





Bio fornecida pelo palestrante.

Brejal dos Guajás




Autor: José Sarney
Título: Brejal dos Guajás, Brejal de los Guajás
Idiomas: port, esp
Tradutor: Edgardo Rivera Martínez(esp)
Data: 28/12/2004

BREJAL DE LOS GUAJÁS

De: El Concejal Bertolo y otros cuentos


José Sarney

I

El camino de Brejal estaba lejos, demasiado lejos para ser medido simplemente en días o leguas. La distancia dependía de la época del viaje, pues si éste se realizaba en el invierno- un invierno de fuertes aguaceros, con seis meses de agua por todos lados- no tenía fin. A Brejal se viajaba en convoy hasta cierto lugar, lejano aún, y se continuaba luego en canoa, subiendo por el otro río Itapicuru hasta Laje Amarela. De ahí se seguía a caballo hasta llegar al comienzo de la calle principal del pueblo, o se avanzaba aún más, si quien llegaba era un amigo, y sino, se proseguía desde ese extremo, a pie, hasta la hostería del mercado, pero eso sí, hablando bajito, mirando a los costados y al frente, hasta que todos supiesen de dónde y a qué se venía.
Había dos calles, la de la Matriz y la del Mercado. La ciudad tenía algo menos de tres cuarentenas de casas. Ni teléfono, ni calzadas, ni pistas, ni edificios públicos, ni escuelas. Mejor dicho, escuela había una, con un aula construida hacía poco, donde vivía el sargento de este camento policial que contaba con diez hombres.
De la antigua colina grande, donde ahora se ubica la ciudad, sólo quedaba un algarrobo, coposo, verde, de follaje abierto, frente la casa de doña Rosa Menina. En la época de cosecha acudían los chiquillos para juntar las semillas chatas. Allí llegaban también en otros tiempos los venados, a comer en las noches de verano. Buen lugar para la espera había sido aquel tronco donde ahora se amarraban los animales y se alzaba la ranchería. En la ciudad todos se conocían y en ésta se vendían tan sólo artículos de vestir y comer, y un poco de arroz, porque en realidad no era zona arrocera sino de mucha palmera babaçu y harina de yuca. Y era llamada de Guajás porque quedaba cerca de la aldea de los guajajaras, hoy muy lejos, perdidos, subyugados, muertos.
–Eh, Rosa, que Dios nos ampare, mulata coqueta– decía el canónigo Juan, paríoco desde hacía muchos años, respetado y estimado por un grupo de la ciudad, que le concedía todas las virtudes, desde la de padre de familia ejemplar hasta la de milagroso pastor de almas.
–Amén–, repondía Rosa Menina en su puesto de café y arroz con tocino, que vendía en la mano.
El padre Juan y Rosa eran talvez las únicas personas que podían tanto con el coronel Francelino Procopio dos Santos, primos carnales, que vivían en calles diferentes, enemigos a muerte, ambos ricos, ambos poderosos, pero ambos también del mismo partido invicto en todas las contiendas electorales que habían tenido lugar desde la caída de la dictadura. En ellas la oposición no había obtenido ni siquier un voto. Ambos coroneles, y sus seguidores, no sabían lo que era esa palabra.
Es verdad que uno y otro abrigaban un profundo resentimiento contra el gobierno pues de acuerdo a las inluencias y a los candidatos a los que éste apoyaba, los puestos locales quedaban, alternadamente, en manos de uno y otro bando.
El ambiente en la ciudad era en este año bueno. La proximidad de los comicios acarreaba momentos de aprensión a los jefes. Ambos trajeron de São Luis la nueva directiva, que sonó enérgica a sus oídos:
–Quien gane ahora las elecciones será dueño de todos los puestos municipales y de la jefatura del partido No vamos a permitir más esa pugna que hay en Brejal…
El coronel Francelino Procopio dos Santos, apodado Jabalí, había quedado myu irritado por esa cisión. Decisisón especialmente ingrata para él, servidor por mucho tiempo de la causa, que había traido a Brejal, como padrino de su hijo mayor, al senador Clemente Guerra a quien había acompañado en todas las luchas con cartas de adhesión. ¿Tener que demostras ahora que gozaba de prestigio, él que había probado tenerlo en todos esos años? Pero es que su adversario, Coronel Manuel Guimarães, conocido como Né Guiné, enterado de que el hijo del senador, presidente del partido era candidato a diputado departamental, había dado un antecipado golpe. Había enviado un telegrama adhiriéndose a esa candidatura, y, con ese apoyo, justo es admitirlo, se había adelantado a Chico Jabalí.
El senador Guera había construido su política sobre la realidad de las ambiciones locales. Conocía como la palma de su mano todos los secretos de la brega municipal, las pequeñas ambiciones que en ella operan y sus grandes batallas. En este día su figura de líder astuto brillaba en un ejercicio que siempre había sido de su agrado: el juego de amenazas. Los ojos saltones, y el puro apretado a un lado de la boca, completan el conjunto de ese cuerpo grande, que movía con fuerza la pierna y retorcía las manos.
–Nuestro partido, compadre, fue hecho para servir a los amigos. La ley es dura para quien es blando. El gobierno no sabe de decretos cuando los intereses de un amigo están en juego, y el enemigo aquí no tiene bandera…
El coronel Francisco Procopio dos Santos comprendía bien el significado de esas palabras: asegurar el el nombramiento de los cobradores de impuestos, tasando a Né Guiné; soldados para meter presos a los jornaleros; y la tranquilidad de no pagar tributo alguno, lo cual estaba en las mejores tradiciones del partido. Pero también en esas palabras del senador Guerra estaba la velada amenaza de los peligros a que estaría expuesto como opositor si Né Guiné ganaba los comicios.
Francelino escuchó en silencio la voz de mando. Se mostraba impasible en la Sala de las Estrellas del Palacio de los Leones, donde tantas veces se le había recibido. Por la ventana la brisa de la bahía de San Marcos agitaba los caballos de su compadre y amigo. Realmente Né Guiné se había anotado un punto a su favor. Había llevado al senador Clemente a una posición en la cual no le gustaba verle. A fin de cuentas, la imparcialidad de las luchas de Brejal la parcialidad del senador había sido siempre su arma secreta Y no eran dos ni tres las veces en que le había telegrafiado pidiendo su intervención para mantener a gente amiga en los puestos políticos de Brejal. Era alcade de Brejal y tenía mayoría en el Consejo Municipal, prueba suficiente de su supremacía. ¿Por qué ponerlo entonces a prueba en nueva contienda cuando por derecho debía disfrutar ya del pode absoluto en Brejal de los Guajás? Aunque es verdad también que Né Guiné había escogido al teniente alcade y a cuatro regidores y que había obtenido un gran votación; y si había perdido los comicios fue solamente por tres docenas de votos.
El coronel Jabalí sólo asistia al Palacio de los Leones de traje oscuro, con chaquetón de ocho botones, zapatos de botonadura- cruzada, cerrados a un costado, y ese pince-nez que lo acompañaba en los momentos solemnes. La perita era una reminiscencia histórica, ya que en el Estado de Maranhão sobrevivían sólo tres, y la suya era una de las más célebres. (“Esa perrita es sólo una viveza– cuando va a mentir comienza a acariciársela–, pues una simple perita no hace decente a nadie”, eran viejas frases de sus adversario). Jabalí, entretanto, conservaba la perita, que lucía de veras solemne. En las charlas políticas encarnaba toda una tradición. Su dueño hablaba con parsimonia, usando siempre su merced, y su voz era untuosa.
Un día pidieron al coronel Né Guiné una definición de su contrincante, y dijo: “Ése es como la semilla de la linaza, resbala y no hay mano que la retenga…”

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Fonte: SARNEY, José. El consejal Bertoldo y otros cuentos. Traducción de Edgardo Rivera Martínez. Lima, Peru: Centro de Estudios Brasileños, 1959. p. 23-29.

BREJAL DOS GUAJÁS

De: O Concejal Bertolo e outros contos

José Sarney

Brejal, ai meu Brejal,
Brejal dos Guajajaras,
Morrer em ti, ai Deus,
Morrer em ti, ai Deus,
Tomara …

Valsa de Zé Binga

Em pace, em pace,
em rua, em rua,
Ai meu Deus, padecendo
sem culpa nenhuma!
Excelência do Olho-d’Água Seco
Brejal, Brejal, terra querida,
Brejal, ai meu Brejal,
Motivo da minha vida,
Dizer adeus a ti, ai Deus,
Não digo tal …

Valsa de Zé do Bule

I

O caminho do Brejal era longe. Longe demais para ser contado em dias ou léguas. A distância dependia da época das viagens: se era no inverno, invernão de pingo grosso, seis meses de água por todos os lados, não tinham fim. De trem até longe, de longe em canoa subindo o Rio Itapicuru até a Laje Amarela, e de lá a cavalo até a ponta da rua ou mais, se era amigo, e se não era, da ponta da rua a pé até a hospedaria do Marcado, falando mansinho, olhando de lado e de frente até que se soubesse a que vinha e donde.
Ruas tinham duas: a da Matriz e a do Mercado. A cidade era menos mais que umas três quarentenas de casas. Nem telégrafo nem calçadas, nem calçamentos, nem prédios públicos, nem escolas. Aliás, escola tinha uma, de uma sala, construída recentemente; nela residia o sargento da força policial de dez praças.
Do antigo teso grande onde agora se localizava a cidade só restava um pé de tamboril, copudo, verde, de folhagens abertas, em frente à casa de D. Rosa Menina. Na época da safra os moleques vinham e juntavam as favas chatas. Ali, antigamente, os veados deviam chegar para a comida nas noites de verão, Boa espera teria sido aquele tronco onde agora ficavam amarrados os animais e a rancharia. Na cidade todos se conheciam e o que se vendia eram os teréns de vestir e de comer, e um pouco de arroz, porque não era zona de arroz, mas de muito babaçu e farinha. Chamado dos Guajas porque ficava próximo à aldeia dos guajajaras, hoje longes, perdidos, mortos e domados.
– Oi, Rosa, Deus ajude, mulata dengosa … – dizia o cônego João, pároco há muitos anos, respeitado e estimado por uma banda da cidade, que lhe dava todas as virtudes, desde a de pai de família exemplar até a de milagroso pastor das almas.
– Amém – respondia Rosa Menina, na banca de café e arroz de toucinho, vendido na mão.
O Padre João e Rosa talvez fossem as únicas pessoas que podiam falar ao mesmo tempo com o Coronel Francelino Procópio dos Santos e com o Coronel Manuel Guimarães dos Santos, primos carnais, morando em ruas diferentes, inimigos de vida e morte, ambos ricos, ambos poderosos, mas ambos da mesma corrente política invicta em todos os pleitos realizados desde a queda da ditadura. A oposição nunca conseguira um voto sequer. Ambos os coronéis e seus dependentes não sabiam o que era essa palavra.
É bem verdade que um e outro guardavam profundas mágoas do governo, pois, conforme as influências e os candidatos a apoiar, as posições locais ficavam alternadamente numa ou noutra mão.
O clima na cidade esse ano estava bom. A proximidade do pleito marcava momentos de apreensão para os chefes. Ambos trouxeram de São Luís a nova orientação e os dois a ouviram vigorosa:
– Quem ganhar as eleições será o dono de todas as posições municipais e o chefe do Partido. É impossível manter essa disputa do Brejal …
O Coronel Francelino Procópio dos Santos, Javali de apelido, ficara irritado com essa decisão. Decisão ingrata para ele, há anos servidor da casa, que levara ao Brejal, para padrinho do seu filho mais velho, o Senador Clemente Guerra, a quem em todas as lutas acompanhara com cartas de solidariedade. Ter agora de mostrar prestígio, ele que demonstrara prestígio em todos os anos? Mas é que o adversário, o Coronel Manuel Guimarães, conhecido como Né Guiné, sabendo que o filho do senhor Presidente do Partido era candidato a deputado estadual, dera o golpe antecipado. Passava um telegrama aderindo a essa candidatura e nesse apoio, justiça era confessar, passara à frente do Chico Javali.
O Senador Guerra montara a sua política na realidade das ambições locais. Conhecia como a palma da mão todos os meandros da luta municipal, suas pequenas ambições e suas grandes batalhas. Naquele, dia, a sua figura de chefe astuto brilhava, no exercício de uma função que sempre fora do seu agrado: o jogo das ameaças. Os olhos espantados e abertos e aquele charuto apertado no canto da boca compunham o conjunto do corpo grande a sacudir violentamente a perna e a torcer os dedos.
– O nosso Partido, compadre, foi feito para servir os amigos. A lei é dura para quem é mole.
O Governo não conhece decreto quando o interesse do amigo está em jogo e inimigo não tem bandeira.
O Coronel Francelino Procópio dos Santos bem compreendia o significado daquelas palavras. Era assegurar a nomeação dos cobradores de impostas taxando o Né Guiné, os soldados prendendo os agregados e a tranqüilidade para não pagar nenhum tributo, o que era da tradição do partido. Por outro lado, nas palavras do Senador Guerra estava àquela ameaça velada afrontando os perigos da oposição a que estaria sujeito se o Né Guiné ganhasse o pleito.
Francelino ouvira silencioso a voz de comando. Estava impassível naquela Sala da Estrela do Palácio dos Leões, onde tantas vezes fora recebido. Pela janela, a viração da baía de S. Marcos batia nos cabelos do compadre e amigo. Realmente o Né Guiné tinha conseguido um tento. Levara o Senador Clemente para uma posição que em que ele não gostava que estivesse. Afinal de contas, na imparcialidade da luta do Brejal, a parcialidade do senador sempre fora o trunfo. E não eram duas nem três vezes que telegrafara pedindo a sua interferência para manter amigos nas posições políticas do Brejal. Ele era o Prefeito do Brejal, tinha a maioria da Câmara Municipal, prova suficiente da sua supremacia. Por que testá-lo num pleito novo, quando de direito já devia ter o comando absoluto do Brejal dos Guajas? É bem verdade que o Né Guiné elegera o vice-prefeito e quatro vereadores, tivera uma grande votação, e perdera a eleição apenas por três dúzias de votos.
O Coronel Javali não comparecia aos Leões senão de terno escuro, jaquetão de oito botões, sapatos de abotoaduras cruzadas, fechados no lado, aquele pince-nez que o acompanhava nos momentos solenes. O cavanhaque era uma reminiscência histórica. No Estado, todos sobreviviam uns três, e o dele era dos mais célebres. (aquele cavanhaque é só safadeza – Quando vai mentir, coça logo a barbicha – Cavanhaque não dá vergonha a ninguém – eram frases velhas dos adversários.) Javali, entretanto, tinha o cavanhaque; e era um cavanhaque solene. Nas conversas políticas, representava a própria tradição. Falava devagar, usando sempre vossa mercê e a voz era escorregadia. Um dia, pediram ao Coronel Né Guiné uma definição para o adversário.
– Aquilo é como semente de linhaça: escorrega que não há dedo que segure…
Já seu primo e adversário, o Né Guiné de apelido, nascido Manuel Guiné dos Santos, tinha a voz mais forte. De manobras mais claras, gabava-se dos músculos, de vigor para toda obra. Calvo, sempre com um fungado longo, pigarreava a miúdo. Das letras nada ou pouco sabia, mas nas contas gozava de boa cabeça. Sua roupa de viagem à capital era sempre aquele terno branco de linho inglês, gomado até as costuras e mostrando nos tons amarelados os longos meses de baú. Usava o “meu senhor” sem muitos rebuços.
Quando o Cônego João interpelou o Coronel Francelino para que reconhecesse qualidades no opositor, conseguiu apenas uma frase:
– Aquilo é como estopa: não tem avesso nem direito…
Francelino Procópio dos Santos era homem de muitas posses, casa sortida, de dez portadas, calçada alta, secos, molhados, fazendas de gado e de terra. Tinha muitos filhos. Alguns já homens, alguns casados, outros estudando, um genro na loja, mas a sua paixão, a paixão de sua vida sempre fora à política. Afinal de contas, herdaram do avô, ele e primo Né, por pais diferentes, o eleitorado e os bens.

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Fonte: Sarney, José. “Brejal dos guajás”. De: O concejal Bertolo e outros contos. In: http://www.academia.org.br/cads/38/josé_s2.htm





Bio fornecida pelo palestrante.

GREGÓRIO, LE PIANOLA ET MAMAN




Autor: Jorge Sá Earp
Título: GREGÓRIO, LE PIANOLA ET MAMAN
Idiomas: fra
Tradutor: Pascal Lauwers
Data: 16/03/2005

GREGÓRIO, LE PIANOLA ET MAMAN

 

Jorge Sá Earp

 
 
Il s’était réveillé tôt pour nettoyer la cage. Il faisait ceci avec discipline chaque semaine. Tous les samedis, il avait l’habitude de se lever à huit heures et demie avec ce réveil-matin qui lui brisait les nerfs. Il en avait perdu l’habitude. Pour cette raison, il paressait en se roulant dans l’écume des draps et des oreillers, en écoutant les oiseaux du matin ou une lointaine musique provenant d’une radio du voisinage.
Le café, il le prenait avec des gateaux, faits par la mere, enrobés de sucre et de cannelle. Elle, oui, dormait tard. Elle souffrait d’insomnies, ne tolérait pas les somniferes, qui, disait-elle, augmentaient ses constants maux de tête. Elle prenait son mal en patience ou déambulait à travers la maison en fredonnant une vieille aria d’opéra ou une chanson de Maurice Chevalier. «  Maman, il ne vous manque que les chaînes pour devenir le fantôme de cette maison », disait-il, dérangé parfois dans son sommeil par les pas de Mme Matilde dans le couloir.
Apres le premier repas du jour, il nettoyait la cage de Gregório, un coq de roche, cadeau de l’ami Rodolfo. Il mit sur le phonographe Che gelida manina avec Tiro Schipa et poursuivit sa tache de retirer avec soin le plancher de la cage, le laver dans l’évier, renouveler les graines de tournesol, le sésame et l’eau. Quelques voisins – d’apres les rumeurs qui circulaient dans la rue – se rassemblaient pour espionner avec sarcasme ce grand bonhomme en robe de chambre de soie rehaussée de motifs chinois, occupé à nettoyer la cage du coq de roche, religieusement tous les samedis matin. Les employées de maison ne cessaient de jacasser entre elles et ouvertement commentaient avec malveillance que le célibataire de la maison numéro 9 ne se marierait jamais.
Cependant, Lourenço ne se souciait que peu de l’opinion d’autrui. Enveloppé de sa froufroutante robe de soie, qui sur la peau lui procurait une impression de fraîcheur, il ne pensait qu’à la beauté de Gregório, à la délicatesse de son geste pour becqueter les graines de tournesol dans sa paume potelée ; et en toile de fond, Tiro Shipa inconsolable dans les bras de la moribonde Mimi.
Aux environs de dix heures et quart, Mme Matilde se réveilla. Elle se traînait lentement à travers le couloir et ce fut avec un murmure de la voix qu’elle salua le fils.
– Vous avez bien dormi ?
– Ah ! Ces insomnies me rendent la vie insupportable… Je n’arrive pas à trouver le sommeil… Passer la nuit est pénible…
– Vous l’avez au moins emporté hier soir en jouant contre vous-même à la patience ?
– Ne dis pas de bêtises. Et elle s’assit sur le fauteuil en velours vert usé, puisqu’elle savait que c’était Lourenço qui se chargerait de lui préparer le café.
– Dis à Geraldina de revenir travailler le samedi, Lourenço. Ceci est absurde. Nous payons une bonne – cheres comme elles le sont toutes – pour travailler seulement du lundi au vendredi. C’est absurde.
Lourenço soupirait et allait jusqu’à la cuisine. Geraldina l’avait connu à l’age de cinq ans. Elle était vieille et malade, et c’est pour cela qu’il lui avait dit de prendre aussi son samedi, pour pouvoir visiter sa famille à Niterói et passer plus de temps avec elle. Comment pourrait-il refuser, tres Sainte Vierge, une telle requête à Geraldina ?
Pendant qu’il préparait le café au lait de Mme Matilde, il sifflotait Che gelida manina. « Tu sais que cet opéra me fait toujours pleurer, Rodolfo ? » Non, Rodolfo n’y croyait pas, et se moquait même de sa sentimentalité. Il aimait l’opéra, cependant il ne s’en émouvait que rarement. Ce qui l’émouvait, c’était le spectacle, les décors, les costumes, les lumieres, les chœurs, les accords retentissants de l’orchestre. « Un jour viendra ou nous prendrons une loge », rêvait-il.  « Nous mépriserons profondément ce poulailler abject… »
Suite à son insistance, Lourenço accepta d’accompagner Rodolfo dans un bar à Copacabana apres avoir assisté à la Traviata.
– Quelle beauté, le Sempre Libera ! Violeta se réjouit des plaisirs mondains !
– Elle ne se réjouit pas, riposta Lourenço. Elle est divisée entre l’amour d’Alfred et celui du demi-monde.
– Alors, ne te divise pas entre retourner dans les bras de Mme Matilde et aller au Salomé avec moi ! revint à la charge Rodolfo.
Lourenço apprécia réellement le bar : sofa de velours mauve avec coussins de fausse peau de tigre et miroirs, beaucoup de miroirs. Il n’y avait pas encore grand-monde. Ils purent s’asseoir dans un coin, puisque c’était ce que préférait Lourenço.
– Un cocktail de fruits, commanda-t-il.
– Un cocktail de fruits, Dio mio ! Commande un alcool pour t’animer un peu. Tu as l’air tellement déprimé ces derniers temps…
– Bon, d’accord : un porto.
Rodolfo commanda alors un verre de porto et une vodka-tonic au serveur, un bel éphebe bronzé.
– Tu sais, Rodolfo, cela n’a jamais été mon genre de fréquenter les bars… Ah, je ne sais pas, cette musique moderne m’étourdit.
– Tu t’habitues.
Peu à peu, le bar commença à se remplir.
– Regarde là : ce garçon ne cesse de te dévisager.
– Que dis-tu ! Tu exageres… et Lourenço tambourina avec les doigts sur le verre de Porto.
Apparut une femme pleine de bijoux et tres maquillée, qui entama une conversation avec Rodolfo.
– Ne me laisse pas seul ! supplia Lourenço.
– Lourenço, je parle avec une de mes amies, c’est le comble ! Tu la connais : Malu, voici Lourenço dont je t’ai déjà parlé tant de fois. Lourenço, voici Malu…
Enchanté, enchanté et Lourenço finit par ne plus prêter beaucoup d’attention à la conversation des deux autres, malgré la, disons, jalousie initiale. Il ne s’agissait pas de jalousie, apres tout, mais d’une sensation jamais ressentie auparavant de vulnérabilité dans cette cage ou Gregório certainement ne se sentirait pas du tout à l’aise. Les voix montaient, l’agitation augmentait presque imperceptiblement. Soudain, un individu mince portant des lunettes et un toupet l’aborda. Lourenço sentit un frisson lui parcourir la colonne vertébrale. La voix eut difficile à passer, mais finalement il arriva à balbutier :
– Salut, tout va bien ? Lourenço.
Il s’appelait Benício, habitait Tijuca et travaillait dans une banque.
– Pourquoi ne lui offres-tu pas un verre, Lourenço ? lui souffla Rodolpho à un moment propice.
– Un verre ? Tu consideres que je suis du genre à payer des verres à des inconnus ?
Il offrit un whisky à Benício, conformément à son désir, sans cesser, cependant, d’observer à la dérobée le beau serveur. « Ah, celui-là oui. Benício utilise de la brillantine dans les cheveux… Quelle chose old-fashioned… »
De toute façon, ils se comprirent. Ils parlerent de banalités, comme de la cherté de la vie, de télé-nouvelles, d’un peu de politique et d’un peu de football – domaine dans lequel Lourenço n’était pas tres versé. Soudain, il sentit une claque sur la cuisse :
– Allons-nous-en ! – c’était Rodolpho.
– Déjà ?!
– Le bar est déjà en train de fermer. Vous ne vous en êtes pas rendu compte ?
Il arriva à la maison épuisée, parce qu’il avait pris trois portos, gravit difficilement l’escalier, tomba en position fœtale dans le lit et entendit le frottement des pantoufles de Mme Matilde dans le couloir :
– Tu te sens bien, mon petit saint ?
Lourenço se limita à répondre un :
– Hm… hm – et il s’endormit.
Il rêva de papillons, de beaucoup de papillons, de toutes les couleurs, et de colibris et de chrysanthemes et de nénuphars dans un jardin infini. Cependant, le « crrr » de Gregório le tira de force de ce paradis onirique. Il s’étira, revêtit le kimono, chaussa les pantoufles et descendit mollement au salon.
– A quelle heure es-tu rentré hier soir ? demanda Mme Matilde avant d’avaler un biscuit à la gelée de fraises.
– Je ne me souviens pas, maman, répondit Lourenço en mélangeant le café au lait.
– Comment tu ne t’en souviens pas ? Tu n’as pas de montre ?
– J’ai oublié de regarder – et il regarda Gregório qui l’espionnait avec un air complice.
– De cette maniere, tu vas finir par avoir des cernes. As-tu déjà remarqué comme Rodolfo a des cernes ? En fait, je n’aime pas du tout ce genre de compagnie pour toi.
– Rodolfo ? Écoute, maman, mais tu l’as toujours aimé, tu en as toujours fait l’éloge, tu disais que c’était un garçon délicat, éduqué, cultivé et tout ce genre de choses…
– Il est tout cela, c’est vrai. Mais j’ai entendu dire qu’il s’adonnait un peu à la boisson.
« Crrr… », faisait Gregório dans la cage.
– Écoute, maman… Je ne dirai pas qu’il n’aime pas son petit vin de porto de temps en temps… Apres l’opéra…
Mme Matilde se leva lentement à cause de ses rhumatismes et continua à parler tout en se traînant jusqu’au fauteuil d’osier de la véranda ou étaient posés les journaux du jour :
– Porto ? J’espere seulement qu’il ne t’entraîne pas au vice, à la débauche, aux continuelles sorties nocturnes… Mon fils, il suffit de commencer, et voilà : on n’arrête plus. Regarde seulement ton oncle Alfred…
Benício appela aux environs de cinq heures. La mere sommeillait apres le déjeuner. Même ainsi, Lourenço se mit à trembler quand il entendit sa voix à l’autre bout de la ligne.
– Aujourd’hui, je ne peux pas. Non, non, je ne peux absolument pas. Nous devons jouer au biriba[1] chez des amis. Non, non je ne peux pas ne pas y aller, je me suis déjà engagé. Je ne peux pas inventer d’excuses, …ce sont de grands amis à moi…Demain ?
Il réfléchit un peu et, finalement, accepta :
– C’est bien. Demain, c’est bien (à voix basse) à quelle heure ? A six heures ? C’est d’accord.
Il tira le fil du téléphone jusqu’au salon de visites, s’assis sur le sofa derriere le paravent et téléphona rapidement à Rodolfo :
– Tu t’imagines, Rodolfo, me trouver, moi, à six heures devant le Métro Boavista à Cinelandia[2] avec un va-nu-pieds de cet acabit ! Je ne peux pas, Rodolfo, je ne peux pas ! Un banquier ! Qu’est-ce que maman… Je sais, Rodolfo, je sais, mais… Non, ce n’est pas que je sois de famille noble ou riche, mais, malgré tout mon éducation…
C’était un dimanche gris. Un groupe de protestants entouraient un pasteur au centre de la place. Des couples d’amoureux de banlieue et des couples avec ou sans enfants se promenaient. L’odeur du pop-corn dans l’air et la vue de la barbe à papa dans la machine évoquaient pour Lourenço les lointains apres-midi du dimanche au parc d’attractions du quartier. Benício mettait du temps. Lourenço se leva, marcha jusqu’à la statue de Carlos Gomes, en fit le tour et revint vers le banc, en pensant que ce qu’il aurait du faire était d’être resté en donnant l’apparence du calme. Apres quinze minutes, il apparut.  Il venait en marchant depuis le Teatro Municipal. Lourenço le trouva mal habillé, différent de la nuit ou il avait fait sa connaissance dans le bar. Il chaussait des bottes et portait un pantalon et une chemise tres serrés. Ses cheveux étaient mal coupés et suintants de brillantine.
Benício vint immédiatement s’asseoir à côté de Lourenço avec un large sourire. Celui-ci ne savait pas comment entamer la conversation.
– On va au cinéma ? proposa-t-il.
Benício topa et suggéra d’aller voir un film d’épouvante à l’Odeon, mais Lourenço répondit avoir horreur des films d’épouvante, ils terminerent au Métro Boavista pour voir la Fille de Ryan.
– Imagine-toi qu’il s’est endormi au cinéma, Rodolfo ! Et il a ronflé ! Bien haut et la bouche grande ouverte ! Ah, non, Rodolfo ! Ça ne marche pas, non !
– C’est évident. Tu emmenes le mec voir un film long de trois heures !
– Ah, et en plus, il est d’un kitsch, Rodolfo ! Tu aurais du voir comment il était habillé… Des bottes… Et ces cheveux gominés…
– Ne sois pas exigeant, Lourenço, tu n’es plus en age…
– Et il habite Cascadura[3], Rodolfo ! Cascadura !
– Tu viens bien de Grajaú. Ce n’est pas si loin.
Benício rappela la semaine suivante. Lourenço était dans le doute, se rongea les ongles, se rappela avoir passé une nuit terrible, une nuit blanche et lui donna une derniere chance. Mais, et si maman le rencontrait un jour ? – pensait-il dans le taxi. Non, elle ne va pas le supporter. Et si par hasard, elle se doutait de quelque chose ? Que notre amitié est plus que de l’amitié ? Non, non, je vais lui poser un lapin. Je me dérobe, je disparais et il ne me téléphone plus jamais.
Il descendit, il chercha une cabine téléphonique et appela directement Rodolfo.
– Vierge du Ciel, tu es completement névrosé ! Vous n’avez encore rien commencé et tu penses déjà à ce que va dire Mme Matilde ?! Enfin, pour l’amour de Dieu, Lourenço…
Cette fois, Benício ne tarda pas beaucoup. Aux yeux de Lourenço, il parut même bien habillé. Et il n’avait pas de gomina dans les cheveux. Le décor aussi était plus accueillant : un snack à Copacabana. Benício demanda une biere et Lourenço un jus d’ananas et des crevettes panées.
– Tu m’as dit que tu travaillais dans une banque.
– C’est vrai.
– Tu es caissier ?
– Non. Je suis garde de sécurité.
Lourenço montra tous les symptômes d’un brusque choc : paleur, frissons et tremblement dans les jambes. Il était totalement scandalisé par la différence de classe sociale. Il ne savait plus de quoi parler avec un gardien de banque. Il lui demanda s’il n’avait pas peur des attaques à main armée, s’il savait tirer, s’il y avait déjà eu des tentatives de vol dans l’agence ou il travaillait etc. Soudainement, ce fut un tir nourri de questions auxquelles Benício avait du mal à répondre.
– Et toi ? Qu’est-ce que tu fais ? répondit-il quand il trouva une breche.
– Je suis retraité.  J’enseignais l’Histoire, et il lança un regard dans le vide, comme s’il se remémorait les temps de l’Université.  Apres ce moment de nostalgie qu’il revécut avec une apparente tranquillité, oubliant ses passions pour un étudiant, pour un ami et pour un inspecteur, passions non partagées et satisfaites uniquement sur le plan onirique, Lourenço en revint à son présent dilemme, c’est-à-dire poursuivre ou non sa relation avec Benício.
– Tu es loin…
– Je me rappelais le temps de l’université.
Lourenço suggéra alors une promenade Avenida Atlantica.  C’était la fin de l’apres-midi, et lui, qui n’avait jamais eu la moindre aventure, s’inquiétait de savoir comment commencer, comment il pourrait passer de la simple camaraderie à un rapport plus intense. « Mais est-ce que c’est que ce que je veux vraiment ? Avec Benício ? Un gardien de banque ? De quoi vais-je lui parler dans les jours qui suivent ? »  La question le tourmentait au point qu’il prit congé de Benício à la hauteur de Princesa Isabel, inventant une excuse quelconque, et revint à la maison de Grajaú.
– Tu n’as pas besoin de te marier avec Benício, pour l’amour de Dieu, Lourenço ! Baise un coup avec lui, et voilà ! Tu n’es pas attiré par lui ?
– Je ne sais pas, Rodolfo, je ne sais pas… Je te jure que ne sais pas… Et en plus, ces vêtements, cette dent en or…
– L’attraction n’a rien à voir avec les vêtements ni avec les dents en or. Tu es attiré ou pas ? Hein ?
– Non ! Non ! Non ! – Lourenço raccrocha rapidement en se jetant de maniere quelque peu dramatique sur l’appareil.
 
 

*

 
Au cours de cette nuit, il rêva qu’il donnait des leçons de piano à son ancien éleve du Pedro II, le même pour lequel il s’était pris de passion des années auparavant. Ils répétaient la sonate Waldstein de Beethoven quand le garçon se leva soudainement : ce n’était plus l’éleve, mais Benicio vêtu seulement d’un maillot de bain. Il sauta au milieu de la piece et commença à prendre des poses d’haltérophile pendant que le pianola  exécutait La Cumparcita. Lourenço lui susurra :
– Attention ! Attention ! Maman peut apparaître d’un moment à l’autre ! Elle a des insomnies !
A mesure que la musique augmentait, Benício exécutait les pas d’une danse sensuelle comme un danseur de cabaret. Lourenço le suppliait, mais en vain : Benício paraissait de plus en plus concentré par son numéro. Lourenço joignit les mains, s’agenouilla, sentant la transpiration dégouliner de son front et de ses tempes jusqu’à ce qu’une porte s’ouvre avec fracas :
– Lourenço ! Il est midi passé et tu dois nettoyer la cage de Gregório ! cria la mere.
Lourenço s’assit sur le lit en transpirant et le cœur battant la chamade.
– Qu’est-ce que tu as, mon fils ?
– Un cauchemar, j’ai fait un cauchemar.
– Ah, mon petit fils chéri, qu’est-ce que tu as rêvé ?
– Que vous vous noyiez.
– Comme cette fois-là à Paquetá[4]? Aïe, je me suis quasi vraiment noyée ce jour-là… Mais, tu t’en souviens encore ? Tu étais si petit…
« Crrr… », fit Gregório du balcon là en-dessous. Lourenço se lava précipitamment le visage, passa la robe de chambre en soie et descendit s’occuper du coq de roche, avant même de prendre l’indispensable tasse de café au lait, parce que bientôt ils déjeuneraient. Pendant le déjeuner, quand le téléphone sonna, Lourenço sentit des frissons. C’était Geraldina annonçant qu’elle arriverait en retard lundi.
– Mais cette fille est d’une insolence incommensurable ! Je ne la mets pas à la rue parce que cela fait années qu’elle est ici et parce qu’elle t’a élevé. Sinon…
Lourenço macha les boulettes sauce tomate avec soulagement. Il but une gorgée d’eau et soupira.
– Tu es pale, Lourenço, tu as besoin de prendre le soleil. Pourquoi ne vas-tu pas faire un tour apres le déjeuner ?
– Je crois que j’irai.
Quand il est revint, le soir tombait. Il avait marché jusqu’à l’épuisement. Il décida d’appeler Rodolfo d’un téléphone public, mais abandonna l’idée, apres tout un rêve érotique n’était pas un motif pour déranger un ami. Que pouvait-il faire contre un rêve érotique ?
En pleine obscurité de six heures, retentit la sonnerie du téléphone. Lourenço trembla, hésita, mais cependant finit par répondre.
– On sort aujourd’hui ? résonna la voix de Benício de l’autre côté de la ligne.
Il répéta parce que Lourenço semblait ne pas avoir entendu.
– Aujourd’hui je ne peux pas. Nous avons de la visite.
– T’as toujours de la visite. Ou c’est de la visite ou c’est un jeu de cartes.
– Non, non ce n’est pas toujours ainsi. Ça arrive…, répondit-il timide comme un adolescent.  Demain. Que dis-tu de demain ?
– Demain, c’est moi qui ne peux pas. Je suis de service pendant la nuit. Mercredi ? A dix heures ? Sur le même banc, là, à Cinelandia ?
– Cinelandia noooon… S’il te plaît… C’est que le soir, Cinelandia, il paraît que c’est dangereux…
– Mais non, pas du tout.
– Alors, écoute…, et Lourenço mit la main sur le téléphone pour étouffer la voix :
– Pourquoi pas dans ce snack de Constante Ramos ?
– Celui de Copacabana ? Bof… dans un snack… Y va pas être fermé?
«  Ou est-ce qu’il veut que je l’emmene ? Au Bec Fin ? »
– Tope là. Au snack, à dix heures.
Aussitôt apres avoir raccroché, Lourenço se mit au piano. La nuit tombait, il regarda Gregório paisible dans la cage et un clair de lune qui illuminait le balcon plein de dahlias et géraniums. La langoureuse mélodie de Chopin emplit son cœur d’une douce sensation d’attente. Benício apparut à dix heures quinze en uniforme.
– Je suis venu directement de la banque.
Ils burent de la biere dans le snack violemment illuminé et plus tard dans un bar Avenida Atlantica. Lourenço regardait profondément Benício dans les yeux sans prêter attention au mouvement de la rue.
– On va au motel ? proposa enfin Benício, avec de nombreux sous-verres à biere empilés sur la table.
– Quoi ?! Un motel ? Tu es fou ?
– T’es jamais allé au motel, toi ?
– Oui, j’y suis déjà allé, bien sur que oui. Mais, c’est que je n’aime pas les motels.
– Ou alors? Chez toi ?
– Ah non ! Tres Sainte Vierge ! Ma mere… ma mere est une dame et elle ne comprend pas ce genre choses… Allons, Allons…
– Je vais t’emmener dans un hôtel super.  Il n’y a pas de motels comme ça à Barra ou y sont pleins de gloriole. Un motel classe.
– Et ou est-ce que c’est ?
– Lapa[5].
– Mon Dieu.
 

*

 
 
– Rodolfo ?
– Dis-moi, Lourenço.
– Tu ne peux même pas t’imaginer ou je me suis retrouvé hier soir.
– Dans une boîte de nuit de la Galeria Alasca[6].
– Dieu m’en garde ! De ma vie, je n’ai mis les pieds dans une boîte de nuit et jamais je ne les y mettrai ! Dans un motel à Lapa.
– Tu pousses des cris à cause de la boîte et tu finis dans un motel à Lapa.
Lourenço alors raconta tout à Rodolfo sans rien cacher : l’odeur de moisi de la peinture du mur qui s’écaillait, la lumiere noire et… le corps de Benício.
– Alors ? Tu as aimé ou tu n’as n’a pas aimé ?
– Ah, Rodolfo ! – et il se laissa tomber sur la chaise empaillée à côté du téléphone.  Mais aussi plus jamais ! Plus jamais !
 

*

 
Mais Benício n’appelait pas. Deux semaines sans entendre sa voix au téléphone. Lourenço marchait agité à travers le salon, enveloppé de sa robe de chambre habituelle, transpirant beaucoup à cause de la chaleur de novembre. Les crrr de Gregório l’irritaient à tel point qu’un jour il donna un coup sur sa cage, ce qui rendit l’oiseau encore plus agité et hystérique.
– Que t’arrive-t-il, Lourenço ?  Tu es agité… Tu ne me parles quasiment pas, tu ne tiens pas en place… disait Mme Matilde en interrompant sa broderie. En fin de compte, qu’est- ce qui te passe ?
– Rien, rien, maman. C’est la chaleur qui me rend de mauvaise humeur.
Par un dimanche gris Rodolfo vint faire une petite visite. Mme Matilde lui offrit un gateau du chocolat qu’elle avait fait la veille et puis un café. Lourenço mit une mazurka de Chopin sur le pianola comme musique de fond pour la conversation.
– Vous n’allez pas à l’opéra ? voulut savoir Mme Matilde, craignant de rester seule.
– Aujourd’hui il n’y a rien. Ils y exhibent un ballet qui est une offense au bon gout, répondit Rodolfo en faisant la moue pour essayer de boire le café brulant.
– Lourenço est distrait…, observa Rodolfo, apres une pause qui ne dura pas plus de deux secondes.
– Il est comme ça ces derniers temps. Il a la tête dans la lune.
– Je pense voyager.
– Ce que je pense, c’est que tu devrais te trouver une occupation, déclara Mme Matilde. Un retraité s’ennuie en restant à la maison sans rien faire…
Le téléphone sonna alors. Lourenço sauta hors du fauteuil en osier et courut décrocher.
– J’suis ici au caboulot sur la place. J’suis ici à t’attendre.
– Je ne peux pas ! Je ne peux pas, Benício ! murmura Lourenço en se bouchant avec le doigt l’oreille gauche à cause de la musique du pianola qui maintenant jouait une rumba.
J’ai de la visite ici.
– T’as toujours de la visite.
Benício fit une courte pause et poursuivit :
– Donne une excuse. Dis que tu as un ami qui t’attend…
– Je ne peux pas ! Je ne peux pas ! Écoute, appelle-moi un autre jour.
– Je t’attends ici.  A une heure, tu rappliques.
Cette certitude prit Lourenço de court. Il en vint à transpirer sur le front et dans le dos.
– Tu as une tête à faire peur, dit Rodolfo. Si on allait faire un tour ?
– Non, non, ce que je veux, c’est rester ici. J’ai le corps paresseux aujourd’hui… Maman, voulez-vous me servir un Porto ?
Mme Matilde sortit de l’armoire vitrée une carafe en verre guilloché et trois petits verres.
– Cela me revigore, dit Lourenço.
Quand le pianola exécutait la rumba, Gregório se montrait gai et faisait un cr… cr… cr… connu avec plus d’excitation. La nuit tombait, les cigales chantaient et Mme Matilde alluma les lampes à abat-jour du salon. A la fin, Rodolfo se lança dans une danse avec la vieille dame, qui riait beaucoup. Seul Lourenço paraissait être tombé dans un état entre mélancolie et inquiétude.
Rodolfo prit congé à neuf heures. Il travaillait dans le lendemain, il avait besoin de se coucher tôt. Lourenço allait lui souffler à l’oreille : « Ne me laisse pas seul cette nuit », mais Mme Matilde accompagna l’ami jusqu’au portail. Là, Lourenço se figea et resta en contemplation de la place et du seul bar éclairé.
– Allons-y, sinon tu vas prendre l’humidité, mon fils. Le ciel s’était éclairci et une lune pleine parut.
– Allons, rentrons, maman.
Lourenço mit alors une petite valse de Strauss sur le pianola, se servit un Porto à plusieurs reprises et s’étira dans le fauteuil en osier.
– Tu vas encore boire, mon fils ? Aujourd’hui c’est dimanche.
– Je ne travaille plus, maman. Et je n’ai pas sommeil.
– Avec le pianola qui joue, Gregório ne dort pas. Regarde seulement comme il fredonne cette valse de Strauss.
Mme Matilde alla se coucher, et Lourenço jeta un regard humide par la fenêtre qui donnait sur la place. Soudain il entendit un sifflement. Il arrêta le pianola, éteignit les lumieres et ouvrit légerement la persienne. La rue était déserte. Il avait déjà du partir, apres tout il était neuf heures et demie. Un autre sifflement. Aigu, coupant.
« Oh, mon Dieu ! Je ne peux pas ! Je ne peux pas ! »
Il revint à la fenêtre, espionna à travers une ouverture de la persienne et voilà qu’il discerna une silhouette. Une silhouette furtive autour de la maison. Lourenço s’étendit sur le sol jusqu’à ce que les sifflements cessent completement. Il se leva, alluma les lumieres, il remit la petite valse sur le pianola et, au moment de se servir encore un porto, il entendit des pas dans le couloir.
– Voilà-t-il pas que j’ai encore des insomnies ? se plaignit Mme Matilde en s’asseyant sur le sofa.
Lourenço leva son verre :
– Un toast.
– A quoi, mon fils ?
– A Gregório, à vous et moi.
 

Auteur : Jorge Sá Earp

Traduction : Pascal Lauwers

 
 
 
 
 
 



[1] Jeu de cartes.
[2] Place des cinémas.
[3] Banlieu de Rio de Janeiro.
[4] Île de la Baie de Rio de Janeiro
[5] Quartier historique de Rio de Janeiro, célebre pour son aqueduc
[6] Haut-lieu de la vie gay.




Bio fornecida pelo palestrante.

Passagem por Nova York




Autor: Jorge Sá Earp
Título: Passagem por Nova York, Passage par New York
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jenny Jeanmart(fra)
Data: 28/12/2004

PASSAGE PAR NEW YORK

 

Jorge Sá Earp

 

La fonctionnaire aux cheveux blonds (d’un blond évidemment artificiel), dont le maquillage avait été appliqué en vitesse aux aurores, le réprimanda d’un regard sévère lancé de son guichet de contrôle des passeports car le maladroit avait dépassé la ligne jaune. Derrière Jonas, des mots en portugais (un portugais parlé avec l’accent du Portugal) résonnaient comme du métal – effet d’une courte nuit de mauvais sommeil, bercée par le ronflement des moteurs et par de généreuses doses de whisky et de vin. Jonas se retourna et se trouva face à un type basané avec lequel il amorça une conversation pendant les quelques minutes de l’attente. Le bonhomme était originaire des Açores et depuis des années vivait à Montréal qu’il allait rejoindre en avion quelques heures plus tard.
Quand Jonas recouvra sa liberté à la sortie de l’aéroport, il ne trouva pas de chariot pour l’aider à transporter sa valise. À vrai dire, elle n’était ni grande ni lourde.
La ville apparut derrière une petite élévation de la route. Immense, avec des édifices qui semblaient plutôt être les contreforts d’une grande muraille. Elle était donc là. À l’attendre. Le chauffeur, descendant d’Italiens, essaya d’entamer la conversation, tandis que le matin projetait entre les nuages gris de pâles rayons sur le ciment, les briques des façades du Queens, l’asphalte, les pompes à essence. De l’avion, Jonas avait observé la lumière qui se réverbérait sur la mer : boue et verre. Soleil sur une paire de lunettes fumées. La dame aux yeux étincelants était venue de Seattle passer le carnaval à Rio. Elle lui avait offert des bonbons à la menthe qui l’avaient transporté vers un lointain moment de son enfance.
Salem Hotel entre la 1e et la 2e. La réceptionniste l’examina du coin de l’œil. Une femme corpulente, frisant la cinquantaine, très pâle, les cheveux noirs et de grands yeux verdâtres. Le buste bien droit, la taille certainement prise par une gaine, elle portait une robe rose fuchsia et de faux bijoux. Elle fit glisser une fiche sur le comptoir et d’une voix veloutée, lui demanda : « Signez, s’il vous plaît. »
La chambre était petite, tapissée de papier peint d’un brun délavé. La fenêtre s’ouvrait sur une cour entourée d’immeubles en briques. Jonas resta un petit moment le regard fixé sur un escalier de secours. Il se sentait si fatigué qu’il défit à peine sa valise, se jeta sur le lit à ressort et s’endormit profondément.
Il s’éveilla plusieurs heures plus tard. Au lieu des échelles d’incendie, il ne voyait à travers la fenêtre que l’obscurité. Il chercha l’interrupteur, se retourna et peu à peu reconnut les fleurs sépia du papier peint. Après s’être lavé le visage, il se regarda dans le miroir et une énorme envie de ne pas quitter l’hôtel ce soir-là s’empara de lui. Il prit peur qu’en sortant, on puisse le menacer avec un couteau ou un revolver dans une ruelle déserte. Mais il écarta ensuite cette funeste possibilité et sortit de la chambre.
Il attendit l’ascenseur en compagnie d’une petite vieille aux cheveux teints couleur acajou, emmitouflée dans une étole de renard et portant chapeau. Une atmosphère chaleureuse de veille de bal flottait dans le hall, sur les meubles, les tapis, les rideaux d’un jaune fauve et d’un brun vif. Il y avait des lampes et des lustres, quelques ampoules étaient brûlées, qui semblait annoncer l’entrée imminente d’un chanteur ou d’un artiste. La réceptionniste, c’est-à-dire la gérante comme Jonas l’apprit plus tard, riait à se décrocher la mâchoire avec un jeune homme blond aux moustaches noires portant un summer. Jonas s’approcha et attendit qu’ils se remettent tous les deux de leur explosion euphorique, ce qui n’arriva pas tout de suite, car dès que la gérante ou le jeune homme se calmaient, les yeux pleins de larmes, ils recommençaient à rire quand l’un soufflait à l’oreille de l’autre un rapide commentaire. Enfin, la gérante remarqua la présence, là, près du comptoir, du garçon patient qui tenait sa clef à la main. La gérante en larmes, lui demanda alors s’il ne voulait pas écouter une histoire très drôle qui était arrivée à Willie (le barman) la nuit précédente. Jonas hésita, il vit un noir passant l’aspirateur sur le tapis près de la porte vitrée et la gérante lui offrit un Martini sec.
– O.K. répondit-il enfin.
La gérante – qui à cette heure tardive semblait s’être débarrassé de sa gaine car on voyait ses formes molles comprimer la robe rose fuchsia – satisfaite, se dirigea vers la porte vitrée et revint avec une petite coupe de Martini blanc où baignait une olive. Pendant ce temps, Jonas fit la conversation à Willie qui semblait déjà éméché. Celui-ci lui confia que tout en détestant New York il n’arrivait pas à la quitter. Il s’y était habitué. Il avait essayé de vivre à Los Angeles et à Chicago, mais non, rien n’y faisait…
La gérante, dont Jonas apprit qu’elle s’appelait Lavinia Owen, se joignit à eux et finalement raconta une histoire d’imbroglio entre Willie et des Polonais qui habitaient son quartier, près de Harlem. Jonas qui ne trouvait pas l’histoire drôle sourit toutefois pour ne pas paraître antipathique. Les deux étaient agréables de toute façon, et comme cela, affalé sur le comptoir, sirotant un Martini, il se sentait bien. Lavinia, très souriante, suggéra bientôt qu’ils aillent au bar, désert à cette heure, puisque le noir pouvait fort bien s’occuper de la réception. Jonas hésita, il pensait faire un tour, mais la gérante tout comme Willie insista pour qu’il les accompagnât.
Le bar était décoré comme un club de chasse. Une tête d’élan examinait des étagères pleines de bouteilles adossées à un mur recouvert de miroirs, un tapis en peau de tigre, des tabourets recouverts de peau de vache et toute la panoplie caractéristique des maisons de chasseurs. Lavinia redressa sa lourde masse pour trouver l’équilibre sur un tabouret, tandis que Willie secouait énergiquement un drink de son invention dans un shaker. Le drink fut baptisé « Polish Head », sous une pluie de rires, par la gérante et son adjoint.
Jonas se sentait bien et il se rendit compte qu’il était déjà tellement ivre qu’il n’arrivait quasiment pas à se maintenir en équilibre sur le tabouret. L’élan hautain se divisait en deux ou trois têtes et ondulait, comme s’il cavalcadait en bande. Jonas comprit qu’il était grand temps de prendre congé de la gérante et de Willie, qui semblaient être très intimes – lui presque allongé sur les bras charnus et les seins généreux de la patronne.
Hébété, il atteint l’ascenseur et finalement sa chambre. Il se jeta sur le lit et sur la croupe d’une bande d’antilopes qui l’emportèrent vers la savane. Le lendemain, la soif l’éveilla. Jonas téléphona à la réception, mais personne ne répondit. Il ne lui restait plus qu’à descendre et boire quelques gorgées d’eau au breakfast. Il rencontra à nouveau la dame rousse de la veille.
« This weather, this terrible weather…»
Elle lui raconta que comme elle habitait l’hôtel, elle ne pouvait s’offrir une chambre avec salle de bain et que tous les matins elle mourait de froid en traversant le couloir.
– Il n’y a plus de café, lui dit sèchement la gérante. Vous vous êtes levé très tard.
Jonas regarda la montre style années cinquante qui indiquait onze
heures. Comment avait-il pu dormir autant ? se demanda-t-il. Il se conforma aux règles du Salem Hotel et s’apprêtait à sortir quand le domestique noir qui faisait aussi office de portier l’intercepta.
L’homme se lança dans une conversation sur les paris. Il lui demanda si le jeu l’intéressait. Jonas voulut savoir de quel genre de jeu il s’agissait, car il avait un faible pour le poker et s’il n’avait rien à faire un soir ou s’il manquait d’argent, il pourrait tenter sa chance avec le noir. Max (c’était le nom du bellman) parla alors de paris sur les chevaux et tira un bulletin de sa poche. Jonas répondit que les courses ne l’avaient jamais vraiment intéressé, mais si c’était un pari peu onéreux, il pourrait essayer. Max commença alors à lui expliquer le fonctionnement des paris, le système des placés, les chevaux favoris et toutes les ficelles propres à ce sport. Jonas s’assit, examina avec attention le bulletin des placés de cet après-midi et paria. Max lui conseilla de ne pas rater la deuxième course où un des chevaux, Beresford, était de loin le meilleur. Il continua à bavarder avec Max et la gérante, en le voyant, l’appela pour le déjeuner.
Jonas scruta la rue par les larges fenêtres du restaurant et regretta de ne pas encore avoir eu l’occasion de se promener. Pourquoi avait-il bu autant de Martinis secs avec Willie et Lavinia ? Pourquoi avait-il entamé cette vaine conversation avec le couple et avait-il raté la pétillante nuit de New York? L’hôtel était si confortable… Son désir avoué était de rester là, dans ce tiède abri, tout au long de son séjour à New York, pour ensuite prendre le train pour Boston où il passerait deux mois chez tante Dalva, la cousine de sa grand-mère, pour suivre un cours de littérature américaine. Tante Dalva habitait apparemment une belle maison avec jardin, avait épousé un Américain et avait un fils, Bob, un peu plus jeune que Jonas. Il ne l’avait jamais vue.
Willie lui servit un hamburger grillé accompagné d’une salade et d’un coca-cola. Contrairement à la soirée précédente, le garçon se montra réservé. Jonas spécula qu’il avait la gueule de bois ou simplement qu’il se sentait fatigué, peut-être pour ne pas vouloir s’accuser de s’être montré trop distant en réponse à la franche camaraderie initiale de Willie.
Après le frugal repas et un café déplorablement aqueux, Jonas se leva, revêtit son manteau et se dirigea vers l’extérieur. Arrivé à la porte, un vent glacial le frappa au visage et à la poitrine. Il se figea sur le seuil, empêchant la fermeture de la porte automatique et ce ne fut pas la rafale glacée qui le dissuada de l’idée de retourner dans sa chambre, mais encore plus une impulsion incontrôlée et inexplicable.
Il prit donc l’ascenseur et en descendant au troisième étage rencontra de nouveau la petite vieille enveloppée de son habituel renard :
« O this weather, this disgusting and terrible weather… » se plaignit-elle comme si elle chantait une ballade.
Jonas s’assit et fixa du regard les échelles d’incendie accrochées aux murs de briques de l’immeuble voisin. Des échelles en fer noires. Le ciel nuageux irradiait une lumière aveuglante.
Il n’avait pas envie de sortir, il n’arrivait simplement pas à rassembler ses forces pour quitter l’hôtel. Il resta couché sur le lit pendant un temps considérable. Quand la lumière devint plus faible, une angoisse le terrassa : « Il faut que je sorte de cet hôtel ! » Il attrapa le téléphone et composa le numéro de tante Dalva à Boston. On mit du temps à répondre et en entendant une voix d’adolescent à l’autre bout il raccrocha au plus vite.
S’étant endormi pendant un nombre d’heures indéfini, il fut réveillé brusquement par la sonnerie du téléphone. Maximilian le félicitait à grands cris d’avoir gagné tous les paris, y compris celui de la deuxième course, Beresford étant arrivé premier. Quelques minutes plus tard, c’était Mrs. Owen qui l’appelait lui proposant de s’amuser à un petit jeu ce soir-là. Jonas s’excusa. Il était décidé à faire un tour à Broadway.
– Qu’est-ce que vous allez faire à Broadway ? C’est dangereux.
– Mais non, ce n’est pas dangereux.
En descendant (cette fois il ne rencontra pas la vieille dame, qui devait être au lit grelottant de froid) il remarqua les deux battants de la porte du bar grands ouverts, une grande table de jeu autour de laquelle se tenaient la gérante, le portier et le serveur, éclairés par une unique lampe à abat-jour suspendue quasiment au ras de la tête des joueurs. Jonas s’approcha du «casino », s’assit à la table et sans dire un mot se mit à jouer au baccara. La gérante servait à la fois de croupier, faisait glisser les cartes d’un étui métallique et les recueillait à l’aide d’une spatule en bois.
« Les jeux sont faits, Messieurs, les jeux sont faits… », elle exhortait les autres à lancer leurs paris.
De temps en temps Willie allait jusqu’au bar, agitait et servait directement son « Polish Head » à ses compagnons de jeu.
Les yeux irrités, ivre, épuisé, Jonas constata qu’il avait perdu tout l’argent gagné aux courses de chevaux cet après-midi. Max et la gérante avaient englouti tous ses gains. Willie n’avait gagné que quelques pièces, mais lâchait des éclats de rire, conséquence de la boisson. L’hôte prit alors congé et retourna dans sa chambre, non sans s’être auparavant approché de la porte automatique qui s’ouvrit trois fois.
La gérante l’appela très tôt et d’une voix irritée lui annonça qu’il devait quitter la chambre, car en fait cela faisait une semaine qu’il ne descendait plus dans le hall. La chambre était immonde avec des morceaux de pain, de hamburger, de jambon, des croûtes de fromage, des noyaux d’olives, des bouteilles de coca-cola, des canettes de bière, des restes de pizza froids, des papiers déchiquetés et des mégots de cigarettes. « Une porcherie », selon elle.
– Vous ne laissez même pas entrer Max pour faire le ménage ! Et puis, vous me devez huit cents dollars cash ! D’ailleurs la chambre sera occupée demain, et je vous conseille de déguerpir aujourd’hui même, mon jeune ami !
Jonas se prit la tête entre les mains et se recroquevilla sur le lit. À l’extérieur le froid avait augmenté, un vent violent sifflait par les interstices de la fenêtre et la vitre était fouettée par la pluie. Il avait fait semblant – c’est vrai – de n’avoir pas entendu les coups nerveux de Max le matin, parce qu’il le haïssait de l’avoir persuadé de parier sur Beresford et d autres chevaux et d’avoir ouvertement triché au baccara. Leur relation s’était détériorée depuis que le noir avait, sans autre forme de procès, envahi sa chambre à sept heures du matin, tout de suite après la séance de jeu-marathon qui s’était prolongé dans la nuit, et avec la plus grande des familiarités, l’avait jeté hors du lit. Jonas qui, bien que timide, perdait tout contrôle quand on le réveillait brusquement et si tôt, avait expulsé Max en hurlant dans un mélange de portugais et d’anglais. Le bellman ouvrit de grands yeux, lui lança une insulte et disparut pendant deux jours.
( Les détritus éparpillés dans la chambre, auxquels faisait allusion la gérante, étaient les restes de repas qu’il commandait par téléphone à un magasin en face.)
Lorsqu’il revint pour faire la chambre, Max, comme prétexte peut-être pour entamer la conversation et faire la paix avec Jonas, fit ce commentaire en entrant :
– Je ne sais pas si vous le savez, mais Lavinia et Willie sont amants. Non, ce ne sont pas mes affaires, je sais, mais si par hasard – il fronça le sourcil et leva le doigt, comme pour proférer une menace – si par hasard le patron venait à l’apprendre… il les flanquerait sur-le-champ tous les deux à la porte !
Jonas ressentit un brusque malaise. Il se trouvait mêlé à des gens qui n’avaient rien à voir avec lui, qui n’auraient pas la moindre importance dans sa vie future. Il sentit une soudaine répulsion pour cet hôtel, comme si toutes les chambres étaient remplies d’immondices. Il fallait qu’il s’en aille pour Boston. Il se demanda comment payer l’hôtel : huit cents bucks, avait dit Lavinia Owen. Il téléphonerait à sa tante. Il marqua le code et le numéro de la maison de Boston. Pendant que la sonnerie retentissait, il imagina sa honte indescriptible à devoir confesser à tante Dalva sa ruine au jeu avec le personnel de l’hôtel ! Quelqu’un répondit, la même voix d’adolescent des jours précédents. Il raccrocha. Il opta pour une autre solution au problème ; il descendrait et expliquerait honnêtement tout à Lavinia Owen. Il avait perdu à un jeu auquel elle-même l’avait convié, ainsi que ses subordonnés, et à présent il n’avait plus d’argent pour payer ses dettes envers l’hôtel. Elle devait comprendre – augura Jonas et il sortit de la chambre et se croisa avec la petite vieille rousse toujours emmitouflée dans son renard. Ils prirent ensemble l’ascenseur et dans la cabine, Jonas, tout en observant son visage ratatiné, son regard lointain, ce vide propre aux personnes âgées, pensa un instant lui confier son angoisse, mais il y renonça tout de suite. L’ascenseur était arrivé. En ouvrant la porte pour laisser passer la petite vieille, Jonas remarqua un policier qui parlait avec la gérante, à la réception.
Il s’immobilisa quelques secondes et entra à nouveau dans la cabine de l’ascenseur.
Il retéléphona à sa tante. La même voix d’adolescent répondit et demanda d’attendre un instant avec une intonation qui parut à Jonas être celle de quelqu’un qui depuis toujours savait que c’était lui qui appelait et raccrochait sur-le-champ.
– Allo ? Tante Dalva ? C’est Jonas. Je suis à New York. Oui, je suis arrivé il y a déjà deux semaines. Oui, excusez-moi, mais… c’est que la ville est tellement… j’ai beaucoup aimé, je ne la connaissais pas, et j’ai fini par rester plus longtemps que prévu. Oui, excusez-moi… je sais que j’aurais dû prévenir, mais… Tante Dalva, j’ai un très gros problème.
Il avala sa salive d’un coup et poursuivit :
– Tante Dalva : j’ai été attaqué hier.
Il attendit pour écouter la réaction à l’autre bout du fil, mais la Tante ne répondit rien, comme si elle n’avait pas entendu.
– Voilà, et maintenant je n’ai pas d’argent pour payer l’hôtel. Ils m’ont présenté une note de huit cents dollars. Est-ce que vous pourriez me les prêter et après je…
– Mais bien sûr, mon petit (ici, en réalité tante Dalva parla anglais : Sure, dear, sure…) je te les prête, donne-moi le nom de ce bouge !
Le soulagement provoqué par les paroles de la tante fut si grand que Jonas resta encore allongé sur le lit aux ressorts grinçants pendant un bon moment. Il descendit pour annoncer à Lavinia que le paiement arriverait le lendemain par la poste. En s’approchant de la réception, il nota encore la présence du policier. Willie sortait du restaurant à cet instant :
– Lavinia m’a dit que vous alliez rester encore quelques jours avec nous, c’est vrai?
– Pas du tout ! Je pars demain.
– En bateau?
« C’est bizarre qu’il me pose cette question… Et c’est bizarre que Lavinia lui ait dit que j’allais rester… », pensa Jonas en constatant que son séjour dans cet hôtel se déroulait comme dans ces cauchemars, où l’on est conscient toutefois que l’on est en train de rêver. Il s’approcha de Lavinia qui paraissait encore plus voluptueusement obèse dans son profond décolleté. Pendant qu’il parlait, elle serrait les lèvres comme si elle se passait du rouge à lèvres.
– Vous voyez ? Il a dit demain, par la poste ! – elle s’adressait au policier, ce qui augmenta la crainte de Jonas.
– Cela arrive rapidement, répondit l’autre. (Au ton de la conversation qu’ils reprirent dès qu’il s’éloigna, Jonas comprit que le policier était un vieil ami et qu’il devait passer par l’hôtel tous les jours, lors de sa ronde.)
À présent il ne lui restait qu’une chose à faire : une promenade à Central Park pour laver ses poumons de l’air sale du Salem Hotel. Il regarda la porte en verre qui s’ouvrait et se fermait automatiquement. Des clients entraient et sortaient. Il passa quelques minutes à observer le mouvement mécanique de la porte. Derrière elle, derrière le store métallique, la ville. Un frisson d angoisse lui parcourut la colonne vertébrale: pourquoi Willie n’apparaissait-il pas maintenant pour l’inviter à une partie de poker ? Pourquoi Max ne balayait-il pas le sol en lui chuchotant des tuyaux sur la prochaine course de l’après-midi ? Non, le vent froid qui soufflait au dehors l’appelait. Il devait y aller.
Il se redressa et prit une décision. Il retournerait dans sa chambre. Il faisait trop froid. Il devait retourner dans la chambre et soigner son rhume, car il avait maintenant l’impression que son nez coulait. Il n’avait rien senti auparavant, le matin, quand il avait téléphoné à sa tante de Boston. Il monta et resta enroulé dans les couvertures jusqu’au lendemain, lorsque vers dix heures Lavinia lui téléphona. Il fit ses valises en vitesse, en se disant que New York aille se faire voir, qu’il ne voulait simplement pas connaître cette ville et voilà. Ce qu’il voulait, c’était connaître et visiter Boston, Boston la Britannique, et non pas ce tas d’ordures du Nouveau Monde.
Cette fois la petite vieille n’était pas dans l’ascenseur. Jonas pensa qu’elle était fort probablement morte de pneumonie toute seule dans sa chambre.
La porte vitrée s’ouvrait et se fermait en un mouvement presque hypnotique. Il devait y aller. Il saisit sa valise, elle lui parut plus lourde, bien qu’il n’ait rien acheté et il la déposa sur le sol. Il regarda encore une fois autour de lui, la réception du Salem Hotel, les murs ocres, les fauteuils bruns, la moquette, les rideaux, le lustre de cristal. Il devait y aller. Tante Dalva l’attendait. Elle avait été très gentille de lui avancer l’argent. La porte s’ouvrait et se fermait. Max et Willie se tenaient derrière lui, comme s’ils étaient anxieux le voir partir, comme si leur présence à cet endroit allait garantir son premier pas au-dehors depuis son arrivée, comme s’ils le poussaient légèrement dans le dos et qu’il s’entêtait à revenir, comme ces poupées en plastique auxquelles les enfants donnent des coups et qui oscillent en souriant. Il devait y aller. La porte s’ouvrit encore une fois, il aspira la bouffée d’air qui vint de l’extérieur, s’appuya sur Max et Willie et se prépara à partir avant qu’elle ne se fermât à nouveau.

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Fonte: Earp, Jorge Sá. Un billet pour New York. Traduction de Jenny Jeanmart. Inédito

PASSAGEM POR NOVA YORK


Jorge Sá Earp

A funcionária loura (de um louro notadamente falsificado), com a maquiagem aplicada às pressas tão cedo de manhã, repreendeu-o com o olhar severo por trás do balcão de controle de passaportes, já que ele meio que sem jeito tinha ultrapassado a faixa amarela. Atrás de Jonas palavras em português (um português luso) ecoaram metalicamente – efeito de uma noite breve e mal dormida, embalada pelo ronco do motor e por doses generosas de uísque e de vinho. Jonas se virou e deu com um cara moreno com quem entabulou conversa, durante os minutos de espera. O gajo provinha dos Açores e há anos vivia em Montreal, para onde apanharia o avião algumas horas mais tarde.
Quando Jonas se libertou do aeroporto, não encontrou carrinho para ajudá-lo a carregar sua mala. Para dizer a verdade, ela não era nem grande nem pesada.
A cidade emergiu por trás de uma pequena elevação da estrada. Imensa, com edifícios que mais pareciam colunas de uma grande muralha. Ali estava então. À espera. O chofer, descendente de italianos, tentou puxar conversa, enquanto a manhã projetava raios tênues por entre as nuvens cinzentas e sobre o cimento, os tijolos das fachadas do Queens, o asfalto, as bombas de gasolina. Do avião Jonas percebera a luz incidindo sobre o mar: lama e vidro. Sol sobre um par de lentes fumé. A senhora de olhos fulgurantes viera de Seattle passar o carnaval no Rio. Tinha lhe oferecido balas de hortelã, que o transportaram para um longínquo momento da infância.
Salem Hotel entre a 1ª e a 2ª. A recepcionista examinou-o com o canto dos olhos. Uma mulher corpulenta, beirando os cinqüenta, muito pálida, os cabelos pretos e os olhos grandes e esverdeados. Tinha o busto erguido, a cintura certamente ajustada a uma cinta, usava um vestido rosa fúcsia e bijuterias. Deslizou uma ficha sobre o balcão e com a voz aveludada pediu-lhe: “Assine, por favor”.
O quarto era pequeno, coberto com papel de parede marrom esmaecido. A janela abria-se para um pátio rodeado de edifícios de tijolinhos. Jonas ficou por algum tempo com os olhos postos numa escada de emergência. Se sentia tão esgotado que mal desarrumou a mala, se atirou na cama de molas e adormeceu profundamente.
Acordou muitas horas depois. Em vez das escadas de incêndio só via a escuridão na janela. Procurou o interruptor, revirou-se e aos poucos foi reconhecendo as flores sépia do papel de parede. Depois de lavar o rosto, olhou-se no espelho e sobreveio-lhe uma vontade enorme de não deixar o hotel naquela noite. Receou que, ao sair alguém encostasse uma faca ou um revólver em suas costas em alguma viela deserta. Mas logo afastou essa possibilidade nefasta e saiu do quarto.
Esperou o elevador em companhia de uma velhinha com os cabelos tingidos de acaju, agasalhada em uma estola de raposa e de chapéu. O hall guardava uma atmosfera quente, de véspera de baile, com seus móveis, tapetes e cortinas de um amarelo-fulvo e castanho cerrado. Havia abajures e lustres com lâmpadas queimadas, o que parecia anunciar a entrada de algum cantor ou artista em poucos instantes. A recepcionista, quer dizer, a gerente, como Jonas veio a saber mais tarde, ria a bandeiras despregadas com um rapaz louro de bigodes pretos, vestido num summer. Jonas se aproximou e esperou que ambos se restabelecessem da explosão eufórica, o que não aconteceu de imediato, pois tanto a gerente quanto o garçom tão-logo se refaziam da gargalhada, com os olhos cheios de lágrimas, renovavam o riso após rápidos comentários que um soprava no ouvido do outro. Por fim, a gerente percebeu a figura paciente do rapaz ali, à beira do balcão segurando a chave do quarto. A gerente às lágrimas, perguntou-lhe então se não queria escutar uma história engraçadíssima que se passara com Willie (o garçom) na noite passada. Jonas hesitou, viu um sujeito negro passando aspirador no tapete junto a uma porta envidraçada, e a gerente lhe ofereceu um Martini seco.
— O.K., ele respondeu por fim.
A gerente – que agora à noite parecia ter-se livrado da cinta, pois percebiam-se suas formas balofas comprimirem o vestido rosa fúcsia – encaminhou-se satisfeita à porta envidraçada e de lá voltou com uma tacinha de Martini branco com uma azeitona dentro. Nesse meio tempo, Jonas se entreteve em conversa com Willie, que já parecia meio bêbado. Ele contou-lhe que ao mesmo tempo que detestava Nova York, não conseguia deixar a cidade. Tinha se acostumado. Tinha tentado viver em Los Angeles e Chicago, mas nada, não adiantava…
A gerente, quem Jonas soube chamar-se Lavinia Owen, juntou-se a eles e finalmente relatou um imbroglio entre Willie e uns polacos que moravam no bairro dele, perto do Harlem. Jonas não achou engraçado o episódio, porém sorriu para não parecer antipático. Ambos eram agradáveis de qualquer modo e, assim, debruçado ao balcão, bebericando Martini, sentia-se bem. Lavinia, muito risonha, logo sugeriu que fossem ao bar, vazio àquela hora, já que o negro bem poderia ocupar-se da recepção. Jonas hesitou, pensava em dar uma volta, mas tanto a gerente quanto Willie insistiram que os acompanhasse.
O bar tinha decoração de um clube de caça. Uma cabeça de alce examinava prateleiras cheias de garrafas contra uma parede espelhada, um tapete de tigre, bancos forrados de pele de boi e toda essa parafernália característica das casas de caçadores. Lavinia ergueu sua pesada massa, a fim de se equilibrar num banco alto, enquanto Willie sacudia energicamente um drink de sua invenção em uma coqueteleira. O drink fora batizado de “Polish Head” pela gerente e seu auxiliar debaixo de muitas risadas.
Jonas se sentia bem e quando se deu conta já estava tão bêbado que mal podia suster-se sobre o banco. O alce sobranceiro se dividia em duas ou três cabeças e ondulava, como se cavalgasse em bando. Jonas percebeu que já iam horas e se despediu da gerente e de Willie, que pareciam estar na maior intimidade – ele quase estirado sobre os braços gordos e dos seios fartos da patroa.
Zonzo, alcançou o elevador e finalmente o quarto. Atirou-se na cama e no dorso de um bando de antílopes, que o carregaram savana afora.
Dia seguinte uma sede o despertou. Jonas telefonou para a recepção, mas ninguém atendeu. Não havia outro meio senão descer e tomar goles d’água durante o breakfast. Encontrou-se então de novo com a senhora ruiva da noite anterior.
“This weather, this terrible weather…”
Contou que como morava no hotel, não podia pagar um quarto com banheiro e que todas as manhãs morria de frio ao atravessar o corredor.
— Não tem mais café, disse-lhe secamente o gerente. Você levantou muito tarde.
Jonas olhou o relógio tipo década de 50, que marcava onze horas. Como tinha podido dormir tanto? perguntou-se. Enfim, conformou-se com as regras internas do Salem Hotel e ia preparar-se para sair, quando o faxineiro negro, que também trabalhava como porteiro, o interceptou.
O homem entabulou uma conversa sobre apostas. Perguntou-lhe se não se interessava pelo jogo. Jonas quis saber de que espécie de jogo se tratava, já que tinha um fraco pelo pôquer e em alguma noite, caso não tivesse o que fazer ou o dinheiro se acabasse, poderia bem tentar a sorte com o crioulo. Max (era esse o nome do bellman) falou então sobre apostas em cavalos e sacou um bilhete do bolso. Jonas respondeu que nunca realmente se interessara por corridas, mas se fosse uma aposta barata poderia tentar. Max daí começou a explicar-lhe o procedimento das apostas, o sistema de páreos, os animais favoritos e todos os macetes peculiares ao esporte. Jonas sentou-se, examinou cuidadosamente o bilhete com os páreos daquela tarde e fez uma aposta. Max sugeriu-lhe que não perdesse o segundo páreo, quando um dos cavalos, o Beresford, era de longe o preferido. Entreteve-se na conversa com Max e ao dar por si a gerente o chamava para o almoço.
Jonas espiou a rua através das amplas janelas do restaurante e lamentou-se de ainda não ter tido oportunidade de dar um passeio. Por que fora beber tantos Martinis secos com Willie e Lavinia? Por que entabulara aquela conversa vazia com a dupla e perdera a noite borbulhante de Nova York? O hotel era tão confortável… Não escondia também o desejo de permanecer ali, sob aquele abrigo morno, o tempo todo de sua estada em Nova York para depois tomar o trem e partir para Boston onde passaria dois meses hospedado em casa de tia Dalva, prima-irmã de sua avó, para freqüentar um curso de Literatura Americana. Tia Dalva, parece, habitava uma bela casa com jardim, casara-se com um americano e tinha um filho, Bob, poucos anos mais moço que ele. Jonas nunca a vira.
Willie serviu-lhe um hambúrguer tostado com uma salada de alface e Coca-cola. Ao contrário da noite anterior, o garçom se mostrou reservado. Jonas especulou que tivesse ressaca ou se sentisse apenas cansado, talvez por não querer acusar-se de algum fora que tivesse cometido contra a boa camaradagem inicial de Willie.
Depois da refeição frugal e um café deploravelmente aguado, Jonas ergueu-se, vestiu o sobretudo e se dirigiu para a rua. À porta um vento gelado bateu-lhe no rosto e no peito. Ele estacou no limiar, impedindo a porta automática de se fechar e não foi a rajada fria que o demoveu da idéia de regressar ao quarto, mas tão-somente um impulso sem controle e inexplicável.
Tomou, portanto, o elevador e ao descer no terceiro andar encontrou de novo a velhinha envolta em sua habitual renard:
O this weather, this disgusting and terrible weather…, ela se queixou como se cantasse uma balada.
Jonas sentou-se e fixou as escadas de incêndio contra a parede de tijolos do prédio vizinho. Escadas negras de ferro. O céu nublado irradiava uma luz cegante.
Não tinha vontade de sair, não conseguia simplesmente reunir forças para deixar o hotel. E se deixou ficar assim deitado na cama por um tempo considerável. Quando a luz se tornou mais tênue, uma aflição o fulminou: “Preciso sair desse hotel!” Apanhou então o telefone e discou o número de Tia Dalva em Boston. Custaram a responder e ao escutar uma voz de adolescente do outro lado, mais do que depressa desligou.
Tendo adormecido algumas horas imprecisas, despertou abruptamente com a campainha do telefone. Maximilian o parabenizava aos gritos por Jonas ter vencido todas as apostas, inclusive a do segundo páreo, já que Beresford tinha alcançado o primeiro lugar. Minutos depois quem o chamava era Mrs. Owen com a proposta de se entreterem com um joguinho naquela noite. Jonas se desculpou. Estava decidido a dar uma volta pela Broadway.
– O que você vai fazer na Broadway? É perigoso.
– Perigoso nada.
Ao descer (dessa vez não encontrou a velha dama, que deveria estar na cama
coberta e tiritando de frio), divisou então as duas folhas da porta do bar inteiramente abertas, uma mesa larga de jogo tendo a gerente, o garçom e o porteiro à volta, iluminados por um único abajur, que pendia quase rente às cabeças dos jogadores. Jonas se aproximou do “cassino”, sentou-se à mesa e sem dizer palavra, pôs-se a jogar bacará. A gerente fazia as vezes de croupier, deslizava as cartas de um estojo metálico e as recolhia por meio de uma espátula de madeira.
“Les jeux sont faits, messieurs, les jeux sont faits…”, ela exortava os demais a lançarem suas apostas.
Willie, de vez em quando, ia até o bar, chacoalhava e servia em seguida aos companheiros de jogatina o seu “Polish Head”.
Com os olhos piscos, bêbado, exausto, Jonas reconheceu que perdera todo o dinheiro ganho com os cavalos naquela tarde. Max e a gerente praticamente haviam abocanhado todo o seu quinhão. Willie ganhara uns trocados, mas emitia um riso solto, efeito de seu drinque. O hóspede então se despediu e voltou para o seu quarto, não sem antes chegar até a porta automática que se abriu três vezes.
A gerente ligou bem cedo e com uma voz irritadiça disse-lhe que devia deixar o quarto, pois afinal há uma semana ele não aparecia no hall. O quarto se encontrava imundo, com pedaços de pão, hambúrguer, presunto, cascas de queijo, caroços de azeitona, garrafas de coca-cola, latas de cerveja, restos de pizza fria, papel laminado e pontas de cigarro. “Um nojo”, segundo ela.
– Você nem mesmo permite que o Max entre para fazer a limpeza! E olhe: você me deve oitocentas pratas cash! Além disso tenho o quarto ocupado amanhã e acho bom você cair fora hoje mesmo, garotão!
Jonas apertou a cabeça com as mãos e enroscou-se todo na cama. Do lado de fora o frio recrudescera, e um vento forte zunia pelas frinchas da janela, fazendo a chuva açoitar a vidraça. Ele fingira – era verdade – que não escutara as batidas nervosas do Max de manhã, porque o odiara por tê-lo persuadido a apostar em Beresford e outros cavalos e ter trapaceado deslavadamente no bacará. A relação entre ambos se agravara depois que o crioulo invadira o quarto dele às sete da manhã, sem mais nem menos, logo após aquela maratona de jogo noite adentro e com a maior intimidade o expulsara da cama. Jonas, que apesar de tímido perdia o controle se o despertavam bruscamente e tão cedo, expulsou Max aos gritos do quarto, numa mistura de português com inglês. O bellman arregalou os olhos, dirigiu-lhe um palavrão e desapareceu por dois dias.
(Os detritos espalhados pelo quarto, a que se referia a gerente, eram restos dos lanches que encomendara pelo telefone a uma loja em frente).
Quando retornou para fazer a limpeza, Max, talvez como pretexto para puxar conversa e assim fazer as pazes com Jonas, entrou com esse comentário:
– Eu não sei se você sabe, mas Lavinia e Willy são amantes. Não, eu não tenho nada com isso, eu sei, mas se por acaso… – aqui ele apertou bastante um olho e agitou um dedo em riste, como se proferisse uma ameaça: – Se por acaso o patrão descobre… põe os dois na rua num instante!”
Jonas então foi acometido de um súbito mal-estar. Sentiu-se envolvido com pessoas que não tinham nada a ver com ele, nem teriam qualquer importância em sua vida futura. Daí veio-lhe uma brusca repulsa por aquele hotel, como se todos os quartos estivessem recheados de detritos. Tinha de viajar para Boston. Inquietou-se sobre como pagar o hotel: oitocentos bucks, Lavinia Owen tinha dito. Telefonaria a sua tia então. Discou o código e o número da casa em Boston. Enquanto a campainha tocava, pensou na imensa vergonha que seria ter de confessar a tia Dalva sua ruína no jogo com o próprio pessoal do hotel! Alguém atendeu, a mesma voz de adolescente de dias atrás. Desligou. Optou por outra solução para o problema; desceria e explicaria honestamente tudo a Lavinia Owen. Perdera no jogo, a que se tivera lançado a convite dela mesma e de seus subordinados e agora não tinha meios de quitar sua dívida com o hotel. Ela tinha que entender – Jonas augurou e saiu do quarto, quando encontrou a velhinha ruiva agasalhada sempre em sua renard. Tomaram o elevador juntos e dentro da cabine, Jonas, enquanto observava seu rosto encarquilhado, seu olhar distante, nesse alheamento próprio das pessoas idosas, pensou até em confidenciar-lhe sua angústia, mas logo desistiu. O elevador tinha chegado. Ao abrir a porta para a velhinha, Jonas distinguiu na recepção, conversando com a gerente, um policial.
Estacou por uns segundos e voltou para dentro da cabine.
Telefonou de novo para a tia. A mesma voz adolescente atendeu e pediu que esperasse um momento, com uma entonação que pareceu a Jonas sempre haver sabido que era ele quem chamava e em seguida desligava.
– Alô? Tia Dalva? É Jonas. Estou em Nova York. É, cheguei já há duas semanas. É, desculpe, mas… é que a cidade é tão… eu gostei tanto, não conhecia, que acabei ficando mais tempo do que o previsto. É, desculpe… eu sei que eu devia ter avisado, mas… Tia Dalva, estou com um problema gravíssimo.
Engoliu em seco e prosseguiu:
– Tia Dalva: eu fui assaltado ontem.
Esperou escutar a reação do outro lado da linha, mas a tia não respondeu nada, como se não tivesse ouvido:
– Bem, e aí eu não tenho dinheiro pra pagar o hotel. Eles me apresentaram uma conta de oitocentos dólares. Será que a senhora podia me emprestar que depois eu…
– Mas claro, meu bem, (aqui, na realidade tia Dalva falou em inglês: Sure, dear, sure…), posso sim, me diga o nome da espelunca!
O alívio trazido com as palavras da tia foi tão grande que Jonas ainda permaneceu deitado na cama de molas rangentes por um bom tempo. Desceu para avisar Lavinia de que o pagamento chegaria no dia seguinte pelo correio. Ao se aproximar da recepção, notou ainda o policial. Willie saía nesse instante do restaurante:
– Lavinia me disse que você vai ficar mais uns dias conosco, é verdade?
– De maneira nenhuma. Parto amanhã mesmo.
– De navio?
“Que estranho ele fazer essa pergunta… E que estranho Lavinia ter dito que eu ia ficar…”, Jonas pensou, considerando que sua estada naquele hotel se desenrolava como esses pesadelos, em que se tem, no entanto, consciência de que se está sonhando. Chegou-se a Lavinia, que parecia mais voluptuosamente obesa dentro de um decote cavado. Enquanto falava, ela apertava os lábios, como se aplicasse batom.
– Você vê? Ele disse amanhã, pelo correio! – ela dirigiu-se ao policial, o que infundiu mais medo em Jonas.
– Chega rápido, o outro respondeu. (Pelo tom da conversa em que continuaram a entreter-se, tão-logo se afastou, Jonas percebeu que o policial era velho amigo e devia passar pelo hotel todos os dias, num intervalo de sua ronda).
Agora só restava fazer uma coisa: dar um passeio no Central Park para lavar os pulmões do ar sujo do Salem Hotel. Olhou a porta de vidro que abria e fechava automaticamente. Hóspedes entravam e saíam. Permaneceu uns minutos assistindo ao movimento mecânico da porta. Além dela, além do toldo amartelo, está a cidade. Uma aflição então percorreu-lhe a espinha: Por que Willie não aparecia agora e o convidava para uma partida de pôquer? Por que Max não vinha varrendo o chão e lhe segredava palpites quentes da próxima corrida à tarde? Não, o vento frio que soprava do lado de fora o chamava. Ele tinha que ir.
Endireitou-se e tomou uma decisão. Voltaria ao quarto. Fazia frio demais. Era preciso voltar ao quarto e curar seu resfriado, pois agora tinha a impressão de que seu nariz escorria. Não o havia sentido antes, de manhã, na hora em que ligara à tia de Boston. Subiu e ficou enrolado em cobertores até o dia seguinte, quando por volta das dez horas Lavinia telefonou-lhe. Fez as malas correndo enquanto dizia a si mesmo que se foda Nova York, que não queria conhecer mesmo a cidade e pronto. Queria sim conhecer e explorar Boston, a britânica Boston e não esse lixo do Novo Mundo.
Desta vez a velhinha não estava no elevador. Jonas pensou que muito provavelmente ela morreria de pneumonia dentro de seu quarto sozinha.
A porta envidraçada se abria e se fechava em um movimento quase hipnótico. Ele tinha que ir. Segurou a mala, pareceu-lhe mas pesada, apesar de não ter comprado nada e largou-a no chão. Olhou mais uma vez em volta, a sala de recepção do Salem Hotel, as paredes ocre, as poltronas marrons, o tapete, as cortinas, o lustre de cristal. Tinha que ir. Tia Dalva estava esperando. E ela fora tão amável em adiantar-lhe o dinheiro. A porta abria e fechava. Max e Willie postavam-se atrás dele, como se ansiassem por sua partida, como se com suas presenças ali garantissem seu primeiro passo para fora desde que chegara, como se empurrassem levemente suas costas e ele teimasse em voltar, como esses bonecos de plástico em que as crianças desferem socos e que oscilam sorrindo. Tinha que ir. A porta mais uma vez se abriu, ele respirou a lufada de ar que soprou do lado de fora, apoiou-se em Max e Willie e preparou-se para partir, ante que ela se fechasse de novo.

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Fonte: Earp, Jorge Sá. Passagem por Nova York. In: O Cavalo Marinho. Rio de Janeiro, Sette Letras, 1997. 126 p. p. 33-42.





Bio fornecida pelo palestrante.

Menino de Engenho




Autor: José Lins do Rego
Título: Menino de Engenho, El niño del ingenio de azúcar, PLANTATION BOY
Idiomas: port, esp, eng
Tradutor: Juan Martín Ruíz(esp), Emmi Baum(eng), Antonio Tabucchi(ita)
Data: 28/12/2004

IL FIGLIO DELLA PIANTAGIONE


1


José Lins do Rêgo

Avevo circa quattro anni il giorno che morì mia madre. Dormivo in camera mia, quel mattino, e mi svegliò la grande confusione che c’era in casa. Grida e gente che correva in su e in giù. La stanza da letto di mio padre era piena di gente che non conoscevo. Quando entrai vidi mia madre stesa sul pavimento e mio padre buttato su di lei come un pazzo, e tutti se ne stavano lì a guardare la scena come se fossero a uno spettacolo. Mi accorsi allora che mia madre era in una pozza di sangue, e corsi verso di lei per baciarla, ma mi afferrarono per un braccio con forza. Piansi, scalciai, ma non ci fu niente da fare. Poi arrivò un uomo con dei soldati e fece uscire tutti, perché lì ci poteva restare la polizia e basta.
Mi portarono nell’altra parte della casa, dove ognuno diceva la sua. Il servo, bianco come un panno, raccontava che dormiva ancora quando aveva sentito gli spari al primo piano. Aveva fatto le scale di corsa e aveva trovato mio padre ancora con la pistola in mano e mia madre in un lago di sangue. « Il dottore ha ucciso Dona Clarisse! » Perché? Nessuno riusciva a capirlo.
E io avevo una voglia disperata di andare vicino ai miei, di baciare e abbracciare mia madre. Ma la porta della camera era chiusa, e quell’uomo arcigno che era entrato non permetteva a nessuno di avvicinarsi. Il servo e la balia erano là dentro, socto interrogatorio. E di quello che successe dopo mi ricordo solo vagamente.
La sera il servo lesse per quelli di cucina i giornali, dove c’erano due grandi fotografie di mio padre e di mia madre. Io stavo a sentire come fosse una novella. Mi sembravano così lontani i fatti del mattino, che quel racconto mi interessava come se non fossero i miei genitori i protagonisti. Ma quando vidi nella pagina di uno dei giornali mia madre stesa per terra, con i capelli sciolti e la bocca aperta, scoppiai in un pianto convulso. Allora mi portarono nella piazzetta vicino a casa, dove c’erano altri bambini piccoli come me, e giocai con loro tutta la sera. Le serve non facevano altro che parlare di mio padre e di mia madre, raccontandosi cose cui non facevo caso, perché ero tutto preso dal gioco con i miei amici.
All’ora di dormire sentii veramente la mancanza della mamma. La casa vuota e la sua camera chiusa. Un soldato era rimasto di guardia. Le serve dei vicini erano venute a chiacchierare, ma il soldato non lo aveva acconsentito. Mi mandarono a dormire da solo. Ma il sonno non veniva. Chiudevo gli occhi, ma mi mancava qualcosa. Mi attraversavano la memoria, con una velocità confusa, gli avvenimenti del giorno. Allora cominciai a piangere, sommessamente, sul guanciale: il pianto soffocato di chi ha paura di piangere.

2

Ricordo bene mio padre. Era un bell’uomo alto, con occhi grandi e baffi neri. Stava spesso con me, e mi baciava, mi raccontava storie, mi faceva giocare. Tutte le sue cose erano mie. Potevo toccare i suoi libri, sporcargli i vestiti, a lui non gliene importava. A volte, però, entrava in casa silenzioso. Si sedeva su una poltrona o passeggiava per il corridoio con le mani dietro la schiena, e discuteva molto con la mamma. Gridava, diceva un sacco di cose, e gli veniva una faccia arrabbiata che mi faceva paura. E mia madre si chiudeva in camera singhiozzando. Io non capivo il perché di tutte quelle discussioni. So che, poco dopo, lui andava da mia madre e la baciava, e il resto della sera, finché io non andavo a letto, restava sempre con lei. e i suoi occhi arrossati indicavano che aveva pianto anche lui.
Gli volevo bene, perché tutte le cose che mi piaceva fare me le consentiva, e giocava con me a quattro zampe sul pavimento come un bambino della mia età. Soltanto dopo ho saputo molte cose su di lui: che era un temperamento eccitabile, un tipo nervoso, per il quale la vita possedeva solo il lato negativo. La sua storia, che ho conosciuto più tardi, è quella di un uomo trascinato dalle passioni, di un animo sensibile troppo preso dalle sue pene. Povero papà! Mi sembra ancora di vederlo uscire di casa fra le guardie, il giorno del suo delitto. Che aria disperata aveva sul suo volto di bambino! E l’abbraccio doloroso che mi diede! Capii poi, col tempo, perché aveva ceduto alla disperazione. L’amore che portava a mia madre era un amore folle. La prigione dove lo avevano portato non era certo adatta alla sua follia. Dieci anni dopo moriva in manicomio ucciso da una paralisi progressiva.

3

Tutte le fotografie che posseggo di mia madre non riescono a darmi la vera fisionomia che di lei ricordo: la dolce fisionomia del suo viso, della malinconica bellezza del suo sguardo. Ricordo che passava il giorno intero con me. Era piccola e minuta, con i capelli neri. Vicino a lei non sentivo neanche il desiderio di andar a giocare. Dona Clarisse, come la chiamava la servitù, sembrava proprio la figura di una stampa. Parlava a tutti col tono di voce di chi chiede un favore, docile e tenera come una collegiale. Era stata educata in un collegio di monache, orfana di madre, perché mio nonno era rimasto vedovo quando la bambina non parlava ancora. Figlia di grandi piantatori di zucchero, sembrava piuttosto, dalle sue maniere, una donna nata per la vita di clausura.
La sera era sempre lei che mi faceva dormire. Addormentarmi fra le sue braccia, ascoltando la sua cara voce in sordina, era il mio più grande piacere.
Mi faceva molte carezze. E quando mio padre arrivava in preda alle sue crisi, arrabbiato a morte, la vedevo piangere sommessamente, pronta a dimenticare subito le intemperanze verbali del marito. I domestici le volevano un gran bene, e lei li trattava con bontà, senza mai cattivo umore.
Ho passato ore intere a dipingere il ritratto di mia madre con i colori della mia immaginazione, e la vedo ancora prendersi cura di me, farmi il bagno, vestirmi. La mia memoria conserva ancora particolari così vivi, che il tempo non è riuscito a distruggere.
Il suo destino fu crudele: morire come morì, vittima di un eccesso di collera dell’uomo che tanto aveva amato; e poi proprio lei, così piena di pudore e di modestia, dover riempire le pagine dei giornali con le sue fotografie, con i menzogneri racconti sulla sua vita intima.
La morte di mia madre mi riempì di una malinconia disperata. Perché il destino era stato così ingiusto con lei, con una creatura così pura? Questa forza cieca del destino avrebbe fatto di me un ragazzo scettico e tormentato, sempre assillato dal timore di future disgrazie.
(…).

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Fonte: LINS DO RÊGO, José. Il figlio della piantagione. In: Il treno di Recife. Traduzione di Antonio Tabucchi. Milano: Longanesi & C., 1974. p. 23-7.

EL NIÑO DEL INGENIO DE AZÚCAR


I


José Lins do Rêgo

Yo tenía unos cuatro años el día en que mi madre murió. Dormía en mi cuarto cuando por la mañana desperté con un enorme bullicio en casa. Eran gritos y gente corriendo por todas partes. El dormitorio de mi padre estaba lleno de personas a las que no conocía. Corrí hacia allí, y vi a mi madre tendida en el suelo y a mi padre postrado ante ella, como enloquecido. Todo el que allí estaba contemplaba la escena, como si se tratase de un espectáculo. Vi entonces que el cuerpo de mi madre estaba bañado en sangre, y corrí para besarla, entonces me agarraron con fuerza del brazo. Lloré, intenté por todos los medios liberarme, pero no me dejaron hacer nada. Un hombre que llegó con los soldados mandó entonces que todos saliesen, que sólo podía quedarse allí la policía y nadie más.
Me llevaron al fondo de la casa, donde los comentarios sobre el hecho eran de lo más variado. El criado, pálido, contaba que aún dormía cuando oyó unos disparos en el primer piso, que subió corriendo, y vio a mi padre con un revólver en la mano y a mi madre ensangrentada. « ¡El doctor mató a doña Clarisse! » ¿Por qué? Nadie podía entenderlo.
Lo que yo sentía eran unas ganas desesperadas de ir junto a mis padres, de abrazar y besar a mi madre. Pero la puerta del cuarto estaba cerrada, y el hombre serio que antes entrara no permitía que nadie se acercase. El criado y el ama de llaves, decían, estaban allí dentro, en el interrogatorio. Lo que ocurrió después, no lo recuerdo con nitidez.
Por la tarde el criado leyó a todos los que estaban en la cocina los diarios con las grandes fotos de mi padre y de mi madre. Oí aquello como si fuese una historia de Trancoso. Me parecían tan lejanos, ya, los acontecimientos de la mañana, que escuchaba aquellos relatos como si mis padres no fuesen los protagonistas. Pero después de ver en una página de los periódicos a mi madre tendida, con los cabellos sueltos y la boca abierta, me eché a llorar convulsivamente. Me llevaron entonces a la plaza que había cerca de casa. Allí había otros niños de mi edad, y jugué con ellos toda la tarde. Las criadas hablaban mucho de mi padre y de mi madre, contándose unas a otras cosas a las que no prestaba atención, pues a lo que estaba atento era a mis juegos con los amigos.
A la hora de dormir fue cuando sentí verdaderamente la ausencia de mi madre. La casa vacía y su cuarto cerrado, un soldado se quedó, encargándose de todo. Las criadas de la vecindad querían ir a preguntar por allí. El soldado no lo consentía. Me acostaron y me dejaron solo hasta que llegase el sueño. Pero el sueño tardaba en llegar. Cerraba los ojos, pero me faltaba algo. Por mi cabeza pasaban, velozmente y truncados, los sucesos del día. Entonces comencé a llorar bajito, contra las almohadas, el llanto contenido de quien tiene miedo de llorar.

II

Aún recuerdo a mi padre. Era un hombre alto y bello, de ojos grandes y bigote negro. Siempre que estaba conmigo era para besarme, para contarme historias, para satisfacer mis deseos. Todo lo suyo era para mí. Yo desordenaba sus libros, ensuciaba sus ropas, y a mi padre no le importaba. A veces, sin embargo, él entraba en casa callado. Se sentaba en una silla o paseaba por el pasillo con las manos cogidas por detrás, y discutía mucho con mi madre, gritaba, decía tantas cosas… A veces su rostro expresaba ira, y daba miedo. Y mi madre salía del cuarto entre sollozos. Yo no sabía comprender el porqué de toda aquella discordia. Sé que, después, allí estaba él con mi madre, consolándola entre besos. Y el resto de la noche, hasta la hora de acostarme, era sólo con ella con quien él estaba, con los ojos rojos de haber llorado también.
Yo lo adoraba porque todo lo que quisiese hacer lo consentía, y jugaba conmigo en el suelo como si fuese un niño de mi edad. Después, fue cuando supe muchas otras cosas de él: que tenía un temperamento excitable, que era nervioso, que, en fin, era un ser a quien la vida sólo le mostraba su faz amarga. Su historia, que más tarde conocí, era la de un ser trastornado por las pasiones, la de un corazón demasiado sensible para contener su propia angustia. Pobrecillo, mi padre… Parece que lo estoy viendo cuando salía de casa con los soldados, el día del crimen. ¡Qué aire de desprecio mostraba su rostro altivo! ¡Qué doloroso abrazo me dio en aquella ocasión! Llegué a comprender, con el tiempo, la causa que lo llevó a la desesperación. El amor que sentía por su esposa era el amor de un loco. Su lugar no era la cárcel a la que lo llevaron. Mi pobre padre… Diez años después moría en el hospital, fulminado por una parálisis general.

III

Ninguno de los retratos que tengo de mi madre refleja la verdadera fisonomía que de ella recuerdo – la dulce fisonomía de aquel rostro, de aquella mirada de melancólica belleza –. Ella se pasaba el día entero conmigo. Era pequeña, tenía los cabellos negros. A su lado yo no necesitaba mis juguetes. Dña. Clarisse, como la llamaban los criados, parecía, propiamente, la figura de una ilustración. Hablaba a todos con el tono de voz de quien pidiese un favor, mansa y tierna como una niña de internado. Se educó en un colegio de monjas, sin madre, pues su padre enviudó cuando ella aún no había aprendido a hablar. Hija del señor del ingenio azucarero, parecía más por lo que contaban de su talante, una dama nacida para la vida del convento.
Por la noche ella me arrullaba. Adormecerme en sus brazos, oyendo el susurro de aquella voz, era mi primor de sibarita pequeño. Ella me colmaba de caricias. Y cuando mi padre llegaba con alguna de sus crisis, exasperado como un torbellino, yo la veía llorar, mas siempre presta a olvidar los excesos verbales de su marido. Los criados la adoraban. Ella también los trataba con una bondad que no conocía el mal humor.
Horas enteras permanezco pintando el retrato de esta madre angélica, con los colores que extraigo de la imaginación, y la veo así, cuidándome, bañándome y vistiéndome. Mi memoria aún guarda vivos detalles que el tiempo no consiguió destruir.
Su destino fue muy cruel: morir como murió, víctima de un arrebato de cólera del hombre a quien tanto amara y, por añadidura, los diarios sensacionalistas llenando sus páginas con aquellos relatos sobre ella – tan llena de pudor y recato –, con historias mentirosas sobre su vida íntima.
La muerte de mi madre llenó mi vida de un pesar desesperado. ¿Por qué hubo de ser con ella tan injusto el destino, injusto con una criatura en la que todo era puro? Esta fuerza arbitraria de la fatalidad iba a hacer de mí un niño medio escéptico, medio atormentado por sueños funestos.
(…).

____________

Fonte: LINS DO RÊGO, José. El niño del ingenio de azúcar. Traducción de Juan Martín Ruíz. Madrid: Celeste, 2000. p. 15-18.

PLANTATION BOY

1


José Lins do Rêgo

I was four years old on the day my mother died. Early that morning, I was awakened by what seemed to be an unusual amount of noise in the house. When I ran to my father’s room, it was full of strangers. I saw my mother lying on the floor and my father sprawled across her body like a man out of his mind. Everyone was watching the scene as if it were some sort of a spectacular drama. Then I saw that my mother was completely bathed in blood. I wanted to run to her, but I was stopped by a pair of strong hands on my arm and, no matter how hard I tried, I could not free myself. One of the men who came with the police ordered everyone from the room.
Someone led me to the back of the house, where everyone was talking about what had happened. One of the servants nervously told the others that he had been asleep when he heard the shots on the second floor; that he had run upstairs, had seen my father with the gun in his hand and my mother all bloody.
“The doctor has killed Dona Clarisse!”
Why? Nobody could understand.
I felt an overpowering desire to run to my parents and hug and kiss my mother. But the door was closed and the serious-looking man who stood guard did not permit anyone to come anywhere near it. I heard someone say that one of the servants and the governess were in there being questioned.
What happened after that is rather vague and not very vivid in my memory. In the afternoon someone read the newspapers to the others in the kitchen. The papers displayed large pictures of my father and mother, and as I listened to what was being said, I thought I was hearing some sort of fairy tale. The events of that morning already seemed far removed from me and I could not believe that my parents were the main actors in the drama. But then I caught sight of the page which showed the picture of my mother lying on the floor, her hair all loose about her head and her mouth open. Suddenly I began to cry and sob convulsively.
I was taken out to a playground near my house to play with other children of my age, and there I spent the rest of the afternoon. I heard the maids talking about my mother and father and about what had happened, but I paid no attention. I was too busy playing with my friends.
I did not really miss my mother until it was time to go to bed. Her room was locked and the house seemed empty. A policeman took charge of everything. The maids kept coming near her door and wanted to gossip, but he chased them away.
They made me go to bed alone. It took me a long time to fall asleep. My head was spinning with the events of the day. Then I began to cry – quietly, beneath the sheets. They were secret tears, as if shed by someone afraid to cry.

2

I still remember my father. He was tall and good-looking, with large eyes and a big mustache. Whenever we were together, he would hug and kiss me, tell me stories, and try to make me happy. Everything that was his was mine. I got into his books, dirtied his clothes, but he never seemed to be annoyed. There were times, however, when he would come home in a bad mood. He would sit in a chair or walk up and down with his hands folded behind his back and very often he would argue with my mother. He yelled and said a lot of things and his face would be full of such rage that it frightened me. My mother would run out of the room sobbing. I never could understand what the arguments were about. I do remember that, after a while, I would see my mother and father making up and I watched them together until it was time for me to go to bed. His eyes would be red from crying.
I loved him because he let me do everything I wanted and he played with me on the floor just as though he were a child my own age. It was not until much later that I learned to know more about him. He was a nervous, quick-tempered man for whom life held nothing but bitterness. He was ruled by his passions and he was overly sensitive to real or imagined hurts. Poor Father! I can still see him as he was being led out of the house by the police that day. He had an air of desperation about him, and only much later did I come to understand the meaning of the painful embrace he gave me. In time, I realized the reason for his desperation – the love he had felt for his wife had been the love of an insane person. He was not taken to prison for his crime. My father died in an insane asylum, completely paralyzed, ten years later.

3

None of the pictures I have of my mother shows her as I remember her – the sweetness of her face and that melancholy beauty of her eyes. She was small of stature and had black hair. I used to spend the entire day with her and in her company I never missed my toys. Dona Clarisse, as she was called by the servants, looked as if she had just stepped out of a picture. She spoke in the manner of someone asking a favor – softly and with great tenderness – like a young novice in a covent. She had been raised in a nunnery; her father, a rich planter, had become a widower even before she could talk. According to what I was told, she was born to be a recluse.
At night she would tuck me into bed and I would fall asleep in her arms as I listened to her soft voice. I was in my own private little world She was very affectionate with me. When my father stormed into the house after a hard and exasperating day, I would watch her cry, but she was always ready to forgive and forget her husband’s insults. The servants loved her and she treated them with a good nature that knew no bad moods.
I still spend hours painting a mental picture of my angelic mother with all the colors my imagination can conceive. I see her taking care of me, dressing and bathing me. My memory still retains vivid details which time has not succeeded in destroying.
Her fate was cruel – to die as she did – the victim of an insane love. And then, to have such awful lies written about her under sensational headlines – with her picture in all the papers – she was so shy and modest.
My mother’s death filled my whole life with a hopeless sense of melancholy. Why did fate have to be so unjust to her – to a creature in whom there was nothing but purity? This arbitrary force – destiny – was to make me a difficult boy tormented by ugly visions.
(…).

_____________
Fonte: LINS DO RÊGO, José. Plantation boy. Translated from the portuguese by Emmi Baum. New York: Alfred. A. Knopf, 1966. p. 3-6.
 


MENINO DE ENGENHO: ROMANCE

1


José Lins do Rêgo

Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã me acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá, e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali, olhava para o quadro como se estivesse em um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a polícia e mais ninguém.
Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai ainda com o revólver na mão e a minha mãe ensangüentada. “O doutor matou a D. Clarisse!” Por que? Ninguém sabia compreender.
O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sério que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória.
À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais com os retratos grandes de minha mãe e de meu pai. Ouvi aquilo como se fosse uma história de trancoso. Pareciam-me tão longe, já, os fatos da manhã, que aquela narrativa me interessava como se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí num choro convulso. Levaram-me então para a praça que ficava perto de minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho, e eu brinquei com eles a tarde toda. As criadas é que conversavam muito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outras coisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidava era nos meus brinquedos com os amigos.
Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência de minha mãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado ficara tomando conta de tudo. As criadas de perto queriam vir conversar por ali. O soldado não consentia. Botaram-me para dormir sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, mas me faltava qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, às pressas e truncados, os sucessos do dia. Então comecei a chorar baixinho para os travesseiros, um choro abafado de quem tivesse medo de chorar.

2

Ainda me lembro de meu pai. Era um homem alto e bonito, com uns olhos grandes e um bigode preto. Sempre que estava comigo, era a me beijar, a me contar histórias, a me fazer os gostos. Tudo dele era para mim. Eu mexia nos seus livros, sujava as suas roupas, e meu pai não se importava. Às vezes, porém ele entrava em casa calado. Sentava-se numa cadeira ou passeava pelo corredor com as mãos para trás, e discutia muito com minha mãe. Gritava, dizia tanta coisa, ficava com uma cara de raiva que me fazia medo. E minha mãe saía para o quarto aos soluços. Eu não sabia compreender o porquê de toda aquela discussão. Sei que, com um pouco mais, lá estava ele com a minha mãe aos beijos. E o resto da noite, até ir me deitar, era só com ela que ele estava, com os olhos vermelhos de ter chorado também.
Eu o amava porque o que eu queria fazer, ele consentia, e brincava comigo no chão como um menino de minha idade. Depois é que vim a saber muita coisa a seu respeito: que era um temperamento excitado, um nervoso, para quem a vida só tivera o seu lado amargo. A sua história, que mais tarde conheci, era a de um arrebatado pelas paixões, a de um coração sensível demais às suas mágoas. Coitado de meu pai! Parece que o vejo quando saía de casa com os soldados, no dia de seu crime. Que ar de desespero ele levava, no rosto de moço! E o abraço doloroso que me deu nessa ocasião! Vim a compreender, com o tempo, porque se deixara levar ao desespero. O amor que tinha pela esposa era o amor de um louco. O seu lugar não era no presídio para onde o levaram. O meu pobre pai, dez anos depois, morria na casa de saúde, liquidado por uma paralisia geral.

3

Todos os retratos que tenho de minha mãe não me dão nuca a verdadeira fisionomia que eu guardo dela – a doce fisionomia daquele seu rosto, daquela melancólica beleza de seu olhar. Ela passava o dia inteiro comigo. Era pequena e tinha os cabelos pretos. Junto dela eu não sentia necessidade dos meus brinquedos. D. Clarisse, como lhe chamavam os criados, parecia mesmo uma figura de estampa. Falava para todos com um tom de voz de quem pedisse um favor, mansa e terna como uma menina de internato. Criara-se em colégio de freiras, sem mãe, pois o pai ficara viúvo quando ela ainda não falava. Filha de senhor de engenho, parecia mais, pelo que me contavam dos seus modos, uma dama nascida para a reclusão.
À noite ela me fazia dormir. Adormecer nos seus braços, ouvindo a surdina daquela voz, era o meu requinte de sibarita pequeno.
Ela me enchia de carícias. E quando o meu pai chegava nas suas crises, exasperado como um pé de vento, eu a via chorar e pronta a esquecer todas as intemperanças verbais do seu marido. Os criados amavam-na. Ela também os tratava com urna bondade que não conhecia mau humor.
Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mãe angélica, com as cores que tiro da imaginação, e vejo-a assim, ainda tomando conta de mim, dando-me banhos e me vestindo. A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir.
O seu destino fora cruel: morrer como morreu, vítima de um excesso de cólera do homem que tanto amara; e depois, ela, cheia de pudor e de recato, a encher as folhas de sensação com o seu retrato, com histórias mentirosas de sua vida íntima.
A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada. Por que teria sido com ela tão injusto o destino, injusto com uma criatura em que tudo era tão puro? Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético, meio atormentado de visões ruins.
(…).

_______________

Fonte: LINS DO RÊGO, José. Menino de Engenho: romance. 6ªed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 19-26.





Bio fornecida pelo palestrante.

A invenção de Orfeu




Autor: Jorge de Lima
Título: A invenção de Orfeu, La invención de Orfeo
Idiomas: port, esp
Tradutor: Antonio Cisneros(esp)
Data: 28/12/2004

LA INVENCIÓN DE ORFEO

 

Jorge de Lima

Audición de Orfeo

El lenguaje
parece otro
pero es la misma
traducción.
Viaje igual
fijo y fluente
ansiedad
de la canción
Leed allende
lo que existe
en la impresión.
Y aquende
lo que está
en la expresión.
……………………
El lomo de la vaca era palustre y bello
una pelusa había en su hermosa quijada
y en la frente de luna donde ardía una estrella
flotaba un pensamiento en constante reposo.
Aquí la imagen de la vaca, la más pura y sencilla,
que del fondo del sueño a veces yo comparto
y de noche se mezcla con la imagen de mi ama,
la que me amamantó y yace en su final reposo.
Escucho su mugido – fue mi canción de cuna –
y su mirada tan dulce aún siento en la mía:
seno y ubre natales me irrigan en sus venas.
Los mezclo en esta masa sin forma que es mi canto:
semblante y leche, la vaca y la mujer que me brindó
la leche y la dulzura manada de sus senos.
………………….
De esa leche profunda emergida del sueño
se coaguló esa isla y esa nube y ese río
y esa sombra bullente y ese reino y ese llanto
y esa danza contínua amortajada y pía.
Hoy brota una flor, mañana fuente oculta,
y ese pasado mañana, la memoria sepulta
aventuras y fines, relicarios y estíos:
es la nueva palabra en calendarios fríos.
Descúbranse el mercurio y la fiebre y el ronquido
y esos veloces pies y el llanto de esa vaca
yendo y viniendo y naciendo en leche, muerte,
infancia.
Y a cada paso surge un serpentear de errores
y un rostro sutil que de repente clava
los niños, los pies, los sueños, los terneros.
……………………
Fundamos al sudoeste ese bravo león
para encarar el sol cuando el sol nos encara.
(Perdimos la mirada de ese animal hermano
y la corona de rey que circunda su cara).
Para suplir a pocos esa destitución,
este rey su melena con la de Apolo iguala:
el oro de ambos viene de idéntico filón,
el fuego que nos mueve de una sola fogata.
Frente a frente, el león ruge, y el acre sol aulla.
(Enormes girasoles cuyas ardientes lavas
son la ignificación más pungente y más rubia).
Hay días que el aullido es tan fuerte y tan duro
que los dos aparecen cual dos rimas-octavas
candentes por el cielo de este poema impuro.
…………………….
Sea cual fuere la lluvia de esos campos
debemos esperar a los estíos;
y al llegar de las tardes y los fieles engaños,
amar los sueños que permanezcan fríos.
Mas si lo que soñamos no aparece
y los nidos inmortales son vacíos,
los pájaros que nos idealizamos
al menos habrán de estar ahí.
Feliz el que con cánticos se esconde
y tenerlos cree entre su propio pico,
y al pico ajeno con cánticos responde.
Y viendo en torno las más fieras escenas,
pueda mirarse las alas desplumadas
y contentarse con sus secretas penas.
______________________
Fonte: LIMA, Jorge de. La invención de Orfeo: edição em español e português. Introducción y traducción de Antonio Cisneros. Lima, Centro de Estudios brasileños, 1979, p. 16-25.

A INVENÇÃO DE ORFEU

 

Jorge de Lima

Audição de Orfeu
A linguagem
parece outra
mas é a mesma
tradução.
Mesma viagem
presa e fluente,
e a ansiedade
da canção.
Lede além
do que existe
na impressão.
E daquilo
que está aquém
da expressão.
……………………………….
A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia a estrela
pairava um pensamento em constante repouso.
Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.
Escuto-lhe o mugido – era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.
Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.
……………………………
Desse leite profundo emergido do sonho
coagulou-se essa ilha e essa nuvem e esse rio
e essa sombra bulindo e esse reino e esse pranto
e essa doença contínua amortalhada e pia.
Hoje brota uma flor, amanhã fonte oculta,
e depois de amanhã, a memória sepulta
aventuras e fins, relicários e estios;
nasce a nova palavra em calendários frios.
Descobrem-se o mercúrio e a febre e a ressonância
e esses velozes pés e o pranto dessa vaca
indo e vindo e nascendo em leite e morte a infância.
E em cada passo surge um serpentário de erros
e uma face sutil que de repente estaca
os meninos, os pés, os sonhos e os bezerros.
……………………………………..
Fundamos ao sudoeste esse bravo leão
para encarar o sol quando o sol nos encara.
(Nós podemos o olhar desse animal irmão
e a coroa de rei que lhe circunda a cara).
Para aos poucos suprir essa destituição,
o rei a sua juba à de Apolo compara:
o ouro de ambos provém de idêntico filão,
o fogo que os agita é de uma só coivara.
Frente a frente, o leão uiva, e o sol acre uiva.
(Enormes girassóis cujas ardentes lavas
são a imaginação mais pungente e mais ruiva).
Certos dias esse uivo é tão forte e tão duro
que parecem os dois duas rimas-oitavas
candentes pelo céu deste poema impuro.
…………………………………..
Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.
Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.
Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.
E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-me as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.
_____________________
Fonte: LIMA, Jorge de. La invención de Orfeo: edição em español e português. Introducción y traducción de Antonio Cisneros. Lima, Centro de Estudios brasileños, 1979, p. 16-25.





Bio fornecida pelo palestrante.

Anunciação e encontro de Mira-Celi




Autor: Jorge de Lima
Título: Anunciação e encontro de Mira-Celi, Anunciación de Mira-Coeli
Idiomas: port, esp
Tradutor: Jorge de Limana(esp)
Data: 28/12/2004

POEMA


IX

Anunciação e encontro de Mira-Celi


Jorge de Lima


1

O inesperado ser começou a desenrolar as suas faixas em que estava escrita a história da criação passada e futura.
Retirou a sua imensa cabeça de dentro da torre, sob o estrondo das muralhas desabadas com o seu gesto.
A estreita porta abriu-se reverente para ele passar.
O pátio interior espraiou-se como um lago, e as colunas eternas que sustentavam as abóbadas substituíram os seus braços e as suas pernas.
Entretanto, ele continuava incluso na eternidade. Nos blocos retangulares de suas órbitas estavam encerradas inúmeras gerações.
Era tão velho que morava dentro da morte.
Era tão jovem que inscrevera no seu peito de pedra o nome de várias mulheres.
Dentro dos aquedutos que irrigavam os jardins suspensos em suas frentes haviam navegado muitos povos experientes.
Acharam a sua carne tão áspera como a sua solidão.
Tendo selecionado algumas presenças, pôde expulsar várias rainhas tombadas em seu pórtico. Caíra de qualquer dinastia: o hálito quente do deserto ainda corria sobre os seus lábios gretados.
O inesperado ser tinha taras humanas; mas a sua rota se dirigia às Três Pessoas Eternas e Unas no imenso Deus que recobrira com esta aparência.
Senhor, o meu corpo é genérico; e porque me crucificam?
Falava e pensava a sós como um louco.
A abundância de faces que se sucediam ininterruptamente sua cabeça criou a lenda de que ele era mágico; mas seu rosto permanecia absolutamente infantil; o rosto dos outros homens é que se moviam com premeditada desigualdade; muitos de seus companheiros se fantasiaram de anões para desapontá-lo; inúmeros se metamorfosearam em deuses secundários, em coisas estanques, em manequins, em pássaros empalados.
Pretenderam descobrir a sua tumba, e não conseguiram: ele às azes se declarava morto, porque a morte era apenas uma continuação.
Contudo, desenterraram milhares de retratos de sua vida contínua com todos os defuntos que cruzaram a sua órbita: ele se reviu e chorou diante dos documentos de sua consagração.
Através dos desfiladeiros solitários e largos, vagou com seus pensamentos frontais.
Várias sepulturas de reis tinham sido efetivamente executadas.
Quantos se enterraram prematuramente em companhia de demônios sórdidos?
Quantas efígies de soberanos estavam desfiguradas pelo orgulho?
Quantos tronos se encontravam povoados de insetos?
Era preciso dar sombra à água: ele estendeu as mãos.
A jusante do rio todos se dessedentaram.
Era preciso escavar a verdade: ele rompeu os dedos na rocha até encontrá-la.
Era preciso descer à terra: ele navegou pelo mar até os cais em que fuzilavam homens tidos como estrangeiros.
Era preciso ir à eternidade: ele já se encontrava nela.
Que nome mais antigo que o seu e da musa saída de si?
O horror ao espaço e à fragmentação obrigou-o a encher a planície de colunas com as insígnias de seus amigos e de operários que com ele trabalhavam.
Olhai atentamente os espelhos, que os vereis lá dentro.
E se vedes guerras, são sempre cenas bélicas contra grifos vigilantes ou sonâmbulos.
Entretanto, aparecem outros temas mais determinados: são as faces do Pai sob os mais vários signos; mas todas estas faces são uma, sob distribuição tripartite.
O inesperado ser luta pelos seus irmãos acossados e ama a magnitude do perigo.
As suas flechas já atravessam os corações superpostos de um pelotão de demônios.
E se nessa luta ele se declara morto, é que a morte lhe dá maior panorama da vida.
Ego dormivi, et soporatus sum: et exsurrexi, quia Dominus suscepit me.
Illumina oculos meos, me unquam obdormiam in morte; nequando dicat inimicus meus: Prevalui adversus eum.

2

Tu és, ó Mira-Celi, a repercutida e o laitmotivo
que aparece ao longo de meu poema.
Nele estás construída à semelhança de um imenso órgão
movimentado pelo meu espírito.
Cresces nele paralelamente a teu desenvolvimento físico,
mas incógnitamente, como uma órfã dentro da multidão.
Às vezes, quando dobras uma página, perguntas: – “Sou eu?”
Mas, olhando depois a paisagem mudar tanto, no espaço de um segundo,
encontras os teus membros na nudez de uma frase.
Nunca te libertarás deste parque em que nos encerramos,
fingindo dois desaparecidos,
e em que nos nutrimos um do outro contra as leis naturais.
Outras vezes te encolhes em mim, ó minha pequena maré;
e basta que eu abra as pálpebras e a minha memória te encontre,
para te recompores imediatamente
em minha maior dimensão.
As nossas respirações enchem o mundo,
achatam o mar,
agitam as palmas e os areais.
Pairamos em planos irrealizáveis à maioria das aves
com outra visão oculta em cada palavra.
Pouca gente encontrará a chave deste mistério.
E os olhos que perpassarem através de tantos poemas que não
findam e que se transformam de momento a momento,
não compreenderão o movimento perpétuo
em que nos perseguimos e nos superpomos.
Outras vezes ainda, as minhas mãos são um disfarce de ti,
escrevendo tua história ou me sustentando a face.
Ora pareces marcha nupcial; és, no espanto, elegia.
Ora és sacerdotisa, musa, louca, pastora ou apenas ave.
Dei-te diversos nomes, para que ninguém te acompanhe.
Anuncio que morreste, para que ninguém te convide.
Quase sempre te transformo, para te distribuir.
E, quando me resta uma única migalha, reconstituo-te como uma catedral
e alimento-te como uma criancinha.
Figuramos no mapa como um sol gêmeo que num perpétuo eclipse
desse a impressão de um só núcleo.
Gravidades estranhas nos atraem; sombras tutelares protegem
a nossa rotação, em que tudo são coincidências de duas asas num corpo.
Algum sacerdote antigo já nos tinha visto, por acaso, uma noite,
e morreu sem nos decifrar, pois não voltamos ainda
nem à primeira página, nem à primeira estrofe
do imenso e misterioso poema sempre por terminar.

3

Há necessidade de tua vinda, Mira-Celi:
Milhares de ventres virginais te esperam
através de séculos e séculos de insônia!
Basta de te entremostrares:
Nós já te pressentimos demais
em certos momentos de mistério
ou sob algumas aparências obscuras.
Há lábios entreabertos esperando:
São os meus irmãos,
a quem anunciei que tu virias.
Há palavras de fogo, semi-apagadas;
há janelas desertas, já fechadas;
há ausências inexplicáveis, gestos mortos;
há lagos estagnados sob grifos de luto.
Quando vieres, as árvores ôcas darão flores,
e teu esplendor acenderá pela noite dormente
os olhos entreabertos dos semblantes amados.

_________________

Fonte: LIMA, Jorge de. Obra poética. Edição completa, em um volume, org. Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro: Getulio Costa, 1950. p. 467-72.

MIRA-COELI


Anunciación de Mira-Coeli


Jorge de Lima

1

Aquel ser extraño empezó a desenrollar sus fajas, en las que estaba escrita la historia de la creación, pretérita y futura. Retiró su inmensa cabeza del interior de la torre, bajo el estruendo de las muradas que se derribaron con su gesto. La estrecha puerta se abrió, reverente, a su paso. El patio interior se ensanchó como un lago, y 1as eternas columnas que sustentaban las bóvedas, substituyeron a sus brazos y sus piernas. Mientras tanto, él continuaba inmerso la eternidad. En los bloques rectangulares de sus colosales órbitas estaban comprimidas innumeras generaciones. Era tan viejo, que se hallaba dentro de la muerte. Era tan joven, que inscribiera en su pecho de piedra el nombre de diversas mujeres. Dentro de los acueductos que irrigaban los jardines suspensos en sus frentes habían navegado muchos pueblos experimentados. Encontraron su carne tan áspera como su soledad. Habiendo seleccionado algunos seres, pudo expulsar varias reinas caídas en éxtasis ante su pórtico. Vino rodando de cualquier dinastía: el hálito abrasador del desierto aun corría sobre sus labios agrietados.
Aquel ser extraño tenía la tara humana; pero su camino se dirigía a las Tres Figuras Eternas y Unas en el inmenso Dios, que lo recubrió con esta apariencia.
–Señor, si mi cuerpo es genérico, ¿por qué me crucifican?
Hablaba y pensaba a solas, como un loco. Los innumerables rostros que se sucedían ininterrumpidamente en su cabeza crearon la leyenda de que era mágico; pero su rostro permanecía absolutamente infantil; eran los de los otros hombres los que se movían con premeditada desigualdad; muchos de sus compañeros se disfrazaban de enanos para desorientarlo, innúmeros se metamorfoseaban en dioses secundarios, en cosas quietas, en maniquíes, en pájaros, disecados. Pretendieron descubrir su tumba y no lo consiguieron; a veces, confesábase muerto, porque la muerte era apenas una continuación. A pesar de ello desenterraron millares de retratos de su vida infinita, con todos los difuntos que cruzaron su órbita; se vio de nuevo y lloró delante de los documentos de su consagración. A través de los desfiladeros solitarios y amplísimos, vagó con sus pensamientos frontales.
Varias sepulturas reales habían sido efectivamente construidas. ¿Cuántos se enterraron prematuramente en compañía de sórdidos demonios? ¿Cuántas efigies de soberanos estaban desfiguradas por el orgullo? ¿Cuántos tronos se encontraban poblados de insectos? Era preciso dar sombra al agua, y él extendió las manos. En la pendiente del río todos saciaron su sed. Era preciso excavar la verdad; rompió los dedos en la roca hasta encontrarla. Era preciso bajara la tierra; navegó por el mar hasta el muelle en donde fusilaban hombres considerados como extranjeros. Era preciso ir a la eternidad; ya se encontraba en ella.
¿Cuáles los nombres más antiguos que el suyo y el de la musa que salió de sí? El horror al espacio y a la fragmentación le obligó a llenar la planicie de columnas con las insignias de sus amigos y de los obreros que con él trabajan.
Mirad atentamente los espejos y os veréis allí dentro. Y si veis guerras, son siempre escenas bélicas contra grifos vigilantes o sonámbulos. Mientras tanto, aparecen otros temas más precisos; son los rostros del Padre bajo los más diversos signos; pero todos ellos son uno, bajo una distribución tripartita.
El inesperado ser lucha por sus hermanos acosados y ama la magnitud del peligro. Sus flechas ya atraviesan los corazones superpuestos de un pelotón de demonios. Y si en esa lucha él se declara difunto es porque la muerte le da un mayor panorama de la vida.
Ego dormivi, et soporatus sum: et exsurrexi, quia Dominus suscepit mea.
Illumina óculos meus, me umquam abdormiam in morte: nequando dicat inimicus meus: Pravalui adversus sum.

2

Tu eres, ¡oh, Mira-Coeli!, la resonancia y el epígono
que parece a lo largo de mi poema.
Estás en él construida a semejanza de un inmenso órgano
movido por mi espíritu.
Creces en él paralelamente a tu desenvolvimiento físico,
aunque desconocida, como una huérfana dentro de la multitud.
A veces, cuando doblas una página, preguntas: -¿Soy yo?
Y después, mirando el paisaje cambiar tanto en el espacio de un segundo,
encuentras tus miembros en la desnudez de una frase.
Nunca te libertarás de este parque en que nos encerramos,
fingiéndonos dos desaparecidos,
y en que nos nutrimos uno del otro contra las leyes naturales.
En otras, te encoges dentro de mí, ¡oh, mi pequeña marea!;
pero basta con que levante los párpados y mi memoria te encuentre,
para que te reconstruya inmediatamente
en mi mayor dimensión…
Nuestras respiraciones llenan el mundo,
achatan el mar,
agitan las palmeras y los arenales.
Fijamos el vuelo en planos irrealizables para la mayoría de las aves
con otra visión oculta en cada palabra.
Pocos mortales encontrarán la clave de este misterio.
Y los ojos que una y otra vez pasan a través de tantos poemas que no terminan
y que se transforman de momento a momento,
no comprenderán el movimiento perpetuo
en que nos perseguimos y nos superponemos.
Otras veces mis manos son un disfraz tuyo,
escribiendo tu historia o sustentándome el rostro.
Ora pareces marcha nupcial, y eres elegía;
ora, sacerdotisa, musa, loca, pastora o solamente ave.
Te di nombres diversos para que nadie te acompañe.
Anuncio que has muerto para que nadie te convide.
Casi siempre te transformo para distribuirte.
Y cuando apenas me resta una única migaja, te reconstruyo como una catedral,
y te alimento como a un recién nacido.
Figuramos en el mapa como dos soles gemelos que en un perpetuo eclipse
dan la impresión de un solo núcleo.
Extrañas gravitaciones nos atraen; sombras tutelares protegen
nuestra rotación, en que todo son coincidencias de dos alas en un cuerpo.
Algún sacerdote antiguo ya nos vio por acaso una noche,
y murió sin descifrarnos, pues aun no volvimos
ni a la primera página, ni a la primera estrofa
del inmenso y misterioso poema siempre inacabado.

3

Es preciso que vengas, Mira-Coeli:
millares de vientres virginales te esperan
a través de siglos y siglos de insomnio.
Basta con que te vislumbremos.
En ciertos instantes misteriosos, ya te presentimos,
o bajo algunas apariencias indecisas.
Hay labios entreabiertos esperándote:
son mis hermanos, a quienes anuncié tu llegada.
Hay palabras de fuego semiextintas
hay ventanas desiertas, ya cerradas,
hay ausencias inexplicables, gestos muertos,
hay lagos inmóviles bajo grifos enlutados.
Cuando llegues, Mira-Coeli, los árboles huecos darán flores,
y tu esplendor encenderá en la noche dormida
los ojos entreabiertos de los semblantes amados.

_____________

Fonte: LIMA, Jorge de. Mira-Coeli. Trad. de Jorge de Limana. Buenos Aires: Latino-Americana, 1950. p. 13-23.





Bio fornecida pelo palestrante.

A PATA DA GAZELA




Autor: José de Alencar
Título: A PATA DA GAZELA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

A PATA DA GAZELA

 

 

José de Alencar

 

I

 
Estava parada na Rua da Quitanda, próximo à da Assembléia, uma linda vitória, puxada por soberbos cavalos do Cabo.
Dentro do carro havia duas moças; uma delas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.
– Daqui aonde vamos? – perguntou a mais baixa, vestida de roxo claro.
– Ao escritório de papai: talvez ele queira vir conosco. Na volta passaremos pela Rua do Ouvidor, respondeu a mais esbelta, cujo talhe era desenhado por um roupão cinzento.
O vestido roxo debruçou-se de modo a olhar para fora, no sentido contrário àquele em que seguia o carro, enquanto o roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevera a nota de suas encomendas.
– O lacaio ficou-se de uma vez! – disse o vestido roxo com um movimento de impaciência.
– É verdade! – respondeu distraidamente a companheira.
Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam à espera do lacaio, mandado a algum ponto próximo. A impaciência da moça de vestido roxo era partilhada pelos fogosos cavalos, que dificilmente conseguia sofrear um cocheiro agaloado.
Depois de alguns momentos de espera, sobressaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais às almofadas, como para ocultar-se no fundo da carruagem, murmurou:
– Laura!… Laura!…
E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
– O que é, Amélia?
– Não vês? Aquele moço que está ali defronte nos olhando.
– Que tem isto? – disse Laura sorrindo.
– Não gosto! – replicou Amélia com um movimento de contrariedade. Há quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?
– Volta-lhe as costas!
– Vamos para diante.
– Como quiseres.
Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo a tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para contemplar a moça com admiração franca e apaixonada.
Simples no traje, e pouco favorecido a respeito de beleza; os dotes naturais que excitavam nesse moço alguma atenção eram uma vasta fronte meditativa e os grandes olhos pardos, cheios do brilho profundo e fosforescente que naquele momento derramavam pelo semblante de Amélia.
Havia minutos que, percorrendo a Rua da Quitanda em sentido oposto à direção do carro, avistara a moça recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se à ombreira de uma porta de escritório, esqueceu-se naquela ardente contemplação.
O coração é um solo. Vale onde brotam as paixões, como os outros vales da natureza inanimada, ele tem suas estações, suas quadras de aridez ou de seiva, de esterilidade ou de abundancia.
Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol produzem na terra uma fermentação, que forma o húmus; a semente, caindo aí, brota com rapidez. Depois das grandes dores e das lágrimas torrenciais, forma-se também no coração do homem um húmus poderoso, uma exuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que aí penetre, é semente de paixão, e pulula com vigor extremo.
O moço parecia estar nessas condições: ele trajava luto pesado, não somente nas roupas negras, como na cor macilenta das faces nuas, e na mágoa que lhe escurecia a fronte.
Notando Amélia a insistência do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquele olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma labareda oculta, incutia nela um desassossego íntimo. Agitava-se impaciente, como uma criatura no meio de um sono inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadelo.
Até que abriu o chapeuzinho-de-sol, para interceptar a contemplação apaixonada de que era objeto. Nesta ocasião, Laura, que freqüentemente se debruçava para ver quando vinha o lacaio, retraiu o corpo com vivacidade:
– Enfim; aí vem!
– Felizmente! – disse Amélia.
O lacaio aproximava-se a passos medidos; trazia na mão um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a oscilação dos objetos envoltos desfizera, obrigando o portador a apertá-lo de vez em quando.
Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo da carruagem, Amélia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:
– Vamos! Vamos!
Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o embrulho na caixa da vitória, rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada foi, para o criado, habituado a essa manobra, negócio de um instante. Não percebera ele, porém, que abrindo-se o papel com a corrida, um dos objetos nele contidos escorregara e, justamente na ocasião de deitar o embrulho na caixa do carro, caíra na calçada.
Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das mãos do lacaio, tivera um pressentimento do acidente, ao ver o papel desenrolado.
Fechando-o rapidamente e escondendo-o por baixo do assento da vitória, ela debruçou-se ainda uma vez para verificar se com efeito alguma coisa havia caído.
Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com estas palavras de contrariedade:
– Como ele manda isto! Por mais que se lhe recomende!
Laura nada viu, porque já a vitória rodava ligeiramente sobre os paralelepípedos.
Nesse momento, porém, dobrando a Rua da Assembléia, se aproximara um moço elegante não só no traje do melhor gosto, como na graça de sua pessoa: era sem dúvida um dos príncipes da moda, um dos leões da Rua do Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distinto que não tinha usurpado o título.
O mancebo viu casualmente o lacaio quando passara por ele correndo, e percebeu que um objeto caíra do embrulho. Naturalmente não se dignaria abaixar para apanhá-lo, nem mesmo deitar-lhe um olhar, se não visse aparecer ao lado da vitória o rosto de uma senhora, que o aspecto da carruagem indicava pertencer à melhor sociedade.
Então apressou-se, para ter ocasião de fazer uma fineza, e pretexto de conhecer a senhora, que lhe parecera bonita. Os leões são apaixonadíssimos de tais encontros; acham-lhes um sainete que destrói a monotonia das relações habituais.
Quando o moço ergueu-se com o objeto na mão, já o carro dobrava a Rua Sete de Setembro. Ficou ele um momento indeciso, olhando em torno, como se esperasse alguma informação a respeito da pessoa a quem pertencia o carro. Sem dúvida a senhora era conhecida em alguma loja de fazendas; talvez tivesse aí feito compras.
Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta que fizera a um caixeiro próximo, resolveu-se a meter o objeto no bolso e seguir seu caminho.
 

II

 
Horácio de Almeida, o nosso leão, voltou a casa à hora do costume, quatro da tarde.
Os sucessivos encontros da Rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a visita indispensável ao alfaiate; as anedotas do Alcázar na noite antecedente; a crônica anacreôntica do Rio de Janeiro, chistosamente comentada; algumas rajadas de maledicência, que é a pimenta social; todas essas ocupações importantes, que absorvem a vida do leão, distraíram Horácio a ponto de se esquecer ele do objeto guardado no bolso do paletó.
Como admitir que um príncipe da moda não aproveitasse a aventura do carro, para sobre ela bordar um romance de rua, com que excitasse a curiosidade dos amigos? Realmente é admirável; e seria incompreensível se não fosse a circunstancia de ter poucos passos adiante encontrado uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão arrastava… ia dizer a asa, mas isso seria anacronismo; dizia-se no tempo em que os leões se chamavam galos; hoje deve dizer-se arrastar a juba; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a asa é enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.
Foi só quando, encostado em sua otomana, descansava para o jantar, que Horácio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque, lembrou-se do objeto. Teve então curiosidade de examiná-lo: sabia o que era; na ocasião de apanhá-lo reconhecera o pé de uma botina de senhora; mas não fizera grande reparo.
Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, a sós em seu aposento, e despreocupado da idéia de o restituir, Horácio achou o objeto digno de séria atenção; e aproximando-se da janela, começou um exame consciencioso.
Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pelica e seda, a concha mimosa de uma pérola, a faceira irmã do lindo chapim de ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flor, sob a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e torquês.
Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva delicadeza da forma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na pelica os contornos do pezinho desconhecido. A botina fora servida, e muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua primitiva cor bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante uso.
Se fosse um calçado em folha, saído da loja, não teria grande valor aos olhos do nosso leão, habituado não só a ver, como a calçar, as obras primas de Millies e Campàs. Talvez reparando muito naquela peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no corte, e um apuro escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa mínima circunstancia.
Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste mimoso de alguma beleza, o gentil companheiro de uma moça formosa, de quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando o firme relevo do pezinho arqueado. Na sola se desenhava a curva graciosa da planta sutil, que só nas extremidades beijava o chão, como o silfo que frisa a superfície do lago com a ponta das asas.
Há um aroma, que só tem uma flor na terra, o aroma da mulher bonita: fragrancia voluptuosa que se exala ao mesmo tempo do corpo e da alma; perfume inebriante que penetra no coração como o amor volatilizado. A botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda, que se elevava como a corola de um lírio, derramava, como a flor, ondas suaves.
O mancebo colocara longe de si o charuto para não desvanecer com o fumo os bafejos daquele odor suave. Não havia aí o menor laivo de essência artificial preparada pela arte do perfumismo; era a pura exalação de uma cútis acetinada, esse hálito de saúde que perspira através da fina e macia tez, e como através das pétalas de uma rosa.
De repente uma idéia perpassou no espírito do moço, que o fez estremecer. Essa botina grácil, em que mal caberia sua mão aristocrática, essa botina mais mimosa do que sua luva de pelica, não podia ter um número maior do que o de seus anos, vinte e nove!
– Será de uma menina! – murmurou ele um tanto desconsolado.
Examinou novamente a obra-prima, voltou-a de todos os lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da concha, que servira de regaço ao feiticeiro pezinho. Depois de alguns instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o semblante de Horácio:
– É de moça, é de mulher! – murmurou ele. Aqui estão os sinais evidentes; não podem falhar. A fábula de Édipo é uma verdade eterna. no enigma da esfinge está realmente o mito da vida. O homem é o animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio-dia sobre dois; à tarde sobre três. Na infancia, a criatura, como a planta, conserva-se rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda a nutrição; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época da expansão, a criatura se lança para o espaço, exalta-se; é a árvore que hasteia e procura as nuvens; a planta pede ao céu os orvalhos e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se geram as flores, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que, depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé e calça esse coturno da mais triste das tragédias humanas, a decrepitude.
Horácio observou de novo atentamente o objeto que tinha entre as mãos.
– A menina de quinze anos já não é a corça de quatro patas; não está mais na alvorada da vida, na puerícia; também ainda não chegou ao meio-dia do qual aproxima-se. Contudo, seu andar conserva ainda aquela atração para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o quer que seja de sacudido, que revela os impulsos da alma para desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que ora se levanta, ora se submerge. Se esta botina fosse de uma menina, aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto cambado. É uma observação que todo sapateiro confirmaria: o menino gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a ignora, mas o filósofo a conhece: o menino é o inseto que rasteja, a larva; o homem é o inseto que voa, o besouro; aquele anda com o ventre, este com a asa.
Horácio sorriu.
– Esta botina é de moça; e moça em todo o viço da juventude: a sola apenas roçada junto à ponta, o salto quase intato, não estão descrevendo com a maior eloqüência a sutileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, como disse o poeta; a deusa, a Vênus deste Olimpo em que vivemos, a mulher. Só quando toda seiva se precipita para o coração, quando germinam os botões que mais tarde abrirão em flor, só nesse momento de assunção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o andar do passarinho que, roçando a relva, sente o impulso das asas; é o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do anjo que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céu; e é, finalmente, a elação d’alma que aspira de Deus os eflúvios do amor, do amor, único ambiente do coração!
Nisto o moço descobriu na fivela do laço da botina alguma coisa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se à luz, viu as voltas de um fio, que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de leão da moda. Com alguma paciência retirou um longo cabelo castanho e muito crespo.
– Outra prova de que aliás não carecia! Este cabelo é de mulher; não há menina que possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um arbusto! Tem o cabelo castanho e crespo, duas coisas lindas sem dúvida, embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de corvo. Esse negrume dá à mulher o quer que seja de satanico: lembra que ela também gerou se da terra; não é anjo somente; não é somente filha do céu. Eu não posso suportar a mulher-serafim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
Horácio voltou a botina.
– Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma cor insípida de cabelo!
Que me importa isto? Tenho alguma coisa com seu cabelo? O que amo nela é o pé: este pé silfo, este pé anjo, que me fascina, que me arrebata, que me enlouquece!…
Horácio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas tímida e respeitosamente. Não era essa a imagem do pé sedutor, que ele adorava como um ídolo?
– Mas onde encontrá-lo? como reconhecê-lo? – exclamou dolorosamente Horácio, sentindo a realidade da situação.
Nenhum indício que lhe revelasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A lembrança vaga de libré de um lacaio era o único vestígio que restava, mas com este dificilmente poderia descobrir o objeto de sua adoração Há tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquele que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse:
– Desgraçado! – dizia o leão. Quase nem o olhaste; mas podias tu adivinhar, Horácio, que tesouro deixara cair aquele bruto?
O mancebo inclinara ao peito a bela cabeça esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer dele, o leão mais querido das belezas fluminenses, o Átila do Cassino, o Genserico da Rua do Ouvidor. De repente ergueu-se dum ímpeto:
– Hei de possuí-lo!… exclamou ele com o tom com que Alexandre se prometeu o império da Ásia.
 

III

 
Ninguém imagina que belos talentos sorve essa voragem do mundo que chamam a vida elegante.
São como as árvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala estéril e efêmera. Nunca elas dão fruto, nem sequer flor.
Horácio de Almeida era uma de tantas inteligências desperdiçadas no incessante bulício da moda.
Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro não empregaram na fábrica de seus versos o aticismo[1], a inspiração e a graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava um epigrama.
Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, e do supremo gosto, que Horácio imprimia no laço de sua gravata, em suas maneiras distintas, nos mínimos acidentes de seu traje apurado.
E a fisiologia?
Poucos homens conheciam como Horácio o coração da mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sábio professor ficaria estupefato da lucidez admirável, com que o leão costumava ler nesse caos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.
A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observações alheias, e arranjou um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo, o indefinível.
Ao contrário, Horácio tinha estudado na realidade da vida; devassara os refolhos do pólipo, lhe sentira as pulsações, e fizera experiências in anima vili[2]. Não fatigou sua memória com a inútil bagagem dos termos técnicos e das noções científicas: lia os hieróglifos do amor com a linguagem garrida do homem da moda.
A perspicácia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de observação, com que o nosso leão sondava o abismo do coração e rastreava no semblante da mulher os vagos sintomas de uma inclinação nascente, ou de uma afeição expirante, só os grandes médicos possuem tão altos dotes.
Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu belo talento pelas salas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada inteligência, as ia ele esparzindo nas elegantes futilidades de um ócio tão laborioso, como é o far niente[3] de um leão.
Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado das horas sem ocupação; há nada mais difícil para o homem que ignora o trabalho?
Se o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no dia para dedicá-los a um fim sério e útil, à ciência, à literatura, à arte, que belos triunfos não obteria sua rica imaginação servida por um espírito cintilante?
Mas o nosso leão tinha a este respeito idéias excêntricas.
– A política, dizia ele, quando não dá em especulação, passa a mistificação. A ciência, se escapa de mania, torna-se uma gleba em que o sábio trabalha para o néscio. Literatura e arte são plágios; quem pode fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de reproduzi-los; nem contempla estátuas, quem lhes admira os modelos animados e palpitantes.
Com tais paradoxos, Horácio não achava emprego mais digno para a inteligência, do que a difícil ciência de consumir gradualmente a vida e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este vale de lágrimas, em que todos peregrinamos.
A mulher era para ele a obra suprema, o verbo da criação. Toda a religião como toda a felicidade, toda a ciência como toda a poesia, Deus a tinha encarnado nesse misto incompreensível do sublime e do torpe, do celeste e do satanico: amálgama de luz e cinzas, de lodo e néctar.
– Amar é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é estudar a lei da criação em seu mais profundo mistério, a mulher. Amar é admirar o belo em sua mais esplêndida revelação; é fazer poemas e estátuas como nunca as realizou o gênio humano.
Mas o que sentia Horácio era apenas o culto da forma, o fanatismo do prazer.O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mútua de duas almas; e essa, pode o homem iludir-se alguma vez, mas quando se realiza, é indissolúvel. Nada separa duas almas gêmeas que prende o vínculo de sua origem divina.
O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, ele procurava um tipo. Durante dez anos atravessara os salões, como uma galeria de estátuas animadas e vivos painéis, parando um instante em face dessas obras-primas da natureza.
Vieram uns após outros todos os tipos: a beleza ardente das regiões tépidas, ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e garboso ou as formas esbeltas e flexíveis.
Seu gosto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difícil. A beleza comum já não o satisfazia; era preciso a obra-prima para excitar-lhe a atenção e comovê-lo.
Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura caíram na monotonia.
Já o leão não sentia pela mais bela mulher aqueles entusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um crítico.
Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar, a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a princípio uma boca bonita, cofre de pérolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veio depois uma trança densa e negra, como a asa da procela que se inflama. Uma cintura de sílfide, um colo de cisne, um requebro sedutor, um sinal da face, uma graça especial, um não sei que: tudo recebeu culto do nosso leão.
Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua alma babujava na sala essas gulosinas. Mas afinal embotou-se; e o prazer não foi para ela mais do que a vulgar satisfação de um hábito.
O moço cortejava as senhoras como uma ocupação indispensável à sua vida, como o desempenho da tarefa diária; mas sem a menor comoção.
Amar era um entretenimento do espírito, como passear a cavalo, freqüentar o teatro, jogar uma partida de bilhar.
O amor já não tinha novidades nem segredos para ele, que o gozara em todas as formas; na comédia e no drama; no idílio e na ode. Como Richelieu, diziam até que ele já o havia calcado com o tacão da bota.
Nestas circunstancias bem se compreende a impressão profunda que nele produzia a mimosa botina, achada naquela manhã.
Almeida tinha admirado a mulher em todos os tipos e em todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a forma sedutora de um pezinho faceiro. Era realmente para surpreender. Como lhe passara despercebido esse condão mágico da mulher, a ele que julgava ter esgotado todas as emoções do amor?
Sucedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma enervada por longa apatia, a reação foi violenta. Inflamou-se a imaginação e especialmente com o toque do mistério que trazia a aventura. Se o dono da botina, o sonhado pezinho, se mostrasse desde logo, não produziria o mesmo efeito; não teria o sabor do desconhecido, que é irmão do proibido.
Imagine, quem conhecer o coração humano, a veemência dessa paixão, excitada pelo tédio do passado e alimentada por uma imaginação ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludíbrio de sua fantasia?
As extravagancias de Horácio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa existência, embotada para o verdadeiro amor e gasta pelo prazer.
Não se riam, homens sérios e graves, não zombem de semelhantes extravagancias; são elas o delírio da febre do materialismo que ataca o século.
Essa paixão de Horácio, o que é senão aberração da alma, consagrada ao culto da matéria? A voracidade insaciável do desejo vai criando dessas monstruosidades incompreensíveis.
Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que à embriaguez do álcool. A princípio basta-lhe o vinho fino e aristocrático; depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão do gengibre em rum, isto é, a larva de um vulcão preparada à guisa de grogue.
 

IV

 
Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então ocupava na Glória.
Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma.
Fosse ilusão dos sentidos perturbados pela comoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rápido olhar.
Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um obstáculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permitisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não sucedesse, consolava-o a idéia de conhecer a direção que tomaria a linda vitória.
– Se eu soubesse ao menos para que lado mora ela!… Esse ponto seria o meu horizonte, o meu céu. Me voltaria para ali quando adorasse a Deus e quando conversasse com ela. Amaria as estrelas, as nuvens e até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não era tanto a esperança de ver a moça, ou somente o carro, como a necessidade de ocupar seu espírito, o que o impelia nessa perseguição de uma sombra.
– Eu tornarei a vê-la, pensava ele consigo; e ela me há de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se resume nele; que a lei da atração não é senão a lei da simpatia; os pólos são a cabeça e o coração, na terra como no homem. Se ela for a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revelou à minha paixão, aquela a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ela, como ela para mim, impelidos por uma força misteriosa, por mútua aspiração.
Com o animo repousado por essa convicção que nele se derramara, entrou Leopoldo em casa. Aí o esperava o isolamento em que se ia escoando sua vida, depois da perda de uma irmã a quem adorava.
Nessa irmã tinha ele resumido todas as afeições da família, prematuramente arrebatada à sua ternura; o amor filial, que não tivera tempo de expandir-se, a amizade de um irmão, seu companheiro de infancia, todos esses sentimentos cortados em flor, ele os transportara para aquele ente querido, que era a imagem de sua mãe.
Essa perda deixara um vácuo imenso no coração de Leopoldo; a princípio enchera-o a dor, depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquele coração ermo. O mancebo carecia de uma afeição para povoar esse deserto de sua alma, de uma voz que repercutisse nesse lúgubre silêncio. É tão doce partilhar sua melancolia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dois ombros para a cruz, e dois peitos para a alegria; alivia-se o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cair da tarde, quando o crepúsculo já desdobrava sobre a cidade o véu de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado à janela de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolfados no azul diáfano do céu, onde cintilava a primeira estrela. A seus pés desdobrava-se a baía plácida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.
O espírito do moço não se embebia decerto na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada e sempre nova. Ao contrário, abandonava-se todo às recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e repassava em sua memória, como em um cadinho, todas as circunstancias mínimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desapareceu por último ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso o mesmo prazer que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados: lá ficou um raio de mel, que o lábio ávido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do espírito.
Houve uma ocasião em que o mancebo quis representar em sua lembrança a imagem da moça; naturalmente começou interrogando sua memória a respeito dos traços principais. Como era ela? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena?
Que cor tinham seus olhos?
A nenhuma dessas interrogações satisfez a memória; porque não recebera a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não obstante, a aparição encantadora ressurgia dentro de sua alma; ele a revia tal como se desenhara a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem diáfana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
– Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!… – murmurava no íntimo.
Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: vê-se a chama, o esplendor, e nem se repara no espectro que a flama envolve como uma roupagem.
Ela é minha luz; não sei a cor e a forma que tem, mas sei que cintila, que me deslumbra; que inunda meu ser de uma aurora celeste. Não poderia descrevê-la, como um poeta… Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu coração?
As pálpebras do mancebo cerraram-se coando apenas uma réstia de olhar, que se embebia nas alvas espirais da fumaça do charuto. Percebia-se que naquela névoa se debuxava à sua imaginação a sedutora imagem, diante da qual ele caía em êxtases de uma doçura inefável.
– Quem sabe? Talvez não seja ela o que nos bailes se chama uma moça bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu a amo!… O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! Vênus, a deusa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra coisa senão o mito da mulher amada, surgindo dentre as puras ilusões do coração! O que eu admiro nela, o que me enleva, é sua beleza celeste; é o anjo que transparece através do invólucro terrestre; é a alma pura e imaculada que se derrama de seus lábios em sorrisos, e a envolve como a cintilação de uma estrela.
Leopoldo já não estava só na existência; tinha para acompanhá-lo na esperança essa doce aparição, como para partilhar a saudade tinha a memória querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por algum vínculo misterioso; e criou assim uma família ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas ocupações habituais e cerrava sua alma para não deixar que as misérias do mundo aí penetrando profanassem o templo de sua adoração, o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas, encerrava-se naquele asilo e aí vivia.
Alguns dias depois do encontro da Rua da Quitanda, o Castro percorrendo distraidamente os jornais da manhã, deu com os olhos sobre os anúncios de espetáculo, coisa que desde muito tempo não existia para ele. Representava-se no Teatro Lírico a Lúcia de Lamermoor, o mais sublime poema de melancolia, que já se escreveu na língua dos anjos.
O mancebo teve um desejo irresistível de ir aquela noite ao espetáculo, apesar de conservar ainda o luto pesado. Não compreendia esse capricho de seu coração; atribuiu-o ao encanto das reminiscências daquela música tão triste, e também daquele amor tão estremecido, que os homens quiseram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no túmulo. Ele ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, profanação de uma dor santa.
Eram perto de dez horas; cantava-se o final do segundo ato da ópera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote de segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua pupila iluminou-se de fogos sombrios e ardentes.Vira a mulher amada.
Amélia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração, a mulher bela tem, como o homem de inteligência, em certos momentos influições enérgicas de poesia; nessas ocasiões ambos irradiam- a mulher fica esplêndida, o homem sublime.
O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nívea transparência de um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a fronte o diadema de suas belas tranças, donde resvalavam dois cachos soberbos, que brincavam sobre o colo. Os cabeleireiros chamam esses cachos de arrependimentos, repentires[4]. Por que motivo? A alma que se arrepende envolve-se daquela forma; o pesar a confrange. Já se vê que os cabeleireiros também são poetas.
Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos maciços de suas formas gentis, o que arrebatou o espírito do mancebo. Ele só viu a luz, o brilho d’alma, rorejando do sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nela, sem contar-lhe as pétalas.
Amélia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de veludo da balaustrada, prestava atenção à cena, recolhendo às vezes a vista para discorrê-la vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o pano caiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãe e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e deixou cair sobre a platéia um olhar súbito e vivo. Foi uma centelha elétrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visível incômodo. Quis disfarçar, mas afinal ergueu-se, para ocultar-se no interior do camarote, por detrás de Laura, a qual ocupava o outro lugar da frente.
 
 
Fonte: A pata da gazela. 15a edição. São Paulo, Ática, 1998. (Série Bom livro).





Bio fornecida pelo palestrante.

GUERRA DOS MASCATES




Autor: José de Alencar
Título: Guerra dos Mascates
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 28/12/2004

GUERRA DOS MASCATES

Capítulo I

A janelinha rebuçada do sótão da casa nova do Perereca

 

José de Alencar

A tarde do dia 1 de outubr

o de 1710 não teve coisa de maior.

Foi uma tarde como qualquer, em fazendo bom tempo. O sol tinha cara dos mais dias, aí pela volta das quatro horas que seriam então; nada mais, a não ser uma carapuça de algodão que lá as nuvens haviam encasquetado na cabeça do astro para guardá-lo de constipar-se com o relento.

E o mais é que assim encarapuçado, Febo, como ainda o chamavam então os poetas e os namorados, fazia a figura de um Xerxes trajado à moda do rei constitucional, de casaca e chapéu redondo.

O céu estava azul mais ou menos; o mar pelo mesmo teor; levanta-se a viração, e as árvores tinham o verde do costume, misturando com alguns ramos secos e fôlhas murchas. Também deviam de cantar pelos arredores alguns passarinhos; não falando das flôres que sem dúvida estrelavam o campo.

Agora, se era de cetim o manto do firmamento, e de safira a redoma do oceano, se as auras suspiravam amores nos seios das boninas, e arrulhavam saudades as rôlas melancólicas, enquanto as açucenas abriam as suas caçoulas cheias de perfumes, não sei eu: que não o diz a crônica.

Mas por isso não haja queixa. Tome cada um de sêdas, pedrarias, endechas, e fragrâncias, quanta porção queira, e vá enfeitando e arrebicando a minha descrição a seu gôsto. Eu cá prefiro a simplicidade, que é o mais cômodo de todos os estilos; basta ver que forra-se a gente ao trabalho de fantasiar, e deixar isso ao leitor.

Há nada como aquêle modo chão de principiar as histórias da carocha:- Foi um dia… E cada um que imagine o tal à sua feição, de inverno ou de verão, de outono a primavera, como lhe saiba melhor.

Pois era uma tarde… e a janela do sótão, na casa do Perereca, abria manso e manso fazendo uma festa, onde se mostrou a mêdo a ponta arrebitada do mais lindo narizinho retorcido de que há notícia desde Aglaia, a qual o tinha de primor, valha a fábula, como a graça que era do chiste e da malícia, donde veio chamarem-na os gregos de esplêndida.

Agora vejo que não se conhece ainda a casa, nem o lugar em que estava situada, sem falar de outras particularidades, que não deixam de ser curiosas, com especialidade o dono; pois, e não digo novidade, se em geral os prédios são coisa de seu proprietário, também donos há que são acessórios de sua casa.

Estamos em Recife.

Andando a rua da Praia dos Coqueiros, no bairro de Santo Antônio, quem ia naquele tempo do Colégio para as bandas das Cinco Pontas, quase a meio do caminho encontrava um vasto edifício que ficava fronteiro à barra; ainda a rua da Maré com sua casaria não se tinha prolongado até aquêle ponto da ribeira.

Larga e baixa, a casa terreira acaçapava-se entre o arvoredo do quintal que a beirava de um e outro lado; mas dava logo nas vistas pela especialidade da pintura extravagante com que a haviam lambuzado, pois outra qualificação não quadraria à incrível borradela.

Tinha cerca de quatro anos o edifício. Acabada nêle a obra de pedreiro e carapina, quando se teve de passar ao artigo pintura, vieram as tribulações para o dono, o digno Sr. Simão Ribas, mascate de pêso e marca entre os principais do Recife.

Não sei se já aí por essa monarquia doméstica tinham inventado o govêrno pessoal, e usavam as calças responsáveis meterem-se por baixo da saia inviolável. Cá, no meu alfarrábio, só vejo que houve muita resinga e alteração, acabando o batibarba ou questão de alcova, como de costume, com o triunfo completo da trunfa, que era então, como o coque é hoje, a coroa doméstica.

Sabidas as contas, decidira a Sra. Rufina Ribas que a fachada fôsse de uma côr farfante e para ver-se a léguas, lá do alto mar. Antes de surdir o navio pelo Lameirão, a dentro, queria a respeitável matrona que sua casa entrasse pelas vistas da gente que vinha da santa terrinha.

Nem por sombras ocorreu ao marido a idéia de opor-se à vontade de sua dona. Era um marido constitucional o Sr. Simão Ribas; e não há aí ministro cortesão, a que êle não levasse as lampas na arte insigne de fundir-se, como cêra, em figurinhas moldadas ao capricho mulheril. Não foram, pois assomos da resistência que perturbaram a paz doméstica; ao inverso, proveio tudo de excessos de zêlo e obediência.

Chamado a conselho o exímio borrador a fim de dar alvitre sôbre o caso, foi de voto que não havia como o zarcão, para fazer o gôsto à Sra. Rufina. Dito e feito: no dia seguinte amanheceu a parede assanhada com uma crosta do mais coruscante vermelho.

Muito ancho de si, o digno mascate já se regozijava ao agrado da querida metade, quando lhe veio ela deitar água na fervura. Esguelhando à parede um olhar impertinente, espevitou o nariz, torceu o beiço, e deu um muxôxo, que eriçou os cabelos ao marido.

Barulho no caso; nôvo apêlo ao borrador que guisou a combinação do verdete com o zarcão; e assim, de resinga em resinga, chegou-se àquele espalhafato de tôdas as côres, onde o azul brigava com o encarnado, o verde com o vermelho, e o roxo-terra com o amarelo oca. Era coisa indescritível, que o prospecto de algumas tabernas de hoje ainda não conseguiu imitar.

Nos primeiros dias estêve a casa de mostra aos basbaques e pascácios, que por lá iam, para se pasmarem diante daquela maravilha. Por um mês não se falou no Recife doutra coisa; até que um dia apareceu lá pela manhã escrito a carvão, na frente, êste dístico maligno- Perereca.

Lavou-se da parede a tisna, mas a alcunha ficou aí fisgada à casa, como se a tivessem gravado em bronze, Fôra o brejeiro de um rapaz que, voltando à ave-maria da escola e ouvindo cantar a rã numa touça de bananeiras, lembrou-se da semelhança que tinha com a frente da casa, e escreveu-lhe o nome na parede. Ao outro dia, antes que apagassem as letras, sucedeu passarem aí um frade, uma comadre e um soldado. Leu o franciscano em voz alta, se julgando a sós, e riu-se; ouviram-no os dois e atinaram com a graça.

Tanto bastou para que ao meio-dia se soubesse em todo o Recife do acontecimento; e, pelo plebiscito do motejo unânime, a casa sarapintada ficou sendo conhecida pelo nome expressivo de Casa do Perereca.

Cobria o edifício um telhado de altas abas e alto cocuruto, que lançava em cada quina uma ponta de barro com pretensões a figura de marreca. Nas duas faces laterais erguiam-se as águas furtadas do sótão, que rasgava duas janelas, uma para cada banda.

Na janela da direita, que durante o dia estava aberta sempre, de costume estendiam um cordel passado de uma à outra ombreira certa de chita de ramagens, que ao sôpro do vento desfraldava-se à guisa de estandarte. Quem tinha a dita de conhecer a Sra. Rufina Ribas, acertando de passar por aquêles sítios e dando com o espantalho da tal coberta, adivinhava logo que era da garrida matrona essa janela.

Tinha outro ar e outros modos a janela da esquerda. Começava logo por uma latada que lhe haviam armado em volta, e lhe servia como capuz, com ramadas do maracujázeiro entrelaçadas pelos escaques do caramanchel. Dava-lhe isso, à tal janelinha, uns biocos de freira, mas de freira môça e bonita, que lá do remanso do claustro enfia pela grade uma olhadela curiosa e ávida do burburinho do mundo.

Outra diferença vinha de estarem as adufas da direita sempre cerradas, em horas soalheiras; nisso pareciam-se com o cálice de certas flôres e com os cílios da juriti, que fecham-se pela muita luz e só abrem ao doce toque do crepúsculo. Todavia não eram elas tão recatadas do sol, que não se descerrassem lá uma ou outra vez, na calma do dia, sobretudo aos domingos, para deixar que entrasse algum raio fagueiro pela câmara do sótão.

No estreito eirado, rente com o peitoral, havia três vasos de barro onde cresciam várias plantas. A mão que reunira aí o alvo bogarim, a rubra cravina, o goivo amarelo e os bagos escarlates da pimenta êsse conjunto singular lhe estava denunciado a travessura. Se é verdade, e eu creio, que a alma imprime nos objetos que a cercam a sua própria feição, podia-se ver naquele grupo de plantas o enigma de um oração.

Não seria o alvo bogarim o reflexo da candidez, como as pétalas da cravina a imagem dos vivos rubores de uma petulante castidade? O goivo, ali na mansão da juventude, não exprimia a descuidosa alegria, que orvalha de risos até as horas aziagas? E naqueles bagos vermelhos e brilhantes de pimenta, não havia quiçá o emblema das unhas de nácar habituadas a insinuar no afago o belisco traiçoeiro?

Afinal de contas, quem sabe se apesar de tôdas as suas mostras encantadoras não estava a tal sonsa da janelinha enganando a gente quem passava, como certas môças do tempo de hoje, cujo fraco é porem-se às avessas; quero eu dizer, e sem malícia, que se empenham com todas as fôrças para fazerem-se outras, das que criou a natureza.

Assim tosquia-se, para fazer cachos, aquela que Deus ornou com a túnica mais bela, que é uma soberba madeixa. Se não a possuísse, havia de esmagar a cabeça com uma trouxa enorme de cabelos postiços. Estufa-se a magra com enchimentos para simular contornos, como a gorda se espartilha e acocha para figurar de esbelta. E nesse teor, enganando-se a si e aos outros, vai o mundo a rolar como uma bola que é, levantando êstes e abaixando aquêles, mas por fim esmoendo a todos.

Eis porque não seria caso de espantar, se naquela janelinha tão louçã viesse a aparecer uma velha encarquilhada, descobrindo-se afinal que o nosso narizinho retorcido não respeitável par de óculos de tartaruga.

Tudo pode ser.

Fonte: Alencar, José de. Guerra dos Mascates. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1969.





Bio fornecida pelo palestrante.

IRACEMA, o mel-LIPS




Autor: José de Alencar
Título: Iracema, Iracema, os lábios de mel-
Idiomas: eng
tradutor: Isabel Burton (eng)
Dados: 28/12/2004

IRACEMA, o mel-LIPS

CAPÍTULO 1

José de Alencar

Selvagens verdes mares da minha terra natal, onde canta a Jandaia-pássaro nas folhas das palmeiras! Carnaúba-
mares verdes que brilham como líquida esmeralda aos raios do sol oriente, como vós esticar ao longo das praias de neve sombreados pelo cacau árvore!
Aquietai-vos, ó mares verdes! e alisar suavemente a onda impetuosa, que barca venturesome pode deslizar suavemente sobre teus águas.
Onde diz que Hardy Jangada-jangada, que voa rapidamente do litoral cearense, com seu amplo vela se espalhar para a brisa fresca de terra?
Onde vai, ? como o halcy branco em busca de sua rocha nativa na solidão do oceano
Três seres assopra sobre essa prancha frágil, que Scuds tão rapidamente para fora -. longe em mar aberto
Um guerreiro da juventude, cuja pele pálida prenuncia que o sangue dos índios não colorir suas veias;. uma criança, e um mastiff, que tanto vi pela primeira vez a luz no berço das florestas, e que esporte como irmãos, filhos da mesma terra selvagem
As respirações intermitentes do bafo praia um eco que, levantando-se acima da ondulação das ondas, soa por diante –
“Iracema” ***
O jovem guerreiro, aprender contra o mastro, levanta os olhos, que são fixados sobre o contorno fugaz da costa sombria. De tempos em tempos a visão torna-se fraca, e uma lágrima cai sobre o Girão-banco onde brincam os dois inocentes, os companheiros do seu infortúnio.
Nesses momentos sua alma voa para os lábios em um sorriso amargo.
que deixaram ele naquela terra ? do exílio
Um conto que me disseram nas belas planícies que vi o meu nascimento, durante o silêncio da noite, enquanto a lua, navegando pelos céus, prateado nas pradarias, enquanto a brisa murmurou em meio às palmeiras.
Os refresca vento.
O surf rola em ondas mais altas. A barca salta sobre as ondas – desaparece no horizonte. Plano bocejos o desperdício de água. As ninhadas tempestade, condor-like, com asas escuras sobre o abismo.
Deus te guarde segura, barca forte, no meio das ondas de ebulição! Deus te dirigir a alguma reentrância amigável! Que a brisa suave lufada de ti e para ti pode mares calmos jasper ser como planícies de leite!
Mas enquanto tu sailest assim à mercê dos ventos, barque graciosa, waft volta à praia de areia branca que alguns do anseio que te acompanha, mas que não pode deixar a terra em que ele retorna.

NOTAS

Jandaia é um pequeno amarelo, vermelho, verde e falando parroquet.
Carnaúba, uma palmeira brasileira conhecida de grande porte, com muitos galhos espinhosos todo o caminho até o tronco, em vez de ser simples e suave. Cada ramo da ponta é como um fã-palm. Quando o novo, ele tem uma grande fruta, cheia de óleo, que é dado a porcos e bovinos. Quando cresceu, seus fãs de folhas secas, thateh as casas e fazer chapéus e tapetes; seus ramos espinhosos são usados ??para apostas, mas também tem um delicioso pequena fruta preta, e de outras partes extraem cera para fazer as velas Carnaúba .
. Jangada, uma jangada
Girão, uma espécie de rudes banco para sentar-se em cima da jangada Jangada.
Saudade, na saudade originais – uma palavra em Português intraduzível para o qual não temos equivalente, o que significa um triste lamento suave para alguma pessoa, lugar ou tempo feliz e perdeu passado – na verdade, o desiderium Latina.

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Fonte: ALENCAR, José de. Iracema, o mel-lábios. Traduzido com permissão do autor por Isabel Burton. Londres, Bickers & Son, 1886. p. 1, 2.

IRACEMA

1

José de Alencar

Verdes Mares Bravios de minha terra natal, Onde canta a jandaia NAS frondes da carnaúba;
Verdes Mares, Que brilhais Como LIQUIDA esmeralda Aos Raios do Sol nascente, perlongando tão alvas Praias ensombradas de coqueiros;
Serenai, Verdes Mares, e alisai docemente a vaga impetuosa , parágrafo QUE O Barco aventureiro manso resvale à flor das Águas.
Onde Vai a afouta jangada, Que Deixa Rápida a costa cearense, Aberta Ao ar livre Terral de e grandioso Vela?
ONDE VAI COMO Branca Alcione Buscando Ø Rochedo pátrio da nas solidões do Oceano?
Entes Três respiram sobre o Frágil lenho Que Vai singrando veloce, mar los fóruns.
Um Jovem guerreiro cuja tez branca Localidade: Não cora o Sangue americano; UMA Criança e hum rafeiro Que viram a luz não Berço das Florestas, e brincam Irmãos, Filhos Ambos da MESMA terra Selvagem .
Uma lufada intermitente Traz da praia hum eco vibrante, Que ressoa Entre o Marulho das vagas:
! – Iracema
O moço guerreiro, encostado AO mastro, lev OS Olhos Presos na sombra fugitiva da terra; uma Espaços O Olhar empanado POR tênue lágrima cai sobre o jirau, Onde folgam como Duas inocentes Criaturas, companheiras de Seu infortunio.
Nesse Momento o labio arranca d’alma hum agro sorriso.
Que deixara elemento na Terra do exílio?
Uma História Que me contaram NAS lindas várzeas Onde nasci, à calada da Noite , when a Lua passeava no Céu argenteando OS campos, a EA Brisa rugitava soe palmares.
Refresca o vento.
Ó rulo das vagas precipitação. O barco salta sobre como Ondas e desaparece no horizonte. Abre-se, uma imensidade dos Mares; ea borrasca enverga, Como o condor, como foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, POR ENTRE COMO vagas Revoltas, e te Poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti como brandas auras, e para ti jaspeie um Bonança mares de leite!
Enquanto vogas ASSIM à discrição do vento, airoso barco, volva Areias Brancas como a saudade, Que te Acompanha, mas Localidade: Não se Parte da terra Onde revoa.

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Fonte: ALENCAR, José de. Iracema: Lenda do Ceará. 27 ª ed. Rio de Janeiro, Ediouro, 1995. p. 20.





Bio fornecida pelo palestrante.

LUCÍOLA




Autor: José de Alencar
Título: Lucíola
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 28/12/2004

LUCÍOLA

I

José de Alencar

A senhora estranhou, na última vez que estivemos juntos, a minha excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagâncias.
Quis responder-lhe imediatamente, tanto é o apreço em que tenho o tato sutil e esquisito da mulher superior para julgar de uma questão de sentimento. Não o fiz, porque vi sentada no sofá, do outro lado do salão, sua neta, gentil menina de 16 anos, flor cândida e suave, que mal desabrocha à sombra materna. Embora não pudesse ouvir-nos, a minha história seria uma profanação na atmosfera que ela purificava com os perfumes da sua inocência; e– quem sabe ?– talvez por ignora repercussão o melindre de seu pudor se arrufasse unicamente com os palpites de emoções que iam acordar em minha alma.
Receei também que a palavra viva, rápida e impressionável não pudesse, como a pena calma e refletida, perscrutar os mistérios que desejava desvendar-lhe, sem romper alguns fios da tênue gaza com que a fina educação envolve certas idéias, como envolve a moda em rendas e tecidos diáfanos os mais sedutores encantos da mulher. Vê-se tudo; mas furta-se aos olhos a indecente nudez.
Calando-me naquela ocasião, prometi dar-lhe a razão que a senhora exigia; e cumpro o meu propósito mais cedo do que pensava. Trouxe no desejo de agradar-lhe a inspiração; e achei voltando a insônia de recordações que despertara a nossa conversa. Escrevi as páginas que lhe envio, as quais a senhora dará um título e o destino que merecerem. É um perfil de mulher apenas esboçado.
Desculpe, se alguma vez a fizer corar sob os seus cabelos brancos, pura e santa coroa de uma virtude que eu respeito. O rubor vexa em face de um homem; mas em face do papel, muda e impassível testemunha, ele deve ser para aquelas que já imolaram à velhice os últimos desejos, uma como essência de gozos extintos, ou extremo perfume que deixam nos espinhos as desfolhadas rosas.
De resto, a senhora sabe que não é possível pintar sem que a luz projete claros e escuros. As sombras do meu quadro se esfumam traços carregados, contrastam debuxando o relevo colorido de límpidos contornos.

II

A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855.
Poucos dias depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, o Dr. Sá, levou-me à festa da Glória; uma das poucas festas populares da corte. Conforme o costume, a grande romaria desfilando pela Rua da Lapa e ao longo do cais, serpejava nas faldas do outeiro e apinhava-se em torno da poética ermida, cujo âmbito regurgitava com a multidão do povo.
Era ave-maria quando chegamos ao adro; perdida a esperança de romper a mole de gente que murava cada uma das portas da igreja, nos resignamos a gozar da fresca viração que vinha do mar, contemplando o delicioso panorama da baia e admirando ou criticando as devotas que também tinham chegado tarde e pareciam satisfeitas com a exibição de seus adornos.
Enquanto Sá era disputado pelos numerosos amigos e conhecidos, gozava eu da minha tranqüila e independente obscuridade, sentado comodamente sobre a pequena muralha e resolvido a estabelecer ali o meu observatório. Para um provinciano recém-chegado à corte, que melhor festa do que ver passar-lhe pelos olhos, à doce luz da tarde, uma parte da população desta grande cidade, com os seus vários matizes e infinitas gradações?
Todas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro; todas as posições, desde as ilustrações da política, da fortuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido; todas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente, todos os tipos grotescos da sociedade brasileira, desde a arrogante nulidade até a vil lisonja, desfilaram em face de mim, roçando a seda e a casimira pela baeta ou pelo algodão, misturando os perfumes delicados às impuras exalações, o fumo aromático do havana as acres baforadas do cigarro de palha.
— É uma festa filosófica essa festa da Glória! Aprendi mais naquela meia hora de observação do que nos cinco anos que acabava de esperdiçar em Olinda com uma prodigalidade verdadeiramente brasileira.
A lua vinha assomando pelo cimo das montanhas fronteiras; descobri nessa ocasião, a alguns passos de mim, uma linda moça, que parara um instante para contemplar no horizonte as nuvens brancas esgarçadas sobre o céu azul e estrelado. Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância. O vestido que o moldava era cinzento com orlas de veludo castanho e dava esquisito realce a um desses rostos suaves, puros e diáfanos, que parecem vão desfazer-se ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada. Ressumbrava na sua muda contemplação doce melancolia e não sei que laivos de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e sereno na mimosa aparição.
— Já vi esta moça! disse comigo. Mas onde?…
Ela pouco demorou-se na sua graciosa imobilidade e continuou lentamente o passeio interrompido. Meu companheiro cumprimentou-a com um gesto familiar; eu, com respeitosa cortesia, que me foi retribuída por uma imperceptível inclinação da fronte.
— Quem é esta senhora? perguntei a Sá.
A resposta foi o sorriso inexprimível, mistura de sarcasmo, de bonomia e fatuidade, que desperta nos elegantes da corte a ignorância de um amigo, profano na difícil ciência das banalidades sociais.
— Não é uma senhora, Paulo! É uma mulher bonita. Queres conhecê-la ?. . .
Compreendi e corei de minha simplicidade provinciana, que confundira a máscara hipócrita do vício com o modesto recato da inocência. Só então notei que aquela moça estava só, e que a ausência de um pai, de um marido, ou de um irmão, devia-me ter feito suspeitar a verdade.
Depois de algumas voltas descobrimos ao longe a ondulação do seu vestido, e fomos encontrá-la, retirada a um canto, distribuindo algumas pequenas moedas de prata à multidão de pobres que a cercava. Voltou-se confusa ouvindo Sá pronunciar o seu nome:
— Lúcia!
— Não há modos de livrar-se uma pessoa desta gente! São de uma impertinência! disse ela mostrando os pobres e esquivando-se aos seus agradecimentos.
Feita a apresentação no tom desdenhoso e altivo com que um moço distinto se dirige a essas sultanas do ouro, e trocadas algumas palavras triviais, meu amigo perguntou-lhe:
— Vieste só?
— Em corpo e alma.
— E não tens companhia para a volta?
Ela fez um gesto negativo.
— Neste caso ofereço-te a minha, ou antes a nossa.
— Em qualquer outra ocasião aceitaria com muito prazer; hoje não posso.
— Já vejo que não foste franca!
— Não acredita?. .. Se eu viesse por passeio!
— E qual é o outro motivo que te pode trazer à festa da Glória?
— A senhora veio talvez por devoção? disse eu.
— A Lúcia devota!. . . Bem se vê que a não conheces.
— Um dia no ano não é muito’ respondeu ela sorrindo.
— É sempre alguma coisa, repliquei.
Sá insistiu:
— Deixa-te disso; vem conosco.
— O senhor sabe que não é preciso rogar-me quando se trata de me divertir. Amanhã, qualquer dia, estou pronta. Esta noite, não!
— Decididamente há alguém que te espera.
— Ora! Faço mistério disto?
— Não é teu costume decerto.
— Portanto tenho o direito de ser acreditada. As aparências enganam tantas vezes! Não é verdade? disse voltando-se para mim com um sorriso.
— Não me lembra o que lhe respondi; alguma palavra que nada exprimia, dessas que se pronunciam às vezes para ter o ar de dizer alguma coisa. Quanto a Lúcia, fazendo-nos um ligeiro aceno com o leque, aproveitou uma aberta da multidão e penetrou no interior da igreja, em risco de ser esmagada pelo povo.
Não preciso dizer-lhe, pois adivinha, que acabava de fazer uma triste figura. Não sou tímido; ao contrário peco por desembaraçado. Mas nessa ocasião diversas circunstâncias me tiravam do meu natural. A expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelavam a cortesã franca e impudente o contraste inexplicável da palavra e da fisionomia, junto à vaga reminiscência do meu espírito, me preocupavam sem querer. Atribuo a isto ter eu apenas balbuciado algumas palavras durante a conversa, e haver cortejado respeitosamente a senhora, que apesar de tudo ainda me aparecia nesta mulher, mal a voz lhe expirava nos lábios, porque, então, o desdém que vertia de sua frase volúbil passava, e o semblante em repouso tomava uns ares de meiga distinção.
A festa continuou, e fomos acabá-la em uma alegre reunião, onde se dançou e brincou até duas horas da noite.
Quando apaguei a minha vela ao deitar-me, na dúbia visão que oscila entre o sono e a vigília, foi que desenhou-se no meu espírito em viva cor a reminiscência que despertara em mim o encontro de Lúcia. Lembrei-me então perfeitamente quando e como a vira a primeira vez.
Fora no dia da minha chegada. Jantara com um companheiro de viagem, e ávidos ambos de conhecer a corte, saímos de braço dado a percorrer a cidade. Íamos, se não me engano, pela Rua das Mangueiras, quando, voltando-nos, vimos um carro elegante que levavam a trote largo dois fogosos cavalos. Uma encantadora menina, sentada ao lado de uma senhora idosa, se recostava preguiçosamente sobre o macio estofo, e deixava pender pela cobertura derreada do carro a mão que brincava com um leque de penas escarlates. Havia nessa atitude cheia de abandono muita graça; mas graça simples, correta e harmoniosa; não desgarro com ares altivos decididos, que afetam certas mulheres à moda.
No momento em que passava o carro diante de nós, vendo o perfil suave e delicado que iluminava a aurora de um sorriso raiando apenas no lábio mimoso, e a fronte límpida que à sombra dos cabelos negros brilhava de viço e juventude, não me pude conter de admiração.
Acabava de desembarcar; durante dez dias de viagem tinha-me saturado da poesia do mar, que vive de espuma, de nuvens e de estrelas; povoara a solidão profunda do oceano, naquelas compridas noites veladas ao relento, de sonhos dourados e risonhas esperanças; sentia enfim a sede da vida em flor que desabrocha aos toques de uma imaginação de vinte anos, sob o céu azul da corte.
Recebi pois essa primeira impressão com verdadeiro entusiasmo, e a minha voz habituada às fortes vibrações nas conversas à tolda do vapor, quando zunia pelas enxárcias a fresca viração, minha voz excedeu-se:
— Que linda menina! exclamei para meu companheiro, que também admirava. Como deve ser pura a alma que mora naquele rosto mimoso!
Um embaraço imprevisto, causado por duas gôndolas, tinha feito parar o carro. A moça ouvia-me; voltou ligeiramente a cabeça para olhar-me, e sorriu. Qual é a mulher bonita que não sorri a um elogio espontâneo e a um grito ingênuo de admiração’ Se não sorri nos lábios, sorri no coração.
Durante que se desimpedia o caminho, tínhamos parado para melhor admirá-la; e então ainda mais notei a serenidade de seu olhar que nos procurava com ingênua curiosidade, sem provocação e sem vaidade. O carro partiu; porém tão de repente e com tal ímpeto dos cavalos por algum tempo sofreados, que a moça assustou-se e deixou cair o leque. Apressei-me, e tive o prazer de o restituir inteiro.
Na ocasião de entregar o leque apertei-lhe a ponta dos dedos presos na lava de pelica. Bem vê que tive razão assegurando-lhe que não sou tímido. A minha afoiteza a fez corar; agradeceu-me com um segundo sorriso e uma ligeira inclinação da cabeça; mas o sorriso desta vez foi tão melancólico, que me fez dizer ao meu companheiro:
— Esta moça não é feliz!
— Não sei; mas o homem a quem ela amar deve ser bem feliz!
Nunca lhe sucedeu, passeando em nossos campos, admirar alguma das brilhantes parasitas que pendem dos ramos das árvores, abrindo ao sol a rubra corola? E quando ao colher a linda flor, em vez da suave fragrância que esperava, sentiu o cheiro repulsivo de torpe inseto que nela dormiu, não a atirou com desprezo para longe de si?
É o que se passava em mim quando essas primeiras recordações roçaram a face da Lúcia que eu encontrara na Glória. Voltei-me no leito para fugir à sua imagem, e dormi.

III

A corte tem mil seduções que arrebatam um provinciano aos seus hábitos, e o atordoam e preocupam tanto, que só ao cabo de algum tempo o restituem à posse de si mesmo e ao livre uso de sua pessoa.
Assim me aconteceu. Reuniões, teatros, apresentações às notabilidades políticas, literárias e financeiras de um e outro sexo; passeios aos arrabaldes; visitas de cerimônia e jantares obrigados; tudo isto encheu o primeiro mês de minha estada no Rio de Janeiro. Depois desse tributo pago à novidade, conquistei os foros de cortesão e o direito de aborrecer-me à vontade.
Uma bela manhã, pois, estava na crítica posição de um homem que não sabe o que fazer. Li os anúncios dos jornais; escrevi à minha família; participei a minha chegada aos amigos; e por fim ainda me achei com uma sobra de tempo que embaraçava-me realmente. Acendi o charuto; e através da fumaça azulada, lancei uma vista pelos dias decorridos. «Lembrar-se é viver outra vez», diz o poeta.
De repente caiu-me um nome da memória. Achara em que empregar a manhã.
— Vou ver a Lúcia.
Depois da festa da Glória tinha-a encontrado algumas vezes, mas sem lhe falar. Lembro-me de uma manhã em casa do Desmarais. Lúcia passava, parou na vidraça e entrou para comprar algumas perfumarias; o seu vestido roçara por mim; mas ela não me olhou, nem pareceu ter-me visto. Essa circunstância, e talvez um resquício do desgosto que deixara a minha decepção, tiraram-me a vontade de a cumprimentar; contudo conservei o chapéu na mão todo tempo que esteve na loja. Quando escolhia alguns vidros de extratos, mostraram-lhe um que ela repeliu com um gesto vivo e um sorriso irônico:
— Flor de laranja!. . . E muito puro para mim!
Ao sair, dobrou o seu talhe flexível inclinando-se vivamente para o meu lado, enquanto a mão ligeira roçava os amplos folhos da seda que rugia arrastando. Esse movimento podia ser uma profunda cortesia disfarçada com certo acanhamento; e podia não passar de um gesto habitual de faceirice feminina.
Outra vez estava no teatro; tinha ido fazer minha visita a um camarote durante o último intervalo, e conversando reparei na insistência com que me examinava um binóculo da segunda ordem. Da pessoa que o fitava só via a mão pequena e a fronte pura, que denunciavam uma mulher. Depois, ao levantar o pano, vi Lúcia naquela direção, e pareceu-me reconhecer nela a indiscreta luva cor de pérola e o curioso instrumento que me perseguira com o seu exame.
Eis quais eram as minhas relações com essa moça; e confesso que vestindo-me sentia algumas apreensões sobre a recepção que me esperava; não há nada que mais vexe do que a posição de um homem solicitando da memória rebelde da pessoa a quem se dirige um reconhecimento tardio.
Não obstante, poucos minutos depois subia as escadas de Lúcia, e entrava numa bela sala decorada e mobiliada com mais elegância do que riqueza. Ela mostrou não me reconhecer imediatamente; mas apenas falei-lhe do nosso primeiro encontro na Rua das Mangueiras, sorriu e fez-me o mais amável acolhimento. Conversamos muito tempo sobre mil futilidades, que nos ocorreram; e eu tive ocasião de notar a simplicidade e a graça natural com que se exprimia.

Fonte: Alencar, José de. Lucíola. Rio de Janeiro, Edições





Bio fornecida pelo palestrante.

O GUARANI




Autor: José de Alencar
Título: O GUARANI
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

O GUARANI

 

 

José de Alencar

 

 

A Prece

 

 

Parte I

 

A tarde ia morrendo.
O Sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com os seus últimos raios.
A luz frouxa e suave do ocaso, deslizando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de púrpura sobre a folhagem das árvores.
Os espinheiros silvestres desatavam as flores alvas e delicadas; o ouricuri[1] abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada, enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.
Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.
Era a Ave-Maria.
Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite!
Essas grandes sombras das árvores que se estendem pela planície; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos, que esvazando-se[2] pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a areia; tudo respira uma poesia imensa que enche a alma.
O urutau[3] no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas[4] de verdura, vão ecoar ao longe como o toque lento e pausado do angelus.
A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um débil sussurro, que parece o último eco dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da tarde que morre.
Todas as pessoas reunidas na esplanada sentiam mais ou menos a impressão poderosa desta hora solene, e cediam involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.
De repente, os sons melancólicos de um clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde, era um dos aventureiros que tocava a Ave-Maria.
Todos se descobriram.
D. Antônio de Mariz, adiantando-se até à beira da esplanada para o lado do ocaso, tirou o chapéu e ajoelhou.
Ao redor dele vieram agrupar-se sua mulher, as duas moças, Álvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de círculo, ajoelharam-se a alguns passos de distancia.
O Sol com o seu último reflexo esclarecia a barba e os cabelos brancos do velho fidalgo, e realçava a beleza daquele busto de antigo cavalheiro.
Era uma cena ao mesmo tempo simples e majestosa a que apresentava essa prece meio cristã, meio selvagem; em todos aqueles rostos, iluminados pelos raios do ocaso, respirava um santo respeito.
Loredano foi o único que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia com o mesmo olhar torvo os menores movimentos de Álvaro, ajoelhado perto de Cecília e embebido em contemplá-la, como se ela fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.
Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentravam em um fundo recolhimento e diziam uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os lábios.
Por fim o Sol escondeu-se; Aires Gomes estendeu o mosquete sobre o precipício, e um tiro saudou o ocaso.
Era noite.
(…).
 
Fonte: Alencar, José de. O Guarani. Rio de Janeiro, Tecnoprint.



[1] Ouricori – palmeira de até dez metros, nativa do Brasil.
[2] Esvazando-se – esvaziando-se. (sinônimo). Nota da Editora.
[3] Urutau – pássaro noturno; chora-lua, mãe-da-lua.
[4] Crastas – claustros. Nota da Editora.




Bio fornecida pelo palestrante.

O Coronel e o Lobisomem




Autor: José Candido de Carvalho
Título: O Coronel e o Lobisomen, El Coronel y el Lobison
Idiomas: port, esp
Tradutor: Haydée M. Jofre Barroso(esp)
Data: 28/12/2004

O Coronel e o Lobisomem

1

José Cândido de Carvalho

A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei em tempos verdes da infância, com uns padres-mestres a dez tostões por mês. Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato, de pa1avra educada. Já morreu o antigamente em que Ponciano mandava saber nos ermos se havia uma casa de lobisomem a sanar ou pronta justiça a ministrar. Só de uma regalia não abri mão nesses anos todos de pasto e vento: a de falar alto, sem freio nos dentes, sem medir consideração, seja em compartimento do governo, seja em sala de desembargador. Trato as partes no macio, em jeito de moça. Se não recebo cortesia de igual porte, abro o peito:
– Seu filho de égua, que pensa que é?
Nos currais do Sobradinho, no debaixo do capotão de meu avô, passei os anos de pequenice, que pai e mãe perdi no gosto do primeiro leite. Corno fosse dado a fazer garatujações e desabusado de boca, lá num inverno dos antigos, Simeão coçou a cabeça e estipulou que o neto devia ser doutor de lei:
– Esse menino tem todo o sintoma do povo da política. É invencioneiro e linguarudo.
Então, para aprimorar tais inclinações de nascença, caí nas garras da prima Sinhá Azeredo, parenta encalhada na prateleira, uma vez que casamento não achou por ser magricela e devota. Morava em nação de chuva – um oco de coruja chamado Sossego, onde só dava presença bicho penado. De noite, era aquela algazarra de lobisomem, pio de coruja, asa de caburé, fora outros atrasos dos ermos. Metida nos livros de devoção, Sinhá Azeredo não tinha outra aptidão do que ensinar ao parente sabedoria ligada aos anjos do céu. Saía da prima um cheiro de vela, um bafo de coisa de oratório. De tardinha, sumia no quarto das devoções enquanto eu ficava na soletração da cartilha. Sinhá conhecia toda a raça de ventos e para cortar as maldades e miasmas deles possuía reza da maior força. Por mal dos meus pecados, o que a prima mais apreciava era conversa de assombração, de meninos desbatizados que morriam sem o benefício da água benta ao de herege esquentado em fogueira de frade. Lambia os beiços de cera e ameaçava:
– Criança sem religião acaba no fogo dos hereges.
Meus dias no Sossego findaram quando fui pegado em delito de sem-vergonhismo em campo de pitangueiras. A pardavasquinha dessa intimidade de mato ganhou dúzia e meia de bolos e eu recriminação de fazer um frade de pedra verter lágrima. Simeão, sujeito severoso, veio do Sobradinho aquilatar o grau de safadeza do neto. Levei solavanco de orelha, fui comparado aos cachorros dos currais e por dois dias bem contados fiquei em galé de quarto escuro. No rabo dessa justiça, meu avô deliberou que eu devia tomar rumo da cidade:
– Na mão dos padres eu corto os deboches desse desmazelado.
Atrás da saia da prima Sinhá, lá uma tarde, viajei para o meu novo viver. Como era tempo de chuva, dormi no balanço do trem. Quando dei conta do andado, já a cidade apresentava suas casas e um povinho apressado corria no debaixo dos guarda-chuvas. O homenzinho das passagens, aparecido na porta do vagão, avisou:
– Campos! Campos dos Goitacazes!
Anos passei no bem-bom da Rua da Jaca em chácara de fruteira e casa avarandada. A prima na devoção dos oratórios e eu na vadiagem, com enganos de que esmerava no aprendizado das letras e o que menos Ponciano fazia era aparecer na escola dos frades. Passava semanas em velhacaria de pular muro atrás dos bicos-de-lacres e coleirinhos. O avô Simeão, enterrado no sem-fim dos pastos, não podia acompanhar as capetagens do neto. De mês em mês, assim mesmo na época das águas, é que pisava calçada da Rua da Jaca. Sem tirar a espora, vinha saber dos meus adiantamentos no ensino dos padres. Mostrava a Simeão as obrigações de leitura. Ele, quebrado da vista, balangava a cabeça e dizia folheando a livrarada:
– Muita instrução, muita instrução.
Nesse entrementes, eu já graúdo de quinze anos, uma tosse-comprida jogou a prima Sinhá na cama, do qual sofrimento nunca mais teve modos de sair. Deu de andar encafuada em cobertor, só nariz de fora. Afinou ainda mais e num agosto de chuva foi embora na asa de um vento encanado. Uma quinzena vencida, já a parenta bem enterrada e melhor encomendada em missa de muito altar, ouvi o seu tossir doente no quarto do oratório. De castiçal em punho, apareci para saber, se fosse o caso, das necessidades da falecida. Capaz que precisasse de um carneiro mais aparatoso ou um par de ladainhas em reforço ao seu bem-estar no céu. Inquiri a visão por duas vezes, como manda a lei dessas ostentações da noite:
– Que penar é esse de tão tardias horas?
Não colhendo resposta, voltei ao gozo dos cobertores e deixei que o tossir continuasse. Depressinha o acontecido pulou o muro e a vizinhança ficou sabedora de que Sinhá aparecia no oratório dos Azeredos Furtados da Rua da Jaca. Agregado nenhum, a par da penitência, teve mais ânimo de perambular pelos corredores passada a ave-maria. Até que apareceu a velha Francisquinha, mandada dos confins de Mata-Cavalo, a herança mais pasto adentro de meu avo. Não sei que reza de rebite apresentou Francisquinha no recinto da assombração. De pronto, os lamentos perderam as forças e a penitência deixou de existir, mesmo em noite trevosa de sexta-feira. Eu, que sou perdido da cabeça por uma brincadeira de deboche, sempre relembrava, em presença de alguma tosse, que Francisquinha possuía remédio de grande valimento em incomodo do peito:
– É um porrete. Melhor do que poção de doutor formado.
Simeão deu todo poder de mando a Francisquinha, negra de confiança, vinda dos tempos apagados de meu avô rapazola. Pois digo que essa amizade calhava a contento. A velha sabia dar ordem na cozinha, governar sala e saleta. Morava no meio de um bando de negrinhas e afilhadas. Conhecedora da minha fama de maluco por perna de moça, no dobrar das nove horas trancava todas elas nos compartimentos mais protegidos de tramela. Lacrava as portas com esta ponderação severista:
– Cuidado com o menino!
O menino era eu, molecote aparentado de palmeira, altão, grosso de bravo, comprido de perna, conhecido das arruaças e rabos-de-arraia da Rua das Cabeças, tanto que cursava a patente de alferes por imposição de meu avô, que desejava abrandar meu gênio estouvado:
– Na tropa de linha ele perde os desaforos, torna tino de gente.
___________________________
Fonte: CARVALHO, José Cândido de. O coronel e o lobisomem. 26ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. p. 3-7.
 
 

EL CORONEL Y EL LOBISÓN


I

José Candido de Carvalho

Para bien decir, soy Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de grado militar, de lo que tengo honra y hago alarde. Heredé de mi abuelo Simeão tierras de muchas medidas, ganado del más gordo, pasto del más fino. Leo a primera vista y hasta poseo unos latines, que arañé en tiempos verdes de mi infancia, con unos curas-maestros a diez centavos por mes. Digo, modestia aparte, que ya discutí y largué por el suelo de los Tribunales a más de un doctor diplomado. Pero de eso no hago gloria, pues soy sujeto lavado de vanidad, mimoso en el trato, de palabra educada. Ya murió aquella época en que Ponciano mandaba saber en los desiertos si había un caso de lobisón para curar o pronta justicia para administrar. Sólo de un derecho no abrí mano en todos esos años de pasto y viento: el de hablar alto, sin freno en los dientes, sin medir consideración, ya fuera en compartimientos del gobierno o en sala de magistrado. Trato a las partes blandamente, con gesto de muchacha. Si no recibo cortesías de igual porte, abro el pecho:

– Dígame, hijo de yegua, ¿quién se piensa que es?

En los corrales de Sobradinho, debajo del capote de mi abuelo, pasé los años de infancia, porque padre y madre perdí en el gusto de la primera leche. Como fuese dado a hacer travesuras, y además desabusado de boca, allá por un invierno de los antiguos, Simeão se rascó la cabeza y decidió que el nieto debería ser doctor en leyes.

– Este chico tiene todos los síntomas de la gente de la política. Es fantasioso y charlatán.

Entonces, para perfeccionar tales inclinaciones de nacimiento, caí en las garras de la prima Sinhá Azeredo, parienta encallada en las estanterías, toda vez que no tuvo destino de casamiento por ser flaquita y devotísima. Vivía en lugar de lluvia, un agujero de lechuza llamado Sossego, donde sólo daban señal de presencia los bichos de plumas. De noche, era una algazara de lobisones, gritos de lechuza, ala de caburé, fuera de otros atrasos de los desiertos. Metida en los libros de devoción, Sinhá Azeredo no tenía otra aptitud que enseñar al pariente su sabiduría ligada a los ángeles del cielo. Salía de la prima un olor a vela, cierto hálito de cosa de oratorio. A la tardecita, desaparecía en el cuarto de las devociones mientras yo quedaba deletreando la cartilla. Sinhá conocia toda la raza de vientos y para cortar las maldades y miasmas de ellos poseía rezos de la mayor fuerza. Por mal de mis pecados, lo que la prima más apreciaba eran las conversaciones de fantasmas, de niños herejes que.morían sin el beneficio del agua bendita, o de herejes calentados en hogueras de frailes. Se relamía los labios de cera y amenazaba:

– ¿Niño sin religión acaba en el fuego de los herejes!

Mis días en el Sossego terminaron cuando fue cogido en delito de “sinvergüenzismo” en un campo de plantas de “pitangueiras”. La “pardavasquinha” (1) de esa intimidad de selva ganó docena y media de cachetazos y yo la recriminación capaz de hacer que un cura de piedra vertiera lágrimas. Simeão, hombre severo al máximo, vino del Sobradinho para aquilatar el grado de zafaduría del nieto. Llevé un buen tirón de orejas, fui comparado a los perros de los corrales y por dos días bien contados quedé encerrado en cuarto oscuro. Al cabo de esa justicia, mi abuelo decidió que yo debía tomar el rumbo de la ciudad.

– En mano de los padres yo corto los libertinajes de este atrevido.

Detrás de la falda de la prima Sinhá, una tarde, viajé hacia mi nuevo vivir. Corno era tiempo de lluvia, dormí entre el balancear del tren. Cuando me di cuenta de lo andado, ya la ciudad presentaba sus casas y una gentecita apresurada corría debajo de los paraguas. El hombrecito de los pasajes, aparecido en la porta del vagón, avisó:

– ¡Campos! ¡Campos dos Goitacazes!

Pasé años en el buen vivir de la Rua da Jaca, en chacra de frutales y casa abalcoaada. La prima en la devoción de los oratorios y yo en el vagabundeo, con engaños de que me esmeraba en el aprendizaje de las letras mientras lo que menos Ponciano hacía era aparecer por la escuela de .los sarcedotes. Pasaba semanas en travesuras de saltar muros detrás de los pájaros, “bicos-de-lacres” y “coleirinhos”. El abuelo Simeão, enterrado en el sin fin de los pastos, no podía seguir las diabluras del nieto. Cada mes, hasta en la época de las aguas, ponía pie en la Rua da Jaca. Sin guitarse las espuelas, venía a saber de mis adelantos en la enseñanza de los padres. Mostraba a Simeão las obligaciones de lectura. Él, débil de vista, balanceaba la cabeza y decía hojeando los libracos:

– Mucha instrucción, mucha instrucción.

En ese entonces yo estaba ya crecido con mis quince años, cuando una tos persistentelanzó en cama a prima Sinhá, sufrimiento del cual nunca tuvo manera de salir. Le dio por andar envuelta en abrigos, apenas con la nariz afuera. Adelgazó todavía más y en un agosto de lluvia se fue en alas de un viento persistente. Una quincena después, ya bien enterrada la pariente y mejor encomendada a misa de mucho altar, escuché su toser enfermizo en el cuarto del oratorio. Con el candelabro en la mano aparecí para saber, si fuese el caso, las necesidades de la fallecida. A lo mejor necesitaba una ceremonia más aparatosa, o un par de letanías para reforzar su bienestar en el cielo. Inguirí a la visión por dos veces, como manda la ley de esas ostentaciones de la noche:

– ¿Qué penar es éste, de fan tardías horas?
Al no recibir respuestas, regresé al gozo de los cobertores y dejé que continuara la tos. Rapidito la sucedido saltó las paredes y la vecindad quedó enterada de que Sinhá aparecía en el oratorio de los Azeredo Furtado, de la Rua da Jaca. Agregado ninguno, al par de la penitencia, tuve más ánimo para deambular pos los corredores pasada el Avemaría. Hasta que apareció la vieja Francisquinha, mandada desde los confines de Mata-Cavalo, la herencia de más pasto adentro de las de mi abuelo. No sé qué rezos de rebote presentó Francisquinha en el recinto de la aparición. De pronto, los lamentos perdieron fuerza y la penitencia dejó de existir, hasta en noche oscura de día viernes. Yo, que pierdo la cabeza por una jugarreta maliciosa, siempre recordaba, frente a una tos, que Francisquinha poseía un remedy de gran valor para molestias de pecho:

– Es un buen trio. Mucho mejor que poción de médico recibido.

Simeão dio todo el poder de mando a Francisquinha, negra de confianza, venida de los tiempos medio desdibujados de mi abuelo juvenil. Dígoles que esa amistad funcionaba a contento. La vieja sabía dar órdenes en la cocina, y gobernar sala y salitas. Vivía en medio de una banda de negritas y ahijadas. Conocedora de mi fama de loco por piernas de muchacha, al sonar las nueve horas las trancaba a todas en los lugares más protegidos. Lacraba las puertas con esta severísima. recomendación:

– ¿Cuidado con el chico!

El chico era yo, muchachón con apariencia de palmera, alto, ancho de brazo, largo de pierna, conocido de los tumultos y mujeronas de la Rua das Cabeças, tanto que cursaba el grado de alférez por imposición de mi abuelo, que deseaba ablandar mi genio levantisco:

– En la tropa de línea él va a perder los atrevimientos, y a tomar aire de gente.

__________________________
Fonte: Carvalho, José Cândido. El coronel y el lobisón. Traducción de Haydée M. Jofre Barroso. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1976. p. 31-4.





Bio fornecida pelo palestrante.

A morte e a morte de Quincas




Autor: Jorge Amado
Título: A morte e a morte de Quincas, La muerte y la muerte de Quincas Berros Dagua
Idiomas: port, esp
Tradutor: Basilio Losada(esp)
Data: 28/12/2004

LA MUERTE Y LA MUERTE DE
QUINCAS BERRO DAGUA

De: LOS VIEJOS MARINEROS


Jorge Amado

“ Qué cada cual cuide de su entierro;
el imposible no existe.”
(Última frase de Quincas Berro Dagua,
según Quiteria, que estaba a su lado).

I

Hasta hoy sigue habiendo cierta confusión en torno de la muerte de Quincas Berro Dagua. Dudas por explicar, detalles absurdos, contradicciones en la declaración de los testigos, lagunas diversas. No hay claridad sobre la hora, lugar y frase última. La familia, apoyada por vecinos y conocidos, se mantiene intransigente en la versión de la tranquila muerte matinal, sin testigos, sin aparato, sin frase, muerte acontecida casi veinte horas antes de aquella otra, tan propalada y comentada, en la agonía de la noche, cuando la luna se deshizo sobre el mar y ocurrieron misterios en la orla del muelle de Bahía. Muerte presenciada, sin embargo, por testigos idóneos largamente comentada en las laderas y barrancas oscuras, repetida la frase final de boca; muerte que representó, en opinión de aquella gente, más que una simple despedida del mundo, un testimonio profético, mensaje de profundo contenido (como escribiría un joven autor de nuestro tiempo).
Tantos testigos idóneos, entre ellos Mestre Manuel y Quiteria do Olho Arregalado, mujer de palabra, y, a pesar de todo, hay quien nega toda autenticidad no sólo a la admirada frase sino a todos los acontecimientos de aquella noche memorable, cuando, en hora dudosa y en condiciones discutibles, Quincas Berro Dagua se hundió en el mar de Bahía y emprendió su viaje, para nunca más volver. Así es el mundo, poblado de escépticos y negativistas, amarrados,como bueyes en yugo, al orden y a la ley, a los procedimientos habituales, al papel sellado. Exhiben ellos, victoriosamente, el certificado de defunción firmado por el médico casi mediodía, y con este simple papel– sólo porque tiene letra impresa y sellos– intentan apagar horas intensamente vivida por Quincas Berro Dagua hasta su partida por libre y espontánea voluntad, como declaró en tono bueno y alto, a los amigos y demás personas presentes.
La familia del muerto– su respetable hija y su circunspecto yerno, funcionario público de prometedora carrera; tía Marocas y su hermano menor, comerciante con modesto crédito en un banco–, afirma que toda la historia no pasa de ser una enorme patraña, invención de borrachos inveterados, sin vergüenzas al margen de la ley y de la sociedad, de bellacos cuyo paisaje debieran ser las rejas de la carcél y no la libertad de las calles, el puerto de Bahía, las playas de arena blanca, la noche inmensa. Con flagrante injusticia atribuyen a esos amigos de Quincas toda la responsabilidad de la mallada existencia por él vivida en sus últimos años, cuando se convirtió en la tristeza y la vergüenza de la familia, hasta el punto de que no era pronunciado su nombre, y hechos no eran comentados en la presencia inocente de los niños, para quienes el abuelo Joaquim, de añorado recuerdo, había muerto muchos años, decentemente, rodeado de la estima y del respeto de todos.
Esto nos lleva a comprobar que hubo una primera muerte, sino física al menos moral, fechada años antes, sumando un total de tres, haciendo de Quincas un recordman de la muerte, un campeón de fallecimientos, y dándonos derecho a pensar si habrán sido los acontecimientos posteriores– a partir del significado de defunción y hasta su hundimiento en el mar–, una farsa montada por él con la intención una vez más de mortificar a los parientes, de amargales la existencia, exponiéndolos a la vergüenza y a las murmuraciones de la calle. No era él en verdad hombre de respeto y conveniencias, a pesar del respeto dedicado por sus compinches de juego a jugador de tan envidiada suerte, a bebedor de tan largos y conservados aguardientes.
No sé si ese misterio de la muerte (o de las sucesivas muertes) de Quincas Berro Dagua, podrá ser completamente decifrado. Pero lo intentaré, como él mismo aconsejaba, pues lo importante es intenta aún lo imposible.

II

Los sin vergüenzas que contaban, por las calles y laderas, frente al Mercado y en la “Feria de Agua dos Meninos”, los momentos finales de Quincas (hasta se compuso un folleto con versos de pie quebrado, obra del repentista Cuica de Santo Amero, vendido largamente), andaban maltratando la memoria del muerto, según la familia. Y la memoria de un muerto es, como se sabe, cosa sagrada, no para andar en boca poco limpia de boedos, jugadores y contrabandistas de marihuana, ni para servir de rima pobre a cantores populares a la entrada del Elevado Lacerda, por donde pasa tanta gente bien, incluso colegas de Leonardo Barreto, el humillado yerno de Quincas. Cuando un hombre muere, se reintegra su respetabilidad más auténtica aunque se haya pasado la vida haciendo locuras. La muerte apaga, con manos de ausencia, las manchas del pasado, y la memoria del muerto fulge como un diamante. Ésa era la tesirde la familia, aplaudida por vecinos y amigos. Según ellos, Quincas Berro Dagua, al morir, volvía a ser aquel antiguo y respetable Joaquim Soares da Cunha, de buena familia, ejemplar funcionario de la Dirección General de Rentas del Estado, hombre de paso medido, bien afeitado, chaqueta de alpaca negra, cartera bajo el brazo, oído con respeto por los vecinos, opinado sobre el tiempo y la política, jamás visto en un cafetín, hombre de aguardientes comedidos y caseros. En realidad, en esfuerzo digno de aplauso, la familia había conseguido que brillara así sin mancha la memoria de Quincas, decretándolo muerto, desde hacía algunos años, para la sociedad. De él hablaban en pasado, cuando, obligados por las circunstancias, a él se referían. Desgraciadamente, sin embargo, a veces algún vecino, un colega cualquiera de Leonardo o amiga charlatana de Vanda (la hija avergonzada), tropezaba con Quincas o sabía de él por medios terceros. Era como si un muerto alzara en su tumba para manchar su propia memoria: tendido, borracho, al sol, ya avanzada la mañana, en la inmediaciones de la rampa del Mercado, o, sucio y andrajoso, inclinado sobre una baraja grasienta en el atrio de la Iglesia del Pilar, o cantando con voz ronca por la Ladeira de São Miguel, abrazado a negras y mulatas de mala vida. ¡Un horror!

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Fonte: AMADO, Jorge. Los viejos marineros. Traducción de Basilio Losada. Barcelona: Caralt, 1978.

A MORTE E A MORTE DE
QUINCAS BERRO D’ÁGUA


De: OS VELHOS MARINHEIROS


Jorge Amado

 
“Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há”.
(Frase derradeira de Quincas Berro D’água
segundo Quitéria que estava ao seu lado).

I

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro D’água. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e em becos escusos, a frase final repetida de boca em boca, representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo).
Tantas testemunhas idôneas, entre as quais Mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase, mas a todos os acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e em condições discutíveis, Quincas Berro D’água mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado de céticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à lei, aos procedimentos habituais ao papel selado. Exibem, eles, vitoriosamente, o atestado de óbito assinado pelo médico quase meio-dia e com esse simples papel – só porque contém letras impressas e estampilhas – tentam apagar as horas intensamente vividas por Quincas Berro D’água até sua partida, por livre e espontânea vontade, como declarou, em alto e bom som, aos amigos e outras pessoas presentes.
A família do morto– sua respeitável filha e seu formalizado genro, funcionário público de promissora carreira; tia Marocas e seu irmão mais moço, comerciante com modesto crédito num banco – afirma não passar toda a historia de grossa intrujice, invenção de bêbados inveterados, patifes à margem da lei e da sociedade, velhacos cuja paisagem devera ser as grades da cadeia e não a liberdade das ruas, o porto da Bahia, as praias de areia branca, a noite imensa. Cometendo uma injustiça, atribuem a esses amigos de Quincas toda a responsabilidade da malfadada existência por ele vivida nos últimos anos, quando se tornara desgosto e vergonha para a família. A ponto de seu nome não ser pronunciado e seus feitos não serem comentados na presença inocente das crianças, para as quais o avô Joaquim, de saudosa memória, morrera há muito, decentemente, cercado da estima e do respeito de todos. O que nos leva a constatar ter havido uma primeira morte, senão física, pelo menos moral, datada de anos antes, somando um total de três, fazendo de Quincas um recordista da morte, um campeão do falecimento, dando-nos o direito de pensar terem sido os acontecimentos posteriores – a partir do atestado de óbito até seu mergulho no mar– uma farsa montada por ele com o intuito de mais uma vez atazanar a vida dos parentes, desgostar-lhes a existência, mergulhando-os na vergonha e nas murmurações da rua. Não era ele homem de respeito e de conveniência, apesar do respeito dedicado por seus parceiros de joga ao jogador de tão invejada sorte, a bebedor de cachaça tão longa e conservada.
Não sei se esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas Berro D’água pode ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei, como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar, mesmo o impossível.

II

Os patifes que contavam, pelas ruas e ladeiras, em frente ao Mercado e na Feira de água dos Meninos, os momentos finais e Quincas (até um folheto com versos de pé quebrado foi composto pelo repentista Cuíca de Santo Amaro e vendido largamente), desrespeitavam assim a memória do morto, segundo a família. E memória de morto, como se sabe, é coisa sagrada, não é para estar na boca pouco limpa de cachaceiros, jogadores e contrabandistas de maconha. Nem para servir de rima pobre a cantores populares na entrada do Elevador Lacerda, por onde passa tanta gente de bem, inclusive colegas de repartição de Leonardo Barreto, humilhado genro de Quincas. Quando um homem morre, ele se reintegra a sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante. Essa, a tese da família, aplaudida por amigos e vizinhos. Segundo eles, Quincas Berro D’água ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, de barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sobre o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida. Em realidade, num esforço digno de todos os aplausos, a família conseguira que assim brilhasse, sem jaça, a memória de Quincas desde alguns anos, ao decreta-lo morto para a sociedade. Dele falavam no passado se, obrigados pelas circunstancias, a ele se referiam. Infelizmente, porém, de quando em vez algum vizinho, um colega qualquer de Leonardo, amiga faladeira de Vanda (a filha envergonhada), encontrava Quincas, ou dele sabia por intermédio de terceiros. Era como se um morto se levantasse do túmulo para macular a própria memória: estendido bêbado, ao sol, em plena manhã alta, nas imediações da rampa do Mercado ou sujo e maltrapilho, curvado sobre cartas sebentas no átrio da Igreja do Pilar ou ainda cantando com voz rouquenha na Ladeira de São Miguel, abraçados a negras e a mulatas de má vida. Um horror!
Quando finalmente, naquela manhã, um santeiro estabelecido na Ladeira do Tabuão chegou aflito à pequena, porém bem arrumada casa da família Barreto e comunicou à filha Vanda e ao genro Leonardo estar Quincas definitivamente espichado, morto em sua pocilga miserável, foi um suspiro de alívio que se elevou uníssono dos peitos dos esposos.

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Fonte: AMADO, Jorge. Os velhos marinheiros. São Paulo: Livraria Martins, 1988. p. 6-9.





Bio fornecida pelo palestrante.

Cacau




Autor: Jorge Amado
Título: Cacau, Cacao
Idiomas: port, ita
Tradutor: Paolo Collo e Daniela Ferioli(ita)
Data: 28/12/2004

CACAU

Infância


Jorge Amado

Pouco me recordo de meu pai. Ficamos muito crianças eu e minha irmã, ela com três, eu com cinco anos, quando ele morreu. Lembro-me apenas que minha mãe soluçava, os cabelos caídos sobre o rosto pálido, e que meu tio, vestido de preto, abraçava os presentes com uma cara hipócrita de tristeza. Chovia muito. E os homens que seguravam o caixão andavam depressa, sem atender aos soluços de mamãe, que não queria deixar que levassem o seu marido.
Papai, quando vinha da fábrica, me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o abc com a sua bela voz. Era delicado e incapaz, como diziam, de fazer mal a uma formiga. Brincava com mamãe como se ainda fossem namorados. Mamãe, muito alta e muito pálida, as mãos muito finas e muito longas, era de uma beleza esquisita, quase uma figura de romance. Nervosa, às vezes chorava sem motivo. Meu pai tomava-a então nos seus braços fortes e cantava trechos de músicas que faziam com que ela sorrisse. Nunca ralhavam conosco.
Depois que ele morreu, mamãe passou um ano meio alucinada, jogada para um canto, sem ligar aos filhos, sem ligar às roupas, fumando e chorando. Tinha ataques por vezes horríveis. E enchia de gritos dolorosos as noites calmas do meu Sergipe.
Quando após esse ano ela voltou ao estado normal e quis acertar os negócios de papai, meu tio provou, com uma papelada imensa, que a fábrica era dele só, pois meu pai – afirmava com o rosto vermelho e as mãos levantadas num gesto de escândalo – meu pai, meio louco e meio artista, deixara unicamente dívidas que meu tio pagaria para não se desmoralizar o nome da família.
Mamãe silenciou, coitada, e nos apertou nos seus braços, pois nós tremíamos toda a vez que meu tio aparecia com a sua cara vermelha, a sua barriga cultivada, a sua roupa de brim e aqueles seus olhos pequenos e perversos.
Vivia passando as mãos pela barriga. O meu tio… Mais velho que meu pai dez anos, cedo se tocara para o Rio de Janeiro, onde levou muito tempo sem dar notícias e sem que se soubesse o que fazia. Quando os negócios de meu pai estavam prósperos, ele escreveu a queixar-se da vida, dizendo que queria voltar. E veio, logo após a carta. Papai deu-lhe sociedade na fábrica.
Veio com a esposa, tia Santa, santa de verdade, pobre mártir daquele homem estúpido.
Papai vivia inteiramente para nós e para o seu velho piano. Na fábrica conversava com os operários, ouvia as suas queixas, e sanava os seus males quanto possível. A verdade é que iam vivendo em boa harmonia ele e os operários, a fábrica em relativa prosperidade. Nunca chegamos a ser muito ricos, pois meu pai, homem avesso a negócios, deixava escapar os melhores que apareciam. Fora educado na Europa e tivera hábitos de nômade. Esquadrinhara parte do mundo e amava os objetos velhos e artísticos, as coisas frágeis e as pessoas débeis, tudo que dava idéia ou de convalescença ou de fim próximo. Daí talvez a sua paixão por mamãe. Com a sua magreza pálida de macerada, ela parecia uma eterna convalescente. Papai beijava as suas mãos finas devagar, muito de leve, com medo talvez que aquelas mãos se partissem. E ficavam horas perdidas em longo silêncio de namorados que se compreendem e se bastam. Não me recordo de tê-los ouvido fazer projetos.
Nós, eu e minha irmã, éramos como que bonecos para papai e mamãe.
Quando meu tio chegou, mudou tudo. Ele não fora à Europa e se parecia muito com vovó, que fizera, dos dezoito anos de vida em comum com meu avô, uma dessas tantas tragédias anônimas e horríveis que nascem do casamento da estupidez com a sensibilidade. Dava nos filhos dos operários, o que não admirava, porque, como murmuravam pela cidade, ele espancava a esposa.
Pobre tia Santa! Tão boa, amava tanto as crianças e rezava tanto que tinha calos nos dedos, provocados pelas contas do rosário. Morreu e a doença foi o marido. Meu tio deflorara uma operária e fora viver com ela publicamente. Santa não resistiu ao desgosto e morreu com o rosário entre as mãos, pedindo a papai que não abandonasse o miserável.
A fábrica prosperou muito. Nunca consegui compreender por que o salário dos operários diminuiu. Papai, fraco por natureza, não tinha coragem de afastar titio da fábrica, e um dia, quando tocava ao piano um dos seus trechos prediletos, teve uma síncope e morreu.
A cidade subia pelas ladeiras e parava lá em cima, bem junto ao imenso convento. Olhando do alto, via-se a fábrica, ao pé do monte pelo qual se enroscava a cidade como uma cobra de uma só cabeça e inúmeros corpos. Talvez não fosse bela a velha São Cristóvão, ex-capital do Estado, mas era pitoresca, pejada de casas coloniais, um silêncio de fim de mundo, as igrejas e os conventos a abafarem a alegria das quinhentas operárias que fiavam na fábrica de tecidos.
Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras.
Nós morávamos então num enorme e secular sobrado, ex-morada particular dos governadores, uma pesadíssima porta de entrada, as janelas irregulares, todo pintado de vermelho, grandes quartos, nos quais eu e Elza nos perdíamos durante o dia brincando de picula. À noite, por brinquedo algum entraríamos num deles, pois temíamos as almas vagabundas do outro mundo, almas penadas que assoviavam e arrastavam correntes, segundo a veracíssima versão de Virgulina, preta centenária que criara mamãe e nos criava agora.
Ao lado da nossa casa ficava o ex-palácio do governo, quase a cair, transformado em quartel onde alguns soldados habitavam, sujos e preguiçosos. Em frente, o orfanato, seis freiras e oitenta meninas, filhas de operárias e pais ignorados. Essas meninas não saíam. Algumas, quando crescidas, voltavam à fábrica onde haviam nascido, e de onde mandariam novas meninas, sem sobrenome, para o orfanato. Outras, as mais alvas, iam ser freiras e se estendiam pelo país. Mais adiante, o convento de São Francisco, tão grande, tão silencioso, que eu nunca consegui vê-lo sem um certo receio. Habitavam-no apenas quatro frades, mas esses quatro frades dominavam a cidade. Faziam sermões, onde fantasiavam das cores mais negras o inferno. E essas coisas ditas naquela língua meio alemã, meio brasileira, pareciam mais horríveis ainda. Nós, os garotos, temíamos o inferno e temíamos ainda mais os frades.
Sinval, meu futuro companheiro de vagabundagem, me contava que eles obrigavam os operários a trabalhar de graça na remodelação da catedral (onde havia um gigantesco São Cristóvão, apoiado num coqueiro, carregando um minúsculo Menino Jesus, tudo isso bordado de ouro) e aqueles que não se sujeitavam eram denunciados a meu tio, convidado freqüente do jantar dos padres, que os despedia.
As casas, todas antiquadas e atijoladas, estendiam-se pela praça do convento e equilibravam-se pelas ladeiras.
À noite, botavam cadeiras no passeio e as velhas contavam histórias engraçadas do tempo do meu avô. Os garotos ficavam correndo em volta do cruzeiro, negro do tempo.
As raras moças ricas iam para o colégio das freiras em Aracaju, e quando voltavam professoras tinham sempre um noivo bacharel, muita malícia e assassinavam, no dizer de meu pai, músicas modernas ao piano.
Isso pelas ladeiras e pela praça era gente fina, a elite, a aristocracia. Lá embaixo ficava a fábrica, a vila operária, a plebe.

A fábrica era um caixão branco cheio de ruídos e de vida. Setecentos operários, dos quais quinhentas e tantas mulheres. Os homens emigravam, dizendo que trabalhar em fiação é só pra mulher. Os mais fracos não iam e casavam e tinham legiões de filhas, que substituíam as avós e as mães quando já incapazes abandonavam o serviço.
O nascimento de uma filha, recebiam-no com alegria. Mais duas mãos para o trabalho. Um filho, ao contrário, consideravam um desastre. O filho comia, crescia e ia embora ou para os cafezais de S. Paulo ou para os cacauais de Ilhéus, numa ingratidão incompreensível. Saindo da fábrica atravessava-se uma pinguela sobre um ribeiro e chegava-se à vila Cu com Bunda, moradia de quase todos os operários. Um grande retângulo, no qual os fundos das casas se encontravam. Daí o nome pitoresco que lhe haviam posto. No meio dessas casinhas avultavam a enfermaria e o gabinete dentário. O dentista vinha de Aracaju duas vezes por semana. Sinval dizia:
–Operário só pode ter dor de dentes terças e sextas…
O enfermeiro residia em São Cristóvão, porém, cabo eleitoral do meu tio, perdia muito tempo nisso.
A vila Cu com Bunda, a plebe, alegrava-se à noite quando as violas diziam cocos e a garrafa de pinga corria de mão em mão. Os operários liam então as cartas dos parentes que estavam em Ilhéus e faziam projetos de uma emigração coletiva.
O cacau exercia sobre eles uma fascinação doentia. Os frades de quando em vez desciam e, procurando não se aproximar dos meninos piolhentos, sorriam para os operários e falavam de um consertozinho na igreja ou no convento…
Quando meu pai morreu e após meu tio declarar a nossa miséria, fomos morar numa casinhola no começo de uma ladeira. Eu fiquei muito mais perto do proletariado da Cu com Bunda do que da aristocracia da decadente São Cristóvão.
Acostumei-me a jogar futebol com os filhos dos operários. A bola, pobre bola rudimentar, fazia-se de bexiga de boi cheia de ar. Tornei-me camarada de um garoto chamado Sinval, rebento único de uma operária cujo marido morrera em São Paulo, metido numas encrencas com a polícia, não sei bem por quê. Sei que os operários falavam dele como de um mártir. E Sinval desancava os patrões o mais que podia. Franzino, os ossos quase a aparecer, possuía no entanto uma voz firme e um olhar agressivo. Chefiava a gente nos furtos às mangas e cajus dos sítios vizinhos. E toda vez que meu tio passava cuspia de lado. Dizia que apenas completasse dezesseis anos embarcaria para São Paulo, para lutar como seu pai. Só muito depois é que eu vim compreender o que significava tudo isso.
Freqüentamos, eu e Elza, a escola. Mamãe fazia rendas e seus pais ajudavam o nosso sustento. Quando fiz quinze anos fui trabalhar na fábrica. Eu era então um rapazola forte, troncudo. O menino anêmico que eu fora se transformara em um adolescente de músculos rijos treinados em brigas de moleques.
Aparentava muito mais idade do que tinha realmente. Vivera sempre entre os molecotes pobres da cidade, pobre que eu era como eles. Agora ia ser igual a eles completamente, operário de fábrica. Sinval não me diria mais com seu sorriso mofador:
–Menino rico…
Cinco anos aturei na fábrica a brutalidade do meu tio. Sinval, aos dezessete, vendera o que possuía em roupas e móveis e tocara para as fábricas ou para as fazendas de São Paulo. A primeira e última notícia que tivemos dele foi dois anos depois. Estava metido numa greve e esperava ser preso a qualquer momento. Depois nem uma carta, nem um bilhete, nada. Os operários afirmavam:
–Seguiu o destino do pai – e cerravam os punhos enraivecidos. Mas a fábrica apitava e eles se curvavam, magros e silenciosos.
Minhas mãos estavam então calejadas e meus ombros, largos. Esquecera muito do pouco que aprendera na escola, mas em compensação sentia um certo orgulho da minha situação de operário. Não trocaria meu trabalho na fiação pelo lugar de patrão. Meu tio, o dono, estava bem mais velho e mais vermelho e mais rico. A barriga era o índice da sua prosperidade. À proporção que meu tio enriquecia ela se avolumava. Estava enorme, indecente, monstruosa. Poucas fortunas em Sergipe se igualavam nesse tempo à sua. Dava esmolas unicamente ao convento (onde papava jantares) e ao orfanato. A este ele dava esmolas e órfãs. Não se podia contar pelos dedos, nem juntando os dos pés, o número de operárias desencaminhadas por meu tio.

Paixão que tive aos quatorze anos por uma rameira gasta e sifilítica, com a qual iniciei a minha vida sexual. Amor, aos dezoito, platônico, por uma loura pequena do orfanato que foi ser freira e enfim, aos vinte, o pensamento de me amigar com a Margarida, operária como eu. Isso deu maus resultados. Meu tio andava também de olho na Margarida, que ostentava uns seios altos e alvos, junto a um rosto de criança travessa. Margarida um dia me contou que o patrão andava a apalpá-la. E ria, cínica. Eu acho que foi o seu riso que me fez ir às fuças do meu tio. Estraguei-lhe a cara hipócrita. Fui despedido.

São Paulo parecia à minha mãe e a Elza o fim do mundo. Por nada deixariam que eu fosse para lá. Eu comecei a falar em Ilhéus, terra do cacau e do dinheiro, para onde iam levas e levas de emigrantes. E como Ilhéus ficava apenas a dois dias de navio de Aracaju, elas consentiram que eu me jogasse, numa manhã maravilhosa de luz, na terceira classe do Murtinho, rumo à terra do cacau, eldorado em que os operários falavam como da terra de Canaã.
Mamãe chorava, Elza chorava, quando me abraçaram na tarde em que segui para Aracaju – tomar o vapor. Eu olhei a velha cidade de São Cristóvão, o coração cheio de saudade. Tinha certeza de que não voltaria mais à minha terra.
Os filhos dos operários jogavam futebol com uma bexiga de boi cheia de ar.

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Fonte: AMADO, Jorge. Cacau: romance. 50ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 7-15.

 
 
 
 

CACAO

Infanzia


Jorge Amado

Mio padre lo ricordo poco. Eravamo molto piccoli io e mia sorella, lei aveva tre anni, io cinque, quando morì. Ricordo solo che mia madre piangeva, i capelli sciolti sul viso pallido e che mio zio, vestito di nero, abbracciava i presenti con un’espressione ipocrita di tristezza. Pioveva forte. E gli uomini che reggevano la bara camminavano in fretta, non badando ai singhiozzi della mamma che non voleva che portassero via suo marito.
Papà, quando tornava dalla fabbrica, mi prendeva sulle ginocchia e mi insegnava l’abc con la sua bella voce. Era delicato e incapace, come dicevano, di far male a una mosca. Scherzava con la mamma come se fossero ancora fidanzati. La mamma, molto alta e molto pallida, le mani sottili e molto lunghe, era di una bellezza particolare, quasi un personaggio da romanzo. Nervosa, a volte piangeva senza ragione. Mio padre allora la prendeva tra le braccia e le cantava brani di canzoni che la facevano sorridere. Non ci sgridavano mai.
Quando papà morì, la mamma passò un anno come impazzita, buttata da una parte, non badava ai figli, non si curava di vestirsi, fumando e piangendo. A volte aveva attacchi orribili. E riempiva di grida straziate le notti quiete del mio Sergipe.
Quando dopo un anno ritornò normale e volle occuparsi degli affari di papà, mio zio provò con un mucchio di scartoffie che la fabbrica era solo sua, dato che mio padre – affermava con il viso rosso e le mani levate in segno di scandalo –, testamatta e artistoide, aveva lasciato solo debiti che lo zio avrebbe pagato per non rovinare il buon nome della famiglia.
La mamma non seppe che dire, poveretta, e ci strinse forte tra le braccia, perché noi tremavamo ogni volta che lo zio compariva con quella faccia rossa, la pancia lievitata, il vestito di lino e gli occhi piccoli e cattivi.
Si passava di continuo la mano sulla pancia. Mio zio… Maggiore di mio padre di dieci anni, era partito presto per Rio de Janeiro e ci era rimasto a lungo senza dare notizie e senza che si sapesse che cosa stesse facendo. Quando gli affari di mio padre cominciarono ad andare bene, lui scrisse lamentandosi della vita che faceva, dicendo che voleva tornare. E si presentò, subito dopo la lettera. Papà lo prese in fabbrica come socio.
Arrivò con la moglie, la zia Santa, santa di nome e di fatto, povera martire di quell’uomo stupido.
Papà viveva solo per noi e per il suo pianoforte. In fabbrica parlava con gli operai, ascoltava le loro lamentele, e risolveva i loro problemi per quel che poteva. La verità è che vivevano in buona armonia lui e gli operai, e la fabbrica andava piuttosto bene. Non siamo diventati mai molto ricchi, perché mio padre, inadatto agli affari, si lasciava scappare i più redditizi. Era stato educato in Europa e gli piaceva viaggiare. Aveva girato quasi tutto il mondo e amava gli oggetti vecchi e artistici, le cose fragili e le persone deboli, tutto quello che dava un’impressione o di convalescenza o di fine prossima. Da questo forse derivava la sua passione per la mamma. Con quella magrezza pallida di donna tormentata, sembrava un’eterna convalescente. Papà baciava le sue mani sottili piano piano, leggermente, come se avesse paura di romperle. E restavano per ore persi in lunghi silenzi da innamorati che si capiscono e si bastano. Non ricordo di averli mai sentiti fare dei progetti.
Noi due, io e mia sorella, eravamo delle bambole per papà e mamma.
Quando arrivò lo zio cambiò tutto. Non era stato in Europa e somigliava molto alla nonna che aveva fatto dei diciotto anni di vita in comune con mio nonno una delle tante tragedie anonime e terribili che nascono dal matrimonio della stupidità con la sensibilità. Lo zio picchiava i figli degli operai, e non c’era da meravigliarsi perché, come si mormorava in città, picchiava la moglie.
Povera zia Santa! Così buona, amava tanto i bambini e pregava talmente che aveva i calli alle dita da tanto snocciolare rosari. Morì e la causa fu il marito. Mio zio aveva sverginato un’operaia ed era andato a vivere con lei pubblicamente. Zia Santa non resse al dispiacere e morì con il rosario tra le mani, chiedendo a papà di non abbandonare il miserabile.
La fabbrica andava molto meglio. Non ho mai capito perché il salario degli operai diminuì. Papà, debole di natura, non aveva il coraggio di allontanare lo zio dalla fabbrica e un giorno, mentre suonava al piano uno dei suoi brani preferiti, ebbe una sincope e morì.
La città si arrampicava sulle colline e si fermava in cima, proprio vicino al grande convento. Guardando da lassù, si vedeva la fabbrica ai piedi del colle sul quale si attorcigliava la città come un serpente con una sola testa e tanti corpi. Forse non era bella la vecchia São Cristovão, ex capitale dello Stato, ma era pittoresca, piena di case coloniali, un silenzio da fine del mondo, le chiese e i conventi smorzavano l’allegria delle cinquecento operaie della fabbrica di tessuti.
Credo che mio padre avesse impiantato la fabbrica a São Cristovão attratto dalla decadenza della città, dalla sua quiete e tranquillità, triste città immota che aveva fatto innamorare i suoi occhi e il suo spirito stanco di paesaggi e di avventure.
Abitavamo allora in un enorme e secolare palazzotto, ex residenza di governatori, un pesantissimo portone all’entrata, le finestre irregolari, tutto dipinto di rosso, stanze grandi in cui io ed Elza ci perdevamo durante il giorno giocando a mosca cieca. La sera non vi saremmo entrati per nessun gioco perché avevamo paura dei fantasmi vagabondi dell’aldilà, anime in pena che sibilavano e trascinavano catene, secondo l’attendibilissima versione di Virgulina, negra centenaria che aveva allevato la mamma e adesso allevava noi.
A fianco di casa nostra c’era l’ex palazzo del governo, quasi in rovina, trasformato in una caserma dove abitavano pochi soldati, sporchi e indolenti. Di fronte, l’orfanotrofio, sei suore e ottanta bambine, figlie di operaie e padri ignoti. Le bambine non uscivano. Qualcuna, diventata grande, tornava alla fabbrica dov’era nata e da dove avrebbe mandato altre bambine, senza cognome, all’orfanotrofio. Altre, quelle con la pelle più chiara, diventavano suore e si spargevano nel Paese. Più avanti c’era il convento di São Francisco, così grande, così silenzioso, che non riuscii mai a guardarlo senza soggezione. Lo abitavano solo quattro frati, ma i quattro frati dominavano la città. Predicavano sermoni in cui vestivano l’infemo delle tinte più fosche. E tutte queste cose, dette in quella lingua mista di portoghese e di tedesco, ci sembravano ancora più orribili. Noi ragazzi avevamo paura dell’inferno e avevamo ancora più paura dei frati.
Sinval, il mio futuro compagno di avventure, ci raccontava che obbligavano gli operai a lavorare gratis al restauro della cattedrale (dove c’era un gigantesco São Cristovão appoggiato a una palma da cocco, con in braccio un piccolo Gesù Bambino, il tutto decorato d’oro) e quelli che rifiutavano venivano denunciati a mio zio, invitato spesso alla mensa dei frati, che li licenziava.
Le case, tutte antiche e di mattoni, si estendevano sulla piazza del convento e si tenevano in equilibrio lungo le strade che ne scendevano.
La sera, si mettevano le sedie per strada e le vecchie raccontavano storie divertenti dell’epoca di mio nonno.
I ragazzi si rincorrevano intorno alla croce, annerita dal tempo.
Le poche ragazze ricche andavano in collegio ad Aracaju e, quando tornavano con il diploma di maestra, avevano un fidanzato laureato, molta malizia e, secondo mio padre, assassinavano al piano la musica moderna.
Quelli che abitavano in piazza o nelle strade sulle colline, erano l’élite, l’aristocrazia. Là sotto c’erano la fabbrica, il quartiere operaio, la plebe.

La fabbrica era un cassone bianco pieno di rumore e di vita. Settecento operai, dei quali più di cinquecento erano donne. Gli uomini emigravano dicendo che «lavorare in filanda è un lavoro da femmine». I più timidi non partivano e si sposavano e avevano legioni di figlie, che sostituivano le nonne e le madri quando queste non ce la facevano più e smettevano di lavorare.
La nascita di una figlia era accolta con gioia. Due mani in più per il lavoro. Un maschio, al contrario, era considerato una sciagura. Il figlio mangiava, cresceva e se ne andava o nelle piantagioni di caffè intorno a São Paulo o in quelle di cacao di Ilhéus con un’ingratitudine incomprensibile. Uscendo dalla fabbrica si passava su una trave a cavallo di un ruscello e si arrivava al quartiere Cu com Bunda, culo e sedere, dove abitavano quasi tutti gli operai. Un grande rettangolo in cui le case confinavano dalla parte di dietro. Da cui il nome pittoresco. Tra le piccole case spiccavano l’infermeria e lo studio dentistico. Il dentista veniva da Aracaju due volte la settimana. Sinval diceva:
«Un operaio può avere mal di denti solo martedì e venerdì…»
L’infermiere abitava a São Cristovão, però era impegnato nella campagna elettorale di mio zio e le dedicava quasi tutto il tempo.
Nel quartiere Cu com Bunda, la gente si divertiva la sera quando le chitarre cantavano cocos e la bottiglia di acquavite passava di mano in mano. Gli operai leggevano allora le lettere dei parenti che abitavano a Ilhéus e progettavano di emigrare tutti insieme.
Il cacao esercitava su di loro un fascino malato. I frati ogni tanto scendevano dal convento e, stando attenti a non avvicinarsi ai bambini pieni di pidocchi, sorridevano agli operai e parlavano di «piccoli interventi alla chiesa o al convento»…

Quando mio padre morì e dopo che lo zio ebbe decretato la nostra indigenza, andammo ad abitare in una casupola all’inizio di una discesa. Mi avvicinai molto più al proletariato del Cu com Bunda che all’aristocrazia della decadenre São Cristovão.
Mi abituai a giocare a calcio con i figli degli operai. Il pallone, povera palla rudimentale, era una vescica di bue riempita d’aria. Diventai amico di un ragazzo, Sinval, unico figlio di un’operaia il cui marito era morto a São Paulo coinvolto in uno scontro con la polizia, non so bene perché. So che gli operai dicevano che era un martire. E Sinval faceva danni contro i padroni più che poteva. Mingherlino, le ossa quasi a vista, aveva però la voce sicura e lo sguardo aggressivo. Era il nostro capo quando andavamo a rubare la frutta nelle fattorie vicine. E ogni volta che passava mio zio, sputava per terra. Diceva che appena avesse compiuto sedici anni, sarebbe andato a São Paulo a combattere come suo padre. Soltanto molto tempo più tardi capii che cosa intendeva.
Elza e io andavamo a scuola. La mamma faceva pizzi e i suoi genitori l’aiutavano a mantenerci. A quindici anni andai a lavorare in fabbrica. Ero un ragazzotto robusto, con il torace ben sviluppato. Il bambino anemico che ero stato si era trasformato in un adolescente con muscoli sodi rinvigoriti nelle lotte tra ragazzi. Dimostravo più anni di quelli che avevo. Avevo sempre vissuto tra i monelli poveri della città, povero come loro. Adesso sarei stato uguale a loro in tutto, operaio della fabbrica. Sinval non mi avrebbe più detto con quel sorriso burlone:
«Signorino ricco…»

Per cinque anni sopportai in fabbrica la brutalità di mio zio. Sinval a diciassette anni aveva venduto quel po’ di roba e mobili che possedeva ed era andato a cercare lavoro in fabbrica o in fazenda a São Paulo. Le prime e ultime notizie che avemmo di lui arrivarono due anni dopo. Era impegnato in uno sciopero e si aspettava di venire arrestato da un momento all’altro. Poi più niente, né una 1ettera, né un messaggio. Gli operai dicevano:
«Ha fatto la fine del padre», e furiosi stringevano i pugni. Ma la sirena della fabbrica fischiava e loro si piegavano, scarni e silenziosi.
Le mie mani erano callose e le spalle larghe. Avevo dimenricato molto del poco imparato a scuola, ma in compenso ero piuttosto orgoglioso di essere operaio. Non avrei cambiato il mio posto in filanda con quello di padrone. Mio zio era molto più vecchio, molto più rosso e molto più ricco. La pancia era l’indice della sua prosperità. Quanto più lo zio arricchiva, tanto più la pancia aumentava. Era enorme, indecente, mostruosa. Pochi patrimoni a Sergipe erano uguali al suo. Elargiva elemosine solo al convento (dove sbafava cene) e all’orfanotrofio. A questo dava soldi e orfane. Non si poteva contare sulle dita, neanche sommando quelle dei piedi, il numero di operaie rovinate da mio zio.

A quattordici anni ebbi una passioncella per una puttana consunta e sifilitica, con la quale iniziai la vita sessuale. L’amore, a diciotto anni, platonico, per una biondina che si fece suora e infine, a vent’anni, il progetto di andare a vivere con Margarida, operaia come me. Non fu una buona idea. Anche mio zio aveva messo gli occhi su Margarida, seni alti e bianchi, un faccino da bambina maliziosa. Margarida un giorno venne a dirmi che il padrone la palpava. E rideva, impudente. Credo sia stata la sua risata a farmi aggredire lo zio. Gli spaccai la faccia ipocrita. Mi licenziò.

Per mia madre e per Elza, São Paulo era la fine del mondo. Non mi avrebbero mai permesso di andarci. Allora cominciai a parlare di Ilhéus, terra di cacao e di denaro, dove si dirigevano generazioni di emigranti. E dato che Ilhéus era a due soli giorni di nave da Aracaju, mi permisero, un mattino meraviglioso di luce, di saltare a bordo del Murtinho, in terza classe, diretto alla terra del cacao, l’Eldorado di cui gli operai parlavano come della terra di Canaan.
La mamma piangeva, Elza piangeva, quando mi abbracciarono il giorno che partii per Aracaju a prendere il vapore. Guardai la vecchia città di São Cristovão, il cuore pieno di nostalgia. Ero sicuro che non sarei più tornato.
I figli degli operai giocavano a calcio con una vescica di bue riempita d’aria.

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Fonte: AMADO, Jorge. Cacao. In: Jorge Amado: romanzi. [La revisione delle traduzioni è a cura di Paolo Collo e Daniela Ferioli]. Milano: A. Mondadori, 2002. p. 145-52.





Bio fornecida pelo palestrante.

Dona Flor e seus dois maridos




Autor: Jorge Amado
Título: Dona Flor e seus dois maridos, Doña Flor y sus dos maridos
Idiomas: port, esp
Tradutor: Lorenzo Varela(esp)
Data: 28/12/2004

DOÑA FLOR Y SUS DOS MARIDOS: EDIFICANTE HISTORIA DE AMOR

1


Jorge Amado

Vadinho, el primer marido de doña Flor, murió un domingo de carnaval por la mañana, disfrazado de bahiana, cuando sambava en un grupo y en medio de la mayor animación, en el Largo 2 de Julio, no muy lejos de su casa. No formaba parte de la agrupación; acababa de mezclarse con ella junto con otros cuatro amigos, todos con vestidos de bahiana, viniendo de un bar de la calle Cabeça, en el que el whisky había corrido con abundancia a costa de un tal Moysés Alves, hacendado del cacao, rico y perdulario.
La comparsa tenía una pequeña y afinada orquestra de guitarras y flautas; tocaba el guitarrillo Carlinhos Mascarenhas, un flacucho celebrado en las “garçonnières”, ¡ah! un tocador divino. Los muchachos iban vestidos de gitanos y las chicas de campesinas húngaras o rumanas; jamás, sin embargo, hubo húngara o rumana –o incluso búlgara o eslovaca– que se cimbreara como se cimbreaban ellas, mestizas en la flor de la edad y de la seducción.
Vadinho, el más animado de todos, al ver aparecer el conjunto en la esquina y oír el punteo del esque1ético Mascarenhas en el sublime guitarrillo, se adelantó con rapidez, situóse junto a una rumana repintada, grandota, monumental como una iglesia- que podía ser la de San Francisco, pues la cubría un derroche de lentejuelas doradas–, y anunció:
–Aquí estoy yo, mi rusa del Tororó…
El “gitano” Mascarenhas, que también iba cubierto de abalorios y canutillos y con festivas argollas colgando de las orejas, le exigió al guitarrillo; gimieron las flautas y las guitarras y Vadinho se lanzó a sambar con el ejemplar entusiasmo característico de todo cuanto hacía, si se exceptúa el trabajo. Remolineando en medio de la murga, zapateaba frente a la mulata, avanzando hacia ella con floreos y ombligazos, cuando, de repente, soltó una especie de ronquido apagado, le vacilaron las piernas, se inclinó hacia un lado y rodó por el suelo echando una baba amarilla por la boca, sin que la mueca de la muerte consiguiese apagar del todo la alegre sonrisa del juerguista impenitente que había sido.
Los amigos no lo atribuyeron a los whiskys del hacendado sino a la cachaça: no hubieran bastado aquellas cuatro o cinco dosis para terminar con un bebedor de la clase de Vadinho. Pero pudo ser, sí, toda la cachaça acumulada desde el mediodía anterior, cuando inauguraron oficialmente el carnaval en el Bar Triunfo, en la Plaza Municipal, que seguramente se le había subido toda junta, de golpe, haciéndolo caer en un profundo sopor. Mas la profesional, estaba familiarizada con la muerte, la frecuentaba diariamente en el hospital. Claro que no con tanta intimidad como en este caso, en que le había dirigido ombligazos, hecho guiños y sambado con ella. Se inclinó sobre Vadinho, le puso una mano en el cuello y se estremeció, sintiendo escalofríos en el vientre y en la espina dorsal:
-¡Está muerto, Dios mío!
También tocaron otros el cuerpo del mozo, alzaron su cabeza de larga cabellera rubia, y buscaron los latidos de su corazón. Nada consiguieron, era inútil. Vadinho desertó para siempre del carnaval de Bahia.

2

Grande fue el alboroto en la comparsa y en la calle, así como el revuelo producido en los alrededores. Un “Dios nos salve” sacudió a los enmascarados. Y encima de todo la escandalosa Anete, una maestrita romántica e histérica, aprovechó tan inmejorable ocasión para tener un soponcio, entre agudos chillidos y amagos de desmayo: toda una escena en honor de Carlinhos Mascareñas, por quien suspiraba esa melindrosa propensa al patatús, que decía ser ultrasensible y se erizaba como una gata cuando él pulsaba el guitarrillo. El instrumento colgaba ahora de las manos del artista, silencioso e inútil, como si Vadinho se hubiera, llevado consigo al otro mundo sus últimos acordes.
De todas partes acudía la gente corriendo, pues la noticia circuló rápidamente por las inmediaciones, llegando a San Pedro, a la Avenida Sete, al Campo Grande, y arreando curiosos. En torno al cadáver acabó por juntarse una pequeña multitud, que se codeaba y hacía comentarios. Llamaron a un médico residente del Sodré mientras un policía de tránsito hacia sonar el silbato sin cesar como para anunciar a la ciudad entera, a todo en Carnaval, el fin de Vadinho.
“¡Pero si es Vadinho, el pobre!”, constató un enmascarado, que llevaba una media como antifaz, perdiendo su animación. Todos reconocieron al muerto, pues su figura era muy popular, con su estallante alegría, su bigotito recortado, su pícara altivez. Sobre todo era bien visto en los lugares donde se bebía, jugaba y farreaba. Y allí, tan cerca de su casa, no había quien no lo conociese.
Otro disfrazado, vestido con una bolsa y cubierto con una cabezota de osos, atravesó el compacto grupo, consiguiendo acercarse y ver al muerto. Entonces se quitó la máscara, dejando a la vista una cara llena de aflicción, de bigotes caídos y cabeza calva, y murmurando:
–Vadinho, hermanito, ¿qué te hicieron?
“¿Qué le pasó? ¿De qué murió”, se preguntaban unos a otros, y alguien respondió: “Fue la cachaça”. Explicación demasiado fácil para muerte tan inesperada. También se detuvo ante el difunto una vieja encorvada, que echó una mirada y reflexionó:
-¡Tan mozo todavía! ¿Por qué se ha de morir tan joven?
Se cruzaban las preguntas y las respuestas, mientras el médico ponía el oído sobre el pecho de Vadinho, para realizar la comprobación final e inútil.
“Estaba sambando muy entusiasmado cuando sin más se cayó de costado, con la muerte adentro”, explicaba uno de los amigos, ya totalmente curado de la cachaça, súbitamente sobrio y conmovido, un tanto ridículo con sus ropas femeninas de bahiana, con las mejillas pintadas de rojo y profundas ojeras negras trazadas con un corcho quemado.
El hecho de estar disfrazados de bahiana no debe dar lugar a maliciosos pensamientos en torno a los cinco mozos, todos ellos de reconocida virilidad. Se habían disfrazado así sólo para divertirse más, por amor a la farsa y por picardía, no por afeminados o por inclinación a presuntas exquisiteces. No había maricas entre ellos, ¡alabado sea Dios! Vadinho incluso se había atado bajo la blanca enagua almidonada una enorme raíz de mandioca y a cada paso levantaba las faldas y exhibía el descomunal y pornográfico trofeo, que obligaba a las mujeres a taparse con las manos la cara sonriente, con fingida vergüenza. Ahora la raíz pendía del muslo descubierto, pero ya no hacía reír a nadie. Uno de los amigos se acercó y la desató de la cintura de Vadinho. Pero ni aún así adquirió el difunto un aspecto púdico y decente: era un muerto de carnaval, ni siquiera mostraba sangre de bala o de puñalada corriéndole por el pecho, que pudiera rescatarlo de su condición de mascarita.
Doña Flor, precedida, claro está, de doña Norma, que daba órdenes y le abría paso, llegó casi al mismo tiempo que la policía. Cuando apareció doblando la esquina y apoyada en los brazos solícitos de las comadres, todos adivinaron que era la viuda, pues venía suspirando y gimiendo, sin intentar al menos contener los sollozos, deshecha en llanto. Además, llevaba puesta la bata de entre-casa, bastante gastada, que usaba para hacer la limpieza, calzaba pantuflas y todavía estaba despeinada. Aún así era bonita, de agradable presencia: pequeña y rechoncha, gorda pero sin grasa, la piel bronceada con tono de cabo-verde, lisos los cabellos y tan negros que parecían azulados, ojos para un requiebro y labios gruesos, entreabiertos sobre los dientes blancos. Apetitosa, como acostumbraba a calificarla el mismo Vadinho en sus días de ternura, tal vez raros, pero por eso mismo inolvidables. Quizá a causa de las actividades culinarias de la esposa, en esos instantes de idilio él la llamaba “mi marlo de maíz verde, mi acarajé oloroso, mi pollita gorda”; y tales comparaciones gastronómicas dan una idea justa de cierto encanto sensual y hogareño que poseía doña Flor, escondido tras una apariencia tranquila y dócil. Vadinho conocía las flaquezas de ella y las señalaba claramente: sus ansias contenidas, de tímida, su recatado deseo que se tornaba violento e incluso incontenible, cuando se manifestaba libremente. Como estuviese en vena Vadinho, nadie podía ser más fascinante, y ninguna mujer se le resistía. Doña Flor jamás pudo eludir su encanto, aunque estuviese indignada, enojada por algún motivo reciente. Pues en repetidas ocasiones había llegado a odiarlo y a renegar del día en que uniera su suerte a la del bohemio.
Pero mientras caminaba acongojada al encuentro de su intempestiva muerte doña Flor iba atontada, con la cabeza vacía. No se acordaba de nada, ni aún de los momentos de honda ternura, y mucho menos de los días crueles, de angustia y soledad, como si el marido, al expirar, hubiese quedado libre de todos sus defectos, o como si no los hubiera tenido en “su breve paso por este valle de lágrimas”.
“Breve fue su paso por este valle de lágrimas”, sentenció el respetable profesor Epaminondas Souza Pinto, con afectación y apresuramiento, procurando saludar a la viuda y darle el pésame incluso antes de que ella llegara junto al cuerpo del marido. Mas doña Gisa, profesora igualmente, y hasta cierto punto también respetable, pudo contener a la vez su risa y la diligencia del colega. Si en verdad había sido breve el paso de Vadinho por la vida –acababa de cumplir treinta y un años–, para él, doña Gisa lo sabía bien, el mundo no había sido un valle de lágrimas, y sí un escenario de farsas, embrollos, embustes y pecados. Algunos de ellos, producto sin duda del apuro y la confusión, sometieron su corazón a arduas pruebas, angustias y sobresaltos: deudas a pagar, pagarés a descontar, garantes a convencer, compromisos asumidos, bancos y usureros, rostros inconmovibles, amigos que lo esquivaban, sin hablar de los sufrimientos físicos y morales de doña Flor. Porque, razonaba doña Gisa en su enrevesado portugués (era medio norteamericana; se naturalizó y se sentía brasileña, pero ese diablo de idioma ¡ah!, no conseguía dominarlo), si hubo lágrimas en el breve paso de Vadinho por la vida, estas fueron las de doña Flor, y muchas alcanzando de sobra para la pareja.
Ante su muerte repentina, doña Gisa no pensaba en Vadinho sino con nostalgia: le tenía simpatía; a pesar de todo, en ciertos aspectos era gentil y cautivante. Pero no por eso, sin embargo, no por estar él allí, en el Largo 2 de Julio, muerto, tendido en la calle, vestido de bahiana, iba ella de repente a santificarlo, torcer la realidad, e inventar un Vadinho hecho de una sola pieza. Así se lo explicó a doña Norma, íntima y vecina suya, pero no tuvo el esperado apoyo de la aparcera. Doña Norma le había cantado las diez últimas a Vadinho muchas veces; peleaba con él y le endilgaba sermones monumentales, y un día llegó a amenazarlo con llamar a la policía. Pero en aquella hora final y dolorosa no deseaba comentar las predominantes y desagradables facetas del finado, sólo quería alabar sus lados buenos, su natural amabilidad, su solidaridad siempre pronta a manifestarse, su lealtad para con los amigos, su indiscutible generosidad (sobre todo cuando la practicaba con dinero ajeno), su irresponsable e infinita alegría de vivir. Además, estaba ocupada en acompañar y socorrer a doña Flor que ni siquiera prestaba oídos a las duras verdades de doña Gisa. Doña Gisa era así: la verdad por encima de todo, a veces hasta hacerla parecer áspera e inflexible; tal vez era una actitud de defensa contra, su buena fe, pues era crédula hasta el absurdo y confiaba en todo el mundo. No, ella, no se acordaba de las malas acciones de Vadinho para criticarlo y condenarlo. Vadinho le agradaba, y con frecuencia se enfrascaban los dos en largas conversaciones, pues a doña Gisa le interesaba conocer la psicología del submundo en que él se movía, y él le contaba casos y cosas mientras atisbaba en su escote los dos senos pujantes y pecosos. Quizá Doña Gisa lo entendiese mejor que doña Norma, pero, al contrario que la otra, no le perdonaba ni un solo defecto y no iba a mentir sólo porque estuviese muerto. Ni a sí misma se mentía doña Gisa, a no ser que fuera indispensable. Y no era este el caso, evidentemente.
Doña Flor se metía entre la gente siguiendo el claro que dejaba doña Norma, quien se abría camino gracias a sus codos y a su gran popularidad:
–Vamos, apártense, amigos, déjenla pasar a la pobre…
Allí estaba sobre los adoquines, los labios sonrientes, blanco y rubio, lleno de paz y de inocencia. Dona Flor quedó inmóvil por un instante, contemplándolo, como si tardase en reconocer al marido, o más bien, probablemente, en aceptar el hecho, ahora indiscutible, de su muerte. Pero fue sólo un instante. Con un grito salido de lo hondo de las entrañas, se echó sobre Vadinho, besándole los cabellos, el rostro pintado de carmín, los ojos abiertos, el atrevido bigote, la boca muerta, para siempre muerta.

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Fonte: AMADO, Jorge. Doña Flor y sus dos maridos: edificante historia de amor. Traducción de Lorenzo Varela. 15ª ed. Buenos Aires: Editorial Losada, 1983. p. 17-22.

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS: HISTÓRIA MORAL E DE AMOR

1


Jorge Amado

Vadinho o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o uísque correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.
O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões e flautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos castelos, ah! um cavaquinho divino. Vestiam-se os rapazes de ciganos e as moças de camponesas húngaras ou rumenas; jamais, porém, húngara ou rumena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas, cabrochas na flor da idade e da faceirice.
Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o ponteado do esquelético Mascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante a rumena carregada na cor, uma grandona, monumental como uma igreja – e era a Igreja de São Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada –, anunciou:
– Lá vou eu, minha russa do Tororó…
O cigano Mascarenhas, também ele gastando vidrilhos e miçangas, festivas argolas penduradas nas orelhas, apurou ao cavaquinho, as flautas e os violões gemeram, Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora.
Os amigos ainda pensaram tratar-se de cachaça, não os uísques do fazendeiro: não seriam aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir bebedor da classe de Vadinho; porém toda a cachaça acumulada desde a véspera ao meio-dia quando oficialmente inauguraram o carnaval no Bar Triunfo, na Praça Municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o adormecido. Mas a mulata grandona não se deixou enganar: enfermeira de profissão estava acostumada com a morte, freqüentava-la diariamente no hospital. Não, porém, tão íntima a ponto de dar-lhe umbigadas, de pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho, colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio no ventre e na espinha:
– Tá morto, meu Deus!
Outros tocaram também o corpo do moço, tornaram-lhe do pulso, suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do coração. Nada obtiveram, era sem jeito, Vadinho desertara para sempre do Carnaval da Bahia.

2

Foi um rebuliço no bloco e na rua, um corre-corre pelas redondezas, um deus-nos-acuda a sacudir os carnavalescos – e ainda por cima a escandalosa Anete, professorinha romântica e histérica, aproveitou a boa oportunidade para um chilique, com pequenos gritos agudos e ameaças de desmaio. Toda aquela representação em honra do dengoso Carlinhos Mascarenhas, por quem suspirava a melindrosa de faniquito fácil – dizendo-se ela própria ultra-sensível, arrepiando-se como uma gata quando ele dedilhava o cavaquinho. Cavaquinho agora silencioso, pendendo inútil das mãos do artista, como se Vadinho houvesse levado consigo para o outro mundo seus derradeiros acordes.
Veio gente correndo de todos os lados, logo a notícia circulou pelas imediações, chegou a São Pedro, à Avenida Sete, ao Campo Grande, arrebanhando curiosos. Em torno ao cadáver reunia-se uma pequena multidão a acotovelar-se em comentários. Um médico residente no Sodré foi requisitado e um guarda-de-trânsito sacou de um apito e nele soprava sem parar como a advertir a cidade inteira, a todo o Carnaval, do fim de Vadinho.
“Pois se é Vadinho, coitadinho dele!”, constatou um careta, com sua máscara de meia, perdida a animação. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, com sua alegria esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro, benquisto sobretudo nos lugares onde se bebia, jogava, e farreava; e ali, tão perto de sua residência, não havia quem não o identificasse.
Outro mascarado, este vestido de aniagem e coberto com uma cabeçorra de urso, varou o cerrado grupo, conseguiu aproximar-se e ver. Arrancou a máscara deixando exposta uma cara aflita, de bigodes caídos e crânio careca e murmurou:
– Vadinho, meu irmãozinho, que foi que te fizeram?
“Que foi que deu nele, de que morreu?” perguntavam-se uns aos outros, e havia quem respondesse: “foi cachaça”, numa explicação por demais fácil para tão inesperada morte. Uma velha curvada parou também, deu sua olhadela, constatou:
– Tão moderno ainda, por que morrer tão moço?
Perguntas e respostas cruzavam-se, enquanto o médico colocava o ouvido sobre o peito de Vadinho, numa constatação final e inútil.
“Estava sambando, numa animação retada, e sem avisar nada a ninguém caiu de lado já todo cheio da morte” – explicou um dos quatro amigos, curado por completo da cachaça, de súbito sóbrio e comovido, meio sem jeito nas roupas femininas de baiana, as faces vermelhas de carmim, fundas olheiras negras, traçadas com cortiça queimada, sob os olhos.
O fato de estarem fantasiados de baiana não deve levar a maliciar-se sobre os cinco rapazes, todos eles de macheza comprovada. Vestiam-se de baiana para melhor brincar, por farsa e molecagem, e não por tendência ao efeminado, a suspeitas esquisitices. Não havia chibungo entre eles, benza Deus. Vadinho, inclusive, amarrara, sob a anágua branca e engomada, enorme raiz de mandioca e, a cada passo, suspendia as saias e exibia o troféu descomunal e pornográfico, fazendo as mulheres esconderem nas mãos o rosto e o riso, com maliciosa vergonha. Agora a raiz pendia abandonada sobre a coxa descoberta e não fazia ninguém rir. Um dos amigos veio e a desatou da cintura de Vadinho. Mas nem assim o defunto ficou decente e recatado, era um morto de Carnaval e não exibia se quer sangue de bala ou de facada a escorrer-lhe do peito, capaz de resgatar seu ar de mascarado.
Dona Flor, precedida, é claro, por dona Norma a dar ordens e a abrir caminho, chegou quase ao mesmo tempo que a polícia. Quando despontou na esquina, apoiada nos braços solidários das comadres, todos adivinharam a viúva, pois vinha suspirando e gemendo, sem tentar controlar os soluços, num pranto desfeito. Ao demais, trajava o robe caseiro e bastante usado com que cuidava do asseio do lar, calçava chinelas cara-de-gato e ainda estava despenteada. Mesmo assim era bonita, agradável de ver-se: pequena e rechonchuda, de uma gordura sem banhas, a cor bronzeada de cabo-verde, os lisos cabelos tão negros a ponto de parecerem azulados, olhos de requebro e os lábios grossos um tanto abertos sobre os dentes alvos. Apetitosa, como costumava classificá-la o próprio Vadinho em seus dias de ternura, raros talvez porém inesquecíveis. Quem sabe, devido às atividades culinárias da esposa, nesses idílios Vadinho dizia-lhe “meu manuê de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda”, e tais comparações gastronômicas davam justa idéia de certo encanto sensual e caseiro de dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranqüila e dócil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquele recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertar-se na cama. Quando Vadinho estava de veia, não existia ninguém mais encantador e nenhuma mulher sabia resistir-lhe. Dona Flor jamais conseguira recusar-se a seu fascínio nem mesmo se a tanto se dispunha cheia de indignação e de raiva recentes. Pois, em repetidas ocasiões, chegara a odiá-lo e a arrenegar o dia em que unira sua sorte à do boêmio.
Mas andando agoniada, ao encontro da intempestiva morte de Vadinho, dona Flor ia zonza, vazia de pensamentos, de nada se recordava, nem dos momentos de densa ternura, menos ainda dos dias cruéis, de angústia e solidão, como se ao expirar ficasse o marido despojado de todos os defeitos ou como se não os houvesse possuído em “sua breve passagem por este vale de lágrimas”.
“Foi breve sua passagem por esse vale de lágrimas”, pronunciou o respeitável professor Epaminondas Souza Pinto afetado e afobado, tentando cumprimentar a viúva, dar-lhe os pêsames, antes mesmo dela chegar junto ao corpo do marido. Dona Gisa, também professora e até certo ponto também respeitável, conteve o açodamento do colega e conteve o riso. Se em verdade fora breve a passagem de Vadinho pela vida – vinha de completar trinta e um anos –, para ele, dona Gisa bem o sabia, não fora o mundo vale de lágrimas e, sim, palco de farsas, engodos, embustes e pecados. Alguns deles aflitos e confusos, sem dúvida, submetendo seu coração a árduas provas, a agonias e sobressaltos: dívidas a pagar, promissórias a descontar, avalistas a convencer, compromissos assumidos, prazos improrrogáveis, protestos e cartórios, bancos e agiotas, caras amarradas, amigos esquivando-se, sem falar nos sofrimentos físicos e morais de dona Flor. Porque, considerava dona Gisa em seu português arrevesado – era vagamente norte-americana, naturalizara-se e se sentia brasileira mas o diabo da língua, ah! não conseguia dominá-la –, se houvera lágrimas na breve passagem de Vadinho pela vida, elas tinham sido choradas por dona Flor e foram muitas, davam de sobra para o casal.
Diante de tão súbita morte, dona Gisa não pensava em Vadinho senão com saudade: era-lhe simpático, apesar de tudo; possuía um lado gentil e cativante. Nem por isso, no entanto, nem por ele encontrar-se ali, no Largo Dois de Julho, morto, estendido na rua, vestido de baiana, iria ela de repente santificá-lo, torcer a realidade, inventar outro Vadinho feito de um só pedaço. Assim explicou a dona Norma, sua vizinha e íntima, mas não obteve da parceira o esperado apoio. Dona Norma muitas vezes dissera as últimas a Vadinho, brigava com ele, pregava-lhe sermões monumentais, chegara um dia a ameaçá-lo com a polícia. Naquela hora derradeira e aflita, porém, não desejava comentar as predominantes e desagradáveis facetas do finado, queria apenas gabar seus lados bons, sua gentileza natural, sua solidariedade sempre pronta a manifestar-se, sua lealdade para com os amigos, sua indiscutível generosidade (sobretudo se a praticava com o dinheiro alheio), sua irresponsável e infinita alegria de viver. Aliás, tão ocupada em acompanhar e socorrer dona Flor, nem tinha ouvidos para dona Gisa com sua dura verdade. Dona Gisa era assim: a verdade acima de tudo, por vezes a ponto de fazê-la parecer áspera e inflexível; talvez numa atitude de defesa contra sua boa fé, pois era crédula ao absurdo e confiava em todo mundo. Não, não relembrava os malfeitos de Vadinho para criticá-lo ou condená-lo, gostava dele e com freqüência perdiam-se os dois em longas prosas, dona Gisa interessada em apreender a psicologia do submundo onde Vadinho se movimentava, ele a contar-lhe casos e a espiar-lhe no decote do vestido o nascer dos seios pujantes e sardentos. Talvez dona Gisa o entendesse melhor que dona Norma, mas, ao contrário da outra, não lhe descontava sequer um defeito, não ia mentir só por que ele morrera. Nem a si própria dona Gisa mentia, a não ser quando isso se fazia indispensável. E não era o caso, evidentemente.
Dona Flor atravessava o povo no rastro de dona Norma a abrir caminho com os cotovelos e com sua extensa popularidade:
– Vai, arreda minha gente, deixa a pobre passar…
Lá estava Vadinho no chão de paralelepípedos, a boca sorrindo, todo branco e loiro, todo cheio de paz e de inocência. Dona Flor ficou um instante parada, a contemplá-lo como se demorasse a reconhecer o marido ou talvez, mais provavelmente, a aceitar o fato, agora indiscutível, de sua morte. Mas foi só um instante. Com um berro arrancado do fundo das entranhas, atirou-se sobre Vadinho, agarrou-se ao corpo imóvel a beijar-lhe os cabelos, o rosto pintado de carmim, os olhos abertos, o atrevido bigode, a boca morta, para sempre morta.

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Fonte: AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos: história moral e de amor. 7ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1966. p. 21-27.





Bio fornecida pelo palestrante.

Gabriela, Cravo e Canela




Autor: Jorge Amado
Título: Gabriela, Cravo e Canela, Gabriela, clavo y canela
Idiomas: port, esp
Tradutor: Haydée Jofré Barroso(esp)
Data: 28/12/2004

DE COMO EL DOCTOR CASI TENIA SANGRE IMPERIAL

de Gabriela, clavo y canela

Jorge Amado

 

El Doctor no era doctor, y el Capitán no era capitán. Como la mayor parte de los “coroneles” no eran coroneles. Pocos, en realidad, eran los terratenientes que en los comienzos de la República y del cultivo del cacao, habían alcanzado el grado de Coronel de la Guardia Nacional. Pero quedó la costumbre: dueño de plantaciones de más de mil arrobas, pasaba normalmente a usar y recibir el título, que allí no significaba mando militar sino reconocimiento de la riqueza. Juan Fulgencio, a quien le gustaba reírse de las costumbres locales, decía que la mayoría de ellos eran “coroneles de jagunços”, ya que muchos de ellos habían estado envueltos en las luchas por la conquista de la tierra.

Entre las jóvenes generaciones hubo quien ni siquiera supiera el sonoro y noble nombre de Pelópidas de Assunção d’Avila, tanto habíanse acostumbrado a tratarlo respetuosamente de “doctor”. En cuanto a Miguel Bautista de Oliveira, hijo del finado Cazuzinha, que fuera Intendente durante el primer período de las luchas, que tuviera dinero pero que había muerto pobre, y cuya fama de bondad aún hoy es comentada por las viejas comadres, desde criatura fue llamado “capitán”, cuando, inquieto y atrevido, comandaba a los chiquillos de entonces.

Eran dos personalidades ilustres de la ciudad y, aunque viejos amigos, entre ellos se dividía la población, indecisa en resolver cuál de los dos era el mayor y más arrebatador orador local. Dejando de lado al doctor Ezequiel Prado, invencible en el tribunal.

En las fiestas nacionales — el 7 de setiembre, el 15 de noviembre, o el 13 de mayo — , en las fiestas de fin de año, o de Año Nuevo con “reisado”, pesebre y “bumba-meu-boi”, en ocasión de la llegada a Ilhéus de literatos de la capital del Estado, la población se regocijaba y una vez más se dividía ante la oratoria del Doctor y del Capitán.

Nunca havíase alcanzado la unanimidad en esa disputa, prolongada através de los años. Prefiriendo unos las altisonantes frases del Capitán, donde los adjetivos grandiosos sucedíanse en impetuosa cabalgata y algunos temblores en la voz ronca provocaban delirantes aplausos; prefiriendo otros los largos períodos rebuscados del Doctor, la erudición trasluciendo en los nombres citados abundantemente, en la adjetivación difícil en que brillaban como joyas raras, ciertas palabras, tan clássicas, que apenas unos pocos conocían su verdadero significado.

Hasta las hermanas Dos Reis, tan unidas en todo lo restante de la vida, en este caso dividían sus opiniones. La debilucha y nerviosa Florita, se exaltaba con las arrogancias verbales del Capitán, con sus “rútilas auroras de la libertad”, deleitábase con los trémulos de voz al final de las frases, que vibraban en el aire. Quinquina, la gorda y alegre Quinquina, prefería el saber del Doctor, aquellas vetustas palabras, esa su manera patética de clamar con el dedo en alto: “¡Pueblo, oh mi pueblo!” De regreso de las reuniones cívicas en la Intendencia o en la plaza pública, las dos discutían, como lo hacía toda la ciudad incapaz de decidirse.

— No entiendo nada, pero es tan bonito… –concluía Quinquina, votando por el Doctor.

— Hasta me corre un frío por la columna cuando él habla –decía Florita votando por el Capitán.

Memorables días aquellos en que, en el palco de la Plaza de la Matriz de San Jorge, ornamentado con flores, el Capitán y el Doctor alternábanse en la palabra, uno como orador oficial de la Euterpe 13 de Mayo, el otro en nombre del Gremio Rui Barbosa, organización literario-charadística de la ciudad. Desaparecían todos los otros oradores (aun el profesor Josué, cuya verborrea lírica tenía su público de chiquillas del colegio de monjas), y se hacía el silencio de las grandes ocasiones cuando avanzaba hacia el palco la figura morena e insinuante del Capitán, vestido impecablemente de blanco con una flor en la solapa, alfiler de rubí en la corbata y aire de ave de rapiña debido a la nariz larga y curvada; o bien la silueta delgada del Doctor, pequeñito y saltarín como gárrulo pajarito inquieto, vistiendo su eterna ropa negra, cuello alto y pechera almidonada, con el “pince-nez” unido a la chaqueta por una cinta, y los cabellos ya casi enteramente blancos.

— Hoy el Capitán parecía una catarata de elocuencia. ¡Qué palabreo tan bonito!

— Pero vacío. El Doctor, en cambio pone tuétano en todo lo que dice. ¡El hombre es un diccionario!

Solamente el doctor Ezequiel Prado podía hacerle competencia en las pocas ocasiones en que, ebrio hasta caerse, subía a otra tribuna, fuera del Tribunal. También él tenía sus incondicionales, y, en lo que se refiere a los debates jurídicos, la opinión pública era unánime: no había quien se le comparase.

Pelópidas de Assunção d’Avila, descendía de unos Avila, hidalgos portugueses establecidos en Ilhéus en tiempos de las capitanías. Por lo menos así lo afirmaba el doctor, diciendo que se basaba en documentos de familia. Opinión digna de considerarse; ¡la de un historiador!

Descendiente de esos célebres Avila, cuyo solar habíase levantado entre Ilhéus y Olivença, hoy negras ruinas frente al mar, rodeadas de cocoteros, pero también de unos Assunção plebeyos y comerciantes, dígase en su homenaje, él rendía culto a la memoria de unos y de otros con el mismo exaltado fervor. Es claro que poco había que referir a los Assunção, mientras que la crónica de los Avila era rica en sucesos. Oscuro empleado nacional jubilado, el doctor vivía, sin embargo, perdido en un mundo de fantasías y de grandeza: la gloria antigua de los Avila y el glorioso presente de Ilhéus. Sobre los Avila, sus hechos y su prosapia, estaba él desde hacía muchos años escribiendo un libro voluminoso y definitivo. Era ardoroso propagandista y colaborador voluntario del progreso de Ilhéus.

Un Avila colateral y arruinado había sido el padre de Pelópidas. De la familia noble apenas si había heredado el nombre y el aristocrático hábito de no trabajar. No obstante, había sido el amor y no el interés, como entonces se dijera, lo que le llebara a casarse con una plebeya, hija del dueño de un próspero bazar de bagatelas. Tan próspero durante la vida del viejo Assunção que el nieto Pelópidas fue enviado a estudiar en la Facultad de Derecho de Río de Janeiro. Pero el viejo Assunção había muerto sin haber perdonado enteramente a su hija la torpeza de aquel casamiento noble, y el hidalgo, habiendo adquirido hábitos tan populares como el juego “de gamão”, y las peleas de gallos, fue comiéndose poco a poco el bazar, metro a metro los géneros, docena a docena las horquillas; pieza por pieza las cintas de colores. Y así había terminado la prosperidad de los Assunção luego de la grandeza de los Avila, dejando a Pelópidas en Río de Janeiro, sin recursos para continuar los estudios cuando andaba ya por el tercer año de la Facultad. Por entonces ya lo llamaban “doctor”, primero el abuelo y las empleadas de la casa, y luego los vecinos, cuando volvía a Ilhéus en vacaciones.

Amigos de su abuelo le consiguieron un pobre empleo en una oficina pública; dejó entonces los estudios pero permaneció en Río. Progresó en el empleo, pobre progreso sin embargo, por falta de protección de los grandes y de la útil sabiduría de la adulación. Treinta años después se jubiló y volvió a Ilhéus para siempre, para dedicarse a “su obra”, el libro monumental sobre los Avila y el pasado de Ilhéus.

Libro que ya era, por sí mismo, casi una tradición. De él se hablaba desde los tiempos en que, cuando aún era estudiante, el doctor publicara en una revista carioca, de circulación limitada y vida reducida al primer número, un famoso artículo sobre los amores del Emperador Pedro II — en su imperial viaje al norte del país — con la virginal Ofenisia, una Avila romántica y linfática.

El artículo del joven estudiante hubiera quedado en completa oscuridad si, por uno de esos azares, la revista no hubiese caído en manos de un escritor moralista, conde papal y miembro de la Academia Brasileña de Letras. Admirador incondicional de las virtudes del monarca, el conde sintióse ofendido en su propio honor con aquella “insinuación depravada y anarquista”, que colocaba al “insigne varón” en la ridícula postura de suspirante, de huésped desleal que buscaba las miradas de la hija virtuosa de la familia cuya casa honraba con su visita. En virtuoso portugués del siglo XVI, el conde hizo polvo al audaz estudiante, adjudicándole intenciones y objetivos que Pelópidas jamás tuviera. Alborozóse el estudiante con la durísima respuesta, que era casi la consagración. Para el segundo número de la revista preparó un artículo, en portugués no menos clásico, y con argumentos irrebatibles en el que, basado en hechos y sobre todo en los versos del poeta Teodoro de Castro, destrozaba definitivamente las negativas del conde. La revista no siguió circulando y se quedó en su primer número. El diario donde el conde atacara a Pelópidas se negó a publicarle la respuesta y, a mucho costo resumió las dieciocho páginas del doctor a veinte líneas en un rincón de la página. Pero aún hoy el doctor se vanagloria de esa su “violenta polémica” con un miembro de la Academia Brasileña de Letras, nombre conocido en todo el país.

— Mi segundo artículo lo aplastó y lo redujo al silencio…

En los anales de la vida intelectual de Ilhéus, esa polémica es asidua y vanidosamente citada como prueba de la cultura de sus hijos, junto a la mención de honor obtenida por Ari Santos — actual presidente del Gremio Rui Barbosa, empleado en una casa exportadora — en el concurso de cuentos de una revista carioca y de los versos del ya citado Teodoro de Castro.

En lo que respecta a los amores clandestinos del Emperador y de Ofenisia, al parecer se redujeron a miradas, suspiros y juramentos murmurados. El imperial viajero, la conoció en Bahía, durante una fiesta, apasionándose por sus ojos desmayados. Y como habitaba en la residencia de los Avila, en la “Ladeira do Pelourinho”, un cierto padre Romualdo, latinista meritorio, más de una vez el Emperador apareció por allí, con el pretexto de visitar al sacerdote de tanto saber. En los adornados balcones de la casa, el monarca había suspirado en latín su inconfesado e imposible deseo por esa flor de los Avila. Ofenisia, excitada como una criada rondaba la sala en la que las barbas negras y sabias del Emperador cambiaban ciencia con el padre, bajo los ojos respetuosos e ignorantes de Luis Antonio d’Avila, su hermano y jefe de la familia. Es cierto que Ofenisia, después de la partida de su imperial enamorado, desencadenó una ofensiva destinada a obtener la mudanza de todos para la corte, pero fracasó ante la obstinada resistencia de Luis Antonio, guardián de la honra de la doncella y de la familia.

Ese Luis Antonio d’Avila, murió hecho coronel en la guerra del Paraguay, comandando hombres llevados de sus ingenios, en la retirada de Laguna. La romántica Ofenisia murió tísica y virgen en el solar de los Avila, nostálgica de las barbas reales. Y borracho murió el poeta Teodoro de Castro, el apasionado y maravilloso cantor de las gracias de Ofenisia, cuyos versos tuvieron cierta popularidad en la época, nombre hoy injustamente olvidado en las antologías nacionales.

Para Ofenisia había escrito sus versos más inspirados, exaltando en rimas ricas su frágil belleza enfermiza, suplicando su inaccesible amor. Versos aún hoy declamados por las alumnas del colegio de monjas, al son de la “Dalila”, en fiestas y saraos. El poeta Teodoro, temperamento trágico y bohemio, sin duda murió de lánguida nostalgia (¿quién irá a discutir esa verdad con el doctor?), diez años después de la salida por la puerta del solar en luto, del blanco ataúd donde iba el cuerpo macerado de Ofenisia. Murió en verdad ahogado en alcohol, en el alcohol entonces barato en Ilhéus, del ingenio de los Avila.

Material interesante no le faltaba al doctor, como se ve, para su inédito y ya famoso libro: los Avila de los ingenios de azúcar y alambiques de aguardiente, de centenas de esclavos, de tierras inabarcables, los Avila del solar de Olivença, de la mansión en la Ladeira do Pelourinho en la capital, los Avila de pantagruélico paladar, los Avila mantenedores de concubinas en la corte, los Avila de las bellas mujeres y de los hombres sin miedo, incluyendo hasta un Avila letrado. Además de Luis Antonio y de Ofenisia, otros se habían destacado, antes y después, como aquél que luchó en tierras bahianas, junto al abuelo de Castro Alves, contra las tropas portuguesas en las batallas de la Independencia, en 1823. Otro Jerónimo d’Avila, habiéndose dado a la política y derrotado en unas elecciones (fraguadas por él en Ilhéus, y realizadas fraudulentamente por los adversarios en el resto de la provincia), poniéndose al frente de sus hombres, después de arrasar caminos y saquear poblados, se había dirigido a la capital amenazando con deponer al gobierno. Intermediarios consiguieron la paz y compensaciones para el furibundo Avila. La decadencia de la familia acentuóse con Pedro d’Avila, de barbita rubia y alocado temperamento, que huyó abandonando el solar (el caserón de Bahía ya había sido vendido), los ingenios y los alambiques hipotecados y la familia en llantos, para seguir a una gitana de extraña belleza y — en el decir de la esposa inconsolable — de maléficos poderes. De ese Pedro d’Avila, consta que murió asesinado durante una pelea callejera, por otro amante de la gitana.

Todo esto formaba parte de un pasado olvidado por los ciudadanos de Ilhéus. Una nueva vida había comenzado con la aparición del cacao, lo de ayer ya no contaba: ingenios y alambiques, plantaciones de caña de azúcar y de café, leyendas e historias que narraban cómo los hombres lucharon entre ellos por la posesión de la tierra. Los cantores ciegos llevaban por las ferias, hasta las más distantes regiones solitarias, los nombres y los hechos de los hombres del cacao, junto con la fama de aquella región. Solamente el Doctor preocupábase con los Avila. Lo que, sin embargo, no dejaba de aumentar la consideración que le dispensaban en la ciudad. Aquellos rudos conquistadores de tierras, terratenientes de pocas letras, tenían un respeto casi humilde por el saber, por los hombres que escribían en los diarios y por aquellos que pronunciaban discursos.

¿Qué decir entonces de un hombre con tanta inteligencia y conocimiento, capaz de estar escribiendo o de haber escrito un libro? Porque tanto se había hablado de ese libro del Doctor, tanto se elogiaron sus cualidades, que muchos lo creían publicado desde hacía años, y ya incorporado definitivamente al acervo de la literatura nacional.

Fonte:AMADO, Jorge. Gabriela, clavo y canela. Traducción de Haydée Jofré Barroso. Barcelona: Seix Barral, 1985. p. 28-34.

 
 
 

DE COMO O DOUTOR QUASE POSSUÍA SANGUE IMPERIAL

Gabriela, Cravo e Canela

Jorge Amado

 

O Doutor não era doutor, o Capitão não era capitão. Como a maior parte dos coronéis não eram coronéis. Poucos, em realidade, os fazendeiros que, nos começos da República e da lavoura do cacau, haviam adquirido patentes de coronel da Guarda Nacional. Ficara o costume: dono de roça de mais de mil arrobas passava normalmente a usar e receber o título que ali não implicava em mando militar e, sim, no reconhecimento da riqueza. João Fulgêncio, que amava rir dos costumes locais, dizia ser a maioria deles coronéis de jagunços, pois muitos se haviam envolvido nas lutas pela conquista da terra.

Entre as jovens gerações havia quem não soubesse sequer o sonoro e nobre nome de Pelópidas de Assunção d’Ávila, tanto se haviam acostumado a tratá-lo respeitosamente de Doutor. Quanto a Miguel Batista de Oliveira, filho do finado Cazuzinha, que fora intendente no começo das lutas, que tivera dinheiro e morrera pobre, cuja fama de bondade ainda hoje é comentada por velhas comadres, a Miguel chamaram-no de Capitão ainda criança, quando, irrequieto e atrevido, comandava os moleques de então.

Eram duas personalidades ilustres da cidade e, se bem velhos amigos, entre eles se dividia a população indecisa em resolver qual dos dois era o maior e mais empolgante orador local. Sem desfazer do dr. Ezequiel Prado, invencível no júri.

Nos feriados nacionais — o 7 de Setembro, o 15 de Novembro, o 13 de Maio —, nas festas do fim e do começo de ano com reisado, presépio e bumba-meu-boi, por ocasião da vinda a Ilhéus de literatos da capital do estado, a população se regalava e mais uma vez se dividia ante a oratória do Doutor e a do Capitão.

Jamais a unanimidade se obtivera nessa disputa prolongada através dos anos. Preferindo uns as altissonantes tiradas do Capitão, onde os adjetivos grandiosos sucediam-se em impetuosa cavalgada, uns trêmulos na voz rouca a provocarem delirantes aplausos; preferindo outros as longas frases rebuscadas do Doutor, a erudição transparecendo nos nomes citados em abundância, na adjetivação difícil, na qual brilhavam, como jóias raras, palavras tão clássicas que apenas uns poucos conheciam seu verdadeiro significado.

Até as irmãs Dos Reis, tão unidas em tudo o mais na vida, dividiam, no caso, suas opiniões. A franzina e nervosa Florzinha exaltava-se com os rompantes do Capitão, suas rútilas auroras da liberdade, deliciava-se com os trêmulos de voz nos fins de frase, vibrando no ar. Quinquina, a gorda e alegre Quinquina, preferia o saber do Doutor, aquelas vetustas palavras, aquela maneira patética como, de dedo em riste, ele clamava: — Povo, ó meu povo! Discutiam as duas, de volta das reuniões cívicas na intendência ou em praça pública, como discutia toda a cidade incapaz de decidir-se.

–Não entendo nada mas é tão bonito… — concluía Quinquina pelo Doutor.

–Sinto até um frio na espinha quando ele fala –decidia Florzinha pelo Capitão.

Memoráveis dias aqueles em que, no palanque da praça da Matriz de São Jorge, ornamentado de flores, o Capitão e o Doutor se sucediam com o verbo, um como orador oficial da Euterpe 13 de Maio, o outro em nome do Grêmio Rui Barbosa, organização lítero-charadística da cidade. Desapareciam todos os outros oradores (mesmo o professor Josué cujo palavreado lírico tinha seu público de mocinhas do colégio das freiras), fazia-se o silêncio das grandes ocasiões, quando avançava no palanque ou bem a figura morena e insinuante do Capitão, vestido de impecável roupa branca, uma flor na lapela, alfinete de rubi na gravata, ar de ave de rapina devido ao nariz crescido e curvo, ou bem a silhueta magra do Doutor, pequenino e saltitante, como gárrulo pássaro inquieto, trajando sua eterna roupa negra, colarinho alto e peitilho engomado, o pince-nez preso ao paletó por uma fita, os cabelos já quase inteiramente brancos.

— Hoje o Capitão parecia uma cachoeira de eloqüência –comentava. –Que palavreado bonito!

— Mas vazio. O Doutor, em compensação, tudo que ele diz tem tutano. O homem é um dicionário!

Só mesmo o dr. Ezequiel Prado podia lhes fazer concorrência nas raras vezes em que, quase sempre bêbado de cair, subia a outra tribuna fora do júri. Tinha ele também seus incondicionais, e, no que se refere aos debates jurídicos, a unanimidade da opinião pública: não havia quem se lhe comparasse.

Pelópidas de Assunção d’Ávila descendia de uns Ávilas, fidalgos portugueses estabelecidos nas bandas de Ilhéus ainda no tempo das capitanias. Pelo menos assim o afirmava o Doutor, dizendo-se baseado em documentos de família. Opinião ponderável, de historiador.

Descendente desses celebrados Ávilas, cujo solar elevara-se entre Ilhéus e Olivença, hoje negras ruínas ante o mar, cercadas de coqueiros, mas também de uns Assunção plebeus e comerciantes — diga-se em sua homenagem, ele cultuava a memória de uns e de outros com o mesmo fervor exaltado. É claro que pouco havia a contar sobre os Assunções, enquanto era rica de feitos a crônica dos Ávilas. Obscuro funcionário federal aposentado, vivia o Doutor, no entanto, em meio a um mundo de fantasias e de grandeza: a glória antiga dos Ávilas e o glorioso presente de Ilhéus. Sobre os Ávilas, seus feitos e sua prosápia, estava ele desde há muitos anos escrevendo um livro volumoso e definitivo. Do progresso de Ilhéus era ardoroso propagandista e voluntário colaborador.

Ávila colateral e arruinado fora o pai de Pelópidas. Da família nobre herdara apenas o nome e o aristocrático hábito de não trabalhar. Havia sido, porém, o amor, e não o vil interesse como então se propalara, que o levara a casar-se com uma plebéia Assunção, filha de um próspero bazar de miudezas. Tão próspero durante a vida do velho Assunção, que o neto Pelópidas fora mandado estudar na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Mas o velho Assunção morrera sem ter ainda completamente perdoado à filha a burrice daquele casamento nobre, e o fidalgo, tendo adquirido hábitos populares como o jogo de gamão e a briga de galos, comera a pouco e pouco o bazar, a metro e metro de fazenda, a dúzia e dúzia de grampos, a peça e peça de fita colorida. Assim terminara a abastança dos Assunção após a grandeza dos Ávilas, deixando Pelópidas no Rio sem recursos para continuar os estudos, quando andava pelo terceiro ano da faculdade. Já então o chamavam de Doutor, primeiro o avô, as empregadas da casa, os vizinhos, quando vinha a Ilhéus de férias.

Amigos de seu avô arranjaram-lhe magro emprego numa repartição pública, deixou os estudos, ficou pelo Rio. Prosperou na repartição, miúdo prosperar, no entanto, falho da proteção dos grandes e da útil sabedoria da adulação. Trinta anos depois aposentou-se e voltou a Ilhéus para sempre, para dedicar-se à sua obra, o livro monumental sobre os Ávila e o passado de Ilhéus.

Livro que já era, ele próprio, quase uma tradição. Pois nele se falava desde os tempos quando, ainda estudante, o Doutor publicara numa revista carioca, de circulação limitada e vida reduzida ao primeiro número, famoso artigo sobre os amores do imperador Pedro II — por ocasião de sua imperial viagem ao norte do país — e da virginal Ofenísia, Ávila romântica e linfática.

O artigo do jovem estudante passaria em completa obscuridade se, por um desses acasos, não houvesse a revista caído em mãos de escritor moralista, conde papalino e membro da Academia Brasileira de Letras. Admirador incondicional das virtudes do monarca, sentiu-se o conde ofendido em sua própria honra com aquela insinuação depravada e anarquista a colocar o insigne varão na postura ridícula de suspirante, de hóspede desleal a buscar os olhares da filha virtuosa da família cuja casa ilustrava com sua visita. Descompôs o conde, em vigoroso português quinhentista, o audacioso estudante, emprestando-lhe intenções e objetivos que Pelópidas jamais tivera. Alvoroçou-se o estudante coma ríspida resposta, era quase a consagração. Para o segundo número da revista preparou um artigo, em português não menos clássico e com argumentos irrespondíveis, no qual, baseado em fatos e sobretudo nos versos do poeta Teodoro de Castro, esmagava definitivamente as negativas do conde. A revista não voltou a circular, ficara no primeiro número. O jornal onde o conde atacara Pelópidas recusou-se a publicar-lhe a resposta, e, a muito custo, resumiu as dezoito laudas do Doutor a vinte linhas impressas, num canto da página. Mas ainda hoje o Doutor vangloria-se dessa sua violenta polêmica com um membro da Academia Brasileira de Letras, nome conhecido em todo o país.

— Meu segundo artigo o esmagou e o reduziu ao silêncio…

Nos anais da vida intelectual de Ilhéus essa polêmica é assídua e vaidosamente citada como prova da cultura ilheense, ao lado da menção honrosa obtida por Ari Santos — atual presidente do Grêmio Rui Barbosa, moço empregado numa casa exportadora — num concurso de contos de revista carioca, e dos versos do já citado Teodoro de Castro.

Quanto aos amores clandestinos do imperador e de Ofenísia, reduziram-se, ao que parece, a olhares, suspiros, juras murmuradas. O imperial viajante a teria conhecido na Bahia, numa festa, apaixonara-se por seus olhos de desmaio. E como habitava no sobrado dos Ávilas, na ladeira do Pelourinho, um certo padre Romualdo, latinista emérito, mais de uma vez o imperador por lá apareceu a pretexto de visitar sacerdote de tanto saber. Nos balcões rendilhados do sobradão, o monarca suspirara em latim inconfessado e impossível desejo por essa flor dos Ávilas. Ofenísia, numa excitação de mucama, rondava a sala onde as barbas negras e sábias do imperador trocavam ciência com o padre, sob as vistas respeitosas e ignorantes de Luiz Antônio d’Ávila, seu irmão e chefe da família. É certo ter Ofenísia, após a partida do imperial apaixonado, desencadeado uma ofensiva visando a mudarem-se todos para a corte, fracassando ante a obstinada resistência de Luiz Antônio, guardião da honra da donzela e da família.

Esse Luiz Antônio d’Ávila morrera coronel na guerra do Paraguai, chefiando homens levados de seus engenhos, na retirada da Laguna. A romântica Ofenísia morreu tísica e virgem, no solar dos Ávilas, saudosa das barbas reais. E bêbado morreu o poeta Teodoro de Castro, o apaixonado e mavioso cantor das graças de Ofenísia, cujos versos tiveram certa popularidade na época, nome hoje injustamente esquecido nas antologias nacionais.

Para Ofenísia escrevera seus versos mais catitas, exaltando em rimas ricas sua frágil beleza doentia, suplicando seu inacessível amor. Versos ainda hoje declamados pelas alunas do colégio das freiras, ao som da Dalila, em festas e saraus. O poeta Teodoro, temperamento trágico e boêmio, morreu sem dúvida de lânguida saudade (quem irá discutir com o Doutor essa verdade?), dez anos após a saída, pela porta do solar em luto, do caixão branco onde ia o corpo macerado de Ofenísia. Morreu afogado em álcool, no álcool então barato em Ilhéus, cachaça do engenho dos Ávilas.

Material interessante não faltava ao Doutor, como se vê, para seu inédito e já famoso livro: os Ávilas dos engenhos de açúcar e alambiques de cachaça, de centenas de escravos, de terras a nunca acabar, os Ávilas do solar em Olivença, do sobradão na ladeira do Pelourinho, na capital, os Ávilas de pantagruélico paladar, os Ávilas sustentando concubinas na corte, os Ávilas das belas mulheres e dos homens sem medo, incluindo até um Ávila letrado. Além de Luiz Antônio e de Ofenísia, outros haviam-se destacado, antes e depois, como aquele que lutou no Recôncavo, ao lado do avô de Castro Alves, contra as tropas portuguesas nas batalhas da Independência, em 1823. Outro, Jerônimo d’Ávila, dera-se à política, e, derrotado numas eleições, fraudadas por ele em Ilhéus, fraudadas pelos adversários no resto da Província, pusera-se à frente de seus homens, varrera estradas, saqueara povoados, marchara sobre a capital, ameaçando depor o governo. Intermediários obtiveram a paz e compensações para o Ávila colérico. A decadência da família acentuara-se com Pedro d’Ávila, de cavanhaque ruivo e aloucado temperamento, que fugira, abandonando o solar (o sobradão na Bahia já tinha sido vendido), os engenhos e os alambiques hipotecados, e a família em pranto, para servir uma cigana de estranha beleza e — no dizer da esposa inconsolável — de maléficos poderes. Desse Pedro d’Ávila constava haver terminado assassinado, numa briga de canto de rua, por outro amante da cigana.

Tudo isso fazia parte de um passado esquecido pelos cidadãos de Ilhéus. Uma nova vida começara com o aparecimento do cacau, o que acontecera antes não contava. Engenhos e alambiques, plantações de cana e de café, legendas e histórias, tudo havia desaparecido para sempre, cresciam agora as roças de cacau e as novas legendas e histórias narrando como os homens lutaram entre si pela posse da terra. Os cegos cantadores levavam pelas feiras, até o mais distante sertão, os nomes e os feitos dos homens do cacau, a fama daquela região. Só mesmo o Doutor se preocupava com os Ávilas. O que, no entanto, não deixava de aumentar a consideração que lhe dispensavam na cidade. Aqueles rudes conquistadores de terras, fazendeiros de poucas letras, tinham um respeito quase humilde pelo saber, pelos homens letrados que escreviam nos jornais e pronunciavam discursos.

Que dizer então de um homem, com tanta capacidade e conhecimento, capaz de estar escrevendo ou de ter escrito um livro? Porque tanto se falara nesse livro do Doutor, tanto se louvaram suas qualidades, que muitos o pensavam publicado há anos, há tempos definitivamente incorporado ao acervo da literatura nacional.

Fonte: AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela. Ilustrações de Di Cavalcanti. 75ª ed.. Rio de Janeiro: Record, 1994. p. 22-26.





Bio fornecida pelo palestrante.

O país do carnaval




Autor: Jorge Amado
Título: O país do carnaval, Il paese del carnevale
Idiomas: port, ita
Tradutor: Paolo Collo e Daniela Ferioli(ita)
Data: 28/12/2004

O PAÍS DO CARNAVAL
I

Jorge Amado

Entre o azul do céu e o verde do mar, o navio ruma o verde-amarelo pátrio.
Três horas da tarde. Ar parado. Calor.
No tombadilho, entre franceses, ingleses, argentinos e ianques está todo o Brasil (Evoé, Carnaval! ).
Fazendeiros ricos de volta da Europa, onde correram igrejas e museus. Diplomatas a dar idéia de manequins de uma casa de modas masculinas… Políticos imbecis e gordos, suas magras e imbecis filhas e seus imbecis filhos doutores.
Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas caras, aventureira viajada, da qual se dizia conhecer todos os países e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda espécie de homem, tolera, com um sorriso condescendente, o galanteio juliodantesco de uma dúzia de filhos-família brasileiros e argentinos:
– A senhorita é linda…
– Minha vida pela sua vida…
– Faça um sinal e me atirarei n’água!
– Eu queria que o navio naufragasse para poder provar quanto a amo…
Tudo isso era dito em mau francês, num mau francês de causar inveja aos rapazes que lêem Dekobrá e têm por Tiradentes uma grande paixão patriótica.
Toda essa gente sua muito debaixo da elegância das suas roupas quentes, feitas em Londres e Paris a preços elevados.
Toda a gente, menos a francesa, que traja um vestido simples de musselina branca. É, em verdade, bela. Olhos verdes como o mar e pele alva. Não admira que aqueles tropicais brasileiros e argentinos gastem com ela a sua retórica, tão precisa à Pátria.
Adiante, um senador, um fazendeiro, um bispo, um diplomata e a senhora do senador conversam na boa paz burguesa dos que têm o reino da terra e a certeza de comprarem o do céu.
– Sim – diz o fazendeiro – foi regular a safra. Mas os preços…
– Ora, coronel, o senhor quer dizer a mim? … Mesmo pelo preço em que está, o café continua a dar um lucro fabuloso É a riqueza de São Paulo e a do Brasil.
– Mesmo porque o Brasil é São Paulo! – fez a senhora do senador, bairrista de irritar.
– Oh, minha senhora! Perdoe-me se discordo de V. Ex.ª mas…
Era o diplomata que falava, Primeiro-Secretário de Embaixada em Paris, ainda estava inédito o seu primeiro serviço à Pátria. Nascera na Bahia, e trazia no sangue e no cabelo a marca dos deboches de avôs portugueses com avós africanas.
– … mas há outros grandes Estados… Olhe a Bahia, minha senhora. A Bahia, veja V. Ex.ª, produz tudo … Cacau. Fumo. Feijão. E produz homens, minha senhora, grandes gênios… Rui Barbosa era baiano…
– Mas hoje, doutor…
– Oh! minha senhora, não diga… Ainda hoje grandes talentos…
E o bispo, conciliador:
– O doutor mesmo é uma prova…
– Amabilidade do senhor bispo… A Igreja sempre caridosa…
O senador, com o prestígio que lhe dava a posição, resumiu toda a conversa:
– É o país de mais futuro do mundo!
– Perfeitamente! – falou um rapaz que chegara no momento. – O senhor acaba de definir o Brasil. (O senador sorriu baboso.) O Brasil é o país verde por excelência. Futuroso, esperançoso… Nunca passou disso… Vocês, brasileiros, velhos que já foram e rapazes que são a esperança da Pátria, sonham o futuro. “Dentro de cem anos o Brasil será o primeiro país do mundo”. Garanto que aquele detestável cronista Pero Vaz de Caminha teve essa mesma frase ao achar Cabral, por um acaso, o país que viera expressamente descobrir.
– Não! – protestou o diplomata. Elevando num gesto oratório a mão ao peito – Hoje, todo estrangeiro conhece, graças ao nosso corpo diplomático, sem modéstia, o grande, o portentoso Brasil!
– Entretanto, aquela francesinha que conhece o mundo todo, que já teve casa de rendez-vous em Pequim, já foi amante de pretos na Colônia do Cabo e ganhou dinheiro em Monte Carlo, julga que viaja para um país chamado Buenos Aires, que tem por capital o Brasil, uma cidade onde a população anda de tanga, E posso lhe afirmar, senhor bispo, que ela vai até lá exatamente para poder andar de tanga, pois é primitivista.
– Ela é imoral, isto sim.
– Vai ter uma decepção, coitada!
– Mas, Doutor Rigger, pelo menos do ponto de vista religioso, o Brasil tem progredido muito. Hoje…
– Hoje o feitiço domina. No Norte, senhor bispo, a religião é uma mistura de fetichismo, espiritismo e catolicismo. Aliás, eu não acredito que Cristo haja pregado religiões. Cristo foi apenas um romântico judeu revoltoso. Os senhores, Padres e Papas, é que fizeram a religião… Mas se o senhor pensa que essa religião domina o Brasil, está enganado. Há uma falsificação africana dessa religião. A macumba, no Norte, substitui a Igreja, que, no Sul, é substituída pelas lojas espíritas. No Brasil a questão de religião é uma questão de medo.
A senhora do senador, escandalizada, benzia-se. O diplomata sorria par vaidade. O bispo, que era inteligente, quis protestar. Não houve, porém, tempo. Um rapaz de bordo agitava uma sineta enorme chamando para o lanche.
E todos obedeceram a Sua Majestade, o Estômago.

* * *

No tombadilho, Paulo Rigger abandonou-se aos seus pensamentos. Estava de volta ao Brasil depois de sete anos de ausência. Ainda estudante de ginásio morrera-lhe o pai, riquíssimo fazendeiro de cacau no sul do Estado da Bahia, a última vontade do velho Rigger foi que mandassem o seu rapaz formar-se na Europa. E, terminado o curso ginasial, Paulo seguiu para Paris em busca de um anel de bacharel. O velho Rigger queria o filho formado. Mas já estava muito banal a formatura no Brasil. Só poderia fazer sucesso um doutor da Europa.
Paulo Rigger, em Paris, como é natural, fez tudo, menos estudar Direito. Ao formar-se era um blasé, contaminado de toda a literatura de antes da guerra, um gastador de espírito, que tinha amigos entre os intelectuais e freqüentava as rodas jornalísticas, fazendo frases, discutindo, sempre em oposição.
A atitude oposta era sempre a sua atitude. Não chegara, muito francês que era, a fazer uma base para a sua vida. Não tinha filosofias e fazia blagues acerca do espírito de seriedade da geração que surgia. Dizia que o homem de talento não precisa de filosofia.
Aos vinte e seis anos, era o tipo do cerebral, quase indiferente, espectador da vida, tendo perdido há muito o sentido de Deus e não tendo achado o sentido de Pátria.
Frio, não se emocionava. Tinha prazeres diferentes: amava ser contra as idéias dos seus vizinhos de mesa e gostava de estudar almas.
Correra todo Paris, dos mais aristocráticos salões aos mais sórdidos cabarés, numa volúpia de escalpelar as almas, pôr-lhes à mostra sentimentos, estudá-las…
Assim, pensava, no dia em que houvesse “um caso” na sua vida, estaria preparado para enfrentá-lo, estudá-lo, dissecá-lo. Usava monóculo porque diziam que o monóculo já havia caído da moda. Aprendera em Paris a vestir-se rom muita elegância e a satisfazer todos os seus desejos.
Sibarita, tinha pelos seus instintos uma quase adoração. Conhecia, assim, todos os vícios. No seu olhar cansado, muito triste, parecia viver a tragédia do homem que esgotou todas as volúpias e não se satisfez.
Nos seus lábios finos bailava sempre um sorriso mau, de escárnio, que irritava.
Já descrera da felicidade. No fundo, entretanto, Paulo Rigger sentia que era um insatisfeito. Compreendia que faltava qualquer coisa na sua vida. O quê? Não o sabia. Isso torturava-o. E dedicava toda a sua vida à procura do Fim. “Sim, murmurava no tombadilho, olhando as ondas, porque toda vida deve ter, necessariamente, um Fim… Qual?”
Mas o mar, indiferente, não lhe respondia. O sol que morria desenhava no horizonte paisagens berrantes. O sol foi o primeiro cubista do mundo…

* * *

|Ao jantar, a francesinha sorria-lhe. Havia no seu sorriso uma promessa enlouquecedora de volúpias incríveis. E Paulo Rigger ficou a idealizá-la nua. Devia ser linda… Aquela mulher, tão jovem e tão conhecedora da vida, devia ser uma requintada. E jurou conhecê-la.
No tombadilho, cia sorria ingênua do ingênuo brinquedo das ondas.
Paulo Rigger aproximou-se.
– Mademoiselle…
– Mademoiselle, não. Julie, sim,
– Ah, Julie, você e adorável!
– Só isso que você me diz? Isso me disseram todos aqueles rapazes que me galanteavam há pouco. Eu pensei que você tivesse qualquer coisa mais nova para me dizer…
– Sim, tenho. Quero lhe dizer que os seus olhos prometem coisas absurdas, mas eu conheço todas as coisas absurdas e duvido muito que você me dê qualquer coisa nova.
– Hoje à uma hora. A porta do meu camarote estará aberta… Esperá-lo-ei.

* * *

No seu camarote, Paulo Rigger pensava se devia ir ao encontro de Julie. Uma grande lassidão invadia-lhe os membros. Pensou em Julie. E teve medo dos seus olhos. Não, não iria. Aquela mulher era capaz de se agarrar a ele como uma sarna, no Brasil. E, demais, ela não passava de uma rameira conhecida. Uma mulher que amava por dinheiro, sem amor. Que lhe poderia dar de novo? Prazer, ele conhecia muito. Carne… Mas o amor talvez não fosse somente carne… Talvez fosse alguma coisa mais… Essa outra coisa, ele não conhecia. Afirmava até que ela não existia. Existisse ou não, a francesinha não lhe poderia dar. Daria somente o sexo… E do mesmo modo de sempre. Bolas! Não iria lá…
E Julie esperou por toda a noite, nua, a sonhar volúpias incríveis, Depois, chorou de raiva, mordendo o travesseiro… Afinal, xingava-o, era um animal. Não sabia que ela reservara para ele as carícias que nunca vendera a ninguém… Imbecil!
E Paulo Rigger sonhava que tinha uma namorada romântica que lia Henri Ardel e tocava valsas muito sentimentais ao piano.
No outro dia, o grito da descoberta:
– Terra! Terra!
Lá longe, o País do Carnaval.

______________

Fonte: AMADO, Jorge. O país do carnaval. 46ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 11 –18.

IL PAESE DEL CARNEVALE

I

Jorge Amado

Fra l’azzurro del cielo e il verde del mare, la nave, verde-gialla, ostenta i colori nazionali. Le tre del pomeriggio. Aria immobile. Caldo. In coperta, tra francesi, inglesi, argentini e yankees c’e tutto il Brasile (Evoè, carnevale!).
Ricchi piantatori di ritorno dall’Europa dove hanno corso chiese e musei; diplomatici che paiono indossatori in una sfilata di moda maschile… Uomini politici cretini e grassi, con le figlie magre e cretine e i figli cretini e laureati.
In fondo, persa a contemplare il mistero delle acque, una francese dalla bellezza di oggetto di lusso, avventuriera costantemente in giro per il mondo, di cui si sussurra che conosca ogni paese e ogni razza: quanto dire che conosce ogni tipo di uomini. Con un sorriso condiscendente, accetta facendo buon viso le galanterie stantie di una mezza dozzina di ragazzotti, figli di famiglie bene, brasiliani e argentini.
«Lei è molto bella…»
«La mia vita per la sua…»
«Faccia un solo cenno e mi butto in acqua! …»
«Vorrei che la nave colasse a picco per dimostrarle quanta l’amo…»
Il tutto in un francese tanto scadente da fare invidia ai ragazzini che leggono Dekobra e hanno per Tiradentes una grande passione patriottica.
Sudano tutti profusamente, nell’eleganza degli abiti pesanti comprati a caro prezzo a Londra e a Parigi.
Tutti. meno la francesina che indossa un semplice abito di mussola bianca. È bella veramente: occhi verde-mare, pelle candida. Non c’è da stupire che il gruppo tropicale di brasiliani e argentini spenda con lei la retorica tanto necessaria a servizio della patria.
Più in là un senatore, un fazendeiro, un vescovo, un diplomatico e la moglie del senatore chiacchierano nella buona pace borghese di chi possiede il regno della terra e la certezza di potersi comprare quello del cielo.
«Sì» dice il fazendeiro, «per il raccolto non c’è stato male. Ma i prezzi…»
«Via, colonnello, la vuol dar da bere a me? … Anche al prezzo attuale, il caffè continua a dare dei guadagni da capogiro… È la ricchezza di São Paulo, e del Brasile.»
«Anche perché il Brasile è São Paulo!» intervenne la moglie del senatore, campanilista in modo irritante.
«Mia cara signora! Voglia scusarmi se mi trovo in disaccordo con lei, ma…»
Era il diplomatico a parlare. Primo segretario d’ambasciata a Parigi, non aveva ancora reso alla patria il suo primo servigio di rilievo. Era nativo di Bahia, e nel sangue e nei capelli crespi portava traccia delle libertà che i suoi antenati portoghesi si erano presi con le sue bisavole africane.
«… ma ne esistono altri, di grandi stati. Guardi Bahia per esempio. Veda, Eccellenza, Bahia produce di tutto… dal cacao al tabacco, ai fagioli. E uomini, signora mia, uomini di genio… Rui Barbosa era bahiano…»
«Al giorno d’oggi, però, dottore…»
«Non dica di no, signora. Ancor oggi esistono a Bahia persone di grande talento.»
Interveniva il vescovo, conciliante:
«Lei, dottore, ne è una prova.»
«Troppa bontà di monsignor vescovo… La Chiesa è sempre caritatevole.»
Il senatore, con l’autorità che gli dava la sua posizione, riassumeva la conversazione:
«È il paese con il più grande avvenire del mando intero!»
«Verissimo!» esclamò un giovane appena arrivato. «Lei ha dato l’esatta definizione del Brasile» (sorriso vanitoso del senatore). «Il Brasile è il Paese Verde per antonomasia: proiettato nel futuro, speranzoso… Peccato che non sia mai andato oltre. Voi vecchi brasiliani che già foste, così come i giovani che sono attualmente la speranza della patria, sognate il futuro. “Entro cent’anni il Brasile sarà il primo paese del mondo.” E vi garantisco che anche quell’odioso cronista, Pero Vaz de Caminha, usò esattamente questa stessa frase, quando Cabral s’imbatté, per caso, nel paese che era venuto apposta a scoprire.»
«Ah no!» protestava il diplomatico portando la mano al petto in posa oratoria. «Oggi, tutti all’estero conoscono, grazie al nostro corpo diplomatico – lo dico senza falsa modestia – tutti conoscono il nostro grande, portentoso Brasile!»
«Eppure quella francesina laggiù, che ha viaggiato in tutto il mondo, e ha avuto una casa d’appuntamenti a Pechino e amanti negri a Città del Capo, e ha messo insieme un gruzzolo a Montecarlo, pensa di essere in viaggio per un paese chiamato Buenos Aires, che ha per capitale Brasile, città dove la gente va in giro in tanga. E le posso assicurare, monsignor vescovo, che è proprio per questo che ci va, per potersi mostrare per strada in tanga, dato che è naturista.»
«Quella non è altro che una donna immorale.»
«Avrà una bella delusione, poveraccia!»
«Però, dottor Rigger, almeno dal punto di vista religiosa il Brasile ha fatto un bel progresso. Oggi…»
«Oggi dominano le religioni feticiste. Nel Nord, monsignore, la religione è un miscuglio di feticismo, spiritismo e cattolicesimo. D’altronde, io non credo che la predicazione di Cristo avesse uno scopo religioso. Cristo non era che un romantico rivoluzionario ebreo. Sono stati lorsignori, preti e papa, a fabbricare una religione… Ma se lei pensa che tale religione sia quella che predomina in Brasile, si sbaglia. Esiste di essa una falsificazione africana. La macumba, nel Nord ha sostituito la chiesa che, a Sud, è sostituita da logge spiritiste. La questione religiosa in Brasile si riduce a una questione di paura.»
Scandalizzata, la moglie del senatore si segnava. Il diplomatico somdeva fatuo. II vescovo, che era un uomo intelligente, tentò di replicare. Ma non ce ne fu il tempo. Un inserviente di bordo, agitando un campanaccio enorme, chiamava per il lunch.
E tutti obbedirono a Sua Maestà la stomaco.

Sul ponte Paulo Rigger seguiva il filo dei suoi pensieri. Tornava in Brasile dopo sette anni d’assenza. Quando era ancora uno srudentello ginnasiale gli era morta il padre, ricchissimo piantatore di cacao del Sud dello Stato di Bahia. L’ultima volontà del vecchio Rigger era stata che mandassero il suo ragazzo a studiare in Europa. Così, terminato il ginnasio, Paulo era partito per Parigi alla ricerca di un diploma di laurea. Voleva un figlio laureato, il vecchio Rigger. Ma una laurea brasiliana era già cosa troppo banale. Un dottore laureato in Europa ci voleva, per avere successo.
A Parigi, naturalmente, Paulo Rigger aveva fatto di tutto, tranne che studiare legge. E quando finalmente si era laureato, era un blasé, contaminato da tutta la letteratura anteguerra, consumatore di motti di spirito, amico d’intellettuali, frequentatore dell’ambiente giornalistico, a far frasi eleganti, a discutere per il piacere della discussione, perennemente all’opposizione.
L’atteggiamento opposto era sempre il suo. Non era giunto, cosa molto francese, a dare una base stabile alla propria vita. Non aveva nessuna filosofia, e faceva blagues sullo spirito serioso della nuova generazione. Sosteneva che l’uomo di talento non ha bisogno di filosofia.
A ventisei anni era il tipo del cerebrale quasi indifferente, spettatore della vita, cui da tempo era venuta meno la fede in Dio e che non aveva trovato un senso al concetto di patria. Era freddo, senza emozioni I suoi piaceri erano di tipo diverso: amava schierarsi contro le idee dei suoi vicini di tavolo, amava sondare l’animo degli altri.
Aveva corso tutta Parigi, dai salotti più aristocratici ai cabaret più sordidi, per il gusto di scavare le anime, di metterne a nudo i sentimenti, di studiarle…
Così – immaginava – il giorno che avesse avuto un «affare di cuore» sarebbe stato pronto ad affrontarlo, studiarlo, disseccarlo. Portava il monocolo perché gli avevano detto che il monocolo non era più di moda. A Parigi aveva imparato a vestire con accurata eleganza e a soddisfare tutti i propri capricci.
Da sibarita qual era, aveva una sorta di adorazione per i propri istinti. Conosceva quindi ogni genere di vizi. Solo nel suo sguardo stanco, profondamente triste, pareva affiorare il suo dramma di uomo che aveva dato fondo a tutte le voluttà senza mai soddisfarsi.
Aveva sulle labbra sottili un perenne sorrisetto malizioso, di beffa, estremamente irritante.
Non credeva più alla felicità. Ma in fondo avvertiva di essere insoddisfatto, capiva che nella sua vita qualcosa mancava. Cosa? Non la sapeva. Questo la assillava ed egli orientava tutta la sua vita verso la ricerca di uno scopo. «Sì» mormorava fra sé, mentre ritto sul ponte fissava le onde, «perché la vita di ciascuno deve necessariamente avere uno scopo… Ma quale?»
Il mare, indifferente, non dava risposta. Il sole, morendo all’orizzonte, vi costruiva paesaggi fantasmagorici. Il sole, il primo pittore cubista del mondo.
A pranzo la francesina gli sorrise. C’era in quel sorriso una allettante promessa di voluttà estreme. Paulo Rigger si mise a immaginarla nuda. Doveva essere bella… Una donna così, talmente giovane e già così esperta, doveva essere una raffinata. Si ripromise di fare la sua conoscenza.
Sul ponte, lei sorrideva ingenua dell’ingenuo gioco delle onde.
Rigger si avvicinò.
«Mademoiselle… »
«Niente Mademoiselle, Julie.»
«Ah, Julie, sei adorabile.»
«Tutto qui quello che trovi da dirmi? Me l’hanno già detto quei ragazzini che mi facevano la carte poco fa. Avrei pensato che tu trovassi da dire qualcosa di nuovo.»
«L’ho trovato infatti. Ti voglio dire che i tuoi occhi promettono cose folli: ma io le cose folli le conosco tutte, e dubito che tu abbia qualcosa di nuovo da offrire.»
«Stanotte all’una. La porta della mia cabina sarà aperta. Ti aspetto.»
In cabina, Rigger rifletteva se gli convenisse andare all’appuntamento con Julie oppure no. Si sentiva invadere da una grande stanchezza. Pensò a Julie. Ed ebbe paura dei suoi occhi. No, non sarebbe andato. Quella donna era capace di appiccicarglisi addosso come una mignatta, in Brasile. E poi, non era che una cortigiana ben nota. Una che faceva l’amore a tariffa, senz’amore. Che gli avrebbe potuto dare di nuovo? Il piacere gli era ben noto. La carne… Ma forse l’amore non consisteva solo in quello… C’era forse qualcosa d’altro… Quel qualcosa, lui non lo conosceva. Arrivava ad affermare che non esisteva. Ma, esistesse o no, non era certo la francese che avrebbe pluto darglielo. Quella non gli avrebbe dato che sesso. E allo stesso modo di sempre anche. Al diavolo! Non ci sarebbe andato.
E Julie attese la notte intera, nuda, sognando di voluttà ineffabili. Poi pianse di rabbia. mordendo il cuscino. Da ultimo lo insultò. Quell’animale. Non sapeva che gli aveva riservato carezze che mai aveva venduto a nessun uomo… Imbecille!
In quel mentre. Paulo Rigger sognava che aveva una fidanzatina romantica, che leggeva Henri Ardel e suonava al piano valzer molto sentimentali.
Il giorno seguente, il grido noto della scoperta:
«Terra, terra!»
Laggiù, in lontananza. il Paese del Carnevale.
_______________
Fonte: AMADO, Jorge. Jorge Amado: romanzi. In: Il Paese del Carnevale [La revisione delle traduzione è a cura di Paolo Collo e Daniela Ferioli]. Volume primo. Milano: A. Mondadon, 2002. p. 5-11.





Bio fornecida pelo palestrante.

MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR




Autor: Joaquim Manuel de Macedo
Título: MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR

 

 

Joaquim Manuel de Macedo

 

 

CAPÍTULO 1

 
 
Como a atual Rua do Ouvidor, tão soberba e vaidosa que é, teve a sua origem em um desvio, chamando-se primitivamente Desvio do Mar, e começando então (de 1568 a 1572) do ponto em que fazia angulo com a Rua Direita, neste tempo com uma só linha de casas e à beira do mar. Como em 1590, pouco mais ou menos, o Desvio do Mar recebeu a denominação de Rua de Aleixo Manoel, sendo ignorada a origem dessa denominação; o autor destas Memórias recorre a uns velhos manuscritos que servem em casos de aperto, e acha neles a tradição de Aleixo Manoel, cirurgião de todos e barbeiro só de fidalgos; começa a referi-la, mas suspende-a no momento em que vai entrar em cena a heroína, que é mameluca, jovem e linda, e deixa os leitores a esperar por ele sete dias.
A Rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro, fala, ocupa-se de tudo; até hoje, porém, ainda não referiu a quem quer que fosse a sua própria história.
Se tão elegante, vaidosa, tafulona e rica no século atual, por ventura lhe apraz esquecer o passado, para não confessar a humildade de seu berço, pois que é do Ouvidor, cerre bem, os ouvidos; porque tomei a peito escrever-lhe a história, mas com tanta verdade e retidão que se lembrando-lhe seus tempos primitivos ela tiver de amuar-se pelo ressentimento de sua soberba de fidalga nova, há de sorrir depois a algumas saudosas e gratas recordações que avivarei em seu espírito perdidamente absorvido pela garridice e pelo governo da moda.
As Memórias da Rua do Ouvidor têm, em falta de outras, um incontestável, grande e precioso merecimento, pois começa já e imediatamente, sendo os seus hipotéticos leitores poupados aos tormentos do prólogo, proêmio, introdução, ou coisa que o valha, em que, de costume, o autor, abismado em dilúvios de modéstia, abusa da paciência do próximo com a exibição de sua própria pessoa afixada no frontispício do monumento.

* * *

 
Salvo o respeito devido à sua atual condição de rica, bela e ufanosa dama, tomo com a minha autoridade de memorista-historiador, e exponho ao público a Rua do Ouvidor em seus coeirinhos de menina recém-nascida e pobre.
A atual rainha da moda, da elegancia e do luxo nasceu…
É indeclinável principiar por triste confissão de ignorancia: não sei, não pude averiguar a data do nascimento da rua que desde 1780 se chama do Ouvidor, do que a ela disso não resulta prejuízo algum, e pelo contrário ganha muito em sua condição de senhora; porque, isenta de aniversário natalício conhecido, não há quem ao certo lhe possa marcar a idade, questão delicadíssima na vida do belo sexo. Que afortunada predestinação dessa Rua do Ouvidor!
São menos felizes que ela as próprias senhoras nascidas no último dia de fevereiro ano bissexto, as quais têm o condão de aniversário natalício só de quatro em quatro anos…
Mas memorista-historiador que sou, não hesito em atraiçoar o segredo da idade aproximada da Rua do Ouvidor, que tão louçã, namoradeira e galante conta com certeza mais de trezentos janeiros.
Sabem todos que a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, fundada por Mem de Sá em 1567, teve o seu assento sobre o monte de S. Januário (depois chamado de Castelo); mas, perdido o receio de ataques inopinados dos Tamoios, começaram, logo, os colonos a descer do monte e a estabelecer-se na planície.
Primeiramente levantaram à beira do mar casas e choupanas com uma só linha, formando o que alguns anos mais tarde recebeu o nome de Rua da Misericórdia; em seguida foram adiantando suas rudes construções pela praia de Nossa Senhora do Ó, que a mudar de denominação se foi chamando Lugar do Ferreiro da Polé, Praça do Carmo, Terreiro do Paço, Largo do Paço, e enfim Praça D. Pedro II.
Da praia de Nossa Senhora do Ó (onde logo depois de 1567 um devoto erguera pequena capela com essa santa invocação) as casas e palhoças continuaram a levantar-se mais ou menos separadas uma das outras e ainda á beira do mar, e também em uma só linha, que muito em breve formaram a primitiva Rua Direita que é desde 1870 Rua Primeiro de Março.
Tudo isso foi obra de 1568 a 1572, e não admira, porque as primeiras casas eram de construção muito ligeira e evidentemente provisória.
Mas em ano que correu entre o de 1568 e o de 1572 alguns colonos abriram à pouca distancia do começo da rua que se denominou Direita uma entrada em angulo reto com ela, e cada qual foi improvisando grosseiro ubi para si e para sua família aos lados dessa aberta feita sobre areias e por entre mesquinha vegetação denunciadora de antigo domínio do mar.
E, curiosa, interessante, notável, notabilíssima idéia ou inspiração daqueles colonos portugueses tão bisonhos e tão sem malícia!… como aquela aberta ainda não era rua, e eles precisavam designá-la por algum nome, chamaram-na Desvio do Mar. Desvio!…
Eis o berço da bonita, vaidosa e pimpona atual Rua do Ouvidor! Fica, pois, historiado que ela nasceu de um desvio, e desvio da Rua Direita, ou do caminho direito, o que, a falar a verdade, não era de bom agouro.
Todavia foi ali aumentando logo o número dos tetos abrigadores; como, porém, se já estivesse prevendo e prelibando seus destinos futuros, o Desvio do Mar ostentou desde os seus primitivos anos suas duas séries de cabanas de aspecto rústico, mas agradável, e perfeitamente alinhadas e paralelas.
Desvio teve por primeiros moradores gente pobre, no trabalho, porém ativa; peões que exerciam misteres, operários, e um cirurgião que era barbeiro dos nobres.
Mas no ano de 1590 e sem intervenção nem audiência da Camara Municipal, o Desvio do Mar por acordo geral dos colonos subiu ao grau honorífico de rua urbana com o nome de Aleixo Manoel.
Tal foi a primeira denominação que recebeu, deixando de chamar-se – Desvio – a rua, cujas Memórias escrevo, Aleixo Manoel! nome masculino, feio, ingrato, peão sem raiz de fidalguia, nem carta de nobreza.
Procurei nas crônicas do tempo, e nas obras de Monsenhor Pizarro e de Baltazar da Silva Lisboa algum Aleixo Manoel que tivesse deixado nome na história; mas foi trabalho baldado, não encontrei entre os fidalgos da nascente colônia esse positivo e irrecusável avô da atual Rua do Ouvidor; não há, porém, meio de dissimular o parentesco, porque em livros que escaparam ao incêndio do arquivo da Camara Municipal da cidade do Rio de Janeiro em 1791 se acha escrita e mencionada a tal denominação de Rua de Aleixo Manoel.
Ah! que nem por isso se arrepie ressentida, e que não maldiga do seu memorista a Exma. Rua do Ouvidor.
Até aqui o pouco que deixo relatado é seriamente tradicional quanto ao Desvio, e em tudo mais positivamente histórico; quero, porém, em honra e glória da Rua do Ouvidor dar a todo transe, em falta de origem aristocrática impossível, origem romanesca a denominação de Aleixo Manoel que ela teve no outro tempo.
Para casos de aperto como este, o memorista, que se reserva direitos confessos de imaginação, deve ter sempre velhos manuscritos ricos de tradições que expliquem o que se ignora.
Não exijo dos meus leitores que tenham por incontestável a tradição que apanhei nos meus velhos manuscritos. Liberdade ampla de aceitá-la ou não.
Aleixo Manoel, colono português, era cirurgião e também barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos; morava no monte de S. Januário perto do colégio dos padres jesuítas; como porém poucos doentes tivesse, e ainda menos fidalgos a barbear, lembrou-se um dia de procurar fortuna, explorando a guerra.
Neste ponto a minha tradição se aproveita de uma lúgubre página da história.
Como os índios Tamoios, irreconciliáveis e odientos inimigos dos portugueses, hostilizassem a estes quase constantemente, atacando e destruindo seus estabelecimentos rurais na capitania de S. Vicente, e ainda mais na do Rio de Janeiro, o Governador Antônio Salema, resolvendo exterminar aquela tribo selvagem, fez partir contra ela duas colunas expedicionárias, uma de S. Vicente e outra da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, para nesta capitania levarem a ferro e fogo o extermínio a essa tribo funesta e indomável.
Aleixo Manoel alistou-se voluntário na coluna expedicionária fluminense, que foi comandada por Cristóvão de Barros.
A história guarda a lembrança da justificada, mas horrorosa, guerra: o incêndio devorou dezenas de aldeias de índios, e destes mais de dez mil foram mortos, mais de sete mil prisioneiros e reduzidos à escravidão, e os Tamoios que puderam escapar meteram-se pelas florestas, emigrando para muito longe, e para sempre.
Mas o que a história não diz, e a minha tradição informa, é que a tremenda expedição rendeu a Aleixo Manoel dois escravos tamoios, a quem ele generoso e a Custo salvara da medonha hecatombe de uma horda apanhada de surpresa em sua aldeia, nas proximidades de Cabo Frio.
Os dois escravos eram um índio quase sexagenário, e uma índia, sua neta, de três anos de idade; – um homem já a envelhecer, e uma menina a criar; mas para conseguir salvá-los da morte, Aleixo Manoel os tomou à sua conta.
A menina evidentemente não era de raça pura tupi; era uma linda mameluca: a aldeia selvagem estabelecida perto de Cabo Frio ocupado por franceses e as relações amigas e freqüentes destes com ostamoios das vizinhanças, seus aliados, explicavam o cruzamento das duas raças naquela bonita e interessante criança.
De volta á cidade, Aleixo Manoel não quis continuar a residir no monte de S. Januário, e, fazendo construir boa e espaçosa cabana no Desvio do Mar, nela se estabeleceu como cirurgião e ainda barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos.
Os dois escravos receberam o batismo: o índio já meio velho chamou-se Tomé, e a menina ainda criança Inês.
Deus abençoa sempre as boas ações e sobre todas as virtudes, a caridade.
Aleixo Manoel colheu em breve proveitoso e merecido prêmio de seu nobre e generoso impulso de amor ao próximo para com os dois infelizes. Tomé, mandado por seu senhor a trazer-lhe do monte do Desterro (depois de Santa Tereza) a famosa e ótima água de Carioca, internava-se na floresta, e nela recolhia ervas, folhas, cortiças e raízes de árvores, cujas virtudes medicinais por experiência, embora rude, conhecia, e as levava ao cirurgião, a quem indicava as moléstias em cujo tratamento elas aproveitavam.
Com esses novos recursos terapêuticos, Aleixo Manoel começou, graças ao pobre escravo, a distinguir-se por admiradas vitórias médicas, ganhou fama; teve clínica extensa e rendosa, reconstruiu sua cabana que se tornou casa muito regular e de bonito aspecto exterior, bem que de um só pavimento, e adicionou-lhe a um lado uma cerca ou gradil de varas, fechando pela frente pequeno jardim e canteiros de legumes, seguindo-se para o fundo o quintal.
E com todo esse luxo o cirurgião não teve animo de privar-se da glória de barbear fidalgos.
No entanto, Inês ia crescendo a traquinar pela casa e pelo jardim, e o senhor de dia em dia cada vez se deixava enfeitiçar mais pela escrava.
Mas Aleixo Manoel já era notabilidade, cirurgião famoso, o mais considerado dos moradores do Desvio do Mar, e não havia quem pensasse em dar ao Desvio a denominação de Rua Aleixo Manoel.
Ao correr do ano de 1590 o cirurgião principiou a observar certa mudança de costumes em alguns fidalgos, que em vez de mandá-lo chamar a suas casas, como dantes, vinham barbear-se na dele.
Nos primeiros dias ufanou-se muito daquela alteração de costumes, atribuindo-a à honraria e consideração pessoal que lhe queriam prestar pelo crédito e pela estima que gozava.
Depois notou que os fidalgos que para barbear-se vinham a sua casa eram Gil Eanes, Lopo de Melo e mais quatro ou cinco, todos de nobres famílias mas também todos célebres na cidade por vida licenciosa e pervertida.
Tendo notado isso, desconfiou logo de fregueses tais, pôs-se de observação dissimulada e cuidadosa, e bem depressa certificou-se de que os seus fidalgos, quando chegavam para barbear-se, metiam os olhos pela porta do interior da casa, e que afora essa curiosidade impertinente faziam ronda diária e suspeita pelo Desvio do Mar.
Aleixo Manoel não levou muito tempo a procurar a explicação do fenômeno, mas caiu das nuvens, lembrando-se de Inês.
A mameluca fulgurava então entre os 17 e os 18 anos de idade, e com seus belos olhos negros, sua boca lindíssima, seu rosto encantador e seu corpo de contornos admiráveis maravilhava pela formosura. Era uma arrebatadora morena esperta, faceira, e – sem o pensar, voluptuosa.
Aleixo Manoel caiu das nuvens, porque só então refletiu do que já sabia, só então reconheceu muito séria e gravemente que a menina sua escrava já era mulher.
Ele adorava Inês com enlevos e cultos de amor inocente e santo: até esse dia, porém, da queda do alto das nuvens onde se iludia nos segredos ainda não manifestos da natureza da sua afeição, ou deveras só amava Inês com o ardor e a pureza de pai estremecido.
Os fidalgos libertinos lhe alvoroçavam o animo: sabia que seus escandalos e atentados ficavam sempre impunes, quando as vitimas eram gente do povo.
Gil Eanes, Lopo de Melo e os outros que o procuravam para barbear-se que intenções trariam?… Nenhum por certo pensava em casar com uma moça que, além de filha de índia, era escrava; que queriam então fazer dela?…
Nessa aflitiva e revoltante conjuntura, Aleixo Manoel apenas escapou de ter sido o primeiro republicano da Rua do Ouvidor, e aí o mais antigo patriarca das idéias do meu bom amigo o Sr. Otaviano Hudson.
Mas que havia de fazer Aleixo Manoel?… era impossível, ou seria loucura meter-se em briga com fidalgos.
Fidalgos! a classe humana super-humanizada, privilegiada e purificada, a classe do seu culto e da sua paixão!… quem diria que o seu maior tormento lhe viria de fidalgos?
Aleixo Manoel velou uma noite inteira a meditar, e a imaginar; mas na manhã seguinte achou-se senão tranqüilo, ao menos, porém, esperançoso do bom resultado do plano que forjara.
Nesse plano a primeira e essencial condição era em casa a defesa e a segurança de Inês, quando ele estivesse ausente.
O cirurgião não procurou auxílio fora da família: tinha sob seu teto cão fiel, velho, mas robusto e forte; um índio, o avô de Inês.
Pôs de sobreaviso, mas em segredo absolutamente recomendando o já octogenário Tomé, que se endireitou garboso, como o jacatirão, e murmurou surda e ameaçadoramente:
– Deixa eles!
Além das instruções que deu ao velho índio, o que mais fez Aleixo Manoel, ele lá o soube e nós provavelmente o iremos sabendo; continuou, porém, respeitoso e humilde a receber em casa os tais fidalgos, e a barbeá-los, como dantes, salva a idéia sinistra e repulsada, que às vezes lhe vinha, de experimentar o corte da navalha nas gargantas dos privilegiados sedutores de donzelas pobres.
Entretanto, o cirurgião muitas vezes ficava cismando, e a lembrar-se e relembrar-se de que não era nem pai, nem tio, nem irmão, nem primo de Inês, e que por conseqüência não havia impedimentos…
É verdade que ele tinha cinqüenta anos e a menina dezessete; mas por isso mesmo! velho que se apaixona por menina perde logo com o coração a medida do tempo, principalmente futuro, para ela a florescer, e para ele a murchar.
Inês estava percebendo mil coisas, mas era uma inocentinha que não via coisa alguma; divertia-se muito assim; mimo e princesa de casa, a linda escrava era, desde pequenina, a senhora de seu senhor.
Uma tarde Inês…
Evidentemente é este o momento em que a linda mameluca entra, manifesta-se em cena, e, pois que a minha tradição da Rua de Aleixo Manoel não pôde caber toda neste folhetim, eu seria o mais inexperiente e insensato dos folhetinistas, se não interrompesse a narração, deixando os meus leitores curiosos de contemplar a bela e voluptuosa Inês em sua primeira hora de travessa, viva e um pouco maliciosa revelação.
Esperar é o tormento do desejo, mas vale a pena esperar sete dias pela contemplação de uma jovem formosa.
 
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Fonte: Macedo, Joaquim Manuel de. Memórias da rua do Ouvidor. Rio de Janeiro, Tecnoprint.





Bio fornecida pelo palestrante.

A LUNETA MÁGICA




Autor: Joaquim Manuel de Macedo
Título: A LUNETA MÁGICA
Idiomas: port
Tradutor: 01/07/2005
Data: –

A LUNETA MÁGICA

I

 
 

Joaquim Manoel de Macedo

 
 
Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio.
Sou míope; pior do que isso, duplamente míope míope, física e moralmente.
Miopia física: – a duas polegadas de distancia dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.
E por isso ando na cidade e não vejo as casas.
Miopia moral: – sou sempre escravo das idéias dos outros; porque nunca pude ajustar duas idéias minhas.
E por isso quando vou às galerias da camara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.
Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!… mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito
Disse-me um negociante meu amigo que por essa luz da consciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados que não tem dez por cento de capital da inteligência que ostentam, e com que negociam na praça das coisas publicas.
-Mas esses varões não quebram, negociando assim?… perguntei-lhe.
-Qual! são as coisas públicas que andam ou se mostram quebradas.
-E eles?…
-Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos, e sempre se apresentam como boas firmas.
Na candida inocência da minha miopia moral não pude entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu amigo.
 
 

II

 
 
Aos doze anos de idade achei-me no mundo órfão de pai e de mãe.
Eu estava acostumado a ver pelos olhos de minha mãe, a pensar pela inteligência de meu pai; fiquei, pois, nas trevas dos olhos e da razão.
Meus pais eram ricos, e deviam deixar-me, deixaram-me por certo, avultada fortuna; quanto, não sei: meu irmão mais velho que tomou conta dos meus bens, minha tia Domingas que tomou conta da minha pessoa, e minha prima Anica que se criou comigo e que é um talento raro, pois até aprendeu latim, hão de saber disso melhor do que eu.
Dizem eles que a minha fortuna vai a vapor, ignoro se para trás se para diante, porque os barcos e carros a vapor avançam e recuam à custa do gás impulsor; mas o meu amigo negociante declarou-me que por certas razões que não compreendo, nas quais, também não sei porque, entra a pessoa da prima Anica, devo confiar muito no zelo da tia Domingas.
E eu confio nela o mais possível; porque é uma senhora que anda sempre de rosário e em orações e que tendo alguma coisa de seu, apesar de tão religiosa, não deu nem dá um vintém de esmola ao pobre que lhe bate à porta, pretextando sempre que tem muita vontade de fazer esmolas evangélicas; porem que ainda não achou meio de esconder da mão esquerda o óbulo da caridade pago pela mão direita.
Estou tão profundamente convencido da pureza dos sentimentos religiosos da tia Domingas, que desde que ela tomou conta de mim, vivo em sustos de que algum dia a piedosa senhora mande amputar a mão esquerda para conseguir dar esmolas com a mão direita, conforme o preceito evangélico de que em sua santa severidade não quer prescindir.
 
 

III

 
 
Aos dezoito anos de idade comecei a compreender todas as proporções da minha desgraça dupla: chorei, lastimei-me, pedi médicos para os meus olhos, e mestres para minha inteligência.
A força de muito rogar e bradar consegui que me dessem uns e outros.
Os mestres ganharam o seu dinheiro e eu quase que perdi todo o meu tempo com eles; porque bem pouco lucrei no empenho de combater a minha miopia moral.
O mais hábil dos meus professores declarou-me no fim de quatro anos que um mancebo tão rico de cabedais como eu era, podia bem reputar-se literato de avantajado merecimento, sabendo ler, escrever e as quatro espécies da aritmética.
Convencido sempre que só me diziam a verdade, e tendo conseguido saber, aos vinte e dois anos de idade, ler mal, escrever pior, e fazer com a maior dificuldade as quatro espécies da aritmética, mandei embora o hábil professor, e fiquei literato.
Os médicos falaram-me em córnea transparente, em cristalino, em raios luminosos muito convergentes, em retina, e não sei em que mais, e acabaram por dizer-me que aos sessenta, ou setenta anos de idade, eu havia de ver muito melhor.
Dos médicos alopatas recebi esta consolação de melhor visão aos setenta anos, se estivesse vivo; dos homeopatas não sei se me deram o cristalino em glóbulos, ou os raios convergentes em tintura; mas o fato é que em resultado de dez conferências e de vinte tratamentos diversos não vi uma linha adiante do que via, e apenas posso gabar-me de não ter ficado cego com a luz de tanta ciência.
O meu desgosto foi aumentando com os anos.
Meu irmão, que é um santo homem, me dizia:
-Consola-te, mano; tudo tem compensação: a tua miopia é uma desgraça; mas porque és míope não vês como são bonitos os bordados da farda de um ministro de estado, e portanto não te exasperas por não poder ostentá-los.
Convém saber que meu irmão saiu eleito deputado na última designação constitucional, e mandou fazer a sua libré parlamentar ainda antes de ser reconhecido representante legítimo do povo soberano que anda de paletó e de jaqueta.
Deste fato e da sua observação concluí eu em minha simplicidade que o mano Américo vive doido por ser ministro para fazer o bem da pátria.
E não é só ele; a prima Anica já sonhou três vezes com mudança de gabinete, e com correios e ordenanças à porta de nossa casa.
Inocente menina! é um anjo: os seus sonhos são piedosos como as vigílias da tia Domingas, sua mãe, e patrióticos, como os cálculos o mano deputado; ela diz com virginal franqueza que tem meia dúzia de parentes pobres a arranjar, quando o mano Américo for ministro.
Meia dúzia só!… que abnegação e que desinteresse da prima Anica!
Ela está se tornando tão profundamente religiosa como a tia Domingas.
Já fez um ponto de fé deste suavíssimo princípio: “a caridade deve começar por casa”.
 
 

IV

 
 
O mano Américo tem sempre aberta para mim uma fonte perene de consolações; persegue-me, porém, a infelicidade de não saber apreciar bastante a sabedoria, que fala pelos lábios de meu irmão.
Já disse como ele me consolava da minha miopia física; pois bem: a sua bondade ia além; quando me ouvia tristes queixas da minha miopia moral, me apertava as mãos, e falava assim:
-Agradece a Deus esse infortúnio; estás livre de desgostos sem conta, de responsabilidades sem número, e de tormentos sem tréguas; tu não sabes pensar; mas eu penso por ti e por mim; tu mal dirigirias os teus negócios; mas eu dirijo os teus e os meus negócios; tu sofres muito menos do que eu sofro; porque eu sofro por ti e por mim.
Que alma santa a de meu irmão!
E todavia quando isso ouço, lembra-me que o mano Américo foi o testamenteiro e inventariante nomeado por meus pais, e que até hoje está de posse das minhas heranças, que ele emprega e zela, certamente só em meu proveito, mas sem me dizer como, nem jamais dando-me contas; e portanto pensando, negociando e sofrendo por mim o meu pobre irmão!
Dói-me tamanho sacrifício! ah! se eu conseguisse tomar para mim metade dos trabalhos e sofrimentos do mano Américo… a minha metade só… para ele não sofrer por mim!
Porém se por acaso manifesto de leve esse desejo, alvoroça-se o amor fraternal, meu irmão se enternece, me abraça e diz:
-Inocente Simplício! não serei tão egoísta que te abandone às ciladas dos homens sem consciência, que devorariam a tua fortuna. A minha dedicação é na verdade pesada; mas é um dever e Deus a abençoa.
Vejo-me, pois, obrigado a ficar devendo ao mano Américo o favor de tomar conta da minha fortuna, e de empregá-la por mim.
E como é ingrata a humanidade! já cheguei a suspeitar que a dedicação do mano é mais suave do que ele diz.
A primeira vez que me confessar hei de perguntar ao padre, se Deus abençoa tais dedicações fraternais; é este um ponto que deve ser esclarecido para que seja mais doce a submissão dos irmãos míopes.
 
 
_________________
 
Fonte: MACEDO, Joaquim Manoel de. A luneta mágica. 4aed. São Paulo: Ática, 1977. p. 07 –11.





Bio fornecida pelo palestrante.

A MORENINHA




Autor: Joaquim Manuel de Macedo
Título: A MORENINHA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 01/07/2005

A MORENINHA
 
 

1

 

Aposta Imprudente

 
 

Joaquim Manoel de Macedo

 
 
Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho. Bravo!… interessante cena! mas certo que desonrosa fora para casa de um estudante de Medicina e já no sexto ano, a não valer-lhe o adágio antigo: – o hábito não faz o monge.
-Temos discurso!… atenção!… ordem!… gritaram a um tempo três vozes.
-Coisa célebre! acrescentou Leopoldo. Filipe sempre se torna orador depois do jantar…
-E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
-Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente. Bocage, quando tomava carraspana, descompunha os médicos.
C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava deitado.
-Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas, por minha vida, que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém, tendo a cabeça encapuzada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro do seu robe-de-chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romantico Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! VV. SS. tomam café!… Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de porcelana… aquele tem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é cor-de-rosa… aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem xícara… nem pires… aquilo é uma tigela num prato…
-Carraspana!… carraspana!…
-O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traze-me café, ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio que a não ser a falta de louças, já teu senhor mo teria oferecido.
-Carraspana!… carraspana!…
-Sim, continuou ele, eu vejo que vocês…
-Carraspana!… carraspana!…
-Não sei de nós quem mostra…
-Carraspana!… carraspana!…
Seguiram-se alguns momentos de silêncio; ficaram os quatro estudantes assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não deixar concluir uma só proposição, e estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!…
Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:
-Paz! paz!…
-Ah! já?… disse Leopoldo, que era o mais influído.
-Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio uma hora.
-Está bem, o passado, o passado; protesto não falar mais nunca na carapuça, nem nas cadeiras, nem no canapé, nem na louça do Leopoldo… Estão no caso… sim…
-Hein?… olha a carraspana.
-Basta! vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant’Ana?
-Por quê?… temos patuscada?… acudiu Leopoldo.
-Minha avó chama-se Ana.
-Ergo!…
-Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco na ilha de…
-Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
-E dois, acudiu Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
-E tu, Augusto?… perguntou Filipe.
-Eu?… eu não conheço tua avó.
-Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.
-Nem eu, acrescentou Leopoldo.
-Não conhecem a avó; mas conhecem o neto, disse Filipe.
-E demais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho de lá ir por causa da velha.
-Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.
-Sim?… que idade tem?
-Sessenta anos.
-Está fresquinha ainda… Ora… se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!…
-E ela, que possui talvez seus duzentos mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu “recebo a vós” aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas “toma-larguras” da moda.
-Por quem são!… deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais, Augusto?
-Não.
-É uma bonita ilha.
-Não duvido.
-Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.
-Melhor para vocês.
-No domingo, à noite, teremos um baile.
-Estimo que se divirtam.
-Minhas primas vão.
-Não as conheço.
-São bonitas.
-Que me importa?… Deixe-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele: moças!… moças!… Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.
-É porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
-Ora… o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças bonitas?
-Então tuas primas são gentis?… perguntou Leopoldo a Filipe.
-A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.
-Hein?… exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé onde estava deitado, então ela é pálida?…
-A mais moça tem um ano de menos: loura, de olhos azuis, faces cor-de-rosa… seio de alabastro… dentes…
-Como se chama?
-Joaquina.
-Ai, meus pecados!… disse Augusto.
-Vejam como Augusto já está enternecido…
-Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
-Sim, é uma moreninha de quatorze anos.
-Moreninha? diabo!… exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.
-Está sabido… Augusto não relaxa a patuscada.
-É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis, e, assim como vocês, também eu quero andar em dia com alguns senhores com quem nos é muito preciso estar de contas justas no mês de novembro.
-Mas a pálida?… a loura?… a moreninha?…
-Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção de belos tipos!… uma jovem de dezessete anos, pálida… romantica e, portanto, sublime; uma outra, loura… de olhos azuis… faces cor-de-rosa… e… não sei que mais: enfim, clássica e por isso bela. Por último uma terceira de quatorze anos… moreninha, que, ou seja, romantica ou clássica, prosaica ou poética, ingênua ou misteriosa, há de, por força, ser interessante, travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!… Está tratado… não há remédio… Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando alegremente nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar as horas, por exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.
-Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a um caloiro, disse Fabrício.
-Bem raciocinado… não tem dúvida, acudiu Filipe; então, conto contigo, Augusto?
-Dou-te palavra… e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
-Sim… já sei… isso dirás tu a ela.
-Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e pensativo, desde que se falou nas primas de Filipe?…
-Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.
-A pálida?… pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé-de-alferes com a loura.
-E tu, Augusto, quererás porventura reqüestar minha irmã?…
-É possível.
-E de que gostarás mais, da pálida, da loura ou da moreninha?…
-Creio que gostarei, principalmente, de todas.
-Ei-lo aí com a sua mania.
-Augusto é incorrigível.
-Não, é romantico.
-Nem uma coisa nem outra… é um grandíssimo velhaco.
-Não diz o que sente.
-Não sente o que diz.
-Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.
-O que quiserem… Serei incorrigível, romantico ou velhaco, não digo o que sinto não sinto o que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou, enfim, mau e perigoso e vocês inocentes e anjinhos. Todavia, eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei, e em toda a parte confesso que sou volúvel, inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto; verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um “eu vos amo”, mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé; pelo contrário, digo a todas o como sou e, se, apesar de tal, sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis, a culpa, certo, que não é minha. Eis o que faço. E vós, meus caros amigos, que blasonais de firmeza de rochedo, vós jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas… vós sois tanto ou ainda mais inconstantes que eu!… mas entre nós há sempre uma grande diferença: -vós enganais e eu desengano; eu digo a verdade e vós, meus senhores, mentis…
-Está romantico!… está romantico!… exclamaram os três, rindo às gargalhadas.
-A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante, mas sou feliz na minha inconstancia, porque apaixonando-me tantas vezes não chego nunca a amar uma vez.
-Oh!… oh!… que horror!… que horror!…
-Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia, às vezes, numa mesma hora, não é amor, certamente. Por minha vida, interessantes senhores, meus pensamentos nunca têm dama, porque sempre têm damas; eu nunca amei… eu não amo ainda… eu não amarei jamais…
-Ah!… ah!… ah!… e como ele diz aquilo!
-Ou, se querem, precisarei melhor o meu programa sentimental; lá vai: afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou, não se ocupa, nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias.
-E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de… loucamente apaixonado de alguma de minhas primas.
-Pode bem suceder que de ambas.
-E que todo o resto do ano letivo passarás pela rua de… duas e três vezes por dia, somente com o fim de vê-la.
-Assevero que não.
-Assevero que sim.
-Quem?… eu?… eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua, por causa de uma moça?… e para quê?… para vê-la lançar-me olhos de ternura, ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar, e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?… para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo, pateta, basbaque e namorador?… Não, minhas belas senhoras da moda! eu vos conheço… amante apaixonado quando vos vejo, esqueço-me de vós duas horas depois de deixar-vos. Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. Ah!… muitas vezes, alguma de vós, quando me ouve dizer: “sois encantadora”, está dizendo consigo: “ele me adora”, enquanto eu digo também comigo: “que vaidosa!”
-Que vaidoso!… te digo eu, exclamou Filipe.
-Ora, esta não é má!… Então vocês querem governar o meu coração?…
-Não; porém, eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas todo o tempo que for da vontade dela.
-Que mimos de amor que são as primas deste senhor!…
-Eu te mostrarei.
-Juro que não.
-Aposto que sim.
-Aposto que não.
-Papel e tinta, escreva-se a aposta.
-Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitaria a menor. Tens apenas duas primas; é um número de feiticeiras muito limitado. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoques para me encantar. Meus sentimentos ofendem, talvez, a vaidade de todas as belas; todas as belas, pois, tenham o direito de te fazer ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!
-Como quiseres, mas escreve.
-E quem perder?…
-Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.
-Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano.
-Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes, escreverás a história da tua derrota, e se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstancia.
-Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o infeliz, será o autor.
Augusto escreveu primeira, segunda e terceira vez o termo da aposta, mas depois de longa e vigorosa discussão, em que qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria, uma para responder e dez ou doze pela ordem; depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos, caiu tudo por grande maioria, e entre bravos, apoiados e aplausos, foi aprovado, salva a redação, o seguinte termo:
“No dia 20 de julho de 18… na sala parlamentar da casa n… da “rua de… sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até o dia “20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma “só mulher durante quinze dias ou mais, será obrigado a escrever um “romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso contrário, igual “pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de “18… Salva a redação.”
Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo.
Acordantes: Filipe e Augusto.
E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.
 
 
___________________
 
Fonte: MACEDO, Joaquim Manoel de. A moreninha. São Paulo: Martins, 1965. p. 27-38.





Bio fornecida pelo palestrante.

MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR




Autor: Joaquim Manuel de Macedo
Título: MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR

 

 

Joaquim Manuel de Macedo

 

 

CAPÍTULO 1

 
 
Como a atual Rua do Ouvidor, tão soberba e vaidosa que é, teve a sua origem em um desvio, chamando-se primitivamente Desvio do Mar, e começando então (de 1568 a 1572) do ponto em que fazia angulo com a Rua Direita, neste tempo com uma só linha de casas e à beira do mar. Como em 1590, pouco mais ou menos, o Desvio do Mar recebeu a denominação de Rua de Aleixo Manoel, sendo ignorada a origem dessa denominação; o autor destas Memórias recorre a uns velhos manuscritos que servem em casos de aperto, e acha neles a tradição de Aleixo Manoel, cirurgião de todos e barbeiro só de fidalgos; começa a referi-la, mas suspende-a no momento em que vai entrar em cena a heroína, que é mameluca, jovem e linda, e deixa os leitores a esperar por ele sete dias.
A Rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro, fala, ocupa-se de tudo; até hoje, porém, ainda não referiu a quem quer que fosse a sua própria história.
Se tão elegante, vaidosa, tafulona e rica no século atual, por ventura lhe apraz esquecer o passado, para não confessar a humildade de seu berço, pois que é do Ouvidor, cerre bem, os ouvidos; porque tomei a peito escrever-lhe a história, mas com tanta verdade e retidão que se lembrando-lhe seus tempos primitivos ela tiver de amuar-se pelo ressentimento de sua soberba de fidalga nova, há de sorrir depois a algumas saudosas e gratas recordações que avivarei em seu espírito perdidamente absorvido pela garridice e pelo governo da moda.
As Memórias da Rua do Ouvidor têm, em falta de outras, um incontestável, grande e precioso merecimento, pois começa já e imediatamente, sendo os seus hipotéticos leitores poupados aos tormentos do prólogo, proêmio, introdução, ou coisa que o valha, em que, de costume, o autor, abismado em dilúvios de modéstia, abusa da paciência do próximo com a exibição de sua própria pessoa afixada no frontispício do monumento.

* * *

 
Salvo o respeito devido à sua atual condição de rica, bela e ufanosa dama, tomo com a minha autoridade de memorista-historiador, e exponho ao público a Rua do Ouvidor em seus coeirinhos de menina recém-nascida e pobre.
A atual rainha da moda, da elegancia e do luxo nasceu…
É indeclinável principiar por triste confissão de ignorancia: não sei, não pude averiguar a data do nascimento da rua que desde 1780 se chama do Ouvidor, do que a ela disso não resulta prejuízo algum, e pelo contrário ganha muito em sua condição de senhora; porque, isenta de aniversário natalício conhecido, não há quem ao certo lhe possa marcar a idade, questão delicadíssima na vida do belo sexo. Que afortunada predestinação dessa Rua do Ouvidor!
São menos felizes que ela as próprias senhoras nascidas no último dia de fevereiro ano bissexto, as quais têm o condão de aniversário natalício só de quatro em quatro anos…
Mas memorista-historiador que sou, não hesito em atraiçoar o segredo da idade aproximada da Rua do Ouvidor, que tão louçã, namoradeira e galante conta com certeza mais de trezentos janeiros.
Sabem todos que a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, fundada por Mem de Sá em 1567, teve o seu assento sobre o monte de S. Januário (depois chamado de Castelo); mas, perdido o receio de ataques inopinados dos Tamoios, começaram, logo, os colonos a descer do monte e a estabelecer-se na planície.
Primeiramente levantaram à beira do mar casas e choupanas com uma só linha, formando o que alguns anos mais tarde recebeu o nome de Rua da Misericórdia; em seguida foram adiantando suas rudes construções pela praia de Nossa Senhora do Ó, que a mudar de denominação se foi chamando Lugar do Ferreiro da Polé, Praça do Carmo, Terreiro do Paço, Largo do Paço, e enfim Praça D. Pedro II.
Da praia de Nossa Senhora do Ó (onde logo depois de 1567 um devoto erguera pequena capela com essa santa invocação) as casas e palhoças continuaram a levantar-se mais ou menos separadas uma das outras e ainda á beira do mar, e também em uma só linha, que muito em breve formaram a primitiva Rua Direita que é desde 1870 Rua Primeiro de Março.
Tudo isso foi obra de 1568 a 1572, e não admira, porque as primeiras casas eram de construção muito ligeira e evidentemente provisória.
Mas em ano que correu entre o de 1568 e o de 1572 alguns colonos abriram à pouca distancia do começo da rua que se denominou Direita uma entrada em angulo reto com ela, e cada qual foi improvisando grosseiro ubi para si e para sua família aos lados dessa aberta feita sobre areias e por entre mesquinha vegetação denunciadora de antigo domínio do mar.
E, curiosa, interessante, notável, notabilíssima idéia ou inspiração daqueles colonos portugueses tão bisonhos e tão sem malícia!… como aquela aberta ainda não era rua, e eles precisavam designá-la por algum nome, chamaram-na Desvio do Mar. Desvio!…
Eis o berço da bonita, vaidosa e pimpona atual Rua do Ouvidor! Fica, pois, historiado que ela nasceu de um desvio, e desvio da Rua Direita, ou do caminho direito, o que, a falar a verdade, não era de bom agouro.
Todavia foi ali aumentando logo o número dos tetos abrigadores; como, porém, se já estivesse prevendo e prelibando seus destinos futuros, o Desvio do Mar ostentou desde os seus primitivos anos suas duas séries de cabanas de aspecto rústico, mas agradável, e perfeitamente alinhadas e paralelas.
Desvio teve por primeiros moradores gente pobre, no trabalho, porém ativa; peões que exerciam misteres, operários, e um cirurgião que era barbeiro dos nobres.
Mas no ano de 1590 e sem intervenção nem audiência da Camara Municipal, o Desvio do Mar por acordo geral dos colonos subiu ao grau honorífico de rua urbana com o nome de Aleixo Manoel.
Tal foi a primeira denominação que recebeu, deixando de chamar-se – Desvio – a rua, cujas Memórias escrevo, Aleixo Manoel! nome masculino, feio, ingrato, peão sem raiz de fidalguia, nem carta de nobreza.
Procurei nas crônicas do tempo, e nas obras de Monsenhor Pizarro e de Baltazar da Silva Lisboa algum Aleixo Manoel que tivesse deixado nome na história; mas foi trabalho baldado, não encontrei entre os fidalgos da nascente colônia esse positivo e irrecusável avô da atual Rua do Ouvidor; não há, porém, meio de dissimular o parentesco, porque em livros que escaparam ao incêndio do arquivo da Camara Municipal da cidade do Rio de Janeiro em 1791 se acha escrita e mencionada a tal denominação de Rua de Aleixo Manoel.
Ah! que nem por isso se arrepie ressentida, e que não maldiga do seu memorista a Exma. Rua do Ouvidor.
Até aqui o pouco que deixo relatado é seriamente tradicional quanto ao Desvio, e em tudo mais positivamente histórico; quero, porém, em honra e glória da Rua do Ouvidor dar a todo transe, em falta de origem aristocrática impossível, origem romanesca a denominação de Aleixo Manoel que ela teve no outro tempo.
Para casos de aperto como este, o memorista, que se reserva direitos confessos de imaginação, deve ter sempre velhos manuscritos ricos de tradições que expliquem o que se ignora.
Não exijo dos meus leitores que tenham por incontestável a tradição que apanhei nos meus velhos manuscritos. Liberdade ampla de aceitá-la ou não.
Aleixo Manoel, colono português, era cirurgião e também barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos; morava no monte de S. Januário perto do colégio dos padres jesuítas; como porém poucos doentes tivesse, e ainda menos fidalgos a barbear, lembrou-se um dia de procurar fortuna, explorando a guerra.
Neste ponto a minha tradição se aproveita de uma lúgubre página da história.
Como os índios Tamoios, irreconciliáveis e odientos inimigos dos portugueses, hostilizassem a estes quase constantemente, atacando e destruindo seus estabelecimentos rurais na capitania de S. Vicente, e ainda mais na do Rio de Janeiro, o Governador Antônio Salema, resolvendo exterminar aquela tribo selvagem, fez partir contra ela duas colunas expedicionárias, uma de S. Vicente e outra da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, para nesta capitania levarem a ferro e fogo o extermínio a essa tribo funesta e indomável.
Aleixo Manoel alistou-se voluntário na coluna expedicionária fluminense, que foi comandada por Cristóvão de Barros.
A história guarda a lembrança da justificada, mas horrorosa, guerra: o incêndio devorou dezenas de aldeias de índios, e destes mais de dez mil foram mortos, mais de sete mil prisioneiros e reduzidos à escravidão, e os Tamoios que puderam escapar meteram-se pelas florestas, emigrando para muito longe, e para sempre.
Mas o que a história não diz, e a minha tradição informa, é que a tremenda expedição rendeu a Aleixo Manoel dois escravos tamoios, a quem ele generoso e a Custo salvara da medonha hecatombe de uma horda apanhada de surpresa em sua aldeia, nas proximidades de Cabo Frio.
Os dois escravos eram um índio quase sexagenário, e uma índia, sua neta, de três anos de idade; – um homem já a envelhecer, e uma menina a criar; mas para conseguir salvá-los da morte, Aleixo Manoel os tomou à sua conta.
A menina evidentemente não era de raça pura tupi; era uma linda mameluca: a aldeia selvagem estabelecida perto de Cabo Frio ocupado por franceses e as relações amigas e freqüentes destes com ostamoios das vizinhanças, seus aliados, explicavam o cruzamento das duas raças naquela bonita e interessante criança.
De volta á cidade, Aleixo Manoel não quis continuar a residir no monte de S. Januário, e, fazendo construir boa e espaçosa cabana no Desvio do Mar, nela se estabeleceu como cirurgião e ainda barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos.
Os dois escravos receberam o batismo: o índio já meio velho chamou-se Tomé, e a menina ainda criança Inês.
Deus abençoa sempre as boas ações e sobre todas as virtudes, a caridade.
Aleixo Manoel colheu em breve proveitoso e merecido prêmio de seu nobre e generoso impulso de amor ao próximo para com os dois infelizes. Tomé, mandado por seu senhor a trazer-lhe do monte do Desterro (depois de Santa Tereza) a famosa e ótima água de Carioca, internava-se na floresta, e nela recolhia ervas, folhas, cortiças e raízes de árvores, cujas virtudes medicinais por experiência, embora rude, conhecia, e as levava ao cirurgião, a quem indicava as moléstias em cujo tratamento elas aproveitavam.
Com esses novos recursos terapêuticos, Aleixo Manoel começou, graças ao pobre escravo, a distinguir-se por admiradas vitórias médicas, ganhou fama; teve clínica extensa e rendosa, reconstruiu sua cabana que se tornou casa muito regular e de bonito aspecto exterior, bem que de um só pavimento, e adicionou-lhe a um lado uma cerca ou gradil de varas, fechando pela frente pequeno jardim e canteiros de legumes, seguindo-se para o fundo o quintal.
E com todo esse luxo o cirurgião não teve animo de privar-se da glória de barbear fidalgos.
No entanto, Inês ia crescendo a traquinar pela casa e pelo jardim, e o senhor de dia em dia cada vez se deixava enfeitiçar mais pela escrava.
Mas Aleixo Manoel já era notabilidade, cirurgião famoso, o mais considerado dos moradores do Desvio do Mar, e não havia quem pensasse em dar ao Desvio a denominação de Rua Aleixo Manoel.
Ao correr do ano de 1590 o cirurgião principiou a observar certa mudança de costumes em alguns fidalgos, que em vez de mandá-lo chamar a suas casas, como dantes, vinham barbear-se na dele.
Nos primeiros dias ufanou-se muito daquela alteração de costumes, atribuindo-a à honraria e consideração pessoal que lhe queriam prestar pelo crédito e pela estima que gozava.
Depois notou que os fidalgos que para barbear-se vinham a sua casa eram Gil Eanes, Lopo de Melo e mais quatro ou cinco, todos de nobres famílias mas também todos célebres na cidade por vida licenciosa e pervertida.
Tendo notado isso, desconfiou logo de fregueses tais, pôs-se de observação dissimulada e cuidadosa, e bem depressa certificou-se de que os seus fidalgos, quando chegavam para barbear-se, metiam os olhos pela porta do interior da casa, e que afora essa curiosidade impertinente faziam ronda diária e suspeita pelo Desvio do Mar.
Aleixo Manoel não levou muito tempo a procurar a explicação do fenômeno, mas caiu das nuvens, lembrando-se de Inês.
A mameluca fulgurava então entre os 17 e os 18 anos de idade, e com seus belos olhos negros, sua boca lindíssima, seu rosto encantador e seu corpo de contornos admiráveis maravilhava pela formosura. Era uma arrebatadora morena esperta, faceira, e – sem o pensar, voluptuosa.
Aleixo Manoel caiu das nuvens, porque só então refletiu do que já sabia, só então reconheceu muito séria e gravemente que a menina sua escrava já era mulher.
Ele adorava Inês com enlevos e cultos de amor inocente e santo: até esse dia, porém, da queda do alto das nuvens onde se iludia nos segredos ainda não manifestos da natureza da sua afeição, ou deveras só amava Inês com o ardor e a pureza de pai estremecido.
Os fidalgos libertinos lhe alvoroçavam o animo: sabia que seus escandalos e atentados ficavam sempre impunes, quando as vitimas eram gente do povo.
Gil Eanes, Lopo de Melo e os outros que o procuravam para barbear-se que intenções trariam?… Nenhum por certo pensava em casar com uma moça que, além de filha de índia, era escrava; que queriam então fazer dela?…
Nessa aflitiva e revoltante conjuntura, Aleixo Manoel apenas escapou de ter sido o primeiro republicano da Rua do Ouvidor, e aí o mais antigo patriarca das idéias do meu bom amigo o Sr. Otaviano Hudson.
Mas que havia de fazer Aleixo Manoel?… era impossível, ou seria loucura meter-se em briga com fidalgos.
Fidalgos! a classe humana super-humanizada, privilegiada e purificada, a classe do seu culto e da sua paixão!… quem diria que o seu maior tormento lhe viria de fidalgos?
Aleixo Manoel velou uma noite inteira a meditar, e a imaginar; mas na manhã seguinte achou-se senão tranqüilo, ao menos, porém, esperançoso do bom resultado do plano que forjara.
Nesse plano a primeira e essencial condição era em casa a defesa e a segurança de Inês, quando ele estivesse ausente.
O cirurgião não procurou auxílio fora da família: tinha sob seu teto cão fiel, velho, mas robusto e forte; um índio, o avô de Inês.
Pôs de sobreaviso, mas em segredo absolutamente recomendando o já octogenário Tomé, que se endireitou garboso, como o jacatirão, e murmurou surda e ameaçadoramente:
– Deixa eles!
Além das instruções que deu ao velho índio, o que mais fez Aleixo Manoel, ele lá o soube e nós provavelmente o iremos sabendo; continuou, porém, respeitoso e humilde a receber em casa os tais fidalgos, e a barbeá-los, como dantes, salva a idéia sinistra e repulsada, que às vezes lhe vinha, de experimentar o corte da navalha nas gargantas dos privilegiados sedutores de donzelas pobres.
Entretanto, o cirurgião muitas vezes ficava cismando, e a lembrar-se e relembrar-se de que não era nem pai, nem tio, nem irmão, nem primo de Inês, e que por conseqüência não havia impedimentos…
É verdade que ele tinha cinqüenta anos e a menina dezessete; mas por isso mesmo! velho que se apaixona por menina perde logo com o coração a medida do tempo, principalmente futuro, para ela a florescer, e para ele a murchar.
Inês estava percebendo mil coisas, mas era uma inocentinha que não via coisa alguma; divertia-se muito assim; mimo e princesa de casa, a linda escrava era, desde pequenina, a senhora de seu senhor.
Uma tarde Inês…
Evidentemente é este o momento em que a linda mameluca entra, manifesta-se em cena, e, pois que a minha tradição da Rua de Aleixo Manoel não pôde caber toda neste folhetim, eu seria o mais inexperiente e insensato dos folhetinistas, se não interrompesse a narração, deixando os meus leitores curiosos de contemplar a bela e voluptuosa Inês em sua primeira hora de travessa, viva e um pouco maliciosa revelação.
Esperar é o tormento do desejo, mas vale a pena esperar sete dias pela contemplação de uma jovem formosa.
 
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Fonte: Macedo, Joaquim Manuel de. Memórias da rua do Ouvidor. Rio de Janeiro, Tecnoprint.





Bio fornecida pelo palestrante.

O SORRISO DO LAGARTO




Autor: João Ubaldo Ribeiro
Título: O Sorriso do Lagarto, Le Sourire Du Lézard
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jacques Thiériot(fra)
Data: 28/12/2004

O SORRISO DO LAGARTO

Capítulo 2

João Ubaldo Ribeiro

Matar-se foi o primeiro pensamento de Ângelo Marcos, ao voltar para casa, depois de saber da notícia. Chegou a tirar o 38 do armariozinho embutido onde o escondia por trás de um fundo falso e sopesá-lo durante vários minutos, até que, com uma contração dos ombros que quase o derrubou, começou a chorar em soluços arquejantes, caindo de bruços na cama e enterrando o rosto no travesseiro. Só bem mais tarde o choro convulso se abrandou e ele levantou-se com lágrimas ainda lhe escorrendo dos olhos inchados, o revólver na mão direita. Examinou-o de perto, leu em voz alta as palavras inglesas gravadas no cano, leu os números também em inglês. Quis achar aquilo engraçado, mas não conseguiu nem mesmo sorrir e sentiu outra vez o impulso de soluçar, só que desta feita mordeu o lábio inferior e controlou-se. Movendo-se muito devagar e fungando com a cabeça derreada, retornou ao armariozinho, abriu o fundo falso e pôs o revólver no lugar costumeiro.

Em seguida, num relance que mais tarde ele mesmo não iria recordar direito, viu-se ligando os condicionadores de ar de seu gabinete, sentando-se na grande poltrona giratória e repousando os calcanhares sobre a mesa, na direção do porta-retratos de prata que emoldurava uma fotografia do casamento com Ana Clara. Puxou o porta-retratos com a ponta do sapato até poder apanhá-lo sem muito esforço, segurou-o no colo e, depois de fitá-lo algum tempo, achou-se feio e de expressão apatetada. Palhaçada, palhaçada, a vida é uma palhaçada sem sentido. Ergueu os olhos e mirou em torno, as coleções encadernadas que nunca lera parecendo ainda mais remotas e absurdas do que sempre secretamente pareceram, as estantes nada mais que peças de mobília tirânicas, as cortinas ridículas. Sim, não era só o retrato que se apresentava diferente, tudo era diferente, bosquejado em cores foscas e muito destacado, como se ele não estivesse neste mundo. Inspirou forte, deitou o porta-retratos sobre a mesa sem olhar mais para ele e, a princípio tremelicosamente, mas logo de maneira decidida, assumiu um semblante firme, exatamente o que pretendia estampar, quando pela primeira vez tocasse no assunto com Ana Clara, e começou a falar sozinho. Pensando bem, o pior já tinha passado, já tinham passado a dúvida, a ansiedade, a angústia da incerteza. Agora não, agora era uma realidade. Uma realidade dura, não se podia negar, mas perfeitamente tangível e, por conseguinte, enfrentável – e não só enfrentável, como derrotável. E Deraldo havia sido claro, enfático mesmo. “Desta vez você escapa, não se preocupe, vai dar para segurar”, dissera ele, com aquele ar de coruja composta que desde a Faculdade lhe alicerçava a reputação de competência. Certo, certo, tudo entendido, Deraldo não estava enrolando, tudo sob controle, não havia razão para pânico, a mínima razão, antes pelo contrário, havia até alguma razão para alívio.

Sim, mas chorar não tinha sido necessariamente uma coisa ruim e talvez, se não houvesse chorado, chegasse a dar mesmo um tiro na cabeça. Não, não chegaria, aquilo fora mais propriamente um gesto de protesto contra Deus, um jeito de blasfemar sem pronunciar palavras para as quais não tinha coragem. As perguntas não podem deixar de vir, sempre vêm as mesmas perguntas, e dá raiva ver que, de tão usadas e repetidas pela vida afora, não fazem o efeito que deveria fazer, não causam a revolta e a perplexidade que deveriam causar. Por que ele? Por que tão cedo, em idade tão produtiva, diante da perspectiva de uma maturidade plena, que finalmente o recompensaria, depois de uma vida de tanto esforço, tanta luta? Por que, por quê? Chorar fora bom, sim, já que praticamente não tinha desabafado todos estes dias mais longos que meses e mais agoniados que uma temporada no inferno, em que os ombros e o pescoço se transformaram em granito, o estômago virou uma fronha amarrotada e qualquer telefonema podia ser um arauto da morte – desde aquele momento pavoroso em que, voltando de uma viagem já tarde da noite, foi ao banheiro depois de muita resistência e, ao levantar um pouco os quadris para jogar um toco de cigarro na privada, viu, saindo de seu corpo como de uma torneira mal fechada, um jorro contínuo de sangue, que já transformara tudo em baixo numa poça rubra. Pôs-se de pé atarantado e meio tonto, uma borrifada de espessas gotas de sangue fez um semicírculo em torno de seus pés e logo um riachinho quente e viscoso lhe escorreu até os tornozelos. Que hemorragia louca era aquela, ia entrar em choque, ia morrer, quanto de sangue já não teria perdido no fundo agora negro da privada, a tontura que sentira teria sido por causa disso? Mexendo-se cuidadosamente, com as pernas coladas e mal levantando os pés do chão, sentou-se no bidê e ficou olhando, o coração suspendendo as costelas e o suor ardendo nos olhos, seu esguicho vermelho inicialmente continuar tão vívido quanto antes, para depois a água que o lavava ir esmaecendo aos poucos, até se tornar completamente límpida. Olhou em redor, parecia que tinham cortado o pescoço de uma galinha, para em seguida rodopiá-la pelo banheiro. Erguendo-se entre muitas cautelas, lembrou-se das outras vezes em que limpara gotinhas de sangue no caminho entre o vaso e o bidê, porque não queria que Ana Clara as visse e insistisse em que ele se operasse. Mas eram apenas gotinhas, gotinhas a que se acostumara a não dar importância, nada como isto que começou a remover com papel higiênico e uma toalha que molhava a intervalos, esse mar de sangue, sobre cuja erupção falou nervosamente no consultório de Deraldo, às nove da manhã seguinte.

– É, você deve estar anêmico – comentou Deraldo. – Bem, vamos olhar isso aí -acrescentou, levantando-se e indicando a direção da saletinha anexa.

– Você acha que eu vou ter de me operar?

– Depende. Sem olhar, como é que eu vou saber?

Foi olhar e veio a porretada inicial, porque ele não se contentou com o exame de toque e, depois de uma seqüência de procedimentos que Ângelo Marcos considerou humilhante e se sentiu compelido a acompanhar com piadinhas que não pareciam estar sendo ouvidas, usou o anuscópio um tempo enorme, para finalmente anunciar que ia coletar material para uma biópsia.

– Não dói nada – explicou, sem erguer os olhos de algumas anotações que tinha feito. – É uma besteirinha e eu ainda vou usar xilocaína. Fique aí mesmo, que eu não demoro.
– Biópsia? Mas para que diabo eu quero biópsia? Minha tese desde a Faculdade sempre foi que biópsia dá câncer, não senhor, não precisa ser tão meticuloso assim e seguir à risca o manual do bundólogo, eu sei que tenho hemorróidas, tenho medo de operação, não confio em hospital, mas estou disposto a me operar, não quero fazer biópsia nenhuma, não sei para que fazer biópsia.

– Bem – disse Deraldo, sem alterar a voz, os olhos quase fechados por trás dos óculos -, não posso tirar material de seu corpo sem sua autorização, mas, como profissional, meu dever é enfatizar que você precisa fazer essa biópsia. Você tem um tumor no canal anal, é mais do que visível, talvez uns dois centímetros no maior diâmetro, não adianta tapar o sol com uma peneira, o melhor é fazer a biópsia. Posso pegar a pinça?

– Deraldo, como é que você olha para minha cara com essa frieza toda e diz que eu estou com câncer no cu?

– Eu não estou dizendo que você está com câncer, eu estou dizendo que você precisa fazer uma biópsia.

– É a mesma coisa! Você já sabe que eu estou com câncer, a biópsia é somente para confirmar, e você fala isso com perfeita indiferença, como se eu fosse apenas mais um caso.

– Mamaco, que é que você quer que eu diga, como é que você quer que eu fale? Eu…

Ao usar inesperadamente o apelido do tempo do ginásio em que também tinham sido colegas e ver Ângelo Marcos encolhido como uma criança aterrorizada, Deraldo enterneceu-se. Sentou-se, tirou os óculos um instante para esfregar os olhos, suspirou, pediu a Ângelo Marcos que se recompusesse por alguns minutos e, revolvendo uma caneta entre os dedos, demorou para começar a falar. Sim, havia uma espécie de ulceração no canal anal, uma formação tumoral. Suspirou outra vez, muito sem jeito, deixou cair a caneta no bloco de anotações. Sim, falou com os olhos num ponto vago à frente, achava que era um carcinoma, um carcinoma epidermóide. Carcinoma epidermóide do canal anal, recitou, silabando as palavras e pronunciando os eles finais exageradamente. Mas não era necessário precipitar as coisas, deviam esperar os resultados dos exames, especialmente da biópsia. Normalmente, não faria isto, por achar que se trata de uma certa irresponsabilidade, leviandade mesmo, mas, sendo Ângelo Marcos também médico, ele podia antecipar alguma coisa. Acreditava que era um tumor mais ou menos recente, o que, como sabe qualquer um, melhora muito as chances do tratamento. E o tratamento que ele provavelmente elegeria vinha tendo resultados bastante alentadores, além de, no caso de Ângelo Marcos, haver ainda a clara vantagem estatística de que os pacientes desses carcinomas eram quase sempre velhotes debilitados, e não homens ainda moços e fortes como Ângelo Marcos, apesar da quase certa anemia.

– Se muitos deles conseguem uma sobrevida que pode ser considerada excepcional, imagine você – falou e logo aparentou se arrepender. – Não, não – acrescentou com um sorriso que dava a impressão de estar sendo atrapalhado por pequenos espasmos, o que aumentou a inquietação de Ângelo Marcos. – Não, não, desta você escapa, não se preocupe, vai dar para segurar.

– E o tratamento? Quer dizer que a probabilidade é que eu vá ter de me operar mesmo, para tirar esse negócio, não é? Bem, talvez seja melhor assim, de qualquer jeito eu ia ter de operar o cu mais cedo ou mais tarde, é ou não é?

– Não, não, eu não me referi a tratamento cirúrgico. Quer dizer, na minha opinião não vamos optar por cirurgia. No caso, não é a melhor solução.

Desviou os olhos novamente, folheou o bloco de notas com o cenho franzido, relutando em responder à pergunta sobre por que cirurgia não era a melhor solução. Radioterapia e quimioterapia, resmungou afinal, arrancando do bloco as folhas anotadas e acenando com elas como quem precisa tratar de assunto mais importante e não tem tempo a perder. Mas algo deve tê-lo irritado no olhar quase beligerante de Ângelo Marcos e, cruzando os braços com a expressão impassível, disse: radioterapia, cobalto; quimioterapia, cin-co-fluo-racillll, mi-to-mi-ci-na-cê. Taxa alta de eficácia, taxa baixa de recidiva, não vamos operar.

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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. O sorriso do lagarto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. Cap. 2. p. 43-48.

LE SOURIRE DU LÉZARD

Chapitre II

João Ubaldo Ribeiro

Se tuer, telle fut la première pensée d’Angelo Marcos en rentrant chez lui, après avoir appris la mauvaise nouvelle. Il alla même jusqu’à sortir son P 38 de la petite armoire encastrée où il le cachait derrière un double fond et il le soupesa pendant quelques minutes jusqu’au moment où, les épaules secouées par un frisson qui le fit chanceler, il se mit à pleurer, étouffé par les sanglots, et s’écroula à plat ventre sur le lit en enfouissant sa tête sous l’oreiller. Ce n’est que bien plus tard que ses pleurs convulsifs se calmèrint et il se leva, des larmes coulant encore de ses yeux gonflés, le revolver à la main droite. Il l’examina de près, lut à voix haute les mots en anglais gravés sur le canon, lut les chiffres anglais également. Il essaya de trouver ça drôle mais ne parvint même pas à sourire et un besoin de sangloter le prit derechef mais cette fois il se mordit la lèvre inférieure et se contrôla. Avec des mouvements très lents, la tête affaissée, n’arrêtant pas de renifler, il retourna à la petite armoire, ouvrit le double fond et remit le revolver à sa place habituelle.

Ensuite, en une fraction de seconde, dont il ne garderait pas un souvenir précis, il se vit brancher les climatiseurs de son bureau, s’asseoir dans le vaste fauteuil pivotant, poser les talons sur la table, en direction des cadre en argent où se trouvait une photo de son mariage avec Ana Clara. De la pointe du pied il tira jusqu’à lui le cadre, finit par le saisir sans grand effort, le coinça sur ses genoux et après l’avoir observé un bon moment, il se trouva moche, l’air abruti. Une farce, une farce, la vie est une farce dénuée de sens. Il leva les yeux et regarda autour de lui, les collections de livres reliés qu’il n’avait jamais lus lui paraissant encore plus lointaines et plus absurdes qu’elles ne l’avaient toujours été secrètement, les rayonnages, tout au plus des pièces de mobilier tyranniques, ces rideaux ridicules. Oui, ce n’était pas seulement la photo qui se révélait différente, tout était différent, esquissé en couleurs ternes et en surimpression comme si lui n’avait pas fait partie de ce monde. Il respira à fond, coucha le cadre sur la table et cessa de le regarder puis, tout d’abord tremblotant mais très vite reprenant son assurance, il afficha une mine décidée, exactement celle qu’il prétendait arborer quand il aborderait le sujet avec Ana Clara, et il se mit à parler tout seul. Tout bien pesé, le pire était déjà passé, finis le doute, l’angoisse, l’anxiété provoquée par l’incertitude. À présent c’était terminé, à présent c’était une réalité. Une réalité dure, on ne pouvait le nier, mais parfaitement tangible et par conséquent qu’on pouvait affronter-et non seulement affronter mais surmonter. Car Deraldo avait été clair, et même grandiloquent: cette fois tu vas te sortir de ce mauvais pas, ne te fais pas de souci, on peut maîtriser la situation, avait-il dit avec cet air de chouette circonspecte qui déjà du temps de la Faculté lui conférait la réputation d’être compétent. Pas de doute, tout était clair, Deraldo ne l’embobinait pas, tout était contrôlé, il n’y avait pas de raison de paniquer, pas la moindre, bien au contraire, il y avait même de quoi être soulagé.

Oui, mais pleurer n’avait pas été forcément une mauvaise chose et peut-être, s’il n’avait pas pleuré, aurait-il fini par se tirer une balle dans la tête. Non, il n’aurait pas tiré, ç’avait été plus exactement un geste de protestation contre Dieu, une façon de blasphémer sans prononcer les mots dont il n’avait pas le courage. Les questions n’arrêtent pas de se poser, toujours les mêmes, il y a de quoi se foutre en rogne en voyant que, si souvent utilisées et répétées dans toutes les circonstances de la vie, elles ne font plus l’effet qu’elles devraient faire, elles ne provoquent plus la révolte et le perplexité qu’elles devraient provoquer. Pourquoi lui? Pourquoi si tôt, à un âge si productif où s’ouvrait la perspective d’une maturité bien remplie qui finalement le récompeserait après une vie vouvée à tant d’efforts et de luttes? Pourquoi, pourquoi? Pleurer avait été une bonne chose, oui, car pratiquement il s’était contenu durant tous ces jours plus longs que des mois et plus angoissants qu’une saison en enfer où ses épaules et son cou s’étaient changés en granit, son estomac était devenu une taie d’oreiller froissée et un coup de téléphone pouvait être un héraut de la mort – depuis ce moment effroyable où, rentrant de voyage tard dans la nuit, il avait fini par aller à la salle de bains après s’être longtemps retenu et, au moment de lever un peu son séant pour jeter un mégot dans la cuvette, il avait vu sortant de son corps comme d’un robinet mal fermé un jet continu de sang qui formait déjà une mare cramoisie. Il s’était mis debout, paniqué et à moitié sonné, d’épaisses gouttes de sang avaient éclaboussé le sol tout autour de ses pieds et aussitôt un petit ruisseau chaud et visqueux avait dégouliné jusqu’à ses chevilles. Pourquoi cette hémorragie insensée? Il allait avoir une commotion, il allait mourir, combien de litres de sang avait-il déjà perdus, le fond de la cuvette était déjà tout noir, voilà donc pourquoi il avait eu un vertige? Avec des gestes précautionneux, les jambes poisseuses, levant à peine les pieds, il s’était assis sur le bidet et, le coeur cognant contre ses côtes et les yeux biûlés par la sueur, il avait contemplé le flux, rouge d’abord, qui continuait de sourdre avec la même insistance mais ensuite l’eau qui baignait ses fesses peu à peu s’était éclaircie pour enfin devenir parfaitement limpide. Il avait regardé autour de lui, on aurait dit qu’on avait coupé le cou d’une poule qu’on aurait ensuite fait tour noyer dans la salle de bains. Tout en se redressant avec force précautions, il s’était rappelé les autres fois où il avait essuyé des gouttes de sang sur le chemin entre la cuvette et le bidet, car il ne voulait pas qu’Ana Clara les voie et insiste pour qu’il se fasse opérer. Mais ce n’étaient que des gouttes, de petites gouttes auxquelles il avait pris l’habitude de ne pas accorder d’importance, sans rapport avec cette mare qu’il avait commencé d’éponger avec du papier hygiénique et une serviette qu’il rinçait de temps à autre, cette mer de sang qui avait déferlé et dont il avait parlé fébrilement le lendemain matin à neuf heures dans le cabinet de Deraldo.

– Oui, tu dois souffrir d’anémie, expliqua Deraldo. Bon, nous allons voir ça, ajouta-t-il en se levant et en indiquant la porte de la petite salle contiguë.

– Tu crois qu’il va falloir m’opérer?

– Ça dépend. Sans examen, comment savoir?

Il procéda à l’examen et ce fut la première épreuve car il ne se contenta pas du toucher rectal: après une série de procédés qu’Angelo Marcos considéra comme humiliants mais qu’il se crut obligé d’accompagner par des plaisanteries qui apparemment tombaient dans l’oreille d’un sourd, il se servit de l’anuscope pendant un bon moment pour finalement annoncer qu’il allait faire un prélèvement pour une biopsie.

– Ça ne fait pas mal, expliqua-t-il sans lever les yeux des notes qu’il avait prises. Une simple formalité et je vais même employer la xylocaïne pour une anesthésie locale. Ne bouge pas, ce sera vite fait.

– Une biopsie? Mais pourquoi diable j’aurais besoin d’une biopsie? Depuis la Faculté j’ai toujours soutenu que la biopsie provoque le cancer, non mon viex, pas besoin d’être aussi méticuleux et de suivre au pied de la lettre le manuel du parfait dercholoque, je sais que j’ai des hémorroïdes, j’ai peur de l’opération, je n’ai pas confiance dans l’hôpital, mais je suis prêt à passer sur le billard, je ne veux pas entendre parler de biopsie, je ne vois pas de raison à faire une biopsie.

– Bon, dit Deraldo sans changer de voix, les yeux presque fermés derrière ses lunettes, je ne peux pas faire de prélèvement sans ton autorisation, mais en tant que professionnel, j’ai le devoir d’insister pour que tu acceptes cette biopsie. Tu as une tu meur dans le canal anal, c’est plus que visible, peut-être quelque deux centimètres de diamètre maximum, ça ne sert à rien de faire l’autruche, il vaut mieux pratiquer la biopsie. Je peux prendre la pince?

– Deraldo, comment peux-tu me regarder avec cet air completement froid et me dire que j’ai un cancer au cul?

– Je ne dis pas que tu as un cancer, je dis que tu dois accepter que je fasse une biopsie.

– C’est la même chose! Tu sais déjà que j’ai un cancer et la biopsie c’est simplement pour en avoir la confirmation. Et tu me dis ça avec une parfaite indifférence comme si je n’étais qu’un cas parmi cent autres.

– Mamaco, qu’est-ce que tu veux que je te dise, comment veux-tu que je te parle? Je…

Retrouvant inopinément le sobriquet d’Angelo Marcos du temps où ils étaient camarades de lycée et voyant celui-ci ratatiné comme un enfant terrorisé, Deraldo s’attendrit. Il s’assit, enleva ses lunettes un instant pour se frotter les yeux, soupira, demanda à Angelo Marcos de se ressaisir et, faisant tourner un stylo entre ses doigts, il prit son temps avant de reprendre la parde. Oui, il y avait une sorte d’ulcération dans le canal anal, une formation tumorale. Il soupira derechef, vraiment mal à l’aise, laissa tomber le stylo sur le blocnotes. Oui, dit-il, les yeux fixant un point vague devant lui, à son avis, il s’agissait d’un carcinome, un carcinome épidermique. Carcinome épidermique du canal anal, récita-t-il en détachant les syllabes et en exagérant la prononciation des l finals. Mais il était inutile de précipiter les choses, ils devaient attendre le résultat des examens, en particulier de la biopsie. Normalement il n’aurait pas procédé ainsi, estimant que c’était faire preuve d’une certaine irresponsabilité, et même de légèreté, mais étant donné qu’Angelo Marcos était lui aussi médecin, il pouvait hasarder un pronostic. Il pensait que c’était une tumeur plutôt récente, ce qui, comme chacun sait, augmente les possibilités de traitement. Et le traitement qu’il choisirait probablement aurait des résultats vraiment encourageants et de plus, dans le cas d’Angelo Marcos, il y avait l’évident avantage statistique que les victimes de ces carcinomes étaient presque toujours de petits vieux débilités et non pas des hommes encore jeunes et forts comme Angelo Marcos, malgré l’anémie dont certainement il souffrait.

– Si beaucoup d’entre eux parviennent à survivre, à titre exceptionnel il faut le dire, tu imagines ton cas, dit-il et aussitôt il eut l’air de regretter ses paroles. Non, non, ajouta-t-il avec un sourire qui donnait l’impression d’être gâché par de petits spasmes, ce qui accrut l’inquiétude d’Angelo Marcos. Non, non, tu vas t’en sortir, ne te fais pas de bile, on va pouvoir tout contrôler.

– Et le traitement? Tu veux dire que la seule solution, c’est que je me fasse opérer pour m’enlever cette saloperie, c’est bien ça? Bon, c’est peut-être préférable, de toute façon j’aurais été obligé de me faire chareuter le cul un jour ou l’autre, pas vrai?

– Non, non, je n’ai pas parlé de traitement chirurgical. C’est-à-dire que, à mon avis, nous n’allons pas opter pour la chirurgie. Dans ton cas, ce n’est pas la meilleure solution.

Il détourna les yeux de nouveau, feuilleta son bloc-notes, les sourcils froncés, se refusant à répondre à la question pourquoi la chirurgie n’était pas la meilleure solution. Radiothérapie et chimiothérapie, finit-il pas grommeler, en arrachant du bloc les feuillets annotés et en les agitant comme qui doit traiter une affaire plus importante et n’a pas de temps à perdre. Mais peut-être que quelque chose dans le regard presque agressif d’Angelo Marcos l’irrita car, croisant les bras, l’air impassible, il énuméra: radiothérapie, cobalt, chimiothérapie, zinc fluoracile, mitomycine. Taux élevé d’efficacité, taux réduit de récidive, nous n’allons pas opérer.

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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. Le sourire du lézard. Traduit du portugais par Jacques Thiériot. Paris: Le Serpent à Plumes, 1998. p. 47-52.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

SEMPRE AOS DOMINGOS




Autor: João ubaldo Ribeiro
Título: SEMPRE AOS DOMINGOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

SEMPRE AOS DOMINGOS

 
 

Num boteco do Leblon

 

João Ubaldo Ribeiro

 
 
-Olha aí, ô Zé Mário, tu lavou bem esse copo? Tu tá sabendo que tem de dar lavagem dupla nesses copos, devia até ferver, os caras tão dizendo que o Aids também passa pela baba!
-Qual é baba, rapaz, tu tá por fora. O que pega pela baba é a epilepsia, todo mundo sabe disso. O Aids só pega nesse pessoal alegre aí, essa turma aí que… sabe como é, o contágio não é bem pelo copo, tu tá me entendendo, não é bem por aí, he-he!
-Aí é que tu demonstra tua ignorancia. Tu conhece o Dr. Carvalho? Tu conhece, ele vinha muito aqui, ultimamente é que não tem vindo, depois que a mulher dele internou ele numa clínica pelo problema do alcoolismo. Tu conhece ele, verdadeira sumidade, respeitado aqui e em todos os outros Estados, su-mi-da-de, pergunte a qualquer daqueles velhotes bêbados do Degrau, não tem um que ele não tenha curado a pancreatite, até o Lula Grande, que ficou paralítico de um porre de Johnny Bull, ele botou pra andar. Agora só ta bebendo água mineral e guaraná, é por isso que ele só pinta aqui de vez em quando, para se resguardar da nostalgia. Eu tive com ele no Bracarense, no dia em que o Flamengo perdeu, eu tomando um porre de vodca e ele de água mineral com gás, e tu sabe o que eu vi ele fazer na hora que o português botou o copo na frente dele? Ele tirou do bolso um pedacinho de algodão e um frasquinho parecendo desses de colírio, molhou o algodãozinho no líquido do frasquinho e esfregou pela beirada do copo toda, esfregou várias vezes com a maior meticulosidade.
-E o que era que tinha no frasquinho?
-Álcool, xará, álcool de farmácia. Eu falei: não tou sacando nada, doutor, será que o senhor não está esfregando esse álcool no copo para dar uma alegria aí na água mineral? Aí ele falou: deixa de ser otário, Lourival, acho bom tu também adotar o álcool na beirada do copo como eu, que a barra do Aids tá ficando pesada. Aí eu falei: mas, doutor, esse Aids não é uma transação que só dá em boneca, o cara que… ali… o cara que… justamente… não é?
-E ele falou que não?
-Ele falou duas coisas. Primeiramente ele falou que é verdade que dá mais em boneca, mas é só por enquanto e, além disso – aí é que você vê o raciocínio do homem que tem cultura, a pessoa tem de admirar – ele falou o seguinte: meu caro Lourival, você é um homem que conhece a vida e vai concordar comigo no seguinte: quem parece é, e muitos que não parecem também são, a verdade é essa, tu sabe disso.
-Bom, isso é, isso é uma grande verdade.
-É uma grande verdade! Tem muito moleque safado por aí que não dá nenhuma bandeira! Tu conhece o Carlão?
-Que Carlão? O Carlão da Humberto de Campos, um que faz musculação ali na esquina da João Lira, o da motoca?
-Pois é, Carlão-Carlão, esse mesmo.
-Não! O Carlão? Não! Que é que você está me dizendo, cara, o Carlão… Agora, pensando bem, com aquela machidão toda, todo fortão, todo cabeludão nas costas… Agora que tu tá me falando, tu sabe que eu sempre desconfiei, pensando bem… O Carlão, quem diria… Mas ele não tá de Aids, ontem ele passou pelo Maré Mansa e tá com a mesma cara, não dá nenhuma pinta de Aids.
-Que é isso, cara, o Carlão não é nada disso, é meu amigo, conheço ele bem, nada disso.
-Ué, tu não falou que…
-Tu não esperou eu acabar de falar, que é isso, o Carlão não… Não, nada disso. É que o Carlão teve um problema com um travesti no carnaval passado.
-Ah, ele saiu com um travesti no carnaval, hem? Aí o travesti… É cara, tem muita gente que toma bonde errado com esse negócio de travesti aí que… He-he! Quer dizer que o Carlão, como é que se diz, o Carlão foi buscar a lã e saiu atosquiado, não é assim que se diz? O travesti… he-he, vai ver que o Carlão bebeu demais, se distraiu… He-he!
-Não cara, nada disso, foi um caso de engano, o Carlão não tava sabendo que o cara era travesti, era desses todos cheios de silicone, sabe como é, desses que se tu não prestar atenção tu dança, tá sabendo como é que é?
-Ah, essa não, quer dizer que o Carlão só foi descobrir depois que a desgraça já tava feita? Ah, qual é, Vavá, pra cima de mim? Ah, vai, conta outra, essa daí não cola.
-Tou falando sério, cara, eu conheço o Carlão! O problema não é nada disso, cara, deixa eu acabar de falar!
-Tá legal, vá falando, mas minha idéia é que essa história do Carlão tá muito mal contada.
-É o seguinte, ele descobriu que o cara era travesti, mas só depois que tinha dançado com o cara e tudo, tinha tomado assim umas intimidades, sabe como é carnaval. Eu vou lhe dizer uma coisa aqui confidencialmente, você vai me prometer que não conta isso pra ninguém, é uma questão de confiança, o Carlão é uma pessoa que me merece muito. É o seguinte – olhe aqui, se tu sair falando isso por aí, eu vou ter uma grande decepção com você, veja bem –, é o seguinte. Tou te falando isso até por uma questão de saúde publica, pode crer, o grilo do Carlão é um grilo sério, é o seguinte: teve um momento que o Carlão beijou o travesti, um momento em que ele não tava sacando qual era a do cara. Logo em seguida, ele sacou, tu tá sabendo como é beijo de carnaval, ele inclusive – eu conheço o Carlão, eu sei que é um rapaz de caráter, eu manjo ele assim como eu manjo você, tá sabendo? – partiu para dar uma bolacha no sem-vergonha, mas o cara sentiu a barra do choque do Carlão e se pirulitou na hora, sumiu no ar. O Carlão ficou desgostoso etc., passou a noite bochechando com conhaque etc., mas depois esqueceu, que na ocasião esse grilo do Aids não tinha pintado ainda, era uma transa que ninguém tava sabendo ainda. Mas agora…
-Mas não foi no carnaval? Se foi no carnaval já tem tempo, não tem nada a ver, se o Carlão tivesse de pegar a doença já tinha pegado.
-Ai é que tu tá errado outra vez! O Dr. Carvalho me explicou, o cara pode estar contaminado uns cinco ou seis anos sem saber!
-Ih, cara, grilo grande!
-Pois é, você precisa ver o Carlão, cara, parece assim que ele tá bem, mas tá um farrapo, cara! Quer dizer, fisicamente não, ele fisicamente tá ótimo, mas a psicologia do cara desmoronou. Ele agora só come macarronada, só come comida engordante, não pode ver balança de farmácia – sabe aquelas farmácias todas da Ataulfo de Paiva? – pois não tem uma que ele passe que ele não pule em cima pra controlar o peso, tu tá sabendo que a primeira batida do Aids é o cara perder peso, tu viu a cara do Rock Hudes, um cara boa-pinta como o Rock Hudes, tu saca ele do Maquimila and Uáife, pois é, não pode ver comida engordante que não caia de boca na hora, é inhoque, é milquechêique, é batata frita, é vitamina de banana, é rissole de camarão em tudo que é boteco, é um inferno em vida, cara! Tou dizendo a você, é um inferno em vida, grilo grande mesmo.
-Eu não tava sabendo disso, cara, quer dizer que a transação do Aids leva até cinco anos pra rebentar?
-Incubadão aí, cara, pode crer, incubadão. Tipo fantasma da ópera, tá sabendo?
-Grilo grande, grilo grande. Cinco anos, tu disse?
-Cinco, seis. O Dr. Carvalho bateu pra mim, cinco, seis.
-Tu tá perdendo peso?
-Nada, cara, tou segurando firme em 78, tenho acompanhado.
-Aquela farmácia ali defronte da Sendas tem balança, não tem não?
-Vai ver que tem, eu não sei, porque eu controlo naquela da Zé Linhares, criei confiança.
-É, eu acho que vou dar um pulo lá, só uma pesadinha, faz muito tempo que eu não me peso.
-Tá legal, mas acabe aí tua caipirosca, não tem pressa. Eu tenho uma teoria. Minha teoria é que o álcool por dentro faz o mesmo efeito que o álcool por fora, a gente vai bebendo e vai desinfetando. O Dr. Carvalho achou interessante essa minha teoria, deu valor.
-É, com certeza, com certeza.
-E, além de tudo, o álcool ajuda a esquecer, é ou não é?
-É. Não que eu tenha nada a esquecer, mas ajuda.
-Eu também não, mas ajuda.
-O Dr. Carvalho falou o que era melhor, se era caipirinha ou caipirosca?
 
 

COMO É O SEU NOME COMPLETO?

 
 
Não há de haver profissão mais louca do que a de escritor. É possível até que, ao me verem chegando de manhãzinha para trabalhar no meu “escritório” de Itaparica, os freqüentadores da Praça da Quitanda pensassem em que vida mansa eu tinha, de bermudas e chinelos sempre aproveitando qualquer pretexto para, antes de subir, ficar por ali prosando sobre a tarrafa de Luiz Cuiúba ou as galinhas de Zé de Honorina, como quem não tinha pressa nem obrigação. Além disso, era tão comum que, depois de passar uma meia-hora lá em cima, eu descesse outra vez para ficar zanzando pela praça ou pela beira do cais, que muitas vezes me perguntavam se eu estava trabalhando mesmo.
Mal sabiam eles que, lá em cima, olhando para uma montanha desorganizada de papéis e entulhos variados, eu tinha acabado de concluir pela enésima vez que aquilo tudo era uma maluquice, que não estava entendendo nada e que jamais seria capaz de escrever uma outra linha, quanto mais concluir o livro que, fazia quase um ano, prometia à editora que entregaria “para o mês”. Que sentido tinham aquelas garatujas todas, lauda após lauda de uma história que eu estava tirando não sabia de onde, gente que não existia e cujos sentimentos e ações agora me ocupavam como a um alucinado, personagens que de repente começavam a mandar nos acontecimentos, por que eu não tinha uma atividade decente como qualquer pai de família respeitável? Ainda mais que, no dia anterior, em quase delírio, eu havia mais uma vez assustado a pacientíssima santa esposa com descrições verborrágicas dos maravilhosos feitos literários que brotavam em catadupas da minha máquina inspirada – que confiança, que fé no taco, que certeza de que estava no caminho certo!
Como é que isso acontecia, como é que eu era gênio na quarta-feira e cretino na quinta? Cretino, irremediavelmente cretino, metido até o pescoço num projeto impossível e paranóico, isolado em meio a fantasias estranhas, levantando-me exasperado para ir até a janela e ver a praça, onde as pessoas, placidamente conversando, acreditavam estar cá em cima um escritor com aquela cara de escritor que se vê nos livros, escrevendo agilmente belas palavras e convivendo com as musas. E, ainda por cima, não sou amador, sou profissional, não faço mais nada, não sei fazer mais nada. É possível exercer atividade tão absurda como ofício e meio de vida, isto é normal? Talvez fosse por isso – certamente era por isso – que eu tinha procurado, como procurara muitas vezes antes e continuaria a procurar, adiar o penoso instante em que, nas vascas do cretinismo, teria de subir de novo ao escritório e enfrentar a escrita. Não, não, era uma situação insuportável, o jeito era descer outra vez, carregando todos aqueles personagens na cabeça espremida como um caju, os miolos meio doidos – e ir de novo conversar sobre as galinhas e a tarrafa, de novo mostrar a eles como é amena e descontraída a vida de quem trabalha de bermudas e chinelos. Ou então – por que não? – baixar a cestinha amarrada numa corda que o inimitável Zé de Honorina me providenciou quando montei o escritório, dar um berro para o compadre Bento lá embaixo e pedir que ele, por caridade, encha um copão daqueles de requeijão com alguma coisinha forte e o envie, via cesta, cá para cima. Compadre Bento é sempre prestimoso, especialmente em questões de escrever, porque uma vez, quando eu não conseguia parar de batucar na máquina apesar da presença dele, ocupado em consertar um negócio qualquer no escritório, me viu trabalhando e ficou muito impressionado.
-É trabalho pesado – explicou ele mais tarde à sua dele santa senhora, comadre Marileide. – Ele bate, bate, destremece todo, dá risada e faz cada careta que só a pessoa vendo. Aquilo puxa muito pelo juízo, coitado.
Muitos acessos de genialidade e cretinismo mais tarde, muitas noites maldormidas e copos de requeijão mais tarde, acabei o livro. Abestalhei, dei para vagar pela ilha como um zombie, fazendo perguntas sem nexo aos passantes e achando que nunca mais ia conseguir dormir. Entreguei os originais, não melhorei da cabeça, comecei a esperar que o livro saísse, que alguém lesse aquilo, que eu pudesse tocar no produto final daquele processo enlouquecido.
Ai de nós, escritores, nada se passa tão simplesmente. O livro tem de ir para o editor, tem de ser planejado, composto, revisto, impresso, encapado, encadernado, guilhotinado e não sei mais o quê. Não é como o trabalho de um pintor, que termina o quadro e pode mostrá-lo; não é como o trabalho de um praticante das artes cênicas, que exibe suas artes diretamente, é aplaudido, ignorado ou vaiado na mesma hora; não é como o trabalho de um músico, que toca sua música e presencia seu eco logo em seguida. Nada disso, o trabalho do escritor se multiplica, lentamente, enervantemente, em exemplares e mais exemplares, que são (ou não são) curtidos de forma individual, privada e pessoal – o escritor não sabe de nada do que está acontecendo, não tem um momento de explosão, tem só aquela coisa parada, vagarosa, indefinida. Quando, finalmente, o editor telefona e diz “está pronto, venha ver”, já se sofreu tanta agonia que a visão da obra transformada em objeto utilizável pode ser até melancólica. Então é isso? Então foi para isso que me meti em tanta atribulação? O que é isto, que quer dizer, aonde cheguei? Mas só agora você aparece, livro, depois de quase me haver matado? E daí?
E daí que há outras exigências, a que o sujeito não pode furtar-se. Antes mesmo que alguém possa ter lido o livro, há que dar entrevistas, respondendo sobre coisas que não se sabe, eis que o livro só existe intimamente e só revela sua identidade depois de lido pelos outros. Então como é que o escritor vai saber de alguma coisa sobre o livro, antes que o livro realmente exista? Mas é preciso trabalhar e é preciso arregimentar talentos inexistentes para conseguir realizar esse trabalho.
Tal como o talento de dar autógrafos, fazer dedicatórias e ser simpático quando se está nervoso. Mal sei assinar o nome (sou do Norte), não consigo fazer dedicatórias que não sejam “com a admiração do…” e fico nervoso quando mais de duas pessoas me olham simultaneamente. Então me sento lá e, invariavelmente, esqueço os nomes dos bondosos amigos que aparecem nos lançamentos e, crentes de que eu nunca poderia esquecer seus nomes, ignoram os pedidos desesperados que faço ao pessoal que vende os livros para que anotem a lápis os nomes (“pode deixar isso pra lá, ele me conhece”) e surgem risonhos, estendendo seus exemplares para que eu os autografe. Dá um branco, todos os nomes vão embora, os neurônios não disparam, a mão na caneta não funciona. Agora mesmo vai haver uma dessas sessões de autógrafos, já prevejo o que acontecerá, a vida do escritor é muito dura, não adianta nem usar truques antigos.
Como, por exemplo, o que eu costumava empregar há algum tempo. Em Salvador, num lançamento um pouco remoto, lembro muito bem que já tinha passado por diversos vexames amnésicos quando se apresentou diante de mim um senhor simpático, me olhando com afeto e até carinho, livro em punho e sorriso encorajador. Eu tinha certeza de que conhecia aquela cara, era com toda a certeza um grande amigo meu, uma pessoa de quem gostava muito – mas quem seria? Como era o nome dele, meu Deus do céu? Vasculhei as gavetas emperradas dos velhos centros da memória, cheguei a perder o fôlego, não adiantou, o nome não vinha. Sorri amarelo e usei o truque que me parecia mais adequado.
-Como é seu nome completo? – perguntei brilhantemente, de caneta em riste e cara hipócrita de quem sabia o primeiro nome.
-Ora, meu filho – respondeu o simpático senhor. – Não precisa pôr nome nenhum. Basta escrever “para meu pai”, que está tudo bem.
-Desculpe, papai – disse eu.
 
 
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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. Sempre aos domingos: crônicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 29 – 35 ; 207 – 212.





Bio fornecida pelo palestrante.

A MULHER E OS ESPELHOS




Autor: João do Rio
Título: A MULHER E OS ESPELHOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

A MULHER E OS ESPELHOS

 
 

João do Rio

 
 

Carta-Offerta

 
 
Assim, levo a coragem ao excesso de pedir que me ouça.
Em primeiro logar, a vida é uma banalidade limitada.
Da banalidade da vida vieram de certo os symbolos divinos tambem limitados. Junte você todas as religiões, agglomere deuses e semideuses da Europa, da Asia, da Africa, da America, da Oceania e afinal todos elles não exprimirão mais que meia duzia de cousas que o homem teme, deseja ou venera porque não comprehendeu ainda. Não o quero fatigar com uma erudição excessivamente empregada pelos almanachs provincianos.
Ora, entre as divindades que o homem teme por não comprehender ou enaltece pelo mesmo amargo motivo, está desde o começo da reflexão, a Mulher. Sim. A Mulher! Um escriptor hespanhol observava que quando dizemos homem dizemos humanidade e quando pensamos na Mulher pensamos na excepção. Era essa a nossa opinião nas epocas legendarias e ainda o é hoje. Fizemol-a causa inicial de todos os males e todos os bens. E se você tiver o trabalho de abrir o veneravel Herodoto, lá encontrará a Mulher como origem das guerras, mascarando a razão mercantil das ditas guerras – porque os phenicios roubaram Jô, os cretenses em represalia foram a Tyro e roubaram Europa, os gregos navegaram para a Colchida e roubaram Medéa, Alexandre Paris filho de Priamo roubou Helena, e assim infinitamente a Mulher é sempre o motivo do conflicto humano. Tambem a arte universal vive da espantada admiração do homem em torno da Mulher. Apenas, uns temem-n’a como a Sereia, outros adoram-n’a como Divindade.
Que momento atravessamos nós: o do terror ou o do amor?
O symbolo da Sereia como a perdição do homem, como a femea de temer, de que é preciso afastar-se a gente com prudencia, devia existir no periodo da pedra lascada. Faltam documentos – o que é uma garantia da sua real existencia. Mas a partir do tempo neolithico desde que o homem, de silex em punho, pôde gravar os perigos que os seus sorrisos lhe traziam, a Sereia supriu. É a Tentação.
Fizeram-n’a formosa, com cauda de peixe, entre as ondas. É possível vel-as com pennas e pés de passaro no Hortus Deliciarum de Herrade de Landberg, abadessa do convento de Santa Otilia no decimo terceiro seculo; e no seu repertorio dos vasos gregos Salomao Reinach illustra os versos de Homero mostrando-nos n’um vaso do Museu Britanico, Odysseus preso ao mastro de sua náu, emquanto as sereias voavam-lhe em torno – sereias e harpias não surgiram de um mesmo horror: a tormenta devastadora.
Os mysoginos poderiam manter da Sereia – Mulher a velha definição de Pierre le Picard no seu Bestiario:
«Trois maniéres de seraines sont, dont deux sont moitié feme moitié poisson e l’autre moitié feme moitié oiseox. Et chantent toutes trois moitié em buisines, les autres en harpes et les autres en droite vois. Les seraines signifient les feme qui abracent les hommes por lor blandissement et por lor déchénement á els par lors paroles que eles les ménent á proverté et á mort. Les eles de la seraine c’est l’amor de la feme qui tost va et vient.»
Os elos da sereia são o amor da mulher, que cedo vai e vem; as sereias desencadeiam taes apetites que levam os homens á pobreza e á morte… Hoje a Sereia não é mais nem a mulher-passaro do Vaso grego e do episodio da Odysséa, nem a mulher-peixe das illuminuras bysantinas ou dos capiteis cathedralescos. Tem de tudo, Barbatanas de baleia, o fio do linho e os passaros das arvores, fructos e flores, pelles de bichos e frocos de larvas, azas de borboletas e vozes diversas. A vida democratisou-se. Os symbolos tambem, cruelmente. O homem sorri: – que Sereia! e pensa estar dizendo uma ironia. Não o diz. Elle está preso. A prudencia de Odysseus parece inutil. Não ha homem na terra que um momento não se deixe dominar. E não é Venus tentadora, á a Sereia que impera e impera arrazadoramente, cantando para o naufragio das vidas. Sobre os destroços de cada náu onde arqueja o nauta, canta a Sereia imperialmente a canção infinita da seducção. Veja os homens inimigos, a sanha do ganho, as rixas nas chombergas, os grandes conflictos internacionaes. De pé, sobre o mastro grande da náu de Odysseus, a Sereia irradia.
Em compensação para os outros ella é a razão de todas as glorias, o incentivo de todas as coragens, o supremo bem, e cada um pensa da vida o eterno drama do Dante, com o coração indo do inferno para o purgatorio na aspiração do paraiso, na aspiração de Deus que não se mostra a nós senão pela fórma deliciosa da mulher, que nos inspira. E ha de encontrar V., admiravel amigo, o mesmo homem ora a dizel-a Deus, ora a chamal-a monstro.
É que afinal odiando-a, amando-a, calumniando-a, negando-a e ridicularisando-a, julgando-a portadora de todos os bens ou de todos os defeitos, nós, de Homero o biographo de Helena, aos professores de phisio-psychologia continuamos sem conseguir comprehendel-a, pela simples razão de que só o nosso egoismo a reflecte. Até agora para mulher temos um sentido apenas: o do espelho. Ella quer conhecer-se, ella deseja ser explicada, ella procura o desvendamento do seu mysterio. Cada espelho diz exclusivamente a verdade do proprio egoismo. Entre ella e o espelho ha a teimosia implacavel do espelho reflectindo a imagem que quer fazer della. Antes de se mirar nos aços polidos, a mulher encontra nos olhos de cada homem espelhos concavos, convexos, planos – que deformam, enfeiam ou reflectem os transitórios gestos da sua alma. Nós reproduzimos a creatura que julgamos ser nossa, com o inconsciente estranhamento do nosso voraz egoismo. E ellas de se mirarem em vão nos espelhos homens, sem obter a decifração, não só desenvolveram a ambição de agradar como o secreto anceio de encontrar um dia o espelho revelador.
A mulher!
Ella apparece, de vestido de baile, com tecidos apenas para accentuar as curvas do corpo e uma cauda leve e coruscante. Ella apparece, mostrando os pés, de vestido curto e simples. Ella apparece, vestida de «chauffeur», de oculos e véos. Está em toda a parte. A bordo dos «steamers», nos comboios, nos restaurants, nos chás, em cada canto, trabalhando ou jogando o «bridge», mas naturalmente tentando, e não ha moral nem distincções de classes, não ha honestas, nem deshonestas, porque são todas segundo o espelho que as vê: a Sereia, que exige, sacrifica e mata, ou a Divindade que nos satisfaz, nos incita, nos acalenta – tão distantes ambas da certeza como distantes estamos da realidade entregando a nossa alma aos reflexos com a illusão de que elles nos comprehendem.
Estas coisas digo-as eu, antes de v. ler as historias a seguir – porque essas historias sem o merito da invenção – simples exposições de factos verdadeiros, contam o eterno drama da Mulher deante dos espelhos. Na sua varia forma, ella não é aqui senão, differente ás vezes de espelho para espelho, sendo a mesma e querendo o espelho que a revele, sem o encontrar. Eu tremeria, porem, se me classificassem entre os erotographos, com a faculdade libertina de insinuar modelos. E se as mulheres são como os espelhos as reflectem, os homens estão taes quaes foram e são. V. talvez encontre ironia. Encontrará tambem dôr. V. talvez descubra amargura. Verá tambem doces bondades.
E sempre o unico grande drama da vida: a Mulher e os Espelhos…
 
 

A MENINA AMARELLA

 
 
Havia oito dias, Pedro de Alencar, aquelle rapaz tão distincto e com uma posição invejavel, ia seguidamente á casa de Flora Bertha. Toda a roda estava admirada. Pedro – creatura feita de aristocracias innatas, cultor de elegancias, encafuado num conventilho da Cidade Nova, entre mulheres de má vida, apaixonado pela Flora Bertha, gordinha e vulgar nos seus vinte annos! Parecia impossivel! Era de certo um novo vicio, mais uma exquisitice moral.
Depois, Flora, curioso sêr de instincto, tinha um amante, sujeito forte e carnudo, em casa a noite e o dia; e mais uma tropa de amigos intimos que se aproveitavam dos esquecimentos da proprietaria; para almoçar, jantar, dormir, e, sempre que havia occasião, amar. Não! Era impossivel. Entretanto, Pedro de Alencar estava cada vez mais preso, e ao encontrar um dos seus mais acirrados amigos, deu a solução do enigma d’aquella attracção.
-É esplendido, filho, de inconsciencia moral! Não imaginas a atmosphera permanente de animalidade vestida. Ha meia duzia de mulheres que só pensam nos homens, uma caterva de homens a galopar pelos corredores. E tudo, até os moveis, parecem gritar a falta de vergonha. Com um mez de estadia naquella casa, fica-se a perguntar onde está o pudor. Realmente, existe o pudor? Existiu mesmo? Estou de observação, meio alegre e meio triste.
A casa em que Pedro de Alencar estava de observação tinha no quarto da frente Flora Bertha, com uma cama quebrada, um sofá servindo de toillete e as photographias e os cartões postaes dos seus apaixonados, pregados á taxa pelas paredes. As paredes estavam cobertas dessa illustração amorosa e edificante. No quarto pegado, morava a Rosinha da Gruma, uma pobre mulher de boca molle e dentadura postiça, que se fizera especialista em amar meninos. Tinha talvez trinta permanentes, dos treze aos dezoito annos, que lhe levavam os magros vintens, ardendo de devotamento e choravam quando se viam preferidos pelo mais velho, bella envergadura de athleta, cujo primeiro e unico carinho fôra a applicação de uma sova tremenda. Na alcova pegada, morava um typosinho franzino e pintado, a Formiga, apaixonada por um adolescente bello como o Perseu de Benevenuto, e no quarto da sala de jantar, rebaixada por falta de pagamento, Nina Banez, ex-cantora de café concerto, subitamente empolada pelas caretas de um comico joven, chamado Andrade. Ainda para os fundos moravam a velha mãe de Flora, com um typo valentaço, que lhe batia diariamente, o irmão de Flora, sêr ambiguo e serpentino, e a creada – uma creada bahiana, sempre envolta num chale e fumando certo cachimbo tão comprido, que parecia mais um narghilé.
Esse pessoal fazia ponto de reunião na estreita casa de jantar, onde, além da mesa, de um guarda-comida e da bilha de barro, havia uma lousa negra, em que se expunham os nomes das pessoas devedoras. Para passar aos quartos, passava-se por ali. Quartos havia que exigiam mesmo a passagem por outro. De modo que de repente, na conversa animada, havia um silencio. Era alguem que entrava.
-D. Rosinha está?
Se era conhecido, o silencio transformava-se em alarido.
-Ora, entra, deixa de partes!
Se era cousa nova, ou havia complicações, uma companheira dizia sempre:
-Vou vêr.
Ia apenas prevenir. O que estava, sahia por outra porta a vir tomar cerveja, e a Rosinha apparecia calma e sorridente:
-Só agora seu máo! Estou á espera ha tanto tempo!…
As damas estavam sempre em roupão, ou em camisa, os homens á frescata. Á noite, assim por volta de uma hora da manha, quando voltavam do theatro e dos cafés, organisavam-se ceias subitas. Cada rapaz ia comprar uma cousa. Alguns, quando não tinham dinheiro nem para isso, vestiam as camisas das damas e ordenavam os outros com ares dominadores.
Pedro de Alencar assistia ás scenas desenfreadas com um excellente bom humor. A principio Flora Bertha fazia sahir o rapaz vigoroso por um dos quartos, para não se encontrarem. Pedro deu com o rapaz um dia á porta…
-O Sr. Francisco?
-As suas ordens.
-Subamos juntos.
-Parece-me…
-Nada mais interessante.
O Sr. Francisco subiu. Foi um acontecimento. Entre Francisco e Pedro, Flora Bertha irradiava de orgulho e de prazer. Francisco era a sua satisfação physica. Pedro o seu appetite de effeito. O segundo era mostrado como se mostra um collar de preço; o outro era invejado como um jantar sempre quente. E, verdadeiramente repartida, pendida para Pedro, com as mãos para Francisco, parecia felicissima. De resto, em baixo, o automovel de Pedro carbunculava na treva, e ella não resistia em ir correr a immensa Avenida do Mangue, um manto apenas sobre as espaduas nuas como Phrynéa, só com o seu homem de luxo…
As conversas geraes nunca eram de uma inteira cordialidade. De susceptibilidade grande, essas damas zangavam-se por qualquer cousa, umas com as outras. Um vocabulario assustador surgia, portas batiam, gritos, ameaças de conflicto. De vez em quando o ardente sustentador da mãe da dona da casa apparecia alcoolisado, com um punhal formidavel, querendo matar toda a gente. As mulheres atiravam-se ás janellas, pedindo soccorro, e como a delegacia era proxima, minutos depois, soldados de espadagão trepavam escada acima, prestes a prender todos os presentes. Como, porém, o delegado tinha uma especial amisade a Flora Bertha, tudo continuava na mesma. E ella vociferava indignada:
-Canalhas! Se não fosse eu, estava tudo preso!
Mas o agradavel eram as tardes e as noites passadas na sua alcova pauperrima. Bertha fechava-se por dentro, farta daquella vida, querendo uma casinha com palmeiras e canarios. De um lado Francisco, sempre enleiado, sorria; de outro, Pedro, muito alegre, fazia-lhe perguntas, e ella, deitada, ria a morrer e contava coisas, como desde creança imaginara ser raptada, a fuga aos quatorze annos com o marido, um barbeiro, aliás, meio tolo, o abandono da casa por causa dos ciumes da mamã, a quem sustentava.
-Afinal, sempre é mãe, não achas?
Depois tinha ternuras de voz:
-Na minha vida, até agora não tinha gostado de ninguem.
-E agora?
-Agora gosto de vocês dois.
E piscava os olhos para o Francisco, se Pedro estava voltado, tendo o cuidado de significar por um signal qualquer a Pedro a sua preferencia. O Sr. Francisco talvez acreditasse. Pedro divertia-se, amando, afinal, como devia amar essa creaturinha, ingenua, apesar de perdidissima naquelle ambiente de crapula. Era dos que se contentam com o que as mulheres dão, achando-as sempre generosas, por peiores que ellas sejam. E isso dava-lhe em pouco tempo uma enorme vantagem sobre todos os outros.
-Duvido! bradava elle.
-Juro!
-E estes retratos todos?
Ella então contava a historia e as particularidades de cada um daquelles cavalheiros, ia buscar as cartas para lerem alto, rindo. Um dia, Pedro propôz o degolamento geral do exercito de photographias.
-Apoiado! fez com uma alegria terrivel o Sr. Francisco.
-Não! não! clamava Flora Bertha, louca de riso com a idéa do julgamento e da morte dos retratos.
Horas depois as paredes estavam nuas e Pedro sentia aquelle mixto de contentamento e de tristeza que tem todo o homem moderno, quando irreparavelmente o mundo lhe mostra o vacuo dos sentimentos. Era inacreditavel! Não sentiam aquelles seres, não pensavam, não tinham um toque que os differençasse dos animaes, e pareciam felizes e viviam. Talvez fosse melhor não sentir, porque o pudor é a differenciação do homem, e aquelles sem pudor viviam radiantes. Nenhum deles teria ao menos um laivo de decoro d’alma?
Talvez tivesse, mas tão apagado, tão liquefeito, e com certeza tão extemporaneo! Os homens pareciam ir ali despir a vergonha para estar á vontade; as mulheres nascidas naquelle meio desde creanças, ainda impuberes e já com o conhecimento completo das mais tremendas luxurias, prestando-se a todas as ignominias, ignoravam mesmo o que fosse o pudor. E a sua dignidade, – porque ellas tinham dignidade – era ter muitos amantes e não se zangar quando as outras lhes tomavam alguns.
-Meus restos, creatura…
O scepticismo romantico de Pedro tornava-se de uma analyse penetrante, fazia-o um avaliador de algumas, pelas phrases inconscientes daquella gente que elle tivera a illusão de julgar um pouco melhor que a roda da diversão e prazer caro. Pois era peior. Peior porque não era immoral. Nem isso. Peior porque era a alma nua espojando-se e mostrando as mazellas. Aquellas mulheres tinham sido virgens, talvez tivessem ignorado a vida. Nenhuma dellas, porém, mostrava, na abundante tagarelice, um sentimento perfumado, uma vaga emoção dignificadora, – tropa meio bamba de bacchantes permanentes, com instinctos selvagens. E, entretanto, Pedro não desanimava. Fazer-se amar pela Flora Bertha? Pobresita! Não. Ver uma daquellas mulheres mostrar subitamente qualquer coisa de nobre? Não. Pedro esperava o terrivel, o imprevisto, lugubremente horrivel que ha sempre a pairar nos transbordamentos banaes da luxuria. E naquella casa aberta a toda a gente, onde se praticava a vida animal sem mysterio, sem recato, na sarabanda das ceias, nas mais desenfreadas orgias, em dialogos com a velha mãe de Flora, diariamente espancada, forçando a intimidade com o amoroso Francisco, a cada instante parecia-lhe sentir que impalpavelmente a revelação imprevista ia surgir.
Uma vez, Pedro estava só com a Flora, quando bateram á porta:
-É o Francisco.
-Não, elle bate de outro modo. De certo alguem que vae passar para o quarto da Rosinha.
Deu a volta á chave, abriu. Diante delles estava, com a sua saia suja, o casaco em tiras, o cabello de estopa por pentear, uma pobre menina.
Era horrivel.
Pequena, meuda, magra, o pescoço fino, tremia como se viesse da neve. E parecia que lhe tinham dado por dentro da pelle um violento banho de enxofre. Tinha jalde a face, a pelle das mãos era amarella, os labios, sem sangue, laivavam-se de amarello, e nas olheiras côr de perpetua a esclerotica era côr de gemma d’ovo. Lembrava um espectro de pesadello, um ser irreal, onde só os seios duros e erectos davam uma impressão de vida impetuosa.
Quando viu Pedro, agarrou-se á porta, a face contrahida, tremendo.
-Que queres? indagou colerica Flora.
-Foi a senhora sua mãe que mandou. Pensava estar só, balbuciou a petiza.
-Não disse já que não apparecesse aqui?
-Foi sem vontade. Desculpe. Eu não gosto, não, de apparecer.
E foi recuando, pavida. Bertha fechou a porta.
-Que bicho é esse?
-Uma rapariguita, que está ahi de favor. Ajuda lá na cozinha.
-Não a tinha visto ainda.
-Tem medo, é uma tola. Imagina tu que tem medo aos homens! Por isso não apparece.
-Máo logar escolheu ella.
Mas de novo arranhavam á porta. E de fora uma voz livida, voz de medo, de angustia, de pavor, de choro, quasi soluçante, dizia:
-Sou eu ainda minha senhora. Sua mãe manda buscar a bacia…
Prevendo uma violencia da encantadora Flora e mais do que tudo cheio de curiosidade, Pedro ergueu-se rapido e tornou a abrir a porta.
-Vá, entre.
A pequena hesitou corno se fosse atirar-se a um abysmo, fechou os olhos, arregalou-os muito, esticou as mãos amarellas, andou um pouco. Tinha os pés nús e sujos e andando andava como um duente aterrado. Agarrou a bacia, sobraçou-a. Era atrós, assustadoramente atrós.
-Vem cá. Como se chama você?
-Fala, menina, não tremas. Este senhor não te faz mal. É isso. Vê homem, começa a tremer! Ó Maria, como te chamas? Conta como foi, rapariga, vem cá…
A pequena amarella olhou-os um instante mais, convulsionou-se num soluço que lhe esbogalhava o olhar e deitou a correr pelo corredor. Houve um silencio, logo interrompido pelo riso de Flora Bertha.
-Está ha muito tempo comtigo?
-Tres mezes. Foi o pae que a collocou aqui. Tem doze annos e já com aquelles seios…
-Mas está doente, filha. Nunca vi na minha vida uma creatura tão amarella.
Flora voltou-se no leito. Estava linda com a sua carne de leite e rosa.
-Não. Aquillo foi de repente. Ha quatro mezes um carroceiro, amigo do pae, agarrou-a de noite, á fora. No outro dia foram encontral-a assim, a soluçar, não podendo olhar os homens sem tremer, sem fugir. Nem mesmo o pae. É amarella, toda amarella, filho. O medico disse que foi de horror…
No dia seguinte os hospedes alegres da casa de Flora Bertha verificaram com magua que Pedro de Alencar, aquelle rapaz tão distincto e com uma posição invejavel, deixava de apparecer.
 
 
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Fonte: RIO, João do. A mulher e os espelhos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, (s.d). p. 07-12 ; 55-65.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A PALO SECO




Autor: João Cabral de Melo Neto
Título: A palo seco
Idiomas: esp
Tradutor: Carlos Germán Belli(esp)
Data: 28/12/2004

A PALO SECO
João Cabral de Melo Neto
Se llama a palo seco
El cante sin guitarra.
El cante sin; el cante;
El cante sin más nada; se llama a palo seco
el cante sin rebozo:
el cante que se canta
bajo el silencio a plomo. El cante a palo seco
es cante solitário:
es cantar em um yermo
de sol cuan penetrado; es igual que cantar
en un yermo sin sombra
en que la voz dispone
de lo que solo ponga. El cante a palo seco
es cante desarmado:
lámina de la voz
sin el arma Del brazo; que el cante a palo seco
sin aliño o ayuda,
debe abrir el silencio
com su llama desnuda. El cante a palo seco
no es um cante ao acaso:
con todo el ser abierto
exige ser cantado; es un cante que exige
que al mediodía sea,
cuando la sombra huye
y la magia no medra. El silencio es um metal
de epidermis helada,
incapaz de las ondas
inmediatas del água; del silencio la piel
poca cosa se eriza:
el cante a palo seco
diamante precisa. O el silencio es levíssimo,
es delicado líquido
que se cuela en las grietas
que em el cante ha sentido; el silencio paciente
vagaroso se infiltra,
empobreciendo el cante
de dentro, por la espina. O tela es el silencio
que difícil se rasga
y que cuando se rasga
no subsiste rasgada; cuando cessa la voz
se apura em enmendarse:
tela que fuese de agua,
o como tela de aire. A palo seco es cante
de todo más lacônico,
hasta cuando parece
estirarse um kilómetro: enfrentar el silencio
así desnudo y poço
debe forzosamente
dejar corto el aliento. A palo seco es cante
de grito más extremo:
debe subir más alto
que a do llega el silencio; cantar contra caída,
cante en pos de la cima,
a la que hay que subir
cortando, y contra fibra. A palo seco es cante
de caminar más lento:
por ser a contrapelo,
por ser contra los vientos; es cante que camina
con paso paciente:
el viento del silencio
tiene fibra de diente. A palo seco es cante
que muestra más soberbia;
y que nunca se ofrece:
que se toma o se deja; cante que no se adorna,
que tanto igual le da ;
es cante que no canta,
es cante que allí está. A palo seco canta
el pájaro sin bosque,
por ejemplo: posado
sobre un hilo de cobre; a palo seco canta
aun mejor ese hilo
cuando sin cualquier pájaro
exhala su silbido. A palo seco cantan
el yunque y el martillo,
el hierro sobre piedra,
el hierro contra hierro; a palo seco canta
aquel otro herrero:
el pájaro araponga
que inventa el propio hierro. A palo existen
situaciones y objetos:
tal Graciliano Ramos,
diseño de arquitecto, son muros blanquecinos,
son clavos elegantes,
es la ciudad de Córdoba,
y de insecto el alambre. He aquí pocos ejemplos
de ser a palo seco,
de los cuales sacar
la higiene o los consejos: no el aceptar lo seco
cuan resignadamente,
mas emplear lo seco
porque es más contundente.
____ Fonte: Neto, João Cabral de Melo. Poemas. Traducción de Carlos Germán Belli. Lima Peru, centro de estudios brasileños,1973.p. 82-91.




Bio fornecida pelo palestrante.

MORTE E VIDA SEVERINA




Autor: João Cabral de Melo Neto
Título: Morte e Vida Severina, Morte e Vita Severina
Idiomas: port, ita
Tradutor: Tilde Barini e Daniela Ferioli(ita)
Data: 28/12/2004

MORTE E VIDA SEVERINA

O Retirante explica ao leitor quem é e a que vai


João Cabral de Melo Neto

 

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina :
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina :
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: “Ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!”
— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a emboscada,
irmãos das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
dos intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente de chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Tôrres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu, que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto,
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmão das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite,
irmão das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.
(…)
Fonte: Melo Neto, João Cabral. Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta. 26ª.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989. p. 70-76.
 
MORTE E VITA SEVERINA 
Il retirante spiega al lettore chi e e perché si e messo in viaggio

João Cabral de Melo Neto

— Il mio nome e Severino,
solo questo m’hanno dato.
Sono tanti i Severino
perché e un santo venerato,
e cosí m’hanno chiamato
Severino di Maria;
ma sono tanti i Severino
con madri di nome Maria,
cosí sono diventato di iYaria
del defunto Zaccaria.
Questo ancora dice poco:
nel paese ce n’e tanti,
a causa d’un coronel
di nome Zaccaria
che fu il primo signore
di questa baronia.
Come allora far sapere
chi e che parla a Sua Eccellenza?
Vi diro: son Severino
di Maria di Zaccaria,
là del monte di Costela,
ai confini di Paraíba.
Ma anche questo dice poco :
almeno cinque si chiamavano
di nome Severino
figli di tante Marie
tutte spose di altrettanti,
già defunti, Zaccaria,
paesani della valle
scarna e ossuta in cui vivevo.
Siamo tanti Severino
uguali in tutto nella vita :
con la stessa testa grossa
che a fatica si equilibra,
e la pancia dilatata
sulle gambe tutte ossa,
ed uguali anche nel sangue
cosí poco colorato.
E se siamo Severini
uguali in tutto nella vita,
moriremo d’ugual morte,
stessa morte severina:
che e la morte di chi muore
di vecchiaia sotto ai trenta,
d’imboscata sotto ai venti
e di fame un po’ per giorno
(con sfinimento e malattia
la morte severina
attacca in qualunque età,
anche chi nato non sia).
Siamo tanti Severino
uguali in tutto e nel destino :
di spianare queste pietre
col sudore della fronte,
di tentare di svegliare
questa terra in agonia,
per strappare una radura
alla roccia incenerita.
Ma perché mi conosciate
un po’ meglio Eccellenza
e perché vi sia narrata
la storia della mia vita,
saro solo Severino
che in vostra presenza emigra.
Incontra due uomini che portano un uomo in un’amaca e gridano: « Fratelli in sorte! Fratelli in sorte! Non l’ho ucciso io! »
— Raccontatemi ch’io sappia,
fratelli in sorte,
chi portate avviluppato
nell’amaca?
— Un defunto di niente,
fratello in sorte,
che da molte ore viaggia
verso casa.
— Mi sapete dir chi era,
fratelli in sorte,
sapete come si chiama
o si chiamava?
— Severino Aratore,
fratello in sorte,
Severino Aratore,
ma piú non ara.
— E da dove lo portate,
fratelli in sorte,
da dove e cominciato
il vostro viaggio?
— Dalla Caatinga piú secca,
fratello in sorte,
e una terra che non dà
nemmeno spine.
— E fu morta questa morte,
fratelli in sorte,
guesta fu una morte morta
o fu ammazzata?
— Non fu morta questa morte,
fratello in sorte,
questa fu morte ammazzata
in un’imboscata.
Ma perché l’hanno ammazzato,
fratelli in sorte,
con la lama l’han colpito
o con il piombo?
— Con il piombo l’hanno ucciso,
fratello in sorte,
con la mira e piú sicuro
ec’e piú campo.
— Chi gli ha teso l’imboscata,
fratelli in sorte,
e da dove gli e arrivato
l’uccello piombo?
— E difficile da dire,
fratello in sorte,
sempre c’e del piombo perso
per il cielo.
— Cosa mai aveva fatto,
fratelli in sorte,
cosa mai aveva fatto
contro il fucile?
— Pochi ettari di terra,
fratello in sorte,
di pietra e sabbia possedeva
ecoltivava.
— Ma che campi aveva mai,
fratelli in sorte,
che poteva seminare
nella pietra avara?
— Nelle scarne labbra di sabbia,
fratello in sorte,
degli spazi fra le pietre
piantava paglia.
— Era grande il suo podere,
fratelli in sorte,
tanti erano i filari,
da invidiare?
— Possedeva pochi metri,
fratello in sorte,
sopra il colle arrampicati,
nessuno in piano.
– Ma perché l’hanno amazzato,
fratelli in sorte,
perché allora l’hanno ucciso
col fucile?
— Voleva andare piú lontano,
fratello in sorte,
voleva essere piú libero
l’uccello piombo.
— E ora che succederà,
fratelli in sorte,
ora che succederà
contro il fucile?
— Altro spazio ancora avrà,
fratello in sorte,
resta ancora molto spazio
alle pallottole.
— Ora dove lo portate,
fratelli in sorte,
ora che ha seme di piombo
chiuso in cuore?
— Al cimitero di Tôrres,
fratello in sorte,
oggi detto Toritama,
di mattina.
— Mi potrei unire a voi,
fratelli in sorte,
passero per Toritama,
e la mia strada.
Ci potrai anche aiutare,
fratello in sorte,
benedetto chi raccoglie
il nostro appello.
— Uno di noi puo ritornare,
fratello in sorte,
puo tornare già da ora
a casa sua.
— Vado io che il viaggio e lungo,
fratelli in sorte,
il camino e molto lungo,
ela serra e alta.
— Fortunato il defunto,
fratelli in sorte,
che non deve piú rifare
questa strada.
— Toritama non e lontana,
fratello in sorte,
arriveremo al cimitero
di mattina.
— Su, partiamo finch’e notte,
fratello in sorte,
buon sudario e per i morti
notte oscura.
(…)

Fonte: Neto, João Cabral de Melo. Morte e Vita Severina. A cura di Tilde Barini e Daniela Ferioli. Torino: Giulio Einaudi Editore, 1973. p. 104-17.





Bio fornecida pelo palestrante.

UN CAN SIN PLUMAS




Autor: João Cabral de Melo Neto
Título: Un can sin plumas
Idiomas: esp
Tradutor: Carlos Germán Belli(esp)
Data: 28/12/2004

UN CAN SIN PLUMAS

 

João Cabral de Melo Neto

I

(Paisaje del Capibaribe)

La ciudad es cruzada por el río
como una calle
es cruzada por un cachorro;
una fruta
por una espada.
El río ya recordaba
la lengua mansa de um can,
ya el vientre triste de um can,
ya el otro río
de acuoso paño sucio
de los ojos de un can.
Aquel río
era como un can sin plumas.
Nada sabía de la lluvia azul,
de la fuente color de rosa,
del agua del vaso de agua,
del agua de cántaro,
de los peces de agua,
de la brisa en la agua.
Sabía de los cangrejos
de lodo y herrumbre.
Sabía del lodo
como de una mucosa.
Debía saber de los pulpos.
Sabía seguramente
de la mujer febril que habita en las ostras.
Aquel río
jamás se abre a los peces,
al brillo,
a la inquietud de cuchillo
que hay em los peces.
Jamás se abre en peces.
Abrese en flores
pobres y negras
como negros.
Abrese em una flora
súcia y más mendiga
como son los mendigos negros.
Abrese en mangles
de hojas duras y crespas
como un negro.
Liso como el vientre
de una perra fecunda,
el río crece
sin estallar nunca.
Tiene el río,
un parto fluido e invertebrado
como de una perra.
Y jamás lo vi hervir
(como hierve
el pan que fermenta).
En silencio,
el río carga su fecundidad pobre,
grávido de tierra negra.
En silencio se da:
en capas de tierra negra,
en botines o guantes de tierra negra
para el pie o la mano
que se zambulle.
Como a veces
pasa con los canes,
el río parecía paralizarse.
Sus aguas fluían entonces
más densas y tíbias;
fluían con las ondas
densas y tíbias
de una culebra.
Tenia algo, entonces,
de la inercia de un loco.
Algo de la inercia
del hospital, la cárcel, los asilos,
de la vida súcia y sofocada
(de ropa sucia y sofocada)
por donde se vino arrastrando.
Algo de la inercia
de los palacios cariados,
comidos
de moho y muérdago.
Algo de la inercia
de los árboles obesos
salpicando los mil azúcares
de los comedores pernambucanos,
por donde se vino arrastrando.
(Es en ellos,
pero de espaldas al río,
que “las grandes familias espirituales” de la ciudad
incuban los huevos gordos
de su prosa.
En la paz redonda de las cocinas,
helas allí revolviendo viciosamente
sus calderas
de pereza viscosa).
¿Sería el agua de aquel río
fruta de algún árbol?
¿Por qué parecía aquella
un agua madura?
¿Por qué sobre ella, siempre,
como a punto de posarse las moscas?
¿Aquél río
saltó alegre en alguna parte?
¿Fue canción o fuente
en alguna parte?
¿Por qué entonces sus ojos
venían pintados de azul
en los mapas?

II

(Paisaje del Capibaribe)
Entre el paisaje
el río fluía
como una espada de líquido espeso.
Como un can
humilde y espeso.
Entre el paisaje
(fluía)
de hombres plantados en el lodo,
de casas de lodo
plantadas en islas
coaguladas en el lodo;
paisaje de anfibios
de lodo y lodo.
Como el río
aquellos hombres
son como canes sin plumas
(un can sin plumas
es más
que un can saqueado;
es más
que un can asesinado.
Un can sin plumas
es cuando un árbol sin voz.
Es cuando las raíces
de un pájaro en le aire.
Es cuando a alguna cosa
le roe tan hondo
hasta lo que no tiene).
El río sabía
de aquellos hombres sin plumas.
Sabía de sus barbas expuestas,
de su doloroso cabello
de camarón y estopa.
Sabía también
de los grandes galpones al borde de los muelles
(donde todo
es uma inmensa puerta
sin puertas)
abiertas de par en par
a los horizontes que huelen a gasolina.
Y sabía
de la magra ciudad de corcho,
donde hombres huesudos,
donde puentes, solares huesudos,
(van todos
vestidos de dril)
secan
hasta su más honda caliza.
Pero conocía mejor
a los hombres sin plumas.
Estos
secan
aun más allá
de su caliza extrema;
aun más allá
de su paja;
más allá
de la paja de su sombrero;
más allá
hasta
de la camisa que no tienen;
mucho más allá del mismo
nombre escrito en la hoja
del papel más seco.
Porque es en el agua del río
que ellos se pierden
(lentamente
y sin diente).
Allí se pierden
(como uma aguja no se pierde).
Allí se pierden
(como un reloj no se rompe).
Allí se pierden
como um espejo no se quiebra.
Allí se pierden
como se pierde el agua derramada:
sin el diente seco
con que de repente
en um hombre se rompe
el hilo de hombre.
En el agua del río,
lentamente,
se van perdiendo
en lodo; en un lodo
que poco a poco
ya no puede hablar:
que poco a poco
gana los gestos difuntos
del lodo;
la sangre de goma,
el ojo paralítico
del lodo.
En el paisage del río
difícil es saber
donde comienza el río;
donde el lodo
comienza del río;
donde la tierra
comienza del lodo;
donde el hombre,
donde la piel
comienza del lodo;
donde comienza el hombre
en aquel hombre.
Difícil es saber
si aquel hombre
ya no está
más allá del hombre;
más allá del hombre
al menos capaz de roer
los huesos del oficio;
capaz de sangrar
en la plaza;
capaz de gritar
si la molienda le mastica el brazo;
capaz
de tener la vida masticada
y apenas no
disuelta
(en aquella suave agua
que ablanda sus huesos
como ablandó las piedras).
 

III

(Fábula del Capibaribe)

La ciudad es fecundada
por aquella espada
que se derrama,
por aquella
húmeda encía de espada.
En el extremo del río
el mar se extendía
como camisa o sábama
sobre sus esqueletos
de arena lavada.
(Como el río era un cachorro,
el mar podía ser una bandera
azul y blanca
desdoblada
en el extremo del curso
– o del mástel – del río
Una bandera
que tuviese dientes
que el mar está siempre
con sus dientes y su jábon
royendo sus playas.
Una bandera
que tuviesse dientes:
como um poeta puro
puliendo esqueletos,
como un roedor puro,
un policía puro
elaborando esqueletos,
el mar
con afán,
está siempre otra vez lavando
su puro esqueleto de arena.
El mar y su incienso,
el mar y sus ácidos,
el mar y la boca de sus ácidos,
el mar y su estómago
que come y se come
el mar y su carne
vidriata, de estatua,
su silencio, alcanzado
a costa de siempre decir
la misma cosa,
el mar y su tan puro
professor de geometria).
El río teme aquel mar
como un cachorro
teme una puerta entretanto abierta
como un mendigo,
la iglesia aparentemente abierta.
Primero,
el mar devuelve el río.
Cierra el mar al río
sus blancas sábanas.
El mar se cierra
a todo lo que en el río
son flores de tierra,
imagen de can o mendigo.
Después,
el mar invade el río.
Quiere
el mar
destruir en el río
sus flores de tierra hinchada,
todo lo que en esa tierra
puede crecer y estallar,
como en una isla,
en una fruta.
Pero antes de ir al mar
el río se detiene
en mangles de agua inmóvil.
Júntase el río
a otros rios
em una laguna, en pantanos
donde, fria, la vida hierve.
Júntase el río
a otros rios.
Juntos
todos los rios
preparan su lucha
de agua inmóvil,
su lucha
fruta inmóvil.
(Como el río era un cachorro
como el mar era una bandera,
aquellos mangles
son una enorme fruta.
La misma máquina
paciente e útil
de una fruta;
la misma fuerza
invencible y anônima
de una fruta
– trabajando aún su azúcar
después de cortada –
Como gota a gota
hasta el azúcar
gota a gota
hasta las coronas de tierra;
como gota a gota
hasta una nueva planta
gota a gota
hasta las islas súbitas
aflorando alegres).

IV

(Discurso de Capibaribe)

Aquel río
está en la memoria
como un can vivo
dentro de una sala.
Como un can vivo
dentro de un bolsillo.
Como un can vivo
debajo de las sábanas
debajo de la camisa,
de la píel.
Un can, porque vive,
es agudo.
Lo que vive
no entorpece.
Lo que vive hiere.
El hombre,
porque vive,
choca con lo que vive.
Vivir
es ir entre lo que vive.
Lo que vive
incomoda de vida
el silencio, el sueño, el cuerpo
que soñó cortarse
ropas de nubes.
Lo que vive choca,
tiene dientes, aristas, es espeso.
Lo que vive es espeso
como um can, un hombre,
como aquel río.
Como todo lo real
es espeso.
Aquel río
es espeso y real.
Como una manzana
es espesa.
Como un cachorro
es más espeso que una manzana.
Como es más espesa
la sangre del cachorro
que el propio cachorro.
Como es más espeso
un hombre
que la sangre de un cachorro.
Como es mucho más espesa
la sangre de un hombre
que el sueño de un hombre.
Espeso
como una manzana es espesa.
Como una manzana
es mucho más espesa
si un hombre la come
que si un hombre la ve.
Como es aún más espesa
si el hambre la come.
Como es aún mucho más espesa
si no la puede comer
el hambre que la ve.
Aquel río
es espeso
como lo real más espeso.
Espeso
por su paisaje espeso,
donde el hambre
extiende sus batallones de secretas
e íntimas hormigas.
Y espeso
por su fábula espesa;
por el fluir
de sus jaleas de tierra;
al parir
sus islas negras de tierra.
Porque es mucho más espesa
la vida que se desdobla
en más vida,
como una fruta
es más espesa
que su flor;
como el árbol
es más espeso
que su simiente;
como la flor
es más espesa
que su árbol,
etc. etc.
Espeso,
porque es más espesa
la vida que se lucha
cada día,
el día que se alcanza
cada día
(como un ave
que va cada segundo
conquistando su vuelo).
 

____
Fonte: Neto, João Cabral de Melo. Poemas. Traducción de Carlos Germán Belli. Lima Peru, centro de estudios brasileños,1973.p. 26-53.





Bio fornecida pelo palestrante.

CASCALHO




Autor: Herberto Sales
Título: CASCALHO, DIAMANTE, CERCATORI DI DIAMANTI
Idiomas: port, esp, ita
Tradutor: Estela dos Santos(esp), Giuliano Macchi(ita)
Data: 28/12/2004

CASCALHO
I

Herberto Salles


Do céu escuro, com a armação que houve de uma hora para outra, as águas caíram de uma vez nas cabeceiras distantes. E inundando talhados, catas e grunas, carregaram pela noite adentro os paióis de cascalho. No povoado da Passagem, à margem do Rio Paraguaçu agora de monte a monte, rajadas de vento cortavam de alto a baixo as ruas ermas, quando os garimpeiros, em lúgubre vozerio, irromperam pela praça alagada com enxurradas descendo para o areão. Vinham encharcados de chuva, transportando como destroços suas bateias, seus carumbés, suas enxadas, seus frincheiros, suas alavancas, seus ralos, suas brocas – suas ferramentas de trabalho, no ombro e na cabeça. Na frente deles caminhava o velho Justino, empunhando a candeia de azeite que o vento ameaçava apagar. Foi quando de novo desabou a chuva.
Mesmo assim pararam defronte da casa do chefe – justamente ao tempo em que a porta da casa se abria e a figura do Cel. Germano recortava-se contra a claridade indecisa do candeeiro-placa. Como o ruído da chuva fosse ensurdecedor, o velho Justino teve de gritar:
– As águas tomaram o serviço todo!
Depois passou a explicar ao patrão que os garimpeiros estavam trazendo um companheiro que morrera afagado – “o Raimundo, aquele frente” – na correnteza de uma cabeça-d’água.
– Foi uma coisa à-toa. Só se o senhor visse. Eu acho até que foi um ataque que ele teve, assim que nem o finado Flávio, que morreu nas Piabas.
O coronel recebeu a notícia com a maior naturalidade: é que, à força de ali se repetirem, os acidentes acabavam por tirar à morte qualquer sentido de surpresa. O mesmo não se deu, entretanto, ao atentar no sombrio quadro constituído pela garimpeirada esbatida à luz bruxuleante das candeias; ao fazê-lo, teve um estremecimento. Porque sentiu de repente, em face daquela massa de trabalhadores destroçados, a evidência de seu próprio infortúnio. Fez então um movimento brusco e ordenou sumariamente ao velho Justino:
– Despache estes homens agora mesmo.
Depois voltou as costas. E bateu a porta com força. Eliminava assim a presença exacerbadora daquela multidão arruinada.
II
Fazia cerca de quatro meses que o Cel. Germano viera para a Passagem. O Paraguaçu corre ali no fundo de um vale de margens escarpadas, onde as moitas de alcaçuz emergem das depressões cheias de detritos aluviais, fundindo os emburrados no verde predominante de sua folhagem. Logo depois, correndo sempre por entre as rochas nuas que atulham o leito áspero, vai precipitar-se numa queda, escachoando no lombo de grandes lajedos cor-de-rosa, para alcançar, por fim, o amplo areão onde se espraia, a caminho da mata, banhando o casario branco do povoado.
É a serra de maior tradição de riqueza das Lavras. Quanto ao rio propriamente dito, embora já muito trabalhado na grupiara das margens e em todos os serviços de leito por volta daquele ano, continuava a desfrutar da mesma fama do tempo do Cel. Joca de Carvalho, seu primeiro explorador. Os garimpeiros afirmavam:
– O Paraguaçu ainda tem serviço para cem anos.
Sua atual produção diamantífera, no entanto, estava longe de ser aquela que caracterizara os anos das primeiras descobertas. Em outros tempos, não só pela abundancia de diamantes, como também pela facilidade de exploração dos garimpos, adquirira todo o vale o prestígio de uma espécie de Terra Prometida. Na época do Gel. Germano, porém, já não ocorriam casos de garimpeiros que encontravam diamantes agarrados às raízes dos pés de canela-d’ema, ao arrancá-los para acender fogo em suas tocas. Todavia, para não falar no Poço da Donana e de outros poços ricos que desafiavam, pela sua profundidade, os rudimentares processos de mineração ali empregados, restavam pródigos ajogos como o do Cabelo da Roda, onde eram encontrados os diamantes matemáticos do cascalho balinha.
– Quem encontrar uma mancha de cascalho balinha no Paraguaçu – diziam os garimpeiros – pode comprar fiado. É pra se pegar até no encher do carumbé!
A suprema ambição se concentrava naquele cascalho privilegiado. E a exploração dos garimpos se processava numa luta de lances repetidos, as esperanças dos homens criando um código e elaborando um calendário. Durante o período das chuvas, que se prolongava, com intervalos variáveis, de princípios de novembro a fins de março, os garimpeiros eram obrigados a suspender todos os cateamentos. Vinha a cheia de Santa Luzia, batiam em retirada para os cascalhões, serviços que eram trabalhados com o aproveitamento das águas nos regos e nas corridas.
Era muito dispendiosa a garimpagem no Paraguaçu: só em bananas de dinamite para os broqueamentos se gastavam somas vultosas. E era um tal de apontar brocas todo dia que não havia dinheiro que chegasse. Os resultados, porém, eram compensadores. No ano anterior, por exemplo, o coronel fizera uma apuração de mais de cem contos – e o garimpeiro Filó Finança, que andava infusado, bamburrara na primeira semana, gastando 800$000 com uma mulher-dama boazinha mesmo que viera de Tamburi. Sem dúvida, era o Paraguaçu, para todos os efeitos, o melhor garimpo das Lavras.
De março a junho, as chuvas rareavam; contudo, as neblinas eram comuns nessa quadra, tornando temerária qualquer tentativa de cateamento. Por isso mesmo, a experiência instituíra aquela praxe:
– Só depois da fogueira…
Era quando o Cel. Germano, vindo da fazenda São Pedro, se instalava na Passagem. Ordinariamente, os serviços começavam pela construção dos cortes de terra preta com faxinas de fedegoso. Distribuídos em sociedades capitaneadas pelos frentes, entregavam-se os garimpeiros à secagem de água que os dividia entre o enchedor e o tombador, entrando na fase onde o cascalho era socado e por fim amontoado, para ser em seguida ralado e depois lavado. Esses trabalhos, que se prolongavam durante quatro ou seis semanas, eram logo recomeçados nas novas catas que se abriam, quase todas quebradas a dinamite, numa operação que o marrão batido a braço arrematava. Vinha então a fase final da apuração – com todos os serviços resumidos antes de novembro, quando tinha início o período regular das chuvas. Entretanto, ocorriam muitas vezes cheias temporãs – o que tornava aquela garimpagem não só a mais dispendiosa, mas também a mais arriscada das Lavras.
(…)
____
Fonte: Sales, Herberto. Cascalho: romance. 3a ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1956. p. 15-21.
DIAMANTE

I

Herberto Salles

Del cielo oscuro, con los nubarrones que se armaron de pronto, las aguas cayeron de una vez en las distantes nacientes. E inundando canales, catas y minas subterráneas, cayeron la noche adentro sobre la montaña de cascajo. En el poblado de Passagem, en las márgenes del río Paraguaçu, ahora de orilla a orilla, ráfagas de viento cortaban de arriba abajo las calles desiertas, cuando los garimpeiros, en lúgubre vocerío, irrumpieron por la plaza inundada por los aluviones que bajaban hasta el arenal. Venían encharcados de lluvia, transportando destrozadas sus bateas, sus carretillas, sus azadas, sus ganchos, sus palancas, sus cernidores, sus cortafierros, sus herramientas de trabajo, sobre el hombro y la cabeza. Al frente de ellos caminaba el viejo Justino, empuñando el farol de aceite que el viento amenazaba apagar. Fue cuando de nuevo se desató la lluvia.
Inclusive así pararon frente a la casa del jefe, justo al tiempo en que la puerta de la casa se abría y la figura del coronel Germano se recortaba contra la claridad indecisa del farol embutido. Como el ruido de la lluvia era ensordecedor, el viejo Justino tuvo que gritar :
– ! El agua lo inundó todo!
Después pasó a explicarle al patrón que 1os garimpeiros traían a un compañero que había muerto ahogado – “Raimundo, aquél” – en la correntada.
-Fue una cosa accidental. Si lo hubiera visto… Me parece que fue un ataque que tuvo, como el del finado Flabio, el que murió en las Piabas.
El coronel recibió la noticia con la mayor naturalidad: es que, a fuerza de repetirse, los accidentes acababan por sacarle a la muerte el sentido de sorpresa. Lo mismo no ocurrió, sin embargo, cuando observó el cuadro constituido por los mineros a la luz brujuleante de los faroles; al verlos sintió un estremecimiento. Porque, de repente, frente a esa masa de trabajadores destrozados, sintió la evidencia de su propio infortunio. Entonces hizo un movimiento brusco y sumariamente le ordenó al viejo Justino :
– Despacha a esos hombres ahora mismo.
Después se volvió de espaldas. Y golpeó con fuerza la puerta. Así eliminaba la presencia exacerbada de esa multitud arruinada.
II
Hacía cerca de cuatro meses que el coronel Germano había venido a Passagem. El Paraguaçu corre allí por el fondo de un valle de márgenes escarpadas, donde motas de alcacuz emergen de las depresiones llenas de detritos aluviales, fundiendo los marrones en el verde predominante de su follaje. En seguida, corriendo siempre por entre las rocas desnudas que obstaculizan el lecho áspero, va a precipitarse en una caída, acataratándose sobre el lomo de grandes piedras color rosa, para alcanzar, por fin, el amplio arenal donde se hace playa, camino del monte, bañando el caserío blando del poblado.
Es la sierra que tiene mayor tradición de riqueza en las Lavras. En cuanto al río propiamente dicho, aunque muy trabajado ya en el raspaje de sus márgenes y en todos los trabajos del lecho del río durante ese año, continuaba disfrutando la misma fama que en tiempos del coronel Joca de Carvalho, su primer explotador. Los mineros afirmaban :
– El Paraguaçu tiene trabajo para cien años.
Su actual producción diamantífera, sin embargo, estaba lejos de aquella que lo había caracterizado en los años de los primeros descubrimientos. En otros tiempos, no sólo por la abundancia de diamantes, sino también por la facilidad de la explotación, todo él valle había adquirido el prestigio de una especie de Tierra Prometida. En la época del coronel Germano ya no ocurrian casos de mineros que encontraban diamantes agarrados a las raíces de las plantas de canela-d’ema, al arrancarlas para encender el fuego en sus ranchos. Aunque todavía, para no hablar del Poço da Donana y de otros pozos ricos que
desafiaban por su profundidad a los rudimentarios procesos de minería allí empleados, quedaban pródigas rinconadas como la del Cabelo da Roda, donde se encontraban los diamantes simétricos de cascajo balinha.
– El que encuentra una mancha de cascajo balinha en el Paraguaçu -decían los buscadores-, puede comprar al fiado. ¡Hay que darle hasta que se llene la bolsa!
La suprema ambición se concentraba en ese cascajo privilegiado. Y la explotación de las minas se procesaba en una lucha de lances repetidos, las esperanzas de los hombres creando un código y elaborando un calendario. Durante el período de lluvias, que se prolongaba, con intervalos variables, desde principios de noviembre hasta fines de marzo, los mineros estaban obligados a suspender todas las explotaciones. Venía la creciente de Santa Lucía, y se retiraban hacia los cascalhões, servicios que eran trabajados con el aprovechamiento de las aguas en los arroyos y canales.
La minería en el Paraguaçu era muy dispendiosa : solo en paquetes de dinamita para romper la piedra se gastaban sumas abultadas. Y era una de apuntar “rompepiedra” todo el día que no había dinero que alcanzase. Los resultados, sin embargo, compensaban. El año anterior, por ejemplo, el coronel había hecho un recipiente para el lavado final de más de cien contos, y el garimpeiro Filó Finança, que estaba inspirado, había acertado en la primera semana, gastando ochocientos mil con una puta de lo más linda que había venido de Tamburi. Sin duda, el Paraguaçu, para todos los efectos, era el mejor sitio de las Lavras.
De marzo a junio las lluvias raleaban; con todo, las neblinas eran comunes en esa época, volviendo temeraria cualquier tentativa de cateo. Por eso mismo, la experiencia había establecido esta práctica :
– Sólo después de la fogata *…
Fue cuando el coronel Germano, venido de la fazenda São Pedro, se había instalado en Passagem. Ordinariamente, los trabajos empezaban con la construcción de cortes de tierra negra en sitios pantanosos. Distribuidos en sociedades, capitaneados por los capataces, los mineros se entregaban a la tarea de sacar las aguas dividiéndolas entre el llenador y el tumbador, entrando en la fase donde el cascajo era martillado y por fin amontonado, para en seguida cernirlo y después lavarlo. Esos trabajos, que se prolongaban por cuatro o seis semanas, eran luego recomenzados en las nuevas catas que se abrían, casi todas abiertas a dinamita, en una operación que el martillo manejado a brazo acababa. Entonces venía la fase final del trabajo, con todas las tareas resumidas antes de noviembre, cuando se había iniciado el período regular de las lluvias. Por otra parte, muchas veces había crecidas temporales, lo que volvía aquellos trabajos no sólo los más dispendiosos sino también los más arriesgados de las Lavras.
(…)
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Fonte: Sales, Herberto. Diamante. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires: Sudamericana, 1980. p. 15-21.
* La fogata: se refere a las fogatas que se encienden para la celebración de San Pedro y San Juan.


CERCATORI DI DIAMANTI
 
I

Herberto Sales
Dal cielo scuro, con un mutamento improvviso del tempo, la pioggia si era abbattuta di colpo sulla lontana regione delle sorgenti del fiume. Inondando cave, cantieri e gallerie, si era portata via nella notte anche i depositi di cascalho. Nell’abitato di Passagem, sulle rive del Paraguaçù straripato, raffiche di vento prendevano d’infilata le strade deserte, quando i cercatori di diamanti, con lúgubre vocare, entrarono nella piazza invasa da torrenti d’acqua che scendevano verso l’arenile. Fradici di pioggia, trasportavano suelle spalle e sulla testa, come relitti, i loro attrezzi di lavoro: bateias, carumbés, zappe, leve, vagli, scalpelli. In testa veniva il vecchio Justino, reggendo una torcia che il vento minacciava di spegnere.
Si fermarono di fronte alla casa del padrone proprio mentre la porta si apriva e la figura del colonnello Germano si stagliava contro il chiarore indeciso del lume. Nel rumore assordante della pioggia il vecchio Justino dovette gridare:
— L’acqua ha inondato tutti i cantieri!
Raccontò poi che i cercatori trasportavano il corpo di un compagno che era annegato – «Raimundo, il caposquadra» – travolto dalla piena.
— E’ stato tutto all’improvviso. Se aveste visto. Gli dev’essere preso un colpo, come al povero Flavio, quello che morì alle Piabas.
Il colonnello pres ela notizia con grande naturalezza: ce n’erano tanti, di incidenti, che la morte aveva perduto ogni sapore di sorpresa. Ma non rimase cosi tranquillo quando scorse, alla luce incerta delle fiaccole, lo spettacolo squallido dei cercatori: li guardò e rabbrividì. Perché sentì in quella moltitudine di lavoratori disfatti l’evidenza del disastro che aveva colpito anche lui. Con una mossa brusca ordinò seccamente al vecchio Justino:
— Manda via questa gente, subito.
Poi girò le spalle e sbatté con forza la porta. Eliminava così la presenza opprimente di quella folla rovinata.
II
Erano circa quattro mesi che il colonnello Germano era venuto a Passagem. Il Paraguaçù scorre in quel punto sul fondo di una vallata dalle sponde scoscese, dove i cespugli di alcaçuz emergono dalle depressioni piene di detriti alluvionali, avvolgendoli con il verde dominante del loro fogliame. Più giù, scorrendo sempre tra le rocce nude che riempiono il suo corso accidentato, precipita in una cascata, spuneggiando sul grande basamento rosa, per raggiungere infine, nel suo camino verso la boscaglia, l’amplio arenile dove si allarga a bagnare le casupole bianche dell’abitato.
É questa, da sempre, la zona di montagna più ricca di tutte le Lavras. Quanto al fiume propriamente detto, anche se già motto battuto sulle terrazze laterali e sul fondo, aveva ancora, a quell’epoca, la stessa fama dei tempi del colonnello Joça de carvalho, il pioniere del suo struttamento.
I cercatori di diamanti affermavano:
— Il Paraguaçù ha riserve per altri cent’anni.
Eppure la sua produzione diamantifera era allora di motto inferiore a quella che aveva caratterizzato gli anni dei primi ritrovamenti. A quei tempi, grazie non solo all’abbondanza di diamanti ma anche alla facilità con cui si sfruttavano i giacimenti, tutta la Valle aveva acquistato la fama di uma specie di Terra Promessa. All’epoca del colonnello Germano non si davano più casi di cercatori che trovavano diamanti attaccati alle radici della canela-d’ema quando la sradicavano per accendere il fuoco nelle loro capanne. Tuttavia, anche lasciando da parte il pozzo della Donana e altri pozzi ricchi che sfidavano, con la loro profondità, i rudimentali procedimenti di estrazione allora in uso, restavano ancora generosi depositi nelle anse del fiume, come il Cappello della Ruota, dove si trovavano i diamanti: garantiti del cascalho a palline.
— Chi trova nel Paraguaçù una vena di cascalho a palline – dicevano i cercatori – può comprare a credito. I diamanti lu puoi raccoglierementre riempi il carumbé.
La suprema ambizione si concentrava su quel cascalho privilegiato, e lo sfruttamento dei giacimenti procedeva con una lotta dalle alterne vicende: le speranze della gente avevano creato un codice e stabilito un calendario. Durante il periodo delle piogge, che si estendeva, con intervalli variabili, dall’inizio di novembre alla fine di marzo, i cercatori erano costretti a sospendere ogni lavoro. Arrivava la piena di Santa Lucia, battevano in ritirata verso i depositi di cascalho che lavavano con le acque dell’imondazione.
***
La ricerca dei diamanti nel Paraguaçù costava un occhio: solo in candelotti di dinamite per le forature si spendevano somme ingenti. E si forava tanto ogni giorno che i soldi non bastavano mai. I risultati, però, ripagavano la spesa. L’anno prima, ad esemplio, il colonnello aveva incassato più di centomila milreis, ed il cercatore Filò Finança, che si portava la scalogna addosso, aveva avuto un colpo di fortuna la prima settimana e aveva speso ottocento milreis com una prostituta niente male venuta da Tamburì. Il Paraguaçù era davvero, in tutti i sensi, il miglior giacimento delle Lavras.
Da marzo a giugno de piogge diminuivano, ma la nebbia era sempre lì, a rendere temerario qualsiasi tentativo di sfruttamento. Proprio per questo l’esperienza aveva dettato la regola:
— Solo dopo San Giovanni…
Era allora che il colonnello Germano veniva dalla fattoria di São Pedro e si istallava a Passagem. Normalmente i lavori cominciavano con la costruzione di dighe fatte di terra scura e fascine di ramaglia. Dioisi in gruppi con tanta caposquadra i cercatori si mettevano a drenare l’acqua, riempiendo e souotando i barili finché il cascalho veniva pressato e ammucchiato per essere poi setacciato e lavato. Questi lavori duravano quattro o sei settimane, e siripetevano subito dopo nelle nuove cave che si andavano aprendo, quase tutte con la dinamite: il lavoro era completato a colpi di maglio. Veniva poi la fase finale del vaglio e del lavaggio e tutti i lavori si concludevano prima di novembre, quando iniziava il periodo normale delle piogge. Tuttavia, a volte arrivavano piene improvvise – che rendevano quella ricerca di diamanti non solo la più dispendiosa ma anche la più teneraria delle Lavras.
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Fonte: SALES, Herberto. Cercatori di diamanti: Romanzo. Traduzione di Giuliano Macchi. Milano, Vanni




Bio fornecida pelo palestrante.

O FRUTO DO VOSSO VENTRE




Autor: Herberto Sales
Título: O Fruto do Vosso Ventre, The Fruit of thy Womb, El fruto de vuestro vientre
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: Michael Fody(eng)Estela dos Santos(esp)
Data: 28/12/2004

 

O FRUTO DO VOSSO VENTRE

Primeira parte


Os coelhos da Ilha

Um

Herberto Sales

Os coelhos, pobrezinhos. Havia muitos coelhos na Ilha: brancos, cinzentos, pretos, malhados. Mas, quem mandou os coelhos procriarem tanto? Viviam em tocas, nos campos que os homens plantavam. Depois, as tocas se tornaram insuficientes para eles. E eles se alastraram pelos campos, num ondulante, felpudo, colorido tapete. (Havia também coelhos amarelos.) Começaram a devastar os campos, as grandes áreas cobertas de hortaliças.
Os homens plantavam hortaliças para comer.
Acontece, porém, que os homens também comiam coelhos: guisados, assados, grelhados. Mas, quem mandou os coelhos procriarem tanto? Ah! Procriaram tanto, tanto, tanto, que chegou um momento que os homens não davam mais vencimento aos coelhos, por mais que os comessem. Em compensação, os coelhos, tanto eram eles, estavam comendo tudo que os homens plantavam.
Então, os homens descobriram que havia na Ilha mais coelhos do que homens. E isto era um problema grave para os homens: os homens não podiam ficar sem comer, para deixar comer em seu lugar os coelhos. Afinal, se os coelhos gostavam de hortaliças, os homens também gostavam. E as plantações estavam seriamente ameaçadas pelos coelhos. A continuarem assim as coisas, os homens ficariam sem as suas hortaliças. (Quase já não havia mais verde nos campos, o verde das hortaliças.) E nem podiam eles – os homens – pensar em reduzir o número de coelhos, comendo-os em lugar das hortaliças, porque o número de coelhos era vinte vezes maior que o dos homens. Além disso, os homens comiam os coelhos com hortaliças, pois haviam descoberto que os coelhos, com acompanhamento de hortaliças, eram ainda mais saborosos.
Então, um belo dia, os homens começaram a temer que os coelhos, depois de comerem todas as hortaliças, invadissem em massa a cidade e disputassem aos homens os outros alimentos, nos armazéns e dentro de suas próprias casas.
A população tomou-se de pavor: se os coelhos invadissem a cidade, acabariam deixando os homens sem os outros alimentos, como já os haviam deixado sem as suas hortaliças.
Chegou-se a temer que a situação se invertesse, e os coelhos, quando já não tivessem outra coisa que comer, passassem de alguma forma a comer os homens. Isto seria o fim da Ilha e, naturalmente, dos homens, conquanto também pudesse ser o fim dos coelhos.
Os homens, porém, precisavam sobreviver; porque eram mais importantes que os coelhos.
Era preciso encontrar uma solução.
E a solução foi encontrada.
Enfim, os homens encontram sempre uma maneira de solucionar as coisas, solucionando-as, naturalmente, à maneira dos homens – e não à maneira dos coelhos. Havia muitos coelhos na Ilha, não era? Os coelhos eram uma ameaça para os homens, não eram? Pois bem. Um dia, os homens sobrevoaram de helicóptero os campos da Ilha e, durante uma semana, bombardearam todos os lugares onde se achavam concentrados os coelhos. Milhares e milhares de coelhos fugiram para as praias, em desespero. Mas, conhecido o medo que os coelhos têm da água, medo somente comparável ao que eles descobriram ter das bombas, nenhum deles se aventurou a entrar no mar. Assim, foram igualmente bombardeados nas praias, até voar pelos ares o último deles.
E com isto se acabaram os coelhos.
Então voltaram os homens a cultivar em boa paz os campos da Ilha, pois já não havia mais nenhum coelho para incomodá-los. Em verdade, deixaram de comer coelhos; mas os homens não precisavam de coelhos para sobreviver. Tinham os seus rebanhos de gado, em pastagens cercadas, tinham as suas granjas. De resto, voltaram a ter as suas hortaliças, livres para sempre da praga dos coelhos.
Mas, deu-se que os homens começaram a procriar quase tanto quanto os coelhos. E, no fim de algum tempo, do mesmo modo que os coelhos tinham sido uma ameaça à sobrevivência dos homens, os homens passaram a ser uma ameaça à sobrevivência de si próprios, pois havia na Ilha homens demais para comer.
Já não era mais uma questão de hortaliças.
Simplesmente, o crescimento da população da Ilha estava em desacordo com o que a Ilha produzia em alimentos para a população.
E os homens se viram diante de um dilema: ou a população parava de crescer, ou iria fatalmente passar fome.
Ora, como os homens não queriam passar fome, trataram imediatamente de encontrar um meio de evitar desastre.
O Dirigente da Ilha, que era o Dirigente dos homens, reuniu a sua acessória, composta de técnicos, e com eles estudou detidamente o problema, debatendo-o, naturalmente, sob os ângulos técnicos.
Uma coisa ficou de pronto assentado: conquanto houvesse homens demais na Ilha, os homens não matariam os homens, como haviam matado os coelhos. Afinal, um homem era um homem, e um coelho era um coelho.
Que fazer, então?
Só havia uma coisa a fazer: criar um departamento, através do qual pudesse o governo exercer o controle da natalidade da Ilha, para impedir que continuasse a aumentar desordenadamente o número de coelhos.
Criar um departamento era a melhor forma que tinha o governo de mostrar que estava fazendo alguma coisa na área em que a coisa devia ser feita. O que queria dizer que nenhuma coisa podia ser feita sem antes haver um departamento encarregado de fazê-la.
Pelo menos assim pensavam os técnicos.
E, assim pensando, recomendaram a criação do Departamento de Controle da Natalidade e Planificação Matrimonial e Ligações Correlatas. O problema não era controlar a natalidade? Pois bem. O Departamento de Controle da Natalidade e Planificação Matrimonial e Ligações Correlatas se encarregaria de controlá-la.
Mas, o nome de um departamento impunha a criação de uma sigla correspondente. A sigla era uma providência muito importante, tão importante quanto à criação do próprio departamento.
Segundo explicaram os técnicos, a sigla representava, como “mensagem compacta, um conteúdo fixo de impacto comunicativo, relacionado com a natureza indecomponível do enunciado siglático”.
Por outras palavras: já que havia siglas, o Departamento de Controle da Natalidade e Planificação Matrimonial e Ligações Correlatas não podia deixar de ter a sua. Para outra coisa não tinham sido inventadas as siglas.
E escolheu-se a sigla.
A sigla escolhida foi Deconplamlic. Um simples problema de comunicação. Sem dúvida, era muito mais fácil dizer Deconplamlic que Departamento de Controle da Natalidade e Planificação Matrimonial e Ligações Correlatas. Era não apenas mais fácil de dizer, mas de memorizar.
Estava dado o primeiro passo para a solução do problema do crescimento desordenado da população da Ilha.
Naturalmente, para criar o departamento, o governo precisava de uma lei, em função da qual o departamento passaria a existir. Nenhum departamento pode existir sem que haja antes uma lei que o crie. A lei que criou o Deconplamlic foi a Lei de Controle da Natalidade, que o governo fez cumprir com o mais severo rigor, pois do contrário não poderia salvar da fome a população da Ilha. Afinal, lei era lei. Disto podiam não saber os coelhos, mas sabiam os homens.

Segunda parte


A Ilha dos homens

Um

Todas as mulheres grávidas da Ilha foram obrigadas a comparecer ao hospital, para serem fichadas e examinadas. O exame tinha por finalidade constatar o grau de gravidez delas. As mulheres que já houvessem ultrapassado o terceiro mês de gestação, seriam liberadas. Podiam voltar para casa e aguardar o dia do parto. As autoridades do Deconplamlic tinham instruções expressas do governo para poupá-las ao destino das coelhas grávidas, indiscriminadamente mortas durante o extermínio dos coelhos. O governo não estava interessado em matar mulheres grávidas. Queria apenas, no próprio interesse delas, e tanto quanto lhes permitisse o grau de gravidez, que elas não comprometessem a sobrevivência da comunidade botando com os seus nenéns mais gente na Ilha.
Quanto às mulheres cujo período de gestação não houvesse ainda ultrapassado o terceiro mês, teriam de abortar. Estivessem tranqüilas, porque o aborto, como bem sabiam, nessa fase não oferecia nenhum perigo. Além disso, assegurava-lhes as autoridades toda a assistência médica necessária. Ninguém ia morrer de aborto. E não se esquecessem da vantagem de que iam abortar de graça.
Imensas filas de mulheres formaram-se a porta do hospital durante alguns meses. Mas, apesar do enorme esforço e da dedicação profissional das equipes médicas, o atendimento não se processou com a rapidez desejada. Também, quem mandou tanta mulher engravidar?
Devido à lentidão do atendimento (porque, além do atendimento médico específico, havia o preenchimento prévio das fichas estatísticas do Deconplamlic, e isto fazia parte do atendimento e consumia tempo), muitas situações se modificaram em face da lei. De tanto esperar nas filas a chamada, mulheres de antemão enquadradas na faixa do aborto, ultrapassaram a meta condenatória do terceiro mês e receberam o atestado liberatório de parto. Assim, muito neném que não ia nascer acabou nascendo. Um golpe de sorte – especialmente para as que iam ser mães pela primeira vez e sonhavam com um filhinho gordinho e bonitinho chamando: “mamãe, mamãe”.
Enquanto isso, mulheres no quinto, sexto mês de gravidez, ao cabo de três meses de espera nas filas (em muitos casos a espera foi um pouco menor), tiveram de ser
apressadamente retiradas delas, já com as dores do parto. Se fichadas e examinadas a tempo, teriam podido voltar para casa e cuidar do enxoval do bebê. Mas, fizessem o favor de não se queixar. Afinal, as autoridades do Deconplamlic lhes havia concedido prioridade de atendimento, permitindo-lhes que em caráter excepcional furassem as filas.
Teodorico, o sapateiro, vendo passar pela porta de sua casa (morava na própria oficina) os conhecidos, dizia-lhes:
– Há dois meses eu mesmo tenho feito o almoço. A mulher amanhece na fila. Nunca fui homem de forno e fogão, mas sempre se dá um jeito. O pior é que ela não gosta do meu tempero. Às vezes, diz que pus sal demais; outras, que pus sal de menos. Enfim, reclama sempre do meu tempero, quando vou a fila levar-lhe a marmita do almoço. Ainda bem que o jantar é feito por ela, pois às 5 horas da tarde o hospital fecha para as filas. Não é para me gabar: mas minha mulher é uma cozinheira de mão-cheia.
Estêvão, Pedro, e muitos e muitos outros homens da Ilha, que moravam em suas próprias oficinas de trabalho, ou trabalhavam em suas próprias casas, estavam nas mesmas condições de Teodorico: a mulher na fila, e eles fazendo estágio no fogão. Conquanto errassem no tempero, tinham o que cozinhar. E sentiam uma espécie de consolo perplexo por não estarem ainda passando fome. Ao meio-dia, em grupos, lá iam eles levar ás mulheres, na fila do hospital, a marmita do almoço.
Havia cartazes avisando às mulheres: No seu próprio interesse, não saia da fila. Se tiver sede, peça água aos guardas. Não perca tempo indo ao bebedouro. Mas, traga de casa o copo. (Os guardas encarregados da fiscalização das filas tinham instruções do Deconplamlic para fornecer-lhes água.) E havia outros cartazes: É permitido comer nas filas, contanto que não sujem a rua. Lembrem-se que estão numa cidade e não num chiqueiro. Em caso de necessidade fisiológica, dirijam-se aos guardas. (Os guardas também tinham instruções do Deconplamlic para encaminhá-las às privadas, sem prejuízo dos seus lugares na fila).
As próprias mulheres eram as primeiras a reconhecer que tudo estava muito bem organizado. Bastava uma delas chamar o guarda e dizer: “Estou apertada”, e ele a encaminhava às privadas, fornecendo-lhe previamente um cartão numerado, de controle. Em verdade, formava-se às vezes diante das privadas outra fila, ainda que menor que a da porta do hospital. Mas os guardas tinham o recurso de bater na porta da privada e avisar: “Ande depressa. Você não está em casa. Despache-se”. E as mulheres despachavam-se como podiam, para ceder lugar a outras. Enfim, numa privada, fazendo-se o que nela se costuma fazer, levava-se menos tempo que numa sala de hospital durante um exame médico. O importante era que o lugar na fila do hospital era respeitado. E devia-se isto, sem dúvida, à boa ordem nela mantida pelas autoridades do Deconplamlic.
De resto, no dia da promulgação da lei, dirigindo-se à população da Ilha através da cadeia integrada de rádio e televisão, o diretor do Deconplamlic deixara bem claro como a coisa funcionaria. O almoço em casa, embora aparentemente facilitando o esquema, só iria complicá-lo. Importaria na debandada geral da fila, com evidente prejuízo para o atendimento médico. Era uma questão de técnica. De técnica de organização, aplicada em função de uma maior rapidez no atendimento. Estava sendo vem claro, não era verdade? Raciocinassem: o tempo gasto na condução pelas mulheres, para irem da fila até em casa e depois voltarem à fila, somado ao tempo que gastariam no almoço (por mais depressa que almoçassem), acarretaria um enorme atraso aos trabalhos de atendimento hospitalar. E esse atraso não interessava às mulheres, e muito menos ao Deconplamlic. Enfim, não interessava a ninguém, pois entre perder tempo e correr o risco de passar fome, naturalmente qualquer pessoa haveria de preferir não perder tempo. Quanto mais depressa fossem atendidas as mulheres, tanto mais depressa estariam elas livres da fila, e a população livre de passar fome. E concluiu: “É absolutamente indispensável que nos conscientizemos de nossa condição humana. Não somos coelhos. E, não sendo coelhos, não podemos permitir, no interesse da sobrevivência da população, que as mulheres da Ilha procriem tanto quanto procriavam as coelhas”.
Ouvida a exposição do diretor do Deconplamlic, disse Teodorico:
– Isto é verdade.
E Estêvão:
– Isto é verdade.
E todos os outros:
– Isto é verdade.
E as próprias mulheres:
– Isto é verdade.
(…)

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Fonte: SALES, Herberto. O fruto do vosso ventre: romance. 3ª ed. ver. Rio de Janeiro, José Olympio, 1984, p. 1-14.

The Fruit of thy Womb

Part I

The Rabbits of the Island

One

Herberto Sales

Poor little rabbits. There were a lot of rabbits on the Island: white ones, grey ones, black ones, vari-coloured ones. But who told them to multiply like that? They lived in burrows in the fields men had planted. Later, their burrows no longer sufficed. They spread over the fields like a billowing, velvety, patchwork quilt. (There were some yellow, rabbits, too.) They began to strip the fields and gardens of their harvest.

Now, men had planted vegetables to eat.

It also happened that they ate rabbits, too: stewed ones, roasted ones, grilled ones. But, who told the rabbits to multiply like that? They propagated, procreated and reproduced at such a rate that soon man could not keep up with them no matter how many he tried to eat. On the other hand, the rabbits, being so numerous, were eating everything that man could plant.

Then, man realized that there were more rabbits on the Island than there were people. This was a serious problem for man: he couldn’t let the rabbits eat while he starved. After all, the rabbits liked vegetables, but so did man. And his gardens were being seriously threatened by the rabbits. If things continued this way, man would soon be without his vegetables. (Most of the green was already gone from the fields, the vegetable green, that is.) One could not think of reducing the number of rabbits by eating them instead of vegetables because the rabbits outnumbered men twenty to one. Besides, man ate rabbit with vegetables since he had discovered that rabbit was even more savoury when ac-companied by greens.

Then, one fine day, man began to worry that the rabbits, after eating up all the vegetables, would stage a mass invasion of the city, competing with man in his own stores and homes for the rest of his food.

The populace was in a panic: if the rabbits invaded the city, they would do away with man’s other food supplies just as they had done with the vegetables.

Why, the situation might even be reversed and the rabbits, once they had nothing else, would turn to eating men. This would mean the end of the Island and, naturally, of man although it could eventually be the end of the rabbits, too.

Men must survive because they were more important than rabbits.

A solution had to be found.

One was.

After all, man always finds a way of solving his problems according to human dictates – not rodent needs. There were a lot of rabbits on the Island, right? They were a threat to man, right? Okay. One day, men flew over the Island’s fields in helicopters and for one week bombarded all the places where rabbits congregated. Thousands and thousands of desperate rabbits fled to the beaches. But knowing their fear of water, a fear equal only to that of being bombed, not one of them dared enter the sea. And so they were bombed on the beaches as well until the last one of them was exterminated.

And that’s how the rabbits were eradicated.

Then man returned to his peaceful cultivation of the fields since there were no more rabbits left to disturb him. Of course, he had to stop eating rabbits, but man didn’t need them to survive. He had his flocks in fenced pastures and he had his granaries. And now he had regained his gardens, forever free from the plague of rabbits.

But it happened that man began to multiply almost as fast as the rabbits had. After a while, as the rabbits had threatened man’s existence, so did man come to endanger his own survival. There were just too many men to eat.

It wasn’t a question of vegetables any more.

To put it succinctly, there were too many people for the amount of food produced.

Man was faced with a dilemma: either the population stopped growing or they were going to starve to death.

Now, since no one wanted to starve, man immediately sought a means to avoid this disagreeable disaster.

The governor of the Island (who was the governor of men) met with his cabinet, composed of technicians, to carefully study the problem from, naturally, all technical aspects.

One thing was certain: as long as men inhabited the Island, they wouldn’t suffer the same fate as the rabbits. After all, a man was a man, and a rabbit was a rabbit.

What to do, then?

There was only one thing: create a department through which the government could exercise control of the Island’s birthrate, prohibiting the same type of uncontrolled population growth in humans as had occurred with the rabbits.

Creating a department was the government’s way of demonstrating that something was being done as it should be. Which meant that nothing was done until a department had been formed to deal with the problem.

At least that’s how the technicians reasoned.

And following this line of thought, they recommended the formation of the Department of Population Regulation and Nuptial and Collateral Counseling. The problem was controlling the birthrate, wasn’t it? Okay. The Department of Population Regulation and Nuptial and Collateral Counselling would take charge of it.

But the creation of a department necessitated the creation of a corresponding logo. After all, the symbol was as important as the department itself, as his advisors explained. ‘The logo embodies the concentrated message, the specific communicative context associated with the immutable nature of said symbol.’

In other words, the Department of Population Regulation and Nuptial and Collateral Counselling had to have their emblem. That’s why emblems had been invented.

The acronym was chosen: DEPREGNACC.

A simple communications problem. Without a doubt, it was much easier to say DEPREGNACC than Department of Population Regulation and Nuptial and Collateral Counselling. Not only easier to say, but to memorize, too. Thus, the first step in controlling the Island’s birthrate had been taken.

Naturally, to create this department, the government had to pass a law by virtue of which said department could operate. No department could possibly exist without the prior passage of some law. The law which created DEPREGNACC was the Family Planning Law, which the government enforced to the letter since anything else would mean starvation for the Island’s population. After all, a law was a law. Rabbits couldn’t know anything of law, but man could.

Part II

The Island of Man

One

Every pregnant woman had to report to the hospital to be registered and examined. The examination was to determine how pregnant she was. Women more than three months pregnant would be exempt from certain requirements. They could return home to await the birth of their child. DEPREGNACC’s officials had received express orders to spare these women the fate of the pregnant rabbits, indiscriminantly killed during the recent rodent extermination programme. The government wasn’t interested in killing pregnant women. It was only concerned with what was in the women’s best interests. Producing babies could not compromise the survival of the Island community.

As for women less than three months pregnant, they would have to abort the foetus. They were calm about it though, because as everyone knew, at this stage of pregnancy, abortion was not dangerous. Besides, the authorities would give them every necessary medical assistance. No one would die from an abortion. Not to mention the fact that it was going to be free, too.

For months long lines formed at the hospital doors. But in spite of the enormous efforts and dedication of the medical teams, the examination didn’t proceed with the desired rapidity. Who told so many women to get pregnant anyway?

Due to the backlog of appointments (in addition to the medical examination there were the DEPREGNACC statistical forms to be filled out and this took time) the status of many women changed with respect to the law. With long delays, women who once were less than three months pregnant and thereby automatically consigned to the abortion category, passed the three month limit and received their parturition licence. Thus, many babies were born that weren’t supposed to be. A stroke of luck – especially for those first-time mothers who had been dreaming of cute little babies crying ‘Ma-ma. Ma-ma.’

Meanwhile, women in their fifth or sixth month of pregnancy, after waiting in line for weeks and weeks (in many cases the wait was much less), had to be hurriedlly removed due to labour pains. If they had been registered and examined in time, they could have gone home to arrange things for the baby. They were polite, though, and didn’t complain. After all, DEPREGNACC officials granted them priority status, and had in exceptional cases allowed them to go to the head of the line.

Teodorico the shoemaker, observing his neighbours pass by his door (he lived in his shop), commented: ‘For two months now I’ve had to make lunch. My wife is in line by daybreak. I was never one for cooking, but I can make do. The problem is that she doesn’t like the way I season the food. There’s always too much salt, or too little. She’s always complaining about the seasoning when I bring her lunchbox to the line. It’s a good thing she makes the dinner, because at 5 pm the hospital closes its doors. I’m not bragging but my wife is a terrific cook.’

Estêvão, Pedro and many, many other husbands who lived in their shops or worked out of their homes were in the same boat as Teodorico: their wives in line and themselves in the kitchen. Although they erred in the seasoning, they at least had something to cook, and took a perplexed consolation in the fact that they weren’t starving yet. So at noon, in groups, they took their wives’ lunches to the hospital lines.

Signs advised the women: ‘For your own protection, don’t get out of the line. If you are thirsty, ask a guard for water. Don’t waste time going to the drinking fountain. Bring your own glass from home.’ (The guards in charge of supervising the lines had been instructed by DEPREGNACC to bring water to the women.) Other signs read: ‘Eating in line is permitted, but don’t litter. Remember that this is a city, not a pigsty. If you need to use the facilities, call a guard.’ (The guards also had orders to conduct the women to the restrooms without forfeiting their place.)

The women themselves were the first to recognize that everything was well organized. One had only to call a guard and say, ‘I’ve go to go’, and after first giving her a numbered control card, he would quickly guide her to the ladies’ lounge. It’s true that a line often formed in front of the bathroom, but it was shorter than the one in front of the hospital. And the guards could always bang on the door and shout, ‘Hurry up! You’re not at home. Get going!’ And the women got going as best they could and gave up their places to others. After all, doing what one usually did in the bathroom took less time than the medical appointment. The important thing is that their place in line was saved. This was accomplished no doubt because DEPREGNACC’s authorities maintained good order.

As for the rest, on the day of the implementation of the Family Planning Law, the Director of DEPREGNACC addressed the populace by radio and television and left no doubt as to how the law would work. Although it appeared that eating lunch at home would facilitate matters, in reality it would just complicate things. It would affect the dispersal of the line with evident prejudice to the functioning of the medical teams. It was a question of technique. Of organizational technique applied to streamlining the appointment procedure. The reasoning was clear, wasn’t it? Time spent in walking to and from the hospital after eating at home, plus time spent in lunching (no matter how fast one tried to eat), all added up to an enormous delay in hospital appointments. These delays were not in the best interest of the women, much less in that of DEPREGNACC. No one wanted such delays because, in a choice between losing time and starving to death, naturally anyone would prefer the former to the latter. The quicker the women were seen, the quicker they would be freed from the lines and the quicker the population would be freed from the fear of hunger. And the Director concluded, ‘It is absolutely indispensible that we recognize our human condition. We are not rabbits. And, not being rabbits, for the sake of our survival we cannot permit the women to multiply like the rabbits did.’

‘That’s true,’ concluded Teodorico as he listened to the explanation profferred by DEPREGNACC’s Director.

‘That’s true,’ concluded Estêvão.

‘That’s true,’ concluded all the others.

And the women agreed, ‘That’s true.’

(…).

Fonte: Sales, Herberto. The fruit of thy womb. Translated by Michael Fody, III; foreword by Antonio Olinto; an appreciation by Rebecca Catz. Worcester: Wyvern Publications, 1982. p. 1-12.

EL FRUTO DE VUESTRO VIENTRE

Primera Parte

Los conejos de la Isla

Herberto Sales

Los conejos, pobrecitos. Había muchos conejos en la Isla: blancos, cenicientos, negros, manchados. Pero ¿quién les había mandado a los conejos procrear tanto? Vivían en madrigueras, en los campos que los hombres plantaban. Después las madrigueras se volvieron insuficientes. Y los conejos se diseminaron por los campos en una ondulante, afelpada, alfombra de colores. (También había conejos amarillos). Comenzaron a devastar los campos, las grandes áreas cubiertas de hortalizas.
Los hombres plantaban para comer.
Me sucede que los hombres también comían conejos: guisados, asados, al horno. Pero ¿quién les había mandado a los conejos procrear tanto? ¡Ah! Procrearon tanto, tanto, tanto, que llegó un momento en que los hombres ya no podían con los conejos por más que los comiesen. En compensación, tantos eran los conejos que comían todo lo que los hombres plantaban.
Entonces los hombres descubrieron que en la Isla había más conejos que hombres. Y esto era un problema grave para los hombres: los hombres no podían dejar de comer para que comieran en su lugar los conejos. Pues si a los conejos les gustaban las hortalizas a los hombres también les gustaban. Y las plantaciones estaban seriamente amenazadas por los conejos. Si las cosas continuaban así, los hombres se quedarían sin sus hortalizas. (Ya casi no había más verdor en los campos, el verdor de las hortalizas). Y no podían ellos – los hombres – pensar en reducir el número de conejos, comiéndolos en lugar de las hortalizas, porque el número de conejos era veinte veces mayor que el de los hombres. Además de eso, los hombres comían conejo con hortalizas, pues habían descubierto que los conejos con guarnición de hortalizas eran aún más sabrosos.
Entonces, un bello día, los hombres empezaron a temer que los conejos, después de comerse todas las hortalizas, invadiesen en masa la ciudad, disputándole a los hombres sus otros alimentos, en los almacenes y dentro de sus mismas casas.
La población se llenó de pavor: si los conejos invadiesen la ciudad, terminarían dejando a los hombres sin sus otros alimentos, como ya los habían dejado sin sus hortalizas.
Se llegó a temer que la situación se invirtiese y los conejos, al no tener ya otra cosa que comer, empezaran de alguna forma a comerse a los hombres. Esto sería el fin de la Isla y, naturalmente, de los hombres, aunque también podía ser el fin de los conejos.
Pero los hombres necesitaban sobrevivir, porque eran más importantes que los conejos.
Era preciso encontrar una solución.
Y la solución fue encontrada.
En fin, los hombres siempre encuentran una forma de solucionar las cosas, solucionándolas, por supuesto, a la manera de los hombres, no a la manera de los conejos. Había muchos conejos en la Isla ¿o no? Los conejos eran una amenaza para los hombres ¿o no? Pues bien. Un día los hombres sobrevolaron en helicóptero los campos de la Isla y, durante una semana, bombardearon todos los lugares donde estaban concentrados los conejos. Miles y miles de conejos huyeron hacia las playas, desesperados. Pero, conocido el miedo que los conejos le tienen al agua, miedo sólo comparable al que descubrieron tenerle a las bombas, ninguno de ellos se aventuró a entrar en el mar. Así, igualmente fueron bombardeados en las playas hasta que voló por los aires el último de ellos.
Y con esto se acabaron los conejos.
Entonces los hombres volvieron a cultivar en paz los campos de la Isla, pues ya no había ningún conejo para molestarlos. En verdad, dejaron de comer conejos; pero hombres no necesitaban conejos para sobrevivir. Tenían sus rebaños de ganado, en pastoreos cercados y tenían sus granjas. Por lo demás, volvieron a tener sus hortalizas, libres para siempre de la plaga de los conejos.
Pero sucedió que los hombres empezaron a procrear casi tanto como los conejos. Y pasado algún tiempo, del mismo modo que los conejos habían sido una amenaza para la supervivencia de los hombres, los hombres pasaron a ser una amenaza para su propia supervivencia, pues en la Isla había demasiados hombres para comer.
Ya no era una cuestión de hortalizas.
Simplemente, el crecimiento de la población de la Isla estaba en desacuerdo con lo que la Isla producía en alimentos para la población.
Y los hombres se vieron ante un dilema: o la población dejaba de crecer o, fatalmente, pasaría hambre.
Ahora bien, como los hombres no querían pasar hambre, inmediatamente trataron de encontrar un medio que evitase semejante desastre.
El Dirigente de la Isla, que era el Dirigente de los hombres, reunió a su asesoría, compuesta de técnicos, y estudió con ellos detenidamente el problema, debatiéndolo, naturalmente, bajo sus ángulos técnicos.
De pronto una cosa quedó firme: aunque hubiese demasiados hombres en la Isla, los hombres no matarían a los hombres como habían matado a los conejos. Al final, un hombre era un hombre y un conejo era un conejo.
¿Qué hacer entonces?
Solo podía hacerse una cosa: crear un departamento a través del cual el gobierno pudiera ejercer el control de la natalidad en la Isla, para impedir que continuase aumentando desordenadamente el número de hombres como desordenadamente había aumentado el número de conejos.
Crear un departamento era la mejor forma que tenía el gobierno de demostrar que estaba haciendo algo en el área en que la cosa debía ser hecha. Lo que significaba que nada podía ser hecho sin antes existir un departamento encargado de hacerlo.
Por lo menos así pensaban los técnicos.
Y pensando así, recomendaron la creación del Departamento de Control de la Natalidad y Planificación Matrimonial y Relaciones Correlativas. ¿El problema no era el control de la natalidad? Pues bien. El Departamento de Control de la Natalidad y Planificación Matrimonial y Relaciones Correlativas se encargaría de controlarla.
Pero el nombre de un departamento imponía la creación de una sigla correspondiente. La sigla era una medida muy importante, tan importante como la creación del departamento mismo.
Según explicaron los técnicos, la sigla representaba como “mensaje compacto, un contenido fijo de impacto comunicativo relacionado con la naturaleza indescomponible del enunciado siglático”.
En otras palabras: ya que había siglas, el Departamento de Control de la Natalidad y Planificación Matrimonial y Relaciones Correlativas no podía dejar de tener la suya. No para otra cosa se habían inventado las siglas.
Y la sigla se eligió.
La sigla elegida fue DECONPLAMREC. Un simple problema de comunicación. Sin duda, resultaba mucho más fácil decir DECONPLAMREC que Departamento de Control de la Natalidad y Planificación Matrimonial Y relaciones Correlativas. No sólo era más fácil de decir sino también de memorizar.
Estaba dado el primer paso para solucionar el problema del crecimiento desordenado de la población de la Isla.
Naturalmente, para crear el departamento el gobierno necesitaba una ley en función de la cual el departamento pasaría a existir. Ningún departamento puede existir sin que antes haya una ley que lo cree. La ley que creó el DECONPLAMREC fue la Ley de Control de la Natalidad que el gobierno hizo cumplir con el máximo rigor, pues de lo contrario, no podría salvar del hambre a la población de la Isla. En fin, la ley era la ley. Los conejos podían no saber esto, pero lo sabían los hombres.

Segunda Parte

La Isla de los hombres


Uno

Todas las mujeres grávidas de la Isla fueron obligadas a comparecer al hospital para ser fichadas y examinadas. La finalidad del examen era constatar su grado de embarazo. Las mujeres que ya hubiesen sobrepasado el tercer mes de embarazo, quedarían liberadas. Podían volver a sus casas y aguardar el día del parto. Las autoridades del DECONPLAMREC tenían instrucciones precisas del gobierno para evitarles el destino de las conejas grávidas, muertas indiscriminadamente durante el exterminio de los conejos. El gobierno no estaba interesado en matar mujeres embarazadas. Apenas quería, por el propio interés de ellas y en tanto lo permitiese su grado de embarazo, que no comprometieran la supervivencia de la comunidad, aportando con sus bebés más gente a la Isla.
En cuanto a las mujeres cuyo período de gestación no hubiese sobrepasado todavía el tercer mes, tendrían que abortar. Debían estar tranquilas, pues el aborto, como bien sabían, en esa fase no ofrecía ningún peligro. Además, las autoridades les aseguraban toda la asistencia médica necesaria. Ninguna iba a morir de aborto. Y no debían olvidad la ventaja de que iban a abortar gratuitamente.
Inmensas filas de mujeres se formaron durante algunos meses ante la puerta del hospital. Mas, a pesar del enorme esfuerzo y de la dedicación profesional de los equipos médicos, la atención no se procesó con la rapidez deseada. También ¿quién mandó que se embarazasen tantas mujeres?
Debido a la lentitud de la atención (porque, además de la atención médica específica, estaba el llenado previo de las fichas estadísticas del DECONPLAMREC, esto era parte de la atención y consumía tiempo), muchas situaciones se modificaron frente a la ley. De tanto esperar en las filas el llamado, mujeres de antemano encuadradas en la faja del aborto sobrepasaron la meta condenatoria del tercer mes y recibieron el certificado de permiso de parto. Así muchos bebés que no iban a nacer acabaron naciendo. Un golpe de suerte, especialmente para las que iban a ser madres por primera vez y soñaban con un hijito gordinflón y bonito que las llamase “mamita, mamita”.
Mientras, mujeres en le quinto o sexto mes de embarazo, al cabo de tres meses de espera en las filas (en muchos casos la espera fue un poco menor), tuvieron que ser apresuradamente retiradas de ellas, ya con los dolores del parto. Si las hubiesen fichado y examinado a tiempo habrían podido volver a sus casas y preparar el ajuar del bebé. Pero que hiciesen el favor de no quejarse. Al fin y al cabo, las autoridades del DECONPLAMREC les habían concedido atención prioritaria, permitiéndoles, en carácter excepcional, que rompiesen las filas.
Teodorico, el zapatero, al ver pasar ante la puerta de su casa (vivía en el taller) a los conocidos, les decía:
– Hace dos meses que yo mismo me hago el almuerzo. Mi mujer amanece en la fila. Nunca fui hombre de horno y fogón, pero un siempre se las puede arreglar. Lo peor es que a ella no le gusta mi manera de sazonar. A veces dice que le puse demasiada sal, otras que le puse menos. En fin, siempre critica mi manera de sazonar cuando voy a la fila a llevarle la marmita con el almuerzo. Suerte que ella hace la cena, pues a las cinco de la tarde el hospital clausura la atención de las filas. Y no es para alabarme, pero mi mujer es una cocinera de primera.
Esteban, Pedro y muchos y muchos otros hombres de la Isla que vivían en sus propios talleres o trabajaban en sus propias casas, estaban en las mismas condiciones que Teodorico: la mujer en la fila y ellos entrenándose en le fogón. Aunque equivocaran el condimento tenían que cocinar. Y sentían una especie de perplejo consuelo porque aún no pasaban hambre. Al mediodía, en grupos, allá iban a la fila del hospital, a llevar a las mujeres la marmita del almuerzo.
Había carteles que aviaban a las mujeres: Por su propio interés no salga de la fila. Si tiene sed pídale agua a los guardianes. No pierda tiempo yendo al bebedero. Pero traiga de su casa un vaso. (Los guardianes encargados de fiscalizar las filas tenían instrucciones del DECONPLAMREC para proveerlas de agua. Y había otros carteles: Está permitido comer en las filas siempre que no ensucien la calle. Recuerden que están en una ciudad y no en un chiquero. En caso de necesidad fisiológica, diríjanse a los guardianes. (Los guardianes también tenían instrucciones del DECONPLAMREC para llevarlas a los retretes sin perder sus lugares en la fila).
Las mismas mujeres eran las primeras en reconocer que todo estaba muy bien organizado. Bastaba que una de ellas llamase a un guardián y le dijese: “Estoy apurada” para que él la llevase al retrete, dándole previamente una tarjeta de control. En verdad, ante los retretes también se formaba otra fila, aunque menor que la de la puerta del hospital. Pero los guardianes tenían el recurso de golpear la puerta del retrete y avisar: “Apúrese. No está en su casa. Apresúrese”. Y las mujeres se apuraban para ceder el lugar a otras. Naturalmente, en un retrete, haciéndose lo que en él se acostumbra a hacer, se demora menos tiempo que durante un examen médico en la sala del hospital. Lo importante era que el lugar en la fila del hospital era respetado. Y eso se debía, sin ninguna duda, al buen orden mantenido por las autoridades del DECONPLAMREC.
Por lo demás, el día de la promulgación de a ley, dirigiéndose a la población de la Isla a través de la cadena integrada de radio y televisión, el director del DECONPLAMREC había dejado bien claro como funcionará la cosa. El almuerzo en casa, aunque aparentemente facilitaba el esquema, sólo lo complicaría. Provocaría la desbandada general de la fila con evidente perjuicio para la atención médica. Era una cuestión técnica. De técnica organizativa aplicada en función de una mejor rapidez en la atención. Quedaba claro ¿no es cierto? que razonasen: el tiempo que gastarían las mujeres movilizándose de la fila hasta sus casas y de sus casas hasta la fila, sumado al tiempo que gastarían en el almuerzo (por más deprisa que comiesen) provocaría un enorme atraso en los trabajos de atención hospitalaria. Tal atraso no interesaba a las mujeres y mucho menos al DECONPLAMREC. En fin, no interesaba a nadie, pues entre perder tiempo y correr el riesgo de pasar hambre, naturalmente cualquier persona habría de preferir no perder tiempo. Cuanto más rápido fuesen atendidas las mujeres tanto más rápido estarían libres de la fila y la población libre de pasar hambre. Y concluyó: “Es absolutamente indispensable que tomemos conciencia de nuestra condición humana. No somos conejos. Y no siendo conejos, no podemos permitir, por el interés de sobrevivir de la población, que las mujeres de la Isla procreen tanto cuanto procreaban las conejas”.
Al escuchar la exposición del director del DECONPLAMREC, dijo Teodorico:
– Eso es verdad.
Y Esteban:
– Eso es verdad.
Y todos los otros:
– Eso es verdad.
Y las mismas mujeres:
– Eso es verdad.
(…)

____________________
Fonte: SALES, Herberto. El fruto de vuestro vientre. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires, Editorial Plus Ultra, 1984, p. 7-12.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O PAI




Autor: Helena Parente Cunha
Título: Os Provisórios
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 28/12/2004

O PAI

Helena Parente Cunha

 

Aquele cansaço de existir, aquela gosma impregnando os ossos, os músculos, os tecidos, o sangue estagnado sob a pele desbotada, nem mesmo um gesto a se estender no ar, ela parada na porta, nem indo nem vindo, só ali, não se mexendo, há quanto tempo a última alegria? o último sorriso? cansaço, esforço inútil de respirar, gosma grudando o ar e a parca luz do quarto fechado, cada um na sua bolha fofa e fria, frágil fio por partir num sopro.

O pai parado na porta entre o quarto e agora. Por que você chegou tarde? Onde já se viu moça de família na rua a estas horas? Você sabe que horas são? Há anos são dez horas da noite, nunca mais amanheceu. Quem é aquele vagabundo que estava com você na saída da escola? A manhã inteira esfregando a saia de flanela azul pregueada no banco o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos, no universo nada se perde, tudo se transforma Tudo se transforma em quê? Quem é aquele sacana que estava com você na saída da escola? A escola sempre a escola. Professora ou aluna, sempre a escola. Diante da turma, que vontade de mandar todos os alunos para aquele lugar, que horror, de que adianta ensinar teorema de Pitágoras? as meninas esfregando nos bancos as calças blue jeans, o que é cateto? já pensou o quadrado do cacete?

O pai parado na porta, entre o triângulo e a buzina do carro. Quem é aquele desgraçado que lhe deu carona? São dez horas da noite no universo inteiro è tudo se transforma em triângulos exatos. Quem é aquele… Pelo amor de Deus, pai, eu tenho quarenta anos, até quando você vai pedir satisfações de minha vida? Desculpe, pai, papaizinho, eu rasguei meu vestido brincando no quintal, desculpe.

O pai parado na porta, entre a boneca e a tarde. Quem é aquele menino que estava correndo na rua atrás de você? Você não sabe que é feio menina brincar com menino? E o muro? Você não sabe que menina não sobe em muro? Desculpe, papai, eu só queria ver o que havia do outro lado. Do outro lado do muro havia o havia. As meninas se encontravam com os meninos atrás do muro. Mas papai, eu quero tanto ir ao aniversário de Teresinha, não tem nada demais, eu já estudei, já fiz todos os deveres, estou cansada. Cansaço gosmento na cabeça, nos olhos inchados.

O pai parado na porta, entre o barulho dos ônibus e o tapa. Quem é aquele rapaz que estava conversando com você na esquina? Não tem nada de quinze anos nem nada, sua mãe nunca conversou comigo sozinha antes do casamento. Mas papai, a gente não mora na roça.

O pai parado na porta, entre o caixão que saía e o retrato da mãe vestida de noiva, o retrato pendurado na parede. De agora em diante, minha filha, você tem que tomar conta de seu pai, fazer companhia a ele, seja uma boa filha. Namorar? Quem é aquele miserável que quer desgraçar a sua vida? Você não tem pena de seu pai? Você sabe que horas são? Onde já se viu escola terminar a esta hora? Que reunião que nada. A escola, sempre a escola. Os ângulos de um triângulo somam 180°. Por quê? Nunca, mas nunca mesmo poderá mudar? Esta soma será eternamente mesma num universo onde nada se perde e tudo se transforma? Nada se perde, nem os dias nem os anos nem as horas, nada se perde, mas tudo se transforma num monturo de lembranças rançosas de tudo que não pôde ser no baile de formatura. Professora, sim, senhora, parabéns. A parentada toda despejou-se do interior, aqueles parentes tabaréus, as mulheres com o rosto todo caiado de pó de arroz , os homens com as cabeças engorduradas de brilhantina, todos atarantados junto dela, que vergonha, as tias e as primas enfiadas nos vestidos de tafetá chamalotado, cheios de franzidos, sem saberem se seguravam as bolsas ou os chapéus de palha enfeitados de flores as mais indefectíveis, ah que vergonha, os ternos desajeitados de casimira listrada dos tios e dos primos amarrados às gravatas de cores desgovernadas, sim senhora, parabéns, professora, a primeira aluna de toda a faculdade, vejam só, ela estudou na faculdade, pena que a mãe não esteja mais na terra pra ver, coitada.

Em todo o correr dos anos, tudo se transforma. Pitágoras, não, nem se perde nem se transforma, irredutível na sua exatidão geométrica, os alunos se transformam, os alunos esfregando os bancos, as calças cáqui de brim, os blue jeans, você é menino ou menina?

O pai paradíssimo na porta, entre um ano e outro ano. Quem é aquele veado que estava com você no ponto do ônibus? Ah! é uma amiga, este mundo está perdido e você ainda reclama porque eu me preocupo com você. Hoje nós vamos ao cinema juntos. Hoje nós vamos ao aniversário de sua tia. Por que você quer sair sozinha? Filha ingrata, eu faço tudo para lhe distrair e você fica aí toda emburrada. Domingo que vem nós vamos passar o dia em Itaparica na casa de seu padrinho (mas papai) você não quer ir por quê? Você tem que espairecer.

O pai parado na porta, entre um anúncio e um comprimido. Ainda bem que você chegou cedo, vamos ver a novela das oito na televisão. É boa esta novela, eu gosto muito de novela, você precisa ver novela, distrai muito. Sim papai, de agora em diante, eu vou ver todas as novelas, a das seis a das sete a das oito a das dez, tem das onze? Não, é bom que não tenha porque a gente dorme cedo, você tem que acordar cedo para ir à aula. Por que você quer fazer curso de pós-graduação? Pra quê? Bobagem, minha filha, você já estudou muito, trabalha muito, já não é criança, de noite precisa descansar. Sim, o cansaço, tanto cansaço, torpor grudando os membros e os pés no chão, não quero sair não, papai, vamos ver televisão.

O pai parado na porta, entre a bengala e o catarro. Quem é aquele velho sem-vergonha que saiu com você da escola? Será possível que você não sabe o que os outros vão pensar? Mas papai.

O pai parado na porta, atravessado entre a hora de sair e a hora de nunca mais. Papai?

Cansaço. Cansaço de existir. Ela parada na porta, entre ficar e não sair, o corpo colado numa gosma nem fria nem quente, um amarrado nos ossos, um grude se enfiando pelos poros, alguém tocou a campainha? Ninguém entra ninguém sai, o teorema de Pitágoras demonstrado para sempre até as mais densas profundezas do cansaço essencial. O quadrado do sim é igual à soma dos quadrados de todos os nãos incendiados na medula. Cansaço de viver e não viver. Nada se perde nada se ganha. O universo inteiro transformado num atoleiro bolorento de esquecimentos do que nunca aconteceu em nenhum dia, em nenhuma hora, atrás do muro da escola, onde houve um menino e uma menina.

 
 

IL PADRE

Helena Parente Cunha

 

Quella stanchezza d’esistere, quell’inerzia che impregna le ossa, i muscoli, i tessuti, il sangue stagnato sotto la pelle sbiadita, non un minimo movimento, lei ferma sulla porta, non un passo in avanti né indietro, lì immobile, senza muoversi, a quando risale l’ultima allegria? l’ultimo sorriso? stanchezza, sforzo inutile di respirare, inerzia nell’aria e nella parca luce della stanza chiusa, ognuno nella sua bolla soffice e fredda, fragile filo pronto a rompersi d’un soffio.

Il padre fermo sulla porta tra la stanza e l’oggi. Perché sei rientrata tardi? Dove si è vista mai una ragazza di buona famiglia per strada a quest’ora? Sai che ore sono? Da anni sono le dieci di sera, mai più si è fatto giorno. Chi è quel vagabondo che era con te all’uscita da scuola? L’intera mattina a sfregare la gonna di flanella blu pieghettata sulla sedia, il quadrato dell’ipotenusa è uguale alla somma del quadrato dei cateti, nell’universo nulla va perduto, tutto si trasforma. Tutto si trasforma in cosa? Chi è quel mascalzone che era con te all’uscita da scuola? La scuola, sempre la scuola. Professoressa o alunna, sempre la scuola. Di fronte alla classe, che voglia di mandare tutti gli alunni a quel paese – che orrore! – a che serve insegnare il teorema di Pitagora? le bambine che sfregano sui banchi i loro blue-jeans, cos’è mai un cateto? hai già pensato al quadrato della verga?

Il padre fermo sulla porta, tra il triangolo e il clacson della macchina. Chi è quel disgraziato che ti ha scarrozzato? Sono le dieci di sera nell’universo intero e tutto si trasforma in triangoli esatti. Chi è quello… Per l’amor d’Iddio, papà, ho quarant’anni, quando smetterai di chiedere soddisfazioni della mia vita? Scusa, papà, paparino, ho strappato il mio vestito giocando nel cortile, scusami.

Il padre fermo sulla porta, tra la bambola e il crepuscolo. Chi è quel bambino che ti correva dietro per strada? Non lo sai che non sta bene che una bambina giochi con un bambino? E il muro? Non lo sai che le bambine non si arrampicano sui muri? Scusa, papà, io volevo solo vedere ciò che c’era dall’altro lato. Dall’altro lato del muro c’era quel che c’era. Le bambine s’incontravano con i bambini dietro il muro. Ma papà, desidero tanto andare al compleanno di Teresina, puoi mandarmici, ho già studiato, ho già fatto tutti i compiti, sono stanca. Stanchezza inerte, in testa e negli occhi gonfi.

Il padre fermo sulla porta, tra il rumore degli autobus e i paraocchi. Chi è quel ragazzo che parlava con te all’angolo della strada? Non è questo il comportamento che deve avere una ragazza di quindici anni, assolutamente. Tua madre non ha mai parlato con me da sola prima che ci sposassimo. Ma papà, noi non viviamo nei campi.

Il padre fermo sulla porta, tra la bara che usciva e il ritratto della madre vestita da sposa, il ritratto appeso alla parete. D’ora innanzi, figlia mia, devi prenderti cura di tuo padre, fargli compagnia, essere una buona figlia. Amoreggiare? Chi è quel miserabile che vuole rovinare la tua vita? Non hai pietà di tuo padre? Sai che ore sono? Dove si è mai visto che le lezioni a scuola terminino a quest’ora? Quale riunione o altro! La scuola, sempre la scuola. La somma degli angoli di un triangolo dà 180°. Perché? Mai, ma proprio mai potrà essere diversa? Questa somma sarà eternamente la stessa in un universo dove nulla va perduto e tutto si trasforma? Nulla va perduto, neppure i giorni, gli anni e le ore, nulla va perduto, ma tutto si trasforma in un immondezzaio di ricordi rancidi di tutto quel che non ha potuto essere al ballo di laurea. Professoressa, sì, signora, auguri. La parentela tutta si mostrò come realmente era, quei parenti impacciati, le donne con il viso imbiancato di polvere di riso, gli uomini con le teste ingrassate di brillantina, tutti confusi attorno a lei – che vergogna! – le zie e le cugine infilate nei vestiti di taffettà e cammellotto, pieni d’arricciature, senza sapere se reggere le borse o i cappelli di paglia adornati di fiori variopinti – ah che vergogna! -, gli abiti sgraziati di cachemire a righe degli zii e dei cugini legati alle cravatte dai colori non intonati, molto bene, auguri, professoressa, la prima alunna dell’intera facoltà, si noti bene, ha studiato all’università, peccato che la madre, poveretta, non stia più su questa terra così da vederla.

Nell’intero scorrere degli anni, tutto si trasforma, Pitagora no, né va perduto né si trasforma, irriducibile nella sua esattezza geometrica, gli alunni si trasformano, gli alunni che sfregano i banchi, i pantaloni color cachi a coste, i blue-jeans, sei un bambino o una bambina?

Il padre più fermo che mai sulla porta, tra un anno e l’altro. Chi è quel cornutaccio che stava con te alla fermata dell’autobus? Ah! è un’amica, questo mondo è perduto e tu ancora protesti perché io mi preoccupo di te. Oggi andiamo al cinema insieme. Oggi andiamo al compleanno di tua zia. Perché vuoi uscire da sola? Figlia ingrata, io faccio di tutto per farti divertire e tu resti lì completamente impuntata. Domenica prossima andiamo a trascorrere l’intera giornata ad Itaparica in casa del tuo padrino. Ma papà… Non vuoi andarci perché? Hai bisogno di distrazioni.

Il padre fermo sulla porta, tra una notizia e una compressa. Meno male che sei rincasata presto, vediamoci la telenovela delle otto. È buona questa telenovela, a me piacciono molto le telenovele, è bene che tu le veda, distrae molto. Sì papà, d’ora innanzi, vedrò tutte le telenovele, quella della sei, quella delle sette, quella delle otto, quella delle dieci, c’è ne una anche alle undici? No, è bene che non ci sia perché le persone vanno a dormire presto, tu devi svegliarti presto per andare a lezione. Perché vuoi fare il corso di specializzazione? A che serve? È una stupidaggine, figlia mia, hai già studiato molto, lavori troppo, non sei più una bambina, di notte hai bisogno di riposare. Sì, la stanchezza, tanta stanchezza, torpore che attacca le membra e che incolla i piedi al suolo, non voglio uscire, no, papà, vediamoci la televisione.

Il padre fermo sulla porta, tra il bastone e il catarro. Chi è quel vecchio svergognato che è uscito insieme con te da scuola? È mai possibile che tu non riesca a capire quel che gli altri penseranno? Ma papà…

Il padre fermo sulla porta, posto di traverso tra l’ora d’uscita e l’ora che mai giunge. Papà?

Stanchezza. Stanchezza d’esistere. Lei ferma sulla porta, tra il restare e il non uscire, il corpo incollato ad un’inerzia né fredda né calda, un nodo nelle ossa, una colla che s’infila attraverso i pori, qualcuno ha suonato il campanello? Nessuno entra, nessuno esce, il teorema di Pitagora come eterna dimostrazione, fino alle più dense profondità della stanchezza essenziale. Il quadrato del sì è uguale alla somma dei quadrati di tutti i no che s’infiammano nel midollo. Stanchezza di vivere e non vivere. Nulla va perduto, nulla si ottiene. L’universo intero trasformato in un pantano ammuffito di oblii di quel che mai è successo in nessun giorno, in nessuna ora, dietro il muro della scuola, dove un tempo ci furono un bambino e una bambina.

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DER VATER

Helena Parente Cunha

 

Dieser Lebensüberdruß, dieser Schleim, der Knochen, Muskeln, Gewebe durchtränkt, das stockende Blut unter der farblosen Haut, nicht einmal eine Geste, um sie in den Raum zu zeichnen, sie steht bewegungslos an der Tür, weder im Gehen noch im Kommen begriffen, steht einfach nur dort, rührt sich nicht, wann war die letzte Freude? Wann das letzte Lächeln? Überdruß, das Atmen eine nutzlose Anstrengung, Schleim klebt die Luft und das trübe Licht des geschlossenen Raumes zusammen, jeder in seiner weichen kalten Blase, brüchiger Faden, mit einem Atemzug zu zerreißen.

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen dein Zimmer und dem Jetzt. Warum kommst du so spät? Wo gibt es denn das, ein Mädchen aus anständiger Familie noch um diese Zeit auf der Straße? Weißt du, wie spät es ist? Seit Jahren ist es zehn Uhr abends, ist es nie wieder Tag geworden. Wer war dieser Kerl neben dir am Ausgang der Schule? Den ganzen Vormittag den blauen Flanellfaltenrock auf der Bank scheuern, das Quadrat der Hypotenuse ist gleich der Summe der Kathetenquadrate, im Universum geht nichts verloren, alles verwandelt sich. Verwandelt sich in was? Wer war dieser Halunke neben dir am Ausgang der Schule? Die Schule, immer die Schule. Lehrerin oder Schülerin, immer die Schule. Vor der Klasse, wie gern mal alle Schüler zum Teufel jagen, wie schrecklich, was nützt es, den Satz des Pythagoras zu lehren? Die Mädchen. scheuern ihre Blue Jeans auf den Bänken, was ist Kathete? Und das Quadrat des Schwanzes, hast du daran schon mal gedacht?

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen dem Dreieck und der Hupe des Autos. Wer ist dieser Gauner, der dich mitgenommen hat? Es ist zehn Uhr abends im ganzen Universum, und alles verwandelt sich in exakte Dreiecke. Wer war dieser… Um Gottes willen, Vater, ich bin vierzig Jahre alt, wie lange soll ich dir noch Rechenschaft über mein Leben geben? Entschuldige Papa, lieber Papa, ich habe mir beim Spielen im Garten das Kleid zerrissen, entschuldige.

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen der Puppe und dem Nachmittag. Wer war der Junge, der auf der Straße hinter dir hergelaufen ist? Weißt du nicht, daß es sich nicht gehört daß Mädchen mit Jungen spielen? Und die Mauer? Weißt du nicht, daß Mädchen nicht auf Mauern klettern? Entschuldige, Papa, ich wollte nur sehen, was auf der anderen Seite ist. Auf der anderen Seite war das, was war. Hinter der Mauer trafen sich die Mädchen mit den Jungen. Aber Papa, ich möchte so gern zu Terezinhas Geburtstag gehen, da ist doch nichts dabei, ich habe schon gelernt, habe alle Hausaufgaben gemacht, ich mag nicht mehr. Schleimige Müdigkeit im Kopf, in den angeschwollenen Augen.

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen dem Lärm der Busse und der Ohrfeige. Wer war der junge Mann, der mit dir an der Ecke geredet hat? Was heißt hier fünfzehn Jahre, nichts da, deine Mutter hat vor der Hochzeit niemals mit mir allein gesprochen. Aber Papa, wir leben doch nicht auf dem Land.

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen dem Sarg, den sie hinaustrugen und dem Bild der Mutter in Brautkleid an der Wand. Von heute an, mein Kind, mußt du dich um deinen Vater kümmern, ihm Gesellschaft leisten, eine gute Tochter sein. Mit Jungen gehen? Wer ist dieser Elendige, der dich unglücklich machen will? Hast du kein Mitleid mit deinem Vater? Weißt du, wie spät es ist? Wo gibt es denn das, daß die Schule erst um diese Zeit zu Ende ist? Was für eine Versammlung, nichts da. Die Schule, immer die Schule. Die Summe der Winkel eines Dreieckes beträgt 180º. Warum? Wird sich das niemals, aber auch niemals ändern? Wird diese Summer auf Ewigkeit dieselbe in einem Universum sein, wo nichts verloren geht und alles sich verwandelt? Nichts geht verloren, weder die Tage, noch die Jahre, noch die Stunden, nichts geht verloren, aber alles verwandelt sich in einen Abfallhaufen aus abgestandenen Erinnerungen an all das, was auf dem Examensball nicht sein durfte. Lehrerin, jawohl, herzlichen Glückwunsch. Die ganze Verwandtschaft strömte aus dem Hinterland herbei, die ganze hinterwäldlerische Verwandtschaft, die Frauen mit vom Reispuder weißen Gesichtern, die Männer mit fettiger Brillantine in Haar, alle ganz aufgeregt um sie herum, welche Schmach, die Tanten und Cousinen, in geflammte Taftkleider voller Rüschen gezwängt, unschlüssig, ob sie ihre Handtaschen oder ihre mit unvergänglichen Blumen geschmückten Strohhüte festhalten sollten, o welche Schmach die schlecht sitzenden gestreiften Kaschmiranzüge der Onkel und Cousins, die sich geschmacklos bunte Krawatte umgebunden hatten, jawohl, herzlichen Glückwunsch, Fräulein Lehrerin, die beste Studentin der Fakultät sieh mal einer an, sie hat an der Universität studiert, ein Jammer, daß ihre Mutter, die Ärmste, das nicht mehr erleben konnte.

Im Laufe all der Jahre verwandelt sich alles. Pythagoras nicht, weder geht er verloren noch verwandelt er sich, ist unbeugsam in seiner geometrischen Exaktheit, die Schüler verwandeln sich, die Schüler, die ihre Khakihosen aus Köper, ihre Blue Jeans auf den Bänken scheuern, bist du Junge oder Mädchen?

Der Vater vollkommen bewegungslos in der Tür zwischen einem Jahr und einem anderen Jahr. Wer ist dieser Schwule, der da mit dir an der Bushaltestelle stand? Ach! Das ist eine Freundin, diese Welt ist nicht mehr zu retten, und du beschwerst dich noch, daß ich mir Sorgen um dich mache. Heute gehen wir zusammen ins Kino. Heute gehen wir zu deiner Tante zum Geburtstag. Warum willst du allein weggehen? Undankbare Tochter, ich tu alles, um dich abzulenken, und du bist nur total verstockt. Nächsten Sonntag fahren wir für den ganzen Tag zu deinen Patenonkel nach Itaparica (aber Papa), du willst nicht mitkommen, warum? Du mußt doch mal ausspannen.

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen einer Ankündigung und einer Tablette. Gut, daß du früh nach Hause gekommen bist, wir sehen uns die Acht-Uhr-Serie in Fernsehen an. Die ist gut, diese Serie, ich sehe die Serien sehr gern, du solltest sie dir auch ansehen, das lenkt gut ab. Ja, Papa, von nun an werde ich alle Serien ansehen, um sechs um sieben um acht um zehn, gibt’s um elf auch eine? Nein, das ist auch gut so, weil wir früh schlafen gehen, du mußt früh aufstehen, zum Unterricht fahren. Warum willst du noch deinen Magister machen? Wozu? Das ist Quatsch mein Kind, du hast genug studiert, genug gearbeitet, bist kein Kind mehr, abends mußt du ausruhen. Ja, Überdruß, entsetzlicher Überdruß, eine Benommenheit, die die Glieder und Füße an den Erdboden leimt, ich will nicht mehr weggehen, Papa, laß uns fernsehen.

Der Vater bewegungslos in der Tür zwischen Spazierstock und Katarrh. Wer ist dieser schamlose Alte, der mit dir aus der Schule herauskam? Weißt du etwa nicht, was die anderen davon halten werden? Aber Papa.

Der Vater bewegungslos quer in der Tür zwischen dem Moment des Weggehens und dem Moment des Nie Mehr. Papa?

Müdigkeit. Lebensüberdruß. Sie bewegungslos in der Tür zwischen Bleiben und Nichtgehen, der Körper in Schleim geklebt, der weder kalt noch warm ist, ein Bündel mit Knochen, durch die Poren eindringender Schleim, hat jemand geklingelt? Niemand kommt herein, niemand geht hinaus, der Satz des Pythagoras auf ewig bewiesen, bis zu den undurchdringlichsten Tiefen dieses Überdrusses, der das ganze Sein erfaßt. Das Quadrat des Ja ist gleich der Summe der Quadrate aller im Keim erstickten Nein. Überdruß zu leben und nicht zu leben. Nichts geht verloren, nichts kommt hinzu. Das ganze Universum verwandelt sich in einen schimmeligen Morast aus Vergessen von dem, was niemals, an keinem Tag, zu keiner Stunde, hinter der Mauer der Schule geschah, wo es einmal einen Jungen und ein Mädchen gab.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha de "A menina de cá – Carlos Nascimento Silva




Carlos Nascimento Silva e Resenha de A menina de cá

Carlos Nascimento Silva, nascido em Minas Gerais e criado no Rio de Janeiro, escreveu, desde os 14 anos, pequenos contos, poesias e crônicas, antes de se aventurar no romance. É mestre em literatura e professor aposentado da PUC/RJ e Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

     Publicou, em 1995, o romance A Casa da Palma; em 1998, Cabra-cega; em 2003, Vale da Soledade, em 2006, Desengano e, em 2008, o livro de contos A Menina de Cá.

     A Casa da Palma recebeu o Prêmio Cornélio Penna, 1996, da União Brasileira dos Escritores, além do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, do mesmo ano, tendo sido traduzida para o alemão com muito boa aceitação de crítica e público e editada sob o título de Das Palmenhaus, por Europaverlag, 1998 e Econ & Taschenbuch Verlag, 1999.

     O romance Cabra-cega foi agraciado com o “Prêmio Jabuti”, 1999, além do prêmio de “Melhor livro de Ficção do Ano”, outorgado pela Câmara Brasileira do Livro, tendo sido escolhido entre mais de 3.500 títulos editados no ano.

     Publicou seu terceiro romance, Vale da Soledade, pela Record, em 2003.

     Seu último romance, Desengano, foi editado pela Agir Editora, em janeiro de 2006, tendo, igualmente, ganho o “Prêmio Jabuti” de 2007.

     No ano de 2007, Nascimento Silva publicou seu primeiro livro de contos, intitulado A Menina de Cá, editado pela Agir Editora.

 
Carlos Nascimento publicou os seguintes livros:
A casa da palma, Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1995, romance;
Cabra-cega, Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998, romance;
Vale da Soledade. Rio de Janeiro, Record,   2003, romance;
Desengano. Rio de Janeiro, Agir, 2005, romance
A menina de cá. Rio de Janeiro, Agir, 2008, contos

 
 

Resenha de A menina de Cá

 

Gazeta do Povo, publicado em 31/08/2008

 
Carlos Nascimento Silva, Agir, 208 pág., R$ 34,90. Contos
 

Duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti, sendo em um deles considerado “o melhor livro de ficção”, o autor de Desengano e Cabra-cega agora estréia como contista. E acerta em cheio. São desconcertantes histórias que discutem a relação homem-mulher, a solidão, o desejo, a incomunicabilidade e a memória. Em “Beleléu”, um dos textos mais intrigantes do livro, Nascimento Silva discute o tema crise conjugal de forma original: inexplicavelmente, um casal vê os objetos de sua casa desaparecerem, um de cada vez. Até o próprio amor sumir. Perturbador, porém sublime.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "O enigma de Sousândrade – Mariana Moreira




Mariana Moreira
O enigma de Sousandrade

O enigma de Sousândrade


Nova edição do épico ‘O Guesa’, organizada por Luiza Lobo, esclarece e mapeia o percurso fragmentado da vida e da obra do poeta maranhense

Em fragmentos, conforme publicada entre os anos de 1867 e 1884, ou completa, como na edição que chega às livrarias organizada pela pesquisadora Luiza Lobo, a narrativa épica de “O Guesa” (Ponteio), de Joaquim de Sousa Andrade ou Sousândrade (1832-1902), não escapa do estigma enigmático que recai sobre a obra e o próprio autor.
— É a maldição de Sousândrade! — exclama Luiza, com a certeza de quem se dedica a mapear os poemas há quase 40 anos, em obras como “Tradição e ruptura: O Guesa de Sousândrade” (1979) e “Épica e modernidade em Sousândrade” (7Letras). — Sempre há algo para reparar, um fragmento para revisar. “O Guesa” é uma obra inacabada — complementa ela, que se juntará aos professores Luiz Carlos do Rego Lima e Caio Cesar Christiano para debater a obra no dia 24, às 16h, na Fundação Casa de Rui Barbosa.
O enigma da obra está na quantidade de cantos, fragmentos, revisões e adições que o autor maranhense publicou e alterou ao longo de duas décadas. Luiza observa que a forma como foi escrita — em quartetos de decassílabos — e as impressões a conta-gotas dificultaram a compreensão da obra por completo. Até o título, que inicialmente era “O Guesa errante”, foi mudado. A versão atualizada, revisada pelo especialista em Sousândrade Jomar de Moraes, foi baseada na edição definitiva de “O Guesa”, publicada na Inglaterra em 1884, e traz introdução, notas, glossário e cronologia. Dentre os 13 cantos, as partes VII, XII e os XIII foram deixadas incompletas pelo próprio autor e permanecem nesta edição.
O primeiro fragmento foi publicado em 1867, e obra continuou sendo impressa aos pedaços até 1884. No entanto, esta data de publicação também é controversa. Na obra de referência dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos sobre o maranhense, “ReVisão de Sousândrade” (1964), consta a data de 1888. Mas Luiza encontrou, na biblioteca de Nova York, uma errata ao “Guesa” já completo datada de 1887.
— Concluí que ele terminou a obra em 1884, enviou para publicação em Londres e em 1885 já estava de volta ao Maranhão — afirma Luiza, argumentando que a confusão com a data de 1888 é causada pelo ano do depósito legal da obra no Museu de Londres.
Por conta de seu temperamento republicano ferrenho, Sousândrade nunca recebeu a devida atenção dos críticos da época. Por isso, a leitura crítica de “O Guesa” e de outros poemas, como “Harpas Selvagens” (1857) e “Novo Eden, poemeto da adolescência” (1893), acabou relegada dos círculos literários. A obra voltou ao debate somente na década de 1960.
Em “O Guesa”, Sousândrade subverte a lógica dos romances indianistas da época e narra a história de um índio da tribo colombiana muísca. A figura mitológica do panamericano errante, que viaja pelo mundo em busca da utopia de uma República moderna e multicultural, pode ser lida como um alter-ego de Sousândrade.
O autor queria ser grande, produzir uma obra única, como afirma Luiza. A começar pela alteração do próprio nome. De Sousa Andrade passou a assinar Sousândrade para que ficasse com onze letras, assim como Shakespeare. Luiza explica que a obra deve ser lida como uma biografia épica e existencial do autor. Órfão desde a infância, criado por tutores e autodidata, Sousândrade vendeu os escravos da fazenda paterna e se dedicou a conhecer outras culturas e escrever e reescrever seus versos. Tampouco o casamento realizado em São Luís, em 1861, e o nascimento da filha o impediram de continuar o périplo pela América. No épico, repleto de experimentalismo de linguagens e intertextos, os cantos II (ou “Dança do Tatuturema”) e X (ou “O inferno de Wall Street”) se destacam por terem sido escritos em limerick, como explica Luiza.
— O estilo livre do limerick se opõe à rigidez da métrica e caracteriza o tom jocoso e nonsense nos versos. Nestes cantos Sousândrade faz críticas ácidas à corte brasileira e ao sistema financeiro americano. Muito antes de Oswald de Andrade, ele põe na boca de D. João VI: “meu filho, toca a coroar” — diz Luiza, referindo-se ao tom sarcástico e vanguardista do autor, que antecipa a frase “Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça”, do Manifesto Antropófago de 1928.





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A TERCEIRA MARGEM DO RIO




Autor: João Guimarães Rosa
Título: A TERCEIRA MARGEM DO RIO
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

A TERCEIRA MARGEM DO RIO

 

Primeiras estórias

 

Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: – “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: – “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas – passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda – descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
(…)
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio – pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice – esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ansias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse – se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: – “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto – o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

MIGUILIM




Autor: João Guimarães Rosa
Título: Corpo de Baile, Corps de Ballet
Idiomas: port, deu
Tradutor: Curt Meyer-Clason(deu)
Data: 28/12/2004

MIGUILIM

CORPO DE BAILE

João Guimarães Rosa

Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm. No meio dos campos gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído dali, pela primeira vez: o tio Têrez levou-o a cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucurijú, por onde o bispo passava. Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutúm, tinha dito: – “É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre…”

Mas sua mãe, que era linda e com os cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou, mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. – “Oê, ah, o triste recanto…” – ela exclamava. Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com o tio Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava. Daí, pedia ao tio Terêz que molhasse para ele o lenço; e tio Terêz, quando davam com um riacho, um minadouro ou um poço de grota, sem se apear do cavalo abaixava o copo de chifre, na ponta de uma correntinha, e subia um punhado d’água. Mas quase sempre eram secos os caminhos, nas chapadas, então tio Terêz tinha uma cabacinha que vinha cheia, essa dava para quatro sedes; uma cabacinha entrelaçada com cipós, que era tão formosa. – “É para beber, Miguilim…” – tio Terêz dizia, caçoando. Mas Miguilim ria também e preferia não beber a sua parte, deixava-a para empapar o lenço e refrescar o nariz, na hora do arrocho. Gostava do tio Terêz, irmão de seu pai.

Quando voltou para casa, seu maior pensamento era que tinha a boa notícia para dar à mãe: o que o homem tinha falado – que o Mutúm era lugar bonito… A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada. Era um presente; e a idéia de poder trazê-lo desse jeito de cór, como uma salvação, deixava-o febril até nas pernas . Tão grave, grande, que nem o quis dizer à mãe na presença dos outros, mas insofria por ter de esperar; e, assim que pôde estar com ela só, abraçou-se a seu pescoço e contou-lhe, estremecido, aquela revelação. A mãe não lhe deu valor nenhum, mas mirou triste e apontou o morro; dizia: -“Estou sempre pensando que lá por detrás dele acontecem outras coisas, que o morro está tapando de mim, e que eu nunca hei de poder ver…” Era a primeira vez que a mãe falava com ele um assunto tão sério. No fundo de seu coração, ele não podia, porém, concordar, por mais que gostasse dela: e achava que o moço que tinha falado aquilo era que estava com a razão. Não porque ele mesmo Miguilim visse beleza no Mutúm – nem ele sabia distinguir o que era um lugar bonito de um lugar feio. Mas só pela maneira como o moço tinha falado: de longe, de leve, sem interesse nenhum; e pelo modo contrário de sua mãe – agravada de calundú e espalhando suspiros, lastimosa. No começo de tudo, tinha um erro – Miguilim conhecia, pouco entendendo. Entretanto, a mata, ali perto, quase preta, verde-escura, punha-lhe medo.

Com a aflição em que estivera, de poder depressa ficar só com a mãe, para lhe dar a notícia, Miguilim devia de ter procedido mal e desgostado o pai, coisa que não queria, de forma nenhuma, e que mesmo agora largava-o num atordoado arrependimento de perdão. De nada, que o pai se crescia, raivava: – ” Este menino é um mal-agradecido. Passeou, passeou, todos os dias esteve fora de cá, foi no Sucurijú, e, quando retorna, parece que nem tem estima por mim, não quer saber da gente…” A mãe puniu por ele: – “Deixa de cisma, Béro. O menino está nervoso…” Mas o pai ainda ralhou mais, e, como no outro dia era de domingo, levou o bando dos irmãozinhos para pescaria no córrego; e Miguilim teve de ficar em casa, de castigo. Mas tio Terêz, de bom coração, ensinou-o a armar urupuca pra pegar passarinhos. Pegavam muitos sanhaços, aqueles pássaros macios, azulados, que depois soltavam outra vez, porque sanhaço não é pássaro de gaiola. -“Que é que você está pensando, Miguilim?” – tio Terêz perguntava. -“Pensando em pai…” – respondeu. Tio Terêz não perguntou mais, e Miguilim se entristeceu, porque tinha mentido: ele não estava pensando em nada, estava pensando só no que deviam de sentir os sanhaços, quando viam que já estavam presos, separados dos companheiros, tinha dó deles; e só no instante em que tio Terêz perguntou foi que aquela resposta lhe saiu da boca. Mas os sanhaços prosseguiam de cantar, voavam e pousavam no mamoeiro, sempre caíam presos na urupuca e tornavam a ser soltos, tudo continuava. Relembrável era o Bispo – rei para ser bom, tão rico nas cores daqueles trajes, até as meias dele eram vermelhas, com fivelas nos sapatos, e o anel, milagroso, que a gente não tinha tempo de ver, mas que de joelhos se beijava.

– Tio Terêz, o senhor acha que o Mutúm é lugar bonito ou feioso?

– Muito bonito, Miguilim; uai. Eu gosto de morar aqui…

Entretanto, Miguilim não era do Mutúm. Tinha nascido ainda mais longe, também em buraco de mato, lugar chamado Pau-Roxo, na beira do Saririnhém. De lá, separadamente, se recordava de sumidas coisas, lembranças que ainda hoje o assustavam. Estava numa beira de cerca, dum quintal, de onde um menino-grande lhe fazia caretas. Naquele quintal estava um peru, que gruziava brabo e abria a roda, se passeando, pufo-pufo – o peru era a coisa mais vistosa do mundo, importante de repente, como uma estória – e o meninão grande dizia: – “É meu !…” E : – “É meu…” – Miguilim repetia, só para agradar ao menino-grande. E aí o Menino Grande levantava com as duas mãos uma pedra, fazia uma careta pior: – “Aãã!…” Depois, era só uma confusão, ele carregado, a mãe chorando: – “Acabaram com o meu filho!…” – e Miguilim não podia enxergar, uma coisa quente e peguenta escorria-lhe da testa, tapando-lhe os olhos. Mas a lembrança se misturava com outra, de uma vez em que ele estava nu, dentro da bacia, e seu pai, sua mãe, Vovó Izidra e Vó Benvinda em volta; o pai mandava: – “Traz o trem…” traziam o tatu, que guinchava , e com a faca matavam o tatu, para o sangue escorrer por cima do corpo dele para dentro da bacia. – “Foi de verdade, Mamãe?” – ele indagara, muito tempo depois; e a mãe confirmava: dizia que êle tinha estado muito fraco, saído de doença, e que o banho no sangue vivo do tatu fora para ele poder vingar. Do Pau-Roxo conservava outras recordações, tão fugidas, tão afastadas, que até formavam sonho. Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, de uma xícara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava à claridade. Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas – cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha. As frutas que a gente comia. Mas a mãe explicava que aquilo não havia sido no Pau-Roxo, e bem nas Pindaíbas-de-Baixo-e-de-Cima, a fazenda grande do Barbóz, aonde tinham ido de passeio.

Da viagem, em que vieram para o Mutúm, muitos quadros cabiam certos na memória. A mãe, ele e os irmãozinhos, num carro-de-bois com toldo de couro e esteira de buriti, cheio de trouxas, sacos, tanta coisa – ali a gente brincava de esconder. Vez em quando, comiam, de sal, ou cocadas de buriti, doce de leite, queijo descascado. Um dos irmãos, mal lembrava qual, tomava leite de cabra, por isso a cabrita branca vinha, caminhando, presa mãe deles, toda a vida. A coitada da cabrita – então ela por fim não ficava cansada? – “A bem, está com os peitos cheios, de derramar…” – alguém falava. Mas, então, pobrezinhos de todos, queriam deixar o leite dela ir judiado derramando no caminho, nas pedras, nas poeiras? O pai estava a cavalo, ladeante. Tio Terêz devia de ter vindo também, mas disso Miguilim não se lembrava. Cruzaram com um rôr de bois, embrabecidos: a boiada! E passaram por muitos lugares.

– Que é que você trouxe para mim, do S’rucuiú? – a Chica perguntou.

– Trouxe este santinho…

Era uma figura de moça, recortada de um jornal.

– É bonito. Foi o Bispo que deu?

– Foi.

– E p’ra mim? E p’ra mim?! – reclamavam o Dito e Tomèzinho.

Mas Miguilim não tinha mais nada. Punha a mãozinha na algibeira: só encontrava um
Pedaço de barbante e as bolinhas de resina de almêcega, que unhara da casca da árvore, beira de um ribeirão.

– Estava tudo num embrulho, muitas coisas… Caiu dentro do corgo, a água afundou… Dentro do corgo tinha um jacaré, grande…

– Mentira. Você mente, você vai para o inferno! – dizia Drelina, a mais velha, que nada pedira e tinha ficado de parte.

– Não vou, eu já fui crismado. Vocês não estão crismados!

– Você foi crismado, então como é que você chama?

– Miguilim.

– Bobo! Eu chamo Maria Andrelina Cessim Caz. Papai é Nhô Bernardo Caz! Maria Francisca Cessim Caz, Expedito José Cessim Caz, Tomé de Jesus Cessim Caz… Você é Miguilim Bobo…
(…).

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Fonte: Rosa, José Guimarães. “Miguilim”. In:—, Campo geralCorpo de baile. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 15-20.

MIGUILIM

CORPS DE BALLET

João Guimarães Rosa

Ein gewisser Miguilim wohnte mit seiner Mutter, seinem Vater und seinen Geschwistern weit, weit von hier, eine gute Strecke hinter der Niederung-des-Wasserhuhns und anderen Flussläufen, die keinen Namen haben oder wenig bekannt sind, na einem entlegenen Ort, Mutúm. Mitten auf den Campos Gerais, aber in einer schmalen, schwarzerdigen Waldsenke am Fuss der Serra. Miguilim war acht Jahre alt. Mit dem vollendeten siebten Lebensjahr verliess er seinen Heimatort zum ersten Mal: Onkel Terês setzte ihn vor sich aufs Pferd und nahm ihn mit zur Firmung nach Sucurijú, wo der Bischof auf der Durchreise erwartet wurde. Von der Reise, die Tage dauerte, hatte er einen ganzen Knäuel von Erinnerungen aufbewahrt, die seinen Kopf verwirrten. Eine davon konnte er nie vergessen: Jemand, der in Mutúm gewesen war, hatte gesagt: ” Ein hübsches Fleckchen, zwischen Berg und Berg, mit viel Gestein und Wald, weitab von überall, und es regnet dort immer…”

Seine Mutter indessen, die schön war und lange shwarze Haare hatte, verzehrte sich in Traurigkeit, dort wohnen zu müssen. Vor allem klagte sie über die langweiligen Regenmonate, wenn der Himmel sich verdüsterte und alles so einsam, so dunkel; die Luft war dort dunkler, auch in der Zeit der Dürre, na jedem beliebigen Tag, gegen Abend, wenn die Sonne unterging. ” O je, o je, was für ein trauriger Winkel “, stöhnte sie. Aber selbst wenn er nur mit Onkel Terêz allein unterwegs war, hatte er so viel Heimweh, nach allen und allem, dass er mitunter nicht einmal weinen konnte und fast erstickte. So entdeckte er ganz von selber, dass er duch Bestreichen seiner Nasenlöcher mit Speichel seine Atemnot lindern konnte. Daher bat er den Onkel Terêz, er möge ihm doch sein Taschentuch befeuchten; und sobald sie na einen kleinen Bach, na einen Giessbach oder ein Felsenbecken kamen, liess Onkel Terêz, ohne abzusitzen, seinen Hornbecher na seiner Schnur hinunter und holte ihn gefüllt wie der herauf. Da sie aber meistens durch unwirtliches Gelände ritten, führte Onkel Terêz eine kleine, bis na den Rand gefüllte Kalebasse mit, die für viermaliges Durstlöschen ausreichte; eine Kürbisflasche, mit Weidengeflecht überzogen und ein hübsches Stück obendrein. ” Es ist zum Trinken, Miguilim “, sagte Onkel Terêz scherzend. Miguilim lachte gleichfalls, zog’s aber vor, seinen Anteil nicht zu trinken, sondern sparte sich ihn auf, um sein Taschentuch benetzen und die Nase befuchten zu können, sobald das Heimweh na ihm nagte. Er hatte den Onkel Terêz, den Bruder seines Vaters, sehr gern.

Als er nach Hause kam, war sein wichtigster Gedanke, der Mutter die gute Nachricht zu überbringen, nämlich dass der Mann gesagt hatte: Mutúm ist ein hübsches Fleckchen… Wenn die Mutter das hören würde, diese Zusicherung, müsste sie froh werden und getröstet. Es war ein Geschenk, und der Gedanke, es ihr so, aus dem Kopf, wie eine Rettung aus der Not, zu überreichen, machte ihn fiebrig, bis in die Beine hinein. Es war ein so wichtiges, grosses Geschenk, dass er es der Mutter nicht in Gegenwart der anderen sagen wollte, aber Qualen litt, warten zu müssen; und sobald er allein mit ihr war, hing er sich an ihren Hals und erzählte ihr zitternd die grosse Offenbarung. Die Mutter achtete jedoch nicht darauf, blickte nur wehmütig drein und deutete auf den Berg; sie sagte: ” Ich denke immer, dass dort, hinter ihm, Dinge geschehen, die der Berg mir verbirgt, und dass ich sie nie im Leben sehn werde… ” Es war das erstemal, dass die Mutter mit ihm über eine so schwerwiegende Sache sprach. Im Grunde seines Herzens stimmte er jedoch nicht mit ihr überein, mochte er sie noch so innig lieben; denn er fand, dass der junge Mann, der das zu ihm gesagt hatte, im Recht war. Nicht etwa weil er, Miguilim, etwas Schönes an Mutúm gefunden hätte, denn er wusste nicht einmal einen hübschen Ort von einem hässlichen zu unterscheiden. Sondern nur durch die Art, wie der Mann gesprochen hatte, so von weit her, so obenhin, ohne jede Berechnung, und ausserdem ganz anders, als seine Mutter es tat, niedergedrückt von Missmut, unter Seufzern und voller Beschwerde. In der Wurzel von allem steckte ein Irrtum – das wusste Miguilim, ohne dass er es richtig begriff. Und doch war der Urwald ganz in der Nähe, dunkelgrün, fast schwarz und flösste ihm Angst ein.

In seiner Aufregung, so rasch wie möglich allein bei der Mutter zu sein und ihr seine Botschaft überbringen zu können, musster er sich jedoch falsch benommen und den Vater verstimmt haben, was er freilich ums Leben gern vermieden hätte und was ihn jetzt in einen Wirbel von Gewissensbissen und Reue stiess. Denn es bedurfte nur einer Lappalie, dass der Vater aus dem Häuschen geriet und wetterte: ” Dieser Junge ist eine Ausgeburt des Undanks! Er hat’s gut gehabt, ist spazieren gewesen, war tagelang unterwegs, durfte nach Sucurijú reiten, und kaum ist er zurück, will er anscheinend nichts mehr von seinem Vater wissen und hat kein Auge für ihn. ” Die Mutter sprang für ihn ein: ” Keine Rede, Béro. Der Junge ist eben bisschen nervös.” Aber der Vater zeterte nur noch lauter, und da der nächste Tag ein Sonntag war, nahm er die Schar von Miguilim kleineren Brüdern zum Fischen an den Bach mit, während er selber zur Strafe zu Hause bleiben musste. Onkel Terêz jedoch, der ein gutes Herz hatte, lehrte ihn Fallen bauen, um Vögel damit zu fangen. Sie fingen auch viele Sanhassus damit, jene geschmeidigen bläulich gefiederten kleinen Vögel, die sie hinterher fliegen liessen, weil der Sanhassu kein Vogel für einen Käfig ist. ” Woran denkst du, Miguilim? ” fragte Onkel Terêz. ” Ich denke an meinen Vater “, antwortete er. Onkel Terêz fragte nicht weiter, und Miguilim wurde traurig, weil er gelogen hatte: er dachte an nichts, er dachte an das, was die Sanhassus fühlen mussten, wenn sie sich plötzlich von den Gefährten getrennt und eingesperrt sahen; und sie dauerten ihn, und erst in dem Augenblick, als Onkel Terêz die Frage an ihn gestellt hatte, war ihm jene Antwort entschlüpft. Aber die Sanhassus zwitscherten weiter, flatterten hin und her und liessen sich auf dem Papaya-Baum nieder; immer wieder gerieten sie in die Falle, und immer wieder wurden sie freigelassen, alles lief im Kreise. Und dann musste er an den Bischof denken, so reich gekleidet konnte fast nur ein König sein mit seinen bunten Kleidern, sogar seine Strümpfe waren rot, Kordeln hatte er an seinen Schuhen, und der Ring war so prächtig, dass man kaum Zeit hatte, ihn zu bewundern, obgleich man ihn beim Niederknien küsste.

” Onke Terêz, finden Sie, dass Mutúm schön oder hässlich ist? “

” Sehr schön, Miguilim, was denn sonst! Ich wohne gern hier. “

Indessen stammte Miguilim nicht aus Mutúm. Er was weit weg geboren, gleichfalls in einer Waldsenke, einem Ort mit Namen Rotholz, am Ufer des Saririnhém. Von dort entsann er sich längst entschwundener Dinge, es waren Erinnerungen, die ihn noch jetzt beängstigten. Er hatte an einem Zaun gestanden, der einen Hof eingrenzte; dahinter schnitt ihm ein grösserer Junge Grimassen herüber. In dem Hof war ein Puter, der kollert wütend, schlug ein Rad, stolzierte auf und ab, geschwollen, gespreizt, der Truthahn war das Prächtigste auf der Welt, er war mit einemmal wichtig, so bedeutend wie eine Geschchte – und der grosse kleine Junge sagte: ” Der gehört mir. ” Und ” Der gehört mir ” wiederholte Miguilim, nur um dem grossen Kleinen zu Gefallen su sein. Und schon hob der grosse kleine Junge mit beiden Händen einen Stein auf und schnitt eine noch schlimmere Grimasse: ” Waaah…! ” Und dann war alles ein Wirbel, und er wurde fortgetragen, und die Mutter jammerte: ” Sie haben mir mein Kind totgeschlagen! ” Und Miguilim konnte nichts mehr se hen; etwas Heisses, Zähflüssiges rann ihm von der Stirn und verklebte ihm die Augen. Aber diese Erinnerung vermengte sich mit einer anderen, und in der war er nackt im Waschbecken, und drum herum sein Vater, seine Mutter, Grossmama Izidra und Grossmama Benvinda; und der Vater Befahl: ” Bringt das Tier her! ” Und dann brachten sie das Gürteltier, das quiekte, und sie stachen das Gürteltier mit dem Messer ab und liessen sein Blut über Miguilim Körper in die Wanne fliessen. ” War das wirklich so, Mama? ” wolte er wissen, lange Zeit danach. Und die Mutter bestätigte es ihm. Sie sagte, er sie sehr schwach gewesen, habe gerade eine Krankheit hinter sich gehabt, und das Bad im warmen Blut des Gürteltiers hätte dazu gedient, ihn wieder zu Kräften zu bringen. Aus Rotholz bewahrte er auch andere Erinnerungen, freilich so flüchtige, so entrückte, dass sie Träumen glichen. Ein paar Mädchen, die sauber und gut rochen und ein helles, hübsches Lachen hatten, fassten ihn, hoben ihn über den Tischrand hinauf und gaben ihm aus einer riesengrossen Tasse zu kosten, Schlucke eines heissen Getränks, das nach Helligkeit duftete. Dann liessen sie ihn in einem Garten auf allen Vieren kriechen, es war ein Jubel unterall der Blätterfrische, und er liebte den Geruch der Erde, der Blätter, aber das schönste war doch der Geruch der kleinen roten, im Blattwerk versteckten Früchte gewesen, ein sprühender, tröpfelnder, lächelnder Geruch, der voll war von einer kleinen Fröhlichkeit. Es waren essbare Früchte. Aber die Mutter erklärte ihm, das sei nicht in Rotholz, sondern in Pindaíbas-von-Unten-und-Oben gewesen, auf der grossen Fazenda der Familie Barbóz, wo sie zu Besuch gewesen waren.

Von der Reise, die sie nach Mutúm gemacht hatten, waren ihm viele Bilder im Gedächtnis haftengeblieben. Die Mutter, er und die Brüder, in einem Ochsenwagen, überdacht mit Leder und ausgelegt mit Matten aus Burití-Blättern, voll von Kisten und Bündeln und einem Haufen Zeug – zwischen all dem hatten sie Verstecken gespielt. Von Zeit zu Zeit assen sie Gesalzenes oder süsses Palmenmus, Krokant oder Käse ohne Rinde. Einer der Brüder, er wusste nicht mehr welcher, trank Ziegenmilch; daher wuder die weisse Ziege an einer Stange hinter dem Wagen hergezogen. Die Zicklein reisten mit den Menschen im Wageninnern und blökten unablässig nach ihrer Mutter. Die arme Ziege – musste sie nich bald umfallen vor Müdigkeit? ” Fein, die hat Euter, zum Bersten voll “, sagte jemand. Warum liessen dann die Allerärmsten die ganze Milch unterwegs über Stock und Stein und Staub fliessen? Der Vater sass zu Pferd und ritt nebenher. Auch Onkel Terêz war wohl dabei, aber Miguilim erinnerte sich nicht mehr daran. Später begegneten sie einer Masse Rinder, die furchtbar wild waren: eine Viehherde unterwegs! Und sie kamen durch viele Orte.

” Was hast du mir denn aus S’rucuiú mitgebracht? ” fragte Chica.

” Ich hab’dir dieses Heiligenbild mitgebracht. “

Es war eine Mädchengestalt, ausgeschnitten aus einer Zeitung.

” Es ist hübsch. Hat’s der Bischof dir gegeben? “

” Ja. “

” Und für mich? Für mich? ” wollte Dito und der kleine Tomèsinho wissen.

Aber Miguilim hatte nichts mehr zu verschenken. Er steckte die Hand in die Tasche, fand aber nur ein Ende Draht, und ein paar Harzkügelchen, die er an einem Flussufer mit den Fingernägeln von der Borke eines Baumes abgekratzt hatte.

” Es war alles in einem Paket, allerhand Sachen… Aber es fiel in den Fluss, und das Wasser hat es verschlukt… In dem Fluss war ein Kaiman, riesengross… “

” Gelogen. Du lügst, und du kommst dafür in die Hölle ” sagte Drelina, die älteste, die um nichts gebettelt und abseits gestanden hatte.

” Ich komme nicht hinein, ich bin ja schon gefirmt. Aber ihr seid nicht gefirmt! “

” Wenn du gefirmt worden bist, wie heisst du dann? “

” Miguilim… “

” Dummkopf! Ich heisse Maria Adrelina Cessim Caz. Papa ist Nhô Bernardo Caz! Maria Francisca Cessim Caz, Expedito José Cessim Caz, Tomé de Jesus Cessim Caz… Und du bist Miguilim Dummkopf. ”
(…).

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Fonte: Rosa, João Gumarães. “Miguilim”. Von: —Corps de Ballet: Romanzyklus. Aus dem Portugieschen von Curt Meyer-Clason. Deutschland: Kiepenheuer e Witsch, 1966. p. 5-20.





Bio fornecida pelo palestrante.

GRANDE SERTÃO: VEREDAS




Autor: João Guimarães Rosa
Título: Grande Sertão: Veredas, Grande Sertão
Idiomas: port, ita
Tradutor: Edoardo Bizzarri(ita)
Data: 28/12/2004

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

I

João Guimarães Rosa

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu -; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda parte.

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não… Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: – “Eu já vou! Eu já vou!…” – que é o capiroto, o que-diga… E um Jisé Simplício – quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simplício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar… Superstição. Jisé Simplício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava… porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses… Então? Que-diga? Doidera. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!

Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo… Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que releva efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jujujã, Vereda do Buriti Pardo… Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos, homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d’Ouro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre… o Hermógenes… Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes… Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes… O diabo na rua no meio do redemunho…

Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não… Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas – que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo – que é só assim o significado dum azougue maligno – tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.

Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.

Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no da-Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juízo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?!

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Fonte: Rosa, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 17ª.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Cap. 1. p. 7-12.

 

GRANDE SERTÃO: ROMANZO.

I

João Guimarães Rosa

“Nonnulla. I colpi che vossignoria ha sentido non erano di rissa di uomini, no, Dio ne guardi. Ho sparato contro un albero, dietro la casa, dalla parte del torrente. Per esercizio. Lo faccio tutti i giorni, mi piace; fin da quando ero appena un ragazzo. E lí, sono venuti a chiamarmi. Per via di un vitello: un vitello bianco, erratico, gli occhi che manco un cristiano – che era apparso; e con faccia di cane. Cosi m’hanno detto; io non l’ho voluto vedere. E poi, con le labbra rovesciate in fuori, per difetto di nascita, quello sembrava ridere come una persona. Faccia di gente, faccia di cane: decisero – era il demonio. Popolo ignorante. L’hanno ammazzato. Il padrone non so neppure chi fosse. Erano venuti a chiedermi in prestito le armi, le ho date. Non sono superstizioso. Vossignoria ha ragione di ridere… Veda: quando è sparatoria vera, per prima cosa i cani si mettono ad abbaiare, immediatamente – allora, poi, si va a vedere se ci sono scappati dei morti. Vossignoria deve compatire, questo è il sertão. C’è chi dice di no: il vero sertão, dicono quelli, è piú avanti addentro nei Campos Gerais, fine di strade, terre alte, oltre l”Urucuia. Sciocchezze. E quelli di Corinto e di Curvelo, allora, non chiamano forse sertão questi posti qui? Ah, è maggiore! Il luogo sertão si riconosce: è dove i pascoli mancano di steccati; dove uno può andare dieci, quindici leghe, senza trovare una casa abitata; e dove il criminale vive a suo piacere, lontano dalle strette delle autorità. L’Urucuia viene dalle montagne di ponente. Ma, oggi, lungo il suo corso, c’è di tutto – signore fazende, pascoli di sponde fertili, tratti di greto coltivati, piantagioni che vanno da una macchia all’altra, foreste enormi, addirittura di vergini ce ne sono ancora, là. I Gerais corrono tutto all’intorno. Questi Gerais non hanno misura. Infine, ognuno trova buono quel che piú gli fa comodo, vossignoria lo sa: cioce o scarponi, è questione di opinioni… Il sertão è in ogni parte.

Del demonio? Non dico nulla. Vossignoria domandi qui agli abitanti. Per sciocca cautela, non ne pronunciano il nome – dicono soltanto: il Lo-dica-chi-vuole. Puah! non… Chi molto si evita, ci sta sempre addosso. A quello che si racconta di un certo Aristide – quel tale che abita nel primo palmeto di buritís alla mia mano destra, chiamato Vereda-della-Vacca-Mansa-di-Santa-Rita – ci credono tutti: lui non poù passare in tre posti, designati: perché allora si sente un pianterello, dietro a lui, e una vocetta che avvisa: “Vengo anch’io! Vengo anch’io!…” ed è l’incappucciato, il Lo-dica-chi-vuole… E un certo Peppe Simplicio – di cui qualsiasi persona di qui giura che lui si tiene un diavolo in casa, un piccolo satanassino, prigioniero, costretto ad aiutarlo in ogni traffico in cui lui si mette; ragion per cui Simplicio si trova ben avviato sulla strada della ricchezza. Basta, per questo dicono anche che la cavalcatura davanti a lui rizza il pelo, scarta di lato, non lo lascia montare, quando lui vorrebbe… Superstizione. Peppe Simplicio e Aristide, con queste storie, che sentono e non sentono, ci si stanno addirittura ingrassando. Considere ancora vossignoria: proprio adesso, in questi giorni, c’è chi racconta che il Diavolo in persona s’è fermato, di passagio, ad Andrequicé. Un Giovane forestiero, sarebbe apparso, e lí si vantò che, per venire qui – roba, normale, a cavallo, di un giorno e mezzo – lui era capace di farcela in appena un venti minuti… perché avrebbe costeggiato il Rio di San Francisco girando per le sorgenti. O, anche, chi sa – senza offesa – se non è stato, per esempio, addirittura vossignoria ad annunciarsi cosí, quando è passato di là, tanto per il gusto di spassarsela? No, no, non me ne faccia colpa, so bene che lei non è stato. E non l’ho detto per male. Solo che una domanda, al momento giusto, a volte, chiarisce la ragione e ci dà pace. Ma, vossignoria comprenda: quel tal giovane, seppure esiste, ha voluto ridere alle spalle degli altri. Perché, eh, fare il giro del Rio per le sorgenti, è la stessa cosa che andare avanti e indietro per l’interno di questo nostro Stato, viaggio che ci vogliono almeno un tre mesi… E allora? Lo-dica-chi-vuole? Vaneggiamento. Una fantasticheria. E, la precauzione di dargli cosí quei nomi di copertura, è proprio un chiedere a tutti i costi che quello formi forma, con tanto di presenza!

Non sia mai. Io, personalmente, a lui non ci credo quasi più, grazie a Dio: è quanto dico a vossignoria, con tutto candore. So che è ben consolidato, che si estende per i Santi-Vangeli. Una volta, ebbi occasione di parlarne con un giovane seminarista, molto a posto, che consultava il libro delle preghiere e indossava i paramenti, e aveva una verga di mariapreta in mano – mi disse che andava ad aiutare il prete, a estirpare il Detto, dal corpo vivo di una vecchia, a Salto-dei-Buoi, andava col parroco di Campo-Redondo… Si figuri. Vossignoria non è come me? Non ci credetti per niente. Il mio compare Clemente spiega che quel che si manifesta in effeti sono gli spiriti bassi disincarnati, di terza categoria, che sbaraondano nelle peggiori tenebre, con una gran voglia di appiccicarsi ai vivi – per appoggio. Il mio compare Clemente è che mi dà molto conforto – Clemente do Gois. Ma lui purtroppo abita lontano da qui, a Gigiugian, Vereda del Burití Scuro… Basta, lasciamo stare che – in indemoniamento o con appoggio – anche vossignoria deve averne conosciuti diversi, uomini, donne. Non è cosí? Quanto a me, tanti ne ho visti, che ho imparato. Il Ghignone, Sangue-d’Altro, il Labbruto, Squarcia-in-Basso, Lama-Fredda, il Godi-Chiappe, un Treciziano, il Rugginoso… l’Ermogene… Di quelli, un mucchio. Se potessi dimenticare tanti nomi… Non sono domatore di cavalli! E poi, se uno si mette a fare la vita del jagunço, è già per qualche entrante competenza del demonio. Non è cosí? No?

In principio, io facevo e mi agitavo, ma quanto a pensare, non pensavo. Me ne mancavano i tempi. Ho vissuto estraendo il difficile dal difficile, pesce vivo sulla graticola: chi macina nel duro, non può fantasticare. Ma, adesso, fattomi quest’ozio, e senza piccole inquietudini, me ne sto a pancia all’aria. E mi sono creato questo gusto, di speculare idee. Il diavolo esiste o non esiste? Me lo domando. Salvognuno. Queste malinconie. Vossignoria vede: esiste la cascata d’acqua; e allora? Ma la cascata è terreno scosceso, e acqua che viene giú, precipitando; vossignoria consuma quell’acqua, o spiana quel terreno, ci rimane forse la cascata? Vivere è una faccenda molto pericolosa…

Mi spiego: il diavolo vige dentro l’uomo, nelle increspature dell’uomo – o è l’uomo rovinato, o l’uomo degli occulti. Sciolto, di per sé, libero cittadino, è che non esiste diavolo nessuno. Nessuno! – è quel che dico. Vossignoria concorda? Mi dichiari tutto, con franchezza – è grazia grande che mi fa: e chiedere posso, con molto calore. Questo caso – per stravaganti che io possa sembrare – è di particolare interesse per me. Magari non fosse… Ma, non mi dica che vossignoria, cosí assenato e istruito, crede nella persona di quello?! No? La ringrazio. La sua alta opinione mi dà forza. Già la sapevo, me l’aspettavo – con certezza! Ah, la gente, nella vecchiaia, ha bisogno di avere la sua brezza di riposo. La ringrazio. Non c’è diavolo nessuno. Neppure spirito. Non l’ho mai visto. Se qualcuno doveva vederlo, ero proprio io, questo suo servo. Se le raccontassi… Bene, il diavolo regola il suo nero essere, nelle creature, nelle donne, negli uomini. Perfino: nei bambini – dico io. Non c’è forse il detto: “ragazzino – roba del diavolo?” E negli usi, nelle piante, nelle acque, nella terra, nel vento… Sterco… Il diavolo per la via, in mezzo al vortice…

Eh? Eh? Ah. Immaginazione mia, dal peggio all’indietro, i ricordi certi. Accidenti a me! Reccontare non mi fa male… Anzi, presti attenzione: ebbene, in uno stesso terreno, e con lo stesso formato di rami e di foglie, non cresce la manioca buona, che si mangia comunemente, e la manioca selvatica, che uccide? Ora, vossignoria ha già visto questa stranezza? La manioca dolce può all’improvviso diventare arrabbiata – per quale motivo, non so; a volte si dice che è perché ripiantata sempre nello stesso terreno, con talee continuate – si va facendo amara, di tanto in tanto, si avvelena da sé. E, ora, veda: l’altra, la manioca selvatica, anche quella, può a volte divenire buona, chi sa perché, da poterla mangiare senza alcun male. E questo che è? Eh, vossignoria ha già visto, per caso, la bruttezza di odio increspato, grintuto, sul muso di un serpente a sonagli? Ha osservato il maiale grasso, bruto felice ogni giorno di piú, capace, potesse, di sgrufolarsi e di trangugiare per la sua porca comodità il mondo tutto? E falchi, corvi, in alcuni l’aspetto già rappresenta il bisogno di tagliare avanti a loro, di squarciare e fare a pezzi a colpi di becco, sembrano forbici bene affilate da un desiderio malvagio. Tutto. Ci sono perfino razze di pietre sbagliate, orribili, velenose – che inquinano di morte l’acqua, se giacciono in fondo a un pozzo; il diavolo dorme dentro di esse; sono il demonio. Si sa? E il demonio – che è solo cosí il significato di un’intelligenza maligna – ha l’ordine di seguirne il cammino, ha licenza di battere la campagna?! Basta, lui sta mescolato in tutte le cose.

Quel che consuma, che va consumando il diavolo, dentro la gente, a poco a poco, è il ragionevole soffrire. E l’allegria d’amore – dice il mio compare Clemente. La famiglia. Davvero? Sí, e no. Vossignoria può essere d’accordo e può non esserlo. Tutto è e non è. Ogni puí grave criminale feroce, quasi sempre è buon marito, buon figlio, buon padre, ed è buon amico-dei-suoi-amici! Ne conosco. Solo che hanno i dopo – e Dio, insieme. Ho visto molte nuvole.

Ma, a dire il vero, i figli, anche addolciscono. Guardi: un tale chiamato Alessio, residente a una lega dal Passo del Pubo, sul Torrente della Sabbia, era uomo delle maggiori cattiverie a freddo che mai si fosse visto. C’era, vicino alla sua casa, una piacevole piccola pescaia, tra le palme, con trairas, grandi fuori del comune, stragrandi, di fatto, che divennero famose; Alessio dava loro da mangiare, all’ora giusta, e quelle si erano abituate a venir fuori dai nascondigli, per mangiare, sembravano pesci ammaestrati. Un giorno, cosí solo per scherzo grossolano, ammazzò un vecchietto che passava di là, mezzo invalido e chiedeva l’elemosina. Vossignoria stia pur certo – c’è gente, in questo mondo noioso, che ammazza solo per vedere un altro fare una smorfia… Eh, dunque, poi, il resto vossignoria comprovi: viene il pan, vien la man, viene il san, viene il can. Quel tale Alessio aveva famiglia, con figli piccoli; e quelli erano il suo amore, tutto, uno sproposito. Presti bene attenzione, manco era passato un anno, dall’ammazzare quel vecchietto povero, e i bambini di Alessio s’ammalarono. Epidemia di morbillo, si disse, ma complicato; non guarivano mai. Poi, finalmente, guarirono. Ma i loro occhi divennero rossi rossi, in un’infiammazione di blefarite ribelle; e successivamente – quel che non so è se accadde a tutti insieme, o prima all’uno e poi all’altro – quelli rimasero ciechi. Ciechi senza il condono di un tantinello cosí di questa nostra luce! Immagini vossignoria: una scaletta – tre bambini e una bambina – tutti accecati. Senza rimedio possibile. Alessio non perse il senno; ma cambiò: ah, cambiò per completo – adesso vive dalla parte di Dio, sudando per essere buono e caritatevole a tutte le ore della notte e del giorno. Sembra addirittura che sia diventato felice, quel che prima non era. Lui stesso dice di essere stato un uomo fortunato, perché Dio ha voluto aver compassione di lui, e mutare la rotta della sua anima. Quando ho inteso questo, mi è venuta rabbia. Per via dei bambini. Se si trattava di castigar lui, che colpa delle malefatte di Alessio avevano quelle creaturine?

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Fonte: Rosa, João Guimarães. Grande sertão: romanzo. Tradotto da Edoardo Bizzarri. Firenze: Giangiacomo Feltrinelli Editore, 1970. Cap. 1. p. 9-13.





Bio fornecida pelo palestrante.

LA TERZA SPONDA DEL FIUME




Autor: João Guimarães Rosa
Título: La terza sponda del fiume
Idiomas: ita
Tradutor: Giulia Lanciani(ita)
Data: 28/12/2004

LA TERZA SPONDA DEL FIUME


João Guimarães Rosa

I

Questa è la storia. Andava un bambino, com gli Zii, a passare dei giorni nel luogo in cui si construiva la grande cittá. Era um viaggio inventato nel felice; per lui, si svolgeva in circostanza di sogno. Uscivano ancora col buio, l´aria fine di odori sconosciuti. La Madre e il Padre lo accompagnavano all´aeroporto. La Zia e lo Zio lo prendevano in consegna, convenientemente. Ci si sorrideva, ci si salutava, tutti si ascoltavano e parlavano. L´aereo era della Campagnia, speciale, a quattro posti. Gli rispondevano a tutte le domande, perfino il pilota chiacchierò com lui. Il vollo sarebbe durato poco più di due ore. Il bambino fremeva dall´eccitazione, contento de ridersela tra sé, languidamente, con un´aria di foglia che cade. La vita poetva a volte risplendere in uma verità straordinaria. Ache l´allacciargli la cintura di scurezza si mutava in forte carezza, di protezione, e subito um nuovo senso di esperanza: per il non-saputo, il più. Cosi um crescere e scomprimersi – certo como l´atto di respirare – quello di fuggire verso lo spazio in bianco. Il Bambino.
E le cose venivano dolcemente d´improvviso, seguendo un´armonia previa, benefica, in movimenti concordanti: le soddisfazioni prima della conscienza dei bisogni. Gli davano caramelle, gomme, a scelta. Sollecito tanto era bem-disposto, lo Zio gli insegnava come reclinare il sedile – bastava Che premesse la leva. Il suo posto era quello dell´oblò, serso il mobile mondo. Gli passavano riviste, da sfogliare, quante ne voleva, perfino una carta geográfica, e gli indicavano i punti in cui ora e ora se trovavano, sopra dove. Il Bambino le abbandonava, annoiato, sulle ginocchia, e guardava: le nuvole di accumulata amablità, l´azzurro di sola ária, quella chiarità diffusa,il suolo piatto in visione cartografica, ripartito in boscaglia e campi, il verde che trascorreva a gialli e vermegli e a bruno e a verde; e, al di là, bassa, la montagna. Uomini , bambini, cavalli e buoi – così insetti? Volavano supremamente. Il Bambino, ora, viveva; la sua alegria sprizzava tutti i raggi. Sedeva, tutto intero, dentro il soffice rumore dell´aereo: il bel giocattoto laborioso. Ancora non si era reso conto, in effetti, dia ver voglia di mangiare, che già la Zia gli offriva dei sandwiches, e lo Zio gli prometteva le molte cose Che avrebbe giocato e visto, e fatto e passegiato, appena arrivati. Il Bambino aveva tutto in uma volta, e nulla, davanti allá mente. La luce e la lunga-lunga-lunga nuvola. Arrivavano.

II

Quando appena vacillava il mattino. La grande cittá cominciava allora a farsi, in uma semilanda, sull´altopiano: la mágica monotonia, la diluita aria. Il campo di atterraggio era a poça distanza dalla casa, di legno, su grossi pali, quasi a penetrare la foresta. Il Bambino vedeva, intravedeva. Respirava forte. Avrebbe potuto vedera ancora più vividamente – le nuove tante cose – quel che ai suoi occhi si pronunciava. L´abitazione era piccola, si passava súbito alla cucina, e a quel che non era próprio uns giardino, piuttosto breve radura, con gli alberi che non possono entrare dentro casa. Alte, liane e orchidee gialle da essi pendevano. Da lì, potevano uscire índios, il giaguaro, leone, lupi, cacciatori. Solo suoni. Uno – e altri uccelli – dai lunghi canti. Fu questo ad aprirgli il cuore. Quegli uccelli bevevano acquavite? Signore! Quando avvistò il tacchino, imperiale, gli dava le spalle, per ricevere la sua ammirazione. Aveva esploso la coda, e si gonfiò, facendo la ruota: il raspare delle ali per terra – brusco, rude, – si era proclamato. Gloglottò, scuotendo il bargiglio denso de chicchi Rossi, e la testa aveva screziature d´um azzurro-chiaro, raro, di cielo e sanhaços: e lui, completo, tornito, rotondoso, tutto in sfere e piani, com riflessi di verdi metalli in azzurro-e-nero – il tacchino per sempre. Bello, bello! Aveva um che di calore, potere e fiore, um traboccamento. La sua ispida grandezza tonitruante. La sua colorita arroganza. Soddisfaceva gli occhi, era da suonare la tromba. Callerico, tronfio, muovendosi sgorgogliò altro gluglu. Il Bambino rise, com tutto il cuore. Ma solo bis-vide. Già lo chiamavano, per la passeggiata.

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Fonte: ROSA, João Guimarães. La terza sponda del fiume. Traduzione di Giulia Lanciani. Milano: Oscar Mondadori, 2003. p. 7-9





Bio fornecida pelo palestrante.

PRIMEIRAS ESTÓRIAS




 
Autor: João Guimarães Rosa
Título: Primeiras Estórias, Premìeres Histoires
Idiomas: port, fra
Tradutor: Ines Oseki Depré(fra)
Data: 28/12/2004

PRIMEIRAS ESTÓRIAS
I


João Guimarães Rosa

Esta é a estória. Ia um menino, com os Tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho. Saíam ainda com o escuro, o ar fino de cheiros desconhecidos. A Mãe e o Pai vinham trazê-lo ao aeroporto. A Tia e o Tio tomavam conta dele, justinhamente. Sorria-se, saudava-se, todos se ouviam e falavam. O avião era da Companhia, especial, de quatro lugares. Respondiam-lhe a todas as perguntas, até o piloto conversou com ele. O vôo ia ser pouco mais de duas horas. O menino fremia no acorçôo, alegre de se rir para si, confortavelzinho, com um jeito de folha a cair. A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária. Mesmo o afivelarem-lhe o cinto de segurança virava forte afago, de proteção, e logo novo senso de esperança: ao não-sabido, ao mais. Assim um crescer e desconter-se – certo como o ato de respirar – o de fugir para o espaço em branco. O Menino.
E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades. Davam-lhe balas, chicles, à escolha. Solicito de bem-humorado, o Tio ensinava-lhe como era reclinável o assento – bastando a gente premer manivela. Seu lugar era o da janelinha, para o móvel mundo. Entregavam-lhe revistas, de folhear, quantas quisesse, até um mapa, nele mostravam os pontos em que ora e ora se estava, por cima de onde. O Menino deixava-as, fartamente, sobre os joelhos, e espiava: as nuvens de amontoada amabilidade, o azul de só ar, aquela claridade à larga, o chão plano em visão cartográfica, repartido de roças e campos, o verde que se ia a amarelos e vermelhos e a pardo e a verde; e, além, baixa, a montanha. Se homens, meninos, cavalos e bois – assim insetos? Voavam supremamente. O Menino agora, vivia; sua alegria despedindo todos os raios. Sentava-se, inteiro, dentro do macio rumor do avião: o bom brinquedo trabalhoso. Ainda nem notara que, de fato, teria vontade de comer, quando a Tia já lhe oferecia sanduíches. E prometia-lhe o Tio as muitas coisas que ia brincar e ver, e fazer e passear, tanto que chegassem. O Menino tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente. A luz e a longa-longa-longa nuvem. Chegavam.

II

Enquanto mal vacilava a manhã. A grande cidade apenas começava a fazer-se, num semi-ermo, no chapadão: a mágica monotonia, os diluídos ares. O campo de pouso ficava a curta distancia da casa – de madeira, sobre estacões, quase penetrando na mata. O Menino via, vislumbrava. Respirava muito. Ele queria poder ver ainda mais vivido – as novas tantas coisas – o que para os seus olhos se pronunciava. A morada era pequena, passava-se logo à cozinha, e ao que não era bem quintal, antes breve clareira, das árvores que não podem entrar dentro de casa. Altas, cipós e orquideazinhas amarelas delas se suspendiam. Dali, podiam sair índios, a onça, leão, lobos, caçadores? Só sons. Um – e outros pássaros – com cantos compridos. Isso foi o que abriu seu coração. Aqueles passarinhos bebiam cachaça?
Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão – brusco, rijo, – se proclamara. Grugrulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto – o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O Menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para passeio.

III

Iam de jipe, iam aonde ia ser um sítio do Ipê. O Menino repetia-se em íntimo o nome de cada coisa. A poeira, alvissareira. A malva-do-campo, os lentiscos. O velame-branco, de pelúcia. A cobra-verde, atravessando a estrada. A arnica: em candelabros pálidos. A aparição angélica dos papagaios. As pitangas e seu pingar. O veado campeiro: o rabo branco. As flores em pampa arroxeadas da canela-de-ema. O que o Tio falava: que ali havia “imundície de perdizes”. A tropa de seriemas, além, fugindo, em fila, índio-a-índio. O par de garças. Essa paisagem de muita largura, que o grande sol alagava. O buriti, a beira do corguinho, onde, por um momento, atolaram. Todas as coisas, surgidas do opaco. Sustentava-se delas sua incessante alegria, sob espécie sonhosa, bebida, em novos aumentos de amor. E em sua memória ficavam, no perfeito puro, castelos já armados. Tudo, para a seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido. Ele estava nos ares.
Pensava no peru, quando voltavam. Só um pouco, para não gastar fora de hora o quente daquela lembrança, do mais importante, que estava guardado para ele, no terreirinho das árvores bravas. Só pudera tê-lo um instante, ligeiro, grande, demoroso. Haveria um, assim, em cada casa, e de pessoa?
Tinham fome, servido o almoço, tomava-se cerveja. O Tio, a Tia, os engenheiros. Da sala, não se escutava o galhardo ralhar dele, seu grugrulejo? Esta grande cidade ia ser a mais levantada no mundo. Ele abria leque, impante, explodido, se enfunava… Mal comeu dos doces, a marmelada, da terra, que se cortava bonita, o perfume em açúcar e carne de flor. Saiu, sôfrego de o rever.
Não viu: imediatamente. A mata é que era tão feia de altura. E – onde? Só umas penas, restos, no chão. – “Ué, se matou. Amanhã não é o dia-de-anos do doutor?” Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam. Como podiam? Por que tão de repente? Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru – aquele. O peru – seu desaparecer no espaço. Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama de morte. Já o buscavam: – “Vamos aonde a grande cidade vai ser, o lago…”

IV

Cerrava-se, grave, num cansaço e numa renuncia a curiosidade, para não passear com o pensamento. Ia. Teria vergonha de falar do peru. Talvez não devesse, não fosse direito ter por causa dele aquele doer, que põe e punge, de dó, desgosto e desengano. Mas, matarem-no, também, parecia-lhe obscuramente algum erro. Sentia-se sempre mais cansado. Mal podia com o que agora lhe mostravam, na circuntristeza: o um horizonte, homens no trabalho de terraplenagem, os caminhões de cascalho, as vagas árvores, um ribeirão de águas cinzentas, o velame-do-campo apenas uma planta desbotada, o encantamento morto e sem pássaros, o ar cheio de poeira. Sua fadiga, de impedida emoção, formava um medo secreto: descobria o possível de outras adversidades, no mundo maquinal, no hostil espaço; e que entre o contentamento e a desilusão, na balança infidelíssima, quase nada medeia. Abaixava a cabecinha.
Ali fabricava-se o grande chão do aeroporto – transitavam no extenso as compressoras, caçambas, cilindros, o carneiro socando com seus dentes de pilões, as betumadoras. E como haviam cortado lá o mato? – a Tia perguntou. Mostraram-lhe a derrubadora, que havia também: com a frente uma lamina espessa, feito limpa-trilhos, a espécie de machado. Queria ver? Indicou-se uma árvore: simples, sem nem notável aspecto, a orla da área matagal. O homenzinho tratorista tinha um taco de cigarro na boca. A coisa pôs-se em movimento. Reta, até que devagar. A árvore, de poucos galhos no alto, fresca, de casca clara… e foi só o chofre: ruh… sobre o instante ela para lá se caiu, toda, toda. Trapeara tão bela. Sem nem se poder apanhar com os olhos o acertamento – o inaudito choque – o pulso da pancada. O Menino fez ascas. Olhou o céu – atônito de azul. Ele tremia. A árvore, que morrera tanto. A limpa esguiez do tronco e o marulho imediato e final de seus ramos – da parte de nada. Guardou dentro da pedra.

V

De volta, não queria sair mais ao terreirinho, lá era uma saudade abandonada, um incerto remorso. Nem ele sabia bem Seu pensamentozinho estava ainda na fase hieroglífica. Mas foi, depois do jantar. E – a nem espetaculosa surpresa – viu-o, suave inesperado: o peru, ali estava! Oh, não. Não era o mesmo. Menor, menos muito. Tinha o coral, a arrecauda, a escova, o grugrulhar grufo, mas faltava em sua penosa elegancia o recacho, o englobo, a beleza esticada do primeiro. Sua chegada e presença, em todo o caso, um pouco consolavam.
Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia; isto era: já o vir da noite. Porém, o subir da noitinha e sempre e sofrido assim, em toda a parte. O silêncio saía de seus guardados. O Menino, timorato, aquietava-se com o próprio quebranto: alguma força, nele, trabalhava por arraigar raízes, aumentar-lhe alma.
Mas o peru se adiantava até a beira da mata. Ali adivinhara – o que? Mal dava para se ver, no escurecendo. E era a cabeça degolada do outro, atirada ao monturo. O Menino se doía e se entusiasmava.
Mas: não. Não por simpatia companheira e sentida o peru até ali viera, certo, atraído. Movia-o um ódio. Pegava de bicar, feroz, aquela outra cabeça. O Menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo.
Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! – tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria.
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Fonte: ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 7-12.

 
 
 

PREMIERES HISTOIRES 
LES BORDS DE LA JOIE

João Guimarães Rosa
Voici I’histoire. Un garçon s’en allait, avec ses Oncles, passer quelques jours dans le lieu où on bâtissait la grande ville. C’était un voyage projeté dans la félicité; pour lui, ça arrivait dans un cadre de rêve. Ils partaient encore avec l’obscurité, l’air embaumé d’odeurs inconnues. La Mère et le Père venaient le conduire à l’aéroport. La Tante et l’Oncle prenaient soin de lui, exactement comme il fallait. On se souriait, on se saluait, tous s’écoutaient et se parlaient. L’avion appartenait à la Compagnie, il était spécial, à quatre places. On répondait à toutes ses questions, même le pilote bavarda avec lui. Le vol allait durer un peu plus de deux heures. Le garçon frémissait d’animation, joyeux au point de se rire tout seul, bien confortable, avec une mine de feuille qui tombe. La vie pouvait des fois étinceler d’extraordinaire vérité. Même le fait qu’on lui boucle sa ceinture de sécurité devenait caresse forte, de protection, et tout de suite un nouveau signe d’espoir: vers le non-connu, vers le en-plus. Ainsi un grandissement et une liberation – aussi sûrs que l’acte de respirer – celui vers l’espace en blanc. Le Garçon.
Et les choses arrivaient doucement, soudainement, selon une harmonie préétablie, bienfaisante, dans des mouvements accordés: les satisfactions des besoins avant la conscience d’en avoir. On lui offrait des confiseries, des chewing-gums, au choix. D’une sollicitude de bonne humeur, l’Oncle lui apprenait comment le siège était inclinable, – il suffisait pour cela d’en actionner la manette. Sa place était à côté de la fenêtre, vers le monde mobile. On lui passait des magazines, à feuilleter, autant qu’il en voulait, même une carte, sur laquelle on lui montrait les points où tour à tour on était, par-dessus. Le Garçon les laissait, nombreux, sur ses genoux, et épiait: les nuages d’amabilité entassée, l’azur seulement d’air, cette clarté au large, le sol plat en vision cartographique, entrecoupé de plantations et de champs, le vert qui s’en allait vers des jaunes et des rouges et vers le brun et le vert; et, au-delà, basse, la montagne. Les hommes, les garçons, les chevaux et les boeufs – seraient-ils ainsi des insectes? Ils s’envolaient suprêmement. Le Garçon, maintenant, vivait; sa joie décochant tous les éclats. Il s’asseyait, tout entier, dans l’intérieur de la douce rumeur de l’avion: ce bon jouet compliqué. Il n’avait même pas remarqué encore que, en réalité, il aurait envie de manger, et déjà la Tante lui proposait des sandwiches. Et l’Oncle lui promettait les multiples choses qu’il allait jouer et voir, et faire et promener, dès qu’ils seraient arrivés. Le Garçon avait tout tout d’un coup, et rien, devant l’esprit. La lumière et le lon-lon-long nuage. Ils arrivaient.
II
Tandis que le matin vacillait à peine. La grande ville commençait seulement à se dessiner, dans un semi-désert, sur le plateau: la magique monotonie, les airs dilués. Le terrain d’atterrissage était à peu de distance de la maison – en bois, sur pilotis, pénétrant presque dans la forêt. Le Garçon voyait, entrevoyait. Il respirait beaucoup. Il voulait pouvoir voir encore plus nettement – ces si nombreuses choses – ce qui prenait sens devant ses yeux. L’habitation était petite, on entrait tout de suite dans la cuisine et dans ce qui n’était pas vraiment une cour, plutôt une brève clairière, avec des arbres qui ne peuvent pas entrer dans la maison. Hautes, les lianes, et de petites orchidées jaunes s’y accrochaient. De cet endroit, pouvaient-ils sortir les Indiens, l’ocelot, le lion, les loups, les chasseurs? Rien que des sons. L’un – ou les autres oiseaux – aux longs chants. C’est ce qui ouvrit son coeur. Ces oiseaux-là buvaient-ils de l’eau-de-vie?
Seigneur! Lorsqu’il découvrit le dindon, au centre de la cour, entre la maison et les arbres de la forêt. Le dindon, impérial, lui tournait le dos afin de recevoir son admiration. Il avait étalé sa queue, et il se gonfla, faisant la roue: le raclement des ailes sur le sol – inattendu, ferme, – s’était manifesté. Il glouglouta, secouant son épais boutonnage de plaques rouges; et sa tête avait des éclairs d’un bleu-clair, rare, de ciel et de fantaisie; et lui, en entier, s’autoentourant, rondindon, tout en sphères et plans, avec des ref lets de métaux verts en bleu-et-noir – le dindon pour toujours. Beau, beau! Il avait un je-ne-sais-quoi de chaleur, de pouvoir, de fleur, un débordement. Sa brutale grandeur tonnante. Sa fatuité multicolore. Il faisait plaisir aux yeux, il méritait des trompettes. Colérique, replet, tout en marchant, il criassa un autre glouglou. Le Garçon rit, de tout son coeur. Mais il ne fit que reregarder. Déjà on l’appelait, pour la promenade.
III
Ils allaient en jeep, ils allaient là où il allait y avoir une ferme du Ipé. Le Garçon se répétait intimement le nom de chaque chose. La poussière, annonciatrice de bonnes nouvelles. Le lilas-des-champs, les lentisques. La voilure-blanche, en peluche. La couleuvre-verte traversant la route. L’arnica: en pâles chandeliers. L’apparition angélique des perroquets. Les pitangas et leur goutte-à-goutte. Le cerf des bois: sa blanche queue. Les fleurs en fête tirant sur le violet de la cannelle-du-thoyou. Ce que l’Oncle disait: qu’il y avait là « un écoeurement de perdrix ». Le troupeau des autruches, audelà, s’enfuyant, en rang, en file indienne. Le couple de cigognes. Ce paysage d’une grande étendue, que le grand soleil inondait. Le palmier-bouriti, au bord du ru, où, pendant un instant, ils s’enlisèrent. Toutes les choses, sorties de l’opacité. Il en émanait une joie incessante, sous une forme rêveuse, absorbée, en de nouveaux accroîts d’amour. Et dans sa mémoire demeuraient, dans la perfection pure, des châteaux déjà montés. Tout, à être dûment découvert en son temps, s’était d’abord fait étrange et inconnu. Il planait dans les airs.
Il songeait au dindon, alors qu’ils rentraient. Juste un peu, pour ne pas gaspiller au moment inopportun la chaleur de ce souvenir, le plus important, qui était rangé pour lui, dans la courette des arbres sauvages. Il n’avait pu l’avoir qu’un instant, léger, grand, langoureux. Y en aurait-il un comme ça, dans chaque maison, et de vive-voix?
Ils avaient faim, le déjeuner une fois servi, ils buvaient de la bière. L’Oncle, la Tante, les ingénieurs. De la salle-à-manger ne pouvait-on entendre sa vaillante raillerie, son glougloussement? Cette grande ville allait devenir la plus haute du monde. Il ouvrait I’éventail, comme un sanglot, explosé, se gonflait… Il goûta à peine les gâteaux, la marmelade du pays, qui se laissait découper en beauté, le parfum en sucre et en chair de fleur. Il sortit, dans la hâte de le revoir.
Il ne le vit pas: d’emblée. La forêt était vraiment laide à force d’être si haute. Et – où? Rien que quelques plumes, des restes, par terre. – « Eh bé, on l’a tué. N’est-ce pas demain l’anniversaire du docteur? » Tout perdait de son éternité et de sa certitude; en un souffle, en un instant, on volait aux gens les plus belles choses. Comment le pouvaient-ils? Pourquoi si soudainement? S’il avait su que ça arriverait comme ça, il aurait au moins regardé davantage le dindon – celui-là. Le dindon – son évanouissement dans l’espace. Rien que pendant le grain minuscule d’une minute, le Garçon recevait en lui un milligramme de mort. Déjà on le cherchait: – « Allons là où va être la ville, le lac… »
IV
On s’enfermait, gravement, dans une fatigue et un renoncement à la curiosité afin d’empêcher que la pensée ne se promène. Il s’en allait. Il aurait honte de parler du dindon. Peut-être ne devait-il pas, n’avait-il pas le droit d’éprouver à cause de lui cette douleur, qui blesse et qui fait souffrir, de peine, de dégoût et de désenchantement. Mais, aussi, qu’on l’ait tué lui semblait obscurément une erreur. Il se sentait de plus en plus las. Il ne supportait presque plus ce que maintenant on lui montrait, dans sa circontristesse: celui-là d’horizon, des hommes au travail de terrassement, les camions de graviers, les vagues arbres, un ruisseau aux eaux grises: la voilure-des-champs devenue seulement une plante délavée, 1’enchantement mort et sans oiseaux, l’air plein de poussière. Sa fatigue, d’émotion contenue, fabriquait une peur secrète: il découvrait la possibilité d’autres adversités, dans le monde machinal, dans l’espace hostile; et qu’entre la joie et la désillusion, sur la balance extrêmement infidèle, presque rien ne tranche. Il baissait sa petite tête.
Là-bas on fabriquait la grande piste de l’aéroport – les rouleaux compresseurs transitaient sur l’étendue ainsi que les auges, les meules, le bélier mastiquant aver ses dents de pilons, les bulldozers. Et comment avait-on rasé la broussaille? – demanda la Tante. On lui montra la tronçonneuse, qui était également là: avec sur le devant une lame épaisse, telle une brouteuse, sorte de hache. Voulait-elle voir? On lui désigna un arbre: simple, d’aspect même pas remarquable, à l’orée de la zone des forêts. Le petit homme du tracteur portait un mégot aux lèvres. La chose se mit en marche. Droite, lentement même. L’arbre, avec peu de branches en haut, fraîche, à la peau claire… et il n’y eut que le brutal: ruh… sur-le-champ il s’écroula, entier, entier. Le mât avait craqué si joliment. Sans même qu’on ait le temps d’en appréhender avec les yeux la certitude – le choc insolite – le pouls du heurt. Le Garçon eut un haut-le-coeur. Il regarda le ciel – perplexe dans son azur. Il tremblait. L’arbre, qui était tellement mort. La sveltesse nette du tronc et la houle sonore immédiate et finale de ses branches – venant de rien. Il rangea tout cela à l’intérieur de la pierre.

V
De retour, il ne voulait plus sortir dans la courette, il y avait là un regret abandonné, un remords incertain. Lui-même ne savait pas très bien. Sa petite idée était encore au stade hiéroglyphique. Mais il s’y rendit, après le dîner. Et – la surprise même pas spectaculaire – il le vit, doux inespéré: le dindon, il y était! Oh, non. Ce n’était pas le même. Plus petit, moins excessif. Il en avait le corail, l’ultraqueue, la brosse, le glougloussement sec, mais il manquait à sa pénible élégance l’aplomb, la globalité, la beauté tendue du premier. Sa venue et présence, en tout cas, le consolaient un peu.
Tout s’adoucissait dans son chagrin. Jusqu’au jour ; qui était : déjà l’arrivée de la nuit. Néanmoins, la montée du petit soir est toujours et aussi douloureuse, partout. Le silence sortait de ses cachettes. Le Garçon, timoré, se rassérénait avec sa propre faiblesse: quelque force, en lui, travaillait pour fixer des racines, grandir son âme.
Mais le dindon s’avançait jusqu’au bord de la forêt. Il y avait entrevu – quoi? On voyait à peine, dans l’obscurcissement. Et c’était la tête décapitée de l’autre, jetée aux ordures. Le Garçon se faisait mal et s’enthousiasmait.
Mais: non. Le dindon était arrivé là non pas par sympathie solidaire et bien sentie, même si certainement par une attirance. Une haine l’y poussait. Il se mettait à donner des coups, féroces, de son bec, sur cette autre tête. Le Garçon ne comprenait pas. La forêt, les arbres les plus noirs, c’était un amas trop important; le monde.
Il faisait nuit noire.
La petite lumière verte, cependant, volait, venant vraiment de la forêt, la première luciole. Oui, la luciole, oui, elle était vraiment jolie! – si petite, dans l’air, un seul instant, haute, distante, s’en allant. Il était, une autre fois encore, la Joie.
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Fonte : ROSA, João Guimarães. Premières histoires : nouvelles. Traduit par Inès Oseki Depré. Paris : A. M. Métailié,1962. p. 1-7.




Bio fornecida pelo palestrante.

THE DEVIL TO PAY IN THE BACKLANDS




Autor: João Guimarães Rosa
Título: The devil to pay in the backlands
Idiomas: eng
Tradutor: James L. Taylor and Harriet de Onís(eng)
Data: 28/12/2004

THE DEVIL TO PAY IN THE BACKLANDS


João Guimarães Rosa

It´s nothing. Those shots you heard were not men fighting, God be praised. It was just me there in the back yard, target-shooting down by the creek, to keep in practice. I do it every day, because I enjoy it; have ever since I was a boy. Afterwards, they came to me about a calf, a stray white one, with the queerest eyes, and a muzzle like a dog. They told me about it but I didn’t want to see it. On account of the deformity it was born with, with lips drawn back, it looked like somebody laughing. Man-face or dog-face: that settled it for them; it was the devil. Foolish folk. They killed it. Don’t know who it belonged to. They came to borrow my gun and I let them have it.
You are smiling, amused-like. Listen, when it is a real gunfight, all the dogs start barking, immediately – then when it’s over you go to see if anybody got killed. You will have to excuse it, sir, but this is the sertão. Some say it’s not – that the real sertão is way out yonder, on the high plains, beyond the Urucúia River. Nonsense. For those of Corinto and Curvelo, then, isn’t right here the sertão? Ah, but there’s more to it than that! The sertão describes itself: it is where the grazing lands have no fences; where you can keep going ten, fifteen leagues without coming upon a single house; where a criminal can safely hide out, beyond the reach of the authorities. The Urucúia rises in the mountains to the west. But today, on its banks, you find everything: huge ranches bordering rich lowlands, the flood plains: farmsthat stretch from woods; thick trees in virgin forests – some are still standing. The surrounding lands are the gerais. These gerais are endless. Anyway, the gentleman knows how it is: each one believes what he likes: hog, pig, or swine, it’s as you opine. The sertão is everywhere.
About the devil? I have nothing to say. Ask the others around here. Like fools, they’re afraid even to mention his name; instead they say the Que-Diga, the What-You-May-Call-Him. Bah! Not me. Over-avoiding a thing is a way of living with it. Take Aristides, who lives in that palm grove there on the right, on the creek called Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita. Everybody believes what he says: that there are certain places, three of them, that he can’t go near without hearing a faint crying behind him, and a little voice saying: “I’m coming! I’m coming!” It’s the Whoosis, the What-You-May-Call-Him. And then take Jisé Simplício. Anybody here will swear to you that he keeps a captive demon in his house – a little imp who is obliged to help him in his shady dealings, which is why Simplício is on his way to getting rich. They say this is also the reason Simplício’s horse shivers and shies when Simplício tries to mount. Superstition. Jisé Simplício and Aristides are prospering, imp or no imp. Now listen to this: there are people who insist that the devil himself stopped off at Andrequicé while passing through there recently. It seems that a certain young man, a stranger, showed up and boasted that he could get from there here in only twenty minutes – it takes a full day and a half on horseback – because he would go around the headwaters of the Rio do Chico. * Perhaps, who knows – no offense intended – it could have been you yourself when you passed through there, just joking for the fun of it? Don’t hold it against me – I know you didn’t. I meant no harm. It is just that sometimes a question at the right time clears the air. But, you understand, sir, if there was such a young man, he just wanted to pull somebody’s leg. Because, to circle the headwaters he would have to go deep into this state of ours and then double back, a trip of some three months. Well, then? The whoosis? Nonsense. Imagination. And then this business of politely calling the devil by other names – that’s practically inviting him to appear in person, in the flesh! Me, I have just about lost all my belief in him, thanks to Gog; and that’s the honest truth I’m telling you, though I know he is taken for a fact and the Holy Gospels are full of him. Once I was talking with a young seminarian, very amiable he was, turning the pages and reading en his prayer book. He had on his vestments and bore a wand of chaste-tree in his hand. He said he was going to help the priest drive the Whoosis out of an old woman os Cachoeira-dos-Bois. I don’t believe a word of it. My compadre Quelemém claims that it’s the lower spirits that cause these manifestations, the third-class ones, milling about in the pitch darkness, seeking contact with the living, and that sometimes they will give a man real support. My compadre Quelemém is the one who eases my mind – Quelemém de Góis is his full name. But he lives so far from here – at Jijujã, on the Vereda do Burití Pardo. But tell me, when it comes to being possessed of a devil, or helped by one, you too must have known of cases – men – women? Isn’t that so? As for me, I’ve seen so many that I learned to spot them: Rincha-Mãe, Sangue-d’outro, Muitos-Beiços, Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, Fancho-Bode, a certain Treciziano, Azinhavre, Hermógenes – a whole herd of them. If I could only forget so many names… I’m not a horse wrangler. And besides, anyone who fools around with the notion of becoming a jagunço, as I did, is already opening the door to thedevil. Yes? No?
In my early days, I tried my hand at this and that, but as for thinking, I just didn’t. Didn’t have time. I was like a live fish on a griddle – when you’re hard-pressed you waste no time in day-dreams. But now, with time on my hands and no special worries, I can lie in my hammock and speculate. Does the devil exist, or doesn’t he? That’s what I’d like to know. I give up. Look: there is such a thing as a waterfall, isn’t there? Yes, but a waterfall is only a high bank water tumbling over the edge. Take away the water, or level the bank – what becomes of the waterfall? Living is a very dangerous business…
Let me try to explain: when the devil is inside a man, in his guts, the man is either evil or suffers bad luck. But, on his own, a man as such has no devil in him. Not one! Do you agree? Tell me frankly – you’ll be doing me a great favor, and I ask it of you from my heart. This matter, however foolish it may seem, is important to me. I wish it wasn’t. But don’t tell me that a wise and learned person like you, sir, believes in the devil! You don’t? I thank you. Your opinion reassures me. I knew you felt that way – I expected you would – I give you credit for it. Ah! When a man is old he needs to rest easy. I thank you again. All right, then, there is no devil. And no spirits. I never saw any. And if anybody was to see one, it should be me, your humble servant. If I was to tell you… So, the devil rules his black kingdom, in animals, in men, in women. Even in children, I say. For isn’t there a saying: “A child – spawn of the devil?” And in things, in plants, in waters, in the earth, in the wind… “The devil in the street, in the middle of the whirlwind.”
What? Ah, yes. Just an idea of mine, memories of things worse than bad. It’s not that it hurts me to talk about them. It’s better, it relieves me. Look here: in the same ground, and with branches and leaves of the same shape, doesn’t the sweet cassava, which we eat, grow and the bitter cassava, which kills? Now the strange thing is that the sweet cassava can turn poisonous – why, I don’t know. Some say it is from being replanted over in the same soil, from cuttings – it grows more and more bitter and then poisonous. But the other, the bitter cassava, sometimes changes too, and for no reason turns sweet and edible. How do you account for that? And have you ever seen the ugliness of glaring hate in the eyes of a rattlesnake? Or a fat hog, happier every day in its brutishness, that would gladly swallow the whole world if it could, for its filthy satisfaction? And some hawks and crows – just the look of them shows their need to slash and tear with that beak honed sharp by evil desire. There are even breeds of twisted, horrible, rocks, that poison the water in a well, if they lie at the bottom of it. The devil sleeps in them. Did you know that? And the devil – which is the only way you can call a malign spirit – by whose orders and by what right does he goes around doing as he damn well pleases? Mixed up in everything, he is.
What wears him out, little by little, the devil inside folks, is suffering wisely. Also the joy of love – so say my compadre Quelemém. The family. Is that the thing? It is and it isn´t. Everything is and isn´t . The most ferocious criminal, of the worst kind, is often a good husband, a good son, a god father, a good friend of his friends. I´ve known some like that. Only, there is the hereafter – and God too. Many´s the cloud I´ve seen.
But, truly, children do soften one. Listen to this: a certain Aleixo, who lives a league from Passo do Pubo , on the Areia River, used to be one of the most cold-blooded villains you ever heard of. Near his house he had a little pond among the palm trees, sand in it he kept some fierce traíras, immense ones, famous fort heir size. Aleixo used to feed them every day at the same hour, and soon they learned to come out of their hiding places to be fed, just as if they were trained. Well, one day, just for the hell of it. Aleixo killed a little old man who had come around begging. Don´t you doubt it, sir, there are people in this hateful world who kill others just to see the faces they make as they die. You can foresee the rest: comes the bat, comes the rat, comes the cat, comes the trap. This Aleixo was a family man, with young children, whom heloved beyond all reason. Now, listen to this: less than a year after killing the old man, Aleixo´s children took sick. A mild epidemic of measles, it was said, but complications set in; it seemed as though the children would never get well. Finally they got over it. But their eyes became red, terribly inflamed, and nothing seemed to do any good. Then – I don´t know whether all the same time or one by one – they all went blind. Blind, without a glimmer of light. Just think of it – stairsteps, three little boys and a little girl – all blind. Hopelessly blind.
Aleixo did not lose his mind, but he changed; ah, how he changed! Now, he lives on God´s side, sweating to be good and kind every hour of the day and the night. It even seems that he has become happy which he wasn´t before – considers himself lucky, he says, because God chose to take pity on him, changing the direction of his soul in that way. When I heard that it made my blood boil! Because of the children. If Aleixo had to be punished, how were the little ones to blame for his sins?

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Fonte: ROSA, João Guimarães. The devil to pay in the backlands. Translated by James L. Taylor and Harriet de Onís. New York, Knopf, 1963. p. 3-8.





Bio fornecida pelo palestrante.

I-Juca-Pirama




Autor: Gonçalves Dias

Título: I-Juca-Pirama
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 28/12/2004

I-Juca-Pirama

Gonçalves Dias

I
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.
No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.
Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: — de um povo remoto
Descende por certo — dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.
Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: — no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incubem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.
Acerva-se a lenha da vasta fogueira
Entesa-se a corda da embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.
Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,

II
Em fundos vasos d’alvacenta argila
Ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa,
Reina o festim.
O prisioneiro, cuja morte anseiam,
Sentado está,
O prisioneiro, que outro sol no ocaso
Jamais verá!
A dura corda, que lhe enlaça o colo,
Mostra-lhe o fim
Da vida escura, que será mais breve
Do que o festim!
Contudo os olhos d’ignóbil pranto
Secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas
Do coração.
Mas um martírio , que encobrir não pode,
Em rugas faz
A mentirosa placidez do rosto
Na fronte audaz!
Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
No passo horrendo?
Honra das tabas que nascer te viram,
Folga morrendo.
Folga morrendo; porque além dos Andes
Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
Da fria morte.
Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
Lá murcha e pende:
Somente ao tronco, que devassa os ares,
O raio ofende!
Que foi? Tupã mandou que ele caísse,
Como viveu;
E o caçador que o avistou prostrado
Esmoreceu!
Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes
Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
Da fria morte.

III
Em larga roda de novéis guerreiros
Ledo caminha o festival Timbira,
A quem do sacrifício cabe as honras,
Na fronte o canitar sacode em ondas,
O enduape na cinta se embalança,
Na destra mão sopesa a iverapeme,
Orgulhoso e pujante. — Ao menor passo
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra,
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
Como que por feitiço não sabido
Encantadas ali as almas grandes
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
Serem glória e brasão d’imigos feros.
“Eis-me aqui”, diz ao índio prisioneiro;
“Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
“As nossas matas devassaste ousado,
“Morrerás morte vil da mão de um forte.”
Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
“Dize-nos quem és, teus feitos canta,
“Ou se mais te apraz, defende-te.” Começa
O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.

IV
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.
Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes — escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.
E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.
Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.
Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!
O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.
Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, — dizei!
Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.
Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? — Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

V
Soltai-o! — diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
— És livre; parte.
— E voltarei.
— Debalde.
— Sim, voltarei, morto meu pai.
— Não voltes!
É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
— Acaso tu supões que me acobardo,
Que receio morrer!
— És livre; parte!
— Ora não partirei; quero provar-te
Que um filho dos Tupis vive com honra,
E com honra maior, se acaso o vencem,
Da morte o passo glorioso afronta.
— Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!… parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.
Sobresteve o Tupi: — arfando em ondas
O rebater do coração se ouvia
Precípite. — Do rosto afogueado
Gélidas bagas de suor corriam:
Talvez que o assaltava um pensamento…
Já não… que na enlutada fantasia,
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do velho pai a moribunda imagem
Quase bradar-lhe ouvia: — Ingrato! Ingrato!
Curvado o colo, taciturno e frio.
Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI
— Filho meu, onde estás?
— Ao vosso lado;
Aqui vos trago provisões; tomai-as,
As vossas forças restaurai perdidas,
E a caminho, e já!
— Tardaste muito!
Não era nado o sol, quando partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!
— Sim demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convém partir, e já!
— Que novos males
Nos resta de sofrer? — que novas dores,
Que outro fado pior Tupã nos guarda?
— As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.
— Mas tu tremes!
— Talvez do afã da caça….
— Oh filho caro!
Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!… —
E com mão trêmula, incerta
Procura o filho, tateando as trevas
Da sua noite lúgubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente…
Do filho os membros gélidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo: — foge, volta,
Encontra sob as mãos o duro crânio,
Despido então do natural ornato!…
Recua aflito e pávido, cobrindo
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Daquele exício grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Ele o via; ele o tinha ali presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dor passada, a previsão futura
E o presente tão negro, ali os tinha;
Ali no coração se concentrava,
Era num ponto só, mas era a morte!
— Tu prisioneiro, tu?
— Vós o dissestes.
— Dos índios?
— Sim.
— De que nação?
— Timbiras.
— E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebraste a maça…
— Nada fiz… aqui estou.
— Nada! —
Emudecem;
Curto instante depois prossegue o velho:
— Tu és valente, bem o sei; confessa,
Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!
— Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia….
— E depois?…
— Eis-me aqui.
— Fica essa taba?
— Na direção do sol, quando transmonta.
— Longe?
— Não muito.
— Tens razão: partamos.
— E quereis ir?…
— Na direção do acaso.

VII
“Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedestes
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis, — e mas foram
Senhores em gentileza.
“Eu porém nunca vencido,
Nem nos combates por armas,
Nem por nobreza nos atos;
Aqui venho, e o filho trago.
Vós o dizeis prisioneiro,
Seja assim como dizeis;
Mandai vir a lenha, o fogo,
A maça do sacrifício
E a muçurana ligeira:
Em tudo o rito se cumpra!
E quando eu for só na terra,
Certo acharei entre os vossos,
Que tão gentis se revelam,
Alguém que meus passos guie;
Alguém, que vendo o meu peito
Coberto de cicatrizes,
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por pai se ufane!”
Mas o chefe dos Timbiras,
Os sobrolhos encrespando,
Ao velho Tupi guerreiro
Responde com tôrvo acento:
— Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto. —
Do velho Tupi guerreiro
A surda voz na garganta
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre,
Que pouco a pouco se assanha!

VIII
“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
“Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
“Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.
“Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!
“Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.
“Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és.”

IX
Isto dizendo, o miserando velho
A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservara,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando. — Alarma! alarma! — O velho pára!
O grito que escutou é voz do filho,
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
Noutra quadra melhor. — Alarma! alarma!
— Esse momento só vale a pagar-lhe
Os tão compridos transes, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: — vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera,
Tomado pelo súbito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exaurido coração remoça.
A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, enovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se acende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem,
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravam.
Era ele, o Tupi; nem fora justo
Que a fama dos Tupis — o nome, a glória,
Aturado labor de tantos anos,
Derradeiro brasão da raça extinta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.
— Basta! Clama o chefe dos Timbiras,
— Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. —
O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
“Este, sim, que é meu filho muito amado!
“E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
“Corram livres as lágrimas que choro,
“Estas lágrimas, sim, que não desonram.”

X
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: — “Meninos, eu vi!
“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.
“Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”
Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”.

Fonte: Gonçalves Dias. Antologia Poética. 5ª edição. Rio de Janeiro: Agir, 1969.
Colaboração de Sandra M. P. Marinho e Luiz A. Faria para: Florianópolis, UFSC.





Bio fornecida pelo palestrante.

CHANAAN




Autor: Graça Aranha
Título: Chanaan, Chanaan
Idiomas: port, fra
Tradutor: Clément Gazet(fra)
Data: 28/12/2004

CHANAAN

I

Graça Aranha

Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo que alugára para ir do Queimado á cidade do Porto do Cachoeiro, no Espírito-Santo.

Os seus olhos de immigrante pasciam na doce redondeza do panorama. N’essa região a terra exprime uma harmonia perfeita no conjuncto das coisas: nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra se compõe de grandes montanhas, d’essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a um tentador abrigo… O Santa Maria é um pequeno filho das alturas, ligeiro em seu começo, depois embaraçado longo trecho por pedras que o encachoeiram, e das quaes se livra n’um terrível esforço, mugindo de dor, para alcançar afinal a sua velocidade ardente e alegre. Escapa-se então por entre uma floresta sem grandeza, insinua-se vivaz no seio de collinas torneadas e brandas, que parece entregarem-se complacentes áquella risonha e havida loucura… Ellas por sua vez se alteiam graciosas, vestidas de uma relva curva que suave lhes desce pelos flancos, como tunica fulva, envolvendo-as n’uma caricia quente e infinita. A solidão formada pelo rio e pelos morros era n’aquelle glorioso momento luminosa e calma. Sobre ella não pairava a menor angustia de terror.

Absorto na contemplação, Milkau deixava o cavallo tomar um passo indolente e desencontrado; a rédea cahia frouxa sobre o pescoço do animal, que balançava moroso a cabeça, baixando de quando em quando as palpebras pesadas e longas sobre os olhos viscosos. Tudo era um abandono preguiçoso, um arrastar languido por entre a tranqüilidade da paizagem. Os humildes ruidos da natureza contribuiam para uma voluptuosa sensação de silencio. A aragem mansa, o sussurro do rio, as vozesinhas dos pequeninos insectos ainda tornavam mais sedativa e profunda a inquebrantavel immobilidade das coisas. Interrompia-se alli o ruído incessante da vida, o movimento perturbador que cria e destróe: o próprio sol nascente vinha erguendo-se repousado na calmaria da noite e os seus raios não tinham ainda a potencia de alvoroçar as entranhas da terra socegada. Milkau cahia em longa scisma, funda e consoladora. Quem não esteve em repouso absoluto, não viveu em si mesmo; no turbilhão a sua bocca proferiu accentos que não percebia; hoje, sereno, elle mesmo se espanta do fluido perturbador que emanava dos seus nervos, doloridos e máos. As eternas, as boas, as santas, creações do espirito e do coração são todas geradas nas forças mysteriosas e fecundas do silencio…

Na frente do immigrante vinha como guia um menino, filho de um alugador de ademais no Queimado. O pequeno, muito enfastiado d’aduela viagem e do companheiro, deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo. Umas vezes, soltava uma palavra que ficava morta no ar; outras, para se expandir, resmungava com o animal, esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejante. Milkau n’esses momentos atentada no menino e se compungia deante da trefega e ossuda creança que era essa, rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das especies que nunca chegam a uma florescência superior, a uma plena expansão da individualidade. E o viajante sahia da contemplação, surgia do fundo dos seus pensamentos, e chamando a si o pequeno:

– Então, vens sempre ao Cachoeiro?

– Ah!… disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana… Venho sempre quando ha freguez; ainda ante-hontem vim, mas desde muito não chegava, ninguem da Victoria. Tambem choveu tanto estes dias!…

– De que gostas mais: da tua casa ou da cidade?

– Da cidade, nhor sim.

– Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeiro? continuou Milkau no seu interrogatorio, que despertava e alegrava a creança.

Esta respondeu-lhe agora promptamente:

– Ah! nhor não!

– Que fazes então?

– A gente ajuda o pae… Ás vezes, de madrugadinha, vamos para a pescaria levantar a rede. Hoje, antes do patrão chegar, estavamos já de volta… Tambem foi só cocoróca e um pinguinho… Só quatro… O rio está escasso. Seu Zé Francisco diz que é porque a agua está fria, mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d’agua não deixa o peixe sahir. O melhor é pescar com bombas; mas o subdelegado não consente e a gente tem que se cançar por nada.

– Ahi no Queimado vocês não têm carne?

– Ah! nhor sim, carne secca na venda do pae, mas é para a freguezia. Nós comemos peixe, quando falta, a gente bebe mingáo…

Continuavam a marchar pela estrada a dentro. A paisagem não variava no desenho; apenas o sol começava a incendiar o espaço. Milkau fitava com bondade o pequeno guia; este sorria agradecido, abrindo os labios descorados, mostrando os dentes verdes e ponteagudos, como afiada serra; mas o rosto macillento se esclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça.

– Quanto falta para chegarmos, meu filho? perguntou ainda o viajante.

– Mais da metade do caminho; ainda não se avista a fazenda da Samambaia, e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado.

– Tu voltas logo para casa, ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde…

– Oh! patrão… O pae diz que eu volte já; hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha, após tratar dos animaes, concertar a rêde que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada; e nós vamos á noite, antes da lua apparecer, deitar a rêde, porque hoje, si a agua estiver quente, é noite de peixe… O pae disse.

O imigrante compadecido testemunhava n’aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseraveis. O pequeno, animado pela conversa, alinhava-se garboso no velho cavallo, empunhava as redeas com firmeza, fincava as pernas de esqueleto e punha o animal n’um trote esperto. Milkau acompanhava instinctivamente essa actividade, e os dois, assim, fugitiva ligação da piedade e da miseria, avançavam pelo caminho afora.

Pouco tempo depois, n’uma curva da estrada, o menino apontou para deante e voltando-se disse ao companheiro:

– Estamos na Samambaia.

(…).

Fonte: Aranha, Graça [José Pereira de]. Chanaan. 2a.ed. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1922? p. 01-05.

CHANAAN

I

Graça Aranha

Milkau chevauchait nonchalamment la bête fatiguée qu’il avait louée pour aller de Queimado à la ville de Porto-de-Cachoeiro, dans l’État d’Espirito-Santo.

Il repaissait ses yeux d’immigrant des suaves contours du paysage. Dans cette région, la nature exprime une harmonie perfaite : la rivièr e n’est pas le large torrent qui se précipite avec impétuosité ; la serra n’est pas formée de ces hautes montagnes qui enfouissent leurs têtes dans les nuées, et fascinent et attirent comme des inspirateurs de culte ténébreux, conviant à la mort, suprême et tentateur refuge… Le Santa-Maria est un enfant des hauteurs, rapide près de sa source, obstrué ensuite par des roches dont il se dégage en un terrible effort, mugissant de douleur, pour recouvrer plus loin sa rapidité ardente et joyeuse. Il se faufile alors au sein d’une forêt sans grandeur ; il s’insinue vivace dans les flancs de collines mollement contournées, semblant se prêter à ses jeux, et qui, à leur tour, s’élèvent gracieuses, vêtues jusqu’à leur ceinture d’un gazon qui les enveloppe sous sa tunique fauve comme d’une chaude caresse. La solitude épandue entre la rivière et les morros. D’alentour était, en ce glorieux moment, lumineuse et calme. Nulle sensation de crainte, nulle appréhension n’en altérait la quiétude.

Absorbé dans sa contemplation, Milkau laissait prendre à sa monture un pas indolent et irrégulier : la bride tombait sur l’encolure de l’animal qui dodelinait de la tête avec un mouvement de ses paupières pesantes. Tout dans la tranquillité du paysage était calme, languide, paresseux abandon. Les bruissements de la nature même participaient à cette voluptueuse sensation de silence. Une brise suave, le murmure du rio, mille voix d’insectes rendaient plus imposante encore et profonde l’immobililé. Là s’interrompait le bruit incessant de la vie, ce mouvement troublant qui crée et qui détruit ; et le soleil, à peine issu du grand calme nocturne, manquait encore de force pour émouvoir les entrailles de la terre endormie.

Milkau tomba dans une longue réverie, profonde et consolatrice. Celui-là n’a point vécu en soi qui ne connut jamais l’absolu repos : dans le tourbillon de la vie, sa bouche a proféré des sons qu’il ne percevait point ; maintenant en possession de la sérénité totale, il s’étonne du fluide agitateur qu’exhalaient naguère ses nerfs douloureux. Les éternelles, les bonnes, les saintes créations de l’esprit et du coeur ont leur source dans les forces mystérieuses et fécondes du silence.

Devant l’immigrant marchait comme guide un enfant, fils du loueur de chevaux de Queimado. Assez mécontent du voyage et aussi de son compagnon, le bambin laissait son vieux cheval le conduire. Parfois el lançait un mot qui mourait en l’air ; ou bien, en manière

de dérivatif à sa maussaderie, il gourmandait sa bête, l’éperonnait, l’obligeait sans nécessité à galoper. Milkau observait l’enfant ; et son âme s’émouvait à l’aspect de cette créature remuante et décharnée, rejeton fané d’une race bientôt éteinte, expirant dans la douleur inconsciente des espèces qui jamais n’atteignirent à la floraison supérieure ni au plein épanouissement de l’individu.

Le voyageur, sortant de sa contemplation, interrogea le petit :

– Alors, tu vas souvent à Cachoeiro ?

– Eh ! dit l’enfant, comme surpris d’ouïr une voix humaine, j’y vais quand des cIients se présentent: avant-hier encore j’y suis allé. Mais depuis quelque temps il ne vient plus personne de Victoria. Aussi, il a tant plu ces jours…

– Que préfères-tu : chez toi ou la ville ?

– La ville, m’sieu.

– Ton service chez ton père consiste-t-il seulement à accompagner les voyageurs à Cachoeiro ? continua Milkau, dont l’interrogation ranimait l’enfant et l’épayait.

Promptement cette fois, il répondit :

– Oh ! m’sieu, non !

– Que fais-tu donc encore ?

– On aide le père… Parfois, à l’aube, on va retirer le filet à la pêcherie. Ainsi ce matin, avant que vous arriviez, nous étions déjà de retour. D’ailleurs, i1 n’y avait que des cocoracos et un pinguin/io… En tout, quatre poissons… La rivière est si basse ! Zé Francisco croit que l’eau est trop froide, mais tante Rita dit que c’est temps de lune, la Mãe d’Agua ne laisse pas sortir le poisson. l.e meilleur serait de pêcher à la dynamite, mais c’est défendu, alors on se fatigue pour rien.

– Vous avez de la viande à Queimado ?

– Ah ! m’sieu, oui ; de la viande séchée, dans la boutique du père ; mais c’est pour les pratiques. Nous, c’est du poisson que nous mangeons, et s’il manque, on a la bouillie de maïs…

Ils continuaient de marcher, suivant leur route… Le paysage ne variait guère : le soleil commençait seulement à incendier l’espace. Milkau examinait toujours avec intérêt son petit guide, qui, reconnaissant, souriait de ses lèvres décolorées, ouvertes sur une rangée de dents verdátres et pointues comme une scie ; le visage émacié s’éclairait cependant de cette douceur où se lit la longue résignation d’une race.

– Combien nous faut-il pour arriver, mon enfant ? demanda encore le voyageur.

– Plus de la moitié du chemin ; on n’aperçoit pas encore la fazenda de Samambaia, et de là à la ville, la distance est la même que d’ici à Queimado.

– Retourneras-tu de suite chez toi, ou préfères-tu te reposer un peu ici ? Reste jusqu’à ce soir…

– Oh ! patron… Le père a dit que je m’en retourne de suite : aujourd’hui c’est jour d’aller au bois avec la mère ; puis il y a les bêtes à soigner ; il faut raccommopder le filet que le canot de Zé Francisco a déchiré ce matin ; ensuite nous irons à la péche ce soir, parce que, aujourd’hui si l’eau est chaude c’est nuit de poisson, le père l’a dit…

L’immigrant, ému de compassion, reconnaissait dans les neuf ans de l’infortuné la surprenante précocité des enfants de misérables. Animé par la conversation, le petit se campait crânement sur son vieux bidet ; d’une main ferme il assurait les rênes, et de ses jambes maigres il pressait les flancs de l’animal qui partit d’un trot plus vif. Instinctivement, Milkau activa lui-mème son allure ; et tous deux ainsi – fugitive liaison de la pitié et de la misère – avançaient par le chemin.

(…).

____

Fonte : Aranha, Graça [José Pereira de]. Chanaan. Traduit du portuguais par Clément Gazet. Paris : Plon-Nourrit, 1910.





Bio fornecida pelo palestrante.

São Bernardo




Autor: Graciliano Ramos
Título: São Bernardo
Idiomas: port, eng
Tradutor: R. L. Scott-Buccleuch(eng)
Data: 28/12/2004

São Bernardo

Capítulo VI

Graciliano Ramos

Naquele segundo ano houve dificuldades medonhas. Plantei mamona e algodão, mas a safra foi ruim, os preços baixos, vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo das fraquezas forças para não ir ao fundo. Trabalhava danadamente, dormindo pouco, levantando-me às quatro da manhã, passando dias ao sol, à chuva, de facão, pistola e cartucheira, comendo nas horas de descanso um pedaço de bacalhau assado e um punhado de farinha. À noite, na rede, explicava pormenores do serviço a Casimiro Lopes. Ele acocorava-se na esteira e, apesar da fadiga, ouvia atento. Às vezes Tubarão ladrava lá fora e nós aguçávamos o ouvido.

Uma feita distinguimos passos ao redor da casa. Olhei por uma fresta na parede. A escuridão era grande, mas percebi um vulto. E as pisadas continuaram. O cachorro latiu e rosnou.

– Mais esta! cochichou Casimiro Lopes.

No dia seguinte visitei Mendonça, que me recebeu inquieto. Conversamos sobre tudo, especialmente sobre votos. Dirigi amabilidades às filhas dele, duas solteironas, e lamentei a morte da mulher, excelente pessoa, caridosa, amiga de servir, sim senhor. Mendonça, espantado, perguntou onde eu tinha visto D. Alexandrina.

– Faz tempo. Fui morador do velho Salustiano. Arrastei a enxada, no eito.

As moças acanharam-se mas o pai achou que eu procedia com honestidade revelando francamente a minha origem. Depois queixou-se dos vizinhos (nenhum se dava com ele).

– Há por aí umas pestes que principiaram como o senhor e arrotam importância. Trabalhar não é desonra. Mas se eu tivesse nascido na poeira, por que havia de negar?

Tentou envergonhar-me:

– Trabalhador alugado, hem? Não se incomode. O Fidélis, que hoje é senhor de engenho, e conceituado, furtou galinhas.

Enquanto ele tesourava o próximo, observei-o. Pouco a pouco ia perdendo os sinais de inquietação que a minha presença lhe tinha trazido. Parecia à vontade catando os defeitos dos vizinhos e esquecido do resto do mundo, mas não sei se aquilo era tapeação. Eu me insinuava, discutindo eleições. É possível, porém, que não conseguisse enganá-lo convenientemente e que ele fizesse comigo o jogo que eu fazia com ele. Sendo assim, acho que representou bem, pois cheguei a capacitar-me de que ele não desconfiava de mim. Ou então quem representou bem fui eu, se o convenci de que tinha ido ali politicar. Se ele pensou isso, era doido. Provavelmente não pensou. Talvez tenha pensado depois de iludir-se e julgar que estava sendo sincero. Foi o que me sucedeu. Repetindo as mesmas palavras, os mesmos gestos, e ouvindo as mesmas histórias, acabei gostando do proprietário de Bom-Sucesso.

Continuava a observá-lo, mas a observação era instintiva. Despertou. Bocejando, mostrando os caninos amarelos e pontudos, Mendonça bateu palmas e esfarelou um mosquito. Mosquito como bala! Tinha passado uma noite horrível.

Respondi que havia dormido como pedra. Os pântanos em S. Bernardo estavam aterrados, não restava um mosquito para remédio. Arrependi-me de ter falado precipitadamente. Mendonça examinou-me de través, e suponho que não ficou satisfeito. Tornou a referir-se à noite de insônia, e eu repeti que tinha dormido. Pouco seguro, com a cara mexendo. Naturalmente ele compreendeu que era mentira.

Cada um de nós mentiu estupidamente. Empurrei de novo na palestra a minha vida de trabalhador. Resultado medíocre: as moças cochilaram e Mendonça estirou o beiço.

Um caboclo mal-encarado entrou na sala. Mendonça franziu a testa. Quis despedir-me; receei, porém, que o momento fosse impróprio e conservei-me sentado, esperando modificar a impressão desagradável que produzia. As moças me achavam maçador, evidentemente.

– Se o inverno vindouro for como este, desgraça-se tudo: isto vira lama e não nasce um pé de mandioca.

– Decerto, concordou Mendonça, visivelmente aporrinhado com o caboclo, que me olhava tranqüilo, sem levantar a cabeça.

– Pois até logo, exclamei de chofre. A eleição domingo, hem? Entendido. Mato um… (ia dizer um boi. Moderei-me: todo o mundo sabia que eu tinha meia dúzia de eleitores) um carneiro. Um carneiro é bastante, não? Está direito. Até domingo.

E saí, descontente. Creio que foi mais ou menos o que aconteceu. Não me lembro com precisão.

Atravessei o pátio e entrei no atalho que ia ter a S. Bernardo. Que vergonha! Tomar a terra dos outros e deixá-la com aquelas veredas indecentes, cheias de camaleões, o mato batendo no rosto de quem passava!

Percorri a zona da encrenca. A cerca ainda estava no ponto em que eu a tinha encontrado no ano anterior. Mendonça forcejava por avançar, mas continha-se; eu procurava alcançar os limites antigos, inutilmente. Discórdia séria só esta: um moleque de S. Bernardo fizera mal à filha do mestre de açúcar de Mendonça, e Mendonça, em conseqüência, metera o alicate no arame; mas eu havia consertado a cerca e arranjado o casamento do moleque com a cabrochinha.

Dei uma vista no algodoal e encaminhei-me ao paredão do açude. Poucos trabalhadores.

Subi a colina. Tinha-se concluído os alicerces desta nossa casa, as paredes começavam a elevar-se. De repente um tiro. Estremeci. Era na pedreira, que Mestre Caetano escavacava lentamente, com dois cavouqueiros. Outro tiro, ruim: pedra miúda voando.

Quando se acabariam aqueles serviços moles? Desgraçadamente faltavam-me recursos para atacá-los firme. Assim mesmo, lidando com o pessoal escasso, às vezes na sexta feira eu não sabia onde buscar dinheiro para pagar as folhas no sábado.

Fiz algumas perguntas ao pedreiro. Um pedreiro só. As paredes tinham um metro de altura. Se eu empregasse muitos operários, as obras sairiam mais baratas. O paredão do açude não ia para a frente, acuava. E a pedreira, onde uns vultos miudinhos se moviam, era como se em seis meses de trabalho não tivesse sido desfalcada.

Um carro de bois passou lá embaixo; outro carro de bois veio vindo, carregado de tijolos.

Onde andaria a velha Margarida? Seria bom encontrar a velha Margarida e trazê-la para S. Bernardo. Devia estar pegando um século, pobre da negra.

Demorei-me até que os serventes lavaram as colheres e guardaram as ferramentas. Fiquei só. Os homens da lavoura e os do açude foram debandando também.

Mais tiros na pedreira, os últimos. Pensei no Mendonça. Canalha. Do lado de cá da cerca o algodão pintava, a mamona crescia nos aceiros da roça; do lado de lá, sapé e espinho. Quantas braças de terra aquele malandro tinha furtado! Felizmente estávamos em paz. Aparentemente. De qualquer forma era-me necessário caminhar depressa.

Desci a ladeira e fui jantar. Enquanto jantava, falei em voz baixa a Casimiro Lopes, a princípio com panos mornos, depois delineando um projeto. Casimiro Lopes desviou-se dos panos mornos e colaborou no projeto.

Deixei o negócio entabulado, fechei as portas e escrevi algumas cartas aos bancos da capital e ao governador do Estado. Aos bancos solicitei empréstimos, ao governador comuniquei a instalação próxima de numerosas indústrias e pedi a dispensa de imposto sobre os maquinismos que importasse. A verdade é que os empréstimos eram improváveis e eu não imaginava a maneira de pagar os maquinismos. Mas havia-me habituado a considerá-los meio comprados.

Em seguida consultei o Aprendizado Agrícola da Satuba relativamente à possível aquisição de um bezerro limosino.

Quando ia terminando, ouvi pisadas em redor da casa. Levantei-me e olhei pela fresta. Lá estava um tipo dando estalos com os dedos, enganando o Tubarão. Reparando, julguei reconhecer o freguês carrancudo que tinha entrado na sala do Mendonça. Abandonei a espreita e chamei Casimiro Lopes, que me substituiu. Deitei-me pensando em Mestre Caetano e na pedreira. Marretas, alavancas, aço para broca, pólvora, estopim.

– Gente de lá, murmurou Casimiro Lopes balançando o punho da rede.

– Com certeza.

No outro dia, sábado, matei o carneiro para os eleitores. Domingo à tarde, de volta da eleição, Mendonça recebeu um tiro na costela mindinha e bateu as botas ali mesmo na estrada, perto de Bom-Sucesso. No lugar há hoje uma cruz com um braço de menos.

Na hora do crime eu estava na cidade, conversando com o Vigário a respeito da igreja que pretendia levantar em S. Bernardo. Para o futuro, se os negócios corressem bem.

– Que horror! exclamou Padre Silvestre quando chegou a notícia. Ele tinha inimigos?

– Se tinha! Ora se tinha! Inimigo como carrapato. Vamos ao resto, Padre Silvestre. Quanto custa um sino?

Do romance: RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 22» ed.. São Paulo: Martins, 1974. p. 59-64.

 

São Bernardo
chapter VI

Graciliano Ramos

 

That second year I ran into terrible difficulties. I planted castor beans and cotton, but the crop was poor, prices low, and I spend months scraping along in a desperate struggle for survival. I worked like a slave, scarcely sleeping, getting up at four in the morning, working for days in sun and rain, carrying my knife, gun and cartridge belt, and, when I stopped to rest, eating a piece of fish with a handful of flour. At night, in my hammock, I gave Casimiro Lopes his instructions. He would squat down on the mat and, though worn out, listen attentively. Sometimes Shark would back outside and we would prick up our ears.

On one occasion we heard footsteps outside the house. I peered through a crack in the wall. It was pitch dark but I could make out a shape. The footsteps continued. The dog growled and barked.

“This too!” whispered Casimiro Lopes.

Next day I went to see Mendonça, who received me warily. We talked about one thing and another, but especially about votes. I conversed politely with his two daughters, both spinsters, and expressed regret at the death of his wife, such an excellent woman, so kind and attentive. Mendonça was astonished and asked where I had seen Dona Alexandrina.

“A long time ago. I was one of old Salustiano’s hands; used to work on his plantations.”

The women drew back in horror, but the father commended my honest in frankly avowing my origins. Then he complained about his neighbours (nobody got on with him).

“There are some scum here who began like you did but have developed swelled heads. It’s no disgrace to work. If I’d been born in the gutter, why should I bother to deny it?” He tried to take me down a peg. “A hired worked, hey? Don’t let it worry you. Fidélis, who’s now highly respected mill owner, used to steal chickens.”

While he was running down his neighbour, I was watching him. Little by little he lost the signs of uneasiness that my presence had caused. He seemed perfectly at ease, commenting on the defects of others and forgetful of everything else, but I’m not sure whether it wasn’t all put on. I tried to ingratiate myself by discussing elections. But it’s possible I didn’t really succeed in fooling him and he was playing the same game with me. If so, he played it very well for I convinced myself that he didn’t suspect me. In that case it was I who played well, if I convinced him I’d gone there to talk politics. If that’s what he thought he was crazy. Most likely, he didn’t. Maybe he thought so after being fooled into believing. I was sincere. That’s what happened to me. Repeating the same words, the same gestures and hearing the same stories, I ended up liking the landlord of Bom-Sucesso.

Instinctively I continued to watch him closely. He roused himself, yawned, showing his yellow, pointed teeth, and clapped his hands, flattening a mosquito. There were mosquitoes buzzing around like bullets, he said. He’d spent a terrible night. I answered that I’d slept like a rock. The swamps in S. Bernardo had been filled in and there wasn’t a single mosquito left. I regretted having spoken so hastily. Mendonça looked at me out of the corner of his eyes and I guess he wasn’t satisfied. He referred again to his sleepless night and I repeated how well I’d slept. He looked doubtful, his face twitching. Of course he knew it was a lie.

We both lied for all we were worth. I brought the conversation back to my life as a labourer. It wasn’t a success: the women whispered together and Mendonça tugged at his lip. A surly-looking hand came into the room. Mendonça frowned. I wanted to get away but I was afraid it might be an inopportune moment, so I sat there hoping to modify the disagreeable impression I had created. Obviously the women thought I was a bore.

“If next winter’s like this one it’ll be the end: this’ll become a sea of mud and you won’t get a single manioc root to grow.”

“True,” said Mendonça, visibly annoyed with his workman who was gazing at him steadily without raising his head.

“Well, good bye,” I said abruptly. “The election’s on Sunday, right? Fine. I’ll kill… (I was going to say an ox, but I changed my mind: everyone knows I have only half a dozen electors) a sheep. A sheep’ll be enough, won’t it? That’s settled. Till Sunday.”

I went out feeling dissatisfied. That is more or less what took place. I don’t remember the details.

I crossed the yard and took the path leading to S. Bernardo. It was a disgrace. Fancy stealing other people’s land and leaving it with the roads all rutted and the undergrowth whipping the face of whoever passed by! I passed through the disputed zone. The fence was still in the same place where I had found it. Mendonça was anxiously trying to push forward, but restrained himself, while I, for my part, was seeking unsuccessfully to regain the former boundaries. We had had only one serious disagreement; a lad from S. Bernardo got Mendonça’s sugar foreman’s daughter into trouble, and as a result Mendonça started cutting down the wire. But I repaired the fence and made the culprit marry the girl.

I had a look at the cotton field and walked on to the wall of the dam. There were few workmen. I climbed the hill. The foundations of the new house were finished and the walls were going up. Suddenly a shot rang out. I gave a shudder. It came from the quarry, where the foreman, Caetano, was working with three men. There was another explosion, a bad one, and a shower of small stones flew up. When were they ever going to finish those slow everlasting jobs? Unfortunately I hadn’t the means to get down to them properly. And even with the few workers I had it often happened that on a Friday I didn’t know where the money was coming from to pay the wages on Saturday.

I stopped to question the bricklayer. There was only one. The walls were a metre high. If I employed more men the job would work out cheaper. As for the work on the dam wall, it was losing ground rather than going ahead, while the quarry, where I could see some tiny figures moving, looked as if after six month’s work nothing had been removed from it.

Way down below an ox cart passed by, and there was another one coming, laden with bricks.

Where could old Margarida be living now? It would be good to find out where she was and bring her to S. Bernardo. The old negress must be close on a hundred now, poor thing.

I waited until the men had cleaned their spades and put away their tools. I was alone. The ones from the plantations and the dam were dispersing too. There were more explosions from the quarry, the last. I thought of Mendonça. The swine. This side of the fence the cotton was flourishing and castor beans were growing in the clearings; on the other side, nothing but wild grass and thistles. How many acres of land had the scoundrel stolen? Luckily we were at peace. Or seemed to lie. Nevertheless, I’d better look smart getting home.

I walked down the hill and went for dinner. While I was eating I talked in a low voice to Casimiro Lopes, first of all using circumlocutions, later outlining a definite plan. Casimiro Lopes brushed aside the circumlocutions and approved a plan. With my project thus agreed upon I closed the doors and wrote off some letters to banks in the capital and to the state governor. Those to the banks requested loans, while the one to the governor informed him that I was about to install numerous industries in the near future and asked for exemption from tax on the machinery that I would be importing. The truth is that I was unlikely to get the loans and I couldn’t think up any way of paying for the machinery. But I’d got used to the idea of considering it almost bought. Afterwards I consulted the Satuba Agricultural School about the possibility of acquiring a Limousin calf.

As I was finishing I heard footsteps outside the house. I got up and peered through the crack. There was a fellow there making up to Shark by snapping his fingers. Looking closely I thought I recognised the surly-looking character I’d seen in Mendonça’s room. I left the spy-hole and called Casimiro Lopes, who took my place. I lay down, thinking about Caetano and the quarry, my mind full of hammers, levers, steel of drills, dynamite and fuses.

“Some of theirs,” whispered Casimiro Lopes, shaking the loop of the hammock.

“Could only be.”

Next day, Saturday, I killed the sheep for the voters. Sunday evening, as he was returning from the election, Mendonça was shot in the chest and bit the dust there and then, on the road close to Bom-Sucesso. Today the spot is marked by a cross with one of its arms missing. At the time of the murder I was in town talking to the parish priest about the church I intended to build in S. Bernardo. In the future, that is, provided business progressed satisfactorily.

“How terrible!” said Father Silvestre when they brought the news. “Did he have any enemies?”

“Enemies! Did he have any enemies! As thick as lice. Well, what about it, Father Silvestre? How much did you say a bell costs?”

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From: São Bernardo: a novel. Trans. by R. L. Scott-Buccleuch. London: P. Owen, 1975. p. 26-31.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

Vidas Secas




Autor: Graciliano Ramos
Título: Vidas Secas
Idiomas: port, eng
Tradutor: Ralp Edward Dimmick(eng)
Data: 28/12/2004

Vidas Secas
Cadeia

Graciliano Ramos

Fabiano tinha ido à feira da cidade comprar mantimentos. Precisava sal, farinha, feijão e rapaduras. Sinhá Vitória pedira além disso uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha. Mas o querosene de seu Inácio estava misturado com água, e a chita da amostra era cara demais.

Fabiano percorreu as lojas, escolhendo o pano, regateando um tostão em côvado, receoso de ser enganado. Andava irresoluto, uma longa desconfiança dava-lhe gestos oblíquos. À tarde puxou o dinheiro, meio tentado, e logo se arrependeu, certo de que todos os caixeiros furtavam no preço e na medida: amarrou as notas na ponta do lenço, meteu-as na algibeira, dirigiu-se à bodega de seu Inácio, onde guardara os picuás.

Aí certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiu beber uma pinga, pois sentia calor. Seu Inácio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou o copo de um trago, cuspiu, limpou os beiços à manga, contraiu o rosto. Ia jurar que a cachaça tinha água. Por que seria que seu Inácio botava água em tudo? perguntou mentalmente. Animou-se e interrogou o bodegueiro:

– Por que é que vossemecê bota água em tudo?

Seu Inácio fingiu não ouvir. E Fabiano foi sentar-se na calçada, resolvido a conversar. O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomás da bolandeira. Pobre de seu Tomás. Um homem tão direito sumir-se como cambembe, andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Tomás era pessoa de consideração e votava. Quem diria?

Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:

– Como é, camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro?

Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira:

– Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto etc. É conforme.

Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.

Atravessaram a bodega, o corredor, desembocaram numa sala onde vários tipos jogavam cartas em cima de uma esteira.

– Desafasta, ordenou o polícia. Aqui tem gente.

Os jogadores apertaram-se, os dois homens sentaram-se, o soldado amarelo pegou o baralho. Mas com tanta infelicidade que em pouco tempo se enrascou. Fabiano encalacrou-se também. Sinhá Vitória ia danar-se, e com razão.

– Bem feito.

Ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo.

– Espera aí, paisano, gritou o amarelo.

Fabiano, as orelhas ardendo, não se virou. Foi pedir a seu Inácio os troços que ele havia guardado, vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a rua.

Debaixo do jatobá do quadro taramelou com sinhá Rita louceira, sem se atrever a voltar para casa. Que desculpa iria apresentar à sinhá Vitória? Forjava uma explicação difícil. Perdera o embrulho da fazenda, pagara na botica uma garrafada para sinhá Rita louceira. Atrapalhava-se: tinha imaginação fraca e não sabia mentir. Nas invenções com que pretendia justificar-se a figura de sinhá Rita aparecia sempre, e isto o desgostava. Arrumaria uma história sem ela, diria que haviam furtado o cobre da chita. Pois não era? Os parceiros o tinham pelado no trinta-e-um. Mas não devia mencionar o jogo. Contaria simplesmente que o lenço das notas ficara no bolso do gibão e levaram sumiço. Falaria assim: – “Comprei os mantimentos. Botei o gibão e os alforjes na bodega de seu Inácio. Encontrei um soldado amarelo.” Não, não encontrara ninguém. Atrapalhava-se de novo. Sentia desejo de referir-se ao soldado, um conhecido velho, amigo de infância. A mulher se incharia com a notícia. Talvez não se inchasse. Era atilada, notaria a pabulagem. Pois estava acabado. O dinheiro fugira do bolso do gibão, na venda de seu Inácio. Natural.

Repetia que era natural quando alguém lhe deu um empurrão, atirou-o contra o jatobá. A feira se desmanchara; escurecia; o homem da iluminação, trepando numa escada, acendia os lampiões. A estrela papa-ceia branqueou por cima da torre da igreja; o doutor juiz de direito foi brilhar na porta da farmácia; o cobrador da prefeitura passou coxeando, com talões de recibo debaixo do braço; a carroça de lixo rolou na praça recolhendo cascas de frutas; seu vigário saiu de casa e abriu o guarda-chuva por causa do sereno; sinhá Rita louceira retirou-se.

Fabiano estremeceu. Chegaria à fazenda noite fechada. Entretido com o diabo do jogo, tonto de aguardente, deixara o tempo correr. E não levava o querosene, ia-se alumiar durante a semana com pedaços de facheiro. Arrumou-se, disposto a viajar. Outro empurrão desequilibrou-o. Voltou-se e viu ali perto o soldado amarelo, que o desafiava, a cara enferrujada, uma ruga na testa. Mexeu-se para sacudir o chapéu de couro nas ventas do agressor. Com uma pancada certa do chapéu de couro, aquele tico de gente ia ao barro. Olhou as coisas e as pessoas em roda e moderou a indignação. Na caatinga ele às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se.

– Vossemecê não tem direito de provocar os que estão quietos.

– Desafasta, bradou o polícia.

E insultou Fabiano, porque ele tinha deixado a bodega sem se despedir.

– Lorota, gaguejou o matuto. Eu tenho culpa de vossemecê esbagaçar os seus possuídos no jogo?

Engasgou-se. A autoridade rondou por ali um instante, desejosa de puxar questão. Não achando pretexto, avizinhou-se e plantou o salto da reiúna em cima da alpercata do vaqueiro.

– Isso não se faz, moço, protestou Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e quente é pé de gente.

O outro continuou a pisar com força. Fabiano impacientou-se e xingou a mãe dele. Aí o amarelo apitou, e em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatobá.

– Toca pra frente, berrou o cabo.

Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu.

– Está certo, disse o cabo. Faça lombo, paisano.

Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lâmina de facão bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu-se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando:

– Hum! hum!

Por que tinham feito aquilo? Era o que não podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzuê sem motivo. Achava-se tão perturbado que nem acreditava naquela desgraça. Tinham-lhe caído todos em cima, de supetão, como uns condenados. Assim um homem não podia resistir.

– Bem, bem.

Passou as mãos nas costas e no peito, sentiu-se moído, os olhos azulados brilharam como olhos de gato. Tinham-no realmente surrado e prendido. Mas era um caso tão esquisito que instantes depois balançava a cabeça, duvidando, apesar das machucaduras.

Ora, o soldado amarelo… Sim, havia um amarelo, criatura desgraçada que ele, Fabiano, desmancharia com um tabefe. Não tinha desmanchado por causa dos homens que mandavam. Cuspiu, com desprezo:

– Safado, mofino, escarro de gente.

Por mol de uma peste daquela, maltratava-se um pai de família. Pensou na mulher, nos filhos e na cachorrinha. Engatinhando, procurou os alforjes, que haviam caído no chão, certificou-se de que os objetos comprados na feira estavam todos ali. Podia ter-se perdido alguma coisa na confusão. Lembrou-se de uma fazenda vista na última das lojas que visitara. Bonita, encorpada, larga, vermelha e com ramagens, exatamente o que sinhá Vitória desejava. Encolhendo um tostão em côvado, por sovinice, acabava o dia daquele jeito. Tornou a mexer nos alforjes. Sinhá Vitória devia estar desassossegada com a demora dele. A casa no escuro, os meninos em redor do fogo, a cachorra Baleia vigiando. Com certeza haviam fechado a porta da frente.

Estirou as pernas, encostou as carnes doídas ao muro. Se lhe tivessem dado tempo, ele teria explicado tudo direitinho. Mas pegado de surpresa, embatucara. Quem não ficaria azuretado com semelhante despropósito? Não queria capacitar-se de que a malvadez tivesse sido para ele. Havia engano, provavelmente o amarelo o confundira com outro. Não era senão isso.

Então por que um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, dá-se pancada nele? Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as violências, a todas as injustiças. E aos conhecidos que dormiam no tronco e agüentavam cipó de boi oferecia consolações: — “Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita.”

Mas agora rangia os dentes, soprava. Merecia castigo?

– An!

E, por mais que forcejasse, não se convencia de que o soldado amarelo fosse governo. Governo, coisa distante e perfeita, não podia errar. O soldado amarelo estava ali perto, além da grade, era fraco e ruim, jogava na esteira com os matutos e provocava-os depois. O governo não devia consentir tão grande safadeza.

Afinal para que serviam os soldados amarelos? Deu um pontapé na parede, gritou enfurecido. Para que serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o carcereiro chegou à grade, e Fabiano acalmou-se:

– Bem, bem. Não há nada não.

Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira contaria aquela história. Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada. Só queria voltar para junto de sinhá Vitória, deitar-se na cama de varas. Por que vinham bulir com um homem que só queria descansar? Deviam bulir com outros.

– An!

Estava tudo errado.

– An!

Tinham lá coragem? Imaginou o soldado amarelo atirando-se a um cangaceiro na caatinga. Tinha graça. Não dava um caldo.

Lembrou-se da casa velha onde morava, da cozinha, da panela que chiava na trempe de pedras. Sinhá Vitória punha sal na comida. Abriu os alforjes novamente: a trouxa de sal não se tinha perdido. Bem. Sinhá Vitória provara o caldo na quenga de coco. E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da família, sabida como gente. Naquela viagem arrastada, em tempo de seca braba, quando estavam todos morrendo de fome, a cadelinha tinha trazido para eles um preá. Ia envelhecendo, coitada. Sinhá Vitória, inquieta, com certeza fora muitas vezes escutar na porta da frente. O galo batia as asas, os bichos bodejavam no chiqueiro, os chocalhos das vacas tiniam.

Se não fosse isso… An! em que estava pensando? Meteu os olhos pela grade da rua. Chi! que perfume! O lampião da esquina se apagara, provavelmente o homem da escada só botara nele meio quarteirão de querosene.

Pobre de sinhá Vitória, cheia de cuidados, na escuridão. Os meninos sentados perto do lume, a panela chiando na trempe de pedra, Baleia atenta, o candeeiro de folha pendurado na ponta de uma vara que saía da parede.

Estava tão cansado, tão machucado, que ia quase adormecendo no meio daquela desgraça. Havia ali um bêbado tresvairando em voz alta e alguns homens agachados em redor de um fogo que enchia o cárcere de fumaça. Discutiam e queixavam-se da lenha molhada.

Fabiano cochilava, a cabeça pesada inclinava-se para o peito e levantava-se. Devia ter comprado o querosene de seu Inácio. A mulher e os meninos agüentando fumaça nos olhos.

Acordou sobressaltado. Pois não estava misturando as pessoas, desatinando? Talvez fosse efeito da cachaça. Não era: tinha bebido um copo, tanto assim, quatro dedos. Se lhe dessem tempo, contaria o que se passara.

Ouviu o falatório desconexo do bêbado, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o bebedouro, consertava as cercas, curava os animais – aproveitara um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver. Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?

Se não fosse aquilo… Nem sabia. O fio da idéia cresceu, engrossou – e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos. Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.

Enfim, contanto… Seu Tomás daria informações. Fossem perguntar a ele. Homem bom, seu Tomás da bolandeira, homem aprendido. Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto.

O que desejava… Ah! Esquecia-se. Agora se recordava da viagem que tinha feito pelo sertão, a cair de fome. As pernas dos meninos eram finas como bilros, sinhá Vitória tropicava debaixo do baú de trens. Na beira do rio haviam comido o papagaio, que não sabia falar. Necessidade.

Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior. Se pudesse… Ah! Se pudesse, atacaria os soldados amarelos que espancam as criaturas inofensivas.

Bateu na cabeça apertou-a. Que faziam aqueles sujeitos acocorados em torno do fogo? Que dizia aquele bêbado que se esgoelava como um doido, gastando fôlego à toa? Sentiu vontade de gritar, de anunciar muito alto que eles não prestavam para nada. Ouviu uma voz fina. Alguém no xadrez das mulheres chorava e arrenegava as pulgas. Rapariga da vida, certamente, de porta aberta. Essa também não prestava para nada. Fabiano queria berrar para a cidade inteira, afirmar ao doutor juiz de direito, ao delegado, a seu vigário e aos cobradores da prefeitura que ali dentro ninguém prestava para nada. Ele, os homens acocorados, o bêbado, a mulher das pulgas, tudo era uma lástima, só servia para agüentar facão. Era o que ele queria dizer.

E havia também aquele fogo-corredor que ia e vinha no espírito dele. Sim, havia aquilo. Como era? Precisava descansar. Estava com a testa doendo, provavelmente em conseqüência de uma pancada de cabo de facão. E doía-lhe a cabeça toda, parecia-lhe que tinha fogo por dentro, parecia-lhe que tinha nos miolos uma panela fervendo.

Pobre de sinhá Vitória, inquieta e sossegando os meninos. Baleia vigiando, perto da trempe. Se não fossem eles…

Agora Fabiano conseguia arranjar as idéias. O que o segurava era a família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé não. O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos. Sem aqueles cambões pesados, não envergaria o espinhaço não, sairia dali como onça e faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria um tiro de pé de pau no soldado amarelo. Não. O soldado amarelo era um infeliz que nem merecia um tabefe com as costas da mão. Mataria os donos dele. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo. Não ficaria um para semente. Era a idéia que lhe fervia na cabeça. Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha.

Fabiano gritou, assustando o bêbado, os tipos que abanavam o fogo, o carcereiro e a mulher que se queixava das pulgas. Tinha aqueles cambões pendurados ao pescoço. Deveria continuar a arrastá-los? Sinhá Vitória dormia mal na cama de varas. Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo.

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Do romance: Ramos, Graciliano. Vidas secas. 11» ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964. p. 31-43.

Vidas Secas


Jail

Graciliano Ramos

Fabiano had gone to the market in town to buy supplies. He needed salt, manioc flour, beans, and brown sugar. Vitória had also asked for a bottle of kerosene and a cut of red calico, but the kerosene Inácio sold was mixed with water and the calico of the sample cost too much.

Fabiano went from store to store, picking over the cloth, trying to beat the price down a fraction, fearful of being cheated. Long years of mistrustfulness were revealed in his hesitant gestures. At one point in the afternoon, half-tempted, he pulled out his money. Then he quickly changed his mind, sure that all the clerks were cheating both on the price and on the measure. He tied up the bills in the corner of his handkerchief, stuck it in his pocket, and headed for Inácio’s tavern, where he had stored his duffel.

There he proved once more to his satisfaction that the kerosene had been watered. Feeling hot, he decided to have a drink. Inácio brought the bottle of rum. Fabiano downed his glass at one swallow, spat, wiped his lips on his sleeve, and frowned. He could swear that the rum was watered. Why did Inácio have to water everything, he wondered. Gathering up his courage, he questioned the tavern keeper.

“Why do you water everything?”

Inácio pretended not to hear.

Fabiano went and squatted on the sidewalk, feeling in a mood for conversation. His vocabulary was limited but in moments of expansion he had recourse to some of the expressions used by Tomás the miller. Poor Tomás! Such a fine man to go drifting off like a mere hired hand, with a bundle on his back! Tomás was a man to be respected; he was a registered voter. Who would have thought this could happen?

At this moment a policeman dressed in khaki came up and gave Fabiano a friendly swat on the shoulder.

“How about it, fellow?” he asked. “Want to go in and have a game of cards?”

Fabiano eyed the uniform with respect and, trying to recall some of the expressions of Tomás the miller, he stammered, “Yes and no. That is – I mean – Provided – Well, if you like.”

He got up and followed the man in khaki, the representative of the law, the giver of orders. Fabiano had always obeyed. He was strong and muscular, but he was little given to thought. He asked for little, and obeyed.

The two walked through the tavern and down a hall to a room where several men were playing cards on a mat.

“Move over,” said the policeman. “You have company.”

The card players drew closer together; the two newcomers sat down, and the policeman in khaki picked up the deck. It was not his lucky day. He was soon in the hole and so was Fabiano. Vitória would be furious, and with good reason.

“Serves me right!”

He rose to his feet angrily and left the room scowling.

“Hey, wait there, fellow!” the man in khaki called.

Fabiano, his ears burning, did not even turn his head. He asked Inácio for his belongings, slipped into his leather jacket, put his arms through the straps of his haversack, and went out into the street.

He stopped under the courbaril tree in the square to talk to Rita, the pottery seller. He didn’t dare go home. What excuse could he give to Vitória? He got hopelessly involved in inventions: he had lost the package of cloth; he had paid for a bottle of something at the pharmacy for Rita the pottery seller. It was no use; he was all mixed up. He had a poor imagination and he was no good at lying. In all the stories he made up in his defense the figure of Rita appeared, and this annoyed him. He was determined he would think up something in which she had no part. He would say that the money for the calico had been stolen. After all, wasn’t it true? The other players had swindled him at cards. But he mustn’t mention he game. He would say merely that the handkerchief with the bills had disappeared from the pocket of his leather jacket. He would say: “I bought the provisions. I left the jacket and the saddlebags at Inácio’s tavern. I met up with a policeman in khaki.” No, he hadn’t met anyone. He was all mixed up again. He wanted to make the policeman out to be an old acquaintance, a childhood friend. His wife would get all puffed up over this. But then again, maybe she wouldn’t. She was smart and would see he was just bragging. Well then, the money had slipped out of his jacket pocket at Inácio’s tavern. That was perfectly natural.

He was repeating to himself that it was perfectly natural when someone shoved him against the courbaril tree. The market was breaking up. It was growing dark and the lamplighter, climbing up on his ladder, was turning on the streetlights. The evening star shone over the church tower. The judge went to take his stand at the door of the pharmacy, where he would hold forth to an admiring circle. The tax collector limped by, with the stubs of his receipts under his arm. The garbage wagon rolled across the square, gathering up fruit rinds. The priest came out of his house, raising his umbrella for protection against the damp night air. Rita went her way.

Fabiano shivered. It would be night by the time he got back to the ranch. Wrapped up in that cursed game, befuddled with the rum he had drank, he had let time slip by. And since he wasn’t taking any kerosene, for the next week they would have to depend on pieces of torch wood for light at night. He straightened himself up, ready to get on his way.

Another shove sent him off balance. He turned around and saw beside him the policeman in khaki, staring at him defiantly, his face a rusty red, his brow wrinkled in a frown. Fabiano started to shake his leather hat in the face of his attacker. With one well-aimed blow with that hat he could knock the little runt to the ground. But he looked at the people and things around him and his indignation died down. Out on the range he was cock of the walk, but on the streets in town he sang another tune.

“Is that any way to treat a peaceful citizen?” he asked.

“Get going!” bellowed the policeman, and he insulted Fabiano for leaving the tavern without saying goodbye.

“Don’t be a f-fool,” stammered the backlander. “Is it my fault if you lost your shirt playing cards?”

He choked. The representative of the law circled around for a minute, trying to pick a quarrel. Finding no pretext, he came up and planted the heel of his boot on the herdsman’s canvas sandal.

“That’s no way to act,” Fabiano protested. “I’m not bothering anybody. People’s feet are tender.”

The policeman ground his heel down harder and harder. Losing his temper, Fabiano made an insulting reference to the man’s mother. At once the khaki-clad adversary blew his whistle, and in a matter of minutes the town police force had the courbaril tree surrounded. “On your way!” the corporal shouted.

Fabiano moved without knowing where he was going, found himself in jail, listened without understanding to a charge made against him, and offered no defense.

“All right,” said the corporal. “Down you go, fellow!”

Fabiano fell on his knees and was whacked on his back and chest with the flat side of a broad knife. Then a door was opened and he was given a shove that landed him in the darkness of a cell. The key rasped in the lock. Fabiano got up in a daze, stumbled, and went to sit down in a corner, muttering to himself.

Why had they done that to him? He couldn’t figure it out. He was a well-behaved citizen, yes sir! He had never been arrested. And here, before he knew it, he was mixed up in a brawl for no reason at all. He was so upset he couldn’t believe it was true. They had all jumped on him without any warning, the bastards! They didn’t give a man a chance to defend himself.

“Oh well–” There was nothing he could do. He ran his hands over his chest and shoulders. He felt completely done in. His bluish eyes shone like those of a cat. Yes, he really had been beaten and thrown in jail. But it was such a queer business that a few minutes later he was again shaking his head in disbelief, despite his bruises.

The policeman in khaki – Yes, there was a guy in khaki, a good-for-nothing that he, Fabiano, could have knocked all apart with one good slap. He hadn’t, though, because he represented the law. Fabiano spat scornfully.

“The dirty, low-down runt!”

For the sake of a skunk like that they beat up the father of a family! He thought of his wife, the boys, the dog. Crawling on hands and knees, he hunted for the saddlebags, which had fallen on the floor. He made certain that all the things he had bought at the market were still here. Something might have got lost in the confusion. He remembered a piece of goods he had seen at the last shop he visited – pretty, stoutly woven, wide, with flowers on a red background. Just what Vitória wanted. And by being stingy, by trying to beat down the price a bit, he had come to this at the end of the day!

He fished around in the saddlebags again. Vitória would be worried about his not coming home. The house would be dark, the boys would be sitting by the fire, the dog would be keeping watch. They had certainly barred the front door.

He stretched out his legs and leaned his sore back against the wall. If they had given him time, he would have explained everything perfectly. Taken by surprise, though, he hadn’t know what to say. Who would have, under the circumstances? He couldn’t convince himself that the brutality had been directed at him. It was a mistake; the policeman in khaki had confused him with someone else. That was the only explanation.

Just because some worthless troublemaker got peeved, did they have to go and throw a fellow in jail and beat him up? He knew perfectly well that was the way things were. He was used to violence and injustice. And he had consoled such of his acquaintances as spent the night in the stocks or endured whipping saying, “Don’t worry. It’s no disgrace to take a beating from the law.”

But now he ground his teeth. He sighed. Did he deserve to be punished?

Try as he might, he could not be convinced that the policeman in khaki was really the law. The law was something far off and perfect; it couldn’t make mistakes. The policeman in khaki was right there, on the other side of the bars; he was wicked and weak; he played cards with country people and then picked quarrels with them. Surely the law could not permit such evil.

After all, what good were policemen in their khaki uniforms? He kicked the wall and cried out in fury. What good were policemen? The other prisoners stirred; the jailer came up to the bars of the cell, and Fabiano calmed down. “All right, all right. Nothing’s the matter.”

But a lot of things were the matter. He just couldn’t explain them. They could ask Tomás the miller, who read books and knew what was what. Tomás the miller could explain that business, but he, Fabiano, dull fool that he was, could not. He just wanted to go home to Vitória and lie down on their bed of tree branches. Why did they have to make trouble for somebody who only wanted to rest? Why didn’t they go bother someone else? It was all wrong.

Did they have real courage? He tried to imagine the policeman in his khaki uniform attacking a bandit out in the brushland. What a laugh! A policeman that fell into a bandit’s hands wouldn’t even leave a grease spot.

He thought of the old house where he lived, of the kitchen, of the kettle singing on the stones that held it off the fire. Vitória would be putting salt in her cooking. He opened the saddlebags again. The package of salt had not got lost. Good! Vitória would be tasting the soup, sipping from her coconut-shell ladle. And Fabiano was vexed because of her, because of the boys, because of the dog, who was like a member of the family, as smart as a person. On that long trek, at the time of the great drought, when they were all starving, the dog had brought them a cavy. It was getting old now, poor thing. Vitória would be worried and would be going often to listen at the front door. The rooster would flap his wings, the goats would bleat in their pen; the bells of the cows would tinkle.

If only – But what was he thinking of? He looked out the grating into the street. Lord but it was dark! The light on the corner had gone out, probably because the man with the ladder had put in only half a quart of kerosene.

Poor Vitória, worrying there in he dark, the boys sitting by the fire, the kettle hissing on the stones, the dog on watch the tin lamp hanging from a peg that stuck out of the wall.

He was so tired, and ached so, that he was on the point of going to sleep despite all his misfortune. A drunk was ranting in a loud voice, and some men were squatting around a fire that filled the jail with smoke, arguing and complaining about the damp wood.

Fabiano nodded. His head dropped heavily to his chest, then snapped back. He ought to have bought the kerosene from Inácio. His wife and boys would get smoke in their eyes from the torch wood.

He awoke with a star. Wasn’t he mixing things up, losing his mind? Perhaps it was the effect of the rum. No, it wasn’t. He had drunk just one glass – four fingers. If they would give him time he could explain how it all happened.

As he listened to the disjointed saving of the drunk, a painful doubt assailed him. He too said things that had no sense or meaning. Angry at the comparison, he beat his head against the wall. He was stupid, yes; he had never had any schooling; he didn’t know how to explain himself. Was he in jail for that? How was it then? Do you put a man in jail because he doesn’t know how to explain things right? What was wrong with his being stupid? He worked like a slave, day in and day out. He cleaned out the watering trough, he mended the fences, he treated the stock for ailments. He had put life into an empty shell of a ranch. Everything was in order. They could see for themselves. Was it his fault he was stupid? Who was to blame?

If it hadn’t been – He didn’t know. The thread of the idea grew – grew, and then broke. It was hard to think. He spent so much time with animals. He had never seen a school. That was why he couldn’t defend himself, why he couldn’t put things in their proper place. He no sooner got that devilish business in his head than it slipped out again. It was enough to drive a man crazy. If they had only given him some schooling, he could understand it. But it was no use. He only knew how to deal with animals.

And yet – Tomás could tell them. They should go ask him. He was a good man, Tomás the miller. He had book learning. Well, every man was as God had made him. He, Fabiano, was just plain dumb.

What he wanted – He forgot what he wanted. His thoughts now were turning to the journey he had made across the backland, ready to drop from hunger. The boy’s legs were as thin as rails; Vitória stumbled repeatedly under the weight of the trunk with their belongings. On the riverbank, from necessity, they had eaten the parrot that didn’t know how to talk.

Fabiano didn’t know how to talk either. Sometimes he came out with a big word, but it was all a fake. He knew perfectly well it was foolish. He didn’t know how to set his thoughts in order. If he did, he would go out and fight policemen in khaki uniforms who beat up harmless people.

He beat on his head and pressed it in his hands. What were those guys doing squatting around the fire? What was that drunk saying who was bellowing at the top of his lungs, wasting his breath? Fabiano wanted to cry out, to yell that they were no good. He heard a thin voice. Someone in the women’s cell was crying and cursing the fleas. Some whore probably, the kind that would take on anybody. She was no good either. Fabiano wanted to yell to the whole town, to the judge, the chief of police, the priest, and the tax collector, that nobody in there was worth a damn. He, the men squatting around the fire, the drunk, the woman with the fleas – they were all completely worthless, fit only to be hanged. That was what he wanted to say.

But there was that running fire that came and went in his spirit. Yes, there was that. But just what was it? He needed to rest. His head ached, probably from being hit with a knife handle. His head hurt all over; it seemed as if it were on fire, as if a kettle were boiling in his brain.

Poor Vitória, worried, but trying to calm the children. The dog on the alert, beside the fire. If it weren’t for them –

At last Fabiano was managing to put his thoughts in order. What held him was his family. He was tied down, like a calf lashed to a stake for branding. If it weren’t for that, no policeman in khaki would tramp on his foot! What softened him was the thought of his wife and boys. Without their yoke upon him he would not bend his back. He would live that place like a tiger and go out and do something wild. He would load his musket and put a shot into that policeman in khaki. No, the policeman was a poor devil who didn’t deserve so much as a smack from the back of his hand. He would kill the people from whom the policeman took his orders. He would join a gang of bandits and wipe those people out. He wouldn’t leave one of them to raise a family. That was the thought that was boiling in his head. But there was his wife, there were the boys, there was the dog.

Fabiano gave a yell, scaring the drunk, the men who were fanning the fire, the jailer, and the woman who was complaining about the fleas. He had that yoke on his neck. Should he continue to bear it? Vitória would be sleeping uneasily on her bed of tree branches. The boys were stupid like their father. When they grew up they would herd cattle for a boss they never saw; they would be stepped on, abused, and hurt by a policeman in a khaki uniform.

_____________

From: RAMOS, Graciliano. Barren lives. Translated with an introduction by Ralp Edward Dimmick. Austin: University of Texas Press, 1973. p. 23-34.





Bio fornecida pelo palestrante.

CRYSTAES PARTIDOS




Autor: Gilka Machado
Título: CRYSTAES PARTIDOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

CRYSTAES PARTIDOS

 

Gilka Machado

 
 

Silencio

 
 
Mysteriosa expressão da alma das cousas mudas,
Silencio – pallio immenso aos enigmas aberto,
espelho onde a tristeza universal se estampa.
Silencio – gestação das dôres crueis, agudas,
solenne imperador da Treva e do Deserto,
estagnação dos sons, berço, refugio e campa.
 
Silencio – tenebroso e insondavel oceano,
tudo quanto nos teus abysmos vive immerso,
tem a secreta voz dos rochedos, das lousas.
És a concentração do sêr pensante, humano,
a vida espiritual e occulta do universo,
a communicação invisivel das cousas.
 
Um intimo pezar toda tua alma invade,
ó meu velho eremita! ó monge amargurado!
Dentro da cathedral da verde natureza,
ouço-te celebrar a missa da Saudade
e invocar a remota effigie do Passado,
dando-me a communhão sublime da tristeza.
 
Seja engano, talvez, do meu cerebro enfermo,
mas eu comprehendo os teus sentimentos profundos,
eu te sinto cantar olentes melopéas…
Foste o inicio de tudo e de tudo és o termo.
Silencio – concepção primitiva dos mundos,
cosmopéa etheral de todas as idéas.
 
Silencio – solidão de symptomas medonhos,
pantano onde do mal desenvolvem-se os vermes,
fonte da inspiração, rio do esquecimento,
lagôa em cujo fundo os sapos dos meus sonhos,
postos alheiamente, inanimes, inermes,
fitam de estranho ideal o fulgor opulento.
 
Ó Silencio! Ó visão subjectiva da Morte!
– refúgio passional que eu sempre busco e anceio,
gôso de recordar… torturas e confortas,
pois fazes com que ao teu influxo eu me transporte
ao seio da Saudade, a esse funereo seio
– esquife onde revejo as illusões já mortas.
 
Da scisma na minha alma o triste cunho imprimes,
és o somno, o desmaio, o natural mysterio,
trazes-me a sensação dos gélidos tormentos;
e si nesse teu ventre hão germinado os crimes,
no teu cérebro enorme, universal, ethereo,
têm-se desenvolvido os grandes pensamentos.
 
 

Rosas

 
 

I

 
 
Cabe a supremacia á rosa, entre o complexo
das flôres, pelo viço e pela pompa sua,
e o arôma que ella traz sempre á corolla annexo
o coração humano excita, enleva, estua.
 
Quando essa flôr se ostenta á luz tibia da Lua,
o luar busca enlaçal-a, amoroso, perplexo,
e ella sonha, estremece, oscilla, ri, fluctua
e desmaia, ao sentir esse etheral amplexo.
 
Si é rosea lembra carne ardente, palpitante…
nívea – lembra pureza e nada ha que a supplante,
rubra – de certa bocca os labios nella vejo.
 
Seja qualquer a côr, por sobre o hastil de cada
rosa, vive a Mulher, nos jardins flôr tornada:
– symbolo da Volupia a excitar o Desejo.
 
 

II

 
 
Rosas cujo perfume, em noutes enluaradas,
é um sortilegio ethereo a transpôr as rechans;
rosas que á noute sois risonhas, floreas fadas,
de cutis de velludo e tenras carnes sans.
 
Sejaes da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmans,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretisação dos risos das Manhans!
 
Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
ha nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêcego em sazão.
 
Dae que eu possa gosar, ao vosso collo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emolliente,
numa dubia, sensual e suave sensação!
 
 

Sensual

 
 
Quando, longe de ti, solitaria, medito
neste affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que o teu corpo desprende e ha no teu proprio vulto.
 
A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus labios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
á minha castidade é como que um insulto.
 
Si acaso te achas longe, a collossal barreira
dos protestos que, outr’ora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.
 
Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volupia a ascosa e fria lêsma
minha carne polluir com repugnante baba…
 
 

Olhos verdes

 
 
Ha na vibrante côr dos teus olhos, creatura,
a virential frescura
dos verdes e viçosos vegetaes;
teus olhos são, na côr e na espessura,
florestas virginaes,
onde das illussões o alacre bando
passa, de quando em quando,
cantando…
 
Olhos de expressões graves e fidalgas,
postos na introversão dos intimos scismares.
Olhos que lembram solitarias algas,
pompeando á superficie esmaecida dos mares.
 
Olhos onde do olhar alheio mal escondes
a tua alma aisteroide, a tua alma singular,
pois, coma através das frondes
côam-se pelo espaço as filandras do luar,
 
 
tua alma os olhos te ablue, inunda,
transvasa e o rosto te illumina e banha
de uma luz albuginea, luz estranha,
luz que do luar supponho oriunda.
 
Ha nos teus olhos a verdura intensa
das aguas mortas, das estagnações,
e quem os vê, depressa, pensa
vêr tenros tinhorões…
 
Olhos de cujo olhar os gonfalões desfraldas,
e deixas a rolar por todo o ambiente,
como uma chuva undante, uma chuva esplendente,
uma diliquescencia de esmeraldas.
 
Quando entreabro do sonho os fenestraes postigos
e aos teus olhos amigos,
para melhor os vêr, envio o olhar,
tuas pupillas julgo orvalhados pascigos
onde, sempre a pastar,
vive, das illusões proprias só das creancinhas,
o armento de ovelhinhas.
 
Olhos que lembram folhas pendidas,
folhas do vento na aza levadas,
postas em tristes, hiemaes jazidas
de alvacentas estradas.
 
Olhos macios,
cujos olhares supponho rios
a desaguarem nos olhos meus;
olhos de tal mysticismo feitos
que, olhos herejes ficam sujeitos,
só por fital-os, a crêr em Deus.
 
Divinos olhos, cujas pupillas,
langues, tranquillas,
são duas malvas,
malvas escuras,
abertas sempre sobre as brancuras
das corneas alvas…
 
Olhos com os quaes meus olhos maravilhas
de luz,
olhos que são abandonadas ilhas
do oceano á flux…
ilhas distantes,
apparecidas em alto mar,
onde os meus olhos – dous navegantes,
andam buscando sempre aportar.
 
Olhos serenos, olhos de creança,
de olhar queixoso como onda mansa,
como onda calma,
que lasso, leve, langue se lança
na praia solitaria da minha alma.
 
Olhos solennes e scismadores,
verdes como os oceanos, como as franças,
olhos – embalsamadas esperanças
postas sobre o brancor de estaticos andores.
 
Olhos tristonhos,
por onde vejo, em procissão e em côro,
desfilarem verdes sonhos,
sob os arcos triumphaes dos supercilios de ouro.
 
 

Espirituaes

 
 

I

 
 
Do meu amôr por ti como contar-te a historia,
si nem sei desde quando em meu cerebro o trago,
erguido assim como uma igreja merencorea,
da qual tu sempre foste o milagroso orago?
 
De ha tanto não te vêr, apenas, na memoria,
conservo do teu rosto um simulacro vago,
e, como desse amôr gôso supremo e gloria,
lembro de um teu sorriso o espiritual afago.
 
O meu amôr por ti é intangivel e puro,
desprovido de ardor, desprovido das ancias
dos prazeres carnaes, ephemeros e escassos.
 
Amôr em que o meu sêr totalmente depuro,
amôr que te dedico através das distancias,
como um sol a outro sol, através dos espaços.
 
 

II

 
 
O meu amôr por ti é uma arvore exilada,
verde, em pleno vigor da juvenil chimera,
que, na ampla vastidão de solitaria estrada,
ama outra arvore que, de longe, a anceia e espera.
 
Que importa da tristeza o hinverno ponha em cada
folha sua uma ruga e a torne velha e austera?
para que ella resurja, alegre e remoçada.,
a Esperança virá qual uma Primavera.
 
E ha-de este nosso amôr esperançoso e lindo,
os nossos corações, ó meu longinquo amante!
cada vez mais encher, frondejando… subindo…
 
Amôr mudo e soffrente, amôr calmo e tristonho
– arvore a receber de outra arvore distante
o alvo pollen da dôr para a anthese do Sonho.
 
 

III

 
 
Para que deste amôr nunca a memoria laves
vivamos sempre assim, a distancia sujeitos,
tu – ignorando sempre os meus defeitos graves,
eu – ignorando sempre os teus leves defeitos.
 
Como duas eguaes e extraordinarias naves
irão – rumo do ideal – nossas almas de eleitos,
ambas vogando sobre os mesmos sonhos suaves,
ao desejo que as move e imflamma nossos peitos.
 
Cada vez entre nós mais a distancia augmentando,
para que esse almo ideal, tantos annos sonhando,
não vejamos fugir num rapido momento,
 
e sintamos, então, immoveis, lado a lado,
essa nausea, esse tedio, esse aniquilamento
que vem sempre depois de um desejo saciado.
 
 
_______________________
 
Fonte: MACHADO, Gilka. Crystaes Partidos: poesias. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1915. p. 13-14; 28-29; 41-45; 54-56.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

ESTADOS DA ALMA




Autor: Gilka Machado
Título: ESTADOS DA ALMA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

ESTADOS DA ALMA

 
 

Gilka Machado

 

Possa eu, da phrase nos absonos sons

 
 
Possa eu, da phrase nos absonos sons,
em versos minuciosos ou succintos,
expressar-me, dizer dos meus instinctos,
sejam elles, embora, máos ou bons.
 
Quero me vêr no verso, intimamente,
em sensações de gôso ou de pezar,
pois, occultar aqui’lo que se sente,
é o proprio sentimento condemnar.
 
Que do meu sonho o bronco véo se esgarce
e mostre núa, totalmente núa,
na plena graça da simpleza sua,
minha Emoção, sem peias, sem disfarce.
 
Quero a arte livre em sua contextura,
que na arte, embora peccadora, a Idéa,
deve julgada ser como Phrinéa:
– na pureza triumphal da formosura.
 
Gelar minha alma de paixões accêsa
porque? si desta forma ao Mundo vim;
si adoro filialmente a Natureza
e a Natureza é que me fez assim.
 
Meu ser interno, tumultuoso, vario,
– máo grado o parvo olhar profanador –
no livro exponho como num mostruario:
sempre a verdade é digna de louvor.
 
Fiquem no verso, pois, eternamente,
as minhas sensações gravadas, vivas,
nas longas crises, nas alternativas
desta minha alma doente.
 
Relatando o pezar, relatando o prazer,
través a agitação, través a calma,
a estrophe deve tão somente ser
o diagnostico da alma.
 
 

Aspiração

 
 
Eu quizera viver
tal qual os passarinhos:
cantando á beira dos caminhos,
cantando ao Sol, cantando aos luares,
cantando de pezar, cantando de prazer,
sem que ninguem ligasse aos meus cantares.
 
Eu quizera viver em plenos ares,
numa suspensa, etherea trajectoria,
numa existencia quasi incorporea;
viver sem rumo, procurar guarida
á noute, para, em somno, o corpo descançar,
viver em vôos, de corrida,
roçar, apenas, pela Vida.
 
Eu quizera viver sem leis e sem senhor,
tão sómente sujeita ás leis da Natureza,
tão sómente sujeita aos caprichos do Amôr.
Eu quizera vier na selva accêsa
pelo fulgôr solar,
o convivio feliz das mais aves gosando,
viver em bando,
a voar… a voar…
 
Eu quizera viver cantando como as aves,
em vez de fazer versos,
sem poderem, assim, os humanos perversos
interpretar
perfidamente o meu cantar.
 
E eu cantaria, então, a liberdade do ar,
e cantaria o som, a côr, o arôma,
a luz que morre, a luz que assoma,
cantaria, de maneira incomprehendida,
toda a belleza indefinida
que a Natureza expõe e a gosar me convida.
 
E eu pudera expressar,
em sons lêdos ou graves,
esses prazeres suaves
do tacto;
e eu – então canora artista –
expandiria as emoções da minha vista,
e todo o goso, lubrico e insensato,
do odôr, que embriaga o olfacto;
e eu poderia externar,
em sons alegres ou doridos,
todas as impressões dos meus ouvidos,
toda a delicia do meu paladar.
 
Eu quizera viver dentro da natureza;
suffoca-me a estreiteza
desta vida social a que me sinto preza.
Deante
de uma paisagem verdejante,
deante do céo, deante do mar,
esta minha tristeza,
por momentos, se finda,
e desejo viver, soffrer a vida ainda,
e fico a meditar:
como os homens são máos e como a Terra é linda!
 
Certo, não fôra assim tão triste a vida,
si, das aves seguindo o exemplo encantador,
a humanidade, livremente unida,
gosasse a natureza, a liberdade e o amôr.
 
Eu quizera viver
sem a forma possuir do humano ser;
viver, como os passarinhos,
uma existencia toda de carinhos,
de delicias sem par…
Morte, que és hoje todo meu prazer,
fôras, então, meu unico pezar!
 
Eu quizera viver a voar, a voar
até sentir as azas mollentadas,
voar ao cahir do Sol e ao vir das Alvoradas,
voar mais, ainda mais
pairar bem longe das creaturas,
nas serenissimas alturas
celestiaes…
Voar mais, ainda mais
(o vôo me seduz!),
voar, até, finalmente,
num dia muito azul e muito ardente,
– alma – pairar do espaço a flux,
– materia – despenhar-me, de repente,
sobre a terra absorvente,
morta, morta de luz!
 
 

Symbolos

 
 
Eu e tu, ante a noute e o amplo desdobramento
do mar fero, a, estourar de encontro á rocha nua.
Um symbolo descubro aqui, neste momento;
esta rocha e este mar… a minha vide e a tua…
 
O mar vem… o mar vae…. nelle ha o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recúa…
Como eu comprehendo bem da rocha o sentimento!
são bem eguaes, por certo, a minha magua, e a sua!
 
Symbolisa este quadro a nossa propria vida:
tu és esse mar bravio, inconstante e inclemente,
com carinhos de amante e furias de demente;
 
eu sou a dôr parada, a dôr empedernida,
eu sou aquella rocha encravada na areia,
alheia ao mar que a punge, ao mar que a afaga alheia…
 
 

Numa rêde

 
 
Bem sei porque me sinto creança,
quando uma rêde me embalança!
– é que ha, na rêde um rythmo egual
ao da canção lenta e macia,
com que eu, em creança, adormecia
no fôfo seio maternal.
 
A minha rêde é mansa, mansa,
de me agradar nunca se cança,
é a minha amiga mais perfeita;
como ao meu gosto se conforma,
e do meu corpo toma a forma,
e toda a mim se torna affeita!
 
A minha rêde no ar se lança,
como num mar todo bonança:
nella navego em ondas de ar,
para um paiz que é o da Chimera,
de onde me acena alguem e espera
alguem que eu vivo a desejar.
 
A rêde tem o gesto e a nuança
da hesitação: recua… avança….
e ao seu balanço leve e lento,
por mais que nella o corpo encôlha,
sinto-me fragil como a fôlha,
julgo-me toda entregue ao Vento.
 
Qual uma larga e basta frança,
a rêde vae e vem, balança…
e adormecendo as seu vae-vem,
sobre o seu corpo quase fluido,
sonho-me posta, com descuido,
nos braços langues desse alguem…
 
Na rêde o corpo, a rir, descança,
como num sonho uma esperança.
Dos meus pezares esquecida,
muito ao meu gôsto posta, vede:
ao molle embalo de uma rêde,
fico oscillando para a Vida…
 
 

Olhando a minha vida

 
 
Errei… Minha esperança, além, se esfuma…
sinto-me envelhecer…. A Terra é linda!
mas a existencia, aos pouco se me finda,
sem que eu tenha gosado cousa alguma!
 
Sou producto de um erro; ha tanto vinda
é a dôr que no meu peito se avoluma,
que eu não sei si a adquiri ou si ella, numa
lei atavica, em mim perdura ainda.
 
Errei caminho, vim ao mundo atôa,
em vão minha alma libertar procuro
do pezo que carrega e que a magôa.
 
Minha existencia é toda, toda errada,
e, distendendo o olhar para o Futuro,
olho, perscruto, chamo, indago… – nada…
 
 
_____________________________
 
Fonte: MACHADO, Gilka. Estados da alma: poesias. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1917. p. 09-14; 29; 63-64; 118.





Bio fornecida pelo palestrante.

O CABELEIRA




Autor: Franklin Távora
Título: O CABELEIRA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

O CABELEIRA
 
 

Capítulo I

 
 

Franklin Távora

 
 
A história de Pernambuco oferece-nos exemplos de heroísmo e grandeza moral que podem figurar nos fastos dos maiores povos da antiguidade sem desdourá-los. Não são estes os únicos exemplos que despertam nossa atenção sempre que estudamos o passado desta ilustre província, berço tradicional da liberdade brasileira. Merecem-nos particular meditação, ao lado dos que aí se mostram dignos da gratidão da pátria pelos nobres feitos com que a magnificaram, alguns vultos infelizes, em quem hoje veneraríamos talvez modelos de altas e varonis virtudes, se certas circunstancias de tempo e lugar, que decidem dos destinos das nações e até da humanidade, não pudessem desnaturar os homens, tornando-os açoites das gerações coevas e algozes de si mesmos. Entra neste número o protagonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do crime, menos por maldade natural, do que pela crassa ignorancia que em seu tempo agrilhoava os bons instintos e deixava soltas as paixões canibais. Autorizavam-nos a formar este juízo do Cabeleira a tradição oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da história que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição.
A sua audácia e atrocidades deve seu renome este herói legendário para o qual não achamos par nas crônicas provinciais. Durante muitos anos, ouvindo suas mães ou suas aias cantarem as trovas comemorativas da vida e morte desse como Cid, ou Robin Hood pernambucano, os meninos, tomados de pavor, adormeceram mais depressa do que se lhes contassem as proezas do lobisomem ou a história do negro do surrão muito em voga entre o povo naqueles tempos.
Com a simplicidade irrepreensível que é o primeiro ornamento das concepções do espírito popular, habilitam-nos esses trovadores a ajuizarmos do famoso valentão pela seguinte letra:
 

Fecha a porta, gente,

Cabeleira aí vem,

Matando mulheres,

Meninos também.

 
O Cabeleira chamava-se José Gomes, e era filho de um mameluco por nome Joaquim Gomes, sujeito de más entranhas, dado à prática dos mais hediondos crimes.
De parceria com um pardo de nome Teodósio, que primou na astúcia e nos inventos para se apossar do que lhe não pertencia, percorriam José e Joaquim o vasto perímetro da província em todas as direções, deixando a sua passagem assinalada pelo roubo, pelo incêndio, pela carnificina.
Um dia assentaram dar um assalto à própria vila do Recife.
As populações do interior, em sua maioria destituídas de bens da fortuna, e então muito mais espalhadas do que atualmente, pouco tinham já com que cevar a voracidade dos três aventureiros a quem desde muito pagavam um triplo imposto consistente em víveres, dinheiro e sangue. O assalto foi resolvido em secreto conciliábulo dentro das matas de Pau d’Alho onde mais uma vez se haviam reunido para concertos idênticos.
Na mesma hora aperceberam-se para a temerária tentativa, e, com o arrojo que lhes era natural, puseram-se a caminho contando de antemão com o feliz sucesso em que tinham posto a mira.
A notícia da sua aproximação a maior parte dos moradores, deixando os povoados, então muito fracos por não terem ainda a densidão que só um século depois tornou alguns deles respeitáveis, emigrou para os matos, único abrigo com que lhes era permitido contar, embora se achassem a poucas léguas do Recife; tais houve que, não tendo tempo ou recursos para fugir aos cruéis visitantes, lhes deram hospedagem como meio de não incorrerem no seu desagrado.
Ao declinar do dia seguinte eram eles na Estancia. Sentaram-se no adro da capela de taipa que fora aí levantada por Henrique Dias, para recordar aos vindouros que nesse lugar tivera ele o seu posto militar pelas guerras da restauração. Esse posto era dentre todos o que ficava mais vizinho ao inimigo. Eloqüente testemunho de bravura do troço da gente preta a quem a pátria reservou distinta menção nas maiores páginas da história colonial.
– É muito cedo para entrarmos na vila – disse o Cabeleira. – E não será até melhor que o Teodósio vá primeiro que nós para assentar ainda com dia no meio mais certo de realizar a empresa?
– Tens razão, Jose Gomes – acrescentou Joaquim; – o Teodósio, que é macaco velho, deve ir adiante a sondar as coisas. Para bater o pé ao inimigo e fazer frente a qualquer dunga, vocês sabem muito bem que eu sou cabra decidido; agora, para espertezas não contem comigo; isso é lá com o Teodósio que é mestre em saberetes; e ninguém lhe vai ao bojo.
Os três malfeitores traziam consigo bacamartes, parnaíbas, facas e pistolas.
Cabeleira podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado com vigorosas formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e languidos, o nariz pouco desenvolvido, os lábios delgados como os de um menino. É de notar que a fisionomia deste mancebo, velho na prática do crime, tinha uma expressão de insinuante e jovial candidez.
Joaquim, que contava o duplo da idade de seu filho, era baixo, corpulento e menos feito que o Teodósio, o qual, posto que mais entrado em anos, sabia dar, quando queria, à cara romba e de cor fula, uma aparência de bestial simplicidade em que só uma vista perspicaz, e acostumada a ler no rosto as idéias e os sentimentos íntimos, poderia descobrir a mais refinada hipocrisia.
– Entendo que é bem lembrado o que dizes, Cabeleira – acrescentou o cabra levantando-se; – corro sem demora armar o laço para apanhar o passarinho; ainda que, a bem dizer, já cá tenho o meu plano que há de cair tão certinho como São João a vinte e quatro.
– E onde depois nos encontraremos? – perguntou Joaquim, vendo que o Teodósio se achava já de marcha para a vila.
– Não será o mais custoso. Esperarei por vocês debaixo da ingazeira da ponte.
Teodósio, não estando mais para conversa, conchegou o chapéu de palha à cabeça para que o vento não lho arrebatasse, e desapareceu em rápido marche-marche, por detrás dos matos que naquele tempo enchiam ainda em sua maior parte a zona onde hoje se ostenta com suas graciosas habitações entre risonhos verdores a Passagem da Madalena.
Antes que o sol descesse ao horizonte e as trevas envolvessem de todo a natureza, meteram-se o pai e o filho pelo caminho onde um quarto de hora atrás havia desaparecido o outro companheiro, alma do negócio e principal responsável pelos perigos a que todos eles iam expor talvez a própria vida.
A solidão estava sombria e triste.
Contavam-se então as casas por aquelas paragens. Em torno delas o deserto começava a aumentar antes de pôr-se o sol. Uma lei cruel, a lei da necessidade, obrigava os moradores a trancar-se cedo por bem da própria conservação.
Os roubos e assassinatos reproduziam-se com incrível freqüência nos caminhos e até nas beiradas dos sítios.
Sólidas habitações não tinham em muitos casos assegurado às famílias inelutável obstáculo ao assalto dos malfeitores. Triste época em que o despotismo tudo podia contra os cidadãos pacíficos e bons, nada contra a parte cancerosa da sociedade!
A vila estava em festa. Foi no primeiro domingo de dezembro de 1773. Era governador Manuel da Cunha de Meneses, depois conde de Lumiar, jovem fidalgo a quem a igreja pernambucana deve distintos benefícios.
Com a data do 1o daquele mês tinha ele feito publicar um bando pelo qual ordenara aos moradores que pusessem luminárias em demonstração da alegria que causara à nação portuguesa a abolição dos jesuítas em todo o orbe cristão, pelo santo padre Clemente XIV.
No lugar onde hoje existe a formosa ponte Sete de Setembro que liga o bairro do Recife ao de Santo Antônio, via-se nessa época uma ponte de madeira, a qual fora mandada construir em 1737 sobre os sólidos pilares de pedra e cal da primitiva ponte, obra de Maurício de Nassau, por Henrique Luís Vieira Freire de Andrade, um dos governadores que mais honrada e benemérita memória deixaram de si em Pernambuco.
Era uma rica construção, nada menos do que uma rua suspensa sobre as águas do rio Capibaribe, que passa aí reunido ao Beberibe, depois de um curso de oitenta léguas por entre matas, por sobre pedras e ao pé de pitorescas vilas, povoações e arrabaldes. De um e outro lado, exceto na parte central, que fora guarnecida de bancos para recreio do público, viam-se pequenos armazéns de taipa de sebe em que se vendiam miudezas e ferragens, que logo depois de prontos acharam alugadores, começaram a render a quantia de oitocentos mil-réis anuais, a qual no começo do século corrente se havia elevado à de quatro contos de réis. Com a fundação das casinhas sobreditas teve por fim o governador de criar uma fonte de rendas destinada à conservação das pontes da província, quase todas nesse tempo em deplorável ruína. Destas obras com que dotou Pernambuco o gênio desse ilustre governador, não resta hoje o menor vestígio. Tudo desapareceu, tudo, até as arcadas holandesas que ainda alcancei. O monumento das idades é mais depressa destruído pelos homens do que pelo tempo, esse consumidor que, como ser voraz, não deixa de respeitar a obra da virtude.
A boca da noite os dois aventureiros chegaram à parte do bairro da Boa Vista que é de nós conhecida por Ponte Velha. Raras casas mostravam-se então aí.
A pouca distancia para o sul do lugar onde existira a antiga ponte, nesse tempo já substituída pela da Boa Vista mandada construir por Henrique Luís a quem já nos referimos, levantava-se na margem uma ingazeira idosa e ramalhuda. Abrindo sobre o rio a copa à semelhança de chapéu-de-sol, formava esta árvore uma vasta camarinha que servia de porto de abrigo aos canoeiros quando o vento era teso, e as marés puxavam com velocidade. Debaixo desse teto protetor as águas corriam sempre mansas e bonançosas, e, sem primeiro descer ao pé do gigantesco vegetal, era difícil descobrir, pela densidão da sua folhagem, qualquer objeto ou ente que à sombra desta se acolhesse, ainda que estivesse o sol dardejando os seus luminosos raios. Fora este o ponto de reunião indicado por Teodósio aos companheiros.
Dar com as primeiras casas iluminadas foi para os dois valentões motivo de justo espanto e receio. Não sabendo do regozijo oficial, e tendo bem presentes na consciência os crimes que haviam cometido, logo lhes pareceu que seriam descobertos ao clarão das luzes, não se demorando o clamor público, se assim acontecesse, a denunciá-los às justiças de el-rei.
Pelo voto de Cabeleira tinha-se verificado no mesmo instante a volta ao deserto. Mas Joaquim, cuja temeridade não conhecia limites, desprezando os conselhos do filho sobre o qual exercitava a tirania do déspota primeiro que a autoridade do pai, foi fazer alto ao pé da ingazeira sobredita, tendo atravessado para chegar a este ponto as ruas mais públicas do nascente bairro da Boa Vista.
Profundo silêncio reinava no vasto areal que guarnecia o rio por aquele lado. As águas mal se moviam. Desceram os dois à margem a ajuntar-se ao Teodósio conforme o convencionado, mas a sua expectativa foi iludida; não havia aí viva alma; unicamente se mostrou aos seus olhos um corpo negro, oscilando debaixo da folhagem, ao brando ondear das águas: era uma canoa que estava presa por uma corda ao tronco da ingazeira.
Depois de alguns momentos de espera não sem inquietação para os recém-chegados, um ruído que veio interromper o silêncio reinante na margem obrigou-os a pôr-se em armas por precaução. A corda rapidamente encurtando atraiu sem auxílio visível a canoa à margem, e um corpulento canoeiro, nu da cintura para cima, arrastando uma vara pela mão, saltou à frente dos malfeitores.
– Sou eu, Cabeleira, sou eu.
– Teodósio! Meteste-te em boas.
– Eu estava escondido dentro da canoa para fazer um susto a vocês.
– A bom diabo te encomendaste hoje que o meu bacamarte mentiu fogo duas vezes – disse Cabeleira.
– Não falemos mais nisso – acudiu Teodósio; – celebraremos depois o caso. Para agora vamos ao que importa.
– Que é que há?
– Não me estão vendo em figura de canoeiro? Vamos a ela enquanto é tempo.
Teodósio inclinou-se para passar aos dois um segredo que em pouco tempo foi por ambos compreendido, e que entrou no mesmo instante a ser posto em execução pelos três. O pai e o filho foram guardar as suas armas de fogo na canoa, e o cabra saltou novamente dentro dela e fez-se ao largo. Quem visse um instante depois o lenho resvalando na vasta superfície do rio à claridade dos astros da noite, juraria que nessa sombra fugitiva, nesse ponto que se perdeu por fim nos seios da escuridão, não ia mais que um canoeiro, sabedor das manhas das águas e senhor dos meios de as vencer. Ia entretanto aí uma maldade muito mais considerável e perigosa, porque era hipócrita e estava disfarçada, do que a malvadez de Joaquim sempre alerta, e a impavidez de José sempre franco até na estratégia e na emboscada.
Estes dois últimos, tanto que o cabra só afastou da margem, atravessaram a ponte da Boa Vista e, ladeando o canal que cercava Santo Antônio pelo lado ocidental e ia encher ao sul as valas da fortaleza das Cinco Pontas, e ao norte as do forte Ernesto, hoje inteiramente desaparecido, passaram em frente do palácio do governador e por este forte, o qual ficava pouco adiante do convento de S. Francisco, e entraram na ponte do Recife que apresentava uma vista majestosa e deslumbrante. Colunas e arcos triunfais profusamente iluminados tinham sido ali erguidos a iguais distancias. Ao som das músicas marciais, o povo percorria o aéreo passeio entre risos e folgares.
Ainda bem não se haviam os malfeitores confundido com os passeantes, quando se ouviu um grito arrancado pelo panico terror de um matuto que os conhecera.
– O Cabeleira! O Cabeleira! Grandes desgraças vamos ter, minha gente! – clamou o mal avisado roceiro.
Estas palavras caíram como raios mortíferos no meio da multidão que se entregava, incuidosa e confiante, ao regozijo oficial.
A confusão foi indescritível. As expansões da pública alegria sucederam as demonstrações do geral terror. Homens, mulheres, crianças atropelaram-se, correndo, fugindo, gritando, caindo coma impelidos por infernal ciclone. A fama do Cabeleira tinha, não sem razão, criado na imaginação do povo um fantasma sanguinário que naquele momento se animou no espírito de todos e a todos ameaçou com inevitável extermínio.
Ouvindo aquelas palavras e sendo assim surpreendidos por uma ocorrência com que não contavam, os dois malfeitores instintivamente bateram mãos das parnaíbas primeiro para se defenderem, por lhes parecer que corria a sua liberdade iminente perigo, que para investirem com massa ingente, a qual aliás fugia corno rebanho apavorado pela presença das onças. Os seus gestos concorreram para aumentar o terror da multidão, a qual, mal interpretando-os, imaginou que ia ter começo a carnificina.
– Sim, é o Cabeleira, gente fraca. Ele não vem só, vem seu pai também[1] – gritou José Gomes, cujo rosto começou a anuviar-se.
Joaquim, feroz por natureza, sanguinário por longo hábito, descarregou a parnaíba sobre a cabeça do primeiro que acertou de passar por junto dele. A cutilada foi certeira, e o sangue da vítima, espadanando contra a face do matador, deixou aí estampada uma máscara vermelha através da qual só se viam brilhar os olhos felinos daquele animal humano.
José Gomes, por irresistível força do instinto que muitas vezes o traiu aos olhos do carniceiro pai, voltou-se de chofre e lhe disse:
– Para que matar se eles fogem de nós?
– Matar sempre, Zé Gomes – retorquiu o mameluco com as narinas dilatadas pelo odor do sangue fresco e quente que do rosto lhe descia aos lábios e destes penetrava na boca cerval. – Não temos aqui um só amigo. Todos nos querem mal. É preciso fazer a obra bem feita.
Este homem era o gênio da destruição e do crime. Por sua boca falavam as baixas paixões que à sombra da ignorancia, da impunidade e das florestas haviam crescido sem freio e lhe tinham apagado os lampejos da consciência racional que todo homem traz do berço, ainda aqueles que vêm a ser depois truculentos e consumados sicários.
Seu coração estava empedernido, seu senso moral obcecado.
Nenhum sentimento brando e terno, nenhum pensamento elevado exercitava a sua salutar influência nas ações deste ente degenerado e infeliz.
– Estás com medo, Zé Gomes, deste poviléu? Parece-me ver-te fraquejar. Por minha bênção e maldição te ordeno que me ajudes a fazer o bonito enquanto é tempo. Não sejas mole, Zé Gomes; sê valentão como é teu pai[2].
Tendo ouvido estas palavras, o Cabeleira, em cuja vontade exercitava Joaquim irresistível poder, fez-se fúria descomunal e, atirando-se no meio do concurso de gente, foi acutilando a quem encontrou com diabó1ico desabrimento. Como dois raios exterminadores, descreviam pai e filho no seio da massa revolta desordenadas e vertiginosas elipses.
A geral consternação teria cessado em poucos instantes se o povo pudesse escapar pelas duas entradas da ponte. Achavam-se porém estas já tomadas por piquetes de infantaria às pressas organizados para embargarem a fuga aos matadores e reduzi-los à prisão.
A medida que estes piquetes se foram movendo das extremidades para o centro, a população, obrigada a aproximar-se dos assassinos, preferiu a este perigo atirar-se ao rio, e a baldeação não se fez esperar,
Em poucos momentos os perturbadores da ordem acharam-se debaixo das vistas da força pública. O lugar da cena estava quase inteiramente desocupado. As colunas militares operaram um movimento único, indescritível. Carregaram sem demora sobre os delinqüentes que, à vista da estreiteza do passo e do cerco, só nas águas puderam, como as suas vítimas, achar salvação.
Um soldado, impelido talvez primeiro pelo ímpeto da paixão que pela consciência do dever, o qual em ocasiões iguais àquela raramente fala mais alto que os instintos animais, atirou-se de arma em punho após os assassinos com o fim de apreender um dos dois, ainda que custasse a própria vida. Não logrou o seu intento este valente defensor da sociedade e da lei. Quando sua mão tocava em um dos delinqüentes, de cima de uma canoa que nesse momento desatracara da ponte, desfecharam-lhe com a vara tão forte golpe sobre a cabeça, que o infeliz, perdendo os sentidos, foi arrebatado pela corrente. Igual cena se presenciou em 1821, figurando como vítima João Souto Maior que procurara salvar-se no rio depois de haver ferido com um tiro de bacamarte na ponte da Boa Vista o governador Luís do Rego Barreto.
Assim se passou na vila do Recife a noite do primeiro domingo de dezembro de 1773, noite memorável, que principiou pela alegria e terminou pelo terror público.
 
 
Fonte: TÁVORA, Franklin. O cabeleira: romance. São Paulo: Editora Três, 1973. p. 31-40.
 



[1] A trova popular diz:
 

Corram, minha gente

Cabeleira aí vem;
Ele não vem só,
Vem seu pai também.
 
 

[2] Dizem os trovadores:
 
Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse mole,
Fosse valentão.




Bio fornecida pelo palestrante.

O HOMEM NU: CRÔNICAS




Autor: Fernando Sabino
Título: O homen nu
Idiomas: port
Tradutor: 01/07/2005
Data: –

O HOMEM NU: CRÔNICAS

 
 

Fernando Sabino

 

O homem nu

 
 
Ao acordar, disse para a mulher:
– Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem ai o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
– Explique isso ao homem – ponderou a mulher.
– Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar – amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou a espera, olhando ansiosamente ao redor.
Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
– Maria! Abre aí, Maria. Sou eu – chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares… Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
– Maria, par favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo… Tomado de panico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor de testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
– Ah, isso é que não! – fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido… Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
– Isso é que não – repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentanea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: “Emergência: parar”. Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
– Maria! Abre esta porta! – gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
– Bom dia, minha senhora – disse ele, confuso. – Imagine que eu…
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
– Valha-me Deus! O padeiro esta nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
– Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
– É um tarado!
– Olha, que horror!
– Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
– Deve ser a polícia – disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
 
 

Macacos me mordam

 
 
Morador de uma cidade do interior de Minas me deu conhecimento do fato: diz ele que há tempos um cientista local passou telegrama para outro cientista, amigo seu, residente em Manaus:
 
“Obsequio providenciar remessa 1 ou 2 macacos”.
 
Necessitava ele de fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado na localidade. Um belo dia, já esquecido da encomenda, recebeu resposta:
 
“Providenciada remessa 600 restante seguirá oportunamente”.
 
Não entendeu bem: o amigo lhe arranjara apenas um macaco, por seiscentos cruzeiros? Ficou aguardando, e só foi entender quando o chefe da estação veio comunicar-lhe:
– Professor, chegou sua encomenda. Aqui esta o conhecimento para o senhor assinar. Foi preciso trem especial.
E acrescentou:
– É macaco que não acaba mais!
Ficou aterrado: o telégrafo errara ao transmitir “1 ou 2 macacos”, transmitira “1002 macacos”! E na estação, para começar, nada menos que seiscentos macacos engaiolados aguardavam desembaraço. Telegrafou imediatamente ao amigo:
 
“Pelo amor Santa Maria Virgem suspenda remessa restante”.
 
Ia para a estação, mas a população local, surpreendida pelo acontecimento, já se concentrava ali, curiosa, entusiasmada, apreensiva:
– O que será que o professor pretende com tanto macaco?
E a macacada, impaciente e faminta, aguardava destino, empilhada em gaiolas na plataforma da estação, divertindo a todos com suas macaquices. O professor não teve coragem de aproximar-se: fugiu correndo, foi se esconder no fundo de sua casa. A noite, porém, o agente da estação veio desentocá-la:
– Professor, pelo amor de Deus, vem dar um jeito naquilo.
O professor pediu tempo para pensar. O homem coçava a cabeça, perplexo:
– Professor, nós todos temos muita estima e muito respeito pelo senhor, mas tenha paciência: se o senhor não der um jeito eu vou mandar trazer a macacada para sua casa.
– Para minha casa? Você está maluco?
O impasse prolongou-se ao longo de todo o dia seguinte. Na cidade não se comentava outra coisa, e os ditos espirituosos circulavam:
– Macacos me mordam!
– Macaco, olha o teu rabo.
A noite, como o professor não se mexesse, o chefe da estação convocou as pessoas gradas do lugar: o prefeito, o delegado, o juiz.
– Mandar de volta por conta da prefeitura?
– A prefeitura não tem dinheiro para gastar com macacos.
– O professor muito menos.
– Já estão famintos, não sei o que fazer.
– Matar? Mas isso seria uma carnificina!
– Nada disso – ponderou o delegado: – Dizem que macaco guisado é um bom prato…
Ao fim do segundo dia, o agente da estação, por conta própria, não tendo outra alternativa, apelou para o último recurso – o trágico, o espantoso recurso da pátria em perigo: soltar os macacos. E como os habitantes de Leide durante o cerco espanhol, soltando os diques do mar do Norte para salvar a honra da Holanda, mandou soltar os macacos. E os macacos foram soltos! E o mar do Norte, alegre e sinistro, saltou para a terra com a braveza dos touros que saltam para a arena quando se lhes abre o curral – ou como macacos saltam para a cidade quando se lhes abre a gaiola. Porque a macacada, alegre e sinistra, imediatamente invadiu a cidade em panico. Naquela noite ninguém teve sossego. Quando a mocinha distraída se despia para dormir, um macaco estendeu o braço da janela e arrebatou-lhe a camisola. No botequim, os fregueses da cerveja habitual deram com seu lugar ocupado por macacos. A bilheteira do cinema, horrorizada, desmaiara, ante o braço cabeludo que se estendeu através das grades para adquirir uma entrada. A partida de sinuca foi interrompida porque de súbito despregou-se do teto ao pano verde um macaco e fugiu com a bola 7. Ai de quem descascasse preguiçosamente uma banana! Antes de levá-la à boca um braço de macaco saído não se sabia de onde a surrupiava. No barbeiro, houve um momento em que não restava uma só cadeira vaga: todas ocupadas com macacos. E houve também o célebre macaco em casa de louças, nem um só pires restou intacto. A noite passou assim, em polvorosa. Caçadores improvisados se dispuseram a acabar com a praga – e mais de um esquivo notívago correu risco de levar um tiro nas suas esquivanças, confundido com macaco dentro da noite.
No dia seguinte a situação perdurava: não houve aula na escola pública, porque os macacos foram os primeiros a chegar. O sino da igreja badalava freneticamente desde cedo, apinhado de macacos, ainda que o vigário houvesse por bem suspender a missa naquela manhã, porque havia macaco escondido até na sacristia.
Depois, com o correr dos dias e dos macacos, eles foram escasseando. Alguns morreram de fome ou caçados implacavelmente. Outros fugiram para a floresta, outros acabaram mesmo comidos ao jantar, guisados como sugerira o delegado, nas mesas mais pobres. Um ou outro surgia ainda de vez em quando num telhado, esquálido, assustado, com bandeirinha branca pedindo paz à molecada que o perseguia com pedras. Durante muito tempo, porém, sua presença perturbadora pairou no ar da cidade. O professor não chegou a servir-se de nenhum para suas experiências. Caíra doente, nunca mais pusera os pés na rua, embora durante algum tempo muitos insistissem em visitá-la pela janela.
Vai um dia, a cidade já em paz, o professor recebe outro telegrama de seu amigo em Manaus:
 
“Seguiu resto encomenda”.
 
Não teve dúvidas: assim mesmo doente, saiu de casa imediatamente, direto para a estação, abandonou a cidade para sempre, e nunca mais se ouviu falar nele.
 
 
___________________
 
Fonte: SABINO, Fernando. O homem nu: crônicas. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p.56-58; 110-13.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O QUE É ISSO COMPANHEIRO?




Autor: Fernando Gabeira
Título: O que é isso compnheiro?,¡A por otra, compañero!, Les Guérilleros sont fatigués
Idiomas: port, esp, fra
Tradutor: Anne(fra)
Data: 28/12/2004

 
O QUE É ISSO COMPANHEIRO?
I
Homem correndo da polícia



Fernando Gabeira
Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era uma tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da Praça Nunoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher.
Caminhávamos rumo à Embaixada da Argentina, deixando para trás uma parte gelada da Cordilheira dos Andes e tendo à nossa esquerda o Estádio Nacional para onde convergia o grosso do tráfego militar na área.
Na esquina com a rua Holanda, somos abordados por alguém que nos pede fogo. Uma pessoa parada na esquina. Parece incrível que se pudesse estar parado na esquina, naquele momento. Vera me olhou com espanto e compreendi de estalo o que queria dizer:
– Coitado, vai cair breve nas mãos da polícia.
Ele se curva párea ascender o cigarro e vemos seus dedos amarelos. A chama do fósforo ressalta as olheiras de quem dormiu pouco ou nem dormiu. Certamente era de esquerda, o cara parado na esquina. E, como nós, estava transtornado com o golpe militar, tentando reatar os inúmeros vínculos emocionais e políticos que se rompem num momento desses.
Tive bastante vontade de aconselhá-lo: se cuida, toma banho, não dá bandeira, se manda, sai da esquina. Mas compreendi, muito rapidamente, que seria absurdo parar para conversar na esquina de Irarrazabal com Holanda, naquele princípio de primavera.
Nós também estávamos numa situação difícil. Alguns minutos do toque de recolher, a meio caminho da Embaixada Argentina, nossas chances eram estas: ou saltávamos para dentro dos jardins e ganhávamos asilo político, ou ficávamos na rua, em pleno toque de recolher. Se ficássemos na rua, seríamos certamente presos e teríamos, pelo menos, algumas noites de tortura para explicar o que estávamos fazendo no Chile, durante a virada sangrenta que derrubou a Unidade Popular. Pessoalmente, teria de explicar por que me chamava Diogo e era equatoriano. E não me chamava Diogo, nem era equatoriano. Tratava-se de um passaporte falso, de um português que emigrara para Quito, e que me dava margem para falar espanhol com sotaque. Português naturalizado equatoriano, caminhando ao lado de uma brasileira e de uma alemã, sem tempo portanto para dar conselhos.
Pois, como ia dizendo, estávamos numa situação difícil. Na melhor das hipóteses, venceríamos a vigilancia dos carabineros e cruzaríamos os jardins da Embaixada. Começaria aí um exílio dentro do exílio, desta vez, mais longo e doloroso porque as ditaduras militares estavam fechando o cerco no continente. Na melhor das hipóteses, portanto, iríamos sofrer muito.
No entanto, era preciso correr. Correr rápido para chegar a tempo e meio disfarçado para não chamar a atenção dos carros militares. E, talvez, o cara da esquina nem fosse de esquerda. Foi assim, nessa corrida meio culpada, que me ocorreu a idéia: se escapo de mais essa, escrevo um livro contando como foi tudo. Tudo? Apenas o que se viu nesses dez anos, de 68 para cá, ou melhor, a fatia que me tocou viver e recordar.
Este portanto é o livro de um homem correndo da polícia, tentando compreender como é que se meteu, de repente, no meio da Irarrazabal, se há apenas cinco anos estava correndo da Ouvidor para a Rio Branco, num dos grupos que fariam mais uma demonstração contra a ditadura militar que tomara o poder em 64.
________
Fonte: GABEIRA, Fernando. O que é isso companheiro? Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. P. 11, 12, 13.

¡A por otra, compañero!
El hombre que huye de la policía


Fernando Gabeir
a
Irarrazábal es el nombre de la calle por donde caminábamos en el mes de septiembre. Es un nombre inolvidable porque nunca conseguimos pronunciarlo correctamente en español y porque fue allí donde, por primera vez, vimos camión repleto de cadáveres. Era una tarde de septiembre de 1973, en Santiago de Chile, cerca de la Plaza Nunoa, y faltaban sólo unos minutos para el toque de queda.
Caminábamos rumbo a la Embajada Argentina, dejando atrás una parte helada de la Cordillera de los Andes; a nuestra izquierda estaba el Estadio Nacional, hacia el que convergía el grueso del tránsito militar de la zona.
En la esquina con la calle Holanda fuimos abordados por alguien que nos pidió fuego. Un hombre parado en la esquina. Parecía imposible que alguien pudiera estar parado en la esquina, en aquel momento. Vera me miró, espantada, y comprendí, de golpe, lo que me quería decir:
– Pobre hombre, caerá en manos de la policía.
El se inclinó para encender el cigarrillo y observamos sus dedos amarillentos. La luz del fuego acentuó la ojeras de ese hombre que había dormido mal o no había dormido. Seguramente era de izquierda, aquel tipo parado en la esquina. Y, como nosotros, estaba trastornado por el golpe militar, intentaba volver a reunir los innumerables vínculos emocionales y políticos que se rompen en un momento así.
Tuve deseos de aconsejarlo: cuídese, dése un baño, no llame la atención, alejése de esa esquina. Pero comprendí, rápidamente, que sería absurdo detenerme a conversar en la esquina de Irarrazábal y Holanda, aquel principio de primavera.
Nosotros también estábamos en una situación difícil. A pocos minutos del toque de queda, a medio camino de la Embajada Argentina, nuestras posibilidades eran éstas: o saltábamos hacia el interior de los jardines obteníamos el asilo político, o permanecíamos en la calle, en pleno toque de queda. Si permanecíamos en la calle, nos llevaríamos presos, con toda la seguridad; nos torturarían durante alguna noches, por lo menos, para que explicáramos qué hacíamos en Chile, durante el golpe que derribó a la Unidad Popular. Personalmente, tendría que explicar por qué me llamaba Diego y era ecuatoriano. Y no me llamaba Diego ni era ecuatoriano. Se trataba de un pasaporte falso, de un portugués que emigró a Quito y que me permitía hablar español con acento. Portugués naturalizado ecuatoriano, caminando al lado de una brasileña y de una alemana, sin tiempo para dar consejos.
Como decía, estábamos en una situación difícil. En el mejor de los casos, venceríamos la vigilancia de los carabineros y cruzaríamos los jardines de la Embajada. Comenzaría así otro exilio dento dentro del exilio, esta vez más largo y doloroso porque las dictaduras militares estaban cerrando el cerco al continente. En el mejor de los casos, pues, íbamos a sufrir mucho.
Entretanto, era preciso correr. Correr velozmente para llegar a tiempo, y médio disfrazado para no llamar la atención de los camiones militares. Y, quizás, el tipo de la esquina no fuera de izquierda. Fue entonces, durante esa corrida un poco culpable, que se me ocurrió la idea: si escapo de esta, escribo un libro contanto cómo fue todo ¿todo? Sólo lo que sucedió en esos diez años, del 68 hasta hoy, o por lo menos, la parte que me tocó vivir y recordar.
Este es, por tanto, el libro de un hombre que huye de la policía, que intenta comprender cómo y en qué se metió, de pronto, en medio de la calle Irarrazábal, se hace sólo cinco años estaba corriendo de Ouvidor a Rio Branco, en medio de uno de los grupos que se manifestaban otra vez contra la dictadura militar que tomó el poder en el 64.
______
Fonte: GABEIRA, Fernando. ¡A por otra, compañero!. Barcelona, Editorial Anagrama,1981. p. 11,12, 13.
Les Guérilleros sont fatigués
I
Homme fuyant la police

Fernando Gabeira
La rue dans lequelle nous marchions en septembre s’appelle Irarrazabal. C’est un nom inoubliable parce que nous n’avons jamais réussi à le prononcer correctement en espagnol et parce que c’est là, que pour la premiere fois, nous avons vu passer un camion plein de cadavres. C’était un apres-midi de septembre 1973, à Santiago du Chili, pres de la Place Nunoa, et juste quelques minutes avant le couvre-feu.
Nous marchions vers l’Ambassade d’Argentine, en laissant derriere nous une partie gelée de la Cordilliere des Andes, et à notre gauche le stade national, vers lequel convergeait le gros du trafic militaire du secteur.
A l’angle de la rue Holanda, nous sommes accostés par quelqu’un qui nous demande du feu. Un homme arrêté au coin de la rue. Ça semblait incroyable qu’on puisse être arrêté au coin de la rue, à ce moment-là. Vera m’a regardé, effrayée, et j’ai compris d’un seul coup ce qu’elle voulait dire:
– <
>
Il se penche pour allumer la cigarette et nous voyons ses doigts jaunis. La flamme de l’allumette montre les cernes de celui qui a mal dormi ou pas dormi du tout. Il était certainement de gauche, le type arrêté au coin de la rue. Et, comme nous, il était bouleversé par le coup d’Etat militaire, et il essayait de renouer les innombrables liens émotionneles et politiques qui se casset dans ces moments-là.
J’ai eu envie de lui conseiller: fais attention, prends une douche, ne te fais pas remarquer, va-t’en de ce coin de rue. Mais j’ai tres vite compris qu’il serait absurde de s’arrêté pour discuter au coin de la rue Irarrazabal et de la rue Holanda, en ce début de printemps.
Nous aussi nous étions dans une situation difficile. A quelques minutes du couvre-feu, à mi-chemin de l’Amdassade d’Argentine, nos chances étaient les suivantes: ou nous sautions dans les jardins et nous gagnions l’asile politique, ou nous restions dans la rue en plein couvre-feu. Si nous restions dans la rue, nous serions certainement arrêtés, nous aurions à subir au moins quelques nuit de torture pour expliquer ce que nous étions en train de faire au Chili, pendant le revirement sanglant qui avait renversé l’Unité Populaire. Personnellement je devrais expliquer pourquoi je m’appelais Diogo et j’étais équatorien. C’était un faux passeport, appartenant à un Portugais qui avait emigre à Quito et qui me donnait la possibilité de parler l’espagnol avec un accent. Portugais naturalisé équatorien, marchant à cote d’un Brésilienne et d’une Allemande, et n’ayant pás les temps de Donner des conseils.
Donc, comme je le disais, nous étions dans une situation difficile. Dans le meilleur des cas, nous tromperions la vigilance des carabineros et nous traverserions les jardins de l’Ambassade. Et là commencerait un exil dans l’exil, plus long et plus douloureux cette fois car les dictatures militaires étaient en train de referner le cercle sur le continent. Dans le meilleur des cas, donc, nous allions souffrir beaucoup.
Pourtant il fallait courir. Courir vite pour arriver à temps et en se dissimulant pour ne pas attirer l’attention des voitures militaires. Et peut-être que le type du coin de la rue n’était même pas de gauche. C’est ainsi, pendant cette course un peu coupable, que m’est venue cette idée: si j’échappe encore à celle-là, j’ecris un livre pour tout raconter. Tout? Juste ce qu’on a vu pendant ces dix années; de 68 à maintenant, ou mieux, la tranche qu’il m’a été donné de vivre et de me rappeler.
GABEIRA, Fernando. Les Guérilleros sont fatigués. Paris: A.M.Métailie,1980.
Traduit du brésilien par Anne

 





Bio fornecida pelo palestrante.

A FLOR DO MARACUJÁ




Autor: Fagundes Varela
Título: A FLOR DO MARACUJÁ
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

A FLOR DO MARACUJÁ

 

Fagundes Varela

 
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!
 
Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno,
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!
 
Pelas tranças da mãe-d´água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá.
 
Pelos azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá.
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!
 
Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová!
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!
 
Por tudo o que o céu revela!
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minha´alma
De tua alma escrava está!…
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!
 
Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em – a –
Mas ouve meus juramentos,
Meus contos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
 
________
 
Fonte: Varela, Fagundes, in: Poesias completas. São Paulo, Saraiva, 1956. p. 395-96.





Bio fornecida pelo palestrante.

VOZES DA AMERICA




Autor: Fagundes Varella
Título: VOZES DA AMERICA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

VOZES DA AMERICA

 
 

Fagundes Varella

 
 

DEIXA-ME

 
 
Quando cançado da vigilia insana
Declino a fronte n’um dormir profundo,
Porque teu nome vem ferir-me o ouvido,
Lembrar-me o tempo que passei no mundo?
 
Porque teu vulto se levanta airoso,
Tremente em ancias de volupia infinda?
E as fórmas núas, e offegante o seio,
No meu retiro vens tentar-me ainda?
 
Porque me fallas de venturas longas,
Porque me apontas um porvir de amores?
E o lume pedes á fogueira extincta,
Dôces perfumes a pollutas flôres?
 
Não basta ainda essa existencia escura,
Pagina treda que a teus pés compuz?
Nem essas fundas, perennaes angustias,
Dias sem crenças e serões sem luz?
 
Não basta o quadro de meus verdes annos
Manchado e roto, abandonado ao pó?
Nem este exilio, do rumor no centro,
Onde pranteio desprezado e só?
 
Ah! não me lembres do passado as scenas
Nem essa jura desprendida a esmo!
Guardaste a tua? a quantos outros, dize,
A quantos outros não fizeste o mesmo?
 
A quantos outros, inda os labios quentes
De ardentes beijos que eu te déra então,
Não apertaste no vazio seio
Entre promessas de eternal paixão?
 
Oh! fui um doudo que segui teus passos,
Que dei-te em versos da belleza a palma;
Mas tudo foi-se, e esse passado negro
Porque sem pena me despertas n’alma?
 
Deixa-me agora repousar tranquillo,
Deixa-me agora dormitar em paz,
E com teus risos de infernal encanto
Em meu retiro não me tentes mais!
 
 

NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM!

 
 
Não te esqueças de mim, quando erradía
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a briza estival roçar-te a fronte,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
 
Não te esqueças de mim, quando escutares
Gemer a rôla na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.
 
Quando a flôr do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembre-te os dias que passei comtigo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
 
Não te esqueças de mim, quando á tardinha
Se cobrirem de nevoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Dôcemente soar nas freguesias!
 
Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
 
Não te esqueças de mim, quando meus olhos
Do sudario do gelo se apagarem,
Quando as roxas perpetuas do finado
Junto á cruz de meu leito se embalarem.
 
Quando os annos de dôr passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia a teu poeta,
Não te esqueça de mim, que te amo tanto.
 
 

SONETO

 
 
Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cysne inspirado em manso lago.
 
Beijava a onda n’um soluço mago
Das molles plumas e brilhante alvura,
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.
 
Vi-te; e nas chammas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade
Esquecido de mim, de Deus, do mundo!
 
Mas ai! cedo fugiste!… da soidade,
Hoje te imploro d’esse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!
 
 

ELEGIA

 
 
A noite era bella: dormente no espaço
A lua soltava seus pallidos lumes;
Das flôres fugindo, corria lasciva
A briza embebida de molles perfumes.
 
Do ermo os insectos zumbiam na relva,
As plantas tremiam de orvalho banhadas,
E aos bandos voavam ligeiras phalenas
Nas folhas batendo co’as azas douradas.
 
O turbido manto das nevoas errantes
Pairava indolente no topo da serra;
E aos astros e ás nuvens perfumes, sussurros,
Suspiros e cantos partiam da terra.
 
Nós eramos jovens, ardentes e sós,
Ao lado um do outro no vasto salão;
E as brizas e a noite nos vinham no ouvido
Cantar os mysterios de infinda paixão!
 
Nós eramos jovens, e a luz de seus olhos
Brilhava incendida de eternos desejos,
E a sombra indiscreta do niveo corpinho
Sulcavam-lhe os seios em brandos arquejos?
 
Nós eramos jovens, e as balsas floridas
O espaço inundavam de quentes perfumes
E o vento chorava nas tilias do parque,
E a lua soltava seus tepidos lumes?…
 
Ah! misero aquelle que as sendas do mundo
Trilhou sem o aroma de pallida flôr,
E á tumba declina, n’aurora dos sonhos,
O labio inda virgem dos beijos de amor!
 
Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os annos apontam.
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por gozos se contam.
 
Assim n’essa noite de mudas venturas,
De louros eternos minh’alma ennastrei;
Que importa-me agora martyrios e dôres,
Se outr’ora dos sonhos a taça esgotei?
 
Ah! lembra-me ainda! nem um candelabro
Lançava ao recinto seu brando clarão,
Apenas os raios da pallida lua
Transpondo as janellas batiam no chão.
 
Vestida de branco, nas scismas perdida,
Seu morbido rosto pousava em meu seio,
E o aroma celeste das negras madeixas
Minh’alma inundava de férvido anceio.
 
Nem uma palavra seus labios queridos
Nos dôces espasmos diziam-me então:
Que valem palavras, quando ouve-se o peito
E as vidas se fundem no ardor da paixão?
 
Oh! ceos! eram muitos… ai! mais do que mundos
Que a mente invadiam de ethereo fulgor!
Poemas divinos, por Deus inspirados,
E a furto contados em beijo de amor!
 
No fim do seu gyro, a noite a princeza
Deixou-nos unidos em brando sonhar;
Correram as horas – e a luz d’alvorada
Em juras infindas nos veio encontrar!
 
Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os annos apontam…
E o tempo descora nos risos e prantos,
E o dias do homem por dôres se contam!
 
Ligeira… essa noite de infindas venturas
Sómente em minh’alma lembranças deixou…
Tres mezes passaram, e o sino do templo
Á reza dos mortos os homens chamou!
 
Trez mezes passaram; e um livido corpo
Jazia dos cyrios á luz funeral,
E, á sombra dos myrtos, o rude coveiro
Abria cantando seu leito final!…
 
Nós eramos jovens, e a senda terrestre
Trilhavamos juntos, de amor a sorrir,
E as flôres e os ventos nos vinham no ouvido
Contar os arcanos de um longo porvir!
 
Nós eramos jovens, e as vidas e os seios,
O affecto prendera n’um candido nó!
Foi ella a primeira que o laço quebrando
Cahiu soluçando das campas no pó!
 
Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os annos apontam,
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias dos homens por dôres se contam!
 
 
___________________
 
Fonte: VARELLA, Fagundes. “Vozes da América”. In: Obras Completas. Edição organizada e revista por Visconti Coaracy. Estudo crítico de Franklin Távora. Vol. I. Rio de Janeiro: H. Garnier, s / d. p. 107-108 ; 111-113 ;





Bio fornecida pelo palestrante.

SERTÕES: CAMPANHA DE CANUDOS




Autor: Euclides da Cunha
Título: Sertoes Campanha de Canudos, Los Sertones, Krieg im Sertão
Idiomas: port, esp, deu
Tradutor: Benjamin de Garay y prólogo de Mariano de Vedia(esp)
Data: 28/12/2004

SERTÕES: CAMPANHA DE CANUDOS

I

Euclides da Cunha

Queimadas, povoado desde o começo deste século, mas em plena decadência, fez-se um acampamento ruidoso. O casario pobre, desajeitadamente arrumado aos lados da praça irregular, fundamente arada pelos enxurros – um claro no matagal bravio que o rodeia – e, principalmente, a monotonia das chapadas que se desatam em volta, entre os morros desnudos, dão-lhe um ar tristonho completando-lhe o aspecto de vilarejo morto, em franco descambar para tapera em ruínas.
Prendiam-se-lhe, ademais, recordações penosas. Ali tinham parado todas as forças anteriormente envolvidas na luta, no mesmo prolongamento do largo aberto para a caatinga cujos tons pardos e brancacentos, de folhas requeimadas, sugeriram a denominação da vila. Acervos repugnantes de farrapos e molambos; trapos multicores e imundos, de fardamentos velhos; botinas e coturnos acalcanhados; quepes e bonés; cantis estrondados; todos os rebotalhos de caserna, esparsos em área extensa, em que branqueavam restos de fogueiras, delatavam a passagem dos lutadores, que lá armaram as tendas, a partir da expedição Febrônio. Naquele chão batido dos rastros de dez mil homens, haviam turbilhonado na vozeria dos bivaques – paixões, ansiedades, esperanças, desalentos indescritíveis.
Transporta acessível ondulação, via-se, recortando o cerrado dos arbustos, um sulco largo de roçada, retilíneo e longo, que um alvo extremava – a linha de tiro, onde se exercitara a divisão Arthur Oscar. Perto, ao lado, a cadela exígua e baixa, como um barracão murado. E nas suas paredes, cabriolando doudamente, a caligrafia manca e a literatura bronca do soldado. Todos os batalhões haviam colaborado nas mesmas páginas, escarificando-as a ponta de sabre ou tisnando-as a carvão, no gravarem as impressões do momento. Eram páginas demoníacas aqueles muros sacrossantos: períodos curtos, incisivos, arrepiadores; blasfêmias fulminantes; imprecações e brados, e vivas calorosos, rajavam-nas em todo o sentido, profanando-as, mascarrando-as, em caracteres negros espetados em pontos de admiração, compridos como lanças.
Dali para baixo, no descair de insensível descida, uma vereda estreita e mal afamada – a estrada de Monte Santo, por onde tinham abalado, esperançosas, três expedições sucessivas, e de onde chegavam, agora, sucessivamente, bandos miserandos de foragidos. Vadeado o Jacurici, volvendo águas rasas e mansas, ela enfiava, inflexa, pelas chapadas fora, ladeada, em começo, por uma outra que demarcavam os postes da linha telegráfica recentemente estabelecida.
A linha férrea corre no lado oposto. Aquele liame do progresso passa, porém, por ali, inútil, sem atenuar sequer o caráter genuinamente roceiro do arraial. Salta-se do trem; transpõe-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas; e topa-se para logo, à fímbria da praça – o sertão…
Está-se no ponto de tangência de duas sociedades, de todo alheias uma à outra. O vaqueiro encourado emerge da caatinga, rompe ente a casaria desgraciosa, e estaca o campião junto aos trilhos, em que passam, vertiginosamente, os patrícios do litoral, que o não conhecem.
Os novos expedicionários ao atingirem-no perceberam esta transição violenta. Discordância absoluta e radical entre as cidades da costa e as malocas de telha do interior, que desequilibra tanto o ritmo de nosso desenvolvimento evolutivo e perturba deploravelmente a unidade nacional. Viam-se em terra estranha. Outros hábitos. Outros quadros. Outra gente. Outra língua mesmo, articulada em gíria original e pinturesca. Invadia-os o sentimento exato de seguirem para uma guerra externa. Sentiam-se fora do Brasil. A separação social completa dilatava a distância geográfica; criava a sensação nostálgica de longo afastamento da pátria.
Além disto, a missão que ali os conduzia frisava, mais fundo, o antagonismo. O inimigo lá estava, para leste e para o norte, homiziado nos sem-fins das chapadas, e no extremo delas ao longe, se desenrolava um drama formidável…
Convinha-se em que era terrivelmente paradoxal uma pátria que os filhos procuravam armados até aos dentes, em som de guerra, despedaçando as suas entranhas a disparos de Krupps, desconhecendo-a de todo, nunca a tendo visto, surpreendidos ante a própria forma da terra árida, e revolta, e brutal, esvurmando espinheiros, tumultuando em pedregais, esboroando em montanhas derruídas, escancelada em grotões, ondeando em tabuleiros secos, estirando-se em planuras nuas, de estepes…
O que ia fazer-se era o que haviam feito as tropas anteriores – uma invasão – em território estrangeiro. Tudo aquilo era uma ficção geográfica. A realidade, tangível, enquadrada por todos os sucessos, ressaltando à observação mais simples, era aquela. Os novos campeadores sentiam-na dominadoramente. E como aquele povo desconhecido de matutos lhes devolvia, dia a dia, mutilados e abatidos, os companheiros que meses antes tinham avançado robustos e altaneiros, não havia ânimo varonil que atentasse impassível para as bandas do sertão misterioso e agro…
(…).

____________________

Fonte: CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de canudos. São Paulo, Ática, 1998, p. 421-423.

LOS SERTONES

I 
Euclides da Cunha 

Queimadas, poblado desde el comienzo de este siglo, pero en plena decadencia, tornóse un campamento ruidoso. El caserío pobre, desmañadamente dispuesto a los costados de una plaza irregular, hondamente surcada por las corrientes de aguas pluviales – un claro en el malezal bravío que lo circunda – y, principalmente, la monotonía de las chapadas que se desatan en derredor, punteadamente alternada de morros pelados, le dan un aire tristón completándole el aspecto de un villorrio muerto, en franco declive hacia la tapera en ruina.

Adheríansele, además, penosas recordaciones. Allí habían acampado todas las fuerzas anteriormente comprendidas en la lucha, en la misma prolongación de la plaza abierta hacia la caatinga, cuyos tonos pardo blanquisco, de hojas requemadas, sugerían la denominación de la villa. Montones repugnantes de harapos; restos multicolores de uniformes viejos; botas y zapatos deformes; kepíes y gorras; damajuanas desfondadas; todos los desperdicios de un cuartel esparcidos en áreas extensas, en la que blanqueaban restos de hogueras, delataban el paso de los luchadores que allí armaron las carpas, a partir de la expedición Febronio de Brito. Sobre aquel suelo batido por los rastros de diez mil hombres, remolinearon en la algarabía de los vivaques, pasiones, ansiedades, esperanzas y desalientos indescriptibles.

Traspuesta ana accesible ondulación, veíase recortando el macizo de los arbustos, un ancho surco de desmonte, rectilíneo y largo, extremado por un blanco: la línea de tiro, en donde se ejercitara la división Andrade Guimarães. Cerca, a un costado, la capilla exigua y baja, como un barracón murado. Y en sus paredes, zangoloteando locamente, la caligrafía lisiadla y la literatura tosca del soldado. Todos los batallones habían colaborado en esas mismas páginas, escarificándolas a punta de sable y tiznando a carbón aquellas paredes sacrosantas: períodos breves, incisivos, estremecedores; blasfemias fulminantes; imprecaciones, y gritos, y vivas calorosos, las rayaban en todo sentido, profanándolas, enmascarándolas, con caracteres negros, ensartados en puntos de admiración, largos como chuzos.

De allí hacia abajo, en el declive de insensible cuesta, una vereda estrecha y mal afamada: el camino de Monte Santo, por donde habían partido ahítos de esperanzas, tres expediciones sucesivas, y de donde llegaban ahora, sucesivamente, grupos miserandos de huídos. Vadeado el Jacuriey, revolviendo aguas rasas y mansas, enfilaba, arqueado, chapada afuera, al principio flanqueada por una y otra, señalada por los postes de la línea telegráfica recientemente establecida.

Del lado opuesto corre la línea férrea. Aquella ligadura del progreso pasa, sin embargo, por allí, inútilmente, sin atenuar siquiera el carácter genuinamente montaraz del poblado. Se baja del tren; se trasponen pocas centenas de metros entre casas deprimidas, y se topa inmediatamente con la fimbria de la plaza: el sertón…

Se está en el punto de tangencia de dos sociedades del todo extrañas la una de la otra. El vaquero encuerado emerge de la caatinga, irrumpe en el caserío desgarbado, y sofrena el “campeón” junto a las vías en que pasan, vertiginosamente, los compatriotas del litoral, que no le conocen…

Los nuevos expedicionarios, al alcanzarlo, advierten esa transición violenta. Discordancia absoluta y radical entre las ciudades de la costa y los tugurios de teja del interior, que desequilibra tanto el ritmo de nuestro desenvolvimiento evolutivo y perturba deplorablemente la unidad nacional. Se veían en tierra extraña. Otros hábitos; otros cuadros; otra gente. Hasta otra lengua, articulada en un caló original y pintoresco. Invadíales el sentimiento exacto de partir hacia una guerra externa. Se sentían fuera del Brasil. La separación social completa dilataba la distancia geográfica; creaba la sensación amarga de un largo alejamiento de la patria.

Además de esto, la misión que allí los llevaba señalaba, más hondo, el antagonismo. EI enemigo estaba allí, hacia el este y hacia el norte, refugiado en la inmensidad de las chapadas, en cuyo extremo, a lo lejos, se desarrollaba un drama formidable…

Conveníase en que era terriblemente paradojal una patria cuyos hijos buscaban un seno, armados hasta los dientes, en son de guerra, despedazando sus entrañas a tiros de krupp, desconociéndola del todo, no habiéndola visto nunca, sorprendidos ante la misma forma de la tierra árida, revuelta y brutal, vomitando espinares, tumultuando en pedregales, hinchándose en montanas desplomadas, abiertas en antros, ondeando en taboleiros secos, estirándose en planicies desnudas de estepas…

Lo que se iba a hacer era lo que habían hecho las tropas anteriores – una invasión – en territorio extranjero. Todo aquello era un ficción geográfica. La realizad tangible, encuadrada por todos los sucesos, resaltando a la observación más simple, era aquélla.

Los nuevos campeadores la sentían dominadoramente. Y como aquel pueblo desconocido de lugareños les devolvía, día a día, mutilados y abatidos, los compañeros que meses antes habían avanzado robustos y altaneros, no había ánimo varonil que contemplace impasible hacia los lados del sertón, misterioso y acerbo…

(…)

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Fonte: Cunha, Euclides da. Los sertones. Traducción de Benjamin de Garay y prólogo de Mariano de Vedia. Buenos Aires: Imprenta Mercatali, 1938. p. 289-292.

KRIEG IM SERTÃO

I


Queimadas

Euclides da Cunha

Queimadas, zu Beginn des I9. Jahrhunderts gegründet, doch in gänzlichem Verfall begriffen, wurde zu einem geräuschvollen Heerlager. Die Ansammlung ärmlicher Häuser, unbeholfen um den regellosen, von Sturzbächen gepflügten Dorfplatz gruppiert – eine Lichtung inmitten des unwirtlichen Buschwalds –, sowie vor allen Dingen die Einförmigkeit der Hochebenen, die ringsum zwischen kahlen Hügeln sich dehnen, verleihen dem Oat einen trübseligen Zug und ergänzen das Bild eines sterbenden Weilers, der unaufhaltsam zu einer Wüstung herabkommt.
Außerdem knüpften sich daran leidvolle Erinnerungen. Dort hatten alle bisher im Kriege eingesetzten Truppen haltgemacht, auf immer demselben Gelände, wo der Dorfplatz in die caatinga überging, die mit den graubraunen und weißlichen Farbtönen ihres verbrannten Laubes den Ortsnamen angeregt hatte. Abstoßende Haufen von Lumpen und Fetzen; bunte und schmutzstarrende happen von einstigen Uniformen; Stiefel und Knobelbecher mit schiefgetretenen Absätzen; Käppis und Mützen; geborstene Feldflaschen; alle erdenklichen Kasernenabfälle, über eine weite Fläche verstreut, wo die Asche von Lagerfeuern weißlich schimmerte, zeugten von Durchzug aller Kämpfer, die seit der Expedition Febrônio de Brito dort ihre Zelte aufschlugen. Über jenen Boden, dem die Fußstapfen von zehntausend Mann sich eingedrückt hatten, war im Stimmenlärm der Zeltlager ein Wirbel von Gefühlen gegangen – Leidenschaften, Beklemmungen, Hoffnungen, Entmutigungen unbeschreiblicher Art.
Überstieg man eine niedere Bodenwelle, gewahrte man einen Schnitt durch das Sträucher dickicht, eine breite Schneise, geradlinig und langgezogen, mit einer Zielscheibe als Abschluß – den Schießplatz, wo die Division Artur Oscar exerziert hatte. Nahebei, dicht daneben, die winzige, niedere Kapelle, einer gemauerten Baracke gleich. Und an ihren Wänden, in närrischen Kapriolen, die ungelenke Kalligraphie und die derbe Literatur des Soldaten. Alle Bataillone hatten an diesen Seiten mitgeschrieben, sie mit dem Seitengewehr geritzt oder mit einem Stück Kohle geschwärzt und so ihre Augenblick sein drücke festgehatten. Dämonische Seiten waren diese geheiligten Mauern: Kurze, schneidende, haarsträubende Perioden; donnernde Lästerungen; Verwünschungen und Aufschreie und begeisterte Hochrufe bedeckten sie kreuz und quer, entweihten sie, besudelten sie mit ihren schwarzen Buchstaben zwischen Ausrufungszeichen, die lang wie Speere waren.
Von dort unmerklich abwärts verläuft ein schmaler und berüchtigter Pfad, der Weg nach Monte Santo, den nacheinander drei Expeditionen voller Zuversicht eingeschlagen hatten, und auf dem nunmehr nacheinander jämmerliche Haufen Geflüchteter daherkamen. Hinter der Furt durch den Jacuricí mit seinen flachen und sanften Wassern tauchte er mit einer Biegung in die Weite der Hochebenen ein, zunächst be gleitet von einem anderen Weg, kenntlich an den Masten der kürzlich errichteten Telegraphenleitung.
Auf der andern Seite verläuft die den Ort berührende Eisenbahnlinie. Jenes Band des Fortschritts indessen bringt der Siedlung keinerlei Nutzen und mildert nicht einmal ihren wahrlich bäurischen Zuschnitt. Man steigt aus dem Zug, legt wenige hundert Meter zwischen geduckten Häusern zurück und stößt sogleich, am Saum des Dorfplatzes, auf den – Sertão…

In der Fremde.
Vaterland – eine geographische Fiktion

Man steht am Berührungspunkt zweier Gesellschaften, die sich ganz und gar fremd sind. Der ledergewandete Viehtreiber tritt aus der caatinga hervor, zieht durch die schäbige Häusergruppe und halt seinen »Renner« vor den Gleisen an, auf denen in schwindelerregender Fahrt seine handsleuter aus dem Küstenstrich vorüberrollen, ohne ihn kennenzulernen.
Die neuen Expeditionsteilnehmer bemerkten bei ihrer Ankumft diesen gewaltsamen wechsel. Dieses absolute und tief verwurzelte Mißverhältnis zwischen den Städten der Küste und den ziegelgedeckten Eingeborenendörfern des Hinterlandes, das den Rhythmus unserer fortschreitenden Entwicklung so sehr aus dem Gleichgewicht bringt und die nationale Einheit so bedauerlich stört. Sie sahen sich in einem fremden Land. Andere Sitten. Andere Szenen. Andere Menschen. Eine andere Sprache sogar, mit urwüchsiger und bildkräftiger Ausdrucksweise. Es überkam sie das unverwechselbare Gefühl, in einen auswärtigen Krieg zu ziehen. Sie fühlten sich außerhalb Brasiliens. Der gesellschaftliche Abstand steigerte die räumliche Entfernung und weckte ein Heimweh wie bei langer Abwesenheit vom Vaterland.
Überdies machte der Auftrag, der sie herführte, die ganze Tiefe des Antagonismus deutlich. Dort stand der Feind, in östlicher und nördlicher Richtung, verborgen in den endlosen Weiten der Hochflächen, an deren fernem Saum sich ein grauenvolles Drama abspielte…
Es war, man mußte es zugeben, ein erschreckend paradoxes Vaterland, in das seine eigenen shone bis an die Zähne bewaffnet und mit Kriegsfanfaren einmarschierten, um seine Eingeweide mit Krupp-Kanonen zu zerfetzen, ohne es im mindesten zu kennen, ohne es je gesehen zu haben, verwundert schon angesichts der Oberflächengestalt des heißtrockenen und aufgewühlten und gewalttätigen handes, das Dornsträucher wie Eiterbeulen hervortrieb, Geröllhalden aufwarf, in Gebirgstrümmer zerfiel, in Schluchten klaffte, in ausgedörrten Tafellanden fortwogte, in nackten Ebenen sich dehnte, steppengleich…
Was man zu tun sich anschickte, was dasselbe, was die vorherigen Truppen getan hatten – eine Invasion in fremdes Territorium. Hier von Vaterland zu redden war eine geographische Fiktion. Die faßbare, von allen Ereignissen bestätigte Wirklichkeit, die auch bei flüchtigster Betrachtung ins Auge sprang, war eben diejenige, die vor ihnen lag. Die neu angekommenen Recken spürten ihre Macht. Und da jenes unbekannte Volk von Hinterwäldlern ihnen täglich die Kameraden verstümmelt und gebrochen zurücksandte, die wenige Monate zuvor voll Kraft und Übermut gen Canudos vorgerückt waren, gab e skein mannhaftes Gemüt, das kalten Blutes den geheimnisvollen und rauhen Sertão beobachtete…
(…)

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Fonte: CUNHA, Euclides da. Krieg im Sertão. Aus dem brasilianischen Portugiesisch Von Berthold Zilly. Frankfurt, Suhrkamp Verlag, 1994, p. 579-582.





Bio fornecida pelo palestrante.

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO




Autor: Érico Veríssimo
Título: OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, MIRAD LOS LIRIOS DEL CAMPO
Idiomas: port, esp
Tradutor: A. Jover Peralta y Antonio Ortiz Mayans
Data: 06/06/2005

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

 
 

1

 
 

Erico Veríssimo

 
 
O médico sai do quarto no 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
-Irmã Isolda – diz ele em voz baixa – avise o Dr. Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez de minutos. E ela sabe que vai morrer…
Selênico. Uma golfada de vento atravessa o corredor. Ouve-se o ruído seco duma porta que bate. A irmã de caridade sente um calafrio, lembrando-se da madrugada em que morreu o paralítico do 103; a enfermeira de plantão lhe contara horrorizada ter sentido o sopro gelado da morte entrar no quarto do doente.
-Ele está na casa da família, doutor?
-Não. Telefone para a chácara do sogro, em Santa Margarida. Diga ao Dr. Eugênio que a Olívia quer vê-lo. Talvez ele ainda possa chegar a tempo…
Encolhe os ombros, pessimista. Acende um cigarro com dedos um tanto trêmulos.
Irmã Isolda caminha para o fundo do corredor, entra na cabina do telefone, disca para o centro.
-Alô! Alô! Interurbano? Aqui é o Hospital Metropolitano.
As lágrimas lhe escorrem pelo rosto.
“… sobreveio uma hemorragia…” – diz a voz velada e distante.
Como se tivesse recebido a mensagem de desgraça primeiro que o cérebro, o coração de Eugênio desfalece, suas batidas se tornam espaçadas e cavas.
“… O Dr. Teixeira Torres diz que é um caso perdido. Ela sabe que vai morrer… pediu para vê-lo…”.
Eugênio sente estas palavras com todo o corpo, sofre-as principalmente no peito, como um golpe surdo de clava. Uma súbita tontura lhe embacia os olhos e o entendimento. Deixa cair a mão que segura o fone. Só tem consciência de duas coisas: duma impressão de desgraça irremediável e da pressão desesperada do coração, que a cada batida parece crescer, inchar sufocadoramente. A respiração é aflitiva e desigual, a boca lhe arde, o peito lhe dói – é como se de repente lhe tombasse sobre o corpo toda a canseira duma longa corrida desabalada. Pendura o fone num gesto de autômato e dirige-se para a janela, na confusa esperança de que alguém ou alguma coisa lhe grite que tudo aquilo é apenas um sonho mau, uma alucinação.
O sol da tarde doura os campos. O açude reluz ao pé do bosquete de eucaliptos. Mas Eugênio só enxerga os seus pensamentos. E dentro deles está Olívia, pálida, estendida na mesa de operações, coberta de panos ensangüentados. “Ela sabe que vai morrer… pediu para vê-lo”. Ele precisa ir. Imediatamente.
Uma voz infantil flutua no silencio da tarde, num grito prolongado. É o rapazito que vai dar de beber a uma vaca malhada, tangendo-a para a beira do açude. As imagens do animal e da criança se refletem na água parada. Paz – pensa Eugênio – a grande paz de Deus de que Olívia sempre lhe falava…
De novo o silêncio, e uma sensação de remorso, a certeza de que vai começar a pagar os seus pecados, a expiar as suas culpas.
Os olhos de Eugênio se inundam de lágrimas. Passam-se os segundos. Aos poucos a respiração se lhe vai fazendo normal e o que ele sente agora é uma trêmula fraqueza de convalescente.
Mas da própria paz dos campos e da idéia mesma de Deus lhe vem de repente uma doida e alvoroçada esperança, que lhe toma conta do ser. É possível que Olívia se salve. Seria cruel demais se ela morresse assim. Acontecem milagres, – ele se lembra de casos…
Apanha o chapéu e precipita-se para a escada. Mas por que se detém de súbito no patamar, como se tivesse encontrado um obstáculo, inesperado? Tem aguda consciência dum sentimento aniquilador: a sua covardia, aquela imensa e dolorosa covardia num momento em que devia esquecer tudo e correr para junto de Olívia.
Fica um instante parado, amassando o chapéu nos dedos nervosos. Sua mulher está lá embaixo no jardim e agora ela pode descobrir toda a verdade… Ele precisa inventar uma desculpa para aquela viagem precipitada. Olívia está agonizante, seria monstruoso deixá-la morrer sem lhe dizer uma palavra de carinho, sem ao menos lhe pedir perdão.
E no instante mesmo em que formula este pensamento, Eugênio sente que seu orgulho e a sua covardia não lhe permitirão esse gesto de humildade diante de estranhos.
Meu Deus, mas eu preciso ir, custe o que custar, aconteça o que acontecer!
Começa a descer a escada devagar… Imagina-se no hospital. Olívia estendida na cama… O Dr. Teixeira dando explicações friamente técnicas. Os outros… Olhares de quem tudo sabe… Cochichos… Quem? Amantes… Ah! Ele é o Dr. Eugênio Fontes, casado com a filha daquele ricaço, o Cintra, conhece?
Eugênio agarra com força o corrimão, o coração a bater-lhe com desesperada fúria.
Lágrimas quentes lhe escorrem pelas faces. Ele as enxuga, todo trêmulo e caminha para o jardim, gritando:
-Honório! – O chofer aparece. – Tire o carro depressa. Precisamos ir à cidade numa corrida. É um caso urgentíssimo.
Eunice lê no jardim, sentada à sombra dum amplo guarda-sol de gomos vermelhos e azuis.
-Preciso ir à cidade a toda pressa – diz-lhe Eugênio, esforçando-se por dominar a voz.
Ela ergue os olhos do livro, com ar de indiferença e fita-os no marido.
-Que é que tens? Estás tão pálido…
-Nada. Foi uma notícia que recebi… – Hesitou, desviou o olhar. E mentiu: – É sobre o Ernesto…
Os olhos dela têm uma luz fria, e penetrante, parecem enxergar através daquelas palavras mentirosas.
-Não precisas explicar. – Pausa. Contemplam-se por um instante como dois estranhos. – Naturalmente não voltas hoje…
Ele consulta o relógio.
-São quase seis. Chego à cidade às nove, nove e pouco… Acho que só posso estar de volta amanhã pela manhã.
Eunice atira a cabeça para trás e, como se falasse para as nuvens, diz:
-Tu sabes que eu faço questão de não me meter na tua vida. Faze como entenderes. Em todo o caso, obrigada pelo aviso.
-Teu pai chega daqui a pouco. Assim, não passarás a noite sozinha.
-Ora! Não te preocupes comigo. Posso tomar conta de mim mesma. Além do mais, tu sabes, gosto da solidão. Ela nos convida a exames de consciência. E já que falamos nisso, deves estar precisando também de um…
Eugênio sente-se corar. Eunice torna a baixar os olhos para o livro. Ele fica a contemplá-la, por um curto instante, sentindo uma raiva fina e fria.
-Até amanhã – diz.
Sai apressado, como quem foge.
-Até amanhã – murmura Eunice, sem erguer os olhos do livro.
 
O auto põe-se em movimento, passa o grande portão da chácara e ganha a estrada real.
-A toda velocidade, Honório!
Sem se voltar, o chofer responde:
-Quando a gente entrar na faixa de cimento, vou embalar o carro pra noventa.
A luz da tarde é doce e tristonha. O gado pasta nos campos, um quero-quero solta o seu grito estridente, um cachorro late longe.
Eugênio sente vontade de saltar paro o banco da frente e confiar a sua angústia e os seus segredos ao chofer. No fundo ele sabe que pertence mais à classe de Honório que à de Eunice. Nunca o pôde tratar com a superioridade com que a mulher e o sogro lhe dão ordens, como se ele fosse feito doma matéria mais ordinária, como se tivesse nascido exclusivamente para obedecer.
-Precisamos chegar à cidade em menos de três horas, Honório. É uma questão de vida e de morte.
Eugênio cerra os olhos. Olívia pálida, estendida na cama, morta…
 
 
_________________________
 
Fonte: VERISSIMO, Erico. Olhai os lírios do campo. 42aed. Rio Grande do Sul: Editora Globo, 1978. p. 03-07.
 
 
MIRAD LOS LIRIOS DEL CAMPO
 
 

1

 
 

Erico Verissimo

 
 
El médico salió de la habitación número 122. La enfermera fue a su encuentro.
-Hermana Isolda – díjola en voz baja -, avísele al doctor Eugenio. Es un caso perdido. Cuestión de horas. Tal vez de minutos. Y ella sabe que va a morir…
Silencio. Una ráfaga de viento atraviesa el corredor. Óyese el ruido seco de una puerta que golpea. La hermana de caridad siente un escalofrío recordando la madrugada en que murió el paralítico del 103. La enfermera de turno le había contado, horrorizada, que había sentido penetrar el soplo helado de la muerte en el cuarto del enfermo.
-¿Estará en su casa?
-No. Telefonee a la quinta del suegro, a Santa Margarita. Dígale al doctor Eugenio que Olivia quiere verle. Tal vez llegue todavía a tiempo…
Encógese de hombros, pesimista. Enciende un cigarrillo y las manos le tiemblan un poco.
La hermana Isolda se encamina hacia el fondo del corredor, entra en la cabina del teléfono, disca los números de la Central.
-¡Hola! ¡Hola! Hablan del Hospital Metropolitano. Es un caso urgente. Quiero larga distancia, por favor…
Las lágrimas le corren por el rostro.
“… y se produjo la hemorragia…” – dijo la voz velada y distante.
Como si hubiese recibido el anuncio de la desgracia primero que el cerebro el corazón, el corazón de Eugenio desfallece y sus latidos se vuelven espaciados y cavernosos.
“… el doctor Teixeira Torres dice que es un caso perdido. Ella sabe que va a morir. Pidió para verle…”
Eugenio siente estas palabras con todo el cuerpo, las sufre principalmente en el pecho como un golpe sordo de clava. Un súbito vahido empaña sus ojos y su razón. Deja caer la mano que sujeta el tubo. Sólo tiene conciencia de dos cosas: de una impresión de desgracia irremediable y de la presión desesperada del corazón que al latir parece crecer, hinchándose sofocadoramente. La respiración es angustiosa y desigual, árdele la boca, duélele el pecho como si de repente cayera sobre su cuerpo todo el cansancio de una larga carrera desalada. Cuelga el tubo con gesto de autómata y se dirige hacia la ventana con la confusa esperanza de que alguien o algo le grite que todo aquello no es más que un mal sueño, una alucinación.
El sol de la tarde dora los campos. El estanque resplandece al pie del bosquecillo de eucaliptus. Pero Eugenio sólo vislumbra sus pensamientos. Y en ellos está Olivia, pálida, tendida en la mesa de operaciones, cubierta de paños ensangrentados. “Ella sabe que va a morir… pidió para verle” Preciso es ir. Inmediatamente.
Una voz infantil fluctúa en el silencio de la tarde en un grito prolongado. Un rapazuelo lleva a beber a una vaca de la majada, e enderezándola hacia la acequia. La imagen del animal y la del muchacho se reflejan en el agua quieta. Paz – piensa Eugenio -, la gran paz de Dios de que Olivia siempre le hablaba…
De nuevo el silencio. Es una sensación de remordimiento. La certeza de que va a comenzar a pagar sus pecados, a expiar sus culpas.
Los ojos de Eugenio se inundan de lágrimas. Pasan los segundos. Poco a poco su respiración se hace normal, y lo que siente ahora es una trémula debilidad de convaleciente. Pero de la propia paz de los campos y de la idea misma de Dios le viene de pronto una loca y alborozada esperanza, que se apodera de todo su ser. Es posible que Olivia se salve. Sería demasiado cruel que muriese así. Acontecen milagros… Él se acuerda de casos…
Toma el sombrero y se precipita hacia la escalera. Pero, ¿por qué se detiene de súbito en le rellano, como si hubiese encontrado un obstáculo inesperado? Eugenio tiene aguda conciencia de un sentimiento aniquilador: su cobardía, esa inmensa y dolorosa cobardía, en un instante en que debía olvidarlo todo y correr junto a Olivia.
Queda un momento parado, oprimiendo el sombrero con los dedos nerviosos. Su mujer está allá abajo, en el jardín. Ella puede ahora descubrir toda la verdad… Necesita inventar una disculpa para aquel viaje precipitado. Mas Olivia se halla agonizante, sería monstruoso dejarla morir sin decirle una palabra de cariño, sin, al menos, pedirle perdón. Y en el instante mismo en que se formula este pensamiento, Eugenio siente que su orgullo y su cobardía no le permitirán este gesto de humanidad delante de extraños.
¡Dios mío! Mas es preciso ir, cueste lo que cueste, suceda lo que suceda.
Empieza a descender la escalera, despacio. Imagínase en el hospital. Olivia tendida en la cama… El doctor Teixeira dando explicaciones fríamente técnicas. Los otros… miradas de quien lo sabe todo… cuchicheos… ¿Quién? Amantes… ¡Ah! Él es, el doctor Eugenio Fontes, casado con la hija de aquel ricacho Cintra, ¿lo conoce?
Los dedos de Eugenio se crispan sobre el pasamanos.
El corazón le late con desesperada furia.
Lágrimas ardientes le corren por el rostro. Las enjuga, todo trémulo, y se dirige hacia el jardín, gritando:
-¡Honorio! – El chófer aparece -. Saque de prisa el auto. Precisamos ir a la ciudad de un tirón. Es un caso urgentísimo.
Eunice lee en el jardín, sentada a la sombra de un amplio quitasol de cascos rojos y azules.
-Necesito ir a la ciudad con urgencia – le dice Eugenio, esforzándose por dominar la voz.
Ella levanta los ojos del libro, con aire de indiferencia, fijándolos en el marido.
-¿Qué tienes? Estás tan pálido…
-Nada. Fue una noticia que recibí… – Vaciló, desvió la mirada. Y mintió: -Es referente a Ernesto.
Los ojos de ella tienen una luz fría. Parecen inquirir a través de aquellas palabras mentirosas.
-No es necesario que expliques. – Pausa. Contémplanse por un instante como dos extraños -. Naturalmente, no vuelves hoy…
Él consulta su reloj.
-Son casi las seis. Llego a la ciudad a las nueve, nueve y pico… Creo que sólo puedo estar de vuelta mañana de mañana.
Eunice echa la cabeza hacia atrás y, como si hablase para las nubes, dice:
-Tú sabes que yo me he hecho el propósito de no meterme en tu vida. Haz como te parezca. En todo caso, gracias por el aviso.
-Tu padre llega dentro de un rato. De esta manera no pasarás la noche sola.
-¡Oh! No te preocupes por mí. Sabré arreglarme yo misma. Además, tú sabes, me agrada la soledad. Nos convida a exámenes de conciencia. Y ya que hablamos de esto, debes necesitar de uno…
Eugenio se siente enrojecer. Eunice vuelve a bajar los ojos sobre el libro. Él queda contemplándola, sintiendo un rencor fino y frío.
-Hasta mañana – dice.
Sale aprisa, como quien huye.
-Hasta mañana – murmura Eunice, sin levantar los ojos del libro.
 
El auto se pone en movimiento. Transpone el portón principal de la quinta y gana el camino real.
-¡A toda prisa, Honorio!
Sin darse vuelta, el chófer responde:
-Cuando entremos en la faja de cemento, largaré el coche a noventa.
La luz de la tarde es suave y tristona. El ganado pace en los campos, un teruteru suelta un grito estridente, un perro ladra a los lejos.
Eugenio experimenta deseos de saltar al asiento delantero y confiar su angustia y sus secretos al chófer. En el fondo sabe que pertenece más a la clase de Honorio que a la clase de Eunice. Nunca pudo tratarlo con la superioridad con que la mujer y el suegro le daban órdenes. Como si estuviese hecho de una materia más ordinaria, como si hubiese nacido exclusivamente para obedecer.
-Preciso es que lleguemos a la ciudad, Honorio, en menos de tres horas. Es una cuestión de vida o muerte.
Eugenio cierra los ojos. Olivia pálida, tendida en la cama, muerta…
 
 
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Fonte: VERISSIMO, Erico. Mirad los lirios del campo. 5aed. Traducción del portugués por A. Jover Peralta y Antonio Ortiz Mayans. Buenos Aires: Tupã, 1949. p. 09-12.





Bio fornecida pelo palestrante.

Luzia Homem




Autor: Domingos Olímpio
Título: Luzia Homem
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 01/07/2005

Luzia Homem

I

 Domingos Olímpio

 
 
O morro do Curral do Açougue emergia em suave declive da campina ondulada. Escorchado, indigente de arvoredo, o cômoro enegrecido pelo sangue de reses sem conto, deixara de ser o sítio sinistro do matadouro e a pousada predileta de bandos de urubustingas e camirangas vorazes.
Bateram-se os vastos currais, de grossos esteios de aroeira, fincados a pique, rijos como barras de ferro, currais seculares, obra ciclópica, da qual restava apenas, como lúgubre vestígio, o moirão ligeiramente inclinado, adelgaçado no centro, polido pelo contínuo atrito das cordas de laçar as vítimas, que a ele eram arrastadas aos empuxões, bufando, resistindo, ou entregando, resignadas e mansas, o pescoço à faca do magarefe. Ali, no sítio de morte, fervilhavam, então, em ruidosa diligência, legiões de operários construindo a penitenciária de Sobral.
No cabeço saturado de sangue, nu e árido, destacando-se do perfil verde-escuro da serra Meruoca, e dominando o vale, onde repousava, reluzente ao sol, a formosa cidade intelectual, a casaria branca alinhada em ruas extensas e largas, os telhados vermelhos e as altas torres dos templos, rebrilhando em esplendores abrasados, surgia em linhas severas e fortes, o castelo da prisão, traçado pelo engenho de João Braga, massa ainda informe, áspera e escura, de muralhas sem reboco, enteadas em confusa floresta de andaimes a esgalharem e crescerem, dia a dia, numa exuberancia fantástica de vegetação despida de folhas, de flores e frutos. Pela encosta de cortante piçarra, desagregado em finíssimo pó, subia e descia, em fileiras tortuosas, o formigueiro de retirantes, velhos e moços, mulheres e meninos, conduzindo materiais para a obra. Era um incessante vai e vem de figuras pitorescas, esquálidas, pacientes, recordando os heróicos povos cativos, erguendo monumentos imortais ao vencedor.
Acertara a Comissão de Socorros em substituir a esmola depressora pelo salário emulativo, pago em rações de farinha de mandioca, arroz, carne de charque, feijão e bacalhau, verdadeiras gulodices para infelizes criaturas, açoitadas pelo flagelo da seca, a calamidade estupenda e horrível que devastava o sertão combusto. Vinham de longe aqueles magotes heróicos, atravessando montanhas e planícies, por estradas ásperas, quase nus, nutridos de cardos, raízes intoxicantes e palmitos amargos, devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo implacável sol incandescente.
Na construção da cadeia havia trabalho para todos. Os mais fracos, debilitados pela idade ou pelo sofrimento, carregavam areia e água; aqueles que não suportavam mais a fadiga de andar amoleciam cipós para amarradio de andaimes; outros menos escarvados amassavam cal; os moços ainda robustos, homens de rija têmpera, superiores às inclemências, sóbrios e valentes, reluziam de suor britando pedra, guindando material aos pedreiros, ou conduzindo às costas, de longe, das matas do sob pé da serra, grossos madeiros enfeitados de palmas virentes, de ramos de pereiro de um verde fresco e brilhante, em festivo contraste com o sítio ressequido e desolado. E davam conta da tarefa, suave ou rude, uns gemendo, outros cantando álacres, numa expansão de alívio, de esperança renascida, velhas canções, piedosas trovas inolvidáveis, ou contemplando com tristeza nostálgica, o céu impassível, sempre límpido e azul, deslumbrante de luz.
Esse concerto esdrúxulo de vozes humanas em canticos e queixumes, de rugidos da matéria transformando-se aos dentes dos instrumentos, aos golpes dos martelos, de brados de comando dos mestres e feitores, essa melopéia do trabalho amargurado ou feliz, era, às vezes, interrompido por estrídulos assobios, alarido de gritos, gargalhadas rasgadas e as vaias de meninos que se esganiçavam: era uma velha alquebrada que deixara cair a trouxa de areia; um cabra alto de hirsuta cabeleira marrafenta, lambuzado de cal, que escorregara ao galgar uma desconjuntada e vacilante escada, e lançava olhares ferozes à turba que o chasqueava, era a carreira constante das moças e meninas para as quais o trabalho era um brinquedo; eram gritos de dor de um machucado, rodeado pela multidão curiosa e compassiva, ou os gemidos de algum infeliz, tombando prostrado de fadiga, pedindo pelo amor de Deus, no estertor da hora extrema, não o deixassem morrer sem confissão, sem luz, como um bicho.
Cercava o edifício em construção, um exótico arraial de latadas, de choupanas, de ranchos improvisados, onde trabalhavam carpinteiros falqueando longas vigas de pau-d’arco, frechais de frei-jorge e gonçalo-alves, ou serrando e aplainando cheirosas tábuas de cedro. Marcando a subida do morro, se alinhavam em rua tortuosa, pequenas barracas feitas de costaneiras, cascas e sarrafos, as quais serviam de abrigo às costureiras, fazendo, dos sacos de víveres, roupa para os esmolambados, envoltos em nojentos trapos que lhes mal disfarçavam o pudor e a horrenda magreza esquálida. De outras barracas subia ao ar, em novelos espessos ou tênues espirais azuladas, o fumo de lareiras, onde, sobre toscas trempes de pedra, ferviam, roncando aos borbotões, grandes panelas de ferro, repletas de comida.
Ao cair da tarde, quando cálida neblina irradiava da terra abrasada, esbatia o recorte das montanhas ao longe, e adelgaçava o colorido da paisagem em tons pardacentos e confusos, o sino da Matriz, como um colossal lamento, troava a Ave-Maria. Cessava o rumor e o mestre da obra batia com o pesado martelo o prego, em solene cadência, anunciando o termo do trabalho.
A multidão de operários, depois de silenciosa e contrita prece, se agrupava em torno dos feitores; e, respondido o ponto, desfilava, depositando, em determinado sítio, a ferramenta e vasilhame. Fatigada, suarenta, dispersava-se, dividindo-se em grupos, seguindo várias direções em busca de pousada, ou desdobrando-se na curva dos caminhos, nas forquilhas das encruzilhadas, até se sumir como sombras desgarradas, imersas na calagem da noite iminente.
Começava, então, a vida nos acampamentos, desertos durante o dia. E decantes à viola, ruídos de sambas saracoteados, de vozes lamures ou irritadas, de gargalhadas incontinentes formavam incoerentes acordes com as rajadas ásperas de viração a silvar nos galhos secos e contorcidos das moitas mortas de jurema e mofumbo, ou nas palmas virentes das carnaubeiras imortais.
No céu límpido, profundo e sereno, em quietude de lago tranqüilo, sem as manchas de nuvens errantes, tremeluziam em esplêndidas constelações, miríades de estrelas. Na terra escura, um colar de luzes tímidas, como círios melancólicos velando enorme esquife, cercava a cidade adormecida em torpor de monstro saciado. E no alto sinistro do curral do Açougue, erguia-se, silenciosa e solitária, a molhe sombria da penitenciária, como um lúgubre monumento consagrado à maldade humana.
 
 

II

 
 
O francês Paul – misantropo devoto e excelente fabricante de sinetes que, na despreocupada viagem de aventura pelo mundo, encalhara em Sobral, costumava vaguear pelos ranchos de retirantes, colhendo, com apurada e firme observação, documentos da vida do povo, nos seus aspectos mais exóticos, ou rabiscando notas curiosas, ilustradas com esboços de tipos originais, cenas e paisagens – trabalho paciente e douto, perdido no seu espólio de alfarrábios, de coleções de botanica e geologia, quando morreu, inanido pelos jejuns, como um santo.
Um dia, visitando as obras da cadeia, escreveu ele, com assombro, no seu caderno de notas:
“Passou por mim uma mulher extraordinária, carregando uma parede na cabeça.”
Era Luzia, conduzindo para a obra, arrumados sobre uma tábua, cinqüenta tijolos.
Viram-na outros levar, firme, sobre a cabeça, uma enorme jarra d’água, que valia três potes, de peso calculado para a força normal de um homem robusto. De outra feita, removera, e assentara no lugar próprio, a soleira de granito da porta principal da prisão, causando pasmo aos mais valentes operários, que haviam tentado, em vão, a façanha e, com eles, Raulino Uchoa, sertanejo hercúleo e afamado, prodigioso de destreza, que chibanteava em pitorescas narrativas.
Em plena florescência de mocidade e saúde, a extraordinária mulher, que tanto impressionara o francês Paul, encobria os músculos de aço sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moças do sertão. Trazia a cabeça sempre velada por um manto de algodãozinho, cujas curelas prendia aos alvos dentes, como se, por um requinte de casquilhice, cuidasse com meticuloso interesse de preservar o rosto dos raios do sol e da poeira corrosiva, a evolar em nuvens espessas do solo adusto, donde ao tênue borrifo de chuvas fecundantes, surgiam, por encanto, alfombras de relva virente e flores odorosas. Pouco expansiva, sempre em tímido recato, vivia só, afastada dos grupos de consortes de infortúnio, e quase não conversava com as companheiras de trabalho, cumprindo, com inalterável calma, a sua tarefa diária, que excedia à vulgar, para fazer jus a dobrada ração.
– É de uma soberbia desmarcada – diziam as moças da mesma idade, na grande maioria desenvoltas ou deprimidas e infamadas pela miséria.
– A modos que despreza de falar com a gente, como se fosse uma senhora dona – murmuravam os rapazes remordidos pelo despeito da invencível recusa, impassível às suas insinuações galantes. – Aquilo nem parece mulher fêmea – observava uma velha, alcoveta e curandeira de profissão. Reparem que ela tem cabelos nos braços e um buço que parece bigode de homem…
– Qual, tia Catirina! O Lixande que o diga! – mandou uma cabocla roliça e bronzeada, de dentes de piranha, toda adornada de jóias de pechisbeque e fios de miçanga, muito besuntada de óleos cheirosos.
– Não diga isso que é uma blasfémia – atalhou Teresinha loura, delgada e grácil, de olhar petulante e irônico, toda ela requebrada em movimentos suaves de gata amorosa.
– Por ela eu puno; meto a mão no fogo…
– Havia de sair torrada. Isso de mulher, hoje em dia, é mesmo uma desgraceira.. .
– Mas você não pode negar que ela viva no seu canto sossegada sem se importar com a vida dos outros e fazendo pela sua, como uma moira de trabalho. Vocês, suas invejosas, não a poupam; não tendo para dizer dela um tico assim, vivem a maldar, a inventar intrigas e suspeitas. Nem que ela fosse uma despencada do mundo…
– Tu a defendes, porque és parceira dela…
– Antes fosse!… Outros galos me cantariam. Não andaria aqui, sem eira nem beira, metida nesta canalhada de retirantes. Quem me dera ser como Luzia, moça de respeito e de vergonha,
– Quem perdeu tudo isso para ela achar?.. obtemperou numa rasgada gargalhada de sarcasmo brutal, a roliça cabocla de agudos dentes.
– Qual? … Vão atrás da sonsa! …
– Deixem estar que há de ser como as outras. Em boniteza, verdade, verdade, mete vocês todas num chinelo. Aquilo é mulher para dar e apanhar – disse chasqueando um soldado de linha, destacado no Curral do Açougue para manter a ordem, pois não raro rixavam e se engalfinhavam mulheres, ou se esboroavam homens por fúteis pretextos: houvera mesmo sérios conflitos e lutas sangrentas, tão abatido estava, naquela pobre gente o senso moral.
– Vão ver que você, seu Crapiúna, também está fazendo roda a Luzia-Homem?!…
Crapiúna, o tal soldado, era mal afamado entre os homens e muito acatado pelas mulheres, graças à correção do fardamento irrepreensível, os botões doirados, o cinturão e a baioneta polidos e reluzentes: todo ele tresandando ao patchouli da pomada, que lhe embastia a marrafa e o bigode, teso e fino como um espeto. Possuía, apesar das duras feições, o encanto militar, a que é tão caroável o animal caprichoso, e fútil, a mulher de todas as categorias e condições sociais, talvez porque, sendo fraca, naturalmente, se deixa atrair pelas manifestações da força.
Contavam dele histórias emotivas, aventuras galantes, feitos de bravura, façanhas na perseguição de criminosos célebres; ele estivera nas escoltas que prenderam o facínora José Gabriel e o cangaceiro Zé Antônio do Fechado, cavaleiro e bravo à antiga, de raça de heróis, os Brilhantes, Ataídes, e Vicente Lopes do Caminhadeira, representantes dispersos, atávicos, espécimes ferozes de banditismo que foi a glória de Portugal, e lhe conquistou mundos, descobrindo-os, roubando-os com a indômita coragem de piratas, consagrados pela imperecível gratidão da pátria à póstera veneração.
Não faltavam ao soldado feitos que lhe aumentassem o prestígio de pessoa bem conformada, sem vícios que lhe dessem o realce de um afortunado. Dizia-se, à puridade, nos colóquios da protérvia popular, que, antes de ser recrutado por audácias sensuais, e envergar a farda, fora guarda-costas de um famigerado fazendeiro da Barbalha, onde executara proezas cruéis, de pasmar, em verdes anos, pois mal lhe despontava, então, o buço. Tinha o ativo de três mortes e outros crimes menores, valendo-lhe isto por título ao temeroso respeito do povo.
A insinuação de Romana ferira certo o alvo, e assanhara a secreta cupidez de Crapiúna, que não se conformava com os modos retraídos e a impassível frieza da mulher-homem, resistência passiva e calma, ante a qual se amesquinhava a sua fama e sentia arranhado o amor-próprio de vitorioso em fáceis conquistas. Sempre que a encontrava, dirigia-lhe, com saudações reverentes, palavras de ternura e erotismos incontinentes, olhares e gestos de desejos mal sofreados. E, tão freqüentes se tornaram esses meios de obsessão, que um dia a moça os rebateu secamente, com firmeza inelutável:
– Deixe-me sossegada. Não se meta com a minha vida. Eu não sou o que o senhor supõe…
– Deixa-te de luxos, rapariga – respondeu Crapiúna, mostrando-lhe um grosso anel de ouro.
– Olha a memória de ouro que tenho para ti… Não te zangues com o teu mulato…
Desde então entrou a acompanhá-la, a perseguí-la por toda a parte, nas horas de trabalho na penitenciária, nas caminhadas ao rio e a rondar durante a noite pela vizinhança da casinha velha, lá para as bandas da Lagoa do Junco, onde ela morava com a mãe, velha e enferma, a boa, a santa tia Zefa.
Exasperada por essa obsessão afrontosa, cada vez mais ardente e descomedida, Luzia queixou-se ao administrador que obteve do tenente, comandante do destacamento, a remoção do temerário galante para outros serviços, guarda e faxina da prisão e, nos dias de folga, a polícia da feira.
O tão severo, merecido castigo penetrou fundo no duro coração do soldado, remexendo a vasa de instintos, ali sedimentada em demorado repouso. Mais ainda lhe moeram os melindres, os comentários irreverentes, os aplausos, as insinuações ferinas e o chasco de ser punido por queixa da mulher apetecida, a quem ele, com fingido desdém, chamara uma retirante à-toa, sem eira nem beira, toda arrebitada de luxos e medeixes. E ainda mais o estomagava o ser a opinião, em esmagadora maioria, favorável ao castigo.
Acharam todos fora acertada providência tirar aquela onça do pasto para tranqüilidade e segurança das moças e das mulheres casadas, pois já era demasiada a falta de respeito escandalizadora. Aquele homem de maus bofes, era um perigo. E surdiam histórias de crimes, anedotas grotescas, revelação de casos repugnantes, verdadeiros ou inventados pela fantasia do populacho nos excessos de saborear a vingança, denegrindo-lhe a reputação e deturpando-o para transformá-lo de pelintra quente e apaixonado, em reles monstro horripilante.
Crapiúna sabia dessas más ausências, das calúnias e falsos testemunhos que lhe levantavam, covardemente, pelas costas; das pragas e esconjuros, arrogados pelas suas vítimas e desafetos. Safados uns, ingratos outros. Corja de mal-agradecidos, que já se não lembravam dos benefícios de ontem. A muitos deles, desses que agora o malsinam por intrigas de mulheres, havia morto a fome. Não se tinha em conta de santo, confessava; fizera certas vadiações de homem solteiro, que não tinha contas que dar; mas ninguém lhe podia lançar em rosto o haver aforciado mulheres honestas. Quanto à remoção, até dava graças a Deus por se ver livre daquela cambada de retirantes nojentos e leprosos, cujo aspecto, em jejum, causava engulhos; seria, entretanto, melhor sair da obra por sua livre vontade e não por queixa… E logo de quem? De Luzia-Homem… Oh? o diabo daquela sonsa era capaz de virar pelo avesso o juízo de uma criatura, e provocar muita desgraça por causa daquele implosão de querer ser melhor que as outras… Tirando-lhe a força bruta, não passava de uma pobre tatu, que só tem por si o dia e a noite.
– Você está… – mas é fisgado pela macho e fêmea – arriscou o camarada Belota que lhe ouvia a confidência – Aquilo tem mandinga… Quem sabe se não te enfeitiçou!… Olha que ela tem uns olhos que furam a gente… E então – aquela cabeleira… Acho melhor pedir à Chica Seridó uma oração forte para desmanchar quebrantos e fechar o corpo contra mau olhado.
– Qual, o quê!… – retorquiu Crapiúna, com afetado desdém – Eu até nem gosto dela… Não lhe acho graça… Depois… com semelhante força… nem parece mulher…
–Tira o cavalo da chuva e conta a história direito, Crapiúna. Todas as mulheres são iguais e merecem tudo; a demora é grelar no coração o capricho, principalmente, quando resistem. Fora ela um monstro da natureza; paixão não enxerga nem repara e, quando nos ataca, é como o sarampo: até jasmim de cachorro é remédio. E deixa falar quem quiser, que é soberba, sonsa, mal-ensinada… Ela não é nenhum peixe podre. Não reparaste naqueles quartos redondos, no caculo do queixo. Na boca encarnada como um cravo?! E o buço?! … Sou caidinho por um buço … Ela quase que tem passa-piolho, o demônio da cabrocha…
– O que mais me admira é que não se diz dela tanto assim – afirmou Crapiúna pensativo, riscando com a unha do polegar a ponta do indicador.
– É por ser mais velhaca que as outras… Pergunta ao Alexandre…
– Que Alexandre? Aquele alvarinto que servia de apontador na obra: e passou depois para o armazém da Comissão?… Aquilo é defunto em pé. Não é qualidade de homem para um como eu.
– O caso é que ele gosta dela. Estão sempre perto um do outro, ao passo que o Crapiúna velho foi posto fora, como um cachorro tinhoso, e está aqui gemendo no serviço…
E como o soldado, em cujo coração se derramara fel, ficasse a cismar, Belota afastou-se com um gracejo ferino:
– Ali é ver com os olhos e comer com a testa ou lamber vidro de veneno por fora, como rato de botica. Toma o meu conselho. Não te metas com a bruxa que cheiras vara!
Crapiúna não o ouviu. Contorcendo-se no martírio de onça acuada, com o coração caldeado no peito, estremecia à suspeita de um rival venturoso na disputa da cobiçada presa.
 
 
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Fonte: OLÍMPIO, Domingos. Luzia-homem: romance. São Paulo: Moderna, 1984. p. 7-17.





Bio fornecida pelo palestrante.

A MURALHA




Autor: Dinah Silveira de Queiroz
Título: A MURALHA, LA MURALLA
Idiomas: port, esp
Tradutor: Estela dos Santos (esp)
Data: 01/07/2005

A MURALHA

 
 

Capítulo I

 
 

Dinah Silveira de Queiroz

 
 
Era como uma brecha ou ferida rasgando as árvores e as plantas, uma vila miserável que transbordava de gente. Ela via os casebres, o povo afluindo ao porto, o navio chegando à bacia de óleo, e punha sua vista naquele teatro com a firmeza do sacrifico que se entregava, cuidando no céu. Se Deus bem quisesse, daí a momentos iria conhecer Tiago, seu primo, seu prometido, a resposta que dera à vida pequenina de Lisboa. O olhar crescia na água, atravessando as lágrimas que não queriam cair. Havia um apagado de luz branca, em torno da mancha vermelha e cinza de orlas verdes de São Vicente. Ali estava seu caminho, seu destino. “Sou como um inocente que entendesse se próprio nascer”.
Junto de Cristina, anunciada pelo seu cheiro de sandalo, Joana Antônia, companheira de longa viagem, apareceu. Trocara suas roupas simples. Trazia um vestido de adamascado escarlate, argolas de ouro e chapéu com uma pena frisada que o vento fazia viver. Hoje Joana Antônia estava decidida e cheia de coragem. Seus olhos cercados de tinta escura, como são os das mouras, luziam de bravata e não de choro:
– “Amenina bem me pode dar seu adeus… Se bem me fio em mim mesma, não lhe ajuntei mal ou desgraça nesta enorme viagem…”
– “Adeus…” Respondeu Cristina com súbita secura, sem voltar-se de lado. Parecia um retrato com fala e gesto, quando mais disse:
– “Deus Nosso Senhor a acompanhe”.
– “Ai, quanto a isto, menina, Deus Nosso Senhor estará comigo, bem que não tenho dúvida. Ele é pessoa mais companheira e sem orgulho…”.
Chegava o Capitão-Mor. Nunca, como nesse momento, ele lhe pareceu um galo novo, passeando sua crista e seu esplendor em meio a outros apagados e servis emplumados. Era distinto, fino, engomado e lustroso como boneco de príncipe. O cabelo caía em ondas de mulher; a mão que o alisava para trás mostrava o grande anel de lápis-lazúli, com seu escudo.
– “Bom dia, senhora minha”, disse ele a Cristina, passando junto de Joana Antônia, que se retirava, não a vendo, nem a sentindo. “Se soubésseis o que é esta terra, e estes endemoninhados sem Lei nem Rei, não gastaríeis aqui vossa gentil presença”. E, não esperando resposta, enquanto acenava para terra, acreditando que já fosse visto: “Em outros tempos, os desesperos de amor e as mágoas de família se aquietavam nos conventos. Agora, toca a passear a mágoa por um mundo diferente”.
Cristina sorria, deslindando as palavras com alegre afetação:
– “Basta de tristezas. Espero não ter gasto todo meu dinheiro em vão com tantos cobiçosos, neste barco. E saiba Vossa Senhoria que vou ser feliz e que não venho esquecer-me, mas viver…”
O Capitão-Mor continuava a acenar; depois, brusco, pondo na moça seus olhos azuis frios, a puxou pelo braço tremente, falando em cor de voz mais íntima:
– “Cure-se a menina de ilusões. A pobreza arrogante desta terra! Os índios feios como Judas, os brancos sujos, fanfarrões e briguentos, os negros fazendo o que lhes ensinam, como monos. Os padres disputando com os brancos, mas lhes dizendo as missas. E as mulheres escondidas em casa como coelhos nas tocas, ignorantes e obstinadas”.
E enquanto cortejava a gente que já o podia distinguir, com um aceno altaneiro:
– “Vede bem esta miséria. De perto ainda é pior! Porque este povo cheira diferente… Se algum dia descoroçoar, contai com minha valia”.
Cristina foi prendendo a mantilha, enrolando-a no pescoço:
– “Com esta gente de que fala não viverei eu. Há de ser com meu esposo, que tem meu próprio sangue, e será um homem igual a meu irmão”.
O Capitão-Mor balançou a cabeça, mirou Cristina de cima a baixo:
– “Deus Nosso Senhor conserve a alegria da menina, e também sua beleza, em terra tão sem galas. Adeus!”
Cristina se viu, descida do bote, num atordoar de povo que a olhava com se ela viesse de outro mundo. Ela se viu a contar suas arcas, a vigiar os tripulantes que as traziam para a terra. Como reconheceráTiago? Voltava-se depressa, em sustos, a cada instante. Mas o homem que podia ser seu noivo já a inquiria com jeito desaforado na face. Eram todos curiosos, e as suas coisas excitavam interesse geral. O moço que a acompanhara empurrou com o corpo, de lado, certa mulherinha escura, de duros cabelos, que passava a mão pelo seu vestido, como alguém encantado a alisar um bicho.
– “Arreda! Arredem todos!”
Nesta confusão se chegou uma figura estranha: Um mestiço ruivo, de face sardenta e rosada, de olhos fendidos no rosto chato. Vestia roupa decente, calça de algodão, jubão de couro.
– “Ei…Procuro a dona mandada pra meu senhor…”
Cristina, embora em sua tonteira de emoção, quis ajudar. Seria o criado para levar Joana Antônia… E mostrou:
– “Vai acolá. Espera ali à sombra…”
Mas o criado a olhou, de lado, suspeitoso:
– “Sou da Lagoa Serena. Meu senhor aqui me mandou pela dona de seu filho…Tiago, meu sinhozinho”.
Cristina sentiu o sangue no rosto:
– “Tiago não vem?”
O mestiço olhou a moça – triunfante:
– “Aimbé leva a dona dele!”
Cristina viu dois homens quase despidos, escuros, de cabelo liso e sem barba. Pareciam gêmeos.
– “Gente boa. Gente da Lagoa Serena. Aimbé mesmo caçou eles pra meu Senhor!”
Os índios, com Aimbé, carregaram as arcas. Um homenzarrão barbudo e em farrapos puxou a mantilha de Cristina, e riu, um riso de dentes pretos:
– “Ai, a branquinha tão fresca!”
Aimbé lhe cortou a explosão:
– “É a sinhazinha pra Lagoa Serena!”
O homem fechou a boca, deu um passo desajeitado para trás, fazendo o arremedo de uma escusa ou de um cumprimento. Ela arrebanhou firme a saia na mão, e enfrentou a populaça, formada de faces espantadas ou admirativas, ingênuas ou caçoístas. Desviou os olhos de uma mulher morena, só de saia, com os longos seios bambos expostos; deu com o braço no peito de um velho que ria divertido para ela, intrigado com se ela fosse um boneco de engonço. Uma ave, no ombro do velho, dava gritos terríveis, ofendida e solidária com seu amo, logo que este foi empurrado.
Cristina estava agora animada de heroísmo obscuro. Aceitava tudo, queria tudo aceitar com perfeita naturalidade, porque ao fim daquele fio de cenas e acontecimentos ela teria Tiago, o seu Tiago; tão bom, decerto, como seu irmão, e ainda mais belo. Exatamente como aparecia no medalhão que escondia sob o vestido.
(…).
 
 
________________
 
Fonte: QUEIROZ, Dinah Silveira de. A Muralha. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1954.p. 11-15.
 

LA MURALLA

 
 

Capítulo I

 
 

Dinah Silveira de Queiroz

 
 
Esa villa miserable desbordada de gente era como una brecha o una herida que rasgaba los árboles y las plantas. Ella veía las casuchas, el pueblo afluyendo al puerto, el barco que llegaba a ala hondonada aceitosa, y ponía sus ojos en ese teatro con la firmeza del sacrificio que se hace pensando en el cielo. Si Dios quería en pocos momentos conocería a Tiago, su primo, su prometido, la contestación que había dado a la vida pequeña de Lisboa. Sus ojos crecían de agua por las lágrimas que no querían salir. Era una apagada luz blanca alrededor de la mancha roja y ceniza con orlas verdes de São Vicente. Allí estaba su camino, su destino. “Soy como un inocente observando su propio nacimiento”.
Junto a Cristina, preanunciada por su olor a sándalo, se acercó Joana Antonia, su compañera del largo viaje. Se había cambiado sus ropas sencillas. Traía un vestido de damasco escarlata, aros de oro y un sombrero con una pluma rizada que la brisa hacía vivir. Hoy Joana Antonia estaba decidida y llena de coraje. Sus ojos orlados de oscura tinta, como los de las moras, brillaban de bravura y no de lágrimas:
-La niña podría saludarme… Según mi opinión, no le contagié ningún mal ni desgracia en este enorme viaje…
-Adiós… – contestó Cristina con súbita sequedad, sin darse vuelta. Parecía una fotografía que hablaba y se movía cuando le dijo:
-Que Dios Nuestro Señor la acompañe.
-Ay, niña, Dios Nuestro Señor estará conmigo, no tengo la menor duda. Él es una persona compañera y sin orgullo…
Llegaba el capitán. Nunca como en ese momento le pareció un gallo joven paseando su cresta y su esplendor en medio de otros oscuros y serviles emplumados. Era distinto, fino, almidonado y lustroso como un muñeco de príncipe. El cabello le caía en ondas femeninas y su mano, al alisarlo hacia atrás, mostraba un gran anillo da lapizlázuli con su escudo.
-Buen día, mi señora – le dijo a Cristina pasando al lado de Joana Antonia que se retiraba, sin verla ni sentirla. “Si supiera lo que es esta tierra y estos endemoniados sin ley y sin Dios, no gastaría aquí su gentil presencia”. Y sin esperar respuesta, mientras hacía señas hacia tierra pensando que ya había sido visto: “En otros tiempos las desesperaciones amorosas y las angustias familiares se sosegaban en los conventos. Ahora la tristeza se pasea por un mundo diferente”.
Cristina sonreía deslindando las palabras con alegre afectación:
-Basta de tristezas. Espero no haber gastado todo mi dinero en vano con tantos codiciosos en ese barco. Y sepa Su Señoría que voy a ser feliz y que no vengo a olvidar sino a vivir…
El capitán continuaba haciendo señas; después, bruscamente, poniendo sus fríos ojos azules en la muchacha, la agarró por el brazo tembloroso, hablándole en tono de voz más íntimo:
-Cúrese de ilusiones, niña. La pobreza altiva de esta tierra, los indios feos como judas, los blancos sucios, fanfarrones y borrachos, los negros repitiendo lo que les enseñan como monos. Los curas peleándose con los blancos pero diciendo las misas. Y las mujeres escondidas en las casas como conejos en sus cuevas, ignorantes y obstinadas.
Y mientras cortejaba a la gente que ya lo podía distinguir, con un acento altanero:
-Mire bien esa miseria. ¡De cerca todavía es peor! Porque este pueblo huele diferente… Si algún día se descorazona, cuente con mi apoyo.
Cristina tomó su mantilla y empezó a envolverse el cuello:
-Con esa gente de la que habla yo no viviré. Estaré con mi esposo, que tiene mi misma sangre y será un hombre igual a mi hermano.
El capitán movió la cabeza y miró a Cristina de arriba abajo:
-Dios Nuestro Señor conserve su alegría, niña, y también su belleza, en esta tierra carente de galas. Adiós.
Al bajar del bote, Cristina se encontró en medio del tumulto que la miraba como si viniese de otro mundo. Tuvo que contar sus baúles y vigilar a los tripulantes que los traían a tierra. ¿Cómo reconocería a Tiago? A cada instante se daba vuelta deprisa, asustada. Pero el hombre que podía ser su novio ya la buscaría con el rostro desaforado. Todos eran curiosos y sus cosas excitaban el interés general. El mozo que la había acompañado empujó con su cuerpo, de costado, a una mujercita oscura, de cabellos duros, que le pasaba una mano por el vestido como alguien encantado de acariciar un animal.
-¡Atrás! ¡Atrás todos!
En esa confusión se acercó una figura extraña: un mestizo rubio, de mejillas pecosas y rosadas y ojos hundidos en la cara chata. Vestía ropa decente, pantalón de algodón y saco de cuero.
-¡Ei!… Busco a la señora mandada para mi señor…
Cristina, atontada en su emoción, quiso ayudar. Sería el criado para llevar a Joana Antonia… Y le señaló:
-Anda allá. Espera en la sombra…
Pero el criado la miró de reojo, sospechando:
-Soy de la Lagoa Serena. Mi señor me mandó por la señora de su hijo… Tiago, mi sinhôzinho.
Cristina sintió que la sangre le subía al rostro:
-¿Tiago no viene?
El mestizo la miró, triunfante:
-¡Aimbé lleva a la señora!
Cristina vio a dos hombres casi desnudos, oscuros, de pelo liso y sin barba. Parecían mellizos.
-Buena gente. Gente de la Lagoa Serena. ¡Aimbé los cazó para mi señor!
Junto con Aimbé, los indios cargaron los baúles. UN hombrón barbudo y harapiento tocó la mantilla de Cristina y se rió con una risa de dientes negros:
-¡Ay, qué blanquita tan fresca!
Aimbé lo cortó:
-Es la sinhazinha para Lagoa Serena!
El hombre cerró la boca, dio un paso sin gracia hacia atrás remedando una excusa o un saludo. Ella levantó con firmeza la pollera con la mano y enfrentó al populacho formado de caras asombradas o admiradas, ingenuas o burlonas. Desvió los ojos de la mujer morena, sólo con polleras y los largos pechos bamboleantes al desnudo y golpeó con su brazo a un viejo que se reía, divertido con ella, intrigado como si fuese una muñeca articulada. Un ave sobre el hombro del viejo largaba terribles gritos, ofendida y solidaria con su amo, apenas éste fue empujado.
Ahora Cristina estaba animada de un oscuro heroísmo. Aceptaba todo, quería aceptar todo con perfecta naturalidad, porque al final de ese desfile de escenas y sucesos tendría a Tiago, a su Tiago, seguramente tan bueno como su hermano y todavía más hermoso. Exactamente como aparecía en el medallón que escondía por dentro de su vestido.
(…).
 
 
_________________
 
Fonte: QUEIROZ, Dinah Silveira de. La Muralla. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires: Macondo Ediciones, 1978. p. 15-17.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A ILHA DOS DEMÔNIOS




Autor: Dinah Silveira de Queiroz
Título: Ilha dos Demônio, L’ÎLE AUX DÉMONS
Idiomas: port, fra
Tradutor: Andrée Gama Fernandez(fra)
Data: 28/12/2004

A ILHA DOS DEMÔNIOS


I


Diná Silveira de Queiroz

Padre, não vos faço uma confissão. Se a Religião manda que nos desafoguemos de nossos pecados, será talvez mais para que recuperemos a paz necessária à alma, que mesmo para que sábios conselhos, seguidos de grandes penitências, nos impeçam de cair de novo em tentação. Se me confio a vós, Padre, é porque sei que entre tantos ministros de Deus, que desta terra não saíram, e julgam o mundo pelo que vêem, vós andastes por esse enorme sítio onde Cristo se exilou, e bem conheceis, tanto quanto ao nosso país, as maravilhosas terras que ficam além dos mares, com florestas soberbas e animais estranhos, e criaturas que, semelhantes aos homens, vivem como feras.
Confio em que não me havereis por mentirosa, e sedenta de ofuscar os outros com minhas narrativas. Neste século de maravilhas e de viagens estupendas, talvez ninguém tenha história mais espantosa do que a minha. Mais espantosa! Deveria acrescentar: e mais triste, também. Quero lavar meu espírito das recordações aterradoras, quero purificar minha consciência. Ofereço-vos toda a minha lembrança. Ah! Pudesse eu, entregando-a a vós, libertar-me de tudo que enche a minha memória! Tanta peçonha, tantos malefícios!
Começarei, Padre, bem do começo, para que certas coisas possam ser entendidas.
Nasci sob um mau fado. Bem sei que arrisco, com esta declaração, ser chamada de supersticiosa! Mas, a bem da verdade, julgo dever contar que, estando grávida, já quase a ponto de dar à luz, minha mãe teve um choque terrível. É que minha tia, uma criatura que tinha sonhos maravilhosos, e, dormindo, falava em línguas desconhecidas, como se seu corpo fosse habitado por espíritos de plagas distantes, minha tia, certa noite, teve uma visão terrível. Seus olhos esbugalharam-se, tornaram-se quase brancos, e seus cabelos se puseram em pé:
«-Minha irmã, disse ela, depois de despertar de um longo sono que se seguiu à visão. Minha pobre irmã! Levas em teu ventre alguém que irá em vida ao Inferno! Oh, que coisas abomináveis eu vi!»
Foi tal o susto que teve minha mãe, que isto lhe apressou o parto; e, na madrugada seguinte, eu nascia. Um entezinho fraco, tão pequenino, que não parecia ter forças para viver.
Deram-me o nome de Margarida. Meus Pais me colocaram sob a proteção da santa do mesmo nome. Nos momentos mais penosos da minha vida a ela recorri, e sempre encontrei a força necessária para enfrentar toda espécie de desgraça.
Mas, tendo nascido sob tão tremenda profecia, e dela sabedora logo em criança, nem por isso deixei de ser uma rapariga alegre, faceira, como poucas, ao chegar aos quinze anos. Bom Padre, vós que conheceis os votos de pobreza e desprendimento das coisas do mundo, talvez não alcanceis quanto a vaidade em mim era uma coisa natural, e não uma tentação vinda do Demônio, para arrastar minhalma, e me tornar instrumento, também, de seus malefícios.
Gostava de cuidar de mim, como os gatos gostam de conservar o pêlo liso e brilhante e andam sempre limpos e lustrosos – tão bonitos – sem que isso ofenda a Deus, pois que são assim, parece, por própria vontade divina. Era com prazer que eu tratava da minha pele. Na aldeia não havia nenhuma tão branca, nem mais acetinada. Meus cabelos, negros, tão longos que me chegavam quase aos pés, luziam esfregados com azeite. Gostava de trançá-los com flores. Minhas mãos eram tratadas com toda espécie de ungüentos e pomadas. Só saía à tardinha, para que o sol não me queimasse, tornando-me tão feia e manchada quanto as outras raparigas. Meus Pais, tão bons, facilitavam o gosto que eu tinha por conservar a beleza que Deus me dera. Nos trabalhos de casa, e em outras canseiras, eu era poupada. Tinha, ao contrário das outras jovens do lugar, uma aia para meus serviços. Secretamente, receosos que se cumprisse a tremenda visão que anunciara meu nascimento, meus Pais desejavam dar tudo que tivessem a seu alcance por minha felicidade, e nisso não poupavam sacrifícios.
A ama lia para mim longos romances de destemidos cavaleiros de eras passadas. Minha mãe fiava… Oh, tempos queridos da minha felicidade!
Quando ia à igreja, acompanhada por Juliana, a aia, sentia em mim o olhar ardente dos moços da vila, e podia perceber, como fogo estranho, arder em torno a inveja das raparigas. Mas eu rezava, calma e segura, no meio de todos, e, como se falasse a uma terna amiga, conversava com a santa de meu nome:
-Protegei-me, Senhora Margarida! Não permitais que me alcancem os ódios que eu provoco sem querer!
Não encontrava nenhum atrativo nos jovens que conhecia. Achava-os todos broncos e pesados. Tomavam muita sopa, bebiam muito vinho, e não sabiam dizer palavras bonitas às damas. Muitos deles, ricos, donos de grandes e fartos celeiros, economizavam na roupa, e andavam com botas rasgadas. Isso me desgostava.
Já, por quatro vezes, os mais ricos moços de minha terra haviam procurado meu Pai, com o fito de persuadi-lo a dar a filha em casamento. Mas, sabedor de quanto me repugnavam eles, meu bom Pai acatava meus desejos de ficar solteira, até encontrar o homem que me agradasse. Isso parecia impróprio às mulheres da aldeia, e muitas me censuravam por querer imitar os homens, casando por meu bel-prazer.
Embora triste com o que murmuravam de mim as mulheres, a Mãe, tanto quanto o Pai, não me forçava a aceitar marido. Mas, quando lhe diziam: «-Bom caminho abris para vossa filha: morrereis um dia, e, pobre ela ficará sem saber nem ao menos preparar uma sopa, ou fiar a lã!…» Quando lhe diziam essas coisas, ela chorava e sofria.
Já estava eu com dezenove anos; e apareceu pela terra um senhor de quem diziam ser muito rico e viajado. Meu Pai por acaso o conheceu, e o levou à nossa casa. Cristiano, tal era o seu nome, contava coisas estranhas, e o Pai o levara lá, para que ele me divertisse com suas histórias.
Não tanto quanto vós, Padre, mas assim mesmo o bastante para que isso fosse razão de deslumbramento para quem, como eu, só conhecia as estradas e os horizontes da nossa aldeia, Cristiano sabia de países extraordinários. Ao ouvi-lo narrar suas aventuras, a Mãe, de instante a instante, fazia menção de me tirar da sala. Pareciam-lhe escandalosos certos factos… Mas, com sinais de aprovação, vendo-me tão divertida, o Pai dizia que ela me deixasse ouvir…
Ah, como me agradavam aquelas histórias! Punha-me a conjecturar se aqueles homens que viviam em tanta liberdade, os habitantes das florestas, eram homens mesmo? Acaso o seriam? Sem religião, e com os instintos à solta? Também me fascinavam essas viagens em que nobres e plebeus se misturavam, e de onde qualquer pobre aldeão podia voltar rico e célebre. Tínhamos na família um parente: Roberval, que começava a ganhar fama, e, se bem que não o conhecesse de perto, sentia orgulho por suas aventuras.
Segundo dizia Cristiano, existia um país extraordinário, com árvores enormes, cheio de riquezas… Lá iria em breve, com autorização do Rei. Tornar-se-ia riquíssimo…
Cristiano não era belo. Tinha trinta anos, usava barba em ponta, e suas vestimentas eram mais largas do que se poderia desejar. Estragara os dentes depressa, e falava de maneira autoritária, arrogante mesmo, mas… sem dar por isso, apaixonei-me por suas narrativas que lhe davam tanto prestígio.
O viajante se demorou em nossa aldeia mais do que se deveria esperar. Ali estava com o fim de adquirir mantimentos para seu próximo embarque. Duas semanas depois de chegado, com certa brusquidão, falou com meu Pai: era homem de haveres, e esperava tornar-se riquíssimo, dessem-lhe a filha em casamento, e ele a faria honrada, rica e feliz.
Muito admirado ficou o Pai, quando, ao transmitir o pedido de casamento de Cristiano, eu disse, simplesmente, que aceitava, se fosse de seu gosto, dele, meu Pai querido.
Juliana, a aia, chorou quando lhe dei parte de minhas intenções.
-Então – disse -, a menina criada como uma planta tenra, com tais cuidados, vai ser levada por esse brutamontes de fala grossa? Espera, encanto meu, que em breve, se Deus estiver de acordo, e com a proteção de Santa Margarida, melhor marido há de surgir… Espera, eu te rogo!
Mas, se eu estava deslumbrada com Cristiano, ou melhor, com o que contava Cristiano, por que haveria de esperar?
Nunca em nossa aldeia houve casamento igual. Cristiano mandou buscar em Paris um vestido de bodas, que mais parecia um traje de rainha. Deu-me um diadema, um colar de pedras que ele trouxera de sua última viagem… Trancei com vistosas contas os meus cabelos negros, e julguei perceber – oh, perdoai-me, Padre! – um olhar admirativo até no próprio Capelão que me uniu a Cristiano.
Fomos para Paris, dias depois. Deixei meus Pais em pranto. Eu chorava também, mas eles me consolavam, dizendo que em breve iriam visitar-me. Juliana foi comigo. Durante todo o tempo da festa do meu casamento, notei que ela permanecia séria, impenetrável.
(…).

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Fonte: QUEIROZ, Diná Silveira de. A Ilha dos Demônios (Margarida La Rocque). Rio de Janeiro: Edição Livros do Brasil, 1949. p. 15-9.
 

L’ÎLE AUX DÉMONS

 
 

Premiere Partie

La prophétie

 
 

Dinah Silveira de Queiroz

 
 
Mon Pere, ce n’est pas une confession que je vais vous faire. Si la Religion ordonne de nous soulager de nos péchés, c’est davantage, sans doute, pour retrouver la paix nécessaire à l’ame que pour nous empêcher, grace à de sages conseils, suivis de longues pénitences, de retomber dans la tentation. Si je me confie à vous, mon Pere, c’est parce que je sais que, parmi tant de ministres de Dieu qui ne sont pas sortis de ce pays et jugent le monde par ce qu’ils en voient, vous avez parcouru cette vaste contrée ou le Christ s’exila et que vous connaissez bien – autant que notre pays – les régions merveilleuses qui sont au-delà des mers, avec de superbes forêts, d’étranges animaux et des créatures qui, semblables à l’homme, vivent comme des bêtes féroces.
J’espere que vous ne me croirez pas une menteuse avide d’éblouir les autres par ses narrations. Dans ce siele de merveilles et de voyages étonnants, personne, sans doute, n’a vécu une histoire plus surprenante que la mienne. Plus surprenante ! Et je devrais ajouter : et plus triste aussi. Je veux laver mon esprit des souvenirs d’épouvant, je veux purifier ma conscience. Je vous offre tous ces souvenirs. Ah ! si je pouvais, en vous les remettant, me libérer de tout ce qui emplit ma mémoire ! Tant de poison, tant de maléfices !
Je commencerai, mon Pere, par le commencement, pour que certaines choses puissent être comprises.
Je suis née sous une mauvais étoile. Je sais bien que je risque, par cette déclaration, de vous paraître superstitieuse ! Mais, pour être franche, j’estime devoir vous dire que lorsqu’elle était grosse, presque sur le point d’accoucher, ma mere reçut un terrible choc. C’est que ma tante, une créature qui avait des songes merveilleux et en dormant parlait des langues inconnues, comme si son corps était habité par des esprits de contrées lointaines, ma tante, une nuit, eut une horrible vision. Ses yeux s’exorbiterent, devinrent presque blancs, et ses cheveux se hérisserent.
-Ma soeur, dit-elle, en s’éveillant du long sommeil qui suivit la vision, ma pauvre soeur ! Tu portes dans ton ventre un être qui, pendant sa vie, ira en enfer ! Oh ! quelles choses abominables j’ai vues !
La peur que ma mere ressentit avança sa délivrance ; et le lendemain matin, je naissais. Un petit être faible, si petit, qui ne paraissait pas avoir la force de vivre.
On me donna le prénom de Marguerite. Mes parents me placerent sous la protection de cette sainte. J’eus recours à elle dans les moments les plus pénibles de ma vie et j’ai toujours trouvé la force nécessaire pour affronter toutes sortes d’adversités.
Bien que née sous une si épouvantable prophétie – qui me fut révélée lorsque j’étais enfant – je n’en fus pas moins, à quinze ans, une jeune fille gaie et coquette comme il y en avait peu. Mon bon Pere, vous qui avez prononcé le voeu de pauvreté et êtes détaché des choses d’ici-bas, peut-être ne comprendrez-vous pas à quel point la vanité était, chez moi, une chose naturelle, et non pas une tentation venue du Démon, au point d’entraîner mon ame, et de devenir, ainsi, l’instrument de ses maléfices.
J’aimais m’occuper de moi comme les chats aiment entretenir leur fourrure lisse et brillante. Ainsi sont-ils toujours propres et luisants, et si jolis, sans que cela offense Dieu, car s’ils sont ainsi, il me semble que ce soit de par la volonté divine. Je soignais ma peau avec plaisir. Au village, il n’y en avait pas d’aussi blanche, ni de plus satinée. Mes cheveux, noirs, si longs qu’ils tombaient jusqu’à mes pieds, brillaient, frottés d’huiles. J’aimais les natter avec des fleurs. Mes mains étaient soignées avec toutes sortes d’onguents et de pommades. Je ne sortais que le soir pour ne pas être brulée du soleil. Je ne voulais pas devenir comme les autres jeunes filles, laide et couverte de taches de rousseur. Mes parents, tres bons, favorisaient ce plaisir que j’avais à entretenir la beauté que Dieu m’avait donnée. Les travaux du ménage m’étaient épargnés. Contrairement aux autres jeunes filles de l’endroit, une suivant était à mon service. Dans la crainte secrete de voir s’accomplir la redoutable vision qui annonça ma naissance, mes parents tenaient à me donner tout ce qui était en leur pouvoir, pour mon bon-heur, et, dans ce but, n’épargnaient aucun sacrifice.
La suivante, Julienne, me lisait les longs romans remplis de hauts faits des intrépides chevaliers d’antan. Ma mere filait… Oh ! chers temps de mon bon-heur !
Quand j’allais à l’église, accompagnée de Julienne, je sentais sur moi le regard ardent des garçons du village, et j’avais une impression tres nette de la convoitise des filles, brulant, autour de moi d’un feu étrange. Mais je priais, calme et sure, au milieu de tous, et comme si je causais à une tendre amie, je conversais avec la sainte de mon nom : «Protégez-moi, Dame Marguerite ! Ne permettez pas que m’atteignent les haines que je provoque inconsciemment !»
Je ne trouvais aucun charme aux jeunes gens que je connaissais. Je les voyais tous rudes et lourdauds. Ils lampaient force soupes, buvaient beaucoup de vin et ne savaient pas dire de jolies phrases aux dames. Plusieurs d’entre eux, riches possesseurs de vastes greniers bien remplis, économisaient sur le linge et portaient des bottes déchirées. Cela me répugnait.
Déjà par quatre fois, des jeunes gens, parmi les plus riches de mon pays, avaient été trouver mon pere pour le persuader de leur donner sa fille en mariage. Mais, sachant à quel point ils me déplaisaient, mon bon pere respectait mon désir de rester fille jusqu’à ce que je trouve l’homme qui me plairait. Ceci paraissait malséant aux femmes du village, et beaucoup me critiquaient de vouloir imiter les hommes, en me mariant selon mon bon plaisir.
Bien qu’attristée par ce que les femmes chuchotaient sur moi, mere – pas plus que pere, d’ailleurs – ne me forçait à prendre mari. Mais quand on lui disait : «Joli chemin que celui que vous tracez à votre fille ; vous mourrez un jour et, pauvre, elle ne saura même pas faire une soupe ou filer la laine !», elle pleurait et souffrait.
J’avais déjà dix-neuf ans lorsqu’arriva au pays un monsieur qu’on disait avoir beaucoup voyagé et qui passait pour être tres riche. Mon pere fit sa connaissance et nous le présenta. Christian – c’était son nom – racontait des choses étranges, et pere l’avait introduit à la maison, pensant qu’il s’amuserait avec ses histoires.
Pas autant que vous, mon Pere ! mais cependant assez pour éblouir quelqu’un qui ne connaissait, comme moi, que les routes et les horizons de notre village, Christian en savait long sur des pays extraordinaires. A l’entendre narrer ses aventures, mere, de temps en temps, aurait voulu me prier de me retirer. Certains faits lui paraissaient scandaleux… Mais, avec des signes d’approbation, en me voyant si amusée, le pere lui disait de me laiser écouter…
Ah ! comme elles me plaisaient, ces histoires ! Elles me faisaient me demander si ces hommes qui vivaient si librement, les habitants des forêts, étaient réellement des hommes ? L’étaient-ils, sans religion et livrés à leurs instincts ? J’étais aussi fascinée par ces voyages ou nobles et plébéiens se mêlaient et d’ou un pauvre villageois pouvait revenir riche et célebre. Dans la famille, nous avions un parent : Roberval, qui commençait à être renommé et bien que je le connusse peu, je me sentais fiere de ses aventures.
D’apres Christian, existait un pays extraordinaire débordant de richesses, aux arbres énormes… Il devait y aller bientôt, avec l’autorisation du roi. Il deviendrait richissime…
Christian n’était pas beau. Il avait trente-neuf ans, portait la barbe en pointe, et ses vêtements étaient plus larges qu’on aurait pu le souhaiter. Il avait les dents abîmées et parlait sur un ton autoritaire, arrogant même, mais… sans m’en rendre compte, je tombai amoureuse de ses récits qui lui donnaient tant de prestige.
Le voyageur s’arrêta dans notre village plus long-temps qu’on ne l’escomptait. Il était venu y acheter des vivres en vue de son prochain embarquement. Deus semaines apres son arrivée, avec une certaine brusquerie, il parla à mon pere : il était homme aisé, et espérait faire fortune ; qu’on lui donnat la fille en mariage et il la ferait honorée, riche et heureuse.
Mon pere fut bien surpris, lorsqu’en me transmettant la demande em mariage de Christian, je lui dis simplement que j’acceptais, si toutefois cela lui plaisait à lui, mon pere chéri.
Julienne, ma suivante, pleura quand je lui fis part de mes intentions :
-Alors, dit-elle, l’enfant élevée comme une tendre plante, avec tant de soins, va être emmenée par cette brute à la voix de stentor ? Attends, mon bijou ! Bientôt, si Dieu le veut et avec la protection de Saint Marguerite, un meilleur mari se présentra… Attends, je t’en supplie.
Mais si j’étais éblouie par Christian, ou plutôt par ce que contait Christian, pourquoi aurais-je attendu ?
Il n’y eut jamais de pareil mariage dans notre village. Christian envoya chercher à Paris une robe de noces qui ressemblait à une toilette de reine. Il me fit don d’un diademe, d’un collier de pierreries qu’il avait rapportés de son dernier voyage… J’entrelaçai mes nattes noires de superbes perles et je crois même avoir reçu – oh ! pardonnez-moi, mon Pere – un regard d’admiration du chapelain qui m’unit à Christian.
Quelques jours apres, nous partîmes pour Paris. Je laissai mes parents en larmes. Je pleurai aussi, mais ils me consolerent en me disant que, bientôt, ils iraient me voir. Julienne s’en fut avec moi. Pendant toute la cérémonie du mariage, je remarquai qu’elle s’était tenue grave, impénétrable.
(…).
 
 
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Fonte : QUEIROZ, Dinah Silveira de. L’île aux démons : roman. Traduit du portugais par Andrée Gama Fernandez. Québec : Editions Naaman, 1980. p. 09-14.





Bio fornecida pelo palestrante.

NOVELAS NADA EJEMPLARES




Autor: Dalton Trevisan
Título: NOVELAS NADA EJEMPLARES
Idiomas: esp
Tradutor:
Data: 28/12/2004

NOVELAS NADA EJEMPLARES


Tío Galileo


Dalton Trevisan

De tan pobre, la madre dio a Betito a aquel hombre: que fuera bueno con el tío Galileo, que era cardíaco, capaz de morir de una hora para otra, y podría convertirse en su heredero.
Después de partir leña, sacar agua del pozo, limpiar el palo del papagayo, el chico secaba los platos para la cocinera, que no dormía en la casa. Todas las noches, Betito subía la escalera, para llevar el orinal y recibir la bendición del tío Galileo. Golpeaba en la puerta y el viejo gritaba: “Entra, hijo mío”. El muchacho le pedía la bendición y besaba la mano – pálida, blanda y húmeda madre del agua . Los domingos recibía la moneda más chica, que el padrino enterraba entre los nudos del pañuelo a cuadros.
Tío Galileo raramente salía y, de regreso, al quitarse el saco, exhibía dos redondeles de sudor en la camisa. Arrastraba los pies, bufando siempre la mano en el pecho. Acariciaba la cabecita del papagayo, que sacudía el pescuezo y erizaba el plumaje al entender la voz babosa: “Piojito… piojito…” Entonces subía la escalera, dedos crispados en el pasamano, aislándose en el cuarto. Se oía un silbido a través de la puerta: ¿ la alegría de apilar el dinero?
Cerraba la puerta del cuarto y se llevaba la llave. Delante de él era hecha la limpieza por el muchacho o por la negra, y nunca por Mercedes. Sentado en la cama, impaciente rascándose sobre el pantalón una eczema en la pierna, vigilaba con ojito perverso a la persona que barría y limpiaba los muebles. Y nunca silbaba con alguien en el cuarto. Se quedaba instalado en la cama que él mismo arreglaba, sin permitir que le dieran vuelta al colchón de paja.
Mercedes salía a hacer compras, perfumada y con sombrilla azul. El hombre discutía con ella, se lamentaba de que lo arruinaba y por su culpa sufría de angina.
Los domingos, con la negra de día franco, Betito preparaba el desayuno y lo llevaba a la cama para Mercedes. Abría la puerta, esperaba acostumbrarse a la penumbra del cuarto y, al posar la bandeja en el lecho, sentía entre las sábanas la fragancia de la manzana madura guardada en el cajón. Aparecíale la blanca mancha del espejo como el rostro soñoliento de Mercedes. Ella vivía encerrada en el cuarto. Tío Galileo no toleraba que Betito o la negra la sorprendieran con kimono rojo por la casa.
Una noche, Mercedes apareció en el cuarto de Betito. Ya estaba acostado, con la luz apagada. Ella se sentó al pie de la cama, reveló que se había casado con le tío Galileo por ser viejo y el primero en anunciar que podía morir de una hora para otra. Mentira del vejete, para ilusionar a las personas y servirse de ellas sin pagar. No sufría del corazón ni siquiera sabía qué era el corazón, escondiendo cada día más dinero entre la paja. Cuando crepitaba el colchón allá en el cuarto era avaro que revolvía en el tesoro. Tan mezquino que no moriría antes de que ella fuese una viejita. Hablaba en voz baja, inclinada sobre el muchacho acostado en la cama.
Un bruto, según ella, que la olvidaba, durmiendo en cuarto separado, con miedo de que, si cerrase los ojos, alguien fuera a robarlo. El diablo, lo insultó, apestado como el papagayo loco, que la había mordido y le dejara en el dedo una señal de la mordedura. El muchacho se inclinó para besar el dedito gordo. Se contuvo a tiempo, mordió los dientes con tanta fuerza que crujieron. Mercedes se levantó de la cama y juró que, si el monstruo muriese, daría a Betito lo que le pidiera.
El muchacho no pudo dormir y, media hora después, saltó la ventana. Agarró en el palo al papagayo, con la cabeza escondida en el ala, los piojos corrían por el pico de punta quebrada. Betito retorció como un pañuelo mojado el pescuezo del bicho y lo enterró en los fondos.
Al día siguiente, el hombre buscó al papagayo por toda la casa, silbando debajo de cada árbol. Betito sugirió que el ave había huido. Fue a colocar el orinal bajo la cama y, al recibir la bendición del padrino, uno de los piojos corrió desde su mano hacia la del viejo – uno de los piojos rojos de la peste.
Dos noches más tarde, Mercedes volvió a su cuarto. Reclinada en la cama, ajustaba y desajustaba el cinturón. Era noche caliente, se quejó del calor y abrió el kimono. Betito vio que estaba desnuda bajo la bata.
-Ve – dijo la mujer -. Ve, mi bien. Primero fue el papagayo. Ahora le toca al viejo.
Betito se puso de pie. Temblaba tanto, que ella lo ayudó a ir hasta la puerta:
-Ve, mi amor. Es el turno del viejo.
Era la hora de pedir la bendición. Betito subió la escalera. A los pasos de alguien en le corredor el avaro, entre el ruido del colchón, preguntaba quién era. Aquella noche no preguntó nada. Betito abrió la puerta, avanzó lentamente la cabeza por ella. Tío Galileo se había acostado vestido, la bolsita de tabaco derramado sobre el chaleco de terciopelo. Había tratado de armar un cigarrillo, sin poder envolver la paja con los dedos temblorosos… De ojos muy abiertos, la boca negra y abierta no bendijo a Betito. Se hacía el muerto, nunca más fingiría.
Tío Galileo no gritó. Ni siquiera cerró los ojos y fue más fácil que con el papagayo. Betito le sofocó la boca debajo de la almohada.
Los pies descalzos de Mercedes bajaban por la escalera. Él levantó el colchón, rasgó la tela, revolvió la paja: nada. Se detuvo a escuchar: Los pasos perdidos de la mujer. Precisaba avisarle que el viejo los había engañado. Era tarde, ella abría la ventana gritando:
-¡Socorro, asesino! Va a matar a Galileo…

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Fonte: TREVISAN, Dalton. Tío Galileo. In: Novelas nada ejemplares. Caracas: Monte Avila, 1969. p. 47-50.

* Ser fantástico, especie de sirena de ríos y lagos.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

NOVELAS NADA EXEMPLARES




Autor: Dalton Trevisan
Título: NOVELAS NADA EXEMPLARES, NOVELAS NADA EJEMPLARES
Idiomas: port, esp
Tradutor:
Data: 28/12/2004

NOVELAS NADA EJEMPLARES

Idilio

Dalton Trevisan

Doblando la esquina, en la primera sombra del árbol, los dos se besaban. Cecilia tenía la punta de los cabellos todavía mojados. Enfermera, trabajaba en el hospital, hasta las seis. Enseguida se daba una ducha, cenaba y corría a encontrarlo en la esquina. Algunas veces olía a toalla húmeda. Salpicaba de perfume las orejas y Pablo las besaba con tanta ansiedad que por poco no se tragó un aro de perla falsa. Se quedaban en la calla hasta las diez, cuando era cerrado el portón.
En las callejas oscuras, apoyados en la pared, se besaban. Fue él quien le enseñó. Su boca era pequeña y dócil. Aprendió a abrirla, a descubrir lentamente los dientes, a cosquillear la lengua dentro de la otra boca. Los labios, todavía mansos, ya eran sedientos. Ella tenía un dientecito saliente y, si el beso era de mucho amor, salía una gota de sangre.
Iban de una a otra sombra (¿cuál sería el nombre de aquellos árboles tan oscuros?) y en cada una se besaban. No se daban las manos entre dos árboles, ella nunca lo tomó del brazo. Sin rumbo cruzaban apresurados las calles iluminadas.
Se veían una vez por semana, en su día franco del hospital. Con sandalias, el día entero ella asistía a los enfermos y, de las siete a las diez de la noche, lo acompañaba de taco alto. El muchacho la esperaba en la esquina: era ágil, a pesar de la gordura, y en los últimos pasos corría a su encuentro.
Cuando llovía, ella cerraba su paraguas, acurrucados bajo el de Pablo. Vagaban entre las sombras, sin poder apoyarse a las paredes. Apenas asegurado, el paraguas los descubría a cada beso.
Eran encuentros nocturnos y, seis meses después, al verla por casualidad una tarde en la calle, la encontró más vieja de lo que suponía y más gorda. Se espantó de los dedos lívidos, pues no tomaba sol, encerrada en el hospital. En su rostro pálido descubrió leve mancha de bozo. De noche, a la sombra del árbol, volvió a quererla, en el dientecito un enjambre de besos trabajaba la miel.
Había peligro en las calles. Se encendía la ventana y una bruja con bigudíes, gritaba si no tenían vergüenza. Si era un hombre, no encendía la luz, se quedaba espiando bien quieto. Los nidos a lo largo de los muros eran disputados por otras pajeras. Y a la hora del cine pasaba gente.
Se dejaban estar en mitad de la cuadra, cada uno vigilando una de las esquinas. A los pasos de alguien se separaban. Ella se arreglaba los cabellos. Pablo metía las manos en el bolsillo. Los otros se acercaban despacio, mirándolos mucho. Cecilia bajaba el rostro. Él hablaba, la única vez que hablaba.
Ah, ¿y los focos de los automóviles? Entonces él le escondía el rostro en la sombra. A veces, algún espía surgía en la esquina, se veían obligados a ir a otra calle. No se podían sentar en los bancos de la plaza, debido a los vagabundos; además de eso estaban los vigilantes.
El tema, cuando pasaba alguien, era el cielo. “Esta noche no tiene estrellas”, decía la muchacha. Él miraba el cielo encendido de ventanas. Fue así como descubrió la miopía de Cecilia. Para ella no existía más que la luna en el cielo.
Ciertas noches erraban más de una hora hasta poder cambiar el primer beso. Contra el muro la tomaba con tal furia, que ella gemía y, al separarse, tenía que asegurarla con el brazo, de atontada que estaba. Podía besarle la boca, la nariz, los ojos, menos la oreja, donde sentía cosquillas.
Pasaron meses, un año tal vez. Pablo comenzó a discutir con ella, porque decía que no. Cecilia lloraba y, al olvidarse el pañuelo, él no le prestaba el suyo; la muchacha debía enjugar las lágrimas en la manga del saquito. Pablo estuvo más de una noche entera sin tocarla, los dos caminando sin descanso debajo de los árboles.
Una noche sucedió.
-Ahora tienes que casarte – dijo ella -. Tienes que casarte.
Cecilia le puso por primera vez la mano en el brazo.
-Por favor – pidió ella -. No puedo andar ligero.
-¿Estás mejor? – acudió él, sin mirarla.
-Estoy. Barbaridad, fue un dolor…
Pablo observó las dos sombras en el suelo. Una, era un albatros salvaje de la noche, abriendo las alas en la gloria de emprender vuelo. La otra, gorda y grávida, era una tetera.

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Fonte: TREVISAN, Dalton. Idilio. In: Novelas nada ejemplares. Caracas: Monte Avila, 1969. p. 83-6.

 

NOVELAS NADA EXEMPLARES

Idílio


Dalton Trevisan

Dobrando a esquina, na primeira sombra de árvore os dois se beijavam. Cecília tinha a ponta dos cabelos ainda molhados. Enfermeira, lidava no hospital até às seis horas. Banho de chuveiro, jantava e corria ao seu encontro. Às vezes trescalava a toalha úmida. Paulo a beijava com tanta aflição, por pouco engoliu o brinco de pérola falsa. Na rua até às dez horas, fechado o portão.
Ruazinha escura, encostados ao muro, beijavam-se. Ele a ensinou: boca pequena e dócil, a descerrar os dentes, a titilar a língua. Um dentinho saliente e, se o beijo de muito amor, saía gota de sangue.
De uma a outra sombra (qual o nome daquela árvore tão negra?), em cada uma se beijavam. Não se davam as mãos entre duas árvores, nunca ela lhe pegou no braço. Sem rumo, cruzavam apressados as ruas iluminadas.
Viam-se uma vez por semana, dia de folga do hospital. Em sandálias o dia inteiro, assistia os doentes e, das sete às dez da noite, acompanhava-o de salto alto. O moço esperava na esquina: ligeira, apesar de gorda, nos últimos passos corria ofegante.
Quando chovia, ela fechava a sombrinha, conchegados sob o guarda-chuva de Paulo. Rodavam entre as sombras, sem poder encostar-se às paredes. Mal seguro, o guarda-chuva os descobria a cada beijo.
Encontros noturnos e, seis meses depois, ao vê-la uma tarde na rua, achou-a mais velha e mais gorda. Espantou-se dos dedos lívidos, não tomava sol, fechada no hospital. No branco rosto leve mancha de buço. De noite, à sombra da árvore, voltou a ser querida, no dentinho um vespeiro de beijos trabalhava o mel.
Bastante perigo nas ruas. Acendia-se a janela, uma bruxa de papelotes bradava se não tinham vergonha. Velho, não acendia a luz, espiando bem quieto. Os nichos ao longo dos muros disputados por outros casais. Hora do cinema, passava gente.
No meio do quarteirão, cada um vigiando uma das esquinas. Passos ao longe, separavam-se. Ela arrumava os cabelos. Paulo enfiava a mão no bolso. Os outros chegavam-se devagar, olhando muito. Cecília baixava o rosto. Ele falava – a única vez que
falava.
Ah, e os faróis dos carros? Então escondia-lhe o rosto na sombra. Algum espião surgia na esquina, obrigados a sair para outra rua. Impossíveis os bancos de praça, por causa dos vagabundos; além do mais, os malditos guardiões.
O assunto, quando passava alguém, era o céu. “Esta noite não tem estrela” – dizia a moça. Ele olhava o céu aceso de janelas. Assim descobriu a miopia de Cecília. Para ela no céu não mais que a lua.
Certas noites erravam mais de uma hora até o primeiro beijo. Contra o muro a agarrava com tal fúria, que ela gemia e, ao separarem-se, tinha de segurá-la pelo braço, bem tonta. Podia beijar-lhe a boca, o nariz, os olhos, menos a orelha, cócega demais.
Passaram-se meses, um ano quem sabe. Paulo começou a brigar com ela, só dizia não. Cecília chorava e, ao esquecer o lenço, ele não emprestava o seu: devia enxugar as lágrimas na manga do casaquinho. Mais de uma noite inteira sem tocá-la, os dois marchando sem descanso debaixo das árvores.
Aconteceu uma noite.
– Agora tem de casar. Você tem de.
Primeira vez a mão pesou no braço.
– Por favor. Depressa não posso.
– Esta melhor?
– Puxa, foi uma dor…
Paulo reparou nas duas sombras. Uma, albatroz selvagem da noite, abrindo asas na g1ória de arremeter vôo. A outra, gorda e grávida, um bule de chá.

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Fonte: TREVISAN, Dalton. Idílio. In: Novelas nada exemplares. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. p. 66-8.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Vampiro de Curitiba




Autor: Dalton Trevisan
Título: O Vampiro de Curitiba, Le Vampire de Curitiba
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevieve Leibrich et Nicole Biros(fra)
Data: 28/12/2004

LE VAMPIRE DE CURITIBA


Sous le Point Noir


Dalton Trevisan

Le 23 juin, dans la nuit, Ritinha da Luz, seize ans, célibataire, bonne ménagère, se dirige en sortant de son travail vers la maison de sa soeur Julieta, derrière le Pont Noir. Sur la ligne de chemin de fer elle est assailie par quatre individus, bientôt rejoints par deux autres. Elle est violée par chacun à tour de rôle, puis abandonnée parmi les buissons. Ses pleurs attirent un gendarme qui l’amène au commissariat.
La gamine n’a jamais vu ces hommes et ne sait à quoi attribuer cette attaque. Elle ne sait pas non plus qui l’agresse et la culbute le premier, après lui avoir couvert la tête. Traînée par terre elle ressent de vives douleurs dans la poitrine et les parties. On lui enjoint de ne pas crier au secours, on la frappe sauvagement. Elle porte une jupe de soie noire et un corsage rouge en jersey, tous deux maculés de boue. Sur le corps, outre de nombreuses blessures, elle a des feuilles mortes, des brins d’herbe et de la boue. Il est alors environ dix ou onze heures.
Miguel X, quarante ans, marié, chauffeur de locomotive, quitte son service à dix heures et demie. En traversant les rails de chemin de fer, il aperçoit trois soldats et une femme dans une atttitude suspecte. Il ressent un grand désir de pratiquer l’acte sexuel. Il s’approche du groupe et, aidé par les soldats, il empoigne l’inconnue, lui retire ses vêtements et a des rapports avec elle de force. Il la jette à terre et, pour étouffer ses cris, il recouvre son visage avec sa vest de mécanicien. Repu, il aide les soldats à abuser de la fille à tour de rôle, ils sont observés à distance par plusieurs curieux dont deux usent également de la petite négresse.
Repenti de sa mauvaise action, Miguel offre d’épouser la gamine dont il apprend qu’elle s’appele Ritinha au commissariat seulement, il l’épousera, dit-il, dès qu’il aura fait des démarches pour divorcer car pour l’instant il est marié.
Nelsinho X, mineur, treize ans, lycéen, est en train de bavarder sous le Pont Noir dans la nuit du 23 avec son cousin Silvio et deux autres garçons, quand il aperçoit trois soldats et un civil qui attaquent une petite négresse, laquelle est culbutée à terre et possédée incontinent par le civil qui lui a recouvert la tête d’une veste à cause des cris. Nelsinho s’approche avec une certaine méfiance. Après le civil, c’est au tour des trois soldats puis, enfin, à Nelsinho, suivi d’Antonio.
Le divertissement épuisé, ils rentrent chez eux satisfaits quand, sur le chemin, ils sont arrêtés et conduits au commissariat. Nelsinho se dit perturbé et attribue sa conduite à son jeune âge, des actions comme celle qu’il vient de commettre ne peuvent que gâcher l’avenir d’un jeune.
Alfredo X, vingt ans, célibataire, soldat, se trouve cette nuit-là sous le Pont Noir, en compagnie de ses collègues, Pereira et Durval. Au bout de quelques instants Durval aborde une jeune fille avec laquelle il plonge dans les buissons les plus proches. Alfredo et Pereira prennent bientôt la relève de leur camarade et, l’un après l’autre, ils jouissent de la fille. Ils sont sur le point de quitter les lieux quand un individu se présente, qui déclare être le surveillant du chemin de fer et exige en échange de son silence qu’on l’aide à maîtriser la gamine. Ils la traînent dans un endroit écarté d’où personne ne pourra l’entendre crier. Arrivent ensuite deux jeunes garçons, dont l’un de treize ans, qui, aidés par tous les autres, abusent de la petite négresse. Comme il est tard, Alfredo regagne la caserne avec ses camarades. C’est le lendemain seulement, en recevant un ordre de comparaître au commissariat, qu’il apprend que l’affaire a mal tourné.
Durval X, dix-neuf ans, célibataire, soldat, se trouve avec deux amis à proximité du Pont Noir où il attend que passe une femme avec qui passer la nuit. Une fille apparaît et il l’emmène dans les buissons, ses cheveux blonds et ses yeux bleus ayant plus à la gamine. Ses copains s’approchent et, l’un après l’autre, ils abusent de la petite.
Soudain surgit un paroissien mal embouché qui déclaire être le surveillant du chemin de fer et qui tient, lui aussi, à participer aux réjouissances, au grand déplaisir de la fillette que le nez épaté du quidam, sa moustache, clairsemée et ses dents gâtées n’emballent pas du tout. Ils traînent la petite négresse là où on ne pourra pas l’entendre crier. Surviennent alors deux jeunes garçons que tous les autres aident à se servir à satiété. Leur appétit assouvi, Durval et ses collègues regagnent leur caserne.
Pereira, dix-huit ans, célibataire, soldat, se trouve à dix heures du soir sur le Pont Noir avec ses collègues Alfredo et Durval, quand arrive la jeune fille. L’un d’eux s’exclame : oh, la jolie brune ! Elle s’arrête pour demander ce qu’il a dit. Ils commencent à bavarder, Alfredo invite la fille à coucher avec lui. Elle répond : toi le bolnd, tu peux toujours attendre. Elle ne couchera avec personne, mais s’il veut, il peut lui faire un bout du conduite. Alfredo part avec elle, suivi à quelque distance par les autres. Arrivés au mur du chemin de fer, ils s’arrêtent net. Ils se sont mis d’accord entretemps et pénètrent dans les fourrés. Elle réclame de l’argent, les hommes ne peuvent la payer, ils n’ont pas un sou en poche. Ils sortent du bois quand ils tombent sur le surveillant du chemin de fer : puisque tu as été avec les troufions, tu dois aller avec moi maintenant. La fillette rétorque : tu t’es pas regardé, vieux puant, fiche le campe.
Pas contente, le moricaud insiste pour avoir sa part de la fillette mais elle le repousse. Le type la culbute dans l’herbe et lui serre le cou, elle pleure et crie comme un putois.
Silvio X, mineur, quinze ans, se trouve avec son cousin Nelsinho sous le Pont Noir, quand il voit une fillette arriver. Des soldats envoient quelques plaisanteries à la fille. L’un d’eux l’invite à le suivre dans une chambre, elle répond que c’est meilleur au grand air. Ils se dirigent tous vers les champs. C’est alors qu’apparaît un civil qui insiste pour abuser de la jeune fille.
Le long de la voie du chemin de fer, Miguel tombe sur une petite grue en train d’avoir des rapports sexuels avec trois soldats. Il a aussitôt envie de participer à ce divertissement et il fait des propositions à la femme. Celle-ci le blesse dans sa fierté de mâle en le traitant de maquereau, d’indic, de cocu. Indigné, il décide de prouver qu’il est un homme. Il l’attrape avec l’aide des soldats mais n’est pas en mesure de consommer l’acte, vu son état de nervosité. Les soldats ont bâillonné la fille pour étouffer ses cris.
Le premier à posséder la gamine est Durval. Alfredo est le deuxième, Pereira le troisième, le mineur Nelsinho le quatrième et lui, Miguel, le cinquième. Ritinha s’est soumise librement et spontanément au désir des autres, quand son tour à lui, Miguel, est arrivé, elle a voulu se refuser, alors, pour ne pas perdre la face devant la famille, il a dû l’immobiliser de force.
Sous le Pont Noir Ritinha pleure. Elle ne sait pas qui l’a brutalisée ainsi, un des soldats lui ayant enfoui la tête sous sa tunique. Le jeune José qui a assisté à toute la scène de loin, donne leur signalement. Cela fait quinze jours que le père de Ritinha est mort d’une tumeur au ventre. Cela fait un mois qu’elle a été déflorée par un soldat blond répondant au nom d’Eusebio.
La maison est en bois peint de couleur jaune. La patronne est une grosse dame brune de petit taille. Ritinha fait le ménage et la lessive, elle est bonne à tout faire. Le mari de la patronne s’appelle Arthur. Ritinha s’occupe aussi de la petite fille du couple. Quand l’enfant pleure, Ritinha la suspend la tête en bas, comme ça la petite perd le souffle et se tait. La patronne lui a donné une paire de vieux souliers et lui a vendu deux robes dont le prix a été décompté de ses gages.
Ritinha ne demande pas d’argent aux trois soldats, elle trouve l’un d’eux si sympatique, celui aux cheveux bonds. Le surveillant de chemin de fer arrive et leur dit de sauter par-dessus le mur, c’est interdit de traverser le rails. Ritinha escalade le mur, suivie des quatre hommes, devenus bientônt six ou sept. La fillette se met à pleurer, attirant ainsi le jeune José qui regarde la scène de loin.
Les hommes la culbutent de l’autre côté du mur. Ils usent d’elle tout leur content, puis ils la plantent là, la poitrine et le sexe blessés. Un garde civil la découvre, gémissant de froid et douleur.
En passant sous le Pont Noir, le garde civil Leocadio aperçoit une petite négresse qui pleure.
(…).

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Fonte : TREVISAN, Dalton. Le Vampire de Curitiba. Traduit par Geneviève Leibrich et Nicole Biros. Paris : A.M. Métailié, 1985. p. 32-36.
 
 

O VAMPIRO DE CURITIBA


Debaixo da Ponte Preta


Dalton Trevisan

Na noite de vinte e três de junho, Ritinha da Luz, com dezesseis anos, solteira, de prendas domésticas, ao sair do emprego, dirigiu-se à casa de sua irmã Julieta, residente atrás da Ponte Preta. Ia a atravessar a linha do trem, quando foi atacada por quatro ou cinco indivíduos, aos quais se reuniram mais duas pessoas. Foi então violada por um de cada vez e abandonada entre as moitas. Seu choro atraiu um guarda-civil, que a conduziu até a delegacia de plantão.
A menina nunca tinha visto os homens e não sabia a que atribuir o assalto. Informou que, há cerca de um mês, não era mais virgem. Não sabia qual deles foi o primeiro, pois agarrada e derrubada, teve a cabeça coberta por um paletó. Arrastada que foi pelo chão, estava sentindo fortes dores nos seios e outras partes. Além disso, foi barbaramente espancada, a fim de que não gritasse por socorro. Apresentou-se com saia de seda preta e blusa encarnada de malha de algodão, ambas manchadas de lama. No corpo, além de muitas feridas, encontravam-se folhas secas, barro e grama verde. A hora devia ter sido lá pelas dez ou onze.
Miguel de Tal, com quarenta anos, casado, foguista, largou o serviço às dez e meia e, ao atravessar a linha de ferro, avistou três soldados e uma dona em atitude suspeita. Sentiu um tremendo desejo de praticar o ato com a desconhecida. Sem titubear, aproximou-se dos outros e, vendo que a sua vontade poderia ser satisfeita, agarrou a mulher ajudado pelos soldados, retirando a roupa da mesma e mantendo relação com ela, embora à força. Derrubou-a no chão e, para evitar os seus gritos, tapou-lhe o rosto com o casaco de foguista. Satisfeito, auxiliou os demais soldados que, cada um por sua vez, mantiveram contato com a moça, assistidos à distância por alguns curiosos, até que dois deles destacaram-se do grupo e também se aproveitaram da negrinha.
Miguel está inteiramente arrependido do mau gesto e, para provar o que diz, oferece-se a casar com a mesma, cujo nome desconhecia e só na delegacia soube chamar-se Ritinha, isto é, tão logo apronte os papéis do desquite, pois de momento é casado.
Nelsinho de Tal, menor, com treze anos, estudante, na noite de vinte e três, achava-se conversando debaixo da Ponte Preta com seu primo Sílvio e dois rapazes, quando divisou três soldados e um paisano atacando uma mulher, a qual foi atirada ao chão, em seguida desfrutada pelo civil, e por causa dos gritos e protestos, sua cabeça estava coberta com um casaco. Vendo o sucedido, Nelsinho chegou-se meio desconfiado, pensando em aproveitar a situação. Depois do paisano, foi a vez dos três soldados e, afinal, a dele, que foi seguido de Antônio.
Acabada a brincadeira, voltavam satisfeitos para casa quando, alguns quarteirões adiante, foram presos e conduzidos à delegacia. Nelsinho não conhece a sua vítima e está contrariado com o que fez, atribuindo sua atitude à pouca idade que tem. Acredita que tal não mais acontecera, pois atitudes como a que praticou apenas servem para estragar o futuro de um jovem.
Alfredo de Tal, com vinte anos, solteiro, soldado, achava-se à noite, em companhia dos colegas Pereira e Durval, debaixo da Ponte Preta, à espera de alguma mulher para com ela pernoitar. Após algum tempo, Durval abordou uma menina, com, quem se dirigiu a um mato próximo da linha férrea. Logo Alfredo e Pereira seguiram o companheiro e, um depois do outro, desfrutaram a rapariga. Prestes a partirem, surge um indivíduo, que se apresentou como guardião da estrada e, em troca do seu silêncio, exigiu que eles segurassem a moça, enquanto iria manter relação com ela. Então a arrastaram para outro lugar, mais distante e escondido, onde não pudessem escutar os seus gritos. Chegaram mais dois rapazes, um deles de uns treze anos e, ajudados por todos, também se aproveitaram da negrinha. Como era tarde, Alfredo retirou-se com os colegas para o quartel. Só na manhã seguinte soube da confusão em que estava metido, em vista da ordem que recebeu para comparecer à delegacia.
Durante a brincadeira, Alfredo retirou a túnica, em vista de estar suja de barro, voltando a colocá-la nas imediações do quartel.
Durval de Tal, com dezenove anos, solteiro, soldado, achava-se à noite com dois amigos, perto da Ponte Preta, onde esperava alguma mulher, para com ela passar a noite. Apareceu uma fulana, desconhecida sua, com quem depois de alguma conversa foi para o mato, pois a mesma gostou de seus cabelos loiros e seus olhos azuis. Aproximaram-se os dois colegas, sendo que um de cada vez desfrutou a pequena.
De repente surgiu um cidadão de maus bofes que, intitulando-se guardião da estrada de ferro, demonstrou grande interesse em participar da festinha, para desgosto da menina, que não se agradou do seu nariz chato, bigode ralo e dentes estragados. Puxaram então a vítima para lugar mais afastado, onde seus gritos não fossem ouvidos, havendo o civil tapado a boca da menina com o paletó. Logo chegaram dois rapazes de pouca idade que, auxiliados por todos, a seguir se aproveitaram da pequena. Satisfeitos, retiraram-se Durval e os colegas para o quartel, sem ser incomodados.
Pereira, com dezoito anos, solteiro, soldado, encontrava-se às dez da noite, na Ponte Preta, com seus colegas Alfredo e Durval, quando por ali passou a menina, tendo exclamado Alfredo: “Que morena linda”. A qual parou e perguntou o que ele havia dito. Começaram a conversar e Alfredo convidou-a para dormirem juntos. Ela respondeu: “Este louro tem tempo” e que não ia dormir com ninguém, mas ele podia acompanhá-la. Alfredo saiu com ela, seguidos pelos outros à distância de uns quinze metros. No fim do muro da estrada de ferro, estacaram. Feita a combinação, entraram no mato. Ela quis dinheiro, mas não a puderam pagar, pois estavam de bolsos vazios. Iam saindo do campinho, quando chegou o guarda da estrada, dizendo: “Já que você foi com os praças, tem de ir comigo também”. A mocinha respondeu: “Olha o azar” e “Sai, fedor”.
O guarda, que era morenão enferruscado de cabelos crespos e bigode ruivo, insistiu em desfrutar a menina, sendo repelido. Foi então derrubada no chão. O tipo apertou-lhe o pescoço arrastou-a pelo campo, enquanto ela chorava e se descabelava de gritar.
Sílvio de Tal, menor, com quinze anos, estava com o primo Nelsinho debaixo da Ponte Preta e bem viu quando a menina passou por ali. Os soldados disseram algumas gracinhas. Um deles a convidou para ir a um quarto, ela respondeu que no campinho era melhor. Foram todos para o campinho. Até que apareceu um paisano, insistindo em abusar da menina. Sílvio escutou o alarido da mocinha. Ressabiado, achegou-se com o primo e ficaram observando de longe o quadro.
A caminho do depósito de locomotivas, ao longo da estrada de ferro, Miguel deu com três soldados e uma vagabunda, que com eles mantinha relação. Vendo aquele quadro, sentiu grande vontade de participar da brincadeira e aproximou-se do grupo, propondo o negócio para a mulher. Esta ofendeu-lhe os brios de homem, injuriando-o de “Cafetão, alcagüete e corno manso”. Indignado com tais ofensas, dispôs-se a provar que era homem. Segurou-a com o auxílio dos soldados, mas não levou o ato a efeito, por ter-lhe faltado energia, em vista do seu estado nervoso. Foram os soldados que taparam a boca da menina a fim de abafar os seus gritos.
O primeiro a desfrutar a mocinha foi Durval, o segundo foi Alfredo, o terceiro foi Pereira, o menor Nelsinho foi o quarto e ele, Miguel, foi o quinto. Ritinha submeteu-se de livre e espontânea vontade ao desejo dos outros, quando chegou a vez de Miguel ela quis se negar, sendo obrigado a agarrá-la à força, para não ficar desmoralizado como homem e perante a família.
Ritinha estava chorando debaixo da Ponte Preta. Não sabia quem lhe havia feito mal, pois um dos soldados lhe tinha enfiado a túnica na cabeça. Eles foram então apontados pelo moleque José que, de longe, viu tudo. Fazia quinze dias que o pai de Ritinha falecera no hospital, de um tumor na barriga. Foi deflorada há um mês atrás por um soldado loiro de nome Euzébio.
A casa onde está empregada é uma casa de madeira pintada de amarelo. A patroa é uma senhora gorda, baixa e morena. Ritinha limpa a casa, lava a roupa e faz todo o serviço. O marido da patroa chama-se Artur. Ela tem de tomar conta da filhinha do casal. Quando a criança chora, suspende-a pelas pernas, de cabeça para baixo, então a pestinha perde o fôlego e fica quieta. A patroa deu-lhe de presente um par de sapatos velhos e vendeu-lhe dois vestidos usados, que descontou de seu ordenado.
Ela não pediu dinheiro aos três soldados, por que tinha achado um deles muito simpático, de cabelo bem loiro. Foi quando chegou o guardião e disse-lhe que pulasse o muro, pois no campinho da estrada de ferro era proibido passar. Ritinha saltou o muro e, atrás dela, os quatro homens, que depois eram seis ou sete. A menina se pôs a gritar, o que atraiu o moleque José, que ficou espiando de longe.
O guarda mal encarado bradou: Você tem de conhecer homem senão eu te mato. Primeiro foi o Durval, depois o Alfredo, agora é a vez do Pereira, então é a minha vez, ôba, ôba! Ritinha começou a gritar e quis correr, mas foi agarrada pelos braços e pernas.
Os tais a derrubaram do outro lado do muro. Fizeram dela o que bem quiseram e foi largada ali bastante ferida no seio e nos quadris, até que o guarda-civil a encontrou, gemendo de frio e de dor.
O guarda-civil Leocádio, ao passar debaixo da Ponte Preta, viu uma negrinha chorando.
(…).

 
 
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Fonte: TREVISAN, Dalton. O Vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. p. 52-56.





Bio fornecida pelo palestrante.

Os homens e outras mentiras




Autor: Cristina Ferreira Pinto-Bailey
Título: Os homens e outras mentiras
Idiomas: Port
Tradutor: –
Data: 11/02/2011

De: Cristina Ferreira-Pinto Bailey Os homens e outras mentiras. São Paulo: Scortecci/REBRA, 2010.

amanhã

volto pra casa

e me decodifico

recodifico

reclassifico

esse desejo

restrinjo

o restrito

redistrito

redirijo

o pensamento

o corpo

as hábeis mãos

sentido

signo

significo

reassigno

meu papel

meu porém

meu poder.

amanhã

mãe

estrela do lar

esposa dedicada

profissional competente

no batente

na manhã

sem desejo.

?

Meu filho

Meu filho entrou pela porta

do ônibus

pela porta, porte

de semideus

do alto de sua glória

e quase dois metros de altura.

Meu filho entrou no ônibus

sentou-se sereno, sério

não sorridente como pedia este verso

saudável santo, cabelos de anjo

meu filho em seus vinte anos

corpo de homem

perfil perfeito, penugem

leve na perna de caçador.

Meu filho sentou

no banco do ônibus,

belo estudante

no final da tarde distraída.

Onde estava, para onde ia?

Onde estivera que só agora eu o via?

?

Litania da louca

É puta

É vagabunda

É vaca.

É vaga, voille

vaga onda

vaga viga

nela me escoro

me espalho

viajo.

Vou

na roda da vida

roda viva

viva vaga

chaga.

Reinicio

à volta da chave

recomeço

a litania

minha oração matinal

acendo velas

vagas, difusas

incenso m’envolve

envolvo a manhã

dos prédios

na minha litania

e se há sol

tanto melhor

vaga

vaca

vagabunda.

Os prédios escutam

mas não solenes

-insolentes-

junto com o sol se riem

sorriem sem disfarces

vagos esgares

na manhã já plena

enquanto repito

a litania

sobe, desce

vaga, onda do mar

eu sobrevivente

eu náufraga

vaga

vagabunda

puta louca

reinicio

a ciranda

minha oração

matinal.

?





Bio fornecida pelo palestrante.

Mano Rosario




Autor: Coelho Netto
Título: Mano Rosario, Mano Chapelet
Idiomas: port, fra
Tradutor: Georgina Lopes(fra)
Data: 28/12/2004

Mano Rosario

Coelho Netto

Como tal ou qual a quem se houvesse rebentado um collar de preço e se puzesse a procurar as perolas uma a uma por frinchas e taliscas, assim vivemos nós reunindo recordações a ver se recompomos, no fio da memoria, todos os episodios da sua existencia ephemera, desde a hora feliz do seu nascimento, a perola menor, até a cruz do doloroso instante.

Cada vez que, a um de nós, occorre um facto ajuntamo-lo as embranças.

Uma perola, porem, a maior, rolou no abysmo e não ha como rehavê-la. As outras mesmas que recolhemos quando as tentamos engranzar logo se dissolvem em lagrimas.

Toda a riqueza que se perdeu, por mais que a busquemos ajuntar, foge-nos em bagas de pranto, perolas que nos cahiram no coração, com as quaes, se não refazemos o collar de outrora, formamos o rosario em que rezamos por elle a oração da saudade.

Sombras

Que resulta da nossa aliança com a luz? sombra, nada mais.

Alegria é luz e assim como na maior claridade as sombras tornam-se mais negras, mais a tristeza se aggrava se della, em volta, a alegria exulta.

O silencio é allivio: calma. Na quietude em que me refugío chego a não acreditar na tua morte porque te sinto em mim, commigo, como se vivo fôras.

À noite as sombras não apparecem; todas se recolhem aos corpos que as expuzeram. De dia, porém, destacam-se, prolongam-se com a terra.

No apogeu meridiano, não supportando a claridade fúlgida, acolhem-se ao de que sahiram, como se concentra na dor um coração ferido se, em torno delle, ha expansões de vívida alegria.
Felizmente, porém, o sol pouco se demora no zenith e logo que declina projectam-se, de novo, as sombras, até que todas se fundem em uma unica, que é a noite.

Isolo-me, não porque aborreça a vida e inveje a felicidade alheia, mas para forrar-me ao alvoroço da alegria.

Que o coração adormeça tranquillamente, no silencio, e sonhe, como quem dorme.

Sonhando, ainda que em vigilia, – porque recordar é sonhar d’olhos abertos – vê o que foi, reconstitue, um a um, os dias venturosos até aquelle que ficou eterno na memoria, como jazem immoveis sobre as horas que não sôam mais os ponteiros de um relogio cuja machina parou.

Fonte: Netto, Coelho. Mano. Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora, 1924. p. 111-112, 133-134.

Mano Chapelet

Coelho Netto

Comme si un collier s’était rompu, et que nous en cherchions les perles une à une, dans les moindres fissures, – ainsi nous vivons, réunissant nos souvenirs et recomposant tous les épisodes de son existence éphémère, depuis l’heureux moment de sa naissance jusqu’à sa douloureuse fin.

Une perle cependant, la plus grosse, roula dans l’abîme d’où nous ne pouvons la retirer, et les autres, trouvées à grand’peine, s’égrènent en larmes lorsque nous tentons de les rassembler.

Toute la richesse perdue, malgré nos efforts, nous fuit, se transforme en pleurs, perles tombées en nos coeurs et avec lesquelles, si nous ne refaisons pas le collier d’autrefois, nous formons pieusement le chapelet sur lequel nous prions pour lui l’oraison du souvenir.

Ombres

De notre union avec la lumière, il ne nous reste que de l’ombre.

La joie est pleine de lumière, et ainsi que la clarté souligne les ombres, la tristesse devient plus profonde lorsque le bonheur l’entoure.

Le silence nous apaise, nous calme. Dans la quiétude où je me trouve, j’ai de la peine à croire à ta mort, mon fils, car je te sens en moi, avec moi, comme si tu étais encore en vie.

La nuit, les ombres se confondent, disparaissent. Le jour elles se détachent, s’allongent sur la terre, puis, dès que le soleil se couche, se fondent dans les ténèbres.

Je m’isole. – La vie ne m’est pas indifférente, et je ne crains pas le bonheur d’autrui, mais je fuis la joie exubérante.

Comme endormi, je veux tranquillement rêver dans le silence, revoir un à un les jours d’autrefois, et jusqu’à celui qui restera toujours en ma mémoire, aussi immobile que, sur les heures, les aiguilles d’une montre dont le mouvement s’est arrêté.

Fonte : Coelho Netto (Paulo). Mano. Traduit du portuguais par Georgina Lopes. Paris : Roberto Corréa editeur, 1929. p. 91-92, 107-108.

 
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Sonetos




Autor: Cláudio Manuel da Costa
Título: Sonetos
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

POEMAS DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

 

Sonetos

 

Cláudio Manuel da Costa

 

I

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apoio a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino: [1]

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.

II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio: [2]

Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as pálidas areias
Nas porções do riquíssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planêta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

III

Pastôres, que levais aa monte o gado,
Vêde lá como andais por essa serra;
Que para dar contágio a tôda a terra,
Basta ver-se o meu rosto magoado:

Eu ando (vós me vêdes) tão pesado;
E a pastôra infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em seu semblante encerra
A causa de um martírio tão cansado.

Se a quereis conhecer, vinde comigo,
Vereis a formosura, que eu adoro;
Mas não; tanto não sou vosso inimigo:

Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;
Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,
Chorareis, ó pastôres, o que eu choro.

IV

Sou pastor; não te nego; os meus montados
São êsses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a relva florescente
A doce companhia dos meus gados;

Ali me ouvem os troncos namorados,
Em que se transformou a antiga gente;
Qualquer dêles o seu estrago sente; [3]
Como eu sinto também os meus cuidados.

Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia
Firmes vos contemplastes, e seguros
Nos braços de uma bela companhia;

Consolai-vos comigo, ó troncos duros;
Que eu alegre algum tempo assim me via;
E hoje os tratos de Amor choro perjuros.

V

Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno; [4]

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões dêsse tormento eterno.

Adorar as traições, amar o engano,
Ouvir dos lastimosos o gemido,
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Seja embora prazer; que a meu ouvido
Soa melhor a voz do desengano,
Que da torpe lisonja o infame ruído.

__________________________

Fonte: COSTA, Cláudio Manuel da. Poemas de Cláudio Manuel da Costa. Introdução, seleção e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1966. p. 33 – 37.

 


[1] Pode ser assim entendido o terceto: “Bem sei que o Destino influiu estro divino na lira de outros gênios, para cingir (em) a verde rama de Apolo”, a saber, o louro.
[2] O verso vale o seguinte: “o esquecimento frio, que é como o sono vil”.
[3] Referência a metamorfoses antigas, como a de Filemão e Báucis em carvalho e tília; ou trata-se do velho topos, segundo o qual os corpos sepultados se transformam em árvores? Estrago: ruína, infortúnio, perdição.
[4] Verão: primavera.




Bio fornecida pelo palestrante.

A descobretado mundo




Autor: Clarice Lispector
Título: A descobretado mundo, La decouverte du monde
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jacques et Teresa Thiériot (fra)
Data: 28/12/2004

LA DÉCOUVERTE DU MONDE

1967

19 AOÛT 1967

Clarice Lispector


LES SALES GOSSES

Je ne peux pas. Je ne peux pas, penser à la scène que j’ai vue, de mês yeux vue, et qui est réelle. L’enfant le soir souffre de la faim et dit à sa mère: Maman, j’ai faim. Elle répond avec douceur: Dors. Il dit: Mais j’ai faim. Elle insiste. Dors. Il dit: je ne peux pas, j’ai faim. Elle répète, exaspérée: Dors. Il insiste. Elle crie, douloureuse: Dors, sale gosse! Tous deux gardent le silence dans le noir, immobiles. Peut-être qu’il dort? pense-t-elle, éveillée. Et lui a trop peur pour se plaindre. Dans la nuit noire, tous deux n’arrivent pas à fermer l’œil. Finalement, à bout de douleur et de fatigue, tous deux somnolent, dans le nid de la résignation. Et moi je ne supporte pas la résignation. Ah, comme je dévore avec appétit et plaisir la révolte.

LA SURPRISE

Se regarder dans la glace et se dire ravie: Comme je suis mystérieuse. Je suis vraiment délicate et forte. Et l’arc des lèvres garde l’innocence.
Il n’y a aucun homme ni aucune femme qui, s’étant regardé pas hasard dans une glace, ne se soit étonné de soi-même. Pendant une fraction de seconde on se voit comme un objet fait pour être regardé. On pourrait appeler cela narcissisme, mais moi je l’appellerais: joie d’être. Joie de trouver dans la figure extérieure les échos de la figure interne. Ah, alors c’est vrai que je ne me suis pas imaginée: j’existe.


JOUER À PENSER

L’art de penser sans riques. Sans las chemins de l’émotion auxquels conduit la pensée, penser aurait été déjà catalogué comme une des façons de se divertir. On n’invite pas des amis pour ce jeu à cause de la cérémonie qu’il y a à penser. Le mieux c’est d’inviter simplement pour une visite et, comme si on me s’y attendait pas, on pense ensemble, sous le déguisement des mots.
Toutefois il s’agit là d’un jeu superficiel. Car pour penser profondément – ce qui est le degré le plus haut du hobby – il faut être seul. En effet, s’abandonner à penser est une grande émotion et on n’a le courage de penser en face d’ «autrui» que lorsque la confiance est grande au point qu’on n’éprouve aucune gêne à se servir, si c’est nécessaire, du mot « autrui». En otre, on exige beaucoup de celui qui nous regarde penser: qu’il ait un grand cœur, amour, affection, et l’expérience de s’être livré lui aussi à l’acte de penser. On exige tout autant de celui qui entend les mots et les silences qu’on exigerait pour sentir. Non, ce n’est pas vrai. Pour sentir on exige davantage.
Bien, mais pour ce qui est de penser comme divertissement, l’absence de risques le met à la portée de tous. Qu’il y ait un risque, c’est évident. On s’amuse et on peut se retrouver le cœur lourd. Mais, en général, une fois prises les précautions intuitives, in n’y a pas de danger.
Comme hobby, il offre l’avantage d’être par excellence transportable. Encore qu’en plein air il soit encore meilleur, à mon avis. À certaines heures de l’après-midi, par exemple, où la maìson pleine de lumière semble plutôt vidée par la lumière, tandis que toute la ville vibre au travail et que nous sommes seuls à travailler à la maison, mais personne ne le sait – à ces moments où la dignité se referait si nous avions un atelier de réparations ou une salle de couture –, à ces moments-là: on pense. Ainsi: on commence à partir du point exact où l’on se trouve, même si ce n’est pas l’après-midi; sauf que la nuit, je ne le conseille pas.
Une fois par exemple – à l’époque où j’envoyais le linge à laver à la blanchisserie –, j’ étais en train de dresser la liste. Peut-être à cause de l’habitude de donner un titre ou d’une soudaine envie d’avoir un cahier bien tenu comme à l’école, j’écrivus: Liste de… Et ce fut à cet instant que surgit l’envie de ne pas être sérieuse. C’est là le premier signal de l’animus brincandi, en matière de penser comme hobby. Et je m’amusai à écrire: Liste de sentiments. Ce que je voulais dire par là, j’ai dû remettre à plus tard le soin de l’examiner – un autre signal qu’on est sur la bonne voie, c’est de ne pas se désespérer parce qu’on ne comprend pas; l’attitude à prendre: on ne perd pas pour attendre, on ne perd pas pour ne pas comprendre.
Alors je commençai une petite liste de sentiments dont je ne sais pas le nom. Si je reçois un cadeau donné avec affection par une personne que je n’aime pas, comment s’appelle ce que je ressens? Le regret qu’on a d’une personne qu’on n’aime plus, ce chagrin et cette rancœur, comment cela s’appelle-t-il? Être occupée, et soudain s’arrêter parce que je me suis sentie en proie à un rassérénant et béat désœuvrement, comme si une lumière miraculeuse était entrée dans la pièce: comment s’appelle ce que j’ai ressenti?
Mais je dois vous prévenir. Parfois on commence à jouer à penser, et voilà qu’à l’improviste c’est le jeu qui se met à jouer avec nous. Ce n’est pas bon. C’est tout an plus fructifère.

COSMONAUTE SUR LA TERRE

Avec bien du retard, je réfléchis à propos des cosmonautes. Ou plutôt à propos du premier cosmonaute. Moins d’un jour après Gagarine, nos sentiments étaient déjà attardés, pris à contre-pied par la vitesse avec laquelle l’évérement nous dépassait. Maintenant, donc, c’est avec un retard accru que je repense à cette question – une question difficile à saisir.
Un jour, un petit garçon, prévenu que la balle avec laquelle il jouait pouvait tomber sur le parquet et importuner les voisins du dessous, répondit: Mais non, le monde maintenant est automatique; quand une main jette en l’air la balle, l’autre est automatique et l’attrape elle ne tombe pas.
Le problème c’est que notre main n’est pas encore suffisamment automatique. Quand Gagarine est morté, il avait peur, car si l’automatique du monde ne fontionnait pas, la balle ferait plus que déranger les voisins du dessous. Et moi j’ai eu peur que ma main guère automatique tremble devant la possibilité de ne pas être suffisamment rapide et laisse l’«événement cosmonaute» m’échapper. La responsabilité de le saisir était importante, la responsabilité de ne pas laisser tomber la balle qu’on nous a lancée.
Le besoin de rendre tout un peu plus logique – ce qui d’une certaine façon équivant à l’automatique – m’oblige à analyser pertinemment la peur salutaire qui m’a saisie:
– Dorénavant, quand je parlerai de la Terre, je ne dirai plus indistinctement «le monde». Je considérerai l’expression «carte mondiale» comme impropre. Quand je dirai «mon monde», je me rappellerai avec un frisson de joie que ma carte elle aussi doit être refondue et que personne ne me garantit que, vu du dehors, non monde n’est pas bleu. Considérations: avant le premier cosmonaute, tout un chacun avait raison de dire, se référant à sa propre naissance: «Je suis venu au monde.» Mais ce n’est que depuis peu que nous naissons pour le monde. Presque gênés.
– Pour voir le bleu, nous regardons le ciel. La terre est bleue aux yeux de qui la regarde du ciel. Le bleu est-il une couleur en soi, ou une question de distance? Ou une question de grande nostalgie? L’innaccessible est toujours bleu.
– Si j’étais le premier cosmonaute, ma joie ne se renoucellerait que lorsqu’un deuxièure homme reviendrait du monde de l’espace: car lui aussi aurait vu. Parce que aucune description ne peut se substituer à «avoir vu». Jusqu’à ce qu’un autre homme ait vu également, je garderais en moi un grand silence, même si je parlais. Considération: j’émets l’hypothèse que quelqu’un dans le monde a déjà vu Dieu. Et n’en a jamais dit un mot. Car, si personne d’autre ne l’a vu, il est inutile d’en parler.
– La grande gr6ace du hasard: être encore vivants quand le grand monde a commencé. Pour ce qui est à venir: nous devons moins fumer, mieux prendre soin de nous, afin d’avoir davantage le temps de vivre et de voir un plus; outre demander aux scientifiques de se hâter – car notre temps personnel est pressant.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. La decouverte du monde. Chroniques traduites du brésilien par Jacques et Teresa Thiériot. Paris, Des Femmes, 1984, p. 11-17.

A DESCOBERTA DO MUNDO

1967

19 DE AGOSTO

Clarice Lispector


AS CRIANÇAS CHATAS

Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real. O filho está de noite com dor de fome e diz para a mãe: estou com fome, mamãe. Ela responde com doçura: dorme. Ele diz: mas estou com fome. Ela insiste: durma. Ele diz: não posso, estou com fome. Ela repete exasperada: durma. Ele insiste. Ela grita com dor: durma, seu chato! Os dois ficam em silêncio no escuro, imóveis. Será que ele está dormindo? – pensa ela toda acordada. E ele está amedrontado demais para se queixar. Na noite negra os dois estão despertos. Até que, de dor e cansaço, ambos cochilam, no ninho da resignação. E eu não agüento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta.


A SURPRESA

Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência.
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.


BRINCAR DE PENSAR

A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos de emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor
modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo.
Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… E foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha se sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.


COSMONAUTA NA TERRA

Extremamente atrasada, reflito sobre os cosmonautas. Ou melhor, sobre o primeiro cosmonauta. Quase um dia depois de Gagárin, nossos sentimentos já estavam atrasados em contraposição à velocidade com que o acontecimento nos ultrapassa. Agora, então, é atrasadíssima que repenso no assunto. É um assunto difícil de se sentir.
Um dia desses um menino, advertido de que a bola com que brincava cairia no chão e amolaria os vizinhos de baixo, respondeu: ora, o mundo já é automático, quando uma mão joga a bola no ar, a outra já é automática e pega-a, não cai não.
A questão é que nossa mão ainda não é bastante automática. Foi com susto que Gagárin subiu, pois se o automático do mundo não funcionasse a bola viria mais do que transtornar os vizinhos de baixo. E foi com susto que minha mão pouco automática tremeu à possibilidade de não ser rápida bastante e deixar o “acontecimento cosmonauta” me escapar. A responsabilidade de sentir foi grande, a responsabilidade de não deixar cair a bola que nos jogaram.
A necessidade de tornar tudo um pouco mais lógico – o que de algum modo equivale o automático – me faz tentar criteriosamente o bom susto que me pegou:
– De agora em diante, me referindo à Terra, não direi mais indiscriminadamente “o mundo”. “Mapa mundial”, considerarei expressão não apropriada; quando eu disser “o meu mundo”, me lembrarei com um susto de alegria que também meu mapa precisa ser refundido, e que ninguém me garante que, visto de fora, o meu mundo não seja azul. Considerações. antes do primeiro cosmonauta, estaria certo alguém dizer, referindo-se ao próprio nascimento, “vim ao mundo”. Mas só há pouco tempo nascemos para o mundo. Quase encabulados.
– Para vermos o azul, olhamos para o céu. A terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.
– Se eu fosse o primeiro astronauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. Porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a te visto. Até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silêncio, mesmo que falasse. Consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. E nunca ter dito uma palavra. Pois se nenhum outro viu, é inútil dizer.
– O grande favor do acaso: estarmos ainda vivos quando o grande mundo começou. Quanto ao que vem: precisamos fumar menos, cuidar mais de nós, para termos mais tempo de viver e ver um pouco mais; além de pedirmos pressa aos cientistas – pois nosso tempo pessoal urge.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1984. p. 9-15.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

A hora da estrela




Autor: Clarice Lispector
Título: A hora da estrela, L’Heure de L’Étoile
Idiomas: port, fra
Tradutor: Marguerite Wünscher relui par Sylvie Durastanti (fra)
Data: 28/12/2004

L’HEURE DE L’ÉTOILE


Clarice Lispector

 

En ce monde, tout a commencé par un oui. Une molécule dit oui à une autre, et la vie naquit. Mais avant la préhistoire, il y eut la préhistoire de la préhistoire et il y eut le méant et il y eut le oui. Toujours il y eut – quoi, je ne sais, mais je sais que jamais l’univers n’eut de commencement.
Que nul ne se méprenne: je n’atteins à la simplicité qu’au terme d’un long travail.
Tant que j’aurai des questions à poser, tant que je n’aurai pas de réponse, je continuerai à écrire. Comment aborder l’origine, si les choses adviennent avant d’advenir? Si, avant la préhistoire, il y eut déjà des monstres apocalyptiques? Si cette histoire n’existe pas encore, elle finira par exister. Penser est un acte. Sentir est un fait. Et leur résultante, c’est moi qui écris ce que je suis en train d’écrire. Dieu est le monde. La vérité est toujours inexplicable révélation intérieure. Dans sa vérité même, ma vie est insasissable, rigoureusement intérieure: nul mot ne saurait l’exprimer. Mon cœur s’est vidé de tout désir pour se réduire à son dernier ou premier battement. Le mal de dents qui traverse cette histoire nous a bel et bien ferrés en pleine bouche. Je chante donc d’une voix forte et perçante une mélodie stridente et syncopée – c’est ma douleur à moi, à moi qui porte un monde en mal de bonheur. Bonheur? Jamais je ne vis mot plus insensé, inventé par les nordestines qui hantent nos contrées.
Je voudrais vous dire que cette histoire est le fruit d’une lente révélation – depuis deux ans et demi, je découvre peu à peu le pourquoi des choses. C’est la révélation de l’imminence. De quoi? Le saurai-je jamais? Comment pourrais-je écrire au moment même où l’on me lit? Si je ne commence point par la fin, susceptible de justifier le commencement – tout comme la mort semble justifier la vie – c’est que je dois rapporter les faits antérieus.
J’écris en cet instant non sans gêne, à l’idée de vous imposer un récit aussi étranger, aussi explicite. Cependant, le sang palpitant de la vie même parviendra peut-être à s’en échapper pour se coaguler aussitôt en nappes figées et tremblantes. Cette histoire sera-t-elle un jour mon caillot? Qu’en sais-je? Si elle contient quelque vérité – car bien sûr, cette histoire est vraie, quoiqu’inventée – chacun l’éprouvera en lui-même: car nous ne faisons qu’un, car qui n’est pas pauvre de richesses est pauvre d’esprit ou avide d’une chose plus précieuse que l’or – à certains fait défaut l’impalpable essentiel.
Comment puis-je savoir tout ce qui va suivre en l’ignorant encore, faute de l’avoir vécu? Il se trouve que dans une rue de Rio j’ai entrevu, l’espace d’un instant, une jeune nordestine à l’air perdu. Or, dans mon enfance, j’ai justement été élevé dans le Nordeste. On peut aussi bien apprendre les choses en les vivant. Qui vit sait – fût-ce sans savoir qu’il sait. Ainsi, vous autres, vous en savez plus que vous n’imaginez, même si vous jouez aux imbéciles.
Je ne compte rien écrire de difficile, même si je dois user de mots de nature à vous sustenter. Cette histoire – déciderai-je avec un prétendu libre arbitre – comptera six ou sept personnages dont je ne serai pas l’un dess moindres, bien entendu. Moi, Rodrigo S. M. Récit classique, car je ne veux pas adopter un style moderne ou forger des néologismes pour faire original. Aussi, contrairement à mês habitudes, tenterai-je d’écrire une histoire comprenant début, développement et grand final, suivi de silence et de pluie battante.
Histoire étrangère et explicite, assurément, mais non dénuée de secrets – à commencer par l’un des sous-titres, « Quant à l’avenir », précédé d’un point final et suivi d’un autre point final. Non par caprice – peut-être comprendez-vous ainsi qu’il est nécessaire d’assigner des bornes aux choses. (J’entrevois encore mal la fin que – compte tenu de mês limites – je voudrais grandiose.) Si le sous-titre était suivi de points de suspension, et non d’un simple point, il laisserait place à toutes vos interprétations, fussent-elles cruelles ou malsaines. Bon, il est vrai que, moi aussi, je suis sans pitié pour mon personnage principal, la nordestine: ce récit, je le veux froid. Mais moi, j’ai le droit d’être douloureusement froid et vous pas. Pour toutes ces raisons, je ne vous laisserai pas la parole. Il s’agit moins de narration, que d’une vie primaire, qui, respire, respire et respire. Matière poreuse, je vivrai un jour ici la vie d’une molécule capable d’exploser en atomes. Ce que j’écris dépasse toute invention, je dois conter cette jeune fille entre des milliers d’autres. J; ai le devoir, même si je n’ai pas grand talent, de lui révéler la vie.
Car on a bien le droit de crier.
Alors je crie.
Cri pur, n’exigeant point d’aumône. Je sais qu’il est deu jeunes filles qui vendent leur corps, seul bien qu’elles possèdent, pour s’offrir un bon dîner, au lieu d’un sandwich à la mortadelle. Mais la personne dont je parle n’a pas même de corps à vendre. Nul n’en voudrait. Elle est vierge, inoffensive et ne fait défaut à personne. Et d’ailleurs, je m’en aperçois en cet instant, moi non plus je ne fais défaut à personne. Et encore, ce que j’écris, un autre pourrait l’écrire. Un autre écrivain, assurément: mais encore faudrait-il que ce soit un homme, car une femme risque de larmoyer des fadaises.
Il y a des milliers de jeunes filles telles que cette nordestine, isolées en pension, seules dans leur lit ou travaillant jusqu’à épuisement derrière un comptoir. Elles ignorent qu’elles se valent les unes les autres, et qu’elles pourraient tout aussi bien ne pas exister qu’exister. Rares sont celles qui s’en plaignent. Et, pour autant que je sache, nulle ne s’outrage de ne pas même savoir à qui s’en plaindre. D’ailleurs, existe-t-il seulement, celui-là?
Me voilà en train de m’échauffer avant de m’y mettre, de me frotter les mains pour me donner du courage. Il me souvient à présent qu’à une époque, je priais pour m’échauffer l’esprit: le mouvement est esprit. Par la prière, je pouvais rentrer en moi-même, silencieusement, à l’insu de tous. En priant, je faisais en mon âme le vide – vide qui est bien tout ce qui sera jamais à ma portée. Et rien de plus. Mais le vide possède la valeur et l’apparence du plein. Pour trouver, autant ne pas chercher; pour avoir, autant ne rien exiger, et autant se contenter de penser que le silence que je crois en moi vient répondre à mon – à mon mystère.
Ainsi que je l’ai déjà laissé entendre, j’ai l’intention d’aller vers la simplicité. D’ailleurs, trop pauvres et trop modestes sont les matériaux dont je dispose, trop rares et trop confuses les informations touchant mês personnages, informations ne me venant qu’`a grand-peine, tandis que je les charpente.
Assurément; gardons-nous cependant d’oublier que pour écrire quoi que ce soit, mon matériau premier, c’est la langue. Aussi cette histoire sera-t-elle faite de mots, assemblés en phrases, dont se dégagera un sens secret, transcendant mots et phrases. Evidemment, comme tout écrivain, je suis tenté d’utiliser des termes savoureux: je connais des adjectifs somptueux, des substantifs charnus et des verbes si acérés qu’ils fendent l’air en filant vers l’action. Or la parole est action, vous en conviendrez. Mais je ne vais pas enjoviler les mots, car si je touche au pain de la jeune fille, ce pain se changera en or – et la jeune personne (qui a dix-neuf ans), la jeune personne ne pourra plus y mordre, et donc mourra de faim. Il me faut donc en parler simplement, afin d’en capter l’existence dans sa fragilité et sa vacuité même. Je me contenterai humblement – mais sans faire étalage de mon humilité, car alors ce n’en serait plus –, je me contenterai de raconter les aventures quelconques d’une jeune fille dans une ville tout entière faite contre elle. Elle qui n’aurait jamais dû quitter son sertão d’Alagoas, dans sa méchante robe de toile. Et sans la moindre notion de dactylographie: à peine savait-elle écrire, n’ayant point terminé ses études primaires. Quand elle tapait à la machine, son ignorance l’obligeait à frapper laborieusement, touche après touche – c’est sa tante qui lui avait appris les rudiments de la dactylographie. Alors la jeune fille avait trouvé une dignité: elle était enfin dactylo. Ce qui ne l’empêchait pas, apparemment, de désapprouver que deux consonnes puissent se suivre et, en transcrivant la belle écriture ronde de son chef de bureau bien-aimé, d’écrire le mot désigner, désinier, comme ça se prononce.
Pardonnez-moi, mais je vais continuer à parler de moi, qui suis mon propre mystère. Et tout en écrivant, je ne suis pas peu surpris de découvrir que j’ai un destin. Qui ne s’est jamais demandé, d’aventure: suis-je un monstre ou bien ce qu’on appelle une personne?
Je veux tout d’abord vous assurer que cette jeune fille ne sait rien d’elle-même, sinon à l’occasion de ce qui pent bien lui arriver çà ou là. Si elle avait la sottise de se demander: « qui suis-je? » induit une nécessité. Et comment satisfaire à la nécessité? S’interroger révèle un manque.
La personne dont je vais parler est si maise qu’elle sourit parfois aux autres dans la rue. Nul ne lui rend son sourire, car nul ne la regarde.
Mais pour en revenir à moi: ce que je vais écrire ne saurait satisfaire des esprits exigeants et avides de raffinements. Car ce que je vais dire sera, purement et simplement. Même si je garde en toile de fond – et dès à présent – la pénombre tourmentée dans laquelle baignent mês rêves, quand la nuit, tourmenté, je dors. N’espérez donc point découvrir d’étoiles dans ce qui suit: nul santillement. Mais une matière opaque, méprisable par sa nature même. Point de méloide qui se puisse fredonner en cette histoire progressant par à coups, selon un rythme parfois irrégulier. Et puis, il y a les faits. Je me suis subitement passionné pour les faits bruts, les faits durs comme pierres, les faits qu’il n’est pas moyen de fluir. D’ailleurs, agir m’intéresse plus que penser.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. L’Heure de L’Étoile. Traduit du brésilien par Marguerite Wünscher relui par Sylvie Durastanti. Paris, Des Femmes, 1977. p. 13-9.

A HORA DA ESTRELA

 

Clarice Lispector

 

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.
Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos. Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.
História exterior e explícita, sim, mas que contém segredos – a começar por um dos títulos, “Quanto ao futuro”, que é precedido por um ponto final e seguido de outro ponto final. Não se trata de capricho meu – no fim talvez se entenda a necessidade do delimitado. (Mal e mal vislumbro o final que, se minha pobreza permitir, quero que seja grandioso.) Se em vez de ponto fosse seguido por reticências o título ficaria aberto a possíveis imaginações vossas, porventura até malsãs e sem piedade. Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo isto é que não vos dou a vez. Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira. Material poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula com seu estrondo possível de átomos. O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida.
Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
Como a nordestina, há milhares de mocas espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?
Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério.
Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.
Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-o-quê o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humildade – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra – a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra “designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.
Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco mais pois descobri que tenho um destino. Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.
Voltando a mim: o que escreverei não pode ser absorvido por mentes que muito exijam e ávidas de requintes. Pois o que estarei dizendo será apenas nu. Embora tenha como pano de fundo – e agora mesmo – a penumbra atormentada que sempre há nos meus sonhos quando de noite atormentado durmo. Que não se esperem, então, estrelas no que se segue: nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos. É que a esta história falta melodia cantabile. O seu ritmo é às vezes descompassado. E tem fatos. Apaixonei-me subitamente por fatos sem literatura – fatos são pedras duras e agir está me interessando mais do que pensar, de fatos não há como fugir.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1993. p. 25-32.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

A maçã no escuro




Autor: Clarice Lispector
Título: A maçã no escuro, The Apple in the Dark
Idiomas: port, eng
Tradutor: Gregory Rabassa (eng)
Data: 28/12/2004

THE APPLE IN THE DARK


Part I

How a man is made

Chapter 1


Clarice Lispector

This tale begins in March on a night as dark as night can get when a person is asleep. The peaceful way in which time was passing could be seen in the high passage of the moon across the sky. Then later on, much deeper into night, the moon too disappeared.
There was nothing now to distinguish Martim’s sleep from the slow and moonless garden. When a man slept so deeply, he came to be the same as that tree standing over there or the hop of a toad in the darkness.
Some of the trees there had grown with rooted leisure until they reached the top of their crowns and the limit of their destiny. Others had burst out of the earth in quick tufts. The flowerbeds had an order about them that was concentrating in a great struggle to achieve some kind of symmetry. Although this order was discernible from up on the balcony of the large hotel, a person standing at the level of the flowerbeds could not make it out. The driveway, detailed in small cut stones, lay between the flowerbeds.
Off in one turn of the drive the Ford had been parked for so long a time that it was already part of the great interwoven garden and its silence.
By day, however, the countryside was different, and the crickets, vibrating hollow and hard, left the entire expanse open, shadow less. All the while there was that dry smell of crumbling stone that daytime has in the country. Yet on that very day Martim had been standing on the balcony, uselessly obedient, so as not to miss anything that was going on. But not very much was going on. Before one’s eyes reached the beginning of the road, which disappeared into the dust suspended in the sunlight, there was only the garden to be contemplated, comprehensible and symmetrical from up on the balcony, tangled and confused when one became part of it – and the man had been playing for two weeks now with what he could remember of it, carefully nurturing it, saving it for eventual use. For any other kind of attention, however, the day was untouchable, like a point designed upon the point itself. The voice of the cricket was the very body of the cricket, and it told nothing. The only advantage of daytime was that in the bright light the car was becoming a little beetle that could easily get to the highway.
But while the man was sleeping, the car was becoming enormous in the way that an idle machine is gigantic. And at night the garden was filled with the secret weaving that darkness lives on, work whose existence is suddenly made clear by fireflies. A certain dampness also betrayed the secret of the work. And night was an element in which life, by becoming strange, became recognizable.
It was on that night that the motor of the car vibrated and reached out to the empty and sleeping hotel. The darkness slowly began to move.
Instead of waking up and listening directly, Martim passed over to the other side of darkness through an even deeper sleep, and there he heard the sound the wheels made as they spat up the dry sand. Then his name was spoken, clearly and cleanly, in some way pleasant to hear. It was the German who had spoken. In his sleep Martim enjoyed the sound of his own name. And then the violent cry of a bird whose wings had been frightened into immobility, the way fright can seem to be joy.
When it became silent within the silence again, Martim was sleeping even farther away. And yet in the depths of his sleep something had echoed with difficulty, trying to organize itself. Until the sound of the car in all of its finest details was repeated in his memory, without any sense, and free from the inconvenience of having to be understood. The idea of the car alerted a soft warning that he did not immediately understand. But now a vague alarm had spread out into the world, and its center of radiation was the man himself: “So me, then,” his body thought, touched with pity. He remained lying down, remotely enjoying it.
The man had arrived at the hotel two weeks before, finding it in the middle of the night with almost no surprise. Exhaustion makes everything like that possible. It was an empty hotel, with only the German and the servant, if he was a servant. And for two weeks, while Martim was getting his strength back in almost uninterrupted sleep, the car had remained parked in one of the driveways, its wheels buried in the sand – so motionless, so resistant to the man’s habit of incredulity and his care not to let himself be deceived that Martim had finally ended up feeling that it was at his disposal.
But the truth is that even on that night when he had staggered in – when he had at last let himself drop half dead onto a real bed with real sheets – even then the car had represented the security of new flight, in case the two men should seem to be too curious about the identity of the guest. And he had fallen asleep confidently as if nobody would ever be able to wrest from his firm grasp the imaginary rim of a steering wheel as he clutched the sheet in his hands.
The German, however, had not asked him anything, and the servant, if that was what he was, had scarcely glanced at him. Their reluctance to take him in had not come from any distrust but from the fact that the hotel had not been a hotel for some time – ever since it had been fruitlessly put up for sale, the German had explained to him. And so as not to cause suspicion, Martim had nodded his head, smiling. Before the new highway had been built, cars had passed by there, and the isolated big house could not have been better situated as an obligatory stopping place for the night. When the new highway had been put through thirty miles away, it detoured all the cars that used to pass, and the whole town had died. So there was no reason any more for anyone to have use for a hotel in a place that had been turned over to the winds. But in spite of the apparent indifference of the two men Martim’s obstinate quest for security became tied to that car over which the spiders too had executed their perfect aerial work, which had been tranquilized by all of its varnished immobility.
That was the car that had uprooted itself with a hoarse sound in the middle of the night.
In the silence which was once more intact, the man now stared stupidly at the invisible ceiling, which in the darkness was as high as the sky. Stretched out on his back upon the bed, he tried with an effort of gratuitous pleasure to reconstruct the sound of the wheels, for he did not feel pain, but pleasure in a general way. He could not see the garden from his bed. A little mist was coming in through the open Venetian blinds, and the man could tell that it was there from the smell of damp cotton and from a certain physical yearning for happiness that fog induces. It had only been a dream, then. Skeptical, however, he got up.
In the darkness he could see nothing from the balcony, and he could not even guess the symmetry of the flowerbeds. A few splotches darker than the darkness itself showed the probable location of the trees. The garden remained as nothing but an effort of memory, and the man stared quietly, sleepily. Here and there a firefly made the darkness even vaster.
Having forgotten about the dream that had drawn him out onto the balcony, the man’s body found that it was a pleasant feeling to sense itself in a healthy upright position. The air was in suspension, and the dark position of the leaves was little changed. He let himself stand there, then, docile, bewildered, with the succession of unoccupied rooms behind him. Those empty rooms multiplied themselves until they disappeared off to where the man could no longer see anything more. Martim sighed inside his long waking sleep. Without too much insistence he tried to grasp the notion of the rooms farthest away, as if he himself had grown too large and had spread out too much, and for some reason that he had already forgotten – for some obscure reason – it had become essential to retreat so that he could think or perhaps feel. But he could not get himself to do it, and it was very pleasant. So he stayed there, with the courteous air of a man who has been hit over the head. Until – just as when a clock stops ticking and only thus makes us aware that it had been ticking before – Martim perceived the silence and his own presence within the silence. Then by means of a very familiar lack of comprehension the man at last began to be himself in an indistinct sort of way.
Then things began to get reorganized, beginning with him: the darkness was beginning to be understood, branches were slowly taking shape under the balcony, shadows dividing up into flowers, undefined as yet. With their edges hidden by the quiet lushness of the plants, the flowerbeds were outlined, full and soft. The man grunted approvingly. With some difficulty he had just recognized the garden, which at intervals during those two weeks of sleep had constituted his irreducible vision.
It was at that moment that a faint moon passed out of a cloud in great silence, silently spread itself over the calm stones, and silently disappeared into the darkness. The moonlit face of the man turned then toward the drive where the Ford ought to be standing motionless.
But the car had disappeared.
The man’s entire body suddenly woke up. With a sharp glance his eyes covered the whole darkness of the garden – and without a sign of warning he wheeled around toward his room with the soft leap of a monkey. Nothing was moving, however, in the cavity of the room, which had become enormous in the darkness. The man stood breathing heavily, alert and uselessly fierce, with his hands held in front of him against attack. But the silence of the hotel was the same as that of night. And without visible limits the room prolonged the darkness of the garden with the same exhalation. To wake himself up the man rubbed his eyes several times with the back of one hand while keeping the other one free for defense. His new sensibility was of no use. In the darkness his wide-open eyes could not even see the walls.
It was as if he had been set down alone in the middle of a field. And as if he had finally remembered a long dream in which a hotel, now broken up in pieces on the empty ground, had figured, a car imagined only through desire, and – above all – as if the reason for a man to be all expectant in a place was also a form of expectancy.
All that he had left of reality was the wisdom that had made him take a leap in vague defense, the instinct that was now leading him to calculate with unexpected lucidity that if the German had gone to turn him in, it would take some time for him to get there and return with the police.
Which still left him free temporarily – unless the servant had been assigned to watch him. And in that case the servant, if that is what he was, would at this very moment be outside the door of that very room with his ear alert to the slightest movement on the part of the guest.
That is what he was thinking. And when he stopped his reasoning, which he had reached with the malleability an invertebrate uses to become smaller in order to slip away, Martim plunged into the same previous absence of reason and the same obtuse impartiality, as if nothing had anything to do with him and as if the species would take care of him. Without looking back, guided by a slippery adroitness of movement, he began to climb down the balcony by placing his unexpectedly flexible feet on the outcroppings of the bricks. In his attentive remoteness the man could smell, as if he would never forget it, the malevolent odor of the broken ivy near his face. Now only his spirit was alert, and it could not distinguish between what was and what was not important, and he gave the same scrupulous consideration to every operation.
With a soft jump that made the garden gasp as it held its breath, he found himself right in the middle of a flowerbed, which ruffled up and then closed down. With his body alert the man waited for the message of his jump to be transmitted from secret echo to secret echo, until it would be transformed into distant silence. His thud would end by breaking on the side of some mountain. No one had taught the man to have that intimacy with things that happen at night, but a body knows.
He waited a while longer, until nothing was happening. Only then did he carefully feel for the glasses in his pocket. They were intact. He sighed carefully and finally looked around. The night was delicately vast and dark.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. The Apple in the Dark. Transl. from the Portuguese by Gregory Rabassa. New York: Alfred A. Knopf, 1967. p. 3-9.

A MAÇÃ NO ESCURO


Primeira Parte
Como se faz um homem
1


Clarice Lispector

Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranqüilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo, passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele – e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual. Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.
Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.
Foi nessa noite que, atingindo o hotel vazio e adormecido, o motor do carro se sacudiu. Lentamente o escuro se pusera em movimento.
Em vez de acordar e diretamente ouvir, foi através de um sono ainda mais profundo que Martim passou para o outro lado da escuridão e ouviu o ruído que as rodas fizeram cuspindo areia seca. Depois seu nome foi pronunciado, destacado e limpo, de algum modo agradável de se ouvir. Era o alemão quem falara. No sono Martim fruiu o som do próprio nome. Em seguida o arrebatado grito de uma ave, cujas asas haviam sido espantadas na sua imobilidade, esse modo como o espanto parece com a grande alegria.
Quando o silêncio se refez dentro do silêncio, Martim adormeceu ainda mais longe. Embora no fundo do sono alguma coisa ecoasse difícil, tentando se organizar. Até que, sem nenhum sentido e livre do incômodo de precisar ser compreendido, o ruído do carro se refez na sua memória com as minúcias mais finamente discriminadas. A idéia do carro despertou um aviso suave que ele não entendeu de pronto. Mas que já espalhara pelo mundo um vago alarme, cujo centro irradiador era o próprio homem: “assim, pois, eu”, pensou seu corpo se comovendo. Continuou deitado, remotamente gozando.
Há duas semanas aquele homem viera para o hotel, encontrado no meio da noite quase sem surpresa, de tal modo a exaustão tornava tudo possível. Era um hotel vazio, só com o alemão e o criado, se criado era. E durante duas semanas, enquanto Martim recuperava as forças num sono quase ininterrupto, o carro continuara parado numa das alamedas, com as rodas enterradas na areia. E tão imóvel, tão resistente ao hábito de incredulidade do homem e ao seu cuidado em não se deixar ludibriar, que Martim terminara finalmente por considerá-lo à sua disposição.
Mas a verdade é que já naquela noite de pés cambaleantes – quando ele enfim se deixara cair meio morto numa cama verdadeira com verdadeiros lençóis – já naquele instante o carro representara a garantia da nova fuga, caso os dois homens se mostrassem mais curiosos pela identidade do hóspede. E este tombara confiante no sono como se ninguém jamais conseguisse tirar de sua firme garra, que prendia apenas o lençol, a roda imaginária de um volante.
O alemão, no entanto, nada lhe havia perguntado, e o criado, se o era, mal o olhara. A relutância com que o tinham aceito não vinha da desconfiança, mas do fato do hotel não ser mais hotel havia muito tempo – há tanto tempo quanto estava inutilmente à venda, explicara-lhe o alemão, e, para não ter um ar suspeito, Martim balançara a cabeça sorrindo. Enquanto não tinham construído a estrada nova, era por ali que passavam os carros, e o casarão isolado não poderia estar melhor situado como pouso forçado para pernoites. Quando a nova estrada fora traçada e asfaltada a cinqüenta quilômetros dali, desviando para longe o curso de passagem, o lugar todo morrera e não avia mais motivo de alguém vir a precisar de hotel na zona agora entregue ao vento. Mas apesar da indiferença aparente dos dois homens a obstinada procura de segurança de Martim se ancorara naquele carro sobre o qual também as aranhas, tranqüilizadas pela imobilidade envernizada, haviam executado o aéreo trabalho ideal.
Era esse carro que em plena noite se desenraizara com rouquidão.
Dentro do silêncio de novo intato, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que – como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia – Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas – com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
Mas o carro desaparecera.
O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim – e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
O que ainda o deixava temporariamente livre – a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro – que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. 7ª.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 11 – 16.

 

 





Bio fornecida pelo palestrante.

ÁGUA VIVA




Autor: Clarice Lispector
Título: Água Viva, Agua Viva
Idiomas: port, fra
Tradutor: Regina Helena de Oliveira Machado
Data: 28/12/2004

ÁGUA VIVA 
Clarice Lispector
É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é a loucura do raciocínio – mas agora quero o plasma – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena.
Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes – e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.
Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com meu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.
Hoje acabei a tela de que te falei: linhas redondas que se interpenetram em traços finos e negros, e tu, que tens o hábito de querer saber por quê – e porque não me interessa, a causa é matéria de passado – perguntarás por que os traços negros e finos? é por causa do mesmo segredo que me faz escrever agora como se fosse a ti, escrevo redondo, enovelado e tépido, mas às vezes frígido como os instantes frescos, água do riacho que treme sempre por si mesma. O que pintei nessa tela é passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a palavra muda no som musical.
Vejo que nunca te disse como escuto música – apóio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos.
E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. Para te dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos instantes-já. Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê o que agora se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação enérgica dos elétrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra”. Isso que te escrevi é um desenho eletrônico e não tem passado ou futuro: é simplesmente já.
Também tenho que te escrever porque tua seara é a das palavras discursivas e não o direito de minha pintura. sei que são primárias as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre as faltas, mas amor demais prejudica os trabalhos. Este não é um livro porque não é assim que se escreve. O que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: vivo à beira.
Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictiossauros e plessiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida. Não pinto idéias, pinto o mais inatingível “para sempre”. Ou “para nunca”, é o mesmo. Antes de mias nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura. Quer como poder pegar com a mão a palavra. A palavra é objeto? E aos instantes eu lhes tiro o sumo da fruta. Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de vida. O instante é semente viva.
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.
E se eu digo “eu” é porque não uso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma pessoa”. Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu.
Sim, que a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de me afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto, e no futuro: a invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. Desde já é futuro, e qualquer hora é hora marcada. Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir pois fui ao fundo dos momentos. É um estado de contato com a energia circundante e estremeço. Uma espécie de doida, doida harmonia. Sei que meu olhar deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda ao mundo, primitiva como os deuses que só admitem vastamente o bem e o mal e não querem conhecer o bem enovelado como em cabelos no mal, mal que é o bom.
Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem – fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua seqüência e concomitância.
Agora está amanhecendo e a aurora é de neblina branca nas areias da praia. Tudo é meu, então. Mal toco em alimentos, não quero me despertar para além do despertar do dia. Vou crescendo com o dia que ao crescer me mata certa vaga esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol. a ventania sopra e desarruma os meus papéis. Ouço esse vento de gritos, estertor de pássaro aberto em oblíquo vôo. E eu aqui me obrigo à severidade de uma linguagem tensa, obrigo-me à nudez de um esqueleto branco que está livre de rumores. Mas o esqueleto é livre de vida e enquanto vivo me estremeço toda. Não conseguirei a nudez final. e ainda não a quero, ao que parece.
Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido mas é a mesma falta de sentido que vem a veia que pulsa.
Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por quê, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.
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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1994. p. 13-8.
AGUA VIVA
Clarice Lispector
C’est avec une joie si profunde. C’est un tel alléluia. Alléluia, crié-je, alléluia qui se fond au plus obscur hurlement humain de la douleur de séparation, mais c’est un cri de félicité diabolique. Parce que personne ne me retient plus. Je suis encore capable de raisonnement – j’ai déjà étudié les mathematiques qui sont la folie du raisonnement – mais maintenant je veux le plasma – je veux me nourrir directement du placenta. J’ai un peu peur: peur encore de m’abandonner car l’instant prochain est l’inconnu. L’instant prochain est-il fait par moi? ou se fait-il tout seul? Nous le faisons ensemble par la respiration. Et avec une désinvolture de torero dans l’arène.
Je te dis: j’essaie de capter la quatrième dimension de l’instant-déjà qui d’être si figitif, n’est plus, car maintenant est devenu un nouvel instant-déjà qui à son tour n’est plus. Chaque chose a un instant où elle est. Je veux m’emparer du est de la chose. Ces instants qui s’écoulent dans l’air que je respire: en feux d’artifice ils éclatent muets dans l’espace. Je veux posséder les atomes du temps. Et je veux capturer le présent qui, par sa nature même, m’est interdit: le présent me fuit, l’actualité m’échappe, l’actualité c’est moi toujours dans le déjà. C’est seulement dans l’acte d’amour – par la limpide abstraction d’étoile de ce que l’on sent – que l’on capte l’inconnue de l’instant qui est durement cristaline et vibrante dans l’air, et la vie est ce instant incomptable, plus grand que l’événement en soi: dans l’amour l’instant d’impersonnel joyau resplendit dans l’air, gloire étrange de corps, matière sensibilisée par le frisson des instants – et ce que l’on sent est, en même temps qu’immatériel, si objectif que cela se passe comme hors du corps, étincelant en haut, joie, joie, est matière de temps, et par excellence, l’instant. Et dans l’instant est le est de l’instant liu-même. Je veux capter mon est. Et je chante alléluia dans l’air ainsi que fait l’oiseau. Et mon chant est à personne. Mais il n’est pas de passion soufferte en douleur et amour qui ne soit suivie d’un alléluia.
Mon thème est l’instant? mon thème de vie. Je cherche à lui être pareille, je me divise des milliers de fois en autant de fois que d’instants qui s’écoulent, fragmentaire que je suis et précaires les moments – je ne me compromets qu’avec la vie qui naît avec le temps et avec lui grandit: c’est seulement dans la temps qu’il y a de l’espace pour moi.
Je t’écris tout entière et je sens une saveur à être et ta saveur-à-toi est abstraite comme l’instant. C’est aussi avec tout le corps que je peins mês tableaux et sur la toile je fixe l’incorporel, moi corps à corps avec moi-même. La musique ne se comprend pas: s’entend. Entends-moi alors avec ton corps entier. Quand tu arriveras à me lire, tu demanderas pourquoi je ne m’en tiens pas à la peinture et à mês expositions, puisque j’écris rude et sans ordre. C’est que maintenant je sens la nécessité de mots – et c’est nouveau pour moi ce que j’écris parce que ma vraie parole est restée jusqu’à présent intouchée. La parole est ma quatrième dimension.
Aujourd’hui j’ai fini la toile dont je t’ai parlé: lignes rondes qui s’interpénètrent et traits fins et noirs, et toi, qui as l’habitude de vouloir savoir pourquoi – et le pourquoi ne m’intéresse pas, la cause est matière de passé –, tu demanderas pourquoi les traits noirs et fins? c’est à cause du même secret qui me fait maintenant écrire comme si c’était à toi, j’écris rond, emmêlé et tiède, mais parfois glacé comme les instants frais, eau du ruisseau qui toujours tremble de soi-même. Ce que j’ai peint sur cette est-il susceptible d’être phrasé en mots? Autant que peut être implicite la parole muette dans le son musical.
Je vois que jamais je ne t’ai dit comment j’écoute la musique – je pose légèrement la main sur l’électrophone et la main vibre répandant des ondes à travers tout le corps: ainsi j’entends l’électricité de la vibration, substrat ultime dans le domaine de la réalité, et le monde tremble dans mês mains.
Et voilà que je m’aperçois que je veux pour moi le substrat vibrant du mot répété en chant grégorien. Je suis consciente du fait que tout ce que je sais, je ne peux le dire, je ne sais qu’en peignant ou prononçant des syllables aveugles de sens. Et si je sois ici t’utiliser toi des mots, ils doivent faire un sens presque uniquement corporel, je suis en lutte avec la vibration ultime. Pour te dire mon substrat, je fais une phrase de mots uniquement faits des instants-déjà. Lis alors mon invention de pure vibration sans signifié hors celui de chaque syllable sibilante, lis ce qui suit maintenant: « au cours des siècles j’ai perdu le secret de l’Egypte, quand je me mouvais en longitude, latitude et altitude par l’action énergétique des électrons, protons, neutrons, dans la fascination qu’est la parole et son ombre ». Ceci, que je t’ai écrit, est un dessin électronique et n’a ni passé ni futur: c’est simplement déjà.
Je dois aussi t’écrire parce que ton champ est celui des paroles discursives et non le direct de ma peinture. Je sais qu’elles sont primaires mês phrases, j’écris avec trop d’amour pour elles et cet amour supplée aux fautes, mais trop d’amour nuit aux travaux. Ceci n’est oas un livre parce que se n’est pais ainsi qu’on écrit. Ce que j’écris n’est qu’un sommet? Mês jours ne sont qu’un sommet je vis au bord.
Lorsque j’écris je ne peux fabriquer comme en peinture, quand je fabrique artisanalement une couleur. Mais j’essaie de t’écrire avec tout le corps, envoyant une flèche qui se fiche au point tendre et névralgique du mot. Mon corps inconnu te dit: dinosaures, ichtyosaures et plésiosaures, avec un sens seulement auditif, sans qu’ils deviennent pour autant paille sèche, mais humide. Je ne peins pas de idées, je peins le plus intangible « pour toujours». Ou « à jamais», c’est la même chose. Avant tout, je peins la peinture. Et avant tout je t’écris la dure écriture. Je veux comme pouvoir prendre le mot avec la main. Le mot est un objet? Et des instants je tire le jus de fruit. Je dois me destituer pour atteindre cœur et semence de vie. L’instant est semence vivante.
L’harmonie secrète de la disharmonie: je veux, non ce qui est fait, mais ce qui tortueusement se fait encore. Mês mots déséquilibrés sont le luxe de mon silence. J’écris par pirouettes acrobatiques et aériennes – j’écris à cause de mon profond vouloir parler. Quoique écrire ne me donne que la grande mesure du silence.
Et si je dis « je » c’est parce que je n’ose pas dire « tu », ou « nous » ou « une personne ». Je suis obligée à l’humilité de me personnaliser, me rapetissant, mais je suis le es-tu.
Oui, je veux la parole ultime qui est aussi tellement première qu’elle se confond déjà avec la partie intangile du réel. J’ai encore peur de m’éloigner de la logique parce que je tombe dans l’instinctif et dans le direct, et dans le futur: l’invention de l’aujourd’hui est mon unique moyen d’instaurer le futur. Des déjà, c’est futur, et toute heure est l’heure dite. Quel mal y a-t-il pourtant à ce que je m’éloigne de la logique? Je travaille la matière première. Je suis derrière ce qui est derrière la pensée. Inutile de vouloir me classifier: je me dérobe simplement, sans laisser faire, le genre ne me saisit plus. Je suis dans un état tout à fait nouveau et vrai, curieux de soi-même, si attirant et personnel que je ne peux le peindre ni l’écrire. Cela ressemble à des moments que j’ai eus avec toi, quand je t’aimais, au-delà desquels je n’ai pu aller car j’ai été au fond des moments. C’est un état de contact avec l’énergie environnante et je frémis. Une espèce de folle, folle harmonie. Je sais que mon regard doit être celui d’une personne primitive qui s’abandonne tonte au monde, primitive comme les dieux qui n’admettent largement que le bien et le mal et ne veulent pas connaître le bien emmêlé comme écheveau au mal, mal qui est le bon.
Je fixe des instants subits qui portent en eux la propre mort et d’autres naissent – je fixe les instants de métamorphose et c’est d’une terrible beauté, leur séquence et concomitance.
Maintenant le jour se lève et l’aurore est de brume blanche sur les sables de la plage. Tout est à moi, alors. Je touche à peine aux aliments, je ne veux pas me réveiller au-delà du réveiller du jour. Je vais croissant avec le jour qui, de croître, me tue certain vague espoir et m’oblige à regarder face à face le dur soleir. Le vent souffle et dérange mês papiers. J’entends ce vent de cris, râle d’oiseau ouvert en vol oblique. Et moi ici, je m’oblige à la sévérité d’un langage tendu, je m’oblige à la nudité d’un squelette blanc qui est libre d’humeurs. Mais le squelette est libre de vie, et tant que je vis, je frémis toute. Je n’atteindrai pas la nudité finale. Et je ne la veux pas encore, semble-t-il.
Celle-ci est la vie vue par la vie. Je peux ne pas avoir de sens mais c’est le même manque de sens qu’a la veine qui bat.
Je veux t’écrire comme qui apprend. Je photographie chaque instant. J’approfondis les mots comme si je peignais, plus qu’un objet, son ombre. Je ne veux pas demander pourquoi, on peut demander toujours pourquoi et toujours continuer sans réponse: arriverai-je à m’abandonner au silence expectant qui suit une question sans réponse? Pourtant je devine que quelque part, ou en quelque temps, existe la grande réponse pour moi.
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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Agua Viva. Traduit du brésilien par Regina Helena de Oliveira Machado. Paris, Des Femmes, 1973. p. 9-25.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

LAÇOS DE FAMÍLIA




Autor: Clarice Lispector
Título: Laços de Família, Family Ties, Liens de Famille
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: Giovanni Pontiero(eng), Jacques et Teresa Thiériot(fra)
Data: 28/12/2004

LAÇOS DE FAMÍLIA

MISTÉRIO EM SÃO CRISTÓVÃO

Clarice Lispector

Numa noite de maio – os jacintos rígidos perto da vidraça – a sala de jantar de uma casa estava iluminada e tranqüila.
Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, achavam-se o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezenove anos. O sereno perfumado de São Cristóvão não era perigoso mas o modo como as pessoas se agrupavam no interior da casa tornava arriscado o que não fosse o seio de uma família numa noite fresca de maio. Nada havia de especial na reunião: acabara-se de jantar e conversava-se ao redor da mesa, os mosquitos em torno da luz. O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família: pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha estava se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância. Depois foi cada um para o seu quarto. A velha estendeu-se gemendo com benevolência. O pai e a mãe, fechadas todas as portas, deitaram-se pensativos e adormeceram. As três crianças, escolhendo as posições mais difíceis, adormeceram em três camas como em três trapézios. A mocinha, na sua camisola de algodão, abriu a janela do quarto e respirou todo o jardim com insatisfação e felicidade. Perturbada pela umidade cheirosa, deitou-se prometendo-se para o dia seguinte uma atitude inteiramente nova que abalasse os jacintos e fizesse as frutas estremecerem nos ramos – no meio de sua meditação adormeceu.
Passaram-se horas. E quando o silêncio piscava nos vaga-lumes – as crianças penduradas no sono, a avó ruminando um sonho difícil, os pais cansados, a mocinha adormecida no meio de sua meditação – abriu-se a casa de uma esquina e dela saíram três mascarados.
Um era alto e tinha a cabeça de uma galo. Outro era gordo e vestira-se de touro. E o terceiro, mais novo, por falta de idéias, disfarçara-se em cavalheiro antigo e pusera máscara de demônio, através da qual surgiam seus olhos cândidos. Os três mascarados atravessaram a rua em silêncio.
Quando passaram pela casa escura da família aquele que era um galo e tinha quase todas as idéias do grupo, parou e disse:
— Olha só.
Os companheiros, tornados pacientes pela tortura da máscara, olharam e viram uma casa e um jardim. Sentindo-se elegantes e miseráveis, esperaram resignados que o outro completasse o pensamento. Afinal o galo acrescentou:
— Podemos colher jacintos.
Os outros dois não responderam. aproveitaram a parada para se examinar, desolados e procurar um meio de respirar melhor dentro da máscara.
— Um jacinto para cada um pregar na fantasia, concluiu o galo.
O touro agitou-se inquieto à idéia de mais um enfeite a ter que proteger na festa. Mas, passado um instante em que os três pareciam pensar profundamente para resolver, sem que na verdade pensassem em coisa alguma – o galo adiantou-se, subiu ágil pela grade e pisou na terra proibida do jardim. O touro seguiu-o com dificuldade. O terceiro, apesar de hesitante, num só pulo achou-se no próprio centro dos jacintos, com um baque amortecido que fez os três aguardarem assustados: sem respirar, o galo, o touro e o cavalheiro do diabo perscrutaram o escuro. Mas a casa continuava entre trevas e sapos. E, no jardim sufocado de perfume, os jacintos estremeciam imunes.
Então, o galo avançou. Poderia colher o jacinto que estava à sua mão. Os maiores, porém, que se erguiam perto de uma janela – altos, duros, frágeis – cintilavam chamando-o. Para lá o galo se dirigiu na ponta dos pés, e o touro e o cavalheiro acompanharam-no. O silêncio os vigiava.
Mal porém quebrara a haste do jacinto maior, o galo interrompeu-se gelado. Os dois outros pararam num suspiro que os mergulhou em sono.
Atrás do vidro escuro da janela estava um rosto branco olhando-os.
O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro, quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infância e o seu horror. O rosto atrás da janela olhava.
Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados, eles se espiavam.
A simples aproximação de quatro máscaras na noite de maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante no jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no ar e na imanência de quatro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar – o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os quatro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de maio em São Cristóvão. Cada planta úmida, cada seixo, os sapos roucos aproveitaram a silenciosa confusão para se disporem em melhor lugar – tudo no escuro era muda aproximação. Caídos na cilada, eles se olhavam aterrorizados: fora saltada a natureza das coisas e as quatro figuras se espiavam de asas abertas. Um galo, um touro, o demônio e um rosto de moça haviam desatado a maravilha do jardim… Foi quando a grande lua de maio apareceu.
Era um toque perigoso para as quatro imagens. Tão arriscado que, sem um som, quatro mudas visões recuaram sem se desfitarem, temendo que no momento em que não se prendessem pelo olhar novos territórios distantes fossem feridos, e que, depois da silenciosa derrocada, restassem os jacintos – donos do tesouro do jardim. Nenhum espectro viu o outro desaparecer porque todos se retiraram ao mesmo tempo, vagarosos, na ponta dos pés. Mal, porém, se quebrara o círculo mágico de quatro, livres da vigilância mútua, a constelação se desfez com terror: três vultos pularam como gatos as grades do jardim, e um outro, arrepiado e engrandecido, afastou-se de costas até o limiar de uma porta, de onde, num grito, se pôs a correr.
Os três cavalheiros mascarados, que por idéia funesta do galo, pretendiam fazer uma surpresa num baile tão longe do carnaval, foram um triunfo no meio da festa já começada. a música interrompeu-se e os dançarinos, ainda enlaçados, entre risos, viram três mascarados ofegantes parar como indigentes à porta. Afinal, depois de várias tentativas, os convidados tiveram que abandonar o desejo de torná-los os reis da festa porque, assustados, os três não se separavam: um alto, um gordo e um jovem, um gordo, um jovem e um alto, desequilíbrio e união, os rostos sem palavras embaixo de três máscaras que vacilavam independentes.
Enquanto isso, a casa dosa jacintos iluminara-se toda. A mocinha estava na sala. A avó, com os cabelos brancos entrançados, segurava o copo d’água, a mãe alisava os cabelos escuros da filha, enquanto o pai percorria a casa. A mocinha nada sabia explicar: parecia ter dito tudo no grito. Seu corpo apequenara-se claro – toda a construção laboriosa de sua idade se desfizera, ela era de novo uma menina. Mas na imagem rejuvenescida de mais de uma época, para o horror da família, um fio branco aparecera entre os cabelos da fronte. Como persistisse em olhar em direção da janela, deixaram-na sentada a repousar, e, com castiçais na mão, estremecendo de frio nas camisolas, saíram em expedição pelo jardim.
Em breve as velas se espalhavam dançando na escuridão. Heras aclaradas se escolhiam, os sapos saltavam iluminados entre os pés, frutos se douravam por um instante entre as folhas. O jardim, despertado no sonho, ora se engrandecia, ora se extinguia; borboletas voavam sonâmbulas. Finalmente a velha, boa conhecedora dos canteiros, apontou o único sinal visível no jardim que se esquivava: o jacinto ainda vivo quebrado no talo… Então era verdade: alguma coisa sucedera. Voltaram, iluminaram a casa toda e passaram o resto da noite a esperar.
A mocinha aos poucos recuperou sua verdadeira idade. Somente ela não vivia a perscrutar. Mas os outros, que nada tinham visto, tornaram-se atentos e inquietos. E como o progresso naquela família era frágil produto de muitos cuidados e de algumas mentiras, tudo se desfez e teve que se refazer quase do princípio: a avó, de novo pronta, a se ofender, o pai e a mãe fatigados, as crianças insuportáveis, toda a casa parecendo esperar que mais uma vez a brisa da abastança soprasse depois de um jantar. O que sucederia talvez noutra noite de maio.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. “Mistério em São Cristóvão”. In: Laços de Família: contos. 11ª ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1979, p. 131-137.

MISTERY IN SÃO CRISTÓVÃO

From Family Ties

Clarice Lispector

On a autumn evening, with tall, erect hijacinths beside the windowpane, the dining room of a house was lit up and peaceful.

Around the table, motionless for a moment, the father, mother, grandmother, three children, and a slender nineteen-year-old girl. The cool perfumed night air of São Cristóvão members of the household were grouped inside the house precluded everything except an intimate family circle on such a cool May evening.

There was nothing special about the gathering: they had just had dinner and they sat talking round the table, while mosquitoes circled the light. What made the scene so particularly complete and the expression of everyone there so relaxed, was the fact that after many years one could almost feel, at long last, the progress of this family. Now, on this autumn evening, after dinner, here are the children who diligently attend school each day, the father who devotes himself to his business, the mother who for many years has been bearing children and doing the house work, the young girl who has been adapting herself to a delicate phase pf maturity, and the grandmother who has reached her old age. Without realizing it, the family gazed upon that room with deep satisfaction, watching the rare moment of May and its abundance.

Then each retired to his room. The old woman stretched herself out, sighing with benevolence. The father and mother, after locking up the house, lay down pensively and fell asleep. The three children, choosing the most awkward positions, slept in three beds, as on three trapezes. The young girl in her cotton nightdress opened her window and inhaled the whole garden, restless yet happy. Disturbed by the fragrant humidity, she lay down, promising herself a completely new outlook tomorrow which would shake the hyacinths and make the fruits tremble on the branches – and in the midst of her meditation she fell asleep.

The hours passed. And when the silence twinkled in the glow of fireflies – the children suspended in their sleep, the grandmother, pondering over a difficult dream, the parents fatigued, the young girl asleep in the midst of her meditation – the doors of a house on the corner opened and three masqueraders stepped out.

The first was tall and wore the head mask of a rooster. The second was fat and was dressed up as a bull. And the third, who was younger, for want of a better idea, had disguised himself as an ancient knight and wore a demon’s mask, trough which appeared two innocent eyes. The three masqueraders crossed the road in silence.
When they passed the house of our family, which was now in darkness, the man masquerading as a rooster (who invented nearly all the ideas for that trio) suddenly stopped and nudged his companions.

‘Just take a look.’

His companions, reduced to patience by the utter discomfort of their masks, obeyed him and saw a house with a garden. Feeling elegant, but miserable, they waited patiently for their leader to continue with what he had to say. Finally the rooster said, ‘We can gather hyacinths.’

The other two made no reply. They took advantage of their halt in order to examine, in discomfort, their appearance and to find some way of breathing more freely inside those masks.

‘A hyacinth for each of us to pin on to his costume’, the rooster conclused.

The bull fidgeted nervously at the idea of yet another decoration to keep an eye on during the festivities. But, after a moment in which the three of them seemed to be deeply absorved in reaching a decision, without, in fact, deciding anything, the rooster strode ahead, gingerly climbed over the railings, and stepped on to the forbidden territory of the garden. The bull followed him with some difficulty. But the knight, although hesitant, with one mighty leap landed right among the hyacinths with a dull thud that riveted all three of them to the spot in terror. Too frightened to breathe, the rooster, the bull, and the demon knight scrutinized the darkness. But the house remained among shadows and toads. And in the garden, suffused with perfume, the hyacinths trembled unconcerned.

Then the rooster advanced. He could pick the hyacinth that was within his reach. The larger flowers, however, which grew beside a window – tall, brittle, fragile – stood glittering and beckoned to him. On tiptoe, the rooster made his way toward them, the bull and the knight following behind. The silence kept watch over them.

But just as he was on the point of breaking the stalk of the largest hyacinth, the rooster froze in his tracks. The other two halted with a sigh that plunged them into sleep.

Behind the dark glass of the window a white face was watching them.

The rooster had frozen in the gesture of plucking the hyacinth. The bull remained with his hands still uplifted. The knight, ashen under his mask, became a little boy again confronting the fears of his childhood. The face behind the window steadily watched them.

None of the four would ever know which was the punishment of the other. The hyacinths gradually seemed to become whiter in the darkness.

Paralysed, the masqueraders stood peering at each other. The simple encounter of four masks on that autumn evening seemed to have touched deep recesses, then others, and still others which, had it not been for the moment in the garden, would have remained forever with this perfume which is in the air and in the immanence of those four natures which fate had designated, assignig the hour and place – the same precise fate of a falling star. These four, having come from reality, ahd become subject to the possibilities an autumn evening possesses in São Cristóvão. Each humid plant, each pebble, the hoarse toads – all of them exploiting the silent chaos in order to arrange themselves in a better spot – everything in that darkness silently approached. Having fallen into the ambush, they looked at each other in fear: the nature of things had been surprassed and the four figures spied each other with open wings. The rooster, the bull, the demon, and the girl’s face had unravelled the marvels of the garden. That was when the great May moon appeared.

It was a dangerous moment for the four images. So fraught with danger that, without a murmur, the four mute apparitions retreated without taking their eyes off each other, fearing that the moment they no longer held each other in their gaze, new remote territories would be ravaged, and that after their silent defeat the hyacinths would remain in possession of the garden’s treasure. No spectre saw the other disappear because they all withdrew at the same time, slowly, on tiptoe. No sooner, however, had the magic circle of the four been broken, liberated from their mutual vigilance, than the stars dissolved in terror. Three figures sprang like cats over the garden railings, and another, petrified and enlarged, drew away backward as far as the threshold of a doorway, where, screaming, it started to run.

The three masked gentlemen who, at the rooster’s fatal suggestion, animed to cause some surprise at a ball in a season so remote from Carnival, caused a sensation in the midst of the festivities that were already under way. The band stopped playing and the dancers, still holding their partners, saw, among peals of laughter, three breathless masqueraders fumble like beggars in the entrance. Finally, after sveral attempts, the guests ahd to abandon the idea of making them the main attraction of the evening, because in their terror the masqueraders refused to let go of one another: the tall one, the fat one, the young one, the fat one, the young one, the tall one, contrast and unity, their sppechless faces beneath three masks which faltered independently.

Meanwhile, the house of the hyacinths was now all lit up. The young girl was sitting in the hall. The grandmother, with her withe hair in braids, held a glass of water, her hand smoothing the girl’s dark hair while the father chased through the house. The young girl was unable to explain: she appeared to have said everything with her scream. Her face grew small and bright – the whole laborious structure of her years had dissolved and she was a child once more. But in her rejuvenated image, to the horror of the family, a white strand had appeared among the hairs on her forehead. Since she persisted in staring in the direction of the window, they left her to rest and, armed with candlesticks and shivering with cold in their nightgowns, they went out to explore the garden.

Soon the candles scattered, dancing in the darkness. The ivy plants exposed to light immediately curled up, the toads illuminated, jumped among their feet, fruits were golden for a second among the leaves. The garden, aroused from a dream, now seemed to expand, now to fade away; butterflies hovered like sleepwalkers. Finally, the old lady, long familiar with the flowerbeds, pointed to the only visible sign in the garden that shunned discovery: the hyacinth – still alive but with its stalk broken… Then it was true: something had happened. They returned indoors, put on all the lights in the house, and spent the rest of the night – waiting.

Only the three children continued to sleep ever more soundly; the young girl gradually recovered her true years. She alone did not continue to look for something. But the others, who had seen nothing, became watchful and unsettled. And since the progress in that family was the fragile product of many solicitudes and some deceptions, everything dissolved and had to be restored almost from the beginning: the grandmother once again quick to take offence, the father and mother fatigued, the children intolerable, the whole house appearing to lie in wait for that breeze of plenitude to blow once more after dinner. Perhaps it would happen some other autumn evening.

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Fonte: Lispector, Clarice. “Mistery in São Cristóvão”. In: Family Ties. Translated with an afterword by Giovanni Pontiero. Manchester [Inglaterra]: Carcanet, 1985. 140p. p. 108-13.

LIENS DE FAMILLE

MYSTÈRE A SÃO CRISTOVÃO

Clarice Lispector

Une nuit de mai – les jacinthes rigides derrière les carreaux – la sale à manger d’une maison était éclairée et tranquille.
Autour de la table, pour un instant figés, se trouvaient le père, la mère, la grand-mère, trois enfants et une jeune fille maigre de dix-neuf ans. Le serein parfumé de São Cristovão n’était pas dangereux mais leur façon de se grouper à l’intérieur de la maison faisait courir un risque à ce qui n’aurait pas été le sein d’une famille par une nuit fraîche de mai. Il n’y avait rien de particulier dans cette réunion: on avait fini de dîner et on bavardait autour de la table, les moustiques autour de la lumière. Ce qui rendait cette scène singulièrement abondante et si épanoui le visage de chacun, c’est qu’après bien des années, finalement on palpait pour ainsi dire le progrès de cette famille: car par une nuit de mai, après le dîner, voyez: les enfants sont allés tous les jours à l’école, le père fait marcher ses affaires, la mère a travaillé durant des années à ses accouchements et à sa maison, l’adolescente trouve son équilibre dans la grâce de son âge et la grand-mère a atteint un palier. Sans s’en rendre compte, la famille contemplait la pièce heureuse, attentive à ce rare instant de mai et à son abondance.
Ensuite chacun gagna sa chambre. La vieille s’étendit en gémissant de bon gré. Le père et la mère, une fois fermées toutes les portes, se couchèrent pensifs et s’endormirent. Les trois enfants, après avoir choisi les positions les plus acrobatiques, s’endormirent chacun dans son lit comme sur un trapeze. L’adolescente, dans sa chemise de nuit en coton, ouvrit la fenêtre de sa chambre et respira tout le jardin, insatisfaite et heureuse. Troublée par l’humidité odorante, elle se coucha en se promettant pour le lendemain une attitude entièrement nouvelle qui fléchirait les jacinthes et ferait frémir les fruits sur les branches – au milieu de sa méditation, elle s’endormit.
Des heures passèrent. Et alors que le silence clignotait dans les lucioles – les enfants suspendus au sommeil, la grand-mère ruminant un rêve difficile, les parents fatigués, l’adolescente endormie au milieu de sa méditation –, la maison du coin de la rue s’ouvrit et il en sortit trois personnages déguisés.
L’un était grand et avait une tête de coq. Le deuxième était gros et s’était travesti en taureau. Et le troisième, plus jeune, par manque d’imagination, s’était déguisé en chevalier d’autrefois et avait mis un masque de diable à travers lequel apparaissaient ses yeux candides. Les trois personnages parcoururent la rue en silence.
Quand ils arrivèrent devant la maison obscure de la famille, celui qui était un coq et qui prenait presque toutes les initiatives de la bande s’arrêta et dit:
— Regardez!
Ses compagnons, rendus patients par la torture du masque, regardèrent et virent une maison et un jardin. Se sentant élégants et misérables, ils attendirent résignés que l’autre compléte sa pensée. Finalement le coq ajouta:
— Et si on cueillait des jacinthes?
Les deux autres ne répondirent pas. Ils profitaient de la halte pour s’examiner, déconfits, et chercher un moyen de mieux respirer sous leur masque.
— Une jacinthe chacun, que nous épinglerons à notre costume, conclut le coq.
Le taureau s’agita, inquiet à l’idée d’avoir un affiquet de plus à protéger dans la fête. Mais, passé l’instant où ils donnèrent l’impression de réfléchir profondément avant de se décider – même si en réalité ils ne pensaient à rien –, le coq s’avança, franchit avec agilité la grille et foula la terre interdite du jardin. Le taureau le suivit, non sans mal. Le troisième, encore qu’hésitant, d’un seul bond se retrouva au beau milieu des jacinthes, et le bruit amorti de sa chute les cloua de peur, sur le qui-vive: retenant leur souffle, le coq, le taureau et le chevalier du diable scrutèrent l’obscurité. Mais la maison continuait, veillée par les ténèbres et les crapauds. Et dans le jardin suffoqué de parfum, les jacinthes frémissaient, intouchables.
Alors le coq avança. Il aurait pu cueillir la jacinthe qui était à sa portée. Les plus grandes, toutefois, qui se dressaient devant une fenêtre – hautes, dures, fragiles –, l’appelaient de leur scintillement. Le coq s’en approcha sur la pointe des pieds, le taureau et le chevalier sur ses talons. Le silence les guettait.
A peine le coq eut-il cassé la hampe de la plus grande jacinthe qu’il dut s’interrompre, glacé. Les deux autres s’arrêtèrent avec un soupir qui les ensommeilla.
Derrière la vitre opaque de la fenêtre apparaissait un visage blanc qui les regardait.
Le coq s’était pétrifié dans le geste de casser la jacinthe. Le taureau avait gardé les mains en l’air. Le chevalier, exsangue sous son masque, avait rajeuni jusqu’à retrouver l’enfance et son hourreur. Le visage derrière la fenêtre regardait.
Aucun des quatre n’aurait su dire qui était le châtiment de l’autre. Les jacinthes de plus en plus blanches dans l’obscurité. Paralysés, ils s’epiaient.
Le simple rapprochement de quatre masque das la nuit de mai semblait avoir percuté des enceintes creuses, et d’autres, d’autres encore qui, sans cet instants dans le jardin, seraient restées à jamais dans le parfum qu’il y avait dans l’air et l’immanense de quatre natures que le hasard avait désignées, indiquant l’heure et le lieu – le même hasard précis d’une étoile filante. Tous quatre, venus de la réalité, étaient tombés dans les possibilités que recèle une nuit de mai à São Cristovão. Chaque plante humide, chaque caillou, les crapauds enroués profitaient de la silencieuse confusion pour se disposer à une meilleure place – tout dans le noir était un rapprochement muet. Tombés dans le piège, ils se regardaient terrorisés: la nature des choses avait été dépassée et les quatre figures se dévisageaient, ailes ouvertes. Un coq, un taureau, le diable et un visage de jeune fille avaient dénoué la merveille du jardin… C’est alors que la grande lune de mai apparut.
Être touché par sa clarté était dangereux pour les quatre images, si risqué que, sans le moindre son, quatre oisions muettes reculèrent sans se quitter des yeux, de crainte que, au moment où elles ne se lieraient plus par le regard, de nouveaux territoires lointains ne fussent blessés, laissant ainsi, après la silencieuse déroute, les jacinthes maîtresses du trésor du jardin. Aucun spectre n’en vit un autre disparaître car tous se retirèrent au même moment, lentement, sur la pointe des pieds. Cependant, à peine brisé le cercle magique des quatre, libérés de leur surveillance mutuelle, la constellation se défit sous le coup de la terreur: trois silhouettes sautèrent comme des chats les grilles du jardin et une autre, horripilée et grandie, s’écarta et gagna à reculons le seuil d’une porte d’où, poussant un cri, elle se mit à courir.
Les trois chevaliers masqués qui, selon une idée funeste du coq, prétendaient causer la surprise dans ce bal si éloigné du carnaval, furent accueillis triomphalement dans la fête déjà commencée. La musique s’arrêta et les danseurs, encore enlacés, parmi des rires, virent trois personnages masqués, pantelants, se planter comme des mendiants à la porte. Alors les invités voulurent en faire les rois de la fête, mais après plusieurs vaines tentatives finirent par y renoncer parce que le trio, encore sous le coup de la frayeur, ne se défaisait pas: un grand, un gros et un jeune, un gros, un jeune et un grand, déséquilibre et union, les visages sans mots derrière trois masques qui oscillaient indépendamment.
Pendant ce temps, toute la maison des jacinthes s’était éclairée. L’adolescent était assise dans le salon. La grand-mère, avec ses cheveux blancs nattés, tenait un verre d’eau, la mère lissait les cheveux noirs de sa fille, tandis que le père parcourait la maison. L’adolescente était incapable d’expliquer: apparemment elle avait tout dit dans son cri. Son visage s’était rapetissé, éclairci. Toute la construction laborieuse de son âgé écroulée, elle était de nouveau une petite fille. Mais dans l’image rajeunie de bien d’autres époques, aux yeux horrifiés de la famille, un fil blanc était apparu dans sa frange. Comme elle n’arrêtait pas de regarder du côté de la fenêtre, ils la laissèrent se reposer, assise, et, des chandeliers à la main, grelottant de froid dans leurs chemises de nuit, ils sortirent en expédition dans le jardin.
Très vite les bougies s’éparpillèrent en dansant dans le noir. Des lierres éclairés se recroquevillaient, les crapauds révélés par la lumière sautaient entre les pieds, des fruits se doraient un instant parmi les feuilles. Le jardin, réveillé en plein rêve, tantôtgrandissait, tantôt s’éteignait. Des papillons voltigeaient, somnambules. Finalement l’aïeule, qui connaissait bien les parterres, montra la seule trace visible dans le jardin qui se dérobait: la jacinthe encore vivante cassée sur la tige… C’était donc vrai: quelque chose s’était passé. Ils rentrèrent, illuminèrent toute la maison et vécurent le reste de la nuit à attendre.
Seuls les trois enfants dormaient encore plus profondément.
L’adolescente peu à peu retrouva son âge véritable. Elle fut la seule à ne plus passer sa vie à scruter. Mais les autres, qui n’avaient rien vu, devinrent attentifs et inquiets. Et comme le progrès dans cette famille était le fragile produit de multi ples précautions et de quelques mensonges, tout se défit et dut se refaire presque du début: la grand-mère encore une fois prête à se vexer, le père et la mère fatigués, les gosses insupportables, toute la maison avait l’air d’attendre qu’une fois de plus la brise de l’abondance souffle après un dîner. Ce qui arriverait peut-être une autre nuit de mai.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. “Mystère a São Cristovão”. In: Liens de Famille. Traduits du brésilien par Jacques et Teresa Thiériot. Paris, Des Femmes, 1989, p. 175-183.

 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O lustre




Autor: Clarice Lispector
Título: O lustre, Le Lustre
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jacques et Teresa Thiériot (fra)
Data: 28/12/2004

LE LUSTRE: ROMAN

Clarice Lispector

 

Elle serait fluide toute sa vie durant. Mais ce qui avait accusé ses contours et les avait attirés vers un centre, ce qui l’avait illuminée contre le monde et lui avait donné un intime pouvoir, ç’avait été le secret. Secret auquel elle ne saurait jamais penser en termes clairs, de crainte d’envahir et de dissoudre son image. Et qui pourtant avait cristallisé au plus profond d’elle-même un noyau lointain et vivant et jamais n’avait perdu sa magie – l’alimentant dans son flou insoluble comme la seule réalité qui à ses yeux devrait toujours être perdue. Debout sur le pont fragile, tous deux se penchaient sur la rivière et Virginia, inquiète, se sentait flageoler comme si ses pieds nus flottaient sur les remous calmes des eaux. C’était un jour sec et violent, fait de larges aplats; les arbres grinçaient au vent tiède crispé par de brusques refroidissements. Sa robe mince et déchirée de gamine était traversée par des frissons d’air frais. La bouche sérieuse, pressée sur la branche morte du pont, Virginia plongeait ses yeux distraits dans le eaux. Soudain elle se figea, tendue et légère:
? Regarde!
Daniel avait tourné rapidement la tête – accroché à une pierre, un chapeau trempé, alourdi et foncé par l’eau, que le flux de la rivière essayait brutalement d’entraîner, et qui résistait. Jusqu’à ce qu’il perdît ses dernières forces, et, emporté par le courant rapide, disparût en tressautant dans les bouillons d’écume, content eût-on dit. Ils hésitaient, sous le coup de la surprise.
? Nous ne pouvons en parler à personne, finit par chuchoter Virginia, d’une voix distante et vertigineuse.
? Oui…, même son frère avait eu peur, il acquiesçait… et les eaux continuaient leur course. Même si on nous questionne à propos du noy…
? Oui, faillit crier Virginia… Et ils se turent de toutes leurs forces, les yeux écarquillés et farouches.
? Virginia…, dit Daniel, lentement, avec une crudité qui rendait son visage tout auguleux, je vais jurer.
? Oui… mon Dieu, mais on jure toujours…
Daniel réfléchissait tout en la regardant et elle ne bougeait pas son visage, dans l’attente qu’il trouvât en elle la réponse.
? Par exemple… que tout ce que nous sommes… se change en rien… si on en parle à quelqu’un.
Il avait dit des mots si graves, si beaux, la rivière roulait, la rivière roulait. Les feuilles couvertes de pousière, les feuilles épaisses et humides des berges, la rivière roulait. Elle voulut répondre et dire oui, oh oui! ardemment, presque heureuse, en riant malgré ses lèvres sèches… mais elle ne pouvait parler, elle ne savait plus respirer, tant elle était troublée. Les pupilles dilatées, le visage soudain étréci et décoloré, précautionneusement elle fit un signe d’assentiment de la tête. Daniel s’écarta, Daniel s’éloignait. Non! Elle voulait crier et lui dire de l’attendre, de ne pas la laisser seule sur la riivère, mais il continuait. Le cœur battant dans un corps subitement vidé de son sang, le cœur débridé, tombant furieusement, les eaux qui couraient, elle essaya d’entrouvrir ses lèvres, de souffler ne fût-ce qu’un mot blafard. Tel le cri impossible, dans un cauchemar, aucun son ne s’entendit et les nuages glissaient, véloces dans le ciel, vers un destin. Sous ses pieds les eaux murmuraient – et en proie à une claire hallucination elle pensait: ah oui, ainsi donc elle allait tomber et se noyer, ah oui. Quelque chose d’intense et de livide comme le terreur mais de triomphant, une certaine joie folle et attentive emplissait à présent son corps et elle s’attendait à mourir, la main crispée comme pour toujours sur la branche du pont. Alors Daniel se retourna:
? Viens, dit-il l’air étonné.
Elle le regarda du fond tranquille de son silence.
? Viens, espèce d’idiote, répéta-t-il en colère.
Un temps mort étira longuement les choses. Elle et Daniel étaient deux points silencieux et immobiles à jamais. Mais je suis déjà morte, semblait-elle penser tandis qu’elle se déprenait du pont comme si elle en avait été coupée par une faux. Je suis déjà morte, répétait sa pensée, et sur des pieds étranges son visage blanc courait lourdement vers Daniel.
Une fois sur la route – son sang s’était remis à pulser régulièrement dans ses veines –, ils s’éloignèrent en marchant rapidement, côte à côte. Dans la poussière, on voyait la trace hésitante de l’unique automobile de Brejo Alto. Sous le ciel lustré le jour vibrait en ce dernier moment avant la nuit, dans le sentiers et dans les arbres le silence se concentrait, lourd de touffeur – elle sentait sur son dos les derniers rayons tièdes du soleir, les nuages épais d’un or intense. Pourtant il régnait un vague froid, comme venu du boqueteau déjà plongé dans l’ombre. Ils regardaient devant eux le corps élancé – il y avait une menace de transition dans l’air qu’ils respiraient… L’instant suivant allait apporter un cri et quelque chose confusément se détruirait, ou bien la nuit légère calmerait soudain cette existence excessive, fruste et solitaire.
Ils avançaient à grands pas. Un parfum flottait qui dilatait le cœur. Les ombres peu à peu couvraient le chemin et quand Daniel poussa le lourd portail du jardin, la nuit reposait déjà. Les lucioles trouaient la pénombre de points livides. Ils s’arrêtèrent un moment dans le noir, indécis, avant de se mêler à ceux qui ne savaient pas, échangèrent un regard comme pour la dernière fois.
? Daniel, murmura Virginia, même à toi je ne peux pas en parler?
? Non, dit-il, surpris par sa propre réponse.
Ils hésitèrent un instant, délicats, paisibles. Non, non!… elle disait non à la peur qui s’approchait, comme pour gagner du temps avant de se précipiter. Non, non, disait-elle en évitant de regarder à l’entour. La nuit était tombée, la nuit était tombée. Ne pas se précipiter! Mais soudain quelque chose ne se contint plus et commença d’arriver. Oui, là même allaient se lever les vapeurs de l’aube maladive, pâle, comme la fin d’une douleur – Virginia les voyait, saisie d’un calme soudain, soumise et pensive. Chaque branche sèche se cacherait sous une luminosité d caverne. Cette terre au-delà des arbres, castrée en bourgeon par le brûlage, apparaîtrait à travers le brouillard mou, noircie et difficile comme à travers un passé – elle la voyait maintenant paisible et inexprenssive, comme privée de mémoire. L’homme mort glisserait pour la dernière fois entre les arbres endormis et glacés. Telles des heures sonnant au loin, Virginia sentirait sur son corps le toucher de sa présence, elle se lèverait de son lit très lentement, sûre et aveugle comme une somnambule, et dans son cœur un point pulserait faiblement, presque défaillant. Elle lèverait la vitre de la fenêtre à guillotine, les poumons envahis par la brume froide. Plongeant son regard dans le noir aveuglant, ses sens frémissant dans l’’space glacé et coupant, elle ne percevrait rien sinon la quiétude ombreuse, les branches tordues et immobiles… la longue étendue perdant ses limites dans un soudain et insondable brouillard – la était la limite du monde posible! Alors, fragile comme un souvenir, elle entreverráit la tache fatiguée du noyé s’éloigner, disparaître et réapparaître parmi des brumes, plonger enfin dans la blancheur. Pour toujours! soufferait l’ample vent dans les arbres. Elle l’appellerait, presque sans voir: eh l’homme, vous, l’homme! pour le retenir, pour le ramener! Mais c’était pour toujours et même si Granja Quieta s’étiolait et que de nouvelles terres surgissent indéfiniment, jamais cet homme ne reviendra, Virginia, jamais, jamais, Virginia. Jamais. Elle s’arracha de la somnolence où elle avait glisée, ses yeux acquirent une vie perspicace et chatoyante, des exclamations contenues lancinaient dans sa poitrine étrécie, l’incompréhension ardue et asphyxiée précipait son cœur dans le noir de la nuit. Je ne veux pas que la chouette ulule, se cria-t-elle dans un sanglot muet. Mais la chouette aussitôt émit un chuintement noir sur une blanche. Elle sursauta – n’avait-elle pas ululé avant sa pensée? Ou au même instant? Je ne veux pas entendre les arbres, disait-elle en tâtonnant en elle-même, en avançant stupéfaite. Et les arbres, sous l’effet d’un coup de vent subit, bougeaient avec une rumeur lente de vie étrange et haute. Ou bien n’avait-ce pas été un pressentiment? s’implorait-elle. Je ne veux pas que Daniel bouge. Mais Daniel bougeait. Le souffle léger, dotée d’une ouïe nouvelle et surprise, elle semblait capable de pénétrer les choses, de s’en évader en silence comme une ombre, faible et aveugle, elle sentait la couleur et le son de ce qui était sur le point d’arriver. Elle avançait, tremblante, devant elle-même, elle volait avec ses sens en avant, traversant l’air tendu et parfumé de cette nuit nouvelle. Je ne veux pas que l’oiseau vole, se disait-elle à présent, avec dans sa poitrine une quase-lumière malgré sa terreur, et par une perception lasse et difficile, elle pressentait les mouvements à venir des choses juste un instant avant qu’ils ne résonnent. Et, l’eût-elle voulu, elle dirait: je ne veux pas entendre le roulement de la rivière, il n’y avait à proximité aucune rivière mais elle entendrait ses pleurs assourdis sur de petites pierres… et maintenant… maintenant oui!…
? Virginia! Daniel!
Pêle-même tout se précipitait, affolé et obscur, l’appel de leur mère sourdait du fond de la demeure et faisait surgir entre eux une nouvelle présence. La voix n’avait pas alteré le silence de la nuit mais avait réparti son obscurité comme si le cri avait été un éclair blanc. Avant d’avoir conscience de ses mouvements, Virginia se retrouva à l’intérieur de la maison, derrière la porte refermée. Le salon, l’escalier se perdaient dans un silence sombre et indistinct. Les flammes des lampes à huile vacillaient, épuisées par le souffle insistant et muet du vent qui les mouvait. A ses côtés se trouvait Daniel, les lèvres exsangues, dures et ironiques. Dans la quiétude de la Granja un cheval en liberté foulait lentement les herbes de ses pattes fines. Dans la cuisine on remuait des couverts, le son subit d’une cloche et le pas d’Esmeralda traversèrent rapidement une chambre… La lampe allumée vacillait calmement, l’escalier endormi respirait. Alors – ce n’était ni de soulagement ni d’avoir mis fin à la frayeur, mais en soi inexplicable, vivant et mystérieux – alors elle sentit une longue clarté, un haut instant ouvert en elle-même. Caressant de ses doigts froids la vieille bâde de la porte, elle entrouvrit les yeux, tout en souriant malicieusement, profondément satisfaite.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Le Lustre: roman. Traduit du brésilien par Jacques et Teresa Thiériot. Paris, Des Femmes, 1990. p. 7-13.

O LUSTRE: ROMANCE

 

Clarice Lispector

Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo. Nunca saberia pensar nele em termos claros temendo invadir e dissolver a sua imagem. No entanto ele formara no seu interior um núcleo longínquo e vivo e jamais perdera a magia – sustentava-a na sua vaguidão insolúvel como a única realidade que para ela sempre deveria ser a perdida. Os dois se debruçavam sobre a ponte frágil e Virgínia sentia os pés nus vacilarem de insegurança como se estivessem soltos sobre o redemoinho calmo das águas.
Era um dia violento e seco, em largas cores fixas; as árvores rangiam sob o vento morno crispado de céleres friagens. O vestido ralo e rasgado de menina era atravessado por estremecimentos de frescura. A boca séria premida contra o galho morto da ponte, Virgínia mergulhava os olhos distraídos nas águas. De súbito imobilizara-se tensa e leve:
– Olhe!
Daniel voltara a cabeça rapidamente – preso a uma pedra estava um chapéu molhado, pesado e escuro de água. O rio correndo arrastava-o com brutalidade e ele resistia. Até que perdendo a última força foi levado pela correnteza ligeira e em saltos sumiu entre espumas quase alegre. Eles hesitavam surpresos.
– Não podemos contar a ninguém, sussurrou finalmente Virgínia, a voz distante e vertiginosa.
– Sim… – mesmo Daniel se assustara e concordava… as águas continuavam correndo – Nem que nos perguntem sobre o afog…
– Sim! quase gritou Virgínia… calaram-se com força, os olhos engrandecidos e ferozes.
– Virgínia…, disse o irmão devagar numa crueza que deixava seu rosto cheio de ângulos, vou jurar.
– Sim… meu Deus, mas sempre se jura…
Daniel pensava olhando-a e ela não movia o rosto à espera de que ele encontrasse nela a resposta.
– Por exemplo… que tudo o que a gente é… vire nada… se a gente falar disso a alguém.
Ele falara tão grave, ele falara tão belo, o rio rolava, o rio rolava. As folhas cobertas de poeira, as folhas espessas e úmidas das margens, o rio rolava. Quis responder e dizer que sim, que sim! ardentemente, quase feliz, rindo com os lábios secos… mas não podia falar, não sabia respirar; como perturbava. Com os olhos dilatados, o rosto de súbito pequeno e sem cor, ela assentiu cautelosamente com a cabeça. Daniel afastou-se, Daniel afastava-se. Não! queria ela gritar e dizer que esperasse, que não a deixasse sozinha sobre o rio; mas ele continuava. O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furiosamente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra pálida que fosse. Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino. Sob os seus pés rumorejavam as águas – numa clara alucinação ela pensava: ah sim, então ia cair e afogar-se, ah sim. Alguma coisa intensa e lívida como o terror mas triunfante, certa alegria doida e atenta enchia-lhe agora o corpo e ela esperava para morrer, a mão cerrada como para sempre no galho da ponte. Daniel voltou-se então.
– Vem, disse ele surpreendido.
Ela olhou-o do fundo tranqüilo de seu silêncio.
– Venha, sua idiota, repetiu ele colérico.
Um instante morto estendeu longamente as coisas. Ela e Daniel eram dois pontos quietos e imóveis para sempre. Mas eu já morri, parecia pensar enquanto se desprendia da ponte como se dela fosse cortada como uma foice. Eu já morri, ainda pensava e sobre pés estranhos seu rosto branco corria pesadamente até Daniel.
Andando pela estrada, o sangue voltara a bater com ritmo nas suas veias, eles se adiantavam depressa, juntos. Na poeira via-se a marca hesitante do único automóvel de Brejo Alto. Sob o céu brilhante o dia vibrava no seu último momento antes da noite, nos atalhos e nas árvores o silêncio se concentrava pesado de mormaço – ela sentia nas costas os últimos raios mornos de sol, as nuvens grossas tensamente douradas. Fazia um vago frio no entanto, como se viesse do bosque em sombra. Eles olhavam para a frente o corpo aguçado –, havia uma ameaça de transição no ar que se respirava… o próximo instante traria um grito e alguma coisa perplexamente se destruiria, ou a noite leve amansaria de súbito aquela existência excessiva, bruta e solitária. Eles caminhavam rápidos. Fazia um perfume que dilatava o coração. As sombras iam aos poucos cobrindo o caminho e quando Daniel empurrou o pesado portão do jardim a noite repousava. Os vagalumes abriam pontos lívidos na penumbra. Pararam um momento indecisos na escuridão antes de se misturarem aos que não sabiam, olhando-se como pela última vez.
– Daniel…, murmurou Virgínia, nem com você eu posso falar?
– Não, disse ele surpreendido com a própria resposta.
Hesitaram um instante, delicados, quietos. Não, não!…, negava ela o medo que se aproximava, como para ganhar tempo antes de se precipitar. Não, não, dizia evitando olhar ao redor. A noite descera, a noite descera. Não se precipitar! mas de repente algo não se conteve e principiou a suceder… Sim, ali mesmo iam-se erguer os vapores da madrugada doentia, pálida, como um fim de dor – enxergava Virgínia de súbito calma, submissa e absorta. Cada galho seco se esconderia sob uma luminosidade de caverna. Aquela terra além das árvores, castrada nos brotos pela queimada seria vista através da mole neblina, enegrecida e difícil como através de um passado – via ela agora quieta e inexpressiva como sem memória. O homem morto deslizaria pela última vez entre as árvores adormecidas e geladas. Como horas soando de longe, Virgínia sentiria no corpo o toque de sua presença, levantar-se-ia da cama vagarosamente, sábia e cega como uma sonâmbula, e dentro de seu coração um ponto pulsaria fraco, quase desfalecido. Ergueria a vidraça da janela, os pulmões envolvidos pela névoa fria. Mergulhando os olhos na cegueira da escuridão, os sentidos pulsando no espaço gelado e cortante; nada perceberia senão a quietude em sombra, os galhos retorcidos e imóveis… a longa extensão perdendo os limites em súbita e insondável neblina – lá estava o limite o mundo possível! Então, frágil como uma lembrança, vislumbraria a mancha cansada do afogado afastando-se, sumindo e reaparecendo entre brumas, mergulhando enfim na brancura. Para sempre! sopraria o largo vento nas árvores. Ela chamaria quase muda: homem, mas homem!, parece retê-lo, para trazê-lo de volta! Mas era para sempre, Virgínia, ouça, para sempre e mesmo que Granja Quieta murche e novas terras surjam indefinidamente jamais o homem voltará, Virgínia, jamais, jamais, Virgínia. Jamais. Sacudiu-se do sono em que deslizara, os olhos ganharam uma vida perspicaz e cintilante, exclamações contidas doíam no seu peito estreito; a incompreensão árdua e asfixiada precipitava seu coração no escuro da noite. Não quero que a coruja pie, gritou-se num soluço sem som. E a coruja imediatamente piou negro num galho. Sobressaltou-se – ou piara antes de seu pensamento? ou no mesmo instante? Não quero ouvir as árvores, dizia-se tateando dentro de si própria, avançando estupefata. E as árvores a um súbito vento mexiam-se num rumor vagaroso de vida estranha e alta. Ou não fora um pressentimento? implorava-se ela. Não quero que Daniel se mova. E Daniel movia-se. A respiração leve, os ouvidos novos e surpresos, ela parecia poder penetrar e fugir das coisas em silêncio como uma sombra; fraca e cega, sentia a cor e o som do que quase sucedia. Avançava trêmula adiante de si mesma, voava com os sentidos para a frente atravessando o ar tenso e perfumado da noite nova. Não quero que o pássaro voe, dizia-se agora quase uma luz no peito apesar do terror, e numa percepção cansada e difícil pressentia os movimentos futuros das coisas um instante antes deles soarem. E se quisesse diria: não quero ouvir o rolar do rio, e não havia perto nenhum rio mas ela ouviria seu choro surdo sobre pequenas pedras… e agora… agora… sim…!
– Virgínia! Daniel!
Em confusão tudo se precipitava assustado e escuro, o chamado da mãe brotava dos fundos do casarão e rebentava entre os dois numa nova presença. a voz não alterara o silêncio da noite mas repartira sua escuridão como se o grito fosse um raio branco. Antes que tivesse consciência de seus movimentos, Virgínia achou-se dentro de casa, atrás da porta cerrada. A sala, a escadaria estendiam-se em silêncio indistinto e sombrio. Os candeeiros acesos vacilavam no fio sob o vento prolongado movimento mudo. Ao seu lado estava Daniel, os lábios exangues, duros e irônicos. Na quietude da Granja algum cavalo solto movia vagaroso as ervas com pernas finas. Na cozinha mexiam em talheres, um súbito som de sino e os passos de Esmeralda atravessaram rapidamente um quarto… o candeeiro aceso vacilando calmo, a escadaria dormente respirando. Então – não era de alívio nem de fim de susto, mas em si mesmo inexplicável, vivo e misterioso – então ela sentiu um longo claro, alto instante aberto dentro de si. Alisando com os dedos frios a velha aldraba da porta, entrecerrou os olhos sorrindo com malícia e profunda satisfação.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. O Lustre: romance. 8ª. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992. p. 7-12.





Bio fornecida pelo palestrante.

ONDE ESTIVESTES DE NOITE




Autor: Clarice Lispector
Título: Onde estivestes de noite, Ou étais-tu pendant la nuit ?
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevieve Leibrich et Nicole Biros(fra)
Data: 28/12/2004

ONDE ESTIVESTES DE NOITE

 

A procura de uma dignidade

 

Clarice Lispector

A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu estava dentro.
E quando viu, percebeu que estava muito, muito dentro. Andava interminavelmente pelos subterrâneos do Estádio do Maracanã ou pelo menos pareceram-lhe cavernas estreitas que davam para salas fechadas e quando se abriam as salas só havia uma janela dando para o estádio. Este, àquela hora torradamente deserto, reverberava ao extremo sol de um calor inusitado que estava acontecendo naquele dia de pleno inverno.
Então a senhora seguiu por um corredor sombrio. Este a levou igualmente a outro mais sombrio. Pareceu-lhe que o teto dos subterrâneos eram baixos.
E aí este corredor a levou a outro que a levou por sua vez a outro.
Dobrou o corredor deserto. E aí caiu em outra esquina. Que a levou a outro corredor que desembocou em outra esquina.
Então continuou automaticamente a entrar pelos corredores que sempre davam para outros corredores. Onde seria a sala da aula inaugural? Pois junto desta encontraria as pessoas com quem marcara encontro. A conferência era capaz de já ter começado. Ia perdê-la, ela que se forçava a não perder nada de cultural porque assim se mantinha jovem por dentro, já que até por fora ninguém adivinhava que tinha quase 70 anos, todos lhe davam uns 57.
Mas agora, perdida nos meandros internos e escuros do Maracanã, a senhora já arrastava pés pesados de velha.
Foi então que subitamente encontrou num corredor um homem surgido do nada e perguntou-lhe pela conferência que o senhor disse ignorar. Mas esse homem pediu informações a um segundo homem que também surgira repentinamente ao dobramento do corredor.
Então este segundo homem informou que havia visto perto da arquibancada da direita, em pleno estádio aberto, “duas damas e um cavalheiro, uma de vermelho”. A Sra. Xavier tinha dúvida de que essas pessoas fossem o grupo com quem devia se encontrar antes da conferência, e na verdade já perdera de vista o motivo pelo qual caminhava sem nunca mais parar. De qualquer modo seguiu o homem para o estádio, onde parou ofuscada no espaço oco de luz escancarada e mudez aberta, o estádio nu desventrado, sem bola nem futebol. Sobretudo sem multidão. Havia uma multidão que existia pelo vazio de sua ausência absoluta.
As duas damas e o cavalheiro já haviam sumido por algum corredor?
Então o homem disse com desafio exagerado: “Pois vou procurar para a senhora e vou encontrar de qualquer jeito essa gente, eles não podem ter sumido no ar.”
E de fato de muito longe ambos os viram. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. Parecia um jogo infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. Jorge B. Xavier.
Então entrou com o homem por outros corredores. Aí este homem também sumiu numa esquina.
A senhora já desistira da conferência que no fundo pouco lhe importava. Contanto que saísse daquele emaranhado de caminhos sem fim. Não haveria porta de saída? Então sentiu como se estivesse dentro de um elevador enguiçado entre um andar e outro. Não haveria porta de saída?
Então eis que subitamente lembrou-se das palavras de informação da amiga pelo telefone: “fica mais ou menos perto do Estádio do Maracanã.” Diante dessa lembrança entendeu o seu engano de pessoa avoada e distraída que só ouvia as coisas pela metade, a outra ficando submersa. A Sra. Xavier era muito desatenta. Então, pois, não era no Maracanã o encontro, era apenas perto dali. No entanto o seu pequeno destino quisera-a perdida no labirinto.
Sim, então a luta recomeçou pior ainda: queria por força sair de lá e não sabia como nem por onde.
E de novo apareceu no corredor aquele homem que procurava as pessoas e que de novo lhe garantiu que as acharia porque não podiam ter sumido no ar. Ele disse assim mesmo:
— As pessoas não podem ter sumido no ar!
A senhora informou:
— Não precisa mais se incomodar de procurar, sim? Muito obrigada, sim? Porque o lugar onde preciso encontrar as pessoas não é no Maracanã.
O homem parou imediatamente de andar para olhá-la perplexo:
— Então que é que a senhora está fazendo aqui?
Ela quis explicar que sua vida era assim mesmo, mas nem sequer sabia o que queria dizer com o “assim mesmo” nem com “sua vida”, nada respondeu. O homem insistiu na pergunta, entre desconfiado e cauteloso: que é que ela está fazendo ali? Nada respondeu apenas em pensamento a senhora, já então prestes a cair de cansaço. Mas não lhe respondeu, deixou-o pensar que era louca. Além do mais ela nunca se explicava. Sabia que o homem a julgava louca – e quem dissera que não? pois não sentia aquela coisa que ela chamava de “aquilo” por vergonha? Se bem que soubesse ter a chamada saúde mental tão boa que só podia se comparar com sua saúde física. Saúde física já agora arrebentada pois rastejava os pés de muitos anos de caminho pelo labirinto. Sua via crucis. Estava vestida de lã muito grossa e sufocava suada ao inesperado calor de um auge de verão, esse dia de verão que era um aleijão do inverno. As pernas lhe doíam doíam ao peso da velha cruz. Já se resignara de algum modo a nunca mais sair do Maracanã e a morrer ali de coração exangue.
(…)

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, p. 7-11.

OÙ ÉTAIS-TU PENDANT LA NUIT ?

 

A la recherche d’une dignité

 

Clarice Lispector

Mme Jorge B. Xavier aurait été bien incapable de dire comment elle était entrée. Certainement pas par le portail principal. Il lui semblait être passée comme en un rêve par une sorte d’ouverture exiguë parmi les gravats d’un chantier de construction, s’être comme faufilée de biais dans un trou creusé exprès pour elle. Le fait est qu’elle ne reprit ses esprits qu’une fois à l’intérieur.
Et quand elle eut repris ses esprits elle constata qu’elle se trouvait e effet très à l’intérieur. Elle avançait dans les interminables souterrains du stade de maracanã qui lui firent l’effet de cavernes étroites, débouchant sur des salles aveugles ou munies d’une unique fenêtre donant sur le stade. Celui-ci, torride et déset à cette heure, réverbérait sous un soleil intense une chaleur inhabituelle pour un jour de plein hiver.
La dame s’engagea alors dans un corridor sombre qui la conduisit vers un autre, plus sombre encore. Il lui sembla que ces galeries souterraines étaient bien basses de plafond.
Le nouveau corridor la mena à un autre et celui-ci à un autre.
Le corridor vide marqua un coude. Ce coude franchi, la dame tomba sur un autre tournant. Qui la mena vers un autre corridor qui présentait un nouveau coude.
Comme une automate la dame s’engageait docilement dans des corridors qui menaient inexorablement à d’autres corridors. Où se trouvait donc la salle où devait avoir lieu le cours inaugural ? C’était devant cette salle qu’elle devait retrouver les personnesavec qui elle avait rendez-vous. La conférence avait peut-être déjàcommencé. Elle allait la rater, elle qui se faisait un devoir de ne manquer aucun évément culturel, ainsi se maintenant-elle jeune, de l’intérieur, puisque à la voir, personne ne devinait qu’ele avait presque soixante-dix ans, on lui en donnait plutôt dans les cinquante-sept.
Mais maintenant qu’elle était égarée dans les méandres souterrains et obscurs du Maracanã, la dame traînait des pieds de plomb, des pieds de vieille.
Alors soudain, elle rencontra dans un corridor un homme surgi du néant qu’elle questionna sur la conférence. L’homme répondit qu’il n’était pas au courant mais il se renseigna auprès d’un deuxième homme, surgi subitement, lui aussi, au détour du corridor.
Ce deuxième individu déclara qu’il avait aperçu, au pied des gradins de droite, en plein stade, à ciel ouvert, «deux dames et un monsieur, une des dames étant vêtue de rouge». Mme Xavier se demandait s’il s’agissait bien des personnes qu’elle était censée rencontrer avant la conférence et, à vrai dire, elle ne savait plus trop pourquoi elle avait tant déambulé. Elle suivit pourtant l’homme jusqu’à la piste où elle s’arrêta net, éblouie par cet espace vide dans lequel déferlait la lumière muette, stade mis à nu, éventré, sans ballon ni match de football. Et surtout sans foule. La foule pourtant était présente, convoquée par le vide, surgie de cette absence absolue.
Où étaient donc les deux dames et le monsieur ? Avaient-ils disparu dans quelque corridor ?
Sur un ton de défi outrancier l’homme dit alors :
— Oh, mais je vais aller à la recherche de ces gens et je finirai bien par vous les dénicher, ils ne peuvent pas s’être évanouis dans les airs.
Et de fait tous deux les aperçurent dans le lointain. Une seconde plus tard le groupe avait de nouveau disparu, on eût dit un cache-cache enfantin, un fou rire muselé émanait d’ailleurs de Mme Jorge B. Xavier.
Laquelle s’engagea avec l’homme dans d’autres corridors. Et soudain, il s’évapora lui aussi à un détour du corridor.
La dame avait définitivement renoncé à la conférence dont, au fond, elle se moquait pas mal. Tout ce qu’elle souhaitait maintenant c’était sortir de cet enchevêtrement de couloirs sans fin. N’y avait-il pas, quelque part, une porte de sortie ? Elle se sentit comme à l’intérieur d’un ascenseur arrêté entre deux étages. N’y avait-il pas de porte de sortie ?
Alors, soudain, elle se souvint d’un renseignement donné par son amie au téléphone : «Cet endroit n’est pas très loin du stade de Maracanã». Elle comprit aussitôt sa méprise, propre à une personne étourdie et distraite qui n’entendait les choses qu’à moitié, le reste tombant dans le vide. Mme Xavier était extrêmement inattentive. Il lui apparaissait maintenant que le rendez-vous n’était pas au stade même, mais dans son voisinage. Or son destin chétif avait voulu qu’elle s’égarãt dans le labyrinthe.
Sa lutte n’en reprit qu’avec plus d’acharnement : la dame voulait coûte que coûte sortir de là mais, comment, par où, elle ne le savait pas. Réapparut dans le corridor l’homme parti à la recherche du groupe, qui, de nouveau, lui jura qu’il retrouverait ces gens parce qu’ils ne pouvaient pas s’être évanouis dans les airs. Ce furent ses paroles exactes :
— Ces gens ne peuvent pas s’être évanouis dans les airs !
Mais la dame déclara :
— Il est inutile que vous fatiguiez à les chercher plus longtemps. Je vous remercie beaucoup. Voyez-vous, l’endroit où je dois rencontrer ces gens n’est pas le Maracanã.
L’homme s’arrêta net et la regarda, perplexe :
— Mais alors, que faites-vous ici ?
La dame voulut expliquer que sa vie était toujours comme cela, mais elle ne savait pas ce qu’elle entendait par «toujours comme cela» ou par «sa vie», et elle ne répondit pas. Pris entre le soupçon et la discrétion l’homme insista sur sa question : que faisait-elle là ? Rien, rétorqua in petto la dame, prête maintenant à s’écrouler de fatigue. Mais elle ne lui répondit rien, le laissant penser qu’elle était folle. D’ailleurs elle ne donnait jamais d’explications. Elle se rendait compte que l’homme le prenait pour une cinglée – et qui pourrait affirmer qu’elle n’en était pas une ? N’était-elle pas la proie de cette chose que, pudiquement, elle appelait «cela» ? Elle se savait pourtant en possession d’une santé mentale aussi solide que sa santé physique. Santé physique à présent bien compromise, la dame ne pouvait presque plus soulever ses pieds épuisés d’avoir cheminé de si longues années dans le labyrinthe. Elle avait eu son chemin de croix. Vêtue d’une robe de laine très épaisse, elle suffoquait et transpirait dans la chaleur inattendue de cet apogée d’un été, de cette journée estivale qui était en fait une difformité de l’hiver. D’avoir tant porté sa vieille croix, ses jambes lui faisaient mal. Elle s’était en quelque sorte résignée à ne plus jamais sortir du Maracanã, et à mourir là, d’un cœur exsangue.
(…)

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Fonte : LISPECTOR, Clarice. Où étais-tu pendant la nuit ? Traduit du brésilien par Geneviève Leibrich et Nicole Biros. Paris, Des Femmes, 1985, p. 9-13.





Bio fornecida pelo palestrante.

Perto do Coração Selvagem




Autor: Clarice Lispector

Título: Perto do Coração Selvagem, Prés du Cœur Salvage
Idiomas: port, fra
Tradutor: Regina Helena de Oliveira Machado(fra)
Data: 28/12/2004

PRÉS DU CŒUR SALVAGE

LE PÉRE…

Clarice Lispector

La machine de papa battait tac-tac… tac-tac-tac… L’horloge s’est réveilée en tin-dlen sans poussière. Le silence a traîné zzzzzz. La garde-robe disait quoi? Robe-robe-robe. Non, non. Entre l’horloge, la machine et le silence il y avait une oreille à l’écoute, grande, couleur-de-rose et morte. Les trois sons étaient liés par la lumière du jour et par le grincer des petites feuilles de l’arbre qui se frottaient les unes aux autres rayonnantes.
Appruyant le front sur la vitre brillante et froide elle regardait la cour du voisin, le grand monde de poules-qui-ne-savaient-pas-qu’elles-allaient-mourir. Et elle pouvait sentir comme si se trouvait bien proche de son nez la terre chaude, tassée, si idirante et sèche, où elle savait bien, savait bien un ou autre ver de terre s’étirait avant d’être mangé par la poule que les gens allaient manger.
Il y a eu un moment grand, arrêté, sans rien en dedans. Elle a dilaté les yeux, attendu. Rien n’est venu. Blanc. Mais soudain en un frémissement on a remonté le jour et tout a recommencé à fonctionner, la machine trottant, la cigarette du père fumant, le silence, les petites feuilles, les poulets pelés, la clarté, les choses revivant pleines de hâte comme une bouilloire à bouillir. Il ne manquait que le tin-dlen de l’horloge qui embellissait tant. Elle a fermé les yeux, a feint de l’écouter et au son de la musique inexistante et rythmée elle s’est dressée sur les pointes des pieds. A fait trois pas de danse bien légers, ailés.
Alors subitement elle a regardé tout avec dégoût comme si elle avait mangé trop de ce mélange. «Oï, oï, oï…», elle a gémi tout bas fatiguée et après elle a pensé: que va-t-il arriver maintenant maintenant maintenant? Et toujours dans la goutte de temps qui venait rien n’arrivait si elle continuait à attendre ce qui allait arriver, tu comprends? Elle a éloigné la pensée difficile se distrayant avec un mouvement du pied nu sur le plancher de bois poussiéreux. Elle a frotté le pied, épiant le père de travers, attendant son regard impatient et nerveux. Rien n’est venu pourtant. Rien. Difficile d’aspirer les personnes comme l’aspirateur de poussière.
— Papa, j’ai inventé une poésie.
— C’est comment, son nom?
— Moi et le soleil. — Sans attendre beaucoup elle a récité: — «Les poules qui sont dans la cour ont déjà mangé deux vers de terre mais je n’ai pas vu».
— Oui? Qu’est-ce que toi et le soleil ont à voir avec la poésie?
Elle l’a regardé une seconde. Il n’avait pas compris…
— Le soleil est au-dessus des vers de terre, papa, et j’ai fait la poésie et n’ai pas vu les vers de terre… — Pause. — Je peux en inventer une autre maintenant même: «O soleil, viens jouer avc moi». Une autre plus grande:
«J’ai vu un nuage petit
pauvre ver de terre
Je crois qu’il n’a pas vu».
— Très jolies, petite, très jolies. Comment est-ce qu’on fait une poésie sibelle?
— Ce n’est pas difficile, il suffit d’aller disant.
Déjà elle avait vêtu la poupée, déjà elle l’avait dévêtue, l’avait imaginée allant à une fête ou elle brillait entre toutes les autres filles. Une voiture bleue traverse le corps d’Arlette, la tuait. Après venait la fée et la fille vivait de nouveau. La fille, la fée, la voiture bleue n’étaient que Joana, sinon le jeu serait ennuyeux. Elle s’arrangeait toujours pour trouver une façon de se placer dans le rôle principal exactement quand les événements illuminaient une figure ou l’autre. Elle travaillait sérieuse, silencieuse, les bras le long du corps. Elle n’avait pas besoin de s’approcher d’Arlette pour jouer avec elle. Même de loir elle possédait les choses.
Elle s’est divertie avec les cartons. Elle les regardait un instant et chaque carton était un élève. Joana était la maîtresse. L’un d’eux était bon et et l’autre mauvais. Oui, oui, et alors? Et maintenant maintenant maintenant? Et toujours rien ne venait si elle… ça y est.
Elle a inventé un petit homme de la traille de l’index, avec un pantalon long et un nœud de cravate. Elle l’utilisait dans la poche de son uniforme de collège. Le petit homme était une perle pour de bon, une perle de cravate, il avait la voix grosse et disait de l’intérieur de la poche: «Majesté Joana, pouvez-vous m’écouter une minute, seulement une minute pourrez-vous interrompre votre toujours occupation?» Et il déclarait après: «Je suis votre serf, princesse. Il suffit d’ordonner et je fais».
— Papa, qu’est-ce que je fais?
— Vá étudier.
— J’ai déjà étudié.
— Va jouer.
— J’ai déjà joué.
— Alors ne m’embête pas.
Elle a tournoyé et s’est arrêtée, épiant sans curiosité les murs et le plafond qui tournaient et se défaissaient. Elle a marché sur la pointe des pieds ne marchant que sur les planches foncées. Elle a fermé les yeux et a cheminé, les mains étendues, jusqu’à rencontrer un meuble. Entre elle et les objets il y avait quelque chose mais quand elle attrapait cette chose dans la main, comme une mouche, et après elle épiait – même en prenant soin que rien n’échappe – elle ne trouvait que sa propre main, rosée et désappointée. Oui, je sais, l’air, l’air! Mais ça n’avançait pas, n’expliquait pas. Cela était un de ses secrets. Jamais elle ne se permettrait de raconter, même à papa, qu’elle n’arrivait pas à prendre «la chose». Tout ce qui valait le plus exactement, elle ne pouvait pas le raconter. Elle ne disait que des bêtises aux gens. Quand elle disait à Ruth, per exemple, quelques secrets, après elle se mettait en rage contre Ruth. Le mieux c’était encore de se taire. Autre chose: si elle avait quelque douleur et si pendant que ça faisait mal elle regardait les aiguilles de l’horloge, elle voyait alors que les minutes comptées sur l’horloge passaient et la douleur continuait à faire mal. Ou alors, même quand rien ne lui faisait mal, si elle restait devant l’horloge, à épier, ce qu’elle n’était pas en train de sentir était aussi plus grand que les minutes comptées sur l’horloge. Maintenant, quand arrivait une joie ou une rage, elle courait vers l’horloge et observait les secondes en vain.
Elle est allée à la fenêtre, a tracé une croix sur le rebord et a craché dehors en ligne droite. Si elle crachait encore une fois – maintenant elle ne pourrait que la nuit – le désastre n’arriverait pas et Dieu serait tellement son ami à elle, mais tellement son ami que… que quoi?
— Papa, qu’est-ce que je fais?
— Je j’ai déjà dit: va jouer et laisse-moi!
— Mais j’ai déjà joué, je te jure.
Papa a ri:
— Mais jouer ne finit pas…
— Si, ça finit.
— Invente un autre jeu.
— Je ne veux ni jouer ni étudier.
— Tu veux faire quoi alors?
Joana a médité:
— Rien de ce que je sais…
— Tu veux voler? – demande papa distrait.
— Non – répond Joana. Pause. — Qu’est-ce que je fais?
Papa gronde cette fois:
— Tape-toi la tête contre le mur!
Elle s’éloigne faisant une petite tresse dans les cheveux lisses. Jamais jamais jamais oui oui, elle chante tout bas. Elle a appris à tresser ces jours-ci. Elle va vers la petite table des livres, joue avec eux en les regardant à distance. Maîtresse de maison mari enfants, vert est homme, blanc est femme, incarnat peut être fils ou fille. «Jamais» est homme ou femme? Pourquoi «jamais» n’est ni fils ni fille? Et «oui»? Oh, il y avait beaucoup de choses entièrement impossibles. On pouvait rester des après-midis entiers à penser. Par exemple: qui a dit pour la première fois ainsi: jamais?
Papa termine le travail et va la trouver assise en train de pleurer.
— Mais qu’est-ce que c’est, fillette? – la prend dans ses bras, regarde sans étonnement le petit visage ardent et triste.
— Qu’est-ce que c’est?
— Je n’ai rien à faire.
Jamais jamais oui oui. Tout était comme le bruit du tramway avant de s’endormir, jusqu’à jusqu’à ce que l’on sente un peu de peur et on dort. la bouche de la machine était fermée comme une bouche de vieille, mais venait cela serrant son cœur comme le bruit du tramway, seulement, elle n’allait pas s’endormir. C’était l’étreinte du père. Le père medite un instant. Mais personne ne peut faire quelque chose pour les autres, on aide. L’enfant va, si libre, si maigrelette et précoce… Il respire pressé, secoue la tête. Un petit œuf, c’est ça, un petit œuf vivant. Que va devenir Joana?

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Prés du Cœur Salvage. Traduit du brésilien par Regina Helena de Oliveira Machado. Paris, Des Femmes, 1981, p. 9-16.

PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM

O PAI…

Clarice Lispector

A MÁQUINA DO PAPAI batia tac-tac… tac-tac-tac… O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.
Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabbiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.
Houve um momento grande, parado, sem nada dentro. Dilatou os olhos, esperou. Nada veio. Branco. Mas de repente num estremecimento deram corda no dia e tudo recomeçou a funcionar, a máquina trotando, o cigarro do pai fumegando, o silêncio, as folhinhas, os frangos pelados, a claridade, as coisas revivendo cheias de pressa como uma chaleira a ferver. Só faltava o tin-dlen do relógio que enfeitava tanto. Fechou os olhos, fingiu escutá-lo e ao som da música inexistente e ritmada ergueu-se na ponta dos pés. Deu três passos de dança bem leves, alados.
Então subitamente olhou com desgosto para tudo como se tivesse comido demais daquela mistura. “Oi, oi, oi…”, gemeu baixinho cansada e depois pensou: o que vai acontecer agora agora agora? E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende? Afastou o pensamento difícil distraindo-se com um movimento do pé descalço no assoalho de madeira poeirento. Esfregou o pé espiando de través para o pai, aguardando seu olhar impaciente e nervoso. Nada veio porém. Nada. Difícil aspirar as pessoas como o aspirador de pó.
— Papai, inventei uma poesia.
— Como é o nome?
— Eu e o sol. — Sem esperar muito recitou: — “As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi”.
— Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera…
— O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas… – Pausa. — Posso inventar outra agora mesmo: “Ó sol, vem brincar comigo”. Outra maior:
“Vi uma nuvem pequena
coitada da minhoca
acho que ela não viu”.
— Lindas, pequenas, lindas. Como é que se faz uma poesia tão bonita?
— Não é difícil, é só ir dizendo.
Já vestira a boneca, já a despira, imaginara-a indo a uma festa onde brilhava entre todas as outras filhas. Um carro azul atravessava o corpo de Arlete, matava-a. Depois vinha a fada e a filha viva de novo. A filha, a fada, o carro azul não eram senão Joana, do contrário seria pau a brincadeira. Sempre arranjava um jeito de se colocar no papel principal exatamente quando os acontecimentos iluminavam uma ou outra figura. Trabalhava séria, calada, os braços ao longo do corpo. Não precisava aproximar-se de Arlete para brincar com ela. De longe mesmo possuía as coisas.
Divertiu-se com os papelões. Olhava-os um instante e cada papelão era um aluno. Joana era a professora. Um deles bom e outro mau. Sim, sim, e daí? E agora agora agora? E sempre nada vinha se ela… pronto.
Inventou um homenzinho do tamanho do furabolos, de calça comprida e laço de gravata. Ela usava-o no bolso da farda de colégio. O homenzinho era uma pérola de bom, uma pérola de gravata, tinha a voz grossa e dizia de dentro do bolso: “Majestade Joana, podeis me escutardes um minuto, só um minuto podereis interromperdes vossa sempre ocupação?” E declarava depois: “Sou vosso servo, princesa. É só mandar que eu faço”.
— Papai, que é que eu faço?
— Vá estudar.
— Já estudei.
— Vá brincar.
— Já brinquei.
— Então não amole.
Deu um corrupio e parou, espiando sem curiosidade as paredes e o teto que rodavam e se desmanchavam. Andou na ponta dos pés só pisando as tábuas escuras. Fechou os olhos e caminhou, as mãos estendidas, até encontrar um móvel. Entre ela e os objetos havia alguma coisa, mas quando agarrava essa coisa na mão, como a uma mosca, e depois espiava – mesmo tomando cuidado para que nada escapasse – só encontrava a própria mão, rósea e desapontada. Sim, eu sei o ar, o ar! mas não adiantava, não explicava. Esse era um de seus segredos. Nunca se permitiria contar, mesmo a papai, que não conseguia pegar “a coisa”. Tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos, ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar. Outra coisa: se tinha alguma dor e se enquanto doía ela olhava os ponteiros do relógio, via então que os minutos contados no relógio iam passando e a dor continuava doendo. Ou senão, mesmo quando não lhe doía nada, se ficava defronte do relógio espiando, o que ela não estava sentindo também era maior que os minutos contados no relógio. Agora, quando acontecia uma alegria ou uma raiva, corria para o relógio e observava os segundos em vão.
Foi à janela, riscou uma cruz no parapeito e cuspiu fora em linha reta. Se cuspisse mais uma vez – agora só poderia à noite – o desastre não aconteceria e Deus seria tão amigo dela, mas tão amigo que… que o quê?
— Papai, que é que eu faço?
— Eu já lhe disse: vá brincar e me deixe!
— Mas eu já brinquei, juro.
Papai riu:
— Mas brincar não termina…
— Termina sim.
— Invente outro brinquedo.
— Não quero brincar nem estudar.
— Quer fazer o quê então?
Joana meditou:
— Nada do que sei…
— Quer voar?, pergunta papai distraído.
— Não, responde Joana. – Pausa. — Que é que eu faço?
Papai troveja dessa vez:
— Bata com a cabeça na parede!
Ela se afasta fazendo uma trancinha nos cabelos escorridos. Nunca nunca nunca sim sim, canta baixinho. Aprendeu a trançar um dia desses. Vai para a mesinha dos livros, brinca com eles olhando-os a distância. Dona de casa marido filhos, verde é homem, branco é mulher, encarnado pode ser filho ou filha. “Nunca” é homem ou mulher? Por que “nunca” não é filho nem filha? E “sim”? Oh, tinha muitas coisas inteiramente impossíveis. Podia-se ficar tardes inteiras pensando. Por exemplo: quem disse pela primeira vez assim: nunca?
Papai termina o trabalho e vai encontrá-la sentada chorando.
— Mas que é isso, menininha? – pega-a nos braços, olha sem susto o rostinho ardente e triste. — O que é isso?
— Não tenho nada o que fazer.
Nunca nunca sim sim. Tudo era como o barulho do bonde antes de adormecer, até que sente um pouco de medo e se dorme. A boca da máquina fechara como uma boca de velha, mas vinha aquilo apertando seu coração como o barulho do bonde; só que ela não ia adormecer. Era o abraço do pai. O pai medita um instante. Mas ninguém pode fazer alguma coisa pelos outros, ajuda-se. Anda tão solta a criança, tão magrinha e precoce… respira apressado, balança a cabeça. Um ovinho, é isso, um ovinho vivo. O que vai ser de Joana?

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. 16º edição. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1995, p. 19-24

 





Bio fornecida pelo palestrante.

SILÊNCIO




Autor: Clarice Lispector
Título: SILENCIO
Idiomas: esp
Tradutor: Hilda Figueroa (esp)
Data: 28/12/2004

SILENCIO

 

Clarice Lispector

Es inmenso el silencio de la noche en la montaña. Es tan yermo. En vano se intenta el esfuerzo para no escuchar, pensar aprisa para disfrazarlo. O inventar un plan, frágil punto que mal nos une al súbitamente improbable mañana. Cómo trascender esa paz que nos acecha. Tan gran silencio, que la desesperación tiene pudor. Montañas tan altas, que la angustia siente pudor. Los oídos se afinan, se inclina la cabeza, el cuerpo todo escucha: ni un solo rumor. Ni un gallo. Estar al alcance de esa profunda meditación del silencio. De ese silencio sin memoria de palabras. Si es muerte, cómo alcanzarte…
Es un silencio insomne, inmóvil, mas insomne; y sin fantasmas. Es terrible —Sin un solo fantasma. Inútil provocarlo con la posibilidad de una puerta que crujiente se abra, de un velo que al abrirse pronuncia alguna cosa. Él es vacío, sin promesa. Si al menos hubiese aire. Viento es ira, ira es vida. O nieve. Que es muda, mas deja rastro —todo blanquece, los niños ríen, los pasos crujen y marcan. Hay una continuidad que es vida. Mas este silencio no deja testimonio. No se puede hablar del silencio como de la nieve: ¿Sentiste el silencio de esta noche? Quien escuchó, calla.
La noche, desciende con las pequeñas alegrías de quien enciende lámparas con el cansancio que tanto justifica al día. Los niños de Berna dormitan, se cierran las últimas puertas. Brillan las calles en las piedras del suelo, brillan vacías. Y finalmente las luces más distantes se extinguen.
Mas este primer silencio aún no es el silencio. Que se espere, pues las hojas de los árboles van a acomodarse mejor todavía. Tal vez algún tardío paso, con esperanza se atreva por los peldaños.
Mas hay un momento en que se yergue el espíritu atento del cuerpo descansado, y de la tierra, la alta luna. Entonces él, el silencio, aparece.
Late el corazón al advertirlo.
Se puede pensar aprisa en el día que pasó. O en los amigos que pasaron y se perdieron para siempre. Mas es inútil desdeñarlo: hay silencio. Aún el peor sufrimiento, que es el de la amistad perdida, es apenas fuga. Pues si al comienzo, el silencio parece aguardar una respuesta —Cómo ansiamos ser llamados a responder— pronto se descubre que de ti, nada exige, apenas tal vez tu silencio. Cuántas horas se pierden en la oscuridad suponiendo que el silencio te sentencia —como esperamos en vano ser juzgados por Dios. Surgen las justificaciones, trágicas justificaciones forjadas, humildes disculpas hasta la dignidad. Es tan delicado para el ser humano mostrar al fin su indignidad y ser perdonado con la disculpa de que se es un ser humillado de nacimiento.
Hasta que descubre que ni su indignidad quiere él. Él es el silencio. Se puede intentar también engañarlo. Dejar caer al suelo el libro de cabecera como por acaso. Mas, horror —El libro cae dentro del silencio y se pierde en él, en su abismal y muda pausa. ¿Y si cantara enloquecido un pájaro? Inútil esperanza. El canto cruzaría apenas el silencio, como una leve flauta.
Entonces, si hay osadía, no se lucha más. Se entra en él. Se va con él. Nosotros, los únicos fantasmas de una noche de Berna. Que se entre. Que no se espere el resto de la oscuridad delante de sí, sólo a él. Será como si estuviéramos en un navío tan descomunalmente grande que ignoráramos estar en una nave. Y que ésta navegara de tal modo que ignorásemos estarnos yendo. Un hombre no puede más que eso. Vivir en la orilla de la muerte y de las estrellas es vibración, pero más tensa de lo que las cuerdas de las venas podrían soportar. No hay siquiera un hijo de astro y de mujer como piadoso intermediario. El corazón tiene que presentarse solo frente a la nada y solo golpear alto en las tinieblas. Solo se siente en los oídos el propio corazón. Cuando éste se presenta al desnudo, no es comunicación, es sumisión, pues no fuimos hechos sino para el pequeño silencio.
Si no hay valor, que no se entre. Que se espere el resto de la oscuridad frente al silencio. Con sólo los pies mojados por la espuma de algo que se extiende dentro de nosotros. Que se espere. Uno indisoluble por el otro. Uno al lado del otro. Dos cosas que no se ven en la oscuridad. Que se espere. No el fin del silencio, sino el bendito auxilio de un tercer elemento, la luz del alba.
Después nunca más se olvida. Inútil huir a otra ciudad. Pues cuando menos se espera se le puede reconocer —de repente. Al cruzar una calle en medio de las bocinas de los coches. Entre una y otra carcajada fantasmagórica. Después de una palabra dicha. A veces en el mismo corazón de la palabra. Los oídos se asombran, la mirada se desorbita. Desde entonces es fantasma.

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Fuente : (www.fuentes.csh.udg.mx)/ Traducción de Hilda Figueroa

 





Bio fornecida pelo palestrante.

Uma aprendizagem




Autor: Clarice Lispector
Título: Uma aprendizagem, ou O livro dos prazeres, Un apprentissage, ou Le livre des plaisirs
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jacques et Teresa Thiériot(fra)
Data: 28/12/2004

UN APPRENTISSAGE,
OU LE LIVRE DES PLAISIRS


L’Origine du printemps ou La mort nécessaire en plein jour


Clarice Lispector

, tellement occupée, à cause des courses que la bonne avait faites à la va-vite car de plus en plus elle bâclait son travail, même si elle ne venait que pour préparer le déjeuner et le dîner, elle avait donné plusieurs coups de téléphone pour régler des problèmes, le plus difficile pour appeler le plombier, elle était allée à la cuisine ranger les achats et disposer dans la corbeille les pommes qui étaient sa meilleure nourriture, tant pis si elle ne savait pas garnir une corbeille, mais Ulysse lui avait laissé entrevoir la possibilité à l’avenir par exemple d’enjoliver une corbeille, elle regarda ce que la bonne avait laissé pour le dîner avant de s’en aller, car le déjeuner avait été très mauvais, entre-temps elle avait remarqué que la petite terrasse qui était un avantage de son appartement en rez-de-chaussée avait besoin d’être lavée, elle avait reçu un coup de téléphone pour l’inviter à un cocktail de bienfaisance au profit de quelque chose qu’elle n’avait pas très bien compris mais qui avait un rapport avec son école primaire, Dieu merci elle était en vacances, elle était allée à la penderie choisir la robe qu’elle mettrait pour se rendre extrêmement attirante lors de son rendez-vous avec Ulysse qui lui avait déjà dit qu’elle n’avait pas de goût pour s’habiller, elle se rappela que c’était samedi et donc il aurait plus de temps car ce jour-là il ne donnait pas de cours d’été à l’Université, elle pensa à ce en quoi il se transformait pour elle, à ce qu’il semblait vouloir qu’elle sût, elle supposa qu’il voulait lui apprendre à vivre sans douleur tout simplement, il avait dit une fois qu’il voulait, si on lui demandait son nom, qu’elle ne répondît pas « Lori » mais qu’elle pût répondre « mon nom c’est moi », car ton nom, avait-il dit, est un moi, elle se demanda si la robe noire et blanche conviendrait,
alors du ventre même, comme une secousse lointaine de terre dont on sait à peine que c’est l’annonce d’un séisme, de l’utérus, du coeur contracté vint le tremblement gigantesque d’une violente douleur ébranlée, de tout le corps l’ébranlement – et en subtiles grimaces du visage et du corps, avec la difficulté d’un pétrole déchirant la terre – vint finalement la grande crise de larmes sèches, une crise muette sans aucun son qu’elle pût elle-même entendre, qu’elle n’avait pas pressentie, n’avait jamais voulue et n’avait pas prévue – secouée comme l’arbre solide qui est plus profondément ébranlé que l’arbre fragile – finalement canaux et veines éclatés, alors
elle s’assit pour se reposer et au bout d’un instant elle faisait comme si elle était une femme bleue parce que le crépuscule plus tard serait peut-être bleu, elle fait comme si elle filait avec des fils d’or les sensations, elle fait comme si l’enfance était aujourd’hui et argentée de jouets, elle fait comme si une veine ne s’était pas ouverte et elle fait comme si dans un silence tout blanc n’en coulait pas un sang écarlate, et qu’elle ne fût pas d’une pâleur mortelle mais cela faisait comme si c’était vrai de vrai, il fallait au milieu du faire comme si dire la vérité de pierre opaque pour qu’elle contrastât avec le faire comme si vert moiré, elle fait comme si elle aimait et était aimée, elle fait comme si elle n’avait pas besoin de mourir de regret, elle fait comme si elle était couchée dans la paume transparente de la main de Dieu, non pas Lori mais son nom secret dont pour l’instant elle ne pouvait pas encore jouir, elle fait comme si elle vivait et n’était pas en train de mourir car vivre en fin de compte n’était guère que s’approcher de plus en plus de la mort, elle fait comme si elle n’avait pas les bras tombés de perplexité quand les fils d’or qu’elle filait s’entremêlaient et elle ne savait pas dénouer le fin fil froid, elle fait comme si elle était assez habile pour défaire les noeuds de la corde de marin qui lui liaient les poignets, elle fait comme si elle avait un panier de perles rien que pour regarder la couleur de la lune car elle est lunaire, elle fait comme si elle fermait les yeux et des êtres aimés surgiraient quand elle les ouvrirait embués de gratitude, elle fait comme si tout ce qu’elle avait n’était pas comme si, elle fait comme si sa poitrine se décontractait et qu’une lumière toute dorée et légère la guidât dans une forêt d’écluses muettes et de tranquilles mortalités, elle fait comme si elle n’était pas lunaire, elle fait comme si elle ne pleurait pas des larmes rentrées
-car à présent doucement, malgré les yeux secs, son coeur était humide; elle était maintenant sortie de la voracité de vivre. Elle eut l’idée d’écrire à Ulysse pour lui raconter ce qui s’était passé,
mais rien ne s’était passé de dicible avec des mots écrits ou parlés, excellent ce système qu’Ulysse avait inventé: ce qu’elle ne savait pas ou n’aurait pu dire, elle l’écrirait et lui donnerait le papier sans mot dire – mais cette fois il n’y avait vraiment rien à raconter.
Maintenant lucide et calme, Lori se rappela qu’elle avait lu que les mouvements hystériques d’un animal captif avaient pour but de libérer, grâce à un de ces mouvements, la chose ignorée qui l’enchaînait – l’ignorance du mouvement unique, précis et libérateur était ce qui rendait hystérique l’animal: il recourait au dérèglement – durant le savant dérèglement de Lori, elle avait eu pour elle-même sur le moment les avantages libérateurs venus de sa vie la plus primitive et animale: elle avait recouru hystériquement à tant de sentiments contradictoires et violents que le sentiment libérateur avait fini par la dégager du filet, dans son ignorance animale elle ne savait même pas comment,
elle était fatiguée de son effort d’animal libéré.
Et maintenant était venu le moment de décider si elle continuerait ou non à voir Ulysse. Soudain révoltée, elle refusa d’apprendre ce que lui patiemment semblait vouloir lui enseigner et elle-même apprendre – elle se révoltait surtout parce que à son avis ce n’était pas une époque de « méditation » qui tout à coup lui paraissait ridicule: elie vibrait d’un pur désir comme cela lui arrivait avant et après ses règles. Mais c’était comme s’il voulait qu’elle apprît à marcher avec ses propres jambes et alors seulement, préparée pour la liberté par Ulysse, elle serait à lui – que voulait-il d’elle, outre tranquillement la désirer? Au début Lori s’était trompée et avait cru qu’Ulysse voulait lui transmettre certaines choses de ses cours de philosophie mais il avait dit: « Ce n’est pas de philosophie que tu as besoin, en ce cas ce serait facile: tu assisterais à mes cours comme auditrice et moi je bavarderais avec toi en d’autres termes »,
puisque maintenant le séisme servirait à son hystérie et que maintenant elle était libérée, elle pourrait même remettre à plus tard la décision de ne pas voir Ulysse: oui mais voilà aujourd’hui elle voulait le voir et, bien qu’elle ne supportât pas son muet désir, elle savait qu’en fait c’était elle qui le provoquait pour essayer de venir à bout de la patience avec laquelle il attendait; avec l’argent que son père lui envoyait eile achetait des robes coûteuses toujours très ajustées, c’est tout ce qu’elle savait faire pour l’attirer et
c’était le moment de s’habiller: elle se regarda dans la glace et elle n’était belle que par le fait d’être une femme: son corps était mince et solide, un des motifs imaginaires qu’avait Ulysse de la désirer; elle choisit une robe d’un tissu lourd, malgré la chaleur, d’une forme indécise, la forme serait son corps mais
se faire belle était un rituel qui lui conférait de la gravité: l’étoffe cessait d’être un simple tissu, elle se changeait en matière de chose et c’était cette étoffe à qui avec son corps elle donnait corps – comment un simple morceau de tissu pouvait-il acquérir tant de mouvement? ses cheveux lavés le matin et séchés au soleil de la petite terrasse étaient en soie châtain la plus ancienne – beile? non, femme: Lori alors se maquilla soigneusement les lèvres et les yeux, ce qu’elle faisait, selon une collègue, très mal, elle vaporisa du parfum sur son front et à la naissance des seins – la terre était parfumée de l’odeur de mille feuilles et fleurs écrasées: Lori se parfumait et c’était là une de ses imitations du monde, elle qui essayait tellement d’apprendre la vie – avec le parfum, d’une certaine façon elle accentuait ce qu’elle était et c’est pourquoi elle ne pouvait pas mettre des parfums qui la contredisaient: se parfumer relevait d’une sagesse instinctive, venue de millénaires de femmes qui avaient appris apparemment passives et, comme tout art, cela exigeait qu’elle eût un minimum de connaissance d’elle-même: elle mettait un parfum légèrement entêtant, délectable comme de l’humus, comme si sa tête couchée écrasait de l’humus, un parfum dont elle ne révélait pas le nom à ses collègues-institutrices: parce qu’il était à elle, il était elle, puisque pour Lori se parfumer était un acte secret et presque religieux
-mettrait-elle des boucles d’oreille? elle hésita, car elle voulait des oreilles seulement délicates et simples, quelque chose de modestement nu, hésita un peu plus: une richesse encore plus grande serait de cacher avec ses cheveux ses oreilles de biche et les rendre secrètes, mais elle ne résista pas: elle les découvrit, tirant les cheveux derrière les oreilles incongrues et pâles: reine égyptienne? non, ornée toute comme les femmes bibliques, et il y avait également quelque chose dans ses yeux maquillés qui disait avec mélancolie: déchiffremoi, mon amour, ou bien je serai contrainte de te dévorer, et
maintenant prête, habillée, belle autant qu’elle pouvait réussir à l’être, de nouveau l’assaillit le doute: irait-elle ou non au rendez-vous avec Ulysse – prête, les bras ballants, pensive, irait-elle ou non au rendez-vous? Avec Ulysse elle se comportait comme une vierge qu’elle n’était plus, bien qu’elle eût la certitude qu’il devinait cela également, cet étranger sage qui cependant ne semblait pas deviner qu’elle voulait l’amour.
Une fois de plus, au milieu de ses hésitations confuses, ce qui la tranquillisa ce fut ce qui si souvent lui servait d’appui serein: le fait que tout ce qui existait, existait avec une précision absolue et dans le fond ce qu’elle finirait par faire ou ne pas faire n’échapperait pas à cette précision; ce qui était de la taille d’une tête d’épingle ne dépassait d’aucune fraction de millimètre la tailie d’une tête d’épingle: tout ce qui existait était d’une grande perfection. Sauf que la majeure partie de ce qui existait avec une telle perfection était, techniquement, invisible: la vérité, claire et exacte en soi, déjà devenait vague et presque insensible pour la femme.
Bon, soupira-t-elle, si cette vérité perdait de sa clarté, au moins elle savait qu’il y avait un sens secret des choses de la vie. De sorte que, parfois, elle finissait par pressentir, quoique confuse, la perfection –
de nouveau ces pensées, que d’une certaine façon, elle utilisait comme pense-bête (grâce auxquelles, à cause de la perfection qui existait, elle finirait par toucher au but) – une fois de plus le pense-bête agit en elle et, les yeux encore obscurcis à présent par la pensée perturbée, elle décida de voir Ulysse au moins cette fois encore.
(…).

___________

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Un apprentissage, ou Le livre des plaisirs. Traduit du brésilien par Jacques et Teresa Thiériot. Paris : Des femmes, 1992. p. 11-18.

UMA APRENDIZAGEM,
OU O LIVRO DOS PRAZERES


A origem da Primavera ou A morte necessária em pleno dia


Clarice Lispector

, estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos, dera vários telefonemas tomando providências, inclusive um dificílimo para chamar o bombeiro de encanamentos de água, fora à cozinha para arrumar as compras e dispor na fruteira as maçãs que eram a sua melhor comida, embora não soubesse enfeitar uma fruteira, mas Ulisses acenara-lhe com a possibilidade futura de por exemplo embelezar uma fruteira, viu o que a empregada deixara para jantar antes de ir embora, pois o almoço estivera péssimo, enquanto notara que o terraço pequeno que era privilégio de seu apartamento por ser térreo precisava ser lavado, recebera um telefonema convidando-a para um coquetel de caridade em benefício de alguma coisa que ela não entendeu totalmente mas que se referia ao seu curso primário, graças a Deus que estava em férias, fora ao guarda-roupa escolher que vestido usaria para se tornar extremamente atraente para o encontro com Ulisses que já lhe dissera que ela não tinha bom-gosto para se vestir, lembrou-se de que sendo sábado ele teria mais tempo porque não dava nesse dia as aulas de férias na Universidade, pensou no que ele estava se transformando para ela, no que ele parecia querer que ela soubesse, supôs que ele queria ensinar-lhe a viver sem dor apenas, ele dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome, não respondesse “Lóri” mas que pudesse responder “meu nome é eu”, pois teu nome, dissera ele, é um eu, perguntou-se se o vestido branco e preto serviria,
então do ventre mesmo, como um estremecer longínquo de terra que mal se soubesse ser sinal do terremoto, do útero, do coração contraído veio o tremor gigantesco duma forte dor abalada, do corpo todo o abalo – e em sutis caretas de rosto e de corpo afinal com a dificuldade de um petróleo rasgando a terra – veio afinal o grande choro seco, choro mudo sem som algum até para ela mesma, aquele que ela não havia adivinhado, aquele que não quisera jamais e não previra – sacudida como a árvore forte que é mais profundamente abalada que a árvore frágil – afinal rebentados canos e veias, então
sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro
–pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Lembrou-se de escrever a Ulisses contando o que se passara,
mas nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que Ulisses inventara: o que não soubesse ou não pudesse dizer, escreveria e lhe daria o papel mudamente – mas dessa vez não havia sequer o que contar.
Agora lúcida e calma, Lóri lembrou-se de que lera que os movimentos histéricos de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a coisa ignorada que o estava prendendo – a ignorância do movimento único, exato e libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole – durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como,
estava cansada do esforço de animal libertado.
E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses. Em súbita revolta ela não quis aprender o que ele pacientemente parecia querer ensinar e ela mesma aprender – revoltava-se sobretudo porque aquela não era para ela época de “meditação” que de súbito parecia ridícula: estava vibrando em puro desejo como lhe acontecia antes e depois da menstruação. Mas era como se ele quisesse que ela aprendesse a andar com as próprias pernas e só então, preparada para a liberdade por Ulisses, ela fosse dele – o que é que ele queria dela, além de tranqüilamente desejá-la? No começo Lóri enganara-se e pensara que Ulisses queria lhe transmitir algumas coisas das aulas de filosofia mas ele disse: “não é de filosofia que você está precisando, se fosse seria fácil: você assistiria às minhas aulas como ouvinte e eu conversaria com você em outros termos”,
pois que agora o terremoto serviria à sua histeria e agora que estava libertada podia até adiar para o futuro a decisão de não ver Ulisses: só que hoje queria vê-lo e, apesar de não tolerar o mudo desejo dele, sabia que na verdade era ela quem o provocava para tentar quebrar a paciência com que ele esperava; com a mesada que o pai mandava comprava vestidos caros sempre justos, era só isso que sabia fazer para atraí-lo e
estava na hora de se vestir: olhou-se ao espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher: seu corpo era fino e forte, um dos motivos imaginários que faziam com que Ulisses a quisesse; escolheu um vestido de fazenda pesada, apesar do calor, quase sem modelo, o modelo seria o seu próprio corpo mas
enfeitar-se era um ritual que a tornava grave: a fazenda já não era um mero tecido, transformava-se em matéria de coisa e era esse estofo que com o seu corpo ela dava corpo – como podia um simples pano ganhar tanto movimento? seus cabelos de manhã lavados e secos ao sol do pequeno terraço estavam de seda castanha mais antiga – bonita? não, mulher: Lóri então pintou cuidadosamente os lábios e os olhos, o que ela fazia, segundo uma colega, muito mal feito, passou perfume na testa e no nascimento dos seios – a terra era perfumada com cheiro de mil folhas e flores esmagadas: Lóri se perfumava e essa era uma das suas imitações do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida – com o perfume, de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como húmus, como se a cabeça deitada esmagasse húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lóri perfumar-se era um ato secreto e quase religioso
–usaria brincos? hesitou, pois queria orelhas apenas delicadas e simples, alguma coisa modestamente nua, hesitou mais: riqueza ainda maior seria a de esconder com os cabelos as orelhas de corça e torná-las secretas, mas não resistiu: descobriu-as, esticando os cabelos para trás das orelhas incongruentes e pálidas: rainha egípcia? não, toda ornada como as mulheres bíblicas, e havia também algo em seus olhos pintados que dizia com melancolia: decifra-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar, e
agora pronta, vestida, o mais bonita quanto poderia chegar a sê-lo, vinha novamente a dúvida de ir ou não ao encontro com Ulisses – pronta, de braços pendentes, pensativa, iria ou não ao encontro? com Ulisses ela se comportava como uma virgem que não era mais, embora tivesse certeza de que também isso ele adivinhava, aquele sábio estranho que no entanto não parecia adivinhar que ela queria amor.
Mais uma vez, nas suas hesitações confusas, o que a tranqüilizou foi o que tantas vezes lhe servia de sereno apoio: é que tudo o que existia, existia com uma precisão absoluta e no fundo o que ela terminasse por fazer ou não fazer não escaparia dessa precisão; aquilo que fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, não transbordava nenhuma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete: tudo o que existia era de uma grande perfeição. Só que a maioria do que existia com tal perfeição era, tecnicamente, invisível: a verdade, clara e exata em si própria, já vinha vaga e quase insensível à mulher.
Bem, suspirou ela, se não vinha clara, pelo menos sabia que havia um sentido secreto das coisas da vida. De tal modo sabia que às vezes, embora confusa, terminava pressentindo a perfeição –
de novo esses pensamentos, que de algum modo usava como lembrete (de que, por causa da perfeição que existia, ela terminaria acertando) – mais uma vez o lembrete agiu nela e com seus olhos ainda escuros agora pelo pensamento perturbado, decidiu que veria Ulisses pelo menos mais esta vez.
(…).

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem, ou O livro dos prazeres. 17ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 17-25.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

LAÇOS DE FAMÍLIA: CONTOS




Autor: Clarice Lispector
Título: Uma Galinha,The Chicken, Une Poule
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: Jacques et Teresa Thiériot (fra), Giovanni Pontiero(eng)
Data: 28/12/2004

LAÇOS DE FAMÍLIA: CONTOS


Uma Galinha


Clarice Lispector

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou – o tempo da cozinheira dar um grito – e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta hesitante e trêmula escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos:
-Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
-Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
-Eu também! jurou a menina com ardor.
A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele estado!” A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga – e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho – era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Laços de família: contos. – 11ª.ed. – Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979. p. 31-34.

LIENS DE FAMILLE: CONTES ET NOUVELLES


Une Poule


Clarice Lispector

C’était une poule au pot dominicale. Encore vivante parce que neuf heures n’avaient pas encore sonné.
Elle avait l’air calme. Depuis la veille, elle s’était retatinée dans un coin de la cuisine. Elle ne regardait personne, personne ne la regardait. Même quand ils l’avaient choisie, après avoir palpé son intimité avec indifférence, ils n’auraient su dire si elle était grasse ou maigre. Jamais on n’aurait deviné en elle la moindre velléité.
Ce fut donc une surprise quand ils la virent ouvrir ses ailes peu faites pour le vol, gonfler la poitrine et en deux ou trois essors, atteindre le muret de la terrasse. Un instant encore elle hésita, le temps que la cuisinière pousse un cri, et en un clin d’oiel elle était déjà sur la terrasse du voisin d’où elle s’envola à la va-comme-je-te-pousse pour gagner un toit. Plantée là comme un ornement déplacé, sans savoir sur quelle patte sautiller. La famille, convoquée de tout urgence, consternée, aperçut son déjeuner à côté d’une cheminée. Le maître de maison, se rappelant la double nécessité et de faire de temps en temps du sport et de déjeuner, enfila, la mine radieuse, un caleçon de bain et décida de suivre l’itinéraire de la poule : à petits sauts précautionneux, il atteignit le toit où celle-ci, hésitante et tremblante, choisissait en hâte un autre cap. La poursuite s’intensifia: de toit en toit, plus d’un pâté de maisons fut parcouru. Peu encline à une lutte vraiment sauvage pour la vie, la poule devait décider par elle-même les chemins à prendre, sans le moindre secours de sa race. L’homme toutefois, était un chasseur qui sommeillait. Et si infime que fût la proie, l’heure de l’hallali avait sonné.
Seule au monde, sans père ni mère, elle courait, haletait, muette, concentrée. Parfois elle interrompait sa fuite pour se poser, pantelante, sur la saillie d’un toit, et tandis que l’homme en escaladait d’autres à grand-peine, elle avait le temps de récupérer ses forces un moment. Et alors elle avait l’air vraiment libre.
Stupide, timide et libre. Et non pas victorieuse comme le serait un coq en cavale. Qu’y avait-il dans ses entrailles qui faisait d’elle un être ? La poule est un être. C’est vrai qu’on ne saurait compter sur elle pour quoi que ce soit. Elle même ne comptait par sur elle, comme le coq qui lui, croit en sa crête. Son seut avantage, c’est qu’il existait tant et tant de poules que lorsque l’une mourait, surgissait au même instant une autre toute pareille comme si c’était la même.
Finalement, l’une des fois où elle s’arrêta pour jouir de sa fugue, l’homme l’atteignit. Parmi des cris et des plumes, la voilà attrapée. Aussitôt triomphalement transportée par une aile de toit en toit et déposée sur le sol de la cuisine avec une certaine violence. Encore étourdie, elle s’ébroua un peu avec des gloussements enroués et indécis.
C’est alors que l’événement se produisit. Sous le simple coup de l’affolement la poule pondit un oeuf. Surprise, épuisée. Peut-être avant terme. Mais tout de go, puisq’elle était née pour la maternitée, elle avait déjà l’air d’une vieille mère habituée. Elle s’assit sur son oeuf et garda la pose, reprenant son souffle, boutonnant et déboutonnant ses yeux. Son coeur, si petit dans une assiette, soulevait et abaissait ses plumes, enveloppant de tiédeur ce qui ne serait jamais qu’un oeuf. Seule la petit fille de la maison était là et assista ébahie à la scène. A peine parvint – elle à se détacher de l’événement qu’elle décolla ses pieds et sortit en braillant :
-M’man, m’man, ne tue plus la poule, elle a pondu un oeuf ! Elle nous veut du bien !
Tous coururent de nouveau à la cuisine et firent cercle, bouche bée, autour de la jeune parturiente. Réchauffant son enfant, celle-ci n’était ni douce ni hargneuse, ni gaie ni triste, elle n’était rien, elle était une poule. Ce qui en soi n’inspirait aucun sentiment particulier. Le père, la mère et la fille la regardaient depuis déjà un bon moment, sans la moindre pensée proprement dite. Jamais personne n’a caressé une tête de poule. Le père finit par se décider avec une certaine brusquerie :
-Si tu fais tuer cette poule, je ne mangerai jamais plus de volaille de ma vie !
-Moi non plus, jura la fillette avec ardeur.
La mère, fatiguée, haussa les épaules.
Inconsciente de la vie que lui avait été dévolve, la poule dès lors habita avec la famille. La gamine, de retour de l’école, balançait son sac au loin sans interrompre sa course vers la cuisine. Le père de temps à autre se rappelait encore : « Et dire que je l’ai obligée à courir dans cet était !» La poule était devenue la reine de la maison. Tous, sauf elle, le savaient. Elle continua de partager sa vie entre la cuisine et la terrasse de derrière, utilisant ses deux aptitudes : l’apathie et le sursaut.
Mais quand tous étaient bein tranquilles à la maison et semblaient l’avoir oubliée, elle s’armait d’un petit courage, les restes de sa grande cavale, et elle se baladait sur le carrelage, le corps avançant à la suite de la tête, posément comme dans un champ, bien que sa petite tête la trahît : secouée par un mouvement rapide et vibratile, provoqué par le vieil effroi de son espèce désormais mécanisé.
De temps à autre, mais de plus en plus rarement, elle rappelait de nouveau la poule qui s’était découpée sur le ciel, au bord du toit, prête à caqueter. Alors elle emplissait ses poumons de l’air impur de la cuisine et même si les femelles avaient pu chanter, elle n’allait pas chanter mais s’en trouverait plus satisfaite. Et pourtant, même à ces moments – là, l’expression de sa tête vide ne changeait pas : pendant sa fugue, au repos, au moment d’accoucher ou picorant du maïs, c’était une tête de poule, la même tête qui avait été dessinée au commencement des siècles.
Jusqu’au jour où ils la tuèrent, la mangèrent, et des années passèrent.

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Fonte : LISPECTOR, Clarice. Liens de famille : contes et nouvelles. Traduits du brésilien par Jacques et Teresa Thiériot. Paris [França] : Des Femmes, 1989. p. 43-48.

FAMILY TIES


The Chicken


Clarice Lispector

It was the chicken for Sunday’s lunch. Still alive, because it was still only nine o’clock in the morning. She seemed placid enough. Since Saturday she had huddled in a corner of the kitchen. She looked at no one and no one paid any attention to her. Even when they had chosen the chicken, feeling the intimacy of her body with indifference, they could not tell if she were plump or thin. No one would ever have guessed that the chicken felt anxious.
It was a surprise, there fore, when they saw her spread open her stubby wings, puff out her breast, and in two or three attempts, fly to the backyard wall. She still hesitated for a second – sufficient time for the cook to cry out – and soon she was on their neighbour’s terrace, from which, in another awkward flight, she reached the roof. There the chicken remained, like a displaced ornament, perched hesitantly now on one foot, now on the other. The family was hastily summoned and in consternation saw their lunch outlined against a chimney. The master of the house, reminding himself of the two fold necessity of sporadically engaging in sport and of getting the family some lunch, appeared resplendent in a pair of swimming trinks and resolved to follow the path traced by the chicken, in cautious leaps and bounds, he scaled the roof where the chicken: hesitant and tremulous, urgently decided on another route. The chase now intensified. From roof to roof, more than a block along the road was covered. Little accustomed to such a savage struggle for survival, the chicken, had to decide for herself the paths she must follow without any assistance from her race. The man, however, was a natural hunter. And no matter how a abject the prey, the cry of victory was in the air.
Alone in the world, without father or mother, the chicken was running and panting, dumb and intent. At times during her escape she hovered on some roof edge, gasping for breath and, while the man strenuously clambered up somewhere else, she had time to rest for a moment. And she seemed so free. Stupid, timid, and free. Not victorious as a cock would be in flight. What was it in the chicken’s entrails that made her a being? The chicken is, in fact, a being. It is true that one would not be able to rely upon her for anything. Nor was she even self – reliant like the cock who believes in his crest. Her only advantage was that there were so many chickens that when one died, another automatically appeared, so similar in appearance that it might well be the same chicken.
Finally, on one of those occasions when she paused to enjoy her bid for freedom, the man reached her. Amid shrieks and feathers, she was caught. She was immediately carried off in triumph by one wing across the roof tiles and dumped somewhat violently on the kitchen floor. Still giddy, she shook herself a little with raucous and uncertain cackles.
It was then that in happened. Positively flustered, the chicken laid an egg. She was surprised and exhausted. Perhaps it was premature. But from the moment she was born, as if destined for motherhood, the chicken had shown all the signs of being instinctively maternal. She settled on the egg and there she remained, breathing as her eyes buttoned and unbuttoned. Her heart, which looked so tiny on a plate, raised and lowered her feathers, warming that egg which would never be anything else. Only the girl of the house was on the scene, and she assisted at the event in utter dismay. No sooner had she disengaged herself from the event than she jumped up from the floor and ran out shouting.
‘ Mummy! Mummy! Don’t kill the chicken, she’s laid an egg! The chicken loves us!’
They all ran back into the kitchen and stood round the young mother in silence. Warming her offspring, she was neither gentle nor cross, neither happy nor sad; she was nothing, she was simply a chicken – a fact that did not suggest any particular feeling. The father, mother, and daughter had been standing there for some time now, without thinking about anything in particular. No one was known to have caressed a chicken on the head. Finally, the father decided, with a certain brusqueness, ‘If you have this chicken killed, I will never again eat a fowl as long as I live!’
‘ Nor me!’ the little girl promised with passion.
The mother, feeling weary, shrugged her shoulders. Unconscious of the life that had been spared her, the chicken became part of the family. The little girl, upon returning from school, would toss her school bag down without disturbing the chicken’s wanderings across the kitchen. The father, from time to time, still remembered. ‘And to think that I made her run in that state!’
The chicken became the queen of the household. Everybody, except her, knew it. She ran to and fro, from the kitchen to the terrace at the back of the house, exploiting her two sources of power: apathy and fear.
But when everyone was quiet in the house and seemed to have forgotten her, she puffed up with modest courage, the last traces of her great escape. She circled the tiled floor, her body advancing behind her head, as unhurried as if in an open field, although her small head betrayed her, darting back and forth in rapid vibrant movements, with the age – old fear of her species now ingrained. Once in a while, but ever more infrequently, she remembered how she had stood out against the sky on the roof edge ready to cry out. At such moments, she filled her lungs with the stuffy atmosphere of the kitchen and, had females been given the power to crow, she would not have crowed but would have felt much happier. Not even at those moments, however, did the expression on her empty head alter. In flight or in repose, when she gave birth or while pecking grain, hers was a chicken’s head, identical to that drawn at the beginning of time. Until one day they killed her and ate her, and the years rolled on.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Family Ties. Translated with an after word by Giovanni Pontiero. Manchester [Inglaterra]: Carcanet, 1985. p. 28-31.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

O AMANUENSE BELMIRO




Autor: Ciro dos Anjos
Título: O AMANUENSE BELMIRO, BELMIRO, EL AMANUENSE BELMIRO
Idiomas: port, fra, esp
Tradutor:
Data: 28/12/2004

O AMANUENSE BELMIRO

7

A donzela Arabela

Ciro dos Anjos

Aconteceu-me ontem uma coisa realmente extraordinária. Não tendo conseguido conter-me em casa, desci para a Avenida, segundo habito antigo. Já ela estava repleta de carnavalescos, que aproveitavam, como podiam, sua terceira noite.
Pus-me a examinar colombinas fáceis, do lado da Praça Sete, quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. Procurei desvencilhar-me, como pude, mas a onda humana vinha imensa, crescendo em torno de mim, por trás, pela frente e pelos flancos. Entreguei-me, então, aquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Respondi-lhe que, em rapaz, consumi a garganta em serenatas e que esta, já agora, não ajudava. Imagino a figura que fiz, de colarinho alto e pince-nez, no meio daquela roda alegre, pois os foliões e engraçaram comigo, e fui, por momentos, o atrativo do cordão. Tanto fizeram que, sem perceber o disparate, me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas.
Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. Deram-me uma corrida e, depois de me terem atirado confete a boca, abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. Novo cordão levou-me, porém, para outro lado, e, nesse vaivém, fui arrastado pelos acontecimentos. Um jato de perfume me atingia as vezes. Procurava, com os olhos gratos, a origem dessa caricia, mas percebia, desanimado, que aquele jato resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. Contudo, aquelas migalhas me consolaram e comoviam. Dêem-me um jato de éter perdido no espaço e construirei um reino. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo, que a livrou dos braços de um marinheiro.
Bebendo aqui, bebendo ali, acabei presa de grande excitação, correndo atrás de choros, de blocos e cordões. Não sei como, envolvido em que grupo, entrei no salão de um clube, acompanhando a massa na sua liturgia pagã.
Lembra-me que homens e mulheres, a um de fundo, mãos postas nos quadris do que ia a frente, dançavam, encadeados, e entoavam os coros que descem do Morro. Toadas tristes, que vem da carne.
A certo momento, alguém e enlaçou o braço, cantando: “Segura, meu bem, segura na mão, não deixes partir o cordão…” O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Foi uma visão extraordinária. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela, a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda, contava-se história da casta Arabela, que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias.
Efeito da excitação de espírito me que me achava, ou de qualquer outra perturbação, senti-me fora do tempo e do espaço, e meus olhos só percebiam a doce visão. Era ela, Arabela. Como estava bela! A música lasciva se tornou distante, e as vozes dos homens chegavam a mim, lentas e desconexas. Em meio dos corpos exaustos, a incorpórea e casta Arabela. Parecia que eu me comunicava com Deus e que um anjo descera sobre mim. Meu corpo se desfazia em harmonias, e alegre música de pássaros se produzira no ar. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que, em um momento impossível de localizar, no tempo e no espaço, a mão me fugiu. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão, pisado e machucado, e me pôs num canapé onde, já sol alto, fui dar acordo de mim.
O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombarias do Belmiro sofisticado e faz crescer, desmesuradamente, em mim, um Belmiro patético e obscuro. Mas viviam os mitos, que são o pão dos homens.
Nesta noite de quarta-feira de cinzas, chuvosa e reflexiva, bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas, e o homem procura a infância, numa comovente pesquisa das remotas origens do ser.
Há muito que ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade – descendo de novo cautelosamente, a margem do caminho, o véu que cobre a face real das coisas e que foi, aqui e ali, descerrado por mão imprudente – parece-me a única estrada possível. Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo.

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Fonte: ANJOS, Ciro dos. O amanuense Belmiro. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971, p. 19-21.

EL AMANUENSE BELMIRO

7

La doncella Arabela

Ciro dos Anjos

Acontecióme ayer una cosa realmente extraordinaria. No habiendo logrado quedarme en casa por la noche, descendí hacia la Avenida, según mi antigua costumbre. Estaba llena de máscaras que aprovechaban como podían su tercera noche.
Me quedé mirando las colombinas fáciles que había por el lado de la plaza Sete, cuando inesperadamente me vi envuelto en un grupo de máscaras. Procuré escapar como pudiera, pero la onda humana era enorme, crecía en torno mío por detrás, por delante y por ambos lados. Me entregué entonces a aquella humanidad que me pareció más cansada que alegre. Las zambas eran tristes y los hombres chorreaban sudor como si salieran del fondo de una mina. Una máscara, que semejaba un mono, me dió el brazo y me ordeno que cantara. Respondíle que de rapaz había consumido mi garganta en serenatas, por lo que ahora no podía ayudarles. Imagino la figura que hice, de cuellecito alto y pince-nez, en medio de aquel corro alegre, pues los cantantes la tomaron conmigo y fui por unos momentos el hazmerreír del grupo. Tanto hicieron que sin darme cuenta de que aquello era un disparate me puse a entonar una vieja canción de Vila Caraíbas.
Una carcajada espantosa hizo explosión en torno mío. Me persiguieron corriendo, después de haberme metido confetti por la boca, dejándome luego en medio de la calle embriagado por el éter de los perfumadores. Una nueva banda me empujó todavía hacia otro lado, y en este vaivén fuí arrastrado por los acontecimientos. Un chorro del volátil perfume me llegaba de vez en cuando. Procuraba, con los ojos agradecidos, averiguar de dónde provenía aquella caricia, pero advertía, desanimado, que me llegaba de rechazo, pues no era a mí a quien la destinaba cierta joven disfrazada de muñeca holandesa. Con todo, aquellas salpicaduras me consolaban y conmovían. Dadme un poco de perfume perdido en el espacio y construiré un reino. Mas la muñeca fué arrastrada por un príncipe ruso, que la libró de los brazos de un marinero.
Bebiendo aquí y allá acabé presa de gran excitación, corriendo en pos de máscaras y músicos. No sé cómo ni envuelto en qué grupo entré en el salón de un club, acompañado a la masa en su liturgia pagana.
Recuerdo que hombres y mujeres, de uno en fondo, con las manos puestas en las caderas del que marchaba delante, bailaban encadenados y entonaban los sensuales coros que descienden de los cerros. Eran cánticos muy tristes, que provenían de la carne.
De pronto, alguien me tomó por el brazo, cantando: “Agárrate bien, agárrate bien, no rompas el corro…” El brazo que se cogió del mío tenía una blanca y fina mano. Nunca lo olvidaré. Era una blanca y fina mano. Me volvi. La dueña de la mano era una blanca y dulce doncella. Fué una visión extraordinaria. Me pareció que descendía hasta mi la blanca Arabela, la doncella del castillo que tiene una torre oscura donde se van a posar las golondrinas. ¡Pobre mito infantil!… En las largas noches de la hacienda se contaba la historia de la casta Arabela, que murió de amor y que en la torre del castillo entonaba tristes melodías.
Por efecto de la excitación en que me hallaba o debido a cualquier otra alteración, el caso es que sentíme fuera del tiempo y del espacio, de modo que mis ojos sólo percibían la dulce visión. Era ella, Arabela. ¡Qué bella estaba!… La música lasciva se hizo distante y las voces de los hombres llegaban hasta mí lentas e inconexas. En medio de los cuerpos exhaustos, Arabela surgía, incorpórea y casta. Parecía que yo me comunicase con Dios y que un angel hubiese descendido sobre mí. Mi cuerpo se deshacía en armonías, y uma alegre música de pájaros estremecía el aire.
No sé cuánto tiempo duró el encantamiento, y sólo recuerdo vagamente que en un instante imposible de localizar en el tiempo o en el espacio, aquella mano se me escapó. También tengo una vaga idea de que alguien me recogió del suelo, pisado y magullado, y me puso en un sofá donde, ya siendo de día, recobre el sentido.
El mito de la doncella Arabela ha llenado mi vida. Este absurdo romanticismo de Vila Caraíbas tiene una fuerza tal que supera a las burlas del Belmiro sofisticado y hace crecer en mí desmesuradamente un Belmiro patético y oscuro. Pero vivan los mitos, que son el pan de los hombres.
En esta noche de miércoles de ceniza, lluviosa y reflexiva, me doy cuenta de que voy entrando en una fase de la vida en que el espíritu prescinde de sus conquistas y el hombre torna a la infancia en una conmovedora pesquisa de los remotos Orígenes del ser.
Hace mucho que vivo en estado de entrega. Entregarse a las puras y mejores emociones, renunciar a los rumbos de la inteligencia y vivir simplemente por la sensibilidad – cerrando de nuevo, cautelosamente, al margen del camino, el velo que cubre la faz real de las cosas y que fué descorrido acá y allá por mano imprudente – paréceme el único camino posible. Donde hubiere claridad, hágase la débil luz del crepúsculo, para que las cosas se tornen indefinidas y podamos engendrar nuestros fantasmas. Acaso fuera ésta una fórmula para conciliarnos con el mundo.

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Fonte: ANJOS, Ciro dos. El amanuense Belmiro: novela. México, Tezontle, 1954, p. 28-31.

BELMIRO


7

La Princesse Arabelle


Ciro dos Anjos

Il m’est arrivé hier soir une chose réellement extraordinaire. Ne pouvant plus tenir à la maison, je descendis dans l’avenue, comme j’en ai l’habitude. Elle était déjà pleine de fêtards qui profitaient come ils pouvaient de leur troisième nuit de carnaval.
J’examinais d’accortes colombines du côté de la Praça Sete quand, de manière inattendue, je me vis entraîné dans le flux d’un cordão : J’essayai de m’en dégager comme je plus, mais la vague humaine était immense et grandissait autour de moi, derrière, devant et sur les flancs. Je m’abandonnai alors à cette humanité qui me parut plus fatiguée que gaie. Les sambas étaient tristes et les hommes dégoulinaient de sueur. Un homme-singe me donna le bras et me dit de chanter. Je lui répondis que, jeune homme, je m’étais ruiné la voix en sérénades et qu’en la circonstance elle m’était de peu d’utilité. J’imagine la tête que je fis à ce moment – là, en col dur et pincez-nez au milieu de cette ronde joyeuse, car les farceurs me trouvèrent à leur goût et je fus pour quelques instants le clou du cordão. Ils firent tant et si bien que, sans m’apercevoir du ridicule de la situation, je me mis à chanter un vieil air de Vila Caraïbas.
Un énorme rire éclata autour de moi. M’entraînant dans une course éperdue, ils m’abandonnèrent bientôt au milieu de la rue, ivre d’éther et des confettis plein la bouche. Un autre cordão me poussa alors d’un autre côté et, ballotté dans ce va-et-vient incessant, je devins le jouet des événements. Parfois une giclée de parfum m’atteignait. Je cherchais, les yeux reconnaissants, l’origine de cette douce attention. Mais je découvrais, bientôt déçu, la coulée de parfum sur un autre visage auquel le destinait une poupée hollandaise. Malgré tout, ces miettes me consolaient et me touchaient. Qu’on me donne un jet d’éther perdu dans l’espace et je construirai un royaume ! Pendant ce temps la poupée hollandaise fut enlevée par un prince russe qui la délivra des bras d’un marin.
À force de boire ici et là, je finis par être la proie d’une grande excitation, courant derrière les choros les blocos et les cordões . Puis, je ne sais trop comment, ni mêlé à quel groupe, j’entrai dans les salons d’un club, accompagnant la foule dans sa liturgie païenne.
Je me souviens, hommes et femmes en file indienne, les mains posées sur les hanches de celui qui allait devant, dansaient enchaînes et entonnaient des airs venu de là-haut, du Morro³ , des chansons tristes tirées de la chair.
À un moment donné quelqu’on me prit le bras en chantant : « Tiens bon ma main, mon coeur, tiens bon. Ne laisse pas s’échapper le cordão… » Le bras qui se souvint de mon bras avait une main blanche et fine. Je n’oublierai jamais : une main blanche et fine. Je tournai la tête : la propriétaire de la main était une blanche et douce demoiselle. Ce fut une vision extraordinaire. Il me semblait que la blanche Arabelle était descendue jusqu’à moi, la princesse du château à la tour sombre où les hirondelles vont se poser. Pauvre mythe de mon enfance ! Pendant les longues nuits de la fazenda, on racontait l’histoire de la chaste Arabelle qui mourut d’amour et dont le chant désolé emplissait la tour du château.
Effet de l’excitation sur mon esprit ou de quelqu’autre perturbation, je me sentis hors du temps et de l’espace, mes yeux ne voyaient que la douce apparition. C’était elle, Arabelle. Comme elle était belle ! La musique lascive s’éloigna, les voix des hommes me parvenaient, lentes et incohérentes. Au milieu des corps exténués, l’incorporelle et chaste Arabelle. Il me semblait que je communiquais avec Dieu et qu’un ange était descendu jusqu’à moi. Mon corps se dissolvait en harmonies et l’air vibrait d’un joyeux chant d’oiseau.
Je ne me rappelle pas combien de temps dura l’enchantement, je sais seulement qu’à un moment difficile à situer dans le temps et dans l’espace, la main m’échappa. J’ai aussi la vague impression que quelqu’un me ramassa par terre, piétiné, meutri, et m’étendit sur un canapé. Le soleil était déjà haut quand je me réveillai.
Le mythe de la princesse Arabelle a rempli ma vie. Cet absurde romantisme de Vila Caraïbas a plus de force que tous les sarcasmes du Belmiro sophistiqué, et fait grandir en moi, démesurément, un Belmiro pathétique et sombre. Mais soit ! Et que vivent les mythes qui sont le plain des hommes.
En cette nuit de mercredi des Cendres, pluvieuse et recueillie, je vois bien que j’entre dans une phase de la vie où l’esprit renonce à ses conquêtes, où l’homme part à la recherche de son enfance dans une quête émouvante des loitaines origines de l’être.
Il y a longtemps, pour ma part, que je connais cet état d’abandon. S’abandonner aux pures et aux meilleures émotions, renoncer aux effets de l’intelligence et vivre simplement à travers sa sensibilité – descendre à nouveau soigneusement, au bord du chemin, le voile qui couvre la face réelle des choses et qui fut ça et là soulevé d’une main imprudente – me semble la seule voie possible. À la clarté préférons la lumière fragile du crépuscule, à l’heure où les choses deviennent indécises et nous laissent à loisir engendrer nos fantasmes. Peut-être y a-t-il là une manière de nous réconcilier avec le monde ?

____________________________
Fonte : ANJOS, Ciro dos. Belmiro (Belo Horizonte, 1935) : roman. Traduit du portuguais par Cecile Tricoire. Paris : A.M. Metailie, 1988. p. 110-111.





Bio fornecida pelo palestrante.

Canção




Autor: Cecília Meireles
Título: Canção,Canción e Sugestão, Sugestión
Idiomas: port, esp
Tradutor: Blanca Luz Pulido(esp)
Data: 27/12/2004

Canción

Cecília Meireles

Puse en mi sueño un navío
y al navío sobre el mar;
después, abrí el mar con las manos,
y mi sueño naufragó.
Mis manos están aún mojadas
del azul de las abiertas olas,
y el color gotea de mis dedos
pintando la arena desierta.
El viento llegó de muy lejos,
la noche se dobla de frío;
debajo del agua ya muere
mi sueño, dentro de un navío.
Lloraré cuando sea preciso,
para que el mar se levante,
y mi navío llegue al fondo
y mi sueño ya no exista.
Después, todo será perfecto:
playa en calma, aguas quietas,
mis ojos secos como piedras
y mis dos manos quebradas.

_____________________________

Fonte: (www.fuentes.csh.udg.mx)/ Traducción de Blanca Luz Pulido

 

Sugestión

Cecília Meireles

Sucede así – cualquier cosa
serena, libre, fiel.
Flor que se cumple, sin pregunta.
Ola que se violenta, a causa de ejercicio indiferente.
Luna que envuelve igual a los novios abrazados y a los soldados ya fríos.
También como este aire de la noche: susurrante de silencios, lleno de nacimientos y pétalos.
Igual a la piedra detenida, conservando su demorado destino. Y la nube leve y bella, viviendo de nunca llegar a ser.
La cigarra quema en su música, al camello que mastica su larga soledad,
Al pájaro que busca el fin del mundo, al buey que va con inocencia hacia el monte.
Sucede así, cualquier cosa serena, libre, fiel.
No como al resto de los hombres.

Sugestão

Sede assim – qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre, sem pergunta.
Onda que se esforça, por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente os noivos abraçados e os soldados já frios.
Também como esse ar da noite: sussurrante de silêncios, cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida, sustentado seu demorado destino. E a nuvem, leve e bela, vivendo de nunca chegar a ser.
A cigarra queimando-se em música, ao camelo que mastiga sua solidão.
Ao pássaro que procura o fim do mundo, ao boi que vai com inocência para a monte.
Sede assim, qualquer coisa serena, isenta, fiel.
Näo como o resto dos homens.

________________________

Fonte: http://autordelasemana.uchile.cl/poesiabrasil/antologia.html.

Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meus olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.

__________________________

Fonte: http://www.geocities.com/Paris/Rue/1020/.





Bio fornecida pelo palestrante.

POEMAS




Autor: Cecília Meireles
Título: POEMAS
Idiomas: port,esp
Tradutor:
Data: 27/12/2004

POEMAS

Cecília Meireles

 


MOTIVO
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.
SERENATA
Repara na canção tardia
que nitidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.
Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.
Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.
METAMORFOSE
Súbito pássaro
dentro dos muros
caído,
pálido barco
na onda serena
chegado.
Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.
E imensamente
o navegante
mudado.
Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.
Seu lábio leva
um outro nome
mandado.
Súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.
Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.
Nunca jamais
e para sempre
perdido
o eco do corpo
no próprio vento
pregado.

_______________
Fonte: MEIRELES, Cecília. Poemas. [Poesias. Espanhol e Português. Poemas/ Cecília Meireles; prólogo y selección de José de Souza Rodrígues; traducción de Ricardo Silva-Santisteban.] Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1983. p. 22, 26, 46, 48.


POEMAS

MOTIVO

Canto porque el instante existe
y ya mi vida está completa.
No soy alegre ni soy triste:
soy poeta.
Hermano de las cosas fugitivas
no siento gozo ni tormento.
Atravieso noches y días
en el viento.
Si desmorono o si edifico,
permanezco o me desvanezco,
-no sé, no sé. No sé si me quedo
o si paso.
Sé que canto. Y la canción lo es todo.
Tiene sangre eterna el ala ritmada.
Y un día sé que estaré mudo:
-nada más.
Serenata
Repara en la canción tardía
que nítidamente se eleva
con un murmullo de fuente fría.
El rocío tiembla en lo oscuro
y el viento de la noche procura
la voz que el viento abraza y lleva.
Repara en la canción tardía
que ofrece a un mundo derrotado
su flor de melancolía.
Es tan triste mas tan perfecto
el movimiento en que murmura
como un corazón en el pecho.
Repara en la canción tardía
que por sobre tu nombre, apenas,
dibuja su melodía.
Y en esas letras tan pequeñas
entero el universo perdura.
Y el tiempo suspira en la altura
por eternidades serenas.
METAMORFOSIS
Pájaro súbito
entre los muros
caído,
pálido barco
venido en la onda
serena.
¡Noche sin brazos!
Cálida sangre
corrida.
E inmensamente
el navegante
mudado.
Sus ojos densos
apenas saben
que fueron.
Su labio lleva
distinto nombre
enviado.
Pájaro súbito
por altas nubes
bebido.
Pálido barco
en flores quietas
quebrado.
Ya para siempre
y para siempre perdido
eco del cuerpo
en el mismo aire
clavado.

__________________
Fonte: MEIRELES, Cecília. Poemas. [Poesias. Espanhol e Português. Poemas/ Cecília Meireles; prólogo y selección de José de Souza Rodrígues; traducción de Ricardo Silva-Santisteban.] Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1983. p. 23, 27, 47, 49.





Bio fornecida pelo palestrante.

RETRATO EM LUAR




Autor: Cecília Meireles
Título: RETRATO EM LUAR, RITRATTO AL CHIAR DI LUNA
Idiomas: port, ita
Tradutor: Anton Angelo Chiocchio(ita)
Data: 28/12/2004

RETRATO EM LUAR


Cecília Meireles

 

Meus olhos ficam neste parque,
minhas mãos no musgo dos muros,
para o que um dia vier buscar-me,
entre pensamentos futuros.

Não quero pronunciar teu nome,
que a voz é o apelido do vento,
e os graus da esfera me consomem
toda, no mais simples momento.

São mais duráveis a hera, as malvas,
que a minha face deste instante.
Mas posso deixá-la em palavras,
gravada num tempo constante.

Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às árvores:
solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.

RITRATTO AL CHIAR DI LUNA

Cecília Meireles

Lascio i miei occhi in questo parco
le mani nel muschio dei muri,
per quegli che un giorno a cercarmi
verrà, tra pensieri futuri.

Non voglio chiamarti per nome:
parrebbe il sibilo del vento;
brucio tra i gradi della sfera
tutta, nel semplice momento.

Durano piá l’edera, l’erba
che il viso mio di quest’istante.
Ma posso fissarlo in parole,
scolpirlo in un tempo costante.

Mai gli occhi ho avuti tanto chiari
e folle il riso, come l’aria…
mi sento tutta uguale agli alberi:
perfetta, pura e solitaria.

Qui l’occhio mio vede dal fíore,
qui il braccio mio teso é nel ramo,
qui voci d’acque vaghe echeggiano
quella d’amore che sognamo.

_____________________________________

Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/aangel03.html. Trad: Anton Angelo Chiocchio.





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CANÇÃO DO BOÊMIO




Autor: Castro Alves
Título: CANÇÃO DO BOÊMIO
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 26/12/2004

CANÇÃO DO BOÊMIO
(RECITATIVO DA MEIA HORA DE CINISMOCOMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS)
(De Espumas flutuantes)

Castro Alves

Música de EMILIO DO LAGO

Que noite fria! Na deserta rua
Tremem de medo os lampiões sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua,
Ladram de tédio vinte cães vadios.
Nini formosa! por que assim fugiste?
Embalde o tempo à tua espera conto.
Não vês, não vós?… Meu coração é triste
Como um calouro quando leva ponto.
A passos largos eu percorro a sala
Fumo um cigarro, que filei na escola…
Tudo no quarto de Nini me fala
Embalde fumo… tudo aqui me amola.
Diz-me o relógio cinicando a um canto
“Onde está ela que não veio ainda?”
Diz-me a poltrona “por que tardas tanto?
Quero aquecer-te rapariga linda.”
Em vão a luz da crepitante vela
De Hugo clareia uma canção ardente;
Tens um idílio — em tua fronte bela…
Um ditirambo — no teu seio quente…
Pego o compêndio… inspiração sublime
P’ra adormecer… inquietações tamanhas…
Violei à noite o domicílio, ó crime!
Onde dormia uma nação… de aranhas…
Morrer de frio quando o peito é brasa…
Quando a paixão no coração se aninha!?…
Vós todos, todos, que dormis em casa,
Dizei se há dor, que se compare à minha!.. .
Nini! o horror deste sofrer pungente
Só teu sorriso neste mundo acalma…
Vem aquecer-me em teu olhar ardente…
Nini! tu és o cache-nez dest’alma.
Deus do Boêmio!… São da mesma raça
As andorinhas e o meu anjo louro…
Fogem de mim se a primavera passa
Se já nos campos não há flores de ouro…
E tu fugiste, pressentindo o inverno.
Mensal inverno do viver boêmio…
Sem te lembrar que por um riso terno
Mesmo eu tomara a primavera a prêmio..
No entanto ainda do Xerez fogoso
Duas garrafas guardo ali… Que minas!
Além de um lado o violão saudoso
Guarda no seio inspirações divinas…
Se tu viesses… de meus lábios tristes
Rompera o canto… Que esperança inglória…
Ela esqueceu o que jurar lhe vistes
Ó Paulicéia, ó Ponte-grande, ó Glória!…
Batem!… que vejo! Ei-la afinal comigo…
Foram-se as trevas… fabricou-se a luz…
Nini! pequei… dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços… do martírio a cruz!…





Bio fornecida pelo palestrante.

The Slave Ship




Autor: Castro Alves
Título: The Slave Ship, Le Navire Négrier
Idiomas:
Tradutor: Van Der Haegen(fra), DAVID BARNHART (eng)
Data:

Le Navire Négrier

Castro Alves

 

I
Pleine mer… Ivres d’espace
files rayons de lune folâtrent — blondes phalènes
Et les vagues les poursivent et se lassent
Comme une troupe d’enfants turbulents.
Pleine mer… Du fírmament
Les astres jaillissent en écume d’or…
Sur Ia mer scintillent les feux phosphorescents
— Constellations du liquide trésor…
Pleine mer… Deux infinis
Lei s’éfreignent dans un fol embrassement
Bleus, dorés, placides, sublimes…
Lequel est le ciel? Lequel l’océan?…
Pleine mer… Ouvrant ses voiles
A la chaude haleine des brises marines
Un voilier, un brick, court à la surface des eaux
Comme les hirondelles effleurent la vague.
D’oú vient-il? Où va-t’il? Des nefs errantes
Qui connait la route dans un tel espace?
Dans ce Sahara les coursiers soulèvent la poussière
Galopent, volent, mais ne laissent point de trace.
Heureux qui peut à cette heure
Sentir de ce tableau toule la majesté! …
En bas — la mer… en haut — le firmemente..
Et dans la mer et dans le ciel — I’immensité!
Oh! Quelle douce harmonie m’apporte la brise!
Quelle suave musique s’élève au loin?
Mon Dieu! Qu’il est sublime le chant ardent
Qui vogue sur les vagues au hasard sans fin.
Hommos de mer! Ô rudes marins,
Brunis par le soleil des quatre mondes!
Enfants couvés par la tempête
Dans le berceau de ces mers profondes!
Attendez, attendez… laissez-moi boire
Cette sauvage et libre poésie…
L’orchestre — cest la mer, à la proue, qui rugit
Et le vent qui siffle dans les cordages
………………………………………….
Pourquoi fuis-tu ainsi, nef rapide?
Pourquoi fuis-tu le timide poète?
Oh! que ne puis-je suivre ton sillage
Qui dessine sur la mer — une folle comète!
Albatros! Albatros! aigle de l’océan,
Toi qui dors dans la gaze des nuages,
Réveille-toi! Léviathan de l’espace,
Albatros! Albatros! donne-moi tes ailes.
II
Qu’ímporte le berceau du nautonier
De qui il est fils, et quel est son foyer?
Il aime la cadence du vers
Que lui enseigne le viel océan!
Chantez! car la mort est divine!
Le brick glisse à la bouline
Comme un rapide dauphin.
Du haut du mât de misaine
Un pavillon, dans un geste d’adieu s’incline
Vers les vagues qui fuient au loin.
Les cantilènes de l’Espagnol
Languissantes d’amour,
Chantent les filles brunes,
Les Andalouses en ficur!
De l’Italie le fils indolent
Chante Venise exidormie,
— Terre d’amour et de trahison,
Ou dans le creux du golfe
Evoque les vers du Tasse
Près des laves du volcan!
L’Anglais — froid marin,…
Qui en mere en naissant s’est trouvé,
(Car l’AngIeterre est un navire,
Que Dieu a dans la Manche ancré),
Dur, entonne à la gloire de sa patrie,
Avec orgueil, l’hístoire
I)e Nelson et d’Aboukir.
Le Français — prédestiné —
Chante les louanges du passé
Et les lauriers de l’avenir!
Les marins hellènes
Nés de la vague ionienne
Beaux piratcs bruns
De la mer sillonnée par Ulysse,
Hommes que Phidias eut sculptés,
Chantent dans la nuit claire
Les vers qu’Homère a pleurés…
Marins de tous les rivages,
Vous savoz trouver dans les vagues
Les mélodies du ciel…
III
Descends de l’espace immense, ô aigle de l’océan!
Descends encore.. . plus encore.. . aucun regard humain,
Ne peut comme le tien plonger dans le brick rapide!
Mais que vois-je là… Quel tableau d’amertumes?
C’est un chant funèbre! Quelles figures! …
Quelle scène infame et vile!… Mon Dij-.U!… Quelle horreur!
IV
C’était un songe dantesque… le pont
Tout baigné de sang
Qui rougit l’éclat des fànaux.
Un tintement de fers — le claquement du fouet —
Des légions d’hommes noirs comme —a nuit
Horribles, qui dansent…
Des femmes noires, tenant à leur sein
Des maigres enfants, dont les bouches noires
Sont arrosées du sang de leur mères!
D’aufres, jeunes, mais nues et effrayées
Dans ce tourbillon de spectres entrainées,
Dans une angoisse et une peine vaines!
Et l’orchestre se rit ironique, strident.
Et de la ronde fantastique, le serpent
Fait de folles spirales…
Si le vieillard halète, s’il glisse
On entend des cris. . . le fouet claque
Et la ronde s’affole.
Rivée aux maillons d’une seule chaine,
La foule affamée titube
Et pleure ef danse!
L’uji délire de rage, l’aufre perd le sens,
Un autre, hébété de douleur,
En chantant, rit et pleure!
Tandis que le capitaine ordonne la manoeuvre
Puis, regardant le ciel qui se déploie
Sur la mer si pur
Il dit entre les épaisses volutes de fumée:
“Hardi, matelots, frappez dur
Faites redoubler la danse.?
Et l’orchestro se rit, ironique, strident…
Et de la ronde fantastique le serpent
Fait de folles spirales…
Comme dans un songe dantesque les ombres volent,
Cris, soupirs, jurons, prières s’élèvent!
Et Satan est pris de rire!
V
Seigneur, Dieu des malheureux!
Ditos-moi, Vous, Seigneur!
Si c’est folie, ou si c’est vrai
Tant d’horreurs devant les cieux?.
Océan, pourquoi n’effaces-tu pas
Avec l’éponge de tes vagues
Cette tache de ton manteau?…
Xs-tres! Nuits! Tempêfes!
Roulez des immensités!
Thyphon, balayez les mers!
Qui sont ces malheureux
Qui ne rencontrent en vous,
Que le rire calme de la foule
Qu’excite la furie du bourreau?
Qui sont-ils? Si l’étoile se tait,
Si la vague oppressée glisse
Comme un complice qui fuit
Devant la nuit confuse…
Dis-le, to!, Muse sévère,
Muse féconde, audacieuse!…
Ce sont les fils du désert,
Oú la lumière épouse, Ia terre.
Oú vit à ciel ouvert
La tribu des hommes nus…
Ce sons les guerriers intrépides
Qui combattent dans la solitude,
Avec les tigres mouchetés
Hier, simples, forts, braves…
Aujourd’hui misérables esclaves,
Sans lumière, sans air, sans raison
Ce sont des femmes malheur uses
Comme Agar le fut aussi.
Qui, mourant de soif, epuisées
Viennent de loin… de três loin…
Portant d’un pas affaibli
Des enfants et des chaines aux bras,
Dans l’âme — des larmes et du fiel…
Comme Agar souffrant tellement
Qtt’elles ne peuvent même pas donner
Le laif de leurs pleurs à Ismael.
Là-bas, dans les sables infinis,
Du pays des palmeraies,
Elles sont nées — enfants jolies
Elles ont vécu — fillettes gracieuses…
Un joir passe la caravane,
Quand la vierge dans la cabane
Rêve dans les voiles de la nuit…
… Adieu, é cliaumière de la forêf,
… Adieu, palmeraies autour du puits! …
… Adieu, amours… adieu! …
Puis, la grève immense…
Puis, l’océan de poussière.
Puis à l’horizon sans borne
Des déserts… rion que des déserts…
Et la faím, la fatigue, la soif…
Hélas! combien de malheureux cèdent,
Et tombent pour ne plus se relever! …
Une piace ost libre dans la chaine,
Mais le chacal sur l’arène
Trouve un corps à ronger.
Hier, la Sierra Léone,
La guerre, la chasse au lion,
Le sommeil à l’aventure
Sous les tentes de la nature!
Aujourd’hui… la cale sombre, profonde,
Infecte, étroite, immonde,
Ayant la peste pour jaguar…
Et le sommeil toujours coupé
Par l’agonie d’un moribond
Et la chute d’un corps dans la mer…
Hier, pleine liberté
La volonté pour loi.
Aujourd’hui… combie de méchanceté,
Pas même chaine les lie
— Lugubre serpent de fer —
Dans les noeuds dc l’esclavage.
Et se moquant de la mort,
La lugubre cohorte danse
Dérision… au son du fouet.
Seigneur, Dieu des malbeureux!
Dites-moi, vous, Seigneur,
Si je délire… ou si c’est vrai
Tant d’horreur devant les cieux?
Océan, pourquoi n’effaces-tu pas
Avec l’éponge de tes vagues
Cette tache de ton manteau?
Astres! Nuits! Tempêtes!
Roulez des immensités!
Typhon! Balayez les mers!
VI
Il existe un peuple, qui prête son drapeau
Pour couvrir tant d’infamie et de lâcheté! …
Et qui le laisse se transformer dans cefte fête
En impur manteau de froide bacchante! …
O Mon Dieu! mon Dieu! quel drapeau est-ce là,
Qui danse, impudent, au grand hunier?
Silence, ô Muse… pleure et pleure tant
Que le pavillon dans tes sanglots soit lavé! …
Emblème vert et or de ma patrie
Que la brise du Brésil berce et caresse,
Étendard oú la lumière du soleil
A la divine espérance se marie…
Toi qui, après la guerre pour la liberfé,
Fus arboré à la lance des héros
Mieux out valu périr dans la mêlée,
Que de couvrir un peuple dans son tombeau! …
Atroce fatalité qui écrase l’esprit!
Le brick immonde à présent efface
Le sillage que Colomb a ouvert dans les flots,
Comme un iris sur les fonds abyssaux!
Mais, c’est trop d’infamie! … Des rivagts d’outre-tombe
Levez-vous, héros du Nouveau-Monde!
Andrade! arrache ce pavillon des airs!
Colomb! Ferme la porte de tes mers?

Tradutor: Van Der Haegen

The Slave Ship
(Tragedy in the Sea)

Castro Alves

The Slave Ship
(Tragedy in the Sea)
We are on the high seas… Mad in space
The moonlight plays — golden butterfly;
And the waves run after it. . . tire
Like a band of troubled infants.
We are on the high seas… From the firmament
The stars leap like spray of gold. . .
The sea in turn lights phosphorescence,
— Constellations of liquid treasure…
We are on the high seas… Two infinites
Strain there in a mad embrace
Blue, golden, placid, sublime..
Which of the two is ocean? Which sky?…
We are on the high seas.. . Opening the sails,
To the warm breath of the marine breezes,
Sailed brig run on the crests of the seas,
As the swallows brush in the wave…
Whence do you come? Wither do you go? Of the erring ships
Who knows the course if the space is so great?
On this Sahara the coursers raise dust,
Gallop, soar, but leave no trace.
Happy he who can, there, at fhis hour,
Feel this panel’s magesty!.. .
Below — the sea… above — the firmament! …
And in the sea and in the sky — the immensity!
Oh! what sweet harmony the breeze brings me!
What soft music sounds far off!
My God! how sublime an ardent song is
Floating at random on the endless waves!
Men of the sea! Oh rude mariners,
Toasfed by the sun of the four worlds!
Children whom the tempests warmed
In the cradle of these profound abysses!
Wait! … wait! … let me drink
This savage, free poetry.. .
Orchestra — is the sea, which roars by the prow
And the wind, which whistles in the ropes.
Why do you flee thus, swift barque?
Why do you flee the fearless poet?
Would that I could accompany the furrow
You sow in the sea — mad comet!
Albatroz! Albatroz! Eagle of the ocean,
You who sleep in the gauze of the clouds,
Shake your feathers, leviathan of space
Albatroz! Albatroz! give me those wings.
II
What does the sailor’s cradle matter,
Or where he is the son, where his home?
He loves the cadence of the verse
Which is faught him by the old sea!
Sing! Death is divine!
The brig slips on the bowline — Like a swift dolphin.
Fast to the mizzen mast
The nostalgic flag points
To the waves it leaves behind.
From the Spanish, chants
Broken with languor,
They recall the dusky maidens
The Andalusians in flower!
From Italy the indolent son
Sings of sleeping Venice,
— Land of love and treachery,
Or from the gulf in its lap
Recalls the verses of Tasso
Close to the lava of the volcano.
The Englishman — cold mariner
Who from birth found himself at sea
(Because England is a ship,
Which God anchored in the Channel),
Stern, he intoans his countryls glories
Remembering, proudly, histories
Of Nelson and of Aboukir.
The Frenchman — predestined —
Sings of the triumphs of the past
And the laurels to come!
The Hellenic sailors,
Whom Ionian space created,
Beautiful dark pirates
From the sea that Ulysses cut,
Men that Phydias seulped,
Are singing in the clear night
Verses that Homer moaned…
Sailors from all lands,
Know how to find in the waves
The melodies of the skies!. . .
III
Descend from the immense space, oh eagle of the ocean,
Descend more… even more.. . human glance cannot
Like yours plunge into the flying brig!
But what is it I see there… What picture of bitterness
It’s funeral song! … What tetric figures! …
What an infamous vile scene!… My God! my God! What horror!
IV
It was a dantesque dream.. . the deck
Great lights redenning its brilliance,
Bathing it in blood.
Clang of irons. .. snap of whip …
Legions of men black as the night
Horrible dancing…
Black women, holding to their breasts
Scrawny infants whose black mouths
Are watered by the blood of their mothers:
Others, young, but nude and frightened,
In the whirlwind of specters drawn
From anxiety and vane resentment!
And the orchestra laughs, ironic, strident…
And from the fantastic circle a serpent
Spirals madly…
If the old man cringes, slips to the ground,
You hear shouts… the whip cracks.
And they fligh more and more.
Prisoned in the bars of a single jail
The famished multitude shudders,
Aud weeps and dances!
One is delirious from rabies, another is going mad,
Another, bruttish from martyrdom
Sings, groans, and laughs!
Meantime the captain commands the maneuver
And after gazing at the sky which unfolds
So pure over the sea,
Cries out of the gloom of dense obscurity,
“Shake out the whip, mariners!
Make them dance, more!…”
And the orquestra laughs ironic, strident…
And from the fantastic circle a serpent
Spirals madly…
Like a dantesque dream the shadows fly!
Shouts, ahs, curses, embodied prayers!
And Satan laughs! …
V
Lord God of the unfortunate!
Tell me Lord God!
If if is madness… or truth
So much horror under the skies?!…
Oh sea why do you not erase
With the sponge of the waves,
Your mantle, this blot?…
Stars! Nights! Tempests!
Roll down from the immensity!
Sweep the seas, typhoon!
Who are these unfortunates
Who do not find in you,
More than the calm laughter of the band
Which excitcs the torturers to fury?
Who are they? If the star hushes,
If the oppressive space slides by
Like a furtive accomplice,
Before the confused night
Say it severe Muse
Free, audacious Muse! …
They are the sons of the desert,
Where the land espouses the light
Where in the open spaces lives
A tribe of nude men. . .
They are daring warriors
Who with the, spotted tigers
Combat in the solitude.
Yesterday simple, strong, brave…
Today miserable slaves,
Lacking air, light, reason.
They are disgraced women
Like Agar was also,
Who thirsty, weakened,
Come from far far off…
Bringiiig with tepid steps,
Children and irons on their arms,
In their souls — tears and gaul. . .
Like Agar suffering so much
That not even the milk of lament
Have they to give Ismael.
Off there on the limitless sands,
From the palms of the country,
They were born — beautiful children,
They lived — gentle maidens.. .
A caravan goes by one day
When the virgin in the cabin
Apprehensive from the veils of night
… Good-bye mountain hut,
… Good-bye palms of the fountain!
… Good-bye, loves… good-bye!
Afterwards, the extensive sands
Afterwards, the ocean of dust.
Afterwards, on the immense horizon
Deserts… deserts only…
And hunger, the tiredness, the thirst…
Oh how many unfortunates give up,
And fail to rise no more! …
A place in the chain vacates,
But the jackal on the sand
Finds a body to gnaw.
Yesterday Sierra Leôa,
The war, the chase, the lion,
Sleep slept carelessly
Under the tents of amplitude!
Today the dark, deep hole
Infected, cramped, loathsome
Having the plague for a jaguar…
And sleep always broken
By death rattles
And the thud of corpses into the sea. . .
Yesterday full liberty,
Will for power…
Today… the peek of malice
They are not even free to die…
The same chain binds them
— Lugubrious iron snake —
In the threads of slavery.
And so humming of death,
The lugubrious cohort dances
To the sound of the lash … Humiliation!. . .
Lord God of the unfortunate!
Tell me, Lord God,
Am I delirious… or is it truth
So much horror under the skies?! …
Oh sea, why don’t you crase
With the sponge of the waves,
Your mantle, this blot?
Stars! nights! tempests!
Roll down from the immensity
Sweep the seas, typhoon!
VI
A people exists that lends its flag
To cover so much infamy and cowardice!.
Transforming it in that feast
Into the impure mantle of a cold bacchante! …
My God! my God! but what flag is this,
That impudent floats from the truck?
Silence, muse… weep, weep so much
That the standard may be washed, by your grief! …
Green-gold pendant of my land,
That the breeze of Brazil caresses and unfurls
Standard that in the light of the sun encloses
Promises of divine hope…
You, who in the liberty after war,
Were hoisted by heroes on the lance,
Rather that you had been torn in battle
Than serve a people as a shrowd! …
Atrocious fatality which overwhelms the mind
Extinguish this hour loathsome brig
The furrow that Columbus opened in the waves,
Like an iris in the depth of the seas!
But this is too much infamy! … From the ethereal regions
Rise, heroes of the New World!
Andrada! Rip that pendant from the air!
Columbus! Close the portais of your seas!

Tradutor: DAVID BARNHART





Bio fornecida pelo palestrante.

ULTIMO FANTASMA




Autor: Castro Alves
Título: ULTIMO FANTASMA, APPARITION DERNIERE
Idiomas: port, fra
Tradutor: Bernard Lorraine(fra)
Data: 26/12/2004

ÚLTIMO FANTASMA

Castro Alves

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada…
Sobre as névoas te libras vaporoso…
Baixas do céu num vôo harmonioso!…
Quem és tu , bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!…
Onde nos vimos nós ?… És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte…
Por quem meu peito em sonhos desespera?…
Quem és tu? Quem és tu? – És minha sorte!
És talvez o ideal que est’alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!…

Fonte : Castro-Alves, Antonio F. de. “Último fantasma”. In: —. Espumas flutuantes, 1870. Lorraine, Bernard. Poèmes du Brésil. France : Ouvrières / Dessain et Toira, 1985. p. 126-127.

APPARITION DERNIÈRE

Castro Alves

Qui es-tu, qui es-tu, apparence gracieuse
Qui surgis de la nuit humide de rosée
Et la face dans des marais d”ombre enlisée?…
Tu flottes sur la brume, image vaporeuse.
Tu viens du fond du ciel d’une aile harmonieuse.
Quelle es-tu, qui es-tu, belle et pâle épousée ?
La fleur de l’oranger, de son givre irisée
Te couronne le front, vision mystérieuse!
Où nous sommes-nouus vus? Viens-tu d’une autre sphère?
Es-tu l’être que j’ai cherché du sud au nord,
En qui je rêve et dont l’absence m’exaspère?
Qui es-tu, qui es-tu ? Mon Destin ! Ou encor,
Peut-être, l’idéal en quoi mon âme espère !
Ou la gloire, peut-être. Ou peut-être, la mort !

Fonte : Castro-Alves, Antonio F. de. In : —. In: —. Espumas flutuantes, 1870. Trad. contida in : Lorraine, Bernard. Poèmes du Brésil. France : Ouvrières / Dessain et Toira, 1985. p. 126-127.





Bio fornecida pelo palestrante.

Vozes d’África




Autor: Castro Alves
Título: Vozes d’África
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 26/12/2004

Vozes d’África

Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! …
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas…
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.
Por tenda tem os cimos do Himalaia…
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais …
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais…
A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! …
Sempre a láurea lhe cabe no litígio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.
………………………………
Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão…
E nem tenho uma sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador…
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!…”
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada…
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . ”
Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim …
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim
…………………………………
Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
………………………………….
Foi depois do dilúvio… um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cam! … serás meu esposo bem-amado…
— Serei tua Eloá. . . ”
Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito…
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! …
Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…
Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.
Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…
São Paulo, 11 de junho de 1868





Bio fornecida pelo palestrante.

Vozes d’África




Autor: Castro Alves
Título: Vozes d’África
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 26/12/2004

Vozes d’África

Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! …
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas…
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.
Por tenda tem os cimos do Himalaia…
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais …
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais…
A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! …
Sempre a láurea lhe cabe no litígio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.
………………………………
Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão…
E nem tenho uma sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador…
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!…”
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada…
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . ”
Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim …
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim
…………………………………
Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
………………………………….
Foi depois do dilúvio… um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cam! … serás meu esposo bem-amado…
— Serei tua Eloá. . . ”
Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito…
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! …
Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…
Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.
Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…
São Paulo, 11 de junho de 1868





Bio fornecida pelo palestrante.

Canção do Exílio




Autor: Casimiro de Abreu
Título: Canção do Exílio
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

Casimiro de Abreu

 

Canção do Exílio

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro

Respirando este ar;

Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo

Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas

Do que a pátria não tem;

E este mundo não vale um só dos beijos

Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava

Lá na quadra infantil;

Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,

O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos

Meu Deus! não seja já!

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra

Tão lindo e tão azul!

E a nuvem cor-de-rosa que passava

Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,

As folhas por dossel;

E ver se apanho a borboleta branca,

Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho

Das tardes ao cair,

E sozinho cismando no crepúsculo

Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

A voz do sabiá!

 

Quero morrer cercado dos perfumes

Dum clima tropical,

E sentir, expirando, as harmonias

Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,

Banhada do luar,

E eu contente dormirei tranqüilo

A sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas

Porque cedo morri,

E eu sonho no sepulcro os meus amores

Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *





Bio fornecida pelo palestrante.

DESEJO




Autor: Casimiro de Abreu
Título: DESEJO
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

DESEJO

 

 

Casimiro de Abreu

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
– A vida, o céu, a razão!





Bio fornecida pelo palestrante.

Meus Oito Anos




Autor: Casimiro de Abreu
Título: Meus Oito Anos
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

Meus Oito Anos

Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infancia querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

A sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

— Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é — lago sereno,

O céu — um manto azulado,

O mundo — um sonho dourado,

A vida — um hino d’amor!

Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infancia!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberta o peito,

— Pés descalços, braços nus —

Correndo pelas campinas

A roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!

…………………………..

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infancia querida

Que os anos não trazem mais!

— Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

A sombra das bananeiras

Debaixo dos laranjais!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *





Bio fornecida pelo palestrante.

A Casa da Palma




Autor: Carlos Nascimento Silva
Título: A Casa da Palma
Tradutor: Carlos Nascimento Silva
Data de entrada no site: 28/01/2009

.

* * *

A Casa da Palma: versão original

A Casa da Palma

Bartholomeu (I), 2

   “Os cabelos louros de Brígida lançavam chispas douradas ao meio do reflexo do sol, na água parada da lagoa. Dobrada sobre si mesma,  ela aproximava lentamente os dedos de um crustáceo que lhe fugia a cada tentativa de aproximação. Por diferentes motivos repetia-se, no mundo animal, o que se passava no humano. Como o caranguejo, ela sentia às costas o calor de João Sodré.

    Ela a segurava com as mãos, pela cintura, a fim de lhe manter o equilíbrio. A caçada demorava a chegar a seu desfecho, e a anca de João Sodré colou-se, sozinha, aos quadris da moça vergada. Brígida imobilizou-se, presa de hipnose profunda. Não havia mais luz, céu ou fuga: o jogo terminara. João livrou-se da cinta de pano, sentou-se na fímbria da água e desceu, lentamente, o corpo de Brígida sobre o colo, uma única vez. A vida espumou “in vasu”, e o grito animal feriu o ar.”

 

* * *

Mariana (III), 3

 

   “Don’Ana sentiu os bicos dos seios retesarem a camisa de dormir e passou os dedos sobre eles. Era como uma vibração que corria até a sola dos pés. Incomodava-a, enervava-a, ativava todo seu corpo, fulcrando sensações no ventre. Pernas dobradas, Don’Ana tensionou os músculos das coxas, apertando-as uma contra a outra. O corpo todo se incendiava; já agora não podia parar. Os músculos se contraíam e relaxavam, em alternância cadenciada. Os movimentos amiudaram-se e ela viu o braço forte de Sebastião apoiado no corrimão da escada: a musculatura bem desenhada, definida, no braço moreno. A dor no púbis foi aguda, enquanto os dedos borboletearam sobre os mamilos túmidos, túrgidos. Don’Ana abriu a boca, num gemido rouco e longo, o corpo enroscado, os músculos tensos. Depois, o relaxamento geral.

   Ela pensou: “isto não suc’dia-me desde a meninice”. Ou já era em sonho que ela vivia?”

 * * *

Mariana (VIII), 2

 

   “Don’Ana passara o dia num meio torpor de pré-vigília. Em certo momento percebeu o que lhe parecia a presença de Mariana, sentada ao pé da cama, na penumbra do quarto, a olhá-la com um misto de lástima e preocupação. E de repente já não sabia quem era a filha, quem a mãe. Mas logo a seguir sentira-se deslizar para além dos limites da consciência, afundando lentamente num mundo de sombras esbatidas e sons distantes, no qual murmurava de forma constante um barulho de água corrente. Mais tarde, deu-se conta de estar de pé à porta do barracão dos trabalhos de couro. Havia algumas selas antigas dependuradas nos caibros de sustentação do teto, à altura dos seus olhos, algumas, feitas a meio, presas nas tesouras do colmo; Havia rabichos, rédeas, esticadores de estribo em couro, rebenques de variados tipos, freios, antolhos, cabrestos, uma floresta de apetrechos de montaria com suas ferragens que refletiam o brilho amarelo de uma candeia de torcida a óleo. Fazia frio e Don’Ana sentia o vento da noite a penetrar por baixo da camisa de dormir e a subir-lhe pelas pernas. Sentia a poeira fina do chão de terra batida, muito usado, à sola dos pés nus, infiltrando-se entre os dedos.” 

 

    INGLÊS:

A Casa da Palma: English Version

 

The Palm-Tree House”

Bartholomeu (I), 2

   “Brígida’s blonde hair projected golden sparks in the middle of the sun’s reflex, on the still water of the lagoon. Bent over herself, she was approximating slowly her fingers of a crustacean that kept on escaping from her at every attempt of approximation. For different reasons it was being repeated, in the animal world, what was happening in the human world. Like the crab, she was feeling on her back the heat of João Sodré.

   He held her with his hands, by the waist, in order to maintain her balance. The hunt was taking long to reach its outcome, and João Sodré’s flank glued, all alone, to the curved young woman’s hips. Brígida immobilised herself, prey of deep hypnosis. There was no more light, sky or escape: the game was over. João got rid of his fabric strip; he sat down on the water fringe and lowered, slowly, Brígida’s body on his lap, just once. Life foamed ‘in vasu’, and the animal scream pierced the air.”

* * *

Mariana (III), 3

   “Don’Ana felt her nipples tightening the sleeping chemise and passed her fingers over them. It was like a vibration that ran until the sole of her feet. It bothered her, enervated her, all her body was becoming activate, centring the sensations in her venter. Legs bent, Don’Ana making tension with her thighs’ muscles, pressing one against the other. The whole body burning; now she could not stop. Her muscles contracted and relaxed, in cadenced alternation. Her movements became frequent and she saw the strong arm of Sebastião relied upon the stair’s handrail: his musculature well drawn, defined, in the brown arm. The pain in her pubis was acute, while her fingers fluttered over the tumid nipples, turgid.

   Don’Ana opened her mouth, in a hoarse and long moan, her body curled up, the muscles tense. Afterwards, the general relaxation.

   She thought: ‘it did not happen to me since my childhood’. Or was it in a dream that she was living?”

* * *

 

Mariana (VIII), 2

   “Don’Ana had spent the day in a half torpor of pre-vigil. In a certain moment she noticed what seemed to be Mariana’s presence, sitting on the bed’s edge, in the room’s penumbra, looking at her with a mix of sorrow and preoccupation. And suddenly she did not know anymore who was the daughter, who was the mother. But right after she had felt herself slip beyond the limits of conscience, sinking slowly in a world of attenuated shadows and distant sounds, in which murmured in a constant way a noise of current water. Later, she noticed she was standing at the door of the large shed of leather works. There were some old saddles held on the scantling of the ceiling sustenance, at the height of her eyes. Some of them, not finished, were tied to the scissors of the straw; there were cruppers, reins, stirrups stretchers in leather, whips of several kinds, bits, blinders, halters, a forest of mount equipment with its iron fittings that reflected the yellow shine of a hanging oil-lamp. It was cold and Don’Ana was feeling the evening wind penetrating under the sleeping chemise and going up her legs. She was feeling the thin dust of the very used-pounded ground, at the sole of her barefoot, infiltrating through her fingers.”

* * *

ALEMÃO

A Casa da Palma: em alemão

 

Das Palmenhaus

Bartholomeu (I), p. 30

   “Brígidas blondes Haar warf Goldreflexe auf das Brackwasser der Lagune. Ihr Oberköper war vornübergebeugt. Langsam bewete sie griff, knapp entwischte – in der Tierwelt schien sich zu wiederholen, was zwischen den Menschen geschah. Wie ein Krebs fühlte sie die Wärme von João Sodré im Rücken.

    Er hielt sie mit den Händen in der Taille fest, damit sie nicht das Gleichgewicht verlor. Die Jagd ging zu end. Das Becken von João Sodré heftete sich wie von selbst an das Hinterteil des Mädchens. Brígida verharrte reglos, wie hypnotisiert. Das Licht, der Himmel spielten keine Rolle mehr, Flucht war nicht mehr möglich: Das Spiel war aus. Jiao entledigte sich seines Stoffgürtels, liess sich in den Sand am Saum des wassers fallen und zog Brígida mit einem einzigen Griff auf seinen Schoss. Ein tierischer Schrei durchschnitt die Luft.”  

* * *

Mariana (III), p. 81

Dona Ana fühlte, wie ihre Brustspitzen sich hunter dem Nachthemd aufrichteten, und strich mit den Fingern darüber. Ein Zitterndurchlief sie bis zur Fu?spitze. Es ludihren ganzen Körper auf, kribbelte im Bauch. Mit hochgezogenenBeinen pre?te Dona Ana die Schenkel aneinander.Ihr Körper brannte; sie konnte jetzt nicht mehr aufhören. Die Beinmuskeln spannten und entspannten sich, in kurzen Abständen. Sie sah deb starken Arm von Sebastião, wie er sich auf dem Treppengeländer abstützte: die wohlgeformte, deutliche Muskulatur des braunen Armes. Der schmerz in der Schamgegend wurde stechend, während die Finger über die aufgerichteten, angeschwollenen Brustwarzen flatterten. Dona Ana öffnete den Mund zu einen rauhen, anhaltenden Stöhnen, ihr Körper war ganz verkrümmt, jeder Muskel angespannt. Dann kam die völlige Entspannung.

   Sie dachte: Das ist mir seit Kindestagen nicht mehr passiert. Oder träumte sie da bereits?”

 

Mariana (VIII), p. 230

Dona Ana verbrachte den Tag in einem Dämmerzustand. Irgendwann schien es ihr, als würde Mariana am Fu?ende des Bettes im Halbdunkel des Zimmers sitzen und sie mit einer Mischung aus Trauer und Sorge ansehen. Plötzlich wu?te sie nicht mehr, wer die Tochter und wer die Mutter war. Aber gleich darauf fühlte sie, wie sie in die Bewu?tlosigkeit abglitt, langsm tauchte sie in eine Welt aus blassen Schemen und fernen Klängen ein, in der standing Wasser rauschte. Ihr wurde bewu?t, da? sie an der Tür zum Sattlereischuppen stand. Hier gab es einige alte Sattel, die in Augenhöhe von den Dachsparren hingen, andere lagen halb fertig auf Holzböcken; es gab Schweifriemen, Zügel, lederne Steigbügelriemen, Peitschen aller Art, Sporen, Scheuklappen, Zaumzeug, eine unübersehbare Menge an Reitzubehör, in dessen Eisenteilen sich der gelb Lichtschein einer Talgleuchte spiegelte.  Es war kalt, und Dona Ana spürte, wie der Nachtwind durch ihr Nachthemd drang und an ihren Beinen hochzog. Sie fühlte den feinen Staub des gestampften, ausgetretenen Bodens unter ihren blo?en Fü?en, der sich zwischen den Zehen festsetzte.”

* * * 





Bio fornecida pelo palestrante.

SELEÇÃO DE POEMAS




Autor: Carlos Drummond de Andrade
Título: SELEÇÃO DE POEMAS
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 26/12/2004
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SELEÇÃO DE POEMAS

Carlos Drummond de Andrade

MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptados por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente
NO EXEMPLAR DE UM VELHO LIVRO
Neste brejo das almas
o que havia de inquieto
por sob as águas calmas
Era um susto secreto,
eram furtivas palmas
batendo louco, inseto,
era um desejo obscuro
de modelar o vento,
eram setas no muro
e um grave sentimento
que hoje, varão maduro,
não punge, e me atormento.
CARTA
Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida ao teu menino, que ao sol posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.





Bio fornecida pelo palestrante.

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?




Autor: Caio Fernando Abreu
Título: ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?, QU’EST DEVENUE DULCE VEIGA?
Idiomas: port, fra
Tradutor: Claire Cayron
Data: 26/12/2004

QU’EST DEVENUE DULCE VEIGA?

Lundi

Les Vagins Dentés

1

Caio Fernando Abreu

Je devrais chanter.
M’etouffer de rire ou pleurer, je devrais, mais j’ai désappris ces choses-là. Alors. je pourrais peut-être allumer un cierge, courir à l’église de la Consolation, réciter un Pater, un Ave, un Credo, tout ce que je sais encore, puis glisser une pièce – si j’en avais une et je n’en ai jamais ces derniers temps – dans le tronc métallique «pour les âmes du Purgatoire». Remercier, implorer la grâce, comme au temps où j’avais la foi.
C’etait le bom temps, pensai-je. J’allumai une cigarette. Et ne pris aucune de ces attitudes dramatiques comme si dans un coin il y avait une caméra pour m’épier. Ou Dieu lui-même. Sans juge ni parterre, sans close ni zoom, je restai là, cloué sur place, en ce brûlant début de soirée de février, les yeux sur le téléphone que je venais de raccrocher. Je ne fis même pas un signe de croix et ne levai pas les yeux au ciel. Le minimum, supposai-je, dont on a l’obligation dans ces cas-là même si on ne croit en rien, par réflexe conditionné mystique.
Un mirade avait eu lieu. Un drôle de miracle, mais capital pour quelqu’un qui, comme moi, n’avait pas une riche famille, de l’argent placé, des biens immeubles ou un héritage et ne faisait que tenter de vivre dans une ville infernable comme celle qui bourdonnait dehous, au-delà de la fenêtre encore fermée de l’appartement. Rien d’aussi sensationnel que de retrouver soudain la vue ou de se lever d’un fauteuil roulant, le visage illuminé, avec la légèreté de qui marche sur les eaux. J’étais toujours aussi myope et mês genoux avaient fréquemment la tremblote, je ne sais si de faim chronique ou de pure tristesse, mais yeux et jambes fonctionnaient encore normalement. Les autres parties de mon corps, à dire vsai, un peu moins bien.
Mon cou, que je touchai. Et mon cerveau, par exemple.
Ça suffit, me dis-je à moi-même, planté tout nu dans la pénombre maladive de midi. Pense au miracle, mon vieux. Tout simple, presque insignifiant dans as simplicité, le petit miracle, capable d’apporter quelque apaisement dans la série de soubresauts sans rime ni raison qu’avec une certaine complaisance et sans la moindre originalité j’avais pus l’habitude d’appeler ma vie, portait un nom. Il s’appelait: un emploi.
Je regardai mon visage dans le vieux miroir rayé, les marques dont je ne savais plus si elles appartenaient à la glace ou à ma peau, et je me saluai d’une inclinaison de tête: «Très bien, félicitations. Tu as désormais un emploi.» Mais je n’arrivais pas à sentir le moindre frisson de dignité, le moindre frémissement d’espérance qui pût illuminer mês yeux rouges ou gonfler ma poitrine fatiguée sur laquelle – je ne voulais pas m’en souvenir mais je m’en souvins quand même – moins d’une semaine plus tôt j’avais découvert le premier poil blanc.
Je soupirai.
En vérité, seul un parfait idiot ou quelqu’un de totalement inexpérimenté aurait pu ressentir, je ne dis pas une extase, mais quelque enthousiasme pour avoir obtenu un petit emploi de reporter au Diário da Cidade, peut-être le pire journal au monde. Je pense que je n’étais pas devenu idiot, pas complètement au moins. Et quant à l’expérience, bon, ce visage marqué, encore gonflé de sommeil, avec une barbe de trois jours, m’observant entre les rayures du miroir, semblait en avoir pas mal. Très bien, dit le visage dans la glace, si tu tiens à confronde l’expérience et la décrépitude… Je soupirai de nouveau. Non, chère image, noircir des pages et des pages sur les machines à écrire de ce torchon préinformatique n’était certainement pas un motif pour sauter de joie.
Mais il fallait être content. Quand on veut, on peut. Et je commençais a l’être. En fin de compte, ce pouvait être le premier pas pour m’arrancher au marécage de dépression et d’autocompassion dans lequel je barbotais depuis presque un an. La formule marécage-de-dépression-&-etc. me plut si fort que je faillis chercher un papier pour la noter. Je m’étais défait du vice paranoïa que consistant à imaginer que j’étais constamment filmé ou évalué par un dieu doté d’un ceil à facettes comme celui des mouches, mais pas de celui d’être écrit quelque part. Si j’avais été danseur, peut-être aurais-je imaginé que j’étais, à chaque mouvement, sculpté quelque part? Ah! le geste, véritable apologie esthétique de la forme pure.
C’étrait drôle. Et plutôt schizophrénique. Mais soudain la réalité était devenue moins rhétorique.
«Vous commencez aujourd’hui, mon vieux», avait dit Castilhos au téléphone. De cette voix au fond de laquelle, par une vieille habitude sublittéraire, je pouvais, situer quelque chose que j’aurais nommé complicité douce-amère mais qui n’était rien d’autre qu’un abus de nicotine et de ras-lebol: «Et tâchez de ne pas me faire une merde dès le premier jour, OK? J’ai garanti que vous valiez le coup.»
Etonnant: la veille je m’etais couché dans la peau d’un journaliste de presque quarante ans au chômage, endetté, amer, solitaire et déçu, et je me réveillais le lendemain, comme par magie, avec cette voix du passé m’informant par téléphone que je valais le coup. Dorénavant, une vie bourrée de faits. Action, mouvement, dynamisme. Clap! Dieu passe à une autre page de son éternel, et ennuyeux, scénario. Le sculpteur fait sauter un nouvel éclat de marbre.
Je mis l’eau à chauffer pour le café – des champignons blanchâtres croissaient dans l’humidité de la cuisine. Sympathiques, presque bucoliques. J’ouvris la radio, passai sous la douche. L’appartement était si petit qu’on pouvait faire tout ça presque en même temps. D’une main je me savonnais la tête, de l’autre je réglais le volume de la radio dans la pièce, tandis que je tendais já jambe pour éteindre le gaz quand l’eau bouillait.
Allez! En avant toutes! Sus donc! criai-je sous l’eau glacée. Zorro est arrivé!
J’entendis alors à la radio une chanson qui me sembla connue. Elle disait quelque chose comme «peu importe la réalité, ce qui importe c’est l’illusion», ce avec quoi j’étais pleinement d’accord. Du moins ces derniers mois: il ne m’était arrivé que des illusions. Mais la musique qui résonnait dans une quelconque soute de ma mèmoire était aussi vieille qu’un boléro, un fox, tandis que ce qui sortait à présent de la radio était un de ces rocks avec basse eléctrique désespérée, percussion vénéneuse et synthétiseurs hystériques. La voix de la chanteuse faisait penser à du verre pilé dans un broyeur. De toute façon, me dis-je, les paroles sont bonnes. Et tontes les choses dont je me souvenais, ou pensais me souvenir parce qu’à force de les évoquer j’avais fini par les transformer en pure – et mauvaise – littérature, n’avaient plus d’importance.
Le reste de ma dernière savonnette glissa entre mês doigts. Il était si petit qu’il disparut par les trous de la bonde.

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Fonte: ABREU, Caio Fernando. Qu’est devenue Dulce Veiga?. Traduction du portugais (Brésil) et postface par Claire Cayron. Paris, Editions Autrement, 1994, p. 7-10.

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?


Segunda-Feira

Vaginas dentatas

1

Caio Fernando Abreu

Eu deveria cantar.
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem platéia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara e desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com freqüência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se – um emprego.
Olhei minha cara no velho espelho riscado, as marcas que eu nem sabia mais se pertenciam ao vidro ou à pele, cumprimentei com uma curvatura de cabeça: “Muito bem, parabéns. Você agora tem um emprego”. Mas não conseguia sentir nenhum calafrio de dignidade, nenhum frêmito de esperança que pudesse iluminar meus olhos vermelhos ou empurrar para fora meu fatigado peito onde – não queria lembrar, mas lembrei – há menos de uma semana descobrira o primeiro fio de cabelo branco.
Suspirei.
Verdade que só um completo idiota ou alguém totalmente inexperiente sentiria, nem digo êxtase, mas qualquer espécie de animação por ter conseguido um trabalhinho de repórter no Diário da Cidade, talvez o pior jornal do mundo. Acho que ainda não tinha me transformado num idiota, não completamente pelo menos. E quanto à experiência – bem, aquela cara marcada, ainda inchada de sono, com barba de três dias, me observando por entre os risos do espelho, parecia tê-la de sobra. Tudo bem, disse a cara no espelho, já que você prefere mesmo confundir experiência com devastação… Suspirei outra vez. Não, querida cara, encher laudas e laudas nas máquinas de escrever daquele pasquim pré-informático certamente não era motivo para dar pulinhos.
Mas eu tinha que ficar contente. E quando você quer, você fica. Comecei a ficar. Afinal, aquele podia ser o primeiro passo para emergir do pântano de depressão e autopiedade onde refocilava há quase um ano. Gostei tanto da expressão pântano-de-depressão-&-etc. que quase procurei papel para anotá-la. Perdera o vício paranóico de imaginar estar sendo sempre filmado ou avaliado por um deus de olhos multifacetados, como os das moscas, mas não o de estar sendo escrito. Se fosse bailarino, talvez imaginasse estar constantemente, em qualquer movimento, sendo esculpido? Ah, cada gesto, uma verdadeira apologia estética da forma pura.
Era engraçado. E bastante esquizofrênico. mas de repente o real tinha-se tornado bem menos retórico.
“Você começa hoje, cara” – dissera Castilhos no telefone. Com aquela voz no fundo da qual, para manter o velho hábito subliterário, eu poderia localizar algo que chamaria de áspera-ternura-cúmplice, mas na verdade não passava de excesso de nicotina e saco cheio: “e vê se não me faz cagada logo no primeiro dia, oquêi? Garanti pros homens que você é da pesada”.
Espantoso: na noite anterior eu fora dormir como um jornalista desempregado, endividado, amargo, solitário e desiludido de quase quarenta anos para acordar no dia seguinte, magicamente, com aquela voz do passado me comunicando pelo telefone que eu era – da pesada. A partir de hoje, uma vida feita de fatos. Ação, movimento, dinamismo. A claquete bate. Deus vira mais uma página de seu infinito, chatíssimo roteiro. O escultor tira outra lasca do mármore.
Coloquei água para fazer café, cogumelos branquicentos cresciam na umidade da cozinha. Simpáticos, até meio bucólicos. Liguei o rádio, entrei no chuveiro. O apartamento era tão pequeno que a gente podia fazer todas essas coisas praticamente ao mesmo tempo. Com uma das mãos, ensaboava a cabeça, com a outra controlava o volume do rádio na sala, enquanto estendia uma das pernas para apagar o fogo quando a água fervesse.
– Eia! Avante! Sus! – gritei embaixo da água gelada. Ai – pi – ai – ô, Silver!
Enquanto ouvi no rádio uma música que parecia conhecida. Dizia qualquer coisa como “a realidade não importa, o que importa é a ilusão”, no que eu concordava plenamente. Pelo menos nos últimos meses, não me acontecera nada além de fantasias. Mas a música que ressoava em algum porão da memória era antiga como um bolero, um fox, e o que saía do rádio agora era um desses rocks com baixo elétrico desesperados, percussão envenenada e sintetizadores histéricos. A voz da cantora lembrava vidro moído num liquidificador. De qualquer forma, pensei, a letra está certa. E todas as coisas que eu lembrava, ou achava que lembrava, porque de tanto lembrar delas acabara por transformá-las em mera – e péssima – literatura, já não importavam mais.
O resto do último sabonete escorregou entre meus dedos. Era tão pequeno que desapareceu pelo ralo.

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Fonte: ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? São Paulo, Companhia das Letras, 1990. p. 10-14.





Bio fornecida pelo palestrante.

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO




Autor: Caio Fernando Abreu
Título: OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO, LES DRAGONS NE CONNAISSENT PAS LE PARADIS
Idiomas: port, fra
Tradutor: Claire Cayron et Alain Keruzoré(fra)
Data: 26/12/2004

LES DRAGONS NE CONNAISSENT PAS LE PARADIS

 

Belle. Une histoire horrible.

Vous ne savez rien de la malédiction
et jamais n’avez vu de miracle
jamais n’avez pleuré seule dans des toilettes sales
et jamais voulu voir la face de Dieu.
Cazuza – Seules les Mères sont heureuses

Caio Fernando Abreu

C’est seulement après avoir pressé plusieurs fois le bouton de sonnette qu’il entendit le bruit des pas descendant l’escalier. Et il revit le tapis usé, autrefois pourpre, puis à peine rouge, et plus tard d’un rose de plus en plus clair – à présent, de quelle couleur? –, entendit l’aboiement discordant d’un chien, une toux nocturne, des bruits secs, et perçut enfin la lumière à l’intérieur de la maison, filtrée par la vitre, et qui tombait sur son visage pourvu d’une barbe de trois jours. Il mit les mains dans ses poches, chercha une cigarette ou un porte-clefs pour occuper ses doigts, avant que s’ouvre le volet, en haut de la porte.
Encadrée dans le rectangle, elle plissait les yeux pour mieux le voir. Ils se mesurèrent ainsi un moment – de l’extérieur, de l’intérieur de la maison – jusqu’à ce qu’elle écarte son visage, sans manifester de surprise. Elle avait vieilli, il le vit en entrant. Elle s’était aigrie, il le sentit aussitôt.
— Tu n’as pas prévenu de ton arrivée, grogna-t-elle, à sa vieille façon râleuse, qu’autrefois il ne comprenait pas. Mais à présent, au bout de tant d’années, il avait appris à traduire en commentu-me-manquais, sois-le-bienvenu, quel-plaisir-de-te-voir, ou quelque formule de ce genre. Plus affectueuse, encore que maladroite.
Il l’embrassa, gêné. Ça n’était pas dans leurs habitudes, les contacts, les caresses. Il plongea, étourdi, en hâte, dans l’odeur connue – cigarette, oignons, chien, savonnette, crème de beauté et chair vieillie, de tant d’années de solitude. En le tirant par les oreilles, comme à l’accoutumée, elle l’embrassa sur le front. Puis l’entraîna par la main, vers l’intérieur.
— Tu n’as pas le téléphone, expliqua-t-il. J’ai décidé de te faire une surprise.
En allumant les lumières, un rien fébrile, elle l’entraînait de plus en plus vers l’intérieur. Il arrivait à peine à revoir l’escalier, la bibliothèque, le buffet, les cadres poussiéreux. La chienne se mit dans ses jambes, en aboyant doucement.
— Dehors! Belle, cria-t-elle en la menaçant d’un coup de pied. La chienne sauta sur le côté, et elle rit. – Suffit de la menacer, elle obéit. La pauvre, elle est presque aveugle. Inutile, galeuse. Elle sait que dormir, manger et chier, en attendant de mourir.
— Quel âge a-t-elle? demanda-t-il. C’était le meilleur moyen d’arriver au but: par les chemins de traverse, les questions banales. par delà les manières revêches, les fleurs violettes du peignoir.
— Est-ce que je sais, quinze ans? – Sa voix était rauque. – On dit que l’âge d’un chien, faut le multiplier pour sept.
Elle dressa un peu la tête, c’était sa manière:
— Ça fait dans les quatre-vingt-quinze, quoi.
Il posa sa valise sur une chaise de la salle à manger. Puis se frotta de nouveau les yeux. Et regarda alentour, comme s’il s’éveillait:
— Tu dis?
— Belle. Si c’était une personne, elle aurait quatre-vingt-quinze ans.
Elle rit:
— Plus vieille que noi, imagine. Vieille à faire peur. – Elle referma son peignoir sur sa poitrine, serra le col avec ses mains. Pleines de taches brunes, nota-t-il, comme des grains de beauté (ké-ra-to-se se dit-il en lui-même), avec un vernis quelconque sur les ongles des doigts jaunis par la cigarette. – Tu veux un café?
— Si ça ne te dérange pas – il savait que c’était toujours la bonne manière, la faire entrer en souveraine dans la cuisine, son royaume. Les mains dans les poches, il regarda alentour, appuyé à la porte.
Son dos, si voûté. Elle semblait plus lente, même si elle avait gardé sa vieille manière d’ouvrir et de fermer sans cesse les placards, de disposer les tasses, les cuillères, les serviettes, en faisant beaucoup de bruit et en l’obligeant à s’asseoir, tandis qu’il regardait. Les murs de la cuisine, tachés de graisse. La petite fenêtre basculante, vitre cassée. A la place de la vitre, elle avait posé un papier journal. «Le pays s’enfonce dans le chaos, dans l’insalubrité et la misère», lut-il. Et il s’assit sur une chaise en plastique, défoncée.
— Il est tout frais – et elle versa le café. – A présent je ne peux m’endormir qu’après en avoir bu un.
— Tu ne devrais pas. le café empêche de dormir.
Elle haussa les épaules.
— Des clous. Avec moi tout marche à l’envers.
La tasse jaune avait une tache brume au fond, et des bords ébréchés. Il remua son café, sans entraim. Et tout à coup, alors que ni l’un ni l’autre ne parlait, il voulut fuir. Comme lorsqu’on réenroule une cassette, tourner le dos, prendre sa valise, traverser la pièce, le couloir d’entrée, dépasser le chemin de gravier du jardin, se retrouver dans la petite rue aux maisons presque toutes blanches. Trouver un taxi, aller à l’aéroport, dans une autre ville, loin de Passo da Guanxuma, vers l’autre vie d’où il venait. Anonyme, sans liens avec le passé. Pour toujours, pour jamais. Jusqu’à la mort de l’un d’eux. Et il en eut peur. Et il la souhaita. Soulagé, honteux.
— Va te coucher, pria-t-il. Il est très tard. Je n’aurais pas dû arriver comme ça, sans prévenir. Mais tu n’as pas le téléphone.
Elle s’assit en face de lui, le peignoir bâilla. Parmi les fleurs violettes, il vit les innombrables plis de la peau, comme du papier de soie froissé. Elle cligna des yeux, tout en guettant son visage tandis qu’il avalait une gorgée de café.
— Qu’est-ce qu’il y a? demanda-t-elle, lentement. Et c’était le ton qui indiquait l’accès à un autre mode. Mais il toussa, baissa les yeux vers le dessir à losanges de la nappe. Rouge, vert. Froideur du plastique, fraises passées.
— Rien, maman. Rien du tout. J’ai eu le cafard, c’est tout. Subitement, j’ai eu vraiment le cafard. D’être loin de toi, d’un tas de choses.
Elle tira un paquet de cigarettes de la poche de son peignoir.
— Donne-moi du feu.
Il tendit le briquet. Elle lui toucha la main, un toucher rêcher de main tachée par la kératose sur ses blanches mains à lui. Caresse manquée:
— Il est joli, ton briquet.
— Il est français.
— A quoi il marche?
— Sais pas, au gaz. Comme la plupart briquets. Mais celui-là est transparent, dans les autres on ne voit rien.
Elle leva le briquet vers la lumière. Reflets d’or, éclat du liquide vert. La chienne se glissa sous la table, en aboyant doucement. Elle ne parut pas y faire attention, charmée par le liquide doré, sous le vert.
— On dirait la mer, sourit-elle. Elle tapota sa cigarette sur le bord de la tasse, lui tendit à nouveau le briquet. – Alors comme ça tu es venu me rendre visite? Très bien.
Il serra le briquet au creux de sa main. Tout chaud de sa main tavelée à elle.
— Oui, maman. J’avais le cafard.
Rire rauque:
— Le cafard? Tu sais qu’Elzinha n’est pas venue depuis plus d’un mois? Je pourrais bien mourir là-dedans. Toute seule. Le ciel m’en préserve. Elle le saurait même pas, sauf par le journal. Si jamais ça paraît dans le journal. Qu’est-ce que ça peut lui faire, ma vieille peau?
Il alluma une cigarette. Et toussa à la première bouffée.
— Moi aussi je vis seul, maman. Si je mourais, personne ne le saurait. Et ça ne serait pas dans le journal.
Elle tira une grande boufée. Puis souffla la fumée en ronds. Mais ne la suivit pas des yeux. Du bout de l’ongle, elle grattait une ébréchure au bord de la tasse.
— C’est le destin, dit elle. – ta grand-mère est mort toute seule. Ton grand-père est mort tout seul. Ton père aussi, tu te rappelles? Pendant ce week-end où j’étais à la plage. Il avait horroeur de la mer. Cette chose immense, qui fait peur, il disait. – Elle rejeta le bout de faïence couleur de terre. – Et sans le moindre petit-fils, sans petit-fils ni rien. Ce qu’il voulait le plus.
— C’est loin tout ça, maman. Oublie – il se redressa, le dos lui faisait mal. Non, résolut-il: dans ce trou, non. L’odeur, une semaine, les voisins qui téléphonent. Il passa les doigts sur les losanges fanés de la nappe. – Je me demande comment tu peux continuer à vivre seule ici. Cette maison est trop grande pour toi. Pourquoi ne vas-tu pas habiter avec Elzinha?
Elle fit mine de cracher, à demi cynique. Un cynisme de feuilleton télévisé qui n’allait pas avec le peignoir délavé aux fleurs violettes, les cheveux presque entièrement blancs, les mains tavolées de brum tenant une cigarette presque éteinte.
— Et supporter Pedro, avec sa folie des grandeurs? Pour l’amour du ciel, sauf si j’étais forcée. Il faudrait qu’ils me cachent les jours de visite, Dieu me garde. La vieille, la folle, la sorcière. La mégère reléguée dans la chambre de bonne, comme une négresse. – Elle tapota sa cigarette. – Et en plus, tu penses qu’ils me laisseraient emmener Belle avec moi?
Sous la table, en entendant son nom, la chienne aboya plus fort.
— C’est pas tout-à-fait comme ça, pas vrai, maman? Elzinha a les moyens. Et au fond Pedro est un brave type. Sauf que…
Elle fouilla dans les poches du peignoir. En tira des lunettes aux branches rafistolées avec du sparadrap, aux verres rayés.
— Laisse-moi te regarder mieux, dit-elle.
Elle ajusta ses lunettes. Il baissa les yeux. Dans le silence, il entendit te tic-tac de la pendule du salon. Un petit cancrelat raya de noir le blanc du carrelage dorrière elle.
(…)

___________________

Fonte: ABREU, Caio Fernando. Les Dragons ne connaissent pas le Paradis. Traduit du portugais par Claire Cayron et Alain Keruzoré. Paris, Editions Complexe, 1991, p. 7-14.

 

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO

I

Linda, uma história horrível

Para
Sergio Keuchguerian

“Você nunca ouviu falar em maldição
nunca viu um milagre
nunca chorou sozinha num banheiro sujo
nem nunca quis ver a face de Deus.”
(Cazuza: Só as Mães são Felizes)

Caio Fernando Abreu

Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro – agora, que cor? – e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para poder rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.
Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim – de fora, de dentro da casa –, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.
— Tu não avisou que vinha – ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.
Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido – cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. De pois foi puxando-o pela mão, para dentro.
— A senhora não tem telefone – explicou. – Resolvi fazer uma surpresa.
Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.
— Sai, Linda – ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ele riu. – Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega.. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.
— Que idade ela tem? – ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.
— Sei lá, uns quinze. – A voz tão rouca. — Diz que idade de cachorro a gente multiplica por 7.
Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:
— Uns noventa e cinco, então.
Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:
— O quê?
— A Linda. Se fosse gente, estaria com 95 anos.
Ela riu:
— Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. – Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mortalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. — Quer um café?
— Se não der trabalho – ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta.
As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar – enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria – ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.
— Tá fresquinho – ela serviu o café. – Agora só consigo dormir depois de tomar café.
— A senhora não devia. Café tira o sono.
Ela sacudiu os ombros:
— Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.
A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num vídeo-cassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.
— Vá dormir – pediu. É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.
Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda, amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.
— Que que foi? – perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.
— Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.
Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:
— Me dá o fogo.
Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:
— Bonito, o isqueiro.
— É francês.
— Que é isso que tem dentro?
— Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.
Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.
— Parece o mar – sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. — Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.
Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.
— Vim, mãe. Deu saudade.
Riso ronco:
— Saudade? Sabe que a Elzinha não apareceu aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Quem se importa com um caco velho?
Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:
— Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.
Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.
— É sina – disse. — Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. – Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. — E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.
— Já faz tempo, mãe. Esquece – ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. — Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?
Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.
— E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. – Bateu o cigarro. — e como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?
Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela grunhiu mais forte.
— Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que.
Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.
— Deixa eu te ver melhor – pediu.
Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.
(…)

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Fonte: ABREU, Caio Fernando. Os Dragões não conhecem o Paraíso. 2ª edição. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p. 13-18.





Bio fornecida pelo palestrante.

PEQUENAS EPIFANIAS




Autor: Caio Fernando Abreu
Título: PEQUENAS EPIFANIAS
Idiomas: port, fra
Tradutor:
Data: 26/12/2004

PETITES ÉPIPHANIES

Caio Fernando Abreu

Il y a quelques jours, Dieu – ou ce qu’on appelle, avec tant d’insouciance, Dieu – m’a envoyé un cadeau ambigu: une possibilité d’amour. Ou de ce qu’on appelle, avec la même insouciance et quelque hâte, l’amour. Vous savez de quoi je parle.
Avant que j’aie pu m’étonner et que, m’étant étonné, j’aie pu hésiter entre y aller ou pas, vouloir ou pas – j’y étais déjà. Et c’était bon d’y être. Comprenez-moi bien – il n’y a pas eu la moindre intimité du genre que certainement vous imaginez. En vérité, il ne s’est presque rien passé. Deux ou trois déjeuners, quelques silences. fragments de ce qu’on appelle, avec la même insouciance, «ma vie». Qui sont aussi des fragments de «sa vie». Se croisant soudain, par pur mystère, sur les nappes blanches parmi les verres de vin ou d’eau, au milieu des miettes et des cendriers pleins que les garçons vidaient rapidement pour qu’on se sente propres. Et c’est ainsi qu’on se sentait.
Derrière ce qui advenait, sans crainte aucune je redécouvrais des magies. Et soudain je me sentais protégé, vous savez comment: ma vie entière – ces petits bouts désarticulés – s’organisait d’une autre manière, prenait du sens. Rien de mal ne m’arriverait, j’en étais sûr, tant que je serais dans le champ magnétique de cette autre personne. Les yeux de l’autre personne me regardaient, me reconnaissaient comme une autre personne, et doucement me posaient des questions, tâtaient des terrains: ah vous ne prenez pas de sucre, ah vous buvez du whisky, ah vous êtes Balance. Dessinant des esquisses, tous les deux. Palpant des signes diffus, de vagues promesses.
Ne plus jamais quitter le centre de cet espace pour les rudes rues anonymes. Ne plus jamais quitter ce chaud giron qu’est avoir un visage pour une autre personne qui elle aussi a un visage pour soi, dans la nasse ordinaire et sans visage du quotidien emprisonnant le cœur. Or au quatrième ou cinquième jour, arrive un passage obsédant d’une nouvelle de Clarice Lispector – «Tentation» – dans ma tête étourdie d’enchantement: «Mais tous deux étaient retenus. Lui, par sa nature enchaîneé. Elle, par son impossible enfance». Je cite de mémoire, peut-être pas correctement. Il s’agit de la rencontre, à trois heures de l’après-midi, entre une fillette rousse assise sur une marche et un basset, roux lui aussi, passant au bout d’une laisse. Il s’arrête. Ils se regardent. Sont éblouis, faits l’un pour l’autre. Mais sa maîtresse le tire. Ils s’en va. Et rien n’arrive.
D’ailleurs, je ne voulais pas. Il aurait fallu créer des climats, suggérer des invitations, servir des vins, allumer des bougies, faire des mines. Pour entendre un «non», peut-être. À moins qu’au gré d’un grand vent cette autre vie vogue spontanément vers moi. Mais elle n’a pas vogué. D’ailleurs, sans m’en rendre compte, j’étais dans l’apprentissage solitaire du ne-pas-demander. Je n’ai compris qu’au bout de quelques jours, quand un ami m’a parlé – avec insouciance, lui aussi – de «petites épiphanies». Minuscules, quasiment des bribes de révélations de Dieu, tels des joyaux incrustés dans le quotidien.
C’était cela, cette autre vie, inopinément mêlée à la mienne, regardant l’opacité de ma vie avec les mêmes yeux attentifs que moi la sienne: une petite épiphanie. Puis sont venus le temps, la distance, la poussière. Mais j’en aigardé en mémoire quelque chose de doux qui a mourri mês lendemains d’absence et de faim. Surtout le soir, les dimanches. J’ai retrouvé la manie de fumer en regardant au-delà des fenêtres, pour vois ce que personne ne verrait.
Au-delà des fenêtres, je retrouve ce moment de miel et de sang que Dieu a placé avec tant de brièveté, et de délicatesse, devant mês yeux depuis si longtemps incapables de voir: une possibilité d’amour. J’incline la tête, reconnaissant. Et si je tends la main, dans la poussière du dedans de moi, je peux aussi toucher autre chose. Cette petite épiphanie. Avec un corps et un visage. Que je parcours lentement, trait à trait, quand je suis seul et que j’ai peur. Alors je souris. Et cesse presque d’avoir faim.

22 avril 1986.

EN MÉMOIRE DE LILIAN

Nous sommes tous immortels. Théoriquement immortels, bien sûr. Hypocritement immortels. Car jamais nous ne voyons en la mort une possibilité quotidienne, comme celle d’arriver en retard au travail ou de se couper en se rasant, par exemple. Dans notre tête, la mort n’advient pas comme il peut advenir que je fasse un número de téléphone et qu’au lieu d’obtenir une réponse, ça sonne occupé. La mort, dans notre imagination, devrait être précédée d’un certain «climat», d’une certaine «préparations». D’une certaine «gardeur».
Voilà sans doute pourquoi je suis (nous sommes tous, je pense) tellement abasourdis lorsque, sans préparation aucune, elle advient tout à coup. Alors l’effroi, le sentiment d’abandon, l’incompréhension aussi, envahissent l’ordre établi supposé inébranlable (et pour cela même «éternel») du quotidien. La mort d’une personne connue et/ou aimée viole cet ordre précaire, cette fausse éternité. La mort, et l’amour. Car l’amour, comme la mort, existe – et de façon aussi dissimulée. En retrait, invisible. Mais si puissamment que, comme la mort – et l’amour est aussi une sorte de mort (mort de la solitude, mort de l’ego barricadé, indivisible, furieusement et égoïstement incommunicable) –, il nous désarme. En advenant, l’amour et la mort démasquent notre pathétique fragilité.
Amour et mort étant inséparables, je vous raconte, comme qui dirait «il était une fois»: samedi après-midi, j’étais craintivement en plein amour (je ne croyais plus à l’existence de l’amour, et la vie m’apportait un démenti), quand le téléphone a sonné). À l’autre bout du fil, quelqu’un m’a annoucé la mort de Lilian Lemmertz. Je ne croyais pas non plus que la mort existait, à ce moment-là ou à un autre, toutes les fois que j’ai besoin de m’enivrer un peu des urgences de la vie, parce que si j’envisage à chaque minute la possibilité de la mort alors je cesse immédiatement de vivre. Je reste les yeux grands ouverts, immobile, au bord du gouffre annoncé.
J’ai changé de chaîne, en somme: j’ai continué à vivre. Pour combattre la mort, je suis allé voir un show autobiographique de Elza Soares. J’ai bu, j’ai fumé, j’ai bavardé, aimé, encore et toujours plus. Mais dans n’importe lequel de ces actes: la mort de Lilian. Et je me suis souvenu de notre seule conversation, quand elle jouait En attendant Godot et que j’avais été l’interviewer. Nous avions parlé une soirée entière. Elle était plus que belle. Elle était vive, sarcastique, tourmentée, compliquée. Un rien démesurée. Une reine.
Lilian avait de la noblesse. Je pensais à des comédiennes, j’énumérais: Marília Pera, Fernanda Montenegro. Et Lilian Lemmertz, avec cet air racé, ce port, cette bouche curieussement fragile et amère, qui démentait l’éclat, parfois glacé, de ses yeux. Un petit air de Jeanne Moreau, mais unique en son genre. Elle qui n’a jamais pu avoir le grand rôle de sa vie – Phèdre, Petra (von Kant), Pixote – son heure de gloire. Brillante mais avec, au fond, cet air d’humanité écartelée qu’a aussi Marília Pera. Écouter Lilian donnait le frisson, faisait venir les larmes aux yeux: l’excés d’humain émerveille et terrorise. Comme l’amour et la mort.
Je garde le souvenir de Lilian non dans le rôle du professeur de A Lição de Amor, ou de la pocharde de Caixa de Sombras, ou de la maîtresse de maison de Baila Comigo , je choisis de la laisser dans la peau de l’un des vagabonds de Samuel Beckett. Ventre postiche, bretelles, pantalons à mi-mollets, chapeau melon. Clownesque, attendant Godot. Qui est venu, finalement. Lilian était seule. Il l’a emmenée. Sa subite étreinte était-elle froide? Peut-être pas.
À présent, au bout de la nuit de dimanche, loin du doux giron de l’amour, la mort visite mon appartement et je me demande, après ce récent point final, comment récupéren mon immortalité. J’en ai besoin, demain matin. Quand le monde continuera. Juste sans Lilian. Et donc un peu plus laid, un peu plus sale. Plus incompréhensible, et moins noble.

10 juin 1986.

PEQUENAS EPIFANIAS

Caio Fernando Abreu

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.

Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus –, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer – eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal – não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector – Tentação – na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou – descuidado, também – em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

O Estado de S. Paulo, 22/04/86.

EM MEMÓRIA DE LILIAN

Mais que linda: Viva, tensa,
confusa. Lilian Lemmertz
era meio rainha. E nobre.

Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.
Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido ou/e amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Por que o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.
Como amor e morte não se separam – feito quem diz “era uma vez”, conto: na tarde de sábado, estava eu assustadamente dentro do amor (eu não acreditava mais que o amor existisse, e a vida desmentia) quando o telefone tocou. Do outro lado, alguém me deu a notícia da morte de Lilian Lemmertz. E eu também não acreditava mais que a morte existisse, naquele ou neste momento, quando preciso me embriagar um pouco com urgências de vida porque se considerar a cada minuto a possibilidade da morte – então paro imediatamente de viver. Fico de olhos arregalados, imóvel, à espera do poço previsto.
Como quem muda um canal de televisão, continuei vivo. Pra rebater a morte, fui ver o show de vida de Elza Soares. E bebi e fumei e conversei e amei mais e mais ainda. Mas dentro de qualquer movimento, a morte de Lilian. E dei pra lembrar de uma única conversa nossa, quando ela fazia Esperando Godot, e fui entrevistá-la. Falamos uma tarde inteira. Ela era mais que linda. Era viva, sarcástica, tensa, confusa. Meio desmedida. E rainha.
Lilian era nobre. Eu pensava em atrizes, enumerava: Marília Pera, Fernanda Montenegro. E Lilian Lemmertz, com aquela raça, aquele porte, a boca inesperadamente frágil e amarga, desmentindo o brilho às vezes frio dos olhos. Um certo ar de Jeanne Moreau, e ninguém como ela. Que nem chegou a ter seu grande papel, sua Fedra, sua Petra, Seu Pixote, sua hora de estrela. Brilhante, mas, ao fundo, aquele ar de humanidade despedaçada que Marília também suporta. Ouvir Lilian falando era ficar arrepiado, olhos cheios de lágrimas: o humano excessivo aterroriza e maravilha. Igual à morte e ao amor.
Guardo Lilian na memória não como a professora de Lição de Amor, a bêbada de Caixa de Sombras ou a dona-de-casa de Baila Comigo – escolho guardá-la metida na pele de um dos vagabundos de Samuel Beckett. Barriga falsa, suspensórios, calças pelo meio da canela, chapéu-coco. Meio clown, esperando por Godot. Que chegou, afinal. Lilian estava sozinha. Ele a levou consigo. Terá sido frio seu súbito abraço? Quem sabe não.
Agora, no fim da noite de domingo, longe do colo morno do amor, a morte visita o apartamento e fico pensando em como recuperar minha imortalidade após este próximo ponto final. Preciso dela, amanhã de manhã. Quando o mundo continuará igual. Só que sem Lilian. E, portanto, um pouco mais feio, um pouco mais sujo. Mais incompreensível, e menos nobre.

O Estado de S. Paulo, 10/06/86.

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Fonte: ABREU, Caio Fernando. Pequenas Epifanias: Crônicas (1986/1995). VELOSO, Gil França (Org.). Porto Alegre, Sulina, 1996, p. 13-18.





Bio fornecida pelo palestrante.

A ESCRAVA ISAURA




Autor: Bernardo Guimarães
Título: A ESCRAVA ISAURA, ISAURA, LA ESCLAVA ISAURA
Idiomas: port, fra, esp
Tradutor: Claude Farny(fra), Julia Calzadilla(esp)
Data: 26/12/2004

LA ESCLAVA ISAURA

Capítulo I

Bernardo de Guimarães

Eran los primeros años del reinado de don Pedro II.

En el fértil y opulento municipio de Campos de Goitacases, en las orillas del Paraíba, a poca distancia de la villa de Campos, había una linda y magnífica hacienda.

Era un edificio de armoniosas proporciones, vasto y lujoso, situado en una apacible campiña en las faldas de elevadas colinas cubiertas de bosques en parte devastados por el hacha del labrador. En las lejanías que la rodeaban, la naturaleza se mostraba aún en toda su primitiva y selvática rudeza; pero cerca, en torno a la deliciosa vivienda, la mano del hombre había convertido la áspera selva que cubría el suelo, en jardines y vergeles placenteros, en fértiles pastizales, sombreados aqui y allá por árboles gigantescos, perobas, cedros y copaibas, que reflejaban el vigor de la antigua floresta. Ahí casi no se divisaba el muro, la cerca ni la valla; jardín, huerta, pomar, pastos y siembras vecinas eran divididos por densos y verdosos setos de bambúes, piteras, espinos y gravatás , que daban al conjunto el aspecto del más apacible y agradable vergel.

La casa estaba situada frente a las colinas. Se entraba en ella por un lindo pórtico todo cubierto de enredaderas, al cual se subía por una escalera de cantería de seis o seite peldaños. El fondo estaba ocupado por otros edificios aledaños, moradas de esclavos, patios, corrales y graneros, por detrás de los cuales se extendía el jardín, el huerto y un inmenso pomar que se perdía en las márgenes del gran río.

Era una linda y tranquila tarde de octubre. El sol aún no se había ocultado y parecía navegar en el horizonte suspenso sobre espirales de espuma de colores cambiantes orlados con hilos de oro. La brisa, saturada de balsámicos efluvios, sacudía su pereza a lo largo de las orillas, provocando sólo ligeros rumores en las copas de los árboles y haciendo susurrar levemente la cabellera de los cocoteros, que se miraban garbosos en las lúcidas y tranquilas aguas de la ribera.

Hacía buen tiempo; la vegetación, reanimada por moderadas lluvias, se mostraba fresca, tupida e frondosa, el agua del río, aún no enturbiada por las grandes crecidas, rodando con majestuosa lentitud, reflejaba en toda pureza los espléndidos colores del horizonte y el nítido verdor de las selváticas márgenes del río. Las aves, descansando del continuo volar por los pomares, prados y malezas vecinos, comenzaban a preludiar sus cantos.

La luz del sol poniente abrasaba de tal suerte los ventanales del edificio, que parecía devorado por las llamas de un incendio interior. Mientras, tanto en el interior como en los alrededores reinaba un profundo silencio, una perfecta tranquilidad. Bueyes robustos y rollizas novillas acostadas sobre la hierba, rumiaban tranquilamente a la sombra de altos troncos. Las aves domésticas chillaban alrededor de la casa, balaban las ovejas y mugian algunas vacas que iban por si solas en busca de los corrales; mas no se oía ni si divisaba voz ni figura humana. Parecía que allí no habitaba nadie. Sólo los ventanales abiertos de un
gran salón del frente y las hojas de la puerta de entrada, abiertas de par en par, denunciaban
que no todos los habitantes de aquella suntuosa propriedad se encontraban ausentes.

Gracias a ese casi silencio armonioso de la naturaleza se escuchaba claramente el sonido de un piano, unido a una voz de mujer, voz melodiosa, suave, apasionada, y de timbre más puro e suave que pueda imaginarse.

Como se emitía un poco ahogado, el canto tenía una vibración sonora, amplia y voluminosa, que revelaba una excelente y vigorosa organización vocal. El tono velado y melancólico de la cantiga parecía el gemido sofocado de un alma solitaria y sufridora.

Era ésa la única voz que quebraba el silencio de la vasta y tranquila vivienda. Por fuera, todo parecía escucharla en místico y profundo recogimiento. Las coplas que cantaba decían así:
Desde la cuna respirando
los aires de la esclavitud,
como semilla lanzada
en tierra de maldición,
la vida paso llorando
mi triste condición.
Mis brazos están presos,
a nadie puedo abrazar,
ni mis labios, ni mis ojos
pueden de amor hablar.
Dios me ha dado un corazón
solamente para penar.
Al aire libre de las campiñas
su perfume exhala la flor;
canta el viento en libertad
del bosque el alado cantor;
sólo para la pobre cautiva
no hay canciones, ni hay amor.
Cállate, pobre cautiva,
tus quejumbres crímenes son;
es una afrenta este canto,
que transmite tu aflicción.
La vida no te pertenece,
no es tuyo tu corazón.

Las notas sentidas y melodiosas de aquel cantar que escapa por las ventanas abiertas y resuena a los lejos, en derredor, dan ganas de conocer a la sirena que tan lindamente le entona. Si no es una sirena, solamente un ángel puede cantar así.

Subamos los peldaños que conducen al pórtico, todo adornado con exuberantes guirnaldas y lindas flores, que sirve de vestíbulo al edificio. Entremos sin ceremonia. A la derecha del pasillo encontramos abierta una ancha puerta, que da entrada a la sala de recepción, grande y lujosamente amueblada. Alli se encuentra sola, sentada al piano, una bella y noble figura de muchacha. Las líneas del perfil se dibujan nítidamente entre el ébano del piano y las espesas madejas más negras aún que él. Son tan puras y suaves esas líneas que fascinan los ojos, elevan la mente e inapiden todo análisis. La tez es como el marfil del teclado, blanca sin deslumbrar, teñida por un matiz delicado, que no podría decirse si es leve palidez o color de rosa desmayado. El gracioso cuello de la talla más pura, sustenta con garbo inefable el busto maravilloso. Los cabellos sueltos y fuertemente ondulados se despeñan caracoleando por los hombros en espesos y brillantes rizos, y como franjas negras esconden casi completamente el respaldar de la silla a la que se halla recostada. Sobre la frente tranquila y lisa como mármol pulido, la luz del ocaso se refleja con tonos rosáceos y suaves, como si fuera una misteriosa lámpara de alabastro que guarda en su seno diáfano el fuego celeste de la inspiración. Tenía el rostro vuelto hacia la ventana y la mirada vaga flotaba por el espacio.

Los atributos de la gentil cantora se veían también realzados por la sencillez, y diremos casi pobreza, del modesto vestuario. Un vestido de tela ordinaria azul claro le dibujaba perfectamente, con encantadora sencillez, el porte esbelto y la cintura delicada, y cayendo en rueda en amplias ondulaciones parecía una nube, de cuyo seno surgía la cantora como Venus naciendo de la espuma del mar o como un ángel surgiendo entre brumas vaporosas. Una pequeña cruz de azabache presa de su cuello con una cinta negra constituía su único ornamento.

Apenas terminado el canto, la muchacha permaneció un momento meditando, con los dedos sobre el teclado, como si escuchara los últimos ecos de su canción.

En tanto, habíase entreabierto sutilmente la cortina de muselina de una de las puertas interiores y un nuevo personaje penetraba en el salón. Era también una hermosa dama aún con la lozanía de la juventud, bonita, bien formada y elegante. La riqueza y el primoroso esmero del vestuario, el porte altivo y señoril, cierto balanceo afectado y lánguido de los movimientos dábanle ese aire presumido que acompaña a toda joven bonita y rica, incluso cuando está sola. Mas, contodo ese lujo y donaire de gran señora, su radiante belleza se veía por momentos eclipsada en presencia de las formas puras y correctas, de noble sencillez, y de los tan naturales y modestos ademanes de la cantora. Todavía Malvina era linda, encantadora, y a pesar de la vanidad de su hermosura y alta posición, toda la congénita bondad de su corazón se reflejaba en sus grandes y cariñosos ojos azules.

Malvina se aproximó en silencio y sin se sentida por la cantora, y, colocándose detrás de ella, esperó a que terminara la última copla.

—¡Isaura!… —dijo ella posando con cuidado su delicada mano sobre el hombro de la muchacha.

—¡Ah! ¿Es usted, señora? – respondió Isaura volviéndose sobresaltada —. No sabía que estaba ahí, escuchándome.

—¿Y eso qué importa?…, sigue cantando… ¡tienes una voz tan bonita!… Pero quisiera que cantaras otra cosa… ¿ Por qué te gusta tanto esa canción tan triste, que aprendiste no sé dónde?…

—Me gusta, porque la encuentro bonita y porque…, ¡ah!, no debo hablar.

—Habla, Isaura. ¿No te he dicho ya que no debes ocultarme nada ni temer nada de mí?

—Porque me hace recordar a mi madre, a quien yo no conocí, ¡pobrecita!… Pero si a la señora no le gusta esa canción, no la cantaré más.

—No, no me gusta que la cantes Isaura. Van a pensar que te maltratamos, que eres una esclava infeliz, víctima de señores bárbaros y crueles. Sin embargo, llevas aquí una vida que envidiaría mucha gente libre. Gozas de la estimación de tus amos. Te dieron una educación como no tuvieron muchas ricas e ilustres damas que yo conozco. Eres hermosa, y tienes un color tan lindo, que nadie diría que por tus venas corre una sola gota de sangre africana. Bien sabes cuánto, antes de morir, mi buena sogra te recomendaba a mí y a mi marido. Siempre respetaré las recomendaciones de aquella santa mujer y, como ves, soy más tu amiga que tu señora. ¡Oh, no!, no cabe en tu boca esa cantiga lastimera que tanto te gusta cantar. No quiero—continuó en tono de blanda reprensión -, no quiero que la cantes más, ¿me oíste, Isaura?… Si no, te cierro mi piano.

—Pero, señora, a pesar de todo eso, ¿qué soy yo sino una simple esclava? Esa educación que me dieron y esa belleza, que tanto me alaban, ¿de qué me sirven?…Son objetos de lujo colocados en la choza del africano. Y no por eso deja de ser lo que es: una morada de esclavos.

—¿Te quejas de tu suerte, Isaura?…

—Yo no, señora, no tengo motivo…; lo que quiero decir con esto es que, a pesar de todos eses dones y ventajas que me atribuyen, sé reconocer mi lugar.

—Vaya, ya sé lo que te aflige; tu canción bien lo dice. Bonita como eres, no puedes dejar de tener algún enamorado.

—¡Yo, señora!… No, no diga eso.

—Tú misma, ¿y eso qué importa?…; no te ofendas, ¿es alguna cosa del otro mundo? Vamos, confiesa, tienes un amante y por eso lamentas no haber nacido libre para poder amar al que te agradó y al que caíste en gracia, ¿no es así?…

—Perdómene, señora Malvina – replicó la esclava con una cándida sonrisa -. Usted se esquivoca, ¡estoy tal lejos de pensar en eso!

—¡Como lejos…! ¡No me engañas, mi muchachita!… Tú amas, y eres muy linda y bien dotada para sentirte inclinada hacia un esclavo. Al menos si fuera como tú… pero dudo que exista un esclavo así en el mundo. Una muchacha como tú, bien puede conquistar el amor de algún guapo mozo, y ésa es la causa del lamento de tu canción. Pero no te aflijas, Isaura mía; yo te prometo que mañana mismo obtendrás tu libertad. Deja que Leôncio llegue; es una vergüenza que una muchacha como tú se vea aún sometida a la condición de esclava.

—No diga eso, señora… Yo no pienso en amores y mucho menos en libertad. A veces me pongo triste por gusto, sin motivo ninguno…

—No importa. Soy yo quien quiero que seas libre, y vas a serlo.

En este punto la conversación fue cortada por un tropel de caballeros que llegaban y se apeaban a la entrada de la hacienda.

Malvina e Isaura corrieron a la ventana a ver quiénes eran.

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Fonte: Guimarães, Bernardo. La esclava Isaura. Traduccion; Julia Calzadilla. Ciudad de la Habana [Cuba]: Editorial Arte y Literatura, 1985; 191 p.1-7.

NOTAS
Variedad de ananás (N. del T.) .

ISAURA

1

Bernardo Guimarães

Pendant les premières années du régne de Don Pedro, dans la riche et fertile région de Goitacases, au bord du fleuve Paraiba, s’étendait un magnifique domaine, situé non loin de l apetite ville de Campos.
Un imposant bâtiment aux formes harmonieuses se nichait dans une vaste plane cultivée, au pied de hautes collines boisées en partie défrichées par les bûcherons. Alentour, la nature conservait son aspect primitif et sauvage, mais à proximité de l’habitation la main de l’homme avait dompté la végétation trop luxuriante pour y modeler jardins et vergers, pelouses et riches pâturages. De loin en loin, quelques arbres – des manguiers gigantesques, des cèdres et des bananiers – ombrageaient le paysage et te moignaient encore de la vitalité de l’ancienne forêt. C’est à pane si l’on apercevait un muret, un endos ou un fossé. Les prairies et les plantations avoisinantes étaient délimitées par d’épaisses haies de bambous qui donnaient à l’ensemble l’aspect d’un immense parc.
La maison donnait sur les collines. On y accédait par un escalier de pierre qui conduisait à une entrée garnie de plantes grimpantes perpétuellement fleuries. Derrière la maison se trouvaient les dépendances: les cases des esclaves, les étables et les granges. Plus loin encore, le jardin, le potager et un grand verger qui s’étendait à perte de vue jusqu’aux abords du fleuve.
C’était par un bel et tranquille après-midi d’octobre. Le soleil tardait à se coucher; on aurait dit qu’il flottait à l’horizon, suspendu au-dessus des nuages aux couleurs changeantes, et frangés d’or. Une brise parfumée faisait frémir le feuillage des arbustes et les palmes des cocotiers qui se reflétaient dans les eaux transparentes de la rivière.
L’éclat rougi du soleil couchant embrasait les vitres de la maison, qui paraissait dévorée par les flammes d’un incendie intérieur. Partout régnait un profond silence. De grasses génisses ruminaient paisiblement, couchées à l’ombre des grands arbres. Des oiseaux de basse-cour picoraient autour de la maison, des brebis bêlaient et quelques vaches migissaient en rentrant à l’étable. La maison semblait déserte. Seuls les volets du salon et les portes-fenêtres de l’entrée, grands ouverts, révélaient que les habitants n’étaient pás tous absents.
Soudain, dans la paix du crépuscule, s’élevèrent les notes d’un piano, puis une voix de femme, mélodieuse et passionnée, la plus purê et la plus fraîche qui se puísse imaginer. Son chant, légèrement étouffé, possédait une vibration ample et sonore. Le ton voilé et mélancolique de la chanson évoquait le gémissement d’une âme tourmentée, et les paroles disaient:

Respirant depuis toujours
L’air amer de l’esclavage,
Telle une semence jetée
Dans une terre maudite,
Je passe ma vie à pleurer
Ma triste condition.

Mes bras sont prisonniers.
Je ne puis embrasser personne
Et mes lèvres ni mes yeux
N’osent parler d’amour.
C’est pour mieux souffrir
Que Dieu m’a donné un cœur
Dans le grand vent des plaines,
La fleur exhale son perfum,
L’oiseau chante librement
La louange des bois.
Pour la pauore esclave seule,
Il n’y a ni chansons ni amour

Tais-toi, triste captive,
Ta plainte est criminelle
Et outrageux le chant
Qui dit ton désespoir.
Ta vie n’est pás à toi
Ni ton cœur, souviens-t’en.

Ces tendres intonations ne peuvent que donner le désir d’appucher la sirène qui chante si merveilleusement. Et si ce n’est pas une sirène, seul un ange peut chanter de la sorte.
Montons donc les marches du perron pour pénétrer dans la maison. A droite du couloir, une haute porte entrouverte nous permet de glisser un œil dans un salon richement décoré. Là, assise au piano, se tient une jeune fille au port de reine. Son profil, contrastant avec l’épaisse chevelure noire, se détache nettement sur l’ébène du piano. Les lignes en sont si délicates, si naturellement élégantes qu’elles transportent l’âme et paralysent la raison. Sa peau est pareille à l’ivoire du clavier, d’une blancheur fine et mate son cou délicat prolonge avec infiniment de grace un buste admirable. Ses longs cheveux frisés tombent sur ses épaules en boucles épaisses et recouvrent Presque entièrement le dossier de la chaise où elle s’appuie. Sur son front serein, la lumière du soir pose sa couleur chaude et rosée. Elle fait penser à ces mystérieux abat-jour qui gardent en leur sein diaphane le feu céleste de l’inspiration. Pour l’instant, elle a le visage tourné vers les fenêtres et son regard se perd dans le lointain.
Les attraits de la chanteuse sont encore accentués par la simplicité, pour ne pas dire le dépouillement, de son vêtement. Une modeste robe de toile bleu ciel fait ou ne peut mieux ressortir son maintien élancé et la finesse de sa taille. Le plissé de sa robe en godets s’arrondit autour d’elle comme un nuage, et c’est Vénus sortant des eaux on l’apparition d’un ange sur un fond de brumes vaporeuses. Seule une petite croix de jais attachée autour de son cou par un ruban noir lui sert de parure.
Lorsqu’elle eut fini de chanter, la jeune fille resta un long moment à rêver, les doigts poses sur les touches du piano, écoutant mourir les échos de son chant.
Le rideau de mousseline d’une des portes intérieuses du salon s’ouvrit alors, et un nouveau personage pénétra dans la pièce.
C’était encore une femme, elle aussi dans le plein éclat de sa jeunesse. La richesse et le raffinement de sa tenue, la noblesse un peu affectée de sa demarche lui donnaient cet air vaguement prétentieux qu’arborent souvent les jeunes filles de bonne famille, même lorsqu’elles se trouvent seules. Malvina, en effet, était fière de sa beauté et de sa position sociale, mais ses grands yeux bleus très doux laissaient transparaître la bonté de son cœur.
Elle s’approcha sans bruit de la chanteuse, s’arrêta juste derrière elle et lui posa doucement la main sur l’épaule.
— Isaura… dit-elle.
— C’est vous, Madame? répondit Isaura em sursautant légèrement. Je ne savais pas que vous étiez là.
— Ça ne fait rien, continue à chanter. Tu as une si jolie voix. Mais je préférerais que tu chantes autre chose. Pourquoi aimes-tu tellement cette chanson si triste?
— J ela trouve jolie, et en plus… Ah! C’est vrai, je dois me taire…
— Parle, Isaura. Ne t’ai-je pas déjà dit que tu ne devais rien me cacher, rien craindre de moi?
— Cette chanson me fait penser à ma mère, que je n’ai pas connue. Mais si elle vous déplaît, Madame, je n ela chanterai plus jamais.
— Je n’aime pas beaucoup cela, c’est vrai, Isaura. Les gens pourraient penser qu’on te maltraite, que tu es une esclave malheureuse, brutalisée par de mauvais maîtres. Tu sais cependant que beaucoup d’hommes libres envieraient l avie qui est la tienne. Tu jouis de l’estime de tes maîtres. Ils t’ont donné une éducation comme peu de femmes riches et bien rées en ont reçu. Tue s belle, et tap eau est si fine qu’il est impossible d’imaginer que du sang africain coule dans tes veines. Et puis, tu sais très bien que ma belle-mère, avant de mourir, t’a recommandée à moi et à mon mari. Je respecterai toujours les volantés de cette sainte femme. Tu le vois, je suis pour toi plus une amie qu’une maîtresse. Non, Isaura, continua Malvina sur un ton de léger reproche, je ne veux plus jamais entendre cette complainte. Sinon, je ne te permettrai plus de jour du piano.
— Mais, Madame, que suis-je d’autre qu’une esclave? Cette éducation que l’on m’a dispensée, cette beauté que tous celebrant, à quoi me servent-elles? Ce sont tout au plus des ornaments don’t on pare la case du nègre. Celle-ci n’en demeure pas moins une misérable demeure.
— Tu te plains de ton sort, Isaura?
— Moi, Madame? Non. Je n’ai aucune raison de le faire. Ce que je veux dire, c’est que malgré les privilèges dont ou m’honore, je sais reconnaître ou est ma place dans cette maison.
— Allons, Isaura, je sais ce qui t’afflige en vérité. Ta chanson le dit assez, d’ailleurs. Belle comme tu es, tu dois certainement avoir un amoureux.
— Mais non, Madame… Quelle idée!
— Quel mal y a-t-il á cela? Cela n’aurait rien d’extraordinaire. Voyons, avoue, tu as un amant, et c’est pour cela que tu regrettes de ne pas être libre. Libre d’aimer celui qui a conquis ton cœur et qui t’aime aussi. N’est-ce pas?
— Pardonnez-moi, Madame, répliqua l’esclave avec um sourire ingénu, vous trompez. Je suis bien loin de penser à cela.
— Vraiment? Tu n’abuserais personne, ma chérie. Tu aimes, et tu es trop belle et trop cultivée pour t’éprendre d’um esclave… sauf s’il s’agissait d’um esclave comme toi, mais je doute fort qu’il puísse em existe. Je te crois plutôt éprise d’un beau jeune homme, et c’est pourquoi ta chanson est si triste. Mais ne te désole plus, ma chère Isaura, je te promets que demain tu seras libre. Il suffit d’attendre le retour de Leoncio. Je ne veux pas qu’une jeune fille comme toi subisse plus longtemps la condition humiliante de l’esclave.
— Je vous assure, Madame, je ne pense pas à l’amour, et encore moins à la liberté. Il m’arrive parfois d’être triste sans raison, comme ça…
— Peu importe. C’est moi qui désire que tu sois libre, et tu le seras.
A cet instant, la conversation des deux femmes fut interrompue par l’arrivée de cavaliers qui arrêtèrent leurs chevaux devant la maison.
Elles coururent à la fenêtre.

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Fonte: GUIMARÃES, Bernardo. Isaura. Traduit du portugais pas Claude Farny. Paris, Éditions Robert Laffont, 1986, p. 5-11.

A ESCRAVA ISAURA

I

Bernardo Guimarães

Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.
No fértil e opulento município de campos de Goitacases, à margem do Paraíba, a pouca distância da vila de campos, havia uma linda e magnífica fazenda.
Era um edifício de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado em aprazível vargedo ao sopé de elevadas colinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvática rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos, em gramais e pingues pastagens, sombreadas aqui e acolá por gameleiras gigantescas, perobas, cedros e copaíbas, que atestavam o vigor da antiga floresta. Quase não se via aí muro, cerca, nem valado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circunvizinhos eram divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambus, piteiras, espinheiros e gravatás, que davam ao todo o aspecto do mais aprazível e delicioso vergel.
A casa apresentava a frente às colinas. Entrava-se nela por um lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma escada de cantaria de seis a sete degraus. Os fundos eram ocupados por outros edifícios acessórios, senzalas, pátios, currais e celeiros, por trás dos quais se estendia o jardim, a horta, e um imenso pomar, que ia perder-se na barranca do grande rio.
Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O Sol não era ainda posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de cores cambiantes orlados de fêveras de ouro. A viração saturada de balsâmicos eflúvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras acordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravam-se garbosos nas lúcidas e tranqüilas águas da ribeira.
Corria um belo tempo; a vegetação reanimada por moderadas chuvas ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a água do rio ainda não turvada pelas grandes enchentes, rolando com majestosa lentidão, refletia em toda a pureza os esplêndidos coloridos do horizonte e o nítido verdor das selvosas ribanceiras. As aves, dando repouso às asas fatigadas do continuo voejar pelos pomares, prados e balsedos vizinhos, começavam a preludiar seus cantos vespertinos.
O clarão do Sol poente por tal sorte abraseava as vidraças do edifício que esse parecia estar sendo devorado pelas chamas de um incêndio interior. Entretanto, quer no interior, quer em derredor, reinava fundo silêncio e perfeita tranqüilidade. Bois truculentos, e nédias novilhas deitadas pelo gramal, ruminavam tranqüilamente à sombra de altos troncos. As aves domésticas grazinavam em torno da casa, balavam as ovelhas e mugiam algumas vacas, que vinham por si mesmas procurando os currais; mas não se ouvia nem se divisava voz nem figura humana. Parecia que ali não se achava morador algum. Somente as vidraças de um grande salão da frente e os batentes da porta da entrada, abertos de par em par, denunciavam que nem todos os habitantes daquela suntuosa propriedade se achavam ausentes.
A favor desse quase silêncio harmonioso da natureza ouvia-se distintamente o arpejo de um piano casando-se a uma voz de mulher, voz melodiosa, suave, apaixonada e do timbre o mais puro e fresco que se pode imaginar.
Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibração sonora, ampla e volumosa, que revelava excelente e vigorosa organização vocal. O tom velado e melancólico da cantiga parecia gemido sufocado de uma alma solitária e sofredora.
Era essa a única voz que quebrava o silêncio da vasta e tranqüila vivenda. Por fora tudo parecia escutá-la em místico e profundo recolhimento.
As coplas, que cantava, diziam assim:

Desd’o berço respirando
Os ares da escravidão,
Como sempre lançada
Em terra de maldição,
A vida passo chorando
Minha triste condição.

Os meus braços estão presos,
A ninguém posso abraçar,
Nem meus lábios, nem meus olhos
Não podem de amor falar;
Deu-me Deus um coração
Somente para penar.

Ao ar livre das campinas
Seu perfume exala a flor;
Canta a aura em liberdade
Do bosque o alado cantor;
Só para a pobre cativa
Não há canções, nem amor.

Cala-te, pobre cativa;
Teus queixumes crimes são;
É uma afronta esse canto,
Que exprime tua aflição.
A vida não te pertence,
Não é teu teu coração.

As notas sentidas e maviosas daqueles cantar escapando pelas janelas abertas e ecoando ao longe em derredor dão vontade de conhecer a sereia que tão lindamente canta. Se não é sereia, somente um anjo pode cantar assim.
Subamos os degraus que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestíbulo ao edifício. Entremos sem cerimônia. Logo à direita do corredor encontramos aberta uma larga porta, que dá entrada à sala de recepção, vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sozinha e sentada ao piano uma bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenhavam-se distintamente entre o ébano da caixa do piano e as bastas madeixas ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas que fascinam os olhos, enlevam a mente e paralisam toda análise. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da cadeira a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-éis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairava-lhe pelo espaço.
Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda em amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo dentre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azediche presa ao pescoço por uma fita preta constituía o seu único ornamento.
Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da sua canção.
Entretanto abre-se sutilmente a cortina de casa de uma das portas interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era também uma formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem-feita e elegante. A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua beleza deixava de ficar algum tempo eclipsada em presença das formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis toda nativa bondade de seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida para junto da cantora, colocando-se por detrás dela esperou que terminasse a última copla.
— Isaura!… – disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
— Ah! É a senhora?! – respondeu Isaura voltando-se sobressaltada. — Não sabia que estava aí me escutando.
— Pois que tem isso… Continua a cantar… Tens a voz tão bonita!… Mas eu antes quisera que cantasses outra coisa; por que é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste, que você aprendeu não sei onde?…
— Gosto dela, porque acho-a bonita e porque… Ah! Não devo falar…
— Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder e nada recear de mim?…
— Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci, coitada!… Mas se a senhora não gosta dessa cantiga, não a cantarei mais.
— Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teus senhores. Deram-te uma educação como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço. És formosa, e tens uma cor linda, que ninguém dirá que gira em tuas veias uma só gota de sangue africano. Bem sabes quanto minha boa sogra antes de expirar te recomendava a mim e a meu marido. Hei de respeitar sempre as recomendações daquela santa mulher, e tu bem vês, sou mais tua amiga do que tua senhora. Oh! Não; não cabe em tua boca essa cantiga lastimosa, que tanto gostas de cantar. Não quero – continuou em tom de branda repreensão –, não quero que a cantes mais, ouviste, Isaura?… Senão, fecho-te o meu piano.
— Mas, senhora, apesar de tudo isso, que sou eu mais do que uma simples escrava? Essa educação que me deram e essa beleza que tanto me gabam de que me servem?… São trastes de luxo colocados na senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é: uma senzala.
— Queixas-te da tua sorte, Isaura?…
— Eu não, senhora; não tenho motivo… O que quero dizer com isto é que, apesar de todos esses dotes e vantagens que me atribuem, sei conhecer o meu lugar.
— Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem o diz. Bonita como és, não podes deixar de ter algum namorado.
— Eu, senhora!… Por quem é, não pense nisso.
— Tu mesmo; pois que tem isso?… Não te vexes; pois é alguma coisa do outro mundo? Vamos lá, confessa; tens um amante e é por isso que lamentas não teres nascido livre para poder amar aquele que te agradou e a quem caíste em graça, não é assim?…
— Perdoe-me, sinhá Malvina – replicou a escrava com um cândido sorriso. — Está muito enganada; estou tão longe de pensar nisso!
— Qual longe!… Não me enganas, mina rapariguinha!… Tu amas, e és mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo; só se fosse um escravo como tu és, o que duvido que haja no mundo. Uma menina como tu bem pode conquistar o amor de algum guapo mocetão, e eis aí a causa da choradeira de tua canção. Mas não te aflijas, minha Isaura; eu te protesto que amanhã mesmo terás a tua liberdade; deixa Leôncio chegar; é uma vergonha que uma rapariga como tu se veja ainda na condição de escrava.
— Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos em liberdade; às vezes fico triste à toa, sem motivo nenhum…
— Não importa. Sou eu quem quero que sejas livre, e hás de sê-lo.
Neste ponto a conversação foi cortada por um tropel de cavaleiros que chegavam e apeavam-se à porta da fazenda.
Malvina e Isaura correram à janela a ver quem eram.

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Fonte: GUIMARÃES, Bernardo. A Escrava Isaura. São Paulo, Klick Editora, 1999, p. 11-17.





Bio fornecida pelo palestrante.

URUGUAY




Autor: Basilio da Gama
Título: URUGUAY
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

O URUGUAY

 

Basilio da Gama

 

Canto Primeiro

Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos, e impuros,
Em que ondeam cadaveres despidos,
Pastos de corvos. Dura inda nos valles
O rouco som da irada artilharia.

Musa, honremos o heróe, que o povo rude
Subjugou do Uruguay, e no seu sangue
Dos decretos reaes lavou a affronta.
Ai! Tanto custas, ambição de império!

E vós[1], por quem o Maranhão pendura
Rotas cadeias[2], e grilhões pezados,
Heróe, e irmão de heróes[3], saudosa, e triste,
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meos versos. Possa em tanto
Acostumar ao vôo as novas azas,
Em que hum dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Aguia, que depois foge á humilde terra,
E vai ver de mais perto no ar vasio
O espaço azul, onde não chega o raio.

Já dos olhos o véo tinha rasgado
A enganada Madrid[4] e ao novo mundo
Da vontade do rei núncio severo
Aportava Cataneo: e ao grande Andrade[5]
Avisa que tem promptos os soccorros,
Em que em breve sahia ao campo armado.
Não podia marchar por um deserto
O nosso general, sem que chegassem
As conducções, que ha muito tempo espera.
Já por dilatadissimos caminhos
Tinha mandado de remotas partes
Conduzir os petrechos para a guerra.
Mas entre tanto cuidadoso, e triste,
Muitas cousas a um tempo revolvia
No inquieto agitado pensamento,
Quando pelos seus guardas conduzido
Um Indio com insignias de correio,
Com ceremonia estranha lhe apresenta
Humilde as cartas, que primeiro toca
Levemente na boca, e na cabeça.
Conhece a fiel mão, e já descança
O illustre general, que vio, rasgando,
Que na cera encarnada impressa vinha
A aguia real do generoso Almeida[6].
Diz-lhe, que está vizinho, e traz comsigo
Promptos para o caminho e para a guerra
Os fogosos cavalos e os robustos,
E tardos bois, que hão de soffrer o jugo
No pesado exercicio das carretas.
Não tem mais que esperar, e sem demora.
Responde ao Castelhano, que partia,
E lhe determinou lugar, e tempo[7]
Para unir os soccorros ao seu campo.

Juntos emfim, e um corpo do outro á vista,
Fez desfilar as tropas pelo plano,
Porque visse o Hespanhol em campo largo
A nobre gente, e as armas, que trazia.

Vão passando as esquadras: elle em tanto
Tudo nota de parte, e tudo observa
Encostado ao bastão. Ligeira e leve
Passou primeiro a guarda, que na guerra
E’ primeira a marchar e que a seu cargo
Tem descobrir a segurar o campo.
Depois desta se segue a que descreve,
E dá ao campo a ordem e a figura,
E transporta e edifica em um momento
O leve tecto e as movediças casas,
E a praça e as ruas da cidade errante.

Atraz dos forçosissimos cavallos
Quentes, sonoros eixos vão gemendo.
Co’peso da funesta artilharia.
Vinha logo de guardas rodeado,
Fonte de crimes, militar thesouro,
Por quem deixa no rego o curvo arado
O lavrador, que não conhece a gloria;
E vendendo a vil preço o sangue e a vida,
Move, e nem sabe porque move, a guerra.
Intrépidos, e immoveis nas fileiras,
Com grandes passos, firme a testa, e os olhos,
Vão marchando os mitrados granadeiros,
Sobre ligeiras rodas conduzindo
Novas especies[8] de fundidos bronzes,
Que amiúdam de promptas mãos servidos,
E multiplicam pelo campo a morte.

-Quem é este, Cataneo perguntava,
Das brancas plumas, e de azul e branco
Vestido, e de galões cuberto e cheio,
Que traz a rica cruz no largo peito?

Gerardo, que os conhece, lhe responde:
-E’ o illustre Menezes[9], mais que todos
Forte de braço, e forte de conselho.
Todo essa guerreira infanteria,
A flor da mocidade e da nobreza,
Como elle, azul e branco e ouro vestem.

-Quem é, continuava o Castelhano,
Aquelle velho vigoroso e forte,
Que de branco e amarelo e de ouro ornado
Vem os seus artilheiros conduzindo?

-Vês o grande Alpoim[10]. Este o primeiro,
Ensinou entre nós, por que caminho
Se eleva aos céos a curva e grave bomba
Prenhe de fogo: e com que força do alto
Abate os tectos da cidade, e lança
Do rosto seio envolta em fumo a morte.

Seguiam juntos o paterno exemplo
Dignos do grande pai ambos os filhos.
Justos céos! E é forçoso illustre Vasco[11],
Que te preparem as soberbas ondas,
Longe de mim, a morte e a sepultura?
Nymphas do mar, que vistes, se é que vistes,
O rosto esmorecido, e os frios braços,
Sobre os olhos soltai as verdes tranças.
Triste objecto de magoa e de saudade,
Como em meu coração, vive em meus versos.

Com os teus encarnados granadeiros
Tambem te vio naquelle dia o campo,
Famoso Mascarenhas[12], tu, que agora
Em doce paz, nos menos firmes annos,
Igualmente servindo ao rei e á patria,
Dictas as leis ao público socego,
Honra da toga e gloria do senado.

Nem tu, Castro fortissimo[13], escolheste
O descanço da patria: o campo e as armas
Fizeram renovar no inclyto peito
Todo o heróico valor dos teus passados.

Os ultimos, que em campo se mostraram,
Foram fortes dragões de duros peitos,
Promptos para dous generos de guerra,
Que pelejam a pé sobre as montanhas,
Quando o pede o terreno; e quando o pede,
Erguem nuvens de pó por todo o campo
C’o tropel dos magnanimos cavallos.

Convida o general depois da mostra,
Pago da militar guerreira imagem,
Os seus, e os Hespanhoes, e já recebe
No pavilhão purpureo, em largo giro,
Os capitães, a alegre e rica meza.

Desterram-se os cuidados, derramando
Os vinhos europeos nas taças d’ouro.
Ao som da ebúrnea cythara sonora
Arrebatado de furor divino
Do seu heróe Matusio celebrava
Altas emprezas dignas de memoria.
Honras futuras lhe promette, e canta
Os seus brazões, e sobre o forte escudo
Já de então lhe afigura, e lhe descreve
As perolas e o titulo de grande.

Levantadas as mezas, entretinham
O congresso de heróes discursos vários.
Ali Cataneo ao general pedia,
Que do principio lhe dissesse as causas
Da nova guerra, e do fatal tumulto.
Se aos Padres seguem os rebeldes povos?
Quem os governa em paz e na peleja?
Que do premeditado occulto império
Vagamente[14] na Europa se falava.

Nos seus lugares cada qual immovel
Pende da sua boca; attende em roda
Tudo em silencio, e dá principio Andrade.

-O nosso ultimo rei, e o rei de Hespanha
Determinaram, por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste angulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos signaes[15] nos dividissem.
Tirando a linha, donde a esteril costa
E o cerro de Castilhos o mar lava
Ao monte mais vizinho, e que as vertentes
Os termos do dominio assignalassem.
Vossa fica a Colonia, e ficam nossos
Sete povos, que os barbaros habitam
Naquella oriental vasta campina,
Que o fértil Uruguay discorre e banha.

Quem podia esperar que uns Indios rudes,
Sem disciplina[16], sem valo, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem[17] o terreno!
Emfim não lhes dei ordens para a guerra:
Frustrada a expedição, emfim voltaram.

C’o vosso general me determino
A entrar no campo juntos, em chegando
A doce volta da estação das flores.

« Não soffrem tanto os Indios atrevidos;
Juntos, um nosso forte em tanto assaltam:
E os padres os incitam e acompanham;
Que, á sua discrição, só elles podem
Aqui mover ou socegar a guerra.
Os Indios, que ficaram prisioneiros[18],
Ainda os podeis ver neste meu campo.

« Deixados os quartéis, emfim partimos[19]
Por diversas estradas, procurando
Tomar no meio os rebellados povos.
Por muitas léguas de áspero caminho,
Por lagos, bosques, valles, e montanhas,
Chegamos onde nos impede o passo
Arrebatado e caudaloso rio[20].
Por toda a opposta margem se descobre
De barbaros o numero infinito,
Que ao longe, nos insulta, e nos espera.

« Preparo curvas balsas, e pelotas[21],
E em uma parte de passar aceno,
Em quanto em outra passo occulto as tropas.

« Quasi tocava o fim da empreza, quando
Do vosso general um mensageiro
Me affirma, que se havia retirado[22].
A disciplina militar dos Indios
Tinha esterilizado aquelles campos.
Que eu tambem me retire me aconselha,
Até que o tempo mostre outro caminho.
Irado, não o nego, lhe respondo:
Que para traz não sei mover um passo.
Venha quando puder, que eu firme o espero.

« Porém o rio e a fórma do terreno[23]
Nos faz não vista e nunca usada guerra.
Sae furioso do seu seio, e toda
Vai alagando com o desmedido
Pezo das águas a planicie immensa.
As tendas[24] levantei primeiro aos troncos,
Depois aos altos ramos: pouco a pouco
Fomos tomar na região do vento
A habitação aos leves passarinhos.
Tece o emaranhadissimo arvoredo
Verdes, irregulares e torcidas
Ruas, e praças de uma, e de outra banda,
Cruzadas de canôas[25]. Taes podemos
Co’a mistura das luzes e das sombras
Ver por meio de um vidro transplantados
Ao seio de Adria os nobres edificios,
E os jardins que produz outro elemento,
E batidas de remo e navegáveis
As ruas da maritima Veneza.

« Duas vezes a lua prateada
Curvou no céo sereno os alvos cornos,
E ainda continuava a grossa enchente!

« Tudo nos falta no paiz deserto.
Tardar devia[26] o hespanhol soccorro.
E de si nos lançava o rio e o tempo.
Cedi, e retirei-me ás nossas terras. »

Deu fim á narração o invicto Andrade,
E antes de se soltar o ajuntamento,
Com os régios poderes, que occultara,
Sorprende os seus – e o animos alegra,
Enchendo os postos todos do seu campo.
O corpo de dragões a Almeida entrega,
Campo das Mercês o lugar chama.

___________________

Fonte: GAMA, José Basílio da. Obras poéticas de José Basílio da Gama. Procedida de uma biographia critica e estudo literario do poeta por José Veríssimo. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p. 95-102.

 


[1] O Illm. e Exm. Sr. Francisco Xavier de Mendonça Furtado foi governador e capitão general das capitanias do grão Pará e Maranhão, e fez ao norte do Brasil o que o conde de Bobadela fez da parte do Sul: encontrou nos Jesuitas a mesma resistencia, e venceo-a da mesma sorte.
[2] Os Indios lhe devem inteiramente a sua liberdade. Os Jesuitas nunca declamaram contra o cativeiro destes miseraveis racionaes, senão porque pretendiam ser só elles os seus senhores. Ultimamente foram, nos nossos dias, nobilitados e admittidos aos cargos da república. Este procedimento honra a humanidade.
[3] Em huma só familia achou o rei tres irmãos dignos de repartirem entre si todo o peso do governo. Com quanto maior gloria nossa podem os estranhos dizer da côrte de Lisboa, o que já se disse de Roma, ao vê-la nas mãos dos tres famosos Horacios (Corneil, Horac.),
“Et son illustre ardeur d’oser plus que les autres
D’une seule Maison brave toutes les nôtres.
Ce choix pouvait combler trios familles de gloire.”
[4] Os Jesuitas por si, e pelos seus fautores tinham feito na côrte de Madrid o ultimo esforço para impedir a execução do tratado de limites.
[5] O Illm. e Exm. Sr. Gomes Freire de Andrade.
[6] O coronel José Ignacio de Almeida.
[7] O dia 16 de janeiro de 1765 em Santo Antonio o Velho.
[8] As companhias de granadeiros levaram a esta expedição peças de amiudar, que foram as primeiras que passaram ao Brasil.
[9] O coronel Francisco Antonio Cardoso de Menezes, hoje governador da Colônia.
[10] O brigadeiro.
[11] Vasco Fernandes Pinto Alpoim, filho do brigadeiro e particular amigo de autor, morreo tenente coronel na flor dos seus annos em huma embarcação, que se perdeo, vindo da Colônia para o Rio de Janeiro.
[12] Fernando Mascarenhas, capitão de granadeiros, depois sargento mór.
[13] O tenente coronel Gregório de Castro Moraes, de illustrissima familia, que teve o governo de Rio de Janeiro no tempo da invasão do famoso Du Guay Trouin.
[14] Os Jesuitas tem tido a animosidade de negar por toda Europa o que se acabou de passar na America nos nossos dias, á vista de dous exercitos. O autor o experimentou em Roma, onde muitas pessoas o buscavam só para saberem com fundamento as noticias do Uruguay: testemunhando um estranho contentamento de encontrarem um Americano, que os podia informar miudamente de todo o succedido. A admiração, que causava a estranheza de factos entre nós tão conhecidos, fez nascer as primeiras ideias deste poema.
[15] O tratado de limites das conquistas celebrou-se a 16 de janeiro de 1750 entre os Srs. Reis D. João o V de Portugal, e D. Fernando o VI de Hespanha. Este tratado feria os Jesuitas na alma, porque por elle se entregavam aos Portuguezes as terás, que a companhia depois de muito tempo possuia como suas da parte oriental do rio Uruguay.
[16] Como naquelle tempo se imaginava.
[17] Os officiaes militares, que foram fazer a demarcação, chegaram ao posto de Santa Tecla, e nelle acharam fortificados os Indios que lhes impediram os passos.
[18] Foram cincoenta este prisioneiros; alguns dos principaes vieram remettidos ao Rio de Janeiro, onde o autor os vio e faltou com elles. Confessavam ingenuamente, que os padres tinham vindo em sua companhia até o Rio Pardo, e se tinham deixado ficar da outra banda. Mostravam-se sorprehendidos da doçura, que encontravam no trato dos Portuguezes. Diziam que os Padres não cessavam de lhes intimar nas suas pregações, que os Portuguezes tinham o diabo no corpo, e que eram todos feiticeiros. Que em matando algum, para que não tornasse a viver, era necessario por-lhe a cabeça hum palmo longe do corpo; o que elles religiosamente observavam.
[19] Sábio e general portuguez do Rio Grande de S. Pedro a 28 de julho de 1754.
[20] Jacuí. Chegaram a elle aos 07 de setembro.
[21] Especie de barcos, em que os nossos passam naquelle paiz os maiores e mais profundos rios. Fazem-se de couros de boi. Levam no fundo as cargas, e em cima os homens com os cavallos nadando á mão. Os Indios, que são robustissimos, e grandes nadadores, tiram todas esta machina por huma corda, cuja ponta tomam nos dentes. Quem vai dentro leva na mão a outra ponta, largando-a mais ou menos conforme julga ser necessario.
[22] Retiraram-se as tropas castelhanas, enfraquecida a cavallaria. Tinham-se mettido muito pela margem do rio, que estava rapada dos gados jesuiticos. Finalmente não tinham vontade de entrar em Missões; nem ate então estavam inteiramente persuadidos da intenção do rei. A maior razão de duvidar nascia das cartas que vinham da corte de Madrid por huma occulta cabala; os Jesuitas tudo revolviam e machinavam mais que nunca.
[23] Todos aquelles bosques e varzeas por muitas e muitas leguas são alagadiços, e sujeitos a enchentes. Ha nações inteiras de Indios que fazem as suas choupanas, e vivem sobe as arvores. São destrissimos em subir e descer sem cordas, nem genero algum de escada. As arvores são altissimas, e tem a maior parte do anno as raizes na agua.
[24] Talvez não se achará na historia outro successo semelhante. Foi necessária toda a Constancia do conde de Bobadella para ter dous mezes hum exercito abarracado sobre as arvores.
[25] Pequenas embarcações do Indios feitas de hum só tronco: nellas vinham occultamente fazer commercio com os Portuguezes, e Hespanhoes.
[26] Post bellum auxilium.
 

 





Bio fornecida pelo palestrante.

AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS




Autor: Autran Dourado
Título: AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS, IMAGINACIONES PECAMINOSAS
Idiomas: port, esp
Tradutor: Cecilia Garat
Data: 26/12/2004

AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS

UM AJUSTE DE CONTAS


Autran Dourado

De repente, no Campinho, sem que ao menos suspeitasse que estava sendo seguido, Valeriano se viu cara a cara com Orozimbo Preto. Não pôde fazer nada senão erguer os braços para se mostrar desarmado e entregue. Porque Orozimbo Preto já estava de arma em punho, engatilhada. A arma era um Agaó com mola Smith, muito parecido com um que ele teve de deixar às pressas na casa de Natália quando saltou a janela e o muro, seguido de gritos e tiros. A voz era do coronel Justino Pessegueiro de Sousa, mas ele não vinha sozinho. Valeriano não tinha chegado a se desvestir, apenas tirara o cinturão com o coldre e o revólver Agaó. Ainda tentou apanhar a arma, mas Natália, fingindo que sem querer, lhe barrou o caminho. Melhor perder um Agaó do que perder a vida, pensou ligeiro. Viu logo que tinha caído numa esparrela, tudo por obra e graça de Natália, a quem vinha seguindo desde que o coronel Justino a tirara do bordel da Ponte e montara casa para ela. O coronel gostava de carne nova e era muito cioso das suas mocinhas. Por causa dela dois já tinham perdido a vida: o irmão que matara Quincas em defesa da honra e fora morto por Orozimbo Preto, que do alto da torre da Igreja do Carmo espiava os dois se defrontarem.
Durante alguns dias andou escondido, com medo de uma vingança do coronel. Como nada acontecesse, tomou coragem, achou que a corrida tinha sido suficiente, o coronel Justino se dera por satisfeito. Por isso andava agora despreocupado e chegou mesmo a passar pela porta de Natália, mas ela não estava na janela ou se escondera para que ele não a visse, foi o que achou mais provável.
E agora, de repente, Orozimbo Preto, que andava foragido desde a morte daqueles dois no Largo do Carmo, aparecia na sua frente, o revólver pronto para cuspir fogo. A idéia de que ia morrer sem poder ao menos fazer um gesto de defesa lhe parecia injusta. Quem sabe Orozimbo Preto não vinha apenas lhe dar um aviso, ter um particular com ele? Se quisessem, não passaria mais pela porta de Natália, deixaria mesmo a cidade para sempre. Porque tudo aquilo lhe parecia obra do coronel Justino, era a sua maneira de justificar. Além de Natália, nada lhe pesava na consciência. Quem sabe se conversando os dois não se entendiam?
A cara de Orozimbo Preto não parecia de muita conversa, tinha mesmo meio riso amargo na boca (ou era mais um sestro dele?) que deixava ver as pontas dos dentes escuros, a boca quase sem lábios. O olho esquerdo piscava seguidamente, ao contrário do direito, brilhoso e parado como se fosse de vidro. A má catadura e ali parado, empunhando o Agaó, Orozimbo Preto parecia esperar alguma coisa. Se fosse para atirar logo, já teria atirado, profissional que era.
Por quê? foi tudo o que Valeriano conseguiu, num grande esforço, dizer. Você sabe por quê, foi o que me mandaram lhe dizer, disse Orozimbo.
Mas Orozimbo Preto ainda não se decidia a fazer o serviço.
E se eu me mandasse da cidade, nunca mais desse as caras, perguntou tentando uma última saída. Não recebi ordens pra decidir, não era comigo que você tinha de falar, disse Orozimbo Preto. A quem então? disse Valeriano cansado de saber com quem tinha de falar, se lhe fosse dada uma oportunidade. Não sei, isso não é comigo, disse Orozimbo. Só mandaram que eu perguntasse se você conhecia este Agaó. Está me parecendo o meu, disse Valeriano. Que você esqueceu numa certa casa onde nunca devia ter ido, disse Orozimbo Preto.
Adianta eu fazer alguma coisa, perguntou Valeriano depois de sufocante silêncio. Acho que não, disse Orozimbo Preto. A propósito, este Agaó nega fogo? Comigo nunca negou, disse Valeriano decidido, sua vida não valia mesmo mais nada. Vamos ver, disse Orozimbo Preto e calcou o gatilho. Um estrondo, um baque. Orozimbo Preto ainda atirou mais duas vezes sobre o corpo caído no chão.
___________________
Fonte: DOURADO, Autran. As imaginações pecaminosas. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 11-3.

IMAGINACIONES PECAMINOSAS


UN AJUSTE DE CUENTAS


Autran Dourado

De repente, en Campinho, sin que siquiera sospechase que lo estaban siguiendo, Valeriano se encontró cara a cara con Orozimbo Preto. No pudo hacer nada sino levantar los brazos para mostrarse desarmado y entregarse. Porque Orozimbo Preto ya estaba con el arma en la mano, lista. El arma era un H.O. con resorte Smith, muy parecido a uno que tuvo que dejar a los apurones en la casa de Natalia cuando saltó la ventana y el muro, seguido de gritos y tiros. La voz era la del coronel Justino Pessegueiro de Sousa, pero no estaba solo. Valeriano no había llegado a desvestirse, sólo se había sacado el cinturón con la cartuchera y el revólver H.O. Intentó tomar el arma, pero Natalia, fingiendo que lo hacía sin querer, le cerró el camino. Mejor perder un H.O. que perder la vida, pensó rápido. Enseguida se dio cuenta que había caído en una trampa, todo por obra y gracia de Natalia, a quien venía siguiendo desde que el coronel Justino la sacó del burdel del Puente y le montó casa. Al coronel le gustaba la carne nueva y era muy celoso de sus mujeres. Por culpa de ella dos ya habían perdido la vida: el hermano, que había matado a Quincas en defensa del honor y que fuera muerto por Orozimbo Preto, quien desde lo alto de la torre de la Iglesia do Carmo espiaba a los dos mientras se enfrentaban.
Durante algunos días anduvo escondido, con miedo de una venganza por parte del coronel. Como nada sucediera, se armó de coraje, pensó que la carrera había sido suficiente y que el coronel Justino se había dado por satisfecho. Por eso ahora andaba despreocupado y hasta pasó por la puerta de Natalia, pero ella no estaba en la ventana o se había escondido para que no la viese, que fue lo que le pareció más probable.
Y ahora, de repente, Orozimbo Preto, que andaba forajido desde la muerte de aquellos dos en el Largo do Carmo, se le aparecía de frente, con el revólver listo para escupir fuego. La idea de que iba a morir sin poder hacer al menos un gesto de defensa le parecía injusta. ¿Quién sabe si tal vez Orozimbo no venía sólo para hacerle una advertencia, para tener una charla? Si quisieran, no pasaría más por la puerta de Natalia, hasta dejaría la ciudad para siempre. Porque todo aquello le parecía obra del coronel Justino, era su manera de hacer justicia. Además de Natalia, nada le pesaba en la conciencia. ¿Quién sabe si conversando los dos no se entendían?
La cara de Orozimbo Preto parecía de pocos amigos, había media sonrisa amarga en su boca (¿o era más bien una mueca?) que dejaba ver la punta de sus dientes oscuros, la boca casi sin labios. El ojo izquierdo pestañeaba muy seguido, al contrario del derecho, brilloso y fijo como si fuera de vidrio. Con su horrible facha y ahí parado, empuñando el H.O., Orozimbo Preto parecía esperar algo.
¿Por qué? Fue todo lo que Valeriano consiguió decir con gran esfuerzo. Ya sabes por qué, fue lo que me mandaron decirte, dijo Orozimbo.
Pero Orozimbo Preto todavía no se decidía a hacer el trabajo.
Y si yo me fuera de la ciudad, si nunca más vieran mi cara, preguntó intentanto una última salida. No recibí órdenes para decidir, no era conmigo con quien tenías que hablar, dijo Orozimbo Preto.
¿Con quién entonces? dijo Valeriano cansado de saber con quien tenía que hablar, si le dieran una oportunidad. No sé, yo no tengo nada que ver, dijo Orozimbo. Sólo me mandaron preguntar si conocías este H.O. Me parece que es el mío, dijo Valeriano. El que te olvidaste en cierta casa donde nunca debías haber ido, dijo Orozimbo Preto.
¿Hay algo que yo pueda hacer? preguntó Valeriano después de un silencio sofocante. Creo que no, dijo Orozimbo Preto. A propósito, ¿este H.O. falla? A mí nunca me falló, dijo Valeriano decidido, su vida ya no valía nada. Vamos a ver, dijo Orozimbo Preto y apretó el gatillo. Un estruendo, un ruido, Orozimbo Preto todavía tiró dos veces más sobre el cuerpo caído en el suelo.

______________________

Fonte: DOURADO, Autran. Imaginaciones pecaminosas. Traducción de Cecilia Garat. Buenos Aires: Emecé, 1983. p. 15-7.





Bio fornecida pelo palestrante.

O RISCO DO BORDADO




Autor: Autran Dourado
Título: O RISCO DO BORDADO, PATTERN FOR A TAPESTRYLE, PORTAIL DU MONDE
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: John M. Parker(eng), Jacques Thiériot(fra)
Data: 26/12/2004

O RISCO DO BORDADO

1


Viagem à Casa da Ponte

Autran Dourado

Foi Zito quem contou como era por dentro a Casa da Ponte. Não podia acreditar, não acreditava se não fosse Zito. Um menino daquela idade entrar na casa da Ponte! Se fosse Tuim por exemplo, João tinha dado uma boa gargalhada. Tuim era fino e ligeiro na mentira. Com Zito era diferente, tinha de acreditar.
A Casa da Ponte, o mundo fechado, o reino proibido. O casarão prenhe, as muitas janelas de dia sempre cerradas, o casarão prenhe de segredos, suspenso em sortilégio, as janelas acesas durante quase toda a noite – luzes vermelhas e azuladas – o casarão prenhe de segredos jamais revelados povoava feito uma girândola de muitas cores a insônia do menino. Não podia dormir, o coração miúdo se enchia de sobressaltos e medos.
Os elementos com que fabricava os seus sonhos diurnos eram poucos e esgarçados, não davam para ele ter uma visão total. Eram pedaços de conversa pescados por acaso, vultos vistos furtivamente correndo quando ele passava perto do casarão. Nunca parava nas proximidades da Casa da Ponte, com medo que o vissem. O que é que você está fazendo aí, podiam perguntar e ele estaria perdido, descoberto.
Mesmo as famosas habitantes da Casa da Ponte, segregadas e famosas, tão diferentes das outras mulheres de Duas Pontes (desde longe podia reconhecê-las, quando saíam na rua para as compras, espairecendo a modorra, gatas na tarde) perdiam à luz do dia muito da legenda dourada. Mesmo assim João as seguia de uma certa distância, acompanhava os passos bamboleantes, os quadris cheios remexendo provocadores, via os olhares que os homens lançavam para elas, os ditos quando elas se aproximavam, as chacotas, os risos.
Se cruzavam com elas, as mulheres casadas desciam da calçada da calçada, viravam ostensivamente a cara. Elas eram a chaga, o pecado, a perdição de Duas Pontes. Muitas das casadas, se pudessem, a dignidade permitindo, teriam contas a ajustar com elas. E cobrariam então velhas dívidas: o que tinha sido feito do amor de seus maridos, por que havia agora veneno no carinho dos seus filhos?
Na Casa da Ponte é que elas realmente viviam, viviam uma vida mítica. Eram como ninfas: de noite à luz de candeias volantes, saíam a cantar pelos bosques.
Quando acontecia encontrá-las, João dizia baixinho os nomes embalsamados: Zilá, Violeta, Felícia, Ciganinha, Lina, Teresinha Virado. Ai, meu Deus, Teresinha Virado!
Teresinha Virado, talvez porque a mais nova, talvez por causa dos cabelos sedosos, talvez pelas sugestões escondidas no nome, tinha o condão de movimentar a máquina dos sonhos. Urutau, mandalua purgando à luz da lâmpada azulada. Ele teria medo de se aproximar de Teresinha Virado, ela por acaso o chamando alguma vez, lhe dirigindo a palavra na rua, ela que nunca sequer tinha reparado nele.
Mas de noite, choralua, quando o mundo se apagava, a carne fremia quente, era o nome que ele repetia. Teresinha Virado, Teresinha Virado, ai Teresinha Virado! E as mãos trêmulas, o peito arfando, os olhos compridos e macerados, via a Casa da Ponte iluminada – lâmpadas azuis e avermelhadas, pasto de memoráveis fantasias.
Só acreditou porque tinha sido Zito quem falou. Outro qualquer, Tuim por exemplo, muito mentiroso, faria o gesto tá que eu acredito! Não era nenhum bolo para ficar ouvindo campo queimado de Tuim. Com Zito era diferente, Zito tinha autoridade sobre ele, de uma certa maneira avançara muito em sabença e sisudez.
Pouco mais velho do que ele, aos quinze anos Zito já tinha assumido encargo na vida. João se preparava na época para prestar exame de admissão em São Mateus, Zito não podia ir, teve mesmo de abandonar os estudos com dona Felícia e buscar a sua trilha na vida. Com a morte do pai pouco depois, sem posses, a pobreza se agravou por demais na casa de Zito. Foi trabalhar na loja de seu Bernardino.
João, seu melhor amigo, o dia inteiro juntos, se viu privado de sua companhia nas férias. Não podiam mais esticar pela cidade, pelos matos, pelas grotas, a sua vadiagem de meninos.
Agora João tinha de praticar sozinho as suas reinações ou então ir procurar outros meninos. Tuim por exemplo, com Tuim não tinha graça nenhuma. João logo se entediava, com Zito é que era gostoso.
E muitas vezes ia para a loja de seu Bernardino, ficava assustando os fregueses que por ali faziam ponto, até que Zito dizia vem cá, João, me dá uma mão nestas peças de fazenda. Ficavam em silêncio, seu Bernardino era muito zeloso dos serviços dos empregados. Mesmo assim melhor do que com Tuim, se sentia compensado, solidário.
Não diga, disse João segurando uma peça de brim. Você foi mesmo? Me conta. Depois, lá fora, disse Zito baixinho olhando de viés para seu Bernardino.
João ia empilhando as peças de brim e divagava longe. Não é possível, como é que Zito foi na Casa da Ponte? Zito era sério e compenetrado, bem taludo e espichado é verdade, mas pouco mais velho do que ele, as mulheres não deixariam ele entrar. De noite então, de jeito nenhum! Só se tivesse sido de dia. Mas como, por causa de quê? Todo mundo sabia que seu Bernardino tinha mulher na casa da Ponte, não era novidade. Quem sabe Zito não foi levar algum recado para Lina, a amante de seu Bernardino? Não, de jeito nenhum, nem vê, seu Bernardino era homem sisudo, se dava ao respeito, não ia mandar Zito levar recado nenhum. Só se fosse mentira de Zito. Mas Zito não era de mentir nem de contar vantagem. Tuim, sim. Um dia ainda vou lá passear a minha prosa, dizia Zito quando os dois contavam histórias que tinham ouvido, negociavam a moeda do sonho. Ele, João, nunca que teria coragem de dizer para os outros uma coisa dessas. Dizia só para si, ruminava o pensamento manso. Zito tinha muita ousadia de sonhar, de dizer. Quem sabe foi mesmo? Não deixavam entrar, um menino. Quinze anos era muita coisa, mas para elas Zito ainda era um menino. Quem sabe ele, corajoso agora, sério por causa do emprego na loja, não tinha ido lá por contra própria perguntar qualquer coisa com ar de desentendido? Não, quem vê! E o medo de tudo vir bater nos ouvidos de seu Bernardino? Estive lá na casa da Ponte, foi só o que disse Zito. Não podia ter escutado mal, ouvir claramente. Zito tinha aberto a porteira do mundo. João ruminava, destilava. Zito agora conhecia um mundo muito maior do que ele. Podia ser até um daqueles viajantes de guarda-pó branco que passavam de trem por Duas Pontes. Não bastasse o emprego na loja, que de uma certa maneira o tornava mais sério e mais velho, ainda por cima Zito agora podia dizer como eram de verdade as mulheres. Na sua morada, na intimidade quente. Querendo, ele podia até contar vantagem. Mas Zito não era disso, repetia João tentando se convencer.
(…)

________________

Fonte: DOURADO, Autran. O Risco do Bordado. 12ª. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p. 13-16.

PATTERN FOR A TAPESTRY

I


JOURNEY TO BRIDGE HOUSE

Autran Dourado

It was Zito who told him what Bridge House was like inside. He couldn’t believe it, wouldn’t have if it hadn’t been Zito. A boy of that age go into Bridge House! If it’d been Tuim, for example, João would have laughed outright. Tuim was smart and quick with his lies. But Zito was different, he had to believe him.
Bridge House, a hidden world, a forbidden realm. The big house heavy, its many windows closed during the daytime, the big house heavy with secrets, suspended in a veil of magic, its windows lit up throughout the night – red and bluish lights – the big house heavy with undisclosed secrets filled the boy’s sleepless nights like a many-coloured catherine wheel. He couldn’t sleep, his little heart swelling with fears and sudden frights.
The details from which he fashioned his daydreams were few and sketchy, not enough for him to form a complete picture. They were snatches of conversation picked up by chance, figures seen hurrying furtively when he was passing by the big houses. He never stopped in the vicinity of Bridge House, for fear of being seen. What are you doing here, they might ask and he would be done for, found out.
Even the famous inhabitants of Bridge House, secluded and famous, so different from the other women of Duas Pontes (you could recognize them from a distance, when they came out into the street to go shopping, airing their drowsiness, she – cats in the afternoon sun) lost a good deal of the gilt of legend in the daylight. Even so João followed them at a distance, keeping pace with their swaying walk, eyeing the provocative wiggle of their buxom hips, and noted the looks the men gave them, the remarks when they came closer, the banter, the laughter.
If the married women met them on the street, they would step off the pavement and look very obviously the other way. They were the canker, the sin, the perdition of Duas Pontes. Many of the married women, if they could, if dignity would allow them, would get even with them. Then they would settle old scores: what had happened to their husbands’ love, who had poisoned their sons’ affection?
Bridge House was where they came to life. They lived in a world of myths. Like nymphs, they came out at night and went singing in the woods by the light of flying lanterns.
When he happened to see them, João would silently repeat to himself their perfumed names: Zilá, Violeta, Felicia, Ciganinha, Lina, Teresinha Virado. Oh God, Teresinha Virado!
Perhaps because she was the youngest, perhaps because of her silken hair, or maybe on account of the allusions hinted at in her name , there was something about Teresinha Virado that set in motion the engine of his dreams. Whippoorwill, nighthawk scourging himself by the light of the blue lamp. He would be afraid of approaching Teresinha Virado, should she ever call him, speak to him in the street. But she had never so much as noticed him.
At night, though, whippoorwill, when the world fell silent his flesh throbbed feverishly and it was her name he murmured again and again. Teresinha Virado, Teresinha Virado, oh Teresinha Virado! His hands trembled, his chest heaved, a faraway look in his sunken eyes, which could see Bridge House ablaze with light – blue and reddish lamps, breeding ground of memorable fantasies.
He only believed it because Zito told him. If it’d been anyone else, that liar Tuim for instance, he’d have made the rude gesture that means go tell it to your granny! He wasn’t fool enough to stay and listen to Tuim’s fairy tales. But Zito was different. He looked up to Zito, somehow he had shot ahead in know-how and shrew dness.
Only slightly older than João, by the time time he was fifteen Zito has already shoul deres liabilities in life. At the time João was studying for the entrance exam to go to São Mateus. Zito couldn’t go, he had to give up studying with Dona Felicia and find his own way in life. His father died soon afterwards, leaving nothing, and things got very hard at Zito’ s house. He went to work at Seu Bernardino’s shop .
João, his best friend, together all day long, found himself without Zito’s company in the holidays. No more loafing around the town, the woods, the caves, spinning our their boyhood leisure.
Now João had to get up to his tricks by himself or go and look for other lads. Tuim, for example. It was no fun with Tuim though, João soon got fed up. With Zito it was great.
Often he would go to Seu Bernardino’s shop and stand watching the customers who hung around there chatting, until Zito said come and give me a hand with these bales of cloth, João. They worked in silence, Seu Bernardino kept a sharp eye on his assistants. Even so it was better than being with Tuim, he felt he got something out of it, a feeling of companionship.
You don’t mean it, said João, handling a bale of denim. Did you really go? Tell me about it. Later, outside, muttered Zito with a sideways glance at Seu Bernardino.
João went on stacking the bales of denim, but his thoughts were miles away. It’s not possible, how can Zito have been to Bridge House? Zito was serious and self-assured, well built and quite tall it’s true, but only a little older than him, the women wouldn’t let him in. And at night, not on your life! Only if it’d been during daytime, perhaps. But how, what for? Everyone knew that Seu Bernardino had a mistress at Bridge House, there was nothing new in that. Maybe Zito went to take a message to Lina, Seu bernardino’s mistress. No way, not a chance surely, Seu Bernardino was a discreet man, concerned with appearances, he wouldn’t send Zito running errands. Perhaps Zito was fibbing. But Zito wasn’t given to telling lies or boasting. Not like Tuim. One of these days I’ll go up there and chat them up, Zito would say when the two of them were telling stories they’d heard, swapping dreams. João, he would never have the courage to say a thing like that in front of the others. He’d say it just to himself, mulling over the thought quietly. Zito had daring thoughts, and came out with them. Maybe he went after all. They wouldn’t let him in, a boy. Fifteen was quite an age, but to them Zito was still a boy. Maybe, though, he had the nerve, more grown-up now he was working in the shop, and had gone there on his own account to ask for information as if he didn’t realize what the place was? No, how could he? Wouldn’t he be afraid of it getting back to Seu Bernardino’s ears? I was at Bridge House, that was all Zito said. He couldn’t have heard him wrong, he heard quite clearly. Zito had opened the gateway onto the world.
João was thinking things over, letting them trickle through his mind. Zito’s knowledge of the world was now greater than his. He was like one of those travellers in white smacks who went through Duas Pontes on the train. As if his job in the shop were not enough, making him somehow older and more serious, on top of that Zito could now tell him what women were really like. Where they lived, in the warmth of their privacy. If he wanted, he could boast about it as well. But Zito wasn’t like that, João said to himself again, trying to convince himself.
(…)

Teresinha Virado, whose surname is not a family name in Brazil, being a creation of Dourado’s, is so called because she ‘turns’ João’s head and because she is ‘flighty’, a ‘giddy girl’ one might say, meanings contained in the verb virar and the participial adjective virado.

The form ‘seu’ (cf. Senhor) is common in the interior of Brazil, but is widely used even in the bigger cities of the more conservative north and north-east of the country. Used particularly with first names, it indicates a curious mixture of respect and familiarity. It is not really translatable and I have opted for keeping it as it stands, whenever I felt it could not be omitted.

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Fonte: DOURADO, Autran. Pattern for a Tapestry: A Novel. Translated from the Portuguese by John M. Parker. London, Peter Owen Publishers, 1984, p. 13-16.

LE PORTAIL DU MONDE

I


Voyage à la Maison du Pont

Autran Dourado

C’est Zito qui lui avait raconté comment c’était à l’intérieur de la Maison du Pont. Il n’arrivait pas à y croire, il ne croyait personne excepté Zito. Un gamin de cet áge entrer dans la Maison du Pont! Si c’était Tuim, par exemple, João aurait rigolé un bon coup. Tuim était roublard et rapide dans le mensonge. Avec Zito c’était différent, il fallait le croire.
La Maison du Pont, le monde fermé, le royaume défendu. La demeure grosse, ses nombreuses fenêtres de jour toujours fermées, la demeure grosse de secrets, dans le suspends d’un sortilège, les fenêtres allumées durant presque toute la nuit – lumières rouges et bleutées – la demeure grosse de secrets jamais révélés peuplait comme une girandole de toutes les couleurs l’insomnie du petit garçon. Il ne pouvait pas dormir, son cœur menu s’emplissait de sursauts et de peurs.
Les éléments avec lesquels il fabriquait ses rêves diurnes étaient peu nombreux et fragmentaires, ils ne lui permettaient pas d’avoir une vision complète. C’étaient des bouts de conversation attapés par hasard, des silhouettes qu’il entrevoyait furtivement, à la sauvette quand il passait près de la demeure. Il ne s’arrêtait jamais dans les parages de la Maison du Pont, de crainte d’être vu. Qu’est-ce que tu fais là, on pouvait lui demander et il serait perdu, percé à jour.
Certes les fameuses habitantes de la Maison du Pont, recluses et fameuses, si différentes des autres femmes de Duas Pontes (de loin on pouvait les reconnaître, quand elles sortaient dans la rue pour des achats, distraire leur indolence, pimpantes dans l’après-midi), à la lumière du jour perdaient une grande part de leur légende dorée. Pourtant João les suivait à une certaine distance, accompagnait leur démarche chaloupée, leurs hanches pleines qui se trémoussaient provocantes, il voyait les regards que les hommes leur lançaient, les propos quand elles s’approchaient, les quolibets, les rires.
Si elles les croisaient, les femmes mariées descendaient du trottoir, détournaient ostensiblement le visage. Elles étaient la plaie, le péché, la perdition de Duas Pontes. De nombreuses épouses, si elles pouvaient, et si leur dignité leur permettait, auraient des comptes à régler avec elles. Et alors elles leur feraient payer de vieilles dettes: qu’avait-on fait de l’amour de leurs maris, pourquoi y avait-il maintenant du poison dans la tendresse de leurs enfants?
C’est dans la maison du Pont qu’elles vivaient réellement, elles vivaient une vie mythique. Telles des nymphes: la nuit à la lumière de chandeliers volants, elles sortaient chanter dans les bois.
Quand il lui arrivait de les rencontrer, João disait tout bas leurs noms embaumés: Zila, Violeta, Felicia, Ciganinha, Lina, Teresinha Virado. Ah, mon Dieu, Teresinha Virado!
Teresinha Virado, peut-être parce qu’elle était la plus jeune, peut-être à cause de ses cheveux soyeux, peut-être à cause des sous-entendus suggestifs de son nom, avait le don de mettre en marche la machine des rêves. Ouroutaou nocturne, hibou se purgeant à la lumière de la lampe bleutée. Il aurait peur de s’approcher de Teresinha Virado, au cas où un jour elle l’appellerait, lui adresserait la parole dans la rue, elle qui ne lui avait jamais prêté la moindre attention.
Mais la nuit, oiseau de lune, quand le monde s’éteignait, sa chair brûlante frémissait, c’était le nom qu’il répétait: Teresinha Virado, Teresinha Virado, ah! Teresinha Virado! Et les mains tremblantes, la poitrine haletante, les yeux écarquillés et mortifiés, il voyait la maison du Pont illuminée – lampes bleues et rougeâtres, pâtis de mémorables fantaisies.
Il ne le crut que parce que c’était Zito qui l’avait dit. A un autre, Tuim par exemple, fieffé menteur, il aurait fait le geste: mon œil! Il n était pas bête, il n’allait pas écouter les craques de Tuim. Avec Zito c’était différent. Zito avait de l’autorité sur lui, d’une certaine façon il était très avancé question jugeote et astuce.
Un peu plus âgé que lui, à quinze ans Zito avait déjà assumé une charge dans la vie. A l’époque, João se préparait à passer un examen d’admission à São Mateus. Zito ne pouvait pas y aller, il avait même été obligé d’abandonner les cours de dona Felicia et de chercher sa voie dans la vie. Avec la mort de son père peu après, sans laisser de biens, la pauvreté était devenue trop dure à supporter dans la maison de Zito. Il était allé travailler au magasin de m’sieu Bernardino.
João, son meilleur ami, toute la journée ensemble, se vit privé de sa compagnie pendant les vacances. Ils ne pouvaient plus continuer leurs vadrouilles de gamins dans la ville, les forêts et les grottes.
Désormais João devait se livrer tout seul à ses polissonneries ou bien alors chercher d’autres gamins. Tuim, par exemple, avec Tuim c’était pas marrant du tout, João tout de suite s’embêtait, c’est avec Zito qu’il se plaisait.
Alors souvent il allait au magasin de m’sieu Bernardino, il restait là à observer les clients qui le fréquentaient, jusqu’à ce que Zito lui dise amène-toi, João, file-moi un coup de main pour ces prèces de tissu. Ils gardaient le silence, m’sieu Bernardino était très pointilleux sur le travail des employés. De toute façon c’était mieux qu’avec Tuim, il se sentait soutenu, solidaire.
Sans blague, dit João en empoignant une pièce de coutil, tu y as vraiment été? Raconte. Tout à l’heure, dehors, dit Zito tout bas en regardant à la dérobée m’sieu Bernardino.
João empilait les pièces de cutil et sa tête battait la campagne. C’est pas possible, comment est-ce que Zito a été à la Maison du Pont? Zito était sérieux et sûr de lui, costaud et bien découplé c’est vrai, mais à peine plus âgé que lui, les femmes ne le laisseraient pas entrer. Alors la nuit, pas question! Seulement peut-être de jour. Mais comment, pour quel motif? Tout le monde savait que m’sieu Bernardino avait une femme attitrée à la Maison du Pont, c’était pas une nouveauté. Peut-être que Zito avait été porter une commission pour Lina, la bonne amie de m’sieu Bernardino? Non, pas du tout, pensez-donc, m’sieu Bernardino était un homme avisé, il avait le respect des convenances, il n’allait pas envoyer Zito porter la moindre commission. A moins que ce soit une menterie de Zito. Mais Zito n’était pas capable de mentir ni de se vanter. Tuim, oui. Un de ces jours je vais sortir mon baratin, disait Zito quand tous les deux se racontaient les histoires qu’ils avaient entendues, échangeaient la monnaie du rêve. Lui, João, il n’aurait jamais le courage de dire aux autres une chose pareille. Il ne la disait qu’à lui-même, il ruminait ses pensées tranquilles. Zito avait une grande hardiesse de rêver, de dire. Peut-être qu’il y était allé pour de bon? Elles ne le laisseraient pas entrer, un gamin. Quinze ans ça comptait déjà, mais pour elles Zito était encore un gamin. Est-ce que du coup intrépide, sérieux à cause de son emploi au magasin, il était vraiment allé là-bas de lui-même demander un truc quelconque avec mine d’ingénu? Non, pas pensable! Et la peur que tout vienne aux oreilles de m’sieu Bernardino? J’ai été à la Maison du Pont, c’était tout ce qu’avait dit Zito. Il ne pouvait pas avoir mal entendu, il avait clairement entendu. Zito avait ouvert le portail du monde.
João remâchait, distillait. Zito maintenant connaissait un monde plus grand que le sien. Il pouvait même devenir un de ces commis voyageurs en cache-poussière blanc qui passaient en train par Duas Pontes. Non seulement il avait un emploi au magasin, qui d’une certaine façon le rendait plus sérieux et plus âgé, mais par-dessus le marché Zito maintenant pouvait dire comment étaient vraiment les femmes. Dans leur logis, leur intimité chaude. S’il voulait, il pouvait même crâner. Mais ce n’était pas le genre de Zito, se répétait João pour essayer de se convaincre.
(…)

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Fonte: DOURADO, Autran. “Voyage à la Maison du Pont”. In: Le Portail du Monde. Traduit du portugais (Brésil) par Jacques Thiériot. Paris, Éditions Metailié, 1994, p. 11-15.





Bio fornecida pelo palestrante.

ÓPERA DOS MORTOS




Autor: Autran Dourado
Título: ÓPERA DOS MORTOS, L’OPERA DES MORTS, THE VOICES OF THE DEAD
Idiomas: port, fra, eng
Tradutor: Jacques Thiériot(fra), (eng)
Data: 26/12/2004

ÓPERA DOS MORTOS


1
Sobrado


Autran Dourado

O senhor querendo saber, primeiro veja:
Ali naquela casa de muitas janelas de bandeiras coloridas vivia Rosalina. Casa de gente de casta, segundo eles antigamente. Ainda conserva a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco caído em alguns trechos como grandes placas de ferida mostra mesmo as pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a vida; vidros quebrados nas vidraças, resultado do ataque da meninada nos dias de reinação, quando vinham provocar Rosalina (não de propósito e ruindade, mais sem-que-fazer de menino), escondida detrás das cortinas e reposteiros; nos peitoris das sacadas de ferro rendilhado formando flores estilizadas, setas, volutas, esses e gregas, faltam muitas das pinhas de cristal facetado cor-de-vinho que arrematavam nas cantoneiras a leveza daqueles balcões.
O senhor atente depois para o velho sobrado com a memória, com o coração – imagine, mais do que com os olhos, os olhos são apenas conduto, o olhar é que importa. Estique bem a vista, mire o casarão como num espelho, e procure ver do outro lado, no fundo do lago, mais além do além, no fim do tempo. Recue no tempo, nas calendas, a gente vai imaginando; chegue até ao tempo do coronel Honório – João Capistrano Honório Cota, de nome e conhecimento geral da gente, homem cumpridor, de quem o senhor tanto quer saber, de quem já conhece a fama, de ouvido – de quem se falará mais adiante, nas terras dele, ou melhor, do pai – Lucas Procópio Honório Cota, homem de que a gente se lembra por ouvir dizer, de passado escondido e muito tenebroso, coisas contadas em horas mortas, esfumado, já lenda-já história, lembranças se azulando, paulista de torna-viagem das Minas, de longes sertões, quando o ouro secou para a desgraça geral, as grupiaras emudeceram: e eles tiveram de voltar, esquecidos das pedras e do ouro, das sonhadas riquezas impossíveis, criadores de gado, potentados, esbanjadores ou unhas-de-fome – conforme a experiência tida ou a natureza, fazendeiros agora, lúbricos, negreiros, incestuosos, demarcadores, ladrilhando com seus filhos e escravos este chão deserto, navegadores de montes e montanhas, políticos e sonegadores, e vieram plantando fazendas, cercando currais, montando pousos e vendas, semeando cidades no grande país das Gerais, buscando as terras boas de plantio, as terras roxas e de outras cores em que o sangue e as lágrimas entram como corantes – nas datas de quem, por doação e todos os mais requisitos de lei, se ergueu a Igreja do Carmo e se fez o Largo.
Um recuo no tempo, pode se tentar. Veja a casa como era e não como é ou foi agora. Ponha tento na construção, pense no barroco e nas suas mudanças, na feição do sobrado, na sua aparência inteira, apartada, suspensa (não, oh tempo, pare as suas engrenagens e areias, deixe a casa como é, foi ou era, só pra gente ver, a gente carece de ver; impossível com a sua mediação destruidora, que cimenta, castradora); esqueça por um momento os sinais, os avisos surdos das ruínas, dos desastres, do destino.
A casa fica no Largo do Carmo, onde se plantou a igreja. A Igreja do Carmo foi a primeira construção de pedra e alvenaria da cidade. Depois é que Lucas Procópio mandou construir a sua casa (na época apenas a parte de baixo), tentando fazer parelha com a igreja. Uma igreja em que se procurou no risco e na fachada seguir a experiência que os homens trouxeram das igrejas de Ouro Preto e São João del-Rei: só que mais pobre, sem a riqueza dos frontões de pedra em que o barroco brinca as suas volutas vadias; mesmo assim imponente, toda branca, com seus cunhais e marcos de pedra, a porta almofadada, as duas janelas-de-púlpito ladeando em cima o vão da porta, as cornijas trabalhadas em curvas leves, a torre solitária nascendo na cumeeira do telhado de duas-águas. Da torre pode se ver, em vôo de pássaro, o casario que cresceu para trás da igreja, contrariando o desejo dos fundadores que era ver a Igreja do Carmo soberana, sobranceira, dominando de frente toda a cidade. Da torre pode se ver a lisura vazia do largo de terra batida, onde às vezes se formam redemoinhos coriscantes de poeira, o cruzeiro no meio da praça, as ruas que dali partem, os muros brancos do cemitério, as voçorocas de goelas vermelhas na beira da estrada que deixa a cidade.
(Rosalina conhecia o Largo do Carmo palmo a palmo, desde sempre olhando detrás das cortinas a igreja, as casas fronteiras, a Escola Normal, a estrada. Os olhos vazios e mornos miravam o silêncio coalhado da praça, a solidão do descampado às três horas da tarde, o céu de verão sem nuvens, o sol estorricando a terra, reverberando nas paredes brancas, os burricos peados junto ao cruzeiro, os jacás vazios, esperando os donos – eles eram lerdos e cansados, pastavam com focinhos duros, disputavam uma ou outra cabeleira de capim que teimava em brotar daquele chão duro – alguém que entrava no Largo, os passos lentos, se protegendo do sol, e ela o seguia com a vista, a atenção neutra dos desocupados, até que dobrava a esquina ou se perdia de vista no fim da rua. )
Se quiser, o senhor pode ver Rosalina, acompanhar os seus mínimos gestos, como ela acompanhava os passeantes, não com aqueles olhos embaciados, aquela neutralidade morna. Mas veja antes a casa, deixa Rosalina pra depois, tem tempo.
No tempo de Lucas Procópio a casa era de um só pavimento, ao jeito dele; pesada, amarrada ao chão, com as suas quatro janelas, no meio a porta grossa, rústica, alta. Como o coronel Honório Cota, seu filho, acrescentou a fortuna do pai, aumentou-lhe a fazenda, mudou-lhe o nome para Fazenda da Pedra Menina – homem sem a rudeza do pai, mais civilizado, vamos dizer assim, cuidando muito da sua aparência, do seu porte de senhor, do seu orgulho – assim fez ele com a casa; assobradou-a, pôs todo gosto no segundo pavimento. Se as vergas das janelas de baixo eram retas e pesadas, denunciando talvez o caráter duro, agreste, soturno, do velho Lucas Procópio, as das janelas de cima, sobrepostas nos vãos de baixo, eram adoçadas por uma leve curva, coroadas e enriquecidas de cornijas delicadas que acompanhavam a ondulação das vergas.
Quando o mestre que o coronel Honório Cota mandou buscar de muito longe, só para remodelar a sua casa, disse quem sabe não é melhor a gente trocar as vergas das janelas de baixo, a gente dá a mesma curva que o senhor quer dar nas de cima, já vi muitas assim em Ouro Preto e São João, ele trancou a cara. Ora, já se viu, mudar, pensou. Não quero mudar tudo, disse. Não derrubo obra de meu pai. O que eu quero é juntar o meu com o de meu pai. Eu sou ele agora, no sangue, por dentro. A casa tem de ser assim, eu quero. Eu mais ele. E como o homem ficasse meio atarantado sem entender direito aquela argamassa estranha de gente e casa, vindo de outras bandas, o coronel puxou fundo um pigarro e disse o senhor não entende do seu oficio? Pois faça como lhe digo, assunte, bota a cabeça pra funcionar e cuide do risco. Se ficar bom eu aprovo. O homem quis dizer alguma coisa, ponderar, falar sobre os usos, mas o coronel foi perempto. E olhe, moço, disse ele, eu não quero um sobrado que fique assim feito uma casa em riba da outra. Eu quero uma casa só, inteira, eu e ele juntos pra sempre. O mestre viu aquele olho rútilo, parado, viu que o coronel já não falava mais com ele mas para alguém muito longe ou para as bandas do ninguém. Picou a mula, se foi para o seu serviço.
O mestre conversou com a gente da cidade, especulou, quis saber como era mesmo o velho Lucas Procópio Honório Cota. É pra compor a fachada, dizia explicadinho na sua voz aflautada, com medo de irem contar a seu coronel Honorio Cota que ele andava bisbilhotando a vida do falecido senhor pai dele, o famoso Lucas Procópio Honório Cota.
Coisa de pouca monta ficou sabendo, a não ser as brumosas histórias de um homem antigo que fazia justiça sozinho, que se metia com os seus escravos por aqueles matos, devassando, negociando, trapaceando, negaceando, povoando, alargando os seus domínios, potentado, senhor rei absoluto Aquela dureza não ajudava no risco. Melhor mesmo deixar as vergas como estavam. Quem sabe ele não concorda em botar uma cornija encimando a porta, pra dar mais nobreza? Ah, disto ele vai gostar. A porta eu ponho uma de duas folhas, bem trabalhada, almofadas pra lá de grandes, ele não vai querer ficar com aquela caindo aos pedaços, mais semelhando porta de curral, salvo seja, ainda bem que ele não está me ouvindo. Ele não quer derrubar é as vergas.
Eu e ele juntos pra sempre, foi repetindo o mestre na sua toada enquanto cuidava do risco.
Ao contrário do que suspeitou o coronel Honório, o mestre entendia do oficio. Fez crescer do chão feito uma árvore a casa acachapada, deu-lhe leveza e vida. O mestre ruminou, procurava fundir num só todo (compôs volumes cúbicos, buscou uma clara simetria nos vãos da fachada, deu-lhe vôo e leveza) aquelas duas figuras – o brumoso Lucas Procópio e aquele ali, o coronel João Capistrano Honório Cota.
O sobrado ficou pronto. A primeira vista nenhum diz – o senhor mesmo só agora repara, depois que eu falei – que aquela casa nasceu de outra casa. Mas se atentar bem pode ver numa só casa, numa só pessoa, os traços de duas pessoas distintas: Lucas Procópio e João Capistrano Honório Cota. Eu e ele juntos pra sempre, dizia a toada do mestre, a caminho de sua terra.
(…).

______________________
Fonte: DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 1-5.

L’OPERA DES MORTS : ROMAN


1
La demeure


Autran Dourado

Monsieur, vous qui voulez savoir, voyez d’abord :
Devant vous, cette maison avec toutes ses fenêtres à impostes colorées, où vivait Rosalina. Maison de qui appartenait à une caste, comme eux autres disaient autrefois. Elle a gardé sa magnificence et son apparence seigneuriale, l’aspect imposant que le temps n’a pas encore complètement rongé. Les couleurs des fenêtres et de la porte son délavées depuis longtemps, le crépi qui se détache à plusieurs endroits, on dirait de grandes croûtes de blessures, met à vif les pierres, les briques et les hourdis, sa chair et ses os, faits pour durer toute la vie ; les carreaux cassés des vitrages, c’est le résultat des attaques des gamins les jours qu’ils se déchaînent et viennent provoquer Rosalina (non pas de propos délibéré ou par méchanceté, mais faute de savoir quoi faire d’autre), dissimulée derrière les rideaux et les portières ; sur les appuis des balcons aux ferronneries ouvragées de fleurs stylisées, dards, volutes, esses et grecques, manquent la plupart des pommes de cristal facetté lie-de-vin qui aux angles accentuaient la légèreté de ces balustrades.
Monsieur, considérez ensuite cette vieille demeure avec la mémoire, avec le coeur – imaginez, bien mieux qu’avec les yeux, les yeux ne sont qu’une voie, c’est le regard qui compte. Portez votre vue le plus loin possible, observez cet édifice comme dans un miroir et essayez de voir de l’autre côté, au fond du lac, au-delà de l’au-delà, à la fin des temps. Reculez dans le temps, jusqu’aux calendes grecques, et lâchez la bride à votre imagination, allez jusque tout là-bas du temps du colonel Honorio – João Capistrano Honorio Cota, dont nous connaissons tous le nom, un homme de devoir, sur qui vous voudriez savoir un tas de choses, vous connaissez déjà sa réputation, par ouï-dire – on causera de lui plus loin, sur ses terres, ou plutôt, de son père – Lucas Procopio Honorio Cota, un homme qu’on se rappelle parce qu’il a fait parler de lui, avec son passé caché par d’épaisses ténèbres, tout ce qu’on raconte aux heures creuses, un passé estompé, déjà mi-légende mi-histoire, souvenirs qui s’évaporent, un pauliste revenu des Minas Gerais, des lointains sertões, après que l’or s’est épuisé pour le malheur de tous et que les gîtes ont retrouvé leur silence : et eux autres, ils ont dû s’en retourner, oublier or et pierreries, leurs rêves de richesses impossibles, se faire éleveurs de bétail, potentats, gaspilleurs ou rapiats, suivant leur expérience ou leur nature, grands fermiers à présent, noceurs, négriers, incestueux, arpenteurs, occupés à carreler avec leurs enfants et leurs esclaves ce sol désert, navigateurs de hautes terres, politiciens et receleurs, et qui ont planté des fazendas, clôturé des corrals, construit des haltes et des buvettes, semé des villes dans le vaste territoire des Minas Gerais, cherché des terres fertiles, les terres rouges ou d’une autre couleur où le sang et les larmes entrent comme colorants – Lucas Procopio qui a fait la donation, par acte dûment notarié, des terrains où a été construite l’église du Carmel et aménagée la place du même nom.
Un recul dans le temps, ça vaut le coup d’essayer. Voyez la maison telle qu’elle était et non pas comme maintenant elle est ou a été. Soyez attentif à son architecture, pensez au baroque et à ses avatars, à l’allure de cette demeure, à son apparence globale, distante, suspendue (ô temps, je t’en prie, arrête tes engrenages, tes poussières, laisse cette maison comme elle est, a été ou était, rien que pour la voir, car il nous faut la voir ; impossible si tu imposes ta médiation destructrice que fige, castre son image) ; oubliez un instant les signaux, les avis sourds des ruines, des désastres, du destin.
La maison s’élève place du Carmel, où a été édifiée l’église. L’ église du Carmel a été la première bâtisse en dur de la ville. C’est par la suite que Lucas Procopio a fait construire sa maison (à l’époque, seulement la partie basse), en essayant de faire pendant à l’église. Une église à laquelle l’on s’est efforcé de donner lignes et façades conformes à l’expérience que les bâtisseurs avaient apporté d’Ouro Preto et de São João del Rei : sinon plus dépouillée, sans la richesse des frontons de pierre où le baroque hasarde ses volutes vaines ; et pourtant imposante, toute blanche, avec ses angles et ses piédroits de pierre, la porte à panneaux, les deux oculi de chaque côté et haut du porche, les corniches travaillées en courbes douces, la tour solitaire qui prend appui sur le faîtage à double versant. De cette tour on peut observer, tel un oiseau, l’alignée de maisons qui s’est greffée sur le derrière de l’église, contrariant le voeu des fondateurs de voir l’église du Carmel souveraine, hautaine, dominant de face toute la ville. De la tour on peut distinguer l’étendue lisse de la place en terre battue, où parfois se forment des tourbillons scintillants de poussière, le calvaire au milieu, les rues qui en partent, les murs blancs du cimetière, les crevasses qui ouvrent leurs gueules rouges au bord de la route qui s’éloigne de la ville.
(Rosalina connaissait la place du Carmel pouce par pouce, depuis le temps qu’elle regardait de derrière ses rideaux l’église, le front des maisons, l’École normale, la route. Ses yeux vides et mornes observaient le silence figé de la place, la solitude de son étendue à trois heures de l’après-midi, le ciel d’été sans nuages, le soleil torréfiant la terre, se réverbérant sur les murs blancs, les bourricots attachés près du calvaire, avec leurs bâts vides, attendant leurs maîtres – patauds et flapis, ils paissaient d’un mufle durci, se disputaient la moindre touffe d’herbe obstinée à pousser sur ce sol dur -, quiconque entrait sur la place, à pas lents, se protégeant du soleil, et elle le suivait du regard, avec l’attention neutre des désoeuvrés jusqu’à ce que l’apparition tournât le coin ou disparût au bout de la rue.)
Si vous voulez, monsieur, vous pouvez voir Rosalina, suivre ses moindres gestes, tout comme elle suivait les passants, mais pas avec ces yeux ternes, cette neutralité indolente qu’elle avait. Mais voyez d’abord la maison, laissez Rosalina pour plus tard, nous avons le temps.
Du temps de Lucas Procopio, la maison ne comportait qu’un rez-de-chaussée, une maison à son idée : lourde, bien ancrée au sol, avec ses quatre fenêtres, sa porte au milieu, haute épaisse, rustique. Le colonel Honorio Cota, son fils, a fait fructifier la fortune de son père, agrandi la fazenda, changé son nom, il l’a appelée fazenda de la Pedra Menina – un homme sans la rudesse du père, disons plus civilisé, particulièrement soucieux de son apparence, de son port seigneurial, de l’orgueil de sa caste – et il a fait de même avec la maison : il lui a ajouté un étage où il a déployé le meilleur goût. Alors aue les linteaux des fenêtres du rez-de-chaussée étaient droits et épais, révélant sans doute le caractère rude, fruste, taciturne du vieux Lucas Procopio, ceux de fenêtres d’en haut, alignés sur les embrasures d’en bas, on été adoucis par une légère incurvation, surmontés et agrémentés des corniches délicates qui épousent l’ondulation des linteaux.
Quand le maître maçon que le colonel Honorio Cota avait fait venir de très loin, juste pour remodeler sa maison, lui eut dit que peut-être bien il valait mieux refaire les linteaux des fenêtres du rez-de-chaussée, il leur donnerait la même courbure que celle que le colonel voulait donner à ceux du premier élage, il en avait déjà ou pas mal des pareils à Ouro Preto et São João, Honorio Cota se renfrogna. Changer les linteaux, il ne s’attendait pas à ça, en voilà una idée, il pensa. Je ne veux pas tout changer, il dit. Je ne vais pas démolir l’oeuvre de mon père. Ce que je veux, c’est mettre ensemble ce qui est de moi et ce qui est de mon père. Moi je suis lui, maintenant, par le sang, en dedans. La maison sera comme ça, je le veux. Moi plus lui. Et comme l’autre en restait tout ébaubi sans très bien comprendre qu’est-ce que c’était que ce mortier bizarre de personnes et de maison, lui qui venait d’autres contrées, le colonel après avoir graillonné un bon coupe lui demanda si vraiment il connaissait son métier. Si oui, faites comme je vous dis, faites marcher votre jugeote, mettez vos idées en place et présentez-moi un plan. S’il est bon, je vous donne carte blanche. L’homme voulut dire son mot, peser sa réponse, parler des usages, mais le colonel fut péremptoire. Écoutez, jeune homme, lui dit-il, moi je ne veux pas d’une maison faite de deux maisons empilées l’une sur l’autre. Je veux une maison d’un seul tenant, lui et moi à jamais réunis. L’artisan vit cet oeil étincelant, ce regard fixe, il comprit que le colonel ne s’adressait plus à lui, mais à quelqu’un situé très loin ou même au pays de personne. Il éperonna sa mute et alla se mettre à l’ouvrage.
Le maître prit langue avec les gens de la bourgade, s’informa, voulut savoir qui était au juste le vieux Lucas Procopio Honorio Cota. C’est pour mieux composer la façade, il disait en guise d’explication, de sa voix flûtée, avec la trouille qu’on aille raconter à m’sieu le colonel Honorio Cota qu’il farfouillait dans la vie de feu son père, le fameux Lucas Procopio Honorio Cota.
Il n’apprit guère que des broutilles, hormis les brumeuses histoires d’un homme d’autrefois qui rendait sa propre justice, s’enfonçait avec ses esclaves dans les forêts, pour découvrir, commercer, duper, piéger, peupler, étendre ses domaines, potentat, monarque absolu. Cette inflexibilité contrariait son dessein. Mieux valait laisser les linteaux du bas tels quels. Qui sait, le colonel serait peut-être d’accord de mettre un sommier au-dessus de la porte pour lui donner plus de noblesse ? Ah oui, ça va sûrement lui plaire. La porte, j’en mets une à deux battants, ouvragée, avec des panneaux, des grands, il ne va pas vouloir garder celle-là qui tombe en morceaux, qui ressemble plutôt à une porte d’étable, Dieu me garde, heureusement qu’il ne m’entend pas. Ce qu’il ne veut pas démolir, c’est les linteaux.
Lui et moi à jamais réunis, répétait le maître comme un refrain tandis qu’il s’occupait des plans.
A l’inverse de ce que craignait le colonel Honorio, l’artisan connaissait son métier. Il fit pousser du sol, tel un arbre, la maison trapue, il lui donna légèreté et vie. Il rumina longuement, pour essayer de fondre en un tout (il ajusta des volumes cubiques, rechercha une claire symétrie pour les trumeaux de la façade à laquelle il donna élan et légèreté) ces deux figures – le brumeux Lucas Procopio et l’autre, le colonel João Capistrano Honorio Cota.
La demeure fut édifiée. A première vue, personne ne saurait dire – vous-même venez seulement de vous en rendre compte, maintenant que je vous ai parlé – que cette maison est née d’une autre maison. Mais si vous prêtez toute votre attention, vous pouvez voir en une seule maison, en une seule personne, les traits de deux personnes distinctes : Lucas Procopio et João Capistrano Honorio Cota. Lui et moi à jamais réunis, disait le refrain du maître, sur le chemin du retour.
(…).

____________________
Fonte: DOURADO, Autran. L’opéra des morts: roman. Traduit par Jacques Thiériot. Paris: Éditions du Seuil, 1986. p. 11-16.

THE VOICES OF THE DEAD


I

The Manor


Autran Dourado

If you want to know the story, first look yonder:
In that house over there, the one with all the windows with coloured transoms, lived Rosalina. A house of the gentry, at least that’s how they used to see themselves. It still preserves its stately, aristocratic bearing, the manorial air that time hasn’t altogether worn away. The paint of the windows and the door is faded with age, the plaster has faller away in places like great sores to reveal the stones, bricks and laths of its fresh and bones, made to last a lifetime. Some of the window panes are broken, but that was done by the local kids when they were up to mischief and came to pester Rosalina (not with malice aforethought, just lads with nought better to do with themselves), and she hiding behind the curtains and drapes. The handrails of the wroughtiron balconies, with their stylized flowers, arrows, scrolls, esses and fretwork, have lost many of the wine-coloured cut-glass pine-cones which topped the support brackets and put a delicate finishing touch to the balconies.
Now then, look closely at the old manor, but with your memory, your heart – your mind’s eye, not your eyes so much, they’re only the access, it’s the way you look that counts. Look into the distance, look at the manor house as if you were looking in a mirror and try to see through to the other side, to the bottom of the lake, beyond the beyond, to the end of time. Go back in time, turn the clock back, come with me in your imagination; back to the time of Colonel Honorio – João Capistrano Honório Cota, to give him his full name, known to us all, a man of honour, the man you want to know all about, the man you’ve heard of already and know by reputation – we’ll talk about him later, about his properties, or rather his father’s – Lucas Procópio Honório Cota, a man known to us by hearsay, with a dark hidden past, tales told late at night, a shadowy figure, half legend half real, memories of him fading, the southerner come back from the backlands of Minas Gerais when the gold dried up, disastrously, and the mines fell silent; and they had to return and forget the stones and the gold, the impossible wealth they’d dreamt of, these cattle breeders, men of wealth, spendthrifts or skinflints, according to their nature or experience, now all landowners, lecherous, incestuous, nigger owners, land snatchers, paving this empty land with their children and slaves, riding hills and mountains, politicians and tax-evaders, they went planting farms, fencing corrals, setting up shelters and stores, scattering towns throughout the state of Minas, seeking the good growing lands, the red soil and other soils coloured by blood and tears – on his land, Lucas Procópio’s, donated by him all legal and above board, they built Carmo Church and the town square.
Go back in time, try to anyway. See the house as it used to be, not as it is or was just now. Pay attention to the structure, keep in mind the baroque and its transformations, note the form of the manor, see it as a whole, by itself, suspended (no, time! Halt your wheels and your sands, leave the house as it is, was just now, or used to be, just for us to see it, we want to see it; not possible with your destructive intervention, which merges and so distorts), for the moment, forget the signs, the silent messages of ruins, of disasters, of fate.
The house is in Carmo Square, where the church was sited. Carom Church was the town’s first stone and brick building. Afterwards Lucas Procópio had his house built (at the time only the lower part), and tried to parallel the style of the church, whose design and façade were meant to reproduce the experience the men had gained from the churches in Ouro Preto and São João del-Rei poorer, without the richly carved stone pediments which the baroque embellishes with its idle scrolls; and yet imprenssive, all white, with its stone door frames and corner stones, its paneled door, the two oriel windows, one either side, above the doorway, the cornices wrought in gentle curves and its single tower rising from the ridge of the gable roof. From the tower you have a bird’s eye view of the rows of houses that sprang up at the back of the church, against the wishes of the founders, who wanted to see carom Church rise supreme, towering over the town in front of it. From the tower you can see the square, a smooth empty stretch of flattened earth occasionally disturbed by sparkling dust devils, the cross in the centre of the square, the streets running down from it, the white walls of the cemetery, the gaping red-jawed craters at the side of the road leading out of the town.
(Rosalina knew every inch of Carmo Square, for ever behind the curtains watching the church, the houses opposite, the teacher training college, the road. Her vacant listless eyes would scan the heavy silence of the square, the solitude of a stretch of open ground at three in the afternoon, the cloudless summer sky, the sun baking the earth, blazing back from the white walls, the donkeys standing hobbled by the cross, their panniers empty, waiting for their owners – slow and tired, grazing with hard muzzles, bickering over the odd tuft of grass which forced its way through the hard earth – someone coming slowly into the square, trying to avoid the sun, and her eyes would follow with the indifference of someone killing time, until the person turned the corner of disappeared out of sight at the far end of the street.)
If you wish, you can see Rosalina, follow her every move, just as she used to watch the passers-by, though not with her glazed eyes, her listless indifference. But first, look at the house, leave Rosalina till later, there’s plenty of time.
In Lucas Procópio’s time the house had just the one storey, just like himself: thick-set, planted firmly on the ground, with its four windows and the door in the centre heavy, high, roughhewn. His son, Colonel Honório Cota, increased his father’s fortune and added to his state, changing its name to Little Stone Ranch. A man without his father’s roughness, more civilized you might say, paid a lot of attention to his appearance, prided himself on his bearing, a gentleman he was. Same with the house: he added a second storey to it and did it with taste. The ground floor lintels were heavy and straight, you might say they displayed the harsh, uncouth, morose character of old Lucas Procópio, while the lintels of the upstairs windows, set directly above the lower frames, were softened by a slight curve, embellished by the addition, above, of delicate cornices which continued the twist of the lintels.
When the mason Colonel Honório had sent for from so far away, just to refashion the house, said perhaps the best thing to do is put new lintels on the lower windows, with the same curve you want on the upper ones, I’ve seen plenty like that in Ouro Preto and São João, he pulled a face. The very idea, change things, he thought. I don’t want it all changed, he said. I’m not knocking down what my father put up. What I want is to add what I’ve got to what he had. I am him, now, inside, in the blood. The house must be the same, that’s how I want it. Him and myself. The man looked rather bewildered, couldn’t properly make out that peculiar bond of people and house, he being from other parts, so the colonel cleared his throat and said don’t you know your trade? Do what I’m telling you, then, think about it, put your brain to work and come up with a design. If it’s good, I’ll give my approval. The man was about to say something, talk about building practice, but the colonel cut him short. And see here, young man, he said, I don’t want it to look like two houses, one on top of the other. I want one single, whole house, him and me together for always, The mason saw the far away glint in his eye and realized that the colonel wasn’t talking to him anymore, but to someone far off or to no one at all. He spurred his mule and went about his business.
The mason chatted to the townsfolk, asking questions, trying to find out what old Lucas Procópio Honório Cota had really been like. It’s because of the house front, he explained carefully, in his reedy voice, afraid that someone might go and tell Colonel Honório that he was going about snooping into the life of the colonel’s late father, the illustrious Lucas Procópio Honório Cota.
Precious little he found out, except the murky stories of an old-timer dispensing his own form of justice, taking off with his slaves into those forests, invading, bargaining, swindling, hoodwinking, settling, enlarging his domains, a cacique, an absolute monarch. That harshness of his didn’t help with the design. Better after all to leave the lintels as they were. Perhaps he might agree to a cornice over the door, to add a touch of distinction. Yes he’ll like that. As for the door, I’ll make it double-leaved, nicely decorated, with good big panels, he won’t want to keep that crumbling old thing, more like a barn door, begging his pardon, though he’s not listening. What he won’t knock out are the lintels.
Me and him together for always, the mason hummed over and over while he worked on the design.
Contrary to what Colonel Honório suspected, the mason knew his trade. He made that squat house rise up from the ground like a tree, he gave it life and lightness. The mason weighed things up, attempting to fuse in a single whole (he balanced cubic masses, he aimed for a clear-cut symmetry in the apertures of the house front, making it soar upwards, light and airy) those two – the misty figure of Lucas Procópio and this other one, Colonel João Capistrano Honório Cota.
The manor was finished. At first sight no one would say – you’ve only just noticed yourself, after I spoke about it – that the house you see here began as another house. But if you look carefully you can see in the one house, in the one person, the features of two different people: Lucas Procópio and João Capistrano Honório Cota. Me and him together for always, the mason hummed over to himself, as he rode back home.
(…)





Bio fornecida pelo palestrante.

OS SINOS DA AGONIA




Autor: Autran Dourado
Título: OS SINOS DA AGONIA, LA MORT EN EFFIGIE
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevieve Leibrich et Nicole Biros(fra)
Data: 26/12/2004

LA MORT EN EFFIGIE : ROMAN


Deuxième journée
Fille du soleil, fille de la lumière
2


Autran Dourado

Malvina n’avait guère prête attention lorsqu’elle avait entendu mentionner pour la première fois le nom de João Diogo Galvão. Encore un autre de ces innombrables aventuriers, sûrement, établis dans le Minas qui surgissaient à Taubaté au retour des mines et faisaient étalage d’une richesse, qu’ils ne possédaient pas véritablement. Par la suite ils se révélaient des gueux, ni plus ni moins, avec pour unique fortune une douzaine d’empans de soie chatoyante.
Ce que son père souhaitait le plus au monde c’était marier ses filles à l’un de ces magnats de l’or et du diamants si vantés et redorer ainsi un blason bien défraîchi et bien terni, qui accusait même de signes indubitables de ruine depuis que sa famille s’était vue forcée de quitter São Paulo pour s’intaller dans ce village de Taubaté. La malchance ayant voulu qu’il perdît presque tous ses biens dans les expéditions qui se montaient sans cesse pour la région des Mines. Comme tant d’autres avant et après lui, depuis que le bruit de la découverte de gisements d’or avait commencé à répandre.
Malvina n’y avait guère prête attention car elle savait que la première à partir, pour sauver la maison et ce lignage tant vanté de son père qui plongeait ses racines dans les livres les plus anciens du Roi, ce serait Mariana. Mariana était l’aînée, elle avait presque trente-cinq ans, ce qui faisait le désespoir de ses parents, épouvantés à l’idée de l’avenir sombre qui attendait une vieille fille dans une famille noble et appauvrie.
Non pas que Mariana fût laide, loin de là, elle était même jolie mais d’une joliesse dépourvue de piquant, pleurnicharde, encore que Mariana fût assez dégourdie dans d’autres domaines. Il se trouvait que les prétendanst étaient des mamelouks au teint plutôt basané ou même des mulâtres qui n’avaient pas froid aux yeux et qui masquaient leur carnation brune sous plusieurs couches de poudre et de pommade et se targuaient d’avoir réputation et fortune dans le Minas. Les Blancs de race pure étarent de pauvres hères, comme eux-mêmes, et si le père n’y prenait garde, au lieu de sauver son lignage, il lui porterait le coup de grâce. Après force enquêtes et maints envois de messagers, après dénombrements et vérifications des biens et des richesses qu’ils prétendaient posséder dans tel ou tel district du Minas (le vieux Dom João Quebedo en dépit de son grand âge et de ses cheveux blancs était, pour ces choses-là fort avisé et fort habile) il s’avérait que les prétendants ne possédaient pas un traître liard et ne pouvaient offrir pour tout potage qu’ample jactance et abondance de grelots.
Tous ceux qui s’étaient présentés jusqu’alors n’étaient que des miséreux quand ils n’étaient pas des va-ni-pieds effrontés ou de francs gredins. Tout comme les vêtements voyants et incongrus qu’ils arboraient pour faire parade d’une élégance qui, chez ces béjaunes et ces ignorants des règles, suscitaient les ricanements et les gausseries des jeunes filles de l’endroit.
Des nobles comme eux, d’une race pure et d’une généalogie connue, il y avait beau temps que le père avait cessé d’en souhaiter. Leur pénurie d’argent les enfoncerait davantage encore dans la misère et ce serait folie, déclarait le sage vieillard chaque fois que l’un d’eux l’approchait. Ils cessèrent vite de l’assiéger, ayant appris que le vieux Dom João Quebedo Dias Bueno était aussi impécunieux et déchu qu’eux. Cela se voyait au demeurant, à la maison constituée d’un seul rez-de-chaussée qu’il habitait en ville et plus encore à sa maison des champs laissée à l’abandon. En définitive ils avaient tous les mêmes visées, étaient tous gens de même farine.
Non pas que Malvina fût désintéressée et docile, ni qu’elle acceptât passivement l’ordre de préséance fixé par le père, après que la mère le lui eût subtilement soufflé. La mère, pourtant, avait perdu beaucoup de son autorité après le faux-pas qu’elle avait commis pendant que son mari était allé dans le royaume quêter la protection de parents qui avaient leurs entrées chez le Roi, faux pas dont était né son malheureux et bien-aimé Donguinho, honte et tristesse de toute la famille et une de raisons secondaires de leur installation à la compagne et après, à cause du manque de capitaux et de bras pour cultiver la proprieté, dans le village de Taubaté. Dom João Quebedo avait fini par accepter le maudit Donguinho et par accorder à sa Vicentina, par grandeur d’âme et charité insigne, un pardon qu’elle n’avait pas mérité et qu’elle ne méritait toujours pas car, quoique matrone maintenant, elle etáit restée chaude et ardente et disposée à toutes les dissipations sitôt qu’un mâle montrait le bout de l’oreille. Si naguère la mère commandait et régnait aujourd’hui elle se contentait d’insinuer et de suggérer ; c’était son mari qui décidait et ordonnait. Dom João Quebedo avait toujours été un homme plein de mansuétude et de superbe, il pardonnait les écarts de conduite de sa femme d’autant plus volontiers qu’il était de constitution chétive et qu’il ne l’avait jamais honorée avec la régularité voulue. D’ailleurs lui aussi avait quelques peccadilles de jeunesse à se reprocher mais il profita de cette naissance aberrante et douloureuse pour reprendre à sa femme les rênes du gouvernement. Cela s’était passé il y avait de longues années, trente pour être exact, précisément l’âge de Donguinho.
Malvina, donc, n’était pas aussé désintéressée et docile que cela. C’était une jeune personne déterminée et farouche, dont la volonté, le tempérament et la ruse étaient aussi développés que chez sa mère du temps de sa jeunesse. Outre qu’elle se savait beaucoup plus fraîche et plus jolie que Mariana, elle faisait fond sur ses charmes et ses appas, sur le pouvoir infaillible de ses machinations. Ses saints patrons avaient beau s’avérer très puissants, lui être d’un grand secours, elle se fiait d’abord à sa propre ténacité et à sa bonne étoile.
Ainsi, bien qu’âgée de vingt ans seulement, Malvina était une ourdisseuse persévérante et, à côté d’elle, Mariana n’était qu’une ombre. Une fois dévoilés les imposteurs et leurs prétentions creuses, que vienne le prétendant de bon aloi et elle saurait comment s’y prendre. Malvina possédait la science et la ruse de sa mère à quoi elle avait adjoint l’ambition de son père que seule avait desservi une bonhommie généreuse et paresseuse. Mais chez elle cette débonnaireté tranquille et nonchalante était simple apparence, mince vernis. En réalité elle était sa mère tout craché, c’était bien ce qu’on disait d’elle, elle en avait la beauté, la présence, le même pouvoir magique que Dona Vicentina dans sa jeunesse. Quand les gens disaient cela Malvina souriait d’un air espiégle et entendu. Elle tablait sur la douceur et le calcul, vertus qu’elle avait héritées de son père, elle ne se laisserait pas entraîner et égarer par l’impétuosité de sa mère. Le moment venu, elle saurait comment agir. Aussi souriait-elle et, aptiemment, elle attendait.
Par des personnes de toute confiance, désespérées à présent qu’or et petits cailloux brillants avaient commencé à se faire plus rares dans les cours d’eau et dans les gisements, ce qui avait mis un frein à la bruyante et folle allégresse générale, Dom João Quebedo fit vérifier, dans le Minas Gerais, qui était donc ce João Diogo Galvão qu’on lui avait présenté. Ce dernier lui avait fait part du sérieux de ses intentions et lui demané s’il pourrait lui rendre visite afin de faire connaissance avec sa famille. Vous allez vous en retourner dans le Minas, sur vos terres, dit Dom João Quebedo. Et moi je vais tâcher de m’enquérir de vos qualités et de vos mérites en recourant aux sources que vous m’avez indiquées. Et quand vous reviendrez ici nous aurons une conversation.
João Diogo hocha la tête en signe d’assentiment, ces façons étaient celles d’un honnête homme, conscient de ses devoirs. Mais Dom João Quebedo, que la méchanceté et les mauvais tours de la vie avaient échaudé, dit, pour mettre l’homme à l’épreuve : alors, nous sommes bien d’accord, si mes vérifications me donnent satisfaction, vous prenez l’aînée, celle qui se prénomme Mariana.
João Diogo grogna un « c’est d’accord » et – Dom João Quebedo ajouta : ma fille, en dehors de son nom et de son lignage, de sa vertu et de sa jolie tournure, de ses bonnes manières et de ses qualités (elle sait lire et écrire, ce qui n’est pas à négliger), n’a que très peu à offrir. Je n’ai aucun besoin de dot, dit João Diogo, Votre Seigneurie ne sait pas encore qui je suis. Si Votre Seigneurie après avoir procédé aux vérifications qu’elle m’a annoncées, m’acceple pour gendre, la jeune Mariana pourra m’accompagner dans le Minas en emportant uniquement la robe qu’elle aura sur le dos. Je me charge de la couvrir de joyaux et de gâteries, de parures et de tout le reste.
Dom João Quebedo rougit et sentit un fort tressaillement intérieur. Malgré sa pauvreté et sa décadence il gardait l’orgueil chatouilleux et la susceptibilité ombrageuse. Il avait le visage en feu. João Diogo evait sûrement se rendre compte de sa honte et de son humiliation. Même s’il était aussi riche qu’il le prétendait, et il avait dit cela sans la moindre vutrecuidance, ce qui l’avait beaucoup impressionné, l’homme n’en était pas moins un grossier et vil personnage, dessous son déguisement et l’habit élégant qu’il avait revêtu pour faire bonne impression. Dom João Quebedo ne l’amènerait pas chez lui avant d’avoir la certitude que ses filles, Malvina surtout, qui aimait tant rire, ne perdraient pas la tête et ne feraient pas toute échouer. Il voulait d’abord connaître la vérité sur l’étendue des richesses dont se targuait cet étranger. Prudence et eau bénite n’ont jamais fait de mal à quiconque, se dit-il en son for intérieur.
Un grossier personnage, un rustaud, puant certainement encore le nègre et le bougre, pensèrent pour lui son orgueil et son lignage. Mais il se souvint de son dénuement, de sa maison dont le chef était resté au Portugal, maison dont il était si fier. Il pensa à sa famille, à sa femme et à ses filles ; à ce Donguinho insane, à la douleur, à l’humiliation et à la honte qu’il devrait endurer toute sa vie jusqu’à ce que quelqu’un (à la campagne quand Donguinho parvenait à s’échapper dans les pâturages et dans les bois il crouvait les juments ; il s’évadait de sa chambre sans fenêtres, fermée à double tour ; bavant furieux, il faisait sous lui), ou lui-même, un jour de désespoir plus noir, le supprime. Il pensa à sa maison du village où il n’allait autrefois que pour les fêtes, devenue aujourd’hui sa demeure permanente, avec seulement six esclaves d’Angola pour le servir et gragner de quoi les sustenter lui et sa famille. Il pensa à ses terres et à ses propriétés, aujourd’hui sans aucune valeur ; à sa ferme de la Ribeirinha, laissée à l’abandon, à la forêt qui reprenait ses droits sur un sol défriché à grand-peine, au bâtiment d’habitation qui tombait en ruine. Il se souvint des temps d’autrefois, du temps de l’abondance, quand la ferme de la Ribeirinha était un bijou, un verger luxuriant ; il se souvint de sa plantation de cognassiers, de sa fabrique de conserves, de quelques deux mille caisses et plus, de pâte de coing et de pâte de goyage, qu’il envoyait à la ville de Bahia, des poiriers, des treilles, des figuiers, de la canne à sucre (il sentit même sur sa peau une brise imaginaire venue des anciens champs de canne à sucre), des chaudrons et des alambics ; des centaines d’esclaves au travail ; eds pâturages odorants, de la bouse de vache dans les corrals, de cette bonne odeur chaude qui parvenait à ses narines quand il contemplait paresseusement ses étables de loin, installé sur sa véranda ; de ses nombreux taureaux reproducteurs, de ses vaches pleines, de ses jeunes génisses intactes galopant et mugissant dans le crépuscule bleu-gris. Il fallait que tout cela ressuscite, doux Jésus ! Il avait tellement envie d’être heureux et de retrouver le sourire. Et dans ses rêves plantations et champs reverdissaient.
Plus loin encore l’écho d’un songe, la musique des violes et des luths, des clavecins, des harpes et des flûtes sonores, entendus dans la maison de ses parents restés au royaume, chaque fois qu’il était allé là-bas. Plein d’une haine bouillonnante il pensa à cette parentèle ingrate bien en cour auprès du Roi et qui aurait pu l’aider mais qui l’avait abandonné au moment où il aurait eu le plus besoin de secours pour recouvrer les capitaux considérables qui s’étaient évaporés dans les expéditions désastreuses où il s’était fourré, non pas personnellement mais comme bailleur de fonds, à un moment où tout ce qu’il aurait voulu c’était une recommandation auprès du Capitaine-Général du Minas et façon à obtenir de ce dernier quelques contrats qui lui auraient permis de s’installer à Vila Rica et ensuite, qui sait, à la Cour. Le vieillard rêvait, le vieillard extravaguait.
Il pensa à son dénuement cruel, aux privations endurées. Il pensa à la noblesse de son sang et à son blason, à son lignage et à la cotte d’armes dont il faisait toujours parade malgré sa déchéance et il sentit sa gorge se nouer, ses yeux s’emplir de larmes. Il pensa surtout à sa misère présente et en oublia tout son orgueil.
(…)

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Fonte : DOURADO, Autran. La mort en effigie : roman. Traduit par Geneviève Leibrich et Nicole Biros. Paris : A.M. Métailié, 1988. p. 98-104. [Traduction de Os sinos da agonia].

OS SINOS DA AGONIA

Segunda Jornada
Filha do sol, da luz
2

Autran Dourado

Malvina não deu muita importância quando ouviu falar pela primeira vez no nome de João Diogo Galvão. Era com certeza mais um daqueles inúmeros geralistas que apareciam em Taubaté, de volta das Minas, aparentando mais cabedal do que na verdade possuíam. Depois se revelavam meros pingantes, não tinham de riqueza mais que duas braças de melcochado.
O que o pai mais queria era um daqueles tão decantados magnates do ouro e do diamante para casar as filhas e assim dourar o seu brasão desgastado e empalidecido, dando mesmo mostras de ruína, desde que se viu forçado a mudar de São Paulo para a vila de Taubaté, depois da má fortuna que teve jogando quase todo o seu cabedal nas bandeiras que partiam continuadamente para o país das Minas Gerais. Como tantos outros antes e depois dele, tão logo começaram a chegar as primeiras novas dos descobertos.
Malvina deu pouca importância porque sabia que a primeira a sair para salvar a tão apregoada casa e linhagem do pai, com raízes nos mais antigos livros do rei, devia ser Mariana. Mariana era a mais velha, andava beirando os trinta e cinco anos, o que deixava os pais desesperados com o futuro negro de uma solteirona em família nobre e empobrecida.
Não que Mariana fosse feia, ao contrário – era até bem bonita, mas de bontiteza sem graça, chorona, apesar de esperta para outras coisas. É que os pretendentes eram mamelucos de cor mais carregada ou mesmo mulatos ousados, que disfarçavam, a poder de muito pó e pomada, a sua trigueza, e alardeavam fama e cabedal nas Minas Gerais. Os brancos sem mancha de geração eram uns pobretões que nem eles, e se o pai não tomasse cuidado, em vez de salvar a sua linhagem, acabava perdendo-a de vez. Depois de consultas e mensageiros, feitas as contas e apurados os cabedais e haveres que alardeavam possuir nos distritos das Minas (o velho dom João Quebedo, apesar de entrado em anos e já nas cãs da velhice, era muito vizonho e ligeiro para essas coisas), verificava-se que os pretendentes não valiam dez réis de mel coado, só possuíam bazófia e guizos.
Todos os que tinham aparecido até então não passavam de uns pobretões, mesmo pés-rapados audaciosos, senão pícaros. Tudo feito as vistosas e impróprias roupas com que se vestiam para alardear uma casquilhice que neles, sem a sabença das regras e sem traquejo, eram motivo de riso e chacota entre as moças do lugar.
De nobres como eles, de prosápia e casta, há muito que o pai deixara de cuidar. Não trazer cabedal e alargar pobreza é que é desatino, dizia o sábio velho toda vez que um deles o procurava. Depois deixaram de aparecer, ficavam sabendo – o famoso dom João Quebedo Dias Bueno era tão pobre e decaído quanto eles. Aliás se via pela casa terreira onde morava na cidade e mais ainda pela casa da roça no abandono. Enfim, todos com a mesma pontaria, farinha do mesmo saco.
Não que Malvina fosse assim tão desprendida, bem mandada, e aceitasse passivamente a ordem de precedência estabelecida pelo pai, depois de sutilmente soprado pela mãe. Mas a mãe perdera muito a força depois daquela descaída, quando o marido andava pelo reino em busca da proteção dos parentes com privança na casa real, de que nasceu o seu bem amado e infeliz Donguinho, vergonha e tristeza de toda a família e mesmo uma das secundárias razões da mudança para a fazenda, e depois da falta de braços e cabedal para tocar a roca, para a vila de Taubaté. Dom João Quebedo aceitara aquele maldito Donguinho e acabou dando à sua Vicentina, por grandeza de alma e muita caridade, um perdão que ela nunca mereceu ou merecia, mesmo quando amatronada, sempre rubra e esquentada, nos esbanjamentos, perto de qualquer macho. Se a mãe antes mandava e imperava, agora se limitava apenas a insinuar e a soprar; quem decidia mesmo e comandara era o marido. Dom João Quebedo foi desde sempre um manso e soberano varão, perdoava as fraquezas da mulher, mesmo porque andava fraco e nunca a assistira com a desejada regularidade. Também ele tinha os seus pecadilhos de mocidade, mas se aproveitou daquele aberrante e doloroso nascimento para tomar da mulher as rédeas do comando. Isso há muitos anos, precisamente há trinta, que era a idade atual de Donguinho.
Malvina não era pois assim tão desprendida e bem mandada. Era moça de grande ânimo e vontade, de uma vontade, ânimo e astúcia tão grandes feito a mãe na mocidade. Além de se saber muito mais nova e bonita do que Mariana, confiava nos seus encantos e chamarizes, no poder infalível de suas maquinações. É verdade que os seus santos padroeiros eram muito fortes, ajudavam muito, mas ela confiava na sua própria fortidão e sina.
Assim, apesar dos seus vinte anos, Malvina era paciente tecedeira, Mariana virava uma sombra perto dela. Quando os enganosos desistissem e o bom e verdadeiro pretendente aparecesse, ela saberia como proceder. Malvina tinha a ciência e malícia da mãe, a que juntava a ambição do pai, que só a mansidão nobre e preguiçosa mansidão era apenas aparente, leve camada de verniz. Na verdade era a mãe cuspida e escarrada feito se dizia, tinha a mesma beleza e presença, o mágico poder de dona Vicentina na sua mocidade. Diziam e Malvina sorria maliciosa e sabida. Confiava nas mansas e calculadas virtudes herdadas do pai, não se deixaria arrastar e se perder pela afoiteza da mãe. Na hora saberia como fazer. E assim sorria, pacientemente esperava.
Por gente de sua inteira confiança nas Minas, agora desesperadas depois que o ouro e os seixinhos brilhantes começaram a escassear nos ribeiros e grupiaras, apagando a ruidosa e desvairada alegria, dom João Quebedo mandou apurar quem era aquele apresentado João Diogo Galvão. O geralista lhe falara de suas sérias pretensões e perguntou se podia visitá-lo para conhecer a família. Vossa Mercê vai de novo para as Minas, para as suas casas, disse dom João Quebedo. Vou procurar saber, pelas fontes que o senhor me deu, das suas virtudes e valimento. Na volta a gente se fala.
João Diogo assentiu com a cabeça, todo o seu jeito era de homem sisudo e cumpridor. Mas dom João Quebedo, muito escolado nas malícias e artimanhas da vida, disse, mais para provar o homem, fica assentado: se tudo correr bem nas apurações, a moça é a primeira, de nome Mariana.
João Diogo grunhiu um está bem, e dom João Quebedo ajuntou: a filha, além do nome e da casta, das virtudes e bom parecer, dos modos e prendas (sabe até ler e escrever, o que não é de desmerecer, disse), pouca coisa tina para dar. Não careço, disse João Diogo, Vossa Senhoria não sabe ainda quem eu sou. A moça Mariana, se Vossa Senhoria, depois da apuração que vai mandar fazer, me aceitar pra genro, levo ela prás Minas só com o vestido do corpo. De jóias e mimos, das belezas e do restante eu cubro o seu corpo.
Dom João Quebedo corou, sentiu um repuxão forte por dentro. Apesar de pobre e decaído, tinha ainda a prosápia e o orgulho muito vivos e quentes na alma, a cara queimando. João Diogo podia perceber a sua vergonha e humilhação. Mesmo sendo rico como dizia sem exagero, o que muito o impressionou, o homem era grosso e rasteiro, apesar do disfarce e das roupas de vestir que agora usava para bem impressionar. Não ia levá-lo em casa sem antes ter a certeza de que as filhas, Malvina sobretudo, muito risonha, perdessem o siso e botassem tudo a perder. Primeiro teria de saber a verdade sobre o forasteiro de por si tão apregoada riqueza. Prudência e água benta não fazem mal a ninguém, disse para si mesmo.
Um grosso, um rude, com certeza ainda fedendo a preto e bugre, pensaram por ele o seu orgulho e linhagem. Mas se lembrou da carência, da sua Casa, cujo principal ficava no reino, de que tanto se orgulhava. Se lembrou da família, da mulher e das filhas; do insano Donguinho, sua dor, humilhação e vergonha, que ele teria de aturar a vida inteira, até que alguém (se sôlto nos pastos e nos matos quando na roça: cobrindo éguas se escapulia do quarto sem janelas, trancado a sete chaves; baboso, mijando pelas pernas abaixo, furioso) ou ele próprio, num dia de maior desespero, o matasse. Se lembrou da sua casa na vila, onde antes só vinha para as festas, agora morada permanente, com apenas seis peças da Angola que lhe garantiam o serviço e o sustento. Se lembrou das terras e chão, agora sem nenhuma valia; da sua Fazenda da Ribeirinha no abandono, o mato recuperando o terreno perdido, conquistado a duras penas, a casa de morada caindo em ruína. Se lembrou de que antigamente, nos tempos de fartura, a fazenda da Ribeirinha era um mimo, um pomar viçoso; se lembrou da sua plantação de marmelo, do seu fabrico de conservas, das mais de duas mil caixas de marmelada e goiabada que mandava para a cidade da Bahia; das pereiras, das parreiras, das figueiras; das canas (chegou a sentir na pele a aragem imaginária vinda do antigo canavial), tachas e alambiques; das centenas de escravos labutando; dos pastos cheirosos, das bostas nos currais, o quentume bom no nariz, ele longe, do alpendre, só espiando preguiçoso; dos seus muitos bois de semente, das vacas cheias, das novilhas vazias saltando e mugindo no azul-cinzento do entardecer. Tudo isso carecia de voltar, meu Jesus! ele carecia muito de ser feliz e risonho. E em sonho a roça e os campos reverdeciam.
E mais longe, como um eco que se escuta sonhando, a música das violas e alaúdes, dos cravos e harpas e flautas sonorosas, das casas dos parentes no reino, das vezes que foi lá. Com ódio espumoso se lembrou da ingrata parentela, de muito valimento na privança del-Rei, que o abandonou quando mais carecia de ajuda para recuperar os grossos cabedais que foram se esvaindo naquelas mal sucedidas empreitadas das bandeiras em que se meteu, não de corpo mas emprestando, quando queria somente uma recomendação ao Capitão-General das Minas para conseguir uns contratos, para então se mudar, quem sabe para Vila Rica e depois para a corte? O velho sonhava, o velho tresvariava.
Se lembrou da sua carência doida, das privações. Se lembrou da sua casta e brasão, sua linhagem e cota d’ armas, que a sua humilhada nobreza ainda arrotava, e sentiu um apertão na goela, lágrimas nos olhos. Se lembrou principalmente da sua atual miséria, e pôs o orgulho de banda.
(…)

_________________

Fonte: DOURADO, Autran. Os Sinos da Agonia. 3ª edição. Rio de Janeiro, Difel, 1977, p. 74-78.





Bio fornecida pelo palestrante.

UMA VIDA EM SEGREDO




Autor: Autran Dourado
Título: UMA VIDA EM SEGREDO, A HIDDEN LIFE
Idiomas: port, eng
Tradutor: Edgar H. Miller(eng)
Data: 26/12/2004

UMA VIDA EM SEGREDO
1


Autran Dourado

Quem deu a idéia de trazer prima Biela para a cidade foi Constança. Deixa, Conrado, traz ela cá para casa, disse. Biela fica morando com a gente, pode até me ajudar com as meninas, fazer companhia. Olha, quando você vai para a roça, tem dias que eu sinto uma falta danada de alguém para conversar. De noite, então… Tem Mazília, se limitou Conrado na resposta. Mazília, disse ela, ainda é menina. Já é mocinha, disse Conrado, de pouca conversa.
A princípio Conrado não deu muito ouvido, tinha outra coisa em mente. A ele, como homem, competia decidir. Ainda mais agora, tutor e testamenteiro. Era calado, ordeiro, sério, compenetrado.
As vezes punha a questão em forma de pergunta, mas não era para a mulher responder, ela sabia: mais uma forma de pensar alto. Quem sabe não era melhor mandá-la para o convento das freiras, lá em Ubá? Ela podia dar um bom dote, e depois a herança, as freiras a aceitariam logo com gosto.
Constança, que não percebeu que o marido estava apenas pensando, ou fez que não percebeu, ponderou, não ia dar certo, Biela não tinha com certeza nem cartilha nem Trajano, nem educação direito, criada lá na roça, só com o pai, homem fechado e meio maníaco, que nunca saía do Fundão. E já era moça velha, para aprender. As freiras não aceitariam.
Não digo pra ser freira, disse Conrado esquecido de que estava apenas pensando. Que não sei nem se ela tem vocação. Pra morar lá com elas. Depois, quem sabe? se lhe desse vontade, podia até ser irmã serva ou leiga, sei lá como elas dizem. Pode prestar serviço. Constança, senhora da brecha que o marido abria na sua decisão, disse não fica bem, o que é que vão dizer de nós, de você que foi nomeado tutor e testamenteiro, mandar ela para longe, quando tem tanto lugar aqui em casa?
Conrado não gostava da idéia. A mulher não conhecia a prima, não sabia como ela era, como eram seus hábitos. Capaz de não dar certo. Moça criada na roça, sem mãe desde cedo, com suas maneiras lá dela, talvez não se desse bem morando na cidade com eles. Ele mesmo mal a conhecia, só vira a prima umas duas ou três vezes, quando tinha ido à Fazenda do Fundão tratar de uns negócios de gado com o primo Juvêncio Fernandes. Primo Juvêncio era seu primo por parte de pai. Se lembrava da primeira vez que viu Biela. Prima Biela só o cumprimentou porque primo Juvêncio disse vem cá dar bom dia pro primo. Ela o cumprimentou arisca meio de longe, estendendo-lhe as pontas dos dedos, os olhos no chão. Depois saiu ligeira para os fundos da casa, não apareceu mais. E a prima? disse ao se despedir, já no cavalo. Deixa pra lá, tem dessas esquisitices de ausência de moça solteira, desculpou o pai. Mas não está certo, foi Conrado pensando enquanto calcava de leve as esporas nos vazios do cavalo. Criar moça assim tão sozinha, desde menina, sem nenhuma mulher mais velha para gerir. Primo Juvêncio, quando prima Gasparina morreu, devia ter tomado de novo estado, ou vindo com a menina para a cidade. Mas não, primo Juvêncio era de outros tempos. Cismado, meio louco-manso-enfezado nas suas opiniões, ficou para sempre reinando sozinho no território do Fundão. O primo era de umas ausências de vista estranhas, ficava olhando enviesado uns longes para além dos cimos. Tinha até, de raro em raro, uns ataques de repelão e espuma, diziam que ficou bom no fim da vida, com umas ervas de seu Querêncio Gouveia. Conrado no fundo tinha medo, a coisa podia se repetir na filha Biela, essas histórias de herança de corpo e da alma. Nada, tem disso não, procurava se acalmar, histórias de gente sem oficio e ocupação. Depois, nunca tinha ouvido dizer nada de prima Biela, vocês sabem como estas coisas correm.
Conrado não gostava da idéia, cismarento. Pesava no prato de sua decisão uma razão muito escondida, que ele não queria nem pensar: primo Juvêncio Fernandes deixou escrito, foi o que explicou o tabelião, que o usufruto dos bens seria dele, enquanto Biela estivesse em sua guarda, menor que era, como convinha. Esta parte ele não contou a ninguém, nem à mulher, para que Constança não o ajudasse a pensar claro demais.
Conrado não gostava da idéia mas acabou cedendo. No fundo já se decidira, quaisquer que fossem as conseqüências. Agora era arranjar as razões de espírito, para a alma quieta, tranqüila, no remanso. Não foi difícil, as artimanhas, os esconde-escondes da alma. Afinal não era sua prima? Juvêncio não lhe queria tanto, não tinha tanta confiança nele, não o encarregara de tudo em testamento e por boca? Da Fazenda do Fundão, do dinheiro no banco, dos títulos e jóias de prima Gasparina. Depois, tinha as suas vantagens ela ficar morando com eles – podia, com ela perto, cuidar melhor de seus negócios, ouvi-la nas suas vontades, ver juntos o que iam fazer da Fazenda do Fundão. A Fazenda do Fundão era de muitos e muitos alqueires de terra. Tudo terra boa, terra roxa de café. Os cafezais eram velhos, é verdade, mas havia ainda muita terra livre, pastos sem fim, o gado, muito gado. Conrado fazia o arrolamento, pensava e repensava. Com ela perto, seria mais fácil defender os interesses de prima Biela. Depois, Constança queria tanto, fazia tanto gosto, alvoroçada com a novidade.
Está bem, disse ele, que já tinha concordado com a idéia da mulher mas não queria dar parte de fraco; vou pensar e depois que eu decidir, a gente se fala. Constança se alegrou, sabia que vencera. Não disse nada, escondeu a alegria, conhecia Conrado, respeitava-o, sabia como lidar com ele.
Daí a uns dias Conrado mandou arrear a besta Gaúcha, encher os alforjes, e foi buscar prima Biela na Fazenda do Fundão.
A chegada de Biela marcou época para os meninos. Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu e Silvino ficavam impacientes, toda hora chegando na janela para ver o pai apontar no fim da rua: a sua grande figura na besta Gaúcha toda branca, leve e firme, os peitos largos e trotando, o melhor animal de sela da Fazenda do Quebra. De vez em quando, a própria Constança chegava para ver se já vinham vindo. Tudo pronto, o quarto da sala onde ficaria prima Biela preparado, ela também se impacientava com a chegada.
Só chegaram lá pela tardinha.
E vem eles, gritou Alfeu para dentro de casa, chamando os outros, que tinham desistido de esperar. As meninas se atropelaram para ver quem chegava primeiro e garantia melhor lugar na janela, de onde podiam ver bem o pai na besta Gaúcha e a prima Biela num cavalo que não sabiam como era.
Alfeu e Silvino na verdade se preocupavam mais com a besta Gaúcha, gostavam de cavalos, queriam saber como era a montaria da prima. Já imaginavam que poderiam no outro dia sair para umas voltas pela cidade e pelos matos ali por perto, cavalgando desabalados. As meninas é que cuidavam mais da figura de prima Biela. Queriam saber como era o jeito dela, os modos de moça fazendeira, os vestidos dela. Faziam planos, preparavam conversas, urdiam as histórias que haviam de contar, muito perguntadeiras.
O pai vinha na frente. O vulto alto, o chapelão para trás, senhor do animal, bom cavaleiro.
Os meninos desceram para a rua, queriam ser os primeiros a ver; queriam, já montados, levar os animais para dentro do quintal, ajudar Gomercindo a desencilhar.
A besta Gaúcha trotava grande, bem balanceado, branca, o peito empinado, batendo picado os cascos ferrados de pouco. O pai deixava o corpo seguir o molejo da besta. Mais perto puderam ver que apressava o passo. Como o pai fazia quando desejava que Gaúcha trotasse ligeiro: esporeava em pequenos arrancos os vazios do animal. Mais atrás, na poeira do pai, o cavalo de prima Biela, um pampa meio ronceiro. O corpo malhado, vermelho e branco, a cara branca. Se o pai deixasse, Alfeu, que era o mais velho, ficaria com a Gaúcha e Silvino com o pampa.
Olha ela, disse Fernanda, a menorzinha, para as irmãs, apontando a prima que chegava da Fazenda do Fundão.
E viram como prima Biela, para alcançar o trote da besta Gaúcha, batia desajeitada e deselegante o chicote nas ancas do cavalo malhado. Não disseram nada, olharam apenas meio desiludidas a figura miúda e socada que vinha encilhada no cavalo pampa, debaixo de uma sombrinha vermelha desbotada.
Enquanto os meninos seguravam as rédeas dos animais que impavam resfolegantes, cansados da caminhada de muitas léguas, o pai procurou ajudar Biela a descer do silhão. Não foi preciso, ela fez que não queria, de um salto estava no chão. Meio cambaleante ainda, primeiro cuidou de ajeitar as pregas da saia de chitão amarrotada; depois verificou se os botões da blusa estavam nas suas casas; finalmente alisou os cabelos pretos empoeirados que tinham escapulido do coque. Compunha um tanto envergonhada, num recato medido de quem queria aparentar bem, a sua figura. Em nenhum momento ergueu o olhar para as janelas onde as meninas se apinhavam, para Constança. Como os pés procuravam se acostumar ao chão, os olhos baixos também buscavam raízes na terra.
As meninas repararam em tudo: a sombrinha vermelha desbotada de cabo comprido, as botinas de cordão que apareceram quando ela saltou do cavalo, a saia muito comprida quase se arrastando no chão, a blusa de botõezinhos fechada até pescoço, os gestos todos que ela fez. Não viram a cara, que ela trazia sempre baixa. Mas viram o coque grosso, baixo, de longas tranças, empoeirado.
Constança, gritou o pai já na porta da sala, a prima chegou. Vai entrando, a casa é sua, voltou-se para trás.
Parada na soleira da porta, prima Biela esperava, esperava não sabia o quê, assustada feito súbito um animal pára na estrada, estranhando.
(…).
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Fonte: DOURADO, Autran. Uma vida em segredo. 12a.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 29-36.

A HIDDEN LIFE
1


Autran Dourado

It was Constança’s idea to bring Cousin Biela to the city.
“ Look, Conrado, bring her here to the house,” she said. “Biela can live with us. She can even help me with the children, keep me company. You know, when you go to the farm there are times when I want to talk to somebody so badly I don’t know what to do. And at night…”
“ You have Mazília,” Conrado replied.
“ Mazília,” she said, “is still a little girl.”
“ She’s already a young lady,” replied Conrado, who was not given to talking much.
At first, Conrado didn’t pay much attention to the idea. He had something else in mind. It was up to him, as man of the house, to make the decision. Even more so because he was guardian and executor of the will. He was quiet, peaceable, serious, responsible.
Sometimes he put it as a question, though his wife should have known that it wasn’t meant for her to answer. It was more a way of thinking aloud. “Don’t you think it would be better to send her to the convent over in Ubá? She could give a good dowry and later her whole inheritance. The sisters would be happy to take her.”
Constança, who didn’t realize that her husband was only thinking aloud (or at least she acted as if she did not realize it), said she did not think it would work out. Biela had not had any formal education, she hadn’t even learned her ABC’s, being raised out there in the country with only her father, a sullen, half-crazy man who never left Fundão. And she was already too old to be learning. The sisters wouldn’t accept her.
“ I don’t mean to become a nun,” Conrado said, forgetting he was only thinking aloud. “I don’t even know if she has the calling for it. I mean to live there with them. Later… Who knows? If she wanted to, perhaps she could even become a lay sister, or whatever it is they call them. She could help them out.”
Constança, master of the breech her husband had opened in his decision-making, said it wouldn’t be good.
“ What are they going to say about us, about you as guardian and executor, if we send her way off when we have so much room here at home?”
Conrado didn’t like the idea. His wife didn’t know what his cousin was like, didn’t know her habits. It was likely not to work out. A young girl raised in the country, without a mother since she was a baby, with those manners of hers. Perhaps she wouldn’t be able to adapt to life in the city with them. He himself didn’t know her well. He had only seen his cousin two or three times when he had gone to Fundão Farm to work out a cattle deal with Juvêncio Fernandes, a cousin on his father’s side. He recalled the first time he had seen Biela. Cousin Biela had only greeted him because Cousin Juvêncio told her to “come over and say good morning to your cousin.” She shook hands shyly without getting too close, giving him the tips of her fingers, eyes downcast. Then she ran quickly to the rear of the house and didn’t come back. He had asked about her again when he was already on his horse, ready to leave.
“ Oh, don’t bother about her. She has the peculiarities of an unmarried girl,” her father explained.
But it’s not right, Conrado had thought as he gently dug his spurs into the flanks of his horse, to bring up a girl from infancy that way, in such loneliness, without any older woman to guide her.
After Cousin Gasparina died, Cousin Juvêncio should have married again or brought the girl to town to live. But no, Cousin Juvêncio was of other times. Moody, half-crazy, narrow-minded, he stayed there reigning alone over the territory of Fundão. He used to get strange looks in his eyes. He would stare as if he were looking beyond the far-off mountains. He even had some occasional attacks with convulsions and foamed at the mouth. They said he was cured toward the end of his life by some herbs from Querêncio Gouveia. Conrado was afraid this would repeat itself in the daughter, Biela. He had heard stories of heredity in the body and the soul. There is nothing to this, he thought, trying to calm himself. These are stories from people who don’t really have any way to know what they are talking about. And he had never heard of anything like that in Cousin Biela. You know how these things get around.
Conrado did not like the idea at all. Weighing heavily in his decision was a reason he kept carefully hidden, one about which he didn’t even wish to think. Cousin Juvêncio Fernandes had left it written, the probate clerk had explained, that the use and profit of his estate would be Conrado’s as long as he needed them while Biela was under his care, minor that she was. He didn’t tell this to anybody, not even his wife, because he didn’t want Constança to help him think too clearly.
Conrado didn’t like the idea, but in the end he gave in. At heart he had already decided, whatever the consequences. Now he had to arrange the reasons of the spirit so that the soul could be quieted, stilled, lulled. It wasn’t too hard to justify it in the depths of his soul. Didn’t Juvêncio like him that much? Didn’t he have that much confidence in him? Didn’t he charge him with everything, both in the will and by word of mouth? Everything. From Fundão Farm to the money in the bank, the bonds, and Cousin Gasparina’s jewels. Of course there were some advantages to having Biela live with them. With her close by, he could take better care of her business, hear her wishes, plan with her what to do about Fundão Farm. The farm had many, many acres of land. All of it was good land, coffee land. The coffee trees were old, it’s true, but there was still a lot of unused land, pasture without end, and cattle, a lot of cattle. Conrado would make the inventory, think it over again and again. With Cousin Biela nearby, it would be easier to protect her interests. And Constança would like it so much. It would make her very happy. She would be all aflutter with the novelty.
“ Very well,” he said. He had already agreed with his wife’s idea but he didn’t want to appear weak. “I’ll think about it and then I’ll decide. We will talk about it.”
Constança was happy. She knew she had won. She said nothing, hid her happiness. She knew Conrado, respected him, knew how to get along with him.
A few days later, Conrado ordered his horse, Gaúcha, saddled, filled his saddlebags, and rode off to get Biela at Fundão Farm.
Biela’s arrival was a big event for the children. Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu, and Silvino waited impatiently, running to the window every few minutes to see if their father had turned into their street, his grand figure astride Gaúcha, solid white, light and firm, her chest wide. She was the best saddle animal from Quebra Farm. Occasionally, Constança herself would go to see if they were coming. Everything was ready. The room in which Biela would stay was prepared. Constança also grew impatient for the arrival.
It was late when they arrived.
“ There they come!” Alfeu shouted into the house, calling the others, who had already given up watching. The girls fell over one another trying to see who could reach the window first and get the best place to see their father on Gaúcha and Cousin Biela on a horse they had never seen.
Alfeu and Silvino actually were more interested in seeing the horse Gaúcha. They liked horses. They wanted to see what kind of horse their cousin was riding. They already were imagining how they would go out for a ride the next day for a few turns around town and in the nearby countryside, riding with the wind. The girls were more concerned about Cousin Biela’s looks. They wanted to see what she was like, see the style of the farm girl, her dresses. They made plans, imagined conversations, spun the stories they had to tell, thought of many questions to ask.
Their father rode in front, sitting tall, hat pushed back, master of his animal, a good horseman.
The boys ran down to the street. They wanted to be the first to see. They wanted to mount the horses and take them into the yard and help Gomercindo unsaddle them.
Gaúcha trotted grandly, well balanced, white, chest out, her newly shod hoofs beating out a staccato rhythm. Conrado let his body move with the motion of the horse. As he drew closer they could see him step up the pace. As he did when he wanted Gaúcha to trot faster, he spurred the animal’s flanks with short jabs. Farther back, in his dust, came Cousin Biela’s horse, a rather sluggish cow pony. It was a red and white pinto with a white face. If their father would let them, Alfeu, who was the eldest, would take Gaúcha and Silvino could have the pony.
“ There she is,” cried Fernanda, the youngest, to her sisters, pointing to the cousin who was arriving from Fundão Farm. And they saw Cousin Biela trying to keep up with Gaúcha, clumsily and inelegantly beating the riding crop on the rump of the pinto horse. They said nothing. They watched, a little disillusioned, the small, squat figure approaching on the cow pony under a faded red parasol.
While the boys held the reins of the horses, panting and tired from the long journey, their father tried to help Biela down from the saddle. It wasn’t necessary. She indicated that she didn’t want help, and with a leap was on the ground. Still reeling a little, she first tried to adjust her rumpled calico skirt. Then she made sure all the buttons on her blouse were buttoned. Finally she tried to smooth down the dusty black strands of hair which had escaped from their bun. She acted a little embarrassed, with the measured shyness of someone wanting to look well. She never lifted her eyes to look at the windows where the girls had stationed themselves, or to Constança. As her feet sought to adjust to the ground, her lowered eyes seemed to seek the roots in the earth.
The girls saw everything, the faded red parasol with the long handle, the high-topped, laced shoes that appeared when she jumped from the horse, the long skirt that almost dragged the ground, the blouse buttoned to the neck, the gestures she made. They didn’t see her face because she always looked down. But they saw the thick bun low at the back of her head. It was made of long braids and covered with dust.
“ Constança,” yelled the father at the door of the living room, “our cousin is here! Come on in. Make yourself at home.” She turned around.
At the doorsill, Cousin Biela stopped. She didn’t know why but she froze like an animal suddenly startled on the road.
(…).

__________________

Fonte: DOURADO, Autran. A hidden life. Translated by Edgar H. Miller, Jr. New York: Knopf, 1969. p. 3-11.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Horto




Autor: Auta de Souza
Título: O Horto
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/02/2006

O HORTO

Auta de Souza

1- sensuais – feminino
 
MORENA
A moça mais bonita de minha terra
Ó moça faceira,
Dos olhos escuros,
Tão lindos, tão puros,
Qual noite fagueira!
Criança morena,
Teus olhos rasgados
São céus estrelados
Em noite serena!
Que doces encantos
No brilho fulgente,
No brilho dolente
De teus olhos santos!
E eu vivo adorando,
Meu anjo formoso,
O brilho radioso
Que vão derramando.
Em chamas serenas,
Tão mansas e puras,
Teus olhos escuros,
Ó flor das morenas!
***

POBRE FLOR !
Deu-m’a um dia antiga companheira
De tempinho feliz de adolescente;
E os meus lábios roçaram docemente
Pelas folhas da nívea feiticeira.
Como se apaga uma ilusão primeira,
Um sonho estremecido e resplendente,
Eu beijei-lhe a corola, rescendente
Inda mais que a da flor da laranjeira.
E como amava o seu formoso brilho!
Tinha-lhe quase essa afeição sagrada
Da jovem mãe ao seu primeiro filho.
Dei-lhe no seio uma pousada franca…
Mas, ai! depressa ela murchou, coitada!
Doce e mísera flor, cheirosa e branca!
Angicos – 1896
***

TRANÇA LOURA
A linda trança dourada
Que eu vi domingo à noitinha,
Guardava a maciez amada
Das penas de uma andorinha.
Recordava uma esperança
Bordada com fios d’ouro…
Ó doce e mimosa trança,
Meu raio de sol tão louro!
Ventura, sonho, alegria,
Tudo se resume ali…
Para tecer serviria
O ninho de um colibri.
Era já noite, e, no entanto,
A loura madeixa olhando,
Cuidei que, cheio de encanto,
O dia vinha raiando.
Deus fez-la numa redoma
De beijos, de luz, de amor,
E deu-lhe o sagrado aroma
Das madressilvas em flor.
Ah! sobre aqueles risonhos,
Dourados, macios folhos,
Quem dera embalar meus sonhos,
Quem dera cerrar meus olhos
***

AS MÃOS DE CLARISSE
Causam-me tantos martírios
As tuas mãos adoradas,
Com estes dedos de fadas,
Tão formosos e pequenos…
Que eu chamaria dois lírios,
Se houvesse lírios morenos!
***

VERSOS LIGEIROS
Eu acho tão feiticeira
A Noemita da esquina,
Com o seu recato de freira,
Muito morena e franzina;
Que fico toda encantada
Quando na Igreja a contemplo,
Pois cuido ver uma fada
Ajoelhada no Templo.
Doce nuvem cor de rosa
Parece que a Deus se eleva.
D’aquela boca mimosa,
D’aquele olhar cor de treva.
É sua prece que voa,
Indefinida e tão mansa,
Como um hino que ressoa,
Como uma voz de criança
A trança de seu cabelo,
(Como ela é negra, Jesus!)
Semelha um lindo novelo
Tão preto que já reluz.
Tem a boquinha vermelha
Como uma rosa entreabrindo…
É um favo de mel de abelha
Aquela boca sorrindo!
Minh’alma nunca se cansa
De vê-la assim, tão divina,
Sempre formosa e criança
Com seu perfil de menina.
As vezes, eu olho-a tanto,
Com tanta veneração,
Que fico muda de espanto,
Depois da contemplação.
É verdade que não faz
Mal nenhum fitá-la assim…
Meu Deus! se eu fosse rapaz
O que diriam de mim?!
Macaíba, 1897.

2- amor – masculino
MINH’ALMA E O VERSO
Não me olhes mais assim… Eu fico triste
Quando a fitar-me o teu olhar persiste
Choroso e suplicante…
Já não possuo a crença que conforta.
Vai bater, meu amigo, a uma outra porta.
Em terra mais distante.
Cuidavas que era amor o que eu sentia
Quando meus olhos, loucos de alegria,
Sem nuvem de desgosto,
Cheios de luz e cheios de esperança,
N’uma carícia ingenuamente mansa,
Pousavam no teu rosto?
Cuidavas que era amor? Ah! se assim fosse!
Se eu conhecesse esta palavra doce,
Este queixume amado!
Talvez minh’alma mesmo a ti voasse
E n’um berço de flor ela embalasse
Um riso abençoado.
Mas, não, escuta bem: eu não te amava.
Minha alma era, como agora, escrava…
Meu sonho é tão diverso!
Tenho alguém a quem amo mais que a vida,
Deus abençoa esta paixão querida:
Eu sou noiva do Verso.
E foi assim. Num dia muito frio.
Achei meu seio de ilusões vazio
E o coração chorando…
Era o meu ideal que se ia embora,
E eu soluçava, enquanto alguém lá fora
Baixinho ia cantando:
“Eu sou o orvalho sagrado
Que dá vida e alento às flores;
Eu sou o bálsamo amado
Que sara todas as dores.
Eu sou o pequeno cofre
Que guarda os risos da Aurora;
Perto de mim ninguém sofre,
Perto de mim ninguém chora.
Todos os dias bem cedo
Eu saio a procurar lírios,
Para enfeitar em segredo
A negra cruz dos martírios.
Vem para mim, alma triste
Que soluças de agonia;
No meu seio o Amor existe,
Eu sou filho da Poesia.”
Meu coração despiu toda a amargura,
Embalado na mística doçura
Da voz que ressoava…
Presa do Amor na delirante calma,
Eu fui abrir as portas de minh’alma
Ao verso que passava…
Desde esse dia, nunca mais deixei-o;
Ele vive cantando no meu seio,
N’uma algazarra louca!
Que seria de mim se ele fugisse,
Que seria de mim se não ouvisse
A voz de sua boca!
Não posso dar-te amor, bem vês. Meus sonhos
São da Poesia os ideais risonhos,
Em lago de ouro imersos…
Não sabias dourar os meus abrolhos,
E eu procurava apenas nos teus olhos
Assunto para versos.

Fonte: Sousa, Auta de. Horto. Poesia. 5a ed. Natal, Fundação José Augusto, 2001. 275 p.





Bio fornecida pelo palestrante.

EU




Autor: Augusto dos Anjos
Título: EU, YO
Tradutor: Marinalva Freire da Silva & Carlos García-Roneral Pérez
Data de entrada no site: 26/12/2004

EU

 

Monólogo de uma sombra


Augusto dos Anjos

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
– O metafisicismo de Abidarma –
E trago, sem bramâncias tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Ai vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens,
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio* X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares –
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
(…)

Agonia de um filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo…
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto…!
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!…
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro da escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
__________________
Fonte: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1998, p. 2-12.


YO


Monólogo de una sombra

 

Augusto dos Anjos

¡Soy una sombra! Vengo de otras eras,
Del cosmopolitismo de las moneras…
Pólipo de recónditos adentros,
Larva de caos telúricos, procedo
De la oscuridad del cósmico secreto,
¡De la substancia de todas las substancias!
La simbiosis de las cosas me equilibra
En mi ígnota mónada, amplia, vibra
Pues me decurren simultáneas,
La salud de las fuerzas subterráneas
¡Y la morbidez de los seres ilusorios!
Flotando sobre los mundanos techos,
No conozco el accidente de “Senectus”
– Esta universitaria sanguijuela
Que produce sin perjuicio algún virus,
¡Y la miseria anatómica de la arruga!
En la existencia social, poseo un arma
– El metafisicismo de Abidarma –
Y traigo, sin bramánicas tijeras,
Como um dorso de azémola pasiva,
La solidariedad subjetiva
de todas las espécies sufridoras.
Como un poco de saliva cotidiana
Muestro mi asco a la Naturaleza Humana.
La podredumbre me sirve de evangelio…
Amo el estiércol, los malos residuos de los quioscos
Y al animal inferior que aúlla en los bosques
¡Es con certeza mi hermano mayor!
Tal cual quien para su próprio túmulo mira
Amargamente se me antoja
A la luz del americano plenilunio,
En el alma crepuscular de mi raza
Como una vocación para la Desgracia
Un tropismo ancestral del Infortunio.
Ahí viene inmundo a irritar las llagas plebeyas,
Trayendo en el desierto de las ideas
La desesperación endémica del infierno,
Con la cara yerta tatuada de hollín
Ese minero loco de los orígenes
¡Así se llama al Filósofo Moderno!
Quiso comprender, infringiendo estériles normas,
La vida fenoménica de las formas,
que, idéntica a fuegos pasajeros, lucen…
Y sólo encontró en la idea trasnochada
El horror de esa mecánica nefasta,
¡A que todas las cosas se reducen!
Y han de encontrarlo, mañana, bestias agrestes
Sobre la estera sarcófaga de las pestes
A enseñar, ya en los últimos momentos,
Como quien se somete a una salazón,
A la claridad tropical de la irritante luz
¡Espolio de sus hediondos dedos!
¡Tal es la finalidad de los estambres!
Pero él vivirá, rotas las ataduras
De esa estranguladora ley que ahoga,
A todas las mezclas fugaces,
En las eterizaciones indefinibles
¡De la energia interatómica liberada!
Será calor, causa ibicua del gozo,
Rayo X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulación aérea,
Fuente de repulsiones y de placeres,
Sonoridad potencial de los seres,
¡Estrangulada dentro de la materia!
Y lo que fue: clavículas y abdomen,
El corazón, la boca; en síntesis, el Hombre,
– Engranaje de vísceras vulgares –
Los dedos cargados de ponzoña,
Todo cupo en la lógica terrible
¡De las podredumbres musculares!
El desorden de los intestinos
¡Asusta! ¡Mírala! Los gusanos asesinos
Dentro de aquella masa que el húmus corrompe,
En uma glotonería hedionda, juegan,
Como las perras que a dentelladas desgarran
El espasmo fisiológico del hambre.
¡Es una trágica y emocionante fiesta!
La bacteriológica inventariante
Toma cuenta del cuerpo que se pudre…
Y hasta los miembros de la familia tienen náuseas
Viendo a las larvas malignas cubrir,
El cadáver malsano, haciendo una s.
(…)
Agonía de un filósofo
Consulto el Phatan-Hotep. Leo el obsoleto
Rig-Veda. Y, ante tales obras, no me consuelo…
¡El inconsciente me asombra y yo en el ruego
Con la eólica furia del harmatán inquieto!
¡Asisto ahora a la muerte de un insecto!…
¡Ah! todos los fenómenos del suelo
¡Parecen realizar de polo a polo
El ideal de Anaximandro de Mileto!
En el hierático areópago heterogêneo
De las ideas, recorro como un gênio
¡Desde el alma de Haeckel al alma cenobial!…
Rasgo el velário espeso de los mundos;
Y en todo igual a Goethe, reconozco
¡El imperio de la substancia universal!
El murciélago
Medianoche. En mi cuarto me recojo.
¡Dios mío! ¡Y este murciélago! Y, ahora, ved:
En la violenta quemazón orgánica de la sed,
Muérdeme la ígnea y caliente salsa de la garganta.
“Voy a mandar erguer otra pared…”
– Digo, me hecho a temblar. Echo el cerrojo
Y miro el techo. ¡Aún lo veo, igual que a un ojo,
Circularmente sobre mi red!
Cojo un palo. Hago esfuerzos. Llego
A tocarlo. Mi alma se concentra
¿¡Que vientre produjo tan feo parto?!
¡La Conciencia Humana es este murciélago!
Por más que haga, por la noche, él entra
¡Imperceptiblemente en nuestro cuarto!

Psicología de un vencido

Yo, hijo del carbono y del amoníaco,
Monstruo de oscuridad y rutilancia,
Sufro, desde la epigénesis de la infancia,
la mala influencia de los signos del zodíaco.
Profundísimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnancia…
Me sube a la boca un ansia semejante al ansia
Que se escapa de la boca de un cardíaco.
Ya el gusano – este operario de las runias –
Que la sangre podrida de las matanzas
Come, y a la vida en general declara guerra,
viene a tantear mis ojos para roerlos,
Y ha que dejarme sólo los cabellos
¡En la frialdad inorgánica de la tierra!
___________________
Fonte: ANJOS, Augusto dos. Yo. Traducción de Marinalva Freire da Silva & Carlos García-Roneral Pérez. João Pessoa, Idéia Editora, 2002, p. 11-20.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

CABEÇA DE HOMEM




Autor: Armando Freitas Filho
Título: CABEÇA DE HOMEM, CABEZA DE HOMBRE
Idiomas: port/esp
Tradutor: Adolfo Montejo Navas
Data: 26/12/2004

CABEÇA DE HOMEM


Armando Freitas Filho

Vibrato

Arrebentação.
Desejo de mar, leões
em riste
céu sem risco de raio
quanto tempo
deve durar um adeus?
Seu corpo está todo aqui
mas não te agarro.
Cara a cara
apenas tocamos a corda
dos dois arcos
que não disparam.
Parados, sem saída
com os corações tão vivos:
animais puros, só de sangue
entre formações de rochas
ou de nuvens – hesitantes
dependentes ainda de definição.


Num instante

Mulheres livres
são perfumes nos lenços
adeuses, são deusas
que se evaporam:
baudelaires no vento
músicas de cor
sopros
de boca em boca
metais e cordas
que tocam
em todos os lugares
de mão em mão
e passam sem se poupar
pelo éter
em pleno apogeu
por mim – minuteman –
com vestidos deslizantes
vivendo no vermelho.


Mãe, mulher

Beijo a boca de sua alma.
Beijo tudo, através
persiânico.
Beijo o que não quer beijo
o desejo ocluso
o dente desesperado
que contra-ataca.
Beijo ainda, e em cheio
o cheiro de um meio-banho
e o que não é para beijar:
o que não se rende nunca
irredutível
e é absolutamente seu
central, farpado, avesso ao ar.


Pequena morte

Acabo. Vou pela vertente estreita
rente ao chão e a carne
pela via íntima e úmida
tomando o corpo pela raiz
frontal e viva: fio-terra, chicote
de muitas pontas
exatamente múltiplo – venéreo
combinando músculos e números
entre cálculo e acaso
vou no impulso, no arranco
sem ensaio: disparo, desperdício
e paro.
____________________
Fonte: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. p. 31, 35, 51,101

CABEZA DE HOMBRE

Armando Freitas Filho

Vibrato

Reventazón.
Deseo de mar, leones
en ristre
cielo sin peligro de rayo
¿cuánto tiempo
debe durar un adiós?
Tu cuerpo está todo aquí
pero no te agarro.
Cara a cara
apenas tocamos la cuerda
de los arcos
que no disparan.
Parados, sin salida
con los corazones tan vivos:
puros animales, sólo de sangre
entre formaciones de rocas
o de nubes – vacilantes
o pendientes aún de definición.


En un instante

Mujeres libres
son perfumes en los pañuelos
adioses, son diosas
que se evaporan:
baudelaires en el viento
músicas de color
soplos
de boca en boca
metales y cuerdas
que tocan
en todos los lugares
y pasan sin posarse
por el éter
en pleno apogeo
por mí – minuteman –
con vestidos deslizantes
viviendo al rojo.


Madre, mujer

Beso la boca de tu alma.
Beso todo, a través
persiánico.
Beso lo que no quiere beso
el deseo oculto
el diente desesperado
que contraataca.
Beso aún, y de lleno
el olor de un medio baño
y lo que no es para besar:
lo que no se rinde nunca
irreductible
y es absolutamente tuyo
central, farpado, contrario al aire.


Pequeña muerte

Acabo. Voy por la vertiente estrecha
pegado al suelo y la carne
por la vía íntima y húmeda
tomando el cuerpo por la raíz
frontal y viva: hilo-tierra, chicote
de muchas puntas
exactamente múltiple – venéreo
combinando músculos y números
entre cálculo y acaso
voy en el impulso, en el arranque
sin ensayo: disparo, despilfarro
y paro.
________________________
Fonte: FREITAS FILHO, Armando. Cabeza de hombre. Traducción y prólogo de Adolfo Montejo Navas. Madrid: Hiperión, 1995. p. 43, 47, 63, 113.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

ESSA TERRA




Autor: Antônio Torres
Título: ESSA TERRA, Cette Terre
Idiomas: port/fra
Tradutor: Jacqués
Data: 26/12/2004

 

ESSA TERRA
Essa terra me chama
1


Antônio Torres 

– Se estiver vivo um dia ele aparece, foi o que eu sempre disse.
– O que foi que o senhor disse?
Naquela hora eu podia fazer uma linha reta da minha cabeça até o sol e, como um macaco numa corda, subir por ela até Deus – eu, que nunca tinha precisado saber as horas.
Era meio-dia e eu sabia que era meio-dia simplesmente porque ia pisando numa sombra do tamanho do meu chapéu, o único sinal de vida na velha praça de sempre, onde ninguém metia a cabeça para não queimar o juízo. Loucos ali só eu e o matuto com seu cavalo suado, que surgiu como uma aparição dentro de uma nuvem de poeira, para deter a minha aventura debaixo da caldeira de Nosso Senhor.
– Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio?
– O senhor estava com a razão.
– Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue.
– Não se esqueceu, não, tio – respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta do meu irmão parecia ter muito mais significado do que quando o dr. Dantas Júnior veio anunciar que havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado federal bem votado. Foi um dia muito bonito, tão bonito quanto os dias de eleição, embora sem as arruaças, as cervejas e as comidas dos dias de eleição, porque tudo aconteceu de repente, sem aviso prévio. O deputado subiu no palanque feito às pressas em frente do mercado, ergueu seu paletó empoeirado sobre todos nós e disse que o Junco agora era uma cidade, leal e hospitaleira. Agora podíamos mandar no nosso próprio destino, sem ter que dar satisfações ao município de Inhambupe – e foi justamente essa parte do discurso que o povo mais gostou. E no entanto esse dia já está se apagando da nossa lembrança, apesar de nada mais ter acontecido daí por diante.
Quem não mudou em nada mesmo foi um lugarejo de sopapo, caibro, telha e cal, mas a questão agora é saber se meu irmão ainda se lembra de cada parente que deixou nestas brenhas, um a um, ele que, não tendo herdado um único palmo de terra onde cair morto, um dia pegou um caminhão e sumiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus ray-bans, seu rádio de pilha – faladorzinho como um corno – e um re1ógio que brilha mais do que a luz do dia. Um monumento, em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens – e eu, que nem havia nascido quando ele foi embora, ia ver se acordava o grande homem de duas décadas de sono, porque o grande homem parecia ter voltado apenas para dormir. Levanta, cachorro velho, antes que os morcegos te comam. Acorda, antes que a alma penada do teu tão saudoso avô queira um relatório completo da tua viagem. Anda depressa, que ele está saindo da cova para vir dar um tapa nas tuas costas: – Caboco setenta. Tu vale por setenta deste lugar. – Por que, Padrinho? – Porte tu já conhece quatro estados do mundo, não é, meu fio?
Eu estava louco para tomar um banho no tanque velho (lá mesmo, onde todos nós vamos morrer afogados) e queria que meu irmão fosse comigo e estava pensando em arranjar uma jega, a mais fogosa que houvesse, para o famoso Nelo matar a saudade de um velho amor.
– Diga a ele que ele nasceu ali – meu tio apontou para o lado do curral da matança. – Diga também que eu carreguei ele no meu ombro.
– Nelo se lembra de tudo e de todos, tio. Nunca vi memória tão boa – insisti -, para não deixar a menor dúvida em seu espírito. E só então ele haveria de permitir que eu continuasse a minha caminhada.
– Fico muito satisfeito – meu tio sorriu, no seu jeito encabulado de homem sério, e o cavalo me cobriu com outra nuvem.
A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se, não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo.
– Nelo – gritei da calçada. – Vem me ensinar como se flutua em cima de um tronco de mulungu. Me disseram que você já foi bom nisso. Não ouvi o que ele respondeu, quer dizer, não houve resposta. Não houve e houve. Na roça me falavam de um pássaro mal-assombrado, que vinha perturbar uma moça, toda vez que ela saía ao terreiro, a qualquer hora da noite. Podia ter sido o meu irmão quem acabava de piar no meu ouvido, pelo bico daquele pássaro noturno e invisível, no qual eu nunca acreditei. Atordoado, me apressei e bati na porta e bastou uma única batida para que ela se abrisse – e para que eu fosse o primeiro a ver o pescoço do meu irmão pendurado na corda, no armador da rede.
– Deixa disso, Nelo – bati com a mão aberta no lado esquerdo do seu rosto e devo ter batido com alguma força, porque sua cabeça virou e caiu para a direita. – Deixa disso, pelo amor de Deus – tornei a dizer, batendo na outra face, e ele se virou de novo e caiu para o outro lado.
Pronto.
Eu nunca mais iria querer subir por uma corda até Deus.
______
Fonte: Torres, Antônio. Essa terra. 3a ed. São Paulo: Ática, 1979. p. 17-19.

CETTE TERRE
Cette terre m’appelle
1


Antônio Torres

-S’il est vivant, un de ces jours il rapplique, c’est ce que moi j’ai toujours dit.
-Répétez voir ce que vous avez dit.
Sur le moment, j’aurais pu tracer une ligne droite de ma tête au soleil et, comme un singe sur une corde, monter dessus jusqu’a Dieu – moi, qui n’avais jamais eu besoin de savoir l’heure.
Il était midi et je savais qu’il était midi simplement parce que je marchais sur une ombre de la taille de mon chapeau, seul signe de vie sur la vieille place de toujours, ou personne ne mettait la tête de crainte de se bruter la jugeote. Sauf moi et un autre fou, le croquant sur son cheval en sueur, qui avait surgi comme une apparition au milieu d’un nuage de poussiere, pour suspendre le cours de ma destinée sous la chaudiere de Notre Seigneur.
-N’importe qui du coin peut servir de témoin. N’importe qui avec de la mémoire dans la tête et de la vergogne au visage. Moi, je passais ma vie à dire : un de ces jours il revient. Eh bien le voilà revenu, pas vrai ?
-Vous aviez bien raison.
-Est-ce qu’il a beaucoup changé ? J’espere au moins qu’il a pas oublié le chemin de notre maison. Nous sommes du même sang.
-Il ne l’a pas oublié, bien sur que non, mon oncle – j’ai répondu avec la conviction que je donnais cette assurance nécessaire non pas seulement à un homme, mais à une population au complet, pour qui le retour de mon frere somblait avoir bien plus d’importance que le jour ou Maître Dantas Junior était venu annoncer que nous étions entrés dans la carte du monde grace à son entregent et à sa parole de député fédéral confortablement élu. Ç’avait été un jour bien plaisant, aussi plaisant que les jours d’élection, quoique sans les chambards, ni les bieres, ni les bouffes des jours d’élection, vu que tout était arrivé à l’improviste, sans qu’on soit prévenu. Le député avait grimpé sur l’estrade montée en hate en face du marché, il avait brandi sa veste couverte de poussiere au-dessus de nous tous et il avait dit le Junco dorénavant, c’était une ville, loyale et hospitaliere. Dorénavant nous pouvions prendre en main notre propre destin, sans avoir à rendre de comptes à la commune d’Inhambupe – et c’est précisément cette partie du discours que les gens avaient le plus appréciée. Et pourtant ce jour-là s’efface déjà de notre souvenir, bien que plus rien d’autre ne soit arrivé depuis.
Qui n’a vraiment pas changé, c’est ce patelin de pisé, hourdis, tuile et chaux, mais il s’agit maintenant de savoir si mon frere se souvient encore de tous les parents qu’il a laissés dans nos garrigues, un par un, lui qui n’ayant pas hérité le moindre lopin de terre ou tomber mort, un jour est monté sur un camion et s’en est allé de par le monde pour se changer, comme par enchantement, en un homme beau et riche, avec ses dents en or, son costume ample et chaud de cachemire, ses raybans, son transistor – bavard comme un cornard – et une montre qui brille plus que la lumiere du jour. Un monument en chair et en os. L’exemple vivant que notre terre comme une autre pouvait engendrer de grands hommes – et c’est à moi, qui n’étais même pas né quand il était parti, qu’il incombait d’arracher le grand homme à deux décennies de sommeil, puisque le grand homme apparemment n’était revenu que pour dormir. Leve-toi, vieux chien, avant que les chauves-souris ne te mangent. Réveille-toi, avant que l’ame en peine de ton regretté aïeul ne réclame une relation complete de ton voyage. Dépêche-toi, il est en train de sortir de sa tombe pour venir te donner une tape dans le dos : – Sacré Caboco Septante. T’en vaux septante de ceux d’ici. – Et pourquoi, parrain ? – Parce que tu connais déjà quatre Etats de ce pays, pas vrai, mon fi ?
J’avais une envie folle de prendre un bain dans le vieux réservoir (là même ou nous allons tous mourir noyés) et je voulais que mon frere m’accompagne et je pensais dégoter une jument – la plus fougueuse possible – qui fasse oublier au fameux Nelo un amour de toujours.
-Dis-lui qu’il est né ici – mon oncle a montré le corral d’abattage. – Dis-lui aussi que je l’ai porté sur mes épaules.
-Mon oncle, Nelo se souvient de tout et de tous. Je n’ai jamais vu de mémoire aussi bonne – j’insistais, pour n epas laisser le moindre doute dans son esprit. Sans quoi il ne m’aurait pas permis de continuer mon chemin.
-Voilà qui me donne bien du contentement – mon oncle a souri, à sa façon réservée d’homme sérieux, et le cheval m’a couvert d’un autre nuage.
La sandale foule mon ombre : j’avance dans un temps figé et muet, comme si le vent avait disparu de ce monde. C’est peut-être un présage. D’un malheur, d’un tres grand malheur qui est bien pres d’arriver.
-Nelo – j’ai crié en pleine rue. – Viens me montrer comment on flotte à cheval sur un tronc de mulungu. On m’a raconté que t’avais le coup pour ça. Je n’ai pas entendu ce qu’il a répondu, car en fait il n’y a pas eu de réponse. Pas de réponse, mais une réponse quand même. A la plantation on me parlait d’un oiseau de mauvais augure, qui venait agacer une fille, chaque fois qu’elle se rendait au terreiro (1), à toute heure de la nuit. C’est peut-être mon frere qui venait de siffler à mon oreille, par le bec de cet oiseau nocturne invisible, auquel je n’avais jamais cru. Abasourdi, j’ai pressé le pas et j’ai cogné à la porte, un seul coup a suffi pour qu’elle s’ouvrêt – et j’ai été le premier à voir le cou de mon frere pendu par une corde au crochet du hamac.
-Arrête ça, Nelo – de ma main ouverte j’ai frappé le côté gauche de son visage et j’ai du frapper avec une certaine force, car sa tête a pivoté et est tombée à droite. – Arrête ça, pour l’amour de Dieu – j’ai répété, en frappant l’autre joue, et sa tête a de nouveau pivoté et est tombée de l’autre côté.
_________________________
(1) Terreiro : terre-plain devant une maison d’habitation rurale. Local ou sont célébrés les cultes afro-brésiliens. (N.d.T.)
Voilà.
Jamais plus je n’aurais envie de monter sur une corde jusqu’à Dieu.
Torres, Antônio. Cette terre. Traduit par Jacqués





Bio fornecida pelo palestrante.

A CASA DA ÁGUA




Autor: Antônio Olinto
Título: A CASA DA ÁGUA, THE WATER HOUSE
Idiomas: port/eng
Tradutor: Dorothy Heapy
Data: 23/12/2004

A CASA DA ÁGUA


Primeira Parte

A Viagem


Antônio Olinto

Não sei como surpreendê-la no começo de minha história – de sua história – mas vejo-a, naquela manhã de enchente, sendo arrancada da cama e do sono, ouvindo palavras de cujo sentido completo nem se dava conta, sabendo que havia perigo e que desejavam protegê-la – é assim que imagino Mariana começando sua aventura, carregada por alguém, a luz ainda não viera de todo, um pouco de noite se prendia como água nas coisas, e só a idéia de que o rio transbordara lhe dava medo, mas ao mesmo tempo a sensação de que o peito no qual punha a cabeça constituía um abrigo seguro fazia-a considerar a inundação como um espetáculo que poderia apreciar com prazer pelo menos assim que o dia, chegando por fim, mostrasse a casa, a entrada lateral de pedra, a descida cercada de mato, o córrego em que as crianças tomavam banho e que ia terminar na correnteza maior lá de baixo, o bambual fazendo barulho quando ventava, os piaus saltando na vargem alagada, o corpo miraculosamente ágil do peixe de súbito imobilizado por uma paulada. Ponho esse despertar com enchente como início das lembranças de Mariana, e pensei muito na melhor maneira de contar o que aconteceu com ela. Poderia ter escolhido o sistema do narrador alheio, separado dos acontecimentos, mas de tal modo me é íntima, conhecida, a história de Mariana, que só consigo transmiti-la colocando-me de dentro e narrando-a como se eu estivesse, a cada passo, acompanhando as cenas, ouvindo diretamente os diálogos e recebendo na cara as emoções da longa viagem da menina. Porque é de uma viagem que se trata e dela irei falar, a partir da manhã em que Mariana foi tirada da cama e levada para a rua, que ficava em plano mais alto do que a casa.
Viu-se, de repente, no chão. Um homem gritava:
-Apanhem Dona Lelé! Apanhem Dona Lelé! A água já entrou no quarto dela.
Mariana olhou para a igreja, era dedicada ao Espírito Santo, ouvira tantas explicações sobre o Espírito Santo, achava bonita a imagem da pomba de asas abertas que havia no alto-mor, no dia da primeira comunhão tivera quase a certeza de que o pássaro se movera, quando falara no assunto os outros haviam achado graça, mas com o tempo a certeza ficava ainda maior.
-De quem é esta menina?
-Da Epifânia.
Ouvindo o nome da mãe procurou-a, mas a agitação se tornara muito grande e a menina se levantou, caminhou até o armazém da esquina, não havia mais armazém, ele caíra durante a noite e um grupo de gente remexia no que restara.
-Morreu alguém?
-Não. Quando a casa se foi, todo mundo já tinha saído.
Um armário tombado e coberto de tijolos tinha pedaços de pano aparecendo através dos buracos, uma cama de metal estava encostada numa árvore, tudo parecia fora do lugar. A mãe chegou correndo, ergueu Mariana, olhou-a bem nos olhos, houve muita conversa, nunca o rio Piau enchera tanto, os mais antigos se lembravam de 1864, mas agora fora pior, a ponte perto da casa de Dona Júlia desaparecera, os quintais que davam para o rio haviam todos sido estragados, galinhas e porcos sumiram, estavam talvez mortos, Padre Exupério queria fazer uma novena para afastar as calamidades do lugar, o casamento de Amelinha teria de ser adiado, a mulher de Seu Saó perdera o filho, diziam que o menino ia nascer dali a dias, e Mariana imaginava como podia alguém perder um filho antes de ele nascer, e era noite outra vez, a cozinha larga da casa de tio Inhaim estava cheia de gente, todos falavam da enchente e da viagem.
-Mas que idéia! Vocês vão mesmo?
A mulher mais velha olhava para as achas do fogão, via a filha que já tinha tantos filhos, punha mão contra mão, dizia a mesma coisa que vinha dizendo há muito tempo, e Mariana, a mais velha das netas, anos depois se lembraria do que a avó Catarina falara aquela noite, a pele preta enrugada ao redor dos lábios, os olhos com reflexos do fogo que esquentava o café.
-Tenho de voltar e quero levar minha filha e meus netos. Saí de lá faz mais de cinqüenta anos, foi meu tio que me vendeu. Eu morava em Abeokutá, fui passear em Lagos, meu tio já havia me vendido para uns homens, me levou até eles, eu tinha dezoito anos, queria tanto passear em Lagos, mas para que é que fui fazer isso? Nem bem cheguei já meu tio me entregou aos homens, me puseram num navio, depois de muito tempo cheguei à Bahia, fui vendida e nunca mais saí do Piau.
Tinha havido uma pausa. Parece que tinha havido uma pausa.
-Agora quero voltar. Não tem mais escravo aqui, tio Inhaim vai me ajudar, juntei um dinheirinho e arranjei mais algum com tudo quanto foi preto dessas fazendas todas aí ao redor. Agora quero voltar e levar minha filha, que já nasceu aqui, e meus netos.
-Mas como é que um grupo de mulheres e crianças pode ir sozinho daqui até lá?
Mariana dormira no colo da mãe, um calor gostoso vinha do fogão, a avó continuou a falar na viagem, depois ficou pensando, via o rio Piau cheio lembrava-se do rio Ogum, a canoa descera nas águas e ela sentira um afogueamento no rosto, os pingos de suor haviam caído na madeira do barco nem se voltara para olhar sua cidade pela última vez mas como iria saber que aquilo era despedida e quem sabe quando uma vez é a última? Revia o verde, o verde voltava mas era um verde meio lavado, verde naquela descida rumo a Lagos, o homem do barco segurava ramos de folhas na mão, havia verde no fundo junto com o molhado que lhe cercava os pés, fora uma alegria mexer os pés na água e a cada curva do rio o verde que a neta Mariana iria conhecer dentro de algum tempo erguia-se como um paredão à frente dela e um pedaço de sol nem sempre deixava que ela visse tudo o que existia além das margens.
Na manhã seguinte, grupos de crianças pegavam peixe a pau, a menina também foi, a água subia-lhe até o joelho, pedaço de pau na mão, era só perceber o salto do peixe e dar-lhe uma paulada que ele boiava logo, a irmã e o irmão não podiam vir, Emília tinha cinco anos, Antônio três, como iam se agüentar naquele atolado, os pedaços de capim-gordura e de rabo-de-burro subiam da água em linhas verdes que o ar agitava deixando rastros na correnteza. A enchente e a viagem ficariam sempre ligadas na lembrança de Mariana, uma aconteceu perto da outra e sinto que suas memórias anteriores se perderam, talvez porque a enchente e a viagem não permitam que além delas algo possa ter ainda força, e por mais que eu apele para suas recordações nada consegue varar a cortina formada pelas duas realidades da enchente e da viagem.
A enchente se engrossara de imagens, uma atrás da outra, todas nítidas, Mariana fora ver a ponte caída, o rio levara a base de tijolos que havia no centro e onde se apoiavam as traves de madeira, as águas batiam com violência no que restava dos tijolos, um boi morto viera descendo a correnteza e se prendera numa pedra, diziam que era preciso soltar o corpo do boi senão ia dar um mau cheiro horrível, crianças brincavam com pedaços da ponte destruída, faziam outras pontes de brincadeira sobre as enxurradas, o ar era de festa, como no mês de maio, barraquinhas na frente da igreja, as meninas coroando Nossa Senhora, a briga também fazia parte da enchente porque foi ao lado da ponte que Mariana viu os dois homens se agarrando como doidos, os pés levantando poeira do chão, gente gritando, levaram-na para longe que podia haver facada e morte, outra cena da enchente fora uma tropa de animais atravessando o rio a nado, eram vários burros e cavalos, o homem que ia na frente perdeu o chapéu que caiu no rio, os cavalos faziam barulho ao nadar e saíam pingando, muita gente ria, achava graça no chapéu que sumia, broas de milho muito boas eram distribuídas de noite quando os comentários sobre a enchente tornavam a embalar crianças.
(…).

_____________

Fonte: OLINTO, Antônio. A casa da água. 5ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 13-16.

THE WATER HOUSE


Part I

The Journey


Antônio Olinto

I do not know how to come upon her at the beginning of my story – of her story – But I can see her, on that morning of the flood being dragged out of her bed and her sleep, hearing words the full sense of which she could not understand, knowing that there was danger and that they wanted to protect her – this is how I see Mariana beginning her adventure, being carried by someone, it was still not completely light, a little of the night still clung to everything like water, and the idea that the river was overflowing its banks frightened her, but at the same time the feeling that the shoulder her head was resting on was a safe shelter made her think of the flood more as an exciting event which could be enjoyed, at any rate now that the daylight which had come at last showed up the house, the stone side entrance, the steps surrounded by bushes, the little stream the children bathed in which ran down to the bigger stream below, the bamboo plantation rustling when the wind blew, the piau-fish jumping on the flooded river bank, the miraculously agile body of the fish suddenly immobilized by the blow of a stick. I place this awakening with the flood at the beginning of Mariana’s memories, and I have given much thought to how best I can tell what happened to her. I could have chosen the device of a separate narrator, removed from the events, but Mariana’s story is so much a part of me that it seems I can only pass it on by putting myself inside it and telling it as if I myself were, at every move, taking part in the scenes, hearing the words spoken and experiencing the emotions of the girl’s long journey. Because it is the story of a journey, and I am going to tell it starting from the morning when Mariana was pulled from her bed and taken out into the street, which was on a higher level than the house.
Suddenly she found herself on the ground. A man shouted:
‘Catch Dona Lelé! Catch Dona Lelé! The water is in her room already’.
Mariana looked at the church, it was dedicated to the Holy Ghost, she had been told so many times about the Holy Ghost, she thought that the picture on the high altar of the dove with its open wings was so pretty, once she had been almost certain that the bird had moved, when she talked about it to the others they had laughed, but as time went by she became even more certain that it had.
‘Who does the little girl belong to?’
‘Epifânia.’
When she heard her mother’s name spoken she began to look around for her, but the confusion had increased and she got up, went as far as the store on the corner, the store wasn’t there, it had collapsed during the night and some people were poking around in the ruins.
‘Anyone dead?’
‘No. By the time the house went, everyone had left.’
A cupboard which had fallen over was covered in bricks, pieces of cloth showed through holes in it, an iron bedstead was leaning up against a tree, everything seemed out of place. Her mother ran to her, picked her up, looked at her hard, there was a lot of talk, the River Piau had never risen so high, the old people could remember 1864, but this time it was worse, the bridge beside Dona Julia’s house had disappeared, the orchards alongside the river had been ruined, hens and pigs drowned, it was possible some people had died, Father Exuperio wanted to make a novena to avert disaster from the village, Amelinha’s wedding would have to be put off, Se Sao’s wife had lost her baby, they said it was to have been born in a few days’ time, and Mariana wondered how anyone could lose a baby even before it had been born, and it was night again, the wide kitchen in Uncle Inhaim’s house was full of people, everyone was talking about the flood and the journey.
‘What an idea – you aren’t really going?’
The old woman looked down at the logs in the stove, saw her daughter who already had so many children of her own, put her hands together, said again what she had said so many times before, and Mariana, the elder of the two granddaughters, was to remember years later what Granny Catarina had said that night, the black skin wrinkled round her lips, her eyes shining in the firelight as the coffee heated on the stove.
‘I must go back and I want to take my daughter and my grandchildren. I left there more than fifty years ago, my uncle sold me. I lived in Abeokuta, I went on a visit to Lagos, my uncle had already sold me to some men, he took me to them. I was eighteen, I wanted to go to Lagos so much, but why did I go? As soon as I arrived my uncle gave me to the men, they put me in a ship, after a long time I arrived in Bahia, I was sold and since then I have never left Piau.’
There was a pause. It seems there was a pause.
‘Now I want to go back. There are no more slaves here, Uncle Inhaim will help me, I have saved a bit of money and I have got a bit more from all the blacks on the plantations round here. Now I want to go back and take my daughter, who was born here, and my grandchildren.’
‘But how can a few women and children go by themselves all that way?’
Mariana had gone to sleep in her mother’s arms, a comfortable warmth came from the stove, her grandmother talked for a while about the journey, then stopped and thought, she saw the Piau brimming and remembered the River Ogun, the canoe had gone downstream and she had felt her face burning, drops of sweat had fallen on to the wood of the boat and she did not turn round to look at her home for the last time but how was she to know that that was goodbye and who knows when the last time comes? She saw the green again, the green came back but it was green half awash, green with green water, she felt as if she had seen nothing but green on that voyage down to Lagos, the boatman caught hold of leafy branches in his hand, there was green in the bottom of the boat in the water that washed over her feet, it had been a delight to move her feet in the water and at each bend in the river the green which her granddaughter Mariana was to know one day rose up like a great wall in front of her and shut out all but a glimpse of the sun so that she could see nothing beyond the banks of the river.
The next morning some of the children caught fish with sticks, the girl went too, the water came up to her knees, she had a piece of stick in her hand, you just had to watch for the fish jumping and hit it and it floated, her brother and sister couldn’t come, Emilia was five and Antônio was three, how could they have managed in all that mud, clumps of grass and reeds up out of the water in long green lines which the wind shook leaving ripples in the stream. The flood and the journey would always be linked in Mariana’s memory, one happened just after the other, and I feel that all her earlier memories had been lost, perhaps because the flood and the journey did not allow anything beyond themselves to have any power, and however much I call on her memories she cannot push aside the curtain made by the two realities of the flood and the journey.
The times of the flood was full of images, one after the other, all clear-cut, Mariana had been to see the bridge which had fallen down, the river had swept away the brick support in the middle where the wooden crossbeams rested, the waters broke violently against what was left of the bricks, a dead ox had been carried down the stream and had caught on a stone, they said the body of the ox would have to be freed otherwise there would be the most terrible smell, children played with bits of the wrecked bridge, they made toy bridges over the rivulets of flood-water that were running into the torrent, there was a feeling of holiday, like in May, little stalls in front of the church, the young girls crowning Our Lady, fighting was also part of the flood because it was just by the bridge that Mariana saw the two men going for each other like madmen, their feet raising up clouds of dust, people shouting, they moved them away because they had knives and there could have been a killing, another picture of the flood was a herd of animals swimming across the river, there were lots of donkeys and horses, the man who went ahead of them lost his hat and it fell into the river, the horses made a great noise swimming and came out streaming with water, some people laughed, they thought the hat disappearing was funny, delicious corn cakes were given out at night, and gossip about the flood lulled the children to sleep.
(…).

________________

Fonte: OLINTO, Antônio. The Water House. Translated by Dorothy Heapy. Rex Collings. London, 1970. p. 1-5





Bio fornecida pelo palestrante.

Poemas




Ismália


Alphonsus Guimaraens

Cuando Ismália enloqueció
Subió a la torre a soñar…
Una luna vio en el cielo,
Otra luna vio en el mar.
En su sueño se bañaba
En la claridad lunar…
Quería subir al cielo,
Quería bajar al mar.
En la torre deliberaba
Y se ponía a cantar…
Estaba cerca del cielo,
Estaba lejos del mar.
Y como un ángel alzaba
Las alas para volar…
Quería la luz del cielo,
Quería la luz del mar…
Las alas que Dios le daba
Se abrían de par en par…
Su alma subía al cielo,
Su cuerpo caía al mar.
Rosas
Rosas que pronto fuisteis deshojadas
Por manos que también se fueron, rosas
Suaves y tristes y que las amadas,
Muertas también, besaron amorosas…
Rojas, vanas, tal vez ya marchitadas,
Mas llenas del calor de las hermosas,
Sois aroma de alfombras silenciosas
Donde duermen las trenzas destrenzadas.
Unas blancas cual monjas en clausura
O encendidas y llenas de frescura,
¡ Rosas tempranas, rosas postrimeras!
Nada mejo, cuando el dolor perdura,
Para premiarme, rosas pasajeras:
Sueño que se diluye en desventura.
La Catedral
Entre brumas lejanas, surge la aurora,
Cristalino el rocío que se evapora,
Muriente el arrebol.
La catedral ebúrnea de mis ensueños
Se ve bajo un pacífico cielo risueño
Toda blanca de sol.
Y la campana dobla en fúnebres responsos:
“¡ Pobre Alphonsus! ¡Pobre Alphonsus!”
El sol glorioso sigue su alba jornada.
Una saeta áurea destella en cada
Blanco rayo de luz.
La catedral ebúrnea de mis ensueños:
Mis ojos se reposan en su diseño
Que bendice Jesús.
Y la campana dobla en fúnebres responsos:
“¡ Pobre Alphonsus! ¡Pobre Alphonsus!”
Entre lirios y lilas, palmas y brezos,
Agoniza la tarde: amargos rezos
Va la luna a rezar.
La catedral ebúrnea de mis ensueños
Se entristece en un triste cielo pequeño
Bajo la luz lunar.
Y la campana dobla en fúnebres responsos:
“¡ Pobre Alphonsus! ¡Pobre Alphonsus!”
Cielo en tinieblas, viento ululante,
Cabellera del rayo que amenazante
Herir mi rostro quiere.
La catedral ebúrnea de mis ensueños
Se hunde en un cielo horrísono de torvo ceño
Como un astro que muere.
Y la campana dobla en fúnebres responsos:
“¡ Pobre Alphonsus! ¡Pobre Alphonsus!”
Responsorium
Alma que tuvo quien recordara su vida
En esta tierra innoble donde todo se olvida:
Requiescat in pace.
Cuerpo esperando en vano que llegase el Mesías,
Rosa autumnal que nunca amor encendería:
Requiescat in pace.
Ojos que se apagaron sin que pecado hubiesen,
Aras de los martirios que a la luna florecen:
Requiescat in pace.
Labios que en este mundo fueron para los besos
La luz espiritual que alargaba los rezos:
Requiescat in pace.
Beso, fruto estival, primicia en su semblante
Que evocó la promesa de mieses abundantes:
Requiescat in pace.
Cabellera, un ocaso que entre nieves ardía,
Nubes dispersar cuando la tarde anochecía:
Requiescat in pace.
Alma que tuvo quién recordara su vida
En esta tierra innoble donde todo se olvida:
Requiescat in pace.

_________________
Fonte: GUIMARAENS, Alphonsus de. Poemas. Presentación
y traducción de Washington Delgado. Lima: Centro de Estudios Brasileños,
1980. p. 29, 41, 71, 73, 75.

POESIA

Ismália


Alphonsus de Guimaraens

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Rosas
Rosas que já vos fostes desfolhadas
Por mãos também que já se foram, rosas
Suaves e tristes! rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas…
Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias de calor das amorosas,
Sois aroma de alfombras silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.
Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço e de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!
Ai! quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?
A Catedral
Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.
E o sino canta em lúgubres responsos:
“ Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.
E o sino clama em lúgubres responsos:
“ Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.
E o sino chora em lúgubres responsos:
“ Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
E o sino geme em lúgubres responsos:
“ Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
Responsorium
Alma que teve quem dela se recordasse
Na ignóbil terra infiel onde tudo se esquece:
Requiescat in pace.
Corpo a esperar que o Noivo-Esperado chegasse,
Rosa autunal que o sol do Amor não mais aquece:
Requiescat in pace.
Olhar que se apagou sem que nunca pecasse,
Ciliciado Altair que entre luares floresce:
Requiescat in pace.
Lábio que dera a quem neste mundo a beijasse
A luz espiritual de uma longínqua prece:
Requiescat in pace.
Beijo, fruto estival que lhe floriu na face,
Evocador de tão prometedora messe:
Requiescat in pace.
Cabelo, pôr-do-sol que entre neves brilhasse,
Nuvem dispersa além quando a tarde anoitece:
Requiescat in pace.
Alma que teve quem dela se recordasse
Na ignóbil terra infiel onde tudo se esquece:
Requiescat in pace.

___________________
Foyhnte: GUIMARAENS, Alphonsus. Poemas. Presentación
y traducción de Washington Delgado. Lima: Centro de Estudios Brasileños,
1980. p. 28, 40, 70, 72, 74.





Bio fornecida pelo palestrante.

EXPEDIÇÃO MONTAIGNE




Autor: Antônio Callado
Título: EXPEDIÇÃO MONTAIGNE, EXPÉDITION MONTAIGNE
Idiomas: port/fra
Tradutor: Jacques Thiériot
Data: 23/12/2004

EXPEDIÇÃO MONTAIGNE

CAPÍTULO X

Antônio Callado

Desde a morte de Maria Jaçanã ninguém mais tinha procurado Ieropé para fumigação, massagem, receita, conselho, consolação e nem mesmo papo, companhia, mexerico, nada, como se ele, feito a Jaçanã, já tivesse morrido e sido enterrado na beira da lagoa. O único sentimento que ele ainda parecia capaz de despertar era o da suspeita, da desconfiança, não alguma suspeita de susto e medo, como ele inspirava, e gostava de inspirar, antigamente, e que se devia a suas ligações evidentes, profissionais mesmo, com o mundo dos espíritos, dos mortos, com alma dos que adormecem pra sempre e que está ainda sem pouso certo. Ele tinha sido quando moço homem de grandes có1eras e cegas iras que levantavam até as pálpebras dele, redondas e hirtas feito batoque de pau de beiço de suiá, e, quando se passavam muitos dias nem nada enraivecer ele, Ieropé de repente fingia que estava furioso e aterrava a aldeia inteira, pra não perder o pique e o respeito geral entre os vivos e entre as almas também, que, amedrontadas, ficavam mais dóceis, mais submissas, boas de arregimentar, aperfeiçoar, na medida do possível, e trancar de novo, em seres de concepção recente. Gostava de dominar e até de humilhar, naquele tempo, as almas experientes, ávidas de atividade, mandonas, mas sem membros, no momento, sem ferramentas, e de pôr ordem entre as almas rebeldes, preguiçosas ou apenas brincalhonas, que, em lugar de aceitarem logo nova encarnação, achavam engraçado cair na vagabundagem, atormentando os vivos ou se divertindo à custa deles, pregando sustos, se enfiando em cana de taquaras pra gemer feito flauta, ou, o que era mais grave, invadindo pessoas ainda vivas e ocupadas, que ficavam assim com duas almas, o que quando não dava em doidice visível dava em bobeiras sem razão e extravagâncias.

Agora, sem a veneração e o pavor dos vivos, Ieropé sentia que as almas de folga, disponíveis, começavam também a não ligar pra ele, ao ponto de, durante um tempo, terem passado a obedecer muito mais ao aprendiz que ele tinha tido, o menino Javari, muito talentoso e severo na lida com alma destrambelhada e metida a valente e emancipada. Mas o que balançava mesmo de vez a oca e a cuca de Ieropé no abandono em que ele vivia – e que ele quase aceitava, como alguma treda tramóia de Maivotsinim, que estava, Ieropé achava que era isso, fazendo ele ficar sozinho, sem ninguém, pra ele poder pensar e pensar o tempo todo e resolver como é que ela ia, com feitiços, destrançar Fodestaine, desmanchar a vida que ele tinha vivido – era, em primeiro lugar, aquela guerra do filho e parentes da Maria Jaçanã. O filho, em vida dela, não ligava pra ela e cuidava tão bem dela quanto da puta que pariu, mas agora vivia dizendo que Ieropé tinha matado ela porque não tinha dado a ela penicilina, como se depois de aparecer essa merda de penicilina do Fodestaine ninguém mais que tomasse penicilina tivesse morrido no mundo inteiro. E ainda tinha o pessoal da BR-080, com aquela conversa de que a morte do albino branco-aço, colega deles, que era cor-de-rosa mas tinha alcunha de Baio, não ficava assim não, que eles não tinham visto a hora que ele levou a cacetada mas sabiam que quem tinha dado a cacetada tinha sido o pajé. Tinha, sim, tinha sido o pajé e com uma bordunada na cabeça do Baio que não era de ninguém botar defeito ou pedir penicilina pra racha não, mas certeza, certeza ninguém tinha que tinha sido ele e o Baio bem que merecia, correndo atrás de tudo que era indiazinha camaiurá saidinha da escuridão do resguardo, e…

Mas o velho pajé tudo agüentava porque sabia que estava protegido por todos os cantos, por três forças de três almas de três mortos que ele tinha resolvido hospedar e guardar: um tuxaua, um lutador de huka que nunca tinha sido pego pela perna e nem nunca tinha deitado no pó do terreiro, e um pajé, que atendia pelo nome de Kutumapu, tão poderoso que não dava a confiança de dar ordem aos homens e às mulheres, só se entendendo, quando eles estavam dormindo, com as almas deles, que saíam dos corpos e vinham fazer beiju pra ele e depois colocavam a vontade dele, pajé, dentro dos corpos, quando voltavam. Pois essas forças prisioneiras de Ieropé sabiam que, no albino branco-aço chamado Baio, Ieropé tinha tido o aviso que aguardava, da terceira vinda de Fodestaine, que não era albino, nem branco-brasileiro, era lourão mesmo, mas o Baio até que tinha parecido louro, visto pela frincha da pálpebra pesada do pajé. E era aviso, lá isso era, e se ele tivesse tempo de pensar e pensar como queria e como Maivotsinim mandava, ia saber destrançar o tempo, desmanchar, desfazer, desfiar até chegar diante de Fodestaine e não deixar nem permitir que ele tivesse tido o descaramento de acontecer.

(…).

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Fonte: Callado, AntonioA Expedição Montaigne: romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 53-56.

EXPÉDITION MONTAIGNE

Chapitre X

Antônio Callado

Depuis la mort de Maria Jaçanan, personne n’avait plus recouru à Iéropé pour une fumigation, un massage, une prescription, un conseil, une consolation, ni même une converse, une compagnie, un cancan, rien, comme si lui, pareil que la Jaçanan, était, déjà mort et enterré au bord du lac. Le seul sentiment qu’apparemment il était encore susceptible de susciter, c’était la suspicion, la méfiance, mais ce n’était plus la suspicion provoquée par la crainte et la peur qu’autrefois il inspirait, et aimait inspirer, et due à ses liens évidents, professionnels même, avec l’âme de ceux qui dorment pour toujours, avec les âmes qui n’ont pas encore trouvé leur asile définitif.

Dans sa jeunesse, Iéropé avait été un homme porté à de grandes colères et des fureurs aveugles qui allaient jusqu’à lui exorbiter les paupières, rondes et roides comme les rondelles de bois dont les Souïas s’incrustent la lippe, et quand plusieurs jours s’écoulaient sans que rien ne le mêt en rogne, il feignait soudain d’être furieux et terrorisait tout le village, pour ne pas perdre son allant non plus que le respect général aussi bien des vivants que des âmes qui, épeurées, devenaient plus dociles, plus soumises, faciles à enrégimenter, à perfectionner, dans la mesure du possible, et à enfermer de nouveau dans des êtres récemment conçus. Il aimait dominer, et même humilier, à cette époque, les âmes expérimentées, avides d’activité, autoritaires, mais sans membres, pour le moment sans attributs, et également imposer l’ordre parmi les âmes rebelles, paresseuses ou simplement espiègles qui, au lieu d’accepter d’emblée une nouvelle incarnation, trouvaient amusant de se laisser aller au vagabondage, tourmentant les vivants ou se divertissant à leurs dépens, leur fichant la frousse, s’enfilant dans des tiges de bambou pour gémir comme une flûte, ou bien encore, circonstance aggravante, envahissant des personnes encore vivantes et déjà habitées qui du coup se retrouvaient avec deux âmes, ce qui provoquait chez ces personnes, sinon une insanité manifeste, du moins des lubies et des extravagances.

A présent, privé de la vénération et de la peur des vivants, Iéropé subodorait que les âmes désoeuvrées, disponibles, commençaient à leur tour à ne plus se soucier de lui, la meilleure preuve c’était que durant un certain temps, elles s’étaient mises à obéir à son apprenti de l’époque, le jeune Javari, plein de talent et de sévérité dans l’art de se colleter avec les âmes écervelées, fanfaronnes et émancipées. Mais ce qui faisait vaciller pour de bon la paillote et la jugeote d’Iéropé dans l’abandon où il vivait – et qu’il acceptait presque, comme une traîtresse manigance de Maïvotsinim, oeuvrant, se figurait Iéropé, pour qu’il se retrouve tout seul, sans personne, à devoir penser et repenser sans arrêt, à décider comment est-ce qu’il allait, grâce à ses sortilèges, détortiller Foutestaine, démantibuler la vie qu’il avait vécue – c’était, au premier chef, cette foutue guerre que lui faisaient le fils et la parentèle de Maria Jaçanan. Le fils, quand elle était encore en vie, ne s’occupait pas d’elle et s’en foutait de son sort, mais maintenant il passait son temps à dire que Iéropé l’avait tuée parce qu’il ne lui avait pas donné de pénicilline, comme si après l’apparition de cette saloperie de pénicilline de Foutestaine plus personne qui en aurait pris ne serait mort dans le monde entier. Et par-dessus le marché Iéropé avait sur le dos les ouvriers de la nationale BR-80 qui répandaient que la mort d’un de leurs copains, un albinos à la peau rose mais surnommé le Bai, ça n’allait pas se passer comme ça, ils n’avaient pas vu l’heure où il s’était dégusté son coup de casse-tête mais ils savaient bien que çui qui l’avait donné, le coup de casse-tête, ç’avait été le pajé. Effectivement, le pajé était l’auteur du coup, un coup impeccable qui avait si bien fendu la cafetière du Bai que même la pénicilline ne l’aurait pas ramené à la vie, mais dire qu’on était sûr et certain que ç’avait été le sorcier personne ne pouvait et après tout le Bai n’avait eu que ce qu’il méritait, à force de cavaler aux trousses de toutes les petites Indiennes camaïouras qui s’esbignaient de l’obscurité de leur retraite rituelle et…

Mais le vieux pajé supportait tout parce qu’il se sevait protégé par les trois forces de trois âmes de trois morts qu’il avait décidé d’accueillir et de garder : un chef de tribu, un lutter de houka-houka qui n’avit jamais été empoigné par la jambe ni renversé dans la poussière de la lice, et un pajé, qui répondait au nom de Koutoumapou, si puissant que, se méfiant de donner des ordres aux hommens et aux femmes, il n’avait de commerce, pendant leur sommeil, qu’avec leurs âmes : celles-ci sortaient des corps et venaient lui offrir des cassaves et ensuite mettaient ses volontés de pajé dans ces corps, quand elles y retournaient. En effet, ces forces captives de Iéropé savaient que par l’intermédiaire de l’albinos surnommé le Bai Iéropé avait reçu l’avertissement qu’il attendait, celui de la troisième venue de Foutestaine qui n’était ni albinos ni blanc-brésilien mais parfaitement blond, car le Bai déjà, vu à travers la fente des paupières lourdes du pajé, pouvait passer pour blond. C’était un avertissement, à n’en pas douter, et s’il avait le temps de ressasser ses pensées comme le voulait et l’ordonnait Maïvotsinim, il saurait détortiller le temps, le démantibuler, le défaire, le défiler jusqu’à tant qu’il se retrouve face à Foutestaine, à qui il devait défendre, interdire d’avoir eu l’outrecuidance d’exister.

(…).

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Fonte : Callado, AntonioExpédition Montaigne : roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris : Presses de la Renaissance, 1989. p. 55-58.





Bio fornecida pelo palestrante.

SEMPREVIVA




Autor: Antônio Callado
Título: SEMPREVIVA
Idiomas: port/ita/fra
Tradutor: Vicenzo Barca(ita), Thiériot(fra)
Data: 23/12/2004

SEMPREVIVA

Capítulo 2

Antonio Callado

Antes de sair do quarto, mão direita já na maçaneta da porta, Quinho, espalmando a mão esquerda, olhou, como era de seu hábito, a cicatriz de um talho do dias de menino, quando limpava, para fazer um bodoque, uma forquilha de goiabeira. Depois, por um segundo, olhou, como se fosse um objeto estranho, sua outra mão, fechada sobre a maçaneta, sacudiu a cabeça, impaciente consigo mesmo, e abriu a porta, assumindo um ar resoluto de homem prático para ir, no sonolento, deserto refeitório da pensão, ao encontro de Pepe.
Postado à mesa diante de uma garrafa de vinho, Pepe – tristes bigodões de salgueiro de beira-rio, de guias tão compridas e cadentes que pareciam mirar, com certa intencionalidade, os canos das botas que o boliviano calçava – começou logo a falar, como se não tivesse interrompido a conversa da véspera, macia, emoliente, destinada a convencê-lo de que passar a fronteira era para ele, Quinho, nada mais do que a visita, a volta à casa paterna, o abrir da velha cancela, do portão de outrora, familiar, acolhedor. Enquanto isso Quinho, sorvendo da xícara um café quente, amargo, via com uma poeirenta clareza que ela própria não tinha, a estrada, o caminho boliviano, aquele cordão de umbigo esticado no chão e que levava ao portão, à gruta das grades e hastes de ferro.
— Pode entrar tranqüilo com seu cartão de identidade, mesmo velho, mesmo caducado. Entre não como quem chega, ou retorna, e sim como se tivesse vindo passar, em Puerto Suárez, umas horas apenas, para comprar um litro de uísque, um canivete suíço, um chapéu panamá. Entre com um ar despreocupado, malandro, que sua pinta é bem brasileira, não podia ser mais, com esse tom morenito de pele, olho castanho, cabelo preto, metro e setenta, entre firme, rapaz, pise forte, a casa é sua.
Como Quinho continuasse soprando e bebendo devagar o café, Pepe se levantou, pediu a Quinho que se pusesse de pé um instante, e deu-lhe a volta, observando-o de perto, quase a medi-lo, feito um alfaiate provando roupa no cliente.
— A única coisa que você devia perder é esse ar meio nervoso, os, se me permite, trejeitos, feito isso de olhar a palma da mão esquerda e de passar de vez em quando o dedo pelo colarinho, feito quem usa gravata e sente a pressão no pescoço.
— Pois é, disse Quinho, colocando a xícara de mau jeito no pires, o que a fez tombar, e pondo-a de novo de pé, com exagerado cuidado, é que eu de fato usava gravata, até outro dia, até trasanteontem, para ser preciso, e a gente custa a cancelar um gesto assim, adquirido com o tempo, e com a gravata, naturalmente. E agora pense e me diga: eles não podem inferir por aí, pelo meu tique, que se eu usava gravata, como aliás meu pescoço branco também atesta, e se ninguém a usa em Corumbá, ou aqui, que eu venho de outras terras e portanto devia apresentar um passaporte de verdade, ou pelo menos um documento direito, com todos os selos e datas?…
— Qual o quê, tira isso do juízo que eu conheço todos os funcionários que estão hoje de serviço na barreira, um deles é até meu afilhado de batismo, moço ainda e já é influente na aduana. Não tem nada que ele goste menos – e os outros, nem se fala – do que de papel esquisito, Nações Unidas, bossa-nova, que eles têm que telefonar para saber se vale, se é aquilo mesmo. Os melhores documentos que você trouxe estão aí, na bagagem de mão, os isqueirinhos franceses, os cigarros americanos, um ou outro charuto Montecristo, esses agradinhos que não chegam, nem de longe, a ter cheiro de suborno, e que eu, para fechar a rosca da sua travessia, vou reforçar com um punhado de garrafinhas de uísque, miniaturas, chamadas. Bota as miniaturas na sacola e pé na carreteira, rapaz, que a hora assim da tardinha, da sesta, é a melhor, pois estão todos com preguiça. Não quer um gole de vinho?
— Não, gracias, disse Quinho, como se estivesse empenhado em dividir, idiomática e tordesilhescamente, aquela terra lindeira, ibérica. E emborcou uma primeira miniatura de uísque, virando bem a cabeça para trás, como quem morde um bombom de licor e tem medo de melar a roupa, e, quase sem abaixar a cabeça, destorceu a tampinha da segunda miniatura e bebeu. Olhou depois, fixamente, a palma da mão esquerda, esperando que os dois imensos goles se transubstanciassem, fazendo saltar do velo talho, armado dos pés à cabeça, um voluntário da pátria, um lanceiro ébrio de bravura.
— Agora, vá, disse Pepe, que está ficando tarde, e de qualquer forma, para o que der e vier, aviso minha sobrinha, observação esta, afinal, que Quinho não entendeu, ou, aflito mas sentindo o prenúncio de miniaturizadas alquimias dentro de si mesmo, entendeu como uma forma displicente de despedida, um pouco-se-me-dá de quem, afinal, tinha ganho a parada e soltava a frase meio burlona que um caçador feliz poderia ter dito ao macuco já caçado e fechado, por cadarço e correia, no embornal.
(…)

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Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva. São Paulo, Círculo do Livro, 1981.

SEMPREVIVA

Capitolo 2

Antonio Callado

Prima di uscire dalla stanza, con la mano destra già sulla maniglia della porta, per abitudine Quinho guardò, sul palmo della mano sinistra, la cicatrice de un taglio che si era fatto da bambino, raschiando una forcella di goiabeira per costruirsi una fionda. Poi, per un secondo, guardò, come se fosse un oggeto estraneo, l’altra sua mano, richiusa sulla maniglia, scosse la testa, impaziente con se stesso, e aprí la porta, assumendo un’aria decisa da uomo pratico per andare, nel sonnacchioso e deserto refettorio della pensione, a incontrare Pepe.

Seduto a un tavolo davanti a una bottiglia di vino, Pepe – i tristi baffoni da salice piangente sul lungofiume, dalle punte cosí lunghe e cadenti che parevano contemplare, con una certa intenzionalità, i gambali degli stivali che il boliviano calzava – attacò subito a parlare, come se avesse interrotto il discorso dal giorno prima, morbido, emolliente, destinato a convincerlo che passare la frontiera rappresentava per lo stesso Quinho nient’altro che una visita, un ritorno alla casa paterna, e che il vecchio cancelo, il portone di un tempo si sarebbe aperto, familiare, accogliente. Nel frattempo Quinho, sorbendo dalla tazza un caffè bollente, amaro, vedeva, con la polverosa chiarezza che non aveva, la strada, il camino boliviano, quel cordone ombelicale steso a terra e che conduceva al portone, alla grotta chiusa da grate e sbarre di ferro.

– Puoi tranquillamente entrare con la tua carta d’identità, anche se è vecchia e scaduta. Entra non come uno che arriva, o torna, ma come se fossi venuto a passare solo qualche ora a Puerto Suárez, per comprare un litro di whisky, un coltellino svizzero, un panama. Entra con l’aria disinvolta, un po’ guappa, tanto hai una faccia che piú brasiliana non si può, con quel tono scuretto della pelle, quegli occhi castani, i capelli neri e il tuo metro e settanta, entra sicuro, ragazzo, a passo fermo, sei a casa tua.

Siccome Quinho continuava a soffiare e a bere lentamente il suo caffè, Pepe si alzó, chiese a Quinho di alzarsi in piedi un istante e gli girò intorno, osservandolo da vicino, quasi per misurarlo, come un sarto che prova un vestito al cliente.

– L’unica cosa che dovresti perdere è quell’aria un po’ nervosa, quelle mosse, se mi consenti, tipo quella di guardarti il palmo della mano sinistra e di passarti ogni tanto il dito nel colletto, come uno che sente la pressione della cravatta sul collo.

– Va bene – disse Quinho, posando maldestramente la tazza sul piattino, facendola cadere e rimettendola di nuovo in piedi con esagerata cura – il fatto è che io portavo davvero la cravatta fino all’altro giorno, fino all’altroieri per essere precisi, e si fa fatica a cancellare un gesto cosí, acquisito col tempo, e con la cravatta ovviamente. E adesso rifletti e dimmi: non potrebbero dedurre da questo mio tic che, se io portavo la cravatta, come del resto attesta il mio colle bianco, e se nessuno la porta né qui né a Corumbá, significa che vengo da fuori e che quindi dovrei esibire un passaporto vero, o per lo meno un documento preciso, con tutti i timbri e le date?…

– Macché, levatelo dalla testa, conosco tutti gli impiegati che oggi fanno servizio alla sbarra, uno l’ho perfino tenuto a battesimo, è ancora un ragazzo ma è già influente in dogana. Non c’è niente che lo mandi piú in bestia – e figurati gli altri! – di quei pezzi di carta strani, Nazioni Unite e palle varie, ogni volta devono telefonare per sapere se sono in regola e cose del genere. I migliori documenti ce li hai lí nel tuo bagaglio a mano, gli accendini francesi, le sigarette americane, qualche sigaro Montecristo, robetta cosí che nemmeno da lentano odora di corruzione e che io, tanto per tagliare la testa al toro, rinforzerò con una manciata di bottigliette di whisky, di mignon, come le chiamano. Metti le mignon nello zaino e via, in marcia, perché questa della siesta è l’ora migliore, battono tutti la fiacca. Non vuoi un bicchiere di vino?

– No, gracias – disse Quinho, come se fosse impegnato, idiomaticamente e tordesillescamente, a dividere quella terra limitrofa, iberica. E trangugiò una prima mignon di whisky, buttando la testa all’indietro, come uno che morde una caramella al liquore e ha paura di infrittelarsi il vestito, e, quasi senza abbassare la testa, svitò il tappino della seconda bottiglietta e trincò. Si mise poi a fissare il palmo della mano sinistra, aspettando che i due enormi sorsi si transustanziassero, facendo venir fuori dal vecchio taglio, armato da capo a piedi, un volontario della patria, un lanciere ebbro di ardimento.

– Adesso vai, – disse Pepe – si sta facendo tardi, e a ogni modo e per ogni evenienza avviso mia nipote – osservazione finale questa, che Quinho non capí o per meglio dire, demoralizzato, ma sentendo dentro di sé il preannuncio di alchimie mignon, capí come una forma antipatica di congedo, un poco-mi-frega di chi, alla fine, aveva vinto il suo giro e buttaba lí un po’ per celia la frase che un cacciatore felice avrebbe potuto dire al merlo già preso e messo nel sacco, legato come si deve.

(…).

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Callado, AntonioSempreviva. Traduzione di Vicenzo Barca. Roma: Biblioteca Del Vascello, 1994. p. 17-19.

SEMPREVIVA

2

Antonio Callado

Avant de quitter la chambre, la main droite déjà sur la poignée de la porte, Quinho, dans la paume de sa main gauche ouverte, regarda, comme il en avait l’habitude, la cicatrice d’une estafilade qui datait de l’enfance, du jour où il écorçait, pour en faire un lance-pierres, une fourche de goyavier. Ensuite, juste une seconde, il regarda aussi, comme si c’était un objet bizarre, son autre main, refermée sur la poignée, hocha la tête, s’impatientant lui-même, et il ouvrit la porte, arborant un air résolu d’homme pragmatique, pour se rendre dans la somnolente salle à manger deserte de la pension, y rencontrer Pepe.
Assis à une table devant une bouteille de vin, Pepe – moustaches tristes de saule pleureur, aux crocs silongs et si tombants qu’ils paraissaient regarder, avec une certaine intentionnalité, les tiges des bottes que chaussait le Bolivien – se mit à parler d’emblée, comme s’il n’avait pas interrompu la conversation de la veille, moelleuse, émolliente, destinée à le convaincre que passer la frontière n’était pour lui, Quinho, rien de plus qu’une visite, le retour à la Maison paternelle, ouvrir la vieille grille du jardin, le portail d’autrefois, familier, accueillant. Tandis qu’il parlait, Quinho, tout en buvant à petits coups um café brûlant, amer, voyait, avec une clarté empoussierée qu’elle n’avait pas, la route, le chemin bolivien, ce cordon ombilical qui s’étirait sur le sol et qui conduisait au portail, à la grotte fermée de grilles et de hampes de fer.
— Tu peux entrer tranquillement avec ta carte d’identité, même ancienne, même perimée. Entre non pas comme quelqu’un qui arrive, ou revient, mais comme si tu étais venu passer, à Puerto Suarez quelques heures seulement, pour acheter un litre de whisky, um couteau suisse, un panama. Entre avec ton air désinvolte, un peu voyou, de Brésilien bon teint, pas une touche à rajouter à ce ton bruin de tap eau, tes yeux marron, tes cheveux noirs, ton mètre soixante-dix, entre sans hésiter, mon garçon, tu es chez toi.
Comme Quinho continuait de souffler et de sitorer son café, Pepe se leva, lui demanda de se lever également un instant, et il se mit à tourner autour de lui, l’observant de près, on aurait dit qu’il prenait ses mesures, comme un tailleur qui essaie un vêtement sur un client.
— La seule chose que tu devrais perdre, c’est ton air inquiet, ces, si tu me permets, ces tics, par exemple de regarder ta main gauche et de te passer de temps en temps un doigt à l’intérieur du col, comme quelqu’un qui met une cravate et qui se sent le cou serre.
— Vous avez raison, dit Quinho – en reposant si maladroitement as tasse sur la soucoupe qu’elle se renversa, et après l’avoir remise d’aplomb, avec un soin exagere –, c’est que, il est vrai, je mettais une cravate, jusqu’à l’autre jour, il y a trois jours, pour être précis, et ce n’est pas facile de perdre l’habitude d’um geste acquis avec le temps, et avec la cravate, naturellement. Mais maintenant, réfléchissez et dites-moi: ils ne peuvent tout de meme pas conclure, à cause de ce tic, que si j’ai toujours mis une cravate, la pâleur de mon cou du reste suffirait à l’attester, alors qu’ici, ou à Corumbá, personne n’en porte, cela signifie que je viens d’autres pays et que par conséquent je devrais leur présenter un vrai passeport, ou du moins un document légal, avec tous les tampons et dates voulus?…
— Allons donc, ne t’em fais pas, moi je connais tous les douaniers qui sont de service aujourd’hui à la barrière, même que l’un d’eux est mon fillieul, il est encore jeune, mais il a déjà le brás long à la douane. Ce qui lui plaît le plus – les autres, n’em parlons pas –, c’est ce qui sort de l’ordinaire, Nations Unies, bossa nova, ce qui les oblige à téléphoner pour savoir si c’est okay. Comme papiers, tu ne pouvais pas mieux apporter que ceux que tu as là, dans ton bagage à main, caickets français, cigarettes américaines, quelques cigares Montecristo, bref, ces petites gâteries qui n’achètent personne, tant s’em faut, et à quoi moi, pour encore mieux arranger ton passage, je vais rajouter une poignée de petites bouteilles de whisky, des miniatures, ça s’appelle. Allez mon garçon, mets-moi ces miniatures dans ta sacoche et le pied sur la route, en début d’après-midi, à l’heure de la sieste, c’est le meilleur moment, vu qu’ils ont tous plutôt envie de roupiller. Tu ne veux pas un petit coup de pinard?
— Non, gracias, dit Quinho, comme s’il avait le souci de partager linguistiquement et dans l’esprit du traité de Tordesillas cette terre limitrophe, ibérique. Et il lampa une première miniature de whisky, en renversant bien la tête en arrière, comme qui mord dans un bonbon à la liqueur et craint de poisser ses vêtements, et, sans même redresser la tête, dévissa la capsule d’une deuxième miniature qu’il but de même. Puis il regarda, fixement, la paume de sa main gauche, attendant la transsubstiation des deux culs sécs, qui ferait s’élancer de la vieille estafilade, arme de pied en cap, un Volontaire de la Patrie, un lancier ivre de bravoure.
— Et maintenant, pars, dit Pepe, avant qu’il ne soit trop tard, de toute façon, pour parer à toute éventualité, je préviens ma nièce – et cette observation, la dernière, Quinho, ne la comprit pas, ou bien alors, désemparé mais ressentant au plus profond de lui-même l’annonce d’alchimies miniaturisées, il la comprit et la prit pour la manière je-m’en-foutiste de l’envoyer se faire voir ailleurs, de lui dire c’est plus mês vignons, gu’affecte celui qui a reússi son coup et lâche la phrase mi-sarcastique qu’um heureux chasseur pourrait dire à l’oiseau déjà capture et enfermé, lacs et rets l’enserrant, «dans lê sac».
(…)

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Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva: Roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris, Presses de la Renaissance, 1985, p. 19-22

 





Bio fornecida pelo palestrante.

GAETANINHO




GAETANINHO

Brás, Bexiga e Barra Funda

Antônio de Alcântara Machado

– Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford.
O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho! Vem prá dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
– Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Êta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO. Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza rapaz! Dentro do carro o pai os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Caetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queria ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar mas a tia Filomena com a mania de cantar o “Ahi, Mari!” todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, Seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
– Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
– Meu pai deu uma vez na cara dele.
– Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a noticia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.
CARMELA
Dezoito horas e meia. Nem mais um minuto porque a madama respeita as horas de trabalho. Carmela sai da oficina. Bianca vem ao seu lado.
A Rua Barão de Itapetininga é um depósito sarapintado de automóveis gritadores. As casas de modas (AO CHIC PARISIENSE, SÃO PAULO-PARIS, PARIS ELEGANTE) despejam nas calçadas as costureirinhas que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras.
– Espia se ele está na esquina.
– Não está.
– Então está na Praça da República. Aqui tem muita gente mesmo.
– Que fiteiro!
O vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde. Braços nus, colo nu, joelhos de fora. Sapatinhos verdes. Bago de uva Marengo maduro para os lábios dos amadores.
– Ai que rico corpinho!
– Não se enxerga, seu cafajeste? Português sem educação!
Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado, que reflete a boca reluzente de carmim primeiro, depois o nariz chumbeva, depois os fiapos de sobrancelha, por último as bolas de metal branco na ponta das orelhas descobertas.
Bianca por ser estrábica e feia é a sentinela da companheira.
– Olha o automóvel do outro dia.
– O caixa-d’óculos?
– Com uma bruta luva vermelha.
O caixa-d’óculos pára o Buick de propósito na esquina da praça.
– Pode passar.
– Muito obrigada.
Passa na pontinha dos pés. Cabeça baixa. Toda nervosa.
– Não vira para trás, Bianca. Escandalosa!
Diante de Álvares de Azevedo (ou Fagundes Varela) o Ângelo Cuoco de sapatos vermelhos de ponta afilada, meias brancas, gravatinha deste tamanhinho, chapéu à Rodolfo Valentino, paletó de um botão só, espera há muito com os olhos escangalhados de inspecionar a Rua Barão de Itapetininga.
– O Ângelo!
– Dê o fora.
Bianca retarda o passo.
Carmela continua no mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não houvesse nada. Só que sorri.
– Já acabou o romance?
– A madama não deixa a gente ler na oficina.
– É? Sei. Amanhã tem baile na Sociedade.
– Que bruta novidade, Ângelo! Tem todo domingo. Não segura no braço!
– Enjoada!
Na Rua do Arouche o Buick de novo. Passa. Repassa. Torna a passar.
– Quem é aquele cara?
– Como é que eu hei de saber?
– Você dá confiança para qualquer um. Nunca vi, puxa! Não olha pra ele que eu armo já uma encrenca!
Bianca rói as unhas. Vinte metros atrás. Os freios do Buick guincham nas rodas e os pneumáticos deslizam rente à calçada. E estacam.
– Boa tarde, belezinha…
– Quem? Eu?
– Por que não? Você mesma…
Bianca rói as unhas com apetite.
– Diga uma cousa. Onde mora a sua companheira?
– Ao lado de minha casa.
– Onde é sua casa?
– Não é de sua conta.
O caixa-d’óculos não se zanga. Nem se atrapalha. É um traquejado.
– Responda direitinho. Não faça assim. Diga onde mora.
– Na Rua Lopes de Oliveira. Numa vila. Vila Margarida no 4. Carmela mora com a família dela no 5.
– Ah! Chama-se Carmela… Lindo nome. Você é capaz de lhe dar um recado?
Bianca rói as unhas.
– Diga a ela que eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua… na…. atrás da Igreja de Santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também pode ficar em casa.
– Barbeirinho nada! Entregador da Casa Clark!
– É a mesma cousa. Não se esqueça do recado. Amanhã, as oito horas, atrás da igreja.
– Vá saindo que pode vir gente conhecida.
Também o grilo já havia apitado.
– Ele falou com você. Pensa que eu não vi?
O Ângelo também viu. Ficou danado.
– Que me importa? O caixa-d’óculos disse que espera você amanhã de noite, às oito horas, no Largo Santa Cecília. Atrás da igreja.
– Que é que ele pensa? Eu não sou dessas. Eu não!
– Que fita, Nossa Senhora! Ele gosta de você, sua boba.
– Ele disse?
– Gosta pra burro.
– Não vou na onda.
– Que fingida que você é!
– Ciao.
– Ciao.
Antes de se estender ao lado da irmãzinha na cama de ferro Carmela abre o romance à luz da lâmpada de 16 velas: Joana a Desgraçada ou A Odisséia de uma Virgem, fascículo 2.0
Percorre logo as gravuras. Umas tetéias. A da capa então é linda mesmo. No fundo o imponente castelo. No primeiro plano a íngreme ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada louca o fogoso ginete. Montado no ginete o apaixonado caçula do castelão inimigo de capacete prateado com plumas brancas. E atravessada no cachaço do ginete a formosa donzela desmaiada entregando ao vento os cabelos cor de carambola.
Quando Carmela reparando bem começa a verificar que o castelo não é mais um castelo mas uma igreja o tripeiro Giuseppe Santini berra no corredor:
– Spegni la luce! Subito! Mi vuole proprio rovinare questa principessa!
E – raatá! – uma cusparada daquelas.
– Eu só vou até a esquina da Alameda Glette. Já vou avisando.
– Trouxa. Que tem?
No Largo Santa Cecília atrás da igreja o caixa-d’óculos sem tirar as mãos do volante insiste pela segunda vez:
– Uma voltinha de cinco minutos só… Ninguém nos verá. Você verá. Não seja má. Suba aqui.
Carmela olha primeiro a ponta do sapato esquerdo, depois a do direito, depois a do esquerdo de novo, depois a do direito outra vez, levantando e descendo a cinta. Bianca rói as unhas.
– Só com a Bianca…
– Não. Para quê? Venha você sozinha.
– Sem a Bianca não vou.
– Está bem. Não vale a pena brigar por isso.
– Você vem aqui na frente comigo. A Bianca senta atrás.
– Mas cinco minutos só. O senhor falou…
– Não precisa me chamar de senhor. Entrem depressa.
Depressa o Buick sobe a Rua Viridiana.
Só pára no Jardim América.
Bianca no domingo seguinte encontra Carmela raspando a penugenzinha que lhe une as sobrancelhas com a navalha denticulada do tripeiro Giuseppe Santini.
– Xi, quanta cousa pra ficar bonita!
– Ah! Bianca, eu quero dizer uma cousa pra você.
– Que é?
– Você hoje não vai com a gente no automóvel. Foi ele que disse.
– Pirata!
– Pirata por quê? Você está ficando boba, Bianca.
– É. Eu sei porquê. Piratão. E você, Carmela, sim senhora! Por isso é que o Ângelo me disse que você está ficando mesmo uma vaca.
– Ele disse assim? Eu quebro a cara dele, hein? Não me conhece.
– Pode ser, não é? Mas namorado de máquina não dá certo mesmo.
Saem à rua suja de negras e cascas de amendoim. No degrau de cimento ao lado da mulher Giuseppe Santini torcendo a belezinha do queixo cospe e cachimba, cachimba e cospe.
– Vamos dar uma volta até a Rua das Palmeiras, Bianca?
– Andiamo.
Depois que os seus olhos cheios de estrabismo e despeito vêem a lanterninha traseira do Buick desaparecer, Bianca resolve dar um giro pelo bairro. Imaginando cousas. Roendo as unhas. Nervosissima.
Logo encontra a Ernestina. Conta tudo à Ernestina.
– E o Ângelo, Bianca?
– O Ângelo? O Ângelo é outra cousa. E pra casar.
– Há!…
____
Fonte: Alcântara Machado, Antônio de. “Gaetaninho”. In: —. Brás, Bexiga e Barra Funda.





Bio fornecida pelo palestrante.

MACÁRIO




MACÁRIO

 

(Prólogo para a peça de teatro)

 

Álvares De Azevedo

 
 
… e o gênio traz sempre um sinal que se reconhece em toda a parte (e em qualquer tempo) — uma auréola na fronte que brilha sob todos os firmamentos, uma senha e um ataque Iramita que se traduz em todas as línguas.

Álvares de Azevedo

No ceticismo do Candide voltaireano, depois do ultimo soluço há o abafamento bochorral do nada, a treva do não-ser.

Álvares de Azevedo

MACÁRIO

Criei para mim algumas idéias teóricas sobre o drama. Algum dia, se houver tempo e vagar, talvez as escreva e dê a lume.
O meu protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego — a forca das paixões ardentes de Shakespeare, de Marlowe e Otway, a imaginação de Calderon de la Barca e Lope de Vega, e a simplicidade de Esquilo e Eurípedes — alguma coisa como Goethe sonhou, e cujos elementos eu iria estudar numa parte dos dramas dele  — em Goetz de Berlichingen, Clavijo, Egmont, no episódio da Margarida de Faust — e a outra na simplicidade ática de sua Ifigênia. Estudá-lo-ia talvez em Schiller, nos dois dramas do Wallenstein, nos Salteadores, no D. Carlos: estudá-lo-ia ainda na Noiva de Messina com seus coros, com sua tendência à regularidade.
É um tipo talvez novo, que não se parece com o misticismo do teatro de Werner, ou as tragédias teogônicas de OEhlenschläger e ainda menos com o de Kotzebue ou o de Victor Hugo e Dumas.
Não se pareceria com o de Ducis, nem com aquela tradução bastarda, verdadeira castração do Otelo de Shakespeare, feita pelo poeta sublime do Chatterton, o conde Vigny. — Quando não se tem alma adejante para emparelhar com o gênio vagabundo do autor de Hamlet, haja ao menos modéstia bastante para não querer emendá-la. Por isso o Otelo de Vigny é morto. É uma obra de talento, mas devia ser um rasgo de gênio.
Emendá-lo? pobres pigmeus que querem limar as monstruosidades do Colosso! Raça de Liliput que queria aperfeiçoar os membros do gigante — disforme para eles — de Gulliver!
E digam-me: que é o disforme? há ai um anão ou um gigante? Não é assim que eu o entendo. Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir-se ardente — mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações-cadáveres, como a pilha galvanica as fibras nervosas do morto!
Não: o que eu penso é diverso. É uma grande idéia que talvez nunca realize. É difícil encerrar a torrente de fogo dos anjos decaídos de Milton ou o pantano de sangue e lágrimas do Alighieri dentro do pentametro de mármore da tragédia antiga. Contam que a primeira idéia de Milton foi fazer do Paraíso Perdido uma tragédia — um mistério — não sei o quê: não o pôde; o assunto transbordava, crescia; a torrente se tornava num oceano. É difícil marcar o lugar onde pára o homem e começa o animal, onde cessa a alma e começa o instinto  — onde a paixão se torna ferocidade. É difícil marcar onde deve parar o galope do sangue nas artérias, e a violência da dor no cranio. —  Contudo, deve haver e o há — um limite às expansões do ator, para que não haja exageração, nem degenere num papel de fera o papel de homem. O Pobre Idiota tem esse defeito entre mil outros. A cena do subterraneo é interessante, mas é de um interesse semelhante àquele que excitava o Jocko ou o homem das matas — aquele macaco representado por Morietti que fazia chorar a platéia.
O Pobre Idiota representa o idiotismo do homem caído na animalidade. O ator fez o papel que devia —  não exagerou — , representou a fera na sua fúria, — uma fera, onde por um enxerto caprichoso do imitador de Hauser havia um amor poético por uma flor — e uma estampa!
A vida e só a vida! mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sanguenta — eis o drama. Se eu escrevesse, se minha pena se desvairasse na paixão, eu a deixaria correr assim. Iago enganaria o Mouro, trairia Cássio, perderia Desdêmona e desfrutaria a bolsa de Rodrigo. Cássio seria apunhalado na cena. Otelo sufocaria sua Veneziana com o travesseiro, escondê-la-ia com o cortinado quando entrasse Emília: chamaria sua esposa  — a whore — e gabar -se -ia de seu feito. O honest, most honest Iago viria ver a sua vítima, Emília soluçando a mostraria ao demônio; o Africano delirante, doido de amor, doido de a ter morto, morreria beijando os lábios pálidos da Veneziana. Hamlet no cemitério conversaria com os coveiros, ergueria do chão a caveira de Yorick, o truão; Ofélia coroada de flores cantaria insana as balatas obscenas do povo: Laertes apertaria nos braços o cadáver da pobre louca. Orlando no What you will penduraria suas rimas de Rosalinda nos arvoredos dos Cevennes. Isto seria tudo assim.
Se eu imaginasse o Otelo, seria com todo o seu esgar, seu desvario selvagem, com aquela forma irregular que revela a paixão do sangue. É que as nódoas de sangue quando caem no chão não têm forma geométrica. As agonias da paixão, do desespero e do ciúme ardente quando coam num sangue tropical não se derretem em alexandrinos, não se modulam nas falas banais dessa poesia de convenção que se chama — conveniências dramáticas.
Mas se eu imaginasse primeiro a minha idéia, se a não escrevesse como um sonambulo, ou como falava a Pitonisa convulsa agitando-se na trípode, se pudesse, antes de fazer meu quadro, traçar as linhas no painel, fálo-ia regular como um templo grego ou como a Atália, arquétipa de Racine.
São duas palavras estas, mas estas duas palavras têm um fim: é declarar que o meu tipo, a minha teoria, a minha utopia dramática, não é esse drama que aí vai. Esse é apenas como tudo que até hoje tenho esboçado, como um romance que escrevi numa noite de insônia  — como um poema que cismei numa semana de febre  — uma aberração dos princípios da ciência, uma exceção às minhas regras mais íntimas e sistemáticas. Esse drama é apenas uma inspiração confusa — rápida —  que realizei à pressa como um pintor febril e trêmulo.
Vago como uma aspiração espontanea, incerto como um sonho; como isso o dou, tenham-no por isso.
Quanto ao nome, chamem-no drama, comédia, dialogismo:  —  não importa. Não o fiz para o teatro: é um filho pálido dessas fantasias que se apoderam do cranio e inspiram a Tempestade a Shakespeare, Beppo e o IX Canto de D. Juan a Byron; que fazem escrever Anunciata e O Conto de Antônia a quem é Hoffmann ou Fantasio ao poeta de Namouna.

 

 





Bio fornecida pelo palestrante.

NOITE NA TAVERNA




NOITE NA TAVERNA 

I

 

UMA NOITE DO SÉCULO

Bebamos! nem um canto de saudade!

Morrem na embriaguez da vida as dores!

Que importam sonhos, ilusões desfeitas?

Fenecem como as flores!

José Bonifácio

 

Álvares de Azevedo

– Silêncio, moços! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?
– Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold – o louro, cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que música mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lampada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?
– És um louco, Bertram! não é a lua que lá vai macilenta: e o relampago que passa e ri de escárnio as agonias do povo que morre… aos soluços que seguem as mortalhas do cólera!
– O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lampada da vida na lanterna do cranio?
– Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonambulo?
– É o Fichtismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!
– Oh! vazio! meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?
– O vinho acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos! Após os vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! A taverneira ai nos trouxe mais vinho: uma saúde! O fumo e a imagem do idealismo, e o transunto de tudo quanto ha mais vaporoso naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da alma! e pois, ao fumo das Antilhas, a imortalidade da alma!
– Bravo! bravo!
Um urrah! tríplice respondeu ao moço meio ébrio.
Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastavam-lhe com as faces de moço as rugas da fronte e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os cabelos prateava-se-lhe o reflexo das luzes do festim. Falou:
– Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma!? pobres doidos! e porque a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal posse tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra? Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e por que também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! não mil vezes! a alma não é como a lua, sempre moça, nua e bela em sue virgindade eterna! a vida não e mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu a creia um pouco; pelo platonismo, não!
– Solfieri! és um insensato! o materialismo é árido como o deserto, é escuro como um túmulo! A nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida, a nós sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crenças frias? A nós os sonhos do espiritualismo.
– Archibald! deveras, que é um sonho tudo isso! No outro tempo o sonho da minha cabeceira era o espírito puro ajoelhado no seu manto argênteo, num oceano de aromas e luzes! Ilusões! a realidade é a febre do libertino, a taça na mão, a lascívia nos lábios, e a mulher seminua, trêmula e palpitante sobre os joelhos.
– Blasfêmia! e não crês em mais nada? teu ceticismo derribou todas as estátuas do teu templo, mesmo a de Deus?
– Deus! crer em Deus!?… sim! como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo, nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós! Na jangada do náufrago, no cadafalso, no deserto, sempre banhado do suor frio do terror e que vem a crença em Deus! Crer nele como a utopia do bem absoluto, o sol da luz e do amor, muito bem! Mas, se entendeis por ele os ídolos que os homens ergueram banhados de sangue e o fanatismo beija em sua inanimação de mármore de há cinco mil anos… não creio nele!
– E os livros santos?
– Miséria! quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: aí há folhas inspiradas pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou, como a humanidade inteira ajoelhada sobre os túmulos do passado nunca mais lembrará! Mas, quando me falarem em verdades religiosas, em visões santas, nos desvarios daquele povo estúpido, eu vos direi: miséria! miséria! três vezes miséria! Tudo aquilo é falso: mentiram como as miragens do deserto!
– Estás ébrio, Johann! O ateísmo é a insania como o idealismo místico de Schelling, o panteísmo de Spinoza – o judeu, e o esoterismo crente de Malebranche nos seus sonhos da visão em Deus. A verdadeira filosofia e o epicurismo. Hume bem o disse: o fim do homem é o prazer.
Daí vede que é o elemento sensível quem domina. E pois ergamo-nos, nos que amanhecemos nas noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.
– Bem! muito bem! é um toast de respeito!
– Quero que todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no: Ao Deus Pã da natureza, aquele que a antigüidade chamou Baco o filho das coxas de um deus e do amor de uma mulher, e que nos chamamos melhor pelo seu nome – o vinho!…
– Ao vinho! ao vinho!
Os copos caíram vazios na mesa.
– Agora ouvi-me, senhores! entre uma saúde e uma baforada de fumaça, quando as cabeças queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho, como os braços do carniceiro no cepo gotejante, o que nos cabe é uma historia sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos como Hoffmann os delirava ao clarão dourado do Johannisberg!
– Uma história medonha, não, Archibald? falou um moço pálido que a esse reclamo erguera a cabeça amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança do passado.
– Solfieri! Solfieri! aí vens com teus sonhos!
– Conta!
Solfieri falou: os mais fizeram silêncio.
 
 

II

 

SOLFIERI

…Yet one kiss on your pale clay

And those lips once so warm — my heart! my heart!

Cain. Byron

 
 
– Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença!
– Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de… As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. – A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela… e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insania: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo…
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão…
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite…
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados… Era uma defunta! … e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida… – Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo…
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, “do cadáver sem cabeça e o homem sem coração”, como a conta Brantôme? – Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de ambar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso – cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Aquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados… Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela… Nesse instante ela acordou…
Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta.
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
– Que levas aí?
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
– É minha mulher que vai desmaiada…
– Uma mulher!… Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
– É uma defunta…
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. – Era a vida ainda.
– Vede, disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo… o punhal já estava nu em minhas mãos frias…
– Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.
Caminhei. – Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço.
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo…
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto, e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insania, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim… Não houve como sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano – noite a noite – dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo…
– Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?
– E quem era essa mulher, Solfieri?
– Quem era? seu nome?
– Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
– Solfieri, não é um conto isso tudo?
– Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro – guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Hei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
– Vede-la murcha e seca como o cranio dela!

______________________

Fonte: AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna. In: Noite na Taverna / Macário. Rio de Janeiro: Editora Três, 1973. p.





Bio fornecida pelo palestrante.

OBRAS POÉTICAS




OBRAS POÉTICAS


Alvarenga Peixoto

A EL REI D. DINIZ, FUNDADOR DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
« O pai da pátria, imitador de Augusto
Liberal Alexandre…» Ia adiante,
Quando uma imagem se me pôs presente,
A cuja vista me gelei de susto.
Mostrava no semblante pio e justo
Raios brilhantes do Empírio luzente,
Porém os olhos, como descontente,
Em mim cravava com bastante custo.
– « Nem de Alexandre nem de Augusto quero
Os nomes; sou Diniz » – me disse apenas
Com gesto melancólico e severo.
Levou-me às praias do Mondego amenas,
e, depondo o semblante grave e austero,
Riu-se e mostrou-me a portuguesa Atenas.
ODE AOS TRABALHOS DE HÉRCULES
Tarde Juno zelosa
Vê Júpiter, o Deus onipotente,
Em Alcmena formosa
Ter Hércules; e tanto esta dor sente,
que, em desafogo à pena,
Trabalhos mil de Jove ao filho ordena.
Manda-lhe, enfurecidas,
Duas serpentes logo ao berço terno,
Criadas e nascidas
No infernal furor do estígio
Mas nada surte efeito,
Se um sangue onipotente anima o peito;
Nas mãos o forte infante
Despedaça as serpentes venenosas
E fica triunfante
Das ciladas mortais e furiosas,
Que Juno lhe ordenava
Quando ele a viver mal começava.
Cresce, e a cruel madrasta,
Que, sempre nos seus danos diligente,
A vida lhe contrasta,
Ou que viva em descansos não consente,
Faz com que, vagabundo,
Corra, sempre em trabalhos, todo o mundo.
Aqui lhe põe, irada,
De diversas cabeças a serpente,
Que em briga porfiada
Trabalha por troncar inutilmente:
Divide-as, mas que importa,
Se outras tantas lhe nascem quantas corta?
Enfim, por forca e arte,
Este monstro cruel deixa vencido,
Que já em outra parte
Trabalhos lhe tem Juno apercebido,
Tais que eu não sei dizê-los,
Mas pode o peito de Hércules sofrê-los
Triunfando e vencendo,
Fazendo-se no mundo mais famosos,
A Terra toda enchendo
De seu heróico nome gloriosos,
No templo da Memória
Gravou o Non plus ultra a sua gloria.
A JOSÉ BASÍLIO DA GAMA, AUTOR DO POEMA O URAGUAI
Entro pelo Uruguai: vejo a cultura
Das novas terras por engenho claro;
Mas chego ao templo majestoso, e paro
Embebido nos rasgos da pintura.
Vejo erguer-se a República perjura
Sobre alicerces de um domínio avaro;
Vejo distintamente, se reparo,
De Caco usurpador a cova escura,
Famoso Alcides, ao teu braço forte
Toca vingar os cetros, e os altares:
Arranca a espada, descarrega o corte.
E tu, Termindo, leva pelos ares
A grande ação; já que te coube em sorte
A gloriosa parte de a cantares.
A BÁRBARA HELIODORA
Bárbara bela
Do Norte estrela
Que o meu destino
Sabes guiar.
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Por entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar.
Porém não vejo
Mais que o desejo
Sem esperança
De te encontrar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar.
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Tu entre os braços
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar.
Priva-me a estrela
De ti e dela;
Busca dois modos
De me matar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
SONETO ESCRITO NO CÁRCERE
Não me aflige do potro a viva quina;
Da férrea mão o golpe não me ofende;
Sobre as chamas a mão se não estende;
Não sofro do agulhete a ponta fina.
Grilhão pesado os passos não domina;
Cruel arrocho a testa me não fende;
À forla perna ou braço se não rende;
Longa cadeia o colo não me inclina.
Água e pomo faminto não procuro;
Grossa pedra não cansa a humanidade;
O pássaro voraz eu não aturo.
Estes males não sinto; é bem verdade;
Porém sinto outro mal inda mais duro;
– Sinto da esposa e filhos a saudade!
____________________
Fonte: PEIXOTO, Alvarenga. Obras poéticas. Introdução e notas de Domingos Carvalho da Silva. Rio de Janeiro: ABL, 1998. p. 51-57 ; 111-113 ; 131-132.

1 Este soneto saiu pela primeira vez na edição de JNSS (1865) e pertence, como o anterior, à época da juventude do poeta, ainda sob a influência dos estudos de história clássica e literatura latina. Já que JNSS nada informou sobre a procedência destes versos, adota-se aqui o texto proposto, com base em manuscritos, por R. Lapa. A palavra «Empíreo» quebra o ritmo do sexto verso. É possível que Alvarenga tenha usado «Empireu», como usou «nivéis» na ode «Retrato». Nicolau Tolentino rimou «Pegáso» com «Parnaso» e Silva Alvarenga, «ibero» com «Cerbéro».
2 Foi esta ode localizada na Biblioteca do Porto por R. Lapa, que a publicou na Vida e obra de Alvarenga Peixoto e, em uma nota, insinuou o título aqui adotado. O texto denuncia a fase de preparação do poeta, que, dos doze trabalhos de Hércules, cuidou de dois apenas.
3 Este soneto foi publicado com O Uruguai em 1769 e teve a assinatura de Inácio José de Alvarenga Peixoto. Foi a primeira poesia impressa, do autor. Alcides, um dos nomes de Hércules, é provavelmente uma representação metafórica de Gomes Freire de Andrada, que tinha comandado as tropas portuguesas na guerra contra a «República perjura» dos jesuítas.
O texto acama reproduz fielmente o que foi impresso na edição de 1769 do O Uruguai.
4 Esta lira foi publicada pela primeira vez por Elias Matos (Miscelânea poética ou coleção de poesias diversas de autores escolhidos, Rio, 1853) sob a rubrica de De Inácio José de Alvarenga, estando preso, a sua mulher. Nas Obras poéticas (1865), de JNSS, lê-se: A D. Bárbara Heliodora – sua esposa – remetida do cárcere da Ilha das Cobras. R. Lapa (1960) suprimiu o título, afirmando: «não é admissível que a lira fosse composta na prisão». Como o poeta se refere apenas à «filha amada» e como em 1784 já era nascido o seu filho Eleutério, deve a lira ter sido escrita antes daquele ano, provavelmente em 1782, ano em que Alvarenga Peixoto poderá ter ido a Vila Rica para assistir às núpcias do tenente-coronel Freire de Andrada. Isto é só uma hipótese, mas aceitável.
O texto acima (da lira) reproduz o da Miscelânea com a adição do H etimológico de Heliodora. O Amor do estribilho é Cupido e por isso está aqui com inicial maiúscula.
5 Este soneto foi publicado pela primeira vez por JNSS (Obras poéticas, 1865) sob o titulo de «A Saudade – Ouvindo na Cadeia Pública do Rio de Janeiro a sua Sentença de Morte». R. Lapa (Vida e obra de Alvarenga Peixoto, 1960) repetiu-lhe o texto com alterações no último verso. E observou que o poeta: «naquele momento de desgraça, não soube encontrar os acentos de dor que se poderiam esperar do seu gênio poético.» Uma leitura atenta do texto mostra porém que Lapa se equivocou. Alvarenga – a ser dele o soneto… – não fala de desgraça, nem da morte ou da forca iminente; ao contrário, nega ter sido vítima das torturas que enumera e, sobre elas, diz claramente: «Estes males não sinto, é bem verdade.» A ser de Alvarenga Peixoto o soneto, ele o escreveu, certamente, no cárcere, mas muito antes de ouvir a sentença condenatória de18 de abril de1792.
O texto do soneto reproduz fielmente o de 1865.





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O MULATO




Autor: Aloísio de Azevedo
Título: O MULATO, DER MULATTE
Tradutor: Michael O. Güsten
Data de entrada no site: 23/12/2004

O MULATO

I

Aloísio de Azevedo

Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de S. Luiz do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quasi que se não podia sahir à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampeões faiscavam ao sol corno enormes diamantes; as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das arvores nem se mexiam; as carroças d’agoa passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os predios; e os aguadeiros, em mangas de camiza e pernas arregaçadas, invadiam sem ceremonia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava, concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.

A praça d’Alegria apresentava um ar funebre. De um casebre miseravel, de porta e janella, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de urna rede e uma voz tisica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a « gentil Carolina era bella »; d’outro lado da praça, uma preta velha, vergada por immenso taboleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancolico: « Figado, rins e coração! » Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pelle crestada, os ventrezinhos amarellentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sahir, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapeu de sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irasciveis. Mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de S. Pantaleão, ouvia-se apregoar: « Arroz de Veneza! Mangas! Mocajubas! » As esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e agoardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu immenso e espalmado pé descalço. Da praia de Santo Antonio enchiam toda a cidade os sons invariaveis e monotonos de uma busina, annunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quasi todas negras, muito gordas, o taboleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris tremulos e as tetas opulentas.

A Praia-Grande e a rua da Estrella contrastavam todavia com o resto da cidade, porque era aquella hora justamente a de maior movimento commercial. Em todas as direcções cruzavam-se homens esbofados e rubros; cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os paletós saccos, de brim pardo, mosqueados nas espaduas e nos sovacos par grandes manchas de suor. Os correctores de escravos examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as verilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes com a biqueira do chapeu nos hombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, corno se estivessem a comprar cavallos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazens, entre pilhas de caixões de ceboulas e batatas portuguezas, discutiam-se o cambio, o preço do algodão, a taxa do assucar, a tarifa dos generos nacionaes; volumosos commendadores resolviam negócios, faziam transações, perdiam, ganhavam, tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negocios, fallando n’uma gíria só delles, trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade. Os leitoeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento affectado de vogaes; diziam: «Mal rais » em vez de mil reis. A’ porta dos leilões agglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zum-zum de feira.

O leiloeiro tinha piscos d’olhos significativos; de martello em punho, enthusiasmado, o ar tragico, mostrava com o braço erguido um calice de cachaça, ou, comicamente acocorado, esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho. E, quando chegava a occasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas vezes, gritando, e afinal batia o martello com grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado e estridente.

Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabelladas, gotejando suor por debaixo do chapeu de pello; risinhos de protecção, boccas sem bigode dilatadas pelo color, perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo. E toda esta actividade, posto que um tanto fingida, era geral e communicativa; até os ricos ociosos, que iam para ali encher o dia, e os caixeiros, que « faziam cera » e até os proprios vadios desempregados, apparentavam diligencia e promptidão.

A varanda ao sobrado de Manoel Pescada, uma varanda larga e sem forro no tecto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas, tinha um aspecto mais ou menos pittoresco com a sua bella vista sobre o rio Bacanga e as suas rotulas pintadas de verde-Paris. Toda ella abria para o quintal, estreito e longo, onde, a mingoa de sol, se mirravam duas tristes pitangueiras e passeiava solemnemente um pavão da terra.

As paredes, barradas de azulejos portuguezes e, para o alto, cobertas de papel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assumptos de caça, alguns logares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam à idéa joelheiras de calças surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho almario de jacarandá polido, muito bem tratado, com as vidraças bem limpas, expondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia, esquecida na sua caixa de pinho envernisado, uma machina de costura de Wilson, das primeiras que chegaram ao Maranhão; nos intervallos das portas symetrisavam-se quatro estudos de Julien, representando em lithographia as estações do anno; defronte do guarda-louça um relogio de corrente embalava melancolicamente a sua pendula do tamanho de um prato e apontava para as duas horas. Duas bolas da tarde.

Não obstante, ainda permanecia sobre a mesa a louça que servira ao almoço. Uma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa, scintillava à claridade reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janellas desse lado, chilreava um sabiá.

Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom morno e aprazivel. Havia a quietação dos dias inuteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens oppostas do rio, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar bôas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as arvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.

– Então, Anna Rosa, que me respondes?… disse Manoel, esticando-se mais na cadeira em que se achava assentado, à cabeceira da mesa; em frente da filha. Bem sabes que te não contrario… desejo este casamento, desejo… mas, em primeiro logar, convém saber se elle é do teu gosto… Vamos… falla!

Ana Rosa não respondeu e continuou muito embebida, como estava, a rolar sob a ponta côr de rosa dos seus dedos as migalhas de pão que ia encontrando sobre a toalha.

(…).

____

Fonte: Azevedo, Aluísio. O Mulato. 5a ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1927. p. 9-13.

DER MULATTE

1

Aluísio de Azevedo

DER TAG WAR SCHWÜL UND LANGWEILIG. Wie betäubt lag die armselige Stadt São Luiz do Maranhão* in der Hitze. Kaum konnte man die Strassen betreten; die Pflastersteine glühten; silbrig flimmerten die Mauern, und die Fenster und Strassenlampen gleissten in der Sonne wie riesige Diamanten. An den Bäumen bewegte sich kein Blatt. Alle Augenblicke schepperten Wasserkarren vorüber, dass die Häuser erbebten. In Hemdsärmeln und mit aufgekrempelten Hosen gingen die Wasserträger in die Häuser, um Badewannen und Kannen zu füllen. Dann war wieder keine Seele auf der Strasse zu sehen. Die Bewohner der Stadt hatten sich zurückgezogen und schliefen. Nur die Sklaven kauften für das Mittagessen ein oder gingen ihrer Arbeit nach.

Die Praça da Alegria bot einen trostlosen Anblick. Aus Tür und Fenster einer elenden Hütte drang das Seufzen verrosteter Hängemattenringe. Eine Frau sang mit schwindsüchtiger, flötender Falsettstimme eine Volksweise. Auf der anderen Seite des Platzes pries eine alte Negerin mit schleppender, melancholischer Stimme „Leber, Herz, Nieren” an. Von einer FIiegenwolke umschwirrt, gebeugt unter der Last eines schweren Brettes, schmutzig und blutverschmiert, ging sie über den Platz. Kreischend liefen nackte Kinder hinter aufsteigenden Drachen her. Sie hatten versengte Haut und von der Sonne gerötete Gesichter, ihre Bäuche waren aufgequollen und die Beine krumm von der Sitte, auf dem Rücken der Mutter zu reiten. Hin und wieder überquerte ein Weisser unter einem grossen Sonnenschirm schweissnass und rot vor Hitze die Strasse. Auf den Treppen lagen Hunde. Sie gaben Laute von sich, die menschlichen Seufzern glichen, und schnappten nach den Mücken. Von São Pantaleão drangen Rufe herüber: ,,Venezianischer Reis! Mangofrüchte! Mocajubas!” Aus den leeren Marktbuden an den Ecken quoll scharfer Seifen- und Branntweingeruch. Ein Budenbesitzer hockte auf dem Ladentisch, duselte vor sich hin und kraulte seinen grossen, nackten Plattfuss. In der ganzen Stadt hörte man den eintönigen, gleichmässigen Laut des Signalhorns in Santo Antonio, das die Rückkehr der Fischer vom Meer verkündete.

Eilig und begierig strömten die Fischweiber dorthin. Sie trugen Tablette auf dem Kopf und waren fast alle schwarz und dick. Ihre fetten Hüften und schweren Brüste wabbelten.

An der Praia Grande und in der Rua da Estrêla sah es ganz anders aus als in der übrigen Stadt. Dort herrschte gerade zu dieser Tageszeit reges geschäftliches Treiben. Aus allen Richtungen kommend, strömten in diesem Teil der Stadt ausser Atem geratene Männer, Neger auf Karren und Kommis zusammen. Dort herrschten sackartige Jacken aus dunklem Segeltuch vor, die auf dern Rücken und unter den Achseln durchgeschwitzt waren. Sklavenmakler untersuchten in der grellen Sonne Neger und Negerknaben, die zum Verkauf angeboten wurden. Sie musterten Zähne, Füsse und Schamteile, stellten Fragen über Fragen, beklopften mit der Schirmspitze Hüften und Schenkel und betasteten die Muskeln, als ginge es um einen Pferdekauf. Im Stadthaus, unter den Mandelbäumen oder vor den Ladentüren zwischen aufgetürmten Kisten mit Zwiebeln und portugiesischen Kartoffeln debattierte man über den Börsenkurs, über die Baumwollpreise, die Zuckersteuer und den Tarif der einheimischen Waren. Dicke Händler machten Geschäfte, strichen Gewinne ein oder buchten Verluste und versuchten, einander übers Ohr zu hauen, wobei sic derbe Scherzworte in ihrer Gaunersprache tauschten: doch alles ging freundschaftlich und vertraulich vor sich. Auktionäre verkündeten lauthals den Preis ihrer Waren. Um sie scharten sich Kauflustige und Neugierige. Auf dem Markt ging es laut und lebhaft zu.

Der Auktionär blinzelte bedeutsam. Den Hammer in der Hand, wies er grossspurig und theatralisch ein Schnapsg1as vor. Oder er prüfte, komisch zusammengekauert, mit einem Locheisen die Maniokund Maiskörbe. Sobald sich ein Geschäft dem Abschluss näherte, wiederholte er viele Male, markerschütternd singend und schreiend, den Preis und schlug am Ende dröhnend mit dem Hammer auf den Tisch.

Auf dem Platz sah man die schweren, fetten Leiber der Kapitalisten, sah man erhitzte, schweissglänzende, zerfahrene Gesichter unter Sonnenschirmen und vor Hitze aufgesperrte Münder, sah man rastlose, schwitzende Beine in Hamburger Tuchhosen, hörte man gönnerhaftes Auflachen. Überall war Geschäftigkeit, sie ergriff alle, wiewohl mancher sie nur vorgab. Doch selbst die reichen Faulenzer, die nur hierherkamen, um die Zeit totzuschlagen, die Kommis, die nur schwatzten, und die Armen, die keine rechte Arbeit hatten, schienen sich eifrig und fleissig zu betätigen.

Die geräumige Veranda am Hause Manuel Pescadas bot einen recht malerischen Anblick. Sie hatte keine Deckenverschalung, so dass die Balken und Sparren zu sehen waren, auf denen die Dachziegel ruhten. Man hatte von hier eine herrliche Aussicht auf den Bacangafluss. Die Jalousien waren in Pariser Grün gehalten. Die Veranda führte auf einen langen, schmalen Garten, in dem zwei Myrtenbäume mangels Sonnenlichts kümmerten und ein Pfau feierlich einherstolzierte.

Die Wände waren mit bunten portugiesischen Fliesen ausgelegt. Sic zeigten Jagdszenen, unterbrocben von einigen farblosen Stellen, die fleckiges Papier verdeckte, so dass sie nun als weissblonde Flecken wie ausgebeulte, verblichene Hosen aussahen. Auf der einen Seite stand neben einem Tisch ein alter, guterhaltener Schrank aus Jakarandaholz, hinter dessen blankgeputzten Scheiben Porzellan und Silbergerät modernen Geschmacks glänzten. In der einen Ecke schlief in einem Kasten aus lackiertem Fichtenholz vergessen eine Wilson-Nähmaschine, eine der ersten ihrer Art, die nach Maranhão gekommen war. An der Wand zwischen den Türen hingen, symmetrisch geordnet, Lithografien, die vier Jahreszeiten darstellend. Dem Geschirrschrank gegenüber schwang eine Standuhr melancholisch ihr tellergrosses Pendel. Es war zwei Uhr nachmittags. Trotzdem stand auf dem Tisch ein Frühstücksgedeck. In einer Karaffe mit einem Rest Lissabonner Weins spiegelte sich das Licit aus dem Garten wider. Zwischen den Fenstern auf dieser Seite hing ein Käfig, in dem eine Sabiá zwitscherte.

Hier fühlte man sich wohl. Vom Bacanga her wehte ein frischer Lufthauch, es war angenehm kühl. Hier war die Ruhe müssiger Tage. Man war müde und hatte den Wunsch, die Augen zu schliessen und die Beine auszustrecken. Drüben, am anderen Ufer des Flusses, lud die in tiefem Schweigen liegende Vegetation zum Ausruhen ein im Sand unter den Mangobäumen, die von fern aussahen, als riefen sie mit offenen Armen die Menschen in die stille Kühle ihrer Schatten.

„Nun, Ana Rosa, was antwortest du mir?” fragte Manuel und rekelte sich auf seinem Stuhl am Kopfende des Tisches. Vor ihm sass seine Tochter. ,,Du weisst doch, dass ich nur dein Bestes will. Ich wünsche diese Heirat, ich will sie… Aber zunächst möchte ich wissen, ob du einverstanden bist. Nun… Sprich!”

Ana Rosa antwortete nicht. Sic drehte Brotkrumen über dem Teller.

(…).

_____

Fonte: Azevedo, Aluizio. Der Mulatte. Aus dem Portugiesischen von Michael O. Güsten. Berlim: Verlag Volk und Welt, 1964. p. 5-9.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

A MULHER MADURA: CRÔNICAS




A MULHER MADURA: CRÔNICAS

 
 

Affonso Romano de Sant’Anna

 
 
A mulher madura
 
 
O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou deAnouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distancia entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relampago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
 
 
Fazer 30 anos
 
 
QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.
Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.
Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.
Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.
Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.
Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.
Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.
Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.
Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.
Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.
Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
 
 
Nem com uma flor
 
“Até hoje só bati numa mulher, mas com singular delicadeza.”

Vinícius de Moraes

 
 
UM AMIGO ia passando pela Avenida Atlantica quando viu um homem batendo numa mulher dentro de um carro estacionado. Resolveu parar e chamar a polícia. Mas iam passando pelo calçadão dois garotões atléticos que vendo o tumulto pararam também para saber. Meu amigo então lhes explica que o sujeito estava batendo na mulher.
-Mas a mulher não é dele? – indagou o garotão.
-E só porque é dele pode bater? – diz o amigo.
-É, nessa você me pegou, cara.
Nesta semana a OAB descobriu que em Imperatriz, no Maranhão, nos últimos cinco anos, maridos mataram 30 mulheres. Mas o fizeram por uma razão muito clara: não queriam pagar pensão nem partilhar os bens na separação. Diante desta estatística da terra de Sarney, os machos da terra de Tancredo ficam humilhados, porque eles só matam mulher por “traição”, e, mesmo assim, em menor escala.
Mas vou lhes contar outra estória: uma amiga estava em São Paulo numa conversa sobre espancamento de mulheres. De repente, falou-se de um conhecido professor que havia espancado a mulher (coisa, aliás, que acontece em várias faculdades do país). Reparem bem, estamos falando de gente fina. Não se trata de cachaceiros na subida do morro, do sujeito massacrado pela vida que chega em casa escorraçando as crianças, cães e mulheres. Estamos falando de gente inteligente, formada, com anel no dedo, que toma coquetéis com a gente e cita Marx, Hegel et caterva.
Vai daí, alguém, comentando a razão por que o professor teria batido na mulher, sendo ele uma pessoa célebre, indaga: – Mas, afinal, ele é ele, e ela quem é?
Na primeira estorinha vocês viram que um acha que a mulher é propriedade privada do marido, e por isto pode apanhar. Quer dizer: é igual quando a gente tem um cavalo ou cão. Já na segunda narrativa, a titulação acadêmica ou a importancia hierárquica justifica a violência sobre o mais fraco. E a mulher, do ponto de vista muscular, é geralmente mais fraca que o homem. Por isto faz muito sentido quando na favela ao lado ouço as mulheres que apanham gritar: “Covarde! Vai bater num homem”. E um garotão esclarecido, que estuda lutas marciais, ao ouvir a estória do professor espancador, observou: “Eu queria ver esse professor crescer para cima de mim”.
As estorinhas como essas são intermináveis. Lá vai outra. Uma amiga estava dando uma entrevista à televisão e o assunto era exatamente o espancamento de mulheres e a necessidade de se criar uma delegacia especial no Rio, como Franco Montoro criou em São Paulo, só para atender mulheres. E lá ia explicando o bê-á-bá da violência dos homens sobre as mulheres, lembrando que, quando uma mulher é violentada ou espancada, nas delegacias comuns têm que passar por vexames e cantadas, que os homens vêem a vítima como culpada, porque nossa sociedade nos convenceu de que a mulher é sempre uma Eva pecadora. Lembrava que em alguns países, além das delegacias para mulheres, há associações estruturadas para esconderem as vítimas, porque sabem que se muitas delas voltarem para casa serão até assassinadas. E foi explicando que em alguns lugares dos Estados Unidos existe um tratamento para maridos violentos, em sessões comuns, uma espécie de Associação de Alcoólatras Anônimos (os Espancadores Anônimos), que se curam e se tratam em grupo, porque isto é uma doença pessoal e social.
Mas enquanto minha amiga dava a entrevista, os cameras estavam indóceis. Parecia que o assunto era com eles. E aí, não agüentaram, interromperam a entrevista e um disse: – a gente trabalha na rua o dia inteiro, chega em casa cansado e a comida não está pronta, o que é que há? Ela está querendo apanhar! E a amiga tentou explicar: – então é só você que trabalhou? Ela não batalhou por aí em dupla jornada? Imagine se toda mulher fosse bater em marido que traz pouco ou nenhum dinheiro para casa?
Os cameras continuaram resmungando durante a entrevista. Não sei o que aconteceu quando eles chegaram em casa. Mas se houvesse na cidade uma delegacia para defender o direito das mulheres certamente pensariam duas vezes. Talvez não chegassem em casa sobraçando flores. Mas seguramente chegariam menos arrogantes.
 
 
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Fonte: SANT’ANNA, Affonso Romano de. A mulher madura: crônicas. 2a ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 09-11; 36-38; 54-56.





Bio fornecida pelo palestrante.

CORPO VIVO




CORPO VIVO


Primeira Parte

Adonias Filho

Tudo começou no sábado. Lembrou-me a mulher, quando jantávamos, que o compadre Januário nos esperava na segunda-feira, lá, na fazenda dos Limões. Teríamos o domingo para atravessar a colina e, Deus não mandasse o contrário, dormiríamos em casa de Alonso, nos baixios da Jussara. O roteiro da mulher foi seguido. Saímos domingo cedo, vencemos a colina, e noitinha batíamos na porta de Alonso. Era um casebre na estrada que tinha os fundos no rio. Alonso não tardou a acender o candeeiro e logo a Sinhá, sua mulher, serviu a janta. Joana, minha mulher, contou que íamos aos Limões a chamado de Januário. “O mundo é muito grande – Alonso disse _ mas querem as terras de Januário”. Do meu retiro, nas Canoas, ainda não ouvira falar naquilo. E inúmeras foram as perguntas que fiz. Alonso respondeu a todas esclarecendo que os Bilá, após certas brigas com Januário, tinham jurado lhe tomar as terras. O cacau novo de Januário começava a dar frutos. Aquelas terras valiam ouro e os Bilá tinham um exército no rifle. Que Deus guardasse o compadre Januário!

Manhã alegre, com os pássaros no canto, quando deixamos a tapera de Alonso. Volta do meio dia, na estrada deserta, fizemos fogo à sombra de uma cajazeira para a mulher esquentar a carne do sertão. Pelos cálculos, antes que o sol sumisse, estaríamos nos Limões. A mulher, porém, queixou-se das pernas. Apoiada em mim, em marcha lenta, quase não andávamos. E foi isso, a vontade do destino, que nos impediu de ver os Limões na claridade do dia. Era noite, com a lua varrendo os campos, quando abrimos a cancela e tomamos o caminho que levava à casa. Luz não se filtrava pelas janelas. Todos pareciam dormir no casarão parado que, a mim, lembrou um rochedo dentro da noite.

A mulher foi na frente para surpreender a comadre. Galgou a escada do alpendre e hoje ainda escuto o seu grito. Larguei os bornais e corri para deter-me na porta, o vulto da minha mulher com os braços abertos, e a sala em trevas ainda com o calor dos corpos. “Deus de misericórdia!” – exclamei, pressentindo mais do que vendo. Internei-me em busca da cozinha e, lá encontrando o candeeiro, acendendo-o, retornei no que foi a mais triste caminhada da minha vida. É preciso ter visto o que vi, no percurso da cozinha à sala, para saber-se porque foi triste a caminhada. Forte era o vozerio da noite, mas o choro de minha mulher o dominava. Andando, com o candeeiro na mão, eu via o que fora a família de Januário.

Na sala de jantar, emborcadas na poça de sangue as duas meninas – Maria Laura, de doze anos, e Maria Lúcia, de dez anos – estavam caídas como alvejadas em plena carreira. Sobre o batente da porta, como se estivesse escapado dos braços da mãe, o corpo tão pequeno do pagão que ia fazer três meses. Andando com os pés no sangue, em direção à sala onde ficara minha mulher, levantei o candeeiro para aumentar a luz. A comadre ainda tinha as mãos sobre o rosto e, um pouco distante do marido, como que se preparava para dormir. Januário de costas, estirado, sangrando no pescoço como se fosse um porco. Pondo o candeeiro no chão, cuja luz parecia empretecer as poças de sangue, abracei minha mulher procurando anima-la. Foi ela quem, acima da minha perturbação, perguntou por Maria Teresa. Era a mais velha e tinha dezoito anos. Retornei com o candeeiro, percorrendo os quartos. Fui encontrá-la na despensa, quase despida, e observei que unhas de homem tinham rasgado a sua pele. Deitada de bruços, o sangue há não gotejava da ferida aberta na nuca. O punhal, que a matara, penetrara fundo.

Retornei à sala mais uma vez e, levando a mulher comigo, regressei novamente à despensa para verificar se as armas de Januário estavam nos caixotes. Abri os caixotes e as encontrei: três rifles e bastante munição, o revólver e as caixas de balas. Compadre Januário, eu concluí, fora apanhado desprevenido, à traição. Entregando o candeeiro à mulher, que mal o segurava com as mãos nervosas, retirei os rifles dos caixotes e enchi as algibeiras de balas. A seguir, mais tranqüilo, disse: “Falta o afilhado”. A mulher interrogou: “Cajango?” Respondi: “Sim, Cajango, o nosso afilhado.

Sentou-se a mulher na sala e, sobre o banco, coloquei os rifles e a camisa. Nu da cintura para cima, em silêncio, comecei o mais penoso trabalho que já realizei. Nos meus braços, um a um, carreguei os corpos. E na sala os juntei, sob a luz enfraquecida, enquanto a mulher rezava. O quadro, quando sentei-me ao lado da mulher, após lavar-me na cisterna aos fundos, não me pareceu espantoso. Estava por demais preocupado com o afilhado para senti-lo. Combinei com a mulher que faríamos um facho e, antes que enterrássemos os mortos, procuraríamos o menino nos arredores. Saímos, eu com um rifle e a mulher com o facho, procurando seu corpo na grama, entre os arbustos, nas moitas de capim alto. Era um menino de onze anos e seu corpo podia ter sido lançado em qualquer parte. A busca foi demorada, demorada e paciente, mas não o encontramos. “É inútil esperarmos o dia”, voltei a falar, a mulher ouvindo. “Quando chegarmos ao rancho de Alonso, continuei, já estarão podres”. Levantei-me com a decisão feita, iria enterra-los naquele momento.

Fiz três outros fachos que acendi e plantei no chão. E, uma hora depois, no pedaço de terra iluminada, o grande túmulo já aberto, voltei-me para a mulher. Sentada, com o xale sobre os cabelos, continuava a rezar. Foi neste momento que, saindo das trevas, correndo para mim, surgiu o menino, Cajango, meu afilhado. O sangue empretecido dos pais e dos irmãos estava em seus cabelos, em suas mãos, em suas roupas. A mulher, hoje, não vive para confirmar. Mas as estrelas testemunharam. O menino caiu nos meus braços sujos de terra e, quando se afastou, a luz dos fachos mostrou o seu rosto. A sombra da mulher, deitada sobre o túmulo vazio, revelava sua imobilidade. Não fez uma pergunta, é verdade, mas observei nas linhas do rosto que Cajango já não era uma criança. Ele tudo vira, nós saberíamos depois. Quando a mulher quis voltar a sentar-se, pedi que arrancasse um facho e, levando o menino, se distanciasse. O trabalho que ia realizar parecia-me duro demais para os seus olhos. Não queria que visse os corpos, dos seus pais e dos seus irmãos, nos meus braços de lavrador carregados como fardos.

Tempo não havia para arrumar os corpos na grande cova. Quase correndo, voltando a sujar-me do sangue dos infelizes, carreguei um a um até que a cova se encheu. Sob o fogo dos fachos, era uma trincheira de guerra. E, um pouco exausto, movendo a pá, cobri com a terra de Januário a sepultura da sua gente. Meu corpo cansado, afinal, pôde sentar-se. O suor lavava o sangue dos mortos nos meus peitos. Gritei, chamando a mulher e o menino. Tínhamos que nos banhar na cisterna e partir o mais cedo possível. Após o banho – eu vestindo uma roupa de Januário e o afilhado, de roupa limpa, já com a trouxa de seus pertences -, e depois que fechamos a casa, pensei nas providências para conduzir as armas e as munições. Antes, com minhas próprias mãos, amarrando as achas de lenha com embira, fiz a cruz que ficou na cabeça do túmulo. Rezamos, frente à cova, em voz alta. Entre nós, com a trouxa nas costas, Cajango não se moveu. A luz, que vinha do fogo dos fachos, batia em uma cara de pedra.

Rodeei a casa, em busca dos animais, nos fundos. Sabendo que a cangalha e os panacus estavam na barcaça, dentro dos cochos, lá conduzi a ruana. E, com as armas e as munições nos panacus cobertos com folhas de bananeira, e o menino montado entre eles, iniciamos a viagem de volta. A noite era de lua e, com tantas estrelas, dava para que distinguíssemos a estrada e as árvores. No ombro, com a mulher a meu lado, trazia um rifle. Eu sabia que ia começar a chover sangue. Os anos foram muitos, é verdade, mas ainda vejo o espanto de Alonso – no fundo de sua tapera – quando narrei os acontecimentos. Foi Alonso, e não eu, quem pediu ao menino para contar como escapara.

Até então, não chorara. Não chorou também quando, sem tremer os lábios, disse que se lembrava da mãe suplicando ao pai que largasse a fazenda. Ainda no almoço a mãe insistira, temia uma desgraça, o pai não podia lutar sozinho contra a tropa dos jagunços. Facilitara, porém, o homem prevenido. E deitado estava quando, ouvindo tiros e gritos, se refugiara dos irmãos, não escutara porém a voz do pai. Ele já devia estar morto quando acordara. Os gemidos, a seguir. A voz alta de um homem que ordenava – “Não deixem ninguém vivo!” – e os tiros de misericórdia nos que gemiam. Depois, ainda escutara os gritos de Maria Teresa que, diminuindo, diminuindo, cessaram definitivamente. Percebera os homens abandonando a casa, os passos pesados, e o silêncio finalmente tudo dominou. Minutos depois, saindo do esconderijo, a casa em trevas, tropeçava no corpo do pai. Arrastara-se no sangue, em busca da cozinha, mas temera acender o candeeiro. E, receando que retornassem, ganhara o campo para esconder-se nos cacaueiros. Pouco depois vira a luz na casa e os fachos no campo. Ouvira os gritos, chamando-o. Aproximara-se quando se certificara que era o padrinho.

Quando Cajango silenciou, Alonso disse: “Sabendo que está vivo, caçarão este menino nos infernos”. Sinhá, sua mulher, acrescentou: “Voltarão hoje ou amanhã para ocupar as terras”. Era uma verdade, eu pensei. Na estrada, enquanto andava, refletia no que devia fazer. Mais cedo ou mais tarde saberiam que o menino tinha escapado vivo. Iriam dar com os cascos das mulas nas Canoas, em minha fazenda. E, antes que lá chegassem, deveria proteger-me. Foi ali mesmo, no casebre de Alonso, que tomei a decisão. Não voltaríamos para as Canoas.

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Fonte: Filho, Adonias. Corpo vivo: romance. Editora Civilização Brasileira, 1977. p. 5-9.

CUERPO VIVO

Primeira Parte

Adonias Filho

Tudo empezó el sábado. Mi mujer me recordó, cuando comíamos, que el compadre Januario nos esperaba el lunes, allá, en la fazenda1 dos Limões. Tendríamos el domingo para atravesar la colina y, si Dios no mandaba lo contrario, dormiríamos en casa de Alonso, en la ensenada de Jussara. El trayecto de mi mujer fue seguido. Salimos el domingo temprano, cruzamos la colina, al anochecer gopeábamos la puerta de Alonso. Era un rancho en el camino cuyos fondos deban al río. Alonso no tardó en encender el farol y en seguida, Sinhá, su mujer, sirvió la comida. Joana, mi mujer, contó que íbamos a los Limões por un pedido de Januario. “El mundo es muy grande – dijo Alonso – pero quieren las tierras de Januario.” En mi retiro, en las Canoas, todavía no había oído nada de eso. E innumerables fueron las preguntas que hice. Aloso respondió a todas aclarando que los Bilá, después de ciertas peleas con Januario, habían jurado que le sacarían las tierras. El cacao nuevo de Januario empezaba a dar frutos. Esas tierras valían oro y los Bilá tenían un ejército armado. ¡Que Dios guardase al compadre Januario!

Mañana alegre con los pájaros cantando cuando dejamos la tapera de Alonso. A la vuelta del mediodía, por el camino desierto, hicimos fuego a la sombra de una cajazeira2 para que mi mujer calentase la carne del sertón. Por lo calculado, antes de que el sol desapareciese, estaríamos en los Limões. Pero mi mujer se quejó de las piernas. Apoyada en mí, en marcha lenta, casi no avanzábamos. Y eso fue por voluntad del destino, pues nos impidió ver los Limões con la claridad del día. Era de noche u la luna barría los campos cuando abrimos la tranquera y tomamos el camino que llevaba a la casa. No se filtraba luz por las ventanas. Parecía que todos dormían en el caserón quieto que a mí me recordó una roca en la noche.

Mi mujer fue adelante para sorprender a la comadre. Subió la escalera del patio y todavía hoy escucho su grito. Largué las alforjas y corrí para detenerme en la puerta, la cara de mi mujer con los brazos abiertos, y la sala en tinieblas, todavía con el calor de los cuerpos. “¡Dios de la misericordia!” – exclamé, presintiendo más que viendo. Me interné en busca de la cocina, allá encontré el farol, lo encendí y volví en lo que fue el caminar más triste de mi vida. Hay que ver lo que vi, en el trayecto de la cocina a la sala, para saber por qué fue triste el caminar. Fuerte era el vocerío de la noche pero el llanto de mi mujer lo dominaba. Andando, con el farol en la mano, yo veía lo que había sido la familia de Januerio.

En el comedor, de boca en un charco de sangre, las dos niñas – María Laura, de doce años, y María Lúcia, de diez años – estaban caídas como si les hubieran hecho blanco en plena carrera. Sobre el umbral de la puerta, como escapando de los brazos de la madre, el cuerpo tan pequeño del pagano que iba a cumplir tres meses. Caminando, los pies sobre la sangre, en dirección a la sala donde había quedado mi mujer, levanté al farol para aumentar la luz. La comadre tanía aún las manos sobre el rostro y estaba a poca distancia del marido, como que se preparaba para dormir. Januario de espaldas, estirado, sangrado por el pescuezo como si fuese un cerdo. Poniendo el farol en el piso, su luz parecía ennegrecer los charcos de sangre, abracé a mi mujer tratando de animarla. Fue ella quien, encima de mi perturbación, preguntó por María Teresa. Era la mayor y tenía dieciocho años. Volví con el farol, recorriendo los cuartos. Fui a encontrarla en la despensa, casi desnuda, y noté que uñas de hombre habían rasgado su piel. Echada de bruces, la sangre ya no goteaba de la herida abierta en la nuca. El puñal que la había matado había calado hondo.

Volví a la sala otra vez y llevando a mi mujer conmigo regresé de nuevo a la despensa para verificar si las armas de Januario estaban en los cajones. Los abrí y las encontré: tres rifles y bastante munición, el revólver y las cajas con balas. El compadre Januario, concluí, fue sorprendido, lo mataron a traición. Le entregué el farol a mi mujer que mal sostenía con sus manos nerviosas, retiré los rifles de los cajones y me llené los bolsillos de balas. En seguida, más tranquilo, dije: “Falta el hijado”. Mi mujer preguntó: “¿Cajango?” Respondí: “Sí, Cajango, nuestro ahijado”.

Mi mujer se sentió en la sala y sobre el banco coloqué los rifles y la camisa. Desnudo de la cintura para arriba, en silencio, comencé el trabajo más penoso que jamás realicé. En mis brazos, uno a uno, cargué los cuerpos. Y los junté en la sala, bajo la débil luz, mientras mi mujer rezaba. Cuando me senté al lado de mi mujer después de lavarme en la cisterna del fondo, el cuadro no me pareció espantoso. Estaba demasiado preocupado por el ahijado para sentirlo. Arreglé con mi mujer que haríamos una antorcha y que antes de enterrar los cuerpos buscaríamos al niño por los alrededores. Salimos, yo con un rifle y mi mujer con la antorcha, buscando su cuerpo en la gramilla, entre los arbustos, entre las matas de pasto alto. Era un niño de once años y su cuerpo podía haber sido arrojado a cualquier parte. La búsqueda fue lenta, lenta y paciente, pero no lo encontramos. “Es inútil esperar el día”, volví a hablar, mi mujer escuchaba. “Cuando lleguemos al rancho de Alonso, continué, ya estarán podridos.” Me levanté con la decisión tomada, los enterraría en ese momento.

Hice otras tres antorchas que encendí y clavé en el suelo. Y una hora después, en el pedazo de tierra iluminada, el gran pozo ya abierto, me di vuelta hacia mi mujer. Sentada, con la mantilla sobre la cabeza, seguía rezando. En ese momento fue que, saliendo de las tinieblas, corriendo hacia mí, apareció el niño. Cajango, mi ahijado. La sangre ennegrecida de los padres y hermanos estaba en su pelo, en sus manos, en sus ropas. Mi mujer, ahora, no vive para confirmarlo. Pero las estrellas fueron testigos. El niño cayó en mis brazos sucios de tierra y cuando se apartó, la luz de las antorchas mostró su cara. La sombra de mi mujer, proyectada sobre la tumba vacía, revelaba su inmovilidad. No hizo una pregunta, es verdad, pero observé en las líneas del rostro que Cajango ya no era un niño. Todo él cambió, lo sabríamos después. Cuando mi mujer quiso volver a sentarse, le pedí que levantase una antorcha y se distanciara con el niño. El trabajo que iba a realizar me parecía demasiado duro para sus ojos. No quería que viese los cuerpos de sus padres y de sus hermanos en mis brazos de labrador cargados como fardos.

No había tiempo para acomodar los cuerpos en el gran pozo. Casi corriendo, volviendo a ensuciarme con la sangre de los infelices, los cargué uno a uno hasta que la tumba se llenó. Bajo el fuego de las antorchas era una trinchera de guerra. Y, ya un poco exhausto, moviendo la pala, cubrí con la tierra de Januario la sepultura de su gente. Mi cuerpo cansado pudo al fin sentarse. El sudor me lavaba la sangre de los muertos en el pecho. Grité llamando a mi mujer y al niño. Teníamos que bañarnos en la cisterna y partir lo más temprano posible. Después el baño – yo vistiendo ropas de Januario y mi ahijado con ropa limpia, ya cargando sus pertenencias – y una vez que cerramos la casa, pensé en las providencias para conducir las armas y las municiones. Antes, con mis manos, atando los palos de leña con paja, hice la cruz que quedó sobre la tumba. Rezamos frente a ella, en voz alta. Entre nosotros, con el atado a la espalda, Cajango no se movió. La luz, que venía del fuego de las antorchas, golpeaba sobre una cara de piedra.

Rodeé la casa buscando a los animales en el fondo. Sabiendo que los palos y los canastos estaban en la barcaza, allá conduje a la ruana. Y con las armas y las municiones en los canastos tapados con hojas de banano, el niño encaramado sobre ellos, iniciamos el viaje de vuelta. La noche era de luna y con tantas estrellas alcanzaba para que distinguiéramos el camino y los árboles. Al hombro, con mi mujer al lado, traía un rifle. Yo sabía que iba a empezar a llover sangre. Los años fueron muchos, es verdad, pero todavía veo el espanto de Alonso – al fondo de su tapera – cuando narré los acontecimientos. Fue Alonso, y no yo, quien le pidió al niño que contara cómo había escapado.

Hasta entonces no había llorado. No lloró tampoco cuando, sin temblor en los labios, dijo que se acordaba de la madre suplicándole al padre que dejase la fazenda. En el almuerzo de ese día la madre había insistido, temía una desgracia, el padre no podía luchar solo contra la tropa de bandidos. Ayudaba, sin embargo, que estuviera prevenido. Y acostado estaba cuando, oyendo gritos y tiros, se había refugiado detrás de las bolsas de cacao. Había escuchado las súplicas de la madre, el griterío de los hermanos, pero no había oído la voz del padre. Éste ya debía estar muerto cuando él se había despertado. En seguida los gemidos. La voz alta de un hombre que ordenaba: “¡ No dejen a ninguno vivo!”, y los tiros de misericodia para los que gemían. Después todavía había escuchado los gritos de María Teresa que, disminuyendo, disminuyendo, se apagaron definitivamente. Había sentido que los hombres abandonaban la casa, los pasos pesados, y el silencio que por fin dominó todo. Minutos después, saliendo de su escondrijo, la casa en tinieblas, había tropezado con el cuerpo del padre. Se había arrastrado por la sangure en busca de la cocina, temeroso de encender el farol. Y con recelo de que volviese, había ganado el campo, escondiéndose entre el cacao. Poco después había visto la luz en la casa y las antorchas en el campo. Había escuchado los gritos llamándole. Se había acrecado cuando advirtió que era el padrino.

Cuando Cajango hizo silencio, Alonso dijo: “Sabiendo que está vivo cazarán a este niño hasta en el infierno”. Sinhá, su mujer, agregó: “Volverán hoy o mañana para ocupar las tierras”. Era una verdad, pensé yo. En el camino, mientras andaba, pensaba en lo que debía hacer. Más tarde o más temprano sabrían que el niño había escapado vivo. Irían a para con los cascos de sus mulas en las Canoas, en mi fazenda. Y debía protegerme antes de que llegaran allá. Fue allí mismo, en el rancho de Alonso, donde tomé la decisión. No volveríamos a las Canoas.

(…)
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Fonte: Filho, Adonias. Cuerpo vivo. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires, Sudamericana, 1980. p. 15-21.

NOTAS

1 – Establecimiento de explotación agropecuaria o plantación (N. De la T.)
2 – Árbol brasileño, familia anacardiáceas; su fruto es el cajú (N. De la T.)





Bio fornecida pelo palestrante.

MEMÓRIAS DE LÁZARO: ROMANCE




MEMÓRIAS DE LÁZARO: ROMANCE

Terceira parte

Adonias Filho

Tremem as mãos ainda agora, mas os tijolos se tornaram negros com o fumo do incêndio. Outra, a sua aspereza. Sobre eles tateiam as minhas mãos, tão brutas como outrora, já inúteis como o meu próprio passado. Fosse possível, neste instante, e voltaria sem elas. Deixá-las-ia ficar, pregadas na parede, como pedaços de carne ainda viva. Contudo, o vento não se deteve, o negro céu parece ter baixado, e eu o único ser a respirar no orvalho o ar que só devia pertencer às árvores e aos arbustos. Além dos meus olhos, acesos como os de um animal, apenas a luz da lanterna. Vista do alto, aparecerá como uma estrela no chão.
E da luz que escoa, trêmula e escassa, brotam para mim os laivos de fogo. As chamas emergem simultaneamente de todos os lugares, transparentes, para que veja a conversão de tudo em cinzas, crepitando a madeira, Jerônimo da boca da sua caverna a sentir na fumaça que sobe como os homens não perdoam os inocentes. Invencível fogo que devora, e se alastra, devorando sempre, para apagar-se quando nada há mais o que arder. Um facho do inferno, de enormes labaredas, que poupa as paredes e perdoa sobretudo a terra do chão.
Volta a ser virgem: a terra. Perecem as nódoas dos pés, extinguem-se os rastos humanos, e o que ressurge é a crosta primitiva do vale. Rosália, porém, ainda dorme no seu bojo. Se o calor das chamas a alcança, não sei. Mas sei que desperto e, despertando, pressinto que Jerônimo não tardará em chegar. Debruço-me, apanho a lanterna, fecho os olhos. O ressoar das asas, agora. Breve, muito breve porque logo se ergue, no pequeno círculo da luz, a desolação que me envolve.
Não se vão ainda, eu peço. Vejam que estou procurando, sobre a toalha de carvão, localizar o quarto. Desorientam-se as paredes. Avanço e recuo, o andar lento, a terra sempre igual. Refaço, lentamente, a arquitetura. Tento medir, com os pés, as distâncias. Identifico afinal o lugar da cama e, detendo-me, calculo rigorosamente. Aproximo-me, repetindo os passos de outrora, e não posso evitar que os lábios digam: “Foi aqui”. Sobre a terra, porém, não há a menor cicatriz. Espessa e endurecida é a terra. O ar não penetra, não imerge o eco do vento, não percebe ao menos o peso do meu corpo. Entre ela e eu, neste instante, mais que um conflito absurdo, a luta que se trava é a da insensibilidade contra a humana vontade de um louco. Contenho a respiração, aguço os ouvidos – mas não a escuto pois nada vem de dentro, um verme não se arrasta, não se exala um vapor, monstruosamente inescrutável a sua rigidez. Pudesse falar, e eu indagaria. Exigiria a confissão de tudo, como absorveu o sangue, e escarnou o peito, e poupou os ossos na lenta imolação do extermínio. Se houve aflição, se os braços não se torceram em torno do tronco, fantásticos, tentando abrigar o resto da inexorável podridão. Não lhe foi dada, porém, a voz.
Afasto-me, temendo que o tempo desfaça a noite, já receando me possam ver, a mim, que devia ter sido queimado com a minha casa, os meus porcos, a minha terra. Densas, porém, são as trevas. Longe, a manhã. Possível ainda, único na solidão, contemplar o vale agora sem tamanho, restritas as suas fronteiras, toda sua presença concentrada nas paredes negras. Sei que são fortes as rajadas do vento. Mas o que se arremessa, varando as sombras para encontrar-me, é o grito exasperado de um homem.
Encosto-me à parede para não cair. Fecho os olhos para não ver. Atraiçoam-me as pobres mãos, trêmulas e desgraçadas. E o grito se torna vivo, tão físico quanto as bofetadas de Jerônimo no meu rosto.
(…).
Quarta parte
II
Desfaça-se, no fundo do vale, este eco que já não me pertence – mas ao vento que nos cerca, como combatentes invisíveis, neste pedaço de terra. Fujam, todos, neste instante. Já não preciso de ouvidos humanos, dispenso a compaixão e a misericórdia, que todos se afastem. Estas paredes mudas, que caiam, com estrondo. Apague-se a lanterna. Venha a luz, com a manhã, e sustente no vale a sua cólera. Jerônimo, eu sei, chegará muito tarde.
Agora, unicamente o maravilhoso caminho, aquele caminho que se não pode comparar à estrada do vale, mas o caminho que se abre, aos meus olhos, pela mão de Abílio, meu pai. Vejo-o, na frente, a guiar-me. Em volta, o que resta é o negro. O meu pobre coração já não enxerga, inúteis as minhas mãos – não mais doem, no meu corpo, as feridas. O cérebro não interroga, a língua não fala. Mas andam os pés, vagarosos.
É possível que os vivos já não me possam alcançar. Em silêncio, malditos espectros sem morada nos mundos, é possível que me espreitem os mortos. Rosália, a quem não conheci. Espreitem, esperando, mas sem ânsia. Chegarei a eles, em breves minutos, porque o caminho que me leva não é longo e infinito como a estrada do vale.
Meus pés resvalam, o corpo tomba, a boca sem um grito. É pútrido o último ar. O lodo que me absorve, e asfixia, no canal é viscoso. Ocultam-se, num corte fulminante, o vale e o vento. Tudo se vai fechando, aos poucos, com serenidade e imensa quietude.
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Fonte: FILHO, Adonias. Memórias de Lázaro: romance. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1952. p. 95-96, 165.
MEMORIES OF LAZARUS
Part three
Adonias Filho
My hands tremble even now, but the bricks have turned black with the smoke from the fire. Their roughness is different. As brutal as in the old days, as useless now as my own past, my hands grope over them. If it were possible, at this moment, I would return without them. I would let them remain, nailed to the wall, like pieces of still living flesh. Nevertheless, the wind has not subsided, the black sky seems to have lowered, and I am the only creature who, midst the dew, breathes the air that should belong only to the trees and shrubs. Except for my eyes, shining like those of an animal, there is only the lantern light. Seen from above, it will appear to be star on the ground.
And from the light that floats out, faint and shimmering, I seem to see tongues of fire springing up. The flames, transparent, emerge simultaneously from all sides, so that I may see it all turned to ashes, the wood crackling, Jeronimo from the mouth of his cavern sensing in the rising smoke how men never forgive the innocent. Invincible fire that feeds and spreads, ever devouring, and goes out when there is nothing left to burn. A hellish firebrand, with towering flames, that saves the walls and especially spares the dirt floor.
The earth is virgin once more. Gone are footprints, every human vestige is expunged, and what reappears is the primitive crust of the valley. Rosalia, however, is still asleep in its pit. If the heat of the flames are reaching her, I do not know. But I do know that, awakening and awake, I have a presentiment that Jeronimo will not be long in coming. I bend over, take hold of the lantern, close my eyes. The resounding of the wings, now. Only for a moment, a brief moment, because immediately there arises, in the little circle of light, the desolation that surrounds me.
Do not go away yet, I beg you. Observe that, in the layers of charred rubble, I am attempting to locate the bedroom. The walls keep disorienting me. I go back and forth, walking slowly, over earth unvaryingly even. Slowly I reconstruct the architecture. With my feet, I try to measure the distances. Finally I locate where the bed was and, pausing, make my calculations painstakingly. I draw near, retracing my steps of times past, and I cannot prevent my lips from saying: “Here is where it was”. On the dirt surface there is not the least scar. The earth is compact and hard. The air cannot penetrate it, the wind’s echo cannot sink in, it does not in the least perceive the weight of my body. Between it and me, at this moment, rather than an absurd conflict, the struggle being waged is that of insensibility against the willpower of a madman. I hold my breath, prick up my ears – but I cannot hear it as nothing comes from inside, no worm is crawling, no vapor is being given off, its rigidity monstrously inscrutable. If it could speak, I would ask it questions. I would require a complete confession, how it absorbed the blood and stripped the breast of flesh, and spared the bones, in the slow ritual of extermination. Whether there was pain, whether her arms did not twist around her trunk, grotesquely, trying to protect her remains from inexorable corruption. It was not, however, endowed with voice.
I draw away, fearing that time will rout the night, already afraid lest I be seen, I who should have been burned with my house, my pigs, my land. But the shadows are dense. Morning, far away. Alone in this remoteness, it is still possible for me to contemplate the valley now devoid of magnitude, its boundaries restricted, its entire presence concentrated between the blackened walls. I am aware that the wind blasts are strong. What comes hurtling, parting the shadows to find me, is the anguished shout of a man.
I lean back against the wall, in order not to fall. I close my eyes in order not to see. I am betrayed by my poor hands, trembling and ill-fated. And the shout comes alive, as physical as Jeronimo’s blows on my face.
(…).
Down there in the valley, let this echo fade that belongs not to me but to the wind that encircles us, like invisible combatants, on this piece of ground. Everyone, this moment, flee. I no longer need human ears, I can dispense with compassion and pity. Let everyone stand back. These mute walls – let them come down with a roar. Put out the lantern. Let light shine, white the break of day, and confirm in the valley the wrath of the valley. Jeronimo, I know, will arrive too late.
Now, there is only that marvelous road, the road that cannot be compared to the road in the valley, but the road that opens, before my eyes, at a sign from Abilio, my father. I see him, ahead there, guiding me. All around, the rest is blackness. My poor heart can no longer see, my hands are useless – there is no more pain from the wounds in my body. My brain forms no questions, my tongue is not speaking. But my feet keep on walking, ever so slowly.
It is possible that the living can no longer reach me. Silently, like doomed specters homeless among the worlds, it is possible that the dead have spied me. Rosalia, whom I cannot see. Nathanael, whom I cannot hear. Paula, whom I did not know. Let them observe, in expectation, but without anxiety. I shall reach them, in a few minutes, because the road that takes me is not long and infinite like the road in the valley.
My feet slip, my body falls, my mouth giving no cry. The final air is foul. The mud that absorbs me, and asphyxiates me, in the slough, is viscous. With a lightning suddenness, the valley and the wind are hidden. Everything comes to a close, gradually, with serenity and immense quietude.
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Fonte: FILHO, Adonias. Memories of Lazarus. Translated by Fred P. Ellison. Austin: University of Texas Press, 1969. p. 95-97, 170.





Bio fornecida pelo palestrante.

OLHARES SOBRE O RIO: NTOZAKE SHANGE E PAULE MARSHALL




OLHARES SOBRE O RIO:

NTOZAKE SHANGE E PAULE MARSHALL

 

                                                                                                         Stelamaris Coser                                                                            Universidade Federal do Espírito Santo
 
As belezas e os paradoxos da cidade do Rio de Janeiro são freqüentemente representados no cinema hollywoodiano e às vezes também na literatura dos Estados Unidos.  Desde filmes como Voando para o Rio (Flying down to Rio,1933), ou Feitiço do Rio (Blame it on Rio, 1983), até romances populares como O sócio, de John Grisham (1997), a ênfase recai sobre a beleza do lugar e das pessoas, o exotismo, a malandragem,  a atmosfera de erotismo. A cidade, o país e, principalmente, a mulher brasileira, atraem e seduzem o olhar estrangeiro em um jogo que reafirma hierarquias de poder e sublinha diferença e alteridade.
Menos conhecidos dos brasileiros são os olhares e registros literários das escritoras Paule Marshall e Ntozake Shange.  Ao firmar-se na cena literária dosEstados Unidos nas décadas de 70 e 80 do século XX, a literatura feminina negra tenta resgatar memórias e buscar conexões com outros pontos do continente americano que compõem o mapa da diáspora africana. Nas palavras de Stuart Hall (2003, p.40-41), a raiz africana fornece “o significante, a metáfora, para aquela dimensão de nossa sociedade e história que foi maciçamente suprimida, sistematicamente desonrada e incessantemente negada”. Toni Morrison, Alice Walker, Audre Lorde e Toni Cade Bambara, por exemplo, criam pontes com o Caribe e a América Latina em suas obras de ficção não só justapondo espaços geográficos, mas associando-se por vezes ao modelo de narrativa popularizado como “realismo mágico” e inspirado em obras de Gabriel Garcia Márquez e Carlos Fuentes (COSER, 1995). Gayl Jones, Paule Marshall e Ntozake Shange, por sua vez, manifestam uma relação de maior proximidade com o Brasil em seus temas: enquanto Jones reinventa a história colonial brasileira, principalmente Palmares, Marshall e Shange escolhem a cidade do Rio de Janeiro como cenário inspirador de relatos imaginativos e reflexões sobre nações e identidades.
A escritora e artista multimídia Ntozake Shange nasceu em 1948 no estado de Nova Jersey com o nome classe-média-comportada de Paulette Williams, mas no ano de 1971 decidiu realçar sua herança africana e assumir nomes de origem Zulu.  As duas palavras significam, respectivamente, “a que chega com suas próprias coisas” e “a que anda como um leão”.  Fazendo jus a isso, Shangeassocia-se ao radicalismo do Movimento da Arte Negra, o Black ArtsMovement, e adota um estilo que mistura confrontação e irreverência em poemascoreografados ou coreopoemas, grafados apenas em minúsculas e transgredindo normas gramaticais. Os textos são levados ao palco em performances combinadas com vídeo, dança e música, uma proposta híbrida que Shange(1975, 1984) quer contrapor ao teatro artificial, insípido e europeizado que predomina em seu país. Marcando a diferença feminina, afasta-se da visão em geral monolítica dos adeptos do Nacionalismo Negro, para registrar também o desejo, a angústia pessoal, a contradição e fragmentação humanas.  Não separa o pessoal do político nem o lírico do épico numa obra que exibe sensualidade e sonha com igualdade, mas expõe também as duras formas de violência existentes tanto em seu país quanto no continente americano.
A fidelidade à tradição literária negra dos Estados Unidos não impediu queNtozake Shange valorizasse uma relação com o espaço, a literatura, história e conjuntura sociopolítica do Caribe e da América Latina. Numa época de rebeldia, busca parcerias literárias e políticas com artistas e intelectuais em Cuba e Nicarágua que também sonham com uma “America libre” (SHANGE, 1983, p. 49-50). Em relação a seu próprio país, protesta contra a Ku Klux Klan, o lucro abusivo, a interferência militar no Caribe, e a persistente violência patriarcal contra as mulheres. Apesar da opressão política e das dificuldades reinantes, entusiasma-se com a força das culturas interligadas das Américas. Assim, ao tratar da diáspora negra em seus versos, Shange celebra não a nostalgia de uma África ideal e cristalizada, mas sim, tomando aqui emprestadas as palavras de Stuart Hall (2003, p.40-41), “aquilo que a África se tornou no Novo Mundo, no turbilhão violento do sincretismo colonial”.
Em 1983 Shange conhece a capoeira brasileira em um festival de dança noBrooklyn, e associa a agilidade e esperteza ali utilizadas ao jogo de dozens, tradição afro-americana onde a disputa verbal exige arte e habilidade para driblar o oponente. As visitas posteriormente feitas ao Brasil lhe proporcionam o conhecimento e a proximidade da história, das paisagens e da cultura do país, confirmando sua crença na “continuidade de movimentos” que existe na diáspora (SHANGE, 1984, p.51). O encontro entre os dois hemisférios é registrado na confluência simbólica dos grandes rios do continente, “o ponto onde o amazonasencontra o mississippi”, como diz um de seus versos (1992). A artista incorpora essa união quando afirma que o Brasil está no espírito da música que inspira seu trabalho e toma posse de seu corpo: “é preciso que se entenda que, quando faço teatro, o Haiti está em minha cabeça, mas é o Brasil que está nos meus quadris” (apud KING Jr., 2003, em tradução livre). Para Shange, música e dança são formas de resistência contra o esquecimento e a paralisação, trazem prazer e sensualidade ao mesmo tempo em que afirmam a identidade negra.
Ao chegar de fato ao Rio de Janeiro e à Bahia, no entanto, a escritora se impressiona com a extensão da pobreza e da desigualdade social, cenas que se repetem tão dramaticamente que fazem Itaparica e Rocinha parecer o mesmo lugar. No poema “Tween Itaparica & Itapuã” (SHANGE, 1983, p.24-27), a narradora justapõe o charme e a miséria de dois cenários famosos.
itaparica is where dona flor
took her two husbands/ itaparica is where
giorgio dos santos is nine years fulla mosquito bites
& will die soon.
(Tradução livre: “itaparica é onde dona flor /ficou com seus dois maridos / itaparica é onde/ jorge dos santos tem nove anos cheio de mordida de mosquito / & vai morrer em breve”).
 
Fica difícil distinguir qual lugar é mais cruel e injusto; apesar do Cristo imponente e da fama turística do Rio de Janeiro, os pobres e mendigos de suas ruas só têm direito a comer migalhas e habitar favelas:
itaparica is not near corcovado
cristo redentor
nor the/ copacabana
where the children eat off the plates of tourists/
anything/ no
itaparica is not close to rocinha
behind the sheraton/ covered with tin, stolen
bricks & women’s stooped shoulders.
(Tradução livre: “itaparica não é perto do corcovado / cristo redentor/ nem de / Copacabana / onde as crianças comem sobras dos pratos dos turistas/ qualquer coisa / não / itaparicanão fica perto da rocinha / atrás do sheraton/ coberta de zinco e tijolos/ roubados & os ombros curvados das mulheres.”)
 
A ilha de Itaparica é um repositório de memórias ligadas ao tráfico e ao trabalho escravo: as ruas de pedra foram calçadas por “um de nós”, narram os versos inspirados da escritora. O poético relato da Bahia descreve ainda as crianças nos barcos de pescadores, os ex-votos deixados na igreja por fiéis, o peixe frito na praia, o tempo e as pessoas que passam devagar, os turistas que chegam.  Por fim, o sol, o mar e a paisagem da Bahia conseguem aliviar a dor com sua beleza e magia, mas o Rio de Janeiro permanece como referência paradoxal de grandiosidade e desigualdade gritante ao longo do Atlantico negro.
De uma geração anterior a Shange, a escritora Paule Marshall nasceu em1929 no Brooklyn, parte da cidade de Nova York então ocupada por famílias emigradas de ilhas caribenhas – como a sua, proveniente da pequena Barbados, no Caribe inglês.  Os romances e contos de Marshall guardam marcas desse espaço de deslocamento e identidades negociadas, e de uma casa onde havia solidariedade com as lutas internacionais por libertação (MARSHALL, 1991, p. 24). A experiência pessoal também levou Marshall a outros locais da diáspora, como o Brasil, resultando disso uma narrativa que interliga as geografias e histórias do continente.
A novela (ou conto longo) intitulada “Brazil é a última das quatro histórias na coletanea Soul Clap Hands and Sing (1961), o segundo livro de Paule Marshall; as outras são Barbados”, “Brooklyn e “British Guiana”, todas designando partes específicas das Américas similarmente marcadas pela estrutura patriarcal, hierarquia rígida de classes e raças, empobrecimento das zonas rurais e urbanas, e favelização provocada, em grande parte, pela (e)migração para centros mais desenvolvidos. Nas quarenta e seis páginas de “Brazil”, Marshall costura as anotações que fez deste país como correspondente da revista de cultura negraOur World. Seu olhar se concentra na capital federal, o Rio de Janeiro dos anos 50, cidade moderna que provavelmente vivia “o auge do charme”, como atesta Joaquim Ferreira dos Santos (1997, p. 11).
O conto de Marshall pode ser lido como uma etnografia da cidade emblemática do país, marcada pelo contraste entre favela e cartão postal. Por outro lado, os personagens centrais, o negro Calibã e a branca Miranda, aproximam o enredo do corpus crítico-literário formado por releituras e discussões da peça A tempestade, de Shakespeare, abordando a construção dooutro e contra-discursos de resistência. As preocupações culturais, sociais e políticas da narrativa também remetem ao texto do caribenho Frantz Fanonpublicado no mesmo ano de 1961, The Wretched of the Earth (Os condenados da terra). Por fim, a dramatização da perda de identidade e da busca do reconhecimento do nome evoca, por antecipação, textos centrais da crítica brasileira sobre identidade cultural e a condição de subdesenvolvimento e dependência, canibalização e cópia, como, por exemplo, os trabalhos de Antônio Candido, Silviano Santiago e Roberto Schwarz, preocupações que ecoam na chamada crítica pós-colonial.
Na segunda metade do século XX, o bárbaro Caliban shakespeareano foi resgatado por novos escritores oriundos, principalmente, das antigas colônias do Caribe e da África, sendo transformado em herói da libertação e símbolo da resistência (inclusive no Brasil, com a adaptação de Augusto Boal). Para o cubano Retamar (1972), Caliban é o melhor símbolo da América Latina: “Não conheço metáfora mais expressiva de nossas situações culturais e de nossa realidade”.  Embora bem distintos dos demais, o enredo e os personagens do conto “Brazil” de Paule Marshall merecem ser pensados nessa rede calibanicaintertextual.
O cenário retrata alguns locais tipicamente mostrados em narrativas sobre o Rio de Janeiro, capital do país nos anos 50, tendo aqui uma cidadezinha do interior de Minas Gerais como contraponto utópico.  O grande Calibã é o nome artístico usado por um velho comediante negro que se apresenta na Casa Samba.  Migrante pobre saído do interior de Minas cinqüenta anos antes para tentar a vida na capital do país, Heitor Baptista Guimarães trabalhou em um pequeno restaurante até passar num teste no Teatro Municipal e transformar-se no artista aplaudido pelo grande público e autoridades, como atestam fotografias ao lado do presidente e de Carmen Miranda.   Miranda é também o nome da parceira de cena e de cama, outra migrante pobre vinda do Rio Grande do Sul, loura de cabelo tingido e sangue misturado de alemão, português, índio e talvez negro, o nome sugerindo uma confluência paródica entre Shakespeare e CarmenMiranda. O show descrito por Marshall lembra o teatro de revista e os filmes de chanchada, com a comédia baseada em contrastes exagerados e na reversão de expectativas. Para começar, a “Pequena Miranda” surge no palco loura, alta e majestosa, uma vedete sumariamente coberta de lantejoula e tule; o “GrandeCalibã” é negro e mirrado e abre o show posando de valente em roupas largas de cetim vermelho, numa paródia do famoso campeão de boxe Joe Louis. Os dois cantam, dançam e ele conta piadas para a platéia de brasileiros e turistas, marinheiros norte-americanos para quem o Rio/Brasil se revela uma terra de misturas raciais que sorri e dança à “erótica batida do samba” (2004, p. 1). O riso nervoso aproxima os turistas norte-americanos da autoridade colonial que, sem falar a língua, define a terra e seus nativos.
“(…) no começo, quando a face negra de Calibã aparecera por entre as coxas brancas de Miranda, eles tinham ficado tensos, momentaneamente insultados e alarmados, até que, com o riso saindo fora de hora, lembraram um ao outro que, afinal de contas, isto era o Brasil, onde branco nunca era totalmente branco, não importa quão puro parecesse. Irromperam então em gargalhadas que eram ao mesmo tempo altas e hesitantes, trocando olhares em busca de reafirmação, sussurrando: “Não sei por que estou rindo. Não entendo nenhuma palavra em espanhol! Ou será este o lugar onde falam português?” (MARSHALL, 2004, p. 4-5).
 
Os cartazes do show anunciam o Senhor Calibã como “o maior e mais amado comediante do Brasil”, e o velho artista parece desenvolto e ágil. Fora das luzes, porém, ele tem algo do deformado Caliban shakespeareano no corpo diminuto e doído, as piadas já velhas e sem graça, o coração desiludido e cansado, a identidade confusa.  Quer aposentar-se para se dedicar à jovem e inocente esposa Clara (virtuosa como a esposa de Próspero) e o filho que esperam, e voltarem juntos para a cidadezinha do interior de Minas de onde vieram. Vai afastar-se do Rio de Janeiro e de Miranda, espelho inevitável de sua face enrugada e de suas contradições; quer sair definitivamente do palco, dos letreiros e da fantasia, e recuperar sua identidade perdida. Mas ninguém mais conhece o Heitor original: nem a doce Clara, nem os pobres da favela onde ele vivera e trabalhara, nem Miranda, nem ele mesmo no espelho: agora, “Calibã se tornara a sua única realidade”. O mineiro Heitor ficara esquecido até que a velhice trouxe uma tristeza indefinida, como “a memória de alguém que ele conhecera em outra época, mas de cujo rosto não mais se lembrava” (MARSHALL, 2004, p. 9, 35, 7).
Fazendo lembrar os insultos contra Próspero em A Tempestade (II.2, 1-15), Calibã se revolta e agride Miranda, quebrando móveis, cortinas, lustres, candelabros  e espelhos do luxuoso apartamento que montara para ela mas que agora lhe parece falso como a dona e como o próprio Rio.  A cidade é bela e sedutora como um corpo de mulher, charmosa e benevolente de dia, cenário de cartões postais, iluminada e convidativa ao cair da noite:
 
“A cidade (…) acendeu as luzes, e quando Calibã passou pelo túnel e entrou na estrada que faz a grande curva da Baía de Copacabana, viu luzes surgirem nos apartamentos e hotéis empilhados como rochedos brancos e angulares contra o fundo de morros negros. Vistas à distancia, aquelas janelas iluminadas lembravam diamantes perfeitos e grandes, de um ambar iridescente agora aos últimos raios de sol, que se tornaria um amarelo flamejante quando a escuridão se firmasse. A cidade do Rio – ainda quente do sol, murmurante com a cadência do mar, adornada com as luzes – estava se aprontando para a farra da noite, esperando que o vento chamasse seus amantes. Calibã tinha sido um de seus amantes” (MARSHALL, 2004, p. 31).
 
Miranda vive em apartamento amplo na Avenida Atlantica, com móveis e decoração inspirados em Hollywood; Calibã e Clara moram numa bela casa próxima ao Corcovado.  O conto revisita também o Cassino da Urca, o Pão de Açúcar, o Copacabana Palace, a praia de Copacabana, o Teatro Municipal, o teatro de revista, os shows cheirando a Broadway e Hollywood, os desfiles de Carnaval, o humor da chanchada, o pequeno-mas-Grande Otelo (tambémintertextualmente shakespeareano, possível inspiração para “O grande Calibã”). Na ficção de Marshall as descrições minuciosas de cidades das Américas denunciam a exploração racial e social e a perpetuação da estrutura escravista. Neste conto, Calibã deixara de enxergar o lado pobre da cidade e agora teme as favelas que se empilhavam cada vez mais sobre Copacabana. Lembram a descrição de Fanon (1961, p. 38-39, tradução livre) das cidades coloniais, onde “não existe conciliação possível” entre a zona onde moram os nativos e “a cidade dos colonizadores (…) muito bem construída em pedra e aço, fortemente iluminada, as ruas asfaltadas (…) bem alimentada, alegre (…) uma cidade de brancos e estrangeiros”. Do outro lado, negros e nativos ocupam “um mundo sem espaço (…) os casebres construídos um sobre o outro (…) uma cidade faminta de pão, de carne, de sapatos, carvão, de luz”.  No Rio de Janeiro descrito no conto, cortiços e favelas são engrossados por migrantes pobres como Heitor, Miranda, e os tantos que fogem da pobreza rural e precisam submeter-se ao subemprego esub-moradia. Expõem a história da ocupação da terra, a concentração de riqueza e a estrutura neocolonial que interfere no cartão postal: “Aquela miséria se levantando sobre o Rio sugeria que o próprio Rio não passava de uma falsidade; a favela era uma ameaça – pois parecia que a qualquer momento entraria em colapso e desabaria, soterrando a cidade lá embaixo” (MARSHALL, 2004, p. 26).
Além de aspectos socioeconômicos e políticos, “Brazil” evoca míticas jornadas de heróis em busca de si próprios, como o Heitor na Ilíada de Homero.Calibã pergunta, corre, sobe e desce ruas e morros, tentando encontrar-se nos caminhos e nas faces que fizeram parte de seu passado. Significativamente, vai atrás do ex-patrão cujo nome era Nascimento, esperando que ele lhe devolva a memória e faça renascer o herói Heitor. O motivo da máscara que ou substitui oué a verdadeira face percorre as literaturas do mundo ocidental e fala da busca da identidade perdida. Aqui ela faz lembrar o poeta Paul Laurence Dunbar (1872-1906), primeiro escritor negro lido por Marshall e que a contaminou com o desejo de escrever (como Marshall declara nas entrevistas a Baer e Dance). Em um de seus poemas mais conhecidos, Dunbar fala da necessidade da máscara sorridente para esconder a dor do negro: “We wear the mask that grins and lies,/ It hides our cheeks and shades our eyes”. Em tradução livre: “Usamos a máscara do riso e da mentira, / que esconde a face e encobre os olhos”.
O conto de Marshall termina com o personagem Calibã enraivecido contra um “Próspero” que o contagia e confunde, porque, ao aprender a linguagem do sistema capitalista e colonialista, acumulara bens e esquecera sua história.  O sonho de escapar da fragmentação e do individualismo dessa cidade grande que fala inglês e o traveste para turistas leva-o a refazer seu percurso migratório. Deseja voltar à terra natal, paradoxalmente as Minas Gerais onde o ouro sustentara a escravidão e onde ele mesmo, um dia, “comprara” sua jovem mulher negra, a neta de um primo. No contexto brasileiro, tais percursos e considerações remetem a interrogações e debates sobre a identidade nacional, à distribuição extremamente desigual do poder entre regiões, classes, raças, etnias e gêneros, e à relação do Brasil com o outro estrangeiro.
A perplexidade de Calibã lembra a constatação de Paulo Emílio Salles Gomes de que “a penosa construção de nós mesmos se desenvolve entre o não ser e o ser outro” (apud SANTIAGO, 1982. p. 13,17). Como o Calibã de Marshall, sentimos o peso da fantasia exótica e a ansia do aplauso estrangeiro, e tentamos identificar uma face nacional legítima e própria para escapar ao sentimento de “pastiche indigno” (SCHWARZ, 1987, p. 29). Para Silviano Santiago (1982, p. 20), porém, não existe uma cultura brasileira imune aos colonialistas e estrangeiros: “Acreditar que possamos ter um pensamento autóctone auto-suficiente, desprovido de qualquer contato alienígena, é devaneio verde-amarelo”. Na mesma linha, o teórico Stuart Hall (1996) retoma Fanon para ressaltar que as rupturas e traumas da experiência colonial não se corrigem com o retorno a um passado cristalizado: a cultura, como a história, é construída na descontinuidade e na transformação.
A seriedade dos temas no conto de Marshall é aliviada pela ambigüidade e humor irônico. Miranda, por exemplo, que no final é vista pelo amante como uma aproveitadora, fora migrante pobre como ele e havia tirado proveito dos espaços de crescimento econômico permitidos a uma mulher de sua época e condição. A esposa Clara, moça mineira bem comportada, recusa-se a deixar o Rio porque adora a cidade e o carnaval.  Calibã, perdido na cidade grande e no meio das duas mulheres, é tanto oprimido quanto opressor. Contraditórios e humanizados em seus desejos, conflitos e enganos, as personagens resistem a leituras simplistas e unilaterais. Fantasia e “real” se confundem e, anunciando o pós-moderno, clichês e máscaras revestem tudo, exceto a pobreza das crianças nos morros da cidade:
 
“Os meninos da favela apareceram, movendo-se quietos em meio aos arbustos que delineavam o caminho, alguns carregando latas d’água na cabeça ou crianças menores no colo. Pareciam nascer da sujeira que os cobria, como pequenas plantas resistentes brotando no solo cansado; e seus olhos vazios, indiferentes, pareciam espelhar a vida derrotada que ainda teriam de viver” (MARSHALL, 2004, p. 27).
 
O conto de Marshall aborda o deslocamento e a marginalização e elabora dilemas comuns à diáspora negra e às colônias do “Novo Mundo”,particularmente “a transfiguração cultural sofrida pelos povos não europeus no processo de colonização” (termos de Octavio Souza, 1994). Numa era que comercializa o autêntico, por outro lado, a cultura canibal impura pode ser a única legítima. No final do conto “Brazil”, Miranda corre atrás de Calibã, gritando: “Calibã, Calibã, meu neguinho, pra onde você vai?” (p. 37) – a pergunta fica assim no ar, uma interrogação aberta e continuada sobre os dilemas que afligem a cidade do Rio de Janeiro e todo o país.
De maneira geral, o interesse manifestado pelo Rio de Janeiro e pelas coisas do Brasil por Paule Marshall e Ntozake Shange, entre outros pesquisadores e escritores dos Estados Unidos, faz parte da tentativa de mapear a diáspora africana, reconstruir o passado e afirmar a identidade negra. Ao inserirem nosso mapa e história na literatura dos Estados Unidos, as escritoras contribuem para o incremento das relações literárias e culturais interamericanas.  Com sua imaginação e fantasia, podem enriquecer também nossa percepção de nós mesmos e iluminar os desafios de raça, gênero e classe presentes em nossa herança colonial.  Sem a pretensão de traçar definições “corretas” ou produzir traduções culturais “autênticas”, seus textos literários são elaborações inspiradas por olhares solidários, paradoxais, tão estrangeiros e tão semelhantes.
 
 
Referências
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CANDIDO, Antonio.  Literatura e desenvolvimento.  In: A educação pela noite e outros ensaios.  São Paulo: Ática, 1989. p. 140-180.
 
COSER, Stelamaris. Bridging the Americas: the literature of Paule Marshall, Toni Morrison, and Gayl Jones. Philadelphia, PA: Temple UP, 1995.
 
DUNBAR, “We Wear the Mask”. In:  The Harper American Literature. Gen. Ed. Donald McQuade (et alii). 2 ed.  New York: Harper Collins, 1996. p. 890-99.
 
FANON, Frantz.  The Wretched of the Earth.  New York: Grove Press, 1961.
 
GRISHAM, John. O sócio. Trad. Aulyde Soares Rodrigues.  Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
 
HALL, Stuart. Cultural Identity and Diaspora. IN: Contemporary Postcolonial Theory; A Reader. Ed. Padmini Mongia.  New York: Arnold Press, 1996. p. 110-121.
 
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Org. L. Sovik. Tradução A. La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: UFMG; Brasília: UNESCO/BR, 2003.
 
KING JR., A.T. Carnival poetics; review of The Black Theatre, ed. G. Edwardset al. Dec. 2003.  Disponível em: <www.temple.edu/tempress/authors/1429_review2.pdf>. Acesso: 11-05-2004.
 
MARSHALL, Paule. “Holding onto the vision”: An interview. With Sylvia Baer.The Women’s Review of Books  8.10-11 (July 1991), p. 24.
 
MARSHALL, Paule. An Interview with D.C. Dance. The Southern Review 28.1 (Winter 92): 01-20.
 
MARSHALL, Paule. Brazil. In: Soul Clap Hands and Sing: Four Novellas. 1961; Washington, D.C.: Howard U.P., 1988. p. 131-177.
 
MARSHALL, Paule. Brasil. Tradução inédita de Diego Rodrigues, revisão de Márcia Rocha e Stelamaris Coser. Manuscrito, UFES, 2004. 37 p.
 
RETAMAR, Roberto Fernandez.  CalibanApuntes sobre la cultura en NuestraAmérica. Cidade do México: Editorial Diógenes, 1972.
 
SANTOS, Joaquim Ferreira dos.  Feliz 1958: o ano que não devia terminar. Rio de Janeiro: Record, 1997.
 
SANTIAGO, Silviano.  O entre-lugar do discurso latino-americano.  In: Uma literatura nos trópicos: Ensaios sobre dependência cultural.  São Paulo: Perspectiva, 1978. p.11-28.
 
SANTIAGO, Silviano.   Apesar de dependente, universal.  In: Vale quanto pesa: Ensaios sobre questões politico-culturais.  Rio: Paz e Terra, 1982. p. 13-24.
 
SCHWARZ, Roberto. Nacional por subtração.  In: Que horas são?: Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 29-48.
 
SCHWARZ, Roberto.  As idéias fora do lugar.  In: Ao vencedor as batatas.São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1988. p.13-28.
 
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SHANGE, Ntozake. for colored girls who have considered suicide/ when the rainbow is enuf: a choreopoem. New York: Macmillan, 1975.
 
SHANGE, Ntozake. See no evil: prefaces, essays & accounts 1976-1983. San Francisco: Momo’s, 1984.
 
SHANGE, Ntozake. Nappy Edges. New York: St Martin’s, 1992.
 
SOUZA, Octavio. Fantasia de Brasil: As identificações na busca da identidade nacional.  São Paulo: Editora Escuta, 1994.





Bio fornecida pelo palestrante.

SOB O SIGNO EPIFANIZADO DO FEMININO, RE-VER BLIMUNDA




SOB O SIGNO EPIFANIZADO DO FEMININO, RE-VER BLIMUNDA

Pedro Fernandes de Oliveira Neto
PPGL (UERN)
Maria Edileuza da Costa
PPGL (UERN)
… é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta
José Saramago, Memorial do convento
Introdução
Em Acerca do feminino em “O conto da ilha desconhecida”, de José Saramago, Oliveira Neto (2009), fundamentado no ensaio Ler Saramago – o romance, de Berrine (1998), partia da afirmativa de que no espaço social é corrente a ideia-clichê, quando se fala da questão do feminino, de que a mulher tem sido milenarmente oprimida, silenciada e/ou cerceada em todos os espaços. No espaço da Literatura, as mulheres outras, as de tinta e papel, têm assumido além dessa face clichê, outras faces, como as de musa inspiradora, as de anjo/demônio, a de eterno feminino. Contudo, quando voltamo-nos para o universo ficcional do escritor português José Saramago, é necessário dizer que o autor joga com estes e outros valores. Estes parecem sofrer uma subversão, no bom sentido dado ao termo, que é aquele de uma visão outra; são papeis re-engendrados. A mulher são-lhe “delegados” papeis e funções no corpo dos romances que chegam a beirar ou por que não, a assumir a condução do fio narrativo: “Na verdade, as mulheres são muito mais sensatas: nunca fizeram do homem um ‘sonho inspirador’ nem falaram do ‘eterno masculino’” (SARAMAGO, 1998, p. 240).
Ainda no texto de Oliveira Neto (2009), a partir das constatações de Ana Paula Arnaut, em José Saramago, a literatura do desassossego, afirmava que Blimunda, personagem de Memorial do convento, comporta em si o papel de transgressora da ordem, do comum, pela capacidade de ver excessivamente, de ver o que de real há no mundo: “essa visão aguçada da personagem, é o que dá visão ao próprio narrador, atuando, pois, num processo inventivo” (OLIVEIRA NETO, 2008, p. 2). Este ensaio, Sob o signo epifanizado do feminino, re-ver Blimunda, toma por base tais constatações e da própria matéria que compõe os romances saramaguianos, com o objetivo de buscar uma leitura, um tracejo, um fio de tinta, um engendramento do que seriam as dimensões, as tessituras/textura para esta Blimunda, personagem que acude mistério até no próprio nome, que é o feminino em Memorial do convento. Este ensaio tentará, por modo de aproximação, por através da escrita, compor mote para reflexões em torno dessa personagem, entendendo-a como arcabouço complexo, em que nela se reúnem inúmeros elementos organizados que a fazem ilimitada, um espaço, por assim dizer, sem fronteiras, para além da própria narrativa (CANDIDO, 2007).
Considerações acerca do Memorial do convento
Apesar do grande número de leituras acerca do Memorial do convento dá conta de sê-lo um romance histórico, meta-histórico ou mesmo uma espécie de palimpsesto da História, parece que, reduzir-se a essas nomenclaturas é falho. Memorial do convento é, na verdade, como é toda a escrita de José Saramago desde Manual de pintura e caligrafia, um “experimento”, em que o escritor “ensaia” a escrita, nesse caso específico, a de um memorial. Nesse processo de “treino”, o autor injeta em algumas formas que se põem a compor, como o memorial, outras forças de sentido; no caso deste romance, como exemplo, o sentido de relato de feitos memoráveis por grandes personalidades da história oficial é ampliado, elastecido pelo entendimento de que tais feitos memoráveis são operados por outras figuras, que, oficialmente, estão postas à margem e, na história oficial, sequer, muitas vezes, engendram uma nota de rodapé.
Memorial do convento é, antes de um romance, um teatro épico, no sentido usado por Bertolt Brecht, cuja arena é a Lisboa de D. João V. O cunho narrativo dessa obra somente se completa no leitor, a plateia partícipe da trama. Como em Brecht, suas personas carregam o vigor da despersonalização do indivíduo, “a sua montagem e remontagem em outra personalidade” (ROSENFELD, 2008, p.146), além de que, reside o interesse de “não apresentar apenas relações inter-humanas individuais, mas determinantes sociais dessas relações” (ROSENFELD, 2008, p.147) e o desfecho “didático” dado a trama, “a intenção de apresentar um ‘palco científico’ capaz de esclarecer o público sobre a sociedade e a necessidade de transformá-la” (ROSENFELD, 2008, p.148). No romance em questão, e isso é válido para os outros romances de José Saramago, “o homem não é exposto como ser fixo, como ‘natureza humana’ definitiva, mas como ser em processo capaz de transformar-se e transformar o mundo (…) o homem não é regido por forças insondáveis que para sempre lhe determinam a situação metafísica” (ROSENFELD, 2008, p.150).
Esse propósito está bastante claro, aos que porventura não consigam enxergar essa “essência” em romances como Memorial do convento, em um conto do autor intitulado O conto da ilha desconhecida, em que um homem, determinando-se por si próprio, se dá a aventura pelo desconhecido em busca de concretizar o sonho metafórico de encontrar a ilha desconhecida (OLIVEIRA NETO, 2008).
Mas, voltando ao Memorial do convento, a característica principal do teatro épico de Brecht é também característica de José Saramago, a de “desmistificação”, a de revelação de que as desgraças do homem não são eternas, mas advém nas correntezas da História, que o próprio homem vai construindo. Haveremos de notar em Memorial, narrativa encravada nos idos do século XVIII, as disparidades lá postas: o luxo e as extravagancias da Corte, “os de pança repleta”, e a simplicidade e, por vezes, a miséria da reles, “os de barriga agarrada às costas”. Nesse segundo grupo é que se insere a “tríade B”, a “trindade terrena”, Baltasar, Blimunda e Bartolomeu, que a modos seus, farão frente aquele primeiro grupo pondo em movimento a passarola – algo aparentemente complexo devido a incapacidade humana de alçar voo, e esta totalmente dependente da vontade divina, posta em voo, ironicamente, pelas vontades humanas. E tudo isso se dá antes do término da construção do convento de Mafra – algo aparentemente simples, terreno, totalmente dependente do poder humano e da riqueza da Corte, construído, também ironicamente, pela “vontade de Deus” que pôs o filho na barriga da rainha, logo depois da promessa feita por D. João V:
Na prioridade que o discurso concede ao ficcional já vimos como a passarola foi privilegiada ao longo do romance. A construção do convento é parcialmente escamoteada, enquanto a construção da passarola é acompanhada passo a passo, e só depois que assistimos à sua ascensão e à sua queda, o convento garante a liderança da narrativa. Entretanto, ainda assim, essa liderança é ilusória, pois mais uma vez a passarola rouba para si o privilégio do olhar do narrador e o momento, supostamente climático, da construção do convento – a sua sagração – é roubado ao leitor que, em seu lugar, vai ser informado sobre o destino de Baltasar, que voara na passarola (…) (SILVA, 1989, p.97)
Pelo que ficou dito, está aí o processo de “inversão” pelo autor ao longo romance para o título Memorial do convento.
Ver e ler Blimunda
Todo o correr da narrativa é dado nas transgressões. Isso é algo notável ao mais tenro leitor na mais breve leitura. Assim como logo é de saltar aos olhos a personagem Blimunda. Ela, a mulher dos olhos excessivos, é a figura-chave, podemos assim dizer, para atentar à superfície do romance os jogos de transgressão operados pelo narrador/autor. Isso se dá pelo seu caráter de ver o que está invisível ao olho comum. Tanto que, ver é signo exegético de toda obra, configurando-se nessa personagem, mas o olhar de Blimunda funciona como “apelo a uma visão outra, que é a do homem que tem como missão decifrar os enigmas do passado para, e através deles, superar os que o presente lhe impõe (LEÃO e CASTELO-BRANCO, 1999, p. 114). Destarte, ver é opinar, teorizar, discutir para, enfim, argumentando, ajuizar e passar testemunho (PRAXEDES, 2001). Acerca do olhar de Blimunda é este recorrente o tempo todo na narrativa: olhos “claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra” (SARAMAGO, 2007, p. 53); “os olhos escuros, e de repente uma luz verde passando” (SARAMAGO, 2007, p. 75); “os olhos claros , verdes, cinzentos, azuis quando lhes dava de frente a luz, e de repente escuríssimos, castanhos de terra, água parada, negros se a sombra cobria ou apenas aflorava” (SARAMAGO, 2007, p.101). O olhar de Blimunda é o que tem a capacidade de ver/reparar, que está para além de olhar/enxergar, o olhar de ver por dentro: “– Eu posso olhar dentro das pessoas” (SARAMAGO, 2007, p.75) – ver o que está além das aparências, ver o que o de real está no mundo – “Eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que é de fora dele” (SARAMAGO, 2007, p. 75); pode-se dizer que o fio da narrativa todo se desfia por através do olhar de Blimunda.
Blimunda é a que está na linha limítrofe do sagrado e do profano, impresso no próprio nome que carrega, outra marca que, como o olhar, também é mistério a se des-velar ao longo do romance. Blimunda de Jesus Sete-Luas. Este nome em forma de gerúndio dando a entender que o fio da narrativa passa, entretanto, sua figura, uma nebulosa, vai ficando, é contraditório, por si só: primeiro, um Jesus, que integra desde logo possíveis derivações semanticas no quadro do pensamento cristão, e, o interessante ou irônico, é herdado de sua mãe, posta em degredo em Angola, logo no início da trama, por acusações de bruxaria; e, segundo, o Sete-Luas, algo que remete à simbologia cigana. É esta a alcunha que traz/traça seu perfil no correr da diegese – o mistério de quem sabe sem saber como sabe, o nebuloso, o escuro e o claro, que nela coexistem. Esta alcunha é dada pelo padre Bartolomeu de Gusmão, por ela ser companheira de Baltasar; um batismo que é misto de casamento civil pelo encaixe semantico que Sete-Luas traz ao dirigir-se ao encontro de Sete-Sóis, a alcunha de Baltasar: “Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sento Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um” (SARAMAGO, 2007, p. 88).
Blimunda, como são as personagens de Saramago, não se encaixa aos moldes e conceitos comuns pré-estabelecidos pela Teoria e Crítica Literária – os de personagem plana ou os de personagem redonda. Isso porque todos os dois conceitos, apesar de o segundo, o de personagem redonda, apontar para uma pluralidade de qualidades e tendências (BRAIT, 2006), são, aparentemente, fixos no corpo do romance, coisa que Blimunda não é. Trata-se de uma personagem espiralada, que se constitui no ir e vir contínuo, como num cerzir de uma costura, num ritmo de vai-vem no interior do tecido narrativo.
Como transgressora de todos os moldes perfeitos que o Poder arquitetara para a sociedade, Blimunda é como uma força libertadora, como anunciadora de novas dimensões e proposições que se vão mostrando sempre que uma ordem/moral é subvertida. Ao subverter (se) ela tem a capacidade de, de um caos, recriar (se) ou criar (se), aproximando-se do que propõe Iran Nascimento Pitthan em Blimunda, uma alegoria do novo. Ela segue a forma da serpente com olhos de águia, um olhar que per-fura, olhos de “lanceta”, “estiletes finíssimos”, num estilo que desliza e consegue per-passar livremente aos olhos da Inquisição. Dentro do teatro épico é a heroína que se desdobra, metamorfosea-se para sobreviver.
A técnica usada por Saramago na tessitura da composição dessa personagem está para além dessa aparente desfamiliarização do familiar que dá corda a um ser paradoxal ao molde social da época, consiste em contrapor a legalidade, o dito, a justiça, parafraseando Rosenfeld (2008), quando trata da técnica de composição das personagens brechtianas.
O que Saramago faz, ao construir Blimunda, essa mulher que não possui nome na história oficial portuguesa, é destituir-lhe de todo e qualquer compromisso que transcenda o plano humano, fazendo com que ela apareça em constante choque com as obsessões místicas que a cercavam, representadas, no romance e na época, pelo intenso clamor da fé religiosa (OLIVEIRA FILHO, 1993): “O meu dom não heresia, nem é feitiçaria, os meus olhos são naturais, Mas tua mãe foi açoitada e degredada por ter visões e revelações, aprendeste com ela, Não é a mesma coisa, eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que de fora dele, céu ou inferno, não digo rezas, não faço passes de mão, só vejo,” (SARAMAGO, 2007, p. 75).
Os poderes de Blimunda, esse “dom” de ver o para além, não são poderes místicos, são, na verdade, os poderes do mundo. Não é também ela uma visionária ligada à crendice popular, mas “a consciência da força humana no mundo” (OLIVEIRA FILHO, 1993, p. 53).
Ao juntar-se a Baltasar, consagração que se dá mediante dois atos de uma poética belíssima, entendemos que essa mulher “humana” é também instinto. Observemos nos enxertos abaixo, as ações do olhar, do silêncio e o jogo erótico insinuado na permuta dos pronomes “meu” e “teu”, e as ações de persignação com o sangue da perda virgindade e ouçamos, depois, a explicação da própria personagem dada a este último ato:
… apesar de o padre ter acabado primeiro de comer [Blimunda], esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados (SARAMAGO, 2007, p. 54).
(…)
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez a cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus (SARAMAGO, 2007, p. 54-55).
(…)
Mas persignaste-te com o teu sangue e fizeste-me com ele uma cruz no peito, se isso não é feitiçaria, Sangue de virgindade é água de baptismo, soube que o era quando me rompeste, e quando senti correr adivinhei os gestos (SARAMAGO, 2007, p.75-76).
Com Baltasar, Blimunda compreende-se, formando um par antitético, complementar, no entanto: Sete-Sóis – Sete-Luas, claro-escuro, dia-noite. Esse caráter de complementaridade difere totalmente do estatuto social dado à mulher do século XVIII – o de indivíduo preso ao ambiente doméstico ou à clausura dos quartos, dos conventos etc (ARAUJO, 1997). Ironicamente, Blimunda anda (e como anda!) durante a narrativa inteira. E não só: participa das discussões dos homens, além de ela está, todo o tempo, imersa nos grandes espaços, nos espaços abertos, distante do claustro imposto à mulher de seu tempo como é de costume notar-se nas personagens femininas das narrativas de época.
A união com Baltasar é mais um rito de obediência de ambas as partes, um jogo que se deixa mediar pelo erotismo, pelo trabalho, um ao lado do outro, masculino-feminino. Entretanto, parece pouco ainda conformar-se com esse lado a lado e esse jogo de complementaridade; sabemos que ela ainda estará para além de ser companheira, trabalhadora, ela traz em si o esteio de todo o universo e o faz girar como gira o mundo, em seus movimentos de rotação e translação, sendo noite se sendo dia, calmaria e tormenta (PITTHAN, 2008).
Sob a ótica de uma nova mulher, no correr do romance haveremos de notar que Blimunda e seu par na “trindade terrena” representam uma proposta/partição de novos outros valores frente aos ditados pela Igreja, que como sabemos era o arcabouço maior do poder que regia a sociedade da época: a liberdade de crença, de expressão, de vontade, de sonho, de corpo. Ela é singular na narrativa, justamente, porque é a que percebe ser a religião a representação do domínio repressivo dos instintos do corpo individual e coletivo e instaura outra conduta que fere a supremacia da Igreja, e, por conseguinte, a da Coroa (SANTOS e BATALHA, 2008).
Fundada nos pilares da ironia, Blimunda desempenha esse papel que está para além das fronteiras do romance. É através dela e de seus “olhos excessivos” que o autor aloja-se e busca despertar o espírito crítico do leitor, obrigando-o a deitar um olhar outro para os fatos da História do século XVIII e enxergar os deslizes morais, sociais e religiosos, ex-pondo nu o que se deixa ou se é escondido por debaixo da pele da Ideologia: a corrupção na Igreja e na Política, a desmoralidade daqueles que se dizem santos terrenos, os excessos da Igreja e da nobreza, a insanidade que rege um Reinado fundado a custo das riquezas alheias, as manobras e voltas para a construção de um convento que se ajuste em pé de igualdade à Basílica de Roma (chame-se a isso de inveja), a ação da Inquisição a fim de entreter a população para as fraudes costuradas pela Igreja e pela Corte etc. Tudo passa por esse olha de águia.
Por tudo isso, as relações para como o teatro de Brecht, apontadas acima, são inevitáveis. O olhar outro que o autor visa nos despertar não é dado pronto; não se oferecem, portanto, respostas prontas, mas perguntas, durante todo o romance, esclarecendo-as tanto quanto possível, encaminhando-nos à solução correta (PRADO, 2007). Recortem-se, a título de justificação, três momentos do romance: o primeiro, é a cena em que Bartolomeu declara a Baltasar ser Deus também um maneta; o segundo, a discussão acerca da alma e das vontades humanas; e o terceiro, em que Blimunda vê o que está na hóstia:
eu te digo que maneta é Deus, e fez o universo.
(…)
Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta (SARAMAGO, 2007, p. 63-64).
… mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive devido aos homens e mulheres, Nesse caso é a alma, Concluiu Baltasar, Não é, também eu primeiro, pensei que fosse a alma, também pensei que o éter, afinal, fosse formado pelas almas que a morte liberta do corpo, antes de serem julgadas no fim dos tempos e do universo, mas o éter não se compõe das almas dos mortos, compõe-se, sim, da vontade dos vivos (SARAMAGO, 2007, p. 121-122).
(…)
Durante todos estes anos, desde que se revelara o dom que possuía, sempre comungara em pecado, com alimento no estômago, e hoje, decidira, (…) que iria em jejum, não para receber Deus, mas para ver, se ele lá estava. (…) Que foi que viste na hóstia (…) Vi uma nuvem fechada, respondeu ela. (…) Esperava ver Cristo crucificado, ou ressurrecto em glória, e vi uma nuvem fechada (…) se o que o está dentro da hóstia é o que está dentro do homem, que é a religião (SARAMAGO, 2007, p. 126-127).
É por através de Blimunda, prenhe de características fortes, como este dom de ver o que o está além, assemelhada a outras personagens da mitologia (relembro aqui o velho Tirésias), que Saramago vem tratar das dúvidas e das inquietações do ser humano; inquietações em relação à morte, ao amor, ao pecado, a existência de Deus (MALHEIROS, 2009). Numa dimensão mítica, Blimunda é uma personagem que está num passado aberto, dilatado para o além, o futuro; traz uma individualidade que não é apenas dela, mas de toda uma humanidade. Ela acaba por compor parte da eterna luta entre as forças divinas e demoníacas; é portadora de uma mensagem humanizadora; espécie de Prometeu que se ergue contra as divindades e, por isso, é castigada a rodar o seu país, o mundo, de ponta além ponta – “A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como cortiça. Portugal inteiro esteve debaixo destes passos, algumas vezes atravessou a raia de Espanha, porque não via no chão qualquer risco a separar a terra de lá da terra de cá” (SARAMAGO, 2007, p. 346); e andou durante nove anos, como os nove círculos do inferno de Dante. O vagar mundo afora à procura do “seu homem” denota a expulsão de sua unidade original. É maltratada, apedrejada, julgada doida, feiticeira, sofrendo a tortuosidade e a tortura, feito Sísifo, num mundo caduco e absurdo, até reencontrar-se com Baltasar:
Naquele extremo arde um homem a quem falta mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda (SARAMAGO, 2007, p.347).
Se atentarmos para o fato de que as vontades humanas eram o ar que Deus respira, Blimunda iguala-se a Ele ao tomar a vontade de Baltasar antes de esta subir ao céu. Além do que, esta cena coroa o fechamento de um círculo poético que se abria no alvorecer do romance, quando Blimunda conhece Baltasar e, denota um estágio de comunhão amorosa.
Conclusão
Aqui chegando é possível deixar as feições desse retrato. Blimunda não é nenhuma divindade terrena ou bruxa; talvez complete em si o mesmo poder comum de intuição feminina – “Não há mulher nenhuma que não tenha visões e revelações, e que não ouça vozes, ouvimo-las o dia todo, para isso não é preciso ser feiticeira” (SARAMAGO, 2007, p. 101). Pelo correr das constatações operadas ao longo deste ensaio, deve ter ficado claro que, Blimunda é a que instaura outro olhar para o ser feminino: não cabe nessa sua imagem a figura que à mulher de seu tempo e ainda contemporanea em alguns discursos, lhe foi acoplada: a de símbolo torto, enviesado, demoníaco. Blimunda também é como bússola, a única que comporta o senso de direção, ainda que desnorteada; é como aquela mulher do médico do romance de Saramago posterior a este, o Ensaio sobre a cegueira: a que carrega a responsabilidade de ter olhos quando os outros o perderam, a que nasceu para ver o horror, porque se é, muito mais sensato viver às cegas, nas virtuosidades e aparências. “Signo epifanizado do feminino” (BASTAZIN, 2006), a imagem que fica da Blimunda verbal e que se constrói na narrativa como pintura na tela, é a de sugestão poética ou enigma místico; como já foi dito, nebulosa, que vai, ao longo do romance, assim como ao longo do quadro, movimentando-se, desdobrando-se, expandindo-se, modelando-se por através das palavras, da tinta, até compor-se arquétipo, imagem universal. Trata-se de uma personagem complexa, viva, visceral; é uma mulher do povo, mas que “caosifica” a ordem, para no caos recriá-la de outro modo; vive a seu modo o sentimento místico; é a que desperta a outra parte, o masculino em sua claridade obscura dos sete sóis, para ver a vida e ensinar a ele, e, por conseguinte, ensinar-nos, a ver o mundo tal qual ele é: uma mancha povoada pelos lados do bem e do mal. O tecido dessa imagem é, pois, denso. Blimunda é o que poderíamos ser: a que ver de forma fiel, verdadeira.
Referências
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Bio fornecida pelo palestrante.

O ESPAÇO DE MORAR REVELADO: “A CASA”, VISTA POR CECÍLIA MEIRELES




O ESPAÇO DE MORAR REVELADO:

A CASA”, VISTA POR CECÍLIA MEIRELES

Rafael Alves Pinto Junior

Universidade Federal de Goiás

Em junho de 1947 o jornal A Manhã publicou na seção “Letras e Artes”, uma crônica de Cecília Meireles intitulada “A Casa”. Tendo seu primeiro livro lançado em 1919 – Espectros – o nome de Cecília Meireles já se ligara ao que de melhor se fazia na poesia da primeira metade do século XX no Brasil. E não somente à poesia. Além dela, se dedicou à prosa em vários gêneros: artigos, ensaios, conferências, estudos sobre folclore e educação.

Este texto não se propõe a fazer uma análise do discurso “oculto” no texto de Cecília, entendido como produto cultural de sua autora; sobretudo quando se coloca este horizonte como produto de uma experiência estética intersubjetiva e vista como obra que se completa nos olhos de quem o lê. A interpretação que proponho, ao rever o mundo que o texto da escritora revela, é apenas uma entre as várias possíveis.

Como é facilmente verificável, a linguagem poética invade de sua prosa. Talvez, não importe delinear os contornos de uma ou de outra, mas perceber manifestações diversas da mesma pena, fruto de uma única poiesis.

Dentro do contexto de ruptura e de divisor de águas que o modernismo construía na literatura e nas artes no Brasil das primeiras décadas do século XX, Cecília se distinguiu de seus contemporâneos por recusar tanto uma identidade nacionalista quanto uma particularidade estética determinada através de uma ruptura. Colocada numa condição de “pós-simbolista” por Otto Maria Carpeaux e ao lado de Drummond e Bandeira entre os grandes poetas vivos daquele momento, Cecília se distingue através de uma poética simultaneamente atual e inatual, conforme o colocado por Neto (NETO, Miguel Sanches, 2001). Trata-se de uma filiação a um conceito de tempo diverso de seus contemporâneos, desligado de fraturas estilísticas, arroubos nacionalistas ou afirmações ideológicas. Para ele:

Não se trata, portanto, de uma “neo-simbolista” que apenas voltava ao Simbolismo de maneira passiva, mas de uma autora que parte desse movimento, e do que havia nele de conexões com o Parnasianismo, rumo a uma arte moderna escoimada de seu materialismo limitador, fazendo preponderar um desejo de unificação e não de cisão, de universalização e não de particularização. E esse desejo se realiza muito mais pelo desprendimento dos vínculos terrenos, num movimento de ascensão que lhe dá um olhar mais amplo sobre o homem e a existência.

Avessa ao sentimento estético separatista, ela se apossa de uma palavra agregadora, por sentir de forma aguda a fugacidade de tudo. Afastada do centro da poética modernista, manejando uma língua intemporal, ela deu continuidade a uma tradição lírica ibérica, trilhando a contramão dos rumos poéticos de nossa modernidade, que negou justamente a conexão com a cultura portuguesa, em nome da afirmação do local ou por deslumbramento por culturas mais avançadas tecnicamente. O que é considerado conservador em sua postura adquire um papel de revolta, de resistência, até hoje pouco valorizado em nossa cultura afoita demais pelas novidades (op. cit., p. xxiv-lvi).

Neste sentido, falar em brasilidade expressa na arte da época, corresponde abordar uma temática constante no cenário cultural nacional e que diz respeito aos problemas de uma conceituação de uma cultura brasileira. Como ponto de partida, entendemos que as práticas artísticas modernistas – principalmente as relacionadas à literatura – se revestiram de propriedades capazes de esclarecer práticas sociais e ideológicas inauguradoras de uma forma de ordenar, ou ao menos de propor uma unidade cultural. Sobretudo no que apresenta de imagética.

Vista desta maneira, a conceituação de uma identidade cultural não deve ser entendida como um conceito fechado, mas antes como um continuum de resultados transitórios dado basicamente às suas causas múltiplas e mutáveis. Desta forma, tornando-se um ponto de referência essencial no processo de formação da arte brasileira, o modernismo se afirmou no Brasil através de um processo historicamente inconcluso, dinâmico e contraditório em sua essência; e, portanto, problemático e aberto; ainda que em sua primeira fase até os anos 1930 esta antinomia não seja consciente.

No panorama do modernismo no Brasil, a obra de Cecília, em prosa ou verso, não revela nenhum momento de ruptura em termos profissionais, nenhum ano deconversão à modernidade, nenhuma guinada abrupta. Sua formação se deu de uma maneira peculiar, estando intimamente ligada ao seu percurso biográfico. Neto (NETO, Miguel Sanches, 2001) observa que será a orfandade, portanto, a circunstância caracterizadora de uma estética da ascese, lugar geométrico que a poeta elege como morada. Deste ponto de vista, externo e alheio é que a autora se coloca ao escrever A Casa. À compreensão deste ponto de vista é preciso entender os conceitos de tempo e de espaço revelados pela poeta e de que nos apoiaremos nesta exposição.

1 – O olhar exterior – a casa vista por fora

Das minhas altas varandas a avistava. E se a notei, foi só por sua solidão, esse uniforme pelo qual – objetos, animais, pessoas, – fazemos o nosso reconhecimento. Pensei que seria meu destino amá-la. E sobre ela pensei algumas vezes, deslizando como uma pequena mosca pelas suas vidraças insondáveis, aventurando-me como os esbeltos gatos pelos ângulos do seu telhado, farejando o desenho secular e pueril das suas cornijas.

Cecília Meireles, de suas altas varandas – reais ou imaginárias – observa uma casa de esquina, abandonada – cheio só de silêncios. A autora identifica como seu este espaço alheio: ainda quando pertençam a outros, para mim é que foram feitos. Ao lugar exterior atribui o reconhecimento de suas dispersões em portas, corredores, escadas e jardins. Aos lugares que não são seus e onde não se está, se espelha. Ao se colocar no corpo de outros seres – pequena mosca pelas vidraças, gatos pelos telhados – faz um primeiro e fundamental reconhecimento, algo como um tatear através do externo.

Assume sem rodeios sua relação com a distância e o que ela representa:

Pensei que das minhas altas varandas se inclinava um coração de amor para a casa solitária, e deixei-me ir vivendo essa nova ternura; com suas ausências, seu natural impedimento de distância, e a impossível comunicação. Mas afinal, aprendemos tanto com os homens a lição da renúncia que amar uma casa fechada é um pequeno exercício; e uma casa vazia contem mais sonho e mais resposta que a maioria das pessoas. Nunca esperei, no entanto, nada mais que esse meu amor. Porque o amor não precisa mesmo de nada. E até de certo modo, quando se fortalece muito, começa a excluir tudo. O amor quer ser sozinho, isento de repercussão.

Visto em sua relação com o espaço, a dimensão temporal adquire um novo significado. Além do comprimento, largura e altura – as dimensões espaciais -, o tempo comparece como um elemento de se estar no espaço. O verdadeiro sujeito da percepção da arquitetura é aquele que se coloca no espaço, ainda que do lado de fora como na Casa. Ao tempo real da experiência, Cecília contrapõe uma quarta dimensão temporal simbólica, processada pelo afastamento em relação ao objeto.

O fato de não entrar na casa, não explorar seus ambientes internos, não vê-los por dentro, é significativo. A autora escolhe ficar do lado de fora apesar de nada indicar um impedimento de se entrar no espaço da casa. Entretanto, esta não ação desperta na autora os mecanismos da imaginação e, através da distância, compõe um espaço de sonho que ela preenche com ela própria. Não interessava a ela entrar na casa. A renúncia seria exercitada através da distância do olhar. O conhecimento do interior, ao revelar o conteúdo, poderia impedir o espelhamento; e o espaço que ela compõe não pode ser mensurável ou definido pelos parâmetros construídos pela arquitetura do edifício.

Ao se colocar do lado de fora, Cecília cria uma visão de espaço peculiar, plena de subjetividade, relacionada com sua noção de tempo. O tempo não se apresenta em sua condição de passado ou futuro, mas em sua condição transitória, fugidia. Apesar de presente, escapável e móvel. Daí seu encantamento e sua dor. À imobilidade do objeto físico da casa, a autora identifica uma ação. Ação de igual intensidade à sua de observadora e em sentindo contrário. Uma ação que não é percebida por ninguém além dela:

Mas um dia a casa tirou todas as suas telhas. E entendi que para mim as tirava, e que era seu modo de dizer-me “Eu também te amo.” Era o seu modo de entregar-se. E das minhas altas varandas vi toda a sua anatomia, suas divisões, suas passagens, suas claridades, seus descalabros, a mancha dos quadros no papel das paredes, as pias, os lavatórios, os ladrilhos amarelos e azuis, o chão com sua geometria, o lugar de comer, o lugar de dormir, e esse espaço geral de sofrer, que as casas piedosamente cercam com seus sucessivos regaços.

Metáfora do seu próprio fazer poético, a figura da casa é instrumento, ela própria, de representação de um mundo interior absolutamente sensorial. Através desta “desconstrução” se processa uma revelação e o interior do objeto passa, mesmo à distância a ser percebido. A imagem corresponde a um desnudar em que observam novas cores. Os espaços internos outrora cobertos – e portanto menos sujeitos às variações da luz – adquirem novas tonalidades através do sol e da lua. Elementos naturais que adquirem presença de protagonistas dentro do espaço contruído.

Esta ação de ruína do espaço construído, vista e comprendida pelo olhar exterior, é para a autora o objeto mesmo da percepção, numa ação que podemos identificar como fenomenológica. O que a poeta vê – real ou imaginariamente – são dados absolutos apreendidos em intuição pura. O processo de desmaterialização do espaço físico objetiva descobrir tanto as estruturas essenciais dos atos de ver e imaginar (noesis) quanto as entidades objetivas que correspondem a elas (noema), para usar uma terminologia tão cara à fenomenologia.

A experiência propiciada pela distância e pela solidão, se constitui no habito da habitabilidade, a que se refere Ferrara (FERRARA, Lucrecia D´Alessio, 1993). Pela vivência da solidão, a cronista aplica à cidade e aos seus elementos – as outras casas – o seu modo de habitar e de ver o seu entorno. A solidão é a lente através do qual ela faz o uso do seu entorno. Falando sobre a habitabilidade e o uso do espaço, Ferrara esclarece que:

Na homogeneidade da cidade, o hábito é a sedimentação de um uso urbano e, ao mesmo tempo, fator de baixa definição da cidade enquanto fonte de informação; entretanto, é por este mesmo uso que o homem se apropria do espaço ambiental, identificando-o e se identificando com ele; é o uso que dinamiza o espaço e o concretiza como modo de ser de uma cidade ou de um modo de viver. A cidade adquire identidade através do uso que conforma e informa o ambiente. O espaço é informado pelo uso que o transforma em lugar, em ambiente público ou privado (op. cit., 1993, p. 21).

A poeta não pretende dominar estes elementos ou suas antinomias, mas transitar por eles mediante uma experiêcia sensível e imagética. O texto relata uma experiência que deveria ser o contrário do de se construir uma memória. Mediante o desfazer, a autora constrói um sentido. Cria, mediante a ruína da casa, uma experiência de se estar no mundo. O espaço e o tempo da arquitetura comparecem como sujeitos de uma metáfora e de uma experiência poética. No texto, a figura da casa, do espaço construído, arquitetônico, desempenha a função de se estar diante de uma obra de arte. Quer como presença ou como desvelamento, produção do sentido, experiência do mundo da obra que se intromete e faz vacilar o mundo daquele que se envolve com ela, como entende Brandão (BRANDÃO, Carlos A. Leite, 1999, p. 4). Segundo ele, a existência da obra de arte se afirma na ação de se produzir um sentido:

Já na sua Poética, Aristóteles estabelece a verossimilhança e não o vero como o objetivo do poeta trágico. Propondo a este retratar não “os homens como eles são” mas “tais como devem ser”, afora inúmeras outras considerações derivadas acerca da eticidade original e da função da obra de arte, o estagirita coloca a necessidade da obra ater-se aos princípios de unidade tempo, ação e lugar que a capacita a condensar as ações e concentrar a vida de modo a que ela, afastando-se da dispersão do contingente, revele um sentido e promova a catarsis e o auto-reconhecimento do espectador. E, assim fazendo, ela se vê conferida de sentido e oferece um conhecimento da verdade que antes se ocultava. Tal experiência da verdade é o que muda o espectador e, portanto, é um outro tipo de verdade que se anuncia na obra de arte e que não pode ser compreendida como adequatioentre a obra e algo exterior a ela: é a verdade como desvelamento, produção do sentido, experiência do mundo da obra que se intromete e faz vacilar o mundo daquele que se envolve com ela (op. cit., p. 3-4).

Através do espaço revelado pela casa, a autora refuta qualquer presentificação e desafia a percepção linear do tempo. Para isso, utiliza o instrumental da poesia que a permite transpor a noção imediata do tempo e à concretude da matéria. De dentro de seu invólucro, a autora cria um mundo pessoal e ao povoar a casa com o “seu” tempo, dissolve a barreira da distância espacial do que vê.

2 – O olhar interior – a casa vista por dentro

Na história das artes visuais, a figura de Johannes Vermeer (1632-1675) é uma das mais fascinantes. Das trinta e seis pinturas atribuídas a ele – algumas não datadas com precisão até hoje – apenas duas não são de interiores. Imersas na representação da vida doméstica, tema dominante da escola de Delft, sua obra mostra momentos íntimos do espaço de morar. Rara é a visão de uma rua ou uma paisagem. Estão ausentes também os retratos, ao menos na sua concepção tradicional. A luz e a espacialidade representada em suas vistas exteriores não se constituem em obras de exceção. Tanto os interiores quanto os exteriores, favorecem para Vermeer, mais o jogo de luz e sombra do barroco do que a claridade clássica. As vistas do espaço construído pelo artista não estão em oposição às de seus contemporâneos, como podemos ver nas obras dePieter Saenredam (1597-1665), de Pieter de Hooch (1629 – 1684) e de Gabriel Metsu (1629-1667).

Imersas no horizonte do desenho barroco, os interiores de Vermeer, apesar de mostrarem e explicitarem uma forma ao observador, apresenta-a na incompletude. Conscientemente, o artista oculta parte dela por detrás de uma cortina, no horizonte não vislumbrado através de uma janela aberta, no que está por vir em um corredor, numa encruzilhada, numa porta entreaberta. A forma representada só pode ser entendida através desta incompletude, desta parte oculta que sabe-se presente mas que não se pode ver. Neste jogo reside o propósito de evitar que a imagem enfocada na tela pareça legitimada pelas contingências materiais do assunto representado, como o colocado por Wölfflin (WOLFFLIN,Heinrich, 2000). Tudo parece simples e nada o é, dado que a luz não se refere à forma, tornado-se ela própria, um elemento não mensurável. Segundo ele:

O motivo perde a sua evidência, o seu significado inequívoco; surgem então aquelas tomadas que não demonstram qualquer interesse pelos objetos, para as quais a pintura paisagística constitui, sem sombra de dúvida, um terreno mais propício do que o retrato e os quadros de cenas ou assuntos históricos. (…) As vistas arquitetônicas podem ser ricas em conteúdo objetivo, mas devem comportar-se como se não se preocupassem em nos transmitir determinada realidade (op. cit, p. 295).

Consideradas em suas autonomias poéticas, nada liga aparentemente a obra de Vermeer à de Cecília. A literatura moderna do século XX no Brasil e pintura Holandesa do século XVII parecem à primeira vista, separadas por um intransponível abismo. Penso que não. Falar do espaço da casa é falar de uma ampla realidade que deve ser vista como complexidade. Além dos dados expressos por sua materialidade, ele é formado pelas dimensões simbólicas e imaginárias, dimensões paralelas traduzidas pela poesia e pela pintura. Entendo que pensar o espaço da morada é fazer convergir as variadas dimensões que partem dela ou a ela se sobrepõe. Tanto a literatura quanto as artes visuais se constituem num instrumental privilegiado que nos permite compreender o espaço geral de sofrer no dizer da cronista.

No contexto da obra de Cecília, a Casa (1947) se situa entre duas obras de fôlego: Mar absoluto e outros poemas (1945) e Retrato Natural (1949). Frutos do cerne de sua poética e do período mais tranqüilo e estável propiciado pelo seu segundo casamento. Em 1951 vai pela segunda vez à Europa. Conhece a França e os Países Baixos, e da Holanda escreve osDoze Noturnos da Holanda, publicados em 1952. Anda pelas mesmas ruas de Vermeer. Através da figura da noite e do silêncio, compõe um quadro onírico. Uma noite holandesa – nítida – envolvia a poeta: “Vem ver o silencio que tece e destece ordens sobre-humanas e os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte!” (Doze noturnos da Holanda. In: SECCHIN, Antonio Carlos. (Org.). Cecília Meireles. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 709-710).

Envolto no mesmo silêncio que envolveriam Cecília Meireles, o espaço de Vermeer é concebido pela distância. Através dela o silêncio unifica, entrelaça e equaciona tanto pessoas quanto objetos. O mundo externo, o tempo da natureza e sua realidade não interessa ao pintor. Desprovido de interesse, ele se dedicou ao mais intimo dos espaços: o de morar. O pintor constrói um espaço cuja única intromissão do exterior é a luz e seus reflexos, sua geometria e sua sombra. A luz revela e fixa as figuras suspensas em gestos solitários através de uma intimidade que não se imagina revelada. Uma intimidade que é medida através da luz, da sombra e da distância, ela própria espaço.

Ao espaço cartesiano, mensurável, analítico, Vermeer contrapõe um espaço subjetivo, construído a partir da geometria visual, mas além dela. A geometria é a ferramenta da representação da distância do ser em relação aos seus sentimentos, que se apresentam ao observador como uma recordação e não como um fato. À idéia do registro de um fenômeno o pintor oferece a construção de um espaço único e mágico. Construção plena de uma subjetividade íntima que somente seria reconhecida e valorizada na segunda metade do século XIX por autores como Marcel Proust (1871-1922).

Os anos entre 1662 a 1667 foram para Vermeer de inspirada produção. Datam deste período obras importantes como Carta de Amor (1667),Mulher com colar de pérolas (1664), O Concerto (1664) e Lição de Música(1662). Em todas elas, podemos entender o espaço pictórico através da distância que o constitui. A distância estabelece as relações de quem vê – na penumbra – e de quem é visto, sob a luz. As ações desempenhadas pelas figuras – ver uma carta, experimentar um colar de pérolas, executar ou aprender música – apenas marcam e referenciam a distância, estabelecendo um limite à observação. Estabelecem um lugar próprio que não pode ser invadido senão pela distância do olhar.

O olhar é o único instrumento que nos permite entrar neste mundo, mas respeitando a privacidade a que têm direito seus habitantes. Vermeer constrói um mundo de sujeitos que devolvem aos observadores a possibilidade de preencher, através da imaginação, o fato. Qual o conteúdo da carta do amado ausente? Em quê pensavam diante da janela aberta? Qual a palavra na boca entreaberta, na frase suspensa? Qual sentimento aflorou e foi abafado? O pintor não responde a nenhuma destas perguntas. Devolvendo-as ao espectador cria a possibilidade de, através do imaginário, construir um sentido, e ao fazer isso, participar da própria experiência estética e do próprio fazer artístico. Mediado pelo simbólico formado pelo imagético, o observador pode partir do visível e chegar ao invisível. Cabe a quem vê, completar o jogo que o espaço pictórico barroco nos propõe e, ao permitir essa abertura, minimiza os aspectos da consciência evidentes na percepção, coloca a obra – poética ou visual – num horizonte não cartesiano.

O destino da casa, na crônica de Cecília, é, notadamente, diferente das retratadas por Vermeer. Ao espaço incompleto do desenho barroco, corresponde uma revelação em Cecília. A casa se desnuda, abrindo-se em ruína, achando-se “desnecessária”. Entretanto, a casa sobrevive à sua desmaterialização:

Tudo desapareceu. E a casa ainda existia. E por fora não tinha mudança nenhuma. E a sombra das nuvens boiava na sua amplidão e só de ar e de luz e de som estava repleta. De silêncio, não. O silencio voara, e olhava para ela, com os meus olhos. Ele e eu assistíamos a esse deixar de ser que parecia voluntário. E ouvíamos a casa dizer que desdenhava de si própria, que se achava desnecessária, que tudo quanto fora já não servia, e que até para abrigar e proteger é preciso inventar mil modos diferentes, sucessivos, porque as misérias dos homens que habitam as casas são muito complicadas, doloridas, assustadiças, inquietas. (…) E a memória da casa estava apenas no chão, no traçado do chão, por onde ela voltava ao seu começo, àquele tempo em que o arquiteto a inventara e ela era um vago pensamento. Era um desenho em cima da Terra, outra vez, mas um desenho que agora se apagava.

E a casa me foi dizendo adeus pouco a pouco, e muito amorosamente. E um dia olhei das minhas altas varandas e todas as suas janelas tinham saído, e suas quatro paredes tinham sido levadas, e ela não possuía mais limites: era um quadrado deserto, um pequeno quadrado do planeta, à mercê dos homens.

A cronista constrói uma imagem poética em que o objeto – a casa – retorna ao conceito, à concepção e à gênese estética. No caso, a materialidade do espaço construído se resume ao desenho conforme o concebido pelo arquiteto, reconstruindo uma memória “ao avesso”. Parte do reconhecimento da forma externa e termina no quadrado deserto, um pequeno quadrado do planeta, à mercê dos homens. Na Casa, a identidade de quem vê se dá no reconhecimento da destruição do objeto, que é, ele próprio sujeito da experiência estética:

Foi só então que algumas pessoas repararam na casa que já não era casa. Que não era mais aquela casa. E como para os outros só tinha sido aquilo, é natural que não fosse mais nada. Nem deixara pó que sujasse a roupa dos passantes. Mas eu, que a tinha visto e ouvido… Ah, comigo foi diferente. Quando chegarmos à Eternidade, também ela estará entre as coisas sem morte, – e não terá rua nem número: será simplesmente “A casa”. E, por seu serviço, permanência e derrota no mundo dos homens, anjos infantes correrão por suas traves e com longas ramagens cheias de flores a adornarão.

Ao colocar a casa na latitude da Eternidade, a cronista a situa no mundo platônico e imortal das Idéias. Colocando-a como objeto ideal, Cecília faz uma redução eidética, encontrando um significado para ela essencial. Às diferenças de uma casa ou de outra, variadas como produtos da cultura, se sobrepõe a imagem da casa imagética, substantiva; e nisto podemos identificar mais uma das características de Cecília: a universalidade.

Reler a crônica de Cecília reabre a possibilidade de que, através da experiência estética e da ferramenta do imaginário seja possível articular saberes, construir identidades e reconfigurar a relação de distância entre o observador e o objeto da arte. A referência à obra de Vermeer abre uma releitura da crônica de Cecília no sentido a confrontar as incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece. A obra de Cecília espera ser relida. E esta releitura se reveste de importância quando consideramos a necessidade de, na contemporaneidade, nos colocarmos diante de um mundo globalizado, mas não universal.

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Bio fornecida pelo palestrante.

LETRAS PARANAENSES NA ESCRITA DE AUTORIA FEMININA: Adélia Woellner e as Fagulhas da MEMÓRIA




LETRAS PARANAENSES NA ESCRITA DE AUTORIA FEMININA: Adélia Woellner e as Fagulhas da MEMÓRIA

Níncia Cecília Ribas Borges Teixeira

A intenção é de abrir o coração e a alma. Demonstrar que tudo é motivo de crescimento e nada é razão para abandonar a trilha da vida.”

Adélia Woellner

Introdução

Ao se analisar um fenômeno social dentro das práticas nas quais ele está inserido, faz-se necessária a determinação de suas características nas diversas etapas históricas do desenvolvimento da vida em sociedade, ressaltando as mudanças, conforme as relações que ocorrem com o progresso científico e tecnológico. Nesse sentido, a histórica trajetória feminina não pode ser entendida como uma sucessão de fatos no tempo, mas como o modo que a sociedade, em condições determinadas, cria os meios e as formas de existência social, política, econômica e cultural.
A reflexão sobre a escrita de autoria feminina remete ao processo histórico que a produz, como fenômeno cultural, bem como as relações de poder e ao confronto de interesses que ocorrem na sociedade e que irão influenciar em seu significado. Dessa forma, acredita-se que é preciso refletir sobre o passado para que se possa compreender o presente.

Na formação da sociedade paranaense, podem-se visualizar traços culturais variados e distintos que se mesclaram e deixaram marcas no comportamento provinciano e conservador de seu povo, especialmente, quanto se refere à conduta feminina. O comportamento da mulher paranaense, conforme o lugar que ocupa dentro dessa sociedade, é permeado de regras e traços de uma sociedade agrária, que exige um comportamento recatado e doméstico próprio dos costumes da vida nas fazendas, regras que estão enraizadas não só na classe dominante, mas que também orientam o comportamento das famílias de classe alta e média, as quais exigem que a mulher tenha uma “boa formação”: escolas religiosas e façam um casamento com bons partidos. Mas, na realidade, sob o manto da permissividade ou do respeito a todas as expressões individuais e coletivas, está um Paraná austero, conservador em suas práticas políticas e sociais, um estado vigilante de seu código patriarcal. Talvez, por toda essa atmosfera, recrudesçam e se perpetuem as regras patriarcais que regiam o comportamento da mulher no século passado.

Apesar das conquistas e de significarem mais de 44% do mercado de trabalho no Paraná, as mulheres continuam enfrentando obstáculos para a ascensão profissional. O rendimento das mulheres é 42% inferior ao dos homens. As trabalhadoras ainda recebem menos porque se inserem profissionalmente em ocupações de menor remuneração, produtividade e prestígio social. Os segmentos que mais absorvem força de trabalho feminina são os mais desvalorizados no mercado de trabalho e os que tendem a propiciar remunerações mínimas, como o setor de saúde, educação e serviços pessoais, principalmente o emprego doméstico. A entrada de qualquer bandeira feminista foi sempre dificultada por essa mentalidade hegemônica, misto de ideologia agrário-burguesa com a regência da Igreja.

A exclusão histórica da autoria feminina no campo institucional da literatura, em especial no Paraná, foi resultado de práticas culturais que privilegiaram a enunciação do sujeito dominante da cultura, o sujeito masculino. As causas do silêncio envolvendo a história literária da mulher encontram-se nos preconceitos que sempre cercearam a escrita feminina. Os críticos literários do passado, em sua maioria homens de letras, sempre tiveram uma atuação determinante na configuração dos cânones nacionais, através de trabalhos acadêmicos.

O feminismo no Paraná tem como principal figura a escritora Mariana Coelho que na obra Paraná mental traçou a história literária de seu estado de adoção. No entanto, mais do que na literatura, é no ensaio polêmico que sempre se distinguiu Mariana Coelho, gênero em que as mulheres deixaram poucas páginas no século XIX. Mariana foi uma defensora aguerrida do feminismo e, segundo Zahidé Muzart (2002), expôs entusiasticamente seu ponto de vista em várias obras, entre as quais se encaixa perfeitamente o livro A evolução do feminismo. Nele, a autora se propôs a fazer, e fez, uma coletânea de informações sobre fatos, dados científicos e pessoas que, de alguma forma, seja com suas ações, produções literárias, projetos de lei e atitudes, puderam subsidiar a defesa da tese feminista, da igualdade intelectual e de direitos entre homens e mulheres. A evolução do feminismo, embora com o mérito de compilar uma quantidade respeitável de informações sobre o tema, não é um clássico. Mariana, obviamente, é um produto de seu tempo e como tal deve ser lida. Trata-se, portanto, de obra, pelo menos em certos aspectos, datada, e a autora, em sua ânsia por subsídios científicos que contribuíssem para a implantação das idéias feministas, recorreu a teorias diversas, algumas próprias de seu tempo mas, atualmente, descartadas e outras, como a eugenia, por exemplo, que se mantém perigosamente circulante.

Nesse inventário, ela registrou a presença e as ações das mulheres nas mais variadas épocas, locais e circunstâncias. Em sua intenção de contribuir para a emancipação feminina, Mariana descreve, em tom apaixonado, feitos gloriosos, corajosos, íntegros ou generosos perpetrados por mulheres, demonstrando assim a freqüente “superioridade” feminina em várias instâncias. Ela investigou a presença das mulheres na religião, na guerra, na política, na administração, nas ciências, nas artes, nas letras, na imprensa e no amor, em diferentes épocas e regiões do globo. Talvez possamos ainda recorrer a uma outra questão: a de que a colonização do interior do Paraná – com a produção de riquezas, através da cafeicultura deu-se muito recentemente e que, numa sociedade agrária, a educação da mulher sempre foi colocada em segundo plano.
A literatura feita por mulheres, juntamente com a discussão sobre a negritude e a literatura homoerótica, é fenômeno significativo dos últimos anos do século XX e se insere na discussão do multiculturalismo. A produção de autoria de mulheres sempre foi excluída, por várias razões, dentre elas o puro preconceito de uma sociedade atrelada a valores patriarcais que reservava à mulher o papel de esposa e mãe. Assim, sua produção sempre foi avaliada como deficitária em relação à norma de realização estética vista sob o ponto de vista masculino. Para Peggy Sharpe (1997), é comum nas Literaturas Coloniais omitir ou sub-representar relatos advindos da voz feminina, só em iniciativas mais atuais é que ocorrem discussões em torno da identidade nacional advinda de várias vozes, inclusive a feminina.
Nas décadas de setenta e oitenta do século XX, o pensamento feminista desenvolveu a teoria dos gêneros como modelo de interpretação das relações sociais e de sua história. Elaine Showalter (1994) propõe uma direção da escritura feminina que se enquadra na estrutura da sociedade. Ela divide a escrita da mulher em: feminina, a que se adapta à tradição e aceita o papel da mulher como definem os homens e feminista, que se declara em rebeldia e polemiza, questionando o papel da mulher; de mulher, que se concentra no auto-descobrimento.
A classificação de Showalter pode ser observada na literatura brasileira e também na paranaense, assim pode afirmar que a escrita de mulheres paranaenses é ao mesmo tempo feminina, feminista e de mulher, pois segundo Nadia Gotlib, isso é possível encontrar na obra de uma mesma escritora.
A escritora selecionada para a pesquisa é Adélia Woellner que questiona o modelo patriarcal em suas obras. Em geral, essa temática se concentra em contos que questionam as relações de gênero, buscando sem encontrar, soluções para impasses criados. O tom impresso nas narrativas concentra-se no íntimo, possibilitando a revelação dos segredos da identidade feminina que reside no cotidiano da mulher.
A escolha da escritora foi feita porque apresenta narrativas vividas e escrita por mulher. Além disso, buscou-se, por meio dessa pesquisa, aumentar o campo de visão que se tem sobre a literatura paranaense, porque ao se falar nesta literatura pensa-se na Curitiba de Paulo Leminski e a de Dalton Trevisan. Há a Curitiba de Paulo Leminski e a de Dalton Trevisan, dois de seus filhotes mais célebres, que revolucionaram a poesia e a prosa. Mas há, também, a Curitiba menos conhecida, porém tão revolucionária quanto, de Adélia Woellner.
 
2 Adélia Woellner e as Fagulhas da Memória

Adélia Maria Woellner nasceu em Curitiba. É Formada em Direito pela Universidade Federal do Paraná.. Foi professora da PUC-PR. Pertence à Academia Paranaense de Letras. Sua obra é constituída pelos seguintes títulos:Balada do amor que se foi (1963), Nhanduti (1964), Poesia trilógica (1972),Encontro maior (1982), Avesso meu… (1990), Poemas soltos (1992), Poemas para amarInfinito em mim (1997), Luzes no espelho (2004), Sons do silêncio(2004). Em suas obras, focaliza a temática voltada à memória, à experiência, ao cotidiano familiar. Em sua relação com o público leitor, Woellner constrói um diálo­go interativo, como avaliação crítica da construção da identidade femini­na, que problematiza a estabilidade em todos os níveis do interagir coletivo. Na raiz de sua escrita, ela revela que as experiências que as mulheres têm de si mesmas e dos outros são formadas por meio de desequilíbrio do poder inerente à ideologia patriarcal. Parte do relacionamento con­sigo mesma, com seu parceiro, famílias e empregadores, Adélia desafia e incentiva todos a desafiarem as polarizações caracterís­ticas dos regimes de gênero.

A obra selecionada para análise intitula-se Luzes no espelho. A presença do espelho, que atravessa a literatura mundial, torna-se motivo recorrente em vários títulos da literatura brasileira atual, sempre associado à busca da identidade. Nas miragens do espelho, ocorre o desvelamento das máscaras que a mulher usa para esconder o que sente e o que finge sentir. Por meio do espelho, encontra-se a identidade. Nessa obra, a escrita de Woellner assume um caráter confessional. O sentido etimológico de confissão é desvelar, manifestar, dar a conhecer, o que já nos insere no universo de desvelamento do eu que a literatura confessional vem suscitar.

É possível perceber em Luzes no espelho, a auto-escrita de um eu personagem, que é, via de regra, (con)fundido com a própria autora. Rica em conflitos íntimos, expectativas violentadas e esperanças desfeitas, essa é uma obra envolvente sobre a mulher e a aventura de viver. A memória na escrita adeliniana comparece fornecendo elementos para compor novas práticas, referenciadas a formas de vida, infelizes e dolorosas vivenciadas, no passado. Insinua-se uma escrita marcada por um tom intimista, confessional, uma estreita relação entre a literatura e a intimidade da vida.

A escrita de Adélia Woellner é marcada por uma grande afinidade entre leitor e obra, fruto da suposta impressão de proximidade que o texto se apresenta. Pela recepção das venturas e desventuras narradas por quem vive suas alegrias e angústias, propicia-se ao leitor um momento para lembrar, refletir e reviver suas próprias experiências. Além disso, tem-se a ilusão de que o escritora se desmascara, desnuda-se por meio de seu texto, dando a impressão de uma proximidade, de uma intimidade entre aquele ser, pessoa física que compôs a obra, e aquele que a lê.

No livro analisado, há a apresentação de um ponto-de-vista particular que individualiza a existência do eu que se inscreve. Como em qualquer literatura, nada pode ser tomado como representação fiel da realidade, mas como possibilidade mimética de construção artística. Adélia, em sua construção literária, remete à volta do eu ao passado para construir o presente. Esse presente que se constrói e que, logo depois de configurado como passado, desfigura as concepções do passado que certamente será alterado com as vivências desse presente. É importante salientar que as memórias, que são formadas a partir de fatos esquecidos, portanto, só se configuram como tal porque se conformaram como esquecidas em determinado momento.

Na obra Luzes no espelho, a escritora passeia pelas descobertas do cotidiano, pelas questões femininas, pela paixão. A escritora afirma que ao escrever “A intenção é de abrir o coração e a alma. Demonstrar que tudo é motivo de crescimento e nada é razão para abandonar a trilha da vida”. As realidades do dia-a-dia e as representações simbólicas são registradas em narrativas que registram com fidelidade as etapas da vida da mulher, tais quais são vistas no mundo, numa linguagem racional e empírica. O universo de sua escrita é o espaço em que pode se libertar dos padrões e transcender o lugar comum em busca dos verdadeiros significados. “O assunto aflora, as palavras surgem aos borbotões. Planto imagens no papel. Quantas vezes, tudo pronto, me surpreendo. Essa sou eu?”

Luzes no espelho é resultado de experiências individuais, da vida privada  e da vida pública. A autora delega à memória a função de re-elaborar sua própria experiência de vida; o resgate simbólico das fases de sua vida (casamento, maternidade, separação, recomeço, concursos e diploma) impressiona pela intensidade. A memória é o locus privilegiado do imaginário, berço de  toda ficção.

Era domingo. Meu pai e eu termináramos o serviço de entrega de pães em torno do meio-dia. Chegada a hora de a caminhonete Ford-41, descansar, pois, afinal, estava funcionando desde as três e meia da madrugada…. Enquanto o motor esfriava, a comida fumegante era servida na mesa simples, retangular, que ficava na cozinha, ao lado do fogão a lenha. Não havia novidade. O almoço de domingo mantinha a tradição: macarrão, posta ensopada, às vezes recheada com toucinho, salada de batata com molho [de] maionese caseiro. Minha mãe misturava as gemas de ovo (uma, cozida, bem amassada, com gema crua) e ia acrescentando o azeite aos pouquinhos, mexendo bem com o garfo, para não talhar. O colorido do molho acentuava e dava brilho à suave cor das batatas cortadas em rodelas. Depois, normalmente, a sobremesa: pudim Medeiros… Em dias especiais e muito raramente, uma gasosa Cini era o acompanhamento festejado. (WOELLNER, 2004, p. 76).

Essa memória, quanto mais enterrada no âmbito do privado, mais frutifica no plano simbólico, atesta Nélida Piñon1 (2002), ao confessar que ao narrar, empreende a viagem ao seu centro, cujas margens ela desconhece. A memória individual é o território do secreto. Espaço  de absoluta privacidade.  Na narrativa de Woellner, recordações  e reminiscências, lembranças e esquecimentos manifestam, ora explicitados ora de forma escamoteada, sob diferentes ardis estratégicos, a permanente  intervenção de material memorialístico na matéria narrada. Pela intervenção da memória, constrói-se a narrativa secreta da vida, que se separa da narrativa oficial (quando não se opõe a ela), construção que tentamos legalizar, não só em relação ao mundo exterior, mas também em relação  ao nosso próprio mundo. E a narrativa secreta é sempre inquietante, subversiva e, no sentido possível deste termo, verdadeira (AGULLOL, 2002, p. 22).

Olhando da rua principal, ali no Alto da Caixa d’Água (hoje av. Castelo Branco, junto à praça das Nações), é difícil supor que, naquela casa grande e bonita, revestida de pedras, existia moderna panificadora: a Marumby, cuidada diretamente pelos dois Osvaldos: o Matte, que a criou e instalou, e o Woellner (Passarinho), seu sócio.

Três e meia da madrugada… Estrelas piscando no céu transparente de Curitiba. O frio intenso indicava que, ao amanhecer o dia, com certeza a geada ainda estaria branqueando a grama e o telhado das casas… e até, a madeira úmida dos dormentes da estrada de ferro e das pontes e pontilhões, tão comuns naquele tempo…

1949… 1950… 1955… os anos passavam e, de terça a domingo, o pão era distribuído, religiosamente, aos “negociantes” e para algumas residências particulares. Segunda-feira era o dia de folga, porque, aos domingos, a folga era dos padeiros.

A maioria dos entregadores de pães utilizava carrinho tracionado a cavalo. Nós, porém, já tínhamos mais conforto: meu pai possuía uma caminhonete Ford-41, carroçaria de madeira, pintada de marrom e amarelo-creme. Bonitona mesmo… Três quilômetros, mais ou menos. E a lama faz escorregar. Acho que não sinto nada. Tenho apenas que entregar o pão dos alunos, que o esperam para o café da manhã.

Sinto-me forte, importante. Nenhuma criança é como eu. Tenho orgulho, porque os amigos do meu pai elogiam meu trabalho.
Já passei da metade do caminho. Agora, o difícil é a descida, sem escorregar no capim molhado. Pela rua, não dá. É muito barro… atola o pé. (WOELLNER, 2004, p.21).

A escrita de Adélia é sobre o eu é, antes de mais, um ato de consciência, um exercício espiritual. O exercício praticado por ela ocupa lugares mentais por excelência, e pelo recurso à lembrança e à memória, a autora recapitula o espaço e o tempo, contribuindo para a elaboração de uma história individual e coletiva. Numa complexa narrativa, o protagonista/personagem torna-se interlocutor de sua própria experiência e de sua inserção no mundo como cultura e como natureza. A narrativa da própria vida lhe dá constituição e se insinua como forma de construção da consciência do estar no mundo. Ela se traduz numa relação da própria literatura com os aspectos íntimos da vida, um espaço edificado sob a égide da intimidade. Busca recuperar a espessura existencial da vida cotidiana, tentando surpreender, na experiência de cada dia, aqueles momentos de resistência do vivido, de insurgência da beleza e da verdade, capazes de dissolver os vínculos da rotina.

Há dois dias estou casada. É noite e estou sozinha no pequeno e simples quarto do hotel de Matinhos. Esse quarto é estranho. Sinto tristeza e solidão. Tenho vontade de sair, ir lá embaixo, assistir, pelo menos; gosto de ver pessoas dançando, soltas, livres. Mas estou presa pelo medo. Choro. Encolho-me na cama, como criança cumprindo castigo. (…) O dia chega e termina. Tento agir como se nada tivesse acontecido. (WOELLNER, 2004, p.30).

O  nutriente de toda obra literária é a imaginação. O que chamamos  de invenção, no campo literário, resulta das operações de linguagem que selecionam e combinam, promovendo articulações  sintagmáticas que tecem um enredo, configuram um personagem, armam uma cena, dando outra cara àquilo que um dia foi  vivido no corpo, reinventando a existência, trazendo à tona tudo o que devia permanecer oculto no território secreto da memória. Na obra de Adélia, autora e narradora se irmanam  igualmente na mesma reminiscência da experiência compartilhada por toda uma geração de mulheres: a contemplação narcísea da imagem refletida no espelho em uma perspectiva em abismo, multiplicando ao infinito  a face daquela que ali se procurava.
Adélia Woellner, ao escrever, constroi um conhecimento sobre si mesma e sobre os outros. A memória é seu referencial, um espaço próprio para suas reflexões, para reelaborar suas experiências de vida, reviver lembranças, recordar e transmitir sua sabedoria. A própria autora revela a importância da memória para a sua existência: “Em algum lugar deste infinito mistério que é meu ser a emoção, a emoção primitiva, brilha e reflete, a memória de todas as eras” (Woellner, 2000, p. 63). Ela propõe um caminho para o encontro com seu eu interior. Sua escrita é existencial, voltando-se mais intensamente para a confissão do que para a ficção. Mostra a vida como um ir e vir, um nascer, um renascer e um retorno:
 

As lembranças se embolam, confusamente: o casamento com o vestido que fora do casamento da prima Leoni, reformado e ajustado pela tia Josefa. (…) modelo lembrança do filme “Cinderela” e nunca esquecido; a viagem de ônibus sem olhar para os lados; a praia, o mar infinito, porém fora do meu alcance. Meu espaço se aperta aqui dentro. Ouço vozes e música. É janeiro (…) Amanhece e chove. (…) Assim é a volta (2004, p. 29).

O universo de Adélia retrata a constante busca pela identidade pessoal, o inefável sentido de existir, encontrados nos pequenos detalhes da vida. Os gestos, as declarações e os lugares comuns provocam uma materialização da memória e, assim, ativam um momento súbito de revelação. Unificar passado e presente para conferir um sentido à própria vida atual. Ou seja, construir a própria identidade. Adélia entende bem este processo, seus contos revelam uma mensagem, uma experiência, uma idéia que fica latente:

Olho-me no espelho, atentamente. Hoje consigo mergulhar no fundo dos olhos e ver ali toda a vida refletida em cada marca dor rosto. As personagens que vivi desfilam em minha frente. O tempo está suspenso. Eu sou uma e sou todas. (…) Nesse espelho falante, máscaras que simbolizam risos e choros, raivas, mágoas, perdas, desafios, decepções, realizações, fracassos, rodopiam como ponteiros descontrolados de um relógio alucinado (2004, p. 117).

 
A escritora registra, por meio de seus contos, suas grandes descobertas, principalmente, a descoberta do seu eu interior, livre, leve que se reconstrói depois de destruir as barreiras do preconceito e da opressão. A escrita de Adélia demonstra que ser mulher não é fácil, sobretudo, ser mulher, profissional, mãe, filha e ainda escritora.

Luzes no espelho apresenta-se como cenário de um verdadeiro encontro com o eu, um registro de sua vitória existencial, sobre caminhos jamais sonhados. A obra revela sua luta interior, para vencer as angústias, imposições, bloqueios, para seguir em frente, libertar-se de tudo o que impede seu crescimento, enfim usufruir sua vitória. Por meio de sua escrita, de um lado corre a recuperação da auto-estima, há libertação de todo e qualquer patriarcalismo e, de outro, confere ênfase à vida, na medida em que compõe a sua própria visão das coisas meritórias do mundo. Apreciar o valor das suas atividades é um caminho para a essência da existência humana.

É no tempo-espaço de suas narrativas que Adélia se revela, vivencia dificuldades, perdas, desamparo. Além disso, desvenda novas possibilidades, cria novos espaços, para libertar-se dos padrões impostos à mulher em toda a sua trajetória.

3 Conclusão

A análise da história de escritoras é, portanto, uma tendência, uma linha de pesquisa e de estudo possível para quem se indaga sobre a presença ou ausência das autoras no cânone literário. Durante muitos séculos, as mulheres foram representadas em páginas literárias, enclausuradas em visões daqueles que detinham o poder de determinar o cânone. À medida que as mulheres vão saindo desse encarceramento e assumindo sua atividade de sujeitos, a interferência no cânone literário também se realiza. O reconhecimento de que outras mulheres enfrentaram dificuldades para poder criar e escrever, e que seus textos se assemelham, nos temas e nas formas, aos textos contemporâneos, principalmente no que se refere à indagação crucial sobre uma identidade própria e autônoma, cria um entendimento de que o resgate e a releitura das autoras e seus pares estabelece uma interlocução, uma verdadeira conexão entre elas.

Não se pode dizer que esse cenário mudou ou que se apresenta hoje como mais feminino ou como mais acolhedor. As diferenças nos sugerem que ainda há muito a se debater sobre o tema e que, apesar de termos vozes femininas distintas ecoando no cenário literário brasileiro, “o espaço reservado às mulheres no mercado editorial do Brasil é circunscrito a temas que, ao invés de as libertarem de seus papéis opressivos, as colam neles”.2 Talvez não caiba à literatura propriamente dita a resolução desse problema, já que ela, como espaço social, repete o que a realidade cansa de mostrar.

A narrativa contemporânea deve contemplar as vozes que foram excluídas e que não detinham poder político nem ideológico na modernidade. A atual postura implica desenhar uma narrativa não-linear que dê conta dessas simultaneidades, descontinuidades, rupturas, descompassos históricos, bem como possa deixar explícitos as condições externas de produção, o locus de enunciação e para qual receptor se dirige o texto.

As experiências do homem e da mulher são diferentes, mas a língua é comum, então o que as escritoras pretendem é criar espaços onde a voz feminina possa ser ouvida com a mesma intensidade que a voz masculina.
Nos textos analisados, pode-se encontrar uma perspectiva feminina do mundo, em termos de construção da narrativa, na estrutura, na sintaxe, na semântica e no ritmo. Adélia Woellner registra personagens que, tal como a maioria das personagens criadas por escritoras do século XX, não vivem, de certa forma, a angústia provocada pelo tempo cronológico, mas a manipulam de tal forma que os universos do real e da fantasia se confundem em um ato puramente reflexivo ou rememorativo.
É possível visualizar nas narrativas analisadas uma confusão entre planos enunciativos, a ponto de o leitor ter, por vezes, dificuldade em identificar a entidade narradora. Há um constante questionamento das fronteiras tradicionais dos gêneros literários. O vocabulário utilizado reflete, porém, freqüentemente, as atividades cotidianas da mulher, o que favorece a legibilidade da ficção, sem impedir que esta esteja aberta a uma diferenciada gama de leituras.

Nas narrativas de Adélia Woellner, a transgressão torna-se o meio pelo qual o sujeito feminino empreende a sua luta e consegue pela alteridade vencer a desigualdade. A escrita é somente o meio pelo qual essas mulheres acedem aos seus direitos e constrói/reconstrói a sua identidade. Assim, depois de conquistada a identidade da mulher, o masculino e o feminino, em Literatura, ficam em plano de igualdade, pelo que as diferenças sexuais não distinguem o tipo de escrita, apenas o sujeito da escrita. O que dizem ser a escrita feminina poderá ser apenas uma tomada da palavra por parte da mulher, uma rejeição da opressão a que o homem a submeteu e uma temática centrada na sua condição. Poderá existir uma escrita da mulher, pela mão da mulher ou do homem, mas não propriamente uma escrita feminina. É perfeitamente possível que um homem possa tomar o ponto de vista da mulher e escrever sobre ela, o que significa que tanto o homem quanto a mulher podem escrever no feminino.

Os textos não podem ter um sexo, mas podem, isso sim, ser escritos por um sujeito masculino ou feminino, que neles manifeste o seu ponto de vista ou o ponto de vista do outro sexo. A conquista da identidade e da escrita pela mulher não significa forçosamente que exista uma escrita, declaradamente, feminina. A escrita, apesar de não ter sexo, será sempre diferente de escritor para escritor, quer este seja do sexo feminino ou masculino, porque terá o seu cunho pessoal.
 

referências

AGULLOL, Roberto. O Eros da memória: horizontes da memória. Colóquio Internacional UNESCO/ Colégio Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, set. de 2002, p. 22-42

COELHO, Mariana. A evolução do feminismo, subsídios para a sua história.2a ed. Org. Zahidé L. Muzart. Curitiba, Imprensa Oficial do Paraná, 2002.

OLIVEIRA, Márcia Maria Nóbrega de. “Sexualidade e corpo: uma abordagem a partir da autorepresentação das mulheres nos romances brasileiros contemporâneos”, disponível na Internet.

PIÑON, Nélida. A memória feminina. Colóquio Internacional UNESCO/ Colégio Brasil, Rio de Janeiro , set. de 2002.

Schmidt, Rita Terezinha. “Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria eminina”. In: NAVARRO, Márcia Hoppe (org). Rompendo o silêncio: gênero e literatura na América Latina. Porto Alegre. Editora da UFRGS, 1995.

SHOWALTER, Elaine. “A crítica feminista no território selvagem”. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.).Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro, Rocco, 1994. p. 23-57.

SHARPE, Peggy. Entre resistir e identificar-se. Florianópolis: Editora UFG, 1997.

WOELLNER, Adélia. Luzes no espelho. Curitiba: Editora Protexto, 2004.

1 Para Nélida Piñon, graças à memória ingressa-se no domínio da invenção. A arte de narrar certamente tem como função inventariar a memória. Para nascer, diz ela, o texto atravessa inexorável terra, camadas  incessantes, que o escritor leva dentro de si.

OLIVEIRA, Márcia Maria Nóbrega de. “Sexualidade e corpo: uma abordagem a partir da autorepresentação das mulheres nos romances brasileiros contemporâneos”, disponível na seção “Palavras” do site http://www.corpuscrisis.cjb.net Acesso em junho de 2006.






Bio fornecida pelo palestrante.

A IDENTIDADE FEMININA COMO ALVO: CARLOS EDUARDO S. CRUZ




A interdição tácita de não ser feliz, de não viver satisfeita, de não achar que a sua era a melhor das vidas, uma vez que lhe diziam que era, a proibição de revoltar-se. Os livros permitidos e os livros proibidos, as idéias, desejos, sonhos, pensamentos permitidos, as idéias, desejos, sonhos, pensamentos proibidos. O imaginário que não se podia modificar nem pôr em causa. A mulher sem desejo nem corpo, porque só ao homem pertencia o desejo e o corpo. A mãe como um perfil de sombra, transparente a ponto de se tornar invisível, a casa perfeita, ordenada, silenciosa, como se mantivesse no ar, suspensa (Teolinda Gersão, 1982, p. 99).
Na Literatura Portuguesa até o século XX parece haver pouco espaço para as mulheres. Poucas são as autoras publicadas e pouca voz lhes é dada na literatura escrita por homens. A figura feminina aparece renegada frente aos “barões assinalados”. A mulher aparece numa escala menor, segregada ao lar e à terra, enquanto ao homem cabiam a aventura marinheira, a viagem sedutora e o domínio inquestionado das formas de opressão, caracterizando uma “Cultura Marialva”, (Cf. SILVA, Teresa Cerdeira, 2000). Havia uma subalternidade social, física e cultural das mulheres, que eram transformadas em objeto de uso, de trabalho e de prazer. Há, portanto, uma força cultural repressora das vontades femininas.
Além disso, pode-se ver uma forte repressão às mulheres durante a ditadura salazarista. As portuguesas tinham poucos direitos, estando legalmente dependentes e subservientes ao marido ou ao pai. Elas também não tinham voz, sendo excluídas de qualquer participação política pública. O salazarismo usava as mulheres em sua propaganda como repressoras da revolução, pois a elas cabia o papel de apaziguar os homens e criar a família. Essa distinção de papéis na ditadura não é muito diferente da separação que sempre houve na cultura portuguesa. Segundo Magalhães, já no século XV, “a equação “ser português é ser marinheiro” passou a ser uma das bases do ser português e um dos pilares da identidade nacional” (1994, p. 189). Dessa forma, as mulheres eram menos portuguesas do que os homens, pois os homens partiam e as mulheres ficavam.
Somente nos anos 1970 o papel da mulher em Portugal começa a mudar. Isso porque há um reflexo da guerra colonial em suas vidas: seus maridos e filhos vão para a guerra em África, deixando-as sozinhas e mais livres em Portugal. Ou então, algumas esposas de oficiais acompanhavam os maridos para as colônias, defrontando-se com a falência e o caos do império português em decadência. Assim, as mulheres começam a fazer sua própria revolução. Há uma reação feminista à ditadura salazarista, como se percebe com a publicação de Novas Cartas Portuguesas em 1972. Neste livro, o papel superior dos homens na sociedade portuguesa é amplamente questionado e o sofrimento das mulheres é tornado público.
Entretanto, somente com a Revolução dos Cravos, em 1974, as mulheres têm a possibilidade de tentar mudar sua situação. A questão feminista, reprimida com forte pressão durante tanto tempo, aparece em sua forma mais básica desde o início da revolução. Tanto que no filme Capitães de abril, realizado por Maria de Medeiros em 2000, que retrata o 25 de abril, há uma cena em que várias donas-de-casa em passeata clamam que agora era a vez dos homens irem para a cozinha, na expectativa de uma mudança geral dos costumes. Contudo, essa liberdade aguardada por tanto tempo ocorre em meio a uma crise identitária nacional. O processo de globalização instituído pelo Capitalismo avançado força uma hegemonia cultural que leva a crises de identidade, mesmo que as identidades nunca tenham sido muito precisas (Cf. HALL, Stuart 2005). Com isso, grupos periféricos, sociais ou nacionais, buscam fortalecer-se e ter voz, descobrindo-se em meio ao forte poder homogeneizador da modernidade capitalista.
Essa crise é agravada pelos fatores que abalaram a identidade portuguesa nas últimas décadas do século XX. Com a revolução e a independência das colônias ocorre o fim do império mais antigo da Europa e o fim da ilusão mitológica do surgimento de um “quinto império” capitaneado por Portugal. Dessa forma, o fim da colonização aparece como uma forma de confirmação de uma seqüência de fracassos das “conquistas portuguesas”, como lembra Magalhães (2001, p. 324). Como na Modernidade “tudo que é sólido se desmancha no ar” (Cf. BERMAN, Marshall, 1986), um império colonial de séculos e uma tradição de expansão marítima chegaram ao fim. Assim, a idéia de progresso, que arrastou os portugueses para séculos de sucessivas tragédias na tentativa de construção de um grande império, levou a uma sucessão de ruínas que fazem parte de uma catástrofe única, da qual é difícil se desligar. Essas ruínas são fruto da barbárie que acompanha a civilização (Cf. BENJAMIN, Walter, 1994), que, entre outros males, oprime e oprimiu as mulheres ao longo da História.
A Portugal restou voltar-se para si mesmo, a pequena faixa de terra na ponta da Península Ibérica. Entretanto, as forças da globalização passaram a atuar fortemente sobre o país após a abertura política e econômica. A isso se acrescenta o ingresso na então Comunidade Econômica Européia. Essa união não poderia ser menos traumática, já que Portugal não se via um país europeu como os outros. Essa distinção pode ser percebida, inclusive, no personagem Calisto Elói, do romance A Queda dum Anjo (1866), de Camilo Castelo Branco, que sendo português pergunta onde fica a Europa.
Entretanto, é em meio a essa crise que Portugal parte em busca de um novo conceito de nação (Cf. MAGALHÃES, Isabel, 2001, p. 310). O que era o centro de um grande império vê-se como periferia no novo mundo globalizado. Por isso, há a tentativa de reter os traços de oito séculos de história e incluir as vozes periféricas.
Essa discussão identitária só é possível porque ela está em crise (Cf. MERCER, 1990). Contudo, somente após o 25 de Abril foi possível discutir o papel feminino em Portugal com força e liberdade. Essa discussão ocorre também na literatura, com o surgimento de um grande número de autoras em Portugal, ocasionando, através disso, “uma certa feminização do universo ficcional” (MAGALHÃES, Isabel, 1994, p. 203). É nesse contexto que as mulheres portuguesas têm que buscar seu espaço, sua voz e sua própria identidade feminina autônoma. Essa dificuldade é mostrada no conto “Seta Despedida”, de Maria Judite de Carvalho, publicado em 1995. Nele, a personagem principal, a narradora, vive numa busca incessante de ser diferente, de fugir de sua condição apagada e submissa, ilustrando o que diz Magalhães:
Muitas personagens de romances actuais (à semelhança de muitos agentes das minorias nas sociedades) vivem não só um constante processo de procura de si mesmas em terra estrangeira como igualmente um desejo de transformar essa terra estrangeira em terra sua. Ou a tentativa, quase sempre fracassada, de construir identidades plurais, ecléticas, onde se integrem, como reacção à disseminação da identidade própria. (MAGALHÃES, Isabel, 2001, p. 308).
Essa mulher em crise apresenta um dos traços marcantes da Literatura Portuguesa, o desejo de partir, impulsionado por uma continuada nostalgia e um insistente desejo de outra coisa (Cf. MAGALHÃES, Isabel, 1994, p. 192). Essa vontade de partir, de mudança, é o tema de “Seta Despedida”, como pode ser percebido desde o título. “Seta” em busca de uma nova direção, de um novo rumo para a sociedade portuguesa, que precisa englobar as mulheres; e “despedida” por querer dizer adeus ao mundo de opressão e indiferença em que viviam. Logo no início do conto, a narradora apresenta suas lembranças de infancia, de um passado de dificuldade de expressão e de existência. É um passado marcado pela figura do poder exercido pelo pai. Tanto que, quando este sorria, o que era raro como eram raras as representações de afeto, todos deviam sentir-se muito gratificados.
Corroborando com a idéia de submissão feminina, há o constante sofrimento da mãe, que “estava quase sempre com os olhos inchados ou então a descansar” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10), numa tentativa de fuga da realidade por não ter um relacionamento bom com seu marido. Além da mãe, pode-se ver que o sofrimento era algo presente em todas as gerações, tanto que “a avó sempre tinha sido velha, era como se o tempo não pudesse feri-la mais” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10). Afinal, na História da humanidade, a mulher é a que mais sofre com a violência da civilização.
Além disso, nessa família as meninas eram presença “quase sempre indecisas e vaporosas”, que “andam vacilantes por aqui e por ali” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10). São mulheres sem raiz, sem referencial, sem um lugar próprio no mundo. E não tendo raiz, a memória é algo difícil. Por isso, a narradora oscila entre vislumbres de memória e de desmemória, caracterizando a incerteza de sua existência.
Aliás, ao tomar consciência de sua identidade, descobre-se plural, rompendo com a singularidade de sua experiência. Essa pluralização, além de ampliar a problemática discutida para outras mulheres da família, talvez irmãs, ou outras meninas da mesma geração, também aponta para a multiplicidade identitária do sujeito moderno, esfacelado. Ao pluralizar “meninas”, a narradora segue Álvaro de Campos em seu “Lisbon Revisited”:
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar. E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim? (PESSOA, Fernando, 1994).
De forma semelhante, essa variação de si mesma, identificando-se não como uma, mas como várias diferentes, é mostrada no trecho abaixo:
Quanto à menina, às meninas, também se foram apagando, apagaram-se quase por completo, nunca totalmente, claro, delas só ficou quem nesse instante teve uma espécie de vislumbre (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12).
Esse descentramento do sujeito é a própria “casa-arca”, como diz a narradora, numa referência à própria intimidade, que estava “mais ou menos à deriva”. Sem rumo, como uma identidade que ainda não se definiu, um grupo social que ainda não encontrou seu espaço, um país que não procura mais as Índias, uma seta despedida sem alvo.
Essa mulher à deriva ainda seguia como as outras portuguesas, à espera, “à espera sabe lá de quê, à espera de coisa nenhuma” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12), como se não fosse possível desenvolver expectativas. Isso porque essa personagem, crescida sob opressão, não é capaz de aprofundar a questão identitária. Tanto que, apesar de já trazer a consciência plena de sua verdade, não tem coragem de enfrentar a experiência dolorosa de se ver por inteiro no espelho. Entretanto, sabe que sua identidade é cambiante e tem desejo de mudar. Assim, ela está sempre atrás de uma modificação identitária. Ela tem medo de seu próprio eu, tanto que tem medo do grande espelho do hall da casa da infancia justamente por se ver nítida nele.
O espelho é onde é possível manifestar a inteligência e a criatividade no reconhecimento de si mesmo observando e tecendo considerações. Mas nesse espelho ela fica à superfície, mudando apenas a aparência. Ela tenta mudar o tempo todo, pinta o cabelo, muda o batom, mas tudo continua sempre igual. O trágico para ela é tentar e não conseguir se modificar. Como não consegue a mudança de seu papel por conta própria, falhando em seu processo de partida, acaba por desenvolver uma cleptomania. Apoderar-se do que é dos outros é uma experiência de ser outro, de viver como outro. Seu primeiro roubo, uma caneta de uma colega de classe é uma tentativa de ter para si o afeto que a outrem era destinado. Enquanto seu pai raramente sorria, o pai da amiga lhe dava presentes, que podiam ser exibidos. Ter a caneta seria como ser ela também a menina a quem o pai dava presentes, carinho, afeto, atenção. Contudo, seu pai, ao contrário, tinha abandonado a família no dia anterior ao roubo.
Essa identidade cambiante aflige-a a ponto de não identificar claramente outras mulheres, mostrando que o problema do apagamento da personalidade feminina em Portugal era mais amplo do que seu caso pessoal. Na cena da fotografia, ela não tem certeza de quem estava com ela, se era a mãe ou a madrasta que sentia frio. Mais tarde, na reunião em sua casa, também não conseguia confirmar se a mulher do isqueiro chamava-se Ivette ou Arlette.
Sua indiferença e rejeição a si própria estão no fato de ela, por mais que tente mudar, não ter ainda capacidade ou determinação para fazê-lo por inteiro. Sua vida é toda decidida e controlada pelos outros, como ela mesma diz: “Nem rotina tenho, escolheram-na para mim (qual escolheram, nem isso), e eu tenho vivido nela sem dar por nada” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12). Sua vida parece-lhe sem sentido. Os livros deveriam viver em sociedade, como ela achava que também deveria. Contudo, ao se dar conta de que como mulher seu papel no mundo não importava tanto, já não se incomoda com a afinidade entre os livros e sua localização na estante. A percepção dessa vida sem sentido e sem lugar foi um problema para ela, que sempre quis mudar e achar seu próprio rumo, tal como uma seta despedida. Entretanto, “sentia-se num lugar estranho, quieta e um pouco atordoada, e sem bússola” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 26). Num último esforço, ela tenta argumentar com o marido sobre seu desejo de mudança:
– Não te apetecia às vezes mudar? – perguntou ao marido com ar natural e a voz de todos os dias. – Mudar o quê? – espantou-se ele sem exagero. – Sei lá. Mudar. De casa, por exemplo. Nasci aqui, estou farta. Mudar de cara. As vezes olho para o espelho e sinto um cansaço… Tu não? Mudar de língua. De rua. De país. Mudar de vida. Arranjar papéis falsos, sei lá! (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 26)
Apesar de estar disposta a mudar de identidade, de país (vontade marcada inclusive pelo desejo de mudar de língua), de viver uma vida como outra pessoa qualquer (com papéis falsos), por estar cansada de si mesma, não consegue o apoio do marido. Afinal, ele ainda tem o papel hegemônico na sociedade, não deseja mudanças, nem sente os problemas daqueles que estão à margem. A narradora não consegue ainda encontrar sua verdadeira identidade, seu papel na sociedade que está mudando. Ela apenas possui o desejo de mudar, mas não consegue realizá-lo. Em vez disso, continua vivendo tentando ser o outro, adquirindo pequenos bens de outros como se assim fosse conseguir a identidade nova que tanto deseja.
A frustração das “viagens” da personagem-narradora em busca de um novo eu, de uma nova realidade, assemelha-se, assim, à frustração identitária portuguesa dos fracassos das “conquistas” no ultramar. Portugal, segundo sua representação na literatura contemporanea, está tentando descobrir seu novo rumo num mundo globalizado em meio ao caos do Capitalismo avançado. Assim, essa trajetória deve incluir as vozes periféricas, como a feminina, que também está em busca de seu lugar no Portugal pós-25 de abril. Dessa forma, Maria Judite de Carvalho aponta a necessidade de uma luta por uma sociedade redimida, mesmo que para isso seja preciso uma virada histórica sem perspectiva clara, uma seta despedida numa direção que não seja a do progresso, que cria um estado de exceção permanente no qual os vencedores nunca cessam de vencer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARRENO, Maria Isabel. HORTA, Maria Teresa. COSTA, Maria Velho da (1974). Novas Cartas Portuguesas. São Paulo: Círculo do Livro.
BENJAMIN, Walter (1994). “Sobre o Conceito de História”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. 7Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.222-232.
BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Trad. Carlos Felipe Moisés, Ana Maria Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras.
BRANCO, Camilo Castelo (2002). A Queda dum Anjo. 2Ed. São Paulo: Ática.
CARVALHO, Maria Judite de (1995). Seta Despedida. Mem Martins: Europa-América.
GERSÃO, Teolinda (1982). Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo. Lisboa: O Jornal.
HALL, Stuart (2005). A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 10Ed. Rio de Janeiro: DP&A.
MAGALHÃES, Isabel Alegro de (1994). “Aquém e Além: espaços estruturantes da identidade portuguesa?”. In: O sexo dos textos. Lisboa: Caminho, 1994. p. 187-206.
MAGALHÃES, Isabel Alegro de (2001). “Capelas imperfeitas: configurações literárias da identidade portuguesa”. In: RAMALHO, Maria Irene. RIBEIRO, Antonio Sousa (Orgs.). Entre ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Coimbra: Edições Apontamento, 2001. p. 307-348.
MERCER, K. (1990) “Welcome to the jungle”. In: RUTHERFOR, J. (Org.) Identity. Londres: Lawrence and Wishart, 1990.
PESSOA, Fernando (1994). Antologia Poética. Lisboa: RBA Editores. SILVA, Teresa Cristina Cerdeira (2000). O Avesso do Bordado. Lisboa: Caminho.





Bio fornecida pelo palestrante.

A idéia de História e Civilização na Revista Nitheroy




A idéia de História e Civilização na Revista Nitheroy

 

Lílian Martins de Lima

UNESP-Franca

Periodismo

 
A introdução da imprensa entre nós deu-se de forma tardia somente no ano de 1808 com a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, e nos seus passos iniciais podemos dizer que era bem cautelosa, divulgando apenas notícias oficiais como foi o caso da Gazeta do Rio de Janeiro de 1808 onde encontramos notícias como as datas festivas da Corte ou então notas sobre o aniversário do monarca. Nos anos que precederam o movimento da Independência por sua vez, a imprensa se destacou pelas discussões que travou sobre os rumos do país conforme esclareceu o estudo da historiadora Isabel Lustosa, onde a imprensa exerceu o papel de formadora da então recente e precária opinião pública. É nesse sentido que a imprensa do século XIX deve ser compreendida, ou seja, como um espaço por excelência de reflexão sobre o país. É característico da imprensa dessa época o formato dos impressos semelhantes à de um livro já que como observou Maria Lúcia Pallares-Burke (BURKE,1995 : p.14) não eram considerados objetos culturais distintos. Era comum também a prática das subscrições, espécies de assinaturas que garantiam assim uma vendagem maior dos periódicos. Contudo uma outra característica comum à produção jornalística desse período é a crença nos poderes do conhecimento como capaz de promover o desenvolvimento da nação. Essa idéia estará presente logo nas páginas iniciais dos jornais, revistas e panfletos que deixam claro seus objetivos de instruírem e colaborarem assim para a grandeza do país.
 
O amor do país e o desejo de ser útil aos seus concidadãos foram os únicos incentivos que determinaram os autores desta obra a uma empresa que excetuando a pouca glória que caber-lhes pode, nenhum outro proveito lhes funde. Há muito reconheciam eles a necessidade de uma obra periódica que desviando a atenção pública sempre ávida de novidades, das diárias e habituais discussões sobre coisas de pouca utilidade e o que é mais, de questões sobre a vida privada dos cidadãos, os acostumasse a refletir sobre objetos do bem comum e de glória da pátria (NITHEROY, 1836, s.p.).
 
 
Assim, mais do que um meio de informação, a imprensa periódica oitocentista visava a formação de um público que fosse capaz de discutir e encontrar soluções para o país e desse modo contribuir para inseri-lo nos trilhos do progresso e da civilização como era usual no vocabulário do período.
É interessante notar que esses periódicos tratavam dos assuntos mais variados: desde economia política, teatro, música, literatura, traduções de textos clássicos e que nessa variedade de assuntos abordados visavam formar um leitor virtuoso, ou seja, um leitor que fosse bem instruído nos mais diversos assuntos e também possuidor de um bom gosto literário, daí as numerosas traduções de textos franceses considerados fundamentais para a formação desse “ bom gosto” .
Mas quem escrevia nos periódicos? Para respondermos à essa pergunta é necessário ter em mente a idéia de um intelectual que é antes de tudo versátil e que não pode ser definido apenas como jornalista mas antes como um escritor pois essa é a definição que é dada no século XIX pelos responsáveis pelos ensaios, traduções e artigos publicados nos mais diversos jornais e revistas do Brasil. Conforme esclareceu Antonio Candido (CANDIDO, 1969: p.235) os intelectuais desse período compartilhavam de uma espécie de crença no poder transformador do intelectual na sociedade e assim, sua participação na vida social foi característica da nossa “época das luzes”. Acerca dos homens letrados do período imperial José Murilo de Carvalho aponta para um perfil de intelectual com uma formação na maioria dos casos jurídica e atenta ainda para o fato de que nesse período “a educação era a marca distintiva da elite política”[1](CARVALHO, 1988: p. 46).
 
História e Civilização
 
Fundada por Gonçalves de Magalhães, Araújo Porto Alegre e Francisco Torres Homem , a Nitheroy – Revista Brasiliense – Ciências , Letras e Artes é tida como um marco do Romantismo. Palco de inúmeras polêmicas como a existência ou não de uma literatura de caráter nacional entre outras, seus ensaios são exemplares das problemáticas nas quais se envolviam os letrados. Desse modo, uma primeira idéia que se faz presente ao longo dos dois números em que a Nitheroy foi publicada é idéia da História enquanto um conhecimento que permite um certo grau de previsibilidade sobre o futuro. É através da História que se pode conhecer de modo mais seguro o caminho que deve ser trilhado como podemos depreender do trecho destacado abaixo
 
Nada de exclusão, nada de desprezo. Tudo o que poder concorrer para o esclarecimento da história geral dos progressos da humanidade deve merecer nossa consideração. Jamais uma nação poderá prever o futuro quando ela não conhece o que ela é, comparativamente com o que ela foi. Estudar o passado é ver melhor o presente, é saber como se deve marchar (NITHEROY, 1836, p. 145).
 
 
 
Aliada a essa concepção de História enquanto um estudo do passado que pode orientar acerca do futuro encontramos a idéia de civilização tão cara nesse período.  Sobre a idéia de civilização no século XIX esclarece Norbert Elias as diferenças desse conceito na língua francesa e alemã. Enquanto na primeira ele exprime o orgulho das nações pelo seu papel no progresso do Ocidente, no caso da língua alemã, o conceito de Zivilisation, nas palavras de Norbert Elias (ELIAS. 1994: p. 24), “significa algo de útil, mas apesar disso, apenas um valor de segunda classe, compreendendo apenas a aparência externa dos seres humanos, a superfície da existência humana”. O sociólogo atenta que a palavra em alemão que corresponde a essa idéia de orgulho nacional é Kultur.  Observa ainda as transformações do conceito que num primeiro momento – século XVIII – estaria ligado no caso francês à um modo de vida na Corte e que posteriormente passou a ser identificado com o caráter nacional. Sua definição de civilização abarca assim essas mutações do conceito e a seu ver, “Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial, aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo” (ELIAS, 1994, p. 23).
Na análise do conceito de civilização não podemos deixar de lado a idéia de “civilidade”, que, de acordo com o historiador francês Roger Chartier (Chartier, 2004, p. 45), pode ser desmembrada em três acepções. Uma primeira acepção refere-se à civilidade enquanto uma espécie de ciência com regras e tratados que se confronta com uma segunda definição onde é entendida enquanto um modo de ser em sociedade. Já num terceiro momento o historiador observa a identificação da noção de civilidade com a idéia de honradez e cortesia. Esse mesmo autor observa ainda que a partir dos primeiros decênios do século XIX o conceito de civilidade difunde-se entre um número cada vez maior de pessoas através de textos de caráter pedagógico e assim, na sua antiga acepção enquanto um modo de ser distinto na sociedade passa a ser compreendido como um código de conduta que não diz mais respeito à uma determinada camada social.
Nos ensaios da Nitheroy a idéia de Civilização está ligada com a primeira acepção tratada por Elias, ou seja, com a noção das realizações que tornaram possíveis os progressos alcançados no século XIX; “cada nação livre reconhece hoje, mais do que nunca a necessidade de marchar. Marchar para uma nação é engrandecer-se, é desenvolver todos os elementos de civilização” (Nitheroy, 1836, p. 144).
 
Ou então:
 
Não, oh, Brasil, no meio do geral movimento , tu não deves ficar imóvel e tranqüilo como o colosso sem ambição e sem esperanças. O gérmen da civilização depositado em teu seio pela Europa não tem dado ainda todos os frutos que deveria dar; vícios radicais tem tolhido o seu desenvolvimento. Tu afastaste de teu colo a mão estranha que te sufocava, respira livremente, respira, cultiva as ciências, as artes, as letras, a indústria e combate tudo que entreva-los pode (ibidem, p. 146).
 
 
A civilização é então compreendida por uma série de elementos que por sua vez são tidos como exemplificações do progresso de uma nação. Desse modo, ao falar em civilização os ensaístas da Revista Nitheroy tinham em mente a identificação de uma nação civilizada como uma nação onde o trabalho era livre assim como também o uso de máquinas era cada vez mais generalizado. Com relação a esses aspectos é interessante observar as considerações feitas por Francisco Torres-Homem num ensaio intitulado “Considerações Econômicas sobre a Escravatura”.
Nesse ensaio o autor faz inicialmente algumas considerações sobre os primórdios da utilização da mão-de-obra escrava no Brasil, destacando primeiramente o uso do braço indígena e posteriormente a larga utilização do africano em terras brasileiras. Esse episódio da história é apresentado como algo maléfico para o futuro desenvolvimento do país, uma vez que a escravatura é concebida enquanto um empecilho para o progresso como se pode perceber no seguinte trecho:
 
D’outro lado os governos, expressão completa dos preconceitos, dos erros e falsos interesses da época e desvairados pelos motivos daquela economia que antepõe o trabalho bruto, instintivo e forçado ao livre e inteligente , mantinham e protegiam como altamente útil ao país um gênero de tráfego que soube abrir uma larga ferida à humanidade, corrompe as nascentes da prosperidade pública (ibidem, p. 36).
 
 
Numa concepção de História linear e progressista dirigida pelas noções de civilização e progresso, a leitura que o autor realiza do presente brasileiro não é nada otimista. Contrariando o rumo tomado pelo restante das nações do globo, o Brasil se apresenta como uma nação que marcha “às avessas” e daí todo o esforço dos letrados nesse período em instruir e educar o público para que o país possa trilhar o caminho das nações ditas civilizadas, ou seja, para que adentre o mundo das nações onde o trabalho é livre.
 
(…) se o livre trabalho na sua lata acepção é um dos destinos da espécie humana a titulo de instrumento primordial de toda a civilização, os povos que tem a desdita de engastar em seu solo os horrores da escravidão doméstica comprometem de gravíssimo modo o seu porvir, afugentando todo o prospecto de opulência e prosperidade (ibidem, p. 37).
 
 
Entre as conseqüências que Torres Homem enumera desse uso da mão-de-obra escrava está em primeiro lugar a resistência às inovações e daí o caráter arcaico da agricultura brasileira e sua baixa produtividade:
 
A escravatura é um instrumento ruinoso de produção: o obreiro livre produz incomparavelmente mais que o escravo: do mesmo modo que a liberdade do trabalhador favorece a potência da indústria e o desenvolvimento da riqueza, a servidão produz o resultado inverso (ibidem, p. 60).
 
 
Outra característica apontada é o desprezo pelos trabalhos manuais e a valorização de ocupações “que ministram meios de influência e de ação sobre outros homens ou sobre a sociedade”, ou seja, o desejo de angariar cargos públicos. Por fim, a dificuldade de um desenvolvimento da indústria em um meio onde a resistência às inovações se faz presente é mais um elemento que na argumentação elaborada por Torres Homem ajuda a compreender o atraso do país, concluindo que
 
O seu desenvolvimento industrial [do Brasil], porém, foi retardado pelo monstruoso corpo estranho implantado no coração de sua organização social.A posse de escravos nos tem evidentemente impedido de trilhar a carreira da indústria. Vede as conseqüências da escravatura! A sede dos empregos públicos e a esquivança para as profissões industriais são fatos mui gerais entre nós e que amiudadas vezes hão sido assinalados pela administração como uma grave enfermidade do corpo político (ibidem, p. 79).
 
 
Ao lado dessa primeira identificação da noção de civilização com a defesa do trabalho livre encontramos um outro elemento que seria também exemplar da imagem de país “avançado” que tanto era almejada pela intelligentsia da época, a saber, o uso das máquinas, concebidas como “filhas da civilização”. Com relação a esse aspecto é interessante observar como o uso ou não de máquinas é decisivo na opinião de Torres- Homem para classificar uma sociedade:
 
A distinção principal que lavra entre o homem no estado de uma sociedade grosseira e imperfeita e o homem na sociedade civilizada consiste em que um prodigaliza suas forças naturais entretanto o outro as economiza e as poupa tirando partidos das forças que encontra em torno de si: para domar a resistência da natureza material ele arma sua fraqueza com máquinas (ibidem, p. 45).
 
 
Tal uso das máquinas é compreendido como uma espécie de indício do progresso alcançado por uma nação e aliada ao trabalho livre é tida como a expressão mais bem acabada de civilização.
Verifica-se assim que é por meio da instrução e da difusão dessas idéias que a intelligentsia busca a inserção do país no caminho do progresso. Esse ponto é extremamente importante para a caracterização da intelectualidade desse período que altamente engajada se propõe a educar a sociedade e prepara-la para o mundo moderno esse “vasto bazar, essa imensa fábrica” nas palavras de Torres-Homem.
Portanto, História e Civilização se apresentam como idéias intimamente ligadas e é por assim dizer, os fios condutores de uma leitura acerca do país onde se desenham os novos e tão desejados caminhos do progresso.
 
 

Referências Bibliográficas

 
BURKE, Maria Lucia Garcia Pallares (1995). The Spectator, o teatro das luzes: diálogo e imprensa no século XVIII. São Paulo: Hucitec.
CANDIDO, Antonio (1969)  Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins Fontes, vol. 1.
CARVALHO, José Murilo de (1988). O teatro das sombras: a política imperial. São Paulo: Vérteice; Rio de Janeiro: IUPERJ.
CHARTIER, Roger (2004). Leituras e leitores na França do Antigo Regime. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora da UNESP.
ELIAS, Norbert (1994). O processo civilizador – Uma história dos costumes. Trad. Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Zahar.
LUSTOSA, Isabel (2000). Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras.
MACHADO, Ubiratan (2001). A vida literária no Brasil durante o Romantismo. Rio de Janeiro: Editora da UERJ.
MARTINS, Wilson (1957). A palavra escrita. São Paulo: Anhambi.
NAXARA, Márcia (2004). Cientificismo e sensibilidade romântica: em busca de um sentido explicativo para o Brasil no século XIX. Brasília: Editora da UNB.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da (1978). Cultura e sociedade no Rio de Janeiro: 1808-1821. São Paulo: Editora Nacional.





Bio fornecida pelo palestrante.

THE LIVING-DEAD WORLD IN JOYCE’S CLAY AND MANSFIELD’S LIFE OF MA PARKER




THE LIVING-DEAD WORLD IN JOYCE’S CLAY AND

MANSFIELD’S LIFE OF MA PARKER

Patricia Maria dos Santos Santana

 
James Joyce and Katherine Mansfield have something in common in their personal lives: both authors left their homelands to try to find their fates abroad.  Joyce left Dublin when he was still very young.  However, his love for Ireland did not allow him to write a single word about any other place; instead, every Joyce’s work is related to his own country.  Clay is a tale from the book Dubliners which is, as the title itself suggests, about Dublin and its people, revealing the social, artistic, religious and politics lives of Ireland.  Mansfield also had such nostalgic feeling in relation to her homeland and also desired to write about it, as she herself once confessed: “I want to write recollections of my own country. Yes, I want to write about my own country till I exhaust my store” (GORDON; 1954:11). Through  her tales, the reader may perceive Mansfield’s descriptions of New Zealand, her homeland, its places and stories as well as Joyce does to describe Dublin.Mansfield’s stories are based on her own experiences of life; they are a little bit personal. There is something existential on these stories, much more related to the insignificance of everyday life and never involving great themes.  Her stories are linked to New Zealand, but not in a political way as Joyce writes.  New Zealand is a source of inspiration as J. Middleton Murry describes:
 
She had suffered in New Zealand, unconsciously and silently as a little child, consciously and resentfully as an adolescent girl. For many years her resentment against New Zealand became as it were the symbol of her resentment against life itself. (MURRY; 1959:81)
 
And further, the scholar concludes: “If ever there were a writer whose life and work were one and inseparable, it was she” (id. ibid: 91).  Therefore, New Zealand may be the responsible for the way she writes her short stories and for the way she positions her characters in relation to life.  Life of Ma Parker is a tale from the book The Garden Party, one of the most expressive books in her career.
Maria and Ma Parker are the two protagonists of each story. Both women are elderly, poor and belong to the working class. Although they have a good nature, their poor condition brings them to an unreal grade of conformity.  Actually, only Ma Parker is able to recognize the frustration life can offer when there is nothing else to wait from life itself. Maria, however, is completely unaware of the meaningless life she has lived.  Maria has a high level of self-esteem, she likes herself and she likes to get well dressed too, considering the example taken from the short story:
 
Then she took off her working skirt and her house-boots and laid her best skirt out on the bed and her tiny dress-boots beside the foot of the bed.  She changed her blouse too and, as she stood before, she thought of how she used to dress for mass on Sunday morning when she was a young girl; and she looked with quaint affection at the diminutive body which she had so often adorned.  In spite of its years she found it a nice tidy little body. (JOYCE; 1975: 72)
 
According to this quotation, Maria looks happy and satisfied with herself, with her body, and her ordinary life.  She remembers her childhood and it seems that almost nothing changed in her routine, that is, she did not get married, she did not have children… The Sunday mass is the only occasion in which she has the opportunity to get well dressed.  And despite this insignificant life she is not only happy, but she also has a positive attitude in relation to her life and to the way she lives: “She arranged in her mind all she was going to do and she thought how much better it was to be independent and to have your own money in your pocket.” (JOYCE; ibid: 73)
Maria uses the word independent to mean that she is alone; she does not have any family (except for Joe and Alphy that are considered her sons).  She is the only responsible for her own life. She is independent because she only depends on herself.  As it was already mentioned, Maria belongs to the working class, she is a servant in a laundry; therefore, it is not difficult to suppose that her money is little and in spite of that she is happy and optimistic.
Clay’s protagonist is described by Joyce with a paradoxical idea, because despite Maria’s ugly appearance that looks like a witch’s with “very long nose and very long chin”, she is a peace-maker, exactly like the matron once told her: “ – Maria, you are a veritable peace-maker” (JOYCE; ibid:71). And this woman is also able to see the good side of every single person or situation, for example: “She used to have such a bad opinion of Protestants but now she thought they were very nice people, a little quiet and serious, but still very nice people to live with.” (JOYCE; ibid: 72)
According to this quotation, some scholars compare Maria to the Virgin Mary herself, having no pride and ready to make peace, with pure heart to change her opinion about someone or things she once disliked.  Actually, Maria is a naïve person and she is not conscious of the terrible life she lives.  It’s a sort of alienation.  This characteristic of alienation is intentional to make the reader understand that Maria also represents Dublin itself and its condition as a Great Britain’s colony.
Ma Parker is a strong woman who has suffered throughout her meaningless life.  According to Gordon, Ma Parker is “a woman on her own in an unfriendly world” (GORDON; 1954:14).  She is, like Maria, a woman who has a good nature; however, her level of consciousness is much better than Maria’s.  Ma Parker realises the sorrows of her life and tries to find a place to cry.  That would be the very first time she was going to cry once she believed she only would be a strong woman if she had never cried. The Life of Ma Parker’s protagonist cannot stand all the pain she is feeling. As she cries, she leaves all her strength behind. It represents the moment she realises she must permit the overflow of her feelings otherwise she would explode with them. And the death of Ma Parker’s grandson is the culminating point of her life’s sorrow. It is the climax of her emotions. Through the boy’s death, Ma Parker understands that life means frustration and that life has not been easy for a woman who could not expect anything good from it, mainly when it took away the only and probably the last source of happiness of her lifetime.  Since Ma Parker became a grandma, it is easy to suppose that she believes it is the end of her existence and there is nothing else to wait for.
While Ma Parker becomes a questioning and desperate woman along the tale for facing the frustrations life had in store for her, Maria, instead, keeps more unaware than ever.  Maria does not realize how hard and meaningless her life is.  When Maria sings “I dreamt that I dwelt in marble halls / With vassals and serfs at my side (…)” (JOYCE; 1975:75), this represents a sad irony because her life is completely different from the song she sings.  The song is like an escape from the reality, is the only way she has to be and to have whatever she dreams of.  However, her dreams will never come true. But poor Maria is so naïve that she is unable to understand the paradox she created when she exposed her dreams.  Because of that, Joe is the one who perceives the sad irony in Maria’s words.
Mansfield’s lyrical use of language makes the reader believe she is more a poet than a writer.  For that reason some critics as Gordon and Berkman believe that her language should be considered much more a diction than a language.  Mansfield’s descriptions are connected to senses.  She is a Realistic writer, but related to Impressionism.  Katherine Mansfield is direct, her way of writing is not vague, naïve or nebulous.  Whenever she writes she knows very well the effect she longs to transmit to the reader.  On the other hand, James Joyce does not transmit a complete picture of things.  Although he is a Realistic writer, he is a Naturalistic one influenced by Henrik Ibsen and Flaubert.  Joyce and Mansfield, as good Realistic writers, give impressions of life as sensorial impressions, for instances, the use of colours, visual descriptions, behaviours and senses.  Berkman affirms:“Miss Mansfield may have been familiar with Dubliners after its belated publication in 1914 though she has left no recorded reference to the book” (BERKMAN; 1951: 159).  It seems that Joyce may have influenced Mansfield during the time she wrote The Garden Party.
            The sensation the reader has at the end of the two stories is a very pessimistic one. Maria and Ma Parker are women who passed through moments that reveal the insignificance of their lives.  But as it was mentioned before, only Ma Parker realises all the frustration transmitted. The two characters may be considered as living-dead persons.  They never had good things from life and now it is too late to wait for something glorious to happen.  Their lives mean death, not only for being in the end, but also for being sad and meaningless lives.  Now it is useless to keep any hope for the future.  Neither Maria nor Ma Parker have conquered everything they have expected from life.
Thus, frustration is a common characteristic of Mansfield and Joyce.  However, the techniques used to catch the reader are different ones.  Frustration to Mansfield is always related to the discovery of something unpleasant, disgusting, involving the existential side of the human being.  Ma Parker’s life has many frustrations until the culminating one that is the loss of her grandson.  She was poor and had to leave her hometown at the age of sixteen and started suffering along her life. She watched the death of her husband, of seven children and a grandson. Besides, she had to bring up six children by herself. The cry she never allowed herself now is about to explode inside her soul, but Ma Parker still cannot cry for not finding an appropriated place to do it. It seems her life is so insignificant that she does not deserve to cry, as if she does not fit in the world. It is worthy to mention that when she was looking for a place to cry, it starts raining and she probably had to return home. It was as if even nature does not want to help this hard luck woman. From the world there is nothing else to wait for than real death, because Ma Parker is already dead during her lifetime, her dreams are already dead and she no longer has any hope inside her. Besides, it can be observed that death is always present in Ma Parker’s life (husband, children and grandson) and these dead people are so alive in her memories that they seem to be more alive than she herself, once her life story is based on the people she has lost. According to Ma Parker’s individual experience of life, Mansfield is able to show readers the frustration of this tale: Death is the only certainty of life, especially of a sad and hopeless life. This pessimistic point of view in relation to the world can be explained according to Katherine Mansfield’s own words: “I adore Life, but my experience of the world is that it’s pretty terrible”(BERKMAN; 1951:196).  Sylvia Berkman wrote in her critical studies about Mansfield that the dualism “Life versus World” never was resolved with harmony along her books and Life of Ma Parker is an excellent example of this: life is not like what we want it to be – life is a sad surprise.
Joyce’s techniques to reach frustration need two important characteristics of his writings: the Paralysis and the Epiphany. Paralysis is incapacity of acting. Actually, it represents the frustration moments themselves.  Most of the times, Joyce’s Paralysis will be related to Dublin, to its problems and to its people.  In Joyce’s opinion,Dublin is the centre of political Paralysis since it was Great Britain’s colony and this way, people have no future and nothing can be remedied.  Finally, according to Hodgart (1978:46) “Paralysis does affect most of the character: they are unable to move out of their social milieu or to take any decisive action to improve their lot”.  In Clay, the Paralysis, i.e., frustration, is present when the protagonist loses the plum cake she had bought, after a careful choice; it is also present in the fact that Alphy and Joe are not speaking, despite the love they feel for each other (Joe’s son has the same name of his brother: Alphy). There is an enormous paradox at this point because although Maria is considered a peacemaker, she is unable to bring peace to the persons she loves.  Another example of Paralysis can be noticed at the moment Maria has a chat with the man in the tram and finds him a gentleman; however, the man was drunk.  One of Irish people’s characteristics is to drink a lot.
            Yet, due to these situations of Paralysis, the moment of Epiphany occurs.  For Joyce, the Epiphany is a moment of revelation of something in its essence, and it may be related to a happy or a sad situation.  The term Epiphany was inspired in the Christian Celebration. It can happen to the main character, to the reader or to somebody else in the story.  In Clay  Joe is the one who has the Epiphany, a sad one. Maria herself does not have the Epiphany although she is the main character.  Some readers may have it or not, depending on the reader’s sensibility.  Joe reaches the Epiphany when he hears Maria singing the song that reflects the opposite side of her real life as it is: a song about love, richness, power and happiness. Maybe when Joe understands Maria’s meaningless life, he also understands the emptiness of his own life.  His Epiphany is completely related to the use of symbols.  The moment Maria plays the Hallow Eve game and she chooses the clay which means `Death` is another significant episode of Epiphany in the story:  Joe realises Maria is near real death, although she is already a living dead woman.
Bearing in mind that the lower classes of any century in every country have always lived such a hard life and that we live in a chauvinistic world where women have tried to conquer their place but it is still quite difficult, it is easy to understand the meaningless life that both protagonists have lived in Joyce’s Clay and Mansfield’s Life of Ma Parker. In Brazil, for instance, there are lots of living dead people that belong to the lower classes. They generally live very far from work, and so they have to leave home very early, returning home very late. They have no choice but taking crowded buses. Besides, they earn very low salaries that do not allow them to spend with entertainment and pleasure. These people live such an insignificant life with no joy, that the only certainty they have from this life is death.
Maria and Ma Parker are poor lonely women with no hope. Maria is unaware and unable to understand her terrible life, and her conformity may represent the situation of Ireland versus England, that is, the situation of the colony versus coloniser. Ma Parker, however, reflects the author’s duality between Life versus World, emphasizingMansfield’s idea that to live is frustrating. Thus, both protagonists can be considered living-dead persons, not only because they did not have brilliant and glamorous lives, but also because they did not conquer their places in the world.  They did not keep anything alive within their hearts, and nobody can live without hope or without expecting that their dreams might come true one day.
September 1998.
 
 
Bibliography
 
BERKMAN, Sylvia. Katherine Mansfield, a critical study. London:Oxford University Press, 1951.
GORDON, Ian.  Katherine Mansfield. New York: Green & Co., 1954.
HODGART, Matthew.  James Joyce: a student’s guide.  London: Routledge & Kejan Parel, 1978.
HUTCHINS, Patricia.  James Joyce’s Dublin.  London: The Grey Walls Press, 1950.
JOYCE, James.  Dubliners.  Britain: Penguin Books, 1975.
MANSFIELD, Katherine. The Garden Party and other stories. New York: Alfred Kroff, 1923.
MURRY, John Middleton.  Katherine Mansfield and other literary studies. Great Britain: R. & R. Clark Ltd., 1959.
TINDALL, William York.  James Joyce: his way of interpreting the modern world. New York: Charles Scribners´ Sons, 1950.





Bio fornecida pelo palestrante.

O PODER PATRIARCAL




O PODER PATRIARCAL

 

 

Maurício Gonçalves Saliba

Faculdade Estácio de Sá de Ourinhos, S. P.

Mestrado – Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro

Marcelo Gonçalves Saliba

Faculdades Integradas de Ourinhos, S. P.

 
Estamos no século XXI e observamos que o tema “direitos da mulher” prossegue gerando debates acalorados. É fundamental, para compreendermos seus motivos, refletir sobre as causas legitimadoras da permanência do patriarcalismo e dos preconceitos que se expressam em vários aspectos, tais como, as diferenças salariais, o assédio e a até mesmo a violência física. Ainda subsistem instituições, organizações e associações nas quais são vedadas a participação da mulher ou a possibilidade de assumir funções superiores.
A pergunta é: por quê? Por que a mulher ocupa lugar subalterno na sociedade? A resposta estaria na suposta “inferioridade” feminina (em latim, “menos fé”)? Ou, talvez, na sua obrigação “natural” da maternidade?
Acompanhando as discussões e debates, promovidos pelas mais diversas entidades, vimos que o tema continua focado na necessidade das mulheres lutarem pela conquista de maior participação social e política, entretanto prosseguem representadas como figura complementar ao homem. Exalta-se sua importancia, suas diferenças, seu papel na história, suas qualidades e exige-se maior reconhecimento de sua capacidade e competência. Mostrou-se, como exemplo de progresso da mulher, empresárias bem sucedidas, sentadas em seus escritórios destilando ordens e comandos. A grande mídia, de modo superficial e simplista, incita o embate das mulheres contra os homens, como se fosse à ambição individual desses a responsável pela sua opressão. Contudo, nenhuma reflexão foi feita sobre seus motivos ocultos.
A reflexão deve se iniciar com duas constatações fundamentais. A primeira: a mulher não é oprimida e marginalizada em todas as sociedades. A segunda: não foi sempre assim, uma vez que a mulher já esteve em posição superior socialmente. A situação que vemos hoje vigora, há tanto tempo, que a naturalizamos. Mas, para compreendê-la devemos buscar sua gênese histórica.
Fundamentalmente, precisamos compreender que, tanto os homens como as mulheres possuem, em sua essência, os valores que hoje distinguimos entre “feminino” e “masculino”. O comportamento forjado durante nossa evolução é determinado, ao mesmo tempo, por essa dicotomia, independentemente de nosso gênero.
Os masculinos são os referentes à força, disputa, competitividade, objetividade, racionalidade, egoísmo e autonomia. Já os femininos são sensibilidade, cuidado, emoção, cooperação, solidariedade, intuição, espontaneidade e a sensibilidade. Frisemos mais uma vez que essa divisão faz parte do nosso ser, o que independe do gênero.
 
“Pelo contato com vários organismos sociais, tanto primários como secundários, as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo. As diferenças de gênero não são biologicamente determinadas, são culturalmente produzidas. De acordo com essa visão, as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes” (GIDDENS, 2005, p. 106).
 
Na história da humanidade, o papel dos homens e mulheres variou bastante. Mas na maior parte dela o status da mulher foi sempre superior ao homem. Nos primórdios da existência humana eram as mulheres, e os princípios femininos, que governavam o mundo, pois elas tinham o poder de gerar vida e isso as aproximava da divindade. Além disso, a garantia da sobrevivência de um grupo nômade, nas agruras da luta pela vida, dependia da contínua chegada de novos membros e da colaboração entre eles. Eram sociedades igualitárias, de moral coletiva, prevalecendo a cooperação, a liderança pela sedução e o poder do diálogo como persuasão. Nesse período, os símbolos divinos são sempre femininos. As deusas (“grande mãe”) criaram o mundo e tudo que nele existe. Elas eram sempre concebidas como tolerantes, amorosas e indulgentes.
Um pouco mais tarde, quando a força física ganha espaço, ocorre à ascensão masculina se igualando à mulher. Surgem sociedades nas quais o poder de ambos estão no mesmo plano. Os deuses são, ao mesmo tempo, masculinos e femininos, cujo exemplo é o hinduismo, do yin e yang.
Portanto, vivemos governados pelos atributos femininos enquanto estivemos em sociedades sem transmissão de herança, pois não existia a propriedade privada e nem mesmo a guerra, havendo espaço para todos. A partir do aparecimento da propriedade e do Estado, a sociedade se transforma e com ela os princípios que governam o mundo. Surge, nesse período, a propriedade privada e com ela a sociedade de classes. Um grupo de homens concentrará a riqueza em suas mãos excluindo a grande maioria da possibilidade de possuí-la. Os fortes dominam os fracos, impondo-lhes a disciplina do trabalho contínuo e a riqueza se concentra, cada vez mais, nas mãos de poucos privilegiados. O gênero masculino ser torna hegemônico (como até hoje). Com relação à mulher, o declínio de seu status e sua submissão ao homem estão relacionados à necessidade masculina de buscar a descendência legítima. A virgindade é a expressão e manifestação da decadência de sua condição, transformando-se em extensão de sua propriedade. Os símbolos divinos deixam de ser femininos e se transformam em masculino. Deus agora é homem, cria o mundo sozinho e governa de forma autoritária. Os princípios que agora imperam no mundo serão os masculinos. Podemos confirmar essa transformação em várias passagens dos textos bíblicos, tais como no Eclesiastes 7, 26: “Então descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, porque ela é uma armadilha, o seu coração é uma rede e os seus braços são cadeias. Quem agrada a Deus consegue dela escapar, mas o pecador se deixa prender por ela” ou Eclesiástico 25, 24: “Foi pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos”.
A competição, a força e o egoísmo vigoram, substituindo a cooperação e a solidariedade. Os valores femininos passam a ser considerados menores e conseqüentemente próprios de pessoas inferiores; como menores devem ficar restritos ao ambito doméstico. É preciso um poder forte e centralizado, estabelecendo disciplina férrea e autoridade para que servos e escravos trabalhem sob condições deletérias.
Os detentores do poder logo percebem a eficiência desses valores na produção da riqueza, na manutenção de seu domínio e na conquista da supremacia. Os atributos masculinos se transferem para o espaço público, da política, da religião e do trabalho.
De matriarcal passamos para o período patriarcal, já que para a sociedade de classes, dividida entre opressores e oprimidos, os valores femininos seriam desestabilizadores, e exporia ao prejuízo a produção, a eficiência e o próprio poder. Por isso, a partir desse momento, o menino é treinado, desde a mais tenra idade, para ser “homem de verdade”, ou seja, com sentimentos controlados, forte, austero, disciplinador e artificial. Os valores femininos são atribuídos apenas à mulher, pela sua fragilidade.
 
Os clãs, até então nômades, dividiram a terra entre si e se fixaram nela, criando as primeiras fazendas e, a seguir, as aldeias, as cidades, as cidades-estados, e, finalmente, os grandes impérios da Antigüidade. Começou assim, um mundo em que o mais forte ganha pela força, pela guerra. Pelo simples assassinato, pela simples grilagem de terras, os mais fortes matavam os donos das terras menores e mais desprotegidas, faziam das mulheres escravas sexuais e dos mais fracos, trabalhadores escravos ou soldados subalternos (MURARO, 2006, p. 19).
 
Voltemos aos dias de hoje. Se olharmos à nossa volta, perceberemos que vivemos em uma sociedade com valores patriarcais. Talvez o mundo moderno seja mais complexo e civilizado, e a mulher tenha mais liberdade e possibilidades, mas seguimos pelos mesmos princípios, porquanto os atributos femininos continuam desestabilizadores e ameaçadores. Para o sociólogo Ulrich Beck (apud SENNETT, 1999, p. 87) na “modernidade avançada, a produção social de riqueza é sistematicamente acompanhada pelas produções sociais de riscos”. O capitalismo conseguiu a proeza de aguçar a competição e ampliar os conflitos. Nas empresas modernas, mais do que nunca “os fins justificam os meios”, na sanguinária conquista do lucro. O universo empresarial, ao conviver com a competitividade do mercado, pode ser comparado a uma guerra, que como todas faz “vítimas” e provoca “sacrifícios”. Não há lugar para fracos e pusilanimes, porquanto nas relações econômicas é fundamental a racionalidade (no sentido weberiano), a objetividade e a eficácia. Nas trincheiras, ou seja, nas organizações, jamais se pode perdoar ou fazer concessões, sob pena de perda da disciplina e do comando. Não há espaços para o altruísmo, cooperação, a solidariedade e a espontaneidade.
 
Geralmente, quando se fala de ações empresariais imorais ou aéticas há a inspiração de que os fins justificam os meios. O importante são os resultados, pouco importando os princípios feridos para a sua consecução. É claro que tais atitudes não são declaradas mais praticadas (SIQUEIRA, 2005, p. 6).
 
No mundo dos negócios os valores femininos não encontram colocação, uma vez que não seriam eficientes e colocariam em risco os negócios. As mulheres que assumem postos de comando nas empresas agem como homens, ou seja, pelos princípios masculinos. Para participar desse mundo a mulher deve deixar de sê-la. Há uma contradição entre os valores femininos e a sociedade de classes. Sob o domínio desses valores, jamais se produziriam armas ou existiram guerras, uma vez que mães nunca matariam filhos de outras. Da mesma maneira, o capitalismo não funcionaria, já que não se demitiria das fábricas um pai de família em razão da planilha de custos determinando a necessidade de maximização dos lucros. É notório que, em regra, pais-empresários-competitivos, hesitam em transmitir o legado moral de sua profissão aos filhos, pois “nem sempre as qualidades do bom trabalho são as mesmas do bom caráter” (SIQUEIRA, 2005, p. 6).
Enfim, não temos o que comemorar no dia internacional da mulher porque os valores que lhe atribuímos jamais serão aceitos em nossa sociedade. De nada adianta a mulher chegar ao poder, se o fizer sob os princípios masculinos, como nos casos de Margaret Thatcher, conhecida como a “dama de ferro” pela sua força e determinação em deletar os direitos trabalhistas ingleses; ou da Chefe de Estado Americano, Condolissa Rice, que desfila impiedosa sobre os escombros e restos de crianças no Iraque; outras sufocam sua feminilidade acreditando que “ser mulher” é cultuar amores piegas e romantismos de telenovela.
O que precisamos para o século XXI não é da mulher no poder, mas do ressurgimento dos princípios femininos como valores hegemônicos de nossa sociedade. Esses valores não são exclusivos das mulheres, no entanto, por fatores históricos são as principais portadoras. Só há salvação para o planeta e, consequentemente, para a humanidade se reconquistarmos a capacidade de cuidar, de dividir, e de cooperar. Para isso, enfrentar-se-iam forças terríveis, já que são valores completamente opostos ao sistema capitalista e que, eventualmente, causariam a sua extinção.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
BAUMAN, Zigmund, Modernidade líquida. Tradução: Sandra Regina Netz. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.
 
GIDDENS, Anthony, Sociologia. Tradução: Sandra Regina Netz. 4a ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
 
MURARO, Rose Marie. Mais lucro: valores humanos na construção da empresa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
 
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Tradução: Marcos Santarrita. São Paulo: Record, 1999.
 
SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Tradução: Clóvis Marques. São Paulo: Record, 2006.
 
SIQUEIRA, Wagner. As seitas organizacionais. Rio de Janeiro: Forense, 2005.





Bio fornecida pelo palestrante.

ENTRE O SER E O ESTAR: A MULHER NO UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON




 

ENTRE O SER E O ESTAR: A MULHER

 

NO UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON

 

Níncia Borges Teixeira

 
 
“Um texto descoberto em um arquivo empoeirado não será bom e interessante, só porque foi escrito por uma mulher. É bom e interessante porque nos permite chegar a novas conclusões sobre a tradição literária das mulheres, saber mais sobre como as mulheres desde sempre enfrentaram seus temores, desejos e fantasia e também as estratégias que adotaram para se expressarem publicamente, apesar de seu confinamento ao pessoal e ao privado”.
 

Sigrid Weigel[1]

 
O mundo feminino, tal como ele se revela no universo literário do passado, pode ser captado, fragmentariamente, na literatura feminina do presente. As mulheres de hoje, por meio de sua escrita literária, revelam acerca do processo de autoconscientização de sua condição feminina, num mundo em acelerada mutação.
Em meio às grandes modificações político-econômico-sociais que se aceleraram no século XX, as relações homem-mulher foram profundamente alteradas e, conseqüentemente, alterou-se o sistema familiar: a mulher transpõe os limites do lar, no qual há séculos cumprira o papel de “rainha do lar”, que o sistema patriarcal lhe destinara, e ingressa no mercado de trabalho. Contemporaneamente, ingressara para cumprir o novo papel que o sistema econômico lhe exige. Ingresso que, como sabemos, teve, e ainda tem, fundas conseqüências, não apenas no ambito familiar, mas também no plano político-econômico, além do ético, e está longe de ser resolvido.
A necessidade da descoberta de uma identidade própria é tema central neste tipo de literatura. As mulheres que, historicamente, cumprem com demandas e papéis impostos socialmente, perguntam-se, principalmente ao logo do século passado e no momento presente, quem são, como desejam ser, como não querem mais ser. Esta pergunta sobre novas identidades e sobre a busca de novos caminhos é central nas referidas narrativas, nas quais a presença de um espelho é freqüente, objeto que faz referência clara ao universo feminino. Mas, nos textos em questão, o espelho tem um objetivo inovador, não mais para exaltar frívolas vaidades e projeções fúteis, mas para servir como o lugar, o espaço que possibilita a indagação sobre novos desejos, ou mesmo, sobre o rompimento de velhas imagens que não servem mais.
A escritura feminina constitui o olhar diferenciado, o olhar das minorias. A temática da escritura feminina é resultante do “estar” no mundo, abordando o retrato das vivências da mulher no seu dia-a-dia. Segundo Luiza Lobo:
 
 
(…) o canone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje[2].
A literatura de autoria feminina precisa criar o seu espaço próprio dentro do amplo universo literário mundial. Desde fins do século XIX e principalmente no século XX, a principal transformação pela qual passou a literatura de autoria feminina é a conscientização da escritora quanto a sua liberdade e autonomia e a possibilidade de trabalhar e criar sua independência financeira. Ocorreu, assim, a mudança da condição “feminina” para a condição “feminista”.
Desde a década de 1970, a consciência do corpo e o questionamento da existência, com a maciça entrada das escritoras na Universidade, pelo menos desde a década de 1950, tornaram suas vozes mais intensas. As escritoras passaram, então, a expressar suas realidades. Até muito recentemente, a crítica feminista não possuía uma base teórica. Assim, a crítica feminista era um ato de resistência, uma confrontação com os canones e julgamentos existentes. Enquanto a crítica científica lutou para se purificar do subjetivo, a crítica feminista reafirmou a autoridade da experiência.
Existem duas formas de crítica feminista, e misturá-las é permanecer num território confuso. A primeira forma é ideológica, diz respeito ao feminismo como leitura e oferece leituras feministas de textos que levam em consideração as imagens e os estereótipos das mulheres na literatura e as omissões e falsos juízos sobre as mulheres na crítica. A leitura feminista pode ultrapassar estas considerações; pode ser uma ação intelectual que busca a libertação, como propõe Adrienne Rich:[3]
 
 
Uma crítica radical da literatura feminista mostraria como vivemos, como temos vivido, como fomos levados a nos imaginar, como nossa linguagem nos tem aprisionado, bem como liberado, como o ato de nomear tem sido uma prerrogativa masculina, e de como podemos começar a ver e nomear, e, portanto, viver de novo.
 

Buscando a escritura feminina

A leitura feminista ou crítica feminista é, em essência, uma forma de interpretação, uma das muitas que qualquer texto complexo irá acomodar e permitir. Mas, a crítica feminista só pode competir com leituras alternativas. Kolodny[4], teórica da interpretação feminina afirma:
 
 
Tudo que a feminista está defendendo, então, é seu próprio direito de libertar novos (e, talvez, diferentes) significados destes mesmos textos; e, ao mesmo tempo, seu direito de escolher quais os aspectos de um texto que ela considera relevantes, pois ela está, afinal de contas, colocando ao texto novas e diferentes questões. Durante o processo, ela não reivindica que suas leituras e sistemas de leitura diferentes sejam considerados definitivos ou completos estruturalmente, mas somente que sejam úteis para o reconhecimento das realizações específicas das mulheres como autoras, e que sejam aplicáveis na decodificação consciente da mulher como signo.
Toda crítica é revisionista, pois questiona as estruturas aceitas. Portanto, a crítica feminista revisionista retifica uma injustiça e está construída sobre modelos já existentes. Contrapondo-se à teoria crítica masculina, ela tem como objetivo suplementar, revisar, humanizar conceitos baseados na experiência masculina e apresentados como universais.
A segunda forma da crítica feminista é que se propõe analisar a mulher enquanto escritora e sus tópicos são a história, os estilos, os temas, os gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres, a criatividade feminina. Como não existe um termo para este discurso crítico especializado Elaine Showalter o define como ginocrítica. A ginocrítica não pretende mais reconciliar pluralismos revisionistas, mas apenas aquilo que faz a diferença nos escritos das mulheres.
O conceito da écriture féminine, estabelece a diferença feminina na língua e no texto, possibilitando uma maneira de se discutir os escritos femininos que reafirmam o valor do feminino e identificam o projeto teórico da crítica feminista como a análise da diferença. Tecnicamente, não se poderia falar em literatura “feminista” antes que o termo fosse cunhado, na década de 1960.
Para Luiza Lobo :
 
O termo “feminino” vem sendo associado a um ponto de vista e uma temática retrógrados, o termo “feminista”, de cunho político mais amplo, em geral é visto de forma reducionista, só no plano das ciências sociais. Entretanto, deveria ser aplicado a uma perspectiva de mudança no campo da literatura. A acepção de literatura “feminista” vem carregada de conotações políticas e sociológicas, sendo em geral associada à luta pelo trabalho, pelo direito de agremiação, às conquistas de uma legislação igualitária ao homem no que diz respeito a direitos, deveres, trabalho, casamento, filhos etc. (1999: 4).
 
 
Considerando que o texto literário feminista é o que apresenta um sujeito consciente de seu papel social, sempre houve autoras “feministas” dentro do contexto de suas épocas, tornando-se o termo impróprio apenas por uma questão cronológica. Como exemplo, Safo e Sóror Juana Inês de la Cruz são possuidoras de uma consciência política ou esclarecida de sua existência em face da história que são excepcionais para seu tempo, e poderiam ser eventualmente identificadas com o “feminismo”.
A alteridade, ou seja, a ênfase na diferença, da literatura de autoria feminina tornou-se a base da abordagem feminista na literatura. Ser o outro, o excluído, o estranho, é próprio da mulher que quer penetrar no “sério” mundo acadêmico ou literário. Não se pode ignorar que, por vários motivos sócio-político-culturais, a mulher foi excluída do mundo da escrita – só podendo introduzir seu nome na história através das fendas que conseguiu, arduamente, abrir.
Na literatura brasileira, até o presente momento, considera-se o romanceUrsula (1859) de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, a primeira narrativa de autoria feminina. O romance reduplica os valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história. Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor.
Mais recentemente, a preocupação em ser sujeito da própria escrita, deixando de ser só uma representação literária na ficção masculina, tem como principais expoentes (entre outras): Clarice Lispector, Sônia Coutinho, Maria Adelaide Amaral, Lya Luft e Nelida Piñon.
 
 
Nélida Piñon: a palavra como elo literário
A estréia de Nélida Piñon na literatura foi com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, que trata do tema do pecado, do perdão e da relação dos mortais com Deus através do diálogo entre a protagonista e seu anjo da guarda. Desde o início a escritora filiou-se ao movimento que, depois de Guimarães Rosa, se orienta pela renovação formal da linguagem. No romance Fundador, publicado em 1969, Nélida Piñon abandona a base realista que comanda a criação literária analógica do mundo e põe em cena personagens históricos e ficcionais, criando um mundo eminentemente estético. Segundo Leodegário Azevedo Filho,[5] Nélida “desde cedo pressentiu que a língua, convencionalmente centrada no lugar comum do Código, deveria ser abolida do seu processo criador, dando lugar à linguagem. Em outras palavras, para ela um texto literário sempre esconde uma cena latente por detrás do significado linear da cena manifesta. No seu processo de criação, desde cedo percebeu que a cena latente devia valer mais que a cena simplesmente manifesta”.
Ao longo de mais de 35 anos de ininterrupta atividade criadora, Nélida Piñon é um testemunho de que, entre as possíveis maneiras de se exprimir que o homem tem a seu dispor, a palavra é aquela que mais diretamente o põe a nu consigo mesmo, quer diante dos seus problemas individuais, quer frente às suas mais dramáticas contradições enquanto ser social, político, cultural, economicamente determinado. Daí a sua consciência da função do escritor, que não deve se limitar apenas a criar, sua tarefa máxima, mas também deve emprestar sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo em um país como o Brasil, onde é preciso fazer com que o povo reflita sobre a sua realidade e reivindique uma realidade melhor e mais justa. Tratando das questões universais como o amor, o fracasso, a esperança e a morte, a escritora busca, em seu ofício de paixão pela palavra, a desregulamentação dos sentimentos humanos banalizados pela vida cotidiana.
 
 
Entre ser e o estar: depois da conscientização, a escolha
No conto “I Love my Husband”, a autora constrói um universo, no qual anarradora é educada dentro de rígidos padrões moralistas, e mesmo depois de casada continua subjugada ao marido e atrelada rígidas regras do jogo social. A situação social da personagem tem importancia à medida que representa condicionamentos impostos por práticas sociais.O homem é o detentor do poder, a mulher passa, então a ser sua propriedade: “E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa” (2000: 452).
O tema predominante nesse corpus textual é a busca de uma identidade autodefinida e autônoma, a autora num esforço de nortear o próprio ser num nível ficcional, subverte e reescreve as imagens tradicionais sobre o feminino. Nessa busca do próprio ser, a escritora mantém este posicionamento diante da escrita: como escritora em frente ao espelho, torna-se testemunha das respectivas condições socioculturais ou como sujeito discursivo, que procura uma identidade textual própria. As estratégias desta representação se manifestam na transcrição ou na reescrita de ícones tradicionais do feminino – como, por exemplo, da mulher resignada – ou na criação de máscaras novas pessoais. Assim a própria Nélida Piñon nos fala de seu processo de criação literária:
 
 
Meus textos mais consistentes surgiram de planos estabelecidos antes de ser deflagrado o trabalho de criação. Meu texto é basicamente provisório, uma vez que, ao remetê-lo a nova versão, ganha ele dimensões mais profundas. Cada versão é uma máscara abatida em direção ao rosto verdadeiro. Sem que evite as instruções armadas diante de mim, e de que lanço mão para enriquecer o texto. É então o novo ponto de vista do próprio texto consubstanciando os outros pontos de vista já ali registrados. O texto gera fatalmente um outro texto interiorizado nele mesmo.”[6]
 
 
Nesta obra, as fantasias da narradora são projetadas ao tecido textual, para assim se poder questionar as imagens femininas convencionais: é e por meio da recepção dessas imagens que se pode desconstruí-las e redefini-las. Para reforçar esse processo, a autora utiliza certos meios estilísticos, como a contaminação lingüística, o silêncio, a reapropriação, a subversão e o experimento com a língua definem o tom da expressão literária feminina. Um exemplo dessa contaminação lingüística é o próprio título do conto, o estrangeirismo é utilizado como uma forma irônica de retratar a sua história. O título vai ser incorporado ao texto quando, após uma reflexão apurada de sua própria vida, ela opta por ratificar esse contrato, no caso o casamento, para que isso se efetive, passa a se nutrir de fantasia, foge de sua realidade cotidiana imitando o “ato de pássaro”, neste vôo acontece a transgressão, só que num nível fantástico, imaginário, não deixando, porém , de ser subversão. “Estes meus atos de pássaro são bem indignos, feririam a honra do meu marido. (…) Nunca mencionei ao marido estes galopes perigosos e breves. Ele não suportaria o peso dessa confissão” (2000: 455). Ao final de sua confissão, ocorre a confirmação da ironia embutida no título, quando a narradora, consciente de sua condição, professa “Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido” (2000: 456).
A utilização de uma linguagem simbólica torna sua narrativa universal, isso perpassa toda a obra, Nélida recorre a símbolos recorrentes como contidos nos vocábulos água e casa, dentre muitos outros. “Dentro de casa, no forno, que era o lar, seria fácil alimentar o passado.”(2000:452), ou então “ Sôfrega pelo esforço eu sorvia a água do rio…” (2000: 453). Nestas duas construções, a autora utiliza-se das metáforas para denunciar a situação de opressão a qual vivenciava. No caso do vocábulo “casa”, há toda uma representação do universo feminino, a palavra carrega consigo a força do universo, neste caso representa a força da qual a narradora é detentora; além disso, a simbologia presente nesta palavra, também significa o ser interior, os estados da alma, assim cada vez que a personagem se refere à casa, ela refere-se, na verdade, a si própria. Por outro lado, a utilização da metáfora “água do rio” sugere que a narradora busca a renovação, desejando a morte da situação na qual vive, rotineiramente. E isso vai sendo engendrado no decorrer da narrativa; a personagem busca, por meio da reflexão, respostas para sua situação de opressão. O conflito interior das personagens é que vai gerar, portanto, o desejo de libertação, o desejo da aventura ou a busca do gesto novo, pois se torna urgente descobrir o sentido real da vida, já que todas as coisas têm, além de uma verdade aparente, a sua verdade essencial.
O tema predominante no conto I love my husband é a busca da identidade própria: “Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. “A autora apresenta sua protagonista feminina como uma personalidade dividida internamente, oscilando entre a sua condição de mulher e o grande desejo de se livrar de complexos de inferioridade e da pressão que a impediu de alcançar uma personalidade autônoma. De um lado, a narradora busca sua libertação, o marido na verdade é apenas seu mantenedor, assim há a confirmação do contrato social, ela cumpre sua obrigações de esposa e ao marido cabe ampará-la financeiramente. A esposa para ele torna-se um fardo: “Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo – disse ele” (2000: 452).
Note-se, também, que a narradora não tem coragem de se desvencilhar dessa rede de proteção que se torna o lar, prefere, então, fugir da situação, ignorando, até mesmo sua própria situação de oprimida, “Para esconder minha vergonha, trouxe-lhe café fresco e bolo de chocolate. Ele aceitou que eu me redimisse. Falou-me das despesas mensais. Do balanço da firma ligeiramente descompensado, havia que cuidar dos gastos. Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredir em doze meses. Essaideologia, sustentada pela sociedade ocidental conservadora, justifica esse sentimento de culpa, que nasce como conseqüência de um ato que não corresponde a sua competência reprodutiva, maternal, mais do que como cidadã.Neste momento, a voz interior levanta-se freando seu impulso por liberdade: “Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido. É seu encargo podar meus excessos, a natureza dotou-me com o desejo de naufragar às vezes, ir ao fundo do mar em busca das esponjas” (2000:454).
Desta ficção pode-se, também, dizer que a autora abandona a narrativa centrada na vida pessoal de uma personagem, quase que autobiográfica e se aprofunda no exame crítico dos múltiplos papéis da mulher na sociedade. A análise recai sobre a situação vivida por milhares de mulheres. Que se repete por gerações, no conto é visível esta situação, a cartilha a ser seguida pelas mulheres, é descrita a todo momento: “As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento” (2000: 455).
O tema da “mulher objeto”, freqüentemente vendida num casamento sem amor aparece freqüentemente quando se analisa a situação das mulheres. Percebe-se que elas são aparentemente conformadas com a rotina da vida burguesa, essas mulheres sempre correm o risco de subitamente confrontar-se com o sem sentido de suas vidas, ao lado de seus maridos bem postos nos negócios e dentro de suas casas confortáveis. Esta constatação pode ser observada, no conto, em momentos como estes:
 
 
Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre mal dormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado. Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto (2000: 451).
 
 
Percebe-se, então, que a condição feminina, vivida e transfigurada esteticamente, é um elemento estruturante, não se trata de um simples tema literário, mas da substancia de que se nutre a narrativa. A representação do mundo é feita a partir da ótica feminina, portanto, de uma perspectiva diferente, com relação aos textos reconhecidos pelo canone literário. A mulher, vivendo uma condição especial, representa o mundo de forma diferente. O conto mostra que a personagem passa por um processo de conscientização, não que este discurso se confunda com feminismo, ele traz como alicerce a consciência da situação social da mulher: “Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido.” Esse discurso, presente na escritura de Nélida, subverte a ordem vigente, questiona os papéis sociais, representando a mulher dividida, numa linguagem que também subverte os padrões normais. Ele representa uma tendência altamente significativa do ponto de vista estético e social, pois é uma representação artística da situação da mulher feita por mulheres.
Ao final da narrativa, há a descoberta da “pobreza” por essa mulher confinada e protegida por um bom negócio matrimonial, mas reduzida a mecanicos atos quotidianos de auto-anulação, infeliz e culpada. A descoberta da pobreza dá-se junto com a autodescoberta como consumidora e parasita social, o que, de modo fulminante, desvenda o sem sentido da sua vida e da vida dos homens numa cidade grande que expõe talvez mais duramente os contrastes de uma sociedade injusta percebe-se que, o conto descreve o tumulto privado e interior duma mulher. Diante desse quadro, a narradora permanece ao lado de seu marido, mesmo sabendo que sua vida continuará tão vazia quanto antes, o que muda é que ela se torna consciente de sua real posição no casamento, mas mesmo assim, prefere continuar este pacto social e finaliza dizendo:
 
 
Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, ou me perturbe algum rosto estranho, que não é o dele, de um desconhecido sim, cuja imagem nunca mais quero rever. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido (2000: 456).
 
 
O conto escrito por Piñon exige uma certa rede de relações de complementaridade entre texto e leitor. Não é certo que cabe ao verdadeiro leitor preencher os vazios do texto? No conto I Love my Husband, o leitor depara-se com um texto aberto. Como sempre, será a palavra escondida e não a palavra codificada que nos levará ao verdadeiro sentido da escrita. Nélida lança sobre o universo feminino um olhar penetrante, que tudo vê e devassa. Segundo Leodegário A. de Azevedo Filho “Em sua ficção, o impossível verossímil é sempre preferível ao possível não convincente.” O mundo real, consegue ser desvendado somente por um verdadeiro escritor, porque ao lado da realidade, ele cria infinitos mundos possíveis, como é o caso de Nélida Piñon, em cuja obra vários críticos (nacionais e estrangeiros) trabalham, sem que jamais consigam desvendá-la totalmente. E a razão é simples: a revelação de uma verdadeira obra de arte literária, por mais que se escave nela, nunca tem fim.

Referências Bibliográficas:

 
GOTLIB, Nádia Batella, org. A mulher na literatura. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1990.
HOLLANDA, Heloísa Buarque, org. Tendências e impasses – O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LOBO, Luiza. “A Literatura feminina na América Latina”. Revista Brasil de Literatura, on-line, 1999. Reimp. Registros do Seplic, Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, n. 4, 1997. 40 p.
LOBO, Luiza. “Auto-retrato de uma pioneira abolicionista”, in Crítica sem juízo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992, p. 222-38; “O negro de objeto a sujeito”, idem, p. 205-21.
MORICONI, Ítalo. Os cem melhores contos brasileiros. São Paulo: Objetiva, 2000.
http://www.riototal.com.br/coojornal/academicos-leodegario003.htm.
 



[1] Sigrid Weigel, “La mirada bizca sobre la historia y la escritura de las mujeres”. In: —.Estética feminista. Barcelona, 1986. p. 69-98.
 
[2] Citação retirada do ensaio de Luiza Lobo, “A Literatura Feminina na América Latina”, publicado na Revista Brasil de Literatura (on-line), 1999, reimp. Registros do Seplic, Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, no 4, 1997.
[3] Adrienne Rich citada por Heloísa Buarque de Holanda in Tendências e Impasses- o feminismo como crítica da cultura (1994).
[4] Heloísa Buarque de Holanda cita Kolodny (1994).
[5]Leodegário A. de Azevedo Filho é Professor emérito da UERJ, Titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia. Artigo disponível em:
http://www.riototal.com.br/coojornal/academicos-leodegario003.htm.
[6] III Encontro Nacional de Professores de Literatura, realizado de 28 a 31 de julho de 1976.




Bio fornecida pelo palestrante.

CARTAS DE UM SEDUTOR: PARÓDIA E INTERTEXTO




CARTAS DE UM SEDUTOR: PARÓDIA E INTERTEXTO

 

Eliane Maria de Oliveira Giacon – UEMS

 
RESUMO: O estudo do erótico na obra de Hilda Hilst Cartas de um sedutorpretende analisar como essa forma textual trabalha os conceitos de Bakthin, a fim de que as vozes dos discursos dos personagens funcionem como um desabafo autorizado da autora em relação à contemporaneidade, ao público leitor e ao mercado editoral. Portanto, o texto erótico hilstiano funciona no cerne da obra como um momento de avaliação de toda sua produção.
 
Palavras-chave: erótico, dialogia, vozes
Key-words: erotic, dialogical, voices
 

Introdução

A proposta apresentada nesse artigo pretende trabalhar com a literatura erótica de Hilda Hilst da fase que vai entre 1982 até 1991, da qual serão estudados alguns pontos do livro Cartas de um sedutor (1991) e em especial do conto “ Bestera”, que contém subsídios para a análise dos elementos paródicos, intertextuais, carnavalizados e grotescos do discurso hilstiano, que abrem perspectivas para adentrarmos ao universo da criação literária dessacralizadora da ficção contemporanea, que no caso da ficcionista estudada funciona como um desabafo de seus personagens escritores contra o mercado editorial e o público. Ao proceder uma análise dessa obra e deste conto pretende-se desmistificar a fase pornográfica ficcional de Hilda Hilst e colocá-la no lugar que lhe é devido, não como um momento menor da criação dessa autora, mas sim como uma síntese de toda a sua relação com a literatura.
A escrita de Hilda Hilst pode ser considerada uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporanea, embora a crítica e o público não tenham lhe dado o lugar merecido como ficcionista. Conhecida como poetisa, muito da produção hilstiana, no ambito da ficção e do texto dramático ainda encontram-se inexplorados, esperando por leitores, que possam identificar-se com o seu processo de criação literária.
Um dos aspectos principais da ficção hilstiana concentra-se num período conhecido como de produção licenciosa, erótica, com textos escritos de forma fragmentada que são uma metáfora da metaficção, baseada em experimentos e exploração das diferentes possibilidades da produção ficcional de Hilda Hilst.
As proposições elencadas são mecanismos para que seja possível ao crítico analisar o cerne da obra hilstiana, pois esses textos, embora tendo como invólucro a pornografia e a preferência por descrições de cenas eróticas homossexuais e heterossexuais, propiciam uma outra leitura que pode ser feita a partir da interpretação da função desses elementos licenciosos dentro do romance contemporaneo e da produção literária de Hilda Hilst.
O ato de criação da ficção hilstiana vem reafirmar a posição de Bakhtin (1990, p. 398) quanto à narrativa romanesca, pois para ele o romance é um gênero único num processo evolutivo, que é alimentado pela modernidade, sendo pois uma tipologia textual capaz de adaptar-se a produção literária contemporanea.
A capacidade de adaptação do gênero romance às mudanças temporais propiciou que ele fosse tomado pelos escritores como veículos de várias tendências como ocorre com as obras de Hilda Hilst, em especial com dois romances: Contos de Escárnio: textos grotescos ( 2002) e Cartas de umsedutor ( 2002) em publicação atualizada pela editora globo, que se apresentam com títulos de contos e cartas, contudo seguem um modelo de estruturação de texto, no qual há um entrelaçamento entre conto, romance, poema e drama formando um mosaico de gêneros.
Isso não seria novidade, pois uma das características de experimentação do romance contemporaneo é o hibridismo de gêneros. Contudo, no caso da autora paulistana, é possível perceber que essa metodologia tende a ser utilizada para dessacralizar o ato de criação literária com o uso de situações e discursos dos antinarradores personagens sobre suas produções, que nascem não mais daquela essência do escritor, em seu ato inventivo, no qual ele apodera-se da filosófica e da teoria da literatura como ferramentas essenciais para atingir a perfeição, mas sim a partir dos seus desejos mais obscenos, em instantes grotescos de suas vidas.
A dessacralização não só se refere à questão do ato de criação do escritor, ela se estende ao discurso, no qual “a voz do outro, voz socialmente determinada, portadora de uma série de pontos de vista e apreciações, precisamente as necessárias ao autor” (BAKTHIN, 2002, p. 192) é introduzida num texto que utiliza o mecanismo da paródia, da intertextualidade, da carnavalização e do grotesco a respeito de filósofos, literatos e pintores como Nietzsche, Kant, Van Gogh, Byron, Rimbaud e Wittgenstein, entre outros, os citando e fornecendo juízo não só sobre a sua produção como também sobre fatos de alcova, que foram mitificadas nas histórias sobre a vida sexual deles.
Essas histórias, bem como a vida dos anti-narradores hilstianos e dos escritores personagens, são escritas em discursos confessionais do tipo ars erótica. Segundo Foucault (1977, p. 56), nessa arte “a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência”. Isso faz com que o método revolucionário de produzir literatura erótica, nas obras em estudo de Hilda Hilst, seja capaz de desmontar não só os estereótipos contemporaneos como também o texto que vai sendo contado pelos anti-narradores, pois toda boa literatura segundo Eliane Robert Moraes (1999, p. 114) “desmente o que nela – e dela – se afirma, convidando-nos a explorar os angulos menos óbvios da paisagem que se descortina à primeira vista.” E a literatura de Hilda Hilst, nessa fase chamada de pornográfica, debruçou-se sobre o ato de criação literária e o discurso, a fim de demonstrar com o grotesco do discurso de seus personagens a relação entre escritor e mercado.
Para tal, Hilst estabelece três planos: o do leitor, o do escritor e o do editor. Entre o autor e o leitor há uma relação dialógica socratiana, pois o leitor do texto que está sendo escrito é convidado a revelar os seus desejos sexuais mais obscenos, que são a todo o momento descortinados com escárnio pelo escritor, que no caso de Cartas de um sedutor (1991) é representado pelo irmão bissexual de Cordélia, que tenta extrair dela a confirmação sobre a relação incestuosa dela com o pai deles.
Em Contos d’ escárnio (1990) Crasso, escritor-narrador provoca o leitor, com a intenção de auxiliá-lo a trazer a tona o conhecimento sobre si e os outros numa tentativa de buscar a essência humana, via o erotismo contido no sexo oral, que se configura na busca do sublime, que pelo homem é captura em instantes de beleza plástica, cuja língua ambígua órgão de prazer sexual e de oralidade aproxima o homem do seu Criador.
Ao utilizar esse processo de extração singular da essência humana e atingir as raízes metafísicas do ser, a prosa hilstiana se comporta como uma anti-esfinge, à qual se dirigem os homens em busca de um saber, que não está nela e sim neles. Este processo provoca um hiato entre a produção literária de Hilda Hilst e a recepção de sua obra, e distancia a autora do público. Este problema na obra de Hilda Hilst se reflete constantemente nos autores personagens dos livros, em estudo, que são todos fadados ao fracasso. A partir dessa descoberta, muitas leituras se sucederam de tal forma que um embrião das idéias sobre a produção ficcional hilstiana tomou corpus de um artigo que pretende trabalhar a questão da relação criador, escritor e Deus, com a criatura, a criação literária bem como outros elementos ligados a paródia, a intertextualidade, a carnavalização e ao grotesco do discurso hilstiano, que abrem perspectivas para adentrarmos ao universo da criação literária dessacralizante da ficção contemporanea, que no caso da ficcionista estudada funciona como um desabafo de seus personagens como ocorre no romance Cartas de um sedutor e o conto “Bestera”.
 
Cartas de um sedutor: um contato entre criador e criatura
 
Não sejamos ingênuos, caro leitor, pois na modernidade, nada é por acaso e a obra literária nasce desejo incessante do escritor de transpor as barreiras entre ele e o leitor, fazendo-se muitas vezes passar por um antinarrador ou vários antinarradores, que se ocultam nas amarras do texto. E no gran finale, ele escolhe um título, que não tem nada de acaso, mas sim de caso pensado como ocorre em Cartas de um sedutor, pois a trama do livro tem como proposta a história d alguém que escreve para alguém tentado seduzi-lo para que seu texto não apenas seja lido, mas que ele possa ser uma ponte entre ele criador e a criatura. Assim a obra, que se converte para Hilda Hilst em um ato litúrgico de encontrar-se com Deus.
Encontrar-se com Deus na obra erótica, remete-se a questão do desejo, como “ a supressão do limite. Em seu primeiro movimento, ele pode ser definido pela existência de um objeto de desejo” (BATAILLE, 1986, p. 121), que se configura na obra hilstiana em buscar o criador. Assim ao citar Deus em uma de suas passagens, quando o irmão sedutor relata para Cordélia a receptora de suas cartas, um sonho, no qual “o próprio Deus com a face de andarilho ou daquele vadio do pneu” (2002, p. 62) o exibia como se fosse um troféu como metáfora da relação de poder entre criador e criatura.
Os dois elementos questionáveis nessa cena são o erotismo como a suspensão de limites e o objeto de desejo.Os limites suspendem-se nessa cena, quando o personagem sedutor se antecede dizendo que foi um sonho, no qual ele criatura estaria sendo exposto por Deus como sendo um objeto, um objeto de desejo do criador. Desejo que se manifesta em toda a obra, pois ela é escrita em simulacros, pois um antinarrador instaura um personagem Stamatius, um escritor mendigo, que por sua vez cria os textos eróticos em forma de cartas do irmão sedutor para sua irmã Cordélia, nos quais ele expõe todos os seus desejos sexuais e os que a irmã poderia ter, bem como a relação edipiana entre ele e o pai. Stamatius, o criador, como um Deus, irá expor os seus personagens e seu objeto de desejo, que nesse caso se volta para o sexo, em todas as suas formas de transgressão, que Bataille (1986, p. 3) determinou como a prostituição, o incesto e a orgia, que irão caracterizar os movimentos realizados pelo sedutor para tentar com suas cartas extrair de sua irmã a verdade, centrada em duas questões: o incesto entre ele e ela e entre o pai deles e Cordélia ; a homossexualidade do pai deles com o negro John Pater.
Sob esse arcabouço erótico, há alguns pontos que merecem destaque como a crítica feita pela autora sobre o endeusamento dos escritores, que ela desmascara aos poucos, revelando a verdadeira face desses semideuses de duas formas: uma por várias trechos, que escancaram a construção do mito de seriedade, dizendo: “Tenho horror de escritor. A lista de tarados é enorme. Rimbaud, o tal gênio: catava os dele piolhos e atirava-os nos cidadãos. Urinava nos copos das gentes nos bares.” (HILST, 2002, p. 74) e por aí a antinarrador hilstiano, na voz de Stamatius, desfia um rosário sobre todos os poeta e prosadores, tentando demonstrar o quanto o criador se importa com o público e com a criatura, a obra.
Para corroborar com a dessacralização da Literatura e do escritor, há a citação na qual o irmão sedutor, emissor das cartas compara Cordélia, a receptora, com Madame de Stäel: “Quem sabe me enganas e és na verdade uma madame Stäel e ris das minhas cartas?”( p. 71). Ao fazer essa comparação ele abre uma perspectiva de que a escrita dele seria algo tão insignificante se fosse lido, por alguém, que segundo a Historiografia Literária, teria no século XIX feito um tratado, que fora um divisor das águas entre a Literatura, que hoje conhecemos como tal e o conceito de Literatura até então. Ao mesmo tempo em que o antinarrador diminui os nomes ícones da Literatura, ele alavanca, o nome do escritor anônimo Stamatius, que desiste de seu lugar na vida burguesa e se dedica a escrever de fora da sociedade, expurgando os seus demônios nas cartas do sedutor, nas quais o objeto de desejo do criador, o escritor, e da criatura, o personagem se fundem no erotismo de um discurso que dirime os limites dos corpos e da relação entre os órgãos genitais e o pensamento filosófico do homem moderno, pois tudo convive num cosmo, no qual Deus, na sua onipotência, cria o homem para que com ele possa realizar seus desejos mais íntimos.
A obra Cartas de um sedutor joga entre dois opostos, de um lado há o criador, o escritor, e do outro a criatura, a obra, numa metáfora da relação entre Deus e o homem.A forma encontrada pela anti-narradora hilstiana, a fim de entrelaçar os dois opostos foi utilizar o ars erotic como um invólucro, que esconde por trás de cenas picantes e desabafos do irmão sedutor, duas questões importantes dessa fase de H. H.: a dessacralização da Literatura e de seus ícones bem como a figura do autor e sua relação com a sociedade e a criação literária
A forma encontrada pela antinarradora hilstiana para demonstrar a criação literária de Stamatius foi dividir o texto em sete partes. Dessas há quatro contos, denominados: “Horrível”, “Bestera”, “Sábado” e “Triste”, cujos assuntos giram em torno da relação entre Eros e Tanatos, na qual a suspensão da vida abre perspectivas para a visão interior do eu poético do personagem numa mistura de prazer sexual e espiritual de sua existência como criatura de um texto escrito por um escritor fingido, que busca em Eulália, sua amante, a resposta apreciativa quanto a sua escrita, mas ela nunca o ouve e se ouve não entende o que ele escreveu, nem a beleza de suas missivas. O conto “Triste” se encerra com o seguinte comentário: “…nem tudo pode ser arrumado, arruma-se o que sepode” (Hilst, 2002, p. 114). Esse texto encerra a idéia do personagem, um homem, um anônimo, que aparece numa cidade com um maço de papéis escrito e repete muitas vezes essa mesma frase como que dizendo para si mesmo, que a escrita é um ato de escrever e reescrever na medida do possível até a morte.
 
O conto “ Bestera”: é tudo uma besteira, uma brincadeira de esconde-esconde
 
Seria bom, a princípio informá-lo, leitor, que o livro Cartas de um sedutor é um romance, que narra o ato de escrever enxertando: se o termo fosse de bom grado, embora enxertar seja mais propício para gado,( desculpe o trocadilho) alguns contos, dos quais escolheremos o denominado de “Bestera” (p. 101-107) para uma análise. A propósito deste conto, farei alguns comentários sobre as características da obra hilstiana, tais como os elementos paródicos, intertextuais, carnavalizados e grotescos do discurso hilstiano, que abrem perspectivas para adentrarmos ao universo da criação literária dessacralizadora da ficção contemporanea. No caso da ficcionista, o texto funciona como um desabafo de seus personagens escritores contra o mercado editorial e o público.
Os elementos paródicos e intertextuais estão juntos nesse conto, pois há a intertextualidade como forma paródica em via de mão dupla, sendo uma quanto ao nome da empregada da senhora Leocádia, que “Chama-se Joyce (!)”. (HILST, 2002, p. 101), e mais à frente o narrador diz que a moça perguntou se Leocádia conhecia Chesterton, um humorista inglês. Somente nesse parágrafo pelo uso do ponto de exclamação e da alusão ao humorismo inglês, há uma referência implícita a James Joyce, pois o sinal de pontuação ao exclamar faz uma paródia do espanto causado pela obra de James Joyce, que sempre foi tida como de difícil entendimento. Ao citar o nome Chesterton, em referência ao caricaturista e humorista G. K. Chesterton,, o texto hilstiano sugeri mais paródia, que incorpora da arte a caricatura como forma de representação do mimética do grotesco.
A outra refere-se a paródia intertextual com Wittgeinstein, quando a personagem Leocádia refere-se ao seu amante jardineiro, que era tão desgostoso com a vida quanto o filósofo acima citado, desmisficando assim o pensamento filosófico como fruto de uma mente voltada para a razão e sim para a emoção evidenciada no sexo desmedido do serviçal do jardim e da cama da patroa.
A carnavalização e o grotesco no conto desestabilizam situações socialmente aceitas como verdades: uma quanto à relação entre juventude e velhice e a outra quanto ao conceito capitalista, que divide a sociedade em patrões e empregados. Na primeira o grotesco fixa-se no fato de Leocádia esconder o rosto com uma fronha bordada ao transar com um garoto de programa, que foi arrumado pela empregada. E ao final quando ela começa a ter relações sexuais com o Bestera, ela diz: “Estou feliz. Até já tiro a fronha” ( p. 107). Ou seja, ela já não precisa esconder o grotesco de suas rugas e o que antes, a empregada considerava como empecilho para arrumar-lhe um “caso” passou a ser diluído pela força de um discurso, que transformou o grotesco em comum.
Na segunda, há a carnavalização como processo de inversão de valores e de posições, pois a empregada passa a avaliar a patroa sob a visão contemporanea de beleza, pois ela pede para Leocádia levantar as saias e depois diz “Senhora, retrucou, será bastante difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise…” (p. 101). Ao pronunciar uma colocação pronominal mesoclítica, a empregada sente náuseas que a fazem ir ao banheiro e vomitar, num ato de repugnancia, que na primeira leitura pode ser pelas feições da patroa, contudo, a empregada, logo após se desculpa dizendo que seu problema se refere a Língua Portuguesa. A carnavalização é um recurso, nesse texto, que dessacraliza as relações de poder entre empregados e patrões; e entre a Língua Portuguesa e seus falantes.
A nudez da mulher em relação a eroticidade, segundo Bataille funciona como uma oposição “ ao estado normal, que tem certamente um sentido de negação” ( 1987, p.123), cujo tópico do conto “Bestera” fixa-se na nudez de Leocádia, uma senhora idosa, cujos traços envelhecidos pelo tempo negam todas as possibilidades de prazer, segundo a ótica da empregada e do primeiro garoto de programa, que a visita, mas que o dinheiro pago por Leocádia, derruba todas as barreiras impostas pela sociedade.
A questão financeira é corroborada pela história contada pelo garoto de programa que fala de seu amigo Bestera, que recebeu esse nome porque se negou a transar com um rapaz. Assim ele ficou sendo chamado de Bestera, pois “todo mundo achou uma bestera, porque com grana a gente mete em qualquer buraco” (p. 106).
Tanto esse conto com os outros de Hilda Hilst, nesse romance, terminam com um diálogo entre Stamatius e Eulália, representando a relação entre escritor e leitor. Assim Eulália diz: “tadinha da véia… mas ela se divertiu né? Agora se achegue… pára de escrevê, descansa, vem cá…hoje é sábado” (p.107) encerrando o texto com a constatação de que para o leitor comum não interessa o trabalho realizado pelo escritor, nem muito menos os elementos da narrativa, nem tão pouco o trabalho da enunciação, o que vale para ele é o enunciado.
 
Conclusão
 
A obra Carta de um sedutor (1991) e o conto “Bestera”, de Hilda Hist, nesse artigo, funcionam apenas como um sinalizador do quão vasto pode ser um trabalho de análise do texto erótico, principalmente de uma escritora que tentou escrever uma literatura pornográfica com o intuito de atender o mercado editorial, mas que não obteve êxito, pois continuaram dizendo que seus textos eram difíceis.
Assim ao ler e analisar essa obra é possível ao leitor abandonar o ponto de vista de que a literatura hilstiana seja tão hermética que mesmo ao escrever textos pornográficos, a escritora não conseguiu atingir o seu público, pois uma leitura livre de preconceitos acadêmicos, leva-nos a ver em Hilda Hilst uma forma de experimentar a visão do outro. Uma visão redimensionada, que tem como foco o outro que convive com o ato de criação e a produção do texto, sempre, de forma solitária e muitas vezes não em função de suas aptidões e interesses literários, mas sim daquilo que o mercado pede para ler.
Hilda Hist talvez seja na literatura brasileira, um dos casos mais excêntricos, que pede um estudo detalhado, aberto à perspectiva do novo, da ruptura, que não seja mais aquela ruptura, que leve o momento histórico-literário a criar grandes gênios, mas aquela, que busca nos resíduos da nossa sociedade, pontos críticos de tudo aquilo que é considerado como ícones do pensamento contemporaneo.
 
Referências Bibliográficas
BATAILLE, G. O erotismo. 2a ed. Trad. Antônio Carlos Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987.
BAKHTIN, M. Problemas da Poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra. 3a ed.Rio de Janeiro: Forense,2002.
BERND, Z. “Função dessacralizadora da literatura”. In. Literatura e identidade nacional2a ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.
EPSTEIN, J. O negócio do livro: passado, presente e futuro do mercado editorial. Rio de Janeiro: Record, 2002.
FOUCAULT, M. História da Sexualidade2a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
HILST, H. Cartas de um sedutor. São Paulo: Globo, 2002.
HILST, H. Contos d’ escárnio: textos grotescos. São Paulo: Globo, 2002.
HUTCHEON, L. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
VÁRIOS. Cadernos de Literatura Brasileira: Hilda HilstSão Paulo, Instituto Moreira Salles, v. 8, 1999.
WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Trad. José Carlos Buni. São Paulo: Nova Cultural, 1999.





Bio fornecida pelo palestrante.

AMOR VERSUS QUERER: A DICOTOMIA DO FEMININO NO ROMANTISMO NAS OBRAS VIAGENS NA MINHA TERRA, DE GARRET E AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO




AMOR VERSUS QUERER:

A DICOTOMIA DO FEMININO NO ROMANTISMO

NAS OBRAS VIAGENS NA MINHA TERRA, DE GARRET E

AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO

 

 

PEDRO FERNANDES DE OLIVEIRA NETO

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

 
 
 
Várias são as características que compõem o molde da estética romântica, assinalada entre meados do século XVIII e XIX. Impossível de defini-la em poucas palavras ou resumi-la num simples conceito, haja vista sê-la mais que uma estética, o Romantismo é tido mesmo como um movimento que em ondas concêntricas perpassa todas as esferas desse ambiente em que emerge; corresponde mesmo a um metamorfoseamento sócio, histórico e cultural.
Uma destas características que podemos constatar no Romantismo está na valorização, por vezes extremista até, do amor, posto espiritualizado, puro e a visão do desejo circunscrita como manifestação dos baixos instintos do ser enquanto humano, devendo, portanto, nesse, o humano ser condenado.
A oposição amor versus querer, os românticos associam como característica centrada na mulher. A figura feminina dentro da estética romântica literária quando usada para representar o amor puro, inspirador, é apresentada como angelical; se associada, porém, aos desejos da carne, torna-se ser demoníaco, responsável por levar o homem à perdição. Partindo dessa dicotomia romântica do ser feminino, o presente texto se proporá em estabelecer uma análise comparativa das personagens femininas de duas obras distintas, ícones também de fases distintas do Romantismo português: Joaninha, da obra garretianaViagens na Minha Terra (1843), demarcando o primeiro momento da prosa nessa estética; paralelamente, Tereza, personagem da obra camiliana Amor de Perdição, 1863, demarcando a prosa ultra-romântica lusa.
Duas características centrais podem ser apresentadas como distintivas de ambas as obras. O romance garretiano, mistura de relato jornalístico e história de amor, é comedido, sem dramaticidades tamanhas, a própria época em que foi escrito parecia  não o permitir; já o romance camiliano, é, pois, embaralhado, alucinante, melodramático, para resumir, à margem de todos os espectros sociais garretianos. No primeiro, a amor entre Joaninha e Carlos é posto como algo possível, da saudabilidade, enquanto no segundo, a amor entre Simão e Teresa é exposto como algo forte ao extremo, algo que se torna negro e passível de malignidade. Assim sendo, as personagens femininas moldadas neste cenário carregam marcas distintas: a primeira se constituirá em oposição à segunda, demarcando aqui as fronteiras dessa dicotomia feminina no Romantismo; ambas, no entanto, possuirão características adquiridas desse amor tecido pelos autores românticos.
A personagem Joaninha adequa-se aos moldes rousseaunianos [1] uma vez sê-la fruto ou espécie de ponto num cenário natural, de ar melancólico, palco para o desenrolar dos fatos:
Joaninha não era bela, talvez, nem galante sequer no sentido popular expressivo que a palavra tem em português, mas era do tipo da gentileza, o ideal de espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções de toda a elegância nobre, todo desembaraço modesto (…). (Viagens na minha terra, p. 87)
 
Ela é uma adolescente ainda com sopro de pureza e inocência, justificando desse modo suas atitudes jovem-pueris; parafraseando Massaud Moisés (1999), é alada pela fantasia que a envolverá na história duma jovem que perece de amor por amar um homem tolhido noutras malhas sentimentais.
Teresa, entretanto, adequa-se aos moldes de uma burguesia em acentuada ascensão no espaço social; criada e moldada no berço da ociosidade urbana. Configura-se o ponto central de um estopim amoroso que eclodirá mais tarde no decorrer do romance; envolvida por uma aura de pureza, não natural a Rousseau, mas uma pureza esculpida por ideais.
As atitudes de Teresa em oposição às de Joaninha classificam-se como violentas e invencíveis, num jogo frenético de paixão avassaladora que a conduz sob um comportamento quase que primitivo, é instintivo. Basta que retomemos a teimosia sua em preferir qualquer coisa, a morte inclusive, a ter de casar-se com seu primo, já prometido, o Baltazar: “– Estás a brincar, prima! – redargüiu Teresa. – Eu hei de ser tua cunhada quando não tiver mais coração. Teu mano tem a certeza de que amo outro homem. Queria viver pra ele; mas se quiserem que eu morra por ele, abençoarei todos os meus algozes.” (Amor de perdição, p. 57)
Na personagem ultra-romântica não há logicidade nas atitudes. Enquanto Joaninha move-se pela fantasia para um futuro paraíso, Teresa camainha e arrasta os seus, através dos ideais, para um abismo negro; ela não é somente passível e sofredora como Joaninha que o seu futuro-morte marca uma heroicidade amorosa, mas é alguém capaz de decidir e influenciar.  Portanto, também é ativa no intercurso da trama. Suas atitudes são movidas a gás do desejo, uma expansão dos sentidos e dos sentimentos da personagem garretiana. Em Teresa falam mais alto as “razões da sociedade burguesa oitocentista, temerosa de enfraquecer-se pela concessão dos direitos éticos individuais que possam pôr-lhe em crise os dogmas, as convenções, as modas” (MOISÉS, 1999, p. 148). Diferentemente de Joaninha, que carregará interesses próprios, Teresa carrega no bojo de sua individualidade aspirações suas, políticas e sociais da burguesia revolucionária de fins do século XVIII e primeira metade do século XIX: “encontra-se dessa forma as ‘razões do coração’ e as convenções de uma sociedade temerosa de ceder aos imperativos de indivíduo e do tempo.” (MOISÉS, 1984, p. 19) Alheia ao naturalismo rousseauniano vigoram em Teresa os ideais franceses de liberdade, igualdade, fraternidade.
Analisando as atitudes de Joaninha, perceberemos que estas se apresentam como comedidas, estritas, já as de Teresa mantém-se constantemente histéricas, descabeladas. O amor-querer é posto como algo superior, total controlador da mulher e irradia sua dor como núcleo de tudo. Em Teresa se justapõe a crueza do mundo numa vertente hiperbólica, rigidamente e criteriosamente controlada:
 
É já meu espírito que te fala, Simão. A tua amiga morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se me Deus não engana, está em descanso.
(…)
Quem te diria que morri, se não fosse eu mesma, Simão?
(…)
Adeus! À luz da eternidade perece-me que já vejo, Simão. (Amor de perdição, p. 136-138)
 
A imagem que se constrói acerca da personagem camiliana é a de uma figura sedutora e demoníaca que se ergue à beira de um precipício, prestes ao suicídio, propensa a levar consigo os de que ela se compadecerem. Objeta-se dicotomicamente à imagem que podemos talhar da personagem garretiana: Joaninha é ela própria dotada de angelicalismos, que no vão de suas utopias para com Carlos não se apresenta como nociva sedutora é um esmo passível de tragicidade.
No movimentar-se das tramas, dicotomias outras se encontram nas duas personagens. Em Garret a personagem feminina mantém-se inócua, contrariamente, Joaninha atém-se harmoniosamente ao seu espaço; Teresa não, se mantém o tempo inteiro deslocada. E, além de seu meio como personagem que se move em prol do desejo humano e enquanto representação humana em busca do desejo não é condenada pelas artimanhas e garras do tempo, mas pelas suas próprias artimanhas cai nas próprias garras do tempo por ela armadas. Ou seja, enquanto Joaninha morre a mercê das linhas do destino, Teresa não, é dona, e por isso traça seu próprio destino, embora sequer evolua em prol deste. A ilogicidade a personagem camiliana julga-se através de um existencialismo. Seu poder de locomoção dentro do romance é tamanho que extrapola as barreiras, as linhas de sua própria existência humana; fantástico desse amor romântico lança os sujeitos fora da realidade, torna-os inexprimíveis, tomando das palavras de Pinto (2007). Esse caráter gravitacional da personagem camiliana, justifica-se, segundo Moisés (1984, p. 19), acima de todas as convenções, porque:
 
(…) brota do mais fundo das entranhas e alucina o cérebro com as antevisões de sua realização, tem por arquitrave o amor vulcânico à margem do casamento, mas em luta com razões morais (…). Vivendo a violenta aceleração da paixão que tudo obnubila com seu despótico império (…).
 
Assim sendo, entenderemos Joaninha como face primeira da moeda amorversus querer, visto que seus instintos enquanto humanos são comedidos e encaixam-se aos caracteres românticos da pureza, da inspiração. Face segunda desta moeda, o querer, atribui-se à personagem camiliana, visto sê-la o oposto daquela, uma figura própria do amor demoníaco que castra e arrasta os sujeitos para além de sua realidade e possibilidade, para um abismo em busca de algo como prêmio: um amor contaminado pelo vírus da paixão. Em Teresa enxerga-se o sedutorismo que leva o homem à perdição, justificando plenamente o título da obra.
Essa oposição amor versus querer em Joaninha versus Teresa, configura no entendimento pleno da dicotomia feminina no Romantismo.
 
 
Referências
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de perdição. São Paulo: O Estado de São Paulo, Klick Editora, 1997.
GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. Rio de Janeiro: Ediouro, São Paulo: Publifolha, 1997.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 29ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.
MOISÉS, Massaud. Presença da literatura portuguesa: romantismo-realismo. 6ª ed. São Paulo: Difusão Editorial, 1984.
PINTO, Júlio Pimentel. Afeto reinventado. In Entrelivros. Ano 2, nº 24. São Paulo: Dueto Editorial, 2007, p. 38-42.





Bio fornecida pelo palestrante.

HILDA HILST E ALEJANDRA PIZARNIK: PASSEIOS POÉTICOS CORPÓREOS




HILDA HILST E ALEJANDRA PIZARNIK:

PASSEIOS POÉTICOS CORPÓREOS

 

Autora: Joelma Rodrigues

Universidade Federal de Pernambuco

 

Por que não posso

 Pontilhar de inocência e poesia

Ossos, sangue, carne, o agora

E tudo isso em nós que se fará disforme?

Hilda Hilst

 
Andando pelas ruas escuras de Londres, pisava Sylvia Plath sobre folhas adormecidas no frio. O barulho não era o mesmo do verão passado quando tilintavam pássaros buscando os restos de comida deixados pelos turistas. Restava à poeta apenas o corpo barulhando com o vento e o silêncio. E corpo que barulha com o vento e o silêncio é poesia. Sylvia Plath fazia poesia nas madrugadas inglesas, e a fazia com o corpo. Seriam seus ossos, sangue e carne o sustento do corpo, como são as imagens, delírios e milagres varadouro da poesia?
Em meados do século passado duas poetas latino-americanas, Hilda Hilst e Alejandra Pizarnik, pareceram querer responder à questão levantada por Plath em suas folhas. Em dois trabalhos importantes intitulados Do desejo (1992) eÁrbol de Diana (1962), inscreveram a primeira e segunda autoras, respectivamente, as marcas do corpo na poesia.
Corpo, nos versos de Hilda e Alejandra, representa uma espécie de corredor onde imagens e sensações saem e retornam continuamente. É um corpo vivo que expele secreções do gozo do sexo e da linguagem; é um corpo-vislumbre que mesmo silencioso se comunica: “yo me he unido al silencio/ y me dejo hacer/ me dejo beber/ me dejo decir”. É um corpo que se ritma por sensações e cores – nos versos de Pizarnik há muitas referências à luz, sombras, transparências e medos: “más allá de cualquier zona prohibida/ hay um espejo para nuestra triste transparencia” –, tão concretas como a boca e o tato: ”colada à tua boca, mas descomedida/ Árdua/ Construtor de ilusões examino-te sôfrega”.
De modo geral, há boca, sangue, pele, rostos, coração, cérebro, sexo, dedos, ossos, carne, olhos. Para além de simples palavras que definem partes do corpo humano, há uma salada significante onde o delírio poético transgride o corpo como máquina, cartesiano e funcional, para o corpo cósmico, que é trágico – “e fodes como quem morre a última conquista” – e lírico – “com el silencio de su sangre/ la noche bebió vino/ y bailo desnuda entre los huesos de la niebla”. O caráter cósmico do corpo em Do desejo Árbol de Diana tem sua aferição no sentido que lhe deu Gaston Bachelard, no alferes do devaneio: “fenômeno da solidão, um fenômeno que tem sua raiz na alma do sonhador” (BACHELARD, Gaston, 1988, p.13-4).
O corpo que se torna matéria cósmica na poesia é fruto do sonho do poeta, é o meio processual pelo qual atravessam as sensações e o desejo de comunicação com o mundo. Assim, se a poesia imprescinde do delírio, também o faz com o corpo. Seja transporte do sonho, casulo de inspiração ou objeto de transpiração, o corpo é inevitável.
De acordo com o poeta Adriano Espínola (1989, p. 33), “o corpo constitui o palco carnal do sentido”, e, como tal, representa algo que dilui-se num ir e vir de matéria e sensação; faz-se ver, e isto só é possível pela luz que é por onde os olhos alcançam as imagens. Em vários versos de Árbol de Diana, Alejandra Pizarnik fala do corpo e da luz, “He dejado mi cuerpo junto a la luz” como fez Hilda Hilst no verso “E há luz na tua carne e tu palpitas”, tornando as duas poetas construtoras de um lampejo comum: a palavra.
Sendo o corpo um partícipe importante dos poemas de Hilda e Alejandra, ao se fazer palavra torna-se também “reduto pulsional da finitude” (ESPÍNOLA, Adriano, 1989, p. 33) pelo qual a linguagem vive mas não descansa como única via de expressão.  A palavra, embora seja objeto de ofício do poeta, é limitada. A poesia, em si, prescinde da palavra: a ação comunicativa da palavra se dá no jogo de sensações, imagens e arrepios; esforço da pena carregada de sentido.
 
O CANTO DO CORPO
a) A boca:
Alejandra Pizarnik e Hilda Hilst têm escrituras cuja marca poética tem a tentação do silêncio. Segundo George Steiner (1988, p.58), “falar com a força máxima da palavra, assim como o faz o poeta, é sumamente perigoso”; a palavra, apesar de ter nascido com o som, de ter sua aurora no mesmo feixe de luz que fez surgir a melodia, está aquém, fazendo alguns poetas desejarem o silêncio: “na maior parte da poesia moderna, o silêncio representa as exigências do ideal; falar é dizer menos” (STEINER, George, 1988, p.68).
Mas, se o corpo é tão importante na poesia dessas escritoras, pra que serve a boca sem a fala? Ora, o silêncio para o poeta é diferente do que é para o mudo. Neste, o silêncio é uma imposição; naquele é uma forma de dizer, também. Como está expresso nos versos de Pizarnik, “me dejo hacer/ me dejo beber/ me dejo decir”, o silêncio do poeta procura ressoar entre os espaços vazios deixados pela palavra. Procurando esses espaços vazios – ansiosos para serem completados -, alguns poetas fazem da linguagem uma forma de música, que “é um código mais profundo e mais numinoso” (STEINER, George, 1988, p.62), cantando-a. Vejamos alguns versos [os versos I e II são de autoria de A. Pizarnik e o III de Hilda Hilst]:
 
I
Este canto arrepentido, vigía detrás de mis poemas:
este canto me desmiente, me amordaza.
 
II
Yo canto.
No es invocación.
Sólo nombres que regresan.
 
III
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas (…).
 
b) Sangue, pele e rostos
Há uma cadência circunscrita nas poesias de Hilda Hilst e Alejandra Pizarnik que só é possível observar na trajetória de seus versos. Kátia Pinho (2002, p.43-44) diz sobre a poeta argentina que há em sua escritura uma “burla do código lingüístico” em que pesam aliterações, jogos verbais, intertextos e intervalos respiratórios. Os versos de Alejandra Pizarnik exigem do seu leitor um intervalo essencial para sua leitura. É como se houvesse uma grande lona colorida e pudéssemos olhar em separado cada cor (mesmo não as separando concretamente) e tivéssemos que cuidar da respiração para não sufocarmos lá dentro. Pois que, a respiração se torna um arcabouço essencial nas leituras dos poemas de Pizarnik. O escritor peruano Lezama Lima nos conduz a essa (res)significação da poesia e diz sobre a respiração:
 
(…) veiazinhas de ar diferenciado que vão marcando seu existir entre o ar que se afasta saltando sobre as essências(…). Ciência da respiração, poesia: fotografia da respiração, pela qual tão comodamente resulta o inesperado, habitual; o impessoal, água de todos (LIMA, Lezama, 1996, p.123).
 
Ora, há um ar que se diferencia nos poemas dessa autora. Conduzida por sensações que saltam até a pele pelo sangue, Pizarnik desmembra a lógica das palavras manipulando-a com grande habilidade. Há, de certa forma, nessa maneira de lidar com a linguagem um conhecimento de suas conseqüências que pode deixar o leitor desconcertado com a carga pulsional de suas palavras. Nos versos “Estos huesos brillando en la noche,/ estas palabras como piedras preciosas/ em la garganta viva de un pájaro petrificado”, a poeta faz vir ao leitor um jogo de sensações e uma versatilidade de imagens que impressionam. As palavras aparecem como pedras preciosas, ou seja, são caras e raras, mas escondidas na garganta de um pássaro petrificado (pelo tempo?); pássaro que deve ter asas (mas não pode voar), pode ser belo (e não se movimenta), mas que prende em sua “garganta viva” a palavra que é preciosidade. Alejandra usou da metáfora das pedras e garganta para nos conduzir aos ecoantes corredores do silêncio e da linguagem, pois, embora o pássaro seja de pedra sua garganta está viva, e é como se só isso importasse.
De outra forma, temos em Hilda Hilst também um pássaro, mas este não está petrificado: “Se eu disser que vi um pássaro/ sobre teu sexo, deverias crer?/ (…) E agora digo que há um pássaro/ Voando sobre o Tejo”. Ao contrário, se houvesse como realizar uma correspondência entre esses pássaros, – e se não tivéssemos um problema de tempo linear entre as poetas -ousaríamos deduzir que o pássaro cantado por Hilda, antes emitente e ladeante, batedor de asas, toucador de pele, aparece, pelo tempo e condição, petrificado em Pizarnik – é como se esta autora dissesse que o mais importante é a palavra, por isso, desse pássaro só ousaríamos querer a garganta.
c) Coração, cérebro e sexo
Somos seres descontínuos. Pensamos por partes, agimos com mãos fragmentadas. Nesse processo relativo e incompleto, limitado pelo corpo e cultura – afinal duas instâncias que têm sido segmentadas, especialmente pela Ciência – há dois pontos iminentemente passíveis de discussão: tensão e erotismo.
Segundo George Bataille em O erotismo (1987, p.15)“somos seres descontínuos, indivíduos que morrem isoladamente numa aventura ininteligível, mas temos a nostalgia da continuidade perdida”; e vida é sinônimo de uma aventura tensa que percorre o jardim sagrado dos desejos: é interessante observar em nossa descontinuidade a contradição intensa da tensão que não deixa de ser contínua; e o desejo é, digamos, a veia por onde se cruzam as tensões, e estas são de naturezas diversas: afetivas, econômicas, culturais, biológicas, morais, religiosas etc.
Dessa forma, tem o erotismo um papel fundamental nesse processo porque realiza o ofício holístico ou cósmico de buscar o ser humano e passear-lhe em suas variadas composições. Como diz José Paulo Paes (1990, p.14),
 
(…) mais do que em qualquer outro domínio da experiência humana, é no da experiência erótica que se torna urgente impedir que, em sua velocidade implacável, o tempo apague de pronto e de todos os traços do já vivido.
 
É o erotismo quem exerce o papel de mediador da balança cósmica da humanidade em seus vários universos. Porém, quando o erotismo é acossado pela proibição e censura, é quebrada essa disposição integrativa; e, se Bataille tem razão quando diz que o interdito está sempre presente para conter as manifestações eróticas, então passamos a compreender porque somos cada vez mais fragmentados. Vejamos o que nos diz Hilda Hilst sobre a experiência erótica:
 
Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?
 
Espelhos e descaminhos são as ressonâncias que a poeta aponta como liames de sua experiência erótica. Há um certo abrigo do ardor – sensação comumente presente nos seus poemas – e ardor é ígneo, como são as cantigas não ouvidas por aquele Outro: sensação sublime de sua transcendência, “um único extraordinário turbilhão”.
O que se pode ver também em Alejandra, que transforma os espelhos em respostas. É como se fosse possível olhar para a imagem refletida neles e não sabê-la invertida, mas apropriada. Melhor dizendo, imagem que se apropria da linguagem e se recria nas sensações poéticas da autora: “los espejos hasta que las palabras olvidadas suenan mágicamente.”
 
d) Dedos, ossos e carne
Componentes mais rijos do corpo, os dedos, ossos e carnes aparecem nos poemas de Hilda Hilst e Alejandra Pizarnik de formas diferenciadas. Há nesta última uma tendência transcendente no falar sobre o corpo, como se este fosse o objeto pelo qual a poeta procurou pintar, de próprio punho, alguns significados que vão para além de sua aparência funcional: “em la memoria del agua dedos de niebla”. Ao dar memória à água – substância orgânica e inanimada (sem alma) – ela introduz os dedos quase como fetiche religioso, um totem simbólico que resgata a sua parte líquida em estado sólido. Os dedos aqui exercem papel de invasor inconsciente, trazendo à tona o verso e a imagem: sem memória e dedos, a água só seria a água que nos mata a sede.
As carnes e ossos nos poemas de Alejandra Pizarnik tornam-se agregações imagéticas que rodeamos em alguns versos. É a capacidade transcendentalizada desta poeta em falar do corpo sem perder sua energia. O corpo aqui está junto à luz, “he dejado mi cuerpo junto a la luz”.
Já em Hilda Hilst, o corpo passeia pelo roteiro sublime, mas, acima de tudo, desejo sagrado. Por desejo sagrado quero falar do puro e impuro, como eram vividos nas religiões antigas, onde os “aspectos impuros não eram menos sagrados que os aspectos contrários”, mas “duas formas complementares” posteriormente (res)significadas pelo cristianismo (BATAILLE, George, 1987, p.113, 63). Dessa forma, o roteiro poético em Do desejo, de Hilda Hilst, é cósmico por ser erótico, ou vice-versa; sua profusão resgata o corpo, desde sua acepção biológica ao paroxismo transcendental: “pensa-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO É O DESEJO.” Seus ossos e carnes tornam-se abrigos do paroxismo anunciado: como a casa, que é tijolo e cimento, esses são “sorrisos, códigos, conluios, avessos e versos no ar”.
 
e) Os olhos
Para ver poesia é preciso cerrar e descerrar os olhos: lubrificar-lhes com algumas piscadelas. Esse exercício, que é aeróbico e anaeróbico ao mesmo tempo, é o que Ezra Pound (1976, p.67) define como a atividade “que tem maior carga de energia”. O poeta sua, estremece a mão quando a palavra não quer aparecer, experimenta pensamentos como se sorvesse ópio. Como ressalta George Steiner, “o poeta cria à perigosa semelhança dos deuses”, dissipa ou constrói caminhos, levanta templos, pisa coroas. Mas o poeta não faz isso para parecer “diferente” dos outros – embora façam assim parecer alguns poetas – sua autonomia está na palavra e em sua condução. Por isso há dois atributos imprescindíveis a um poeta: palavra e imaginação. Para criar perigosamente à “semelhança dos deuses” é preciso reconhecer as palavras como se as degustássemos: ora as sorvemos, ora regurgitamos. Como versa Alejandra Pizarnik, que melhor atividade teria o poeta que não fosse mirar uma rosa na jaula do tempo?: 1)“la rebelión consiste en mirar una rosa”; 2) “en la jaula del tiempo/ la dormida mira sus ojos solos”.
Os olhos são o fascínio do poeta, pois lhe mostra seus próprios vazios. Antes de escrever, o poeta regurgita pelos olhos, fala das coisas que muitas vezes não consegue dizer com a pena: eis o que nos deixa entrever Hilda Hilst e Alejandra Pizarnik. Em ambas, os olhos ganham papel de “solo”: concretude e base, solidão e interioridade. Vamos à transcrição de alguns versos:
 
 
I
por un minuto de vida breve
única de ojos abiertos
por un minuto de ver
en el cerebro flores pequenas
danzando como palabras en la boca de um mudo.
 
II
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
(…)
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.
 
III
cuando vea los ojos
que tengo em los mios tatuados
 
IV
(…)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?
 
 
PASSEIOS FINAIS

Mas o que vou dizer da Poesia?

(…) nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a Poesia.

García Lorca

 
A poesia de Hilda Hilst e de Alejandra Pizarnik têm “luz propia, centelleante y breve” (PAZ, Octavio, 1998, p. 5) que, com grande envergadura pisam o jardim londrino de folhas secas. Seus poemas falam por si, e por eles alcançamos um pouco desse “dizer da poesia” pela qual epigrafou o poeta. Sem limites para a criação, imagens e signos, Alejandra e Hilda meio que cruzaram, sem premeditar, vários caminhos comuns; silêncio, corpo, erotismo e luz foram traçados com certa freqüência nos escritos dessas duas poetas: ganha a Poesia.
Há em suas penas muita Luz, um complexo estado de luzes ofuscantes: “escritura fosforescente” (PAZ, Octavio, 1998, p. 5). Em muitos versos, as autoras usam da imagem da Luz o caminho para chegarem a um certo ponto sublime de suas veias criadoras. Transcendem, pela Luz, o corpo de seus poemas, dando-lhes ao mesmo tempo chão e “cordura”. Não seria exagero dizer que Hilda Hilst e Alejandra Pizarnik revolucionaram a poesia, se refletimos com esta escritora que “a rebelião consiste em mirar uma rosa”. Inscrevendo-se na palavra, tanto uma quanto outra, rosas e outras tantas flores foram plantadas, espinhos e capins infiltrados: plantação, coisa de quem escreve.
 
Referências Bibliográficas
 
BACHELARD, Gaston (1988). A poética do devaneioSão Paulo: Martins Fontes.
BATAILLE, George (1987). O erotismoPorto Alegre: L&PM.
ESPÍNOLA, Adriano (1989). Corpo e transgressão no romance pós-moderno:uma leitura de A fúria do corpo e BandoleirosRio de Janeiro: UFRJ (dissertação de mestrado).
HILST, Hilda (1992). Do Desejo. Campinas, SP: Pontes.
LIMA, Lezama (1996). Do aproveitamento poético. In: A dignidade da poesia.São Paulo: Ática, 1996.
PAES, José Paulo (1990). Erotismo e poesia: dos gregos aos surrealistas. In:Poesia erótica em traduçãoSão Paulo: Companhia das Letras, 1990.
PAZ, Octavio (1998). Árbol de Diana (Apresentação). In: PIZARNIK, Alejandra. Árbol de Diana (obras completas)2ª. Ed. Buenos Aires: Corregidor, 1998.
PINHO, Kátia R. (2002). Uma ponte sob a morada do serproposta heideggeriana de Árbol de Diana, de Alejandra Pizarnik. Recife: UFPE (dissertação de mestrado).
PIZARNIK, Alejandra (1998). Árbol de Diana (obras completas)2ª. Ed. Buenos Aires: Corregidor.
POUND, Ezra (1976). O artista sério. In: A arte da poesiaensaios escolhidos. São Paulo: Cultrix, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1976.
STEINER, George (1988). O poeta e o silêncio. In: Linguagem e silêncio:ensaios sobre a crise da palavra. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.





Bio fornecida pelo palestrante.

ANÁLISE DO DRAMA ROMÂNTICO “GONZAGA OU A REVOLUÇÃO DE MINAS”, DE CASTRO ALVES




ANÁLISE DO DRAMA ROMÂNTICO “GONZAGA OU A REVOLUÇÃO DE MINAS”, DE CASTRO ALVES

 
Claúdia Sabbag Ozawa Galindo
 

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)

 
 
 
Castro Alves voltou-se para o teatro por duas razões: uma social e outra pessoal. Sua vocação abolicionista e seu caráter propagandístico, de um lado; e sua paixão por uma atriz, de outro. Através da primeira, visava o ideal de Pátria; pela segunda, seria capaz de criar uma peça, para vê-la brilhar nos palcos. Assim nasceu Gonzaga ou a Revolução de Minas, durante as férias do autor entre 1866 e 1867, no Recife, quando já vivia sua paixão com Eugênia Câmara.
A peça foi representada pela primeira vez em setembro de 1867 sob ovações do público. No ano seguinte apresentou-a a José de Alencar e este a recomendou a Machado de Assis. Ambos foram generosos com o autor. Mas ele não conseguiu encená-la no Rio de Janeiro. Em São Paulo, encenou-a com o ator Joaquim Augusto, ator em grandeza comparável a João Caetano. Mas advertiu-o que se tratava de um texto para uma platéia acadêmica. Em 1875, entretanto, a peça saiu no Rio e foi somente em 1881 que Rui Barbosa reconheceu os méritos da obra.
Segundo Décio de Almeida Prado, o texto está alicerçado sob três pontos principais: a inconfidência, a abolição e o triângulo amoroso dos personagens principais. Quanto à Inconfidência, trata-se, de acordo com o autor, do ponto mais importante historicamente, mas o mais frágil no desenvolvimento do enredo. Isto porque Castro Alves a
 
“(…) imagina como um movimento romanesco, idealista a ponto de não manter com a realidade pontos de apoio sólidos. Tiradentes, o mais resoluto entre os seus companheiros, prepara-se para a ação como para um noivado (…) para Cláudio, que se matou na prisão (ou foi morto), o encaminhamento a revolução leva-o à premonição da morte, à qual ele, conscientemente ou não, aspira” (PRADO, 1996, p. 176).
 
 
Isto porque ela é retratada não como as revoluções vendedoras do século anterior, mas sob uma concepção romântica de cristianismo, ao ver em Cristo “aquele que ganha ao perder, que triunfa ao sacrificar a vida pelo bem da humanidade” (p. 177). Neste sentido é que Cristo aparece como um revolucionário inspirador para os inconfidentes:
 
Alvarenga – Padre, realizam-se as tuas profecias… um dia dizia-nos nos nossos pequenos serões literários que a liberdade dos povos seria uma verdade, porque o Cristo não era um mentira.
Padre Carlos – Não era uma profecia… era a letra da Bíblia; foi o mestre quem o disse: eu vim quebrar os ferros a todos os cativos e eles serão quebrados.
Cláudio – Padre, Cristo era um belo revolucionário (p. 245).
 
 
Assim é que a religião ocupa papel importante na obra, aclamada pelos revolucionários, invocada a lhes proteger e abençoar a revolução, bem como sua teórica proximidade com a Revolução Francesa:
 
Padre Carlos – A Revolução Francesa protege a revolução de Minas, esta é a filha daquela, ou antes, ambas são filhas de Deus. Quando um povo levanta-se do cativeiro, Deus, do topo dos Alpes ou do cimo dos Andes empresta-lhe uma espada, como dava as leis no cimo de Sinai.
 
 
Por outro lado, é pelos vilões que a religião desponta coberta de desdém e ironia. Diz Silvério, ao se encontrar com os inconfidentes: “(…) chego em minha reta das plagas do outro mundo, da província de Satanás, capital das mulheres bonitas e dos homens de bom gosto” (p. 256). Mais adiante é que este assemelha a mulher à serpente da Bíblia: “(…) Há um talento todo especial no sexo feminino para a mentira. É o segredo que a serpente da Bíblia confiou-lhes” (p. 307). Para depois dispor da religião, como instrumento de identificação de uma traidora, de uma amiga inimiga. “Bem! Bem! Nunca um rosário pensou prestar para tanto!” (p. 312). Chegando ao ponto, conforme ilustra Décio de Almeida Prado, da blasfêmia. Diz Silvério:
 
Que harmonia não terá uma palavra de amor que ela suspire… os dois amantes passearão com as mãos enlaçadas pelos campos e se entrelaçarão sobre a grama cheirosa dos outeiros… Ah! É um amor que os anjos invejarão.
Governador – Que Deus mesmo invejará (p. 185).
 
 
Quanto à abolição, dois personagens compõem a peça de Castro Alves: Luís, que apesar de liberto continua a servir a Gonzaga e o acompanha sempre, tendo adquirido, inclusive, cultura capaz de o igualar nos diálogos aos demais personagens. Ele representa a consciência crítica dos escravos, ilustrada nas falas, por vezes, diretamente agressivas aos brancos de um modo geral, inclusive a Gonzaga. Sofre com os desastres da escravatura, que o separaram de sua mulher e sua filha, e será responsável, ao final, pela garantia da prevalência do amor entre Maria e Gonzaga. Ao lado deste desponta Carlota, filha de Luís, que, vista pelo desenrolar dos acontecimentos, assume importância capital na trama, já que é a delatora dos inconfidentes e também capaz de matar-se para não sacrificar sua honra.
O triângulo amoroso vivido por Maria, Gonzaga e o Governador parece ser o fio principal condutor de todo o enredo. Marcadamente romântico, o amor atravessa os percalços típicos de sua não – realização. É sempre a sociedade, de alguma maneira, que o impede se realizar, condenando-o, muitas vezes, ao real enlace na morte, posto que impossível na Terra. É o conflito em que os personagens estão envolvidos que os torna incapazes de viver com a realidade imposta. O amor entre Maria e Gonzaga também se mostra dependente da permissão de Portugal e ela mesma chega a vislumbrar viver esse amor em outra instância, depois da morte. Talvez seja uma das construções mais poéticas do texto:
 
Sim! Sim! Amanhã nós seremos felizes… Oh! Muito felizes… Eu te direi que te amo… e se a minha voz vier de muito longe não te admires, porque ela vem do fundo de minha alma… Eu te olharei com um olhar bem longo, bem firme… e se este olhar for muito fixo, não te admires… é que nunca mais olharei senão para ti… Terei talvez uma lágrima nas pálpebras… será a derradeira… eu não chorarei mais… e se tu me beijares, não te espantes da frieza de minha boca… é que meu sangue refluirá ao coração nesta hora de êxtase… Sim! Sim! Nós seremos muito felizes! (p. 366).
 
 
É mais por seu amor não –correspondido do que por qualquer outra razão de ordem política que o Governador quer ver presos os inconfidentes, afastando Gonzaga de Maria. É também com este pensamento que ele pretende negociar a liberdade do poeta, ao preço de se casar com Maria. Ao lado de Silvério ele encarna o “mal”, impedindo a revolução e o amor romântico do casal. Silvério é ainda mais perverso e assume, portanto, fisicamente até, a roupagem do vilão, com “cara de traidor, olhos desconfiados e mãos traiçoeiras”. Maria, neste contexto, que poderia figurar somente como motivo da disputa dos dois é verdadeiramente quem luta e age efetivamente. Em função muito mais do seu amor por Gonzaga do que pela revolução, é evidente. A sua astúcia é que lhe permite envolver o Governador, resgatar os papéis da revolução e defender Gonzaga.
Ainda que permeado por traços melodramáticos, como o maniqueísmo claro entre o bem e o mal, as já bastante conhecidas e usadas artimanhas dos encontros fatídicos e dos objetos de identificação e revelação de um segredo, bem como os desmaios que se prestam a uma reviravolta na ação, o texto consegue levar adiante e entrelaçar os três fios principais do enredo de maneira a torná-los intercambiantes e verossímeis. A linguagem, por sua vez, já prevenida pelo autor, é dirigida para um público acadêmico, e por isto mesmo peca pela exuberância de poesia, beirando o enfadonho e prestando, muitas vezes, segundo alguns críticos, à exaltação pessoal do autor de sua virtuosa habilidade com metáforas, paralelismos… pertinentes sobretudo aos versos, que ele não arriscou usar no drama, do que ao texto dramático em si mesmo.
Castro Alves, já o apontaram os críticos, deve a Victor Hugo e Alexandre Dumas a perspectiva grandiosa da versão cristã e
 
(…) a intenção e a ambição de escrever uma peça que use todos os estratagemas da dramaturgia romântica, da erudita como da popular, somando a destreza da comédia, as surpresas do melodrama e o peso moral dos grandes dramas sociais e nacionais. (PRADO, 1996, p. 186).
 
 
Desta forma é que há construções responsáveis por situações tais como o engajamento do ex-escravo Luís na revolução pelo reencontro da filha, a equiparação da condição de colônia à condição do cativo, as metáforas usadas para designar os ricos e suas propriedades de um lado e os que os servem de outro, a importância dada à honra e ao reconhecimento nacional dos mártires, o sentimento de dever e de responsabilidade social.
Neste contexto, Tiradentes, historicamente o mais importante dos inconfidentes, abre espaço para o poeta Gonzaga, romanticamente identificado como amante e patriota, mas que, efetivamente, não se torna responsável direto por nenhum dos acontecimentos decisivos da história. Isto porque, se papel maior que Tiradentes tem Gonzaga, atitudes têm mesmo as mulheres. São elas que conduzem os acontecimentos e mudam o rumo dos fatos. Determinadas e firmes, agem condicionadas pela honra, pelos valores morais e amorosos. Desde a escrava Cora, mãe de Carlota até Maria Dorotéia, imprescindível à trama, as mulheres tomam as rédeas do texto.
No drama “Gonzaga ou a Revolução de Minas”, de Castro Alves, papel maior que Tiradentes, tem o poeta Gonzaga, mas atuação determinante e firme é o das mulheres na obra. Desde Cora, mãe da escrava Carlota, que se afoga no rio para não perder a honra, a própria Carlota, que pela vida do pai sacrifica sua alma até à personagem astuta e ousada de Maria Dorotéia, que impede o Governador de tomar posse dos papéis da revolução. Escravas, livres ou senhoras, elas não se dobram ao destino imposto por sua condição de mulher.
Cora apareceu em fazenda dos pais de Gonzaga dizendo ser livre e a mãe deste a acolheu. Na fazenda, ela conheceu o escravo Luiz, eles se casaram e tiveram uma filhinha. Tempos depois, um senhor veio reclamar a escrava, açoitou-a como castigo pela fuga e a separou de Luiz e Carlota. Ela, para não se render ao senhor, afogou-se no rio, para fugir à desonra. Carlota, que talvez se afogasse no desonra para fugir à morte, como imaginou seu pai, é capaz de perder a alma para salvá-lo da morte. Diz Joaquim Silvério:
 
Pois então sabe que eu o conheço e que, quando estiveres mais negra de desonra do que a lama de minhas botas, eu farei com que o pobre velho venha morrer de vergonha ao ver sua filha. Ah, agora me ouves? Tu matarás teu pai, desgraçada!”Carlota: “Meu pai! Meu pai!..”. Continua Silvério: “Escolhe… ou denunciante… ou parricida!..”. Ao que ela responde: “Ah! Quebrou-me enfim! (Enxuga os olhos). Bem, estou pronta! (p.264).
 
 
Então ela entrega os inconfidentes pela vida de seu pai: “Estes papéis perderam minha alma; mas estes papéis salvarão meu pai!…” (p. 271)
E é repensando o próprio papel das mulheres e sua condição social que Maria Dorotéia vislumbra a força do amor na aparente fragilidade feminina:
 
Ah, meu senhor, tu és um homem, podes ser um herói, tu és um homem, podes ser um gênio, tu és um homem, podes ser um rei; eu sou uma mulher, meu heroísmo é ver-te, meu gênio é escutar-te, minha coroa é o teu amor. (…)E eu não sou mais que uma pobre mulher. Dizem que as mulheres são a fraqueza. É mentira. Não há nada tão forte quanto uma mulher que ama. Eu tremo ao menor ruído; para que mentir? Sou tímida e medrosa, mas ao pé de ti eu desafiaria o mundo (p. 268-9).
 
 
E é este amor, e esta força que se transforma em coragem que faz de Maria uma pacificadora, quando já o Governador pretendia prender Tiradentes por desrespeito: “Sr.Visconde, permitir-me-á que aceite o braço deste cavalheiro. (Dá o braço a Tiradentes).” Ao que o Governador, desconcertado, responde:“Mil perdões, minha senhora…” (p. 282)
É nesta mesma ocasião que Maria percebe a falsidade das promessas do Governador em prol da revolução e do seu casamento com Gonzaga, desconfiando de suas intenções. No diálogo entre Maria e Gonzaga pode-se perceber a sua desconfiança: Gonzaga diz: “Enfim, Maria, a felicidade nos estende os braços”. Maria: “Ou a desgraça”. Gonzaga: “Que dizes? A desgraça!…” Maria (à parte): “Que loucura! Meu Deus! Oh, e eu que não lhe posso dizer nada!” Gonzaga: “A desgraça! Mas tu não vês como tudo nos auxilia, o nosso casamento… a liberdade que breve se proclamará… O Governador está cego…” Maria (à parte): “De ódio e de vingança!” (p. 286-7)
Até que, finalmente, entende que, tendo desmaiado quando estava de posse dos papéis da revolução, estes lhes foram roubados e pararam nas mãos do Governador:
 
Mas aquele maldito desmaio! Que culpa tive eu?… Foi tão súbita a entrada do Governador!… (como tomada de uma desconfiança) o Governador! (…) Meu Deus! Meu Deus! É uma idéia horrível! Teria eu compreendido a alegria imensa daquele homem! Oh! É que aquela boca só ri quando tem sabor de sangue! (p. 290).
 
 
Descobrindo que o Governador a ama, ela o enfrenta:
 
E que me importa o seu coração, senhor, se é que o tem? Que me importa? Ah! É preciso que eu lhe faça lembrar que sou uma noiva. Ouviu bem, Sr.Visconde? uma noiva!… (…). Fala-me de seu coração… da mesma sorte que me fala do seu ódio, do seu ciúme, de sua vingança. Oh! Há de concordar, Sr. Visconde, que à primeira vista dir-se-ia que sua alma é um covil, é uma jaula onde todos estes animais ferozes se mordem e estrangulam (p. 294).
 
 
Como o Governador insistisse em lhe declarar seu amor e de como ele nasceu, ela, irônica com relação aos estereótipos femininos, responde: “Eu o escuto, Sr. Visconde; as mulheres são curiosas, e afirmo-lhe, a minha curiosidade está por demais excitada.” (p. 295) Assim é que ela se mostra agressiva e segura diante do que ele diz ser a fatalidade de seu amor: “Mas Deus só concede isto às almas puras. Isto que o senhor diz amor é um desespero de abraços, é uma raiva de beijos, é a inveja sombria de Satanaz vendo a felicidade no céu… É o ódio do cego que apaga a luz que não vê… Egoísmo infame!” (p.298), para depois, finalmente, desprezá-lo e ridicularizá-lo: “E o senhor é velho! É feio… tem o coração mais envelhecido que o corpo, cabeça mais caduca do que o coração. Eu o abomino… eu o desprezo!…” (p.299).
Entretanto, diante da ameaça do Governador de que a fatalidade de seu amor residiria no fato de que, se ela não correspondesse ao seu amor, seria responsável pela morte dos inconfidentes, ela tenta dissuadi-lo, mostrando-se melindrosa:
 
 
É preciso que o coração sofra muito para entregar assim sua vida ao remorso, sua alma ao inferno… Mas, senhor, por piedade! Eu não posso ainda amá-lo; mas bem vê que não o odeio… Meu Deus, eu desejaria enxugar todas as lágrimas… e o senhor … sim, eu devo consolá-lo, porque o fiz muito infeliz… tão infeliz que já não lhe posso querer mal, o senhor assombra-me!… (Chorando) (p. 300).
 
 
Assim, ele aproveita para responsabilizá-la pela vida de todos os inconfidentes e a chantageia:
 
A senhora tem nas suas mãos a vida de muitas pessoas que estima, a desse homem a quem ama, e deste outro que a adora. Pois bem, Maria!… todos estes olhos estão fixos em ti, todas estas bocas tremulas de condenados murmuram-te piedade… (…) Escolhe… e tudo estará terminado!…” (p. 300-1).
 
 
Satisfeito e sarcástico, o Governador apresenta a visão machista sobre o destino das mulheres: “(…) E depois, que maior prazer pode ter uma alma como a sua do que entornar felicidade por onde passa?… É esta a missão das mulheres…” (p. 301) Fingindo participar do seu discurso e se manter envolvida, Maria demonstra falso pudor: “(…) Eu devo, sim… devo afirmar-lhe que o não amo… mas admiro tanta loucura que imaginou por minha causa, tenho remorsos de tê-lo feito desgraçado…” (p. 301) mas não deixa de se mostrar irônica na consciência de sua responsabilidade por tantas vidas: “(…) Deixe-me ao menos ver quantas vítimas nós salvamos… Dê-me estes papéis…”. Assim é que ela busca reaver os papéis da revolução e, quando por desconfiado, o Governador hesita, ela afirma: “Vai ainda desconfiar de mim. Meus Deus, cedo começa o meu castigo, mas note que eu sou uma fraca mulher; estamos sós…” (p. 302). Ela aproveita-se da súbita tomada de confiança dele, e resgata os papéis, queimando-os na vela acesa. “O anjo queimou as asas do demônio!…” (p. 303).
Enquanto isso, é Carlota quem terá que se sujeitar à condição de um amigo inimigo dos inconfidentes, sob chantagem de Silvério, que a apresenta como alguém dotado da malícia necessária para a dissimulação:
 
É Carlota, uma escrava minha. V. Ex. sabe esta história; tenho- lhe falado já desta heroína de romance, bela como uma serpente, pregando sermões como um frade, roubando papéis como um bandido; no mais, bonita, quase tão branca como qualquer um de nós…Oh! fará um lindo efeito vestida de rapaz, como espero apresentá-la em breve a V. Ex. (p. 306-7).
 
 
Ao escolher uma mulher para este papel, justifica Silvério, reforçando os estereótipos:
 
Há um talento todo especial no sexo feminino para a mentira. É o segredo que a serpente da Bíblia confiou-lhes. Verá. Esta linda rapariga entrará naquela porta levando a Gonzaga uma carta que retardou de propósito… depois deslizará pelos corredores. Chegará ao barco, dirá aos feitores que vai guardar alguma provisão ali… abrirá com toda presteza uma fresta no costado, por onde possa entrar água a valer, e se escapará num instante deixando apenas sobre o chão um rasto tão ligeiro como o de uma asa, tão pequeno como o de uma cabra. Ainda um ponto de contato entre a mulher e Satanás (p. 307).
 
 Em outro trecho, quando a manda ir embora “com todos os diabos” (311), ela clama por Deus e ele novamente a critica de dissimulada “Sabes que mais, Carlota, já estás me aborrecendo com o maldito vício que tens de ser velhaca entre lágrimas” (p. 312) e mais uma vez zomba da religião quando ele a questiona sobre uma maneira de ser reconhecida pelo tenente- coronel como a amiga inimiga e ela lhe lembra de um rosário que possui, dado por sua mãe: “Bem! Bem! nunca um rosário pensou prestar para tanto!” (p. 312).
Em sentido contrário, para tentar salvar os inconfidentes, especialmente Gonzaga, Maria Dorotéia também se mascara e acaba sendo confundida com Carlota, o que proporciona a fuga de Gonzaga, sob o disfarce do rosário. Assim é que ela inverte o efeito do plano de Silvério e ironiza quando ele se refere a ela pensando se tratar de Carlota e a elogia pela astúcia: “Creio que não se enganou quando disse que eu sou um demônio de astúcia!…” (p. 317)
É com esta mesma astúcia que Maria Dorotéia tenta convencer Gonzaga a fugir, envolvendo-o em um jogo de palavras “Toma esta máscara, esta capa, este chapéu, e foge… não como um fugitivo… A astúcia aqui perderia tudo. Audácia e só audácia!….” (p. 319) Entretanto, ele ainda resiste, reclamando sua honra e Maria Dorotéia apela para a perda de sua própria honra se ele se negar a fugir
 
(…) a pobre moça será vendida a outro senhor! Amanhã a sua capela de virgem será desfolhada pelos dedos trêmulos de um velho perdido!… sua boca manchada como a folha em que o réptil espojou-se!… seu pudor atirado à lama como o tablado de um amor horrendo entre um carrasco e uma vítima! (p. 328).
 
 
Assim também é que Carlota, confidenciando sua história, tenta resgatar sua honra dando a Gonzaga a chance de fugir valendo-se de seu disfarce com o rosário e recebendo o perdão de Maria Dorotéia “Eu te perdôo porque tu amaste muito.” (p. 335), referindo-se ao amor desta por seu pai. Porém a traição de Carlota a Silvério é descoberta e ele, como castigo, resolve entregá-la como a mulher que servirá a todos os escravos. “Como será lindo, Carlota ! Feliz!… com teu velho pai para amparar uma porção de filhinhos nos joelhos… (rindo)  e uma porção de maridos nas senzalas!… Oh! Será soberbo! É um quadro patriarcal!…” (p. 338) E, ainda uma vez, ela luta por sua honra e, para não perdê-la, como sua mãe, mata-se. Luiz, seu pai, eleva a condição isolada da escrava a um símbolo romântico dos mártires “(…) que o teu sangue puro, caindo na face do futuro, lembre-lhe o nome dos primeiros mártires do Brasil” (p. 342).
Mas, mesmo com a morte de Carlota e a idéia de Maria Dorotéia, os inconfidentes são presos, e pesa sobre ela a decisão de entregar-se ao Governador pela liberdade de Gonzaga. Ela, a princípio, revolta-se “O senhor me pergunta se li sua carta!… Li-a, senhor, e ainda trago-a aqui (Tira um papel do seio). – Vi o pacto infame que me propõe, o crime sobre o qual pretende levantar seu leito de núpcias, a traição com que quer coroar a cabeça de sua noiva… Li sua carta, Sr. Visconde!… Li sua carta, miserável!” (p. 355), mas depois, diante da situação em que se encontra Gonzaga ela se rende ao pacto com o Governador “É bem verdade que não há outro meio de salvá-lo…” (p. 358). Desta forma, ela tem um rompante de heroína e assume a responsabilidade e o preço pela vida de Gonzaga:
 
Enxuga os olhos, desgraçada! É preciso que tuas pálpebras estejam brancas quando tua alma está em sangue… Ri, desgraçada! É preciso que tua boca ria como teu coração chora…. Levanta a cabeça, desgraçada! É preciso que ela suporte o peso de sua coroa de morte, como o Cristo levantou a sua de martírio… (Ao Governador). Sr. Governador, eu estou pronta. Quais são as condições do contrato? (p. 358).
 
 
A sua coragem, contudo, vai além, em favor, mais uma vez, de sua honra, e ela decide, em momento de forte tensão dramática, entregar-se, ao final, a outro esposo, a morte. Maria visita Gonzaga na prisão e ele acredita poder ser livre e viver seu amor com ela, mas ela já o prenuncia na morte, em um dos momentos mais dramáticos do texto:
 
Sim! Sim! Amanhã nós seremos felizes… Oh! Muito felizes… Eu te direi que te amo… e se a minha voz vier de muito longe não te admires, porque ela vem do fundo de minha alma… Eu te olharei com um olhar bem longe, bem firme… e se este olhar for muito fixo, não te admires… é que nunca mais olharei senão para ti… Terei talvez uma lágrima nas pálpebras… será a derradeira… eu não chorarei mais… e se tu me beijares, não te espantes da frieza de minha boca… é que meu sangue refluirá ao coração nesta hora de êxtase (p. 366).
 
 
Mas a esta cena de amor, sucede-se um mal-entendido provocado pela descoberta da carta do Governador, com a proposta de pacto com Dorotéia, por Gonzaga, e a chegada do Governador: “Oh! Nada de modéstia, Sr. Visconde! Mostre-se qual é… V.Ex. é um cavalheiro… prostituiu minha noiva… mas praticou uma infâmia.” (p. 369) Mas ela revela-lhe o punhal e a idéia de se suicidar, depois que ele fosse solto, para não ter que cumprir o acordo. Gonzaga entra em conflito e instaura-se uma forte tensão dramática “Meu Deus! Meu Deus! Onde estará a verdade? Ah! Que dúvida horrível! Maria!…” (p. 372). Por fim, Luiz restitui a harmonia amorosa apresentando o restante do bilhete e provando a intenção de Maria. Mesmo separados pela masmorra, pela distância ou pelo cadafalso, eles se abraçam chorando, mas juntos, para desespero do Governador “Oh! Desespero! Eles são ainda mais felizes na sua desgraça do que eu na minha vingança! Eis o meu castigo!… Deus e eles se vingaram…” (p. 376).
 
Referências bibliográficas
ALVES, Castro. “Gonzaga ou A Revolução de Minas”. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Nacional, 1944.
FARIA, João Roberto. “O Romantismo Social de Castro Alves”. In: —.Idéias teatrais. São Paulo: Perspectiva, 2001.
MAGALDI, Sábato. “Incursão de poetas”. In: —. Panorama do teatro brasileiro. São Paulo: Global, 1997.
PRADO, Décio de Almeida. “O drama histórico nacional: Agrário de Menezes, José de Alencar, Paulo Eiró, Castro Alves”. In: O drama romântico brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1996.





Bio fornecida pelo palestrante.

O BANQUETE FEMININO: A EXPERIÊNCIA ANTROPOFÁGICA COMO TESTEMUNHO CULTURAL, EM SEXAMERON, DE LUIZA LOBO




Maria Aparecida Rodrigues Fontes

ALGUÉM PARA JANTAR
Estamos reunidos para gozar os bons momentos que nosso anfitrião nos proporciona, a salvo neste castelinho no sovaco do Cristo, com vista completa para a Lagoa Rodrigo de Freitas, ocupando nosso tempo com magníficos jantares regados a vinho e menus dignos de Marco Polo. De sobremesa, as histórias de Margarida. (Sexameron, 62)
O mito da América antropófaga ainda povoa o imaginário não apenas do europeu, mas também do próprio americano. Não è de sem razão que hoje a América dita pós-moderna lança mão da metáfora canibal para deslocar a cultura canônica. Em 1928, influenciado pela vanguarda e sobretudo pelo futurismo de Marinetti, Oswald de Andrade, poeta e escritor brasileiro, lança o Manifesto Antropófago como uma resposta carnavalizada à dependência cultural com a Europa, e como uma avaliação irônica das várias etapas da formação cultural brasileira.
Na busca de uma Identidade Nacional e Cultural, Oswald vai buscar na pratica antropofágica das sociedades indígenas e nos Essais, de Montaigne, sua fonte inspiradora, traduzindo esse rito sacrificial em uma atitude estética-cultural, cujo objetivo era recusar, incorporar e questionar, ao mesmo tempo, a cultura e o repertório literário dominante, revisando-os e incorporando-os à nova realidade brasileira. Não podemos esquecer que nos anos de 1910-1920 o Brasil vivia um momento de transição: saía de uma economia baseada no trabalho forçado, com a abolição da escravatura, para uma economia industrial capitalista. O período favorecia, pois, a propalação de novos movimentos culturais vincados numa linguagem da TERRA, que repudiasse um tipo de consciência nacional que trazia em sua gênese valores burgueses transplantados, e uma visão etnocêntrica que impedia o conhecimento da cultura autoctone, ou seja, de nossa gente. Dizia Oswald, muito bem humorado, que a antropofagia è o culto à estética instintiva da terra nova. É a redução, a cacarecos, dos ídolos importados, para a ascensão dos totens raciais. É a própria terra da América, o próprio limo fecundo.
Esse era o ideal de Oswald: dessacralizar a herança cultural do colonizador para inaugurar uma nova tradição, ancorada nas próprias raízes, como alternativa para representar uma identidade nacional cuja “origem” (se é que há origem) era apenas uma imagem, ou melhor, um contorno difuso. Na década de 1990 surgem no Brasil e pela América vários movimentos antropofágicos, a 24ª Bienal de São Paulo, por exemplo, cujo objetivo já não era mais aquele propalado pelos nossos Modernistas, mas outro, ou seja, aquele que dissemina na contaminação de estilos, nacionalidades e períodos históricos. A antropofagia chega à era da globalização em livros, filmes, romance e ensaio, entre outros motivos, como cultura híbrida e/ou descolonizadora.
Enquanto os pós-modernistas afirmam o palimpsesto como referência e visão de mundo, os nossos modernistas desejavam consolidar uma visão de mundo legítima. Esse tipo de literatura, como a de Oswald e a de Mário de Andrade, em Macunaíma, vem preencher esse espaço de significação fronteiriço, esse lugar vazio onde as identidades pululam e se reconceituam a cada momento e em constelações diferentes.
Se por um lado a antropofagia Modernista brasileira garantia de certa forma uma identidade cultural/nacional, porque emprestava à nova estética o senso de formação, baseado na acumulação discreta de momentos decisivos da nossa historia; por outro, o ato antropofágico dos anos 1990 faz surgir uma experiência cultural marcada pelo acumulação dos valores estéticos, pela negação da metafísica historicista, e por uma discreta violência (a la Hannibal), que encontra nas citações e referências o Leitmotiv do enredo, em nome do hibridismo pós-moderno. O Manifesto antropofágico apresenta-se como catarse e como “mote” que tenta transformar a dialética colonial e pós-colonial de submissões, dependências, vazios, e discursos subalternos em subversões hermenêuticas. A nossa tão propalada antropofagia não se confundiria, pois, com o canibalismo desconstrucionista e com a produção de simulacros da pós-modernidade. Contudo, a dinâmica das figuras antropofágicas, sejam elas modernistas ou “canibalescas” pós-modernas, tem como função a afirmação de uma identidade, de um ponto de vista e de uma determinada cultura, ironizando ou dessacralizando aquele que é “devorado”, nesse caso o Outro “colonizador”.
PRATO PRINCIPAL
“Nada me abre mais o apetite que uma história suculenta dessas – comentou Efebo. – E agora, meus amigos, vamos ao prato principal. Queiram passar ao salão.” (Sexameron, 25)
Em Sexameron: novelas sobre casamentos, Luiza Lobo retoma as figuras antropofágicas como uma forma de testemunho das experiências culturais e femininas. As figuras, entre as quais vemos a nossa experiência de mundo, não morrem, não se desfazem, elas se transformam, liberando na metamorfose a imagem que ilumina as suas transfigurações. Esse processo, algumas vezes, só pode ser evidenciado ao transformar-se em experiência a partir da narração. Essa tem sido a escolha de poetas, escritores, pintores e escultores que narram e pensam o mundo através de figuras. Luiza Lobo ao eleger a dinâmica antropofágica como intertexto e Leitmotiv de suas novelas delineia um mapa das experiências femininas, reconstruindo as condições sociais e histórico-políticas das quais emergem esses sujeitos plurais comprometidos com a “elaboração das representações culturais” de nossa época.
Nada nos abre mais o apetite do que fazer uma desleitura das tradições culturais logocêntricas, desde o Renascimento ao Modernismo. A geografia cultural empreendia por Luiza Lobo, em Sexameron, constitui uma cartografia dos espaços culturais que nortearam o pensamento Ocidental. Partindo da “estória-moldura” de Decameron, de Boccaccio, a autora compara, através do intertexto parodístico, o clima fin-de-siècle de decadência cultural, moral e político-ideológico do período da renascença com o contexto cultural do final do século XX: “Nas mencionadas novelas, aparecerão casos de amor – uns agradáveis, mas na maioria escabrosos, e todos ocorridos nos tempos antigos” (Sexameron, 11).
O Leitmotiv é a relação entre a peste bubônica na Itália de Boccaccio e o fenômeno da AIDS, no século XX. Como metáfora da “peste do sexo”, a AIDS é, em Sexameron, menos importante como a causa da extinção da espécie humana que o modo através do qual se presentifica nas relações culturais, ou seja, como um ato antropofágico. O que é o vírus da AIDS senão um instalar-se no corpo do outro e, a partir da apropriação celular deste corpo, produzir infinitamente novos vírus, até a morte. O vírus da AIDS, neste caso, é o próprio hipertexto.
A ESTÓRIA-MOLDURA
Margarida de Navarra é a personagem que encontra os fragmentos dos manuscritos de Sexameron e quem assume a voz da narrativa. O intertexto estrutural com o Heptameron é claro, mas não é tão importante quanto o deslocamento que ocorre na composição dessa personagem híbrida. Enquanto neste, ela é a escritora, em Sexameron, constitui um metapersonage e, um meta-autor :
Eu já fui Ana, Diana, Cíntia, Délia, Hécate, Luna, Febe, Selene ou Artemisa, mas pode me chamar de Margarida de Angoulême, a rainha de Navarra. Vou-lhes contar história relativas a um tempo não muito passado, mas tornado passado pela nossa história” (Sexameron, 15).
Entretanto o que nos interessa saber é de que modo Margarida se instala no corpo desse passado, apropria-se de suas “células”, para rescrevê-lo? Através de fragmentos da história e da cultura. O passado chega em forma de textos e de vestígios textualizados – memória, relatos, escritos publicados, manuscritos, arquivos, monumentos e outros que são introduzidos na narrativa menos para negar o valor da história cultural que para redefinir as condições desse valor. Como nos diz a própria Margarida: “Portanto, a fim de que para mim se corrija o pecado da Sorte, pretendo relatar estas novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou histórias, ou contos, ou relatos, ou narrativas, ou fragmentos, ou o que quer que sejam” (Sexameron, 11). Segundo Linda Hutcheon (1991, p. 168), “a incorporação textual desses passados intertextuais como elemento estrutural constitutivo da ficção pós-moderna funciona como uma marcação formal da historicidade.” A narrativa encena a percepção de que aquilo que conhecemos sobre o passado provém dos discursos sobre esse passado – Sexameron expõe as nossas representações culturais do passado, sobretudo o nosso discurso acerca da crise da cultura neste fin-de-siècle. Aponta também para os processos de exclusão e testemunha, por um lado, o movimento de dispersão desses sujeitos em busca da própria identidade e de seu espaço; e, por outro, se impõe como uma outra voz. Esta voz desenha uma geografia diferencial, com níveis diversos de existência e zonas concêntricas das quais emerge uma “fala” modulada pelos planos diversos da história. Em Sexameron os estratos culturais superpostos, a partir do emprego da “estória-moldura”, correspondem a momentos diferentes da sociedade ocidental e, especificamente, brasileira.. O assassinato de Neusa é particularmente exemplar não apenas para a compreensão do processo de aculturação, da violência dos encontros culturais e da diferenciação do Brasil, mas porque promove uma reflexão sobre o desdobramento de planos culturais híbridos decorrentes da dispersão humana e da pluralidade, além de ser uma resposta às tensões culturais resultantes da urbanização e modernização do país.
O BANQUETE FEMININO
Luiza Lobo, num irônico repensar pós-moderno sobre a tradição cultural do Ocidente, elege como texto/tema, a partir da voz de Margarida, o feminino, conceituando-o nas inúmeras referências parodísticas. As várias vozes femininas que se cruzam, ao longo de todas as novelas, com o discurso da tradição, revelam não apenas os seus lugares sociais, mas também que seus espaços são, conforme Chanady (1994, p. X), “Marked by cultural difference and the heterogeneous histories of contending peoples, antagonistic authorities, and tense cultural locations.”
A paródia do clássico canônico europeu é uma estratégia político-ideológica de apropriação da cultura dominante branca, masculina, classe média, eurocêntrica e heterossexual. A indicação de dependência com o uso do cânone revela, irônicamente, sua rebelião em relação ao abuso desse mesmo cânone. Assim, o descentramento realizado por Sexameron ultrapassa a técnica de paródia, praticada pelos modernistas, pelo menos, até a década de 1970. E isto devido a alguns motivos.
Em primeiro lugar, o programa modernista articulava a noção de identidade cultural, baseada no reconhecimento de estruturas nacionais que se opunham de forma radical a noção de transplante cultural. A atitude antropofágica, proclamada no “Manifesto” de 1928, já presentificava a tensão entre o coloquial e a voragem, entre a estética tradicional e o novo sentido da arte. Entretanto, o boom antropofágico oswaldiano, a partir das construções parodísticas, era ainda uma atitude redutora, à medida que a eficácia estética baseava-se na contestação imbuída de nacionalismo e utopia. As vanguardas modernistas, nessa perspectiva, assumem a estética do choque e de ruptura.
A consciência moderna do início do século partia de três pressupostos que hoje o mundo não pode subscrever, ou seja, a idéia de uma ruptura radical com o passado e com a história, e o começo de uma nova era; a concepção racionalista da história como triunfo sobre a razão; e a crença no progresso. Para os primeiros vanguardistas, a ruptura com o passado, a ordem racional da cultura e a idéia de progresso estavam relacionadas, conforme Eduardo Subirats (1991, p.13), à “liberdade e paz social: [mas] para a consciência da modernidade tardia estão relacionadas com a angústia, a insegurança e o sentimento de não-liberdade.”
Enquanto para as vanguardas o desejo de ruptura vem acompanhado de uma idéia essencialista e utópica, no pós-moderno o desvio é entendido como processo. Fredric Jameson (1997, p. 14), observa essa diferença:
Na cultura pós-moderna, a própria ‘cultura’ se tornou um produto, o mercado tornou-se seu próprio substituto, um produto exatamente igual a qualquer um dos itens que o constituem: o modernismo era ainda um esforço ainda que minimamente e de forma tendencial, uma crítica à mercadoria e um esforço de forçá-la a se auto transcender. O pós-moderno é o consumo da própria mercadoria como processo.
Para exemplificar a falta de profundidade que surgiu a partir do deslocamento do conceito de obra para o conceito de texto, prolongado tanto na teoria crítica contemporânea, como na cultura do simulacro, Jameson compara o procedimento técnico de dois pintores que se utilizam do mesmo tema para compor suas telas: o de Van Gogh, “Um par de botas” e o de Andy Warhol, “Diamond dust shoes”. O autor interpreta a tela de Van Gogh como a transformação violenta do mundo objeto opaco do camponês na mais gloriosa materialização de um gesto utópico. Cita ainda a análise metafísica de Heidegger, organizada em torno da idéia de que a obra de arte emerge na fratura entre Terra e o Mundo, ou entre a ausência de sentido na materialidade do corpo e da natureza e a doação de sentido na história e no social. A leitura hermenêutica de Heidegger mostra que o par de sapatos , em verdade, é, em outras palavras, a materialização do ser – é a própria terra em uma outra materialidade.
Em Andy Warhol, não há nenhum modo de completar o gesto hermenêutico e reintegrar, parafraseando Jameson, essa “miscelânea” ao contexto vivido mais amplo do mundo. Há nesse caso um tipo de achatamento ou falta de profundidade, de superficialidade no sentido. No plano do conteúdo o que se observa é o fetiche. Em Van Gogh verifica-se um mundo ferido e transformado, no caso de Warhol diz Jameson (1997, p. 37):
(…) é como se a superfície externa colorida das coisas – aviltada e previamente contaminada por sua assimilação ao falso brilho das imagens da propaganda – fosse retirada para revelar o substrato mortal branco e preto do negativo fotográfico, que as subtende. (…) penso que não se trata mais de conteúdo, mas de uma mutação mais fundamental, tanto no próprio mundo dos objetos – agora transformados em um conjunto de textos ou simulacros – quanto na disposição do sujeito.
No modernismo ainda reside alguma forma da natureza, do ser, do velho, do arcaico. O pós-moderno é um mundo no qual a natureza se foi para sempre e a “cultura se tornou uma segunda natureza” (Jameson, 1997, p. 13). Quando a personagem Margarida de Navarra questiona o futuro da cultura – “esta obra , que ontem nos punha diante do grande dilema: haverá uma cultura amanhã?, hoje não nos causa nenhuma perplexidade, pois a resposta, evidentemente, é: não” (Sexameron, p. 8) – refere-se, exatamente, a esse processo de desconstrução da identidade cultural. Se a antropofagia cultural, empreendida pelos modernistas, garantia de certa forma uma identidade nacional, hoje, o ato antropofágico, identificado em Sexameron, não tem mais esta intenção. A preocupação é com um dispositivo discursivo que represente a diferença como identidade, sobretudo, no que se refere às representações femininas.
Em “O banquete de Antinoos”, a primeira novela de Sexameron, a morte de Neusa, devorada por peixes vermelhos e dourados do lago japonês, que se transformam em piranhas, é uma resposta carnavalizada aos modelos patriarcais. Embora fosse uma mulher “bem sucedida profissionalmente” e independente financeiramente, Neusa assume a dicção cultural patriarcal. A ironia da narrativa consiste em expor a precariedade dos sistemas simbólicos que atuam para expressar e modelar o mundo, igualmente para expressar e modelar o comportamento. A dependência de Neusa em relação ao padrões culturais revela a sua crença na validade dos sistemas simbólicos de interpretação do mundo. Para dar conta de sua existência, ela precisava estar casada, mesmo que fosse com o homem errado. Por isso, Neusa é metaforicamente “servida” como prato principal, num grande banquete para homossexuais. O ato canibalístico dessacraliza os modelos e o contrato social do casamento.
Assim como o projeto modernista incitava uma atitude brasileira de devoração dos valores europeus, na intenção de superar a civilização falogocêntrica, as novelas sobre casamento, em Sexameron, buscam desintegrar os valores que normatizam e modelam a conduta da mulher em relação ao casamento, amor e sexo. O ato antropofágico, aqui, não significa apenas uma apropriação dos valores do outro, mas a desapropriação do poder do outro que nos subordina ao seus modelos. Em outras palavras, é a denúncia da estrutura do poder cultural eurocêntrico; ou seja, ironicamente falando, a exposição dos ossos do Barão”: “Há pessoas que acreditam que o amor é uma criação burguesa, e que se acabasse a propriedade privada, acabariam os tão propalados amor e casamento” (Sexameron, 77).
O processo intertextual/antropofágico, em Sexameron, realiza dois movimentos distintos. O primeiro, mais localizado e específico de um grupo (mulheres da classe média e homossexuais), faz estalar os códigos que agenciam a relação de gênero, reforçando ora o surgimento de novas identidades híbridas: Narciso, Diana, Efebo, ora ironizando os herdeiros da cultura patriarcal – Casanova, Maria da Pena, a professora primária sonhadora:
Cremilda e Alcione discordam. Acham-no o supra-sumo do Casanova de subúrbio, de modelo superado do malandro carioca, um dinossauro herdeiro da década de 50, um pária da industrialização (…) agora travestido de gigolô de madame” (Sexameron, 59).
O segundo diz respeito à canibalização da tradição cultural Ocidental. Um discurso aberto que fala através de todas as máscaras estocadas no museu do imaginário de uma cultura que agora se tornou global. Uma série de intertextos faz referências à arte e à literatura mundial: Blake, Breton, Lewis Carroll, Virginia Woolf, Shakespeare, Fernando Pessoa, Aristófanes, Joyce e Pound, e outras que marcam a “voz do Brasil”: Entre Lucíola, de José de Alencar, e os poemas de Castro Alves, encontram-se o mito de Ogum, Iemanjá e Iansã.
Há, todavia, séries intertextuais dessacralizadoras do passado histórico literário que desviam o foco crítico do enredo e das personagens para criticar os períodos e estilos literário: “Aliás, faltarão muitas coisas para se completar o ciclo da felicidade, retratado por Camilo, Balzac, Scott, Manzoni, Dostoievisk, Georg Sand e toda a miserável caterva responsável pelo embelezamento literário do amor, no século XIX” (Sexameron, 30). A paródia aqui, entendida a partir de L. Hutcheon, é um análogo formal do diálogo entre passado e presente. É uma forma de incorporar textualmente a história da literatura e da arte. Pois, no dizer desta autora, “o pós-moderno é, autoconscientemente, uma arte ´dentro do arquivo´ (Foucault 1977, 92) (sic) e esse arquivo é tanto histórico como literário” (Hutcheon, 1991, p. 165).O resultado dessa contestação cria uma ruptura com qualquer contexto cultural estabelecido.
O atual trabalho intertextual, chamado por Jameson de pastiche, está aqui presente como eixo da nova forma cultural e como estética de mapeamento cognitivo (Jameson, 1997, p. 76) desse novo espaço global, para o qual as relações entre os sujeitos e suas condições reais de existência dentro de uma comunidade não passam de uma representação imaginária. Amaryll Chanady (1994, p. XI), estudando a constituição identitária na pós-modernidade, adverte:
Whereas nation building can be seen as a project of modernity in its desire for self-affirmation, self-understanding, and construction of a workable paradigm, the radical postmodern delegitimization of paradigms erodes the basis of the imagined community.
Para Huchteon (1991, p. 58), a prática da paródia oferece, em relação ao presente e passado, “uma perspectiva que permite ao artista falar para discurso a partir de dentro desse discurso, mas sem ser totalmente recuperado por ele.” Neste caso a paródia tornou-se, neste fin-de-siècle, categoria daquilo que a autora chamou de “ex-cêntrico”, isto é, a ferramenta principal do discurso daqueles que são marginalizados por uma ideologia dominante. A função social e política desse discurso consiste em dissipar as fronteiras geográficas de dominação e criar uma outra cartografia de identidade cultural menos rígida, interdiscursiva e multicultural.
Tratando do fenômeno para qual toda obra se constitui em função das obras anteriores, Harold Bloom faz uma interpretação bastante curiosa da história literária. Conforme o autor, as obras intertextuais incorreriam numa angústia de influência, da qual todo poeta sofreria, e isto o levaria a modificar os modelos anteriores. Entretanto, esta noção de influência designa, segundo Luiza Lobo (1997a, p. 15), “vassalagem, filiação ou dependência concreta de um autor, país ou obra por outro.” Bloom (1991) vê a evolução literária como uma seqüência de conflitos de geração.
Em Crítica e Cabala, o autor, embora não deixe de lado a sua teoria de que toda leitura é um ato de influência, faz uma observação bastante interessante sobre o ato de ler. Bloom (1991, p. 106-107) aproxima o ato da leitura ao canibalismo: “O que você é, é só aquilo que você pode comer” e “você é aquilo que lê.” Nesse sentido, a leitura seria uma desapropriação ou um ato de desleitura. Deixando à margem a tal angústia da influência e substituindo-a pela noção de intertextualidade, o conceito de leitura como uma desapropriação leva-nos a outra possível interpretação, ou seja, a leitura como um ato antopofágico e o intertexto como uma dinâmica antropofágica da cultura.
A intertextualidade, segundo Kristeva, Bakhtin, Hutcheon, desvia o enfoque crítico da noção do sujeito/autor para a idéia de produtividade textual, com suas várias vozes. O relacionamento entre autor/obra é substituído pela tensão dialógica entre leitor/obra, “que situa o locus do sentido textual dentro da história do próprio discurso” (Bloom, 1991, p.166). O autor também é um leitor que pratica o que H. Bloom chamou de desleitura. Nessa perspectiva, o ato de narrar, assim como o ato da leitura, deflagra o desejo antropofágico:
A sociedade democrática vulgarizou a estética do comer. Tudo hoje é tão banal e mesquinho, financista e interesseiro. (Sexameron, 57)
– É que, não me restando mais os prazeres do corpo, só ficam os do copo… – atalhou Margarida.
– E os da boca! Viva a comida! Viva a bebida! Viva a palavra! – exclamou Cremilda
(…)
– Sejamos rebeldes enquanto formos vivos! Pelo menos através da boca, que ainda impoluta, nos pertence! – invectivou Cremilda. (Sexameron, 50).
– Sim, é um spa de recuperação retórica – voltou Margarida, de voz alegre.
– Um brinde ao discurso! Vamos à história de hoje, Margarida – estimulou-a Efebo. (Sexameron, 96).
Ao final do sacrifício da mesa, ela exibira todos os seus dotes retóricos (…) (Sexamero, 75).
A representação, o discurso, e as figuras como instância de sentido revelam o espaço estratégico, onde discurso e história confluem e onde se realiza o sujeito operante da significação. É através desse sujeito, que se manifesta no processo de enunciação, que podemos rastrear as tendências e desejos de um determinado grupo social. Entretanto, somente a análise crítica do discurso não nos permite perscrutar a experiência estética como testemunho cultural, pois, para além do discurso existem as “figuras” que o compõem e que resistem ao tempo e à maleabilidade do discurso que esconde em seus “não-ditos” as “vertigens do moderno”, tais como a figura antropofágica.
A GEOGRAFIA MANEIRISTA: O “ETERNO FEMININO”
“…o mundo estava de qualquer modo fadado ao insucesso, à entropia. Por isso, clamam pela feminilização de todas as ações humanas, seja na vida privada, seja na esfera pública” (Sexameron, 60).
Um texto esfíngico, wildeano, cheio de volúpia e fatalidade que fala através das máscaras de Efebo, Diana, Narciso, quase dândis, habitantes do “Palácio das des-ilusões e do des-prazer,” e que revela um enorme desgosto com a civilização em vertigem, vítima da flor do mal – a AIDS. Se a trama, em Decameron, se desenvolve ora num ambiente “signorile e idillico” (Momigliano, 1980, p. 84), marcado pela nobreza e beleza, às vezes assumindo um aspeto malicioso e de ridicularização dos costumes sociais, e nesse momento a cena pintada por Boccaccio é mais uma ornamentação do que uma pintura, onde predominam a superficialidade e a pobreza, em Sexameron, o isolamento, a indiferença, o blasé, a obsessão pelos paraísos artificiais emergem do caudaloso rio da estética decadentista, marcando o esboroamento das utopias racionalistas e redefinindo uma geografia maneirista. O ornamento e a estilização do ambiente à Wilde e à Huysmans revelam-se no intricado tecido dos intertextos em que comparecem, como caligrafia estética, a confraria pré-rafaelita de Dante Gabriel Rossetti, as referências a Christina Rossetti, W. Blake e uma descrição do quadro “Ofélia”, pintado por Sir John Evertt Millais, em 1851:
Tapetes fofos, castiçais de prata para as velas, dama com roupas de veludo cheias de babados tocando piano fin-de-siècle, o gato angorá, o vaso de flores secas, cortinados, paredes forradas de tecido. Tudo que uma pessoa precisa [em tom irônico] para viver afogada em alergias, no clima tropical. (…) E quando viu o quadro da Ofélia, de um inglês de nome impronunciável, Millais – acho – , flutuante no rio, a roupa branca, os cabelos boiando entre pedras e musgos verdes, os olhos abertos dentro d’água, sentiu-se a própria (Sexameron, 53).
A história da arte e da literatura, assim como todas as formas de cultura, passa a ser um texto, um constructo discursivo com qual a ficção trabalha. Por isso, toda referência constitui um texto, “um sistema de signos que são unidades textuais pré-fabricadas,” adverte L. Hutcheon (1991, p. 185).
A personagem/narradora Margarida, ou Diana, é também filha de Herodias – Salomé – signo da atração e do perigo, do amor e da morte. É ela quem conduz a história, a guardiã da memória da arte e da literatura, e, como símbolo da estética decadentista, exibe suas “jóias” – o preciosismo intelectual – seus ornamentos, e suas máscaras. Narcisos, efebos e lesbos, todos filhos da estética maneirista, é um dos intertextos estéticos e literários que norteiam a dicção e a cena finissecular de Sexameron. Eles representam a androginia, uma sexualidade invertida, pagã e mística, mas também perversa. São o que Gustav R. Hocke (1974, p. 296) chamou de “emblemas metafísicos do Maneirismo.”
O intertexto com a estética maneirista não é por acaso. Segundo Hocke (1974, p. 294), o “mundo das imagens e representações eróticas se confundem com o narcisismo. (…) Vontade e representação unem-se numa monstruosa discordia concors. Num processo como este, “o mundo só pode aparecer como algo deformado.” O mundo maneirista, conforme esse autor, é “eternamente feminino”, produz quadros e mais quadros, enquanto o Classismo (não o Classicismo) é “eternamente masculino.” Isto porque, continua Hocke (1974, p. 295), “o Clássico cria estruturas e conquista o “centro” do mundo. Aquele não permite que este apareça em seu “mistério”, mas sim, por seu logos.”
Como já dissemos o uso do mito e da caligrafia maneirista, como intertexto, não têm nada de aleatório. Significa, antes, uma atitude consciente de redefinição da experiência cultural e estética, buscando afirmar a diferença e não a identidade homogênea. O que parece estar implícito na recuperação da androginia é uma reflexão acerca das políticas de gênero e identidades, dos anos 1990. A experiência feminina do casamento, que sempre foi excluída do espaço da cultura e da literatura, é, em Sexameron, discutida sob novas perspectivas sócio-culturais. São experiências de mulheres que conseguiram a independência econômica, um certo nível cultural, algum poder, mas não conseguiram reconceituar amor, sexo e casamento. Como muito bem analisou Maria Rita Kehl (1996, p. 23-5):
(…)as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revista Time americana publica em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e Mulheres: Nascem diferentes?” Na dinâmica de encontro e desencontro entre sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nos últimos trinta anos parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de narcisos frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. (…) O destino de Nora, de Ibsen, nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que a sua alienação era condição de felicidade conjugal (…). Nora recusou o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de… mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos um balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidade de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade de escolha sexual, e uma segunda (e a terceira e a quarta…) chance de um casamento feliz [será?]. (…) Mas teria Nora (…) conquistado alguma garantia de corresponder às paixões masculinas sem “se desgraçar”?
O que nos espera quando a própria geografia do discurso sobre identidades culturais vai se diluindo e se transformando num emaranhado de dispositivos discursivos?
QUEM VIRÁ PARA O JANTAR AMANHÃ?
Haverá uma cultura amanhã? É o mote que nos leva à reflexão sobre as questões de gênero, raça, classe e identidade. Se gênero é uma categoria da diferença que estrutura nosso universo cultural, nossas leituras e os nossos valores, deslê-los implica praticar uma espécie de antropofagia que transgrida o sistema canônico de nossa cultura e traga à superfície os subtextos de dominação e os mecanismos de exclusão que geriram o nosso processo cultural.
A rigor, a antropofagia cultural, em Sexameron, é uma crítica, uma teoria e uma ficção. Entre a história e o texto, entre o político e o estético, entre a crítica e a atividade as fronteiras são tensas. Há sempre uma cumplicidade entre a crítica e a atividade Nessa perspectiva, a geografia intertextual não confere limites às possibilidades do discurso, da imaginação e da realidade. Qual a verdade do discurso híbrido, fronteiriço? Margarida de Navarra expressa isso da seguinte maneira: “E quem poderá julgar meus contos/ com o produto de língua venenosa e má,/ só por eu escrever, num ou noutro lugar, / A verdade a respeito deles?/ E haverá verdade em algum lugar?” (Sexameron, 112). O ato antropofágico de alguma forma expressa essa interseção entre os vários discursos, as várias culturas, e dissipa as fronteiras de identidade.
BIBLIOGRAFIA
BAKHTIN, Mikhail. O problema da poética de Dostoieviski. Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1981.
BLOOM, Harold. Cabala e crítica. Trad. Monique Balbuena. Rio de Janeiro, Imago, 1991
CHANADY, Amaryll. A Latin American Identity x Constructions of difference. Miniapolis, Univ. Mines





Bio fornecida pelo palestrante.

PROSA DE FICÇÃO FEMININA PÓS 64 NO BRASIL




PROSA DE FICÇÃO FEMININA PÓS 64 NO BRASIL
 

Profa. Dra. Marcia Cavendish Wanderley

 
“Minha profissão é a literatura, e nessa profissão há menos experiências de mulheres de que em qualquer outra, com exceção da arte dramática – menos experiências, quero dizer, entre as que são peculiares a mulheres. Porque a estrada foi aberta muitos anos atrás – por Fanny Burney, Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot – muitas mulheres famosas, e muitas mais desconhecidas e esquecidas, que vieram antes de mim, tornando a trilha suave e orientando os meus passos. Portanto, quando vim a escrever, havia poucos obstáculos concretos em meu caminho” (Virginia Woolf, em discurso para a National Society for Women’s Service em janeiro de 1931).
A primeira metade da afirmação de Virginia Woolf, e ela está aqui falando da Inglaterra nos anos 30, poderia aplicar-se às mulheres brasileiras desta mesma fase quando muito poucas ingressaram com sucesso na carreira literária. Raquel de Queiroz (O Quinze), Dinah Silveira de Queiroz, um pouco mais tarde com Floradas na serra, Madame Leandro Dupré, como era conhecida literariamente a romancista de Éramos seis) e outras menos conhecidas foram exceções, privilegiadas com a aprovação de um público leitor e até, mas sem muita ênfase, de uma crítica literária então predominantemente masculina. O mesmo não se pode dizer, entretanto, quanto à segunda afirmação, pois no Brasil não havia (como na Inglaterra) para as mulheres que se arriscavam na área da literatura, um caminho suave e aberto por toda uma tradição de mulheres escritoras já amplamente reconhecidas como tal, e que inclui gênios literários da qualidade de Emily Brontë (Wuthering Heights) singularmente omitida neste time citado por Virgínia. Entretanto, a ausência desta tradição quantitativamente representativa – pois qualitativa tivemos sim, com a explosão de Clarice Lispector em Perto do coração selvagem (1945), um fenômeno comparável ao inglês – não parece ter impedido que nos anos 60 as mulheres irrompessem, com muita força, no universo literário brasileiro. Mais precisamente, no nebuloso período pós 64, quando os véus negros da repressão e da censura desceram sobre a população brasileira sufocando-a nos seus mais variados impulsos criativos, uma vereda, a principio tímida e mais tarde caudalosa foi aberta pela mulher no campo literário. Seja no romance conto ou novela, a prosa de ficção feminina abriu seu caminho no mercado editorial brasileiro tornando-se uma vertente com recepção garantida e cada vez mais ampla neste mesmo mercado. Resgatar, reunir e agrupar, segundo alguns critérios, toda essa produção vem sendo nosso trabalho há um ano. Um projeto ambicioso que não poderia esgotar-se em tempo tão exíguo mas que já apresenta alguns resultados que podem ser comemorados, como por exemplo, a produção de setentas verbetes, com informações biobibliográficas detalhadas, de escritoras que publicaram em editoras cariocas e paulistas, a partir daquela data até os dias atuais. Esta produção representa pelo menos a metade do trabalho a ser realizado, que quando completado, resultará na publicação de um catálogo que abrangerá todo o elenco de romancistas e contistas acima mencionado, precedido de um ensaio onde tentamos dividir toda essa abundante produção em algumas categorias . Divisão esta que embora não completamente definida pela variável geracional, terminou, por razões que se explicitarão no decorrer da análise, privilegiando-a .E embora as razões para a escolha deste marco inicial, 1964, possam parecer claras, para nós que vivemos os “anos de chumbo” da história brasileira, acreditamos também que existiram algumas relações, ainda não devidamente explicitadas, muito próximas entre a eclosão do chamado “boom” da literatura feminina nestes anos e o momento político e econômico vivido pelo país naquele período . Por isso não é demais retomar o fio desta meada e tentar trazer à tona este passado recente e extrair dele alguns elementos que nos ajudarão a entender a produção literária feminina que então floresceu. É isto que faremos agora
A Internacional da Juventude
Com este subtítulo, que glosa a expressão usada por Olgária Matos em A Internacional dos Estudantes (Matos, O., 1981) livro em que define e narra a história do movimento estudantil disseminado mundo afora em 1968, tentamos registrar a amplitude das transformações sociais que aquela geração provocou e das quais foi simultaneamente detonadora e vítima. Devastando, embora superficialmente como um furacão, as instituições mais estimadas pela sociedade patriarcal, aqueles jovens, hoje senhores e senhoras de 50 e 60 anos, provocaram rupturas contundentes. Foi uma geração sacrificada no altar da violação. Violação de normas e valores fatigados, armando revolucionariamente barricadas em torno da Sorbonne e do teatro Odéon na Rive Gauche como em 1848 os “comunards” o fizeram na Rive Droite. Abolindo hierarquias e empunhando a provocação como bandeira, estes estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit inspiravam-se em Marx e Marcuse e pregavam não apenas a revolução estrutural mas também a liberação do indivíduo. Rapidamente seus ecos fizeram-se ouvir por todo mundo (a Primavera de Praga e o Movimento Hippie dos E.U.A. entre outros, lhes são legatários). Um verdadeiro “arrastão” de juventude revolucionária varreu o mundo dos Estados Unidos à Argentina, da Bélgica à Tchecoslováquia, da França ao Brasil . “Movida por uma até hoje misteriosa sintonia de inquietação e anseios, a juventude de todo mundo parecia iniciar uma revolução planetária” (Ventura, Z., 1998). E aqui encontraria as condições oportunas para crescer politicamente. A ditadura militar (iniciada em 64) afiava as garras e implantava o fascismo na educação, estopim de uma revolta que avocou a si responsabilidade maior que aquela assumida pela juventude dos países ditos democráticos: derrubar a ditadura militar. Uma guerra na qual se envolveu até os ossos e da qual saiu, em sua maior parte, vencida, exterminada ou banida. Mas quem sobrou, teve muito o que contar. A geração que vivenciou os fatos mais contundentes da história brasileira deste século, não poderia deixar de testemunhar a respeito. No campo da literatura este testemunho traz como novidade a participação, embora pequena como veremos adiante, de mulheres romancistas e contistas, politicamente envolvidas com a luta contra a ditadura e que usaram o disfarce da ficção para denunciá-la. Mas se foram poucas as que denunciaram, inúmeras foram as que despontaram, naquele período, no mercado editorial brasileiro. Um fenômeno que tem, em seus bastidores, todos os ensaios de revolução e transformação mencionados, além da revolução sexual, ainda não enfatizada, mas que já se prenunciava radical. Um “laisser faire, laisser aller” sexual que abalou o edifício patriarcal secularmente alicerçado propondo novos padrões para as relações entre os sexos, emolduradas por um estado de compromisso político na defesa da supressão da sociedade de classes pregado pela marxismo então em alta. Foram sonhos apenas parcialmente realizados. Se as relações entre os sexos foram, de alguma maneira, transformadas, as relações entre classes permaneceu, e até recrudesceu o caráter espoliativo do capital nesta fase de globalização plenamente instalada. Mas as mulheres, estas sim, mudaram bastante. Uma mudança que, à sua revelia, a prosa de ficção feminina registrará em detalhes. Tivemos a oportunidade de acompanhá-las neste movimento que, literariamente se inicia nos anos 60 e vem progressivamente aumentando na contemporaneidade, num rastreamento que tentou identificar a grande heterogeneidade ideológica norteadora das várias gerações de escritoras estudadas. Desde aquelas que, de tão imersas no próprio “eu” esqueceram a realidade circundante – postura quase generalizada das que, na juventude, pagaram um exagerado tributo aos famosos e inocentes “anos dourados” – às que rompendo o contrato geracional de autocrítica ou autocomiseração, olharam para fora e para mundo atrevida e acusadoramente. Mas antes de relatar os passos dessa experiência voltemos ao contexto histórico e às condições que permitiram a eclosão da prosa de ficção feminina no Brasil neste período.
A Ditadura e a Cultura
“Qualquer pessoa que se interesse pela história cultural brasileira deste período, terá forçosamente que enfrentar o problema da censura”.
(Renato Ortiz em “A Moderna Tradição Brasileira)
A advertência feita por este autor poderia parecer supérflua se não viesse acompanhada por informações fundamentais para a análise da contribuição literária feminina na literatura brasileira desta fase. Informações que dão conta do processo de consolidação de um mercado de bens culturais no Brasil dos anos 60 e 70 como decorrente da própria reorganização da economia instaurada pelo Estado autoritário, articulador da segunda Revolução Industrial brasileira e introdução do país no processo de internacionalização do capital. Ao crescimento do mercado de bens materiais sucedeu então o desenvolvimento do mercado de produtos simbólicos, fenômeno que acontecia paralelamente ao exercício do arbítrio, da censura e da repressão estatais. Representado principalmente pelo setor da mass media, quando a tv iniciaria sua trajetória rumo ao domínio total deste espaço, outros bens culturais teriam ali seu lugar garantido. A literatura seria um destes, o que se comprova com o intenso desenvolvimento do setor livreiro e a multiplicação do número de editoras que atuavam no país nos anos 40 e 50. Do ponto de vista do escritor isto significava a atraente abertura de um mercado consumidor e possível libertação desta categoria da dependência do patronato estatal. Este panorama que reúne repressão ideológica e política intensas e exuberância na produção e difusão de bens culturais poderia parecer contraditório, mas não é pois trata-se de uma repressão que diz “não à especificidade da obra e sim á generalidade de sua produção” (Ortiz, R., 1998) Controlada pela ideologia da “segurança nacional” a produção “bem comportada” é recebida pelo Estado autoritário ao qual se aliam os empresários culturais que, “politicamente neutros” aceitam sua campanha politicamente “moralizadora”. Moralismo abominado pela elite intelectual, mas absorvido por uma população submetida à doutrinação implacável do “Brasil: Ame-o ou deixe-o”. É esse Estado, repressivo e ao mesmo tempo “promotor da cultura, a baliza sob a qual se desenvolverá a produção ficcional do Brasil naqueles anos, e principalmente após 68, pois passado o momento crítico de sua implantação, a intelectualidade havia sido razoavelmente por ele poupada até aquela data: Somente em fins de 68 a situação volta a se modificar quando é oficialmente reconhecida a existência de guerra revolucionária no Brasil”. Para evitar que ela se popularize, o policialismo torna-se verdadeiramente pesado, com delação estimulada e protegida, a tortura assumindo proporções pavorosas (Schwarz, R., 1992). Uma ficção inibida por uma censura drástica, subliminarmente internalizada e transformada numa autocensura. Situação esquizofrênica que colocava os escritores diante do impasse criado pelo vigência simultânea do estímulo à produção e das limitações da censura. Talvez isto explique a pequena participação da produção especificamente literária dentro da expansão alcançada pela industria e comércio livreiros a partir de 1964: apenas 1.141 exemplares de um total de 51.912.564 livros produzidos neste ano. É bem verdade que não seria bem em seu início que o regime cerraria mais tenazmente suas garras sobre a produção inlectual e criativa brasileiras. Reconhece-se mesmo que “uma vez que a revolução se instalou solidamente, sobreveio um período de três anos de relativa tolerância (Hallewell, 1985) O espaço do vencido era relativamente preservado desde que não representasse uma ameaça ao universo dos vencedores. Mas a partir de 13 de dezembro de 1968 as coisas mudam de figura. O “segundo golpe seria muito mais violento que o primeiro, com o fechamento do Congresso Nacional e destituição dos direitos políticos de todos os brasileiros. A imprensa passa a ser abertamente censurada e as leis de punição aos editores infratores que gradualmente vinham se tornando mais rigorosas, com julgamentos realizados a partir de então, por tribunais militares e não apenas civis (de que é exemplo a lei de n. 314 de 13 de março de 1967) são definitivamente concretizadas pelo decreto lei nº 1.077 de 26 de janeiro de 1970, estendendo a censura prévia a todos os livros publicados dentro do território nacional e não apenas a jornais e revistas ou livros de conteúdo manifestamente “subversivos” como acontecia até então. É dentro deste quadro de ambigüidades para a criatividade literária que a participação de mulheres romancistas e contistas irá crescer no universo editorial, protagonizando um fenômeno cuja análise não deveria prescindir do conhecimento das variáveis culturais, políticas e econômicas que desencadearam seu aparecimento.
A Vez das Mulheres
“Meus olhos molhados, insanos dezembros, Mas quando eu me lembro, são anos dourados… Ainda te quero, bolero nossos versos são banais. .. Mas como eu espero, teus beijos nunca mais…”
(“Anos dourados”, Bolero de Tom Jobim e Chico Buarque de Hollanda)
Os primeiros romances e contos femininos publicados a partir da data que estabelecemos como marco (64) foram escritos por mulheres que viveram suas juventudes (ou adolescências) nos saudosos anos 50, ou como são mais conhecidos no Brasil, “anos dourados”. Por que dourados? Tabus e preconceitos limitavam os passos daquela geração classe média pouco afeita a desafiá-los . No caso das mulheres o controle era exercido com severidade e a quebra da norma severamente punida. As moças deviam casar virgens apesar dos noivados tórridos e quando casadas qualquer deslize era fatal no comprometimento da reputação, e a infidelidade um direito abertamente atribuído aos homens, nelas assumia caráter de tragédia. O mercado profissional muito fechado e restrito, determinava a multiplicação de normalistas (Leila Diniz foi uma delas) e no ensino superior, na faculdade, como se chamava então, proliferavam ainda as escolhas dos cursos apelidados de “espera marido”. E era principalmente isso que se fazia. Esperava-se o príncipe que nem sempre era tão encantado. E tentava-se ser feliz com ele a vida inteira. Para a literatura da maior parte das escritoras desta geração, esta ideologia funcionou como um fardo pesado, e desprender-se dele uma tarefa hercúlea em que desperdiçaram forças que talvez se empregadas na construção de um discurso mais contestador e menos auto-analítico, produziriam resultados mais positivos. Seqüelas que comentaremos na oportunidade em que as reunirmos em grupos, e que foram, na maior parte das vezes, superadas pelas que persistiram através dos anos na busca de sua expressão literária.
E a despeito disso, foram anos dourados!
Dourados talvez pela esperança que animava aquela geração de intelectuais, e a “convicção de estarem vivendo um momento particular da historia do Brasil” (Ortiz, R.,1998). A utopia nacionalista e o desejo de promover o desenvolvimento de um país estagnado era a bandeira política. Vivia-se na “República dos Sonhos” como quis Nélida Piñon em seu quase épico romance homônimo e a juventude acreditava neles e se “empenhava numa forma particular de engajamento cultural diretamente relacionado com a militância política” (Hollanda H. B., 1978). Os últimos anos da década prometiam, com Juscelino e a indústria automobilística, uma decolagem rumo ao urbanismo industrial que, alcançado em parte, não alterou a estrutura do país divido por profundas desigualdades regionais e de classe. Mas não se pode omitir que é também no fim dos anos 50 que a “bossa nova” passa a embalar todos estes sonhos, românticos tanto quanto os filmes (principalmente norte-americanos) que a industria cinematográfica ainda não sufocada pela televisão produzia, e que se constituíam (assim como os seus astros ) em verdadeiras balizas norteadoras do comportamento da maioria dos jovens daqueles, um pouco banais, mas dourados anos. As conseqüências de todo o romantismo da década, romantismo de esquerda que acreditava em sua capacidade de mudar o mundo através da arte, e romantismo politicamente descompromissado, cultor de um solipsismo exagerado que já desponta na poesia da geração 45, se farão sentir, dramaticamente nos anos 60.
Em 64 o ouro se transforma em chumbo liquido escorrendo sobre os sonhos daquela juventude e em 68 o sangue esvaído nos porões da tortura, o símbolo pleno do seu martírio. Os “anos dourados”, cobertos de azinhavre, enegreceram. Mas disso não falou muito a literatura de então . Uma literatura predominantemente produzida por homens, que subitamente silenciada pelo trauma do golpe, abriu espaço a que outras manifestações de protesto (espetáculos teatrais como Opinião, Arena Conta Zumbi e outros) altamente vendáveis no mercado de bens culturais, viesse à tona. Protestos que, a bem da verdade, não punham em risco o poder ditatorial e funcionavam como válvula de escape para uma juventude efervescente e amordaçada. “A literatura aparece desarticulada como se não tivesse encontrado a forma de adequar-se a essa efervescência (Hollanda, H. B., 1976). O comentário fotografa a retirada que não foi global, pois muitos ficcionistas tentaram sobreviver ao esmagamento através de críticas, alegoricamente disfarçadas, ao regime: Quarup e Bar D. Juan (Antonio Callado), “Agá” e “Os Ambulantes de Deus” (Hermilo Borba Filho), “Emissários do Diabo” (Gilvan Lemos) e “Roteiro da Agonia” (Gilvan Lemos), nos anos 60. Na década 70, mais explícitos foram L. F. Emediato, com Rebelião dos mortos, processado após obter prêmio, e Ignácio de Loyola Brandão com Zero: romance pré-istórico”, inicialmente publicado na Itália e proibido logo depois de sua publicação no Brasil e uma única representante feminina, de que tenhamos conhecimento, o que não é pouco dadas as condições da época, Heloneida Studart, com sua trilogia, O pardal é um pássaro azul, Passageiro da agonia e Padim Ciço, o primeiro destes escrito e publicado no calor da hora e sob a mira implacável da censura.
Mas de maneira geral pode-se afirmar que houve uma retração da prosa ficcional naqueles anos cinzentos e coincidentemente uma maior participação feminina relativa dentro desta retração. Como se os homens houvessem inconscientemente aberto um espaço para que as mulheres tivessem a sua vez no mercado editorial. O que na verdade não aconteceu. Uma rápida retrospectiva histórica constata que aquele foi um período agitado por forças sociais díspares, que vão do moralismo comportamental e fechamento políticos impostos pela ditadura ao desbunde artístico e sexual da juventude provocados pela própria repressão. A luta feminista, reativada internacionalmente aqui chega, a princípio timidamente e mais tarde ostensivamente integrando o coro das minorias reivindicadoras dos anos 80 (substitutivo da ênfase sobre a luta de classes das décadas anteriores) com propostas de ocupação de espaços sociais até então não reivindicados pelo sexo feminino. Que as mulheres começaram a ocupar estes espaços, disto não temos a menor dúvida. E a literatura foi um dos espaços mais cortejados por suas representantes dos setores médios, algumas delas já também se instalando no nobre espaço universitário que as acolheu com prazer quando a ele se candidataram. O mesmo se diga do mercado editorial, que acolheu com. complacência as mulheres que vieram a disputar com os homens o status de escritoras (romancistas e contistas principalmente, mas também poetas e ensaístas) pois, não apenas havia então bastante espaço livre neste mercado em plena expansão de produção (com a modernização do equipamento, crescimento da indústria da celulose e do próprio mercado consumidor em ascensão por conta do chamado “milagre brasileiro”) como porque a literatura que traziam à cena não lhe causaria embaraços com a censura. Assim, se a retração da produção literária masculina alargava ainda mais o espaço editorial, a oferta temática da literatura feminina naquele momento vinha atender às aspirações de um público de mulheres satisfeitas por se verem reproduzidas e analisadas até o esgotamento, em personagens construídas por representantes de seu próprio gênero. Acresce a tudo isso o fato de que essa literatura não se constituía em ameaça para os editores, permanentemente sob a mira da censura naquela fase. Isto porque não foi politicamente revolucionário ou contestatório, o discurso das mulheres que publicaram ficção nos anos 60. E se podemos dizer que ele fez a crítica de costumes, das relações de gênero e dos papéis destinados à mulher na sociedade até então patriarcal, usou para isso de uma linguagem prioritariamente queixosa e magoada, privilegiando, como cenário o seu mundo privado, onde os conflitos geralmente instalados em torno da família resolviam-se sempre de forma negativa para ela. A efervescência da sociedade envolvente não aparece nesta fotografia tímida, onde as mulheres, desenvolvem um interminável e lamuriento discurso diante de um espelho metafórico que lhes devolve uma imagem depreciativa. Todos aqueles fatos somados (alargamento do mercado, boas relações com a censura, e a retomada da luta feminista) talvez ajudem a explicar a copiosa participação da prosa de ficção feminina no mercado editorial que se inicia nos “anos de chumbo” e que termina por se afirmar, por razões diversas, nas décadas subsequentes. Mas não explica o seu conteúdo, contrastante ao da literatura feminina inglesa que ainda no século XIX foi marcado pela rebeldia e paixão de mulheres que queriam transformar o mundo e sua própria situação dentro dele. Emily e Charlotte Brontë, anti-vitorianas em pleno reino da hipocrisia produziram em linguagem, luxuriosa e proibida, personagens que revolucionaram comportamentos. George Elliot, ela própria modelo de ruptura, revelando em “Romola” os dilemas da obediência feminina: “The duty of obedience ends and the duty of resistence begins” (apud Showalter, 1977). E tantas outras que seguiram caminhos idênticos apesar do profundo treinamento repressivo da sociedade vitoriana, e que fizeram a força da literatura escrita por mulheres na Inglaterra, abrindo caminho para que, no século XX, repercutisse em obras grandiosas como a de Virgínia Woolf.
Uma Pausa Para Clarice
“Sinto a forma brilhante debatendo-se dentro de mim. Mas onde está o que quero dizer, onde está o que devo dizer?”
(Clarice Lispector, em Perto do coração selvagem, 1944)
Clarice sabia muito bem o que devia dizer, e disse-o magistralmente. Não sei se o mesmo pode ser afirmado, sem querer generalizar, a respeito da literatura feminina que nos anos 60 despontou no Brasil. Apesar da raiz forte da qual germinou, a poderosa voz de Clarice Lispector que lhe abriu caminho, esta literatura não apresentou o mesmo vigor . Vigor que nela foi imediatamente reconhecido por Antônio Cândido no artigo intitulado “No Raiar de Clarice Lispector” logo após a publicação de “Perto do Coração Selvagem” em 1944. Clarice inaugurou uma literatura feminina e feminista, mas sobretudo introduziu uma linguagem nova no universo realista que a circundava. “Os perigos de um súbito momento de clarividência” (Xavier, E., 1998) a respeito das constricções do universo feminino, mas também o impacto transformador desta revelação é sua grande contribuição para a causa feminista . Mas sua literatura é muito mais que isso. Foi o marco, a linha divisória entre as representações do universo feminino até então construídas no Brasil, e as que viriam depois. Mas as escritoras que mais se beneficiaram da irradiação de sua luz não foram as que imediatamente lhe sucederam. Clarice foi, como estas últimas, ideologicamente nutrida pelos “anos dourados”, mas o legado que estes lhes deixaram, repercutiu em sua literatura de forma singular . E esta não é a única herança de que desfruta. É descendente das Brontë na força e de Virginia Woolf na penetração psicológica. Não de uma psicologia ortodoxa, em torno de personagens à maneira do romance do século XIX, mas de uma capacidade de “deter-se em torno dos sinais (pois em Clarice tudo prenuncia) e neles palmilhar suas excrecências, cavidades, estremecimentos” (Corrêa. R., 1994). Um fio invisível a liga, enquanto romancista, ao “stream of counsciousness” do romance joyceano, mas nos contos, possui uma tal singularidade de expressão, que o processo criativo parece inaugurar-se ali, com ela. Não é realista, mas relata experiências . E a realidade contida nos relatos é sempre transfigurada pela significação transcendente com a qual brinda cada um dos fatos desse relato.
Clarice não é uma escritora dos anos 60, pois sua consagração como romancista foi alcançada com seu primeiro livro, Perto do coração selvagem ainda nos anos 40, ao qual se seguiram outros de qualidade próxima: O Lustre, 1946, A cidade sitiada, 1949, A maçã no escuro, 1961, A paixão segundo G.H.,1964, Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres”, publicado em 1969. Seus livros de contos entretanto, são todos publicados naquela década Laços de família, 1960, A legião estrangeira, 1964, Felicidade clandestina, 1971, Onde estivestes de noite, 1971 e A via crucis do corpo, 1974. Em 1976 publica seu último romance, A hora da estrela, substantivamente distanciado da produção anterior, onde descreve com voz emocionada e despida da crueldade que lhe é peculiar, a experiência de vida malograda de uma jovem imigrante nordestina no Rio de Janeiro. Ali, a visão amorosa da fragilidade humana subjacente às explicitas ironia e mordacidade com que trata em geral suas personagens, é a tal ponto evidenciada que o resultado pode resvalar para uma “talvez pieguice que aborrece a arte da modernidade” como disse Jorge Wanderley em ensaio sobre a autora (Wanderley, J., 1994) Um “kitsch”, talvez programado como programada parece ter sido a escolha pelo tema “social” dentro de uma obra desinteressada, até então, desse topos. E dizemos, até então, porque a cronologia aqui pode ter sido determinante, na medida em que este é um romance escrito após a dura experiência dos anos 60 vividos pela autora, onde à crueldade dos atos da ditadura militar, acresceram-se os fatos sombrios de seu próprio destino: o incêndio por ela provocado causando-lhe danos irreparáveis, a moléstia mortal de que é acometida. Um momento de fragilidade maior em que abre a guarda para deixar correr a emoção e em que demonstra a consciência de que algo mais deve ser dito, de que a injustiça deve ser denunciada.
É assim que fazemos a inclusão, com honrarias, de Clarice Lispector neste rol de ficcionistas que se inicia nos anos 60 . Uma inclusão que vê na sua obra a questão feminista confundindo-se com a questão literária numa forma de inquietação que não foi assumida por suas sucessoras, navegadoras em mares semelhantes, os do universo privado e familiar mas sob uma calmaria inibidora da transfiguração criativa. E mais, com a certeza de que ela foi a ponte dourada que deveria ter sido atravessada por todas as que a sucederam na difícil arte da expressão literária .
Uma tarefa retomada
“A partir da produção feminina brasileira nos últimos dez anos, é possível dividir esses textos em dois grupos principais, com subdivisões internas: o primeiro compreende aquelas autoras que talvez se destaquem no estilo, mas não conseguem renovar seus papéis enquanto mulheres na tradição literária: e o segundo aquelas que apresentam uma nova voz no seu discurso. As tendências do primeiro grupo são: 1) existencial; 2) experimentação textual; 3) alegoria política. No segundo grupo notamos, por outro lado, a ênfase no humor, e o uso da forma de diário, cartas, poemas, sob o ângulo do erotismo” (Luiza Lobo, em “Dez anos de literatura feminina brasileira”, Crítica sem Juízo, 1993, p. 48-65 – o artigo diz respeito à década de 1975-1985).
Depois da pausa, a tarefa mais difícil, ou seja, a de agrupar, discutir e analisar a copiosa produção de que viemos falando até agora e tentar, sem cometer grandes enganos, uma avaliação consistente de seus resultados. Não é tarefa que tenhamos inaugurado, pois como sê vê acima, dela tratou Luiza Lobo no ensaio aqui citado. Na verdade nosso estudo segue seus passos e persegue suas idéias. Assim como a crítica literária revisionista persegue o fio da prosa de ficção feminina através dos tempos aqui tentamos nos guiar por um estudo anterior procurando enriquecê-lo e aprofundá-lo com os recursos da interdisciplinaridade. Um caminho pela primeira vez palmilhado no Brasil por Lúcia Miguel Pereira que em sua análise da obra de Machado (“Machado de Assis: Estudo crítico e biográfico”), publicada pela primeira vez em 1938 e principalmente em Prosa de ficção no Brasil: de 1870 a 1920 (1950) já utiliza pioneiramente esta abordagem analítica . E esta é uma citação que homenageia a primeira representante do sexo feminino no Brasil a aventurar-se no caminho íngreme da crítica literária, até então exclusividade masculina, e sugere aos estudos literários feministas, este trabalho de recuperação da ensaística desta área.
Retomemos o texto de Luiza Lobo quando nos informa que “apesar da ditadura no período 1964-84, com o início da abertura política em 1979, a participação feminina na literatura brasileira aumentou de forma impressionante no período 1975-85. No decênio anterior, estabeleceu-se o curioso fenômeno de que as mulheres participaram ativamente das guerrilhas e no movimento civil, mas, relativamente, pouco escreveram sobre temas políticos na ficção” (Lobo, L., 1993). Estas são verdades que tivemos a oportunidade de confirmar neste trabalho, e até mesmo explicá-las a partir da correlação existente entre os dois fatos: sem problemas com a censura e auxiliada pelo crescimento da indústria cultural a prosa de ficção feminina encontra caminho aberto para expandir-se. E se isto vai acontecer ainda timidamente na década de 60, crescerá extraordinariamente a partir de 1975, data em que a famosa abertura ainda não se concretizara. É verdade que algumas das escritoras que se inserem nesta fase e que são praticamente contemporâneas de Clarice Lispector, já vinham publicando seus contos e romances desde a década 50 e embora não tivessem alcançado a complexidade narrativa da primeira, encontraram uma recepção calorosa de um público leitor. É o caso de Lygia Fagundes Telles, com seu romance “Ciranda de Pedra” (1954). Valorizamos nele a bem construída atmosfera abafada em que circula a protagonista (Virgínia) enredada nos laços familiares tragicamente desfeitos .Solitária e triste, esta personagem perambula de uma família à outra (a da mãe já morta e a do pai que não a assume) sem encontrar um espaço para si mesma, realizando nesse périplo uma tímida crítica aos valores da tradicional família burguesa paulista. Um queixume prolongado a que fariam eco muitas das autoras que publicaram seus romances e contos nas décadas seguintes.
Mas Lygia Fagundes Telles não é bom exemplo para a tese que aqui se defende, a do descompromisso social com que a prosa de ficção feminina faria sua estréia neste período, pois em 1973 já tentaria filtrar, em livro ainda hoje muito comemorado, As Meninas, as transformações iniciadas pela sociedade brasileira nos anos 60 e consolidadas nos anos 70: a tragédia política vivida pela juventude estudantil (e não só por ela, digamos) a abertura do universo das drogas para a classe média e a liberação sexual inaugurada pelas jovens dessa mesma classe. Embora aplaudindo a empreitada a que se propõe a autora, a tentativa de dar conta do universo social envolvente, inaugurando do ponto de vista da prosa de ficção feminina um discurso que se queria político, nos arriscamos a dizer que esta não foi uma tarefa bem sucedida. Talvez porque as experiências narradas não tenham sido vivenciadas pela autora, que delas deve ter sido resguardada por sua própria origem social, as personagens não convencem em seus papéis, sejam os de: revolucionária nordestina liberada (Lião), ou de beldade alienada e permanentemente drogada com problemas psicanalíticos (Ana Clara) ou mesmo de burguesinha récem-saída do internato (Lorena, esta última até mais convincente), três jovens interagindo num pensionato religioso do Rio de Janeiro, cenário irreal como a própria história contada . Se “Às meninas” falta força vital, à apresentação das mesmas estão ausentes as regras básicas da construção de um texto literário. O entrechoque das vozes narradoras, que repetem os chavões dos discursos político e psicanalítico da época (com destaque para os da esquerda e da iniciação no universo das drogas), entre os quais insere-se a voz autoral (através do narrador implícito) promovem uma tal confusão narrativa que o leitor nunca sabe muito bem, “quem” está falando. A descontinuidade temporal é outro problema não resolvido. Embora os capítulos estejam numericamente ordenados a confusão temporal se estabelece, comprometendo a estrutura do romance. Convenhamos entretanto que se não cumpre inteiramente a proposta de trazer para a ficção o contexto histórico envolvente, o romance tem o mérito de tentar deslocar para o campo do coletivo a temática da ficção feminina, envolvida então prioritariamente com o privado, ou seja, com o universo restrito da família, com as relações ali construídas e as repercussões destes dramas sobre as vidas destas romancistas e contistas das quais falaremos neste bloco. Experiências que, na maioria das vezes, foram transformadas em textos subjetivos e pessimistas quanto à possibilidade da auto-realização da mulher dentro desse contexto. Dentro deste quadro, As Meninas é uma tentativa arejada e como tal o avaliamos aqui, embora dois anos mais tarde , um ensaio mais bem sucedido de trazer à tona a arena política da época, tenha se concretizado. O pardal é um pássaro azul (1975), de Heloneida Studart, embora alegórico, é mais eficiente em seu programa de crítica política e de costumes. Mas dela falaremos mais tarde pois trata-se de um episódio isolado em meio à corrente predominante daquela fase. Voltemos às suas águas.
A Voz Lastimosa
“Para mim, romper o casamento significou precipitar-me de cabeça no vazio. Procurei emprego. Até então nunca tinha considerado a possibilidade de me sustentar. Resolvi emagrecer para fixar minha postura de velha. Estou, agora, com o corpo que terei quando velha: cinqüenta quilos, apenas dois mais do que meu peso na mocidade. Alimento-me com reserva, cultivo o prazer de esboçar a magra versão óssea da figura que começa a caminhar para suas cinzas.”
(Rachel Jardim, Inventário das cinzas)
Conservo aqui a citação utilizada por Luiza Lobo para exemplificar a imagem deplorável que faz de si mesma a escritora naquele romance (que inclui um diário autobiográfico) pois nada me pareceu mais contundente como imagem do tormento sofrido por essa geração de mulheres, subitamente jogadas numa realidade para a qual não possuíam, nem competência prática e nem força psicológica para enfrentar. Ao realizar o inventário, com lucros e perdas, da juventude da geração dos anos 60, uma geração “que iria experimentar os limites não apenas na política mas também no comportamento”, Zuenir Ventura foi cruel mas também fidedigno quando avaliou os resultados destas mudanças para as mulheres. As novas regras criadas em torno das relações conjugais eliminavam as noções de ciúme e de traição, valores considerados fetiches da moral burguesa, defendendo-se a crença de que, assim, as “relações amorosas ganhariam em consistência e solidez”. Esta era a teoria, aceita por muitos, mas na prática resultou em catástrofes conjugais de tipos variados, principalmente separações, onde as mulheres foram as perdedoras mais notáveis. “Na prática isso significava para elas deixar a confortável condição de apêndice econômico, a segurança psicológica de um lar, e partir para a arriscada aventura da experimentação existencial, que se podia traduzir na busca de uma profissão, em novas e descomprometidas relações, ou às vezes, em um mergulho na solidão” (Ventura, Z., 1998). É o impacto desses mergulhos que iremos ouvir, repetidamente, nestas vozes lastimosas, cujo acompanhamento iniciamos aqui com Rachel Jardim. Buscando, por caminhos diversos, marcar sua presença na prosa de ficção brasileira, escreveu livros autobiográficos como Os anos 40, coleção de crônicas de sua infância e adolescência vividas em Juiz de Fora e no Rio de Janeiro, bem no estilo “retrato da mineirice familiar”, detestada, mas de certa forma cultuada. Visitas, namoros, o catolicismo contestado, muita literatura e principalmente o sentimento da “diferença” em relação ao comum dos mortais, perpassam a narrativa de uma escritora ainda experimentando a pena.
Pertencendo a uma geração anterior (é contemporânea de Lygia Fagundes Telles e sua companheira nos queixumes) foi certamente influenciada, enquanto jovem, pelas novas e atraentes idéias que circulavam principalmente entre a elite intelectual. Entretanto, sua herança de tradicional família mineira certamente perseguiu-a, tornando menos fácil para ela, do que para as cariocas em geral, assumir aquelas mudanças tão radicais e desbundadas. Estas dificuldades ficariam patentes em outro livro, O penhoar chinês, onde “malgré elle même” (pois avalia-se ali libertária e moderna) constrói e defende uma verdadeira teoria da feminilidade, à maneira mineira. Ali a mulher é sinônimo de calma, ponderação, introspecção, delicadeza, qualidades que vão sendo metaforizadas pelos desenhos configurados nos riscos de um bordado, no mencionado “penhoar chinês”. Para bordar é preciso ter um risco, para viver, é necessário um mapa que nos guie no caminho das emoções permitidas e legitimadas. Não se critica aqui as cumplicidade e aliança com o universo feminino que o texto manifesta, mas sim que esse universo pareça tão fechado e sem saída conduzindo a uma solidão inevitável como aquela a que estará condenada a personagem (Elisa) no final do romance, apesar da vida variada (um casamento e várias experiências amorosas) de que desfrutou. Uma solidão que é aceita quase como a um estigma compartilhado por todo o gênero feminino e transmitido através das gerações. A mãe ensina a bordar e a sofrer, parece nos dizer este texto consagrado ao cultivo do privado e da casa enquanto espaço inviolável da cumplicidade feminina. Longe do clima fúnebre de O inventário das cinzas é no entanto uma narrativa que recende uma imensa tristeza, melancolia que se literariamente é de alguma forma capitalizada, transformando-se numa atraente atmosfera, em termos ideológicos reafirma as limitações femininas diante do mundo público dos homens. Do ponto de vista da realidade política e social vivida pelo país naquela data (o romance foi publicado em 1985, mas certamente escrito ainda em pleno clima do regime de exceção) a do lento retorno a um estado democrático após o rugir da ditadura, nenhum rumor. As personagens vivem em instâncias etéreas, e em tempo de rememoração proustiana, o seu “percurso de solidão” (Madureira, P. P., 1985) constrangimento a que são condenadas as mulheres naquele universo patriarcal.
Retomando esta história dos constrangimentos provocados por aquela ética severa dos homens sobre a psicologia feminina, Helena Parente Cunha em Mulher no espelho (1985) desloca para Salvador (Bahia) o cenário do enredo, que, para quase toda essa geração de mulheres escritoras, parece estar no âmago de sua imaginação criadora, a história de sua própria imagem vilipendiada pela espoliação masculina: “E vou começar a minha estória. Agora, na superposição de meus rostos, em convergência de datas. Aqui no cruzamento de meu corpo com o espaço de minhas imagens. Tenho o que dizer pois vou dizer-me a mim mesma (Cunha, H. P., 1985) mas, como qualquer pessoa que se põe diante da memória ou dos espelhos.” O recurso confessional é mais uma vez o caminho literário eleito e o lamento dorido é prolongado nesta autora que sob uma dupla identidade (a real, passiva e a do espelho, revoltosa) realiza uma reflexão ininterrupta em torno de si mesma e de seu “estar no mundo”: Não desejo narrar a mulher que me escreve. Quero narrar a mim mesma somente” (Cunha, H. P.) Mas quem é ela? Perseguindo obsessivamente a própria identidade, a voz narradora (a do espelho) descreve amarga e punitivamente a mulher que reflete: “a heroína do fracasso cotidiano, do sofrimento anônimo, da miséria sem remédio”. Diferente do sofrimento elegante em que se compraz Elisa, a personagem de Rachel Jardim em O penhoar chinês, e do desconforto vago e intelectualizado de Virgínia em A ciranda de pedra, a personagem, inominada, de Mulher no espelho é sangrenta e sexual na flagelação que se inflige, de um lado e se submete, de outro. Autoflagelação que se transforma em ódio derramado sobre o universo familiar que a cerca e do qual tenta se libertar por rompimento violento, que termina em remorso partilhado pela personagem e seu duplo. Este aspecto autopunitivo do comportamento das personagens de grande parte da prosa de ficção feminina deste período é comentado pela própria autora em artigo onde fornece uma espécie de guia para a leitura de sua obra e que foi traduzido para o inglês: “The woman shaped by patriarchal ideology could not escape from the prison without shouldering the burden of self-reproach, without paying the price of transgression. The narrative of several women authors attest to this feeling of guilt and the protagonist of Mulher no espelho is no exception to the rule (Cunha, H. P., s/d). E realmente as violências que são praticadas no romance contra a “instituição” e o “Nome do Pai” são penalizadas pela morte do filho chorado por ambas, a mulher real e a mulher refletida: “Agora estamos paradas, uma olhando para a outra, os pés roídos de ratos. Os espelhos multiplicam as imagens até o infinito. Mas nosso remorso nos une. Meu rosto no espelho é o dela. Ela sou eu. Eu sou ela.” No final os espelhos se rompem metaforizando o reencontro da própria personalidade e da identidade feminina da protagonista.
Este é o desfecho de uma narrativa contada através de espelhos que da realidade histórica circundante nada mostram, confirmando a hipótese de que o excesso de subjetivismo e a contínua reflexão autobiográfica desta fase impediram a filtragem de uma realidade social em que o registro das mudanças (políticas e comportamentais) poderia estar presente. Este comentário não significa a exigência de uma literatura politicamente engajada com a causa revolucionária dos anos 60 mas a indicação da existência de um roteiro adotado e partilhado por muitas na prosa ficcional feminina do período. Roteiro que é também político pois denuncia as limitações do universo feminino e os abusos de poder praticados contra a mulher.
Helena Parente Cunha publicou outros livros de ficção, Os Provisórios (contos, 1990), A casa e as casas (contos, 1998), As doze cores do vermelho (contos, 1998), mas Mulher no espelho permance sendo sua obra mais polemizada pelo choque que causaram sua linguagem rasgada e o comportamento quase debochado da protagonista, ainda hoje considerado, por muitos, como inadequado para uma mulher.
Lya Luft é mais uma destas ficcionistas que em sua criação estiveram envolvidas com as tragédias resultantes da “débacle” da família patriarcal, uma decadência lenta que muito trabalho e matéria forneceu à literatura brasileira. Na década de 30, José Lins do Rego apropriou-se deste veio e produziu a crônica do declínio do império econômico das usinas nordestinas, declínio que arrastou em sua esteira os valores e práticas da grande família patriarcal considerada por muitos, como Gilberto Freyre (Freyre, G., 1936) a célula mater da sociedade brasileira. Na década 60 a aceleração das mudanças culturais que já conhecemos terá como intérprete e protagonista destas mesmas mudanças, o último e até então mais vitimado elo dessa corrente: a mulher. Posicionando-se como o ser real central dentro deste triângulo familiar (pai, mãe, filhos) que no caso da família patriarcal reproduz-se em escala progressiva nos parentes e aderentes que constituem a “entourage” observadora participante de suas desditas, Lya Luft procura, através de uma busca incessante da infância perdida, entender-se como sujeito histórico sobre o qual se depuseram os ônus daquela decadência. Decadência que no seu caso aparece metaforizada nas figuras estranhas e monstruosas com as quais, à maneira do romance gótico, Lya Luft povoa seus romances: “velhos, doentes, loucos, anões, autistas, enfim daqueles que vivem a segregação, isolados da sociedade no mundo restrito e fechado de um sótão ou um quarto”, (Vianna, L. H., 1997, p. 69). Um verdadeiro “circo dos horrores” que acentua a atmosfera abafante e enjoativa na qual locomovem-se as protagonistas permanentemente angustiadas e perdedoras, ou de entes queridos (O quarto fechado), ou de amores não compreendidos (As Parceiras) ou mesmo da própria identidade (O Exílio). Mais uma vez voltado para si próprio, esse discurso, competente em seu programa, não considera qualquer possibilidade de “descentramento” do objeto focalizado permanecendo auto-suficiente em seu universo restrito: o universo do privado, do mundo interior, da desesperança e do vazio criado pelas espoliativas experiências infantis.
A Madureza, Essa Terrível Prenda
(Carlos Drummond de Andrade)
Ainda nos anos 60 uma jovem de apenas 18 anos surpreenderia sua geração e seus colegas de ofício ao merecer, com denuncia feita contra clínica de repouso paulista, o primeiro Prêmio Esso de reportagem doado a uma mulher no Brasil. Alguns anos mais essa precocidade se repetiria ao ser a primeira mulher admitida por concurso na valorizada carreira diplomática, gloria que lhe seria suprimida ao desposar o também diplomata de carreira e intelectual Sérgio Paulo Rouanet (na época o Itamaraty não admitia mulheres casadas em seus quadros). Glória maior entretanto almejava Cecília Prada, a jovem mencionada, que ainda naquela época voltou-se para a literatura e escreveu um livro que permaneceu por muito tempo inédito mas que viria à tona em 1978, ganhando, neste mesmo ano o prêmio “Revelação de Autor da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA): “O caos na sala de jantar”, livro de contos, ou um romance disfarçado em narrativas curtas (menos a primeira, que é longa como uma novela) e densas, todas elas ligadas por um tema comum que se desdobra em outros de natureza semelhante: a cidade natal e a casa patriarcal. A velha casa da infância e adolescência para onde a protagonista retorna após muitos anos de ausência e o reencontro/desencontro da protagonista com os elementos que são seus ingredientes concretos e psíquicos: o circulo familiar, os objetos, os móveis etc, âncoras através das quais busca-se recuperar o “tempo perdido” e a identidade ameaçada. Âncoras que se transformam em estorvos, obstáculos a ultrapassar no desejado caminho para a liberdade e plenitude individuais, e sobre os quais a autora despejará sua ira ao desencadear “o caos sobre eles”…. “o caos na sala de jantar” com um machado: sangrentos pedaços, espalhados e o “caos na sala de jantar” (Prada, C., 1978) Se a última expressão aparece sublinhada é porque ela não só resulta em título do livro mas porque expressa a imagem contundente de destruição desejada pela autora. Destruição que se repete nos outros contos chamados por ela de Contos sanguinários, em a que violência profanadora dos valores sagrados da família irrompe violentamente, mas que guardam também um compromisso muito maior que o desejado com o universo que pretende degradar: o universo confortável das instituições consagradas e respeitadas em seu poder “coercitivo” como diria Émile Durkheim, com propriedade. E compromisso àqueles que as representam e através de cujo olhar a protagonista (Leonora) existe e por extensão sua autora que confessa sua “inexistência” fora desse olhar”: “Eu que preciso deles, e agora aqui estou, criança, e cansada, e perdida, tomem-me nos braços, afaguem-me, devolvam-me a identidade perdida” (Prada, C., 1978). Não só a família mas também a cidade é invocada por essa fugitiva que não consegue completar sua fuga, prescindir das raízes, do solo confortável da tradição familiar: “a teus pés deponho o meu fardo. Cidade: abre-o devagar, porque verás que de quase nada é feito, uma pintura da renascença, um pedaço de aldeia francesa em flor, uma luz de crepúsculo em Oklahoma, é isto vida? (Prada, C., 1978). A sensibilidade em carne viva revela o desconforto de quem deseja, mas não consegue completamente, romper o tecido vital de estruturas arcaicas, cujo esgarçamento produz mais que satisfação àquele que o promove. E este é um sentimento próprio aos períodos de transição de que foram exemplo os anos 60, comoção muito bem filtrada nestes contos (romance?) desinteressado do panorama político nacional mas reveladores do dilaceramento que uma outra revolução, a revolução sofrida no plano dos papéis tradicionalmente desempenhados por homens e mulheres da classe média brasileira, causavam àquela geração de jovens mulheres aspirantes à madureza e à liberdade, mas incapazes de sobreviverem a ambas.
A madureza, essa faca de dois gumes, foi para as mulheres, mais afiada ainda, e a liberdade, uma iguaria que desfrutaram ao preço de alguma solidão ,em algumas vezes comemorada e em outras deplorada. Este é o recado que nos transmite Cecília Prada através de suas personagens femininas num livro que é apesar de tudo um avanço em termos de análise introspectiva e auto-avaliadora da condição feminina. E também, digamos, em termos de realização literária em sua tentativa algumas vezes bem sucedida, de renovação formal que se inicia pelo próprio já citado, modelo ambíguo (vários contos ou romance desmembrado?) onde a violência da linguagem ,ressoando com mais força que a de Helena Parente Cunha, sua companheira geracional, tem papel fundamental.
O Nome de Zulmira
Também pertencente a esta geração, que viveu as adolescência ou juventude, ou ambas, nesta fase tão difícil para as mulheres no Brasil, uma escritora afasta-se, em alguns sinais, do padrão que definia a literatura por elas produzida. Trata-se de Zulmira Ribeiro Tavares que em 1985 publicou um romance bastante interessante: O nome do Bispo (Tavares, Z. R., 1985) brindado por um elogioso posfácio de Roberto Schwarz. Publicado na mesma data em que o foram Mulher no espelho (Helena Parente Cunha) e O penhoar chinês, de Rachel Jardim, este romance não coloca em foco, pelo menos explicitamente, o problema da mulher diante do mundo que a cerca, tendo, ao contrário, a autora escolhido vestir-se sob a pele de um homem, de contornos suaves é verdade mas ainda assim um homem, para narrar através de um enredo insólito, a crise existencial vivida por um personagem de meia idade da tradicional e aristocrática família paulista decadente. Como não poderia deixar de ser, temos aqui mais uma vez a família no epicentro da narrativa, que se irá desenvolvendo de forma peculiar e competente, através da descrição minudente dos fatos ocorridos e do universo em que se desenrolam. A família, no fundo do cenário domina o pensamento do protagonista que expressa a voz autoral: a memória, as especulações filosóficas, o próprio humor que permeiam a narrativa, passam pelo crivo estreito do julgamento da parentela (e das relações de poder ali enfrentadas) e nisto, não podemos negar, a autora aproxima-se de suas colegas de geração, invariavelmente enredadas nos laços daquela instituição, o que testemunha o peso que sobre elas exerce. O que irá se constituir em principal diferença, é a forma através da qual este discurso será construído. O protagonistas, como se sabe, sofre uma crise existencial, uma ruptura entre passado e presente metaforizada na fissura anal que o leva a internar-se (para realizar a cirurgia) em antigo hospital de São Paulo (Hospital Sta. Thereza, assim mesmo com o H que lhe comprova a antigüidade) e é neste cenário que surpreendemos os melhores momentos de lirismo criados pela autora, seja pela descrição acurada do movimento da folhagem ou das mudanças na luz do dia seja pelas elegância e precisão analítica de sua prosa, que tendo optado pela sátira, revela-se “racional e audaciosa e sem preconceitos, alimentada de liberdade moderna, mas nem por isso dona de alguma verdade (Schwarz, R, 1985). A profusão de elogios que lhe dedica este crítico não é excessiva e até acrescentaríamos a estas outras qualidade que a distinguem das romancistas anteriormente citadas: as qualidades de humor, transcendência, mistério, para não falar da demolidora crítica social que faz, através destes prismas, à tradicional família paulista e à sua intelectualidade empertigada. Aqui já um problema se apresenta ao tipo de organização que vinha sendo dado ao elenco de escritoras selecionado. Se aqui, o critério geracional não é completamente inadequado, pois a matéria tratada coincide em parte com aquela eleita por suas contemporâneas, a forma derrisória é expediente que só encontraremos, bem realizada em suas finalidades desconstrutivas, na geração seguinte. Em que grupo então colocá-la? A pergunta já sugere a resposta que está na compreensão das limitações que este programa classificatório envolve. Mas voltemos ao livro.
O enredo, é o que menos importa nesta narrativa que temporalmente abarca não mais que quatro dias de internação vividos pelo protagonista no Hospital Sta Thereza, tempo que se alarga proustianamente através da memória emocional, reflexiva e lírica, mas também irônica do personagem debruçado sobre seu passado e sobre o passado recente da sociedade brasileira. Esta história, onde episódios relativos ao golpe de 64 comparecem em flashes rápidos vividos pelo personagens em delegacias do DOPS, também é mimetizada pela veia humorística nesta narrativa onde o drama raramente comparece e quando o faz, surpreende o leitor pela intensidade de sua insuspeitada presença, de que é exemplo a equivocada mas ameaçadora visita recebida por Heládio no Solarium. Esta visita, fantasmagórica e ao mesmo tempo real (de uma pessoa pobre que procura um agonizante rico, vizinho de quarto do nosso herói, e o confunde com ele) introduz naquele cenário asséptico a excrescência pútrida da luta de classes, o ódio social daquele que nada tem por aquele que tem tudo, e desencadeia o clima misterioso e tenso que sob o humor e a ironia, permeará o romance a partir de então. Ameaçador como a morte, este episódio introduz a angústia e atreva no cenário iridescente do Solarium e da vida de Heládio, definindo o caráter contrastivo dos elementos formais entretecidos no texto.
A paternidade desconstruída durante a visita do filho, a amizade pulverizada durante a visita do “amigo do peito” e outras crueldades familiares que vão se somando a estas, revelam o peso das instituições que perseguem o herói (e a autora) nas noites de insônia em que se debate e de onde nem sempre sai vitorioso mas sempre com humor, traço essencial da sua personalidade e da própria narrativa que embora nada pretenda concluir filosoficamente, completa-se a si mesma pela competência no narrar. Um narrar preciso e detalhista, cujo apuro na observação surpreende o lirismo escondido por trás de fenômenos puramente naturais como os dos movimentos da luz e dos ventos sobre as folhas e árvores, ou os da simples passagem do tempo, quando o tempo é redescoberto e recuperado.
O texto de Zulmira nos coloca diante de algumas questões, candentes para este trabalho, como a que se segue: se a dicção feminina, segundo a corrente da crítica feminista psicanalítica francesa (Héléne Cixous, Adriénne Rich e outras) deve ser reconhecível como o “discurso do corpo” e da “jouissance féminine”, como identificar a mulher na prosa analítica e precisa, embora chistosa e alegre de Zulmira. Onde se esconde o “depoimento feminino”, se a voz autoral em seu relato esconde as pistas que poderiam delatar o gênero de quem fala? É bem verdade que os romancistas vêm tentando através dos dos tempos, metamorfoseados em mulheres (“Madame Bovary c’est moi”, disse Flaubert, e Machado desse recurso usou em toda primeira fase de sua obra) penetrar nos segredos de seu universo. Tarefa difícil, pois um pequeno detalhe pode revelar o embuste. Como aqui as sutilezas do conhecimento de Zulmira a respeito do universo feminino, do seu corpo, do seu apogeu e declínio, que se manifesta na descrição da personagem Dora, e de seu encanto de meia idade que traz “essa impressão de uma mulher descansada e infantil, dentro de outra já madura “Esta é inapelavelmente uma mulher falando de si própria de seu próprio corpo e de sua própria alma feminina, como é a de Zulmira e de seu nome.
Entre Águas
Que deduções podem já ser levantadas a respeito das representantes deste primeiro bloco de escritoras que publicaram a parte mais substancial de suas obras a partir da data aqui referenciada, 1964?
À primeira vista acreditamos que é possível estabelecer alguns nexos entre a persistência do solipsismo do discurso na prosa de ficção dessa amostragem (que é bem representativa do todo) e o contexto sócio-político envolvente, assim como pudemos identificar as relações existentes entre a irrupção desta mesma prosa e a retração da criação literária de uma maneira geral, esterilizada que foi pela censura naqueles anos cinzentos. Uma esterilização da qual as mulheres parecem ter sido poupadas, pois é neste momento que começam, com fervor, a escrever prosa de ficção (e também poesias e ensaios) numa escala até então nunca observada. Além disso, passam também a ser publicadas com facilidade, beneficiadas que foram pela a abertura do mercado, propiciada pela sofisticação produtiva do setor livreiro no período do chamado “milagre brasileiro”.
Ainda à primeira vista, as evidências sugerem que, reprimida durante tantos anos (séculos) em sua capacidade criativa e na formulação explícita dos próprios anseios e desejos, a mulher, ao perceber aberta a porta para o depoimento confessional através da via literária, dele aproveitou-se para esvaziar todo o conteúdo emocional represado todo aquele tempo, em narrativas onde o solipsismo do discurso foi a nota dominante. Assim, se o quadro ideológico repressivo sufocava a criatividade literária masculina da época, não impedia, no caso das mulheres, que elas construíssem, com as armas que possuíam então, um discurso literário revelador do desconforto experimentado pelas mesmas dentro da sociedade, já em mutação, mas ainda essencialmente machista da época. Elegendo o “eu” como parâmetro básico para o conhecimento de toda e qualquer realidade, as romancistas e contistas aqui arroladas, esqueceram a dimensão social de suas vidas em termos do compromisso com o momento histórico vivido e a possibilidade de interferência no mesmo, enquanto criadoras. Esqueceram as lutas entre as classes , e a moeda corrente do marxismo que circulava com prestígio entre a elite intelectual brasileira e concentraram-se em torno delas mesmas. Mas ao fazê-lo, sem querer concentravam-se também em torno de uma bandeira que só na década seguinte seria plenamente desfraldada pelas mulheres no Brasil: a bandeira feminista, movimento que como muitas outras expressões de minorias dominadas, substituiria, nos anos 80 a luta contra-“revolucionária” dos anos 60 e 70. É bom ainda lembrar que ao conservadorismo moral e político da ditadura, a juventude da época, pelo menos a juventude “classe média” do centro-sul do Brasil, respondeu com o libertarismo do desbunde, com o “é proibido proibir”, originário dos bancos da Sorbonne e entronizado no Brasil, com o tropicalismo, e com o movimento ” hippie” brasileiro, vagidos da poderosa onda “contra-cultura” norte-americana. É também verdade que nem mesmo o rumor desses fenômenos irá comparecer nesta literatura escrita por mulher, tão preocupada em desenredar o novelo do triângulo patriarcal e em procurar reescrever esta saga de maneira que ela mesma, e não o Pai, apareça como o sujeito da história. Tão interessada, inconscientemente, em reconhecer-se enquanto centro do enredo do “romance familiar”, referido por Freud, “esse texto não escrito, esse sonho acordado que todo homem forja conscientemente na primeira infância e esquece na idade adulta” e que está segundo Marthe Robert, na própria origem do gênero romance (Wanderley, M. C., 1996) Tão imersa nas tarefas de construção da própria identidade ou de uma identidade nova, que recusa suas qualidades ditas “naturais” e busca reconstruir-se a partir de um referencial que ainda não sabe bem qual seja, e para o qual se dirige, tateando no escuro.
Um discurso que se defrontou com problemas intrínsecos de tal magnitude do ponto de vista do sujeito falante, não poderia absolutamente optar por um circuito excêntrico e explorá-lo competentemente. Já consideraríamos muito, se tivesse conseguido completar-se satisfatoriamente em seu programa, o que nem sempre foi possível, como por exemplo nas suas propostas descontrutivas da imagem de mulher ideologizada pelo universo patriarcal, malogro que foi ressaltado pela crítica contemporânea (Lobo, L., 1993). Entretanto, se considerarmos, como Judith Butler que “To desconctruct is not to negate or to dismiss, but to call into question and, perhaps most importantly, to open up a term, like the subject, to a reusage or redeployment that previously has not been authorized” (Butler, J., 1992) talvez possamos ver nas tentativas realizadas por este grupo de escritoras um esboço desconstrucionista manifestado através das suas próprias perplexidades diante das transformações instauradas naquela década e que foram transmitidas àquelas às suas personagens que a partir das ressignificações dadas ao conceito de “mulher”. Com a ressalva é claro, de que não é um conceito que possa ser universalizado e por isto salientamos que estamos aqui falando da mulher de classe média, branca, ocidental, heterossexual, com nível de instrução médio ou universitário, brasileira no geral (embora as diferenças regionais também devam ser consideradas).
A Derrisão como Fórmula
“As mulheres deveriam rir de si mesmas – afirma Hélène Cixous em Là – em vez de continuarem se lastimando por toda a eternidade (Cixous, H., apud Lobo, L., 1993). Esta sugestão parece ter sido escutada “avant la lettre” por Márcia Denser nos anos 80. O texto auto-irônico e cáustico mas ao mesmo tempo pleno de humor com que nos brinda em O animal dos motéis (Denser, M., 1980), é um verdadeiro refrigério para nossos ouvidos cansados de escutar as lamúrias que predominaram nos anos 70 e de conviver com a indecisão existencial das mulheres que viveram com um pé na liberdade da estrada e outro no laço ideológico do paternalismo ameaçador. Seguindo uma linha sexo-confessional que parece ter algo de Henry Miller (um romancista americano que estourou no Brasil nos anos 60) e muito de Erika Jong (primeira mulher a escrever desabridamente, e com humor, sobre sua vida sexual na América), Márcia parece ter optado, talvez mesmo antes da criação do rótulo, por aquela chamada “jouissance du corps” que é vista pelas crítica literária francesa já citada, como qualidade deflagradora de uma nova maneira de escrever, e de uma prosa de ficção feminina renovadora e desconstrutiva. O segredo desta mina estaria no próprio corpo feminino e na especificidade de seus detalhes anatômicos do qual resultaria uma economia libidinal oposta à masculina. Vejamos, seguindo os passos desta teoria, como ela poderá ajudar-nos a enfrentar o desafio da análise deste grupo de escritoras (aqui representadas por Márcia Denser, Luiza Lobo e Betty Milan) que adotou o humor e o erotismo como técnica contra-ideológica e explosiva dos valores tradicionais que atualizavam os conceitos de “mulher”.
A crítica feminista francesa instauradora destas idéias parte de uma premissa básica, que é a da oposição à cultura opressiva e falocêntrica ocidentalmente instaurada, onde o homem se coloca como centro do universo, demarcando todo o resto do mundo como o “outro”, que se define a partir de suas relações com este centro. Falar e especialmente escrever, instalado neste centro, significa apropriar-se do mundo e subjugá-lo através de uma linguagem dominante, principal meio através do qual ele objetiva o mundo e o reduz a seus termos. Assim o homem fala de (e em lugar de) qualquer coisa (incluindo as mulheres) demarcando-lhes os contornos. Como resistir às práticas significantes (fala, escrita, mitos e rituais) de tal cultura? pergunta-se esta linha crítica. Através da mencionada “jouissance”, que seria a reexperimentação dos prazeres físicos desfrutados na infância e na sexualidade primitiva, reprimida, mas não obliterada pela “Lei do Pai”. Este prazer físico (orgástico) que, quando feminino, carrega consigo as noções de fluidos, difusão e duração, diferencia-se do prazer masculino, que se realizaria em torno da centralização do ganho e motivação para o lucro. Resta-nos questionar como essa “jouissance” funciona na produção do autoconhecimento, promovendo a almejada “escrita do corpo”, fonte da renovação da escrita literária feminina, como quer a crítica francesa. Debruçando-se sobre ela, Ann Rosalind Jonnes (Jones, A. R., 1985) identifica e comenta as versões em que se apresenta: a de Júlia Kristeva, que utiliza o conceito psicanalítico de “pulsões corporais” para definir as forças que, sobrevivendo às pressões culturais, vêm à tona, sob forma sublimada no que chamou de “discurso semiótico: “The gestural, the rhythmic, preferencial languages of such writers as Joyce, Mallarmé, and Artaud” (Kristeva J, 1969, apud Jones, A. R., 1985), que, por não terem realizado a fusão infantil com suas mães, reexperimentam este prazer no subconsciente e trouxeram-no à tona através de textos que contrariam a linguagem tradicional. Não sendo um privilégio das mulheres, nelas, essa liberação semiótica se daria indiretamente, pois são o primeiro objeto do desejo do qual o filho é afastado no percurso da iniciação social. Falando e escrevendo como “outsiders” ao discurso do macho dominador, por sua posição marginal e força potencialmente liberadora, as mulheres podem transformar os discursos que afirmam seu papel negativo, e rejeitar tudo o que esteja definido estruturado e carregado de significado no atual estado da sociedade, explodindo os códigos sociais com movimentos revolucionários . Não representando um sexo, mas uma atitude de resistência à cultura e à linguagem tradicionais, esta posição pode ser partilhada pelo homem – desde que se oponha ao falogocentrismo – sendo a este também aberta a possibilidade da “jouissance”: “By woman I mean that which cannot be represented, what is not said, what remains above and beyond nomenclatures and ideologies. There are certain “men” who are familiar with this phenomenon” (Kristeva. J., 1969).
Para Luce Iragaray, ao contrário, as mulheres possuem uma especificidade que as distingue agudamente dos homens. Psicanalista e membro da Escola Freudiana da Universidade de Paris (Vincennes) foi destituída de sua atividade didática três semanas após a publicação de Speculum de l’autre femme, livro no qual sarcasticamente aponta o “bias” falocêntrico de Freud em suas definições de mulher. Definições que a catalogam como um homem imperfeito (castrado), irracional e invisível. Presa num universo conceitual que tem o homem como centro a mulher, segundo Irigaray, não encontrou caminhos para se autoconhecer e representar, mas seu próprio corpo conclui, pode ser o ponto de partida para esse autoconhecimento: “She is infinitely other in herself”, diz, referindo-se à sua forma diversificada de prazer em contraposição ao sistema masculino centrado no “mesmo”. Apesar disso, a descoberta do auto-erotismo não funcionará, para Irigaray, como passaporte para mudanças (que utiliza categorias marxista em suas análises) embora reconheça que a mulher deve reconhecer e afirmar seu prazer se quiser subverter a ordem falocêntrica.
Hélène Cixous, a terceira feminista francesa desse elenco é também de origem psicanalista . Como Kristeva admira os escritores anti-falocráticos em seus textos mas separa-os das mulheres convencida de que o inconsciente destas difere do masculino, em sua especificidade psicossexual liberadora de novos discursos sociais. Exemplo desta afirmação é, para ela, o discurso clariceano que celebra em seu livro Vivre l’orange (Cixous, H., 1979), onde enfatiza o “olhar empático e não dominador “que a ficcionista revela ao construir seu objeto, acreditando que esta capacidade literária tem origens mais libidinais do que culturais. Cixous também critica a determinação psicanalítica que vê a diferença e oposição entre os sexos a partir das diferenças anatômicas, pois “it’s at the level of the sexual pleasure, in my opinion, that the diference makes itself more apparent”. São, segundo ela, economias sexuais diferentes, pois enquanto o homem centraliza o prazer em torno do pênis, uma dimensão que regionaliza e limita o inconsciente, a mulher tem uma libido cósmica, tanto quanto seu inconsciente é universal. E são estas pulsões múltiplas da libido no inconsciente feminino que liberarão seu próprio discurso.
Como vimos, estas três versões do feminismo francês (com algumas pequenas diferenças) conjugam-se na crença da contraposição entre a experiência corporal feminina e os padrões simbólico/fálicos embutidos no pensamento ocidental, assim como na defesa do corpo como fonte direta da escrita feminina, poderosamente alternativa e reconstrutora do mundo. Apesar de atraentes, são construções tão perigosas, quanto poderosas, adverte Rosalind, criticando-as em suas ciladas essencialistas, idealistas e inibidoras da ação política, na medida em que desviam olhar das variáveis culturais envolvidas na construção desse corpo feminino. A releitura de Freud e Lacan feita por algumas feministas aponta para o fato de que a sexualidade não é uma qualidade inata, seja na mulher, seja no homem. Ela se desenvolve nas interações realizadas dentro da família nuclear e sobre um sistema simbólico posto em ação pelo par pai/mãe que carregam e impõem sobre os filhos os papéis socialmente impostos. Neste processo de formação de identidade sexual, Lacan enfatiza o papel do pai como sustentáculo da língua e da cultura (sistemas simbólicos fundamentados no valor atribuído ao phalus) como base dos valores contrastantes que a criança internalisa em sua tentativa de incorporar-se, de alguma maneira, à sociedade falocrática. A identidade de gênero e conseqüentemente o inconsciente constrói-se (ainda universalmente) como resposta à sociedade patriarcal. Portanto, não existe sexualidade que não seja penetrada por arranjos sociais e sistemas simbólicos, E estes arranjos e sistemas são falocráticos. Se houvesse existido algum dia a sociedade das Amazonas, que é lendária, as identidades sexuais seriam todas regidas por seus valores, de mulheres que na verdade são meio homens (nesta versão generalizada de homem) que cortam um seio para sustentar o arco no peito e lutam contra eles, mas sucumbem ao processo da procriação. Nas sociedades reais, todas falocráticas, a ideologia sexista penetra no cotidiano feminino mesmo nas situações em que nos pensamos livres dela, como por exemplo nos episódios de lesbianismo e auto-erotismo. Parece portanto, que o corpo feminino não se oferece como o melhor lugar para lançarmos o ataque contra as forças que afastaram nossa sexualidade de seu próprio destino, a começar pelas mencionadas “ciladas” que se cristalizam em idéias acerca da “natureza da mulher”, “glorificação da maternidade” etc. Além do mais, o caráter globalizador do conceito de “feminité” parece esquecer que a universalidade do conceito de mulher é um erro básico do feminismo, e que aquela “jouissance” é vivida diversamente pelas sofisticadas nova-iorquinas e as cearenses fustigadas pela seca, e/ou as mulheres mutiladas do Irã . Apesar de tudo, os conceitos de “jouissance, feminité et écriture feminine” foram propulsores de mudança. Preconceitos do discurso falocêntrico que permeiam a cultura ocidental e outras culturas em seus níveis mais profundos, são desafiados por eles, que neste sentido têm vital importância para a luta ideológica assumida pelo feminismo. As mulheres já começaram a transformar, não apenas a matéria prima mas também a maneira de produzir sentido, na poesia, na ficção, nos filmes e nas artes visuais e as pesquisas feministas vêm sugerindo que estes desafios à ordem simbólica são já uma marca da escrita feminina .Apesar de tudo alguns problemas teóricos e práticos permanecem e se colocam em torno de questões como: pode o corpo ser a fonte de um novo discurso? É possível alguém mover-se de um estado de exaltação inconsciente, para a construção de um texto escrito? Algumas feministas, como Madeleine Gainon, afirmam que sim pois, livre da economia sexual limitadora do macho, a mulher teria mais espontaneidade tanto no corpo quanto na linguagem. Entretanto, sua posição é contestada por Ann Rosalind quando afirma que a teoria psicanalítica e a experiência social sugerem que o salto do corpo para a linguagem é especialmente difícil para as mulheres, afirmando que a teoria lacaniana sustenta que a introdução da menina na linguagem, na ordem simbólica representada pelo pai e construída em oposições fálicas e não fálicas, é complexa pois a mesma não se identifica com o polo positivo dessa ordem. Em várias culturas, pré ou pós-letradas, os tabus contra o discurso da mulher são uma constante e se manifestam em zombarias a respeito do que falam e dos livros que escrevem e se um dos objetivos mais candentes do feminismo, tem sido a superação da timidez verbal, num mundo onde o homem tem sempre a última palavra, melhor faríamos em combater essas atitudes em vez de idealizarmos uma “écriture féminine” surgida espontaneamente do corpo. E se as mulheres estão inventando novas maneiras de escrever, diz ela, elas o fazem embasadas numa autoconsiência literária e crítica que vai muito além do corpo e do inconsciente, o que revela que a resistência a uma cultura, é sempre construída com as peças daquela cultura que se quer transgredir.
Este é o nível do combate que se trava, entre as várias facções feministas (norte-americanas e francesas) a respeito dos conceitos de “écrite feminine et jouissance du corps”, ao fim do qual as primeiras (aqui representadas por Ann Rosalind Jones) reconheceram a importância de apenas dois aspectos dessa teoria: a crítica ao falocentrismo em todas as formas materiais e ideológicas que assumiu, e a convocação à criação de novas representações da consciência feminina, relegando portanto, a um segundo plano, um dos princípios básicos que a animam: as relações entre corpo, conhecimento e criação literária.
E como ficamos nós em relação ao nosso objeto de estudo, ao tentarmos incorporar, nesta análise, os diferentes argumentos desta eclética (embora também sincrética) crítica feminista atual? Em relação a Márcia Denser, cujo discurso suscitou toda essa busca, achamos que podemos adotá-la, e à sua sexualidade bem humorada, como modelo inaugural da prosa de ficção feminina que elege o humor e o prazer do corpo como matéria prima de seu discurso, sem entretanto eleger o conceito de “jouissance” para defini-lo. Vejamos por quê.
Ao retomarmos a questão teórica colocada por Jones: “Can the body be a source of self knowledge? Does the female sexualiaty exists prior to or in spite of social experience? – aceitamos e corroboramos sua reposta negativa a esta possibilidade, pois como ela, acreditamos que toda a identidade sexual feminina passa por um processo cultural que tem como infraestrutura simbólica a ordem patriarcal vigente e portanto não independe dela em sua “jouissance”. Estranhas cadeias da cultura que não sabemos bem como começaram e onde e quando vão terminar. Para as constrições desse este fato social parece não haver saída radical mas escapadas parciais tais como as de Márcia Denser, e de outras escritoras de sua geração, que usaram a própria sexualidade como tema/causa norteadora, substantiva e formal, de suas narrativas e que por isso se tornaram femininamente novas em seus depoimentos despojados da tradicional feminilidade. Vejamos quando: “O sexo havia sido travado todos esses meses como uma cobra adormecida no fundo de um tanque neolítico e voltou a ferroar-me também em fins de novembro pois sexo significa se lançar e não ter medo nem dor de barriga, sem nenhuma espécie de hipocondria (Denser, M., 1981). Aí está a mulher para tudo preparada, sem romantismos ou considerações piegas a respeito do famoso chamado “amor carnal “e de sua própria sexualidade. Se há aí um “excessivo simulacro com a posição masculina”, como disse Luiza Lobo, que impede a criação de uma voz feminina própria, outros depoimentos revelam a ambigüidade desse discurso feminino em floração que não sabe ainda muito bem que defesa assumir em suas lides internas: “Há uma parte de nós que jamais abandona o ordinário, o vulgar do sexo”… “assim como nos homens, pretensamente a engenharia mecânica, o bang-bang e o charuto após o jantar” . O “ordinário e vulgar” e não o romântico e idealista, como deveria ser o sexo nas mulheres , esconde uma espécie de culpa por tratar tão cruamente deste assunto, em sendo uma mulher. No caso de Márcia Denser diríamos, de tratá-lo de uma maneira nova, bem diferente daquela usada pela geração anterior, apesar da liberdade rasgada pretendida por algumas. Levando em conta a novidade que apresenta, mesmo assim fazemos ressalvas a seu texto, não de natureza social, pois parece bem preocupado com o mundo circundante (a sociedade paulista dos anos 70, simultaneamente desbundada e tradicional e provinciana apesar dos ímpetos universalistas) mas literária onde a autora parece inaugurar-se a si mesma num discurso isento de referencialidades que indiquem o caminho percorrido na busca da qualidade. Não percebemos em seus contos a presença de um jogo intertextual enriquecedor, ou nada que denuncie sua procedência literária. Nenhum diálogo com seus pares neste universo que embora saibamos falocraticamente disposto, ainda é, até o momento atual literariamente representado pelos homens, em termos canônicos.
Jogo intertextual é ingrediente que não falta na prosa inteligente de Luiza Lobo, no seu Sexameron. Publicado em 1997 e quarta experiência da autora no campo da ficção, utiliza-se do título de Boccaccio, Il Decamerone (conjunto de dez narrativas escritas em dez dias) para anunciar a matéria de que trata, e da voz de margarida de Navarra, autora do Heptameron (conjunto de sete contos inspirados em Boccaccio) para contar aos leitores “histórias de casamentos” numa sociedade pela peste da aids. Assim como Boccaccio, no Renascimento, havia narrado pela boca de jovens refugiados da Peste, num castelo de Florença, os cantos do Decameron, a autora utiliza o mesmo recurso estilístico, reunindo um grupo de jovens sobreviventes da referida peste, num castelinho do alto do Humaitá, colocando em suas bocas depoimentos sobre a tal “instituição” há muito tempo falida e desmesurada. Permeados de uma sexualidade sem “sexo”, pois era este há muito um intercurso praticamente proibido àquela geração amedrontada. Estes relatos chamados pela autora de novelas, são unidos pelos intervalos das reuniões dos jovens que se revezam no relato das experiências “amorosas” vividas por eles ou pelos amigos. “Ora sombrias, ora fantásticas às vezes sublimes, quase sempre carregadas de hipocrisia as narrativas seriam o resíduo de um mundo destruído por seus próprios vícios e paixões (Wanderley, J., 1997). É importante lembrar que das seis histórias narradas no Sexameron (descrito como um texto relíquia dos anos 60 e 70 encontrado numa sociedade futura), cinco delas são cotadas por mulheres que a respeito de casamento nada têm para comemorar. Através delas Luiza faz a crítica sarcástica da instituição, dos próprios homens na sociedade patriarcal e machista com a qual conviveu , e de si mesma. Irônicas em sua maior parte, deixando passar zombarias do tipo “eu acredito no amor”, as histórias podem alcançar momentos de lirismo, como no episódio chamado “A Rua do Carvalho do Outono” através de personagens que estão no futuro e que no entanto se assemelham, em quase tudo, ao nosso presente carioca, levemente nostálgico dos anos 60.
O “casamento é um contrato social” diz um dos personagens citando Rousseau divertidamente e um gato chamado Baudelaire que espreita na cozinha são pistas que entremeadas às vigas mestras da narrativa revelam uma realidade ficcional onde “narrar não só Boccaccio a a Rainha de Navarra estão pairando pelos textos, como também inúmeros poetas, críticos e literatos de toda ordem aparecem aqui e ali, aludidos, citados, metabolizados pela química das histórias e pelo universo cultural e verbal da autora” (Wanderley, J., 1997). Deste universo cultural e verbal Luiza já nos havia dado conta em publicação anterior, Por trás dos muros (1976) coletânea de contos, poemas, enfim, textos que não se encontram aprisionados às categorias de gênero e aos quais a autora chamou de “Arte-fábulas”. Desta reunião de textos meteóricos dados de uma poética sui generis, a “poética da sintaxe narrativa e do espaço entre palavras” (Wanderley, J., 1976) destaca-se “Aprendizagem para o Lixo”. espécie de conto, nitidamente clariceano, onde a coleta do lixo transforma-se em ritual no qual o lixeiro é metamorfoseado em alguém que recebe uma dádiva, o próprio lixo como se fosse uma flor, através da alquimia e da mágica lírica de Luiza. Se existe alguma coisa que aproxime Márcia Denser e Luiza Lobo, duas escritoras que viveram, na juventude, a relativa liberdade que esta geração de mulheres de classe média desfrutou no Brasil dos anos 60 e 70 (e principalmente no Sudeste) esta coisa poderá ser localizada na linguagem. A linguagem a que a crítica feminista francesa chamou de “jouissance du corps” e que talvez possa ser flagrada no prazer da escrita que identificamos em ambas. Em Luiza, numa voz autoral que, em observações divertidas e irônicas sobre o mundo, países e gente, sobre situações e mesmo fatos históricos (como a eclosão da aids) ou do nosso cotidiano, atestam bem um espírito aguçado e muito humor; em Márcia com o humor cáustico que exerce sobre si mesma e sobre o mundo, mas que às vezes se ameniza num olhar compassivo sobre o seu próximo.





Bio fornecida pelo palestrante.

ESPAÇO E MODERATO CANTABILE, DE MARGUERITE DURAS




ESPAÇO E MODERATO CANTABILE, DE MARGUERITE DURAS


Ligia Vassallo
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Quando foi publicado, em 1958, o romance Moderato cantabile trouxe fama e reconhecimento a uma escritora já conhecida desde as técnicas inovadoras que inaugurou com Le square, narrativa de 1955. Trata-se de Marguerite Duras (1914-1996), nome literário de Marguerite Donnadieu, nascida nas cercanias de Saigon, no Vietnam, pois seus pais tinham ido tentar a sorte na Indochina e acabaram por lá se estabelecer exercendo o magistério. Antes de se instalar em Paris, a partir dos estudos universitários, a jovem viveu os primeiros anos no ambiente colonial, com uma família de parcos meios econômicos.
Observar pois esse texto fundador quase meio século depois de seu lançamento, considerando-o não só no âmbito de seu surgimento como no da criação artística de sua autora, fornece ensejo a uma série de considerações interessantes, que serão elaboradas consoante os múltiplos espaços que forem sendo abordados.
Logo de saída leve-se em conta que a obra que nos ocupa teve seu sucesso reforçado por causa da versão cinematográfica homônima, filmada em 1960 pelo famoso cineasta inglês Peter Brook, na qual contracenam duas grandes estrelas daquele momento, Jeanne Moreau e Jean-Paul Belmondo. Desse modo constata-se desde logo um fenômeno cultural das décadas de 1950-1960, que consistiu na forte união entre diferentes modalidades de arte: o cinema da nouvelle vague, as narrativas do nouveau roman e uma dramaturgia nova, em alguns casos denominada teatro do absurdo, tríade de atividades à qual se dedicou também Marquerite Duras.
O primeiro aspecto a ser assinalado é o espaço autobiográfico em que se insere a obra durassiana, embora esse tópico só tenha sido explicitado anos mais tarde e apareça com mais nitidez nas obras que retomam sua vivência indochinesa. No caso de Moderato cantabile, o caráter autobiográfico envolve confessadamente as aulas de piano que impôs ao filho na infância e também a experiência de uma arrebatadora relação afetiva, feita de paixão e violência, que manteve com um jornalista.
Nesse sentido, a ação do romance de 1958 se desenrola no espaço europeu da maturidade da artista, bem distinto do espaço asiático de sua infância e adolescência. Aqui as peripécias se situam em uma pequena cidade francesa anônima e à beira mar, cujo principal empreendimento econômico consiste nas Fundições – as Fonderies de la Côte – dirigidas pelo também anônimo e invisível marido da protagonista, a burguesa entediada Anne Desbaresdes, mãe de um menino igualmente não nomeado.
O espaço temático de Moderato cantabile repousa num aspecto recorrente em Marguerite Duras, que também aparece em Hiroshima mon amour, filme de Alain Resnais roteirizado por ela em 1959, bem como no romance L’amant, de 1984, aqui citados apenas para evocar uns poucos casos ilustrativos: trata-se de um quase flagrante quase instantâneo de um amor livre que contraria os padrões burgueses bem comportados. O tema focaliza pois um encontro ocasional e passageiro, marcadamente sensual, de um homem e uma mulher provenientes de universos inconciliáveis e, por isso mesmo, sem perspectivas.
Desse modo, não só a técnica romanesca se renova, mas sobretudo o tema aponta ainda para uma abertura, que consiste no uso do espaço político e o espaço da mulher, dois tópicos igualmente caros a Marguerite Duras. Isso porque ela, ex-militante do Partido Comunista Francês – PCF (1944-1950), explora os contrastes sociais apresentados pelos dois personagens principais, a burguesa entediada, portadora de nome e sobrenome, e de outro lado um operário desempregado, Chauvin, ex-funcionário do marido dela e cujo nome só é indicado ao cabo de vários capítulos. A escritora, que confessadamente gostava de dar voz aos oprimidos, concentra-se aqui em mostrar as limitações da mulher objeto, restrita às injunções de seu meio e posição social, enredada numa situação que era muito mais freqüente antes do surgimento dos movimentos feministas. Por sinal a autora, que costuma focalizar criticamente o universo feminino, vem a associar-se mais tarde, no devido tempo, às questões feministas e conseqüentemente ao grupo da editora francesa das mulheres, a Édition des Femmes.
No tocante ao espaço literário ocupado por Moderato cantabile, sua grande inovação consiste em revolucionar a técnica romanesca da narrativa, mediante a redução drástica do papel do narrador – concentrado efetivamente em apenas um capítulo, num total de oito – , a ausência de construção psicológica dos personagens e, sobretudo, a valorização do diálogo, que é a base dos 7 outros capítulos. Por meio dele é possível captar a fala direta dos personagens, proveniente dos mínimos movimentos de consciência, correspondendo aproximadamente ao que uma outra escritora de nouveau roman, Nathalie Sarraute, chama de “sub-conversações” (in L’ère du soupçon, 1956).
Nesse romance, ao operar uma ruptura quanto às fórmulas narrativas até então adotadas, Marguerite Duras vem a associar-se não só à nova corrente literária como também à editora parisiense Minuit, responsável pelo lançamento desses novos escritores. No caso presente, constata-se o esgarçamento da narrativa tradicional em prol basicamente de três itens, que evocamos com base no romance de 1958. São eles:
1) Substituição do narrador onisciente, aquele que habitualmente mergulha na consciência dos personagens e sabe tudo, por uma outra perspectiva, que o crítico Jean Pouillon (Temps et Roman, 1955) chama de “visão de fora”, na qual o foco narrativo só incide sobre aquilo que o personagem vê. Essa técnica se aparenta com a da linguagem cinematográfica, aproximação que já foi aqui mencionada, motivo pelo qual o nouveau roman tem sido chamado de “escola do olhar” ou école du regard.
2) Em decorrência, não só se procede a uma recusa do modelo sartriano de narrativa que valoriza a significação e o conteúdo, como também se rejeita todo e qualquer psicologismo envolvendo a construção do personagem. Por isso este perde seus contornos e motivações, tornando-se reconhecível apenas como uma voz dialogante, dispensando assim o nome e características exteriores.
3) Conseqüentemente, com o esgarçamento do narrador, predomina o diálogo quase auto-suficiente, com sua “fala natural” própria do “narrador dramático” do teatro, sobretudo naquele contexto. Talvez por isso não seja gratuita a concentração de tempo, lugar e ação desse romance que, tal como na tragédia clássica, explicita uma tensão latente, porém, no caso, dessacralizada e revestida de um tom menor: o tédio do casamento burguês. A ação da narrativa se distribui como vimos em oito capítulos, dos quais sete basicamente dialogados e apenas um, narrado. Tudo se distribui em três espaços e 10 dias, durante os quais há duas aulas de piano na casa da professora, um jantar de gala na mansão da protagonista e seis encontros no café, onde ela bebe e conversa com Chauvin, as mãos de ambos se tocam, os lábios se roçam, e os clientes chocados fingem não ver.
Então, do que precede, deduz-se que Moderato cantabile é uma obra-prima de concentração espacial e de construção da linguagem, astúcia que envolve o leitor para que ele se torne mais ativo, impelindo-o a preencher as lacunas da narrativa de modo a atingir a compreensão do texto. Em outros termos, é a técnica que seu colega de profissão Alain Robbe-Grillet denomina “disnarração” (1977).
Por fim, no concentrado espaço geográfico da ação do romance focalizam-se apenas dois pólos no traçado da cidade. Numa extremidade a zona portuária, na qual se situam não só o modesto apartamento da professora de piano, como também, nas vizinhanças, o epicentro da ação, um café servido pela proprietária, freqüentado pelos operários e moradores, sobretudo ao final do expediente. Na outra ponta, área senhorial bem afastada e perto das dunas, a bela mansão da família Desbaresdes, com seu jardim arborizado e cercado pelas grades. A ligação entre os dois pontos se faz pela avenida litorânea – o Boulevard de la Mer, que Anne percorre a pé com o filho, às vezes chorando, quando voltam para casa à noitinha. Triângulo de espaços, triângulo de pessoas. Cada um desses espaços torna-se permeável por meio de janelas e portas; cada um é marcado por nítidas conotações, físicas, sociais, humanas.
Assim sendo, a moradia da irada Mademoiselle Giraud, com seus mais de 30 anos de profissão e de rígidos preceitos, representa a coerção, de que o aluno-mirim escapa graças à janela, por onde espraia a vista na liberdade do horizonte colorido. Por isso nesse ambiente apenas ela tem voz, já que o menino se recusa a responder e Anne não chega a ser solicitada.
Por outro lado, o café popular com seu ambiente aconchegante e protegido é um lugar de passagem, um local público, para adultos, onde a criança não permanece. Ali o imaginário é liberado e o desejo é nomeado; por conseguinte significa o espaço dos encontros furtivos, onde se realizam o adultério virtual dos protagonistas e o crime real dos amantes no primeiro capítulo. Por isso ali Anne externa emoções, conversa com um estranho, se embriaga, exerce a sensualidade, vive…
Em contrapartida, pela posição destacada que ocupa, a residência senhorial configura o espaço da posição social, da lei e da ordem, das imposições e da hierarquia – que se fazem presentes nos rituais precisos no serviço do jantar, nos trajes dos convidados, no comportamento da criadagem, no labirinto de cômodos, janelas, escadas, sempre protegidos de olhares externos. A casa, para Anne, é o espaço de submissão aos códigos, onde ela foi “autorizada” há 10 anos, quando se casou. Por isso ela não atua, ao invés, se anula: não come, não fala, apenas aperta a flor enjoativa e bebe. O marido tenta justificá-la, os empregados criticam seus excessos. Rebeldia, escândalo. Mas tudo se reintegra depois da eliminação simbolizada pelo vômito de Anne. A ordem prevalece sobre o desejo e a evasão, Anne pára de freqüentar o café.
No espaço da opressão, Anne faz figura de objeto, ocupa um espaço, uma função, mas não é. Por isso a reação mais forte se dá nesse espaço hierático: escândalo público no mundo privado, ensejo para que Marguerite Duras, prefigurando a explosão de maio de 1968, mais uma vez conteste a família, aqui sob a ótica do casamento convencional.
A análise de Moderato cantabile pelo prisma do espaço remete a uma condição típica do romance francês, que desde a Princesse de Clèves (1678) alia o enfoque da paixão à inserção na conjuntura social. Entretanto Marguerite Duras, distanciando-se da discursividade vigente, adota o que denominaríamos uma problemática benjaminiana. Ou seja, de um lado a escritora explicita um mundo que perdeu a aura, circunstância que em nosso ver se traduz pelo anonimato a que são relegados personagens e espaços. De outro lado, ao minimizar o narrador, Duras exibe a eliminação daquela voz que fala pela comunidade, voz tornada silente pelo estarrecimento diante da destruição em massa, pelo aniquilamento do indivíduo na sociedade alienante. É nesse espaço da negação que se insere Moderato cantabile, a esse espaço de contemporaneidade se deve mais que tudo sua repercussão.
BIBLIOGRAFIA
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de sua reprodução” e “O narrador”. In: ___ et alii. Textos escolhidos. São Paulo, Abril Cultural, 1975. p. 9-34 e p. 63-82.
DUGAST-PORTES, Francine. Le nouveau roman. Une césure dans l’histoire du récit. Paris, Nathan, 2001.
DURAS, Marguerite. Moderato cantabile. Paris, Minuit, 1958.
LIRE no. 193, oct 1991. Numéro spécial: La vraie vie de Marguerite Duras.
MAGAZINE LITTÉRAIRE no. 278, juin 1990. Numéro spécial: Marguerite Duras.
PAGÈS-PINDON, Joëlle. Marguerite Duras. Paris, Ellipses, 2001.
ROBBE-GRILLET, Alain. Order and disorder in film and fiction. In Critical Inquiry, vol. 4, no. 1, University of Chicago Press, 1977.
SARRAUTE, Nathalie. L’ère du soupçon. Essais sur le roman. Paris, Gallimard, 1956.





Bio fornecida pelo palestrante.

‘NÃO SOU CRONISTA’ : UM ESTUDO DA CRÔNICA DE CLARICE LISPECTOR




‘NÃO SOU CRONISTA’ : UM ESTUDO DA CRÔNICA DE CLARICE LISPECTOR


Darlene J. Sadlier
Indiana University-Bloomington

Ao contrário de seus contemporâneos Raquel de Queiroz e Rubem Braga, que preferiam a crônica a todas as outras formas literárias, Clarice Lispector estava mais apreensiva e era até cética em relação ao propósito de escrever semanalmente para um jornal. Numa das primeiras crônicas que escreveu, intitulada “Ser Cronista,” ela proclama: “Sei que não sou” – embora não esteja claro se essa declaração é simplesmente uma reação a o que o gênero literário deve ser: (“Crônica é um relato? É uma conversa, é o resumo de um estado de espírito?”) – ou se o ato de escrever para um público maior nno fosse antitético ao seu desejo de forjar uma “comunicação mais profundo con[sigo] mesma e com [s]eus leitores.” Apesar das dúvidas sobre a forma e sua própria habilidade como cronista, durante seis anos, entre 1967 e 1973, Lispector escreveu centenas de crônicas para o Jornal do Brasil no Rio de Janeiro. Em 1984, sete anos após sua morte, aproximadamente 500 destas foram colecionadas e publicadas sob o título A Descoberta do Mundo – uma ação que transformou a efemeridade da escrita jornalística em algo muito mais substancial e importante que agora ocupa um espaço na estante ao lado de seus contos e romances mais famosos.
Meu propósito neste estudo é mostrar como um gênero literário que nno tem nenhum parâmetro formal nem temático, com a exceção talvez do foco em assuntos quotidianos, foi um meio ideal para Lispector–apesar de seus protestos ao contrário. Nas suas mãos, a crônica se tornou um veículo para comentários sobre a autoria, a literatura, e os desafios de escrever. Também serviu como um sítio para uma variedade de experimentos formais que abrangeram o que ela classificou como “noveletas” e os vários fragmentos de prosa de poucas ou muitas linhas. O gênero literário foi muito eficaz em capturar a imediação transitória do “aqui e agora” e os momentos epifânicos que Lispector explorou constantemente nos seus romances e contos. Além disso, foi seu mais comprometido modo de escrever. Não quero dizer com isso que a crônica se tornou uma plataforma para as críticas sociais ou políticas em grande escala–algo que teria sido ao contrário do caráter de Lispector, ao mesmo tempo difícil se nno impossível durante a ditadura dos anos 1960 e 1970. Mas algumas de suas crônicas sno inesperadamente diretas na sua crítica da sociedade brasileira, e sua frustração e raiva sno palpáveis. O que segue é um breve comentário sobre cada uma destas características.
Auto-reflexividade:
A Descoberta do Mundo contém um número de metacrônicas, cuja auto-reflexividade é muitas vezes o ponto de partida para uma contemplação sobre algum aspecto da vida quotidiana. Como na ficção de Lispector, que se baseia nos monólogos internos de livres associações, suas observações parecem disconexas–por exemplo, quando ela vai de um comentário sobre gêneros literários para observações sobre dois animais subaquáticos. Na crônica intitulada “Máquina de Escrever”, ela afirma: “Vamos falar a verdade: isto aqui nno é crônica coisa nenhuma. Isso é apenas. Nno entra em gênero. Gêneros nno me interessam mais. Interessa-me o mistério” (375). Logo depois desse comentário, Lispector revela o que chama de “verdades espantosas” sobre o mundo animal, e exprime seu pasmo pelo fato que o siri pode perder a perna e mais tarde regenerá-la como meio de evitar o cativeiro, e que o corpo duma tartaruga sem cabeça, desnudada de sua casca protetora, ainda move como se fosse um fole. Talvez estejamos até de acordo com Lispector que esta nno é uma crônica se aceitamos a opiniao que, embora imprecisa nos seus parâmetros, a forma ainda se baseia em conexões lógicas e na ordem mais ou menos racional do ensaio pessoal e informal. Ao contrário, Lispector adota conexões metafóricas ou poéticas, sugerindo que, como os animais que ela descreve, há algo igualmente milagroso no ato de escrever–sobretudo o tipo de escrita que pode sobreviver (como a tartaruga) e perpetuar-se (como o siri) mesmo quando renuncia ou abandona as regras e convenções e procura “apenas ser”.
Lispector esclarece, em “Máquina de Escrever” e em outras crônicas, que ela está fascinada pelo mistério de sua vida como autora. Na crônica intitulada “Amor Imorredouro,” ela nos diz outra vez que a que está escrevendo “nno pode ser propriamente chamada como uma crônica.” E prossegue, ruminando sobre sua inexperiência como cronista e sua perplexidade com que assuntos deve explorar na coluna. O que mais a preocupa é se o ato de escrever crônicas talvez a conduza a revelar demais sobre si mesma – como se o mistério de sua pessoa, baseado em sua vida algo solitária e seu estilo elusivo e muitas vezes difícil, fosse ser ameaçado pelo jornalismo. Apesar de comentários repetidos sobre a privacidade, ela freqüentemente mina o potencial autobiográfico da crônica de uma maneira às vezes inesperada e intrigante. Por exemplo, um dos fragmentos que aparece na sua crônica do dia 4 de fevereiro de 1968 toma a forma dum breve recado ao linotipista (o título é “Ao Linotipista”) no qual ela se desculpa por seus vários erros tipográficos. Lispector explica que os erros são o resultado duma injúria a sua mno direita que foi queimada num acidente. (Esta é só uma de várias referências que ela faz ao fogo que destruiu seu apartamento quando adormeceu com um cigarro aceso na mão.) A mão prejudicada, fato conhecido por muitos leitores, provoca o seu “pedido” que faz mais tarde ao linotipista para deixar de corrigir sua pontuação nas crônicas. “A pontuação,” ela diz, “é a respiraçao da frase, e minha frase respira assim. E, se vocL me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar” (70) E ela termina o fragmento com a frase: “Escrever é uma maldição” (70).
Experimentação Formal:
Além de ter composto centenas de crônicas que consistem em grupos de fragmentos longos e curtos, Lispector escreveu o que ela chamou “conversas” entre si mesma e outros (sobretudo seus filhos e suas empregadas), diálogos anônimos, e entrevistas nno-convencionais com escritores e artistas quem ela estimou, incluindo Pablo Neruda, Alceu Amoroso Lima e Chico Buarque de Holanda. Uma de suas crônicas mais distintas, intitulada “Sou uma pergunta”, é composta de uma lista de 90 curtas perguntas que abrangem inquéritos pessoais: “Por que escrevo?” “Por que minto?” “Por que digo a verdade?” “Por que acendi o cigarro?” E questões existenciais: “Por que há o infinito?” “Por que há o tempo?” “Por que há flores?” “Por que há uma galinha?” Muitas das crônicas tomam a forma de respostas a seus leitores. Por exemplo, em “Um telefonema”, ela descreve uma chamada de uma leitora anônima que simplesmente quer cumprimentá-la e dizer-lhe que deseja que ela seja feliz. Lispector a cumprimenta, desejando-lhe felicidade também, a aconselha a que nno deva ler tudo que escreve “porque muitas vezes [é] áspera e não quer […] que receba [sua] aspereza (69). Outra crônica toma a forma de seu título: “Cinco relatos de um tema,” que envolve cinco histórias sobre uma mulher cuja casa está cheia de baratas–uma referência B intriga do romance A paixão segundo G.H.. Quatro das cinco versões, cada uma com seu próprio título, começa com a frase: “queixei-me das baratas”. Com cada versão, o plano da mulher para matar os insetos se torna mais complexo e surrealista. Ao contrário dos primeiro quatro segmentos, que descrevem de maneira mais e mais detalhada a preparação do veneno, a morte das baratas, e o trauma psicológico criado pelos insetos mortos que agora assombram a imaginação da mulher, a versão final transforma a história gótica, com suas referências a salas obscuras, assassinatos e formas espectrais, numa piada. Chama-se “Leibniz e a transcendência do amor na Polinésia” e começa: “Queixei-me de baratas” (227).
Outras crônicas sno inspiradas pela mídia: “Dia da Mne Inventada” lL-se como uma reportagem jornalística sobre crianças abandonadas e está cheia de fatos e informações impessoais. “Chacrinha” é uma resenha negativa de um programa na televisão cuja estrela se chama Chacrinha. Outra crônica toma a forma de um anúncio para um assistente que pode organizar seu calendário e seus papéis. A crônica “Faz de conta” consiste em uma única oração de 20 linhas que parodia o jogo de crianças baseado na repetição da ordem: “faz de conta”. Outras crônicas se parecem com os verbetes dos dicionários. Por exemplo, o fragmento intitulado “Saudade” inicia-se com: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas Bs vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida” (105).
Entre as centenas de fragmentos, acham-se as “noveletas” – um tipo de crônica seriada. Muito pouco distingue essas noveletas, como “A Princesa” (que durou 4 semanas), dos contos de Lispector. De fato, “A Princesa” começa com uma cena que evoca seu conto famoso “A Galinha,” de Laços de Família, onde uma família passa por uma epifania quando uma galinha, que vai ser morta para o jantar, de repente bate as asas e pte um ovo. A galinha sobrevive porque a família se dá conta de seu poder para criar a vida. Porém, com o passar do tempo, essa realização importante diminui na consciência da família até que um dia a família a mata e consome. Na noveleta “A Princesa”, o piar dum pinto comprado pela autora durante a Páscoa evoca a lembrança de outro pinto que ela comprou anos atrás e um confronto silencioso entre ela e uma criança/vizinha petulante que se chamava Ofélia. Um dia o comportamento obstinado de Ofélia muda quando ela ouve e logo depois vê o pinto. Mas seu amor e o desejo de possuir o pinto a conduzem a matá-lo clandestinamente.
Sobre as Epifanias:
De certa maneira, todas as escritas de Lispector podem ser descritas como epifanias – não o tipo associado com revelações religiosas, senão aquele momento típico da arte modernista quando a rotina do quotidiano cede terreno a um rápido e mais profundo sentido de ser. Na crônica “A volta ao natural”, que Lispector classifica como “trecho”, ela descreve uma cena na qual uma mulher observa um homem que cuida de um fogo na lareira. A descrição enfatiza os diferentes papéis dados aos homens e mulheres: o papel do homem inclui carregar a lenha, preparar e mexer o fogo enquanto o papel da mulher consiste em julgar se o fogo pegou bem ou se precisa de mais cuidado. A natureza prescrita e automática dessas ações de repente assume um caráter diferente quando a mulher nota a mão livre do homem que fica a seu alcance. A proximidade da mno dele transforma o que até este ponto foi uma atividade comum num momento de desejo e paixão. A descrição da mulher sendo consumida por um “fogo doce [que] arde, arde, flameja” faz o momento até mais intenso e lancinante. E a mulher saboreia o que sabe ser uma sensação que – como o fogo – não vai durar. No fim da crônica, ela pega a mno livre do homem. E aquele ato simples a transforma no “doce fogo” de sua paixão e agora é ela que “doce [que] arde, arde e flameja” (98).
Devo mencionar que esta crônica/trecho, que apareceu ao lado de três outros fragmentos, a 5 de maio de 1968, no Jornal do Brasil, reaparece sob o título “Vida natural” em 5 de maio de 1973. A organizadora da coleção não diz nada sobre esta curiosidade e nno há outro exemplo de duplicação no volume. Parece importante notar que esta crônica reaparece exatamente cinco anos mais tarde no jornal–como se Lispector estivesse escolhendo-a por alguma razão especial que, dada a natureza efêmera das crônicas nos jornais, foi provavelmente só reconhecida por ela. Que foi publicada sozinha nesta segunda versão é outro indício de sua importância. Ao ler-se a coleção do início até o fim, a duplicação tem seu próprio efeito epifânico – como se o texto estivesse chamando atenção para sua própria existência.
Escolhi esta crônica para representar as muitas outras nas quais Lispector descreve os momentos únicos de consciência e reconhecimento que ocorrem inesperadamente no dia-a dia. Uma diferença significante entre suas crônicas/fragmentos e sua ficção mais longa é que nno só há mais insistência explícita na relação entre o ser e o existir nas crônicas, mas também uma maior necessidade implícita – quase um anseio – para que os leitores entendam esta relação.
A Crítica Social:
Em 1968, no meio da ditadura militar, Lispector escreveu o “trecho” intitulado “Estado de Graça”, que é uma meditação sobre o momento epifânico. O “trecho” tem um tom um pouco didático e descreve as diferentes experiências que esse estado mental pode induzir. O texto é muito pessoal: “…eu não quereria ter com muito freqüência o estado de graça. Seria como cair num vício, iria me atrair como um vício, eu me tornaria contemplativa como os fumadores de ópio. E, se aparecesse mais a miúdo, tenho certeza de que eu abusaria: passaria a querer viver permanentemente em graça” (91). Ao mesmo tempo, Lispector é muito explícita que tais momentos sno absolutamente essenciais para contrabalançar “os dias áridos e desérticos” e o sofrimento.
O que é interessante a respeito desta crônica é o pós-escrito que lança esta contemplação sobre as revelações no “aqui e agora” da política brasileira. Numa só oração, que fica separada do resto do texto, Lispector escreve: “Estou solidária, de corpo e alma, com a tragédia dos estudantes no Brasil”. A perseguição governamental do movimento estudantil foi fonte de ansiedade e queixa de muitos brasileiros, e Lispector apoiou o movimento quando participou numa passeata para protestar as ações governamentais. Embora seu comentário nno seja nada extraordinário nem único, seu aparecimento no fim dum texto sobre o poder das epifanias dá-lhe a força e o peso da experiência existencial que está descrevendo.
Em várias outras crônicas Lispector escreveu sobre a falta de Brasil em eliminar a fome. A intensidade com que trata esse assunto nno pode ser subestimada. A primeira crônica da coleção, intitulada “Crianças chatas,” é sobre uma mne e criança esfomeadas que, exaustas pela fome e resignadas à dor, finalmente adormecem. Lispector fica horrorizada com as cenas de fome na rua e escreve que a resignação nno é alternativa e que tem fome da revolta. A crônica “Daqui a 25 anos”, que aparece semanas mais tarde, fala outra vez sobre a fome, mas de uma maneira até mais poderosa e direta. Quem já leu A hora da estrela talvez se lembre que a dedicatória do autor que abre o livro diz que a história que vai ser contada acontece num “estado de emergência e calamidade pública” – embora a autora nno seja explícita em relação à fonte dessa emergência e calamidade. Na crônica “Daqui a 25 anos,” a fonte se torna mais clara: “Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome… milhares de homens, mulheres e crianças sno verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão, como diante de calamidade pública…” (51).
Lispector apóia a causa dos estudantes outra vez numa crônica que toma a forma duma carta aberta ao Ministro de Educação. Nessa carta, Lispector se queixa das cortes das verbas para os alunos que se estão candidatando para vagas nas universidades e se refere B nova legislação em termos de um crime nacional. Em uma das suas crônicas mais conhecidas, intitulada “De como evitar um homem nu”, ela critica a censura que proibiu o lançamento do filme “Como era gostoso o meu francês”, Nelson Pereira dos Santos por causa da nudez das personagens da história. Na sua defesa do filme, que ela viu numa mostra privada, Lispector escreveu: “O filme foi considerado atentatório ao pudor, aos costumes e à moral. Mas a censura implicou verdadeiramente com o nu masculino. Depois de alguma discussão deixaram passar o nu masculino dos índios – mas disseram que o nu do homem branco – o francês – que viveu entre os índios e adotou-lhes os modo de viver–nno seria permitido. Talvez seja inocência minha, mas, por favor, me respondam: qual é a diferença entre o corpo nu de um índio e o corpo nu de um homem branco?” (413).
Na crônica “A matança de seres humanos: os índios”, Lispector protesta contra a venda de terras nacionais pelo governo e advoga a criação de parques para preservar os indígenas e suas terras. Ademais, ela exige a adoção imediata de reformas do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária – reformas que continuam a serem debatidas até agora.
O interesse recente na memória e autobiografia torna a crônica até mais atraente para os estudiosos do gênero literário. As crônicas de Lispector nos revelam muitos coisas sobre seu mundo de escritora e sua paixão pelo que é milagroso na vida quotidiana. Não há nenhuma dúvida que a crônica lhe deu a liberdade de experimentar com o estilo e de tratar de certos assuntos que foram apresentados indiretamente em sua ficção. E ela ganhou um novo público e uma popularidade maior como autora. Apesar de suas dúvidas em escrever para um jornal e suas preocupações com a crônica como gênero literário, ela conseguiu manter aquela aura de mistério que temeu perder ao escrever explicitamente sobre si mesma. Ao mesmo tempo, atingiu uma intimidade e uma solidariedade com seus leitores que vão muito além daquilo que se encontra no resto da sua obra.
Bibliografia
Lispector, Clarice. A Descoberta do Mundo. Org. Vera Queiroz. 3ª ed. São Paulo: Francisco Alves, 1992.
—. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.





Bio fornecida pelo palestrante.

DA CRISE DO SÉC. XIV À CRISE DO SÉC. XX: UMA CIRCULARIDADE ATRAVÉS DO DECAMERON, DE GIOVANNI BOCCACCIO, E O SEXAMERON – NOVELAS SOBRE CASAMENTOS, DE LUIZA LOBO




DA CRISE DO SÉC. XIV À CRISE DO SÉC. XX:
UMA CIRCULARIDADE ATRAVÉS DO DECAMERON, DE GIOVANNI BOCCACCIO,
E O SEXAMERON – NOVELAS SOBRE CASAMENTOS,
DE LUIZA LOBO

 

Giselle Martins de Oliveira
Aluna do curso de Português- italiano da UFRJ

 
Assim como o Decamerão fora capaz de retratar todas as questões mobilizadoras da atmosfera do final da Idade Média, especificamente do Trecento italiano, Luiza Lobo, através da intertextualidade, escreve uma obra com aspectos que transcendem seu tempo, no séc. XX.
Sabemos que, ao longo do tempo, a história segue um trajeto espiral no qual os acontecimentos estão sempre se repetindo com apenas algumas modificações. Nessa pesquisa nosso enfoque será essa circularidade que demonstraremos sempre através de paralelos entre os dois textos, numa breve análise entre os dois contextos históricos e suas respectivas obras.
O século XIV é marcado especialmente por transições e crises. É preciso ter em mente que nesta época estávamos presenciando o final das Cruzadas que a Europa já estava praticamente toda ocupada, e as terras cansadas provocavam péssimas colheitas, criando um cenário de fome e revoluções camponesas. Assim como no século XIV, no século XX a situação é de crise. Segundo Eric Hobsbawn em seu livro A era dos extremos: O breve século XX, esta época foi de guerras mundiais, quentes ou frias, ocorridas em cenários de destruição em massa cada vez mais apocalípticos. A voracidade do capitalismo, da globalização e do neoliberalismo exacerbados culminou numa capacidade suficiente para destruir o mundo. Sendo assim, no séc. XX, a fome não se dá por problemas agrários ou naturais, mas sim por uma má distribuição da alta tecnologia, e por uma concentração de terras nas mãos de poucos.
Agravando aquele cenário de caos do séc. XIV, temos a chegada da Peste Negra, que encontra um terreno fértil: falta de higiene, população desnutrida, medicina não desenvolvida; enfim, tudo isso tornou fácil a dizimação de um terço da população européia chegando a Florença em 1348. No entanto, a verdadeira causa da doença era ignorada (e continuaria a ser até o século XIX ). Mesmo no final da Idade Média a medicina preventiva resumia-se em quarentena. Atribuía-se quase tudo à influência dos astros, e não era raro que os médicos mais famosos fossem também astrólogos. Para os pobres e ignorantes, a resposta era bem simples: todos os males eram castigos de Deus, irado com os constantes pecados cometidos pelo homem.
Enquanto isso, no séc. XX, a nova peste tem seu primeiro caso detectado no final da década de 1970 (1979/1980), nos Estados Unidos, com um homossexual. No Brasil a nova peste chega em 1982, em São Paulo. Em menos de duas décadas tornou-se caso de calamidade pública e mesmo com a medicina avançando dia após dia, o maior resultado foi o prolongamento da vida do doente e a prevenção. No início, muitos ignorantes também achavam que a doença era proveniente do diabo, principalmente os religiosos, que não aceitavam o comportamento de homossexuais.
No século XIV, a realidade caótica gera no homem uma mudança de pensamentos que passa, então, a refletir sobre a verdadeira posição de Deus frente aos homens e a dos homens frente a Deus e à sociedade. Ou seja, o homem diante de sua crítica realidade de fome e peste, passa a contestar o que a Igreja legitimava como status quo – a idéia de que a sociedade havia sido organizada por Deus – desencadeando, então, uma crise na Igreja Católica. Outro fator que colaborou para a nova oposição à Igreja Católica era sua postura contra o lucro, uma vez que estávamos em pleno desenvolvimento do mercantilismo. A propósito, foi a revolução mercantilista, que se destacava principalmente na Itália, que permitiu o desenvolvimento de uma classe burguesa que passa a financiar uma nova arte de acordo com suas próprias exigências.
O século XX é caracterizado por M. Stürmer como de “grande insegurança, crise permanente e ausência de qualquer tipo de status quo”. Se no século XIV a Igreja Católica se via em crise, isso também ocorre no séc. XX, quando o catolicismo romano e as religiões tradicionais perdem espaço para um “punhado de seitas rivais que tinham sua força concentrada na capacidade de mobilizar emoções próximas às da religião tradicional, mas com a promessa de dar soluções duradouras para o mundo em crise” (Hobsbawn, p. 542).
Em relação à inserção dos autores nesses contextos, podemos dizer que ambos tiveram condições suficientes para construírem suas obras. Enquanto Boccaccio era filho de comerciante rico e teve contato com as melhores bibliotecas, chegando a largar o comércio e o estudo canônico para se dedicar às letras e ao estudo de autores como Dante e Petrarca. Luiza Lobo é professora e doutora com dois pós-doutorados em literatura comparada possibilitando o estudo específico e somatizado dos três autores anteriores.
O Decamerão foi escrito entre 1348 e 1353, no auge da peste em Florença. Segundo o professor de italiano da UFRJ, Carlos Sobral, a obra assume formas num cenário capaz de simbolizar as fantasias que habitavam o imaginário do cotidiano daquela época, construindo assim um verdadeiro mosaico cultural do Trecento italiano. Para fugir da peste dez jovens se isolam num castelo narrando 100 histórias com variados temas, com a eleição diária de um narrador e assim iniciam seus relatos. O próprio título Decameron deriva do grego; é um genitivo plural que significa de dez dias e tem referência à composição da obra, uma vez que, apesar desta inserir-se num intervalo de duas semanas, a narrativa dispõe de um total de dez dias, pois nas sextas e sábados não havia narrações por respeito à morte de Cristo e por ser um dia dedicado aos cuidados pessoais. O subtítulo pouco usado Príncipe Gallioto refere-se à mundanidade que é um dos principais temas da obra boccacciana.
Sendo assim, os principais aspectos encontrados na narrativa são:
a) O AMOR: o amor boccacciano é sensual, carnal, físico e de certo ponto de vista erotizado. Poderíamos ir um pouco além e considerá-lo visceral, algo essencial e inevitável. Em praticamente todas as novelas há a presença do amor que nem sempre possui um tom digressivo, como o amor puro de Elisabetha (5ª novela da 4ª jornada) ou o amor incondicional das grandes virtudes como o de Criselda (10ªnovela da 10ª jornada.) .
b) TRAPAÇA, ESPERTEZA: A trapaça e a esperteza estão bem definidas em toda a narrativa como característica inerente a quase todos os homens. É a partir desses dois aspetos que os enredos da maioria das novelas são construídos, mostrando todas as facetas dos homens com suas suas características mais impulsivas, que marcam a culminância de sua esperteza diante da maneira de tentar sempre se dar melhor do que os outros no quotidiano da sobrevivência.
c) RELIGIÃO: Para Carlos Sobral, Boccaccio se preocupa em criticar a Igreja enquanto instituição, não duvidando da fé em si, mas sim das superstições, os falsos milagres e ídolos. Esta crítica exemplifica a fé do povo quando um ladrão que passa a vida pecando ao morrer faz sua única confissão sendo enterrado como santo devido às suas mentiras. (1ª novela da 1ª jornada.).
d) SORTE, DESTINO: A sorte dá um tom irônico e cômico a muitas novelas, como na de um jovem chega à cidade para comprar cavalos e é roubado por uma jovem que finge ser sua irmã; no entanto, ao juntar-se a ladrões, ele é que os passa para trás.
e) A PESTE: É enfocada como sentença de morte inevitável, dando à obra um pano de fundo que leva ao leitor um tom efêmero de vida, possibilitando a coragem de desvendar as falsidades da sociedade, dos costumes e dos bons modos, favorecendo a explosão, o impulso e a voracidade dos desejos .
f) A MULHER: A mulher é inserida no contexto do que foi dito sobre o amor. Ela é a perdição de muitos homens, perdendo aquela imagem de perfeição angelical representada por Dante. Agora é objeto de desejo carnal, atuando tanto quanto os homens nos jogos de sedução, trapaça e esperteza.
No entanto, a riqueza do Decameron não pára por aí. Boccaccio estudara muito Dante Petrarca (juntos formavam o tripé da literatura italiana), o que levou a escrever o Decameron em latim vulgar (o dolce still nuovo), baseando-se especificamente no De vulgare eloquentia. Essa atitude permitiu a difusão do florentino que mais tarde se tornaria a língua italiana.
Há no Decameron um ritmo único devido à conclusão de cada novela com uma balada, fornecendo à obra musicalidade. Enriquecendo ainda mais o todo, podemos dizer sobre os empréstimos de mitos, personagens e símbolos da prosa de clássicos latinos que serão os signos vivos de um novo modo de escrita, a qual constituirá paradigma para a narrativa italiana.
Assim como Boccaccio, Luiza Lobo escreve uma obra composta por novelas. Elas têm como tema principal o casamento, mas em torno deste tema desenvolvem-se outros temas secundários que nos remetem à obra boccacciana. São eles: crítica a instituições sociais, o comportamento humano, o amor, a esperteza entre outros.
Comprovando novamente uma circularidade, desta vez proposital, Luiza Lobo utiliza a intertextualidade, a partir da introdução e da conclusão do Decameron. Para a maior proximidade do texto faço uso das palavras do livro:
Em Sexameron, Luiza Lobo trilha o caminho da aventura e da rapidez cinematográfica na criação de suas personagens femininas unindo o imaginário a um olhar irônico do mundo. Amadurecida na insistência de percorrer o mistério da criação literária, a autora reescreve o Decameron de Boccaccio através de seis pequenas novelas que restaram daquilo que teria sido o Sexameron: a narrativa de sobreviventes de um mundo destruído por uma nova forma de peste, o sexo – a relíquia arqueológica encontrada por uma civilização qualquer do futuro. Ora sombrias, ora fantásticas, às vezes sublimes, quase sempre carregadas de hipocrisia, as narrativas seriam o resíduo de um mundo destruído por seus próprios vícios e paixões.
A partir da fuga de seis jovens – Margarida/Diana, Efebo, Narciso, Cremilda, Alcione e Elisa – de um mundo em destruição de uma nova peste, a aids concretizada no sexo inicia-se a narração de seis novelas. Luiza fez um texto muito satírico onde predomina um clima soturno, mas acima de tudo, crítico da posição da mulher e da instituição do casamento. Para isso faz uso de artifícios como o próprio título Sexameron e não Hexameron, como esperado, remetendo ao sexo; de cenas fortes; de personagens com características duvidosas como homossexuais enrustidos; de mulheres independentes profissionalmente, mas carentes de amor; entre outros.
Sendo assim, podemos analisar os principais temas da obra da mesma perspectiva utilizada para obra boccacciana:
a) O AMOR: Luiza Lobo retrata o amor em sua forma carnal, mas principalmente decadente, interesseiro, e por vezes traidor e sórdido. Isso é bem explicitado logo na primeira novela em que Neusa encontra seu marido depois de segui-lo até uma festa com apenas homens nus que “brincavam de elefantinho arrastando-se pelo tapete”, mas quando descoberta, é morta pelo cão de guarda com a ajuda do próprio marido. A única passagem que podemos atribuir um tom menos soturno relativo ao amor é na quarta novela em que a personagem mantém viva a imagem de com teria sido seu amor se não tivesse o abandonado.
b) TRAPAÇA, ESPERTEZA: Assim como Boccaccio, Luiza Lobo também aborda a trapaça e a esperteza como inerente à maioria dos homens, transparecendo isso em todas as seis novelas. Na terceira jornada por exemplo, a autora retrata um gigolô de luxo que foge com o dinheiro da esposa que o sustentava. Também na quarta noite, quando a personagem Margarida reflete bem a posição da autora com suas palavras : “Minha querida, se você não tem esperteza, tino, premonição e estratégia política, seu destino é a anulação.” (p.60).
c) SORTE, DESTINO: Mais uma vez, podemos encontrar a circularidade proposta neste trabalho. Luiza expõe tanto a sorte como o destino ironicamente, principalmente na quinta novela em que é narrada a história de uma solteirona presa à única coisa que conseguiu em toda a sua vida, seu emprego público. Por conta da SORTE, um dia surge um homem que a pede em casamento e lhe dá a oportunidade de sair da casa do pai e ter uma vida de verdade. Mas por força do DESTINO, não consegue chegar a tempo para concretizar seu sonho.
d) A PESTE: Novamente a peste fornece à narrativa um tom de medo e ameaça, é o impulso para o início de toda a história. É sempre insinuada e repelida imediatamente pelas personagens, em um clima constante de fuga da realidade. “Então você acha, Alcione, que a grande peste penetraria aqui também?” (p.16- fala de Narciso).
e) A MULHER: Como uma feminista e grande difusora do papel da mulher na literatura, Luiza Lobo aborda suas personagens femininas dualmente. Se por um lado, faz questão de mostrar a independência financeira de todas as suas personagens, por outro critica a postura das mesmas, em relação ao casamento – todas são obcecadas por casamento -, todas têm uma visão ingênua do homem. Na segunda novela a narradora refere-se à “ingenuidade feminina em todos os seus juízos sobre os homens” antes de começar a história.
Há também outros ponto abordados, como a dura crítica ao casamento como apenas obrigação moral. Além disso, o homossexualismo é muito presente, às vezes com naturalidade, e às vezes como tabu ou perversão. Da mesma forma que Boccaccio, usou empréstimos lingüísticos e de personagens de obras consagradas. A narrativa vem em cenas sobrepostas com um fio que as unem, o casamento.
Podemos perceber pela própria literatura, como foi fácil manter esse movimento contínuo, no entanto o futuro não pode ser apenas a continuação do passado. Os sinais, tanto externos quanto internos nos mostram que chegamos à uma crise histórica. As forças geradas por esse sistema capitalista finissecular são capazes de destruir as fundações materiais da vida humana. Na verdade ele próprio está em iminência de ser destruído pelo desgaste de repetidas crises. Logo o prolongamento do passado e do presente não pode constituir o nosso futuro.





Bio fornecida pelo palestrante.

RELAÇÕES ENTRE ESPAÇO E ESCRITA NA LETRA DE LUIZA LOBO




RELAÇÕES ENTRE ESPAÇO E ESCRITA NA LETRA DE LUIZA LOBO
 
RECUPERAÇÃO DA ADOLESCÊNCIA
é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço

(Ana C., “Cenas de Abril”)

 
Na leitura desse texto, parto de uma “antiviagem” na qual o navio do poema de Ana C. simula a própria narrativa que se deseja recuperada, enquanto o espaço no qual esse navio deseja ancorar é aqui lido como metáfora do espaço de inscrição de quem narra.
Afogada e dissolvida a grande “metáfora da navegação” que engendrou a narrativa épica, partimos de uma pergunta: qual seria nesta leitura, nesta “antiviagem”, a dificuldade encontrada pelo navio – a narrativa – para ancorar no espaço de sua inscrição? Esta, a indagação norteadora deste texto. Sei, de antemão, não existir uma única resposta para nomear essa dificuldade.
No entanto, uma possível senha pode ser colhida em “Antiviagens” – ensaio de Luiza Lobo no qual a autora propõe “uma leitura textual a partir da noção de antipériplo, antiépica ou de uma antiviagem ou viagem ao revés”. Referindo-se à desconstrução do gênero épico e sua travessia do epos, canto “coletivo e melódico” de um povo, para uma “produção” individualizada, a autora situa essa transformação épica numa história que ostenta o seguinte roteiro:
…uma história cada vez menos totalizadora e universal, porque dedica menos espaço ao sobrenatural, ao mitológico, e mais importância aos acontecimentos factuais e à forma como são vividos, tornando-se mais fragmentária e existencial…
Assumindo colher na leitura da modernidade de Walter Benjamin sua senha, Luiza nos dá um possível ponto de partida para a “antiviagem” empreendida a partir daquela indagação inicial: qual a dificuldade da narrativa para ancorar – inscrever-se – no espaço da escrita? Uma outra possível resposta para esta dificuldade pode estar na leitura das relações entre o espaço e a escrita, sugeridas no conto “O chupador acadêmico” – o 6º dentre os dez textos que compõem o volume de “Estranha Aparição”. Neste conto Luiza Lobo estetiza uma pesquisadora acadêmica, cujas “narinas de fera sanguinária” farejam as empoeiradas páginas de uma antiga biblioteca universitária. Em seu “passeio lodoso pelas catacumbas do saber”, essa narradora contata um velho professor que está escrevendo uma enciclopédia, e vivifica
…um universo lingüístico de quando a literatura era a rainha do mundo e único instrumento de lazer, uma era dourada anterior ao rádio, ao cinema, à televisão e ao vídeo, à história em quadrinhos e ao telefone.
Acrescente-se a esses suportes materiais o computador. Com base neste cenário maquínico e virtual e naquela história fragmentada – na qual a noção de totalidade perdeu o sentido – inscreve-se a escrita da geração de Luiza. Neste cenário circula um sujeito órfão dos “valores mítico-históricos e heróicos da Idade Média” , dos ideais humanísticos herdados do Renascimento e das idéias de representação e de produção do sentido cultivadas pela modernidade.
Se aos modernos coube a releitura dos valores transcendentes e a representação da cena do assassinato divino, à geração da autora restou uma simulação meio “portátil”: questionar a construção dos modernos valores metafísicos e transplantar o céu – antigo espaço de leitura do conhecimento – para a tela luzidia do computador. Um “céu” no qual, convenhamos, anjos, demônios e “chupadores” virtuais “navegam” por cenários em ruínas inscrevendo o mal-estar da civilização, da pós-modernidade.
É a partir deste espaço mutante – problematizado pela intensificação da ação da letra nele “ancorar”, ou seja, inscrever-se – que se projeta a escrita contemporânea. A leitura dessa escrita pode ser ouvida no registro de uma voz representativa da própria geração da autora: “Luiza Lobo lançou um muito belo livro de contos” . Com essa frase, a poeta Ana Cristina Cesar encerrava uma carta de 1976 para Cecília Londres – sua ex-professora de Letras na PUC -, que se encontrava na Europa.
O livro ao qual a poeta de “A Teus Pés” faz referência intitula-se “Por trás dos muros”. Depois dele Luiza lançou, além de vários textos ensaísticos, “Vôo Livre” (1982), “Maçã Mordida” (1992), “Sexameron” (1997) e “Estranha Aparição” (2000). Na orelha deste quinto livro de ficção, o poeta Sebastião Uchoa Leite ressalta uma letra erótica que incursiona por zonas de estranhamento e indefinição, recorrendo freqüentemente ao humor. Mas, segundo o poeta de “A ficção Vida” , é de uma certa “mescla cultural” “que Luiza Lobo retira a súmula do seu poder inventivo”.
Esse “poder inventivo” da autora pode ser aferido já no conto “As ostras do sexo” que abre o volume de “Estranha Aparição”. No referido texto estão presentes alguns dos procedimentos estéticos dos quais a autora lançará mão nos contos seguintes. Dentre esses procedimentos destaca-se a predileção por uma escrita que possui na visibilidade um dos principais sentidos de sua inscrição. Plugado numa dimensão sensorial que aciona inusitadas comparações, o referido texto é fortemente centrado no sentido da visão, no “efeito da cor sobre a carne”.
Mas em “Estranha Aparição” – conto homônimo ao título do volume – a ação do olhar parece se fazer ainda mais visível. Constrói-se no referido texto uma espécie de didática do olhar atestada no uso de lexias , como: “dardejado um olhar”, “chegado ao olho mágico”, “olhos eram de louco”, “os olhos lhe perfurando o cérebro”, etc. Essa ação óptica presente no livro “Estranha Aparição” define, em textos como “As ostras do sexo”, a utilização de um recorte vocabular voltado para artes imagéticas como a fotografia e o cinema (cena, off, Setting, flashback, luz branca vazada, the end, ending…). Além disso, destaca-se em vários contos do mencionado volume o repertório da referida “mescla cultural”, como atesta o vasto intertexto histórico e literário tecido pela autora.
A predileção de Luísa Lobo pela linguagem visual é também visível em sua produção ensaística, como lemos no texto “Globalização e Ideologia” . Neste ensaio a autora reflete acerca das mutações ocorridas nos espaços da arte e da cultura, a partir das mudanças de percepções acionadas pela reprodutibilidade técnica, cuja inscrição se dá com base na recepção óptica de Walter Benjamin e na dialética da negatividade de Theodor Adorno. Segundo Luiza,
… a linguagem visual e cinematográfica apresenta a simultaneidade de sons, falas, movimentos, que se intercalam numa ordem aparentemente aleatória e numa velocidade impressionante.
Com base nessa linguagem, o conto “As ostras do sexo” apresenta – como numa montagem cinematográfica – imagens que se multiplicam na memória, sugerindo vários epílogos possíveis no decorrer da própria narrativa. Nesta inscreve-se uma letra que possui no intertexto com Stern, Drummond, Mário de Andrade, Marx e Mallarmé, dentre outros, sua base. A autora sabe que “a literatura pós-moderna se constitui de antipériplos, intertextualidades e antiviagens” .
Além desses autores com os quais Luiza aciona o procedimento da intertextualidade, dois poderosos mitos passeiam de mãos dadas neste espaço textual: Eros – promotor da vida e da desordem, e Mnemosyne – a deusa da reminiscência. Mas é aqui imperativo ressaltar a incompletude memorialística (“ostras boiando na memória apagada”), e a vivência de uma afetividade e uma sexualidade que geralmente descambam para o espaço dos questionamentos existenciais. Isso é notório na conclusão do citado conto, “As ostras do sexo”, onde a narradora cala e seu discurso interrogativo compartilha com o leitor a palavra final:
Não haveria um limite, um princípio, uma medida, uma causa, um enredo, afinal? Sorvia o café e não atinava com a resposta .
A indagação final da pesquisadora parece reportar à própria dificuldade de inscrição da letra num espaço no qual as noções de “medida” e “limite” foram destruídas pelas vanguardas. Podem, sobretudo, remeter aos princípios dos paradigmas artísticos e culturais desconstruídos pelo Estruturalismo e à releitura identitária acionada pelos estudos culturais; nestes, o espaço de inscrição da identidade passa a ser enquadrado a partir do “espaço da escrita” e não mais do “campo de visão” do sujeito. Ou seja: para Homi Bhabha importa “o lugar discursivo e disciplinar de onde as questões de identidade são estratégica e institucionalmente colocadas” .
Com base nessa revisão histórica, esses estudos se voltam para o passado relendo a cultura não como viagem de retorno, mas como produção sintonizada com um devir; o que possibilita indagar o que poderemos fazer com nossa tradição e não o que ela, a tradição, poderá fazer conosco (Stuart Hall). Neste olhar para a cultura e a tradição, vislumbra-se também a releitura dos valores que fundamentam o cânone literário – um dos itens mais abordados no nível temático de textos como “O Chupador Acadêmico”.
Podemos imaginar ainda que a falta de respostas e as indagações conclusivas da narradora de “As ostras do sexo” traduzem um tempo no qual a utopia parece debilitada e o sujeito cata uma causa, uma ideologia a partir da qual possa elaborar algum trajeto político e/ou existencial. Da narrativa tecida a partir desta problemática – os limites formais das vanguardas, a desconstrução canônica, a perda do sentido, a releitura identitária e o vazio ideológico – não restou mais do que uma viagem via linguagem. Uma “antiviagem”. Ou, como diz o “Chupador Acadêmico”, existe apenas “um simulacro de mistura de enredos”.
Ancorando o navio no espaço
É justamente neste conto – “O chupador acadêmico” – onde talvez possa ser vislumbrada, com mais nitidez, uma resposta àquela indagação inicial – a dificuldade encontrada pela escrita contemporânea para “ancorar” no espaço de sua inscrição. No referido texto Luiza utiliza-se, dentre outros, dos mesmos procedimentos entrevistos em “As ostras do sexo”: o repertório da “mescla cultural”, a mixagem de imagens visuais, a inscrição de Eros e Mnemosyne como mitos a partir dos quais o discurso da narradora se constrói e o intertexto literário.
Além da intertextualidade, em “O chupador acadêmico” – como o próprio título sugere – predominam procedimentos artísticos de apropriação da escrita e de vampiragem estética, como a simulação, a colagem e o “mosaico de citações” (Walter Benjamin). A partir disso, tornam-se audíveis no texto de Luiza as vozes de, dentre outros, Castro Alves, Olavo Bilac, Jane Austen, Machado de Assis, Shakespeare e Borges.
Essas vozes são audíveis num espaço no qual à escrita impressa imprime-se forte polifonia, e à letra virtual resta a releitura do nosso vasto arquivo de formas. Com a mesma desenvoltura, a narradora transita pelo polifônico espaço físico da página e da biblioteca e pelo imagético espaço da virtualidade. É interessante confrontar as diferenças entre esses espaços pelos quais ela circula. Enquanto os espaços da página e da biblioteca se prestam a um “passeio lodoso pelas catacumbas do saber”, ao virtual cabe a seguinte descrição :
A cultura lépida e ‘clean’ da informática puritana tinha colocado em desuso velhos ranços da tradição parnasiana acadêmica, com seus lápis, canetas e fitas de máquina que borravam as mãos e deixavam os dedos rançosos de manuscritos herdados de velhos eremitas.
Neste asséptico espaço da cultura lépida e clean, uma nova escrita se inscreve. Ela se produz sob as bênçãos do computador – um “novo deus Thot” (o antigo deus da escrita), possibilitando a produção de um pensamento “de forma vulcânica, não aristotélica, pós-cartesiana e não dicotômica” . Assim ocorre no conto “O chupador acadêmico”: a interação entre a escrita e o espaço físico, a página literária e o espaço virtual se dão de forma eminentemente sincrônica.
Ao imergir no espaço da escrita persuasiva de Jane Austen , a narradora tem a “idéia” “tétrica e delirante, mas também prática e atraente” de permanecer trancada por uma noite no deserto subterrâneo da biblioteca. Desse espaço de imersão – nas entranhas da biblioteca e depois na página de Jane Austen – a pesquisadora salta para o espaço da virtualidade, ao “ouvir um cicio como de uma cobra ou de um drive sujo de algum computador com problemas de hardware” . É aqui que os três espaços da escrita – delineados pela movência de quem narra e sua sensorial demanda corporal – se articulam: o físico, o literário, o virtual.
Rastreemos, pois, o roteiro espacial da narradora, após adentrar os subterrâneos bibliotecários. Mergulhada no espaço do texto de Austen, ela colhe na página literária a senha para a sua permanência no espaço físico – o subterrâneo deserto da própria biblioteca; daí ela alcança o espaço da virtualidade onde contata o “Chupador Acadêmico”, sua fome intelectual de recarga e sua predileção pelos clássicos. Após ouvir o “ruído estranho” que a colocaria em interação com o “Chupador…” , a personagem sentiu-se
…envolvida num manto de esquecimento, como se o seu corpo tivesse desaparecido, e apenas os olhos vermelhos e empoeirados penetrassem nas páginas das obras, numa imensa web, sem comandos de sua parte.
Sem comandos de sua parte… Enquanto no espaço físico da biblioteca e no espaço da página literária a narradora comandava, de certa forma, os atos de ler e refletir, no espaço virtual ela passa a ser dirigida pelo “Chupador”. Nestes dois primeiros espaços físicos – a biblioteca e a página do livro -, o diferencial operado pelos sentidos comanda as ações e as reflexões da pesquisadora; enquanto no espaço da virtualidade essas ações passam a ser delineadas e traçadas pelo “Chupador Acadêmico” – presença virtual sem a qual a personagem assume não mais conseguir viver.
Apesar disso, é nos personagens literários das “páginas empoeiradas dos livros”, que a pesquisadora busca a sensual “presença” daquele que “constantemente” suga sua mente, suas forças. No espaço da página escrita ela tenta diariamente contatar o “Chupador Acadêmico”. Ou seja: para “ancorar” no espaço de sua inscrição, o “navio” da narrativa contemporânea requer a sincronia entre vários e diferenciados tempos e espaços. Principalmente o espaço da página escrita – espaço a partir do qual Luíza inscreve a letra de sua “Estranha Aparição”.
 
 
BIBLIOGRAFIA
BHABHA, Homi. “Interrogando a Identidade” in: “O Local da Cultura”. Trad. Ávila, Myriam. et. al. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
CESAR, Ana Cristina. “Correspondência Incompleta”. Freitas Filho, Armando. e Holanda, Heloisa Buarque de. (org.). Rio de Janeiro: IMS/Aeroplano, 1999.
___ “A Teus Pés”. 6ª. Ed. São Paulo: Brasiliense, s/d.
LOBO, Luiza. “Estranha Aparição”. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
___ “Globalização e Ideologia”. In: “Globalização e Literatura”. Discursos Transculturais. Vol. 1. LOBO, Luiza. (Org.). Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.
___ “Antiviagens”. In: Revista “Terceira Margem”. Viagens & Outros ensaios. Revista da Pós- Graduação em Letras da UFRJ. Ano IV/V – nº 5-6 – 1997-1998.
___ “A der(rota) na metáfora da navegação, de Jorge de Lima a Ana Cristina Cesar”. In: “Perspectivas 3” – Modernidades. Rio de Janeiro: UFRJ, 1988.
SANTOS, Roberto Correia dos. e SZKLOS, Gilda Salem. “Leitura em fragmentos” in: “Perspectivas 2”. Ensaios de Teoria e Crítica





Bio fornecida pelo palestrante.

A NAÇÃO NO DESVIO DA NARRAÇÃO: MEMÓRIAS, MITOS E MENTIRAS. UMA LEITURA DE CORTEJO EM ABRIL, DE ZULMIRA R. TAVARES




A NAÇÃO NO DESVIO DA NARRAÇÃO: MEMÓRIAS, MITOS E MENTIRAS. UMA LEITURA DE CORTEJO EM ABRIL, DE ZULMIRA R. TAVARES


MARIA APARECIDA RODRIGUES FONTES
 Doutoranda Orientanda da Profa. Luiza Lobo em Literatura Comparada – Fac. Letras da UFRJ

 
1- INTRODUÇÃO
(…) O porta-voz da presidência da República, jornalista Antônio Britto, anunciou, às 22h 30 o falecimento do presidente Tancredo Neves (…).
O povo achava-se apinhado e se acotovelando perto do meio-fio, separado da avenida por cordões, e eis que o cortejo já apontava ao longe na avenida Brasil (CA, 19).
 
Uma cultura nacional, composta de símbolos e representações, é um discurso. Como tal, organiza e normatiza nossas ações e, ao produzir significados sobre a nação, constrói identidades. Com o deslocamento das estruturas logocêntricas, e com o surgimento de uma subjetividade descentrada e das práticas interdiscursivas, os conceitos de identidade cultural, de nação e de memória nacional tornaram-se móveis e plurais.
Zulmira Ribeiro Tavares, em “Cortejo em abril”, após 13 anos da morte de Tancredo Neves, recria a cena do dia 21 de abril de 1985, quando, então, o cortejo fúnebre do político atravessa o parque Ibirapuera em direção ao Aeroporto para seguir viagem até Brasília. Quais são as aplicações explicativas e narrativas que a historiografia dá aos acontecimentos do passado (um passado bastante recente, que ainda ecoa pelo verde-louro desta flâmula) e que constróem o que chamamos de fatos históricos e identidade nacional?
O Consertador de Tudo, personagem de “Cortejo em abril, cidadão sem relevância”, morador de uma ruazinha “torta”, atrás da rua Afonso Brás, para os lados da vila uberabinha, sai de casa para realizar o conserto de uma máquina de escrever, exatamente no dia seguinte ao domingo em que morrera Tancredo Neves. E, antes de chegar ao seu destino, ou seja, à casa do Arquiteto, assiste, no Ibirapuera, à passagem do cortejo fúnebre do “quase Presidente”. O acontecimento adquire relevância a partir dos olhares dos espectadores e, sobretudo, através da mídia e dos diálogos que se estabelecem entre aqueles que, ainda aturdidos com a possível falência dos sonhos de Redemocratização, participam do grande espetáculo: “Lá vinham! Todas as cabeças estavam voltadas para aquele lado. Vinha gente a pé e gente de carro portando faixas, bandeiras (…)” (CA: 19).
Após duas décadas de ditadura militar, o que significou a morte de Tancredo Neves para os cidadãos brasileiros? Por que um rearranjo da trama fatual recria o mártir Tiradentes, na imagem de Tancredo, como substituto dos sonhos de independência e liberdade? Um simulacro ideológico? Entre as reconfigurações da história e a criação literária, o conto de Zulmira Tavares questiona os limites entre história e ficção, fatos e opiniões, mídia e memória. Conforme Hannah Arendt:
 
(…) se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um rearranjo completo de toda trama fatual, a criação de outra realidade, por assim dizer, na qual elas se encaixem sem remendos, falhas ou rachaduras, exatamente como os fatos se encaixavam em seu próprio contexto original, o que impede essas novas histórias, imagens e pseudofatos de se tornarem um substituto adequado para a realidade e fatualidade?
 
Este trabalho se propõe a investigar, dentre as diversas possibilidades de leitura que o texto suscita, as estratégias de construção da identidade nacional partir do uso que se faz da memória, da mídia e da história.
 
 
 
2- Memória e identidade nacional
 
Refletir sobre a construção da nação como uma poderosa idéia histórica que emerge das tradições do pensamento político e da linguagem literária nos permite perceber a outra “margem” dos discursos oficiais. A história foi sempre fabricada para reforçar um poder, para apoiar uma reivindicação. O passado foi sempre triturado, colhido em redes de discursos entrelaçados para envolver o adversário ou para nos proteger em combates em que o que está em jogo é o poder. Isto quer dizer que a história, além de ser seletiva, está exposta à subjetividade, ao poder e aos desejos.
Tancredo era natural do mesmo lugar em que nasceu José da Silva Xavier – Tiradentes – e morreu em 21 de abril, data da execução do mártir brasileiro. Coincidência? Não. Sabe-se que o evento constituiu uma tentativa de elevar Tancredo às honras da santidade prestada a Tiradentes. Num artigo da revista Afinal, de 30 de abril de 1985, lê-se: “pode-se dizer de Tancredo, como Tiradentes, que foi um herói levado à loucura pela esperança”. O efeito desse deslocamento é a catarse e o alívio mesclado ao prazer, isto é, o de vir a corrigir a realidade que não propicia satisfação.
 
2.1 – Tancredo/ Tiradentes: simulacros
 
No caso de Tancredo, nem tudo foi mera coincidência. Apropriando-se da historiografia de Tiradentes, os políticos e a mídia restabelecem a imagem do mártir – Tiradentes – do santo homem que morre por uma causa nacional, pela liberdade de seu povo. Esse trabalho de fabulação e simulacros consiste na produção de fatos que, consolidados pela hegemonia nacional, constituirão a memória nacional e comporão, como elementos destinados à transmissão de lembranças, o acervo histórico.
A formação da consciência histórica e ideológica resulta, como acentua Halbwchs, citado por Ecléa Bosi, de um processo de estilhaçamento das lembranças, ou deriva da memória, e a reconstituição desse movimento, o estudo das transformações das lembranças, de seus usos sociais e as vias pelas quais emergem constituem-se em objeto da história. Porém, a evocação das lembranças se faz, simultaneamente, por conta de terceiro, dos outros que emprestam as suas vozes àqueles que, por motivos alheios, não participaram como atores.
Conforme o historiador Thomas Skidmore, Tancredo Neves sintetizava de certa forma a ambigüidade inerente ao novo governo. Embora fosse um político “centrista” defendia algumas medidas ousadas para o problema da dívida externa e das questões sociais do país. Cada brasileiro, diz Skidmore, via em Tancredo um novo “Moisés”, “com a missão de conduzir o país do deserto da desesperança para uma nova Canaã”. Ele era, digamos assim, a encarnação das aspirações dos brasileiros – e isto conferia-lhe legitimidade, sobretudo, pelas suas estratégias de “conciliação”, o que era amplamente apoiado pela imprensa e pela mídia.
Os jornais, a televisão chamavam atenção para essa especificidade de Tancredo. A reportagem da revista Veja, de setembro de 1984, insistia em sublinhar as características de um político austero e conciliador “Doutor em alianças”, fala suave e persuasiva. Em 15 de janeiro de 1985, o colégio eleitoral elege Tancredo Neves e José Sarney. O grande problema era saber se a coligação vencedora poderia governar, pois desde de julho de 1984 havia sinais de um golpe que estava em marcha. Nesse período, o alto comando do exército dera ordens para que se aumentassem os estoques de armas, combustível e alimentos. O general Newton Cruz planejava fechar Brasília para o dia da eleição, e impedir o acesso da imprensa, e as manifestações públicas. Preocupado com um possível golpe Tancredo não revelou que portava um grave problema de saúde, e dizia aos seus médicos de confiança: “façam de mim o que quiserem, mas depois de minha posse”. Mas na véspera de sua posse, Tancredo não resistiu às dores e foi internado no Hospital de Brasília para se submeter a uma cirurgia.
A doença prolongara-se e o público ficava cada vez mais inquieto. Circulavam rumores, cochichos, sobre a doença de Tancredo. A imprensa divulgava boletins médicos a todo instante. A reportagem da revista Veja, de 3 de abril de 1985, levantava a suspeita de infecção, contraída no hospital de Base de Brasília. Ante a crescente dúvida sobre o atendimento médico a Tancredo, transferiram-no para o Instituto do Coração em São Paulo. O Newsweek, de 5 de agosto, constatava a popularidade de Tancredo e a preocupação do público que se aglomerava na porta da sala de cirurgia para “assistir à operação”.
O que importa aqui é menos o fato ou o documento que, como diz Le Goff, dos esforços das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias, pois não existe “documento-verdade” – “todo documento é uma mentira”. O que é relevante é a interpretação do imaginário, que foi construído a partir do “caso Tancredo”, ou seja, como se formou esse quadro social da memória e a condição discursiva da ideologia.
2.2- Memória, mitos e mentiras
 
Mentira oficial e mentira individual, memória truncada, negação, fabricação e deslocamento de fatos, pseudoconscidências, amnésia, silêncio “são, em graus diversos, modalidades de um mesmo processo, qual seja, elaborar um traumatismo maior, fazer as pazes com um passado trazido. Esses momentos trágicos, críticos e de rupturas exigem por parte da sociedade uma revisão e uma elaboração do traumatismo vivido.
Sussurros, boatos, mentiras; silêncio por parte de uns, popularização da imagem do mártir pela mídia, inquietação do público, espera, tensão. Os inúmeros boletins médicos incitavam a imaginação coletiva. Os boatos acerca de um possível golpe, um atentado; quem sabe? As controvérsias acerca da doença e sobre o estado de saúde do novo presidente. A longa espera por uma recuperação. Tudo isso criava expectativas. Todos esperavam por um milagre, pelo retorno do “salvador da pátria”. Mas Tancredo morre em 21 de abril, após 7 operações e 38 dias no hospital.
O processo de criação do mito assemelha-se ao processo de fabulação. O trabalho de fabulação realiza-se a partir de um tipo de narrativa cuja estrutura se identifica com o modelo de vida do santo. A exemplo de Tiradentes, para qual se construiu uma fábula onde a penitência solitária, a prisão e o martírio foram condições sine qua non para a constituição do modelo do mártir e do santo homem, a fábula Tancredo é construída, sobretudo, através da idéia do homem escolhido, destinado a conduzir o Brasil para uma nova era democrática. Em vida, Tancredo assomava como um salvador político. Com a morte, ele assumia proporções de um santo. Todas as esperanças acumuladas e centralizadas, diz Skidmore, no “homem que não viveu para materializá-la, manifestam-se impetuosamente”. O artigo da revista Veja, de 1o de maio de 1985, ironicamente descreve o evento “obra acabada no governo que não houve”.
Em outros termos, essa fabulação, além de garantir a satisfação de um desejo recalcado (o fim da ditadura, a longa espera, as expectativas, etc.) vem auxiliar a resistência política contra a dominação militar. Nesse caso, a exemplo de Tiradentes, era preciso “um mártir” para nos libertar da opressão; para restabelecer a independência e a liberdade perdidas. Como enfrentar a perda de um líder que, para muitos (ou para a grande maioria), simbolizava as esperanças do processo de Redemocratização? Como consolidar e legitimar o novo período, conciliar as diversidades e interesses políticos e econômicos sem abalar a confiança do povo? Como definir uma identidade nacional e cultural para esse novo momento histórico?
Segundo Benedict Anderson, quando a identidade não pode ser lembrada, ela precisa ser narrada. Entretanto, como a narrativa de uma nação não tem início, meio e fim, a única alternativa é moldá-la e esse molde é marcado, segundo o autor, por mortes, “a biografia da nação obtém para si suicídios exemplares, martírios pungentes, assassinatos, execuções, guerra e holocaustos (…). Mas, para servir ao propósito narrativo, essas mortes violentas devem ser lembradas/esquecidas como sendo “nossas”.
Em “Cortejo em abril”, de acordo com as perspectiva do Arquiteto, o evento se resume em uma fabulação. E é, provavelmente, porque se torna uma fábula, que a história eventual se torna memorável. Na verdade, a memória usa dois canais, o rito e a recitação. As lembranças que tratamos de conservar formam um conjunto fechado, a adição de novos eventos memoráveis só pode então fazer-se às custas de artifícios diversos. Um deles é a construção de “estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais (datas cívicas e outros)” que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, perdas triunfos e os desastres que dão sentido à nação.
Tal construção forma a trama que nos prende ao passado e que permite a continuidade de nossa tradição, de modo que a nossa cultura política é vista como um florescimento de uma orgânica evolução. A isto B. Anderson chamou de “comunidades imaginadas”. Já para Stuart Hall “uma cultura nacional funciona como um sistema de representação (…). [Ela] é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. Esses sentidos com os quais nos identificamos e que nos modelam estão contidos nas “narrativas sobre a nação”, memórias que conectaram seu presente com o seu passado e imagens que delas são construídas. É o que Homi Bhabha denominou nation and narration, isto é, a exploração da ambivalência da linguagem na construção do discurso da nação. Ou como explica Said:
Porque a nação, como forma de elaboração cultural (no sentido gramsciano), é um agente de narração ambivalente que detém a cultura em sua posição mais produtiva, como uma força tanto para “subordinar, fraturar, difundir, reproduzir – tanto quanto produzir – criar, forçar, guiar.
 
Entretanto, a narração implica memória, pois lembrar-se é contar a si mesmo uma história em fragmentos – provavelmente -, em estilhaços dispersos, mas é preciso uma história. Assim, o passado continua a nos falar. Mas, como diz Stuart Hall:
 
(…) já não é como um simples passado factual que se dirige a nós, pois nossa relação com ele, como a relação de uma criança com a mãe, é sempre já “depois da separação”. É construído sempre por intermédio de memória, fantasia, narrativa e mito. As identidades culturais são os pontos de identificação ou sutura, feitos no interior dos discursos da cultura e da história. Não uma essência, mas um posicionamento. Donde haver sempre uma política da identidade, uma política da posição, que não conta com nenhuma garantia absoluta numa “lei de origem” sem problemas, transcendental.
 
Já os símbolos são empregados de modo geral como elementos chaves em rituais comuns que reúnem os membros da nação a intervalos regulares. A criação da identidade nacional, conforme Montserrat Guibernau, “corresponde a um processo complexo pelo qual os indivíduos se identificam com símbolos que têm o poder de unir e acentuar o senso de comunidade”. Nesse sentido, a tradição precisaria ser reinventada e sempre atualizada. O conto de Zulmira Tavares explicita essa construção, através do ponto de vista do Arquiteto: “tudo são datas e nomes por esses lados do mundo” (CA: 33). A identidade é, então, uma construção que se narra.
 
2.3– Mídia e memória: a identidade como coprodução
 
O olhar de Zulmira Tavares é de uma câmera móvel que se adapta aos movimentos dos atores e daqueles que assistem à produção, ora como meros espectadores, ora como coadjuvantes da cena. Metaforicamente, poderíamos indagar: Quando é que os nossos olhos nos conseguem transmitir impressões tridimensionais quando a retina plana só é capaz de receber imagens bidimensionais? Melhor dizendo, como podemos enxergar o que está por trás de uma história plana, bidimensional, que constrói o imaginário coletivo, aparentemente linear, e que não nos deixa muita opção senão acreditar em que tudo o que nos contam é a mais pura verdade?
No início do conto, a autora já estabelece a utilização de seu foco: no primeiro plano, em vez de flagrar o objeto real, a imagem que aparece é uma imagem invertida: a notícia da morte de Tancredo Neves, divulgada pela imprensa. Aqui, o leitor pensa que está a ver o próprio objeto da história, segue o enredo e, de repente, joga-se uma pedra no espelho, que se estilhaça, e a realidade imaginada pelo leitor é destruída.
Descrevendo a cena do outono de 1985, o olhar do narrador e dos personagens-espectadores emprestam novos sentidos à História. O que podemos conhecer do caso Tancredo através dos olhares dos personagens-espectadores? Na verdade, a declarada metaficcionalidade do conto, de Zulmira Tavares, reconhece seus próprios processos de construção, ordenação e seleção das informações veiculadas pelo narrador e pelas personagens, entretanto sempre demonstra que esses processos são atos historicamente determinados. Isto ocorre, precisamente, com a inserção do discurso da mídia, das notícias veiculadas pelos jornais e TV, no conto de Zulmira. Ao mesmo tempo em que a autora explora a verdade fatual, os documentos históricos, as opiniões e o imaginário social, questiona o embasamento do conhecimento histórico em si. A descrição do Cortejo não é menos irônica do que as dúvidas que se levantam em torno do evento:
 
Quando saiu de casa sentiu que apesar do dia limpo o vento lhe trazia aquele cheiro duvidoso da Grande Lixeira, com um misterioso fundo doce. Pensou então no Santo Homem sendo levado do Instituto do Coração para o aeroporto de Congonhas, deixou de vê-lo reinando entre os anjos para pensá-lo destinado à terra, com a qual aos poucos iria se assemelhar, e nela se perder, sentiu certa angústia envergonhada (CA: 15).
 
O peso simbólico da cena restitui à memória do Consertador de Tudo às imagens do Santo Homem, veiculada pela mídia. A imagem do “Santo Homem”, transladada na imagem de Tiradentes, surge numa seqüência de cortes cinematográficos os quais criam relações simbólicas entre acontecimentos e objetos que, por vezes, não têm nenhuma relação com a realidade:
 
Depois, quando o Santo Homem caiu doente foi aquilo que se viu. Na televisão entrava médico, o próprio homem antes da doença, o homem na doença sentado num sofá ao lado da mulher e do médico, posando para uma foto com jeito de foto de família.(…) era santidade pura.(…) e vieram as entrevistas (…) e ninguém sabia de sua santidade. (…). O momento em que o Santo Homem começou a morrer não se sabia ao certo. As televisões, os jornais, fuxicaram que ele já estava começando a morrer quando conversava com os Grandes Bobos (…). O Consertador de Tudo reconhecia que mesmo um homem santo tem seus limites (CA: 16-17).
 
A memória do Consertador é a memória da mídia, da televisão e dos jornais: “Pensou então com rapidez vertiginosa nas mil vezes que tinha visto o Santo Homem na televisão (CA: 15). Trata-se de um jogo onde a imagem é responsável pela construção da memória e do sentimento de nacionalidade. A identidade, dinamizada por esse processo, não é apenas uma narrativa reatualizada, mas, na medida em que se torna um relato que reconstruímos a todo momento, ela é uma coprodução. Nos olhos do Consertador de Tudo as imagens do evento, do cortejo que ele acompanha com deferência e atenção, cruzam-se com as imagens midiáticas que se materializam para dar inteligibilidade ao passado: “O Consertador de Tudo apenas via a mulher Risoleta, enfeitada e sofredora à janela de um segundo andar, ele já a conhecia da televisão (…). Sabia agora que a morte, como uma ratazana pestilenta, já ali se escondia, refugiando-se do esplendor da nave” (CA: 25).
Segundo Néstor G. Canclini, o que explicaria, por exemplo, o consenso das maiorias em torno e governantes que as prejudicam, seria menos o predomínio do entretenimento alienante sobre a informação do que a correspondência das estruturas narrativas e da reelaboração do heroísmo político, segundo o qual os “líderes ostentariam seu poder não pelas mudanças estruturais da história mas em mininarrativas de virtuosismos ligados ao uso do corpo e ao consumo”. Além disso, verificam-se o apogeu da ação espetacular e da fascinação por um presente sem memória na televisão, assim como no cinema, e um enfoque muito mais anedótico do que argumentativo no discurso político. O herói político dos meios de comunicação de massa, conforme Canclini, se baseia mais neles do que na sua inteligência ou habilidade. Por essa perspectiva, a identidade nacional é pouco definida por sua história política e sim por uma “comunidade hermenêutica de consumidores” que se relacionam de modo peculiar com os objetos e as informações circulantes na mídia, isto é, em coprodução.
Se até o início do século os livros escolares, os museus, os rituais cívicos e os discursos políticos foram os dispositivos da construção da identidade nacional, na primeira metade desse século o rádio, o cinema contribuíram incisivamente para a organização do relatos identitários, mas, a partir dos anos 80, esses dispositivos também começam a esboroar. A abertura da economia de cada país aos mercados globais e a processos de integração regional foi reduzindo o papel das culturas locais. A comercialização de bens culturais, assim como a transnacionalização das tecnologias, diminuiu a importância dos referentes tradicionais de identidade. Por isso mesmo que a campanha de Redemocratização nacional dos anos 80, baseada nos simulacros ideológicos de Tancredo e Tiradentes, embora contivesse os aparatos técnicos da mídia e outros necessários à construção de uma nova identidade nacional, não se constituiu num dispositivo identitário eficiente, mas apenas num espetáculo multimídia sem desdobramento histórico. Se hoje ainda a figura de Tiradentes é uma nostálgica lembrança de nossas insurreições nacionais. Como definiríamos o caso Tancredo? Segundo Zulmira, não seria apenas um Tirante da Entrelinha?
Enquanto o historiador faz uso de ficções e modelos heurísticos para orientar sua pesquisa fatual, a literatura bebe, diz LaCapra, de modos múltiplos, na fonte do repertório fatual e o ‘transplante’ do documentário tem um efeito de transferência, o qual invalida quaisquer tentativas de encará-las em termo de pura suspensão de referência à ‘realidade’, ou de transcendência do empírico ao puramente imaginário. Entre a história e a literatura existem dois olhos que produzem duas imagens ligeiramente diversas. A sua fusão numa imagem só dá-nos a impressão tridimensional. A percepção da profundidade reside, sobretudo, na distância entre os dois olhos. A multiplicidade dos pontos de vistas dos personagens-espectadores, no conto de Zulmira, confere plausibilidade ao evento. O juízo dos espectadores cria um espaço público onde se estabelecem os confrontos entre inferências e fatos, cria-se pontos de inflexões – o relato é reconstruído com os outros. E como os personagens-espectadores e o narrador vêem o episódio Tancredo e o processo de Redemocratização?
 
Porém, durante o café, com o ar limpo de abril entrando pela janela, entraram de volta, farfalhando levemente como folhas soltas de jornais, a vida e a morte do pequeno homem, para muitos, um Santo; para outros, um Sestroso, um Fala-Solta; para outros ainda, um Sábio, um Político, um Ilustrado, um Mineiro, um Doutor, uma Raposa Velha; Estafeta da Redemocratização para os invejosos, e havia também os azedos e desencantados que o chamavam simplesmente de Coisa Insignificante, sem poder contudo evitar breve recuo supersticioso seguido de arrepio na espinha, como se nele, pequenino, figurasse a redondeza leve de estearina da hóstia erguida na consagração. Dúvidas, dúvidas, dúvidas; e assim, pequenino, testa abaulada, com aquele engraçado nariz virado para cima, o que pensar dele para Presidente? (…) No Brasil inteiro também se murmurava, bisbilhotava, recordava (CA: 32).
 
O espectador julga o evento a partir da promessa que ele contém para o futuro, por isso o Arquiteto, um dos personagens, argumenta: “ainda assim confesso que tive muita pena, muita, muita! Pus esperança na coisa toda” (CA: 32). O confronto entre os argumentos do Consertador de Tudo, do Arquiteto e da mulher de cabelo quase-azul, como estilhaços da memória, nos oferece um quadro do imaginário social e os diversos dispositivos identitários, levando em conta os diferentes modos como eles se recompõem nos desiguais circuitos de produção, comunicação, apropriação da cultura, classe social e perspectivas políticas.
 
3- A nação por um fio no desvio da narração
 
Os indivíduos que partilham da mesma cultura, que possuem experiência de um passado comum, precisam criar ocasiões em que tudo o que os unem seja enfatizado. Nesse momento o indivíduo esquece-se de si mesmo para dar lugar a um sentimento de coletividade – o “senso comunitário”. O que agrada ou desagrada está incrustado nesse senso comunitário e, portanto, aberto à comunicação. Em outras palavras, quando julgamos, julgamos como membro de uma comunidade. E é também quando surge a idéia de nação. Entre o juízo crítico da mulher de cabelo quase-azul e o do Consertador de Tudo havia consenso: “Era como se ele e ela conhecessem tudo sobre o Santo Homem, e quando diziam, o Tancredo, por que o Tancredo, sabiam muito bem do que falavam” (CA: 21). Ora esse senso comunitário explicita o caráter hegemônico da narrativa e da sua difusão. E isto é o que permanecerá como fonte do imaginário nacionalista, ou seja, este cenário de consagração e comunicação dos signos de identidade nacional: “O povo achava-se apinhado e se acotovelando perto do meio-fio, separado da avenida por cordões, e eis que o cortejo já apontava ao longe na avenida Brasil” (CA: 19). Estabelece-se, então, que o sentido de nação equivale a uma entidade delimitada, onde tudo que é compartilhado pelos que a habitam os diferencia dos demais.
Se, no conto, Zulmira Tavares critica esse modelo, também ironiza os dispositivos identitários historicamente construídos, imaginados e reinventados em processos constantes de hibridização e divergências políticas, quando então o conceito de nação se encontra suspenso por um fio, apenas por um tirante da entrelinha.
Diante das opiniões divergentes acerca do episódio de Tancredo, das informações truncadas que eram veiculadas pela mídia, das histórias contadas pelo Arquiteto e tantas outras, pairava sob a cabeça do Consertador de Tudo uma nuvem de fumaça, melhor dizendo, de incertezas: ele não sabia até onde ia toda aquela narração. Quem estaria dizendo a verdade?
Enquanto o Consertador de Tudo, que se sentia feito um coador murcho, via no Cortejo uma espécie de “via-sacra”, um desígnio divino (embora em alguns momento duvide de suas próprias certezas), para o Arquiteto, homem cuja classe social e nível cultural eram elevados, aquilo tudo não passava de um grande espetáculo da história, por isso nutria sérias dúvidas acerca da doença de Tancredo:
 
E se dizia que no Instituto do Coração, os homens de branco haviam aberto o relógio da vida de Tancredo Neves e virado os ponteiros para trás, para prender a sua alma na engrenagem, soltando-a no Domingo, dia do aniversário da morte de Tiradentes. Certo, aventava o Arquiteto pensativo, para aniversariarem juntos, certo, mas aqui, aqui da terra (não do alto, como quer o Senhor), para que as comemorações irem juntas, dando cada uma maior força à outra. Porque, veja o Senhor, e Tudo via sim, encostado na parede de azulejos amarelos: – o cortejo veio vindo pela avenida Brasil, passou pelo monumento às Bandeiras, pegou a avenida Pedro Álvares Cabral, passou pelo obelisco aos Mortos de 32, são datas, percebe, tudo são datas e nomes por esses lados do mundo; (…) (CA: 33).
 
A história de Tancredo e todo o evento deixa de ser um mero acidente e torna-se, na perspectiva do Arquiteto, uma construção imaginária que se narra, de acordo com os interesses políticos econômicos e sociais, daí a analogia entre a máquina de escrever Olivetti e a nação. Mas se essa máquina sofrer algum dano? Ou, o que poderia travar o processo da escritura? Uma parte da engrenagem que se rompe, um Tirante da Entrelinha, “pequeno, uma pecinha de nada, um anzol de fio de cabelo, uma bobagem” (CA: 31), seria suficiente para mudar os rumos da história?
A imagem do Tirante da Entrelinha relacionada a Tancredo e a Tirandentes expõe a estrutura deficitária do processo político de Redemocratização. Mas, se um “pequeno fio”, uma “Coisa Insignificante”, foi capaz de interromper o processo de narração (a máquina de escrever que deixou de produzir textos), é no desvio ou na releitura do evento (o conserto do Tirante da Entrelinha) que se tenta restabelece a continuidade do dispositivo identitário da nação como narração.
 
 
4- CONCLUSÃO
 
A metaficção de Zulmira Tavares recusa a visão dos métodos naturais para distinguir entre ficção e história. Rechaça ainda a idéia de que apenas a história tem uma pretensão à verdade. Tanto a história como a ficção são discursos, constructos humanos, sistemas de significados, e é através dessa identidade que ambas obtêm sua pretensão às verdades nacionais. A incorporação textual desses passados intertextuais, como elemento estrutural constitutivo da ficção pós-moderna, funciona, segundo Linda Hutcheon, como uma marcação formal da historicidade.
O conto especula, ainda, sobre o deslocamento histórico e suas conseqüências ideológicas; sobre a forma que se escreve a respeito da possível realidade do passado; e, ainda, sobre aquilo se supõe conhecer de fato. A rigor, Zulmira repensa a idéia de nação e de memória nacional, de ficção e de história. O “caso Tancredo” transformado em intriga nos permitiu descobrir a ressurgência das lembranças, filtradas pelo olhar dos espectadores e julgadas por uma espécie de imparcialidade não redutora, nem universalizante. As várias vozes das personagens, misturadas a do narrador, fazem esse duplo papel: transformar os estilhaços dispersos da memória em pontos de vista e assegurar a condição sob a qual a idéia de nação e identidade nacional em co-produção com os dispositivos da comunicação e da informação se revela ao sujeito.
As irônicas e curiosas construções das imagens, em “Cortejo em abril”, em que a autora associa a máquina de escrever à máquina do Estado, isto é, à nação; e a figura de Tiradentes e a de Tancredo ao Insignificante “Tirante da entrelinha” não é sem razão; ao contrário, essa analogia refere-se menos ao valor da inserção tanto de Tancredo e Tiradentes na “grande máquina ideológica do Estado que os limites que separam a história da ficção, além de sublinhar a idéia de nação como narração.
 
 
5- BIBLIOGRAFIA
 
ANDERSON, Benedict. “Memória e esquecimento”. In: ROUANET, Maria Helena (org.). Nacionalidade em questão. Rio de Janeiro, UERJ/I.L., 1997, p. 60-98.
ARENDT, Hannah. Lições sobre a filosofia de Kant. Trad. André Duarte de Macedo. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1993.
BHABHA, Homi K. “Narrando a nação”. In: ROUANET, Maria Helena (org.). Nacionalidade em questão. Rio de Janeiro, UERJ/I.L., 1997, p. 48-60.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
CANCLINI, Néstor García. Consumidores e Cidadãos; conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro, UFRJ, 1995.
DUBY, Georges & LARDREAU, Guy. “A memória e o que ela esquece”. In: Diálogos sobre a nova história. Lisboa, Dom Quixote, 1989.
GUIBERNAU, Montserrat. Nacionalismos: O estado nacional e o nacionalismo no século XX. Trad. Mauro Gama e Cláudia M. Gama. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 2. ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira L. Louro. Rio de Janeiro, DP7A, 1998.
_____. Identidade cultural e diáspora. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, IPHAN, 1997, p. 68-75.
HUTCHEON, Linda. A poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro, Imago, 1991.
LaCAPRA, Dominick. “Rethinking Intellectual History and Reading Texts. In: LaCAPRA, Dominick e KAPLAN, S.. Modern European Intellectual History: reappraisals and new perspectives. Ithaca/London: Cornell Univesity Press, 1982.
LE GOFF, Jacques. “Documento/Monumento”. In: Enciclopédia Einaudi. Vol.1: Memória/História. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1984.
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo (1964-1985). 4. ed. Trad. Mário Salviano Silva. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991.
TAVARES, Zulmira R.. Cortejo em abril: ficções. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.





Bio fornecida pelo palestrante.

O "ELEMENTO FEMININO" NA MEMÓRIA DE PORTUGAL: MURILO MENDES E VIEIRA DA SILVA




O “ELEMENTO FEMININO” NA MEMÓRIA DE PORTUGAL: MURILO MENDES E VIEIRA DA SILVA
 

Maria Luiza Scher Pereira
Universidade Federal de Juiz de Fora

 
1. Uma questão inicial
No artigo Feminismo, experiencia y representación, Nelly Richard apresenta algumas questões que têm animado o debate em torno do tema da “escritura feminina”, dentre as quais destacamos a seguinte:
Podemos hablar – tan divisoriamente – de escritura masculina e femenina si el lenguage criativo, la textualidad poética, son espacios privilegiados de desplazamiento y transferencia del yo en los que se amplían y se remodelan incesantemente las fronteras de la subjetividad cultural, desbordando así el realismo biográfico-sexual del sujeto ‘hombre’ o ‘mujer’? (1996: p. 740).
 
 
Para responder a essa questão, é preciso, segundo a crítica, rejeitar a coincidência tida como natural entre determinante biológica (ser mulher) e identidade cultural (escrever como mulher), para a partir dessa não coincidência compreender o feminino numa nova perspectiva critica e teórica.
O feminino seria, numa rearticulação das políticas do signo, um “conceito-metáfora” segundo o qual se pode compreender a expressão da marginalidade, da subalternidade e da dissidência. Desdobrando a percepção do feminino como a voz paradigmaticamente reprimida pela dominante de identidade social patriarcal, a autora afirma: “Ese ‘femenino’ no es un contenido de identidade ya formado (anterior y exterior a su representación verbal) sino la posición crítica que consiste en interrogar los mecanismos de constituición del sentido y de la identidad…” (id: p. 743-44).
 
Tais reflexões balizam a leitura que passamos a apresentar de alguns aspectos da obra de Murilo Mendes, na qual esse conceito-metáfora poderá iluminar os modos de articulação entre os arquivos da tradição cultural, os procedimentos da memória, e a construção de um discurso que sugere novas perspectivas críticas e criativas.
 
 
Masculino/feminino: o pinhal e a nave
No livro Janelas Verdes, uma coleção de textos em prosa sobre cidades e artistas portugueses, Murilo Men/des destaca o famoso pinheiral plantado pelo Rei D. Dinis próximo à cidade de Leiria, como um dos seus cinco pontos fundamentais. Os outros quatro são o Castelo, o próprio rei Dom Dinis, Eça de Queirós, devido a O crime do Padre Amaro, e Jaime Cortesão, seu sogro e amigo, na companhia de quem o poeta brasileiro visitou mais de uma vez a cidade. Mas é ao pinhal do rei que Murilo dedica a maior parte do texto sobre Leiria. Dele destacamos inicialmente o seguinte trecho:
 
Ninguém ignora que Dom Dinis ordenou o plantio do pinhal de Leiria, origem das futuras naves portuguesas; portanto nós brasileiros descendemos deste pinhal (…). Cada vez que o penetramos torna-se obrigatória, prevista mesmo, a referência às dinisianas “flores do verde pãio”(…)” (OC: p.1.377).
 
Fernando Pessoa, antes de Murilo, e José Saramago, depois dele, também não escapam da associação de idéia entre o pinhal de Leiria e as naus da navegação. É famosa a estrofe do poema de Mensagem dedicado ao rei-poeta:
 
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador das naus a haver,
E ouve um silencio murmuro comsigo:
É o rumor dos pinhaes que, como um trigo
De Imperio, ondulam sem se poder ver. (OP:73)
 
E no Viagem a Portugal de Saramago a referência se repete:
 
E este é o pinhal de Leiria, o dos cantares do verde pino de D. Dinis, o das naus e caravelas das navegações, o frágil lenho que tão longe se aventurou. (VP:157)
 
Nos três autores, temos a mesma referência a D. Dinis, poeta e plantador do pinhal que um século depois proveria de madeira o projeto competente de navegação da Escola de Sagres. Plantar o pinhal garantiu a ele participação talvez involuntária nessa história posterior e, muitos séculos mais à frente, valeu-lhe o belo verso de Fernando Pessoa: “o plantador das naus a haver”.
Além de fazer circular as mesmas imagens, como se todos fossem citações uns dos outros, os textos de Pessoa, Saramago e Murilo Mendes têm outra coisa em comum: todos mencionam tanto o talento poético do rei quanto a sua ação prática, o poetar e o prover, o empreender e o cantar. Ao fazer isso, expõem de alguma forma a intrincada relação entre o processo histórico de construir a nação e os discursos que, ao mesmo tempo, mas não necessariamente na mesma intenção, se constróem.
O projeto das grandes navegações, que integra o amplo projeto da modernidade ocidental cujo sucesso e consolidação torna hegemônica a posição da Europa como centro, aparece nessas representações poéticas da sua versão portuguesa associado metonimicamente ao pinhal, nome masculino, aqui referido como origem desse empreendimento também masculino (e também branco, cristão, adulto, isto é, europeu), que espalhará pelo resto do mundo, tornado então periferia da Europa, o “trigo do império”, para usar a expressão retirada do verso de Mensagem.
Se pensamos que trigo pode remeter à idéia de semente e de alimento, acentua-se ainda mais a relação entre o pinhal e o elemento masculino, uma vez que cabe ao homem o papel de gerador (semente, sêmen) e provedor (alimento) dos filhos.
Plantado na verdade mais de um século antes do início das viagens portuguesas para conter a erosão da costa litorânea, o pinhal pode ser por isso também associado ao que se enraíza, ao que se fixa como raiz entranhando-se no solo, tornando-se assim elemento de origem; da mesma forma se fixam, também por profundo enraizamento, os centramentos culturais e os mitos de identidade que se articulam na enunciação da narrativa da nação, e dão origem a outras falas e discursos identitários que continuamente a alimentam e a reafirmam.
Diferentemente, as naves, ou naus, nomes femininos, remetem ao desenraizado, ao que, tendo sido arrancado do solo de origem perdeu suas raízes e, no caso, metamorfoseou-se, tornando-se as naus que se lançaram em errante aventura, embora fossem, como lembra Saramago, embarcações caracterizadas pela fragilidade, marca do feminino: “frágil lenho que tão longe se aventurou”.
Assim, podemos perceber que a constituição da identidade da nação portuguesa e a história das viagens, residualmente presentes através dos elementos metonímicos pinhal e nave, atravessam os textos como rastros do passado no presente, que esses autores em três diferentes momentos do século X e por circunstâncias diversas, retomam.
Seguindo o rastro da tradição cultural pelo processo precário da memória, o resíduo se inclui em uma nova rede textual onde relações de sentido, também novas, se estabelecem.
Paul Ricoeur observa que o fenômeno do rastro, como o das ruínas, dos restos, dos documentos, por produzir “significância” em duas ordens temporais heterogêneas – passado e presente – desloca-se do “historial para o intratemporal” (1997: 196-209). Assim o viajante de Saramago no pinhal do rei-poeta aciona inicialmente o arquivo da memória nacional, mas por efeito do deslocamento de que fala Ricoeur, continua a viagem em outra direção, inesperada:
 
(O viajante) vai indagar se não há caminho para Marinha Grande que lhe permita saborear por mais tempo a mata. Dizem-lhe que, haver, há, mas que o risco de perder-se é certo. Correu o risco, e se se perdeu não deu por isso. Sabe o que ganhou: (…) a mata é incomparável, (…) nenhuma mereceria mais ter, como habitantes, o povo pequenino dos gnomos, fadas e duendes. E (o viajante) está pronto a apostar que um súbito remexer de folhas que ali se viu foi obra de um esperto anãozinho de barrete vermelho. (VP: 157)
 
Observe-se que perder-se no pinhal é também embaralhar, no relato da viagem do presente, as referências fixas da história pela superposição de um outro arquivo, o da memória infantil, que guarda resíduos do mundo mágico dos contos de fadas, libertário em relação ao mundo adulto do grande empreendimento da história. Assim, o texto do viajante é descontínuo: narrativas diversas se entremalham, quando o lúdico desloca o histórico e as memórias se misturam.
Também em Murilo Mendes, as cristalizações cedem a novas fulgurações de sentido. Como se vê no trecho citado, Murilo também se inscreve no grande texto da história, quando afirma que nós, brasileiros, descendemos do pinhal, inserindo, ainda que de forma bem-humorada, a nossa origem na ação masculina do empreendimento moderno europeu. Contudo, após incluir-se, e a nós brasileiros, na narrativa da viagem portuguesa pela irreverente simplificação e pela dedução só aparentemente lógica (“portanto, nós brasileiros descendemos desse pinhal”), o poeta passa a ocupar-se daquilo que sua viagem, particular e presente, desencadeia:
 
Nesta visita rodeia-me uma sensação que considerava absurda; mas finalmente vi-a partilhada por um escritor da força de Raul Brandão: “a verde solidão dos pinheirais, que associo sempre à idéia do mar largo.” Com efeito acho que o pinheiro, manso ou bravo, ondula. Assim, incluo também um elemento feminino, onda; e sem o elemento feminino quem poderia suportar o peso dos textos, a começar pelo poeta? (OC:1377) grifos nossos
 
Embora Murilo cite Raul Brandão e não Fernando Pessoa, é curioso observar que a associação entre o movimento dos pinheiros e a ondulação do mar que leva ao elemento feminino, onda, já está nos versos de Mensagem: “É o rumor dos pinhaes que como trigo de Império ondulam sem se poder ver”.
Esse processo de apreensão da experiência subjetiva e particular de Murilo Mendes é semelhante ao de Saramago, que julgou ver gnomos de barrete vermelho surgirem no pinhal, logo transformado de lugar solene em espaço mágico. Operando pela associação de imagens visuais a inesperadas relações de sentido, e produzindo o efeito de “sensação absurda”, a memória de Murilo Mendes também desloca as referências cristalizadas pela grande história das navegações.
Antecipando a proposta de Ítalo Calvino para o próximo milênio, ao viajar pela grande narrativa nação moderna (também a brasileira), Murilo conclama a leveza desse elemento feminino contra o “peso dos textos”, contra sua solidez insuportável. Se o viajante de Saramago insere o infantil, pela via do conto de fadas, Murilo inclui o feminino nessa história masculina do projeto moderno das viagens.
Nesse sentido, tanto os gnomos dos contos de fadas de Saramago quanto a onda que traduz o elemento feminino de Murilo se equivalem no âmbito daquele conceito-metáfora de que fala Nelly Richard, já que ambos os elementos operam como um vetor de desestabilização da solenidade da história nacional.
 
O elemento feminino e a presença de Vieira da Silva
 
Se, seguindo a pista do poeta, tomamos o elemento onda como metáfora do feminino que perturba a história masculina da nação portuguesa moderna, podemos ampliar nossa leitura observando dois outros elementos associados, na obra de Murilo, tanto à onda como à própria mulher – movimento e transformação. Em O discípulo de Emaús, de 1945, dedicado a Maria da Saudade Cortesão, com quem viria a se casar dois anos depois, Murilo afirma em tom de aforisma: ‘A mulher determina continuamente no mundo uma transformação maior do que todas as revoluções”. (OC:886)
No livro As Metamorfoses, considerado por Luciana Stegagno-Picchio (1995: p. 1.653) “livro central da produção poética de MM”, a articulação de sentido entre todos esses elementos – onda, mulher, movimento e transformação – pode ser encontrada em vários momentos. Cito alguns versos, seguidos dos nomes dos poemas, todos desse livro:
 
Sentado no horizonte
Contemplo as casa fugirem.
A onda que vai e vem
Comunica-se com a estrela… (Alcance, OC:341)
 
Debruçado sobre a noite
Refiz o reino das fadas
(…)
Contemplo ao longe a fileira
Das amadas que semeei,
E o rastro de Deus nas ondas. (A extensão dos tempos, id:344)
 
Mulher
Ora opaca ora translúcida
Submarina ou vegetal
Assume todas as formas,
Desposas o movimento.
(…)
Tu és na verdade, mulher,
Construção e destruição. (Mulher, id:350)
 
Na dignidade da onda
Puseste os pés de poesia
Que as fadas tornearam em séculos (A criação feminina, id: p. 363)
 
Entendemos que para Murilo Mendes a idéia do feminino, ligada a movimento e metamorfose, resulta também na associação entre esse elemento e a própria construção da poesia, compreendida por Murilo como alternativa para o mundo real, histórico, embora seja, ao mesmo tempo profundamente ligada a ele.
Isso seria particularmente perceptível nesse livro, escrito entre 1938 e 1941, sendo deste ano todos os poemas do Livro Segundo, intitulado ‘O véu do tempo”, entre os quais destacamos os fragmentos citados acima. Nele, a metamorfose operada pela e na construção da poesia parece constituir-se como única alternativa de esperança no futuro, diante da dura realidade presente do mundo em guerra. Em poemas como A bela e a fera e Orfeu, dos quais extraímos, respectivamente, as estrofes abaixo, podemos observar isso:
 
O mundo inteiro se tinge
Do sangue do Minotauro,
Até que a branca Poesia
Lhe mostre o dedo mindinho. (id:347)
 
Ajudo a construir
A Poesia futura,
Mesmo apesar dos fuzis. (id: p. 342)
 
É nesse mesmo Livro Segundo de As metamorfoses que encontramos na obra de Murilo Mendes a primeira referência à pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva que com o marido, o húngaro e também pintor Arpad Szenes, refugiou-se no Brasil entre 1940 e 1947, fugindo tanto da guerra que os impedia de ficar em Paris, quanto do salazarismo que não lhes permitia ir para Lisboa. No poema que tem como título o seu nome completo ela é referida como “bicho que habita na escadaria do século, entre o sibilar das granadas, e a saudade dos minuetos”.
Sendo portadora, ao mesmo tempo de determinados elementos e de seus contrários, “diurno e noturno, longo e breve, másculo e feminino”, Vieira é também chamada por Murilo de “onda e serpente, água metálica e chama rastreante”, recuperando-se assim a associação já vista entre o elemento feminino onda e a idéia de movimento e transformação, que se traduz também na possibilidade da poesia, e da arte. Nos versos a seguir Murilo fala do modo como Vieira da Silva constrói sua pintura:
 
Bicho nervoso
Minucioso
Tece uma trama há mil anos
Que se transforma com a luz.
Em contraponto às formas
Da cidade organizada (OC: p. 351)
 
 
A idéia de que a arte de Vieira é “a trama que se transforma” e contrapõe-se “às formas da cidade organizada” expressa aquela relação entre a criação artística (nesse caso, tanto a pintura de Vieira quanto a poesia de Murilo) e os processos de deslocamento e de rearticulação de sentidos, que esgarçam o tecido cerrado dos discursos hegemônicos.
Voltando ao Janelas Verdes, o livro de Murilo sobre Portugal, encontramos no texto Lisboa, outra referência a Vieira e às formas da cidade organizada, significativas à nossa leitura:
 
Os homens tudo fazem para deformar a fisionomia de Lisboa. Destroem as casas “de várias cores” (…) levantam em seu lugar edifícios de gosto discutível…
Vendo-a golpeada de todos os lados o gnomo de Lisboa refugia-se em certos quadros de Vieira da Silva. (…) podemos habitar livremente esses quadros onde não há rastro de polícia, nem crueldade, nem mistificação, nem demagogia, nem miséria; sim uma Lisboa imaginária, suspensa no espaço e no tempo, adversa, mesmo, à original: autre. Essa Lisboa reconcilia-se com a tonalidade azul e com a palavra azul… (OC: p. 1.410).
 
A transformação física de Lisboa continua a escrever a história do empreendimento masculino e adulto representado nos edifícios que se levantam, agora nos termos do contemporâneo progresso urbano que desfigura as versões anteriores da cidade, esse ícone da modernidade européia e ocidental. Dissonantes, reencontramos tanto nos quadros de Vieira e no texto de Murilo, como antes no de Saramago, o gnomo, o feminino (o azul não lembraria a cor da onda?), e a arte que se constróem como alteridade.
É provável que Murilo se refira nessa passagem ao quadro Lisbonne bleue, de 1942, do período do exílio de Vieira no Brasil (foto anexa). Em outro quadro, o Lisbonne du souvenir, de 1940 (foto anexa), no mesmo contexto referido por Murilo nas expressões polícia, crueldade, demagogia, Vieira volta ao traço do desenho infantil, recriando Lisboa pela “poética” que, no texto de Janelas Verdes intitulado Vieira da Silva, e dedicado “à própria”, Murilo define como “uma poética baseada na arquitetura da memória; um conto de fadas da cidade moderna” (OC: p. 442).
Em ambos os quadros podemos encontrar uma Lisboa “autre”, que pelos elementos da cor e do tema, contrastantes com o estado do mundo em guerra, esse outro negócio de homens, expressa a transgressão criativa dessa pintora exilada e estranha. A instigante contradição entre “conto de fadas” e “cidade moderna” na condensação poética do texto de Murilo ilumina a reflexão, motivada pelo rearranjo de signos, formas, cores e palavras, sobre o funcionamento do elemento feminino no processo de construção da linguagem da arte como alternativa aos discursos hegemônicos e totalizadores.
 
Da aproximação entre Murilo Mendes e Vieira da Silva voltamos, para concluir, à questão inicial sobre a linha divisória entre escritura masculina e escritura feminina
 
Para Nelly Richard a ressemantização do termo ‘feminino’, que pode passar a ser lido como alteridade, resulta de “la dinámica de los signos” no âmbito de uma nova perspectiva teórica e crítica. E completa: “la ruptura de las significaciones monológicas puede ser compartida por autores masculinos si su práctica del discurso busca también fisurar el molde del concepto” (op. cit: p. 741).
Confrontando significações monológicas presentes na grande narrativa da tradição portuguesa, Murilo Mendes e Vieira da Silva, constroem seu texto critica e criativamente pelo processo transgressivo que opera inclusive através do elemento feminino, como também fizeram, cada um à sua maneira, Fernando Pessoa e José Saramago.
Bibliografia citada
 
Mendes, Murilo. Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno-Picchio. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995. (Adoto a abreviatura OC).
Pessoa, Fernando. Obra poética. Org. Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1975.
Picchio, Luciana Stegagno. Vida–poesia de Murilo Mendes. In Mendes: 1995.
Richard, Nelly. Feminismo, experiencia y representación. Revista Iberoamericana. Vol. LXII, julio/diciembre 1996. Núms. 176-177. University of Pittisburgh, p. 733-744.
Ricoeur, Paul. Arquivos, documento, rastro. Tempo e narrativa. Tomo III. Trad. Roberto L. Ferreira. Campinas, SP, Papirus Editora, 1997.
Saramago, José. Viagem a Portugal. Rio de Janeiro, Cia. das Letras, 1990.





Bio fornecida pelo palestrante.

O DESEJO LESBIANO NO CONTO DE ESCRITORAS BRASILEIRAS CONTEMPORÂNEAS




O DESEJO LESBIANO NO CONTO DE ESCRITORAS BRASILEIRAS CONTEMPORÂNEAS1

Cristina Ferreira-Pinto Bailey

Southwest Texas State University
 
RESUMO: Análise das obras de diversas escritoras brasileiras contemporâneas à luz da censura e da autocensura que cercam o conceito de lesbianismo no Brasil: Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Edla van Steen, Nélida Piñon, Sonia Coutinho, Marcia Denser, emprestam noções de androginia a personagens que são discutidas em todas as suas nuances teóricas, do erótico, sublimado ou invisível ao abertametne sociopolítico.
CURRÍCULO: Cristina Ferreira-Pinto Bailey teaches in the Department of Modern Languages at Southwest Texas State University, and is the author of Gender, Discourse and Desire in Twentieth-Century Brazilian Women’s Literature (forthcoming), O “Bildungsroman” Feminino: Quatro Exemplos Brasileiros (1990), A viagem do herói no romance de Antonio Callado (1985), and numerous articles on Brazilian and Spanish-American literatures that have appeared in journals such as Revista Iberoamericana, Brasil/Brazil, Hispania, and Revista de crítica literaria latinoamericana. She also edited, wrote the introduction and notes for the anthology Urban Voices: Contemporary Short Stories from Brazil (1999).
 
 
 
1. O lesbianismo e a literatura erótica feminina no Brasil
No Brasil e, de modo geral, na América Latina, a existência de uma tradição lesbiana na literatura de autoria feminina não tem sido reconhecida pela crítica, fato já comentado por David William Foster (Sexual Textualities, 1991, 10). A razão para a suposta ausência dessa tradição é o tabu que ainda cerca as relações homossexuais na América Latina, e a conseqüente censura e autocensura que impediriam a expressão do lesbianismo na literatura de mulheres. Por um lado, tratar de personagens lesbianos e do desejo homossexual entre mulheres poderia levar à identificação dessas escritoras como 1ésbicas; por outro, uma literatura que desse expressão livre ao erotismo lesbiano seria rapidamente tachada de pornográfica, ambos rótulos indesejáveis dentro do contexto latino-americano.
A causa, entretanto, para o não reconhecimento, ou desconhecimento, da presença do sujeito e do desejo lesbianos em obras de escritoras latino-americanas jaz na mesma atitude ideológica que faz com que a mulher lésbica tome-se invisível aos olhos da sociedade. 0 sujeito lesbiano foge à definição aceita de “feminino”, rompe radicalmente com os padrões de gênero estabelecidos, ao não se definir em função do desejo masculino e do sistema de reprodução biológica e de transmissão de valores econômicos e ideológicos. Por não ser possível categorizá-la dentro desses padrões, a 1ésbica termina reduzida ao “não-ser”, ao que não se nomeia (e o que não se nomeia não existe): “the lesbian exists in a vacuum of unreadability and unnameability both socially and sexually” (Manzor-Coats, 1994, xxii). Se assim é na sociedade, na literatura o reconhecimento de uma tradição lesbiana exige um certo tipo de leitor que possa resgatar o sujeito e o desejo lesbiano de sua invisibilidade, um leitor dotado de uma capacidade “queer” de leitura (Anzaldúa, 1991, 257-58). Ou seja, é necessária uma abertura ideológica que permita ler nas entrelinhas, trazer à tona o palimpsesto e decifrar a função da ambigüidade no texto, e que resgate a homossexualidade feminina do espaço marginalizado da literatura pomográfica.
No Brasil, o desejo lesbiano aparece na literatura escrita por mulheres desde, pelo menos, as primeiras décadas do século XX. A tradição de uma literatura sobre temas e personagens 1ésbicos, no entanto, teria que ser estabelecida a partir dos olhos da crítica de hoje, quando já há espaço para um tipo de leitura como a que sugere Gloria Anzaldúa. Assim, é possível verificar a representação do desejo lesbiano em obras, por exemplo, da poeta Gilka Machado, de Raquel de Queiroz ou de Clarice Lispector.2 Numa das raras obras sobre o tema, 0 lesbianismo no Brasil (1987), Luís Mott dedica um longo capítulo a um levantamento das “lésbicas na literatura brasileira”, abrangendo desde a literatura portuguesa do século XIV até a produção literária no Brasil no começo dos anos 1980. Usando como critério de seleção dos textos discutidos a presença de personagens lésbicos ou a abordagem do lesbianismo como tema, Mott inclui nesse capítulo principalmente obras de autores masculinos e até obras estrangeiras traduzidas e publicadas no Brasil, porém poucos títulos de autoria feminina. Segundo ele, a primeira obra de autora brasileira que enfoca o desejo lesbiano teria sido o romance Vertigem, de 1926, escrito por Laura Villares, escritora hoje pouco conhecida. A situação romanesca criada em Vertigem lembra sob muitos aspectos a relação de Léonie e Pombinha em O Cortiço (1889) de Aluísio Azevedo, sem ser, no entanto, tão “violento e carnal” como o romance naturalista, possivelmente porque, “por se tratar de uma escritora mulher, a autocensura tenha sido mais forte” (Mott, 1987, 85).
A autocensura, que às vezes pode calar a expressão erótica feminina em todas suas formas, encontra-se obviamente enraizada nas práticas sociais vigentes, que tanto procuram controlar a sexualidade feminina, como restringir o acesso da mulher a uma linguagem adequada à representação de sua sexualidade. E somente a partir de finais da década de 1960, quando as mulheres brasileiras ganham mais espaço no terreno sociopolítico e um número maior de escritoras chega a alcançar reconhecimento de público e crítica, que o erotismo passa com mais freqüência a ser um aspecto integrante da literatura de mulheres. A partir dessa época, ou seja, nos últimos trinta anos, observa-se uma proliferação de discursos sobre a sexualidade (Manzor-Coats, 1994, xxiv). Entretanto, se essa proliferação origina-se em parte no discurso social dominante com a função de regulamentar e catalogar o desejo e as atividades sexuais de homens e mulheres (Foucault, 1990, 30-31, 35, 36), o erotismo na literatura escrita por mulheres, inclusive as brasileiras, funciona como “a source of power, change and creativity” (Lorde, in Humm, 1992, 285). Surgem então livros como A casa da paixão (1972) de Nélida Piñon e, mais tarde, antologias coletivas de ficção erótica feminina, tais como Muito prazer (1980) e 0 prazer é todo meu (1984), organizadas por Márcia Denser, ela própria autora de um importante corpus de ficção erótica feminina. O erotismo cínico, anti-romântico, e mesmo anti-erótico de Denser é um excelente exemplo de como as escritoras brasileiras têm problematizado as relações de gênero ao mesmo tempo em que examinam as hierarquias sociais e conflitos de poder freqüentes nas relações heterossexuais centradas no desejo masculino.
Sob este aspecto, outro livro relevante publicado naquele período é 0 discurso da mulher absurda (1985), de Joyce Cavalcante, um volume de contos eróticos cujas protagonistas femininas situam-se como sujeito do desejo, buscando de modo “agressivo” (segundo os padrões masculinistas de comportamento feminino) o prazer sexual. No conto “Luta livre”, por exemplo, a protagonista é uma mulher solteira, de classe média que sai à noite procurando parceiros sexuais, e para cada amante que tem ela assume um nome diferente: Miriam, Cleide, Leila, Cláudia. Seus vários nomes representam a natureza esquiva da personagem frente aos homens com quem se relaciona. Essa posição esquiva de mulher sexualmente experiente surpreende e incomoda seus amantes, assim como deve ter incomodado a1guns leitores. Neste caso, o que perturba é o rompimento dos padrões de gênero, tanto pela personagem, ao assumir a posição de sujeito, como pela autora, que escreve de modo tão explícito sobre o erotismo feminino.
Se a expressão da experiência erótica feminina chega a ser tão problemática, a representação da sexualidade lesbiana o é ainda mais, pois rompe com as relações dominantes de gênero, ao excluir a figura do homem e colocar a mulher em uma posição de sujeito atuante, em vez do papel tradicional de objeto do desejo masculino. Assim, o desejo lesbiano na obra de escritoras brasileiras não só representa uma dimensão importante da sexualidade feminina, como também serve para expor e questionar o controle social sobre a sexualidade e o corpo femininos. O lesbianismo abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher, no qual a identificação com outro ser seu igual toma possível a auto integração do sujeito feminino. Como tem sido analisado pela teoria crítica contemporânea, as origens dessa identificação física e psíquica entre mulheres remonta ao semiótico (quando a criança encontra-se num estágio de perfeita simbiose com a mãe. Esse primeiro estágio de união influencia as relações posteriores do sujeito e determina na mulher um tendência à bissexualidade e a uma sexualidade mais fluida.3 0 romance lesbiano Sortilegiu (1981), de Myriam Campello, ilustra bem essa identificação, neste trecho, por exemplo, em que a protagonista, Ísola, conhece Marina, que mais tarde vai tomar-se sua amante: “Ísol sentia a tepidez daquele corpo refletido sobre o seu no espelho, tocando-a, como se a fusão das duas imagens produzisse calor” (1981, 47). A imagem de dois corpos superpostos no espelho prenuncia o encontro sexual das duas mulheres, quando o corpo de uma funciona como reflexo do da outra, e têm lugar a integração fisica e a reciprocidade no dar e receber prazer: “Marina […] navegava Ísola também multiplicando-se, desdobrada e vária como um prisma sob a luz. Ísola/Marina se desencadeavam prazer como o vento no capim ondulante” (1981, 65).
Em seu livro Archetypal Patterns in Women’s Fiction (1981), Annis Pratt comenta que “Through the experience of Eros with other women, […] women experience themselves for the first time not as others but as essences, reaching that place in their consciousness where they can tap the sources of their own libidinal energy” (1981, 112). Treze anos depois, Teresa de Lauretis chega a uma conclusão semelhante ao afirmar que o desejo lesbiano “affirms and enhances the female-sexed subject and represents her possibility of access to a sexuality autonomous from the male” (1994, xvii). A idéia de uma sexualidade feminina autônoma coloca-se em contraposição a um discurso social que privilegia o desejo masculino sobre o feminino, definindo o corpo da mulher exclusivamente dentro dessa hierarquia. Desse modo, a sexualidade e o desejo lesbiano podem ser entendidos como uma rejeição do sistema dominante, como o “ato de resistência” proposto por Adrienne Rich em seu importante ensaio “Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence” (1980). De Lauretis considera “the figure of the lesbian in contemporary feminist discourse [as representing] the possibility of female subject and desire: she can seduce and be seduced, but without losing her status as subject […]” (1994, 156). Desse modo, a expressão do desejo lesbiano no discurso literário representa “a place from where female homosexuality figures, for women, the possibility of subject and desire” (De Lauretis, 1994, 156). Diz ela:
 
To the extent that all women have access to that place, female homosexuality guarantees women the status of sexed and desiring subjects, wherever their desire may be directed. […] the desire expressed in the figure, in the trope, of female homosexuality may be predicated unconditionally of the female subject; it becomes one of her properties or constitutive traits. […] [and] it need not be confined in the patriarchal frame of a “heterosexual love story” (De Lauretis, 1994, 156-57).
 
A proposição de De Lauretis oferece um enfoque útil para entender o desejo e o sujeito lesbianos nos contos que vão ser aqui discuti-los. Em “Intimidade” (1977) de Edla van Steen, “A mulher de ouro” (1984) de Myriam Campello, “A Escolha” (1985) de Lygia Fagundes Telles, “Tigresa” (1986) de Marcia Denser, e “Fátima e Jamila” (1a ed., 1976; 1994) de Sonia Coutinho, a representação do desejo e da sexualidade 1ésbica privilegia notadamente a mulher como sujeito, ao, mesmo tempo em que implica em uma crítica ao sistema de gêneros. Com exceção de “A Escolha”, no qual o erotismo tem lugar num marco temporal anterior à narrativa, todos são contos eróticos contrapondo-se àquele tipo de pomografia masculina na qual a homossexualidade feminina funciona como locus de prazer para o voyeur. Nestes contos, o desejo lesbiano representa uma ruptura com o contexto sociossexual demarcado pelo patriarcalismo, um rompimento com as relações de gênero definidas pela “estória de amor heterossexual”. Esta expressão é aliás sintomática da ideologia que limita a mulher a determinadas funções sociais e narrativas (e.g. a virgem que espera o casamento e a mulher “fácil” ou a prostituta), o que explica porque a própria palavra “amor” pode ser às vezes rejeitada, já que tem toda uma carga ideológica com conotações de amor romântico, relações hierárquicas, poder e submissão.
 
2. 0 desejo lesbiano em cinco contos brasileiros contemporâneos
Pode-se considerar que os contos a serem analisados a seguir formam parte de uma tradição lesbiana na literatura escrita por mulheres no Brasil. Entretanto, há que se reconhecer que caracterizá-los como narrativas lesbianas pode ser problemático, não só pelas questões de censura e autocensura a que me referi acima, mas em especial pela própria complexidade da discussão crítica em torno do que se poderia chamar “literatura lésbica”. Pesquisadoras como Bonnie Zimmerman, Barbara Smith, Lillian Faderman e Marilyn R. Farwell apresentam definições às vezes contraditórias entre si. Enquanto que Zimmerman é categórica, ao afirmar que “the nature of lesbian fiction makes it impossible to separate the text from the imagination that engenders it” (1995, 15), sendo portanto o texto lesbiano aquele escrito por uma mulher homossexual, Smith vê a crítica textual das instituições heterossexuais como o elemento caracterizador da narrativa lesbiana (1979, 188). Por outro lado, tanto Faderman quanto Farwell comentam as dificuldades e complexidade da questão e apontam o leitor como o “locus of the lesbian in the lesbian text” (Farwell Heterosexual Plots 7). Deste modo, corrobora-se a necessidade de uma leitura que dê nome e existência ao personagem ou ao desejo lesbiano, ainda que o próprio texto não pareça fazê-1o abertamente.
No contexto da socieade e cultura brasileiras, que freqüentemente rejeitam rótulos rígidos, nem todas as personagens destes cinco contos se identificariam como homossexuais. Por exemplo, em “Intimidade” de van Steen e “Fátima e Jamila”, de Coutinho, temos personagens casadas vivenciando um momento de desejo homossexual. Estes dois contos seriam um exemplo do fenômeno histórico da “amizade romântica” entre mulheres casadas (Haggerty c Zimmerman: 3); ambos, entretanto, lançam mão da sugestão, da ambigüidade e, no caso de Coutinho, de uma imagética forte, para criar situações de inequívoca carga erótica, que permitem lê-los como expressão de um desejo lesbiano. Falando da literatura anglo-americana novecentista, Vinetta Colby faz um comentário pertinente ao afirmar que, muitas vezes, na ficção de autoria feminina, a paixão entre mulheres “is sublimated in relationships that modem readers would immediately designate as lesbian” (Pratt, 1981, 96). Nos contos de Van Steen e Coutinho, o desejo lesbiano transparece através de um erotismo denso e fundamentalmente carnal, e é tal “carnalidade” (Stimpson, 1981, 301), que leva a enquadrar estes dois textos numa tradição literária lesbiana no Brasil.4
Já os contos “A Escolha”, de Telles, e “A mulher de ouro”, de Campello, problematizam as relações de gênero na sociedade brasileira ao mesmo tempo em que enfocam, cada um à sua maneira, a questão da invisibilidade e “unnameability” do sujeito lesbiano. Enquanto Telles emprega com maestria a ambiguidade característica de sua ficção, Campello solta a “gargalhada da Medusa”, para usar a expressão de Hé1ène Cixous, e lança mão do humor e do sarcasmo como estratégias narrativas para forçar a abertura de um espaço onde seja possível representar o desejo lesbiano. Há nos dois contos um excesso textual–seja a ambigüidade que não se explica facilmente, seja o sarcasmo desafiante da voz narrativa–que vem exatamente do caráter excessivo do desejo e do corpo lesbiano.5 Enquanto que esse excesso é “descaradamente” anunciado pela protagonista de Campello, no conto de Telles ele reside nas reticências, na ambigüidade, naquilo que não se enuncia mas cuja presença, no entanto, é indubitável. Estes dois contos, como aliás “Tigresa” de Márcia Denser, correspondem a outro modo de entender a narrativa lesbiana, qual seja, a partir de uma economia textual desestabilizadora, tanto das categorias narrativas como de gênero (Farwell, Heterosexual Plots 8-9). 0 texto lesbiano, diz Farwell, apresenta “a disruptive female body that reorders the traditional narrative structure”. Diana Marini, a protagonista de “Tigresa”, incorpora essa presença feminina perturbadora e excessiva, a partir da qual o texto se constrói como um discurso desordenado e transgressivo, crítico das relações sociossexuais da burguesia brasileira.
 
3. “Intimidade” e “Fátima e Jamila”: a mulher “heterossexual” e o desejo lesbiano
Edla van Steen, que em 1977 ganhou o prêmio Revista Status de literatura erótica, enfoca em sua ficção o questionamento da identidade sexual de suas personagens e a subversão das categorias de gênero. Suas protagonistas freqüentemente encontram-se num processo de busca da auto-realização pessoal e sexual e da definição de um sentido de identidade. Essa busca, normalmente impossibilitada de atingir uma conclusão satisfatória no contexto patriarcal da sociedade brasileira, leva as personagens a criarem espaços alternativos onde a realização pessoal e sexual do sujeito feminino toma-se viável. Em “Intimidade”, o desejo lesbiano vivenciado pelas duas personagens, Ema e Bárbara, representa tal espaço alternativo.
“Intimidade” constitui um instantâneo do cotidiano das duas amigas que vai revelar, para além dos atos rotineiros em primeiro plano, uma realidade mais profunda e mais íntima a partir da qual a intimidade entre as duas mulheres ganha uma nova dimensão. Ema e Bárbara são duas amigas inseparáveis, fisicamente parecidas, cujos maridos trabalham juntos, e que ficaram grávidas e tiveram filhos ao mesmo tempo. Tudo aqui reforça a idéia de identidade entre as duas mulheres, inclusive a semelhança física entre as duas. A narrativa mostra-nos as duas conversando, já tarde da noite, numa hora em que as crianças estão dormindo e os maridos ausentes, propiciando assim um dos “raros [ … ] instantes de intimidade” (1977, 68) entre as duas mulheres. A brecha que então se abre na rotina vai se colocar em oposição ao cotidiano estruturado sobre o sistema de heterossexualidade compulsória. No conto, a cultura masculinista está representada na figura do marido, cuja presença implica no silêncio e na imobilidade da mulher que se sente nulificada: “Se o marido estivesse em casa a obrigaria a assistir à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho” (1977, 66). Ao contrário deste cenário estruturado sobre o desejo do homem, a presença da amiga cria um clima de intimidade, identificação, união, no qual tanto Ema quanto Bárbara agem espontaneamente, sentem-se elas mesmas, desoprimidas: “Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio” (1977, 68).
A partir de uma situação banal, na qual o desejo sexual pareceria soterrado pela domesticidade, a narrativa vai fornecendo-nos índices isolados da corporalidade das duas mulheres, da dimensão física que Barbara e Ema assumem no imaginário uma da outra. 0lhando Bárbara, Ema enxerga “uma linha de luz dourada [que] valorizava o perfil privilegiado” (1977, 65); a outra, por sua vez, admira “os cabelos soltos, caídos no rosto, [que escondiam os olhos cinzas, azuis ou verdes” de Ema (1977, 66). E mais tarde: “Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso infantil. […] Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que entendessem, em se tratando de usar o corpo” (1977, 67). De maneira fragmentária, estes índices vão apoiando a narrativa sobre o corpo feminino e vão prenunciando, ao mesmo tempo, o desejo homossexual que se manifesta quando as duas mulheres, com o pretexto de consertarem o sutiã de Ema, despem-se e comparam qual das duas tem os seios maiores e trocam então carícias. Note-se também a enunciação e o deslocamento de objetos normalmente erotizados em um discurso masculino, tais como o sutiã, o quarto de dormir e os lençóis novos n acama de Ema. Apresentados displicentemente como parte do cotidiano doméstico, esses objetos parecem perder sua carga de erotismo quando, na verdade, apenas servem para construir uma nova dimensão erótica, já que aparecem exclusivamente em função do corpo e do desejo feminino. Ao final do conto, após essa manifestação de desejo sensual, as personagens sentem uma mescla de emoções, uma “tristeza delicada, de quem está de luto” (1977, 68), que a lembrança do cotidiano evoca e, ao mesmo tempo, um “sentimento místico, meio alvoroçado, de a1guém que, de repente, descobriu que sabe voar” (1977, 68), representando-se o lesbianismo como um espaço de libertação e satisfação pessoal e sexual para o sujeito feminino.
Também no conto de Sonia Coutinho, “Fátima e Jamila”, o desejo homossexual entre mulheres manifesta-se como um espaço alternativo que isola e une as duas personagens do título, apartando-as do espaço maior do desejo e do poder masculino. Este aparece claramente descrito na primeira parte do conto:
Sentado à cabeceira da mesa comprida armada na varanda dos fundos, benevolente e soberano como um chefe patriarcal, o Marido presidira o encontro de Homens em Trajes Escuros e as mulheres de cabelos em penteados altos, roupas volumosas enfeitadas com rendas e jóias em demasia: dignos rcpresentantes da Nobreza Colonial Extinta, exibindo um antigo luxo trazido em caravelas de Portugal (Coutinho, 1994, 132).
O uso das maiúsculas, recurso bastante usado por Coutinho, apresenta a ordem social dominante sob uma ótica crítica, ao mesmo tempo em que a caracteriza como uma mentalidade colonial anacrônica. Essa realidade vai servir de pano de fundo ao espaço íntimo que se vai estabelecendo entre as duas protagonistas; é como se o foco de uma câmera cinematográfica, depois de um “establishing shot” em que apresenta o contexto social da ação narrativa, fosse se fechando pouco a pouco até enfocar exclusivamente as duas mulheres. Entretanto, a ação propriamente dita é quase inexistente e, sob este aspecto, o conto de Coutinho é menos explícito quanto à manifestação do desejo homossexual das duas personagens que o de Van Steen. Não há, por exemplo, nenhuma referência a carícias on qualquer outro contato físico. O texto, entretanto, está carregado de um erotismo pujante que se constrói pelas e nas próprias palavras. O erótico reside, antes de mais nada, no próprio texto, nas palavras cheias de sumo, de odores, de vida própria, excessiva, que conotam languidez e sensualidade. Veja-se um exemplo:
A brisa vinda do mar, lá longe, espalha pela sala o aroma pesado das frutas empilhadas nas cestas […]: umbus cuja acidez termina em doçura final dissolvendo-se na boca, bananas pontudas e recurvas como adagas, mangas rosadas cabendo na mão feito seio ovalado e cujo grosso caldo amarelo escorre pelo queixo, cajus quase púrpura, o travo das pitangas (Coutinho, 1994, 131-32).
Coutinho constrói um cenário que apela para todos os sentidos, inclusive o sonoro, combinando palavras que ora evocam lugares exóticos, ora alongam-se sensualmente no “espreguiçamento” fonético da aliteração e das proparoxítonas (por exemplo, “a requintada pourriture do Tokay”; “sabores aveludados e sépidos”; “As sombras já se alongam entre os troncos dos flamboyants e das acácias”; etc (1994, 133). Vale lembrar aqui o comentário de Sylvia Molloy, que afirma:
 
Women’s eroticism appears to express itself in forms more diverse […] than the primarily sexual. […] What one often finds in women writers, in terms of erotic desire, is a slippage from sex to text: the text itself is an erotic encounter in which the poet [or the writer] makes love to her words. […] Not limited to the physical body, and certainly not repressing it, desire in these cases extends to the body of writing (1991, 120).
Coutinho utiliza a linguagem para construir um cenário altamente sensual ao que concorrem também imagens e metáforas, tais como a orquídea que Fátima colhe entre as frutas na mesa. A orquídea, símbolo da sexualidade feminina, aparece aqui detalhadamente descrita por Fátima, que conclui: “As flores são hermafroditas” (1994, 133). Tal afirmação sublinha a presença dos símbolos sexuais, masculinos e femininos, presentes no parágrafo citado anteriormente e de outros que vão aparecer mais adiante.
A narrativa continua a enfatizar a qualidade excessiva dos objetos que compõem o cenário — o calor, o ar pesado, os cheiros, a vegetação exuberante — e que reflete o caráter excessivo da sexualidade feminina: “o ardor maduro do corpo de Fátima era o do excesso de sumo que precede a decomposição” (1994, 135). A sensualidade do cenário entretece-se com as poucas descrições fisicas de Fátima (Jamila aparece somente de costas e na penumbra), seus poucos gestos misteriosos, e com as histórias de amor e sedução que ela narra à companheira, para armar então a cena-chave de sedução: “Quem você vai enfeitiçar, desta vez?” pergunta Jamila. A resposta encontra-se, novamente, não no plano do actante mas sim no plano textual, condensando-se o desejo homossexual em uma série de imagens dispostas metonimicamente:
 
Como se repentino o cantor de flamenco rompesse, no grito pungente da saeta, o silêncio branco/negro de casas caiadas sob o sol vertical do meio-dia–com estranha inquietação, […] um arrepio de presságio descendo-lhe pelos rins, quem sabe a Compreensão, Fátima se voltou e viu o rosto de Jamila (Coutinho, 1994, 135).
 
Fátima e Jamila deparam-se assim no ambíguo jogo da sedução, em que cada uma representa o papel de quem seduz e de quem é seduzida. O desejo lesbiano coloca ambas na posição de sujeito do desejo, posição esta, como nos lembra Coutinho nesta e em outras obras suas, freqüentemente vedada à mulher dentro da ordem sociossexual dominante.
 
4. 0 discurso transgressivo de Márcia Denser
Diana Marini, protagonista paradigmática e cínica narradora dos contos de Márcia Denser, constantemente infringe as regras de comportamento ao assumir ela o papel normalmente reservado ao homem. Diana é a caçadora que busca ativamente o prazer pelo prazer;6 não é a mulher passiva às investidas do homem, nem tampouco a prostituta disponível para satisfazer os desejos masculinos. Diana busca a satisfação do seu próprio desejo sexual e para tanto “utiliza a própria arma do dominador”, ou seja, a sedução erótica. Por essa razão, “o homem, acostumado a ‘controlar’, vê-se ineficiente diante dela” (Franconi, 1987, 57). Ao assumir o papel ativo no jogo da sedução, Diana desestabiliza as relações de gênero sem, entretanto, chegar a rompê-las: “[…] in the regime of compulsory heterosexuality, women’s power of seduction [ … ] is the flip side of their powerlessness as objects of seduction” (De Lauretis, 1994, 155). Diana caça suas presas sexuais (masculinas) mas suas armadilhas são os ditos ardis “femininos”, porque ela aparentemente se submete aos homens com quem vai para a cama, embora tenha uma grande consciência crítica de sua posição, enquanto mulher, frente ao desejo masculino. 0 comportamento sexual de Diana assume uma dimensão subversiva porque ela se furta a, controle social do corpo feminino e recusa seu lugar no sistema de procriação e transmissão de valores econômicos e ideológicos. Entretanto, são as reflexões cínicas de Diana narradora, assim como o próprio estilo narrativo de Denser, que desestabilizam o sistema dominante de gêneros porque expõem criticamente as hipocrisias da sociedade brasileira (em particular de seu vasto segmento burguês) e problematizam as relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres. A narrativa de Denser torna óbvia a maneira como os atos mecânicos, o interesse próprio e o gosto pelo poder impossibilitam a expressão autêntica de Eros.
Denser usa o erotismo para examinar as relações de poder, não apenas entre homens e mulheres, como também entre indivíduos de diferentes classes sociais e grupos raciais. Cabe ressaltar, aliás, que apesar de inverter o sistema de gêneros e adotar comportamentos geralmente inaceitáveis para a mulher, Diana Marini incorpora muito da ideologia burguesa preconceituosa, principalmente no que diz respeito às classes sociais mas também em relação à homossexualidade. Estes dois aspectos ficam bem exemplificados no conto “Tigresa”, em que a protagonista expressa seu desdém por indivíduos das classes baixas (“Olhei-o dum jeito de estremecer até os bagos do seu tataravó, se é que essa gente tem raça. Brotam das lixeiras”, 1986, 123-24) e seu incômodo quando confrontada com o desejo de outra mulher por ela (“Aquele olhar untuoso e apaixonado de odalisca me incomodava”, 1986, 132). “Tigresa” é um ótimo exemplo do tipo de narrativa transgressora característica de Denser, fragmentada, rápida, caótica, com diálogos suspensos e o encadeamento dos pensamentos da protagonista, empenhada em sua avaliação apressada e sempre crítica do outro. Em “Tigresa”, que se revela também um pouco comédia de erros, Diana é convidada por uma fã inesperada e ardorosa para uma festa. Chamada de “tigresa” pela moça, Lila, Diana imediatamente assume a máscara da mulher irresistível e sedutora, o papel da “escritora-ser-superior” cuja representação o álcool e a vaidade facilitam. O convite dá início ao jogo de sedução que continuará na festa, no apartamento de classe média alta dos pais de Lila. Diana vai à festa, convencida de sua máscara, para descobrir que já outra pessoa havia armado um jogo de sedução com papéis marcados. Lila é então quem representa o papel de “tigresa”: ela vai (tentar) seduzir Diana, troca beijos com outra mulher para escândalo de alguns convidados, e seduz, no sentido de fascinar, a todos os outros presentes. Entretanto, o comportamento homossexual de Lila não é tanto a expressão do seu desejo por Diana e pela outra mulher, como é, na verdade, resultado da vontade de “épater les bourgeois” (Faderman, 1995, 50). Aliás, Rich lembra que em contextos culturais tais como o brasileiro, nos quais a homossexualidade feminina permanece “invísivel”, o lesbianismo reduz-se às vezes a um fenômeno das classes altas, onde os comportamentos ditos “decadentes” são vistos com um misto de fascinação e condescendência (Rich, 1983, 156, n. 44). Trazer Diana à festa tem assim, antes de mais nada, a função de marcar a diferença de Lila perante a família e os amigos.
Ao final do conto há outra vez uma troca de papéis, e de seduzida Diana passa de novo a sedutora:
 
[ … ] Lila segurou-me pelos ombros e debaixo do meu sono e cansaço percebi outra vez o olhar gorduroso do desejo. Está bem, pensei, eu me rendo, doce Lila, mas costumo terminar o que começo. Vamos ver até onde você vai. […] Lila encostou-se melosamente na parede, com infinitos dengos de sedução. […] Então, calmamente mandei:
— Tira a roupa. […]
— Tira tudo. Se você quer é pra valer, meu bem. Lila engoliu o riso (Denser, 1986, 135-36).
Diana utiliza as armas de Lila com o mesmo resultado que a outra pretendia alcançar: se Lila queria viver uma experiência homossexual para “épater les bourgeois” e demarcar um espaço próprio, é ela que, como boa filha de família burguesa, sai chocada e mesmo humilhada da experiência. No entanto, a protagonista afinal assume, não a máscara de tigresa, mas a pele do tigre que, acossado, acaba ferindo: “[…] não sei porque, lembrei aquela frase do Emest Hemingway em As neves do Kilimanjaro a respeito de um tigre que foi encontrado morto, enregelado entre os cumes cobertos pela neve e que ninguém, ninguém jamais soube explicar como e por que ele chegou até lá” (Denser, 1986, 136). é Diana, portanto, que marca sua diferença, seu espaço à parte, sua solidão, dentro do espaço maior da sociedade burguesa brasileira.
5. Lygia Fagundes Telles e Myriam Campello: “to name or not to name, that is the question”
Em 1985, quando “A Escolha” sai publicado, o lesbianismo já não era tema novo para Lygia Fagundes Telles. Em seu primeiro romance, Ciranda de pedra (1954), Telles já abordava o tema de maneira aberta, embora refletindo os preconceitos sociais dominantes então. Na obra, a personagem Letícia, depois de um amor heterossexual frustrado, passa a seduzir moças mais jovens para logo se apaixonar pela protagonista, Virgínia. Numa cena em que as duas se beijam e Letícia propõe a Virgínia que vá morar com ela. Apesar de avançada para a época, a obra apresenta a homossexualidade de Letícia como um “mal” que ela causa a si mesma e às outras moças. Sua identidade homossexual aflora como conseqüência de uma desilusão com um homem e a própria Letícia assume uma posição masculinista em relação a suas amantes. Quase vinte anos depois, em As meninas (1973), Telles procura apresentar uma visão mais natural do lesbianismo, embora a experiência homossexual seja agora quase um acidente na vida da personagem. Lião, uma das três protagonistas, tem sua primeira experiência sexual com outra moça e essa iniciação é caracterizada como uma etapa no processo de crescimento da jovem, um fenômeno passageiro, num processo de desenvolvimento que levará a mulher à “normalidade” heterossexual.7
Enquanto que nessas obras Telles aborda o tema sem subterfúgios, é em contos como “A Escolha” que o lesbianismo ocupa verdadeiramente o centro da narrativa, determinando inclusive a própria construção do texto. Neste conto a autora problematiza a representação textual e social do sujeito e do desejo lesbianos, realizando aqui o que Foster, em outro contexto, caracterizou como um procedimento de “[textualizing] […] the problems of writing about a subject that cannot be satisfactorily accommodated within the dominant discourse” (Foster, Gay and Lesbian, 1991, 141). A solução que Telles encontra para esse problema de representação reflete a posição “invisível” da mulher 1ésbica na sociedade brasileira, cuja existência, em geral, ou é reconhecida através de expedientes irônicos que não a nomeiam ou é acolhida com violência, reduzindo-a à condição de prostituta e promíscua (Miccolis, 1983, 89-90). Para expor no plano textual esses dois modelos sociais de representação do sujeito e do desejo lesbiano, Telles os reproduz literariamente utilizando a imagem de rosas vermelhas para substituir paradigmaticamente o amor de duas mulheres, Gina e Oriana. As duas, na verdade, encontram-se ausentes do texto, Gina já morta e Oriana roubada de sua voz, afirmando-se suas presenças somente pelas rosas vermelhas que Oriana, calada mas teimosamente, deixa no túmulo de Gina. O conto é narrado por outra mulher, a mãe de Gina, cujas rosas brancas contrastam e competem com as vermelhas, assim como ela disputa o amor da filha, mesmo após sua morte, com a amante desta. A narradora “não confiável” e a não enunciação da homossexualidade de Gina e Oriana estruturam a ambigüidade tão a gosto da autora. Narrado pela voz hostil e ciumenta da mãe, o relacionamento de Gina e Oriana vai situar-se no espaço oculto do quarto de portas fechadas e vozes abafadas. A perspectiva materna oferece uma visão ambígua da filha, “dissimulada” e “inocente” ao mesmo tempo (Telles, 1985, 13, 1), e vil de Oriana (“voce é suja”, 1985, 129), enquanto que o amor entre as duas, na imagem das rosas vermelhas, representa-se pelo excesso que socialmente caracteriza a sexualidade lesbiana. As rosas que a amante deposita Para Gina são “vermelhonas, completamente desabrochadas [ … ] deslavadas ao sol, quase obscenas de tão abertas” (1985, 129). Contrastando com o excesso do “vermelho-negro” (1985, 129), o branco das rosas da mãe representa o discreto, o comedido, o socialmente aceito.
Colocada entre as duas, Gina é violentamente forçada a uma definição, num confronto que reproduz a violência com que a sociedade pode tratar a mulher lésbica: “[…] de repente comecei a gritar, batendo com os punhos nos joelhos” (1985, 131); “Faça o que quiser, vá-se embora com Oriana ou fique comigo, a decisão é sua, tem todo o direito de escolher” (1985, 133). A mãe empresta voz à ideologia dominante ao tentar controlar a sexualidade da filha. Gina, entretanto, não escolhe nenhuma das duas opções que a sociedade, na figura da mãe, lhe impõe, e nem assume a marginalidade social da mulher lésbica, nem renuncia a seu amor por outra mulher: “Me lembrei de tanta coisa, tanta mas em nenhum instante me ocorreu que além das opções que lhe ofereci havia uma terceira. Que ela escolheu em surdina, fechada lá no seu mundo secreto” (1985, 133). 0 suicídio aparece assim como única resolução possível para o conflito em que a sociedade a lança. É, contudo, uma resolução novamente ambígua, expressão tanto da agência e autoridade da mulher lesbiana como de sua mudez, ato de silêncio que a retorna à invisibilidade a que a sociedade a confinou.
Myriam Campello, por sua vez, em “A mulher de ouro”, responde de modo bastante distinto à questão da (in)visibilidade do sujeito e do desejo lesbianos na sociedade brasileira e de que modo nomeá-los quando se tem como recurso um sistema sociolingüístico inadequado para tal. Ao contrário de Telles, que lança mão do próprio código social discriminatório ao tratar o tema do lesbianismo sem chegar a nomeá-lo, Campello força a abertura de um espaço para o sujeito lesbiano, enunciando desafiadoramente o desejo homossexual feminino. Ao fazê-lo, atreve-se a anunciar uma nova ordem, na qual a homossexualidade terá lugar reconhecido:
 
Aqui uma nota: Proust esperou até que a mãe morresse para poder dizer as coisas. Mas a minha está viva e terá que agüentar. Paciência, mamãe. Sei que tem vizinhos, parentes e amigos, mas a verdade queima, louca para sair. Além disso é bom ir se acostumando, gente fresca o lobo vai comer e lamber os beiços nesta década, para mim está claro como água (Campello, 1984, 59).
De novo a figura materna encarna a ideologia dominante contra a qual a mulher homossexual tem que se rebelar para afirmar sua verdade — sua sexualidade — recusando o pacto de silencio estabelecido. Enunciando ostensivamente seu desejo sexual por outra mulher, a protagonista-narradora de Campello antecipa-se com muito sarcasmo a qualquer reação negativa que a sociedade (a mãe, os vizinhos, os parentes, quem sabe o leitor) pudesse expressar: “Oh, Senhor, o que fazer desse desejo? E, oh, Senhor, uma mulher!” (1984, 61). A enunciação inequívoca da sexualidade lesbiana, o humor e o sarcasmo são as estratégias narrativas utilizadas pela autora para dar ao sujeito homossexual feminino o espaço que lhe é devido.
Em a “A mulher de ouro”, a protagonista-narradora conta como, após ter saído “do último casamento” (1984, 60), conhece em uma discoteca a mulher do título. O desejo lesbiano, no entanto, não é caracterizado como consolo para um amor heterossexual frustrado. Na verdade, Campello cria uma protagonista consciente de sua sexualidade, uma mulher que já viveu experiências tanto homossexuais como heterossexuais, ilustrando assim a idéia, encontrada em Foucault, Rich e mesmo em Freud (De Lauretis, 1994, xiii, 4, 1), de um “continuum sexual” no qual a homossexualidade e a heterossexualidade aparecem como expressões possíveis da sexualidade humana. Entretanto, o conto privilegia claramente o desejo lesbiano, enquanto critica as relações dominantes de gênero e o casamento firmado sobre “séculos de herança medieval, amor eterno, babaquices lançadas sobre [a mulher] […]” desde que nasce (Campello, 1984, 60).
Desiludida afinal com as falsas promessas do amor romântico (heterossexual), a protagonista decide buscar “uma fórmula de contato humano” que não a aprisionasse (50), não a submetesse, uma relação não-hierárquica, entre iguais, e o desejo lesbiano acena com essa possibilidade. Com a “mulher de ouro” ela vive uma relação idílica de plena satisfação sexual, livre de vínculos sociais: “Não lhe perguntava nada. Mal sabia seu nome, evitando por minha vez lhe dar informações que penderiam incômodas” (1984, 63). 0 idílio, entretanto, chega ao fim quando a amante pronuncia a palavra proibida: “num momento de selvagem doçura a mulher de ouro […] me olhando nos olhos disse que me amava. […] Foi nossa última noite. Não quis mais vê-la” (1984, 63). Para a protagonista, a declaração de amor da outra mulher evoca conotações de posse, submissão e hierarquia, comuns no amor heterossexual, c ela opta pelo rompimento, embora o final do texto sugira que tal opção é feita à custa do seu amor pela outra mulher.
“A mulher de ouro” acaba sendo uma história de amor lesbiano, tão romântico como uma história de amor heterossexual poderia ser. O que cabe ressaltar neste conto, no entanto, é a representação do amor homossexual entre mulheres como possível e natural, e do sujeito lesbiano como qualquer mulher, de qualquer grupo social (“Ela era diferente de mim. Simples, tímida, trabalhava em qualquer repartição do governo”, 1984, 59). Ao lado do sarcasmo com que desafiadoramente Campello tira o sujeito lesbiano da sua invisibilidade e silêncio, observa-se também a preocupação de criar uma linguagem adequada para reproduzir da maneira a mais autêntica possível a vivência da mulher homossexual, em particular suas experiências sexuais e eróticas:
 
[ … ] uma febre oceânica me devorou, uma tempestade me comeu, toda a mitologia hindu visitava meus desvãos solitários enquanto Brahma, Vishnu e Siva corriam pelos nervos de raiz à mostra, o que era, Senhor, esse olho de tufão me empurrando pra fronteiras tão longínquas que eu nem sabia existirem. […] e não eram só os orgasmos tremulando por meu corpo como carrilhões de catedral que me conduziam a essa perplexidade de prazer, era o espaço perfeito deixado por seu rastro na minha alma, uma anulação tão grande na plenitude que me vi à beira do êxtase religioso (Campello, 1984, 61-62).
 
Campello alterna passagens eróticas como esta a trechos de muito humor em que se antecipa a uma possível reação negativa por parte do leitor frente ao erotismo lesbiano: “imagino que deva haver alguém na distinta platéia que se questione aflito, mas o que podem fazer duas mulheres juntas? Respostas para o Ministério da Educação” (1984, 62). A combinação desses dois registros lingüísticos, o erótico e o humorístico, sublinha o que parecem ser as intenções da escritora neste conto e, aliás, em outras obras suas: a abertura de um espaço narrativo onde seja possível a afirmação da identidade e sexualidade lesbianas e a criação de um discurso erótico feminino independente do desejo masculino e, concomitantemente, a conscientização do público leitor, preparando-o para a nova ordem social que ela anuncia.
*****
Examinaram-se aqui cinco contos de escritoras brasileiras contemporâneas em que o desejo homossexual feminino ocupa uma posição central na narrativa, chegando a determinar a construção formal do relato. Apesar de o modo de representação do desejo lesbiano diferir nestes contos, em todos ele se apresenta como um locus que permite à mulher o exercício de sua subjetividade, abandonando ela aposição de objeto passivo ao qual tem sido limitada dentro do sistema dominante de gêneros. Desse modo, o lesbianismo não só abre um canal para a expressão autêntica do erotismo feminino como serve também para realizar uma crítica às relações heterossexuais hierárquicas.
As estratégias narrativas utilizadas per Edla van Steen, Sonia Coutinho, Márcia Denser, Lygia Fagundes Telles e Myriam Campello vão desde a sugesão e a ambigüidade até o humor e a enunciação clara do sujeito e do desejo lesbianos. Nem sempre explícitos, estes contos exigem às vezes uma leitura “queer” que afirme aquilo que aí se acha presente mas não se nomeia: o desejo homossexual feminino. O conto de Telles é, talvez, o que melhor textualiza esse problema, ao trabalhar literariamente com um código cultural que torna o sujeito lesbiano socialmente invisível. De maneira semelhante, as narrativas de van Steen e Coutinho armam-se sobre esse paradoxo, dando representação ao erotismo lesbiano sem, contudo, dar-lhe nome. Coutinho, aliás, escreve em “Fátima e Jamila” passagens de grande sensualidade e erotismo, numa expressão do erótico que transcende o puramente sexual para permear o textual. Também Campello trata de criar uma linguagem adequada à representação das experiências de vida -sexuais e não sexuais – da mulher 1ésbica. 0 conto de Denser, por sua vez, caracteriza-se como um discurso transgressivo que rompe e subverte o sistema dominante de gêneros; através da visão pessoal de sua protagonista, Diana Marini, a autora denuncia as práticas discursivas discriminatórias da homossexualidade feminina ao mesmo tempo em que expõe a apropriação do lesbianismo pelas classes burguesas brasileiras, que fazem daquele uma marca de diferença, quase se poderia dizer, um “símbolo de status”.
Apesar das diferenças aqui verificadas, que respondem às diversas definições teóricas do lesbianismo na literatura, estes cinco contos exemplificam a construção de um espaço literário que afirma um lugar para a subjetividade lesbiana, um espaço onde tanto o personagem lésbico quanto outros personagens femininos podem vivenciar ativamente sua sexualidade e seu desejo (Farwell, “Lesbian Narrative”, 1995, 157). É portanto a criação desse espaço e a centralidade do desejo lesbiano nestas obras que permitem inseri-las em uma tradição lesbiana na literatura brasileira de autoria feminina.
NOTAS
Este ensaio foi publicado originalmente na Revista Iberoamericana, v. LXV, n. 187, abril-junho 1999: p. 405-421.
2 Ver, por exemplo, o poema “Impressões do gesto” (Mulher nua, 1928) de Gilca Machado, que expressa o desejo lesbiano ao representar o prazer sensual da voz poética feminina despertado por outra mulher; Queiroz, no romance As três Marias (1939), faz referência às “amizades viciosas” entre as intemas e as órfãs do colégio; e, segundo indicação de Earl E. Fitz, já no primeiro romance de Lispector, Perto do coração selvagem (1944), a protagonista contempla a possibiliclade de ter una relação homossexual. Lispector volta a abordar o lesbianismo em contos como “A solução” (de A legião estrangeira, 1964), “O Corpo” (de A via crucis do corpo, 1974) e em A hora da estrela (1977).
3 A bibliografia sobre o assunto é extensa mas poder-se-iam ver a respeito, entre outras, as seguintes obras: “The Laugh of the Medusa” (1975) e outros ensaios de Hé1ène Cixous; “Stabat Mater” (1986) de Julia Kristeva; e The Practice of Love (1994), de Teresa de Lauretis.
4 Diz Catherine Stimpson em “Zero Degree Deviance” (1981): “[A lesbian] is a woman who finds other women erotically attractive and gratifying. Of course, a lesbian is more than her body, […] but lesbianism partakes of the body […] That carnality distinguishes it from gestures of political sympathy with homosexuals and from affectionate friendships in which women enjoy each other, support each other” (1981, 301). Enquanto que uma definição categórica do sujeito não se adequa ao contexto cultural brasileiro, o que me parece válido na proposição de Stimpson é que ela exclui as simples demonstrações de amizade ou apoio político entre mulheres. De qualquer modo, as categorias são sempre insatisfatórias e pecam pela rigidez. Deve-se lembrar, neste sentido, as palavras de Herbert Daniel: “A homossexualidade não se fecha numa definição, nem mesmo pode ser reconhecida como objeto definível. É simplesmente uma forma de viver a sexualidade” (1983, 52).
5 É comum nas culturas ocidentais a noção do corpo feminino como excessivo, porque é de seu caráter exceder, expelir, lançar para fora (secreções, a menstruação, o parto etc), e é esse excesso que o discurso dominante procura controlar de várias formas (Foucault, 1990, 104 e seguintes). O corpo lesbiano seria então duplamente excessivo porque “[it] exceeds [the genderl system by being what the system constructs as the ultimate threat: a female body, a woman’s sexuality, independent of the male” (Farwell, “Lesbian Narrative”, 161).
6 A intencionalidade do nome da personagem, que se anuncia no título do livro, Diana Caçadora, já foi observada pelos críticos, entre eles Rodolfo Franconi (1987) e Susan Quinlan (1991).
7 Observações semelhantes são feitas por Pratt (1981, 97) sobre romances anglo-americanos publicados antes de 1970, e por Foster sobre O Cortiço (Sexual Textualities, 2).
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Bio fornecida pelo palestrante.

PÓS-COLONIALISMO, FEMINISMO E A ESCRITA DE MULHERES DE COR NOS ESTADOS UNIDOS




PÓS-COLONIALISMO, FEMINISMO E A ESCRITA DE MULHERES DE COR NOS ESTADOS UNIDOS


Darlene J. Sadlier

Indiana University-Bloomington

A área de estudos pós-coloniais nos EUA surgiu dum interesse em autores de lugares previamente colonizados, como Índia, Paquistão e África, os quais utilizaram a língua do colonizador inglês para escrever sobre a opressão, a resistência e a formação duma identidade cultural. Os organizadores duma antologia intitulada The Post-Colonial Studies Reader (1995) explicaram como esse interesse resultou numa prática teórica:
Como resultado do desenvolvimento complexo do imperialismo europeu, algo aconteceu que o plano da expansão imperial não esperava: a imensamente prestigiosa e poderosa cultura imperial foi apropriada pelos projetos da resistência contra-cultural, os quais utilizaram os muitos e diferentes processos indígenas de auto-determinação, locais e híbridos, para desafiar, desgastar, e às vezes suplantar o grande poder da sabedoria cultural imperial… Uma vez que o povo colonizado tinha motivo para refletir sobre e expressar a tensão que seguiu às problemáticas e contestadas mas eventualmente vibrantes e poderosas misturas de língua imperial e experiência local, a “teoria” pós-colonial chegou a ser uma realidade (1).
Os organizadores da antologia advertem que a teoria “pós-colonial” não pode ser considerada como igual ao conceito da “marginalidade” no sentido comum, e enfatizam que os ensaios desta antologia tratam do específico processo histórico da colonização em países antigamente dominados pela Inglaterra. Mesmo assim, é fácil compreender porque certas críticas feministas são atraídas e até identificam-se com o conceito geral do “outro” colonizado: como sujeitos subordinados ao patriarcado, ambos as feministas e os pós-colonialistas tendem a falar em nome do povo marginalizado e, desse modo, fazem semelhantes desafios ao cânone literário estabelecido.
Claro que há diferenças importantes entre a área vasta do feminismo euro-norte-americano e a área mais específica dos estudos pós-coloniais. A teoria feminista privilegia o gênero e a sexualidade enquanto os estudos pós-coloniais estão mais preocupados com a raça e a classe social. Algumas feministas e críticas pós-coloniais encontraram um território comum no conceito da “duplamente colonizada” -uma expressão que se refere às mulheres nos países antigamente colonizados que são duplamente colonizadas por leis coloniais e patriarcais; como resultado, surgiu um tipo de subcategoria de estudos pós-coloniais, sintetizando a teoria feminista e a análise do imperialismo. Não é supreendente, porém, que a síntese de gênero, raça e classe social crie problemas. Para as escritoras e críticas pós-coloniais, a solidariedade com a comunidade (mesmo que seja uma comunidade patriarcal e bem tradicional) tende a relegar ao segundo plano a lealdade ao gênero. A tensão criada por esta situação pode ser vista na resposta feminista à famosa literatura de testemunho da guatemalteca Rigoberta Menchu e da boliviana Domitila Barrios de Chungara–duas ativistas camponesas cujas narrativas dão primeiro plano à discriminação racial, ao conflito das classes sociais e à luta econômica. Embora estas duas mulheres reconheçam que o gênero tem relação com a repressão social, suas narrativas preocupam-se com a luta pela liberação de comunidades inteiras que são subordinadas ao poder colonial. Em 1975, na celebração do Ano Internacional da Mulher na Cidade de México, onde Menchu foi convidada a falar, feministas anglo-americanas elogiaram seu heroísmo mas ficaram descontentes com sua priorização de raça e classe social sobre gênero.
Um descontentamento semelhante tem sido expresso às feministas por mulheres de países em desenvolvimento. As críticas Patibha Parmar e Valerie Amos dizem que o feminismo euro-norte-americano dá demasiada atenção à política sexual da classe média branca; seu relativo silêncio sobre assuntos de raça e classe social o torna perigosamente semelhante à ideologia imperial que ele presumivelmente repudia. Em outras palavras, as mulheres nos dois lados desse assunto – mulheres em países relativamente prósperos contra mulheres em áreas relativamente pobres do mundo–têm uma relação incômoda umas com as outras.
Até certo ponto o que estou descrevendo como a relação ambivalente entre os estudos feministas e os estudos pós-coloniais tem um paralelo nos Estados Unidos na tensão entre a maioria das feministas, que escrevem sobre a opressão patriarcal dum ponto de vista da classe média branca, e as mulheres radicalizadas de cor (não consideradas brancas) (de descendência africana, hispânica e asiática) que escrevem sobre assuntos raciais. Mulheres de cor nos Estados Unidos são duplamente colonizadas e preocupam-se muito mais com a política de classe social; de fato, às vezes elas afirmam que são marginalizadas por feministas brancas não só por causa dos seus temas mas também porque a forma de suas escritas não se conforma àquilo que é geralmente classificado como teoria feminista.
Por exemplo, a feminista afro-americana bell hooks e as feministas chicanas Gloria Anzaldúa e Cherríe Moraga, entre outras, preferem narrativas autobiográficas que são acessíveis a um amplo público leitor. Por serem animados pela experiência pessoal, seus livros não cabem nitidamente nos paradigmas dominantes (reinantes) da teoria, que tendem a enfatizar a natureza ilusória do sujeito individualizado burguês. Como a guatemalteca Menchu, as mulheres de cor tendem a usar narrativas pessoais para comunicar uma experiência não conhecida para a maioria das mulheres nos Estados Unidos e para dar a uma minoria oprimida o status de autoraautoridade. Mas enquanto o testemunho de Menchu foi transcrito e ordenado para adaptar-se a um espanhol “normal,” hooks, Anzaldúa e Moraga são teóricas educadas, escrevendo na língua da cultura dominante mas adotando experimentos complexos com o vernáculo negro, “Spanglish” e “code-switching” (trocar do códigos).
É interessante considerar hooks, Anzaldúa e Moraga em termos do conceito proposto por Edward Kamau Braithwaite sobre a língua submergida – quer dizer, uma forma subversiva de inglês que é freqüentemente associada com uma população não-alfabetizada. Estas escritoras também se parecem com o grupo feminista da Jamaica chamada Sistren, cujas peças revisam radicalmente tanto a língua inglesa, pelo uso dum “patwah” (diferente do “patois”) como o drama como forma literária, pela incorporação de formas folclóricas, o rito e o testemunho (Katrak, 257). Por exemplo, no livro Talking Back: Thinking Feminist, Thinking Black (1989), hooks joga com a idéia de “back talk”–uma forma de falar das famílias afro-americanas pela qual uma criança ou uma mulher afirma sua igualdade em desafio a uma figura de autoridade. Hooks diz:
A ênfase (nos círculos feministas) no silêncio da mulher (o signo da submissão da mulher à autoridade patriarcal) pode ser uma recordação fiel daquilo que passou nas famílias de mulheres WASP (brancas, anglo-saxãs, protestantes) nos EUA, mas nas comunidades negras (e em diversas comunidades étnicas), mulheres não ficaram caladas. Suas vozes podem ser escutadas. De fato, para mulheres negras, nossa luta não foi surgir do silêncio senão mudar a direção de nosso discurso que compele os ouvintes, um discurso que é ouvido (6).
Hooks deriva uma parte considerável de seu enfoque do livro de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, sobre a importância do diálogo e sua relação com a luta dos oprimidos para tornar-se sujeitos. Porém a força de seu argumento deriva de sua experiência pessoal: ela nasceu e cresceu numa comunidade negra do sul e freqüentou uma escola com alunos negros e professores negros; tornou-se uma aluna das universidades de Stanford, Wisconsin, e da Califórnia no Sul, e em Santa Cruz; e chegou a fazer uma carreira sólida como professora de literatura americana–primeiro na Universidade de Yale e depois no City College em Nova York. Hooks afirma por todo seu livro sua solidariedade com a causa da liberação feminista, mas desconfia daquelas professoras que presumem falar pelo “outro” ou que questionam a validez do que é pessoal: “É nossa responsabilidade coletivamente e individualmente distinguir entre o mero falar que é autopromoção e exploração do exótico “outro,” e aquele chegar à voz que é um gesto de resistência, uma afirmação da luta” (18). Hooks entende a teoria e prática feminista como um instrumento pedagógico e transformador, capaz de alcançar um público vasto dentro e fora da universidade, e sua crítica das tendências atuais no mundo editorial feminista é severa:
A teoria feminista esta transformando-se rapidamente noutra esfera de elitismo acadêmico, em que o trabalho que é lingüisticamente enrolado, que se deriva de outras tais obras, é considerado mais sofisticado intelectualmente, de fato é considerado mais teórico (já que o estereótipo da teoria é que ela é sinônima daquilo que é difícil de entender, que é lingüisticamente enrolado) que o trabalho que é mais acessível. Cada vez que isso acontece, a potencialidade radical, subversiva da erudição feminista e da teoria feminista é solapada (36).
É interessante que hooks tenha sido criticada por alguém que se poderia esperar ser sua partidária – a bem conhecida crítica pós-colonialista, Sara Suleri, que vem duma próspera família paquistanesa e que também ensina em Yale. Segundo Suleri, hooks está demasiado preocupada consigo mesma para fazer uma significante contribuição às idéias sobre raça e gênero:
O livro Talking Back é curiosamente comprometido com o ato de falar consigo mesmo; ao rejeitar o modo de protesto de Caliban, sua crítica da colonização é quietamente narcisista… 0 trabalho de hooks baseia-se nos casos da experiência vivida e sua capacidade de oferecer uma alternativa ao discurso daquilo que ela chama de o racionalismo patriarcal… Hooks afirma que a narrativa pessoal é o único conforto aos rudes atritos que a teoria feminista ocidental infligiu no corpo da etnicidade. As histórias da experiência vivida não podem, porém, funcionar como uma alternativa suficiente, sobretudo quando elas estão baseadas nos protestos perigosamente literárais da pós-colonização (278).
Suleri despreza as narrativas pessoais mas, ironicamente, sua própria autobiografia de sucesso, Meatless Days, é baseada nas suas experiências vividas como uma mulher na sociedade paquistana. A diferença básica entre Suleri e hooks é que Suleri tem um compromisso teórico com um paradigma pós-estruturalista que é altamente desconfiado da subjetividade individual. Suleri acredita que as vidas individuais são de algum modo “escritas” pelas leis do Estado – como podemos ver nos seus comentários sobre o Islão e os dos direitos da mulher num ensaio intitulado “Woman Skin Deep; Feminism and the Postcolonial Condition” (1992). Para hooks, o que é pessoal é menos problematicamente político. “Talking back” torna-se uma maneira pela qual aquelas mulheres que nunca tiveram uma voz pública na sociedade ou dentro do movimento feminista podem deixar de ser objeto e tornar-se sujeito. Hooks esclarece que ela não está advogando um “discurso ordinário” senão um discurso como um “ato de resistência” para o desenvolvimento duma consciência crítica (14). E sua ênfase na palavra “falando” é um reconhecimento do fato que, para certos grupos de mulheres e homens nos Estados Unidos, a alfabetização não é um dado absoluto. Para que a mudança ocorra no seio do grupo, o feminismo e a teoria feminista precisarão de se abrirem para incluir narrativas orais e teorias múltiplas que “surgem de diversas perspectivas numa variedade de estilos” (37). Hooks escreve:
O testemunho pessoal, a experiência pessoal, é terra fértil para a produção da teoria feminista liberatória porque geralmente forma a base do nosso fazer teórico. Enquanto trabalhamos para resolver esses assuntos que são mais urgentes no quotidiano (a necessidade de alfabetização, um fim à violência contra as mulheres e crianças, a saúde e os direitos da mulher e da reprodução, etc), entramos num processo crítico de teorizar que facilita e dá poder. Continuo a ficar surpresa que haja tanta escrita feminista produzida e, ao mesmo tempo, tão pouca teoria feminista que tente falar com mulheres, homens e crianças sobre as maneiras como podemos transformar nossas vidas através de uma conversão a uma prática feminista. (80)
Oito anos antes da publicação de Talking Back por bell hooks, Cheeríe Moraga e Gloria Anzaldúa organizaram This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color (1981), uma coletânea de textos escritos por várias mulheres. Como o livro de hooks, que foi publicado por South End Press, esta antologia teve dificuldades em encontrar uma editora e foi lançado por Persephone, uma pequena editora independente na costa leste dos Estados Unidos. 0 fundamento lógico da publicação de This Bridge foi ostentivamente chamar atenção para o racismo e as distinções de classe social que problematizaram a relação entre mulheres de cor e a maioria das feministas. 0 livro também salienta eficazmente as verdadeiras diferenças dentro da cultura de minorias nos Estados Unidos que era freqüentemente caracterizada pela maioria feminista como simplesmente “a outra”.
E’ interessante comparar This Bridge ao lado de outras antologias feministas que apareceram nos anos 80. Por exemplo, The New Feminist Criticism, de Elaine Showalter, inclui várias intelectuais feministas bem conhecidas que escrevem sobre a literatura de mulheres em inglês. Seu livro está totalmente dentro dos parâmetros gerais da crítica de gênero literário, e utiliza um inglês “normal” para escrever principalmente sobre autoras brancas e canônicas. (A única exceção é um ensaio de Barbara Smith sobre a crítica feminista negra que, é de notar, começa e termina com uma narrativa pessoal sobre raça e gênero.) This Bridge, por outro lado, desafia a classificação de gênero literário: reúne várias formas literárias – poesia, cartas, ensaios – e mistura ficção e não-ficção; seu propósito não é de explicar o texto senão de colocar e advogar as “diversas perspectivas e vários estilos” dum grupo de mulheres marginalizadas tanto pela sociedade quanto pela maioria das feministas. No caso particular das escritoras chicanas, isto inclui a subversão do inglês, ou, como Gloria Anzaldúa diz:
(…) apropriar-se de todas as línguas que falamos como gente que nem é espanhola nem mora num país onde o espanhol é a primeira língua; para gente que mora num país em que o inglês é a língua dominante mas não é anglo-saxônica, para gente que não pode identificar-se completamente nem com o espanhol (o castelhano oficial) nem com o inglês “normal,” que recurso resta senão criar sua própria lingua? (Borderlands 12).
Como no livro Talking Back, o enfoque mais freqüentemente utilizado pelas várias escritoras em This Bridge é autobiográfico. Isto se vê em Cherríe Moraga, em seu poema “Para a Cor da Mãe,” e no manifesto/ensaio “La Guera,” e nas narrativas de Gloria Anzaldúa intituladas “La Prieta” e “Falando em Línguas: Uma Carta às Escritoras do Terceiro Mundo.” Como hooks, Anzaldúa dirige-se à natureza e ao propósito especifico do que ela chama “haciendo teorias”:
O que é considerado teoria na comunidade acadêmica dominante não é necessariamente o que é teoria para as mulheres de cor. A teoria produz efeitos que modificam a gente e a maneira pela qual se percebe o mundo. Por isso precisamos de teorias que nos permitam interpretar o que acontece no mundo, que expliquem como e porque nos identificamos com certas pessoas de maneiras específicas, que reflitam o que acontece entre os “eus” internos, externos e periféricos e entre os “eus” pessoais e o “nós” coletivo de nossas comunidades étnicas (“haciendo”, xxv).
Depois da publicação de Talking Back e This Bridge, hooks, Anzaldúa e Moraga publicaram outros livros. O livro Teaching to Transgress (1994), de hooks, publicado por Routledge, é um experimento mais complexo que abrange a narrativa pessoal, a prática pedagógica e a crítica feminista. Os livros de Anzaldúa e Moraga, Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (1989) e Loving in the War Years: lo que nunca pasó por sus labios (1983) são uma continuação de seus respectivos trabalhos autobiográficos que apareceram em This Bridge. No livro Loving in the War Years, Moraga move-se entre a ficção e a poesia, o inglês e o espanhol, a primeira e a terceira pessoa, para criar uma poética chicana alternativa feminista (lésbica). A obra de Anzaldúa está ganhando mais atenção e é freqüentemente comparada aos escritos produzidos pelo movimento nacionalista chicano dos anos 1960, com sua ênfase nos mitos indígenas e na história cultural. A diferença é que Anzaldúa está olhando os mitos e a hist6ria do ponto de vista duma mulher (e lésbico). E a fronteira Texas/México referida no título do livro funciona não só como uma metáfora da raça e da luta social, mas também como um espaço liminar no qual mulheres brancas e mulheres de cor talvez possam ligar-se umas com as outras.
Os escritos de hooks, Anzaldúa, Moraga e outras mulheres representantes de minorias nos Estados Unidos nos trazem uma importante perspectiva crítica aos debates essencialistas e pós-estruturalistas que têm tido lugar durante os últimos anos. Suas obras sobre gênero, raça e classe social problematizaram a idéia da “mulher” de maneira nova e significativa. Ao mesmo tempo, sua insistência numa política de identidade dá uma qualidade inovadora ao seu projeto. Podemos dizer que seus trabalhos são uma síntese de ontologias aparentemente irreconciliáveis. Suas maneiras não-convencionais de escrever oferecem uma nova “fronteira” na área da teoria feminista, e merecem um estudo cuidadoso por mulheres de todas as partes.
Obras Citadas
Anzaldüa, Gloria. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Spinsters/Aunt Lute Press, 1987.
hooks, bell. Talking Back: Thinking Feminist, Thinking Black. Boston: South End Press, 1989.
____. Teaching to Transgress: Education as the Practice of Freedom. New York: Routledge, 1994.
Katrak, Ketu H. “Decolonizing Culture: Toward a Theory for Postcolonial Women’s Texts.” In The Post-Colonial Studies Reader.
Moraga, Cherríe. Loving in the War Years: lo gue nunca pasó por sus lábios. Boston: South End, 1983.
Moraga Cherríe and Gloria Anzaldúa. This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color. Watertown, MA: Persephone Press, 1981.
The Post-Colonial Studies Reader, ed. Bill Ashcroft, Gareth Griffiths, Helen Tiffin. New York: Routledge, 1995.
Suleri, Sara. “Woman Skin Deep: Feminism and the Postcolonial Condition.” In The Post-Colonial Studies Reader.





Bio fornecida pelo palestrante.

O "Elemento Feminino" na Memória de Portugal: Murilo Mendes e Vieira Da Silva




O “Elemento Feminino” na Memória de Portugal: Murilo Mendes e Vieira Da Silva

Maria Luiza Scher Pereira
Universidade Federal de Juiz de Fora

1. Uma questão inicial
No artigo Feminismo, experiencia y representación, Nelly Richard apresenta algumas questões que têm animado o debate em torno do tema da “escritura feminina”, dentre as quais destacamos a seguinte:
Podemos hablar – tan divisoriamente – de escritura masculina e femenina si el lenguage criativo, la textualidad poética, son espacios privilegiados de desplazamiento y transferencia del yo en los que se amplían y se remodelan incesantemente las fronteras de la subjetividad cultural, desbordando así el realismo biográfico-sexual del sujeto ‘hombre’ o ‘mujer’? (1996: p. 740).
Para responder a essa questão, é preciso, segundo a crítica, rejeitar a coincidência tida como natural entre determinante biológica (ser mulher) e identidade cultural (escrever como mulher), para a partir dessa não coincidência compreender o feminino numa nova perspectiva critica e teórica.
O feminino seria, numa rearticulação das políticas do signo, um “conceito-metáfora” segundo o qual se pode compreender a expressão da marginalidade, da subalternidade e da dissidência. Desdobrando a percepção do feminino como a voz paradigmaticamente reprimida pela dominante de identidade social patriarcal, a autora afirma: “Ese ‘femenino’ no es un contenido de identidade ya formado (anterior y exterior a su representación verbal) sino la posición crítica que consiste en interrogar los mecanismos de constituición del sentido y de la identidad…” (id: p. 743-44).
Tais reflexões balizam a leitura que passamos a apresentar de alguns aspectos da obra de Murilo Mendes, na qual esse conceito-metáfora poderá iluminar os modos de articulação entre os arquivos da tradição cultural, os procedimentos da memória, e a construção de um discurso que sugere novas perspectivas críticas e criativas.
2. Masculino/feminino: o pinhal e a nave
No livro Janelas Verdes, uma coleção de textos em prosa sobre cidades e artistas portugueses, Murilo Mendes destaca o famoso pinheiral plantado pelo Rei D. Dinis próximo à cidade de Leiria, como um dos seus cinco pontos fundamentais. Os outros quatro são o Castelo, o próprio rei Dom Dinis, Eça de Queirós, devido a O crime do Padre Amaro, e Jaime Cortesão, seu sogro e amigo, na companhia de quem o poeta brasileiro visitou mais de uma vez a cidade. Mas é ao pinhal do rei que Murilo dedica a maior parte do texto sobre Leiria. Dele destacamos inicialmente o seguinte trecho:
Ninguém ignora que Dom Dinis ordenou o plantio do pinhal de Leiria, origem das futuras naves portuguesas; portanto nós brasileiros descendemos deste pinhal (…). Cada vez que o penetramos torna-se obrigatória, prevista mesmo, a referência às dinisianas “flores do verde pãio”(…)” (OC: p.1.377).
Fernando Pessoa, antes de Murilo, e José Saramago, depois dele, também não escapam da associação de idéia entre o pinhal de Leiria e as naus da navegação. É famosa a estrofe do poema de Mensagem dedicado ao rei-poeta:
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador das naus a haver,
E ouve um silencio murmuro comsigo:
É o rumor dos pinhaes que, como um trigo
De Imperio, ondulam sem se poder ver. (OP:73)
E no Viagem a Portugal de Saramago a referência se repete:
E este é o pinhal de Leiria, o dos cantares do verde pino de D. Dinis, o das naus e caravelas das navegações, o frágil lenho que tão longe se aventurou. (VP:157)
Nos três autores, temos a mesma referência a D. Dinis, poeta e plantador do pinhal que um século depois proveria de madeira o projeto competente de navegação da Escola de Sagres. Plantar o pinhal garantiu a ele participação talvez involuntária nessa história posterior e, muitos séculos mais à frente, valeu-lhe o belo verso de Fernando Pessoa: “o plantador das naus a haver”.
Além de fazer circular as mesmas imagens, como se todos fossem citações uns dos outros, os textos de Pessoa, Saramago e Murilo Mendes têm outra coisa em comum: todos mencionam tanto o talento poético do rei quanto a sua ação prática, o poetar e o prover, o empreender e o cantar. Ao fazer isso, expõem de alguma forma a intrincada relação entre o processo histórico de construir a nação e os discursos que, ao mesmo tempo, mas não necessariamente na mesma intenção, se constróem.
O projeto das grandes navegações, que integra o amplo projeto da modernidade ocidental cujo sucesso e consolidação torna hegemônica a posição da Europa como centro, aparece nessas representações poéticas da sua versão portuguesa associado metonimicamente ao pinhal, nome masculino, aqui referido como origem desse empreendimento também masculino (e também branco, cristão, adulto, isto é, europeu), que espalhará pelo resto do mundo, tornado então periferia da Europa, o “trigo do império”, para usar a expressão retirada do verso de Mensagem1.
Se pensamos que trigo pode remeter à idéia de semente e de alimento, acentua-se ainda mais a relação entre o pinhal e o elemento masculino, uma vez que cabe ao homem o papel de gerador (semente, sêmen) e provedor (alimento) dos filhos.
Plantado na verdade mais de um século antes do início das viagens portuguesas para conter a erosão da costa litorânea, o pinhal pode ser por isso também associado ao que se enraíza, ao que se fixa como raiz entranhando-se no solo, tornando-se assim elemento de origem; da mesma forma se fixam, também por profundo enraizamento, os centramentos culturais e os mitos de identidade que se articulam na enunciação da narrativa da nação, e dão origem a outras falas e discursos identitários que continuamente a alimentam e a reafirmam.
Diferentemente, as naves, ou naus, nomes femininos, remetem ao desenraizado, ao que, tendo sido arrancado do solo de origem perdeu suas raízes e, no caso, metamorfoseou-se, tornando-se as naus que se lançaram em errante aventura, embora fossem, como lembra Saramago, embarcações caracterizadas pela fragilidade, marca do feminino: “frágil lenho que tão longe se aventurou”.
Assim, podemos perceber que a constituição da identidade da nação portuguesa e a história das viagens, residualmente presentes através dos elementos metonímicos pinhal e nave, atravessam os textos como rastros do passado no presente, que esses autores em três diferentes momentos do século X e por circunstâncias diversas, retomam.
Seguindo o rastro da tradição cultural pelo processo precário da memória, o resíduo se inclui em uma nova rede textual onde relações de sentido, também novas, se estabelecem.
Paul Ricoeur observa que o fenômeno do rastro, como o das ruínas, dos restos, dos documentos, por produzir “significância” em duas ordens temporais heterogêneas – passado e presente – desloca-se do “historial para o intratemporal” (1997: 196-209). Assim o viajante de Saramago no pinhal do rei-poeta aciona inicialmente o arquivo da memória nacional, mas por efeito do deslocamento de que fala Ricoeur, continua a viagem em outra direção, inesperada:
(O viajante) vai indagar se não há caminho para Marinha Grande que lhe permita saborear por mais tempo a mata. Dizem-lhe que, haver, há, mas que o risco de perder-se é certo. Correu o risco, e se se perdeu não deu por isso. Sabe o que ganhou: (…) a mata é incomparável, (…) nenhuma mereceria mais ter, como habitantes, o povo pequenino dos gnomos, fadas e duendes. E (o viajante) está pronto a apostar que um súbito remexer de folhas que ali se viu foi obra de um esperto anãozinho de barrete vermelho. (VP: 157)
Observe-se que perder-se no pinhal é também embaralhar, no relato da viagem do presente, as referências fixas da história pela superposição de um outro arquivo, o da memória infantil, que guarda resíduos do mundo mágico dos contos de fadas, libertário em relação ao mundo adulto do grande empreendimento da história. Assim, o texto do viajante é descontínuo: narrativas diversas se entremalham, quando o lúdico desloca o histórico e as memórias se misturam.
Também em Murilo Mendes, as cristalizações cedem a novas fulgurações de sentido. Como se vê no trecho citado, Murilo também se inscreve no grande texto da história, quando afirma que nós, brasileiros, descendemos do pinhal, inserindo, ainda que de forma bem-humorada, a nossa origem na ação masculina do empreendimento moderno europeu. Contudo, após incluir-se, e a nós brasileiros, na narrativa da viagem portuguesa pela irreverente simplificação e pela dedução só aparentemente lógica (“portanto, nós brasileiros descendemos desse pinhal”), o poeta passa a ocupar-se daquilo que sua viagem, particular e presente, desencadeia:
Nesta visita rodeia-me uma sensação que considerava absurda; mas finalmente vi-a partilhada por um escritor da força de Raul Brandão: “a verde solidão dos pinheirais, que associo sempre à idéia do mar largo.” Com efeito acho que o pinheiro, manso ou bravo, ondula. Assim, incluo também um elemento feminino, onda; e sem o elemento feminino quem poderia suportar o peso dos textos, a começar pelo poeta? (OC:1377) grifos nossos
Embora Murilo cite Raul Brandão e não Fernando Pessoa, é curioso observar que a associação entre o movimento dos pinheiros e a ondulação do mar que leva ao elemento feminino, onda, já está nos versos de Mensagem: “É o rumor dos pinhaes que como trigo de Império ondulam sem se poder ver”.
Esse processo de apreensão da experiência subjetiva e particular de Murilo Mendes é semelhante ao de Saramago, que julgou ver gnomos de barrete vermelho surgirem no pinhal, logo transformado de lugar solene em espaço mágico. Operando pela associação de imagens visuais a inesperadas relações de sentido, e produzindo o efeito de “sensação absurda”, a memória de Murilo Mendes também desloca as referências cristalizadas pela grande história das navegações.
Antecipando a proposta de Ítalo Calvino para o próximo milênio, ao viajar pela grande narrativa nação moderna (também a brasileira), Murilo conclama a leveza desse elemento feminino contra o “peso dos textos”, contra sua solidez insuportável. Se o viajante de Saramago insere o infantil, pela via do conto de fadas, Murilo inclui o feminino nessa história masculina do projeto moderno das viagens.
Nesse sentido, tanto os gnomos dos contos de fadas de Saramago quanto a onda que traduz o elemento feminino de Murilo se equivalem no âmbito daquele conceito-metáfora de que fala Nelly Richard, já que ambos os elementos operam como um vetor de desestabilização da solenidade da história nacional.
3. O elemento feminino e a presença de Vieira da Silva
Se, seguindo a pista do poeta, tomamos o elemento onda como metáfora do feminino que perturba a história masculina da nação portuguesa moderna, podemos ampliar nossa leitura observando dois outros elementos associados, na obra de Murilo, tanto à onda como à própria mulher – movimento e transformação. Em O discípulo de Emaús, de 1945, dedicado a Maria da Saudade Cortesão, com quem viria a se casar dois anos depois, Murilo afirma em tom de aforisma: ‘A mulher determina continuamente no mundo uma transformação maior do que todas as revoluções”. (OC:886)
No livro As Metamorfoses, considerado por Luciana Stegagno-Picchio (1995: p. 1.653) “livro central da produção poética de MM”, a articulação de sentido entre todos esses elementos – onda, mulher, movimento e transformação – pode ser encontrada em vários momentos. Cito alguns versos, seguidos dos nomes dos poemas, todos desse livro:
Sentado no horizonte
Contemplo as casa fugirem.
A onda que vai e vem
Comunica-se com a estrela… (Alcance, OC:341)
Debruçado sobre a noite
Refiz o reino das fadas
(…)
Contemplo ao longe a fileira
Das amadas que semeei,
E o rastro de Deus nas ondas. (A extensão dos tempos, id:344)
Mulher
Ora opaca ora translúcida
Submarina ou vegetal
Assume todas as formas,
Desposas o movimento.
(…)
Tu és na verdade, mulher,
Construção e destruição. (Mulher, id:350)
Na dignidade da onda
Puseste os pés de poesia
Que as fadas tornearam em séculos (A criação feminina, id: p. 363)
Entendemos que para Murilo Mendes a idéia do feminino, ligada a movimento e metamorfose, resulta também na associação entre esse elemento e a própria construção da poesia, compreendida por Murilo como alternativa para o mundo real, histórico, embora seja, ao mesmo tempo profundamente ligada a ele.
Isso seria particularmente perceptível nesse livro, escrito entre 1938 e 1941, sendo deste ano todos os poemas do Livro Segundo, intitulado ‘O véu do tempo”, entre os quais destacamos os fragmentos citados acima. Nele, a metamorfose operada pela e na construção da poesia parece constituir-se como única alternativa de esperança no futuro, diante da dura realidade presente do mundo em guerra. Em poemas como A bela e a fera e Orfeu, dos quais extraímos, respectivamente, as estrofes abaixo, podemos observar isso:
O mundo inteiro se tinge
Do sangue do Minotauro,
Até que a branca Poesia
Lhe mostre o dedo mindinho. (id:347)
Ajudo a construir
A Poesia futura,
Mesmo apesar dos fuzis. (id: p. 342)
É nesse mesmo Livro Segundo de As metamorfoses que encontramos na obra de Murilo Mendes a primeira referência à pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva que com o marido, o húngaro e também pintor Arpad Szenes, refugiou-se no Brasil entre 1940 e 1947, fugindo tanto da guerra que os impedia de ficar em Paris, quanto do salazarismo que não lhes permitia ir para Lisboa. No poema que tem como título o seu nome completo ela é referida como “bicho que habita na escadaria do século, entre o sibilar das granadas, e a saudade dos minuetos”.
Sendo portadora, ao mesmo tempo de determinados elementos e de seus contrários, “diurno e noturno, longo e breve, másculo e feminino”, Vieira é também chamada por Murilo de “onda e serpente, água metálica e chama rastreante”, recuperando-se assim a associação já vista entre o elemento feminino onda e a idéia de movimento e transformação, que se traduz também na possibilidade da poesia, e da arte. Nos versos a seguir Murilo fala do modo como Vieira da Silva constrói sua pintura:
Bicho nervoso
Minucioso
Tece uma trama há mil anos
Que se transforma com a luz.
Em contraponto às formas
Da cidade organizada (OC: p. 351)
A idéia de que a arte de Vieira é “a trama que se transforma” e contrapõe-se “às formas da cidade organizada” expressa aquela relação entre a criação artística (nesse caso, tanto a pintura de Vieira quanto a poesia de Murilo) e os processos de deslocamento e de rearticulação de sentidos, que esgarçam o tecido cerrado dos discursos hegemônicos.
Voltando ao Janelas Verdes, o livro de Murilo sobre Portugal, encontramos no texto Lisboa, outra referência a Vieira e às formas da cidade organizada, significativas à nossa leitura:
Os homens tudo fazem para deformar a fisionomia de Lisboa. Destroem as casas “de várias cores” (…) levantam em seu lugar edifícios de gosto discutível…
Vendo-a golpeada de todos os lados o gnomo de Lisboa refugia-se em certos quadros de Vieira da Silva. (…) podemos habitar livremente esses quadros onde não há rastro de polícia, nem crueldade, nem mistificação, nem demagogia, nem miséria; sim uma Lisboa imaginária, suspensa no espaço e no tempo, adversa, mesmo, à original: autre. Essa Lisboa reconcilia-se com a tonalidade azul e com a palavra azul… (OC: p. 1.410).
A transformação física de Lisboa continua a escrever a história do empreendimento masculino e adulto representado nos edifícios que se levantam, agora nos termos do contemporâneo progresso urbano que desfigura as versões anteriores da cidade, esse ícone da modernidade européia e ocidental. Dissonantes, reencontramos tanto nos quadros de Vieira e no texto de Murilo, como antes no de Saramago, o gnomo, o feminino (o azul não lembraria a cor da onda?), e a arte que se constróem como alteridade.
É provável que Murilo se refira nessa passagem ao quadro Lisbonne bleue, de 1942, do período do exílio de Vieira no Brasil (foto anexa). Em outro quadro, o Lisbonne du souvenir, de 1940 (foto anexa), no mesmo contexto referido por Murilo nas expressões polícia, crueldade, demagogia, Vieira volta ao traço do desenho infantil, recriando Lisboa pela “poética” que, no texto de Janelas Verdes intitulado Vieira da Silva, e dedicado “à própria”, Murilo define como “uma poética baseada na arquitetura da memória; um conto de fadas da cidade moderna” (OC: p. 442).
Em ambos os quadros podemos encontrar uma Lisboa “autre”, que pelos elementos da cor e do tema, contrastantes com o estado do mundo em guerra, esse outro negócio de homens, expressa a transgressão criativa dessa pintora exilada e estranha2. A instigante contradição entre “conto de fadas” e “cidade moderna” na condensação poética do texto de Murilo ilumina a reflexão, motivada pelo rearranjo de signos, formas, cores e palavras, sobre o funcionamento do elemento feminino no processo de construção da linguagem da arte como alternativa aos discursos hegemônicos e totalizadores.
4. Da aproximação entre Murilo Mendes e Vieira da Silva voltamos, para concluir, à questão inicial sobre a linha divisória entre escritura masculina e escritura feminina
Para Nelly Richard a ressemantização do termo ‘feminino’, que pode passar a ser lido como alteridade, resulta de “la dinámica de los signos” no âmbito de uma nova perspectiva teórica e crítica. E completa: “la ruptura de las significaciones monológicas puede ser compartida por autores masculinos si su práctica del discurso busca también fisurar el molde del concepto” (op. cit: p. 741).
Confrontando significações monológicas presentes na grande narrativa da tradição portuguesa, Murilo Mendes e Vieira da Silva, constroem seu texto critica e criativamente pelo processo transgressivo que opera inclusive através do elemento feminino, como também fizeram, cada um à sua maneira, Fernando Pessoa e José Saramago.
Bibliografia citada
Mendes, Murilo. Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno-Picchio. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995. (Adoto a abreviatura OC).
Pessoa, Fernando. Obra poética. Org. Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1975.
Picchio, Luciana Stegagno. Vida-poesia de Murilo Mendes. In Mendes: 1995.
Richard, Nelly. Feminismo, experiencia y representación. Revista Iberoamericana. Vol. LXII, julio/diciembre 1996. Núms. 176-177. University of Pittisburgh, p. 733-744.
Ricoeur, Paul. Arquivos, documento, rastro. Tempo e narrativa. Tomo III. Trad. Roberto L. Ferreira. Campinas, SP, Papirus Editora, 1997.
Saramago, José. Viagem a Portugal. Rio de Janeiro, Cia. das Letras, 1990.
Notas
1. “El Logos de Occidente (consciencia, espirítu, historia, técnicas e ideologias) representaria (…) el dominio masculino de un proyecto civilizatorio que se há dedicado a reprimir sistemáticamente su outro lado más oscuro y salvaje (naturaleza, cuerpo, inconsciente, rito y mito) cuya naturaleza más viva se expresa en la oralidad femenina y popular: una oralidad que la máquina disciplinaria de Occidente há asimilado com violencia colonial a la cultura del libro y a su modelo de lo blanco, letrado y metropolitano” (Richard,1996: p. 736-37).
2. Também no texto Lisbona, de Ipotesi, Murilo Mendes constrói semelhante representação da cidade de Lisboa pela leitura dos quadros de Vieira da Silva: Un corteo di finestre gialle blu / s’affaccia sul fiume mare / stanco di sostenere navigazioni / dall’epoca dei fenici. (…) posso toccare un’autra Lisbona / nei quadri di Vieira da Silva / dove non entrano / la prigione, la paura, la censura. / L’occhio vi ritrova la pace / troncata daí dittatori-poliziotti / e daí poliziotti-dittatori (OC: p. 1.539).
Juiz de Fora, agosto de 2001.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Desejo Lesbiano no Conto de Escritoras Brasileiras Contemporâneas1




O Desejo Lesbiano no Conto de Escritoras Brasileiras Contemporâneas1

Cristina Ferreira Pinto-Bailey

1. O lesbianismo e a literatura erótica feminina no Brasil
No Brasil e, de modo geral, na América Latina, a existência de uma tradição lesbiana na literatura de autoria feminina não tem sido reconhecida pela crítica, fato já comentado por David William Foster (Sexual Textualities, 1991, 10). A razão para a suposta ausência dessa tradição é o tabu que ainda cerca as relações homossexuais na América Latina, e a conseqüente censura e autocensura que impediriam a expressão do lesbianismo na literatura de mulheres. Por um lado, tratar de personagens lesbianos e do desejo homossexual entre mulheres poderia levar à identificação dessas escritoras como lésbicas; por outro, uma literatura que desse expressão livre ao erotismo lesbiano seria rapidamente tachada de pornográfica, ambos rótulos indesejáveis dentro do contexto latino-americano.
A causa, entretanto, para o não reconhecimento, ou desconhecimento, da presença do sujeito e do desejo lesbianos em obras de escritoras latino-americanas jaz na mesma atitude ideológica que faz com que a mulher lésbica tome-se invisível aos olhos da sociedade. 0 sujeito lesbiano foge à definição aceita de “feminino”, rompe radicalmente com os padrões de gênero estabelecidos, ao não se definir em função do desejo masculino e do sistema de reprodução biológica e de transmissão de valores econômicos e ideológicos. Por não ser possível categorizá-la dentro desses padrões, a 1ésbica termina reduzida ao “não-ser”, ao que não se nomeia (e o que não se nomeia não existe): “the lesbian exists in a vacuum of unreadability and unnameability both socially and sexually” (Manzor-Coats, 1994, xxii). Se assim é na sociedade, na literatura o reconhecimento de uma tradição lesbiana exige um certo tipo de leitor que possa resgatar o sujeito e o desejo lesbiano de sua invisibilidade, um leitor dotado de uma capacidade “queer” de leitura (Anzaldúa, 1991, 257-58). Ou seja, é necessária uma abertura ideológica que permita ler nas entrelinhas, trazer à tona o palimpsesto e decifrar a função da ambigüidade no texto, e que resgate a homossexualidade feminina do espaço marginalizado da literatura pomográfica.
No Brasil, o desejo lesbiano aparece na literatura escrita por mulheres desde, pelo menos, as primeiras décadas do século XX. A tradição de uma literatura sobre temas e personagens 1ésbicos, no entanto, teria que ser estabelecida a partir dos olhos da crítica de hoje, quando já há espaço para um tipo de leitura como a que sugere Gloria Anzaldúa. Assim, é possível verificar a representação do desejo lesbiano em obras, por exemplo, da poeta Gilka Machado, de Raquel de Queiroz ou de Clarice Lispector.2 Numa das raras obras sobre o tema, 0 lesbianismo no Brasil (1987), Luís Mott dedica um longo capítulo a um levantamento das “lésbicas na literatura brasileira”, abrangendo desde a literatura portuguesa do século XIV até a produção literária no Brasil no começo dos anos 1980. Usando como critério de seleção dos textos discutidos a presença de personagens lésbicos ou a abordagem do lesbianismo como tema, Mott inclui nesse capítulo principalmente obras de autores masculinos e até obras estrangeiras traduzidas e publicadas no Brasil, porém poucos títulos de autoria feminina. Segundo ele, a primeira obra de autora brasileira que enfoca o desejo lesbiano teria sido o romance Vertigem, de 1926, escrito por Laura Villares, escritora hoje pouco conhecida. A situação romanesca criada em Vertigem lembra sob muitos aspectos a relação de Léonie e Pombinha em O Cortiço (1889) de Aluísio Azevedo, sem ser, no entanto, tão “violento e carnal” como o romance naturalista, possivelmente porque, “por se tratar de uma escritora mulher, a autocensura tenha sido mais forte” (Mott, 1987, 85).
A autocensura, que às vezes pode calar a expressão erótica feminina em todas suas formas, encontra-se obviamente enraizada nas práticas sociais vigentes, que tanto procuram controlar a sexualidade feminina, como restringir o acesso da mulher a uma linguagem adequada à representação de sua sexualidade. E somente a partir de finais da década de 1960, quando as mulheres brasileiras ganham mais espaço no terreno sociopolítico e um número maior de escritoras chega a alcançar reconhecimento de público e crítica, que o erotismo passa com mais freqüência a ser um aspecto integrante da literatura de mulheres. A partir dessa época, ou seja, nos últimos trinta anos, observa-se uma proliferação de discursos sobre a sexualidade (Manzor-Coats, 1994, xxiv). Entretanto, se essa proliferação origina-se em parte no discurso social dominante com a função de regulamentar e catalogar o desejo e as atividades sexuais de homens e mulheres (Foucault, 1990, 30-31, 35, 36), o erotismo na literatura escrita por mulheres, inclusive as brasileiras, funciona como “a source of power, change and creativity” (Lorde, in Humm, 1992, 285). Surgem então livros como A casa da paixão (1972) de Nélida Piñon e, mais tarde, antologias coletivas de ficção erótica feminina, tais como Muito prazer (1980) e 0 prazer é todo meu (1984), organizadas por Márcia Denser, ela própria autora de um importante corpus de ficção erótica feminina. O erotismo cínico, anti-romântico, e mesmo anti-erótico de Denser é um excelente exemplo de como as escritoras brasileiras têm problematizado as relações de gênero ao mesmo tempo em que examinam as hierarquias sociais e conflitos de poder freqüentes nas relações heterossexuais centradas no desejo masculino.
Sob este aspecto, outro livro relevante publicado naquele período é 0 discurso da mulher absurda (1985), de Joyce Cavalcante, um volume de contos eróticos cujas protagonistas femininas situam-se como sujeito do desejo, buscando de modo “agressivo” (segundo os padrões masculinistas de comportamento feminino) o prazer sexual. No conto “Luta livre”, por exemplo, a protagonista é uma mulher solteira, de classe média que sai à noite procurando parceiros sexuais, e para cada amante que tem ela assume um nome diferente: Miriam, Cleide, Leila, Cláudia. Seus vários nomes representam a natureza esquiva da personagem frente aos homens com quem se relaciona. Essa posição esquiva de mulher sexualmente experiente surpreende e incomoda seus amantes, assim como deve ter incomodado a1guns leitores. Neste caso, o que perturba é o rompimento dos padrões de gênero, tanto pela personagem, ao assumir a posição de sujeito, como pela autora, que escreve de modo tão explícito sobre o erotismo feminino.
Se a expressão da experiência erótica feminina chega a ser tão problemática, a representação da sexualidade lesbiana o é ainda mais, pois rompe com as relações dominantes de gênero, ao excluir a figura do homem e colocar a mulher em uma posição de sujeito atuante, em vez do papel tradicional de objeto do desejo masculino. Assim, o desejo lesbiano na obra de escritoras brasileiras não só representa uma dimensão importante da sexualidade feminina, como também serve para expor e questionar o controle social sobre a sexualidade e o corpo femininos. O lesbianismo abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher, no qual a identificação com outro ser seu igual toma possível a auto integração do sujeito feminino. Como tem sido analisado pela teoria crítica contemporânea, as origens dessa identificação física e psíquica entre mulheres remonta ao semiótico (quando a criança encontra-se num estágio de perfeita simbiose com a mãe. Esse primeiro estágio de união influencia as relações posteriores do sujeito e determina na mulher um tendência à bissexualidade e a uma sexualidade mais fluida.3 0 romance lesbiano Sortilegiu (1981), de Myriam Campello, ilustra bem essa identificação, neste trecho, por exemplo, em que a protagonista, Ísola, conhece Marina, que mais tarde vai tomar-se sua amante: “Ísol sentia a tepidez daquele corpo refletido sobre o seu no espelho, tocando-a, como se a fusão das duas imagens produzisse calor” (1981, 47). A imagem de dois corpos superpostos no espelho prenuncia o encontro sexual das duas mulheres, quando o corpo de uma funciona como reflexo do da outra, e têm lugar a integração fisica e a reciprocidade no dar e receber prazer: “Marina […] navegava Ísola também multiplicando-se, desdobrada e vária como um prisma sob a luz. Ísola/Marina se desencadeavam prazer como o vento no capim ondulante” (1981, 65).
Em seu livro Archetypal Patterns in Women’s Fiction (1981), Annis Pratt comenta que “Through the experience of Eros with other women, […] women experience themselves for the first time not as others but as essences, reaching that place in their consciousness where they can tap the sources of their own libidinal energy” (1981, 112). Treze anos depois, Teresa de Lauretis chega a uma conclusão semelhante ao afirmar que o desejo lesbiano “affirms and enhances the female-sexed subject and represents her possibility of access to a sexuality autonomous from the male” (1994, xvii). A idéia de uma sexualidade feminina autônoma coloca-se em contraposição a um discurso social que privilegia o desejo masculino sobre o feminino, definindo o corpo da mulher exclusivamente dentro dessa hierarquia. Desse modo, a sexualidade e o desejo lesbiano podem ser entendidos como uma rejeição do sistema dominante, como o “ato de resistência” proposto por Adrienne Rich em seu importante ensaio “Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence” (1980). De Lauretis considera “the figure of the lesbian in contemporary feminist discourse [as representing] the possibility of female subject and desire: she can seduce and be seduced, but without losing her status as subject […]” (1994, 156). Desse modo, a expressão do desejo lesbiano no discurso literário representa “a place from where female homosexuality figures, for women, the possibility of subject and desire” (De Lauretis, 1994, 156). Diz ela:
To the extent that all women have access to that place, female homosexuality guarantees women the status of sexed and desiring subjects, wherever their desire may be directed. […] the desire expressed in the figure, in the trope, of female homosexuality may be predicated unconditionally of the female subject; it becomes one of her properties or constitutive traits. […] [and] it need not be confined in the patriarchal frame of a “heterosexual love story” (De Lauretis, 1994, 156-57).
A proposição de De Lauretis oferece um enfoque útil para entender o desejo e o sujeito lesbianos nos contos que vão ser aqui discuti-los. Em “Intimidade” (1977) de Edla van Steen, “A mulher de ouro” (1984) de Myriam Campello, “A Escolha” (1985) de Lygia Fagundes Telles, “Tigresa” (1986) de Marcia Denser, e “Fátima e Jamila” (1a ed., 1976; 1994) de Sonia Coutinho, a representação do desejo e da sexualidade 1ésbica privilegia notadamente a mulher como sujeito, ao, mesmo tempo em que implica em uma crítica ao sistema de gêneros. Com exceção de “A Escolha”, no qual o erotismo tem lugar num marco temporal anterior à narrativa, todos são contos eróticos contrapondo-se àquele tipo de pomografia masculina na qual a homossexualidade feminina funciona como locus de prazer para o voyeur. Nestes contos, o desejo lesbiano representa uma ruptura com o contexto sociossexual demarcado pelo patriarcalismo, um rompimento com as relações de gênero definidas pela “estória de amor heterossexual”. Esta expressão é aliás sintomática da ideologia que limita a mulher a determinadas funções sociais e narrativas (e.g. a virgem que espera o casamento e a mulher “fácil” ou a prostituta), o que explica porque a própria palavra “amor” pode ser às vezes rejeitada, já que tem toda uma carga ideológica com conotações de amor romântico, relações hierárquicas, poder e submissão.
2. 0 desejo lesbiano em cinco contos brasileiros contemporâneos
Pode-se considerar que os contos a serem analisados a seguir formam parte de uma tradição lesbiana na literatura escrita por mulheres no Brasil. Entretanto, há que se reconhecer que caracterizá-los como narrativas lesbianas pode ser problemático, não só pelas questões de censura e autocensura a que me referi acima, mas em especial pela própria complexidade da discussão crítica em torno do que se poderia chamar “literatura lésbica”. Pesquisadoras como Bonnie Zimmerman, Barbara Smith, Lillian Faderman e Marilyn R. Farwell apresentam definições às vezes contraditórias entre si. Enquanto que Zimmerman é categórica, ao afirmar que “the nature of lesbian fiction makes it impossible to separate the text from the imagination that engenders it” (1995, 15), sendo portanto o texto lesbiano aquele escrito por uma mulher homossexual, Smith vê a crítica textual das instituições heterossexuais como o elemento caracterizador da narrativa lesbiana (1979, 188). Por outro lado, tanto Faderman quanto Farwell comentam as dificuldades e complexidade da questão e apontam o leitor como o “locus of the lesbian in the lesbian text” (Farwell Heterosexual Plots 7). Deste modo, corrobora-se a necessidade de uma leitura que dê nome e existência ao personagem ou ao desejo lesbiano, ainda que o próprio texto não pareça fazê-1o abertamente.
No contexto da socieade e cultura brasileiras, que freqüentemente rejeitam rótulos rígidos, nem todas as personagens destes cinco contos se identificariam como homossexuais. Por exemplo, em “Intimidade” de van Steen e “Fátima e Jamila”, de Coutinho, temos personagens casadas vivenciando um momento de desejo homossexual. Estes dois contos seriam um exemplo do fenômeno histórico da “amizade romântica” entre mulheres casadas (Haggerty c Zimmerman: 3); ambos, entretanto, lançam mão da sugestão, da ambigüidade e, no caso de Coutinho, de uma imagética forte, para criar situações de inequívoca carga erótica, que permitem lê-los como expressão de um desejo lesbiano. Falando da literatura anglo-americana novecentista, Vinetta Colby faz um comentário pertinente ao afirmar que, muitas vezes, na ficção de autoria feminina, a paixão entre mulheres “is sublimated in relationships that modem readers would immediately designate as lesbian” (Pratt, 1981, 96). Nos contos de Van Steen e Coutinho, o desejo lesbiano transparece através de um erotismo denso e fundamentalmente carnal, e é tal “carnalidade” (Stimpson, 1981, 301), que leva a enquadrar estes dois textos numa tradição literária lesbiana no Brasil.4
Já os contos “A Escolha”, de Telles, e “A mulher de ouro”, de Campello, problematizam as relações de gênero na sociedade brasileira ao mesmo tempo em que enfocam, cada um à sua maneira, a questão da invisibilidade e “unnameability” do sujeito lesbiano. Enquanto Telles emprega com maestria a ambiguidade característica de sua ficção, Campello solta a “gargalhada da Medusa”, para usar a expressão de Hé1ène Cixous, e lança mão do humor e do sarcasmo como estratégias narrativas para forçar a abertura de um espaço onde seja possível representar o desejo lesbiano. Há nos dois contos um excesso textual–seja a ambigüidade que não se explica facilmente, seja o sarcasmo desafiante da voz narrativa–que vem exatamente do caráter excessivo do desejo e do corpo lesbiano.5 Enquanto que esse excesso é “descaradamente” anunciado pela protagonista de Campello, no conto de Telles ele reside nas reticências, na ambigüidade, naquilo que não se enuncia mas cuja presença, no entanto, é indubitável. Estes dois contos, como aliás “Tigresa” de Márcia Denser, correspondem a outro modo de entender a narrativa lesbiana, qual seja, a partir de uma economia textual desestabilizadora, tanto das categorias narrativas como de gênero (Farwell, Heterosexual Plots 8-9). 0 texto lesbiano, diz Farwell, apresenta “a disruptive female body that reorders the traditional narrative structure”. Diana Marini, a protagonista de “Tigresa”, incorpora essa presença feminina perturbadora e excessiva, a partir da qual o texto se constrói como um discurso desordenado e transgressivo, crítico das relações sociossexuais da burguesia brasileira.
3. “Intimidade” e “Fátima e Jamila”: a mulher “heterossexual” e o desejo lesbiano
Edla van Steen, que em 1977 ganhou o prêmio Revista Status de literatura erótica, enfoca em sua ficção o questionamento da identidade sexual de suas personagens e a subversão das categorias de gênero. Suas protagonistas freqüentemente encontram-se num processo de busca da auto-realização pessoal e sexual e da definição de um sentido de identidade. Essa busca, normalmente impossibilitada de atingir uma conclusão satisfatória no contexto patriarcal da sociedade brasileira, leva as personagens a criarem espaços alternativos onde a realização pessoal e sexual do sujeito feminino toma-se viável. Em “Intimidade”, o desejo lesbiano vivenciado pelas duas personagens, Ema e Bárbara, representa tal espaço alternativo.
“Intimidade” constitui um instantâneo do cotidiano das duas amigas que vai revelar, para além dos atos rotineiros em primeiro plano, uma realidade mais profunda e mais íntima a partir da qual a intimidade entre as duas mulheres ganha uma nova dimensão. Ema e Bárbara são duas amigas inseparáveis, fisicamente parecidas, cujos maridos trabalham juntos, e que ficaram grávidas e tiveram filhos ao mesmo tempo. Tudo aqui reforça a idéia de identidade entre as duas mulheres, inclusive a semelhança física entre as duas. A narrativa mostra-nos as duas conversando, já tarde da noite, numa hora em que as crianças estão dormindo e os maridos ausentes, propiciando assim um dos “raros [ … ] instantes de intimidade” (1977, 68) entre as duas mulheres. A brecha que então se abre na rotina vai se colocar em oposição ao cotidiano estruturado sobre o sistema de heterossexualidade compulsória. No conto, a cultura masculinista está representada na figura do marido, cuja presença implica no silêncio e na imobilidade da mulher que se sente nulificada: “Se o marido estivesse em casa a obrigaria a assistir à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho” (1977, 66). Ao contrário deste cenário estruturado sobre o desejo do homem, a presença da amiga cria um clima de intimidade, identificação, união, no qual tanto Ema quanto Bárbara agem espontaneamente, sentem-se elas mesmas, desoprimidas: “Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio” (1977, 68).
A partir de uma situação banal, na qual o desejo sexual pareceria soterrado pela domesticidade, a narrativa vai fornecendo-nos índices isolados da corporalidade das duas mulheres, da dimensão física que Barbara e Ema assumem no imaginário uma da outra. 0lhando Bárbara, Ema enxerga “uma linha de luz dourada [que] valorizava o perfil privilegiado” (1977, 65); a outra, por sua vez, admira “os cabelos soltos, caídos no rosto, [que escondiam os olhos cinzas, azuis ou verdes” de Ema (1977, 66). E mais tarde: “Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso infantil. […] Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que entendessem, em se tratando de usar o corpo” (1977, 67). De maneira fragmentária, estes índices vão apoiando a narrativa sobre o corpo feminino e vão prenunciando, ao mesmo tempo, o desejo homossexual que se manifesta quando as duas mulheres, com o pretexto de consertarem o sutiã de Ema, despem-se e comparam qual das duas tem os seios maiores e trocam então carícias. Note-se também a enunciação e o deslocamento de objetos normalmente erotizados em um discurso masculino, tais como o sutiã, o quarto de dormir e os lençóis novos n acama de Ema. Apresentados displicentemente como parte do cotidiano doméstico, esses objetos parecem perder sua carga de erotismo quando, na verdade, apenas servem para construir uma nova dimensão erótica, já que aparecem exclusivamente em função do corpo e do desejo feminino. Ao final do conto, após essa manifestação de desejo sensual, as personagens sentem uma mescla de emoções, uma “tristeza delicada, de quem está de luto” (1977, 68), que a lembrança do cotidiano evoca e, ao mesmo tempo, um “sentimento místico, meio alvoroçado, de a1guém que, de repente, descobriu que sabe voar” (1977, 68), representando-se o lesbianismo como um espaço de libertação e satisfação pessoal e sexual para o sujeito feminino.
Também no conto de Sonia Coutinho, “Fátima e Jamila”, o desejo homossexual entre mulheres manifesta-se como um espaço alternativo que isola e une as duas personagens do título, apartando-as do espaço maior do desejo e do poder masculino. Este aparece claramente descrito na primeira parte do conto:
Sentado à cabeceira da mesa comprida armada na varanda dos fundos, benevolente e soberano como um chefe patriarcal, o Marido presidira o encontro de Homens em Trajes Escuros e as mulheres de cabelos em penteados altos, roupas volumosas enfeitadas com rendas e jóias em demasia: dignos rcpresentantes da Nobreza Colonial Extinta, exibindo um antigo luxo trazido em caravelas de Portugal (Coutinho, 1994, 132).
O uso das maiúsculas, recurso bastante usado por Coutinho, apresenta a ordem social dominante sob uma ótica crítica, ao mesmo tempo em que a caracteriza como uma mentalidade colonial anacrônica. Essa realidade vai servir de pano de fundo ao espaço íntimo que se vai estabelecendo entre as duas protagonistas; é como se o foco de uma câmera cinematográfica, depois de um “establishing shot” em que apresenta o contexto social da ação narrativa, fosse se fechando pouco a pouco até enfocar exclusivamente as duas mulheres. Entretanto, a ação propriamente dita é quase inexistente e, sob este aspecto, o conto de Coutinho é menos explícito quanto à manifestação do desejo homossexual das duas personagens que o de Van Steen. Não há, por exemplo, nenhuma referência a carícias on qualquer outro contato físico. O texto, entretanto, está carregado de um erotismo pujante que se constrói pelas e nas próprias palavras. O erótico reside, antes de mais nada, no próprio texto, nas palavras cheias de sumo, de odores, de vida própria, excessiva, que conotam languidez e sensualidade. Veja-se um exemplo:
A brisa vinda do mar, lá longe, espalha pela sala o aroma pesado das frutas empilhadas nas cestas […]: umbus cuja acidez termina em doçura final dissolvendo-se na boca, bananas pontudas e recurvas como adagas, mangas rosadas cabendo na mão feito seio ovalado e cujo grosso caldo amarelo escorre pelo queixo, cajus quase púrpura, o travo das pitangas (Coutinho, 1994, 131-32).
Coutinho constrói um cenário que apela para todos os sentidos, inclusive o sonoro, combinando palavras que ora evocam lugares exóticos, ora alongam-se sensualmente no “espreguiçamento” fonético da aliteração e das proparoxítonas (por exemplo, “a requintada pourriture do Tokay”; “sabores aveludados e sépidos”; “As sombras já se alongam entre os troncos dos flamboyants e das acácias”; etc (1994, 133). Vale lembrar aqui o comentário de Sylvia Molloy, que afirma:
Women’s eroticism appears to express itself in forms more diverse […] than the primarily sexual. […] What one often finds in women writers, in terms of erotic desire, is a slippage from sex to text: the text itself is an erotic encounter in which the poet [or the writer] makes love to her words. […] Not limited to the physical body, and certainly not repressing it, desire in these cases extends to the body of writing (1991, 120).
Coutinho utiliza a linguagem para construir um cenário altamente sensual ao que concorrem também imagens e metáforas, tais como a orquídea que Fátima colhe entre as frutas na mesa. A orquídea, símbolo da sexualidade feminina, aparece aqui detalhadamente descrita por Fátima, que conclui: “As flores são hermafroditas” (1994, 133). Tal afirmação sublinha a presença dos símbolos sexuais, masculinos e femininos, presentes no parágrafo citado anteriormente e de outros que vão aparecer mais adiante.
A narrativa continua a enfatizar a qualidade excessiva dos objetos que compõem o cenário – o calor, o ar pesado, os cheiros, a vegetação exuberante – e que reflete o caráter excessivo da sexualidade feminina: “o ardor maduro do corpo de Fátima era o do excesso de sumo que precede a decomposição” (1994, 135). A sensualidade do cenário entretece-se com as poucas descrições fisicas de Fátima (Jamila aparece somente de costas e na penumbra), seus poucos gestos misteriosos, e com as histórias de amor e sedução que ela narra à companheira, para armar então a cena-chave de sedução: “Quem você vai enfeitiçar, desta vez?” pergunta Jamila. A resposta encontra-se, novamente, não no plano do actante mas sim no plano textual, condensando-se o desejo homossexual em uma série de imagens dispostas metonimicamente:
Como se repentino o cantor de flamenco rompesse, no grito pungente da saeta, o silêncio branco/negro de casas caiadas sob o sol vertical do meio-dia–com estranha inquietação, […] um arrepio de presságio descendo-lhe pelos rins, quem sabe a Compreensão, Fátima se voltou e viu o rosto de Jamila (Coutinho, 1994, 135).
Fátima e Jamila deparam-se assim no ambíguo jogo da sedução, em que cada uma representa o papel de quem seduz e de quem é seduzida. O desejo lesbiano coloca ambas na posição de sujeito do desejo, posição esta, como nos lembra Coutinho nesta e em outras obras suas, freqüentemente vedada à mulher dentro da ordem sociossexual dominante.
4. 0 discurso transgressivo de Márcia Denser
Diana Marini, protagonista paradigmática e cínica narradora dos contos de Márcia Denser, constantemente infringe as regras de comportamento ao assumir ela o papel normalmente reservado ao homem. Diana é a caçadora que busca ativamente o prazer pelo prazer;6 não é a mulher passiva às investidas do homem, nem tampouco a prostituta disponível para satisfazer os desejos masculinos. Diana busca a satisfação do seu próprio desejo sexual e para tanto “utiliza a própria arma do dominador”, ou seja, a sedução erótica. Por essa razão, “o homem, acostumado a ‘controlar’, vê-se ineficiente diante dela” (Franconi, 1987, 57). Ao assumir o papel ativo no jogo da sedução, Diana desestabiliza as relações de gênero sem, entretanto, chegar a rompê-las: “[…] in the regime of compulsory heterosexuality, women’s power of seduction [ … ] is the flip side of their powerlessness as objects of seduction” (De Lauretis, 1994, 155). Diana caça suas presas sexuais (masculinas) mas suas armadilhas são os ditos ardis “femininos”, porque ela aparentemente se submete aos homens com quem vai para a cama, embora tenha uma grande consciência crítica de sua posição, enquanto mulher, frente ao desejo masculino. 0 comportamento sexual de Diana assume uma dimensão subversiva porque ela se furta a, controle social do corpo feminino e recusa seu lugar no sistema de procriação e transmissão de valores econômicos e ideológicos. Entretanto, são as reflexões cínicas de Diana narradora, assim como o próprio estilo narrativo de Denser, que desestabilizam o sistema dominante de gêneros porque expõem criticamente as hipocrisias da sociedade brasileira (em particular de seu vasto segmento burguês) e problematizam as relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres. A narrativa de Denser torna óbvia a maneira como os atos mecânicos, o interesse próprio e o gosto pelo poder impossibilitam a expressão autêntica de Eros.
Denser usa o erotismo para examinar as relações de poder, não apenas entre homens e mulheres, como também entre indivíduos de diferentes classes sociais e grupos raciais. Cabe ressaltar, aliás, que apesar de inverter o sistema de gêneros e adotar comportamentos geralmente inaceitáveis para a mulher, Diana Marini incorpora muito da ideologia burguesa preconceituosa, principalmente no que diz respeito às classes sociais mas também em relação à homossexualidade. Estes dois aspectos ficam bem exemplificados no conto “Tigresa”, em que a protagonista expressa seu desdém por indivíduos das classes baixas (“Olhei-o dum jeito de estremecer até os bagos do seu tataravó, se é que essa gente tem raça. Brotam das lixeiras”, 1986, 123-24) e seu incômodo quando confrontada com o desejo de outra mulher por ela (“Aquele olhar untuoso e apaixonado de odalisca me incomodava”, 1986, 132). “Tigresa” é um ótimo exemplo do tipo de narrativa transgressora característica de Denser, fragmentada, rápida, caótica, com diálogos suspensos e o encadeamento dos pensamentos da protagonista, empenhada em sua avaliação apressada e sempre crítica do outro. Em “Tigresa”, que se revela também um pouco comédia de erros, Diana é convidada por uma fã inesperada e ardorosa para uma festa. Chamada de “tigresa” pela moça, Lila, Diana imediatamente assume a máscara da mulher irresistível e sedutora, o papel da “escritora-ser-superior” cuja representação o álcool e a vaidade facilitam. O convite dá início ao jogo de sedução que continuará na festa, no apartamento de classe média alta dos pais de Lila. Diana vai à festa, convencida de sua máscara, para descobrir que já outra pessoa havia armado um jogo de sedução com papéis marcados. Lila é então quem representa o papel de “tigresa”: ela vai (tentar) seduzir Diana, troca beijos com outra mulher para escândalo de alguns convidados, e seduz, no sentido de fascinar, a todos os outros presentes. Entretanto, o comportamento homossexual de Lila não é tanto a expressão do seu desejo por Diana e pela outra mulher, como é, na verdade, resultado da vontade de “épater les bourgeois” (Faderman, 1995, 50). Aliás, Rich lembra que em contextos culturais tais como o brasileiro, nos quais a homossexualidade feminina permanece “invísivel”, o lesbianismo reduz-se às vezes a um fenômeno das classes altas, onde os comportamentos ditos “decadentes” são vistos com um misto de fascinação e condescendência (Rich, 1983, 156, n. 44). Trazer Diana à festa tem assim, antes de mais nada, a função de marcar a diferença de Lila perante a família e os amigos.
Ao final do conto há outra vez uma troca de papéis, e de seduzida Diana passa de novo a sedutora:
[ … ] Lila segurou-me pelos ombros e debaixo do meu sono e cansaço percebi outra vez o olhar gorduroso do desejo. Está bem, pensei, eu me rendo, doce Lila, mas costumo terminar o que começo. Vamos ver até onde você vai. […] Lila encostou-se melosamente na parede, com infinitos dengos de sedução. […] Então, calmamente mandei:
– Tira a roupa. […]
– Tira tudo. Se você quer é pra valer, meu bem. Lila engoliu o riso (Denser, 1986, 135-36).
Diana utiliza as armas de Lila com o mesmo resultado que a outra pretendia alcançar: se Lila queria viver uma experiência homossexual para “épater les bourgeois” e demarcar um espaço próprio, é ela que, como boa filha de família burguesa, sai chocada e mesmo humilhada da experiência. No entanto, a protagonista afinal assume, não a máscara de tigresa, mas a pele do tigre que, acossado, acaba ferindo: “[…] não sei porque, lembrei aquela frase do Emest Hemingway em As neves do Kilimanjaro a respeito de um tigre que foi encontrado morto, enregelado entre os cumes cobertos pela neve e que ninguém, ninguém jamais soube explicar como e por que ele chegou até lá” (Denser, 1986, 136). é Diana, portanto, que marca sua diferença, seu espaço à parte, sua solidão, dentro do espaço maior da sociedade burguesa brasileira.
5. Lygia Fagundes Telles e Myriam Campello: “to name or not to name, that is the question”
Em 1985, quando “A Escolha” sai publicado, o lesbianismo já não era tema novo para Lygia Fagundes Telles. Em seu primeiro romance, Ciranda de pedra (1954), Telles já abordava o tema de maneira aberta, embora refletindo os preconceitos sociais dominantes então. Na obra, a personagem Letícia, depois de um amor heterossexual frustrado, passa a seduzir moças mais jovens para logo se apaixonar pela protagonista, Virgínia. Numa cena em que as duas se beijam e Letícia propõe a Virgínia que vá morar com ela. Apesar de avançada para a época, a obra apresenta a homossexualidade de Letícia como um “mal” que ela causa a si mesma e às outras moças. Sua identidade homossexual aflora como conseqüência de uma desilusão com um homem e a própria Letícia assume uma posição masculinista em relação a suas amantes. Quase vinte anos depois, em As meninas (1973), Telles procura apresentar uma visão mais natural do lesbianismo, embora a experiência homossexual seja agora quase um acidente na vida da personagem. Lião, uma das três protagonistas, tem sua primeira experiência sexual com outra moça e essa iniciação é caracterizada como uma etapa no processo de crescimento da jovem, um fenômeno passageiro, num processo de desenvolvimento que levará a mulher à “normalidade” heterossexual.7
Enquanto que nessas obras Telles aborda o tema sem subterfúgios, é em contos como “A Escolha” que o lesbianismo ocupa verdadeiramente o centro da narrativa, determinando inclusive a própria construção do texto. Neste conto a autora problematiza a representação textual e social do sujeito e do desejo lesbianos, realizando aqui o que Foster, em outro contexto, caracterizou como um procedimento de “[textualizing] […] the problems of writing about a subject that cannot be satisfactorily accommodated within the dominant discourse” (Foster, Gay and Lesbian, 1991, 141). A solução que Telles encontra para esse problema de representação reflete a posição “invisível” da mulher 1ésbica na sociedade brasileira, cuja existência, em geral, ou é reconhecida através de expedientes irônicos que não a nomeiam ou é acolhida com violência, reduzindo-a à condição de prostituta e promíscua (Miccolis, 1983, 89-90). Para expor no plano textual esses dois modelos sociais de representação do sujeito e do desejo lesbiano, Telles os reproduz literariamente utilizando a imagem de rosas vermelhas para substituir paradigmaticamente o amor de duas mulheres, Gina e Oriana. As duas, na verdade, encontram-se ausentes do texto, Gina já morta e Oriana roubada de sua voz, afirmando-se suas presenças somente pelas rosas vermelhas que Oriana, calada mas teimosamente, deixa no túmulo de Gina. O conto é narrado por outra mulher, a mãe de Gina, cujas rosas brancas contrastam e competem com as vermelhas, assim como ela disputa o amor da filha, mesmo após sua morte, com a amante desta. A narradora “não confiável” e a não enunciação da homossexualidade de Gina e Oriana estruturam a ambigüidade tão a gosto da autora. Narrado pela voz hostil e ciumenta da mãe, o relacionamento de Gina e Oriana vai situar-se no espaço oculto do quarto de portas fechadas e vozes abafadas. A perspectiva materna oferece uma visão ambígua da filha, “dissimulada” e “inocente” ao mesmo tempo (Telles, 1985, 13, 1), e vil de Oriana (“voce é suja”, 1985, 129), enquanto que o amor entre as duas, na imagem das rosas vermelhas, representa-se pelo excesso que socialmente caracteriza a sexualidade lesbiana. As rosas que a amante deposita Para Gina são “vermelhonas, completamente desabrochadas [ … ] deslavadas ao sol, quase obscenas de tão abertas” (1985, 129). Contrastando com o excesso do “vermelho-negro” (1985, 129), o branco das rosas da mãe representa o discreto, o comedido, o socialmente aceito.
Colocada entre as duas, Gina é violentamente forçada a uma definição, num confronto que reproduz a violência com que a sociedade pode tratar a mulher lésbica: “[…] de repente comecei a gritar, batendo com os punhos nos joelhos” (1985, 131); “Faça o que quiser, vá-se embora com Oriana ou fique comigo, a decisão é sua, tem todo o direito de escolher” (1985, 133). A mãe empresta voz à ideologia dominante ao tentar controlar a sexualidade da filha. Gina, entretanto, não escolhe nenhuma das duas opções que a sociedade, na figura da mãe, lhe impõe, e nem assume a marginalidade social da mulher lésbica, nem renuncia a seu amor por outra mulher: “Me lembrei de tanta coisa, tanta mas em nenhum instante me ocorreu que além das opções que lhe ofereci havia uma terceira. Que ela escolheu em surdina, fechada lá no seu mundo secreto” (1985, 133). 0 suicídio aparece assim como única resolução possível para o conflito em que a sociedade a lança. É, contudo, uma resolução novamente ambígua, expressão tanto da agência e autoridade da mulher lesbiana como de sua mudez, ato de silêncio que a retorna à invisibilidade a que a sociedade a confinou.
Myriam Campello, por sua vez, em “A mulher de ouro”, responde de modo bastante distinto à questão da (in)visibilidade do sujeito e do desejo lesbianos na sociedade brasileira e de que modo nomeá-los quando se tem como recurso um sistema sociolingüístico inadequado para tal. Ao contrário de Telles, que lança mão do próprio código social discriminatório ao tratar o tema do lesbianismo sem chegar a nomeá-lo, Campello força a abertura de um espaço para o sujeito lesbiano, enunciando desafiadoramente o desejo homossexual feminino. Ao fazê-lo, atreve-se a anunciar uma nova ordem, na qual a homossexualidade terá lugar reconhecido:
Aqui uma nota: Proust esperou até que a mãe morresse para poder dizer as coisas. Mas a minha está viva e terá que agüentar. Paciência, mamãe. Sei que tem vizinhos, parentes e amigos, mas a verdade queima, louca para sair. Além disso é bom ir se acostumando, gente fresca o lobo vai comer e lamber os beiços nesta década, para mim está claro como água (Campello, 1984, 59).
De novo a figura materna encarna a ideologia dominante contra a qual a mulher homossexual tem que se rebelar para afirmar sua verdade – sua sexualidade – recusando o pacto de silencio estabelecido. Enunciando ostensivamente seu desejo sexual por outra mulher, a protagonista-narradora de Campello antecipa-se com muito sarcasmo a qualquer reação negativa que a sociedade (a mãe, os vizinhos, os parentes, quem sabe o leitor) pudesse expressar: “Oh, Senhor, o que fazer desse desejo? E, oh, Senhor, uma mulher!” (1984, 61). A enunciação inequívoca da sexualidade lesbiana, o humor e o sarcasmo são as estratégias narrativas utilizadas pela autora para dar ao sujeito homossexual feminino o espaço que lhe é devido.
Em a “A mulher de ouro”, a protagonista-narradora conta como, após ter saído “do último casamento” (1984, 60), conhece em uma discoteca a mulher do título. O desejo lesbiano, no entanto, não é caracterizado como consolo para um amor heterossexual frustrado. Na verdade, Campello cria uma protagonista consciente de sua sexualidade, uma mulher que já viveu experiências tanto homossexuais como heterossexuais, ilustrando assim a idéia, encontrada em Foucault, Rich e mesmo em Freud (De Lauretis, 1994, xiii, 4, 1), de um “continuum sexual” no qual a homossexualidade e a heterossexualidade aparecem como expressões possíveis da sexualidade humana. Entretanto, o conto privilegia claramente o desejo lesbiano, enquanto critica as relações dominantes de gênero e o casamento firmado sobre “séculos de herança medieval, amor eterno, babaquices lançadas sobre [a mulher] […]” desde que nasce (Campello, 1984, 60).
Desiludida afinal com as falsas promessas do amor romântico (heterossexual), a protagonista decide buscar “uma fórmula de contato humano” que não a aprisionasse (50), não a submetesse, uma relação não-hierárquica, entre iguais, e o desejo lesbiano acena com essa possibilidade. Com a “mulher de ouro” ela vive uma relação idílica de plena satisfação sexual, livre de vínculos sociais: “Não lhe perguntava nada. Mal sabia seu nome, evitando por minha vez lhe dar informações que penderiam incômodas” (1984, 63). 0 idílio, entretanto, chega ao fim quando a amante pronuncia a palavra proibida: “num momento de selvagem doçura a mulher de ouro […] me olhando nos olhos disse que me amava. […] Foi nossa última noite. Não quis mais vê-la” (1984, 63). Para a protagonista, a declaração de amor da outra mulher evoca conotações de posse, submissão e hierarquia, comuns no amor heterossexual, c ela opta pelo rompimento, embora o final do texto sugira que tal opção é feita à custa do seu amor pela outra mulher.
“A mulher de ouro” acaba sendo uma história de amor lesbiano, tão romântico como uma história de amor heterossexual poderia ser. O que cabe ressaltar neste conto, no entanto, é a representação do amor homossexual entre mulheres como possível e natural, e do sujeito lesbiano como qualquer mulher, de qualquer grupo social (“Ela era diferente de mim. Simples, tímida, trabalhava em qualquer repartição do governo”, 1984, 59). Ao lado do sarcasmo com que desafiadoramente Campello tira o sujeito lesbiano da sua invisibilidade e silêncio, observa-se também a preocupação de criar uma linguagem adequada para reproduzir da maneira a mais autêntica possível a vivência da mulher homossexual, em particular suas experiências sexuais e eróticas:
[ … ] uma febre oceânica me devorou, uma tempestade me comeu, toda a mitologia hindu visitava meus desvãos solitários enquanto Brahma, Vishnu e Siva corriam pelos nervos de raiz à mostra, o que era, Senhor, esse olho de tufão me empurrando pra fronteiras tão longínquas que eu nem sabia existirem. […] e não eram só os orgasmos tremulando por meu corpo como carrilhões de catedral que me conduziam a essa perplexidade de prazer, era o espaço perfeito deixado por seu rastro na minha alma, uma anulação tão grande na plenitude que me vi à beira do êxtase religioso (Campello, 1984, 61-62).
Campello alterna passagens eróticas como esta a trechos de muito humor em que se antecipa a uma possível reação negativa por parte do leitor frente ao erotismo lesbiano: “imagino que deva haver alguém na distinta platéia que se questione aflito, mas o que podem fazer duas mulheres juntas? Respostas para o Ministério da Educação” (1984, 62). A combinação desses dois registros lingüísticos, o erótico e o humorístico, sublinha o que parecem ser as intenções da escritora neste conto e, aliás, em outras obras suas: a abertura de um espaço narrativo onde seja possível a afirmação da identidade e sexualidade lesbianas e a criação de um discurso erótico feminino independente do desejo masculino e, concomitantemente, a conscientização do público leitor, preparando-o para a nova ordem social que ela anuncia.
 
*****
Examinaram-se aqui cinco contos de escritoras brasileiras contemporâneas em que o desejo homossexual feminino ocupa uma posição central na narrativa, chegando a determinar a construção formal do relato. Apesar de o modo de representação do desejo lesbiano diferir nestes contos, em todos ele se apresenta como um locus que permite à mulher o exercício de sua subjetividade, abandonando ela aposição de objeto passivo ao qual tem sido limitada dentro do sistema dominante de gêneros. Desse modo, o lesbianismo não só abre um canal para a expressão autêntica do erotismo feminino como serve também para realizar uma crítica às relações heterossexuais hierárquicas.
As estratégias narrativas utilizadas per Edla van Steen, Sonia Coutinho, Márcia Denser, Lygia Fagundes Telles e Myriam Campello vão desde a sugesão e a ambigüidade até o humor e a enunciação clara do sujeito e do desejo lesbianos. Nem sempre explícitos, estes contos exigem às vezes uma leitura “queer” que afirme aquilo que aí se acha presente mas não se nomeia: o desejo homossexual feminino. O conto de Telles é, talvez, o que melhor textualiza esse problema, ao trabalhar literariamente com um código cultural que torna o sujeito lesbiano socialmente invisível. De maneira semelhante, as narrativas de van Steen e Coutinho armam-se sobre esse paradoxo, dando representação ao erotismo lesbiano sem, contudo, dar-lhe nome. Coutinho, aliás, escreve em “Fátima e Jamila” passagens de grande sensualidade e erotismo, numa expressão do erótico que transcende o puramente sexual para permear o textual. Também Campello trata de criar uma linguagem adequada à representação das experiências de vida -sexuais e não sexuais – da mulher 1ésbica. 0 conto de Denser, por sua vez, caracteriza-se como um discurso transgressivo que rompe e subverte o sistema dominante de gêneros; através da visão pessoal de sua protagonista, Diana Marini, a autora denuncia as práticas discursivas discriminatórias da homossexualidade feminina ao mesmo tempo em que expõe a apropriação do lesbianismo pelas classes burguesas brasileiras, que fazem daquele uma marca de diferença, quase se poderia dizer, um “símbolo de status”.
Apesar das diferenças aqui verificadas, que respondem às diversas definições teóricas do lesbianismo na literatura, estes cinco contos exemplificam a construção de um espaço literário que afirma um lugar para a subjetividade lesbiana, um espaço onde tanto o personagem lésbico quanto outros personagens femininos podem vivenciar ativamente sua sexualidade e seu desejo (Farwell, “Lesbian Narrative”, 1995, 157). É portanto a criação desse espaço e a centralidade do desejo lesbiano nestas obras que permitem inseri-las em uma tradição lesbiana na literatura brasileira de autoria feminina.
NOTAS
1 Este ensaio foi publicado originalmente na Revista Iberoamericana, v. LXV, n. 187, abril-junho 1999: p. 405-421.
2 Ver, por exemplo, o poema “Impressões do gesto” (Mulher nua, 1928) de Gilca Machado, que expressa o desejo lesbiano ao representar o prazer sensual da voz poética feminina despertado por outra mulher; Queiroz, no romance As três Marias (1939), faz referência às “amizades viciosas” entre as intemas e as órfãs do colégio; e, segundo indicação de Earl E. Fitz, já no primeiro romance de Lispector, Perto do coração selvagem (1944), a protagonista contempla a possibiliclade de ter una relação homossexual. Lispector volta a abordar o lesbianismo em contos como “A solução” (de A legião estrangeira, 1964), “O Corpo” (de A via crucis do corpo, 1974) e em A hora da estrela (1977).
3 A bibliografia sobre o assunto é extensa mas poder-se-iam ver a respeito, entre outras, as seguintes obras: “The Laugh of the Medusa” (1975) e outros ensaios de Hé1ène Cixous; “Stabat Mater” (1986) de Julia Kristeva; e The Practice of Love (1994), de Teresa de Lauretis.
4 Diz Catherine Stimpson em “Zero Degree Deviance” (1981): “[A lesbian] is a woman who finds other women erotically attractive and gratifying. Of course, a lesbian is more than her body, […] but lesbianism partakes of the body […] That carnality distinguishes it from gestures of political sympathy with homosexuals and from affectionate friendships in which women enjoy each other, support each other” (1981, 301). Enquanto que uma definição categórica do sujeito não se adequa ao contexto cultural brasileiro, o que me parece válido na proposição de Stimpson é que ela exclui as simples demonstrações de amizade ou apoio político entre mulheres. De qualquer modo, as categorias são sempre insatisfatórias e pecam pela rigidez. Deve-se lembrar, neste sentido, as palavras de Herbert Daniel: “A homossexualidade não se fecha numa definição, nem mesmo pode ser reconhecida como objeto definível. É simplesmente uma forma de viver a sexualidade” (1983, 52).
5 É comum nas culturas ocidentais a noção do corpo feminino como excessivo, porque é de seu caráter exceder, expelir, lançar para fora (secreções, a menstruação, o parto etc), e é esse excesso que o discurso dominante procura controlar de várias formas (Foucault, 1990, 104 e seguintes). O corpo lesbiano seria então duplamente excessivo porque “[it] exceeds [the genderl system by being what the system constructs as the ultimate threat: a female body, a woman’s sexuality, independent of the male” (Farwell, “Lesbian Narrative”, 161).
6 A intencionalidade do nome da personagem, que se anuncia no título do livro, Diana Caçadora, já foi observada pelos críticos, entre eles Rodolfo Franconi (1987) e Susan Quinlan (1991).
7 Observações semelhantes são feitas por Pratt (1981, 97) sobre romances anglo-americanos publicados antes de 1970, e por Foster sobre O Cortiço (Sexual Textualities, 2).
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Bio fornecida pelo palestrante.

A escritura feminina: Lya Luft e o sujeito no espaço literário




A escritura feminina: Lya Luft e o sujeito no espaço literário

Níncia Cecília Ribas Borges Teixeira

Introdução
A escritura feminina constitui o olhar diferenciado, o olhar das minorias. A temática da escritura feminina é resultante do “estar” no mundo, abordando o retrato das vivências da mulher no seu dia-a-dia. Segundo Luiza Lobo:
(…) o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje.1
A literatura de autoria feminina precisa criar o seu espaço próprio dentro do amplo universo literário mundial. Desde fins do século XIX e principalmente no século XX, a principal transformação pela qual passou a literatura de autoria feminina é a conscientização da escritora quanto a sua liberdade e autonomia e a possibilidade de trabalhar e criar sua independência financeira. Ocorreu, assim, a mudança da condição “feminina” para a condição “feminista”.
Desde a década de 1970, a consciência do corpo e o questionamento da existência, com a maciça entrada das escritoras na Universidade, pelo menos desde a década de 1950, tornaram suas vozes mais intensas. As escritoras passaram, então, a expressar suas realidades. Até muito recentemente, a crítica feminista não possuía uma base teórica. Assim, a crítica feminista era um ato de resistência, uma confrontação com os cânones e julgamentos existentes. Enquanto a crítica científica lutou para se purificar do subjetivo , a crítica feminista reafirmou a autoridade da experiência.
Existem duas formas de crítica feminista, e misturá-las é permanecer num território confuso. A primeira forma é ideológica, diz respeito à feminista como leitura e oferece leitura feministas de textos que levam em considerações as imagens e estereótipos das mulheres na literatura, as omissões e falsos juízos sobre as mulheres na crítica. A leitura feminista pode ultrapassar estas considerações; pode ser uma ação intelectual que busca a libertação, como propõe Adrienne Rich:2
Uma crítica radical da literatura feminista mostraria como vivemos, como temos vivido, como fomos levados a nos imaginar, como nossa linguagem nos tem aprisionado, bem como liberado, como o ato de nomear tem sido uma prerrogativa masculina, e de como podemos começar a ver e nomear, e, portanto, viver de novo.
Buscando a escritura feminina
A leitura feminista ou crítica feminista é, em essência, uma forma de interpretação, uma das muitas que qualquer texto complexo irá acomodar e permitir. Mas, a crítica feminista só pode competir com leituras alternativas. Kolodny3, teórica da interpretação feminina afirma:
Tudo que a feminista está defendendo, então, é seu próprio direito de libertar novos (e, talvez, diferentes) significados destes mesmos textos; e, ao mesmo tempo, seu direito de escolher quais os aspectos de um texto que ela considera relevantes, pois ela está, afinal de contas, colocando ao texto novas e diferentes questões. Durante o processo, ela não reivindica que suas leituras e sistemas de leitura diferentes sejam considerados definitivos ou completos estruturalmente, mas somente que sejam úteis para o reconhecimento das realizações específicas das mulheres como autoras, e que sejam aplicáveis na decodificação consciente da mulher como signo.
Toda crítica é revisionista, questiona as estruturas aceitas. A crítica feminista revisionista retifica uma injustiça e está construída sobre modelos já existentes. Contrapondo-se à teoria crítica masculina, ela tem como objetivo suplementar, revisar, humanizar conceitos baseados na experiência masculina e apresentados como universais.
A segunda forma da crítica feminista é que se propõe analisar a mulher enquanto escritora e sus tópicos são a história, os estilos, os temas, os gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres, a criatividade feminina. Como não existe um termo para este discurso crítico especializado Elaine Showalter o define como ginocrítica. A ginocrítica não pretende mais reconciliar pluralismos revisionistas, as o que faz a diferença nos escritos das mulheres.
O conceito da écriture féminine, estabelece a diferença feminina na língua e no texto, possibilitando uma maneira de se discutir os escritos femininos que reafirmam o valor do feminino e identificam o projeto teórico da crítica feminista como a análise da diferença. Tecnicamente, não se poderia falar em literatura “feminista” antes que o termo fosse cunhado, na década de 1960.
Para Luiza Lobo :
O termo “feminino” vem sendo associado a um ponto de vista e uma temática retrógrados, o termo “feminista”, de cunho político mais amplo, em geral é visto de forma reducionista, só no plano das ciências sociais. Entretanto, deveria ser aplicado a uma perspectiva de mudança no campo da literatura. A acepção de literatura “feminista” vem carregada de conotações políticas e sociológicas, sendo em geral associada à luta pelo trabalho, pelo direito de agremiação, às conquistas de uma legislação igualitária ao homem no que diz respeito a direitos, deveres, trabalho, casamento, filhos etc. (1999:4)
 
Considerando que o texto literário feminista é o que apresenta um sujeito consciente de seu papel social, sempre houve autoras “feministas” dentro do contexto de suas épocas, tornando-se o termo impróprio apenas por uma questão cronológica. Como exemplo, Safo, Sóror Juana Inés de la Cruz, possuidoras de uma consciência política ou esclarecida de sua existência em face da história excepcionais para seu tempo, e poderiam ser eventualmente identificadas com o “feminismo”.
A alteridade, ou seja, a énfase na diferença, da literatura de autoria feminina tornou-se a base da abordagem feminista na literatura. Ser o outro, o excluído, o estranho, é próprio da mulher que quer penetrar no “sério” mundo acadêmico ou literário. Não se pode ignorar que, por vários motivos sócio-político-culturais, a mulher foi excluída do mundo da escrita – só podendo introduzir seu nome na história através das fendas que conseguiu, arduamente, abrir.
Na literatura brasileira, até o presente momento, considera-se o romance Úrsula (1859)4 de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, a primeira narrativa de autoria feminina. O romance reduplica os valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história. Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor.
Mais recentemente, a preocupação em ser sujeito da própria escrita, deixando de ser só uma representação literária na ficção masculina, tem como principais expoentes (entre outras): Clarice Lispector, Sônia Coutinho, Maria Adelaide Amaral, Lya Luft (objeto principal deste ensaio).
Lya Luft : Caos e Reconstrução
Lya Luft é gaúcha de Santa Cruz, iniciou sua carreira há mais de vinte anos como tradutora de literaturas em alemão e inglês, que continua até hoje, traduzindo para o português Virginia Wolf, Doris Lessing, Günter Grass e Botho Strauss. Aos 40 anos, após publicar dois livros de poesia e um de crônicas, lançou-se como romancista com As parceiras, seguindo com A asa esquerda do anjo, Reunião de família, O quarto fechado, Exílio e A Sentinela, As Parceiras. Compõem ainda sua obra dois livros de poesia, Mulher no palco e O lado fatal, e o premiado O rio do meio, considerado a melhor obra de ficção de 1996.
Lya Luft desvenda através de seus escritos o submundo em que vive a mulher. Sua literatura extremamente intimista percorre o caminho desenhado por Clarice Lispector, mas com uma nota absolutamente pessoal. A questão feminina é tratada sob o ponto de vista feminino, configurando, dessa forma, a écriture féminine .
Zila Bernd, referindo-se a Luft afirma que: “Sua escrita é uma volta ao interior da casa, ao interior do desejo, encenando o mito do eterno retorno que é uma das principais marcas da escritura feminina”.
Os romances A asa esquerda do anjo, Reunião de família, O quarto fechado e As Parceiras abordam, principalmente, a luta contínua entre o princípio da vida e da morte, entre Eros e Tanatos. A criação das personagens esta ligada à sua visão de mundo, não aceita mais a perpetuação do poder masculino, embora aponte para a decadência do patriarcado. A contestação aos valores patriarcais se revela, em Lya Luft, de forma cortante, mostrando o drama da mulher, educada dentro de rígidos padrões moralistas. As protagonistas continuam presas à família, presas às regras do jogo social. A situação social da personagem tem importância à medida que representa condicionamentos impostos por práticas sociais.
As personagens femininas são flagradas num determinado momento de sua trajetória: o momento em que o mundo, carecendo de sentido, se esvazia sob a ótica feminina. Lya Luft constrói em suas obras um mundo decadente que se desagrega e se desmancha, compondo um universo feminino marcado pela loucura, pela doença e pela morte; o jogo e o grotesco, o trágico e o grotesco se articulam para desvelar as regras, desvendando os absurdos de uma sociedade repressora e injusta, em que a mulher é o “lado esquerdo”, que fica sempre à margem da sociedade.
Na obra romanesca de Luft a narrativa é sempre feita por uma mulher que relata sua problemática, partindo de um universo fragmentado, procurando sua verdadeira identidade. Em As Parceiras é Anelise, adulta, que busca explicação para os destinos das mulheres da família; em A asa esquerda do anjo é Guísela/ Gisela, também adulta que refaz sua trajetória em busca de sua identidade; em Reunião de família é Alice, que rememora, na sua história familiar, a repressão; em O quarto fechado, há quase uma exceção, pois a narrativa é feita em 3ª pessoa, mas o discurso interior de Renata é forte e alterna-se com a voz narrativa.
O existencialismo percorre toda a escritura luftiana, as protagonistas, se analisadas do ponto de vista existencialista, representam a negação, o nada, pois não conseguem, do ponto de vista sartreano, realizar seus projetos – Sartre afirma que “o homem nada mais é do que aquilo que projeta ser” – Anelise, Guísela / Gisela, Alice, Renata são impedidas de se realizarem como seres humanos plenos, independentes, sujeitos ativos de seu destino. Algo se rompe dentro delas: Alice, em Reunião de família, torna-se escrava da rotina, mas encontra no espelho a outra Alice que simboliza a liberdade; Anelise, em As Parceiras, fixou-se na maternidade para vencer seus fantasmas, Gisela, em A asa esquerda do anjo, sofre por ser a imagem da exclusão e pelo autoritarismo da matriarca da família; Renata, em O quarto fechado, é a própria imagem da fragmentação (mãe-esposa-profissional), diante do filho morto, ela é o nada.
Na concepção de Sartre, o homem também é angústia, e as personagens de Lya são a própria imagem da angústia, angústia na solidão ou na ausência dela, angústia de viver e morrer. A casa, a solidão, o moralismo, todos este impulsos configuram a morte do desejo e o auto-exílio.
Ela constrói com ambigüidade suas personagens, aponta para realidades diversas, inserindo o ser humano numa eterna contradição. O mundo psíquico das mulheres de Luft está continuamente envolto, nas levas apaixonadas e sem fronteiras de um ambíguo sentimento simultâneo de amor e ódio, cujos limites não são possíveis de traçar e, exatamente por esta razão, retém a personagem num universo melancólico . Para a pesquisadora Lucia Helena:
A ficção de Lya Luft dedica-se a narrar a tematização da passagem de uma sociedade regida pelos laços ainda telúricos da experiência e da tradição torna-se pouco a pouco um outra, um mundo movido pelo choque, pela fragmentação, pelo spleen corrosivo e melancólico. Esta transformação é vivida melancolicamente pelo imaginário soturno da personagem, que se debate nas fímbrias da morte do desejo compulsivamente barrado (1991:86).
A linguagem simbólica torna sua narrativa universal e perpassa toda a obra, e a morte, encarada sob o prisma mitológico, torna-se uma alegoria. Lya Luft recorre a símbolos recorrentes (árvores, noite, verme, anão) que possuem em sua carga semântica uma duplicidade de sentidos, configurando, sempre, a eterna contradição humana, a luta eterna entre Eros e Tanatos.
Há, também, em seus escritos, a presença da circularidade, pois fica evidenciado que suas personagens sempre retornam ao ponto de partida, a narradora é flagrada num momento de caos interior e tenta recuperar o elo entre o eu e o mundo. Essa voz feminina revela-se e encontra coragem para enfrentar o passado, porém sempre retorna ao presente. Além disso, sua obra está construída sobre uma circularidade de elementos que dão suporte a sua narrativa, que se configura, também, por meio da recorrência de temas.
As personagens da obra de Lya Luft carregam uma culpa imemorial, a culpa de Pandora, a culpa de ser incapaz de reter o tempo perdido; a felicidade, se aconteceu é só uma lembrança, pois num mundo dominado pelo tempo, Eros será mera recordação do passado, Tanatos é sempre o vencedor. A morte não acontece apenas no plano físico, mas também configura-se através da incapacidade de amar. Se, por um lado, todas as personagens têm dificuldade para lidar com a morte (e todo ser humano tem), também demonstram incapacidade para lidar com a vida e com o amor.
Lya Luft é uma voz feminina que busca sua identidade literária num mundo em que a mulher, ainda, continua à margem esquerda da sociedade. Mas que luta para se fazer sujeito da História. Desta ficção se pode também dizer que abandona a narrativa centrada na vida pessoal de uma personagem quase que autobiográfica e se aprofunda no exame crítico dos múltiplos papéis da mulher na sociedade. A condição feminina, vivida e transfigurada esteticamente, é um elemento estruturante, não se trata de um simples tema literário, mas da substância de que se nutre a narrativa. A representação do mundo é feita a partir da ótica feminina, portanto, de uma perspectiva diferente (para não dizer marginal), com relação aos textos reconhecidos pelo cânone literário. A mulher, vivendo uma condição especial, representa o mundo de forma diferente.
O discurso da escritura feminina é conseqüência de um processo de conscientização, não que o discurso feminino se confunda com feminismo, mas traz como alicerce a consciência da situação social da mulher. Este discurso subverte a ordem vigente, questionando papéis sociais, representando a mulher dividida, numa linguagem que também subverte os padrões normais.
Este é o discurso feminino, uma necessidade de um tempo e de um espaço especiais. Dessa forma, não há como considerá-lo algo segregado do acervo literário. Ele representa uma tendência altamente significativa do ponto de vista estético e social, pois é uma representação artística da situação da mulher feita por mulheres.
Notas:
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1Citação retirada do ensaio de Luiza Lobo, “A Literatura Feminina na América Latina”, publicado na Revista Brasil de Literatura (on-line), 1999, reimp. De idem, ibidem, Registros do Seplic, Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, n. 4, 1997. 40 p.
2Adrienne Rich citada por Heloísa Buarque de Holanda in Tendências e Impasses- o feminismo como crítica da cultura (1994).
3Heloísa Buarque de Holanda cita Kolodny in idem (1994).
4Ver Luiza Lobo, “Auto-retrato de uma pioneira abolicionista”, in Crítica sem juízo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992, p. 222-38; “O negro de objeto a sujeito”, idem, p. 205-21; José Nascimento de Moraes Filho, ed. Maria Firmina dos Reis – fragmentos de uma vida. São Luís, Governo do Estado do Maranhão, 1975.
Referências Bibliográficas:
GOTLIB, Nádia Batella, org. A mulher na literatura. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG,1990
HOLLANDA, Heloísa Buarque, org. Tendências e impasses – O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LOBO, Luiza. “A Literatura feminina na América Latina.” Revista Brasil de Literatura, on-line, 1999. Reimp. de idem, Registros do Seplic,
Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, n. 4, 1997. 40 p.
——. “Auto-retrato de uma pioneira abolicionista”, in Crítica sem juízo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992, p. 222-38; “O negro de objeto a sujeito”, idem, p. 205-21.
LUFT, Lya. A Asa Esquerda do Anjo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
—. Reunião de família. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
—. O quarto fechado. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
—. As Parceiras. Rio de Janeiro: s. ed., s. d.





Bio fornecida pelo palestrante.

Alejandra Pizarnik y Ana Cristina Cesar: los bordes del sistema




Alejandra Pizarnik y Ana Cristina Cesar: los bordes del sistema

Graciela Ravetti

La locura poética, dice Derrida a propósito de Artaud, quizás sea más racional que lo que la metafísica occidental llama Razón, porque está más cerca de lo instintivo y mantiene un tipo de relación – aunque difícil de explicar – con la fuerza de la vida y, por continuidad, se posiciona como productora o generadora de la obra literaria o poética. Los universos personales tienden a ser poblados por figuras y mitos que asumen carnaduras y fundiciones de difícil predicción, representaciones de lo reprimido, las “otras escenas”. Ana Cristina Cesar (1952-1983) y Alejandra Pizarnik (1936-1972) pueden convivir, en una movida crítica, en un instante fugaz de acercamiento, porque, como dice Rodríguez Magda, “la realidad es múltiple y en ningún espacio contemporánea de sí misma”. Las dos eran mujeres latinoamericanas, poetas, dibujaban, se suicidaron, dejaron como legado su poesía y con ella las grandes interrogaciones a que obliga la palabra.
Mi lectura de parte de la obra poética de Alejandra Pizarnik, resaltando algunos puntos de interseción vital y poética con la de Ana Cristina Cesar, se propone investigar la problemática de la subjetividad enunciativa femenina asociada a la reflexión sobre qué es la poesía y cómo puede realizarse un acercamiento crítico a ella. Establecer un contacto para producir un diálogo “imposible” es una estrategia que, en una zona del imaginario femenino, meditado a partir de su contenido hiperbólico – excesivo -, se coloca en un territorio en el cual las fallas del sistema son más transparentes, lugares que ayudan a producir conciencia nueva, repensando lo que se vende como “esencial y verdadero”, lo que establece la diferencia. Leemos a Derrida: “…el reino de un pensamiento-finito sólo puede establecerse sobre la base del encierro y la humillación y el encadenamiento y la irrisión más o menos disimulada del loco que hay en nosotros, de un loco que sólo puede ser el loco de un logos, como padre, como señor, como rey”. Digamos que en poesía como la de estas mujeres, son expuestas las fallas que justifican – “olvidando”, “negando”, o “eludiendo elegantemente lo que no puede ser dicho” – la discriminación y su correlato, la violencia. Al mismo tiempo se escribe la locura de querer decir, de alguna manera, la diferencia – la mujer -, que se entronca, en ese proceso de “expresión”, con la escrita-imposible de la locura. Experiencia del límite, de los bordes de los sistemas que se quieren completos, racionalistas, explicativos, justificativos.
Los libros de poesía que Alejandra Pizarnik publica durante su vida son: La tierra más ajena (1955), La última inocencia (1956), Las aventuras perdidas (1958), Árbol de Diana (1952), Los trabajos y las noches (1965), Extracción de la piedra de locura (1968) y El infierno musical (1971). Desde el primero, solventado por su padre, hasta los últimos en que ya existía, en la sociedad en la que se movía la poeta, un cierto consenso paternalista sobre su importancia poética en el medio literario, la crítica en general actúa con reticencia, dando énfasis al sufrimiento de esa “pobre chica”, a quien habitualmente se observaba como si fuera “una niña”, y cuya muerte fue aceptada “como si hubiera muerto una niña”, siempre con una “pequeña voz”. Muerte preparada con elementos teatrales, a la manera de una broma macabra, en la que Alejandra deja, junto a su cuerpo sin vida, una muñeca maquillada y palabras escritas en el pizarrón de su cuarto. Muñeca que se propone como una escritura cuyo significado retórico está consolidado en usos como el que se le da en 62, modelo para armar, de Julio Cortázar, que se vale del modelo de la histórica condesa Erzébet Báthory – siglo XVI-, el siniestro personaje que luego Alejandra retoma y da vida en su libro La condesa sangrienta. Las muñecas despanzurradas y pintarrajeadas de Alejandra parecen figuraciones siniestras de las bellísimas mujeres-adolescentes que la condesa tortura hasta la muerte, para luego verter su sangre y usarla en pócimas (remedios/venenos, fármacos) para mantener la juventud y lozanía que las brujas que la rodean le aconsejan.
Alejandra se rodea de sus muñecas como la Condesa de mujeres, la Condesa muere prisionera en su propio castillo – los remedios/venenos no dan el esperado resultado de la eterna juventud-, Alejandra muere dentro de las murallas de su cuarto. En actos rituales que mucho se parecen, Alejandra parece mantener sus muñecas como una garantía contra la destrucción. Como la Condesa, Alejandra tampoco acepta las posibles fuerzas benéficas que de algún modo podría recibir del medio en el que vive; prefiere la altivez del confronto mortal con la sociedad y con la vida. Las muñecas son signos-simulacro de la vida, así como la poesía-escritura sería un simulacro-suplemento de la creación y de la existencia del hombre.
Ana Cristina César comienza a publicar poesías en periódicos en 1959; desarrolla labor periodística, cultural, docente y de traducción (Silvia Plath, Emily Dickinson, Katherine Mansfield). En 1979 publica Cenas de abril (poesía) y Correspondência completa (prosa) en Rio de Janeiro, en edición de la autora. En Inglaterra imprime Luvas de pelica (edición de la autora, 1980), en 1982 publica A teus pés (poesía/prosa) que reúne inéditos y publicações anteriores, por la Editora Brasiliense de San Pablo. Muere el 29 de octubre de 1983.
El hermetismo no es marca registrada de ningún poeta, es más bien una condición de la poesía; dice Derrida que “esta diferencia, esta negatividad en Dios, es nuestra libertad, la trascendencia y el verbo que no reencuentran la pureza de su origen negativo más que en la posibilidad de la Pregunta.”. El gesto de liberación que estas poetas hacen al escribir, parecen hacerlo contra “fuerzas ocultas”, que amenazaran cercenar, no sólo la libertad personal, sino también la femineidad, que se vuelve entonces evidencia de valor, metonimia de lo prohibido. Esas fuerzas amenazan también impedir algo semejante a la realización personal, a la concreción de ambiciones; la poesía se escribe, entonces, en medio a una lucha sorda contra otras voces que “representan” las leyes oficialistas. Esas voces exigen renuncias; se anuncian como mandatos a los cuales tanto Alejandra como Ana Cristina terminan pagando el precio de la angustia incontrolable primero, creándose el exilio personal, y, finalmente, con el sacrificio de la vida en el ritual de la muerte provocada. Las feministas junguianas proponen una salida a estas “crisis”: liberar a la niña interior que vive dentro de cada mujer. Pizarnik, en La de los ojos abiertos, da vida a una muchacha que grita, aunque sea en la intimidad más profunda, que sólo la poeta puede oír; en La última inocencia, aparece como impulso de ascensión, de recuperación y de vida. Esos dos movimientos figurados juegan en contrapunto marcando una idea de circularidad del tiempo, noción que aparece y desaparece en su escritura, de la que la poeta parece no poder escapar. Esa idea borgeana del tiempo cíclico se observa en versos como éstos:
Recuerdo mi niñez
cuando yo era una anciana
Las flores morían en mis manos
porque la danza salvaje de la alegría
les destruía el corazón.
Recuerdo las negras mañanas de sol
cuando era niña
es decir ayer/es decir hace siglos.
Las cosas del mundo se personalizan, en un proceso en que parecen adquirir estatus de “juguetes”. Respondiendo a la demanda externa de ser niña siempre, juguete del gusto ajeno, existe todo un léxico y hasta una dicción en que el lenguaje que sirve para adjetivar el mundo y crear imágenes, parece surgido de un discurso “de juguetes” o apto para “juguetes”, para describir “muñecas”, donde las texturas son pétreas, coloridas, móviles: lilas, piedras preciosas, jardines. El mundo aparece “demacrado”, hasta la noche “sufre”, las golondrinas “tiritan de pavor”: la naturaleza, que en esta poesía es siempre un artificio explícito, aparece subvertida en sus predicados y pasa a ser signo de ese específico sufrimiento de mujer, a veces con resonancias de grandes poemas de la tradición de la modernidad. Ejemplo de esto sería Adioses del verano en que escribe: “Suave rumor de la maleza creciendo. Sonidos de lo que destruye el viento. Llegan a mí como si yo fuera el corazón de lo que existe…” que se filía al poema de T.S. Eliot, The Waste Land, no sólo en la idea de sentir el movimiento doloroso del parir de la tierra sino hasta en el uso, que en Alejandra es casi obsesivo, de la imagen de las lilas, las figuraciones de sentidos despertados en la infancia como las de la “niña de los jacintos”, las figuras de ahogados “(those are pearls that were his eyes….”), la de la pitonisa. “April is the cruellest month, breeding / lilacs out of the dead land, mixing / memory and desire, stirring/dull roots with spring rain.”
Estos procedimientos poéticos se harán más explícitos en el libro – que en este trabajo – sólo tocamos tangencialmente que es Extracción de la piedra de locura. La que dentro suyo vive pide para salir al “cancerbero del alma”. Las dos figuras, la que es y la que pugna por ser, se desgarran en la imposibilidad del encuentro, rejas por medio. Es la niña ciega del alma, la pequeña estatua de terror, la que dice “alejandra alejandra/ debajo estoy yo/alejandra”. Pero en el poema que da título al libro, La última inocencia, parte del misterio se revela: el deseo clave es el de partir, en cuerpo y alma. Partir significa “deshacerse de las miradas / piedras opresoras / que duermen en la garganta”. Opresión que está dentro del cuerpo poético y para eso sirven las metáforas “corpóreas”.
En el futuro aparecen las metas, que se dibujan bajo la presión de la idea constante de la muerte, más allá de la convicción que todos podemos tener de que la vida es finita. Por ser la muerte el misterio esencial con que se enfrenta el niño (Piaget) y que los seres humanos adultos no pueden resolver, todas las culturas le dan tratamiento especial. Desde ritos funerarios hasta todo tipo de actividad artística que lleva enclavada la idea del tiempo que pasa y de la muerte esperando en un punto desconocido del camino. Toda cultura lleva en su centro las marcas de las ideas que las personas que componen esa comunidad tienen de lo que en realidad representa la muerte para los seres humanos. Sin embargo, a pesar de esa preocupación permanente del pensamiento y de la sensibilidad humanos, la idea de la propia aniquilación es casi imposible de concebir; imaginarla es al mismo tiempo una tentación y una pesadilla. Parte de los proyectos de vida de la gente se hacen a partir de la personal ubicación que se tenga frente al problema existencial que la muerte plantea, &iquest;existe vida después de la muerte? La respuesta a esa pregunta define las estrategias de vida y, en el caso de Alejandra y de Ana Cristina, las textuales.
La poesía es un terreno donde esos terrores pueden aparecer como iluminaciones más o menos sombrías, no porque sea un espacio donde se propicien las imágenes – la poesía no es ni debe ser visual, decía Borges, sino musical-, sino porque permite que las alucinaciones, los presentimientos, las pesadillas, los terrores, los delirios, asuman una escenificación teatral que podrían servir de catarsis para que esos sentimientos dejaran de atormentar. Dibujar la muerte o escribir sobre ella podría representar una manera de familiarizar, de naturalizar lo sobrenatural y sobrecogedor para poder convivir con ello. Una especie de exorcismo.
En Ana Cristina la idea de la muerte que aparece desde sus más tempranos poemas es claramente la de descansar, dejar de sufrir: “Um descanso calmo e doce / Um calmo e doce descanso” (“Quando chegar”, julio 1967). Deseo frenado por el miedo a lo desconocido, cifrado en la imagen homérica, de la mujer que se ata al mástil del navío para no correr al llamado mortal de las sirenas. No se trabaja en esta poesía con experiencias metafísicas puras sino con el manoseo de los hechos y objetos cotidianos que le permiten imágenes del sufrimiento de vivir con la conciencia permanente de la muerte surgidos de los designios/signos que, como mensajes, le envían las cosas, las personas, las Observaciones microscópicas de lo que ve.
Hoje comprei um bloco novo.
Pensei: a você o bloco, a você meu oco.
Ao lápiz a mão e os pensamentos em coro/me sugeriam rimas e sons mortos.
(Onze horas, mayo 68)
La muerte, en Ana Cristina, es un pensamiento agradable que se transforma, en los últimos escritos, en un juego de representación explícita, la teatralización macabra del fin. Ante el vacío, el hueco en que se le transforma la vida, se sienta a esperar con añoranza de futuro, la muerte por venir.
Bateriam à porta, chegariam os parentes queridos, mortos recentes,
e não me dou por satisfeita. Mas os figurinos na noite de/ estréia
imediatamente antes!
A goma, o brilho no camarim!
(1982-3)
Podemos decir quizás que ambas poetas son una especie de Cherezades, la narradora de Las 1001 noches, que escriben para mantenerse vivas; la astucia residía en crear con palabras poemas e historias y reproducir sus profusas muertes y numerosos funerales; cuando este exorcismo se quiebra, las defensas se debilitan y acontece la muerte real.
En Ana Cristina César, también el poetizar está corroído por la ironía: el desgaste de la fuerza de la palabra poética y de las ilusiones modernas. En sus escritos, las figuraciones de ángeles aparecen como figuras etéreas de un más allá que, en la poesía de la adolescencia, prometen la muerte como descanso del sufrimiento, o bien como figuras de la poesía que se desprende de los objetos. “E em breve a sombra se dilui, / Se perde o anjo” (setiembre 68).
El espejo es un mapa del infinito que tienta al suicidio, con la promesa de reaparecer en otra vida; como a Borges, a Alejandra le sugieren moradas, posibles identidades asustadoras, supuestas vidas atroces. Pero, como dice Isabel Monzón sobre la Condesa Sangrienta, se supone que Erzsébet, la condesa, como todo aquel que se contempla, se buscaba a sí misma, pero “no podía encontrarse ya que no lograba verse tal como era” y eso ocurría porque era una mujer: por eso no fue vista. La mirada de Alejandra se pierde en los espejos, buscando una imagen que tampoco está preparada para ver. Lo que ve son los mandatos sociales, reproducidos hasta el infinito, las voces represoras y dictatoriales del “deber ser”: linda, joven, mansa, amable, agradable, eterna. No hay verdades, dice en su primer libro, no hay palabras en las que le sea posible reconocerse, “la palabra en que me exista.” Este tema se va desarrollando en la idea del doble, en que el sentido de identidad personal es siempre cuestionado y se desenvuelven estrategias de defensa contra la disolución. “Miedo de ser dos / camino del espejo.” La memoria le hace un doble juego. Por un lado le muestra, para tentarla, las delicias de la vida feliz y plena de la niña, por otro, eso mismo le es mostrado como ajeno porque perdido. De modo que los recuerdos que podrían reconfortarla sólo la alienan de su ser inicial.
En César, la sensación de ser mujer pasa desde lo que dice en “Poema óbvio” (junio 1969):
Não sou idêntica a mim mesma
sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob o mesmo ponto-de-vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante
 
hasta lo que dice casi al final de su vida: que la mujer es un objeto que varía de precio más que cualquier acción de Bolsa.
El bucear en la profundidad de lo aparentemente chato, plano, le descubre a Ana Cristina abismos existenciales. El simple abrir las ventanas para ver el sol le hace sentir el vértigo de la vida: “Eu não sabia / que virar pelo aveso / era uma experiência mortal” (Inconfisões – noviembre 68). El mirar a través de una ventana es una figura recurrente en esta poesía, que se desplaza a “observar a través de un agujero”, la ventana que no era ventana sino una experiencia trascendente, la de la clarividencia, la misma que atormentaba a Alejandra. Estar atrás, viendo el otro lado de las cosas y de las palabras. Pitonisa, dice la hablante de un poema, es aquella que un día se quemó y que nos dejó su bendición; en A vidente se recolhe continúa con esa imagen. Alejandra escribe en El árbol de Diana que sus visiones son “un agujero, una pared que tiembla”.
En practicamente las últimas palabras dejadas por Ana Cristina, da cama do hospital, dice: “Se olho fixamente para um objeto qualquer durante algum tempo, esse objeto não se move.” Esa sensación le da pie para ironizar sobre sí misma y sus percepciones de lo material, semejantes a aquella fuerte impresión que angustiaba a Alejandra frente a la misma experiencia.
Ana Cristina deja en sus últimos poemas un aliento testamentario, documental, marcas que lega como testimonio de una vida, rastros posibles, como lo haría un preso en la cárcel ya que “todo sinal é uma profecia”, escribe. Para que la lean quienes tengan coraje y sabiduría para hacerlo.
Diríamos con Derrida que tal vez la clave para entender la poesía de estas dos mujeres contemporáneas está en considerar literatura pura a la no-literatura, o a la muerte misma.
 
Referências Bibliográficas
CÉSAR, Ana Cristina. Inéditos e Dispersos. São Paulo, Brasiliense 1985.
En DERRIDA, Jacques. La escritura y la diferencia. Barcelona, Anthropos, 1989
FAYE, J. P. La crítica del lenguaje y su economía. Madrid, Alberto Corazón Editor, 1975.
FREUD, Sigmund. Una neurosis demoníaca en el siglo XVI. Buenos Aires, Editorial Amorrortu. Tomo XIX, 1979. [1923].
GRAZIANO, Frank. Alejandra Pizarnik. Semblanza. México, Fondo de Cultura Económica, 1992.
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LAGMANOVICH, David. La poesía de Alejandra Pizarnik. XVII Congreso del Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana.
MONZÓN, Isabel. Bathory. Acercamiento al mito de la Condesa Sangrienta. Buenos Aires, Feminaria Editora, 1994.
PIÑA, Cristina. Alejandra Pizarnik. Buenos Aires, Planeta, 1991.
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RODRÍGUEZ MAGDA, Rosa María. Femenino fin de siglo. La seducción de la diferencia. Barcelona, Anthropos, 1994
ROWE, Dorothy. La construción de la vida y de la muerte. Dos interpretaciones. México, Fondo de Cultura Económica. 1982.





Bio fornecida pelo palestrante.

Nas fronteiras do inteligível: O Ponto Cego Delineando um novo traço na ficção de Lya Luft




Nas fronteiras do inteligível: O Ponto Cego
Delineando um novo traço na ficção de Lya Luft

Simone Sampaio Silva

Num fino traço
faço o perfil de ninguém
Quem quer ser alguém
nessa vida sombria
parida com sangue e papel?
Mas no círculo que traço,
nariz, cinco dedos na ponta do braço,
donzela esguia ou boneco de engonço,
limito um novo ser: e me abraço
a mim, no poder de gerar um sinal
que instaure no nada o todo possível.
Quem faz de nós reis, deuses, réus
Da nossa eterna contradição?
No texto que faço
Separo o nada do nada:
abro o espaço da minha interrogação.
Lya Luft, Mulher no palco, 1984
Nessa interrogação configuram-se os primeiros instantes da leitura de O ponto cego. No gesto da criação de um traço, em seu mais recente romance, Lya Luft abre o espaço da inquietação fundamental para uma incursão pelo terreno íntimo e turvo da condição e dos vínculos humanos: a inquietação com as fronteiras da própria existência. Que traços são esses que nos desenham? Quais são os limites que separam o ser alguém do não ser? O momento mágico da leitura pode gerar pontos de luz sobre esse mundo de sombras, dores e perplexidades, e o olhar lançado para dentro desse universo é apenas uma efêmera centelha sobre alguns de seus contornos.
O universo ficcional de Lya Luft tem focalizado especialmente o percurso existencial de personagens femininas dentro de um processo de autodefinição permeado por memórias muitas vezes amargas, temores, fantasmas, solidão, jogos, fantasias e perdas, enredados em vínculos familiares. As relações de gênero configuram a matriz de seus textos, nos quais, a partir do contexto doméstico e cotidiano, ela se envolve na teia dos mistérios da vida e dos destinos humanos utilizando-se de elementos oníricos, grotescos, anímicos e lúdicos1 ; caem as máscaras, expõem-se as feridas, o não familiar e o estranho emergem de dentro do espaço doméstico2. O conjunto das obras de Lya Luft é marcado por imagens que constituem os pilares de sustentação de uma sociedade centrada na ordem patriarcal e nas relações hierarquizadas de gênero; as relações familiares são elementos cruciais nesse conjunto, gerando reflexões críticas sobre a construção das identidades de gênero por serem um dos elementos centrais na socialização do sujeito. Conflitos, situações e personagens de obras anteriores da autora também pairam em O ponto cego: rejeição, solidão, fantasias, dores, repressão e, sobretudo, o desvelamento de padrões normativos de gênero e de imposições ideológicas sufocantes são elementos estruturais em seu romances.
Como obras anteriores de Lya Luft, O ponto cego vagueia pelos territórios sombrios das relações humanas, mais uma vez a autora se lança para além das aparências, atravessando as fronteiras das regras e da ‘naturalidade’ dos vínculos sanguíneos. Em seus outros romances, a instância que emite o enunciado é geralmente uma personagem feminina redefinindo sua trajetória de existência e se configurando enquanto sujeito do discurso, ou debatendo-se em meio a uma realidade sufocante. Diferentemente, o agente condutor da narrativa de O ponto cego é um menino carregando consigo uma história que vai se desdobrando na singularidade de sua perspectiva ora infantil, ora clarividente.
Eu sempre estive lá: sei muito a respeito de todos eles, sei quase tudo. Menino, anão, duende ou gnomo: um ouvido, uma grande orelha, um olho enorme de pálpebra semicerrada como quem não quer nada, como quem nem quer ver. Mas pela visão o mundo entra e sai, e se armam todas as cenas, as narradas e as reprimidas: essas florescerão (p. 31).
A idéia do universo infantil é abordada nesta obra mas tem o potencial de apontar para o processo através do qual o ser humano, em geral, se insere em processos ideológicos altamente opressores submetendo-se aos seus desígnios. O foco central deste breve ensaio é a trajetória do menino-narrador diante dos padrões tradicionais de uma estrutura familiar patriarcal e dos moldes de identificação colocados à sua disposição para a construção da própria identidade.
Para Lya Luft, “a infância são as ilhas da magia e também as águas do terror: os mistérios adultos que não nos abrem lugar, os objetos cotidianos, tudo serve para atormentar uma fantasia não domesticada” 3.
Essa é a história de uma criança em contato com as engrenagens de funcionamento do mundo adulto que podem arrastá-la para fora do ‘abrigo de sua pequenez’ (P. 45). Sua convicção é a de permanecer um observador por entre as frestas da realidade, a partir de seu próprio viés: “Eu que invento e desinvento, eu que manejo os cordéis, eu decidi parar de crescer” (P. 15).
Essa é a história do inadequado, ilegítimo, ofuscado, um ser que não cabe em si, um estrangeiro no contexto da convivência humana. A família de classe média é mais uma vez o cenário do trabalho de Lya Luft, onde personagens de uma rede familiar alicerçada em valores patriarcais circulam pelo campo de visão desse menino-narrador: pai autoritário, mãe submissa, avó louca, obcecada por um ideal de beleza que só comporta a juventude, irmã preferida pelo pai, tias, tio e um menino atormentado diante da cruel configuração que se apresenta ao seu olhar sagaz, não adestrado e inconformado com a realidade limitadora que presencia: “Minha mãe não parece ter uma vida sua: vive a dos filhos e a de meu pai. Que dívida terá com ele, que a faz girar nessa perpétua dança das mulheres em torno dos homens a quem precisam servir?” ( P. 37).
Como manter-se seguro após ter observado as máscaras que cobrem cada face e a camada subterrânea de cada relação humana? Haveria saída para quem vê o mundo pelas frestas, pelas beiradas, negando-se a ser mais uma peça em um jogo de máscaras? O narrador-menino projeta o seu olhar para o espaço das relações familiares expondo os fios que compõem essa teia e rejeitando sua própria posição nesse “jogo muito perigoso”. Julgando-se seguro e forte em um espaço imaginário, de onde observa os personagens e histórias que compõem sua vida, o menino vai captando evidências do mundo e elaborando suas representações a partir de uma perspectiva bastante peculiar: “Aqui onde estou, nesta altura e deste àngulo, mexo com o tempo e o lugar, enfio personagens aqui e ali, vou povoando as entrelinhas e alinhavo histórias paralelas”.
A própria possibilidade de inscrição no mundo simbólico é o eixo que conduz aos percursos e percalç”os do pequeno narrador. A entrada para seu universo é o portal das possibilidades, o espaço da grande interrogação, a partir da qual vários caminhos podem ser traçados. Não há bússolas nessa jornada, cujo rumo é sempre questionável, pois o empenho do narrador reside justamente na tentativa de escapar de referenciais que podem enquadrá-lo. Ele se emaranha pela própria história escorregando por entre as linhas, inquietantemente indecifrável.
Eu sou o que deixaram sob o tapete, o que à noite se esgueira pelos corredores, chorando. Sou o riso no andar de cima muito depois que uma criança morreu. Sou o anjo no alto da escada de onde alguém acaba de rolar. Sou todos os que chegam quando ninguém suspeita: saem detrás das portas, das entrelinhas, do desvão (p. 30).
Embora enredado nas teias de um cotidiano de menino, o narrador se revela como um ser difuso que, de uma posição imaginária privilegiada enxerga os mecanismos que regulam as fronteiras da inteligibilidade dos seres. Ele se recusa a pertencer à matriz normativa que define suas posições e os torna homens e mulheres representantes de uma sociedade calcada no referencial androcêntrico. O menino subverte tempo e espaço criando um mundo dentro do qual inventa e invoca cenários e personagens, abrindo, assim, espaço de possibilidades que vão para além do normativo. Dentro desse universo de fantasias, ele elabora seus enredos a partir de uma autoconsciência do processo narrativo. “Qual é a história que aqui quero contar? De gente que é muito esquisita, de criança que é muito solitária, de um Menino que sabe muita coisa, e de que saber é muito perigoso” (p. 85).
Recusando-se a crescer, o menino tenta fugir de ‘perigosas possibilidades’ que o aguardam: “O que eu invento e esconjuro se torna real (…). Não suporto ser privado disso que desejo tanto, e que me torna especial: Ter o que os outros nem enxergam. Poder me alegrar sem medo de que acabe” (p. 86).
O narrador posiciona-se de forma contra-ideológica. Seu àngulo de visão o permite enxergar e questionar aspectos das relações humanas que desnudam as regras do poder, pois sua percepção desfocada expõe os sistemas regulatórios da família. Sua observação focaliza a matriz da construção das relações hierarquizadas entre os sexos, o universo da loucura, os mecanismos de poder paterno, o mundo proibido e censurado das vivências humanas, o sentimento de solidão e a perplexidade diante de tudo isso.
Focalizando o interdito, o que é silenciado, o avesso e as criaturas que lá habitam, o menino põe em evidência a rigidez de noções que constróem homens e mulheres e que assim os tornam legítimos membros da sociedade com seus códigos e práticas regulatórias. Lya Luft coloca em xeque valores e padrões tradicionais na medida em que cria uma criança em uma posição de estranhamento e aversão a esses valores. Aqui, mais uma vez, é no sujeito da enunciação que reside o aspecto questionador da obra.
No entanto, apesar desse aspecto questionador, mais especificamente denunciador da obra, o narrador encontra-se impossibilitado de ir além de sua própria fantasia, seus traços enquanto sujeito não são bem delineados a ponto de defini-lo dentro da ordem de um discurso inteligível. Para ele não existem parâmetros de identificação que possam inseri-lo na ordem hegemônica do discurso. Seus conflitos levam à constatação de que os referenciais disponíveis ao seu processo de identificação são todos falidos, e o seu não crescimento representa a sua negação a inserir-se na ordem familiar pré- estabelecida. Sendo assim, ele se encontra em um movimento contrário à construção de uma identidade e, por isso, ele se desconstrói, ocupando um local de resistência que não possui nenhuma inscrição ou registro na estrutura familiar patriarcal.
A condução do discurso feita por um ser etéreo que vaga por tantos caminhos e que se define ao mesmo tempo em que se desmancha aos poucos revela um espaço onde contornos e fronteiras, esboçadas nos traços que limitam o ser, evidenciam-se no clima turvo da narrativa. Os traços que esboçam o narrador de O ponto cego são pouco nítidos e se apagam à medida em que ele se afasta dos esquemas que ordenam a família; recusando-se radicalmente a compactuar com a lógica do ser humano adulto, ele se torna um ser inominável. Sua performance não tem eco devido à posição totalmente fora dos referenciais simbólicos que regulam a estrutura familiar da qual faz parte. Ele não possui registro no sistema que socializa o sujeito.
O não caber em si traduz o desejo de alargar fronteiras para além dos jogos familiares com suas posições fixas de gênero. No entanto, o seu processo de apagamento desencadeia-se pelo fato de estar impossibilitado de ir além da mera apresentação ou denúncia de uma realidade familiar opressora. Sua narrativa é um apelo sem voz, sem força, uma vez que sua alienação torna as artimanhas que tece inócuas e silenciadas diante de códigos mais poderosos. E do seu reino, ou palco imaginário, ele manipula os seres que cria, constrói um texto particular que não tem poder transformador, e se torna cada vez mais indefinível.
Eu sou o narrador e personagem, eu escrevo o roteiro, sou eu quem salta entre os cenários e observo dos bastidores.
Mas às minhas costas sopra essa voz mais forte do que eu: o anjo que fia, tece e borda, e me prende nesse enredo. Não calculei bem os seus poderes, nisso me perdi (p. 85).
Ele se emaranha na teia de seu mundo interior, pois seu esforço não tem poder de criar novos espaços de discurso, ou de redefinir os termos de uma nova perspectiva. O menino-narrador não tem meios para reescrever sua história como resposta aos esquemas opressores que visualiza. Esse é o drama de uma criança especial desalinhada com o tempo. Sua angústia assemelha-se aos conflitos das personagens femininas de Lya Luft buscando abrir caminhos entre os espaços que lhes foram reservados na ideologia de gênero. No entanto, cada uma dessas mulheres narradoras busca articular suas vivências e alargar as fronteiras de sua existência a partir do referencial androcêntrico, que não pode ser negado em detrimento de uma nova ordem menos sufocante, pois não existe registro totalmente fora do simbólico traçado historicamente dentro de leis patriarcais.
A ordem patriarcal tende a se reproduzir constantemente em diversos tipos de discurso, e a família é ainda um espaço privilegiado de consolidação dessa ordem, “a não ser que se resista constantemente, suspeitando-se dessa tendência”, conforme coloca Lauretis (1992, p. 236). Ela continua seu argumento com a idéia de que a resistência à reprodução dessa estrutura “é a razão pela qual a crítica de todos os discursos a respeito do gênero, inclusive aqueles produzidos ou promovidos como feministas, continua a ser uma parte tão vital do feminismo quanto o atual esforço para criar novos espaços de discurso, reescrever narrativas culturais e definir os termos de outra perspectiva – uma visão de ‘outro lugar’.”
Portanto, o espaço da resistência só vai ter força se ocupado de forma crítica, e a postura feminista é um dos discursos críticos que se ocupa em explorar novos espaços de resistência, uma nova visão. Para Lauretis, “se esta visão não é encontrada em lugar algum, não é dada em um único texto, não é reconhecível como representação, não é que nós – feministas, mulheres- não tenhamos conseguido reproduzi-la. É , isto sim, que o que produzimos não é conhecido, exatamente, como representação. Pois esse “outro lugar’ (…) é o outro lugar do aqui e agora, os pontos cegos, ou o space off de suas representações. Eu o imagino como espaços nas margens dos discursos hegemônicos, espaços sociais entalhados nos interstícios das instituições e nas fendas e brechas dos aparelhos de poder-conhecimento” (Lauretis, 1992, p. 237).
Segundo Lauretis, os termos de uma nova construção de gênero devem ser elaborados tanto em nível de subjetividade e auto-representação, como em nível de resistência que coloque em xeque as engrenagens de poder. Isso só pode ser alcançado se o sujeito possuir referenciais fora e também dentro da ideologia. Como não existe uma realidade externa ao espaço simbólico do sistema sexo-gênero, Lauretis sugere que qualquer atuação crítica e transformadora deve surgir não em um espaço imaginário totalmente fora das leis sociais, mas a partir do espaço de uma dada representação, de um determinado discurso, de uma matriz de gênero, em direção ao espaço não representado, não reconhecido, não revelado. Esse é o desafio crítico que pode alargar fronteiras, gerar novos arranjos e novas configurações de gênero (Lauretis, 1992, p. 237).
Não há como propor modelos totalmente ausentes dos símbolos e da linguagem minimamente institucionalizada. Em O ponto cego há um menino seduzido pela ambiguidade, pelo viés, pelo avesso, por representações diferentes das que são previamente estabelecidas e colocadas à disposição dos indivíduos para serem por eles incorporadas. Ele se interessa por esse “outro lugar”. No entanto, a sua falta de legitimação enqu anto sujeito torna seus posicionamentos ininteligíveis dentro da ordem familiar e ineficazes no questionamento da ideologia dominante.
O menino-narrador, tendo se posicionado radicalmente no lugar que configurou para si, onde se “represa o tempo” (p. 33) e também se represam possibilidades de resistência crítica, não se viabiliza enquanto sujeito e, portanto, não se materializa. O ‘outro lugar’ que vislumbra não tem o contraponto de uma inserção mínima na ordem simbólica dominante que lhe dê mobilidade suficiente para pensar e agir de acordo com seus pontos de vista, diferentemente do ‘outro lugar’ ou ‘pontos cegos’ apontados por Lauretis como forma de visualização e atuação crítica no sistema. O livro de Lya Luft, por sua vez, materializa-se exatamente à medida em que o menino se desfaz e expõe os mecanismos opressores que o tornam inviável como parte da sociedade.
O fato de a autora ter posicionado o narrador no universo infantil aponta um novo traçado no conjunto de suas obras, abrindo espaço para a visualização dos mecanismos de poder pela ótica de uma criança. Ela mostra como uma criança inserida na rede familiar tradicional tem sua posição ideologicamente marcada por uma inferioridade hierárquica em relação aos demais membros da família, sendo suas inquietações emudecidas, negligenciadas ou desqualificadas, apesar de “sua perspectiva nem sempre cega” (p. 45): “Mulheres aqui, homens ali. Mulheres assim, homens assado. Crianças, nada” (p. 45).
Negando-se a seguir o curso da socialização e do crescimento, ele assume uma posição em um lugar sem lei rumo a sua total dissolução. O menino que não cabe em si prefere a ilusão de poder manipular tempo e espaço e permanecer ileso em seu universo imaginário, mesmo descobrindo que será pouco a pouco apagado, ofuscado, reprimido como uma impossibilidade dentro da lógica patriarcal.
Notas
(clique nos números para voltar ao texto principal)
1 O percurso pelo caráter lúdico e grotesco da obra de Lya Luft foi traçado por Maria Osana de Medeiros, posto à luz do suporte teórico da psicanálise no livro A mulher, o lúdico e o grotesco em Lya Luft.
2 As questões discutidas por Freud no texto “O Estranho”, escrito em 1919, configuram interessante espaço para um diálogo tanto com o narrador de O ponto cego, como com outros personagens criados por Lya Luft, cujos textos são um convite permanente para incursões pelo terreno da psicanálise.
3 LUFT, Lya, (1996), O rio do meio, p. 28.
Referências Bibliográficas
BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the subversion of identity. New York, Routledge. 1990.
FREUD, Sigmund.. “O estranho”. Trad. de Jayme Salomão. In: Obras completas de Sigmund Freud,vol. XVII, pp 275-314. Rio de Janeiro, Imago, 1919.
LUFT, Lya. O ponto cego. São Paulo, Mandarim, 1999.
__________ O rio do meio. 7. Ed. São Paulo. Mandarim, 1996.
__________Mulher no palco. Rio de Janeiro, Salamandra, 1984.
LAURETIS, Teresa de. “A tecnologia do gênero”. Trad. de Suzana Bornéo Funck. In: Tendências e impasses: O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro, Rocco, 1992. p. 206-242.
 
(*) Comunicação apresentada por SIMONE SAMPAIO SILVA, mestranda em Teoria Literária no Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher – Universidade Federal da Bahia (UFBA) – no VIII Seminário Nacional Mulher e Literatura, em Salvador, de 27 de Setembro a 29 de Setembro de 1999.





Bio fornecida pelo palestrante.

"…toda negação de amor gera a morte, não importa que amor, não importa que proibição."




“…toda negação de amor gera a morte, não importa que amor, não importa que proibição.”

Claudia Sabbag Ozawa

O título deste estudo é parte da fala de Mamãe, personagem da obra O quarto fechado, de Lya Luft. Sozinha no quarto, durante o velório de Camilo, Mamãe questiona várias situações vividas por todos da casa até aquele momento. Encontra-se assim, presa a reflexões, quando se lembra do acidente que deixou paraplégica sua filha Ella. Ella e Martim, enteado de Mamãe, apaixonaram-se e decidiram fugir quando Mamãe impediu o romance dos dois. Para Mamãe, eles estavam cometendo incesto. Mesmo não sendo irmãos naturais, foram criados juntos, cresceram como irmãos.
Ella esperava por Martim, quando escorregou de uma cerca e caiu, batendo a cabeça e selando o destino dos três daí por diante. Mamãe pensa em tudo isto, quando lhe ocorreu: “Talvez fosse castigo, todas as dores, todos os conflitos e dramas da família fossem castigo para ela, Mamãe: porque impedira o amor de Martim e Ella. Negar o amor era negar a vida; toda negação do amor gera a morte, não importa que amor, não importa que proibição”.
Apesar de, aparentemente, referir-se só ao desenlace entre Ella e Martim, na verdade a citação de Mamãe é o fio condutor de toda obra de Lya Luft. Durante todo o livro, os dramas, sofrimentos e frustrações dos personagens se relacionam a alguma forma particular de negação do amor.
Estruturada, basicamente, em torno das posturas assumidas pelas personagens femininas, a obra é a busca de uma identidade da mulher. Transgressoras, desafiadoras, elas caminham por uma estrada ainda tortuosa, repleta de obstáculos. Masculinos, femininos, externos e internos. Sociais, religiosos, amorosos. A cada página, há pegadas desta luta, muitas vezes, dolorosa, sofrida, mesmo triste. Inúmeros ranços de uma história marcada por preconceitos, privações, estereótipos.
Mas a mulher agora deixa de mirar somente para a família, o marido, os filhos, a sociedade, a igreja, para voltar os olhos para si mesma. E procurar os contornos de seu rosto. Construi-los por si mesma. Formar a imagem do espelho. E, neste sentido, todos os focos que partem das personagens femininas dirigem-se para uma única direção, para um mesmo espelho comum.
E os seus trajetos, vindos de onde vierem, de posições isoladas diante da vida, são movidos por uma mesma busca: o amor. Em todos os graus, em todas as esferas do convívio pessoal e social. É o amor que determina o desenvolvimento da narrativa. Ou antes, é a negação do amor que gera todos os conflitos e tensões presentes em toda obra.
Renata, Clara, Carolina, Mamãe, Ella, tudo gira em torno de suas atitudes e decisões frente à vida. A maneira como se relacionam com o amor e a ausência dele. Obrigadas a optar entre o passado e o futuro, o que esperam delas e o que elas esperam de si mesmas e do mundo, o amor é o elo.
A trajetória de Renata é marcada por transgressões e opções. Sempre a abdicar a fim de conquistar. Sempre incompleta, sempre a tecer fios invisíveis que atem o quebra-cabeça de amar. “Não estou sempre trocando uma coisa por outra porque meu coração decide que essa outra é melhor, e a ela é preciso ser leal?”
Na infância, na juventude, já Renata estabelecia os limites de seu amor e os sacrifícios de suas escolhas. “Renata tocava piano enquanto outras meninas brincavam com bonecas; atravessava a cidade, pálida, agarrada às partituras, quando outras moças iam com namorados ao parque.” Renata deixara de amar as belezas e alegrias de uma infância e as descobertas de sua juventude em favor da arte. Seus desejos, sua sexualidade, nunca ocuparam espaço nos limites que se impunha, dedicando-se unicamente à música. “Nunca se fizera concessões, nunca cedera ao corpo, que exigia seus direitos.”
Mas a busca frenética por respostas que somente a música poderia lhe dar, a ordem íntima que só a harmonia das notas asseguravam, um dia também recebeu aviso de morte. Pelo amor de um homem, abdicou do amor à música. Agora, teria que dar atenção a Martim e ele queria exclusividade, exigia que os seus sentimentos, seus sonhos, sua vida se voltassem para ele. “Renata foi um desafio, e Martim quis também a sua alma. Até a arte dela lhe pertenceria…”.
Como a música, sozinha, já não era capaz de dar a Renata tudo o que ela precisava, os sons já não correspondiam a toda sede de paz e harmonia que ela buscava, toda a luta por se estruturar e se descobrir, e se entender, Renata apegou-se a Martim como um náufrago.
“Como uma borboleta abandona o casulo, pensara poder trocar sua identidade pela de mulher de Martim. (…) Eu me atirei nos braços dele para fugir da solidão e foi tudo uma fraude, ocorreu-lhe. Fugi de mim mesma.”
Negar amor a si mesma, anular-se é decretar a morte a sua própria identidade. E isto provocou-lhe ainda mais tristeza e insegurança.
Poderia recorrer novamente à música, mas por Martim, acreditou conseguir viver dos prazeres do corpo, antes renegados. Renata satisfez-se enquanto a paixão era nova e parecia sustentar todo o resto. Com o tempo, atender ao corpo, mas sacrificar a alma, já não era possível. “Odiava-se quando tinha prazer com ele; queria punir-se pelas alegrias do corpo que desejava o dele com tamanho ardor enquanto a alma sofria, solitária.”
Negar o amor à alma era gerar a morte de sua parte sensível, artista. Renata negou seu amor à música e a todo o seu estilo próprio de vida para se entregar à vida doméstica com Martim. No entanto, ela não era, como diziam, uma “mulher normal”; os afazeres da casa não a interessavam, não despertavam nela nenhum prazer. Ao contrário, achava-a vulgar.
E logo a ausência do alimento da alma se fez presente:
“…a nova vida não lhe trazia encantos: era desajeitada, despreparada para as coisas domésticas (…) Mamãe e Clara tentavam ser suas amigas: mas, embora convivessem bem, Renata também não as compreendia: como podiam gastar tão tempo e energia com comida, roupa, empregados, pequenos interesses de quem se conforma com uma existência mesquinha? (…) a saudade da carreira, a incapacidade e o desinteresse pelas coisas domésticas interferiam na relação com Martim…”.
Não bastassem as inadaptações com a vida doméstica, Renata se viu diante de uma nova situação feminina, já bastante “tradicional” para as mulheres criadas para serem donas-de-casa e da família: ficou grávida de gêmeos. A descoberta de que dependeria dela o rumo da vida dos filhos, confundiu ainda mais a frágil estrutura que ela tentava há muito sustentar. A gestação foi difícil, as crianças nasceram fracas e débeis. Desejou se livrar o mais rápido possível desta situação.
Para Renata, os esforços da gestação e da amamentação exigiriam dela uma entrega, um doar-se completo, uma perda de essência que ela jamais conseguiria recuperar. Significava colocar-se à disposição, mais uma vez. Seu corpo, seu amor, se voltariam para outros e ela ficaria, mais uma vez, à espera de si mesma.
Amamentar era “um ato doloroso e cansativo que, inexplicavelmente, parecia desagregá-la ainda mais. Aquelas duas bocas sugavam uma substância irrecuperável, ele não conseguiria se recompor”.
A posição de Renata, física ou psicologicamente, desmistifica o papel da mulher na sociedade e na vida. Todos os moldes que lhe foram empregados desde sempre, diferentemente, de fazê-las compassivas, submissas ao quinhão de felicidade que lhes era oferecido, é desnudado aos olhos do leitor. Não, não é tudo maravilhoso. Tricotar, limpar a casa, passar horas presa ao calor do fogão, sentir as transformações que uma gestão operam no corpo, as variações hormonais, as dores nas costas, o peso na barriga, a falta de uma posição cômoda para se deitar, as dores nos seios ao amamentar. Todo o processo crescente que é o doar-se, entregar a vida a uma casa, a um marido, aos filhos. A mulher abdica da sua própria vida para atender as necessidades de tudo e todos que a rodeiam em detrimento de si mesma.
Renata não queria ser mais uma dessas mulheres. E, mesmo sentindo-se culpada, ela não se dedicou aos filhos com a intensidade que se espera de uma mãe. Na verdade, ela os substituiu pela música. Negou seu amor aos filhos por não poder mais negá-lo a si mesma e a sua arte. Esta falta de amor fez dos gêmeos seres sombrios, quietos, esquivos. E auto-suficientes. Só tinham um ao outro. Só poderiam contar um com o outro e só entre eles mesmos o amor acontecia amiúde. A solidão e a distância invadiam todos da casa. Incapazes de demonstrar e cultivar o amor, cada qual se resumia a seu próprio quarto fechado, seu coração trancado a chaves de morte. Em pouco tempo, Renata e Martim estavam decididos a se separar, quando, numa das tentativas de reconciliação, ela engravidou de novo.
Ambos viram neste novo filho a esperança desesperada, derradeira, de resgatar e encontrar o amor. Depositaram no filho, o Anjo Rafael, a possibilidade de serem felizes.
Amaram esta oportunidade e agarraram-se a ela. A gravidez de Renata, desta vez, foi tranqüila. O filho nasceu saudável e os pais o amavam como a ninguém no mundo foram capazes.
Mas o amor que este novo filho recebia e do qual os gêmeos nunca desfrutaram, trouxe também um aviso de morte. A negação do amor aos gêmeos gerou a morte do Anjo Rafael: “Os gêmeos, mais arredios depois do nascimento do irmão, cresciam sobre a distraída vigilância de Mamãe…”
Em certa ocasião, Clara pediu aos gêmeos que tomassem conta do irmão enquanto ela pegava revistas no quarto. As crianças esperavam por Clara no alto da escada, quando ela ouviu um barulho e correu até eles:
“Ninguém soubera explicar como o Anjo Rafael rolara a escada caindo no patamar, quebrando a cabecinha. Ajoelhada junto dele, Clara apenas vira, ao olhar para cima, Camilo e Carolina parados mudos e brancos, dando-se as mãos como para se ajudar.”
A relação entre eles era misteriosa e dependente. Principalmente para Carolina, a metade mais frágil. Sempre a adorá-lo, para ela, o amor de Camilo era suficiente. Por ele, era capaz de tudo. Perder sua identidade, violar seu corpo, submeter seus sentimentos mais íntimos aos olhares e carinhos que Camilo lhe dirigia. Para dar prazer a Camilo, Carolina se permitiu usar. Foi capaz de satisfazer o prazer do irmão, o desejo dele por um rapaz, através de seu corpo:
“Certa manhã o rapaz deitou-se com Carolina no quarto dela em casa de Mamãe. Penetrando-a numa raiva sem ternura, de repente ele soube: era um instrumento nas mãos daqueles dois, um jogo assustador que não entendia.
E lançava-se sobre Carolina como se a fosse profanar, enquanto ela se abria com dificuldade, gemendo (…) E [Carolina] soube também que Camilo se oferecia ao Outro nela, buscando através dela, no prazer que era agonia e dor, algo que o lançasse para além de tudo: da procura, do limite. Deixando-a para sempre sozinha.”
Camilo não mais se satisfazia com Carolina. Seu amor não era mais suficiente para ele. E ele quis descobrir até onde a união deles era inviolável. Até onde ela iria por ele e um estranho entre eles romperia com o mundo fechado que construíram. Ao introduzir alguém entre eles, Camilo violava não somente o corpo de Carolina, mas a fidelidade de seu amor, abandonando-a, distanciando-se dela de maneira irreversível.
Quando ele morreu, buscava por um mundo além de Carolina. O seu abandono a ela, a negação de seu amor, fez com Carolina se sentisse morrer junto com ele:
“Comecei a apodrecer, sentia. Não posso carregar esta parte por muito tempo, isso contagia, os vermes dele vão comer meus olhos, entupir minhas veias. A alma dele vai me arrastar consigo.”
Ao mesmo tempo, era livre para ser ela mesma e encontrar dentro dela o necessário para se amar e ser feliz. Não estava mais presa a Camilo:
“Abriu os braços, passou-os pelo próprio corpo, agarrou-se com sofreguidão: a partir de agora, prazer e amor vinham de dentro dela: emparedada, sem janelas nem portas, sozinha.”
Clara talvez fosse a pessoa mais próxima dos gêmeos. Durante o velório de Camilo, Clara estivera grande parte do tempo no quarto. Às vezes passava muito tempo confinada aí. Talvez acreditasse que ali, fechada no quarto, prenderia as lembranças e poderia reviver momentos que fizeram dela o que é hoje. Talvez recuperasse todo esse tempo ou, pelo menos, entendesse porque as coisas se deram da maneira como aconteceram.
Quando se fechava no quarto, Clara voltava a se lembrar da presença de um padre, o ser responsável pelo despertar de sua sexualidade, dos seus desejos e de seus sentimentos, também. Mas o padre não queria amá-la, não chegaria a satisfazer os desejos de Clara. O padre usou Clara. Não a amava, não sonhava, como ela, viverem um romance, entregarem-se um ao outro.
O padre usou Clara para livrar-se dela e de todas as mulheres. Enredando-a, envolvendo-a, pediu para ver seu sexo:
“Não era a ela que o Padre amava nem desejava: era uma obsessão, uma doença que lhe turvava a alma.(…) Vendo, ele conseguiria se libertar, tinha esperança. Conseguiria aplacar a feroz inquietação que o roía por dentro.”
Na atitude do padre, está todo o estereótipo construído em torno das mulheres. Descendentes de Lilith e Eva, todas as mulheres têm em si algo de fatal, capaz de atrair e fazer perderem-se todos os homens. Era este algo que o padre procurava descobrir. Por onde as mulheres envolvem e encantam os homens, levando-os à perdição.
Quem perdeu-se foi Clara. Sua inocência, seus sonhos. Sentindo-se rejeitada, usada, morreu para a vida ao redor. A negação do amor do padre gerou a morte social, sentimental, sexual de Clara. Agora, Clara estava sempre a esperar:
“…de repente animava-se, gastava horas num ritual de preparativos, embelezando-se, e descia; via televisão; folheava revistas; conversava um pouco, e subia ao quarto, retirando maquilagem e roupas: não houvera encontro algum (…) Para Camilo e Carolina havia alguma conexão entre a criatura presa ao quarto em tão prolongada agonia (Ella) e Clara preparando-se para um amor sempre adiado.”
A criatura a que se referem Camilo e Carolina era Ella, filha de Mamãe. Paraplégica, depois de acidente quando iria fugir com Martim, ela resistia. Apesar de toda dor, da privação de movimentos, de toda vida que lhe foi tirada, Ella desafiava o mundo, os homens, a vida.
“Sim, ela persistia, encerrada naquela luta por respirar, olhos pretos de botão presos no teto, alucinados por um sofrimento insuportável (…) Dentro da repulsiva prisão haveria ainda um pensamento humano, uma alma humana pulsando, querendo a salvação do amor? (…) Ella arrastava-se como uma lesma que apenas consegue cumprir alguns centímetros do sofrido trajeto cada dia. Em direção a quê? (…) O que Ella pretendia, agarrando-se tanto a uma vida sem sentido?”
Ella resistia. A mulher resistia. Lutava pelo amor. Cobrava seus direitos de ser amada. Amada por Martim, romance interrompido pela negação de Mamãe. Cobrava também o amor negado pela própria Mamãe a ela, sua filha legítima. “Ella nascera quando Mamãe ainda era solteira, um período de descaminho e sofrimento. Por isso, talvez sempre a tratava com mais frieza do que a seus filhos emprestados, Clara e Martim.” Agora Ella cobrava o amor que lhe foi negado. “Cobrava o amor e a compreensão dados escassamente quando tivera saúde e beleza.(…) Depois Ella tivera quase trinta anos para requisitar a mãe.”
A negação do amor de Mamãe para Ella levava-a, ela, Mamãe, à morte de sua própria vida. Mamãe não vivia para si mesma em nenhum momento. Sua vida parou com o acidente de Ella. Há anos vivia somente para ela. Tinha se tornado uma mulher que se perdera no tempo:
“…a peruca loura, a pintura exagerada, os vestidos fora de propósito (…) De camisola, Mamãe tirava a pintura com algodão passado em creme. Já desgrudara os cílios, os olhos nus eram tristes entre dobras de pele murcha. Ainda estava com a peruca. Limpava-se ao acaso, sem olhar no espelho. Para ela, não era um ritual de preservação da juventude, era apenas mais um dos inevitáveis aborrecimentos de cada dia. Nem saberia dizer por que, depois de velha, continuava a enfeitar-se como aos quarenta anos, quando era forte e cheia de esperança. Vagamente, sentia-se uma velha ridícula, mas nunca tivera tempo de parar na vida e constatar: envelheci. Por isso continuava, por hábito. Numa trilha como a sua, parar era perigoso: os pensamentos se acumulavam; se a represa rebentasse, o que saltaria lá de dentro?”
Negou amar a si mesma. Pela culpa, pelo remorso. E morreu para a vida. Continuava viva por dever, obrigação de cuidar de Clara. Mas era já uma mulher triste e cansada. E sozinha.
Todas as mulheres de O quarto fechado estão lutando contra os pesos de uma balança, muitas vezes, injusta. De um lado, uma história de preconceitos, estereótipos, submissões, tristezas veladas, idéias e sentimentos sufocados. De outro, atitudes de resistência e desafio. Desafio aos valores impostos, à vida e à morte. Todas elas resistem a sua maneira. Insistem em viver, em buscar uma saída para si mesmas, traços que se desenhem por suas próprias mãos.
Contornos de uma nova mulher, renovada e renascida, por amor a si mesma: “Estou tendo que renascer mais uma vez. Mais uma tormenta, um parto: a dor, o medo, o que virá agora?”, pensava Renata, mas o pensamento e o sentimento era geral a todas as mulheres da obra.
“Alguém ria na casa. O riso arquejante de um velho demônio agachado num canto nascia do fundo do corredor lá em cima, ricocheteava nas paredes, rolava cavernoso pelos degraus. Ella estava rindo: sacudia o corpanzil de tanto rir, premia as pálpebras, virava a cabeça freneticamente no travesseiro. O coração doente da casa explodia. (…)Por toda parte, embaixo das camas, nos cantos onde ninguém limpava direito, atrás de móveis e cortinas, novelos de poeira e teias longamente tecidas agitaram-se suavemente. (…) Depois o riso saiu pela janela e varreu as espirais de nevoeiro no jardim. Sobre a copa das árvores negras pulsou um novo dia, abrindo na bruma uma cunha de luz…”
Levantando-se depois de tanto tempo com cabeça baixa, as palavras escondidas, os gestos presos, a mulher se liberta. Livre de todas as amarras, a mulher se forma. conquista todo o espaço. Traz consigo uma abertura de luz sobre um passado sombrio e fechado, um quarto no qual foram todas confinadas, até agora.





Bio fornecida pelo palestrante.

Uma leitura pós-colonial da pós-modernidade: "História de uma esposa", de Barathi Mukherjee




Uma leitura pós-colonial da pós-modernidade: “História de uma esposa”, de Barathi Mukherjee

Peonia Viana Guedes

I – Introdução: o conto contemporâneo de escritoras asiático-americanas
Asiático-americano é um termo que abrange todos os que emigraram da Ásia para os Estados Unidos bem como seus descendentes. A classificação formal de “asiático-americano” é produto dos anos 70 e dos movimentos sociais que procuravam ampliar os direitos dos asiático-americanos e de pessoas de outras raças e etnias. Esses movimentos tiveram, obrigatoriamente, que contextar o conceito de uma sociedade americana composta unicamente por indivíduos de ascendência anglo-européia, não só revelando a história das exclusões e discriminações contra populações de raças e etnias diferentes, mas também assegurando espaços para o estudo das culturas asiático-americana, afro-americana, indígena e mexicano-latinas.
As obras de escritoras asiático-americanas talvez não devam ser generalizadas segundo o critério do estudo tradicional da literatura. Ou seja, em virtude da heterogeneidade e diversidade da obra abrangida pela categoria “literatura de autoras asiático-americanas”, descrevê-la exclusivamente por critérios de período, estilo ou gênero, seria menos indicado que levar em conta classificações sociais de geração, classe, religião, sexualidade, etnia ou origem nacional.
Como a maioria da primeira geração de mulheres asiáticas que imigraram para os Estados Unidos no final do século XIX tiveram vidas duras de trabalho árduo, que as impediram de escrever as histórias de suas vivências – como Lalu Nathoi (1865-1933), cuja vida é romanceada por Ruthman Lum McCunn em Thousand Pieces of Gold (1981) – o que é reconhecido como literatura de mulheres asiático-americanas começa com obras da virada do século, escritas por imigrantes eurasianas, como Sui Sin Far e Onoto Watanna, abrange narrativas do começo do século XX por Etsu Sugimoto ou Jade Snow Wong, mas é, em grande parte, composta de literatura escrita por mulheres contemporâneas de ascendências asiáticas diversificadas.
As escritoras asiático-americanas descendem das mais diversas culturas, como chinesa, japonesa, coreana, filipina, indiana, paquistanesa, laosiana e vietnamita. Algumas delas vieram para os Estados Unidos como “noivas de retrato”, para enfrentar casamentos arranjados; outras chegaram como refugiadas ou exiladas; muitas imigraram para reunir-se à família já instalada; outras vieram em busca de educação ou emprego ou fugindo a perseguições do colonialismo ou do neocolonialismo. Essas escritoras são filhas de pais exclusivamente asiáticos ou produtos de casamentos inter-raciais; provém de diversas classes sociais; professam religiões diferentes, como o cristianismo, o budismo, o hinduismo e o islamismo; são casadas, solteiras, viúvas, heterossexuais e lésbicas. Em outras palavras, embora haja fortes razões para examinar a literatura dessas autoras como um conjunto distinto de obras – pois essas mulheres compartilham de uma história em comum de discriminação contra os asiáticos, por serem um grupo minoritário, bem como de uma relação comum com as políticas de imigração, as leis trabalhistas e as políticas institucionais dos Estados Unidos com relação a mulheres de ascendência asiática – quaisquer generalizações sobre o grupo devem destacar as diferenças sociais e culturais específicas entre mulheres de origem asiática.
É típico de grande parte da literatura contemporânea de todos os grupos asiático-americanos um senso de alienação, tanto das identidades culturais asiáticas como das americanas. Para as mulheres, essa alienação é intensificada pelo choque entre a maior amplitude de oportunidades, que se abrem para elas na sociedade americana, e as restritas expectativas de suas famílias, comunidades e tradições. Um tema constante na literatura das autoras asiático-americanas é a divisão entre as mulheres jovens, da segunda ou terceira geração, e os pais imigrantes da primeira geração. Muitas dessas autoras desfazem os mitos e estereótipos das mulheres asiáticas como submissas, disponíveis sexualmente e intrinsecamente domésticas. Seu envolvimento com as questões de identidade cultural, tradição e assimilação volta-se para a possível perda de patrimônio, e também para o sexismo e os abusos cometidos contra as mulheres em sua cultura de origem. A literatura das mulheres asiático-americanas contemporâneas destaca, com freqüência, o papel da relação mãe-filha na transmissão da herança culturas e, embora exponha os conflitos dessa relação, descreve as mães asiáticas como lutadoras corajosas, que dão força às filhas para moldarem suas próprias vidas e contar suas próprias histórias.
A literatura das mulheres asiático-americanas tem também mudado algumas das convenções formais, privilegiadas por definições anteriores dessa literatura. Enquanto as obras de algumas dessas escritoras utilizam uma representação realista ou naturalista, uma narrativa linear ou progressiva, um protagonista masculino e um único ponto de vista, acontece com freqüência que as autoras contemporâneas modifiquem ou abandonem essas convenções. A narrativa não-linear, a perspectiva múltipla, a representação antimimética e os gêneros literários indefinidos caracterizam muitas de suas obras. Essa literatura formalmente heterogênea, feita por mulheres, tem alterado radicalmente as definições do campo asiático-americano; ela suscita diversas questões sobre as relações entre gênero literário e sexo, linguagem e subjetividade, memória pessoal e popular. Em suma, as posições críticas das obras das mulheres asiático-americanas, institucional e formalmente, têm sido de crucial imporrância para a construção diversificada da identidade asiático-americana, tanto a nível do sujeito individual como em termo de formação de grupo. Enquanto o surgimento da literatura asiático-americana nos anos 70 – com um perfil predominantemente masculino – servia como revisão crítica do rânon literário americano, as obras das mulheres asiático-americanas têm, mais recentemente, mudado as definições institucionais, políticas e literárias desse campo da literatura.
Entre as autoras asiático-americanas contemporâneas mais famosas, poderíamos citar as premiadas Maxine Hong Kingston e Bharati Mukherjee, e o fenômeno editorial Amy Tan. Uma lista completa de talentosas escritoras desse grupo seria longa demais para o àmbito deste artigo. A amplitude e a variedade da literatura produzida por elas está ilustrada, de forma bastante abrangente, em antologias literárias recentes: The Forbidden Stitch: An Asian American Women’s Anthology, organizada por Shirley Geok-Lin Lim, Mayumi Tsutakawa e Margarita Donnely (1989); Making Waves: An Anthology by and about Asian American Women, organizada pelas Asian Women United of California (1989); Home to Stay: Asian American Women’s Fiction, organizada por Sylvia Watanabe e Carol Bruchac (1990); Growing Up Asian American, organizada por Maria Hong (1993); Asian American Literature, organizada por Sharon Wong (1996); Making More Waves: New Writing by Asian American Women ,organizada por Elaine H. Kim, Lília V. Villanueva e Asian Women United of California (1997).
 
II – Uma leitura pós-colonial da pós-modernidade: “História de uma esposa”, de Bharati Mukherjee
Nascida numa família de classe média alta, na Índia, em 1938, Bharati Mukherjee recebeu educação refinada, tendo freqüentado uma prestigiosa escola católica, dirigida por freiras irlandesas em Calcutá e passado dois anos na Inglaterra e na Suíça, depois de terminar o 2º grau. De volta à Índia, freqüentou a Universidade de Calcutá e Baroda, onde recebeu o grau de mestre em Inglês e Cultura Indiana Antiga. Em 1961 foi para os Estados Unidos, para freqüentar uma Oficina para Escritores e receber o grau de doutor da Universidade de Iowa. De 1966 a 1981, ela e seu marido, o escritor canadense Clark Blaise, moraram no Canadá, de onde migraram para os Estados Unidos. Mukherjee é autora de dois volumes de contos – Darkness (1985) e The Middleman and Other Stories (1988), pelos quais recebeu o National Book Critics Circle Award – e de cinco romances – The Tiger’s Daughter (1972), Wife (1975); Jasmine (1989), The Holder of the World (1993) e Let It Be (1997). É também co-autora, juntamente com Clark Blaise, de dois livros de não-ficção – Days and Nights in Calcutta (1986) e The Sorrow and the Terror: The Haunting Legacy of the Air India Tragedy (1987). Tendo recebido a Guggenheim National Endowment for the Arts e Woodrow Wilson Fellowships, Mukherjee deu cursos de composição criativa em Columbia, na NYCU e está atualmente lecionando na Universidade da California, em Berkeley.
Diferentemente da maioria de suas colegas escritoras de ascendência asiática, Bharati Mukherjee é ao mesmo tempo imigrante e cosmopolita global. Poderia ser colocada no grupo de escritoras do Terceiro Mundo que emergiram universalmente, em reação à era anterior do nacionalismo terceiro-mundista, grupo esse que inclui V.S. Naipul, Salman Rushdie, Vargas Llosa, Isabel Allende, Garcia Marquez e outros. O crítico Timothy Brennan chama-nos a atenção para o fato de que esses escritores não formam uma escola literária, não compartilham do mesmo estilo e, mesmo politicamente, não se aproximam uns dos outros. Entretanto, como Brennan indica: “… a despeito de todas as suas diferenças, parecem compartilhar um duro questionamento da teoria da descolonização radical; uma atitude de rejeição ou de paródia com relação ao projeto de cultura nacional; uma manipulação da imagística imperial e das lendas locais como meio de politizar os eventos presentes; e uma declaração de hibridismo cultural – um hibridismo que dizem oferecer certas vantagens ao negociarem as colisões de língua, raça e arte em um mundo de povos díspares, que abrange um único mundo, embora não exatamente unificado”.1
Mukherjee é uma escritora que enfrenta a questão da saudade de sua terra natal e de sua cultura no mundo transformado e globalizado de forma honesta, explorando implacavelmente as contradições de sua própria cultura e apresentando uma visão totalmente reelaborada da Índia, da América e dos novos imigrantes. Em sua ficção, Mukherjee representa e escreve sobre o que ela chama de hibridização da nova América. Ao examinar essa nova identidade, diz que deseja explorar a consciência dos que não pertencem a um grupo étnico ou a outro, mas a “muitas, muitas etnias diferentes em conjunto”.2Nessa busca, ela desconstrói clichês culturais, reconhece as realidades do sistema econômico mundial e contrapõe seus textos a um pano de fundo de atividades econômicas transnacionais interligadas e deslocamentos de massas no Terceiro Mundo.
Na América pós-moderna de imigrantes, descrita por Mukherjee, o global e o local favorecem-se mutuamente e mostram-se cada vez mais intercambiáveis, cada termo revelando o outro no seu àmago, ainda que o multiculturalismo, e não o pluralismo étnico, se torne a base da identidade predominante. A revelação da escritora sobre a heterogeneidade cultural como norma americana não forma a base de um ataque contracultural ao sistema cultural centralizado repressivamente. Agora ela é a norma de um sistema já descentralizado. Um dos projetos éticos dos contos sobre imigrantes que ela escreve é tornar totalmente transparente o modo em que uma América multicultural despertada pode refletir um mundo policultural.
O cenário ficcional predileto da autora é Nova York, uma miscelânea sincrética e lingüística, um meio heterogeneamente multicultural, um sistema totalmente descentralizado de diferenças circulantes. A Nova York de Mukherjee encaixa-se, assim, na definição feita por Frederic Jameson da pós-modernidade, na qual “os países capitalistas adiantados, hoje em dia, são um campo de heterogeneidade estilística e discursiva sem uma norma”.3 Numa cidade como essa, a heterogeneidade cultural instável e o sincretismo inventivo são as normas mais profundas, não o anglocentrismo ou mesmo a política étnica. Na Nova York dos romances e contos da autora, os anglos tornaram-se “os outros” e a sociedade dos novos imigrantes, dos forasteiros, transforma-se na América predominante.
“História de uma esposa” da coleção The Middleman and Other Stories 4 compartilha muitos temas com textos anteriores de Mukherjee e capta, com ironia e humor, o tema do abreviamento geográfico e temporal. Para os novos imigrantes, na ficção da escritora, os ajustes que acontecem como resultado de recentes deslocamentos culturais e geográficos são acelerados e refletem a cultura fragmentada do pós-modernismo. Em uma entrevista à revista Bazaar, Mukherjee afirma que a fase das adaptações – assimilação, nostalgia, reafirmação e reinvenção – agora podem ocorrer todas no espaço de uma única geração, em vez de se prolongar por várias, como costumava acontecer no passado. 5 O conto da esposa em questão, Panna Bhatt, atravessa fronteiras, tempo e espaços e encaixa-se nesse paradigma pós-moderno. Panna é uma mulher indiana, que deixou para trás casa e marido, para conseguir um Ph.D. em educação especial em Nova York. Ela tem consciência do contraste entre sua situação – um visto com entradas múltiplas e uma pequena bolsa de estudos durante dois anos” (27) – e a posição de sua avó, que era a filha analfabeta de um rico “zamindar”, e de sua mãe que apanhou da mãe por se haver matriculado no curso da Aliança Francesa. Panna também está consciente das contradições de seu novo status privilegiado e é continuamente posta em situações que expõem essas diferenças. “É a tirania do sonho americano que me assusta. Primeiro você não existe. Depois você fica invisível. Em seguida, engraçado. Depois causa repulsa”(24).
Ouvindo as piadas racistas, contadas no palco por atores fazendo o papel de corretores imobiliários, na peça Glengarry Glen Ross, de David Mamet, Panna se depara novamente com a visão estereotipada sobre os indianos. Ao ouvir um dos atores queixar-se: “Então é difícil vender imóveis aos Patels … Trabalham duro, comem barato, moram dez num quarto, escondem as economias embaixo do colchão, no Queens …”(23), Panna sente a pressão de ambos os lados: “Não é minha culpa. É a situação. Piadas sobre as antigas colônias já perderam a graça. Os Patels – novos pioneiros – são os que despertam suspeitas agora. A lição de Idi Amin é permanente. Os fios da AT&T transmitem bons conselhos de um continente a outro. Mantenha a liquidez de todos os seus bens. Invista em lojas de conveniência; condomínios e motéis são mau negócio. Sei como ambos os lados se sentem. Esse é o problema. Os Patels farejando fraudes, os pobres vendedores no palco: o pós-colonialismo me transforma em árbitro do jogo deles”(25-26). De um só fôlego o discurso de Panna atravessa fronteiras entre nações, continentes, histórias e tecnologias.
Voltando para casa num táxi, junto com Imre, um amigo húngaro, e ouvindo-o conversar em russo com o taxista, Panna – “com lembranças dos pobres da Índia misturando-se às hordas da população de rua de Nova York” – resolve desafiar os estereótipos atuais: “Vou escrever a Mamet hoje à noite. Sinto-me forte, audaciosa. Talvez escreva a Steven Spielberg também: para dizer-lhe que os indianos não comem miolos de macacos. Nós conseguimos. Os Patels devem ter conseguido. Mamet, Spielberg: eles não estão querendo nos tratar como inferiores. Talvez tenham um pouco de medo de nós”(27-28).
É nessa Nova York multicultural que a história de Panna se desenvolve, com vislumbres do seu passado indiano, que incluem distúrbios de rua, migrações, casamentos arranjados e a morte de um filho. A realidade indiana junta-se à realidade americana, na vida de Panna, quando seu marido anuncia uma rápida visita a Nova York e Panna é obrigada a voltar, até certo ponto, ao seu antigo papel de esposa: “Tiro as calças e o blusão de algodão que usei o dia todo e visto um sari, para encontrar meu marido no aeroporto. Não esqueço as jóias; o colar do casamento, brincos e pulseiras de ouro”(32). Mas a relação entre Panna e seu marido mudou sutilmente: “Entrego o dinheiro, compro as passagens. Não sei se isso me desagrada”(32). Como Panna observa com surpresa: “… o homem que nunca entrou na cozinha de nossa casa em Ahmadabad agora vem para mim, com uma bacia d’água fumegante, para massagear meus pés cansados”(34).
Nas excursões do casal por Nova York, o preconceito é uma presença constante em todos os lados. No balcão de uma agência de turismo, Panna recebe uma proposta de um guia de turismo libanês, amigável demais: “Vamos lá, boneca, me faça ganhar o dia!… Estou livre depois do almoço”(35). Seu marido, que havia notado a conversa, contra-ataca: “Eu disse para você não pôr calça comprida. Ele pensa que você é portorriquenha. Pensa que pode tratar você com desrespeito”(35).
“História de uma esposa” termina com o chamado do marido de Panna de volta a Ahmadabad devido a distúrbios trabalhistas: “Amanhã de manhã, vai telefonar para a Air India; à noite estará a caminho de Bombaim. Hoje preciso compensá-lo pelos anos que passei longe dele, pelos caminhões destruídos, o diploma que jamais usarei na Índia. Quero fingir para ele que nada mudou”(41). O parágrafo final do conto de Mukherjee retoma os temas de deslocamento, alienação e fragmentação corporal, que caracterizam todos os textos em The Middleman and Other Stories e que marcam a coleção como uma tentativa de lidar com a representação do pós-colonial e do pós-moderno na nova realidade dos imigrantes. Em um eco da metáfora de Lacan, “História de uma esposa” termina com a desincorporação de Panna no espelho do banheiro. Avistando a imagem de seu corpo naquele outro espaço, Panna fica maravilhada com a beleza desse corpo: “no espelho pendurado na porta do banheiro, olho meu corpo nu, de vários àngulos, os seios e as coxas brilham. A beleza do corpo me surpreende. Estou de pé aqui, sem pudor, de uma forma em que ele nunca me viu. Estou livre, flutuando, olhando para uma outra pessoa”(41).
Notas
1 BRENNAN, Timothy. Salman Rushdie and the Third World: Myths of the Nation. New York: St. Martin’s P, 1989. p. 35. Todos os textos citados neste artigo foram traduzidos pela autora
2 BYERS_PEVITTS, Beverley. “An Interview with Bharati Mukherjee”. Speaking of the Short Story: Interviews with Contemporary Writers. Ed. Farhart Iftekharuddin. Jackson: UP of Mississippi, 1997. p. 198.
3 JAMESON, Frederic. “Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism”. New Left Review 46, 1984. p. 65.
4 MUKHERJEE, Bharati. The Middleman and Other Stories. New York: Fawcett Crest, 1988. As citações de “História de uma esposa” referem-se ao conto “A Wife’s Story” e as páginas do texto original em inglês estão identificadas entre parênteses neste artigo.
5 MUKHERJEE, Bharati. “When in America”. Bazaar: South Asian Arts Magazine 13, 1990. p. 8.





Bio fornecida pelo palestrante.

Inscrições femininas na História e na Literatura: Mulheres em destaque nestes 500 anos de Brasil





Sônia Maria Dornellas Morelli

PINCELADAS DE INSCRIÇÕES FEMININAS NA HISTÓRIA:
Antes de nos atermos a fatos, dados contemporâneos, é preciso resgatar alguns dados históricos.
Roberto Sicuteri, no seu livro Lilith, a lua negra, ao relatar fatos históricos a respeito de Lilith (primeira companheira de Adão de acordo com os escritos judaicos), afirma que as origens dos fatos conhecidos agora remontam a milênios e emanam de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos.
Na realidade, os fatos baseiam-se mais nas palavras dos rabinos ou nos sonhos dos discípulos do que em documentos.
Estes grandes testemunhos depositários do Torah (o Ensinamento) e dos Midrash (a Procura) contidos na Misnach coleção de Códigos) são certamente dos rabinos iluminados pelo carisma e pela fé, mas são também os testemunhos de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos populares, que os Rabis usavam como reflexão viva baseada em analogias para estabelecer a verdade hermenêutica sobre as origens do mundo e do Homem.
(…)
E Lilith, para nós, nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos rabinos, nasce de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva (p. 23, 25).
Um estudo recente da bíblia, feito por teólogas, lingüistas, historiadoras, arqueólogas e críticas literárias feministas mostram, neste final do milênio, surpreendentes revelações a respeito das mulheres na Bíblia. Afirma o teólogo católico David Tracy, em entrevista à Revista Cláudia de maio de 1999: “O encontro do feminismo com a religião será a próxima revolução intelectual.”
A mesma revista publicou comentários adaptados do livro The World According to Eve, de Cullen Murphy, lançado o ano passado, nos Estados Unidos. Nestes, alguns episódios bíblicos femininos mostram este novo enfoque.
O papel de Dalila, Eva, Maria surgem sob um novo prisma, uma nova concepção. Questões como: o papel exercido pelas mulheres, a condição de inferioridade, a sociedade igualitária, as mulheres seguidoras de Jesus, estão sendo debatidas, reavaliadas, pesquisadas e os resultados têm sido surpreendentes.
Carol L. Meyers, professora de Estudos Bíblicos e Arqueologia na Universidade Duke, nos Estados Unidos, revela que os livros “Josué” e “Juízes”, ambos do Antigo Testamento, mencionam a existência de uma estrutura familiar relativamente igualitária entre os israelitas.
Outra pesquisadora, Phyllis Trible, vai mais longe. Afirma que a palavra hebraica ha-‘adam, da qual deriva a palavra Adão, é um termo genérico para humanidade, usado no início do segundo capítulo do Gênesis para descrever uma criatura de sexo indefinido. Quando Deus tira uma costela de ha-‘adam, aí sim, acontece a separação dos sexos e esta nova realidade é assinalada por novas palavras. A criatura da qual foi tirada a costela passou a chamar-se ‘ish (homem) e a criatura surgida a partir da costela recebeu o nome de ‘ishshah (mulher). Sendo assim, o mesmo ato deu origem ao homem e à mulher.
Cita ainda a revista, que um antigo tratado cristão que foi incorporado numa carta do apóstolo Paulo aos gálatas, poderia ser chamado de “Carta Magna do Feminismo Cristão”. “Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher. Todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gál 3,28).
 
UM OLHO NA REALIDADE ATUAL:
Se reivindicamos direitos iguais, por que ainda muitas brasileiras acham natural a dupla jornada (ser também responsável pelo trabalho doméstico e pela educação dos filhos), depois do fim do expediente de trabalho?
Se lutamos por um lugar ao sol por que aceitamos o preconceito dos homens? (Em muitas fábricas, a operária era obrigada a mostrar o absorvente higiênico manchado de sangue para provar que não estava grávida.). E o que dizer dos empregadores que só admitem mulheres solteiras?
Não é à toa que a participação das mulheres nos centros decisórios políticos e econômicos, no Brasil, ocupamos o 58&ordm;, de acordo com a ONU, em 1995.
De acordo com este mesmo órgão, no que diz respeito a desenvolvimento ajustado ao sexo (saúde, educação e salários), ficamos em 63&ordm;.
O jornal Gazeta do Povo, no dia 27 de agosto de 1995 publicou um ranking dos salários no mundo, em porcentagem. No Brasil, de acordo com esta fonte, as mulheres recebem 58% do salário dos homens. Se os homens acham que seus direitos trabalhistas não estão sendo respeitados, o que dizer em relação às mulheres ?
De acordo com o relatório do Desenvolvimento Humano de 95 da ONU, 22,1% dos homens e 46,7% das mulheres recebiam até um salário mínimo. Em contrapartida, 11,3% de homens e 6,5% de mulheres recebiam acima de 10 salários mínimos..
Ainda , com base neste relatório, é válido relatarmos alguns dados.
Nos Estados Unidos, a cada 18 minutos uma mulher é espancada e a cada 6 minutos uma mulher é estuprada.
Na Bolívia, por lei, lesões causadas por maridos em brigas domésticas, são punidas apenas se a mulher ficar incapacitada por mais de 30 dias. O país tolera maus tratos às mulheres praticados por parentes(pai, marido, irmão, tio, cunhado, filho…) desde que as “feridas não sejam graves”.
No Pasquitão, em casos de estupro, quatro homens religiosos precisam testemunhar para dizer que houve penetração. Se as acusações não forem comprovadas, o depoimento feminino pode ser considerado “sexo ilícito” e a mulher pode ser condenada à morte.
Na Romênia, o índice de analfabetismo entre mulheres é o dobro do dos homens.
A Albânia tem a maior taxa de mortalidade materna da Europa (de cada 100 mulheres, 57 morrem).
Na Rússia, em 1993, 14 mil mulheres morreram por causa da violência familiar e 56 mil ficaram feridas.
Na Índia, a história sexual da mulher é considerada prova pertinente em casos de estupro. A maioria dos casamentos é arranjada tendo em vista interesses materiais. (acompanha a noiva o seu dote como pagamento por ficar com a mulher. As mulheres já são educadas para obedecerem e sabem que só poderão voltar à casa paterna, mortas. O infanticídio de crianças do sexo feminino, logo ao nascer, é praticado em grande escala. O número de abortos de fetos do sexo feminino é altíssimo devido à amniocentese (técnica médica destinada a determinar desde cedo o sexo do feto).
No Reino Unido, as mulheres ganham o equivalente a 70% dos salários dos homens.
No Paraguai, a lei perdoa maridos que matam mulheres quando praticam adultério. Esta mesma lei não se aplica ao homem nestas mesmas condições.
A chance de uma grávida morrer, na África, é 180 vezes maior que na Europa Ocidental.
No Brasil, 50% dos assassinatos de mulheres são cometidos por maridos ou companheiros. Em 80% dos casos, o assassino alega “defesa da honra”.
Na zona rural, na China, entre outras barbáries, as mulheres ainda são vendidas a maridos que elas nunca viram.
O que dizer da Uganda onde o “direito” de o marido de espancar a mulher é reconhecido por lei ?
Na França, em 95% dos casos policiais registrados, as vítimas são mulheres. Em 51% dos casos, os agressores são os maridos.
Por que chegamos a esta situação? O que houve, no percurso tortuoso da História, com o ser humano feminino?
Por que a sociedade se omite, aceita, vende a idéia de que mulher é um ser “inferior”?
Há espaço para esperanças nas bases emergentes de novos tipos de unidades estabelecidas através dos princípios de raça, gênero e classe?
Afirma Donna Haraway:
Há mais espaços para esperanças se nos detivermos nos efeitos contraditórios da política destinada a produzir leais tecnocratas norte-americanos, mas que produziu também grande número de dissidentes, do que se nos concentrarmos nas derrotas presentes (p.272).
E continua:
Toda história que começa com inocência original e privilegia o retorno ao todo inventa o drama da vida como um exemplo de individuação, separação, o nascimento do eu, a tragédia da autonomia, a queda na escritura, a alienação, isto é, a guerra, temperada com a suspensão imaginária no seio do Outro (p. 277).
MULHERES EM DESTAQUE NESTES 500 ANOS DE BRASIL:
O que sabemos sobre o início da nossa colonização, em relação às mulheres? Muito pouco ou quase nada. Que imagem nos tem passado a escola durante estes 500 anos?
Pela reportagem da Revista Cláudia de abril de 2000, o papel de índias, negras, brancas que escreveram nossa História até o momento, para nossas escola, continua no ostracismo. Alguns fatos sobre a História do feminino, no Brasil, que os livros didáticos não dizem, essa revista leva a público. E há surpresas. Lançando mão de intensa pesquisa sobre o assunto, eis algumas conclusões.
As primeiras mulheres que para cá vieram, a pedido do Missionário Manuel da Nóbrega ao rei de Portugal, eram moças solteiras, virtuosas, órfãs, filhas de nobres – quase sempre ricos- mortos a serviço da Coroa. (A herança ficava para os herdeiros do sexo masculino). Essas mulheres ficariam trancafiadas em conventos ou cruzariam os mares para unirem-se a desconhecidos.
A Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, que assinou a Lei Áurea, foi a única mulher até a presente data a administrar o Brasil.
No século XVII, era normal às mulheres, o casamento aos 12 anos. Aos 15, já era considerada solteirona. Segundo o historiador Emanuel Araújo, em artigo publicado no livro História das Mulheres do Brasil, de Mary Del Priore e Carla Bassanezi, era normal que o marido, ao sair em viagem, trancafiasse a esposa em algum convento para salvá-las das tentações do adultério.
Em 1888, um jornal da cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, na época, publicou os dez mandamentos para a mulher. Dentre eles , havia: “amai o vosso marido sobre todas as coisas”; “não o atormenteis com exigências, caprichos e amuos”.
Nos anos 50, as revistas femininas aconselhavam a mulheres a tolerarem as infidelidades dos maridos e tentassem reconquistá-los agindo como gueixas.
Apesar destas repressões, quando podiam, elas iam à luta. No ciclo do ouro, em Minas Gerais, enquanto os homens trabalhavam nos garimpos, o comércio era tocado pelas mulheres e 70% das vendas em Vila Rica, atual Ouro Preto, eram efetuadas por mulheres. No Sul, comandavam estâncias. Foi só em meados de 1997 que a organização não governamental carioca Rede de Desenvolvimento Humano, decidiu iniciar um trabalho de resgate desta história perdida no tempo. Deste trabalho surgiu o projeto multimídia Mulheres 500 Anos Atrás dos Panos, incluindo o dicionário Mulheres do Brasil, com 600 verbetes, abrangendo desde o período colonial até 1975, que deverá chegar às livrarias ainda esse ano.
Consultando desde a Torre do Tombo e o Conselho Ultramarino em Portugal, os livros dos inquisidores que passaram pelo Brasil, até os documentos históricos de doze estados brasileiros, chegou-se a incríveis e extraordinários relatos. Vamos a alguns deles.
A baiana Maria Quitéria, em 1822, fugiu de casa com o uniforme do cunhado e, usando o sobrenome deste, participou da luta da consolidação da Independência do Brasil no Recôncavo Baiano.
Em 1918, a bióloga paulista Bertha Lutz liderou o movimento decisivo para a conquista do voto feminino.
A primeira mulher eleita governadora de um estado brasileiro, o Maranhão, (ainda está no cargo, já pela segunda vez), é Roseana Sarney. Ficou famosa não só por ser a primeira governadora mas também por desbaratar uma quadrilha de roubo de carga e tráfico de drogas e promover uma reforma administrativa no seu Estado que deu o que falar.
Maria Déa ou Maria Bonita como é conhecida foi a primeira mulher a pertencer a um bando de cangaceiros.
A professorinha primária que se tornou atriz talentosa, Leila Diniz chocou os banhistas das praias cariocas, ao mostrar sua barriga de grávida.
Graças à persistência, coragem e destemor de Chiquinha Gonzaga, surgia a primeira maestrina brasileira , no início do século.
A primeira sul americana a participar das Olimpíadas, em 1932, a nadadora Maria Lenk, ainda viva, é recordista mundial dos 50 metros borboleta na categoria até 80 anos. Treina uma hora por dia.
Elis Regina, a Pimentinha, foi grande intérprete e reveladora de talentos na música popular brasileira.
A gaúcha Yolanda Pereira venceu pela primeira vez o concurso de Miss Universo, em 1930, no Rio de Janeiro. Também foi destaque nas passarelas, a Miss Brasil de 1954, Marta Rocha. Uma das mulheres mais lindas dos anos 50.
Ana Pimentel era esposa de Martim Afonso de Souza, o português que trouxe a cana-de açúcar para o Brasil. O marido vivia comandando expedições exploradoras. Em 1534, ao saber que as coisas iam mal em São Vicente, terras que o marido recebera em doação do rei de Portugal, não teve dúvidas: mudou-se para cá e, pouco mais que uma adolescente, enfrentou o sertão sem saber uma única palavra que os índios diziam. Morava numa choupana e nunca havia visto uma cobra. Mandou buscar bois e vacas em Portugal bem como sementes de arroz, cana, laranja e trigo. Era reverenciada como autoridade absoluta da vila
A miss Brasil 1969, Vera Fischer, virou estrela de novela, posou nua aos 49 anos e provocou furor. Ainda luta contra a dependência química e é reverenciada como uma das mulheres mais lindas do Brasil.
Mulheres como Hortência de Fátima Marcari, “a estrela do basquete brasileiro”, Maria das Graças Meneguel, a Xuxa, “a rainha dos baixinhos”, Marília Grabriela, grande repórter, Astrid, repórter e apresentadora de televisão fazem com que o feminino brasileiro tenha o brilho que lhe é devido.
Apesar de a mulher, em 1929, não poder nem se aproximar das urnas, Alzira Soriano, aos 32 anos, fazendeira e mãe de três filhos, elegeu-se prefeita na cidade de Lages (RN). Para que isso acontecesse, o governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, concedeu o direito do voto às mulheres do seu estado, numa resposta ousada ao Congresso, que vinha rejeitando tal direito.
“O fim do século XX marca uma ruptura com a história de invisibilidade das mulheres e com o que a elas se refere. Não tenho dúvida de que a luta da mulher está ligada à democracia plena.” Estas são palavras da psicanalista, ex-deputada federal e presidente do Instituto de Políticas Públicas Florestan Fernandes Marta Suplicy.
Estas são algumas. Outras, muitas há que melhoraram e lutam por este país. O reconhecimento do feminino como parceria vai muito além da partilha de território masculino ou feminino. Durante muito tempo confundiu-se assimetria com desigualdade. Afirma Lídia Aratangy, psicoterapeuta de casal e de família, que é preciso livrar-se de algumas tiranias que são alimentadas: a balança, a moda, os modelos de juventude e beleza. Só seremos parecidos quando as diferenças não servirem como motivo de opressão, afinal “partilhamos ainda e sempre do medo da morte, da solidão. E comungamos da esperança de um mundo melhor, onde o compromisso maior seja com a ternura.”
Que o próximo milênio seja uníssono para homens e mulheres na dança harmoniosa do prazer de con-viver.
 
Para comentarmos um pouco do feminino na literatura, nada melhor que refletirmos dois contos de Marina Colasanti , do seu livro Contos de Amor Rasgados.
 
A BELEZA FANTÁSTICA NOS CONTOS DE MARINA COLASANTI:
Relances de uma Análise Literária
Estudando, enquanto saboreio o livro de Marina Colasanti “Contos de Amor Rasgados” relaciono-o a todos os dados, fatos, teorias citadas neste pequeno ensaio. Por quê? Ora, os mesmos são delicados, perturbadores. Minicontos cheios de histórias “rasgadas de amor” que despertam emoções e um olhar crítico. Vamos a eles.
Quando já não era mais necessário
Marina Colasanti
“Beije-me”, pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre dentes, de inútil desejo.
E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e rosto. Nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída.
Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.
Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou a cabeça.
Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal.
Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.
E com excitada devoção, começou a lambê-la.
O significado ostensivo deste conto salta aos olhos, é o mais óbvio possível, pois corresponde ao enunciado que, por sua vez, não apresenta qualquer dificuldade de compreensão. Não é preciso dicionário.
Por outro lado, é preciso entender, a caracterização dos personagens além de intertextualizar com realidades outras diversas.
A personagem feminina é passiva (de início), carente, solícita, insistente, procura novos caminhos: “Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo…”, mas insegura, teme o desconhecido, a mudança. O ato de voltar a cabeça, olhar para trás demonstra isso.
Onipotente, ativo, apresenta-se o personagem masculino. Quer o prazer rápido, pois teme o que pode provocar a nudez, a carícia da e na mulher. É inseguro. Só vai adorá-la ao vê-la inofensivamente imóvel .
O narrador cria o fantástico: “Sem gritos ou suspiros, a começar pelos cabelos, transforma-se numa estátua de sal”.
A estátua de sal reporta-nos à passagem bíblica, quando Lot e sua família teriam que abandonar Sodoma o mais rápido possível, pois a cidade seria destruída por Deus. A esposa de Lot, ao deixar a cidade, por arrependimento, ou tristeza, olha para trás e transforma-se
numa coluna de sal. “E a mulher de Lot, tendo olhado para trás, ficou convertida num coluna de sal”(Gênesis 19,26).
A estátua lembra a imagem, a adoração, a reverência e, ao mesmo tempo, a passividade, a ausência. O sal dá o sabor. Foi valioso, pois chegou a valer como moeda corrente.
Para mostrar o envolvimento do personagem masculino e do feminino, após tal fato, termina dizendo que: “… com excitada devoção, começou a lambê-la”.
Numa macro-estrutura podemos afirmar que algumas idéias podem ser lidas “nas entrelinhas”, “nas lacunas”:
– Muitas vezes, só se valoriza algo, alguém, quando se perde. “… ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.”
– Quando se toma uma decisão, é importante não vacilar. “… decidiu abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás , não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.”
– Às vezes, a mulher não pede a separação, num relacionamento, porque teme o desconhecido: “Com os anos, ela deixou de pedir.”
Há homens que, no ato sexual, procuram ser rápidos como se tal fosse pecaminoso ou imoral. “nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo…”
Para concluir, a simplicidade de expressão na narrativa, traz implícita a alegoria, o fantástico como disfarce da condição verdadeira.
O refinamento do emissor do discurso, o disfarce poético, envolvem o destinatário e levam-no a questionar a simples e trágica situação real ali escancarada.
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Nunca descuidando do dever
Marina Colasanti
Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.
Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.
Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem nada dizer, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.
Este miniconto, numa leitura primeira, chama-nos a atenção o próprio título, além de outros itens que, logo abaixo, analisaremos.
É uma macabra-fantástica-ironia, podemos afirmar após uma leitura superficial.
Neste, em oposição ao miniconto “Quando já não era mais necessário”, a personagem feminina é ativa, atenta a tudo: “Jamais permitiria que o marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada..” “… dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças”.
Além disso, percebe-se também, a personagem feminina preocupada, temendo a opinião alheia “…não dissessem os colegas que era esposa descuidada”; procurando a perfeição “…alcançava o ponto máximo de sua arte…”
Mas numa análise mais atenta, é preciso nos questionarmos. Por que tanta preocupação em mostrar-se perfeita? Seria preocupação ou apreensão, medo? A roupa, enquanto visual, teria influência na sua conduta enquanto esposa? Aonde (e não onde) está a condição Ser-Feminino? Talvez, perdida na missão de servir, obedecer ao esposo (questões tão ironicamente incrustada na Mulher-Esposa) como se apenas para tal existisse. Já o personagem masculino é passivo. “Impecável transitava o marido pelo tempo.”
Analisando o vocabulário, há uma palavra (“sub-repticiamente”) que nos remete à idéia de réptil (troca de pele, se arrasta…) e o prefixo “sub” (embaixo) faz-nos questionar que tipo de personalidade tem este homem.
A personagem feminina vive envolta em vapores. Consegue seu apogeu a poder de ferro e goma. Lembra-nos a expressão popular que quer dizer com muita dificuldade: “a ferro e fogo”.
O conto transcende o real e passa ao plano fantástico quando “Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.”
O mesmo ato – passar a ferro para alisar – é usado nos sentidos denotativo e conotativo. “Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.
Analisando as estruturas profundas deste conto, subentendem-se as idéias:
– Quem é responsável por tudo, tem o direito de tomar decisão para resolver qualquer problema.” Tendo finalmente certeza… ligou o ferro.”
– Toda perfeição é um pouco neurótica. “Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras,… afiando o vinco das calças.”
– Para conquistar seu espaço a mulher tem que lutar “a ferro e fogo”.
– O instinto “Medéia” (vingativo e calculista) perpassa as lacunas da história. “Sem nada dizer ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.”
Sabiamente, Marina Colasanti consegue seu intuito. É como se, através de pequenos contos, poucas palavras, nos reafirmasse o que Eduardo Galeano, um escritor uruguaio, no seu livro Vozes e Crônicas:
Ao se escrever, é possível oferecer o testemunho de nosso tempo e de nossa gente, para agora e para depois, apesar das perseguições e da censura. Pode-se escrever como que dizendo, de certa maneira:” Estamos aqui, aqui estivemos; somos assim, assim fomos (p.13).
 
ÚLTIMAS PALAVRAS:
Perante o ceticismo da realidade do intelecto humano, é preciso nos posicionarmos como pessoas conscientes .
Hoje, enquanto vemos despontar tantos questionamentos a respeito das nossas origens e fins, concluímos que apenas sobreviverão plenamente (em corpo e espírito) aqueles que aprenderem a conviver e souberem responder aos questionamentos: “De onde viemos?” “Para onde vamos?” “O que faço neste planeta, neste tempo?”
Estudando, colocando-se em prontidão para absorvermos novos conhecimentos e assimilá-los em nossa vida – eis a nossa postura.
Diante de uma sociedade patriarcal e capitalista, faço minhas as palavras de Donna Haraway, em Um Manifesto para os Cyborgs: Ciência, Tecnologia e Feminismo Socialista na década de 80: “Ainda que ambos tenham sido engedrados na mesma dança espiralada, prefiro ser um cyborg a seu uma deusa” (p.283).
É tempo de buscas, questionamentos. É preciso encontrar o “elo perdido” do ser-estar-feminino.
Diante de teorias tão comprometidas com a realidade, neste ensaio apresentadas, urge que se propaguem tais estudos e conhecimentos.
Perante a enxurrada de textos que nos rodeiam, é preciso ir além. É preciso aprender e ensinar a ler as “lacunas”, as “entrelinhas”. É preciso analisar o presente sem desprezar todo o conhecimento histórico-social veiculado até então.
Linda Hutcheon, em sua obra Poética da pós-modernidade: história, teoria, ficção, ao falar da situação do feminino, cita Foucault, afirmando que “…precisava incluir seu próprio discurso nesta dúvida radical, pois tal discurso é, inseparavelmente dependente da própria suposição que procura revelar” (p.81).
Trabalhando na divulgação destas idéias contidas neste ensaio, é preciso não esquecer que sem resgatarmos a espiritualidade que existe em cada ser humano, dificilmente conseguiremos alcançar qualquer objetivo.
Mesmo que demorem anos, séculos, mesmo que não sejamos capazes de transpor as montanhas, ainda que estejamos apenas caminhando sem vislumbrar uma luz no túnel, cremos, lutamos. Afirma Dom Helder Câmara: “Não serás digno da criação se a considerares acabada e feita e não entenderes que a glória de tua espécie consiste em concluir o que o Pai, propositadamente, apenas começou…”. É tempo de caminhada. À luta agora.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
GALEANO, Eduardo. Vozes e crônicas. São Paulo: Global/Versus, 1978.
GAZETA DO POVO. Curitiba: 27 agosto 1995.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.) Tendências e impasses – o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO. São Paulo: 26 agosto 1996.
REVISTA CLÁUDIA. Ano 38, n. 5, maio 1999, São Paulo: Abril, 1999.
REVISTA CLÁUDIA. Ano 39, n. 4, abril 2000, São Paulo: Abril, 2000.
SICUTERI, Roberto. LILITH A lua negra. 4ª ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.





Bio fornecida pelo palestrante.

A sensível percepção de mundo em alguns poemas de Helena Kolody, de 1941 a 1951





Rosana Cássia Kamita

 
Helena Kolody nasceu em 1912 no Paraná. Primogênita de imigrantes ucranianos, ela mesma assim nos conta em seus versos:
Vim da Ucrânia valorosa,
que foi Russ e foi Rutênia.
Vim de meu berço selvagem,
lar singelo à beira d’água,
no sertão paranaense.
Feliz menina descalça,
vim das cantigas de roda,
dos jogos de amarelinha,
do tempo do “era uma vez…”
Exerceu apaixonadamente a profissão do magistério, a qual foi muito importante para sua formação e para a qual a Escola Nova de certa forma colaborou para seu pioneirismo e arrojo. A Escola Nova foi um movimento eclético e de origens muito complexas, mas é inegável que recebeu certas idéias pedagógicas, como as de Rousseau, que influenciaram uma época e cujos ecos ainda se fazem ouvir. São numerosos os pedagogos que, influenciados pela doutrina do Emílio , contribuíram na renovação dos conceitos e das normas educacionais. Um de seus princípios era o de que se houvesse um interesse vital, criar-se-iam, também, as técnicas próprias para satisfazê-lo: “Emílio aprenderá a ler quando receber cartas e sentir a necessidade de compreendê-las; todo o papel do mestre será ajudá-lo a encontrar os meios de satisfazer essa necessidade.” Esse naturalismo pedagógico leva à exaltação da natureza humana, de suas virtudes, sua bondade natural, seu poder; idéias importantíssimas em qualquer época, mas principalmente naquela, tão marcada por rupturas. É autora de numerosos livros, a maioria editada com seus próprios recursos. Antes dos seus livros, no entanto, seus poemas eram publicados em jornais e revistas. Seu primeiro poema intitulava-se “A Lágrima”. Ela contava então com 16 anos. Seu primeiro livro publicado intitulava-se “Paisagem Interior”, de 1941, e, após esse, muitos outros foram escritos.
A poetisa mostra-se sempre muito sensível em perceber o belo no que aos nossos olhos não passaria de singelo. Lendo seu poema “Infância”, o leitor é levado pela sinestesia dos versos e sente-se, por que não dizer, levado a evocações de sua própria infância:
INFâNCIA (1951)
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos…
Seu delicado olhar de poetisa percorre paisagens da natureza guardadas em sua memória, parte de seu cotidiano e que a inspirou em muitos de seus versos. Uma dessas imagens naturais refere-se ao Rio Negro, que aparece em símbolos e imagens em seus versos:
RIO DE PLANÍCIE (1941)
Minha vida é um largo rio de águas mansas
 
FIO D’ÁGUA (1945)
Não quero ser o grande rio caudaloso
Quero ser o cristalino fio d’água
No início de sua caminhada como poetisa, Helena Kolody deixa-se levar espontaneamente, seus versos refletem seu estado de alma, com tons oníricos e outros telúricos, repletos de vivas tonalidades emocionais. São justamente esses os versos tratados aqui. Sem o apego formal, passam a impressão de um relato de vida, feito de uma maneira extremamente doce, de olhos que perpassam paisagens, situações, sentimentos perante a vida. Em seu relato, ela diz que sempre gostou do novo, do que representava um desafio, que a impulsionava na juventude. Helena Kolody enfatiza a juventude, conta sobre como nessa época os jovens paranaenses se reuniam e liam sobre tudo em jornais e revistas, discutiam sobre o conteúdo dos mesmos e faziam críticas aos respectivos textos. Ressaltou também a importância de se viver com pessoas de sua própria idade. Seus versos encantam quem se deixa tomar pela emoção e coloca de lado, pelo menos por alguns instantes, o ceticismo:
SONHAR (1941)
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Num vôo poderoso e audaz de fantasia.
ELOGIO DO POETA (1941)
Quando os homens viram os olhos do poeta,
Acharam em sua luz a luz do próprio olhar
E no seu sonho o próprio sonho refletido.
No ritmo de seu verso, então, reconheceram
A canção que cantariam, se soubessem cantar.
Música submersa, de 1945, traz poemas referentes à desumanidade da II Grande Guerra. Ocorre novamente a identificação da poetisa com a dor alheia, captando a ela e a sua mesma numa simbiose. E como ela mesma afirma, quando se é jovem sente-se com mais intensidade as emoções:
AMPULHETA DA HORA PRESENTE
A hora terrível passa,
Esmagando o coração da humanidade.
Helena Kolody relata um acontecimento que revela o poder da palavra e a responsabilidade gerada por ela. É a história de uma jovem depressiva que tentaria o suicídio. Antes do gesto trágico, abriu o livro que a poetisa lhe dera de presente. Leu um de seus poemas, “Prece”, e desistiu de seu intento. Helena Kolody escreveu vários poemas depressivos, mas por sorte não foi um desses o escolhido. Ela diz que depois disso seus poemas se tornaram mais abertos, mais otimistas. O poema “Prece” recebeu duas versões musicais e um “imprimatur” da igreja, e é lido como se fosse uma oração:
PRECE (1941)
Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.
Para ela, o amor ficou sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora (até mesmo a própria palavra tornou-se antiga) quando não era vergonhosa a expressão verdadeira dos sentimentos:
CÂNTICO ( 1941)
A luz do teu olhar é a estrela solitária
Da noite deste amor, que é feito de silêncio.
VITÓRIA ÍNTIMA (1941)
Como a penumbra da noite,
A meditação desceu em seu olhar
E acendeu dentro de mim a lâmpada serena.
Em 1941 publicou seus primeiros haikais, sendo criticada com os argumentos de que aquilo não era soneto, não tinha rima, não era poesia. Mas gostava de desafios, por isso fazia haikais mesmo sendo criticada. No entanto, a crítica para Guilherme de Almeida já não era tão severa… talvez por ele ter colaborado para o abrasileiramento do haikai, como por exemplo atribuir um título ao terceto, definição de estrutura métrica e utilização de rimas, ou, por que não dizer? Ter composto haikais “parnasianos” .
Não participou do Movimento Modernista por ser retraída, mas buscava sempre manter-se informada e tinha consciência da modernidade de seus versos. Nessa época o Movimento Modernista buscava uma superação dos pressupostos que ancoraram a Semana de Arte Moderna. Alguns poetas já tinham trilhado um caminho diferente dos versos parnasianos, restando, pois, amadurecer as idéias já plantadas.
Em seu livro Música Submersa (1945), figura o haikai “Pereira em flor”, o qual foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter ficado feliz com poemas como esse, “em que à expressão mais simples e discreta se alia uma fina intuição dos ‘imponderável’ poéticos”. Conheça-se o poema:
PEREIRA EM FLOR (1945)
De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha.
A respeito desse haikai, a poetisa relata como surgiu-lhe a inspiração para escrevê-lo:
“Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereira com uma noiva: a noiva toda vestida de branco, sonhando, com a pereira ao luar.”
Só voltou ao haikai quando Paulo Leminski descobriu-a como primeira pessoa a fazer este tipo de poesia de origem japonesa no Paraná. Tornou-se “haijin” (pessoa que cultua o haikai), com o nome artístico de Reika, concedido em 1993 pela sociedade japonesa, e que significa “perfume da poesia”:
ARCO-ÍRIS (1941)
Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.
PRISÃO (1941)
Puseste a gaiola
Suspensa de um ramo em flor,
Num dia de sol.
A poetisa escreveu:
“Antigamente eu me derramava em palavras. Um dia, o Dr. Andrade Muricy, um paranaense que era crítico de arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me: ‘você vai muito melhor no poema curto. você quer encompridar e, às vezes, você dilui o poema ou se repete. você tem talento para a síntese’. Daí em diante, comecei a cortar os excedentes, deixando só o sumo, o essencial.”
Helena Kolody tem a capacidade de transformar em palavras as imagens captadas em sua existência, e mais, é capaz de reduzir essas mesmas imagens em poucas palavras, sem que elas percam sua magia. Seus haikais são relâmpagos de palavras, rápidos e luminosos. A poetisa consegue unir subjetividade e objetividade, numa viagem de versos repletos de significados.
Ainda em relação à sua face japonesa, há que se destacar sua incursão no tanka (poema japonés, com a mesma estrutura do haikai, acrescido de mais dois versos heptassílabos). Não pertencem, no entanto, à época aqui estudada. Apenas para que se conheça:
AQUARELA (1993)
Sol de primavera.
nêu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas.
Foi eleita para a Academia Paranaense de Letras aos oitenta anos de idade e a segunda mulher admitida no fechado círculo masculino. Ainda vive em Curitiba e alega que o sonho continua sendo sua matéria. Por essa alegação percebe-se a grandeza de suas intenções, o quanto acredita que o mundo moderno não possa sufocar os sentimentos mais nobres do ser humano, que apesar das vicissitudes não reduziu-se ainda a um ser robotizado e, espera-se, ainda tenha capacidade para perscrutar os seres e retirar uma essência do belo, na sua acepção mais ampla.
Muitas palavras tão carregadas de sentido na língua portuguesa são massacradas, de tal forma que perdem o sentido, chegando a tornar-se piegas falar em “amor”, por exemplo, graças a inábeis escritores, que pela sua falta de talento afugentam os leitores, os quais acabam se tornando traumatizados por este mau uso de palavras muitas vezes tão expressivas. Mas Helena Kolody faz o resgate dessas palavras e pelas suas mãos elas readquirem todo o seu verdadeiro significado.
Ela afirma que “São as palavras que decidem a sorte dos homens e o destino das nações.” Portanto, que sua palavra:
CONSOLE
Se a ambição da riqueza te extenua,
Olha o jogo das crianças na calçada.
Somente o jogo é seu, nem tem mais nada…
De riqueza não sei maior que a sua.
(Tesouro, 1951)
ENCAMINHE
Sonhar é Ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.
(Terceto final de “Sonhar” , 1941)
E seja uma luz no mundo, um instrumento de paz e fraternidade.
Ensina-me, Senhor, a palavra exata,
A grande palavra reveladora e fecunda
Que devo clamar, clamar e clamar
Para acordar, nos que adormeceram
A consciência do seu destino maior”
(Apelo, 1941)
Sem dúvida, acredita Helena Kolody no poder da palavra, e o poeta pode ser considerado o “escolhido” para fazer dela um instrumento de transformação do mundo. A responsabilidade é enorme, mas alguns artistas da palavra conseguem levá-la a contento e vão gravando pelo tempo sua idéias que geram novas idéias e assim sucessivamente num trabalho longo, árduo e necessário. Em “Canto místico” (1941), a poetisa confessa a insuficiência da palavra humana e a impotência pessoal diante do poeta máximo, o Universo, e diante de seu poeta, Deus. Seguem-se as duas primeiras estrofes desse poema:
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.
Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.
Helena Kolody é sem dúvida alguma um expoente na literatura paranaense, literatura essa que se encaminhou inicialmente de forma tímida. Citemos como exemplo os românticos, que não tiveram ali um público que os pudesse avaliar. No entanto, no Simbolismo escritores e público encontraram-s,e e a partir de então vivencia-se a literatura, que amadurece no Estado. Contudo, não podemos limitar sua obra apenas à esfera onde surgiu. Sua obra é merecedora de destaque em qualquer espaço, seja pelo seu pioneirismo e arrojo já citados, seja pela qualidade de seus versos, seja pelo impulso que promoveu nas letras paranaenses e muitos outros motivos que aqui poderiam ser listados. Portanto, que seus versos sejam lidos, apreendidos, analisados e principalmente, sentidos.
 
Referências Bibliográficas
BELLO, Ruy de Ayres. Pequena História da Educação. São Paulo: Editora do Brasil, 1978.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.
Conversas por telefone com D. Helena Kolody.
CRUZ, Antonio Donizeti da. “Tankas e kaicais: uma leitura de Reika, de Helena Kolody”.
FRANCHETTI, Paulo. “Guilherme de Almeida e a história do haikai no Brasil”.
http://www.angelfire.com
http://www.morretes.pr.gov.br/artistas.htm
KOLODY, Helena. Sinfonia da vida. Organização: Tereza Hatue de Rezende. Curitiba: Letraviva, 1997.
—. Viagem no espelho. Curitiba: Criar, 1988.
LOBO, Luiza. O haikai e a crise da metafísica. Rio de Janeiro, Numen, 1992.
NASCIMENTO, Noel. “A propósito de Helena Kolody”.
REBOUL, Olivier. Filosofia da Educação. Tradução e notas de Luiz Penna e J. B. Penna. São Paulo: Nacional, 1978.





Bio fornecida pelo palestrante.

Deslize na linguagem (uma leitura de Maria Gabriela Llansol)





Tatiana Salem Levy 

Roland Barthes, em sua aula inaugural no Collège de France, afirma que a linguagem é o objeto em que se inscreve o poder. Todo discurso, desde os proferidos pela escola ou pelo Estado até os que constituem a publicidade ou mesmo uma canção, encarrega-se de repetir a linguagem até o momento em que os sentidos das palavras nos pareçam naturais e inatos, como se a linguagem existisse antes mesmo do surgimento da sociedade e de suas construções de poder. A palavra repetida, fora de qualquer encantamento ou magia, Barthes chama de estereótipo. Aceitamos determinadas idéias como verdades puras, entretanto, na maioria das vezes, são estereótipos formados pelo engendramento de um discurso constituído sob a máscara do poder. O estereótipo é, pois, a cristalização de um único sentido da palavra, o cerceamento da multiplicidade do signo imposto por uma determinada ideologia.
O poder, segundo o semiólogo francês, está presente em todas as circunstâncias do intercâmbio social: “não somente no Estado, nas classes, nos grupos, mas ainda nas modas, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, nas informações, nas relações familiares e privadas, e até mesmo nos impulsos liberadores que tentam contestá-lo”.1 Faz-se uma revolução para acabar com um mecanismo de poder, ele logo reaparece, sob uma máscara nova, mas com os mesmos princípios autoritários e opressores. Parece-nos, assim, que a liberdade humana só é possível fora da linguagem. No entanto, o homem só existe dentro dela, em seu interior, uma vez que é constituído por ela, não havendo separação entre homem e linguagem. Estaremos, então, condenados à prisão perpétua, imbricados nesta rede de poderes que constituem os discursos? É aqui que entra a sábia (e saborosa) idéia barthesiana de trapaça com a língua: não podemos destruí-la, nem viver em seu exterior, mas podemos desviá-la de seus sentidos estereotipados, “jogar” com os signos. E é aqui, também, que entra a literatura de Maria Gabriela Llansol, tentativa máxima de destituir da língua os mecanismos de poder. Seus textos e os elementos que os constituem, tais como as cenas fulgor, o re-contar da História, o mundo textual e as personagens-figuras, giram em torno de uma idéia central: desfazer a impostura da língua. Em entrevista à Lúcia Castello Branco, afirma a autora: “Veja bem, a língua é uma impostura. Tudo aquilo que estamos aqui a falar é uma impostura. Mas é possível, em algum momento, atingir a linguagem, a língua sem impostura. É isso que o meu texto quer”.2
Llansol partilha com Barthes a idéia de que o poder está espalhado por toda a parte, e sua literatura tenta fazer despontar “a exigência da liberdade de consciência de cada ser vivo em face de Deus, do Estado e de sua rede de múltiplos poderes, na tentativa indefinida – sem fim, e sem limites – de alcançar para cada habitante da terra o direito inalienável à autonomia do seu sopro de vida, e à realização de sua natureza”.3 Parece-nos ser esta a grande cena fulgor de seus textos, a tentativa de deslize, a busca de uma brecha na linguagem, onde o homem se possa constituir como intensidade, ou seja, distante dos mecanismos de poder e próximo ao seu sopro de vida.
No diário 2 – Finita -, há algo que incomoda a narradora/autora: a constatação, em 26 de agosto de 1975, um ano e meio após a Revolução dos Cravos, de que Portugal rompeu com o autoritarismo salazarista, mas não se livrou da ligação com o poder. Diz ela:
Quarenta anos, todo um período de opressão que termina por afirmações de poderes, e linguagens pessoais de grupo. Portugal, agora, não é o meio de uma viagem, é uma partida conseguida, a muito custo, para uma viagem errada. Por enquanto estão (estamos) soltos mas ainda não livres. As instituições, as categorias, os poderes, o saber e a ignorância epidêmicos continuam a mediatizar as relações entre as pessoas. (…) Não se fala em abolir os efeitos do poder, mas de suscitar das velhas formas novas formas.4
Não que Llansol subestime a importância nem as conquistas da Revolução; mas incomodam-na as novas formas de discurso, ou seja, os novos estereótipos e a nova verdade elaborados pelo vencedor do momento. Como diz a própria autora, “num e noutro lugar há impostura”,5 e é por isso que sua literatura se desvia dos sentidos habituais das palavras, numa tentativa de contornar a impostura da língua. Em Lisboaleipzig I, Llansol nos deixa claro o que pretende sua escrita, quando, numa conversa em que Augusto “dizia que tinha a impressão de que a existência se dividia em três grandes continentes: o do poder, o da procura dos segredos das coisas, e o do amor”, afirma que recusou em seus textos, “desde logo, o primeiro continente, abandonando todo o poder nas mãos do Príncipe”,6 a quem se opõem o rebelde e o pobre.
Encontramos freqüentemente, em seus livros, palavras soltas, numa estranha disposição pela página, sem conexões sintáticas e, sobretudo, desprovidas de seus significados. Llansol pretende, assim, esvaziar os signos de suas marcas de poder, trazer à literatura as palavras em seus estados nascentes. Diz ela: “Não ligues excessivamente ao sentido. A maior parte das vezes, é impostura da língua”.7 Descarregando as palavras de seus sentidos banais e estereotipados, Llansol pode desenvolver seu projeto de recontar a História, tirando das mãos do Príncipe a palavra e dando-a aos pobres. Vale ressaltar, uma vez mais, que não se trata de destruir a língua, mas de trapaceá-la, já que, “na linguagem dos homens, as palavras que nos libertam do Poder desde sempre lá se encontraram disponíveis, lá repousam as palavras que darão outro desfecho à batalha de Frankenhäusen”.8 Llansol desperta tais palavras para que circulem em seus textos, espaço onde a História ganha um outro sentido.
Para falarmos da relação da literatura de Llansol com o poder, não nos podemos esquecer da rapariga que temia a impostura da língua, personagem que bem demonstra a busca de uma brecha na linguagem. Presa a cabra a um castanheiro, cena que abre Um beijo dado mais tarde, cortam-lhe a língua com uma faca, e uma outra língua, “com parte no céu-da-boca”, principia-lhe a nascer. Ao final desta descrição, afirma a narradora (o eu que, por vezes, se confunde com a própria Témia): “O lugar da interseção da língua arrancada com a outra língua transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua. Por isso eu tenho de encontrá-la, e traze-la para fora de sua nostalgia infinita”.9 Nostalgia essa que provém do grande mistério que ronda a casa e que a narradora revela sob a forma de uma parábola:
A é serva; quando engravida de B, o filho da casa, só pode cantar o amor de boca fechada; alguns anos mais tarde, o filho da casa contrai matrimônio, e dessa união tem uma filha ________; o primeiro filho – o da serva – foi abortado; e sobre esta casa pairou um mistério, um não-dito, que alisou, numa pequena pedra, uma irreprimível vontade de dizer. Deste mistério, e no fim de um trabalho executado a som e a cinzel, fez-se a rapariga que temia a impostura da língua e que queria, através da palavra, fazer ressoar fortemente, o seu irmão morto.10
A rapariga não passou por escolas nem outras instituições onde se inscreve o poder (“ninguém educou Témia”); por isso, sua relação com a linguagem é livre, longe dos estereótipos. A única pessoa que lhe ensinou algo foi seu companheiro filosófico para brincar, com quem se mete em aventuras para descobrir imagens, novas cenas fulgor. Com o tempo, a rapariga passa a não temer mais a impostura da língua, aproximando-se do fulgor das palavras, ou seja, de suas existências cintilantes. Cada dia sente-se mais à vontade para ir “brincar ao pensamento”, para correr “ao leito extrair da água as cenas fulgor”. Não será aqui, nesta passagem do medo do poder à conquista da liberdade de consciência, que Maria Gabriela Llansol encontra quem é em Témia? Que as duas se fundem na constituição do texto literário, deformando as fronteiras entre autor, narrador e personagem? Podemos, ao menos, afirmar que é certamente nesta passagem que a literatura de Llansol efetiva sua trapaça com a língua, constituindo-se fora das relações de poder, muito distante do olhar do Príncipe.
Que outras evidências do texto llansoliano nos levam a afirmar que sua escrita constitui-se fora das redes de poder? Quais são as estratégias utilizadas pela autora para desviar a língua de seus traumas, de suas marcas ideológicas e estereotipadas? Sem dúvida, não daremos conta de todas no presente trabalho. Enfatizaremos, portanto, de que forma a obra de Llansol foge ao modelo representativo da literatura, por acreditarmos ser este um ponto fundamental para a realização do desvio na linguagem. Afirma a autora: “se eu procurar abrir caminho a um texto que não represente (e por isso mesmo, antes de mais, diga), abrirei caminho a um, cuja fonte não seja nem a agressão, nem a impostura”.11
Encontramos, na literatura contemporânea, uma certa tendência ao questionamento do que é o escrever no interior do próprio texto literário. Levado ao paroxismo, esse tipo de escrita propõe uma ruptura com o modelo da representação, que pretende produzir no leitor uma espécie de reconhecimento do seu mundo. Enfatizando o conteúdo temático da narrativa, em função de tornar novamente presente algo que se dá no real, a literatura representativa fixa as coisas diante de si, tornando-as previsíveis, controláveis e comunicáveis. A comunicação se faz possível na medida em que a escrita funciona sobretudo como simulacro de um mundo já formado, o mundo do próprio leitor. Este, embebido na ideologia do poder, sente-se seguro em abrir um livro e lá encontrar seu mundo retratado, da forma mais semelhante possível ao real.
Roland Barthes, ao argumentar sobre a força representativa da literatura, afirma: “desde os tempos antigos até as tentativas da vanguarda, a literatura se afaina na representação de alguma coisa. O qué? Direi brutalmente: o real”. E prossegue: “o real não é representável, e é porque os homens querem constantemente representá-lo por palavras que há uma história da literatura”.12 O texto de Llansol foge a essa história da literatura, na medida em que rompe com o elo entre real e linguagem (talvez, quem saiba?, porque não haja separação entre ambos. – Isto é o que nos leva a crer Infausta, heterônimo feminino de Aossé, que se sente “dentro da vida sem nenhuma cortina de separação entre o visível e o invisível; o real e o irreal”).13
Sua escrita dobra-se sobre si mesma, provocando uma crise da representação. Seu texto não é o retrato de nossa realidade, mas uma outra realidade em que o leitor não se reconhece mais. Maria Gabriela Llansol é autora de um texto em que o fazer e o pensar literários se constróem simultaneamente. A língua não é, para ela, um instrumento de escrita, é a própria escrita realizada. Restringindo a amplitude temática de seu texto, Llansol possibilita a discussão em torno do que é o escrever. No percorrer de seus livros, podemos observar que a autora, através de pensamentos soltos, considerações e fragmentos, constrói a sua própria teoria textual.
Em sua obra, ela propõe um abandono da literatura, não para se aproximar ainda mais da vida, mas para elaborar um texto na margem da língua. Renegar a impostura da língua e tudo aquilo que possa cercear os afetos, esta é a sua “batalha”. Para isso, a autora experimenta uma escrita-laboratório, lugar de pensamento constante, onde para tudo há vez, menos para a regra, a autoridade, o enquadramento. Em seu projeto de escrita, Maria Gabriela Llansol desfaz a unicidade introduzida pela impostura da língua, para que a diferença circule em seu texto: “decido, nessa altura natalícia, tirar o d de deus, e chamar eus ao que for a diferença que o prive de ser a sua vontade”.14 Se a autora afirma não haver literatura (“Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros”.15), é porque não existe, como afirma Silvina Rodrigues Lopes, “um saber fazer definitivo, mas um saber fazer em aprendizagem, aqui definido por uma interrogação dos limites da linguagem, continuamente variáveis”.16
Esta afirmação remete-nos ao conceito de verdade em nossa civilização ocidental. Para Platão, pensar é o mesmo que buscar e reconhecer a verdade, única e universal. Haveria, nesse sentido, um absoluto a ser atingido, ou seja, “um saber fazer definitivo”, que a tradição ocidental não fez senão repetir. No entanto, F. Nietzsche propõe a verdade como processo de criação. Para este filósofo, nenhum sentido é eterno e tudo depende das relações de força que o constituem. Retomando o pensamento de Barthes, podemos relacionar o que ele chama de estereótipo com a verdade universal que cada época pretendeu alcançar. Já o que Nietzsche chama de verdade é a tentativa de decomposição de tais estereótipos, ou seja, é a arte, no seu sentido de multiplicidade, de diversidade.
Esta passagem pela concepção de verdade ajuda-nos a melhor entender a literatura representativa e aquela que quebra este modelo. O texto que tem como função proporcionar o reconhecimento ao leitor precisa-se manter o mais fielmente possível ao lado da suposta verdade, para que não haja estranhamento, constituindo-se, assim, sob os meandros do poder, que, como já vimos, estipula qual é a verdade dita “universal”. No avesso dessa proposta, uma literatura não representativa – como a de Llansol – anseia por “descobrir, inventar novas possibilidades de vida”. 17 Em Um beijo dado mais tarde, uma cena fulgor revela-nos como o texto de Llansol dialoga com a idéia nietzscheana de que nenhum sentido á eterno: “vão partir para outro lugar do meu entresser. Dei-lhes em troca os gomos da verdade, e, agora, as imagens do seu suco vesperal: uma verdade móvel.” Esta imagem é, sem dúvida, bastante libertadora, uma imagem do despoder.
Após este breve percurso pelo conceito de literatura da não-representação, podemos afirmar que o texto llansoliano se constitui à margem de um padrão narrativo mimético. Vimos que a autora recusa um modelo de linguagem e faz nascer uma nova língua. Analisemos, pois, alguns traços dessa nova narrativa llansoliana.
No discurso proferido por ocasião do Grande Prêmio do Romance e da Novela de 1990 atribuído ao romance Um Beijo dado mais tarde, Llansol esclarece alguns pontos da sua concepção de escrita. “Para que o romance não morra é uma bela manifestação da urgência de se substituir uma antiga forma literária – que tem como centro a narratividade – pelo que a autora chama de textualidade. Llansol, em momento algum, mostra-se pessimista em relação ao destino do romance. Ao contrário, enfatiza a importância dele e, se pretende mudar sua forma, é exatamente para que não morra. Diz ela, num bonito movimento de amor à escrita:
__________escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear.18
A narratividade – ou o ato de contar estórias uns aos outros – foi, por longo tempo, uma possibilidade de levar o homem à sua liberdade de consciência. No entanto, “acontece, está acontecendo há muito, que a narratividade perde seu poder de fascínio”.19 E “o diagnóstico é conhecido”, afirma a autora. Esta forma de romance é controlada pelo princípio da representação do real, por uma preocupação com a verdade e, por isso, “só pode existir no âmbito da racionalidade que modula (…) os materiais que o mito (…) é obrigado a pôr à sua disposição”.20 Diante da constante repetição desse trabalho, que acabou por fazer esgotar a energia criadora, Llansol põe-nos as seguintes questões:
Como continuar o humano?
Que vamos nós fazer de nós?
Que sonhos vamos nós sonhar que nos sonhe?
Para onde é que o fulgor se foi?
Como romper estes cenários de “já visto” e “revisto”
que nos cercam?
Ela mesma é quem responde, introduzindo sua proposta estética: “é minha convicção que, se puder deslocar o centro nevrálgico do romance, descentrá-lo do humano consumidor de social e de poder, operar uma mutação da narratividade e faze-la deslizar para a textualidade, um acesso ao novo, ao vivo, ao fulgor, nos é possível”.21 O que a textualidade nos pode dar de diferente da narratividade é o acesso ao dom poético, “a imaginação criadora própria do corpo de afectos, agindo sobre o território das forças virtuais, a que poderíamos chamar de existentes-não-reais” (contrapondo-se ao real-não-existente, ou verossimilhança, que orienta a narratividade). Além disso, a textualidade “abre caminho à emigração das imagens, dos afectos, e das zonas vibrantes da linguagem,” permitindo uma pluralidade de olhares contínuos, numa “paisagem onde não há poder sobre os corpos”. 22
 
Referências Bibliográficas
(clique nos números para voltar ao texto principal)
1 BARTHES, Roland, Aula, Trad. Leyla Perrone-Moysés, São Paulo, Cultrix, 1978, p. 11
2 BRANCO, Lucia C. “Encontro com escritoras portuguesas”. In: Boletim CESP, Belo Horizonte, v.13 n.16, jul./dez. 1993, p.108
3 LLANSOL, Maria Gabriela, Lisboaleipzig I, o encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994, p. 131
4 ____________ Finita (Diário 2), Lisboa, Rolim, 1987, p. 52, 53
5 ____________ Um beijo dado mais tarde, Lisboa, Rolim, 1990, p. 9
6 LLANSOL, 1996, p. 46, 47
7 LLANSOL, 1990, p. 113
8 LLANSOL, 1987, p. 53
9 LLANSOL, 1990, p. 9
10 idem, p. 12
11 LLANSOL, 1987, p. 67
12 BARTHES, 1978, p. 26
13 LLANSOL, 1994, p. 68
14 LLANSOL, M. G., Um Falcão no Punho (Diário 1), Lisboa, Rolim, 1985, p. 16
15 idem, p. 55
16 LOPES, Silvina Rodrigues, Teoria da Des-Possessão, Lisboa, Black Son Editores, 1988, p.29.
17 DELEUZE, Gilles, Nietzsche e a filosofia, Rio de Janeiro, Ed. Rio, 1976, p. 83
18 LLANSOL, M.G., “Para que o romance não morra”, In: Lisboaleipzig I, Lisboa, Rolim, 1994, p. 115
19 idem, p. 118
20 idem, p. 118
21 idem, p. 120
22 idem, p. 121





Bio fornecida pelo palestrante.

Escritoras brasileiras do século XIX





Resenha sobre Zahidé Lupinacci Muzart (org.). Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: UNISC, 1999 por Simone Pereira Schmidt e Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)

Em 1999, mil páginas chegaram literalmente pelas mãos de Zahidé Muzart às nossas mãos, no volume Escritoras Brasileiras do Século XIX, uma belíssima e primorosa edição da Editora Universidade de Santa Cruz do Sul e da Editora Mulheres1. Nele, a força de trabalho direta, manual e intelectual, de sessenta e oito mulheres, incluindo nessa empreitada desde a planejadora, a organizadora, as editoras, as escritoras, as pesquisadoras, a prefaciadora: mulheres amarrando as pontas de dois séculos, integrando norte, sul, leste, oeste, as Américas. Somam-se a essas, mais uma dezena nos agradecimentos, que vão desde a funcionária da livraria do Campus a outras pesquisadoras ou precursoras…

Escritoras Brasileiras do Século XIX é, em síntese, não somente o resultado de uma pesquisa integrada, financiada, mas uma demonstração de um trabalho de equipe e de uma sinfonia ou sintonia de múltiplas vozes em um tempo datado: escritoras brasileiras do século XIX, pesquisadoras brasileiras do século XX, literatura brasileira para o século XXI, que possibilitam reavaliar nossa história cultural.
O livro é centrado nas escritoras, no fato de serem brasileiras, e em um tempo específico, porque significativo. Comecemos pelo brasileiras e por sua relação com o conceito norteador do século XIX. O conceito de nação está intrinsecamente ligado à escritura. Até porque não existe, a priori, uma definição de nação. Citemos alguns clássicos e o que dizem: “Não há um meio ‘científico’ de estabelecer o que todas as nações têm em comum.”2 Nação é “qualquer corpo de pessoas suficientemente grande cujos membros consideram-se como membros de uma nação”3. Ou “o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem”4.
Preferimos ficar com a concepção de que nação é escritura; o conceito alimenta-se de textos. Na base da formação da consciência nacional está o texto impresso; foi através dele que ela pôde existir. Logo, nada pode ser ignorado. Neste ponto em que chegamos, para reforçar a idéia de uma nova leitura da história literária do século XIX, descobrimos que o século XX passou sem termos solucionado a impossibilidade de se entender o século XIX, o centramento no nacionalismo e o processo de formação de uma história da literatura brasileira — mais exatamente, da cultura brasileira, ou de uma periodização delimitada por cânones indiscutíveis. Há seqüestros evidentes. Conhecíamos até agora, através da denúncia de Haroldo de Campos, no processo da formação da literatura brasileira, o seqüestro do barroco… Em relação às escritoras, nem denúncia nem pistas, mistério, enigma, vagas referências apenas. Em outras palavras, as verdades de uma tradição histórica, quando confrontadas com as provas concretas, como neste livro, devem ter seus alicerces estremecidos.
Não é preciso falar mais do espantoso silêncio a que essas cinqüenta e uma escritoras brasileiras foram submetidas. As falas dessas mulheres não querem provocar apenas uma ruptura, introduzir a alteridade, a diferença. Ler assim, apenas, seria ler pela oposição. Os textos reunidos em oposição só nos levariam mais uma vez à avaliação do paradigma de uma história literária escrita por textos de autores homens. O que valeria dizer: Pior… escrita por nomes masculinos, igualmente canônicos. Já superamos essa angústia e essa fase de desabafo. O desafio agora é reescrever essa história e ler diferentemente as histórias da literatura brasileira do século XIX e a historiografia produzida no século XX. Referimo-nos aos historiadores canônicos como Antonio Candido, José Aderaldo Castelo (em recente reedição), Alfredo Bosi, J. Guinsburg, Nelson Werneck Sodré e à luxuosa história da literatura de Luciana Stegagno-Picchio5 publicada pela Nova Aguilar em 1997. Referimo-nos também às leitoras dessas histórias da literatura, na maioria mulheres e professoras. E aos autores de manuais e livros didáticos. Não falamos apenas de uma revisão dos cânones, mas de uma outra compreensão do próprio período romântico e da própria cultura do século XIX.
O desejo de organizar e classificar essas escritoras que foram esquecidas, ou antes ignoradas6, leva-nos a refazer uma outra tradição literária. Aquela que as inclui e nos deve incluir. Caso contrário, correremos o risco (se quisermos ser pautadas pela ironia e pelo otimismo) de, em 2099, bisnetas e tataranetas de nossas orientandas e de nossos orientandos paradoxalmente estarem resgatando esses alfarrábios, eletrônicos ou não, para ler e entender o inexplicável ignorar mais uma vez, desta vez com dois séculos de atraso.
O que a história da literatura pode e deve fazer com essa pesquisa, com as leituras críticas que antecederam todas as poesias, cartas, ficções, ensaios das escritoras? Como avaliar ‘no calor da hora’ as resenhas, as reportagens, as entrevistas, os comentários, a fortuna crítica recente; a recepção bastante elogiosa ao livro organizado por Zahidé Muzart? Como avaliar os limites entre as exigências do mercado editorial, a especificidade da Editora Mulheres e o próprio conteúdo do livro em quatro tempos: o tempo das escritoras, o tempo da pesquisa, o tempo da leitura e o tempo depois de tudo isso?
Ou a historiografia literária contemporânea e os historiadores da literatura se integram ou integram essas pesquisas em um sistema literário e consideram os resultados (incluindo os dos discursos críticos que referendam as escritoras resgatadas) ou eternamente estaremos fazendo os mesmos comentários, falando da necessidade tão bem apontada pela crítica feminista: a alteração do sistema literário constituído, de forma que os textos nos forneçam novos instrumentos de análise. O que se deseja, então, não são ensaios isolados, mas a reavaliação do que está (por)escrito (e não entramos no mérito da canonização), além da consideração desse novo e organizado patrimônio literário e cultural. E, nas margens da nova história da literatura contemporânea, deseja-se que se incorpore o surgimento de um potencial literário e crítico em torno de uma pesquisa arqueológica. Estamos reescrevendo a história da literatura do século XIX, mas muito mais a história da literatura do final do século XX, pela inclusão de pesquisas criticamente consistentes e teoricamente modernas. Não basta estarmos em lista de ensaístas brasileiras, com nossos dados civis e acadêmicos. Precisamos entrar literalmente na História.
Retomemos, então, um ponto já citado: a nação se afirma de fato quando a vemos como escritura. Só no século XIX, quando alfabetizadas, as mulheres se tornam leitoras e começam a publicar, especialmente em jornais e revistas femininas. Só no final do século XX, quando tituladas e intelectualmente reconhecidas, as mulheres começam a se encontrar em seminários e a somar esforços para grandes empreitadas. E neste ponto estamos próximas de Nara Araújo, que, com sensibilidade e inteligência, prefaciou o livro e avaliou o trabalho como uma expedição, metáfora que nos remete à imagem contemporânea dos grandes descobrimentos…
No texto introdutório do livro, Zahidé Muzart define seu trabalho, seu e de sua equipe de pesquisadoras, como uma faina de ‘revolver escombros e garimpar entulhos’, que só pode ser levada a cabo ‘com paciência e boa dose de paixão’. Sua concepção a respeito da tarefa da historiadora feminista da literatura nos remete ao conceito benjaminiano da história como um amontoado de ruínas: não há, diz Benjamin, documento de cultura que não seja também documento de barbárie. Assim, o trabalho de resgate das autoras desaparecidas de nossa história literária corre contra a ação corrosiva do tempo, busca por entre as ruínas o legado daquilo que desapareceu. O que está morto na história pode ressuscitar. É este um modo de interpretar aquilo que Benjamin afirma: “O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes?”7 ‘Revolver os escombros’ foi a fórmula encontrada por Zahidé para definir seu trabalho, contra a corrente do tempo. E contra a corrente pelo menos em dois sentidos. Primeiro porque vai literalmente daqui para lá: daqui de onde estamos, de posse da nossa reflexão contemporânea sobre o papel político dos cânones, que, em qualquer tradição cultural, afirmam um centro e silenciam as margens; para lá, esse obscuro e misterioso lá, onde se encontram nossas precursoras.
E contra a corrente do tempo, ainda, no sentido destacado também por Zahidé Muzart na introdução do livro. Ela fala do ritmo lento, necessariamente lento, da pesquisa, em cujos caminhos tortuosos, “o verbo mais conjugado é o esperar: esperar por uma informação bibliográfica, esperar pelo resultado de pedidos por carta a sebos e antiquários, esperar por microfilmes de bibliotecas”8. Espera: figura do discurso amoroso, no texto de Barthes. “Estou apaixonado? Sim, pois espero. O outro não espera nunca. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem. A identidade fatal do enamorado não é outra senão: sou aquele que espera”9. Curiosa atitude a dessas mulheres que esperam, num tempo como o de agora, cujo imperativo é o de não se perder tempo. Mais uma aproximação a Walter Benjamin: citando Valéry, ele observa que o narrador cujo saber se amparava na tradição, na experiência vivida e compartilhada, adequava-se ao tempo da natureza, harmonizando-se ao seu ritmo. Assim como as coisas perfeitas produzidas pela natureza tinham um tempo longo, necessário, para ganhar existência (pérolas, vinhos, pedras, criaturas…), também o narrador, ao dar corpo às suas histórias, imitava essa paciência. Esse lento fluir do tempo, marcando as ações humanas, é algo perdido para a modernidade: “O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado”10, diz Valéry.
Assim o tempo ganha outra consistência no lento trabalho de recuperação das escritoras do passado. Trabalho que nos permite, além de ampliar e redimensionar a história literária brasileira, mudar nossa concepção dessa mesma história. Pois, como diz Jeanne-Marie Gagnebin, apoiada em Todorov, “cada história é o ensejo de uma nova história, que desencadeia uma outra, que traz uma quarta, etc; essa dinâmica ilimitada da memória é a da constituição do relato, com cada texto chamando e suscitando outros textos”11. Desse modo, o passado se transforma de monumento, diante do qual por tanto tempo nos mantivemos em posição de referência/reverência, em documento, com o qual travamos uma relação crítica. Trata-se, então, não apenas de salvar o passado, como quer Benjamin, mas também de aniquilá-lo12: arrastamos o passado ao tribunal e o condenamos. Porque as vozes silenciadas das mulheres na história não precisam mais de nós. Elas agora habitam o sono, indiferentes às respostas, que hoje lhes poderíamos ofertar, às terríveis perguntas que elas fizeram em seu tempo. Somos nós que precisamos das perguntas que elas fizeram13. Para que exerçam sobre nós a força germinativa que as histórias contém14: para que, agindo como sementes, sua força conservada no tempo atue sobre nosso olhar de leitoras. Pois, como diz Italo Calvino, as leituras que fazemos, ausentes de todos os cânones — aquelas que vão forjando nossa tradição literária na experiência pessoal, íntima, da leitura que se constrói lentamente como uma entrega amorosa —, tais leituras dão forma às nossas experiências futuras, fornecendo “modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza”15: todas, coisas que marcam indelevelmente nossa experiência de vida e de leitura.
No caso de nossa relação com os textos das escritoras do século XIX, cremos que essa semente é germinativa no sentido de nos auxiliar, a nós, como suas leitoras, a nos percebermos como vozes entre outras vozes, a apurar nossos ouvidos para perceber as vozes todas que se encontram em nossos discursos. Subjazem, a essas muitas vozes, muitas perguntas: como seriam esses discursos se essas mulheres do passado tivessem ido muito além do lamento, da mágoa e da raiva que impregnam os textos em que buscam timidamente se representar? Como seria hoje contada a história deste país ou de sua literatura se tais vozes lhe tivessem acrescentado uma visão outra, descentrada? Ou ainda, como propõe Caren Kaplan16 , haverá estratégias de leitura e de escrita capazes de historicizar e desconstruir mitologias do nacionalismo e do individualismo?
Ao empreendermos essa viagem a um século XIX praticamente desconhecido do leitor brasileiro, já no século XXI, um novo modo de olhar para a tradição literária brasileira se nos apresenta, e uma só visão homogênea — um país, um centro, um modelo, uma metrópole, uma família, uma tradição — se transforma, se estilhaça, nas mãos das mulheres que ressuscitam em Escritoras brasileiras do gêculo XIX. É assim que podemos ler o conto ‘A escrava’, de Maria Firmina dos Reis, em que se conta a escravidão do ponto de vista do negro, ou melhor, da mulher negra. Assim tamgêm se pode ler o poema ‘O soldado do Paraguai’, de Rita Bagêm de Melo, que revisita a contrapelo, marcada pela ironia, a história da guerra. Ou ainda o poema ‘A lágrima de um caeté’, de Nísia Floresta, em que Paulo Bezerra identifica “a imagem de um índio condenado à civilização, com valores culturais superiores aos do colonizador, de quem ele cobra os bens que lhe foram roubados”17. São exemplos esparsos que aqui indicamos apenas para sublinhar o que tentamos dizer: que as escritoras do passado, ao buscar se representar, assumindo todos os riscos da recusa da representação pela voz dos outros, construíram para o futuro — para nós — não apenas uma imagem outra de si mesmas, bastante diferente daquela que a tradição hegemonicamente nos legou nas histórias contadas sobre a mulher burguesa do segundo império, mas também outras histórias, diferentes da História. Não por acaso, o problema da representação é hoje um dos temas centrais para a teoria feminista. No centro dessa preocupação está o entendimento de que o ato de representar constitui o processo no qual um sujeito fala em lugar de outro. Nesse processo, o outro não se constitui como sujeito, pois não assume um discurso através do qual possa enunciar-se por si mesmo. Como objeto do enunciado alheio, ele se deixa impregnar pelas valorações e pela visão de mundo daquele que o representa. Nesse sentido, representar significa, de modo geral, silenciar e marginalizar o outro. Sabemos a quem, historicamente, tem sido destinada a posição do Outro. Empreender a leitura das escritoras do passado, encontrar sua voz dissonante em relação à tradição que as posicionou, é um gesto imbuído do significado político de construção de um espaço outro, para além da ideologia do gênero18. Isso não significa saudar nostalgicamente o passado, mas, pelo contrário, incorporar as vozes do passado num discurso que se faz aqui e agora, nem nostálgico nem utópico, mas traçado, como sugere Teresa de Lauretis, nas margens dos discursos hegemônicos, como “espaços sociais entalhados nos interstícios das instituições e nas fendas e brechas dos aparelhos de poder-conhecimento”19.
Assim como os textos reunidos pelas pesquisadoras desconstroem uma representação homogênea do lugar da mulher, seja na história, seja na literatura do século XIX, eles também acabam por solapar qualquer idéia que equivocadamente pudéssemos ter de uma identidade comum a unir todas essas escritoras. Em sua leitura, percorremos toda a variedade de pensamentos que povoam nosso passado, desde a adesão mais entusiasmada à ideologia colonial até o ímpeto revolucionário; da obediência estreita aos ditames da convenção literária da época até sua aberta paródia; do conformismo (a sério ou não) às rígidas hierarquias sociais, como nos Conselhos de Bárbara Heliodora a seus filhos — “Com Deus, e o rei não brincar,/ É servir e obedecer,/ Amar por muito temer,/ Mas temer por muito amar,/ Santo temor de ofender/ A quem se deve adorar!” — até o desabafo indignado da escritora anônima — “Triste sorte a nossa. Para alguma cousa melhor nascemos!”. Assim, lembrando, com Donna Haraway20, a dolorosa fratura que nos impede o retorno ao aconchego de um nós que nos abrigaria a todas, numa unidade tão doce quanto impraticável, caberia ainda interrogarmos, ao encararmos a variedade de discursos que constituem este corpus provisoriamente reunido, quantas mulheres se encontram por trás desse véu que apenas começamos a levantar, o véu da ‘mulher’ do século XIX? Quantas diferenças se encobrem sob essa aparente identidade que começamos a investigar?
A paciência e a paixão de que fala Zahidé Muzart na introdução de seu livro retornam aqui como uma síntese do que acreditamos ser o valor maior desse trabalho de resgate das autoras do século XIX. Paciência para realizar o trabalho quase artesanal que é ouvir e fazer falar a experiência — ou melhor, a multiplicidade de experiências, distintas, que se tinham volatizado no tempo. Paixão porque justamente se questiona, através das estratégias feministas de leitura ou releitura do passado, o valor dos critérios de objetividade e cientificidade reivindicados pelo sujeito do conhecimento das ortodoxias intelectuais. A leitora crítica feminista é — ao contrário desse sujeito supostamente neutro, não posicionado — posicionada no espaço, no tempo, sexual e politicamente; por isso mesmo ela trava com o texto que analisa uma relação que não é neutra nem impessoal, mas interessada, intensa e, muitas vezes, por que não, apaixonada.
É importante ressaltar o mérito de como o livro foi montado: ele é, como já dissemos, todo centrado nas escritoras brasileiras do século XIX, e as pesquisadoras deram a autoria àquelas que ainda não haviam aparecido em conjunto. Basta ver o índice. Sintomaticamente a história da crítica contemporânea é anunciada e iniciada quando os nomes e as especificações acadêmicas das quinze pesquisadoras fecham o livro, a pesquisa, a história, ou como acharmos que se deve nominar isso. São elas as responsáveis: Ana Helena Cizotto Belline, Constância Lima Duarte, Eliane Vasconcellos, Ivia Duarte Alves, Lizir Arcanjo Alves, Luzilá Gonçalves Ferreira, Maria Tereza Caiubi Crescenti Bernardes, Nancy Rita Vieira Fontes, Norma Telles, Rita Terezinha Schmidt, Sylvia Perlingeiro Paixão, Valéria Andrade Souto-Maior, Valéria Cardoso da Silva, Yasmin Jamil Nadaf e Zahidé Lupinacci Muzart.
A partir dessas colocações, propomos é que este livro não seja ponto de chegada, mas ponto de partida para se escrever uma história que não opte apenas pela inclusão dos nomes das autoras, dos títulos, mas que incorpore a leitura das obras nas concepções norteadoras do século XIX.21 Não há tempo aqui para se reavaliar, por exemplo, as alterações na estética romântica com a inclusão desses textos escritos por mulheres. Ou da estética parnasiana ou simbolista com a inclusão das poetas ali reunidas.
Inegavelmente, as quinze pesquisadoras já nos deram os caminhos e a bibliografia básica. Em linhas gerais elas repensaram a literatura, como que vasculhando a história da cultura em busca do que deve ser mencionado, senão para demonstrar, ao menos para apontar uma correspondência entre o que consideram estar dentro e fora do texto. O que devemos avaliar, com questionamento e auto-crítica, é se as inquietações que têm movido a crítica e a historiografia feministas encontram neste trabalho algumas respostas. Pois cabe aqui lembrar o que dizia a pesquisadora Zahidé Muzart em 1994, num encontro realizado na UFSC: “Somente agora estamos descobrindo no Brasil a literatura feminina do século XIX e, embora já possamos contar com várias pesquisadoras envolvidas em projetos de resgate, não temos ainda conclusões definitivas mas somente questionamentos e hipóteses — direções de percurso”22 .
Ao fazer os textos falarem, Escritoras Brasileiras do Século XIX promove a transformação de mais de sessenta mulheres em texto, e nos permite ensaiar uma nova história da literatura no Brasil. Cabe ainda — e a nós outras, em um esforço integrado — superar a fase apontada por Zahidé Muzart de questionamentos e hipóteses, e saber aproveitar o que a princípio é atordoante: mil páginas, cinqüenta e uma escritoras do século XIX, centenas de temas, mágoas, vidas, cartas, falas e poemas, quinze pesquisadoras do século XX, uma editora chamada, e dirigida por, Mulheres, histórias de uma literatura/cultura ainda a ser definida, assimilada e entendida no século XXI. Temos muito o que fazer a partir de agora com essa matemática predominantemente feminina.
 
Publicado em Estudos Feministas (Rio de Janeiro), v. 7, n. 1. 2, 1999.
Notas (para voltar ao texto, clique nos números)
1 Zahidé Lupinacci Muzart (org.). Escritoras Brasileiras do Século XIX. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1999.
2 In H. Bhabha (ed.). Nation and Narration. London/New York: Routledge, 1990, p. 47 e 49.
3 E. Hobsbawm. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, p. 8.
4 In Benedict Anderson. Nação e Consciência Nacional. São Paulo: Ática, 1989, p. 14.
5 Luciana Stegagno-Picchio. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1997.
6 Brito Broca. As Mulheres na Literatura Brasileira. In: Românticos. Pré-Românticos. Ultra-Românticos. Polis/INL, 1953.
7 Walter Benjamin. Sobre o conceito de história. In: ____. Magia e técnica; arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 223.
8 Zahidé L. Muzart (org.). Op. cit., p. 24.
9 Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981, p 27 e 96.
10 Walter Benjamin. O narrador. Considerações dobre a obra de Nikolai Leskow. In: ____. Op. cit., p. 206.
11 Jeanne-Marie Gagnebin. Walter Benjamin ou a história aberta. In: ____. Op. cit., p. 13.
12 Monumento, documento, salvar, aniquilar: usamos aqui Nietzche e Benjamin.
13 A partir da sugestão do poema ‘Procura da poesia’, de Carlos Drummond de Andrade.
14 Walter Benjamin. O narrador. Op. cit., p. 204.
15 Italo Calvino. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 10.
16 Caren Kaplan. Autobiografia de resistência: gêneros fora-da-lei e sujeitos feministas transnacionais. Travessia, n. 29/30. UFSC, ago.94-jul.95, p. 63-99.
17 Paulo Bezerra. Um toque feminino na literatura brasileira. Jornal da Tarde. São Paulo, 18 de setembro de 1999.
18 Cf. Teresa de Lauretis. A tecnologia do gênero. In: Heloísa Buarque de Hollanda (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 206-42.
19 Idem, p. 237.
20 Donna Haraway. Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80. In: Heloísa Buarque de Hollanda (org.). Op. cit., p. 243-88.
21 João Hernesto Weber. A Nação e o Paraíso. Florianópolis: UFSC, 1996.
22 Zahidé Luppinacci Muzart. Na aprendizagem da palavra: a mulher na ficção brasileira — século XIX. In: Fazendo gênero. Seminário de Estudos sobre a Mulher. Florianópolis: UFSC. 1994/ Ponta Grossa: UEPG, 1996, p. 77-83.





Bio fornecida pelo palestrante.

Mulher e Literatura no Século das Luzes ou Reflexões sobre Historiografia Literária





Ceila Ferreira Brandão
Doutoranda/FFLCH – USP

Canto porque já não posso ver as sombras e só me disponho para as luzes.
Teresa Margarida da Silva e Orta, Aventuras de Diófanes
Para pesquisarmos a literatura luso-brasileira do século XVIII, devemos consultar as histórias de literatura brasileira e portuguesa produzidas ao longo dos tempos, mas temos, também, que ler os textos escritos no período colonial e possuir idéia mais clara sobre a circulação e entrada de livros no Brasil e em Portugal, no Setecentos.
Dentro dessa perspectiva, estamos desenvolvendo nossa Tese de Doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com o subsídio da FAPESP.
“Sob as luzes e as sombras do Iluminismo: a obra de Teresa Margarida da Silva e Orta” (São Paulo, 1711 ou 1712 – Belas, Portugal, 1793) é o título do nosso projeto de Tese, uma edição crítica dos textos literários da autora de Aventuras de Diófanes.
Nesta comunicação vamos apresentar duas questões que afloram do texto produzido por Teresa Margarida: a presença de imagens, palavras e temas caros à Ilustração e a representação da mulher nas páginas tecidas pelas mãos de uma escritora no século XVIII.
Nesse sentido, vamos apresentar algumas informações e reflexões sobre o Século das Luzes, mais especificamente, sobre a Ilustração e a obra de Teresa Margarida da Silva e Orta, escritora que nasce em São Paulo, Brasil, na segunda década do Setecentos e vive a maior parte de sua vida em Portugal.
Segundo Antonio Candido, no primeiro volume de Formação da literatura brasileira, quando pensamos em literatura comum (brasileira e portuguesa) e falamos de Ilustração, devemos ter em mente:
[…] o conjunto das tendências ideológicas próprias do século XVIII, de fonte inglesa e francesa na maior parte: exaltação da natureza, divulgação apaixonada do saber, crença na melhoria da sociedade por seu intermédio, confiança na ação governamental para promover a civilização e bem estar coletivo. Sob o aspecto filosófico, fundem-se nela racionalismo e empirismo; nas letras, pendor didático e ético, visando empenhá-las na propagação das Luzes”. 1
Ainda conforme Antonio Candido:
O momento decisivo em que as manifestações literárias vão adquirir, no Brasil, características orgânicas de um sistema, é marcado por três correntes principais de gosto e pensamento: o Neoclassicismo, a Ilustração, o Arcaismo. 2
O ano de 1750 é estabelecido pelo autor de Formação da literatura brasileira como o início desse momento decisivo.
Para Antonio Candido, 1750 é uma data “puramente convencional”, mas, o eminente professor esclarece que, ao adotá-la, leva em conta a Academia dos Seletos (1752), a dos Renascidos (1759) e os primeiros trabalhos de Cláudio Manuel da Costa (1750).3
1750 é também o ano em que Teresa Margarida da Silva e Orta apresenta à Censura do Santo Ofício, do Ordinário e do Paço as Máximas de virtude e formosura com que Diófanes, Climinéia e Hemirena, príncipes de Tebas, venceram os mais apertados lances da desgraça, que mais tarde recebem o título de Aventuras de Diófanes.
Na Formação da literatura brasileira, livro essencial para o estudo e compreensão da nossa literatura, Antonio Candido não escreve uma palavra sequer sobre Teresa Margarida da Silva e Orta. Contudo, tal escritora tem participação ativa na difusão de idéias iluministas em Portugal e também no Brasil, pois seu livro, hoje mais conhecido pelo título de Aventuras de Diófanes, é um dos mais encontrados nas livrarias do Brasil Colônia. Tal informação colhemos em o Perfil do leitor colonial, Tese de Doutorado defendida por Jorge de Araújo, na Faculdade de Letras da UFRJ.4
Sobre o romance de Teresa Margarida existe uma Dissertação de Doutoramento intitulada, Crítica e confluência em Aventuras de Diófanes, defendida pela Professora Maria de Santa Cruz, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que, ao final de seu trabalho, apresenta uma lista “das principais obras, publicadas no século XVIII, de autores ultramarinos (brasílicos…) contemporâneos de Teresa Margarida” com o objetivo de:
“[…] demonstrar como Aventuras de Diófanes se insere no conjunto, inaugurando a segunda metade do século XVIII brasílico, diferenciando-se e inovando, contrastando não só pelo gênero como pela ousadia das suas reflexões político-filosóficas, para não aludir à audácia de introduzir neste todo um nome feminino […]”.5
Sobre Aventuras de Diófanes, escreve Rubens Borba de Moraes em Bibliografia brasileira do período colonial, que as obras produzidas por Teresa Margarida e seu irmão Mathias Aires, autor das Reflexões sobre a vaidade dos homens, são de difícil classificação e por tal motivo esquecidas tanto pela historiografia literária brasileira, quanto pela portuguesa. Aliás, por falar em Rubens Borba de Moraes, cabe aos estudiosos de literatura brasileira reconhecer a importância de sua obra injustamente esquecida.
Voltando a Teresa Margarida da Silva e Orta, é necessário tecermos algumas observações sobre a entrada de idéias iluministas em Portugal para compreendermos o contexto histórico em que é produzida a obra daquela que encobre seu nome com o pseudônimo Dorotéia Engrássia Tavareda Dalmira.
A Ilustração começa a invadir Portugal no reinado de D. João V, conhecido pelo título de o Magnânimo. No reinado do Rei Sol português, dá-se a entrada dessas idéias num Portugal ainda preso à Inquisição, através da atividade de pessoas que a historiografia portuguesa chama de estrangeirados. Nesse sentido, Estrangeirados são os divulgadores da Ilustração no reino português.
Após a Restauração (1640), Portugal procura restabelecer relações diplomáticas com outros países da Europa, e por esse motivo envia homens às embaixadas de Paris, Haia, Londres Roma etc. Dentre aqueles que prestam serviços ao reino português nas embaixadas estrangeiras estão Alexandre de Gusmão, escrivão da puridade de D. João V e Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal.
Alguns portugueses e brasílicos aproveitam a oportunidade para realizar seus estudos no exterior. Esse é o caso de Mathias Aires, irmão da autora de Aventuras de Diófanes, que completa sua formação acadêmica em Paris.
Alexandre de Gusmão, Sebastião de Carvalho e Melo e Mathias Aires são estrangeirados. Estrangeirada é a própria Teresa Margarida. Em Aventuras de Diófanes, escreve:
Também é certo, que para pintar Majestades me faltam os pincéis de Apeles, e não tenho a pena de Homero; mas como sou estrangeira, tenho visto bastante para poder contemplar soberanas propriedades […].6
Tal passagem é uma provável referência a sua condição de divulgadora das novas idéias vindas de França e/ou ao fato de ter nascido no Brasil . A propósito, nas Cartas persas, de Montesquieu, dois personagens estrangeiros, viajantes persas, descrevem a França.
Em Aventuras de Diófanes, a narradora/autora, uma estrangeira, e porque estrangeira, pode olhar com isenção os acontecimentos, transporta a luta travada, no reinado de D. João V, entre a superstição e as luzes para o palco do teatro de seu livro.
Em Aventuras de Diófanes, há a influência de Fénelon (François de Salignac de La Mothe, 1651-1715), um dos precursores da Ilustração. Tal influência já aparece estampada na Gazeta de Lisboa de 17 de agosto de 1752, ano em que é publicada a primeira edição do romance de Teresa Margarida, com o título de Máximas de virtude e formosura.
Diz a Gazeta de Lisboa:
Também saiu à luz o livro intitulado Máximas de virtude e formosura, obra discreta, erudita, política e moral, em que a sua Autora, se não estrangeira ao menos peregrina, no discurso, e na elegância, imita, ou excede ao Sapientíssimo Fénelon na sua viagem de Telémaco fazendo-se digna das mais atenciosas venerações. Vende-se na loja de Francisco da Silva de fronte de S. Antônio. 7
De Fénelon, Teresa Margarida conserva a oposição ao regime absolutista, mas a aceitação do regime monárquico. Conserva também a preocupação didática e pedagógica, porém, a autora de Aventuras de Diófanes apresenta maior preocupação com a educação das mulheres, que considera possuírem os mesmos direitos que os homens quanto à aquisição de conhecimentos.
Sobre a educação das representantes do sexo feminino, escreve Teresa Margarida:
A estas demonstrações gratulatórias assistiam de manhã os Soberanos, e de tarde a Academia das ciências, que em Palácio se fazia, onde eram admitidos homens e mulheres a darem conta do progresso de seus estudos […]. 8
Assim como Fénelon que constrói, em Aventuras de Telémaco, Salento, uma cidade utópica, uma cidade ideal, Teresa Margarida constrói em Aventuras de Diófanes uma ilha onde não há injustiças, não há escravidão e onde os súditos são governados por um rei nascido nas terras que governa. Uma referência ao Brasil? Talvez. Segundo a Professora Maria da Cruz em Crítica e confluência em Aventuras de Diófanes, sim, é uma referência ao Brasil.
Do Iluminismo, Aventuras de Diófanes aproveita os temas. Ciência, felicidade, natureza e virtude estão presentes nas páginas escritas por Teresa Margarida. Sobre a razão e as luzes (metáfora da razão) estamos escrevendo um ensaio e por tal motivo não vamos desenvolver esse tópico no trabalho que hoje apresentamos.
No século XVIII, a experiência científica tem grande impulso. Os cientistas da época buscam desvendar as leis da natureza. Acreditam mesmo que podem descobrir e explicar as leis que regem a natureza e trabalham com categorias como simplicidade, ordem, regularidade. Tais cientistas dão passos decisivos em direção ao que, séculos mais tarde, será chamado de “desencantamento do mundo” por Adorno e Horkheimer, na Dialética do esclarecimento.
Há, em Aventuras de Diófanes várias referências às ciências. Vejamos algumas:
[…] procuro infundir no ânimo daqueles, por quem devo responder, o amor da honra, o horror da culpa, a inclinação às ciências […]. 9
[…] as ciências são o prêmio de si mesmas, como bens, que o tempo respeita […].10
Bereniza, princesa de Atenas, personagem de Aventuras de Diófanes, possui conhecimentos de Astronomia e a protagonista do romance tem o nome de uma estrela: Hemirena. Também os conhecimentos práticos da Astronomia são valorizados:
Antes que deixasse aquele amável sossego, chamei os rústicos, com quem vivia contente: despedi-me dos filhos, que comigo principiavam a observar os movimentos dos Planetas desse luzido Firmamento, de outras, que com mais adiantado conhecimento já iam colhendo os doces frutos de suas aplicações […]. 11
A felicidade é um tema presente na maior parte dos Iluministas. Conforme Jean Touchard, uma das formas de felicidade propostas pelos filósofos é a “felicidade na virtude, na medida e na razão”.12 Em Aventuras de Diófanes, o tema da felicidade está presente nesta acepção. No último capítulo do romance de Teresa Margarida, Diófanes, Climinéia, Hemirena e Arnesto, após experimentarem os sofrimentos decorrentes da escravidão, da perseguição política e do exílio forçado por inúmeros contratempos, alcançam a felicidade duradoura pelo exercício constante da virtude:
[…] se repetiram festivas demonstrações, e muitos vivas àqueles Soberanos, até que entre o estrondo das salvas, e as sonoras vozes dos clarins, perderam de vista a Delos, levando a notícia do gosto, e paz, com que ficavam gozando o verdadeiro afeto dos súditos, e os descansos, para que haviam concorrido as fadigas, conhecendo todos, que sempre é vencedora a verdade, e que a formosura triunfa, quando é constante a virtude.13
Outro tema caro aos iluministas é o elogio à natureza, a busca do natural e do simples. Em Teresa Margarida, como na literatura neoclássica e no arcadismo, a natureza vira refúgio, locus amenus.
Segundo a Professora Doutora Nelly Novaes Coelho em artigo publicado na Revista da biblioteca Mário de Andrade, assistimos, em Aventuras de Diófanes, ao elogio:
[…] à vida natural, simples, rústica e austera, voltada à agricultura e longe dos artifícios da civilização. Antecipando Rousseau, nesta “volta à natureza”, Teresa Margarida vai mais longe do que Fénelon, pois não só acredita que a cidade “infecciona” os homens, como atribui virtudes mais ou menos milagrosas à vida do campo..[…].14
Vejamos esta passagem de Aventuras de Diófanes, em que a natureza aparece como refúgio:
Em uma fresca tarde já cansado se recolhia em o oco de uma árvore, quando ouviu uma voz suave, que docemente cantava; e saindo a buscar a causa de tão suave canto, ouviu o brando sussurro de um rio, que vagaroso se espalhava pela relva […].15
Quando à virtude, antes de falarmos sobre esse tema, gostaríamos de achar atenção para duas questões fundamentais do Século das Luzes: a transformação do vocabulário e o retorno à Antigüidade Clássica.
No Século das Luzes ocorre, segundo Jean Touchard, uma verdadeira revolução no vocabulário político. Ainda conforme Touchard, é aí que a palavra povo deixa de ter apenas o significado pejorativo de populaça para adquirir o sentido de “a parte mais numerosa e necessária da nação”.16
As palavras ciência, felicidade, razão, luzes, verdade, virtude adquirem conotações especiais e a literatura é fertilizada com novos sentidos.
No século em que o ser humano acredita na possibilidade de construção da felicidade, assistimos ao retorno à Antigüidade Clássica. Tal retorno marca também a mudança no vocabulário.
A palavra virtude, por exemplo, perde o elemento religioso e torna-se laica. Em Aventuras de Diófanes, adquire, entre outros significados, o sentido etimológico da palavra latina uirtus: força (própria do uir), vigor.17
Aliás, em Aventura de Diófanes, a alternância ou mesmo a duplicidade de sentidos das palavras marca a representação da figura feminina. Não é sem motivo que o romance recebe, na primeira edição, o título de Máximas de virtude e formosura. Virtude e formosura correspondem aos pólos masculino e feminino, sintetizados na personagem Hemirena. Explico: Hemirena, a protagonista do romance, para “vencer os assaltos de sua cruel fortuna”, veste-se de homem e passa a chamar-se Belino. Hemirena é Hemirena/Belino, aquela que tem virtude e formosura.
A mesma Hemirena, que salva a mãe e o noivo de um naufrágio, é submetida pela ideologia que procura domesticar o corpo das mulheres.
Conforme Norma Telles, no capítulo Escritoras, escritas e escrituras da História das mulheres no Brasil:
O discurso sobre a “natureza feminina”, que se formulou a partir do século XVIII e se impôs à sociedade burguesa em ascensão, definiu a mulher, quando maternal e delicada, como força do bem, mas, quando “usurpadora” de atividades que não lhe eram culturalmente atribuídas, como potência do mal.18
Em Hemirena podemos ver a formação desse discurso sobre a natureza feminina, mas também a sua negação. Ao mesmo tempo que Hemirena é a encarnação desse discurso, ela é sua antítese. Feminino e masculino se complementam na figura da protagonista Hemirena/Belino. O feminino, nas Aventuras, pode ser fonte de formosura, mas também, é fonte de virtude. Homens e mulheres têm, segundo a narradora, “igualdade de almas”.19 Assistimos, nas Aventuras, à oscilação entre o discurso sobre a “natureza feminina” domesticada pela sociedade patriarcal e a mulher forte, bela, inteligente, em igualdade de alma com os homens. Dessa oscilação, um verdadeiro duelo, vai predominar, na literatura ocidental, o discurso sobre “a natureza feminina”, formulado pela sociedade burguesa e patriarcal e as diáfanas heroínas românticas passam a povoar os livros e o imaginário do público leitor. Desde então, estava decretada a morte de heroínas transgressoras, como a Lucíola de José de Alencar.
Como podemos ver, Teresa Margarida participa da discussão sobre as mulheres no Século das Luzes.
Conforme Norma Telles, no capítulo supracitado, a mulher, no século XVIII, é aceita como musa ou criatura, nunca como criadora. 20 Daí, os contundentes pedidos de desculpas de Teresa Margarida/Dorotéia Engrássia por haver escrito um livro:
Leitor prudente, bem sei que dirás ser o melhor método não dar satisfações; mas tenho razão particular, que me obriga a dizer-te que não culpes a confiança de que me revisto, para satisfazer ao ardente desejo, com que procuro infundir nos ânimos daqueles, por quem devo responder, o amor da honra, o horror da culpa, a inclinação às ciências, o perdoar a inimigos, a compaixão da pobreza, e a constância nos trabalhos, porque foi este o fim, que me obrigou a desprezar as vozes, com que o receio me advertia a própria incapacidade […].21
Mas, apesar do medo, Teresa Margarida ousa filiar um romance à palavra escrita de uma mulher (Dorotéia Engrássia), que escreve para um público leitor composto de: mulheres e homens.
Nas Aventuras, Hemirena finge ser Belino para poder reencontrar os pais e o caminho de volta para o seu reino. Porém, a narradora do romance não deixa de informar aos leitores que Belino é uma mulher: Hemirena, aquela que atravessa mares, enfrenta tempestades e não perde a ternura jamais.
 
Notas:
(para voltar ao texto, clique nos números vinculados; veja também a referência bibliográfica)
1 CANDIDO, Antonio (1981) p. 43-44.
2 CANDIDO, Antonio (1981) p.43.
3 CANDIDO, Antonio (1981) p. 25
4 Esse primoroso trabalho de Jorge de Araújo encontra-se no Banco de Teses da Faculdade de Letras da UFRJ.
5 CRUZ, Maria de Santa (1990) p. 653.
6 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 56.
7 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 200.
8 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 184.
9 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 56.
10 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 114.
11 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 78.
12 TOUCHARD, Jean ( 1970) p. 50-51.
13 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 195.
14 COELHO, Nelly Novaes (1995) p.31.
15 èXT€èXT€ Ter ߀Margarida da Silva e (1993) p. 76.
16 TOUCHARD, Jean (1970) p. 47.
17 FARIA, Ernesto (1994) verbetes uirtus e vir.
18 TELLES, Norma (1997) p. 403.
19 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p.11.
20 TELLES, Norma (1997) p. 403.
21 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 56.
 
Referências Bibliográficas:
ARAÚJO, Jorge. Perfil do leitor colonial. Rio de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1988, Tese de Doutorado.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6. Ed. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981, v.1.
COELHO, Nelly Novaes. A imagem da mulher no século XVIII: Aventuras de Diófanes de Teresa Margarida. In: Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, 1995, p. 31.
CRUZ, Maria de Santa. Crítica e confluência em Aventuras de Diófanes. Lisboa,
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1990. Dissertação de Doutoramento.
FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino-português. 7. ed, Brasília, FAE, 1994.
MORAES, Rubens Borba de. Livros e bibliotecas no Brasil colonial. Rio de Janeiro; São Paulo, Livros Técnicos e Científicos; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.
ORTA, Teresa Margarida da Silva e. Obra reunida. Rio de Janeiro, Graphia, 1993.
TELLES, Norma. Escritoras, escritas, escrituras. In: DEL PRIORE, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto, 1997.
TOUCHARD, Jean (dir.) História das idéias políticas. Lisboa, Europa-América, 1970, v. 4.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

O erotismo poético de Gilka Machado: um marco na liberação da mulher




O erotismo poético de Gilka Machado: um marco na liberação da mulher

Angélica Soares
Universidade Federal do Rio de Janeiro

E que gozo sentir-me em plena liberdade,
longe do julgo atroz dos homens
e da ronda da velha sociedade.

Os três versos, em epígrafe, publicados em 1915 no primeiro livro de poemas, Cristais partidos, já nos transmitem (como tantos outros) o pioneirismo de Gilka Machado (Rio de Janeiro, 1893-1980) na abertura de espaços contra o paradigma masculino dominante, através da criação literária.
As imagens acima levam-nos também a repensar, em diálogo com a poesia gilkiana, o sistema super-repressivo no qual se inscreve e pelo qual se escreve a história da mulher.
Sendo assim, pareceu-nos bastante sintomático o título Meu glorioso pecado, dado ao livro de 1928, constituído integralmente de poemas eróticos, aos quais nos dedicamos neste ensaio. Isto porque, com uma linguagem desveladora de um processo de afirmação da identidade feminina, os ” – Amores – que mentiram, que passaram”, se por um lado estruturam-se como conquista e vitória da mulher (daí a marcação textual de “glorioso”), por outro lado mantém os índices de repressão, aparecendo como “pecado”. E, por isso, Gilka nos reconduz, obrigatoriamente, ao peso da “culpa original”, impressa no texto bíblico:
“A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligéncia, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente. Então os seus olhos abriram-se, e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si” (Génesis, 3, 6 e 7).
 
Quando Deus interroga o homem, este culpa a mulher dizendo: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto e eu comi” (Génesis, 3, 12). E, embora a mulher se tenha dito, ao Senhor Deus, enganada pela serpente, ele impõe-lhe o castigo:
“Multiplicarei os sofrimentos do teu parto, darás à luz com dores; teus desejos tei impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.” (Génesis, 3, 16)
 
O domínio masculino passa a se justificar e a ser vivenciado pela mulher cristã como castigo pelo pecado, que envolve culpa e sexo. Acrescente-se a isso a garantia da supremacia do homem pelo ato de criação que, em várias versões da Bíblia, apresenta a mulher surgida de uma costela de Adão.
A “moral sexual cristã” veio historicamente sustentando a negatividade do prazer físico e da sexualidade e, conforme nos relata Foucault, veio enfatizando, embora já objeto da “moral sexual do paganismo antigo”, “a proibição do incesto, a dominação masculina e a sujeição da mulher”. A estrutura familiar patriarcal, por sua vez, reproduziu essa situação. E, ainda nas lições de Foucault, vemos que o poder, o saber e o prazer sempre estiveram juntos; “que as relações de poder não se encontram em relação de exterioridade com respeito a outros tipos de relações (processos econômicos, relações de conhecimentos, relações sexuais) mas lhe são imanentes”; e que:
“Nas relações de poder, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade: utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de ponto de apoio, de articulação às mais variadas estratégias.”
Diferentes mecanismos de dominação uniram a sexualidade feminina simplesmente à procriação e reservaram para a mulher uma função exclusivamente materna, retendo-a no espaço doméstico e, como figura secundária, vivendo à margem do processo, sem autonomia para traçar os seus caminhos – realidade também impressa poeticamente por Gilka Machado, em seu primeiro livro:
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida: a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea
e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida trsite, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e oh! Atroz, tantálica tristeza!
Ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
(“Ser mulher”, p. 56)
 
O poema constrói-se com base na antítese entre o desejo de liberdade da mulher e a prisão que lhe oferece a sociedade machista; entre a busca da completude no “companheiro” e o encontro da sustentação da incompletude, na figura de “um Senhor” (dono, proprietário, amo, patrão, repressor e agente do isolamento).
Embora ainda ligado à idealista matriz romântica (principalmente nas imagens do “infinito” e na retórica sentimental e exclamativa), os versos trazem, em imagens vigorosas, a crítica social.
A situação de dependéncia e o sentido de punição, caracterizadores da realidade que se oferece à mulher, são enfatizados pelo jogo das aliterações de “… atroz, tantálica tristeza”, jogo que ressalta a opção poética pela imagem rara, como forma de melhor simbolizar a impossibilidade de realização feminina, na referéncia mítica a Tântalo.
“… cujo suplício, por haver roubado os manjares dos deuses para dá-los a conhecer aos homens, era estar perto da água, que se afastava quando tentava bebé-la, e sob as árvores que encolhiam os ramos quando tentava colher os frutos.”
Gilka Machado parece-nos querer mostrar nas entrelinhas que, além da auto-repressão (interna) resultante da ação do superego, auto-repressão que caracteriza o psiquismo humano (conforme postulou Freud), além dos efeitos de uma repressão externa, imposta a todos pelo conjunto de preceitos religiosos e sócio-econômicos; a mulher sofre ainda uma carga repressiva maior, pelo fato de que as leis sempre foram feitas pelo homem.
Lembra-nos Lúcia Castello Branco que o elemento feminino, impulsionado pelo vigor de Eros, ameaça sempre veladamente a ordem social, remetendo essa referéncia ao discurso de Aristófanes, no Banquete, de Platão, ao narrar a partição dos andróginos:
“Dos seres bipartidos de Aristófanes, a mulher foi aquele que conservou maior parentesco com sua situação anterior de androginia. Durante a gestação, a mulher revive, ainda que temporariamente, a totalidade que lhe foi roubada por Zeus: é completa e “redonda” como os seres originais de Aristófanes. Alem disso, a gestação lhe permite o contato íntimo com a origem e, paradoxalmente, com a morte: é somente através da “morte” do óvulo e do espermatozóide que se origina nova vida; é somente através da “morte” de seu estado de completude que o filho pode nascer. A mulher carrega, portanto, a capacidade natural de experienciar a totalidade e a fusão com o universo e de viver temporariamente sob os desígnios de Eros.”
Não devemos nos esquecer também, conforme nos adverte Marcuse, de que “… no mundo de Prometeu, Pandora, o princípio feminino, sexualidade e prazer, surge como maldição – desintegradora, destrutiva” –, observação que reflete, simbolicamente, a depreciação, pela sociedade patriarcal, da capacidade construtiva da mulher, como forma, entre outras, de defesa de um espaço, que o homem sempre quis reservar para si próprio – estratégia de manutenção do seu domínio.
Com a crescente participação da mulher no trabalho assalariado e em outros setores da vida pública (decorréncia da expansão das chamadas liberdades burguesas), ela vem, no entanto, progressivamente conscientizando-se de sua própria força; o que se dá, simultaneamente, pela progressiva descoberta de uma nova relação com o corpo e com o prazer. Essa simultaneidade fica mais clara quando compreendemos, com Bataille, que, pelo erotismo se transforma a atividade meramente sexual (esta concernente a todo animal) em “uma busca psicológica”, em um momento de questionamento do ser, configurando-se, assim, o erotismo, como um aspecto da vida interior do ser humano, que é sempre vivenciado como transgressão e como uma experiéncia de crescimento e enriquecimento.
No exercício erótico de sobreposição da transgressão à proibição, a mulher vai investir, fortemente, na busca de constituição de sua identidade. Isto porque, como já tivemos oportunidade de ressaltar, “O autoconhecimento (erótico) leva ao conhecimento do outro e do mundo e à consciéncia do poder de transformá-lo com vontade própria”. Assim, a ruptura com o modelo dominante (da superioridade do masculino), ao se dar no espaço da experiéncia erótica (no direito ao prazer e não na obrigação de procriar), dá-se também no espaço social (na ação da mulher, enquanto construtora da sociedade).
A libertação do corpo feminino vem agenciando uma liberação da linguagem. A transmissão poética do erotismo feminino, através de uma percepção também feminina, vem-se impondo como uma manifestação da face contestadora da literatura. Poeticidade e emancipação feminina, poesia erótica e denúncia social tém-se associado, “no projeto de construção individual e social da mulher, des-mitificando o condicionamento redutor”, projeto fortemente alicerçado, no Brasil, por Gilka Machado, de cuja obra, a partir daqui, ressaltaremos Meu glorioso pecado, conforme anunciamos no início deste ensaio quando, motivados pelo título, decidimos antecipar em diálogo com a poetisa, algumas observações teóricas.
No poema de abertura do livro já se configuram, nitidamente, imagens da conexão erótica, da fusão dos corpos e o forte desejo de conhecimento, aparecendo-nos este desejo como inquietações próprias de um “eu” feminino, desafiado ainda pela presença incógnita do outro:
Quem és tu que me vens, trajando a fantasia
do meu sonho sonhado em vinte anos de dor?!
Quem és tu cujo olhar de chama desafia
todo o meu raciocínio e todo meu poder?!
De tal modo teu corpo ao meu corpo se alia,
que chegamos agora a um só todo compor;
e em vão te olho do rosto a máscara sombria,
na ânsia de te sentir a verdade interior.
Quem és tu? – nada sei! Nesta paixão de um dia.
As eterizações do ambiente embriagador,
perco-me a te buscar, numa doce agonia…
Quem me dera, nesta hora, a ti mesmo transpor,
e ver, de ti no fundo, esse alguém que me espia,
dentro do carnaval desta noite de amor!…
(“Quem és tu que me vens, trajando a fantasia”, p. 159)
 
De início convém ressaltar, na primeira estrofe, a presença de um dos sinais anunciadores do erotismo mais valorizados no discurso poético gilkiano: o “olhar”; aqui aparecendo como símbolo do desafio vivido pelo “eu”, para conhecer a “verdade interior” do parceiro, que se mostra através de uma “máscara sombria”. É nítida, portanto, a busca de conhecimento de si mesmo e do outro que integra a atividade erótica. E também por isso vem sendo o erotismo tão explorado na poesia de autoria feminina, em nossos dias.
A segunda estrofe, mantendo o posicionamento da primeira, ressalta o desejo de completude e unidade caracterizador da atuação de Eros e negado à mulher, como forma de controle social.
Para além do caráter individualizador da cena amorosa poematizada, os dois tercetos finais do poema remetem-nos para a ânsia de “transpor/e ver…” ações fundamentais no feminismo nascente.
Do soneto seguinte, assomam, principalmente, dois ângulos da questão feminina. Ainda se marca textualmente a superioridade masculina, porém já se projeta a consciéncia das potencialidades femininas reprimidas – um pequeno avanço, embora apoiado em idealizações:
 
Mal assomou à minha ansiosa vista
o teu perfil que invoca o dos rajás
senti-me mais mulher e mais artista,
com requintes de sonhos orientais,
Do teu amor à espléndida conquista,
minha carne e minha alma são rivais:
far-me-hei a sempre inédita, a imprevista,
para que cada vez me queiras mais.
Feitas de sensações extraordinárias,
aguardam-te em meu ser mulheres várias,
para teu gozo, para teu festim.
Serás como os sultões do velho oriente,
só meu, possuindo, simultaneamente,
as mulheres ideais que tenho em mim…
(“Mal assomou à minha ansiosa vista”, p. 159-150)
 
A possibilidade de ser “mais mulher”, através de uma maior exploração dos sentidos, nos aparece como o eixo condutor das imagens do poema.
Não apenas ser conquistada, já é uma mudança de ponto de vista. A fragilidade desse projeto se enuncia, no entanto, quando o “gozo” e o “festim” são tão-somente ofertados ao homem (veja o possessivo “teu”) e não textualizados como experiéncia compartilhada. O “serás… só meu” se vé enfraquecido, pelo fato de que o parceiro mantém os direitos do possuidor.
Se por um lado a mulher procura libertar as suas múltiplas faces no ato da conquista amorosa (“aguardam-te em meu ser mulheres várias”), por outro lado guarda os traços da submissão (“Para teu gozo, para teu festim”). Habituada à sujeição masculina e à obediéncia aos ideais de castidade, o fazer-se “sempre inédita” e “imprevista” pode hoje ser lido por nós como um contraditório avanço. Daí, tantas vezes, em que o erotismo se registra poeticamente por formas mais audaciosas, ele se apresentar em sonho. E não é este, segundo Freud, “a realização de desejo… sob a dominância do princípio do prazer…”? Vejamos como essa atitude se estrutura liricamente em um trecho do poema “Há lá por fora um luar:
 
(…) Não é noite nem dia,observo, com surpresa,
uma triste alegria
em toda a natureza
medita bem que paradoxo no ar,
que dolorosa orgia
em que a alma peca com vontade de chorar!
Em que há quanto prazer, em que há tortura quanta,
em que, sem te possuir, sou toda tua…
O meu amor por ti é uma noite de lua
misto de ódio e paixão com que repilo e quero
todo o teu ser do modo mais sincero,fugindo-te e sonhando, a cada instante,palpitante de gozo
meu corpo amado e amante
ao teu abraço cálido e nervoso.
(“Há lá por fora um luar”, p. 161)
 
Alicerçadas no romântico emblematismo da natureza, as imagens desenham uma mulher dividida entre o desejo e a sua rejeição. Por isso, como “em toda a natureza”, ela localiza em si mesma uma “dolorosa orgia”, que reúne, contraditoriamente, o “prazer” e a “tortura”, a “alegria” e a “tristeza”, o “ódio” e a “paixão”. Por isso, também, é no sonho que ela ousa viver as palpitações do “gozo” e a participação ativa do seu corpo “amado e amante”. Fica, entretanto, nas origens daquela divisão, o sentido do pecado, a que Gilka Machado refere-se, explicitamente, no sétimo verso citado.
A consciéncia poética da sofrida divisão se constrói mais fortemente em:
A que buscas em mim, que vive em meio
de nós, e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai, de onde me veio,
trago-o no sangue assim como uma tara.
Dou-te a carne que sou… mas teu anseio
fora possuí-la – a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar ao mundo alheio,
essa que tão somente astros encara.
Porque não sou como as demais mulheres?
sinto que, me possuindo, em mim preferes
aquela que é o meu íntimo avantesma…
E, ó meu amor, que ciúme dessa estranha,
dessa rival que os dias me acompanha,
para ruína gloriosa de mim mesma!
(“A que buscas em mim, que vive em meio”, p. 164)
Numa sociedade que tem, como um dos pilares, a dessexualização da mulher, com a experiéncia da castidade e ataque aos comportamentos considerados imorais, é perfeitamente inteligível que a carne e o espírito não se conciliem. E que, como vimos poetizados acima, os desejos do corpo feminino sejam observados, sentidos e tratados como “tara”.
O poema imprime, com nitidez, uma supervalorização do espírito, ressaltando-se, na segunda estrofe, a figura da mulher ideal, moldada pelo patriarcalismo: a que só deve ter olhos para as coisas do céu, deixando que, na terra, decida e governe o homem.
O fato de não corresponder ao modelo machista aparece, então, como “ruína gloriosa”, que liga, mais uma vez, paradoxalmente, os sentidos de vitórias e derrotas, avanços e recuos da mulher, na luta pela constituição de sua identidade.
Em vários outros momentos, porém, o discurso poético traz-nos a assunção, sem restrições, de um “erotismo ardente”, vivido ativamente pela mulher.
Embora dos teus lábios afastada
(Que importa? – tua boca está vazia…)
Beijo esses beijos com que fui beijada,
Beijo teus lábios, numa nova orgia.
Inda conservo a carne deliciada
pela tua carícia que mordia,
que me enflorava a pele, pois,
em cada beijo dos teus uma saudade abria.
Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:
Guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,
numa volúpia imorredoura e louca.
Em teus momentos de lubricidade,
beijarias outros lábios, com saudade
dos beijos que roubei de tua boca.
(“Embora dos teus lábios afastada”, p. 170-1)
 
Aí, não mais se leva em conta a aprovação da sociedade nem, como no poema anterior, o que o parceiro repressor espera ou não da mulher; textualizando-se, então, o intenso gozo experimentado por ela, com todo o transbordamento, o desequilíbrio e a desordem, caracterizadores da paixão. E não falta, sequer, a inscrição da volúpia, favorecida pelo esgotamento, na vivéncia do excesso.
A figura feminina, tantas vezes submissa e arrependida de uma pequena ousadia, é agora substituída por outra, que sabe o que quer e age por vontade própria.
Gilka Machado já projeta nos seus versos, apesar dos preconceitos de toda ordem, uma nova mulher, capaz de deixar, no parceiro, as marcas de sua passagem. E é importante notar a mudança de perspectiva, ao apresentar-nos ela o homem como objeto de desejo. Vejamos um exemplo:
(…)
Teus cabelos embriagam-me o desejo
e são tão úmidos e doces
como favos de mel para meu beijo.
(…)
Dá-me tua cabeça e me persuade,
tendo-a, que tenho nos meus braços presa
a carne flâmea da Felicidade!
pois se no teu cabelo as mãos deponho,
sinto nele palpitar, entre meus dedos,
a plumagem das asas do meu Sonho.
(“Negra, desse negror belo e medonho”, p. 173-4)
 
Merece destaque, no trecho selecionado, o fato de estar ligada a imagem da realização erótica à vivéncia da liberdade (na simbologia das “asas” do “sonho”); ligação bastante sintomática, quando nos reportamos ao fato de que as restrições impostas à mulher pelas correlações de forças repressivas foram sempre feitas, principalmente, a partir de um controle do corpo e suas sensações. É ainda, por isso, também muito significativo que a “Felicidade” (grafada com maiúscula) se apresente corporificada e chamejante (“a carne flâmea da Felicidade!”) a remeter para o clímax do erotismo.
A entrega total da mulher à prática amorosa e à fruição dos prazeres, que constituem os momentos de maior liberação no discurso gilkiano, ganham grande intensidade literária, ao se constituírem através da recriação da comunhão cósmica, que elimina os limites entre o ser humano e a natureza, como no último terceto de:
 
Beijas-me tanto, de uma tal maneira,
boca do meu Amor, linda assassina,
que não sei definir, por mais que o queira,
teu beijo que entontece e que alucina!
Busco senti-lo, de alma e corpo, inteira,
e todo o senso aos lábios meus se inclina:
morre-me a boca, presa da tonteira
do teu carinho feito de morfina.
Beijas-me e de mim mesma vou fugindo,
e de ti mesmo sofro a imensa falta;
no vasto vôo de um delíquio infindo…
Beijas-me e todo o corpo meu gorjeia,
e toda me suponho uma árvore alta,
cantando aos céus, de passarinhos cheia…
(“Beijas-me tanto, de uma tal maneira”, p. 175-6)
 
As imagens gilkianas, ao unirem “alma e corpo” e ao registrarem a derrota da razão pela emoção, nos remetem, mais uma vez, para as lições de Georges Bataille: a conexão erótica, que não pode ser confundida com a busca animal da reprodução, é uma experiéncia do espírito, provocada pela matéria humana, pela carne, através de libertação dos órgãos pletóricos:
 
“(…) cujos cegos movimentos prosseguem para lá da vontade reflectida dos amantes. A essa vontade reflectida sucedem-se os movimentos animais dos órgãos entumecidos. Uma violéncia, que a razão já não controla, anima esses órgãos, conduzindo-os ao orgasmo e à imensa alegria de ceder à força dessa tempestade.”
Inscritos nos versos, o excesso e o transbordamento, aos quais conduz o erotismo, já não configuram a carne com inimigo, o que ocorre sempre que se é obcecado pela proibição cristã. A escrita literária, centrada na vivéncia da liberação do corpo feminino, aponta, então, para um dos caminhos de construção da identidade e de afirmação social da mulher: o caminho da fruição do prazer, como forma de descobrir-se e de descobrir o mundo, fortalecida pelo respeito à sua individualidade e à igualdade de direitos. Esta igualdade já se estrutura, quando a mulher é recriada por Gilka Machado como amada e amante (veja o poema antes abordado: “Há lá por fora um luar”). E bem pode ser a responsável pela visualização do homem e da mulher através de uma mesma metáfora. A imagem da “árvore”, por exemplo, do poema citado anteriormente, retorna para a figuração masculina:
 
Meu amor, como sofro a volúpia da terra,
atravessada pelas raízes!…
É s minha árvore linda,
aos céus abrindo as asas de esperança,
na gloriosa ascensão da mocidade.
Ninguém compreenderá a delícia secreta
das nossas núpcias profundas.
Quanto mais avultares, mais subires,
mais mergulhares em mim.
Aguardei-te longos anos,
com a mesma avidez da gleba pela semente…
tive-te em minhas entranhas, transfigurei-te:
és folha, és flor, és fruto, és agasalho, és sombra…
Mas vem do meu querer inviso e obscuro,
quanto prodigalizas ao desejo
dos que te gozam pela rama.
(…)
(“Meu amor, como sofro a volúpia da terra”, p. 182)
A metaforização telúrica, que sustenta a construção do poema, começa por compor a imagem do gozo feminino e prossegue desenhando a figura do amante, na qual se ressaltam não só a beleza física, mas as qualidades espirituais (“agasalho”, “sombra” – na última estrofe citada).
A terceira estrofe remete-nos para a indicação batalliana da abertura para a continuidade, no erotismo, através de “comportamentos secretos que nos dão o sentimento da obscenidade”, entendida esta como uma “perturbação que tranforma um estado dos corpos conforme a posse de nós por nós mesmos, à posse da individualidade durável e afirmada.”
No poema, esse aspecto do erotismo se projeta na imagem da “delícia secreta”, que se realiza pela vivéncia do esbanjamento o qual, na última estrofe do trecho citado do poema, guarda a marca do excesso, mobilizador de Eros.
O querer mais dos amantes é também a referéncia implícita na quarta estrofe, referéncia estruturada no jogo dialético entre elevação e penetração. Amplia-se a intensidade do gozo, ao se ampliar o afastamento entre os corpos, uma vez que este afastamento será promotor de um mergulho mais profundo, de uma conexão mais completa.
Outra marca gilkiana, que nos exige registro crítico, é a aproximação entre o exercício erótico e o fazer poético. No poema a seguir, essa aproximação agencia o trabalho, com um elemento-imagem comum a ambos: a “língua”, enquanto fonte de prazer e de poesia, ora “sensação”, ora “idéia”.
 
Lépida e leve,
em teu labor que, de
expressões à míngua,
o verso não descreve…
lépida e leve,
guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.
É s tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo
o vocábulo, ao teu contato de veludo.
Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra
ódio, paixão, engano, desengano,
por ti que incéndio no Universo lavra!…
É s o réptil que voa
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de teu agrado.
Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato
te hão deixado o louvor, a exaltação!
– Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
– Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
(…)
Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha…
(…)
Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
Amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases que proferes
nos silêncios de Amor!…
(“Lépida e leve”, p. 178-179)
Com apoio em forte recorréncia sonora (o poema se constrói através de aliterações e rimas), vai-se estruturando musicalmente o erotismo, ao mesmo tempo em que se inscreve, nos versos, a autoconsciéncia do trabalho terário, interando-se o prazer de sentir e o prazer de construir.
Esses prazeres, atiçando todos os sentidos, começam por fazer confundir, na imagem central do poema, a “língua”, ora o paladar e o tato (“gostos de afago e afagos de sabor”), ora o tato e a audição (“Sol dos ouvidos”, “sabiá do tato”). Em sua configuração, são também convocados, isoladamente, o táctil (“tateio de alucinação”) e o visual (“réptil que voa”) ou, simultaneamente, o visual e o auditivo (rítmica serpente” e “carne de som”). Com essa simultaneidade, intensifica-se a tensão entre a consciéncia terária do erotismo e a consciéncia erótica do terário, aparecendo a “língua”, no poema, como elemento criador dessa tensão, uma vez que é responsável tanto por “formosos poemas”, quanto por “carícias supremas”.
Possuidora de todos os sentidos, a “língua” detém ainda o poder de transmitir sentimentos opostos (“ódio, paixão, engano, desengano”), quer no contato físico, quer na omissão da palavra.
Na sexta estrofe citada, intensifica-se a reflexao sobre o ato de criar poesia, ressaltando-se, aí, o poder de sedução da palavra e a confecção do texto como um tecido, que deve ter a perfeição da teia de “habidosa aranha”, para isso resultando de um total envolvimento do criador com a coisa criada, de uma relação amorosa do poeta com o poema. E é importante observar que, no ato de confundir-se com a palavra, a mulher, através do “eu” do discurso, projeta-se como “frase”, capaz, portanto, de comunicar-se inteira, de ter um sentido completo. Parece-nos essa referéncia estar gada, sutilmente, à marcação explícita do feminino, integrante da última estrofe transcrita (“amo-te como todas as mulheres”), unindo-se, assim, o “eu” do discurso ao de todas as mulheres, gadas por uma causa comum: o direito de desfrutar, como todos os homens, inteiramente, do prazer, o direito de ser “frase” e não fragmento desta.
A poesia aparece também erotizada em Meu glorioso pecado, quando o elemento privilegiado do prazer são as “mãos”, ao fazerem “vibrar”, na “pele nua”, “inéditos poemas”:
 
Meu corpo todo, no silêncio lento
em que me acaricias,
meu corpo todo, às tuas mãos macias,
é um bárbaro instrumento
que se volatiza em melodias…
e, então, suponho,
à orquestral harmonia de meu ser,
que teu grandioso sonho
diga, em mim, o que dizes, sem dizer.
Tuas mãos acordam ruídos
na minha carne, nota a nota, frase a frase;
colada a ti, dentro em teu sangue quase,
sinto a expressão desses indefinidos
silêncios da alma tua,
a poesia que tens nos lábios presa,
teu inédito poema de tristeza,
vibrar,
cantar,
na minha pele nua.
(“Tuas mãos são quentes, muito quentes”, p. 177)
 
Aproximando, mais uma vez, a experiéncia do erotismo a uma realização musical (como em “Lépida e leve”), o poema liga a imagem da criação literária à da vivéncia da liberdade erótica. E valoriza, em ambas, a linguagem dos corpos e o “silêncio”, como o não dizer para dizer mais.
A ligação dos corpos e a participação da alma favorecem a expressão e ampliam o “vibrar” e o “cantar” da pele – ações que se complementam na opção poética de vida, textualizada. Essa opção é, antes de tudo, a da saída do isolamento e da busca de continuidade no outro; o que é favorecido pela ação de desnudar-se. A “pele nua” é a imagem da nudez dos corpos, mas é também e sobretudo a do desnudamento psicológico e existencial, a da abertura do ser, na vivéncia do “ser com”, identificador da humanidade, que só se realiza, plenamente, no existir compartilhado.
Essas reflexões sobre o fazer poético aliadas à temática erótica revelam, na poesia de Gilka Machado, a constituição da consciéncia crítica voltada não só para o ato de produzir versos, mas também para a construção da identidade da mulher que, pela livre fruição do prazer, dá um passo importante para a sua emancipação.
Meu glorioso pecado, como procuramos mostrar, embora ainda marcado pelo paradoxo entre a conquista da liberdade feminina e a permanéncia da submissão (contradição já indiciada no próprio título do livro), em muitos momentos aponta para uma nova mulher, capaz de sobrepor a transgressão à proibição, a fim de uma vivéncia real do erotismo e socialmente mais justa.
Gilka Machado, como poucas poetisas de sua época, faz da liberdade de expressão uma forma de libertar-se e de libertar a mulher, pela conscientização erótica, impressa, ousadamente, no verso. Revisitá-la, hoje, torna-se imprescindível, se quisermos investigar as limitações e os avanços do tema do erotismo na produção literária de autoria feminina, bem como reconstruir a caminhada da mulher, na luta pela emancipação.
 
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Bio fornecida pelo palestrante.

Ximena o la Parábola de dos Mundos




Ximena o la Parábola de dos Mundos

Sara Beatriz Guardia

En los últimos años ha ocurrido algo por demás significativo en la narrativa peruana, y es la aparición de una novelística femenina de gran calidad literaria. Si hasta 19881, no figuraba ninguna escritora de relieve, la presencia de Laura Riesco y su novela Ximena de dos caminos.2 , marca el inicio de un movimiento que en América Latina tiene figuras de la talla de Rosario Castellanos, Silvina Bulrich, María Luisa Bombal, Isabel Allende, Elena Poniatowska y Angela Mastreta.
Ya en 1978, Riesco había publicado El truco de los ojos, novela de regular interés que pasó desapercibida para la crítica. En cambio, con Ximena de dos caminos (1994), demostró su notable capacidad narrativa y ser dueña de “un mundo creador claramente propio, hondo y complejo, capaz de dialogar (conservando su tono intransferible) con una masa textual copiosa y diversa”3.
Uno de los méritos de la obra es que evoca la infancia desde la visión y perspectiva de una niña. Los laberintos de la infancia con sus cuartos luminosos y oscuros, plenos de fantasía y temor ante lo desconocido, convergen con la posición marginal de las mujeres determinada por la complejidad de la sociedad peruana. Ximena transita por este universo sorteando dificultades y retos en la exploración de su mundo interior, convirtiendo así la búsqueda de su propia identidad en el largo camino que deberá recorrer para lograr finalmente su liberación a través de la palabra. Liberación que se plantea en una sociedad dividida entre dos culturas, dos universos: el de los indios y el de los “blancos”. Allí, no existe neutralidad posible, “hay, por el contrario, choque y oposición permanentes, contradicciones agudas, insalvables” 4.
Antes de Ximena, y de algunas novelas de reciente publicación5 no se había perfilado un yo femenino literario en el discurso de la narrativa peruana. Los personajes femeninos no se miraban a si mismos como mujeres en los pocos ejemplos que nos brinda la novelística nacional. Las más destacadas escritoras eran hasta entonces, Clorinda Matto de Turner y Mercedes Cabello de Carbonera, que irrumpieron en el último tercio del siglo XIX, coincidiendo con una coyuntura significativa para el país cuando se empezaban a bosquejar las bases de una incipiente modernización de la sociedad peruana.
Ambas escritoras abandonaron la reclusión doméstica y ejercieron funciones directivas en la cultura y el periodismo. Al asumir una posición definida en el proceso de transformación del país denunciaron el carácter anacrónico del paternalismo predominante, “y reclamaron la adopción de un liberalismo basado en la expansión de la cultura popular y orientado hacia las formas practicas de la convivencia”6. En sus obras, “atacaron zonas muy sensibles del sistema ideológico de los grupos de poder más tradicionales, en especial de la Iglesia, y reafirmaron el sentido esencialmente crítico de su narrativa”7. Pagaron un alto precio por ello. Clorinda Matto de Turner fue excomulgada y exilada a Buenos Aires; mientras, Mercedes Cabello de Carbonera murió en un manicomio de Lima.
Tampoco existen personajes femeninos históricos o autobiográficos. La tendencia que ha prevalecido de buscar personalidades históricamente consagradas para que sirvan de personajes de las novelas, no tiene ejemplos en la literatura peruana. Esta notable ausencia de escritoras en el ámbito artístico literario tiene varias explicaciones sociológicas e históricas que no son materia de este trabajo, aunque un aspecto determinante es su exclusión del conocimiento y la educación, lo que a su vez, guarda relación con los vínculos que mantiene la producción femenina con su entorno y la ideología dominante8.
Desde fines del siglo XIX y las primeras décadas del presente siglo, el discurso hegemónico sólo le permitió a la mujer el desarrollo de un yo lírico porque lo consideraba más adecuado para su subjetividad9. Es a través de la poesía que las mujeres podían expresar sus sentimientos más íntimos y controvertidos. Destacan durante ese período en América Latina, poetisas como: Magda Portal (Perú), Gabriela Mistral (Chile) y Juana de Ibarbourou (Uruguay). No se trata de casos excepcionales, sino de un vasto movimiento que ha cobrado en los últimos años un notable vigor. Mediante la lírica las poetas pudieron expresarse sin temor ni vergüenza de sentirse artistas, “de sentirse superiores a la época, a la vulgaridad, al medio”, y no dependientes “como las demás de su tiempo, de su sociedad y de su educación”10.
Inclusive, Pedro Henríquez Ureña, explica la ausencia de mujeres del importante movimiento literario de las dos últimas décadas del siglo pasado, aduciendo que “probablemente fue demasiado impersonal para ellas”11. Virginia Woolf dice que uno de los obstáculos de la escritura femenina es la dificultad de las mujeres para decir la verdad sobre sus propias experiencias, en cuanto a cuerpo, porque esto último significa rechazar la imagen de la mujer pura e ideal, y explorar francamente la sexualidad y el inconsciente. Es manifestar sus propios deseos antes que adherirse a las opiniones y deseos de los demás12. De esta manera, la escritura femenina para Marguerite Duras, plantea “el dilema estético de representar literalmente nuestra propia visión de la femineidad”, y traducir “toda aquella zona que ha sido convencionalmente simbolizada por construcciones culturales masculinas”. Y, Marguerite Yourcenar, sitúa “la libertad sensual en el contexto de la libertad de expresión” 13.
Infancia con milenios encima.
Aunque la búsqueda de identidad personal es un importante signo de Ximena, existe otro igualmente cierto que es la búsqueda de identidad social en un mundo dividido. El escritor José María Arguedas es quizá el más dramático ejemplo de la oposición entre el mundo indígena y el hispano y su falta de resolución planteada con su suicidio. La obra de Arguedas la define su propia experiencia en la que destaca cualitativamente también el período de la infancia. “Vivió en el pecho de los indios, en una infancia que él llamaba, y me parece que la frase es muy expresiva, cargada de milenios, más exactamente “infancia con milenios encima”14
Esa es la infancia de Ximena, también la de su autora. Laura Riesco (1940) nació en La Oroya, enclave minero que por entonces era explotado por la transnacional norteamericana Cerro de Pasco Cooper Corporation, situada a 170 kilómetros de Lima y a una altitud de más de tres mil metros sobre el nivel del mar. Sus primeros siete años de vida transcurren entre el mundo de su padre de origen español y funcionario de la compañía norteamericana, y el de su madre que procede de la misma región andina; pero sobre todo, cerca de criadas todas de origen indígena.
La conquista española significó la destrucción del Imperio Incaico y dio origen a una permanente tensión entre la cultura española dominante y la andina. Pese a que fueron vencidos, los antiguos peruanos preservaron a través de la tradición oral sus costumbres ancestrales, idioma y mitos; resistencia que constituye uno de los procesos más intensos de nuestra historia y que repercutió profundamente en la construcción de una identidad nacional 15 . Los procedimientos de legitimación del poder que intervienen en la supervivencia de una forma de sociedad16 , conforman el marco en que se desarrolla la narrativa nacional, y por consiguiente, Ximena de dos caminos. Es decir, en la tensión y contradicciones entre los vencedores y la resistencia estoica de los vencidos, en cuyo mundo interior se confronta dolorosamente la dualidad de una sociedad dividida.
Desde su infancia, Ximena tiene que enfrentarse a esta lucha donde pugna la lógica patriarcal del padre y la tradición oral de las mujeres indígenas que la cuidan y pueblan sus días de magia y melancolía. A Ximena la define el estupor, la permanente sorpresa que le causa el mundo de los mayores, pero también una gran voluntad de ser y de entender que tiene su propia conclusión al final del libro.
Pero la falta de integración y el proceso de adaptación de Ximena, no es distinto al que le toca vivir a Laura Riesco. Y en este sentido, tiene mucho de autobiográfico. Cuando en 1947 su familia se traslada a Lima e inicia sus estudios escolares, le resulta demasiado difícil:
“Sufrí lo indecible, pesadillas, terrores diurnos y un temor de fracasar en los estudios que no los tuve ni cuando me preparaba veinticinco años después para el doctorado. Fue el año más largo de mi vida y no por culpa de nadie sino de mis propios problemas de adaptación” 17
Posteriormente, a los 18 años, Laura Riesco tuvo que vivir otro proceso de adaptación al viajar a los Estados Unidos para proseguir sus estudios universitarios. Desde entonces, hace 40 años, ha venido al Perú seis veces y con intervalos largos, de once y hasta de 16 años.
Ximena de dos caminos
Ximena, es una novela que no tiene argumento central, y está compuesta de siete textos autónomos que siguen un proceso “hacia un desenlace que ilumina, retrospectivamente, lo narrado y le confiere el carácter de fin de una etapa y comienzo de otra en la vida de la protagonista”18 . Se podría decir, sostiene la autora, que en cierto nivel, es una novela de textos.19
La ficción está en función de las experiencias y vivencias de una niña de siete años, hija única de un matrimonio que vive en La Oroya a comienzos de la década del 40. Dueña de una gran imaginación, precoz, inteligente, tanto que en algunas partes de la novela resulta difícil imaginar que se trata solo de una niña, Ximena vive entre dos mundos: el espacio mágico de la tradición oral donde aprende que la realidad tiene otras formas y fuentes, y el simbolizado por el padre de origen español que “constituye la otra ribera desde donde Ximena examina la naturaleza de las cosas. Son estos los dos caminos que tiene que recorrer en un lapso que no se proyecta más allá de su infancia”20 .
.
También oscila entre las diferencias culturales de la sierra y la costa; entre el mundo infantil y el de los adultos; entre la injusticia de la explotación feudal y una modernidad que apenas se empezaba a perfilar. Vive la violencia expresada en los juegos, los sentimientos encontrados que le suscitan algunos hechos, y el silencio cómplice de las mujeres de su entorno que viven la angustia de una sexualidad reprimida.
Además de la madre y de la Ama Grande, la criada que la cuida, en Ximena se dan cita varias mujeres. Todas solitarias, incomprendidas, frustradas en su amor, incluso algunas enajenadas por su propia historia. La primera aparece en el texto titulado La ahijada, cuando llega a su casa una hermosa joven desesperada porque está encinta de un hombre casado. Poco después, menstrúa. “Tan niña que ni sabe si está intacta o no”, advierte la madre, y aquello que podría significar la liberación de Casilda, la condena. No tiene ya nada del hombre que ama. “–¿Estas herida?- le pregunta Ximena. – No, estoy fregada –, responde colérica”. El círculo sin salida, trágico, ha empezado. Las cartas que escribe solo tienen como respuesta las que ella misma se responde hasta que finalmente se suicida.
El descubrimiento del sexo en el tercer texto: Los primos, comportan el machismo y la marginalidad que sufre la mujer desde muy corta edad. Ximena y Cintia juegan con Edmundo. El niño se imagina alcalde, un hombre con poder y sus primas son sus mujeres, le pertenecen, y por consiguiente puede imponerles juegos por demás violentos y esperar que los acaten con la correspondiente sumisión. Tienen que desnudarse para que él observe desde su puesto de amo y señor el sexo y el doliente pudor de las niñas. Poco después las inicia en una ceremonia secreta donde es sacrificado un pequeño pato:
“La punta del acero no está suficientemente afilada y penetra con dificultad. Un sonido leve, que es apenas un crujir, se oye en un silencio tan puro que ni las ramas de los eucaliptos lo suavizan para prohibir que se alcen en el aire. A Edmundo le tiemblan las manos del esfuerzo. Por unos segundos que se hacen larguísimos el animal se mueve aún, aletea rítmicamente y tiene la cabeza erguida. De un tirón su primo desprende el cuchillo manchado. Es sólo después de otros segundos igualmente penosos que la sangre empieza a correrle por la mano”21
 
La exposición del sexo y el sacrificio del pequeño animal anticipan simbólicamente desde la infancia la sujeción que vivirán las mujeres durante toda su vida. Y, es en este mundo masculino donde Ximena vive su infancia poblada de fantasías, pero sobre todo de sentimientos íntimos, “angustias e impulsos reprimidos que no siempre afloran a la superficie” 22
. Todo lo cual transcurre en medio de la permanente contradicción entre el mundo hispano-criollo y el andino. Al acercarse con sus primos a una acequia, Ximena advierte que Edmundo tira piedras y ramas secas al agua, y por último un paquete vacío de cigarrillos.
“No deberías tirar eso – le advierte Ximena -. Los indios riegan con esta agua las chacras que quedan abajo, al otro lado del pueblo.
-¡Qué asquerosos! – responde él con una mueca -. ¿No ves que no es agua clara?
– Pero no es sucia – replica Ximena, negándose a aceptar que sea una acequia de desagüe – La encauzan desde allá, desde muy arriba.
Muestra con el dedo las montañas que se alzan detrás de la propiedad de las españolas. Todo el valle está protegido por cerros igualmente imponentes” 23
En el capítulo titulado Alcinoe II o las tejedoras, coinciden tres historias de mujeres alrededor de la llegada de la tía Alejandra, su amiga, y la tejedora que vive en el pueblo. Esta última es una mujer “pequeña y muy morena” de quien la madre de Ximena “ha comentado alguna vez que es “una cosita de nada” y que no comprende cómo Samuel Robertson perdió la cabeza por ella” 24 . También Ximena la considera muy fea, en cambio Robertson, es rubio y apuesto.
La tejedora tiene dos hijos con Robertson. “Son muy blancos los dos, en nada se parecen a ella. Suerte de niños, ha comentado su madre” 25 . Ximena juega con Sami y Beto algunas veces, pero se siente mucho más entusiasmada e intrigada por el parecido que encuentra entre Robertson y Heathcliff, el personaje de Cumbres Borrascosas. En esta parte de la novela cuesta trabajo imaginar a una niña de siete años, inmersa en esas comparaciones. Y, sin embargo, la fluidez del texto permite seguir el curso de las historias sin ningún contratiempo. Pronto todos en la casa, incluida Ximena, descubren que la relación entre la tía Alejandra y su amiga es de una pareja que entra en conflicto ante la presencia de Robertson y del atractivo que ejerce en Alejandra, lo que termina por separarlas. Unida a esta historia aparece otra representada por los recuerdos de la abuela, y los conflictos familiares originados por su comportamiento. La madre de Ximena es implacable:
“Deberían haberla escarmentado de muy chica para ponerla entre rieles. Lo que consiguió es que la excluyeran más y más y si se la invitaba a las reuniones era sólo por interés o para que fuera la nota excéntrica de los bailes” 26
Es la propia abuela quien habla a través de un cuaderno que la madre lee en voz alta creyendo dormida a Ximena. Sin preámbulos ni disculpas, la abuela recuerda su vida, marido e hijas, pero sobre todo a sus amantes. La sumisa y andina tejedora, la tía Alejandra y su amiga, la presencia de la madre y esta mujer – la abuela – conforman un cuadro femenino complejo atravesado por los convencionalismos, el racismo y la marginalidad. El personaje lúdico de la obra de Riesco es precisamente la abuela, la única que logra imponerse al medio y a su época para vivir alegremente su libertad.
En el siguiente texto titulado La costa, se expresa claramente el conflicto social y la dualidad de la sociedad peruana. Su falta de resolución y la violencia que sufren las mujeres. En la literatura peruana, se levanta sobre la tesis indígena, y en contraposición con ella, la antítesis hispana. Cabría preguntarse, entonces, “¿cuál es la solución del conflicto entre esta tesis y esta antítesis?” 27. Pregunta central en el proceso de búsqueda de una identidad nacional, expresada de manera permanente en la narrativa peruana.
En ese pequeño pueblo costeño donde la familia de Ximena pasa el verano los acontecimientos se suceden en un hotel de provincia, modesto. Pronto ella descubre la presencia misteriosa de una niña casi de su misma edad que vive detrás del portón amarrada a un árbol, y que interminablemente repite el mismo movimiento:
“Hasta donde le daba la soga que la tenía sujeta corría de un lado a otro y movía violentamente los brazos, delgadísimos, de arriba abajo como si se aprestara a volar” 28
Dramática imagen que se une a otras expresiones de violencia. Don Serafino, dueño del hotel, engañado por su primera esposa se había casado por segunda vez con una mujer fea para evitarse la posibilidad de una futura humillación. Sin embargo, la cela y la golpea constantemente por cualquier incidente hasta que una noche, al encontrarla conversando con un primo, la golpea tan ferozmente con el mango del sartén de fierro que la mata.
En ese hotel donde una niña enloquecida atada a un árbol da vueltas sin cesar, y por donde transita cual amo y señor un asesino que al parecer no ha expiado su culpa ante la ley, también se encuentra encerrada en un cuartucho una pareja de indios porque no puede pagar el alojamiento. Cuando a instancias de Ximena, la madre intercede por ellos ante don Serafino, éste dice:
“Son muy ladinos los serranos, lloriquean porque o tiene nada y bien que tienen, se hacen los que no entienden y bien que entienden. Me deben plata, señora, y aunque me dieran pena no podría permitirles que se quedasen si no me pagan” 29
Entonces, la madre acude a una muchacha que sabe quechua para poder comunicarse con la pareja, quiere saber adónde puede ir, cómo se le puede ayudar. Pero ésta rehuye colaborar diciendo que desde que fue a estudiar a Lima se ha olvidado ese idioma. “Inútil que me pida usted que les hable”, concluye expresando así la vergüenza que siente por su propia cultura.
Al final de la novela, en el texto La despedida, aparece otra clave del relato. Al intentar escribir su primera palabra aparece ante Ximena una mujer que escribe recuerdos imaginados y que requiere de ella para completarlos. La primera pregunta, ¿Qué pasó en el campamento de los obreros?, da curso al desarrollo de la narración. Son estas dos mujeres, Ximena niña y Ximena mujer las que muestran el drama de la explotación al indio, la usurpación de sus tierras comunales, el despojo.
Al producirse un incendio en el campamento minero, Ximena no quiere recordar la casa donde se había escondido del fuego, pero obligada a hablar dice:
“No había camas, ni muebles nada más que pellejos sobre el piso, unos atados, dos ollas y algunos tazones de metal. Recordó como en un sueño que cada vez que su madre y el Ama Grande habían comentado lo mal que vivían los obreros de la fundición” 30
En este cuarto pequeño y desvencijado Ximena encuentra a Pablo, un niño de su edad. Durante una entrecortada conversación y a modo de respuesta ante el conflicto que ha originado la huelga de los obreros, Pablo le explica con la naturalidad del lenguaje infantil como la transnacional los ha despojado de sus tierras con la anuencia de las autoridades locales:
“antes su familia había tenido una chacra grande y varios animales y que un día las autoridades habían venido a sacarlos diciéndoles que el dueño de la hacienda cercana había comprado legalmente toda la tierra de los campesinos de ese lugar. En un comienzo el hacendado los convocó y les ofreció cerveza y trabajo. El padre del chico y otros igual que él fueron a reclamar sus derechos, algunos fueron hasta Lima, pero no les hicieron caso y los amenazaron con llevarlos a todos a la cárcel. Pasaron los días y el nuevo dueño dijo que ya no quería nada con los indios sediciosos, y entonces muchos le tuvieron que vender sus animales por una miseria y se fueron más arriba, muy a las alturas para buscar trabajo en las minas” 31
La presencia de varios estudiantes universitarios, ha permitido que los obreros comprendan que no tienen que soportar ningún abuso de la compañía porque ésta se ha apropiado de las tierras que siempre pertenecieron a las comunidades indígenas. Y así se inicia la huelga, que concluye con el incendio y el ingreso de patrullas de la policía. El campamento minero se llena de heridos y es apresado un hombre acusado de haberla secuestrado porque lo encuentran cerca de ella. ¿Por qué no les dijiste la verdad?, pregunta la mujer y Ximena responde porque hubiera tenido que decir donde se había refugiado, habría tenido que hablar de Pablo. Y eso la asusta mucho más que el castigo inmerecido que pude ocasionar con su reserva.
Sobre el silencio del campamento minero destruido solo queda la esperanza. Algún día, según el mito de Incarrí, el Inca, cuyo cuerpo ha sido descuartizado y enterrado en varias partes del país, resucitará para liberar a su pueblo, solo entonces será posible la justicia. El mito está incorporado en este texto como uno de los cuentos que Ximena recuerda:
“Wiracocha vaticinó que después de varios siglos de la muerte del inca, una pareja humilde de campesinos, una tejedora y un pastor, serían la elegida para cumplir una gran misión. Cuando llegara la hora de la profecía, esta mujer y el pastor desenterrarían la cabeza decapitada y con la ayuda del aire, de las aguas, de las montañas y de la tierra misma, mientras ella la arrullara entre sus brazos y la regara con sus lágrimas, el cuerpo iría creciendo como crece una planta, hasta recobrar su forma inicial. Así iba a resucitar el Inca Rey” 32
Al contar sus recuerdos y aceptarlos, pero sobre todo al reconstruirlos para la escritura, Ximena ha iniciado una intensa exploración interna. El deseo de afirmación femenino se manifiesta aquí de manera particular en la creación literaria. “¿Será porque frente a las normas sociales, despliega una sabiduría y a veces la verdad sobre un universo reprimido, secreto, inconsciente?” 33
“Escribir, en estos casos, – dice Laura Riesco – es un recorrido incierto por las sendas tortuosas del temor y el auto-reconocimiento. Con suerte, este proceso puede resultar una terapia sin garantías duraderas, pero que en momentos privilegiados levanta un peso de nosotras, y en algo libera” 34. Y para ello la narradora se constituye en personaje y reta a Ximena que relate aquellos recuerdos que más le duelen, para así arrancarse definitivamente la infancia y sus dolores a través de una escritura que se presenta como liberación 35. Solo entonces Ximena puede tomar el lápiz y contemplar el papel en blanco sabiendo que finalmente podrá escribir:
“Las rayas ligeramente azules le reclaman y ella comprende que no puede evadirse, que tiene que continuar y se concentra en la forma imperturbable de la próxima letra. Se agacha y se distancia de todo lo que la rodea, se agacha para volcarse en los signos que el difícil silabeo le dicta, borra, para volver a empezar. Y mientras Ximena se ausenta, las palabras, en su ir y venir de la vida a la muerte, de la muerte a la vida, van fijándose y llenando su primera página” 36
Y, así como la escritora marroquí, Fátima Mernissi, al recordar su infancia en el Harén, también Ximena podrá exclamar: “Me bastaba con saber que mis posibilidades de ser feliz dependerían de mi habilidad con las palabras”37.
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Marco Martos. El camino de Laura Riesco. “El Peruano”, 23 de abril de 1995
Fátima Mernissi. Sueños en el umbral. Memorias de una niña del Harén. Muchnik Editores S.A. Barcelona, 1995.
Silvia Molloy. “Dos proyectos de vida: cuadernos de infancia de Norah Lange y el archipiélago de Victoria Ocampo”. En: Femmes des Ameriques. Université de Toulouse-Le Miral. France, 1986
Giovanna Pollarolo. “Entrevista a Laura Riesco. Una escritora que no se siente escritora”. Lima, Debate. 1995
Laura Riesco. Ximena entre dos caminos. Editorial Peisa. Lima, 1995
Alberto Tauro. Clorinda Matto de Turner y la Novela Indigenista. Universidad Nacional Mayor de San Marcos. Lima, 1976.
Virginia Woolf Las mujeres y la Literatura. Editorial Lumen. Barcelona, 1979.
Marguerite Yourcenar. Alexis o el tratado del inútil combate. Ediciones Alfaguara S.A., Madrid, 1990.
Notas
1 Roland Forgues. Palabra viva. Narradores. Lima, Studium, 1988
2 Laura Riesco. Ximena de dos caminos. Lima, Peisa, 1994, 236 pp
3 Ricardo Gonzalez Vigil. “La gran novela de Laura Riesco”. Lima. El Comercio, 22 de enero de 1995
4 Antonio Cornejo Polar. “El sentido de la narrativa de Arguedas”, en: Revista Peruana de Cultura. Nos.13-14 Lima, 1971
5 Véase: Liliana Costa. Cuando todo iba bien. Madrid, Opera Prima, 1996; Gabriela de Ferrari. Gringa latina. Buenos Aires, Emece Editores, 1998
6 Alberto Tauro. Clorinda Matto de Turner y la Novela Indigenista. Lima, Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 1976, p. 5
7 Antonio Cornejo Polar. “Clorinda Matto de Turner”, en : Indole. Lima, Instituto Nacional de Cultura, 1974, p. 31
8 Jacques Gilard. “Ser escritora en Colombia”, en: Femmes des Ameriques. France, Université de Toulouse-Le Miral, 1986, p. 210
9 Silvia Molloy. “Dos proyectos de vida: cuadernos de infancia de Norah Lange y el archipiélago de Victoria Ocampo”, en: Femmes des Ameriques, ob. cit., p. 178
10 José Carlos Mariátegui, Cartas de Italia. Lima, Empresa Editora Amauta, 1970, p. 222
11 Pedro Henríquez Ureña. Las corrientes literarias en la América Hispánica. México, Fondo de Cultura Económica, 1964, p. 183
12 Virginia Woolf. Las mujeres y la Literatura. Barcelona, Editorial Lumen, 1979
13 Marguerite Yourcenar. Alexis o el tratado del inútil combate. Madrid, Ediciones Alfaguara, 1990, p. 15
14 Gustavo Gutiérrez. Arguedas: cultura e identidad nacional. Lima, Edaprospo, 1990, p. 35
15 Sara Beatriz Guardia. Mujeres Peruanas. El otro lado de la historia. Lima, Editorial Minerva, 3ra Edición, 1995
16 Jacques Leenhardt. 2Modelos literarios e ideología dominante”; en: Escritura Año 1, No 2, Caracas, 1976 p. 212
17 Giovanna Pollarolo. “Entrevista a Laura Riesco. Una escritora que no se siente escritora”. Debate, Lima, 1995, pp. 72-73.
18 Edgardo Rivera Martínez. “El mundo de la ternura, crueldad y poesía”. El Mundo, Lima, 7 de enero de 1995
19 Javier Arevalo. “Entrevista a Laura Riesco”. El Comercio, Lima, mayo, 1995
20 Carlos Z. Batalla. “La mirada de Ximena”. La República, Lima, 5 de marzo, 1995
21 Riesco, ob. cit., 73
22 Manuel J. Baquerizo. “Laura Riesco y la configuración narrativa del mundo infantil”; en: Huallallo, Huancayo: Departamento Académico de Lingüística, Literatura y Arte de la Universidad Nacional del Centro del Perú, junio, 1997, p.1
23 Riesco, ob.cit., p. 76
24 Ibídem., p. 94
25 Ibídem., p. 106
26 Ibídem., p. 194
27 Washington Delgado. Historia de la Literatura Republicana. Lima, Ediciones Rikchay Perú, 1984, p. 23
28 Riesco, ob. cit., p. 146
29 Ibídem, p. 161
30 Ibídem, p. 220
31 Ibídem, p. 221
32 Ibídem, pp. 229-230
33 Julia Kristeva. Las nuevas enfermedades del alma . Madrid, Ediciones Cátedra, 1995, pp. 201-202
34 Discurso de Laura Riesco en la presentación de Ximena de dos caminos. Lima, 16 de diciembre de 1994
35 Catalina Lohmann. “Laura Riesco y Ximena de dos caminos”, en: Quehacer, Lima, Desco, 1995
36 Fátima Mernissi. Sueños en el umbral. Memorias de una niña del Harén. Barcelona, Muchnik Editores, 1995, p. 27
37 Idem





Bio fornecida pelo palestrante.

A Transformação dos mitos sobre o feminino na literatura brasileira contemporânea




A Transformação dos mitos sobre o feminino na literatura brasileira contemporânea

Gerhild Reisner
Universidade de Salzburg

Neste ensaio quero mostrar os mitos sobre a feminilidade com respeito a diferentes teorias da literatura feminista, com exemplos na literatura brasileira contemporânea de Helena Parente Cunha, Lygia Fagundes Teles e Marina Colasanti. Na bibliografia pertinente, como por exemplo a obra O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, os mitos sobre o feminino são vistos como projeções da fantasia masculina. Mas também são representantes do excluído e do reprimido que não se integraram no esquema do sujeito masculino. Na postulação de um feminino essencial, que se justapõe ao sujeito masculino, corre-se o risco de repetir os velhos atributos da mulher como natureza. A desmitificação do feminino, porém, pode provavelmente criar uma reprodução da ordem patriarcal das coisas e a incorporação de uma subjetividade masculina.
Baseando-se nessas considerações deve ser mostrado neste ensaio, com exemplos na literatura brasileira, como protagonistas femininas são representadas em níveis discursivos muito complexos, participando tanto no discurso humanista-liberal da liberdade, auto-definição e racionalidade como no discurso específico feminino da incerteza, subjetividade interiorizada e intuição irracional, na busca de uma identidade autônoma feminina. Além disso esse ensaio tenta mostrar como através da desconstrução, releitura e uma perspectiva modificada são transformados os mitos sobre o feminino.
Na primeira parte realiza-se a tentativa de uma definição do mito, em seguida serão elaborados vários pontos de vista que concorrem ao debate dos mitos sobre o feminino e finalmente o emprego e a transformação daqueles mitos vai ser demonstrado em alguns exemplos da prosa moderna brasileira.
 
Tentativa de uma definição do mito
O retorno ao mito tem sido discutido amplamente nas Ciências Humanas nas últimas décadas. O conceito dos debates de simpósios recentes com relação ao renascimento dos mitos refere-se à instabilização do ideal científico positivista, e dos conceitos decorrentes do Iluminismo, que foram substituídos por uma análise da lógica irracional do poder. A eficácia da realidade do semio-simbólico – quer dizer das imaginações coletivas, das criações imaginárias de quaisquer construções, dos esteticismos e suas codificações – origina-se entretanto em grande parte das cartografias científicas. O poder simbólico tem-se estabelecido há bastante tempo onde os controles do racional programático não se sustentam mais, enquanto as imaginárias dos espaços sociais se manifestem numa variedade à novos constelações sinaléticas. O estabelecimento dessas imagens do mundo deixa o mito aparecer como uma certa reconstrução cujo resultado é uma deformação aparentemente correta: s desativação do perigo parece muito urgente diante da incapacidade da crítica ideológica clássica de deter o ressurgimento dos mitos. Os conceitos do mito se formaram em torno da teologia, filosofia, etnologia e psicologia (cf. Greiner-Kemptner, 1995: 10).
São principalmente dois os conceitos no debate dos mitos que se oferecem para análise dos mitos na literatura:
O interesse pelo mito como forma de expressão dos períodos arcaicos da formação da consciência, como por exemplo a recepção eficiente e popular da psicanálise de C. G. Jung – e o conceito de Claude Lévi-Strauss, que definiu o mito, quando estruturado como língua, não por seu conteúdo, mas através da maneira da desconstrução e reconstrução de partículas de realidade. Este representa, portanto, uma maneira de construção da realidade seguindo às leis da lógica: o mito como um modo de enunciação específico, como unidade narrativa, cujas seqüências de enunciação têm que ser isoladas. Neste, a isotopia geral, quer dizer um universo mitológico segundo o semiótico A. Greimas define o status do respectivo mito de uma sociedade (cf. Greiner-Kemptner, 1995: 14-16). Roland Barthes efetivou uma descontextualização do mito, que passa a ser um sistema semiológico secundário a ser recontextualizado nas diferentes culturas contemporâneas (cf. Barthes, 1992: 92).
A Definição dos Mitos sobre o Feminino
Simone de Beauvoir analisa profundamente o mito ocidental sobre o feminino no seu livro Le deuxième sexe (Beauvoir 1968), publicado em 1949, um livro de grande repercussão. Mais do que um decênio antes do movimento feminino e numa época em que o feminismo do século XIX e do início do século XX tinha sido quase esquecido, Simone de Beauvoir não só fez a tentativa de um levantamento extenso empírico-histórico da situação da mulher como também forneceu uma explicação filosófica para o mesmo fenômeno. Beauvoir criou termos básicos para a definição da diferença dos sexos que são ainda válidos: um/ outro, imanente/ transcendente, sexo/ gênero. B. foi a primeira a tentar analisar sistematicamente a mulher como outra exigindo uma identidade própria para ela.
O outro é para B. uma categoria básica do pensamento humano. Ela parte do princípio de que o ser humano não pode definir nada como si próprio sem opô-lo ao outro; ela assim constrói uma lógica binária. Isso é valido tanto a respeito da teoria do conhecimento como no plano social: A autodefinição de comunidades humanas sempre gera o outro sob a forma de grupos oprimidos, classes ou raças. Segundo ela o sujeito só se coloca enquanto sujeito na medida em que se contra-coloca: tem a necessidade de se afirmar a si como ser essencial e o outro como objeto e ser insignificante (Beauvoir 1968: 10-11).
As ensaístas pós-estruturalistas Luce Irigaray, Hélène Cixous e Jessica Benjamin questionam essa necessidade da destruição do outro. Para B. um reconhecimento mútuo de dois sujeitos não é admissível. A mulher como outra para B. é um mito do homem. Ela serve como projeção da sua esperança e angústia. Ele vê nela uma mediadora da natureza. A mulher é assim definida como um ser que assenta em si próprio realizando-se completamente no presente da realidade.
Mesmo que seja evidente que os homens também tém uma realidade corporal e as mulheres também são dotadas de capacidades cognitivas, esse mito se mantém resistente. B. não consegue, entretanto, superar os valores patriarcais. Ela exige que as mulheres superem a sua existência limitada como imanência e se ponham como sujeitos. Ela esquece, entretanto, que também os homens deviam superar sua existência limitada como transcendência e deviam aceitar a sua realidade corporal. Para ela, valores masculinos como espírito, transcendência, luta têm uma conotação positiva, natureza e imanência, mas também uma negativa. Beauvoir quer que as mulheres assumam a mesma forma de subjetividade de que tinham sido vítimas há muito tempo: a colocação masculina como sujeito dominante. A ralização da mulher para ela acaba sendo uma superação do feminino.
Somente as escritoras e ensaistas pós-estruturalistas como Irigaray, Kristeva e outras empreendem um questionamento fundamental da lógica binária de B. Elas exigem uma outra subjetividade e racionalidade que não desvalorizem nem a realidade corporal nem a vida.
Para questionar a ordem patriarcal precisa-se de uma decifração e articulação daquilo que foi desviado aos mitos excitantes e angustiantes da arte. Antes da desmitificação feminista, precisa-se de uma salvação dos mitos se quisermos ir além da simples reprodução dos valores patriarcais. No seu livro Die imaginierte Weiblichkeit Silvia Bovenschen (1979) apresenta isso no arquétipo da mulher culta que evoluiu numa figura representativa do feminino no século XVIII. Bovenschen mostra como a admissão das mulheres ao discurso intelectual masculino no Iluminismo implicou um esgotamento das imaginações míticas na literatura com respeito do feminino.
Comparando a história da literatura com a história real ocidental, a mulher se apresenta, segundo Virginia Woolf, como um “monstro estranho”, dizendo que ela tem uma importância enorme no reino da fantasia mas na vida real era analfabeta e a propriedade do marido (cf. Woolf, 1981: 51).
A ausência da mulher como sujeito na história corresponde à presença exuberante dela como imagem mítica. A história da literatura traz imagens contraditórias com as da Nossa Senhora, da mulher idealizada, da bruxa, da jovem inocente, da sedutora, da mãe dedicada ou da femme fatale. A diversidade das imagens estereotípicos, porém, se junta numa estrutura dualista: elas dividem o feminino numa forma idealizada e demoníaca. A mulher sendo o eterno feminino sublimado ou a destruidora, lírio ou rosa, santa ou prostituta, anjo ou demônio, mas sempre identificada com a natureza.
A psicanalista Christa Rohde-Dachser define os mitos sobre o feminino patriarcais como fantasias de defesa do sujeito masculino, formações de compromisso entre o desejo e a angústia, que são comparáveis ao sonho e ao sintoma neurótico. Na sociedade patriarcal é atribuído à mulher aquilo que é excluído da autodefinição masculina (cf. Rohde-Dachser, 1991: 100).
As imagens sobre o feminino servem para levar o recusado coletivo numa forma culturalmente aceita para acalmar, controlar e fazê-lo disponível. Esse feminino ficcional não tem muito a ver com as mulheres reais: reduz-se contudo à imagem negativa da identidade sexual do homem. Como personificação do reprimido a mulher por um lado torna-se uma imagem de origem materno-natural, da qual o sujeito masculino tem provado sentir vontade de retornar nas suas fantasias de regressão e de fusão num lugar de reconciliação e de inocência, de atração e de sedução, de prazer e do corpo. Por outro lado, ela torna-se uma imagem ameaçadora do inquietante e da morte.
Como as ensaístas de literatura norte-americanas Bovenschen também parte da disparidade entre insignificância e exuberância de imagens, entre a ausência das mulheres na história e sua presença exuberante na literatura. Ela desconfia porém da opção de uma divisão definida entre o mito sobre o feminino e a mulher real. Por causa disso, Bovenschen não reprime os mitos sobre o feminino: ela acha importante investigar e decompor as diversas representações do feminino para podem criar-se uma base conceptual para uma análise da configuração heterogênea do feminino na história da civilização ocidental.
 
A Transformação dos Mitos sobre o Feminino
Na literatura brasileira encontra-se uma presença abundante de imagens míticas da mulher. A variedade das imagens muitas vezes se manifesta num esquema dualista. Esse divide o feminino numa forma idealizada e demoníaca que oscila entre adoração e condenação, incorpora o reprimido e o enigmático e está ligada à natureza numa relação mítica. Isso se contrapõe drasticamente à situação verdadeira da mulher brasileira moderna, que especialmente nas últimas três décadas tem tentado definir-se na literatura como personalidade autônoma, como conseqüência da sua luta pela libertação dos clichés impostos pela sociedade. O interesse pela produção literária de escritoras tem crescido bastante sob a influência da redemocratização do país e graças às mudanças na sociedade brasileira a respeito dos papéis tradicionais da mulher.
Um tema predominante nesse corpus textual complexo da literatura feminina brasileira é a busca de uma identidade autodefinida e autônoma, o esforço de nortear o próprio ser num nível ficcional e subverter e reescrever imagens tradicionais sobre o feminino. Nessa busca do próprio ser as escritoras tomam posições diferentes diante da sua escrita: como escritoras em frente ao espelho, como testemunhas das respectivas condições socioculturais ou como sujeitos discursivos, que procuram uma identidade textual própria. As estratégias da auto-apresentação se manifestam na transcrição ou na reescrita de ícones tradicionais do feminino – como, por exemplo, da mãe idealizada, da femme fatale – ou na criação de máscaras novas pessoais. Elas tecem freqüentemente as fantasias projetadas nelas no tecido dos seus textos para assim poderem questionar as imagens femininas convencionais: é através da recepção dessas imagens que elas podeam deconstruí-las e redefini-las. Para reforçar esse processo certos meios estilísticos, como a contaminação lingüística, o silêncio, a reapropriação, a subversão e o experimento com a língua definem o tom da expressão literária feminina.
O corpo feminino se apresenta muitas vezes em fragmentos, é um corpo que não se manifesta na atuação erótica em primeiro plano, mas principalmente se preocupa com a transformação textual, na qual a fragmentação e a mutilação do corpo são a expressão de uma integridade feminina. Não é só o corpo que está desintegrado em suas partes, com muita imaginação, mas também a voz que às vezes fala em fragmentos. Muitas autoras tém articulado o medo de falar e da expressão pessoal na sua prosa e poesia, nas quais protagonistas femininas recorrem à doença, tumores malígnos e à morte como, por exemplo, Lya Luft nos seus romances.
Reescrevendo o corpo feminino ou partes dele também significa redefinir o seu desejo. O erotismo não está apresentado somente na sua forma sexual, mas se expressa em uma grande variedade de formas. Sylvia Molloy fala dessa temática da seguinte maneira: “What one finds in women’s writing, in terms of erotic desire, is a slippage from sex to text: the text is an erotic encounter in which the poet makes love to her words” (Molloy 1991: 120).
Uma escritora à qual se pode atribuir essa declaração é a escritora e ensaísta Helena Parente Cunha. Para Cunha o tema predominante na literatura feminina brasileira é a busca da identidade própria. Ela presenta suas protagonistas femininas como personalidades divididas internamente, que oscilam entre a sua condição feminina e o grande desejo de livrar-se de complexos de inferioridade e da pressão que as impediu de alcançar uma personalidade autônoma. No final dos anos oitenta e noventa Cunha percebe uma tendência cada vez mais forte de transformar as imagens tradicionais da mulher e procurar novos caminhos na literatura feminina brasileira. Parece que a mulher dividida das décadas anteriores conseguiu reunir suas personalidades fragmentadas e obteve a capacidade de desenvolver uma identidade própria, sem mutilação e sentimento de culpa. Com esse auto-reconhecimento a perspectiva temporal da memória tem um papel muito importante. A necessidade de voltar ao passado rompe com a linearidade do tempo e favorece o conceito do tempo circular, oscilando entre o passado e o presente. Apesar da grande importância da memória em Mulher no espelho (Cunha 1986a) Cunha ao mesmo tempo rompe tanto com a linearidade do tempo quanto com um enredo lógico no seu romance As doze cores de vermelho (Cunha 1988), construindo um enredo que se desenvolve “(…) em três tempos e três vozes, num tecido que se estende e se desdobra nas três colunas de cada capítulo. Uma pintora, a personagem principal, na primeira coluna, se apresenta como o eu que se reporta ao passado. A segunda coluna se sustenta por uma voz dirigida à protagonista através de um você no presente. O ela da terceira coluna se refere à personagem em suas vivências futuras. Centralizando a trama nesta rede, a protagonista se compõe, enlaçada às demais personagens que a acompanham no entrançado do percurso” (Cunha 1988: 9).
Ao mesmo tempo em que cada coluna se relaciona indissoluvelmente com o todo, possui também vida própria e independente. Fragmentos e totalidade, instantâneos e fluxos de vida. Existir é juntar pedaços que permanecem e coexistem em dimensão una e múltipla.
Os múltiplos pedaços do romance transmitem a vida da protagonista sem nome nos seus 48 “módulos”. Ela cresce num ambiente bem conservador familiar onde prescrições, convenções e proibições a perseguem e dirigem. Apesar disso, ela deseja ser pintora. O seu mundo se define através de cores: as doze cores de vermelho de que se compõe o céu, e pintar a cor da chuva – essas as suas obsessões.
Ao mesmo tempo em que suas ambições artísticas encontra desentendimento, ela é preparada para cumprir as suas obrigações de esposa e mãe dedicada. Com as amigas da escola (também elas são definidas através de cores. A menina dos olhos verdes, a menina negra, a menina loura, a menina dos cabelos cor de fogo) ela reflete os problemas da vida.
No caso específico a protagonista do romance As doze cores de vermelho se contrapõe às expectativas do seu ambiente social e tenta encontrar um caminho próprio. Cunha se refere à sua obra na seguinte maneira: “Ao contrário dos poemas, quase todos os meus contos e os dois romances tratam da representação ficcional da minha vivência na ordem falocrática, marcada a ferro e fogo em mim e em tantas mulheres pela opressão asfixiante da distinção hierarquizante dos gêneros” (Cunha 1997: 114).
Além da busca individual de um eu próprio este romance da H. P. Cunha trata sobretudo da definição da verdadeira identidade feminina na confrontação com as imaginações e mitificações dessa identidade. É fundamental para sua ficção por um lado a busca do eu próprio, por outro lado essa contradição que se encontra na sua protagonista: “Nós éramos filhas obedientes e desobedecíamos porque queríamos obedecer. Não e sim anti-não contra-sim por que não?” (As doze cores…, 16).
A confrontação das noções obediência/desobediência sempre implica uma sensação de culpa como outro aspecto no processo do auto-reconhecimento. Esse legado de culpa a autora explica como legado da Igreja Católica e do passado no Brasil. A desobediência da mulher, a tentativa de fugir da distribuição dos papéis prescrita pela sociedade patriarcal para mulheres provoca bastante resistência:
Quando se pensa na identidade da mulher brasileira captada através da narrativa feminina contemporânea, faz-se indispensável incluir um traço comum a muitas escritoras – a culpa – sem dúvida, parte do legado da Igreja Católica. A mulher moldada ideologicamente pelo paradigma não poderia ter chance de fugir das balizas falogocêntricas, sem arcar com o peso da censura interna ou superego (…), está claro que a desobediência aos padrões não poderia passar em brancas nuvens. Todos nós, homens e mulheres e em conformidade com as características generalizantes, passamos pelo processo de internalização dos códigos da cultura patriarcal restritiva, que não aceitam sob pena de provocar o sentimento da culpa (Cunha 1997: 119).
A incompatibilidade de reunir essa máscara mitificada imposta pela tradição patriarcal e a imagem de si própria provoca um bloqueio na protagonista em As doze cores de vermelho. A quase sempre presente sensação da culpa impede a sua verdadeira confrontação com a sua identidade, ela só pode recorrer ao seu comportamento a partir da máscara tradicional que serve como modelo para ela.
A protagonista vive em dois universos bem diferentes. “O lado de cá” inclui tudo que se relaciona com a sua vida cotidiana: seu marido, suas filhas, sua família, seu trabalho como secretária, normas, regras mas também lugares comuns como o conservadorismo e o espaço limitado. Este lado se apresenta muito em “ãos” e “ões” – em imperativos. As vozes, que ela atribui ao “lado de cá” insinuam a ela as idéias e ordens tradicionais desde a sua infância. Desde o seu casamento é o marido que incorpora este lado mas também são as vozes do passado que repercutem nela.
“O lado de lá”, porém, representa o desconhecido, não-convencional e artístico. O mundo de suas imagens especialmente aquele do grilo que canta de noite, o céu vermelho, a cor individual da chuva, o menino dos cabelos de mel – tudo isso pertence ao “lado de lá”, como também o apartamento de quatro quartos, as viagens e exposições, questões abertas, o além das coisas e das palavras. “O lado de lá” também permite uma oscilação e cintilação da linguagem – muitas vezes em tonalidades quentes, vermelhas mas também multicoloridas, tem espaço para formas informes que significam a ruptura com a sintaxe, a criação de neologismos com, por exemplo, “desvermelho” como definição de um estado negativo: “você fecha os olhos e vê ondas desvermelhas em volta do seu corpo desredondo” (As doze cores, 18). Além disso, as palavras se mexem num espaço indefinido e ambíguo – um abismo atrás das coisas e das palavras.
O desequilíbrio da protagonista se reflete também na sua língua e o seu silêncio, nas dificuldades que ela tem quando quer se comunicar. Parece que ela também se sente sobre um abismo verbal oscilando também linguísticamente entre o “lado de cá” e o “lado de lá”.
Ao contrário do aspecto linear do tempo que se manifesta no marido dela, cumprindo os horários perfeitamente bem sendo pontual o tempo todo – se contrapõe a percepção do tempo do lado da protagonista: O passado, o presente e o futuro são ligados intimamente. Mais importantes do que o decorrer cronológico é a coerência interna das coisas. Essa desorganização aparente é programa, subversão, oposição a uma compreensão do tempo linear assim apresentado pelo marido. Também neste caso “o lado de cá” se representa no tempo linear, “o lado de lá”, entretanto se caracteriza numa estrutura circular do tempo:
Não é à-toa que a psicanálise esquadrinha os recantos da infância, à procura do fio de Ariadne para a saída do labirinto em que nos perdemos. Se quero saber quem sou, tenho que recuar até quem fui. No desenrolar temático das narrativas femininas, as personagens com freqüência recorrem à memória, a fim de encontrar prováveis respostas para as indagações em torno de suas verdades. (…) Em função dessa permanência de retorno ao já experienciado, o tratamento dado ao tempo tem sido uma quebra da linearidade de Chronos, a favor de uma circularidade ou de um ir-e-vir de passado a presente e de presente a passado, além de inserções de futuro, às vezes utópico. É como se não houvesse distância entre ontem e hoje, tal a intensidade dos sentimentos do que passou (Cunha 1997: 128f.).
Esses dois lados também se refletem na inserção de formigas e grilos no romance. Enquanto as formigas simbolizam “o lado de cá” a imagem do grilo galáctico que canta de noite representa a sua estética pessoal. O grilo corresponde a um sistema não dualista em que não existia a confrontação de bom/mal, certo/errado, preto/branco. Contradições são consideradas com partes de um todo: “Nada é igual a nada. Tudo é igual a tudo. Na coisa não está a coisa” (As doze cores…, 18)
As cores tomam um espaço importante neste romance descrevendo e caracterizando pessoas e estados. A cor central é o vermelho com suas matizes diversas. Como já foi mencionado a maior obsessão da protagonista é ter a capacidade de pintar os doze tons vermelhos do céu. A cor vermelha corresponde à sexualidade e o erotismo: “flor vermelha” é o seu sexo, “desvermelho” o que sente quando deita com o marido. Na barba do arquiteto com o qual tem uma relação apaixonada ela vê reflexos coralinos. O vermelho representa o calor humano mas também dores, feridas e sangue. Uma outra cor significante é o preto. No seu livro Persönlichkeitsbildung durch Farbwahl, Lüscher descreve a cor preta na maneira seguinte: “Schwarz ist die dunkelste Farbe (…) Schwarz ist die absolute Grenze, an der das Leben aufhört. Darum drückt Schwarz die Idee des Nichts aus. Schwarz ist die Verneinung gegenüber der Bejahung, die in Weiss als absoluter Freiheit (daher Makellosigkeit) ihre höchste Steigerung erreicht” (Lüscher 1971: 30).
As cores tomam um espaço importante neste romance descrevendo e caracterizando pessoas e estados. A cor central é o vermelho com suas matizes diversas. Como já foi mencionado a maior obsessão da protagonista é ter a capacidade de pintar os doze tons vermelhos do céu. A cor vermelha corresponde à sexualidade e o erotismo: “flor vermelha” é o seu sexo, “desvermelho” o que sente quando deita com o marido. Na barba do arquiteto com o qual tem uma relação apaixonada ela vé reflexos coralinos. O vermelho representa o calor humano mas também dores, feridas e sangue. Uma outra cor significante é o preto. No seu livro Persönlichkeitsbildung durch Farbwahl, Lüscher descreve a cor preta na maneira seguinte: “Schwarz ist die dunkelste Farbe (…) Schwarz ist die absolute Grenze, an der das Leben aufhört. Darum drückt Schwarz die Idee des Nichts aus. Schwarz ist die Verneinung gegenüber der Bejahung, die in Weiss als absoluter Freiheit (daher Makellosigkeit) ihre höchste Steigerung erreicht” (Lüscher 1971: 30).
De fato, o marido da protagonista é definido pela cor preta – ele veste terno preto, traz uma pasta preta. Através das cores enfatiza-se ainda mais o contrário do marido e da mulher e dos seus dois universos diferentes.
Também os números se manifestam como elementos simbolizantes neste romance. Só quero me referir ao número doze que já aparece no título do livro. O doze representa o círculo fechado, a base para o sistema. Seu significado simbólico depende em primeiro lugar dos doze signos do zodíaco: já na época babilônica o doze está ligado aos planetas: a lua caminha em doze estações: o ano é dividido em doze meses (cf. Endres/ Schimmel, 1993: 209-220).Segundo Endres o onze está com presságios negativos, ele fica entre o dez e o doze, que são valorizados como números de arredondamento, enquanto o onze desde a Idade Média carrega o significado de ser o número do pecado e da imperfeição (cf. idem, 206-208). O número onze aparece em As doze cores de vermelho quando a protagonista tem uma experiência pouco satisfatória com o seu marido: “No mergulho da noite ela abrirá o sexo. Flor vermelha prolongada as pétalas impregnadas. Doze estrelas acesas renoverão seu corpo. Onze estrelas se apagarão entre suas pernas aflitas” (As doze cores…, 16).
Segundo Endres o quatro serve como numeral ordinal material e temporal: tem quatro elementos, quatro cardeais, o quadrado é considerado como uma forma perfeita e sólida. Hesíodo fala das quatro épocas do mundo, o ano tem quatro estações. A relação íntima com o doze resulta por um lado do doze sendo um múltiplo de quatro por outro lado também que tanto o doze como o quatro representam sistemas fechados e completos em si, ambos sendo números ordinais (cf. Endres, 1993: 101-118). Pode-se redescobrir esse conceito também em As doze cores de vermelho: a combinação do quatro e do doze sempre aparece quando é importante acertar uma situação ou corrigir a visão do mundo: “O brilho das revoadas tornava mais ágil o céu vermelho. Quatro pés de amendoeiras doze cantos de passarinhos” ou: “Eu tinha quatro caixas de lápis de cor. Quatro vezes doze lápis” (As doze cores…, 12).
Esse romance, como já foi dito, trata da busca da identidade da protagonista. Apesar disso, Cunha implica a mudança da estrutura social, mostrando a transformação dos padrões tradicionais: como, por exemplo, o marido da protagonista não consegue pôr limites a sua vida artística ou impedi-la na compra de um apartamento maior. Isso tudo indica uma perda de valores que implica uma desmitificação dos papéis tradicionais entre os gêneros – desse romance se pode concluir a necessidade de uma reorganização da sociedade e das suas normas e padrões.
No conto “As formigas” (Telles 1989), de Lygia Fagundes Telles, são apresentados os conflitos emocionais de duas moças, no momento em que temem os indícios misteriosos de ‘seres inferiores’ que se movimentam na escuridão da noite, dando forma a um ‘homunculo’ de aparência assustadora. O conteúdo desse conto poderia ser resumido do seguinte modo: as duas primas alugam um quarto, encontrando lá um caixote com ossos de um anão, que uma delas conserva para ilustrar seus estudos de anatomia; de noite aparecem então formigas, em grande quantidade, que se dirigem sempre ao caixote, onde aos poucos vão montando aquele esqueleto de anão.
O fato é que, no dia em que as duas moças chegaram àquela casa, a estudante de medicina teve muita curiosidade e vontade de reorganizar aqueles ossos: “Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou fazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.” (As Formigas, 145).
Mas logo na mesma noite começa a invasão das formigas e surge a primeira suspeita de que os ossos no caixote estão sendo movimentados – tomando a configuração que têm normalmente num esqueleto humano. Nesse meio tempo, a personagem narradora revela seu pesadelo, em que um anão entra no quarto delas e senta-se, sem a mínima cerimônia, na cama da prima. Sua reação, no sonho, foi significativo, indicando o susto que lhe causou essa cena: “Eu quis gritar, tem um anão no quarto!” (Idem, 145).
A próxima surpresa vem logo em seguida: o rastro de formigas mortas desaparece como que por encanto, o que as leva a dormirem na mesma cama naquela noite, começando a sonhar com o anão. O do caixote, esse também já está quase pronto; é quando elas decidem bater em retirada.
Nesse episódio fantástico, a solidariedade que une as moças contra os insetos e o fantasma daquele anão também se repete com relação a uma das formiguinhas, às quais são atribuídos gestos humanos: a personagem central não tem coragem de matá-las.
Isso seria um indício de que o homúnculo, assim como as formigas que o montam, estariam, aos poucos, tornando-se familiar, pelo menos a uma das moças.
Nesse conto verifica-se a presença de vários elementos que fazem pensar na lenda mitológica de Amor e Psiqué onde, em linhas gerais, é narrado o seguinte:
Convencida que tinha se casado com o homem mais horrível do mundo, Psiqué nunca consegue vê-lo, pois esse a visita unicamente à noite, quando é invisível. Na verdade, trata-se de Eros (na mitologia latina conhecido como Amor ou Cupido). Aí tem origem o conflito de Psiqué, de amar o marido e odiar nele o monstro, conflito esse que é alimentado por suas irmãs. Quando Psiqué planeja matá-lo, vê diante de si aquele jovem belíssimo. filho de Afrodite, por quem então se apaixona; Eros, no entanto, foge. Ela decide conquistá-lo novamente, agora, porém, de maneira consciente, propondo-se, para tanto, a realizar várias tarefas, a primeira das quais é resolvida com a ajuda de centenas de formigas, que simbolizam o mundo dos instintos.
Os pontos de contato entre o episódio de LFT e a lenda mitológica sugerem um possível conhecimento anterior da mesma pela autora. Com efeito, essas formigas, que servem de Leitmotiv no conto da autora brasileira, seriam idênticas às formigas que vêm em auxílio de Psiqué, permitindo que ela dê o primeiro passo para ingressar no mundo do Amor – e consequentemente, no Olimpo. O símbolo do marido monstruoso é transposto aqui para a ossada do anão, configuração deformada de um homem, que vai tomando corpo durante a escuridão noturna: enquanto era considerado um monstro, Eros também visitava no escuro. Nos sonhos da moça, o anão vai se tornando cada vez mais familiar, passando de intruso a namorado. Ao mesmo tempo ela passa a evitar fazer mal às formigas.
Considerando-se o valor simbólico das formigas, acima mencionado, como válido também para este episódio, então verifica-se uma tendência latente de aceitação da energia instintiva que principiava a se manifestar no subconsciente da narradora.
Os arquétipos oníricos do medo da prova e do intruso, com quem, ainda em sonho, marca um encontro, parecem reforçar essa suposição.
Numa interpretação psicológica do mito Amor e Psiqué, pode-se afirmar que essa figura mitológica feminina “consegue realizar o processo de autoconscienciatização pela superação de três componentes do arquétipo de comportamento masculino, sem prejuízo da femininidade”. (Esses três componentes seriam, segunda essa mesma fonte: a promiscuidade, a agressividade e o escapismo).
No conto de LFT nota-se que uma das moças parece preparada para aceitar essa situação em que se encontra: com efeito, a narradora consegue trabalhar aquela problemática no seu subconsciente, através das experiências oníricas.
Ora, segundo esse texto literário, quem se ocupa mais com as formigas e observa freqüentemente o estado do esqueleto a se recompor no caixote, é sua prima, a estudante de medicina. Pode-se até associar o seu papel com o das irmãs de Psiqué, na mitologia, qua procuram afastá-la de Eros, afirmando repetidamente tratar-se de um monstro. Na opinião de estudiosos da mitologia clássica, as duas irmãs de Psiqué significariam “o lado oculto da mente”, e isso bem explicaria a função das primas no episódio em questão: uma representaria a parte racional, e a outra mostraria o lado emocional da psique feminina.
O fator ‘solidariedade feminina’ também está presente no episódio mitológico de forma velada, transformada: acabam de ser mencionadas as írmãs, que fazem tudo para impedir que Psique se enamore e se deixe subjugar pelo homem. Lá também aparece a figura de Afrodite, que manda seu filho Eros à terra, na intenção de prejudicar a bela e invejada Psiqué. Segundo a lenda, Afrodite era representante de um comportamento matriarcal, em que a mulher nunca deveria deixar-se dominar pelo amor e, consequentemente, pelo homem. Por isso, a união entre o homem e a mulher teria sempre que ser realizada na escuridão, para que ela nunca visse seu rosto e, portanto, não desenvolvesse um contato pessoal em nível emocional com ele.
Além disso, baseando-se no contato Homem/mulher, ficaria clara a associação do ato amoroso com a escuridão noturna (o que faz pensar ainda em J. G. Jung e o conceito de ‘sombra’, o lado instintivo da mente humana).
No momento em que Psiqué reconhece o “Amor” – ao apaixonar-se, portanto, – é a mesma deusa Afrodite que vai ordenar à outra que resolva aquelas tarefas, sem o que não poderia mais conquistar Eros. Ora, conseguindo vencer tais obstáculos, Psique vai se colocar à altura de recuperar Amor e até ir para o Olimpo – confirmando que a outra mulher (inicialmente sua rival em beleza e atratividade, segundo a lenda), acaba mudando de idéia, ajudando-a, agora, a superar seus receios com relação ao sexo oposto.
Voltando ao episódio de LFT: aqui a prima consegue afastar a narradora daquele lugar, e ao mesmo tempo daquela confrontação com os primeiros sintomas de sua feminilidade – como haviam tentado fazer as irmãs de Psique.
Resumindo, pode-se concluir que a mulher mais velha proporcionou às moças a iniciação no processo de desenvolvimento da feminilidade; o anão reconstituiu-se como entidade no contato com o elemento feminino; a prima decidiu-se pela não-aceitação do fenômeno, trocando a penumbra do quarto pela claridade da manhã; e a personagem narradora, essa descobriu como se colocar diante de seus próprios instintos, aceitando o desafio da prova e aceitando, também o fato de que o homem-monstro possa tornar-se, com o tempo, uma aparição bem-vinda.
Um outro modelo literário que possibilita uma releitura das imagens heterogêneas da mulher oferece Marina Colasanti. A obra de Colasanti abrange várias áreas diferentes, como ensaios, jornalismo, literatura infantil, contos, poesia, desenho e pintura. No seu trabalho não se preocupa somente com a situação da brasileira de hoje mas também das justificativas sociais, éticas e morais da repressão contra a mulher, há séculos. São primordialmente contos de fadas que lhe permitem um olhar mais amplo na posição das mulheres na história da cultura. Para alcançar isso, a autora utiliza o fantástico e sua participação no subconsciente para elaborar uma utopia – um lugar fora do tempo e do espaço – de onde pode ser reconstruído um outro passado. O fantástico segundo Jackson “(…) inverts elements of this world, re-combines its constitutive features in new relations to produce something strange, unfamiliar and apparently ‘new’ absolutely ‘other’ and different” (Jackson 1988: 8). O fantástico serve com veículo da transformação pelo qual as protagonistas conseguem uma subjetividade mais dinâmica e deixam de ser objetos estáticos. Como sujeitos em processo eles são reinseridos no âmbito mítico da narrativa como símbolos de uma renovação cultural. Esse processo da metamorfose, segundo Warner, é um elemento mais significativo no conto de fadas do que em qualquer outro. Para Colasanti, contos de fadas são “(…) a specific literary genre characterized by ist mythic content, a genre that can be placed in the category of fantastic literature” (palestra de Marina Colasanti na University de Illinois em Urbana, Champaign, dada em março 1996). Essa metamorfose permite a Colasanti fornecer as suas protagonistas femininas com subjetividade, capacidade de agir e iniciativa. Por causa de uma necessidade urgente de descobrir a si mesmas, as protagonistas femininas sendo muitas vezes figuras arquetípicas de conto de fadas, não procuram as suas aventuras em atividades heróicas, mas na interação. Elas se comunicam com outros seres do seu mundo cósmico e perambulam em mitos em que eles reencontram e redefinem o seu eu próprio. Dirigindo-se à restauração do seu eu, elas experimantam lutas permanentes e sem limites. Esse processo cria um mito novo que deve apresentar aos leitores um outro modelo de pensamento. Os contos de fadas de Colasanti se baseiam em diálogos abertos com o leitor, as suas protagonistas mergulhando no território do subconsciente. Ao contrário de um narrador épico que descreve os traços nobres de um herói idealizado, numa maneira bem detalhada, Colasanti escolhe imagens específicas da cruel e distorcida história de cultura feminina inverte essas imagens ou as recompõe e as reinsere em passagens imprevistas, de uma maneira inesperada (cf. Sharpe, 1998: 71-79).
 
Conclusão
Como contrapartida às projeções masculinas de imagens femininas, autoras brasileiras tentam cada vez mais um percurso mimético das projeções masculinas, querendo construir-se assim um lugar próprio. Esse processo mimético é, segundo Irigaray, o único possível discurso da mulher, caso não queira aceitar o discurso masculino e sua subjetividade. Na hierarquia patriarcal, a mulher não tem espaço próprio servindo como base da sua identidade. Assim, ela só fica com a opção de percurso pelas definições masculinas para reconstruir esse espaço (cf. Irigaray, 1980: 89). Esse lugar novo é de procura, onde o subjetivo, o imaginativo e o subconsciente são considerados fontes de inspiração que fazem das obras literárias de mulheres uma forma interativa entre o mundo interior e o exterior. Cada modelo de escrita onde o imaginativo e o real se cruzam vira um ponto de encontro em que as maneiras de agir de mulheres no mundo se transformem de ausência e negação em um modo afirmativo de existência. Nessas atividades elas mudam o conceito derivado de ser a outra num de um ser autônomo. Ao adaptar padrões e normas culturais e imagens projetadas nelas e paralelamente ao transformarem-nas ao mesmo tempo, elas criam a base concreta para analisar a forma heterogênea da mulher na história cultural, participando ativamente na produção cultural. Os modelos literários que são adaptados por escritoras brasileiras nas suas obras podem ser considerados como a definição de um rumo novo para mulheres tanto como sujeitos discursivos como sujeitos de um novo discurso histórico no final deste milênio.
 
Referências Bibliográficas
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Geral:
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Woolf, Virginia (1981). Ein Zimmer für sich allein, Frankfurt am Main, Suhrkamp.





Bio fornecida pelo palestrante.

Narrativa de autoria feminina na literatura brasileira: as marcas da trajetória




Narrativa de autoria feminina na literatura brasileira: as marcas da trajetória

Elódia Xavier
Universidade Federal do Rio de Janeiro

A constatação da existência da autoria feminina configurando uma produção literária, que se estende do século passado até hoje, nos instiga a apontar os rumos desta trajetória, enfatizando, concomitantemente, as marcas do percurso. Elaine Showalter, em A Literature of Their Own: British Women Novelists from Brontë to Lessing, afirma que: “Many other critics are beginning to agree that when we look at women writers collectively we can see an imaginative continuum, the recurrence of certain patterns, themes, problems, and images from generation to generation.” 1 É o que ela chama de “female literary tradition”, sem que isto implique em nenhuma forma de essencialismo; Showalter está interessada em investigar “the ways in which the selfawareness of the woman writer has translated itself into a literary form” 2, não perdendo de vista as transformações sofridas através dos tempos. É esta perspectiva historicizante e culturalista que vai nos orientar no presente trabalho.
São três as etapas apontadas por Showalter no percurso literário que compreende as obras de autoria feminina entre 1840 até por volta de 1960, tendo a cultura dominante como referencial. A primeira, que ela chama de”feminine”, é uma etapa prolongada e se caracteriza pela imitação: ” a prolonged phase of imitation of the prevailing modes of the dominant tradition, and internalization of its standards of art and its views on social roles.” 3; a segunda, uma espécie de ruptura, “a phase of protest against these standards and values, and advocacy of minority rights and values, including a demand for autonomy”4, denominada “feminist”. E, por último, a fase da auto-descoberta, uma espécie de “search for identity”, a que dá o nome de “female”.Não se trata de categorias rígidas, sendo mesmo possível encontrar as três, presentes na obra de uma mesma escritora.
Na literatura brasileira, até o presente momento, considera-se o romance Ursula (1859) de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, a primeira narrativa de autoria feminina. Com seu estilo gótico-sentimental, perfeitamente enquadrado nos padrões românticos, o romance reduplica os valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história. Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor. Júlia Lopes de Almeida, nascida em 1862 e autora de uma obra vasta e variada, é, ainda, mais representativa desta fase de internalização dos valores vigentes e dos papéis sociais. Pertencente à alta burguesia, enquanto Maria Firmina dos Reis é uma simples professora do interior, Júlia Lopes constrói sua obra sobre os alicerces patriarcais, sedimentada por rígidas relações de gênero. As rainhas do lar coroam os finais felizes deste universo ficcional. Também o romance A sucessora (1934) de Carolina Nabuco, embora mais elaborado do ponto de vista psicológico, não escapa do processo de imitação dos valores vigentes, uma vez que a protagonista resolve seu conflito interior a partir do momento em que se percebe grávida; é como reprodutora que ela supera o fantasma da primeira esposa estéril…Ainda estávamos sob o domínio do determinismo biológico.
Essas autoras ilustram a primeira etapa da trajetória da narrativa de autoria feminina, na literatura brasileira; elas reduplicam os padrões éticos e estéticos, mesmo porque elas ainda não tinham se descoberto como donas do próprio destino. A obra de Clarice Lispector rompe com esse estado de coisas, pondo em questão as relações de gênero. Os contos de Laços de família (1960), – o próprio título é muito significativo -, tornam visível a repressão sofrida pelas mulheres nas cotidianas práticas sociais. O feminismo já havia desencadeado um processo de conscientização e a narrativa de autoria feminina vai incorporar as questões polêmicas contidas em O segundo sexo (1949) de Simone de Beauvoir. Chamar esta etapa de feminista não significa dizer que ela é panfletária; ninguém discute o valor estético da obra de Clarice e, no entanto, ela traz nas entrelinhas uma pungente crítica aos valores patriarcais.
O mesmo acontece com a obra de outras tantas autoras desse período que se estende, aproximadamente, até 1990. Vamos nos deter em quatro dessas autoras, embora nossa vontade fosse falar de todas elas, tal é a qualidade estética e a força criativa que apresentam.
Patrícia Bins, carioca de nascimento, vive há muitos anos no sul do país, onde vem escrevendo desde 1968. Seus romances, marcadamente intimistas, narram sempre o drama existencial de uma mulher. Estas personagens femininas são flagradas num determinado momento de sua trajetória: o mundo a sua volta perde o sentido, o vazio se instala e elas, através da regressão ao passado, se despojam das máscaras sociais num auténtico processo de individuação. A psicologia junguiana pode nos ser muito útil na leitura destes textos. Ana, protagonista de Antes que o amor acabe (1984), ao se dar conta do automatismo de sua vida, dá início à trajetória que a levará à descoberta do self. Passo a passo se processa o desvestimento da persona, atingindo, no final, a totalização psíquica e a integração com a natureza. A situação social da personagem – meia idade, casada, classe média – tem importância na medida em que representa condicionamentos impostos por práticas sociais.A inadequação a esses papéis gera o desequilíbrio e a busca de uma solução, que só será eficaz se levar à descoberta da identidade existencial. Embora o romance termine apontando para uma situação plena, os dois pontos finais indicam que nada é definitivo.
A contestação aos valores patriarcais se revela, em Lya Luft, de forma densa e dramática. A obra desta autora gaúcha, centrada sobretudo na década de 80, tematiza o drama da mulher, educada dentro de rígidos padrões moralistas; como geralmente ocorre com as narrativas de autoria feminina, percebe-se, aqui, o cunho autobiográfico, uma vez que a autora é descente de alemães, vivendo numa sociedade conservadora. Sua obra compõe um universo feminino marcado pela loucura, pela doença e pela morte. O lúdico e o grotesco desvendam os absurdos de uma sociedade repressora e injusta, onde a mulher é sempre perdedora, o lado fraco, o lado esquerdo; no grande jogo da vida, a mulher, vítima da rigidez das relações de gênero, busca através da arte a sublimação de seus conflitos; as protagonista, quase sempre sujeitos da enunciação, se projetam especularmente na escrita, buscando sua identidade existencial. Em Exílio (1987), a personagem, marcada por uma infância sofrida e mal amada, vive num mundo povoado de fantasmas, alijada do convívio de sua família; longe do filho e do marido infiel, ela se exila na “casa vermelha”, purgatório dos transgressores, aguardando um recomeço. Frustrada em sua esperanças – o amante tem um filho excepcional que ela não consegue suportar – , a crise existencial se agrava provocando um mergulho mais profundo em busca de soluções vitais. Penetra, então, na “floresta”- metáfora da mãe suicida -, tentando o desvendamento dos enigmas que a atormentam. O final não aponta para uma situação definida – “Talvez eu não consiga chegar em casa. Talvez chegando, não possa ficar. Quem sabe”(p.201), mas a personagem se encontra através da escrita, indiciando a solução dos conflitos interiores.
São várias as formas de contestação aos valores patriarcais assumidas pela narrativa desta etapa. Com Márcia Denser, escritora paulista, ela assume um caráter violento e mordaz. Seu único livro, Diana Caçadora (1986), é uma coletânea de pequenas narrativas cuja disposição é significativa na medida em que torna visível a crescente degradação da protagonista. Trata-se da trajetória de uma mulher de aproximadamente trinta anos, jornalista inteligente e liberada, que busca se encontrar através de relações efémeras e ocasionais.Da parceria com intelectuais à situação limite vivida em “Relatório final”, Diana percorre caminhos que a levam, sistematicamente, ao abandono e à solidão. A ironia é seu recurso contra o sistema que a quer devorar e são poucos os momentos em que, com extrema lucidez, reconhece melancolicamente sua trágica fatalidade. A figura do analista está sempre presente, como marca de uma cultura desprovida da autoridade familiar e religiosa. Os papéis sociais, porém, continuam definidos, exigindo opções; por isso, o analista aconselha – “ou escreve ou lava fraldas”. Diana evita relações duradouras com medo da dependência emocional e a idéia de se submeter aos desmandos de um cônjuge lhe é insuportável. Na sua fome e voracidade, de caçadora torna-se caça e, lograda e insatisfeita, é usada violentamente pelo sistema.
Outra autora que, em sua contestação feminista, mantém a tensão de forças antagônicas, é Sônia Coutinho, de origem baiana mas vivendo no Rio de Janeiro desde de 1968. Este afastamento da cidade natal e, consequentemente, dos laços familiares e do contexto provinciano, é elemento estruturante de sua obra, constituída de contos e romances. A temática da mulher madura, sozinha na cidade grande, tentando realizar seus sonhos e viver a vida em sua plenitude, é uma constante. O ambiente redutor da cidade pequena não satisfaz a personagem, que busca em Copacabana a realização de seus sonhos. O resultado é uma série de casamentos desfeitos, relações frustradas , amargura e solidão. No conto “A liberdade secreta”, a protagonista se questiona – “a tirania do mundo é pior do que a dos pais?”(p.128) . Basicamente, é esta a situação dramática do romance Atire em Sofia(1989), narrativa nitidamente pós-moderna. Aqui, a protagonista, depois de quinze anos afastada de suas origens, retorna para ver as filhas e os amigos; o retorno tem um desfecho trágico, pois acaba assassinada pelo amante. A obra de Sônia Coutinho é bem representativa da crise da mulher numa sociedade que, até então alicerçada pelos valores patriarcais, vê-se, nos anos 80 à mercê de grandes transformações. A cisão de que são vítimas estas personagens coincide com a crise do discurso feminista: dividida entre viver seu “destino de mulher”e realizar sua “vocação de ser humano”, ambição esta tornada possível graças à revolução dos costumes, a mulher busca uma solução para sua plenitude existencial. Os encargos profissionais assumidos não a liberaram dos deveres domésticos; e, como as conquistas são recentes – vivemos um momento de transição -, os laços de família ainda prendem a mulher a um espaço, que a sua ânsia de transcendência recusa. Daí, uma certa nostalgia do tempo das avós, aquelas tranquilas senhoras que tão bem desempenhavam seus papéis de esposa/mãe e dona de casa, protegidas pelas vetustas paredes do lar. As protagonistas de Sônia Coutinho vivem esse impasse: não aceitam as regras do jogo, porque sufocantes e repressoras; querem viver plenamente e acabam, por isso, condenadas à solidão e até mesmo à morte.
A narrativa de autoria feminina dessa fase se estrutura em torno das relações de gênero, tornando visíveis as assimetrias sociais. Se, em Patrícia Bins, a trajetória das personagens as leva ao autoconhecimento, através da individuação, o processo é doloroso e exige o abandono de todas as máscaras; não se trata de uma vitória, porque as narrativas terminam em dois pontos. Com Lya Luft, o trágico e o grotesco se articulam para desvelar as regras desse jogo sujo, onde a mulher é sempre perdedora. Márcia Denser tenta subverter essas regras, criando uma personagem caçadora, que acaba, porém, caçada e degradada; enquanto Sônia Coutinho desloca suas protagonistas no espaço em busca de uma realização que não se dá, porque se o esquema tradicional é sufocante, a liberação não satisfaz. É um beco sem saída…
Algumas narrativas da década de 90 apontam para uma saída, configurando, talvez, uma outra fase, a que Showalter chama de “female”, marcada pela construção de uma nova identidade. O termo “female”, contrapondo-se a “male”, afasta-se da representação de gênero, uma vez que remete unica e exclusivamente ao dado biológico. Enquanto “feminine” é um termo gendrado, “female” significa tão somente do sexo feminino. Isso importa na medida em que algumas narrativas não fazem mais das relações de gênero a origem dos conflitos e indiciam a construção de uma nova identidade liberta do peso da tradição.
Adélia Prado, mais conhecida como poetisa, é autora de quatro narrativas sendo a última, O homem da mão seca, datada de 1994, enquanto as demais são da década de 80. As protagonistas, sempre mulheres, vivem crises existenciais, em busca de uma plenitude inalcançável; casadas, com filhos, cujos maridos – figuras inteiras, sem conflitos – contrastam com o dilaceramento interior das protagonistas. A trajetória de Antonia, personagem de O homem da mão seca, é indiciada pelas epígrafes, quase todas bíblicas, que abrem os vários segmentos da narrativa. As três primeiras são tiradas do Livro de Jó e remetem, a primeira à origem da crise, através da imposição da lei de Deus (“Guarda-te de declinar para a iniquidade e de preferir a injustiça ao sofrimento”); a segunda à falta, à carência que se instala na personagem (“Por ventura orneja o asno montês, quando tem erva? Muge o touro junto de sua forragem?”); e a terceira à opressão que paralisa a personagem (“Pois estou cheio de palavras. O Espírito que está em meu peito me oprime.”) De forma significativa, a quarta epígrafe é de Camões (“O vivo e puro amor de que sou feito/ como a matéria simples busca a forma.”), sugerindo a busca da unidade, da forma ideal, que será encontrada, no último segmento que se abre com uma epígrafe, inspirada em Guimarães Rosa (“Toma filha de Cristo, senhora dona:/ compra um agasalho para essa que vai nascer/ defendida e sã e que deve de se chamar apenas/ Felícia Laudes Antonia”). De fato, opera-se o batismo de uma nova Antonia, no início chamada Antonia Travas Felícia Laudes e, agora, destravada e feliz, como a epígrafe sugere. Operou-se o milagre indiciado pelo título do livro, episódio bíblico narrado pelos evangelistas Marcos, Mateus e Lucas.
A Sentinela, de Lya Luft, também de 1994, á ainda mais significativa como representação de uma nova identidade feminina. Isto porque seus cinco romances anteriores, todos da década de 80, constroem um universo absolutamente sufocante, onde a mulher é sempre perdedora. Embora apontem para a decadência do patriarcado, as protagonistas continuam enredadas no contexto familiar, que destrói qualquer forma de realização; a lei do pai ainda dita as regras do jogo social, restanto às personagens femininas a acomodação aos papéis impostos. A ruptura é punida com a marginalização e o exílio. Nesses romances, a família, representada como instituição falida e fonte geradora de conflitos e repressões, é, tragicamente, o beco sem saída.
São os mesmos os ingredientes que compõem o universo ficcional de A Sentinela; a protagonista, vítima do desamor e de perdas trágicas, se enreda nos fios da memória, mas consegue, desfazer os nós e encontrar os “rumos”.Embora viver seja – “subir uma escada rolante…pelo lado que desce. A gente passa a vida toda fazendo uma força danada para chegar mais alto, para onde nos impelem esperança, desafios, sonhos. Mas lá de baixo nos chamam o cansaço, a solidão, a doença, a loucura…a morte. Esta, no fim, vai vencer”.(p. 156-7) – a narrativa aponta estratégias para enfrentar este destino. As perdas se diluem na autoconfiança que a protagonista adquire através de seus teares, tecendo uma nova identidade não mais sujeita às relações de gênero. No presente da enunciação, ela declara: “Estou bem, como se retivesse nas mãos as rédeas de mim, observando sem espanto os trechos a percorrer.”(p.30) A arte, tecendo palavras, fios, sons, é a única capaz de enfrentar a vigilância mortal da “sentinela”.Nora, a protagonista, descobre no fazer artístico – inaugura uma tecelagem – o caminho para a construção de uma nova identidade, onde as relações afetivas – mãe, filho, amante – perdem o peso relacional, deixando a personagem livre para viver o mistério, o imprevisto, para ter “a audácia de se jogar” e de “delirar”.
As marcas da trajetória da narrativa de autoria feminina, na literatura brasileira, revelam sutís diferenças no desfecho das tensões dramáticas vividas pelas persongens femininas. Seriam estas diferenças sintomáticas da construção de uma nova identidade feminina mais livre do peso das relações de género?
Notas
1 SHOWALTER, E. (1986) p. 11-2
2 ibidem p.12
3 ibidem p. 13
4 ibidem p.13
 
Referências Bibliográficas
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10.SHOWALTER, Elaine. In: EAGLETON, Mary ed. Feminist Literary Theory. New York:Basil Blackwell Ltd, 1986.





Bio fornecida pelo palestrante.

Julia Kristeva: para além do simbólico




Julia Kristeva: para além do simbólico

Margaret Anne Clarke
Universidade Federal do Rio de Janeiro

A crítica feminista abrange uma grande variedade de teorias e práticas diferentes, em um estado constante de desenvolvimento e de mudança. Faz sentido, portanto, falar das críticas feministas no plural em vez do singular. Dentre este campo da teoria literária, a relação entre a psicanálise, o feminismo e a escritura feminina é uma questão ainda mais complexa. A crítica literária que surgiu a partir da segunda onda do feminismo na década dos sessenta e princípio dos anos setenta, enfocou, antes de tudo, na marginalização da mulher do cânon literário ocidental, e, a partir daí, a recuperação de um grande corpus da escritura feminina até então desconhecida ou ignorada. Ultimamente, porém, escritoras de vários países, sobretudo da França, começaram a fazer perguntas mais profundas e abrangentes acerca da questão do género, a verdadeira natureza da mulher como sujeito humano e a relação desta com a sociedade e a linguagem. Críticos como Julia Kristeva, Hélène Cixous e Luce Irigaray desafiaram o conceito tradicional de cada gênero – homem e mulher – como categoria única e absoluta, reduzível a uma essência só. As diferenças entre os géneros e, acima de tudo, a experiência da diferença são construídas psicologicamente e dentro de um dado contexto social. Além disso, as diferenças entre os géneros não existem como fenômenos em si, isolados ou independentes. Cada gênero é construído dentro de uma rede complexa de relações humanas e, portanto, não se pode examinar a diferença sexual como fenômeno separado desta rede. Neste contexto, uma abordagem psicanalítica joga um papel de importância capital.
A psicanálise, sendo um estudo completo do desenvolvimento humano desde a infância, é capaz de fornecer também uma teoria sobre as origens e a formação do gênero como categoria separada. Assim, a psicanálise se torna um método emancipador de examinar a construção do sujeito humano em todos os seus aspectos, e pela razão seguinte: o pressuposto mais básico da psicanálise é que o sujeito humano é uma entidade complexa. O pensamento consciente deste é apenas uma só manifestação de uma multiplicidade de estruturas inconscientes que se cruzam e se intersectam para produzir a constelação instável que os humanistas liberais chamam de ”eu”. Estas estruturas abrangem não só os desejos, os impulsos e ímpetos infantis reprimidos, mas também uma legião de outros fatores materiais, sociais, políticos e ideológicos, de que estamos apenas parcialmente conscientes. É esta rede de estruturas contraditórias que forma o ser humano e não o reverso. Isso não quer dizer, é claro, que as experiências do indivíduo sejam menos valiosas nem menos reais, mas significa que tais experiências só podem ser compreendidas através de um estudo minucioso dos seus componentes, de que o pensamento consciente é uma parte só.
É claro, então, que esta perspectiva pode tornar-se muito relevante à crítica feminista, porque claramente nega o puro determinismo biológico; portanto, o conceito de categorias masculino/feminino com determinadas características torna-se muito mais problemático. Qualquer idéia de um ”eu”, unificado e determinado biologicamente, tem que ser muito redutiva.
As teorias francesas do feminismo, baseadas em grande parte na psicanálise e, sobretudo, na leitura pós-moderna de Lacan, contribuíram muito ao debate nos últimos anos, sobretudo àqueles aspectos que tratam da sexualidade da mulher, da construção da diferença sexual, e, mais especificamente, das relações da mulher com a linguagem e a escritura. Entre as várias feministas que trabalham neste campo, destaca-se o nome de Julia Kristeva, cujo trabalho abrange e combina a lingüistica, a literatura e a psicanálise. A obra de Julia Kristeva é, é claro, bem diversa; contudo, o âmago dos estudos dela fica a problemática da linguagem e a questão de como se define, exatamente, a linguagem. Segundo Kristeva, os lingüistas andam ainda descobrindo e formulando as regras que dominam o nosso código social fundamental. Por isso, Kristeva considera a base ideológica e filosófica da lingüistica moderna como fundamentalmente autoritária e opressiva. Num ensaio intitulado ”As éticas da lingüistica” ela diz o seguinte:
”A epistemologia que fica por baixo da lingüistica e dos processo cognitivos conseguintes (o estruturalismo, por exemplo) (…..) parece um anacronismo quando enfrentarmos as mudanças contemporâneas da sociedade”. 1
A saída deste impasse, segundo Kristeva, encontra-se numa mudança radical além do conceito saussuriano de langue para o re-estabelecimento do sujeito falante como objeto central dos estudos lingüisticos. Assim, esta nova abordagem mudaria a lingüistica fora do seu fascínio prevalente com as estruturas monolíticas e monogéneas, para uma análise da linguagem como processo heterogéneo, complexo, num estado de fluxo constante. Esta visão, portanto, pressupõe uma nova énfase na aquisição da linguagem: quer dizer, o processo pelo qual o indivíduo aprende a linguagem desde a infância. Segundo Kristeva, o sujeito humano não pode ser definido como uma unidade. O indivíduo é dividido, decentralizado, superdeterminado e, portanto, ficam num estado fundamental de instabilidade. Para definir com mais precisão a instabilidade inerente ao ser humano, Kristeva formulou o termo ”sujeito em processo”:
”Processo” no sentido do processo mesmo, em curso, mas também no sentido dum processo da lei, onde o sujeito fica em julgamento, porque nossas identidades na vida estão constantemente postas à prova, julgado, rejeitado. Por isso, Kristeva dá énfase no estudo da linguagem porque é precisamente a linguagem que manifesta estes estados de instabilidade. Normalmente, no meio da comunicação e do discurso comum, que é estruturado, organizado e ”civilizado”, tendemos a reprimir estes estados de instabilidade, que são também as fontes de criatividade, de poesia. A criatividade e o sofrimento se compõem destes momentos de instabilidade, quando a linguagem mesma, e os sinais da linguagem são postos neste ”processo”
Para esclarecer as raízes deste processo, Kristeva define duas modalidades, a primeira que ela chama ”o semiótico” e a segunda ”o simbólico”. O semiótico nos retorna às fases da infância pré-linguísticas. A criança balbucia os ruídos que ela ouve, tentando imitar o seu ambiente, ou o mundo ao seu redor. Os processos que podemos ver nesta etapa da infância são os que Freud chamou ”os processo primários” de transferência. Temos um exemplo disto se referirmos à palrice das crianças, que é uma imagem sonora da instabilidade do corpo. Os corpos de crianças e bebés se compõem de zonas erôgenas que são muito excitáveis num estado da mudança constante, e sem uma identidade fixa. Nessa etapa, a criança ainda não possui os sinais lingüisticos necessários, e assim não existe ”sentido” lógico e convencional. O semiótico é um estado de desintegração, dentro do qual vários padrões e quadros aparecem, mas não tém identidade estável nenhuma; são toldados e flutuantes. 2
Embora Kristeva acredite que uma ”identidade fixa” é, ao fim das contas, uma ilusão, podemos alcançar um certo tipo de estabilidade, e existem vários passos no caminho da criança para uma identidade mais estável.
O padrão clássico freudiano do desenvolvimento humano é a crise edipal: o pai é responsável pela cisão, ou separação, entre a mãe e a criança, e proíbe a criança de ter mais acesso à mãe e ao corpo da mãe. A crise edipal representa a entrada da criança na Ordem Simbólica ou o simbólico, segundo a definição de Kristeva. Esta entrada está intimamente ligada com a aquisição da linguagem. Quando a criança aprende a dizer ”eu sou” e distingue esta frase de ”você é” ou ”ele é”, este é o equivalente de admitir que já assumiu sua posição dada na Ordem Simbólica, e abandonou o direito à identidade imaginária com a mãe e com todas as outras posições possíveis. O sujeito se torna capaz de pronunciar frases que se conformam às regras duma sociedade dominada pela Lei do Pai, e de contar também a sua própria história, de exprimir-se plenamente.
Contudo, existe ainda uma falta ou uma perda na consciência do indivíduo, porque é sujeito às várias posições na sociedade que já são definidas para ele ou ela, que ficam fora do seu controle. O sentido de ser um sujeito pleno, realizado e unificado é contradito pelo sentido de ser definido pela lei da cultura humana. Por isso, é nesta fase que o desejo e o inconsciente são também criados. O inconsciente é o repositório de tudo que tem que ser reprimido quando o sujeito assume a sua posição dada na sociedade que são disponíveis na linguagem. Uma das imagens que Kristeva emprega para descrever o conteúdo essencial do inconsciente é a cora. A cora é um vocábulo grego que significa um receptáculo, um espaço fechado, ou um útero. Platão define este conceito no Timeu como ”um ser, ou um ente invisível e sem forma que recebe todas as coisas e, nalguma maneira misteriosa partilha do inteligível e é, sobretudo, incompreensível”. Kristeva adapta e redefine este conceito e conclui que a cora não é um sinal, nem uma posição, mas em vez disso, uma articulação inteiramente provisional que é essencialmente móvel. É o fluxo sem fim de pulsões básicas recolhido na cora.
A cora é uma modalidade que traz consigo as memórias mais arcaicas dos nossos laços com o corpo materno. Na maioridade, reprimimos a inscrição vocal ou gestual desta experiência sob nossas aquisições subsequentes; é uma condição importante para a autonomia. Pois quando o sujeito entra na ordem simbólica, a cora torna-se reprimida, e, a partir de então, só pode ser percebida como uma forma de pressão na linguagem simbólica. É experimentada como contradições sem sentido, transtornos, silêncios e ausências na linguagem simbólica. No obstante, a cora é uma pulsão rítmica; não é uma nova linguagem em si. Em outras palavras, constitui a dimensão heterogénea da linguagem, o que nunca pode ser exprimido dentre o encerramento da teoria tradicional lingüistica.
”Trata-se de abrir, na e para além da cena das representações lingüisticas, modalidades de inscrições psíquicas pré ou translinguísticas, que poderíamos chamar semióticas, ao encontro do sentido etimológico do grego semeion, traço, marca, distintividade. No fundamento da filosofia, antes que nosso modo de pensamento se fechasse no horizonte de uma linguagem entendida como tradução de uma idéia, Platão lembrando-se dos atomistas, falou no Timeu de uma cora-arcaico, móvel, instável, anterior ao um, ao Pai, e mesmo à sílaba, metaforicamente designada como alimentar o maternal”. 2
É neste ponto que percebemos a possibilidade de criação, de sublimação. Kristeva acha que cada tipo de criação, mesmo científica, deve-se a esta possibilidade de abrir as normas. É esta experiência da cora semiótica na linguagem que produz a poesia. A cora pode ser considerada como a fonte de todos os esforços estilísticos, a modificação da ordem banal e lógica, através de distorções lingüisticas como a metáfora, a metonomia e a musicalidade.
Quando à situação das mulheres mesmas na Ordem Simbólica, a questão da linguagem torna-se mais complexa. Kristeva recusa dar uma definição da ”mulher” como tal. Não oferece uma teoria concreta acerca da feminilidade nem da ”fémea”. Em vez disso, propõe uma teoria de marginalização. Já vimos como a semiótica Kristeviana dá a énfase no marginal e no heterogéneo. Kristeva, falando da sua experiência como psicanalista, afirma que muitas mulheres reclamaram da sua própria experiência da linguagem como algo frio ou estrangeiro nas suas vidas, alienado das suas próprias paixões e dos seus desejos 3. Estas queixas são importantes porque põem em causa a linguagem como exercício lógico. A comunicação do dia-a-dia é representativa da código social prevalente. As formas semióticas que ficam latentes na linguagem são reprimidas, não são ouvidas, e não tem seu próprio espaço. Segundo Kristeva, esta repressão é mais outro meio de cortar o laço primordial com a mãe e o reino maternal, e daí surge um sentido fundamental da estranheza e da alienação. Ao expor o alcance da ordem patriarcal, que domina as estruturas da linguagem e da mente mesma, Kristeva critica a rigidez e a inflexibilidade da ordem simbólica, e sugere que as mulheres, uma vez liberadas desta ordem, são capazes de escrever num espaço diferente, mais flexível e mais aberto.
Para concluir, então, o compromisso de Julia Kristeva com a investigação minuciosa dos problemas da marginalidade e da subversão e sua deconstrução radical da identidade do sujeito, abrem novas perspectivas para a crítica feminista. A teoria do sujeito em processo e da cora nos permite examinar a escritura das mulheres a partir duma perspectiva anti-essencialista e anti-humanista. Se aplicarmos esta teoria à questão de gênero e da diferença sexual, temos, então, uma visão feminista duma sociedade dentro da qual o sujeito humano seria livre de exprimir-se livremente, além e fora das oposições binárias, como eu/outro, sujeito/objeto, homem/mulher, que são apenas manifestações de códigos sociais restritos que reprimem a poesia e a criatividade. A tarefa da escritura feminina, portanto não deve ser a adoção dos códigos lingüísticos do poder patriarcal. Porém, as escritoras não devem evitar os encontros com o simbólico, mas, em vez disso, construir textos e poesias que resistem as regras e as regularidades da linguagem convencional, recuperando e afirmando todo o potencial poético sem limites que fica na cora, fonte da todos os nossos desejos e impulsos mais profundos.
 
Notas:
1 KRISTEVA, Julia. ”The Ethics of Linguistics” In: Moi, Toril. Sexual/Textual Politics: Feminist Literary Theory. (London: Routledge, 1995), p. 152. Minha tradução.
2 KRISTEVA, Julia. No Princípio Era o Amor: Psicanálise e Fé. (Trad. Leda Tenório da Motta).( São Paulo: Editora Brasiliense, 1987). p. 14.
3 KRISTEVA, Julia. ”A Question of Subjectivity – and Interview”. Women’s Review, no. 12. (1986) pp.19-21.
In: Philip Rice and Patricia Waugh. Modern Literary Theory: A Reader (Third Edition). (London: Arnold, 1997). Pp.134-135.





Bio fornecida pelo palestrante.

The ‘new Eve’ or the transformation of patriarchal myth as represented by Brazilian women writers




The ‘new Eve’ or the transformation of patriarchal myth as represented by Brazilian women writers

Gerhild Reisner
Universität Salzburg 

I. Introduction:
The purpose of this essay is to analyse the patriarchal myths concerning femininity with regards to different theories taken from feminist literature. Accordingly, myths about femininity, when read as a representation of women, are products and projections of the male fantasy. But they also carry the exiled and the suppressed with them which have not been able to enter into the self defined masculine world. When supposing a femininity, which is opposed to the male subject, there is the danger that the old patriarchal description of woman as nature will be repeated. However, should femininity be demythologised, it is most probable that the patriarchal order of things and the acceptance of a masculine subjectivity will be rebuilt.
Based on these considerations, illustrated with several examples from modern Brazilian prose, this essay should demonstrate how female protagonists are presented on a very complicated level of discourse. Not only this but also how they take part in a liberal-humanist discourse about freedom, self determination and rationality as well as in the specific feminine discourse about uncertainty, internalised subjectivity and irrational intuition. And all this takes place whilst searching for an uninterrupted, autonomous feminine self identity. Furthermore, it should be demonstrated how different myths concerning femininity are transformed in such Brazilian literature through deconstruction, re-reading and altered perspectives.
In the first section several standpoints in the debate about mythical femininity will be worked through and, following that, the working on and transformation of the said modern Brazilian prose will be examined with the use of several examples.
 
II. An attempt to define the myth
A return to the myth has become a central as well as contrary, yes even a hostile, term in the humanistic discourse during the last decade. The hypothesis of contemporary assembly discussions regarding the mythological renaissance appoints itself to the dissolution of the positivist academic ideal as well as to the explanation of obligatory concepts of reason which has benefited the analysis of the (irrational) logic of power. The effectiveness of the reality of the semiotic-symbolic – or the collective illusions, the fantastic, the arbitrary constructs, the aesthetic in general and their appropriate codes – has meanwhile become a significant part of the cartography of academia. At the same time, symbolic power has long since established itself where the controls of programmatic rationality no longer reign, whilst the imaginations of the social spaces crystallise themselves into new symbolic conglomerates. The establishment of these conceptions of the world allow the myth, at the end of day, to appear as a form of conversion, the result of which seems to be a correct distortion: the disarming of such dangerousness, the alarming manifestation of which (being without doubt fascism), would seem to be even more pressing as classical ideological criticism encourages less and less the repeated packing away of such myths. The terms used to describe these myths have formed at the intersection between religious studies, philosophy, ethnology and psychology. There are two concepts in the contemporary discourse about myth which seem relevant for the examination of the selected Brazilian literature with regards to the integration of mythical femininity:
“(…) the interest in myth being an unreachable form of expressing the archaic stages of the formation of consciousness, partly as a result of the mass popular new interpretation of C.G. Jung’s psychoanalysis; the myth as an historic and existential form of later rationalisation; its synthetic strength as protector of the coherence to a common social knowledge in a shattered world; a guide to negotiation in which it offers basic materialistic convictions.
(…) the interpretation of the term myth from Claude Lévi-Strauss which, when structured as language, is defined by the way in which its particles of reality are dismantled and newly combined, resulting in the logical assembly of the following methods of constructing reality: the myth as a particular method of expression, to be observed as a narrative unit, the consequences of which must be isolated whereby the general isotope (namely a particular mythological universe) defines its own particular myth in its society – as according to the semiologist A. Greimas.”
By using a differentiated understanding of the Barthesian definition of the term myth – myth is a secondary semiological system, of which the deficient moment of reception is factual – it is possible to contextualise the myths in their contemporary cultures. Roland Barthes described them in detail in “Everyday Myths”. The term myth occupies an interesting position within mythology itself. It differentiates itself from different traditional terms concerning myth which have been won from the historical research into Greek mythology and ethnological studies.
 
III. Definition of mythical femininity
Simone de Beauvoir considers in detail the Western form of mythical femininity in her 1949 published book Le Deuxième Sexe, a book of epochal importance. More than a decade before the new feminist movement and in a time where 19th and early 20th century feminism had almost been forgotten, Beauvoir attempted to take a complete empirical and historical stock of the female situation as well as its philosophical reasoning. She developed a basic terminology for the definition of gender differences with which feminist theory still works today: the one / the other, transcendence / immanence, the myth of the female biological gender / social gender. She was the first to systematically analyse woman as the ‘other’ and to demand that they become a subject.
For Beauvoir, the ‘other’ is a basic category of human thinking. She assumes that human beings cannot define anything as being ‘one’ without comparing it to the ‘other’; that meanings can only be defined by binary, hierarchical analogies. This applies to both epistemological and social theory: the self-definition of human societies constantly presses the ‘other’ into excluded or suppressed groups, classes, casts or races. She assumes that “the subject can only define itself through contrastive juxtaposition: it has the need to confirm itself as fundamental by defining the ‘other’ as irrelevant, as object.
Later feminist theorists such as Luce Irigaray, Hélène Cixous or Jessica Benjamin would question the necessity of the desire to destroy the ‘other’. For Beauvoir, however, a reciprocal recognition of two subjects, that are not influenced by the desire to destroy and suppress, would be unthinkable. Woman as ‘other’ is, according to Beauvoir, a myth created by man. She serves him as a screen upon which he can project his hopes and fears. Woman should, for him, be “a diaphaneity of nature’s consciousness and, thereby, a naturally born submissive consciousness” (ebd., 154). He sees nature’s mediator in her. As a result, woman is defined as being immanent: as natural, internally apathetic, as being totally contemporary and in the reality of a blossoming physicality. However, the masculine subject interprets himself as a defective creature cut off from reality which does not exist until it confronts itself with an ‘other’: it establishes itself as an infinitely transcendental being. In order that man can establish himself as consciousness, will, soul and transcendent being, woman must accept the burden of the other, dependent, natural and death-bound side of the splintered human existence: she is unconsciousness, passivity, body. So much Beauvoir’s analysis of Western mythical femininity.
Despite the apparent evidence that men do have a body and that women really are capable of thinking, this myth has proved to possess an amazingly tenacious liveliness. Beauvoir, however, does not succeed in overcoming the influence of masculine prejudice in her interpretation of women which she elsewhere interprets brilliantly. She demands that women should overcome their restricted existence as immanence and establish themselves as a subject. She forgets, however, to demand that men should also overcome their restricted existence as immanence and recognise themselves as body. When reading the French essayist, the masculine values of soul, transcendence, aggression are positively connoted whereas body, nature and immanence are negatively connoted. Beauvoir issues women the type of subjectivity to which they have long since become a sacrifice: the masculine self-establishment as ruling subject. Woman’s self-realisation is, according to her, based upon the overcoming of one’s female existence.
It is only post-structuralist theorists such as Irigaray or Cixous who undertake to question binary opposites such as transcendence / immanence, soul / body, subject / other: they ask for a different subjectivity and rationality which do not have to debase or deny body and life.
In order to question the patriarchal order of things, a decoding and articulation of that which is suppressed by the myths drowned in lust and fear found in art are necessary. The feminist demythologisation must proceed a rescuing of the myth when it wants to avoid a simple reproduction of patriarchal values. In her book, Die imaginierte Weiblichkeit, Silvia Bovenschen demonstrated this as a scholarly motif, which developed to a cultural representation of the feminine in the 18th century. Bovenschen shows how the permission given to women to take part in the masculine intellectual discourse in the age of Enlightenment paralleled a vanishing of the feminine mythical, literary imagination.
Quoting Virginia Woolf, the comparison between the Western history of literature and history of reality leaves us to see woman as a “peculiar monstrosity”:
 
“In the kingdom of fantasy, she is of utmost importance; practically, she is completely meaningless. […] Some of the most inspired words, some of the most profound thoughts about literature pass through her lips; in real life she could hardly read, hardly spell and was the property of her husband.” (Woolf 1981, 51).
 
The absence of woman as subject in history corresponds with her extreme presence as the personification of myth. The images which the history of literature hands down include contradictory images such as that of the Madonna, the idealised woman, the witch, the youthful naiveté, the temptress, the loving mother or the femme fatale. However, this complex of stereotypical images finds itself in a dualistic schema: they divide femininity into an idealised and demonic form. Woman is pure infinite femininity or spoil sport, ‘lily’ or ‘rose’, saint or bitch, angel or devil. She is always identified with nature.
The psychoanalyst Christa Rohde-Dachser defines patriarchal mythical femininity as defensive fantasies of the masculine subject, as a compromise between desire and fear, which can be compared with dream and symptoms of neurosis. In patriarchal society, femininity is awarded that which is bracketed out of the masculine self-definition:
 
“Femininity […] thereby possesses a kind of container function: in an imaginary, feminine defined and, at the same time, from the man’s world severely segregated space, man disposes of his fears, wishes, yearnings and desires – his life which he has not yet lived, one could also say, in order to maintain and always call upon it.” (Rohde-Dachser 1991, 100)
 
The images of femininity serve to define the collective rejected as culturally acceptable and as a result, to quieten, control and make available. This imaginary femininity does not have much to do with the real woman; it denominates more a negative image of the masculine gender identity. As a wealth of patriarchal fears and utopias, woman becomes an embodiment of the masculine unconsciousness. As an embodiment of the suppressed, woman becomes on the one side an image of the motherly natural origin from which the masculine subject has receded into a fantasy of regression and fusion – the place of reconciliation, temptation and seduction, lust and physicality.
The approach towards discussing mythical femininity can be concluded as follows: when feminists propose an essential femininity, which they place in opposition to the masculine subject, they are in danger of repeating the old patriarchal attribution of woman to nature; should they try to demythologise femininity, the hidden trap of a repetition of the patriarchal order of things and the acceptance of a masculine subject threatens to snare.
Bovenschen tries to reckon out this problematic. Like the American literary critics, she bases her discussion on the discrepancy between a shadowy existence and illustriousness, between the absence of woman in history and their abundant presence in literature. She doubts however the possibility of a definite separation between mythical femininity and the real woman:
The term feminine is not exhausted by the social form of female existence, rather it gains substance from the reality of the imagination. The mythological, meanwhile idealised, meanwhile demonised
 
(…) femininity materialises out of the relationship between the sexes and out of that relationship women have to [make out] themselves which is won out of this alien substance. […] Looking back, this morphology of the imaginary femininity places itself in the position of feminine history. The demarcation between an other’s definition and one’s own interpretation is no longer clear.” (Bovenschen 1979, 40f.)
 
Bovenschen does not, therefore, simply put such mythical femininity to one side; it has much more to do with “the probing and deconstructing of the different forms of considering and presenting femininity. And most of all, to create an accessible basis for the analysis of femininity’s heteromorphic form in the history of culture” (ebd., 14).
 
IV. The transformation of mythical femininity in modern Brazilian literature)
In Brazilian literature we find an abundance of mythical images concerning women. The wide variety of images find themselves to a great extent in a dualistic system. They split femininity into an idealised and demonic form. They swing between idolisation and damnation, embody the suppressed and enigmatic and are mythically related to nature. This contradicts the modern Brazilian woman’s actual situation who, as a result of her battle for freedom from the old gender role clichés, has tried to redefine herself through a ever more present literature in the last three decades. In Brazil, since the 1970’s, we find an increasing interest in the literary work of women writers who must now be seen in context to the downfall of the military dictatorship, the lifting of censorship and the metamorphosis of the understanding of women’s role in society.
A primary theme in this corpus of text is the search for a self-defined autonomous identity, the placing of the self on a fictional level and to subvert and rewrite handed down images of femininity. In this search for the self, these modern women authors relate themselves differently to their writing: as writer in front of the mirror, as “testemunha”, as witness to the different social and cultural conditions, or as a discursive subject searching for a feminine textual identity.
The focus on this search for identity is predominant in the last twenty years of Brazilian literature, even when the thematic is somewhat historical or epic as can be seen, for example, in Ana Miranda’s work and that of Nélida Piñon. The latter develops a plot in her novels which can be defined as a psychic happening related to the transcendental. She connects individual fate to historical development as in her book República dos Sonhos, for example. The strategies towards self-presentation manifest themselves in the description and rewriting of traditional feminine icons such as the idealised mother, the femme fatale or by creating new personal masques. Questioning conventional views of woman and women writers, they often weave into their textual fabric the fantasized perceptions others may have of them: precisely by adopting them, they deconstruct and redefine these perceptions in a mode of defiance. To support this process, contamination of language, silence, reappropriation, subversion and experimenting with language often define the “tone” of women’s literary expression.
The female body is often presented as fragmentary, a body which is not primarily obliged to be erotic but which is mainly occupied with a textual metamorphosis in which the expression of the body’s mutilation and fragmentation seeks to redefine the feminine wholeness. It is not just the creatively dismantled female body but also the voice which fragmentarily expresses itself. Many female authors subjected their fear of speaking and personal expression to their prose and/or poetry where female protagonists take shelter in images of illness, internalised malignant growths and death (see Lya Luft’s fiction). To rewrite the female body, or at least parts of it, also means redefining its desires. The erotic is not primarily presented in terms of sexuality, but in many different forms. Sylvia Molloy addresses this point as follows: “What one finds in women’s writing, in terms of erotic desire, is a slippage from sex to text: the text is an erotic encounter in which the poet makes love to her words.”
A woman writer, who exemplifies this standpoint is the well-known Brazilian writer and literary critic H. P. Cunha. For Cuhna the most prevalent theme in Brazilian women’s literature in the 1960’s and 1970’s is the search for identity. She presents her female protagonists as internally torn characters who are thrown back and forth between their conditioned states and the wish to free themselves from feelings of inadequacy; this, in turn, prevents them from developing into autonomous human beings. In the late 1980’s and 1990’s, there is a growing tendency in Brazilian women’s literature towards the transformation of traditional feminine imagery and the establishment of new values. It is as if the split woman from earlier decades could sweep together her various incomplete identities and develop a new identity without mutilation and feelings of guilt. Temporal perspective and the paralleling of different levels of time play an important role in this self-discovery. The necessity to return to past experiences leads to a break with the lineal time pattern in favour of a circular interpretation of time; an oscillation between past and present. Despite the importance of remembering in Mulher no Espelho, Cunha breaks away from lineal temporality in her novel As Doze Cores do Vermelho and, thereby, instigates a logically developed handling of the plot in a much stronger way. She bases different subplot structures on three simultaneous temporal levels which are organised into three blocks over 48 modules (or chapters) each spread across two pages. To be able to explain this structuring more clearly, I would like to quote a passage from the Introduction:
“Esta é uma estória de simultaneidades, em trés vozes, num tecido que se estende e se desdobra nas trés colunas de cada capítulo. Uma pintora, a personagem principal, na primeira coluna, se apresenta como o eu que se reporta ao passado. A segunda coluna se sustenta por uma voz dirigida à protagonista através de um você no presente. O ela da terceira coluna se refere à personagem em suas vivências futuras. Centralizando a trama nesta rede, a protagonista se compõe e decompõe, enlaçada às demais personagens que a acompanham no entrançado do percurso.”
 
Whilst on the one side each part is inseparably connected to the whole, each has nonetheless an independent existence of its own. Fragments and wholeness, momentary reception and change in life. For Cunha, life is the putting together of pieces which are interwoven into a multiple layering of meaning. The protagonist’s mosaic-like personality contradicts the expectations of her social environment and tries to go her own way in order to become her self.
In Lygia Fagundes Telles’ story “A Sauna” (In: Seminário dos Ratos. 5a ed. Rio de Janeiro: Verlag, 1997 p. 51-83) we are confronted with two images of a transformed imagined femininity. Both of the story’s feminine protagonists Marina and Rosa represent two different images of women: Marina manifests the active self-confident feminist who commits herself to the feminist movement, whilst Rosa embodies the obsequious woman who sacrifices and adjusts in order to serve the male protagonist (a painter) as a maternal replacement (“…se for do tipo maternal, se quiser ser minha mãezinha”). The painter does not actually love Rosa, rather just her portrait which he paints for her (“Eu te amo! Gritei porque o retrato estava como eu queria, […]”) in the form he wants her to be. Through the hidden wishes projected onto Rosa, which manifest themselves through adjectives such as “retardada”, “anémica”, “laboriosa”, “adocicada”, “tranqüila”, “louca”, “rejeitada”, “obscura”, a complex and extensive image of this woman is to be found. This confirms Erna Pfeiffer’s hypothesis that women’s literature in general “is a gradual melting of previous contradictory feminine images such as those of saint and bitch into one of multilayered complexity in which there is space for many facets and dimensions”. (E. Pfeiffer. Als die Puppen zu sprechen begannen…, Richard, p. 3). We experience a very late, slow conscious metamorphosis in Rosa. She turns from an obsequious woman who, in the imagination of the painter, is only perceived as a portrait painted by him and not as a human being, to an independent personality who leaves the painter in order to establish a life of her own.
The painter sees his wife Marina as judge and jury (“Marina, meu juiz”), as the one who does not allow him to forget, as a kind of internal voice, as enlightenment of his past. He feels suppressed by her, mocking her when he, for example, talks about her work in the feminist movement (“Vai ver, é esse movimento cretino que está cretinizando o mulherio. Não querem machos e viram machonas”), yet also wanting to be pitied by her (“Por que nunca se enternece comigo?”)
As a result of the way the painter abuses Rosa’s dependence and his negative comments regarding Marina’s commitment to the feminist movement as well as the way in which his self-reflection in the sauna is interrupted at the most crucial moment, one can describe him as being chauvinistic. An important facet of the Latin-American machismo, according to E. Pfeiffer, is “…the own insecurity related to the masculine gender role identity” and “the feeling of existential maternal dependence. (E. Pfeiffer. La Condición Feminina. Feminine life coherence according to the conditions of the Latin-American machismo. FE 32, Richard, p. 9).
This neurotic mother-fixation is also to be found in Maria Alice Barrosos’ novel Um Nome para Matar , published in 1992 in German. This novel portrays two interwoven levels of plot concerning the fate of a place named Parada de Deus over approximately two hundred years. One such level of plot follows the first three generations of the Moura Alves family. The core of the novel concerns the unhappy relationship between the youngest member of the family, Oceano, and Marina Corina. There is no kind of partnership between husband and wife and the atmosphere is marred by many generations of violence. The male members of the Moura Alves family betray their wives with slaves, servants and prostitutes. On the other hand, the women have no choice. They are left to accept the situation and to live an untainted life.
Barroso executes a break from such stereotypical behaviours and qualifies those feminine images found in the patriarchal family system: in the case of Moura Alves it is basically the oldest son who inherits after Heleno’s death. Although it is actually Paula who after her husband’s death, her character and powerful temperament having been suppressed by his brutality, has things under control not just as a mother but also as the head of the house. After the death of her husband, Paula behaves just like him: she lives out her sexuality at night with the black Hacienda lease-holders. Paula’s children, although fully grown, obey her now as ever; a brief frown from their mother is often enough. They do not even attempt to argue against her recent, although unwanted, marriage. To come back to the neurotic relationship between husband and wife, one can confirm that both parties indulge in a most violent relationship, both as perpetrator and victim.
In Maria Alice Barroso’s novel, the traditional family structures are once again found: Chico and Heleno embody the powerful, violent side of the perpetrator-victim principle, which expresses itself in numerous sexual acts, underlined by the automatic acceptance of their supremacy.
Oceano’s characterisation demonstrates both sides of this principle: on the one hand, he is the violent man of power who tolerates no resistance and personifies a respect for honour and power which his great-grandfather had long since advocated. On the other, however, he does not treat his wife with physical violence; his idea of love has nothing to do with the acting out of power in its traditional form. He cannot cope with Maria Corina’s free and open way of life; his upbringing has not provided him with the ability to be tolerant. He succumbs to his wife’s erotic attractiveness and hides his love for her, making it to a secret, because he fears being abused – the power his wife has over him through her sexuality makes Oceano suspicious because she has nothing to do with the chaste image of the suppressed woman with which he has been impregnated. As a result, he suffers from a painful bout of jealousy and rescues his sanity through the use of violence, a principle which he has inherited form his forefathers. His environment also puts him under pressure: his reservation towards marrying Maria Corina is regarded as being weak, whilst the social pressure under which he suffers brings him so far as to murder his wife in order to reestablish his honourable status. The author projects a mysterious personality onto the battling for power and religious taboos: the silent, impenetrable and cruel Capitão Oceano whose obsession to revenge his wife’s apparent unfaithfulness threateningly overpowers the novel’s content. In this fearful and diseased relationship, Alice Barroso reworks the myth of Othello and Desdemona and, herewith, includes an array of miniature dramatic jealousies and hate relationships which fill the mythical space and temporal structure of the novel.
Another literary model which makes the rereading of the heteromorphic femininity is offered by Marina Colasanti. Whilst Marina Colasanti’s work spans journalism, the writing of essays, children’s literature, short stories, poetry and art, it shows not only a constant concern for the role of the Brazilian woman, but also for the social, ethical and moral justification of the century-old suppression of women. Primarily, it is her fairy tales which provide a deeper illustration of women in the history of culture and their status in today’s Brazilian culture. To achieve this, the author makes use of the fantastic and its application to the unconsciousness, creating an utopia – a place without time and space – from which another past can be reconstructed. The fantastical serves as a vehicle for the metamorphosis through which the female characters overcome their stagnant existence as imaginary femininity and become a dynamic subjectivity. They are introduced into the mythical realm of the narrative as subjects in the genesis, as signifiers of a cultural renovation. It is this process of metamorphosis which, according to Warner, constitutes the decisive element of the fairy tale more than anything else. For Colasanti fairy tales are “…a specific literary genre characterized by its mythic content, a genre that can be placed in the category of fantastic literature”. This allows Colasanti to provide her feminine characters with subjectivity, the ability to act and take initiative. Because of an urgent need for self discovery, the female protagonists, often archetypes of fairy tale figures, search for adventure not through heroic deeds, but rather by interacting with other beings of their cosmic world. They undertake mythical journeys, through which they rediscover their identity and thereby redefine it. Moving towards the reestablishment of their identity, they experience a never ending and limitless struggle – in the tradition of those storytellers who conclude their stories with the following words: this is my story, I told it, and I release it into your hands. (Warner XXV). This process of inversion forms a new myth which serves to present a different ideological model to the Brazilian readership. Colasanti’s fairy tales are supported by open dialogue with the reader as their characters penetrate the unexplored territory of the unconscious. As opposed to an epic narrator who narrates the honourable traits of the male hero, beautifying them individually, Colasanti, as storyteller, chooses specific images from the absurd, cruel and shattered reality of the feminine cultural history. She perverts these images or rebuilds them and positions them in her narrative in a surprising manner and in unpredictable places.
 
V. Conclusion:
More and more Brazilian women writers attempt, as a counterdraft to the projection of feminine images, a mimetic traverse of the male projections; their aim is to construct a different realm. This mimetic procedure, according to Irigaray, is the women’s exclusive discourse, unless she wants to accept the masculine discourse and subjectivity. Because of the predominating patriarchal order, there is no place left for the woman whereupon she can found her own identity. Thus, she is left with only one possibility: to attempt to reconstruct her own realm by trespassing the masculine attributes. The new domain of female self-identification is one of searching where the subjective, the imaginative and the unconscious are seen as a source for inspiration, making the literary work created by women into a new interactive dimension between inner and outer worlds. Any modus of writing in which the imaginative and real intersect becomes a meeting point where women’s way of acting in the world change from absence or negation into an affirmation of being. Thereby, they change the deluded concept of being different into an autonomous self. By accepting and at the same time deconstructing the images projected onto them, they create a basic terminology for the analysis of the heteromorphic feminine conception in cultural history and, thus, take an active part in the cultural production. By the end of the millennium, the literary models applied by Brazilian women writers in their work can be defined as the identification of a new direction for women in the role of discursive subjects or of subjects of a new historic discourse.





Bio fornecida pelo palestrante.

Virginia Woolf and the Essay under Feminist Eyes




Virginia Woolf and the Essay under Feminist Eyes

Izabel F. O. Brandão
Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

The essay’s most problematic feature seems to be the difficulty found by scholars in its definition1. From Adorno to contemporary feminists, the essay as a form has quite a wide ranging set of definitions but none makes us as readers confident enough to be stepping on safe grounds. And yet, this form which has started in a gentlemanly and elitist context (cf. Montaigne, Bacon) has in its core some traits which can be seen, under traditional eyes, as quite “feminine”, i.e., the appeal to subjectivity, to personal experience. Hence, the essay seems to be a form more fit for women writers than for the historical male writer, as the tradition has it.
Under feminist eyes, however, the essay is closer to women not exactly due to its openness to subjectivity but to its borderline characteristics, due to its occupying “an indeterminate discursive space between fiction and non-fiction”, as K. Snyder (in Joeres and Mittman: 1993) claims. Contemporary feminists believe that the politics of the essay as a genre has been de-emphasised by the institution of literary criticism due to its distancing from “academic objectivity”. According to them, the essay as a borderline genre is ideal for the presentation of feminist ideas. Both the essay and women have a sense of marginality, of not belonging.
Leslie Stephen, editor and critic, whose style as an essayist was analytic, taught his daughter that “essays were lay sermons, whose authors condescended … to turn from grave studies of philosophy or politics to topics at once edifying and intelligible to the weaker sex.”2 The daughter is no other than Virginia Woolf, worldly respected for her pioneering feminist ideas, and who has started her career as a writer as an essayist, writing reviews for newspapers, in 1904, at the age of 22, long before publishing as a novelist, up to the tragic end of her successful career in 1941. Stephen’s influence in his daughter’s career, according to Rachel Bowlby, led Woolf to follow a ‘fatherly line’ as an essayist rather than a ‘maternal’ one, a link related to Woolf’s fictional work, her “art”, as opposed to her essays, her paid work.3 And yet, Stephen’s influence, as high as it would have been, helped “no doubt contributing to [Woolf’s] modifications of the essay in the direction of narrative, as a move away from her father’s analytic style” (p. 235). Woolf’s own definition of the genre is as follows: “Vague as all definitions are, a good essay must have this permanent quality about it, it must draw its curtain round us, but it must be a curtain that shuts us in not out” (“The Modern Essay”, AWE, p. 40).
Stephen’s definition of the essay as a genre proper to ‘women readers’ in some ways anticipates a contemporary discussion of the essay as a genre more fit for women writers (and readers) due to its openness of form, its relative lack of constraints, which admits the insertion of the subject more than in any other genre. And yet, as Bowlby reflects in her Feminist Destinations and Further Essays on Virginia Woolf, even if historically the essay is a woman’s genre due to its topics of interest and of its intended readers, “neither Stephen nor Woolf ever mentions a female practitioner” (p. 236). Perhaps Stephen’s essays were really lay sermons intended for the “weaker sex”, but Woolf herself was a practising essayist, no matter her ferocious divide between her paid work and her art, her ‘real work’. Her “empirical sex” (if we follow Cixous) was female and she wrote from that standpoint and no other. This means that despite the fact that she was working in a patriarchal context, her voice was the voice of a woman writer talking about issues of general and also very specific interests, intended for an audience whose gender was probably both the ‘stronger’ and the ‘weaker’ sex, without the patronising tone present in her father’s view of the genre. As a matter of fact, Woolf used the form critically, as Catherine Sandbach-Dahlströn points out: “for all its presumed masculinity, the essay provided Woolf with a mode of writing well suited to a feminist critique of male culture”.4. It is also “a mode of resistance to tradition and as a pervasive attack on masculinism” (p. 286).
In Woolf’s essays which deal with the question of modern writing, T. J. Allan claims that Woolf defends the absence of authorial voice for it suffocates characters and readers.5 In so doing Woolf attempts to bridge the text with her ideal reader, someone who is not an expert nor a scholar. Her reader is someone whose sensibility is hardly taken into account and her/his voice, impressions and criticism are relegated to a corner because this is an unprofessional reading. Such an individual is someone who reads for pleasure and is, in Woolf’s words, an “accomplice” of the writer of his/her choice and holds in his/her reading criticism the key to approach the writer. This is what she says in “How Should One Read a Book, from 1932:
If behind the erratic gunfire of the press the author felt that there was another kind of criticism, the opinion of people reading for the love of reading, slowly and unprofessionally and judging with great sympathy and yet with great severity, might this not improve the quality of his work? (CDML, p. 69).
 
In this one-to-one interaction between writer-and-reader, it is possible to see some echoes of the French Philosopher Gaston Bachelard (1885-1962) who turned from philosophy to poetics by 1938 and who believes in a similar reader (he defines himself as such)6 who reads the books of his/her choice, without being really bothered to follow the guiding hand of the professional critic. Bachelard, again in a similar vein to Woolf, also considers the literary critic a bully, someone who cannot create what s/he criticises.7 Such a reader for both Bachelard and Woolf is a lay person, free from constraints and happy in his/her reading, which brings us back to the writer of essays, a form which is wrapped in simplicity even though it may be touching on profound subjects. This reader, as Elena Gualtieri points out, “is defective and undisciplined as a critic, but at least has managed to preserve that enthusiasm and personal involvement in the activity of reading which is often lacking in those who practice criticism as a profession”.8 Woolf’s democratic tinge (as well as Bachelard’s) does not need any label. I believe that it is exactly this refusal to be pinned down by labels what makes Woolf’s essays reach a wider audience. The problem seems to start when we see that because of her sharp criticism of the academy, Woolf herself has placed a label on her own forehead: here is a woman writer who is not afraid to take sides when it comes to criticism. For Woolf as a critic, as already mentioned elsewhere, was excluded by her contemporaries as Rosenberg and Dubino point out. They regret that this rejection continues in “more current histories of literary criticism” (p.6). Fortunately this unfair dismissal has started to be undone and, from the 70’s onwards, Woolf’s essays have started being re-evaluated following the feminist impulse of the decade.
And yet Woolf’s preference for impersonality has a bitter taste for some feminists. It appears to me that a paradox can be detected here when we think of Woolf’s view of the essay (or what she defends modern writing to be) as a place where the “I” of the author is submerged, and the notion of the essay as a genre – which implies the presence of authorial voice as one of its markers, which is also another link with the feminist idea of the essay as a locus for women writers to express themselves.
Feminists consider the problem of authorial voice (related to subjecthood) one of major importance for women (the female voice in writings by women is viewed as the essence of feminism, according to Humm, 1989), because it has been a voice silenced throughout the millennia. The problem of the absence of authorial voice might lead to “sacrificing the experience of historical women authors and … losing gender as a category of significance” (K. V. Snyder, in Joeres & Mittman: 1993, p. 25). Such a complex problem has already been discussed and contested, first by Toril Moi in her Sexual/Textual Politics, published in 1985, and then by Lisa Low in “Refusing to Hit Back: Virginia Woolf and the Impersonality Question”, published as recently as last year.9 Moi successfully rescues Woolf from what she defines as “a negative feminist response”. According to Moi, Woolf’s politics of writing is in her textual practice where “language is not to be pinned down to an underlying essential meaning”:
Woolf reveals a deeply sceptical attitude to the male-humanist concept of an essential human identity. For what can this self-identical identity be if all meaning is a ceaseless play of difference, if absence as much as presence is the foundation of meaning? (p. 9).
 
Similarly, Lisa Low discusses the problem of authority and criticises “identity feminism” (associated to Adrienne Rich, Elaine Showalter and, more recently, Tyzuline J. Allan) for pinning feminist writing down to the “feminine voice”. Low, following post-modernism, says that identity-feminism perpetuates “the very ideals of a masculinist culture it strives to overthrow” (p.258). The claim for the authorial voice which is apparently absent in Woolf’s practice as an essayist, according to Low, oversimplifies Woolf’s writing, for
Throughout her life Woolf engages in constant and ultimately unresolved debate about values of personality and impersonality, even as she constantly explores and redefines the feminine and masculine halves of the gender hierarchy (ibid).
 
Woolf’s impersonality is “empathic and democratic” for she connects “personal writing to both sexes” (p.259). Showalter and Allan, Lisa Low argues, “ignore the antiauthoritarian politics of Woolf’s self-denials” (p.260). Woolf’s “democratic writing” is, if we follow Moi and Low, deconstructive. For her “literature is no one’s private ground; literature is common ground”, as she points out in “The Leaning Tower”, an essay written after the war.10 Lisa Low goes further:
Unlike the masculine critic, who from Pope to Harold Bloom has seen the tradition Oedipally as a giant crushing a miniaturized present, Woolf sees art on a level with the future, and the artist and critic on a level with the commoner (p. 261).
 
By striving to find a “writing that expels the self” (p.265) Woolf anticipates contemporary theories such as Derrida’s and Kristeva’s. For Moi, deconstruction will rescue Woolf’s writing from radical labelling, and Kristeva and Derrida, therefore, represent a “promise for future feminist readings of Woolf”. Lisa Low has a similar view but in any moment does she acknowledge Moi’s claim made over a decade ago. For Low, Woolf’s deconstructive self
The displacement of the ‘I’, the refusal of narrative voice, the leprechaunish disappearance of Woolf behind the text, the refusal to tell the truth, the assertion that all she can tell are lies, because there is no truth fixable in the human mind, the seemingly ‘impersonal’ but not indifferent remove of the pronoun ‘one’ – are alike refusals to be authoritarian (p. 267).
 
It is from this standpoint, Woolf’s antiauthoritarian voice in her essays, that I would like to discuss the genre.
Beth C. Rosenberg and Jeanne Dubino in their introduction to Virginia Woolf and the Essay point out that the dismissal of Woolf’s essays by her contemporaries reflects Woolf’s own contempt for the institution of literary criticism. Following the same train of thought Rachel Bowlby has traced Woolf’s contempt in the past as a feeling she shared with her father:
Both distrusted academic institutions and the pedantry they associated with academic scholarship, and strongly believed in the value of writing in a language that was not over-technical, but comprehensible to any moderately educated reader (p. 235).
 
Listening to Woolf’s own voice it is possible to feel that, from the very beginning of her career as an essayist that although she was hiding behind the text, using the so-called (and damned) impersonal voice which makes some feminists so uncomfortable, in fact Woolf was being extremely personal and political in the views expressed in her essays. In “A Feminine Note in Fiction”, from 1905, Woolf reviews a book by a certain Mr Curtney and points out that “we want a critic to separate [a woman writer’s] virtues and her failings, to assign her right place in literature and to decide which of her characteristics are essentially feminine and why, and what is their significance” (AWE, p. 3). In other words, Woolf is here undoing a very hard knot, one which still nowadays persists in some academic areas: one cannot judge works of literature basing such a judgement on the writer’s sex. In 1905, when the voice of women writers was hardly heard, such a criticism probably hit hard, especially coming from a young woman of 23 and addressed to a male writer and to an audience whose gender was most likely male in its majority. In this sense it seems to me that “identity feminism” loses its ground when preaches the “I” voice as the major mark for the woman writer. It is going back to the essentialism so much criticised in the years past. Woolf’s “impersonal” voice sounds quite political and ideologically directed to defend women against biased and patronising criticism as Mr Courtney most likely did in his book. Two decades later, by 1926, Woolf still maintains her critical tone but now she is more direct than earlier in her career. In “How Should One Read a Book”, she discards the authority postulated by the academia by putting her finger in a very deep wound, in a country where still to this date the academic institution is as sacred as the Anglican Church and (maybe less) the royalty. Woolf says that “To admit authorities, however heavily furred and gowned, into our libraries and let them tell us how to read, what to read is to destroy the spirit of freedom which is the breath of those sanctuaries” (CDML, p. 59). Defending one’s freedom to choose what to read without any dependence or external interference on the so-called critical authority and opening the door of knowledge to the ‘unauthorised’ reader is, in my view, a very clear evidence of Woolf’s own mark of authority. It is here that Lisa Low’s point about the democratic tone of Woolf’s voice is, for me, transmuted into reality. For one thing, the essay, a boundary genre, discredited by the academia because “you can in this shape what you cannot with equal fitness say in any other” (AWE, p. 6), as Woolf herself puts it in “The Decay of Essay Writing”, is the proper place to rebel against conventions and dare do what in an academic treaty you probably won’t be able to. Here, too, Woolf’s view is similar to Adorno’s, for he thought that the essay represents “surely a superior medium to an academic discipline that presumes to pigeonhole reality into easily controlled concepts and ordered reality”.11
As a final point I would like to consider Woolf’s view of the essayist and her kind of “feminism”. The essayist, Woolf says in “The Modern Essay”, is someone who “must masquerade. He cannot afford the time either to be himself or to be other people. He must skin the surface of thought and dilute the strength of personality” (AWE, p. 47). Having different personae means expressing oneself in different, multiple voices, and this does not seem neutral at all, as Bowlby argues. “Having multiple voices [is] not a neutral description but generally valued as an affirmative sign of people’s (usually women’s) versatility and variation” (p. 258-59).
Woolf’s awareness of her position as a woman writer is clear cut and her awareness of the limitations of a woman’s experience is what leads her to defend the killing of “The Angel of the House”, a voice which haunts and minimises women’s worth by telling them that to succeed they have to cheat. Such a voice is dismissed by Woolf as nuisance, something to be utterly destroyed. That is what she defends, using the “I” voice, on “Professions for Women”:
For as I found, directly I put pen to paper, you cannot review even a novel without having a mind of your own, without expressing what you think to be the truth about human relations, morality, sex. And all these questions, according to The Angel of the House, cannot be dealt with openly by a woman (CDML, p. 103).
 
To shut this voice up forever, says Woolf in “The Intellectual Status of Women”, women need more than education. It is necessary to educate and emancipate men as well as women so that they can understand which space they are to occupy in life: “a man has still much greater facilities than a woman for making his views known and respected” (AWE, p.39). If emancipation does not occur for both “we shall remain in a condition of half-civilised barbarie” (ibid).
If such an ardorous defence of the woman’s right to education, to a place in society, is ‘minor’ feminism, we must start at once redefining concepts for the way they stand are not good enough. Woolf’s voice, despite is disappearance in the collective ‘we’ is highly political and, as already said, in favour of, not against, women. I definitely agree with Rachel Bowlby when she says that Woolf’s politics and statements are “anything but conservative”. According to her, Woolf “was forever tugging at issues to do with the effects upon writing of having or not having wealth, having or not having education” (p.233). Woolf’s impersonal claim means much more than the mere denial of authority. She herself established her own authority “(even as she attempted to undermine that authority through irony and parody) as she critiqued the work of her contemporaries” (p.16), as Rosemberg and Dubino argue.
The essay may have started in a gentlemanly and elitist context but in Woolf’s hands it has been transformed into a vehicle for popularising literature and for defending the rights of those in the borders, be it women or Woolf’s common readers. This is I believe a form of rebelling against conventions, against the tradition and against all kinds of pre-conceptions that place the essay under a marginal light. Fortunately barriers exist to be broken and Woolf has done that both by means of her fiction and her more than 500 essays.
izabel@fapeal.br
NOTES
1 This essay was read during the XXX SENAPULLI, The Brazilian National Conference for University Teachers of Literatures in English, hosted by ABRAPUI (Brazilian Society for University Teachers of English) and held in July 1998 in Atibaia, São Paulo, Brazil. Its published version in Portuguese is called “Virginia Woolf e o ensaio sob o olhar feminista” (see RAMALHO, Christina (org.). Literatura e feminismo: propostas teóricas e reflexões críticas. Rio de Janeiro: Elo, 1999, p. 227-236).
2 Quoted by Rachel Bowlby in her Feminist Destinations and Further Essays on Virginia Woolf (Edinburgh: Edinburgh University Press, 1997), p.221. Page references are, otherwise stated, to be found in the text.
3 See ibid.
4 “Que csais-je?: Virginia Woolf and the Essay as Feminist Critique” in Rosenberg and Dubino’s Virginia Woolf and the Essay, p. 277. Hereafter page references are to be found on the text.
5 See “A Voice of One’s Own: Implications of Impersonality in The Essays of Virginia Woolf and Alice Walker”. in R.-E. Joeres and Mittman (eds.). The politics of the Essay (Bloomington & Indiana: IUP, 1993), p. 131-47.
6 See for this particular point Bachelard’s The Poetics of Reverie (1960).
7 In an essay on Edmund Gosse, a literary critic, quoted by Rachel Bowlby in the Introduction of A Woman’s Essays, Woolf says that “Like all critics who persist in judging without creating, he forgets the agony of childbirth…”, (p. xvi). As for Bachelard, see for this particular point his The Poetics of Space (1957).
8 Elena Gualtieri. “The Essay as Form: Virginia Woolf and the Literary Tradition”, p.61. in Textual Practice (Glasgow: Routledge, 1998), vol.12 (1), p.49-67.
9 In Virginia Woolf and the Essay, edited by B. C. Rosenberg & J. Dubino (Hampshire & London: Macmillan, 1997), p.257-73.
10 Woolf’s essays quoted in this paper are taken from A Woman’s Essays (hereafter to be referenced as AWE in the text) and The Crowded Dance of Modern Life (hereafter to be referenced as CDML in the text), edited and introduced Rachel Bowlby (London: Penguin Books, 1992 and 1993).
11 Margret Brügman in “Between the Lines: on the Essayistic Experiments of Hélène Cixous in ‘The Laugh of the Medusa’”, in Joeres & Mittman (1993, p.74-5).





Bio fornecida pelo palestrante.

Clarice Lispector esconde um objeto gritante: Notas sobre um projeto abandonado




Clarice Lispector esconde um objeto gritante:
Notas sobre um projeto abandonado

Sonia Roncador
University of Columbia

Em seu artigo “As duas versões de Água viva” (que aparece
na revista Remate de Males, em 1989), o professor e crítico Alexandrino
Severino fornece alguns dados curiosos sobre a composição de Água
viva (o décimo terceiro livro de Clarice Lispector, publicado em 1973).
Dada a grande repercussão de Água viva no meio crítico
e acadêmico, este artigo poderia ser visto como apenas um entre vários
outros ensaios sobre esta novela, não fosse pela revelação
de um fato previamente desconhecido: o de que Água viva é, na
verdade, a versão final, corrigida, de um manuscrito intitulado “Objeto
gritante”. Como o professor Severino reconhece, este fato contraria as
próprias declarações de Clarice a respeito do método
de composição de sua novela, segundo as quais Água viva
teria sido escrita à maneira do jazz: por improvisação.
Este fato também contradiz várias resenhas críticas que
reforçam semelhante idéia de Água viva como obra não
premeditada, orgânica etc.
O crítico Alexandrino Severino soube da existência de “Objeto
gritante” depois que Clarice entregou-lhe uma cópia deste manuscrito
(na época com título diferente: “Atrás do pensamento:
monólogo com a vida”) para que ele o traduzisse ao inglês.
Em seu artigo, Severino esclarece que conheceu Clarice em seu apartamento no
Rio de Janeiro, em julho de 1971, e que a partir desta data passou a vê-la
regularmente por quase dois meses para que juntos pudessem discutir os detalhes
da tradução. Vale ressaltar que, segundo Severino, naquele momento
Clarice estava totalmente convencida de que “Objeto gritante” era
uma obra terminada, definitiva. Seu artigo mostra que Clarice a princípio
queria preservar, e não modificar “Objeto gritante”. Pelas
inúmeras conversas que tiveram, este crítico, escreve, por exemplo,
que Clarice fazia questão de que “ao traduzirmos o livro, nenhuma
vírgula deveria ser acrescentada; que teríamos que encontrar a
palavra exata e respeitar a pontuação” (Severino, 1989, p.
118). Contudo, de acordo com as palavras deste crítico, em um ano Clarice
mudou de opinião com respeito a “Objeto gritante”. Em 23 de
junho de 1972, ela de fato escreve-lhe uma carta comunicando sua decisão
de não mais publicar este manuscrito. Na carta, ela escreve que “[ela]
não pode mais publicá-lo como está. Ou eu não publico
ou eu resolvo trabalhar nele” (cit. in. Severino, 1989, p.115).
Após a decisão de não publicar “Objeto gritante”,
Clarice tinha, pois, duas opções: ou revisá-lo ou abandoná-lo.
Neste breve ensaio, eu argumento que entre ambas alternativas Clarice de certa
forma acaba optando pelas duas. Ao revisar “Objeto gritante”, Clarice
abandona o programa estético que havia gerado este manuscrito e embarca
numa empresa literária totalmente diferente. Mas em que consiste este
programa estético de “Objeto gritante”? Que diferenças
existiriam entre a escritura deste manuscrito e aquela de Água viva?
E, talvez mais importante, por que Clarice Lispector decide não publicar
“Objeto gritante”? O que a teria levado a abandonar este texto, “transformando-o”
em Água viva (a expressão é da própria autora)?
Para que possamos entender o projeto literário de Clarice ao escrever
“Objeto gritante”, bem como as razões pelas quais ela nunca
ousou publicar este manuscrito – na minha opinião, um dos projetos
mais ambiciosos na literatura nacional dos anos 70 – devemos examinar
os aspectos deste manuscrito que não sobreviveram ao processo de revisão
do mesmo. Ou seja, aqueles aspectos (temáticos e formais) que na transformação
de “Objeto gritante” em Água viva foram definitivamente eliminados.
Segundo palavras da própria autora, a revisão de “Objeto
gritante” consistiu em um processo de sucessivos cortes radicais, onde,
ao final de quase três anos, praticamente a metade deste manuscrito havia
sido eliminada (das 188 páginas originais, restaram somente 100). Na
passagem de uma versão a outra, “Objeto gritante” foi, então,
sensivelmente reduzido. Além disso, a autora modificou radicalmente o
caráter deste texto. Em primeiro lugar, Clarice alterou o modo de enunciação
de “Objeto gritante” (seu caráter autobiográfico foi
substituído por um relato ficcional, onde uma artista plástica
narra a sua estréia no mundo da literatura). Ainda relacionado ao caráter
autobiográfico de “Objeto gritante”, Clarice eliminou os elementos
deste texto que indicavam as circunstâncias de produção
do mesmo: elementos ou “índices” (no sentido dado ao termo
pela semiótica de Peirce) do tempo e local de produção
do texto, bem como da vida pessoal da autora no momento mesmo do ato de escrever.
Finalmente, no processo de edição de “Objeto gritante”,
Clarice abandonou o método utilizado na sua composição.
“Objeto gritante” é o resultado de uma série de operações
de montagem de fragmentos de diferentes stati literários (crônicas
jornalísticas, textos literários já publicados, fragmentos
inéditos) cujas diferenças Clarice não parece interessada
em homogeneizar. A heterogeneidade característica da composição
de suas partes internas manifesta-se também no nível da linguagem,
onde a autora justapõe passagens enfáticas, sublimes, a outras
que relatam, num estilo bastante coloquial, os incidentes domésticos
de sua vida cotidiana como escritora. Nas palavras do crítico Roland
Barthes (1995), tais práticas de justaposição produzem
no nível da linguagem um certo efeito de “deflação”
(no sentido de uma despotencialização, ou mesmo um rebaixamento
do nível retórico de sua prosa): ou seja, a consistência,
a densidade, a potência (e eu diria a “virilidade”) de sua prosa
artística é “deflacionada” em várias sequências
do texto. Em Água viva, no entanto, Clarice abandona o projeto de criar
um texto híbrido, composto de fragmentos de diferentes formas de escritura,
eliminando assim muitas das irregularidades de tema, estilo, e tom que caracterizam
a estrutura heterogênea de sua versão original.
Gostaria, então, de deter-me brevemente na discussão destes aspectos
formais da escritura de “Objeto gritante”: a saber, seu caráter
autobiográfico, sua narrativa “indicial”, sua composição
heterogênea, e, finalmente, seu discurso “deflacionado”. Gostaria
antes de lembrar que para a análise de “Objeto gritante” consultei
uma das duas cópias disponíveis no arquivo pessoal e literário
de Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de
Janeiro – período em que realizava a pesquisa preliminar da minha
tese de doutorado. “Objeto gritante” é uma espécie de
relato pessoal da vida cotidiana de Clarice Lispector como escritora. Parte
deste relato corresponde ao registro dos dias e das horas em que Clarice escreve
este manuscrito: fatos que ocorrem em sua vida no momento mesmo em que está
escrevendo “Objeto gritante”. À moda dos diários ou
cartas pessoais (ou ainda de suas crônicas) tais fatos são registrados
de maneira extremamente casual (o telefone toca, um homem vem a sua casa para
consertar seu toca-discos, ela fala de uma certa visita a um zoológico
na Suíça etc.), constituindo assim uma espécie de relato
anti-narrativo, ou seja, sem direção ou objetivo, e desprovido
de qualquer clímax ou desfecho. “Objeto gritante” é
então resultado de um desejo de Clarice (até então inédito
em sua literatura) de se auto-expor; nele, fatos, sentimentos, digressões
que compõem sua vida diária são revelados (algumas vezes,
aqueles aspectos de sua personalidade que lhe causam certo embaraço ou
vergonha são também narrados). Além disso, como se para
lembrar ao leitor de que aquilo que ele está lendo é fruto de
uma ação concreta, situada num tempo e espaço reais, em
“Objeto gritante” Clarice freqüentemente refere-se às
circunstâncias de produção deste manuscrito. Há,
por exemplo, várias referências no texto ao dia, ou até
mesmo à hora exata, em que o mesmo está sendo escrito. Na página
9 do manuscrito, Clarice escreve: “Às três e meia da manhã
acordei. E logo elástica pulei da cama. Vim escrever. Quer dizer: ser.
Agora são cinco e meia da manhã. De nada tenho vontade: estou
pura. Mas o Dia das Mães foi anteontem e fiquei muito feliz…”
(Lispector, “OG”, p. 9). Referências como esta produzem um raro
efeito de articular o texto ao ambiente externo em que ele é produzido,
como se uma porção da realidade externa subitamente irrompesse
no espaço representacional, ou simbólico, da linguagem.
O tipo de relato autobiográfico que define “Objeto gritante”
tem, como já disse, a forma de um livro-colagem, onde Clarice compõe
sua obra a partir de fragmentos de romances já publicados, crônicas
e alguns textos irêditos. Entretanto, seguindo o modelo da montagem, Clarice
não organiza este material heterogêneo em torno de um tema e/ou
forma definidos, mas, ao contrário, combina estes diferentes fragmentos
em justaposição paratática. “Objeto gritante”
é, então, fragmentado num sentido completamente diferente do que
este termo recebe quando usado na descrição de outras obras de
Clarice Lispector. Sua obra-prima, A paixão segundo G. H. (1964), por
exemplo, retém dos relatos mais clássicos a unidade de ação,
estilo e tom. Em uma entrevista pouco depois de concluir “Objeto gritante”
(entrevista esta que inspirou o título deste breve ensaio: “Clarice
Lispector esconde um objeto gritante”, publicada no Correio da Manhã,
em 5 de março de 1972), Clarice diz que seu livro “será muito
criticado. Ele não é conto, nem romance, nem biografia, nem tampouco
livro de viagens… Sabe, ‘Objeto gritante’ é uma pessoa
falando o tempo todo…” (ênfase minha; Lispector, s. p.). Ao associar
a forma de “Objeto gritante” àquela de uma “fala”
ou conversa informal, Clarice ressalta a falta de unidade interna em seu livro.
Além disso, dadas as afinidades de “Objeto gritante” a uma
conversa informal este livro escapa às convenções de gêneros
narrativos tais como o conto, o romance, a biografia etc. A falta de unidade
entre as partes internas de “Objeto gritante” levou, por exemplo,
o crítico José Américo Pesssanha a mencionar, em carta
endereçada a Clarice Lispector, a sua “aparência de bricolagem”.
Ele observa que, ao contrário de suas obras anteriores, em “Objeto
gritante” Clarice não tem nenhum pudor em misturar passagens de
diferentes níveis retóricos que ela fala, por exemplo, “de
Deus e de qualquer outra coisa, sem selecionar tema, e sem rebuscar forma”
(Arquivo de Clarice Lispector).
Ao mencionar a disparidade no texto entre momentos sublimes, como o tema de
Deus, e outros domésticos, triviais, Pessanha, provavelmente, refere-se
à seguinte passagem de “Objeto gritante”:
Noto que há muito não chamo o “Deus” de Simptar e não
me chamo de Amptala. Que Simptar nunca deixe faltar comida a Amptala. Comida,
comida e comida. Não sei como são as outras casas de família.
Na minha todos falam de comida. “Este queijo é meu”… “Esta
carne ficou salgada demais”. “Estou com fome porém se você
comprar pimenta eu como”… Em matéria de comida estou com empregada
nova – a outra se casa hoje e vou ao casamento… (Lispector, “OG”,
p. 70).
Passagens como esta aparecem com grande freqüência em “Objeto
gritante”, onde temas recorrentes na literatura de Clarice Lispector (os
“grandes temas” de sua literatura) se justapõem aos fatos triviais
do dia-a-dia (ou àqueles que normalmente servem de tema para suas crônicas).
“Objeto gritante” é composto de tal forma que o trivial e o
grandioso, o coloquial e o sublime, o baixo e o alto coexistem numa mesma obra
de arte. Em “Objeto gritante”, como já sugeri, tal heterogeneidade
se manifesta também no nível da linguagem: a inclusão de
certos fatos acidentais nos momentos sublimes do livro provoca uma “deflação”
de sua prosa. Por exemplo, na página 79, Clarice inclui um breve texto,
“Da natureza de um impulso ou entre os números um ou computador
eletrônico”, publicado pela primeira vez em sua coluna semanal do
Jornal do Brasil, em 29 de novembro de 1969. Trata-se, na minha opinião,
de um dos fragmentos mais herméticos e densos já escritos por
Clarice Lispector. Neste texto, uma mulher, em meio a seus afazeres domésticos,
cai subitamente em uma espécie de “estado de graça”
e atinge a percepção de um dos níveis mais profundos da
existência, caracterizado por Clarice como um “impulso atonal”.
No entanto, em “Objeto gritante”, este fragmento vem imediatamene
seguido de um pequeno trecho cujos termos subvertem o tom circunspecto e, eu
diria, solene de todo o relato:
O fato que a fez suspirar e em que ela se transformou era o de ser uma mulher
com uma vassoura na mão. Passou de atonal para tonal. Sobrou-lhe de tudo
isto –como na boca um gosto – a sensação atonal do
contato atonal com o impulso atonal. Recuso-me a continuar: está chato
demais. Está ficando insuportável. Pularei o resto. Graças
a Deus o telefone tocou e interrompeu-me.
Tendo escrito algumas das obras mais elegantes e bem compostas da língua
portuguesa, em “Objeto gritante” Clarice Lispector, no entanto, optou
pelo caminho da não elegância. Ao violar certas regras de composição
artística e ao incorporar em “Objeto gritante” termos (como
os acima citados) que são um afrontamento ao decoro literário
e moral, Clarice questiona a instituição da literatura em geral
e, em particular, sua própria obra. Além disso, o conteúdo
autobiográfico de “Objeto gritante”, bem como a inclusão
neste texto dos vestígios das circunstâncias externas de sua produção,
problematizam outros pressupostos artísticos, como, por exemplo, o ideal
de sublimação ou distanciamento do autor em relação
a sua obra. Nesse sentido, não é de se surpreender que nas páginas
conclusivas de “Objeto gritante”, mais precisamente na página
185 deste manuscrito, a autora fala explicitamente de suas intenções
“anti-literárias”, e também dos possíveis ataques
críticos que este manuscrito sofreria caso fosse publicado:
O instante-já de agora é uma coisa que vou dizer: que todas as
vidas são vidas heróicas. Eu também sou heróica.
Aliás é só por heroísmo também que publico
este livro que vai ser vaiado e cujas intenções de anti-literatura
serão captadas por poucos (Lispector, “OG”, p. 185).
“Objeto gritante” é, então, o registro de um momento
crucial na trajetória artística de Clarice – momento este
em que a autora não só decide abandonar o modo de escritura que
até então caracterizava a sua literatura, como também questionar
certos valores artísticos que seguramente grande parte da crítica
contemporânea a “Objeto gritante” defendia. Contudo, ao revisar
esta obra, Clarice abandona o projeto de uma escrita, por assim dizer, “anti-estética”,
e opta pela criação de uma empresa literária, Água
viva, mais contínua com suas obras anteriores.
O meu interesse em examinar “Objeto gritante” coincide com o projeto
de vários outros críticos interressados em estudar os escritos
de Clarice Lispector que foram excluídos do conjunto total de sua obra
– suas coletâneas de contos e crônicas, publicadas em meados
dos anos 70, suas crônicas jornalísticas, suas obras póstumas.
Refiro-me sobretudo aos estudos feministas de sua obra que questionam os pressupostos
artísticos acima descritos e re-valorizam temas, gêneros e formas
narrativas marginalizados por critérios patriarcais de definição
do cânone literário. Em seus comentários sobre “Objeto
gritante”, expressos em carta já mencionada, José Américo
Pessanha parece desaprovar os procedimentos aplicados na composição
deste livro. Segundo ele, ao compor “Objeto gritante” Clarice deixa
de ser uma escritora, para “ser apenas uma mulher que escreve o que (pré)
pensa ou pensa-sentindo” (Arquivo de Clarice Lispector); em outras palavras,
Clarice deixa de escrever “verdadeiramente”, ou apropriadamente, e
embarca numa atividade não mais literária: a de registrar, “sem
selecionar tema e sem rebuscar forma” (a expressão é do próprio
crítico), os fatos de sua vida privada. Entre a opção de
escrever “verdadeiramente”, sublimando, para tanto, as marcas de sua
vida pessoal (entre elas, obviamente, as de gênero) e a opção
de justamente subverter este tipo de escrita, Clarice, ao que parece, decide
pela segunda. Se sua decisão foi um êxito ou se foi um fracasso
depende, obviamente, do ponto de vista de cada um.
Referências Bibliográficas
BARTHES, Roland. Oeuvres complètes. Vols. 1, 2 e 3. Paris: Seuil, 1995.
LISPECTOR, Clarice. Entrevista com Germana de Lamare. “Clarice Lispector
esconde um objeto gritante”. Correio da Manhã (Rio de Janeiro),
6 de março de 1972, s. p.
—————-. Arquivo de Clarice Lispector. Arquivo – Museu de Literatura
da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro.
PESSANHA, José Américo Motta. Arquivo de Clarice Lispector. Arquivo
– Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de
Janeiro.
SEVERINO, Alexandrino. “As duas versões de Água viva”.
Remate de Males 9: 115-18, 1989.





Bio fornecida pelo palestrante.

A construção do sujeito em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres




A construção do sujeito em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres

Geysa Silva
Universidade Federal de Juiz de Fora

Ler um livro é como um jogo, uma aventura que transforma o leitor. Encontramos
sempre mistério, corremos sempre um risco. É essa a proposta de
Clarice: fazer com que o leitor participe de sua história, entre no jogo,
sinta-se protagonista. O desafio é a construção do sujeito,
ou melhor: Lóri. Loreley, a sereia germânica que seduzia os navegantes
do Reno; a sereia de Campos a quem Ulisses resiste, fechando-se a seus encantos,
até que eles mesmos se tornem encantados.
Por que acompanhamos/vivemos a história de Lóri com tanta emoção
e/ou curiosidade? Talvez porque, para Lóri, tudo está por acontecer.
Nada é rápido, tudo se constrói lentamente, como se a natureza
estivesse acumulando a seiva da vida, mas sem perder o sentido de sua precariedade:
“[…] uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para
a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi
a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei
olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde
logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas
é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também.
Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto
tempo for preciso” (Lispector, 1982: 25).
Talvez porque a narrativa concretize o próprio mistério da experiência:
ignoramos o início, desconhecemos o fim. A vírgula originária,
tal como nosso ancestral espermatozóide, não passa de uma continuação
que apenas aumenta o sentido de precariedade, enquanto os dois pontos finais
fazem desse relato algo infinitamente pungente, isto é, acentuam nosso
desconhecimento do fim.
Talvez porque esse livro, tão pequeno, encerra uma história que
foge de suas proporções físicas, desenrolando-se em “longos”
lapsos de tempo, com a grandeza e a severidade de uma narrativa bíblica.
Não por acaso, seu sub-título é o “Livro dos prazeres”,
numa referência aos livros do Velho Testamento.
Talvez porque Lóri e Ulisses sejam pessoas tão comuns. Professora
primária, professor universitário. De suas vidas só temos
poucas indicações, quadros pintados a distância, momentos
já vividos:
“Lóri já havia contado a Ulisses sobre o tempo que, em Campos,
os pais eram ricos e viajaram, demorando-se meses com os filhos num país
ou outro, até que, ao mesmo tempo em que sua mãe morrera, a fortuna
se reduzira a um terço” (Lispector, 1982: 46).
Vidas comuns e, no entanto, que profundidade de sentimentos já viam
escondidos naquela aparência irrelevante! Vidas comuns, mas vividas com
intensidade, com o prazer e dor de seres jogados num mundo, onde a felicidade
é quase sempre uma ficção. Um encontro, um amor, um “caso”.
Tudo muito humano, “demasiado humano”.
Ulisses e Lóri se construindo como sujeitos, enumerando fatos que, de
forma habitual, “atrapalham” o desenvolvimento de um romance (desses
romances que despertam a atenção para a história); as personagens
seguem suas trajetórias, mostrando que a existência é construída
a partir de escolhas, nem sempre conscientes e muitas vezes inconfessáveis.
Clarice valoriza os não-acontecimentos, fatos que nos negamos a realizar,
porém esta negação é nossa maneira de entrar no
mundo.
“E agora era ela quem sentia a vontade de ficar sem Ulisses, durante algum
tempo, para poder aprender sozinha a ser. Já duas semanas se haviam passado
e Lóri sentia às vezes uma saudade tão grande que era como
uma fome. Só passaria quando ela comesse a presença de Ulisses.
Mas às vezes a saudade era tão profunda que a presença,
calculava ela, seria pouco; ela queria absorver Ulisses todo. Essa vontade de
ela ser Ulisses e de Ulisses ser dela para uma unificação inteira
era um dos sentimentos mais urgentes que tivera na vida. Ela se controlava,
não telefonava, feliz em poder sentir” (Lispector, 1982: 133).
O que distingue Lóri de Ulisses? A profissão. Paradoxal, porque
ambos são professores. Ulisses, o sábio, com um orgulho indisfarçável
de sua profissão. Ulisses que aprendeu a disparidade entre as coisas
como realmente são e como parecem ser. Ulisses que aprendeu que não
basta ter a verdade se ela não se transforma em fato.
“Temos sorrido em público do que não sorriríamos
quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória
nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade
com que se escapa da peste, Lóri e esperarei até você também
estar mais pronta” (Lispector, 1982: 50).
De outro lado, temos Lóri, a iniciante: todavia sua profissão
(professora primária), sem aprofundamento intelectual, lhe dá
a possibilidade de defrontar-se com os fatos sem a proteção de
qualquer teoria, apenas com os próprios olhos e ouvidos, sua grande vantagem;
não excluir os fatos para facilitar o destino das próprias teorias,
ainda que com isso elas sejam desmentidas. Lóri aceita o desafio proposto
pelo sábio; Lóri, a simples. E Lóri compreende que não
deve excluir os acontecimentos simplesmente porque ultrapassam sua compreensão.
Pensa que a sabedoria, e também seus limites, é descobrir-se a
si mesma.
“Mas também seria por vezes tomada de um êxtase de prazer
puro e legítimo que ela mal podia adivinhar. Aliás já estava
adivinhando porque se sentiu sorrindo e também sentiu uma espécie
de pudor que se tem diante do que é grande demais. Ser-se o que se é
era grande demais e incontrolável. Lóri tinha uma espécie
de receio de ir longe demais. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as
rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe aonde.
Ela se guardava. Por que e para qué? Para o que estava ela se poupando?
Era um certo medo de sua capacidade, pequena ou grande. Talvez se contivesse
por medo de não saber os limites de uma pessoa” (Lispector, 1982:
140).
Lóri vive atormentada por dilemas e defronta-se com encruzilhadas que
a fazem deter-se em seu caminho. Constata, com Ulisses, que os homens são
incapazes de decidir que vida estão a viver. O que pode fazer, então,
a respeito da vida, uma professora primária em crise existencial? No
discurso da personagem está colocada a pergunta de Clarice, pergunta
que ela não pretende responder, por considerar a resposta impossível,
mas para explorar a própria pergunta. Lóri não quer perder-se
na alienação de si mesma, mas também não deseja
naufragar no auto-conhecimento. Sua postura, quase sempre cautelosa, equilibra
com dificuldade um sujeito em construção, pois o espelho, em que
tenta se ver, pode refletir, ameaçadora, a imagem de Ulisses e, em razão
das semelhanças, diluir as diferenças, aquilo que os distingue,
não dos outros, porém um do outro e os torna insubstituíveis.
Clarice narra a construção de um Eu; construção
tão particular que é impossível de ser estudada. E assim
esta construção vira romance.
Sartre dizia que é preciso “apanhar a história pelo rabo”.
E Lóri agarra cada acontecimento, para encadeá-lo em algum sentido.
Age com paciência e com paixão, sabendo que o passado não
é o que aconteceu, mas o relato de alguém sobre o que aconteceu.
“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em
carne viva para se conhecer melhor já que a ferida estava aberta. Mas
doía demais mexer-se nesse sentido” (Lispector, 1982: 27).
Lóri teme, indiscriminadamente, a rapidez daqueles que já sabem
o que desejam encontrar, antes do encontro e a alienação dos que
povoam a vida com fantasmas, enquanto a vida mesma vai passando sem que percebam
isso. Para ela, uns e outros deixam a existência de fora, fazem pregação
intelectual ou colocam os simulacros no lugar do concreto.
Enquanto isso o narrador de O livro dos prazeres procura ir mostrando que viver
o amor é coisa muito difícil. Shakespeare nos lembra que “O
verdadeiro amor nunca é suave.” Esta é uma verdade universal
e válida para qualquer momento. O esforço de construção
do sujeito, na vivência da paixão, assola de dor o ser ainda aberto
para os grandes encontros. Lóri, entre sofrimentos e prazeres, tenta
compreender a difícil confluência do afeto com o sensual. Ela não
quer nem a moralidade fácil e culposa, nem o erotismo dos amores inconstantes
e fugidios, ou seja, sujeito à idealização ou sujeito à
banalidade:
“Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à
cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sozinhos.
E era tão trágico: bastava olhar numa boate, à meia luz,
os outros: era a busca do prazer que não vinha sozinha e de si mesmo”
(Lispector, 1980: 82).
A experiência de Lóri é infiltrada de tentação,
em que os impulsos e as defesas se conjugam num encontro anárquico de
revelações súbitas e surpreendem o próprio amor,
colocando-o em questão. Clarice, através de Lóri, desnuda
o medo intolerável da perda, a reencenação de envolvimentos
amorosos anteriores e a decisão de correr riscos. Riscos enfrentados
com ansiedade e enlevo, testemunhos da precariedade dos sentimentos. Tudo isso
contado de maneira inimitável.
“Era um corpo consigo mesma dessa vez. Escura, machucada, cega —
como achar nesse corpo a corpo um diamante diminuto mas que fosse feérico,
tão feérico como imaginava que deveriam ser os prazeres. Mesmo
que não os achasse agora, ela sabia, sua exigência se havia tornado
infatigável. Ia perder ou ganhar? Mas continuaria seu corpo a corpo com
a vida. Nem seria com sua própria vida, mas com a vida. Alguma coisa
se desencadeara nela, enfim. E aí estava ele, o mar” (Lispector,
1982: 82).
Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres é um livro inclassificável
e escapa de qualquer tentativa de comparação. Ao término
da leitura, lembramo-nos de A Náusea e de A Convidada, livros que perseguem
a angústia do nada, a construção do sujeito pela construção
do amor. Mas Uma aprendizagem… é diferente. A narrativa, apesar de
linear, não tem início, meio e fim, porque só tem meio.
Estamos diante de uma história que demanda especial atenção
para a linguagem. Isso porque o verdadeiro protagonista não é
Lóri nem Ulisses: é a linguagem, ou a forma como a autora a usa.
O enredo, bastante simples, resume-se a uma entrega, à concretização
de um caso amoroso. O narrador, porém, acrescenta comentários,
inserindo a si próprio na história. O que menos interessa é
o enredo puro, em meio ao prazer do narrador de utilizar tanto a linguagem elaborada
como a reflexão filosófica:
“Era uma noite muito bonita: parecia com o mundo. O espaço escuro
estava todo estrelado, o céu em eterna muda vigília. E a terra
embaixo com suas montanhas e seus mares.
Lóri estava triste. Não era uma tristeza difícil. Era
mais como uma tristeza de saudade. Ela estava só. Com a eternidade à
sua frente e atrás dela. O humano é só” (Lispector,
1982: 82).
O romance é uma longa tessitura de olhares, de gestos e aproximações,
que culminaram com o encontro de dois seres que vencem o desconhecimento para
celebrar a comunhão. O livro mostra emoções: raciocínio
e paixão, em simbiose. Uma aprendizagem… é, no fundo, a linguagem
falando sobre o Ser e o tempo, tal como Heidegger. Muito se tem discutido as
influências existencialistas na obra de Clarice, todavia não se
pode fugir a essa constatação. Até mesmo as raízes,
cristãs do existencialismo estão aí implícitas,
especialmente a “Carta aos romanos”, capítulo 7, onde o tema
é a morte e a ressurreição. Lóri e Ulisses morrem
de uma certa forma, morrem para um passado que desejam ultrapassar e renascem
na glorificação do amor.
“Talvez por uma necessidade de proteger essa alma nova demais, nele e
nela, foi que ele sem humilhação mas com uma atitude inesperada
de devoção e também pedindo clemência para não
se ferirem nesse primeiro nascimento – talvez por isso tudo é que se
ajoelhou diante dela” (Lispector, 1982: 160).
É sintomática a lembrança do pai que acode à memória
de Lóri. Em seu renascimento, a comparação entre Ulisses
e a figura paterna se torna inevitável. Os fantasmas da infância
tém de ser exorcizados, sem o que nada se produzirá. Lóri
renega o papel de Pietá para ser Lilith, a primeira mulher, aquela que
é igual a Adão, que possui sabedoria e feitiço. Em meio
ao tema do início, Clarice introduz o tema do fim. Sutilmente, coloca-se
o mitologema do “eterno retorno”: nascimento, morte e ressurreição.
Por discutir morte e ressurreição, discutem a questão da
temporalidade.
“Haviam-se passado momentos ou trés mil anos? Momentos pelo relógio
em que se divide o termo, trés mil anos pelo que Lóri sentiu quando
com pesada angústia, toda vestida e pintada, chegou à janela.
Era uma velha de quatro milénios” (Lispector, 1982: 40).
Desse modo, enquanto Hegel vislumbrava o fim da dialética da História
e a entrada final da humanidade no reino eterno do Espírito Absoluto,
Clarice nos lembra que, como Ulisses e Lóri, somos corpos e que a perfeição
seria o reino dos Corpos Unificados; a eternidade seria a maneira de ser de
afetos irreprimidos. Ulisses e Lóri preparam-se para o Sabat da eternidade,
aquela época em que o tempo não mais existirá.
Através da voz do narrador, intimista apesar de estar na terceira pessoa,
o livro acompanha a odisséia às avessas: Um Ulisses que espera,
uma Loreley que realiza a viagem: viagem do conhecimento, sabendo que conhecer
é condenar-se ao sofrimento. Esquecer o que uma vez se soube é
pura ilusão.
“O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão
tão profunda que os motivos lhe escapavam – ela havia por medo cortado
a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a
dor – senão se sofreria o tempo todo” (Lispector, 1982: 41).
Ao contrário dos niilistas que queriam a verdade, mas não puderam
suportar a explosão dessa verdade, Lóri constata e aceita a verdade
da existência. Reconhece que todo prazer que desconsiderar a dor ou ignorá-la,
graças à aparente e passageira plenitude da felicidade, é
necessariamente um prazer falsificado.
Na odisséia de Lóri, não são apenas os papéis
de Ulisses e da sereia que se encontram invertidos. A paródia (no sentido
literal do termo: discurso paralelo) se amplia. Se Ulisses não queria
ser reconhecido, Lóri persegue seu auto-conhecimento. Para isso é
preciso esgotar o sabor do sofrimento (e saber equivale a conhecer e a ter gosto
de) pois, só no decorrer de uma vida rica em emoções, conseguimos
nos diferenciar até a completa caracterização. Se Homero
quer nos fazer esquecer nossa própria realidade, Clarice, ao contrário,
quer nos inserir no mundo de Lóri. Em Homero há uma tranqüila
aceitação da existência humana. O verso 360, da Odisséia
diz-nos: “pois na desgraça os homens logo envelhecem”. Há
apenas uma constatação, os heróis não se insurgem
contra isto. Lóri, por sua vez, nada aceita com passividade. Ela está
à procura de uma única realidade que julga verdadeira.
A história de Lóri, feita de retalhos, tem de ser apreendida
pelo leitor para configurar um signo comum: a construção do sujeito.
Construção que se opera como a dos heróis bíblicos,
pois o discurso alude a algo implícito, que permanece inexprimido. Em
“O Livro de Jó” ou o “Livro dos Reis” Deus dá
suas ordens em discurso direto, entretanto cala seus motivos e sua intenção.
Quando quer provar a fé e confiança de Abraão, diz apenas:
“Toma teu único filho, a quem tanto amas.” Em O livro dos prazeres,
o discurso fragmentado expõe pensamentos e sentimentos de maneira oblíqua,
sugeridas pelo silêncio das interrupções:
“Lóri, eu vou estar tão ocupado que talvez o jeito seja
casarmos para estarmos juntos – Talvez seja melhor. Talvez o melhor seja (…)”
(Lispector, 1982: 170).
Em Lóri, a construção do sujeito assume aspectos do drama
fáustico. Sua paixão pelo conhecimento arrasta-a a um pacto não
verbalizado com Ulisses: o pacto da castidade. Por outro lado, Ulisses mefistofélico
não quer apenas o corpo de Lóri e sim, também a alma. Para
apossar-se da própria alma Lóri precisa desnudar o rosto, arrancar
a máscara. A máscara que simula o prazer e dissimula a dor, que
protege e envergonha, como na cena do táxi, em que é confundida
com uma prostituta.
Na verdade, a festa a que Lóri comparecera era uma alegoria das “mascaradas”
italiana. Lóri percebe isso. Arranca a máscara para ganhar dignidade.
E a dignidade está longe de ser algo dado ou acabada. Ela é uma
conquista de si mesmo e, neste processo, encontra-se prazer e dor, cria-se uma
história para si e a partir de si. Porque não só fazemos
parte da totalidade como podemos conquista o mundo, sem sermos dominados por
ele. A grande lição de O livro dos prazeres é a dignidade
humana.
A travessia de Lóri mostra que a especificidade do ser humano não
é somente o racionalismo, como vira Aristóteles, ou imortalidade,
como prega o cristianismo, mas sua prerrogativa de autocriar-se. A longa espera
reflete a condição humana por excelência. A opção
é um efeito, um resultado; a causa está no poder de chegarmos
até lá. A liberdade é, portanto, um princípio positivo
de ação e o homem tem de usá-la para ir se construindo
como sujeito. Ninguém ou coisa alguma faz com que o homem, por si, seja
bom ou mau. Toda decisão passa pelo poder de escolha, situado no foro
íntimo da consciência individual, que é uma instância
de autonomia. Pico della Mirandola já dizia: “Poderás descer
ao estado de animalidade ou subir à dignificação divina
e isso pelo poder de tua decisão pessoa” (Mirandola, 1988: 6). É
essa decisão que faz Lóri recusar Ulisses, mesmo desejando-o:
“Tudo o que ele dissera – sobretudo o tom com que dissera – era no sentido
de apaziguá-la. E tão forte ela se sentiu através dele
que, refeita e calma, disse-lhe:
— Prefiro ficar ainda algum tempo sozinha, mesmo que seja tão
difícil.
— É um sacrifício para mim também. Mas faça
como quiser, se é disso que você precisa” (Lispector, 1982:
134).
Qual o verdadeiro sentido de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres? Que
relação existe, substancial, entre aprendizagem e prazer? O que
torna a luta de Lóri tão difícil? Em Lóri, como
em todos nós, o princípio de realidade desencadeia defesas contra
a dor; aferrando-se a esta contingência, Lóri deixa de ser. E só
ao redescobrir o princípio do prazer, adquire a possibilidade de ser.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro,
Sociedade Bíblica do Brasil, 1971.
FREUD, Sigmund. Mas allá del principio del placer. In: Obras Completas.
Trad. Luiz López – Ballesteros y Torres. Madrid:,Biblioteca Nueva, 1981.
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 1982.
MIRANDOLA, Pico della. A dignidade do homem. Trad. Luiz Feracine. São
Paulo, GRD, 1988.





Bio fornecida pelo palestrante.

Mulheres e Galinhas sem Mendigos: Leitura de "Imitação da Rosa" de Clarice Lispector




 

Mulheres e Galinhas sem Mendigos: Leitura
de “Imitação da Rosa” de Clarice Lispector

Ligia Chiappini
Freie Universität Berlin

Este texto foi lido, pela primeira vez, publicamente, no Seminário Internacional
“Loucos, excêntricos e marginais na literatura latino-americana”,
realizado em Poitiers, França, entre 5 e 7 de junho de 1996.
(…) não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem
(Cecilia Meireles, fragmento do poema “O motivo da rosa”)
Este texto dialoga com outro, intitulado “Mulheres, Galinhas e Mendigos:
Clarice Lispector, contos em confronto”1 que, por sua vez, dialogava com
“Pelas ruas da cidade uma mulher precisa andar: leitura de Clarice Lispector”2.
Nesses dois textos, procurei responder – inspirada no belo ensaio já
clássico de Gilda de Mello e Souza, “O vertiginoso relance”3
e fundada na análise do conto “Uma galinha”, como alegoria
da condição feminina – o que acontece quando a mulher, míope
e confinada ao lar, sai à rua e encontra marginais, aleijados ou mendigos,
a pobreza selvagem e ferruginosa de Macabeus e Macabéas, a interrogar
sem saber a sua e dela alienação?
Em “Mulheres, galinhas e mendigos” há um parágrafo
que deu origem agora à análise que proponho do conto “Imitação
da rosa”4. Dizia ele :
“Entre “Uma galinha” (1960) e “A Bela e a Fera” (1977),
passaram-se 17 anos de escrita e vários outros contos e romances. A leitura
de ambos hoje nos permite reler a obra de 60 a 77, encontrando sinais de uma
permanente tematização, embora mais disfarçada, da situação
da mulher na cidade que se moderniza e aprofunda selvagemente as desigualdades
sociais, processo em que ela tem um papel importante dentro da classe média
brasileira, na construção do nosso chamado “milagre econômico”.
É ela a principal consumidora; é para ela que os homens dizem
trabalhar; é ela que eles querem comprar e é ela que decide se
vender. “Amor”, “Felicidade clandestina”, “Devaneio
e embriagués de uma rapariga”, “Os laços de família”
e, embora, menos facilmente, “Imitação da rosa”, são,
entre outros, contos que podem ser confrontados sob essa perspectiva” (p.
38).
Por que “menos facilmente”? Porque não há aqui, pelo
menos aparentemente, nem os mendigos, macabeus ou cegos da cidade, nem o mesmo
movimento de ida à rua e de volta à casa, identificado na matriz
“Uma galinha” e nos demais contos citados.
Há muito pouco, aliás, como enredo, neste conto. Trata-se de
uma mulher, recém saída de um sanatório, que espera o marido
para ir jantar com amigos. De repente, olha um vaso com rosas, vé as
rosas e resolve enviá-las à amiga anfitriã, antes do jantar,
pela empregada. Saindo esta com as rosas, Laura – é o nome da mulher
– volta a entregar-se a sua loucura, para espanto do marido que, abrindo a porta,
de volta do trabalho, percebe que ela voltara a partir. E para espanto do leitor
ou da leitora que sentem haver muito mais nesse parco enredo, na loucura de
Laura e naquelas belas, hipnóticas e misteriosas rosas do que se percebe
à primeira leitura.
Uma análise um pouco mais detida desse conto, que me desafiou por muitos
anos, talvez ajude a esclarecer o mistério.
“Imitação da rosa” tem nitidamente duas partes. Nas
primeiras 10 páginas, das 22 que compõem o conto, Laura pensa,
movendo-se muito pouco (vai da sala para a cozinha para pegar um copo de leite
e volta à sala). Pensa em arrumar-se para estar pronta quando o marido
chegar, pensa nas compras e demais afazeres domésticos que fez pela manhã,
na doença que venceu com ajuda de médicos e enfermeiras, nas visitas
do marido à clínica e nos choques de insulina com que aí,
“como a uma galinha indefesa”, a jogavam num abismo .
Esses e outros pensamentos ¾ raros e repetidos¾ vão aparecendo
aos poucos, por meio de um estilo indireto-livre ou daquilo que Norman Friedmann
chama “análise mental”.
Através desta ficamos sabendo também que Laura é dona
de casa e, como as mulheres dos contos já citados de Clarice, casada
com um homem trabalhador e bem sucedido. No caso, Armando que, na guerra velada
dos sexos, busca a paz conversando “com outro homem sobre o que saía
nos jornais”, enquanto a mulher conversa com outras mulheres “sobre
coisas de mulheres”.
Saída da clínica, Laura está “bem” e, estando
“bem”, pode ser esquecida, “voltando à insignificância
com reconhecimento”. Ela é como “uma galinha”, doméstica,
domesticada, pelo pai que a entregou ao padre que, por sua vez, a entregou ao
marido. Tem “uma graça doméstica”, usando “os cabelos
(…) presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas”.
“Ar modesto de mulher”, de “olhos marrons”, “cabelos
marrons”, “pele morena e suave”, parece a mulher de casaco marrom
do conto “O Búfalo”, no mesmo livro. Laura , calma e doméstica,
com seu vestido marrom, “a gola de renda verdadeira e o ar infantil de
menino antigo”
Sem vaidade, ela não se importa de engordar com o tratamento contra
a ansiedade, pois, para uma esposa, “o principal nunca fora a beleza”.
Impessoal como sua casa, “arrumada e fria”, ela é o contrário
de sua amiga Carlota ¾ que parece representar uma nova mulher. Enquanto
Laura “nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem “,
Carlota, “que fizera de seu lar algo parecido com ela própria”
, “tinha um modo esquisito e engraçado de tratar o marido”.
Por apagada e “chatinha”, o marido e Carlota ¾ que, moderna,
se aproxima dos homens, repetindo-os¾ não a escutam, ou melhor,
quando percebem que ela está “bem” a tratam com “desatenção
e vago desprezo”. Até a empregada, Maria, com quem ela mais conversa,
“às vezes continha a impaciência”, mas “ficava um
pouco malcriada.”
Maria é parente de Janair, como ela atrevida, o outro da patroa. Esta,
como GH, traz uma falta no olhar: do “filho que nunca tivera”.
A segunda parte do conto começa mais ou menos na metade (o que Jakobson
nos ensinou que pode ser muito significativo), quando Laura vé um vaso
de miúdas rosas silvestres. Também nessa parte haverá idas
e vindas, descontinuidades e obsessivas repetições.
Depois de muitas hesitações, Laura decide enviar as rosas à
Carlota, por Maria que vai sair para sua folga. Arrepende-se logo desse gesto,
mas não há mais tempo de voltar atrás. Maria leva as rosas.
Por que decidira livrar-se das rosas? Porque as vé como risco. Risco
de, pela beleza e perfeição, ser arrancada novamente da vida modesta
de esposa, trazer de volta a “terrível independência”,
tornar-se novamente distante e “super-humana”, como “um barco
tranqüilo emplumando-se nas águas”, auto-centrando-se naquele
“ponto vazio e acordado”, “horrivelmente maravilhoso”.
As rosas são hipnóticas, “perigosamente lindas”, “tão
bonitas” “na sua completa e tranqüila beleza”, “imóveis
e tranqüilas” que parecem artificiais.
Olhar as rosas é olhar a perfeição, a luz da beleza que
“não ia durar muito”. Sem elas a falta é maior e a necessidade
de partir novamente nas asas da loucura, mais urgente.
Acesa, iluminada, sem cansaço, Laura agora imita as rosas, desistindo
da alegria humilde que cabia a uma esposa. O marrom e o sombrio se transfiguram
em “luz que inunda violenta a sala”. Ela agora sorri. O marido é
olhado quase como inimigo. O embaraço, por não ter podido resistir,
é “vaidoso” e o olhar da falta brilha com “a serenidade
do vagalume” .
Altiva, a mulher-rosa desabrocha, inalcansável diante do marido subitamente
envelhecido, agora de novo respeitoso e atento.
A moça da Tijuca que estudara no Sacre-Coeur e lera a Imitação
de Cristo sem nada entender, agora, ao imitar a rosa, imita Cristo.
A flor mais simbólica da cultura ocidental5 que, na Antigüidade,
figura Afrodite, ligada à fertilidade – e que, por aí responde
à falta da mulher estéril -, na tradição cristã
simboliza as chagas de Cristo e o mistério da ressurreição.
Centro místico para os Rosa-Cruz : “Sacre-Coeur”.
Sincrética, Clarice funde nesse símbolo várias dimensões
e tradições simbólicas, místicas e míticas.
E não pára aí. Na alquimia, as 7 pétalas da rosa
representam as 7 etapas no caminho da perfeição: o caminho escolhido
por Laura. E na tradição literária medieval, a rosa é
o eterno feminino, símbolo erótico, ao mesmo tempo sugerindo o
mundo secreto das virgens e corporificando o tema do “carpe diem”.
Assim, altamente erótica, a rosa é símbolo da mulher amada
e desejada, fértil e bela, o contrário da esposa Laura, boba,
marrom e estéril.
Rastrear a simbologia da rosa pode assim explicar um pouco do conto, da personagem
e da sua loucura, mas só isso não resolve a dificuldade que apontei
acima de relacionar este conto com a matriz identificada em “Uma galinha”,
tanto no que diz respeito à condição da mulher classe média
– que se anula no casamento – quanto ao movimento de ida e volta, da casa à
rua e novamente à casa, identificado nesse e nos outros contos citados
atrás.
É preciso dar um passo a mais e notar que “Imitação
da rosa” repete a matriz mas invertendo-a. Lá havia o quotidiano
da dona de casa, a ruptura epifânica quando ela sai à rua, já
apontada por muitos críticos, e a restauração desse quotidiano,
passado o risco da perda do eu em dimensões vitais que o dissolvessem.
Aqui há uma epifania lembrada, anterior ao momento em que se inicia o
conto – a saída no barco da loucura -, seguida da tentativa de restaurar
o eu no quotidiano e, finalmente, o novo salto, talvez irremediável,
nas alturas epifânicas, desvairadas e airadas.
O confinamento aparentemente feliz no lar é negado na viagem sem volta
da loucura. Só a morte da menina de golinha rendada pode dar nascimento
à mulher-rosa. Mas há ainda um detalhe. Trata-se de uma rosa silvestre,
o que parece traduzir a necessária adaptação do nobre símbolo
à realidade brasileira, à selvática, primitiva e discreta
majestade das empregadas, das crianças, dos bichos e das mulheres- galinhas
que, como Laura e Macabéa, seja pela loucura seja pela morte conseguem
virar estrela.
Notas
1Lido no II Congresso de Lusitanistas alemães, em setembro de 1995 e
publicado na revista Lusorama,29 , Frankfurt-am-Main, 1996, p. 34-41.
2 Publicado em Literatura e Sociedade, revista do Departamento de Teoria Literária
e Literatura Comparada, da Universidade de São Paulo, São Paulo,
1996, p. 60-80.
3 Comentário, Rio de Janeiro, 1963, republicado em Exercícios
de Leitura, São Paulo, Duas Cidades, 1980, p.70-91.
4 Laços de Família, Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1965 (1a.
ed. 1960).
5 Assim se refere a ela o Dictionnaire des symboles, de Jean Chevalier e Alain
Gheerbrant, Paris, Seghers, 1974 que, como muitos outros, enumeram as significações
tradicionais da rosa que exploro a seguir, apoiada também na leitura
de Le roman de la Rose de Guillaume de Lorris (de, aproximadamente, 1230), concluído
por Jean de Meun 40 anos depois. No horizonte está ainda o célebre
poema de Ronsard, já em meados do século XVII, “A sa maitresse”,
a cuja insistência no tema do carpe diem parecem responder ironicamente
os motivos da rosa, de Cecília Meireles, que reviram o velho topos dos
poetas homens, agora do ponto de vista da mulher poeta.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Mulheres, galinhas e mendigos: Clarice Lispector, contos em confronto




Mulheres, galinhas e mendigos: Clarice Lispector, contos em confronto

Ligia Chiappini
Freie Universität Berlin

Há um conto de Clarice que, na sua simplicidade, concentra significações
que reverberam pela obra toda. Trata-se de “Uma galinha”. Espécie
de alegoria da condição feminina, passou muito tempo desapercebido
como tal para a crítica preocupada em desvendar a dimensão filosófica
da obra.
Este texto tenta resumir um trabalho maior1 feito
com contos e romances de Clarice Lispector, que tem como ponto de partida a
leitura desse conto, porque nele se localiza um movimento fundamental e reiterado
em muitos outros momentos da obra. Trata-se de um movimento de ida e volta,
de saída à rua e de nova reclusão, da súbita experiência
de liberdade e de autodescoberta, mesmo que seguida de nova alienação.
“Uma galinha” é uma espécie de fábula irônica.
Um domingo, a galinha escolhida para ser comida no almoço escapa do quintal
e foge pelos telhados, perseguida pelo dono da casa improvisado em atleta de
fim-de-semana. Este, finalmente, a alcança, levando-a de volta e depositando-a
com certa violência no chão da cozinha, instante em que ela, de
susto, põe um ovo e se salva, já que a menina da casa, seguida
do próprio pai, reconhecem neste um filho, único motivo para a
sobrevivência da galinha.
Como não reconhecer aí o mesmo movimento de outros contos de
Clarice protagonizados por mulheres? Além do movimento de ida e volta,
que temos em contos como “Amor”, “Os laços de família”
e “A bela e a fera”, entre outros, há expressões que
se aplicam à galinha mas que valem para o estereótipo feminino.
Como não ver a mulher passiva e doméstica de tantos outros momentos
da obra que subitamente tenta um gesto, mesmo que fugaz, de independência,
nessa galinha “estúpida, tímida e livre” que “tinha
que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua
raça”? Mais ainda se observarmos que o ovo salvador é como
um filho “prematuro” e que a galinha “nascida que fora para a
maternidade, parecia uma velha mãe habituada”? E sobretudo quando
a ela se aplicam as expressões: “jovem parturiente”, “esquentando
seu filho”, “correr naquele estado”, “rainha da casa”
e “deu à luz”?2
Por outro lado, é fácil associar essa galinha, tão inusitadamente
segura de si “como um galo cré na sua crista” , aos homens
que “cantam de galo” em tantos contos onde se narra uma espécie
de guerra surda entre os sexos, nos casamentos feitos sem amor ou nos quais
o amor se acabou com a rotina da vida burguesa.
Como não ver nessa escolha para representar a mulher uma extrema ironia
por parte de Clarice que não ignora a utilização da palavra
galinha para significar mulher da rua, mulher fácil, mulher de
muitos homens? Resgatando a dignidade da galinha e encarnando nela a mulher
objeto, Clarice discute ironicamente essa grosseira comparação,
por exemplo, através da menina que, em “Uma história de tanto
amor” , “quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria
o termo galinha tinha outra acepção”, pois, dizia
ela: “é o galo , que é um nervoso, quem quer! Elas não
fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vé!
O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!” Ou
seja, o que a menina acaba nos dizendo com isso é que galinha é
… o galo.3
Se juntamos portanto ao movimento de saída à
rua e volta à casa com o que ele significa como tentativa de desalienação
da mulher, a essa disputa com o homem, chegamos a iluminar outro aspecto que
me parece da máxima importância em Clarice e que considero um ponto
cego da crítica tanto quanto o foi, por muito tempo, a desconsideração
do feminino nessa mesma obra . Trata-se da descoberta da pobreza por essa mulher
confinada e protegida por um bom negócio matrimonial, mas reduzida a
mecânicos atos quotidianos de auto-anulação, infeliz e culpada.
A descoberta da pobreza dá-se junto com a autodescoberta como consumidora
e parasita social, o que, de modo fulminante, desvenda o sem sentido da sua
vida e da vida dos homens numa cidade grande que expõe talvez mais duramente
os contrastes de uma sociedade injusta.
O conto em que isso está mais visível é um conto inacabado
mas que, independente da forma final que iriam ter seus fragmentos, já
como Clarice o deixou, revela talvez por isso mesmo, porque ainda não
arranjado em obra, essa vertente temática que, a partir daí ,
podemos reconhecer, meio disfarçada, em outros momentos dos contos e,
mesmo, dos romances .
Trata-se do conto póstumo “A bela e a fera”4.
A bela, Carla de Souza e Santos, “quatrocentos anos de carioca” ,
sai do espaço defendido do cabeleireiro chic do Copacabana Palace
Hotel aonde fora protegida em seu carro oleado, que corria “sem barulho
de metal ferrugento”, conduzido por chofer particular. Com ele deveria
voltar diretamente à casa para, depois, dirigir-se a outro espaço
defendido — o de uma festa grãfina. O conto, narrado por fragmentos
aparentemente desconexos, nos deixa entrever que, na vida da jovem senhora que
o casamento fizera mudar de classe, a cidade do Rio de Janeiro é outra.
É uma espécie de cidade-fortaleza onde habitam os viçosos,
os que podem tudo, até mesmo viver uma vida inteira sem dar-se conta
da existência da cidade real, em que trabalhadores convivem lado a lado
com marginais e mendigos. Assim seria a vida de Carla, se não tivesse
havido um imprevisto : o desencontro com o chofer, por ela ter saído
do salão de beleza antes da hora combinada , agravado pelo fato de não
contar com dinheiro trocado para o táxi. Essas são, aliás,
as razões pretensamente objetivas que Carla se dá para subitamente
sair porta afora da sua cidade defendida e descobrir a outra, a que começa
na avenida Copacabana, onde há “pessoas de toda espécie”.
Mas o texto sugere também que essa saída é uma espécie
de busca, de reencontro consigo mesma pelo encontro do outro de classe. Podendo
“voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro”, desiste, porque
a tentação da rua foi mais forte: “era uma tarde de maio
e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso
e inusitado ficar de pé na rua – ao vento que mexia com os seus cabelos.
Não se lembrava quando fora a última vez que estivera sozinha
consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela – com outros – refletia e os outros
refletiam-se nela. Nada era… era puro, pensou sem se entender”.5
Como uma galinha, essa mulher é e não é e, depois de muito
pensar é como se não pensasse nada. Como se diz em “Felicidade
clandestina”: “Para falar a verdade, a galinha só tem mesmo
é vida interior. A vida interior da galinha consiste em agir como se
entendesse”.6
Quando Clara sai à rua, o olhar míope da mulher confinada de
que nos falava Gilda de Mello e Souza quando da publicação de
A maçã no escuro, descortina visões e pensamentos
inusitados, fazendo-nos enxergar e ouvir o mundo que berra pela boca desdentada
de um mendigo, como berrava pela boca do cego mascando chiclete, em “Amor”.
A visão do mendigo que vive de uma ferida na perna confronta Carla
consigo mesma e com a sua própria ferida na alma: a alienação
da mulher que se vendeu: “Agora entendia que se casara da primeira vez
e estava em leilão: quem dá mais? quem dá mais? (…).
Então está vendida. Sim, casara-se pela primeira vez com o homem
que “dava mais”. (…) Vendera-se. E o segundo marido? Seu casamento
(está) findando, ele com duas amantes fora a mulher e a mulher suportava
tudo porque um rompimento seria um escândalo: seu nome era por demais
citado nas colunas sociais. (…) Aliás, ela aceitara este segundo porque
lhe dava grande prestígio. Vendera-se às colunas sociais? Sim.
Descobrira isso agora”.7 Descobrir
isso é descobrir também que não se é uma self-made
woman
pelo simples fato de estar casada com um self-made man. Ressoa aqui
aquela Macabéa que pensava que mulher de deputado é deputada.
Finalmente, descobrir isso é tomar consciência do “tanto (que)
lhe foi dado e por ela ávida, tomado.” Tomado ou dado, o fato é
que ela se sabe agora do lado das “manadas de mulheres e homens que simplesmente
podiam”, os que andam em máquinas sem ferrugem, e que fazem o leitor
lembrar também , por contraste, da ferruginosa Macabéa, do livro
contemporâneo desse conto, A hora da estrela.
Estar na rua , para a mulher que nunca sai de casa, é como recuperar
a identidade perdida com o casamento; é voltar a ser. A Bela já
fora taquígrafa, mas esquecera, como “esquecera a máquina”,
“o aperto nos ombros, as chuvas nas calçadas, os horários
certos”.8
O casamento por dinheiro apagara tudo isso, mas apagara também
uma parte dela mesma que o encontro com o mendigo na Avenida Copacabana ameaça
trazer de volta com força e perigosamente.
A alienação da mulher rica se expressa na festa permanente,
sem nem ter o que festejar. E, na festa, os homens falam de negócios
e as mulheres exibem a beleza fabricada a peso de ouro nos salões da
Avenida Atlântica. Essa alienação é simétrica
à do mendigo, expressa na cachaça que o ajuda a suportar a quotidiana
exibição da sua mercadoria: a ferida na perna de que sobrevive.
Festa e cachaça, obsessões respectivas em que um e outro costumam
afogar uma falta comum – a falta de amor – e a pré-ciência de um
destino, apesar de tudo também comum: o da morte certa. Tudo isso é
explicitado por este conto ainda de discurso transparente, talvez porque inacabado,
anterior ao trabalho de polimento e de despojamento, das máscaras e dos
mistérios de Clarice em suas versões finais.
Entre “Uma galinha” (Laços de família, 1960)
e “A bela e a fera” (1977), passaram-se 17 anos de escrita e vários
outros contos e romances. A leitura de ambos hoje nos permite reler a obra de
60 a 77, encontrando sinais de uma permanente tematização, embora
mais disfarçada, da situação da mulher na cidade que se
moderniza e aprofunda selvagemente as desigualdades sociais, processo em que
ela tem um papel importante dentro da classe média brasileira na construção
do nosso chamado milagre econômico: é ela a principal consumidora;
é para ela que os homens dizem trabalhar, é ela que eles querem
comprar e é ela que decide se vender. “Amor”, “Felicidade
clandestina”, “Devaneio e embriaguez duma rapariga” , “Os
laços de família” e, embora menos facilmente, “A imitação
da rosa”, são, entre outros, contos que podem ser confrontados sob
essa perspectiva.
Nesse sentido, não podemos concordar com a afirmação
corrente em boa parte da crítica de que a questão social se põe
apenas nas obras finais (A hora da estrela e A bela e a fera).
É o que pensa, entre outros, Darlene J. Sadlier, que mais uma vez desvincula
duas mediações – da condição feminina e da luta
de classes, as quais, pelo contrário, vejo disseminadas e relacionadas
por toda a obra de Clarice. Diz ela, em “O texto e o palimpsesto: A bela
e a fera/ ou A ferida grande demais” :
“Como grande parte de sua ficção, o conto descreve o tumulto
privado e interior duma mulher; neste caso, porém, o tumulto é
provocado por um encontro entre uma mulher rica de destaque social e um mendigo
miserável. O conto intriga leitores e críticos porque envolve
um contraste vívido entre ricos e pobres, assunto de caráter público
nunca antes tratado por Clarice.”9
Já tive oportunidade de mostrar no ensaio citado, “Pelas ruas da
cidade uma mulher precisa andar”10,
como a pobreza na cidade maravilhosa se tematiza mesmo num livro hermético
e aparentemente preocupado apenas com questões existenciais e estéticas,
como A paixão segundo GH, revelando aí muitos pontos de
contato com outros momentos da obra em que a questão social se põe
de forma mais explícita, mas ainda aliada às indagações
filosóficas , como é o caso de A hora da estrela. O mesmo
vale para os contos aqui mencionados, onde volta e meia se insinua o pobre e
a fome em meio a epifanias que aparentemente nos levam muito longe dessa feia
e dura realidade sobre a qual se debruçam de modo quase fotográfico
os chamados brutalistas no mesmo período.
Não podemos esquecer que a obra de Clarice atravessou um tempo de guerra;
para boa parte dos intelectuais e para os trabalhadores brasileiros, um tempo
de guerra perdida. Seu primeiro romance foi escrito no Estado Novo e o romance
de que ela própria mais gostava (A paixão segundo GH) foi
publicado em pleno ano do golpe militar (1964) . Seus contos e romances atravessam
a ditadura , chegando até o início do que se convencionou chamar
de abertura democrática. Esse tempo foi caracterizado com brevidade mas
certeiramente por Walnice Nogueira Galvão do seguinte modo:
“Foi-se a utopia. Desfaleceu a fé na capacidade de criar o novo
e a dimensão do coletivo. Em seu lugar, tem-se um país mais rico,
de capitalismo selvagem e modernizador, a cultura recolhida a seus poucos bastiões
e a televisão para todos, numa sociedade com o consumo fetichizado –
e com a desigualdade maximizada.”11
Considerando, nesse mesmo texto, o empobrecimento da prosa de ficção
pós-68, Galvão reconhece a dificuldade de discernir “até
onde vai a determinação das condições históricas
específicas da conjuntura do país e onde começa a transplantação
do thriller e do roman noir norte-americanos” numa literatura
como a de Rubem Fonseca que apanha a violência da alienação
na metrópole moderna ou como a de Dalton Trevisan, a violência
das relações sociais na cidadezinha provinciana.
Clarice trilha o mesmo caminho, mas na contra-mão. No ensaio citado
páginas atrás, indico como ela dialoga com essa tendência
da ficção que Alfredo Bosi chamou de brutalista, sem a ela aderir,
apanhando por outro lado a mesma violência e o mesmo mal-estar do nosso
capitalismo selvagem, mas resistindo até o fim à tentação
do best-seller.
O mal-estar, porém, está aí e tem muito a ver com a troca
que a classe média realizou: muitos sonhos por alguns eletrodomésticos
e automóveis (como se disse cruel mas realisticamente também no
mesmo encontro de Maryland) . O papel da classe média já foi suficientemente
estudado por aqueles que procuraram desmistificar o “milagre brasileiro”.
Mas o papel da mulher consumidora, que talvez a sociologia esteja ainda por
estudar, foi colocado volta e meia em pauta por Clarice Lispector.
De fato, em Clarice, o tema da mulher objeto, freqüentemente vendida
num casamento sem amor aparece desde, pelo menos, A cidade sitiada, não
por acaso, um romance que trata da passagem de um subúrbio à cidade
grande. O mesmo tema reaparece em contos pelas décadas de 1970 afora,
reiterando-se , de forma mais clara e até esquemática, no conto
inacabado “A bela e a fera”.
Aparentemente conformadas com a rotina da vida burguesa, essas mulheres sempre
correm o risco de subitamente confrontar-se com o sem sentido de suas vidas,
ao lado de seus maridos bem postos nos negócios e dentro de suas casas
confortáveis. São momentos em que, como “Uma galinha”,
a mulher sai à rua , foge e quase vira um galo prestes a anunciar um
novo mundo possível e uma nova possibilidade de ser mulher dentro dele.
É o momento em que uma jovem mãe escapa ao “belo”
sábado do marido, ganhando a rua com o filho pela mão em busca
de reconquistar a relação perdida do amor verdadeiro, atravessado
pelas convenções do papel quotidiano de mãe e esposa:
“Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem
regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? Fora
isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher
aceitava da situação de um marido moço e cheio de futuro–
desprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho
nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a
lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo
e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois
anos que nunca falava propriamente como se tivesse vivido sempre.”12
É o momento em que a mulher senta com o mendigo, ama o cego, come a
barata, enxerga Janair, vé Macabéa na feira nordestina e escreve
sobre ela para exorcizá-la e ao mesmo tempo denunciar que ela existe
e consegue ser possível num mundo todo feito contra ela.
São todas mulheres-galinhas que abotoam e desabotoam os olhos, passivas,
remoendo o mal-estar e, de repente, explodindo num pequeno ato heróico
que não vale nada a não ser, talvez para os leitores, sobretudo
para nós, leitoras, como uma ponta de interrogação desestabilizadora
e provocadora de um mal-estar semelhante. Será que ainda somos leitoras
para Clarice Lispector? Mulheres da rua que somos hoje? Não mais confinadas
ao lar, mas emprendendo como o homem-engenheiro o conforto quotidiano de todas
nós? Será que nos desconfinamos? Então por que ainda nos
tocam as pequenas rebeldias das mulheres de Clarice e a sua teimosia em subir
no telhado e apontar o mendigo?


Notas
1
Em aula pública de concurso na USP, dada em 1981, identificava eu
aí uma espécie de ponto cego que hoje, depois das releituras de
Clarice pelas mulheres (principalmente, depois de sua descoberta pelas feministas
francesas e norte-americanas) parece se ter desvanecido mesmo entre os leitores
homens, pelo menos entre a crítica especializada. Mas o estudo pioneiro
e até hoje atual continua sendo o de Gilda de Mello e Souza, um belo
ensaio intitulado “Um vertiginoso relance” que, ponto de partida da
referida aula, continua sendo referência fundamental para mim em novos
trabalhos. A leitura minuciosa de “Uma galinha”, escrita mas não
publicada, foi posteriormente repetida em cursos de formação de
professores, onde pude constatar sempre a dificuldade, principalmente dos homens,
em identificar aí os elementos aparentemente tão óbvios
que fazem da galinha a representação da mulher, quanto mais não
seja pelas metáforas e comparações estereotipadas que a
ela se aplicam.
A esse ponto cego – do feminino – se juntaria um outro que chamaria minha atenção
mais recentemente. Refiro-me à significação social da obra
de Clarice e ao papel da luta de classes em que se insere a figura da mulher
e da cidade em que ela habita. Novo trabalho, objeto de algumas conferências
e agora prestes a sair na revista Literatura e Sociedade, do Departamento
de Teoria Literária e Literatura Comparada, da USP, atacaria esse ponto,
analisando sobretudo dois romances: A paixão segundo GH e A
hora da estrela
. Trata-se de mostrar aí como poderíamos ganhar
relacionando leituras freqüentemente exclusivas: a linguístico-estrutural,
a feminista, a filosófica e a histórico-sociológica que,
por sua vez, pode aproveitar de modo não reducionista e esquemático,
a leitura biográfica .
2 As citações
entre aspas são todas do conto “Uma galinha” , de Laços
de família
(1a. ed.1960). Edição utilizada aqui: Rio
de Janeiro, Ed. do Autor, 1965.
3 As citações
são do conto “Uma história de tanto amor”, Felicidade
clandestina
, 2a. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1975, p. 141.
4 Do livro
do mesmo nome, publicado em 1979 pela editora Nova Fronteira. A versão
publicada em 1979 é fruto de uma tentativa de dar forma final ao conto
inacabado de Clarice, por Olga Borelli e Gurgel Valente Filho. As citações
feitas aqui são retiradas do manuscrito deixado por Clarice, reproduzido
na edição crítica de A paixão segundo GH,
organizada por Benedito Nunes para a coleção Archives, Florianópolis,
Ed. da Universidade Federal de Santa Catarina, 1988. Será referido o
número do fragmento de onde for retirada a citação.
5 Op. cit.,
Fragmento XX.
6 Do conto
“O Ovo e a Galinha”, In Felicidade clandestina, op. cit. p.
49.
7 Ob. cit.,
fragmento XIII.
8 Ob. cit.,
fragmento X.
9 In: Travessia
21, Mulher e Literatura, Florianópolis, Ed. da UFSC, 1990, p. 105.
10 É
preciso destacar aqui a leitura pioneira de Solange Ribeiro, no resgate do social
e na tentativa de relacioná-lo com outras dimensões da obra, principalmente,
romanesca de Clarice: A barata e a crisálida, o romance de Clarice
Lispector
, Rio de Janeiro, José Olympio; Brasília, INL/Fundação
Nacional Pró-Memória, 1985. E, mais recentemente: “Rumo à
Eva do futuro: a mulher no romance de Clarice Lispector”, in: Remate
de Males
, n. 9, Unicamp/Campinas, 1989, p. 95-105.
11 “As
falas, os silêncios, literatura e mediações: 1964-1988”,
in: Brasil: o trânsito da memória, São Paulo, Edusp,
1994 (org. Saul Sosnowski e Jorge Schwartz). Atas do encontro do mesmo nome,
realizado na Universidade de Maryland entre 17 e 19 de abril de 1988.
12 Laços
de Família
, op. cit.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

Imagens de Mulher na Ficção Feminina pós-64




Imagens de Mulher na Ficção Feminina pós-64

Márcia Cavendish Wanderley
Universidade Federal Fluminense

Introdução

No nebuloso período pós-64, quando os véus
negros da repressão e da censura desceram sobre a população
brasileira sufocando-a nos seus mais variados impulsos criativos, uma vereda,
a princípio cautelosa e mais tarde arrojada e caudalosa, foi aberta
pela mulher no campo da literatura. Na prosa de ficção que
se inicia com um discurso quase auto depreciativo e lamuriento e pouco a
pouco se transforma em audacioso e revoltado, a escrita feminina irrompe
a partir desta data, ancorada às vezes em raízes sólidas,
(como as já cravadas pela produção de Clarice Lispector
que, antes disso era festejada como romancista pela crítica oficial)
e terminando por se afirmar como proposta contra-ideológica aos papéis
tradicionalmente desempenhados pela mulher na sociedade brasileira. Entretanto,
e apesar da riqueza que esta contribuição representa para a
literatura brasileira, esta produção permanece inexplorada,
até o momento atual pela crítica, que não realizou ainda
um trabalho de reunião e análise deste material como um todo.
Os trabalhos acadêmicos geralmente rondam em torno de alguns nomes
consagrados pela crítica , pelo setor editorial e pelo público
leitor ( nomes tais como os de Clarice Lispector, Nélida Piñon,
Lígia Fagundes Telles, e alguns outros), permanecendo na obscuridade
a maior parte das escritoras que publicaram a partir daquela data, como se
já tendo sido estabelecido uma espécie de “cânone” da
literatura feminina brasileira, fosse permitido negligenciar o que sobrou
desta escolha.

Não temos notícia sequer de um “catálogo”,
que a exemplo do importante trabalho realizado por Heloisa Buarque de Hollanda
sob o título de Ensaistas Brasileiras: Mulheres que escreveram
sobre Literatura e Arte de 1860 a 1991
(Hollanda,1993), tenha organizado
de forma biobibliográfica toda a produção ficcional
feminina no Brasil, a partir da década de sessenta, marco importante
para esta produção. Sabemos, aliás através desta
mesma publicação, que um dicionário de escritoras brasileiras
desde o século XIX até a atualidade, estaria sendo preparado
pela professora Nelly Novaes Coelho. Entretanto não temos nenhuma
notícia de sua publicação recente. E mesmo que ela exista
não invalida nossa proposta na medida em que ela se debruça
sobre um período bem específico que se inicia em 64, e tem
a pretensão de extrapolar a simples condição de dicionário,
realizando a análise destas autoras sob uma perspectiva histórica
e sociológica que busca as interligações existentes
entre texto e contexto. Este é um trabalho a ser feito e a ele nos
lançamos com a esperança de realizá-lo em duas diferentes
etapas. Na primeira, mais quantitativa, realizando o levantamento, tão
completo quanto possível, da produção ficcional feminina
que se inicia em 1964 até os dias atuais. Nesta etapa, que se configura
como um “work in progress” ( pois a ficção feminina
não se extingue e ao contrário a cada dia cresce mais no panorama
da literatura brasileira ) pretendemos fornecer informações
bio-bibliográficas das autoras, informações estas que
deverão ser publicadas em catálogo anualmente reformulado.
Para isto já contamos com a colaboração da EDUFF em
termos da publicação do mesmo,da REDOR (Rede de Estudos Feministas
do Nordeste) , REDEFEM (Rede de Estudos Feministas) e do NIELM (Núcleo
Interdisciplinar de Literatura e Mulher, da Faculdade de Letras da Universidade
Federal do Rio de Janeiro) que nos darão apoio na coleta dos dados,
além da ajuda de duas alunas da graduação do Curso de
Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal
Fluminense, financiadas pelo projeto PIBICT.

Paralelamente a esta tarefa, e orientados
por critérios
qualitativos, tentaremos uma análise mais aprofundada e sociologicamente
embasada, de autoras cujos textos constituem uma contribuição
representativa para a literatura brasileira como um todo.

Trata-se de projeto que pretende cobrir 34
anos de literatura feminina no Brasil e que portanto deverá lidar com uma fatal heterogeneidade
de assuntos, estilos e posturas ideológicas de autoras que certamente
construíram seus enredos e personagens influenciadas pelo contexto
histórico vivenciado. Contexto que, entretanto, nem sempre veio explicitamente à tona
em grande parte desta produção , principalmente daquela mais
temporalmente aproximada aos traumas do “golpe de 64”, mas que
se faz presente na sintomática recusa em abordá-lo. Uma das
hipóteses razoavelmente explicativas para este fato tem sido a de
que o silêncio (não apenas da literatura feminina) em torno
das perdas e danos sofridos pela sociedade brasileira naqueles momentos críticos,
cumpre, embora inconscientemente, as determinações da ditadura
que condenando toda e qualquer abordagem política feita pela literatura
e pela arte em geral termina por criar uma censura prévia em toda
a comunidade criadora.

Menos dramaticamente que o teatro (que foi
literalmente espancado pela ditadura em 68 na peça Roda Viva de Chico Buarque de
Hollanda) a literatura foi também duramente cerceada. No entanto,
apesar das experiências traumáticas vividas pela cultura brasileira
na época e mais traumáticas ainda ,pelos intelectuais que a
produziam, a literatura escrita pelas mulheres, em sua maioria ignora esta
realidade. Contrastando vivamente com a ação politico participativa
da mulher brasileira, principalmente da geração mais jovem
que deflagra os movimentos de 68, a dicção literária
feminina de então se volta para dentro de si mesma e realiza uma ininterrupta
reflexão autobiográfica na qual as frustrações
sentimentais dão a tônica mais forte sendo que os conflitos,
ocorridos nos espaços internos da família, onde as protagonistas
desta ficção se encontravam geralmente confinadas, se resolviam
sempre de forma negativa para elas. Esta imagem de mulher confinada e sofredora
contrasta ainda com a gritante revolução nos costumes instalada
nas classes médias daquela fase. Revolução que fez eco
a acontecimentos internacionais tais como o recrudescimento da campanha feminista
nos Estados Unidos e a revolta estudantil de maio de 68 na França
onde eram questionados todos os valores estabelecidos, da hierarquia acadêmica
ao casamento burgués, passando pelas questões de gênero,
e adotava-se uma postura política de esquerda que penetrava todas
as áreas da vida social. Até mesmo a incipiente liberação
feminina que acontece a partir desta data no Brasil tem registros muito ténues
na literatura que lhe foi contemporânea. Um romance como As Meninas,
de Ligia Fagundes Telles pode ser indicado como um exemplo de tentativa de
tratamento do tema, mas uma tentativa mal sucedida por sua inautenticidade.
Personagens que não se sustentam no real pois aquela realidade não
parece ter sido vivenciada pela escritora. As romancistas da época
nos dão a impressão de estarem vivendo em redomas que as protegiam
dos acontecimentos turbulentos que caracterizam os anos 60 .

No capítulo da reversão de papéis sexuais
podemos afirmar que uma Leila Diniz foi mais impactante que as representantes
das letras . Não tivemos aqui uma Françoise Sagan que simbolizasse
a nossa rebeldia, e uma Cassandra Rios era o lado marginal da literatura
feminina pois trazia ã tona de maneira descarada, o erotismo vexaminoso.

Nada disso é entretanto de causar estranheza na medida
em que aquela transformação nos costumes, e principalmente
nos papéis sexuais, acontecia apenas em alguns setores da sociedade.
Na verdade escandalizava a classe média, irritava profundamente a
ala mais dura da direita (os militares que chegaram a prender Leila Diniz
por seu comportamento visto como imoral)e até era criticada pelo próprio
PCB que neste caso fazia coro ao moralismo da direita. A ambigüidade
moral daquele momento pode assim ter sido responsável pela presença
recorrente da imagem auto-reflexiva e chorosa da mulher no espelho da literatura
feminina daquela geração. Um certo respeito aos tabus do passado,
o subjetivismo exagerado, o monólogo diante de um espelho que nem
sempre lhe devolve um reflexo apreciável, constitui certamente o discurso
de uma das vertentes com a qual nos iremos confrontar neste trabalho de análise
desta literatura, e do qual podemos já citar alguns exemplos: Rachel
Jardim em O Inventário das Cinzas, O Penhoar Chinés;
e Adélia Prado em Cacos para um Vitral. Uma vertente já,
aliás, identificada por Luiza Lobo em “Dez Anos de Literatura
Feminina” (Lobo, l988; republicada em Crítica sem juizo,
Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992) e também por Constância
Lima Duarte ao comentar que: “inúmeros trabalhos de pesquisa
estão revelando como as mulheres partem sempre do cotidiano, do doméstico
e do subjetivo para realizar sua literatura”. E ao sugerir que “apenas
uma interpretação social e política da literatura poderia
entender e valorizar esta forma de participação” (Duarte,
1996) fornece-nos um incentivo a mais para realizar este trabalho, que busca
compreender as razões desta tendência que embora não
comprometendo a qualidade (Clarice Lispector é exemplo de alta literatura
que toma como matérial simbólico o cotidiano doméstico
e realiza a partir dali verdadeiros saltos epifânicos e filosóficos)
foi uma marca, às vezes, limitante e empobrecedora da imaginação
criadora feminina dos anos 60.

Entretanto esta não é a única face
que a ficção feminina revela neste período. Nem todas
as escritoras desviaram o olhar do contexto envolvente, ou internalizaram
a censura como regra para a criação, ou mesmo se limitaram
a um subjetivismo paralisante em suas criações. Usando o disfarce
da alegoria como forma, algumas romancistas fizeram a critica da sociedade
brasileira de então em todos os seus achaques. Heloneida Studart, é na
década 70 um dos exemplos mais convincentes desta nova postura. Seus
romances O Pardal é um Passaro Azul eEstandarte da Agonia,
que fazem parte da chamada Trilogia da Tortura, reúnem denuncias ao
autoritarismo em todas as suas formas, e as críticas feitas através
de personagens vivendo numa sociedade fictícia atingem não
apenas a a ditadura militar mas tambem o autorismo inerente à sociedade
brasileira como um todo . O paternalismo assumido pelas próprias mulheres
que povoam o romance é contestado pela protagonista de O Pardal é um
Pássaro Azul
(Marina) que encarnando a mulher guerreira irá se
rebelar contra o universo fechado e hierárquico do patriarcalismo
e da ditadura. Mas sem datas ou referências explícitas, como é próprio
das alegorias .

Referências explícitas a 64 e à revolução
fará Marilene Felinto, já na década de 80, em seu primeiro
romance Mulheres de Tijucopapo (Felinto, l987), numa memória
sofrida que é ao mesmo tempo busca de identidade feminina a partir
de uma infância duplamente espoliada: pela situação de
classe e pela condição de gênero.A protagonista Risia, é movida
por raiva e revolta “medonhas”. Humilhada pelo fantasma de covardia
e mudez representadas na figura da mãe, procura redimir-se desta nódoa
através da herança mítico/histórica das “mulheres
de Tijucopapo, mulheres da matéria do tijuco (lama), cabelos grossos,
arrastando pela crina do cavalo, no lombo do bicho sem sela, amazonas”.
Tijucopapo, como nos conta José Antônio Gonçalves de
Melo, historiador pernambucano, é o arraial (reduto) de heroínas
recifenses que rechaçaram , apesar dos parcos recursos, o invasor
holandés daquelas terras alagadas. Amazonas, são mulheres guerreiras
que vivem em bandos, uma espécie de tribo feminina que só aceitava
homens para a concepção. “Freqüentam o mito e a iconografia
grega de onde vieram diretamente para o Brasil onde os descobridores as reconstruiram
milénios depois . Aqui, segundo consta, habitavam a foz do rio Marañon,
por isso rebatizado de Amazonas. Estas são referencias feitas por
Walnice Nogueira Galvão em Gatos de Outros Sacos (Galvão,
1987), ensaio em que dedica todo um capítulo ao ciclo da donzela guerreira
na literatura erudita e popular brasileira. Suas origens são universais
e numerosa pois numerosas são também as fantasias femininas
de apropriação de papéis masculinos, tendo a donzela
guerreira frequentado a epopéia de cavalaria de fins da Idade Média
e do Renascimento, bem como as novelas de aventuras do século VII
para p XIX . No Brasil é herdeira do romance ibérico e dali
passou para a literatura popular e oral (Autos de Chegança e Literatura
de Cordel) e desta para a erudita. A personagem de Marilene Felinto parece
dividir-se entre estes dois arquétipos. É mulher amazonas porque
busca reunir-se à sua tribo, às Mulheres de Tijucopapo para
resgatar sua própria imagem vilipendiada pela fraqueza da mãe. É donzela
guerreira por encarnar a pureza dos que se batem por uma causa justa. Mas
sem revestir-se dos sinais que marcam esse arquétipo. Não se
identifica com o pai nem abandona seus atributos femininos para substituir
filho varão. Sua referência é a mãe cuja identidade
precisa redimir . E resgatar a todas as mulheres e a si mesma, de uma herança
de “desamor, miséria e mutismo”.

Embora distante, a revolução é vista
como marco de perdas pessoais que culminam na perda da própria identidade
da personagem Rísia, protagonista do processo migratório intensificado
a partir de 64. A narrativa literária reescreve a história
desse éxodo em massa de uma geração e de uma classe
na linguagem irada de Rísia que retoma a questão regional do
naturalismo em versão traumática . Por este motivo o romance é uma
história de volta às origens. Origens identificadas com a esperança
de uma vida simbolizada no mito de Tijucopapo. E Tijucopapo é um lugar
de motim não apenas feminista mas de classe e regional. Regional porque
,como já foi dito, retoma a questão nordestina em versão
mais agressiva; de classe porque é o discurso dos que nada tém
contra os que tém tudo.A narrativa é regada com o sangue da
personagem que traduzindo a voz autoral lança neste livro o clamor
de uma geração , região e classe que sofreu os efeitos
mais perversos da já então distante, “revolução”.

A que origens literárias podemos vincular Marilene
Felinto? O ritmo da narrativa, o simbolismo dominante e até um pouco
da ambientação fantasmagórica já estavam presentes
na Nélida Piñon de A Casa da Paixão. A personagem
também ali vaga e cavalga em busca da própria identidade sufocada
pelo universo masculino representada no pai onipresente e onipotente. A rebeldia
se manifesta em todos os gestos e na linguagem desabrida da personagem Marta,
(Piñon) que se revela entretanto tímida diante da espantosa
agressividade linguistica de Risia (Felinto). Não hesitamos entretanto
em colocá-las numa mesma vertente, bem diferente da primeira, onde
as personagens percorrem, conquistam, devastam e subjugam novos espaços
e assumem novas atitudes de mulher na construção da realidade
ficcional.

Outras vertentes irão sendo definidas à medida
em que formos progredindo na pesquisa. E desde já podemos citar muito
mais perto e atual a vertente histórica inaugurada por Ana Miranda,
até agora sua representante mais conhecida. Mas o que pretendemos é exatamente
abrir espaço às menos conhecidas.

Este é o caso de Luzilá Gonçalves,
também pernambucana como Marilene Felinto, que publicou recentemente
dois livros em que a história de Pernambuco em seu capítulo
da invasão holandesa é primorosamente trabalhada. Rios Turvos e A
Garça Mal Ferida
, este último premiado pela Academia Brasileira
de Letras. São romances que buscam em documentos históricos
a matéria prima do enredo e da própria linguagem formal utilizada
na narrativa ficcional, realizada de maneira tal que história e ficção
se complementam com eficiência. Anna Paes D’Altro, a heroína
de A Garça Mal-Ferida é a Senhora do Engenho Casa Forte,
uma pernambucana com forte sentimento de sua terra mas que não resiste
ao encanto dos holandeses que em 1630 invadiram Olinda e Recife causando
grandes prejuízos aos luso-brasileiros ali instalados , mas não
se pode negar, provocando grande interesse pela onda de civilização
e cultura que trouxeram junto com suas espadas e morteiros. Maurício
de Nassau, um dos personagens deste romance, por sua tolerância religiosa
enquanto domina Pernambuco , permite o convívio e a confraternização
amena entre pernambucanos e holandeses. Confraternização esta
que, no caso de Ana D’Altro sempre resulta em amor de uma personagem
apaixonadamente dividida, e que terminará sendo deportada após
a expulsão destes últimos. Rios Turvos conta a história
de Bento Teixeira poeta judeu cristão novo que viveu em Pernambuco
no século XVI e escreveu longo e complicado poema de gosto duvidoso,
a Prosopopéia , mas principalmente conta a história de Filipa
Raposa, sua mulher, que o denunciou ao Santo Ofício, como herege,
naqueles negros anos da Inquisição. Romance com qualidade estética
apreciável e que no entanto permanece na obscuridade. Obras que ultrapassam
a questão do gênero, tanto pela profundidade com que captam
a realidade particular quanto pela capacidade de transmitir esse particular
a outras esferas e que bem merecem que o estreito cânone da literatura
feminina no Brasil se amplie para acolhé-las. Esta é a nossa
intenção ao realizarmos este trabalho. Abrir espaço
para autoras que permanecem inexploradas, apesar do valor e da importância
que possuem como testemunhas e criadoras de uma época e de uma imagem
de mulher que desejamos literariamente conhecer e preservar.Ao trabalho já realizado
por Susan Quilan em The Female Voice in Contemporary Brazilian Narrative (Quilan,1955)
desejamos acrescentar outras vozes que ainda não foram suficientemente
ouvidas e compreendidas pela crítica dentro de nosso universo literário
. Resgatar estas autoras e suas obras e reuní-las em publicação
crítica é o objetivo deste trabalho que é também
projeto de curso que ofereço (Sociologia da Literatura) no Departamento
de Sociologia da UFF onde conto com a participação e ajuda
de alunos interessados que me auxiliam na coleta dos dados necessários à sua
concretização.

II- Critérios Metodológicos

Os pressupostos explicitados na Introdução
deixam bem claro que o tipo de abordagem escolhida é uma abordagem
feminista , na medida em que pretende não apenas resgatar e registrar
a produção literária feminina em determinado período
histórico (l964-1998) como também realizar uma leitura crítica
que valoriza a experiência feminina como um dos critérios que
possibilita a “desconstrução dos modelos e ideologias
que informam a produção de personagens literários da
prosa de ficção feminina do período .Explicando Derrida
e sua teoria da “desconstrução” Jonathan Culler realiza
em On Deconstruction: Theory and Criticism after Structuralism (Culler,
1986) o rastreamento da crítica literária feminista atual,
verificando as diversas possibilidades de desconstrução praticadas
pela leitura feminista em relação ao discurso falocrático.
Segundo esse autor, o primeiro momento da crítica feminista induz
a uma afirmação de continuidade entre a estrutura social e
familiar vivenciada pela mulher e a de sua experiência como leitora.
A crítica, neste postulado de continuidade, tem particular interesse
na psicologia das personagens femininas e procura investigar as atitudes
em relação à mulher, ou seja investigar as imagens de
mulher construídas seja em obras de um autor , de um gênero
ou de um período literário. A principal preocupação
neste momento estaria na identificação e crítica dos
pressupostos que governam os trabalhos literários, linha que alcançou
notoriedade através de livros como O Segundo Sexo, de Simone
de Beauvoir (Beauvoir, 1953) em que são analisados os mitos femininos
criados por autores como Lawrence, Claudel, e Stendhal. Neste momento a linha
feminista da crítica começa a se preocupar com a questão
da mulher como consumidora de uma literatura produzida por homens. Pela primeira
vez, fomos solicitados a ver a literatura em nossa condição
de mulheres (Heilbrun,1976), “pois até então nós
Homens, mulheres e PhDs, sempre a havíamos abordado de um perspectiva
masculina”. E uma leitura feminina não é o que fatalmente
ocorre quando uma mulher lé um texto literário. Ao contrário,
o que tem ocorrido é que as mulheres, por terem sido alienadas de
uma experiência própria à sua condição,
terminam por se identificar com as experiências e perspectivas masculinas
que se apresentam como universais. Já aqui pode-se entrever duas características
dessa crítica: a que desperta para a valorização da
experiência como um dado orientador da leitura e a que vai constatar
que essa leitura não vem sendo efetivada por mulheres. A partir daí a
principal tarefa da crítica feminista é a de realizar uma leitura
inédita que induza os leitores-homens e mulheres- ao questionamento
dos pressupostos políticos e literários que orientaram suas
leituras até então (Showalter, l994).

Num terceiro momento a crítica feminista passa a
questionar os próprios conceitos que fundamentam a crítica
literária na medida em que acredita numa aliança existente
entre estes conceitos e o falocentrismo presente na própria linguagem.
A tarefa desta crítica será a de investigar a cumplicidade
existente entre os pressupostos e metas da crítica, buscando estratégias
que subvertem a estrutura desses conceitos e pressupostos. Uma tarefa difícil.
Um elemento comum reúne estes trés momentos da crítica
feminista: o apelo a experiência do leitor. No primeiro momento essa
experiência é vista como solo firme para interpretações.
No segundo tenta-se tornar isto possível. No terceiro o apélo é velado
mas existe como referência à valorização de elementos
simbólicos que procuram afirmar a superioridade do paternal, e a uma
situação de marginalidade feminina (o outro) que pode dar origem
a novas formas de leitura. O apelo à experiência do leitor,
funciona como uma alavanca que desloca e desconstrói o sistema de
conceitos e pressupostos da crítica masculina, mas é preciso
lembrar que a experiência feminina está em permanente construção,
ou desconstrução, em perpétua mudança, embora
sob a égide de mitos e ideologias naturalizadores das situações
de gênero. Pela valorização da experiência , que é sempre
histórica, a questão política vem à tona e nos
permite vislumbrar a possibilidade de uma análise que vise surpreender
simultaneamente a manutenção e desconstrução
desses mitos e ideologias num determinado período histórico
dessa experiência. É portanto a partir de uma perspectiva feminista,
mas também histórica que se tentará entender a estrutura
das relações sociais de onde fluem aquelas ideologias e estabelecer
os nexos possíveis entre o momento político vivido e a produção
literária feminina que ali surgiu e prosseguiu até os dias
atuais. Para isto será necessário o conhecimento do chamado
período “revolucionário”, ou seja o período
da ditadura militar (tendo 64 como marco mas valorizando o período
a partir de 68 quando acontece o recrudescimento do processo iniciando-se
uma segunda ditadura) em todos os seus seguimentos e as repercussões
provocadas sobre a sociedade civil que lhe foi contemporânea. De como
se comportaram as mulheres diante do paradoxo de uma simultânea abertura
inaugurada pela retomada da luta feminista em plano mundial e o fechamento
provocado pela ditadura local. E de como esse fenômeno irá repercutir
sobre a literatura que produziram naquele momento e posteriormente. Uma visão
sociológica será ainda um subsidio valioso na interpretação
dos efeitos cumulativos que os condicionantes sociais determinam ao autor
e seu texto. As formas literárias são formas de ver o mundo
e como tais tém relação com a forma dominante de ver
o mundo que é a mentalidade social ou ideologia de uma época
(Eagleton, 1977) . Essa ideologia que por sua vez é produto das relações
concretas que os homens estabelecem entre si num determinado período
histórico. Assim o que se pretende surpreender nestas autoras são
as relações entre suas obras e o mundo ideológico que
habitam. Como suas imagens de mulher se constróem ou desconstróem
a partir dos mitos que se incorporam aos gêneros, conferindo-lhes status de
naturalidade, ou de estranhamento. Como este mundo ideológico se transforma
em “temas e preocupações mas também em estilo,
imagem, qualidade e forma” (Eagleton, 1977).

Dentro dessa constelação de interesse (que
explicita o sincretismo da crítica feminista atual) as personagenas
merecerão atenção especial . Delas falaremos não
apenas do ponto de vista de sua fabricação e da expressão
autoral que incorporam , mas tambem de sua recepção, isto é,
da relações entre as leituras que delas vém sendo feitas
durante este período pela crítica e também no plano
da afetividade.

A variedade de propostas pode parecer ambiciosa
mas vemos aqui uma vantagem. A de abrir o leque de interpretações em
direção a um objeto que nunca deveria ser olhado por um único,
o objeto literário. Não são abordagens conflitantes
mas antes se completam permitindo privilegiar a experiência do leitor
que sendo histórica, pretende ver esta mulher como sujeito histórico
da produção literária em vários sentidos: como
ficcionista, como personagem e como crítica de sua própria
história.

Referências Bibliográficas

1.Holanda, Heloísa Buarque, e Araujo,
Lucia Nascimento.
Ensaístas Brasileiras: Mulheres que escreveram sobre literatura
as artes de 1860 a 1991
. Rio de Janeiro, Rocco, l993.
2.Duarte, Constância Lima. “Estudos de Mulher
e Literatura: História e Cânone Literário”, VI Seminário
Nacional, Mulher e Literatura, Rio de Janeiro, Anais,1996.
3. Felinto, Marilene-“Mulheres de Tijucopapo”,Rio
de Janeiro, Ed. 34 Letras, 1992.
4.Galvão , Walnice Nogueira. “Gatos de Outros
Sacos: Ensaios”. São Paulo, Brasilien.
5. Culler, Jonathan. On Deconstruction: Theory and Criticism after Structuralism.
New York, Cornell University Press, 1986.
6. Beauvoir, Simone “The Second Sex”,
New York, Knopf, 1951.
7. Millet, Kate. Sexual/Textual Politics. New York,
Doubleday,1970.
8. Heilbrun, Caroline. “Millet’s Sexual Politics.
A Year Later” Aphra, 2, 192,1971.
9. Eagleton, Terry- Marxism and Literary Criticism. London
Menthuen&Co Ltd.,1977.
10.Quilan, Susan. The Female Voice in Contemporary Brazilian
Narrative
. New York, 1955.

________________________

(*) Resumo
da comunicação apresentada no VIII Congresso da ANPOLL – A
mulher na literatura, em Salvador, Bahia, em setembro de 1999.





Bio fornecida pelo palestrante.

Quebec / Nordeste: esboço de análise comparativa entre os romances Bonheur d’occasion, de Gabriélle Roy, e Mulheres de Tijucupapo, de Marilene Felinto




Quebec / Nordeste: esboço de análise comparativa entre os romances Bonheur d’occasion, de Gabriélle Roy, e Mulheres de Tijucupapo, de Marilene Felinto

Márcia Cavendish Wanderley
Universidade Federal Fluminense

Gabriélle Roy, canadense de expressão francesa, nascida
em Manitoba, Província do Québec em 1909, e falecida em
Montreal em 1983, e Marilene Felinto, brasileira, pernambucana, nascida
em Recife em 1957 são as romancistas que compararei neste ensaio,
escolha que teve como primeiro critério a identificação
e empatia sentidas por mim em relação às personagens
femininas de seus romances seguido pelo desejo de aproximá-las
analiticamente em função de algumas características
culturais que me pareceram comuns a ambas. Na verdade a possibilidade
de perceber analogias entre as realidades sociais nordestina e québecoise,
vivenciadas dramaticamente nestes romances.
Comparar escritoras aparentemente tão distantes no tempo e no
espaço pode parecer tarefa impossível. A começar
pela aparentemente enorme diferença existente entre os dois países
a que pertencem: Brasil e Canadá. Ainda que se leve em conta a
homogeneização crescente sofrida pelo universo capitalista,
tudo parece separá-las, a começar pela situação
geográfica, quase oposta, em que se instalam: uma no hemisfério
norte, com suas montanhas eternamente nevadas e planícies varridas
pelos ventos do polo, a outra no hemisfério sul, sofrendo as mazelas
e delícias de um clima tropical.
E a distância geográfica é muito pouco, se pensarmos
na diversa situação sócio-econômica vivida
por ambos: O Canadá, um país desenvolvido, que apresenta
o mais alto índice de qualidade de vida em sua população
que, no entanto, se encontra dividida lingüística e ideologicamente
entre os “québecois” (de expressão e herança
cultural francesa, que nem mesmo se consideram canadenses por verem o
Québec como uma nação à parte) e o resto,
isto é, todos os canadenses de expressão inglesa e que na
verdade constituem a maioria da população do país
como um todo; e o Brasil, lingüística e culturalmente coeso
na aparência mas portador de um enorme índice de população
marginal vivendo nas fímbrias de um capitalismo ainda selvagem.
Entretanto, essa distância se apaga diante de um fato histórico
maior que repercute ainda hoje na vida e na literatura desses dois países
e regiões a que pertencem as referidas romancistas. Este fato histórico,
paralela e simultaneamente vivido por ambos – o da colonização
– é a baliza que permite aproximá-los, que permite identificar
os elementos comuns a estas sociedades institucionalmente homogéneas
mas na verdade fraturadas por processos de dominação interna,
conseqüência tardia da colonização original.
Por isso ao falarmos em colonização torna-se necessário
distinguir dois níveis o da colonização externa,
vivida diferentemente pelos dois países mas que resultou em ambos
na necessidade de liberação dos laços que os ligavam
às matrizes culturais européias em seus processos de construção
de uma identidade nacional, e o da colonização interna,
sofrida por regiões que perderam seu espaço de poder econômico,
político e cultural neste evolver histórico.
A possibilidade de estabelecer comparações entre as literaturas
canadense e brasileira a partir desta baliza já foi identificada
em análises anteriores a exemplo de Zilá Bernd em “Brasil
/ Québec: La difficile inclusion de la parole d’autre”
onde afirma que “Aussi bien pour la littérature quebécoise
que pour la littérature brésiliénne, la problématique
d’autonomination et de la consécration en littératures
nationales s’avére d’emblée majeure et constitue
un des élements possibles de comparaison” (Bernd, 1983). O
fato de Zilá Bernd comparar neste ensaio as literaturas “québecoise
e brasileira e não canadense e brasileira, como seria de esperar,
é já denunciador de que talvez seja impossível falar
de uma literatura canadense na medida em que ela se expressa em duas línguas
diferentes (inglês e francés) que traduzem os movimentos
de culturas e religiões diversas.
Além do mais, a luta separatista do Québec, reivindicando
para si o status, ainda não institucionalmente alcançado
de nação, reivindica também, naturalmente, uma literatura
nacional. E não se pode negar que ela exista, com marcas bem evidentes
do drama vivido por uma sociedade submetida em sua história a uma
sucessão de imposições culturais sob as quais tornou-se
extremamente difícil, mas ao mesmo tempo imprescindível,
construir e conservar uma identidade própria.
Mais sentida no Québec região (ou Província) sobre
a qual tentou se impor a colonização inglesa sobre uma herança
francesa já sedimentada, a angústia da identidade parece,
no entanto, atravessar o país como um todo. Margaret Atwood (1972),
romancista canadense de expressão inglesa, escreveu um livro sobre
a história da literatura canadense onde, embora tente ignorar essa
divisão cultural e ideológica, manifesta indiretamente a
perplexidade e angústia do país diante desse fato: “Canadians
are forever taking the national pulse like a doctor at a sickbed. This
is not to see wether the patient will live well but simply wether he will
live at all”. Para ela, que acredita poder falar numa “literatura
canadense” o sentimento de sobrevivência ou “survival
é a tônica mais forte da história desse país;
um sentimento que se transfere à literatura e se manifesta em formas
de expressão diversas que vão desde as antigas sagas dos
conquistadores até as mais recentes manifestações
da poesia e da prosa ficcional do Québec.
Idéia multifacetada e adaptável, pois pode abranger a sobrevivência
heróica dos pioneiros diante do clima e da natureza hostis mas
também sugerir a sobrevivência diante de uma crise ou de
um desastre social, no caso a dominação inglesa instalada
no Québec a partir de 1760 sobre os descendentes dos primeiros
conquistadores do continente. Para estes a “sobrevivência”
da língua e dos costumes (com destaque para a religião católica,
vista como um dos elementos caracterizadores da nacionalidade) passa a
ser a principal motivação da existência, e a libertação
do jugo econômico e político uma questão de honra
que atravessa toda a história da Província do Québec
desde a conquista inglesa até os dias atuais.
Essa realidade, segundo a visão de Margareth Atwood, pode ser
identificada na maior parte dos temas, enredos e personagens da literatura
do Québec, sob a forma de insucessos sucessivos, “Pushing
far enough the obsession with survive can become the will not to survive”.
Por isso, fatos como, a doença, a morte, a tristeza, o insucesso
(seja material ou espiritual) fazem presença constante na literatura
quebecoise, conferindo-lhe o aspecto mórbido e cinzento que conhecemos
em autores como Marie Claire Blais, Hubert Aquin etc. A literatura do
Canadá, generaliza Atwood, é uma literatura de vitimados,
porque colonizados. Algumas vezes de uma vitimização consciente
que quer mudar sua situação de vítima, o que nem
sempre resulta numa literatura melhor do que aquela posição
que aceita a inferioridade e nela se compraz.
A história do Québec é vista como uma longa sujeição
que teve momentos de rebelião como a “revolta dos patriotas”
(liderada por George Etiénne Cartier, preso e deportado após
o fracasso do movimento) e momentos de vitória com a “Revolução
tranqüila” dos anos 1968 e 70 que garantiu, entre outros ganhos
políticos a sobrevivência do francés como língua
predominantemente falada no Québec, embora o país seja oficialmente
bilingüe. Em recente ensaio sobre o assunto, Maria Bernardette Porto
informa que o Québec se encontra imerso na maioria anglófona
sob a forma da proporção de um para nove. Nestas condições,
diz ela, “lutar pelo francés equivale a uma questão
de sobrevivência, antes de ser a defesa do idioma legado é
o exercício cotidiano da afirmação da língua
materna desvalorizada aos olhos de seus falantes, vítimas de uma
situação de disglossia” (Porto, 1993).
E pode-se afirmar que esta é também questão central
para a literatura “québecoise” contemporânea.
A conquista de um espaço lingüístico e cultural próprio
que embora referenciado à tradição francesa, assuma
as transformações sofridas pelo idioma e pela cultura que
lhe foi legada, e que resultaram numa identidade cultural e lingüística
especificamente “québecoise”. É , portanto, mais
do que uma literatura de “sobrevivência”, como afirma
Atwood, uma literatura de “resistência”, que luta para
preservar essa identidade ameaçada.
No Brasil, embora o mito da superioridade da língua-mãe
tenha marcado a intelectualidade brasileira até o momento do rompimento
antropofágico, nunca vivemos aqui a esquizofrenia québecoise
da superposição de trés línguas, incluindo
o “joual”, onde a hegemônica nem mesmo é o francés
(da França): “Condenados a viver em um mundo híbrido,
os quebequenses se sentem duplamente inferiores. Por um lado acreditam
que em francés, sua expressão lingüística não
se iguala à dos franceses, por outro lado, mesmo os que não
tem complexos quanto ao seu desempenho em francés, vivenciam na
prática diária a desvalorização crescente
dessa língua” (Porto, 1993).
Aqui sofremos uma colonização diferente, porque homogénea
e conservamos sempre e em todo assim chamado território nacional,
a língua do primeiro e único colonizador, abrasileirando-a.
Disto resulta que a dominação sócio-cultural de uma
região sobre as outras se expressa dentro da mesma língua
através da hierarquização dos sotaques.
O nordestino brasileiro também vive o desconforto da própria
língua dentro da própria pátria. O mesmo sentimento
de rejeição, o mesmo complexo de inferioridade do falante
em “québecois” diante do francés puro,
e do inglês, assaltam o falante nordestino ao sentir seu sotaque
ridicularizado e menosprezado pelo sul maravilha. “Speak Whyte
diziam os ingleses aos “québecois” de expressão
francesa que, nas camadas populares, falam o “joual“,
uma espécie de dialeto. Aos nordestinos rotula-se pejorativamente
de “baiano” em São Paulo e “paraíba”
no Rio de Janeiro, quando o sotaque os denuncia como migrantes de qualquer
estado do Norte ou Nordeste. Rótulos discriminatórios com
que os agraciam os próprios compatriotas, sintomáticos da
posição de inferioridade a que são relegados. Vestígios
de uma colonização econômica e sócio-cultural
que deverá de alguma forma repercutir nos textos literários
das regiões dominadas. Em Bonheur d’ occasion, de Gabriélle
Roy (Québec) e Mulheres de Tijucupapo, de Marilene
Felinto (Nordeste) ouvimos os rumores dessas vozes em personagens
esmagados por todos estes tipos de subordinação.
Confrontar o realismo de influência francesa de Bonheur d’occasion,
com o talvez realismo mágico influenciado pelo romance latino-americano
dos anos 1960, de Mulheres de Tjucupapo pode parecer tarefa impossível.
Entretanto identificamos em ambos uma marca comum: a preocupação
em trazer à tona o discurso de uma classe social e de um gênero
excluídos do processo de construção de uma identidade
coletiva, seja no Québec, seja no Nordeste brasileiro.
Bonheur d’ Occasion é uma narrativa profundamente
comprometida com o destino de sua personagem principal: a classe proletária
de St. Henri, bairro pobre de Montréal (Província do Québec)
que se expressa em “joual” e tem na voz feminina de Roseana
sua principal intérprete e representante. Embora respeitando basicamente
o cânone da literatura matriz, aqui representado pelo realismo francés,
o romance irá duplamente desconstruí-lo. Em primeiro lugar
por introduzir uma expressão até então excluída
do espaço literário no Québec: o quase-dialeto falado
pela classe proletária. Em segundo, por construir um realismo onde
a mulher aparece como sujeito (e não como objeto) da ação
do romance, inaugurando um discurso não apenas agressivo em relação
às raízes lingüísticas colonizadoras como também
introdutor da “palavra do outro” no cenário do romance
québecois“.
Segundo Patricia Smart {1988}, em “É crire á la
maison du père
“, neste romance não apenas é
rompido o realismo tradicional fundamentado no poder paternal dentro do
triângulo familiar, como também se torna explícita
a mensagem política da escrita feminina. Bonheur d’ occasion
tem seu foco apontado sobre a mulher construindo “une histoire
à elle
“, no plano individual, quando narra sob um prisma
feminino, as agruras da família Lacasse num momento de grande crise
do Québec. Como pano de fundo, a segunda guerra mundial amplia
a dimensão política do romance ao entrelaçar o destino
privado e trágico de seus personagens ao encadeamento histórico
dos acontecimentos internacionais.
As peculiaridades da pobreza vivida em um país onde o clima acentua
as agruras da privação são realisticamente descritas
pela autora que habilmente utiliza simbolicamente as forças da
natureza (ventos e tempestades de neve) para realçar a tragicidade
das estórias vividas. Outras peculiaridades, como o “démenagement”
sistemático enfrentado pelas famílias pobres do Québec
assemelha-se em termos, ao processo migratório da população
miserável nordestina. Um movimento em busca de uma melhoria que
nem sempre é conquistada.
Para alguns intérpretes da literatura do Québec, como Jacques
Cardinal, a tragicidade que a caracteriza, é resultado da sujeição
fantasmagórica deflagrada pelo colonialismo. As personagens de
Gabriélle Roy sofrem porque são canadenses franceses, porque
pertencem a uma classe trabalhadora destituída de seus tradicionais
meios de produção pelo capital e tecnologia, e porque estão
no último degrau da exploração colonialista. Entre
eles, as mulheres são as mais sofredoras, porque não possuem
qualquer capacidade de se libertarem desse estado. Mas essa resignação
e passividade femininas representada por Roseana a mater dolorosa do romance
terá sua contrafação em Florentine, sua filha, personagem
movida pela revolta. Revolta que explica o tom de cólera que trespassa
sua voz e toda sua fremente figura permanentemente submetida às
humilhações de classe enquanto garçonete da lanchonete
15 Cents, no bairro pobre de Montréal e às humilhações
de gênero pelo desrespeito que ali sofre enquanto mulher. Mas em
sua trajetória dentro do romance, realizará a proeza de
transformar-se em sujeito de sua própria história e de alcançar
uma ascensão social, para si e sua família – a família
Lacasse – que traduz, de certa maneira o projeto não explícito
da autora. Realizar uma análise crítica que englobe as dimensões
de classe, nação, e relações de gênero,
mas que aponte uma saída para os impasses ali colocados. Segundo
Patrícia Smart, “les multiples voix de la résistance
du roman, elles sont politiques mais elles sont péutetre la seule
opposition efficace á l’unité oppressive de la Loi
du Pére”
(Smart, 1988).
Se em Gabriélle Roy a angústia da identidade social fraturada
penetra o realismo com promessas de sobrevivência que dão
voz ao oprimido, em Marilene Felinto esta promessa se mostra na tentativa
de resgate das origens através de um realismo mágico que
mistura realidade e mito, ambos contundentes.
Com referências explícitas a 1964 e à “revolução”,
Mulheres de Tijucupapo é uma memória sofrida que ao mesmo
tempo busca origens regionais e de identidade feminina a partir da reconstituição
de uma infância duplamente espoliada: pela situação
de classe e pela condição de gênero. Apesar disso,
sujeição e submissão são palavras que não
pertencem ao universo de Rísia, personagem que, como Florentine
(Bonheur d’ Occasion) é movida por raiva e revolta
“medonhas” e cuja única redenção possível
se faz a partir da fabricação de uma herança mítica,
embora também “histórica” de mulheres feitas da
matéria do tijuco, cabelos grossos arrastando pela crina do cavalo
no lombo do bicho sem sela, amazonas. Tijucupapo foi, historicamente,
um arraial (reduto) de heroínas pernambucanas que rechaçaram
o invasor holandés das terras alagadas do Recife, e as amazonas
como conta a lenda, são mulheres guerreiras que habitavam a foz
do rio Maranòn, por isso rebatizado de Amazonas. Entrelaçando realidade
e mito a narrativa constrói personagem que busca resgatar sua própria
imagem vilipendiada pela fraqueza da mãe. E resgatar a todas as
mulheres e a si mesma de uma herança de “desamor, miséria
e mutismo”. Tijucupapo é um lugar de motim, como diz a própria
autora, mas não apenas um motim feminista. É também
uma revolta regional e de classe. Regional porque a “questão
nordestina”, jóia do naturalismo brasileiro, é retomada
em versão agressiva e traumática traduzida na linguagem
áspera e crua, como o “joual dos québecois” ou
o linguajar do “povo” nordestino. Revolta de classe porque é
discurso irado dos que “nada têm contra os que tem tudo”.
Bonheur d’ Occasion e Mulheres de Tijucupapo são
romances que expressam em linguagens literárias diferentes a preocupação
comum de resgate das identidades culturais de uma região (Nordeste)
e uma província (Quebec) ameaçadas pelo colonialismo interno.
Resgate realizado através de um olhar feminino emocionado e crítico
não apenas da estrutura de classe como do edifício patriarcal
em que se apóia esta identidade.
 

Referências Bibliográficas
Atwood, 1972. Survival – A Thematic Guide to Canadian Litterature.
Toronto, Anausi.
Bernd, Zilá. 1983 Confluences littéraires-Brasil/Québec,
Les bases d’ une comparaison-, s. l., Les É ditions Balzac,
l’Univers des Ciscours.
Felinto, Marilene. 1992 Mulheres de Tijucupapo; 2. ed., Rio de Janeiro, 34
Letras.
Porto, Maria Bernardette. 1993 Maria Bernardette “A devoração antropofágica
da língua do colonizador. O caso do Brasil e do Quebec”.
Revista Canadart, Salvador, v. 1.
Roy, Gabrielle. 1993 Bonheur d’ occasion; 2 ed. Montreal, Boréal.
Smart, Patrícia. 1988 É crire dans la maison du pere, L’ É
mergence du féminin dans la tradition littéraire du
Québec; Montréal, Québec/Amérique.




Bio fornecida pelo palestrante.

A idéia de História e Civilização na Revista Nitheroy




Resumo:
No estudo da imprensa periódica brasileira do século XIX, observa-se a presença constante de dois termos intimamente ligados, a saber, História e Civilização. O objetivo do artigo é compreender de que modo esses conceitos são trabalhados na Revista Nitheroy, de 1836 e assim, observar qual é a visão de Brasil construída por essa revista que é comumente tida como um marco do Romantismo entre nós.
Texto:

 
 

A idéia de História e Civilização na Revista Nitheroy

 

Lílian Martins de Lima

UNESP-Franca

Periodismo

 
A introdução da imprensa entre nós deu-se de forma tardia somente no ano de 1808 com a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, e nos seus passos iniciais podemos dizer que era bem cautelosa, divulgando apenas notícias oficiais como foi o caso da Gazeta do Rio de Janeiro de 1808 onde encontramos notícias como as datas festivas da Corte ou então notas sobre o aniversário do monarca. Nos anos que precederam o movimento da Independência por sua vez, a imprensa se destacou pelas discussões que travou sobre os rumos do país conforme esclareceu o estudo da historiadora Isabel Lustosa, onde a imprensa exerceu o papel de formadora da então recente e precária opinião pública. É nesse sentido que a imprensa do século XIX deve ser compreendida, ou seja, como um espaço por excelência de reflexão sobre o país. É característico da imprensa dessa época o formato dos impressos semelhantes à de um livro já que como observou Maria Lúcia Pallares-Burke (BURKE,1995 : p.14) não eram considerados objetos culturais distintos. Era comum também a prática das subscrições, espécies de assinaturas que garantiam assim uma vendagem maior dos periódicos. Contudo uma outra característica comum à produção jornalística desse período é a crença nos poderes do conhecimento como capaz de promover o desenvolvimento da nação. Essa idéia estará presente logo nas páginas iniciais dos jornais, revistas e panfletos que deixam claro seus objetivos de instruírem e colaborarem assim para a grandeza do país.
 
O amor do país e o desejo de ser útil aos seus concidadãos foram os únicos incentivos que determinaram os autores desta obra a uma empresa que excetuando a pouca glória que caber-lhes pode, nenhum outro proveito lhes funde. Há muito reconheciam eles a necessidade de uma obra periódica que desviando a atenção pública sempre ávida de novidades, das diárias e habituais discussões sobre coisas de pouca utilidade e o que é mais, de questões sobre a vida privada dos cidadãos, os acostumasse a refletir sobre objetos do bem comum e de glória da pátria (NITHEROY, 1836, s.p.).
 
 
Assim, mais do que um meio de informação, a imprensa periódica oitocentista visava a formação de um público que fosse capaz de discutir e encontrar soluções para o país e desse modo contribuir para inseri-lo nos trilhos do progresso e da civilização como era usual no vocabulário do período.
É interessante notar que esses periódicos tratavam dos assuntos mais variados: desde economia política, teatro, música, literatura, traduções de textos clássicos e que nessa variedade de assuntos abordados visavam formar um leitor virtuoso, ou seja, um leitor que fosse bem instruído nos mais diversos assuntos e também possuidor de um bom gosto literário, daí as numerosas traduções de textos franceses considerados fundamentais para a formação desse “ bom gosto” .
Mas quem escrevia nos periódicos? Para respondermos à essa pergunta é necessário ter em mente a idéia de um intelectual que é antes de tudo versátil e que não pode ser definido apenas como jornalista mas antes como um escritor pois essa é a definição que é dada no século XIX pelos responsáveis pelos ensaios, traduções e artigos publicados nos mais diversos jornais e revistas do Brasil. Conforme esclareceu Antonio Candido (CANDIDO, 1969: p.235) os intelectuais desse período compartilhavam de uma espécie de crença no poder transformador do intelectual na sociedade e assim, sua participação na vida social foi característica da nossa “época das luzes”. Acerca dos homens letrados do período imperial José Murilo de Carvalho aponta para um perfil de intelectual com uma formação na maioria dos casos jurídica e atenta ainda para o fato de que nesse período “a educação era a marca distintiva da elite política”[1](CARVALHO, 1988: p. 46).
 
História e Civilização
 
Fundada por Gonçalves de Magalhães, Araújo Porto Alegre e Francisco Torres Homem , a Nitheroy – Revista Brasiliense – Ciências , Letras e Artes é tida como um marco do Romantismo. Palco de inúmeras polêmicas como a existência ou não de uma literatura de caráter nacional entre outras, seus ensaios são exemplares das problemáticas nas quais se envolviam os letrados. Desse modo, uma primeira idéia que se faz presente ao longo dos dois números em que a Nitheroy foi publicada é idéia da História enquanto um conhecimento que permite um certo grau de previsibilidade sobre o futuro. É através da História que se pode conhecer de modo mais seguro o caminho que deve ser trilhado como podemos depreender do trecho destacado abaixo
 
Nada de exclusão, nada de desprezo. Tudo o que poder concorrer para o esclarecimento da história geral dos progressos da humanidade deve merecer nossa consideração. Jamais uma nação poderá prever o futuro quando ela não conhece o que ela é, comparativamente com o que ela foi. Estudar o passado é ver melhor o presente, é saber como se deve marchar (NITHEROY, 1836, p. 145).
 
 
 
Aliada a essa concepção de História enquanto um estudo do passado que pode orientar acerca do futuro encontramos a idéia de civilização tão cara nesse período.  Sobre a idéia de civilização no século XIX esclarece Norbert Elias as diferenças desse conceito na língua francesa e alemã. Enquanto na primeira ele exprime o orgulho das nações pelo seu papel no progresso do Ocidente, no caso da língua alemã, o conceito de Zivilisation, nas palavras de Norbert Elias (ELIAS. 1994: p. 24), “significa algo de útil, mas apesar disso, apenas um valor de segunda classe, compreendendo apenas a aparência externa dos seres humanos, a superfície da existência humana”. O sociólogo atenta que a palavra em alemão que corresponde a essa idéia de orgulho nacional é Kultur.  Observa ainda as transformações do conceito que num primeiro momento – século XVIII – estaria ligado no caso francês à um modo de vida na Corte e que posteriormente passou a ser identificado com o caráter nacional. Sua definição de civilização abarca assim essas mutações do conceito e a seu ver, “Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial, aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo” (ELIAS, 1994, p. 23).
Na análise do conceito de civilização não podemos deixar de lado a idéia de “civilidade”, que, de acordo com o historiador francês Roger Chartier (Chartier, 2004, p. 45), pode ser desmembrada em três acepções. Uma primeira acepção refere-se à civilidade enquanto uma espécie de ciência com regras e tratados que se confronta com uma segunda definição onde é entendida enquanto um modo de ser em sociedade. Já num terceiro momento o historiador observa a identificação da noção de civilidade com a idéia de honradez e cortesia. Esse mesmo autor observa ainda que a partir dos primeiros decênios do século XIX o conceito de civilidade difunde-se entre um número cada vez maior de pessoas através de textos de caráter pedagógico e assim, na sua antiga acepção enquanto um modo de ser distinto na sociedade passa a ser compreendido como um código de conduta que não diz mais respeito à uma determinada camada social.
Nos ensaios da Nitheroy a idéia de Civilização está ligada com a primeira acepção tratada por Elias, ou seja, com a noção das realizações que tornaram possíveis os progressos alcançados no século XIX; “cada nação livre reconhece hoje, mais do que nunca a necessidade de marchar. Marchar para uma nação é engrandecer-se, é desenvolver todos os elementos de civilização” (Nitheroy, 1836, p. 144).
 
Ou então:
 
Não, oh, Brasil, no meio do geral movimento , tu não deves ficar imóvel e tranqüilo como o colosso sem ambição e sem esperanças. O gérmen da civilização depositado em teu seio pela Europa não tem dado ainda todos os frutos que deveria dar; vícios radicais tem tolhido o seu desenvolvimento. Tu afastaste de teu colo a mão estranha que te sufocava, respira livremente, respira, cultiva as ciências, as artes, as letras, a indústria e combate tudo que entreva-los pode (ibidem, p. 146).
 
 
A civilização é então compreendida por uma série de elementos que por sua vez são tidos como exemplificações do progresso de uma nação. Desse modo, ao falar em civilização os ensaístas da Revista Nitheroy tinham em mente a identificação de uma nação civilizada como uma nação onde o trabalho era livre assim como também o uso de máquinas era cada vez mais generalizado. Com relação a esses aspectos é interessante observar as considerações feitas por Francisco Torres-Homem num ensaio intitulado “Considerações Econômicas sobre a Escravatura”.
Nesse ensaio o autor faz inicialmente algumas considerações sobre os primórdios da utilização da mão-de-obra escrava no Brasil, destacando primeiramente o uso do braço indígena e posteriormente a larga utilização do africano em terras brasileiras. Esse episódio da história é apresentado como algo maléfico para o futuro desenvolvimento do país, uma vez que a escravatura é concebida enquanto um empecilho para o progresso como se pode perceber no seguinte trecho:
 
D’outro lado os governos, expressão completa dos preconceitos, dos erros e falsos interesses da época e desvairados pelos motivos daquela economia que antepõe o trabalho bruto, instintivo e forçado ao livre e inteligente , mantinham e protegiam como altamente útil ao país um gênero de tráfego que soube abrir uma larga ferida à humanidade, corrompe as nascentes da prosperidade pública (ibidem, p. 36).
 
 
Numa concepção de História linear e progressista dirigida pelas noções de civilização e progresso, a leitura que o autor realiza do presente brasileiro não é nada otimista. Contrariando o rumo tomado pelo restante das nações do globo, o Brasil se apresenta como uma nação que marcha “às avessas” e daí todo o esforço dos letrados nesse período em instruir e educar o público para que o país possa trilhar o caminho das nações ditas civilizadas, ou seja, para que adentre o mundo das nações onde o trabalho é livre.
 
(…) se o livre trabalho na sua lata acepção é um dos destinos da espécie humana a titulo de instrumento primordial de toda a civilização, os povos que tem a desdita de engastar em seu solo os horrores da escravidão doméstica comprometem de gravíssimo modo o seu porvir, afugentando todo o prospecto de opulência e prosperidade (ibidem, p. 37).
 
 
Entre as conseqüências que Torres Homem enumera desse uso da mão-de-obra escrava está em primeiro lugar a resistência às inovações e daí o caráter arcaico da agricultura brasileira e sua baixa produtividade:
 
A escravatura é um instrumento ruinoso de produção: o obreiro livre produz incomparavelmente mais que o escravo: do mesmo modo que a liberdade do trabalhador favorece a potência da indústria e o desenvolvimento da riqueza, a servidão produz o resultado inverso (ibidem, p. 60).
 
 
Outra característica apontada é o desprezo pelos trabalhos manuais e a valorização de ocupações “que ministram meios de influência e de ação sobre outros homens ou sobre a sociedade”, ou seja, o desejo de angariar cargos públicos. Por fim, a dificuldade de um desenvolvimento da indústria em um meio onde a resistência às inovações se faz presente é mais um elemento que na argumentação elaborada por Torres Homem ajuda a compreender o atraso do país, concluindo que
 
O seu desenvolvimento industrial [do Brasil], porém, foi retardado pelo monstruoso corpo estranho implantado no coração de sua organização social.A posse de escravos nos tem evidentemente impedido de trilhar a carreira da indústria. Vede as conseqüências da escravatura! A sede dos empregos públicos e a esquivança para as profissões industriais são fatos mui gerais entre nós e que amiudadas vezes hão sido assinalados pela administração como uma grave enfermidade do corpo político (ibidem, p. 79).
 
 
Ao lado dessa primeira identificação da noção de civilização com a defesa do trabalho livre encontramos um outro elemento que seria também exemplar da imagem de país “avançado” que tanto era almejada pela intelligentsia da época, a saber, o uso das máquinas, concebidas como “filhas da civilização”. Com relação a esse aspecto é interessante observar como o uso ou não de máquinas é decisivo na opinião de Torres- Homem para classificar uma sociedade:
 
A distinção principal que lavra entre o homem no estado de uma sociedade grosseira e imperfeita e o homem na sociedade civilizada consiste em que um prodigaliza suas forças naturais entretanto o outro as economiza e as poupa tirando partidos das forças que encontra em torno de si: para domar a resistência da natureza material ele arma sua fraqueza com máquinas (ibidem, p. 45).
 
 
Tal uso das máquinas é compreendido como uma espécie de indício do progresso alcançado por uma nação e aliada ao trabalho livre é tida como a expressão mais bem acabada de civilização.
Verifica-se assim que é por meio da instrução e da difusão dessas idéias que a intelligentsia busca a inserção do país no caminho do progresso. Esse ponto é extremamente importante para a caracterização da intelectualidade desse período que altamente engajada se propõe a educar a sociedade e prepara-la para o mundo moderno esse “vasto bazar, essa imensa fábrica” nas palavras de Torres-Homem.
Portanto, História e Civilização se apresentam como idéias intimamente ligadas e é por assim dizer, os fios condutores de uma leitura acerca do país onde se desenham os novos e tão desejados caminhos do progresso.
 
 

Referências Bibliográficas

 
BURKE, Maria Lucia Garcia Pallares (1995). The Spectator, o teatro das luzes: diálogo e imprensa no século XVIII. São Paulo: Hucitec.
CANDIDO, Antonio (1969)  Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins Fontes, vol. 1.
CARVALHO, José Murilo de (1988). O teatro das sombras: a política imperial. São Paulo: Vérteice; Rio de Janeiro: IUPERJ.
CHARTIER, Roger (2004). Leituras e leitores na França do Antigo Regime. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora da UNESP.
ELIAS, Norbert (1994). O processo civilizador – Uma história dos costumes. Trad. Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Zahar.
LUSTOSA, Isabel (2000). Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras.
MACHADO, Ubiratan (2001). A vida literária no Brasil durante o Romantismo. Rio de Janeiro: Editora da UERJ.
MARTINS, Wilson (1957). A palavra escrita. São Paulo: Anhambi.
NAXARA, Márcia (2004). Cientificismo e sensibilidade romântica: em busca de um sentido explicativo para o Brasil no século XIX. Brasília: Editora da UNB.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da (1978). Cultura e sociedade no Rio de Janeiro: 1808-1821. São Paulo: Editora Nacional.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA SUL-BAIANA EM IARARANA, DE SOSÍGENES COSTA





Resumo:
Iararana de Sosígenes Costa, é uma alegoria que narra a formação étnico-cultural do Sul da Bahia através de mitos regionais e gregos, que suscita a discussão sobre o potencial literário em servir como forma de representação de traços da cultura popular que compõem a identidade de um povo. Objetiva-se, identificar os aspectos através da organização da narrativa que retratam a cultura local que, por sua vez, estabeleça uma relação entre a brasileira e a identidade sul-baiana. Com a finalidade de esclarecer essa questão, a verificação da narrativa literária enquanto representação da identidade é vislumbrada segundo os conceitos advindos dos Estudos Culturais de acordo, sobretudo, com Hall, Bhabha e Canclini, cujas abordagens são perpassadas pela reflexão acerca da dinamica imbricada no processo de formação das identidades culturais. Palavras – chave: Iararana, identidade, mito fundacional.
Texto:

 

 

 

A REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA SUL-BAIANA EM IARARANA, DE SOSÍGENES COSTA

Gisane Souza Santana – UESC

Tiago Santos Sampaio – UESC

 
“As identidades só podem ser lidas a contrapelo, isto é,
não como aquilo que fixa o jogo da diferença em um
ponto de origem e estabilidade, mas como aquilo
que é construído na différrance ou por meio dela.”
 

Stuart Hall

 
 

 

Considerações Iniciais
 
            Iararana, poema de Sosígenes Costa, que narra de forma subjetiva o mito fundacional da região cacaueira através de mitos regionais e gregos, suscita a discussão sobre o potencial literário em servir como forma de representação de traços da cultura popular que compõem a identidade de um povo. Objetiva-se, portanto, identificar os aspectos presentes na narrativa que retratam a cultura local e, por sua vez, estabelecem uma relação entre a  identidade brasileira e  sul-baiana. Nesse sentido, pressupõe-se que a literatura, ao abordar os elementos culturais, corrobora para a construção e manutenção das identidades. A problemática concentra-se em investigar como a identidade é reafirmada a partir de uma estratégia discursiva literária que utiliza elementos componentes da cultura local no seu decorrer.
Com a finalidade de esclarecer essa questão, a verificação da narrativa literária enquanto representação da identidade é vislumbrada segundo os conceitos advindos dos Estudos Culturais de acordo, sobretudo, com Hall (2005), Bhabha (1995) e Canclini (2003), cujas abordagens são perpassadas pela reflexão acerca da dinâmica imbricada no processo de formação das identidades culturais.
Dessa forma, selecionam-se elementos da cultura sul-baiana presentes em Iararana a fim de perceber sua capacidade representativa, bem como a reafirmação identitária operada nos momentos em que a narrativa aponta para o leitor alguns aspectos marcantes da cultura popular.
 
 
Pressupostos Teóricos
Discutir a questão da identidade exige a retomada de alguns conceitos que permitem que esta seja vista como uma construção discursiva pela qual os indivíduos se localizam individual e socialmente (Hall, 1999; Cuche, 2002). A partir dessa localização são construídos os sentidos que marcam as características mais representativas de um povo.
Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas que em alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja estabelecida…. O autoconhecimento – invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser conhecido, de modos específicos, pelos outros (CALHOUN apud. CASTELLS, 2000 p. 22).
 
Castells (2000, p. 22) caracteriza a identidade como “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda, um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(em) sobre outras fontes de significado.” Assim, entende-se, que é operada uma espécie de seleção por parte da sociedade dos atributos culturais que devem definir os seus traços distintivos e, a partir dos sentidos conferidos a eles pelos indivíduos, passa-se a edificar as identidades.
A identidade é, então, construída a partir de um repertório cultural que se apresenta na sociedade, que pode se expressar como conhecimento científico, práticas artísticas ou religiosas. Mas, “todos esses materiais são processados pelos indivíduos, grupos sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em função de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão de tempo e espaço” (Castells, 2000, p. 23-24). Os grupos sociais remodelam essas práticas e conhecimentos de acordo com o propósito dos seus projetos de formação, transformação ou manutenção das identidades. Esse aspecto fará com que os indivíduos enquadrem a produção cultural individual e coletiva aos interesses dos projetos comuns da sociedade. Estabelece-se aí quem está apto ou se interessa a pertencer a determinados grupos de acordo com as suas identidades.
Woodward (2003, p.13) afirma que “com freqüência, a identidade envolve reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a um determinado grupo identitário, nas quais a identidade é vista como fixa e imutável”. O sentimento de pertencimento e permanência é o pressuposto básico para a construção da identidade individual, ao se referir aos grupos a que pretende fazer parte. No entanto, ver a identidade como fixa e imutável corresponde apenas a uma estratégia para tentar formar nas consciências a sensação de homogeneidade que, na verdade, não corresponde mais ao conceito pós-moderno de identidade, devido aos processos de hibridização cultural.
O sujeito pós-moderno, segundo Hall (2005, p. 13), é
 
[…] conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. […] A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidade possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.
 
As identidades, como mostra Hall, estão em constante processo de formação a depender dos fatores sociais que agem sobre os indivíduos. Daí a concepção do termo “identificação”, uma vez que, à medida que esses fatores – ‘as interpelações dos sistemas culturais’ – se apresentam, as pessoas se identificam de acordo com cada circunstância. Os processos que desencadeiam as identificações são múltiplos e por isso geram uma dinâmica favorável à não fixação permanente das identidades.
A identidade, de acordo com sua concepção pós-moderna e enquanto resultado das atribuições culturais, é vista como uma manifestação muito mais flexível, uma vez que tem sido mais difícil a tarefa de se situar num ambiente mediado e formado por uma constante hibridização cultural (Canclini, 2003). Os sujeitos passam a assumir diversas identidades que não existem mais como algo unificado, mas que respondem a momentos específicos e a contextos diversificados. Daí a necessidade de se formular estratégias que permitam que, mesmo com a hibridização das culturas e formação múltipla das identidades, sejam construídos aspectos que reúnam os indivíduos em categorias de acordo com algumas características comuns ao grupo e que permitam que esses se sintam como parte de um todo. Deve-se encontrar, portanto, formas de se costurar as diferenças decorrentes das várias identificações, a fim de constituir uma certa homogeneidade capaz de classificar os indivíduos segundo particularidades que os definam. Para Hall
uma forma de unificá-las tem sido a de representá-las como a expressão da cultura subjacente de ‘um único povo’. A etnia é o termo que utilizamos para nos referirmos às características culturais – língua, religião, costume, tradições, sentimento de ‘lugar’ – que são partilhados por um povo.(2005, p. 62).
 
Essas classificações acerca das caracterizações do povo são fundamentais para gerar um agrupamento em torno dos mesmos aspectos culturais que promoverão as impressões de homogeneidade. A unicidade mostra-se aí como uma marca que reúne os requisitos que cada indivíduo deve conter para que nasça a sensação de pertencimento.
Perceber a identidade como processo que emerge de atributos culturais é crucial, portanto, para a compreensão do papel que as representações têm na edificação dos sentidos que compõem as identidades. Assim, é possível dizer que só a partir da representação será possível conceituar a identidade nacional explicando a sua importância nas sociedades contemporâneas, nos domínios cultural e social. Nesse contexto, a cultura, enquanto expressão da produção de bens simbólicos que definem as identidades surge como uma síntese de representações capazes de produzir as identificações dos sujeitos com o meio no qual está inserido.
Dessa forma, a literatura adquire o status de representação identitária cujo funcionamento age como fonte de significados e suscita a abordagem dos aspectos culturais da sociedade a que se refere. A partir dessa abordagem pode-se inferir que a construção de traços característicos que compõem as identidades são provenientes das representações que abarcam e sintetizam os elementos da cultura.    A representação literária estudada, por exemplo, apresenta o potencial de retratar com grande riqueza os aspectos da cultura regional, permitindo que a identidade seja consolidada a partir de sua dimensão local.
Antes que se perceba imerso numa cultura universal, na qual se experencia um contato mais íntimo com outros ambientes culturais, o sujeito precisa se centrar num contexto local para encontrar os referenciais que interferem de forma mais contundente na sua individualidade: “Ter uma identidade seria, antes de mais nada, ter um país, uma cidade ou um bairro, uma entidadeem que tudo o que é compartilhado pelos que habitam esse lugar se tornasse idêntico ou intercambiável” (Canclini, 2003, p. 190). As identificações com os fatores sociais formam-se primeiro nos espaços cujas identidades são mais facilmente constituídas, ou seja, a formulação da identidade se processa inicialmente em referência ao contexto local. As produções culturais das comunidades passam a ter maior relevância por refletir mais diretamente as características que se relacionam aos grupos sociais locais.
Outro aspecto relevante que se refere aos produtos culturais que visam a reafirmação das identidades é que estes funcionam, ainda, a partir de algumas estratégias a fim de situar as origens de um povo através de narrativas que agem como mitos fundadores ou lendas de tradição oral, construindo os sentidos que compõem as identidades (Bhabha, 1995). Esse aspecto se verifica, assim, na literatura, na cultura popular e na mídia e através de estratégias discursivas que objetivam gerar a noção de continuidade, de tradição e de intemporalidade. A crença em um passado imaginado (Hobsbawm, 1997) e comum a todosedificado pelas narrativas literárias, e outras formas de representação cultural, orientam os indivíduos na história de formação da sua coletividade e preenchem de sentidos suas identidades.  Desta maneira, a partir da produção cultural é possível que as pessoas de determinado local sintam-se agregadas, compartilhando modos de se comportar e pensar, vivenciando um sentimento de cultura partilhada.
Os produtos culturais, como a literatura regional, são vitais no processo de constituição das identidades locais, pois funcionam como forma de representação dos aspectos culturais que as caracterizam tal como se manifestam socialmente. O estudo da obra Iararana permite, deste modo, perceber a literatura como reflexo da cultura retratada e também como uma estratégia narrativa de reafirmação e valorização da identidade sul-baiana.
 

Identidade em Iararana

 
Iararana de Sosígenes Costa, composta por quinze cantos ou cenas e escrita na década de 1930, é uma alegoria que narra a formação étnico-cultural do Sul da Bahia, partindo de elementos  formadores da identidade nacional, ou seja, elementos que remetem à miscigenação brasileira: o branco Tupã-Cavalo, Iara e o índio. A obra está inserida no panorama da literatura modernista, que buscava como um dos seus objetivos primordiais a valorização do nacionalismo, através da exploração de temáticas voltadas para os elementos mais representativos da cultura brasileira. Com Iararana, Sosígenes Costa opera, pela literatura, uma reafirmação dos traços de elevada significação para o contexto da região Sul-baiana.
A poesia épica de Sosígenes Costa relata, através da alma-do-mato, a história da chegada de Tupã-Cavalo à região cacaueira e seus desdobramentos a partir do enlevo amoroso do personagem com a Iara, figura mitológica que habita as águas dos rios também conhecida como mãe-d’água – materialização da divindade. Partindo da narrativa de cunho mítico, o poeta expõe como teria se originado o cacau e apresenta marcas relevantes da cultura regional que auxiliam no processo de composição da identidade local.
 
E Tupã-Cavalo brotou a mataria
 
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E as sementes nasceram e se viu que era cacau
E o cacau já estava crescidinho
e saía com uma força…
e saía com um forção
que benza-te Deus meu pé de feijão!
mas ele dava na gente  a tirar broto de cacau
deu facão a caboco para tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonito como danado.
(COSTA, 2001, p. 444).
 
 
 
Através da representação literária é possível, assim, ter-se  conhecimento sobre elementos da cultura não apenas no que diz respeito às suas manifestações festivas, expressões folclóricas e outros costumes, mas também sobre a organização social e econômica da região firmada sobre o cultivo do cacau.
Seguindo a lógica da literatura modernista, Iararana se apresenta como
 
[…] uma saga, com exaltação do índio brasileiro e utilizando na ação, como estratégia, a ‘limpeza de sangue’. Esse percurso o singulariza no movimento modernista iniciado em 1922, por não privilegiar a apropriação das contribuições exógenas nas representações culturais mas destacando nelas o que é autóctone, através da celebração genealógica de uma linhagem e através das peripécias e façanhas vivenciadas por um clã. (SCHEINOWITZ, 2002, p. 66).
 
 
Pela ênfase no que é autóctone,  a identidade regional em Iararana é reafirmada através da estratégia da retomada de elementos que expressem a diferenciação com relação às outras culturas, sobretudo àquela que se evidencia como exógena e opressora. A cultura local mostra-se no poema, sobretudo, em seu potencial antropofágico de digerir os aspectos positivos que contribuíram para a região, como a técnica do cultivo do cacau, mas também de renegar os traços que comprometem a identidade quando vista sob a perspectiva de uma unicidade que mantém seu caráter distintivo. Esse fator se evidencia, na poesia, na morte do Tupã-Cavalo, representação do colonizador europeu, causada pelo lobisomem
E o Lobisome com boca de fogo
Atacou Tupã-Cavalo no barranco da Inguaíra
E avançou no pescoço do cavalo
E queria mata-lo de arrocho.
Mas a carne dele já estava chiando no fogo que saía
Da boca do Lobisome
(COSTA, 2001, p. 505).
 
Há ainda uma associação entre os traços negativos de personalidade com a descendência de Tupã-Cavalo, e entre traços positivos com a descendência da Iara que, após gerar a Iararana e de ser trocada pela loura européia Arancajuba, envolve-se com um aimoré dando origem ao personagem menino do céu.
 
– Menino do céu, você tem sangue de mãe-dágua.
Teu sangue bom é sangue do rio
Sangue caboco com sangue do rio
Sangue mais limpo que o da falsa iara
Que puxou ao bicho e tem sangue runhe.
(COSTA, 2001, p. 503-504).
 
Embora a narrativa traga aspectos distintivos da cultura regional, vislumbra-se a presença de outros elementos que não são oriundos desta, mas a compõe através de fenômenos híbridos (Canclini, 2003), reunindo e relacionando aspectos históricos, artísticos, filosóficos, culturais e literários. Essas interferências de outros sistemas culturais caracterizam a cultura como um processo em formação constante. De acordo com Laraia (1997, p. 100) “existem dois tipos de mudança cultural: uma que é interna, resultante da dinâmica do próprio sistema cultural, e uma segunda que é o resultado do contato de um sistema cultural com um outro”.
Assim, identificam-se na poesia marcas desse hibridismo cultural. Inicialmente pela presença do Tupã-Cavalo (centauro) que desencadeia uma mestiçagem resultante da mistura dos povos, representada na obra pelo nascimento da Iararana, caracterizada como a “falsa iara” e de seus outros irmãos. Além disso, constam na narrativa os elementos gregos como os deuses. Além da mistura entre os mitos de tradição indígena e cristã..
 
Naquela festa do céu
havia um jegue com asas
Qual o nome deste jegue?
– Pégaso
(COSTA, 2001, p. 479).
Se não fosse esse fiasco
Aquela moça copeira seria eleita rainha
naquela festa do céu.
– Qual o nome desta moça?
– Hebe
(COSTA, 2001, p. 480).
 
 
Há, portanto, uma abordagem ampla dos traços constituintes da cultura regional, ainda que estes se apresentem hibridizados com elementos de outras culturas. A partir dessa abordagem é possível se ter uma noção das manifestações mais características da cultura popular, expressas e perpetuadas, sobretudo pela oralidade e que são revividos através da narrativa literária.
 
Ah naquela cana brava
Todo dia pega fogo
no momento em que a mãe-dágua
deste rio Jequitinhonha
é levada lá pra dentro
por esse bicho danado
que espantou a caipora
meteu medo no boitatá
(COSTA, 2001, p. 449).
 
São evidenciadas nesses trechos algumas crenças advindas da cultura popular como da cobra que mama no seio das mulheres que pariram e a explicação fantasiosa para a ocorrência simultânea de chuva e sol como resultante do casamento da raposa. Os mitos são expressos nos fragmentos que apresentam as figuras mitológicas como o Tupã-Cavalo, a iara, o lobisomem, a mula-de-padre, o boitatá, a caipora, dentre outros que surgem na narrativa, assumindo papéis importantes para o desenvolvimento da história, como o lobisomem que se responsabilizou por matar o Tupã-Cavalo devolvendo a autonomia das personagens que representam a cultura local. Além disso, são retratados os costumes, como o de enterrar os restos do parto na areia e evitar treze pessoas à mesa para não dar azar, expressões regionais, como o “oxente” e também ditados populares.
Moça não casa com cobra
Porque não sabe quem é o macho,
Isso é o que o povo diz
(COSTA, 2001, p. 473).
– Oxente! Você tem namorado, Calunga?
(COSTA, 2001, p. 433).
 
 
O poema traz ainda outras manifestações da cultura popular como as danças, canções, ritmos, como o samba, as festas típicas, como o forrobodó na coroa e burrinha,  e as brincadeiras infantis. Estes aspectos funcionam como marca da diferença por serem tipicamente regionais, necessitando serem repetidos como práticas inerentes da cultura local para que possam ser perpetuados e possam consolidar a identidade cultural associada a estas práticas.
A festa que se fez foi a festa da Burrinha.
Todos foram cantando receber o cavalo-do-mar
(COSTA, 2001, p. 496).
O samba que é macuíba
É o samba do pau siriba.
Remexa bem as cadeiras,
Se esqueça da pindaíba.
E todo mundo se peneirou
no samba do pau siriba
(COSTA, 2001, p. 481).
 
 
Iararana funciona como uma das narrativas que constituem a identidade também pela estratégia de mito fundacional. Sosígenes Costa parte de uma narrativa mítica para explicar o surgimento de elementos regionais que atualmente são conhecidos como tal devido à presença dos acontecimentos de origem mitológica. Um exemplo se refere ao rio Belmonte que teria esse nome devido a ossada de Tupã-Cavalo depositada no fundo do rio.
E a ossada está lá no fundo do rio.
Mas a mãe-dágua está lá viva e amarrada.
Ela dorme no fundo do rio.
E nem sucuriúba pode quebrar as correntes.
Só quem descende da mãe dágua pode quebrar as correntes.
E os descendentes dos mondrongos
chamam este rio de Belmonte
(COSTA, 2001, p. 506-507).
 
Além disso, pode-se dizer que a referência a Belmonte funciona como forma do poeta reviver as memórias da sua infância, vivida em Belmonte. Pela organização dessa narrativa também se reafirma a identidade enquanto sentimento de pertencimento à realidade nacional.
 
Considerações Finais
            Enquanto fonte primordial de sentido para que os sujeitos se localizem socialmente, as identidades funcionam como manifestações móveis pelas quais podem ser construídos os sentidos necessários para a convivência na coletividade. Santos (1999, p. 135) afirma que. “as identidades culturais não são nem rígidas  nem, muito menos, imutáveis. São resultados sempre transitórios e fugazes processos de identificação”. Portanto, devem ser encontradas formas dos indivíduos irem se identificando com vários contextos sociais e culturais a fim de fornecer sentidos às suas experiências.
As representações têm, então, o papel de produzir uma síntese das características mais marcantes da cultura de um povo para dar suporte à criação das identificações. Estas, por sua vez, são responsáveis pelo sentimento de pertencimento, que permite aos sujeitos vislumbrarem-se como integrantes de um contexto cultural com traços bem demarcados. Através das várias representações a identidade cultural vai sendo edificada como uma narrativa, na qual se pode verificar os aspectos que compõe cada cultura.
No caso da obra Iararana, Sosígenes Costa consegue tecer uma narrativa capaz de reunir os caracteres que mais se evidenciam na cultura popular, formando uma importante referência para a construção da identidade cultural da região sul-baiana. Mesmo que  haja um hibridismo na apresentação desses aspectos, que pode ser visto como uma metáfora da constante interação cultural entre diversos povos, é possível demarcar os elementos típicos da cultura local que são valorizados na história como forma mostrar não apenas a diversidade, mas a capacidade de resistência sobre as dominações exógenas, enfatizando a riqueza advinda da produção cultural autóctone e independente.
 
REFERÊNCIAS
 
CANCLINI, Nestor García (2003). Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª ed. Trad. Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: Edusp.
 
CASTELLS, Manuel (2000). O Poder da Identidade. Trad. Klauss Brandini Gerhardt. São Paulo: Paz e Terra.
 
COSTA, Sosígenes. Iararana. São Paulo: Cutrix, s/d.
 
HALL, Stuart (1999). A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A.
 
HOBSBAWM, Eric J (1997). A produção em massa de tradições. In: HOBSBAWM, Eric J.  e RANGER Terence  (Orgs). A invenção das tradições. Trad. Celina Cardim Cavalcante. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
 
LARAIA, Roque de Barros (1997). Cultura: um conceito antropológico. 11 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
 
SCHEINOWITZ, Celina (2001). Poética e Linguagem em Iararana. In: Iararana: revista de arte, crítica e literatura. Ano III, nº 7.
 
WOODWARD, Kathryn (2003). Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.) Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes.





Bio fornecida pelo palestrante.

A SEDUÇÃO DA IMAGEM DE AMOR EM CLARA DOS ANJOS, DE LIMA BARRETO




Resumo:
O artigo estuda, no romance Clara dos Anjos, de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), a imagem de amor como ruína, ou fragmento cristalizado de memória cultural, que o escritor agiliza para refletir sobre o papel da literatura, na formação do imaginário. PALAVRAS CHAVE: Lima Barreto; Amor; Imaginário; Memória cultural; Clara dos Anjos.
Texto:

 

 

A SEDUÇÃO DA IMAGEM DE AMOR EM

CLARA DOS ANJOS, DE LIMA BARRETO

 

Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
 
 
Que poderia haver em comum entre o filme, para adolescentes, Diário da Princesa 1 e 2, os festejados casamentos de celebridades e o romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto? Obra que veio a público em dezesseis números daRevista Souza Cruz, de janeiro de 1923 a maio de 1924, após ter sido anunciado numa Primeira Versão Incompleta, com um capítulo publicado em O Mundo Literário, de maio de 1922, sob o título O Carteiro.
Paradoxalmente, num país de analfabetos, o discurso poderoso da literatura modelou o imaginário brasileiro a partir da relação de complementaridade entre palavra e imagem, estabelecida  pelos escritores românticos. Transfere-se para a palavra que, segundo Alencar, “brinca travessa e ligeira na imaginação” a função “do buril do estatuário”, “a nota solta de um hino” ou a fotografia, para contrapor-se à linearidade da pintura clássica, ou, ainda, “o pincel inspirado do pintor” que faz surgir de repente do nosso espírito, “como de uma tela branca e intacta, um quadro magnífico, desenhado com essa correção de linhas e esse brilho de colorido que caracterizam os mestres” (ALENCAR, José de,1980, p. 98).
Compreender o estético como forma de manifestação dos conteúdos imaginários – como sintetizou E. Morin – “é por meio do estético que se estabelece a relação de consumo imaginário” (1977, p. 77) – faz parte da tradição do pensamento Ocidental, sistematizada já em Platão, quando no Livro III, da República, chama a atenção para o risco do fascínio, sobre a psique alheia, exercido pelo estético. “Não tens observado que quando se pratica a imitação durante muito tempo e desde a meninice ela acaba por se converter num hábito e numa segunda natureza, infiltrando-se no corpo, na voz e no próprio modo de pensar?” (s.d., p. 75).
No entanto, permanece bastante inexplorada a gama de reações provocadas pela dispersão das imagens literárias no imaginário coletivo, através dos fragmentos de páginas escritas mescladas à cultura oral, numa miscelânea de temas que se realizam simultaneamente. Num país de parcos leitores, a literatura organizou a memória, como registrou Graciliano Ramos em suas crônicas, flagrando, no cotidiano, a sedução do literário.
 
No interior do país, nas mais afastadas povoações, senhoras idosas tremem, emudecem os óculos gaguejando as histórias do Moço Louro e da Escrava Isaura,emprestam às netas brochuras do romantismo, conservadas miraculosamente. Alencar circula, e deve-se a ele haver por ali tanta Iracema, tanto Moacir (RAMOS, G., 1984, p. 107).
 
 
O escritor Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), atento a esse processo de sedução do literário, procurou compreendê-lo a partir da observação crítica e dos estudos teóricos disponíveis em seu tempo, como atestam as anotações memorialísticas e os textos literários.
A partir de leituras das obras de Maudsley, Taine e Theodore Ribot, o último dos quais publicara Essai sur l´imagination créatice, e de Jules Gaultier, todas elas a respeito do conceito de bovarismo, o escritor pretende  refletir sobre o que acontece com o homem comum, suburbano em geral, quando recebe as construções estéticas intelectuais. Como o homem comum reúne, no seu cotidiano, os fios esfarrapados de metáforas e estereótipos que definem o tempo, o espaço, a memória, a paisagem, o país, o homem enfim?
Na mesma medida em que a literatura veicula imagens, clichês, as lembranças e as heranças, até mesmo as produções distorcidas e reutilizadas, no imaginário coletivo, pode, também ela, refletir criticamente sobre esse processo. Exemplar nesse sentido, e também precursor é o romance Madame Bovary, de Flaubert que permite a percepção de como a herança cultural pulveriza-se no cotidiano de personagens de baixa extração social, formando crenças entendidas como naturais. Personagens incapazes de ver o quanto a imagem esconde dos sentidos da sua existência, dos fundamentos das suas dores, das causas do aniquilamento da sua vontade. Estão cegas quando dirigem suas vidas para a concretização, e defesa, das crenças no racionalismo científico; quando expressam o conteúdo das dicotomias, do século XIX, diluído em teorias apreendidas em segunda ou terceira mão; quando defendem os dogmas da religião, da pátria ou os clichês da própria literatura, todos elementos de construção cultural da sociedade. Tudo se concatena, para o leitor, através do percurso da personagem Emma Bovary, que do início ao fim da obra, busca incessantemente na sua imagem, projetada no espelho, a imagem do seu desejo ou os traços das heroínas dos romances que lera. Em síntese, o filtro, ou a lente, que obstrui a visão, torna-se ele próprio instrumento de visão (ZERAFFA, Michel, 1976).
Há, na obra de Lima Barreto, uma galeria de personagens femininas, Cló, Ismênia, Lívia, Clara dos Anjos, e outras, que não são típicas leitoras, mas agem profundamente seduzidas pelas imagens criadas pela convenção romântica para a mulher. São, pois, produto de uma cultura na qual a literatura, em seus momentos de formação, fez-se mais  para ser ouvida  do que lida, constituindo  aspectos do cotidiano,como já  analisou  Antonio  Candido (1987).
Personagens incapazes de ver o quanto as ruínas do imaginário escondem dos sentidos da sua existência, dos fundamentos das suas dores, das causas do aniquilamento de suas vontades. Estão cegas quando dirigem suas vidas para a concretização e defesa das crenças e valores diluídos em teorias aprendidas em segunda ou terceira mão; quando defendem os dogmas da religião, da pátria ou os clichês da própria literatura, todos elementos da construção cultural da sociedade. São, na comparação de Flaubert, como “pobres almas obscuras, úmidas de melancolia guardada, como estes pátios nos fundos das casas de província, cujos muros estão cheios de musgo” (1993, p. 80).
Enquanto o autor de Madame Bovary trata dos inúmeros filtros, ou lentes, entre eles a ciência, a religião ou a literatura, Lima Barreto projeta a sua atenção no filtro contaminado de ficção  – romântica e naturalista – que molda o olhar de personagens como Clara dos Anjos, Ismênia e tantas outras. Isto porque aspectos desse conteúdo, vindos do texto literário, impregnam as estruturas sociais e orientam a educação, as relações de poder, a organização da família e traçam perfis de identidade.
No caso brasileiro, as modinhas e canções populares estão contaminadas de fragmentos cristalizados de memória cultural – ruínas – herdadas da tradição romântica divulgando, por exemplo, a imagem de amor que garante felicidade, realização pessoal e nivelamento das diferenças sociais, com superação de todos os obstáculos. Tudo plantado no terreno da limitação intelectual, do distanciamento dos livros e do pensamento crítico. Numa ambiência cujos traços gerais incentivam a fantasia, a música dolente em versos repetitivos, com os sons “mágicos” do violão, o caráter de Clara dos Anjos molda-se pelas nuances da imagem de amor. O autor agiliza, na fala das personagens, as ruínas do imaginário, na forma de retórica amorosa, e demonstra como tais imagens movimentam vidas e destinos.
 
As modinhas falam muito de amor, algumas delas são lúbricas até; e ela, aos poucos, foi organizando uma teoria do amor (…)O amor tudo pode, para ele não há obstáculos de raça, de fortuna, de condição; ele vence, com ou sem pretor, zomba da Igreja e da Fortuna, e o estado amoroso é a maior delícia de nossa existência, que se deve procurar gozá-lo e sofrê-lo, seja como for. O martírio até dá-lhe mais requinte (LIMA BARRETO, 1956a, p. 89-90).
 
 
É a vulgarização do mito do amor recíproco infeliz – que permite conhecer, pelo sofrimento, o amor-paixão, simultaneamente partilhado e combativo, glorificado por uma catástrofe, ansioso por uma felicidade que rejeita – através da literatura, a via que desce até aos costumes, hábitos e mentalidades. Essas imagens da retórica do amor guardam ecos, também, da figura do príncipe herdeiro e sua nobre esposa; ela, absolutamente benevolente, ele absolutamente vigoroso; a lua e o sol feitos carne. Imagens que chegam ao cotidiano pela retórica que se torna, ela própria, condição suficiente para alimentar corações, avivar potencialidades latentes de sentimento.
A retórica, portanto, pressupõe a imitação de um modelo, mesmo que as motivações intrínsecas àquele modelo, na sua origem, tenham desaparecido, sejam outras, ou, até mesmo, inacessíveis na sua compreensão plena. Equivale a uma ruína, ou fragmento de memória, guardado no imaginário, acerca do mito do amor, tanto no nível de atitudes (o gestual, a aparência), quanto no das palavras. Nessa perspectiva, compreende-se a sedução de Clara dos Anjos e o papel de Cassi Jones, o sedutor, nesse imaginário. Para a protagonista, a realidade torna-se um pálido reflexo da imaginação e passa a viver através dela e por ela. É da imaginação que brotam todos os seus anseios, sua dor e vitalidade no presente. A imaginação do amor interessa-lhe mais do que buscar conhecer o amor verdadeiro, que poderia estar a seu lado e não no conteúdo das modinhas.
Nessa perspectiva, pode-se compreender o papel sedutor de Cassi Jones, interagindo com esse imaginário. Apesar da constante vigilância da mãe e da honestidade do pai, é pela porta da frente da casa, convidado para tocar violão, em uma festa oferecida pela família, que entra Cassi Jones na vida de Clara dos Anjos e o narrador apresenta-nos o seu retrato.
 
Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento.
Insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado “modinhoso”, além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão (…). Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor, mas pelo apuro forçado e odegagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros. (…). Não usava topete, nem bigode (LIMA BARRETO, 1956a, p. 45).
 
As armas de Cassi seriam: o violão – “bem misterioso, um elixir ou talismã de amor” (1956a, p. 45), a retórica, expressa nas modinhas e cartas de amor, que atualizava todas as frases feitas e situações típicas das imagens de amor para a sedução. Há um diálogo com o paradigma do sedutor, cujas raízes aprofundam-se nas lendas, originadas provavelmente em Sevilha, cuja expressão dramática aparece em El burlador de Sevilha, obra de Tirso de Molina de 1630. Independente de sua sensualidade, “Don Juan” figura como um burlador, cujo fim é o arrependimento e a confissão (BLOCH, Ernst, 2006).Outra raiz vem das páginas de Moliére, Don Juan ou o festim de Pierre, obra de 1643 que mostra o cavalheiro intrépido, frio e racionalista; não desenvolve paixão nenhuma, apenas egoísmo. Triunfa, sempre, por suas extraordinárias armas amorosas e pelo poder social que pode mobilizar, seduzindo damas de alta sociedade com promessas de fidelidade e de casamento.
De fato, a imagem de “Don Juan” modifica-se depois da Revolução Francesa: aparece o homem de sorte preso a um sentimento sem limites, dirige suas ações, obstinadamente, na direção de um impulso amoroso radical, isto é, em busca da idéia-síntese de mulher. (BLOCH, Ernst, 2006) Nessa perspectiva, a sua infidelidade empírica é a extrema fidelidade amorosa: fiel à busca amorosa do ser no qual pudesse repousar. Avança vertiginosamente em busca de feminilidades – formosas e sugestivas – que se tornam asquerosas e entediantes, assim que se colocam a seus pés.
Afinal, como se desenha o “Don Juan” de Lima Barreto em seu diálogo com a tradição cultural e literária? Temos um Cassi Jones burlador, conquistador inveterado, cheio de perfídia e maldade, a ponto de ordenar assassinatos, atualizando pela retórica o  mito do amor. A linguagem recheada de metáforas recebe o auxílio da sátira com a finalidade de chamar a atenção do leitor para um processo mais sofisticado, não tão facilmente perceptível de identificação psicológica por empatia, diferente da mera imitação abstrata. Em muitos casos, esse comportamento também é físico, uma questão de fala, gesticulação, modo de andar, postura, vestimenta e outras coisas semelhantes. Prepara o leitor, enfim, para flagrar Clara dos Anjos em absoluto envolvimento “pelo tic invencível do tocador de violão” ou o fascínio, a sedução da imagem sobre a psique alheia.
 
Clara, que sempre a modinha a transfigurava, levando-a a regiões de perpétua felicidade, de amor, de satisfação, de alegria, a ponto de quase ela suspender, quando as ouvia, a vida de relação, ficar num êxtase místico, absorvida totalmente nas palavras sonoras da trova, impressionou-se profundamente com aquele jogo de olhar com que Cassi comentava os versos da modinha. Ele sofria, por força, senão não punha tanta expressão de mágoa quando cantava – pensava ela (LIMA BARRETO, 1956a, p. 81).
 
Sem discernimento crítico e absolutamente fascinada por Cassi Jones, Clara não percebe a encenação no jogo de sua voz e de seu olhar. Semelhante a um processo de automatismo cognitivo a imagem sucede rapidamente a imagens, automáticas, acríticas, à mercê da manipulação dos recursos do inconsciente.
A insistência de todos ao redor em denegrir o sedutor, alertá-la do risco que corre, só fortalece as razões do imaginário: as imagens do amor recíproco infeliz, porque em luta contra as forças externas –  “ Naturalmente havia nisso muita inveja dos méritos do rapaz, em quem ela não via senão delicadeza e modéstia e, também, os suspiros e os dengues do violeiro consumado” (LIMA BARRETO, 1956a, p. 91) –  argumenta Clara dos Anjos.
Em Triste fim de Policarpo Quaresma podemos ver Ismênia, a jovem que sem ser feia, até bem simpática, “com sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de uma tintas de bondade”, encontrara o sentido da existência na tentativa de responder à pergunta: “Então, quando te casas?”, logo depois do festejado noivado (LIMA BARRETO, 1956b, p. 55).
Na cultura brasileira, à visão romântica da função da mulher na sociedade patriarcal – matrimônio e maternidade – une-se a abordagem patológica para a ausência desse modelo feminino familiar. A literatura naturalista é farta de exemplos de histéricas, reproduzindo sintomas tais como desmaios, enxaquecas, gritos, próprios de temperamentos doentios. No romance de Lima Barreto, é a delicadeza o traço que desenha, com profundidade, o perfil de Ismênia, para resgatar o contorno da pessoa humana marcada pelos dogmas e convenções sociais.
Em coerência ao processo de urbanização, o desenvolvimento dos transportes, a ampliação do processo de circulação das mercadorias, a modernização dos fins do século XIX e início do século XX, ocorre uma reformulação no âmbito da família. O homem delega na condução da ordem familiar por ser também mais intensamente solicitado na esfera pública. Permanece a mulher no espaço privado e, simultaneamente, privada das importantes decisões pertinentes à existência pública. No entanto, revestida de novas funções, além do matrimônio, entre outras a de consumir artigos industrializados, ter profissões “delicadas” como o seu perfil e até ser alegre e espirituosa com moderação. O predomínio de faculdades afetivas tornava-a menos apta para o trabalho intelectual do que para a condução da família.
O romance traça um painel desse aspecto regulador da existência social da mulher, transmitido de geração a geração. Dona Maricota, a mãe de Ismênia, “não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e desonroso para a família” (1956b, p. 66) As jovens amigas de Ismênia confirmam em suas conversas, a ansiedade em torno do casamento, única oportunidade real de ascensão e reconhecimento social para a mulher. Falam muito às claras sobre os enxovais, o que devem conter, onde adquiri-lo, “as casas barateiras”, “as peças mais importantes”, mas às escondidas, em meio tom, abafavam curiosidades e impulsos da vida sexual.
 
Estefânia, a doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência.
Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes e disse alto:
– Eu quero ver isso…Todas dizem que não… Eu sei… (LIMA BARRETO, 1956b, p. 67).
 
Se, para Ismênia, as normas sociais, projetadas nas imagens do casamento, tornaram-se a medida de sua individualidade, tomando-a por inteiro, Olga – a afilhada de Quaresma – possui o discernimento capaz da emancipação e da crítica, superando a mediania a ponto de sr a única real interlocutora do padrinho, por entender os motivos que o prendem à reserva de sonho; Ismênia, por sua submissão, dependência e incapacidade de crítica, sem qualquer ousadia, é, silenciosamente, tragada pelas representações do cotidiano. Por isso, para Olga o casamento serve a seus intentos, isto é, reconhece no matrimônio o aval social para articular novos vôos, convenientes e imprevisíveis, longe do fatalismo dos contos de fada. “Casava por hábito da sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade” (LIMA BARRETO, 1956b, p.102).
Ao contrário, quando se evidencia para Ismênia a impossibilidade de resposta para a pergunta “Quando te casas?” que lhe carimbava uma identidade, esfacela-se em inúmeros fragmentos e, silenciosamente. Depois de perder o noivo, não reencontrara mais o sentido para a vida, afinal o código de sua integração com o mundo estava contido na palavra casamento, e todo o feixe de significações que ela guardaria. Ismênia enlouquecera, “de uma loucura mansa e infantil”. Exausta, enfraquecida, feito espectro, a personagem alcança o sublime na morte, porque a sua tragédia permite a possibilidade de conhecimento ao leitor, retirando-lhes as ilusões.
 
Ismênia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestido meio aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vê-lo mais de perto (…).
Viu os seus ombros nus, o seu colo muito branco… Surpreendeu-se…
Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa.
O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboletas. Teve uma fraqueza, uma cousa, deu um ai e caiu de costas na cama com as pernas para fora… Quando a vieram ver, estava morta (LIMA BARRETO, 1956b, p. 258-259).
 
 
Clara dos Anjos, Ismênia ou Lívia – a protagonista do conto do mesmo nome, que sonha com um casamento como único recurso para tirá-la da rotina do trabalho doméstico – todas exemplificam a atualização das imagens do amor no cotidiano e, como bibelôs, esfacelam-se, silenciosamente, em inúmeros fragmentos de dor e decepção.
 
– O que é amar? Interrogava fremente.
Não é escrever cartas doces? Não é corresponder a olhares?
Não é dar aos namorados as ameaças da sua carne e da sua volúpia? (…)- Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar, namorar aqui, ali, embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro…
– Ó Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga!
Que fazes há tanto tempo na janela?! (LIMA BARRETO, 1956c, p.155).
 
 
O que as move? As ruínas ou fragmentos de memória cultural, como imagens cristalizadas, difundidas pelo romance romântico e agilizadas no dia a dia pela retórica do amor, que define o casamento e o papel destinado à mulher na sociedade.
A sofisticada cultura de massas, hoje, reúne esses mesmos fios esfarrapados de memória cultural para enredar as “Michelles, Pamelas”, as “louras” – que se inspiram nas protagonistas das novelas de televisão para a escolha do vestuário, da linguagem e de atitudes, coerente à “colonização da alma”, na perspectiva de Edgar Morin (1997) – mas também para reeditar as imagens de amor, com seus redentores  príncipes encantados e a retórica de “Don Juan”.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
ALENCAR, José de (1980). Cartas sobre a Confederação dos Tamoios. In: COUTINHO, Afrânio, org. Caminhos do pensamento crítico.Rio de Janeiro: Pallas, Brasília: INL, 1980, p. 80-104.
BLOCH, Ernst (2006). O princípio esperança. Trad. Werner Fuchs. Rio de Janeiro: EdUERJ;
Contraponto, v. 1 e 2.
CANDIDO, Antonio (1987). Literatura de dois gumes. In: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, p. 161-80.
FLAUBERT, Gustave (1993). Cartas exemplares. Org., pref., trad. e notas de Duda Machado. Rio de  Janeiro: Imago.
LIMA BARRETO, A. H. de. Clara dos Anjos (1956a). In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Brasiliense.
LIMA BARRETO, A. H. de (1956b). Triste fim de Policarpo Quaresma. In:Obras de Lima Barreto. São Paulo: Brasiliense.
LIMA BARRETO, A. H. de (1956 c). Lívia. Histórias e sonhos. In: Obras de Lima Barreto. São Paulo, Brasiliense.
MORIN, Edgar (1997). Cultura de massas no século XX: neurose. Trad. Maura Ribeiro Sardinha. 9a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
PLATÃO (s.d.). A República. Trad. Leonel Vallandro. São Paulo: Tecnoprint.
RAMOS, Graciliano (1984). Os amigos de Machado de Assis. In: Linhas tortas: obra póstuma. 11a ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record.
ZÉRAFFA, Michel (1976). FictionsThe Novel and Social Reality. London: Penguin Books.





Bio fornecida pelo palestrante.

AINDA SOB A MÁSCARA…




AINDA SOB A MÁSCARA…

Análise do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, publicado, pela primeira vez, na reunião de 16 contos da obra Várias histórias, em 1896. 

 

Cláudia Sabbag Ozawa Galindo

 

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

 
Como em tantas obras do autor, já desvendadas por Alfredo Bosi em A máscara e a fenda (1982), aqui também figura o véu da máscara, de Machado de Assis. Vamos encontrá-la mal ajustada e cambaleante na personagem de Fortunato. Fortunato Gomes da Silveira, como acode normalmente aos personagens de Machado, especialmente aos que tendem à maledicência, à arrogancia ou à crueldade, era um capitalista, solteiro, quarenta anos, morador de Catumbi. Este era o homem público. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria, pregados na cara magra e pálida onde havia uma tira de barba curta, ruiva e rara que ia de uma têmpora a outra, por baixo do queixo. Estas são as portas da alma. E era nela que o médico Garcia ambicionava chegar.
Como possuísse “(…)em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo” (p. 68) viu em Fortunato o objeto ideal do estudo minucioso. Este, a princípio, fez-lhe impressão a figura; pareceu-lhe, mais tarde, repulsiva ao mesmo tempo que dedicada; adiante, singular, sui generis; até à própria redução de Calígula. Este caminho percorreu Garcia, em que acuriosidade despertou a natureza sagaz, ávida de conhecimento e análise.
Desde que se viram à porta da Santa Casa, depois ao Teatro e, finalmente, quando se conheceram por conta de um acidente ocorrido com um vizinho do médico, com a proximidade advinda de um encontro em uma gôndola e de aí em diante, até à sociedade que instauraram em uma Casa de Saúde, Garcia procurava desvendar o segredo de Fortunato, as camadas morais de que se compunha, sua alma, enfim.
Fortunato foi se descortinando diante de Garcia, ou Garcia foi procurá-lo sob as cortinas aparentes da alma. Mas o ator social, ao desempenhar seu papel no cenário da vida, confundia as impressões do analista: “(…) a sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade” (p. 67), afinal, conviviam lado a lado a dedicação desprendida aparente e a indiferença fria pelo sofrimento alheio: “(…) Fortunato serviu de criado” aos cuidados do ferido, para depois Garcia o observar “sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido” (p. 67). Assim, de início, Garcia limitou-se “a aceitar o coração humano como um poço de mistérios”.
Foi somente quando Fortunato tratou com desdém e impaciência os agradecimentos do homem ferido por capoeiras a quem ele havia prestado ajuda e cuidados, é que Garcia se assombrou. E não menos surpreso foi que ele comparou “as mesmas chapas de estanho, duras e frias” que eram os olhos de Fortunato com os obséquios com que ele o tratou em sua casa. Conviviam a indiferença humana e o cuidado social no mesmo homem.
E talvez tenha sido este cuidado que tenha feito Fortunato ouvir “não com indiferença” a lembrança do auxílio ao homem ferido pelos capoeiras, contado por Garcia à Maria Luísa. Esta, por sua vez, esposa de Fortunato, portanto ainda mais próxima de sua alma, ouviu a história de compaixão e solidariedade do marido com espanto e “insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração (p. 69).
Este coração cuidava toda a gente ter descoberto e louvado, quando Fortunato e Garcia abriram a Casa de Saúde.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da Rua de D. Manuel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos famulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia (p. 70).
 
Já, então, Garcia se convencia da natureza generosa de Fortunato, quando passou a atentar-se à miúde à pessoa de Maria Luísa, esposa do sócio. Um abismo separava o casal, uma incompatibilidade moral distanciava os “olhos meigos e submissos” dela das “chapas de estanho, duras e frias” que eram os olhos dele. Bem sabem que os olhos são o espelho da alma. E a dele, aos poucos, consumia a dela, tragava-a. E ela sucumbiu. As experiências que o marido fazia, durante seus estudos de anatomia e fisiologia (“ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães”) (p. 71), certamente desencadearam a tísica na mulher, “compleição nervosa”(p. 71) que era.
Fortunato estudava, acompanhava as operações e curava os cáusticoscomo nenhum outro. Era a dor alheia que o acompanhava ou era ele que a perseguia. A primeira vez que Garcia o viu ele estava à porta da Santa Casa, local fundamentalmente de enfermos, depois na platéia de um dramalhão “cosido a facadas”, andando nas ruas distribuindo bengaladas aos cães, no socorro ao homem vítima de capoeiras e agora à frente da Casa de Saúde. Mais tarde faria experiência com gatos e cães, em seus estudos de anatomia e fisiologia.
Neste sentido, Fortunato pode ser uma menção a “afortunado”, detentor da fortuna. A fortuna, segundo o dicionário, compreende a casualidade e o destino, o bom êxito e o revés da sorte. Assim, reúne, simultaneamente, em gérmen e em potencial, a felicidade e a adversidade, a casualidade e o destino. Nas coxias, por trás das cortinas fechadas da alma de Fortunato, sob a máscara, encontramos na natureza do homem a felicidade na adversidade, o destino na casualidade.
Entretanto, Garcia somente atingiu o segredo de Fortunato tempos depois, em visita ao casal. Encontrou o amigo no gabinete, a esposa horrorizada.
“No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até à chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorrizado. (…)E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma cousa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato (…)” (p. 72).
 
Garcia, natureza curiosa da análise, “conseguia dominar a repugnancia do espetáculo para fixar a cara do homem” (p. 72) e concluir: “Castiga sem raiva (…) pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia pode lhe dar: é o segredo deste homem” (p. 73).
Só, então, quando já Maria Luísa tossia muito, “o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem”(p. 73). Já Garcia amava Maria Luísa e “o amor trocou a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar” (p. 74). No entanto, a doença tomou conta da mulher e o esposo que “recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher” (p. 74), “nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça”(p. 74) não pôde mais ajustar a máscara e a “índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura(…)” (p. 74) e saciou-se, ainda, da dor moral e apaixonada do médico, para além de qualquer ciúme ou vaidade: “Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa” (p. 75).
É neste sentido que Antônio Candido, em seu estudo Esquema de Machado de Assis desvenda a atitude de “condutor de marionetes” em que se transforma Fortunato:
“transformou virtualmente a mulher e o amigo num par amoroso inibido pelo escrúpulo, e com isto sofrendo constantemente; e que ambos se tornam o instrumento supremo do seu prazer monstruoso, da sua atitude de manipulação de que o rato é o símbolo (…) para indicar que o homem, transformado em instrumento do homem, cai praticamente no nível do animal violentado”(1970, p. 37)
 
Talvez Garcia não tivesse alcançado de todo a alma de Fortunato, a causa secreta que o alimentava de vida, na morte da vida. Fortunato era o ajuste mal acabado da máscara cambaleante. Note-se que, quando observado de perto, ou quando dava conta de si mesmo, sozinho, parecia saído de uma espécie de “transe”, de um lugar que ele pisava na solidão, ao voltar-se para dentro de si mesmo, ao mergulhar inteiramente nos chamados da sua natureza. No caso do rato, Garcia se deu conta de que Fortunato se distanciara do mundo ao redor:“Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido (…) Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida” (p. 72). Quando volta a si é que busca vestir a máscara novamente: “Fortunato encareceu a importancia do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo”. O mesmo ocorreu quando a mulher estava morrendo: “Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.” (p. 74).
Assim é que o homem interior convive com o exterior, o individual com o social. É através da máscara que o interesse pelo sofrimento se reveste, publicamente, em dedicação aos enfermos; que a fruição da dor alheia toma feição de cuidados, que a essência busca nova roupagem na aparência, mas que a natureza imperiosa à força e mal acomodada resiste ao ajuste perfeito da máscara e o homem transita cambaleante entre a alma e o mundo exterior. As vezes sobressaltado, às vezes voltando a si.
É por este viés que Antônio Candido afirma que, mesmo
“(…) os mais terríveis de seus personagens, são homens de corte burguês impecável, perfeitamente entrosados nos mores da sua classe”. Assim é que “Sob este aspecto, é interessante comparar a anormalidade essencial de Fortunato da ‘Causa Secreta’ com sua perfeita normalidade social de proprietário abastado e sóbrio, que vive de rendas e do respeito coletivo”. (1970, p.37)
 
E mesmo terríveis, sob as máscaras, encontram “Garcias” a lhes desvendar a alma, as camadas morais, para além da repulsa; e leitores para os tornarem públicos, para além da crueldade explícita. Os primeiros vestem a máscara social, nós a máscara do espectador.
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
ASSIS, Machado de (1997). “A Causa Secreta. In: Várias Histórias. São Paulo: Globo.
CANDIDO, Antonio (1970). “Esquema de Machado de Assis. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades.
BOSI, Alfredo (1982). “A máscara e a fenda”. In: ___________(org.).Machado de Assis. São Paulo: Ática.





Bio fornecida pelo palestrante.

AMOR VERSUS QUERER: A DICOTOMIA DO FEMININO NO ROMANTISMO NAS OBRAS VIAGENS NA MINHA TERRA, DE GARRET E AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO




Resumo:
wResumo A oposição amor/querer encontra-se ancorada na imagem da mulher. A figura feminina dentro da estética romantica literária quando usada para representar o amor puro, inspirador, é apresentada como angelical; se associada, porém, aos desejos da carne, torna-se ser demoníaco, responsável por levar o homem à perdição. Partindo dessa dicotomia romantica do ser feminino, o presente texto se proporá em estabelecer uma análise comparativa das personagens femininas de duas obras distintas, ícones também de fases distintas do Romantismo português: Joaninha da obra Viagens na minha terra, 1843, de Almeida Garret, demarcando o momento primeiro da prosa nessa estética; e, Tereza, personagem da obra Amor de perdição, 1863, de Camilo Castelo Branco, demarcando o momento ultra-romantico da prosa lusa. Palavras-chave: dicotomia do feminino, amor, querer.
Texto:

 

AMOR VERSUS QUERER:

A DICOTOMIA DO FEMININO NO ROMANTISMO

NAS OBRAS VIAGENS NA MINHA TERRA, DE GARRET E

AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO

 

 

PEDRO FERNANDES DE OLIVEIRA NETO

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

 
 
 
Várias são as características que compõem o molde da estética romântica, assinalada entre meados do século XVIII e XIX. Impossível de defini-la em poucas palavras ou resumi-la num simples conceito, haja vista sê-la mais que uma estética, o Romantismo é tido mesmo como um movimento que em ondas concêntricas perpassa todas as esferas desse ambiente em que emerge; corresponde mesmo a um metamorfoseamento sócio, histórico e cultural.
Uma destas características que podemos constatar no Romantismo está na valorização, por vezes extremista até, do amor, posto espiritualizado, puro e a visão do desejo circunscrita como manifestação dos baixos instintos do ser enquanto humano, devendo, portanto, nesse, o humano ser condenado.
A oposição amor versus querer, os românticos associam como característica centrada na mulher. A figura feminina dentro da estética romântica literária quando usada para representar o amor puro, inspirador, é apresentada como angelical; se associada, porém, aos desejos da carne, torna-se ser demoníaco, responsável por levar o homem à perdição. Partindo dessa dicotomia romântica do ser feminino, o presente texto se proporá em estabelecer uma análise comparativa das personagens femininas de duas obras distintas, ícones também de fases distintas do Romantismo português: Joaninha, da obra garretianaViagens na Minha Terra (1843), demarcando o primeiro momento da prosa nessa estética; paralelamente, Tereza, personagem da obra camiliana Amor de Perdição, 1863, demarcando a prosa ultra-romântica lusa.
Duas características centrais podem ser apresentadas como distintivas de ambas as obras. O romance garretiano, mistura de relato jornalístico e história de amor, é comedido, sem dramaticidades tamanhas, a própria época em que foi escrito parecia  não o permitir; já o romance camiliano, é, pois, embaralhado, alucinante, melodramático, para resumir, à margem de todos os espectros sociais garretianos. No primeiro, a amor entre Joaninha e Carlos é posto como algo possível, da saudabilidade, enquanto no segundo, a amor entre Simão e Teresa é exposto como algo forte ao extremo, algo que se torna negro e passível de malignidade. Assim sendo, as personagens femininas moldadas neste cenário carregam marcas distintas: a primeira se constituirá em oposição à segunda, demarcando aqui as fronteiras dessa dicotomia feminina no Romantismo; ambas, no entanto, possuirão características adquiridas desse amor tecido pelos autores românticos.
A personagem Joaninha adequa-se aos moldes rousseaunianos [1] uma vez sê-la fruto ou espécie de ponto num cenário natural, de ar melancólico, palco para o desenrolar dos fatos:
Joaninha não era bela, talvez, nem galante sequer no sentido popular expressivo que a palavra tem em português, mas era do tipo da gentileza, o ideal de espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções de toda a elegância nobre, todo desembaraço modesto (…). (Viagens na minha terra, p. 87)
 
Ela é uma adolescente ainda com sopro de pureza e inocência, justificando desse modo suas atitudes jovem-pueris; parafraseando Massaud Moisés (1999), é alada pela fantasia que a envolverá na história duma jovem que perece de amor por amar um homem tolhido noutras malhas sentimentais.
Teresa, entretanto, adequa-se aos moldes de uma burguesia em acentuada ascensão no espaço social; criada e moldada no berço da ociosidade urbana. Configura-se o ponto central de um estopim amoroso que eclodirá mais tarde no decorrer do romance; envolvida por uma aura de pureza, não natural a Rousseau, mas uma pureza esculpida por ideais.
As atitudes de Teresa em oposição às de Joaninha classificam-se como violentas e invencíveis, num jogo frenético de paixão avassaladora que a conduz sob um comportamento quase que primitivo, é instintivo. Basta que retomemos a teimosia sua em preferir qualquer coisa, a morte inclusive, a ter de casar-se com seu primo, já prometido, o Baltazar: “– Estás a brincar, prima! – redargüiu Teresa. – Eu hei de ser tua cunhada quando não tiver mais coração. Teu mano tem a certeza de que amo outro homem. Queria viver pra ele; mas se quiserem que eu morra por ele, abençoarei todos os meus algozes.” (Amor de perdição, p. 57)
Na personagem ultra-romântica não há logicidade nas atitudes. Enquanto Joaninha move-se pela fantasia para um futuro paraíso, Teresa camainha e arrasta os seus, através dos ideais, para um abismo negro; ela não é somente passível e sofredora como Joaninha que o seu futuro-morte marca uma heroicidade amorosa, mas é alguém capaz de decidir e influenciar.  Portanto, também é ativa no intercurso da trama. Suas atitudes são movidas a gás do desejo, uma expansão dos sentidos e dos sentimentos da personagem garretiana. Em Teresa falam mais alto as “razões da sociedade burguesa oitocentista, temerosa de enfraquecer-se pela concessão dos direitos éticos individuais que possam pôr-lhe em crise os dogmas, as convenções, as modas” (MOISÉS, 1999, p. 148). Diferentemente de Joaninha, que carregará interesses próprios, Teresa carrega no bojo de sua individualidade aspirações suas, políticas e sociais da burguesia revolucionária de fins do século XVIII e primeira metade do século XIX: “encontra-se dessa forma as ‘razões do coração’ e as convenções de uma sociedade temerosa de ceder aos imperativos de indivíduo e do tempo.” (MOISÉS, 1984, p. 19) Alheia ao naturalismo rousseauniano vigoram em Teresa os ideais franceses de liberdade, igualdade, fraternidade.
Analisando as atitudes de Joaninha, perceberemos que estas se apresentam como comedidas, estritas, já as de Teresa mantém-se constantemente histéricas, descabeladas. O amor-querer é posto como algo superior, total controlador da mulher e irradia sua dor como núcleo de tudo. Em Teresa se justapõe a crueza do mundo numa vertente hiperbólica, rigidamente e criteriosamente controlada:
 
É já meu espírito que te fala, Simão. A tua amiga morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se me Deus não engana, está em descanso.
(…)
Quem te diria que morri, se não fosse eu mesma, Simão?
(…)
Adeus! À luz da eternidade perece-me que já vejo, Simão. (Amor de perdição, p. 136-138)
 
A imagem que se constrói acerca da personagem camiliana é a de uma figura sedutora e demoníaca que se ergue à beira de um precipício, prestes ao suicídio, propensa a levar consigo os de que ela se compadecerem. Objeta-se dicotomicamente à imagem que podemos talhar da personagem garretiana: Joaninha é ela própria dotada de angelicalismos, que no vão de suas utopias para com Carlos não se apresenta como nociva sedutora é um esmo passível de tragicidade.
No movimentar-se das tramas, dicotomias outras se encontram nas duas personagens. Em Garret a personagem feminina mantém-se inócua, contrariamente, Joaninha atém-se harmoniosamente ao seu espaço; Teresa não, se mantém o tempo inteiro deslocada. E, além de seu meio como personagem que se move em prol do desejo humano e enquanto representação humana em busca do desejo não é condenada pelas artimanhas e garras do tempo, mas pelas suas próprias artimanhas cai nas próprias garras do tempo por ela armadas. Ou seja, enquanto Joaninha morre a mercê das linhas do destino, Teresa não, é dona, e por isso traça seu próprio destino, embora sequer evolua em prol deste. A ilogicidade a personagem camiliana julga-se através de um existencialismo. Seu poder de locomoção dentro do romance é tamanho que extrapola as barreiras, as linhas de sua própria existência humana; fantástico desse amor romântico lança os sujeitos fora da realidade, torna-os inexprimíveis, tomando das palavras de Pinto (2007). Esse caráter gravitacional da personagem camiliana, justifica-se, segundo Moisés (1984, p. 19), acima de todas as convenções, porque:
 
(…) brota do mais fundo das entranhas e alucina o cérebro com as antevisões de sua realização, tem por arquitrave o amor vulcânico à margem do casamento, mas em luta com razões morais (…). Vivendo a violenta aceleração da paixão que tudo obnubila com seu despótico império (…).
 
Assim sendo, entenderemos Joaninha como face primeira da moeda amorversus querer, visto que seus instintos enquanto humanos são comedidos e encaixam-se aos caracteres românticos da pureza, da inspiração. Face segunda desta moeda, o querer, atribui-se à personagem camiliana, visto sê-la o oposto daquela, uma figura própria do amor demoníaco que castra e arrasta os sujeitos para além de sua realidade e possibilidade, para um abismo em busca de algo como prêmio: um amor contaminado pelo vírus da paixão. Em Teresa enxerga-se o sedutorismo que leva o homem à perdição, justificando plenamente o título da obra.
Essa oposição amor versus querer em Joaninha versus Teresa, configura no entendimento pleno da dicotomia feminina no Romantismo.
 
 
Referências
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de perdição. São Paulo: O Estado de São Paulo, Klick Editora, 1997.
GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. Rio de Janeiro: Ediouro, São Paulo: Publifolha, 1997.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 29ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.
MOISÉS, Massaud. Presença da literatura portuguesa: romantismo-realismo. 6ª ed. São Paulo: Difusão Editorial, 1984.
PINTO, Júlio Pimentel. Afeto reinventado. In Entrelivros. Ano 2, nº 24. São Paulo: Dueto Editorial, 2007, p. 38-42.





Bio fornecida pelo palestrante.

CARTAS DE UM SEDUTOR: PARÓDIA E INTERTEXTO




Resumo:
O estudo do erótico na obra de Hilda Hilst Cartas de um sedutor pretende analisar como essa forma textual trabalha os conceitos de Bakthin, a fim de que as vozes dos discursos dos personagens funcionem como um desabafo autorizado da autora em relação à contemporaneidade, ao público leitor e ao mercado editoral. Portanto, o texto erótico hilstiano funciona no cerne da obra como um momento de avaliação de toda sua produção.
Texto:

CARTAS DE UM SEDUTOR: PARÓDIA E INTERTEXTO

 

Eliane Maria de Oliveira Giacon – UEMS

 
RESUMO: O estudo do erótico na obra de Hilda Hilst Cartas de um sedutorpretende analisar como essa forma textual trabalha os conceitos de Bakthin, a fim de que as vozes dos discursos dos personagens funcionem como um desabafo autorizado da autora em relação à contemporaneidade, ao público leitor e ao mercado editoral. Portanto, o texto erótico hilstiano funciona no cerne da obra como um momento de avaliação de toda sua produção.
 
Palavras-chave: erótico, dialogia, vozes
Key-words: erotic, dialogical, voices
 

Introdução

A proposta apresentada nesse artigo pretende trabalhar com a literatura erótica de Hilda Hilst da fase que vai entre 1982 até 1991, da qual serão estudados alguns pontos do livro Cartas de um sedutor (1991) e em especial do conto “ Bestera”, que contém subsídios para a análise dos elementos paródicos, intertextuais, carnavalizados e grotescos do discurso hilstiano, que abrem perspectivas para adentrarmos ao universo da criação literária dessacralizadora da ficção contemporanea, que no caso da ficcionista estudada funciona como um desabafo de seus personagens escritores contra o mercado editorial e o público. Ao proceder uma análise dessa obra e deste conto pretende-se desmistificar a fase pornográfica ficcional de Hilda Hilst e colocá-la no lugar que lhe é devido, não como um momento menor da criação dessa autora, mas sim como uma síntese de toda a sua relação com a literatura.
A escrita de Hilda Hilst pode ser considerada uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporanea, embora a crítica e o público não tenham lhe dado o lugar merecido como ficcionista. Conhecida como poetisa, muito da produção hilstiana, no ambito da ficção e do texto dramático ainda encontram-se inexplorados, esperando por leitores, que possam identificar-se com o seu processo de criação literária.
Um dos aspectos principais da ficção hilstiana concentra-se num período conhecido como de produção licenciosa, erótica, com textos escritos de forma fragmentada que são uma metáfora da metaficção, baseada em experimentos e exploração das diferentes possibilidades da produção ficcional de Hilda Hilst.
As proposições elencadas são mecanismos para que seja possível ao crítico analisar o cerne da obra hilstiana, pois esses textos, embora tendo como invólucro a pornografia e a preferência por descrições de cenas eróticas homossexuais e heterossexuais, propiciam uma outra leitura que pode ser feita a partir da interpretação da função desses elementos licenciosos dentro do romance contemporaneo e da produção literária de Hilda Hilst.
O ato de criação da ficção hilstiana vem reafirmar a posição de Bakhtin (1990, p. 398) quanto à narrativa romanesca, pois para ele o romance é um gênero único num processo evolutivo, que é alimentado pela modernidade, sendo pois uma tipologia textual capaz de adaptar-se a produção literária contemporanea.
A capacidade de adaptação do gênero romance às mudanças temporais propiciou que ele fosse tomado pelos escritores como veículos de várias tendências como ocorre com as obras de Hilda Hilst, em especial com dois romances: Contos de Escárnio: textos grotescos ( 2002) e Cartas de umsedutor ( 2002) em publicação atualizada pela editora globo, que se apresentam com títulos de contos e cartas, contudo seguem um modelo de estruturação de texto, no qual há um entrelaçamento entre conto, romance, poema e drama formando um mosaico de gêneros.
Isso não seria novidade, pois uma das características de experimentação do romance contemporaneo é o hibridismo de gêneros. Contudo, no caso da autora paulistana, é possível perceber que essa metodologia tende a ser utilizada para dessacralizar o ato de criação literária com o uso de situações e discursos dos antinarradores personagens sobre suas produções, que nascem não mais daquela essência do escritor, em seu ato inventivo, no qual ele apodera-se da filosófica e da teoria da literatura como ferramentas essenciais para atingir a perfeição, mas sim a partir dos seus desejos mais obscenos, em instantes grotescos de suas vidas.
A dessacralização não só se refere à questão do ato de criação do escritor, ela se estende ao discurso, no qual “a voz do outro, voz socialmente determinada, portadora de uma série de pontos de vista e apreciações, precisamente as necessárias ao autor” (BAKTHIN, 2002, p. 192) é introduzida num texto que utiliza o mecanismo da paródia, da intertextualidade, da carnavalização e do grotesco a respeito de filósofos, literatos e pintores como Nietzsche, Kant, Van Gogh, Byron, Rimbaud e Wittgenstein, entre outros, os citando e fornecendo juízo não só sobre a sua produção como também sobre fatos de alcova, que foram mitificadas nas histórias sobre a vida sexual deles.
Essas histórias, bem como a vida dos anti-narradores hilstianos e dos escritores personagens, são escritas em discursos confessionais do tipo ars erótica. Segundo Foucault (1977, p. 56), nessa arte “a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência”. Isso faz com que o método revolucionário de produzir literatura erótica, nas obras em estudo de Hilda Hilst, seja capaz de desmontar não só os estereótipos contemporaneos como também o texto que vai sendo contado pelos anti-narradores, pois toda boa literatura segundo Eliane Robert Moraes (1999, p. 114) “desmente o que nela – e dela – se afirma, convidando-nos a explorar os angulos menos óbvios da paisagem que se descortina à primeira vista.” E a literatura de Hilda Hilst, nessa fase chamada de pornográfica, debruçou-se sobre o ato de criação literária e o discurso, a fim de demonstrar com o grotesco do discurso de seus personagens a relação entre escritor e mercado.
Para tal, Hilst estabelece três planos: o do leitor, o do escritor e o do editor. Entre o autor e o leitor há uma relação dialógica socratiana, pois o leitor do texto que está sendo escrito é convidado a revelar os seus desejos sexuais mais obscenos, que são a todo o momento descortinados com escárnio pelo escritor, que no caso de Cartas de um sedutor (1991) é representado pelo irmão bissexual de Cordélia, que tenta extrair dela a confirmação sobre a relação incestuosa dela com o pai deles.
Em Contos d’ escárnio (1990) Crasso, escritor-narrador provoca o leitor, com a intenção de auxiliá-lo a trazer a tona o conhecimento sobre si e os outros numa tentativa de buscar a essência humana, via o erotismo contido no sexo oral, que se configura na busca do sublime, que pelo homem é captura em instantes de beleza plástica, cuja língua ambígua órgão de prazer sexual e de oralidade aproxima o homem do seu Criador.
Ao utilizar esse processo de extração singular da essência humana e atingir as raízes metafísicas do ser, a prosa hilstiana se comporta como uma anti-esfinge, à qual se dirigem os homens em busca de um saber, que não está nela e sim neles. Este processo provoca um hiato entre a produção literária de Hilda Hilst e a recepção de sua obra, e distancia a autora do público. Este problema na obra de Hilda Hilst se reflete constantemente nos autores personagens dos livros, em estudo, que são todos fadados ao fracasso. A partir dessa descoberta, muitas leituras se sucederam de tal forma que um embrião das idéias sobre a produção ficcional hilstiana tomou corpus de um artigo que pretende trabalhar a questão da relação criador, escritor e Deus, com a criatura, a criação literária bem como outros elementos ligados a paródia, a intertextualidade, a carnavalização e ao grotesco do discurso hilstiano, que abrem perspectivas para adentrarmos ao universo da criação literária dessacralizante da ficção contemporanea, que no caso da ficcionista estudada funciona como um desabafo de seus personagens como ocorre no romance Cartas de um sedutor e o conto “Bestera”.
 
Cartas de um sedutor: um contato entre criador e criatura
 
Não sejamos ingênuos, caro leitor, pois na modernidade, nada é por acaso e a obra literária nasce desejo incessante do escritor de transpor as barreiras entre ele e o leitor, fazendo-se muitas vezes passar por um antinarrador ou vários antinarradores, que se ocultam nas amarras do texto. E no gran finale, ele escolhe um título, que não tem nada de acaso, mas sim de caso pensado como ocorre em Cartas de um sedutor, pois a trama do livro tem como proposta a história d alguém que escreve para alguém tentado seduzi-lo para que seu texto não apenas seja lido, mas que ele possa ser uma ponte entre ele criador e a criatura. Assim a obra, que se converte para Hilda Hilst em um ato litúrgico de encontrar-se com Deus.
Encontrar-se com Deus na obra erótica, remete-se a questão do desejo, como “ a supressão do limite. Em seu primeiro movimento, ele pode ser definido pela existência de um objeto de desejo” (BATAILLE, 1986, p. 121), que se configura na obra hilstiana em buscar o criador. Assim ao citar Deus em uma de suas passagens, quando o irmão sedutor relata para Cordélia a receptora de suas cartas, um sonho, no qual “o próprio Deus com a face de andarilho ou daquele vadio do pneu” (2002, p. 62) o exibia como se fosse um troféu como metáfora da relação de poder entre criador e criatura.
Os dois elementos questionáveis nessa cena são o erotismo como a suspensão de limites e o objeto de desejo.Os limites suspendem-se nessa cena, quando o personagem sedutor se antecede dizendo que foi um sonho, no qual ele criatura estaria sendo exposto por Deus como sendo um objeto, um objeto de desejo do criador. Desejo que se manifesta em toda a obra, pois ela é escrita em simulacros, pois um antinarrador instaura um personagem Stamatius, um escritor mendigo, que por sua vez cria os textos eróticos em forma de cartas do irmão sedutor para sua irmã Cordélia, nos quais ele expõe todos os seus desejos sexuais e os que a irmã poderia ter, bem como a relação edipiana entre ele e o pai. Stamatius, o criador, como um Deus, irá expor os seus personagens e seu objeto de desejo, que nesse caso se volta para o sexo, em todas as suas formas de transgressão, que Bataille (1986, p. 3) determinou como a prostituição, o incesto e a orgia, que irão caracterizar os movimentos realizados pelo sedutor para tentar com suas cartas extrair de sua irmã a verdade, centrada em duas questões: o incesto entre ele e ela e entre o pai deles e Cordélia ; a homossexualidade do pai deles com o negro John Pater.
Sob esse arcabouço erótico, há alguns pontos que merecem destaque como a crítica feita pela autora sobre o endeusamento dos escritores, que ela desmascara aos poucos, revelando a verdadeira face desses semideuses de duas formas: uma por várias trechos, que escancaram a construção do mito de seriedade, dizendo: “Tenho horror de escritor. A lista de tarados é enorme. Rimbaud, o tal gênio: catava os dele piolhos e atirava-os nos cidadãos. Urinava nos copos das gentes nos bares.” (HILST, 2002, p. 74) e por aí a antinarrador hilstiano, na voz de Stamatius, desfia um rosário sobre todos os poeta e prosadores, tentando demonstrar o quanto o criador se importa com o público e com a criatura, a obra.
Para corroborar com a dessacralização da Literatura e do escritor, há a citação na qual o irmão sedutor, emissor das cartas compara Cordélia, a receptora, com Madame de Stäel: “Quem sabe me enganas e és na verdade uma madame Stäel e ris das minhas cartas?”( p. 71). Ao fazer essa comparação ele abre uma perspectiva de que a escrita dele seria algo tão insignificante se fosse lido, por alguém, que segundo a Historiografia Literária, teria no século XIX feito um tratado, que fora um divisor das águas entre a Literatura, que hoje conhecemos como tal e o conceito de Literatura até então. Ao mesmo tempo em que o antinarrador diminui os nomes ícones da Literatura, ele alavanca, o nome do escritor anônimo Stamatius, que desiste de seu lugar na vida burguesa e se dedica a escrever de fora da sociedade, expurgando os seus demônios nas cartas do sedutor, nas quais o objeto de desejo do criador, o escritor, e da criatura, o personagem se fundem no erotismo de um discurso que dirime os limites dos corpos e da relação entre os órgãos genitais e o pensamento filosófico do homem moderno, pois tudo convive num cosmo, no qual Deus, na sua onipotência, cria o homem para que com ele possa realizar seus desejos mais íntimos.
A obra Cartas de um sedutor joga entre dois opostos, de um lado há o criador, o escritor, e do outro a criatura, a obra, numa metáfora da relação entre Deus e o homem.A forma encontrada pela anti-narradora hilstiana, a fim de entrelaçar os dois opostos foi utilizar o ars erotic como um invólucro, que esconde por trás de cenas picantes e desabafos do irmão sedutor, duas questões importantes dessa fase de H. H.: a dessacralização da Literatura e de seus ícones bem como a figura do autor e sua relação com a sociedade e a criação literária
A forma encontrada pela antinarradora hilstiana para demonstrar a criação literária de Stamatius foi dividir o texto em sete partes. Dessas há quatro contos, denominados: “Horrível”, “Bestera”, “Sábado” e “Triste”, cujos assuntos giram em torno da relação entre Eros e Tanatos, na qual a suspensão da vida abre perspectivas para a visão interior do eu poético do personagem numa mistura de prazer sexual e espiritual de sua existência como criatura de um texto escrito por um escritor fingido, que busca em Eulália, sua amante, a resposta apreciativa quanto a sua escrita, mas ela nunca o ouve e se ouve não entende o que ele escreveu, nem a beleza de suas missivas. O conto “Triste” se encerra com o seguinte comentário: “…nem tudo pode ser arrumado, arruma-se o que sepode” (Hilst, 2002, p. 114). Esse texto encerra a idéia do personagem, um homem, um anônimo, que aparece numa cidade com um maço de papéis escrito e repete muitas vezes essa mesma frase como que dizendo para si mesmo, que a escrita é um ato de escrever e reescrever na medida do possível até a morte.
 
O conto “ Bestera”: é tudo uma besteira, uma brincadeira de esconde-esconde
 
Seria bom, a princípio informá-lo, leitor, que o livro Cartas de um sedutor é um romance, que narra o ato de escrever enxertando: se o termo fosse de bom grado, embora enxertar seja mais propício para gado,( desculpe o trocadilho) alguns contos, dos quais escolheremos o denominado de “Bestera” (p. 101-107) para uma análise. A propósito deste conto, farei alguns comentários sobre as características da obra hilstiana, tais como os elementos paródicos, intertextuais, carnavalizados e grotescos do discurso hilstiano, que abrem perspectivas para adentrarmos ao universo da criação literária dessacralizadora da ficção contemporanea. No caso da ficcionista, o texto funciona como um desabafo de seus personagens escritores contra o mercado editorial e o público.
Os elementos paródicos e intertextuais estão juntos nesse conto, pois há a intertextualidade como forma paródica em via de mão dupla, sendo uma quanto ao nome da empregada da senhora Leocádia, que “Chama-se Joyce (!)”. (HILST, 2002, p. 101), e mais à frente o narrador diz que a moça perguntou se Leocádia conhecia Chesterton, um humorista inglês. Somente nesse parágrafo pelo uso do ponto de exclamação e da alusão ao humorismo inglês, há uma referência implícita a James Joyce, pois o sinal de pontuação ao exclamar faz uma paródia do espanto causado pela obra de James Joyce, que sempre foi tida como de difícil entendimento. Ao citar o nome Chesterton, em referência ao caricaturista e humorista G. K. Chesterton,, o texto hilstiano sugeri mais paródia, que incorpora da arte a caricatura como forma de representação do mimética do grotesco.
A outra refere-se a paródia intertextual com Wittgeinstein, quando a personagem Leocádia refere-se ao seu amante jardineiro, que era tão desgostoso com a vida quanto o filósofo acima citado, desmisficando assim o pensamento filosófico como fruto de uma mente voltada para a razão e sim para a emoção evidenciada no sexo desmedido do serviçal do jardim e da cama da patroa.
A carnavalização e o grotesco no conto desestabilizam situações socialmente aceitas como verdades: uma quanto à relação entre juventude e velhice e a outra quanto ao conceito capitalista, que divide a sociedade em patrões e empregados. Na primeira o grotesco fixa-se no fato de Leocádia esconder o rosto com uma fronha bordada ao transar com um garoto de programa, que foi arrumado pela empregada. E ao final quando ela começa a ter relações sexuais com o Bestera, ela diz: “Estou feliz. Até já tiro a fronha” ( p. 107). Ou seja, ela já não precisa esconder o grotesco de suas rugas e o que antes, a empregada considerava como empecilho para arrumar-lhe um “caso” passou a ser diluído pela força de um discurso, que transformou o grotesco em comum.
Na segunda, há a carnavalização como processo de inversão de valores e de posições, pois a empregada passa a avaliar a patroa sob a visão contemporanea de beleza, pois ela pede para Leocádia levantar as saias e depois diz “Senhora, retrucou, será bastante difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise…” (p. 101). Ao pronunciar uma colocação pronominal mesoclítica, a empregada sente náuseas que a fazem ir ao banheiro e vomitar, num ato de repugnancia, que na primeira leitura pode ser pelas feições da patroa, contudo, a empregada, logo após se desculpa dizendo que seu problema se refere a Língua Portuguesa. A carnavalização é um recurso, nesse texto, que dessacraliza as relações de poder entre empregados e patrões; e entre a Língua Portuguesa e seus falantes.
A nudez da mulher em relação a eroticidade, segundo Bataille funciona como uma oposição “ ao estado normal, que tem certamente um sentido de negação” ( 1987, p.123), cujo tópico do conto “Bestera” fixa-se na nudez de Leocádia, uma senhora idosa, cujos traços envelhecidos pelo tempo negam todas as possibilidades de prazer, segundo a ótica da empregada e do primeiro garoto de programa, que a visita, mas que o dinheiro pago por Leocádia, derruba todas as barreiras impostas pela sociedade.
A questão financeira é corroborada pela história contada pelo garoto de programa que fala de seu amigo Bestera, que recebeu esse nome porque se negou a transar com um rapaz. Assim ele ficou sendo chamado de Bestera, pois “todo mundo achou uma bestera, porque com grana a gente mete em qualquer buraco” (p. 106).
Tanto esse conto com os outros de Hilda Hilst, nesse romance, terminam com um diálogo entre Stamatius e Eulália, representando a relação entre escritor e leitor. Assim Eulália diz: “tadinha da véia… mas ela se divertiu né? Agora se achegue… pára de escrevê, descansa, vem cá…hoje é sábado” (p.107) encerrando o texto com a constatação de que para o leitor comum não interessa o trabalho realizado pelo escritor, nem muito menos os elementos da narrativa, nem tão pouco o trabalho da enunciação, o que vale para ele é o enunciado.
 
Conclusão
 
A obra Carta de um sedutor (1991) e o conto “Bestera”, de Hilda Hist, nesse artigo, funcionam apenas como um sinalizador do quão vasto pode ser um trabalho de análise do texto erótico, principalmente de uma escritora que tentou escrever uma literatura pornográfica com o intuito de atender o mercado editorial, mas que não obteve êxito, pois continuaram dizendo que seus textos eram difíceis.
Assim ao ler e analisar essa obra é possível ao leitor abandonar o ponto de vista de que a literatura hilstiana seja tão hermética que mesmo ao escrever textos pornográficos, a escritora não conseguiu atingir o seu público, pois uma leitura livre de preconceitos acadêmicos, leva-nos a ver em Hilda Hilst uma forma de experimentar a visão do outro. Uma visão redimensionada, que tem como foco o outro que convive com o ato de criação e a produção do texto, sempre, de forma solitária e muitas vezes não em função de suas aptidões e interesses literários, mas sim daquilo que o mercado pede para ler.
Hilda Hist talvez seja na literatura brasileira, um dos casos mais excêntricos, que pede um estudo detalhado, aberto à perspectiva do novo, da ruptura, que não seja mais aquela ruptura, que leve o momento histórico-literário a criar grandes gênios, mas aquela, que busca nos resíduos da nossa sociedade, pontos críticos de tudo aquilo que é considerado como ícones do pensamento contemporaneo.
 
Referências Bibliográficas
BATAILLE, G. O erotismo. 2a ed. Trad. Antônio Carlos Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987.
BAKHTIN, M. Problemas da Poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra. 3a ed.Rio de Janeiro: Forense,2002.
BERND, Z. “Função dessacralizadora da literatura”. In. Literatura e identidade nacional2a ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.
EPSTEIN, J. O negócio do livro: passado, presente e futuro do mercado editorial. Rio de Janeiro: Record, 2002.
FOUCAULT, M. História da Sexualidade2a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
HILST, H. Cartas de um sedutor. São Paulo: Globo, 2002.
HILST, H. Contos d’ escárnio: textos grotescos. São Paulo: Globo, 2002.
HUTCHEON, L. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
VÁRIOS. Cadernos de Literatura Brasileira: Hilda HilstSão Paulo, Instituto Moreira Salles, v. 8, 1999.
WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Trad. José Carlos Buni. São Paulo: Nova Cultural, 1999.





Bio fornecida pelo palestrante.

ENTRE O SER E O ESTAR: A MULHER NO UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON




Resumo:
A pesquisa tem o objetivo de analisar o conto I Love My Husband de Nélida Pinõn, e para isso buscou-se fundamentação em teorias que discutem o conceito de escritura feminina. A análise do conto detém-se na reconstituição do universo feminino perante à situação de uma personagem subjugada a um contrato social, no caso o matrimônio.
ABSTRACT: The research has as its aim the analysis of the short story I Love My Husband de Nélida Pinõn. It is based on several theories that discuss the concept of feminine writing. This analysis dwells upon a plot in which Nélida Piñon rebuilds the feminine universe of a character entangled in a social contract, i. e., marriage.
PALAVRAS-CHAVES: Literatura – mulheres – Nélida Pinõn – representação – universo feminino.
KEY WORDS: Literature – women – Nélida Pinõn – representation – feminine universe.
Texto:

 

ENTRE O SER E O ESTAR: A MULHER NO UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON

 

Níncia Borges Teixeira

 
 
“Um texto descoberto em um arquivo empoeirado não será bom e interessante, só porque foi escrito por uma mulher. É bom e interessante porque nos permite chegar a novas conclusões sobre a tradição literária das mulheres, saber mais sobre como as mulheres desde sempre enfrentaram seus temores, desejos e fantasia e também as estratégias que adotaram para se expressarem publicamente, apesar de seu confinamento ao pessoal e ao privado”.
 

Sigrid Weigel[1]

 
O mundo feminino, tal como ele se revela no universo literário do passado, pode ser captado, fragmentariamente, na literatura feminina do presente. As mulheres de hoje, por meio de sua escrita literária, revelam acerca do processo de autoconscientização de sua condição feminina, num mundo em acelerada mutação.
Em meio às grandes modificações político-econômico-sociais que se aceleraram no século XX, as relações homem-mulher foram profundamente alteradas e, conseqüentemente, alterou-se o sistema familiar: a mulher transpõe os limites do lar, no qual há séculos cumprira o papel de “rainha do lar”, que o sistema patriarcal lhe destinara, e ingressa no mercado de trabalho. Contemporaneamente, ingressara para cumprir o novo papel que o sistema econômico lhe exige. Ingresso que, como sabemos, teve, e ainda tem, fundas conseqüências, não apenas no ambito familiar, mas também no plano político-econômico, além do ético, e está longe de ser resolvido.
A necessidade da descoberta de uma identidade própria é tema central neste tipo de literatura. As mulheres que, historicamente, cumprem com demandas e papéis impostos socialmente, perguntam-se, principalmente ao logo do século passado e no momento presente, quem são, como desejam ser, como não querem mais ser. Esta pergunta sobre novas identidades e sobre a busca de novos caminhos é central nas referidas narrativas, nas quais a presença de um espelho é freqüente, objeto que faz referência clara ao universo feminino. Mas, nos textos em questão, o espelho tem um objetivo inovador, não mais para exaltar frívolas vaidades e projeções fúteis, mas para servir como o lugar, o espaço que possibilita a indagação sobre novos desejos, ou mesmo, sobre o rompimento de velhas imagens que não servem mais.
A escritura feminina constitui o olhar diferenciado, o olhar das minorias. A temática da escritura feminina é resultante do “estar” no mundo, abordando o retrato das vivências da mulher no seu dia-a-dia. Segundo Luiza Lobo:
 
 
(…) o canone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje[2].
A literatura de autoria feminina precisa criar o seu espaço próprio dentro do amplo universo literário mundial. Desde fins do século XIX e principalmente no século XX, a principal transformação pela qual passou a literatura de autoria feminina é a conscientização da escritora quanto a sua liberdade e autonomia e a possibilidade de trabalhar e criar sua independência financeira. Ocorreu, assim, a mudança da condição “feminina” para a condição “feminista”.
Desde a década de 1970, a consciência do corpo e o questionamento da existência, com a maciça entrada das escritoras na Universidade, pelo menos desde a década de 1950, tornaram suas vozes mais intensas. As escritoras passaram, então, a expressar suas realidades. Até muito recentemente, a crítica feminista não possuía uma base teórica. Assim, a crítica feminista era um ato de resistência, uma confrontação com os canones e julgamentos existentes. Enquanto a crítica científica lutou para se purificar do subjetivo, a crítica feminista reafirmou a autoridade da experiência.
Existem duas formas de crítica feminista, e misturá-las é permanecer num território confuso. A primeira forma é ideológica, diz respeito ao feminismo como leitura e oferece leituras feministas de textos que levam em consideração as imagens e os estereótipos das mulheres na literatura e as omissões e falsos juízos sobre as mulheres na crítica. A leitura feminista pode ultrapassar estas considerações; pode ser uma ação intelectual que busca a libertação, como propõe Adrienne Rich:[3]
 
 
Uma crítica radical da literatura feminista mostraria como vivemos, como temos vivido, como fomos levados a nos imaginar, como nossa linguagem nos tem aprisionado, bem como liberado, como o ato de nomear tem sido uma prerrogativa masculina, e de como podemos começar a ver e nomear, e, portanto, viver de novo.
 

Buscando a escritura feminina

A leitura feminista ou crítica feminista é, em essência, uma forma de interpretação, uma das muitas que qualquer texto complexo irá acomodar e permitir. Mas, a crítica feminista só pode competir com leituras alternativas. Kolodny[4], teórica da interpretação feminina afirma:
 
 
Tudo que a feminista está defendendo, então, é seu próprio direito de libertar novos (e, talvez, diferentes) significados destes mesmos textos; e, ao mesmo tempo, seu direito de escolher quais os aspectos de um texto que ela considera relevantes, pois ela está, afinal de contas, colocando ao texto novas e diferentes questões. Durante o processo, ela não reivindica que suas leituras e sistemas de leitura diferentes sejam considerados definitivos ou completos estruturalmente, mas somente que sejam úteis para o reconhecimento das realizações específicas das mulheres como autoras, e que sejam aplicáveis na decodificação consciente da mulher como signo.
Toda crítica é revisionista, pois questiona as estruturas aceitas. Portanto, a crítica feminista revisionista retifica uma injustiça e está construída sobre modelos já existentes. Contrapondo-se à teoria crítica masculina, ela tem como objetivo suplementar, revisar, humanizar conceitos baseados na experiência masculina e apresentados como universais.
A segunda forma da crítica feminista é que se propõe analisar a mulher enquanto escritora e sus tópicos são a história, os estilos, os temas, os gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres, a criatividade feminina. Como não existe um termo para este discurso crítico especializado Elaine Showalter o define como ginocrítica. A ginocrítica não pretende mais reconciliar pluralismos revisionistas, mas apenas aquilo que faz a diferença nos escritos das mulheres.
O conceito da écriture féminine, estabelece a diferença feminina na língua e no texto, possibilitando uma maneira de se discutir os escritos femininos que reafirmam o valor do feminino e identificam o projeto teórico da crítica feminista como a análise da diferença. Tecnicamente, não se poderia falar em literatura “feminista” antes que o termo fosse cunhado, na década de 1960.
Para Luiza Lobo :
 
O termo “feminino” vem sendo associado a um ponto de vista e uma temática retrógrados, o termo “feminista”, de cunho político mais amplo, em geral é visto de forma reducionista, só no plano das ciências sociais. Entretanto, deveria ser aplicado a uma perspectiva de mudança no campo da literatura. A acepção de literatura “feminista” vem carregada de conotações políticas e sociológicas, sendo em geral associada à luta pelo trabalho, pelo direito de agremiação, às conquistas de uma legislação igualitária ao homem no que diz respeito a direitos, deveres, trabalho, casamento, filhos etc. (1999: 4).
 
 
Considerando que o texto literário feminista é o que apresenta um sujeito consciente de seu papel social, sempre houve autoras “feministas” dentro do contexto de suas épocas, tornando-se o termo impróprio apenas por uma questão cronológica. Como exemplo, Safo e Sóror Juana Inês de la Cruz são possuidoras de uma consciência política ou esclarecida de sua existência em face da história que são excepcionais para seu tempo, e poderiam ser eventualmente identificadas com o “feminismo”.
A alteridade, ou seja, a ênfase na diferença, da literatura de autoria feminina tornou-se a base da abordagem feminista na literatura. Ser o outro, o excluído, o estranho, é próprio da mulher que quer penetrar no “sério” mundo acadêmico ou literário. Não se pode ignorar que, por vários motivos sócio-político-culturais, a mulher foi excluída do mundo da escrita – só podendo introduzir seu nome na história através das fendas que conseguiu, arduamente, abrir.
Na literatura brasileira, até o presente momento, considera-se o romanceUrsula (1859) de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, a primeira narrativa de autoria feminina. O romance reduplica os valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história. Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor.
Mais recentemente, a preocupação em ser sujeito da própria escrita, deixando de ser só uma representação literária na ficção masculina, tem como principais expoentes (entre outras): Clarice Lispector, Sônia Coutinho, Maria Adelaide Amaral, Lya Luft e Nelida Piñon.
 
 
Nélida Piñon: a palavra como elo literário
A estréia de Nélida Piñon na literatura foi com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, que trata do tema do pecado, do perdão e da relação dos mortais com Deus através do diálogo entre a protagonista e seu anjo da guarda. Desde o início a escritora filiou-se ao movimento que, depois de Guimarães Rosa, se orienta pela renovação formal da linguagem. No romance Fundador, publicado em 1969, Nélida Piñon abandona a base realista que comanda a criação literária analógica do mundo e põe em cena personagens históricos e ficcionais, criando um mundo eminentemente estético. Segundo Leodegário Azevedo Filho,[5] Nélida “desde cedo pressentiu que a língua, convencionalmente centrada no lugar comum do Código, deveria ser abolida do seu processo criador, dando lugar à linguagem. Em outras palavras, para ela um texto literário sempre esconde uma cena latente por detrás do significado linear da cena manifesta. No seu processo de criação, desde cedo percebeu que a cena latente devia valer mais que a cena simplesmente manifesta”.
Ao longo de mais de 35 anos de ininterrupta atividade criadora, Nélida Piñon é um testemunho de que, entre as possíveis maneiras de se exprimir que o homem tem a seu dispor, a palavra é aquela que mais diretamente o põe a nu consigo mesmo, quer diante dos seus problemas individuais, quer frente às suas mais dramáticas contradições enquanto ser social, político, cultural, economicamente determinado. Daí a sua consciência da função do escritor, que não deve se limitar apenas a criar, sua tarefa máxima, mas também deve emprestar sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo em um país como o Brasil, onde é preciso fazer com que o povo reflita sobre a sua realidade e reivindique uma realidade melhor e mais justa. Tratando das questões universais como o amor, o fracasso, a esperança e a morte, a escritora busca, em seu ofício de paixão pela palavra, a desregulamentação dos sentimentos humanos banalizados pela vida cotidiana.
 
 
Entre ser e o estar: depois da conscientização, a escolha
No conto “I Love my Husband”, a autora constrói um universo, no qual anarradora é educada dentro de rígidos padrões moralistas, e mesmo depois de casada continua subjugada ao marido e atrelada rígidas regras do jogo social. A situação social da personagem tem importancia à medida que representa condicionamentos impostos por práticas sociais.O homem é o detentor do poder, a mulher passa, então a ser sua propriedade: “E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa” (2000: 452).
O tema predominante nesse corpus textual é a busca de uma identidade autodefinida e autônoma, a autora num esforço de nortear o próprio ser num nível ficcional, subverte e reescreve as imagens tradicionais sobre o feminino. Nessa busca do próprio ser, a escritora mantém este posicionamento diante da escrita: como escritora em frente ao espelho, torna-se testemunha das respectivas condições socioculturais ou como sujeito discursivo, que procura uma identidade textual própria. As estratégias desta representação se manifestam na transcrição ou na reescrita de ícones tradicionais do feminino – como, por exemplo, da mulher resignada – ou na criação de máscaras novas pessoais. Assim a própria Nélida Piñon nos fala de seu processo de criação literária:
 
 
Meus textos mais consistentes surgiram de planos estabelecidos antes de ser deflagrado o trabalho de criação. Meu texto é basicamente provisório, uma vez que, ao remetê-lo a nova versão, ganha ele dimensões mais profundas. Cada versão é uma máscara abatida em direção ao rosto verdadeiro. Sem que evite as instruções armadas diante de mim, e de que lanço mão para enriquecer o texto. É então o novo ponto de vista do próprio texto consubstanciando os outros pontos de vista já ali registrados. O texto gera fatalmente um outro texto interiorizado nele mesmo.”[6]
 
 
Nesta obra, as fantasias da narradora são projetadas ao tecido textual, para assim se poder questionar as imagens femininas convencionais: é e por meio da recepção dessas imagens que se pode desconstruí-las e redefini-las. Para reforçar esse processo, a autora utiliza certos meios estilísticos, como a contaminação lingüística, o silêncio, a reapropriação, a subversão e o experimento com a língua definem o tom da expressão literária feminina. Um exemplo dessa contaminação lingüística é o próprio título do conto, o estrangeirismo é utilizado como uma forma irônica de retratar a sua história. O título vai ser incorporado ao texto quando, após uma reflexão apurada de sua própria vida, ela opta por ratificar esse contrato, no caso o casamento, para que isso se efetive, passa a se nutrir de fantasia, foge de sua realidade cotidiana imitando o “ato de pássaro”, neste vôo acontece a transgressão, só que num nível fantástico, imaginário, não deixando, porém , de ser subversão. “Estes meus atos de pássaro são bem indignos, feririam a honra do meu marido. (…) Nunca mencionei ao marido estes galopes perigosos e breves. Ele não suportaria o peso dessa confissão” (2000: 455). Ao final de sua confissão, ocorre a confirmação da ironia embutida no título, quando a narradora, consciente de sua condição, professa “Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido” (2000: 456).
A utilização de uma linguagem simbólica torna sua narrativa universal, isso perpassa toda a obra, Nélida recorre a símbolos recorrentes como contidos nos vocábulos água e casa, dentre muitos outros. “Dentro de casa, no forno, que era o lar, seria fácil alimentar o passado.”(2000:452), ou então “ Sôfrega pelo esforço eu sorvia a água do rio…” (2000: 453). Nestas duas construções, a autora utiliza-se das metáforas para denunciar a situação de opressão a qual vivenciava. No caso do vocábulo “casa”, há toda uma representação do universo feminino, a palavra carrega consigo a força do universo, neste caso representa a força da qual a narradora é detentora; além disso, a simbologia presente nesta palavra, também significa o ser interior, os estados da alma, assim cada vez que a personagem se refere à casa, ela refere-se, na verdade, a si própria. Por outro lado, a utilização da metáfora “água do rio” sugere que a narradora busca a renovação, desejando a morte da situação na qual vive, rotineiramente. E isso vai sendo engendrado no decorrer da narrativa; a personagem busca, por meio da reflexão, respostas para sua situação de opressão. O conflito interior das personagens é que vai gerar, portanto, o desejo de libertação, o desejo da aventura ou a busca do gesto novo, pois se torna urgente descobrir o sentido real da vida, já que todas as coisas têm, além de uma verdade aparente, a sua verdade essencial.
O tema predominante no conto I love my husband é a busca da identidade própria: “Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. “A autora apresenta sua protagonista feminina como uma personalidade dividida internamente, oscilando entre a sua condição de mulher e o grande desejo de se livrar de complexos de inferioridade e da pressão que a impediu de alcançar uma personalidade autônoma. De um lado, a narradora busca sua libertação, o marido na verdade é apenas seu mantenedor, assim há a confirmação do contrato social, ela cumpre sua obrigações de esposa e ao marido cabe ampará-la financeiramente. A esposa para ele torna-se um fardo: “Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo – disse ele” (2000: 452).
Note-se, também, que a narradora não tem coragem de se desvencilhar dessa rede de proteção que se torna o lar, prefere, então, fugir da situação, ignorando, até mesmo sua própria situação de oprimida, “Para esconder minha vergonha, trouxe-lhe café fresco e bolo de chocolate. Ele aceitou que eu me redimisse. Falou-me das despesas mensais. Do balanço da firma ligeiramente descompensado, havia que cuidar dos gastos. Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredir em doze meses. Essaideologia, sustentada pela sociedade ocidental conservadora, justifica esse sentimento de culpa, que nasce como conseqüência de um ato que não corresponde a sua competência reprodutiva, maternal, mais do que como cidadã.Neste momento, a voz interior levanta-se freando seu impulso por liberdade: “Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido. É seu encargo podar meus excessos, a natureza dotou-me com o desejo de naufragar às vezes, ir ao fundo do mar em busca das esponjas” (2000:454).
Desta ficção pode-se, também, dizer que a autora abandona a narrativa centrada na vida pessoal de uma personagem, quase que autobiográfica e se aprofunda no exame crítico dos múltiplos papéis da mulher na sociedade. A análise recai sobre a situação vivida por milhares de mulheres. Que se repete por gerações, no conto é visível esta situação, a cartilha a ser seguida pelas mulheres, é descrita a todo momento: “As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento” (2000: 455).
O tema da “mulher objeto”, freqüentemente vendida num casamento sem amor aparece freqüentemente quando se analisa a situação das mulheres. Percebe-se que elas são aparentemente conformadas com a rotina da vida burguesa, essas mulheres sempre correm o risco de subitamente confrontar-se com o sem sentido de suas vidas, ao lado de seus maridos bem postos nos negócios e dentro de suas casas confortáveis. Esta constatação pode ser observada, no conto, em momentos como estes:
 
 
Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre mal dormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado. Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto (2000: 451).
 
 
Percebe-se, então, que a condição feminina, vivida e transfigurada esteticamente, é um elemento estruturante, não se trata de um simples tema literário, mas da substancia de que se nutre a narrativa. A representação do mundo é feita a partir da ótica feminina, portanto, de uma perspectiva diferente, com relação aos textos reconhecidos pelo canone literário. A mulher, vivendo uma condição especial, representa o mundo de forma diferente. O conto mostra que a personagem passa por um processo de conscientização, não que este discurso se confunda com feminismo, ele traz como alicerce a consciência da situação social da mulher: “Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido.” Esse discurso, presente na escritura de Nélida, subverte a ordem vigente, questiona os papéis sociais, representando a mulher dividida, numa linguagem que também subverte os padrões normais. Ele representa uma tendência altamente significativa do ponto de vista estético e social, pois é uma representação artística da situação da mulher feita por mulheres.
Ao final da narrativa, há a descoberta da “pobreza” por essa mulher confinada e protegida por um bom negócio matrimonial, mas reduzida a mecanicos atos quotidianos de auto-anulação, infeliz e culpada. A descoberta da pobreza dá-se junto com a autodescoberta como consumidora e parasita social, o que, de modo fulminante, desvenda o sem sentido da sua vida e da vida dos homens numa cidade grande que expõe talvez mais duramente os contrastes de uma sociedade injusta percebe-se que, o conto descreve o tumulto privado e interior duma mulher. Diante desse quadro, a narradora permanece ao lado de seu marido, mesmo sabendo que sua vida continuará tão vazia quanto antes, o que muda é que ela se torna consciente de sua real posição no casamento, mas mesmo assim, prefere continuar este pacto social e finaliza dizendo:
 
 
Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, ou me perturbe algum rosto estranho, que não é o dele, de um desconhecido sim, cuja imagem nunca mais quero rever. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido (2000: 456).
 
 
O conto escrito por Piñon exige uma certa rede de relações de complementaridade entre texto e leitor. Não é certo que cabe ao verdadeiro leitor preencher os vazios do texto? No conto I Love my Husband, o leitor depara-se com um texto aberto. Como sempre, será a palavra escondida e não a palavra codificada que nos levará ao verdadeiro sentido da escrita. Nélida lança sobre o universo feminino um olhar penetrante, que tudo vê e devassa. Segundo Leodegário A. de Azevedo Filho “Em sua ficção, o impossível verossímil é sempre preferível ao possível não convincente.” O mundo real, consegue ser desvendado somente por um verdadeiro escritor, porque ao lado da realidade, ele cria infinitos mundos possíveis, como é o caso de Nélida Piñon, em cuja obra vários críticos (nacionais e estrangeiros) trabalham, sem que jamais consigam desvendá-la totalmente. E a razão é simples: a revelação de uma verdadeira obra de arte literária, por mais que se escave nela, nunca tem fim.

Referências Bibliográficas:

 
GOTLIB, Nádia Batella, org. A mulher na literatura. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1990.
HOLLANDA, Heloísa Buarque, org. Tendências e impasses – O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LOBO, Luiza. “A Literatura feminina na América Latina”. Revista Brasil de Literatura, on-line, 1999. Reimp. Registros do Seplic, Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, n. 4, 1997. 40 p.
LOBO, Luiza. “Auto-retrato de uma pioneira abolicionista”, in Crítica sem juízo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992, p. 222-38; “O negro de objeto a sujeito”, idem, p. 205-21.
MORICONI, Ítalo. Os cem melhores contos brasileiros. São Paulo: Objetiva, 2000.
http://www.riototal.com.br/coojornal/academicos-leodegario003.htm.
 



[1] Sigrid Weigel, “La mirada bizca sobre la historia y la escritura de las mujeres”. In: —.Estética feminista. Barcelona, 1986. p. 69-98.
 
[2] Citação retirada do ensaio de Luiza Lobo, “A Literatura Feminina na América Latina”, publicado na Revista Brasil de Literatura (on-line), 1999, reimp. Registros do Seplic, Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, no 4, 1997.
[3] Adrienne Rich citada por Heloísa Buarque de Holanda in Tendências e Impasses- o feminismo como crítica da cultura (1994).
[4] Heloísa Buarque de Holanda cita Kolodny (1994).
[5]Leodegário A. de Azevedo Filho é Professor emérito da UERJ, Titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia. Artigo disponível em:
http://www.riototal.com.br/coojornal/academicos-leodegario003.htm.
[6] III Encontro Nacional de Professores de Literatura, realizado de 28 a 31 de julho de 1976.




Bio fornecida pelo palestrante.

O PODER PATRIARCAL




Resumo:
RESUMO Os “direitos da mulher” já deveria ser um assunto superado, mas ainda o estamos discutindo, em pleno século XXI. A razão é que permanece o preconceito e a marginalização. A pergunta que se faz é: por que? Qual é o motivo essencial dessa histórica segregação, violência e exclusão? Este pequeno trabalho pretende compreender esse problema através dos conceitos de classes sociais e dos reflexos estruturais nas relações sociais. Parte da hipótese de que os seres humanos têm, em sua essência, os atributos considerados hoje como masculinos e femininos, entretanto, as alterações das estruturas econômicas, e principalmente o surgimento da sociedade de classes definiu a hegemonia dos atributos masculinos sobre os femininos. Em suma, os valores femininos são antagônicos aos valores das sociedades de classes.
Texto:

RESUMO
 
Os “direitos da mulher” já deveria ser um assunto superado, mas ainda o estamos discutindo, em pleno século XXI. A razão é que permanece o preconceito e a marginalização. A pergunta que se faz é: por que? Qual é o motivo essencial dessa histórica segregação, violência e exclusão? Este pequeno trabalho pretende compreender esse problema através dos conceitos de classes sociais e dos reflexos estruturais nas relações sociais. Parte da hipótese de que os seres humanos têm, em sua essência, os atributos considerados hoje como masculinos e femininos, entretanto, as alterações das estruturas econômicas, e principalmente o surgimento da sociedade de classes definiu a hegemonia dos atributos masculinos sobre os femininos. Em suma, os valores femininos são antagônicos aos valores das sociedades de classes.
 
Minicurrículo
Maurício Gonçalves Saliba. mestre e doutor em educação pela UNESP de Marília; professor de sociologia e política da Faculdade Estácio de Sá de Ourinhos e do programa de mestrado em Direito da Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro-Fundinopi.
 
Marcelo Gonçalves Saliba. promotor de justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo, mestre em Ciências Jurídicas pela Fundinopi, professor de direito penal das Faculdades Integradas de Ourinhos – FIO.
 

O PODER PATRIARCAL

 

 

Maurício Gonçalves Saliba

Faculdade Estácio de Sá de Ourinhos, S. P.

Mestrado – Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro

Marcelo Gonçalves Saliba

Faculdades Integradas de Ourinhos, S. P.

 
Estamos no século XXI e observamos que o tema “direitos da mulher” prossegue gerando debates acalorados. É fundamental, para compreendermos seus motivos, refletir sobre as causas legitimadoras da permanência do patriarcalismo e dos preconceitos que se expressam em vários aspectos, tais como, as diferenças salariais, o assédio e a até mesmo a violência física. Ainda subsistem instituições, organizações e associações nas quais são vedadas a participação da mulher ou a possibilidade de assumir funções superiores.
A pergunta é: por quê? Por que a mulher ocupa lugar subalterno na sociedade? A resposta estaria na suposta “inferioridade” feminina (em latim, “menos fé”)? Ou, talvez, na sua obrigação “natural” da maternidade?
Acompanhando as discussões e debates, promovidos pelas mais diversas entidades, vimos que o tema continua focado na necessidade das mulheres lutarem pela conquista de maior participação social e política, entretanto prosseguem representadas como figura complementar ao homem. Exalta-se sua importancia, suas diferenças, seu papel na história, suas qualidades e exige-se maior reconhecimento de sua capacidade e competência. Mostrou-se, como exemplo de progresso da mulher, empresárias bem sucedidas, sentadas em seus escritórios destilando ordens e comandos. A grande mídia, de modo superficial e simplista, incita o embate das mulheres contra os homens, como se fosse à ambição individual desses a responsável pela sua opressão. Contudo, nenhuma reflexão foi feita sobre seus motivos ocultos.
A reflexão deve se iniciar com duas constatações fundamentais. A primeira: a mulher não é oprimida e marginalizada em todas as sociedades. A segunda: não foi sempre assim, uma vez que a mulher já esteve em posição superior socialmente. A situação que vemos hoje vigora, há tanto tempo, que a naturalizamos. Mas, para compreendê-la devemos buscar sua gênese histórica.
Fundamentalmente, precisamos compreender que, tanto os homens como as mulheres possuem, em sua essência, os valores que hoje distinguimos entre “feminino” e “masculino”. O comportamento forjado durante nossa evolução é determinado, ao mesmo tempo, por essa dicotomia, independentemente de nosso gênero.
Os masculinos são os referentes à força, disputa, competitividade, objetividade, racionalidade, egoísmo e autonomia. Já os femininos são sensibilidade, cuidado, emoção, cooperação, solidariedade, intuição, espontaneidade e a sensibilidade. Frisemos mais uma vez que essa divisão faz parte do nosso ser, o que independe do gênero.
 
“Pelo contato com vários organismos sociais, tanto primários como secundários, as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo. As diferenças de gênero não são biologicamente determinadas, são culturalmente produzidas. De acordo com essa visão, as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes” (GIDDENS, 2005, p. 106).
 
Na história da humanidade, o papel dos homens e mulheres variou bastante. Mas na maior parte dela o status da mulher foi sempre superior ao homem. Nos primórdios da existência humana eram as mulheres, e os princípios femininos, que governavam o mundo, pois elas tinham o poder de gerar vida e isso as aproximava da divindade. Além disso, a garantia da sobrevivência de um grupo nômade, nas agruras da luta pela vida, dependia da contínua chegada de novos membros e da colaboração entre eles. Eram sociedades igualitárias, de moral coletiva, prevalecendo a cooperação, a liderança pela sedução e o poder do diálogo como persuasão. Nesse período, os símbolos divinos são sempre femininos. As deusas (“grande mãe”) criaram o mundo e tudo que nele existe. Elas eram sempre concebidas como tolerantes, amorosas e indulgentes.
Um pouco mais tarde, quando a força física ganha espaço, ocorre à ascensão masculina se igualando à mulher. Surgem sociedades nas quais o poder de ambos estão no mesmo plano. Os deuses são, ao mesmo tempo, masculinos e femininos, cujo exemplo é o hinduismo, do yin e yang.
Portanto, vivemos governados pelos atributos femininos enquanto estivemos em sociedades sem transmissão de herança, pois não existia a propriedade privada e nem mesmo a guerra, havendo espaço para todos. A partir do aparecimento da propriedade e do Estado, a sociedade se transforma e com ela os princípios que governam o mundo. Surge, nesse período, a propriedade privada e com ela a sociedade de classes. Um grupo de homens concentrará a riqueza em suas mãos excluindo a grande maioria da possibilidade de possuí-la. Os fortes dominam os fracos, impondo-lhes a disciplina do trabalho contínuo e a riqueza se concentra, cada vez mais, nas mãos de poucos privilegiados. O gênero masculino ser torna hegemônico (como até hoje). Com relação à mulher, o declínio de seu status e sua submissão ao homem estão relacionados à necessidade masculina de buscar a descendência legítima. A virgindade é a expressão e manifestação da decadência de sua condição, transformando-se em extensão de sua propriedade. Os símbolos divinos deixam de ser femininos e se transformam em masculino. Deus agora é homem, cria o mundo sozinho e governa de forma autoritária. Os princípios que agora imperam no mundo serão os masculinos. Podemos confirmar essa transformação em várias passagens dos textos bíblicos, tais como no Eclesiastes 7, 26: “Então descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, porque ela é uma armadilha, o seu coração é uma rede e os seus braços são cadeias. Quem agrada a Deus consegue dela escapar, mas o pecador se deixa prender por ela” ou Eclesiástico 25, 24: “Foi pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos”.
A competição, a força e o egoísmo vigoram, substituindo a cooperação e a solidariedade. Os valores femininos passam a ser considerados menores e conseqüentemente próprios de pessoas inferiores; como menores devem ficar restritos ao ambito doméstico. É preciso um poder forte e centralizado, estabelecendo disciplina férrea e autoridade para que servos e escravos trabalhem sob condições deletérias.
Os detentores do poder logo percebem a eficiência desses valores na produção da riqueza, na manutenção de seu domínio e na conquista da supremacia. Os atributos masculinos se transferem para o espaço público, da política, da religião e do trabalho.
De matriarcal passamos para o período patriarcal, já que para a sociedade de classes, dividida entre opressores e oprimidos, os valores femininos seriam desestabilizadores, e exporia ao prejuízo a produção, a eficiência e o próprio poder. Por isso, a partir desse momento, o menino é treinado, desde a mais tenra idade, para ser “homem de verdade”, ou seja, com sentimentos controlados, forte, austero, disciplinador e artificial. Os valores femininos são atribuídos apenas à mulher, pela sua fragilidade.
 
Os clãs, até então nômades, dividiram a terra entre si e se fixaram nela, criando as primeiras fazendas e, a seguir, as aldeias, as cidades, as cidades-estados, e, finalmente, os grandes impérios da Antigüidade. Começou assim, um mundo em que o mais forte ganha pela força, pela guerra. Pelo simples assassinato, pela simples grilagem de terras, os mais fortes matavam os donos das terras menores e mais desprotegidas, faziam das mulheres escravas sexuais e dos mais fracos, trabalhadores escravos ou soldados subalternos (MURARO, 2006, p. 19).
 
Voltemos aos dias de hoje. Se olharmos à nossa volta, perceberemos que vivemos em uma sociedade com valores patriarcais. Talvez o mundo moderno seja mais complexo e civilizado, e a mulher tenha mais liberdade e possibilidades, mas seguimos pelos mesmos princípios, porquanto os atributos femininos continuam desestabilizadores e ameaçadores. Para o sociólogo Ulrich Beck (apud SENNETT, 1999, p. 87) na “modernidade avançada, a produção social de riqueza é sistematicamente acompanhada pelas produções sociais de riscos”. O capitalismo conseguiu a proeza de aguçar a competição e ampliar os conflitos. Nas empresas modernas, mais do que nunca “os fins justificam os meios”, na sanguinária conquista do lucro. O universo empresarial, ao conviver com a competitividade do mercado, pode ser comparado a uma guerra, que como todas faz “vítimas” e provoca “sacrifícios”. Não há lugar para fracos e pusilanimes, porquanto nas relações econômicas é fundamental a racionalidade (no sentido weberiano), a objetividade e a eficácia. Nas trincheiras, ou seja, nas organizações, jamais se pode perdoar ou fazer concessões, sob pena de perda da disciplina e do comando. Não há espaços para o altruísmo, cooperação, a solidariedade e a espontaneidade.
 
Geralmente, quando se fala de ações empresariais imorais ou aéticas há a inspiração de que os fins justificam os meios. O importante são os resultados, pouco importando os princípios feridos para a sua consecução. É claro que tais atitudes não são declaradas mais praticadas (SIQUEIRA, 2005, p. 6).
 
No mundo dos negócios os valores femininos não encontram colocação, uma vez que não seriam eficientes e colocariam em risco os negócios. As mulheres que assumem postos de comando nas empresas agem como homens, ou seja, pelos princípios masculinos. Para participar desse mundo a mulher deve deixar de sê-la. Há uma contradição entre os valores femininos e a sociedade de classes. Sob o domínio desses valores, jamais se produziriam armas ou existiram guerras, uma vez que mães nunca matariam filhos de outras. Da mesma maneira, o capitalismo não funcionaria, já que não se demitiria das fábricas um pai de família em razão da planilha de custos determinando a necessidade de maximização dos lucros. É notório que, em regra, pais-empresários-competitivos, hesitam em transmitir o legado moral de sua profissão aos filhos, pois “nem sempre as qualidades do bom trabalho são as mesmas do bom caráter” (SIQUEIRA, 2005, p. 6).
Enfim, não temos o que comemorar no dia internacional da mulher porque os valores que lhe atribuímos jamais serão aceitos em nossa sociedade. De nada adianta a mulher chegar ao poder, se o fizer sob os princípios masculinos, como nos casos de Margaret Thatcher, conhecida como a “dama de ferro” pela sua força e determinação em deletar os direitos trabalhistas ingleses; ou da Chefe de Estado Americano, Condolissa Rice, que desfila impiedosa sobre os escombros e restos de crianças no Iraque; outras sufocam sua feminilidade acreditando que “ser mulher” é cultuar amores piegas e romantismos de telenovela.
O que precisamos para o século XXI não é da mulher no poder, mas do ressurgimento dos princípios femininos como valores hegemônicos de nossa sociedade. Esses valores não são exclusivos das mulheres, no entanto, por fatores históricos são as principais portadoras. Só há salvação para o planeta e, consequentemente, para a humanidade se reconquistarmos a capacidade de cuidar, de dividir, e de cooperar. Para isso, enfrentar-se-iam forças terríveis, já que são valores completamente opostos ao sistema capitalista e que, eventualmente, causariam a sua extinção.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
BAUMAN, Zigmund, Modernidade líquida. Tradução: Sandra Regina Netz. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.
 
GIDDENS, Anthony, Sociologia. Tradução: Sandra Regina Netz. 4a ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
 
MURARO, Rose Marie. Mais lucro: valores humanos na construção da empresa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
 
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Tradução: Marcos Santarrita. São Paulo: Record, 1999.
 
SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Tradução: Clóvis Marques. São Paulo: Record, 2006.
 
SIQUEIRA, Wagner. As seitas organizacionais. Rio de Janeiro: Forense, 2005.





Bio fornecida pelo palestrante.

THE LIVING-DEAD WORLD IN JOYCE’S CLAY AND MANSFIELD’S LIFE OF MA PARKER




Resumo:
Resumo: O objetivo do presente artigo é analisar os dois contos Clay e Life of Ma Parker escritos respectivamente por James Joyce e Katherine Mansfield, explicando as razões e as técnicas usadas pelos autores mencionados na intenção de expressar vidas frustradas e sem sentido, ou seja, os mundos de vivos-mortos nos quais seus personagens estão inseridos. Palavras-chave: Joyce, Mansfield, vivos-mortos, frustração, Epifania. Abstract: The aim of this article is to analyse the two short stories Clay and Life of Ma Parker written by James Joyce and Katherine Mansfield respectively, explaining the reasons and techniques used by the mentioned authors to express frustrated meaningless lives, that is, the living-dead world in which their characters are inserted. Key words: Joyce, Mansfield, living-dead people, frustration, Epiphany.
Texto:

THE LIVING-DEAD WORLD IN JOYCE’S CLAY AND

MANSFIELD’S LIFE OF MA PARKER

Patricia Maria dos Santos Santana

 
James Joyce and Katherine Mansfield have something in common in their personal lives: both authors left their homelands to try to find their fates abroad.  Joyce left Dublin when he was still very young.  However, his love for Ireland did not allow him to write a single word about any other place; instead, every Joyce’s work is related to his own country.  Clay is a tale from the book Dubliners which is, as the title itself suggests, about Dublin and its people, revealing the social, artistic, religious and politics lives of Ireland.  Mansfield also had such nostalgic feeling in relation to her homeland and also desired to write about it, as she herself once confessed: “I want to write recollections of my own country. Yes, I want to write about my own country till I exhaust my store” (GORDON; 1954:11). Through  her tales, the reader may perceive Mansfield’s descriptions of New Zealand, her homeland, its places and stories as well as Joyce does to describe Dublin.Mansfield’s stories are based on her own experiences of life; they are a little bit personal. There is something existential on these stories, much more related to the insignificance of everyday life and never involving great themes.  Her stories are linked to New Zealand, but not in a political way as Joyce writes.  New Zealand is a source of inspiration as J. Middleton Murry describes:
 
She had suffered in New Zealand, unconsciously and silently as a little child, consciously and resentfully as an adolescent girl. For many years her resentment against New Zealand became as it were the symbol of her resentment against life itself. (MURRY; 1959:81)
 
And further, the scholar concludes: “If ever there were a writer whose life and work were one and inseparable, it was she” (id. ibid: 91).  Therefore, New Zealand may be the responsible for the way she writes her short stories and for the way she positions her characters in relation to life.  Life of Ma Parker is a tale from the book The Garden Party, one of the most expressive books in her career.
Maria and Ma Parker are the two protagonists of each story. Both women are elderly, poor and belong to the working class. Although they have a good nature, their poor condition brings them to an unreal grade of conformity.  Actually, only Ma Parker is able to recognize the frustration life can offer when there is nothing else to wait from life itself. Maria, however, is completely unaware of the meaningless life she has lived.  Maria has a high level of self-esteem, she likes herself and she likes to get well dressed too, considering the example taken from the short story:
 
Then she took off her working skirt and her house-boots and laid her best skirt out on the bed and her tiny dress-boots beside the foot of the bed.  She changed her blouse too and, as she stood before, she thought of how she used to dress for mass on Sunday morning when she was a young girl; and she looked with quaint affection at the diminutive body which she had so often adorned.  In spite of its years she found it a nice tidy little body. (JOYCE; 1975: 72)
 
According to this quotation, Maria looks happy and satisfied with herself, with her body, and her ordinary life.  She remembers her childhood and it seems that almost nothing changed in her routine, that is, she did not get married, she did not have children… The Sunday mass is the only occasion in which she has the opportunity to get well dressed.  And despite this insignificant life she is not only happy, but she also has a positive attitude in relation to her life and to the way she lives: “She arranged in her mind all she was going to do and she thought how much better it was to be independent and to have your own money in your pocket.” (JOYCE; ibid: 73)
Maria uses the word independent to mean that she is alone; she does not have any family (except for Joe and Alphy that are considered her sons).  She is the only responsible for her own life. She is independent because she only depends on herself.  As it was already mentioned, Maria belongs to the working class, she is a servant in a laundry; therefore, it is not difficult to suppose that her money is little and in spite of that she is happy and optimistic.
Clay’s protagonist is described by Joyce with a paradoxical idea, because despite Maria’s ugly appearance that looks like a witch’s with “very long nose and very long chin”, she is a peace-maker, exactly like the matron once told her: “ – Maria, you are a veritable peace-maker” (JOYCE; ibid:71). And this woman is also able to see the good side of every single person or situation, for example: “She used to have such a bad opinion of Protestants but now she thought they were very nice people, a little quiet and serious, but still very nice people to live with.” (JOYCE; ibid: 72)
According to this quotation, some scholars compare Maria to the Virgin Mary herself, having no pride and ready to make peace, with pure heart to change her opinion about someone or things she once disliked.  Actually, Maria is a naïve person and she is not conscious of the terrible life she lives.  It’s a sort of alienation.  This characteristic of alienation is intentional to make the reader understand that Maria also represents Dublin itself and its condition as a Great Britain’s colony.
Ma Parker is a strong woman who has suffered throughout her meaningless life.  According to Gordon, Ma Parker is “a woman on her own in an unfriendly world” (GORDON; 1954:14).  She is, like Maria, a woman who has a good nature; however, her level of consciousness is much better than Maria’s.  Ma Parker realises the sorrows of her life and tries to find a place to cry.  That would be the very first time she was going to cry once she believed she only would be a strong woman if she had never cried. The Life of Ma Parker’s protagonist cannot stand all the pain she is feeling. As she cries, she leaves all her strength behind. It represents the moment she realises she must permit the overflow of her feelings otherwise she would explode with them. And the death of Ma Parker’s grandson is the culminating point of her life’s sorrow. It is the climax of her emotions. Through the boy’s death, Ma Parker understands that life means frustration and that life has not been easy for a woman who could not expect anything good from it, mainly when it took away the only and probably the last source of happiness of her lifetime.  Since Ma Parker became a grandma, it is easy to suppose that she believes it is the end of her existence and there is nothing else to wait for.
While Ma Parker becomes a questioning and desperate woman along the tale for facing the frustrations life had in store for her, Maria, instead, keeps more unaware than ever.  Maria does not realize how hard and meaningless her life is.  When Maria sings “I dreamt that I dwelt in marble halls / With vassals and serfs at my side (…)” (JOYCE; 1975:75), this represents a sad irony because her life is completely different from the song she sings.  The song is like an escape from the reality, is the only way she has to be and to have whatever she dreams of.  However, her dreams will never come true. But poor Maria is so naïve that she is unable to understand the paradox she created when she exposed her dreams.  Because of that, Joe is the one who perceives the sad irony in Maria’s words.
Mansfield’s lyrical use of language makes the reader believe she is more a poet than a writer.  For that reason some critics as Gordon and Berkman believe that her language should be considered much more a diction than a language.  Mansfield’s descriptions are connected to senses.  She is a Realistic writer, but related to Impressionism.  Katherine Mansfield is direct, her way of writing is not vague, naïve or nebulous.  Whenever she writes she knows very well the effect she longs to transmit to the reader.  On the other hand, James Joyce does not transmit a complete picture of things.  Although he is a Realistic writer, he is a Naturalistic one influenced by Henrik Ibsen and Flaubert.  Joyce and Mansfield, as good Realistic writers, give impressions of life as sensorial impressions, for instances, the use of colours, visual descriptions, behaviours and senses.  Berkman affirms:“Miss Mansfield may have been familiar with Dubliners after its belated publication in 1914 though she has left no recorded reference to the book” (BERKMAN; 1951: 159).  It seems that Joyce may have influenced Mansfield during the time she wrote The Garden Party.
            The sensation the reader has at the end of the two stories is a very pessimistic one. Maria and Ma Parker are women who passed through moments that reveal the insignificance of their lives.  But as it was mentioned before, only Ma Parker realises all the frustration transmitted. The two characters may be considered as living-dead persons.  They never had good things from life and now it is too late to wait for something glorious to happen.  Their lives mean death, not only for being in the end, but also for being sad and meaningless lives.  Now it is useless to keep any hope for the future.  Neither Maria nor Ma Parker have conquered everything they have expected from life.
Thus, frustration is a common characteristic of Mansfield and Joyce.  However, the techniques used to catch the reader are different ones.  Frustration to Mansfield is always related to the discovery of something unpleasant, disgusting, involving the existential side of the human being.  Ma Parker’s life has many frustrations until the culminating one that is the loss of her grandson.  She was poor and had to leave her hometown at the age of sixteen and started suffering along her life. She watched the death of her husband, of seven children and a grandson. Besides, she had to bring up six children by herself. The cry she never allowed herself now is about to explode inside her soul, but Ma Parker still cannot cry for not finding an appropriated place to do it. It seems her life is so insignificant that she does not deserve to cry, as if she does not fit in the world. It is worthy to mention that when she was looking for a place to cry, it starts raining and she probably had to return home. It was as if even nature does not want to help this hard luck woman. From the world there is nothing else to wait for than real death, because Ma Parker is already dead during her lifetime, her dreams are already dead and she no longer has any hope inside her. Besides, it can be observed that death is always present in Ma Parker’s life (husband, children and grandson) and these dead people are so alive in her memories that they seem to be more alive than she herself, once her life story is based on the people she has lost. According to Ma Parker’s individual experience of life, Mansfield is able to show readers the frustration of this tale: Death is the only certainty of life, especially of a sad and hopeless life. This pessimistic point of view in relation to the world can be explained according to Katherine Mansfield’s own words: “I adore Life, but my experience of the world is that it’s pretty terrible”(BERKMAN; 1951:196).  Sylvia Berkman wrote in her critical studies about Mansfield that the dualism “Life versus World” never was resolved with harmony along her books and Life of Ma Parker is an excellent example of this: life is not like what we want it to be – life is a sad surprise.
Joyce’s techniques to reach frustration need two important characteristics of his writings: the Paralysis and the Epiphany. Paralysis is incapacity of acting. Actually, it represents the frustration moments themselves.  Most of the times, Joyce’s Paralysis will be related to Dublin, to its problems and to its people.  In Joyce’s opinion,Dublin is the centre of political Paralysis since it was Great Britain’s colony and this way, people have no future and nothing can be remedied.  Finally, according to Hodgart (1978:46) “Paralysis does affect most of the character: they are unable to move out of their social milieu or to take any decisive action to improve their lot”.  In Clay, the Paralysis, i.e., frustration, is present when the protagonist loses the plum cake she had bought, after a careful choice; it is also present in the fact that Alphy and Joe are not speaking, despite the love they feel for each other (Joe’s son has the same name of his brother: Alphy). There is an enormous paradox at this point because although Maria is considered a peacemaker, she is unable to bring peace to the persons she loves.  Another example of Paralysis can be noticed at the moment Maria has a chat with the man in the tram and finds him a gentleman; however, the man was drunk.  One of Irish people’s characteristics is to drink a lot.
            Yet, due to these situations of Paralysis, the moment of Epiphany occurs.  For Joyce, the Epiphany is a moment of revelation of something in its essence, and it may be related to a happy or a sad situation.  The term Epiphany was inspired in the Christian Celebration. It can happen to the main character, to the reader or to somebody else in the story.  In Clay  Joe is the one who has the Epiphany, a sad one. Maria herself does not have the Epiphany although she is the main character.  Some readers may have it or not, depending on the reader’s sensibility.  Joe reaches the Epiphany when he hears Maria singing the song that reflects the opposite side of her real life as it is: a song about love, richness, power and happiness. Maybe when Joe understands Maria’s meaningless life, he also understands the emptiness of his own life.  His Epiphany is completely related to the use of symbols.  The moment Maria plays the Hallow Eve game and she chooses the clay which means `Death` is another significant episode of Epiphany in the story:  Joe realises Maria is near real death, although she is already a living dead woman.
Bearing in mind that the lower classes of any century in every country have always lived such a hard life and that we live in a chauvinistic world where women have tried to conquer their place but it is still quite difficult, it is easy to understand the meaningless life that both protagonists have lived in Joyce’s Clay and Mansfield’s Life of Ma Parker. In Brazil, for instance, there are lots of living dead people that belong to the lower classes. They generally live very far from work, and so they have to leave home very early, returning home very late. They have no choice but taking crowded buses. Besides, they earn very low salaries that do not allow them to spend with entertainment and pleasure. These people live such an insignificant life with no joy, that the only certainty they have from this life is death.
Maria and Ma Parker are poor lonely women with no hope. Maria is unaware and unable to understand her terrible life, and her conformity may represent the situation of Ireland versus England, that is, the situation of the colony versus coloniser. Ma Parker, however, reflects the author’s duality between Life versus World, emphasizingMansfield’s idea that to live is frustrating. Thus, both protagonists can be considered living-dead persons, not only because they did not have brilliant and glamorous lives, but also because they did not conquer their places in the world.  They did not keep anything alive within their hearts, and nobody can live without hope or without expecting that their dreams might come true one day.
September 1998.
 
 
Bibliography
 
BERKMAN, Sylvia. Katherine Mansfield, a critical study. London:Oxford University Press, 1951.
GORDON, Ian.  Katherine Mansfield. New York: Green & Co., 1954.
HODGART, Matthew.  James Joyce: a student’s guide.  London: Routledge & Kejan Parel, 1978.
HUTCHINS, Patricia.  James Joyce’s Dublin.  London: The Grey Walls Press, 1950.
JOYCE, James.  Dubliners.  Britain: Penguin Books, 1975.
MANSFIELD, Katherine. The Garden Party and other stories. New York: Alfred Kroff, 1923.
MURRY, John Middleton.  Katherine Mansfield and other literary studies. Great Britain: R. & R. Clark Ltd., 1959.
TINDALL, William York.  James Joyce: his way of interpreting the modern world. New York: Charles Scribners´ Sons, 1950.





Bio fornecida pelo palestrante.

A IDENTIDADE FEMININA COMO ALVO: CARLOS EDUARDO S. CRUZ




Resumo:
RESUMO: Este artigo mostra a problemática do papel feminino em Portugal e da luta da mulher portuguesa por um lugar de decisão e de controle de si mesma. Será analisado para este fim o conto “Seta despedida”, de Maria Judite de Carvalho. Dessa forma, pode-se relacionar a mudança do perfil identitário da mulher portuguesa a partir da Revolução de 1974, paralelamente à desconstrução da identidade nacional. Esta ocorreu desde o fim do Império Português, apontando uma nova organização social em Portugal, país periférico no mundo globalizado imerso na crise do Capitalismo Avançado.
Texto:

A IDENTIDADE FEMININA COMO ALVO:
CARLOS EDUARDO S. CRUZ

Universidade Federal do Rio de Janeiro

A interdição tácita de não ser feliz, de não viver satisfeita, de não achar que a sua era a melhor das vidas, uma vez que lhe diziam que era, a proibição de revoltar-se. Os livros permitidos e os livros proibidos, as idéias, desejos, sonhos, pensamentos permitidos, as idéias, desejos, sonhos, pensamentos proibidos. O imaginário que não se podia modificar nem pôr em causa. A mulher sem desejo nem corpo, porque só ao homem pertencia o desejo e o corpo. A mãe como um perfil de sombra, transparente a ponto de se tornar invisível, a casa perfeita, ordenada, silenciosa, como se mantivesse no ar, suspensa (Teolinda Gersão, 1982, p. 99).
Na Literatura Portuguesa até o século XX parece haver pouco espaço para as mulheres. Poucas são as autoras publicadas e pouca voz lhes é dada na literatura escrita por homens. A figura feminina aparece renegada frente aos “barões assinalados”. A mulher aparece numa escala menor, segregada ao lar e à terra, enquanto ao homem cabiam a aventura marinheira, a viagem sedutora e o domínio inquestionado das formas de opressão, caracterizando uma “Cultura Marialva”, (Cf. SILVA, Teresa Cerdeira, 2000). Havia uma subalternidade social, física e cultural das mulheres, que eram transformadas em objeto de uso, de trabalho e de prazer. Há, portanto, uma força cultural repressora das vontades femininas.
Além disso, pode-se ver uma forte repressão às mulheres durante a ditadura salazarista. As portuguesas tinham poucos direitos, estando legalmente dependentes e subservientes ao marido ou ao pai. Elas também não tinham voz, sendo excluídas de qualquer participação política pública. O salazarismo usava as mulheres em sua propaganda como repressoras da revolução, pois a elas cabia o papel de apaziguar os homens e criar a família. Essa distinção de papéis na ditadura não é muito diferente da separação que sempre houve na cultura portuguesa. Segundo Magalhães, já no século XV, “a equação “ser português é ser marinheiro” passou a ser uma das bases do ser português e um dos pilares da identidade nacional” (1994, p. 189). Dessa forma, as mulheres eram menos portuguesas do que os homens, pois os homens partiam e as mulheres ficavam.
Somente nos anos 1970 o papel da mulher em Portugal começa a mudar. Isso porque há um reflexo da guerra colonial em suas vidas: seus maridos e filhos vão para a guerra em África, deixando-as sozinhas e mais livres em Portugal. Ou então, algumas esposas de oficiais acompanhavam os maridos para as colônias, defrontando-se com a falência e o caos do império português em decadência. Assim, as mulheres começam a fazer sua própria revolução. Há uma reação feminista à ditadura salazarista, como se percebe com a publicação de Novas Cartas Portuguesas em 1972. Neste livro, o papel superior dos homens na sociedade portuguesa é amplamente questionado e o sofrimento das mulheres é tornado público.
Entretanto, somente com a Revolução dos Cravos, em 1974, as mulheres têm a possibilidade de tentar mudar sua situação. A questão feminista, reprimida com forte pressão durante tanto tempo, aparece em sua forma mais básica desde o início da revolução. Tanto que no filme Capitães de abril, realizado por Maria de Medeiros em 2000, que retrata o 25 de abril, há uma cena em que várias donas-de-casa em passeata clamam que agora era a vez dos homens irem para a cozinha, na expectativa de uma mudança geral dos costumes. Contudo, essa liberdade aguardada por tanto tempo ocorre em meio a uma crise identitária nacional. O processo de globalização instituído pelo Capitalismo avançado força uma hegemonia cultural que leva a crises de identidade, mesmo que as identidades nunca tenham sido muito precisas (Cf. HALL, Stuart 2005). Com isso, grupos periféricos, sociais ou nacionais, buscam fortalecer-se e ter voz, descobrindo-se em meio ao forte poder homogeneizador da modernidade capitalista.
Essa crise é agravada pelos fatores que abalaram a identidade portuguesa nas últimas décadas do século XX. Com a revolução e a independência das colônias ocorre o fim do império mais antigo da Europa e o fim da ilusão mitológica do surgimento de um “quinto império” capitaneado por Portugal. Dessa forma, o fim da colonização aparece como uma forma de confirmação de uma seqüência de fracassos das “conquistas portuguesas”, como lembra Magalhães (2001, p. 324). Como na Modernidade “tudo que é sólido se desmancha no ar” (Cf. BERMAN, Marshall, 1986), um império colonial de séculos e uma tradição de expansão marítima chegaram ao fim. Assim, a idéia de progresso, que arrastou os portugueses para séculos de sucessivas tragédias na tentativa de construção de um grande império, levou a uma sucessão de ruínas que fazem parte de uma catástrofe única, da qual é difícil se desligar. Essas ruínas são fruto da barbárie que acompanha a civilização (Cf. BENJAMIN, Walter, 1994), que, entre outros males, oprime e oprimiu as mulheres ao longo da História.
A Portugal restou voltar-se para si mesmo, a pequena faixa de terra na ponta da Península Ibérica. Entretanto, as forças da globalização passaram a atuar fortemente sobre o país após a abertura política e econômica. A isso se acrescenta o ingresso na então Comunidade Econômica Européia. Essa união não poderia ser menos traumática, já que Portugal não se via um país europeu como os outros. Essa distinção pode ser percebida, inclusive, no personagem Calisto Elói, do romance A Queda dum Anjo (1866), de Camilo Castelo Branco, que sendo português pergunta onde fica a Europa.
Entretanto, é em meio a essa crise que Portugal parte em busca de um novo conceito de nação (Cf. MAGALHÃES, Isabel, 2001, p. 310). O que era o centro de um grande império vê-se como periferia no novo mundo globalizado. Por isso, há a tentativa de reter os traços de oito séculos de história e incluir as vozes periféricas.
Essa discussão identitária só é possível porque ela está em crise (Cf. MERCER, 1990). Contudo, somente após o 25 de Abril foi possível discutir o papel feminino em Portugal com força e liberdade. Essa discussão ocorre também na literatura, com o surgimento de um grande número de autoras em Portugal, ocasionando, através disso, “uma certa feminização do universo ficcional” (MAGALHÃES, Isabel, 1994, p. 203). É nesse contexto que as mulheres portuguesas têm que buscar seu espaço, sua voz e sua própria identidade feminina autônoma. Essa dificuldade é mostrada no conto “Seta Despedida”, de Maria Judite de Carvalho, publicado em 1995. Nele, a personagem principal, a narradora, vive numa busca incessante de ser diferente, de fugir de sua condição apagada e submissa, ilustrando o que diz Magalhães:
Muitas personagens de romances actuais (à semelhança de muitos agentes das minorias nas sociedades) vivem não só um constante processo de procura de si mesmas em terra estrangeira como igualmente um desejo de transformar essa terra estrangeira em terra sua. Ou a tentativa, quase sempre fracassada, de construir identidades plurais, ecléticas, onde se integrem, como reacção à disseminação da identidade própria. (MAGALHÃES, Isabel, 2001, p. 308).
Essa mulher em crise apresenta um dos traços marcantes da Literatura Portuguesa, o desejo de partir, impulsionado por uma continuada nostalgia e um insistente desejo de outra coisa (Cf. MAGALHÃES, Isabel, 1994, p. 192). Essa vontade de partir, de mudança, é o tema de “Seta Despedida”, como pode ser percebido desde o título. “Seta” em busca de uma nova direção, de um novo rumo para a sociedade portuguesa, que precisa englobar as mulheres; e “despedida” por querer dizer adeus ao mundo de opressão e indiferença em que viviam. Logo no início do conto, a narradora apresenta suas lembranças de infancia, de um passado de dificuldade de expressão e de existência. É um passado marcado pela figura do poder exercido pelo pai. Tanto que, quando este sorria, o que era raro como eram raras as representações de afeto, todos deviam sentir-se muito gratificados.
Corroborando com a idéia de submissão feminina, há o constante sofrimento da mãe, que “estava quase sempre com os olhos inchados ou então a descansar” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10), numa tentativa de fuga da realidade por não ter um relacionamento bom com seu marido. Além da mãe, pode-se ver que o sofrimento era algo presente em todas as gerações, tanto que “a avó sempre tinha sido velha, era como se o tempo não pudesse feri-la mais” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10). Afinal, na História da humanidade, a mulher é a que mais sofre com a violência da civilização.
Além disso, nessa família as meninas eram presença “quase sempre indecisas e vaporosas”, que “andam vacilantes por aqui e por ali” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10). São mulheres sem raiz, sem referencial, sem um lugar próprio no mundo. E não tendo raiz, a memória é algo difícil. Por isso, a narradora oscila entre vislumbres de memória e de desmemória, caracterizando a incerteza de sua existência.
Aliás, ao tomar consciência de sua identidade, descobre-se plural, rompendo com a singularidade de sua experiência. Essa pluralização, além de ampliar a problemática discutida para outras mulheres da família, talvez irmãs, ou outras meninas da mesma geração, também aponta para a multiplicidade identitária do sujeito moderno, esfacelado. Ao pluralizar “meninas”, a narradora segue Álvaro de Campos em seu “Lisbon Revisited”:
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar. E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim? (PESSOA, Fernando, 1994).
De forma semelhante, essa variação de si mesma, identificando-se não como uma, mas como várias diferentes, é mostrada no trecho abaixo:
Quanto à menina, às meninas, também se foram apagando, apagaram-se quase por completo, nunca totalmente, claro, delas só ficou quem nesse instante teve uma espécie de vislumbre (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12).
Esse descentramento do sujeito é a própria “casa-arca”, como diz a narradora, numa referência à própria intimidade, que estava “mais ou menos à deriva”. Sem rumo, como uma identidade que ainda não se definiu, um grupo social que ainda não encontrou seu espaço, um país que não procura mais as Índias, uma seta despedida sem alvo.
Essa mulher à deriva ainda seguia como as outras portuguesas, à espera, “à espera sabe lá de quê, à espera de coisa nenhuma” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12), como se não fosse possível desenvolver expectativas. Isso porque essa personagem, crescida sob opressão, não é capaz de aprofundar a questão identitária. Tanto que, apesar de já trazer a consciência plena de sua verdade, não tem coragem de enfrentar a experiência dolorosa de se ver por inteiro no espelho. Entretanto, sabe que sua identidade é cambiante e tem desejo de mudar. Assim, ela está sempre atrás de uma modificação identitária. Ela tem medo de seu próprio eu, tanto que tem medo do grande espelho do hall da casa da infancia justamente por se ver nítida nele.
O espelho é onde é possível manifestar a inteligência e a criatividade no reconhecimento de si mesmo observando e tecendo considerações. Mas nesse espelho ela fica à superfície, mudando apenas a aparência. Ela tenta mudar o tempo todo, pinta o cabelo, muda o batom, mas tudo continua sempre igual. O trágico para ela é tentar e não conseguir se modificar. Como não consegue a mudança de seu papel por conta própria, falhando em seu processo de partida, acaba por desenvolver uma cleptomania. Apoderar-se do que é dos outros é uma experiência de ser outro, de viver como outro. Seu primeiro roubo, uma caneta de uma colega de classe é uma tentativa de ter para si o afeto que a outrem era destinado. Enquanto seu pai raramente sorria, o pai da amiga lhe dava presentes, que podiam ser exibidos. Ter a caneta seria como ser ela também a menina a quem o pai dava presentes, carinho, afeto, atenção. Contudo, seu pai, ao contrário, tinha abandonado a família no dia anterior ao roubo.
Essa identidade cambiante aflige-a a ponto de não identificar claramente outras mulheres, mostrando que o problema do apagamento da personalidade feminina em Portugal era mais amplo do que seu caso pessoal. Na cena da fotografia, ela não tem certeza de quem estava com ela, se era a mãe ou a madrasta que sentia frio. Mais tarde, na reunião em sua casa, também não conseguia confirmar se a mulher do isqueiro chamava-se Ivette ou Arlette.
Sua indiferença e rejeição a si própria estão no fato de ela, por mais que tente mudar, não ter ainda capacidade ou determinação para fazê-lo por inteiro. Sua vida é toda decidida e controlada pelos outros, como ela mesma diz: “Nem rotina tenho, escolheram-na para mim (qual escolheram, nem isso), e eu tenho vivido nela sem dar por nada” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12). Sua vida parece-lhe sem sentido. Os livros deveriam viver em sociedade, como ela achava que também deveria. Contudo, ao se dar conta de que como mulher seu papel no mundo não importava tanto, já não se incomoda com a afinidade entre os livros e sua localização na estante. A percepção dessa vida sem sentido e sem lugar foi um problema para ela, que sempre quis mudar e achar seu próprio rumo, tal como uma seta despedida. Entretanto, “sentia-se num lugar estranho, quieta e um pouco atordoada, e sem bússola” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 26). Num último esforço, ela tenta argumentar com o marido sobre seu desejo de mudança:
– Não te apetecia às vezes mudar? – perguntou ao marido com ar natural e a voz de todos os dias. – Mudar o quê? – espantou-se ele sem exagero. – Sei lá. Mudar. De casa, por exemplo. Nasci aqui, estou farta. Mudar de cara. As vezes olho para o espelho e sinto um cansaço… Tu não? Mudar de língua. De rua. De país. Mudar de vida. Arranjar papéis falsos, sei lá! (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 26)
Apesar de estar disposta a mudar de identidade, de país (vontade marcada inclusive pelo desejo de mudar de língua), de viver uma vida como outra pessoa qualquer (com papéis falsos), por estar cansada de si mesma, não consegue o apoio do marido. Afinal, ele ainda tem o papel hegemônico na sociedade, não deseja mudanças, nem sente os problemas daqueles que estão à margem. A narradora não consegue ainda encontrar sua verdadeira identidade, seu papel na sociedade que está mudando. Ela apenas possui o desejo de mudar, mas não consegue realizá-lo. Em vez disso, continua vivendo tentando ser o outro, adquirindo pequenos bens de outros como se assim fosse conseguir a identidade nova que tanto deseja.
A frustração das “viagens” da personagem-narradora em busca de um novo eu, de uma nova realidade, assemelha-se, assim, à frustração identitária portuguesa dos fracassos das “conquistas” no ultramar. Portugal, segundo sua representação na literatura contemporanea, está tentando descobrir seu novo rumo num mundo globalizado em meio ao caos do Capitalismo avançado. Assim, essa trajetória deve incluir as vozes periféricas, como a feminina, que também está em busca de seu lugar no Portugal pós-25 de abril. Dessa forma, Maria Judite de Carvalho aponta a necessidade de uma luta por uma sociedade redimida, mesmo que para isso seja preciso uma virada histórica sem perspectiva clara, uma seta despedida numa direção que não seja a do progresso, que cria um estado de exceção permanente no qual os vencedores nunca cessam de vencer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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BENJAMIN, Walter (1994). “Sobre o Conceito de História”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. 7Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.222-232.
BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Trad. Carlos Felipe Moisés, Ana Maria Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras.
BRANCO, Camilo Castelo (2002). A Queda dum Anjo. 2Ed. São Paulo: Ática.
CARVALHO, Maria Judite de (1995). Seta Despedida. Mem Martins: Europa-América.
GERSÃO, Teolinda (1982). Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo. Lisboa: O Jornal.
HALL, Stuart (2005). A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 10Ed. Rio de Janeiro: DP&A.
MAGALHÃES, Isabel Alegro de (1994). “Aquém e Além: espaços estruturantes da identidade portuguesa?”. In: O sexo dos textos. Lisboa: Caminho, 1994. p. 187-206.
MAGALHÃES, Isabel Alegro de (2001). “Capelas imperfeitas: configurações literárias da identidade portuguesa”. In: RAMALHO, Maria Irene. RIBEIRO, Antonio Sousa (Orgs.). Entre ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Coimbra: Edições Apontamento, 2001. p. 307-348.
MERCER, K. (1990) “Welcome to the jungle”. In: RUTHERFOR, J. (Org.) Identity. Londres: Lawrence and Wishart, 1990.
PESSOA, Fernando (1994). Antologia Poética. Lisboa: RBA Editores. SILVA, Teresa Cristina Cerdeira (2000). O Avesso do Bordado. Lisboa: Caminho.





Bio fornecida pelo palestrante.

LETRAS PARANAENSES NA ESCRITA DE AUTORIA FEMININA: Adélia Woellner e as Fagulhas da MEMÓRIA




Resumo:
Estudo sobre a escritora paranaense Adélia Woellner e a a importancia da função da memória em sua escrita e para toda a literatura de autoria feminina. O sujeito masculino ou feminino podem ser autores de uma história, mas não se confundem com um homem e uma mulher. A memória é um exercício primordial de encontro da identidade feminina e da mulher, assim como as atividades da mulher da história do cotidiano.
Texto:

LETRAS PARANAENSES NA ESCRITA DE AUTORIA FEMININA: Adélia Woellner e as Fagulhas da MEMÓRIA

Níncia Cecília Ribas Borges Teixeira

A intenção é de abrir o coração e a alma. Demonstrar que tudo é motivo de crescimento e nada é razão para abandonar a trilha da vida.”

Adélia Woellner

Introdução

Ao se analisar um fenômeno social dentro das práticas nas quais ele está inserido, faz-se necessária a determinação de suas características nas diversas etapas históricas do desenvolvimento da vida em sociedade, ressaltando as mudanças, conforme as relações que ocorrem com o progresso científico e tecnológico. Nesse sentido, a histórica trajetória feminina não pode ser entendida como uma sucessão de fatos no tempo, mas como o modo que a sociedade, em condições determinadas, cria os meios e as formas de existência social, política, econômica e cultural.
A reflexão sobre a escrita de autoria feminina remete ao processo histórico que a produz, como fenômeno cultural, bem como as relações de poder e ao confronto de interesses que ocorrem na sociedade e que irão influenciar em seu significado. Dessa forma, acredita-se que é preciso refletir sobre o passado para que se possa compreender o presente.

Na formação da sociedade paranaense, podem-se visualizar traços culturais variados e distintos que se mesclaram e deixaram marcas no comportamento provinciano e conservador de seu povo, especialmente, quanto se refere à conduta feminina. O comportamento da mulher paranaense, conforme o lugar que ocupa dentro dessa sociedade, é permeado de regras e traços de uma sociedade agrária, que exige um comportamento recatado e doméstico próprio dos costumes da vida nas fazendas, regras que estão enraizadas não só na classe dominante, mas que também orientam o comportamento das famílias de classe alta e média, as quais exigem que a mulher tenha uma “boa formação”: escolas religiosas e façam um casamento com bons partidos. Mas, na realidade, sob o manto da permissividade ou do respeito a todas as expressões individuais e coletivas, está um Paraná austero, conservador em suas práticas políticas e sociais, um estado vigilante de seu código patriarcal. Talvez, por toda essa atmosfera, recrudesçam e se perpetuem as regras patriarcais que regiam o comportamento da mulher no século passado.

Apesar das conquistas e de significarem mais de 44% do mercado de trabalho no Paraná, as mulheres continuam enfrentando obstáculos para a ascensão profissional. O rendimento das mulheres é 42% inferior ao dos homens. As trabalhadoras ainda recebem menos porque se inserem profissionalmente em ocupações de menor remuneração, produtividade e prestígio social. Os segmentos que mais absorvem força de trabalho feminina são os mais desvalorizados no mercado de trabalho e os que tendem a propiciar remunerações mínimas, como o setor de saúde, educação e serviços pessoais, principalmente o emprego doméstico. A entrada de qualquer bandeira feminista foi sempre dificultada por essa mentalidade hegemônica, misto de ideologia agrário-burguesa com a regência da Igreja.

A exclusão histórica da autoria feminina no campo institucional da literatura, em especial no Paraná, foi resultado de práticas culturais que privilegiaram a enunciação do sujeito dominante da cultura, o sujeito masculino. As causas do silêncio envolvendo a história literária da mulher encontram-se nos preconceitos que sempre cercearam a escrita feminina.Os críticos literários do passado, em sua maioria homens de letras, sempre tiveram uma atuação determinante na configuração dos cânones nacionais, através de trabalhos acadêmicos.

O feminismo no Paraná tem como principal figura a escritora Mariana Coelho que na obra Paraná mental traçou a história literária de seu estado de adoção. No entanto, mais do que na literatura, é no ensaio polêmico que sempre se distinguiu Mariana Coelho, gênero em que as mulheres deixaram poucas páginas no século XIX. Mariana foi uma defensora aguerrida do feminismo e, segundo Zahidé Muzart (2002), expôs entusiasticamente seu ponto de vista em várias obras, entre as quais se encaixa perfeitamente o livro A evolução do feminismo. Nele, a autora se propôs a fazer, e fez, uma coletânea de informações sobre fatos, dados científicos e pessoas que, de alguma forma, seja com suas ações, produções literárias, projetos de lei e atitudes, puderam subsidiar a defesa da tese feminista, da igualdade intelectual e de direitos entre homens e mulheres. A evolução do feminismo, embora com o mérito de compilar uma quantidade respeitável de informações sobre o tema, não é um clássico. Mariana, obviamente, é um produto de seu tempo e como tal deve ser lida. Trata-se, portanto, de obra, pelo menos em certos aspectos, datada, e a autora, em sua ânsia por subsídios científicos que contribuíssem para a implantação das idéias feministas, recorreu a teorias diversas, algumas próprias de seu tempo mas, atualmente, descartadas e outras, como a eugenia, por exemplo, que se mantém perigosamente circulante.

Nesse inventário, ela registrou a presença e as ações das mulheres nas mais variadas épocas, locais e circunstâncias. Em sua intenção de contribuir para a emancipação feminina, Mariana descreve, em tom apaixonado, feitos gloriosos, corajosos, íntegros ou generosos perpetrados por mulheres, demonstrando assim a freqüente “superioridade” feminina em várias instâncias. Ela investigou a presença das mulheres na religião, na guerra, na política, na administração, nas ciências, nas artes, nas letras, na imprensa e no amor, em diferentes épocas e regiões do globo. Talvez possamos ainda recorrer a uma outra questão: a de que a colonização do interior do Paraná – com a produção de riquezas, através da cafeicultura deu-se muito recentemente e que, numa sociedade agrária, a educação da mulher sempre foi colocada em segundo plano.
A literatura feita por mulheres, juntamente com a discussão sobre a negritude e a literatura homoerótica, é fenômeno significativo dos últimos anos do século XX e se insere na discussão do multiculturalismo. A produção de autoria de mulheres sempre foi excluída, por várias razões, dentre elas o puro preconceito de uma sociedade atrelada a valores patriarcais que reservava à mulher o papel de esposa e mãe. Assim, sua produção sempre foi avaliada como deficitária em relação à norma de realização estética vista sob o ponto de vista masculino. Para Peggy Sharpe (1997), é comum nas Literaturas Coloniais omitir ou sub-representar relatos advindos da voz feminina, só em iniciativas mais atuais é que ocorrem discussões em torno da identidade nacional advinda de várias vozes, inclusive a feminina.
Nas décadas de setenta e oitenta do século XX, o pensamento feminista desenvolveu a teoria dos gêneros como modelo de interpretação das relações sociais e de sua história. Elaine Showalter (1994) propõe uma direção da escritura feminina que se enquadra na estrutura da sociedade. Ela divide a escrita da mulher em: feminina, a que se adapta à tradição e aceita o papel da mulher como definem os homens e feminista, que se declara em rebeldia e polemiza, questionando o papel da mulher; de mulher, que se concentra no auto-descobrimento.
A classificação de Showalter pode ser observada na literatura brasileira e também na paranaense, assim pode afirmar que a escrita de mulheres paranaenses é ao mesmo tempo feminina, feminista e de mulher, pois segundo Nadia Gotlib, isso é possível encontrar na obra de uma mesma escritora.
A escritora selecionada para a pesquisa é Adélia Woellner que questiona o modelo patriarcal em suas obras. Em geral, essa temática se concentra em contos que questionam as relações de gênero, buscando sem encontrar, soluções para impasses criados. O tom impresso nas narrativas concentra-se no íntimo, possibilitando a revelação dos segredos da identidade feminina que reside no cotidiano da mulher.
A escolha da escritora foi feita porque apresenta narrativas vividas e escrita por mulher. Além disso, buscou-se, por meio dessa pesquisa, aumentar o campo de visão que se tem sobre a literatura paranaense, porque ao se falar nesta literatura pensa-se na Curitiba de Paulo Leminski e a de Dalton Trevisan. Há a Curitiba de Paulo Leminski e a de Dalton Trevisan, dois de seus filhotes mais célebres, que revolucionaram a poesia e a prosa. Mas há, também, a Curitiba menos conhecida, porém tão revolucionária quanto, de Adélia Woellner.
 
2 Adélia Woellner e as Fagulhas da Memória

Adélia Maria Woellner nasceu em Curitiba. É Formada em Direito pela Universidade Federal do Paraná.. Foi professora da PUC-PR. Pertence à Academia Paranaense de Letras. Sua obra é constituída pelos seguintes títulos:Balada do amor que se foi (1963), Nhanduti (1964), Poesia trilógica (1972),Encontro maior (1982), Avesso meu… (1990), Poemas soltos (1992), Poemas para amarInfinito em mim (1997), Luzes no espelho (2004), Sons do silêncio(2004). Em suas obras, focaliza a temática voltada à memória, à experiência, ao cotidiano familiar. Em sua relação com o público leitor, Woellner constrói um diálo­go interativo, como avaliação crítica da construção da identidade femini­na, que problematiza a estabilidade em todos os níveis do interagir coletivo. Na raiz de sua escrita, ela revela que as experiências que as mulheres têm de si mesmas e dos outros são formadas por meio de desequilíbrio do poder inerente à ideologia patriarcal. Parte do relacionamento con­sigo mesma, com seu parceiro, famílias e empregadores, Adélia desafia e incentiva todos a desafiarem as polarizações caracterís­ticas dos regimes de gênero.

A obra selecionada para análise intitula-se Luzes no espelho. A presença do espelho, que atravessa a literatura mundial, torna-se motivo recorrente em vários títulos da literatura brasileira atual, sempre associado à busca da identidade. Nas miragens do espelho, ocorre o desvelamento das máscaras que a mulher usa para esconder o que sente e o que finge sentir. Por meio do espelho, encontra-se a identidade. Nessa obra, a escrita de Woellner assume um caráter confessional. O sentido etimológico de confissão é desvelar, manifestar, dar a conhecer, o que já nos insere no universo de desvelamento do eu que a literatura confessional vem suscitar.

É possível perceber em Luzes no espelho, a auto-escrita de um eu personagem, que é, via de regra, (con)fundido com a própria autora. Rica em conflitos íntimos, expectativas violentadas e esperanças desfeitas, essa é uma obra envolvente sobre a mulher e a aventura de viver. A memória na escrita adeliniana comparece fornecendo elementos para compor novas práticas, referenciadas a formas de vida, infelizes e dolorosas vivenciadas, no passado. Insinua-se uma escrita marcada por um tom intimista, confessional, uma estreita relação entre a literatura e a intimidade da vida.

A escrita de Adélia Woellner é marcada por uma grande afinidade entre leitor e obra, fruto da suposta impressão de proximidade que o texto se apresenta. Pela recepção das venturas e desventuras narradas por quem vive suas alegrias e angústias, propicia-se ao leitor um momento para lembrar, refletir e reviver suas próprias experiências. Além disso, tem-se a ilusão de que o escritora se desmascara, desnuda-se por meio de seu texto, dando a impressão de uma proximidade, de uma intimidade entre aquele ser, pessoa física que compôs a obra, e aquele que a lê.

No livro analisado, há a apresentação de um ponto-de-vista particular que individualiza a existência do eu que se inscreve. Como em qualquer literatura, nada pode ser tomado como representação fiel da realidade, mas como possibilidade mimética de construção artística. Adélia, em sua construção literária, remete à volta do eu ao passado para construir o presente. Esse presente que se constrói e que, logo depois de configurado como passado, desfigura as concepções do passado que certamente será alterado com as vivências desse presente. É importante salientar que as memórias, que são formadas a partir de fatos esquecidos, portanto, só se configuram como tal porque se conformaram como esquecidas em determinado momento.

Na obra Luzes no espelho, a escritora passeia pelas descobertas do cotidiano, pelas questões femininas, pela paixão. A escritora afirma que ao escrever “A intenção é de abrir o coração e a alma. Demonstrar que tudo é motivo de crescimento e nada é razão para abandonar a trilha da vida”. As realidades do dia-a-dia e as representações simbólicas são registradas em narrativas que registram com fidelidade as etapas da vida da mulher, tais quais são vistas no mundo, numa linguagem racional e empírica. O universo de sua escrita é o espaço em que pode se libertar dos padrões e transcender o lugar comum em busca dos verdadeiros significados. “O assunto aflora, as palavras surgem aos borbotões. Planto imagens no papel. Quantas vezes, tudo pronto, me surpreendo. Essa sou eu?”

Luzes no espelho é resultado de experiências individuais, da vida privada  e da vida pública. A autora delega à memória a função de re-elaborar sua própria experiência de vida; o resgate simbólico das fases de sua vida (casamento, maternidade, separação, recomeço, concursos e diploma) impressiona pela intensidade. A memória é o locus privilegiado do imaginário, berço de  toda ficção.

Era domingo. Meu pai e eu termináramos o serviço de entrega de pães em torno do meio-dia. Chegada a hora de a caminhonete Ford-41, descansar, pois, afinal, estava funcionando desde as três e meia da madrugada…. Enquanto o motor esfriava, a comida fumegante era servida na mesa simples, retangular, que ficava na cozinha, ao lado do fogão a lenha. Não havia novidade. O almoço de domingo mantinha a tradição: macarrão, posta ensopada, às vezes recheada com toucinho, salada de batata com molho [de] maionese caseiro. Minha mãe misturava as gemas de ovo (uma, cozida, bem amassada, com gema crua) e ia acrescentando o azeite aos pouquinhos, mexendo bem com o garfo, para não talhar. O colorido do molho acentuava e dava brilho à suave cor das batatas cortadas em rodelas. Depois, normalmente, a sobremesa: pudim Medeiros… Em dias especiais e muito raramente, uma gasosa Cini era o acompanhamento festejado. (WOELLNER, 2004, p. 76).

Essa memória, quanto mais enterrada no âmbito do privado, mais frutifica no plano simbólico, atesta Nélida Piñon1 (2002), ao confessar que ao narrar, empreende a viagem ao seu centro, cujas margens ela desconhece. A memória individual é o território do secreto. Espaço  de absoluta privacidade.  Na narrativa de Woellner, recordações  e reminiscências, lembranças e esquecimentos manifestam, ora explicitados ora de forma escamoteada, sob diferentes ardis estratégicos, a permanente  intervenção de material memorialístico na matéria narrada. Pela intervenção da memória, constrói-se a narrativa secreta da vida, que se separa da narrativa oficial (quando não se opõe a ela), construção que tentamos legalizar, não só em relação ao mundo exterior, mas também em relação  ao nosso próprio mundo. E a narrativa secreta é sempre inquietante, subversiva e, no sentido possível deste termo, verdadeira (AGULLOL, 2002, p. 22).

Olhando da rua principal, ali no Alto da Caixa d’Água (hoje av. Castelo Branco, junto à praça das Nações), é difícil supor que, naquela casa grande e bonita, revestida de pedras, existia moderna panificadora: a Marumby, cuidada diretamente pelos dois Osvaldos: o Matte, que a criou e instalou, e o Woellner (Passarinho), seu sócio.

Três e meia da madrugada… Estrelas piscando no céu transparente de Curitiba. O frio intenso indicava que, ao amanhecer o dia, com certeza a geada ainda estaria branqueando a grama e o telhado das casas… e até, a madeira úmida dos dormentes da estrada de ferro e das pontes e pontilhões, tão comuns naquele tempo…

1949… 1950… 1955… os anos passavam e, de terça a domingo, o pão era distribuído, religiosamente, aos “negociantes” e para algumas residências particulares. Segunda-feira era o dia de folga, porque, aos domingos, a folga era dos padeiros.

A maioria dos entregadores de pães utilizava carrinho tracionado a cavalo. Nós, porém, já tínhamos mais conforto: meu pai possuía uma caminhonete Ford-41, carroçaria de madeira, pintada de marrom e amarelo-creme. Bonitona mesmo… Três quilômetros, mais ou menos. E a lama faz escorregar. Acho que não sinto nada. Tenho apenas que entregar o pão dos alunos, que o esperam para o café da manhã.

Sinto-me forte, importante. Nenhuma criança é como eu. Tenho orgulho, porque os amigos do meu pai elogiam meu trabalho.
Já passei da metade do caminho. Agora, o difícil é a descida, sem escorregar no capim molhado. Pela rua, não dá. É muito barro… atola o pé. (WOELLNER, 2004, p.21).

A escrita de Adélia é sobre o eu é, antes de mais, um ato de consciência, um exercício espiritual. O exercício praticado por ela ocupa lugares mentais por excelência, e pelo recurso à lembrança e à memória, a autora recapitula o espaço e o tempo, contribuindo para a elaboração de uma história individual e coletiva. Numa complexa narrativa, o protagonista/personagem torna-se interlocutor de sua própria experiência e de sua inserção no mundo como cultura e como natureza. A narrativa da própria vida lhe dá constituição e se insinua como forma de construção da consciência do estar no mundo. Ela se traduz numa relação da própria literatura com os aspectos íntimos da vida, um espaço edificado sob a égide da intimidade. Busca recuperar a espessura existencial da vida cotidiana, tentando surpreender, na experiência de cada dia, aqueles momentos de resistência do vivido, de insurgência da beleza e da verdade, capazes de dissolver os vínculos da rotina.

Há dois dias estou casada. É noite e estou sozinha no pequeno e simples quarto do hotel de Matinhos. Esse quarto é estranho. Sinto tristeza e solidão. Tenho vontade de sair, ir lá embaixo, assistir, pelo menos; gosto de ver pessoas dançando, soltas, livres. Mas estou presa pelo medo. Choro. Encolho-me na cama, como criança cumprindo castigo. (…) O dia chega e termina. Tento agir como se nada tivesse acontecido. (WOELLNER, 2004, p.30).

O  nutriente de toda obra literária é a imaginação. O que chamamos  de invenção, no campo literário, resulta das operações de linguagem que selecionam e combinam, promovendo articulações  sintagmáticas que tecem um enredo, configuram um personagem, armam uma cena, dando outra cara àquilo que um dia foi  vivido no corpo, reinventando a existência, trazendo à tona tudo o que devia permanecer oculto no território secreto da memória. Na obra de Adélia, autora e narradora se irmanam  igualmente na mesma reminiscência da experiência compartilhada por toda uma geração de mulheres: a contemplação narcísea da imagem refletida no espelho em uma perspectiva em abismo, multiplicando ao infinito  a face daquela que ali se procurava.
Adélia Woellner, ao escrever, constroi um conhecimento sobre si mesma e sobre os outros. A memória é seu referencial, um espaço próprio para suas reflexões, para reelaborar suas experiências de vida, reviver lembranças, recordar e transmitir sua sabedoria. A própria autora revela a importância da memória para a sua existência: “Em algum lugar deste infinito mistério que é meu ser a emoção, a emoção primitiva, brilha e reflete, a memória de todas as eras” (Woellner, 2000, p. 63). Ela propõe um caminho para o encontro com seu eu interior. Sua escrita é existencial, voltando-se mais intensamente para a confissão do que para a ficção. Mostra a vida como um ir e vir, um nascer, um renascer e um retorno:
 

As lembranças se embolam, confusamente: o casamento com o vestido que fora do casamento da prima Leoni, reformado e ajustado pela tia Josefa. (…) modelo lembrança do filme “Cinderela” e nunca esquecido; a viagem de ônibus sem olhar para os lados; a praia, o mar infinito, porém fora do meu alcance. Meu espaço se aperta aqui dentro. Ouço vozes e música. É janeiro (…) Amanhece e chove. (…) Assim é a volta (2004, p. 29).

O universo de Adélia retrata a constante busca pela identidade pessoal, o inefável sentido de existir, encontrados nos pequenos detalhes da vida. Os gestos, as declarações e os lugares comuns provocam uma materialização da memória e, assim, ativam um momento súbito de revelação. Unificar passado e presente para conferir um sentido à própria vida atual. Ou seja, construir a própria identidade. Adélia entende bem este processo, seus contos revelam uma mensagem, uma experiência, uma idéia que fica latente:

Olho-me no espelho, atentamente. Hoje consigo mergulhar no fundo dos olhos e ver ali toda a vida refletida em cada marca dor rosto. As personagens que vivi desfilam em minha frente. O tempo está suspenso. Eu sou uma e sou todas. (…) Nesse espelho falante, máscaras que simbolizam risos e choros, raivas, mágoas, perdas, desafios, decepções, realizações, fracassos, rodopiam como ponteiros descontrolados de um relógio alucinado (2004, p. 117).

 
A escritora registra, por meio de seus contos, suas grandes descobertas, principalmente, a descoberta do seu eu interior, livre, leve que se reconstrói depois de destruir as barreiras do preconceito e da opressão. A escrita de Adélia demonstra que ser mulher não é fácil, sobretudo, ser mulher, profissional, mãe, filha e ainda escritora.

Luzes no espelho apresenta-se como cenário de um verdadeiro encontro com o eu, um registro de sua vitória existencial, sobre caminhos jamais sonhados. A obra revela sua luta interior, para vencer as angústias, imposições, bloqueios, para seguir em frente, libertar-se de tudo o que impede seu crescimento, enfim usufruir sua vitória. Por meio de sua escrita, de um lado corre a recuperação da auto-estima, há libertação de todo e qualquer patriarcalismo e, de outro, confere ênfase à vida, na medida em que compõe a sua própria visão das coisas meritórias do mundo. Apreciar o valor das suas atividades é um caminho para a essência da existência humana.

É no tempo-espaço de suas narrativas que Adélia se revela, vivencia dificuldades, perdas, desamparo. Além disso, desvenda novas possibilidades, cria novos espaços, para libertar-se dos padrões impostos à mulher em toda a sua trajetória.

3 Conclusão

A análise da história de escritoras é, portanto, uma tendência, uma linha de pesquisa e de estudo possível para quem se indaga sobre a presença ou ausência das autoras no cânone literário. Durante muitos séculos, as mulheres foram representadas em páginas literárias, enclausuradas em visões daqueles que detinham o poder de determinar o cânone. À medida que as mulheres vão saindo desse encarceramento e assumindo sua atividade de sujeitos, a interferência no cânone literário também se realiza. O reconhecimento de que outras mulheres enfrentaram dificuldades para poder criar e escrever, e que seus textos se assemelham, nos temas e nas formas, aos textos contemporâneos, principalmente no que se refere à indagação crucial sobre uma identidade própria e autônoma, cria um entendimento de que o resgate e a releitura das autoras e seus pares estabelece uma interlocução, uma verdadeira conexão entre elas.

Não se pode dizer que esse cenário mudou ou que se apresenta hoje como mais feminino ou como mais acolhedor. As diferenças nos sugerem que ainda há muito a se debater sobre o tema e que, apesar de termos vozes femininas distintas ecoando no cenário literário brasileiro, “o espaço reservado às mulheres no mercado editorial do Brasil é circunscrito a temas que, ao invés de as libertarem de seus papéis opressivos, as colam neles”.2 Talvez não caiba à literatura propriamente dita a resolução desse problema, já que ela, como espaço social, repete o que a realidade cansa de mostrar.

A narrativa contemporânea deve contemplar as vozes que foram excluídas e que não detinham poder político nem ideológico na modernidade. A atual postura implica desenhar uma narrativa não-linear que dê conta dessas simultaneidades, descontinuidades, rupturas, descompassos históricos, bem como possa deixar explícitos as condições externas de produção, o locus de enunciação e para qual receptor se dirige o texto.

As experiências do homem e da mulher são diferentes, mas a língua é comum, então o que as escritoras pretendem é criar espaços onde a voz feminina possa ser ouvida com a mesma intensidade que a voz masculina.
Nos textos analisados, pode-se encontrar uma perspectiva feminina do mundo, em termos de construção da narrativa, na estrutura, na sintaxe, na semântica e no ritmo. Adélia Woellner registra personagens que, tal como a maioria das personagens criadas por escritoras do século XX, não vivem, de certa forma, a angústia provocada pelo tempo cronológico, mas a manipulam de tal forma que os universos do real e da fantasia se confundem em um ato puramente reflexivo ou rememorativo.
É possível visualizar nas narrativas analisadas uma confusão entre planos enunciativos, a ponto de o leitor ter, por vezes, dificuldade em identificar a entidade narradora. Há um constante questionamento das fronteiras tradicionais dos gêneros literários. O vocabulário utilizado reflete, porém, freqüentemente, as atividades cotidianas da mulher, o que favorece a legibilidade da ficção, sem impedir que esta esteja aberta a uma diferenciada gama de leituras.

Nas narrativas de Adélia Woellner, a transgressão torna-se o meio pelo qual o sujeito feminino empreende a sua luta e consegue pela alteridade vencer a desigualdade. A escrita é somente o meio pelo qual essas mulheres acedem aos seus direitos e constrói/reconstrói a sua identidade. Assim, depois de conquistada a identidade da mulher, o masculino e o feminino, em Literatura, ficam em plano de igualdade, pelo que as diferenças sexuais não distinguem o tipo de escrita, apenas o sujeito da escrita. O que dizem ser a escrita feminina poderá ser apenas uma tomada da palavra por parte da mulher, uma rejeição da opressão a que o homem a submeteu e uma temática centrada na sua condição. Poderá existir uma escrita da mulher, pela mão da mulher ou do homem, mas não propriamente uma escrita feminina. É perfeitamente possível que um homem possa tomar o ponto de vista da mulher e escrever sobre ela, o que significa que tanto o homem quanto a mulher podem escrever no feminino.

Os textos não podem ter um sexo, mas podem, isso sim, ser escritos por um sujeito masculino ou feminino, que neles manifeste o seu ponto de vista ou o ponto de vista do outro sexo. A conquista da identidade e da escrita pela mulher não significa forçosamente que exista uma escrita, declaradamente, feminina. A escrita, apesar de não ter sexo, será sempre diferente de escritor para escritor, quer este seja do sexo feminino ou masculino, porque terá o seu cunho pessoal.
 

referências

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OLIVEIRA, Márcia Maria Nóbrega de. “Sexualidade e corpo: uma abordagem a partir da autorepresentação das mulheres nos romances brasileiros contemporâneos”, disponível na Internet.

PIÑON, Nélida. A memória feminina. Colóquio Internacional UNESCO/ Colégio Brasil, Rio de Janeiro , set. de 2002.

Schmidt, Rita Terezinha. “Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria eminina”. In: NAVARRO, Márcia Hoppe (org). Rompendo o silêncio: gênero e literatura na América Latina. Porto Alegre. Editora da UFRGS, 1995.

SHOWALTER, Elaine. “A crítica feminista no território selvagem”. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.).Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro, Rocco, 1994. p. 23-57.

SHARPE, Peggy. Entre resistir e identificar-se. Florianópolis: Editora UFG, 1997.

WOELLNER, Adélia. Luzes no espelho. Curitiba: Editora Protexto, 2004.

1 Para Nélida Piñon, graças à memória ingressa-se no domínio da invenção. A arte de narrar certamente tem como função inventariar a memória. Para nascer, diz ela, o texto atravessa inexorável terra, camadas  incessantes, que o escritor leva dentro de si.

OLIVEIRA, Márcia Maria Nóbrega de. “Sexualidade e corpo: uma abordagem a partir da autorepresentação das mulheres nos romances brasileiros contemporâneos”, disponível na seção “Palavras” do site http://www.corpuscrisis.cjb.net Acesso em junho de 2006.





Bio fornecida pelo palestrante.

O ESPAÇO DE MORAR REVELADO: “A CASA”, VISTA POR CECÍLIA MEIRELES




Resumo:
Este ensaio objetiva reler a crônica de Cecília Meireles – “A Casa” – e reabre a possibilidade de que, através da experiência estética e da ferramenta do imaginário, seja possível articular saberes, construir identidades e reconfigurar a relação de distancia entre o observador e o objeto da arte. A referência à obra de Vermeer abre uma releitura da crônica de Cecília no sentido a confrontar as incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece.
Texto:

MINICURRICULO

Rafael Alves Pinto Junior é arquiteto, formado pela Universidade Católica de Goiás, e Mestre em Cultura Visual pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Atualmente é professor do CEFET e doutorando de História pela UFG.

RESUMO

Este ensaio objetiva reler a crônica de Cecília Meireles – “A Casa” – e reabre a possibilidade de que, através da experiência estética e da ferramenta do imaginário, seja possível articular saberes, construir identidades e reconfigurar a relação de distância entre o observador e o objeto da arte. A referência à obra de Vermeer abre uma releitura da crônica de Cecília no sentido a confrontar as incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece.

O ESPAÇO DE MORAR REVELADO:

A CASA”, VISTA POR CECÍLIA MEIRELES

Rafael Alves Pinto Junior

Universidade Federal de Goiás

Em junho de 1947 o jornal A Manhã publicou na seção “Letras e Artes”, uma crônica de Cecília Meireles intitulada “A Casa”. Tendo seu primeiro livro lançado em 1919 – Espectros – o nome de Cecília Meireles já se ligara ao que de melhor se fazia na poesia da primeira metade do século XX no Brasil. E não somente à poesia. Além dela, se dedicou à prosa em vários gêneros: artigos, ensaios, conferências, estudos sobre folclore e educação.

Este texto não se propõe a fazer uma análise do discurso “oculto” no texto de Cecília, entendido como produto cultural de sua autora; sobretudo quando se coloca este horizonte como produto de uma experiência estética intersubjetiva e vista como obra que se completa nos olhos de quem o lê. A interpretação que proponho, ao rever o mundo que o texto da escritora revela, é apenas uma entre as várias possíveis.

Como é facilmente verificável, a linguagem poética invade de sua prosa. Talvez, não importe delinear os contornos de uma ou de outra, mas perceber manifestações diversas da mesma pena, fruto de uma única poiesis.

Dentro do contexto de ruptura e de divisor de águas que o modernismo construía na literatura e nas artes no Brasil das primeiras décadas do século XX, Cecília se distinguiu de seus contemporâneos por recusar tanto uma identidade nacionalista quanto uma particularidade estética determinada através de uma ruptura. Colocada numa condição de “pós-simbolista” por Otto Maria Carpeaux e ao lado de Drummond e Bandeira entre os grandes poetas vivos daquele momento, Cecília se distingue através de uma poética simultaneamente atual e inatual, conforme o colocado por Neto (NETO, Miguel Sanches, 2001). Trata-se de uma filiação a um conceito de tempo diverso de seus contemporâneos, desligado de fraturas estilísticas, arroubos nacionalistas ou afirmações ideológicas. Para ele:

Não se trata, portanto, de uma “neo-simbolista” que apenas voltava ao Simbolismo de maneira passiva, mas de uma autora que parte desse movimento, e do que havia nele de conexões com o Parnasianismo, rumo a uma arte moderna escoimada de seu materialismo limitador, fazendo preponderar um desejo de unificação e não de cisão, de universalização e não de particularização. E esse desejo se realiza muito mais pelo desprendimento dos vínculos terrenos, num movimento de ascensão que lhe dá um olhar mais amplo sobre o homem e a existência.

Avessa ao sentimento estético separatista, ela se apossa de uma palavra agregadora, por sentir de forma aguda a fugacidade de tudo. Afastada do centro da poética modernista, manejando uma língua intemporal, ela deu continuidade a uma tradição lírica ibérica, trilhando a contramão dos rumos poéticos de nossa modernidade, que negou justamente a conexão com a cultura portuguesa, em nome da afirmação do local ou por deslumbramento por culturas mais avançadas tecnicamente. O que é considerado conservador em sua postura adquire um papel de revolta, de resistência, até hoje pouco valorizado em nossa cultura afoita demais pelas novidades (op. cit., p. xxiv-lvi).

Neste sentido, falar em brasilidade expressa na arte da época, corresponde abordar uma temática constante no cenário cultural nacional e que diz respeito aos problemas de uma conceituação de uma cultura brasileira. Como ponto de partida, entendemos que as práticas artísticas modernistas – principalmente as relacionadas à literatura – se revestiram de propriedades capazes de esclarecer práticas sociais e ideológicas inauguradoras de uma forma de ordenar, ou ao menos de propor uma unidade cultural. Sobretudo no que apresenta de imagética.

Vista desta maneira, a conceituação de uma identidade cultural não deve ser entendida como um conceito fechado, mas antes como um continuum de resultados transitórios dado basicamente às suas causas múltiplas e mutáveis. Desta forma, tornando-se um ponto de referência essencial no processo de formação da arte brasileira, o modernismo se afirmou no Brasil através de um processo historicamente inconcluso, dinâmico e contraditório em sua essência; e, portanto, problemático e aberto; ainda que em sua primeira fase até os anos 1930 esta antinomia não seja consciente.

No panorama do modernismo no Brasil, a obra de Cecília, em prosa ou verso, não revela nenhum momento de ruptura em termos profissionais, nenhum ano deconversão à modernidade, nenhuma guinada abrupta. Sua formação se deu de uma maneira peculiar, estando intimamente ligada ao seu percurso biográfico. Neto (NETO, Miguel Sanches, 2001) observa que será a orfandade, portanto, a circunstância caracterizadora de uma estética da ascese, lugar geométrico que a poeta elege como morada. Deste ponto de vista, externo e alheio é que a autora se coloca ao escrever A Casa. À compreensão deste ponto de vista é preciso entender os conceitos de tempo e de espaço revelados pela poeta e de que nos apoiaremos nesta exposição.

1 – O olhar exterior – a casa vista por fora

Das minhas altas varandas a avistava. E se a notei, foi só por sua solidão, esse uniforme pelo qual – objetos, animais, pessoas, – fazemos o nosso reconhecimento. Pensei que seria meu destino amá-la. E sobre ela pensei algumas vezes, deslizando como uma pequena mosca pelas suas vidraças insondáveis, aventurando-me como os esbeltos gatos pelos ângulos do seu telhado, farejando o desenho secular e pueril das suas cornijas.

Cecília Meireles, de suas altas varandas – reais ou imaginárias – observa uma casa de esquina, abandonada – cheio só de silêncios. A autora identifica como seu este espaço alheio: ainda quando pertençam a outros, para mim é que foram feitos. Ao lugar exterior atribui o reconhecimento de suas dispersões em portas, corredores, escadas e jardins. Aos lugares que não são seus e onde não se está, se espelha. Ao se colocar no corpo de outros seres – pequena mosca pelas vidraças, gatos pelos telhados – faz um primeiro e fundamental reconhecimento, algo como um tatear através do externo.

Assume sem rodeios sua relação com a distância e o que ela representa:

Pensei que das minhas altas varandas se inclinava um coração de amor para a casa solitária, e deixei-me ir vivendo essa nova ternura; com suas ausências, seu natural impedimento de distância, e a impossível comunicação. Mas afinal, aprendemos tanto com os homens a lição da renúncia que amar uma casa fechada é um pequeno exercício; e uma casa vazia contem mais sonho e mais resposta que a maioria das pessoas. Nunca esperei, no entanto, nada mais que esse meu amor. Porque o amor não precisa mesmo de nada. E até de certo modo, quando se fortalece muito, começa a excluir tudo. O amor quer ser sozinho, isento de repercussão.

Visto em sua relação com o espaço, a dimensão temporal adquire um novo significado. Além do comprimento, largura e altura – as dimensões espaciais -, o tempo comparece como um elemento de se estar no espaço. O verdadeiro sujeito da percepção da arquitetura é aquele que se coloca no espaço, ainda que do lado de fora como na Casa. Ao tempo real da experiência, Cecília contrapõe uma quarta dimensão temporal simbólica, processada pelo afastamento em relação ao objeto.

O fato de não entrar na casa, não explorar seus ambientes internos, não vê-los por dentro, é significativo. A autora escolhe ficar do lado de fora apesar de nada indicar um impedimento de se entrar no espaço da casa. Entretanto, esta não ação desperta na autora os mecanismos da imaginação e, através da distância, compõe um espaço de sonho que ela preenche com ela própria. Não interessava a ela entrar na casa. A renúncia seria exercitada através da distância do olhar. O conhecimento do interior, ao revelar o conteúdo, poderia impedir o espelhamento; e o espaço que ela compõe não pode ser mensurável ou definido pelos parâmetros construídos pela arquitetura do edifício.

Ao se colocar do lado de fora, Cecília cria uma visão de espaço peculiar, plena de subjetividade, relacionada com sua noção de tempo. O tempo não se apresenta em sua condição de passado ou futuro, mas em sua condição transitória, fugidia. Apesar de presente, escapável e móvel. Daí seu encantamento e sua dor. À imobilidade do objeto físico da casa, a autora identifica uma ação. Ação de igual intensidade à sua de observadora e em sentindo contrário. Uma ação que não é percebida por ninguém além dela:

Mas um dia a casa tirou todas as suas telhas. E entendi que para mim as tirava, e que era seu modo de dizer-me “Eu também te amo.” Era o seu modo de entregar-se. E das minhas altas varandas vi toda a sua anatomia, suas divisões, suas passagens, suas claridades, seus descalabros, a mancha dos quadros no papel das paredes, as pias, os lavatórios, os ladrilhos amarelos e azuis, o chão com sua geometria, o lugar de comer, o lugar de dormir, e esse espaço geral de sofrer, que as casas piedosamente cercam com seus sucessivos regaços.

Metáfora do seu próprio fazer poético, a figura da casa é instrumento, ela própria, de representação de um mundo interior absolutamente sensorial. Através desta “desconstrução” se processa uma revelação e o interior do objeto passa, mesmo à distância a ser percebido. A imagem corresponde a um desnudar em que observam novas cores. Os espaços internos outrora cobertos – e portanto menos sujeitos às variações da luz – adquirem novas tonalidades através do sol e da lua. Elementos naturais que adquirem presença de protagonistas dentro do espaço contruído.

Esta ação de ruína do espaço construído, vista e comprendida pelo olhar exterior, é para a autora o objeto mesmo da percepção, numa ação que podemos identificar como fenomenológica. O que a poeta vê – real ou imaginariamente – são dados absolutos apreendidos em intuição pura. O processo de desmaterialização do espaço físico objetiva descobrir tanto as estruturas essenciais dos atos de ver e imaginar (noesis) quanto as entidades objetivas que correspondem a elas (noema), para usar uma terminologia tão cara à fenomenologia.

A experiência propiciada pela distância e pela solidão, se constitui no habito da habitabilidade, a que se refere Ferrara (FERRARA, Lucrecia D´Alessio, 1993). Pela vivência da solidão, a cronista aplica à cidade e aos seus elementos – as outras casas – o seu modo de habitar e de ver o seu entorno. A solidão é a lente através do qual ela faz o uso do seu entorno. Falando sobre a habitabilidade e o uso do espaço, Ferrara esclarece que:

Na homogeneidade da cidade, o hábito é a sedimentação de um uso urbano e, ao mesmo tempo, fator de baixa definição da cidade enquanto fonte de informação; entretanto, é por este mesmo uso que o homem se apropria do espaço ambiental, identificando-o e se identificando com ele; é o uso que dinamiza o espaço e o concretiza como modo de ser de uma cidade ou de um modo de viver. A cidade adquire identidade através do uso que conforma e informa o ambiente. O espaço é informado pelo uso que o transforma em lugar, em ambiente público ou privado (op. cit., 1993, p. 21).

A poeta não pretende dominar estes elementos ou suas antinomias, mas transitar por eles mediante uma experiêcia sensível e imagética. O texto relata uma experiência que deveria ser o contrário do de se construir uma memória. Mediante o desfazer, a autora constrói um sentido. Cria, mediante a ruína da casa, uma experiência de se estar no mundo. O espaço e o tempo da arquitetura comparecem como sujeitos de uma metáfora e de uma experiência poética. No texto, a figura da casa, do espaço construído, arquitetônico, desempenha a função de se estar diante de uma obra de arte. Quer como presença ou como desvelamento, produção do sentido, experiência do mundo da obra que se intromete e faz vacilar o mundo daquele que se envolve com ela, como entende Brandão (BRANDÃO, Carlos A. Leite, 1999, p. 4). Segundo ele, a existência da obra de arte se afirma na ação de se produzir um sentido:

Já na sua Poética, Aristóteles estabelece a verossimilhança e não o vero como o objetivo do poeta trágico. Propondo a este retratar não “os homens como eles são” mas “tais como devem ser”, afora inúmeras outras considerações derivadas acerca da eticidade original e da função da obra de arte, o estagirita coloca a necessidade da obra ater-se aos princípios de unidade tempo, ação e lugar que a capacita a condensar as ações e concentrar a vida de modo a que ela, afastando-se da dispersão do contingente, revele um sentido e promova a catarsis e o auto-reconhecimento do espectador. E, assim fazendo, ela se vê conferida de sentido e oferece um conhecimento da verdade que antes se ocultava. Tal experiência da verdade é o que muda o espectador e, portanto, é um outro tipo de verdade que se anuncia na obra de arte e que não pode ser compreendida como adequatioentre a obra e algo exterior a ela: é a verdade como desvelamento, produção do sentido, experiência do mundo da obra que se intromete e faz vacilar o mundo daquele que se envolve com ela (op. cit., p. 3-4).

Através do espaço revelado pela casa, a autora refuta qualquer presentificação e desafia a percepção linear do tempo. Para isso, utiliza o instrumental da poesia que a permite transpor a noção imediata do tempo e à concretude da matéria. De dentro de seu invólucro, a autora cria um mundo pessoal e ao povoar a casa com o “seu” tempo, dissolve a barreira da distância espacial do que vê.

2 – O olhar interior – a casa vista por dentro

Na história das artes visuais, a figura de Johannes Vermeer (1632-1675) é uma das mais fascinantes. Das trinta e seis pinturas atribuídas a ele – algumas não datadas com precisão até hoje – apenas duas não são de interiores. Imersas na representação da vida doméstica, tema dominante da escola de Delft, sua obra mostra momentos íntimos do espaço de morar. Rara é a visão de uma rua ou uma paisagem. Estão ausentes também os retratos, ao menos na sua concepção tradicional. A luz e a espacialidade representada em suas vistas exteriores não se constituem em obras de exceção. Tanto os interiores quanto os exteriores, favorecem para Vermeer, mais o jogo de luz e sombra do barroco do que a claridade clássica. As vistas do espaço construído pelo artista não estão em oposição às de seus contemporâneos, como podemos ver nas obras dePieter Saenredam (1597-1665), de Pieter de Hooch (1629 – 1684) e de Gabriel Metsu (1629-1667).

Imersas no horizonte do desenho barroco, os interiores de Vermeer, apesar de mostrarem e explicitarem uma forma ao observador, apresenta-a na incompletude. Conscientemente, o artista oculta parte dela por detrás de uma cortina, no horizonte não vislumbrado através de uma janela aberta, no que está por vir em um corredor, numa encruzilhada, numa porta entreaberta. A forma representada só pode ser entendida através desta incompletude, desta parte oculta que sabe-se presente mas que não se pode ver. Neste jogo reside o propósito de evitar que a imagem enfocada na tela pareça legitimada pelas contingências materiais do assunto representado, como o colocado por Wölfflin (WOLFFLIN,Heinrich, 2000). Tudo parece simples e nada o é, dado que a luz não se refere à forma, tornado-se ela própria, um elemento não mensurável. Segundo ele:

O motivo perde a sua evidência, o seu significado inequívoco; surgem então aquelas tomadas que não demonstram qualquer interesse pelos objetos, para as quais a pintura paisagística constitui, sem sombra de dúvida, um terreno mais propício do que o retrato e os quadros de cenas ou assuntos históricos. (…) As vistas arquitetônicas podem ser ricas em conteúdo objetivo, mas devem comportar-se como se não se preocupassem em nos transmitir determinada realidade (op. cit, p. 295).

Consideradas em suas autonomias poéticas, nada liga aparentemente a obra de Vermeer à de Cecília. A literatura moderna do século XX no Brasil e pintura Holandesa do século XVII parecem à primeira vista, separadas por um intransponível abismo. Penso que não. Falar do espaço da casa é falar de uma ampla realidade que deve ser vista como complexidade. Além dos dados expressos por sua materialidade, ele é formado pelas dimensões simbólicas e imaginárias, dimensões paralelas traduzidas pela poesia e pela pintura. Entendo que pensar o espaço da morada é fazer convergir as variadas dimensões que partem dela ou a ela se sobrepõe. Tanto a literatura quanto as artes visuais se constituem num instrumental privilegiado que nos permite compreender o espaço geral de sofrer no dizer da cronista.

No contexto da obra de Cecília, a Casa (1947) se situa entre duas obras de fôlego: Mar absoluto e outros poemas (1945) e Retrato Natural (1949). Frutos do cerne de sua poética e do período mais tranqüilo e estável propiciado pelo seu segundo casamento. Em 1951 vai pela segunda vez à Europa. Conhece a França e os Países Baixos, e da Holanda escreve osDoze Noturnos da Holanda, publicados em 1952. Anda pelas mesmas ruas de Vermeer. Através da figura da noite e do silêncio, compõe um quadro onírico. Uma noite holandesa – nítida – envolvia a poeta: “Vem ver o silencio que tece e destece ordens sobre-humanas e os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte!” (Doze noturnos da Holanda. In: SECCHIN, Antonio Carlos. (Org.). Cecília Meireles. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 709-710).

Envolto no mesmo silêncio que envolveriam Cecília Meireles, o espaço de Vermeer é concebido pela distância. Através dela o silêncio unifica, entrelaça e equaciona tanto pessoas quanto objetos. O mundo externo, o tempo da natureza e sua realidade não interessa ao pintor. Desprovido de interesse, ele se dedicou ao mais intimo dos espaços: o de morar. O pintor constrói um espaço cuja única intromissão do exterior é a luz e seus reflexos, sua geometria e sua sombra. A luz revela e fixa as figuras suspensas em gestos solitários através de uma intimidade que não se imagina revelada. Uma intimidade que é medida através da luz, da sombra e da distância, ela própria espaço.

Ao espaço cartesiano, mensurável, analítico, Vermeer contrapõe um espaço subjetivo, construído a partir da geometria visual, mas além dela. A geometria é a ferramenta da representação da distância do ser em relação aos seus sentimentos, que se apresentam ao observador como uma recordação e não como um fato. À idéia do registro de um fenômeno o pintor oferece a construção de um espaço único e mágico. Construção plena de uma subjetividade íntima que somente seria reconhecida e valorizada na segunda metade do século XIX por autores como Marcel Proust (1871-1922).

Os anos entre 1662 a 1667 foram para Vermeer de inspirada produção. Datam deste período obras importantes como Carta de Amor (1667),Mulher com colar de pérolas (1664), O Concerto (1664) e Lição de Música(1662). Em todas elas, podemos entender o espaço pictórico através da distância que o constitui. A distância estabelece as relações de quem vê – na penumbra – e de quem é visto, sob a luz. As ações desempenhadas pelas figuras – ver uma carta, experimentar um colar de pérolas, executar ou aprender música – apenas marcam e referenciam a distância, estabelecendo um limite à observação. Estabelecem um lugar próprio que não pode ser invadido senão pela distância do olhar.

O olhar é o único instrumento que nos permite entrar neste mundo, mas respeitando a privacidade a que têm direito seus habitantes. Vermeer constrói um mundo de sujeitos que devolvem aos observadores a possibilidade de preencher, através da imaginação, o fato. Qual o conteúdo da carta do amado ausente? Em quê pensavam diante da janela aberta? Qual a palavra na boca entreaberta, na frase suspensa? Qual sentimento aflorou e foi abafado? O pintor não responde a nenhuma destas perguntas. Devolvendo-as ao espectador cria a possibilidade de, através do imaginário, construir um sentido, e ao fazer isso, participar da própria experiência estética e do próprio fazer artístico. Mediado pelo simbólico formado pelo imagético, o observador pode partir do visível e chegar ao invisível. Cabe a quem vê, completar o jogo que o espaço pictórico barroco nos propõe e, ao permitir essa abertura, minimiza os aspectos da consciência evidentes na percepção, coloca a obra – poética ou visual – num horizonte não cartesiano.

O destino da casa, na crônica de Cecília, é, notadamente, diferente das retratadas por Vermeer. Ao espaço incompleto do desenho barroco, corresponde uma revelação em Cecília. A casa se desnuda, abrindo-se em ruína, achando-se “desnecessária”. Entretanto, a casa sobrevive à sua desmaterialização:

Tudo desapareceu. E a casa ainda existia. E por fora não tinha mudança nenhuma. E a sombra das nuvens boiava na sua amplidão e só de ar e de luz e de som estava repleta. De silêncio, não. O silencio voara, e olhava para ela, com os meus olhos. Ele e eu assistíamos a esse deixar de ser que parecia voluntário. E ouvíamos a casa dizer que desdenhava de si própria, que se achava desnecessária, que tudo quanto fora já não servia, e que até para abrigar e proteger é preciso inventar mil modos diferentes, sucessivos, porque as misérias dos homens que habitam as casas são muito complicadas, doloridas, assustadiças, inquietas. (…) E a memória da casa estava apenas no chão, no traçado do chão, por onde ela voltava ao seu começo, àquele tempo em que o arquiteto a inventara e ela era um vago pensamento. Era um desenho em cima da Terra, outra vez, mas um desenho que agora se apagava.

E a casa me foi dizendo adeus pouco a pouco, e muito amorosamente. E um dia olhei das minhas altas varandas e todas as suas janelas tinham saído, e suas quatro paredes tinham sido levadas, e ela não possuía mais limites: era um quadrado deserto, um pequeno quadrado do planeta, à mercê dos homens.

A cronista constrói uma imagem poética em que o objeto – a casa – retorna ao conceito, à concepção e à gênese estética. No caso, a materialidade do espaço construído se resume ao desenho conforme o concebido pelo arquiteto, reconstruindo uma memória “ao avesso”. Parte do reconhecimento da forma externa e termina no quadrado deserto, um pequeno quadrado do planeta, à mercê dos homens. Na Casa, a identidade de quem vê se dá no reconhecimento da destruição do objeto, que é, ele próprio sujeito da experiência estética:

Foi só então que algumas pessoas repararam na casa que já não era casa. Que não era mais aquela casa. E como para os outros só tinha sido aquilo, é natural que não fosse mais nada. Nem deixara pó que sujasse a roupa dos passantes. Mas eu, que a tinha visto e ouvido… Ah, comigo foi diferente. Quando chegarmos à Eternidade, também ela estará entre as coisas sem morte, – e não terá rua nem número: será simplesmente “A casa”. E, por seu serviço, permanência e derrota no mundo dos homens, anjos infantes correrão por suas traves e com longas ramagens cheias de flores a adornarão.

Ao colocar a casa na latitude da Eternidade, a cronista a situa no mundo platônico e imortal das Idéias. Colocando-a como objeto ideal, Cecília faz uma redução eidética, encontrando um significado para ela essencial. Às diferenças de uma casa ou de outra, variadas como produtos da cultura, se sobrepõe a imagem da casa imagética, substantiva; e nisto podemos identificar mais uma das características de Cecília: a universalidade.

Reler a crônica de Cecília reabre a possibilidade de que, através da experiência estética e da ferramenta do imaginário seja possível articular saberes, construir identidades e reconfigurar a relação de distância entre o observador e o objeto da arte. A referência à obra de Vermeer abre uma releitura da crônica de Cecília no sentido a confrontar as incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece. A obra de Cecília espera ser relida. E esta releitura se reveste de importância quando consideramos a necessidade de, na contemporaneidade, nos colocarmos diante de um mundo globalizado, mas não universal.

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Bio fornecida pelo palestrante.

OLHARES SOBRE O RIO: NTOZAKE SHANGE E PAULE MARSHALL




Resumo:
Este trabalho discute representações da cidade do Rio de Janeiro em textos literários contemporaneos publicados pelas escritoras negras dos Estados Unidos, Paule Marshall e Ntozake Shange. O gesto de caráter diaspórico e interamericano nas obras analisadas contribui para redefinir espaços e desestabilizar barreiras nacionais que tradicionalmente separam culturas e histórias. Ao fugir do exótico habitualmente associado ao Rio e ao Brasil, os escritos de Marshall e Shange valorizam as raízes africanas comuns, preocupam-se com a herança colonial e afirmam a proximidade e a solidariedade entre as Américas.
This paper focuses on some representations of the city of Rio de Janeiro in contemporary works produced by two black women writers from the United States, Paule Marshall and Ntozake Shange. The diasporic and inter-American character of their approach contributes to redefining spaces and destabilizing the national barriers that have traditionally separated cultures and histories. As they avoid the usual exotic approach to Rio and Brazil, Marshall’s and Shange’s writings value our common African roots, worry about the colonial heritage, and reaffirm proximity and solidarity between the Americas.
Texto:

OLHARES SOBRE O RIO:

NTOZAKE SHANGE E PAULE MARSHALL

 

                                                                                                         Stelamaris Coser                                                                            Universidade Federal do Espírito Santo
 
As belezas e os paradoxos da cidade do Rio de Janeiro são freqüentemente representados no cinema hollywoodiano e às vezes também na literatura dos Estados Unidos.  Desde filmes como Voando para o Rio (Flying down to Rio,1933), ou Feitiço do Rio (Blame it on Rio, 1983), até romances populares como O sócio, de John Grisham (1997), a ênfase recai sobre a beleza do lugar e das pessoas, o exotismo, a malandragem,  a atmosfera de erotismo. A cidade, o país e, principalmente, a mulher brasileira, atraem e seduzem o olhar estrangeiro em um jogo que reafirma hierarquias de poder e sublinha diferença e alteridade.
Menos conhecidos dos brasileiros são os olhares e registros literários das escritoras Paule Marshall e Ntozake Shange.  Ao firmar-se na cena literária dosEstados Unidos nas décadas de 70 e 80 do século XX, a literatura feminina negra tenta resgatar memórias e buscar conexões com outros pontos do continente americano que compõem o mapa da diáspora africana. Nas palavras de Stuart Hall (2003, p.40-41), a raiz africana fornece “o significante, a metáfora, para aquela dimensão de nossa sociedade e história que foi maciçamente suprimida, sistematicamente desonrada e incessantemente negada”. Toni Morrison, Alice Walker, Audre Lorde e Toni Cade Bambara, por exemplo, criam pontes com o Caribe e a América Latina em suas obras de ficção não só justapondo espaços geográficos, mas associando-se por vezes ao modelo de narrativa popularizado como “realismo mágico” e inspirado em obras de Gabriel Garcia Márquez e Carlos Fuentes (COSER, 1995). Gayl Jones, Paule Marshall e Ntozake Shange, por sua vez, manifestam uma relação de maior proximidade com o Brasil em seus temas: enquanto Jones reinventa a história colonial brasileira, principalmente Palmares, Marshall e Shange escolhem a cidade do Rio de Janeiro como cenário inspirador de relatos imaginativos e reflexões sobre nações e identidades.
A escritora e artista multimídia Ntozake Shange nasceu em 1948 no estado de Nova Jersey com o nome classe-média-comportada de Paulette Williams, mas no ano de 1971 decidiu realçar sua herança africana e assumir nomes de origem Zulu.  As duas palavras significam, respectivamente, “a que chega com suas próprias coisas” e “a que anda como um leão”.  Fazendo jus a isso, Shangeassocia-se ao radicalismo do Movimento da Arte Negra, o Black ArtsMovement, e adota um estilo que mistura confrontação e irreverência em poemascoreografados ou coreopoemas, grafados apenas em minúsculas e transgredindo normas gramaticais. Os textos são levados ao palco em performances combinadas com vídeo, dança e música, uma proposta híbrida que Shange(1975, 1984) quer contrapor ao teatro artificial, insípido e europeizado que predomina em seu país. Marcando a diferença feminina, afasta-se da visão em geral monolítica dos adeptos do Nacionalismo Negro, para registrar também o desejo, a angústia pessoal, a contradição e fragmentação humanas.  Não separa o pessoal do político nem o lírico do épico numa obra que exibe sensualidade e sonha com igualdade, mas expõe também as duras formas de violência existentes tanto em seu país quanto no continente americano.
A fidelidade à tradição literária negra dos Estados Unidos não impediu queNtozake Shange valorizasse uma relação com o espaço, a literatura, história e conjuntura sociopolítica do Caribe e da América Latina. Numa época de rebeldia, busca parcerias literárias e políticas com artistas e intelectuais em Cuba e Nicarágua que também sonham com uma “America libre” (SHANGE, 1983, p. 49-50). Em relação a seu próprio país, protesta contra a Ku Klux Klan, o lucro abusivo, a interferência militar no Caribe, e a persistente violência patriarcal contra as mulheres. Apesar da opressão política e das dificuldades reinantes, entusiasma-se com a força das culturas interligadas das Américas. Assim, ao tratar da diáspora negra em seus versos, Shange celebra não a nostalgia de uma África ideal e cristalizada, mas sim, tomando aqui emprestadas as palavras de Stuart Hall (2003, p.40-41), “aquilo que a África se tornou no Novo Mundo, no turbilhão violento do sincretismo colonial”.
Em 1983 Shange conhece a capoeira brasileira em um festival de dança noBrooklyn, e associa a agilidade e esperteza ali utilizadas ao jogo de dozens, tradição afro-americana onde a disputa verbal exige arte e habilidade para driblar o oponente. As visitas posteriormente feitas ao Brasil lhe proporcionam o conhecimento e a proximidade da história, das paisagens e da cultura do país, confirmando sua crença na “continuidade de movimentos” que existe na diáspora (SHANGE, 1984, p.51). O encontro entre os dois hemisférios é registrado na confluência simbólica dos grandes rios do continente, “o ponto onde o amazonasencontra o mississippi”, como diz um de seus versos (1992). A artista incorpora essa união quando afirma que o Brasil está no espírito da música que inspira seu trabalho e toma posse de seu corpo: “é preciso que se entenda que, quando faço teatro, o Haiti está em minha cabeça, mas é o Brasil que está nos meus quadris” (apud KING Jr., 2003, em tradução livre). Para Shange, música e dança são formas de resistência contra o esquecimento e a paralisação, trazem prazer e sensualidade ao mesmo tempo em que afirmam a identidade negra.
Ao chegar de fato ao Rio de Janeiro e à Bahia, no entanto, a escritora se impressiona com a extensão da pobreza e da desigualdade social, cenas que se repetem tão dramaticamente que fazem Itaparica e Rocinha parecer o mesmo lugar. No poema “Tween Itaparica & Itapuã” (SHANGE, 1983, p.24-27), a narradora justapõe o charme e a miséria de dois cenários famosos.
itaparica is where dona flor
took her two husbands/ itaparica is where
giorgio dos santos is nine years fulla mosquito bites
& will die soon.
(Tradução livre: “itaparica é onde dona flor /ficou com seus dois maridos / itaparica é onde/ jorge dos santos tem nove anos cheio de mordida de mosquito / & vai morrer em breve”).
 
Fica difícil distinguir qual lugar é mais cruel e injusto; apesar do Cristo imponente e da fama turística do Rio de Janeiro, os pobres e mendigos de suas ruas só têm direito a comer migalhas e habitar favelas:
itaparica is not near corcovado
cristo redentor
nor the/ copacabana
where the children eat off the plates of tourists/
anything/ no
itaparica is not close to rocinha
behind the sheraton/ covered with tin, stolen
bricks & women’s stooped shoulders.
(Tradução livre: “itaparica não é perto do corcovado / cristo redentor/ nem de / Copacabana / onde as crianças comem sobras dos pratos dos turistas/ qualquer coisa / não / itaparicanão fica perto da rocinha / atrás do sheraton/ coberta de zinco e tijolos/ roubados & os ombros curvados das mulheres.”)
 
A ilha de Itaparica é um repositório de memórias ligadas ao tráfico e ao trabalho escravo: as ruas de pedra foram calçadas por “um de nós”, narram os versos inspirados da escritora. O poético relato da Bahia descreve ainda as crianças nos barcos de pescadores, os ex-votos deixados na igreja por fiéis, o peixe frito na praia, o tempo e as pessoas que passam devagar, os turistas que chegam.  Por fim, o sol, o mar e a paisagem da Bahia conseguem aliviar a dor com sua beleza e magia, mas o Rio de Janeiro permanece como referência paradoxal de grandiosidade e desigualdade gritante ao longo do Atlantico negro.
De uma geração anterior a Shange, a escritora Paule Marshall nasceu em1929 no Brooklyn, parte da cidade de Nova York então ocupada por famílias emigradas de ilhas caribenhas – como a sua, proveniente da pequena Barbados, no Caribe inglês.  Os romances e contos de Marshall guardam marcas desse espaço de deslocamento e identidades negociadas, e de uma casa onde havia solidariedade com as lutas internacionais por libertação (MARSHALL, 1991, p. 24). A experiência pessoal também levou Marshall a outros locais da diáspora, como o Brasil, resultando disso uma narrativa que interliga as geografias e histórias do continente.
A novela (ou conto longo) intitulada “Brazil é a última das quatro histórias na coletanea Soul Clap Hands and Sing (1961), o segundo livro de Paule Marshall; as outras são Barbados”, “Brooklyn e “British Guiana”, todas designando partes específicas das Américas similarmente marcadas pela estrutura patriarcal, hierarquia rígida de classes e raças, empobrecimento das zonas rurais e urbanas, e favelização provocada, em grande parte, pela (e)migração para centros mais desenvolvidos. Nas quarenta e seis páginas de “Brazil”, Marshall costura as anotações que fez deste país como correspondente da revista de cultura negraOur World. Seu olhar se concentra na capital federal, o Rio de Janeiro dos anos 50, cidade moderna que provavelmente vivia “o auge do charme”, como atesta Joaquim Ferreira dos Santos (1997, p. 11).
O conto de Marshall pode ser lido como uma etnografia da cidade emblemática do país, marcada pelo contraste entre favela e cartão postal. Por outro lado, os personagens centrais, o negro Calibã e a branca Miranda, aproximam o enredo do corpus crítico-literário formado por releituras e discussões da peça A tempestade, de Shakespeare, abordando a construção dooutro e contra-discursos de resistência. As preocupações culturais, sociais e políticas da narrativa também remetem ao texto do caribenho Frantz Fanonpublicado no mesmo ano de 1961, The Wretched of the Earth (Os condenados da terra). Por fim, a dramatização da perda de identidade e da busca do reconhecimento do nome evoca, por antecipação, textos centrais da crítica brasileira sobre identidade cultural e a condição de subdesenvolvimento e dependência, canibalização e cópia, como, por exemplo, os trabalhos de Antônio Candido, Silviano Santiago e Roberto Schwarz, preocupações que ecoam na chamada crítica pós-colonial.
Na segunda metade do século XX, o bárbaro Caliban shakespeareano foi resgatado por novos escritores oriundos, principalmente, das antigas colônias do Caribe e da África, sendo transformado em herói da libertação e símbolo da resistência (inclusive no Brasil, com a adaptação de Augusto Boal). Para o cubano Retamar (1972), Caliban é o melhor símbolo da América Latina: “Não conheço metáfora mais expressiva de nossas situações culturais e de nossa realidade”.  Embora bem distintos dos demais, o enredo e os personagens do conto “Brazil” de Paule Marshall merecem ser pensados nessa rede calibanicaintertextual.
O cenário retrata alguns locais tipicamente mostrados em narrativas sobre o Rio de Janeiro, capital do país nos anos 50, tendo aqui uma cidadezinha do interior de Minas Gerais como contraponto utópico.  O grande Calibã é o nome artístico usado por um velho comediante negro que se apresenta na Casa Samba.  Migrante pobre saído do interior de Minas cinqüenta anos antes para tentar a vida na capital do país, Heitor Baptista Guimarães trabalhou em um pequeno restaurante até passar num teste no Teatro Municipal e transformar-se no artista aplaudido pelo grande público e autoridades, como atestam fotografias ao lado do presidente e de Carmen Miranda.   Miranda é também o nome da parceira de cena e de cama, outra migrante pobre vinda do Rio Grande do Sul, loura de cabelo tingido e sangue misturado de alemão, português, índio e talvez negro, o nome sugerindo uma confluência paródica entre Shakespeare e CarmenMiranda. O show descrito por Marshall lembra o teatro de revista e os filmes de chanchada, com a comédia baseada em contrastes exagerados e na reversão de expectativas. Para começar, a “Pequena Miranda” surge no palco loura, alta e majestosa, uma vedete sumariamente coberta de lantejoula e tule; o “GrandeCalibã” é negro e mirrado e abre o show posando de valente em roupas largas de cetim vermelho, numa paródia do famoso campeão de boxe Joe Louis. Os dois cantam, dançam e ele conta piadas para a platéia de brasileiros e turistas, marinheiros norte-americanos para quem o Rio/Brasil se revela uma terra de misturas raciais que sorri e dança à “erótica batida do samba” (2004, p. 1). O riso nervoso aproxima os turistas norte-americanos da autoridade colonial que, sem falar a língua, define a terra e seus nativos.
“(…) no começo, quando a face negra de Calibã aparecera por entre as coxas brancas de Miranda, eles tinham ficado tensos, momentaneamente insultados e alarmados, até que, com o riso saindo fora de hora, lembraram um ao outro que, afinal de contas, isto era o Brasil, onde branco nunca era totalmente branco, não importa quão puro parecesse. Irromperam então em gargalhadas que eram ao mesmo tempo altas e hesitantes, trocando olhares em busca de reafirmação, sussurrando: “Não sei por que estou rindo. Não entendo nenhuma palavra em espanhol! Ou será este o lugar onde falam português?” (MARSHALL, 2004, p. 4-5).
 
Os cartazes do show anunciam o Senhor Calibã como “o maior e mais amado comediante do Brasil”, e o velho artista parece desenvolto e ágil. Fora das luzes, porém, ele tem algo do deformado Caliban shakespeareano no corpo diminuto e doído, as piadas já velhas e sem graça, o coração desiludido e cansado, a identidade confusa.  Quer aposentar-se para se dedicar à jovem e inocente esposa Clara (virtuosa como a esposa de Próspero) e o filho que esperam, e voltarem juntos para a cidadezinha do interior de Minas de onde vieram. Vai afastar-se do Rio de Janeiro e de Miranda, espelho inevitável de sua face enrugada e de suas contradições; quer sair definitivamente do palco, dos letreiros e da fantasia, e recuperar sua identidade perdida. Mas ninguém mais conhece o Heitor original: nem a doce Clara, nem os pobres da favela onde ele vivera e trabalhara, nem Miranda, nem ele mesmo no espelho: agora, “Calibã se tornara a sua única realidade”. O mineiro Heitor ficara esquecido até que a velhice trouxe uma tristeza indefinida, como “a memória de alguém que ele conhecera em outra época, mas de cujo rosto não mais se lembrava” (MARSHALL, 2004, p. 9, 35, 7).
Fazendo lembrar os insultos contra Próspero em A Tempestade (II.2, 1-15), Calibã se revolta e agride Miranda, quebrando móveis, cortinas, lustres, candelabros  e espelhos do luxuoso apartamento que montara para ela mas que agora lhe parece falso como a dona e como o próprio Rio.  A cidade é bela e sedutora como um corpo de mulher, charmosa e benevolente de dia, cenário de cartões postais, iluminada e convidativa ao cair da noite:
 
“A cidade (…) acendeu as luzes, e quando Calibã passou pelo túnel e entrou na estrada que faz a grande curva da Baía de Copacabana, viu luzes surgirem nos apartamentos e hotéis empilhados como rochedos brancos e angulares contra o fundo de morros negros. Vistas à distancia, aquelas janelas iluminadas lembravam diamantes perfeitos e grandes, de um ambar iridescente agora aos últimos raios de sol, que se tornaria um amarelo flamejante quando a escuridão se firmasse. A cidade do Rio – ainda quente do sol, murmurante com a cadência do mar, adornada com as luzes – estava se aprontando para a farra da noite, esperando que o vento chamasse seus amantes. Calibã tinha sido um de seus amantes” (MARSHALL, 2004, p. 31).
 
Miranda vive em apartamento amplo na Avenida Atlantica, com móveis e decoração inspirados em Hollywood; Calibã e Clara moram numa bela casa próxima ao Corcovado.  O conto revisita também o Cassino da Urca, o Pão de Açúcar, o Copacabana Palace, a praia de Copacabana, o Teatro Municipal, o teatro de revista, os shows cheirando a Broadway e Hollywood, os desfiles de Carnaval, o humor da chanchada, o pequeno-mas-Grande Otelo (tambémintertextualmente shakespeareano, possível inspiração para “O grande Calibã”). Na ficção de Marshall as descrições minuciosas de cidades das Américas denunciam a exploração racial e social e a perpetuação da estrutura escravista. Neste conto, Calibã deixara de enxergar o lado pobre da cidade e agora teme as favelas que se empilhavam cada vez mais sobre Copacabana. Lembram a descrição de Fanon (1961, p. 38-39, tradução livre) das cidades coloniais, onde “não existe conciliação possível” entre a zona onde moram os nativos e “a cidade dos colonizadores (…) muito bem construída em pedra e aço, fortemente iluminada, as ruas asfaltadas (…) bem alimentada, alegre (…) uma cidade de brancos e estrangeiros”. Do outro lado, negros e nativos ocupam “um mundo sem espaço (…) os casebres construídos um sobre o outro (…) uma cidade faminta de pão, de carne, de sapatos, carvão, de luz”.  No Rio de Janeiro descrito no conto, cortiços e favelas são engrossados por migrantes pobres como Heitor, Miranda, e os tantos que fogem da pobreza rural e precisam submeter-se ao subemprego esub-moradia. Expõem a história da ocupação da terra, a concentração de riqueza e a estrutura neocolonial que interfere no cartão postal: “Aquela miséria se levantando sobre o Rio sugeria que o próprio Rio não passava de uma falsidade; a favela era uma ameaça – pois parecia que a qualquer momento entraria em colapso e desabaria, soterrando a cidade lá embaixo” (MARSHALL, 2004, p. 26).
Além de aspectos socioeconômicos e políticos, “Brazil” evoca míticas jornadas de heróis em busca de si próprios, como o Heitor na Ilíada de Homero.Calibã pergunta, corre, sobe e desce ruas e morros, tentando encontrar-se nos caminhos e nas faces que fizeram parte de seu passado. Significativamente, vai atrás do ex-patrão cujo nome era Nascimento, esperando que ele lhe devolva a memória e faça renascer o herói Heitor. O motivo da máscara que ou substitui oué a verdadeira face percorre as literaturas do mundo ocidental e fala da busca da identidade perdida. Aqui ela faz lembrar o poeta Paul Laurence Dunbar (1872-1906), primeiro escritor negro lido por Marshall e que a contaminou com o desejo de escrever (como Marshall declara nas entrevistas a Baer e Dance). Em um de seus poemas mais conhecidos, Dunbar fala da necessidade da máscara sorridente para esconder a dor do negro: “We wear the mask that grins and lies,/ It hides our cheeks and shades our eyes”. Em tradução livre: “Usamos a máscara do riso e da mentira, / que esconde a face e encobre os olhos”.
O conto de Marshall termina com o personagem Calibã enraivecido contra um “Próspero” que o contagia e confunde, porque, ao aprender a linguagem do sistema capitalista e colonialista, acumulara bens e esquecera sua história.  O sonho de escapar da fragmentação e do individualismo dessa cidade grande que fala inglês e o traveste para turistas leva-o a refazer seu percurso migratório. Deseja voltar à terra natal, paradoxalmente as Minas Gerais onde o ouro sustentara a escravidão e onde ele mesmo, um dia, “comprara” sua jovem mulher negra, a neta de um primo. No contexto brasileiro, tais percursos e considerações remetem a interrogações e debates sobre a identidade nacional, à distribuição extremamente desigual do poder entre regiões, classes, raças, etnias e gêneros, e à relação do Brasil com o outro estrangeiro.
A perplexidade de Calibã lembra a constatação de Paulo Emílio Salles Gomes de que “a penosa construção de nós mesmos se desenvolve entre o não ser e o ser outro” (apud SANTIAGO, 1982. p. 13,17). Como o Calibã de Marshall, sentimos o peso da fantasia exótica e a ansia do aplauso estrangeiro, e tentamos identificar uma face nacional legítima e própria para escapar ao sentimento de “pastiche indigno” (SCHWARZ, 1987, p. 29). Para Silviano Santiago (1982, p. 20), porém, não existe uma cultura brasileira imune aos colonialistas e estrangeiros: “Acreditar que possamos ter um pensamento autóctone auto-suficiente, desprovido de qualquer contato alienígena, é devaneio verde-amarelo”. Na mesma linha, o teórico Stuart Hall (1996) retoma Fanon para ressaltar que as rupturas e traumas da experiência colonial não se corrigem com o retorno a um passado cristalizado: a cultura, como a história, é construída na descontinuidade e na transformação.
A seriedade dos temas no conto de Marshall é aliviada pela ambigüidade e humor irônico. Miranda, por exemplo, que no final é vista pelo amante como uma aproveitadora, fora migrante pobre como ele e havia tirado proveito dos espaços de crescimento econômico permitidos a uma mulher de sua época e condição. A esposa Clara, moça mineira bem comportada, recusa-se a deixar o Rio porque adora a cidade e o carnaval.  Calibã, perdido na cidade grande e no meio das duas mulheres, é tanto oprimido quanto opressor. Contraditórios e humanizados em seus desejos, conflitos e enganos, as personagens resistem a leituras simplistas e unilaterais. Fantasia e “real” se confundem e, anunciando o pós-moderno, clichês e máscaras revestem tudo, exceto a pobreza das crianças nos morros da cidade:
 
“Os meninos da favela apareceram, movendo-se quietos em meio aos arbustos que delineavam o caminho, alguns carregando latas d’água na cabeça ou crianças menores no colo. Pareciam nascer da sujeira que os cobria, como pequenas plantas resistentes brotando no solo cansado; e seus olhos vazios, indiferentes, pareciam espelhar a vida derrotada que ainda teriam de viver” (MARSHALL, 2004, p. 27).
 
O conto de Marshall aborda o deslocamento e a marginalização e elabora dilemas comuns à diáspora negra e às colônias do “Novo Mundo”,particularmente “a transfiguração cultural sofrida pelos povos não europeus no processo de colonização” (termos de Octavio Souza, 1994). Numa era que comercializa o autêntico, por outro lado, a cultura canibal impura pode ser a única legítima. No final do conto “Brazil”, Miranda corre atrás de Calibã, gritando: “Calibã, Calibã, meu neguinho, pra onde você vai?” (p. 37) – a pergunta fica assim no ar, uma interrogação aberta e continuada sobre os dilemas que afligem a cidade do Rio de Janeiro e todo o país.
De maneira geral, o interesse manifestado pelo Rio de Janeiro e pelas coisas do Brasil por Paule Marshall e Ntozake Shange, entre outros pesquisadores e escritores dos Estados Unidos, faz parte da tentativa de mapear a diáspora africana, reconstruir o passado e afirmar a identidade negra. Ao inserirem nosso mapa e história na literatura dos Estados Unidos, as escritoras contribuem para o incremento das relações literárias e culturais interamericanas.  Com sua imaginação e fantasia, podem enriquecer também nossa percepção de nós mesmos e iluminar os desafios de raça, gênero e classe presentes em nossa herança colonial.  Sem a pretensão de traçar definições “corretas” ou produzir traduções culturais “autênticas”, seus textos literários são elaborações inspiradas por olhares solidários, paradoxais, tão estrangeiros e tão semelhantes.
 
 
Referências
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SOUZA, Octavio. Fantasia de Brasil: As identificações na busca da identidade nacional.  São Paulo: Editora Escuta, 1994.





Bio fornecida pelo palestrante.

SOB O SIGNO EPIFANIZADO DO FEMININO, RE-VER BLIMUNDA




RESUMO
O presente ensaio toma da constatação de que, no universo fictício de José Saramago, os papeis femininos padecem de uma subversão, no sentido de que, à mulher são-lhe delegadas funções outras nos corpos dos romances, não padecendo da “inércia” que se mostra a elas reservado e, a partir da matéria de que se compõe o romance Memorial do convento, do autor português, objetiva ler, tracejar, engendrar o que seriam as dimensões, tessituras de um retrato de Blimunda, o feminino no ínterim do referido romance.
Texto:
SOB O SIGNO EPIFANIZADO DO FEMININO, RE-VER BLIMUNDA
Pedro Fernandes de Oliveira Neto
PPGL (UERN)
Maria Edileuza da Costa
PPGL (UERN)
… é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta
José Saramago, Memorial do convento
Introdução
Em Acerca do feminino em “O conto da ilha desconhecida”, de José Saramago, Oliveira Neto (2009), fundamentado no ensaio Ler Saramago – o romance, de Berrine (1998), partia da afirmativa de que no espaço social é corrente a ideia-clichê, quando se fala da questão do feminino, de que a mulher tem sido milenarmente oprimida, silenciada e/ou cerceada em todos os espaços. No espaço da Literatura, as mulheres outras, as de tinta e papel, têm assumido além dessa face clichê, outras faces, como as de musa inspiradora, as de anjo/demônio, a de eterno feminino. Contudo, quando voltamo-nos para o universo ficcional do escritor português José Saramago, é necessário dizer que o autor joga com estes e outros valores. Estes parecem sofrer uma subversão, no bom sentido dado ao termo, que é aquele de uma visão outra; são papeis re-engendrados. A mulher são-lhe “delegados” papeis e funções no corpo dos romances que chegam a beirar ou por que não, a assumir a condução do fio narrativo: “Na verdade, as mulheres são muito mais sensatas: nunca fizeram do homem um ‘sonho inspirador’ nem falaram do ‘eterno masculino’” (SARAMAGO, 1998, p. 240).
Ainda no texto de Oliveira Neto (2009), a partir das constatações de Ana Paula Arnaut, em José Saramago, a literatura do desassossego, afirmava que Blimunda, personagem de Memorial do convento, comporta em si o papel de transgressora da ordem, do comum, pela capacidade de ver excessivamente, de ver o que de real há no mundo: “essa visão aguçada da personagem, é o que dá visão ao próprio narrador, atuando, pois, num processo inventivo” (OLIVEIRA NETO, 2008, p. 2). Este ensaio, Sob o signo epifanizado do feminino, re-ver Blimunda, toma por base tais constatações e da própria matéria que compõe os romances saramaguianos, com o objetivo de buscar uma leitura, um tracejo, um fio de tinta, um engendramento do que seriam as dimensões, as tessituras/textura para esta Blimunda, personagem que acude mistério até no próprio nome, que é o feminino em Memorial do convento. Este ensaio tentará, por modo de aproximação, por através da escrita, compor mote para reflexões em torno dessa personagem, entendendo-a como arcabouço complexo, em que nela se reúnem inúmeros elementos organizados que a fazem ilimitada, um espaço, por assim dizer, sem fronteiras, para além da própria narrativa (CANDIDO, 2007).
Considerações acerca do Memorial do convento
Apesar do grande número de leituras acerca do Memorial do convento dá conta de sê-lo um romance histórico, meta-histórico ou mesmo uma espécie de palimpsesto da História, parece que, reduzir-se a essas nomenclaturas é falho. Memorial do convento é, na verdade, como é toda a escrita de José Saramago desde Manual de pintura e caligrafia, um “experimento”, em que o escritor “ensaia” a escrita, nesse caso específico, a de um memorial. Nesse processo de “treino”, o autor injeta em algumas formas que se põem a compor, como o memorial, outras forças de sentido; no caso deste romance, como exemplo, o sentido de relato de feitos memoráveis por grandes personalidades da história oficial é ampliado, elastecido pelo entendimento de que tais feitos memoráveis são operados por outras figuras, que, oficialmente, estão postas à margem e, na história oficial, sequer, muitas vezes, engendram uma nota de rodapé.
Memorial do convento é, antes de um romance, um teatro épico, no sentido usado por Bertolt Brecht, cuja arena é a Lisboa de D. João V. O cunho narrativo dessa obra somente se completa no leitor, a plateia partícipe da trama. Como em Brecht, suas personas carregam o vigor da despersonalização do indivíduo, “a sua montagem e remontagem em outra personalidade” (ROSENFELD, 2008, p.146), além de que, reside o interesse de “não apresentar apenas relações inter-humanas individuais, mas determinantes sociais dessas relações” (ROSENFELD, 2008, p.147) e o desfecho “didático” dado a trama, “a intenção de apresentar um ‘palco científico’ capaz de esclarecer o público sobre a sociedade e a necessidade de transformá-la” (ROSENFELD, 2008, p.148). No romance em questão, e isso é válido para os outros romances de José Saramago, “o homem não é exposto como ser fixo, como ‘natureza humana’ definitiva, mas como ser em processo capaz de transformar-se e transformar o mundo (…) o homem não é regido por forças insondáveis que para sempre lhe determinam a situação metafísica” (ROSENFELD, 2008, p.150).
Esse propósito está bastante claro, aos que porventura não consigam enxergar essa “essência” em romances como Memorial do convento, em um conto do autor intitulado O conto da ilha desconhecida, em que um homem, determinando-se por si próprio, se dá a aventura pelo desconhecido em busca de concretizar o sonho metafórico de encontrar a ilha desconhecida (OLIVEIRA NETO, 2008).
Mas, voltando ao Memorial do convento, a característica principal do teatro épico de Brecht é também característica de José Saramago, a de “desmistificação”, a de revelação de que as desgraças do homem não são eternas, mas advém nas correntezas da História, que o próprio homem vai construindo. Haveremos de notar em Memorial, narrativa encravada nos idos do século XVIII, as disparidades lá postas: o luxo e as extravagancias da Corte, “os de pança repleta”, e a simplicidade e, por vezes, a miséria da reles, “os de barriga agarrada às costas”. Nesse segundo grupo é que se insere a “tríade B”, a “trindade terrena”, Baltasar, Blimunda e Bartolomeu, que a modos seus, farão frente aquele primeiro grupo pondo em movimento a passarola – algo aparentemente complexo devido a incapacidade humana de alçar voo, e esta totalmente dependente da vontade divina, posta em voo, ironicamente, pelas vontades humanas. E tudo isso se dá antes do término da construção do convento de Mafra – algo aparentemente simples, terreno, totalmente dependente do poder humano e da riqueza da Corte, construído, também ironicamente, pela “vontade de Deus” que pôs o filho na barriga da rainha, logo depois da promessa feita por D. João V:
Na prioridade que o discurso concede ao ficcional já vimos como a passarola foi privilegiada ao longo do romance. A construção do convento é parcialmente escamoteada, enquanto a construção da passarola é acompanhada passo a passo, e só depois que assistimos à sua ascensão e à sua queda, o convento garante a liderança da narrativa. Entretanto, ainda assim, essa liderança é ilusória, pois mais uma vez a passarola rouba para si o privilégio do olhar do narrador e o momento, supostamente climático, da construção do convento – a sua sagração – é roubado ao leitor que, em seu lugar, vai ser informado sobre o destino de Baltasar, que voara na passarola (…) (SILVA, 1989, p.97)
Pelo que ficou dito, está aí o processo de “inversão” pelo autor ao longo romance para o título Memorial do convento.
Ver e ler Blimunda
Todo o correr da narrativa é dado nas transgressões. Isso é algo notável ao mais tenro leitor na mais breve leitura. Assim como logo é de saltar aos olhos a personagem Blimunda. Ela, a mulher dos olhos excessivos, é a figura-chave, podemos assim dizer, para atentar à superfície do romance os jogos de transgressão operados pelo narrador/autor. Isso se dá pelo seu caráter de ver o que está invisível ao olho comum. Tanto que, ver é signo exegético de toda obra, configurando-se nessa personagem, mas o olhar de Blimunda funciona como “apelo a uma visão outra, que é a do homem que tem como missão decifrar os enigmas do passado para, e através deles, superar os que o presente lhe impõe (LEÃO e CASTELO-BRANCO, 1999, p. 114). Destarte, ver é opinar, teorizar, discutir para, enfim, argumentando, ajuizar e passar testemunho (PRAXEDES, 2001). Acerca do olhar de Blimunda é este recorrente o tempo todo na narrativa: olhos “claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra” (SARAMAGO, 2007, p. 53); “os olhos escuros, e de repente uma luz verde passando” (SARAMAGO, 2007, p. 75); “os olhos claros , verdes, cinzentos, azuis quando lhes dava de frente a luz, e de repente escuríssimos, castanhos de terra, água parada, negros se a sombra cobria ou apenas aflorava” (SARAMAGO, 2007, p.101). O olhar de Blimunda é o que tem a capacidade de ver/reparar, que está para além de olhar/enxergar, o olhar de ver por dentro: “– Eu posso olhar dentro das pessoas” (SARAMAGO, 2007, p.75) – ver o que está além das aparências, ver o que o de real está no mundo – “Eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que é de fora dele” (SARAMAGO, 2007, p. 75); pode-se dizer que o fio da narrativa todo se desfia por através do olhar de Blimunda.
Blimunda é a que está na linha limítrofe do sagrado e do profano, impresso no próprio nome que carrega, outra marca que, como o olhar, também é mistério a se des-velar ao longo do romance. Blimunda de Jesus Sete-Luas. Este nome em forma de gerúndio dando a entender que o fio da narrativa passa, entretanto, sua figura, uma nebulosa, vai ficando, é contraditório, por si só: primeiro, um Jesus, que integra desde logo possíveis derivações semanticas no quadro do pensamento cristão, e, o interessante ou irônico, é herdado de sua mãe, posta em degredo em Angola, logo no início da trama, por acusações de bruxaria; e, segundo, o Sete-Luas, algo que remete à simbologia cigana. É esta a alcunha que traz/traça seu perfil no correr da diegese – o mistério de quem sabe sem saber como sabe, o nebuloso, o escuro e o claro, que nela coexistem. Esta alcunha é dada pelo padre Bartolomeu de Gusmão, por ela ser companheira de Baltasar; um batismo que é misto de casamento civil pelo encaixe semantico que Sete-Luas traz ao dirigir-se ao encontro de Sete-Sóis, a alcunha de Baltasar: “Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sento Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um” (SARAMAGO, 2007, p. 88).
Blimunda, como são as personagens de Saramago, não se encaixa aos moldes e conceitos comuns pré-estabelecidos pela Teoria e Crítica Literária – os de personagem plana ou os de personagem redonda. Isso porque todos os dois conceitos, apesar de o segundo, o de personagem redonda, apontar para uma pluralidade de qualidades e tendências (BRAIT, 2006), são, aparentemente, fixos no corpo do romance, coisa que Blimunda não é. Trata-se de uma personagem espiralada, que se constitui no ir e vir contínuo, como num cerzir de uma costura, num ritmo de vai-vem no interior do tecido narrativo.
Como transgressora de todos os moldes perfeitos que o Poder arquitetara para a sociedade, Blimunda é como uma força libertadora, como anunciadora de novas dimensões e proposições que se vão mostrando sempre que uma ordem/moral é subvertida. Ao subverter (se) ela tem a capacidade de, de um caos, recriar (se) ou criar (se), aproximando-se do que propõe Iran Nascimento Pitthan em Blimunda, uma alegoria do novo. Ela segue a forma da serpente com olhos de águia, um olhar que per-fura, olhos de “lanceta”, “estiletes finíssimos”, num estilo que desliza e consegue per-passar livremente aos olhos da Inquisição. Dentro do teatro épico é a heroína que se desdobra, metamorfosea-se para sobreviver.
A técnica usada por Saramago na tessitura da composição dessa personagem está para além dessa aparente desfamiliarização do familiar que dá corda a um ser paradoxal ao molde social da época, consiste em contrapor a legalidade, o dito, a justiça, parafraseando Rosenfeld (2008), quando trata da técnica de composição das personagens brechtianas.
O que Saramago faz, ao construir Blimunda, essa mulher que não possui nome na história oficial portuguesa, é destituir-lhe de todo e qualquer compromisso que transcenda o plano humano, fazendo com que ela apareça em constante choque com as obsessões místicas que a cercavam, representadas, no romance e na época, pelo intenso clamor da fé religiosa (OLIVEIRA FILHO, 1993): “O meu dom não heresia, nem é feitiçaria, os meus olhos são naturais, Mas tua mãe foi açoitada e degredada por ter visões e revelações, aprendeste com ela, Não é a mesma coisa, eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que de fora dele, céu ou inferno, não digo rezas, não faço passes de mão, só vejo,” (SARAMAGO, 2007, p. 75).
Os poderes de Blimunda, esse “dom” de ver o para além, não são poderes místicos, são, na verdade, os poderes do mundo. Não é também ela uma visionária ligada à crendice popular, mas “a consciência da força humana no mundo” (OLIVEIRA FILHO, 1993, p. 53).
Ao juntar-se a Baltasar, consagração que se dá mediante dois atos de uma poética belíssima, entendemos que essa mulher “humana” é também instinto. Observemos nos enxertos abaixo, as ações do olhar, do silêncio e o jogo erótico insinuado na permuta dos pronomes “meu” e “teu”, e as ações de persignação com o sangue da perda virgindade e ouçamos, depois, a explicação da própria personagem dada a este último ato:
… apesar de o padre ter acabado primeiro de comer [Blimunda], esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados (SARAMAGO, 2007, p. 54).
(…)
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez a cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus (SARAMAGO, 2007, p. 54-55).
(…)
Mas persignaste-te com o teu sangue e fizeste-me com ele uma cruz no peito, se isso não é feitiçaria, Sangue de virgindade é água de baptismo, soube que o era quando me rompeste, e quando senti correr adivinhei os gestos (SARAMAGO, 2007, p.75-76).
Com Baltasar, Blimunda compreende-se, formando um par antitético, complementar, no entanto: Sete-Sóis – Sete-Luas, claro-escuro, dia-noite. Esse caráter de complementaridade difere totalmente do estatuto social dado à mulher do século XVIII – o de indivíduo preso ao ambiente doméstico ou à clausura dos quartos, dos conventos etc (ARAUJO, 1997). Ironicamente, Blimunda anda (e como anda!) durante a narrativa inteira. E não só: participa das discussões dos homens, além de ela está, todo o tempo, imersa nos grandes espaços, nos espaços abertos, distante do claustro imposto à mulher de seu tempo como é de costume notar-se nas personagens femininas das narrativas de época.
A união com Baltasar é mais um rito de obediência de ambas as partes, um jogo que se deixa mediar pelo erotismo, pelo trabalho, um ao lado do outro, masculino-feminino. Entretanto, parece pouco ainda conformar-se com esse lado a lado e esse jogo de complementaridade; sabemos que ela ainda estará para além de ser companheira, trabalhadora, ela traz em si o esteio de todo o universo e o faz girar como gira o mundo, em seus movimentos de rotação e translação, sendo noite se sendo dia, calmaria e tormenta (PITTHAN, 2008).
Sob a ótica de uma nova mulher, no correr do romance haveremos de notar que Blimunda e seu par na “trindade terrena” representam uma proposta/partição de novos outros valores frente aos ditados pela Igreja, que como sabemos era o arcabouço maior do poder que regia a sociedade da época: a liberdade de crença, de expressão, de vontade, de sonho, de corpo. Ela é singular na narrativa, justamente, porque é a que percebe ser a religião a representação do domínio repressivo dos instintos do corpo individual e coletivo e instaura outra conduta que fere a supremacia da Igreja, e, por conseguinte, a da Coroa (SANTOS e BATALHA, 2008).
Fundada nos pilares da ironia, Blimunda desempenha esse papel que está para além das fronteiras do romance. É através dela e de seus “olhos excessivos” que o autor aloja-se e busca despertar o espírito crítico do leitor, obrigando-o a deitar um olhar outro para os fatos da História do século XVIII e enxergar os deslizes morais, sociais e religiosos, ex-pondo nu o que se deixa ou se é escondido por debaixo da pele da Ideologia: a corrupção na Igreja e na Política, a desmoralidade daqueles que se dizem santos terrenos, os excessos da Igreja e da nobreza, a insanidade que rege um Reinado fundado a custo das riquezas alheias, as manobras e voltas para a construção de um convento que se ajuste em pé de igualdade à Basílica de Roma (chame-se a isso de inveja), a ação da Inquisição a fim de entreter a população para as fraudes costuradas pela Igreja e pela Corte etc. Tudo passa por esse olha de águia.
Por tudo isso, as relações para como o teatro de Brecht, apontadas acima, são inevitáveis. O olhar outro que o autor visa nos despertar não é dado pronto; não se oferecem, portanto, respostas prontas, mas perguntas, durante todo o romance, esclarecendo-as tanto quanto possível, encaminhando-nos à solução correta (PRADO, 2007). Recortem-se, a título de justificação, três momentos do romance: o primeiro, é a cena em que Bartolomeu declara a Baltasar ser Deus também um maneta; o segundo, a discussão acerca da alma e das vontades humanas; e o terceiro, em que Blimunda vê o que está na hóstia:
eu te digo que maneta é Deus, e fez o universo.
(…)
Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta (SARAMAGO, 2007, p. 63-64).
… mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive devido aos homens e mulheres, Nesse caso é a alma, Concluiu Baltasar, Não é, também eu primeiro, pensei que fosse a alma, também pensei que o éter, afinal, fosse formado pelas almas que a morte liberta do corpo, antes de serem julgadas no fim dos tempos e do universo, mas o éter não se compõe das almas dos mortos, compõe-se, sim, da vontade dos vivos (SARAMAGO, 2007, p. 121-122).
(…)
Durante todos estes anos, desde que se revelara o dom que possuía, sempre comungara em pecado, com alimento no estômago, e hoje, decidira, (…) que iria em jejum, não para receber Deus, mas para ver, se ele lá estava. (…) Que foi que viste na hóstia (…) Vi uma nuvem fechada, respondeu ela. (…) Esperava ver Cristo crucificado, ou ressurrecto em glória, e vi uma nuvem fechada (…) se o que o está dentro da hóstia é o que está dentro do homem, que é a religião (SARAMAGO, 2007, p. 126-127).
É por através de Blimunda, prenhe de características fortes, como este dom de ver o que o está além, assemelhada a outras personagens da mitologia (relembro aqui o velho Tirésias), que Saramago vem tratar das dúvidas e das inquietações do ser humano; inquietações em relação à morte, ao amor, ao pecado, a existência de Deus (MALHEIROS, 2009). Numa dimensão mítica, Blimunda é uma personagem que está num passado aberto, dilatado para o além, o futuro; traz uma individualidade que não é apenas dela, mas de toda uma humanidade. Ela acaba por compor parte da eterna luta entre as forças divinas e demoníacas; é portadora de uma mensagem humanizadora; espécie de Prometeu que se ergue contra as divindades e, por isso, é castigada a rodar o seu país, o mundo, de ponta além ponta – “A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como cortiça. Portugal inteiro esteve debaixo destes passos, algumas vezes atravessou a raia de Espanha, porque não via no chão qualquer risco a separar a terra de lá da terra de cá” (SARAMAGO, 2007, p. 346); e andou durante nove anos, como os nove círculos do inferno de Dante. O vagar mundo afora à procura do “seu homem” denota a expulsão de sua unidade original. É maltratada, apedrejada, julgada doida, feiticeira, sofrendo a tortuosidade e a tortura, feito Sísifo, num mundo caduco e absurdo, até reencontrar-se com Baltasar:
Naquele extremo arde um homem a quem falta mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda (SARAMAGO, 2007, p.347).
Se atentarmos para o fato de que as vontades humanas eram o ar que Deus respira, Blimunda iguala-se a Ele ao tomar a vontade de Baltasar antes de esta subir ao céu. Além do que, esta cena coroa o fechamento de um círculo poético que se abria no alvorecer do romance, quando Blimunda conhece Baltasar e, denota um estágio de comunhão amorosa.
Conclusão
Aqui chegando é possível deixar as feições desse retrato. Blimunda não é nenhuma divindade terrena ou bruxa; talvez complete em si o mesmo poder comum de intuição feminina – “Não há mulher nenhuma que não tenha visões e revelações, e que não ouça vozes, ouvimo-las o dia todo, para isso não é preciso ser feiticeira” (SARAMAGO, 2007, p. 101). Pelo correr das constatações operadas ao longo deste ensaio, deve ter ficado claro que, Blimunda é a que instaura outro olhar para o ser feminino: não cabe nessa sua imagem a figura que à mulher de seu tempo e ainda contemporanea em alguns discursos, lhe foi acoplada: a de símbolo torto, enviesado, demoníaco. Blimunda também é como bússola, a única que comporta o senso de direção, ainda que desnorteada; é como aquela mulher do médico do romance de Saramago posterior a este, o Ensaio sobre a cegueira: a que carrega a responsabilidade de ter olhos quando os outros o perderam, a que nasceu para ver o horror, porque se é, muito mais sensato viver às cegas, nas virtuosidades e aparências. “Signo epifanizado do feminino” (BASTAZIN, 2006), a imagem que fica da Blimunda verbal e que se constrói na narrativa como pintura na tela, é a de sugestão poética ou enigma místico; como já foi dito, nebulosa, que vai, ao longo do romance, assim como ao longo do quadro, movimentando-se, desdobrando-se, expandindo-se, modelando-se por através das palavras, da tinta, até compor-se arquétipo, imagem universal. Trata-se de uma personagem complexa, viva, visceral; é uma mulher do povo, mas que “caosifica” a ordem, para no caos recriá-la de outro modo; vive a seu modo o sentimento místico; é a que desperta a outra parte, o masculino em sua claridade obscura dos sete sóis, para ver a vida e ensinar a ele, e, por conseguinte, ensinar-nos, a ver o mundo tal qual ele é: uma mancha povoada pelos lados do bem e do mal. O tecido dessa imagem é, pois, denso. Blimunda é o que poderíamos ser: a que ver de forma fiel, verdadeira.
Referências
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SILVA, Teresa Cristina Cerdeira. Memorial do convento ou a história da repressão da utopia. In: José Saramago entre a História e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa: Dom Quixote, 1989.





Bio fornecida pelo palestrante.

DIÁLOGOS ENTRE JOSÉ SARAMAGO E JEAN-PAUL SARTRE – Pedro Fernandes de Oliveira Neto




DIÁLOGOS ENTRE JOSÉ SARAMAGO

E JEAN-PAUL SARTRE

 
 
 

Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Universidade do Estado do Rio Grande

do Norte (UERN)

O que me motiva esta relação de dois “S” europeus vem muito antes de meu primeiro contato com O conto da ilha desconhecida. Vem do contato mais específico com as discussões em torno do pensamento sartriano, denominado O ser e o nada. Desde já parece haver entre os dois – Saramago, escritor português, nobelizado em 1998 e Sartre, escritor e pensador francês, nobelizado em 1964 – elementos que além desses sublimes traços biográficos por si só justificam a necessidade ou proposta duma leitura de um através do outro. E é isso a que me proponho neste texto acerca do texto saramaguiano O conto da ilha desconhecida, publicado em 1997. Trata-se, pois, duma leitura espelhar em que buscarei a compreensão da constituição na referida obra saramaguiana pelas vias do existentialisme de Jean-Paul Sartre.

Cito, antes, os elementos comuns entre ambos de que mencionei acima. O primeiro é que o escritor português prima por uma literatura que reflita a história, a realidade e as inúmeras questões acerca do homem contemporâneo, sua existência e sua essência em suas mais diversas dimensões; e isto muito se aproxima do engagement sartriano, segundo o qual o escritor e, conseqüentemente a Literatura, têm o caráter de “desvendar o mundo e especialmente o homem para os outros homens, a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade” (Sartre, apud Souza, s/d).

O segundo é o estilo saramaguiano de romancista. Sua escrita encontra-se ancorada num relato de curto fôlego, uma escrita que prima a (re)criação, seja a partir do fundir de gêneros, seja do cruzamento da oralidade com o plano da escrita – e aqui remeto aos romances escritos a partir de Levantado do chão, de 1980. Esse caráter novo dado ao romance, diz Sartre, dota-o, logo também a ficção, de um universo outro. Este romance, esta ficção a que estamos acostumados e que teve seus moldes na sociedade burguesa do século XVIII, mas precisamente no Romantismo, já não mais existe, o que existe, é o que o pensador francês chama de naif.

O terceiro – e aqui busco os subsídios à leitura a que me proponho – trata-se do pensamento saramaguiano. Este parece nutrir-se ou carregar reflexos, estilhaços do movimento existencialism precursionado por Jean-Paul Sartre. Digo isso por enxergar em pensamentos do escritor português, como: “Eu não sou pessimista, o mundo que é péssimo” (Saramago, 2004, não paginado) ou, “Como será possível acreditar num Deus criador do universo se o mesmo criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente é o que prova a inexistência de Deus” (Saramago, apud Amaral Jr., 2007, não paginado) algo como em Sartre, “O mundo pode passar sem literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem” (Sartre citado por Souza, 2007, p. 42), “Quando concebemos um Deus criador, esse Deus identificamo-lo quase sempre como um artífice superior (…) e Deus produz o homem segundo técnicas e uma concepção, exatamente como o artífice fabrica um corta-papel” (Sartre, 1978, p. 05). Nessa relação de pensamentos me parece haver uma proximidade em ambos os modos de pensar, reforçando em Saramago uma abordagem existencialista que considera o homem como ente finito e limitado nas suas capacidades, responsável, também, por suas escolhas e suas responsabilidades. Noutras palavras, nele se deposita tudo, a crença/descrença da/na sua figura.

Ao estabelecer estas relações parece-me necessário compreender ou buscar entender a posição e a composição do ser saramaguiano na sua escrita. Isto é, o valor a que atribuo esta discussão centra-se no fato de evidenciar as questões que dizem respeito ao ser no corpo da escrita do escritor português, recobrando o caráter de que a literatura na realidade em que se insere é palco de todas as vozes (polifonia bakhtiniana), tomando por missão refletir acerca desta realidade e quebrar a linearidade discursiva valendo-se de territórios outros das ciências humanas. Constituir uma leitura de cunho filosófico para o texto saramaguiano não é apenas para descobrir e nutrir-se de novos enunciados e/ou doutrinas, como uma obra artística portátil de verdades ou a elas volátil. Mas, o trato para com a literatura enquanto “documento na história das idéias e da filosofia, pois a história literária é paralela à história intelectual e a reflete” (Warren e Wellek, 2003, p. 139). Vou mais adiante, a literatura não só reflete, mas funda outras realidades, haja vista que o olhar literário coloca-se como que espelhos virados para dentro (SEIXO, 1996), isto é, ao mesmo tempo em que reflete a realidade este reflexo é a realidade outra.

Este refletir e fundar outras realidades se dá através do campo semântico da palavra. É o signo lingüístico semantizado, grávido em suas órbitas de sememas, a força motriz que rege este universo em que humanos de tinta e papel se situam. Ao tratar da palavra grávida de sentidos refiro-me à força maior, primordial e fundamental nessa constituição da realidade em si (reflexo) e ao mesmo tempo realidade outra. Refiro-me à metáfora. E é sob o signo da metáfora que entendendo Saramago e sua escrita, uma escrita que se dobra sobre si mesma. É neste vínculo cíclico da linguagem que me lanço à leitura do ser no conto em questão. A perspectiva existencialista do filósofo francês Jean-Paul Sartre é o meu aporte teórico, o apêndice de onde através de outras leituras (cito Abbagnano, 2001; Sass, 2007; Moutinho, 1995; entre outros sartrianos) busco traços à compreensão dessas reflexões.

Agora, se faz necessário para esse dialogar a apresentação desse território onde imprimirei minhas marcas e impressões, visto que é do corpo tatuado da ficção que me faço interlocutor, pressupondo haver entre eu e o texto uma interação ou feixes de diálogos para com ele. As rotas que estabeleço para essa leitura em Saramago estão delimitadas, conforme já expus, pelas fronteiras da metáfora maior que é este conto. Sua apresentação se faz necessária não apenas por isso, é que é nesse percurso, no movimento da própria narrativa em que penetro a fim de incutir minhas marcas.

Semelhante a uma parábola este conto se apresenta como um fato que se desdobra em dois movimentos no corpo narrado. O primeiro acontece de homem que bate à porta de um rei para pedir um barco no intuito de encontrar uma ilha desconhecida. O segundo marca-se a partir da concessão do pedido, a busca e o sonho, marcadores da tentativa de encontrar a ilha desconhecida.

Será nessa trajetória de busca, nesse lançar-se da personagem ao mundo, que centro minhas atenções, porque enxergo nelas, a personagem e sua trajetória, as molas propulsoras do texto saramaguiano e também onde poderei compreender a constituição do ser pela ótica sartriana. Esse roteiro ou rota dá-se num conjunto de imagens compósitas de um grane painel, que é o conto; estas imagens nada mais são que seis momentos distintos e, ao mesmo tempo imbricados que a seguir enumero-os: (i) o pedido do barco; (ii) a concessão do pedido; (iii) a saída pela porta das decisões da mulher da limpeza e seu abraçar a idéia do homem do barco; (iv) a limpeza do barco; (v) a busca por marinheiros; e (vi) a descoberta, depois do sonho, da realidade, da busca e da ilha desconhecida. É a costura desse trajeto que me interessa nesta leitura.

Assim sendo recorto o momento (i) que me parece necessário para entender o caráter da apresentação da personagem, momento em que ela se coloca para além, diante de um enigma – a ilha desconhecida:

Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco (O conto da ilha desconhecida, p. 17-18).

A personagem é posta e exposta ao veneno catatônico e paralisante das possibilidades humanas (a maior delas na figura do rei, centrada no comodismo, adiante veremos que não será apenas ele). A personagem é manifestada sob um indeterminismo, sob uma insignificância que nela se constrói como significante e determinismo ao projetar no pedido do barco sua busca pela ilha desconhecida:

E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco (p. 18).

Ao apenas demarcar a personagem central sem uma nomenclatura própria está intrínseca nessa forma esfarelada da personagem o procurar do escritor na constituição do homem e as estruturas fundamentais do ser; uma busca pela compreensão existencial “do quem somos”, “para onde vamos”. As marcas ausentes duma descrição, da especificidade das personagens, debilitadas ou mutiladas por um nome próprio e delimitadas apenas por seus papéis sociais recobra o caráter de um escritor pouco preocupado com o que há de mais imediato ou de supérfluo no ser humano, isto leva-nos a inferir que, reside no fosso do ser sua preocupação.

O pedido do barco por um simples homem comum a um rei, funda um espectro de ser que é livre, cujas responsabilidades por seus atos (o de desafiar o rei, por exemplo) e a subjetividade (o da crença na ilha desconhecida) convergem para a construção de ser único; a maestria nos seus atos e no seu destino será o que o constrói/constitui enquanto ser existencialista que enxergo. O homem que queria um barco é livre, produto de suas escolhas e seu corpo liga-se ao mundo através da consciência (aqui, fujo do cartesianismo “Penso, logo existo”) uma vez que ele se vai constituindo enquanto ser nessa relação. Tanto que as conquistas representam espécies de anéis modelares do ser. Isto é, o homem é seus atos e aqui justifico com a forma como o narrador compõe sua personagem central: num dado momento narrativo é ele o homem queria um barco (p. 9); noutro, o homem que ia receber o barco (p. 20); e, o homem do leme (p. 56); ou, por fim, apenas o homem (p. 62). A concessão do pedido (momento ii) é o que traceja as linhas do ser no corpo da obra e leio esta cena como a libertação da consciência de seu estado fixo, o estado comum, para o seu lançar-se ao mundo.

Nessa viagem o caráter de liberdade parece se manifestar enquanto condição necessária ao descobrimento do ser enquanto ser. Digo isso para introduzir aqui o caráter simbólico que remete a essa importância o momento (iii). O momento em que a mulher da limpeza, para aderir à busca pela ilha desconhecida, tem a necessidade de sair pela porta das decisões. Sublinho o valor semântico intrínseco nessa cena e reforço minha compreensão no entendimento de que nesse conto as personagens se relacionam como que consciência-mundo. Nessa saída do castelo reside a saída da própria consciência para o mundo a fim de constituir-se enquanto consciência, corroborando Sartre, “o eu não é um habitante da consciência, mas sim do fora, no mundo” (cit. in Moutinho, 1995, p. 81). Isso também é válido para a cena anterior se compreendo o diálogo do homem que queria um barco com o rei, incutindo o rei duma simbologia na qual ele pode ser lido com o próprio ser carregado da expectativa de/por lançar-se ao mundo em busca do desconhecido; o rei como uma espécie manifesta de ser-outro que está fixo no inconsciente da personagem, o responsável pelo impulso, pela tomada de decisão já, de certa forma, estabelecida. A metáfora maior reside no que o que parece ser a busca das personagens, o que elas procuram reside fora do discurso escrito e da realidade porque o que elas procuram é o mundo e o que irão encontrar nada mais será do que o mundo particular, ou seja, a metáfora maior é a do ser-ilha.

Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar (…). A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. (p. 23)

Esta saída da mulher da limpeza pela porta das decisões funda outro caráter: o papel do outro nessa empreitada do constituir-se, estando no outro a dimensão outra a mim necessária para ser, consoante o pensamento heideggeriano. E é com este caráter que emendo outra cena, a (iv), a do momento de limpeza do barco:

Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento (p. 34).

Sem a figura do feminino vejo que o caráter de extensividade ou complementaridade do ser estariam abalados. Mas, não apenas isso, ela é a figura catalisadora de todo processo de criação, havendo nela uma espécie de força mediadora à profícua realização da busca do autoconhecimento da personagem masculina.

Noutra empreitada recobro a busca do homem do barco por marinheiros que o ajudassem na sua busca (cena v). A negação por parte de todos ao dizê-lo que não há mais ilhas por conhecer parece frear esse caráter de liberdade da consciência. Mas não. Não compreendo que esta personagem deixe-se balizar por este aspecto. A liberdade da qual trata Sartre e em que me apóio não é aquela do obter o que se quer, mas a do querer autonomamente, determinar-se a si mesmo. E isso é o que a meu ver nestas personagens residem; para elas é o querer descobrir a ilha desconhecida e não o poder o que as fazem crer na busca ou necessidade pela ilha desconhecida. Dito isso chego ao desfecho do conto, marcado pelo tom poético saramaguiano. E chegando ao desfecho do conto, chego também ao desfecho desse texto:

Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetece um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarde que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sobre nas copas e vá encaminhando a caravela e seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começavam a cantar pássaros, deviam está escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi querendo ao lado da sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se é este o de bombordo ou de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar a proa do barco, de um lado e do outro em letras brancas, o nome ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma (p. 61-62).

Enquanto texto que se assemelha ao fluxo duma parábola o comportamento metafórico da personagem principal pode preencher a ótica em que a vontade, o livre querer, é a marca do desejo por conseguir algo, estando esta ancorada ao plano da simplicidade. Entre o desejo por um barco e tê-lo pronto para partir, entre o buscar o outro e o encontro com a mulher da limpeza, o viajante vai de certo modo alterando a idéia que faz de si e do outro. É com certeza o que o faz constituir-se. É o que o torna mais apto a obter o que sonhou.

As linhas que demarcam a constituição do ser saramaguiano neste conto são as mesmas que demarcam a existência do homem no mundo. A partir delas posso inferir vários questionamentos: como o que buscamos nós os humanos durante a vida inteira – a verdade, a felicidade? Ou ainda, por que sempre buscamos nesse movimento dialético? “A ilha desconhecida somos nós”, diz Saramago, a ilha desconhecida é o que nos leva esse lançar-se ao mundo, é o limite do processo de busca constante do ser para ser, uma busca que se dá numa aventura até fátua, rumo ao desconhecido que somos nós próprios.

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. História da filosofia. vol. 12. 4. ed. Lisboa: Editorial Presença, 2001.

AMARAL JR., José de Almeida. Intelectual luso cria fundação para defender Direitos Humanos e Meio Ambiente. Notas Quotidianas. In Jornal Mundo Lusíada, 05/07/2007.

MOUTINHO, Luiz Damon S. Sartre – existencialismo e liberdade. São Paulo: Moderna, 1995. (coleção Logos).

SARAMAGO, José. A ditadura disfarçada. Jornal do Brasil, 20/03/2004.

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. 20 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. In: Os pensadores – Sartre. São Paulo: Abril S.A. Cultural, 1978, p. 01-32.

SASS, Simeão Donizeti. O eu é um outro: o ego como objeto psíquico transcendente. Revista Mente-cérebro e filosofia. vol. 5. Ed. especial. São Paulo: Duetto Editorial, 2007, p. 41-47.

SEIXO, Maria Alzira. Os espelhos virados para dentro – configurações narrativas do espaço e do imaginário em Ensaio sobre a cegueira In: Giulia Lanciani (org.) José Saramago – Il Bagaglio dello scrittore. Roma: Bulzoni Editore, 1996, p. 191-210.

SOUZA, Thana Mara de. Além das palavras. Discutindo filosofia – Sartre, a consciência, o homem e a condenação à liberdade. São Paulo: Escala Editorial, ano 1, n. 2, p. 41-43.

WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários. São Paulo: Martins Fontes, 2003





Bio fornecida pelo palestrante.

TRIBUTO A E.T.A. HOFFMANN, CAMINHO PARA A FIXAÇÃO DO GÊNERO FANTÁSTICO – Maria Cristina Batalha




TRIBUTO A E.T.A. HOFFMANN, CAMINHO

PARA A FIXAÇÃO DO GÊNERO FANTÁSTICO

Maria Cristina Batalha

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
Costuma-se associar a origem do fantástico na França à introdução de Hoffmann (1776-1822) neste país, sobretudo através da imitação de suas novelas, à qual a história literária deve o nome do gênero com a acepção que adquiriu a partir daí, pois foi graças à tradução de Phantasiestücke im Callot’s Manier– traduzidos por  Contes fantastiques, e não por “fantasias”, que o termo passou a servir de referência para autores e críticos da época, distanciando-se da acepção que detinha na novela “fantastic” anglo-saxã. O título Fantaisies dans la maniere de Callot já é por si mesmo significativo da poética de Hoffmann: o dom da observação do pintor, mesclado ao da deformação do caricaturista.
Na nota introdutória ao volume das Fantaisies dans la maniere de Callot, publicadas em 1891, seu tradutor francês Henri de Curzon, além de destacar o talento de desenhista de Hoffmann em suas caricaturas maliciosas, transcreve as palavras de Saint-Marc Girardin, que ele julga definir com pertinência a importancia da obra hoffmanneana:
Les oeuvres d’Hoffmann sont pour ainsi dire un cours complet de toutes les impressions instinctives de notre ame. Sous ce rapport, l’imagination du romancier n’est pas inutile aux réflexions du philosophe; elle lui découvre dans notre ame et dans notre intelligence beaucoup de choses dont la raison est toujours tentée de ne pas tenir assez de compte. Il y a pourtant, il faut que la philosophie s’y résigne, il y a hors du cercle de ses recherches habituelles beaucoup d’idées et de sentiments humains qui tiennent, l’histoire le prouve, une grande place dans le monde. Toute philosophie qui les néglige par dédain ou qui les nie par esprit de systeme est une philosophie incomplete (GIRARDIN,Souvenirs de voyages et d’études, 1853, in HOFFMANN, 1979, p. 14-5).
 
A obra de Hoffmann aparece ao cabo de um período em que o imaginário tinha encontrado seu modo de expressão ideal nos contos maravilhosos e no feérico e, ao mesmo tempo, em que os primeiros romanticos alemães transformavam a literatura em teoria e a ficção em pretexto para ilustrar os novos conceitos e a nova dimensão atribuída à obra literária. Hoffmann, percebendo que a relação entre o cotidiano e o ideal é bem mais complexa e que ela sugere diversas interpretações muitas vezes contraditórias, entrelaça em seus contos os dois universos, emprestando ao mundo maravilhoso uma capa de realidade familiar e desestabilizando o mundo familiar através de imagens de estranhamento que criam uma atmosfera de instabilidade para o leitor.
Hoffmann morre aos 46 anos, em 1822, e é postumamente que sua obra ganha a dimensão mítica através da recepção francesa.  Se a obra do autor alemão é tributária de uma temática e de um modo de narrar inaugurados por Jacques Cazotte e Jean Potocki, na França, e por Ludwig Tieck, na própria Alemanha, ela se impõe posteriormente na França como uma etapa definitiva na evolução e no reconhecimento de um gênero que, embora muitas vezes minoritário, continua presente na história da literatura universal.
O tema do amor perdido e o de forças não-humanas ou anti-humanas, animadas por um princípio do Mal constitui o eixo central do conto “Os autômatas”, de Hoffmann, ou ainda os “Elixires do diabo”, do mesmo autor, no qual o magnetismo aparece sob a capa de um sombrio e sedutor personagem, figura byroniana que abusa inescrupulosamente de seu poder em proveito de interesses próprios.
Nos dois contos citados – e em outros do mesmo autor onde essa temática é mais ou menos dominante – a atração amorosa obedece a duas forças opostas, conforme a sua natureza: matéria ou espírito. Ao espírito, corresponde a magia do canto, como no conto “Os autômatas”, e à matéria, uma energia desconhecida, próxima do magnetismo descoberto nas últimas décadas do século XVIII, e que tanto impressionava as cabeças pensantes e os cientistas da época, abrindo novos horizontes para os enigmas da psicologia humana.  Em “A copa de ouro”, conto iniciático de Hoffmann, o estudante Anselmo vive a luta entre as forças da luz e as forças da noite que tentam possuir uma alma superior, destinada ao conhecimento e à felicidade. Em sua caminhada para a realização, surge o obstáculo da feiticeira – filha do Dragão –, mas, mesmo assim, Anselmo atingirá a metamorfose suprema e entrará no reino dos Espíritos, mundo superior de forças elementares e espirituais, bem longe da “secura interior”, produto da época das Luzes. (HOFFMANN, “Le vase d’or”, huitieme veillée, vol. 1, 1956) Em “A copa de ouro”, Lindhorst é o Iniciador que incita Anselmo a escolher um amor ideal, recusando o amor vulgar, mas também o Tentador que trabalha contra sua felicidade. E o que nos mostra Hoffmann é que, quando o homem se encontra em situações limites – diante da criação poética ou movido por uma paixão devastadora, por exemplo – os “demônios” se manifestam de modo mais evidente.
Recortamos como corpus o conto “O Homem da areia”, integrando a coletanea dos Contes nocturnes, escritos entre 1815 e 1817, para evidenciar a complexidade narrativa de E.T.A. Hoffmann, cuja obra fantástica se impõe como a encenação trágica dos distúrbios da personalidade. Pela habilidade de sua técnica narrativa, Hoffmann torna-se um verdadeiro herdeiro de Tieck, aprofundando e aperfeiçoando os procedimentos do fantástico que surge no final do século XVIII e configurando de modo mais preciso o herói problemático que caracteriza a literatura romantica e, mais particularmente, a literatura da modernidade. Em “A copa de ouro”, seu primeiro conto, Hoffmann se aproxima de Tieck pela estrutura bipolar, através da qual os elementos míticos e o relato realista, depois de entrarem em oposição, passam, em um segundo momento, a interpenetrar-se para chegar finalmente a uma visão edênica, relativizada pelo narrador que leva o leitor implícito até sua pequena mansarda de autor empobrecido, de onde ele poderá apenas sonhar com a felicidade utópica angariada pelo herói poeta. Com “O Homem da areia”, Hoffmann abandona essa estrutura bipartite para multiplicar as diferentes máscaras narrativas e produzir um relato especular, composto de elementos heterogêneos, servindo de modelo para vários estudiosos que se serviram do conto para ilustrar, pela riqueza das técnicas ficcionais empregadas, a estrutura  e a complexidade do relato fantástico.  Não foi por acaso que Freud dedicou um famoso estudo a este conto, de onde ele extrai o conceito de Unheimlich.
Em “O homem da areia”, em uma carta destinada ao amigo Lotário, mas enviada por engano à sua irmã Clara, o estudante Natanael, seu noivo, narra o encontro perturbador que acabara de vivenciar na cidade universitária onde estava estudando. Um vendedor de barômetros reavivou em Natanael as lembranças do drama que aterrorizara sua infancia, quando sua mãe, para fazê-lo ir para a cama, o ameaçava com a visita de um misterioso homem da areia. Diante da reação de medo do menino, a mãe insistia que se tratava apenas de uma “maneira de dizer”, mas a empregada da família tinha uma versão bem diferente: para ela, “era um homem mau, que vinha pegar as crianças que não queriam ir para a cama; ele jogava uma boa quantidade de areia nos olhos das crianças e estes saltavam ensangüentados de seus rostos; depois, o homem os colocava em um saco e os levava durante a lua crescente para servir de alimento para seus filhos” (HOFFMANN, 1956, p. 265).
Ora, tendo observado que a chegada do homem da areia era sempre anunciada quando ele ouvia uns passos na escada, o menino se esconde no gabinete do pai, para esperar o momento fatídico em que pudesse ver o terrível personagem. Ele então reconhece no visitante o advogado Coppelius, por quem nutria uma profunda aversão. Este, ajudado pelo pai de Natanael, inicia um ritual misterioso ao redor de um forno. Em dado momento, ele pede: “Os olhos, depressa, os olhos!”. O menino não consegue reter um grito de horror, que o denuncia em seu esconderijo. Coppelius ameaça então lançar brasas incandescentes em seus olhos, mas, atendendo aos apelos do pai, contenta-se em manipulá-lo como uma marionete até que a criança perca os sentidos. E todo o problema de Natanael, personagemvoyeur por excelência, é que ele insiste em manter os olhos abertos para ver o que se passa no escuro, ao invés de aceitar a “ignorancia” apaziguadora que lhe sugere a mãe: “Quando eu digo: aqui está o homem da areia! isto significa simplesmente que você está com sono, e que não consegue manter os olhos abertos, como se tivessem jogado areia neles” (HOFFMANN,   1956, p. 266).
Quando despertou de seu desmaio, Coppelius já havia partido, voltando somente um ano mais tarde. Sua visita coincide com a explosão do laboratório do pai que acaba morrendo no incêndio. O advogado deixa a cidade, mas Natanael está convencido de que o vendedor de barômetros – Coppola – não é outro senão o antigo Coppelius. Caberia assinalar a facilidade com a qual os personagens de Hoffmann, de um modo geral, mudam de nome e de função, assim como a enorme capacidade que têm de se transformar em um “outro”, através de múltiplas metamorfoses que sofrem. Com efeito, em resposta à carta que lhe cai nas mãos por engano, Clara tenta convencê-lo de que a semelhança não passa de fruto de sua imaginação, não correspondendo à realidade vislumbrada por ele. Na outra carta que dirige a Lotário, o estudante se irrita com a intervenção de Clara e revela ao amigo que, indo à casa do professor Spalanzani, entreviu por entre as cortinas uma mulher de grande beleza, porém, “estranhamente imóvel”. Tratava-se da filha do professor, Olympia. O relato prossegue então, em terceira pessoa, onde o narrador, dizendo-se um amigo de Lotário, conta que Natanael havia reencontrado a calma, ao lado de Clara, mas que as lembranças da infancia, das quais ele se serve para compor um estranho poema, continuavam a perturbá-lo e a desestabilizar o relacionamento dos dois jovens. De volta à cidade onde deverá terminar seus estudos, instala-se em frente à casa de Spalanzani. Lá, ele recebe a visita de Coppola, que lhe propõe algumas lunetas e outros objetos óticos, que ele acaba por comprar, tentando livrar-se do homem desagradável. Ao usar a luneta para observar Olympia pela janela, desenvolve por ela um amor incontrolável. Convidado por Spalanzani para um baile em sua casa, Natanael, embora advertido por seus amigos de que Olympia é apenas uma boneca, apaixona-se ainda mais ao dançar com a “moça”. Quando está decidido a pedi-la em casamento, Natanael surpreende uma discussão entre Spalanzani e Coppola, que disputavam entre si a posse da boneca autômata, que o jovem havia tomado por uma mulher de carne e osso.  Nessa briga, Natanael recebe os olhos arrancados da boneca em plena face. Mergulhado novamente no delírio, consegue recuperar-se graças aos cuidados de Clara, mas, durante um passeio, ao subir em uma torre muito alta para admirar melhor o panorama, Natanael retira do bolso a luneta. Tomado pelo panico ao avistar no meio da multidão o advogado Coppelius, ele tenta empurrar a moça lá de cima. Esta é salva pela chegada do irmão Lotário, mas Natanael precipita-se no ar, gritando com voz estridente: “Ah! os belos olhos,  belli occhi!”
Assim como o poema escrito por Natanael que se estrutura em três tempos, o conto também se divide em três momentos distintos: no primeiro, Clara se identifica com Natanael; no segundo, esta dissipa a ilusão do rapaz, tentando livrá-lo da imagem obsessiva que o domina, empreendimento que parece ser bem sucedido; e, no terceiro momento, fica evidente que a libertação de Natanael é apenas ilusória e os olhos de Clara refletem o olhar da morte no alto da torre. O motivo da reiteração assume nesta obra um papel fundamental: Natanael revê em Coppola, o vendedor de barômetros, o sinistro Coppelius, de cuja imagem ele não consegue se libertar. O conto estrutura-se assim em um movimento circular que aprisiona o personagem em suas visões, levando à impossibilidade de sair do círculo fechado que representa o universo mental de Natanael, em oposição às visões dos outros personagens. Em “O Homem da areia”, a negação da realidade se opera pela realidade da repetição que acaba se transformando em sistema, ou “sistema do retorno”, como sugere Hélene Cixous (1972). Como uma mise-en-abyme, o poema prefigura o desfecho do conto, no qual a intervenção do instrumento ótico – a luneta – reanima bruscamente os fantasmas ligados à imagem de Olympia. O interesse especial do substituto ótico é o de preencher um vazio do real, através de uma percepção que funciona como um mediador entre a crença e a descrença. O instrumento ótico permite ao autor inscrever simultaneamente  em seu texto, o corte e a continuidade entre um imaginário solicitado pelo desejo e um real “falsificado”, que vai em sentido contrário ao dessa solicitação.
Ora, sabe-se da importancia que assumem nos relatos fantásticos, de um modo geral, os instrumentos óticos – suportes que permitem “ ver de outra maneira” , como auxiliares da imaginação.  Max Milner, em seu estudo sobre a “fantasmagoria”, chama a atenção para o extraordinário interesse sobre os aparelhos óticos, capazes de modificar nossa percepção visual do universo, que deram lugar a inúmeras pesquisas teóricas sobre o assunto, sobretudo a partir de Descartes e Newton, por exemplo.
Ao campo do visível, unificado desde o Renascimento segundo as leis de uma perspectiva antropocêntrica, os novos engenhos vêm acrescentar as lacunas propícias à manifestação de um outro visível, que escapa às limitações do princípio de realidade, que é capaz, por esta mesma razão, de sustentar mensagens de um mundo pulsional e/ou trans-humano (MILNER, 1982, p. 12-4). Os instrumentos auxiliares da visão indicam a particularidade de “ver de outra maneira”, ou seja, ver uma outra cena diferente daquela que se apresenta aos nossos olhos, pois a imaginação é também uma outra forma de “ver”.
Como lembra Milner, é o aparelho ótico que permite ao herói deslocar seu olhar para o lugar de seu desejo, mas aquilo que ele exibe se recobre de incerteza, possibilitando ao narrador evidenciar, ao mesmo tempo, o estatuto problemático do real e o caráter ilusório do imaginário, fazendo proliferar os diferentes modos de interpretação (MILNER, 1982, p. 60-1) É ainda a metáfora ótica que serve de apoio ao narrador para confirmar a ambigüidade do relato que tenta encenar a impossibilidade de compatibilizar as duas vertentes, que, em última instancia, sinalizam para a polissemia que toda ficção comporta. Diz ele: “Talvez então, meu caro leitor, você a compreender que nada é tão maravilhoso nem tão fantástico como a vida real, et que o poeta só consegue captar as secretas ligações aí existentes através dos reflexos obscuros de um espelho sem brilho” (HOFFMANN, 1956, p. 282).  Assim, nem o leitor é levado a endossar plenamente o espaço e o ponto de vista situado para além da realidade que o discurso de Natanael expressa, nem pode tampouco permanecer indiferente, preso aos seus habituais esquemas de pensamento. A intervenção do autor, ao se dirigir diretamente ao leitor em meio ao relato, tem a função de instigar uma adesão e, por outro lado, também evitar que este leitor seja levado apenas pelo discurso de Natanael, perdendo-se totalmente em um esquema de pensamento ancorado no sobrenatural, que não lhe é familiar, o que o impediria de seguir o fio da narrativa. Por isso, questiona o narrador: “Você já pressentiu alguma vez, leitor generoso, uma impressão que toma por completo seu coração, e que se apodera de seu espírito e de seu pensamento, excluindo todo o resto?” (HOFFMANN, 1956, p. 280).
Assim, para Hoffmann, o instrumento ótico se reveste da metáfora ambivalente de toda obra de arte, pois ele permite inscrever na narrativa a presença de dois universos e de duas identidades de um mesmo personagem, colocando a questão de sua compatibilidade e/ou da possibilidade de uma síntese ideal, mas que é sempre postergada no caso da literatura fantástica (MILNER, 1982, p. 39-40).
Após examinar as diferentes possibilidades de se iniciar um relato, o narrador declara que irá proceder como um “bom retratista”, mas, na verdade, a poética de Hoffmann vai no sentido de tentar reproduzir um modelo exterior que corresponda a um modelo interno imaginado: vida real que não pode ser descrita senão a partir de um reflexo vago que lhe envia um espelho gasto pelo tempo, incapaz de traçar os contornos definidos de uma só perspectiva, e que, ao contrário, deixa vislumbrar diversas perspectivas para as imagens secretas do mundo interior que não encontram seu contraponto nas imagens concretas do mundo exterior.
A intervenção de acontecimentos inexplicados traz à tona imagens e aspectos que permaneciam latentes no interior de Natanael e que, para este, parecem tão misteriosos quanto os estranhos fatos com os quais se depara. Assim, a visita de um vendedor de barômetro chamado Coppola, parecido com Coppelius, tanto pelo nome quanto pelo aspecto físico, pode ser uma simples coincidência, uma simples associação de idéias produzida na mente de Natanael, vítima de reminiscências opressivas, ou uma intervenção do sobrenatural. Em ambos os casos, obscuridade e clareza se conjugam e relativizam as vias de entendimento do mundo e de si mesmo, desautorizando qualquer interpretação que pretenda dar conta de uma verdade única. Seria uma aventura aterrorizante vivida por Natanael, perseguido por um ser sobrenatural – Coppelius/Coppola –, ou a simples imaginação de um espírito atormentado que não consegue se libertar da cena familiar traumatizante para ele? Assim, a hesitação inicial do narrador do conto – compartilhada com o leitor – acentua o efeito de mascaramento de pistas orquestrado pelo autor. Ela leva o leitor a oscilar entre o sobrenatural dos contos infantis que tomaria literalmente forma na presença de Coppelius/Coppola, e o universo patológico da loucura de Natanael, incapaz de distinguir a realidade da ficção.
A ambigüidade entre as diferentes visões instala-se de forma evidente no final do relato quando Clara, do alto da torre, chama a atenção de Natanael para “a estranha moita cinza que parece avançar em nossa direção”.  Ora, sua descrição remete à imagem de Coppelius traçada pelo próprio Natanael em sua primeira carta, quando este evoca “as sombrancelhas cinzas e densas” do advogado que se introduz em sua família. Ao fim e ao cabo, as duas imagens se sobrepõem, relativizando as duas visões do acontecimento, e emprestando-lhe uma impressão de hesitação quanto ao seu significado. Assim, Clara reativa o jogo entre o sentido próprio e o sentido figurado, embora ela tente, como a mãe de Natanael no início do relato, distinguir os dois personagens, fazendo com que sua visão do acontecimento se sobrepuje à do rapaz. Com efeito, a imprecisão do relato fantástico leva à encenação da incompatibilidade entre o peso da literalidade das palavras e o seu peso metafórico, tensão que está na base de todo discurso, e, de modo mais particular, no discurso literário. Como lembra Jean-Jacques Pollet, “a vertigem do próprio e do figurado, com suas transferências previsíveis, suas estranhas conversões, nos leva sem dúvida a uma aventura temerosa, quando não funesta, mas constitui, no final das contas, a condição de possibilidade da arte” (POLLET, 1992, p. 110).
“O Homem da areia” parece prestar-se a múltiplas interpretações que atestam o rico potencial desse relato, no qual o estranhamento que parecia significar a descoberta de um outro mundo – com as diferentes dimensões para as quais aponta (universo interior, insólito etc) – atinge aqui um grau de perfeição incontestável. E, sob vários pontos de vista, “O Homem da areia”anuncia o fantástico moderno, onde o terreno do humano, destituído de sua dimensão transcendente, se confunde com a abolição de qualquer sentido.
Pela característica histriônica da narrativa, Hoffmann aperfeiçoa e consagra uma forma de escritura identificada como fantástica, onde o jogo entre o imaginário e a realidade se pauta por uma intrincada teia de oposições que o narrador, ao invés de tentar elucidar, contribui para construir.
Assim o fantástico hoffmanneano se coloca sob a égide da ambivalência, do desdobramento da personalidade, da dupla vocação do homem, ou as duas “postulações simultaneas, uma em direção a Deus, a outra em direção a Satã”, formuladas por Baudelaire em seu famoso texto Mon coeur mis à nu. As variações em torno desses temas forneceram aos escritores romanticos franceses a inspiração para o período de ouro da literatura fantástica na França – pelo menos no que diz respeito ao volume da produção -, que os estudiosos no assunto, Max Milner e Pierre Castex entre outros, situam entre 1830 e 1835.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTEX, Pierre-Georges. Le conte fantastique en France: de Nodier à Maupassant. Paris: José Corti, 1951.
CIXOUS, Hélene. Poe re-lu: une poétique du revenir. Critique, no 299, abril/1972, p. 299-327.
HOFFMANN, E.T.A. Contes d’Hoffmann. vol. 1: Fantaisies à la maniere de Callot (1808-1815), Contes nocturnes (1815-1817). Trad. de Henri Egmont, Madeleine Laval, Albert Béguin e André Espiau de la Maëstra. Preface d’Albert Béguin. Paris: Club des Libraires de France, 1956.
MILNER, Max. Le diable dans la littérature française: de Cazotte à Baudelaire. Tomo 1 e 2. Paris: José Corti, 1960.
MILNER, Max. La fantasmagorie: essai sur l’optique fantastique. Paris: PUF/Ecriture, 1982.
POLLET, Jean-Jacques. Introduction à la nouvelle fantastique allemande. Paris: Nathan, 1997.
POLLET, Jean-Jacques. Contes nocturnes: le propre et le figuré.In PAUL, Jean-Marc (Org.). E.T.A. Hoffmann et le fantastique. Nancy: Centre de Recherches Germaniques et Scandinaves de l’Université de Nancy II, 1992, p. 103-113.





Bio fornecida pelo palestrante.

GLAUBER ROCHA E A NAÇÃO BRASIL – Tereza Ventura




GLAUBER ROCHA  E A  NAÇÃO BRASIL

          Tereza Ventura[1]

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

     Todos os povos incultos cantam e agem, cantam sobre o que fazem e, assim, cantam histórias. Suas canções são o arquivo de seus povos, o tesouro de sua ciência e religião.”

 HERDER

                  
             “Não vale mais a sentença clássica de Euclides: O sertanejo não é antes de tudo, um forte. É antes de tudo um servo da mais primitiva condição, é um fraco e um passivo.”

GLAUBER ROCHA

 
Este artigo é baseado em textos e relatos escritos por Glauber, durante viagens e pesquisas no sertão do Brasil entre os anos de 1959 e 1963. Esse material serviu de base para  obra fílmica Deus  e o Diabo na Terra do Sol. Glauber fundamenta sua abordagem da nação na tradição oral e no relato de nativos com os quais o cineasta teve contato pessoal. O autor dramatiza a mitologia popular sertaneja em personagens reais como cangaceiros, beatos, camponeses e matadores de modo a mostrar sua visão de mundo e colocá-los como intercessores de sua narrativa.
Os textos escritos à parte do roteiro oficial de Deus e o Diabo nos mostram que o sertanejo desautoriza uma expectativa revolucionária  e não se afirma como força cultural da nação. Glauber não esconde o pessimismo em relação ao destino do país. A nação se compõe como tragédia no gesto, ao mesmo tempo, crítico e messiânico em que a própria afirmação da identidade  é negada a favor da promessa redencionista de um mundo fundado na fé. Por outro lado, a nação se encontra a margem da história, ausente e sem vínculos com um projeto nacional. O autor apresenta uma terceira via de lidar com o nacional nem o conservadorismo nostálgico e paternalista presente no regionalismo, nem a instrumentalização política proposta pelo CPC, mas a sua inserção num discurso propriamente artístico e plural, tal como Villa Lobos havia criado na música.
A Ira de Deus se transformou em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Entre a primeira versão em 1959 e a última versão do texto e roteiro, Glauber realizaria várias pesquisas no sertão. Glauber busca no sertão os rastros de um imaginário nativo que quer expressar em sua obra fílmica. Tratava-se de contribuir para a invenção de um povo-nação que não estaria presente na cultura dominada.
O sertão deserto de Cocorobó lembra as histórias que o avô contava para o Glauber menino em Vitória da Conquista. Naquele sertão, o diabo se mistura à vida do povo, “espelhando sua revolta diante do leito seco dos rios e do sol do meio dia”. Glauber estava na fronteira com o Sertão do Bendengó, por onde passou Antônio Conselheiro.
 
Neste Bendengó, os homens andam de mãos dadas com o diabo, mulheres e meninos ciscam como cabras e galinhas as migalhas dos motoristas de caminhão… cenário de guerra de Canudos.”  (ROCHA: dez/1963: 14)
 
Na narrativa de Glauber, as ruínas da guerra ainda se misturam à memória selvagem dos sobreviventes. A natureza se exalta, e no momento da fome, mulheres e meninos se assemelham aos animais. A despeito da miséria e da animalidade, a fome reflete os mitos e enigmas, a partir dos quais, os nativos dissimulam a consciência da dominação e a indignidade de sua condição. Será pela denúncia e pela inversão dessa cultura que Glauber vai reconstruir uma idéia de nação. O autor buscava na cultura sertaneja elementos representativos de um sentimento de nação e investia sua pesquisa na tradição oral remanescente no relato desses agentes.[2] Centelhas de uma história, escavações de ruínas que Glauber buscava tornar presente a partir da sua obra. A distância histórica do sertão em relação à modernidade torna o discurso desses personagens um signo alegórico que o autor reconstrói em sua obra2. Tio Ciríaco, José, Maria Mamede e Major Rufino, verbos incontidos que anunciam para Glauber a memória trágica do caos, da guerra.
Glauber buscou captar e criar imagens que ficaram, reminiscências de uma cultura orgânica que não se dissolveram na imposição do colonialismo e que revelam um modo de vida desvinculado do processo de colonização e modernização do ocidente. Essa cultura, esse universo de representações, crenças e costumes, se tece como fonte de utopia porque possui como virtualidade a incompatibilidade com o complexo colonial que a reprime. Glauber procurava registrar em sua narrativa a essência de uma cultura que para ele seria o substantivo de sua nação porque intocada pelo processo civilizatório. Mas o autor nos faz entrever que esta cultura não desafia a dominação imposta pelo processo racionalizador do ocidente. Sua narrativa não esconde o pessimismo em relação ao destino do país. A utopia se compõe como tragédia no gesto, ao mesmo tempo, crítico e messiânico em que a própria afirmação da identidade é negada a favor da promessa redencionista de um mundo fundado na fé. O importante para Glauber era abordar essa cultura por dentro, a partir do discurso concreto dos personagens.
Glauber descreve Maria Mamede: “suja, cega e sua filha semilouca, magra, esfarrapada, olhos fundos” (ROCHA: dez/1963: 14). A imagem da violência da fome, de um Brasil esquecido, ausente, que se apresenta, a partir do testemunho desses personagens, como um discurso reconstrutor das ruínas de um passado histórico e heróico. Glauber procura na memória dos nativos do sertão, o substrato de sua obra, o imaginário que buscava alcançar.
 
“De nobrezas destruídas
Vaza-Barris e outros sangues
Destas tristes riquezas
Diluídas pelos mangues
De um campo de memórias
Cocorobó e tantos nomes
De sertões ignorados pelas margens destes homens…”  

(ROCHA:dez/1963:14).

A escrita poética alegórica busca trazer de volta os mitos e  ritos populares. Apelo poético por uma contra-história que fusionada à imaginação desvele uma cultura nativa irreverente ao processo colonial (BENJAMIN).
No relato de Maria Mamede (VENTURA: 2000, O Bom Jesus, beato) queria fazer o leite correr nos rios e partir o cuscuz nas paredes dos montes. Vestia um camisolão azulado, tinha uma barba grande, vivia cercado de jagunços e não olhava para as mulheres. Não pregava a guerra e nem a revolta. Segundo mestre Ciríaco, as tropas do Bom Jesus eram lideradas pelo comandante João Abade e um negro chamado Pagéu, que era assassino. No entanto, Ciríaco afirma para Glauber que não foram os jagunços que mataram o coronel Moreira César e sim os soldados do próprio governo. O informante Pedro das Ovelhas, primo do cego Zé,  apesar de não ter seguido o beato,  partilha dos mesmos valores do seu povo:
 
“ –  A fé pode tudo e com ela agente se alevanta do chão.
… O comunismo é pior que as tropas do governo que deu o fogo em Canudos. Mas eu num sei mesmo se é melhor morrer da outra morte do que  essa aqui de todo dia em pé, diferente do tempo de D. Pedro II, imperador do Brasil!!! que o comunismo tirou do trono para botar a república pior que trouxe a guerra. Mas eu pergunto se não é melhor se o conselheiro voltar, ir atrás dele e morrer na felicidade da fé? E eu também, bastava Lampião chegar vivo  aqui pra eu ir atrás brigar com os macaco…” (ROCHA: Mns: Arquivo TG: nov/1959).
 
O beato Bom Jesus é descrito como uma figura lendária que materializa a possibilidade da salvação e libertação dos homens da submissão às leis terrenas. Ele não reivindica nem a revolução nem a guerra, nenhuma moral senão  uma vida fundada na fé. Só a fé conciliaria os homens com a natureza revoltada e invertida pelo mal, umedecendo e fertilizando a terra santa profanada pelos homens.
A vida comunitária, regida pela fé, renuncia à moral do comunismo e da república  para conciliar os homens com sua natureza bárbara, arcaica e mística. Bom Jesus e  Lampião seriam, para Glauber, os heróis que  materializam a utopia, de fundo arcaico , da libertação. A fé é um substrato moral que não se alia à política, mas a um universo de representações naturais e espontâneas do próprio povo. “É quando Deus se mistura com o Diabo”, pois a tradição terrena é o inferno invisível, a terra, no imaginário de seus nativos, é o próprio reinado do demônio, o que já anuncia o fracasso da utopia, que subsume o profano ao sagrado.
Os cangaceiros Lampião e Corisco também partilhavam dos mesmos valores que o beato, para quem, somente o poder de Deus, era digno da submissão dos homens. O misticismo cristão se volta contra a razão e contra a moral. Seja no verbo fanático de um beato, ou na revolta anárquica e incontida de um cangaceiro. Frutos da terra, Lampião, Antonio das Mortes e Bom Jesus espelham para Glauber, o imaginário nativo do sertão. Há uma tonalidade política no gesto radical do cangaceiro que se expressa num ideal de justiça. Justiça que não se realiza “com rosário, mas no rifle e no punhal”. No entanto, a revolta não se separa do messianismo, Corisco “levanta o cabo do punhal em frente ao rosto, como uma cruz, e diz:
 
“Eu, José com a espada de Abraão serei coberto, eu, José com o leite da Virgem Maria serei borrificado, eu, José, com o sangue de Cristo serei batizado, eu, José na Arca de Noé serei guardado, eu, José, com as chaves de São Pedro serei fechado onde não me possam ver e ferir, nem matar, nem o sangue do meu corpo tirar.” (SENNA, org.:1982: 285)
 
A cruz e o punhal evocam na narrativa de Glauber, o retrato místico e profano do cangaceiro.
Antônio das Mortes, o jagunço, é um personagem inspirado nas memórias do Major José Rufino, matador de cangaceiro muito conhecido em Vitória da Conquista com quem Glauber assume ter tido contato pessoal. Para Rufino, a fé em Deus não justifica a submissão dos homens. Só a morte corrige o fanatismo cego e a rebelião anárquica,  tanto o beato quanto o cangaceiro, merecem morrer. Rufino mata “sem piedade e por dinheiro”. Como Antônio das Mortes, “Fui condenado nesse destino e tenho que cumprir: sem pena e pensamento. (op. cit.:1982: 287)
Rufino matou Corisco e teria dito a Glauber que o fez contra a própria vontade. No texto de Glauber, Antonio e Corisco são personagens marginais que recusam a moral civilizatória, mas possuem um sentido de justiça que se expressa na violência e na vingança. Antônio é um andarilho do sertão, herói desprovido de compaixão e razão. Responde ao seu destino sem qualquer juízo crítico ou moral, conhece a fatalidade. Diferente de Corisco, Antônio não tem passado ou qualquer referência histórico-cultural, que aponte para um destino.
José Rufino, nos idos de 60, vivia numa fazenda em Jeremoabo. Rufino foi também um jagunço conhecido na região de Vitória da Conquista, onde Glauber nasceu. É Rufino quem descreve Corisco para Glauber,[3]
 
“ — Como era bonito! As moça tudo endoidava e tem quem diz, porque sabe que Maria Bonita era apaixonada por ele. Olho azul, cabelo louro perfumado e cheio de cruz, São Jorge, botão no rifle, dente branco, dente de macho.”(ROCHA:1965)
 
Depois de atirar em Corisco, que diante da morte exalta a força dos poderes de Deus,   Rufino corta-lhe o braço e a cabeça e os envia para a capital numa lata de querosene. Rufino admirava a valentia de Corisco, que o queria em seu bando. Rufino, porém se colocou a missão de exterminar o cangaço no sertão.
Rufino é uma fonte de inspiração para Glauber, que buscou em Antônio das Mortes, uma reconstrução fílmica de seu discurso:
 
“Rufino me contou de uma moça e um cangaceiro que não foi pego até hoje. A partir dali foi que eu comecei. Depois o Major Rufino me contou a vida toda de Corisco e todo o problema de Corisco dentro do bando. Corisco era um cangaceiro marginal , místico, violento, um cangaceiro muito importante dentro do bando, que impunha respeito a Lampião, tudo isso.”.(ROCHA:1965)
 
Deus e o Diabo é, antes de tudo, uma narrativa que se inspira na própria vivência de seu autor,
“Os jagunços na rua em torno do meu avô
com espada de CPOR e automática encravada
igual à biografia de artistas entre homens normais
além da história o fio desaparece
está lá o impulso gerador.” (ROCHA:1965)
 
Antônio das Mortes, lembra os jagunços de Vitória da Conquista que viviam entre sua família: “Em garoto vi muito jagunço daquele tipo, que usava aquela capa que serve inclusive para proteger o fuzil de repetição que fica debaixo.” (ROCHA:1965)
Glauber comenta ter conhecido o cego Zé, “voz de angústia, furando as tardes de Monte Santo, invocava amores perdidos e crimes terríveis.”(ROCHA:1965)
O cego cantador é um personagem comum no sertão pode ser visto cantando nas ruas e nas feiras. Em suas canções, o cego revela as estórias do cangaço, do cotidiano e a visão de mundo do sertanejo. Glauber trás em sua narrativa uma analogia com a mitologia grega, na qual o cego, na condição de adivinho e vidente, prescindia da visão ocular. O cego não vê, mas entende e sente, como nativo, as aspirações coletivas de seu povo. O cego encaminha a narrativa porque vê o futuro. Nas confrarias de aedos da idade arcaica, a poesia e adivinhação estão juntas, sendo que a primeira volta-se para o passado. O poeta vê o que não é mais. O cego vê o futuro. Glauber buscava na poesia  uma memória que não estava nos livros e na história escrita: “Na voz dos cantadores está o não e o sim – e foi através dos cantadores que achei as veredas de Deus e o Diabo nas terras de Cocorobó e Canudos.” (ROCHA: 1965)
A intenção de Glauber é capturar esse universo cultural em seu estado bruto em sua ambivalência no tempo poético e mítico. A história não se tece nem pelo arbítrio da razão colonizadora e nem pelas forças do espírito  a  história em Glauber se tece enquanto tragédia em que o destino dos homens jamais lhes pertence, pois o tempo na narrativa de Glauber é fugaz e descontínuo, ele atua entre o que não existe mais e o que não é ainda.
O Brasil construído por Glauber vive dessa simultaneidade de tempos, entre o processo colonizador e a tradição mítica. A narrativa de Glauber quer exaltar essa simultaneidade, conscientização e enigma, hábito e vida. Narrativa como mito e poema, na qual as aspirações e dramas de uma nação se expressam metaforicamente em idéias metafísicas tomadas de empréstimo da tradição cristã, como destino, salvação, redenção, anunciação, sintomas de um tempo ausente na modernidade. O misticismo não é visto como sintoma de passividade e alienação, mas entendido como um elemento libertário da cultura, porque não afeito a cultura do colonizador.
Glauber busca uma forma que despreza uma moldura ideológica engajada.Tenta reconstruir a pureza rude de um imaginário mítico associada a sua própria experiência de homem e de artista. A narrativa se inscreve no registro criativo da imaginação e da memória. O mito se mistura ao discurso oral e rememorativo dos personagens. Discurso onde o autor recupera a inocência da canção popular, das fábulas e do mito que recria e inscreve como um testemunho da cultura nativa. É como se, atravessando a memória e o discurso desses personagens, o autor buscasse extrair deles “um ato de fala puro, fabulação criadora que é como o avesso dos mitos dominantes, das palavras vigentes e dos que as proferem , ato capaz de criar o mito em vez de tirar proveito ou exploração deles” (DELEUZE: 1990: 264) Ou seja,ato de fabulação pela qual os personagens reinventam-se como membros de uma nação. Glauber intervém e modifica o universo cultural do sertão. O autor não se atém à reprodução imediata e fiel do modo de vida desses personagens, mas à maneira pela qual ele é figurado pelos seus representantes e reinventado na sua inspiração. Seria  na fabulação que Glauber identifica sua forma de expressão.
O impulso incontido de reinvenção das coisas aparece nas matérias informativas de jornal, em que acontecimentos cotidianos expressam o retrato social e cultural do Brasil. A notícia de uma inundação na estrada Rio-Bahia, é menos importante do que o universo humano cultural dos transeuntes. Glauber descreve, no artigo intitulado: “A miséria é chocante e os conflitos tendem à crescer”:
 
“A galeria humana presa na Rio-Bahia vai de prostitutas, jagunços, policiais, viajantes, ladrões, boiadeiros, bandidos, gente pobre de pau de arara, subindo pro sul, carregada de ilusões, e outros voltando mais  magros e tristes, sem um vintém e uma ponta de esperança . Os jagunços pernambucanos são temidos, raro o que não traz peixeira na cinta. Os jagunços mineiros são mais calmos calados, com pistolas 45 atadas nas ancas”. Jornal da Bahia, 31/1/1963.
 
O retrato social do Brasil se tece na narrativa de Glauber, do sertão para o mar. Personagens periféricos em transe na estrada  Rio-Bahia,  Mar Atlântico –Sertão –, são eles  os protagonistas da tragédia cultural brasileira. Personagens que aguardam, em vão, a transfiguração civilizadora, representada pela estrada, signo do progresso. A paisagem verde do sertão mineiro anuncia a presença imperativa da miséria e flagra a desencanto  daqueles personagens ante a perspectiva de progresso e cidadania representada pela estrada. “Magros, tristes e sem esperança” (Jornal da Bahia, 31/1/63).  Jagunços, ladrões e bandidos iluminam a paisagem invertida da nação brasileira, sem lei e sem moral, em que sobrevivem a margem da história. Os jagunços dramatizam o moderno e o arcaico, pistola e peixeira. A estrada interrompida, vozes revoltadas “protestos sem eco” –, afirma Glauber, ao fim da matéria.
Para Glauber, o Brasil do sertão se encontra  apartado do Brasil do litoral, racional, letrado e moderno:
 
“Mais além, nas cidades
espalhadas no Centro-Sul,
cemitérios destinados aos imigrantes do sol”.

(ROCHA: Jornal da Bahia, 31/1/1963)

A cidade é o destino dos mortos. Espaço virtual de um futuro possível para aqueles que, na vivência da fome e do desespero, congelaram a esperança. O espaço da urbe emudece a voz e o gesto do sertanejo, transfigurado em pobre citadino. A cidade acena como um cemitério para “os imigrantes do sol”.  Na narrativa de Glauber transparece a desilusão com o progresso burguês e oscila entre o ceticismo e a utopia. A sociabilidade urbana não opera num registro educativo e civilizador como também não integra o modo de vida sertanejo. A terra seca, o agreste, o sertão – é o drama em que a natureza desafia o tempo histórico da civilização, ainda que por ele corrompida. Ainda assim, nesse círculo trágico, na visão de Glauber, o sertão guarda um universo mítico passível de preencher um discurso crítico de combate ao colonizador.  A visão de mundo de Glauber desenha uma tensão permanente entre o moderno e o arcaico, o materialista e o messiânico, o divino e o satânico. Confronto trágico no qual a simultaneidade de tempos dissonantes tece uma história que nasce como ruína. A aspiração utópica de restaurar fragmentos de uma cultura autêntica mutilados pelo processo dominador se traduz na esperança trágica da libertação. A natureza agreste e violenta dos sertões expulsa seus nativos tornando-os seres errantes. Nenhum iluminismo civilizatório se fixa nos sertões, cuja positividade reside na tragédia, onde as frágeis criações humanas sucumbem diante da vingança da natureza:
 
Não vale mais a sentença clássica de Euclides: o sertanejo não é, antes de tudo, um forte. É, antes de tudo, um servo da mais primitiva condição, é um fraco e um passivo: sua resistência já é na própria morte, não é na vida: a impotência mental e física está presente em seus atos cotidianos e ele só ameaça se libertar da preguiça se estimulado pelas alienações do misticismo.” (ROCHA: mns.nov/6)
 
A nação não se constitui como signo de resistência, “a impotência mental e física do nativo” (ROCHA: mns.nov/1963)  não modela nenhum destino. O sertão não se configura para Glauber como um paraíso perdido deixado à margem da história colonial. Nenhum sertanejo parece capaz de escapar do destino que a sua natureza lhe impôs. Tragédia que se expressa numa cultura messiânica para uma causa perdida.
O homem do sertão não desvendará a magia do Atlântico. Cativo que é de suas raízes primitivas, escravo em si mesmo, seu comportamento não espelha a grandeza heróica dos grandes cavaleiros medievais. Oprimido, não pela história, mas pela força de uma natureza passiva, que o impede de ser construtor de seu próprio destino. Inerte ao tempo, indiferente à vida, se deixa sucumbir diante da própria morte. Vive “desta morte inacabada no agreste dos espinhos”.(ROCHA: mns.nov/1963)
Ausente em sua vontade, alienado de si, o sertanejo deixa-se aprisionar pelo misticismo, “com a força transferida para as mãos do Bom Jesus” (ROCHA: mns.nov/1963) aguarda o chamado messiânico que desafie o destino figurado pela fome. É compreensível que  a partir de 1965 a fome passe a incarnar pra Glauber o sentimento que universaliza a condição dos povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo. A proposta estética do manifesto A estética da fome, de 1965, vai se afastar da problemática nacional para afirmar um procedimento universal para as culturas do Terceiro Mundo.
Glauber parece duvidar que o homem rude do sertão possa alcançar, em algum nível, a consciência crítica de sua miséria. Fraco e passivo, habitante de um mundo de fome, sede e privação, o sertanejo, em sua primitiva condição, está distante do processo civilizador. A imagem signo da nação não prefigura para Glauber, um destino revolucionário para o país. A idéia era buscar no nacional uma forma de dignificar uma identidade cultural como fundamento de um processo político. Contudo, Glauber mostra que a identidade povo-nação, reivindicada no projeto nacional popular, não fertiliza a revolução. Esta visão de mundo rompe com a perspectiva da esquerda (CPC)[4],  que percebia no povo brasileiro a vocação para a revolução. Para o CPC – Centro Popular de Cultura–, tratava-se de politizar a cultura popular atribuindo-lhe uma ação revolucionária.
Mostramos que o popular na visão de Glauber não é pura alienação, mas guardião dos valores da tradição, valores que resistem à colonização, mas não agenciam uma ação política. Pois, para Glauber, a argumentação engajada e didática não pressupõe a narrativa que valoriza antes, o modo de vida do sertanejo. Uma arte pedagógica anularia as dissonâncias que são a própria matéria prima da vocação nativa. A arte, nesse contexto, deve propor uma vivência e não um entendimento racional acerca da realidade social do país. Ao contrário, a estética para politizar o real deve se fundamentar na expressão do artista. Ao nosso ver, o autor apresenta uma terceira via de lidar com o popular: nem o conservadorismo nostálgico e paternalista presente no regionalismo, nem a instrumentalização política proposta pelo CPC, mas a sua inserção num discurso propriamente artístico, tal como Villa-Lobos havia criado na música.
No domínio de uma linguagem espontânea e metafórica, Glauber vai tecendo sua crítica  a formação colonial brasileira.
 
De que adiantam esses símbolos da violência e da morte, para que servem as heranças apodrecidas da Idade Média? É uma vergonha cercada de arame farpado. Nem é um campo de concentração, não chega a ser um tutano, um caule — e os que se comem são de bois magros ou de insossas macambiras”. (ROCHA: mns.nov/1963)
 
Ao recriar o modo de vida no sertão do Brasil, Glauber deixa vazar sua indignidade e revolta diante da paisagem cultural que o rodeia. Em sua visão, o Brasil do sertão não potencializa um processo revolucionário e não deixa heranças para o Brasil civilizado. O passado se rompeu e não deixou heranças para o futuro. O destino é um enigma, restos apodrecidos e desintegrados no espaço e no tempo, portanto resta ao autor o luto, a revolta e o apelo a imaginação transformadora. Mas o pensamento de Glauber oscila, porque busca criar uma herança como identidade e referência para a nação brasileira. Monte Santo, Trapagó, Quinquiribal, Acaru, Cocorobó e Quebroguenem, campos preenchidos de ruínas que o nosso autor, faz regressar na narrativa de seu filme. Pois a despeito da revolta, o autor sabe que o passado ainda guarda virtualidades no fio de uma outra história inacabada e oculta pela luminosidade do presente. Glauber viaja até o sertão, imprime na vivência a angústia do camponês diante do leito seco dos rios. O autor quer reinventar um universo,
 
“… onde, antigamente, imperavam as leis dos feudos medievais, com seus cavaleiros subnutridos nas armaduras de couro. O jagunço é um pobre valete que nada leva de si a não ser  seu destino submisso ao destino do senhor: assim foram colonizadas às margens do São Francisco, de onde saiu a pior tradição das nobrezas, desde as Minas Gerais  de Guimarães Rosa até os sóis de Palmeira dos Índios na cruel narrativa de Graciliano Ramos.” (ROCHA: mns.nov/1963)
 
A narrativa de Glauber quer exaltar e dignificar o homem rude e submisso, habitante das choupanas de sopapo, palafitas que desenham a pré-história de uma nação. A denúncia de um comportamento inerte e passivo, não esconde a ambição de revelar um modo de vida. Herdeiros de uma tradição medieval, esses cavaleiros subnutridos se entregam ao cangaço, tornam-se pistoleiros ou camponeses sem terra. Diante da ausência de uma relação senhorial, que se exprimia como devoção e honra, da ausência do Estado e das leis, o sertanejo permanece arcaico e entregue à própria sorte. A despeito de não está presente na construção da nação, o sertanejo representa uma cultura nativa. As “vestes de couro, panelas de barro, chicotes, fifós de lata, carro de boi, bruacas de couro de cabra, mandioca, umbu, mandacaru, rapadura, milho e cajarana” espelham um modo de vida que Glauber presenciou desde a infância.  A cultura não resulta de um processo histórico-cumulativo, ela tem uma textura própria que dispensa julgamentos de valor comparativos. Nessa visão, os homens comportam uma unidade orgânica e a cultura e expressam uma vocação nativa. Essa centelha de harmonia se expressa no transe de uma história incompleta e deve se presentificar na poética cinematográfica que Glauber Rocha traz ao contexto moderno. O sertanejo “morto e vivo”, “passivo e místico” pode ser preenchido de uma vida histórica imaginária reconstruída voluntariamente pelo autor através da obra.
Nativo do sertão, entre as fronteiras de Minas e Bahia, Glauber fez de sua origem,  matéria bruta de sua arte. Imbuído da utopia de unir, simbolicamente, o mar e o sertão, Glauber internacionalizou imagens e modos de vida silenciados das narrativas da nacionalidade sejam aquelas defendidas pelo Estado e suas instituições ou pelos intelectuais.
 
     Deus e o Diabo, filme, imagem, música e Nação
 
“Acho que o cinema brasileiro tem, nas origens de sua linguagem, um grande compromisso com a música: nosso triste povo canta alegre, uma terrível alegria de tristeza. O samba de morro e a bossa-nova, o romanceiro do nordeste e o samba de roda na Bahia, cantiga de pescador e Villa-Lobos – tudo isso vive dessa tristeza larga, deste balanço e avanço que vem do coração antes da razão.” (ROCHA:1965)
 
A música para Glauber recolhe do real uma fatia da cultura inalcançável pelo discurso, nesse sentido ela é também filmica.  Os cantos populares e o samba são para ele fontes arcaicas que junto a erudição e ritmo de Villa-Lobos e da Bossa nova revelam a alma da cultura brasileira. A linguagem fílmica deve ser para o Brasil um testemunho autêntico como o samba. A cultura nativa se revela em forma autêntica na música, seja no canto triste de um cego feirante, no compasso moderno da bossa nova ou no tom erudito de Villa-Lobos.  A música, enquanto imaginação, revela uma “ontologia direta” na qual a narrativa poética, acompanhada da música, se faz revelação de um sentido arcaico. Nesse registro, ela se encaixa na ambição fílmica de Glauber, que renuncia um vínculo com a história linear a fim de reinventar, em sua poética descontínua, o aspecto nativo da cultura. Em sua poética fílmica, o autor se apresenta como intérprete da mensagem órfica e espontânea dos nativos.
As cantorias do cego e do romanceiro do nordeste foram escritas por Glauber e pelo compositor e cantor Sérgio Ricardo. Às cantigas populares ele agregaria em seu roteiro, a música de Villa-Lobos, Brahms, Bach e Beethoven. A pureza rude do popular se harmoniza, em Glauber, ao cultivo de fundo clássico, da forma depurada da música erudita.  Essa síntese já anuncia na autoria a busca de uma combinação entre o popular e o erudito[5], não só por utilizar Villa-Lobos, como também Sérgio Ricardo que vem de uma formação erudita e foi um dos precursores da bossa nova. Tanto Villa-Lobos quanto Sérgio Ricardo são músicos ligados ao cotidiano do Rio de Janeiro. Sérgio cantava nas noites de Copacabana onde a distância do sertão se faz tanto pela cultura como pela geografia. A música popular, o choro, as serestas, o samba e a boemia marca a vida urbana carioca. Villa-Lobos incorporou à sua  forma musical erudita a prática musical das massas urbanas e do povo sertanejo respectivamente: o violão que foi um instrumento rejeitado pela elite e a viola caipira do nordeste. A proposta de Villa-Lobos é romper com a dicotomia campo e cidade, civilização e barbárie criar uma imagem que integre o sertão à nacionalidade.
 
“Villa-Lobos talvez fosse quem melhor colocou todo o Brasil em em termos de arte. Villa-Lobos filtrou toda uma temática popular, verdadeira, humana, impregnada de nossas tradições, em forma musical de grande valor.” (ROCHA:1965)
 
Villa-Lobos partilhava de um sentimento de nacionalidade que Glauber buscava expressar. A exaltação romântica da paisagem nativa, que quer pensar o nacional como fluir orgânico da cultura, um pensamento que se quer afastado de um reducionismo político, datado e ideológico. Glauber como Villa-Lobos buscava uma estética da nacionalidade que destacada de uma  moldura histórica e política e de  discursos engajados se aproximasse  da natureza do homem brasileiro.
A influência de Lobos foi determinante para a decisão de Glauber de orquestrar o filme musicalmente: “Não botar mais a câmera nem a montagem para amarrar, mas orquestrar tudo.”  (ROCHA:1965)
Glauber encontra em Villa-Lobos a estrutura rítmica e a proposta estética  que almejava em seu filme. Ambicionava realizar em forma fílmica o que o mestre havia feito em música. Em Deus e o Diabo, Glauber alcança a síntese entre a dimensão formal e estilística e a absorção dos elementos peculiares da vida sertaneja.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma obra que condensa os estudos que Glauber vinha desenvolvendo no campo da literatura, pesquisas sobre a cultura popular e entrevistas. Afinado à vertente regionalista, o autor valorizou como suporte de uma identidade nacional a figura do sertanejo e seu modo de vida. O filme alcança um tom épico e teatral a partir dos cantos poético-populares de um narrador cego e da narrativa sinfônica erudita e popular de Villa-Lobos.
Essa proposta de um aprofundamento e incorporação de representações populares no discurso estético está presente nos primeiros textos literários de Glauber, nos quais o autor mostra que a cultura original da nação se faz presente na narrativa poética do cordel. No entanto, para Glauber esse universo lendário não traduz um projeto nacional. A imersão lendária deve percorrer a sua própria odisséia e enfrentar o mar atlântico, ou seja, os princípios culturais do colonizador.
O camponês Manuel, segundo o próprio autor “busca o mar num sentido alienado, não permanece lutando”, corre em direção ao mar: “… quem chega ao mar não é a personagem: quem chega ao mar, sou eu, com a câmera, mostrando o mar como uma abertura de tudo que aquilo pode significar.”(ROCHA:1965)
A corrida do sertanejo pode simbolizar a sua própria diluição no universo do colonizador. Se no discurso de Glauber é a câmera que chega ao mar, na narrativa fílmica ele aponta, através da música de Sérgio Ricardo e Villa-Lobos, a simultaneidade de caminhos para o personagem e para o Brasil.
Na obra fílmica, o cangaceiro Corisco enfrenta Antonio das Mortes num duelo, onde a troca de tiros e a presença dos policiais  torna a morte do cangaceiro inevitável. Antonio, ao balear Corisco exige que ele se entregue, seu grito se mistura ao ritmo das imagens e ao som dos tiros, da música, da voz e do violão de Sérgio Ricardo. Linguagem estética que Glauber trazia do experimentalismo musical da escola de música de Salvador, do movimento concretista e que será atualizado pelo movimento tropicalista em 1967. No seu primeiro roteiro “Senhor dos Navegantes” (1957) Glauber já anunciava esse procedimento quando sugeria a mistura entre a música sacra, os batuques de candomblé e o samba. Mas faltava o tom erudito que ele encontraria na música de Villa-Lobos, que junto a imagem do mar a voz e canto de Corisco, finaliza o filme:
 
“Se entreeee ga Corisco!
Eu não me entrego não,
eu não sou passarinho
prá viver lá na prisão!
Se entreee ga Corisco/
Eu não me entrego não,
não me entrego ao tenente ,
não me entrego ao capitão,
eu me entrego só na morte de parabelo na mão!”
Corisco quase morto grita: “–  MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!”
Os camponeses Manuel e Rosa correm pelo sertão em direção ao mar imaginário que se completa com a música e a voz dilacerada de Sérgio Ricardo:
 
“O sertão vai virar mar
e o mar vai virar sertão!
Tá contada a minha estória verdade, imaginação.
Espero que o sinhô/ tenha tirado uma lição
que assim mal dividido, esse mundo anda errado,
que a terra é do Homem, não é de Deus nem do Diabo.”
 
A terra é do homem e o mundo não pode se dividir entre o litoral e o interior, o mar e o sertão, o  moderno e o arcaico, a conscientização e o enigma. A imagem do mar se superpõe ao sertão ao som da música orquestrada choro nº 10 de Villa-Lobos. No choro nº 10 de Villa- Lobos se misturam um conjunto de significantes musicais onde há a sonoridade da natureza dos trópicos, florestas, sertões, cantos de pássaros, os cantos religiosos, batuques, cantigas populares e as musicalidade indígena, africana, rural e urbana evocam o mito nacional em coro e orquestra.
Através de Villa-Lobos Glauber trás para a sua obra fílmica, a simultaneidade de elementos culturais e forças que não encontram uma síntese compreensível para o discurso civilizado, mas antes a vitalidade do diverso, dos fragmentos errantes que se abrem para a evocação mítica. Forças que explodem em brutalidade, ira e lamento incontido da diversidade que contesta o projeto nacional civilizador seja ele revolucionário ou conservador.
 
NOTA
Agradeço muito ao professor Arnaldo Contier por ter me chamado atenção para a  releitura glauberiana de Villa-Lobos e sua centralidade na discussão da estética de Deus e o Diabo. ver também WISNIK, José Miguel. Estado arte e política em Villa-Lobos, Vargas e GlauberFolhetim nº 283, São Paulo, 20/6/1982.
 
Referências Bibliográficas:
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BENJAMIN, Walter (1985).  A origem do drama barroco alemão. São Paulo, Brasiliense.
BENJAMIN, Walter (1986). Obras escolhidas,  vol. I. São Paulo, Brasiliense.
BERLIM, Isaiah (1992). Vico e Herder. Brasília, UNB.
DELEUZE, Gilles (1990).  Função fabuladora e produção de enunciados coletivos-in   A    Imagem Tempo– São Paulo, Brasiliense,  p.264
ESTEVAM, Carlos (1963). A questão da cultura popular, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro,
ESTEVAM, Carlos (1985).     Da cultura desalienada à cultura popular. In: Ortiz, Renato, 1985. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo, Brasiliense, p. 68.
FERREIRA Gullar (1965). Cultura posta em questão. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
HERDER, Johann Gottfried. Filosofia de la historia para la educación de la humanidad. Barcelona. Nova ed.
LOVEJOY, A. Essays in the history of ideas, New York Capricorn Books,
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ROCHA, Glauber (1963). Memória de Deus e o diabo nas terras de Monte Santo e Cocorobó, Revista Senhor, dez/1963.
ROCHA, Glauber. “A miséria é chocante e os conflitos tendem à crescer” Jornal da Bahia 31/1/1963.
ROCHA, Glauber.  Nordeste – Mns: Arquivo Tempo Glauber: nov/1963.
____(1965). Deus e o Diabo na Terra do Sol. Rio de Janeiro Civilização Brasileira.
SENNA, Orlando (org). (1985). Roteiros do terceiro mundo. Rio de Janeiro. Alhambra/Embrafilme.sSIMMELL, George (1965). A tragédia da cultura e outros. In: Essays on Sociology, Philosophy and Aesthetics. New York,New York University Press.
VENTURA, Tereza (2000). A poética política de Glauber Rocha.  Rio de Janeiro, Funarte.
WISNIK, José Miguel. Estado arte e política em Villa Lobos, Vargas e Glauber.Folhetim n. nº 283, São Paulo, 20/6/1982.
 
 
 
 
 
 

 


[1] Este artigo é uma versão modificada do capítulo 5 do meu livro A Poética política de Glauber Rocha. 2000. Funarte.
Tereza Ventura é professora adjunta de sociologia da cultura na UERJ.
Dra. Sociologia Universidade de São Paulo, USP
Pós Doutorado em Política Cultural. New York University.
 
[2] Segundo Herder, a literatura e a poesia popular é o lócus onde  mais livremente se revela por completo a alma das nações. As pessoas simples do campo, por estarem distanciadas das classes dominantes, representam e sentem essa nacionalidade. Por se encontrarem mais próximas da natureza são portadoras de uma identidade de origem. Essa autenticidade reconhecida pela tradição não aflora num contexto civilizado. O interessante no pensamento de Herder e que nos aproxima da visão de mundo de Glauber, é que não se trata de voltar a um passado idealizado, mas de valorizar uma dimensão mítica da cultura. Em face do estado presente de uma civilização imposta, aquilo que é evocado pela tradição popular, tem uma positividade que se põe como fonte de utopia. Atua como reminiscência de uma cultura orgânica que não se dissolveu na erosão do  tempo e na imposição do colonialismo. Sobre Herder e a questão da cultura nacional e romantismo, ver: BERLIM,, Isaiah — Vico e Herder Brasília, UNB,1992. HERDER, Johann Gottfried, Filosofia de la historia para la education de la humanidad, Barcelona.Nova ed., Lovejoy, A. Essays in the history of ideas, New York Capricorn Books.
 
[3] Na ausência de uma inscrição precisa, verdadeira e imediata na realidade a obra se configura a partir daquilo que ficou presentificado no testemunho oral e na memória de personagens que Glauber reinventa em sua narrativa. Para essa visão alegórica, a obra se afirma enquanto ruína. O passado se rompeu, o artista reconhece a desintegração da realidade, ele se sabe incapaz de recolher a significação destes objetos que perderam sua função na história e foram desintegrados pelo tempo. O destino dos objetos na percepção alegórica é a decomposição, o que a literatura barroca expressa em metáforas de cadáveres, crânios, esqueletos, resíduos de um passado vital e orgânico ausente na modernidade. Contudo, o objeto descontextualizado, está livre para funcionar como alegoria. Há um sentido político que se refere a libertação dos objetos e fatos de qualquer condicionamento causal, estrutural e espaço-temporal. O objeto alegórico, segundo Walter Benjamin é virtualmente objeto de eros, dotado de uma força onírica que pode fertilizar uma utopia. A forma alegórica é melancólica por que reconhece a finitude dos objetos, mas insiste em infundir um sentido à corrosão das vivências. A visão alegórica apela por um suporte que transcenda a experiência, que corrija a história, realizando uma anti-história, a história dos vencidos, onde passado morto e silenciado pelo poder, retorna como ruína. Sobre a concepção de Alegoria cf. Benjamin, Walter. Les affinités electives. In: Essais I. Paris, Donoel Gonthier, 1983; A origem do drama barroco alemão. São Paulo, Brasiliense, 1985. Sobre o conceito de história, in:Obras escolhidas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1986. Sobre a idéia de ruína, ver também, Simmell, George, “A tragédia da cultura e outros”. In: Essays on Sociology, Philosophy and Aesthetics. New York, New York University Press, 1965.
 
[4] Debate realizado no Rio de Janeiro, em 24/3/1964, patrocinado pela Federação  dos Clubes de cinema do Brasil e pelo Grupo de estudos cinematográficos da UME (União metropolitana de estudantes) sob a coordenação de Alex Viany. Reproduzido em Deus e o diabo na terra do sol, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965.
 
[5] Sobre o CPC ver: ESTEVAM, Carlos (1963). A questão da cultura popular, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro. Da cultura desalienada à cultura popular.  in Ortiz, Renato  1985. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo, Brasiliense, p. 68; FERREIRA Gullar. Cultura posta em questão, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965.




Bio fornecida pelo palestrante.

A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE – Eliane Maria de Oliveira Giacon




A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE

 

Eliane Maria de Oliveira Giacon

 
1 –O romance Viva O Povo Brasileiro [1]e a identidade nacional
 
A identidade é uma marca registrada em cada indivíduo. Uma marca que diferencia alguém em relação a outras pessoas. E para alguém se distingui de outro necessita nascer com características específicas ou ainda ele pode criar situações, durante sua vida, que o façam diferente em relação a algum outro biótipo ou filosofia de vida.
Assim, um indivíduo nasce moreno com olhos escuros, sobrancelha larga, lábios acentuados a pele macia. Este biótipo o diferencia dos outros e o aproxima de um determinado grupo. E durante a sua vida ele cria condições de ser trabalhador, estudioso e alegre, logo esse indivíduo poderá se identificar com grupos diversos como a família, o ambiente de trabalho e o país onde vive.
E quanto à essência da identidade? Ela não é individual e sim coletiva. Logo, as pessoas de um grupo precisam ter o mesmo biótipo e a mesma filosofia de vida para se identificarem em relação a grupos diferentes.A identidade vista desta forma é o que diferencia um grupo em relação a outro e o aproxima indivíduos que encontram algo em comum.
A identidade é um laço que une o indivíduo ao seu grupo e por sua vez o diferencia de grupos diversos. Assim há identidade entre associação de bairro, grêmios, gangues e toda manifestação social na qual o homem está inserido.
E se este grupo ocupasse um mesmo território sob um mesmo estado e sob um regime político que o agrupasse a outros. Neste caso a identidade seria nacional.E se os indivíduos não iguais num mesmo território, pois os seres humanos são diferentes em biótipo e caráter. Estes grupos são compostos de biotipos e caracteres diferentes num mesmo território. Poder-se-ia dizer que há identidade nacional neste país? Neste caso o que os identifica não é somente o fator étnico, mas sim o cultural que faz com que indivíduos diferentes adotem ou não determinados padrões de ser e de agir em sociedade.
A etnia e o fator cultural determinam a formação de determinadas denominações classificando os povos em italianos, franceses, alemães, mexicanos e brasileiros. A identidade nacional destes últimos é algo bem singular e fez com que um povo-nação abrigasse um estado político, no qual o processo de mestiçagem os levou a formarem uma macroetnia de brasileiros mestiços resultantes de diversos processos de miscigenação. Estes processos não começaram aqui no Brasil, mas desde a Península Ibérica, pois os nossos colonizadores devido a proximidade com a África e com a Ásia não trouxeram pra cá um elemento branco puro, mas sim um fruto de séculos de miscigenação.
No Brasil este processo se concretizou com índios, nórdicos (holandeses) e negros. No século XIX estava configurado o biótipo do brasileiro.
Esse processo de miscigenação com base nos séculos XVII e no XIX está presente no romance, porque este traz como temática a evolução deste povo e a identidade nacional, que fez com que um grupo de mestiços se cruzasse tanto no plano étnico quanto no espiritual, através da sucessivas encarnações da alminha brasileira.
Os três grupos discutem a identidade nacional através de discursos que vão do catedrático até o popular. Todos tentam demonstrar o que e é povo brasileiro tanto exortando as qualidades positivas desse povo quanto o descrevendo como a escória do mundo.
A questão da identidade nacional neste romance é discutida com certo grau de ironia em alguns textos se contrapondo ao tom sério da narrativa em outros. Assim, o narrador da obra Viva o povo brasileiro dessacraliza certas idéias sobre a brasilidade, colocando a fala dos personagens em ambientes deteriorados. Um exemplo ocorre na reunião da família de Ioiô Lavínio e os seus filhos. Eles discutem sobre a identidade do povo brasileiro a partir dos efeitos da colonização ibérica.
 
– Eu não sou careta! Eu não sou velho careta. Se há um velho que não pode ser chamado de careta, sou eu.
(…).
– Não é nada disso, paizão… Mas a Guiana Holandesa não foi colonizada pelos holandeses?…
– … Nada desse papo de inferioridade, isso não tá com nada. Tem que sacar a estrutura.
– Você conhece a história de Deus criando o mundo e dando tudo ao Brasil e aí um anjo assistente estranha e aí Deus diz que ele espere até ver o povo filhadap.., o povo safado que ele ia botar aqui? Disse Domingos pondo o braço no ombro da cunhada e notando que ela estava sem sutiã, com os peitinhos arrebitados por baixo da bata encardida.
– (Ioiô Lavínio mais a frente diz)… você não tem um baseadozinho aí, não? (VPB, p. 625).
 
A identidade neste caso é discutida a partir da colonização. Para alguns se não fôssemos colonizados por iberos seríamos melhores, outros acham que não. Outros ainda consideram que os iberos tinham pior estrutura que os nórdicos.
A cena do cunhado bolinando a cunhadinha referenda a classificação que o autor empresta ao povo brasileiro, pois se este povo era safado, ele se identificava com este povo pelos seus atos.
As outras discussões no romance ocorrem através da inserção de textos teóricos sobre a identidade nacional em pontos estratégicos, a fim de que estes junto ao enredo fictício provoquem no leitor uma reação de estranhamento que fará com que ele analise a questão da identidade nacional e se identifique ou não com o povo brasileiro.
Uma discussão entre Patrício Macário e Bonifácio Odulfo a respeito das elites que governam o Brasil e o povo brasileiro no momento em que eles estão reatando a amizade após anos de afastamento será exposta abaixo para podermos observar as diferentes posições dos dois irmãos.
 
– …Você não conhece nação forte sem um governo forte, não forte em que o povinho, os desqualificados, tenham voz ativa.
– A que povinho você se refere (responde Patrício)? Para você todos são povinho, exceto quatro ou cinco gatos pingados que você julga estarem a sua altura. Que povinho. Porque todos estes que você se refere com desprezo são o povo, brasileiro (VPB, p. 584).
 
Quando Maria da Fé aprisiona Patrício Macário logo após a morte de Leléu ela lhe explica o que é povo brasileiro e nega a autoridade da República, pois povo segundo ela:
 
– O povo brasileiro não deve nada ninguém, tenente – disse ela. – Ao povo é que vocês devem, sempre deveram, sempre continuarão devendo. (…) o povo brasileiro somos nós (…) nós é que somos vocês, vocês não são nada sem nós (…) O poder do povo existe, ele persistirá (Ver VPB, p. 563-55).
 
 
Os dois textos se opõem, porque pertencem a classes sociais diferentes. Um é da elite e outro do povo; contudo, eles têm a mesma temática, pois explicam que o brasileiro é uma identidade pronta e as microetnias e as elites econômicas estão isoladas e não representam a nacionalidade brasileira.
Segundo Maria da Fé, Nós somos vocês. Com estas palavras ela quer dizer que aqueles que se dizem os brasileiros na verdade não o são, enquanto o povinho de Bonifácio Odulfo é o povo brasileiro a quem por direito de identidade nacional deve ser considerado um brasileiro.
Após a leitura desta obra, podemos observar que o gênero novo romance histórico é uma leitura agradável, além de discutir assuntos que interessam tanto à história quanto à literatura. Nesta obra, além destes aspectos, abre-se uma nova perspectiva do novo romance histórico de pôr em questão as problemáticas sociológicas de um povo.
 
2 – Quem é o povo brasileiro?
 
Para responder a esta pergunta, que é aparentemente tão simples, foram gastas muitas horas de estudo e de leitura por antropólogos, historiadores, sociólogos e romancistas. Esses pensadores lançaram mão e ainda se utilizam de fontes históricas, de textos literários, da etnia, da sociologia e da cultura brasileira a fim de responder a esta pergunta. As fontes históricas servem de linha mestra para situar em qual época as pessoas começaram a se misturar e como e em quais circunstancias essa miscigenação ocorreu.
A sociologia auxilia esta resposta com dados a respeito da formação da sociedade brasileira após o cruzamento entre os elementos branco, negro e índio, desde colonização até os dias de hoje. Os textos literários das escolas dos primeiros séculos: Literatura Informativa e Barroco, fornecem dados como os cronistas e poetas da época viam a miscigenação
A cultura do povo brasileiro é um espelho da miscigenação étnica. Através dela é possível verificar como a carga cultural das matrizes étnicas dos brasileiros: índios, brancos e negros permanecem até hoje na cultura e no modo de ser do brasileiro. Além disso, observa-se o ato antropofágico da cultura brasileira, que deglutiu os costumes de seus formadores e produziu, em seu meio, características culturais e um modo de ser do brasileiro. Esse modo de ser em composto com um gosto pela música, um certo grau de malandragem, uma adaptabilidade extrema e religiosidade mística.
Respondendo a essa questão, retiramos três citações dos seguintes livros: de um antropólogo, Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995); de um historiador, Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1947), e do próprio romancista aqui examinado, João Ubaldo Ribeiro, Viva povo brasileiro (1984).
 
 
Ocorreu o extraordinário, nos fizemos um povo-nação, englobando todas aquelas províncias ecológicas, numa só entidade cívica e política. (…) Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variados contingentes humanos? A fusão de todos eles em nós já se completou, está em curso, ou jamais se completará? Estamos condenados a ser para sempre um povo multicolorido no plano racial e cultural? Haverá alguma característica distintiva dos brasileiros como povo, feito de gente vinda de toda parte? Todas essa argüições têm respostas claras encontradas na ação concreta. (…) Nós brasileiros… somos um povo em ser , impedindo de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem nunca foi crime… Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova entidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na busca de seu destino… de fato uma nova romanidade, uma nova romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro.[2]
A experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas (…). No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecera alguns dos nossos patriotas, é que ainda nos associa apenínsula Ibérica, a Portugal (…) Podemos dizer que dela nos veio a forma atual de nossa cultura: o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma.[3]
 
(…) dizer alguma coisa sobre o povo brasileiro (…), pois que aprendera muito com o povo brasileiro, sabia o povo brasileiro, pois aprendera muito com o povo brasileiro (disse Patrício Macário) (…) o povo brasileiro não está só. Não porque tenha aliados, pois só quem tem aliados são os governantes…mas o Espírito do homem também existe (…) o povo tem umacabeça que transcende a cabeça dos indivíduos, que não poderá ser exterminado (…) (VPB, p. 654).
 
Se o povo brasileiro é uma mistura de raças regida pela ninguendade, ou se no povo brasileiro prevalece uma etnia, a ibérica, ou se por fim o povo brasileiro é regido pelo Espírito do Homem não podemos selecionar apenas uma dessa idéias. Mas podemos analisar estas três idéias e a partir delas tentam definir o povo brasileiro.
A terceira definição, de João Ubaldo, se opõe às outras três. Ao primeiro caso, porque ele tenta provar que o povo brasileiro não vivia na ninguendade sem saber o que era, mas sim ciente de si através de duas formas mística: uma a canastra que unifica a Irmandade do Povo Brasileira e outra a alminha brasileira. A etnia negra e índia unem as duas formas místicas, e assim são capazes de encontrar os caminhos da alguendade, no qual encontram forças para serem o povo brasileiro.
O povo brasileiro, de forma mítica ou real, é um campo de forças antagônicas que se distendem ao extremo sem, contudo, se separarem, pois ser brasileiro não é uma definição de etnia. Por não ser uma questão apenas de etnia, ocorre que no Brasil muitos descendentes de povos asiáticos ou europeus têm a necessidade de dizerem que não são brasileiros. Apesar de todos os seus esforços, eles não conseguiram impedir a tonalidade brasileira que os tinge. Embora de olhos puxados ou de cabelos brancos com espigas de milho, eles são brasileiros e não retiraram essa marca deles, pois ser brasileiro não é apenas um registro de nascimento, mas sim uma forma de ver o mundo de baixo para cima.
Essa forma cria indivíduos de duas categorias: uma dos que se acomodam em ser massa de manobra e outra que luta para vencer esta ponte que os separa dos mais favorecidos seja pela malandragem ou pela luta ideológica e política. Portanto ser brasileiro não é uma questão de quere ou não ser, mas de existir dentro de um contexto de brasilidade que unifica as pessoas.
 
3 – A identidade nacional via paródia
 
O narrador de Viva o povo brasileiro discute temas sobre a identidade nacional utilizando a paródia. Se a paródia é a produção de um texto baseado em um outro que ele nega, logo os temas nesta obra funcionam como uma grande paródia da brasilidade. Enquanto ninguendade é uma forma do brasileiro se identificar com o mundo por não se definir enquanto povo, o romance Viva o povo brasileiro (1984) demonstra que o povo brasileiro, através da Irmandade e da Canastra no século XIX, já tinha consciência de sua existência política e cultural.
Outra forma ocorre com a abordagem de Darcy Ribeiro quando este afirma que os homens negros e índios do Brasil, durante a fase colonial não tinham mulher ao seu alcance. O romance parodia tal afirmação, pois Capiroba, por falta de uma, tinha três. Turíbio Cafubá era reprodutor de muitas mulheres, entre elas Roxinha, com quem tivera Vevé, e isso quando ele já havia passado dos 60 anos. O romance, portanto, parodia vários temas da identidade. A partir daqui citaremos alguns que estão no romance e se referem aos outros dois livros já citados na parte 2.
 
O indivíduo isolado – (…) pode adaptar-se a tais regiões, mas a raça, essa decisivamente não; (…) ao contrário do que sucedeu com os holandeses, o português entrou em contato íntimo e mais freqüente com a população de cor.[4]
 
No romance, o indivíduo Zernike não se adapta ao meio tropical e amaldiçoa a companhia de Sckopp, que o trouxera para o Brasil. Ele estava sozinho com Ejikman e não se adaptou ao meio hostil. E dizia: “(...) como engajados, se fomos abandonados aqui à nossa sorte (…) Banckert zarpou com todos os seus navios? Engajados em quê, em guarnecer esta nesga do inferno para a Companhia” (VPB, p. 46).
Quanto à formação do povo brasileiro e sua identidade nacional, o narrador de Viva o povo brasileiro, além de parodiar textos como acontece com este acima, ele também parodia textos diversos dentro da própria obra dependendo de quem fala. Hamlet, por exemplo, diz que o Brasil “jamais se tornará um país de negros, pardos e bugres, não se transformará num valhacouto de inferiores” (VPB, p. 475). Numa outra parte mais a frente Hamlet o amaldiçoa a esposa por ela não ter seguido a receita de passar cuspe, em jejum todos os dias no nariz do filho Patrício Macário para ele ficar com o nariz fino e não o chato de negros. Para a desgraça de Hamlet a mestiçagem está em sua casa.
Em outras partes do texto o narrador parodia os temas quanto a identidade nacional produzindo um texto que decompõe outros textos, cujos temas são a identidade nacional. Isto é feito de forma fragmentada, de acordo com o tema abordado num determinado capítulo. Os personagens são articulados a fim de exporem as idéias não só da época em que vivem como de outros séculos quanto à brasilidade. Assim no século XVII Capiroba através de seus atos antropofagia não só a carne humana, mas também as ideais que virão no futuro sobre a identidade do brasileiro.
Ele tem consciência de sua superioridade em relação ao homem branco. Por isso o considera um animal e assim o trata. Em determinado momento ele descobre que os sons produzidos por aqueles bichos podem ser sons de pessoas inteligentes.
A identidade nacional é demonstrada pelo narrador através do romance quando este sublinha as falas dos personagens através dos seus atos e de sua história, de tal forma que todos eles se identifiquem direta ou indiretamente com o povo brasileiro. Não há problema no fato de que o personagem não se identifique na obra com o povo brasileiro, pois o leitor o identifica no decorrer do enredo.
 
4 – A antropofagia via paródia
 
A paródia da antropofagia articula o ato de comer carne humana, a antropofagia literal com as outras antropofagias: a antropofagia étnica, a econômica, a lingüística, a cultural e a literária.
Essas variantes antropofágicas apresentadas em Viva o povo brasileiroconstituem uma forma de apresentar identidade nacional, porque a essência do brasileiro antropofagia o que está a sua volta. Após a deglutição o que sobre são partes de um todo que formam a identidade nacional do povo brasileiro.
A primeira antropofagia ocorre com Capiroba deglutindo a carne de um homem branco. Essa carne é comida por um elemento vindo da mistura de uma índia e um negro. Esta antropofagia cultural se efetiva com a absorção das receitas de culinária ensinadas às mulheres pelos padres da Redução. Estas receitas sevem para as mulheres de Capiroba prepararem as iguarias com a carne dos padres.
A partir daí percebe-se que a antropofagia é um sistema autônomo. Sistema este que ao mesmo tempo em parece que um elemento está sendo absorvido por outro, na realidade é o outro que o consome. Um exemplo é a miscigenação entre a comida Sinique e o comedor Vu, pois ele que seria comida se cruza com ela e a principal característica dele: os olhos claros passam para as gerações futuras.
O texto abaixo mostra o encontro destes dois mundos e a assimilação da língua de Sinique por Capiroba.
 
– Eijkman, Okeman – falou quase sorrindo também e tentando imitar ao caboclo.
– Zernike, Zernike – falou, cutucando o peito com o indicador – Zernike!
– Aquimã, Sinique! – falou o caboclo triunfante, depois de uma pausa para pensar.
O holandês aprovou, baixando e levantando a cabeça com toda a força. O caboclo riu mais aberto e passou a indicar um e outro ritmamente, Aquimã, Sinique, Aquimã, Sinique, Aquimã…O holandês riu e as mulheres e as meninas riram, quase cantaram uma cantiga (VPB, p. 52).
 
 
A antropofagia neste texto ocorre com a língua, pois os nomes em holandês são deglutidos pelo caboclo, que ao assimilá-los os transforma em nomes diferentes pela sonoridade. Esta sonoridade produz um ritmo que parece uma cantiga. Há dois processos antropofágicos o lingüístico e o cultural, pois de nomes holandeses o brasileiro Capiroba consegue produzir não só outros nomes, mas também uma identidade cultural quanto à música. Outra assimilação cultural ocorre com Budião, quanto o mesmo assimila os costumes dos gaúchos, após lutar com eles na Guerra dos Farrapos. Assim ele passa a beber chimarrão e leva este costume para Itaparica.
Os diferentes tipos de antropofagia fazem parte de um contexto maior, no qual o narrador parodia a teoria da antropofagia modernista, pois ele demonstra que antes destes descobrirem a antropofagia, ela já existia na própria formação do brasileiro.
Segundo Hans Staden, a antropofagia não era executada como um ato de comer por fome, mas sim comer como forma de vingança. Portanto a vingança é a formula revolucionária da antropofagia da obra ubaldina que consome as pilastras da antropofagia oswaldiana demonstrando que a antropofagia é uma tendência natural. Um exemplo é que a primeira comida de Capiroba é o padre que o subjugou.
A antropofagia em Viva o povo brasileiro consome vários textos antropológicos e historiográficos produzidos para definir o povo brasileiro. Este processo antropofágico da criação literária é similar à paródia, pois pega um texto original, deglute-o e depois se opõe a ele. Em conseqüência o resultado é que nessa obra a produção de um texto acaba parodiando outro texto dentro do enredo. É uma sucessão de textos deglutindo textos.
Ao parodiar os textos internos e externos o narrador desta obra cria um espaço no qual antropofagia é estrutural, pois a realidade sócio-cultural das três famílias sofre um processo de assimilação do velho e de criação de uma nova forma de ser brasileiro nesse país. E para demonstrar este processo, o narrador utiliza a canastra, que vai engolindo o conhecimento e a história da Irmandade do povo brasileiro. No final do enredo a terra se abre e engole a canastra e tudo o que está ao seu redor, sobrando apenas o Espírito do Homem que é a idéia da identidade nacional do povo brasileiro.
A antropofagia paródica nesta obra somada aos recursos de carnavalização desmistifica a idéia de que os índios antropofagiavam o branco. E que o brasileiro é antropófago só pelo lado índio. Na verdade a antropofagia faz parte de todos os povos e todos eles para se formarem passaram por um período de deglutição, assimilação e acomodação das características étnicas, culturais, literárias, econômicas de povos que lhes deram origem. A antropofagia, portanto, é bilateral.
O narrador em Viva o povo brasileiro demonstra como a formação do povo brasileiro quanto a miscigenação ocorreu de forma igualitária quanto a carga genética, contudo a carga cultural prevaleceu a da mãe negra ou índia que criou as próximas gerações de acordo com seus valores. É ela a mulher que demarca seu território e se torna responsável pela formação da identidade nacional mestiça, crioula e religiosa do brasileiro.
 
5 – Síntese
 
O povo brasileiro, quem é ele? Segundo Darcy Ribeiro, seria um povo formado a partir da miscigenação entre índios e brancos, formando o mameluco, que por sua vez misturou-se com os negros. O negro, segundo ele, tinha sido destituído de sua terra e jogado numa terra estranha, onde ele procuraria a sua identidade, que perdera ao sair da África. Ele seria, destes elementos, o que mais incorporaria a procura de uma identidade nacional que o aproximasse desta nova terra.
O brasileiro, étnica e culturalmente, é a mistura de três raças que século XIX estava configurada. O branco europeu introduzido nos século XIX e XX funcionou não como fator de branqueamento da raça, mas sim foi um elemento que assimilou e assimila as outras culturas tanto dos outros brancos que para cá vieram como do brasileiro nato.
Ser brasileiro não é apenas uma questão de etnia e sim uma questão cultural. Um indivíduo torna-se brasileiro pela assimilação cultural e não apenas por nascer de uma etnia brasileira.
No romance Viva o povo brasileiro, a introdução de Patrício Macário ao povo brasileiro constitui um momento de revelação. No livro o narrador usa este instante da vida do personagem para demonstrar que ser brasileiro é uma questão sentir as coisas sem, contudo, vê-las. Dessa forma, a Irmandade do povo brasileiro é algo que intriga os personagens, pois eles fazem parte dela ao mesmo tempo buscam respostas para a sua existência.
A Irmandade do povo brasileiro é uma metáfora da identidade nacional criada pelo narrador para responder aos que se perguntam o que é a identidade nacional do brasileiro e como essa se diferencia da de outros povos. O narrador do romance, para responder quem é o brasileiro, cria uma personagem mítica: a alminha brasileira, que é a essência da brasilidade. Se esta essência é brasileira, logo o povo como um todo o é. Desta forma podemos dizer que o romance responde a questão que intriga antropólogos e historiadores, quanto ao que é o povo brasileiro a partir de uma visão antropofágica da formação do povo brasileiro.
O texto ficcional antropofagia os textos e as idéias destes estudiosos, bem como de outros produzindo um texto capaz de identificar o povo brasileiro através da tese defendida por João Ubaldo nesta obra. Para tanto, o narrador divide esta tese em 18 capítulos, que demonstram brasileiro sob o véu da mestiçagem. Ao final desta obra não há um único personagem que não seja mestiço. E por mais que alguns personagens como Bonifácio Odulfo e Henriqueta queiram se descolar desta teia mestiça, jamais eles conseguem, pois há sempre um índio ou um negro na árvore genealógica do brasileiro.
O contingente humano de brasileiros no Brasil é formado por um grupo de elementos criolos, mazombos, mamelucos, cafuzos, enfim um aglomerado miscigenado que criou uma maneira de ser que é um pouco do ser Leléu, um pouco de Maria da Fé, um pouco de Bonifácio Odulfo e um pouco de Macário. Esses tipos brasileiros no romance se repetem reforçando a definição do povo brasileiro através deles. Assim Capiroba, Vu, Maria da Fé, Vevé, Satlin José são o Brasil revolucionário que sobrevive ao se identificam com o povo brasileiro. Este grupo está em oposição às elites formadas por personagens como Hamlet, Bonifácio Odulfo e Eulálio Henrique. Estes dois tipos embora antagônicos se completam na definição do brasileiro como uma etnia que vive numa luta entre as classes sociais, contudo têm em comum alguns traços quanto a maneira de ser do brasileiro.
A obra definiu o povo brasileiro através da essência da brasilidade. Essa não depende da etnia e sim de aceitar ou não por parte do indivíduo as marcas que o aproximam da brasilidade.
Quem quer se apossa dela e a utiliza com insígnia, quem não a quer a repele, contudo a essência do povo brasileiro o pega de alguma forma. Isto porque a brasilidade é cativante e atrativa mesmo para aqueles que a negam.
 
BIBLIOGRAFIA
 
BURKE, Peter. A escrita da História: novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1992.
LEENHARDT, Jacques. “A construção da identidade pessoal e social através da história e da literatura”. In: LEENHARDT, J.; PESAVENTO, S. J., orgs.Discurso histórico e narrativa literária. Campinas: UNICAMP, 1998, p 17-40.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2a ed. São Paulo: Schwarcz, 2000.
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. 4a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
 
 
 
 
 

 


[1] Todas as citações ao romance (1984) serão feitas como VPB.
[2] RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2a ed. São Paulo: Schwarcz, 2000, p. 246, 273, 453.
[3] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5a ed., São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 40.
[4] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5a ed. São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 65.




Bio fornecida pelo palestrante.

A SEDUÇÃO DA IMAGEM DE AMOR EM CLARA DOS ANJOS, DE LIMA BARRETO – Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo




A SEDUÇÃO DA IMAGEM DE AMOR EM CLARA DOS ANJOS, DE LIMA BARRETO

 

Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 
 
 
Que poderia haver em comum entre o filme, para adolescentes, Diário da Princesa 1 e 2, os festejados casamentos de celebridades e o romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto? Obra que veio a público em dezesseis números daRevista Souza Cruz, de janeiro de 1923 a maio de 1924, após ter sido anunciado numa Primeira Versão Incompleta, com um capítulo publicado em O Mundo Literário, de maio de 1922, sob o título O Carteiro.
Paradoxalmente, num país de analfabetos, o discurso poderoso da literatura modelou o imaginário brasileiro a partir da relação de complementaridade entre palavra e imagem, estabelecida  pelos escritores românticos. Transfere-se para a palavra que, segundo Alencar, “brinca travessa e ligeira na imaginação” a função “do buril do estatuário”, “a nota solta de um hino” ou a fotografia, para contrapor-se à linearidade da pintura clássica, ou, ainda, “o pincel inspirado do pintor” que faz surgir de repente do nosso espírito, “como de uma tela branca e intacta, um quadro magnífico, desenhado com essa correção de linhas e esse brilho de colorido que caracterizam os mestres” (ALENCAR, José de,1980, p. 98).
Compreender o estético como forma de manifestação dos conteúdos imaginários – como sintetizou E. Morin – “é por meio do estético que se estabelece a relação de consumo imaginário” (1977, p. 77) – faz parte da tradição do pensamento Ocidental, sistematizada já em Platão, quando no Livro III, da República, chama a atenção para o risco do fascínio, sobre a psique alheia, exercido pelo estético. “Não tens observado que quando se pratica a imitação durante muito tempo e desde a meninice ela acaba por se converter num hábito e numa segunda natureza, infiltrando-se no corpo, na voz e no próprio modo de pensar?” (s.d., p. 75).
No entanto, permanece bastante inexplorada a gama de reações provocadas pela dispersão das imagens literárias no imaginário coletivo, através dos fragmentos de páginas escritas mescladas à cultura oral, numa miscelânea de temas que se realizam simultaneamente. Num país de parcos leitores, a literatura organizou a memória, como registrou Graciliano Ramos em suas crônicas, flagrando, no cotidiano, a sedução do literário.
 
No interior do país, nas mais afastadas povoações, senhoras idosas tremem, emudecem os óculos gaguejando as histórias do Moço Louro e da Escrava Isaura,emprestam às netas brochuras do romantismo, conservadas miraculosamente. Alencar circula, e deve-se a ele haver por ali tanta Iracema, tanto Moacir (RAMOS, G., 1984, p. 107).
 
 
O escritor Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), atento a esse processo de sedução do literário, procurou compreendê-lo a partir da observação crítica e dos estudos teóricos disponíveis em seu tempo, como atestam as anotações memorialísticas e os textos literários.
A partir de leituras das obras de Maudsley, Taine e Theodore Ribot, o último dos quais publicara Essai sur l´imagination créatice, e de Jules Gaultier, todas elas a respeito do conceito de bovarismo, o escritor pretende  refletir sobre o que acontece com o homem comum, suburbano em geral, quando recebe as construções estéticas intelectuais. Como o homem comum reúne, no seu cotidiano, os fios esfarrapados de metáforas e estereótipos que definem o tempo, o espaço, a memória, a paisagem, o país, o homem enfim?
Na mesma medida em que a literatura veicula imagens, clichês, as lembranças e as heranças, até mesmo as produções distorcidas e reutilizadas, no imaginário coletivo, pode, também ela, refletir criticamente sobre esse processo. Exemplar nesse sentido, e também precursor é o romance Madame Bovary, de Flaubert que permite a percepção de como a herança cultural pulveriza-se no cotidiano de personagens de baixa extração social, formando crenças entendidas como naturais. Personagens incapazes de ver o quanto a imagem esconde dos sentidos da sua existência, dos fundamentos das suas dores, das causas do aniquilamento da sua vontade. Estão cegas quando dirigem suas vidas para a concretização, e defesa, das crenças no racionalismo científico; quando expressam o conteúdo das dicotomias, do século XIX, diluído em teorias apreendidas em segunda ou terceira mão; quando defendem os dogmas da religião, da pátria ou os clichês da própria literatura, todos elementos de construção cultural da sociedade. Tudo se concatena, para o leitor, através do percurso da personagem Emma Bovary, que do início ao fim da obra, busca incessantemente na sua imagem, projetada no espelho, a imagem do seu desejo ou os traços das heroínas dos romances que lera. Em síntese, o filtro, ou a lente, que obstrui a visão, torna-se ele próprio instrumento de visão (ZERAFFA, Michel, 1976).
Há, na obra de Lima Barreto, uma galeria de personagens femininas, Cló, Ismênia, Lívia, Clara dos Anjos, e outras, que não são típicas leitoras, mas agem profundamente seduzidas pelas imagens criadas pela convenção romântica para a mulher. São, pois, produto de uma cultura na qual a literatura, em seus momentos de formação, fez-se mais  para ser ouvida  do que lida, constituindo  aspectos do cotidiano,como já  analisou  Antonio  Candido (1987).
Personagens incapazes de ver o quanto as ruínas do imaginário escondem dos sentidos da sua existência, dos fundamentos das suas dores, das causas do aniquilamento de suas vontades. Estão cegas quando dirigem suas vidas para a concretização e defesa das crenças e valores diluídos em teorias aprendidas em segunda ou terceira mão; quando defendem os dogmas da religião, da pátria ou os clichês da própria literatura, todos elementos da construção cultural da sociedade. São, na comparação de Flaubert, como “pobres almas obscuras, úmidas de melancolia guardada, como estes pátios nos fundos das casas de província, cujos muros estão cheios de musgo” (1993, p. 80).
Enquanto o autor de Madame Bovary trata dos inúmeros filtros, ou lentes, entre eles a ciência, a religião ou a literatura, Lima Barreto projeta a sua atenção no filtro contaminado de ficção  – romântica e naturalista – que molda o olhar de personagens como Clara dos Anjos, Ismênia e tantas outras. Isto porque aspectos desse conteúdo, vindos do texto literário, impregnam as estruturas sociais e orientam a educação, as relações de poder, a organização da família e traçam perfis de identidade.
No caso brasileiro, as modinhas e canções populares estão contaminadas de fragmentos cristalizados de memória cultural – ruínas – herdadas da tradição romântica divulgando, por exemplo, a imagem de amor que garante felicidade, realização pessoal e nivelamento das diferenças sociais, com superação de todos os obstáculos. Tudo plantado no terreno da limitação intelectual, do distanciamento dos livros e do pensamento crítico. Numa ambiência cujos traços gerais incentivam a fantasia, a música dolente em versos repetitivos, com os sons “mágicos” do violão, o caráter de Clara dos Anjos molda-se pelas nuances da imagem de amor. O autor agiliza, na fala das personagens, as ruínas do imaginário, na forma de retórica amorosa, e demonstra como tais imagens movimentam vidas e destinos.
 
As modinhas falam muito de amor, algumas delas são lúbricas até; e ela, aos poucos, foi organizando uma teoria do amor (…)O amor tudo pode, para ele não há obstáculos de raça, de fortuna, de condição; ele vence, com ou sem pretor, zomba da Igreja e da Fortuna, e o estado amoroso é a maior delícia de nossa existência, que se deve procurar gozá-lo e sofrê-lo, seja como for. O martírio até dá-lhe mais requinte (LIMA BARRETO, 1956a, p. 89-90).
 
 
É a vulgarização do mito do amor recíproco infeliz – que permite conhecer, pelo sofrimento, o amor-paixão, simultaneamente partilhado e combativo, glorificado por uma catástrofe, ansioso por uma felicidade que rejeita – através da literatura, a via que desce até aos costumes, hábitos e mentalidades. Essas imagens da retórica do amor guardam ecos, também, da figura do príncipe herdeiro e sua nobre esposa; ela, absolutamente benevolente, ele absolutamente vigoroso; a lua e o sol feitos carne. Imagens que chegam ao cotidiano pela retórica que se torna, ela própria, condição suficiente para alimentar corações, avivar potencialidades latentes de sentimento.
A retórica, portanto, pressupõe a imitação de um modelo, mesmo que as motivações intrínsecas àquele modelo, na sua origem, tenham desaparecido, sejam outras, ou, até mesmo, inacessíveis na sua compreensão plena. Equivale a uma ruína, ou fragmento de memória, guardado no imaginário, acerca do mito do amor, tanto no nível de atitudes (o gestual, a aparência), quanto no das palavras. Nessa perspectiva, compreende-se a sedução de Clara dos Anjos e o papel de Cassi Jones, o sedutor, nesse imaginário. Para a protagonista, a realidade torna-se um pálido reflexo da imaginação e passa a viver através dela e por ela. É da imaginação que brotam todos os seus anseios, sua dor e vitalidade no presente. A imaginação do amor interessa-lhe mais do que buscar conhecer o amor verdadeiro, que poderia estar a seu lado e não no conteúdo das modinhas.
Nessa perspectiva, pode-se compreender o papel sedutor de Cassi Jones, interagindo com esse imaginário. Apesar da constante vigilância da mãe e da honestidade do pai, é pela porta da frente da casa, convidado para tocar violão, em uma festa oferecida pela família, que entra Cassi Jones na vida de Clara dos Anjos e o narrador apresenta-nos o seu retrato.
 
Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento.
Insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado “modinhoso”, além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão (…). Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor, mas pelo apuro forçado e odegagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros. (…). Não usava topete, nem bigode (LIMA BARRETO, 1956a, p. 45).
 
As armas de Cassi seriam: o violão – “bem misterioso, um elixir ou talismã de amor” (1956a, p. 45), a retórica, expressa nas modinhas e cartas de amor, que atualizava todas as frases feitas e situações típicas das imagens de amor para a sedução. Há um diálogo com o paradigma do sedutor, cujas raízes aprofundam-se nas lendas, originadas provavelmente em Sevilha, cuja expressão dramática aparece em El burlador de Sevilha, obra de Tirso de Molina de 1630. Independente de sua sensualidade, “Don Juan” figura como um burlador, cujo fim é o arrependimento e a confissão (BLOCH, Ernst, 2006).Outra raiz vem das páginas de Moliére, Don Juan ou o festim de Pierre, obra de 1643 que mostra o cavalheiro intrépido, frio e racionalista; não desenvolve paixão nenhuma, apenas egoísmo. Triunfa, sempre, por suas extraordinárias armas amorosas e pelo poder social que pode mobilizar, seduzindo damas de alta sociedade com promessas de fidelidade e de casamento.
De fato, a imagem de “Don Juan” modifica-se depois da Revolução Francesa: aparece o homem de sorte preso a um sentimento sem limites, dirige suas ações, obstinadamente, na direção de um impulso amoroso radical, isto é, em busca da idéia-síntese de mulher. (BLOCH, Ernst, 2006) Nessa perspectiva, a sua infidelidade empírica é a extrema fidelidade amorosa: fiel à busca amorosa do ser no qual pudesse repousar. Avança vertiginosamente em busca de feminilidades – formosas e sugestivas – que se tornam asquerosas e entediantes, assim que se colocam a seus pés.
Afinal, como se desenha o “Don Juan” de Lima Barreto em seu diálogo com a tradição cultural e literária? Temos um Cassi Jones burlador, conquistador inveterado, cheio de perfídia e maldade, a ponto de ordenar assassinatos, atualizando pela retórica o  mito do amor. A linguagem recheada de metáforas recebe o auxílio da sátira com a finalidade de chamar a atenção do leitor para um processo mais sofisticado, não tão facilmente perceptível de identificação psicológica por empatia, diferente da mera imitação abstrata. Em muitos casos, esse comportamento também é físico, uma questão de fala, gesticulação, modo de andar, postura, vestimenta e outras coisas semelhantes. Prepara o leitor, enfim, para flagrar Clara dos Anjos em absoluto envolvimento “pelo tic invencível do tocador de violão” ou o fascínio, a sedução da imagem sobre a psique alheia.
 
Clara, que sempre a modinha a transfigurava, levando-a a regiões de perpétua felicidade, de amor, de satisfação, de alegria, a ponto de quase ela suspender, quando as ouvia, a vida de relação, ficar num êxtase místico, absorvida totalmente nas palavras sonoras da trova, impressionou-se profundamente com aquele jogo de olhar com que Cassi comentava os versos da modinha. Ele sofria, por força, senão não punha tanta expressão de mágoa quando cantava – pensava ela (LIMA BARRETO, 1956a, p. 81).
 
Sem discernimento crítico e absolutamente fascinada por Cassi Jones, Clara não percebe a encenação no jogo de sua voz e de seu olhar. Semelhante a um processo de automatismo cognitivo a imagem sucede rapidamente a imagens, automáticas, acríticas, à mercê da manipulação dos recursos do inconsciente.
A insistência de todos ao redor em denegrir o sedutor, alertá-la do risco que corre, só fortalece as razões do imaginário: as imagens do amor recíproco infeliz, porque em luta contra as forças externas –  “ Naturalmente havia nisso muita inveja dos méritos do rapaz, em quem ela não via senão delicadeza e modéstia e, também, os suspiros e os dengues do violeiro consumado” (LIMA BARRETO, 1956a, p. 91) –  argumenta Clara dos Anjos.
Em Triste fim de Policarpo Quaresma podemos ver Ismênia, a jovem que sem ser feia, até bem simpática, “com sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de uma tintas de bondade”, encontrara o sentido da existência na tentativa de responder à pergunta: “Então, quando te casas?”, logo depois do festejado noivado (LIMA BARRETO, 1956b, p. 55).
Na cultura brasileira, à visão romântica da função da mulher na sociedade patriarcal – matrimônio e maternidade – une-se a abordagem patológica para a ausência desse modelo feminino familiar. A literatura naturalista é farta de exemplos de histéricas, reproduzindo sintomas tais como desmaios, enxaquecas, gritos, próprios de temperamentos doentios. No romance de Lima Barreto, é a delicadeza o traço que desenha, com profundidade, o perfil de Ismênia, para resgatar o contorno da pessoa humana marcada pelos dogmas e convenções sociais.
Em coerência ao processo de urbanização, o desenvolvimento dos transportes, a ampliação do processo de circulação das mercadorias, a modernização dos fins do século XIX e início do século XX, ocorre uma reformulação no âmbito da família. O homem delega na condução da ordem familiar por ser também mais intensamente solicitado na esfera pública. Permanece a mulher no espaço privado e, simultaneamente, privada das importantes decisões pertinentes à existência pública. No entanto, revestida de novas funções, além do matrimônio, entre outras a de consumir artigos industrializados, ter profissões “delicadas” como o seu perfil e até ser alegre e espirituosa com moderação. O predomínio de faculdades afetivas tornava-a menos apta para o trabalho intelectual do que para a condução da família.
O romance traça um painel desse aspecto regulador da existência social da mulher, transmitido de geração a geração. Dona Maricota, a mãe de Ismênia, “não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e desonroso para a família” (1956b, p. 66) As jovens amigas de Ismênia confirmam em suas conversas, a ansiedade em torno do casamento, única oportunidade real de ascensão e reconhecimento social para a mulher. Falam muito às claras sobre os enxovais, o que devem conter, onde adquiri-lo, “as casas barateiras”, “as peças mais importantes”, mas às escondidas, em meio tom, abafavam curiosidades e impulsos da vida sexual.
 
Estefânia, a doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência.
Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes e disse alto:
– Eu quero ver isso…Todas dizem que não… Eu sei… (LIMA BARRETO, 1956b, p. 67).
 
Se, para Ismênia, as normas sociais, projetadas nas imagens do casamento, tornaram-se a medida de sua individualidade, tomando-a por inteiro, Olga – a afilhada de Quaresma – possui o discernimento capaz da emancipação e da crítica, superando a mediania a ponto de sr a única real interlocutora do padrinho, por entender os motivos que o prendem à reserva de sonho; Ismênia, por sua submissão, dependência e incapacidade de crítica, sem qualquer ousadia, é, silenciosamente, tragada pelas representações do cotidiano. Por isso, para Olga o casamento serve a seus intentos, isto é, reconhece no matrimônio o aval social para articular novos vôos, convenientes e imprevisíveis, longe do fatalismo dos contos de fada. “Casava por hábito da sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade” (LIMA BARRETO, 1956b, p.102).
Ao contrário, quando se evidencia para Ismênia a impossibilidade de resposta para a pergunta “Quando te casas?” que lhe carimbava uma identidade, esfacela-se em inúmeros fragmentos e, silenciosamente. Depois de perder o noivo, não reencontrara mais o sentido para a vida, afinal o código de sua integração com o mundo estava contido na palavra casamento, e todo o feixe de significações que ela guardaria. Ismênia enlouquecera, “de uma loucura mansa e infantil”. Exausta, enfraquecida, feito espectro, a personagem alcança o sublime na morte, porque a sua tragédia permite a possibilidade de conhecimento ao leitor, retirando-lhes as ilusões.
 
Ismênia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestido meio aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vê-lo mais de perto (…).
Viu os seus ombros nus, o seu colo muito branco… Surpreendeu-se…
Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa.
O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboletas. Teve uma fraqueza, uma cousa, deu um ai e caiu de costas na cama com as pernas para fora… Quando a vieram ver, estava morta (LIMA BARRETO, 1956b, p. 258-259).
 
 
Clara dos Anjos, Ismênia ou Lívia – a protagonista do conto do mesmo nome, que sonha com um casamento como único recurso para tirá-la da rotina do trabalho doméstico – todas exemplificam a atualização das imagens do amor no cotidiano e, como bibelôs, esfacelam-se, silenciosamente, em inúmeros fragmentos de dor e decepção.
 
– O que é amar? Interrogava fremente.
Não é escrever cartas doces? Não é corresponder a olhares?
Não é dar aos namorados as ameaças da sua carne e da sua volúpia? (…)- Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar, namorar aqui, ali, embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro…
– Ó Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga!
Que fazes há tanto tempo na janela?! (LIMA BARRETO, 1956c, p.155).
 
 
O que as move? As ruínas ou fragmentos de memória cultural, como imagens cristalizadas, difundidas pelo romance romântico e agilizadas no dia a dia pela retórica do amor, que define o casamento e o papel destinado à mulher na sociedade.
A sofisticada cultura de massas, hoje, reúne esses mesmos fios esfarrapados de memória cultural para enredar as “Michelles, Pamelas”, as “louras” – que se inspiram nas protagonistas das novelas de televisão para a escolha do vestuário, da linguagem e de atitudes, coerente à “colonização da alma”, na perspectiva de Edgar Morin (1997) – mas também para reeditar as imagens de amor, com seus redentores  príncipes encantados e a retórica de “Don Juan”.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
ALENCAR, José de (1980). Cartas sobre a Confederação dos Tamoios. In: COUTINHO, Afrânio, org. Caminhos do pensamento crítico.Rio de Janeiro: Pallas, Brasília: INL, 1980, p. 80-104.
BLOCH, Ernst (2006). O princípio esperança. Trad. Werner Fuchs. Rio de Janeiro: EdUERJ;
Contraponto, v. 1 e 2.
CANDIDO, Antonio (1987). Literatura de dois gumes. In: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, p. 161-80.
FLAUBERT, Gustave (1993). Cartas exemplares. Org., pref., trad. e notas de Duda Machado. Rio de  Janeiro: Imago.
LIMA BARRETO, A. H. de. Clara dos Anjos (1956a). In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Brasiliense.
LIMA BARRETO, A. H. de (1956b). Triste fim de Policarpo Quaresma. In:Obras de Lima Barreto. São Paulo: Brasiliense.
LIMA BARRETO, A. H. de (1956 c). Lívia. Histórias e sonhos. In: Obras de Lima Barreto. São Paulo, Brasiliense.
MORIN, Edgar (1997). Cultura de massas no século XX: neurose. Trad. Maura Ribeiro Sardinha. 9a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
PLATÃO (s.d.). A República. Trad. Leonel Vallandro. São Paulo: Tecnoprint.
RAMOS, Graciliano (1984). Os amigos de Machado de Assis. In: Linhas tortas: obra póstuma. 11a ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record.
ZÉRAFFA, Michel (1976). FictionsThe Novel and Social Reality. London: Penguin Books.





Bio fornecida pelo palestrante.

ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA: A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA CHUVA” de ISMAÏL KADARÉ – Maria Carolina Akemi SAMESHIMA




ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA: A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA CHUVA” de ISMAÏL KADARÉ

 

 

Maria Carolina Akemi SAMESHIMA

UNESP-FRANCA

 
Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, escreveu que a literatura é uma forma de comunicação social, por isso é uma relação inte-rhumanaorganizada por fatores internos e externos. Os elementos internos são, por exemplo, a estrutura da narrativa. Enquanto que os elementos externos são os sociais. Porém, para esse autor a relação entre literatura e sociedade vai além, pois esses elementos que citamos como externos na verdade tornam-se internos em uma obra literária, ou seja, um fator da própria construção artística (CANDIDO, 1967, p. 20).
Em Ismaïl Kadaré podemos perceber justamente esse movimento de que Antonio Candido nos fala. Este autor albanês mostra através de suas obras a história de seu país, mas ao mesmo tempo constrói narrativas que não possuem lugar especifico, ou seja, está relacionada com a nossa sociedade de maneira geral. Prova disso é um outro livro seu chamado Abril Despedaçado que ficou conhecido no Brasil pela versão cinematográfica de Walter Salles, que ainda o adaptou para a nossa região nordestina. Acredito que é nesse sentido que Aristóteles percebeu a literatura como algo universal, e a história, como algo do campo do específico. É importante lembrar que a literatura não é o reflexo do “real”, mas é construída dentro de nosso arcabouço mental, ou seja, é construída a partir das nossas possibilidades. Kadaré constrói seus livros, não apenas Os tambores da chuva, a partir de sua própria história, de seu conhecimento e experiência na Albânia sob a ditadura de Hodja.
Ismaïl Kadaré nasceu na pequena cidade de Gjirokastra, no sul da Albânia, em 1936. Filho de um funcionário dos correios estudou Letras e Filosofia na Universidade de Tirana. No final dos anos 50, com seu país sob domínio soviético, foi para Moscou concluir seus estudos literários no Instituto Gorki. Teve de interromper os estudos quando Enver Hodja, então ditador da Albânia, rompe relações com a URSS. Já era, então, um escritor bastante popular em seu país, com coletâneas de poesias publicadas. Foi quando começou a escrever romances que começaram os problemas para o autor. Seus livros quando não eram proibidos por decreto, o que aconteceu com quatro deles – Concerto no fim de invernoO palácio dos sonhos, O Monstro e Luar – sofriam proibição de qualquer referência a eles na imprensa albanesa.
Segundo o próprio autor, numa entrevista concedida a Tirthankar Chanda, em setembro de 1998, disponível no site www.france.org.br/abr/label , seu gosto pela escrita começou com dez anos de idade quando leu pela primeira vezMacbeth, de William Shakespeare. E depois aos vinte anos teve contato com a literatura antiga:
 
Fiquei tão perturbado que copiei toda a peça a mão. Shakespeare é o maior escritor do mundo. É o mais completo de todos, mais visionário do que os escritores da Antigüidade, com os quais eu também tenho uma grande dívida. Foi com a idade de vinte e sete a vinte e oito anos que descobri a literatura grega antiga propriamente dita. Fiquei impressionado com a modernidade das tragédias de Ésquilo, que pareciam refletir as minhas preocupações de escritor dissidente diante de um Estado totalitário em pleno século XX.
 
Kadaré também foi bastante influenciado pelos escritores franceses do século XIX, como Balzac, Zola e Flaubert. Essa influência da literatura francesa é explicada pelo próprio autor como uma tradição em seu país, que possui uma elite francófila desde os tempos da Revolução Francesa, mas que foi suprimida pela influência russa durante a Guerra Fria.
 
A literatura francesa é, aliás, muito lida na Albânia, onde existiu durante bastante tempo uma elite francófila muito grande, como na Grécia ou na Romênia. As idéias progressistas oriundas da Revolução Francesa tiveram um papel preponderante na evolução dos países dos Bálcãs. Na Albânia também, a intelligentsia adotou as idéias antimonarquistas, que aplicou contra o império otomano. Mas os comunistas suprimiram o francês nas escolas para substituí-lo pelo russo. (Ibidem)
 
Em 1990, cinco anos após a morte de Hodja, Kadaré pede asilo político à França. É interessante notar que mesmo sob regime de censura, seja parcial ou total, de suas obras, Kadaré permanece na Albânia. A explicação dada pelo autor é de que sua saída da Albânia durante o regime de Hodja não teria serventia alguma, mas em 1990, quando deixa seu país natal, existia uma possibilidade de abertura democrática. As obras de Ismaïl Kadaré disponíveis em português são: Abril despedaçado, Concerto no fim do inverno, Dossiê H, O palácio dos sonhos, todos editados pela Companhia das Letras, Três cantos fúnebres para Kosovo e A Ponte dos Três Arcos, editados pela Objetiva.
 

A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA CHUVA”

 
Segundo François Dosse, a história nasceu da necessidade pela busca da verdade, por isso esse gênero foi se distanciando lentamente da literatura. Na antiguidade, um personagem começa a aparecer, o hístor, em oposição ao aedo. Cabia ao hístor “retardar o desaparecimento dos traços da atividade dos homens”, dessa forma a história e a memória passam a caminhar juntas. (DOSSE, 2003, p. 13).
Essa tentativa de “aprisionar a morte e fazer com que as grandes façanhas […] não caiam no esquecimento” (Ibidem) é justamente a função de um dos personagens do livro de Kadaré, o cronista Mevla Tcheleb. Para imortalizar os sucessos dos comandantes do exército turco, Tcheleb acompanha, ou tenta acompanhar os acontecimentos de perto, da linha de frente, com o objetivo de fazer uma história com o máximo de detalhes que comprovem a veracidade de sua escrita. No entanto, uma questão incomodava Tcheleb, como descrever de modo heróico pessoas com atributos nada heróicos?
 
 
(…) Enquanto seguia os generais com os olhos, Tcheleb tratava de encontrar qualificativos que incorporaria aos nomes de cada um na sua crônica. Porém, os qualificativos eram poucos, eram fracos e em sua maioria tinham sido empregados em excesso pelos cronistas mais antigos, banalizando-os. Além do mais, havia que por de lado os principais louvores, reservados para uso exclusivo do comandante-chefe […].
(…)
Excetuando-se o comandante-chefe e Karamukbil, que tinham rostos ovais e regulares, e naturalmnte o allaibeu, que ostentava a bela estampa da maioria dos seus iguais, as fisionomias dos demais pareciam propositalmente talhadas para dificultar o oficio do cronista. À mente deste involuntariamente ocorriam coisas nada próprias de um heróico relato de feito d’armas, como o terçol no olho de Olltch Karaduman, a asma do mufti, a dentadura saliente de Utch Kurtogmuz, as frieiras de seu homônimo Utch Tundjurt, corcundas, pescoços truncados, braços longos como de espantalhos, gorduras ostentadas por um ou outro, e principalmente os pêlos encravados no nariz de Kurdishdji, que já na noite anterior tirara o sono do cronista. (KADARÉ, 2003, p. 28-29)
 
 
Esse trecho mostra uma discussão de grande polêmica na historiografia: a construção dos acontecimentos históricos pelo historiador, tal qual faz um romancista. Para Paul Veyne, em Como se escreve a História, o historiador trabalha como um romancista, pois coloca os fatos, pré-selecionados e hierarquizados, numa intriga. Essa disposição é “muito pouco científica de causas materiais, de fins e de acasos: um relato de vida, enfim, que o historiador recorta à vontade e no qual os fatos têm ligações objetivas e sua importância relativa” (VEYNE, 1995 p. 36).
Outra questão é a da neutralidade do historiador com relação ao seu objeto. Ainda mais se pensarmos que na situação de Tcheleb, ou seja, ele escrevendo sobre um fato no qual ele participa e presencia. Como resolver então a questão entre realidade observada e o olhar que o observa? Sobre essa questão, Hayden White escreveu que não existe uma realidade pré-definida e absoluta a espera de ser explicada pelo historiador. Pelo contrário, assim como na literatura, a história é também construção, ou como o autor prefere, umaurdidura do texto. As fontes históricas, tão preciosas para dar o caráter científico a disciplina, são também construídas e nomeadas como fontes pelo historiador (WHITE, 1994, p. 55). Como Mevla Tcheleb, os historiadores escolhem os fatos e os acontecimentos importantes de serem imortalizados, os materiais que servem de prova também passam por uma seleção e hierarquização, as próprias causalidades são construídas pelo historiador ao urdir o texto:
 
 
(…) No princípio, assim que encontrara a expressão, pusera-se à procura de uma metáfora para os soldados que nadavam naquele mar e trouxera à memória todos os seres marinhos, mas nenhum lhe parecera a altura de tão gloriosos guerreiros (KADARÉ, 2003, p. 295).
 
 
 
Outra questão que preocupa Mevla Tcheleb diz respeito aos fatos que devem ser mencionados, como já vimos anteriormente, e as personagens que devem ser mencionadas. Numa conversa, o chefe da intendência disse ao cronista:
 
 
— Usualmente vocês, cronistas, reservam todos os méritos dos feitos d’armas para o comandante supremo – comentou o intendente –, mas quero dizer-lhe uma coisa, preste atenção, Tcheleb: depois do comandante, as maiores responsabilidades vêm para aqui – e apontou para a própria fonte. (Ibidem, p. 31-32)
 
Mevla Theleb refletiu que as crônicas jamais mencionavam o trabalho de desamarrar e amarrar o equipamento, embora ele parecesse consumir metade do tempo dos soldados. (Ibidem, p. 33)
 
Tcheleb percebeu que os soldos também jamais eram lembrados nas crônicas militares. (Ibidem, p. 35)
 
— Para dizer a verdade, este Império sem fim, que orgulha a todos nós, expandiu-se por meio desses pés cheios de calos e frieiras. (Ibidem, p. 36)
 
 
Esses aspectos do ofício do historiador encontrados no livro de Kadaré nos lembra o manifesto da Escola dos Annales contra a maneira que os metódicos tratavam os acontecimentos e os sujeitos históricos. Na visão dos Annales, a Escola Metódica se importava com o tempo curto, ou seja, o tempo do evento, e se preocupava apenas com os grandes acontecimentos e com as grandes personalidades. Quando na verdade a ênfase deveria estar na longa e media duração, na história social, ou seja, coletiva e acima de tudo namultidisciplinariedade.
Outro aspecto importante sobre a maneira que a história é escrita, é, por exemplo, a diferença entre as palavras do arquiteto e a crônica que esta sendo escrita por Tcheleb. Em certa altura do livro, quando mostrava seus desenhos, esquemas e planos para atacar o castelo, as palavras do arquiteto são caracterizadas como palavras sem vida, (Kadaré, 2003, p. 44). Enquanto o cronista une artisticamente as palavras para imortalizar a história dos sucessos turco na campanha albanesa, o arquiteto através de projetos e esquemas tenta encontrar a maneira mais eficaz de derrotar o inimigo.
Portanto, notamos que no livro o cronista aparece entre aqueles que sabiam algo mais sobre o destino, (Ibidem, p. 21). Podemos ainda notar, a importância dada à história e aos historiadores em poder explicar o presente, através do passado, e propor um sentido para os desígnios humanos, como na historiografia iluminista, com Kant, ou mesmo fazendo projeções sobre o futuro, como em Condorcet.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARTIER, Roger. À beira da falésia. Porto Alegre: Editora UFRS, 2002.
CONDORCET, Jean-Antoine-Nicolas de Caritat. Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano. Campinas: Unicamp, 1993.
DOSSE, François. A História. Bauru-SP: Edusc, 2004.
KADARÉ, Ismaïl. Os tambores da chuva. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
KANT, I. Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. (1784). In. GARDINER, P. Teorias da História. Lisboa: Kalouste Goulbenkian, s/d.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967.
REMOND, René. (org.) Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/FGV, 1996.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Foucault revoluciona a história.Brasília: Ed. da UNB, 1995.
WHITE, Hayden. Trópicos do discurso. São Paulo: Edusp, 1994.





Bio fornecida pelo palestrante.

GÊNERO, PERVERSÃO E SUBVERSÃO EM CLARICE LISPECTOR E ADÍLIA LOPES – António Ladeira




GÊNERO, PERVERSÃO E SUBVERSÃO

EM CLARICE LISPECTOR E ADÍLIA LOPES

 

António Ladeira

Texas Tech University

         Este trabalho estrutura-se em torno de algumas perplexidades que surgiram a partir de leituras de obras de Clarice Lispector e de Adília Lopes. As perplexidades converteram-se em hipóteses que neste trabalho exploro de forma comparativa. O leitor, por outro lado, questionar-se-á quanto às justificações para se estabelecerem aqui leituras comparativas entre uma autora inegavelmente canônica no campo das letras brasileiras, Clarice Lispector, e uma autora ostensivamente exterior ao canone das letras portuguesas – Adília Lopes – embora a recepção desta última evolua gradualmente, na minha opinião, em direcção a um reconhecimento cada vez mais generalizado. Clarice Lispector, como é sabido, faleceu em 1977 depois de uma muito produtiva, influente, e, em muitos aspectos, “respeitável” 1 carreira literária; Adília Lopes nasceu em 1961, e, embora já tenha publicado cerca de 21 livros em Portugal desde 1985 (obras que deram origem a inúmeras traduções estrangeiras) dela se espera que continue por muitos anos a acrescentar títulos à sua considerável bibliografia.
É surpreendente também o seguinte: a autora brasileira é uma famosa “prosadora exclusiva” (ou seja, não se lhe conhecem relevantes incursões no campo da poesia) ao passo que a outra, Adília Lopes, é estuturalmente, fundamentalmente e oficialmente uma autora de poemas. A minha justificação para estabelecer uma espécie de ‘ponte atlantica’ não só entre autoras que ocupam posições diferentes nos respectivos canones mas que trabalharam em géneros diferentes justifica-se da seguinte maneira: Clarice Lispector, embora indefectível prosadora, esconde, segundo alguns (entre os quais me incluo) uma importante dimensão lírica; por outro lado, Adília Lopes, embora poeta, raramente resiste ao fascínio da narrativa. Segundo Antonio Candido, “o esforço de invenção da linguagem” – tal como surgiu no início dos anos quarenta com Guimarães Rosa e Clarice Lispector – inaugura uma nova era de renovação na prosa brasileira. Diz ainda o crítico brasileiro que Perto do Coração Selvagem “com todas as suas inabilidades juvenis”, continha a habilidade de remeter a ‘a palavra’ e não já o ‘tema’, “para o centro de tudo”(Candido, Antonio. “Liminar: no começo era de fato o verbo” xix).
De Adília Lopes afirma a crítica Flora Sussekind o seguinte, em posfácio à sua única edição brasileira até à data: “Os poemas de Adília Lopes quase invariavelmente contam histórias. E fazem  questão de deixar isso claro.“ (“Com outra letra que não a minha” 203).
Neste trabalho, balizando-me em algumas premissas do corrente debate sobre ‘estudos do género’ procuro assinalar e estudar potenciais pontos de contacto e de dissidência entre as duas autoras tanto a nível das suas preocupações temáticas, quanto relativamente ao que interpreto como manifestações das respectivas poéticas. Em Adília Lopes recorro sobretudo ao livro Obra, do ano 2000, que reúne a produção poética da autora publicada até então; em Clarice Lispector cinjo-me principalmente a três livros que coligem contos e textos curtos: A Legião EstrangeiraLaços de Família e A Via Crucis do Corpo. Procuro analisar, comparativamente, os seguintes aspectos: a construção e gestão públicas, emboratextuais, da imagem do autor; as manifestações da voz poética e da voz narrativa em, respectivamente, Adília Lopes e Clarice Lispector; a questão do género sexual na sua relação com o género literário e com o fenómeno literário; a perversidade nas relações entre géneros sexuais enquanto decorrências de um patriarcalismo ocidental e luso-brasileiro.
         Estudar-se a questão do género na obra de Lispector através de perspectivas feministas tornou-se, ultimamente, uma abordagem tão óbvia que pode considerar-se um lugar-comum. Segundo Anna Klobucka  no artigo “In Different Voices: Gender and Dialogue in Clarice Lispector’s Metaficion”, esta tendência da crítica é problemática sobretudo quando se limita a análises meramente “temáticas” da obra:
 
 
Not surprisingly, in recent years Lispector’s fiction spurned a   considerable number of feminist readings, for the most part thematic          interpretations of her novels and stories as chronicles of the stiffling          entrapmnent experienced by female protagonists within the limitations    of their socially acceptable roles as wives and mothers. . .(Klobucka,         “In Different Voices” 156-157)
 
 
Este tipo de abordagens contém ainda a desvantagem de cair frequentemente no que Klobucka considera ‘uma espécie de biografismo’, que ela denuncia da seguinte maneira:
 
 
In fact, as Seymour Chatman reminds us, ‘the implied author’ (what I have been calling here the extra-textual author) ‘can tell us nothing. He, or better, it has no voice, no direct means of communication. It instructs us silently, through the design of the whole work, with all the voices, by all the means it has chosen to let us learn.” (Klobucka, “In Different Voices” 160)
 
 
 
 
 
 
O cerne do seu argumento neste artigo situa-se na defesa de uma outra possibilidade oferecida à leitura crítica – que Anna Klobucka prefere e que procura encetar neste mesmo trabalho a que me refiro: “As I hope to demonstrate, it is particularly Lispector’s late novels. . . . that offer a high promising basis for reaching beyond mere thematic criticism, while at the same time remaining deeply involved with feminist problematics.(“In Different Voices” 156).
Embora a minha abordagem também se filie numa já longeva tradição de questionamento temático do texto, o meu objectivo neste trabalho é justificar e estruturar argumentos quanto às poéticas literárias e economias do género sexual das autoras, procurando ultrapassar uma tendência que a crítica apontou informadamente e oportunamente. Ao seleccionar textos curtos de Clarice Lispector em vez de textos de maior folêgo e fama (como é o caso dos romances) procuro abordar o objecto de estudo de modo mais microscópico do que habituamente se faz, questionando não só o texto como um todo mas também como um conjunto relativamente fluído de fragmentos; procuro, assim, interrogar o fragmento como um verso hipotético, operação autorizada pelas palavras anteriormente citadas de Antonio Candido e de inúmeros outros críticos.
Considero da maior operatoriedade procurar interpretar as construções de ‘autoria’ presentes nos universos textuais destas autoras. Ou seja, é importante, julgo eu, interpretar a imagem de si mesmas, enquanto escritoras, que as autoras transmitem ou procuram transmitir ao mundo das letras que as escuta atentamente, transformando-as – salvaguardadas as devidas diferenças — numa espécie de estrelas de cinema do firmamento literário, numa espécie de sonhos de Macabéa. A razão que subjaz a este meu projecto é simples: é que estas ‘construções’, geralmente produzidas em suportes considerados meta-literários, para-literários ou infra-literários (tais como entrevistas, aparições televisivas, notícias de jornal, etc) contém tanto de efabulação, mitificação e auto-mitificação literária e artística – ou seja, de ‘construção’ – quanto os textos convencionais das autoras, aquilo que tradicionalmente se designa por obra, da qual habitualmente se excluem aqueles textos marginais ou marginalizados.
No caso de Clarice Lispector, se é que posso falar nestes termos, refiro-me à indústria da construção da imagem pública da escritora – que esta, de certa forma, ‘administrou’ de longe ou acompanhou cuidadosamente – e que se agudizou sobretudo após o retorno de uma longa temporada, de cerca de 15 anos, passada no estrangeiro. Segundo Olga Borelli, crítica e amiga, Clarice Lispector dizia-se, com simplicidade, meramente “uma dona de casa que era escritora”, procurando assim, talvez, contrariar (não deixando, no entanto, de adensar) a mistificação e mitificação de que era alvo com respeito ao seu estatuto pseudo-romantico de escritora duplamente misteriosa: enquanto alguém que escreve coisas ‘misteriosas’, isto é, cronicamente mal-entendidas ou falhadas pela crítica, e que cultiva uma pose pública imbuída de carisma e enigma. Clarice Lispector é alguém que reluta em dar entrevistas mas que, no entanto, as vai dando, criteriosamente ao que parece, argumentando necessidade de dinheiro, recusando o estatuto de escritora profissonal, pois apenas “escreve quando lhe apetece”. Esta postura pode revelar, pois, ser uma dona de casa extremosa a ponto de procurar dinheiro em todos os lugares possíveis, mesmo os pouco recomendáveis; ou, pelo contrário, indicia não ser nenhuma dona de casa convencional mas uma escritora a tempo inteiro, ainda quando a sua outra função de mãe a obriga a vigiar os filhos, obrigação que cumpre ao levantar intermitentemente os olhos da máquina de escrever que mantém no colo. Clarice Lispector é uma escritora que, na famosa e impressionante última entrevista concedida à “TV Cultura” em 1977 (agora disponível na internet) parece gerir e controlar habilmente o script da entrevista literária através da sua conhecida combinação de altivez aristocrática e de simplicidade nordestina; recusando supersticiosamente nomear o romance que teria terminado – A Hora da Estrela – ou discorrer sobre aquele outro que estaria escrevendo – postumamente publicado com o título Um Sopro de Vida. Termina a entrevista com aquele que é talvez o seu momento mais impressionante e, ao mesmo tempo, mais ‘literário’: dizendo que “está morta”, falando já do interior do seu “túmulo”. 2
Adília Lopes, que publicou desde 1985 em volumes de circulação mínima – muitos deles plaquettes – e de modo quase invisível (com uma recepção constituída por muito poucos trabalhos de outros tantos críticos) converte-se imediatamente naquilo que se pode chamar uma figura mediática quando publica a primeira compilação das obras completas no ano 2000. O caso de Adília Lopes é, num certo sentido, oposto ao de Clarice Lispector, embora de natureza equivalente. ‘Oposto’ porque enquanto a autora marginal ao establishment literário que foi durante muitos anos, o valor da sua exposição mediática residiu no inesperado da rapidez com que se alçou uma mera ‘dona de casa’ (embora sem marido nem filhos) ao estatuto de personalidade televisiva, facto a que não será alheio o gosto contemporaneo pelos reality shows. Com a ajuda de críticos como, por exemplo, Osvaldo Manuel Silestre, que nela viram porventura a epitôme da anti-literatura e da anti-poesia, o sintoma simpático de uma espécie de apocalipse da linguagem poética em tempo de globalização e da pós-modena desieraquização dos discursos, Adília Lopes converte-se, literalmente do dia para a noite, na poetisa ‘pop’ que há muito dizia ser. Nos media portugueses mas sobretudo na televisão, durante fundamentalmente um período de cerca de três ou quatro anos, Adília Lopes surge frequentemente em Talk Shows e outros programas de cariz popular, vestida tradicionalmente como uma avó portuguesa apesar de ter pouco mais de quarenta anos, parodiando a sua própria poesia (que é, já de si, paródica) e a poesia em geral – quando, por exemplo, executa as suas famosas performances poéticas. Convidada a ler os seus poemas, destrói-os literalmente – dinamitando-lhes a questionável aura que ainda lhes resta – lendo-os a uma velocidade de tal modo vertiginosa que nenhum ouvinte a pode seguir. Ou então selecciona as passagens que contém as expressões mais abjectas e mais afastadas da solenidade e da dignidade das convenções literárias portuguesas. Aliás, o nascimento de Adília Lopes enquanto figura pública, ou autora de happenings ou performances poéticas, parece situar-se numa conferência sobre poetas acontecida em 1995, na Universidade de Coimbra, onde participou o poeta  americano Hugo Williams, que publicaria no Times Literary Supplement uma peça em reacção ao evento: 3
 
 
Are we to take her black, housewifely skirt, neat short hair and embroidered blouse at face value? She reads her poems in a prim, schoolgirlish way, but there is something going on here which leaves her straight-faced crowd smiling in mild shock and me re-evaluating my reading wardrobe. This is what I call ‘Performance Poetry’ (Williams, “ ‘Freelance’ ”)
 
 
A construção e constituição da instancia autoral assume outras dimensões, desta feita no ambito do texto impresso.  Por exemplo, ambas as autoras – ou as respectivas vozes autorais em sua substituição – vêem as suas próprias relações com a escrita de forma contraditória. O que me interessa particularmente são os pontos de contacto que existem nestas contradições. Adília Lopes, por exemplo, afirma numa entrevista que morreria “mentalmente” se não pudesse escrever. Clarice Lispector, confrontada com a mesma questão, afirmou que “morreria verdadeiramente”. Numa entrevista dada em 1976  a um colaborador de O Globo, assistimos ao seguinte diálogo:
 
 
– Porque você escreve?
– Vou lhe responder com outra pergunta? – Porque você bebe água?
– Porque bebo água? Porque tenho sede.
– Quer dizer que você bebe água para não morrer, pois eu também.   Escrevo para não morrer. 4
 
E, no entanto, no interior das obras convencionais de ambas, coexistem momentos em que tanto se confirma a importancia vital e redentora da vocação literária – um mito profundamente romantico, e, num certo sentido, profundamente masculino – como se nega esta mesma importancia. Adília Lopes afirma: “Evito escrever/ e vivo como escrevo” (Lopes,Obra, 55). Clarice Lispector apresenta o seguinte diálogo no conto “O Homem que apareceu”, no qual uma escritora bem sucedida dialoga com um escritor falhado que é um alcoólico conhecido da vizinhança. A narradora-protagonista começa por afirmar:
 
–  Eu também entendo você.
– Você? A você só importa a literatura.
– Pois você está enganado. Filhos, família, amigos, vêm em primeiro          lugar.
– Olhou-me meio desconfiado, meio de lado. E perguntou:
– Você jura que a literatura não importa?
– Juro, respondi com a segurança que vem da íntima veracidade. E   acrescentei: qualquer gato, qualquer cachorro vale mais do que a literatura.
– Então, disse muito emocionado, aperte a minha mão. Eu acredito    em você.
(Lispector, “O Homem que apareceu”, 47-48)
 
 
O que esta passagem encerra de mais significativo e, ao mesmo tempo, de mais cruel, na minha leitura, é o facto de a declaração que retira importancia à literatura ser proferida pela mulher, escritora de sucesso, ao homem bêbado, desfeito ao fim de uma vida de traumas por ter sido soldado e de angústias por não ser escritor. A literatura, diz ela, não tem qualquer importancia, ou melhor, tem tanta importancia como qualquer gato ou cachorro. Se quisermos reconhecer Clarice Lispector-entidade empírica nesta voz narrativa – uma mulher que é um óbvio caso de sucesso  e de serenidade no ambito do perigoso jogo literário – fala-se de literatura com a leveza de alguma coisa relativamente à qual só os perdidos, ou os equivocados,  investem a sua vida. A postura contraditória e heróica da interlocutora-mulher – a mulher que vingou enquanto autora sem se deixar consumir pela literatura – só enfatiza a derrota do interlocutor-homem, aquele que se deixou vencer pela literatura, ou seja, pelo fracasso do projecto da autoria, pelo desejo incumprido de ser um autor conhecido ou, pelo menos, lido. Naturalmente que o homem alcóolico também poderá ser – e deverá, provavelmente, sê-lo – um alter-ego de Clarice Lispector. No entanto, esta possibilidade não diminuiria a crueldade da conversa tida com o homem alcoólico, nem a violência que esta contradição, sobre a importancia da literatura, encerra. Em A via crucis do corpo, a voz narrativa rejeita, retoricamente, uma vez mais, a literatura: “Pois é. Sei lá se este livro vai acrescentar alguma coisa à minha obra. Minha obra que se dane. Não sei por que as pessoas dão tanta importancia à literatura. E quanto ao meu nome? Que se dane, tenho mais em que pensar.” (“Dia após dia” 65)
No conto infantil A mulher que matou os peixes, a protagonista (novamente uma escritora com consideráveis coincidências biográficas com Clarice Lispector) justifica o facto de ter morto os peixes com as suas obrigações e distrações de escritora; por outras palavras, relega para a escrita, e não para ela mesma, a responsabilidade de não ser uma competente protectora das criaturas deixadas à sua guarda – crianças e animais – uma responsabilidade (por vezes dolorosamente) percepcionada como feminina no universo de Clarice Lispector: “Mas era tempo demais para deixarem os peixes comigo. Não é que não seja de confiança. Mas é que eu sou muito ocupada, porque também escrevo para gente grande.” (Lispector, A mulher que matou os peixes). 5
Em Adília Lopes, num dos poucos momentos da sua obra em que se assiste a uma referência à escritora brasileira, escutamos a seguinte interpelação em tom epistolar:
 
 
Clarice Lispector
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.
(Obra 308)
 
 
A questão da articulação entre gender e genre é extremamente produtiva em Adília Lopes.6 A poeta portuguesa escolhe o género lírico – embora na sua vertente paródica, irónica, provocadora, pós-moderna por excelência – conhecendo bem os riscos que se colocam às mulheres-poetas. Estas, para vingarem como escritoras, necessitam de construir uma genealogia a partir de materiais (ou antepassados) fragilíssimos ou não-existentes; devem  ultrapassar, evocando Bloom, para além da “ansiedade da influência”, a “ansiedade da autoria” – a que Susan Stanford Friedman chama “genre anxiety”. Como lemos na famosa obra Shakespeare’s Sisters, há indícios de a que a mulher, enquanto novelista:
 
 
Sees herself from the outside, as an object, a character, a small figure in a large pattern, the lyric poet must be continually aware of herself fom the inside, as a subject , a speaker: she must  be, that is,  assertive, authoritative, radiant with powerful feelings while at the same time absorbed in her own consiousness – and,  hence, by definition, “womaly”, even freakish. (Gilbert, Shakespeare’s Sisters, xxii )
 
 
A questão do génio, indissociável das noções romanticas mas igualmente modernas do poeta e da poesia mitificados, está intimamente associada à masculinidade. Afirma a crítica Gretchen Schultz:
 
 
The notion of genius upon whih the creation of poetry depended presumed a masculine identity. Romantc poetry (from the Greek poiein, meaning to make or create) figured its maker as a solitary prophet having extraordinary insight and creative powers. The evasive associaton of poetic genius with masculinity left no room for women poets. (Schultz, The Gendered Lyric, 5)
 
 
Embora Adília Lopes defenda, de modo sui generis, reconheço, a dignidade e a autenticidade lírica do seu exótico projecto poético, ao afirmar, por exemplo, em A Árvore Cortada “quanto mais prosaico/, mais poético” (cit. em Coelho, “O meu Reino por um Espelho), o crítico António Guerreiro segue o exemplo de vários outros ao negar-lhe assento no panteão dos poetas, que é quase inteiramente constituído por poetas-homens. Afirma António Guerreiro:
 
… é isso que a desloca frequentemente para uma zona de riso, permitindo perigosas caricaturas (que a autora tem propiciado, devemos reconhecer, nas suas exposições televisivas)… sem que isso se traduza em pathos, porque, nesta poesia, só há trágico na medida em que ele coincide com o ridículo.”  (Guerreiro, “A Morte do       Artista”).
 
Segundo Osvaldo Manuel Silvestre “o problema de Adília” (problema que o crítico interpreta, no entanto, como uma espécie de distinção num meio que ele entende estar em decadência):
 
… reside precisamente aqui; nos seus textos o mundo fala tanto como         a poesia, não reconhendo a esta nenhum direito fundamental, são        textos que se deixam invadir por todo o tipo de ruídos e detritos contemporaneos … os textos de Adília deixam-se devorar por essa          gramática unversal … o texto não protesta nem se indigna; não arregaça as calças (ou as saias) enquanto a enxurrada passa.     (Silvestre, “Adilia Lopes Espanca Florbela Espanca” )
 
 
No entanto, Adília Lopes, a mulher, a ‘entidade empírica’, se se quiser (e mesmo Adília Lopes-voz poética, embora por outros meios) parece defender ferozmente uma filiação na tradição da respeitabilidade literária:
 
 
– Mas nos poemas de Sophia [Mello Breyner Andresen] digamos que há uma aspiração ao sublime enquanto que os seus poemas, já houve quem escrevesse, tem um efeito de des-sublimação. Vê neles isso?
–Não, não vejo.
– Fala de baratas,  de batatas e conta anedotas e faz jogos de linguagem.
– Sim, mas pode chegar-se ao sublime por ai…
(Vaz Marquez, “Entrevista de Adília Lopes”; parêntesis rectos meus)
 
 
Não deixa de ser sugestivo o facto de Adília Lopes recusar o termo
politicamente correcto ‘poeta’, preferindo, ao contrário da maioria das mulheres-poetas em Portugal, segundo suponho, o termo ‘poetisa’, com o qual, aliás, estabelece um jogo paródico: “em vez de me dizer poetisa podia dizer-me profetisa (ou pitonisa ou sibila ou bruxa)” (Lopes, “Entrevista”). Para além da postura paródica, esta opção de Adília Lopes pode reflectir uma orientação pós-feminista, como sugere Anna Klobucka no artigo citado. Ao preferir “poetisa” a “poeta”, sugere a crítica a que me referi, a autora poderá estar a seguir o exemplo recente  de certos grupos minoritários nos EUA, que terão transformado palavras que outrora  constituiam insultos vergonhosos – como, por exemplo, a palavra “queer” – em termos de que presentemente se orgulham e com o auxílio dos quais defendem e constrõem as suas identidades ameaçadas. Adilia Lopes deseja certamente a dignidade que a palavra “poeta” encerra, e certamente rejeitará a diminuição, a discriminação e o sexismo associados à palavra “poetisa” – no entanto, a via que encontrou – e de modo genial – para recuperar essa dignidade foi, parodicamente, recuperar o termo antigo, estigmatizado, e usá-lo até à exaustão, desestigmatizandoo.
Como tinha sugerido, o tipo de problemática que resulta da relação tensa entre genre e gender, como descrevi no caso de Adília Lopes, não é propriamente aplicável a Lispector por esta não ser ou não se dizer ‘poeta’. A problemática e o desconforto, a existirem, residem simplesmente na condição geral da escritora-mulher num mundo de tradições literárias masculinas – o que não é dizer pouco. É que Clarice Lispector, muito habilmente, escolheu o sub-género do romance psicológico ou meta-literário onde praticamente cabem todos os sub-géneros, incluindo a poesia da prosa poética. Como escreveu longamente Hélene Cixous, Clarice Lispector fez mais do que adoptar um género que lhe permitisse exercer a liberdade que, de certa forma, o patriarcalismo lhe negava e a que a obrigava; ao explorar essa liberdade com profundidade, abandono e sensualidade femininas, ela não fez menos do que criar um novo género, de inaugurar uma ‘escrita feminina’, de desbravar um caminho literário que outras mulheres – nomeadamente a própria Cixous – pudessem seguir.
Esta visão da vocação literária como algo profundamente e problematicamente “incompatível” com o universo feminino, estreitamente e severamente vigiado pelo patriarcalismo luso-brasileiro é bastante notória no conto “Os Desatres de Sofia”. Aqui, começa por estabelecer-se um diálogo implícito e paródico com o conhecido livro de normas femininas publicado pela Condessa de Ségur. Trata-se de uma história onde a protagonista vive o drama e a violência da vocação literária – que é frequentemente representado em Clarice Lispector com os contornos de um arrebatamento no sentido religioso e místico. Um dos momentos mais importantes surge quando um seu professor,  com o qual a protagonista Sofia mantém uma relação de amor-ódio, é descrito olhando para ela fixamente de modo grotesco, no momento posterior a reconhecer na aluna o talento e a vocação literárias. A espaços, o professor apresenta-se ora perplexo, ora incrédulo com a qualidade do trabalho da aluna. O conto constitui-se através de dois momentos-chave: antes e depois da redacção genial. Sofia não aceita a sua promoção inesperada e imediata a objecto de veneração, não aceita essa opressiva ascendência sobre um adulto e, sobretudo, ao que parece, sobre um adulto-homem. Causa-lhe náusea o olhar esbugalhado e reverente do professor, que ela compara a um par de baratas, com patéticos cílios em vez de pernas:
 
 
… com perturbação ele evitava meus olhos, começando a gaguejar. O que me enchia de um poder que me amaldiçoava. E de piedade … Irritava-me que ele obrigasse uma porcaria de criança  a compreender um homem … Na minha impureza eu havia depositado esperança na redenção nos adultos. A necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que eu venerasse os grandes … E tudo isso o professor agora destruía, e destruía meu amor por ele e por mim.  Minha salvação seria impossível: aquele homem também era eu. Meu amargo ídolo que caíra ingenuamente nas artimanhas de uma criança confusa e sem candura, e que se deixara docilmente guiar pela minha diabólica inocência …Com a mão apertando a boca eu corria pela poeira do parque. (Lispector, “Os Desatres de Sofia” (25-26)
 
 
Regressnado aos pontos trans-genológicos que unem ambas as autoras – verificamos serem ambas descomplexadas praticantes do infra-literário, do ornamental, do marginal, do anedótico. Em nota inaugural à secção de textos curtos com que se concluí Legião estrangeira, de título “Fundo de Gaveta”, Clarice Lispector antecipa-se assim a possíveis críticas:
 
 
Porque publicar o que não presta?
Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.  (Legião estrangeira 127)
 
 
No texto “Dia após dia”, incluído em A via crucis do corpo, Clarice Lispector previne o leitor – com provocação literária – de que está escrevendo porque precisa de dinheiro. Ela parece acumular aqui anedotas anódinas ao sabor dos pensamentos, onde se busca a glória arriscada do marginalmente literário. Por exemplo, assistimos à arte de converter uma narrativa que parece começar como um texto sério – numa piada cuja eficácia reside no inesperado do seu anti-clímax. O que se segue é a “história”, a “narrativa” completa:
 
 
Penso por exemplo na amiga que teve um quisto no seio direito e curtiu sozinha o medo até que, quase nas vésperas da operação, me disse. Ficamos assustadas. A palavra proibida: cancer. Rezei muito. Ela rezou. E felizmente era benigno, o marido dela me telefonou dizendo. No dia seguinte ela me telefonou contando que não passara de uma “bolsa de água”. Eu lhe disse que de outra vez arranjasse uma bolsa de couro, era mais  alegre. (A via crucis do corpo 65)
 
 
Adília Lopes é, igualmente, especialista em momentos de anti-clímax, como é explicitamente reconhecido por muitos críticos. As suas pequenas histórias perversas são relatadas num tom de conto infantil, numa voz de falsa e infantil ingenuidade, no ambito do sufocante mundo onde as figuras maternas da autoridade e dos interditos domésticos e familiares – as tias, as avós, as mães, por vezes as criadas – exercem violência sobre as crianças aterrorizadas. É um  mundo relativamente ao qual ambas as autoras têm uma óbvia fixação e cujas vozes, respectivamente, do poema e da narração, parecem adoptar invariavelmente a perspectiva da criança:
 
 
depois de sete criadas terem sido despedidas
por não saberem cozinhar a preceito
pudim de beiço de vaca
apresentou-se uma que era extraordinária
a menina passou a  tratá-la por Predilecta
a Predilecta compreendeu tão bem a menina
que no dia em que preparou com mais esmero
o prato preferido da menina
pudim de pardais assados em água
deitou no pudim um punhado quase mortal de arsénico
(Lopes, Obra, 117)
 
 
Leia-se este outro exemplo:
 
 
Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjar complicações
(Lopes, Obra, 72-73)
 
 
 
Clarice Lispector une-se aqui à poeta portuguesa, ou entra em diálogo com ela – embora ‘oficialmente’, em prosa. Trata-se de um discurso aparentemente constituído por uma tagarelice ‘frouxa’ de cozinha,  própria de uma certa  feminilidade estereótipada:
 
 
… Agora vou contar umas histórias de um menina chamada Nicole. Nicole disse para o seu imão mais velho, chamado Marco: você com esse cabelo comprido parece mesmo uma mulher. Marco reagiu com um violento pontapé porque ele é homenzinho mesmo. Então Nicole disse depressa:
 
– Não se incomode, porque Deus é mulher!
 
baixinho, sussurrou para a mãe: sei que Deus é homem mas não quero apanhar! Nicole disse para a prima, que estava fazendo bagunça na casa da avó: não faça isso porque uma vez eu fiz e vovó me deu um soco que eu desmaiei. A mãe de Nicole soube disso, repreendeu-a. E contou a história para Marco. Marco disse:
 
Isso não é nada. Uma vez Adriana fez bagunça na casa da vovó e eu lhe disse: não faça isso porque eu fiz isso uma vez e vovó me bateu tanto que dormi cem anos. (A via crucis do corpo, 67)
 
 
Domir cem anos até ser despertada pelo beijo do principe  é, como se sabe, um dos topoi centrais dos contos de fadas. Estas histórias (só aparentemente banais, humildes e de literariedade duvidosa) têm em comum a perversão da vida em familia, própria do sistema patriarcal português e brasileiro, onde a figura da matriarca – seja mãe, tia, avó, prima ou irmã mais velha – surge com frequência como um ser grotesco e impossivelmente cruel e autoritário. É, justamente, o caso da velha de 89 anos do conto “Feliz aniversário”. Depois de ter passado a maior parte da festa no semi-adormecimento da senilidade, a matriarca acorda a dada altura e cospe violentamente para o chão,  insultando os convidados, tanto homens como mulheres da sua família, justamente por – uns e outros – falharem os seus papéis sexuais, patriarcalmente sancionados: os homens são maricas, as mulheres têm mau gosto e são donas de casa incompetentes. Marta Peixoto, juntamente com outros críticos, identificou assim esta forma de poder auto-destrutivo das matriarcas em Clarice Lispector: [They are women whose role] affords them … a false power that entraps them as well as their families. (Peixoto 32; parêntises meus).
São conhecidas algumas propostas críticas que colocam Clarice Lispector não só no centro de uma sensibilidade pré-feminista (que marca o início da onda de feminismo que inaugurará e inundará a escrita de mulheres no Brasil) mas também,  paradoxalmente, no centro de um certo pós-feminismo. Esta última categoria justificar-se-ia pelas instancias em que a mulher não é exclusivamente colocada na posição de ‘vítima’ mas também de ser autónomo e responsável pelo seu destino, de sujeito-objecto da opressão e da violência patriarcais. O pós-feminismo, tal como o entendo aqui, não representa pois necessariamente uma crítica, rasura ou superação do feminismo. 
Como defendia anteriormente, também a poética de Adília Lopes parece reconhecer-se nesta noção de pós-feminismo. Uma das ilustrações deste entendimento das relações entre os géneros revela-se, por exemplo, de modo talvez bizarro, na maneira como se ‘perdoam’ alguns dos clássicos pecados misóginos – tais como o insulto, o assédio e o exibicionismo sexuais que têm tipicamente as ruas luso-brasileira como palco – em nome de uma denúncia mais global que visaria o sistema patriarcal e que colocaria, por exemplo, a ‘outra mulher’ no lugar do inimigo. Neste caso a inimiga é uma  psiquiatra, severa representante de uma ideologia que era, até há não há muito tempo em Portugal, um dos últimos redutos da misoginia:
 
 
Em 81 disse à Dra. Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia”. Ela disse-me.” Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais”. Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego … Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também da meia dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinham dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Dra. Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma muher como outra mulher. (Obra, 434)
 
 
Em Lispector, é também frequente esta sensibilidade perante as falhas do género masculino em corresponder aos – igualmente opressivos – códigos patriarcais da masculinidade. No conto “O Homem que apareceu”, invertem-se os papéis e é a interlocutora feminina quem pede ao homem que faça justamente aquilo que os homens não fazem, ou seja, chorar: “– Seja homem e chore, chore quanto quiser; tenha a grande coragem de chorar. Você deve ter muito motivo para chorar.” (A via crucis do corpo, 49). O sociólogo Michael Kimmel, cujo pensamento enforma uma área nascente de estudos interdisciplinares a que se dá o nome ‘men’s studies’ – defende uma espécie de indefinição sexual ou androginia como contraponto à sobre-definição dos papéis sexuais, própria das sociedades onde grassa a violência sexual ou gendered:
 
 
… the more ‘like women’ men can be seen – nurturing, caring, frightened – and the more ‘like men’ women can be seen – capable, rational, competent in the public sphere – the more likely that aggression will take other routes besides gendered violence (Kimmel, 267-68).
 
 
Para terminar, gostaria de referir-me ao modo como a religião enforma a visão do mundo de ambas as autoras; uma visão do mundo centrada na religião de um modo geral – que é, como se sabe, uma rígida definidora de papéis sexuais – e na religião católica em particular, visto tratar-se de Portugal e do Brasil.  O sentido da vida, a condição humana num mundo secular é preocupação central tanto em Adília Lopes como em Clarice Lispector. O que porventura distingue estas autoras de outras é o modo como o postular destas questões existenciais é indissociável da angústia do género. Ou seja, a angústia humana, transposta para a literatura, feita literatura, é aqui sempre ou quase sempre, também, uma angústiagendered para usar um termo para o qual não existe equivalente satisfatório em português. Deus, ou o Deus católico, parece ser (de acordo com as experiências, com as histórias humanas que se desprendem destas obras) o maior representante dos interditos e dos ditames patriarcais. No seu estilo típico, Adília Lopes reescreve aqui a cena fundadora da condição humana pecaminosa, de acordo com o nosso mundo judaico-cristão, que ela transforma numa espécie de distribuição fundadora dos papéis sexuais, a cena do primeiro pecado no jardim do Éden. Começa aqui, segundo Adília Lopes, o patriarcalismo:
 
 
Havia um espelho no Paraíso. Estava tapado com um pano. Deus tinha proibido Adão e Eva de destaparem o espelho. Mas Eva destapou o espelho. Reconheceu-se imediatamente. Achou-se feiota e entradota. “Não gosto de mim”, disse de si para si. “Adão não me quer”. Então Deus zangou-se com Eva. Adão também se reconheceu no espelho. Mas Adão era Narciso que sabia que era Narciso. Achou imediatamente que no Paraíso fazia falta a Fundação Adão. (Obra, 439)
 
 
 
Clarice Lispector, no seu estilo por vezes “sublime”, cosmogónico e até blasfemo, faz-se representar pela narradora que nos confessa o seguinte:
 
 
Por puro carinho, eu senti que era a mãe de Deus, que era a terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade eu era por carinho a mãe das coisas…   (Legião estrangeira, 230)
 
 
Imediatamente após estes pensamentos, a narradora encontra a seus pés a visão real, grotesca, de um rato morto, enorme; e a sua reacção manifesta-se do seguinte modo:
 
 
A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. (Legião estrangeira, 232)
 
 
As conclusões que ela mesma tira do episódio são, por um lado, conciliatórias, e, por outro, perturbadoras, pois estas não implicam nenhum alívio relativamente à ditadura do género. Deus opõe-se – de acordo com os instrumentos de leitura do mundo de que Clarice Lispector dispõe, que são profundamente supersticiosos (ou ‘religiosos’) – a que ela seja a mãe das coisas, ou a que alguma entidade feminina o seja. Deus parece mesmo vetar a possibilidade de uma sua existencia alternativa, enquanto mulher. Quanto à narradora, a falta de amor por si mesma – como mulher – é exactamente o que problematiza (e, em última análise, impede) a sua participação no amor e na redenção divinas: “Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará.”  (Legião estrangeira, 234)
Num trabalho sobre Adília Lopes a que já fiz referência, Anna Klobucka defende a preocupação de propôr genealogias femininas na literatura portuguesa. Defende Klobucka que a avó tutelar das mulheres poetas portuguesas deverá ser Florbela Espanca apesar do ataque paródico – e, afinal, cúmplice – a que a vota a própria Adilia Lopes, publicando um livro de desconstruções da obra daquela poeta portuguesa do início do século intitulado Florbela Espanca Espanca
Neste trabalho, por um lado, procurei questionar a pertinência da separação de géneros literários – necessidade descoberta em leituras comparativas, por exemplo, destas duas autoras – e considerei porosidades operatórias entre eles. Por outro lado, julguei oportuno (e, quer literariamente quer culturalmente, justificado) acoplar a brasileira à tradição portuguesa de escrita feminina. A noção do género em Clarice Lispector e em Adília Lopes estão tão associadas ao seu sentido do humano que as denúncias que efectuam de uma certa opressão feminina não deixam de revelar sensibilidade às contradições (opressivas) que existem também no seio do papel sexual masculino – igualmente sob o rígido controle de um sistema patriarcal. A perspectiva feminina é tão intrínseca ao fazer literário de ambas as autoras que estas parecem imunes a – e independentes de – quaisquer circunstancialismos históricos e políticos que, por exemplo, os vários movimentos feministas apresentaram em épocas e países diferentes. Nem exactamente feministas, nem o seu contrário – “pós-feminismo” será talvez o menos desadequado dos rótulos contemporaneos a aplicar à assinatura literária destas autoras no que diz respeito às representações do género sexual.
Vendo as coisas sob o prisma das genealogias, Clarice Lispector poderá constituir uma origem paradigmática de uma possível linha genealógica feminina luso-brasileira – a rastrear no seio da numerosa prole literária que gerou na América Latina e na Europa, de acordo com leitura de Hélene Cixous e outros. Clarice Lispector poderia ser uma avó literária que (embora de índole mais generosa do que a das matriarcas ditatoriais da sua obra) à revelia do Deus patriarcal e, sobretudo, do patriarcalismo endeusado, logra ser, afinal, no mundo da escrita feminina, uma mãe tutelar, carinhosa, demiúrgica guardiã e intérprete “de todas as coisas”.
 
 
 
 
NOTAS
 
1. Aplico aqui o qualificativo “respeitável” à carreira de Clarice Lispector no sentido em que esta sempre aliou uma reverência imediata (a partir da publicação do primeiro livro, Perto do Coração Selvagem) e quase generalizada da crítica a uma reserva respeitosa da mesma relativamente ao que interpretava como os aspectos ilegíveis, misteriosos e excêntricos – tanto da obra como da autora.
 
2. Note-se que, obviamente, admito que esta intenção teatral possa não subjazer, intencionalmente, à performance de Clarice Lispector; apenas me cumpre registar o efeito artistico, performativo, condicionador certamente da recepção da obra que essas e outras entrevistas efectivamente revestiram; entrevistas que, aliás, exibem directa ou estreita correspondência com figurações temáticas e ideológicas presentes na chamada obra convencional.
 
3. Como seria de esperar, e como confirma Anna Klobucka noutro artigo desta vez exclusivamente dedicado a Adília Lopes, o seu estatuto de autora de performances repercute-se na recepção ao seu trabalho: “Adília’s verse has often been descibed in terms that emphazise her discursive performances, encompassing both the poets page-bound published verse and her public appearances.” (Klobucka, “Spanking Florbela: Adília Lopes and a genealogy of feminist parody in Portuguese poetry”)
 
4. A entrevista de José Castelo pode ser encontrada na secção “biografia” de um website dedicado a Clarice Lispector: www.clarice-lispector.cjb.net  (8.17.2007)
 
5. Citação retirada do texto de Meire de Oliveira Silva sobre “A Mulher que Matou os Peixes”. Disponível na secção “resumos” de www.clarice-lispector.cjb.net (8.17.2007)
 
6. Utilizo aqui os termos em inglês gender genre porque porque para ambas as palavras, significativamente ou não, a língua portuguesa apenas dispõe da palavra “género”.
 
7. Citado em “Mil Folhas”, em artigo de Eduardo Prado Coelho intitulado “O Meu Reino Por um Espelho”, publicado no Jornal Público em 15 de Abril de 2006. Disponível em:
www.arlindo-correia.com/adília_lopes.html#Eduardo_Prado (8.17.2007).
 
8. Socorro-me da definição de ‘pós-feminismo’ encontrada na obra Introduction to Feminist Consequences: Theory for the New Century.
 

     'Feminist' work cannot be differentiated from 'post-feminist' work precisely because feminism has provided its adherents with a sense of political agency. [...] post-feminism [...] refers not to the end of a politics or a practice but, rather, to a suspension within it that allows such a politics to remain vital and relevant to contexts of          social change. (22)

 
9. Incluído no livro Obra, de Adília Lopes, a que já fiz referência.
 
 
 
BIBLIOGRAFIA
 
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–-. “Um Homem que Apareceu” A via crucis do corpo. São Cristóvão: Artenova, 1974. 45-51.
–-. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
–-. Laços de família. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo, 1961.
–-. Perto do coração selvagem. São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1963.
–-. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
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–-. “Entrevista”. Em www.7letras.com.br/inimigo10t6.htm (8.17.07)
–-. Obra. Lisboa: Mariposa Azual, 2000.
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Bio fornecida pelo palestrante.

JOSÉ OITICICA: PARNASIANISMO E DOUTRINA LIBERTÁRIA – Tereza Ventura




JOSÉ OITICICA: PARNASIANISMO E DOUTRINA LIBERTÁRIA

 

Tereza Ventura

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

“Meu pensamento é nobre, aristocrata….

quer ver a idéia sã na forma pura,

a linha, o bom,o acorde, o estilo, a rima

onde a emoção, zainfe, irreal fulgura”.

Oiticica

Quem vai a uma barricada precisa levar,

além de uma espingarda na mão,

 uma idéia no cérebro”.

Oiticica

 
 
José Oiticica foi notável em sua época, um homem cujo trabalho foi significativo para a vida literária e intelectual das primeiras décadas deste século. A origem social de Oiticica remonta à história do patriarcalismo e da casa grande do estado de Alagoas. Nascido em 1882 no Engenho de Mundaú, neto, bisneto e filho de políticos do Império e da República, Oiticica tinha uma convivência estreita com os círculos intelectuais e políticos. Seu pai foi deputado e reconhecido intelectual de seu tempo, chegou a escrever um livro sobre as rendas no Nordeste, a pedido de Gilberto Freyre. Como seu pai, José Oiticica era poliglota: falava e escrevia fluentemente em várias línguas, inclusive o grego e latim. Sua educação espelha o mais alto padrão cultural de seu tempo: desde adolescente estudava filosofia e teatro. Viveu no Rio de Janeiro desde os seis anos de idade.  Na juventude tornou-se um poeta parnasiano, crítico literário e militante anarquista. Foi professor de português no Colégio Pedro II e de teatro na Escola Nacional de Teatro. Bacharel em direito e estudante de medicina por 4 anos, Oiticica tinha como atividades principais o magistério, a literatura e a militância anarquista.
Entre suas principais publicações encontram-se livros de sonetos de estilo parnasiano, O manual de estilo, Manual de análise literária e Curso de literatura bem como artigos em jornais e revistas anarquistas, algumas dos quais fundados por ele. Sobre filosofia anarquista Oiticica publicou O catecismo anarquista e a Doutrina anarquista ao alcance de todos, com traduções para o espanhol e o francês. Duas peças de teatro: Pedras que rolam e Quem os salva. A obra de Oiticica parece convergir integralmente com as correntes intelectuais vigentes no Rio de Janeiro durante a primeira República: o utilitarismo, o liberalismo, o positivismo e o humanismo, correntes de pensamento que divulgavam modelos de sociedade e prescrições éticas que tiveram ampla difusão no período. Conceitos como pátria, nação, identidade, verdade, justiça e humanidade influenciavam a produção intelectual da época1. Todos os intelectuais cultivavam de formas variadas o projeto de integrar-se a vida cultural e política da cidade. Este projeto, porém, adquiriu um outro contorno a partir dos anos 10, momentos em que a despeito das idéias que a inspiravam, a República se estabilizou numa política oligárquica2. A descrença em relação à República e o isolamento social levaram alguns intelectuais a reverem sua atuação, de par com a expansão das idéias revolucionárias no Brasil. Socialistas, anarquistas e positivistas competiam pela hegemonia do pensamento político brasileiro. Atuando em campos ideológicos diversos, grupos de intelectuais discutiam os problemas nacionais e divulgavam suas idéias na imprensa ou através de panfletos e folhetins é o caso dos positivistas, dos anarquistas, dos socialistas e dos literatos em geral. No  campo cultural eram famosos os duelos literários dos parnasianos conhecidos como “gramatiquice” e os salões literários, muitos dos quais promovidos por Coelho Neto e Olavo Bilac. Eram freqüentados por Oiticica, Alberto de Oliveira, Martins Fontes, Silvio Romero, Capistrano de Abreu, Emilio de Menezes, Humberto de Campos, Luis Murat, Luis Edmundo, Heitor Lima e Homero Prates. Era comum a execução repetida do Hino Nacional nestes salões.
Assim, a vida intelectual de Oiticica se dividia entre os círculos literários da cidade, a atividade de professor e a militância anarquista.
A questão operária era tema de grande atualidade, e vários intelectuais se diziam socialistas ou simpáticos aos ideais de esquerda. O movimento anarquista chegou a agregar nomes como Silvo Romero, José Veríssimo, Curvelho de Mendonça, Pedro do Couto, Silva Marques, Pereira da Silva e Rocha Pombo. A simpatia dos intelectuais pela revolução é notória no discurso proferido por Olavo Bilac na Academia Brasileira de Letras por ocasião da posse de Afonso Arinos, em que Bilac manifesta o seu “apoio as lutas em prol do socialismo” (Pontes: 1944: 12). No entanto, o fato de se pronunciarem a favor de idéias revolucionárias não significava, necessariamente, que estes intelectuais aderissem à militância no campo social político; sugere porém que estas idéias exerciam sobre eles forte atração.
Mesmo antes de se tornar anarquista, José Oiticica era naturalista e ateu, adepto da idéias cientificas e do espírito racional-crítico da época pós-romântica. O Colégio Pedro II, onde Oiticica passou a lecionar, a partir de 1916, era o lugar por excelência onde as idéias filosóficas e cientificas eram divulgadas. Silvio Romero, Capistrano de Abreu e professores europeus defensores do cientificismo eram convidados para dar cursos e conferências no colégio, e até mesmo para dirigir outras escolas no Brasil. Foi sobretudo o espírito antiespiritualista e anticristão introduzidos pela Escola de Recife que levou José Oiticica a propor a criação de um centro de estudos germânicos no Rio de Janeiro. Este espírito crítico influenciava a estética parnasiana. Para Oiticica a estética parnasiana o fascinava pela valorização da palavra, da forma objetiva e da perfeita metrificação gramatical. A opção estética pelo parnasianismo se demonstrava não só em sua obra literária, como também, nos ataques que fazia aos futuristas. Em seu livro Manual de estilo, Oiticica faz o elogio da perfeição gramatical, da expressão acabada, do aprendizado rigoroso das línguas, sobretudo o latim e o grego, para melhor compreensão do “valor dos termos e seus agrupamentos às formas gramaticais”. Segundo Oiticica
 
“Schopenhauer previu admiravelmente o pavoroso advento de futuristas dadaístas, livre metristas e mais Hunos literários, autores desregrados de mau gosto plebeu e mascarados de um carnaval felizmente passageiro. O estudo das letras clássica na fonte grega e latina é sobretudo escola de bom gosto, requinte, aristocracia mental e repouso estético, sem o qual a arte é fogo de vista, arlequinada e grotesca”  (Oiticica, 1926:191).
 
Oiticica assume que todo verdadeiro pensador se esforça por exprimir suas idéias do modo mais puro, claro e breve possível; “Por isso que a simplicidade sempre foi o atributo, não somente da verdade, como do próprio gênio” (Oiticica, 1960:50).
O elogio da simplicidade é associado ao cultivo da técnica, do método apropriado. Segundo Oiticica, “os modernos devem se espelhar nos antigos, na tradição greco-latina” (Oiticica, ms:1913).
Segundo Afrânio Coutinho, “nos meios cultos era total o respeito pela estética parnasiana. Seus poetas eram tidos como padrões ideais que somente podiam ser imitados, quando muitos igualados, mas nunca superados”(Coutinho, 1959:8) A estética parnasiana era apreciada por um público elitizado que em sua maioria provinha de famílias aristocráticas e educadas nos padrões culturais europeus. Neste sentido, a obra literária de Oiticica atingia um público ao qual este autor estava ligado socialmente por origem e cultura. O fato de sua obra exercer atração sobre o público de elite não significava necessariamente uma afinidade de valores entre autor e público. A arte aqui é vista como um sistema simbólico de comunicação que interage com certo público por afinidade de gosto, formação, classe social e cultural, ou seja: os vínculos que se estabelecem entre o criador e seu público são múltiplos. O que nos interessa aqui são as relações e possíveis contradições entre as posturas estéticas e políticas de José Oiticica, do ponto de vista de sua biografia intelectual.
De um lado, sua produção puramente literária atingia as camadas mais altas da sociedade; de outro, a produção de fundo político cultural buscava elevar, a partir do anarquismo, às camadas populares a erudição e a consciência da revolução.
 
O fim mais alto do anarquismo é a elevação da plebe, dos verdadeiros produtores, a sentimentos e gostos aristocráticos, substituindo assim a democracia atual, calcada na ignorância e na pobreza, por uma aristocracia geral, humana (Oiticica, 1919:249).
 
Oiticica dava conferências nos sindicatos sobre a importância da tradição grego-latina e de uma vida voltada para apreender a natureza. Ele ensinava ao operário que o fumo, o álcool, os remédios químicos e os vícios em geral são contrários à natureza, que o indivíduo deve estar atento à sensibilidade do seu corpo, fonte primordial de energia para o trabalho e para o prazer. Através de um contato direto com o corpo e com a mente pelos exercícios físicos e pela meditação, os homens se tornariam seres autodeterminados, menos susceptíveis ao mando.
O projeto de Oiticica era fazer com que o operariado alcançasse o mesmo nível de erudição que as elites. Grande parte da intelectualidade acolhia a ideologia do branqueamento e da miscigenação porque considerava o povo étnica e culturalmente inferior aos povos do ocidente. O pensamento anarquista confrontava a ideologia do branqueamento, não considerava o homem brasileiro inferior do ponto de vista da natureza e sim da cultura. O anarquismo, na medida em que rejeitava as idéias de pátria, estado e nação também confrontava o nacionalismo cultural emergente e a expansão das idéias comunistas. Para Oiticica, a cultura e a estética não deve ser reduzida à politização da classe operária e a representação de uma cultura “nacional”. A elevação da plebe a sentimentos e gostos aristocráticos,  era em sua visão, fator fundamental na construção da nova sociedade. Trata-se para Oiticica de um processo pedagógico e não estético e político.
O anarquismo de José Oiticica vincula-se aos ideais iluministas de redenção da humanidade a partir da razão e da moral considerando elementos construtivos da natureza do homem constrangidos pelo desenvolvimento civilizatório.           Oiticica quer resgatar o ideal grego da boa vida, como se o mundo clássico pudesse regressar na cultura limpa e pura dos trópicos. Contudo, a aspiração romântica ao esplendor estético da vida grega não oculta o seu desencanto com a modernização em marcha.
 
Que formidável diferença entre a vida grega e a vida moderna!…Debalde, vejo os destroços das muralhas, os alicerces das sete Tróias mortas, debalde! Não vejo mais as almas, não revivo Ulisses, nem Diomedes, nem Agamêmnon, nem Andrômaca, nem Térsito, nem Helena (Oiticica,ms:1918):
 
“Essa invisível causa, que eu procuro
nos meus tormentos de meditação,
inda é o mesmo problema ingrato e obscuro
Que atormenta homens bons desde Platão
 
Esse maldito sonho de ser puro
– Apurado na dor – é sonho vão:
E ira semeando dores no futuro…
Pobres sonhadores que virão!”
(Oiticica: 1914: RJ:Revista Americana)
 
Neste soneto, o autor afirma estar em busca de uma causa; como que disposto a submeter sua vida a uma missão impossível que lhe causa angústia mas lhe revela o sonho de ser puro. Em outro soneto, Oiticica define-se como um pensador aristocrata.
 
“Meu pensamento é nobre e aristocrata…
Sonha palácios, torres, milesandres,
Ama o plinto, um minueto, uma balata.
E D.Quixote e aplaude os efeitos grandes.
Preza a arte extrema, onde algo se delata
do homem, do fim, do amor de Orion, dos Andes.
detesta o plebiscito, a bombachata
De cubismo, foxtrotes e jazbandes.
que ver a idéia sã na forma pura,
a linha, o bom, o acorde, o estilo a rima
onde a emoção, zainfe, irreal, fulgura.
(Oiticica: 1914: RJ:Revista Americana, p. 18)
 
Oiticica era um erudito, um defensor radical do classicismo. Para ele, a verdadeira arte não poderia ter outras fontes além da clássica. Seus escritos políticos seguem o mesmo rigor literário, sua compreensão da cultura revela a convergência entre o cultivo da erudição e o elogio da filosofia libertária. A filosofia libertária supõe que os homens assumam seus desejos primitivos, expressem-se com liberdade através de sua natureza humanitária sem qualquer ímpeto disciplinador externo ao indivíduo. Como conciliar seu projeto estético com seu projeto político revolucionário?
Durante a conferência sobre o programa comunista em 1919, Oiticica declarou: “Não aspiro a democratização dos aristocratas. Aspiro sim, à aristocratização dos democratas. O meu desejo é dar a estes a inteligência , a cultura, o amor da beleza eterna e da arte imperecível” (Dulles: 1980:320).
O literato não se separava tão radicalmente do militante. A pregação libertária era encarada acima de tudo como missão de regenerar a sociedade. A educação das massas era o ponto fundamental de sua teoria anarquista, era preciso esclarecer a consciência proletária de seu papel histórico revolucionário. Para isto, Oiticica criou o teatro social libertário e realizou  várias conferências em festas, sindicatos e agremiações culturais. Boa parte se sua vida foi dedicada à doutrinação do proletariado. Na estética como na política, Oiticica revelava uma preocupação fundamental com o método, com as prescrições éticas de cada uma destas atividades. Em Oiticica, a estética se encontra separada da vida, mas em ambas as esferas predomina o rigor, a disciplina informados pelo método.
Como professor do Colégio Pedro II, segundo seus contemporâneos, jamais induziu seus alunos à adesão do anarquismo. Como intelectual e literato, atraia a admiração da esfera de intelectuais mais reacionários de sua sociedade, como é o caso de Jackson de Figueiredo e o Padre Leonel Franca, que chega a publicar um livro de polêmicas com Oiticica.
Embora tenha sido um dos intelectuais que mais combateu a reação espiritualista, Oiticica não deixa de receber os maiores elogios do amigo Jackson de Figueiredo: “O meu amigo é um dos melhores caracteres, uma as mais vivas inteligências da geração de intelectuais a que pertenço” (Martins: 1976: 78).
No alvorecer dos anos 1920 começa a se desencadear no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, o movimento de restauração católica. À frente deste movimento estão Jackson de Figueiredo e Leonel Franca. O movimento se propunha a promover a reaproximação entre a literatura, a cultura e a Igreja Católica, através da valorização dos princípios espirituais inspirados no catolicismo; a reação espiritualista propagava a doutrina da Ordem e da contra revolução.
Começava a delinear-se um pensamento conservador católico e nacionalista que viria a se organizar em torno de Alberto Torres, Farias de Brito e Tristão de Athaíde, e de onde emergiriam os primeiros vagidos do integralismo.
Oiticica não se isola da ambiência intelectual deste debate, como prova a sucessão de artigos publicados por Leonel Franca no livro de polêmicas com Oiticica. O padre era considerado um dos intelectuais mais cultos do Brasil, publicou extensa obra sobre a história das idéias católicas no país, lutou contra a laicização do ensino e foi reitor e fundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro PUC. Em seu livro de polêmicas com Oiticica, discute o modernismo católico, as relações entre fé e ciência e a presença da Igreja nos movimentos sociais e políticos. Um crítico desconhecido escreveu acerca do livro:“Trata-se da única obra em português a propósito do modernismo católico” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12/06/1928).
Estes  fatos revelam a integração de Oiticica aos meios intelectuais de sua época; dos quadros mais autoritários e elitistas aos mais populares, suas idéias produziam ecos de significação.
A participação de Oiticica nos diversos meios intelectuais de seu tempo nos mostra que o contraste entre suas atividades de literato e revolucionário se deve antes a seu trânsito em esferas muito diversas da sociedade, não se constituindo necessariamente num aspecto contraditório de sua biografia intelectual.
Wilson Martins, em a História da inteligência brasileira, observa que:
 
É fato conhecido e banal que os revolucionários em política são puritanos no que se refere aos costumes, não raro ascéticos em sua vida particular, jogo instintivo de compensação que lhes restabelece o equilíbrio interior. No Brasil o exemplo mais característico pode ser o de José Oiticica cuja Doutrina anarquista (que julgava ao alcance de todos) conciliava-se perfeitamente com a estética mais esclerosada” (Martins, 1976:72).
 
Oiticica é visto como um intelectual contraditório, conservador na literatura e revolucionário na política. É o que entende também Osório Borba nas páginas doCorreio da Manhã:
 
Personalidade antitética. O anarquista era, em filologia, um servidor devoto da disciplina gramática; em poesia ficou fiel aos registros  cânones do parnasianismo. Na prisão como anarquista entregou-se à composição de um livro sobre o pronome ‘se’ (Borba, 1957:23).
 
Importa aqui ressaltar que tais afirmações foram inspiradas no ponto de vista de quem considera e reconhece o modernismo como um movimento revolucionário. Para essa visão, figuras como Olavo Bilac, Coelho Neto e Oiticica eram  consideradas anacrônicas e alienadas dos círculos literários que começavam então a adotar a estética paulista. Oiticica era parnasiano, intelectual ilustrado, bacharel da República pré-modernista. E não era o único a equacionar uma estética parnasiana a ideais revolucionários. Edgar Leuenroth, por exemplo, em sua antologia A Poesia Social na Literatura Brasileira assimilava o parnasianismo à mudança social, intitulando seu capítulo sobre aquela corrente literária de “Umbral do Parnaso – da Rebeldia e da Esperança”.3
A trajetória de Oiticica não apresenta vínculos objetivos com a nova marcação da atividade intelectual naquele contexto. As fronteiras entre o homem de letras e o homem de ação se fazem notar pela ausência de qualquer menção ao anarquismo ou à causa operária em sua obra literária ou a atividade de professor. De fato, a militância estava separada da profissionalização do artista; a política e a arte  são esferas de valores e de ações diferenciadas, contudo a entrada do modernismo nos meios literários brasileiros aguçou as convicções estéticas de Oiticica, despertando-lhe profundo desprezo pela estética modernista. A obsessão pelo português correto e metrificado e o academicismo desses poetas era considerada uma erudição inútil pelos modernistas. Deixados à margem da história, esses poetas beletristas amantes da forma e da tradição clássica foram quase esquecidos:
 
Há quem estranhe que,  sendo eu  anarquista, combata os futuristas. Ora, eu sou inimigo desses movimentos PSEUDO-ARTÍSTICOS que falsamente se designam por ‘modernismo’ e ‘futurismo’, justamente porque sou anarquista, isto é, partidário de uma sociedade baseada na ordem, no belo, na estética. Não combato, antes desejo e favoreço uma permanente renovação dos padrões artísticos. Mas isso que por aí se designa por ‘modernismo’ e ‘futurismo’ é o contrário de uma verdadeira renovação, pois nada mais é senão o regresso à mais primitiva e rudimentar das manifestações artísticas, caracterizando-se pela confusão mental e pela vacuidade de conceitos (Oiticica, 1926:10).
 
Para Oiticica, os literatos modernistas
 
(…) não são nem poetas, nem modernistas, nem futuristas! Escondem, detrás máscaras literárias, a sua frustração, a sua ignorância dos cânones artísticos, a sua ausência de inspiração e a carência de cultura e do sentido estético! (Oiticica, 1926:11).
 
Esse debate vai encontrar ressonância na obra do então crítico literário Alceu Amoroso Lima que assinava Tristão de Athaíde. Ele  defendia,  entre outros pontos, a necessidade de se voltar ao classicismo como meio de expressão. Afirma o crítico que “o problema da civilização brasileira é um problema de assimilação” (Amoroso Lima, A de: apud Cardoso 1980:22)  A argumentação de Tristão de Athaíde busca denunciar o “modernismo” como uma forma de suicídio literário, na medida em que este movimento passa a importar da Europa uma literatura “deteriorada”, representada pelos movimentos vanguardistas vistos como grandes males culturais, “essa “moléstia” alemã e esse “cadáver” francês que o Sr. Oswaldo pretende impingir-nos como novidade, como panacéia saneadora da poesia nacional” (Amoroso Lima, 1945:919). O verdadeiro problema, para o crítico, não é a importação cultural, mas “a qualidade do que se importa”, já que, a seu ver, ainda não deveríamos “prescindir de uma imitação”. Para Tristão de Athaíde, “imitar para inspirar-se não é submeter-se cegamente ao exemplo estranho. Imitar o espírito é um reconhecimento dos limites, maior prova de independência do espírito. É sua humanização” (Amoroso Lima de, 1966:923).
Na visão de Tristão de Athaíde, não havia, naquele contexto, qualquer pertinência na importação das escolas expressionista e dadaístas para o nosso meio. Era preciso importar formas culturais disciplinadoras, portanto “clássicas”, vistas como “forças de sanidade a que a Europa está lançando um apelo para reagir contra a decadência. Ir ao clássico é sobretudo buscar a verdade. É renunciar a desordem (Amoroso Lima, 1945:924). Se, para o contexto da Europa mostrava-se necessário a recusa do saber erudito, para o Brasil isto não fazia sentido, pois, “onde não há forma busca-se a forma”:
 
Estamos nós, brasileiros, no caos. Tudo é informe. Tudo é transitório. Aceitamos as correntes mais contrárias, a raça não está coldeada. A saúde do povo corrompida. A riqueza está nas mãos de estrangeiros ou no fundo da terra. A unidade nacional abalada. A sorte do individuo abandonada. O poder, arbitrário, periclitante ou acometido de armas nas mãos. A arte, a filosofia, a literatura imitando o passado ou comprazendo-se na diluição, no sarcasmo cínico, na morte. A terra ignorada. O futuro incerto. Tudo transitório. Tudo por fazer. Tudo vago, indeciso, amorfo. É nesse mundo de larvas que se pretende injetar o gosto da dissolução! Nesse mundo sem formas que se pretende introduzir o horror à forma! (Amoroso Lima, 1945:926).
 
“Uma literatura amorfa não pode ser uma literatura viva!” Pois ela admite, segundo o autor, o improviso, o provisório, o superficial, o esquecível e a falsa retórica. Por forma, Tristão entende uma obra que não seja apenas o livre reflexo da subjetividade do autor. Uma obra que tenha vida própria é aquela que se submete à princípios éticos e estéticos que dêem contorno à fusão vida/obra tão destruidora. Segundo Tristão, os modernistas recusam a lógica, o esforço disciplinado da beleza em função da importação mimética de uma poesia deteriorada. Fazem o elogio do bárbaro e instintivo na tentativa suicida de pensar o Brasil. O contexto apontava para uma renovação da produção artística no Brasil. Tratava-se de apresentar o moderno como nacional assentado na inspiração nativa. A crítica de Tristão chama atenção para os impasses e limites desse esforço criador das nacionalidades. Para quem, “ser nacional é criar uma nacionalidade e não submeter-se a ela” (Amoroso Lima, 1942:79).
 
Os anos 1920 foram férteis para o processo de redefinição dos vínculos culturais entre Europa e América. Várias correntes de pensamento entravam no debate de renovação da produção artística do Brasil. Havia a tendência representada pelos parnasianos, articulada a matriz cientificista, a tendência representada pela reação espiritual, que buscava uma leitura crítica do conhecimento racional e a corrente das vanguardas que rompiam com a linguagem clássica e lógica e apelavam para os impulsos inconscientes e instintivos como fontes básicas de inspiração artística. Essa última corrente teve forte repercussão entre intelectuais brasileiros e influenciou decisivamente o movimento paulista que se autodenominou modernista.
Em torno dessas correntes de idéias serão retomadas as discussões acerca da modernidade sob diversos pontos de vista que escapam a intenção deste texto. Nosso propósito é chamar a atenção para a presença de outras orientações modernistas no cenário cultural carioca bem como no pensamento anarquista. A crítica dos cariocas ao movimento paulista não se dava no plano da recusa da modernidade. Conforme já se tentou mostrar, a geração de intelectuais que testemunhou o advento da República no Rio de Janeiro vivera intensamente sob os impasses e configurações do ideal modernista entre nós. Neste primeiro contexto, o modernismo brasileiro, identificado com a capital federal, voltava-se para a problemática da inserção imediata do Brasil no mundo contemporâneo. José Oiticica estaria perfeitamente integrado com aquilo que Eduardo Jardim de Moraes (1983), ao periodizar o modernismo em duas fases, distingue como a primeira época do movimento, que transcorre entre 1917 e 1924. Nesta fase, a modernidade é percebida numa ordem universal. Neste sentido, ser moderno significava, antes de tudo, “estar em dia” com um conjunto de valores que remetem à racionalidade, à civilidade e ao cosmopolitismo do mundo ocidental.
 
A nova poesia do século XX
 

Assim procedo: minha pena

          Segue essa norma,

Por te servir, Deusa serena,

         Serena Forma!

 Bilac

 
Em dezembro de 1915, José Oiticica publica, em forma de manifesto, o que entendia como A Nova Poesia. Neste artigo, Oiticica, expõe uma teoria geral da poesia de todos os tempos e ressalta a especialidade da poesia do século XX. Reforçando o seu argumento, Oiticica escreve á José Veríssimo,
 
A ciência moderna mostrou o erro do ponto de vista bíblico. Hoje, o postulado estético e a poesia devem formar, para tema estético, para expressão emotiva, o postulado da integração do homem no universo (Oiticica, ms:1915).
 
O novo poeta, segundo Oiticica, “está convencido de que a terra é uma insignificância no universo, fragmento pulverizado do cosmo, preso ao infinito pela atração, e de que o homem é um fruto da dolorosa evolução animal, de que seu ser remonta às ascendências paleozóicas”. Ainda segundo Oiticica:
 
Os poetas pagãos e cristãos esperavam tudo da divindade, e a vida era apenas a luta para conseguir a felicidade futura segundo a vontade dos deuses. O sofrimento era conseqüência da cólera celeste. A felicidade, uma recompensa divina, o poeta novo encara a vida como um acidente dos ciclos evolutivos do universo, subordinada a fatalidades físicas, entende a humanidade como um fragmento vivo do universo que no universo houve os seus meios de subsistência e que pra o universo volve em átomos dispersos. Sobre tudo isso, o sofrimento como mal relativo, a felicidade como um bem relativo e, entre os dois, a dúvida como estímulo para aprofundar o desconhecido”  (Oiticica, ms:1915).
 
Investido de uma consciência esclarecida, o novo poeta tem diante de si a certeza sensível e racional de sua integração no universo. O artista moderno pode reunir, assimilar, jogar e ironizar com os sentimentos sensíveis e inteligíveis que este mundo lhe proporciona. O verdadeiro artista não é aquele que exalta o pensamento mas aquele que se conserva humano. Não é aquele que imita os clássicos, e que, portanto, permanece ‘enamorado da beleza velha e incapaz de renovação.”(Oiticica, ms:1918).
Em outro momento, Oiticica afirma:
 
A arte não se alcança pelo estudo, pela técnica, pela prática, se não houver no cérebro que pensa o arrojo de subir. Arte é exaltação íntima se ser consciente…Os meros exaltadores de pensamento são hipócritas, fingem a arte. (Oiticica, ms:1918).
 
A vocação do artista, como a do cientista, não está no sentimento ou pensamento. O artista, como o cientista, não é aquele que repete fórmulas, mas “aquele que formula uma hipótese íntima, que retira de dentro de si, de uma emoção individual” (Oiticica,ms:1918):
 
Não sentiste o calafrio da interrogação, não sentiste a ciência e o valor. Não és homem de ciência; és discursador de ciência, não és sábio; tu artista pintas ou escreves o que não te emove e o que não viste, o que teus sentidos não clamam ou viveram  (Oiticica,ms:1918).
 
A arte, como a ciência, exige uma comunhão singular entre o sensível e o inteligível, entre natureza e cultura, entre arte e técnica, entre o subjetivo e o objetivo, entre o particular e o universal. Oiticica vislumbra uma sociedade em que não houvesse a trágica dissociação entre natureza e cultura. Neste sentido, estaria realizado o ideal de um mundo governado pelas leis da razão e da sensibilidade. Os homens retomariam a sua sociabilidade natural, e, com isso, prescindiriam de leis externas à ordem natural. O homem, como o artista, deve preservar a sua individualidade para ser capaz de agir de modo contemplativo, mas também capaz de se deixar dissolver no Universo. Deve ter a atitude descentrada de um sujeito que se põe como  objeto. Os homens são vistos “como animais que pensam e que sonham” (Oiticica Oiticica, ms:1918):
 
Um dia eu contemplava as evoluções de um hidroplano na baía de Guanabara. Vi-o deixar a nesga da praia do flamengo, rojar nas águas resmungando, exasperado as ondinas que espumavam, elevou-se resonando, de asas pandas, muito branco. Voou em linha reta, revoejou, circulou, desceu, subiu, repousou na água, navegou, recolheu-se enfim à nesga de praia, descansou e refez-se para de novo altear-se. Essa ascensão objetiva simboliza bem a exaltação subjetiva, com seus arrancos de asas imateriais, seus voluteios de quimeras, seus sonos de renovação” (Oiticica, ms:1918).
 
Há uma relação viva entre o olhar contemplativo e os sentidos despertados pela máquina que voa. O texto ressalta a presença de uma subjetividade que se abre para o externo, valorizando ética e esteticamente os benefícios da natureza convertidos pela razão humana. Aqui não há alienação homem-técnica-natureza, só integração.
A constituição da nova poesia se dá, para Oiticica, a partir de três correntes. São elas: o novo paganismo, a aspiração a um novo espiritualismo e a constituição de uma sociedade nova. O novo paganismo caracteriza-se pela compreensão dos predicados do entendimento pagão; valorizando os pontos de vista greco-romanos no tocante à vida e as pesquisas livres dos preconceitos religiosos, em que se exalta o senso de beleza do homem. O novo espiritualismo caracteriza-se pela busca de compreensão da morte, pela independência do espírito como ser, e pela perpetuidade cósmica e sua irredutibilidade substancial. Nesta corrente, incluem-se as variações da teosofia, do neopsiquismo, e inquietações que dizem respeito tanto à ciência quanto à religião, o corpo é entendido como matéria e energia cósmica subordinada aos ciclos evolutivos do universo. A terceira corrente refere-se à constituição da nova sociedade, que se caracteriza pelo ideal de felicidade humana possível num regime novo, racional, do qual suprimir-se-iam as fontes do mal humano. Essas correntes de idéias são, segundo Oiticica, harmonizáveis, uma vez deflagrada a revolução social e instaurada a sociedade anarquista.
A estética preconizada por Oiticica, incorpora elementos essenciais a conformação do ideário moderno, da valorização da cultura greco-romana até as últimas conquistas do pensamento racionalista-progresssita dominante em seu tempo. A estética, na versão de Oiticica, jamais poderia alienar-se das conquistas dos antigos, da crise do pensamento cristão e do aparecimento da ciência. A arte deve se valer de seus pressupostos e ser compreendida em sua totalidade. Os sentidos e as idéias devem ser “educados” para se converterem em forma, em arte. A expressão imediata, o êxtase estético sem moldura, perde-se e dissolve-se na vida. Só a forma pode remeter a obra á um sentido ético e estético capaz de lhe imprimir autenticidade e autonomia.
A cena histórico-cultural que se configurava com o decorrer do século XX viria a contrastar com o ideário de muitos pensadores eruditos. O mundo se integrava à economia de mercado. Os impasses gerados pela guerra imprimiam no plano da cultura, uma revisão de valores a partir da qual declara-se uma ruptura com o passado. Ampliava-se a distância entre a razão e a moral, dando lugar ao processo de “desencantamento do mundo” (WEBER, 1980: 154) e à experiência da perda da invidualidade. A marcha inexorável em direção ao futuro ia conformando uma sociedade urbana, mecanizada e sem referências. Na visão de Tristão de Athaíde, o século XX se inaugura sob o signo da barbárie. Descrevendo sucitamente a sua versão acerca do que seja o espírito bárbaro e civilizado, Tristão de Athaíde anuncia a barbárie como “um estado de espírito profundamente moderno” (Amoroso Lima, 1942:72). Para esse autor, civilizado é aquele em que a sensibilidade e a inteligência absorvem toda a vida mental. Bárbaro é aquele em quem a vontade é o elemento essencial do espírito, em que predominam a moralidade e a ação:
 
O homem civilizado é o que compreende, comove-se, duvida e contempla. O bárbaro é o que analisa, luta, realiza e crê. O civilizado é o que tem por princípio horror à violência, sob todas as formas – o bárbaro, o que se compraz na violência (Amoroso Lima, 1942:715).
 
Tanto o espírito de barbárie como o espírito de civilização, segundo o autor, dividem-se em duas orientações opostas: a dos reacionários, à direita, e a dos revolucionários, à esquerda. A emergência da guerra gerou o estado de barbárie, representado, à esquerda, pelo espírito revolucionário e, à direita, pelo espírito reacionário.
Este espírito “profundamente moderno” representado pela cultura da barbárie tem como expoentes típicos o caso da Rússia e o da França: o primeiro buscou fundar uma nova civilização, e o segundo buscou consolidar-se como padrão civilizatório universal. Ainda segundo Tristão de Athaíde:
 
Entre nós, já se delineiam os braços dessas duas famílias de espíritos, com suas respectivas ramificações. Lembramos apenas os nomes de duas figuras típicas desse moderno espírito bárbaro, irredutivelmente opostas em suas posições à direita e à esquerda, e ambas superiores como dotes intelectuais e morais: os Srs. Jackson de Figueiredo e José Oiticica”  (Amoroso Lima, 1942:716).
 
A observação perspicaz desse grande crítico literário vem corroborar a argumentação desse trabalho. Homens como José Oiticica, Jackson de Figueiredo e tantos outros participaram intensamente das inquietações existenciais, culturais e éticas de um tempo singular na história cultural brasileira. O contato com a obra desses intelectuais pode motivar vivamente um retorno ao passado que empreste uma nova leitura, uma nova tonalidade ao espírito cultural, ideológico, político e social daquele período.
Tratava-se de uma intelectualidade que levava a sério os conceitos de universalidade, humanidade e razão. Além disso, esses intelectuais se sentiam como os próprios agentes da transformação sócio-cultural exigida pelo seu tempo em que, contudo, a fé científica se relativizava cada vez mais em face do novo contexto cultural que se ia anunciando, entre outros fatores, com a guerra que mostrava um mundo sem Deus, sem razão e sem valores:
 
As súbitas transformações sociais dos tempos recentes, franqueando as portas da ambição e do oportunismo, materializaram as paixões transformando-as em interesses. (…) Verifica-se em todo esse período um curioso processo de passagem da vigência social dos valores interiores, valores morais, essenciais, ideais, para os exteriores, materiais, superficiais, mercantis(Sevcenko, 1987:96).
 
A proposta de renovação espiritualista de Jackson de Figueiredo e a filosofia libertária de José Oiticica convergem no sentido de corrigir os erros de uma sociedade que se abandonava aos “valores” do mercado.
Jackson de Figueiredo vê na angústia de Pascal a consciência de um racionalismo mitigado. Ao recuperar Pascal, o autor de Pascal e a inquietação moderna busca expressar as dúvidas e agitações da consciência contemporânea diante da falta de fé e da perda dos vínculos morais entre os indivíduos:
 
Todas essas confusões e desordem da sociedade contemporânea, a ignorância do nosso destino mora, o esquecimento de nossos deveres para com o sofrimento de nossos semelhantes… Tudo isso não é senão produto inevitável, conseqüência necessária, fatal, da impiedade moderna, o resultado prático da vitória do materialismo, do qual só pode ser logicamente deduzido como critério das ações o interesse  (Jackson de Figueiredo apud  Nogueira, 1976:42).
 
Jackson de Figueiredo e José Oiticica contrapunham-se ao capitalismo e ao espírito de modernização, que reduziam as relações sociais a relações de mercado, destruidoras dos vínculos de solidariedade. Jackson de Figueiredo buscava no catolicismo a restauração de um valor guia que orientasse os homens no sentido de um destino comum. A revolução, para Jackson era responsável pela destruição dos valores mais essenciais da cultura ocidental para esse autor, que denuncia o aspecto desagregador da reforma protestante, o abandono da fé com o racionalismo de Descartes, a instituição do materialismo e dos ideais libertários dos enciclopedistas e que via na liberdade e na igualdade os preceitos básicos da desordem social. Segundo o autor de A coluna de fogo, “a pior legalidade ainda é melhor que a melhor revolução” (…) A coluna de fogo é essa: o ideal anti-revolucionário” (Figueiredo, 1925: 53).
Jackson de Figueiredo busca, a partir da religião, o “retorno necessário e inevitável às fronteiras do bem e do mal” (Figueiredo, 1925: 53).  A idéia de ordem passa a intenção de infundir ao comportamento humano uma moldura moral que só poderia advir da esfera da crença, dado que os homens são ontologicamente imorais. Só a fé em Deus seria capaz de desafiar a moralidade reinante.
José Oiticica busca, a partir do anarquismo, a restauração da ordem natural e moral da sociabilidade humana. Para o autor de A doutrina anarquista, a moralidade e a correção ética são um dado ontológico do ser humano. As relações sociais e as instituições políticas que delas emergem é que corrompem esta sociabilidade inata e impedem sua manifestação. Oiticica não rejeita, contudo, a idéia e o sentimento religioso, que para ele significavam:
 
A consciência imediata e viva da existência do ser finito e efêmero dentro do ser infinito e eterno, revelação do infinito no finito, (…). Serenidade em face do infinito! Eis a grande característica das almas profundamente religiosas. As seitas perturbam essa serenidade (…). Para ser sereno em face do infinito é mister subir a ele (Oiticica,ms:1918).
 
Essa aspiração é básica na vocação do artista. Opera como um sopro, uma intuição, que Oiticica caracteriza como Exaltação. José Oiticica e Jackson de Figueiredo foram personalidades inquietas que buscavam fazer explodirem os contornos que a modernidade imprimia a nossa cultura, e, quer em tonalidade reacionária, quer em tonalidade revolucionária, suas vozes exaltaram-se pra formular uma doutrina para o Brasil.
 
Estética e política
Oiticica ao lado de Fábio Luz, então romancista e militante anarquista experiente, desenvolveu um projeto de educação para o proletariado. Este projeto incluía discussões da doutrina libertária, conferências sobre arte, ciências, e temas sociais e políticos. Junto com Fábio Luz, Oiticica organizava  seminários em teatros, parques públicos, ao ar livre e nos sindicatos. Oiticica promovia atividades culturais nos sindicatos porque os via como um espaço de luta e difusão cultural. Para ele,  o sindicato era um espaço de socialização política, divulgação de idéias e valores no desenvolvimento de novos padrões de comportamento. Para Oiticica, a educação racional baseada na ciência emancipa o homem de todos os preconceitos e regras de ordem moral, social e cultural. É curioso notar que o mesmo tipo de mérito é atribuído à ciência pelo positivismo, sendo que na moralidade positivista o indivíduo se encontra subordinado a outrem: a família, pátria e a humanidade. Para os positivistas, a educação e  a ciência são os meios fundamentais de orientação da vida moral. Tanto a filosofia libertária quanto a positivista estão informadas por uma teoria da evolução social baseada no método de exatidão científica de apreensão do real.
O background teórico de Oiticica está por um lado completamente informado pela doutrina anarquista de Kropotkin, o mais evolucionista dos anarquistas. De outra parte, a formação acadêmica de Oiticica está também vinculada à influência do positivismo nos meios intelectuais da virada do século. Neste sentido, existem variáveis convergentes no Parnasianismo e na filosofia libertária no que diz respeito ao elogio da disciplina, da razão e da moral. Em 1912, já é notória a evolução das idéias anarquistas que geravam sua própria doutrina no Brasil através de nomes como Oiticica, Fábio Luz e Neno Vasco. Também no ano de 1912 inaugura-se a escola moderna do Brás em São Paulo, e Gigi Damiani lança o importante periódico anarquista La Barricata.
No inicio de 1914, era fundado no Rio o Centro de Estudos Sociais, onde Oiticica participava dando aulas e palestras sobre a doutrina anarquista. Nesse período, com o apoio do Centro de Estudos Sociais, começou a se expandir o teatro social de ação pedagógica liderado por Oiticica. Em novembro de 1914, José Oiticica funda no Rio a revista A vida, considerada a primeira revista teórica brasileira voltada para a formação ideológica e a organização da classe operária.A vida  trás as primeiras publicações do “catecismo anarquista” de José Oiticica. O Centro de estudos sociais, a revista A Vida e o jornal Na Barricadasão exemplos de uma preocupação maior com o desenvolvimento das idéias anarquistas no Brasil, foram publicados vários textos teóricos que aprofundaram o conhecimento da doutrina anarquista.
Em novembro de 1918 sob o impacto da revolução russa e  de uma ampla mobilização da classe operária, Oiticica organiza o movimento insurrecional anarquista. A insurreição acaba denunciada por um tenente do exército que se infiltrara no grupo como espião (Addor, C.:1986). O fracasso do movimento causou a prisão de muitos militantes anarquistas, entre eles a de José Oiticica. Muitos  estrangeiros militantes ou não, ou mesmo filhos de imigrantes foram expulsos do país sobre o pretexto de serem anarquistas. Mesmo com ausência de vários militantes será Oiticica o presidente da primeira Conferência Comunista do Rio de Janeiro realizada em 1919. É nela que Oiticica apresenta as bases deseu catecismo anarquista. Nesse período, são significativas as discussões sobre as divergências ideológicas entre o  anarquismo e o bolchevismo.  Oiticica chega a sustentar idéias avançadas para a época, afirmando que o capitalismo não se extinguiria na Rússia, antecipando os problemas que poderiam surgir na marcha histórica futura para o comunismo. Nos anos vinte a emergência do Partido Comunista e a presença do movimento modernista de São Paulo, em plena sintonia com a ideologia nacionalista vigente (Prado, A:1983) concorrem para mudar definitivamente o campo social, cultural e ideológico no qual Oiticica atuava. Esses acontecimentos põem fim ao momento de maior penetração do anarquismo no movimento operário, assinalando ainda, o enfraquecimento definitivo do parnasianismo cultivado pelo circulo literário carioca.
Oiticica permanece um ativo militante do anticlericalismo e combatente do bolchevismo que então ia conquistando os meios operários. Segundo Oiticica, “a ditadura política de um Estado qualquer jamais realizará a mudança”. Ao longo dos anos 1920 a 1926, encontramos diversos artigos de Oiticica, Edgar Leuenroth, Fábio Luz, Florentino de Carvalho, Pedro Matera e outros denunciando os autoritarismo do regime  e da  filosofia bolchevista. Segundo Oiticica:
 
Todo ditador quer obediência, e onde o povo se mostra obediente
pega mais o bolchevismo que o anarquismo, é natural (A Plebe, SP, 1/5/1923).
 
O anarquista questiona os limites de uma ideologia libertária frente a um comportamento cultural resistente à autodeterminação e passível ao mando.
Oiticica jamais deixou de ser um batalhador das idéias anarquistas. Prestando auxílios, inclusive aos movimentos anarquistas da Espanha e do México onde teve  traduzido para o espanhol o seu Catecismo anarquista  e a sua “Doutrina anarquista ao alcance de todos”.
 
Oiticica: entre o romantismo libertário e a ironia da desilusão

 

O sofrimento não me quebranta.

                         Passarei na prisão mais um, dois, três anos,

com a mesma serenidade, criticando resistências

 das minhas amarguras. Oiticica

 

O importante é saber que a verdadeira justiça tem que ser transportada para além da vida. E lá estará.

Jackson de Figueiredo

Aos poucos, o radicalismo da militância de Oiticica vai progressivamente dando lugar a uma forma cada vez mais relaxada e bem-humorada de ver o mundo. Por trás do elogio da retidão moral e da forma pura e clássica de expressão estética, havia um grande gozador. A ironia era o remédio para a tragédia. Recordando suas inúmeras prisões, Oiticica afirma:
 
Não posso me queixar das minhas prisões. Sempre acabavam sendo úteis… Aproveitei os meses de férias forçadas para completar a revisão dos meus estudos de fonética (Ação Direta, 1970:31).
Enquanto esteve preso, Oiticica escreveu vários artigos e contos, inclusive o livro A doutrina anarquista ao alcance de todos também publicado em francês.
Os protestos anticlericais de Oiticica também incorporam a visão bem-humorada e irônica, como demonstra o soneto “Ao Cardeal”:
 
Cardeal, que vida é a tua, meu maroto:
Comer, beber, dormir, fornicar,
Sem pensar que teu ronco e teu arroto,
Causam fome e amargura em muito lar?!…
Se Cristo andava de sapato roto,
Tu não tens o dever de o imitar,
Também São João passava a gafanhoto,
E nenhum papa usou de tal manjar!
Um palácio é melhor que uma baiúca,
Colchão de paina é o suco em noite fria,
E uma dama cheirosa ao lado é o céu.
Cardeal, sangra a gente mameluca,
E a pateta não vê que dá da sangria
Que escorre o vermelho do teu chapéu” ( Ação Direta, 1970:34)
 
Este soneto foi distribuído na forma de panfleto entre o Rio e São Paulo. O cardeal contra quem se dirigia (o Cardeal Arcoverde) não se posicionou mais contra a Liga Anticlerical ou contra Oiticica. O que se percebe é uma aceitação da ironia.
O  anticlericalismo de Oiticica não o impedia de desfrutar do respeito e da amizade devotada de Jackson Figueiredo, um dos mais importantes pregadores da contra-revolução e do movimento católico no Brasil. Jackson de Figueiredo chega a interceder frente ao presidente da República, pedindo a libertação de José de Oiticica que, porém, recusa o pedido do amigo:
 
Tudo isso pesei e repesei, lutando contra o intenso desejo de rever meu lar e recomeçar, com dobrado afinco, a tremenda peleja diuturna de minha vida. Mas pertenço a uma escola que põe a serenidade e a inquebrantabilidade acima de tudo, não por orgulho, senão por coerência e retidão de alma…
Julgo minha liberdade um direito que desejo me reconheçam incondicionalmente. O sofrimento não me quebranta. Passarei na prisão mais um, dois, três anos, com a mesma serenidade, criticando resistências das minhas amarguras (carta a Jackson de Figueiredo – Bom Jesus, 22/8/1925 publicada em Ação Direta: 1970:18).
O gesto de convicção ética é o traço marcante no comportamento de Oiticica. A crença de que há um sentido último na vida e de que vale a pena persegui-lo. A filosofia libertária representava o solo ético capaz de dar unidade e segurança a um mundo que, na versão de Oiticica, “se rendia ao bom senso burguês”.
Talvez essa visão de mundo o aproximasse de intelectuais reacionários como Jackson Figueiredo, cuja angústia existencial marca profundamente sua obra. Porém, o romantismo conservador de Jackson o levou a aderir ao movimento católico. Como Oiticica, Jackson de Figueiredo  era um anticapitalista convicto. O catolicismo para ele, como também o anarquismo para Oiticica, simbolizava uma atitude ética e absoluta frente à vida. Na visão de Jackson de Figueiredo:
 
O importante é saber que a verdadeira justiça tem que ser transportada para além da vida. E lá estará (Carta a Alceu em 11/12/1928 publicada em Nogueira:1976).
A restauração moral adviria da conscientização trágica da impossibilidade de alcançar a liberdade e a justiça num mundo em que a razão mesma explica a não razão. De um lado, a doutrina da ordem, de outro a vida boêmia, as noites passadas nos cafés  a conversar com amigos. O erro moral, para Jackson, era um dado incorrigível do ser, só a Igreja poderia ser o único refúgio, “amparo realmente seguro à inteligência e à sensibilidade”.
A correção da vida adviria da imortalidade da alma. A morte é vista como elemento pacificador, o encontro com o absoluto e com a verdadeira justiça tão preconizado por Jackson. O autor anuncia sua morte, numa despretensiosa pescaria, entregando-se ao mar: “Vou para a frente, atirado no dorso da grande onda da vida, para onde Deus quiser” (Carta a Alceu 2/11/1928 publicada em Nogueira:1976).
Oiticica, diferente do amigo, retoma a tragédia a partir do humor e da ironia. O rigor formal dos sonetos deu lugar a saborosas sátiras políticas, no intelectual maduro dos anos 30. Em 1929 Oiticica  leciona  filologia na Universidade de Hamburgo, na Alemanha e retorna ao Brasil nos anos 1930.
Enfim, evocar a memória de José de Oiticica através dos círculos parnasianos e do movimento operário é apenas um primeiro passo frente à grandeza de sua obra. Há muitas trilhas a percorrer nas diversas facetas do intelectual, teatrólogo, filólogo, gramático, poeta, crítico literário, grão mestre da Fraternidade Rosa Cruz, militante e batalhador incansável das virtudes da filosofia libertária no Brasil até o fim de sua vida, em 1957.
 
NOTAS
1. Carvalho, José Murilo (1987). Os bestializados. São Paulo, Cia. das Letras.
2. Oliveira, L. (1990). A questão nacional na Primeira República. São Paulo, Brasiliense.
3. Leuenroth, Edgar.  A poesia na literatura brasileira (Antologia) São Paulo, obra inacabada.Cf. Arquivo Edgar Leuenroth.Campinas -UNICAMP.
 
MANUSCRITOS
Arquivo privado de  José Oiticica
Ms 1 – Conferência na Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro),1913.
Ms 2 – Carta a José Veríssimo, 1915.
Ms3 _ Conferência na Biblioteca Nacional, junho de 1918
Ms4  _ Carta a Jackson de Figueiredo – Bom Jesus, 22/8/1925.
 
BIBLIOGRAFIA
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Oiticica, José  (1970). Ação Direta, R. J. Germinal. Roberto das Neves (org.), 1970.
Oiticica, José  (s. d.) A doutrina anarquista ao alcance de todos.São Paulo, Econômica, s. d.
Oliveira, Lúcia L. (1990). A questão nacional na Primeira República. São Paulo, Brasiliense, 1947.
Pontes, Elói (1944). A vida exuberante de Olavo Bilac.Rio de Janeiro, José Olímpio,1944.
Prado, A. (1983). 1922: itinerário de uma falsa vanguarda – os dissidentes da semana de 22 e o integralismo. São Paulo, Brasiliense, 1983.
Sevcenko, N. (1987). Literatura como missão. São Paulo, Brasiliense, 1987.
Villaça, Antonio C. (1975). O pensamento Católico no Brasil. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.





Bio fornecida pelo palestrante.

RESENHA SOBRE O LIVRO DEPOIS DA TEORIA, DE TERRY EAGLETON – Sylvia Maria Campos Teixeira




RESENHA SOBRE O LIVRO DEPOIS DA TEORIA,

DE  TERRY EAGLETON

 

Sylvia Maria Campos Teixeira

Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia

 
EAGLETON, Terry. Depois da teoriaum olhar sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo. Tradução de Maria Lucia Oliveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 306 p.
 
 
Em A função da crítica (1991), Terry Eagleton, um dos últimos intelectuais da década de 1960 e que não renunciou às idéias marxistas, já defendia “a tese de que a crítica contemporânea perdeu toda a relevância social” (1991, p. 1). Em seu novo trabalho, Depois da teoria (2005), olha para trás, em torno e para frente em relação ao campo que ajudou a fundar, e escreve em resposta ao mal-estar teórico da academia ocidental, com um olhar para as conseqüências do 11 de setembro de 2001.
Inicia o livro com a afirmativa: “A idade de ouro da teoria cultural há muito já passou” (p. 11), e lembra-nos também que estamos bem longe dos insights de seus maiores pensadores: Althusser, Barthes, Derrida, Foucault, Kristeva, Lacan. Com essas duas assertivas provocativas e estimulantes, o autor desafia àqueles que procuram compreender o estado do mundo crítico atual.
Nessa perspectiva, em oito capítulos, Eagleton traça a ascensão e queda da teoria desde a década de 1960 até a de 1990; explora os fatores que levaram ao pós-modernismo e oferece as perdas e ganhos da teoria cultural. Nos três últimos capítulos, ele adverte que, numa nova época de globalização e terrorismo, o pacote de idéias conhecidas como pós-modernista não dá mais conta da situação da política atual. Vê igualmente a necessidade de os intelectuais contemporâneos se engajarem num conjunto de tópicos: fundamentalismo/revolução, religião/ética, ser/não-ser – que, para ele, foi largamente ignorado tanto pela academia quanto pelo público.
No capítulo 1, A política da amnésia, Eagleton nos dá uma visão sobre a teoria cultural e seu sucesso entre os críticos da literatura. Segundo ele, esse período já passou e estamos vivendo agora suas conseqüências. Ou seja, numa época na qual as barreiras entre alta e baixa cultura romperam-se e os acadêmicos “(…) trabalham com temas sensacionalistas como vampirismo (…) seres biônicos e filmes pornôs” (p. 15). A partir daí, o autor enfatiza que o maior legado da teoria cultural foi o feminismo e os estudos culturais (cultura popular e pós-colonialismo), com sua crítica ao patriarcado, ao capitalismo, e o reconhecimento que ser o Outro não é sempre uma experiência tão liberadora. Mas que, de acordo com o teórico, ainda continua sendo a eterna questão marxista de luta de classes, porque os pós-modernos apenas mudaram “o foco de classe e nação para etnicidade” (p. 26). Ele contrapõe esta crítica sobre uma teoria amnésica com um comentário laudatório sobre os esforços do movimento anticapitalista inicial, que procurava um equilíbrio entre “globalidade e localidade, diversidade e solidariedade” (p. 39).
Em A ascensão e queda da teoria, Eagleton tenta nos dar uma genealogia da teoria cultural. Nesse capítulo, pinta um quadro completo da briga, da esperança, do desafeto e da inovação que caracterizou a cultura e foi pensado naquela época. E é, na verdade, relevante para nossa compreensão da época atual ler os trabalhos de Foucault, Kristeva, Derrida etc., para imaginarmos como a produção deles inextricavelmente se entrelaçou com os apelos revolucionários de diversos tipos e em diversos lugares – desde os situacionistas na França à liberação neocolonial em Gana. Eventualmente, entretanto, o stalinismo e o capitalismo subjugaram os idealistas da época, e os discursos da cultura assimilaram o que o ativismo político transformou em terror até a submissão. Eagleton chama a atenção para o fato de que “(…) muito da nova teoria dos Estudos Culturais nasceu de um diálogo extraordinariamente criativo com o marxismo” (p. 58). Nesse ponto, parece sugerir que um marxismo liminar pode muito bem dar frutos para aqueles teóricos interessados em fazer mais do que uma asserção sobre o fim da história, jogando com a diferença, o traço e os suplementos perigosos, ou especulares, distantes, sobre a realidade ou a não-realidade de uma guerra.
No terceiro capítulo, O caminho para o pós-modernismo, Eagleton, que continua marxista, analisa, com uma certa dose de ironia, a trajetória da teoria pós-moderna, observando que:
 
Foi irônico que o pensamento pós-moderno criasse tamanho fetiche em torno da diferença, dado que seu próprio impulso era apagar as distinções entre imagem e realidade, verdade e ficção, história e fabula, ética e estética, cultura e economia, arte culta e arte popular, esquerda e direita política. Ainda assim, enquanto os corretores e financistas estavam tornando Huddersfield e Hong-Kong cada vez mais próximas, os teóricos culturais batalhavam para mantê-las separadas. Enquanto isso, o Fim da História foi complacentemente decretado a partir de uns Estados Unidos que pareciam cada vez mais em risco de terminar com ela de verdade. Não mais existiram conflitos mundiais importantes. Mais tarde ficaria claro que os fundamentalistas islâmicos não estavam prestando suficiente atenção quando esse anúncio foi feito (p. 75).
 
Contudo, somos levados a discordar de Eagleton quando salienta que a maior diferença entre modernismo e pós-modernismo é de que o pós-modernismo é “(…) ainda muito jovem para se lembrar de uma época na qual existiam (assim diziam os rumores) verdade, identidade e realidade, e em que não sentia nenhum abismo estonteante sob seus pés” (p. 89), e, por isso, paira despreocupadamente sob a proteção do ar “pós-trágico”. Antes pensamos que muito do que é chamado de teoria pós-moderna permitiu que as vozes marginalizadas soassem numa ordem estética e social, dando algum poder para aqueles que, historicamente, jamais o tiveram. E esperaríamos que Eagleton soubesse a diferença, particularmente quando reivindica a teoria pós-colonial e o feminismo como os mais importantes desenvolvimentos na teoria cultural. Não obstante o autor termina sua análise do caminho para o pós-modernismo com a crítica sobre o latente conservadorismo no pós-moderno que se inclina, favorável e inflexivelmente, para análises de micro-narrativas. Não é somente uma recusa firme das grandes narrativas desconfortáveis como “(…) da erudição conservadora (…) que também só acredita apenas no que pode ver e pegar” (p. 106), mas também é “Exatamente no ponto em que começamos a pensar pequeno, a História começou a agir grande” (p. 107). Assim, Eagleton afirma que “A conclusão inescapável tem que começar a pensar de maneira mais ambiciosa (…) para que possa buscar compreender as grandes narrativas nas quais está agora enredada” (p. 107-108). Portanto seu argumento é que a suposta sobrevivência do pós-modernismo, com seu desdém por qualquer teoria ou política que chegue a compreender o mundo, está muito mal equipada para desafiar as destruições do capitalismo e do imperialismo na era da “guerra contra o terror”.
Depois de um início tão combativo, não é nenhuma surpresa que Eagleton declare guerra aos prejuízos da teoria contemporânea pelos títulos dos capítulos subseqüentes: Verdade, virtude e objetividade; Moralidade; Revolução, fundamentos e fundamentalistas; e a morte, o mal e o não-ser.
No quinto capítulo, Eagleton faz sua mais arrojada reivindicação a favor do socialismo, quando afirma:
 
Uma razão para julgar o socialismo superior ao liberalismo é a crença de que seres humanos são animais políticos não apenas porque, para se realizar, têm que levar em conta as necessidades de realização uns dos outros, mas também porque, de fato, somente atingem sua realização mais profunda quando em reciprocidade (p. 170).
 
Assim, no presente clima político, não basta escrever sobre tópicos sexuais, ter um diploma ou estar empregado, há a necessidade de escaparmos dos interesses simplistas e dos desinteresses políticos.
No capítulo intitulado Moralidade, o autor explica o conceito do termo. Não se trata de “algo um tanto embaraçoso”, nem “de um nome de fantasia para oprimir outras pessoas” (p. 191). Também não é a moralidade cínica usada pelo governo na questão da guerra ao terror. A moralidade “é toda sobre fruição e abundância de vida” (p. 194).  Eagleton, nesse capítulo, também mostra que “Na chamada guerra contra o terrorismo, por exemplo, a palavra ‘mal’ realmente significa: ‘Não procure uma explicação política.’” (p. 194). E que podemos tranqüilamente “(…) ignorar a luta do povo palestino ou a dos árabes que têm sofrido sob sórdidas autocracias de direita apoiadas pelo Ocidente em busca de seus propósitos egoístas, sedentos de petróleo” (p. 194).
Essas declarações não são apenas críticas contra a administração de Bush e/ou de Blair; elas servem de exemplo para o argumento principal de Eagleton: onde está a tradição no pensamento pós-moderno, com os elogios ao relativismo? Como o pós-modernismo poderia dirigir adequadamente os desafios que encaramos na atual situação mundial?
Para ele, se aceitarmos que verdade, objetividade, virtude, mal, entre outras coisas, são reais; podemos, então, dirigir-nos para um verdadeiro engajamento e nós, teóricos, voltaríamos a sermos relevantes.
E, no poderoso capítulo final, no qual evita a natureza do mal e suas manifestações globais passadas e presentes, Eagleton admite que, na verdade, jamais estaremos “depois da teoria”. Em lugar disso, sugere que precisamos voltar, decisivamente, a encarar os urgentes debates sobre a existência e não nos escondermos deles. A única coisa que resta, afinal, é a viabilidade de teorias que reivindicam que as grandes narrativas do bem e do mal, da liberdade e da natureza tenham sido superadas – um erro que até o mais rápido olhar em direção ao Sul poderia confirmar. Eagleton propõe, em vez disso, um começo de novas teorias engajadas com os interesses do mundo e seus habitantes a fim de que possamos atingir um efeito positivo e palpável a esse respeito.
Portanto, na escolha do título, Eagleton não sugere, como poderíamos pensar, que a teoria tenha acabado, mas aponta para uma teoria que se volte para questões mais importantes num mundo pós-11 de setembro, politicamente dominado por uma administração norte-americana arbitrária e ameaças terroristas. Depois da teoria não é simplesmente uma denúncia das fracas tendências acadêmicas atuais, nem uma nova asserção do leninismo ortodoxo, em lugar disso, apresenta um “movimento aberto” em direção a uma reavaliação das tradições filosóficas ocidentais, em particular o marxismo. É uma teoria provocativa e desafiadora que leva o leitor ao cerne de questões fundamentais, propondo à teoria cultural um grande desafio: “(…) romper com a ortodoxia bastante opressiva e explorar novos tópicos (…), no sentido de que não pode haver vida humana reflexiva sem ela” (p. 297).
 
Referência Bibliográfica
EAGLETON, Terry. A função da crítica. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1991.





Bio fornecida pelo palestrante.

VIAGEM AO FIM DA NOITE: A MEGALÓPOLE EM CAIO FERNANDO ABREU – Albert von Brunn




Resumo:
Trata-se de um ensaio que confronta o conflito entre a grande cidade e as seitas esotéricas, o pós-moderno e o subjetivismo, o fascínio pelo grotesco, o anti-estético e a aids e a busca da espiritualidade, através do misterioso personagem Dulce Veiga, do livro Onde andará Dulce Veiga?, um dos marcos da literatura pós-moderna brasileira. O ensaio levanta algumas linhas de confluência estilística do autor sulista, como a obra de Virginia Woolf, assim como a convergência de gêneros literários distintos, como o policial mesclado ao simplesmente romanesco.
Texto:

 

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VIAGEM AO FIM DA NOITE:

 

A MEGALÓPOLE EM CAIO FERNANDO ABREU

 

Albert von Brunn

Biblioteca Central – Zurique

 
 
“Pelas ruas de Cecília, cidade ilustre, uma vez encontrei um pastor que conduzia rente aos muros um rebanho tilintante. – Bendito homem do céu – parou para me perguntar -, saberia me dizer o nome da cidade em que nos encontramos? – Que os deuses o acompanhem – exclamei. – Como é possível não reconhecer a ilustríssima cidade de Cecília? – Perdoe-me – o outro respondeu –, sou um pastor em transumancia (…). Para mim as cidades não têm nome, são lugares sem folhas que separam um pasto do outro e onde as cabras se assustam nas encruzilhadas e debandam. (…). Passaram-se muitos anos desde então (…). Um dia, caminhava entre as esquinas de casas idênticas: perdera-me. Perguntei a um passante: – Que os imortais o protejam, poderia me dizer onde nos encontramos? – Em Cecília, infelizmente! – respondeu-me (…). Reconheci-o, apesar da longa barba branca: era aquele pastor. – Os espaços se misturaram – disse o pastor –, Cecília está em todos os lugares; aqui um dia devia existir o Prado da Salva Baixa. As minhas cabras reconhecem as ervas da calçada”[1].
 
Ao chegar a São Paulo, observa Massimo Canevacci no livro A cidade polifônica[2], “a primeira coisa que fiz foi comprar um mapa da cidade. Mas este, em vez de me ajudar, confundiu ainda mais as minhas idéias sobre a capital paulista: nunca teria imaginado uma tal enormidade de São Paulo, uma tal viscosidade”. Como no livro de Italo Calvino, Massimo perdeu-se no híbrido urbano da capital paulista onde os elementos pós-modernos se sobre-põem a outros de uma pobreza extrema. A única associação que surge na memória do ensaísta italiano é o arquiteto futurista Sant’Elia. São Paulo parece ter realizado os projetos do jovem arquiteto futurista morto durante a Primeira Guerra Mundial. E Caio Fernando Abreu? O que terá sentido o escritor gaúcho ao chegar a São Paulo nos anos sessenta? Vertigem, escalafrio, êxtase, solidão? Não o podemos saber. Em suas Cartas ele bem que fala da megalópole paulista e de suas experiências ambivalentes[3]. No entanto, as primeiras impressões colhidas no calor da hora, as crônicas escritas para o jornal Zero Hora em Porto Alegre, parecem perdidas para sempre, sepultadas no arquivo do jornal gaúcho[4]. Só nos resta o grande romance dele, Onde andará Dulce Veiga?[5], um retrato noturno e soturno da capital paulista cujo protagonista anônimo tem que ir à procura de uma cantora desaparecida vinte anos antes.
 
Estadia no inferno: visão apocalíptica e realidade esfiapada
 
“Era um casarão caindo aos pedaços, numa travessa do Bexiga, quase embaixo do viaduto (…). A sala de espera, cheia de retratos em preto e branco (…), também estava vazia. Tudo cheirava a mofo, mas talvez pelas fotografias, pelas douraduras espatifadas no veludo bordô das poltronas e cortinas, ainda havia restos de nobreza pelo ar. Isso era sempre o mais melancôlico. Em tudo, aquela memória de outros tempos mais dignos, escondida ali no teatro, nos canteiros da avenida São Luís, nas vidraças da estação da Luz (…) nos casarões sobreviventes da avenida Paulista, por toda a parte. Tempos, pensei, tempos melhores”[6].
 
Os escritores urbanos contemporaneos deparam com um quebra-cabeças sem solução: como descrever uma cidade que se tornou indecifrável? A cidade geométrica, clara no pensamento de seus fundadores e construtores, torna-se obscura, porque feita para confundir, desorientar. É a cidade interminável por onde circulam atrocidade e insensatez ou, para voltar à imagem de Italo Calvino, as cabras sem pelo nem cheiro, reduzidas a carne e osso. Como descrever uma cidade espatifada onde os únicos elementos legíveis são os vestígios de um tempo melhor? Como descrever uma cidade feita de sinais de transito, outdoors, vias de comunicação rápida? O problema não é de hoje. De fato, a cidade aparece pela primeira vez como emblema da modernidade, espantalho social e espaço mítico em Charles Dickens (Londres), Gustave Flaubert (Paris) e Nicolai Gogol (São Petersburgo). Arcaísmos nostálgicos convivem com o terror urbano. Ao mesmo tempo, a cidade abre espaço para um inesperado feixe de relações sociais. Para o novelista urbano, a proliferação de contatos fortuitos oferece possibilidades insuspeitadas. Ao passo que Homero tinha que armar um trajeto complicadíssimo por todo o Mediterraneo para submeter seu Ulisses a uma série de provas, James Joyce, seu homólogo moderno, consegue comprimir num só dia em Dublin toda a odisséia urbana do protagonista Leopold Bloom[7].
A cidade modifica profundamente os módulos narrativos tradicionais. O romance do século XIX descrevia uma espécie de espiral, um movimento de ida e volta: o protagonista, atraído pelas luzes da cidade, deixa-se seduzir e volta no final, cheio de remorsos para um obscuro lugar de origem. É o caso de A cidade e as serrasde Eça de Queiroz. No romance do século XX desaparece a espiral e, em seu lugar, surge um emaranhado de ruas e praças sem saída. Leopold Bloom, protagonista do Ulisses, nunca sai de Dublin e Joseph K., em O Processo, de Franz Kafka acaba sendo executado, vítima de juizes injustos numa cidade anônima. A São Paulo literária de Caio Fernando Abreu é, por assim dizer, o ponto final desta evolução: uma cidade onde os habitantes, enteados do modernismo, aguardam cheios de angústia o apocalipse final.
O título do romance de Caio Fernando Abreu aponta para uma cantora mítica – Dulce Veiga – que alcança fama nacional nos anos sessenta e desaparece no ápice de sua glória sem deixar rastro. A história tem como pano de fundo a capital paulista em estado de calamidade. A idéia de contaminação penetra em todos os poros da narrativa e os dois protagonistas são soropositivos, respectivamente o narrador-jornalista e Márcia F., cantora de rock e filha de Dulce Veiga. São Paulo desempenha o papel de microcosmo da nação brasileira: a maioria das personagens representam grupos imigrantes, galvanizados pela atração da grande urbe. Assim, no decurso do romance deparamos com argentinos, nordestinos, baianas jogando búzios e intelectuais gaúchos. Todos estes elementos convergem e colidem dramaticamente no espaço urbano. O jornalista passa pela decadência labiríntica de São Paulo, a violência ensolarada do Rio de Janeiro e encontra, finalmente, Dulce Veiga na última fronteira, numa Amazônia mítica, longe do mundo. O encontro acaba com a fachada mítica. Dulce Veiga perdeu sua beleza e mora feliz e esquecida de tudo numa periferia da periferia do Brasil. Não há mistério. O jornalista, porém, não pode ficar na terra prometida. Ele tem que voltar ao inferno urbano[8].
Resta o problema da legibilidade: como transformar uma cidade em palavras? O escritor só será entendido pelos leitores se lançar mão dos modelos literários disponíveis. O ponto de partida é uma distinção judiciosa entre a cidade e sua imagem literária. Para criar esta imagem é preciso introduzir uma dimensão temporal no espaço urbano, um agora e um antes. A Paris de Gustave Flaubert e a Londres de Charles Dickens não são as cidades contemporaneas de estes autores. Os dois escritores, ao aparentarem descrever a cidade sua contemporanea, de fato recuaram no tempo e criaram uma percepção dupla da cidade. A cidade literária (Paris ou Londres) vira palimpsesto que mistura elementos do presente e do passado numa tensão dialética[9]. Em Caio Fernando Abreu, a estratégia é semelhante: convivem na sua São Paulo ficcional duas épocas – o final dos anos oitenta e a fase mais repressiva da ditadura militar depois do AI-5 (1968). Ao passo que o presente é uma desilusão total, os anos sessenta são relembrados como tempos melhores, os tempos de força e fé. Caio pertence a uma geração que acreditava em várias utopias ideológicas e sexuais destruídas por mudanças globais: por um lado, o esgotamento da contracultura dos anos sessenta e, por outro, a ameaça onipresente da AIDS. O resultado é um sentimento geral de perda e frustração que se reflete nas duas imagens da capital paulista – o tempo melhor e o tempo do vírus[10].
 
“Nunca achei São Paulo uma cidade feia e, sim, uma cidade selvagem (…), indómita”, anotou Claude Lévi-Strauss[11] nos Tristes Trópicos. Fundada pelos jesuítas por volta de 1554, a pequena aldeia foi a primeira colônia portuguesa a certa distancia do litoral. Rodeada por um grupo de colinas cercadas pelo rio Tietê e seus afluentes, o Pinheiros e o Tamanduatei, a futura cidade era situada num nicho estratégico ideal para a catequese, mas provaria ser o próprio inferno para viver. As febres, pestilências e enchentes periódicas levaram seus moradores a uma existência precária até o boom cafeeiro entre 1870 e 1920, quando o Estado de São Paulo chegou a controlar 70% do mercado mundial de café. A mudança foi enorme: sumiu praticamente tudo o que sobrava da antiga aldeia colonial para dar lugar a um urbanismo sofisticado de inspiração européia: AEstação da Luz, imitação de Paddington Station, O Teatro Municipal (neo-renascentismo italiano), o Museu Histórico de Ipiranga (neoclássico francês). A cumplicidade de proprietários, autoridades e especuladores permitiu que uma única companhia, The City of São Paulo Improvements, com sede em Londres, controlasse grande parte dos terrenos disponíveis[12]. Um pesadelo tecnocrático caiu sobre São Paulo e a paisagem bucólica dos jesuítas, com suas colinas, seus rios, lagos e vales por onde serpenteava o Tietê deu lugar a um cenário de concreto e asfalto.
A febre é uma constante na história desta cidade: ao paludismo das origens seguiu a febre da especulação e, no romance de Caio Fernando Abreu, a AIDS. Além do narrador, o único elo de ligação entre os pequenos fragmentos que compõem o universo urbano, é o vírus[13]. O emblema da cidade – dois ramos de café ou a locomotiva da modernidade – dão lugar a uma doença invisível e mortal. A casa do protagonista personifica esta maldição: no primeiro andar, cebola frita, mijo de gato – as velhinhas que vêem televisão o tempo todo. No segundo andar, cheiro de suor e preservativos usados – os dois rapazes argentinos que fazem michê pelos jornais e, no último andar, o cheiro enjoativo a defumação, o apartamento da vizinha que joga búzios. O cenário do romance se reduz a uma área cêntrica em redor da Praça da RepúblicaLargo do Arouche, Avenida São João, Avenida Nove de Julho Boca do Lixo, o clássico gueto gay da cidade descrito por Néstor Perlongher[14] com duas saídas para fora: Morumbi, o bairro residencial dos ricos, e a Freguesia do Ó, a casa de Márcia F., filha de Dulce Veiga e de sua banda de rock, as Vaginas Dentatas.
A febre, diz Thomas Mann na Montanha mágica[15], é uma manifestação cheia de contradições, um fenômeno estranho, situado numa zona intermédia entre o espírito e a natureza. Enquanto estamos deitados, envolvidos num sudário, o sangue corre veloz pelas veias, o coração palpita com fúria e na mente afloram visões alucinantes. A febre, continua Thomas Mann, aproxima dor e prazer. Estas manifestações tumultuosas estranhamente se assemelham a certas formas medonhas do amor, às deformações dolorosas da libido. Existe uma analogia entre o ataque de febre e a perversão amorosa. Ora bem, nas grandes cidades a febre tem seu espaço privilegiado: trata-se do parque da cidade. Num universo marcado pela fúria das novidades, o parque parece mostrar o contrário, uma ansia de preservação: aqui encontramos estátuas que lembram as glórias dos heróis nacionais, templos gregos e romanos, quiosques renascentistas, tudo reduzido a peças de museu. Arquitetos e paisagistas não fazem mais do que dar forma à nostalgia da cidade. A noite, porém, irrompe a febre urbana. O habitante da cidade não tem escolha. Feito Narciso na sua fonte, ele é arrastado pelo espelho noturno do parque que se estende como uma manta opaca sobre a febre insanável[16].
A visão alterada pela doença domina o jornalista-narrador no romance de Caio Fernando Abreu. Contaminado pelo seu ex-amante, o protagonista vagueia pelo centro da cidade e tem visões repentinas da cantora Dulce Veiga no Parque do Ibirapuera que funcionam como epifanias no sentido joyceano – revelações súbitas que fazem avançar a ação. Assim, neste romance aparecem as três formas de percepção dupla (re-perception) de Philip Fisher[17]: a dupla visão temporal (Anos ’60/Anos ’80), as epifanias joyceanas e a visão alterada pela doença. Mas não é tudo. Caio era um escritor exigente e não se limitava a esgotar os recursos clássicos do romance urbano. Para traçar o panorama noturno e soturno de São Paulo faltava um termo de comparação. Este termo de comparação será a Londres vitoriana de Virginia Woolf.
 
Alfazema e canção cigana: uma paixão por Virgínia Woolf
 
Well, agora a tarde ficará cada vez mais fria, e enquanto a bruma sobe do rio Ouse, ela vai acender a lareira e preparar um chá, talvez Earl Grey, em bules e xícaras de porcelana com delicadas guirlandas de flores campestres, para esperar Roger e Lytton. Depois, quando já estivermos na segunda ou terceira chávena, chegará o pobre Leonard, carregado de provas das novas edições da Hogarth. E pela noite adentro, sem dar muita atenção ao boletim dos bombardeios transmitidos pela BBC, ficaremos lendo em voz alta, encantados, os novos poemas de Eliot (…). Cuidado – avisei. – Não vá encher os bolsos de pedras e entrar no Tietê”[18].
 
Acompanhado pelo motorista de táxi, o jornalista-narrador se aventura dando voltas e voltas até encontrar um pequeno sobrado no alto da Freguesia do Ó, uma espécie de cidade do interior, com uma igreja e meninos jogando bola. O único elemento destoante é o filete de pus do Tietê. A casa de Márcia F. é de dois andares, uma divisão tão radical que nem parece maluca. No andar de baixo, Inglaterra, começo do século, flores desmaiadas, chá e simpatia. No andar de cima, rock, droga e fumaça, o final envenenado do mesmo século. Patrícia, amiga de Márcia F., aparece como a encarnação de Virginia Woolf, levando The voyage out debaixo do braço: “As usual in the evening, single cries and single bells became audible rising from beneath[19]. Os tais gritos e sinos isolados subindo do Ouse/Tietê poderiam parecer simples alusão literária, mas não é o caso aqui. Trata-se de uma homenagem a Virginia Woolf, escritora muito admirada por Caio Fernando Abreu.
A cidade de Londres era, por volta do ano 1900, a maior metrópole do mundo com pelo menos seis milhões de habitantes, centro de um império que dominava a quinta parte da superfície do planeta e a quarta parte da população mundial. Na história do Ocidente, uma só cidade era comparável à Londres finissecular: a Roma do imperador Adriano (117-138). O final do Império romano decadente, assaltado por forças inimigas de dentro e de fora era um dos pesadelos constantes na era vitoriana. Ao ser comparada constantemente com a Sodoma e Gomorra bíblicas, a capital inglesa era relacionada com um texto fundamental da tradição cristã: o Apocalipse. O crescimento da metrópole e do império, longe de ser encarado como um fenômeno natural, era visto como uma espécie de cancer, o crescimento espantoso de um cogumelo maldito. E, em vez de produzir a figura do flaneur baudelairiano, a Londres finissecular deu origem à sua contrafigura paranóica, o drifter. Ao passo que o flaneur olhava com deleite para os produtos do império francês de ultramar, para o difter, a experiência urbana era de puro terror: o império, em vez de produzir deleite, engolia-o com a voracidade de um monstro, numa visão apenas camuflada de canibalismo. Além disto, a Londres vitoriana carecia de vistas panoramicas e apresentava apenas perspectivas subterraneas (tunnel visions). O drifter da era vitoriana era um sujeito fragmentado, cujos objetos de desejo viravam objetos de horror. Ansioso, ele se lançava numa procura frenética de prazeres e acabava num atoleiro existencial[20]. É neste contexto que se inscreve a narrativa de Virginia Woolf. Tradicionalmente, o observador da cidade, tanto o flaneur como o drifter, era uma figura masculina. Por volta de 1900, o acesso das mulheres à metrópole moderna aumentou notavelmente e a própria Virginia Woolf era umastreetwalker incansável, vagueando pelas ruas londrinas e captando suas músicas particulares: ciganas apregoando alfazema; canções de soldados e óperas clássicas saindo de um realejo ou acordeão de rua[21]. Virginia Woolf modificou o velho esquema indivíduo vs. cidade ao adotar uma série triangular onde as personagens se criavam a si mesmas e eram plasmadas pela sua percepção da cidade. Assim, no quarto romance de Virginia Wollf, Mrs. Dalloway, deparamos com o triangulo Clarissa-Septimus Smith-Evans. A perspectiva de Clarissa, mulher da alta sociedade londrina, se contrapõe à de um rapaz jovem, poeta frustrado, traumatizado pela Primeira Guerra Mundial, Septimus Smith.Septimus presta serviço militar com distinção, mas é perseguido pela recordação de uma figura misteriosa chamada Evans, seu superior hierárquico, morto em combate. A paixão secreta de Septimus Smith pelo soldado morto e o pesadelo do camarada coberto de sangue levam o infeliz ao suicídio[22]. O trianguloClarissa Dalloway-Septimus Smith-Evans apresenta uma analogia curiosa com o romance de Caio Fernando Abreu: a Clarissa, mulher cinqüentona arranjando flores para uma festa de sociedade corresponderia no romance de Caio a própria Dulce envelhecida e de cabelos grisalhos, depositária dos valores da contracultura brasileira dos anos sessenta. A Septimus fascinado por Evans corresponderia o jornalista narrador, secretamente apaixonado por Pedro, seu ex-amante e anjo da morte que o matou duas vezes: ao abandoná-lo e ao contaminá-lo. O romanceMrs. Dalloway esconde um jardim. Suas personagens constantemente falam de rosas, as quais desempenham o valor de símbolos e emblemas de decoração. No romance de Caio, a casa da banda de rock também esconde um jardim no quintal e o protagonista se arrepende de não ter trazido rosas. Mas ele não morrerá como Septimus Smith. A sua será uma morte simbólica, no longínquo Amazonas, fora da Grande Babilônia, seguida de uma ressurreição sob o signo do Santo Daime.
 
Uma redenção pelo Santo Daime?
 
Dulce Veiga é um livro muito realista. A narrativa é cheia de referências diretas à realidade. Eu pensava numa casa na Freguesia do Ó, ia à Freguesia do Ó e procurava a casa. Tinha de vê-la antes de escrever. Mas a realidade que Dulce Veiga mostra é aterrorizante e louca. É um espelho talvez nítido demais do Brasil”, confessa Caio numa entrevista[23] e continua: “E no desfecho, para complicar, eu dou um salto inesperado para um universo mítico. O leitor, se puder, vai entender então que Dulce está ligada ao Santo Daime e isso provocará um choque violento porque, provavelmente, ele estava lendo o livro como um romance policial”.
 
O romance não acaba com a queda da Grande Babilônia, mas com uma promessa de redenção, precedida por uma morte simbólica. Para sair do inferno urbano, o narrador tem que enfrentar a culpa num espaço infernal, num cortiço do Bom Retiro onde vive enclausurado o ex-amante de Dulce Veiga, enlouquecido pelas torturas da ditadura. O narrador tem que beijar a boca de Saul para escapar, sair da Babilônia infernal.
Durante a época em que escreveu Onde andará Dulce Veiga?, Caio Fernando Abreu estava ligado ao Céu do Mapiá, um centro daimista situado nas margens do igarapé Mapiá, entre Boca do Acre (AM) e Pauini (AM). O ser humano, para os daimistas, consta de dois elementos, aparelho e espírito, que representam, respectivamente, mundo material e mundo espiritual. O homem carrega consigo uma bagagem, chamada carma, feita de conflitos não resolvidos e situações dramáticas enfrentadas. Ao estar submetido ao carma, o indivíduo luta com forças que desconhece e procura desesperadamente compartilhar momentos com aqueles que ama. É exatamente a situação do narrador-protagonista, secretamente apaixonado por Pedro, seu ex-amante, e que ressente a própria vida como um monte de entulho onde é preciso fazer uma faxina. De fato, esta faxina espiritual será feita pelo copão de daime que lhe oferecerá Dulce Veiga. Na crença daimista, este copão, fabricado ritualmente com o cipó jagube (Banisteriopsis caapi) e com as folhas da rainha (Psychotria viridis), tem a virtude de descarregar o carma e abrir o caminho para resgatar a memória encoberta[24]. O protagonista realiza um ritual de purificação, fundindo seu corpo com o tronco de uma árvore e renasce para uma nova vida.
Sob o signo do Santo Daime, o protagonista cumpre um ciclo completo de iniciação: primeiro o afastamento do espaço originário, depois a morte ritual, a ressurreição e, no final, o regresso a São Paulo. Nem falta o talismã característico dos romances de iniciação: trata-se de um labirinto em forma de uma caixinha com uma gota de mercúrio que o protagonista deve colocar no meio. Uma vez superadas as provas, ele verifica satisfeito: “Então, de repente, ela estava lá. No centro, eu conseguira”[25]. Uma vez completada a iniciação, o protagonista recupera seu nome: “Toda de branco, Dulce Veiga estava parada na porta da casa (…). Ela ergueu o braço direito para o céu, a mão fechada, apenas o indicador apontando para o alto, feito seta. Depois gritou alguma coisa que se esfiapou no ar da manhã. Parecia meu nome. Bonito, era meu nome. E eu comecei a cantar”[26].

* * *

 
Paul Ricoeur, no seu ensaio sobre arquitetura e narrativa[27], traça um paralelo entre o afã de construir prédios e armar textos. Logo de início, tudo parece separar construção e escrita: ao passo que a primeira se situa no espaço, a segunda se realiza no tempo. A narrativa supõe, segundo Paul Ricoeur, uma tentativa de organizar fragmentos desconexos num todo articulado. Paralelamente, a arquitetura tentaria organizar o espaço num projeto coerente. Nos dois casos, o objetivo é o mesmo: percorrer a trilha do caos ao cosmos, rumo à meta final, à legibilidade do texto e do espaço. Ora bem, nas cidades de hoje esta legibilidade está gravemente comprometida. Ao passo que na Europa as guerras mundiais destruíram os centros históricos, nas megalópoles brasileiras a fúria demolidora da burguesia criou uma Babel cada vez mais sofisticada, fazendo e desfazendo suas torres, trazendo em seu emblema o signo da destruição. É neste universo apocalíptico que se inscreve Caio Fernando Abreu com seu romance Onde andará Dulce Veiga?, uma estilização heróica do espaço insuportável.
 
 

 


[1] Calvino, Italo. As cidades invisíveis. Trad. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 138-139.
[2] Canevacci, Massimo. La città polifonica: saggio sull’antropologia della comunicazione urbana. Roma: Edizioni SEAM, 1993, p. 14-15. (Teoria Cultura Comunicazione; 3)
[3] Abreu, Caio Fernando. Cartas. Org. Italo Moriconi. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.
[4] A Fundação Maurício Sirotzky Sobrinho, arquivo do jornal Zero Hora, não tem índices para os anos 1960 e será, portanto, praticamente impossível achar estas crônicas. Caio não guardou recortes de jornal no seu acervo pessoal, preservado na Fundação Casa de Rui Barbosa.
[5] Abreu, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? Um romance B. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
[6] Ibidem, p. 124-125.
[7] Howe, Irving. “The City in Literature”. Commentary 51 (1971), p. 61-68.
[8] Arenas, Fernando. “Writing After Paradise and Before a Possible Dream: Brazil’s Caio Fernando Abreu”, Luso-Brazilian Review 36 (1999), n°. 2, p. 13-21.
[9] Pike, Burton. The Image of the City in Modern Literature. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1981, pp. 11-13.
[10] Arenas, Fernando. “Small Epiphanies in the Night of the World: the Writing of Caio Fernando Abreu”. In: Lusosex. Gender and Sexuality in the Portuguese-Speaking World. Ed. by Susan Canty Quinlan and Fernando Arenas. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2002, p. 235-257.
[11] Lévi-Strauss, Claude. Traurige Tropen. Übs. von Eva Moldenhauer. 11aed. Frankfurt-am- Main: Suhrkamp, 1998, p.89. (Suhrkamp Taschenbuch Wissenschaft; 240).
[12] Sevcenko, Nicolau. „São Paulo: un laboratorio cultural sin fronteras”,Revista de Occidente n° 174 (1995), p. 7-36.
[13] Bessa, Marcelo Secron. Histórias positivas: a literatura (des)construindo a aids. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 109-112.
[14] Perlongher, Néstor. El negocio del deseo: la prostitución masculina en San Pablo. Buenos Aires: Paidós, 1999, p. 136-137 (mapa).
[15] Mann, Thomas. Der Zauberberg: Roman. 12a ed. Frankfurt-am-Main: Fischer Taschenbuch Verlag, 1999, pp. 370-395. Versão brasileira: A montanha mágica. Trad. Herbert Caro. São Paulo: Círculo do Livro, 1982, p. 324-346.
[16] Rella, Franco. “Al termine della notte”. In: Metamorfosi: immagini del pensiero. Milano: Feltrinelli, 1984, p. 72-82.
[17] Fisher, Philip. “City Matters: City Minds. Die Poetik der Großstadt in der modernen Literatur”. In: Die Unwirklichkeit der Städte: Großstadtdarstellungen zwischen Moderne und Postmoderne. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt Taschenbuch Verlag, 1988, p. 106-128.
[18] Abreu, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? Um romance B. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 88.
[19] Ibidem. Cf. Woolf, Virginia. The voyage out. London: Hogarth, 1975, p. 247.
[20] Warwick, Alexandra. “Lost cities: London’s apocalypse”. In: Spectral Readings: Towards a Gothic Geography. Ed. by Glennis Byron and David Punter. London: St. Martin’s Press, 1999, p. 73-87.
[21] Brewster, Dorothy. Virginia Woolf’s London. London: Allen & Unwin, 1959, p. 19-20.
[22] Lord, Catherine M. “The Frames of Septimus Smith: Through Twenty Four Hours in the City of Mrs. Dalloway, 1923, and of Millennial London: Art is a Shocking Experience”. In: Parallax 5 (1999), n° 3, p. 36-46.
[23] Castello, José. “Caio Fernando Abreu vive surto de criação”. In: O Estado de São Paulo, 9/12/1995, Cad. 2, p. 3-4.
[24] Groisman, Alberto. Eu venho da floresta: um estudo sobre o contexto simbólico do uso do Santo Daime. Florianópolis (SC): Editora da UFSC, 1999.
[25] Abreu, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? Um romance B. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 180.
[26] Ibidem, p. 213.
[27] Ricoeur, Paul. “Architecture et narrativité”, Urbanisme , n° 303 (1998), p. 44-51.




Bio fornecida pelo palestrante.

A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE – Eliane Maria de Oliveira Giacon




Resumo:
No romance Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro, define o povo brasileiro através da essência da brasilidade, que não depende de uma etnia e sim do ato de aceitar ou não por parte do indivíduo as marcas que o aproximam da brasilidade. Brasilidade é, antes de tudo, uma questão de discurso, cuja fundamentação pode se observada nas apropriações de tipos do povo brasileiro, que João Ubaldo incorpora na sua narrativa. PALAVRAS-CHAVES: brasileiro – povo – discurso ABSTRACT: In his novel Viva o povo brasileiro (1984) João Ubaldo defines the Brazilian people as an essence, i.d., as a Brazilian identity. The latter does not depend on race – on being white European or on being African black – but on the act of individual acceptance on the part of the individual of the marks that approach her/him to this “Brazilianship.” Such a “Brazilianship” consists of a discourse which is based on the appropriations of the different physical types existing in Brazil, and which João Ubaldo introduces in his narrative. KEY-WORDS: Brazilian – people – speech
Texto:

 

A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE

 

Eliane Maria de Oliveira Giacon

 
1 –O romance Viva O Povo Brasileiro [1]e a identidade nacional
 
A identidade é uma marca registrada em cada indivíduo. Uma marca que diferencia alguém em relação a outras pessoas. E para alguém se distingui de outro necessita nascer com características específicas ou ainda ele pode criar situações, durante sua vida, que o façam diferente em relação a algum outro biótipo ou filosofia de vida.
Assim, um indivíduo nasce moreno com olhos escuros, sobrancelha larga, lábios acentuados a pele macia. Este biótipo o diferencia dos outros e o aproxima de um determinado grupo. E durante a sua vida ele cria condições de ser trabalhador, estudioso e alegre, logo esse indivíduo poderá se identificar com grupos diversos como a família, o ambiente de trabalho e o país onde vive.
E quanto à essência da identidade? Ela não é individual e sim coletiva. Logo, as pessoas de um grupo precisam ter o mesmo biótipo e a mesma filosofia de vida para se identificarem em relação a grupos diferentes.A identidade vista desta forma é o que diferencia um grupo em relação a outro e o aproxima indivíduos que encontram algo em comum.
A identidade é um laço que une o indivíduo ao seu grupo e por sua vez o diferencia de grupos diversos. Assim há identidade entre associação de bairro, grêmios, gangues e toda manifestação social na qual o homem está inserido.
E se este grupo ocupasse um mesmo território sob um mesmo estado e sob um regime político que o agrupasse a outros. Neste caso a identidade seria nacional.E se os indivíduos não iguais num mesmo território, pois os seres humanos são diferentes em biótipo e caráter. Estes grupos são compostos de biotipos e caracteres diferentes num mesmo território. Poder-se-ia dizer que há identidade nacional neste país?  Neste caso o que os identifica não é somente o fator étnico, mas sim o cultural que faz com que indivíduos diferentes adotem ou não determinados padrões de ser e de agir em sociedade.
A etnia e o fator cultural determinam a formação de determinadas denominações classificando os povos em italianos, franceses, alemães, mexicanos e brasileiros. A identidade nacional destes últimos é algo bem singular e fez com que um povo-nação abrigasse um estado político, no qual o processo de mestiçagem os levou a formarem uma macroetnia de brasileiros mestiços resultantes de diversos processos de miscigenação. Estes processos não começaram aqui no Brasil, mas  desde a Península Ibérica, pois os nossos colonizadores devido a proximidade com a África e com a Ásia não trouxeram pra cá um elemento branco puro, mas sim um  fruto de séculos de miscigenação.
No Brasil este processo se concretizou com índios, nórdicos (holandeses) e negros. No século XIX estava configurado o biótipo do brasileiro.
Esse processo de miscigenação com base nos séculos XVII e no XIX está presente no romance, porque este traz como temática a evolução deste povo e a identidade nacional, que fez com que um grupo de mestiços se cruzasse tanto no plano étnico quanto no espiritual, através da sucessivas encarnações da alminha brasileira.
Os três grupos discutem a identidade nacional através de discursos que vão do catedrático até o popular. Todos tentam demonstrar o que e é povo brasileiro tanto exortando as qualidades positivas desse povo quanto o descrevendo como a escória do mundo.
A questão da identidade nacional neste romance é discutida com certo grau de ironia em alguns textos se contrapondo ao tom sério da narrativa em outros. Assim, o narrador da obra Viva o povo brasileiro dessacraliza certas idéias sobre a brasilidade, colocando a fala dos personagens em ambientes deteriorados. Um exemplo ocorre na reunião da família de Ioiô Lavínio e os seus filhos. Eles discutem sobre a identidade do povo brasileiro a partir dos efeitos da colonização ibérica.
 
– Eu não sou careta! Eu não sou velho careta. Se há um velho que não pode ser chamado de careta, sou eu.
(…).
– Não é nada disso, paizão… Mas a Guiana Holandesa não foi colonizada pelos holandeses?…
– … Nada desse papo de inferioridade, isso não tá com nada. Tem que sacar a estrutura.
– Você conhece a história de Deus criando o mundo e dando tudo ao Brasil e aí um anjo assistente estranha e aí Deus diz que ele espere até ver o povo filhadap.., o povo safado que ele ia botar aqui? Disse Domingos pondo o braço no ombro da cunhada e notando que ela estava sem sutiã, com os peitinhos arrebitados por baixo da bata encardida.
–  (Ioiô Lavínio mais a frente diz)… você não tem um baseadozinho aí, não? (VPB, p. 625).
 
A identidade neste caso é discutida a partir da colonização. Para alguns se não fôssemos colonizados por iberos seríamos melhores, outros acham que não. Outros ainda consideram que os iberos tinham pior estrutura que os nórdicos.
A cena do cunhado bolinando a cunhadinha referenda a classificação que o autor empresta ao povo brasileiro, pois se este povo era safado, ele se identificava com este povo pelos seus atos.
As outras discussões no romance ocorrem através da inserção de textos teóricos sobre a identidade nacional em pontos estratégicos, a fim de que estes junto ao enredo fictício provoquem no leitor uma reação de estranhamento que fará com que ele analise a questão da identidade nacional e se identifique ou não com o povo brasileiro.
Uma discussão entre Patrício Macário e Bonifácio Odulfo a respeito das elites que governam o Brasil e o povo brasileiro no momento em que eles estão reatando a amizade após anos de afastamento será exposta abaixo para podermos observar as diferentes posições dos dois irmãos.
 
– …Você não conhece nação forte sem um governo forte, não forte em que o povinho, os desqualificados, tenham voz ativa.
– A que povinho você se refere (responde Patrício)? Para você todos são povinho, exceto quatro ou cinco gatos pingados que você julga estarem a sua altura. Que povinho. Porque todos estes que você se refere com desprezo são o povo, brasileiro (VPB, p. 584).
 
Quando Maria da Fé aprisiona Patrício Macário logo após a morte de Leléu ela lhe explica o que é povo brasileiro e nega a autoridade da República, pois povo segundo ela:
 
– O povo brasileiro não deve nada ninguém, tenente – disse ela. – Ao povo é que vocês devem, sempre deveram, sempre continuarão devendo. (…) o povo brasileiro somos nós (…) nós é que somos vocês, vocês não são nada sem nós (…) O poder do povo existe, ele persistirá (Ver VPB, p. 563-55).
 
 
Os dois textos se opõem, porque pertencem a classes sociais diferentes. Um é da elite e outro do povo; contudo, eles têm a mesma temática, pois explicam que o brasileiro é uma identidade pronta e as microetnias e as elites econômicas estão isoladas e não representam a nacionalidade brasileira.
Segundo Maria da Fé,  Nós somos vocês. Com estas palavras ela quer dizer que aqueles que se dizem os brasileiros na verdade não o são, enquanto o povinho de Bonifácio Odulfo é o povo brasileiro a quem por direito de identidade nacional deve ser considerado um brasileiro.
Após a leitura desta obra, podemos observar que o gênero novo romance histórico é uma leitura agradável, além de discutir assuntos que interessam tanto à história quanto à literatura. Nesta obra, além destes aspectos, abre-se uma nova perspectiva do novo romance histórico de pôr em questão as problemáticas sociológicas de um povo.
 
2 – Quem é o povo brasileiro?
 
Para responder a esta pergunta, que é aparentemente tão simples, foram gastas muitas horas de estudo e de leitura por antropólogos, historiadores, sociólogos e romancistas. Esses pensadores lançaram mão e ainda se utilizam de fontes históricas, de textos literários, da etnia, da sociologia e da cultura brasileira a fim de responder a esta pergunta. As fontes históricas servem de linha mestra para situar em qual época as pessoas começaram a se misturar e como e em quais circunstâncias essa miscigenação ocorreu.
A sociologia auxilia esta resposta com dados a respeito da formação da sociedade brasileira após o cruzamento entre os elementos branco, negro e índio, desde colonização até os dias de hoje. Os textos literários das escolas dos primeiros séculos: Literatura Informativa e Barroco, fornecem dados como os cronistas e poetas da época viam a miscigenação
A cultura do povo brasileiro é um espelho da miscigenação étnica. Através dela é possível verificar como a carga cultural das matrizes étnicas dos brasileiros: índios, brancos e negros permanecem até hoje na cultura e no modo de ser do brasileiro. Além disso, observa-se o ato antropofágico da cultura brasileira, que deglutiu os costumes de seus formadores e produziu, em seu meio, características culturais e um modo de ser do brasileiro. Esse modo de ser em composto com um gosto pela música, um certo grau de malandragem, uma adaptabilidade extrema e religiosidade mística.
Respondendo a essa questão, retiramos três citações dos seguintes livros: de um antropólogo, Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995); de um historiador, Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1947), e do próprio romancista aqui examinado, João Ubaldo Ribeiro, Viva povo brasileiro (1984).
 
 
Ocorreu o extraordinário, nos fizemos um povo-nação, englobando todas aquelas províncias ecológicas, numa só entidade cívica e política. (…) Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variados contingentes humanos? A fusão de todos eles em nós já se completou, está em curso, ou jamais se completará? Estamos condenados a ser para sempre um povo multicolorido no plano racial e cultural? Haverá alguma característica distintiva dos brasileiros como povo, feito de gente vinda de toda parte? Todas essa argüições têm respostas claras encontradas na ação concreta. (…) Nós brasileiros… somos um povo em ser , impedindo de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem nunca foi crime… Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova entidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na busca de seu destino… de fato uma nova romanidade, uma nova romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro.[2]
A experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas (…). No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecera alguns dos nossos patriotas, é que ainda nos associa a península Ibérica, a Portugal (…) Podemos dizer que dela nos veio a forma atual de nossa cultura: o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma.[3]
 
(…) dizer alguma coisa sobre o povo brasileiro (…), pois que aprendera muito com o povo brasileiro, sabia o povo brasileiro, pois aprendera muito com o povo brasileiro (disse Patrício Macário) (…) o povo brasileiro não está só. Não porque tenha aliados, pois só quem tem aliados são os governantes…mas o Espírito do homem também existe (…) o povo tem uma  cabeça que transcende a cabeça dos indivíduos, que não poderá ser exterminado (…) (VPB, p. 654).
 
Se o povo brasileiro é uma mistura de raças regida pela ninguendade, ou se no povo brasileiro prevalece uma etnia, a ibérica, ou se por fim o povo brasileiro é regido pelo Espírito do Homem não podemos selecionar apenas uma dessa idéias. Mas podemos analisar estas três idéias e a partir delas tentam definir o povo brasileiro.
A terceira definição, de  João Ubaldo, se opõe às outras três. Ao primeiro caso, porque ele tenta provar que o povo brasileiro não vivia na ninguendade sem saber o que era, mas sim ciente de si através de duas formas mística: uma a canastra que unifica a Irmandade do Povo Brasileira e outra a alminha brasileira. A etnia negra e índia unem as duas formas místicas, e assim são capazes de encontrar os caminhos da alguendade, no qual encontram forças para serem o povo brasileiro.
O povo brasileiro, de forma mítica ou real, é um campo de forças antagônicas que se distendem ao extremo sem, contudo, se separarem, pois ser brasileiro não é uma definição de etnia. Por não ser uma questão apenas de etnia, ocorre que no Brasil muitos descendentes de povos asiáticos ou europeus têm a necessidade de dizerem que não são brasileiros. Apesar de todos os seus esforços, eles não conseguiram impedir a tonalidade brasileira que os tinge. Embora de olhos puxados ou de cabelos brancos com espigas de milho, eles são brasileiros e não retiraram essa marca deles, pois ser brasileiro não é apenas um registro de nascimento, mas sim uma forma de ver o mundo de baixo para cima.
Essa forma cria indivíduos de duas categorias: uma dos que se acomodam em ser massa de manobra e outra que luta para vencer esta ponte que os separa dos mais favorecidos seja pela malandragem ou pela luta ideológica e política. Portanto ser brasileiro não é uma questão de quere ou não ser, mas de existir dentro de um contexto de brasilidade que unifica as pessoas.
 
3 – A identidade nacional via paródia
 
O narrador de Viva o povo brasileiro discute temas sobre a identidade nacional utilizando a paródia. Se a paródia é a produção de um texto baseado em um outro que ele nega, logo os temas nesta obra funcionam como uma grande paródia da brasilidade.   Enquanto ninguendade é uma forma do brasileiro se identificar com o mundo por não se definir enquanto povo, o romance Viva o povo brasileiro (1984) demonstra que o povo brasileiro, através da Irmandade e da Canastra no século XIX, já tinha consciência de sua existência política e cultural.
Outra forma ocorre com a abordagem de Darcy Ribeiro quando este afirma que os homens negros e índios do Brasil, durante a fase colonial não tinham mulher ao seu alcance. O romance parodia tal afirmação, pois Capiroba, por falta de uma, tinha três. Turíbio Cafubá era reprodutor de muitas mulheres, entre elas Roxinha, com quem tivera Vevé, e isso quando ele já havia passado dos 60 anos. O romance, portanto, parodia vários temas da identidade. A partir daqui citaremos alguns que estão no romance e se referem aos outros dois livros já citados na parte 2.
 
O indivíduo isolado – (…) pode adaptar-se a tais regiões, mas a raça, essa decisivamente não; (…) ao contrário do que sucedeu com os holandeses, o português entrou em contato íntimo e mais freqüente com a população de cor.[4]
 
No romance, o indivíduo Zernike não se adapta ao meio tropical e amaldiçoa a companhia de Sckopp, que o trouxera para o Brasil. Ele estava sozinho com Ejikman e não se adaptou ao meio hostil. E dizia:  “(...) como engajados, se fomos abandonados aqui à nossa sorte (…)  Banckert zarpou com todos os seus navios? Engajados em quê, em guarnecer esta nesga do inferno para a Companhia” (VPB, p. 46).
Quanto à formação do povo brasileiro e sua identidade nacional, o narrador de Viva o povo brasileiro,  além de parodiar textos como acontece com este acima, ele também parodia textos diversos dentro da própria obra dependendo de quem fala. Hamlet, por exemplo, diz que o Brasil “jamais se tornará um país de negros, pardos e bugres, não se transformará num valhacouto de inferiores” (VPB, p. 475). Numa outra parte mais a frente Hamlet o amaldiçoa a esposa por ela não ter seguido a receita de passar cuspe, em jejum todos os dias no nariz do filho Patrício Macário para ele  ficar com o nariz fino e não o chato de negros. Para a desgraça de Hamlet a mestiçagem está em sua casa.
Em outras partes do texto o narrador parodia os temas quanto a identidade nacional produzindo um texto que decompõe outros textos, cujos temas são a identidade nacional. Isto é feito de forma fragmentada, de acordo com o tema abordado num determinado capítulo. Os personagens são articulados a fim de exporem as idéias não só da época em que vivem como de outros séculos quanto à brasilidade. Assim no século XVII Capiroba através de seus atos antropofagia não só a carne humana, mas também as ideais que virão no futuro sobre a identidade do brasileiro.
Ele tem consciência de sua superioridade em relação ao homem branco. Por isso o considera um animal e assim o trata. Em determinado momento ele descobre que os sons produzidos por aqueles bichos podem ser sons de pessoas inteligentes.
A identidade nacional é demonstrada pelo narrador através do romance quando este sublinha as falas dos personagens através dos seus atos e de sua história, de tal forma que todos eles se identifiquem direta ou indiretamente com o povo brasileiro. Não há problema no fato de que o personagem não se identifique na obra com o povo brasileiro, pois o leitor o identifica no decorrer do enredo.
 
4 – A antropofagia via paródia
 
A paródia da antropofagia articula o ato de comer carne humana, a antropofagia literal com as outras antropofagias: a antropofagia étnica, a econômica, a lingüística, a cultural e a literária.
Essas variantes antropofágicas apresentadas em Viva o povo brasileiroconstituem uma forma de apresentar identidade nacional, porque a essência do brasileiro antropofagia o que está a sua volta. Após a deglutição o que sobre são partes de um todo que formam a identidade nacional do povo brasileiro.
A primeira antropofagia ocorre com Capiroba deglutindo a carne de um homem branco. Essa carne é comida por um elemento vindo da mistura de  uma índia e um negro. Esta antropofagia cultural se efetiva com a absorção das receitas de culinária ensinadas às mulheres pelos padres da Redução. Estas receitas sevem para as mulheres de Capiroba prepararem as iguarias com a carne dos padres.
A partir daí percebe-se que a antropofagia é um sistema autônomo. Sistema este que ao mesmo tempo em parece que um elemento está sendo absorvido por outro, na realidade é o outro que o consome. Um exemplo é a miscigenação entre a comida Sinique e o comedor Vu, pois ele que seria comida se cruza com ela e a principal característica dele: os olhos claros passam para as gerações futuras.
O texto abaixo mostra o encontro destes dois mundos e a assimilação da língua de Sinique por Capiroba.
 
– Eijkman, Okeman – falou quase sorrindo também e tentando imitar ao caboclo.
– Zernike, Zernike – falou, cutucando o peito com o indicador – Zernike!
– Aquimã, Sinique! – falou o caboclo triunfante, depois de uma pausa para pensar.
O holandês aprovou, baixando e levantando a cabeça com toda a força. O caboclo riu mais aberto e passou a indicar um e outro ritmamente, Aquimã, Sinique, Aquimã, Sinique, Aquimã…O holandês riu e as mulheres e as meninas riram, quase cantaram uma cantiga (VPB, p. 52).
 
 
A antropofagia neste texto ocorre com a língua, pois os nomes em holandês são deglutidos pelo caboclo, que ao assimilá-los os transforma em nomes diferentes pela sonoridade. Esta sonoridade produz um ritmo que parece uma cantiga. Há dois processos antropofágicos o lingüístico e o cultural, pois de nomes holandeses o brasileiro Capiroba consegue produzir não só outros nomes, mas também uma identidade cultural quanto à música. Outra assimilação cultural ocorre com Budião, quanto o mesmo assimila os costumes dos gaúchos, após lutar com eles na Guerra dos Farrapos. Assim ele passa a beber chimarrão e leva este costume para Itaparica.
Os diferentes tipos de antropofagia fazem parte de um contexto maior, no qual o narrador parodia a teoria da antropofagia modernista, pois ele demonstra que antes destes descobrirem a antropofagia, ela já existia na própria formação do brasileiro.
Segundo Hans Staden, a antropofagia não era executada como um ato de comer por fome, mas sim comer como forma de vingança. Portanto a vingança é a formula revolucionária da antropofagia da obra ubaldina que consome as pilastras da antropofagia oswaldiana demonstrando que a antropofagia é uma tendência natural. Um exemplo é que a primeira comida de Capiroba é o padre que o subjugou.
A antropofagia em Viva o povo brasileiro consome vários textos antropológicos e historiográficos produzidos para definir o povo brasileiro. Este processo antropofágico da criação literária é similar à paródia, pois pega um texto original, deglute-o e depois se opõe a ele. Em conseqüência o resultado é que nessa obra a produção de um texto acaba parodiando outro texto dentro do enredo. É uma sucessão de textos deglutindo textos.
Ao parodiar os textos internos e externos o narrador desta obra cria um espaço no qual antropofagia é estrutural, pois a realidade sócio-cultural das três famílias sofre um processo de assimilação do velho e de criação de uma nova forma de ser brasileiro nesse país. E para demonstrar este processo, o narrador utiliza a canastra, que vai engolindo o conhecimento e a história da Irmandade do povo brasileiro. No final do enredo a terra se abre e engole a canastra e tudo o que está ao seu redor, sobrando apenas o Espírito do Homem que é a idéia da identidade nacional do povo brasileiro.
A antropofagia paródica nesta obra somada aos recursos de carnavalização desmistifica a idéia de que os índios antropofagiavam o branco. E que o brasileiro é antropófago só pelo lado índio. Na verdade a antropofagia faz parte de todos os povos e todos eles para se formarem passaram por um período de deglutição, assimilação e acomodação das características étnicas, culturais, literárias, econômicas de povos que lhes deram origem. A antropofagia, portanto, é bilateral.
O narrador em Viva o povo brasileiro demonstra como a formação do povo brasileiro quanto a miscigenação ocorreu de forma igualitária quanto a carga genética, contudo a carga cultural prevaleceu a da mãe negra ou índia que criou as próximas gerações de acordo com seus valores. É ela a mulher que demarca seu território e se torna responsável pela formação da identidade nacional mestiça, crioula e religiosa do brasileiro.
 
5 – Síntese
 
O povo brasileiro, quem é ele? Segundo Darcy Ribeiro, seria um povo formado a partir da miscigenação entre índios e brancos, formando o mameluco, que por sua vez misturou-se com os negros. O negro, segundo ele, tinha sido destituído de sua terra e jogado numa terra estranha, onde ele procuraria a sua identidade, que perdera ao sair da África. Ele seria, destes elementos, o que mais incorporaria a procura de uma identidade nacional que o aproximasse desta nova terra.
O brasileiro, étnica e culturalmente, é a mistura de três raças que século XIX estava configurada. O branco europeu introduzido nos século XIX e XX funcionou não como fator de branqueamento da raça, mas sim foi um elemento que assimilou e assimila as outras culturas tanto dos outros brancos que para cá vieram como do brasileiro nato.
Ser brasileiro não é apenas uma questão de etnia e sim uma questão cultural. Um indivíduo torna-se brasileiro pela assimilação cultural e não apenas por nascer de uma etnia brasileira.
No romance Viva o povo brasileiro, a introdução de Patrício Macário ao povo brasileiro constitui um momento de revelação. No livro o narrador usa este instante da vida do personagem para demonstrar que ser brasileiro é uma questão sentir as coisas sem, contudo, vê-las. Dessa forma, a Irmandade do povo brasileiro é algo que intriga os personagens, pois eles fazem parte dela ao mesmo tempo buscam respostas para a sua existência.
A Irmandade do povo brasileiro é uma metáfora da identidade nacional criada pelo narrador para responder  aos que se perguntam o que é a identidade nacional do brasileiro e como essa  se diferencia da de outros povos. O narrador do romance, para responder quem é o brasileiro, cria uma personagem mítica: a alminha brasileira, que é a essência da brasilidade. Se esta essência é brasileira, logo o povo como um todo o é. Desta forma podemos dizer que o romance responde a questão que intriga antropólogos e historiadores, quanto ao que é o povo brasileiro a partir de uma visão antropofágica da formação do povo brasileiro.
O texto ficcional antropofagia os textos e as idéias destes estudiosos, bem como de outros produzindo um texto capaz de identificar o povo brasileiro através da tese defendida por João Ubaldo nesta obra. Para tanto, o narrador divide esta tese em 18 capítulos, que demonstram brasileiro sob  o véu da mestiçagem. Ao final desta obra não há um único personagem que não seja mestiço. E por mais que alguns personagens como Bonifácio Odulfo e Henriqueta queiram se descolar desta teia mestiça, jamais eles conseguem, pois há sempre um índio ou um negro na árvore genealógica do brasileiro.
O contingente humano de brasileiros no Brasil é formado por um grupo de elementos criolos, mazombos, mamelucos, cafuzos, enfim um aglomerado miscigenado que criou uma maneira de ser que é um pouco do ser Leléu, um pouco de  Maria da Fé, um pouco de Bonifácio Odulfo e um pouco de Macário. Esses tipos brasileiros  no romance se repetem reforçando a definição do povo brasileiro através deles. Assim Capiroba, Vu, Maria da Fé, Vevé, Stalin José são o Brasil revolucionário que sobrevive ao se identificam com o povo brasileiro. Este grupo está em oposição às elites formadas por personagens como Hamlet, Bonifácio Odulfo e Eulálio Henrique. Estes dois tipos embora antagônicos se completam na definição do brasileiro como uma etnia que vive numa luta entre as classes sociais, contudo têm em comum alguns traços quanto a maneira de ser do brasileiro.
A obra definiu o povo brasileiro através da essência da brasilidade. Essa não depende da etnia e sim de aceitar ou não por parte do indivíduo as marcas que o aproximam da brasilidade.
Quem quer se apossa dela e a utiliza com insígnia, quem não a quer a repele, contudo a essência do povo brasileiro o pega de alguma forma. Isto porque a brasilidade é cativante e atrativa mesmo para aqueles que a negam.
 
BIBLIOGRAFIA
 
BURKE, Peter. A escrita da História: novas perspectivas; tradução de Magda Lopes – São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1992.
LEENHARDT, Jacques. “A construção da identidade pessoal e social através da história e da literatura”. In: LEENHARDT, J.; PESAVENTO, S. J., orgs.Discurso histórico e narrativa literária. Campinas: UNICAMP, 1998, p 17-40.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Schwarcz, 2000.
RIBEIRO, João Ubaldo; Viva o povo brasileiro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1984.
 
 
 
 
 

 


[1] Todas as citações ao romance (1984)  serão feitas como VPB.
[2]  RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Schwarcz, 2000, p. 246, 273, 453.
[3] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5ª ed., São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 40.
[4] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5ª ed. São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 65.




Bio fornecida pelo palestrante.

DE ANTROPÓFAGOS E MAIRS ou O AMERÍNDIO BRASILEIRO NO IMAGINÁRIO FRANCÊS – Ligia Vassallo




DE ANTROPÓFAGOS E MAIRS

ou

O AMERÍNDIO BRASILEIRO NO IMAGINÁRIO FRANCÊS

Ligia Vassallo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Brasil

 
 
O encontro dos franceses – ou mairs – com os aborígenes brasileiros, no século XVI, está longe de ser um capítulo encerrado da era dos descobrimentos. Isto porque, ciclicamente e por motivos diversos, volta à tona o acontecimento que despertou vivas centelhas no imaginário daqueles europeus, de sorte que desde então aquele contato vem sendo vivificado pela literatura, como veremos, deixando perceber que esta arte tem podido atuar como o guardião da memória cultural de um acontecimento tão cheio de significações.
Nosso foco de atenção, por conseguinte, recai sobre o momento inicial da aproximação daqueles europeus – em especial normandos e bretões – com os ameríndios da região do Rio de Janeiro, em particular na área da baía de Guanabara, nas primeiras décadas do Quinhentos. Temos em mente a malograda tentativa de colonização conhecida como França Antártica e suas implicações contextuais.
É curioso constatar que aquele momento, que está na origem da versão moderna do mito do bom selvagem, tem gerado imagens constantemente atualizadas do primitivo homem americano, bem como novas leituras daquele encontro. As mais recentes podem talvez, de algum modo, estar relacionadas com as comemorações do quinto centenário da descoberta do Brasil. Trata-se, no caso, de duas obras romanescas, ambas premiadas em seus respectivos países: Meu querido canibal (2000), de Antonio Torres, e Rouge Brésil (2001), de Jean-Christophe Rufin. Como quer que seja, estas duas realizações – que não excluem outras interpretações – transportam para a contemporaneidade uma visão atual do conceito de selvagem.
A figura deste selvagem, cuja intensa migração entre a Europa e a América constitui um dos aspectos específicos das trocas culturais realizadas entre as duas margens do Atlantico, tem gerado por isso mesmo imagens em eco através do Oceano. É portanto um tema que pode ser analisado segundo a ótica das culturas cruzadas, tal como o propõe Mario Carelli. Assim como no poema de João Cabral de Melo Neto, em que “um galo sozinho não tece a manhã…”, para construir uma imagem é necessário entrelaçar fios de diferentes novelos culturais, cujo significado é dinamico e se transforma, no tempo e no espaço, pois de outro modo não há atualização do passado. Como tal processo ocorre em várias etapas, convém examiná-lo em seus desdobramentos.
 
O primeiro encontro: antropófagos e mairs
 
A ocupação da América não envolveu apenas portugueses e espanhóis, conforme supunha a distribuição feita pelo Papa Alexandre VI no famoso Tratado de Tordesilhas (1494). Do século XVI ao XVIII, durante todo o período colonial, o litoral brasileiro foi incessantemente assediado pelos franceses, do Sul ao Norte, em busca de comércio com aborígenes acolhedores e espaços não ocupados pelos portugueses, colocando assim em prática uma política do rei François I. É que este, por não aceitar a exclusão da França na partilha das terras americanas,estava longe de desencorajar os súditos que pretendiam “fazer a América” antes da época, o que provocou inúmeros contenciosos diplomáticos.
Sabe-se de várias expedições ao novo continente. Na América do Norte, Dante Verrazzano, Jacques Cartier e Roberval exploraram a costa leste do Canadá durante a primeira metade do século XVI. Quanto à América do Sul, porém, uma tradição oral bastante difundida mas jamais confirmada reza que desde 1488 onormando Jean Cousin teria atingido a embocadura do grande rio das Amazonas, chegando desse modo ao futuro Brasil, que só seria oficialmente descoberto em 1500.
Fora da lenda, constata-se uma primeira viagem às possessões lusitanas na América, empreendida de 1503 a 1505 por outro normando, Binot Palmier de Gonneville, capitão do navio L’Espoir, registrado na cidade de Honfleur, em cujo almirantado foi depositada a Relação Autêntica da viagem. O navegador teria chegado ao atual estado de Santa Catarina, próximo aos limites territoriais de Portugal e Espanha no Sul, e na viagem de regresso levou consigo o jovem indígena Essomeriq. Consta que em 1528 uma índia brasileira – Catarina Paraguaçu – teria sido batizada pela esposa de Jacques Cartier e mais tarde recebida pela rainha Catarina de Médicis. Segundo as pesquisas de Afonso Arinos de Melo Franco e de Leyla Perrone-Moisés, vários ameríndios foram para a França, mas nada se sabe de suas condições de vida nem de seus descendentes. Desse modo, enquanto vários indígenas eram retirados de seuhabitat junto com madeiras preciosas, macacos e papagaios, numerosos normandos e bretões, em contrapartida, resolviam espontaneamente permanecer na natureza.
Nos portos de Honfleur, Dieppe, Saint Malo ou Rouen florescia o comércio com o Brasil, território que estava na moda, como se comprova pelos motivos brasileiros na decoração de vários prédios. Esta voga ocasionou uma grande festa “brasileira” em Rouen, no começo de outubro de 1550, assistida pela alta nobreza. O espetáculo realizou-se ao ar livre, com um cenário realistareproduzindo a floresta, seus frutos e animais, cenas de corte e transporte da cobiçada madeira nobre, bem como atividades e lazeres dos silvícolas. Simulava um combate entre tribos, formadas por uns 50 índios autênticos e outros tantos marinheiros fantasiados, que se expressavam como verdadeiros nativos da América. O sucesso obtido atingiu o objetivo, que era convencer o rei a autorizar uma expedição ao Brasil; por outro lado, introduziu o costume de produzir espetáculos semelhantes em outras localidades francesas, sobretudo nas cerimônias de entrada de um nobre em uma cidade.
A expedição daí resultante foi a primeira de outras tentativas de ocupação territorial igualmente frustradas, distribuídas ao longo da costa durante dois séculos, tal como se depreende pela observação da toponímia e das lendas. A França Antártica teve o elevado patrocínio do Almirante Gaspar de Coligny e foi chefiada por Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1572), cavalheiro de Malta e vice-almirante hoje praticamente desconhecido, mas que em seu tempo foi um célebre diplomata e um qualificado homem do mar. O empreendimento se estabeleceu na baía de Guanabara, na ilhota Serigipe, hoje rebatizada com o nome de seu insigne ocupante europeu, que ali permaneceu apenas cerca de cinco anos, até 1560; mas os franceses também se instalaram no continente, umas poucas milhas marítimas quase ali em frente, na Praia do Flamengo, onde em 1556, às margens do rio Carioca, fundou-se Henriville, um aldeamento que chegou a ter cerca de 600 pessoas. Durou de 1556 a 1567, data da derrota pelos portugueses que, ao promover a expulsão dos intrusos, também fundavam a vila do Rio de Janeiro, em 1° de março de 1565, com o intuito de ocupar os sítios cobiçados, evitando assim outros visitantes indesejáveis. Ao mesmo tempo, os portugueses faziam uma cunha no território de seus tenazes opositores nativos, reunidos pelo cacique Cunhambebe na aliança indígena conhecida como Confederação dos Tamoios.
Esse embate primordial revestiu-se de uma grande força simbólica, porqueenvolvia dois campos nitidamente demarcados: a civilização e a barbárie, ou europeus versus indígenas, o que se traduzia pela luta entre franceses e portugueses – ou respectivamente mairs e perós – por meio de seus aliados ameríndios. Mas as vicissitudes internas ao grupo de Villegagnon geraram choques que fizeram prefigurar as guerras de religião entre protestantes e católicos, que ocorreram um pouco mais tarde no próprio continente europeu.
Daquela estada subsistem dois testemunhos conhecidos, que possuem grande valor etnográfico e documental, além de um caráter pioneiro. Consistem nas obras Les singularités de la France Antarctique (1558), do franciscano André Thévet, cosmógrafo do rei, e L’histoire d’un voyage à la terre du Brésil autrement dite Amérique (1578), do protestante Jean de Léry. Duas visões contrastam nesses textos, porque o erudito franciscano tenta enxergar o novo através de suas informações anteriores eivadas de cultura clássica, ao passo que Léry observa com olhos desarmados, ressaltando no entanto que a ferocidade e selvageria dos ameríndios é tanta que não adiantaria sequer tentar educá-los. Em compensação, julga-os muito mais francos e verdadeiros que muitos europeus. Talvez por causa dessas idéias sua reinserção na França, ao regressar, tenha sido tão complexa. Converge com ambos um depoimento ilustrado publicado em 1557, intitulado Nus, ferozes e antropófagos, da autoria de Hans Staden, um alemão salvo por franceses que tinha sido prisioneiro daqueles indígenas na vizinha região de Ubatuba, ao Norte de São Paulo.
Os três livros são clássicos conhecidos e editados no século XX, embora jamais tenham figurado numa lista dos mais vendidos. O de Jean de Léry foi o companheiro de viagem do reputado antropólogo Claude Lévi-Strauss durante sua expedição às sociedades indígenas nas florestas do Brasil Central, na década de 1930, da qual resultou mais tarde a famosa obra Tristes trópicos (1955). Os temas veiculados por aqueles textos fundadores reaparecem de diferentes maneiras na literatura posterior, como ficção ou como ensaio; além disso, na segunda metade do século XX, a arte cinematográfica tem revisitado aqueles encontros do século XVI, podendo-se citar a esse respeito a obra-prima de Nelson Pereira dos Santos sobre a antropofagia, intitulada Como era gostosomeu francês.
Montaigne e a bondade natural
 
A imagem positiva do ameríndio se presentifica no mito do bom selvagem, que começa a ser elaborado por Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592). Sabe-se que em 1562, quando acompanhava em Rouen o rei Charles IX, então com 12 anos, o futuro autor dos Essais (1580-1588) teve a oportunidade de encontrar três índios tupinambás do Rio de Janeiro, que ele evoca no seu famoso capítulo intitulado “De canibalis” (I,31).
Aliás, o ambiente em que o filósofo foi criado era bastante próximo do Brasil, o que reforça a relação entre os habitantes da antiga Terra dos Papagaios e o mito do bom selvagem, pois ele era filho de uma judia de origem portuguesa, Antoinette Loupez ou Lopes, e estudou no então célebre Colégio de Guyenne, dirigido à época pelo renomado filósofo português André de Gouveia, que evidentemente devia interessar-se pelo novo continente.
Por outro lado, conforme relata aquele capítulo, um dos empregados de sua família viveu mais de dez anos na região ocupada por Villegagnon, o que sem dúvida forneceu ao escritor inúmeras informações de fonte oral sobre as práticas do Novo Mundo, através de contatos com marinheiros e comerciantes que lá haviam estado. Foi provavelmente esta mesma circunstancia que estimulou o rapaz a ler relatos de viagem, muito apreciados na época, em especial os de Thévet e Léry, sobre o mesmo contexto brasileiro. Como quer que seja é em tais textos que, para Melo Franco, Montaigne busca a maior parte dos verdadeiros traços desses habitantes da floresta, que o francês julga encarnar a pureza, a lealdade e a coragem.
Daí resulta uma imagem extremamente favorável dos índios, de quem foi eliminado todo aspecto negativo, uma vez que Montaigne tenta compreendê-los com critérios da cultura dos próprios ameríndios. Aliás, é por isso que nessa ótica ele nem sequer reprova certas práticas que poderiam prestar-se a discussão, como a poligamia ou a antropofagia. O escritor descreve aqueles povos sem emitir julgamento de valor, porque age como um humanista, relativizando assim a diferença de culturas. Nesse sentido, ao invés de se prender a noções etnocêntricas, ele aceita a alteridade, considerando – como escreve – que nada há de bárbaro e selvagem naquela nação, senão que cada qual chama de bárbaro o que não é de seu costume, e que eles são selvagens no mesmo sentido que assim o são os frutos produzidos pela natureza.
No confronto entre “selvagens” e “civilizados”, os últimos têm muito a invejar aos primeiros, porque aqueles ainda estão próximos da inocência original, comandados que são pelas leis naturais, suas virtudes e propriedades, e muito pouco conspurcados pelas dos europeus, que os superam em todo tipo de barbárie e crueldade. Segue-se que a representação que se pode fazer dessas nações ultrapassa o que se poderia esperar da República de Platão, já que a realidade é superior a todas as idealizações. Sua maneira de viver, que Montaigne apresenta ao filósofo grego por meio de uma série de negações, tem um implícito: os selvagens vivem felizes porque não foram envilecidos pelas imposições da sociedade dita civilizada. Ou seja, para efeitos concretos, o homem em estado natural é bom, embora na prática os indígenas já conheçam uma certa organização social, o que os afasta um pouco do completo primitivismo.
Tal interpretação nos levaria a crer no retorno de uma idade do ouro aparentemente ultrapassada, constituindo o embrião do mito posterior. Contudo, os ameríndios do capítulo de Montaigne são inocentes, sim, mas também perspicazes; então, invertendo as posições, transformam o observador em observado e passam a descobrir a Europa com seus olhos de estrangeiros, inaugurando um certo tipo de ponto de vista crítico sobre a sociedade francesa. Por outro lado, além do estranhamento, formou-se também a concepção da bondade natural do homem americano, imagem que não cessou de ser elaborada.
 
Rousseau e a formulação do mito
 
No século XVI, a imagem dos índios brasileiros que emerge dos relatos de viagem é sobretudo ética, permitindo a Montaigne ver neles uma das possibilidades da condição humana. Diversas concepções do homem natural atravessam o século seguinte, que lhe outorgam doravante um caráter jurídico. Mas é ao cidadão de Genebra, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que cabe construir a teoria do bom selvagem dando ao mundo uma das mais espetaculares versões do mito, o que lhe valeu a celebridade imediata. Ela está anunciada noDiscours sur les sciences et les arts, premiado pela Academia de Dijon em 1750, sendo desenvolvida no Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes, de 1755.
Para Rousseau, as ciências e as artes não contribuíram para elevar os costumes,muito pelo contrário. Para ele, o homem é bom e feliz no estado de natureza, vivendo em regime comunitário, sem propriedade privada; em contrapartida, a vida em sociedade o corrompe, desvirtuando-o de sua pureza original. Trata então de demonstrar que os costumes foram degenerando em todos os povos à medida que se difundia o gosto pelos estudos e pelas letras. Enunciava-se assim a tese da bondade natural, diretamente haurida na leitura de Montaigne, que especulara a partir de índios brasileiros.
Ao recuperar o filósofo quinhentista, Rousseau revoluciona as idéias de seu tempo, chamando a atenção para o que ia na contramão na sofisticada sociedade de sua época: o gosto pela simplicidade e pelo natural, porque o homem natural é a antítese exata do homem do final do Ancien régime, que se acreditava tão civilizado, isto é, tão artificial. Doravante, para garantir a felicidade pessoal será preciso mudar as bases da sociedade e voltar-se para a natureza.
No Século das Luzes, a oposição entre “natureza” e “cultura” está no amago de todas as reflexões, junto com as relações entre o mundo “selvagem” e o “civilizado”. O mito do bom selvagem é utilizado para criticar o mundo ocidental em nome de uma natureza que teria sido há muito destruída ou “desnaturada”. Ele se constituiu entre os séculos XVI e XVIII, a partir dos relatos de viagem, e aparece indissociável de um discurso sobre o homem. Sua formulação, entretanto, corresponde a outras exigências, como expressar a nostalgia de uma passada idade do ouro, criticar a sociedade européia e sonhar com liberdade, igualdade e fraternidade, uma vez que essas três noções se encontram associadas ao estado de natureza, no sentido amplo do termo.
 
O retorno da imagem: idealização do personagem
 
A imagem do índio que retorna ao país de onde partiu é bem diferente dos canibais avistados por Thévet, Léry e Montaigne. Aliás, trata-se agora de uma construção intelectual, veiculada pelas “idéias francesas” que começam a usufruir de crescente interesse desde o período colonial, sobretudo com a filosofia das Luzes. Esta valorização, que por sinal não deixa de aumentar ao longo do século XIX e parte do seguinte, constitui mesmo a base de uma revolta abortada em 1789, a Inconfidência Mineira, cujo objetivo principal – que era obter a independência política do país – só foi atingido em 1822, quando coincidentemente explode em Paris o romantismo tributário de Rousseau.
É lá portanto que se prepara o romantismo brasileiro, graças principalmente ao estímulo e apoio de Ferdinand Denis (1798-1890), conservador da Biblioteca Santa Genoveva, em Paris, que viveu algum tempo no Brasil e se tornou o mais importante dos brasilianistas e lusitanistas da primeira metade do século XIX. O capítulo introdutório de seu Resumo da história literária de Portugal, seguido do Resumo da história literária do Brasil, de 1826, é considerado o manifesto do romantismo brasileiro, segundo reiteram as pesquisas de Maria Helena Rouanet. Por conseguinte, é em Paris que aparece em 1836 o primeiro número de Niterói, revista brasiliense, idealizada por intelectuais brasileiros sediados naquela capital. Trata-se do primeiro periódico literário impregnado do novo credo estético, sobre o qual repousará a imensa tarefa de construir a literatura nacional do Brasil e sua autonomia literária em relação a Portugal.
Desse modo o romantismo é associado a um projeto político diretamente inspirado pelo Imperador Pedro II, o da fundação de uma nacionalidade que, conforme Lilia Schwarcz, andava em busca de uma imagem. O projeto cultural assim concebido se desenvolveu através da literatura, das belas artes e da música, sob orientação do citado Ferdinand Denis que, para evidenciar a originalidade local, aconselhava impregnar-se de cultura indígena. Essa imagem, aliás, já constituía a própria representação do continente americano nos mapas marítimos desde o século XVI, além de ser um tema presente na tradição literária da colônia desde o seu início.
Além disso, a idealização do primitivo habitante das florestas virgens, bem distante da realidade social do século XIX, prestava um grande serviço, o de permitir escamotear o mal-estar provocado pela existência da escravidão negra. O índio torna-se pois o símbolo privilegiado, remetendo a uma origem mítica e una, que se pretendia ao mesmo tempo européia e tropical, mas jamais africana. Para isso, era precisa afastar os negros, postos em posição subalterna, que deviam ser desqualificados. Assim antropofagicamente se construiu a imagem desejada, assimilando-se o que se valorizava e recusando-se o que nãointeressava ideologicamente.
O nacionalismo romantico brasileiro tomou a forma de indianismo, tendência estética que associa a doutrina rousseauista do bom selvagem e as tendências lusófonas daquele momento, mais um exotismo à maneira de Chateaubriand ou de Fenimore Cooper e a natureza tropical da paisagem local. Embora transformado em bandeira política, nem por isso o indianismo está menos vinculado a um passado anterior à chegada dos europeus, daí sua operacionalidade.
Dentre os escritores indianistas mais notáveis destacam-se o poeta Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) e o romancista José de Alencar (1829-1877). A poética do primeiro, o grande autor romantico que introduz o indianismo na poesia, se volta para a formação do país, tematizando a terra virgem, anterior aos primeiros contatos com a “civilização”. O mais apreciado de seus poemas opera sob o modelo do canibalismo heróico: é I-Juca-Pirama, que em língua tupi significa “aquele que é digno de ser morto”. Seu tema consiste no dilema do bravo guerreiro vencido que não quer ser morto ritualmente porque seu pai velho e cego precisa dele. Mas como o ancião recusa o ato de aparente covardia, o jovem se entrega valentemente ao ritual antropofágico para se tornar digno do genitor. O índio se mostra então como um exemplo de pureza e honra, que deve ser seguido.
Quanto ao prosador, que é o patrono da literatura brasileira, coube-lhe adaptar o bom selvagem às condições de seu país e de seu momento, ao mesmo tempo que teorizava sobre o nacionalismo e a autonomia literária, o que se realizou através da criação do romance histórico. Começou com O Guarani, publicado em folhetins em 1857, a que se seguiram outros romances inesquecíveis, comoIracema (1865) e Ubirajara (1874).
O protagonista do primeiro romance, que transcorre no início do século XVII,simboliza o nobre da terra americana, o rei da floresta, e como tal encarna o bom selvagem de Rousseau. Um personagem da trama, de origem européia, considera-o “um cavaleiro português no corpo de um selvagem”. Com suas qualidades físicas e morais, ele representa o valor indomável do homem primitivo, muito superior ao invasor europeu pretensamente civilizado que veio destruir a harmonia de seu mundo original. Em contraste com ele, que é o herói, os demais selvagens da narrativa não passam de ferozes brutamontes.
Entretanto, o romance mais conhecido de José de Alencar é Iracema, “a virgem dos lábios e mel”, cujo nome é anagrama de América em português. Sua ação transcorre nas praias desertas do Nordeste, no início do século XVII igualmente. Simboliza o nascimento do país e a constituição de uma nova raça, representada pelo pequeno mestiço Moacir (“o filho do sofrimento”), engendrado pela união da bela selvagem com o português Martim. Mas isto se dá à custa do sacrifício do indígena porque, para que a criança sobreviva, sua mãe tem que morrer, ao passo que seu pai vai embora fundar outras povoações cristãs.
Desse modo a imagem dos índios que daí decorre mostra uma realidade altamente poetizada e personagens com atitudes inverossímeis, excessivamente idealizadas. Nas circunstancias de eclosão do indianismo, considerando-se o papel político que lhe foi atribuído, a literatura romantica não podia de maneira alguma exibir uma imagem realista do silvícola, não só porque se sabia pouco a respeito dele como também porque ele certamente já estava bastante degradado pelo choque de culturas. Assim sendo, era indispensável idealizar a imagem oferecida por Rousseau para que ela pudesse desempenhar sua função na construção de uma identidade nacional. Por isso, o retorno da imagem do índio não é um simples efeito de espelho, mas ao invés é principalmente um espelho deformante, que denuncia o efeito de uma construção baseada em necessidades ideológicas.
O antídoto a essa tendenciosa visão oficial surge no enfoque iconoclasta da vanguarda do Movimento Modernista, na década de 1920, cujos artistas resgatam a antropofagia teórica para desmistificar a ideologia dominante. Visavam assim reavaliar a contribuição européia e passar em revista a cultura nacional, em busca de uma descoberta do que seria um Brasil real. A imensa contribuição desse audacioso projeto poderia ser resumida em apenas dois ícones magistrais; um é o célebre trocadilho do Manifesto Antropofágico (1928) de Oswald de Andrade (1890-1954), “tupi or not tupi, that is the question”, um verdadeiro achado para caracterizar parodicamente a cultura brasileira segundo as vertentes valorizadas no século XIX; o outro é o inigualável Macunaíma (1928), a obra-prima de Mario de Andrade (1893-1945), que forma um duplo paródico comIracema, romance e personagem que são ironicamente desconstruídos pela carnavalização.
A desconstrução ideológica operada pelos modernistas, no século XX, não deixou de contar com o envolvimento europeu, o que reforça a permanente circularidade de idéias entre as duas margens do Atlantico. Nesse sentido, um lugar de destaque é ocupado por Blaise Cendrars (1887-1961), globetrotter e intelectual cosmopolita, artista de vanguarda que se ligou aos jovens escritores de São Paulo da geração da Semana de Arte Moderna de 1922, a ponto de ser apelidado por eles de “Blaise du Blésil”.
A recuperação da imagem pelos europeus
 
A recuperação a imagem do homo americanus pelos europeus que temos em mente, contudo, se volta para um período mais recente e uma problemática menos intelectual, que pode ser abordada a partir de dois focos: a difusão da capoeira e a reconstituição ficcional das circunstancias relacionadas com a França Antártica.
Um estudo antropológico do jogo da capoeira mostra as modificações sofridas por esta luta de origem afro-brasileira quando de sua recente expansão na Europa, em especial Paris, nas duas últimas décadas do século XX. No novo contexto, os adeptos não-brasileiros puseram-se a questionar preceitos até então seguidos como dogmas e integrados à tradição daquela prática. Assim, para marcar sua independência, criaram uma associação denominada Maíra, nome indubitavelmente indígena que segundo seus membros remeteria (ao menos foneticamente) ao termo mair, que os aborígenes do Rio de Janeiro aplicavam aos franceses no século XVI. A análise do nome é bastante elucidativa do novo enfoque, porque ele “desafricaniza” a capoeira, ao enfatizar uma origem indígena para um produto importado do Brasil; além disso, os praticantes europeus “naturalizam” a luta, transformando-a em uma arte marcial a mais que, como tal, pode ser praticada independentemente da rígida seqüência em que se insere cada movimento do rigoroso código, em que a maestria do domínio sobre o corpo revela obviamente um esforço que não tem nada de natural.
Essas modificações introduzidas na capoeira permitem-nos refletir melhor sobre a imagem do selvagem em nossos dias. Percebe-se que ele acaba por ser melhor compreendido quando traduzido segundo o enfoque da cultura de quem o observa, tal como fazia uma vertente dos viajantes quinhentistas, leia-se Thévet, ao relatar sua experiência em terras americanas. Por outro lado, também se percebe que a imagem de certo modo se prende a um estereótipo, porque ela pertence ao Outro, o que se associa a um conjunto de implícitos: a natureza, o selvagem, o estrangeiro, o hippie, o imigrante, o subalterno, o não hegemônico, aquele sobre quem recai o mal-estar da diferença… Enfim, este é o selvagem de nossa época.
O segundo exemplo marcante de recuperação da imagem do homo americanusocorre em 2000 e em 2001, nas cercanias das comemorações dos 500 anos de descoberta do Brasil, o que talvez não seja mera coincidência. Trata-se da reconstituição ficcional do ambiente de Villegagnon no Rio de Janeiro, através de dois romances que, de maneira bastante verossímil, retomam aquele contexto histórico e suas problemáticas, sem por isso configurar o modelo de romance histórico adotado no século XIX pelos seguidores de Walter Scott.
Um deles é Meu querido canibal (2000), do brasileiro Antonio Torres (1940), concentrado na biografia do bravo guerreiro Cunhambebe, grande líder dos índios tamoios e aliado de Villegagnon, que além disso foi muito admirado por Jean de Léry. O outro se intitula Rouge Brésil, da autoria do francês Jean-Christophe Rufin (1952), que recebeu o prêmio Goncourt quando de seu lançamento em 2001. Nele, vários fios narrativos se entrecruzam, concentrados em dois pólos principais: de um lado o envolvimento de diversos aspectos do contexto histórico, político, social, religioso e humano da época, focalizando europeus e indígenas; de outro, enfatizando a trajetória psicológica de dois irmãos, Just e Colombe, que não são personagens históricos mas representam dois comportamentos típicos daquela circunstancia: o rapaz permanece fiel ao chefe francês, enquanto que a irmã se volta para os silvícolas.
Ambos os livros foram muito bem recebidos em seus respectivos países de origem, com repercussões no do outro, o que se traduz inclusive por traduções imediatas, conferências, artigos na imprensa e debates na televisão, sobretudo na França. A carreira do livro sobre o cacique foi em parte alavancada, naquele país, pelo êxito editorial de Rufin; este no entanto foi acusado no Brasil de ter cometido lacunas, inexatidões e anacronismos.
Mas o sucesso editorial de cerca de 500 mil exemplares vendidos na Europa não deixa de ter profundas repercussões, quanto mais não seja porque chama a atenção novamente para um tema muito caro à sociedade francesa, isto é, o selvagem e o exótico, reforçados aqui pelo fato de estarem associados a um fato histórico até então pouco evocado, tanto na história da França quanto na da relação entre os dois países. Com isso, Villegagnon, que era desconhecido do grande público de seu país apesar de ser objeto de algumas eruditas biografias, tornou-se (re)conhecido; sua cidade natal, a pequena localidade de Provins, passou a ser visitada por sua causa, em especial o monumento em sua homenagem, que a Marinha brasileira erigiu ali, em 2000, com pedras vindas da ilha de Villegagnon, como parte das comemorações pelo quinto centenário dos descobrimentos marítimos.
Não se trata de um romance tematizando a descolonização. Mas o enfoque da França na Renascença automaticamente envolve o enfoque do Brasil e seus selvagens, o embate entre natureza e sociedade e, mais uma vez, o retorno do exótico, do primitivo, do Outro. Da História volta-se ao mito. O círculo se fecha. Tal como a madeleine de Proust, um painel se abre no imaginário, graças ao poder de evocação do passado que a literatura possui. Porém esse novo despertar não dura talvez mais que os quinze minutos de glória, como queriaAndy Wharol, porque se evola em mais um modismo da media que tudo consome. Ainda assim, constata-se um poder que a arte tem, o de atuar sobre a sociedade, ao mesmo tempo que retira do esquecimento um fragmento do passado. Ainda assim, mais uma vez revisita-se a imagem do selvagem.
 
 
BIBLIOGRAFIA
 
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2)       CARELLI, Mario. Cultures croisées. Histoire des échanges culturels entre la France et le Brésil, de la découverte aux temps modernes. Paris, Nathan, 1993.
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4)       ETERSTEIN, Claude. Le bon sauvage. Paris, Gallimard, 1993.
5)       FRANCO, Afonso Arinos de Melo. O índio brasileiro e a revolução francesa. As origens brasileiras da bondade natural. 3 ed Rio de Janeiro, Topbooks, 2001.
6)       HOLANDA, Sergio Buarque de. Visões do paraíso. São Paulo, Folha de São Paulo, 2000.
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10)    MONTAIGNE. Essais. Paris, Gallimard, 1979. 3 vol.
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14)    ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos dadesigualdade entre os homens. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.
15)    RUFIN, Jean-Christophe. Rouge Brésil. Paris, Gallimard, 2001.
16)    SCHWARCZ, Lilia. Moritz. “Romantismo tropical ou o Imperador e seu círculo ilustrado”. Comunicação ao XXII Colóquio ANPOCS, Caxambu, 27-31/10/1998.
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18)    STADEN, Hans. Nus, féroces, anthropophages. Paris, Métailié, 1990.
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20)    TORRES, Antonio. Meu querido canibal. Rio de Janeiro, Record, 2000.
21)    VASSALLO, Simone Pondé. Ethnicité, tradition et pouvoir: le jeu de la capoeira à Rio de Janeiro et à Paris. Paris, EHESS, 2001. These de Doctorat en Anthropologie Sociale.
22)    WOLFZETTEL, Friedrich. Le discours du voyageur; le récit de voyage en France, du Moyen Age au XVIIIe. siecle. Paris, PUF, 1996.





Bio fornecida pelo palestrante.

FIGURAS ANTROPOFÁGICAS: DEPENDÊNCIA CULTURAL, CONSUMO E HIBRIDAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE




FIGURAS ANTROPOFÁGICAS:
DEPENDÊNCIA CULTURAL, CONSUMO E HIBRIDAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE

O CARDÁPIO

Quadro nenhum está acabado,
Disse certo pintor;
Se pode sem fim continuá-lo,
Primeiro, ao além de outro quadro
Que, feito a partir de tal forma,
Tem na tela, oculta, uma porta
Que dá a um corredor
Que leva a outra e a muitas outras.

João Cabral

Estética da TERRA, programa de reeducação da sensibilidade ou simplesmente ethos e figuras da cultura brasileira? O que representa a antropofagia para a historia da formação cultural e literária do Brasil? Quais as diferenças entre o canibalismo que acomete a cultura dita pós-moderna e o movimento antropofágico brasileiro, um dos mais radicais do nosso Modernismo?
Em períodos de crises e de des(identidade) surgem movimentos literários e artísticos que buscam no discurso antropofágico a realização de uma linguagem própria e a constituição identitária da cultura e da nação. A antropofagia chega à era da globalização em filmes, romances e ensaios. Segundo alguns pesquisadores, a antropofagia não morreu, pelo menos do ponto de vista do consumo cultural. Isto pode ser observado em vários romances, filmes e ensaios que exploram e retomam as fontes antropofágicas do modernismo brasileiro e as idéias nacionalistas dos tropicalistas. Dentre as manifestações antropofágicas deste fin-de-siècle destacam-se a XXIV Bienal de São Paulo e o movimento de 1998, denominado de “Canibáliafetiva”, cujo objetivo era reunir, conforme o crítico de arte Paulo Klain, artistas e pensadores afinados entre si pela interdevoração afetiva e cultural. Em 1999 a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e o Museu da República promoveram um grande evento sobre antropofagia, com seminários, conferências e mostras de cinema e música antropofágicos. É importante compreender quais as relações entre globalização e dinâmica das figuras antropofágicas, atualizadas paradoxalmente a partir do discurso de transculturação e hibridação?
Em 1998, a antropofagia foi tema da 24ª Bienal de São Paulo. “Quero criar dissonâncias, ruídos, efervescências”, foi assim que o curador Paulo Herkennhoff definiu o seu objetivo com a mostra de arte. Para os organizadores, a idéia antropofágica se dissemina na contaminação de diversos estilos, nacionalidades e períodos históricos. Entre os expositores, o artista plástico Arthur Barrio utilizou-se de pedaços de carne e corações em sua obra para mostrar a inversão de papéis no banquete das nações. Conforme o artista, “O homem não vai mais comer o outro; vai comer a si mesmo. A globalização relança a pessoa em sua própria barbárie”. A noção de hibridação cultural, desenvolvida pela antropologia, nos parece de grande importância para pensar as questões que envolvem a antropofagia, não apenas como um movimento esporádico da arte e da literatura e, de modo geral, dos movimentos culturais em épocas de crise e afirmação identitária, mas como uma prática cultural interamericana. Sobretudo também, como figuração da estética do híbrido e do heterogêneo – uma tendência de apropriação e incorporação do Outro, que se revela como fundamental nos processos de transculturação que presidem à formação cultural nas Américas. Se por um lado é a o Movimento Antropofágico que vai deflagrar a construção de um discurso identitário de cultura nacional; por outro, a base do compromisso da literatura com a nova civilização técnica e hipertextual já estava anunciada no Manifesto Futurista. Constrói-se, a partir daí, uma nova sensibilidade cuja senha é o simultaneísmo, velocidade, a interação. Elementos constitutivos imprescindíveis à hipertexutalidade e à sintaxe pós-moderna.
As noções de hibridação e transculturação, igualmente importantes para a compreensão da caligrafia pós-moderna, são decorrentes das estratégias do discurso modernista, sobretudo das vanguardas instauradoras. Entretanto, será a canibalização dos estilos do passado, ou seja, a dinâmica das figuras antropofágicas, retomada por alguns movimentos culturais e literários, nesse período, ora como revival, ora como uma das formas de desconstrução do discurso hegemônico, que irá apontar para esse discurso cultural da diferença, isto é, um discurso híbrido. Por outro lado, se esta dinâmica parece surgir em épocas de crise e afirmação identitária, hoje pode ser considerada como uma prática cultural associada ao consumo e, sobretudo, como figuração da estética do heterogêneo – uma tendência de apropriação e incorporação do Outro, que se revela como fundamental nos processos de transculturação que presidem à formação cultural em nosso país.
Identificar quais as figuras e as estratégias de subjetivação que permitem novos signos de identidades, definidores da própria idéia de crítica, literatura, cultura e sociedade é um dos meios para compreender como a experiência artística flagra esse processo de desconstrução do discurso hegemônico e aponta, conforme Homi Bhabha, para a ambivalência da linguagem na construção do discurso cultural e da diferença, construindo as representações nos entrelugares da cultura e permitindo o surgimento de novos signos identitários e rescrevendo a modernidade cultural como evento do cotidiano e advento do memorável, a partir da idéia de intertexto, antropofagia, multiculturalismo e hibridismo.
Com o deslocamento das estruturas logocêntricas, e com o surgimento de uma subjetividade descentrada e das práticas interdiscursivas, o conceito de identidade cultural tornou-se móvel e plural. Os limites que separam a crítica da ficção foram se tornando cada vez mais tênues. A intertextualidade e a dinâmica antropofágica, ou canibalização, como condição da textualidade e do discurso pós-moderno, vêm sendo o modus operandi que norteia esses des-locamentos culturais.

RECEITAS ANTROPOFÁGICAS E DEPENDÊNCIA CULTURAL

O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
E desce refletido na poça de lama do pátio.
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,
Quatro pombas passeiam.

Manuel Bandeira

Em 8 de agosto de 1999, o jornal O Globo publica a seguinte matéria intitulada “Mundo canibal: antropofagia chega à era da globalização em filmes, romances e ensaios. O texto produzido por Toni Marques e Alexandre Santos observa que a antropofagia não morreu, pelo menos do ponto de vista do consumo cultural. Os autores examinam vários romances, filmes e ensaios que exploram e retomam as fontes antropofágicas do modernismo brasileiro e as idéias nacionalistas dos tropicalistas, além das referências aos filmes e livros americanos, entre eles Hannibal, romance de Thomas Harris que retoma o personagem vivido por Anthony Hopkins em O silêncio dos inocentes, os livros As histórias perversas do coração humano, de Milad Douehi, Sexameron: novelas sobre casamentos, de Luiza Lobo, e o filme da inglesa Antonia Bird, Mortos de fome. Nesse mesmo Jornal, outro texto, de Hugo Sukman, afirma que o tema da antropofagia é caro à formação da cultura brasileira desde a “deglutição do Bispo Sardinha pelos índios Tupinambás à geléia tropicalista”. Em dezembro de 1999 os cinemas nacionais exibiam “Como era gostoso o meu francês”, de Nelson Pereira dos Santos. O filme celebra a descoberta do Brasil, relatando a aventura de Hans Staden. No filme, o canibalismo é visto à luz crua da história. Alguns meses depois, já em 2000, Antônio Torres lança seu romance Meu querido canibal – uma alegoria do redescobrimento do Brasil. O autor muda o foco narrativo da história oficial e, agora, o que passa a importar são os feitos do grande chefe da nação Tupinambá, isto é, o índio “Cunhambebe” e a sua cultura.
Sabe-se que o “Manifesto Antropófago”, de 1928, é peça-síntese da idéia que sustenta a cultura do resto do século – um mito fundador. A necessidade de se criar uma linguagem original brasileira através da “deglutição” de todas as influências para o “vômito” de uma linguagem, artística e geral, bárbara e nossa. Tal idéia influenciou definitivamente as artes e o pensamento brasileiros, com inferência nos movimentos concretistas, nas músicas de Caetano, Gil, Capinam, Torquato Neto, Tom Zé e outros. Não se pode comparar o ato antropofágico dos modernistas com aquele que ocorre, a partir da década de 1980 e, sobretudo, nos anos 1990. Existem nuanças bastante significativas.
Em primeiro lugar, o programa modernista articulava a noção de identidade cultural baseando-se no reconhecimento de estruturas nacionais que se opunham de forma radical à noção de transplante cultural. A atitude antropofágica, proclamada no “Manifesto” de 1928, já presentificava a tensão entre o coloquial e a voragem, entre a estética tradicional e o novo sentido da arte. Entretanto, o boom antropofágico oswaldiano, a partir das construções parodísticas, era ainda uma atitude redutora, à medida que a eficácia estética baseava-se na contestação imbuída de nacionalismo e utopia. As vanguardas modernistas, nessa perspectivas, assumem a estética do choque e de ruptura.
A consciência moderna do início do século XX partia de três pressupostos que hoje o mundo não pode subscrever, ou seja, a idéia de uma ruptura radical com o passado e com a história, e o começo de uma nova era; a concepção racionalista da história como triunfo sobre a razão; e a crença no progresso. Para os primeiros vanguardistas, a ruptura com o passado, a ordem racional da cultura e a idéia de progresso estavam relacionadas, conforme Eduardo Subirats, à “liberdade e paz social: [mas] para a consciência da modernidade tardia estão relacionadas com a angústia, a insegurança e o sentimento de não-liberdade.”
Enquanto para as vanguardas o desejo de ruptura vem acompanhado de uma idéia essencialista e utópica, no pós-moderno o desvio é entendido como processo. Jameson observa essa diferença:

Na cultura pós-moderna, a própria ‘cultura’ se tornou um produto, o mercado tornou-se seu próprio substituto, um produto exatamente igual a qualquer um dos itens que o constituem: o modernismo era ainda um esforço ainda que minimamente e de forma tendencial, uma crítica à mercadoria e um esforço de forçá-la a se auto transcender (sic.). O pós-moderno é o consumo da própria mercadoria como processo.
No modernismo ainda residia alguma forma da natureza, do ser, do velho, do arcaico. O “pós-moderno” é um mundo no qual a natureza se foi para sempre e a “cultura se tornou uma segunda natureza”. Na verdade, essa “pós-modernidade”, como adverte Sérgio Paulo Rouanet, é uma ficção, ou seja, o homem fantasia uma pós-modernidade com a intenção de se livrar do mal-estar de uma modernidade doentia, que não deu certo, cujas utopias foram realizadas através das distopias. Uma modernidade marcada pela transformação da razão em poder. Segundo Rouanet, entre a modernidade e a pós-modernidade não ocorreu nenhuma ruptura, nem nas formas sociais, nem nas dimensões culturais. Embora haja um desejo de exorcizar o velho (modernismo) e uma rejeição aos fantasmas políticos e religiosos e aos males causados pela modernidade, o pós-moderno, poderíamos assim dizer, é a ficcionalização do moderno. Sendo uma ficção, ele é sempre uma possibilidade. Por isso, para alguns pensadores, o pós-moderno (ou modernismo tardio, ou alto modernismo) tem rosto de Janus, aponta para vários lados, ou, ainda, é apenas um significante. Para Rouanet, por exemplo, o pós-modernismo é uma variedade do Modernismo. Ihab Hassan, ao contrário, advoga a idéia que aquele é continuação deste. Se é assim, reclama Rouanet, então as tendências pós são um prolongamento do Modernismo que também era múltiplo, plural, contraditório. Ora, então voltamos ao mesmo pressuposto.
Se a antropofagia cultural, empreendida pelos modernistas da década de 1920, garantia de certa forma uma identidade nacional e cultural, na década de 1990, o ato antropofágico, identificável nas produções culturais, artísticas e na literatura já não tem essa intenção. É o caso de Um crime delicado, de Sérgio Sant’Anna; Sexameron novelas sobre casamentos, de Luiza Lobo; Meu querido canibal, de Antônio Torres; Cortejo em abril, de Zulmira Tavares, Hotel Atlântico, de J. G. Noll. A preocupação é com um dispositivo discursivo que represente a diferença como identidade, sobretudo, no que se refere às fronteiras do discurso crítico e ficcional. O ato antropofágico, aqui, não significa apenas uma apropriação dos valores do outro, mas a desapropriação do poder do outro que nos subordina ao seus modelos; e, ainda, a desapropriação do próprio sujeito.
No romance Um crime delicado, de Sérgio Sant’Anna, por exemplo, quando a personagem Maria Clara, amiga íntima de Antônio, diz: “…você precisa comer essa mulher. Nem que seja para libertar-se dela” (CD: 77), a personagem se refere à desapropriação de todos os poderes que essa mulher, enquanto modelo e representação, exerce sobre Antônio. O Leitmotiv de Um crime delicado é a acusação de estupro contra Antônio Martins, crítico/narrador, que se envolve afetivamente com Inês, uma mulher manca e misteriosa, que serve de modelo ao artista plástico Vitório Brancatti. Teria Antônio Martins realmente cometido o estupro, aproveitando-se de um momento de fragilidade de Inês para então satisfazer seus desejos sexuais? Ou teria sido ele vítima de uma grande cilada preparada por Brancatti, para desmoralizá-lo como crítico e intelectual? Após ter sido colocado no banco dos réus, o protagonista relata seu drama, num tom analítico e confessional. Perseguindo os detalhes da trama, a partir dos múltiplos pontos de vista, tenta reconstituir as várias cenas que culminaram no dia fatídico em que um ato “quase” antropofágico faz do crítico um criminoso. Não nos interessa saber se Antônio Martins é culpado ou não, se houve realmente um “estupro”, se Inês se entregara por vontade ou por estratégia para incriminá-lo. O que é relevante, além do embate que se trava entre o crítico e o artista, é o fato de o “estupro” representar a apropriação do corpo do outro sem o consentimento e a cumplicidade desse outro. O estupro como Leitmotiv é uma metáfora intertextual. Mas, seria a apropriação da arte pela crítica? Ou do crítico pelo artista e pela obra de arte? É jogo de espelhos entre crítico, obra e artista (poiesis, aisthesis e catharsis)? Ou rituais antropofágicos ?
Nas palavras de Affonso Romano Sant’Anna: “São os canibais que avançam sobre os seus parceiros/adversários para devorá-los e assumir suas virtudes”. No caso de Antônio, possuir Inês, “devorá-la”, significava não apenas alcançar o poder, mas tornar-se parte da própria obra de arte, da representação, diz o protagonista:

Que grande sensação de Poder, quando emolduro aqui não apenas o corpo de uma mulher dentro de um cenário íntimo e crepuscular, mas a própria emoção de ter esse corpo nos braços. Que força poderia ser maior do essa, não houvesse também o conhecimento de que, nesta obra, sou tanto autor quanto mero ator, tendo em vista a presença nos bastidores de Vitório Brancatti e outros obscuros personagens que sinto como diretores dentro e fora de mim.

A dinâmica antropofágica, que surge a partir dos fins dos anos 1980, é identificada por alguns críticos e pensadores da pós-modernidade como canibalismo. Ou, como quer F. Jameson, “canibalização dos estilos do passado”. Entretanto, existem alguns problemas que surgem em se tentar identificar a dinâmica antropofágica do Movimento modernistas ao canibalismo praticado pelos pós-modernos. Há uma grande diferença entre essas dinâmicas e figuras, e sobretudo dois problemas que as envolvem: a colonização e a pós-colonização, potencializados nas discussões acerca das identidades culturais.
No texto “Antropofagia contra globalização: ou o paraíso na América Latina”, Subirats discorre sobre “a dedução transcendental das categorias”, de Kant, contrapondo-a ao conceito de “dedução da identidade autêntica”. A dedução é um conceito filosófico antigo que designa a inferência lógica de uma realidade particular ou local a partir de uma premissa previamente elevada aos altares metafísicos e mitológicos do universal e do global. A dedução transcendental de Kant compreende ao mesmo tempo a legitimação lógica e a fundamentação ontológica dos esquemas, funções e conceitos do conhecimento. Os nomes, assim deduzidos, se instauram como verdades e realidades compulsivas e inexoráveis. A dedução suplanta, diz Eduardo Subirats, “a través de este proceso constitutivo de identidades lógicas excluyentes y entidades ontológicas puras, a la reconstrucción genealógica de filiaciones históricas, y a las memorias contigentes y colectivas que estas genealogías entrañan.” Subirats se refere, nesse texto, à origem do nome do Peru, país da América Latina..
Segundo o conto, relatado pelo Inca Garcilaso, as etapas discursivas do descobrimento e a origem do nome Peru, começam com a chegada dos europeu às praias do pacífico. Quando desembarcaram, os conquistadores avistaram um homem que estava pescando e lhe perguntaram seu nome. O pescador respondeu que era “Berú”, mas os europeus não entenderam e começaram a gritar. O pescador, temendo a fúria dos conquistadores, respondeu “Pelú”, que era o nome do rio onde pescava. Então os descobridores deduziram: combinaram “Pelú” com “Berú”; construíram o significante Peru. A partir daí, os colonizadores condenaram as suas terras e seus bens em proveito de sua liberdade transcendente, aniquilaram sua língua e os relegaram à condição lógica de “sub-jecto” do Império Hispânico e do Cristianismo. Outras deduções aconteceram pela América Latina, sobretudo, no Brasil. E é isso que relata, por exemplo, Antônio Torres, em Meu querido canibal: “Tudo começou com um equívoco ou uma sucessão de acasos (…). Eles achavam que estavam chegando à Índia, a ambicionada terra do ouro” (MQC: 19).
Segundo a lenda garcilasiana, antes de ser liberado pelo Verbo Cristão e pelo Logos Ocidental, esse pescador era parte integrante de um ser espiritual, cósmico e histórico de Tawantinsuyo. Conforme Subirats, “En tiempos coloniales y poscoloniales, modernos o posmodernos, estas presencias no idénticas o estas esencias inclusivas de las culturas históricas de Américas han sido definidas a lo largo de una interminable letanía de invenciones confusas”. Primeiramente, os habitantes foram orientalizados, depois reocidentalizados para que pudessem chegar à condição de Nativos e, sucessivamente, ameríndios, sujeitos subalternos, indígenas, mestiços, campesinos, o Outro, até serem reconhecidos como híbridos. O que ser híbrido? O que é uma cultura e/ou uma arte híbrida? Será que alguns princípios coloniais de identidade ainda persiste em alguns episódios de nossa pós-modernidade? Tais como a abertura para o capital estrangeiro, a resistência dos Sem-Terra, a imposição da língua inglesa para o mercado de trabalho, o genocídio na Amazonas, o imperialismo da mídia e uma silenciosa cumplicidade da aldeia global? Vincula-se, mormente, o conceito de imperialismo aos fenômenos de expansão econômica, quando as suas conseqüências estão, na realidade, relacionadas à noção de civilização, ou seja, do processo civilizador. Trata-se, na verdade, do avassalamento das identidades regionais ou nacionais, que estabelecem a continuidade de uma complexa consciência histórica.
A independência da América Latina, adverte Subirats, não significou uma troca de mentalidades acerca das formas católicas de vida, nem representou a culminação de uma reforma ilustrada do entendimento, nem de um conceito igualitário e democrático de sociedade, tampouco criou uma sociedade civil. Na verdade foi um verdadeiro reino híbrido. Algumas dessas ambigüidades podem ser esclarecidas com o conceito de uma idade pós-colonial. Entretanto, será o Movimento Antropofágico “a poesia final”, isto é, a que irá transformar essa dialética colonial e pós-colonial de submissões, dependências e de discursos subalternos em subversões hermenêuticas. Isto porque a antropofagia, diz Subrats, “hace escarnio del dogma fundacional de la teología de la colonisación: o sea, destruir primeiro el Paraíso e imponer acto seguido la deuda universal, la gran culpa sacramental y financeira. Lo burla, lo devora, lo elimina.” Em segundo lugar, continua Subirats, “celebra la comunión orgiástica de lo existente, la armonía erótica del ser, la creación infinita.”
Por essa via, a antropofagia não se confundira com a canibalização, segundo o autor, “descontruccionista o hibridista de los lenguajes humanos, de su memoria y sus esperanzas, de acuerdo com las normas del consumo de excrementos comodificados, de la destrucción industrial delirante y la producción administrada de simulacros escatológicos.” O que se pratica na pós-modernidade seria uma espécie de canibalização desconstrucionista ou hibridista e não mais aquela antropofagia pleiteada por Oswald de Andrade que objetivava assimilar a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, e, de certa forma, como assinala, Haroldo de Campos, conferindo-lhe um caráter autônomo e a possibilidade de passar a funcionar como um produto de exportação.
Entre os primitivos o canibalismo era a maneira de se defender da morte, consumindo-a, integrando-a ao seu próprio organismo. Isso significa dar uma sepultura ao outro dentro do próprio corpo. Alguns comiam exogamicamente os inimigos para assimilar suas forças; outros, endogamicamente, os membros da sua família, para que eles não se perdessem. Há tribos que queimam os seus mortos e depois juntam as cinzas a uma pasta de banana e dela se alimentam durante dias, para que o espírito deles seja incorporado, transmitindo-lhes toda a sua sabedoria e força. Curioso como os primeiros cristãos tinham, no comer, um ato ritualístico que, às vezes extrapolava as cenas místicas e estendia-se ao social. No início do cristianismo, os comungantes consumiam uma refeição chamada de ágape ou festa do amor. Depois, quando virou religião oficial, a Igreja viu que a festa tinha se transformado em mesa para os pobres. A tradição mística canibalesca do catolicismo é bastante curiosa. Enquanto, na mitologia grega, são os deuses que devoram seus filhos, Cronos ou Saturno; no catolicismo é o homem que come Deus. “Este é meu corpo”, disse Jesus referindo-se ao pão; “este é meu sangue”, referia-se ao vinho. O padre come o pão (corpo de Cristo) e bebe o vinho (sangue de Cristo), mas os fiéis só podem comer a hóstia, que significa a vítima sacrificial.
Em primeiro lugar, vemos uma espécie de canibalismo que visa à absorção, assimilação do outro, ou o objeto cobiçado; em segundo, a aspiração à fusão com o outro. Em ambos os casos o que está em jogo é o desejo de posse ou comunhão, mas também de criação. Já a dinâmica antropofágica que se identifica na pós-modernidade possui outras características que são decorrentes do desconstrucionismo e do processo de globalização. Regra geral, a apropriação do outro não resulta em criações, mas em (re)duplicações, ou seja, ela equivaleria ao caos celular. A canibalização, nesse caso, não significa “comer, devorar o outro”, mas se multiplicar a partir do outro. Trata-se de um procedimento espectral, de simulações, ou simulacros. A dinâmica do canibal questionaria fronteiras e limites, sugerindo sua interpenetração: o comedor/comido e a sua reciprocidade, em que um elemento preencheria o papel do outro. Já a antropofagia seria o desejo de imprimir a nossa modernidade, o espírito e o rosto de nossa gente, de nossa terra. E usando de uma metáfora oswaldiana, ela é criativa porque, entre outras coisas, podemos fazer digestão: “A couve mineira tem gosto de bife inglês.”
As avaliações contemporâneas da dependência cultural mostram que a antropofagia foi proposta como representação que neutralizava o mal-estar da vivência colonial e da postura colonizada. De acordo com Silviano Santiago, a antropofagia cultural, criada por Oswald, é um dos antídotos contra a má consciência colonizada diante da incorporação do que não é próprio, do que é exterior. A dinâmica antropofágica oswaldiana, segundo o autor, é uma legítima forma de apropriação, sem culpas, das manifestações artísticas e do pensamento produzidos fora da vivência dos países de culturas colonizadas. A análise de Silviano está vincada nos parâmetros produzidos pelo pensamento francês, especificamente pelos filósofos da descolonização, como Lévi-Strauss, Michel Foucault, J. Derrida. A cena antropofágica recuperada por esse recorte reverte, des-loca, des-constrói os valores e as práticas coloniais, retroagindo corretivamente sobre o passado.
Roberto Schwarz, em “Nacional por subtração”, ao contrário de Silviano Santiago, argumenta a favor de uma legitimidade, de uma autenticidade e de uma origem. A sua crítica a Silviano Santiago reside exatamente nas alternativas de interpretação baseadas na desnaturalização e na recusa das continuidades e das totalidades. Para Schwarz, os valores e sentidos estão atrelados à superestrutura ideológica e são produtos da determinação histórica e econômica. A consciência crítica e a construção contra-ideológica são esperadas, necessárias, possíveis, mas não são suficientes para as transformações sócio-econômicas e históricas. São, sem dúvida, pontos nevrálgicos entre sistemas interpretativo diferentes, mas que, por uma ou outra via, tentam avaliar o processo de formação identitária da cultura brasileira e descolonizar a cultura dependente.
Essas divergências entre os mecanismos que operam as dinâmicas das figuras antropofágicas modernistas e pós-modernas estão relacionas à forma como se desdobrou o pensamento estético-cultural , econômico-social do Modernismo. Enquanto os modernistas desejavam consolidar uma visão de mundo legítima, os pós-modernistas não mais se interessam por estruturar uma visão de mundo de acordo com as certezas e a sensibilidade do sujeito. Não há mais espaço para verdade, essência, unicidade, origem e hierarquias discriminadoras. Os pós-modernistas sabem que o seu contexto social é feito de palavra e que todo novo texto só pode ser construído a partir de um texto anterior, já dado. Por isso, eles afirmam o palimpsesto como referência à própria intertextualidade.

SELF-SERVICE

Na lógica cultural do capitalismo tardio, verifica-se uma mutação (quase genética) no universo estético-cultural, a obra de arte, quando esta perde seu valor de transcendência, transforma-se em texto (écriture). O estatuto da palavra intertextual sofre uma mutação. A intertextualidade, como estilo, ou como palavra dialógica, que reclama a voz da história, ganha outros contornos, isto é, já não reclama mais a profundidade. A identidade cultural tornar-se-ia, pois, uma dobra, sempre mais uma possibilidade. Os modelos de profundidade, como: dialética, conceito de essência e aparência, ideologia e falsa aparência, latente e manifesto, autenticidade e inautenticidade, significante e significado, foram todos substituídos, nos anos 1960 e 70, pelas concepções de práticas, discursos, jogos textuais, cujas estruturas baseiam-se em superfícies múltiplas, determinadas pela exploração de um sem-número de maneirismos e estilos do passado. Todo texto passa a ser construído como um mosaico de citações. Todo texto seria uma absorção e transformação de outro texto, e em lugar da intersubjetividade se instalaria a intertextualidade. Teríamos, assim, não mais uma escritura, mas uma re-escritura. Há contudo, três questões que se impõem à noção de intertexto. A primeira é o grau de explicitação da intertextualidade. A outra consiste em determinar se o fato intertextual é derivado do uso do código, seja ele lingüístico, cultural ou estético, ou é matéria da própria obra. E a terceira deriva dos modos de leitura de cada época, contextos histórico-políticos e sociais inscritos nos modos da escrita. O trabalho intertextual em Vamos caçar papagaio, ou em Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, vincado na paráfrase, dá sustentação à linguagem da continuidade mítico-ideológica. É o que Affonso Romano Sant’Anna, ao estudar o processo intertextual da modernidade como estratégias política de identidade, classificou de “poéticas do centramento”. Ao contrário desse procedimento, do tipo “continuísta”, o processo intertextual, baseado na paródia e classificado por esse autor como “poéticas do descentramento”, elabora uma ruptura com os modelos da tradição, uma vez que o texto histórico deslocado, soa estranhamente. Enquanto a “técnica da paráfrase é a do endosso e da adesão, a da paródia é a de apropriação modificada.
Na pós-modernidade, com o fim do ego burguês, da mônada e com a desintegração das identidades nacionais e uma crescente homogeneização cultural, verificou-se a inviabilidade de um estilo pessoal. Isso trouxe consigo o esmaecimento do afeto e uma escritura superficial, chamada por Barthes de escritura branca que, no dizer de Jameson, é uma espécie de paródia branca ou pastiche, “uma estátua sem olhos”. Por isso, devemos insistir numa distinção entre o procedimento intertextual do modernismo e o uso que se fez dele a partir da décadas de 1960 e 1970. Assim, argumenta, Jameson:

Claro que a paródia encontrou um terreno fértil nas idiossincrasias dos modernos e seus estilos inimitáveis (…). Tudo isso nos parece de algum modo característico, na medida em que todos se desviam da norma que depois é reafirmada, não necessariamente de forma agressiva, pela imitação sistemática de suas excentricidades intencionais.
(…) a explosão da literatura moderna em um sem-número de maneirismos e estilos individuais distintos foi acompanhada pela fragmentação da própria vida social a um ponto em que a própria norma foi eclipsada: reduzida ao discurso neutro das mídias. (…) os estilos modernistas se transformaram em códigos pós-modernistas (…). Nessa situação não há mais escopo para a paródia, ela já teve o seu momento, e agora essa estranha novidade, o pastiche.
Linda Hutcheon critica o argumento de Jameson, alegando que a paródia sugere uma redefinição, não como uma imitação ridicularizante das teorias e definições padronizadas, mas como uma “repetição com distância crítica que permite a indicação irônica da diferença no próprio âmago da semelhança”. Já para Laurent Jenny, o processo intertextual é caracterizado pela introdução de “





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MUTILAÇÃO/CONTRAPONTO: O OUTRO EM LIA MONTEIRO – Edmundo Bouças




MUTILAÇÃO/CONTRAPONTO:

O OUTRO EM LIA MONTEIRO

EDMUNDO BOUÇAS

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
No Suplemento Idéias do Jornal do Brasil de 22/10/89, a propósito do desafio com que Lúcia Murat em Que bom te ver vivaenfrenta o dilema das vítimas da tortura, Eduardo Escorel distingue a descoberta de que para sobreviver é preciso não esquecer nunca. No eixo desse mesmo enfrentamento, cruzamos a vigília de uma outra memória da geração A I-5: De fogo e sangue, de Lia Monteiro, editado pela Codecri em 1981, com apresentação de Heloísa Buarque de Holanda.
Engendrando 68 fragmentos, De fogo e sangue requisita a granulação do romanesco numa narrativa fracionada, assumindo a experiência textual de um discurso estilhaçado, éclat de denúncia e urgência de lembrança. A dedicatória ao Pai sutiliza a intenção da Autora – cumprir o texto como projeto especular à tarefa paterna no combate à sina do próprio nome: “Hemetério” = Escravo”. Referência que não tributa qualquer moção de garantia à palavra “liberdade”, mas que reivindica a inserção do corpus de resistência consignado no porte do “aprendizado de ver na escuridão”, e afirmar o tecido de uma escrita onde a perseguição política tonaliza a construção do medo, da insônia, da violência física e psicológica, da irradiação autoritária do regime inquirindo/inquerindo todos os discursos, lacrando os dias, remanejando estranhamento as afetividades.
 
Não se mostra o que se pensa, se sente, se lê, se faz e se ama. Amar sentindo em todos os sentidos o medo, a desconfiança do que se aproxima (D.F.S., p. 49).
 
 
Uma transpiração rosiana redige os primeiros fragmentos. Neles, a luminosidade desliza o mundo culinário. Mundo de café quente com massapão e beiju de coco (p. 9). Culinário porque no sabor de cultivar o prazer das comidas de novidade e segredo (p. 12), fecundando o apetite dos jogos de infancia, cativando no inclassificável da linguagem a realidade de trepar em árvores, fazer balanços, comer manga verde com sal (p. 25).
 
O sol se levanta todos os dias com ele e não pensa em retorno. Quem se levanta com o sol brilha à sua luz, faz o seu giro (D.F.S., p. 10).
 
Em dias assim tudo era festa. (D.F.S., p. 11).
 
Mundo culinário porque nele comparece a tutela familiar, a reserva da domesticação, não domesticação, domínio de clara cumplicidade, lugar do anúncio do Pai, conduzindo à transparência dos gestos o mistério do “acontecimento das coisas”. A claridade desse mundo – no brinde de sua ingenuidade – alçará o marcador de contraponto do exercício seguinte: o escuro.
 
Esse tempo de escuro.
Fala baixo, paredes têm ouvidos. (…)
Quanto medo por dentro. Quanto escuro por fora. (D.F.S., p. 49)
 
Foi então que começou o aprendizado da escuridão, naquele início de vida, que então, naquele exato momento, não pareceu ser o começo de uma instituição do medo – as paredes têm ouvidos, as telhas têm olhos, as mesas têm bocas, os dedos não indicam nem acariciam, seguram. (D.F.S., p. 27)
 
É a densidade desse exercício que deflagra o enterro da letra suspeita. Operação noturna, onde os apetrechos da cozinha (o mundo culinário) – improvisados ferramentas – cavam o quintal para a queima de livros, jornais, revistas, papéis, cartas, endereços… Tarefa da mulher e da criança, num ritual que vaza a terra e revolve os textos queimados entre as raízes do milharal.
 
É noite. Uma mulher e quatro filhos no mato. Carregam montes de livros, jornais, revistas, papéis. Saíram dos fundos de uma casa pequena e atravessam o quintal agreste. Passam primeiro por um pátio de cimento, por amontoados de copos-de-leite, por um pomar incultivado (…). Chegam a uma pequena lavoura (…). Fazem um buraco bem grande, colocam uma parte do material que trouxeram. O candeeiro que iluminou o caminho cede um pouco de querosene para começar o fogo.
Depois de tudo consumido, recobrem as cinzas com terra, replantam os pés de milho (D.F.S., p. 17).
 
Estranha semeadura, que enreda – nas cinzas – a escrita e o milho, a letra passada e o pão futuro. Escatologia e germinação. Por seu curso, o quintal passa a enquadrar o cemitério doméstico, confrontando a brutalidade com que a prisão do Pai desfaz a família em torno da mesa, em torno de um único prato – o medo feito realidade. Furtada, a presença paterna ressoará no “rádio negro” – índice emitindo a cor das notícias.
 
Olha firme para o rádio negro, parece estar tentando voltar a imagem diária do velho, a carapinha branca e a cabeça baixa com atenção para as notícias (D.F.S., p. 25).
 
Em De fogo e sangue, Deus é um lugar vago, vazio, ou melhor, esvaziado. Sua referência avulta o olho-triangulo, dimensão que rememora a estampagem das capas de catecismos freqüentes na região que espacializa o texto (interior baiano). Contudo, essa designação anota um contorno irônico, uma estratégia de deslocamento. O olho divino da onisciência e da onipresença – conduzido nas lições da catequista e contemplado no canto esquerdo do quarto – desloca-se para o olho-do-poder, onipresente, pan-óptico no policiamento de todas as práticas. Essa apropriação e transmigração ressaltam o paradigma a partir do qual o texto exibe um sujeito sem Deus. Lacuna apontando o desapontamento frente aos administradores da fé.
 
– “E que deus é esse que tudo vê, olho-triangulo no canto esquerdo do meu quarto? O bispo, o pastor? Meu Deus, e eu? O que é que eu faço diante desse arremedo de juízo final, e qual é esse deus que nos tira o melhor de nós, o mais justo, o que tem em si os princípios da vida, da caridade, da compreensão, onde está o meu Deus que sempre foi bondade, de alegria, de conforto a quem precisa, de oferta daquilo que se tem de bom ao outro? (…)” (D.F.S., p. 26).
 
Mostrando que o tempo do corpo torturado é o tempo da mutilação, dos discursos, o fluxo da narrativa não circula o zelo do silêncio enquanto competência que urde a serenidade, mas o emudecimento como condição imposta. Pela travessia da escritura, a exigência solitária do silêncio frutifica uma expressão solidária, que empresta o corpus à ressonancia de muitos corpus. Assim, os fragmentos – oscilando o regime narrativo de 1a. e 3a. pessoas – transitam um elenco polifônico, através do qual ressoa – da geração reduzida à sombra – não apenas a fala da militancia poliítica, mas da mesma forma a fala tropeçada na droga, na loucura, a fala usurpada na esperança, a fatigada na véspera da morte.
 
Essa menina pirou. Todo mundo numa boa, entrou numa bad. Saiu cedo, o pai levou pro sanatório (D.F.S., p. 53).
 
(…) bela juventude sob um jogo de morte (D.F.S., p. 58).
 
 
É toda essa franja fúnebre que lexografa igualmente a expressão da sexualidade e do amor. Se, na energia do desejo, o corpo carece de outro corpo, requer – não necesáriamente anatomia outra – mas a anatomia do outro, cumpindo o desafio de coreografá-la com o medo. Assim, ainda que redigindo a paixão sob um signo de morte, o texto dá lugar a uma erotografia ousada.
 
(…) e me deixou no carnaval, tão cheia de sêmen e oca de amor – muito louco a cada esquina – Pierrot da minha fantasia de menina boba, nem ao menos Colombina de papel (D.F.S., p. 58).
 
Esse aspecto faz parte de um compromisso que coloca com relação à fala da mulher uma questão mais espessa. Se a voz feminina experimentou a tradição segregada, como avaliar – num tempo de mutilação das falas – a mulher assumindo as ramagens que fermentam a denúncia? Como considerar – na paisagem do patrulhamento dos sentidos – a percepção feminina constituída literariamente como prática problemática de produção?
De fogo e sangue faz-se acompanhar de Notas e Anexos. A escritura adere uma escrita documental: depoimentos, entrevistas, transcrições de reportagens etc.. Que legalidade tais enunciados pretendem dar ao texto? A de fazê-lo ingressar num código de referência produzido pela realidade? Articular um campo intertextual, credenciando-o como “gênero fronteiriço”? Os simples sinais dessas perguntas entremostram que o livro de Lia Monteiro ultrapassa a atitude puramente episódica, comum a muitas páginas de sua geração, caídas na cilada do panfleto, devoradas pelo acento do estereótipo. De fogo e sangue alinha à energia de testemunho a explícita afirmação do texto literário como projeto dramatizador da cultura e indisfarçada disseminação da memória em sua vigília contra o Esquecimento, ele que é – como nos adverte Eduardo Escorel – “o caminho mais curto para que a história se repita como farsa ou como tragédia”.





Bio fornecida pelo palestrante.

UMA RESENHA DE O ATLÂNTICO NEGRO, DE PAUL GILROY – Paulo da Luz Moreira




UMA RESENHA DE O ATLÂNTICO NEGRO,
DE PAUL GILROY

Paulo da Luz Moreira

O Atlântico Negro tem como razão primordial, nas palavras do autor, ver “os negros percebidos como agentes, como pessoas com capacidades cognitivas e mesmo com uma história intelectual – atributos negados pelo racismo moderno.”(GILROY, Paul, 2001, p.40) Entretanto, percebe-se no livro duas outras aspirações principais: repudiar as noções de pureza racial que ainda circulam dentro dos movimentos políticos negros e propor alternativas ao que o autor chama de “clausuras das categorias com as quais conduzimos nossas vidas políticas.” (GILROY, Paul, 2001, p.30)
Gilroy busca chegar a esses objetivos aprofundando e consolidando um pensamento crítico sobre a condição negra que foge das armadilhas do essencialismo e do relativismo, defendendo que nos libertemos das amarras do essencialismo racial, sem com isso negar à categoria de raça sua validade como construção social e cultural e instrumento de luta por igualdade. Na prática isso implica em confrontar posturas comuns entre pensadores da condição negra e, nesse sentido, Gilroy argumenta de modo convincente contra o discurso de inspiração nacionalista e romântica que tem a África como origem de uma cultura negra pura, mostrando que as culturas negras na África e na diáspora nunca viveram hermeticamente fechadas em si mesmas e nem são grupos homogêneos sem divisões internas de gênero e classe. Ao mesmo tempo, Gilroy rejeita categoricamente a ênfase desmedida na textualidade que
se torna um meio de esvaziar o problema da ação humana, um meio de especificar a morte (por fragmentação) do sujeito e, na mesma manobra, entronizar o crítico literário como senhor do domínio da comunicação humana criativa. (GILROY, Paul, 2001, p.166)
Como alternativa ao essencialismo e ao relativismo, Gilroy propõe um modo transnacional de refletir sobre a experiência negra no mundo a partir da constatação de que as comunidades negras, dos dois lados do Atlântico, estiveram em intenso intercâmbio desde os séculos XVIII e XIX, e não apenas por causa do tráfico negreiro – Gilroy lembra que o piloto de Colombo era negro e que um quarto da marinha inglesa era composta de africanos no final do século XVIII. Gente, mercadoria e cultura nas mais diversas formas (música, culinária, literatura) transitaram intensamente de um lado do Atlântico para o outro, nos dois sentidos, num tráfego intenso que mudou, mas não acabou com o fim da escravidão. A permanência dos laços criados pela colonização nas relações pós-coloniais (entre elas as migrações do terceiro para o primeiro mundo, chamadas por ele de “segunda” diáspora) perpetuou o Atlântico Negro durante todo o século XX, ainda que pontos de vista preocupados primordialmente com a questão da identidade nacional tendam a ignorá-lo.
O nacionalismo em geral é, aliás, um dos alvos principais de Gilroy. As perspectivas que confinam os estudos literários em departamentos rigidamente separados são vigorosamente contestadas já que “nem as estruturas políticas nem as estruturas econômicas de dominação coincidem mais com as fronteiras nacionais”. Observações como esta me parecem particularmente relevantes no contexto da crítica norte-americana e européia (onde estão os interlocutores implícitos de Gilroy), mas não deveriam ser novidade para quem vive em um país de terceiro mundo tutelado pelo FMI. Aí está um indício da grande limitação desse livro, que requer do leitor brasileiro uma leitura cum granus salis.
Nos capítulos 3, 4 e 5, fica bastante claro que Gilroy, chefe do departamento de Black Studies de Yale, fala diretamente para os seus pares nos centros de saber do hemisfério norte. Nesses capítulos, Gilroy denuncia as limitações e mistificações que foram produzidas para sustentar a visão de que as obras de W.E.B Du Bois e Richard Wright e a música dos Spirituals eram expressões típicas e exclusivas da cultura negra estadounidense, ignorando as importantes conexões internacionais que as definiram.
Os Spirituals são apenas um entre vários exemplos derivados da música popular no livro uma vez que, para Gilroy, a música revela de forma clara os processos de livre apropriação e recombinação que configuram a cultura negra mundial:
(…) a música e seus rituais podem ser utilizados para criar um modelo no qual a identidade não pode ser entendida nem como uma essência fixa, nem como uma construção vaga e extremamente contingente a ser reinventada pela vontade e pelo capricho de estetas, simbolistas e apreciadores de jogos de linguagem (GILROY, Paul, 2001, p.209).
Mas é justamente quando o assunto é música que a mais séria deficiência desse livro tão ambicioso aparece ainda mais claramente: não há sequer uma menção específica a músicos cubanos, brasileiros ou colombianos – apenas duas ou três vagas referências ao Brasil, principalmente quando Gilroy discute a música de Quincy Jones. Ou seja, ainda que o próprio Gilroy diga no prefácio à edição brasileira que “a história brasileira tem sido marginalizada mesmo nos melhores relatos sobre a política negra centrados na América do Norte e no Caribe” (GILROY, Paul, 2001, p.11), O Atlântico Negro apenas perpetua esse estado de coisas. Seria mais adequado chamar esse livro, portanto, de O Atlântico Negro do Norte, pois ele vem de um mundo que se pretende cosmopolita, mas só fala uma língua (o inglês), e só leva em conta o terceiro mundo quando quer passar as férias no Caribe.
Tendo isso em mente, o transnacionalismo de Gilroy tem que ser visto com uma certa reserva. Ainda que ele afirme que “com algumas nobres exceções, as explicações críticas da dinâmica da subordinação e da resistência negra têm sido obstinadamente monoculturais, nacionais e etnocêntricas.” (GILROY, Paul, 2001, p.170) e que, “a ponderação das similaridades e diferenças entre as culturas negras continua a ser uma preocupação urgente” (GILROY, Paul, 2001, p.171), o que se vê em O Atlântico Negro é a repetição de uma operação de apagamento de uma importante parcela do mundo negro que não consegue se fazer representar no circuito acadêmico entre Estados Unidos e Inglaterra. Palavras recorrentes no texto como “América” (GILROY, Paul, 2001, p.58, 182) e “Ocidente” (GILROY, Paul, 2001, p.83, 102) são exemplos dessa operação de apagamento; talvez pudessem ter sido traduzidas respectivamente como Estados Unidos e Europa ocidental/América anglo-saxônica para evitar equívocos do leitor de língua portuguesa.
É verdade que, devido à amplitude do tema, qualquer estudioso que se propusesse a escrever sobre todas as culturas negras dos dois lados do Atlântico encontraria dificuldades, mas o problema agrava-se quando se tenta impor conclusões gerais sobre as comunidades negras em geral e o resultado é uma teoria crítica necessariamente capenga, ou talvez seria melhor dizer, caolha. Não é surpresa, portanto, que a grande ausência no livro seja a relação assimétrica entre as culturas negras do centro e da periferia do capitalismo mundial. Não é fruto do acaso que Michael Jackson seja muitíssimo mais popular que Milton Nascimento ou Gilberto Gil em Moçambique e Angola, ou que a chegada de Cesária Évora ao mercado fonográfico brasileiro esteja ligada ao sucesso da cantora cabo-verdiana no primeiro mundo. Mesmo o acesso ao trabalho de intelectuais com raízes mais ou menos fortes no Caribe, como Stuart Hall e o próprio Paul Gilroy, depende da chancela que esses intelectuais têm nos meios acadêmicos do primeiro mundo. Esses são momentos em que o véu cai e fica bastante claro que a globalização não supera, mas perpetua e até mesmo acentua as relações desiguais dos tempos coloniais. Mas há que abrir os olhos para ver.
O Atlântico Negro, portanto, não cumpre sua promessa, o que não tira todo o mérito do livro. Um exemplo é a discussão da relação entre escravidão e modernidade. Gilroy afirma que “as realizações intelectuais e culturais das populações do Atlântico negro existem em parte dentro e nem sempre contra a narrativa gloriosa do iluminismo e seus princípios operacionais” (GILROY, Paul, 2001, p.113). A escravidão não era um resquício arcaico que a modernidade combatia e Gilroy mostra que a escravidão e a visão do negro como fundamentalmente anti-racional foram parte do pensamento ocidental moderno desde do início.
Há muito que aprender com o livro de Gilroy, principalmente o seu trafegar no mar revolto entre modernidade e pós-modernidade sem se afogar no neoconservadorismo ou na paralisia relativista. Mas pensar um Atlântico Negro que realmente expresse sua riqueza e multiplicidade é um desafio não realizado, talvez maior que o trabalho de um só indivíduo. Que as lições com os erros e os acertos de Paul Gilroy sejam fecundas por aqui!
Referência bibliográfica:
GILROY, Paul. (2001) O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência, São Paulo, Rio de Janeiro, 34/Universidade Cândido Mendes – Centro de Estudos Afro-Asiáticos.
 
Resumo da resenha:
O livro Atlântico Negro, do sociólogo Paul Gilroy, defende a tese da necessidade de se pensar sobre uma cultura negra desenvolvida dos dois lados do Atlântico. Esta resenha busca avaliá-lo em termos da sua proposta, suas teses principais e seus métodos. Uma vez que se trata de uma tradução para o português, inclusive com um prefácio dirigido ao leitor brasileiro escrito pelo próprio autor, buscou-se avaliar a obra criticamente sob o ponto de vista específico desse leitor. Neste sentido, tentamos apontar-lhe tanto as suas limitações principais como seus méritos mais importantes.





Bio fornecida pelo palestrante.

AINDA SOB A MÁSCARA… – Cláudia Sabbag Ozawa Galindo




Resumo:
Análise do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, publicado, pela primeira vez, na reunião de 16 contos da obra Várias histórias, em 1896.
Texto:

AINDA SOB A MÁSCARA…

 

 
 
Análise do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, publicado, pela primeira vez, na reunião de 16 contos da obra Várias histórias,  em 1896.

 

 

Cláudia Sabbag Ozawa Galindo

Doutoranda do Programa de Pós- Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL)
Como em tantas obras do autor, já desvendadas por Alfredo Bosi em A máscara e a fenda (1982), aqui também figura o véu da máscara, de Machado de Assis. Vamos encontrá-la mal ajustada e cambaleante na personagem de Fortunato. Fortunato Gomes da Silveira, como acode normalmente aos personagens de Machado, especialmente aos que tendem à maledicência, à arrogância ou à crueldade, era um capitalista, solteiro, quarenta anos, morador de Catumbi. Este era o homem público. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria, pregados na cara magra e pálida onde havia uma tira de barba curta, ruiva e rara que ia de uma têmpora a outra, por baixo do queixo. Estas são as portas da alma. E era nela que o médico Garcia ambicionava chegar.
Como possuísse “(…)em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo”(p. 68) viu em Fortunato o objeto ideal do estudo minucioso. Este, a princípio, fez-lhe impressão a figura; pareceu-lhe, mais tarde, repulsiva ao mesmo tempo que dedicada; adiante, singular, sui generis; até à própria redução de Calígula. Este caminho percorreu Garcia, em que acuriosidade despertou a natureza sagaz, ávida de conhecimento e análise.
Desde que se viram à porta da Santa Casa, depois ao Teatro e, finalmente, quando se conheceram por conta de um acidente ocorrido com um vizinho do médico, com a proximidade advinda de um encontro em uma gôndola e de aí em diante, até à sociedade que instauraram em uma Casa de Saúde, Garcia procurava desvendar o segredo de Fortunato, as camadas morais de que se compunha, sua alma, enfim.
Fortunato foi se descortinando diante de Garcia, ou Garcia foi procurá-lo sob as cortinas aparentes da alma. Mas o ator social, ao desempenhar seu papel no cenário da vida, confundia as impressões do analista: “(…)a sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade”(p. 67), afinal, conviviam lado a lado a dedicação desprendida aparente e a indiferença fria pelo sofrimento alheio: “(…)Fortunato serviu de criado” aos cuidados do ferido, para depois Garcia o observar “sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido” (p. 67). Assim, de início, Garcia limitou-se “a aceitar o coração humano como um poço de mistérios”.
Foi somente quando Fortunato tratou com desdém e impaciência os agradecimentos do homem ferido por capoeiras a quem ele havia prestado ajuda e cuidados, é que Garcia se assombrou. E não menos surpreso foi que ele comparou “as mesmas chapas de estanho, duras e frias” que eram os olhos de Fortunato com os obséquios com que ele o tratou em sua casa. Conviviam a indiferença humana e o cuidado social no mesmo homem.
E talvez tenha sido este cuidado que tenha feito Fortunato ouvir “não com indiferença” a lembrança do auxílio ao homem ferido pelos capoeiras, contado por Garcia à Maria Luísa. Esta, por sua vez, esposa de Fortunato, portanto ainda mais próxima de sua alma, ouviu a história de compaixão e solidariedade do marido com espanto e “insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração”(p. 69).
Este coração cuidava toda a gente ter descoberto e louvado, quando Fortunato e Garcia abriram a Casa de Saúde.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da Rua de D. Manuel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. (p. 70).
 
Já, então, Garcia se convencia da natureza generosa de Fortunato, quando passou a atentar-se à miúde à pessoa de Maria Luísa, esposa do sócio. Um abismo separava o casal, uma incompatibilidade moral distanciava os “olhos meigos e submissos” dela das “chapas de estanho, duras e frias” que eram os olhos dele. Bem sabem que os olhos são o espelho da alma. E a dele, aos poucos, consumia a dela, tragava-a. E ela sucumbiu. As experiências que o marido fazia, durante seus estudos de anatomia e fisiologia (“ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães”)(p. 71), certamente desencadearam a tísica na mulher, “compleição nervosa”(p. 71) que era.
Fortunato estudava, acompanhava as operações e curava os cáusticoscomo nenhum outro. Era a dor alheia que o acompanhava ou era ele que a perseguia. A primeira vez que Garcia o viu ele estava à porta da Santa Casa, local fundamentalmente de enfermos, depois na platéia de um dramalhão “cosido a facadas”, andando nas ruas distribuindo bengaladas aos cães, no socorro ao homem vítima de capoeiras e agora à frente da Casa de Saúde. Mais tarde faria experiência com gatos e cães, em seus estudos de anatomia e fisiologia.
Neste sentido, Fortunato pode ser uma menção a “afortunado”, detentor da fortuna. A fortuna, segundo o dicionário, compreende a casualidade e o destino, o bom êxito e o revés da sorte. Assim, reúne, simultaneamente, em gérmen e em potencial, a felicidade e a adversidade, a casualidade e o destino. Nas coxias, por trás das cortinas fechadas da alma de Fortunato, sob a máscara, encontramos na natureza do homem a felicidade na adversidade, o destino na casualidade.
Entretanto, Garcia somente atingiu o segredo de Fortunato tempos depois, em visita ao casal. Encontrou o amigo no gabinete, a esposa horrorizada.
“No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até à chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorrizado. (…)E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma cousa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato (…)” (p. 72)
 
Garcia, natureza curiosa da análise, “conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem” (p. 72) e concluir: “Castiga sem raiva (…) pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia pode lhe dar: é o segredo deste homem” (p. 73).
Só, então, quando já Maria Luísa tossia muito, “o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem”(p. 73). Já Garcia amava Maria Luísa e “o amor trocou a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar” (p. 74). No entanto, a doença tomou conta da mulher e o esposo que “recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher” (p. 74), “nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça”(p. 74) não pôde mais ajustar a máscara e a “índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura(…)” (p. 74) e saciou-se, ainda, da dor moral e apaixonada do médico, para além de qualquer ciúme ou vaidade: “Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa” (p. 75).
É neste sentido que Antônio Cândido, em seu estudo Esquema de Machado de Assis desvenda a atitude de “condutor de marionetes” em que se transforma Fortunato:
“transformou virtualmente a mulher e o amigo num par amoroso inibido pelo escrúpulo, e com isto sofrendo constantemente; e que ambos se tornam o instrumento supremo do seu prazer monstruoso, da sua atitude de manipulação de que o rato é o símbolo (…) para indicar que o homem, transformado em instrumento do homem, cai praticamente no nível do animal violentado”(1970, p. 37)
 
Talvez Garcia não tivesse alcançado de todo a alma de Fortunato, a causa secreta que o alimentava de vida, na morte da vida. Fortunato era o ajuste mal acabado da máscara cambaleante. Note-se que, quando observado de perto, ou quando dava conta de si mesmo, sozinho, parecia saído de uma espécie de “transe”, de um lugar que ele pisava na solidão, ao voltar-se para dentro de si mesmo, ao mergulhar inteiramente nos chamados da sua natureza. No caso do rato, Garcia se deu conta de que Fortunato se distanciara do mundo ao redor:“Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido (…) Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida” (p. 72). Quando volta a si é que busca vestir a máscara novamente: “Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo”. O mesmo ocorreu quando a mulher estava morrendo: “Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.” (p. 74).
Assim é que o homem interior convive com o exterior, o individual com o social. É através da máscara que o interesse pelo sofrimento se reveste, publicamente, em dedicação aos enfermos; que a fruição da dor alheia toma feição de cuidados, que a essência busca nova roupagem na aparência, mas que a natureza imperiosa à força e mal acomodada resiste ao ajuste perfeito da máscara e o homem transita cambaleante entre a alma e o mundo exterior. Às vezes sobressaltado, às vezes voltando a si.
É por este viés que Antônio Cândido afirma que, mesmo
“(…)os mais terríveis de seus personagens, são homens de corte burguês impecável, perfeitamente entrosados nos mores da sua classe”. Assim é que “Sob este aspecto, é interessante comparar a anormalidade essencial de Fortunato da ‘Causa Secreta’ com sua perfeita normalidade social de proprietário abastado e sóbrio, que vive de rendas e do respeito coletivo”. (1970, p.37)
 
E mesmo terríveis, sob as máscaras, encontram “Garcias” a lhes desvendar a alma, as camadas morais, para além da repulsa; e leitores para os tornarem públicos, para além da crueldade explícita. Os primeiros vestem a máscara social, nós a máscara do espectador.
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
ASSIS, Machado de (1997). “A Causa Secreta. In: Várias Histórias. São Paulo: Globo.
CANDIDO, Antonio (1970). “Esquema de Machado de Assis. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades.
BOSI, Alfredo (1982). “A máscara e a fenda”. In: ___________(org.).Machado de Assis. São Paulo: Ática.





Bio fornecida pelo palestrante.

UMA RESENHA DE O ATLANTICO NEGRO, DE PAUL GILROY – Paulo da Luz Moreira




Resumo:
Resumo da resenha: O livro Atlantico Negro, do sociólogo Paul Gilroy, defende a tese da necessidade de se pensar sobre uma cultura negra desenvolvida dos dois lados do Atlantico. Esta resenha busca avaliá-lo em termos da sua proposta, suas teses principais e seus métodos. Uma vez que se trata de uma tradução para o português, inclusive com um prefácio dirigido ao leitor brasileiro escrito pelo próprio autor, buscou-se avaliar a obra criticamente sob o ponto de vista específico desse leitor. Neste sentido, tentamos apontar-lhe tanto as suas limitações principais como seus méritos mais importantes.
Texto:

 

UMA RESENHA DE O ATLANTICO NEGRO,

DE PAUL GILROY[1]

Paulo da Luz Moreira

 
O Atlantico Negro tem como razão primordial, nas palavras do autor, ver “os negros percebidos como agentes, como pessoas com capacidades cognitivas e mesmo com uma história intelectual – atributos negados pelo racismo moderno.”(GILROY, Paul, 2001, p.40) Entretanto, percebe-se no livro duas outras aspirações principais: repudiar as noções de pureza racial que ainda circulam dentro dos movimentos políticos negros e propor alternativas ao que o autor chama de “clausuras das categorias com as quais conduzimos nossas vidas políticas.” (GILROY, Paul, 2001, p.30)
Gilroy busca chegar a esses objetivos aprofundando e consolidando um pensamento crítico sobre a condição negra que foge das armadilhas doessencialismo e do relativismo, defendendo que nos libertemos das amarras doessencialismo racial, sem com isso negar à categoria de raça sua validade como construção social e cultural e instrumento de luta por igualdade. Na prática isso implica em confrontar posturas comuns entre pensadores da condição negra e, nesse sentido, Gilroy argumenta de modo convincente contra o discurso de inspiração nacionalista e romantica que tem a África como origem de uma cultura negra pura, mostrando que as culturas negras na África e na diáspora nunca viveram hermeticamente fechadas em si mesmas e nem são grupos homogêneos sem divisões internas de gênero e classe. Ao mesmo tempo, Gilroy rejeita categoricamente a ênfase desmedida na textualidade que
se torna um meio de esvaziar o problema da ação humana, um meio de especificar a morte (por fragmentação) do sujeito e, na mesma manobra, entronizar o crítico literário como senhor do domínio da comunicação humana criativa. (GILROY, Paul, 2001, p.166)
Como alternativa ao essencialismo e ao relativismo, Gilroy propõe um modo transnacional de refletir sobre a experiência negra no mundo a partir da constatação de que as comunidades negras, dos dois lados do Atlantico, estiveram em intenso intercambio desde os séculos XVIII e XIX, e não apenas por causa do tráfico negreiro – Gilroy lembra que o piloto de Colombo era negro e que um quarto da marinha inglesa era composta de africanos no final do século XVIII. Gente, mercadoria e cultura nas mais diversas formas (música, culinária, literatura) transitaram intensamente de um lado do Atlantico para o outro, nos dois sentidos, num tráfego intenso que mudou, mas não acabou com o fim da escravidão. A permanência dos laços criados pela colonização nas relações pós-coloniais (entre elas as migrações do terceiro para o primeiro mundo, chamadas por ele de “segunda” diáspora) perpetuou o Atlantico Negro durante todo o século XX, ainda que pontos de vista preocupados primordialmente com a questão da identidade nacional tendam a ignorá-lo.
O nacionalismo em geral é, aliás, um dos alvos principais de Gilroy. As perspectivas que confinam os estudos literários em departamentos rigidamente separados são vigorosamente contestadas já que “nem as estruturas políticas nem as estruturas econômicas de dominação coincidem mais com as fronteiras nacionais”. Observações como esta me parecem particularmente relevantes no contexto da crítica norte-americana e européia (onde estão os interlocutores implícitos de Gilroy), mas não deveriam ser novidade para quem vive em um país de terceiro mundo tutelado pelo FMI. Aí está um indício da grande limitação desse livro, que requer do leitor brasileiro uma leitura cum granus salis.
Nos capítulos 3, 4 e 5, fica bastante claro que Gilroy, chefe do departamento de Black Studies de Yale, fala diretamente para os seus pares nos centros de saber do hemisfério norte. Nesses capítulos, Gilroy denuncia as limitações e mistificações que foram produzidas para sustentar a visão de que as obras de W.E.B Du Bois e Richard Wright e a música dos Spirituals eram expressões típicas e exclusivas da cultura negra estadounidense, ignorando as importantes conexões internacionais que as definiram.
Os Spirituals são apenas um entre vários exemplos derivados da música popular no livro uma vez que, para Gilroy, a música revela de forma clara os processos de livre apropriação e recombinação que configuram a cultura negra mundial:
 
(…) a música e seus rituais podem ser utilizados para criar um modelo no qual a identidade não pode ser entendida nem como uma essência fixa, nem como uma construção vaga e extremamente contingente a ser reinventada pela vontade e pelo capricho de estetas, simbolistas e apreciadores de jogos de linguagem (GILROY, Paul, 2001, p.209).
 
Mas é justamente quando o assunto é música que a mais séria deficiência desse livro tão ambicioso aparece ainda mais claramente: não há sequer uma menção específica a músicos cubanos, brasileiros ou colombianos – apenas duas ou três vagas referências ao Brasil, principalmente quando Gilroy discute a música de Quincy Jones. Ou seja, ainda que o próprio Gilroy diga no prefácio à edição brasileira que “a história brasileira tem sido marginalizada mesmo nos melhores relatos sobre a política negra centrados na América do Norte e no Caribe” (GILROY, Paul, 2001, p.11), O Atlantico Negro apenas perpetua esse estado de coisas. Seria mais adequado chamar esse livro, portanto, de O AtlanticoNegro do Norte, pois ele vem de um mundo que se pretende cosmopolita, mas só fala uma língua (o inglês), e só leva em conta o terceiro mundo quando quer passar as férias no Caribe.
Tendo isso em mente, o transnacionalismo de Gilroy tem que ser vistocom uma certa reserva. Ainda que ele afirme que “com algumas nobres exceções, as explicações críticas da dinamica da subordinação e da resistência negra têm sido obstinadamente monoculturais, nacionais e etnocêntricas.” (GILROY, Paul, 2001, p.170) e que, “a ponderação das similaridades e diferenças entre as culturas negras continua a ser uma preocupação urgente” (GILROY, Paul, 2001, p.171), o que se vê em O Atlantico Negro é a repetição de uma operação de apagamento de uma importante parcela do mundo negro que não consegue se fazer representar no circuito acadêmico entre Estados Unidos e Inglaterra. Palavras recorrentes no texto como “América” (GILROY, Paul, 2001, p.58, 182) e “Ocidente” (GILROY, Paul, 2001, p.83, 102) são exemplos dessa operação de apagamento; talvez pudessem ter sido traduzidas respectivamente como Estados Unidos e Europa ocidental/América anglo-saxônica para evitar equívocos do leitor de língua portuguesa.
É verdade que, devido à amplitude do tema, qualquer estudioso que se propusesse a escrever sobre todas as culturas negras dos dois lados do Atlantico encontraria dificuldades, mas o problema agrava-se quando se tenta impor conclusões gerais sobre as comunidades negras em geral e o resultado é uma teoria crítica necessariamente capenga, ou talvez seria melhor dizer, caolha. Não é surpresa, portanto, que a grande ausência no livro seja a relação assimétrica entre as culturas negras do centro e da periferia do capitalismo mundial. Não é fruto do acaso que Michael Jackson seja muitíssimo mais popular que Milton Nascimento ou Gilberto Gil em Moçambique e Angola, ou que a chegada deCesária Évora ao mercado fonográfico brasileiro esteja ligada ao sucesso da cantora cabo-verdiana no primeiro mundo. Mesmo o acesso ao trabalho de intelectuais com raízes mais ou menos fortes no Caribe, como Stuart Hall e o próprio Paul Gilroy, depende da chancela que esses intelectuais têm nos meios acadêmicos do primeiro mundo. Esses são momentos em que o véu cai e fica bastante claro que a globalização não supera, mas perpetua e até mesmo acentua as relações desiguais dos tempos coloniais. Mas há que abrir os olhos para ver.
O Atlantico Negro, portanto, não cumpre sua promessa, o que não tira todo o mérito do livro. Um exemplo é a discussão da relação entre escravidão e modernidade. Gilroy afirma que “as realizações intelectuais e culturais das populações do Atlantico negro existem em parte dentro e nem sempre contra a narrativa gloriosa do iluminismo e seus princípios operacionais” (GILROY, Paul, 2001, p.113). A escravidão não era um resquício arcaico que a modernidade combatia e Gilroy mostra que a escravidão e a visão do negro como fundamentalmente anti-racional foram parte do pensamento ocidental moderno desde do início.
Há muito que aprender com o livro de Gilroy, principalmente o seu trafegar no mar revolto entre modernidade e pós-modernidade sem se afogar noneoconservadorismo ou na paralisia relativista. Mas pensar um Atlantico Negro que realmente expresse sua riqueza e multiplicidade é um desafio não realizado, talvez maior que o trabalho de um só indivíduo. Que as lições com os erros e os acertos de Paul Gilroy sejam fecundas por aqui!
 
Referência bibliográfica:
 
GILROY, Paul. (2001) O Atlantico NegroModernidade e dupla consciência, São Paulo, Rio de Janeiro, 34/Universidade Candido Mendes – Centro de Estudos Afro-Asiáticos.
 
 
 

 


[1] Esta resenha for apresentada como trabalho na matéria “Literatura Afro-descendente no Brasil”, lecionada na Faculdade de Letras da UFMG no segundo semestre de 2003




Bio fornecida pelo palestrante.

A DUBIEDADE NARRATIVA EM CLARICE LISPECTOR: UM OLHAR SOBRE A HORA DA ESTRELA – Fabiana Rodrigues Carrijo




Resumo:
It will be suggested a reading of the novel A hora da Estrela, written by Clarice Lispector with a view to the narrative because it shows itself provocative and particular. Who tells the story seems to be a man nevertheless he allows himself to be “the other” of his own character, revealing a possible feminine side. Other features will be broach from this first one: the time’s subject – ambiguous in this narrative – as well as the dubious try to make a fiction which all the time shows itself as a non-fiction.
Texto:

A DUBIEDADE NARRATIVA EM CLARICE LISPECTOR: UM OLHAR SOBRE A HORA DA ESTRELA

Fabiana Rodrigues Carrijo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA

ABSTRACT: It will be suggested a reading of the novel A hora da Estrela, written by Clarice Lispector with a view to the narrative because it shows itself provocative and particular. Who tells the story seems to be a man nevertheless he allows himself to be “the other” of his own character, revealing a possible feminine side. Other features will be broach from this first one: the time’s subject – ambiguous in this narrative – as well as the dubious try to make a fiction which all the time shows itself as a non-fiction.

1- INTRODUÇÃO

O presente trabalho destina-se a fazer uma leitura da novela A hora da Estrela; sabe-se que esta constituirá apenas em mais uma entre tantas que se tem feito. Tal leitura se pautará pela análise e sugestão de um possível viés narrativo, congregando o duplo, ou seja, o “outro” da própria personagem.

Na realidade, esta possível androginia textual – nome com o qual denominou-se a especificidade desta narração dupla – em última instância – anuncia um tipo de narrativa polifônica, plurissignificante, como quer crer a terminologia de Bakhtin (1995), na qual a relação de alteridade está sempre presente, mesmo que sub-repticiamente.

No presente caso, a relação com o “outro” está na entrelinha de um discurso que opta pela relação dúbia com este outro. Andrógino, no sentido de entremostrar um narrador que não se constitui apenas masculino, mas se apresenta, em vários momentos, como a outra faceta, diga-se feminina. Dir-se-ia mais, se apresenta como a contraparte de um ser feminino.

Discutida a questão principal – a androginia textual – , tentar-se-á pontuar alguns aspectos da presente obrana qual percebe-se uma tentativa de criação de uma narrativa, aparentemente, ficcional, mas que, concomitantemente, se “desmente” o tempo todo, revelando-se não-ficcional e, de modo análogo, sendo a própria ficção.

Posteriormente, discutir-se-á o modo particular em que é tratada a noção do tempo na narrativa que ora se comenta. Deve-se dizer que todos estes aspectos a serem abordados na presente proposta de leitura, em primeira e última análise representam partes de um todo que, somadas, ajudam a compor a particular obra clariceana.

2- PERCORRENDO O CAMINHO DA ANDROGINIA TEXTUAL

Em A hora da estrela, o narrador Rodrigo S.M, em um processo de espelhamento, cria a personagem, Macabéa, como um duplo do narrador: “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um ruflar de tambor –no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo”(H.E, 22). Como o Outro do Si-mesmo, Macabéa força sua existência na existência de Rodrigo (BORGES: 1999): “Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela, por entre espantos meus” (H.E., 24). “(É paixão minha ser o outro. No caso a outra. Estremeço esquálido igual a ela.)” (H. E, 29). A possível feminilização do narrador, a partir desta determinação, se entrevê por indícios de que uma escrita masculina seria mais racional do que a que ele realiza. (BORGES: 1999). O narrador afirma “escrever com o corpo e o resultado desta escrita é uma névoa úmida”. Contudo, a tentativa de racionalizar a escrita aparece na contraposição seco/úmido: “O que eu narrarei será meloso? Tem tendência mas agora mesmo seco e endureço tudo”(H.E, 17) que caracteriza a contraposição entre a dureza masculina e a pretensa pieguice feminina : “. . .e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”( H.E, 14)

Este sentido duplo de narrar, anuncia, ainda que sub-repticiamente, uma androginia textual em A hora da estrela, uma vez que há uma mixagem de vozes, tanto o narrador quanto a personagem protagonista se acham de tal modo imbricados, que um depende do outro para ter vida : Macabéa só possui vida no discurso ficcional criado por Rodrigo S.M, assim que S.M põe fim a existência de Macabéa, o mesmo acontecerá com ele mesmo: “Macabéa me matou. Ela estava livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça.”(H.E, 86). Tal excerto sugere-nos a enorme coincidência entre autor/personagem, bem como a reversibilidade entre os membros deste par, já que os termos podem ser transpostos de uma posição para outra, sem que este processo implique em perda de função.

Do ponto de vista da escrita feminina, “este mecanismo de cessão da voz narrativa a um homem, faz-se como um pretexto para destruir internamente um discurso institucionalizadamente masculino”.(BORGES:1999). Daí a constante luta do narrador contra a pieguice que ele considera feminina por excelência. Por outro lado, a androginia textual que se instala mediante este processo, expressa um propósito de “conciliação do masculino – feminino como um gesto novo de escrita”. (Engelmann: 1996, 56).

Este exercício de concessão da voz a um narrador masculino, faz-se através de um exercício para manter-se junto a personagem (permanecer no nível da personagem) – no caso do narrador (Rodrigo) e distante dela (no caso do Autor):

Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr no nível da nordestina. (H.E,19)

No fato de distanciar-se da personagem, deve-se dizer,distanciar-se de seu excesso. Um excesso que se caracteriza por elementos ausentes, já que sua natureza é lacunar.

Há uma estreita ligação entre o narrador Rodrigo S.M e a protagonista Macabéa, como se insistiu ao longo deste texto: “… e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura.” (H. E, 17).

O narrador Rodrigo S.M, não é só o narrador, é a contraparte de Macabéa; sua identidade vai sendo paulatinamente desdobrada através de Macabéa; ao falar de Macabéa, Rodrigo S.M “se fala”: “Pareço conhecer nos menores detalhes essa nordestina, pois se vivo com ela. E como muito adivinhei a seu respeito, ela se me grudou na pele qual melado pegajoso ou lama negra”.(H. E, 21).

Acrescentando, o narrador ainda comenta que “a ação desta história terá como resultado minha transfiguração em outrem e minha materialização enfim em objeto.” (H.E, 27), ou sejaé sugerido desde as primeiras linhas da novela um possível travestimento, se é que assim, poder-se-á tomá-lo. Deve-se dizer que o termo travestimento não será utilizado aqui na acepção de transposição estilística de caráter parodístico como surge veiculada, por exemplo, na terminologia genettiana, mas como um processo de transformação aparente do masculino em feminino e vice-versa.

Quanto ao possível travestimento do narrador em outrem, deve-se dizer que, na constituição da presente narrativa, por diversos momentos, o Rodrigo S.M profere sobre o fato da narrativa já estar escrita, de algum modo, nele mesmo: “Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca”.(H.E, 20)

Vale mencionar que a tarefa de escrever a narrativa, ou seja, de se copiar, não é tão fácil como se pensa. Em diversos momentos tem-se a representação de que ela é bastante dolorosa, árdua, repleta de lutas, horas e horas se constituindo, se desfacelando, se destecendo, se fragmentando, acompanhada do jogo de ficcionalização e desficcionalização da narrativa:

Pois a datilógrafa não quer sair dos meus ombros. Logo eu que constato que a pobreza é feia e promíscua. Por isso não sei se minha história vai ser_ ser o quê? Não sei de nada, ainda não me animei a escrevê-la. Terá acontecimentos? Terá. Mas quais? Também não sei. Não estou tentando criar em vós uma expectativa aflita e voraz: é que realmente não sei o que me espera, tenho um personagem buliçoso nas mãos e que me escapa a cada instante querendo que eu o recupere. (H. E, 22).

Para se copiar, é imprescindível tomar cuidado, como o narrador mesmo adverte, de se estar sobrevoando, de se estar em um espaço tênue, entre o limiar do espaço térreo e as alturas, ou seja, de estar no intervalo, no triz: “. . . com a delicadeza de borboleta branca”. Será com o intuito de não se contaminar, de não se misturar, imbricar, o que, de fato, está tão sub-repticiamente, contaminado, imbricado, como a noz e a semente?

Deve-se mencionar que em A hora da estrela há todo um jogo, através do processo de ficcionalização e desficcionalização do real. Em alguns momentos, tem-se uma tentativa de justificar, de nomear e, de contar quantos e quem são ou serão os possíveis personagens da novela, que possíveis sinas as esperam e assim por diante. Contudo em outros momentos, o narrador, quer fazer crer que a personagem construída, inventada, é passível de ser real, ou melhor, de se constituir em realidade, para que todos “a vejam, andando pelas ruas”:

A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S.M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e de chuva caindo.” (H.E, 12-13). “De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza. (H. E, 19).

Reafirmando o que se anunciou no parágrafo anterior, existe uma tentativa dupla de ficcionalização e desficcionalização na presente narrativa; concomitantemente à descrição de uma narrativa ficcional aparece também a desficcionalização desta narrativa, na medida em que o narrador, a todo o momento, quer fazer parecer que a Macabéa não é tão irreal assim, já que é possível ir reconhecendo-a pouco a pouco, e talvez, dentro de nós mesmos, no caso, os leitores. Contudo, por outro lado, não nos deixa esquecer que se trata de uma narrativa que vai se constituindo, na medida em que o narrador vai aventando e explicitando os fatos, os recursos narrativos – digam-se “fictícios” ou não – que lança mão para a construção de sua narrativa.

Posteriormente, o narrador segue configurando a construção da narrativa e, de modo velado, faz-se ler, ainda que implicitamente, uma tentativa de sugerir que seu papel não é tão somente o de escritor, mas, bem mais que isto – na medida em que, além de ser uma das personagens principais (ou de dividir com a mesma o papel principal – o “outro” dela mesma) – representa também aquele que conduz até mesmo o respirar alheio: “Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto”.(H.E, 23). Este “ator”, em alguns momentos, assume a réplica dos leitores, representando o papel de ser o “outro” de nós mesmos e, quem sabe, dele próprio? Faz perguntas, assume comportamento, dúvidas que antes mesmo de os leitores as pensarem, responderem e encenarem, ele (o narrador) já as têm prontas, respondidas. Para utilizar um termo do teatro, o narrador encena e contracena com ele mesmo, ou melhor, com os diversos “outros” com os quais convive, seja dando por sua convivência, seja negando-a:

(Há os que tem. E há os que não têm.É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha. Se der para me entenderem, está bem. Se não, também está bem. Mas por que trato dessa moça quando o que mais desejo é trigo puramente maduro e ouro no estio?) (H.E, 25)

(Estou passando por um pequeno inferno com esta história. Queiram os deuses que eu nunca descreva o lázaro porque senão eu me cobriria de lepra). (Se estou demorando um pouco em fazer acontecer o que já prevejo vagamente, é porque preciso tirar vários retratos dessa alagoana. E também porque se houver algum leitor para essa história quero que ele se embeba da jovem assim como um pano de chão todo encharcado. A moça é uma verdade da qual eu não queria saber. Não sei a quem acusar mas deve haver um réu) (H.E, 39)

No tocante ao tempo, na presente narrativa, deve-se destacar que ele é totalmente ambíguo e, parece obedecer ao mesmo jogo de ficcionalização e desficcionalização já sugerido inicialmente. Aliás, é em conseqüência deste jogo de ficção e não-ficção que se justifica a noção do tempo aqui empregada:”Quero acrescentar à guisa de informação sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.”(H.E, 18)

Anteriormente, ou seja, nas páginas iniciais da narrativa, o narrador havia sugerido que o tempo da narrativa é o próprio da narração. Veja-se: “Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido.” (H.E,12). A todo o momento, percebe-se que os elementos que “deveriam” localizar, referir-se – os chamados dêiticos – cumprem mais a tarefa de não-localizar, ou localizar, dubiamente, enveredando os leitores para um caminho não marcado temporalmente, ou marcado com tendência a não-marcar: “Mas voltemos a hoje. Porque, como se sabe, hoje é hoje. Não estão me entendendo e eu ouço escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos.” (H.E, 20).

O transcorrer do tempo, dos dias também é sugerido de forma ambígua: “Enquanto isso – as constelações silenciosas e o espaço que é tempo que nada tem a ver com ela e conosco. Pois assim se passavam os dias. (H.E, 31)”. “E assim se passava o tempo para a moça esta” (H.E, 27).

É importante destacar, ainda, com referência ao tempo, que o mesmo se apresenta duplo, já que tanto se refere ao próprio tempo da construção da narrativa – em que se dispende para escrevê-la, para compor as personagens e a própria ficção – quanto ao tempo cronológico, específico da personagem e do narrador e de sua inserção na realidade pretensamente evolutiva, histórica. O próprio narrador retoma esta questão, nas páginas iniciais da novela:

Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará. E também porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é também a minha primeira condição: a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça. (H.E,16)

O emprego do tempo, a ficção e a não-ficção, bem como o processo de travestimento, de se transfigurar em outrem, ou melhor, de se configurar em um “outro” de outrem, está muito bem sugerida em A hora da estrela. Em diversas ocasiões encontra-se o narrador se incluindo, se assumindo como o “outro”. Nas passagens seguintes tem-se uma possível amostra do que se tem sugerido até o momento:

Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era é que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro âmago de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.(H. E, 84)”. “Ela estava enfim livre de si e de nós” (H. E, 86).

“Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer”.(H. E, 70).

Retomando a questão da transfiguração, do travestimento do narrador em personagem e vice-versa; mais uma vez, tem-se a sugestão de que narrador e personagem estão intimamente misturados, tal como denuncia o fragmento que segue:

Para desenhar a moça tenho que me domar e para poder captar sua alma tenho que me alimentar frugalmente de frutas e beber vinho branco gelado pois faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo. Também tive que me abster de sexo e de futebol. Sem falar que não entro em contacto com ninguém.Voltarei algum dia à minha vida anterior? (H.E, 23).

É como a pele que aderiu à noz. Findo o espetáculo para Macabéa, metaforizado pelo estrelato: estrela de mil pontas estilhaçada em várias direções, assim finda também para Rodrigo S.M., seu “autor”.

É negada a Macabéa a condição de ser fêmea, os ideais estabelecidos para o feminino, não correspondem às suas proporções. Macabéa é “como um cabelo na sopa não dá vontade de comer”. Por outro lado, Glória encarna os padrões estabelecidos para o feminino. É desejada, representa o que o “outro”, no caso, o masculino deseja: “carnes fartas”. “Pelos quadris adivinhava-se que seria boa parideira”(H.E,60). Diferentemente, se configurava Macabéa, já que tinha ovários murchos, além de não se mostrar feminina. Macabéa incomoda Olímpico com toda sua negatividade, sua não-feminilidade, mas, por outro lado, incomoda-nos ainda mais. E, é , nesse sentido, que a personagem ganha em autonomia; não realiza os desejos de Olímpico – de fêmea nutriz, ou seja, não corresponde aos desejos encarnados para o “feminino,” no caso por Olímpico, nem tampouco a efetivação dessas mesmas possibilidades. A personagem deseja ser desejada, mas tal experiência fica circunscrita à experiência individual da falta, da ausência, ou seja, fica restrita aos sonhos, devaneios da personagem – É só no sonho, que Macabéa, aparentemente, “supre” sua ausência, sua natureza lacunar, já que simbolicamente parece realizar um íntimo e intuitivo desejo de ser mulher, de se configurar em “outro” que não ela mesma.

Como se observa, na própria fala do narrador: Macabéa engravida a si mesma, ao negar-se para o “outro” (Olímpico), nega-se a exteriorizar uma possível feminilidade, constituindo assim numa estranha positividade. Negar-se ao desejo do outro talvez seja o maior mérito desta personagem, toda constituída por lacunas. O valor positivo de Macabéa, talvez seja o da supressão da falta, o da manutenção das lacunas. (Cf. BORGES:1999). Macabéa permanece lacunar, não lhe é permitida a continuidade pela espécie. Por outro lado, tanto Glória quanto Olímpico encarnam papéis de seres “nutrires”, tanto um como o outro possui a capacidade de se perpetuarem pela continuidade da espécie, o que, analogamente, como já se discutiu, é negado a Macabéa. “Olímpico era um diabo premiado e vital e dele nasceriam filhos, ele tinha o precioso sêmen. E como já foi dito ou não dito, Macabéa tinha ovários murchos como um cogumelo cozido”(H.E,58-59).

Quanto às iniciais do narrador, deve-se dizer que elas não são aleatórias nesta novela: “o que, com efeito, importa é o que é dito, não quem o diz: as relações de linguagem e o que subentendem, não o sujeito ocasional que as profere”.(TADIÉ: 1992, 67). Acrescentando J.Yves Tadié comenta que as iniciais constituem em um poderoso factor de despersonalização, de desindividualização, de desrealização.

Poder-se-ia ainda entrever que tal observação vale tanto para as iniciais de personagens, quanto para o narrador, que é o que interessa, neste momento. Rodrigo S.M, não é tão somente um narrador, ele é o narrador sem individualidade exterior; o que conta não é esta exterioridade, mas o que o anonimato vai-lhe permitindo exibir por dentro, o que lhe vai à alma, no pensamento. E, este peculiar anonimato, nos é revelado pela palavra, pela linguagem, pela articulação, pelo arranjo desse discurso dúbio, duplo. Tanto assim o é que, nas diversas caracterizações exteriores de Rodrigo, ele se acha refletido por um espelho e, como toda e qualquer imagem especular, se acha invertida. Rodrigo se encontra em Macabéa, e Macabéa se reflete como um Rodrigo, de aparência “cansada e barbudo”. Nenhum dos dois chega a ter individualidade própria, Macabéa um tantinho mais que Rodrigo, ou seria o inverso? Macabéa, no final da narrativa, morre e ao morrer mata também seu autor, no caso Rodrigo.

Cumpre ressaltar ainda, que o presente anonimato, garantido em parte, pelo jogo com as iniciais do nome do narrador, revela que ele (o anonimato) e a cumplicidade, não são só do narrador/ personagem, mas do leitor/autor; autor/ personagem; leitor/ narrador/ personagem/autor, não importando a ordem dos fatores, mas sua eterna reversibilidade, bem como o desafio de se colocar no lugar do “outro”: (“Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes do outro … Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta…” ( H.E, 30).

É sabido que o exercício empreendido pelo narrador, de se manter próximo a Macabéa e, ao mesmo tempo, distante dela, não é nada fácil, tantas vezes sugerido pelo Rodrigo S.M. Se o exercício de se aproximar dela é desgastante, ficar sem ela também é motivo de falta, de necessidade: “Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagem, despersonalizo-me e tiro-me de mim como tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer”.(H. E, 70). É só se livrando de uma de suas “personas”, de tanta exaustão que Rodrigo consegue descansar e acaba por adormecer um pouco. Entretanto, logo em seguida, na narrativa (três dias, no tempo discorrido ficticiamente pelo narrador), o mesmo (narrador) já sente falta de sua Macabeazinha, e decide, novamente retomar a personalização, o uso da persona.

É preciso lembrar que, no conjunto, a presente narrativa possui uma identidade não andrógina, embora o processo narrativo se revele desse modo, percebe-se, no todo, que há uma voz feminina, ainda que a mesma sirva-se de um narrador duplo como se procurou sugerir até o momento.

Nesse sentido, há uma particularidade discursiva no interior desta obra, uma vez que ela utiliza um expediente um tanto quanto paradoxal – narrador andrógino – mas narrativa, predominantemente, com temática e problemática, de certo modo, voltada para o feminino, ou seja, se faz ouvir uma dicção feminina na presente narrativa. Será que, poder-se-ia vislumbrar, nesta atitude, uma necessidade de se criar uma obra harmônica, um discurso congregando o duplo, a eterna procura da perfeição, da completude de se unir os dois gêneros: tanto o masculino quanto o feminino, em uma única narrativa? Preferiu-se deixar a indagação em aberto, pois, mais que seguir uma resposta, um único caminho, é imprescindível deixá-lo a ser escolhido.

3- CONCLUSÃO

A relação com o “outro” como se procurou tornar possível na presente leitura, não é pautada pela harmonia, mas justamente o inverso, se apresenta conflituosa, dolorosa, fragmentada, multifacetada.

Macabéa representa não somente uma feminilidade negada, como também a não perpetuação da espécie. Sua espécie, diga-se lacunar por essência, se finda, não consegue prosseguir. Se, por um lado, Glória – sua colega de trabalho – representa tão somente o que o “outro” almeja, no caso as aspirações patriarcais de Olímpico, sugerindo assim que o corpo da mesma (Glória) está interdito por apenas satisfazer às estas mesmas aspirações – os desejos masculinos, por outro lado percebe-se que Macabéa permanece neste sentido, neutra: não realiza nem as pretensões patriarcais de Olímpico, nem tampouco a efetivação dessas mesmas possibilidades.

O que se demonstrou com este olhar, entre os vários possíveis para a presente novela, seria a noção de travestimento presente na obra A hora da estrela, ou seja, um narrador andrógino – aparentemente masculino, mas que implicitamente se transfigura em feminino –, seja no modo como concebe a noção de narrador, seja a temática, propriamente feminina, contradições subentendidas na composição da narrativa: seco/úmido (dureza masculina versus a pieguice tida como feminina por excelência).

Resta mencionar que, apesar de se ter uma possível dubiedade narrativa em A hora da estrela, a mesma, como se demonstrou, fica circunscrita apenas à narração, já que, no conjunto, ainda se faz notar uma dicção feminina, seja da temática, seja do modo como a autora articula o discurso e a teia narrativa, sugerindo a eterna busca harmônica; quem sabe agora, possível na narrativa? E passa a congregar, assim, em uma mesma narrativa, ambas vozes, tanto masculina quanto feminina.

4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKTHIN, Michael. Marxismo e filosofia da linguagem. 7a ed. São Paulo: Hucitec,1995

BORGES, Luciana. Aprendendo o EU: o universo feminino em Clarice Lispector. Dissertação. Universidade Federal de Goiás, Goiânia,1999.

ENGELMANN, Magda S.C. O jogo elocucional feminino.Goiânia: Editora da U.F.G, 1996.

FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo.. São Paulo Ática,1996. (Ensaios)

GENETTE, Gérard. Introdução ao arquitexto. Lisboa, Veja Universidade, 1998.

GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: Uma vida que se conta. São Paulo, Ática, 3a ed.1995.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org) Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro, Rocco, 1.999.

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. São Paulo, Ática, 1998.

SHARPE, Peggy. (org) Entre resistir e identificar-se: para uma teoria da prática da narrativa brasileira de autoria feminina. Florianópolis: Editora Mulheres; Goiânia: Editora da UFG, 1997.

TADIÉ, J.Yves. O romance no século XX. Lisboa, Dom Quixote, 1992.





Bio fornecida pelo palestrante.

CATIVOS, MULATAS E CALHAMBOLAS – UM ESTUDO SOBRE A TEMÁTICA NEGRA NO ROMANTISMO BRASILEIRO – Walter De Souza Lopes




Resumo:
Nosso trabalho trata da poesia de temática negra, a partir do que Antonio Candido escreveu, quando de seu estudo específico sobre a obra poética de Castro Alves. Nosso interesse pauta-se no fato de que a escravatura e a abolição são assuntos que permeiam todo o final do século passado, sendo a Guerra do Paraguai um pequeno interregno a essa questão e a República, uma como quê conseqüência dessa.
Texto:

CATIVOS, MULATAS E CALHAMBOLAS –

UM ESTUDO SOBRE A TEMÁTICA NEGRA

NO ROMANTISMO BRASILEIRO

WALTER DE SOUZA LOPES(*)
DOUTOR EM LITERATURA COMPARADA

orientado pela Profa. luiza Lobo – UFRJ/CNPq)

Nosso trabalho trata da poesia de temática negra, a partir do que Antonio Candido escreveu, quando de seu estudo específico sobre a obra poética de Castro Alves. Nosso interesse pauta-se no fato de que a escravatura e a abolição são assuntos que permeiam todo o final do século passado, sendo a Guerra do Paraguai um pequeno interregno a essa questão e a República, uma como quê conseqüência dessa.

Ainda seguindo os passos de Candido, buscamos em poetas desconhecidos ou famosos por outras especialidades (Bernardo Guimarães, Gonçalves Dias, Juvenal Galeno, Narcisa Amália) fazer um pequeno painel de como todo o Romantismo brasileiro (em todas suas fases, já que o século XIX é seu, e o século XIX é a questão social do negro, por excelência) está impregnado pela questão, seja em termos etnográficos, de costumes, seja em termos libertários.

Isso porque, como nos explica Antonio Candido, após ter transformado o agora praticamente desaparecido índio em quase um mito, o mesmo não seria possível de ser feito em relação ao cotidiano e inferior, segundo a nossa estrutura de castas, escravo negro. Assim sendo, e ressalvado um ou outro poema lírico, a questão negra surgiu primeiro para a consciência literária como problema social.

Isso nos faz lembrar que Sartre falava que a obra literária é um chamamento; que não se busca um leitor passivo; busca-se uma liberdade pura, o puro poder criador, a atividade incondicionada. Dizia também o autor de As palavras que “um dos principais motivos da criação artística é indubitavelmente a necessidade de nos sentirmos essenciais em relação com o mundo.”

Palavras com que Schlegel, por certo, concordaria, posto que ele mesmo já escrevera que poesia se faz com idéia, o modelo é apenas estímulo e meio para dar forma ao pensamento do que se quer representar. É pela idéia que se deve fazer poesia, arte. Não se vive na esperança, “mas na certeza da nova aurora da nova poesia.”

É desse papel social, de engajamento, que se investiu o poeta romântico. Desde Byron, desde Hugo, essa função estava sempre imersa em cada movimento ou palavra dos seus autores. E o principal inimigo, o principal embate que seria enfrentado pelo romântico era a tirania, a prisão, a escravidão.

Não havia como fugir: o momento histórico urgia que as consciências se voltassem para nossa realidade, a fim de conhecê-la, criticá-la ou o mais que fosse. A ingenuidade seria de ser esquecida, e o patriotismo, a antropologia, o abolicionismo, estarão na ordem do dia. Nossos poetas não podem mais fugir de sua missão histórica. Não que já não a tivessem. Mas agora ela é o cerne de toda a nossa vida futura.

Para essa explosão de temática abolicionista, foram necessários, é certo, anos de maturação. E precursores. Perdigão Malheiro e Tavares Bastos foram alguns desses arautos de uma nova época.

Perdigão Malheiro escreveria, por exemplo, sobre o escravo ante as leis positivas; lembraria também a escravidão nos índios; chamaria a atenção para os primeiros abolicionistas; bradaria: “Se Dante Alighieri tivesse vivido no século XVIII, colocaria o vértice dos sofrimentos inesquecíveis, o círculo de seu inferno, no porão de uma embarcação negreira, num desses núcleos de suplícios infinitos que apenas poderia descrever a poesia sinistra da loucura.”

Já Tavares Bastos, em suas Cartas do solitário, mencionaria a sorte dos africanos livres; o auxílio não muito desinteressado da Inglaterra no fim do tráfico dos africanos para o Brasil; as leis, os decretos e os avisos atenuando as agruras servis: escravos entrados de fora no Brasil ficam livres (1831); depósito dos negros, para posterior envio à África (1832); a carta que declara o negro livre, numa lata, suspensa do seu pescoço (1834).

Deixando os filósofos e os historiadores, e nos voltando para os poetas menores mencionados por Candido, lembramos que, a rigor, não existe efetivamente poeta maior ou menor. Sempre haverá a impossibilidade de se chegar a um acordo quanto a isso. Eliot chega a pensar nas possibilidades de definição para o poeta, ou poesia menor: que escreveram só poemas curtos; que estão inseridos só em antologias. Ele acaba por se ater a uma breve definição do que seria um poeta maior: “um poeta menor é aquele de cuja obra temos de ler uma boa parte, mas não necessariamente toda a obra.”

Esse seria, por exemplo, o caso dos “lamentos do escravo”, de Carlos Augusto de Sá; de João Salomé Queiroga e seus poemas em que surgem mucamas, feitores, escravos velhos já incapazes de trabalhar.

Voltando no tempo, descobrimos que já em Gonçalves de Magalhães encontramos referências à questão do negro. O poema é “A saudade”, e nele avistamos a nostalgia da pátria distante, que não produz apenas lágrimas, mas principalmente fel:

Ó terra do Brasil, terra de Pátria

Quantas vezes do mísero africano

Te regaram as lágrimas saudosas?

magoados acentos

do cântico do escravo

Ao som dos duros golpes do machado.

Não podemos esquecer de Joaquim Serra e seus poemas muito elogiados por Nabuco, como “o feitor”, “A desobriga”. – E tampouco devemos deixar de lembrar “Jovino, o senhor d’escravos”, de Trajano Galvão. Cesarina é perseguida pelo senhor, Jovino. Não o quer. É morta. O pai foge. O sedutor persegue-o. Lutam. O escravo mata o Senhor.

Do cantor dos timbiras e dos Piramas, conhecemos “A escrava”. Ela sonha com sua terra distante, no Congo; sonha com seu sol e suas areias escaldantes; sonhos que a áspera voz do seu senhor faz cessar.

O poema de Gonçalves Dias se inicia com uma epígrafe de Marino Faliero, relacionada a um tema tão caro ao poeta maranhense, o exílio. E é através do exílio que os espaços da distante pátria parecem ficar ainda maiores; onde as diferenças de religião e de cultura se acentuam.

Recorda ainda a escrava o seu amante perdido, ele, a quem ela o aguardava “debaixo da bananeira, sob um rochedo”. E quando ele chegava, audaz e corajoso, chamava-a para, juntos, sentarem-se sobre o cimo do rochedo. E Alsgá, a jovem princesa, segura e tranqüila em relação ao seu guerreiro, apenas lhe respondia : “Irei contigo, onde fores!”

E suas lembranças dela continuariam, se não viesse próxima a voz irritada do seu senhor; ainda chorando, a escrava (que não era mais Alsgá, porque escravo tem apenas o nome que seu senhor assim determina) voltou aos seus que-fazeres. Ainda que sempre exclamando, entre chorosa e saudosa: “Congo!”

Considerado por Manuel Bandeira melhor poeta que romancista, também Bernardo Guimarães escreveu sobre o negro. Em seu “À sepultura de um escravo” encontramos a homenagem ao cativo em seu único lugar de paz: o túmulo.

Somente à campa eterna o preto, agora livre dos ferros, pode dormir sossegado, debaixo da terra que sempre regou “de prantos e suores”. Fiel escravo, o Africano agora poderá descansar em paz:

Ó lúgubre aposento,

Deixai cair ao menos

uma lágrima

De compaixão sobre essa

humilde cova;

Aí repousa a cinza do Africano,

– o símbolo do infortúnio.

Poeta regionalista e sertanista, Juvenal Galeno escreveu também, e muito, sobre a escravidão. Em tom operístico, produziu obras que eram recitadas par a par com as apóstrofes vulcânicas do autor de Acachoeira de Paulo Afonso: “O escravo”, “A abolição”, “O abolicionista”.

Em “O escravo”, por exemplo, em tom melodramático e com a utilização de várias, e excessivas, rimas em “ar”, o poeta aponta o dedo em riste contra os carrascos, e, na pele do desventurado cativo, só deseja um fim para as suas desditas:

Desgraçado… oh, quanto custa

Esta vida suportar!

Carrascos… cruéis demônios

Acabai de me matar!

Qu’eu possa, qu’eu possa um dia

O meu tormento acabar!

Oh, que sorte! Oh, quanto custa

Esta vida suportar!

Mas há outros exemplos do estro poético abolicionista de Galeno. Lembremos, por exemplo, de “A noite na senzala”, que é o relato da flagelação de escravos, violação de mucamas virgens, venda de filhos arrancados aos braços maternos. Um tanto mais ameno, “A escrava” é a autobiografia em verso de uma cativa que os maltratos fizeram enlouquecer.

Há também “Escravo suicida”, aquele que não morre nem por melancolia nem pelo chicote do feitor, mas que protesta que já não quer sofrer e que vai suicidar-se.

Tão exaltado como altamente original para sua época, Sousândrade, também no assunto “escravo africano” deixou sua maca. Não só por Ter sido um dos primeiros a escrever sobre o assunto, mas também por Ter antecipado em mais de vinte anos os poetas abolicionistas.

Em Harpas selvagens, por exemplo, há por exemplo “A escrava”, no qual a linguagem é concisa, mas perfeitamente emocionante. É a impossibilidade de ver o sol nascer ou pôr-se; nesta hora em que contempla os astros e as estrelas é às ocultas de seus patrões, “eu vejo em tudo/ meus soberbos senhores.”

A escrava ama, mas sua condição servil não lhe dá oportunidades de demonstrar seu sentimento. Só lhe resta sonhar com os céus, ou talvez nem isso, afinal, até em Deus lhe falta esperança:

Do mundo o meu amor não se a‘imenta

Que não há liberdade: eu sonho os céus…

Mas, nos céus não há Deus… na minha vida

Não há nenhuma esp’rança!

Chega a aurora, e enquanto observa-a, ouve sons de chicote, ao longe. É o irmão gêmeo que é castigado (afinal, desejara a filha do senhor). – Foge para uma fazenda vizinha, mas aí encontra apenas a zombaria e o oferecimento de proteção apenas se aceitasse se deitasse com o senhor. Desesperada, retorna a sua antiga morada e confessa a sua fuga; porém não haverá misericórdia: escravo fugitivo tem de ser castigado:

Peada em duros nós, lhe começavam

Despir o corpo e o seio: ela tranziu:

Gargalhada infernal oblíqua ao mundo…

Emudeceu. Mistério!

E seu irmão gemeu no mesmo tempo,

Em seu túmulo o sol também fechou-se,

E todos para o Deus partiram juntos –

Crioula, escravo e sol.

Da poetisa fluminense Narcisa Amália, nascida em São João da Barra, terra de escravos e de fazedores de navios para apresá-los, temos vários poemas de índole abolicionista. “Perfil de escrava”, “Castro Alves”, por exemplo. “Miragem”, também. Nesse poema, os negros são comparados a um imenso oceano que se revolta, no verão.

Com epígrafe de Lamartine sobre os escravos e uma dedicatória a Celso de Magalhães, “O africano e o poeta” é mais um poema à beira do túmulo de um cativo.

Menciona o escravo assustado, escondido, no canto, tristonho, furtivo; que chora e se desgosta; que fala baixo; que desde sempre foi condenado, exilado e a quem só resta, como fuga, a própria morte:

Meu Deus! ao precito

Sem crenças na vida,

Sem pátria querida,

Só resta tombar!

Mas… quem uma prece

Na campa do escravo

Que outrora foi bravo

Triste há de rezar?!…

E aqui terminamos nosso trabalho, sempre lembrando, com Candido, que trazer o negro à literatura, como herói, foi um feito apenas compreensível à luz da vocação retórica daquele tempo, facilmente predisposto à generosidade humanitária. E que, a um olhar mais atento, seriam percebidas as resistências que o processo encontrava, não apenas no público, mas no próprio escritor.

Enquanto se tratava de cantar as mães-pretas, os fiéis pais-joões, as crioulinhas peraltas, não havia problema; mas na hora do amor e do heroísmo, o ímpeto procurava acomodar-se às representações do preconceito. Assim, os protagonistas de romances e poemas, quando escravos, são ordinariamente mulatos, a fim de que o autor possa dar-lhes traços “brancos” e, dessa forma, enfeixá-los nos padrões da sensibilidade “branca”.

Passando por cima de tantas barreiras sociais, psíquicas e estéticas, ainda assim percebe-se, de fato, a extrema idealização de traços físicos e morais com que o apresentam.

Mas, apesar de tudo, esta idealização foi porventura o traço mais original, mais importante e mesmo mais positivo da poesia negra. Realmente, e como Antonio Candido acentua, se o tom humanitário e reivindicatório representa, de um lado, um mecanismo de pensamento e de um sentimento já existentes na oratória, e largamente desenvolvidos nela; de outro, não implica fusão afetiva. É um ideal de justiça pelo qual se luta, sem completar a penetração simpática na alma do negro.

A idealização, porém, agindo no terreno lírico, permitiu impor o escravo à sensibilidade burguesa, não como coitado ou mártir; mas, o que é menos fácil, como ser igual aos demais no amor, no pranto, na maternidade, na cólera, na ternura.





Bio fornecida pelo palestrante.

Cativos, Mulatas e Calhambolas – Um Estudo Sobre A Temática Negra no Romantismo Brasileiro – Walter De Souza Lopes




Cativos, Mulatas e Calhambolas – Um Estudo Sobre A Temática Negra no Romantismo Brasileiro

Walter De Souza Lopes

Nosso trabalho trata da poesia de temática negra, a partir do que Antonio Candido escreveu , quando de seu estudo específico sobre a obra poética de Castro Alves. Nosso interesse pauta-se no fato de que a escravatura e a abolição são assuntos que permeiam todo o final do século passado, sendo a Guerra do Paraguai um pequeno interregno a essa questão e a República, uma como quê conseqüência dessa.

Ainda seguindo os passos de Candido , buscamos em poetas desconhecidos ou famosos por outras especialidades (Bernardo Guimarães, Gonçalves Dias, Juvenal Galeno, Narcisa Amália) fazer um pequeno painel de como todo o Romantismo brasileiro (em todas suas fases, já que o século XIX é seu, e o século XIX é a questão social do negro, por excelência) está impregnado pela questão, seja em termos etnográficos, de costumes, seja em termos libertários.

Isso porque, como nos explica Antonio Candido , após ter transformado o agora praticamente desaparecido índio em quase um mito, o mesmo não seria possível de ser feito em relação ao cotidiano e inferior, segundo a nossa estrutura de castas, escravo negro. Assim sendo, e ressalvado um ou outro poema lírico, a questão negra surgiu primeiro para a consciência literária como problema social.

Isso nos faz lembrar que Sartre falava que a obra literária é um chamamento; que não se busca um leitor passivo; busca-se uma liberdade pura, o puro poder criador, a atividade incondicionada. Dizia também o autor de As palavras que “um dos principais motivos da criação artística é indubitavelmente a necessidade de nos sentirmos essenciais em relação com o mundo.”

Palavras com que Schlegel, por certo, concordaria, posto que ele mesmo já escrevera que poesia se faz com idéia, o modelo é apenas estímulo e meio para dar forma ao pensamento do que se quer representar. É pela idéia que se deve fazer poesia, arte. Não se vive na esperança, “mas na certeza da nova aurora da nova poesia.”

É desse papel social, de engajamento, que se investiu o poeta romântico. Desde Byron, desde Hugo, essa função estava sempre imersa em cada movimento ou palavra dos seus autores. E o principal inimigo, o principal embate que seria enfrentado pelo romântico era a tirania, a prisão, a escravidão.

Não havia como fugir: o momento histórico urgia que as consciências se voltassem para nossa realidade, a fim de conhecê-la, criticá-la ou o mais que fosse. A ingenuidade seria de ser esquecida, e o patriotismo, a antropologia, o abolicionismo, estarão na ordem do dia. Nossos poetas não podem mais fugir de sua missão histórica. Não que já não a tivessem. Mas agora ela é o cerne de toda a nossa vida futura.

Para essa explosão de temática abolicionista, foram necessários, é certo, anos de maturação. E precursores. Perdigão Malheiro e Tavares Bastos foram alguns desses arautos de uma nova época.

Perdigão Malheiro escreveria, por exemplo, sobre o escravo ante as leis positivas; lembraria também a escravidão nos índios; chamaria a atenção para os primeiros abolicionistas; bradaria: “Se Dante Alighieri tivesse vivido no século XVIII, colocaria o vértice dos sofrimentos inesquecíveis, o círculo de seu inferno, no porão de uma embarcação negreira, num desses núcleos de suplícios infinitos que apenas poderia descrever a poesia sinistra da loucura.”

Já Tavares Bastos, em suas Cartas do solitário, mencionaria a sorte dos africanos livres; o auxílio não muito desinteressado da Inglaterra no fim do tráfico dos africanos para o Brasil; as leis, os decretos e os avisos atenuando as agruras servis: escravos entrados de fora no Brasil ficam livres (1831); depósito dos negros, para posterior envio à África (1832); a carta que declara o negro livre, numa lata, suspensa do seu pescoço (1834).

Deixando os filósofos e os historiadores, e nos voltando para os poetas menores mencionados por Candido, lembramos que, a rigor, não existe efetivamente poeta maior ou menor. Sempre haverá a impossibilidade de se chegar a um acordo quanto a isso. Eliot chega a pensar nas possibilidades de definição para o poeta, ou poesia menor: que escreveram só poemas curtos; que estão inseridos só em antologias. Ele acaba por se ater a uma breve definição do que seria um poeta maior: “um poeta menor é aquele de cuja obra temos de ler uma boa parte, mas não necessariamente toda a obra.”

Esse seria, por exemplo, o caso dos “lamentos do escravo” , de Carlos Augusto de Sá; de João Salomé Queiroga e seus poemas em que surgem mucamas, feitores, escravos velhos já incapazes de trabalhar.

Voltando no tempo, descobrimos que já em Gonçalves de Magalhães encontramos referências à questão do negro. O poema é “A saudade”, e nele avistamos a nostalgia da pátria distante, que não produz apenas lágrimas, mas principalmente fel:

Ó terra do Brasil, terra de Pátria
Quantas vezes do mísero africano
Te regaram as lágrimas saudosas?
magoados acentos
do cântico do escravo
Ao som dos duros golpes do machado.

Não podemos esquecer de Joaquim Serra e seus poemas muito elogiados por Nabuco, como “o feitor”, “A desobriga”. – E tampouco devemos deixar de lembrar “Jovino, o senhor d’escravos”, de Trajano Galvão. Cesarina é perseguida pelo senhor, Jovino. Não o quer. É morta. O pai foge. O sedutor persegue-o. Lutam. O escravo mata o Senhor.

Do cantor dos timbiras e dos Piramas, conhecemos “A escrava”. Ela sonha com sua terra distante, no Congo; sonha com seu sol e suas areias escaldantes; sonhos que a áspera voz do seu senhor faz cessar.

O poema de Gonçalves Dias se inicia com uma epígrafe de Marino Faliero, relacionada a um tema tão caro ao poeta maranhense, o exílio. E é através do exílio que os espaços da distante pátria parecem ficar ainda maiores; onde as diferenças de religião e de cultura se acentuam.

Recorda ainda a escrava o seu amante perdido, ele, a quem ela o aguardava “debaixo da bananeira, sob um rochedo”. E quando ele chegava, audaz e corajoso, chamava-a para, juntos, sentarem-se sobre o cimo do rochedo. E Alsgá, a jovem princesa, segura e tranqüila em relação ao seu guerreiro, apenas lhe respondia : “Irei contigo, onde fores!”

E suas lembranças dela continuariam, se não viesse próxima a voz irritada do seu senhor; ainda chorando, a escrava (que não era mais Alsgá, porque escravo tem apenas o nome que seu senhor assim determina) voltou aos seus que-fazeres. Ainda que sempre exclamando, entre chorosa e saudosa: “Congo!”

Considerado por Manuel Bandeira melhor poeta que romancista , também Bernardo Guimarães escreveu sobre o negro. Em seu “À sepultura de um escravo” encontramos a homenagem ao cativo em seu único lugar de paz: o túmulo.

Somente à campa eterna o preto, agora livre dos ferros, pode dormir sossegado, debaixo da terra que sempre regou “de prantos e suores”. Fiel escravo, o Africano agora poderá descansar em paz:

Ó lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos
uma lágrima
De compaixão sobre essa
humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
– o símbolo do infortúnio.

Poeta regionalista e sertanista, Juvenal Galeno escreveu também, e muito, sobre a escravidão. Em tom operístico, produziu obras que eram recitadas par a par com as apóstrofes vulcânicas do autor de A cachoeira de Paulo Afonso: “O escravo”, “A abolição”, “O abolicionista”.

Em “O escravo”, por exemplo, em tom melodramático e com a utilização de várias, e excessivas, rimas em “ar”, o poeta aponta o dedo em riste contra os carrascos, e, na pele do desventurado cativo, só deseja um fim para as suas desditas:

Desgraçado… oh, quanto custa
Esta vida suportar!
Carrascos… cruéis demônios
Acabai de me matar!
Qu’eu possa, qu’eu possa um dia
O meu tormento acabar!
Oh, que sorte! Oh, quanto custa
Esta vida suportar!

Mas há outros exemplos do estro poético abolicionista de Galeno. Lembremos, por exemplo, de “A noite na senzala”, que é o relato da flagelação de escravos, violação de mucamas virgens, venda de filhos arrancados aos braços maternos. Um tanto mais ameno, “A escrava” é a autobiografia em verso de uma cativa que os maltratos fizeram enlouquecer.

Há também “Escravo suicida”, aquele que não morre nem por melancolia nem pelo chicote do feitor, mas que protesta que já não quer sofrer e que vai suicidar-se.

Tão exaltado como altamente original para sua época, Sousândrade, também no assunto “escravo africano” deixou sua maca. Não só por Ter sido um dos primeiros a escrever sobre o assunto, mas também por Ter antecipado em mais de vinte anos os poetas abolicionistas.

Em Harpas selvagens, por exemplo, há por exemplo “A escrava”, no qual a linguagem é concisa, mas perfeitamente emocionante. É a impossibilidade de ver o sol nascer ou pôr-se; nesta hora em que contempla os astros e as estrelas é às ocultas de seus patrões, “eu vejo em tudo/ meus soberbos senhores.”

A escrava ama, mas sua condição servil não lhe dá oportunidades de demonstrar seu sentimento. Só lhe resta sonhar com os céus, ou talvez nem isso, afinal, até em Deus lhe falta esperança:

Do mundo o meu amor não se a’imenta
Que não há liberdade: eu sonho os céus…
Mas, nos céus não há Deus… na minha vida
Não há nenhuma esp’rança!

Chega a aurora, e enquanto observa-a, ouve sons de chicote, ao longe. É o irmão gêmeo que é castigado (afinal, desejara a filha do senhor). – Foge para uma fazenda vizinha, mas aí encontra apenas a zombaria e o oferecimento de proteção apenas se aceitasse se deitasse com o senhor. Desesperada, retorna a sua antiga morada e confessa a sua fuga; porém não haverá misericórdia: escravo fugitivo tem de ser castigado:

Peada em duros nós, lhe começavam
Despir o corpo e o seio: ela tranziu:
Gargalhada infernal oblíqua ao mundo…
Emudeceu. Mistério!
E seu irmão gemeu no mesmo tempo,
Em seu túmulo o sol também fechou-se,
E todos para o Deus partiram juntos –
Crioula, escravo e sol.

Da poetisa fluminense Narcisa Amália, nascida em São João da Barra, terra de escravos e de fazedores de navios para apresá-los, temos vários poemas de índole abolicionista. “Perfil de escrava”, “Castro Alves”, por exemplo. “Miragem”, também. Nesse poema, os negros são comparados a um imenso oceano que se revolta, no verão.

Com epígrafe de Lamartine sobre os escravos e uma dedicatória a Celso de Magalhães, “O africano e o poeta” é mais um poema à beira do túmulo de um cativo.

Menciona o escravo assustado, escondido, no canto, tristonho, furtivo; que chora e se desgosta; que fala baixo; que desde sempre foi condenado, exilado e a quem só resta, como fuga, a própria morte:

Meu Deus! ao precito
Sem crenças na vida,
Sem pátria querida,
Só resta tombar!
Mas… quem uma prece
Na campa do escravo
Que outrora foi bravo
Triste há de rezar?!…

E aqui terminamos nosso trabalho, sempre lembrando, com Candido, que trazer o negro à literatura, como herói, foi um feito apenas compreensível à luz da vocação retórica daquele tempo, facilmente predisposto à generosidade humanitária. E que, a um olhar mais atento, seriam percebidas as resistências que o processo encontrava, não apenas no público, mas no próprio escritor.

Enquanto se tratava de cantar as mães-pretas, os fiéis pais-joões, as crioulinhas peraltas, não havia problema; mas na hora do amor e do heroísmo, o ímpeto procurava acomodar-se às representações do preconceito. Assim, os protagonistas de romances e poemas, quando escravos, são ordinariamente mulatos, a fim de que o autor possa dar-lhes traços “brancos” e, dessa forma, enfeixá-los nos padrões da sensibilidade “branca”.
Passando por cima de tantas barreiras sociais, psíquicas e estéticas, ainda assim percebe-se, de fato, a extrema idealização de traços físicos e morais com que o apresentam.

Mas, apesar de tudo, esta idealização foi porventura o traço mais original, mais importante e mesmo mais positivo da poesia negra. Realmente, e como Antonio Candido acentua , se o tom humanitário e reivindicatório representa, de um lado, um mecanismo de pensamento e de um sentimento já existentes na oratória, e largamente desenvolvidos nela; de outro, não implica fusão afetiva. É um ideal de justiça pelo qual se luta, sem completar a penetração simpática na alma do negro.

A idealização, porém, agindo no terreno lírico, permitiu impor o escravo à sensibilidade burguesa, não como coitado ou mártir; mas, o que é menos fácil, como ser igual aos demais no amor, no pranto, na maternidade, na cólera, na ternura.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, v. 2, p. 274-78.
Também trabalharemos com autores aí estudados, e cognominados “menores” (p. 201-8) e “os tons menores” (p. 254-6).
Sempre sem esquecer que, como Romero (História da literatura brasileira.. 7.ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL/MEC, 1960, tomo IV, p. 1093) nos ensina, na nossa literatura os únicos autores que se ocuparam demorada e conscientemente com a questão negra foram apenas quatro: Trajano Galvão, Castro Alves, Melo Morais Filho, Celso de Magalhães (autor de “Calhambolas”, sobre os negros fugidos, e poeta não mencionado na obra magna de Candido). CANDIDO, A. (1981), p. 274.
SARTRE, Jean-Paul. Que é literatura? São Paulo: Ática,1993, p. 67.
SCHLEGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos. São Paulo: Iluminuras, 1994, p. 37.
Vide a “missão do vate”, como Candido (op. cit., p. 26) a chama já que os poetas aí sempre se sentiram portadores de verdades ou sentimentos superiores aos dos outros homens.
MALHEIRO, Agostinho Perdigão. A escravidão no Brasil. 3.ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976, v.1, p. 14.
ELIOT, T.S. O que é poesia menor? In: —. De poesia e de poetas. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 69.
“Monólogo de escravo que se permite perguntar que crime cometeu para ser escravizado”. Cf. SAYERS, Raymond S. O negro na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ed. O Cruzeiro, 1958, p. 167.
MAGALHÃES, G. de apud SAYERS, R. S. (1958) p. 143.
E não só Nabuco, como também Rebouças (cf. Sayers, p. 188).
É esse talvez o primeiro poema a mencionar o assassínio de um senhor branco por um escravo (cf. Sayers, p. 181).
DIAS, Gonçalves. Obras poéticas. Org. Manuel Bandeira. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1944, tomo 1, p. 137.
Expressão que poderíamos também entender como seca e amarga diante do refrão sempre aberto e alegre: “Oh! doces terras de Congo,/ Doces terras d’além-mar!”
Cf. CARPEAUX, Otto Maria. Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1971, p. 103.
GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. e notas por Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: MEC/INL, 1959, p. 53.
GALENO, Juvenal, apud MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1984, v. 2, p. 270.
SOUSANDRADE apud WILLIAMS, Frederick G. Sousândrade: vida e obra. Introd. Jorge de Sena. São Luís: Edições SIOGE, 1976, p. 114. Ver também LOBO, Luiza. Épica e modernidade em Sousândrade (São Paulo: EDUSP; Rio de Janeiro: Presença, 1986). Sobre a literatura negra e a poesia anti-escravagista de Maria Firmina dos Reis, ver LOBO, Luiza, Crítica sem juizo (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993).
Ibidem, p. 115. AMÁLIA, Narcisa, apud OSCAR, João. Narcisa Amália. Campos: Gráfica e Editora Lar Cristão, 1994, p. 178-9.
CANDIDO, A. (1981) p. 275.
Apenas Melo Filho denota, além do sentimento humanitário e a simpatia artística, certa curiosidade realista.
CANDIDO, A. (1981) p. 277.
O que nos faz lembrar algumas palavras de Antonio Candido (apud CAMARGO, Maria Lucia de Barros. Resistir: quem há de? In: ANTELO, Raul et alii, orgs. Declínio da arte, ascensão da cultura. Florianópolis: Abralic/Letras contemporâneas, 1998, p. 174) a respeito das relações entre a ação cultural e a militância política: “A nossa força era conseqüência de nossa posição, que tínhamos também na universidade, isto é: respeito à autonomia da arte e da literatura, respeito à pluralidade de opiniões, concebendo o marxismo enquanto método e não enquanto dogma”.

(*) Doutorando do Curso de Pós-Graduação em Letras da UFRJ sob a orientação da Profa. Dra. Luiza Lobo.





Bio fornecida pelo palestrante.

Les écrits sur l'art et le journal de Delacroix; la critique d'art de Baudelaire – Celina Maria Moreira De Mello




Resumo:
Les écrits sur l’art et le journal de Delacroix ainsi que la critique d’art de Baudelaire font l’objet d’une réflexion comparatiste, qui révele une tension de deux champs discursifs paralleles, le champ du littéraire et le champ du pictural. Le découpage proposé met en relief des rapports de légitimation réciproque tout comme un certain flottement dans la réception de cet ensemble de textes. Une dissymétrie apparaît alors, qui fait de Baudelaire un critique d’art reconnu, mais enferme Delacroix dans le rôle discursif d’un peintre qui écrit. Une question sera posée en conséquence: quelles sont les instances qui légitiment l’artiste romantique?
Texto:

Les écrits sur l’art et le journal de Delacroix; la critique d’art de Baudelaire

Celina Maria Moreira De Mello

1. Les écrits sur l’art et le journal de Delacroix ainsi que la critique d’art de Baudelaire font l’objet d’un travail d’analyse comparée, qui révèle une tension de deux champs discursifs parallèles, le champ du littéraire et le champ du pictural, au XIXe siècle. La Littérature et la Peinture s’inscrivent à leur tour dans un champ plus élargi, aux frontières instituées par l’Esthétique, qui est celui de l’art; vaste champ qui se définit par des activités très différentes aux techniques et aux matériaux divers, tout comme par des valeurs en mutation, aux lendemains de la Révolution Française, de l’Empire Napoléonien et de la Restauration. La présente communication propose une réflexion comparatiste portant sur la construction du personnage social de l’artiste romantique, les valeurs en jeu dans les rapports entre le champ de la peinture et celui de la littérature dans la société française romantique et les instances de légitimation des nouveaux modèles esthétiques littéraires et picturaux du temps de Delacroix et de Baudelaire.

Il s’agit là d’un des thèmes qui se rattache à un Projet de Recherche intégrant une équipe de professeurs de l’Université Fédérale de Rio de Janeiro et de l’Université Fédérale de Minas Gerais, financé par le Centre National de Recherche du Brésil et qui a pour titre Texte & Image.

La Révolution française avait connu une expansion de l’usage du mot artiste. Celui-ci a alors comme référent une catégorie qui comprend trois sous-ensembles d’activités: premièrement celui des artisans, ensuite celui des interprètes, acteurs ou musiciens et finalement celui des peintres, sculpteurs et compositeurs qui jouissent du pouvoir symbolique que leur donne un savoir et un savoir-faire rattaché au domaine de l’esthétique.

Ce qui n’a pas manqué de provoquer des réactions indignées:

“Les histrions, les plus vils bateleurs, les artisans les plus obscurs, les décrotteurs même, prennent depuis quelque temps à Paris, le titre d’Artistes : on ne peut assurément pousser plus loin l’impudeur et la dérision” D’Hotel.

Dictionnaire du bon langage (1808) REY, Alain. Le nom d’artiste. ROMANTISME. REVUE DU XIXe SIÈCLE L’artiste, l’écrivain, le poète. No. 55, 1987: 5-22. p. 8

[Os histriões, os mais vis saltimbancos, os artesãos mais desconhecidos, até mesmo os engraxates, há algum tempo, assumem, em Paris, o título de Artistas: certamente não se pode exagerar mais na falta de pudor e no escárnio].

2. L’extension de l’usage du mot artiste est le signe d’ une aspiration générale à un statut social supérieur qui vient doubler le prestige social de l’artiste, personnage compris dans un réseau signifiant connoté positivement. Celui-ci renvoie au pouvoir de la création (du grec poïein) associé à un savoir qui se traduit par l’ordre du faire. Artisteest alors une catégorie qui comprendra le peintre, le sculpteur, le musicien, l’écrivain et le poète. Et dans ce contexte historique, artiste s’opposera à bourgeois. ( Rey, 1987: 12).

Le personnage de l’artiste romantique, tel que nous en avons hérité du XIXe siècle, est construit en France, sur des modèles parisiens, dans la période comprise entre le retour des Bourbon et les débuts de la IIIe République, grâce à des stratégies discursives de légitimation et à la mise en place d’un éthos particulier (Maingueneau, 1996; s.v. éthos). Pour être reconnu en tant qu’ artiste romantique, il est souhaitable, entre autres, d’exercer une activité de journaliste1 et de critique littéraire, d’appartenir à un groupe dont l’occupation la plus importante est celle de lire et d’écrire des poèmes, de bénéficier de l’appui d’un écrivain reconnu. Il faudra en outre adopter un mode de vie qui sera appelé d’abord “vie d’artiste”, pour devenir quelques années plus tard la “vie de bohème”.

La “vie d’artiste” se traduit par une certaine apparence, un “style débraillé et peu conventionnel” ( Martin-Fugier, 1998: 17), la fréquentation de certains lieux et un emploi du temps très particulier. C’est ainsi que “les lieux , c’étaient des ateliers, les chambres minables et les mansardes haut perchées, de préférence au Quartier latin” ( ibid). Les jeunes artistes désargentés font des vers, sont compositeurs, peintres ou sculpteurs. L’amitié, les flâneries et leurs interminables discussions dans les cafés du Quartier latin vont s’opposer aux activités bourgeoises, dites utiles. Le peintre et le poète romantiques partagent alors le même éthos.

Ainsi donc, quoique Delacroix et Baudelaire n’appartiennent pas tout à fait à la même génération, l’un étant né en 1798 et l’autre en 1821, nous leur retrouvons un air de famille qui permet de les réunir dans cette vaste tribu qu’est la catégorie de l’artiste romantique. Même s’il faut tenir compte du décalage de vingt ans qui les sépare, Les Fleurs du mal (1857) sont contemporaines des oeuvres de maturité du peintre, telles les trente-six toiles exhibées à l’occasion de l’ Exposition Universelle de 1855. Il est possible d’établir un parallèle, en ce qui concerne la légitimation de leur personnage social.

En outre, ce travail de réflexion permet de mettre en relief des stratégies de légitimation institutionelle, aussi bien du champ littéraire que du champ pictural, qui opèrent au moyen de ces textes, que pour faire vite nous appellerons “secondaires”. En fait, le Journal du peintre tout comme les Salons et les textes de critique d’art du poète se répondent en chiasme, puisque d’une part, ni le Journal de Delacroix, ni la critique d’art de Baudelaire ne sont considérés comme l’oeuvre majeure qui fait de l’un, un peintre (tableaux, fresques, gravures, croquis, dessins ) et de l’autre, un poète (Les Fleurs du mal), et que, par ailleurs, leur réception est inséparable de cette même oeuvre picturale ou poétique, qu’ils viennent, c’est le cas de le dire, seconder.

3. L’oeuvre écrite d’Eugène Delacroix (1798-1863) comprend d’abord un Journal, qu’il a tenu pendant de longues années, de 1822 à 1824 (Journal de jeunesse) et de 1847 à 1863 (Journal de l’âge mûr et de la vieillesse). Or en 1822, Delacroix est dèjà célèbre. Le peintre, âgé de vingt-quatre ans avait envoyé au Salon le tableau Dante et Virgile aux Enfers, qui attira l’attention du public et des critiques et fut acquis par le comte Forbin, directeur des Musées sous la Restauration, pour être exposé en permanence au musée du Jardin de Luxembourg, destiné par le comte ” à recevoir les meilleurs tableaux des peintres français modernes” (apud Chaudonneret, 1999: 31). Philippe Julian, dans sa biographie de Delacroix commente: “Ce tableau a exprimé le malheur qu’attendait la première génération romantique” ( Julian, 1963: 41). Delacroix est donc déjà associé – malgré lui, il faut bien le dire – à un éthos d’artiste romantique.

Dans son Journal de jeunesse, Delacroix note, sur des feuilles de papier cousues en petits cahiers de 20 X 14, presqu’au jour le jour, des idées qui pourront lui servir de sujets de tableaux, l’emploi de ses journées, tout comme ses progrès et ses rechutes dans une sorte de projet de réforme morale. Ce premier ensemble de cahiers commence le mardi 3 septembre 1822 et s’interrompt le 5 octobre 1824, un mardi également.

Le deuxième ensemble est écrit sur une série d’agendas de 40 X 13 cartonnés et correspond, d’après Hubert Damisch, à un tout autre projet: ” Cette fois il ne s’agira plus de réforme morale, ni de lutter contre la dissipation et les distractions vulgaires, de ne plus varier. Delacroix n’en est plus là: il a si bien pris son parti de lui-même qu’il ne songe plus qu’à jouir de soi avant tout.” (Damisch, in Delacroix, 1996: XIX).

Dans la période où Delacroix interrompt l’écriture de son Journal, il publie de nombreux articles et essais portant sur des sujets qui se rattachent à son activité de peintre. On y trouve une réflexion théorique sur les Beaux-Arts et le Beau, les théories classiques de l’imitation, et aussi de longs développements sur l’originalité. Ce textes ont été rassemblés et publiés en 1865 par Piron, son héritier universel et testataire, réédités en 1923 par Elie Faure ( ed. Crès) et réédités en 1988 ( ed. Séguier), sous le titre deEcrits sur l’Art.

Dans ces Ecrits sur l’Art, on trouve également des études biographiques et critiques sur Raphaël, Michel-Ange ou Le Poussin, entre autres. A la fin du volume, avec les Notes, se situe la fameuse lettre, dite “Lettre sur les concours”, adressée en 1831 au Directeur de L’Artiste, Eugène Houssaye, et qui est également publiée dans un complément auxEcrits sur l’art, Pensées sur les Arts et les Lettres, éditées par Séguier en 1998.

Aussi bien dans le Journal que dans ses articles sur l’art, Delacroix se penche volontiers sur les diverses possibilités qu’offre à l’artiste la différence entre les arts. Il y développe une réflexion critique sur les procédés poétiques qui rapprochent et ceux qui séparent la littérature et la peinture, dans la tradition humaniste du parallèle des arts. Il s’agit là d’un véritable genre littéraire, qui oppose d’une part la peinture et la poésie – la doctrine de l’Ut pictura poesis – et d’autre part la peinture et la sculpture – le célèbre problème du paragone (Lichtenstein, 1997).

Je ne m’attarderai pas outre mesure sur les Salons et les critiques d’art de Baudelaire (1821-1867), qui sont largement connus et appréciées. Le Salons de 1845, Le Salon de 1846, L’Exposition Universelle 1855 et L’oeuvre et la vie d’Eugène Delacroix, entre autres, l’associent, pour la postérité, à la légende de Delacroix. Une certaine tradition considère même que Baudelaire aurait été le premier à proclamer que le peintre inaugure la modernité en art. Karine Marie, dans sa présentation à l’anthologie des textes de critiques d’art écrites par Théophile Gautier et Baudelaire sur Delacroix, rappelle cependant que ce fut Gautier qui, en vérité, dix ans avant Baudelaire, pour louer le peintre, s’était servi de l’expression, le “premier des modernes2.

4. En ce qui concerne ces deux ensembles de textes, cependant, l’on observe une sorte de flottement de la réception, plus gênée ou pour le moins plus troublée, si l’on peut dire, par une activité d’écrivain chez Delacroix que par celle de critique chez Baudelaire. Aussi bien le Journal de Delacroix que les textes de critique d’art de Baudelaire appartiennent à des genres littéraires nouveaux, dans la perspective d’une poétique classique, aristotélicienne. Quoique l’oeuvre écrite de Delacroix, publiée de son vivant s’inscrive dans un genre inauguré par Xenocrate de Sicyone, au IIIe siècle et que leDictionnaire universel des littératures appelle d’un nom très vague: “textes de peintres”3. Et que, par ailleurs, cela va sans dire, les Salons de Baudelaire doivent énormément aux Salons de Diderot. Seul le Journal appartient à un genre assez récent à l’époque, naissant pratiquement avec le Romantisme.

Il y a une sorte d’unanimité de la réception à considérer que dans les deux cas, ces textes présentent une importance secondaire face à l’oeuvre principale des deux artistes. Pour André Joubin, par exemple, qui signe la préface de l’édition du Journal de 1931, les vingt-trois ans d’interruption qui séparent le Journal de jeunesse du Journal de maturité de Delacroix correspondent à une époque où Delacroix “n’a pas rédigé deJournal parce qu’il n’en a pas eu le temps, parce que pendant cette période, qui est celle de sa grande production, il a fait exclusivement son métier de peintre” (Joubin in Delacroix, 1996: 3); ce qui comme nous l’avons vu ne correspond pas tout à fait à la réalité.

Quant à Baudelaire, il faut bien dire que le critique d’art est connu avant le poète et lorsqu’il fait de Delacroix le thème privilégié de ses textes sur l’art, celui-ci est déjà depuis de longues années un peintre célèbre, dans la pleine possession de ses moyens. Et aussi que dans la Préface aux Oeuvres complètes de Baudelaire, publiées par Le Seuil ( 1968), Marcel A. Ruff fait remarquer que les poèmes de Baudelaire “ne représentent pas le dixième de ce qu’il a écrit” et que “ce sont bien elles [ les poésies] qui constituent le centre rayonnant et la raison d’ être de son oeuvre.”4

A propos de ces textes, cependant, un rappel de leur situation de communication s’impose. Or, jusqu’en 1830, la notion de “littérature” semble se confondre avec toute production imprimée. Et savoir “bien écrire” est l’un des traits qui distinguent les gens ayant reçu une certaine éducation. C’est dans cette perspective qu’il faut comprendre une certaine réception des textes de critique d’art de Delacroix et même de son Journal, attribués à un savoir-faire scriptural de classe. Delacroix lui-même d’ailleurs souscrit à cette conception “classique” de l’écriture quand il souligne les difficultés du métier de peintre face à une certaine “facilité” du métier d’écrivain. Le 23 mars 1854, il note dans son Journal: “La littérature. – Elle est l’art de tout le monde: on l’apprend sans s’en douter.”

En fait, c’est l’ écrivain romantique qui, tout en se battant pour une nouvelle esthétique et une remise en question des paradigmes classiques, a la prétention d’établir un nouveau canon, tout comme de “guider” le public dans ses goûts d’amateur. Une nouvelle poétique mettra en place une nouvelle hiérarchie des genres, où la poésie lyrique et intimiste l’emporte, suivie de près par le drame romantique et bientôt par le roman.
Dans ce nouveau contexte, l’activité critique de l’écrivain est nécessaire, non seulement pour que les écrivains puissent “expliquer” à un lecteur cultivé, c’est-à-dire formé dans la tradition classique ce nouveau paradigme esthétique, mais aussi parce que le public lecteur est de plus en plus nombreux. C’est ainsi que la critique littéraire, d’après les poètes qui fondent La Muse Française, en 1823, devra “saisir et […] déterminer les nouveaux rapports d’une littérature qui se modifie avec le type éternel du beau.” C’est ce même élargissement du public qui fera d’ailleurs très vite du roman un vrai “genre de masse”.

Sans tenir compte des divers groupes sociaux représentés par les lecteurs des journaux et des revues spécialisées dans la critique d’art, considérant donc – même s’il s’agit là d’une sorte d’abstraction – un lecteur moyen, il est possible d’affirmer que les lecteurs virtuels de Delacroix et de Baudelaire sont les mêmes. Le peintre, néanmoins, écrit en peintre consacré; tandis que le poète publierait ses textes sur l’art, tout au moins ceux qui précèdent la publication des Fleurs du Mal, dans la situation d’un postulant à un personnage de poète. Et il suffit de comparer les revues où paraissent les critiques, Delacroix publiant ses articles dans La revue de Paris et La Revue des Deux-Mondes, Baudelaire débutant dans Le Corsaire-Satan. Ce qui fait que la notoriété de l’un finira par contribuer à la notoritété de l’autre.

La nature des thèmes et le mode dont ceux-ci sont traités ne présentent pas de sensibles différences. Aussi bien pour le peintre que pour le poète, c’est le modèle pictural qui semble être mis en valeur. Nous pouvons alors supposer que la dissymétrie dans la réception de l’oeuvre critique de Delacroix et de Baudelaire s’explique en fonction de trois systèmes de valeur correspondant à des espaces-temps différents et qui présentent chacun un double aspect.

Dans un système de valeurs qui lui vient de la société Ancien Régime, Delacroix considère que :

1. la littérature est une source de thèmes et d’ inspiration pour la peinture; ceci est entièrement conforme à la tradition académique, mais Delacroix ne limite pas ses lectures aux anciens, ou aux classiques français, cherchant son inpiration également auprès de Goethe, Byron et Lamartine;

2. la peinture est un art supérieur à la litterature; la peinture exigeant à son avis des connaissances et des efforts absents de l’activité littéraire, non seulement il ne se voit pas comme “écrivain”, mais considère que l’activité scripturale lui prend du temps et nuit à son oeuvre picturale.

Baudelaire, dans la tradition romantique de la “transposition d’art”, fait de la peinture le grand comparant de la littérature. Mais aussi bien dans la même tradition, manifeste une oscillation ambiguë et proclame la valeur du peintre comme étant celle de “la grande poésie”. Théophile Gautier, dans sa Préface aux Oeuvres complètes de Baudelaire éditées par Michel Lévi, en 1968, en fait acte, dans une analyse qui nous permet de comprendre ce procédé de légitimation de l activité du poète et partant d’auto-légitimation:

Baudelaire, comme la plupart des poètes de ce temps-ci, où les arts, moins séparés qu’ils n’étaient autrefois, voisinent les uns chez les autres et se livrent à de fréquentes transpositions, avait le goût, le sentiment et la connaissance de la peinture. Il a écrit des articles de Salon remarquables et, entre autres, des brochures sur Delacroix, qui analysent avec une pénétration et une subtilité extrêmes, la nature d’artiste du grand peintre romantique.

Ce deuxième système correspond à un espace-temps romantique aux valeurs consolidées, où l’artiste créateur, c’est-à-dire poète au pouvoir créateur, se proclame grand artiste méconnu du public et jouit d’une (mé)connaissance sociale incontestable, moment où le roman et le réalisme, paradoxalement, connaissent un succès toujours croissant auprès du grand public. C’est là qu’il faut situer une réception qui fait de Delacroix un artiste, maniant avec autant d’aisance et de succès le pinceau et la plume (cf. date de publication de la première édition des Ecrits sur l’art de Delacroix).

Le trosième système est celui dans lequel nous nous retrouvons encore, celui de l’autonomie des arts, prônant leur spécificité irréductible à des “transpositions” , voire à des parallèles. Ici, Delacroix est un peintre qui a aussi écrit et Baudelaire est un poète dont les critiques d’art constituent une poétique. Ce système reprend alors en partie, d’une part la distribution des champs pictural et littéraire “classique”, d’autre part la vaste (et haute) catégorie romantique d’artiste. La première réduit Delacroix à son activité picturale. La deuxième élève la critique d’art de Baudelaire à un niveau poétique.

En ce qui concerne le Journal du peintre, la réponse ne serait pas aussi simple.

Conclusion:

Le découpage proposé met en relief des rapports de légitimation réciproque tout comme un certain flottement dans la réception de cet ensemble de textes. Une dissymétrie apparaît alors, qui fait de Baudelaire un critique d’art reconnu, mais enferme Delacroix dans le rôle discursif d’un peintre qui écrit. Une question sera posée en conséquence: quelles sont les instances qui légitiment l’artiste romantique?

BIBLIOGRAPHIE

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BOURDIEU, Pierre. Les règles de l’art. Paris, Seuil, 1992.

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DELACROIX, Eugène. Journal; 1822-1863. ( 1931-1932-1980) Paris, Plon, 1996.

DELACROIX, Eugène. Pensées sur les arts et les lettres. Paris, Séguier, 1998.

DICTIONNAIRE UNIVERSEL DES LITTÉRATURES. org. Béatrice Didier. Paris, PUF, 1994. 3 vol.

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LICHTENSTEIN, Jacqueline ( dir.) La peinture.( 1995) Paris, Larousse-Bordas, 1997.

MAINGUENEAU, Dominique. Les termes clés de l’analyse du discours. Paris, Bordas, 1996.

MARIE, Karine. Avant-propos. In: BAUDELAIRE, Chrales & GAUTIER, Théophile.Correspondances esthétiques sur Delacroix. Paris: Olbia, 1998.

MARTIN-FUGIER, Anne. Les romantiques; figures de l’artiste. 1820-1848. Paris, Hachette, 1998. Sobretudo os capítulos Trois itinéraires: Berlioz, Delacroix, Huho, 1820-1830 p. 47-90; Cénacles p. 91-136; Des romantiques excessifs. Le Petit Cénacle, 1830-1833 p. 137-167.

REY, Alain. Le nom d’artiste. ROMANTISME. REVUE DU XIXe SIÈCLE L’artiste, l’écrivain, le poète. No. 55, 1987: 5-22.

NOTAS AO TEXTO

1. Le modèle de cet écrivain qui est doublé d’un journaliste c’est Chateaubriand publiant des articles dans le Journal des débats.

2. Cf. MARIE, Karine. Avant-propos. In: BAUDELAIRE, Charles & GAUTIER, Théophile.Correspondances esthétiques sur Delacroix. Paris: Olbia, 1998. p. 14.

3. Cf. DICTIONNAIRE UNIVERSEL DES LITTÉRATURES. org. Béatrice Didier. Paris, PUF, 1994. vol. 3. s. v. peintres ( textes de).

4. BAUDELAIRE. Oeuvres complètes. Paris, Seuil, 1968. p. 8.

5. DELACROIX, Eugène. Journal; 1822-1863. ( 1931-1932-1980) Paris, Plon, 1996. p. 404.

6. La Muse française Paris, Ambroise Tardieu, 1823-24, I, p. 3 apud MARTIN-FUGIER, Anne. Les romantiques; figures de l’artiste. 1820-1848. Paris, Hachette, 1998 p. 54. Les sept fondateurs de sont Emile Deschamps, …..

7. GAUTIER, Théophile. Baudelaire.[s.l.] Le Castor Astral, 1991. p. 90





Bio fornecida pelo palestrante.

Letteratura Globale e Letteratura dei Mondi – Armando Gnisci




Resumo:
Procurarei, neste estudo, traçar uma espécie de mapa da história da literatura política da Europa de modo a dar vida a um verdadeiro “estudo cultural”, plural e complexo. Esta aproximada “história diversa” da cultura literária européia em suas diferentes relações com o mundo e a partir dos primeiros colonizados desenha ainda a moldura daquela que eu chamei de “nova Literatura dos Mundos”. Assim, ao se falar de “Literatura mundial” é necessário prestar atenção a esse mapa: uma Literatura global, que é precisamente aquela que corresponde à globalização e à transformação de tudo em mercadoria, e uma Literatura dos Mundos que é singular, não porque seja unificada, mas porque revela a capacidade da literatura de traduzir-se e traduzir os mundos, a pluralidade dos discursos e das culturas que se aliam contra a globalização e que mantêm entre si um diálogo aberto através das migrações, das hibridações e das mestiçagem. Este texto foi bastante ampliado pelo autor e faz parte do primeiro capítulo de seu livro Una storia diversa, publicado pela Editora Meltemi, Roma, 2001, por isso optamos pelo título que dá nome ao livro e em seguida ao capítulo. A tradução do texto original Letteratura globale e Letteratura dei Mondi e a publicação foram autorizadas pelo autor.
In questo studio cerchero di tracciare una specie di mappa della storia letteraria politica dell’ Europa in modo da poter dare vita ad un vero “Studio Culturale”, plurale e complesso. Questa approssimativa “storia diversa” delle culture letterarie europee nei loro differenti rapporti con i mondi da esse prima colonizzati disegna anche la cornice di quella che ho chiamato la nuova Letteratura dei Mondi. Parlare di “Letteratura mondiale” voglia dire dover tenere conto di questa mappa: una Letteratura globale, che e appunto quella che corrisponde alla globalizzazione e alla mercificazione, e una Letteratura dei Mondi, che e al singolare non perché sia unificata, ma perché esprime la capacità della letteratura di tradursi e di tradurre i mondi, la pluralità dei discorsi e delle culture che si alleano contro la globalizzazione e che si tengono in un colloquio aperto tra di loro attraverso le migrazioni, le ibridazioni, i meticciati. Parole-chiave: Letteratura mondiale, Studio Culturale, globalizzazione, decolonizzazione, ibridazzione.
 
 
Texto:

Letteratura Globale e Letteratura dei Mondi

Armando Gnisci

Siamo stati abituati a usare il concetto e il termine di “letteratura europea” senza pensare che esso che non corrisponde a nulla, se no a un “mito”, come ha mostrato il mio amico de Il Cairo Magdi Youssef che ha ispirato Franca Sinopoli a scrivere il libro Il mito della letteratura europea (Roma, Meltemi 1999). Un mito che ne ha generato un altro, come propria immagine riflessa e diffusa in tutte le direzioni, quello della “letteratura mondiale e/o universale”. Esso si e comportato allo stesso modo con il quale le nazioni europee si sono appropriate dei “mondi del mondo” (come dice Camões ne I Lusiadi, II, 45) a partire dal XVI secolo. Un processo che si e concluso nel secondo dopoguerra mondiale del XX secolo, quando e tramontata l’epoca dell’imperialismo coloniale ed e iniziata quella – ancora “confusa”, come sostiene Edward Said – dell’imperialismo della così detta globalizzazione, guidato dagli USA.
Esistono, piuttosto, le letterature europee dei paesi imperiali che hanno invaso gli altri mondi anche mediante le loro lingue. Abbiamo oggi una Letteratura globaleche e quella unificata dalla mercificazione planetaria e dall’industria della cultura di massa, e una Letteratura dei Mondi che e la presa di parola e di posizione comune e traduttiva dei diversi mondi che non vogliono essere assimilati nel mercato unico di tutte le merci e nella sua lingua unica, nella quale tutte le altre devono perdersi.
Cosa succede nella nostra epoca nella quale a globalizzarsi e il dominio del potere economico transnazionale e della comunicazione mondiale simultanea? Nella nostra epoca nella quale il 12% dell’umanità vive sfruttando e sprecando ricchezza esauribile e l’88% vive lottando contro la disoccupazione, la povertà e l’oppressione, inesauribili? Cosa succede alla letteratura? Possiamo pensarla ancora, su scala mondiale ovviamente, come la migliore maestra di finesseumanistica, così come voleva Josif Brodskji nel 1987? E come l’unica forza capace di opporsi e di temperare gli eccessi delle democrazie capitalistiche, dopo il crollo del comunismo, come voleva nel 1990 Salman Rushdie?
Vediamo: la Weltliteratur (l’idea, cioe, di una letteratura mondiale che unisce tutti i popoli in forza del riconoscimento di valori comuni) ha smesso di essere un “sogno”, come volevano Goethe (1827) ed i poeti romantici ed e diventata – lo sostenevano Marx ed Engels nel Manifesto del 1848 – il mercato mondiale delle lettere che la cultura di massa vende presentandola come la facciata nobile e spirituale di se stessa. A fianco a questa nuova Weltliteratur, piu o meno appiattita sul mercato e sulle sue leggi, ma con essa intrecciata, vi e anche una nuova Letteratura dei Mondi che comincia a formare una rete planetaria di conoscenze e di ri-conoscimenti, di traduzioni e di reciprocità multiple. QuestaLetteratura dei Mondi della quale parlo propone di opporsi alla globalizzazione della cultura di massa e del mercato unico euro-nordamericano: e alternativa e utopica. Essa intende diventare la zona mobile e incontrollabile, imprevedibile direbbe Édouard Glissant, del colloquio dei mondi e il soggetto espressivo ed evolutivo della comunicazione “di senso” e della parificazione mutua e non violenta delle culture. Al tempo stesso essa sfugge alle teorizzazioni essenzialistiche e paradigmatiche, tipiche della tradizione europea: sembra piu volentieri volersi consegnare a una conoscenza storiografica che essa stessa contribuisce a costituire ed alimentare. Ma, si tratta di una storia diversa e appena agli inizi. Questa Letteratura dei mondi ha il progetto di avventura del “Movimento di Seattle”, quello che lotta e sostiene che “un altro mondo e possibile”.
La “letteratura europea”, invece, sembra essere rimasta un puro oggetto accademico, o, nel migliore dei casi, un oggetto didattico. La letteratura europea, infatti, e un concetto astratto: in sintesi, e l’idea che le nazioni “maggiori” d’Europa – come voleva F. Brunetiere all’inizio di questo secolo – abbiano preso di volta in volta dominanza sulle altre: Italia, Spagna, Francia, Germania e Inghilterra, a partire da una “matiere commune”: quella che Frantz Fanon avrebbe chiamato “il piedistallo greco-latino”.
E.R. Curtius, nella sua opera monumentale che studia proprio il passaggio ereditario tra l’antichità “classica” greco-latina e la modernità delle nazioni occidentali, critica le idee di letteratura europea di Brunetiere e di P. van Tieghem, facendo propria la visione piu “cosmopolita” del poeta Valéry Larbaud, quella di un: “…un triplice dominio centrale franco-tedesco-italiano e una cintura di aree esterne, delle vere “marche di frontiera”: scandinave, slave, rumena, greca, spagnola, catalana, portoghese e inglese, le piu importanti delle quali, per antichità e per i loro immensi prolungamenti oltre-Atlantico, sono quella spagnola e quella inglese”.
A Curtius piaceva il modello centro-periferie proposto da Larbaud, anche perché disegnava una mappa imperiale della storia intellettuale europea sganciandola da quella politica, difetto questo – secondo Curtius – della impostazione comparatistica di van Tieghem.
In tutti i casi l’idea di letteratura europea sembra aver sempre riguardato: a) i rapporti tra letterature nazionali b) delle nazioni occidentali del continente c) considerate e qualificate come “maggiori”; esse d) sono le stesse che hanno colonizzato i mondi (anche all’interno della stessa Europa, che era la prima terra di conquista) portando ovunque la luce di una civiltà “superiore” e “universale”: la luce al suo ponente.
Si puo preferire la giostra occidentale di Brunetiere o la mappa centro-periferie di Larbaud-Curtius, ma bisogna comunque riflettere sul fatto che entrambi i modelli – così come le altre loro varianti – sono costruiti intorno all’ideologia implicita di un “paradigma euroccidentale” egemonico e universalistico. E da entrambi sono escluse o fortemente marginalizzate la letteratura portoghese e quella russa. Le letterature di due nazioni che hanno conquistato grandi imperi mondiali partendo da due situazioni iniziali paradossali oltre che estreme. L’una essendo la piu piccola delle nazioni imperiali, l’altra la piu grande che ha voluto diventare sempre e ancora piu grande. L’estremo ovest e l’estremo est.
In cosa consiste la “storia diversa” che intendo proporre? Innanzitutto ritengo che sia necessario riavvicinare la storia politica alla storia letteraria in modo da poter dare vita ad un vero “studio culturale”, plurale e complesso. In questo ambiente concettuale diventa possibile applicare la poetica che ho chiamato da tempo della “decolonizzazione europea”.
In pratica, e lo ripeto: la mondializzazione della letteratura europea si e concretizzata – come avevano intuito i giovani Marx ed Engels nel 1848 – non nel sogno di Goethe e Federico Schlegel della “poesia universale” sprigionantesi dal cuore tedesco dell’Europa, ma nella conquista progressiva del mondo da parte delle potenze dell’imperialismo coloniale maturo del XIX secolo. Chi ha mostrato con chiarezza il vincolo tra le letterature europee e il colonialismo e stato Edward Said, specialmente nel volume del 1993, Culture and Imperialism. Ma e anche vero che le letterature occidentali hanno dato impulso alla nascita delle letterature extra-europee in lingue europee che hanno interagito con quelle metropolitane, le hanno invase e trasformate, le hanno convertite e creolizzate, dall’interno delle loro stesse lingue.
Dal momento in cui si formano le nuove letterature “creolo-meticce”si forma anche, per così dire, un “nodo interletterario” tra le loro opere e i loro autori e quelli, autori e opere, delle letterature così dette madri e/o metropolitane: testi, temi e scrittori che “si corrispondono” e si contaminano, fino a formare una vera “zona di mutua ricezione” disseminata e contaminante tutti i mondi intorno.
Questo processo dovrebbe essere sotto gli occhi di tutti. Ma non ne sono convinto. Comunque, e possibile pensare in modo sintetico la modernità come un “system of 500 years”, secondo la definizione di Noam Chomsky, che corrisponde alla conquista e al possesso del pianeta da parte del capitalismo europeo attraverso le sue nazioni coloniali: le piu avanzate e civili, le piu ricche e ben armate, le piu importanti e cristiane, le piu “spirituali” e “universali”, e per questo fornite di una missione mondiale: insomma di una “cultura imperiale”. Si e attestato così in tutti i mondi un imperialismo territoriale al quale pochissime civiltà hanno potuto veramente resistere: alcune fortezze dell’Islam, la Cina, il Giappone. Esso ha sradicato e sterminato culture e ha sfruttato terre, uomini e donne, bambini. Ora l’imperialismo, ritiratosi dall’occupazione diretta dei territori, li controlla economicamente e militarmente “da lontano”. Questo inedito regime imperiale costituisce il “nuovo ordine mondiale”, o “la globalizzazione”, della quale oggi tanto si parla, anche tra i letterati. Esso e sempre pronto a mettere ordinemanu militari – nei Balcani e nel Golfo Persico, in Nicaragua e nel Pacifico – quando i suoi interessi lo impongono e lascia che i dotti si trastullino con i giocattoli accademici del “post-moderno”, della “fine della storia” e della stessa globalizzazione come argomento di convegni.
Se questo e il theatrum mundi del nostro tempo, io penso, pero, che le letterature europee metropolitane possano, anzi debbano, essere raccontate anche dalla prospettiva rovesciata del percorso della loro decolonizzazione: scrivendo una storia letteraria politica. Mi spiego: sappiamo che la colonizzazione europea del mondo (dal secolo XVI al XVIII) e il successivo colonialismo imperialista sono le fasi che hanno preceduto l’attuale “globalizzazione generale” dei mondi. Sostengo che questa deve riconoscere proprio nel corso coloniale mondiale la propria corrente storica. Se vediamo così lo sviluppo della modernità, la storia letteraria politica che propongo potrebbe mostrare una corrente diversa dal Main Stream imperiale e poi globale: una corrente di decolonizzazione “spirituale”. E politica: non solo da un punto di vista metodologico, ma anche e proprio per il suovalore anti-imperialista.
Come suonano strane queste parole, n’est-ce pas? Sembrano arnesi linguistici assolutamente indecenti e imbarazzanti, o per lo meno fuori moda, dei relitti senza senso dei tempi di Che Guevara e di Fanon, di Sartre e di Lumumba. A che servono oggi, nell’epoca di internet, delle “guerre umanitarie” e della liberalizzazione dei mercati? Sostengo che proprio oggi, la mancanza di un linguaggio e di una prassi della ribellione intellettuale e civile e la forma di sofferenza piu acuta per chi e oppresso e vorrebbe trovare una via di uscita, o per lo meno un chiarore sulle pareti della caverna. Come diceva il giovane Presidente del Burkina Faso, Thomas Sankara, ucciso da chi lo trovava inopportuno e scomodo nel 1987: “l’Africa deve inventarsi il suo futuro”. E questo il compito che spetta anche a tutti quelli che combattono dalla parte dell’Africa, dei “poveri”, come diceva Simone Weil, degli oppressi dalla “globalizzazione”, dalla parte dell’88% dei mondi, anche se quelli vivono nel mondo e nei “giorni felici” del 12%.
Riprendiamo la corsia letteraria del nostro discorso: quale sarebbe il valore politico e anti-imperialista di una storia letteraria europea dal punto di vista della decolonizzazione? Il fatto che essa batte una strada storiografica inaudita e speciale che presenta e propone una specie di gerarchia discendente della decolonizzazione: dai primi imperi coloniali iberici, i primi anche a decolonizzarsi, fino ai “mostri” imperiali dei nostri giorni: gli USA e la Russia euro-asiatica. Questa ipotesi storiografica diversa propone la stessa decolonizzazione come il valore che ci riguarda in quanto europei. Che e un valore rivendicabile solo dal punto di vista di una storia delle culture metropolitane europee che arrivino a coevolvere con le culture colonizzate, attraverso la creazione – o meno – di quello che abbiamo definito prima un “nodo interletterario” virtuoso e valoroso. Una storia che e intrecciata per forza di cose con quella dello sterminio e dello sfruttamento, del capitalismo e poi della globalizzazione, ma che e anche una storia diversa da quelle raccontate dalle storie delle letterature nazionali, o anche da quelle “comparate” ed “europeiste” (oggi c’e perfino chi scrive le storie delle letterature dell’Europa di Maastricht e di Schengen!).
Cerchero, quindi, di tracciare una specie di profilo temporale, ancora grezzo e confuso, ma anche forse (troppo) semplice e lineare, di questa “storia diversa”. Prima e necessario, pero, ricordare che i suoi tempi sono quelli della cronologia ufficiale e che i valori dei quali vado parlando non derivano da “essenze” o “caratteri originari”, non dichiarati, delle nazioni coloniali o dalla loro piu o meno violenta o massiccia colonizzazione: in questo i portoghesi sono stati dei farabutti tanto quanto gli inglesi o gli italiani. Tutto questo andava detto con chiarezza: su tutto questo non credo di nutrire alcuna confusione.
I due primi imperi coloniali creati dalle nazioni europee sono stati quello portoghese e quello spagnolo. E così li troviamo, in testa alla graduatoria temporale decrescente della decolonizzazione. Essi si affermano subito come imperi, già al ritorno di Cristoforo Colombo dal Nuovo Mondo. Nel 1493 il papa Alessandro VI Borgia fa da mediatore tra le due nazioni iberiche emanando la Bolla Inter Coetera con la quale traccia la linea planetaria meridiana lungo la dorsale centrale dell’Atlantico (raya) che serve a spartire la terra in due sezioni perpendicolari: ad ovest i territori delle conquiste a venire della Spagna, ad est quelle del Portogallo (piu interessato all’Asia che al Nuovo Mondo). Le due nazioni cristiane accetteranno il dettato papale (spostando di alcuni chilometri piu al di là delle Azzorre la raya) firmando l’anno successivo il Trattato di Tordesillas che assegnava il Brasile al Portogallo, anche se posto ad ovest della raya.
La letteratura portoghese avrà uno slancio formidabile in seguito alle scoperte-conquiste di nuovi mondi lontani, intrecciando da subito il suo destino con quello della ventura oceanica e delle terre extra-europee. La letteratura lusitana crea con Luis de Camões il suo poema nazionale, Os Lusíadas, composto tra il 1545 e il 1570. Esso viene scritto non tra i cuscini e le cucine della corte di Lisbona, ma tra l’India e la Cambogia. La leggenda racconta che il suo manoscritto si salvo, insieme al suo autore, in un naufragio alla foce del Mekong: sembra una storia di Rambo piu che quella di un letterato europeo di quasi mezzo millennio fa.
Os Lusíadas non canta e non narra viaggi nell’oltretomba cristiano, né nella regione interna della Mancia, né nell’isola allegorica del mago-Duca di Milano Prospero, ma illustra l’avventura transoceanica di Vasco da Gama e delle sue navi verso l’India, doppiando l’Africa e portando piu in là l’impresa di Bartolomeo Diaz. Con il poema lusiade la letteratura portoghese si fa e si vuole propriamentenazionale: gloria poetica dell’avventura “vera e schietta” (V, 89) (e non di finzioni e di meraviglie inventate a tavolino) di un intero popolo, che abita una “piccolissima” nazione (VII, 2), posta sull’orlo atlantico dell’Europa, che conquisterà percio il piu sproporzionato degli imperi: si tratta di un poema nazionale che e, al tempo stesso, una carta dei mondi (X, 92 e sgg.).
Il mito, o auto-immagine, lusitano della Saudade, che attraversa la letteratura e la cultura portoghese a partire dal romanticismo, e stato interpretato da letterati e storici come “nostalgia dell’impero perduto”. A me sembra che esso diventi meglio leggibile se si intende la saudade come nostalgia dell’initium imperii: dello stato nascente di tutte le avventure e della totale animosità; di una vita, ancora e di nuovo possibile, completamente da inventare sugli oceani e con le vele aperte verso i mondi lontani e sconosciuti. Nostalgia dell’attivismo inaugurale e senza limiti che porta una gloria inaudita e mai vista (proprio perché “sproporzionata”), ma che si spegnerà nella malinconica amministrazione dell’esistente, nello sguardo pieno di “todos os sonhos do mundo” che guarda la “Tabacaria” di fronte, come nella poesia di Alvaro de Campos-Fernando Pessoa (Pessoa definì se stesso, tra le tante forme di autodefinizione che pratico, “um sebastianista racional”).
La saudade e la nostalgia dell’assoluta e spericolata giovinezza che prova ad assecondare tutti i propri impulsi-sogni, ma e interrotta prematuramente, come la vita in battaglia del giovane re Don Sebastiano nella sconfitta di Alkázar Kebir in Marocco contro i Mori nel 1578. Il poema di Camões e dedicato proprio a questo re, a quell’epoca ancora minorenne. Un re la cui morte provocherà dopo poco tempo addirittura la caduta del Portogallo nelle mani della corona spagnola di Filippo II e che produce l’altro mito nazionale lusitano: il Sebastianismo. La leggenda-credenza che il giovane monarca non fosse morto nella battaglia marocchina e che prima o dopo sarebbe tornato…a riprendere il filo troncato della propria giovinezza e di quella del suo popolo, a rinnovare lo stato nascente di tutte le avventure nuovamente possibili
Saudade e Sebastianismo si annodano così nel fondo del corpo della cultura lusitana e dei suoi secoli.
Le due nazioni imperiali iberiche vengono mano a mano, lungo i 500 anni della modernità, affiancate e solcate dalle nuove letterature lusofone e ispanofone fino a formare con loro delle comunità letterarie connesse ed integrate che portano le rispettive letterature metropolitane dentro la lusofonia e l’ispanofonia, e non piu a capo. Basti pensare alle poetiche del modernismo brasiliano: dal Manifestoantropofago di Oswaldo de Andrade del 1928 al “lusotropicalismo” dell’antropologo Gilberto Freire degli inizi degli anni 40.
Il discorso che riguarda la Spagna e un po’ diverso, ma sbarca sullo stesso molo. Quello del rovesciamento (piu o meno “cannibale”: va ricordata la fortuna nella cultura critica latino-americana della figura shakespeariana di Caliban) del centro-capo metropolitano europeo e del suo inghiottimento in una comunità plurale e meticcia. Il così detto “boom” delle letterature ispano-americane negli anni 50 e 60 del XX secolo sta a significare proprio il venire alla luce di questo lungo processo di mutua decolonizzazione comunitaria. Garcilaso de la Vega, nato a Cuzco in Peru, indio meticcio, scrive – a cavallo del XVI secolo e del XVII – opere storiche ed epiche che aprono e istituiscono questa comunità ispanica e americana. Garcilaso muore nell’ispanissima città di Cordoba nel 1616, nello stesso anno in cui muoiono Cervantes e Shakespeare. E prima di lui Alvaro Núñez Cabeza de Vaca nel suo Naufragios del 1542 aveva raccontato come uno spagnolo potesse diventare indio, vagando dalla Florida al Messico.
Uno dei padri “illuminati” della (piu) grande democrazia degli Stati Uniti d’America, Benjamin Franklin nel 1751 scriveva: “Il numero di persone veramente bianche nel mondo e in rapporto molto piccolo. Tutta l’Africa e nera o scura; […] anche tutta l’America (a parte i nuovi arrivati). E in Europa gli spagnoli, gli italiani, i francesi, i russi e gli svedesi hanno quella che noi di solito definiamo carnagione scura. Così anche i tedeschi sono scuri, a eccezione dei sassoni che costituiscono con gli inglesi il corpo principale della popolazione bianca sulla faccia della terra. Vorrei che il loro numero aumentasse”.
Mr Franklin scriveva queste riflessioni prima di inventare il parafulmine, ma comunque a 45 anni. Con Mr Franklin siamo passati alla seconda posizione della nostra graduatoria cronologica: quella della colonizzazione britannica, alla quale va affiancata quella francese. Entrambe partirono dopo quelle iberiche, ma costruirono i due grandi imperi “moderni” e maturi, completati nel XIX secolo. Abbiamo a che fare con le due grandi nazioni europee che si sono ritenute ed imposte come quelle veramente “civilizzatrici”: la Gran Bretagna, che ha fondato una “cultura imperiale” moderna. Gli intellettuali imperiali del Regno Unito – come ci ha mostrato Said – hanno pensato e fatto pensare che il Nuovo Impero avesse superato Roma e tutti gli altri imperi della storia, barbari e rapinosi, prendendo su di sé “il fardello dell’uomo bianco”: portare la civiltà ai popoli selvaggi e primitivi. E che poi l’avesse ceduto (nel 1898, in occasione della guerra contro la Spagna per la conquista delle Filippine) agli Yankee: gli ex-colonizzati che avrebbero dominato il secolo successivo, come dice Kipling. E la Francia, la cristianissima terra del teorizzatore del “vero” dominio coloniale: Sua Maestà, Francesco I, che avrebbe fatto saltare il nodo borgiano dell’infame Trattato di Tordesillas. La Francia dell’Illuminismo e della Rivoluzione borghese.
Gli imperi britannico e francese sono stati liquidati negli anni 50 e 60 del XX secolo con le ultime guerre addirittura mediterranee di Algeria, di Cipro e di Suez (nella quale le due illuminatissime nazioni europee erano insieme contro Nasser e quello che in Europa veniva chiamato “nazionalismo arabo”).
Come esse hanno costruito i piu moderni ed estesi imperi coloniali – il colonialismo belga e quello olandese sono a quelli largamente assimilabili – così hanno anche prodotto una grande quantità di “teoria post-coloniale” che occupa oggi le menti di tanti intellettuali ed accademici europei, americani, africani, asiatici ed australiani. Si tratta di un vasto ed onorevole dibattito civile in fieri che tende ad oscurare, pero, come ricorda il cubano R. F. Retamar, le forme della decolonizzazione degli ex-imperi iberici e nello stesso tempo testimonia come la decolonizzazione britannica e francese si muova su di una traiettoria diversa da quelle e come una questione aperta dei nostri tempi.
E importante porre in netta evidenza il fatto che le due piu importanti letterature metropolitane della modernità non sembrano essersi integrate comunitariamente con le culture “figlie”, come nel caso lusitano e in quello castigliano. Con l’avvento dell’imperialismo planetario statunitense, della globalizzazione dei mercati e della frattura sempre piu netta tra Nord e Sud del mondo, gli scrittori della decolonizzazione africana e asiatica e gli scrittori ed artisti neri e delle altre minoranze non-yankee nord-americane sembrano piuttosto interpretare un ruolo di resistenza e di opposizione politiche ed in certi casi anche linguistiche, come nella “scelta araba” di alcuni scrittori maghrebini (francofoni) o nella “scelta kikuyu” del keniano Ngugi wa Thiong’o (anglofono).
Le letterature caraibiche, poi, esprimono oggi la vitalità piu spiccata verso una “civiltà creola”, una nuova cultura mondiale che sembra voler scavalcare l’impero culturale di origine europea e di marca nord-americana che intende globalizzare in maniera “non-creola” i mondi in un unico mondo.
La terza coppia, attardata e distratta, di nazioni europee coloniali e formata dall’Italia e dalla Germania, giunte in ritardo alle conquiste imperiali, perseguite anche all’interno della stessa Europa: dall’Albania alla Grecia, dall’Austria alla Polonia e a tutta l’area europea centrale.
Italia e Germania hanno rimosso il loro passato coloniale e addirittura ignorano di avere una questione post-coloniale propria da dover affrontare. Gli scrittori di altri mondi che si esprimono nelle loro lingue sono gli immigrati degli ultimi decenni e le “minoranze” dei vecchi imperi centrali di lingua germanica.
In coda alla graduatoria degli imperi coloniali europei troviamo due veri “mostri” (nel senso latino, ma anche in quello moderno). Il loro destino, anche se in maniere diversissime, appartiene al futuro piu che al passato. Parlo degli Stati Uniti d’America: la ex-colonia inglese che in due secoli di tempo e diventata lametropoli mondiale. Essa porta dentro il suo seno il travaglio post-coloniale nella vicenda multietnica e nella costituzione immigratoria della sua stessa esistenza, non risoltesi col tempo nello sperato e vantato modello del melting pot.
E parlo della Russia che e ancora un impero territoriale euro-asiatico. La piu grande nazione non-nazione del mondo, da San Pietroburgo a Vladivostock. Un impero in sfacelo, ma che rifiuta, nella sua testa kremlina, di riconoscersi come impero e sostiene di essere una nazione, anche se confederale.
Per gli Stati Uniti d’America il presente e il futuro sembrano essere quelli del superpoliziotto imperiale planetario al servizio delle potenze economico-finanziarie transnazionali. Per la Russia sembrano essere quelli di un impero che sopravvive a se stesso in ritardo con il cammino dei mondi: una nazione europea sterminata con un immenso territorio asiatico: alieno e muto, se non nel Caucaso ribelle e islamizzato.
E le altre nazioni dell’Europa, chiederete a questo punto? Piccole come il Portogallo, o ancora piu piccole forse, ma che non hanno mai avuto (e voluto avere) imperi coloniali? Come rientrano in questa “storia diversa”?
Credo che esse abbiano avuto il destino di affermarsi come dei piccoli imperi coloniali regionali intraeuropei – la Grande Ungheria, la Grande Serbia, la Grande Albania – o che abbiano lottato per non subire la sorte di esserne le vittime: dall’Irlanda a Malta, dalla Finlandia alla Grecia, dall’Islanda alla Slovacchia. Esse, comunque, sembra che abbiano sempre coltivato la propria immagine di “nazione europea”, soprattutto attraverso la lingua e la letteratura. Nazione vuol dire: identità indipendente. Europea vuol dire: dentro una piu vasta civiltà comune e intrecciata.
Forse la storia d’Europa puo essere concepita come storia di conflitti coloniali interni ed esterni e di utopie umanistiche e idealistiche, a volte dignitose, a volte anche concrete: quelle delle piccole nazioni non coloniali, appunto, nei momenti eccitanti e liberatori di quando hanno dovuto lottare per l’indipendenza. Ma soprattutto storia di conquiste territoriali e di comando sugli altri popoli: dalle invasioni dei popoli Kurgan (che l’accademia europea ha preferito chiamare indo-europei e/o ariani, come ci hanno mostrato M. Bernal e M. Gimbutas) a partire dal V millennio prima di Cristo fino ad oggi.
Questa approssimativa “storia diversa” delle culture letterarie europee nei loro differenti rapporti con i mondi da esse prima colonizzati disegna anche la cornice di quella che ho chiamato la nuova Letteratura dei Mondi, che fluisce dalle Americhe all’Africa all’Australia. Sembrano restarne fuori i grandi centri di resistenza asiatici: le nazioni islamiche, la Cina e il Giappone. Queste due ultime nella seconda metà del XX secolo hanno iniziato a porsi – e a porre – la questione del significato e del valore dei loro rapporti con la così detta civiltà occidentale e con il regime rampante del capitalismo “democratico”. Mentre il Giappone ha sfidato l’Occidente nella rincorsa economica, la Cina e rimasta attardata in un lungo transito di allontanamento dal maoismo, ma ha sviluppato una riflessione molto importante intorno al problema dei rapporti con l’imperialismo occidentale. I saggisti e i letterati cinesi (i comparatisti in particolare) parlano per la Cina dimodernizzazione come significato e valore dell’incontro con l’Europa, mentre per altre civiltà si parla di trauma della colonizzazione.
La Letteratura dei Mondi non e piu, quindi, rappresentata dalla concezione romantica della Weltliteratur e nemmeno dall’attuale Global Literature imposta dal controllo planetario che sta nelle mani del nuovo capitalismo telematico che tratta i titoli dei libri come quelli di borsa. Questa e la nuova “Letteratura mondiale” che esiste attraverso i meccanismi del profitto, del potere e della comunicazione di massa e che ad essa corrisponde.
A fianco e contro di essa, anche se esiste una (piu o meno) larga zona mobile nella quale le due si sovrappongono e lavorano insieme, opera una Letteratura deiMondi che ha iniziato il colloquio plurale continuo e infinito di chi inventa il futuro. E lo fa a favore del 100% dell’umano. Senza che questo compito derivi da qualche imposizione ideologica (metafisica) o da qualche pretesa di ricompense (laica): lo fa perché qualcuno deve farlo. Perché qualcuno ci deve essere che lavori per il miglioramento e la salvezza degli altri: se e possibile, di tutti gli altri.
Credo che oggi parlare di “Letteratura mondiale” voglia dire dover tenere conto di questa mappa: una Letteratura globale, che e appunto quella che corrisponde alla globalizzazione e alla mercificazione, al dominio culturale del mercato-pensiero unico, e una Letteratura dei Mondi, che e al singolare non perché sia unificata, ma perché esprime la capacità della letteratura di tradursi e di tradurre i mondi, la pluralità dei discorsi e delle culture che si alleano contro la globalizzazione e che si tengono in un colloquio aperto tra di loro attraverso le migrazioni, le ibridazioni, i meticciati: quella che Glissant chiama la “creolizzazione del mondo”.
 

Uma história diversa: mapa da literatura mundial

Armando Gnisci

Trad. de Maria Aparecida Rodrigues Fontes
Doutoranda em Literatura Comparada /
UFRJ e estágio na Univ. “La Sapienza”.

Estávamos habituados a usar o conceito de “Literatura Européia” sem ao menos nos darmos conta que esse conceito não corresponde a nada senão a um mito, como demostrou o meu amigo do Cairo Magdi Youssef, o qual inspirou Franca Sinopoli a escrever o livro “Il mito della Letteratura Europea” (Roma, Meltemi 1999). Um mito que tem gerado tantos outros mitos, como uma imagem de si mesma refletida e difusa em todas as direções. Um mito que costumamos chamar de literatura mundial e/ ou universal, e que se comportou tal como as nações européias a partir do século XVI, ou seja, apropriando-se dos “mundos do mundo” (como disse Camões em Os Lusíadas, II, 45). Um processo que se concluiu apenas após a Segunda Guerra Mundial, quando passamos da era do imperialismo colonial à era do imperialismo da assim chamada globalização, guiada pelos EUA, e como sustenta Edward Said: uma era ainda muito confusa.
Antes, existiam as literaturas européias dos países imperialistas que invadiram e colonizaram os outros mundos através de suas línguas. Hoje, existe uma “literatura global” que é aquela unificada pelo mercado global e pela indústria de cultura de massa, e outra chamada de “literatura dos mundos”, caracterizada pela escolha de palavra e de posição comum e traduzível dos diversos mundos, os quais não querem ser assimilados pelo mercado único de todas as mercadorias nem traduzidos em uma única língua, na qual todas as outras devem se perder…
O que acontece com a nossa época quando globalizar-se significa o exercício do poder econômico transnacional e da comunicação mundial simultanea? Época em que 12% da humanidade vive desfrutando e esbanjando riqueza exaurível, enquanto 88% vive lutando contra o desemprego, a pobreza e a opressão inesgotáveis? O que acontece com a literatura? Poderíamos pensá-la ainda sob uma perspectiva mundial obviamente, como a melhor mestre das finuras humanistas, como queria Josif Brodskji em 1987? E, após a queda do muro de Berlim, como a única força capaz de conter os excessos da democracia capitalista, como desejava, em 1990, Salman Rushdie?
Vejamos: a Weltliteratur (isto é, a idéia de uma literatura mundial que une todos os povos a partir do reconhecimento dos valores comuns) deixou de ser um sonho, como queria Goethe (1827) e os poetas romanticos, para se tranformar, conforme Marx e Engels em seu Manifesto de 1848, em um mercado mundial das letras que a cultura de massa vende e apresenta com uma fachada nobre e espiritual. Ao lado desta nova Weltliteratur, mais ou menos pressionada pelo mercado e pelas suas leis, mas com eles entrelaçados, existe ainda uma novaLiteratura dos mundos que começa a formar uma rede planetária de conhecimento e reconhecimentos, de traduções e de múltiplas reciprocidades. Esta Literatura dos mundos, de que falo, tem como objetivo opor-se à globalização da cultura de massa e do mercado único euro-norte-americano: ela é alternativa e utópica, e pretende transformar-se em uma zona móvel e incontrolável, imprevisível diria Édouard Glissant, de diálogo entre os mundos, e em sujeito expressivo e evolutivo da comunicação dos sentidos e do nivelamento não violento das culturas. Ao mesmo tempo, esse novo conceito literário escapa às teorizações essencialistas e paradigmáticas, típicas da tradição européia: parece sempre mais prazeroso querer consignar-se um certo conhecimento historiográfico que essa mesma tradição contribuiu para construir e alimentar. Mas trata-se di uma historia diversa e apenas no início. EstaLiteratura dos mundos tem um projeto de aventura, como aquele do “Movimento de Seattle”, que luta e sustenta que “é possível um outro mundo”.
A literatura européia, ao contrário, parece que se transformou em um mero objeto acadêmico, ou, na melhor das hipóteses, em um objeto didático. De fato, a literatura européia é um conceito abstrato que se resume na idéia de que as maiores nações da Europa – como queria F. Brunetiere no início do século XX – tenha exercido, em algum momento e cada uma por sua vez, o domínio sobre outras: Itália, Espanha, França, Alemanha e Inglaterra, a partir de uma “matiere commune”, ou seja, aquilo que Frantz Fanon teria denominado “o pedestal grego-latino”.
E. R. Curtius, em sua obra monumental, que estuda exatamente a passagem hereditária entre a antigüidade “clássica” greco-latina e a modernidade das nações ocidentais, critica a idéia de literatura européia de Brunetiere e de P. van Tieghem, identificando-se com a visão mais “cosmopolita” do poeta Valéry Larbaud, aquela de: “(…) um tríplice domínio central franco-ítalo-germanico e um cinturão externo, das verdadeiras marcas de fronteiras: Escandinavas, eslavas, romena, grega, espanhola, catalã, portuguesas e inglesas, das quais a mais importantes, por antigüidade e por seus prolongamentos além do Atlantico, são as espanholas e as inglesas”.
Curtius gostava do modelo centro-periférico proposto por Larbaud, mesmo porque este desenhava um mapa imperial da história intelectual européia, e a libertava daquela política que, segundo Curtius, era uma imperfeição atribuída à imposição comparatística di Van Tieghem.
Em todos os casos, a idéia de literatura européia parece ter sempre conservado: a) as relações entre literaturas nacionais b) das nações ocidentais do continente c) consideradas e qualificadas como “maiores”; essas d) são as mesmas que têm colonizado os mundos (ainda que dentro da própria Europa, que era a primeira terra a ser conquistada), levando onde quer que fosse a luz de uma civilização “superior” e “universal”: a luz ao seu poente.
Há aqueles que preferem o torneio de Brunetiere ou ainda o mapa centro-periférico de Larbaud – Curtius, mas é preciso todavia refletir acerca do fato de que ambos os modelos, assim como as suas variantes, são construídos em torno de uma ideologia fundada sobre o paradigma euro-ocidental hegemônico e universalista. E de ambos foram excluídas ou fortemente marginalizadas as literaturas portuguesa e russa. As literaturas de duas nações que conquistaram grandes impérios mundiais, partindo de duas situações iniciais paradoxais ou mesmo extremas: uma sendo a menor nação imperialista e a outra a maior de todas que quis se tornar sempre e ainda a maior. O extremo oeste e o extremo leste.
Em que consiste esta “história diversa” que pretendo propor? Antes de tudo, sustento ainda que é necessário reaproximar a história política à história literária de modo a dar vida a um verdadeiro “estudo cultural”, plural e complexo. Somente assim, nesse ambiente cultural, será possível aplicar o conceito de poética que eu denominei há algum tempo de “descolonização européia”.
Na prática, insisto, a modernização da literatura européia se concretizou – como já tinham intuído Marx e Engels em 1848 – não como sonharam Goethe e Frederico Schlegel a respeito da “poesia universal” que desejava livrar-se do coração alemão da Europa, mas a partir da conquista progressiva do mundo por parte das potências do imperialismo colonial maduro do século XIX. Foi Edward Said quem mostrou com clareza o vínculo entre as literaturas européias e o colonialismo, sobretudo em Culture and Imperialism, de 1993. Igualmente é verdade que as literaturas ocidentais deram impulso ao nascimento das literaturas extra-européias em línguas também européias que, ao interno de suas próprias línguas, interagiram com aquelas metropolitanas, as invadiram e as transformaram, as converteram e as “crioulizaram”.
A partir desse momento, em que se formam as novas literaturas “crioulo-mestiças”, se forma também, digamos assim, um “nó interliterário” entre as suas obras e os seus autores, e aqueles, autores e obras, das literaturas consideradas mães e/ou metropolitanas: textos, temas e escritores que se correspondem e se contaminam, até formarem uma verdadeira zona de mútua recepção disseminada, além de contaminar todos os mundos que estão ao seu redor.
Esse processo deveria estar sob os olhos de todos. Mas não estou certo desse fato. Todavia, é possível pensar de modo sintético a modernidade como um “system of 500 years”, segundo a definição de Noam Chomsky, que corresponde à conquista e à posse do planeta por parte do capitalismo europeu através de suas nações coloniais: as mais avançadas e civis; as mais ricas e bem armadas; as mais importantes e cristianas; as mais “espirituais” e “universais”, e por isso encarregadas de uma missão mundial: enfim, de uma “cultura imperial”. Assim, em todos os mundos, se verifica um imperialismo territorial ao qual pouquíssimospovos puderam verdadeiramente resistir: tais como algumas partes do Islã, a China, o Japão. Essa política erradicou e exterminou culturas e explorou terras, homens e mulheres, e crianças. No momento, o imperialismo, embora tenha se retirado da ocupação direta dos territórios, os controla à distancia através da força militar e economicamente. Esse regime imperial, inédito, constitui a “nova ordem mundial”, ou seja, a tão propalada, até mesmo entre os literários, “globalização”, que está sempre pronta a colocar ordem manu militari – nos Bálcãs e no Golfo Pérsico, na Nicarágua e no Pacífico – quando os seus interesses se impõem, e depois deixa que os eruditos se divirtam com as jogadas acadêmicas do “pós-moderno”, do “fim da história” e da própria globalização como argumento conveniente.
Se este é o theatrum mundi de nosso tempo, eu penso, entretanto, que as literaturas européias metropolitanas podem, antes de tudo devem, recontar ainda esse percurso da sua descolonização a partir de uma perspectiva invertida, ou seja, escrevendo uma história literária política. Explico melhor: sabemos que a colonização européia de outros povos (do século XVI ao século XVIII) e o sucessivo colonialismo imperialista são considerados como fases que precederam a atual “globalização geral” dos mundos. Nesse caso, sustento que esta deve reconhecer nesse mesmo curso colonial mundial a própria corrente histórica. Se analisarmos assim o desenvolvimento da modernidade, a história literária política que proponho poderia mostrar uma corrente diversa do Main Streamimperial e depois global: uma corrente de descolonização “espiritual”, e política: não apenas no sentido de um ponto de vista metodológico, mas, ainda e exatamente, pelo seu valor anti-imperialista.
Como soam estranhas essas palavras, n’ est-ce pas? Parecem armaduras lingüísticas absolutamente indecentes e embaraçantes, ou pelo menos fora de moda; uns resíduos sem sentido dos tempos ainda de Che Guevara e de Fanon, de Sartre e de Lumumba. Hoje em época da Internet, da “guerra humanitária” e do mercado livre, para que servem essas palavras? Continuo a sustentar que precisamente hoje a falta de uma linguagem e de uma praxe de rebelião intelectual e civil constitui uma das formas mais agudas de sofrimento para quem é oprimido e para aquele que procura encontrar uma porta de saída, ou pelo menos um clarão nas paredes escuras da caverna. Como dizia o jovem Presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, assassinado em 1987, por aqueles que o consideravam inoportuno e incomodo: “A África deve inventar o seu próprio futuro”. Essa é a tarefa que cabe também a todos aqueles que combatem em prol da África, dos pobres, como dizia Simone Weil, dos oprimidos pela globalização, os quais constituem 88% dos mundos, mesmo que esses combatentes vivam seus melhores dias entre aqueles 12% restantes da população mundial.
Retornemos à estrada literária de nosso discurso: do ponto de vista da descolonização, qual seria o valor político e anti-imperialista de uma história literária européia? O fato é que essa explora uma estrada historiográfica inaudita e especial porque apresenta e propõe uma espécie de hierarquia descendente da descolonização, ou seja, desde os primeiros impérios coloniais ibéricos, diga-se ainda, os primeiros também a descolonizar-se, até os cruéis imperialistas dos nossos dias: os USA e a Rússia euro-asiática. Esta hipótese historiográfica diversa propõe a mesma descolonização como um valor que diz respeito a nós mesmos enquanto europeus. Um valor somente reivindicado do ponto de vista de uma história das culturas metropolitanas européias que conseguiram evoluir gradativamente com as culturas colonizadas, através da criação aproximada daquilo que definimos anteriormente como um “nó interliterário” virtuoso e valoroso. Uma história que se cruzou, querendo ou não, com aquela do extermínio e da exploração, com a do capitalismo e, por fim, com a da globalização, mas que ainda é uma história diversa daquelas narradas pelas histórias das literaturas nacionais, ou ainda daquelas “comparadas” e “europeístas” (hoje existe até quem escreve as histórias das literaturas da Europa di Maastricht e de Schengen!).
Procurarei, a seguir, traçar uma espécie de perfil temporal, ainda insipiente e confuso, mas também simples e linear dessa “história diversa”. Primeiro é necessário, entretanto, recordar que esses tempos históricos são aqueles da cronologia oficial e que os valores que enuncio não derivam de ausências ou de “caracteres originários”, não declarados, das nações coloniais ou da sua mais ou menos violenta o maciça colonização: a esse respeito os portugueses foram vis tanto quanto os ingleses e os italianos. Tudo isso já fora dito com clareza e, acerca de tudo isso, não acredito que haja alguma confusão.
Os dois primeiros impérios coloniais criados pelas nações européias foramaqueles portugueses e espanhóis, por isso ali os encontramos no topo dessa graduação temporal decrescente da descolonização. Essas duas nações, desde o momento em que Cristóvão Colombo retornou do novo mundo, se afirmaram como impérios. Em 1493, o papa Alessandro VI Borgia faz-se mediador entre essas duas nações ibéricas, expedindo a Bula Inter Coetera com a qual traça uma linha planetária meridiana [a chamada linha de Tordesilha] ao longo do dorso central do Atlantico (raia) que serviria para separar a Terra em duas seções perpendiculares: a oeste os territórios que seriam conquistados pela Espanha, e a leste aqueles que pertenceriam à Portugal (que estava mais interessado na Ásia do que no Novo Mundo). As duas nações aceitarão parcialmente o ditame papal (deslocando a raia alguns quilômetros a mais para lá de Açores) assinando, um ano depois, o Tratado de Tordesilhas, que destinava o Brasil à Portugal, ainda que aquele país estivesse a oeste da linha divisória estabelecida pelo Tratado .
A literatura portuguesa terá um impulso formidável após as descobertas-conquistas do novos e longínquos mundos, cruzando repentinamente o seu destino com aquele da aventura oceanica e das terras extra-européias. A literatura lusitana cria com Luís de Camões o seu poema nacional, Os Lusíadas, composto entre os anos de 1545 e 1570. Este vem escrito não entre as almofadas e as cozinhas da corte de Lisboa, mas entre as Índias e o Camboja. A lenda conta que o seu manuscrito se salvou junto com seu autor, em um naufrágio à foz do Mekong parece mais uma história de Rambo do que aquela de um literato europeo que viveu a quase meio milênio.
Os Lusíadas não canta e nem narra viagens sobre o além-túmulo cristiano, nem sobre as regiões internas à Mancia, tampouco narra histórias acerca da ilha alegórica do “mago-Duca di Milano Prospero”, mas ilustra a aventura transoceanica de Vasco da Gama e de sua nau em direção à Índia, levando, para além da África, o empreendimento de Bartolomeo Dias. Com o poema Os Lusíadas, a literatura portuguesa se faz e se quer propriamente nacional: glória poética de uma aventura verdadeira e pura (e não aquelas de ficção e maravilhas criadas sobre uma escrivaninha) de um povo inteiro, que mora em um pequeníssimo território situado às margens do Atlantico da Europa, que conquistará por esta razão o mais desproporcionado dos impérios. Trata-se de um poema nacional que é, ao mesmo tempo, um mapa dos mundos.
O mito, ou melhor a auto-imagem, lusitano da Saudade, que atravessa a literatura e a cultura portuguesa, a partir do romantismo, foi interpretado por literários e históricos como “nostalgia do império perdido”. Parece-me que essa interpretação seria melhor inteligível se si compreendesse a saudade como nostalgia do initium imperii: de uma espécie de estado nascente de toda as aventuras e da sua total animosidade, ou seja, de uma vida, ainda e novamente possível, completamente por inventar sobre os oceanos, com as velas abertas em direção aos longínquos e desconhecidos mundos. Nostalgia do ativismo inaugural e sem limites que leva a uma glória inaudita e nunca vista (porque era exatamente “desproporcionada”), mas que se apagará na melancólica administração do existente, no olhar que se alimenta de “todos os sonhos do mundo” e vê a “Tabacaria” diante de si, como se pode ler na poesia de Álvaro de Campos-Fernado Pessoa (Pessoa define a si mesmo, entre as diversas formas de autodefinição que praticou, como “um sebastianista racional”).
saudade é a nostalgia de uma absoluta e temerária juventude, que tentou satisfazer todos os seus impulsos e sonhos, mas que foi interrompida prematuramente, como aconteceu com a vida do jovem rei Dom Sebastião, morto, em 1578, durante a batalha de Alkázar Kebir, em Marrocos, contra os Mouros. O poema de Camões foi exatamente dedicado a este rei que, naquela época, ainda não tinha atingido a maior idade. Um rei cuja morte provocará, logo em seguida, a queda de Portugal em mãos da coroa espanhola de Felipe II, e que produzirá um outro mito nacional lusitano: o Sebastianismo. A lenda-crendice de que o jovem monarca não teria morrido na batalha marroquina e que, mais cedo ou mais tarde, retornaria… e retomaria o fio interrompido da própria juventude e de seu povo, renovando aquele tal estado nascente de todas as aventuras possíveis. Assim, através dos séculos, Saudade e Sebastianismo amalgamam-se no fundo do corpo da cultura lusitana.
As duas nações imperiais ibéricas vêm passo a passo, ao longo desses 500 anos de modernidade, ladeada e sulcada pela nova literatura lusófona e hispanica até formar com elas uma espécie de comunidade literária conexa e integrada, que levaram as respectivas literaturas metropolitanas não a alcançar a categoria de líder, mas a interagir dentro da lusofonia e da hispanicidade. É o caso, por exemplo, das poéticas do modernismo brasileiro: do Manifesto antropófago de Oswald de Andrade, de 1928, ao “lusotropicalismo” do antropólogo Gilberto Freire, do início dos anos 1940.
O discurso que concerne à Espanha é um pouco diverso, mas desembarca no mesmo dique, ou seja, o revés (mais ou menos “canibal” – relativo à figura shakesperiana de Caliban que vem sendo lembrada pela cultura critica latino-americana) do centro metropolitano europeu e de sua ingestão por uma comunidade plural e mestiça. O chamado “boom” das literaturas hispano-americanas nos anos 1950 1960 trouxe à luz esse longo processo de mútua descolonização comunitária. Garcilaso de la Vega, índio mestiço, nascido em Cuzco no Peru, escreveu – entre os fins do século XVI e início do século XVII – obras históricas e épicas que abrem e instituem a chamada comunidade hispanica e americana. Garcilaso morre na cidade espanhola de Cordoba, em 1616, no mesmo ano em que morreram Cervantes e Shakespeare. E antes de Garcilaso, Alvaro Núñez Cabeza de Vaca, em seu Naufrágios de 1542, já havia narrado como um espanhol poderia transformar-se em índio, vagando da Flórida ao México.
Um dos mais “iluminados” pais da grande democracia dos Estados Unidos da América, Benjamim Franklin, em 1751, escrevia:
 
“O número de pessoas verdadeiramente brancas no mundo é muito pequeno. Toda a África é negra ou quase; (…) e também toda a América (excluindo aqueles que chegaram agora). Na Europa, os espanhóis, os italianos, os franceses, os russos e os suecos possuem uma cor que costumamos chamar de”pele escura”. Os alemães, dessa forma, também são escuros, a exceção dos saxões que formaram com os ingleses o corpo principal da população branca sobre a face da terra. Gostaria que esse número.”
O Senhor Franklin escreveu essas reflexões, certamente, muito antes de inventarem o pára-raio, mas já aos 45 anos de idade. Com Franklin passamos para a segunda etapa de nosso percurso cronológico, ou seja, aquela referente à colonização britanica juntamente com a francesa. Ambas partiram após as incursões ibéricas, entretanto construíram, até os fins do século XIX, os dois maiores e maduros impérios modernos. Podemos entender o que fizeram as duas nações que se mantiveram ali e se impuseram como verdadeiras “civilizadoras”: primeiro, a Grã Bretanha que fundou uma “cultura imperial” moderna. Os intelectuais imperiais do Reino Unido – como demonstrou Said – pensaram e levaram a todos a pensarem que o Novo Império teria superado Roma e todos os outros impérios de nossa história, bárbaros e rapinadores, levando consigo “o fardo do homem branco”, ou seja, o projeto civilizatório aos povos selvagens e primitivos, e que depois o teria transferido (em 1898, durante a guerra contra a Espanha pela conquista das Filipinas) aos Yankees: os ex-colonizados que teriam dominado o século seguinte, como já havia anunciado Kipling. E por último a França, a cristianíssima terra dos teóricos do “verdadeiro” domínio colonial: Sua Majestade Francisco I que teria feito mudar de lugar o nó borgiano do infame Tratado de Tordesilhas. A França do Iluminismo e da Revolução burguesa.
Os impérios britanicos e franceses foram liquidados nos anos de 1959 e 1969, certamente com as últimas guerras mediterraneas de Argélia, de Chipre e de Suez (e nesta última as duas iluminadíssimas nações européias estavam juntamente contra Nasser e contra o “nacionalismo árabe” que assim vinha sendo chamado em Europa).
Como os impérios britanicos e franceses já tinham construído os mais modernos e extensos impérios coloniais – o colonialismo belga e o holandês são aqueles largamente assimiláveis – produziram também uma grande quantidade de “teoria pós-colonial que hoje ocupa a mente de tantos intelectuais e acadêmicos europeus, americanos, africanos, asiáticos e australianos. Trata-se de um vasto e respeitável debate civil in fieri que tende a obscurecer, contudo, relembrando o cubano R. F. Retamar, as formas da descolonização dos ex-impérios ibéricos e, ao mesmo tempo, serve de testemunho de como a descolonização britanica e francesa se moveu através de trajetórias diversas daquelas vistas até então, e ainda de como essa questão é algo muito amplo para o nosso tempo.
É importante ter clareza do fato de que as duas mais importantes literaturas metropolitanas da modernidade não parecem tão integradas às culturas ditas “filhas”, como no caso lusitano e castelhano. Com a advento do imperialismo planetário americano, da globalização dos mercados e da fratura cada vez maior entre Norte e Sul do mondo, os escritores da descolonização africana e asiática, e os escritores e artistas negros e de outras minorias não-yankees norte-americanas parecem antes interpretar esse fato a partir de um rol de resistência e de oposições políticas e, em certos casos, também lingüísticas, a exemplo da “escolha do árabe” feita por alguns escritores maghrebini (francófones) ou da “escolha do kikuyu” pelo queniano Ngugi Wa Thiong’o (anglófono).
As literaturas caribenhas exprimem hoje uma vitalidade mais desprendida em direção a uma “civilização crioula”, isto é, uma nova cultura mundial que parece querer suplantar o império cultural de origem européia, sobretudo aquele de cunho norte-americano, cuja intenção é o de globalizar de único modo, não-crioulo, os mundos.
Atrasado e esquecido, o terceiro par de nações européias coloniais é formado por Itália e Alemanha que, juntas nesse atraso pelas conquistas imperiais, também foram seguidas, no seio da mesma Europa, por outros países desde Albania à Grécia, da Áustria à Polônia e por todos aqueles da área central da Europa. Itália e Alemanha remexeram em seus passados coloniais e ignoraram absolutamente de haver uma questão pós-colonial a enfrentar. Os escritores de outros mundos que se exprimem nas línguas italianas ou alemães são os emigrados dos últimos dez anos e as “minorias” ainda dos velhos impérios centrais de língua alemã.
Na fila dessa graduação temporal dos impérios coloniais europeus, encontramos dois verdadeiros “monstros” (no sentido latino da palavra, mas também no sentido moderno). O seu destino, ainda que de maneira diversa, pertence mais ao futuro do que ao passado. Refiro-me aos Estados Unidos da América: a ex-colônia inglesa que nesses dois séculos se transformou na metrópole mundial. Essa nação carrega em seu seio a inquietação pós-colonial das vicissitudes multiéticas e da sua própria constituição imigratória que não foi resolvida com o tempo e nem a partir do esperado e elogiado modelo do melting pot.
Refiro-me também à Rússia que ainda é um império territorial euro-asiático. A maior nação (que não é uma nação) do mundo, de “St. Petersburgo” a Vladivosck. Um império esfacelado, mas que nega reconhecer-se como império e insiste na idéia de ser uma nação, ainda se confederativa. Para os EUA, o presente e o futuro assemelham-se ao personagem imperial do superpolicial interplanetário a serviço das potências econômico-financeiras transnacionais. Para a Rússia, presente e futuro parecem ser aqueles tempos de um império que sobrevive a si mesmo em atraso com relação ao mundo. Uma nação européia exterminada e com um imenso território asiático: alheio e mudo, senão, no caso de Cáucaso, rebelde e islamico.
E as outras nações européias, perguntareis agora? Pequena como Portugal, ou talvez menor, mas que não têm ou nunca tiveram (ou querido ter) impérios coloniais? Como participam dessa “história diversa”? Acredito que elas tenham tido um outro destino, ou seja, a de afirmar-se como impérios coloniais intra-europeus – a Grande Hungria, a Grande Sérvia – ou mesmo que tenham lutado para não ter a mesma sorte de serem vítimas dessa história colonial: da Irlanda a Malta, da Finlandia à Grécia, da Islandia à Eslováquia. Ao contrário, parece que esses países sempre cultivaram uma imagem própria de “nação européia”, sobretudo através da língua e da literatura. Nação quer dizer: identidade independente. Europa quer dizer: no interior de uma vasta civilização comum e entrelaçada.
Talvez a história da Europa pudesse ser concebida como uma história de conflitos coloniais internos e externos, e de utopias humanísticas e idealísticas, às vezes dignas, às vezes ainda concretas: a história das pequenas nações não coloniais que, por exemplo, nos momentos de libertação, tiveram de lutar pela sua independência. Mas, sobretudo, histórias de conquistas territoriais e de comando sobre os outros povos: desde a invasão dos povos Kurgan (que a academia européia preferiu chamar de povos indo-europeus e/ou arianos, como nos mostraram M. Bernal e M. Gimbutas), a partir do V milênio antes de Cristo, até os nossos dias.
Esta aproximada “história diversa” da cultura literária européia, em suas diferentes relações com o mundo e a partir dos primeiros colonizados, desenha ainda a moldura daquela que eu chamei de “nova Literatura dos Mundos”, que flui da América à África e à Austrália. Os grandes centros de resistência asiáticos parecem ficar fora desse roldão, tais como as nações islamicas, a China e o Japão. Essas duas últimas, a partir da segunda metade do século XX, começaram a se questionar, e definir, qual seria o significado e o valor de suas relações com a assim chamada civilização ocidental e com o regime do capitalismo “democrático”. Enquanto o Japão tem desafiado o ocidente na corrida econômica, a China ficou para trás, devido a um longo processo no qual se distanciava do maometismo, no entanto desenvolveu uma reflexão muito importante acerca do problema referente ao imperialismo ocidental. Os ensaístas e literários chineses (os comparatistas em particular) falam de uma China de modernizações cujo significado e valor vinham ao encontro da Europa, enquanto o que diz respeito às outras civilizações se fala, por exemplo, de trauma da colonização.
Literatura dos Mundos não é mais, desse modo, representada como sendo uma concessão romantica da Weltliteratur e tampouco pela atual Literatura Global, imposta pelo novo capitalismo telemático que mantém um controle planetário e que trata os títulos dos livros como aqueles da bolsa de valores. Esta é a nova “Literatura Mundial” que existe através dos mecanismos de interesse/lucro, do poder e da comunicação de massa e que a essa corresponde. Ao lado dessa literatura e contra ela, ainda que exista (mais ou menos) uma zona móvel na qual ambas (a literatura dos mundos e a literatura global) se sobreponham e trabalhem em conjunto, opera uma Literatura dos Mundos que iniciou um colóquio plural e contínuo de quem quer inventar o futuro, e o faz a favor dos 100% da humanidade, sem que essa tarefa tenha como fundo qualquer imposição ideológica (metafísica) ou pretensão de recompensas: o faz porque alguém deve cumprir essa tarefa. Porque alguém deve ser aquele que trabalha em prol do melhoramento e salvação dos outros e, se for possível, de todos os outros.
Acredito que hoje ao se falar de “Literatura mundial” é necessário prestar atenção a esse mapa: uma Literatura global, que é precisamente aquela que corresponde à globalização e à transformação de tudo em mercadoria, ao domínio cultural do mercado-pensamento-único, e uma Literatura dos Mundos que é singular, não porque seja unificada, mas porque revela a capacidade da literatura de traduzir-se e traduzir os mundos, a pluralidade dos discursos e das culturas que se aliam contra a globalização e que mantêm entre si um diálogo aberto através das migrações, das hibridações, da mestiçagem: aquilo que Glissant denomina de “créolization du monde.”





Bio fornecida pelo palestrante.

PÓS-MODERNIDADE LITERÁRIA: A FICÇÃO DA CRÍTICA E A CRÍTICA DA FICÇÃO – Artur Emílio dos Santos Silva




PÓS-MODERNIDADE LITERÁRIA:
A FICÇÃO DA CRÍTICA E A CRÍTICA DA FICÇÃO

Artur Emílio dos Santos Silva

INTRODUÇÃO
A crítica literária na pós-modernidade desconstrói-se estimulada por exercícios estilísticos de renúncia e grandeza do discurso teórico e, a ficção contemporânea prima por se constituir em fragmentação e vigília de uma poética que se faz crítica, no esgotamento das formas de experimentação do discurso literário. Pelo menos é este o teor dos discursos teóricos (Steven Connor, E. Ann Kaplan, Ihab Hassan, Jacques Derrida, Linda Hutcheon) e ficcionais (Silviano Santiago, Sérgio Sant’Anna, John Barth) da pós-modernidade, que ora analisamos.
Para verificar esta característica das letras (críticas e ficcionais) pós-modernas, apresentamos uma panorâmica sobre os conceitos literários de moderno e pós-moderno e uma breve análise dos romances Stella Manhattan (1985), A senhorita Simpson (s/d) e A ópera flutuante (1987). Nestas narrativas contemporâneas, a marca comum são os aspectos críticos que compõem um infra-texto paralelo à narrativa de suas tramas principais.
Depois de promovida a leitura intertextual entre o que supõe o discurso crítico e o que realiza o texto ficcional (na atual conjuntura dos tempos atuais), constata-se a ruptura das fronteiras outrora canonizadas entre teoria e literatura. É a chamada “crise do comentário” em sincronia com as experimentações do fazer literário.
O DISCURSO FICCIONAL DA CRÍTICA
A arte moderna se fundamenta no desejo de descobrir a essência de cada prática artística, isto é, de afirmar a identidade estética e material dessa prática. Se tal ponto de vista teórico diz que a essência (por exemplo) da arquitetura, constitui-se em linhas e massas organizadas no espaço; e, que a pintura reproduz linhas e formas organizadas numa superfície plana; por analogia, diríamos que a literatura é a materialidade da linguagem, ou seja: formas na página e sons no ar. Esta vertente modernista estaria no futurismo de Marinetti, no princípio da literariedade dos formalistas russos e na supremacia do significante defendida pela teoria literária pós-estruturalista francesa das décadas de sessenta e setenta. Além disso, o modernismo literário promoveria também o relativismo subjetivista que apreende uma noção de mundo na qual este só poderia ser apreendido e vivido através da consciência individual. Neste sentido, Virgínia Woolf nos fala de um “invólucro semi-transparente da consciência e da necessidade de encontrar uma linguagem narrativa que traduza as oscilantes intensidades da vida subjetiva”(1). Ironicamente, para T. S. Eliot esse subjetivismo anuncia o fim da subjetividade individual, através da defesa da impessoalidade artística(2), que em James Joyce, se dá através da estética do desapego autoral. Desta oposição (subjetivismo/impessoalidade) sobrevive um princípio de autocompletude da obra de arte modernista, que é a sua integridade formal . Já não basta mais à literatura “a tarefa de retratar o mundo nem como conformidade a um corpo de preceitos estéticos”(3). Produzir o texto literário requer agora o conhecimento ou o autodomínio artístico.
A arte pós-moderna retornará a estas questões da forma estética e progredirá para além delas. As primeiras manifestações sobre o enfoque formal cuidam de uma escrita baseada antes na experiência do que na forma. Depois aponta para o preenchimento de uma lacuna deixada pela idéia da integridade formal, fincada no distanciamento entre a chamada cultura superior (erudita) e a cultura de massa. Por esta apreensão crítica, o modernismo mantém-se como tentativa de purgação ou repúdio às formas de cultura de massa (faroeste, história de amor, romance policial) através de recursos estilísticos como a paródia. A fusão que o pós-moderno realiza não se limita apenas ao aspecto da integridade formal mas a uma outra, que por ser mais ampla e mais genérica, aglutina os valores canônicos da arte erudita com os valores massificados da arte popular. Isto leva a cultura pós-moderna a suspeitar de um colapso da crítica, que não se distinguiria mais da linguagem literária por veicular como esta aspectos formais semelhantes: diferentes vozes, registros, pontos de vista, figuras de linguagem, formas de dramatização, ritmo, estilo etc. A crítica estaria dentro da literatura e não mais fora dela, como um parasita que lhe faz acusações e lhe deve engenhosas explicações. A partir deste novo enfoque dois movimentos são produzidos: o da renúncia às formas autoritárias de linguagem e o ênfase às formas de elevação estilística.
Segundo Foucault, o discurso não é somente crítico, mas uma percepção geral da linguagem em uso social (4). Portanto é preciso descontaminar o discurso crítico do poder da razão logocêntrica, imiscuído na linguagem. Como fazer isso? Aproximando-o do discurso literário e de suas diferentes vozes excêntricas e paradoxais.
O segundo movimento desdobra-se numa sobrecarga estilística e desanda no sublime estético. Ihab Hassan, que é um exemplo de modalidade renunciadora da crítica, nomeia em seu discurso a multivocação: “multiplicar as vozes da crítica a fim de liberar o crítico da responsabilidade ou dos prazeres culposos da voz autoritária única”(5). Como sugestão da multivocação estariam as especulações autobiográficas numa distanciada terceira pessoa.
Dick Hebdige, que é um teórico social britânico, exemplifica enquanto crítico a modalidade de renúncia ativa, isto é, aponta para o sublime estético unificado ao ridículo trivial do cotidiano(6).
Os herdeiros de Kant/Nietzsche (pela vontade do sublime) são os escritores do pós-estruturalismo (Derrida, Lacan, Foucault, Kristeva e Barthes) que pela teoria cultural contemporânea, aspiram ao inefável do sublime associal. Surgem aí os teóricos das obras de metacrítica que investigam os estilos da própria crítica, através de processos discursivos como: colagens, montagens e rupturas. Jacques Derrida em seu livro La Dissémination seria um exemplo de metacrítica (7). Este autor professa a crítica que nunca comenta o texto que discute, mas fixa distância entre texto e comentário, congela o jogo de linguagem do texto original, prolonga as associações e constata: “a crítica não objetiva dizer a verdade sobre os textos que critica, mas usá-los como máquinas geradoras de novos textos”. (8) Derrida quer a materialidade ou a fisicalidade da linguagem, através do jogo textual dos significantes para alcançar o além da linguagem.
A inovação da crítica pós-moderna é também uma reformulação do conceito de alegoria, que abandona sua conceituação moderna (de texto cujo significado é diferente do que parece ser, mas impõe ao leitor a sua decifração) para chamar-se “alegorese”, cuja característica é:
(…) dramatizar ou representar as possibilidades inerentes ao material lingüístico do texto-objeto e o faz não cancelando ou escavando a superfície do texto à procura de significados mais profundos, porém improvisando a partir do material do texto original. (9)
Outro exemplo da sobrecarga estilística na crítica pós-moderna está em John Cage (10), que remonta o romance Finnegans Wake de James Joyce, em forma de mesóstico: “arranjos em colunas de frases geradas ao acaso a partir do romance e reunidas por uma espinha de letras destacadas que soletram ‘James Joyce'”. (11)
A diferença entre as duas modalidades da crítica literária contemporânea (a da renúncia que entrega a autoridade e a da grandeza que estiliza o sublime através da estetização da forma) é de grau: enquanto a primeira nega o autoritarismo dos discursos de poder, a segunda modalidade da sobrecarga estilística busca expulsar a autoridade de sua própria linguagem.
Como um exemplo final da estilística pós-moderna do sublime, o francês Jean Baudrillard superestima a simulação, o que poderia não ser um desafio ao real, mas um desafio interno à própria teoria e ainda assim soar como grave alerta de um perigoso paradoxo:
Se a principal responsabilidade da crítica e do conhecimento teórico não é representar o representável, mas se tornarem assombradas testemunhas do não-representável, o que há para garantir os efeitos subversivos desse trabalho exceto as suas próprias formas inevitavelmente institucionalizadas de autolegitimação? Um sublime autolegitimador que nega seu posicionamento pelas exigências da sua própria produção material transforma-se numa mera simulação sublime, uma ficção profissional cool de subversão que, paradoxalmente, dá existência aos próprios efeitos de simulação, de irrealidade e de contenção que o seu discurso evoca, mas no modo passivo ou negativo da rotina e da racionalização”.(12)
OS FRAGMENTOS CRÍTICOS DA FICÇÃO
Para exemplificar os fragmentos críticos da ficção pós-moderna escolhemos três romances: dois de autores brasileiros (Stella Manhattan, de Silviano Santiago e A senhorita Simpson, de Sérgio Sant’Anna) e um terceiro de autor americano (A ópera flutuante, de John Barth).
1. Stella Manhatan
O romance Stella Manhatan, está dividido em três partes: a primeira constitui-se dos três primeiros capítulos, a segunda vai do quarto ao nono e a terceira, os dois últimos. O romance possui três epígrafes que fazem referência a Kafka e à contínua metamorfose do processo que é a escritura e, a Bonrad, que deseja pintar a vida como a transformação do real em literatura.
Feito uma voz ou veia subterrânea do discurso narrativo, há uma notação de diário (“Ilha de Manhatan, Nova Iorque/18 de outubro de 1969”) (13), trechos de cantiga popular brasileira e palavras, expressões e frases em língua inglesa (depois, até em francês e em espanhol). É a polifonia, o dialogismo das influências culturais. O discurso narrativo já fragmentado estilhaça-se em patchwork e seus retalhos compõem o infratexto do tecido ficcional.
Os capítulos narram a apresentação da trama principal com seus personagens aglutinados (Stella/Eduardo e Rickie; Sebastiana; as colegas do consulado; Lacucaracha, o Paco; Vianna, o Viúva Negra; Marcelo e Carlinhos) e os acontecimentos (o início, a coincidência, a pilhagem, a volta, a digressão filosófica, o telefonema e o delírio-duelo no espelho-navalha). Entre eles há um cápitulo nomeado “Começo-Narrador” em que epígrafes de Vieira e Bachelard entrelaçam conceitos da metaficção historiográfica(14): “judeu/capitalismo” e “desejo/necessidade”. Essa metaficção que tece digressões sobre o desperdício existencial recomenda a arte-ócio, para assim entrar no circuito-tecido do texto-retalho, que faz referências às narrativas do desejo e também à arte:
Ficção é fingimento blablablá, o poeta quem diria? é um fingidor. El poeta qua-quaquaqua-quá es un jodedor, eso si. A fucker. A motherfucker. Fode tão-somente pelo prazer de escrever. Por isso é tão fodido. The novelist is a fucker who fucks only to be fucked. El novelista es un jodedor que fode pelo prazer de escrever.(15)
A forma que se abstrai desse discurso paralelo entre o ócio da arte e o trabalho do homem, passa pela indiferença do judeu que capitaliza sua personalidade ou, pelo aloofness mudo de Buster Keaton em consonância com o rock de Bob Dylan; na incompreensão do judeu por Nietzsche (que não acompanha Dylan) e depois, a voz-flor de Chico pousando na certa arte econômica de João Cabral.
Há também um infra-discurso de multivocação: o pessoal, o acadêmico, o paradoxo, o simulacro de um texto à margem do narrador:
(…) o eu que escreve o texto nunca é mais, também ele, do que um eu de papel. ‘eu’ não é aquele que se lembra, se confia, se confessa, é aquele que anuncia; aquele que este ‘eu’ põe em cena é um ‘eu’ de escrita, cujos laços com o eu civil são incertos, deslocados.(16)
É a disseminação de discursos ideológicos distintos, sob o confronto conceitual de judeu (aloofness) e não-judeu (wasp): Marx, Keaton, Bogart, Carlitos. Há ainda o narrador carnavalizado pelo texto contínuo-descontínuo em movimento de ação-reação:
E penso por um instante muito curto, porque você não me dá tempo, que tem de haver uma maneira de fazer intervir no romance que você está escrevendo, esses momentos de silêncio do narrador em que explodem gargalhadas, e a gargalhada do narrador é tão importante para o romance quanto a sua palavra ou o pedido do personagem, e que o leitor precisa ficar sabendo dela. (17)
Por último, a historiografia metaficcional vai a Platão para trazer à cena narrativa a figura de Machado de Assis, através do apólogo da velha e do astrólogo que, à maneira de americanos e tropicais, olham à frente (no horizonte possível) ou, para o alto (em direção ao céu prometido), respectivamente.
Após esse vai-não-vai da narrativa, inicia-se a complicação da trama principal que é entremeada pela incursção de novos personagens, novos acontecimentos e novas digressões do narrador sobre filosofia, política e sexualidade.
A trama principal de Stella Manhatan é a história de uma ‘bicha brasileira’ em Nova Iorque no final da década de sessenta (outubro de 69) na esteira da ditadura militar entre os tupiniquins. O romance, a ficção, tangencia o real: um ex-estudante de Letras vai para os States trabalhar no consulado brasileiro. Mora em Manhatan e vive em busca de uma situação mais cômoda e consonante com seus interditos sexuais. Acaba por se envolver com um grupo da esquerda clandestina brasileira em New York. Os interditos sexuais confundem-se com os sociais e provocam insatisfação, decepção, depressão e o silenciar da voz do protagonista (no desaparecimento do indivíduo ou, na morte simbólica do sujeito para a trama ficcional).
2. A Senhorita Simpson
A star de Manhatan se liga à Ópera Flutuante como ponte para a Senhorita Simpson: é a América siderada ou o palimpsesto contemporâneo, fragmentado nos subconjuntos dos conceitos pós-modernos. Se a ópera bufa nos States sob o brilho carnavalizado de uma estrela brasileira em Manhatan, há também nos trópicos, ao sul do Equador, uma professorinha americana perdida entre o rumor da língua inglesa e a volúpia tropicaliente do macho carioca.
Entre a solidão da ópera, a carnavalização patética da estrela e a lascívia tropical de uma teacher of English, perfilam para o leitor as entrelinhas de uma narrativa subterrânea e semitransparente dos conceitos culturais pós-modernos: a performance, o simulacro, o fragmento de escrita, o in put/out/put, o pastiche, o kitsch, o grotesco, a alegorese, o underground e o choque da representação (que já foi moderna, mas também canônica e reproduzida sob o império logocêntrico da razão, entranhada que sempre foi na microfísica dos poderes da linguagem, como denunciou Michel Foucault). Depois de carcomidos todos os discursos da Doxa e inventariadas todas as metanarrativas da história mitificada, explodiram-se os meandros textuais da modernidade na metaficção historiográfica.
Notamos uma pulverização de limites ideológicos, estéticos e existenciais como marca comum nas três narrativas em questão: o desejo sexual interdito, a insólita aventura do cotidiano e a promessa do suicídio como salvação existencial. Senão, vejamos as condições e as perspectivas de cada protagonista.
Pedro Paulo de A senhorita Simpson: descasado, pai de dois filhos e funcionário público quase fantasma, projeta sua aventura pós-solidão freqüentando um cursinho de inglês. Sua professora, a senhorita Simpson, funciona como um misto de fêmea-objeto de desejo dos alunos marmanjos e uma espécie de ventre materno para maiores abandonados. Ao fim das poucas aventuras supostas e das múltiplas relações previstas (um rendez-vous na Zona Sul carioca), a debandada solitária é geral. O protagonista em fuga, viaja para a distante Machu-Pichu de mochila nas costas e brinquinho na orelha. O decantado lugarejo peruano é sinônimo de mistério e misticismo e o astral do viajante é de cansaço pela futilidade do cotidiano urbano. Daí o suicídio simbólico do citadino em nome de uma juventude desperdiçada aos trinta anos, no nada inútil e perverso das relações intramundanas:
Antes de pegar minha mochila, no Chateau, eu passara numa farmácia, onde furara uma das orelhas, para colocar um brinco dourado. Aos trinta anos, eu estaria deixando para trás não a minha juventude, mas a minha velhice.(18)
Todd Andrews, de A ópera flutuante: advogado coroa-garotão de 54 anos, vai contar sua promessa de suicídio num lenga-lenga discursivo interminável. Conversa muito com o leitor, que talvez já tenha lido Machado de Assis e conheça essa prorrogação na narrativa da trama principal. Todd Andrews conta toda sua vida e nela divaga sobre o desejo que lidera a carreira de suas interdições, até o momento da promessa não cumprida. É o período no qual mantém um triângulo amoroso com um casal excêntrico de amigos. Ao final, o solteirão frustrado pelo fiasco do suicídio, ao procurar causas metafísicas na figura do pai (também coroa-garotão e suicida) acaba por recolher-se ao patético de sua mediocridade existencial: “…explicar para mim mesmo porque papai tinha cometido suicído”.(19)
Eduardo de Stella Manhatan: um ex-estudante de Letras, é dado a umas escapulidas homossexuais em plena Manhatan. É também funcionário do Consulado e se mete com uma incipiente militância clandestina brasileira dos States (resistência do sonho brasileiro da revolução popular, sempre abortada em sua própria ingenuidade pela eficiente repressão e torturas da ditadura militar). Stella, a bichona brasileira que “solta a franga” in New York, termina por ser procurada por agentes do F.B.I., que investigam o seu envolvimento com o comunismo. Eduardo desaparece sem deixar pistas. O que deixa é apenas o rastro de suas interdições na aventura do cotidiano, o simulacro de um glamour, meio clean, meio mess, meio in, meio out, meio high, meio underground. E aí o suicídio simbólico é a fuga, sem vestígio, da cena textual.
CONCLUSÃO
O insólito é a marca principal destas narrativas. Os protagonistas do tecido ficcional são característicos da cultura pós-moderna do agora finissecular: o sujeito morreu e a sociedade acabou. A história só continua porque ainda “estamos todos chafurdando na lama do simulacro”. (20) Os discursos de poder da representação estão todos em processo de pilhagem e de deslegitimação. Não há mais o limite canônico entre a linguagem literária e a linguagem crítica, entre a ficção e o real, já que o onto se desdobra ininterruptamente em quântico.
Do exposto, fica a interação entre o discurso do crítico e o discurso do ficcionista como uma das marcas básicas da pós-modernidade. Se toda crítica literária mais recente inventaria uma crítica pulverizada taticamente com fragmentos ficcionais, a ficção dos autores visitados é uma exposição do entrelaçamento contínuo/descontínuo entre a ficção e o “conjunto de instruções textuais”.(21) Estas instruções inclusive já freqüentam a escritura de autores como Machado de Assis. A diferença é que agora elas assumem um aspecto carnavalizante de uma geléia geral da interdiscursividade.
Portanto, é possível concluir em consonância com o pensamento de Linda Hutcheon, que a “metaficção historiográfica” é uma característica básica da literatura pós-moderna. Sendo assim, o essencial em determinados textos ficcionais contemporâneos não é o relativismo subjetivista ou a integridade formal, mas o processo da escritura ou a ficcionalidade da história, que passa então a ser conhecida com a mediação das formas de representação ou de narrativa. Terminamos com as boas vindas de Linda Hutcheon “à ruptura de fronteiras genéricas ou disciplinares, à infiltração da história na literatura e ao fim das distinções entre literatura e teoria”. (22)
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
1. WOOLF, Virginia. “Modern Fiction” (1925). In: Collected Essays, vol. 2. Londres: Hogarth Press, 1966. p. 106-107.
2. CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1993. p. 91. A referência do autor é o texto de T.S.Eliot, “A tradição e o Talento individual”, famosa tese na qual sustenta que um bom poema deveria se impor, quer pelo seu aspecto de velhice, de familiaridade, que por sua novidade.
3. Ibid.
4. Ibidem. p. 165.
5. HASSAN, Ihab. Paracriticisms: seven speculations of the times, Urbana, U. of Illinois P., 1975. p. 30. Hassan também funde autoridades culturais diversas (Claude Lévi-Strauss/Jimi Hendrix); faz um coquetel de citações: O livro tibetano dos mortos, Jerusalém, de Blake, Henri Bergson, Teillard de Chardin e Marshall McLuhan; indaga sobre a desautorização da crítica e intercala ensaios com fragmentos de diário, afim de criar um padrão disjuntivo da mesma e projetar-se no mundo pós-moderno da “generalidade hiper-real”.
6. HEBDIGE, Dick. The impossible object: towards a sociology of the sublime, New Formations, 1:1, 1987, p. 48. “Hebdige intercala uma mediação erudita sobre o domínio de um modelo kantiano do sublime com reflexões sobre a vida em sua rua no norte de Londres, reflexões que se concentram especialmente em seu vizinho Sr. H. e em sua enfatuação com o seu Thunderbird importado”. In: CONNOR, Steven. op. cit. p. 172
7. CONNOR, Steven. op. cit. p. 174 “Derrida realiza uma discussão estereofônica do poema de Shelley ( The Triunph of Life) e do romance L’ Arrêt de mort, de Maurice Blanchot, ao mesmo tempo que faz o encaixe de duas discussões críticas; uma delas é uma especulação sobre Shelley e Blanchot, e a outra, feita num subcomentário contínuo no pé de página, uma meditação sobre a tradução.”
8. Ibidem. p. 175.
9. Ibidem. p. 174.
10. CAGE, John. Empty words. Middletow Wesleyan U. P., 1981.
11. CONNOR, Steven. op. cit. p. 174.
12. Ibidem. p. 180.
13. SANTIAGO, Silviano. Stela Manhatan. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 11.
14. A propósito, ver HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, e ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
15. SANTIAGO, Silviano, op. cit. p. 74.
16. BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. de Antônio Gonçalves. Lisboa: Edições 70, 1987. p. 59 e 244.
17. SANTIAGO, Silviano, op. cit. p. 86.
18. SANT’ANNA, Sérgio. A senhorita Simpson. São Paulo: Cia. das Letras, s/d. p. 230.
19. BARTH, John. A ópera flutuante. Trad. José Romero Antonialli. São Paulo: 1987. p. 271.
20. Esta frase é da Professora Luiza Lobo (UFRJ) e foi proferida durante uma das aulas do curso Análise Crítica em Literatura Comparada, em 1995. Foi aqui incluída pela lucidez e pertinência com que aborda o momento contemporâneo.
21.ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Cia das Letras, 1994. p. 22.
22. CONNOR, Steven. op. cit. p. 107.





Bio fornecida pelo palestrante.

A Gênese da Representação Feminina na Literatura Ocidental: Bíblia, Cabala, Idade Média




Resumo:
Leituras críticas da figuração da mulher na Gênese, na Cabala, na Idade Média; escravidão no período greco-romano e seu paralelo no papel da mulher na Idade Média; mito e história no desenvolvimento da formação da imagem da mulher; o símbolo do feminino na história e seus desdobramentos na representação literária ocidental: servidão, feitiçaria, marianismo, a visão da musa ou da guerreira.
Texto:

A Gênese da Representação Feminina na Literatura Ocidental: Bíblia, Cabala, Idade Média

Luiza Lobo
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Introdução:

O patriarcalismo teve início antes mesmo da formação da civilização ocidental (LERNER, 1993, p.3). “Gradualmente, ele institucionalizou os direitos dos homens para controlar e se apropriar dos serviços sexuais e reprodutivos das mulheres”, estabelecendo formas de dominação, tais como a escravidão e instituindo um sistema funcional complexo de relacionamentos hierárquicos, tecendo um verdadeiro sistema de idéias (idem).
A partir desta ordem social e ideológica, o homem se estabeleceu como a norma, e a mulher como o desvio. Interessa-nos aqui traçar alguns dos aspectos históricos, a partir da Idade Média, com fundamento na Bíblia e na Cabala que, estabelecendo o ideário greco-judaico-cristão-ocidental, sustentaram o estabelecimento desta ordem social, simbólica e imaginária.
Seria importante enfatizar, inicialmente, que a mulher, para se pensar, numa perspectiva feminista, precisa colocar-se como o centro de seu pensamento, e não como o Outro de uma relação de expoliação, em todos os níveis sociais, do fazer doméstico à produção econômica e, no nosso caso, textual (ver LERNER, 1993, p. 19).
A partir do passado greco-latino, quando o escravo passou a exercer as mesmas funções domésticas que a mulher (tecelagem, cozinha, cuidado do lar e da prole etc), provocando preconceito e desvalorização desta, formou-se uma mentalidade em que os homens assumiram o papel patriarcal na sociedade já não mais nômade, distribuindo entre si as funções sociais mais elevadas e de melhor remuneração.
No período medieval e renascentista, não estamos nos referindo, evidentemente, às exceções, autoras já em línguas modernas, consistindo, por exemplo, de rainhas como Marie de France (antes 1170), Eleanor de Aquitaine (século XII), Marguerite de Navarre (1492-1549), Elizabeth I da Inglaterra e a rainha Cristina da Suécia, a qual fundou academias literárias em seu exílio na Itália (ver LERNER, 1993, p. 29). Eram mulheres privilegiadas que tiveram educação com grande esmero e se dedicaram à literatura – o que não ocorria com a maioria das freiras, analfabetas, na Idade Média.
Uma possibilidade para a mulher se alfabetizar, na Idade Média, era dedicar-se à carreira de religiosa. Entre os séculos XII e XIV o misticismo entre as mulheres foi importante. Entretanto, segundo Gerda Lerner (1993, p. 73) no meio do século XII “as reformas da Igreja, a difusão do celibato clerical, o refinamento da lei canônica e o firme monopólio da Igreja com relação à educação favoreceram a posição dos clérigos”, que tiveram seu poder aumentado ao serem os únicos que podiam dispensar os sacramentos. Em oposição a esse aumento de poder, as religiosas foram segregadas em monastérios separados, tiveram, de modo geral, sua educação guiada por clérigos, e o estudo do latim tornou-se algo incomum entre elas (idem).
A Idade Média reforçou, cada vez mais, através da história das ordens religiosas, a inferioridade de poder e de educação da mulher com relação ao homem – o que foi cada vez mais reforçado pela sociedade capitalista moderna, na institucionalização, por exemplo, de escolas não-mistas, no início do século XX.

Leituras cristãs e críticas:

Do ponto de vista simbólico (e aqui empregamos as categorias lacanianas de real, imaginário e simbólico), o “padre-nosso” cristão é descrito por Julia Kristeva como forma de identificação da criança com a terceira pessoa do pai, afastando-a do “corpo-a-corpo jubiloso e destruidor com a mãe” (KRISTEVA, 1987, p. 52), o que desenvolve nela a possibilidade da linguagem. Para a psicanalista francesa, a Igreja do Ocidente, ao contrário da do Oriente, glorifica o Espírito Santo juntamente com o Pai e o Filho, “de quem vem” (idem, p. 50), pois é “pelo Espírito Santo que o Filho se encarna a partir da Virgem Maria” (idem, p. 51). Dessa forma, Kristeva (1987, p. 52-3) enxerga um lado positivo no patriarcalismo, uma vez que

(…) a fusão substancial, corporal, incestuosa do homem com seu pai revela e sublima a homossexualidade. A morte do Deus-homem revela ao analista, atento aos desejos mortíferos endereçados ao Pai, que a representação da Paixão crística significa uma culpabilidade retornada como um bumerangue sobre o Filho, que se entrega ele mesmo à morte.
Freud interpreta nessa expiação uma confissão de assassinato edipiano inconscientemente desejado por cada ser humano. Entretanto, na medida em que a Paixão do Cristo mobiliza camadas ainda mais arcaicas do psiquismo, ela evidencia uma depressão fundamental – ferida narcísica ou ódio invertido – que condiciona o acesso dos seres humanos à linguagem.

O sofrimento psíquico e físico que inunda o ser humano na aquisição simbólica da linguagem, nos primórdios do psiquismo humano, encontraria uma identificação com o sofrimento do Cristo no inferno, na cruz ou no abandono do deserto (idem, p. 54). Enquanto isso, a figura da mãe virgem – a Virgem Maria – representa uma forma fantasmal do imaginário para amá-la sem se sentir excluído da paternidade simbólica insuportável, vivida como “fardo total e esmagador” (idem). A mãe de Deus satisfaz o imaginário do homem, dentro da sublimação permitida pela ideologia da Igreja, como única mãe virgem “filha de seu filho” que, em sua “histeria feminina e aureolada pela paranóia” “é a única entre os humanos a não morrer, [pois] quando seu próprio filho vai padecer o calvário, ela falece de fato em dormência (no Oriente) ou assunção (no Ocidente), corpo e alma, rumo ao além” (idem, p. 55). Esta censura da sexualidade feminina tem como alvo a satisfação da psique masculina, que domina o patriarcado.
Na sociedade hebraica, o casamento não se realizava necessariamente por amor (DICIONÁRIO DE TEOLOGIA FEMINISTA, 1996, SILVIA SCHROER, p. 14). Havia, como base do matrimônio, a presunção da solidariedade e do auxílio mútuo (Gênesis, 2, 18, 25), e de que a mulher aceitaria o marido como “Senhor”; existia a bigamia masculina, mas não a feminina (idem, ibidem).
Estabelece-se, na organização patriarcal das sociedades que nos precederam, a visão androcêntrica do homem, na qual “a condição humana é identificada com a condição de vida do homem adulto do sexo masculino” (idem, IRENE HENNING, p. 21). Neste momento (idem, ibidem),

O preconceito androcêntrico torna a vida feminista invisível do ponto de vista lingüístico, e coloca a mulher, do ponto de vista conceitual, à margem da antropologia geral. A crítica lingüística, ideológica e científica tem, pois, como meta desvendar, no discurso dominante, estruturas preconceituosas androcêntricas, e desta forma desmascarar a objetividade aparente como uma retórica do partidarismo masculino.
O modelo ginecocêntrico:

Nesse sentido, o enfrentamento do preconceito androcêntrico deve ser feito através de uma visão “ginocêntrica” ou “ginecocêntrica” do mundo, que pode ser entendido como a superação “do indivíduo voltado de maneira solitária, racional-calculista e angustiada para a afirmação de si próprio” por uma visão “de um ego em comunidade, que se compreende como parte da natureza, (…) autenticamente ecológico” (idem, ibidem, p. 21-2). Paralelamente, a visão ginocêntrica do ser humano propõe uma imagem modificada de Deus, não como “Deus-pai distante, soberano e independente” mas sim como um “poder na relação” que se manifesta nas relações entre os seres humanos e entre estes e o mundo que os cerca (idem, INA PRAETORIUS, p. 22).
Com efeito, desde a Bíblia delinearam-se os modelos androcêntricos que serviram de modelos para as representações antropológicas da mulher, e que foram enfatizados pelo cristianismo medieval, com Pedro Lombardo (século XII), e reforçados pelas sumas teológicas, no século XIII, como por exemplo: 1) a criação do homem como “modelo” da primeira mulher (Eva) e de todas as mulheres; 2) a canonização dos sacramentos do matrimônio e do sacerdócio não poderem ser exercidos pelas mulheres, ou pelo menos exigirem uma determinada argumentação para que fossem permitidos (não está provado que mulheres exerceram posições de profetas na história, como no caso de Maria Madalena); 3) o impedimento de a mulher ressuscitar como mulher, a partir da cristologia e da escatologia (idem, ELISABETH GÖSSMANN, p. 26). Note-se que nos escritos gnósticos, a mulher tinha de primeiro tornar-se homem para depois entrar no reino dos céus (idem, ELISABETH MOLTMANN-WENDEL/INA PRAETORIUS, p. 64).
Já no neoplatônico judeu Fílon de Alexandria (século I), criou-se a dicotomia entre espírito (o homem) e a carne ou percepção sensorial ( mulher) distinguindo os dois sexos (ver, sobretudo, De opificio mundi, p. 134-72, a respeito do Gênesis). Ratio e sensualitas surgiram como duas “verdades” altamente ideológicas e preconceituosas de julgamento do homem e da mulher através da história. Nos comentários de Agostinho ao Gênesis, surge a mistura da imagem neoplatônica do mundo e do relato bíblico da criação. Para o autor, em De gen. ad lit., VIII, 23, 44), todos devem separar em si o “feminino”, isto é, a “carne”, a “concupiscência”, e submetê-las ao domínio do “espírito” ou “masculino” (idem, 1997, ELISABETH GÖSSMANN, p. 27).

As virgines (virgens) são vistas pela antigüidade cristã como equiparadas ao homem, vir, e por isso elas podem possuir virtus (= virtude ou, antes, masculinidade) e, como se diz em conexão com os padrões de pensamento neopitagóricos e estóicos, superar sua “feminilidade” (= carne, fraqueza, imperfeição).

A antropologia franciscana percebe uma certa igualdade entre os dois sexos, por exemplo na comunidade doméstica (como em São Boaventura, mas também em Alexandre de Hales, Duns Scotus, Ockham). Enquanto isso, São Tomás de Aquino “vê o feminino como uma deficiência do humano” e a mulher como totalmente orientada para o homem e feita à imagem de Deus-homem (idem, ibidem, p. 28).

A mulher como sofia (hokmah), como espírito ou como natureza:

A identificação da mulher com o mito de “sofia” (sabedoria), com Maria Madalena enquanto profeta e educadora, sobretudo no Evangelho de Maria, tem encontrado respaldo numa leitura hermenêutica que busca apontar para esse novo paradigma ginocêntrico em lugar da antiga visão androgênica vigente.
Era comum, na hagiografia cristã medieval, misturar biografia de uma santa com o romance cristão, como se observa nos atos apócrifos de Paulo e Tecla. Este a converte, e conta sobre a perseguição de Tecla devido aos desejos que desperta nos homens e seu suplício até desaparecer para sempre numa fenda do solo. Numerosos santuários celebram-na em todo o Oriente (PIERRE LOUIS GATIER, “Mulheres no deserto?”, p. 169-183, p. 181, in BERLIOZ, s. d.).
A tradição da Cabala entendia o divino como feminino, seja enquanto gnose ou mística. A seita dos guglielmitas, por outro lado, encarava a mulher como encarnação do Espírito Santo (idem, ULRIKE WIETHAUS, p. 104-05) e atribuía espiritualidade feminina à terceira pessoa da Trindade (idem, ELISABETH MOLTMANN-WENDEL, p. 159-60).
As mulheres dos patriarcas, Sara, Rebeca, Lia e Raquel (Gênesis, 12, 20, 26), as profetisas e rainhas ou as que detém liderança política – entre estas últimas Débora e Jael (Jz, 5), ou na história de Judith, simbolizando a luta de um Israel frágil, Jezabel, filha do rei Tiro, que desempenhou papel importante no reino do Norte, no século IX a.C.; a rainha Atalia, da dinastia dos omridas do reino do Norte, que chegou a governar Jerusalém por seis anos, em nome do seu filho menor no reino do Sul e quebrando a sucessão do reino de Davi pela primeira vez; a “soberana” Betsabéia, mãe de Salomão, provavelmente de origem hitita, indicando cargo importante (gebirah); as mulheres de classe inferior, como Tamar (Gên., 38), Sefra e Fua (Êxodo, 1); mulheres ativas, como Micol, Abigail, as que aparecem como vítimas da violência masculina, como Tamar, filha de Davi (2Sm, 13); a filha de Jefté (Jz, 11), ou a anônima (Jz, 19); enfim, numerosas mulheres atuaram como rainhas-mães ou mães e esposas de larga tradição de sabedoria, desde a prudente Abigail (1Sm, 25) até a altamente sábia Judith (idem, HELEN SCHÜNGEL-STRAUMANN, p. 216-177). Hokmah em hebraico, ou sophia, em grego, representam o lado “amável e bondoso do Deus de Israel, e desde o exílio ela é univocamente personificada como mulher” (idem, SILVIA SCHROER, p. 431).
Por outro lado, também ligado à idéia de sabedoria, o mito das bruxas como maléficas era oriundo de antigas crenças populares. Ao contrário do que se pensa ou do que afirma a psicologia analítica de Jung e Neumann, entretanto, bruxa (Hexe, em alemão, witch, em inglês) não significa “mulher má”. A expressão deriva do latim furia, striga, eumenis, erinnys, herbaria, lamia – de acordo com a literatura de caça às bruxas, escrita em latim – e só numa acepção identifica-se à noção de Hexe(HäxeHägse), ou Hagezussa, mulher que cavalga a cerca, que serve de comunicação entre os dois mundos (idem, ERIKA WISSENLICK, p. 53-4).

Conclusão:

Para Georges Devereux (1982, p. 16), a consciência da paternidade biológica, que esconde um conhecimento subjetivo deste fato cultural, e a existência de mulheres sexualmente ativas mas não sujeitadas ao homem (que em grego eram conhecidas por parthénos, ou seja, virgens), são hipóteses sociológicas que explicam a criação de mitos e a construção de uma ideologia mostrando a diferença entre os sexos, sendo a “irredutibilidade dos dois sexos (…) fundamental” (idem, p. 6). Grande parte dos mitos gregos retratam deusas masculinizadas e deuses semifeminilizados, demonstrando a dificuldade do convívio com a dualidade dos corpos e da reprodução, em sua constante diferenciação.
A purificação realizada por Hera ou por Palas Atena, na sua forma sexual, são modos ritualísticos de manifestação da “purificação ritual da virgem”, denegando a morte (DEVEREUX, 1982, p. 91). Para Michel Sot, em “A mulher, o amor e o cavaleiro” (ver DUBY, org., p. 225-238, p. 226), a gênese do casamento como um dos sete sacramentos cristãos foi estabelecida no século XII, provocando “um modelo antagonista, elaborado para a aristocracia laica, no centro do qual se instala aquilo a que especialistas da literatura chamam o amor cortês”.
A visão da bruxa, feiticeira, deusa, mulher realçada em sua pureza pelos mitos do marianismo medieval, a musa, exaltada pelo Romantismo, ou a guerreira, figura que surge na literatura do século XX já sem a máscara da mulher disfarçada em cavaleiro medieval ou renascentista (Cruzadas, Joana d’Arc etc) são facetas de uma afirmação de vida em face da pulsão de morte. Representam uma irmandade que nega o patriarcalismo e a androginia, apresentando a defesa de direitos na lei e liberdade de ação e de experimentação transcendental, para além da censura e no encontro do princípio da criação e do prazer.
 

Referências Bibliográficas

BERLIOZ, Jacques, Apresentação. Monges e religiosos na Idade Média. Lisboa, Terramar, s. d. (Coleção Pequena História). [Trad.Moines et religieux aux Moyen Âge, Paris, Seuil, 1994].
DEVEREUX, Georges. Femme et mythe. Paris, Flammarion, 1982.
DICIONÁRIO DE TEOLOGIA FEMINISTA. Diversas autoras. Trad. Carlos Almeida Pereira. Petrópolis, Vozes, 1996. Org. Elizabeth Gössmann et alii. 582 p.
DUBY, Georges, Introdução. Amor e sexualidade no Ocidente. Lisboa, Terramar, s. d. (Coleção Pequena História). [Trad. Amour et sexualité en Occident. Paris, Sociétés d’Editions Scientifiques, 1991].
KRISTEVA, Julia. No princípio era o amor. Psicanálise e fé. São Paulo, Brasiliense, 1987.
LERNER, Gerda. The creation of feminist consciousness. From the Middle Ages to Eighteen-seventy. Oxford, Oxford University Press, 1993.
PARRINDER, Geoffrey. La brujería. Buenos Aires, Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1963.
ROUGEMONT, Denis de. L’amour et l’Occident. Paris, Plon, 1972.





Bio fornecida pelo palestrante.

Eça de Queirós e suas Leitoras Malcomportadas




Resumo:
Este ensaio discute a importancia cultural e ideológica da leitura e sua formação na mentalidade do século XIX, a partir de um estudo de O primo Basílio, de Eça de Queirós, sua recepção no Brasil, a partir de um artigo acre de Machado de Assis a seu respeito, e diversos elementos de intertextualidade que compõem o imaginário cultural e social da época: a ópera, o folhetim, o teatro. O tema da mulher insere-se neste quadro tanto do ponto de vista de personagem (a Luísa, de O primo Basílio), quanto de leitora, examinando-se a questão da censura tradicionalmente ligada à leitura quando se trata de leitora feminina.
Texto:

Eça de Queirós e suas Leitoras Malcomportadas

Marisa Lajolo

IEL UNICAMP

Versão anterior deste texto foi apresentada no III Encontro Internacional Queirosiano realizado entre 19 e 21 de setembro de 1995 em São Paulo e foi aceita para publicação em seus Anais.

Pinheiro (a Lulu) – Cuida das tuas novelas! Vai encher a cabeça de romantismo, é moda; colhe as idéias absurdas que encontrares nos livros, e depois faz da casa de teu marido a cena do que houveres aprendido com as leituras: é também moda (Sai arrebatadamente)

– Sabe o que ela tem, senhora Helena ?
É muita dose de novelas naquela cachimônia.
Eu vejo-a pela manhã até à noite de livro na mão.
Põe-se a ler romances e mais romances …
Aí têm o resultado: arrasada ! (p.251)

– Tu, se fosses casado, davas
O primo Basílio a ler a tua mulher ?
– Lá isso não. Mas não tinha a mais
pequena dúvida em o dar à tua. ( p.58)

0 primo Basílio,  escrito entre 1876 e 1877, de setembro a setembro, foi publicado em 1878. Nos dias 16 e 30 de abril deste mesmo ano, Machado de Assis publica em O Cruzeiro artigo de crítica azeda ao romance português, encerrando-o com considerações severas sobre os deletérios efeitos de leitura patrocinados pela história de Luísa : “( … ) essa pintura, esse aroma de alcova, essa descrição minuciosa, quase técnica, das relações adúlteras, eis o mal. A castidade inadvertida que ler o livro chegará à última página, sem fechá-lo, e tornará atrás para reler outras” (p. 913).

Se as leituras que O primo Basílio enseja parecem ter peso decisivo na opinião crítica de Machado, algumas práticas que o livro protagoniza – tal como as representa a ficção brasileira – parecem dar razão a este Machado censor da leitura virtuosa; com efeito, no mais popular manual de ensino de literatura no Brasil até os anos 30, este romance de Eça é apresentado como obra onde o naturalismo não recuou diante da torpeza.

Constituem, assim, as práticas de leitura, horizonte no qual parecem irmanar-se Machado de Assis e mestres-escolas zelosos da consciência alheia. Coincidência curiosa, cujo deslinde talvez peça discussão dos diferentes níveis da vida social envolvidos nas práticas de leitura.

Práticas de leitura englobam uma dimensão econômica: ler romances – mesmo na precariedade das práticas culturais letradas do Brasil da segunda metade do século passado – significa ter acesso a livros, isto é, a objetos produzidos, postos em circulação e consumidos num contexto (acanhadamente) capitalista. Mas práticas de leitura englobam também uma dimensão simbólica, dado que a leitura – inclusive e talvez sobretudo a literária – influencia atitudes, comportamentos, valores, e crenças de quem lê.

A hipótese aqui discutida é que tanto economia, quanto imaginário podem estar nas raízes da implicância de Machado contra o romance de Eça. Muito provavelmente estão, embora delas possa não desconfiar o bruxo do Cosme Velho.

Senão, vejamos: ao lançar um best-seller tematizando o adultério, Eça não podia estar ameaçando Machado que, por volta de 1878, certamente já ruminava suas Memórias Póstumas de Brás Cubas, lançadas em folhetim do Jornal das Famílias em 1880 e publicadas em volume em 1881?

Podia, sim.

No plano da conquista do público, parece ter sido costume corrente no século XIX brasileiro abrir espaço para a própria obra a cotoveladas menos ou mais discretas nos rivais presuntivos. José de Alencar inaugura o expediente, ao anteceder seu O Guarani(1857) das Cartas sobre a Confederação dos Tamoios onde, a propósito do poema de Gonçalves de Magalhães, reclama da ausência e proclama a necessidade do tipo de obra que publica no ano seguinte.

A estratégia parece repetir-se mais tarde, e, por ironia, contra o próprio Alencar: quem em 1873 precisa de espaço é um Machado de Assis que um ano depois de Ressurreiçãopode estar fazendo indiretamente o marketing de sua obra romanesca de feição urbana, ao desqualificar na Notícia da atual literatura brasileira publicada na revista Novo Mundo a literatura regional – então campeã de público e bem cotada na crítica. Para aquele Machado, índias de lábios de mel e casais mestiços que se sumiam no horizonte valiam menos do que a cotação que tinham no mercado das letras:

(…) manifesta-se hoje uma opinião que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais de nossa literatura. (p. 803)

(…) Aqui o romance, como tive ocasião de dizer busca sempre a cor local. A substância, não menos que os acessórios, reproduzem, geralmente, a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situações. (p. 804)

Do romance puramente de análise, raríssimo exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível com a nossa adolescência literária. (…) Pelo que respeita à análise de paixões e caracteres são muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns há, porém, de merecimento incontestável. Esta é, na verdade, uma das partes mais difíceis do romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes não vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas, não andam a rodo nem são a partilha do maior número (p. 805).

Assim, num horizonte de cifrões e de poderes no mundo das letras, certas críticas não parecem de todo indiferentes a projetos literários de interesse do próprio crítico. Torna-se, portanto, sugestiva a hipótese de que os piparotes mal humorados de Machado em Eça possam estar, na verdade, pavimentando os adultérios machadianos, discretos e às vezes até evanescentes, inaugurados com a Virgília de Brás Cubas.

Narrador oblíquo e crítico dissimulado?

Mas a diatribe machadiana anti-Basílio pode ter ainda outras raízes, e necessitar de outra clave para refinar a questão. A crítica de Machado a Eça também se inscreve na longa tradição que policia os efeitos formadores/deformadores da leitura literária. A leitura feminina, sobretudo a partir de Mme. Bovary (1857) sofre um processo que se poderia chamar de criminalização: temem todos que o leitor de saias encontre, na leitura romanesca, contra-exemplos da conduta social pretendida para mulheres.

E nada tão anti-social para olhos oitocentistas quanto, por exemplo, a conduta de Luísa, protagonista de O primo Basílio como, aliás, não escapa a Machado:

Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral.

Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência (…).

Empurrar Eça para o banco dos réus pela leitura que patrocina não deixa de ter um traço de ironia. Feitiço contra o feiticeiro, já que a condenação da leitura feminina é constante e reiterada na obra queirosiana. Ainda no romance de estréia, O crime do Pe. Amaro (1875) várias situações de leitura ajudam a compor o ambiente de dissolução moral da carolagem e clerezia de uma aldeia portuguesa:

Quando descia para o quarto, à noite, [Amaro] ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os Cânticos a Jesus, tradução do francês publicada pela sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe – que dá à oração a linguagem da luxúria; Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma concuspiscência alucinada. “Oh ! vem, amado do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abrasa-me ! Queima-me ! Vem ! esmaga-me ! Possui-me!” E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem páginas inflamadas, onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência histérica.

Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos sonoros, tímidos de desejo; e no silêncio por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos e parecia vê-la em colete, diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote de sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.

Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos de Jesus.

-Verá, é muito bonito; muita devoção! – disse-lhe ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto de costura.

Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até o meio da face. Queixou-se de insônia, de palpitações.

– E então, gostou dos Cânticos?

– Muito. Orações lindas! – respondeu.

Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste – e sem razão; às vezes o rosto abrasava-se-lhe de sangue.

Se palidez, olheiras, insônia e palpitações são suspeitíssimos efeitos de leitura para a castidade de uma donzela, leituras e sintomas se multiplicam e se agravam em O primo Basílio, que já se abre em meio a uma cena de leitura: Jorge lê Luís Figuier e Luísa passa os olhos pelo Diário de Notícias. O narrador cuidadoso informa, logo depois, que Jorge preferia Luís Figuier, Bastiat e Castilho a Musset e Dumas Filho, definindo-se, assim, o marido de Luísa, pela adesão a um cânon não romântico e bastante verossímil na estante de um engenheiro.

Na ausência de Jorge, Luísa, pauta suas leituras pelo acervo rejeitado pelo marido: lê A dama das camélias, descrito como livro um pouco enxovalhado , que ela apanha por detrás de uma compoteira. A medida que o romance se desenrola, o enxovalho do volume respinga em sua leitora, não obstante as mãos de Luísa também empunhassem a impoluta Ilustração Francesa e a elegante Revista dos Dois Mundos .

Esta apresentação bastante detalhada dos livros por entre os quais se movem as personagens queirosianas faz com que a leitura desempenhe papel importante na organização do romance, além de ser peça fundamental na caracterização das personagens. .

A força da leitura na composição da personagem é tal que somos informados, logo no começo da história, que Luísa lia muitos romances e tinha uma assinatura na Baixa, ao mês . E mais: o narrador mapeia, através de mudança nas preferências literárias de Luísa, alterações em seus valores e comportamentos .

Confirmando o papel central que a leitura desempenha na composição de Luísa, é ainda a ela que o narrador recorre, em discurso indireto livre, para caracterizar diferentes estados de espírito da protagonista: numa Luísa casada, adúltera e já nas malhas da chantagem de Juliana, sobrevive a antiga leitora de W. Scott, que tem saudades da leitora romântica que foi:

Que diferente sua vida teria sido – desta agora tão alvoroçada de cólera e tão carregada de pecado! (…) Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, num vale solitário e contemplativo; na Escócia, talvez, país que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verdes terras de Lamermoor ou de Glencoe (p.237).

A expressão do desejo valer-se de livros e de leituras, e articular-se em discurso indireto livre que entrelaça as vozes do narrador e de sua personagem, aprofunda na tessitura das vozes do livro, a importância que a leitura tem nesta obra de Eça. Isto se confirma quando se vê que também Basílio é dado a conhecer aos leitores pelo que lê. O narrador informa que sua estante incluía Mademoiselle Giraud ma femmeLa vierge de MabilleCes Frippones! Mémoires secrètes d’une femme de chambre, acervo cujos títulos sugerem a figura de um libertino cuja licenciosidade não se atenua pela leitura de um elegante Manuel du chasseur ou do Figaro, versão masculina da Revista dos Dois Mundos.

A leitura que se encena em O primo Basílio não contribui, entretanto, apenas para a constituição individual das personagens. Leitura e literatura estão em cena ao longo de todo o romance, ao lado de outras formas de comunicação, enquanto matéria e expressão de um imaginário coletivo e uma linguagem social.

Notas

Versão anterior deste texto foi apresentada no III Encontro Internacional Queirosiano realizado entre 19 e 21 de setembro de 1995 em São Paulo e foi aceita para publicação em seusAnais.

 Assis, Machado de. O Protocolo. p. 1863.

 Apud Polêmicas de Eça de Queirós. Prefácio e recolha de João Luso. Dir. Jaime Cortesão. (Col. Clássicos e Contemporâneos). Lisboa, Dois Mundos. p. 60.

 Queirós, Eça de. O primo Basílio. São Paulo, Ática, 1993. (Série Bom Livro). Todas as citações são extraídas deste volume, indicando-se, entre parêntesis, após a transcrição, a página respectiva.

 Machado de Assis. Obra completa, 3 v. Rio de Janeiro, José Aguilar, v. 3, 1962. Todas as citações são extraídas deste volume, indicando-se, entre parêntesis, após a transcrição, a página respectiva.

 Barreto, Fausto e Laet, Carlos de. Antologia Nacional. 6. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1913. p. 215.

 Eça de Queirós. O crime do Pe. Amaro. São Paulo, Ática, 1982. (Série Bom Livro). Entre parênteses, após a transcrição, a página respectiva.

 Publicado como romance por Dumas Filho em 1848, A dama das camélias foi encenada em 1852. A extrema popularidade da história de Marguerite Gautier e Armand Duval é responsável pela sua transcrição em diferentes mídia ao longo do tempo. Nela se inspirou a ópera La Traviata (Verdi, 1853, com libreto de Giuseppe M. Piave) , que teve várias encenações com Sarah Bernard e Eleanora Duse, que inspirou em 1936 filme estrelado por Greta Garbo.





Bio fornecida pelo palestrante.

El Nuevo Milenio y la Recontrucción del Canon en la Literatura Latinoamericana de Mujeres




Resumo:
A história das mentalidades tem servido para abalar os sistemas hegemônicos, com forte base no patriarcalismo, na lógica aristotélica e cartesiana e com desdobramentos na mímese realista na literatura, criando a possibilidade de se rever os canones literários. No novo milênio seria possível levar em conta o privado (sistema de valores), o doméstico, o imaginário, que ocorrem na literatura de autoria feminina, em lugar do público (luta de classes, hierarquias e valores externos), que caracterizam em geral a de autoria masculina. Através de exemplos na história literária de mulheres, como de Sor Juana Inés de la Cruz, Madre Castillo, la Avellaneda, Victoria Ocampo, Maria Firmina dos Reis, e, no século XX, Teresa de la Parra, Victoria e Silvina Ocampo, Isabel Allende, Ligia Fagundes Teles, Luisa Valenzuela, Alejandra Pizarnik, Ana Cristina Cesar, Elizabeth Veiga, Marcia Denser, vê-se o delineamento de uma literatura de emoção, de mergulho subjetivo no imaginário, em oposição a uma literatura basicamente realista e de ação, como se observa em certa literatura masculina atual, no Brasil. A partir dos conceito de revolução da linguagem poética (Kristeva) e de polissemia e diferência (Derrida), seria possível reescrever o canone literário incorporando essa literatura de autoria feminina.
Texto:

El Nuevo Milenio y la Recontrucción del Canon en la Literatura Latinoamericana de Mujeres

Luiza Lobo
Universidad Federal de Rio de Janeiro 

Texto exposto durante o 49º Congreso Internacional de Americanistas, Quito, Ecuador, del 7 al 11 julio 1997, na Pontifícia Universidade Católica (PUCE).

La Nueva Historia, desarrollada por Braudel, Le Goff, Peter Burke y otros, tiene como meta la creación de nuevos paradigmas para juzgar la realidad: en lugar de consagrarse a la tradición de los sistemas hegemónicos, tiene como objetivo contemplar nuevos factores relevantes para la comprensión de la realidad. Entre éstos, la introducción de la historia de lo cotidiano y de las mentalidades como forma de comprobar un cuadro sobre el contexto contemporâneo moderno. Desde esta perspectiva se valorizan actividades que, a pesar de seren naderías, ligadas a la sobrevivencia y a las actividades cotidianas tienen, mientras tanto, inclusas en sí una relación de poder. En otras palabras: se cambia lo público (estamentos, lucha de clases, jerarquías y otros valores externos de la sociedad) por lo privado (sistema de valores, implicaciones de lo imaginario, organización doméstica y de la vida familiar).
Es obvio que estas dos estructuras se entrecruzan; mientras es más evidente, a través de los estudios sociológicos tradicionales, que la esfera de lo público obedece a la lucha de clases y a una jerarquía del poder rígida ligada a las esferas del trabajo, tal hecho no se tornaba hasta ahora manifiesto con respecto a la esfera privada. Había una cierta invisibilidad con respecto a la importancia o a la pertinencia de las actividades del ámbito doméstico o privado en la totalidad de la esfera vital.
Y mientras tanto, con la expansión de las actividades de la mujer fuera del círculo doméstico, ocurrido en la década de 1970 como fenómeno casi mundial, ¿no es precisamente la mujer quien mejor transita entre estas dos esferas, la interna y la externa?
Por lo tanto, ¿no podría deducirse la existencia de un “dialogismo”, de una interrelación de discursos y de universos conceptuales entre el yo y el mundo exterior?
Podríamos, por otro lado, recapitular la historia de la mujer desde el inicio de la era moderna, en el período medieval, renacentista y barroco, y ver desde este pasado más remoto el germen de una verdadera revolución en esa forma de valorar los usos y costumbres como comprobación de la cultura historica y sociológica.
La realidad y lo imaginario, lo real y lo simbólico, lo externo y lo interno se tornan dicotomías rebasadas cuando se observa la actuación existencial y el quehacer de la escritura en las autoras contemporáneas.
En este trabajo, nuestra intención es la de señalar la imagologia que caracteriza el desarrollo de este pensamiento no dicotómico, postcartesiano, que hace posible el convivio entre realidades dispares, que es el signo que caracteriza la escritura de autoría femenina. Más allá del principio aristotélico del tercero excluído que afirma que dos términos idénticos entre sí son diferentes de un tercero, las mujeres en general, y las escritoras en particular, aprendieron, en su práctica existencial, a combinar la política de la esfera pública con el interés doméstico de la esfera privada, la visión de las grandes estructuras sociales con la percepción minuciosa de lo pequeño, del pormenor. Es, como lo muestra Lyotard, una práctica que supera las dicotomías metafísicas.1 La escritora conforma un proceso de escritura que hace de la “…propia casa un pequeño fragmento en un escenario cada vez más amplio, y el cuerpo, la casa y la ciudad se tornan significantes dentro de una interminable cadena de nuevos significados.”2
Si, por un lado, Jean Baudrillard imagina “…una teoría semántica que trataría los signos a partir de su atracción seductora y no en su contraste y su oposición”3, Luce Irigaray propone, en “Comment devenir des femmes civiles?”4 una dialéctica triple: una visando para el sujeto masculino, otra para el sujeto femenino y una tercera para sus relaciones en parejas o en comunidad.
¿Qué es lo que caracterizaría, por lo tanto, el rasgo común de este movimiento femenino de la esclavitud antropológica hasta la iluminación del día -para usar la alegoria de la caverna rumbo a la alethéia (verdad) en el diálogo platónico?
Bajo este punto de vista, la escritura realista, en el caso de las escritoras, comenzó como imitación, igualándose al lenguaje masculino patriarcal vigente. Es el caso de Júlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, 1862-1934), cuyo estilo poco se distinguía del masculino, tan parecido al de Coelho Neto, Machado de Assis, y tantos otros escritores de renombre.5 Es la etapa que Elaine Showalter denominó de “fase femenina”, correspondiente al surgimiento del pseudónimo masculino de la década de 1840 hasta la muerte de George Eliot, en 1880, de la literatura en lengua inglesa.6
En palabras de Julia Kristeva, la “revolución del lenguaje poético” se dio, en el caso de las escritoras, no sólo a partir de la abolición de la literatura regionalista, que se apoyaba en un realismo ingenuo, como uno de los principales fenómenos del movimiento conocido como postmoderno, sino también en la incorporación de un lenguaje poético (poético aquí empleado lato sensu, como la producción textual). Esta conciencia poética se apoya en la ambigüedad lingüística del signo, dividido en conciente e inconciente.
Tal conciencia de la inadecuación de lo real para expresar el mundo particularmente escindido por parte de las mujeres, por viveren en un universo particular, cerrado, las hizo adecuarse, a partir de las décadas de 1960-70, cuando ingresaron masivamente en el mercado de trabajo, a estos dos mundos, el interior y el exterior, tornando su vida diaria también una práctica política de conquista de espacios y autonomía, a través de la educación universitaria, del trabajo profesional, de la posesión de cargos destacados, etc. Habituadas a lidar con la ambigüedad del signo en todas sus dimensiones, las escritoras dominan la liberación de su habla y superan las dicotomías metafísicas presentes en nuestro universo logocéntrico, desde la lógica aristotélica al establecimiento de las verdades cartesianas. Es el mundo del “Siento, luego existo”, adecuándose, como vimos, a la ambigüedad del pharmakón, de la polisemia y de la diferencia.7
Podríamos datar el surgimiento de este lenguaje poético en la primera poeta importante de Hispanoamérica, en el Barroco, Sor Juana Inés de la Cruz (1648-1695).8En su obra podemos apreciar la transición de lo profano a lo sagrado. En sus comienzos, durante la adolescencia, son poemas escritos al amado; posteriormente, cuando se da cuenta de que no podrá hacer un casamiento digno, pues es hija ilegítima de un hidalgo con una mujer de origen indígena, siendo ya monja dominicana, escribe poemas dedicados a la Marquesa de la Laguna, esposa del Vice-Gobernador, mismo que incluso fueron acusados de homosexualismo. Paralelamente, escribió poemas religiosos bajo la influencia del barroco. Ya en su madurez escribió obras de teatro, entre las que destaca “Los empeños de una casa”, mismas que fueron condenadas por el Obispo de Puebla. Esta condenación, que se refleja en la “Carta atenagórica”, corresponde a lo expuesto en las tablas de la Ley de Moisés, escritas a fuego en madera, y que son el modelo del patriarcalismo triunfante. Apremiada por el Obispo a abandonar sus poemas y su estilo de vida (poseía 4.000 volúmenes, lo que constituía la más grande biblioteca existente en el México de su tiempo), Sor Juana buscó el suicidio exponiéndose a la peste que asolaba la Ciudad al salvar a las otras hermanas de su convento, ocasión en que escribió con su propia sangre, en la palma de su mano: “Yo soy la peor mujer del mundo.”9
Pero lo que aquí nos interesa no es la historia lastimosa de la mujer sufrida, la mater dolorosa obligada a exilarse en una celda de convento, como es el caso de la Madre Castillo (1671-1742), en Colombia, perseguida por las hermanas porque sabía leer y escribir y que llegó a ocupar altos cargos dentro de su orden. Sus “Afectos sentimentales” -libro de visiones semejantes a los poemas de Santa Teresa D’Ávila-, fue publicado tardíamente como Sentimentos espirituales (1843, v. 1, e 1845-46, v. 2). Es el espejo del marianismo del período vigente hasta hace poco tiempo, y sustenta el mito de la mujer virgen, madre, hermana y hija de Jesús, pura, inmaculada y al mismo tiempo procreadora: toten y tabú sin i





Bio fornecida pelo palestrante.

Mulheres e revolução: a Cultura Marialva posta em questão




Resumo:
Mulheres e Revolução: a cultura Marialva posta em questão Analisa a presença do feminino na ficção de José Saramago supõe o investimento num outro tema que ultrapassa essa questão para chegar a outra mais ampla: a das relações entre história e literatura. Em outras palavras, é enquanto fato cultural português que esse trabalho se propõe a ler a mulher em Saramago, sem se preocupar com a questão – deste ponto de vista pouco pertinente e apenas superficialmente contraditória – que, neste caso, é um homem que escreve. O papel da mulher na identidade cultural de um povo ultrapassa de longe o sexo do autor e não pretende confundir o ser biológico que escreve com a escrita que produz. De certa maneira, acompanhar o percurso da mulher nos romances de Saramago é desvelar o lugar de uma lenta conquista: a das falas minoritárias ou de uma voz silenciada ao longo dos séculos por uma cultura que sempre privilegiou o herói masculino: os “barões assinalados”.
Texto: 

Mulheres e revolução: a Cultura Marialva posta em questão

Teresa Cristina Cerdeira da Silva
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
Ao nos propormos a analisar a questão do feminino no percurso da ficção de José Saramago, partimos, na verdade, de um pressuposto mais abrangente: o das relações tensas entre a história e a literatura. Em outras palavras, o da crença de que o fazer ficcional, ao dialogar com o tempo, amplia o terreno de análise da cultura, não necessariamente pelo seu caráter documental, mas enquanto tecido produtor de sentidos que reinventa, com seus meios próprios, os limites do referencial. É assim, como fato cultural português, que queremos ler a mulher em seu percurso vitorioso ao longo da produção romanesca de José Saramago, sem sequer colocar uma justificativa pelo fato, só aparentemente contraditório, de estarmos a falar de um autor masculino. Não se limita à autoria uma questão de tal modo séria na identidade cultural de um povo, pois aqui interessa pensar o lugar do feminino que pôde ser – e quase sempre o foi – nitidamente escamoteado, quer fosse o autor um homem ou uma mulher, já que, para além de um a priori que rejeita a similitude entre o ser biológico do escritor e a escrita que é produzida, o que falava por eles era uma voz que os transcendia: o outro ideológico que impiedosamente calou a mulher no seio de uma sociedade de “barões assinalados”. Entre esses corpos iluminados pela aura do conquistador, a mulher aparecia em escala menor, segregada ao lar e à terra. Ao homem, ao contrário, cabia a aventura marinheira, a viagem sedutora e o domínio inquestionado das formas de opressão que o inseriam no terreno de uma cultura marialva de que a Carta de guia de casados de D. Francisco Manuel de Melo oferece modelo perfeito. Entre outras, essa obra tem a vantagem de nos fazer recuar, em termos arquetípicos, ao ideário do século XVII que, aliás, Foucault assinalou como o tempo do aprofundamento do processo de repressão sexual no Ocidente.
É , pois, desse guia de controle da feminilidade que retiramos três pressupostos: Do homem a praça, da mulher a casa; Criou-as Deus fracas, sejam fracas; O melhor livro é a almofada e o bastidor. Enunciam-se aí três formulações viciosas que criam sobre a mulher um estereótipo redutor, de modo a torná-las sujeitas ao domínio do macho: a subalternidade social, física e cultural. Transformadas em objeto de uso, de trabalho e de prazer, às mulheres cabia a passividade e a subserviência que, longe de se perderem num remoto século XVII, continuaram a modelar as relações dos seres em sociedade, de tal modo que a força inquisitorial repressora das vontades se alastrou metaforicamente até o século XX, onde o ideário do Estado Novo se assentou.
Seria interessante retomar, aqui, a leitura arguta que faz Eduardo Lourenço, no artigo “Envoi et adieu à Madeleine”, sobre a ausência da representação de uma mulher “senhora de seu sexo” na cultura portuguesa. E aqui ele é radical quando afirma: “Que o Amadis seja ou não de origem portuguesa, conta pouco para os nossos propósitos”. Porque Oriana, essa mulher-sujeito, educadora do homem, idealizada certamente, mas tão viva nas páginas do romance, não teve sucessoras na linguagem portuguesa de oito séculos de construção do feminino. Viveu, sim, em França, como uma certa “religiosa portuguesa”, “o mais belo presente, depois de Oriana, que a França para sempre nos deu”. E continua: “Se Oriana fosse de nossa verdadeira criação, nós não teríamos a longa teoria que da Menina e moça nos conduz sem interrupção aos amores sacrificiais da Madalena de Garrett, da Mariana de Camilo, e à sua vã paródia debaixo da máscara quase licenciosa de Luísa do Primo Basílio.” E conclui que, como é natural, de Luísa jamais Eça diria o que Flaubert afirmou de Emma, porque Luísa não tem a consistência da heroína francesa, enfim, Luísa não é Eça:
Oito séculos de diálogo real entre o homem e a mulher combatem no espírito e no corpo de Emma. Oito séculos de existência passiva como mulher se escorrem na aventura epidérmica – em todos os sentidos do termo – de nossa Luísa (p. 124).
Outro, entretanto, é o tempo que se forja depois dos cravos de abril. Não pretendemos com isso autorizar uma nova utopia redentora, neo-sebastianista, para o tempo pós-revolucionário. Com os percalços evidentes de um tempo que se constrói com dificuldade num país agora reduzido ao seu “exíguo quintal”, quando antes alimentava absurdamente o fantasma da euforia do mar; num país de “desempregados do mar” que antes continuavam quixotescamente a se acreditar donos de um império, a aurora de abril não deixa de ser, entretanto, um momento de virada aberto para um tempo a construir.
Por isso, Abril deixou de ser Abril para se tornar ponto de passagem, ou melhor, ponta da passagem […]. Se digo 25 de Abril e me encanto, páro, contemplativa. Para avançar, terei de dizer: 25 de Abril (o próximo, o outro). Então estabeleci um prolongamento, formei uma relação de contigüidade – de Abril a Abril, e já não é só a revolução que foi, é a revolução que é, e que será (Seixo, Maria Alzira. Discursos do texto, p. 26).
Nesse tempo novo de Abril é que se situa a escrita de José Saramago e, nela, a revisão de uma cultura portuguesa que, pelo veio de um novíssimo romance histórico, revisita a margem, acordando o silêncio que esmagou a periferia. Aí, a mulher se faz a própria imagem do salto libertador e é através dela que a aposta revolucionária parecerá possível, quando se tornarem passíveis de serem transformados os lastros envelhecidos de uma cultura marialva, retomando aqui o adjetivo em sua acepção social, ética e intelectual, como a daquele ser marcado pelo autoritarismo primário e pela alienação anti-cultural, tal como o vê José Cardoso Pires no célebre ensaio que demarcou as pistas dessas reflexões e que se chama: Cartilha do marialva.
A opção pelo feminino, longe de ser uma escolha aleatória, mera coincidência assinalada, aponta, em José Saramago, para um sentido mais radical do processo revolucionário, lá onde a questão ideológica ou política é ultrapassada para se chegar a rasurar um modelo cultural de raízes nitidamente machistas. Esse espaço conquistado pelas mulheres é, antes de tudo, um espaço textual, uma presença obsidiante em todos os romances da série que se inaugura com o Manual de pintura e caligrafia e, sem se encerrar, nos chega até O Evangelho segundo Jesus Cristo, para falar apenas da série romanesca. Presente num texto, agora não mais para ser falada, para ser amada, numa passividade aniquilante, essas mulheres que vão de “M” a Maria de Magdala, passando por Gracinda e Maria Adelaide, por Blimunda, Lídia, Maria Guavaira, Joana Carda e Maria Sara, senão no radical, certamente nos propósitos, são sempre “mulheres de raça gerúndia”, trazidas de um remoto século XVIII ou do tempo presente, para reverterem, na criação, o processo temporal que quereria esmagá-las.
No Manual de pintura e caligrafia, “H” e “M” experimentam a cumplicidade amorosa não apenas no nível individual, mas em ressonancia com o tempo novo da alvorada do 25 de abril, festa a que assistem em dupla postura: nus e de pé, abraçados à janela aberta, na intimidade do mesmo lençol. No espaço conquistado das mulheres o corpo feminino é, por si só, transgressor, e a nudez sem culpa reatualiza, para revertê-la, outra história de erotismo castrado pelo sentido do pecado. É investindo contra o texto bíblico que o discurso ficcional afirma: “Entre os meus pobres quadros […] nos despimos. Tão fresco o teu corpo. Ansiosos, e no entanto sem pressa. E depois, nus, olhámo-nos sem vergonha, porque o paraíso é estar nu e saber” (MPC, p. 308). A paródia do discurso anterior não é, evidentemente, inócua, se a lermos enquanto escrita necessária para rasurar a questão religiosa e seu poder de censora do erotismo, veiculadora da imagem de uma mulher esposa e mãe, para quem o prazer não estava em questão, mas, tão somente, a função reprodutora da qual, aliás, ela não se deveria alienar. É no corpo nu de “M”, página branca que convida à escrita, que “H” completará seu aprendizado de caligrafia, aprendendo a ler o amor como aprendia a ler o tempo e a história, de pé, como convinha, “levantado do chão”.
Levantado do chão é também a epopéia campesina que nos permite acompanhar a sina da família Mau-Tempo, tomada como metonímia de um povo rural amesquinhado por séculos de opressão, e que “num dia levantado e principal” toma a si as rédeas e o governo de suas vidas e da coletividade de que faz parte. Nem por isso, entretanto, como se poderia esperar pela influência do modelo da épica tradicional, esse romance se faz um terreno privilegiadamente masculino. O texto, aliás, adverte em dado momento: “De homens se continuará a falar, mas também cada vez mais de mulheres” (LC, p. 183). Essa passagem vitoriosa do tempo da opressão ao tempo da liberdade é sinalizada pela mudança do nome que de Mau-Tempo se faz Espada pela opção de uma mulher – Maria Adelaide – neta e filha de camponeses, autores da revolução agrária de que ela própria é agente inquestionável. Herdeira dos olhos azuis de João Mau-Tempo, é ela que chega ao 25 de abril verdadeiramente liberta. Confirma-se aqui, não só no sobrenome, a lógica ficcional onde os nomes próprios deixam de ser meros dêiticos arbitrários para se converterem em signos recuperados pela motivação etimológica: Adelaide, do germanico “adal”, significa “nobre”, aquela nobreza nova que rouba aos Bertos, tamdêm germanicos, a coerência de uma etimologia fundada na origem – “brilhante”- para resgatar uma luz não herdada, mas a custo conquistada pela “Espada”, em terras do Alentejo. Ao evocar o ir à fonte no passado e no presente, o narrador ilustra um percurso vitorioso que não se faz apenas no terreno político. Da versão medieval que corrói a cantiga de amigo “Tardey minha madre na fontana fria” ao pôr em evidência a camponesa seduzida e violentada pelo homem/estrangeiro, dando origem a toda uma linhagem de eleitos para o sofrimento e a submissão, assinalados pelos olhos azuis que de quando em quando reaparecem, passa-se à contrapartida da imagem vitoriosa de uma revolução de que o romance dá conta: o ir à fonte reaparece, então, quando a camponesa revolucionária – Maria Adelaide – por opção, por prazer e por resgate inconsciente da ofensa passada, refaz o caminho de há séculos, não para ser ofendida e humilhada, para se oferecer passiva ao domínio do poder econômico e do poder do macho, mas para caminhar em liberdade pela terra e pelo corpo agora eleitos, na “doce violência” dos fetos amarelos apertados contra o peito. Não se trata, pois, de enunciar com o romance tão somente o saldo mimético de um dado referencial – a revolução agrária dos camponeses alentejanos um ano após abril de 1974. Trata-se, sim, de propor, com os meios da ficção, um redimensionamento da questão do poder na sociedade portuguesa que, acordada para o fim do fascismo, deveria fazer-se nova em outros setores esclerosados que a impedissem de dizer-se em liberdade. Passando a Maria Adelaide a herança dos olhos azuis, João Mau-Tempo podia morrer, pois adivinhara nela a sua sucessora, invertendo, definitivamente, o postulado “do homem a praça, da mulher a casa”. Estava criada, nas imagens tecidas pelo discurso romanesco, um novo espaço para a emergência da mulher.
No Memorial do Convento, Blimunda é a dona das vontades que fazem voar a passarola do Padre Bartolomeu, como é dona de um corpo que se oferece sem limites ao erotismo compartilhado e assumido, independentemente da geração de um filho que não tem, num tempo de rígidas sanções que negavam à mulher o desejo e o gozo. Imagem perfeita da introjeção desse mandamento castrador da sociedade surge paralelamente no romance a outra mulher, também rainha, D. Maria Ana, a quem são negados os líquidos da erotização “por falta de estímulo e tempo e cristianíssima retenção moral” (MC, 12). Para a censura inquisitorial do século XVIII português, que só se ilumina com o fogo dos autos-de-fé, Blimunda escolhe o espaço transgressor da heresia, não exatamente a da mãe-feiticeira, mas outra, mais larga, advinda do radical grego airésis, de sentido ainda não contaminado pelos valores religiosos, mas traduzida tão somente como escolha, eleição, preferência. Porque escolhe sem temor o homem que ama,
Se eu ficar, onde durmo, Comigo. Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue – (MC, 56-7) porque escolhe o trabalho prazeroso e a superação dos limites, ela é a herege não punida, que dirige o corpo e a vida, que rouba ao divino, terrena que é, até a vontade de Baltasar, no momento da morte: “Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda” (MC, 357).
Em O ano da morte de Ricardo Reis, também de uma mulher se trata, de uma Lídia saída do livro de odes para o romance que lhe constrói uma vida de compromisso social e que, para além da falência do heterônimo em fazer-se definitivamente outro, liberto das amarras do Pai, permanece viva e grávida, à espera de um tempo em que as revoluções não mais fossem abortadas antes mesmo de nascerem. Rasura, assim, o outro postulado: “Criou-as Deus fracas, sejam fracas”, pois assume sozinha o filho de pai incógnito, reivindica, ao fim e ao cabo, a condição de mulher igual que se recusa a viver apagada, à sombra do senhor doutor:
ser a criada […], a mulher-a-dias, nem sequer a amante, porque há igualdade nesta palavra, amante, amante, tanto faz macho como fêmea, e eles não são iguais, e então já não sabe se chora pelos mortos de Badajoz, se por esta morte sua que é sentir-se nada. […] Olhou-o como se fosse um estranho, depois, sem rumor, saiu. Vai a pensar, Não volto mais, mas a certeza não tem” (RR 391-2).
Em A jangada de pedra a questão do feminino não se põe só através das duas mulheres detentoras cada uma de um objeto mágico – a vara de negrilho de Joana Carda e o fio azul de Maria Guavaira. Aqui é também feminina a terra-jangada, mulher que já não fica mas parte pelo mar, que se dispõe a conhecer, a aprender, a viajar, recusando o terceiro postulado da subalternidade cultural: “O melhor livro é a almofada e o bastidor”. Essa península que já é ilha, e, mais que ilha, é jangada que lhe confere movimento, sedução e liberdade, acorda para a sua “autognose”, para o destino encarado de frente, ao lado de culturas irmãs, entre a América Latina e a África. Se, por um lado, em se fazendo ilha, escapa ao espaço da marginalidade peninsular que lhe impusera a Europa, por outro, essa jangada se sabe livre porque se sabe longe também dos desvarios imperialistas do passado.
E chega-se ao cerco de Lisboa e à sua História rasurada voluntariamente para fazer-se outra, longe de um nacionalismo ufano para deixar exposta a questão mais grave da luta pelo poder e da intransigência religiosa. Se o “não” de Raimundo aciona o espírito crítico diante do relato histórico pretensamente objetivo e inquestionável, é o encontro com Maria Sara que o incita à reescritura do fato no contexto da ficção. A luta entre cristãos e mouros “pode [também] ser contada de outra maneira” e, ao cerco da guerra, sobrepõe-se o cerco amoroso onde Raimundo é conduzido duplamente a descobrir-se escritor e amante, por amor de Maria Sara. Se o “deleatur”, como convém, cabe ao revisor, a nova história só se tece quando, através da mulher, passa a haver a necessidade de não apenas destruir, rasurar, apagar, mas ainda de escrever, inventar, criar.
Quando se chega a O Evangelho segundo Jesus Cristo é ainda uma mulher que surge a trazer – ela própria – a boa nova a um Jesus não mais Mestre, mas discípulo. Aliás Jesus é o grande discípulo dessa narrativa, discípulo de mestres generosos que lhe querem ensinar os segredos do mundo e os segredos do corpo: Pastor e Maria de Magdala. E sabiamente, só depois de passar pelo aprendizado do segundo Mestre, é que os ensinamentos do primeiro parecem, então, subitamente mais claros, conduzindo o antes insciente Jesus a armar-se de forças num projeto de inversão do plano de Deus. É ela, Maria de Magdala, que lhe ensina o conhecimento do corpo sarando-lhe a ferida dos pés, fazendo com que se soltasse a crosta que cobria a pele e impedia o tocar do corpo. Embora tenha começado sua relação com Jesus com uma cerimônia de lava-pés, Maria de Magdala diz-lhe desde o princípio: “Não vai ser com água que te curarás”. Estava certamente anunciando uma segunda cerimônia, hereticamente realizada, a cerimônia do batismo, do verdadeiro, aquele mesmo anunciado por João: “Eu batizo com água, mas depois de mim virá aquele que batizará com o fogo”. Ela também o batizaria com o fogo, não o do Espírito, mas o da paixão, e o curaria da dor de desconhecer-se, e lhe ensinaria a liberdade e não a prisão. Se é falido o gesto maior de rebeldia que Jesus imaginara como missão, por não se concretizar o projeto verdadeiramente redentor, que liberaria a humanidade do poder tiranico de Deus, é com Maria de Magdala que a consciência dessa tirania – apontada antes por Pastor – se faz sensível ao discípulo Jesus. É com ela que ele tem a verdadeira revelação, que a terra – e não mais o céu – se abre para que ele penetre os seus mistérios.
Sob a rubrica de José Saramago a ficção portuguesa contemporanea assinala, assim, o lugar da mulher como produtora de sentidos novos para uma cultura que a calou, cerceou sua liberdade, frustrou sua realização amorosa. Ao desvendar esse percurso da liberdade, é também o espaço do feminino que se “levanta do chão”.





Bio fornecida pelo palestrante.

Una fortuna contrastata: Leonardo Sciascia in Spagna – Assumpta Camps




Una fortuna contrastata: Leonardo Sciascia in Spagna

Assumpta Camps

Università di Barcellona

 

La fortuna di Leonardo Sciascia in Spagna non è in nessun modo scarsa. Essa si sviluppa lungo tutto il secondo Novecento, essendo in gran parte contemporanea alle prime edizioni italiane delle sue opere. Segue non solo gli avvenimenti personali dell’autore nella sua carriera letteraria, ma i parametri usuali nella ricezione della letteratura italiana contemporanea nelle lettere ispaniche nel secolo scorso, inserendosi nelle coordinate storiche e culturali del nostro paese in modo tale che possiamo ritenere il suo come un caso paradigmatico della ricezione spagnola di altri scrittori italiani a lui coevi.

Il primo fatto rilevante in questa ricezione è che Sciascia si conosce in Spagna attraverso la traduzione in lingua catalana di A ciascuno il suo (1966), pubblicata nel 1968, per poi svilupparsi in lingua catalana e spagnola, seguendo la dinamica interna propria di ogni sistema letterario. Motivo per il quale, nello studio della sua fortuna in Spagna, così come accade con altri autori italiani, bisogna adoperare una metodologia di studio che prenda in considerazione i rapporti esistenti fra i due sistemi letterari, e quindi un approccio plurisistemico al fenomeno della ricezione, e particolarmente per quanto riguarda la città di Barcellona.

Detto questo come brevi preliminari, analizzeremo in seguito la fortuna di Sciascia in lingua spagnola e catalana, nei suoi sviluppi e momenti principali.

1. Le traduzioni in spagnolo

La prima traduzione di Sciascia pubblicata nel nostro paese (in catalano) corrisponde aA ciascuno il suo, e avviene con una notevole prestezza —a distanza di solo due anni dell’edizione italiana, e quindi negli anni ‘1960—. Ma, se lasciamo questa prima traduzione per il momento, il vero è che le traduzioni dell’autore siciliano non iniziano che nel decennio seguente, e vengono generalmente realizzate in lingua spagnola. Questa “scoperta” di Sciascia è particolarmente rilevante dopo la morte di Franco (1975), con l’unica eccezione di Antonello di Messina (1974). In queste prime traduzioni, lo scarto temporale rispetto alle opere originali è di pochi anni e in qualunque caso poco importante, perché in genere si preferisce pubblicare la produzione recente dell’autore siciliano. Così avviene con Il contesto (1971), tradotto nel 1976, o Todo modo(1974), presentato in Spagna lo stesso anno. La stessa cosa è valida per I pugnalatori(1976) e La scomparsa di M…. (1975), pubblicati insieme nel 1978, e per Candido…(1977), tradotto nel 1977. Si può affermare che gli anni ’70 conoscono una ricezione abbastanza contemporanea alle opere di Sciascia, mentre si ignora invece tutta la notevole produzione anteriore dell’autore.

E in effetti, no sarà che negli anni ’80 quando si riprenda, parzialmente almeno, questa prima produzione con certe traduzioni. Corrispondono agli Zii di Sicilia (1958), tradotto nel 1984, e Il consiglio di Egitto (1963), presentato nel 1982 e più tardi nel 1988, a distanza di ben più di venti anni, offrendo in questo modo due immagini diverse e complementari di Sciascia. Accanto a questi recuperi, continua in questo decennio la ricezione delle opere più attuali dell’autore siciliano: Il teatro della memoria (1981), tradotto nel 1986, Nero su bianco (1979), tradotto nel 1984, così come altre più contemporanee ancora: 1912+1 e La strega e il capitano, tutte e due del 1986 e tradotte con solo un anno differenza, nel 1987. La stessa cosa vale per Porte aperte (1987), pubblicato nel 1988, e Il Cavaliere e la morte (1988), tradotto nel 1989. A questa notevole presenza di Sciascia nelle librerie spagnole negli anni ‘80 bisogna aggiungere alcuna riedizione delle traduzioni anteriori (Candido…, nel 1980 e nel 1984; Il consiglio di Egitto, nel 1984, e Il contesto, nel 1987 e nel 1994). E contemporaneamente nuove edizioni di opere anteriormente stampate, presentate di nuovo a cura di altri traduttori (come è il caso del Consiglio di Egitto, pubblicato nel 1982 e nel 1984 a cura di A. Goldar, e nel 1988 a cura di A. Poljak, oppure di Todo Modo, di cui si offre una traduzione nuova nel 1984, a cura di J. Jordà, e un’altra ancora nel 1989, tutte e due diverse dalla prima traduzione in spagnolo pubblicata da V. Riera Llorca nel 1976).

Gli anni ’80 sono, d’altra parte, gli anni della ripresa dell’interesse per Sciascia in lingua catalana, come vedremo più avanti. Per tutto ciò, si può ben affermare che la vera manifestazione della fortuna spagnola di Sciascia corrisponde a quel decennio. La morte dell’autore, avvenuta, come sappiamo, il 20 novembre 1989, non fa che accrescere questo interesse per la sua opera. Un interesse, del resto, che continua la doppia tendenza —già intravista negli anni precedenti— di presentare la produzione recente e recuperare insieme titoli anteriori, allo scopo di completare la sua bibliografia. In questo modo, nel primo caso dovremo parlare del libro postumo, Una storia semplice(1989), tradotto subito dopo —e cioè nel 1990—, oppure di Fatti diversi di storia letteraria e civile (1989), pubblicato in Spagna nel 1990, così come la Sentenza memorabile (1982), edito nel 1990, e il romanzo Il cavaliere e la morte (1988), tradotto nel 1993. Nel secondo caso, vanno ricordate le prime traduzioni in spagnolo del Giorno della civetta(1961, tr. 1990), Le parrocchie di Regalpetra (1956, tr. 1990), A ciascuno il suo (1966, tr. 1992), e la nuova edizione degli Zii di Sicilia (1958) nel 1992, a cura di A. Citraro. Tutte queste edizioni evidenziano una chiara volontà di recupero, allo scopo di completare l’immagine dell’autore in ambito spagnolo con la sua prima produzione letteraria, appartenente a una epoca assai diversa e lontana nel tempo. Insieme a questi titoli antichi, si ripropongono altre opere, come Il mare colore del vino (1973) in 1990 (nell’edizione a cura di A. Goldar del 1978), e in 1991 (in una nuova traduzione a cura di A. Poljak), così come una riedizione del Contesto (1971) in 1994, nella stessa traduzione che C. Artal presentò già dieci anni prima, e cioè in 1984.

2. Le traduzioni in catalano

Come abbiamo già detto all’inizio, la ricezione di Sciascia inizia assai presto in lingua catalana, con la traduzione di A ciascuno il suo, un’opera del 1966, pubblicata nel 1968 a Barcellona. Ma a questa indubbia celerità —che ci mostra l’attualità che presenta questa prima traduzione in ambito catalano, con appena due anni di scarto temporale nei confronti dell’originale—, segue un silenzio di quasi venti anni. Un silenzio persistente persino dopo la morte di Franco nel 1975, momento che, come dicevamo, corrisponde alla “scoperta” di Sciascia in ambito spagnolo. E ciò nonostante i rapporti esistenti fra Sciascia e il mondo letterario catalano, documentati nel carteggio dell’autore con lo scrittore Miquel Llor, avvenuto negli anni ’50, che ebbe il corrispondente in Italia di certe notizie catalane pubblicate negli stessi anni sulla rivista “Galleria”, strettamente legata a Leonardo Sciascia, come è noto.

Questo lunghissimo e inspiegabile silenzio —ricorrente, però, in altre ricezioni contemporanee di autori italiani nel sistema letterario catalano—, non si rompe fino al 1987, in coincidenza, anche se con alcun ritardo, con il momento culmine della fortuna di Sciascia in lingua spagnola, con ben quattro traduzioni: Il mare colore del vino,1912+1I pugnalatori (con il titolo A cops de punyal) e Todo modo. Di queste almeno l’ultima —della quale non solo mi sono curata personalmente, ma persino proporsi alla casa editrice— corrisponde in verità alla seconda metà del 1985, precedente, in qualunque caso, alle altre tre, con le quali condivide l’anno di edizione.

Da questo momento si sviluppa la ricezione catalana di Sciascia, alquanto irregolare nei confronti della spagnola, ma in un modo senz’altro abituale nel contesto catalano. L’anno seguente, e cioè in 1988, vede ancora la pubblicazione di altre quattro traduzioni: Candido…, Gli zii di SiciliaIl teatro della memoria e Porte aperte (lo stesso anno della traduzione in spagnolo), alle quali seguono Il giorno della civetta e Il contestonel 1989 e, per ultimo, dopo la morte dell’autore, Il cavaliere e la morteLa scomparsa di M. e Una storia semplice, tutte e tre nel 1990.

Analizzando lo scarto temporale fra le prime edizioni italiane e le traduzioni in catalano, allo scopo di individuare il grado di attualità della traduzione e la celerità di ricezione, si osserva che nel caso catalano si ripete questa alternanza fra il recupero di titoli anteriori dell’autore e la presentazione delle novità Sciasciane del momento. Nel primo caso, vanno ricordati Todo Modo del 1974, I pugnalatori, del 1976, Candido…, del 1977, Il mare colore del vino, del 1973, Il contesto del 1971, La scomparsa di M., del 1975…, tutti titoli di una diecina di anni prima, come minimo. Ma ancora in maggior misura Gli zii di Sicilia, del 1958, e Il giorno della civetta, del 1961, con uno scarto temporale che a volte arriva persino ai trenta anni. D’altra parte troviamo, invece, le opere più recenti di Sciascia, quali 1912+1 (1986), Porte aperte (1987), Il cavaliere e la morte (1988), in minor grado Il teatro della memoria (1981), fino alla quasi contemporaneità di edizione, che avviene con il volume postumo Una storia semplice (1989).

Dopo questa data, a differenza di quanto osservato nell’ambito spagnolo, la fortuna di Sciascia in lingua catalana si spegne quasi. Ciò significa che non si pubblicano i titoli inesistenti in questa lingua nel momento della morte dell’autore, e solo si ripropone, nel 1992, la riedizione di quell’antica traduzione del 1968 di A ciascuno il suo, a cura di F. Parcerisas, che inaugurava, in una data così antica nel tempo, la fortuna in Spagna dello scrittore siciliano.

3. Una fortuna contrastata

Una visione complessiva della ricezione di Sciascia in Spagna ci mostra che la sua prima produzione letteraria arriva molto tardi, e lo fa mancata di vera e propria attualità. E quindi con scarsa capacità d’influenza nel nostro contesto storico. I motivi sono in gran misura politici. La “scoperta” ispanica di Sciascia avviene veramente in lingua catalana e a Barcellona, ma essa conterà con una scarsa diffusione e ancora meno influenza. Intorno al 1975, invece, Sciascia comincia a essere uno scrittore riconosciuto fra di noi, la cui fortuna conosce gli anni migliori nel decennio seguente, raggiungendo una cuspide nel 1990, subito dopo la morte dell’autore, sia per lo spagnolo che per il catalano. Ovviamente la fortuna di Sciascia in lingua spagnola è molto più rilevante, quantitativamente (per i titoli tradotti e per le riedizioni di essi) e pure qualitativamente, ma soprattutto più completa e prolungata nel tempo, mentre che in catalano mancano alcuni titoli importanti nella bibliografia sciasciana, da cominciare dalle Parrocchie di Regalpetra, per esempio, oppure L’archivio di EgittoNero su biancoLa sentenza memorabile, ecc. Ciò nonostante, nemmeno la totalità dell’opera di Sciascia ha avuto traduzione in lingua spagnola. Titoli come il testo drammaticoL’onorevole (1965), Recitazione della controversia liparitana (1969), i saggi della Corda pazza(1970) o Cruciverba (1983), il dizionarietto Occhio di capra (1984) o il delizioso e intelligente Alfabeto pirandelliano (1989), la Storia della povera Rosetta (1982), il volume di cronaca sul terrorismo in Italia che ha per titolo L’affaire Moro (1978) oppure Atti relativi alla morte di Raymond Roussel (1971), non hanno trovato ancora il loro posto nella storia della traduzione nel nostro paese, né in spagnolo né meno ancora in catalano. Per tutto ciò, si può dire che la produzione letteraria di Sciascia che più interesse ha sollevato in Spagna è stata fondamentalmente la narrativa.

Per quanto riguarda i traduttori, certi nomi sono ricorrenti, sia in una lingua che nell’altra. Il primo luogo spetta a Ana Goldar, traduttrice abituale allo spagnolo di autori italiani e non italiani, seguita da Joaquim Jordà, e a più distanza Carmen Artal (traduttrice anche di Tabucchi, Buzzati o Lattuada), Attilio Pentimalli, Esther Benítez (traduttrice di Calvino, Buzzati, e altri). Tutti loro sono traduttori riconosciuti dall’italiano, così come Ana Poljak e C. Manzano. Per il catalano, i traduttori sono stati diversi, nonostante la minore quantità di traduzioni. Spiccano X. Pejó e me stessa, con due volumi ognuno di noi. Ma va ricordato soprattutto il nome di F. Parcerisas, il primo traduttore di Sciascia in Spagna, nel 1968. Alcuni di questi traduttori hanno la particolarità di essere in più scrittori, come lo stesso Parcerisas, che è poeta in lingua catalana da anni, ma soprattutto Vicente Riera Llorca, con 17 volumi nella sua bibliografia.

Le case editrici più rilevanti in questa storia della traduzioni di Sciascia in Spagna sono Tusquets editores (nella sua collana “Andanzas”), e Bruguera (“Libro amigo”), ambedue con sede in Barcellona e pubblicando in spagnolo. Seguono, per il catalano, Edicions 62 (maggiormente nella collana “El balancí”), “Laia” (soprattutto nella collana “El mirall i el temps”) e “Empúries”, mentre che a Madrid spicca il nome di “Alianza editorial” (“El libro de bolsillo”), insieme alla casa editrice “Debate”. Le altre traduzioni sono presentate in spagnolo da case editrici con sede in Barcellona, quali “Noguer”, “Plaza & Janés”, “Grijalbo-Mondadori”, “Montesinos”, ecc., sempre in collane di ampia diffusione, e con un indubbio successo nel suo complesso, come si dimostra dall’inclusione di titoli di Sciascia nel repertorio di “Círculo de lectores” e “RBA editores”, firme dedicate soprattutto ai best-seller e con un ampia diffusione sociale. Questa circostanza mostra l’importanza di Barcellona come centro per l’editoria anche in lingua spagnola, in una misura persino superiore a quanto corrisponde per la lingua catalana. In questo modo, possiamo ben affermare che la fortuna spagnola di Sciascia nasce e si sviluppa in ambito catalano, anche se si esprime in maggior grado in lingua spagnola.

Ovviamente nella ricezione spagnola di Sciascia conta un dato importante che riguarda le circostanze politiche del nostro paese e determina certi silenzi e trascuratezze nei confronti di un autore come Sciascia, ritenuto di sinistra. Questa circostanza, però, favorisce la sua fortuna dopo il 1975, in un modo che il carattere altamente comunicativo della sua lingua, particolarmente adatta alla traduzione, insieme alla scelta maggioritaria per il “giallo” come genere narrativo, non fa che incrementare in maggior misura. Ciò nonostante, dopo la normale e abituale revisione della sua bibliografia negli anni immediatamente seguenti alla sua morte, Sciascia sembra aver entrato —come Moravia, del resto— in quella tappa incerta della vita degli scrittori che alcuni hanno definito come una sorta di limbo abitato dai nomi recentemente scomparsi che aspettano la loro “riscoperta” da parte di una nuova generazione di lettori, e quindi nuove traduzioni.

4. Appendice

Bibliografia delle traduzioni delle opere di Leonardo Sciascia pubblicate in lingua spagnola e catalana

Titoli Data Traduttore C.editrice
A cadascú el que és seu 1968 Parcerisas, Francesc Edicions 62, S.A.
Antonello de Mesina 1974 Alcántara, Francisco J. Noguer, S.A.
Todo modo 1976 Riera Llorca, Vicente Noguer, S.A.
El contexto 1976 Marfà, Jordi Noguer, S.A.
Los Navajeros. La desaparición de Majorana 1978 Villalba, J. Noguer, S.A.
El mar de color de vino 1978 Goldar, Ana Bruguera, S.A.
Dueto siciliano 1979 Pruna, Domingo Plaza & Janés Editores, S.A.
Candido 1979 Goldar, Ana Bruguera, S.A.
El archivo de Egipto 1982 Goldar, Ana Bruguera, S.A.
En tierra de infieles 1982 Pentimalli, Attilio Bruguera, S.A.
El contexto 1984 Artal, Carmen Bruguera, S.A.
Los tíos de Sicilia 1984 Arqués, Rossend Bruguera, S.A.
El archivo de Egipto 1984 (s.t.) Seix Barral, S.A.
Negro sobre negro 1984 Jordà Català, Joaquim Bruguera, S.A.
Todo modo 1984 Jordà Català Bruguera, S.A.
Mata-Hari en Palermo 1986 Ruiz, Raul Montesinos Editor, S.A.
El teatro de la memoria 1986 Gallego, Eugenio Alianza Editorial, S.A.
Sin esperanza no pueden plantarse olivos 1987 Marfà, Jordi Editorial Laia, S.A.
Mil nou-cents dotze més un 1987 Casas Fuster, Joan Edicions 62, S.A.
El fuego en el mar 1987 Palacios Moré, René Círculo de Lectores, S.A.
El fuego en el mar 1987 Palacios Moré, René Editorial Debate
Mil novecientos doce + 1 1987 Monreal, José Ramón Tusquets Editores
Todo modo 1987 Camps, Assumpta Edicions 62, S.A.
El mar de color de vi 1987 Prat,Enric Eumo Editorial
La bruja y el capitán 1987 Monreal, José Ramón Tusquets Editores
A cops de punyal 1987 Casas Dorotea Editorial Laia, S.A.
El consejo de Egipto 1988 Poljiak, Ana Tusquets Editores
El teatre de la memòria 1988 Riera, Lluís Editorial Laia, S.A.
Puertas abiertas 1988 Pochtar, Ricardo Tusquets Editores
Els oncles de Sicília 1988 Guerra,, Rolando del Editorial Laia, S.A.
Portes obertes 1988 Camps, Assumpta Edicions 62, S.A.
Candido o un somni a Sicília 1988 Nueno, Neus Edicions 62, S.A.
Todo modo 1989 Jordà , Joaquim Tusquets Editories
El context 1989 Borràs Calvo,. Xavier Editorial Laia, S.A.
El dia de l’òliba 1989 Lloveras Puichercós, X. Editorial Empúries
El caballero y la muerte 1989 Pochtar, Ricardo Tusquets Editores
El cavaller i la mort 1990 Pejó Orellana, Xavier Edicions 62, S.A.
Las parroquias de Regalpetra 1990 Arqués, Rossend Alianza Editorial, S.A.
El mar de color de vino 1990 Goldar, Ana Bruguera, S.A.
La sentencia memorable 1990 Montmany, Mercedes Mondadori España, S.A.
Una història senzilla 1990 Vallverdú Canes, F. Edicions 62, S.A.
Todo modo 1990 Jordà, Joaquim Círculo de Lectores, S.A.
El día de la lechuza 1990 Benítez, Esther Alianza Editorial, S.A.
Una historia sencilla 1990 Manzano, Carlos Tusquets Editores
La desaparició de Majorana 1990 Pejó Orellana, Xavier Editorial Empúries
Horas de España 1990 Manzano, Carlos Tusquets Editores
Candido o un sueño siciliano 1991 Poljiak, Ana Tusquets Editores
El mar del color del vino 1991 Poljak, Ana Alianza Editorial, S.A.
Sucesos de historia literaria y civil 1991 Benítez, Esther Alianza Editorial, S.A.
A cadascú el que és seu 1992 Parcerisas, Francesc Edicions 62, S.A.
Los tíos de Sicilia 1992 Citraro, Alfredo Tusquets Editores
A cada cual lo suyo 1992 Benítez, Esther Alianza Editorial, S.A.
Fuego en el alma 1992 Gallego, Víctor Mondadori España, S.A.
El caballero y la muerte 1993 Pochtar, R/Manzano, C Círculo de Lectores, S.A.
De parte de los infieles 1993 (s.t.) Mondadori España, S.A.
El contexto 1994 Artal, Carmen RBA Editores, S.A.




Bio fornecida pelo palestrante.

A Desconstrução da metafísica e a reconciliação de poetas e filósofos – Ronaldes de Melo e Souza




A Desconstrução da metafísica e a reconciliação de poetas e filósofos

Ronaldes de Melo e Souza

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Na tradição ontoteológica da metafísica, a legitimidade do poeta sempre foi contestada pelo filósofo. Platão, o protótipo do filósofo, é categórico na assertiva de que o poeta não diz a verdade, porque não possui o saber acerca do ser. No decurso histórico da filosofia, a determinação metafísica do ser, do saber e da verdade reduz a poesia à condição subalterna da inconsistência ontológica e epistemológica. Descartes, o filósofo da modernidade, preconiza uma ciência puramente matemática, incompatível com a experiência poética. Somente despojados do estatuto cognitivo da razão pura e do postulado ético da razão prática é que Kant reconhece o julgamento estético e a experiência poética. Hegel advoga a tese da superação das expressões artísticas na dialética especulativa do conceito filosófico. A estética não legitima a arte, porque a estética é a metafísica da arte. As teorias artísticas predominantes na cultura ocidental foram elaboradas por filósofos educados na escola metafísica, e não por poetas. A urgente questão, portanto, consiste em saber como legitimar a linguagem da poesia diante da pretensão hegemônica do discurso da filosofia.

A legitimação do poeta solicita e requer a elaboração de uma nova poética, de uma poética liberada da tutela da metafísica, de uma poética devotada à linguagem da poesia, e não ao discurso da filosofia. Com este objetivo é que se propõe esta investigação, cuja tese central afirma e sustenta que, no período anterior e posterior à vigência histórica da metafísica, o mundo configurado pela verdade da poesia é mais sutilmente estruturado do que o universo composto pela verdade da filosofia. Nesta nova poética, que se considera contemporânea do drama do auto-reconhecimento da verdade da poesia ou da poesia da verdade, primeiro que tudo há o uno diverso de si mesmo, a duplicidade originária, a tensão harmônica dos contrários, e não simplesmente o uno único unificante da ontologia, da teologia e da lógica. O que se pretende demonstrar em defesa do poeta é que há mais ser, saber e verdade na poesia do que na filosofia e, confutando a presunção filosófica, que o ser, o saber e a verdade dos filósofos são reduções, e não superações, do ser, do saber e da verdade dos poetas.

A convalidação da verdade do poeta no confronto com a verdade do filósofo se desenvolve nos trâmites subseqüentes: 1o) inicialmente se comprova que o ser, o saber e a verdade são percebidos por poetas e pensadores como cifras de uma duplicidade originária durante toda a época ainda não-metafísica da cultura grega. E a interação do poetar e do pensar se manifesta com tamanha intensidade, que o poeta é pensador, e o pensador, poeta. Não há poetar e pensar. Há, sim, o poetar pensante e o pensar poético. Em seguida, demonstra-se que o ser, o saber e a verdade são concebidos pela construção platônica da metafísica como signos da unicidade absoluta. O saber acerca do ser metafisicamente depreendido como princípio e fundamento único é que determina o divórcio do pensar e do poetar e, conseqüentemente, o conflito entre o filósofo e o poeta. Na substituição da paideia poética pela paideia filosófica, efetiva-se a condenação da poesia. A priorização do ser e matematização do saber são o anverso e o reverso do Ocidente de Platão e da oposição da razão nomotética e da imaginação poética. O filósofo impõe um veto ao ser, ao saber e à verdade do poeta. Finalmente se verifica que a reconciliação de filósofos e poetas só se torna possível com a desconstrução nietzscheana da metafísica platônica.

A Poematização da Verdade

A duplicidade originária da verdade da poesia se compagina no poema teo-cosmogônico de Hesíodo. O poetar pensante da Teogonia revela que o drama vital é pendente da trama mortal. O khósmos é fundamentalmente o kháos transitoriamente detido no ímpeto do movimento intempestivo. A constrangedora razão diurna jamais se absolve da avassaladora paixão noturna. O processo agônico da constituição cósmica e da destituição caótica nunca se resolve no estabelecimento normativo de um ordenamento definitivo. A conexão instituidora de uma diacosmese ou arranjo cósmico sempre se manifesta dependente da sucessão dilaceradora das dinastias divinas. Na seqüência contínua e descontínua dos nascimentos e perecimentos, celebra-se o moto perpétuo da deveniência do mundo ininterruptamente mobilizado em ritmo de transe. Não há um, mas, sim, diversos khósmoi. Eternamente gira e regira a roda móvel do tempo. A titanomaquia culmina na consagração da vitória olímpica, mas o hino à Hécate assinala a celebração da incontestável glória ctônica. Não se assentando na subordinação de todos os poderes adversos, a justiça de Zeus só se mantém com o auxílio de poderosíssimas deidades telúricas e catactônicas. O luminoso ser dos deuses da vida se fundamenta no tenebroso poder das divindades da morte.

Paula Philippson exaustivamente mostra e cabalmente demonstra que a coesão total do mundo épico-teogônico não implica uma gênese única, mas se explica na oposição polar de duas genealogias paralelas: uma principia com o caos, e a outra se inicia com as núpcias do céu e da Terra. O kháos veio a ser (e)génet(o) do não-ser da vereda abissal de um nada descomunal. Na “Descrição do Tártaro”, reporta-se o kháos ao grande abismo, que terrivelmente se impõe como um estranhíssimo prodígio até mesmo para os divinos imortais. A estirpe do kháos se desdobra na polaridade da luz e da treva, e a sua linhagem inclui a descendência da Noite, que compreende as potências da morte, da angústia e do destino. Numa verdadeira simetria em espelho, figurando o extremo contrapolar do Olimpo, o Tártaro está situado abaixo da Terra, a uma distância igual à que a separa do Céu. Tartáricas são as raízes terrestres e celestes. Primeiro que tudo não há, senão o abismo-mor, e só depois existe a Terra, que gera, à sua imagem e semelhança, o constelado Céu, para que a cubra toda inteira. Fica bem claro, pois, o motivo por que a propulsão erótica da vitalidade heróica representa apenas o anverso da sacrossanta essência da realidade, cujo reverso é a compulsão tanática da mortalidade trágica. Nos mil e vinte e dois versos da Teogonia, nenhum descendente do Caos se encontra entrelaçado com um filho da Terra. Não há síntese alguma entre os pólos opostos. Em virtude da própria oposição, as duas potências teocosmogônicas determinam a polaridade correlativa do mundo submetido ao duplo domínio de uma ordem cósmica e de uma desordem caótica.

A duplicidade originária da verdade se comprova na sapiência original do pensar poético. O fragmento 123 de Heráclito enuncia que o ser já de si tende a ocultar-se. A significação fundamental da philía do philein é o favorecimento mútuo, o afeiçoar-se um ao outro na tensão harmônica da disjunção conjuntiva ou da conjunção disjuntiva. O desvelar-se bem quer autovelar-se. O descobrimento e o encobrimento se harmonizam na intimidade ambivalente de uma reciprocidade gratificante. Eles se respondem e se correspondem, e mutuamente se favorecem. Que seria do trânsito floral do ser se o autovelar não se retivesse no ritmo de transe da sua inclinação para o desvelar-se? O autovelamento é o sóbrio recolher-se no envolvimento do resguardo pródigo de si mesmo. Kryptesthai designa o resguardar-se no abrigo eônico da physis, preservando a essencial possibilidade do aparecer emergente do selado segredo do ser. O não findar do emergir é garantido pelo não cessar do imergir. O desvelar-se não se volta para o autovelar-se, mas se devota a revelar-se concitado pelo próprio velamento. O excesso anticlinal da ontocriptia solicita a disciplina sinclinal da ontofania como a única força capaz de o evidenciar e mostrar como excessividade. O emergir (a partir do autovelamento) se oferece como o favor dispensado ao autovelar-se. A extroversão e a introversão se compertencem simultaneamente destinadas na mesma conversão diversiva do que se desoculta, ocultando-se, ou se oculta, desocultando-se. Anversofania e reversocriptia são um e o mesmo ser que bem quer ocultar-se. A verdade do ser é, pois, o desvelar autovelante.

A duplicidade originária do pensar poético se confirma na compertinência primordial do ser e do aparecer. No Poema de Parmênides, o homem sapiente não é tão-somente quem percorre o percurso do sol no próprio carro do deus, mas principalmente quem se encaminha rumo à concruz do dia e da noite. As divinas Helíades conduzem o pensador aos confins do horizonte extremo, aonde o céu e a terra se circunferem. Esta viagem sui generis não é para baixo, uma incursão na interioridade ctônica, nem para cima, uma excursão na exterioridade urânica. Verdadeira ciência iniciática, a peregrinação relatada no Proêmio não tem início nem fim, mas se revela no meio da travessia. O aonde se vai sempre se volta ao donde se parte. A deusa inominável, que revela ao pensador o autêntico saber acerca do duplo domínio do ser e do aparecer, permanece inominada, não se confundindo com as divindades noturnas nem com as diurnas. A revelação não se restringe à indicação de uma via de mão única, mas se traduz na exortação de que é preciso conhecer a verdade da essência e, ao mesmo tempo, reconhecer a validade da aparência. A deusa sublinha e enfatiza que é de modo justo e autêntico que as aparências perpassam e permeiam a totalidade do que existe, instituindo o fulgor do suntuoso domínio dos entes que se mostram gloriosamente presentes no portentoso ilumínio da transparência conjuntiva de tudo. O ser e o aparecer ainda não se encontram separados no éon parmenídeo. A essência e a aparência se compertencem. Quem se inicia no conhecimento hierofanicamente revelado tem de assumir a vigília ontológica que o capacite a considerar, não apenas um, mas, sim, os três caminhos da iniciação gnosiológica: 1o) a senda do ser; 2o) a vereda do nada; 3o) a via da aparência. Não se consegue a sabedoria se apenas se persegue a perfeição esférica do ser. Sábio é quem se dispõe numa experiência conjunta com o ser, o não-ser e o aparecer.

A correlação entre alétheia e doxa se manifesta no comparar o verso 24 do fragmento 8, onde se declara que, na verdade do ser, tudo está cheio do que é, com o verso 3 do fragmento 9, em que do mundo se afirma que todo ele está cheio conjuntamente de luz e noite escura. E a esfericidade do ser, formularmente expressa no verso 43 do fragmento 8, também comparece no mundo da aparência, precisamente na doutrina cosmológica das coroas esféricas. A questão, no entanto, consiste em saber se a conexão do éon (alétheia) e dos éonta-dokounta (doxa) não reside exatamente na pergunta que se interroga pelo estranhíssimo poder do não-ser. Inacessível, inviável, impensável, indizível, a vereda do nada não é mencionada e requisitada no fragmento 2 para a magnífica manifestação do ser? E a concruz dos caminhos do dia e da noite não é a cifra da divergência convergente ou da convergência divergente das duas potências cosmogônicas? O viajante não tem de situar-se na dimensão ambivalente do lugar cruciforme a fim de se lhe revelar a ordem do mundo da aparência como aparição verdadeira do que é? Os mortais são os extraviados bicéfalos errantes justamente porque não se apercebem da necessidade conjunta dos três cursos do mesmo decurso do caminho que se viaja de si para si mesmo rumo ao que é (éon), ao que não é (mè éon) e ao que aparece como sendo muito mais do que parece (éonta-dokounta). O erro dos homens, denunciado pela deusa nos versos 53-54 do fragmento 8, resulta de estatuírem eles o controverso renome das duas formas diurna e noturna, das quais nem uma só é necessária. Nomeando as duas formas ou denominando uma forma só, eles erram duplamente, porque não há um principium uniforme ou diforme, mas, sim, um trivium. Dualística ou monisticamente consideradas, a luciformidade e a noturnidade são duas deformidades. E a errância persiste, quando se busca um tertium quid, concebendo o ser como a indiferenciada unidade dos contrários, porque o sentido compaginado na duplicidade originária do particípio éon não se compatibiliza com o significado compendiado na dualidade secundária do princípio uno e do múltiplo diferenciado. Não surpreende, portanto, que o monismo e o dualismo sejam igualmente caracterizados pela deusa como decorrência da convenção, e não como ocorrência da physis. Na significação simultaneamente verbal e nominal do éon, o ser e o ente são um e o mesmo. O problema de um ser absolutamente separado e de um ente mais ou menos rejeitado só se inicia com a separação platônica da essência e da aparência.

Physis kryptesthai, alétheia-doxa, éon-dokounta são as diversas cifras da mesma duplicidade originária do ser, a que corresponde a ambivalência necessária da verdade. A tensão heraclítica da reversa harmonia já se denuncia na própria estrutura gramatical do misterioso particípio éon e na significação ambivalente da palavra alétheia. O particípio é gramaticalmente portador de uma notável duplicidade, que o faz participar duplamente do que enuncia: 1o) como particípio nominal, tò éon significa o singular detà éonta e designa um dos entes; 2o) como particípio verbal, o éon não caracteriza um ente particular, mas assinala a própria singularidade do éinai. O ser e o ente se compertencem, porque ambos comparticipam originalmente de um mesmo particípio. A etimologia de alétheia também revela um duplo sentido: 1o) mostrar-se e lembrar-se; 2o) ocultar-se e esquecer-se. Alétheia, de aléthesa-privatium + leth, lath-, a que se reportam lanthánomai (esquecer-se), lanthánein (estar oculto) e o latim latere (estar latente). A eclosão da verdade do ser implica a comparticipação da patência do desvelamento (alétheia) e da latência do velamento (léthe). A deusa prodigalizadora e legisladora do destino histórico-ontológico ensina que o ater-se à verdade não é deter-se na posição ou atitude requerida para se contemplar a esplêndida fulguração diurna da luz catarticamente abstraída da ofuscação noturna, mas aventurar-se até a concruz dos caminhos do dia e da noite a fim de se reconhecer que a necessidade da doxa se fundamenta ontologicamente na duplicidade verbo-nominal do éon e na intimidade ambivalente da alétheia. Sapientes não são os amantes do saber acerca da unicidade do ser, mas os itinerantes mensageiros afeiçoados ao duplo domínio do particípio. O heraclítico philein tò sophon não é uma enunciação filosófica, sobretudo porque o phileinequivale ao homologein, ao falar como o lógosLégein quer dizer acolher e recolher, unir e reunir o desvelar autovelante do ser que bem quer ocultar-se. O manifesto não se atualiza tão-somente na exposição do que se explana e se torna patente, mas fundamentalmente se potencializa na indicação críptico-eônica da retração do velamento que se conserva latente. O sábio único, cujo oráculo está em Delfos, não fala nem cala: assinala. Somente quando a duplicidade originária do éon se transmuta na dualidade problemática de um ente dos entes e de um não-ente é que o philein tò sophon se converte na ciência platônica da philosophia.

A Matematização da Verdade

A construção platônica da metafísica se articula no tríptico da República, plasticamente travejado pela configuração imagética do “sol”, da “linha segmentada” e da “caverna”. A conexão interna destas imagens traduz uma representação matemática do grau de aspiração do saber acerca do ser. O drama gnosiológico é platonicamente figurado numa linha dividida em dois segmentos desiguais, cujas partes subdividem-se na mesma proporção que a linha total. Os dois segmentos principais representam o universo inteligível, em que se processualiza a ciência correta da verdade, e o mundo sensível, em que se exerce a experiência incerta das opiniões. Dos dois novos segmentos resultantes da subdivisão da parte da linha correspondente ao sensível, um abrange todos os tipos de simples imagens refletidas, como as sombras e os reflexos das coisas na água ou nos corpos compactos, lisos e brilhantes, capazes de refletirem os objetos; o outro engloba os animais e vegetais, e todo o gênero do que se procria e se fabrica, e as formas visíveis, desenhadas pelos geômetras. No domínio do espelho das sombras, o conhecimento atinge o nível mínimo de sua capacidade cognitiva e se classifica como mera conjectura; no reino das formas moventes e devenientes, o ato cognitivo é apenas imediatamente superior ao raciocínio meramente conjectural, determinando-se tão-somente como simples crença. Delineadas neste esquema, as coisas sensíveis não são senão reflexos de seus protótipos inteligíveis. O conhecimento que se lhes aplica é a opinião, e não a verdade. Somente podem ser conhecidas à luz da teoria das idéias, cujo entendimento se realiza no intelecto discursivo, que inclui e transcende as hipóteses, na medida em que as concebe, não só como premissas e postulados geométricos, mas também como degraus epistemológicos (o ímpar e o par, o quadrado em si, a diagonal em si), a partir dos quais o saber humano se eleva até ao absoluto, ao não-hipotético, ao incondicional, ao princípio universal, consumando-se na suprema intuição eidética, na admirável visão da idéia do bem. A ciência da verdade é a consciência da idealidade do lógospuro, e a experiência do diálogo é a via ascensional do processo cognitivo em demanda do que reside além de tudo que é ou existe.

O denominador comum às imagens do tríptico da República é a separação do sensível e do inteligível, de que decorrem as oposições do corpo e da alma, da matéria e do espírito, da aparência e da essência, da realidade e da idealidade, e de todos os pares de dualidades antagônicas, que se impuseram à tradição onto-teo-lógica do pensamento ocidental-europeu. No “sol”, separa-se a multiplicidade ôntica, onde reina o astro diurno, da unicidade ontológica, em que impera a idéia do Bem; na “linha segmentada”, o multiverso das coisas, do universo das idéias; e na “caverna”, o que ocorre no interior ensombrado, do que transcorre no exterior iluminado. Na decisão histórica desta cisão metafísica, o ente sensível e o ser inteligível são separados e situados em dois lugares extremos e contrapolares: o real subterrâneo da aparência e o ideal supraceleste da essência. Khóra significa precisamente o lugar da diferenciação de dois mundos abstratos: o primeiro compreende o que é, porém nunca devém, e o segundo abrange o que devém, mas não é. O ingente esforço do esquema conceptual do platonismo para estabelecer a relação entre a idealidade superior e a realidade inferior, estendendo uma ponte entre os dois mundos separados — da eternidade para a temporalidade ou, inversamente, da temporalidade para a eternidade —, não consegue senão reforçar o problema do pressuposto aporético de dois reinos dilematicamente abstraídos e cindidos: um, o das coisas que não são, e outro, o das idéias que são. O totum sensível do mundo concreto da vida se converte, portanto, na clausura de uma caverna cujos prisioneiros fantasmagoricamente se agitam na gestação insana das sombras.

A iniciação platônica do saber acerca do ser se realiza na passagem da obscuridade terrestre da aparência para a claridade celeste e supraceleste da essência. No antro ensombrado, o ritual iniciático é dramatizado em oito episódios rigorosamente concatenados: 1o) o prisioneiro, impedido de se mover e de volver o olhar para ver e conhecer, é o cavernícola imobilizado nas trevas da ignorância; 2o) o voltar-se para objetos iluminados pelo fogo como estágio inicial da percepção; 3o) o devotar-se ao ofício de mirar o próprio fogo como exercício propedêutico de se adaptar a vista à contemplação e admiração da luz; 4o) a peregrinação ascendente através do caminho escalonado até a claridade do dia; 5o) o dever cingir-se à captação de sombras como etapa preparatória da capacidade de se perceber a luminosidade diurna; 6o) a percepção das coisas que produzem sombras e imagens reflexas; 7o) a contemplação do céu noturno, em cujo fulgor menos intenso se prepara a fase terminal da adaptação perceptiva ao reino dos sensíveis; 8o) a visão final do sol em todo o seu esplendor transcendente. Exatamente o que é o Bem em si mesmo em relação à inteligência e aos inteligíveis, o sol o é no âmbito visível, com respeito à vista e aos visíveis. Assim como o lume diurno é a fonte da visibilidade e da perceptibilidade das coisas sensíveis, o Bem é a origem da luciformidade e da cognoscibilidade das idéias inteligíveis. Conhecer é saber ver, não apenas com os olhos do corpo, que se limitam à observação do mundo visível, mas, sobretudo, com o olho da alma, que se compraz na admirável visão do universo ideal. Formar verdadeiramente significa educar o olhar eidético, potenciá-lo e atualizá-lo num virar ou fazer girar toda a alma, num volver a cabeça do mundo sensível para o universo inteligível a fim de se poder ver a idealidade luciforme do Bem.

Pensar o supra-sensível com o olhar eidético concentrado no que antecede e excede o domínio de tudo que é ou existe significa propiciar a substituição da paideia poética pela paideia filosófica. Determinado como idéia, o ser se define como propriedade paradigmática de todo e qualquer ente, como o próteron, o prius ou o anterior, o antecedente, o antecessor de tudo que aparece no reino entitativo. Compreende-se, portanto, o motivo por que o saber preconizado por Platão se caracteriza aprioristicamente. O próprio ser, platonicamente determinado como idéia, é a priori. O conhecimento dos entes ou dos physei ónta é a episteme physikéEpisteme, a ciência platônica do ser, reporta-se a epistasthai, que significa assumir a posição ou atitude requerida para se defrontar com algo. No ato de virar a cabeça para mirar o fogo e, principalmente, no volver o olhar do mundo sensível para o universo inteligível é que se realiza a episteme platônica. O que se converte em tema de investigação desta ciência dos entes se denomina tà physiká. Mas o ser se estende, em consonância com a sua prioridade, para além dos entes. Como o ser é a priori, a ciência filosófica tem de ser necessariamente metafísica. A priorização do ser e matematização do saber constituem o anverso e o reverso da doutrina platônica sobre a verdade. Matemático significa precisamente o que é susceptível de doutrinação, de ensinamento e aprendizagem independentemente da experiência dos sensíveis, unicamente com a consciência dos inteligíveis. O saber ver o real pressupõe o ter visto o ideal. O saber a priori da idealidade implica o conhecer matemático da realidade. Só sabe verdadeiramente quem adquire o conhecimento universal e normativo de um objeto único em sua essência transcendente à diversidade sensível, em sua presença constante, exemplar e paradigmática. O reconhecimento da ciência matemática é uma decorrência da consciência metafísica.

A interpretação heideggeriana do mito da caverna surpreende, para além do que é dito no texto platônico, o subtexto do que não é dito, e que, no entanto, constitui a força propulsiva do estranho relato socrático. O sentido que subjaz e subage no ideal de formação propugnado por Platão opera uma mudança na determinação da essência da verdade. O homem é concebido em consonância com a validade universal e genérica da imagem ideal de sua humanidade, que o liga ao reino superior das idéias que se imprimem na sua alma e a modelam. A verdade é descrita e circunscrita pela visibilidade ou pelo modo como as coisas se evidenciam, segundo um foco que as mostra sob determinada forma. A educação filosófica é um processo de formação em que se enforma cada uma das coisas imediatamente visíveis e sensíveis, imprimindo-se-lhes um determinado caráter, um aspecto definido, precisamente porque as conforma ao ponto de vista norteador ou à visão ideal de uma imagem prototípica, que lhes prefigura e condiciona o modo de ser e de existir. Platonicamente determinada, a verdade é subjugada pela idéia. De fato, ao se desviar das sombras para considerar as coisas, o cavernícola procura dirigir o olhar para o que tem mais ser do que simples imagens reflexas. Em cada estágio mais desenvolvido de seu trajeto existencial, mais imperiosa se lhe impõe a necessidade de olhar de modo mais correto e adequado. Tudo se lhe afigura subordinado à orthotes, que é a correção e a exatidão do olhar. A essência da verdade é determinada como semelhança e conformidade da alma com o protótipo ideal e como adequação e exatidão do olhar eidético. O conhecimento da verdade se superpõe ao acontecimento da verdade. A verdade matemática do saber suplanta a verdade poética do ser.

A revolução platônica acerca da verdade se enuncia subliminarmente na preponderância da epistemologia sobre a ontologia. O adaptar-se da percepção assegura um adequar-se do que se conhece ao conhecido. A verdade do ser (alétheia)se converte na verdade do saber (orthotes), prefigurando o conceito de veritas comoadaequatio rei et intellectus. E a mutação da essência da verdade acarreta a transmutação do lugar de sua residência. Como orthotes, a verdade já não reside nos próprios entes, mas é dependente do comportamento do homem filosoficamente educado em relação ao domínio entitativo, simplesmente porque a idéia do Bem, que o filósofo alberga em sua alma, é que confere ao conhecido o caráter de verdade e ao conhecente a capacidade para conhecê-lo. Filosofar significa contemplar o fulgor da idéia do Bem a fim de aplicá-la como modelo de esclarecimento de tudo que é ou existe. Entretanto, Platão ainda é compelido a manter a concepção da verdade como imanente ao domínio entitativo, pois todo e qualquer ente que se apresenta só se essencializa porque aparece, e o ser é precisamente o processo da aparição. O sentido de alétheia é desvelamento. Acontece, porém, que a verdade como alétheia, ao ser subjugada pela idéia, se transforma no que há de mais desvelado. Simultaneamente se desloca a questão relativa ao desvelado, pois já não visa senão à aparição da luz da evidência e à precisão e correção do ato de ver que lhe corresponde. A evidência dos entes supõe a clarividência do olhar filosoficamente treinado. Uma ambigüidade necessária permeia, portanto, a doutrina platônica sobre a verdade. A verdade se determina como alétheia e, sobretudo, como orthotes. O fundamental, no entanto, é que Platão fala da alétheia quando pensa na orthotes.

A determinação necessariamente ambígua da verdade é sublinhada pela própria interpretação platônica da imagem mítica da caverna, segundo a qual a idéia suprema estabelece a correlação do conhecer com o conhecido. Esta correlação é concebida ambiguamente, conforme se verifica nas duas definições da idéia do Bem, que são justapostas no texto platônico. Na primeira, a idéia do Bem se caracteriza como a causa universal de tudo quanto existe de correto e belo; na segunda, a idéia do Bem se define como a soberana do desvelamento (de todos os entes) e da percepção (ou capacidade de os perceber). A justaposição destas duas proposições assinala equivocamente que a verdade é o acontecimento histórico-ontológico do desvelamento(alétheia) e o conhecimento ontoteológico da correção e da exatidão do olhar eidético(orthotes). O equívoco só se resolve na opção filosófica pelo primado teórico da idéia suprema, que possibilita a exatidão do verdadeiro conhecimento e o desvelamento do verdadeiramente conhecido.

Que acontece quando o homem se liberta de sua dependência em relação ao ser supremo e se apresenta como o ente que paradigmaticamente representa, perante o tribunal de sua consciência logicamente esclarecida, a essencialidade do que é e a inessencialidade do que não é? Simplesmente a idéa se torna o perceptum da perceptio, e o homem filosoficamente educado se põe como representante ou condição de possibilidade de todos os entes. A essencialidade da idéia como presencialidade e visibilidade se converte na representatividade projetiva do sujeito representante perante o objeto representado. O ser se transforma na mera condição de possibilidade de que dispõe o homem que se representa em tudo que se lhe apresenta. A determinação do ser como condição de possibilidade dos entes, no idealismo platônico, ou dos objetos, no idealismo cartesiano, é retomada e consumada na proposição fundamental da Crítica da razão pura, em que se enuncia categoricamente que as condições de possibilidade da experiência em geral são, ao mesmo tempo, as condições da possibilidade dos objetos da experiência. As condições de possibilidade são o que Aristóteles e Kant denominam categorias ou determinações da essência dos entes. A interpretação do ser como condição de possibilidade se prepara e se desenvolve no percurso histórico da filosofia. Inicia-se no mitologema platônico da idealidade, explica-se no filosofema cartesiano da subjetividade e se consuma no teorema kantiano da objetividade (a subjetividade transcendental como representatividade ou condição de possibilidade da objetividade dos objetos). O ser inicialmente proposto ao filósofo pela metafísica da idealidade é finalmente disposto pelo filósofo na metafísica da subjetividade.

Idéa, Episteme, Orthotes são signos da unicidade absoluta propugnada pela metafísica em contraposição à verdade da poesia ou poesia da verdade. A tríade epistemológica de Platão, que preside à gênese e ao desenvolvimento da filosofia, descarta necessariamente a poematização da duplicidade originária da verdade do ser, porque visa tão-somente à matematização do conhecimento, ao processo de unificação do saber acerca do ser, ao uno único unificante, ao princípio e fundamento ontoteológico, ao suporte subjacente a tudo que é ou existe. Convém demonstrar, no entanto, que a ciência henopoética é uma redução, e não uma superação, da experiência alethopoética. Com efeito, a interpretação do ser como idéa resulta da compreensão originária do ser como physis. O que exsurge se evidencia sob um certo aspecto. Phyeinsignifica o nascer do sol, o brotar de uma flor, o crescer de uma planta, o originar-se de si por si mesmo, o mostrar-se, o desvelar ou revelar-se de todo e qualquer ente.Physis é a brotação das coisas ou a aparência enquanto aparição de tudo que é ou aparece. Os étimos pha- phy- designam o mesmo processo ontofânico. Ao ser como o ilumínio da manifestação corresponde a verdade como o domínio da revelação. A idéaprovém da physis e se mantém epifanicamente detida no ritmo de transe do fulgor de sua vigência e do vigor de sua evidência aspectual. Portanto, ao pensar o ser comoidéa, Platão se caracteriza como o pensador que realiza a consumação do pensamento originário dos gregos. Consumar quer dizer conduzir algo até ao limite extremo de sua delimitação, efetivar a sua plenificação final. Delimitar, porém, não significa apenas marcar o fim último, mas também anunciar um novo início. O que decisivamente determina a revolução platônica ocorre quando a idéa, que é uma conseqüência da essencialização aspectiforme do ser, assume o estatuto privilegiado da própria essência, convertendo-se no ente paradigmático, exemplar e supremo. O que decide o declínio do antigo regime ontológico e o aclínio da novíssima vigência metafísica não é o ter-se caracterizado a physis como idéa, mas o haver-se imposto a idéa como a interpretação única e normativa do ser. Doravante, entre a essência e a aparência há uma separação, uma cisão, um corte epistemológico, e o ente consignado e oferecido usurpa a dimensão consignante do oferecer original. O faciendum do desvelamento é metafisicamente reduzido ao factum do mais desvelado. A physis se despotencializa, degradando-se numa simples antítese da arte e da lei, e o que aparece se denuncia como sendo só o que parece.

A Hermeneutização da Verdade

A militância nihilista de Nietzsche refuta radicalmente a tradição ontoteológica da metafísica. O renome do ser e do deus divulgado pelo platonismo e recitado pelo cristianismo é denunciado como o mero pronome do universo inteligível hierarquicamente anteposto e contraposto ao reino sensível. Platão se lhe apresenta como o insidioso e pernicioso hierofante das formas imutáveis e das normas inaceitáveis, que deve ser julgado e condenado como o arquetípico detrator da hierofania da êxtase sensorial e, sobretudo, como sonegador prototípico do corpejante gesto de baile da vida perpetuamente ritmada no jogo dionisíaco do duplo domínio do mundo deveniente. Mais do que modelo de tudo que existe no habitáculo terrestre, as idéias platônicas constituem as matrizes absolutas de uma doutrina escatológica, que nadifica o mundo em que se exerce a experiência propriamente antropológica. A singularização teoplástica de idealidade hegemônica do bem representa paradigmaticamente a absurda dessacralização iconoclástica da realidade ctônica. A valorização eidético-noética do além estelar suscita e provoca a desvalorização estético-somática do aquém sublunar, e a fulguração da espiritualidade celeste supõe e propõe dogmaticamente a ofuscação da corporalidade terrestre. A platonização equivale à degradação da temporalidade e à desvitalização da humanidade. A insurreição contra a mistagogia platônica se concebe, portanto, como uma possibilidade da salvação humana e da redenção mundana. O nihilismo europeu, por notável exemplo, confuta o patrono do idealismo onto-teo-lógico ao demonstrar que os valores supremos se desvalorizam. A nadificação sistemática da legitimidade dogmática da religião teísta e a nihilificação enfática da validade paradigmática da razão idealista são aclamadas e proclamadas pelo pensador do eterno retorno do mesmo como enunciações programáticas que induzem à transmutação da servilidade urânico-teomórfica na liberdade telúrico-antropomórfica. A confirmação do nihilismo possibilita a infirmação do sortilégio desvitalizante e espiritualizante do platonismo e do cristianismo. A paideia lúdica da Zaratustra assegura que a supressão do primado teórico da idealidade é a condição sine qua non da recuperação do ditame poético da vitalidade. Na mundividência nietzcheana, filosofar não é platonizar ou valorizar os ideais precursores da doutrina medieval dos transcendentais, mas, sim, hierofanizar a sensível seiva da vida.

Professando a sua missão emancipadora da humanidade subjugada pela idealidade, a pregação nihilista da filosofia nietzscheana não se satisfaz com a verificação de que os valores supremos se desvalorizam nem se compraz na observação do crepúsculo dos ídolos onto-teo-lógicamente apreciados e cultuados. O nihilismo criticamente definido e passionalmente assumido por Nietzsche se autentica como o nihilismo clássico-exático e se justifica como uma maneira divina de pensar. Clássicos significa que o nihilismo nietzscheano é o modelo dinâmico da transmutação de todos os valores tributários da vigência histórica da consagração ideoplástica. A mutação radical do antigo sistema axiológico implica a instituição fundamental dos novos valores requeridos pela vontade de potência entusiasticamente mobiliza e sintoniza com o trânsito floral do movimento vital. Estaticamente, o nihilismo ensina o homem a dançar na celebração festiva do bem querer a hierofania do êxtase do viver. A conversão do vitalismo se viabiliza na inversão do platonismo. O ponto de vistanorteador da nova teoria do conhecimento não é perpectivado pelo ilumínio de idéa, mas pontualizado pelo domínio da enérgeiada vontade que se quer atualizar como potência incondicional de si mesma. O ponto de vista do valor é o ponto de vista das condições de conservação e expansão concernentes às configurações complexas da relativa duração da vida dentro do devir.

A instituição do ponto de vista do valor transmuta o mitologema platônico da idealidade no axioma nietzscheano da vitalidade. A cifra do drama do ser e do não-ser decifra-se na alternativa do valer e do não-valer. O valor nunca é, mas vale ou prevalece apenas enquanto fortalece a operação metafórica do viver. A certeza do acerto existencial do sujeito se patentiza no sentimento estuante do acréscimo do seu poder de viver no concerto vital do prazer consoante com o devir. O parâmetro da verdade é consignado pelo dinamômetro da vitalidade. Somente a ingenuidade hiperbólica da criatura ainda não ciente nem consciente da potencialidade autoplasmadora da vontade soberanamente pletórica é que explica a pretensa validade universal e normativa do ideal onto-teo-lógico. Numa espécie de ilusão ótica, o homem demasiado humano se limita a projetar além de si as condições de possibilidade de sua autodeterminação, acreditando ingenuamente que a verdade lhe advém de um lugar supraceleste. Iludida e ludibriada pela fulguração ofuscante da idéia suprema, a potência da vontade se perverte na impotência da servilidade. A sujeição da humanidade ao ordenamento do ser platonicamente singularizado como a onticidade ou propriedade paradigmática autentificada pela idéia do Bem resulta tão-somente do comportamento alienado do homem criticamente deseducado. Promovendo o reconhecimento de que o ponto de vista é modulado pela pontuação ponderativa da visão do homem liberado dos ditames transcendentes e dos liames eternos, o conhecimento nietzscheano se credencia como a via real do verdadeiro itinerário hominal. O que é válido não vale porque é um valor. Pelo contrário, o valor equivale a um valor somente porque vale, porque é fixado ou instituído como válido. Os valores infinitamente se valorizam e se desvalorizam. A verdade do platonismo se transmuta no perspectivismo da subjetividade que se libera da ingenuidade hiperbólica.

As condições da vitalidade são as perspectivas da possibilidade de conformação concrescente e de transformação coalescente da matéria vertente do puro in fieri do ser que somente é enquanto devém. A conformação da deveniência vital é uma concreção complexa, porque requer a interação do ato racional e do conato pulsional ou a interpenetração poético-patética do nexo da razão estruturante e do plexo da paixão desestruturante. A formação apolínea da vontade de potência e a deformação dionisíaca do eterno retorno do mesmo são o anverso e o reverso da mesma versão nietzscheana da vida. Formação, transformação, mediação eterna do devir eterno, vitalizar significa poetizar a excessividade caótica do divino zoogônico. Existir é produzir-se, adiantar-se para se patentear no ritmo de transe do trânsito floral. A gaia ciência do viver se explica na experiência trágica de que o ser existe, porque coexiste com o não-ser. Tudo se oculta e se desoculta, se interioriza e se exterioriza, numa ronda, num circuito em que nascer e perecer se circunferem. Em conúbio com o nada, o ser liga e desliga os fios de que se compõe a totalidade do real. Circulus vitiosus deus?O círculo dionisíaco do duplo domínio da vida e da morte traz necessariamente o viço vitalizante e o vício mortalizante, o vitium, o anel das vicissitudes do destino. Deus não aparece divinamente, senão ocultando-se? Se o viver do mundo é o morrer do deus, o repto vital, já de si, é o rapto mortal. Em torno do herói, tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus, drama satírico; e em torno de deus, tudo se torna — como? “mundo” talvez?

Reconhecendo a supremacia do pensar poético sobre o pensar teórico, Nietzsche argumenta e sustenta que as intuições originais dos filósofos anteriores à tradição onto-teo-lógica da metafísica são as mais elevadas e mais puras já alcançadas e experimentadas na civilização ocidental, sobretudo porque compartilham a visão trágico-dionisíaca do mundo. Os filósofos trágicos são os pensadores que compreendem a natureza como a cifra dionisíaca do duplo domínio da vida e da morte ou do ser e do nada. Exaltando a tensão heraclítica dos contrários, a exegese nietzscheana da philosophia enquanto physiologia culmina na assertiva de que o mundo é o jogo de Zeus, ou fisiologicamente expresso, o jogo do fogo consigo mesmo; somente neste sentido, o uno é, ao mesmo tempo, o múltiplo. O aclínio e o declínio do pensamento são atribuídos a duas mundividências, uma trágica, de Anaximandro e os outro fisiólogos, e outra teórica, de Platão e todos os filósofos posteriores. Num dos fragmentos póstumos, lê-se: Anaximandro. Visão trágica do mundo. Tragédia. O fim da época trágica do pensamento inaugurado por Anaximandro ocorre com a separação platônica do ser e do devir. Com Platão, inicia-se a depreciação da vida através da valorização da idéia do Bem, e o homem trágico é substituído pelo homem teórico. O antigo mundo sucumbe com o advento do homem teórico. O elemento apolíneo se separa do dionisíaco e, a partir de então, ambos degeneram. Doravante, a consciência e o apetite cego se contrapõem como poderes antagônicos, que se confrontam enraivecidos e exasperados num mesmo organismo.

Como filósofo trágico é que Nietzsche enfrenta Platão, o protótipo do filósofo teórico. A desconstrução nietzscheana da estrutura arquitetônica da metafísica platônica pode ser figurada no teorigrama subseqüente:

O Essente, O Supremo Inteligível = O Mundo Verdadeiro

O Deveniente, O Inferno Sensível = O Mundo Aparente

Cumpre observar que a inversão dos extremos contrapolares não atinge o esquema conceptual do khorismós platônico, mas tão-somente transmuta o platonismo no positivismo. O subiectum qua positum apenas se desloca de um lugar superior para outro inferior. A grande façanha da inversão nietzscheana do platonismo consiste em provar que a refutação do mundo verdadeiro acarreta a confutação do mundo aparente. A essência inteligível e a aparência sensível não têm valor próprio e absoluto. Se o essente supremo não persiste, o inferno deveniente não subsiste.Incipit ZarathoustraIncipit Tragoedia. Momentaneamente detida no impulso de se ultrapassar, a vida se efetiva em ritmo de transe, e o pensamento só se consuma na consciência de que o ser somente é enquanto devém. Antes de se haver com objetos e de perseguir objetivos, a vida experimenta diretamente a si mesma como atividade essencialmente poética de gestação e autoplasmação. Em sua evolução e revolução permanente, neutraliza e dissolve a pretensa imutabilidade dos princípios a priori, reinterpretando continuamente a si mesma na mobilidade pura do ser que devém e do devir que é. Criando e recriando as categorias com que se interpreta, hermeneutizando sempre a si mesma, a vida é a poematização do seu próprio sentido. O mundo se torna infinitamente interpretável, e o pensador não se legitima, senão quando se converte no poeta que celebra a ronda perpétua do movimento vital. Concebendo a força morfogenética da poesia trágica como projeto instituidor dos novos paradigmas, medidas e valores do mundo ritmado no eterno retorno do mesmo, Nietzsche caracteriza a visão poética como a forma privilegiada do conhecimento compatível com a essência radicalmente deveniente da experiência existencial.

Amor fati é o ditame nietzscheano da celebração dionisíaca do drama da vida e da trama da morte. A experiência patética do anverso vital e do reverso mortal do destino que se apresenta e se ausenta da fuga perpétua do tempo constitui a ciência poética do homem que se transumaniza ao suplantar a inflexão inercial do espírito do ressentimento, do clamor e da vingança contra o declínio ofuscante da mortalidade, que fatalmente sucede ao fulgurante aclínio da vitalidade. A instância temporal só se explica na constância do incessante trânsito da hora atual. Ser significa não cessar de aparecer e desaparecer na essência e na evanescência dos momentos devenientes. De acordo com a doutrina do eterno retorno do mesmo, somente está literalmente morto aquele que, ao passar, petrifica-se no passado, enclausurando-se no cárcere do que foi. A redenção ou recapitulação do destino implica a superação do espírito de vingança que se apossa do homem alienado na impotência de uma alma cativa que inutilmente se agita e se exaspera contra o passar do tempo finalmente coagulado no passado ou cristalizado como o magma depois da erupção. Sim, somente esta é, já de si, a vingança: a aversão da vontade contra o tempo e o seu ter sido vivido e perdido no grão nulo do que foi. Desta rebelião do espírito contra a mortalidade terrestre decorre a ficção metafísica da imortalidade celeste, e o mundo sublunar se transforma no vale das lágrimas dos acovardados e dos ressentidos.

Rejeitando o conhecimento compendiado do dualismo que se estabelece entre a sabedoria do comedimento e a euforia da desmesura, o mandamento arcaico do eterno retorno do mesmo se perfaz na gaia ciência de uma paideia poética, em que o nada excessivo da ordem apolínea é neutralizado pela desordem dionisíaca da transcensão de todo e qualquer limite proposto e imposto à experiência humana. O prólogo de Zaratustra sentencia que o homem é algo que deve ser superado. Que o homem seja redimido da vingança constitui o ditame dionisíaco do poeta que se converte no artista de sua própria vida ao combater e vencer as potências imanentizadoras da sua propulsão transcendente. Proclamando-se o sacerdote de uma mistagogia lúdico-poética, o cantor do destino tragicamente assumido se define na confissão de que somente acreditaria num deus que soubesse dançar e na profissão de fé do escritor radicalmente comprometido com a rubra legenda do corpo sangüíneo da vida e que, por isso mesmo, de tudo que se lê não aprecia senão o que se escreve com o êxtase diluvial da paixão vital: Escreve com o sangue, e aprenderás que o sangue é espírito. Escritor somente o é quem se torna o leitor de uma verdade que justifica a vida que se forma na vontade de potência e se transforma no eterno retorno do mesmo, continuamente criando e recriando a si mesma. A verdade é correção e adequação, não como visão noética da idealidade do espírito, mas enquanto suscitação poética e justificação patética do corpejante gesto de baile da excessividade dionisíaca da vida. Neste sentido é que a verdade nietzscheana se caracteriza como justiça.

No magistério da vontade de potência, a infinitude da eternidade e a finitude da temporalidade coexistem na transfinitude do eterno retorno do mesmo. A concepção nietzscheana do tempo lhe advém da visão e do enigma do portal da eternidade como umbral da temporalidade. Ao espírito da gravidade, cujo argumento ironicamente refratário à possibilidade da propulsão transcendente da existência humana se traduz na assertiva pretensamente peremptória de que tudo que sobe tem de cair, Zaratustra categoricamente retruca: tu não conheces o meu pensamento abissal! Exortando o seu antagonista a contemplar um portal, o mestre do eterno retorno lhe explica que ele tem duas faces e que dois caminhos, ainda não totalmente percorridos por ninguém, nele se reúnem. Símbolo da liminaridade ritual ou iniciática, uma face do portal se volta retrospectivamente para a rota que conduz ao passado, e a outra se devota prospectivamente para a senda que induz ao futuro. As duas vias que se encontram e se desencontram no momento simbolizado no pórtico são igualmente infinitas, porque a primeira não tem início, e a segunda não tem fim. Se alguém seguisse adiante, as duas veredas do destino iriam contradizer-se eternamente? A esta pergunta provocativa, o entendimento demasiado humano do espírito da gravidade replica que tudo que é reto mente, porque toda verdade é curva, o próprio tempo é um círculo. Profundamente agastado com a imaginação meramente formal desta pretensiosa decifração do enigma do tempo, que se limita simplesmente a uma figuração geométrica, Zaratustra reclama uma meditação que não se resolva na substituição simplória de uma representação linear por outra circular. O conhecimento essencial consiste na visão do pensamento abissal: o ver abismos não é o próprio ver? A percepção de duas direções simétricas e opostas, que só podem concidir na circunferência de um círculo, é tão-somente a conseqüência da inflexão inercial do espírito da gravidade. O tempo não é o círculo em que tudo gira e regira na tediosa monotonia da incessante repetição de uma substância corrente ou transcorrente. O pensamento abissal implica o reconhecimento real de que a matéria vertente da temporalidade é sem fundamento. Não há causa primeira nem fim último. Destituída de uma causalidade primordial e de uma finalidade terminal, a idéia de um original que se repete se torna paradoxal ou irreal. O pórtico do momento, portanto, simboliza a essência do tempo que se verticaliza no ritmo de transe ascensional e descensional do aclínio vital e do declínio mortal. Separar significa engendrar-se. O moto perpétuo da temporalidade é o anel da eternidade do devir da vida que se consagra na celebração da sua própria excessividade.

O enigma do tempo culmina na visão do pastor que se salva e se transumaniza, mordendo a cabeça de uma cobra que lhe penetra a garganta. Liberto do remorso da vida estrangulada pelo sentimento da irreversibilidade do passado, o homem adquire o dom de dançar para além da cinza das horas. Este pastor não é senão o autor do eterno retorno de si para si mesmo, o boukólos, o bubulcus, o sacerdote órfico-dionisíaco, que se encaminha para o encontro orquestral com o coração selvagem da vida, devolvendo-se à verdadeira morada de sua alma. Por isso mesmo ele reaparece convalescente e rodeado de seus animais queridos, uma águia e uma serpente, que simbolizam, respectivamente, o coelum-pater e a tellus-mater, compreendidos como a transcendência urânica e a transcendência ctônica. Estes são os companheiros que o reconhecem como o mestre do eterno retorno, o primeiro a ensinar esta doutrina de que há um grande ano do devir que verte e reverte sempre de novo, porque o próprio tempo, como jogo dionisíaco do mundo, é que torna e retorna, e não simplesmente uma substância no tempo. Eternamente gira a roda do ser. Compaginado no ensinamento de Zaratustra, o ser eterno da filosofia se transforma no eterno ser da poesia.

Referências Bibliográficas

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SOUSA, E. de. Horizonte e complementariedade. Brasília-São Paulo, 1975, 100-112.

Fonte:

Lobo, Luiza, org. Globalização e Literatura. Discursos Transculturais vol. 1. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999. p. 79-101.





Bio fornecida pelo palestrante.

BEATRIZ LUZ: PORTAIS DE TRAÇO ORIENTAL SOBRE PAPEL DE ARROZ – Luiza Lobo




Resumo:
Este texto é uma reformulação de uma resenha sobre a exposição de Beatriz Luz no Museu Nacional de Belas Artes publicada no Jornal do Commercio.
Texto:

BEATRIZ LUZ: PORTAIS DE TRAÇO ORIENTAL SOBRE PAPEL DE ARROZ

 

Luiza Lobo

Neste desenho intitulado “Construções”, de toda uma série feita em papel de arroz, que Beatriz Luz já expôs no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e na galeria do Palácio de Catete, nota-se a autonomia dada ao traço grosso do pincel sobre o papel fino e quase diáfano. Beatriz Luz é uma artista plástica de Florianópolis que se radicou no Rio de Janeiro, onde fez diversas exposições, além de em Cabo Frio e, nos últimos anos, no Porto. Poeta, escreve seus poemas num certo tom enigmático que a acompanha também na vida real, e os imprime ao lado de ilustrações depuradas feitas por ela a nanquim. Em toda a série de “Construções”, ganha destaque a qualidade e a leveza do papel em contraste com a densidade da pincelada grossa e solta, que espalha a tinta. Enquanto nos seus livros de poesia utiliza o papel amarelado de pesada gramatura, que transforma cada folha numa obra avulsa, digna de ser enquadrada, não fosse seu tamanho diminuto, nos desenhos faz uso do delicado papel branco que recebe as pinceladas pesadas em cinza, negro e marrom. As formas têm correspondência com portais e labirintos em transparências, que ela mesma associa a antigos conventos espanhóis, assim como com algo de performático, presente no desenho ideogramático oriental.

Beatriz Luz travou contato estreito com esta forma oriental de pintar nas aulas tomadas em Cabo Frio, onde viveu durante a década de 1970, do artista plástico francês Jean Guilhomme. Este francês ali permaneceu por muito tempo, tornando-se figura de destaque e influenciando e orientando toda uma geração de pintores locais, até sua morte, em Cabo Frio mesmo. Ele recebera sua formação artística no Oriente, inclusive no Tibé, residindo muitos anos no Vietnã, onde aprendeu técnicas de desenho sobre papel de arroz. Fora professor da tradicional escola livre de Paris, a Grand Chaumière, onde estudaram os impressionistas franceses, a qual funciona de modo semelhante aos cursos livres do Parque Lage. A partir de Guilhomme Beatriz Luz aprendeu a técnica de desenho oriental, segundo a qual passou a pintar num só traço, num só gesto, numa única respiração, de pé, diante do cavalete, num trabalho com o corpo inteiro. Retomando a simplicidade das coisas primárias, quando não está em seuatelier em Cabo Frio, pinta no silêncio da sua cozinha de ladrilhos brancos e imaculados de seu apartamento. Seu intuito é captar, no espaço branco do papel, com uma só pincelada de fio grosso e bem marcado, o vazio, o absoluto, o estado de meditação e silêncio.

Também a partir das aulas que teve, desta vez na Escola de Artes do Parque Lage, Beatriz Luz mostra filiação ao construtivismo. Cada um dos seus desenhos da série de “Construções” é uma forma de reconstituição do mundo concreto: a casa, a igreja, plantas baixas, a catedral, sempre através de cores e riscos sintéticos. Nessas formas, revive sobras de sonhos, que imagina ter vivido noutras atmosferas, quem sabe noutras incarnações. Na opinião da artista, a técnica construtivista é inata ao brasileiro, encontrando-se na arquitetura e na fachada das casas dos subúrbios e do Nordeste, surgindo como movimento de tendência geométrica espontaneísta, quem sabe devido à tradição geométrica da arte africana ou indígena do país.





Bio fornecida pelo palestrante.

EL SURGIMIENTO DEL DISCURSO CRÍTICO EN COSTA RICA – Dr. Claudio Bogantes




Resumo:
Este artigo apresenta a história e a política do contexto social da Costa Rica que subjazem à possibilidade de formação de um discurso crítico em geral. Tem como base a teoria de Bakhtin sobre narração dialógica que contrapõe à fala monológica imperialista e anti-democrática de opressão do outro.
Texto:

 

EL SURGIMIENTO DEL DISCURSO CRÍTICO EN COSTA RICA

 

Dr. Claudio Bogantes

Universidad de Aarhus, Dinamarca

 

 

Alvaro Quesada Soto in memoriam

Introducción

 
El 1º de mayo de 1913 se celebró en Costa Rica, por primera vez, el Día del Trabajo con sus correspondientes desfiles, manifestaciones, discursos y conferencias. Esa celebración marcaba públicamente la conquista de un espacio social, económico, político y cultural que nuevos actores sociales habían venido reivindicando desde finales del siglo anterior en el seno de la nación organizada y controlada por la oligarquía cafetalera. Significativamente, en el momento en que la oligarquía institucionalizaba su poder durante el último cuarto del siglo XIX, después de la caída de la dictadura del general Tomás Guardia, su legitimitad comenzaba a verse seriamente cuestionada por la presencia y peso del capital americano, por nuevos fenómenos sociales, por fuerzas e ideas tanto internas como externas. Un aspecto importante de este custionamiento puede ser rastreado en la producción intelectual de la llamada generación del Repertorio Americano.
 
A nivel teórico y metodológico, Mijaíl Bajtín establece una diferencia entre “persona” y “cosa”, o sujeto y objeto, como límites del conocimiento. Como objetos de conocimiento el hombre tiene delante de sí “cosas” y otros sujetos. El discurso que genera el conocimiento de las cosas es un discurso “monológico”: El sujeto enunciador es quien tiene la palabra. Es evidente que el sujeto cognitivo y enunciador puede tratar a sus semejantes como cosas, reificando así a los otros sujetos, su discurso es entonces, tal el discurso sobre las cosas, un discurso monológico y además autoritario, pues, por así decirlo, es un discurso que le “cierra la boca al otro” para quedarse él con la última palabra.
 
En el discurso de la oligarquía cafetalera costarricense, los sujetos de las clases populares no tenían, literalmente, ni voz ni voto. Con la generación delRepertorio Americano, que toma su nombre del famoso periódico que Joaquín García Monge comenzara a publicar a partir de 1919 y que circularía por toda América hasta la muerte de su fundador y editor en 1958, surge y se establece un nuevo discurso. Este discurso, que se contrapone al discurso de la oligarquía, es un discurso dialógico, en sentido bajtiniano.
 
En investigaciones anteriores he centrado mis análisis del discurso crítico costarricense sobre obras de carácter ficcional, principalmente novelas y cuentos; en ocasión de la celebración de nuestro simposio en el marco del Quincuagésimo Congreso de Americanistas, quisiera volver mi mirada hacia la obra de algunos ensayistas, pensadores y polemistas de principios del siglo pasado.
 

El discurso monológico de la oligarquía y la invención de la Nación

 
Desde mediados del siglo XIX la oligarquía había logrado, gracias a la bonanza económica acarreada por la exportación de café a Inglaterra, ir creando y organizando un Estado-nación basado en un amplio consenso más o menos negociado con las clases subalternas. Inicialmente estas clases aceptaron los valores e intereses particulares de la oligarquía –su proyecto civilizador, por así decirlo? como los intereses y valores generales de la joven nación como tal. Al contrario de lo que sucedía en los otros países del istmo centroamericano, y en buena parte del resto de América Latina, la oligarquía cafetalera costarricense para llevar adelante su proyecto no echó, con contadas excepciones, mano de los militares, sino que organizó en su lugar, bastante pronto, un sistema escolar, el cual se mostraría muy eficaz en la imposición suave y pacífica de su proyecto y de su hegemonía. Las primeras leyes que instituían la escuela primaria gratuita, obligatoria y costeada por las municipalidades son de 1869. A partir de la década de 1880, la escuela pasará a ser costeada por el Estado, convirtiéndose pronto en el instrumento ideal y eficaz para la “invención de la nación”, para decirlo con un concepto de Benedict Anderson.
 
En 1856-57 Costa Rica había participado en la campaña centroamericana contra los filibusteros capitaneados por William Walker, que financiados por los eclavistas del sur de los Estados Unidos, pretendían anectar Centroamérica a la pujante nación del Norte. En primer lugar me parece oportuno recordar que, como en el caso del surgimiento de muchas otras naciones como comunidades imaginadas, una guerra hace que los varones jóvenes, en su mayoría campesinos que por lo general no se han aventurado muy lejos de sus parroquias, de pronto se descubren como miembros de una colectividad mayor. En el caso concreto como costarricenses. Las primeras formulaciones explícitas de algunos de los elementos que más tarde pasarán a formar parte de la comunidad imaginada las podemos rastrear en las proclamas del jefe de Estado, Juan Rafael Mora. El proyecto de transformar la vieja capitanía de Guatemala en la República Federal de Centroamérica había sido abandonado en los diferentes países. Así, en el caso de Costa Rica, el 14 de noviembre de 1838 una asamblea constituyente declaraba que el país asumía la plena soberanía. Pero no será sino diez años más tarde, el 31 de agosto de 1948, que Costa Rica se declarará República (Monge Alfaro 1978, p. 205). Las proclamas de Mora al llamar a las armas contra William Walker, en 1856, muestran la existencia de un sentimiento nacional, así como la conciencia de las obligaciones de solidaridad con el resto de Centroamérica y la idea de pertenecer a una entidad mayor, Hispanoamérica, con la que se comparte una serie de valores. El historiador Carlos Monge Alfaro cita el manifiesto del 1o. de marzo, que Mora iniciaba así: “Compatriotas: ¡A las armas! ha llegado el momento que os anuncié: marchemos a combatir por la libertad de nuestros hermanos”. (Monge Alfaro, 1978, p. 208) Con el término “hermanos” se refiere Mora a los otros centroamericanos. María Amoretti en su trabajo sobre el himno nacional, Debajo del canto, tiene una cita más extensa que muestra la solidadridad con los demás centroamericanos y la idea de participar a la defensa de la independencia del subcontinente: “Vamos a luchar por redimir a nuestros hermanos de las más inicua tiranía -dice Juan Rafael Mora en su segunda proclama-; vamos a ayudarlos en la obra fecunda de su regeneración”. Luego agrega: “Al pelear por la salvación de nuestros hermanos, combatiremos también por ellos, por su honor, por su existencia, por nuestra patria idolatrada y por la INDEPENDENCIA HISPANOAMERICANA.” (Las mayúsculas son de Amoretti). Aquí “patria idolatrada” se refiere ya sin duda Costa Rica.
 
Mas no será sino a finales del siglo XIX que esta campaña pasará a denominarse precisamente “la campaña nacional”, hasta entonces llamada campaña centro-americana. Es por esa misma época que se inventa la bandera y se establece el mito de un héroe nacional: el Erizo Juan Santamaría, modesto tambor de la tropa de 1856. Se trata de un joven de extracción popular, mestizo o mulato y de padre desconocido, que sacrificó su vida al pegarle fuego, el 11 de abril, a la casona donde se atrincheraba el grueso de la tropa de los filibusteros. La conmemoración de esta fecha sigue siendo una de las principales fiestas nacionales, en la cual marchan los alumnos de todas las escuelas y liceos, por suerte no sólo al son de músicas militares, sino también de otros ritmos que recuerdan más al carnaval. La primera bandera, dice la tradición, fue cosida por la mismísima esposa del presidente, como una copia, modestamente doble, de la bandera francesa, si bien es cierto que recuerda más la holandesa, por tener las franjas en sentido horizontal. Pero es obvio que la alusión a la revolución francesa, y a la tricolor, está más densamente cargada de significado. Al contrario de las otras banderas centroamericanas, que sólo ostentan los colores azul y blanco, la costarricense tiene una doble franja roja en el centro. Ese color representaría, precisamente, la sangre del sacrificio del pueblo de Costa Rica para salvar a la nación amenazada, sacrificio que se encarna en la muerte del Erizo. Es también por esos años de finales del XIX que se compran estatuas en Francia y que, por ejemplo, la tranquila Plaza de la Estación (del ferrocarril al Atlántico) es ensanchada y se convierte en el Parque Nacional, que cobija el Monumento Nacional, una representación en bronze de la Campaña Nacional. Se construye igualmente el Teatro Nacional, una hermosa copia achicada de l’Opéra Comique de París. Se funda la Biblioteca Nacional y se llama a concurso para elaborar una nueva letra para el Himno Nacional. Al lado de estos símbolos muy concretos de la nueva “comunidad imaginada”, aparecen algunos otros que pronto adquirirán carácter de mito, siendo uno de los más importantes el del “labriego sencillo”, la figura del campesino que encarna a la nación: trabajador, profundamente democrático y amante de su libertad e independencia, pacífico y sumiso, pero que en caso de amenaza a la Patria no duda “… su tosca herramienta en arma trocar”, tal y como lo proclama la letra del nuevo himno nacional. Ese es el habitante del mítico “país vergel”, donde la democracia existió desde siempre y donde siempre hubo más maestros que soldados, o que policías, como se suele decir hoy, pues desde que se promulgó la actual Constitución en 1950, el ejército fue abolido definitivamente. Así, lo que aprendemos en la escuela, pasa a ser parte constitutiva de nuestra identidad nacional costarricense: Somos más civilizados, más democráticos, más cultos, más blanquitos, etc. etc., El término ausente de la comparación implícita lo constituyen, en primer lugar, los otros centroamericanos. Pues como bien sabido es, tanto una identidad personal como una identidad colectiva o nacional, se perfila más claramente en comparación o contraposición a la identidad del otro o de los otros. Pero justo es anotarlo: la temprana preocupación por una mejor formación de los habitantes parece sincera. Ya en 1867 el ministro del ramo escribía al Congreso:
 
Rubor causa confesarlo; pero a pesar de la falta de estadística, me atrevería a asegurar fundado en cálculos, que no hay un diez por ciento de la población que haya aprendido a leer y escribir correctamente… Con semejante lentitud y con una direccción tan extraviada imposible es aspirar a construir las instituciones republicanas. Tiempo es de salir de este estado de marasmo, y pensar seriamente en la regeneración del pueblo por medio de la instrucción. (J.Volio, citado por Ema Gamboa: Educación en una sociedad libre, 1976, p.80).
 
Las reformas más importantes, así como una mejor dotación presupuestaria para la educación, se llevarán a cabo en la década de 1880-90, bajo la función del ministro Mauro Fernández, quien, como nos lo recuerda Ema Gamboa, había viajado por Europa:
…visitando las escuelas de Suiza, Alemania y Francia… En la primera estudió la filosofía y fundamentos racionales de Pestalozzi. Pasa a Alemania y le sorprende el estado de las escuelas… se engolfa en el estudio y la reflexión y le sirven de base para sus trabajos las obras de Fichte…Se dirige a Francia y se encuentra con los grandes escritos de Gambetta reclamando para la república la escuela cívica y patriota (Ibidem  p.73-74)
 
Las reformas surtirán sin lugar a duda efecto: a lo largo del siglo siguiente, el analfabetismo retrocederá significativamente. Y si bien la escuela, en tanto que aparato ideológico del Estado, como le caracterizara Althusser, ha servido de medio de control para la preservación del status quo, en favor de la sempiterna clase dominante. Esa dominación suave siempre será si no deseable, sí preferible o por lo menos más soportable que ejercida a través de los aparatos policiales y militares del Estado. Además la labor de la escuela contiene en sí un importante germen de liberación. Por otra parte es justo recordar que muchos de los representantes del pensamiento crítico en el país han sido educadores, desde maestros de escuela primaria hasta profesores de escuela normal y de universidad.
 
La oligarquía cafetalera había comenzado, pues, a perder legitimidad política frente a las otras clases sociales, entre otras cosas, a causa de la creciente influencia del capital extranjero que controlaba el ferrocarril, el enclave bananero, las compañías eléctricas, la red de telégrafos, etc., etc. La oligarquía había hecho empréstitos en París y Londres para realizar la construcción de una vía férrea a un puerto del mar Caribe, lo que economizaría tiempo y dinero, al evitarse así el largo viaje del producto por el Pacífico, vía Valparaíso, y contorneando luego Tierra del Fuego para llegar finalmente a Liverpool, donde el café se comercializaba. Pero la falta de experiencia y la general ineptitud y hasta la corrupción de los responsables hicieron que el proyecto fracasara. Entonces apareció el contratista norteamericano Henry Meiggs Keith, que había participado en la difícil constucción de líneas férreas en el Perú, prometiendo refinanciar y llevar el proyecto a puerto seguro. Con mayor sentido de los negocios propuso no sólo terminar el ferrocarril, sino también aprocharlo mejor, organizando la producción de bananos para el mercado norteamericano, a lo largo de la vía férrea en las tierras bajas de la costa atlántica, que el gobierno le concedería como parte del contrato. Así hizo su aparición el enclave bananero, que pocos años después pasará a formar parte del poderoso imperio regional de la United Fruit Co.
 
El ferrocarril, símbolo de progreso y de erradicación de la barbarie, pasará pronto a formar parte del orgullo nacional, tal y como se puede leer en el relato Parajes, de Pío Víquez, uno de los más famosos periodistas de la época, donde con resonancias sexuales elogia uno de los puentes de la flamante vía férrea:
 
El puente de Birrís iba a presentarse: ese nuevo portento de la mécanica yankee iba a ofrecerse muy pronto a nuetros ojos. Mr. Keith tiene mucho motivo para estar orgulloso de haber sido quien levantó ese monumento de gloria para la virilidad de Costa Rica. Y no importa que ese hombre haya recibido el precio de su gran fatiga: la verdad es que no hay recompensa bastante para quien lleva su energía bienhechora más lejos de lo que todo un pueblo pudo esperar. (Citado por Flora Ovares et allii: La Casa Paterna, Escritura y nación en Costa Rica, 1993, p. 119)
 
El proyecto oligárquico-liberal de creación de la nación como comunidad imaginada estaba marcado por una doble contradicción. Por un lado la oligarquía cafetalera era una clase social subalterna en relación a las fuerzas internacionales que controlaban el mercado mundial del producto de exportación más importante, por no decir, el único, el café, ya que el otro rubro que comenzaba a pesar en las exportaciones del país, los bananos, jugaba un papel muchos menor, dado el hecho de que su producción se llevaba a cabo en un enclave dominado por el capital extranjero y más ligado a la economía norteamericana que a la costarricense. Por otro lado, a nivel interno, la oligarquía sólo estaba interesada en asugarse el apoyo de las clases dominadas, el campesinado y los nuevos sectores populares proletarizados, sin permitirles una verdadera participación en los beneficios económicos y en la vida política.
 
Aquella democracia que comenzaba a implantarse a finales del siglo XIX era una democracia muy reducida. Las formas de control establecidas por la clase hegemónica aparecen con suma evidencia si contemplamos el sistema de elecciones. El historiador J. R. Quesada anota, comentando el manual deInstrucción Cívica, redactado en 1898 por Ricardo Jiménez –quien más tarde será tres veces Presidente de la República, entre 1910 y 1936?, que “la soberanía se ejerce por el sufragio universal, derecho acordado a todo ciudadano”. Mas no todos los habitantes del país podían gozar del rango de ciudadanía. Según criterio expresado en el manual: “… el vulgo, la mayoría de la población, no tiene luces suficientes para discernir cuáles, entre los hombres públicos, son los que mejores garantías dan de manejar bien los intereses del país”. Otro de los grupos que queda igualmente excluido del cuerpo de electores es el de las mujeres. Según reza el manual, “… la mujer, por su organización cerebral, es un ser esencialmente sensible y apasionado y por lo mismo es incapaz de guiarse por la idea de justicia, que es la base del buen gobierno de los pueblos”. Por ello “el hogar doméstico y no la plaza pública es el lugar propio para el ejercicio de las actividades femeninas… [La mujer] no debe compartir con los hombres el poder público”, concluye perentoriamente Ricardo Jiménez. (Citado de Quesada Soto: Uno y los otros, p 25-26).
 
A esto hay que agregar que para ser elector y elegible se debía poseer además cierto capital, ser casado y mayor de 25 años, así como saber leer y escribir. Sólo esta última condición excluía del electorado, a finales del siglo XIX, a un 80% de la población que era analfabeta. Se trataba pues de un sufragio universal extremadamente reducido. Esto evidentemente, para la época, no era exclusivo de Costa Rica, justo es anotarlo.
 
Pocos años después del elogio de Pío Víquez al puente de Birrís y a Keith, su constructor, la literatura comienza a tematizar en cuentos, novelas y obras de teatro, así como en el ensayo, el malestar que la presencia y la influencia del capital extranjero y de sus representantes provoca en sectores de la clase dominante. Algunos ensayistas adscritos a la oligarquía cafetalera misma veían en la presencia extranjera, y el nuevo sistema de valores que había traído consigo, una seria amenaza a los valores tradicionales. Carlos Gagini, por ejemplo, formula ese malestar en uno de sus ensayos, que lleva el significativo título de Don Quijote se va:
 
Honradez, honor, equidad, patriotismo, compasión, abnegación y nobleza son palabras anticuadas o vacías de sentido en nuestra lengua… Los caballeros de antaño tenían un Dios y una dama; los mercaderes de hoy no tienen más dios que el dinero, más patria que el mostrador ni más dama que la bolsa… Mi reinado ya pasó, ahora comienza el de Sancho. (Citado de Quesada Soto: Uno y los otros, 48).
 
 

Un paréntesis progresista: la presidencia de González Flores

 
A raíz de la primera guerra mundial, el Estado costarricense se quedó prácticamnete desfinanciado y al borde de la bancarrota al cerrársele al café el mercado inglés. A mediados de 1913 se debían realizar elecciones legislativas y presidenciales según el tradicional sistema indirecto. En la contienda participaron tres candidatos. Empero ninguno logró asegurarse una mayoría absoluta de votos, razón por la cual se puso en marcha el característico sistema de acuerdos y componendas que terminaría llevando al poder a un joven político como candidato de transacción. Se trataba de Alfredo González Flores, un joven licenciado en derecho, de apenas 37 años. González Flores se revelará pronto como un estadista de talla y de visiones muy avanzadas para la época. Según palabras del historiador Rodríguez Vega, entre 1906 y 1914 el país había vivido el apogeo del liberalismo, siendo gobernado alternativamente por Cleto González Víquez y Ricardo Jiménez, dos brillantes políticos liberales de la llamada generación del 89. “Pero, de pronto, la Primera Guerra Mundial sacude nuestro enfoque aldeano de los problemas del país. Resulta que no basta con el respeto a la ley, la tolerancia y el amor a Costa Rica: hay que hacer frente a las situaciones con nuevos instrumentos, y, sobre todo, hay que poner cuidado a una creciente injusticia social.” (Rodríguez Vega: Los días de don Ricardo, 1978,p. 71).
Una de las primeras medidas del nuevo presidente fue la creación del Banco Internacional de Costa Rica. En el decreto correspondiente se estipula: “Los miembros de la Junta Directiva desempeñarán su cometido con absoluta independencia del Poder Ejecutivo, y serán por ello los únicos moralmente responsables de la Administarción del Banco. (…) Serán inamovibles, salvo el caso que llegare a ejercitarse contra ellos alguna responsabilidad legal. El Poder Ejecutivo no tendrá intervención alguna en la administración del Banco. La Secretaría de Hacienda se limitará a vigilar la marcha general del Establecimiento.” (Ibidem, p.72)
Las claras ideas políticas y económicas del nuevo presidente se revelan en su mensaje al Congreso Constitucional el 1º de mayo de 1915:
 
El Estado, en el sentido moderno de la dicción, no es ya el simple gendarme que dicta las leyes o reglamentos para las relaciones de convivencia entre los ciudadanos y que con mano armada obliga a cumplirlos. Si concretáramos la misión del estado a tan mezquino concepto, el resultado que sobrevendría sería una lucha de todos contra todos, obteniendo al cabo la victoria los más económicamnete fuertes y astutos sobre la gran mayoría de ciudadanos. Ello daría origen a una tiranía social y económica, mil veces más odiosa que los despotismos que consigna la historia. (Ibidem, p.72)
 
El Presidente tiene muy claro, y así lo dice a los diputados, que “… el dinero es el principio vital del organismo político. Quien controla las finanzas del Estado, tiene en sus manos el control de la política nacional.” Ni diputados ni ciudanos estaban acostumbrados a escuchar este lenguaje claro y esos lúcidos análisis de los males que aquejaban al país. Otra propuesa concreta de González Flores es la necesidad de introducir una tributación directa, pues los impuestos indirectos son injustos: “La forma más eficaz y justa de contribución es sin duda el impuesto directo sobre lo que cada uno gana, sea cualquiera la fuente de esa ganancia. No se puede negar que a medida que crece la ganancia o la entrada del individuo, crecen por regla general, sus exigencias a los servicios del Estado.” Su concepto de democracia es también sorprendentemente moderno y habrá dejado perplejos a los liberales de la época, acostumbrados ya a detentar el poder sin cuestionamientos.
Aboga claramente por una nueva organización del Estado y un desarrollo de la política y del país que de haber sido realizados habrían llevado el país hacia una avanzada democracia ecónomica:
 
Los conceptos de República y Democracia han sufrido un cambio de interpretación: la igualdad política, el sufragio universal, las garantías individuales, la alternabilidad en el poder, la responsabilidad del Gobierno, la libertad de comercio e industria y muchas y bellas conquistas más, no son el todo para asegurar el bienestar del pueblo. Al considerar el derecho político del ciudadano como el bien supremo, al creer que con el derecho del voto el Estado ha dado a sus ciudadanos todo lo que pueden exigirle, el creer que con sólo ello se les ha asegurado la verdadera igualdad, se ha desconocido enteramente la importancia, infinitamente superior para la vida de cada uno, de las diferencias sociales, de la distribución desigual de los bienes de la fortuna…. (Ibidem,  p.74)
 
La democracia tiene igualmente, en palabras de González Flores, una importante dimensión social, la cual determina el equilibrio justo de obligaciones y derechos entre los ciudadanos, según la capacidad de cada uno. Sus palabras anuncian ya casi los eslóganes socialdemócratas de la segunda mitad del siglo XX, en tiempos del Estado del bienestar: cada cual debe contribuir a la construcción y mantenimiento de la sociedad según sus capacidades y recibir según sus necesidades; los hombros más fuertes deben soportar las cargas más pesadas.
 
En teoría, la democracia, al creer que con la igualdad política da a todos unos mismos derechos, no puede imponer sino iguales obligaciones. El pudiente como el desheredado tienen el mismo voto; ambos tienen los mismos deberes. Pero así como el derecho político, igual en apariencia, resulta de valor más alto para el privilegiado en el sentido social y económico, así también el deber y las obligaciones para con el Estado y con la sociedad no pueden ser iguales absolutamente, sino que lo deben ser de modo relativo: más graves para los favorecidos, y en proporción con los recursos y las capacidades de cada cual. (Ibidem, p.75)
 
Unas ideas tan avanzadas, sobre todo en lo concerniente a las políticas económicas y a los aspectos de justicia social y económica, en el contexto institucional de un Estado todavía en gran medida oligárquico-patrimonial, es obvio que dificilmente podían fructificar. González Flores era el líder del Partido Republicano en la provincia de Heredia, pero eran dos expresidentes los que controlaban el partido a nivel nacional. En el fondo nunca dispuso de un apoyo claro de los diputados republicanos. En la votación decisiva sobre las leyes de tributación directa, algunos de ellos apoyaron los proyectos de ley, pero el jefe y caudillo del partido, el expresidente Máximo Fernández, vota en contra; sus palabras en aquella ocasión resumen claramenteel problema político en que se hallaba el presidente: “En cuestiones políticas, todos los republicanos somos como un solo hombre. En cuestiones económicas cada cual opina como le parezca.”
Además los dos grandes peródicos, La Información y La Prensa Libreestaban en contra de las ideas del joven presidente, pues representaban y defendían los intereses económicos y políticos de la oligarquía. A principios de 1917, cuando la campaña política para las nuevas elecciones apenas se iniciaba, el paréntesis progresista y visionario que el gobierno de González Flores representaba, acabó por medio de un golpe militar. El 27 de enero, Federico Tinoco, Ministro de Guerra tomó el poder. Al día siguiente La Informacióninforma alegremente que “el movimiento político de ayer ha tenido buena acogida”. Y en el editorial del 1º de enero se regocija constatando: “Dichoso país aquel en que las grandes crisis pasan de una manera tan serena, tan ordenada, tan tranquila…” Los grandes líderes políticos declaran prontamente su apoyo al nuevo gobierno de facto. Pero la dictadura será una catástrofe no sólo para el país como tal, sino también para las clases dominantes mismas que habían visto con beneplácito su llegada. La dictadura durará sin embargo dos años y medio.
El historiador Tomas Soley da el siguiente juicio perentorio de esa experiencia política: “Treinta meses de esa clase de finanzas -si tal nombre merecen las actividades de aquel Gobierno contra el Tesoro del Estado y contra la economía nacional- habrían de dejarnos sin circulación monetaria, con el fardo de una deuda injustificable, reatados por contratos onerosos y con el bochorno histórico de procedimientos administrativos reñidos no sólo con los sanos principios económicos y hacendarios sino también con los de la ética.” (citado de Rodríguez Vega, p. 93)
 
Sin embargo, un efecto colateral positivo de esa experiencia dictatorial es que esa será la última vez que las clases dominantes del país echaran mano de los militares para solucinar sus problemas políticos. Pero hay sobrada razón para deplorar el hecho de que no se aprovecharan las ideas visionarias de González Flores.
 
 

Los nuevos sectores sociales y el surgimiento del discurso dialógico

Con el desarrollo de las actividades económicas, centradas especialmente en la producción de café y bananos para el mercado mundial se da, por un lado un ensanchamiento de las funciones del Estado, y por otro, la aparición de nuevos sectores sociales. Una de las nuevas e importantes actividades del Estado se trasluce en la marcada preocupación por el mejoramiento de la educación. A ese efecto se funda la Escuela Normal en 1914, que vendría a paliar la falta de una institución de enseñanza superior en el país, ya que la vieja universidad decimonónica había sido clausurada en 1888, sobreviviendo apenas algunas escuelas profesionales como las escuelas de Derecho y de Odontología.
Este proceso de ampliación del sector público acarrea la aparición de nuevas capas medias. Aparece igualmente una emergente clase obrera, tanto agrícola como manufacturera o artesanal urbana. Este nuevo sector social es en gran medida el resultado de la proletarización de los antiguos pequeños campesinos propietarios que perdieron sus tierras, generalmente por deudas contraídas con la oligarquía que controlaba no sólo “el beneficio” del café –es decir la sencilla, pero lucrativa elaboración del grano para la exportación?, así como su comercialización, sino también, y esto es, sin duda, lo más importante, el crédito a nivel nacional. Otros miembros del nuevo proletariado eran los antiguos transportistas marginados por el ferrocarril, así como los artesanos arruinados por las actividades de importación, controladas ellas también por sectores de la oligarquía especializados, que poco a poco se irán convertiendo en una burguesía compradora. Estos nuevos sectores sociales generarán paulatinamente una conciencia de clase. De ellos dice el historiador V. H. Acuña:
 
“…esos grupos populares urbanos representaban distintas situaciones socioeconómicas en un abanico que iba desde el pequeño patrono hasta el asalariado… No obstante esa diversidad, fueron forjando una identidad común como si fueran una clase social: se autodenominaban ‘obreros’ o ‘proletariado’ y… descubrieron su identidad de clase en la práctica y en la confrontación con ese adversario que ellos denominaban claramente ‘capital’ o ‘burgués’… En fin, esa ‘plebe’ urbana terminó configurando su propia cultura y conciencia social, ocupando determinado lugar y cumpliendo determinadas funciones dentro del sistema hegemónico de la oligarquía cafetalera…” (Acuña 1986,: 11, citado de Quesada Soto:Uno y los otros, 74)
 
Un importante sector de las capas medias se solidariza con las clases proletarias y articulará pronto el cuestionamiento de la hegemonía oligárquica, implícito en la incipiente conciencia de clase de los sectores populares. Cuestionamiento que con el tiempo se expresará en la organización del movimiento obrero y en la fundación de partidos políticos de clase.
 
Mas volvamos al primer 1o. de mayo y a algunas de las ideas que se debatían entonces. La celebración fue organizada por la asociación, significativamente llamada Centro de Estudios Sociales Germinal, inspirada en el título de la novela de Zolá y fundada un año antes, en 1912, por un grupo de jóvenes de ideas socialistas y libertarias, entre los cuales figuraban Joaquín García Monge, Carmen Lyra, Rómulo Tovar, José María Zeledón y Omar Dengo, entre los más conocidos.
Este último recuerda en un artículo intitulado Mi anarquismo claudicante, publicado algunos años más tarde, las ideas que le animaban en su juventud, cuando el Centro Germinal fue fundado:
 
La simpatía con que se me honraba, no obstante ser escasa mi edad y excesiva mi ignorancia, me permitía ser oído por los trabajadores. (…)Toda mi juventud estaba, con su ardor de fuego, allí palpitante y bella.
Ella se expandía en una vasta ansiedad de luz, y su sed se llenó con el fulgor rojo de aquel fuerte pensamiento demoledor que agitaban los Bakounine, los Kropotkine, los Gorki, Luisa Michel y cien príncipes más de la Revolución Social. Era la hora del anarquismo en el mundo y las más fuertes juventudes empuñaban el pendón rojo. En el Continente, los Lugones y los Ingenieros, en La Montaña, nos habían dado con Ghiraldo y Angel Falcó, el ejemplo. ¿Qué hice yo allí? Leer, pensar, soñar, amar la justicia y la libertad; creer y, lo confieso, hasta blasfemar. En el fondo, buscar en mi conciencia, poblada de lampos rojos, al hombre que en mi pudiera servirle a su país, sencillamente, en el corazón de los humildes entre los cuales nací con el dolor con que tantos de ellos vienen al mundo. (Omar Dengo, Colección Quién fue y qué hizo, presentado por E. Gamboa, p. 197-8)
 
El discurso a los trabajadores fue pronunciado por José María Zeledón, el joven ácrata que, en 1903, una década antes, había ganado el concurso de la nueva letra del himno nacional, para pesar de muchos políticos oligarcas. Este disgusto se trasluce en el hecho de que, en contra de lo que estipulaban las reglas del concurso, según las cuales la letra ganadora sería declarada himno nacional, el decreto sólo se emitirá en 1949. (M. Amoretti: Debajo del canto, 1987, p. 17). En el discurso de Zeledón se respira cierto aire tolstoyano; pero el internacionalismo y la reivindicación social están muy claros.
La fecha de este día pone el encanto de una primavera en los corazones de los visionarios del bien. Los campos están florecidos. También las almas de los tributarios de la miseria sienten hoy el florecimiento de sus esperanzas. Allá en los centros de la vieja Europa, sobre los cuales zumba y pasa un viento de desastre, millones de hombres se alzarán hoy, como todos los años, del polvo de sus pesadumbres, para pasear al sol la majestad de sus anhelos. Es una hermosa fiesta del internacionalismo obrero que simpatiza con la vida solidaria de los trabajadores del mundo.(Victoria Garrón de Doria: José María Zeledón,Colección Quién fue y qué hizo, 1978, p. 36)
 
García Monge, por su parte, pronunció una larga, instructiva y pedagógica conferencia acerca de la historia del trabajo, su relación con la historia patria y la proyección internacional de la celebración del 1o.de mayo. Entre otras cosas dijo:
 
Esto de mirar con desdén el trabajo de las manos y a quienes honradamente de él viven, es un prejuicio de las gentes letradas, prejucio del cual no escaparon ni siquiera los contemporáneos de Sócrates. (…) El trabajo se ha hecho aborrecible desde que el capital lo esclavizó convirtiéndolo en objeto exclusivo de explotación. El día en que el trabajo rompa las cadenas del capital acaparador, codicioso y cruel, saldrá de su tristura y envilecimiento, para convertirse en la fecunda y alegre actividad que antes fue.
 
Más adelante relaciona el Día del Trabajo con la historia nacional y centroamericana:
 
Señores: Para el trabajador centroamericano el 1o. de mayo es doblemente significativo en lo que importa a su condición de hombre y artesano. En un día como éste, hace 56 años, el filibustero yanqui desistió de su primera tentativa de conquista armada del territorio que nuestros mayores nos heredaron. Y de entonces acá el 1o. de mayo destaca en el horizonte de nuestra historia como una estrella luminosa solitaria que advierte a las generaciones nuevas que la libertad tiene sus eclipses y hasta sus ocasos, que debemos estar alerta, porque detrás de los montes nativos aletea el águila de la rapiña extranjera y que si bien no llega al son de tambores y clarines, resplandece en el oro de las monedas y a paso lento se adueña de las conciencias de los políticos corrompidos, y legalmente, de nuestro territorio. (García Monge: A propósito del 1o. de mayo, Obras Escogidas, 243-45)

En las décadas siguientes los jóvenes del Centro Germinal continuarán siendo una de las fuerzas principales del pensamiento crítico en Costa Rica. Como se ha indicado más arriba, García Monge fue el fundador y produjo, prácticamente solo y durante cuatro décadas, su Repertorio Americano, un semanario de clara vocación continental, a través del cual ponía en contacto a laintelligentsia crítica de Costa Rica con el resto de América Latina y aún más allá. Carmen Lyra, maestra, narradora, ensayista y polemista, convirtió su casa en un centro de encuentros y en un hervidero de ideas. Juntos fundaron La Universidad Obrera, y en los años 20 y 30 fueron igualmente fundadores, miembros o simpatizantes de partidos políticos doctrinarios como el Partido Reformista, La Alianza de Obreros Campesinos e Intelectuales y, finalmente en 1931, del Partido Comunista de Costa Rica. Frente a las críticas de políticos y pensadores de la oligarquía acerca de las ideas exóticas y extrañas a Costa Rica que representaba la ideología de este último partido, Carmen Lyra contestó:
 
Mientras yo estuve pegando piadosos remienditos sociales en la escuela y escribiendo prosa romántica con metáforas inofensivas para la injusticia que me rodeaba, tuve fama de ser excelente persona de buen corazón y una “fina” escritora. Pero cuando me di cuenta que había que hacer algo más que remiendos sin trascendencia, que había que luchar directamente contra el régimen capitalista, causa de la situación económica y social dentro de la que vivía, que había que escribir contra intereses creados y me metí de lleno en el Comunismo que ataca el origen del mal, entonces la gente cambió de opinión con respecto a mí: ahora dicen que estoy loca, que tengo envidia del bien ajeno, que ya no escribo como antes, que he decaído en el arte de la liteartura. Y cuando el gobierno me echó de la escuela por comunista, felicitaron al ministro de Educación Teodoro Picado por ese paso, porque consideraban mi influencia peligrosa en los niños. (Lyra: “¿Es el comunismo una doctrina exótica en Costa Rica?” anexo a Relatos escogidos, 1977, p.475).
 
 

Escuela y democracia

Los representantes del pensamiento crítico saben valorar los logros a los que los idéologos y políticos de la oligarquía habían llegado en el terreno de la educación. Pero en sus escritos es fácil descubrir una actitud crítica frente a la limitación de esos progresos y la necesidad de hacerlos extensivos a sectores mayores de la población. Así, García Monge que había sido enviado a formarse en el Instituto Pedagógico de Chile a principios de siglo, al evaluar la obra de Mauro Fernández no escatima la valoración positiva, pero tampoco le tiembla el pulso para anotar los aspectos negativos de su labor: “Antes de ser ministro: (…) En el Instituto (Universitario) dio conferencias sobre educación moral y cívica. Algo oportuno, porque nuestro pueblo salía entonces de la postración en que le sumió la dictadura de Guardia. En esas conferencias, ya pedía que los maestros fueran los agentes de la democracia. En el Ministerio de Instrucción Pública, estos dos rasgos típicos de don Mauro: su entusiasmo por la causa de la educación popular y su laboriosidad. Su gestión ministerial: sacar la enseñanza de la rutina, de la trilla memorizante en que vivía. Consecuencias: Estableció la Escuela Normal. Importó para eso profesores extranjeros. Reformó la legislación escolar de Costa Rica sobre la base de la de Argentina, de los códigos de Sarmiento.” (García Monge: Obras Escogidas, p.123)
Después de ensalzar muchos otros logros, tales como la organización de las bibliotecas pedagógicas, un almacén escolar, la redacción de los programas que llevó a cabo personalmente, la fundación de la revista El Maestro, y un sinfín de iniciativas más, recuerda que a Mauro Fernández se le acusa de haber centralizado la enseñanza y dado muerte a la universidad. Cuando el centralismo del ministro hizo que se fundara la Escuela Nueva, la primera en introducir en el plan de estudios el canto, la gimnasia y el dibujo, Fernández se negó a subvencionarla, a sabiendas de que su fundador, Miguel Obregón, no sólo ponía la casa y pagaba todos los gastos y que además financiaba el salario del otro maestro. Más tarde cedió y pagó un peso por alumno, 60 en total. Su generosidad caballeresca le lleva sin embrago a terminar sobre una nota positiva: “Sin embargo don Mauro llevó a que visitaran la Escuela Nueva a los profesores que había traído del exterior para la Normal.” (Ibidem, p.127-8)
Roberto Brenes Mesén, que fue otro de los grandes educadores del país y también director de la Normal, luchó incansablemente por la escuela. A raíz de una polémica, en la cual algunos políticos propusieron cerrar escuelas para construir caminos con los medios economizados, su pluma se enciende de viva indignación: “Nos refieren que en el Congreso, o en algún otro lugar, se ha declarado que hay opiniones capaces de aconsejar la clausura, por algún tiempo, de colegios y escuelas, a cambio de dedicar el dinero nacional que consumen, a construir y reconstruir caminos.” (Ema Gamboa: Omar Dengo, Colección Quién fue y qué hizo, 1971, p. 117)  Y con idealismo de maestro, alega en varios artículos:
Razones de economía, nada justifican. Economizar en escuelas es economizar en civilización, y ningún pueblo de la tierra tiene derecho a hacerlo. Gastar pródigamente en educación, no es una cuestión de finanzas, sino una cuestión de honor, de decoro nacional. ¿Se quieren, por ejemplo, buenos caminos?, pues hay que abrir caminos de luz en el alma popular para que circulen por ellos la iniciativa y el desinterés, y entonces los caminos invisibles se plasmarán en la tierra ávidos de encauzar energías. (…) Si existiera el fracaso de la escuela costarricense, no sería el fracaso de un grupo de hombres, blanco o negro, ni el de un sistema de ideas, viejo o nuevo, sino el fracaso de la cultura del país (Ibidem, p. 172 – 3)
 
La acalorada diatriba contra la inconcebible idea de clausurar escuelas desemboca más bien en una primera formulación para la fundación de escuelas vocacionales para artesanos: “El estado social obrero en nuestro país reclama de manera urgente la creación de un centro educativo, que venga a concentrar las actividades intelectuales de los artesanos, sobre una base científicamente sistematizada, en lo que se refiere al aprendizaje de los oficios con que ellos aspiran a engrandecer su vida y la vida nacional.” (Ibidem, p. 175)
 
Conocía de cerca la situación de los campesinos, pues en abril de 1918, al renunciar a su cargo de profesor en la Escuela Normal, junto con la mayoría de sus colegas, como protesta por la distitución del director Joaquín García Monge por parte de la dictadura de Tinoco, había aceptado un trabajo de maestro en una hacienda para poder mantener a su familia. A este respecto escribió:
La situación de los campesinos plantea al país el mayor problema. Ignorarlos es ignorarnos., ignorar la historia, desconocer la actual situación y carecer de un presentimiento siquiera elemental acerca del porvenir del país. Y esta ignorancia acarrea incapacidad de adiestramiento para el progreso, vale decir, incapacidad de educación y, por lo mismo, de autonomía. (…) …en una tarea de reconstrucción, lo primero sería rectificar la escuela rural, para sustituir las instituciones simuladas con que hemos venido engañándonos. Omar Dengo: Escritos y discursos, citado de Gamboa, Ema: Educación en una sociedad libre, 1976, p. 116)
 

Antiimperialismo

 
Mas la trayectoria del pensamiento crítico no es siempre unívoca. En el mismo autor se pueden rastrear, por ejemplo, posiciones que por un lado recuerdan la actitud de positiva admiración frente a la modernidad nortemaericana, típica de un Sarmiento, y por otro lado, posiciones más cercanas al arielismo de un Rodó, o a las ideas de José Martí. Tal es el caso de Mario Sancho, quien en una polémica en el Repertorio Americano, escribía desde Boston:
 
Muy interesante me parece también lo que Ud. dice de la pasión del americano por los negocios, que allí se achaca siempre a la insaciable codicia de dinero. El europeo, formado en una vieja tradición de cultura que lo capacita para el disfrute del ocio noble que dijo Rodó, y al latino-americano, que sigue en esto y en muchas otras cosas servilmente la ideología del europeo, se les hace difícil entender el afán perenne en que vive esa gente. Las tonterías que se han escrito sobre el avarismo yanqui serían bastantes para llenar muchos volúmenes, pero ya no contentan más que a los espíritus superficiales o dominados de odios o prejuicios de raza. (A propósito de la civilización maquinística, publicado en Epertorio Americano en julio de 1929citado aquí de Luis Ferrero: Ensayistas costarricenses,1972, p.190)
 
Su admiración por los inventos de la técnica moderna no conoce límites. En un artículo sobre Henry Ford, sus fábricas y su filantropía escribe Mario Sancho:
La fábrica de este magnate del automovilismo en Detroit es una de las siete maravillas comtemporáneas y representa uno de los más grandes esfuerzos de la energía disciplinada. Ella contiene muelles, altos hornos, ferrocarriles, forjas de acero, y todo lo que hace falta para realizar el milagro de convertir en carros el mineral bruto en el espacio de 33 horas, 8.750 al día, 6 cada minuto!
 
Y después de un cursillo abreviado sobre el sistema inventado por Henry Ford y su funcionamiento, concluye perentoriamente:
Los intelectuales de este nuestro siglo tendrán que aceptar la civilización técnica igual que los del siglo XIX los ferrocarriles, y reconocer con el italiano Giovannetti que cité antes “que en ella triunfa, no la brutalidad de la materia, como creen los superficiales, sino la intelectualidad sostenida por el espíritu, una intelectualidad acre, heroica.” (Mario Sancho: Viajes y lecturas 1972, p. 105)
 
Estos artículos son anteriores a la crisis del 29. En 1931 Sancho abandona Estados Unidos, donde ha vivido varios años y después de pasar por México, publica en el Repertorio un artículo titulado Los millonarios y la crisis (Epílogo a una vieja controversia):
Esta pena agravó la que sentíamos de dejar Boston. A Boston debo yo además las mayores alegrías de mi vida y placeres de orden intelectual difíciles de olvidar …
Y si grande fue el deslumbramiento de los ojos, no lo fue menos el del espíritu que después de vivir tanto tiempo en tierra extraña sentíase reintegrado a la tardición propia y como acogido a la casa de sus mayores, que no otra cosa es para nosotros, los hispanoamericanos, la cultura mexicana …
Y qué decir del gusto de volver a ver las artes y los oficios que uno creía perdidos para siempre, de disfrutar de nuevo de las cosas hechas a mano, a fuerza de paciencia y amor a la obra perfecta: las tallas de piedra y madera, la cerámica que revive en nuestros días las glorias de Talavera, las lacas de Michoacán que recuerdan las maravillas japonesas, los sarapes fabricados por el indio de la cálida Oaxaca en su pequeño telar, con tanto sentido del color y del dibujo, y los preciosos cestos que el otro indio de la frígida Toluca hace del tul de las lagunas!
 
Y termina su artículo con una diatriba contra los magnates de la industria norte-americana que en los momentos difíciles de la gran crisis han abandonado cobardemente a sus obreros:
A mí ciertamente se me antojaban menos tristes los poblachos indígenas y los obradores urbanos de México que las fábricas desiertas de los Estados Unidos. Sentía lástima por las multitudes trabajadoras del gran país vecino, lástima recordando la ramplona satisfacción de su pasada grandeza y las angustias de su presente estado de miseria, lástima por ellas y odio por los patrones egoístas que las habían echado a la calle, al hambre y a la desesperación; sí, odio por aquellos líderes de la industria que después de jactarse tanto de haber elevado el standard de la vida del obrero lo abandonaron a su suerte a la hora del peligro, imaginándose a cubierto de toda responsabilidad y en paz con la conciencia con ofrecerle un plato de sopa como se ofrecía antes a los mendigos a la puerta de los conventos medioevales. (Ibidem, p. 180)
 
Estas ideas de Mario Sancho quizá parezcan a primera vista un posición sinuosa o insegura frente al capitalismo y el imperialismo, pero podrían ser entendidas también como expresión de un pensamiento antidogmático, capaz de juzgar sin pre-juicios los avatares del desarrollo de la sociedad norteamericana. Este aspecto de moderación en Mario Sancho me parece ser igualmente una característica bastante general del pensamiento crítico costarricense. Esta es la actitud en García Monge: firme y consecuente en sus principios, pero capaz de una alto grado de tolerancia con respecto a las ideas de sus contrincantes y críticos. Para nmuestra basten un par de ejemplos sacados de su correspondencia: Carta a Waldo Frank, 30 de marzo de 1928:
También como americano del Sur me reconfortan mucho sus palabras. Para nosotros es una gran cosa que Ud. nos ayude a combatir el imperialismo financiero de Wall Steet. La intervención de los Estados Unidos en Nicaragua es algo cruel, horrible, injusto y muy deshonroso para su América. En Nicaragua hay hombres honrados con quienes podrían entenderse muy bien los Estados Unidos sin recurrir a las armas ni a la desigual y deshonrosa contienda en que ahora están metidos. El asunto de Nicaragua puede convertirse para los estados Unidos en un nuevo Sarajevo. Crece de día en día la animadversión a los yankis y si la intervención americana en Nicaragua no cesa, pronto vamos a tener a los Estados Unidos en guerra abierta con los estudiantes y los obreros de la América Latina. (Cartas selectas de Joaquín García Monge, p.61-62)
 
En una carta de 27 de octubre de 1933, a Mrs. G. A. Dalrymple, de New Jersey, que ha decidido anular la suscripción al Repertorio Americano, a causa del antiimperilaismo que en su opinión se respira en él, García Monge le explica detenidamente las razones y los matices de sus posiciones políticas y la firme decisión de continuar en esa línea, aunque tal actitud le cueste suscripciones, que buena falta le hacían pues jamás recibió apoyo económico oficial alguno:
 
Siento mucho que no quiera seguir más como suscritora al Repertorio Americano. Nos interesa a los americanos del sur explicar con claridad cómo vemos y sentimos las cosas desde fuera en lo que se relaciona con el imperialismo económico,  y a ratos político, de los Estados Unidos. Es claro, hay que decir las cosas con franqueza, sin miedo y a veces resultan duras. Nosotros no somos enemigos oficiosos de los Estados Unidos, no podríamos serlo de una nación de tan considerable importancia y valer en el mundo. Desconocer esto sería rídiculo e insensato. Desgraciadamente los Estados Unidos, como todas las naciones grandes y fuertes, tiene un grupo de banqueros y mercaderes codiciosos y rapaces y sin escrúpulos que no les importa esclavizar a los demás pueblos débiles con tal de que su banca y sus industrias prosperen.  Para ello conquistan, colonizan, esclavizan, hacen guerras y son crueles. Nosotros queremos a los Estados Unidos en lo que tienen de bueno y de ejemplar. Los condenamos sin miedo en lo que tienen de imperialistas y de malo. Ellos han contribuido, sus políticos al servicio de sus mercaderes rapaces, a la desgracia de Cuba, a la de Venezuela, a la de Haití, a la de Bolivia, etc. Donde han necesitado mantener tiranías e iniquidades que favorezcan sus negocios las han mantenido. Por eso los Estados Unidos con su fuerza se hacen detestables. A estos Estados Unidos imperialistas y crueles es a los que el Repertorio Americano ha combatido y seguirá combatiendo. (Ibidem, p. 99-100)
 
El marco que imponen las reglas de juego de los congresos sólo permite esbozar el perfil de una problemática. El caso de la aparición y desarrollo del pensamiento crítico en Costa Rica, someramente presentado en esta ponencia, evidentemente no se diferencia radicalmente de lo que ocurrió en otros países de nuestra América. Se trata de un pensamiento más utópico que revolucionario, más pacífico y tranquilo que instigador a la violencia. Trata de articular un discurso que da voz a los que el discurso monológico de las clases dominantes siempre se la había negado. Se hace presente no sólo en la literatura y el debate de ideas, sino también en la organización del movimiento obrero, en las luchas por la justicia social y económica, por la jornada de ocho horas, las garantías laborales y la legislación social y en la fundación y organización de partidos políticos de izquierda. Llama la atención la actualidad y calidez de muchas de las ideas expresadas por los intelectuales críticos que escribieron en las primeras décadas del siglo pasado. Esto se debe quizás al triste hecho de que las condiciones y problemas, contra los cuales reccionaron, siguen desgraciadamente sin haber sido definitivamente resueltos. Ojalá que los herederos de aquellos intelectuales críticos fuéramos igualmente visionarios y valientes.
 
 

Bibliografía

 
Amoretti, María, 1987: Debajo del canto, Editorial de la Universidad de Costa Rica,
San José Costa Rica.
Bajtín, Mijaíl: “Préface a Résurrection”, en T. Todorov, 1981: Le principe dialogique
            Editions du Seuil, París.
Bogantes Zamora, Claudio, 1990: La narrativa socialrealista en Costa Rica,
Aarhus University Press, Aarhus, Dinamarca.
Bogantes Zamora, Claudio, 1999: Lo fantástico y el doblæe en tres cuentos de Durán Ayanegui,
Editorial de la Universidad de Costa Rica, San José Costa Rica.
Gamboa, Ema, 1976: Educación en una sociedad libre, Editorial Costa Rica,
San José, Costa Rica
Gamboa, Ema, 1976: Omar Dengo, Colección Quien fue y qué hizo, Ministerio de Cultura,
San José, Costa Rica
Garrón de Doryan, Victoria, 1978: José María Zeledón, Colección Quien fue y qué hizo,
Ministerio de Cultura, San José, Costa Rica
Lyra, Carmen, 1977: Relatos escogidos de Carmen Lyra, Edición de Alfonso Chase,
Editorial Costa Rica, San José, Costa Rica.
Monge Alfaro, Carlos, 1978: Historia de Costa Rica, Librería Trejos,
San José Costa Rica.
Ovares, Flora, et alii,1993: La Casa paterna. Escritura y Nación en Costa Rica,
Editorial de la Universidad de Costa Rica, San José Costa Rica.
Quesada Soto, Alvaro, 1998: Uno y los otros, Editorial de la Universidad de Costa Rica,
San José, Costa Rica.
Rodríguez Vega, Eugenio, 1978: Los días de don Ricardo, Editorial Costa Rica,
San José, Costa Rica.
Sancho, Mario, 1972: Viajes y lecturas, Editorial Costa Rica, San José, Costa Rica.





Bio fornecida pelo palestrante.

Les écrits sur l'art et le journal de Delacroix; la critique d'art de Baudelaire – Celina Maria Moreira De Mello




Resumo:
Les écrits sur l’art et le journal de Delacroix ainsi que la critique d’art de Baudelaire font l’objet d’une réflexion comparatiste, qui révele une tension de deux champs discursifs paralleles, le champ du littéraire et le champ du pictural. Le découpage proposé met en relief des rapports de légitimation réciproque tout comme un certain flottement dans la réception de cet ensemble de textes. Une dissymétrie apparaît alors, qui fait de Baudelaire un critique d’art reconnu, mais enferme Delacroix dans le rôle discursif d’un peintre qui écrit. Une question sera posée en conséquence: quelles sont les instances qui légitiment l’artiste romantique?
Texto:

Les écrits sur l’art et le journal de Delacroix; la critique d’art de Baudelaire

Celina Maria Moreira De Mello

1. Les écrits sur l’art et le journal de Delacroix ainsi que la critique d’art de Baudelaire font l’objet d’un travail d’analyse comparée, qui révèle une tension de deux champs discursifs parallèles, le champ du littéraire et le champ du pictural, au XIXe siècle. La Littérature et la Peinture s’inscrivent à leur tour dans un champ plus élargi, aux frontières instituées par l’Esthétique, qui est celui de l’art; vaste champ qui se définit par des activités très différentes aux techniques et aux matériaux divers, tout comme par des valeurs en mutation, aux lendemains de la Révolution Française, de l’Empire Napoléonien et de la Restauration. La présente communication propose une réflexion comparatiste portant sur la construction du personnage social de l’artiste romantique, les valeurs en jeu dans les rapports entre le champ de la peinture et celui de la littérature dans la société française romantique et les instances de légitimation des nouveaux modèles esthétiques littéraires et picturaux du temps de Delacroix et de Baudelaire.

Il s’agit là d’un des thèmes qui se rattache à un Projet de Recherche intégrant une équipe de professeurs de l’Université Fédérale de Rio de Janeiro et de l’Université Fédérale de Minas Gerais, financé par le Centre National de Recherche du Brésil et qui a pour titre Texte & Image.

La Révolution française avait connu une expansion de l’usage du mot artiste. Celui-ci a alors comme référent une catégorie qui comprend trois sous-ensembles d’activités: premièrement celui des artisans, ensuite celui des interprètes, acteurs ou musiciens et finalement celui des peintres, sculpteurs et compositeurs qui jouissent du pouvoir symbolique que leur donne un savoir et un savoir-faire rattaché au domaine de l’esthétique.

Ce qui n’a pas manqué de provoquer des réactions indignées:

“Les histrions, les plus vils bateleurs, les artisans les plus obscurs, les décrotteurs même, prennent depuis quelque temps à Paris, le titre d’Artistes : on ne peut assurément pousser plus loin l’impudeur et la dérision” D’Hotel.

Dictionnaire du bon langage (1808) REY, Alain. Le nom d’artiste. ROMANTISME. REVUE DU XIXe SIÈCLE L’artiste, l’écrivain, le poète. No. 55, 1987: 5-22. p. 8

[Os histriões, os mais vis saltimbancos, os artesãos mais desconhecidos, até mesmo os engraxates, há algum tempo, assumem, em Paris, o título de Artistas: certamente não se pode exagerar mais na falta de pudor e no escárnio].

2. L’extension de l’usage du mot artiste est le signe d’ une aspiration générale à un statut social supérieur qui vient doubler le prestige social de l’artiste, personnage compris dans un réseau signifiant connoté positivement. Celui-ci renvoie au pouvoir de la création (du grec poïein) associé à un savoir qui se traduit par l’ordre du faire. Artisteest alors une catégorie qui comprendra le peintre, le sculpteur, le musicien, l’écrivain et le poète. Et dans ce contexte historique, artiste s’opposera à bourgeois. ( Rey, 1987: 12).

Le personnage de l’artiste romantique, tel que nous en avons hérité du XIXe siècle, est construit en France, sur des modèles parisiens, dans la période comprise entre le retour des Bourbon et les débuts de la IIIe République, grâce à des stratégies discursives de légitimation et à la mise en place d’un éthos particulier (Maingueneau, 1996; s.v. éthos). Pour être reconnu en tant qu’ artiste romantique, il est souhaitable, entre autres, d’exercer une activité de journaliste1 et de critique littéraire, d’appartenir à un groupe dont l’occupation la plus importante est celle de lire et d’écrire des poèmes, de bénéficier de l’appui d’un écrivain reconnu. Il faudra en outre adopter un mode de vie qui sera appelé d’abord “vie d’artiste”, pour devenir quelques années plus tard la “vie de bohème”.

La “vie d’artiste” se traduit par une certaine apparence, un “style débraillé et peu conventionnel” ( Martin-Fugier, 1998: 17), la fréquentation de certains lieux et un emploi du temps très particulier. C’est ainsi que “les lieux , c’étaient des ateliers, les chambres minables et les mansardes haut perchées, de préférence au Quartier latin” ( ibid). Les jeunes artistes désargentés font des vers, sont compositeurs, peintres ou sculpteurs. L’amitié, les flâneries et leurs interminables discussions dans les cafés du Quartier latin vont s’opposer aux activités bourgeoises, dites utiles. Le peintre et le poète romantiques partagent alors le même éthos.

Ainsi donc, quoique Delacroix et Baudelaire n’appartiennent pas tout à fait à la même génération, l’un étant né en 1798 et l’autre en 1821, nous leur retrouvons un air de famille qui permet de les réunir dans cette vaste tribu qu’est la catégorie de l’artiste romantique. Même s’il faut tenir compte du décalage de vingt ans qui les sépare, Les Fleurs du mal (1857) sont contemporaines des oeuvres de maturité du peintre, telles les trente-six toiles exhibées à l’occasion de l’ Exposition Universelle de 1855. Il est possible d’établir un parallèle, en ce qui concerne la légitimation de leur personnage social.

En outre, ce travail de réflexion permet de mettre en relief des stratégies de légitimation institutionelle, aussi bien du champ littéraire que du champ pictural, qui opèrent au moyen de ces textes, que pour faire vite nous appellerons “secondaires”. En fait, le Journal du peintre tout comme les Salons et les textes de critique d’art du poète se répondent en chiasme, puisque d’une part, ni le Journal de Delacroix, ni la critique d’art de Baudelaire ne sont considérés comme l’oeuvre majeure qui fait de l’un, un peintre (tableaux, fresques, gravures, croquis, dessins ) et de l’autre, un poète (Les Fleurs du mal), et que, par ailleurs, leur réception est inséparable de cette même oeuvre picturale ou poétique, qu’ils viennent, c’est le cas de le dire, seconder.

3. L’oeuvre écrite d’Eugène Delacroix (1798-1863) comprend d’abord un Journal, qu’il a tenu pendant de longues années, de 1822 à 1824 (Journal de jeunesse) et de 1847 à 1863 (Journal de l’âge mûr et de la vieillesse). Or en 1822, Delacroix est dèjà célèbre. Le peintre, âgé de vingt-quatre ans avait envoyé au Salon le tableau Dante et Virgile aux Enfers, qui attira l’attention du public et des critiques et fut acquis par le comte Forbin, directeur des Musées sous la Restauration, pour être exposé en permanence au musée du Jardin de Luxembourg, destiné par le comte ” à recevoir les meilleurs tableaux des peintres français modernes” (apud Chaudonneret, 1999: 31). Philippe Julian, dans sa biographie de Delacroix commente: “Ce tableau a exprimé le malheur qu’attendait la première génération romantique” ( Julian, 1963: 41). Delacroix est donc déjà associé – malgré lui, il faut bien le dire – à un éthos d’artiste romantique.

Dans son Journal de jeunesse, Delacroix note, sur des feuilles de papier cousues en petits cahiers de 20 X 14, presqu’au jour le jour, des idées qui pourront lui servir de sujets de tableaux, l’emploi de ses journées, tout comme ses progrès et ses rechutes dans une sorte de projet de réforme morale. Ce premier ensemble de cahiers commence le mardi 3 septembre 1822 et s’interrompt le 5 octobre 1824, un mardi également.

Le deuxième ensemble est écrit sur une série d’agendas de 40 X 13 cartonnés et correspond, d’après Hubert Damisch, à un tout autre projet: ” Cette fois il ne s’agira plus de réforme morale, ni de lutter contre la dissipation et les distractions vulgaires, de ne plus varier. Delacroix n’en est plus là: il a si bien pris son parti de lui-même qu’il ne songe plus qu’à jouir de soi avant tout.” (Damisch, in Delacroix, 1996: XIX).

Dans la période où Delacroix interrompt l’écriture de son Journal, il publie de nombreux articles et essais portant sur des sujets qui se rattachent à son activité de peintre. On y trouve une réflexion théorique sur les Beaux-Arts et le Beau, les théories classiques de l’imitation, et aussi de longs développements sur l’originalité. Ce textes ont été rassemblés et publiés en 1865 par Piron, son héritier universel et testataire, réédités en 1923 par Elie Faure ( ed. Crès) et réédités en 1988 ( ed. Séguier), sous le titre deEcrits sur l’Art.

Dans ces Ecrits sur l’Art, on trouve également des études biographiques et critiques sur Raphaël, Michel-Ange ou Le Poussin, entre autres. A la fin du volume, avec les Notes, se situe la fameuse lettre, dite “Lettre sur les concours”, adressée en 1831 au Directeur de L’Artiste, Eugène Houssaye, et qui est également publiée dans un complément auxEcrits sur l’art, Pensées sur les Arts et les Lettres, éditées par Séguier en 1998.

Aussi bien dans le Journal que dans ses articles sur l’art, Delacroix se penche volontiers sur les diverses possibilités qu’offre à l’artiste la différence entre les arts. Il y développe une réflexion critique sur les procédés poétiques qui rapprochent et ceux qui séparent la littérature et la peinture, dans la tradition humaniste du parallèle des arts. Il s’agit là d’un véritable genre littéraire, qui oppose d’une part la peinture et la poésie – la doctrine de l’Ut pictura poesis – et d’autre part la peinture et la sculpture – le célèbre problème du paragone (Lichtenstein, 1997).

Je ne m’attarderai pas outre mesure sur les Salons et les critiques d’art de Baudelaire (1821-1867), qui sont largement connus et appréciées. Le Salons de 1845, Le Salon de 1846, L’Exposition Universelle 1855 et L’oeuvre et la vie d’Eugène Delacroix, entre autres, l’associent, pour la postérité, à la légende de Delacroix. Une certaine tradition considère même que Baudelaire aurait été le premier à proclamer que le peintre inaugure la modernité en art. Karine Marie, dans sa présentation à l’anthologie des textes de critiques d’art écrites par Théophile Gautier et Baudelaire sur Delacroix, rappelle cependant que ce fut Gautier qui, en vérité, dix ans avant Baudelaire, pour louer le peintre, s’était servi de l’expression, le “premier des modernes2.

4. En ce qui concerne ces deux ensembles de textes, cependant, l’on observe une sorte de flottement de la réception, plus gênée ou pour le moins plus troublée, si l’on peut dire, par une activité d’écrivain chez Delacroix que par celle de critique chez Baudelaire. Aussi bien le Journal de Delacroix que les textes de critique d’art de Baudelaire appartiennent à des genres littéraires nouveaux, dans la perspective d’une poétique classique, aristotélicienne. Quoique l’oeuvre écrite de Delacroix, publiée de son vivant s’inscrive dans un genre inauguré par Xenocrate de Sicyone, au IIIe siècle et que leDictionnaire universel des littératures appelle d’un nom très vague: “textes de peintres”3. Et que, par ailleurs, cela va sans dire, les Salons de Baudelaire doivent énormément aux Salons de Diderot. Seul le Journal appartient à un genre assez récent à l’époque, naissant pratiquement avec le Romantisme.

Il y a une sorte d’unanimité de la réception à considérer que dans les deux cas, ces textes présentent une importance secondaire face à l’oeuvre principale des deux artistes. Pour André Joubin, par exemple, qui signe la préface de l’édition du Journal de 1931, les vingt-trois ans d’interruption qui séparent le Journal de jeunesse du Journal de maturité de Delacroix correspondent à une époque où Delacroix “n’a pas rédigé deJournal parce qu’il n’en a pas eu le temps, parce que pendant cette période, qui est celle de sa grande production, il a fait exclusivement son métier de peintre” (Joubin in Delacroix, 1996: 3); ce qui comme nous l’avons vu ne correspond pas tout à fait à la réalité.

Quant à Baudelaire, il faut bien dire que le critique d’art est connu avant le poète et lorsqu’il fait de Delacroix le thème privilégié de ses textes sur l’art, celui-ci est déjà depuis de longues années un peintre célèbre, dans la pleine possession de ses moyens. Et aussi que dans la Préface aux Oeuvres complètes de Baudelaire, publiées par Le Seuil ( 1968), Marcel A. Ruff fait remarquer que les poèmes de Baudelaire “ne représentent pas le dixième de ce qu’il a écrit” et que “ce sont bien elles [ les poésies] qui constituent le centre rayonnant et la raison d’ être de son oeuvre.”4

A propos de ces textes, cependant, un rappel de leur situation de communication s’impose. Or, jusqu’en 1830, la notion de “littérature” semble se confondre avec toute production imprimée. Et savoir “bien écrire” est l’un des traits qui distinguent les gens ayant reçu une certaine éducation. C’est dans cette perspective qu’il faut comprendre une certaine réception des textes de critique d’art de Delacroix et même de son Journal, attribués à un savoir-faire scriptural de classe. Delacroix lui-même d’ailleurs souscrit à cette conception “classique” de l’écriture quand il souligne les difficultés du métier de peintre face à une certaine “facilité” du métier d’écrivain. Le 23 mars 1854, il note dans son Journal: “La littérature. – Elle est l’art de tout le monde: on l’apprend sans s’en douter.”

En fait, c’est l’ écrivain romantique qui, tout en se battant pour une nouvelle esthétique et une remise en question des paradigmes classiques, a la prétention d’établir un nouveau canon, tout comme de “guider” le public dans ses goûts d’amateur. Une nouvelle poétique mettra en place une nouvelle hiérarchie des genres, où la poésie lyrique et intimiste l’emporte, suivie de près par le drame romantique et bientôt par le roman.
Dans ce nouveau contexte, l’activité critique de l’écrivain est nécessaire, non seulement pour que les écrivains puissent “expliquer” à un lecteur cultivé, c’est-à-dire formé dans la tradition classique ce nouveau paradigme esthétique, mais aussi parce que le public lecteur est de plus en plus nombreux. C’est ainsi que la critique littéraire, d’après les poètes qui fondent La Muse Française, en 1823, devra “saisir et […] déterminer les nouveaux rapports d’une littérature qui se modifie avec le type éternel du beau.” C’est ce même élargissement du public qui fera d’ailleurs très vite du roman un vrai “genre de masse”.

Sans tenir compte des divers groupes sociaux représentés par les lecteurs des journaux et des revues spécialisées dans la critique d’art, considérant donc – même s’il s’agit là d’une sorte d’abstraction – un lecteur moyen, il est possible d’affirmer que les lecteurs virtuels de Delacroix et de Baudelaire sont les mêmes. Le peintre, néanmoins, écrit en peintre consacré; tandis que le poète publierait ses textes sur l’art, tout au moins ceux qui précèdent la publication des Fleurs du Mal, dans la situation d’un postulant à un personnage de poète. Et il suffit de comparer les revues où paraissent les critiques, Delacroix publiant ses articles dans La revue de Paris et La Revue des Deux-Mondes, Baudelaire débutant dans Le Corsaire-Satan. Ce qui fait que la notoriété de l’un finira par contribuer à la notoritété de l’autre.

La nature des thèmes et le mode dont ceux-ci sont traités ne présentent pas de sensibles différences. Aussi bien pour le peintre que pour le poète, c’est le modèle pictural qui semble être mis en valeur. Nous pouvons alors supposer que la dissymétrie dans la réception de l’oeuvre critique de Delacroix et de Baudelaire s’explique en fonction de trois systèmes de valeur correspondant à des espaces-temps différents et qui présentent chacun un double aspect.

Dans un système de valeurs qui lui vient de la société Ancien Régime, Delacroix considère que :

1. la littérature est une source de thèmes et d’ inspiration pour la peinture; ceci est entièrement conforme à la tradition académique, mais Delacroix ne limite pas ses lectures aux anciens, ou aux classiques français, cherchant son inpiration également auprès de Goethe, Byron et Lamartine;

2. la peinture est un art supérieur à la litterature; la peinture exigeant à son avis des connaissances et des efforts absents de l’activité littéraire, non seulement il ne se voit pas comme “écrivain”, mais considère que l’activité scripturale lui prend du temps et nuit à son oeuvre picturale.

Baudelaire, dans la tradition romantique de la “transposition d’art”, fait de la peinture le grand comparant de la littérature. Mais aussi bien dans la même tradition, manifeste une oscillation ambiguë et proclame la valeur du peintre comme étant celle de “la grande poésie”. Théophile Gautier, dans sa Préface aux Oeuvres complètes de Baudelaire éditées par Michel Lévi, en 1968, en fait acte, dans une analyse qui nous permet de comprendre ce procédé de légitimation de l activité du poète et partant d’auto-légitimation:

Baudelaire, comme la plupart des poètes de ce temps-ci, où les arts, moins séparés qu’ils n’étaient autrefois, voisinent les uns chez les autres et se livrent à de fréquentes transpositions, avait le goût, le sentiment et la connaissance de la peinture. Il a écrit des articles de Salon remarquables et, entre autres, des brochures sur Delacroix, qui analysent avec une pénétration et une subtilité extrêmes, la nature d’artiste du grand peintre romantique.

Ce deuxième système correspond à un espace-temps romantique aux valeurs consolidées, où l’artiste créateur, c’est-à-dire poète au pouvoir créateur, se proclame grand artiste méconnu du public et jouit d’une (mé)connaissance sociale incontestable, moment où le roman et le réalisme, paradoxalement, connaissent un succès toujours croissant auprès du grand public. C’est là qu’il faut situer une réception qui fait de Delacroix un artiste, maniant avec autant d’aisance et de succès le pinceau et la plume (cf. date de publication de la première édition des Ecrits sur l’art de Delacroix).

Le trosième système est celui dans lequel nous nous retrouvons encore, celui de l’autonomie des arts, prônant leur spécificité irréductible à des “transpositions” , voire à des parallèles. Ici, Delacroix est un peintre qui a aussi écrit et Baudelaire est un poète dont les critiques d’art constituent une poétique. Ce système reprend alors en partie, d’une part la distribution des champs pictural et littéraire “classique”, d’autre part la vaste (et haute) catégorie romantique d’artiste. La première réduit Delacroix à son activité picturale. La deuxième élève la critique d’art de Baudelaire à un niveau poétique.

En ce qui concerne le Journal du peintre, la réponse ne serait pas aussi simple.

Conclusion:

Le découpage proposé met en relief des rapports de légitimation réciproque tout comme un certain flottement dans la réception de cet ensemble de textes. Une dissymétrie apparaît alors, qui fait de Baudelaire un critique d’art reconnu, mais enferme Delacroix dans le rôle discursif d’un peintre qui écrit. Une question sera posée en conséquence: quelles sont les instances qui légitiment l’artiste romantique?

BIBLIOGRAPHIE

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BOURDIEU, Pierre. Les règles de l’art. Paris, Seuil, 1992.

CHAUDONNERET, Marie-Claude. L’Etat et les Artistes. Paris, Flammarion, 1999.

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DELACROIX, Eugène. Journal; 1822-1863. ( 1931-1932-1980) Paris, Plon, 1996.

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LICHTENSTEIN, Jacqueline ( dir.) La peinture.( 1995) Paris, Larousse-Bordas, 1997.

MAINGUENEAU, Dominique. Les termes clés de l’analyse du discours. Paris, Bordas, 1996.

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MARTIN-FUGIER, Anne. Les romantiques; figures de l’artiste. 1820-1848. Paris, Hachette, 1998. Sobretudo os capítulos Trois itinéraires: Berlioz, Delacroix, Huho, 1820-1830 p. 47-90; Cénacles p. 91-136; Des romantiques excessifs. Le Petit Cénacle, 1830-1833 p. 137-167.

REY, Alain. Le nom d’artiste. ROMANTISME. REVUE DU XIXe SIÈCLE L’artiste, l’écrivain, le poète. No. 55, 1987: 5-22.

NOTAS AO TEXTO

1. Le modèle de cet écrivain qui est doublé d’un journaliste c’est Chateaubriand publiant des articles dans le Journal des débats.

2. Cf. MARIE, Karine. Avant-propos. In: BAUDELAIRE, Charles & GAUTIER, Théophile.Correspondances esthétiques sur Delacroix. Paris: Olbia, 1998. p. 14.

3. Cf. DICTIONNAIRE UNIVERSEL DES LITTÉRATURES. org. Béatrice Didier. Paris, PUF, 1994. vol. 3. s. v. peintres ( textes de).

4. BAUDELAIRE. Oeuvres complètes. Paris, Seuil, 1968. p. 8.

5. DELACROIX, Eugène. Journal; 1822-1863. ( 1931-1932-1980) Paris, Plon, 1996. p. 404.

6. La Muse française Paris, Ambroise Tardieu, 1823-24, I, p. 3 apud MARTIN-FUGIER, Anne. Les romantiques; figures de l’artiste. 1820-1848. Paris, Hachette, 1998 p. 54. Les sept fondateurs de sont Emile Deschamps, …..

7. GAUTIER, Théophile. Baudelaire.[s.l.] Le Castor Astral, 1991. p. 90





Bio fornecida pelo palestrante.

LITERATURA COMPROMETIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO – Zilá Bernd




LITERATURA COMPROMETIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

Zilá Bernd

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 
 
Aimée Césaire, poeta maior da Negritude, escreveu por volta dos anos 1930 um poem

a intitulado “Les armes miraculeuses” (As armas milagrosas), revelando a sua convicção de que, com a palavra, tinha intenção de mudar o mundo, removendo o preconceito e resgatando a identidade e o orgulho de ser negro nas Américas. Vivia-se um período em que os escritores acreditavam no poder da escrita e no compromisso do escritor em denunciar injustiças e opressões.

Já os escritores da chamada pós-modernidade sabem que a escritura pode pouco, muito pouco mesmo, não tendo servido para desconstruir preconceitos nem para reverter situações de injustiça social. Despiram-se, pois, em sua maioria da ilusão de poder mudar o mundo com a palavra. Talvez achem que podem mudar o homem (que poderá mudar o mundo…). Sabem ainda que, em determinadas situações de censura, por exemplo, quando nada pode ser dito contra o poder arbitrário, só a literatura, por seu caráter camaleônico de significar muitas coisas ao mesmo tempo, pode produzir a fenda, pode introduzir o diverso desestabilizando discursos monológicos, instaurando a dúvida e abalando certezas cristalizadas.

João Ubaldo Ribeiro tem consciência de que a escritura, contrariamente à grande maioria dos outros textos que têm objetivos unívocos, é plurissignificante e que qualquer tentativa de transformar o texto literário em panfleto, isto é, em propaganda de determinadas idéias, pode comprometer seu valor maior, qual seja, o de estar continuamente aberto a múltiplas interpretações por seu caráter simbólico. Contudo, isso não o impede de, não querendo mudar o mundo, querer mudar o leitor, apresentando-lhe caminhos alternativos de compreensão do homem e da sociedade em que ele se insere.

Sobre Sargento Getúlio, o próprio João Ubaldo afirma: “Sargento Getúlio é um romance engajado — persegui esta espécie de autobiografia fantasmagórica, mas com maior distância. É, de certa forma, um retorno à minha infância, ao universo de Sergipe, com sua brutalidade, seu primitivismo ao qual dei uma dimensão mais ampla — ética e política” (Entrevista, 1987).

Em recente pronunciamento, em Maceió (setembro de 1999), João Ubaldo afirmou não ter jamais aspirado mudar coisa alguma na sociedade; talvez na cabeça de algum leitor. “Como toda a arte, a literatura é uma forma de conhecimento, podendo, pois contribuir para que as pessoas vejam o mundo através de uma forma sugerida pelos escritores. A literatura pode, portanto, auxiliar na construção do conhecimento humano, abrindo portas. Se a literatura é invenção, a existência humana também o é”.

O engajamento de que fala João Ubaldo se realiza de forma muito sutil e, em nenhum momento, compromete o valor literário do texto. Deste modo, Sargento Getúlio, escrito em 1971, não é um livro datado, resistindo ao passar dos anos. Segue desafiando os leitores por conseguir, partindo de uma temática regional — o banditismo do sertão —, atingir o universal através do questionamento existencial. O “ser ou não ser: eis a questão” shakespeareano se transforma, na pena do escritor baiano, em “levar ou não levar”o prisioneiro a Aracaju, tarefa confiada a Getúlio por seu chefe Acrísio. O autor valoriza ao mesmo tempo o pensamento mágico e popular do nordestino, associando seu impasse existencial ao de grandes personagens da literatura ocidental, como Hamlet, de Shakespeare, ou Antígona, de Sófocles. Esta é uma forma bastante sutil de compromisso literário: para denunciar uma situação de desmedida no sertão nordestino onde o poder despótico de líderes políticos não tem limites, aliciando os jagunços que torturam e matam em seus nomes, João Ubaldo centra a narrativa justamente em um matador profissional, o famigerado Sargento Getúlio, procurando flagrar, através do seu dilema, um mundo em transição.

O autor estrategicamente vai encontrar uma saída para que a obra não se esgote na batida dicotomia civilização x barbárie, cidade x campo, apontando uma terceira via para situar o dilema do “herói”, em sua decisão de não acatar as ordens de Acrísio de abortar a “missão” que lhe havia sido confiada. Para além da simples denúncia de uma situação de atraso ainda vigente no sertão nordestino enquanto o Brasil se modernizava, o autor complexifica a situação heroicizando a figura de Getúlio, matador profissional, portanto fora-da-lei, e conferindo-lhe uma espessura de personagem trágica. Ao recusar-se a cumprir as contra-ordens de seu chefe e ao obstinar-se em executar sua missão a personagem surpreende o leitor, até então horrorizado com as brutalidades que pratica em relação ao prisioneiro. A surpresa vem do inesperado de um personagem rude possuir e respeitar um código de ética comparável a de personagens do teatro clássico grego e que se verifica inexistente nos líderes políticos corruptos que lhe dão ordens, ficando evidente que são esses últimos e não Getúlio o alvo da crítica mordaz de João Ubaldo. O respeito a essa deontologia internalizada coloca Getúlio em um patamar superior ao dos chefes políticos e citadinos que o comandam.

Verifica-se, pois uma tentativa do autor de penetrar na lógica “outra” de Getúlio que, inserido no mundo arcaico do sertão, rege-se por um pensamento mágico e sacralizado, não conseguindo entender as mudaças que se operam no Brasil moderno, regido por uma ordenação racional e utilitarista. Neste sentido, a produção ficcional de João Ubaldo Ribeiro constrói-se em consonância com o que há de melhor na literatura latino-americana, como Cem anos de solidão(1967) de Gabriel Garcia Marquez. Na visão do autor colombiano, uma comunidade, Macondo, é varrida do mapa por um furacão junto com toda a geração dos Buendia, simbolizando o desaparecimento da cultura autóctone, alicerçada no maravilhoso. No choque entre o mágico e o racional, entre o arcaico e o moderno, o coronel Aureliano Buendia e sua numerosa decendência desaparecem sem desaparecer, pois suas peripécias ficam preservadas na memória da comunidade. Getúlio, como Aureliano Buendia, encarna o dilaceramente entre dois mundos. Ambos acabam, ao morrer, desafiando as exigências da modernização, por virar lenda, isto é, tendo suas histórias transmitidas pela tradição oral e popular, o que é uma maneira de não morrer.

Também Viva o povo brasileiro, romance mais conhecido e de maior sucesso de público do autor, constitui-se em uma escritura de resistência, de inconformidade, marcada fundamentalmente pelo compromisso do autor de fornecer uma releitura — paródica e bem-humorada — de pelo menos três séculos de história do Brasil, dando destaque ao povo e à sua longa aprendizagem para conquistar um lugar de onde pudesse ser ouvido pelas elites que se julgavam as únicas donas do país. Aprender a ser dono do Brasil foi tarefa árdua realizada sobretudo pelos escravos e ex-escravos, exluídos do processo de constituição da identidade nacional. Esse aprendizado é o tema central do livro que inclui todo o manancial de cultura oral e popular que, agregado à cultura letrada, compõe um dos mais completos afrescos do Brasil que a ficção brasileira jamais produziu.

Incorporando fragmentos de toda sorte de documentos orais e escritos, Viva o povo brasileiro se integra à vertente de nosssa literatura que tentou, pela via do épico, explicar a nossa formação cultural e exaltar os “heróis de nossa gente”. Marcas da tradição revolucionária do Modernismo podem ser percebidas na obra que, contudo, ultrapassa as convenções literárias anteriores, na medida em que os efeitos de sentido produzidos por uma linguagem despida de convencionalismos destroem sistematicamente a idéia de transparência contida nas ideologias veiculadas desde o início da colonização que só serviram para instituir, entre os brasileiros, um eterno processo de auto-desvalorização.

Viva o povo brasileiro tornou-se um clássico (no bom sentido da palavra!) de nossa literatura não só por trazer até o leitor os ecos dos ásperos tempos de nossa história colonial como por utilizar uma linguagem que, agregando a “contribuição milionária de todos os erros”, logra captar o espírito brasileiro em todas as suas nuanças. Afastando-se da nefasta tarefa de tomar a si a missão de pôr sua escritura a serviço da fabricação identitária e de reivindicações nacionalistas, João Ubaldo, colocando-se do lado dos que nunca tiveram voz, tenta produzir a fenda nas certezas identitárias de uma nação que se queria branca, ou melhor, mestiça, desde que se tornasse cada vez mais branca e homogênea. A obra torna-se um ponto de encontro de caminhos, um mosaico de diversidades, onde a relação dialética entre nós (grupo social e cultural ao qual se pertence) e os outros (os que são percebidos como não fazendo parte deste grupo) se volatiliza. O emaranhado de falas que se interseccionam no tecido narrativo permite-nos concluir que a identidade do povo brasileiro, como a dos latino-americanos em geral, será forjada a partir da reconciliação das diferentes formações culturias que estão na sua origem.

A respeito da questão do compromisso do escritor, a qual retorna continuamente no cenário da teoria literária, Andrè Gide, de regresso de uma viagem à União Soviética, em 1936, escreve:

“O valor de um escritor está ligado à força revolucionária que o anima ou mais exatamente (pois não sou louco para reconhecer valor artístico apenas aos escritores de esquerda) à sua força de oposição. […] Na nossa forma de sociedade, um grande artista, é essencialmente anticonformista. Ele navega na contra-corrente. (Gide, 1978, p. 63).

Apesar das inúmeras características pós-modernas que podemos destacar na obra ubaldiana, como a prática da metaficção historiográfica, as ambigüidades e ambivalências, o uso freqüente do estilo paródico, as hibridações de estilos e falas, entre outras, ela é “essencialmente revolucionária e anticonformista“, reeditando, a seu modo, o estilo engajado dos anos 1960. Contribuir, através da ironia e do riso, para a desestabilização de estruturas político-sociais injustas e discriminatórias é sem sombra de dúvidas uma das metas do escritor no seu cotidiano corpo a corpo com a palavra.

Seu dom maior é o de escrever na tensão dos contrários, integrando o erudito e o popular, o trágico e o cômico, o sublime e o grotesco, e inscrevendo nesse espaço intervalar elementos de desestabilização das estruturas político-sociais brasileiras. Nele se aliam a esperança ingênua de reconstruir o mundo sobre as bases da Fraternidade, após a queda da ditadura militar brasileira, e a aguda consciência crítica da realidade nacional. Segue, portanto à procura de um caminho do meio, apontando para a inacessível síntese entre elementos procedentes de horizontes históricos, geográficos e culturais múltiplos, numa ficção ao mesmo tempo ambígua e engajada.

BIBLIOGRAFIA:

RIBEIRO, J.U. Sargento Getúlio. 13. Impres. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. [1. Ed. 1971.

____. Viva o povo brasileiro. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

DACANAL, J.H. O Sargento sem mundo. In: —. Nova narrativa épica no Brasil. Porto Alegre: Sulina/SEC, 1973. P.125-142.

ARAGÃO, M. L. Sargento Getúlio: uma história de Aretê. Caleidoscópio. N. 8. Fac. Integrada de São Gonçalo, 1988. P.104-110.

CECCANTINI, J. L. João Ubaldo Ribeiro: no plural, a unidade. Revista de Letras, v. 34, 1994, UNESP, p. 49-60

___. Brava gente brasileira. Cadernos de Literatura Brasileira. N. 7. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, março de 1999. P. 103-129.

ENTREVISTA. La Quinzaine Littéraire, Paris: abril 1987, p.23.

RAILLARD, A. Introdução à edição francesa. Sergent Getulio. Paris: Gallimard, 1978.

SILVERMAN, M. As distintas facetas de João Ubaldo Ribeiro. In: —. Moderna ficção brasileira. V. 2, ensaios. Rio de Janeiro: Civilização brasileira; Brasilia: INL, 1981. p. 89-109.

GIDE, A. Retour de l’U.R.S.S.. Paris: Gallimard, 1936. Reeditado pela coleção Idées, em 1978, p. 63.

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Artigo publicado no Número Especial de Porto & Vígula, Secretaria Municipal de Cultura – Coordenação do Livro.





Bio fornecida pelo palestrante.

MOSAICO DE AGRESSÕES – Gilberto Rocha




Resumo:
No final do século passado, tinha-se muito mais esperança e confiança no futuro do que atualmente. Acreditava-se principalmente que a ciência e o triunfo da razão trariam paz e progresso. Dava-se asas à imaginação e pensava-se que o futuro realizaria as suas promessas: iluminação elétrica para as casas, as máquinas possibilitando deslocamentos rápidos, como com o trem e o automóvel, uma revolução através dos remédios, uma maior união dos indivíduos através do patriotismo, o telefone, facilitando as comunicações a distancia, as indústrias tornando-se cada vez mais poderosas e os jornais descobrindo a publicidade. Tudo indicava a proximidade de um novo século de progresso material e da celebração da vida. Muitos acreditavam ainda ser possível mudar o mundo através da razão. Cem anos depois, somos mais modestos, não nos preocupamos tanto em querer mudar os poderes podres do mundo; os valores contemporaneos são pautados pela quantidade do que se pode consumir; o conformismo proporcionado pelos valores materiais estereliza as singularidades e as ambições ideológicas do indivíduo, criando o preconceito contra os mais desprovidos.
Texto:

MOSAICO DE AGRESSÕES

GILBERTO ROCHA

Sociedade Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos

Société Internationale d’Histoire de la Psychanalyse et de la Psychiatrie

A pergunta que Freud lançou em seu livro O mal-estar na civilização faz-se novamente: será que o supereu continuará conseguindo administrar o manejo de nossas pulsões destrutivas para continuar assim sua convivência com a cultura? (Freud, Sigmund, 1969, v. 21, p. 36). Isso quer dizer, que cada vez mais, o ser humano terá de produzir novas formas de subjetivação para manejar as propriedades das pulsões agressivas/destrutivas? E se os manejos faltarem, estaremos novamente num mundo darwiniano onde a sobrevivência é o bem supremo?

Existem formas de o indivíduo relacionar-se com a agressividade na vida que são valorizadas, enquanto outras não o são. Umas são banidas, outras aceitas, dependendo das circunstâncias e do momento do processo civilizatório. Mas, uma coisa é certa, um mundo sem delinqüência, disputas, assassinatos, um mundo sem crueldade, sem destruição, sem transgressões, sem complexo de Édipo seria um mundo impossível.

Muitas dessas situações agressivas não podem nos levar para outro lugar senão o do mal-estar mencionado nas reflexões do psicanalista austríaco, que em seu livro, publicado em 1930, nos relata a oposição existente entre a agressividade e a civilização (FREUD, S., v. 21, p. 68). Mais tarde, encontraremos trabalhos que começarão a dar importância ao aprofundamento do estudo da positividade da agressividade e priorizarão essa outra forma de manifestação das pulsões agressivas que viabiliza a convivência com a cultura. Porém, não é objeto desse estudo a questão psicanalítica das várias combinações entre a pulsão de vida e de morte.

Parece ser o caso de alguns profissionais, tais como médicos-cirurgiões, açougueiros, policiais e tantos outros. Figuras sociais nos quais as pulsões agressivas/destrutivas encontram-se constantemente em situação de descarga, portanto em situação de controle, disciplinadas, quase dominadas. Abraçar uma carreira profissional na qual o sujeito está constantemente manipulando sua agressividade parece, em primeiro lugar, uma forma de poder exercer mais intensamente sua porção agressiva, e, em segundo, uma forma de não renunciar ao prazer que está associado a essa descarga.

Existem formas de manejar a força destrutiva das pulsões agressivas dentro de um mesmo grupo de pessoas. Uma delas, a eleição de um inimigo comum, é uma maneira já muito consagrada pela cultura neste século XX para o manejo das pulsões agressivas/destrutivas. É interessante notar que a eleição de um inimigo comum em determinada sociedade não diminui a violência; somente a faz mudar de direção, pois ela agora estará direcionada para o inimigo. Nessas situações, existe uma realocação da pulsão de morte orientada para o exterior e em hipótese alguma uma saída ou mesmo enfraquecimento da intensidade da agressividade humana. Pode-se diminuir a destrutividade entre os membros de determinado grupo, mas por outro lado não se consegue diluir a pulsão agressiva que é redirecionada para outro lugar. O futuro de paz que o final do século XIX anteviu para o século seguinte, tornou-se, então, o futuro de uma ilusão, pois foi o século XX que, em termos de atrocidades e extermínios, auxiliados pela teconologia, possivelmente superou as centenas de séculos que o antecederam. Alguns autores, entre eles Peter Gay, apontam o amor pelo próprio país e o ódio aos inimigos (o patriotismo), como um dos maiores álibis da cultura para criação de situações agressivas/destrutivas testemunhados pela história universal: “O amor ao próprio país e o ódio aos inimigos se mostraram as mais potentes racionalizações para a agressão que foram produzidas ao longo do século XIX, conquistando a dúbia honraria de ser o álibi dos álibis” (Gay, Peter, 1993, p. 518).

1. Mídia e poder

Michel Focault nos chama atenção, em seu livro A história da sexualidade I, para o fato de que, em nossa cultura, a proibição, além ou por causa do fascínio que exerce, faz-se geralmente acompanhar de uma proliferação discursiva. (Foucault, Michel, 1976, p. 61). É o caso da sexualidade, e também o da agressividade. Percebemos que a proliferação discursiva sobre a agressividade humana cada vez ganha mais espaço na mídia. Por que a mídia veicula tanta destrutividade através de sua programação? Será porque assim ela reflete a agressividade que se encontra latente em sua clientela? Podemos dizer que a mídia é uma grande divulgadora da agressividade humana, pois, ao assistir a um noticiário na televisão, o espectador vai percorrer um mundo em que a agressividade transforma-se num espetáculo, velado ou não. Hoje os noticiários refletem um mundo repleto de disputas e violência: guerras, atentados, imagens de um indivíduo apanhando geralmente sozinho de pequenos grupos uniformizados, a política da violência, a violência política, suicídios e execuções (sejam ou não legais) são alguns exemplos.

As execuções públicas, na época clássica, tinham poder de espetáculo e sempre deram vazão à dramaticidade que às vezes acompanham as pulsões agressivas. Michel Foucault descreve, em Vigiar e punir (Foucault, M., 1975, p. 14), quanto podiam ser cruéis os suplícios impingidos na punição através do castigo-espetáculo ocorridos até o final do século XVIII e início do século XIX. Atualmente, continuamos às voltas com o crime-espetáculo, que de certa forma não deixa de ser, no essencial, uma variação do mesmo espetáculo, o espetáculo da agressividade que, na época clássica, ocorria em praças públicas. Atualmente, através dos meios de comunicação de massa, ela acontece na privacidade acolhedora na própria casa do indivíduo.

Pode-se notar facilmente como os meios de comunicação servem de suporte, investem e enriquecem as notícias sobre violência, em seu poder de sedução através do espetáculo. Estas notícias são o prato principal e predileto da mídia, que sabe que os patrocinadores não desconhecem que essas informações refletem a agressividade do sujeito e exercem um tipo de atração que se mantém através da intensificação e reprodução das notícias sobre violência. A avalanche desse tipo de notícia acaba banalizando, quase que absorvendo e assimilando o roubo, o assassinato, o estupro no nosso dia a dia da atualidade.

2. Alguns formas de convivência entre a pulsão de morte e a civilização

Existem várias maneiras de tentar contornar o problema da desagregação social causada pela pulsão de morte dentro de uma sociedade. O planejamento urbano, a arquitetura e a tecnologia podem ser considerados alguns exemplos.

Dependendo da estrutura urbana de uma cidade, pode-se estimular ou diminuir as condições que permitam o surgimento de acontecimentos que envolvem a descarga da pulsão de morte/destruição. O planejamento urbano pode contribuir sobremodo para diminuir a tensão do narcisismo das pequenas diferenças através da mistura de diversos grupos étnicos ou de classes sociais diferentes, estimulando-os à convivência, ajudando-os e incentivando-os. Facilita-se o convívio entre eles para tentar dessa forma ajudar a diminuir o índice de criminalidade do lugar em que habitam. (Sennett, Richard, 1994, p. 19).

Outra contribuição vem da arquitetura urbana através dos shoppings e condomínios que são construídos com a finalidade, entre outras coisas, de criar “ilhas contemporâneas de segurança” contra a violência. Essas áreas mais vigiadas e protegidas conseguem diminuir e evitar a violência que vem de fora desses lugares, porém não conseguem inibir de forma alguma a violência existente nas pessoas que as freqüentam. Outro exemplo na tentativa de manejo e convívio com a força destrutiva da pulsão de morte acontece no Rio de Janeiro. Depois de uma volta pela cidade, o recém-chegado turista poderá pensar o seguinte: Por que a maioria dos edifícios, casas e praças nesta cidade são cercados por grades? Será que, na verdade, o neófito está constatando alguma coisa que poderíamos chamar de arquitetura urbana da agressividade, onde a ordenação, possibilitada pela arquitetura, cria e impõe suas regras para docilizar os corpos?

O culto da agressividade aos poucos desenvolveu também a indústria da violência e seu poder político. Os produtos dessa indústria continuam em franca expansão, motivada pela procura do mercado consumidor. Seguranças armados, câmeras vigilantes, alarmes, grades, carros blindados, armas com tecnologia avançada, seguros, são assimilados pela cultura ocidental contemporânea como “comuns” e “normais” em nosso cotidiano. A indústria da vigilância e do controle, por exemplo, coloca suas câmaras de vídeo nos ambientes públicos, nos lugares de comércio e de negócios. Essa forma de vigilância cria a situação de que todos devem ser filmados, por prevenção, de que todos em princípio são suspeitos. Essa “indústria” exerce um tipo de poder, com o registro do olhar tecno-panóptico, que tem por fim vigiar para assegurar e prevenir. Acredita-se que a tecnologia é melhor do que os duvidosos resultados da investigação policial. Portanto, todos devem ser vigiados e controlados, pois as pulsões destrutivas podem estar à espreita, aguardando condições para inesperadamente revelar a sua face.

3. Submissão e agressividade

Desde o início da Psiquiatria tem-se um bom exemplo de como as normas disciplinadoras, através da agressividade, conseguem dominar, submeter e domesticar os corpos para dar conta de uma intimidade que se apresenta rebelde e indisciplinada. O enclausuramento, cirurgias, eletrochoques com caráter punitivo, abuso de autoridade e outras tantas agressões infinitesimais que se explicavam como terapêuticas, foram recursos fartamente usados na história da Psiquiatria (Rocha, Gilberto S., 1989, p. 86) ainda resistindo em alguns redutos.

A agressão, principalmente a física, exige, geralmente, que um dos componentes da situação agressiva seja mais forte que o outro. Daí, o peso da violência recair principalmente nos velhos, nas mulheres e nas crianças, que são figuras sociais desprovidas de força física. O que se entende por violência atualmente se ampliou para dar conta das novas formas de violência e sujeição do indivíduo. É considerada violência contra a pessoa o fato de crianças com idades as mais variadas (desde por vezes os 6 ou 7 anos), trabalharem em período escolar. Isto acontece principalmente em zonas rurais de países com desenvolvimento lento. Essas crianças, ao invés de estudarem, vêem-se na condição de terem que colaborar no parco orçamento da sua família para poderem seguir vivendo. Subtrair a oportunidade de uma criança e desenvolver parece ser o objetivo de políticas conservadoras e, no caso do Brasil, também corruptas, que, através deste “manejo”, cria um mercado de trabalho barato e cativo. Essas políticas de sujeição e alienação do indivíduo à ignorância e à pobreza, tem como único intuito dificultar o aparecimento das condições de possibilidades, para o indivíduo poder sair de sua condição miserável. Isso nos indica, por um lado, uma forma de exploração que leva a criança a submeter-se ao universo das pulsões agressivas/destrutivas do adulto. Por outro lado, no lugar de poder do assujeitador, as pulsões agressivas encontram-se canalizadas para a obtenção de prazer, através da sujeição do outro e da obtenção de lucros financeiros resultante disso.

Antigamente, as pulsões agressivas eram justificadas como disciplinadoras, fazendo com que muitos filhos, escravos, alunos, colonizados tenham provado do “estalar ” do chicote, da vara de marmelo, do chinelo, do cinto, ou mesmo da palmatória. O castigo corporal foi e é mantido como o melhor e mais rápido restabelecedor de autoridade por parte de quem infringe a punição, e faz parte também do que chamamos de pedagogia pelo medo. Um certo prazer nesse exercício de poder através do castigo corporal existe, e, na verdade, no que diz respeito aos castigos corporais que ocorrem na educação dos filhos, é uma prática que jamais foi totalmente abolida pelos pais. Na atualidade da cultura ocidental, ela caiu em desuso, mas o menor sentimento de perda de autoridade faz com que, tal como Fênix, o “ultrapassado” castigo físico ressurja das cinzas. Com o fim de um tipo de servidão humana no Brasil chamada de escravidão do trabalho negro, as pulsões agressivas dos açoitadores tiveram que mudar de objeto de descarga. Talvez seus filhos, suas mulheres, seus animais domésticos tenham sentido na própria pele a abolição do trabalho escravo no final do século XIX.

A sujeição através do castigo físico, no Brasil de hoje, ficou mais hipócrita. Existe, geralmente, atrás dos muros das penitenciárias, das delegacias, das casas de correção para menores, nessas “ilhas de privacidade” onde a violência física e mental andam unidas. Somado ao espancamento, hoje temos, nas prisões, um novo instrumento de castigo físico: a superlotação das cadeias que, junto com a pancadaria nos corpos, constitui-se um instrumento eficiente de controle assujeitador e boicotador da auto-estima dessas pessoas que, em sua esmagadora maioria, são integrantes das classes populares. Tenta-se, assim, reduzir o sujeito à sua insignificância e conduzi-lo a uma disciplinada docilidade alcançada e mantida sob controle e vigilância à base de muita pancada por parte das estruturas de contenção. Nessas “ilhas de privacidade”, o sujeito será reprimido através de castigos corporais exemplares, que também são receitados pelos aparelhos de repressão de uma forma geral para diminuir o sentimento de onipotência, de arrogância e de auto-estima. Ou seja, uma forma de aniquilação psíquica.

A violência contra a velhice pode ser não só física, como também uma forma que ataca psicologicamente o velho. Por exemplo, a violência por motivos econômicos cria no sujeito repetidas vezes um sentimento de estar em depressão. É comum, em países com seus “sistema de previdência social falido”, aviltar e diminuir os ganhos dos aposentados. Uma violência legalizada pela globalização, que atinge as pessoas no final de suas vidas, comprometendo sua alimentação, habitação, lazer e bem-estar. Eles são colocados numa condição difícil de dependência e fragilidade, num mundo de muita disputa, intolerância e pouca solidariedade.

Na história da cultura brasileira, as mulheres foram bastante molestadas fisicamente. Estupros, pancadaria, assassinatos sexuais… Até cinqüenta anos atrás, principalmente no interior, era difícil um homem ser condenado pela justiça por matar sua mulher. A vingança de ser traído pela mulher com outro homem terminava com freqüência em assassinato. Sem sombra de dúvida, se ele pertencesse à elite, certamente sua sentença já seria conhecida desde o princípio do julgamento. Inocente!, por exercer seu direito de honra de ser homem e assim jamais ser traído em sua sexualidade, virilidade, ou potência. Era uma ameaça de morte concreta para a mulher. Uma ameaça democrática, que se infiltrou desde as camadas mais ricas e poderosas até as mais pobres e miseráveis. Tal poder dava, assim, ao sexo masculino, veladamente, o poder de direito sobre a vida e a morte da mulher, tal como o espírito que reinava entre o soberano e seus súditos na época clássica. Com sua superioridade física, o homem tomou o corpo da mulher como extensão do seu próprio corpo, sua propriedade, “o quintal de sua casa” e os abusos contra a mulher, estupros, pancadarias, assassinatos, eram vistos e sentidos como algo que não deveria sair do âmbito de sua privacidade, não poderia tornar-se público. O machismo preponderante fornecia ao homem dessa época bons álibis para exercer sua crueldade no corpo da mulher. Além disso, as histórias de traições repetidas constituíram-se em motivos para piadas e chacotas. Despertavam, alimentavam a imaginação e a curiosidade das pessoas. Essas histórias inicialmente foram aproveitadas pelos jornais e romancistas para vender, e atualmente são muito utilizadas pela mídia eletrônica, principalmente pelas novelas.

Finalizando, estas considerações sobre a agressividade foram concebidas para mostrar alguns exemplos de exigências das pulsões agressivas que às vezes se encontram em antagonismo com o processo civilizatório, mas que em outras podem estar conciliadas com as restrições impostas por esse mesmo processo. Trata-se, portanto, de uma tentativa de pensar algumas formas da pulsão de morte que estão presentes na atualidade, num país como o nosso, abaixo dos trópicos, e inserido nos valores da civilização ocidental.

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Este artigo baseia-se no ensaio de minha autoria publicado na revista on-line do Colóquio États-Généraux de la Psychanalyse, Paris — La Sorbonne, realizado em julho de 2000, com o título de “Mosaïque d’Agressions”.

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NOTAS AO TEXTO

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro, Imago, 1969. 24 v. v. 21.

Foucault, Michel. L’Histoire de la Sexualité I — La volonté de savoir. Paris, Gallimard, 1976.

—–. Surveiller et punir. Paris, Gallimard, 1975.

Gay, Peter, The cultivation of hatred — The bourgeois experience III – Victoria to Freud. New York, W.W. Norton, 1993.

Rocha, Gilberto S. Introdução ao Nascimento da Psicanalise no Brasil. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1989. p. 86.

Sennett, Richard. Carne e pedra — o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro, Record, 1994.





Bio fornecida pelo palestrante.

O CORTIÇO E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO – Ligia Vassallo




Resumo:
A preocupação naturalista com o referente extra-literário se investe de uma tal veracidade que isto nos permite acompanhar, em O cortiço de Aluísio Azevedo, as mutações ocorridas no Rio de Janeiro do último quartel oitocentista, como a expansão geográfica e a modernização dos costumes, ambas associadas às transformações operadas na paisagem humana brasileira devido à substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes. Assim, nesse romance, a cidade torna-se um personagem literário e, como tal, será analisada.
Texto:

O CORTIÇO E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Ligia Vassallo
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O séc

ulo XIX descobre a cidade – realidade sociológica que é logo apropriada pela literatura. São bem conhecidas as palavras de Baudelaire sobre sua flânerie pelas ruas de Paris, fenômeno magistralmente estudado por Walter Benjamin. Entretanto, bastante antes das experiências deambulatórias do autor das Fleurs du mal (1857), a cidade já aparece na então hegemônica literatura francesa, principalmente no grande romance realista, cuja preocupação em tematizar a história feita no presente, tanto quanto a problemática da atualidade, leva a valorizar o referente extra-literário e a veracidade do espaço, em especial o urbano, tomado como cenário preferencial das ações ficcionais.

Assim é que os salões aristocráticos parisienses figuram em Le rouge et le noir, obra de 1830; e no Père Goriot, de 1833, presenciamos uma espécie de mitologia da capital francesa, de que a barata Pensão Vauquer, de um lado, e o sofisticado e elitista salão de Madame de Beauséant, do outro, constituem pólos privilegiados do imenso edifício. Décadas mais tarde, a série dos Rougon-Macquart, de Emile Zola, publicada entre 1871 e 1893, está longe de esgotar os atrativos da Cidade Luz, perene centro cosmopolita e multifacetado. Desse modo, em L’Assommoir (1877), romance que focaliza o universo operário, a cidade se estende para áreas até então inocupadas, ainda em fase de urbanização, nas quais se estabelece a lavadeira Gervaise, que acaba por soçobrar no alcoolismo. Por sinal, tais indicadores remetem ao nosso O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, que mantém intenso diálogo intertextual com o livro de Zola.

Numa sociedade periférica como a brasileira, o fenômeno de valorização da cidade se reproduz e se intensifica, ainda mais no último terço do século XIX, que se assinala por ser o período em que a presença francesa se fez mais forte e influente no Brasil. Haja vista, por exemplo, a magnitude de que se revestiu o Positivismo entre nós. É nesse contexto que vem a lume O cortiço, obra que tomamos como referência para caracterizar a realidade urbana do Rio de Janeiro a partir de um texto literário.

Contudo, independentemente das profundas relações entre a produção de Aluisio Azevedo e a de Émile Zola – questão que não será abordada aqui -, o criador da corrente naturalista no Brasil alcança produzir um rico e diversificado panorama da então capital do Império, num romance bem sucedido que, entretanto, não se propõe a este objetivo precípuo, uma vez que, como o próprio título indica, dedica-se a focalizar as camadas populares, centrando-se na residência coletiva, habitada por uma classe em constituição, a dos trabalhadores manuais livres, em coexistência com os últimos estertores do sistema escravagista.

No desenrolar da narrativa, o romancista procede por contraste, confrontando duas camadas sociais que se encontram sempre em posições antagônicas em todos os aspectos, como no tocante à moradia, às práticas quotidianas, ao trabalho e ao lazer. O conflito entre ambas eclode e se reforça porque os dois grupos são vizinhos no novo bairro de Botafogo, em vias de urbanização, sendo separados por um muro, que situa de um lado o sobrado solarengo da abastada e pretensiosa família Miranda, de outro o cortiço, habitação coletiva de baixa renda capitaneada pelo vendeiro luso João Romão, amásio da escrava Bertoleza. Desse modo, considerando-se que para a estética realista-naturalista o microcosmo reproduz o macrocosmo, tem-se uma visão de conjunto de um certo momento da sociedade brasileira, visão embora sumária, configurada pela situação dos moradores de sua capital, que são os personagens do romance. A percepção da cidade nos é dada tanto pelas ações destes quanto pelo espaço físico onde eles evoluem, espremido entre o mar das praias – Lapa, Saudade, Botafogo – e a montanha, das pedreiras de São Diogo (no Centro da cidade) e Botafogo, nas quais trabalha o cavouqueiro português Jerônimo, egresso do trabalho rural a que não se adaptara.

No século XIX, com a transmigração da família real para o Brasil, a abertura dos portos e a transformação da capital da colônia em sede do reino, depois império, a sociedade se complexifica e conseqüentemente a cidade cresce. Considera Eulalia Lobo (1978) que a introdução do trabalho assalariado, substituindo a escravidão, liberou capitais até então empatados, que passam doravante a se destinar a outros ramos de atividade econômica, como uma incipiente indústria, o comércio internacional e os serviços financeiros. Em contrapartida, excedentes de mão de obra livre que são

excluídos do campo, uma vez que o pólo cafeeiro se deslocou para o estado de São Paulo, dirigem-se para a cidade, vindo engrossar a fileira dos trabalhadores manuais não especializados. Muitos deles passam a atuar como vendedores ambulantes e prestadores de serviços (ferreiros, torneiros, carroceiros, taverneiros, soldados de polícia, empregados do comércio).

Com isso a cidade se povoa – e, portanto, a literatura. Ela se povoa de “gente graúda” e “gente miúda”. O primeiro grupo se compõe basicamente de estrangeiros ricos, que vão integrar a elite social: ingleses financistas, franceses do comércio de luxo, portugueses atacadistas. Somente a última nacionalidade é retratada no romance, através dos dois protagonistas e concorrentes, Miranda e João Romão, que representam dois lados da fortuna e, conseqüentemente, de comportamento e de posição na sociedade.

O segundo grupo é formado por gente com os mais variados matizes de cor da pele, desde os migrantes internos, provenientes do norte do país como a sensual mulata Rita Baiana ou do interior do estado, todos atraídos pelas possibilidades da embrionária metrópole, até os imigrantes europeus, como os trabalhadores portugueses, italianos e judeus que moram no cortiço. Por sinal sobre eles recaem estereótipos negativos: alguns generalizados, como a barulheira e o mau cheiro do corpo, outros mais específicos, como a avidez do judeu ou a sujeira e a bagunça dos italianos.

Aliás, a obra-prima de Aluísio Azevedo é o primeiro texto literário em que aparece a figura do imigrante italiano no Brasil. É também o primeiro que focaliza empregados e trabalhadores sob o modo sério, além de ser o primeiro que assinala a presença da capoeira, cujos praticantes se reuniam em maltas, como refere Gastão Cruls (1952). Ele a define como um “jogo físico de destreza e ataque inventado pelo mestiço ágil, que cansa o adversário para derrubá-lo com um passe imprevisto de rasteira ou cabeçada” (p. 318). Os capoeiristas eram empregados nas campanhas políticas como cabos eleitorais, segundo afiança um deles, o personagem Firmo, que aspirava uma nomeação para o serviço público. Meios tão pouco ortodoxos facultavam-lhes alcançar vitórias altamente questionadas pela imprensa da época.

A união daqueles dois aspectos arrolados por Eulalia Lobo resulta não só em aumento da oferta de bens e serviços, como também na expansão da área urbana, que vai-se estendendo do antigo Centro em direção à zona sul. Desse modo incorporam-se sucessivamente novos bairros, como Lapa, Glória e Catete, para finalmente atingir Botafogo, epicentro da ação no Cortiço. O Centro da cidade, que concentra o comércio elegante quase todo em mãos de franceses, principalmente na Rua do Ouvidor, mantém seu prestígio como área residencial, embora outros arrabaldes desabrochem com esse fim. Nesse sentido, o percurso de Miranda é paradigmático, ao transferir sua moradia do centro da cidade para a região recém-desbravada.

Nessas circunstâncias, constrói-se muito em Botafogo, a se dar crédito ao romance:

“Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas […] Abriam-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguesada como a dele” (Azevedo, 1983, p. 10).

No Segundo Reinado, Botafogo era o bairro mais procurado pelas famílias de alta renda, incluído na enorme freguesia que agrupava áreas desertas como Copacabana e Ipanema, ou áreas rurais como a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Gávea. Em fins do século XIX a enseada de Botafogo era coberta por jardins e chácaras suntuosas. Erigem-se mansões luxuosas, segundo Jaime Larry Benchimol (1990, p.103), como o atual palácio do Catete, construído em 1862 pelo Barão de Nova Friburgo e onde funcionou a Presidência da República até a transferência da capital federal para Brasília; outro exemplo é o atual palácio da Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro, que foi vendido pelo presidente do Banco do Brasil à família imperial para residência da herdeira do trono.

Nesse bairro estabelecem-se os palacetes da elite social, a exigir mais e mais empregados e fornecedores. Ainda de acordo com Benchimol (1990, p.103), estes constituem a população não aristocrática, que se instala em terrenos menos valorizados nas imediações do cemitério São João Batista, datado de 1852. Seu mercado de trabalho é local, diretamente vinculado à residência dos ricos; relaciona-se ao comércio (formal ou ambulante), à prestação de serviços domésticos, ao exercício de certas profissões e pequenos ofícios, à exploração das pedreiras e à construção. Mas há também oferta de trabalho nas primeiras fábricas, como as que o romance menciona (massas alimentícias, velas) ou as de tecidos, instaladas em Laranjeiras, Gávea e Jardim Botânico, contígüas às vilas operárias que surgem.

São estes contingentes que estão a necessitar moradia e vão ocupar as infectas habitações coletivas para populações de baixa renda, anteriores às atuais favelas, cujas condições de insalubridade favorecem a rápida difusão de epidemias, como as febres mortais que acometem alguns inquilinos de João Romão, mormente entre os italianos. Tais moradas são conhecidas como casas de cômodos, cortiços ou avenidas, verdadeiras colméias humanas que concentram cerca de 10% da população do Rio de Janeiro por volta de 1888. Sua exploração é matéria candente na imprensa da época, em acusação que recai sobre vários aristocratas, inclusive o Conde d’Eu, genro do Imperador, conforme apontam Jean-Yves Mérian (1988, cap. 31) e Lilia Schwarcz (1999, p. 432).

Percebe-se a ocupação do bairro, em O cortiço, de maneira indireta: pelo aumento da extração na pedreira, produtora de material de construção por excelência; pelo crescimento da clientela de João Romão, pelo desenvolvimento de seu ritmo de negócios, pela multiplicação do número de seus inquilinos. O vendeiro vai dilatando o terreno, as propriedades e o poder, em homologia com seu projeto de enriquecimento e ascensão social, o que pode ser detectado através das diversas etapas em seus investimentos e nas modificações em seu comportamento.

Graças às economias de Bertoleza, ele adquiriu “alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda e levantou uma casinha de duas portas” (Azevedo, 1983, p.5); em seguida três casas, erigidas em terreno baldio ao lado da vendinha infecta em que viviam, construídas com material roubado às obras da vizinhança, são o ponto de partida do grande cortiço. Depois, aos poucos, ele atinge as noventa e cinco casinhas da “Estalagem de São Romão”, tornando-se proprietário também de lavanderias, da pedreira, de hortas e jardins, da casa de pasto mais bem afreguesada do bairro, de bazar variado e bem provido, de armazém com gêneros diretamente importados da Europa, de sorte que João Romão pode fornecer tudo a todos, inclusive sortimento aos pequenos comerciantes dos arredores. O ápice de seus empreendimentos habitacionais constitui-se na “Avenida São Romão”, construção um pouco menos abjeta que o conjunto anterior, sendo formada por prédios de dois pavimentos que abrigam centenas de moradias, agora ocupadas por gente da baixa classe média e não mais as lavadeiras e mascates dos primeiros momentos. Entre os novos inquilinos, mencionados no capítulo 20, arrolam-se empregados do correio, estudantes pobres, contínuos de repartição pública, caixeiros de botequim, artistas de teatro, condutores de bonde, vendedores de bilhetes de loteria, mascates italianos.

Aos trabalhadores interessa viver nas proximidades do local de trabalho, ou, como dizem, perto da “obrigação” (Azevedo, 1983, p. 11), medida indispensável considerando-se a carência de transportes coletivos. Há um serviço de ônibus e uns poucos bondes, como o de São Clemente, usado pelo protagonista ou pelo parasita Botelho quando regressam do Centro da cidade; a maioria das viaturas, contudo, é de uso particular e se move por tração animal, como as que transportam as cocotes Léonie e Pombinha ou conduzem os coches de enterros. Por isso anda-se tanto a pé, como faz João Romão ao ser convocado à polícia, aonde comparece acompanhado por boa parte de seus inquilinos; como fazem Jerônimo e seus comparsas após matarem Firmo; como fazem as hordas de capoeiristas nas lutas entre cortiços ou, ainda, como se locomovem mascates e fornecedores de serviços que freqüentam o cortiço de João Romão, como o leiteiro acompanhado de vaca e bezerro, o padeiro, o tripeiro, o peixeiro, o vendedor de artigos de armarinho, entre tantos outros.

Trabalhadores e gente abastada não vivem da mesma maneira, ainda que em situação de vizinhança. Encontram-se espacialmente apartados, em grupos distintos e antagônicos, constituídos respectivamente pelos do cortiço e os do sobrado. Os primeiros se caracterizam por trabalhar, o que ocorre na pedreira, na tina de roupa por lavar, na loja de João Romão ou em atividades externas, exercidas todos os dias menos aos domingos, quando cuidam da higiene pessoal, lavando as casas e vestindo roupa limpa. Doentes e acidentados buscam cuidados médicos em hospitais como o da Misericórdia ou em irmandades como a de São Francisco, onde Jerônimo convalesce da navalhada. Casos mais simples, como os abortos de Bertoleza, são resolvidos graças às ervas da lavadeira Paula, também conhecida pela alcunha de Bruxa.

Em contrapartida, os membros do segundo grupo, sempre em ótima saúde, assinalam-se por estar permanentemente de folga, à exceção dos empregados domésticos e de Henrique, filho de um cliente de Miranda que veio do interior para estudar medicina na capital. Assim sendo, no tocante ao chefe do clã, enobrecido pelo título de Barão, sabe-se apenas que dirige seu estabelecimento comercial instalado no Centro da cidade. Quanto a João Romão, depois que enriquece e atinge a invejável posição de capitalista, deixa de vender no balcão, onde controlava o caixa do estabelecimento, para marcar presença nos bancos e círculos financeiros, onde especula na bolsa e faz grandes transações comerciais para multiplicar seu patrimônio, entregando a administração do escritório a uma complexa hierarquia de caixeiros e vendedores especializados.

A gente do cortiço pratica suas funções ao ar livre, em espaços comuns, seja devido à própria natureza das mesmas, ou porque as casas são minúsculas. Por isso, uma solidariedade algo forçada obriga-os a partilhar tudo, tarefas profissionais e prazeres, como as comezainas domingueiras, acompanhadas de bebida, música, dança, barulho e, não raro, alguma briga ou cena de infidelidade conjugal, além da reclamação dos vizinhos. A portas fechadas, vêem-se apenas os freqüentadores do botequim do Garnisé ou o trabalho de Pombinha, que costura seu enxoval de casamento ou escreve cartas ditadas pelos moradores analfabetos. No sobrado, porém, tudo se passa em ambientes fechados, em especial a intensa comensalidade, das pequenas reuniões de convidados às grandes recepções nas ocasiões especiais. Executa-se fora de casa apenas a transgressão de Dona Estela com o jovem Henrique, praticada nas moitas do jardim.

O contraste entre os grupos se evidencia em outros aspectos, como no tocante à organização da família e no emprego do tempo livre. Nas camadas populares os casais se unem por interesse afetivo, de maneira livre e descompromissada, como o lusitano João Romão com a escrava Bertoleza e Rita Baiana com Firmo, ambos mulatos, ou pelo casamento oficial – como o dos portugueses Piedade e Jerônimo, ou do policial negro Alexandre com a lavadeira branca Augusta, geradores de numerosa prole. Essas uniões, que podem ser multirraciais, também se desfazem e se refazem sem formalidades, simplesmente pelo abandono do parceiro, como ocorre com os casais formados por Jerônimo e a esposa, Rita e o capoeirista, que constituem um novo par, composto por Jerônimo e Rita.

Na elite branca exige-se o cumprimento dos rituais – de noivado, preparativos de enxoval, casamento na igreja. A união matrimonial parece ser assunto decidido exclusivamente pelos homens, uma vez que Miranda não leva em conta os sentimentos da filha Zulmira, a ponto de escolher João Romão para genro; ela se baseia em interesses econômicos e patrimoniais, sendo portanto indissolúvel. Daí a preocupação em resguardar o dote trazido pela mulher, o que acarreta a necessidade de manter as aparências, mesmo em caso de adultério. É o procedimento adotado por Miranda ante as evidências do comportamento leviano da esposa. Nesse panorama, avulta a situação de Pombinha, que se coloca em posição intermediária, visto que sua família decaiu da condição social anterior após a falência e suicídio do pai. Com isso, ela cumpre os preceitos e sobe ao altar na igreja São João Batista, mas casa sem amor, como alternativa para ascender e se libertar, e termina por abandonar o marido após traí-lo. Por outro lado, a família patriarcal possui um sentido amplo, uma vez que inclui agregados, como o parasita Botelho e o jovem pensionista do interior, o estudante Henrique, além de crianças protegidas, afilhados e numerosa criadagem, circunstância não encontrada no outro grupo.

O emprego do tempo livre dá-se de maneira inteiramente desigual de acordo com a procedência sócio-econômica do personagem. Os trabalhadores do cortiço, pela própria condição laboral, só descansam aos domingos, em fainas já evocadas. Em compensação, o ocioso grupo do sobrado utiliza seu perene lazer de maneira bastante variada. As mulheres recebem e fazem visitas, quando não vão às compras de enfeites. Aos homens de todas as idades é permitido freqüentar as cocotes de luxo, muitas vezes de procedência estrangeira, como Léonie, por quem chegam até a se arruinar. Homens e mulheres estão sempre passeando em locais elegantes no Centro da cidade, principalmente às ruas Gonçalves Dias e Ouvidor. Nesta última encontra-se a Casa Pascoal, confeitaria onde se namora muito, se toma o aperitivo e se fazem lanches intermináveis; os homens lêem os jornais do dia e fumam. Os adultos de bolsa farta ainda comparecem a leilões de prendas e festas de arraial, tornam-se sócios de clubes para aprender a dançar, freqüentam as sessões da tarde no teatro São Pedro de Alcântara e as apresentações das companhias líricas, apreciadas por Dona Estela. A vida social amena e fútil se complementa, no plano cultural, com a leitura de jornais e de “fascículos de romances franceses traduzidos” (Azevedo, 1983, p.77), com os quais João Romão vai-se familiarizando, em seu afã de ostentar maneiras refinadas. Em sua fase de potentado, freqüenta hotéis caros e faz camaradagem com capitalistas. Veste-se com esmero, perfuma-se, vai ao barbeiro, recheia a casa reformada com ricos móveis, prataria e porcelanas.

Percebe-se que a elite social dispõe de algum meio de transporte para ir ao Centro da cidade, como as carruagens ou o bonde São Clemente, e ali faz compras no comércio, vai a confeitarias e teatros, passeia à beira-mar e nas ruas elegantes cujos nomes se mantêm até hoje: Ouvidor, Gonçalves Dias, Largo de São Francisco, Largo da Carioca… Em contrapartida, os trabalhadores do cortiço locomovem-se a pé, motivo pelo qual suas caminhadas se concentram no bairro em que moram. Nesse sentido, é exemplar o percurso de Jerônimo e seus comparsas na noite do assassinato do capoeirista e rival, pois saem de um botequim próximo ao cemitério São João Batista, tomam a rua Sorocaba até as imediações das ruas Bambina e São Clemente, encaminham-se para a travessa da Passagem nas cercanias do Hospício de D. Pedro II, hoje incluído nocampus universitário da zona sul, alcançam a praia de Botafogo para, em seguida, rumarem em direção à cidade, passando pelas praias do Catete, Glória e Lapa. Aí, em vez de flânerie, o itinerário descreve uma rota de despistamento e fuga.

Em suma, o uso do espaço urbano pelos personagens de O cortiço permite configurar a obra de Aluísio Azevedo como um romance de localização especificamente carioca. Nele, são flagradas a cidade e a sociedade em estado de mutação, quando se adapta para o ambiente urbano a dicotomia de casa grande e senzala, agora traduzida pelos contrastes simbolizados pela oposição entre cortiço e sobrado. Assim, a preocupação com a veracidade, própria do realismo-naturalismo, fornece um painel da cidade, em momento de profunda transformação social, cultural, humana. Graças à minuciosa pesquisa que empreendeu, Aluísio Azevedo transformou seu romance em um documentário não só sobre a acumulação de capital como também sobre a cidade do Rio de Janeiro, através da vida, trabalho, moradia e lazer de seus habitantes, sejam eles pertencentes às camadas aristocráticas ou às populares.

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Este ensaio foi publicado na revista Ipotesi, Juiz de Fora, Universidade Federal de Juiz de Fora, v. 4, n. 1, jan-junho 2000, p. 103-10.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Schwarcz, Lilia Moritz (1999). As barbas do Imperador D. Pedro IIum monarca nos trópicos. São Paulo, Companhia das Letras.

Vassallo, Ligia. “De Zola para O Cortiço: o cânone e a forma”, Cânones e contextosAtas,V Colóquio Internacional ABRALIC, Rio de Janeiro, 1998, 3 v. v. 2, p. 467-70.





Bio fornecida pelo palestrante.

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO – Luiza Lobo




Resumo:
This essay attempts at the discussion of the conditions for the survival and permanence of art in the new millennium. It discusses post-colonial culture and tradition in Brazil in the face of the new technologies and trends quickly arriving from other more developed milieus. The essay draws the epistemological lines of resistance for esthetics and art in such a culture.
Texto:

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
INTRODUÇÃO

Os 500 anos de descoberta do Brasil provocam-nos uma indagação sobre as criações que ocorreram no país no campo da arte, da literatura e da cultura, para ficarmos no campo das ciências humanas. O que marca especialmente esta data é sua coincidência com o início do novo milênio, dentro da cronologia cristã, o que nos leva, simbolicamente, a sentir que estamos fechando uma era e iniciando uma nova. Tudo isso pode, concordo, não passar de uma impressão ligada tão-somente ao calendário gregoriano cristão, data historicamente nada significativa para árabes, indianos e judeus, por exemplo.

O panorama cultural global alterou-se a tal ponto no Brasil e no mundo, nos últimos dez anos, que muitas vezes nos indagamos se permanecerão uma literatura e uma cultura como a conhecemos agora, ainda escrita, culta, erudita e literária, dentro da tradição greco-judaico-cristã-ocidental. A compreensão do mundo nesses 25 séculos de história greco-cristã parte de premissas físicas e concretas, no máximo ligadas à eletricidade, no século XIX, e à revolução da eletrônica, do laser e da Internet, no século XX. Ocorreu uma revolução tão radical nesta última década que ameaça aposentar o papel como veículo de imprensa e de cultura escrita. Boa notícia para a ecologia, graças à melhor conservação das florestas. A difusão do computador em escolas, mesmo nos países pobres, com sua contraface do CD-Rom, o disco a laser, o email, a conversa on-line, a Internet, a vídeo conferência e o hipertexto representado das redes e conexões representa uma forma radicalmente nova de comunicação entre os seres humanos. O fenômeno da televisão, com a divulgação de arte e notícias de forma simulada ao real, através da cor, movimento e linguagem oral, por via eletrônica, depois aperfeiçoado com a televisão a cabo e o vídeo doméstico, criando a especialização do espectador, passou por uma transformação ainda mais gigantesca com o correio eletrônico e muitos outros avanços tecnológicos que aparecem diariamente.

A conseqüência social mais imediata deste fenômeno é a globalização e a unificação da sensibilidade humana através de um tipo de visão de mundo única ou predominante. Mas outra conseqüência disso é que é a hegemonia da língua inglesa e a cultura por ela engendrada, que difundem seus hábitos, cultura e arte — e, naturalmente, seus produtos negociáveis. Cria-se um novo império de dominação cultural moderna através do domínio da imagem e da palavra. Este só pode ser comparado ao império latino na antigüidade. Nem mesmo os Estados nacionalistas do século XIX conseguiram a mesma penetração mundial obtida pelo império anglo-saxônico atual, entendendo-se aí principalmente a hegemonia dos Estados Unidos. É uma forma inteligente de dominar mas que se deve, principalmente, ao fato de a Inglaterra, desde o século XVIII, já se constituir num país industrializado e capitalista, o que a capacitou a utilizar a língua como uma forma de exportação de sua cultura, através de um forte sistema educacional e um bem organizado sistema administrativo das colônias, que se aliavam para utilizar a língua inglesa como principal veículo de dominação. Esta se dava não tanto através de guerras, ou unicamente pelas guerras, mas através da exportação de cultura (ver The Empire writes back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, London, Routledge, 1991. 1. Ed. 1989). Uma forma de dominação que já atua de forma cada vez mais próxima, pois é realizada através das chamadas “negociações”, seja no plano político ou econômico. Estes acordos quase nada têm de negociados, uma vez que os parceiros mais fortes sempre poderão “exportar” (isto é, impor) suas idéias e negócios com muito maior margem de aceitação (ou imposição) nas regiões humilhadas e ofendidas (ver Agnes Heller). Exemplo disso foi a “negociação” sobre a emissão de gases CO2, na última reunião de cúpula mundial, durante a qual os Estados Unidos e outros países do Primeiro Mundo, em lugar de reduzirem o grau de poluição que provocam no mundo, “negociaram” com países menos poluidores a comprarem deles uma certa quantidade “quotas de poluição”, uma vez que eles pouco poluem. Mas também pouco produzem. Assim, com esta “barganha”, ainda durante algum tempo continuará a poluição na atmosfera que a Terra como um todo provoca. Situação eticamente condenável que nos lembra as indulgências compradas pelos pecadores do Santo Papa durante o Renascimento. Daí a importância da apropriação das formas impostas pelos países dominadores, de que nos falam os autores acima.

Do ponto de vista da arte e da literatura, o computador trouxe para o leitor da telinha uma importante opção. Ele já não precisa dedicar-se apenas à observação passiva dos bonequinhos e filmes impostos pela televisão ou pela programação da TV a cabo. Ele se sente dono do universo, buscando seu assunto na Internet ou escrevendo em velocidade igual ou quase igual à do pensamento, ou pode conversar sobre inúmeros assuntos com pessoas de diversos pontos do globo, visitando endereços eletrônicos e informações de locais distantes sobre infinitos assuntos em fração de segundos. A vantagem que este espectador-leitor-escritor ganhou foi passar a utilizar, em sua leitura na Internet, quando na presença de ilustrações, os dois lobos do cérebro, quando antes só utilizava o direito, para a escrita. O ocidental pouco utilizava o lobo esquerdo do cérebro, que se destina às figuras ou desenhos. Com o computador, foi forçado, afirmam alguns especialistas, a usar os dois lobos, combinando figuras/desenhos e escrita. Aproxima-se assim da percepção do texto que tem o oriental, que sempre precisou, para interpretar e escrever o ideograma, combinar a leitura da figura visual à interpretação da escrita. (Ver também Pierre Lévy, A tecnologia da inteligência; O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, 34 Letras, 1993. 1. Ed. 1990; e também O que é o virtual?, Rio de Janeiro, 34 Letras, 1999. 1. Ed. 1995).

Outra conseqüência associada à escrita no computador é a possibilidade de realizar o sonho de Stéphane Mallarmé, em seu famoso e inacabado projeto do Livre, como mostrei na Apresentação a Globalização e literatura (Rio, Relume-Dumará, 1999, p. 37-45): no computador, pode-se até certo ponto desobedecer à ordem linear do discurso, escrevendo, recortando, deslocando, apondo sílabas, palavras e orações numa rearrumação constante do discurso, o que não poderia ser feito no texto tradicional.

Todo este fenômeno teve lugar na última década do período que Lyotard denominou “condição pós-moderna”, implicando no fim das utopias que vinham se delineando desde o século XVIII, com os grandes enciclopedistas franceses e pensadores da filosofia transcendental alemã. Este momento, iniciado na década de 1970, a partir de uma crise generalizada no mundo das artes, corresponde ao fim da busca do “Make it new” poundiano e da originalidade do modernismo da primeira fase, e à passagem para a idéia de que “Nada é new“. Tudo é repetição, rearranjo de termos já presentes na ordem do discurso anteriormente enunciado. Na condição pós-moderna a literatura e o “fim do real na condição pós-moderna veiculam percepções, produzem subjetividades e anunciam os paradigmas de novas formas de pensar, sentir e estar no mundo”, nas palavras de Fernando Fábio Fiorese, um dos ensaístas do livro, que retomo na mesma “Apresentação” daquele livro.

A crise das utopias, o sentimento de déjà vu e de melancólico “sentimento do mundo”, na expressão de Carlos Drummond de Andrade, que se apodera de artistas e produtores culturais do pós-moderno explica-se pelo acúmulo de informações permitido pelo computador, o CD-Rom, o hard disk e outros meios de armazenamento de dados quase infinitos e até então impensáveis. A maior amplitude de informação, impulsionada pelas descobertas tecnológicas e científicas a cada dia trouxe, no plano das artes, a sensação de vazio e de nada mais te-se a inventar. Isso ocorreu, pelo menos no plano da retórica, ou seja, das artes.

À diferença dos jornais, cobertos do resíduo de tinta, borrão, provocado pelo chumbo, a graxa e por máquinas pesadas, manuais ou elétricas, cria-se uma nova realidadeclean, os programas de computador e os portais de informações científico-tecnológicas, propagandas e comunicação eletrônica, abrindo para um universo de possibilidades individuais. Esta realidade virtual que nem sequer tenta mais simular a vida real, mas que cria a vida, já foi considerada compatível com a ética e as características da sociedade capitalista e puritana. É o portal de um novo mundo da comunicação. Uma história da leitura, de Alberto Manguel (São Paulo, Companhia das Letras, 1997, 1 ed. 1996), mostra-nos a evolução que preparou este novo universo infinito de simulacros idênticos ao real, e muitas vezes superiores aos originais, obtidos numa velocidade inimaginável. A técnica acompanha o progresso da humanidade em relação a uma crescente imersão no capitalismo, em que time is money. Já não há manuscritos, rabiscos, textos inéditos e únicos rascunhados à mão ou numa máquina individual, caseira. As descobertas que faziam a alegria dos especialistas em ecdótica, hermenêutica ou genética crítica. O horror da página em branca de que nos fala Maurice Blanchot em L’espace littéraire já quase deixou de existir. Um texto é composto de recortes, reaproveitamentos, revisões: composições rápidas em que surgem, em questão de segundos, através de pequenos gestos técnicos, como o automático clicar de botões de recortar, apagar e colar, um novo tipo de palimpsesto. Não há tempo para hesitações. Time is money. Os moldes de cada escrita estão armazenados na memória do computador, resíduos de outros textos que podem ser facilmente reaproveitados, sem grande emoção humana, apenas por força da máquina. O mundo clean já se aproxima perigosamente de uma certa realidade de ficção científica, pelo menos para a classe média, em que as pessoas agem como robotizadas e dominados pela máquina. Ao menos este é o tema de filmes atuais realizados nos Estados Unidos: MatrixQuero ser John Malkovitch e sem dúvida muitos outros, talvez menos criativos e convincentes.

A noção de reprodutibilidade técnica, anunciada por Walter Benjamin em “O objeto literário na época de sua reprodutibilidade técnica” repete-se e reproduz-se numa quantidade e velocidade inimaginável. O conteúdo filosófico e questionador do texto desaparece em prol da economia de palavras e de tempo. Se o meio é a mensagem, o fremir da máquina em movimento elétrico acelera a acumulação de gestos mecânicos, que não raro redundam em lesões nervosas por sua excessiva repetição.

Esta repetição, que deixava uma margem, um surplus, na teoria de Jacques Derrida, passa a ser questionada na sua produção positiva de sentidos por Jean Baudrillard emL’Échange symbolique et la mort (Paris, Gallimard, 1976). Essa série infinita de sentidos levaria a uma constante morte de significado na vida, eternamente perpetuada no capitalismo (série que pode ser interrompida pelos discursos marginais ao capitalismo, como as dos negros e das mulheres). Também Fredric Jameson em “O pós-modernismo e a sociedade de consumo” (cap. 1, in Ann Kaplan, org. O mal-estar no pós-modernismo; Teorias, práticas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993, 1. Ed. 1988, p. 25-44), menciona (p. 30) uma “construção” do sujeito burguês, que nunca teria existido, e a emergência de uma “nova experiência de tecnologia citadina” (p. 40), que Walter Benjamin já apontara em Baudelaire.

Paralelamente a esta transformação de atitudes, ocorre um fenômeno inesperado no plano da crítica literária: sucede uma exaustão com os métodos semiológicos até então utilizados, desde o Estruturalismo e a crítica pós-modernista com base em Jacques Derrida, Paul de Man, Jonathan Culler, Gilles Deleuze e outros filósofos e críticos literários. Na medida mesma em que há na sociedade contemporânea uma hipertrofia do instrumental virtual, ocorre, paralelamente, um desejo de recuperar uma dimensão histórica ou até microhistórica (nova história, ou de história das mentalidades), que abarque a totalidade dos eventos sociais que constituem o tecido social como um todo e que pode ser reconstituído a partir do texto. “Nas palavras de Michel de Certeau, o que chamamos de realidade é um inventário (quiçá incompleto) daquelas pegadas deixadas num mapa coletivo já marcado por outros traços de outras viagens” (cit. in Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 263, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). Noutros termos, a realidade é histórica. Nos estudos posteriores ao pós-moderno assiste-se a um certo retorno à análise sócio-histórico-cultural, como por exemplo entre seus criadores, os historiadores franceses Claude Braudel, Jacques Le Goff e outros representantes da da escola, ou nos seus seguidores, o professor inglês Peter Burke. Contudo, já não é uma história ingenuamente realista, nos moldes de um Arnold Hauser, de um Norbert Elias ou, em menor grau, de um Erich Auerbach. Ela pressupõe a recriação mimética da realidade através de uma narrativa que passa a constituir uma história que não se quer científica, isto é, reprodutora do real, mas recriativa deste real. (Ver sobre Costa Lima Máscaras da mímese). Na encruzilhada entre o pensamento marxista realista e esta visão quase literária de história, passando pela revisão da obra semiológica de Jacques Derrida, encontra-se a figura revolucionária de Gayatri Spivak (ver artigo Internet).

Esta indiana não se considera indiana, para ela uma criação forçada por ingleses e outros povos dominadores da Índia, buscando uma falsa união para melhor conquistá-la. Na verdade, ela se considera natural de Bengali, onde nasceu, sendo o bengali sua língua materna. Desde os 17 anos está radicada nos Estados Unidos. Em suas conferências e ensaios procurou unir a sociologia marxista com o pensamento filosófico de Jacques Derrida, depois chamado de desconstrucionismo, nos Estados Unidos, quando ele passou a lecionar em Yale, após a década de 1970, dando origem ao que se chamou movimento pós-moderno. Questionando cada palavra, buscou contestar o conteúdo essencialista da linguagem, e unir a crítica à posição marginal ocupada pelas classes subalternas com a experiência feminista de revisão textual.

Assiste-se a um fenômeno que poderíamos definir como uma dupla crise do conceito de mímese. Na década de 1960-1970, o Estruturalismo desvinculou a noção de mímese da palavra e da linguagem, desatrelando-o do real social. A linguagem foi eleita como uma explicação hegemônica e autônoma de interpretação. A luta surda que se travou entre os críticos marxistas e os pensadores que buscavam a autonomia do texto literário redundou na noção de autonomia da dimensão do imaginário e do simbólico no texto literário, libertando o signo de uma mímese colada ao real. Este processo parece ter se invertido no momento em que o pós-moderno já se esgota com relação a uma mímese vassala do real. Enquanto, no período pós-moderno, a filosofia era uma preocupação constante dos críticos, sob o influxo do pensamento de Derrida, visando a contestar os pressupostos da filosofia transcendental metafísica, no momento atual os estudos culturais e a linha de discussão centrada no pós-colonialismo atrelam-se à sociologia e apresentam questionamentos políticos, não filosóficos, às questões da cultura.

Na última década do século XX Terry Eagleton (Theory of Literature, London, Blackwell,1993, 1. Ed. 1988) e Henri Lefebvre (The construction of space, Oxford, Anthropos, 1991, 1. Ed. 1974) desconfiam da hipertrofia da linguagem como sendo capaz de servir de explicação para a totalidade dos fenômenos sociais da realidade além dos textuais. Lefebvre chega a referir-se explicitamente a tal falência.

Também a partir do pensamento filosófico de Jacques Derrida e da semiologia, mas afastando-se rapidamente dele, Edward Said, Homi Bhabha, assim como Gayatri Spivak, utilizando em sua maior extensão o conceito de diferença de Derrida e ampliam-no não só para a definição de gênero no feminismo como, igualmente, para as camadas subalternas e as minorias políticas . Esta linha se constitui numa crítica pós-colonialista que se volta para as margens, em oposição ao eixo dominador eurocêntrico.

Na mesma vertente, os estudos culturais aprofundam as redes sociológicas deste saber questionador, afastando-se cada vez mais da indagação semiológica presente em Derrida, Kristeva e mesmo Foucault.

O texto liberta-se da clausura semiológica, na qual se supunha que o signo continha o todo social em si, como na afirmação de Julia Kristeva sobre o termo ideologema, e a crítica volta-se novamente para o social, embora o veja através de um sistema mimético de representação, não como um dado concreto, como no marxismo ingênuo. Contesta-se a linguagem como metalinguagem ou um discurso retórico autônomo, para além da ideologia. A ciência é posta em questão, até no campo das ciências exatas. A lingüística não mais se constitui na grande ciência da comunicação que tudo abarca, como queria Roland Barthes em Língüística e comunicação. Ela volta a ocupar um nicho dentro das ciências humanas. A sociologia, a história e a antropologia tornam a despertar o interesse do discurso teórico e crítico universitário. A comunicação de massa e a cultura canibalizam os campos da arte e da literatura, atrelando-os à sociedade do espetáculo atual, na feliz expressão de Guy Debord (em A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto; é um aspecto discutido também por Nestor García Canclíni em Culturas híbridas, São Paulo, EDUSP, 1997, 1. Ed. 1989).

O modismo do espetáculo, que caracteriza a nossa cultura como a do olhar sem críticaencontra o seu paroxismo em Paulo Coelho, que pontifica sobre teologia em O Alquimista, e é arrastado, na sua mais profunda glória, como o andor de um santo, nas laterais de uma linha de ônibus que percorre Paris. É um espetáculo inusitado vê-lo proferir conferências eruditas nas academias, e freqüentar banquetes, a convite do Presidente da França e as maiores editoras do país, locais que há 50 anos só sonhavam penetrar os maiores representantes da alta literatura francesa.

Há no entanto a possibilidade de uma autocrítica do próprio enunciador do discurso, que se coloca no texto como pessoa, e não mais como cientista, ou seja, um sujeito afastado do objeto de seu saber. O processo epistemológico dá lugar ao processo existencial. Passa a ser “travessia” (ver Luciano Zajdsznajder, A travessia do pós-moderno (Rio de Janeiro, Gryphus, 1992; ver também O pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos), e surge o apelo a “uma ‘leitura atípica’, aquela que não pretende nenhuma exaustão, nem tem uma metodologia a priori, deixando-se levar pelaexperiência, palavra que também se liga à idéia de travessia. Uma leitura a partir das zonas menos privilegiadas do texto, ou de suas margens no dizer de Derrida, emMargens da filosofia: das notas, dos títulos, das epígrafes, das referências intra-, inter- e extratextuais” (Evando Nascimento, Derrida e a literatura. “Notas de Literatura e Filosofia nos textos da desconstrução, Niterói, EDUFF, 1999, 363 p., “Questões de princípio”, p. 15-25, p. 20). Mas saber sem o sentir perde o sentido

Já foi muito repetido que a maior revolução deste século foi a revolução feminista. Esperemos que ela não se torne um projeto adiado ou fracassado como a Revolução Comunista. De qualquer forma, adiada ela já está, pois parte de suas propostas de autonomia no plano social teráo de ser adiadas para o próximo. Foi um longo caminho que começou em fins do século XIX, com os primeiros movimentos sufragistas e a entrada da mulher para a imprensa e o mundo profissionalizado da imprensa e da literatura, com George Sand, Jane Austen e Charlottle e Emily Brontë, mas que ainda enfrenta muitos preconceitos arraigados. A pesquisa sobre o cânone, o resgate das escritoras e a discussão teórica sobre gêneros foi o caminho depois seguido pela crítica, que depois estendeu este pensamento à recuperação literária a outras “minorias”, sexuais, raciais, os povos orientais e os que produzem literatura oral. Principalmente estes últimos eram desconsiderados pelos estudiosos oriundos do pensamento eurocêntrico, uma vez que, na definição de Derrida, a oralidade baseia-se no fonocentrismo, um tipo de discurso do ouvir-dizer que não passa pela recriação da escrita ou a escritura crítica. Contudo, hoje, é a fala, a oralidade que preside às manifestações culturais mais importantes na história. O que em Derrida só se redimia pela escrita, ultrapassando o fonocentrismo do ouvir-dizer, torna-se valorização do fonocentrismo, pela reconsideração da literatura oral, da manifestação política e cultural de povos com uma cultura mais oral.

A arte e a literatura, como bem nos mostra Nestor Canclini em Culturas híbridas, passam a ser divulgadas na sua forma de baixa literatura, incorrendo num conceito muito amplo de cultura, que corresponde, na verdade, à noção de mídia como foi criado neste século. A mídia é a comunicação para as massas — não se devendo confundi-lo com a literatura oral ou popular, que sempre existiu. Esta não empregava meios de ampliação da divulgação, e era realizada pelas classes populares ou dirigida a elas. Um processo justamente inverso ao atual, em que o povo recebe pacotes de mensagens e imagens, de linguagens decodificadas para ele por pessoas bem informadas da elite intelectual que douram a pílula do conhecimento do cotidiano, oferecendo-a em pequenas doses. Não importa o que digam os bem-pensantes, como Leyla Perrone-Moysés, em sua defesa das “altas literaturas”, a verdade é que toda sorte de discursos se cruza nos meios de comunicação mais diversos, numa rede de intertextualidades: muros, programas de televisão, revistas on-line, programas de alta ou baixa qualidade, livros best-sellers e o hiperrealismo, no computador. Termina em grande parte o preconceito contra o não-erudito. Há a mistura das artes, como já vinha mencionado no Auerbach, confundindo-se alta, média e baixa literatura.

Nas universidades e meios intelectuais fala-se de decadência e finissecularismo. Nas livrarias compram-se obras de esoterismo e auto-ajuda. A própria psicanálise entra em crise, substituída por tratamentos de menor duração (ver Elisabeth Roudinesco, Mais!,Folha de São Paulo, março 2000), ligadas ao corpo e a esoterismos. A situação é crítica para as letras. Não se vendem mais livros. Editoras se unem em cartéis e conglomerados. Utilizam portais de informática. Introduzem-se em homepages. Livros inteiros são disponibilizados na Internet, mas o pagamento de direitos autorais se faz à editora só após completar-se o milheiro de vendas. Tudo passa a ter dimensões globais. E, como nos cultos milenaristas ao final do primeiro milênio, onde muitos peregrinavam pelas ruas esperando o fim do mundo e se autochicoteando, alguns prenunciam o fim da literatura e da arte. A baixa literatura e arte ditam as regras do bom-tom entre os intelectuais. As obras da chamada alta literatura destinam-se a um público altamente especializado e com um objetivo definitivo: didático, profissional, ou estimulado por um programa de televisão ou filme que apelam para este ou aquele título, como se deu com o livro O Perfume, de Patrick Susskind, uma releitura rebaixada de À Rebours, de Houysmans, que alcançou grande nível de vendagem e de que hoje ninguém mais ouviu falar. É o fenômeno da moda, da alta costura em pleno domínio das letras.

O tratamento indiscriminado de qualquer produto como produto artístico, que passaria a ocupar o espaço das belas letras, belas-artes ou da arte erudita, chega ao ápice no fim do milênio. Já na última década do século XX surgem os estudos culturais. Não se sabe ainda se são a tábua de salvação para as artes ou a aceleração de seu processo irremediável de decadência. As universidades e as revistas especializadas deixam de tratar a literatura como linguagem específica para se dividirem em departamentos ou centros voltados para a política da literatura e os problemas sociais, abrindo espaço para estudos cada vez mais politizados: women’s studies (estudos feministas), cultura latino-americana, estudos hispânicos, arte, estudos sociopolíticos. A alta literatura enclausura enclausura-se entre públicos altamente especializados, nas rodas de intelectuais e dos bares, a literatura (assim como as exposições de arte e a música erudita) não é mais o assunto. Fala-se de cinema, de psicanálise, de música popular, da economia, da vida privada. Cada um no seu buraco de pombo, para usar a expressão norte-americana que indica o aprisionamento universitário numa excessiva especialização: “pigeon-holed“.

Ainda não se sabe se os estudos culturais vieram condescender em abrir espaço para a moribunda literatura, ou se vieram acelerar um processo de perda de prestígio que poderia ainda se prolongar por mais algumas décadas, dando espaço para se alcançar algum processo de salvação pelo surgimento de alguma novidade no cenário cultural. A crítica torna-se mais sociológica, histórica, política, antropológica e menos voltada para estudos específicos da literatura, como o eram Hugo Friedrich, Wolfgang Keyser ou Vossler, nos antigos tempos do estudo da estilística textual. Acirram-se os estudos de literatura e cultura, literatura e sociedade e arte enquanto mídia. A crítica e a arte podem até continuar a se voltar para a literatura e o cinema de arte ou a obra de artista, o problema é encontrar público, seja universitário ou o geral. Criam-se núcleos, pequenos grupos especializados que continuam a ler em segmentos: literatura de autoria feminina, afro-brasileira, roman noir, romance policial. É como no início da rádio FM: as rádios AM sobreviveram, mas precisaram se tornar cada vez mais especializadas, voltando para segmentos mínimos da população: donas de casa, motoristas de caminhão, noticiário, certas seitas, tipos de música e até mesmo rádio relógio.

O VIRTUAL NA LITERATURA E NA ARTE: pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, estudos culturais

O estruturalismo consistiu num período crítico eivado de intertextualidades, de citações cruzadas, entre textos e intertextos literários que, no dizer de Julia Kristeva, se autobastavam, conduzindo a outras citações e leituras, numa incursão infindável pelo texto do outro, numa rede interminável. Já no clímax deste movimento, ou seja, no pós-modernismo, Barbara Cassin, em Máscaras da mímese, A obra de LCL, org. Hans Ulrich Gumbrecht e João Cezar de Castro Rocha, Rio de Janeiro, Record, 1999, “Transmissão e ficção”, p. 34-35, p. 25-43,), desmancha a magia das citações e das aspas, mostrando que a citação, desde Diels, o estudioso da literatura grega, é que elegia, de acordo com seu “bom gosto”, os textos dignos de citação, pois na verdade a frase citada é uma apropriação. Toda a etiqueta do processo de citação entre aspas data apenas do típógrafo Guillaume, epônimo de “guillemets”, as aspas, em francês (p. 34). Assim, a “doxografia” não passa de um “objeto filológico que corresponde ao ideal de uma transmissão por pura repetição” (p. 35). Para rivalizar com o culto livro de Genette que lançou toda a escola de análise de texto desde a década de 1970,Palymsestes, desmerece Barbara Cassim, no período pós-moderno: caracteriza a doxografia é “o que ele diz” (phêsin, em grego), enquanto legein significa “querer dizer” e apaga o falante, para que subsista apenas a “repetição da fórmula” (p. 38). Sem dúvida é uma releitura do estruturalismo e da semiologia, em que a repetição do dito e da diferença do mesmo é que vão indicar o significado semiológico dos vocábulos.

Estudos tradicionais — como a antropologia, a filosofia e a história — vêm sendo submetidos a um “profundo questionamento de qualquer formação epistemológica” — afirma Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 257, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). O que sucede é a textualização, a “literalização” de todas as antigas ciências, num sentido que antes poderia ser identificado ao de uma ideologia, como vêm fazendo Hayden White e Richard Rorty em filosofia, e Clifford Geertz e James Clifford em antropologia (idem, p. 257). Essas teorias limitam-se a apresentar narrativas ou textos culturais sobre fenômenos textuais “construídos a partir de uma aglomeração de textos” (idem, ibidem). Paralelamente, desequilibrou-se a estrutura sujeito-cientista — e objeto de estudo. O “objeto de qualquer prática discursiva não é nada mais que a própria produção dessa prática e é específico a ela” (idem, ibidem). Rompe-se assim a universalidade e a estabilidade que antes cercava o sujeito do conhecimento. Coloca-se em cheque a crença hermenêutica na quest!ao da formação da subjetividade naas construções e operações epistemológicas e metodológicas (como no caso de Um Geertz, Gadamer ou Paul Ricoeur). Estabelece-se um certo pacto em que o próprio discurso cria o seu objeto, ao contrário do pensamento hermenêutico, que antes via o objeto como um já-dado para ser conhecido pelo sujeito (ver idem, ibidem).

O que se poderia questionar aqui é se permanece um espaço irredutível que poderíamos chamar (ainda) de real. Que o real é impregnado de história, já nos disse de Certeau. Mas se este limiar é que o mundo real, aquele produzido pelo trabalho de todos, num retorno ao conceito marxista de trabalho e de produção relembrado por Lefebvre, então todas as interpretações e releituras são possíveis, e perde-se até mesmo a dimensão da ética na vida humana. Para Lefebvre, há três instâncias no que diz respeito ao real concreto, como em Platão, cada vez mais afastadas do real, em direção aos discursos de representação. Este pacto com a realidade, uma realidade que em si não teria nada de interessante, comenta Richard Rorty, no entanto nos permite uma saída para fora da desconstrução, em relação à construção de um discurso coerente que não fique circularmente eternamente se autoperguntando sua função social o tempo todo.

A LITERATURA NA ERA DO CULTURAL

Afirma Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org., Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, que hoje o texto é “considerado como produto cultural, [e] é visto como absorção, réplica a outro texto ou a vários, e em que o que era entendido como relação de dependência ou dívida para com o antecessor passa a ser compreendido como um procedimento natural e contínuo de re-escrita” (p. 237). Lembra que identidade e representação são conceitos intimamente ligados, pois a “representação, a idéia, aquilo de que é imagem no ato da lembrança resulta em conhecimento da identidade”. Esta se define como uma experiência emocional que permite a cada ser perceber-se como entidade única, apesar de suas contínuas transformações. É a contradição de ‘ser-si-mesmo’ deixando de sê-lo. O conceito de identidade opõe-se ao de alteridade e o reconhecimento da identidade de dois ou mais objetos, ou sua identificação, pressupõe sua alteridade, que lhes permite continuar ‘o mesmo’, persistir no seu ser” (p. 237; ver Greimas, A. J.; Courtes. Dicionário de semiótica. São P;aulo, Cultrix, 1979).

Temos, assim, a pressuposição de que cada obra literária desenvolve elos intertextuais com outras obras — no sentido de intertextualidade que lhe atribuem Julia Kristeva emSemeiotiké e Jean Genette em Palympsestes. Neste sentido, já não haveria a idéia de influência ou preponderância de um autor sobre outro, uma vez que os textos funcionam como redes de sentido complexas e existindo concomitantemente na sociedade atual. No caso de autores cronologicamente anteriores, eles seriam retrabalhados e reinscritos num novo todo lingüístico, pelo autor posterior na tradição literária, tratando-se por assim dizer de um caso de tradução ou transliteração. Mas, para além deste conceito, vemos delinear-se uma tal complexidade de intertextualidades que se configura um problema de hiperrealismo, como na Informática, de signos ou conteúdos que remetem a outros conjuntos de signos ou de conteúdos, indefinidamente.

O cânone literário ficaria assim sob suspeita, podendo-se afirmar que não existe literatura “pura”, no sentido das “belas-letras”, uma vez que todo texto, em última instância, estaria inscrita na totalidade do social, ou na vasta palavra cultura. Desse modo, nenhum texto poderia deixar de estar inserto na história. Um cânone literário único e definitivo seria uma contradição, uma vez que a cultura está em constante mobilidade, assim como a parole (palavra), sempre móvel, com relação à langue(língua), mais fixa. O cânone sempre vai incorporar autores do passado que vão sendo revalorizados — é o caso das escritoras do século XIX que vão sendo resgatadas — e escritores quer atuais, quer passados, uns porque passam a ser considerados, outros porque, tendo sido antes bem considerados, saem de moda ou caem desuso. É o caso, entre nós, de Coelho Neto, que hoje ninguém mais lê. O caso modelar para este fenômeno é Shakespeare, cuja própria existência já foi negada e no século XIX foi valorizado como o mais original e valioso dos dramaturgos, sendo hoje reescrito e transfigurado de todas as formas, a cada montagem e leitura crítica (ver Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org.,Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, por exemplo, a respeito das releituras de Shakespeare em nosso século)

A idéia de um kanon (em grego, vara de medir), de função puramente estética (ver Roberto Reis, “Cânon”, in José Luís Jobim, org., Palavras da crítica, Tendências e conceitos no estudo da literatura, Rio de Janeiro, Imago, 1992, Biblioteca Pierre Menard, p. 65-92, p. 70-1), isto é, com base na filosofia kantiana, que pregava o bem e o belo desinteressados, tornou-se obsoleta. O conceito cultural parece atropelar essa pureza metafísica de conceitos que se originou no pensamento da elite do século XVIII. A primeira pergunta na sociedade atual, supostamente democrática e republicana, é sobre a legitimação do conceito de belo. Quem será o juiz deste conceito? Em que definirá a medida desta beleza? Como afirma Roberto Reis: “O estudo da literatura seria melhor equacionado considerando-o dentro da dinâmica das práticas sociais: a escrita e a leitura estão sujeitas a variadas formas de controle e têm sido utilizadas como instrumento de dominação social” (idem, p. 72). A legitimação dessas obras e dos critérios seria feita pela universidade, pela crítica especializada ou a resenha jornalística nos meios de comunicação social — entretanto, no apagar das luzes do século XX, seria ainda este o critério usual? Sem dúvida, caminhamos na direção contrária à apontada por Harold Bloom em seu O cânone ocidental (Rio de Janeiro, Objetiva, 1995), que desejaria retornar a Shakespeare e apenas ao panteão de autores clássicos e anglo-saxônicos estudados em Yale até 1950. (No Brasil foram publicados recentemente, de Flavio Kothe, O cânone colonial e O cânone imperial, Brasília, ed. Da UnB).

Hoje assistimos à transformação do livro num objeto de consumo e de utilidade prática. O best-seller oferece informações importantes. Paulo Coelho, por exemplo, decifra os passos para a depuração da alma, até a ascese maior, descortinando ao leitor o caminho até Santiago de Compostella. Outros explicam o Japão na época do Xogum ou o Egito no tempo dos faraós. São historiadores que facilitam o vocabulário e o aprofundado estudo cronológico, inserindo-o numa narração cheia de graça e regada a romance, aventura e ação. O leitor sente-se elevado à categoria de intelectual, sem precisar do esforço de estudar ou dirigir-se à universidade. A literatura mostra-se “um eficaz veículo de transmissão de cultura” (Roberto Reis, idem, p. 72), mas, também, um eficaz instrumento de dominação de classe e de grupos sociais altos. Tradicionalmente, houve a exclusão dos povos da periferia européia, os asiáticos, africanos, sul-americanos — processo que está sendo em parte revertido pela atuação da Associação Internacional de Literatura Comparada neste sentido, reunindo-se e estudando o Japão (último congresso) e a África (este ano). No entanto, dada a complexidade do mundo atual, uma listagem de “grandes escritores da literatura universal”, como existia nas universidades norte-americanas e européias até a década de 1950, ou a idéia de uma Weltliteratur, como o desejava Goethe, no momento da criação da Literatura Comparada, no século passado, parece inviável hoje, podendo-se antes imaginar a coexistência de diversos cânones destinados a distintos fins e voltados para diferentes regiões do globo. Estes cânones reconheceriam explicitamente os fins a que se dedicariam, pois o critério estético, eivado de metafísica, no sentido desinteressado e superior a qualquer interesse, parece pouco convincente e até aberto à suspeita, principalmente das classes mais subalternas, se elas receberem a educação a que têm direito — um processo que tem sido retardado indefinidamente no Brasil, com a contínua queda da educação e a manutenção do salário mínimo em 75 dólares mensais. No momento atual, a quebra do conceito de nacionalidade, bem exportado através dos impérios pela escola hegemônica do Romantismo, parece também perpetuar-se pela impressionante influência dos Estados Unidos em todo o mundo, constituindo-se agora como uma nação global. Se, como nos mostra o livro The Empire writes back antes havia o imperialismo capitalista e eficaz da Inglaterra desdobrando-se através da língua, da cultura como armas de dominação cultural expandindo-se na Índia, Austrália, Canadá, etc — com uma eficiência infinitamente superior aos impérios mercantilistas no século XVI de Portugal, Espanha e Holanda, por exemplo, hoje a lição inglesa é elevada a uma infinita potência com o império norte-americano e temos o mundo transformado em aldeia global quase que exclusivamente constituído a sua imagem e semelhança.

CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E RUPTURA

Balizar a critica literária brasileira dentro desta rede de pensamentos filosóficos e lingüísticos não é tarefa fácil. Pode-se cair na armadilha do nacionalismo, enfatizando a importância de todos os críticos que se voltaram para um pensamento nacional. Assim, se destacaria a preeminência da escola da USP, liderada por Antonio Candido e Roberto Schwarz, e hoje seguida por inúmeros de seus alunos espalhados pelo mundo. Mas esse esforço poderia parecer um pouco infrutífero a partir da década de 1970, quando o pensamento especificamente “brasileiro” passou a se estender a um pensamento mais latino-americano, com pensadores como Roberto Schwarz, ou universalista, como é o caso de João Alexandre Barbosa, que incluiu nos seus ensaios estudos sobre Mallarmé e outros poetas simbolistas, na linha mais eclética de um Augusto Meyer. Inúmeras metodologias passaram a se cruzar a partir da década de 1970, as quais podem ser sintetizadas nos estudos de Literatura Comparada, que passaram a reunir estudos interdisciplinares dos mais diferentes teores. Mas com uma marcante diferença: não preconizava o fechamento em torno de temas da Literatura Brasileira nem com um instrumental oriundo tão-somente do Brasil. Esta foi uma das preocupações de Luís Costa Lima em um certo momento de sua carreira crítica: encontrar as raízes e as ramificações de uma crítica “autenticamente” brasileira (como ele desejaria ver surgir, enquanto “sistema intelectual brasileiro”). O esforço por encontrar algo totalmente autóctone tornou-se um tour de force. Aqui e ali, e no próprio pensamento de Costa Lima, surgiam influências, leituras, contágios, contaminações, apropriações. Na verdade, onde se encontrariam, em pleno século XX, esses pensamentos totalmente originais? Acabou-se por incorrer na teoria das intertextualidades, de Julia Kristeva, a partir do pensamento de Mikhail Bakhtin, e dizer-se que não é mais possível retraçar as influências e, como na rede entretecida de Jorge Luís Borges, e no Palympsestes, de Genette, todos os textos estão em todos os textos, na modernidade. Através da extrema circulação da Literatura Comparada no Brasil, a partir da década de 1980, e principalmente com a revista da ABRALIC n. 1, de Niterói, em 1991, passou-se a valorizar problemas genéricos, como a identidade cultural, a diferença filosófica ou de gênero, e a utilizar como metodologia a interdisciplinaridade, com a conjunção da história, da antropologia e da história. Abria-se um caminho internacional para os estudos da Literatura Comparada. Os apelos marxistas do local e do popular tornavam-se mais raros, e só voltaram a ocorrer no campo da literatura com a ruptura da idéia de erudito, e sua mistura com o conceito de arte popular ou baixa literatura.

O conflito entre nacional e autêntico e uma crítica livre, de caráter quem sabe francês, nos moldes de Sainte-Beuve, esteve presente no Brasil desde os seus começos. Em Alencar, “Como e por que sou romancista” e em Machado de Assis, “O instinto de nacionalidade” o importante era diferenciar-se do pensamento europeu, hegemônico, eurocêntrico. Naquele momento, de fixação das fronteiras nacionais e de uma identidade própria (até certo ponto identificada com a idéia de exótico, de tropical, de indígena e selvático) dizer-se brasileiro era criar uma diferença e afirmar-se uma identidade própria. Entretanto, os críticos literários tradicionais como Santiago Nunes, Artur Araripe, Sílvio Romero e José Veríssimo, prestaram uma atenção apenas periférica ao problema da nacionalidade. Ela se restringia à questão do tema e das descrições no que dizia respeito a cenas de natureza “brasileiras”, isto é, o que resumia a teoria da “cor local”, uma das bases do Romantismo. A verdadeira preocupação desses críticos era, entretanto, o problema estético dos textos. Estudavam a sua eficácia, sua recepção pelo público, a utilização de um vocabulário adequado, oriundo do português e não afrancesado, a descrição de pessoas da classe popular e com o vestuário típico do povo brasileiro que não denotasse influência estrangeira nem descrições excessivamente cosmopolitas ligadas a Paris.

Assim, a crítica literária brasileira nasceu não há 500 anos, mas há menos de 200, no século XIX. Surge com a independência do país, quase no Romantismo, e vence inúmeros problemas. O primeiro, é o analfabetismo do povo. Machado, como bom cronista dos costumes de sua época, assim define o grau de instrução e a política do país: somos 70% de analfabetos (ver crônica de Notas semanais). O segundo, é a ausência de universidades (a Universidade do Brasil data de 1920) e faculdades dedicadas à literatura. Até 1940, quando se cria a primeira Faculdade de Letras do país, os escritores estudavam Direito. Isso leva a uma certa generalização nos seus comentários críticos. A falta de leitura sistemática de autores, críticos, da literatura greco-latina ou de importantes histórias literárias que nos antecederam leva a um ecletismo e um generalismo de estilo que foram denominados de impressionista. É o domínio do sentimento sobre a racionalidade. Vale a impressão pessoal sem fundamento num estudo mais aprofundado ou em comparação a autores antes estudados com afinco. É grande a leitura de obras literárias mas quase nula a procura por obras filosóficas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como se constata através de seu Livro de Consulentes do século XIX. Outro problema é o elitismo de todo sistema intelectual brasileiro. Permitia-se, por exemplo, o ingresso à Biblitoeca Nacional, por exemplo, apenas a homens brancos, de terno, gravata, bengala e chapéu. Jamais descalços (escravos) nem mulheres (esperta foi George Sand, que se vestia de homem e adotou pseudônimo masculino, em pleno século XIX francês).

Conclusão

Nos 500 anos de descobertas do Brasil, talvez devêssemos cobrar de nós mesmos uma crítica pós-colonialista que implicasse na autonomia com relação às dependências do passado, nos moldes do pensamento que surge na Índia, como base para a criação de um país totalmente independente, embora constituído por um rede de línguas e culturas unificada pelos ingleses e outros dominadores artificialmente. No entanto, essa hipótese é remota dada a conjuntura globalizada do mundo atual. O fim da colônia terminou, do ponto de vista cultural, no Romatismo do período monárquico, realizando uma mudança de eixo de influência de Portugal para a França. A influência francesa culminou com o modernismo, no qual muitos manifestos, como o Pau-Brasil e o Antropófago tinham suas bases no Manifeste Caniballe, de Picabia, por exemplo (ver Benedito Nunes, Oswald canibal, São Paulo, Perspectiva). Mas por volta de 1950 a influência francesa foi substituída pela norte-americana, num grande império mundial de bases extraordinariamente globalizadas. Uma crítica pós-colonial nos levaria de volta à dicotomia nacional versus internacional. A um pensamento autóctone. As dicotomias se mostram cada vez mais abertas à suspeita num mundo complexo. Seria o autóctone o indígena? O africano? Ou o retorno à cultura do português? E que fazer com os imigrantes europeus e japoneses? Desse ponto de vista, parece-me que no multiculturalismo que deve prevalecer na cultura e na arte, nosso sistema intelectual brasileiro, que já lutou tanto para ser puramente “brasileiro” durante tantas décadas, deveria reunir os fragmentos da cultura que o compõem e se autoquestionar no sentido de influir no processo o máximo possível. A criação de uma teoria totalmente pura e autóctone, independente e original lembra-nos as teorias racistas do final do século passado e início deste. E o movimento em direção à globalização torna-se inevitável. O que não quer dizer automático nem regulado exclusivamente por outros. A lição da apropriação, já proposta entre nós pelos modernistas, parece ser o único caminho possível para uma teoria e uma prática crítica entre nós e em qualquer parte do mundo hoje, ligado por uma quase visível rede comunicacional que realiza a predição da aldeia global de McLuhan, aldeia global, multicultural mas na qual alguns exportam saberes e bens e outros os importam. Daí a importância da permanência da crítica literária e cultural.

Este texto foi escrito para uma conferência durante o Simpósio Internacional BRASIL 500 ANOS: CAMINHOS DA HISTÓRIA, SÍNTESE DE CULTURAS, realizado na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, de 9 a 14 de abril de 2000, sob a coordenação da Profa. Maria Gabriela Cardoso Fernandes da Costa, da Pró-Reitoria de Extensão e do Forum das Nações. Foi paricalmente publicado em jornal local.





Bio fornecida pelo palestrante.

O BOM-CRIOULO




O BOM-CRIOULO

 Adolfo Caminha

 A velha e gloriosa corveta que pena! já nem sequer lembrava o mesmo navio doutrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!…
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de patescaria. Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas até a primitiva pintura do bojo.
No entanto ela aí vinha esquife agourento singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar…
Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia-se muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho…, e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz e a voz humana perdia-se numa desolação imensa!
Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista.
De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme, como se fora desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau.
Agüenta! diz uma voz.
E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem fim…
Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da família!…
Escasseavam os gêneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em lata aproximava-se ameaçadoramente, causando apreensões à marinhagem.
Tinham dado onze horas na sineta de proa.
O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio dalgibeira, um belo cronômetro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vista dolhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco, metálica:
Corneta!
Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e inteligentes, grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar de navegação prática.
Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava dolhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de um modo admirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo sei entranhado amor às matemáticas e à vida naval. Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente para não perder o hábito. Inimigo de terra, preferia o farniente de seu camarote, ali ao pé dos livros e das fotografias marítimas, ao movimento esterilizador e absorvente dos cafés e dos teatros.
Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria expressão de constrangimento.
Outras bocas foram transmitindo a ordem até que surgiu, correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, dolhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência.
Pronto! disse levando a mão ao boné com um jeito marcial.
Toca mostra, ordenou o tenente.
As primeiras notas da corneta, límpidas e sem eco no silêncio do mar alto, houve logo um estranho bulício em todos os recantos da corveta. Agora os marinheiros que descansavam à proa, olhavam-se por cima dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o movimento foi-se acelerando à proporção que o toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dos guardiões: Sobe, sobe, tudo para cima! de envolta com um barulho de ferros que vinha dos porões.
O mestre darmas, cabrocha pedante, muito cheio de si e de seus galões reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num exagero metódico de instrutor de colégio, arredando uns para colocar outros, advertindo estes porque não tinham a camisa abotoada e aqueles porque não tinham fita no boné, ameaçando estoutro de levá-lo à presença de seu tenente porque recusava-se a perfilar…
Oficiais começavam a aparecer em segundo uniforme boné e dragonas, arrastando as espadas, mirando-se dalto a baixo, apertados no talim de pano azul, por cima da farda.
Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais aqueles alinhados a dois de fundo, num e noutro bordo, estes a ré, perto do mastro grande, em atitude respeitosa de quem vai assistir a um ato solene.
Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segredava baixinho, timidamente. E agora, no silêncio da mostra, é que se ouvia bem a cachoeira de água no bojo da corveta caturrando…
Agüenta!
Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camurça, teso na sua farda nova, o ar autoritário, solta a espada num abandono elegante, as dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de ouro, todo ele comunicando respeito.
Era homem robusto de feições e presença nobre, olhar enérgico, muito moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol imprime nos homens do mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, com uma ponta de arrogancia convencional.
Silêncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um brilho especial de indiscreta curiosidade. Um frêmito de instintiva covardia, como uma corrente elétrica, vinha à face de toda aquela gente abespinhada ali assim perante um só homem, cuja palavra trazia sempre o cunho áspero da disciplina. Era um respeito profundo chegando às raias da subserviência animal que se agacha para receber o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for.
Os presos…, fez o comandante, sem se alterar, dando um puxão na manga da farda.
Todos os olhos voltaram-se para o fiel dartilharia, vivamente curiosos, enquanto este, obedecendo à ordem, precipitou-se pela escada que ia ter à coberta, mudo e taciturno.
O tenente continuava no passadiço, a passear como se tudo corresse às mil maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era, agora, uma espécie de rei provisório. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual como o de uma sentinela noturna.
A luz intensa do sol caía do alto, pondo brilhos de malacacheta no cristal imenso do mar clamo. Um calor forte e asfixiante penetrava a carne, acelerando a circulação, congestionando, irritando o sistema nervoso atrozmente, implacavelmente.
Toda a atmosfera parecia vibrar num incêndio universal.
E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater como uma cousa desesperada…
Calmaria estúpida! pensava o tenente consultando os horizontes. Ele, o grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada, por causa de um diabo de calma interminável. Raríssimas vezes lhe acontecia aquilo: era mesmo para danar uma pessoa…
Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso, completamente imberbe; outro regulando a mesma idade, mas um pouco moreno, também grumete; e um primeira-classe, negro alto, espadaúdo, cara lisa.
Vinham em ferros, um a um, arrastando os pés num passo curto e demorado, e encaminharam-se para o meio do convés, fazendo alto a um aceno do comandante. Este imediatamente segredou a outro oficial, que estava a seu lado com um livro na mão, e, dirigindo-se ao primeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amarelo, cor da terra:
Sabe por que vai ser castigado?
O grumete, sem levantar a cabeça, murmurou afirmativamente: que sim, senhor…
Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia uns longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez sintomática… um secreto arrependimento.
Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca de sua classe.
As unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.
O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras disciplina e ordem repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, um louro, de bigode, começou a leitura do Código na parte relativa a castigos corporais.
A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago respeito no olhar, aquele repisado capítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura e mordente do meio dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua cabeça, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se preocupar com o resto da humanidade.
Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiões, e cujo zelo em cousas de patescaria tornara-se proverbial, Nos momentos de manobra difícil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas obrigações.
Caboclo macho! diziam os companheiros.
Se acontecia desprender-se um moitão, um cabo qualquer, lá cima nos mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os enfrechates, com aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da gávea, sem olhar para trás, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando e desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito metido consigo, tolerante e enérgico ao mesmo tempo em matéria de serviço, não compreendia a disciplina sem chibata, único meio de se fazer marinheiro.
E tinha sempre esta frase na ponta da língua: Navio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante…
Por isso os companheiros não o estimavam muito; pelo contrário, evitavam a sua presença, procurando intrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. O guardião Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto…
E riam às escondidas, praguejando contra o burro do Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capitão de proa…
Ele ali se achava também, no sue posto, à espera de um sinal para descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania…
Vinte e cinco…, ordenou o comandante.
Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfação, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade.
Não, não: com a camisa…
E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arrastada:
Uma!… e sucessivamente: duas!… três!… vinte e cinco!
Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, até pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no desespero de sua dor.
Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença de múmias.
Corja! regougou o comandante brandindo a luva. Não se compenetram de seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os!
O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre retraído, pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu serviço calado, não se envolvendo em sambas à noite, na proa. Tímido e esquivo, cada vez mais pálido, o olhar morto com uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza, tinham-lhe dado o apelido ridículo de Pinga…
O grumete não podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateira aprendidos ali mesmo a bordo.
Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulário do insulto numa cólera ameaçadora que às vezes chegava ao delírio.
Os outros, porém, caíam na gargalhada:
Olha o Pinga! Segura ele!
Pinga é …
E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro.
Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questões de outra ordem e daí prisões, castigos…
Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados.
O outro, um mulatinho esperto, que tinha o hábito de andar espiando, à noite, o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o SantAna, e, riscando um fósforo, aproximaram-se ambos para examinar…. No convés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no convés seco e estéril, a seiva geradora do homem.
Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situação. Investiu para o SantAna, fulo de raiva, extremamente pálido, e com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha… Terminou o alvoroço com a prisão de ambos.
Ah! seu Pinga, seu Pinga!… repetia o guardião do quarto. Não pense que, por ser branco, há de fazer das suas…
Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada SantAna que também ia ser castigado.
O SantAna, porém, não era lá rapaz de que sofresse calado: tinha sempre o que dizer na ocasião do castigo, desculpando-se como podia perante a autoridade a fim de escapar manhosamente à ação criminal, o que nunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bastante.
Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente, à escovinha, olhos negros, nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava no livro de castigos um rol de vezes. Gago de nascença, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer qualquer cousa, principalmente se estava num de seus momentos de sobreexcitação colérica, porque, então, ninguém o compreendia.
Tinha a facilidade ingênita das lágrimas: a mais leve comoção fazia-o chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de úmida ternura.
Pôs-se logo a gaguejar uma história de implicações: que estava bem sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provocá-lo, implicar com ele…
Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estou para ouvir histórias. Vá!…
Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca, desfechou o primeiro golpe:
Uma! contou a mesma voz de há pouco.
O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalando muito os olhos, esfregando as mãos.
Ah! gemeu com um grito de dor. Pe… pe… pelo amor de… de… de Deus, seu… seu… comandante!
Vamos, vamos!…
Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, brutais como cáusticos de fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do marinheiro.
Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma a uma, porque de nada lhe serviam os gritos, as súplicas e as lágrimas…
Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal humorado sob a luz ardentíssima do meio dia tropical. Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.
Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leve que apenas atenuava a força cáustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente.
O tenente, um pouco animado agora com a viração que precede os ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos braços.
Meio dia quase e ainda não estava acabado o castigo.
Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração cadente e enervada, e cuja presença ali naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa o BOM CRIOULO na gíria de bordo.
Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante.
Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas mutações de cenário. Agora a cousa era outra, na verdade. O Herculano e o SantAna, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis marinheiros que dificilmente agüentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns criançolas!… Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom-Crioulo.
Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida:
Sabe por que vai ser castigado?
Sim senhor.
Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos galões de ouro daquele oficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os braços caindo ao longo do corpo, militarmente perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da cabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro cunho de flexibilidade e destreza felinas.
Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos.
A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas, emprestando-lhe movimentos extraordinários, invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro.
Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.
Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte de loucuras.
Armava-se de navalha, ia para os cais, todo transfigurado, os olhos dardejando fogo, o boné de um lado, a camisa aberta num desleixo de louco, e então era um risco, uma temeridade alguém aproximar-se dele. O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia, porque ninguém estava para sofrer uma agressão…
Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda gente sabia que era o Bom-Crioulo às voltas com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha… uma cousa indescritível!
O motivo, porém, de sua prisão agora, no alto mar, a borda da corveta, era outro, muito outro: Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhos azuis , muito querido por todos e de quem diziam-se cousas.
Metido em ferros no porão, Bom-Crioulo não deu palavra. Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influência alcoólica, submeteu-se à vontade superior, esperando resignado o castigo. Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era tão bom quanto os outros, mas, que diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem… Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro… Estava satisfeitíssimo.
A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um Hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata…
Uma! cantou a mesma voz. Duas!… três!…
Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura para cima, numa riquíssima exibição de músculos, os seios muito salientes, as espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso dalto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.
Entretanto, já iam cinqüenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.
De repente, porém, Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu um braço: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma força extraordinária.
Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza de seu pulso.
Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.
Cento e cinqüenta!
Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.
Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo de alcance, procurava reconhecer uma sombra quase invisível que parecia flutuar muito longe, nos confins do horizonte: era, talvez, a fumaça de algum transatlantico…
Basta! impôs o comandante.
Estava terminado o castigo. Ia recomeçar a faina.
 
 
_______________________
 
Fonte: CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Biografia, introdução e notas de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Edições de Ouros, 1966. p. 19-37.
 
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

POEMAS




POEMAS

Adélia Prado


COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
Esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
Acho o Rio de Janeiro uma beleza e
Ora sim, ora não, creio em parto sem dor
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura
Minha tristeza não tem pedigree,
Já a minha vontade de alegria,
Sua raiz ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

____

Fonte: Prado, Adélia. In: Bagagem. O modo poético. In: Poesia reunida. 3a ed. São Paulo: Siciliano, 1991. 407 p. p. 11.

SOLO DE CLARINETA
As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso Ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.

____

Fonte: idem, p. 49.

LIRIAL

Lírios, lírios
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Com cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo – um antilírio -,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.

____

Fonte: Prado, Adélia. In: O Pelicano. Licor de romãs. In: Poesia reunida. 3a ed. São Paulo: Siciliano, 1991. 407 p. p. 311.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha "Rimas de Ventos e velas – Danielle Fonseca




Rimas de Ventos e velas 
Com a calma de um mar que guarda palavras sem tempo, tendo completado 80 anos de publicação mundial, a obra da escritora inglesa Virginia Woolf, “To the Lighthouse” ou “Passeio ao Farol”, uma das traduções para o Brasil. Considerado o mais importante romance-poema (uma nova espécie de poema sobre o sentido da vida e das relações humanas) de Virginia na Europa, a trama deste livro é relativamente simples, planeja-se um passeio de barco a um farol próximo; em um dia, mas dez anos depois, o passeio finalmente ocorre. Essa obra que é dividida em três “cenas”: A Janela, O Tempo Passa e O Farol, é uma leitura que proporciona grande concretude visual e clareza, e por ser uma obra livre de erudição e pedantismo, comunica-se com o leitor comum que há em todos nós, artistas ou não, isto é, com o common reader. De tão emaranhado na estruturação, é às vezes comparado com a composição de uma sonata ou é visto como a versão literária do pontilhismo, onde personagens protagonistas e figuras secundárias misturam-se umas as outras, como no processo da atomização. Há ainda em alguns capítulos, variação de luz, como no impressionismo, ou como diria o escritor John Lehmann “uma espécie de impressionismo interior”. Esta obra é considerada o mais visionário e formalmente perfeito de seus livros, onde a abundancia deslumbrante de imagens poéticas é observada a todo o momento na estrutura do livro, e segundo Lehmann “não são apenas meras decorações”. “A imensidão de água azul surgia diante dela; o antigo Farol, distante austero, no centro; e à direita,tão longe quanto a vista alcançava,diminuindo e declinando em suaves ondulações,as dunas verdes de relva fluida e selvagem ,que sempre pareciam correr para algum país lunar, inabitado pelos homens. Era essa a paisagem.”[2] Essa paisagem som por som tom por tom, foi re-criada ,sem barateamentos no texto e com profundo conhecimento, por Luiza Lobo escritora, Professora de Línguas Lusófonas na Universidade de Nantes(FR) e tradutora de “Passeio ao Farol”,além de Virginia Woolf, Luiza traduziu mais de trinta obras, entre ficção, ensaios e dicionários, dentre os quais Persuasão, de Jane Austen, O deus escorpião, de William Golding e contos de Edgar Allan Poe. Em 1994 lançou uma tradução bilíngüe do escocês, com introdução e notas intitulada 50 poemas, por Robert Burns (Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994). Pelos oitenta anos dessa obra, segue abaixo uma pequena entrevista que realizei com Luiza Lobo sobre como revelar em palavras uma paisagem sem tempo ou espaço.
ENTREVISTA
1.“Re-criar é a meta de um tipo especial de tradução: a tradução-arte.”[3] “To the Lighthouse” seria esse tipo especial de tradução?
– Sim, To the Lighthouse teve, na primeira edição, em 1968, o título de O Farol, na Gráfica Record (não é a Editora Record), e o traduzi por devotação. Eu tinha 19 anos quando a comecei, e Virginia Woolf era minha escritora predileta. Propus o título ao dono da gráfica, e ele o aceitou. Eu escrevi meu primeiro artigo sobre sua obra no Globo, em 1970 (31-1-1970), com o título “Virginia Woolf – o romance e as mulheres”. Revi muitas vezes o texto dessa tradução, que foi republicada pela Nova Fronteira (1982), depois pela Ediouro (1a edição, 1993) e pelo Círculo do Livro, e hoje deve estar na 20a edição. O desafio desta tradução é respeitar as inovações estilísticas de Woolf, que acompanham o fluxo da consciência, com um ritmo e uma respiração típicos de seu estilo. Só não estou de acordo com a recriação total ou transliteração livre, pois creio que se deve respeitar o contexto e a cultura do autor que se escolheu traduzir, uma vez que ele é o autor, fundamentalmente.
2. Roland Barthes disse certa vez que deveríamos demolir a diferença entre a literatura e as artes visuais, e renunciar à pluralidade das artes, para afirmar, mais enfaticamente, a pluralidade dos textos…
– Sim, para Roland Barthes a lingüística teria um fator preponderante sobre a comunicação e outras artes, porque o ser humano sempre traduz suas sensações estéticas – de um filme, uma música, uma escultura – na linguagem, na palavra, no discurso. Assim, a lingüística seria o suporte de toda a compreensão estética e as sensações humanas.
3. O Tempo (ou a falta dele) tem qual importancia, nesse livro de Virginia Woolf?
– O Tempo é um tópico fundamental nesta obra de Woolf e em todas as suas obras da maturidade, como The Waves (As Ondas), Between the Acts (eu o traduziria como No intervalo, mas o título da Nova Fronteira ficou Entre os atos…). O tempo sempre foi um tema da predileção de Woolf, representando uma metáfora para a morte e para sua insegurança pessoal diante da vida e os desafios de sua difícil condição psicológica. O tempo representa a constante mobilidade das coisas – como a morte dos seus dois irmãos, um deles na Segunda Guerra, e o bombardeamento de sua casa, em Londres. Um dos três capítulos de O Farol se intitula “O tempo passa” – e mostra a casa em que a família Ramsay passava as férias em ruínas, levando consigo todos os sonhos e bons momentos das pessoas, algumas delas já mortas, como a sra. Ramsay. Esta personagem de Passeio ao farol representa a mãe de Virginia Woolf, que ela perdeu aos 13 anos. É preciso lembrar que sua leitura predileta era, além dos gregos, Marcel Proust, cujo tema fundamental é a passagem do tempo, através do registro minucioso dos acontecimentos da sociedade francesa através de suas crônicas, depois reunidas em A procura do tempo perdido (1919-26). É esta leitura, conforme nos relata em seu Diário, e a de Joyce, que Woolf constrói sua noção de fluxo da consciência. Este constitui uma união ente a realidade externa e as sensações inconscientes das pessoas. Em Passeio ao farol, a noção negativa da passagem do tempo, associada à morte e à ruína, é no entanto superada pela figura de Lily Briscoe, talvez uma representação de sua irmã, a pintora Vanessa Stephen. A pintura do quadro impressionista da Sra. Ramsay no jardim, com o farol ao fundo, feita por Lily, que retorna à casa para terminar de pintá-lo, no último capítulo, que permite conservar e reconstruir o passado.
4. Segundo uma carta escrita por Virginia para seu amigo Roger Fry, ela diz que o Farol é mais do que isso, do que simples metáfora de alguma coisa “não sei lidar com símbolos, exceto dessa maneira vaga”…
– O farol, nesta obra de Woolf, já foi interpretado como símbolo fálico. Hermione Lee, por exemplo, tem um estudo muito bonito sobre o Passeio ao farol. Poderíamos imaginar a metáfora do farol da seguinte maneira: inicialmente todos buscam o farol à distancia, representando a figura fálica do pai. Mas é uma viagem que não acontece, pelas condições climáticas. Então, há um retorno à figura materna (Sra. Ramsay) e à arte da escrita, que é feita por ela mesma (a narradora) e pela pintura (Lily Briscoe). No livro, todos os homens falham – o Sr. Ramsay é um filósofo pretensioso e egocêntrico; o Sr. Carmichael nada faz de notório; na realidade, só as mulheres produzem, neste romance, sendo que a Sra. Ramsay é quem recria toda a beleza do quotidiano e une os amigos e a família ao seu redor, transmutando tudo o que toca em objetos iluminados. Poderíamos concluir que, se o farol é o símbolo fálico, a figura da mãe é seu complemento, a sua luz.
5. O elemento água nos livros de Virginia não é somente um, ambiente, um pano de fundo. É mais que isso: é sua linguagem e substancia vital. “O destino da palavra é tornar-se água?”[4]
– A água é o símbolo materno, justamente o que falta na vida de Woolf, pois depois da morte da mãe ela foi assediada sexualmente pelo meio-irmão mais velho; além disso, para pagar a universidade dos dois irmãos, ela e Vanessa tiveram de cursar a escola em casa, tendo aulas com o próprio pai, o biógrafo inglês Leslie Stephen, editor do Dictionary of National Biography (1885). Essa obsessão com a falta materna e o passado termina por levar Woolf a se suicidar no rio Ouse, enchendo os bolsos com pedras. Ela não resistiu à idéia de ser internada pela terceira ou quarta vez, vítima de anorexia e alucinações. A água é importante também no primeiro livro de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, através da presença do mar. Este é um elemento flexível, dúctil, muito próximo da experiência feminina.
6. Qual escritor ou escritora merece um convite teu para um “Passeio ao Farol”. Se fizer um dia bonito, of course?
– Minha escritora predileta no Brasil é Clarice Lispector, embora também aprecie a poesia de Cecília Meireles e Gilka Machado, e a obra de tantas prosadoras de ficção e ensaio. Selecionei 36 escritoras no meu Guia de escritoras da Literatura Brasileira, que acaba de sair pela Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com financiamento da FAPERJ. Seria injusto não levar todas para um passeio ao farol. Mas em termos de importancia e efeito sobre a minha maneira de escrever, Woolf e Lispector foram as mais importantes.
Por Danielle Fonseca é artista visual. Mora em Belém do Pará
[Título] Trecho de “Porto Solidão” (1980)
[2] Virginia Woolf, To the Lighthouse, pág.16.
[3] Augusto de Campos, in: O Anticrítico, 1986.
[4] Subtítulo da Bolsa de Pesquisa em arte “Rumo ao Farol”, de Danielle Fonseca, financiada pela Fundação Ipiranga (2007).





Bio fornecida pelo palestrante.

Nísia Floresta Brasileira Augusta: Pioneira do Feminismo Brasileiro – Séc. XIX




Resumo:
Apresentação da escritora norte-rio-grandense Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), considerada a primeira feminista brasileira pela publicação de Direitos das mulheres e injustiça dos homens (Recife, 1832). Além deste livro, a autora publicou ainda outros títulos relacionados à mulher, à educação feminina, ao índio brasileiro e às viagens que fez pela Europa.
Texto:

Nísia Floresta Brasileira Augusta: Pioneira do Feminismo Brasileiro – Séc. XIX

Constância Lima Duarte

Quando pensamos na história da luta feminina em busca de seus direitos no Brasil, vários são os nomes de mulheres que nos ocorrem. Joana Paula Manso de Noronha,Josefina Álvares de Azevedo, Luciana de Abreu, Francisca Senhorinha da Mota Diniz, Presciliana Duarte de Almeida e Bertha Lutz, por exemplo, são apenas alguns nomes que poderiam ser citados. Mas se recuamos ainda mais e tentamos alcançar as primeiras páginas dessa história, um nome logo se destaca e se impõe: Nísia Floresta Brasileira Augusta. A esta mulher devemos as primeiras e mais importantes páginas dessa luta, pela coragem revelada em seus escritos e pelo ineditismo e ousadia de suas idéias.
Este nome, melhor, pseudônimo, pertenceu a uma norte-rio-grandense – Dionísia Gonçalves Pinto – nascida em 1810 e que, após residir em diversos Estados brasileiros, como Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, mudou-se para a Europa onde passou o resto de sua vida. Nísia Floresta morreu em 1885, em Rouen, no interior da França. Num tempo em que a grande maioria das mulheres brasileiras vivia trancafiada em casa sem nenhum direito; quando o ditado popular dizia que “o melhor livro é a almofada e o bastidor” e tinha foros de verdade para muitos, justo nesse tempo Nísia Floresta dirigia um colégio para moças no Rio de Janeiro e escrevia livros e mais livros para defender os direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.
Nísia Floresta deve ter sido uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada grande imprensa. E foram muitas as colaborações na forma de crônicas, de contos, de poesias e de ensaios. Aliás, esse é um traço da modernidade de Nísia Floresta: sua constante presença na imprensa nacional, desde 1830, sempre comentando as questões mais polêmicas da época. Se lembramos que apenas em 1816 a imprensa chegou ao país, mais se destaca o papel pioneiro que esta brasileira desempenhou no cenário nacional.
Naturalmente – até como não podia deixar de ser – Nísia recebeu em troca o desprezo, a difamação e o esquecimento, principalmente da parte de seus conterrâneos. Sua figura foi envolvida por um manto de mistério em sua terra natal e durante algumas dezenas de anos não se ouviu falar dela. O pouco que se ouvia estava marcado pelo preconceito, ou impregnado da surpresa de se encontrar, em tempos passados, uma história de vida como a sua e uma obra contendo reflexões tão avançadas para a época. O fato de estar à frente de seu tempo custou-lhe, no mínimo, o não-reconhecimento de seu talento. Seu nome até hoje não costuma ser citado na história da Literatura Brasileira como escritora romântica e muito menos na História da Educação feminina, como educadora.
Se agora ela começa a se tornar um pouco mais conhecida é justamente por esse trabalho de resgate e recuperação de autoras e obras do passado, que vem sendo feito em nossas universidades, por inúmeras pesquisadoras. Alguns de seus livros estão sendo reeditados e suas idéias voltam para nos lembrar um pouco da sofrida história das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos e de sua capacidade intelectual.
Faço uma rápida apresentação de alguns de seus escritos, para que vocês conheçam um pouco mais as diversas vertentes da militância da autora. O interessante, numa leitura de sua obra, é observar como os textos dialogam entre si, um iluminando o outro, como peças complementares de um mesmo plano de ação prática, qual seja, formar e modificar consciências. E tal plano tinha principalmente um propósito: alterar o quadro ideológico vigente no que diz respeito ao comportamento das mulheres e, naturalmente, o dos homens seus contemporâneos.
Senão, vejamos: o primeiro livro escrito por Nísia Floresta é também o primeiro de que se tem notícia no Brasil que trata dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, e que exige que as mulheres sejam consideradas como seres inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade. Este livro, publicado em 1832 em Recife (PE), tem o sugestivo título de Direitos das mulheres e injustiça dos homens, e, quando surgiu, Nísia tinha apenas 22 anos e a grande maioria das mulheres brasileiras vivia enclausurada em preconceitos, sem qualquer direito que não fosse o de ceder e aquiescer sempre à vontade masculina.
No ano seguinte – 1833 – saiu uma segunda edição e, em 1839, ainda uma terceira, no Rio de Janeiro. Direitos das mulheres de Nísia Floresta foi inspirado no livro de Mary Wollstonecraft, a feminista inglesa: Vindications of the Rights of Woman. Só que, ao invés de fazer simplesmente uma tradução, a autora brasileira aponta os principais preconceitos existentes no Brasil contra seu sexo, identifica as causas desse preconceito, ao mesmo tempo em que desmistifica a idéia dominante da superioridade masculina.
Tais reflexões não encontraram eco entre os contemporâneos e são o testemunho do quanto Nísia Floresta representava de exceção em meio à massa de mulheres submissas, analfabetas e anônimas. Foi esse livro que deu à autora o título de precursora do feminismo no Brasil e, talvez, até mesmo da América Latina, pois não existem registros de textos anteriores realizados com estas intenções.
O texto revolucionário de Mary Wollstonecraft havia sido publicado em Londres em 1792, como uma resposta à Declaração universal dos direitos do homem. Neste mesmo ano surgiu a tradução francesa e nos anos seguintes diversas outras edições. Rapidamente o livro se tornou conhecido e repercutiu pela Europa e Estados Unidos consagrando o nome de sua autora como a pioneira na defesa dos direitos da mulher.
Quatro décadas mais tarde seria a vez de Nísia Floresta inscrever seu nome nesta história ao fazer a tradução livre deste livro, baseada na versão francesa. E aí está a grande questão. Na verdade Nísia Floresta não realiza uma tradução, no sentido convencional, do texto da feminista. Ela realiza sim, um outro texto, o seu texto sobre os direitos das mulheres. Mary Wollstonecraft lhe deu a motivação ao colocar em letra impressa questões pertinentes à mulher inglesa, voltadas para o público de seu país. Nísia empreende então uma “antropofagia libertária” e, poderíamos ainda acrescentar: não como opção, mas até como uma fatalidade histórica. Na deglutição geral das idéias estrangeiras aqui chegadas, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional. É o que ela faz. Assimila as concepções de Mary Wollstonecraft e devolve um outro produto, pessoal, em que cada palavra é vivida, em que os conceitos surgem das páginas como algo visceral, extraídos da própria experiência e mediatizadas pelo intelecto.
Não é, portanto, o texto inglês que se conhece ao ler estes Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Ainda está para ser feita a sua tradução em língua portuguesa. Temos sim, nesta tradução livre, talvez o texto fundante do feminismo brasileiro, se o vemos como uma nova escritura, ainda que inspirado na leitura de outro. Vejo-o como uma resposta brasileira ao texto inglês; a nossa autora se colocando em pé de igualdade com a Wollstonecraft e até com o pensamento europeu, e cumprindo o importante papel de elo entre as idéias européias e a realidade nacional.
Em sua essência, os Direitos das mulheres de Nísia Floresta se encontram com os Rights of woman,de Mary Wollstonecraft, tanto na denúncia da mulher como “classe oprimida” como na reivindicação de uma sociedade mais justa, em que ela seja respeitada e tenha os mesmos direitos. Também são pontos comuns a denúncia da superioridade masculina apoiada na força física, a valorização da função materna, a educação como o meio eficaz de promoção feminina e o aparato filosófico de feição iluminista. No mais, os textos se distanciam tomando cada qual o seu rumo, segundo as motivações das autoras, o público a que se destinavam e as peculiaridades da condição feminina num e noutro lugar.
Por exemplo: enquanto a feminista inglesa dedica seu livro ao senhor Talleyrand-Périgord – o antigo bispo de Autun e líder moderado da Revolução Francesa – não exatamente para homenageá-lo, mas como forma de lhe responder e contestar suas idéias sobre a educação feminina, Nísia Floresta dedica seus Direitos às mulheres brasileiras e aos jovens académicos de seu tempo. E é fácil entender porquê. As mulheres porque é delas que trata e por elas escreve. E aos acadêmicos porque, afinal de contas, eram eles os representantes legítimos da elite pensante do país, aqueles que poderiam, se quisessem, mudar os rumos dos acontecimentos. Foi desta geração, sabemos bem, que saíram os abolicionistas, os republicanos e também uns poucos – bem poucos – defensores dos direitos da mulher.
Nísia Floresta questiona em 1832 o porquê de não haver mulheres ocupando cargos de comando, tais como de general, almirante, ministro de estado e outras chefias. Ou ainda, porque não estão elas nas cátedras universitárias, exercendo a medicina, a magistratura ou a advocacia, uma vez que têm a mesma capacidade que os homens. Como se vê, ela vai fundo em suas intenções de acender o debate e de abalar as eternas verdades de nossas elites patriarcais.
E, assim, à medida que nos deixamos envolver pelo discurso nisiano, maior se torna nossa admiração por esta figura inovadora e audaciosa. Se Mary Wollstonecraft foi a primeira na Grã-Bretanha a defender os direitos da mulher; no cenário nacional coube a Nísia Floresta o privilégio de praticamente deflagrar a formação de uma consciência feminista. Se considerarmos a contribuição nisiana a esse processo, seu papel de fundadora e sua trajetória militante, num momento histórico de verdadeiro obscurantismo em relação aos direitos femininos, seus vacilos, contradições e certas posturas que hoje interpretaríamos como ingênuas e pueris, afiguram-se menores diante do aspecto pioneiro de sua obra.
Em outros livros ela continuará a tratar da temática destacando a importância da educação feminina para a mulher e a sociedade. São eles: Conselhos a minha filha, de 1842; Opúsculo humanitário, de 1853; A Mulher, de 1859; além de algumas novelas dedicadas às jovens estudantes de seu colégio. Nesses escritos encontramos desde conselhos de como as meninas deviam se comportar, os deveres esperados de uma filha e histórias de cunho didático-moralista, até minuciosas e ricas explanações acerca da história da condição feminina em diversas civilizações e em diferentes épocas.
Em Opúsculo Humanitário, por exemplo, que reúne sessenta e dois artigos sobre a educação já publicados nos principais jornais da corte, Nísia Floresta tece comentários sobre a Ásia, a África, a Oceania, a Europa e a América do Norte, antes de tratar do Brasil e da mulher brasileira, sempre observando a relação existente entre o desenvolvimento intelectual e material do país (ou o seu atraso), com o lugar ocupado pela mulher. Nísia, em consonância com intelectuais da época, defende a tese de que o progresso de uma sociedade depende da educação que era oferecida à mulher; e que só a instrução, aliada à educação moral, dariam maior dignidade e fariam da mulher uma melhor esposa e melhor mãe. Esses, aliás, seriam precisamente os objetivos da educação das meninas: torná-las conscientes de seus deveres e papéis sociais.
Hoje, preocupações como estas de Nísia Floresta, podem soar, a ouvidos menos atentos, como algo ultrapassado e até reacionário. Apenas, é preciso não perder de vista a repentina valorização da mulher ocorrida em meados do século XIX, a partir mesmo do redimensionamento da maternidade enquanto papel social. Se num momento a presença da mulher era inexpressiva em conseqüência da rígida estratificação social que privilegiava o masculino; em outro, a figura feminina transformava-se em centro das atenções, devido à valorização de sua função biológica exclusiva: a maternidade. Tais alterações tiveram, naturalmente, uma grande repercussão em meio às intelectuais que vislumbraram, aí, a possibilidade de as mulheres adquirirem status e poder diante da opinião pública.
Dissemos que Nísia estava à frente de seu tempo. Também na abordagem de outras questões, como quando trata do índio brasileiro, ela foi precursora. Em um longo poema de 712 versos – intitulado A lágrima de um Caeté, de 1849 – encontramos interessantes posicionamentos da autora a respeito do indígena. Uma rápida leitura do texto permite a identificação de inúmeros elementos marcantes do romantismo como a lusofobia, o elogio da natureza e a exaltação de valores indígenas. A novidade é que o poema nos traz não a visão do índio-herói que luta, presente na maioria dos textos indianistas conhecidos e, sim, o ponto-de-vista dos derrotados, do índio vencido consciente e inconformado com a opressão de sua raça pelo branco invasor.
Não cabem, pois, em seu índio, os epítetos de inocente, de puro e de portador daquela “bondade natural”, idealizados nas teorias filosóficas européias e adotadas pelos demais escritores brasileiros. O contato com o homem branco revelou-se pernicioso demais para ele (e a história nos mostra) com conseqüências irreversíveis. A dor do indígena vem precisamente da consciência dessa irreversibilidade e do meio-lugar (ou lugar nenhum) em que se encontra. O discurso da narradora, absolutamente preso ao do índio e às vezes até se confundindo com o dele, acrescenta um dado fundamental: o da perda de identidade por parte do silvícola, que os escritores românticos do período tentavam escamotear.
No mesmo ano da publicação de A lágrima de um Caeté, Nísia Floresta viajou para a Europa, onde permaneceu vinte e oito anos de sua vida. E, nessa época, no auge da maturidade intelectual, relacionou-se com grandes escritores, como Alexandre Herculano, Dumas (pai), Lamartine, Duvernoy, Victor Hugo, George Sand, Manzoni, Azeglio e Auguste Comte, viajando durante anos seguidos pela Itália, Portugal, Alemanha, Bélgica, Grécia, França e Inglaterra.
Em Portugal ela residiu durante o ano de 1851, quando teve oportunidade de viajar pelo país e fortalecer os laços de amizade com Alexandre Herculano e Antonio Feliciano de Castilho. No Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, aliás, existe um exemplar de Opúsculo humanitário dedicado a Herculano.
Das muitas viagens que realizou pela Europa resultaram alguns livros que, bem ao gosto da época, contém suas impressões dos lugares que ia conhecendo. Só que Nísia Floresta não realiza simples relatos de viagem. Ela descreve com riqueza de detalhes as cidades, as igrejas, os museus, os parques, as bibliotecas e monumentos, detendo-se nos tipos humanos e comentando tudo que observava sempre com muita sensibilidade e erudição. Itinerário de uma viagem à Alemanha, de 1857, e Três anos na Itália, seguidos de uma Viagem à Grécia (em dois volumes, de 1864 e 1872) são os títulos desses livros escritos e publicados em língua francesa. Apenas o primeiro foi traduzido para o português, em 1982, depois de mais de cem anos em língua estrangeira; o outro, apesar de considerado por mais de um crítico uma obra-prima, onde ela teria alcançado a culminância de seu esplendor intelectual, continua iuêdito em língua portuguesa. E Três anos na Itália é interessante porque contém anotações do ano anterior à unificação italiana, a descrição da luta, dos sentimentos populares, do clima revolucionário e ainda nos revela a admiração da autora pelos líderes, Garibaldi e Azeglio, com quem se correspondeu durante algum tempo.
Um outro trabalho, dos mais importantes, é Scintille d’ un’anima brasiliana, publicado em Florença, na Itália, no ano de 1859. Este livro contém cinco ensaios que tratam da educação de jovens, da mulher européia, da pátria distante e das saudades que ela sentia de seu país, após tantos anos ausente. Um dos textos, intitulado “A Mulher”, trata da mulher francesa de meados do século XIX, que a autora critica pelo comportamento superficial e mundano. Nísia se antecipa aos governantes e pensadores franceses e condena – nesse ensaio – o costume das mulheres de abandonar os filhos recém-nascidos para serem amamentados e criados distantes, no interior do país, por mulheres camponesas. Em outro ensaio, “O Brasil”, também publicado em Paris em 1871, ela resume a história da nação brasileira, fala dos recursos econômicos, das riquezas conhecidas e latentes, dos sábios e escritores mais conhecidos. Sua intenção era, além de fazer propaganda da pátria no estrangeiro, desfazer os preconceitos e mentiras que predominavam na Europa, acerca do Brasil.1
Assim, ainda que rapidamente e nos limites desta palestra, tentei mostrar a importância do resgate de uma figura como Nísia Floresta na história intelectual da mulher brasileira. No momento em que se pesquisa e se constrói a história intelectual da mulher brasileira, é hora de dar a Nísia Floresta o lugar de destaque que ela de fato merece e reconhecer o ineditismo de seus escritos. A autora – que tão longe iria em sua trajetória de vida – foi sim uma mulher “educada” entre as que surgiram no Brasil patriarcal e também uma das raras mulheres de letras de seu tempo. Mas foi mais ainda. Nísia Floresta foi também uma brasileira erudita e “ilustrada”, como bem poucas em nossa história.
 
NOTAS
1 Estão sendo preparados três relançamentos de Nísia Floresta para os próximos meses. Cintilações de uma alma arasileira e Itinerário de uma viagem à Alemanha, pela Editora das Mulheres, de Florianópolis (SC), e Edunisc, de Santa Cruz do Sul (RS); e A lágrima de um Caeté, pela Fundação José Augusto, de Natal (RN).





Bio fornecida pelo palestrante.

O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX – Geysa Silva




O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX

Geysa Silva

Universidade Federal de Juiz de Fora

A pesquisa, O discurso literário-religioso em

Juiz de Fora no início do século XX, vem acusando uma presença marcante da teodicéia cristã, no período e na cidade em questão. Neste sentido, acredita-se que os estudos até agora desenvolvidos apontam diversos caminhos e atalhos que são tangenciais do projeto matriz e que podem servir de condutores a uma primeira abordagem da obra de Murilo Mendes. Partindo do princípio de que existe uma certa correlação entre fatos históricos e correntes do Saber, basta indagar quais eram as grandes tendências, no início deste século, para visualizarmos o espaço dentro do qual se tocavam os caminhos do pensamento. De um lado, acelera-se o processo de industrialização, com seus aspectos positivos e negativos: avanços da ciência e da tecnologia, desemprego e exploração da força de trabalho. De outro, na filosofia, o positivismo produz um alinhamento que se cristaliza em atitudes semelhantes às vivenciadas pela religiosidade, ensejando o confronto entre anarquistas e contra-iluministas, acirrando os debates e provocando atitudes de extrema agressividade, em ambas as partes.

No caso de Juiz de Fora, cidade situada na Zona da Mata mineira, a proximidade com o Rio de Janeiro, que se pretendia uma nova Paris, e a instalação de fábricas diversas fizeram com que a população vivenciasse transformações sensíveis em sua religiosidade. Pode-se dizer que a expansão do capital e a chegada maciça de imigrantes europeus relativizaram os conteúdos religiosos, que perderam sua realidade objetiva e passaram a ser assunto de indivíduos, isto é, deixaram de lado o cosmos ou a História para ligar-se à existência individual.

Destaca-se, com facilidade, na expressão religiosa de Juiz de Fora, a importância dos católicos, que constituem a maioria da população local e têm, como reduto ideológico, as ordens redentorista e sacramentina, cuja popularidade se assentava na palavra e na ação dos padres Júlio Maria de Morais Carneiro e Júlio Maria de Lombaerde, que, embora não pertencesse ao clero local, tinha seus discursos e livros, lidos e discutidos. Acrescente-se, ainda, o papel desempenhado pelo jornal “O Pharol”, que retrata, em suas páginas, as modificações sofridas pela religiosidade em artigos escritos em linguagem parnasiana e fortemente tendenciosa.

Estabelecendo um diálogo entre religião e literatura, foi possível traçar novas perspectivas de leitura desses discursos, indiciando uma compreensão interdisciplinar do texto poético, que ultrapassa a historicidade ou a imanência da narrativa.

Vivenciando o crepúsculo de uma era e o surgimento de outra (a modernidade), Juiz de Fora, no início do século XX, se reflete nos discursos que redefinem as obrigações religiosas do catolicismo e redefinem o próprio conceito de Deus, nem sempre pensado como fundamento de tudo e de todos, o que vai despertar a reação dos convictos.

A presença real! A permanência de Jesus Cristo

Na terra! A sua perpétua coabitação com os homens!

[…] O espírito que se fortalece neste mistério quase

que sente despedaçados os grilhões da carne e vai,

nas regiões do infinito, pedir aos anjos que cantem

a fortuna e a glória da humanidade

(Júlio Maria, 1905, p. 106-7).

A industrialização plenifica a era dos homens como construtores de seus atos, era exemplificada em O Pharol, mas perde-se a noção de uno e de todo, cuja busca se exibe tanto nos sermões dos dois padres Júlio Maria, como no existencialismo religioso de Murilo Mendes. Religião e literatura, ética e estética emaranharam-se sem conseguir gechar o abismo das novas situações, provocadoras de uma nova consciência.

Se, na Idade Média, por exemplo, tinha-se uma teodicéia que explicava e mantinha unido o mundo, a modernidade inaugurava um mundo que é de alguns e que tem de competir com o mundo dos outros. Luteranos, presbiterianos e metodistas, além dos anarquistas, exibiam a proliferação de crenças e a presença do ateísmo, na fragmentação de atitudes diante dos mistérios da vida. Uns e outros acenavam com a utopia da justiça para todos e com a realização das possibilidades individuais. É sobre essa conjuntura sócio-histórica que se faz a pesquisa de O discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX.

Estudar as obras dos católicos, os artigos de O Pharol, ou as manifestações dos anarquistas exige um compromisso de muitas direções, que mal começam a ser vislumbradas. Tendo como suporte dos “corpora”, os arquivos da biblioteca dos redentoristas, do Centro de Estudos Murilo Mendes, da biblioteca municipal e do próprio arquivo histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora, a pesquisa procura mostrar como esses discursos religiosos influíram na formação de Murilo Mendes, de vez que sua família era católica praticante e sua casa freqüentada pelos padres, especialmente pelo padre Júlio Maria de Moraes Carneiro.

É preciso, entretanto, esclarecer que usaremos a palavra discurso como linguagem em interação, pois os sentidos produzidos por um texto não nascem em seu autor, este apenas o retoma. Como afirmam os lingüistas, a linguagem não é somente meio de comunicação e/ou expressão; ela é um espaço de conflito onde se realizam lutas ideológicas. Nossa questão é, pois, caracterizar o discurso religioso, encontrar marcas formais que explicitem seu funcionamento, porque, ao lado da já discutida relação entre religião e cultura, apresenta-se hoje, para os estudiosos em geral, a relação entre religião e literatura, adentrando a crítica acadêmica (principalmente nos Estados Unidos), apoiada na necessidade de novas interpretações do texto poético.

Sabe-se que o discurso religioso é, por sua especificidade, autoritário, procurando absolutizar um sentido de tal maneira que se torne o único e, por conseguinte, sua polissemia é contida. Em se tratando do discurso católico, a performatividade, que considera a linguagem como ação, é exercida pelos padres que falam sempre “no lugar de”. A palavra detentora da verdade requer a crença e faz a mediação com o sagrado, constituindo o discurso religioso em promessa ou em ameaça, conforme as circunstâncias. Vejamos quais eram essas circunstâncias em Juiz de Fora e quais reações a elas eram dadas pelo discurso religioso.

O final do século XIX e o início do século XX trazem para Juiz de Fora a vontade hedonística de aproveitar cada momento da vida. A industrialização, em toda parte, sempre permitiu que os mais pobres se reconhecessem como tal e, portanto, que as diferenças sociais ficassem mais evidentes. Torna-se rara a submissão à vontade de Deus, ou manter a esperança numa vida melhor, mesmo essa esperança sendo mediada pela figura do Cristo encarnado. É assim que A teodicéia social do cristianismo (isto é, sua legitimação das injustiças da sociedade tem desmoronado juntamente com a plausibilidade geral da teodicéia cristã. (Berger, 1985, p. 91). O padre Júlio Maria vai ameaçar a cidade com um eschaton divino: a epidemia que, em 1918, já grassava em outros lugares próximos:

Cidade infiel! Por que temes a peste, a desolação e a morte, se tens em mim o remédio, a alegria e a vida? toda tua confiança, Eu sei estava nos meios humanos; tu os aplicaste; mas eles estão esgotados: só te resta a Minha Misericórdia (Júlio Maria, 1934, p. 31).

O Deus que assim fala tem a plenitude do poder e pode livremente usá-lo, quando a causa é santa (para ajudar os fiéis), ou quando a causa é sacríliga (para puni-los). Essa é a lei da graça, segundo a qual se obtém reconhecimento ou castigo. A questão da culpa e do castigo vai levantar problemas outros. O pecado e as conseqüências dele advindas são vistas sob forma de um masoquismo religioso, justificador de todos os males. Um Deus poderoso castiga os homens, que devem modificar seu comportamento para escapar à danação. Mesmo se o castigo é por demais rigoroso e parece injusto, Deus não pode ser interpelado, pois sua ética está acima dos padrões humanos. Poder-se-ia dizer que a proposta apresentada no discurso religioso é a reiteração das palavras de Jó: Ainda que Deus me mate, confiarei nele. Também os padres não estão isentos de culpa. Ataca-se a desorganização pastoral que se descuidava dos ensinamentos da fé, omitindo-se das obrigações catequéticas para satisfazer o gosto mundano de festas comemorativas as mais diversas. Padres que não estudam a palavra de Deus e adotam o improviso na prática oratória são asperamente criticados pelo padre Júlio Maria:

Pode saber pregar quem não procura no Divino Mestre da palavra a alma, a inspiração, o fogo da eloqüência sagrada? […] A palavra de Deus não precisa, para trazer frutos, de talentos oratórios; precisa apenas ser reproduzida com decoro, fidelidade, gravidade (Júlio Maria, 1934, p. 86).

É justamente nessa via que se constituem os fundamentos da crença, estabelecendo, a partir da compreensão das escrituras, o sistema de regras de vivência. Prosseguir continuadamente com a formação teológica é pré-requisito exigido dos sacerdotes, que devem oferecer, ao público, um referencial de comparação para validade da religião católica. O sacerdote, como medium entre o homem e a realidade absoluta, é fonte do conhecimento religioso, pois ele explica e aponta o espaço da revelação, onde todos os temores se desvanecem. Através da palavra sacerdotal, Deus se faz conhecer e só assim ganham sentido o culto e os rituais.

Convencer o público, argumentar a favor de uma religião que se estiolava no combate com outras religiões e com suas divisões internas é tarefa que exige a fala literária e lingüística cuidada. O padre Júlio Maria toma consciência, dramaticamente, de que bons exemplos não são suficientes para os fiéis adotarem uma vida que mereça a redenção. É preciso divulgá-los através de uma oratória apoiada no discurso literário, configurado por um ritmo musical que se aproxima da poesia. A fala performática, que do público imprecava contra os fiéis, é atravessada por uma melodia monocórdia, análoga e monofônica do canto gregoriano, que o rigor eclesiástico conduziu ao máximo da perfeição expressiva, permitindo que, até hoje, ouvintes se deliciem com sua beleza. Essa monodia (segundo alguns) ou monofonia (segundo outros) limita as opções de representação, todavia permite centrar a atenção no orador e por conseguinte, em suas palavras, conforme se constata neste trecho O Deus desprezado.

Eu sigo os trilhos que o senhor me riscou;

dou os combates a quem me convidou;

acompanho a Estrela que Ele fez brilhar

nas trevas da minha mocidade (Júlio Maria, 1934, p. 102).

A importância do padre Júlio Maria, na formação de Murilo Mendes, é explicitada em A idade do serrote (Mendes, 1994, p. 94), quando o poeta dele fala como alguém que possui uma visão diferente do catolicismo: “O padre Júlio Maria já me vacinara contra a religião piegas das beatas”.

Outro padre, que se destacou na pregação da fé católica e na oratória sacra, coincidentemente tem o mesmo prenome do primeiro: foi Júlio Maria de Lombaerde. A coincidência de nomes não se repetiu nas posições político-religiosas, dentro de uma igreja que era comum aos dois. Atuou em Manhuaçu, em Varginha e em Dores da Boa Esperança, porém seus sermões, publicados em livros, circularam intensamente em Juiz de Fora. Levando vida austera, verdadeiro exemplo de ascetismo, Júlio Maria de Lombaerde era também conservador em questões político-teológicas. Seus escritos apontam para uma clara influência de Santo Agostinho, ensinando que devemos procurar não a sabedoria profana, que pretende desvendar os segredos da natureza e, sim, a sabedoria espiritual, aquela capaz de colocar-nos em contato com o transcendente e aperfeiçoar o que ‘há de melhor em nossa alma!’

O conservadorismo leva o padre Júlio Maria de Lombaerde a atacar o evolucionismo de Darwin, opondo-se até a Aristóteles e a Spencer; condena qualquer tipo de materialismo, uma vez que, para os católicos, é fundamental estabelecer diferenças entre o corpo e a alma, pois o primeiro vem da terra e a segunda, de Deus, como ensina a Bíblia. Nestas condições. Somente é aceita a história de Adão e Eva para explicar a origem do mundo e dos homens. É no Gênesis que se encontra a verdade primeira:

Deus disse: – ‘Que haja luz!’ E a luz existiu. Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’. E Deus criou Adão. Tudo isso é sublime e deixa entrever o dedo de Deus. Tudo está explicado pela onipotência divina e nossa origem é divina (Lombaerde, 1937, p. 11).

Ao ataque de anarquistas e ateus responde que a existência de Deus não é uma discussão científica, mas um problema de fé. Esse argumento é hoje defendido por Ferry, que nos diz:

Pois se a existência de Deus, admitamos por hipótese, nos fosse demonstrada em boa e devida forma, com um rigor e uma precisão perfeitamente científicos, ninguém teria paradoxalmente nenhuma razão para acreditar. Ninguém mais teria fé, mas “saberíamos” Deus, como sabemos que Napoleão existiu, mesmo que ele não pertença mais a este mundo (Ferry, 1999, p. 3).

Concebendo Deus como “actus purus“, padre Lombaerde defende o intelecto sobre-humano da mente divina, que não concebe distinção entre realidade e possibilidade. Assim, ao homem foi dado o livre-arbítrio para que faça suas escolhas. Não há determinismo nem fatalismo, estamos longe da “moyra” grega, de quem era impossível escapar. Agora há responsabilidade plena.

O homem deve dilatar a alma pela oração e pela virtude. A salvação é uma obra a dois: Deus e o homem. Porém, Deus deu ao homem o lívre-arbítrio, sem o qual seria apenas um animal e não mais um ser inteligente e livre (Lombaerde, 1937, p. 172-3).

Num momento histórico em que a pobreza e a doença convivem com a ostentação da opulência, o discurso precisa ser altamente persuasivo, para despertar nos fiéis as virtudes teologais que, segundo Santo Agostinho, nunca estarão separados. Lombaerde aponta a prática dessas virtudes como caminho da salvação: agir com amor (ao próximo e a si mesmo), acreditar na vida eterna e, apesar de todos os sofrimentos, esperar encontrá-las, após a morte.

(…) Os bons sofrem, mas para expiarem suas faltas, para se purificarem e merecerem a glória eterna (…). Nem para os lírios tudo é lírio! O Salvador não nos pretende preservar de sofrimentos, mas Ele quer que na dor como na alegria, olhemos para Ele, abençoemos sua mão paternal, e Nele esperemos mais do que nos homens (Lombaerde, 1937, p.89).

A comparação com os lírios, símbolos da pureza, indicia a justificativa dos males que atingem os “bons”. É na própria natureza humana que se encontra a razão do mal. Sofrendo o estigma do pecado original, o homem já nasce sob o signo da culpa. Pior: ainda que Adão e Eva não merecessem a perda do paraíso, não sendo criadores, mas apenas criaturas, os homens seriam marcados pela imperfeição:

No momento em que Deus resolveu fazer as criaturas, Ele não podia escolher, tinha que fazê-las necessariamente defectíveis. Pois só Ele é e pode ser indefectível e devia assim introduzir em sua obra a possibilidade do mal (…). O único bem perfeito é Deus (Lombaerde, 1937, p. 68).

Subrepticiamente, o discurso introduz o tema da recompensa e do castigo, do mérito e do demérito. Há nessa religiosidade o imperativo categórico kantiano, uma escuta interior – o dever que a consciência impõe ao sujeito, um deus que é visto como imagem, modelo a ser seguido pelos homens. O texto é organizado em frases declarativas, de maneira a não deixar dúvidas. O emprego dos adjetivos defectível e seu antônimo, tirados da linguagem culta, empresta solenidade ao discurso que impressiona pela clareza da sintaxe. Há uma defesa apaixonada da fé e da verdade religiosa, qualificada de supra-racional. O homem deve aceitar a miséria de sua condição e conformar-se em viver num mundo degredado, para redimir a si mesmo:

Deus sabia pela presciência divina o que aconteceria com a raça deste homem. Ele viu tudo… tudo… (…) e não quebrou a estátua que tinha diante de si, como um artista descontente com sua obra. Porque mais alto que a ingratidão dos homens, Deus enxergava a misericordiosa figura do Redentor dos homens. (…) A criação, esmo que imperfeita, é um bem. Por causa de poder haver certos males neste bem, Deus não deveria deixar de criá-lo. (…) Seria sacrificar um bem maior por causa de um bem menor (Lombaerde, 1937, p. 139).

O final apoteótico desses sermões substitui a gratuidade e a insignificância de nossa existência pela crença na redenção. Ao notar as “doenças” de uma cidade que começava a mergulhar na era técnica e a entregar-se aos excessos do pragmatismo, padre Lombaerde vai tentar “salvá-la” para Deus, propondo uma prática de vida que se opunha à superficialidade da fé de seus contemporâneos.

Entretanto, a defesa do catolicismo não ficava restrita aos púlpitos. Ela se fazia também nos jornais, como acontecia com “O Pharol!”. Na coluna intitulada “Pregação histórica”, a Igreja empreendia sua força legitimadora que, segundo Peter Berger, “constitui-se num processo fundamental de socialização e controle social (…), que serve para atenuar qualquer ameaça de rompimento com o mundo objetivo” (Berger, 1985, p.42). Assim, o jornal traçava perspectivas moralizantes, através do uso de uma linguagem normativa, com características literárias. Assinada por um enigmático Sibillat, a coluna “Pregação Histórica” fustigava os crentes com suas admoestações.

Queixamo-nos das calamidades, e de todos os flagelos com que Deus nos pune; queixamo-nos das doenças, dos insucessos em nossos negócios; e, entretanto, a origem principal de todos os males, são essas bocas infernais; essas penas impudicas, (…) a vomitarem lavas de blasfêmias, torrentes de obscenidade e de insultos contra Jesus Christo, sua Egreja e os bons costumes.

São como outras tantas cavernas pestilenciais a exalarem mortífero veneno, e que deveriam ser fechadas,…, como contrárias às leis morais, cujo respeito e observância trazem tranqüilidade e boa ordem,…, prosperidade e engrandecimento, ao indivíduo, à família, à nação (“Sibillat”, in O Pharol, 14/07/1899). O jornal não apresenta numeração de páginas e suas edições encontram-se em precário estado de conservação, impossibilitando uma melhor especificação da nota.

Com a proclamação da República e concedida a liberdade de culto, novas correntes religiosas chegam a Juiz de Fora. Para enfrentá-las, a Igreja Católica procura diminuir e diferença entre conselho e advertência, usando uma argumentação com base histórica; observe-se a apresentação de Henrique VIII:

O real chefe do protestantismo (…) Para fazer uma idéia justa ou pelo menos aproximada dos sentimentos, que enchiam o coração desse monstro, basta lembrar – diz o Apóstolo – que ele sacrificou à sua paixão 2 cardeais, 18 arcebispos, 335 nobres, 124 cidadãos… Acrescente-se ainda que duas rainhas, Ana Bolena e Catarina Howard, foram degoladas em conseqüência da inconstância dos amores deste príncipe, que foi o primeiro chefe da Igreja Anglicana (O Pharol, 25/1/1900).

O início do século XX mostra o jornal O Pharol preocupado em disputar o mercado de pregações religiosas. O discurso católico tenta agradar tanto os “velhos consumidores”, apegados à tradição, como os “novos consumidores” que experimentavam as novas simbologias. Se, em 7 de janeiro de 1900, O Pharol publicava “Os sofrimentos humanos agravaram mais e mais, parece que apregados às conquistas científicas do homem”, em 25 de janeiro do mesmo ano, o discurso se torna compreensivo, adaptado aos tempos “modernos”: “Não somos daqueles que querem mal aos que, ou por um desvio da razão, ou por ferrenha pertinência no erro, não comungam”. O jornal adota também a forma poética, em versos que celebram a humildade e a resignação, como se pode ver neste fragmento do soneto “A bofetada”.

Vergado e cambaleando, quase morto

Sob o peso sinistro do madeiro,

Segue Jesus – o grande mensageiro

Da egualdade, da paz e do conforto.

…………………………………………………..

E elle, sereno, como se rezasse,

Murmura, offerecendo-lhe a outra face:

Fere, tambem, deste outro lado, irmão!

(Correa de Azevedo – O Pharol, 14/01/1900)

Conclui-se da leitura desses diferentes discursos que eles só adquirem significação plena, quando há interação entre locutores e ouvintes ou leitores, pois há sempre, por parte do primeiro, modalização apreciativa, ou seja, a fala se dirige a um público determinado e procura atingir finalidades específicas.

É importante destacar a preocupação com a salvação e com a doutrina: deseja-se ligar a criatura humana a seu princípio divino, mostrar que os eixos da existência estão invertidos, afirmar a necessidade de o sagrado sobrepor-se ao profano; tenta-se reparar o corte que separa o imaginário da razão, a verdade revelada do conhecimento objetivo. O discurso religioso da época exibe irritação com a mentalidade científica e uma grande tensão vivida pela Igreja diante dos obstáculos oferecidos por todo um processo de metamorfose social, confirmando a linguagem como construtora de símbolos indicadores do aspecto religioso da vida. Essa linguagem reconhece que o crente não é passivo, inerte diante das ocorrências; ao contrário, o discurso religioso concebe esse homem como participativo, sujeito a influências diversas, co-produtor de seu próprio mundo.

Bibliografia:

Berger, Peter. O dossel sagrado. Trad. José Carlos Barcellos. São Paulo: Paulus, 1985.Mendes, Murilo. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.Moraes Carneiro, Júlio Maria. O deus desprezado. Rio de Janeiro: Boa Imprensa, 1934.Lombaerde, Júlio Maria. O anjo da luz. Petrópolis: Vozes, 1937.Orlandi, Eni Pulcinelli. 2ª ed. Campinas: Pontes, 1987.O Pharol. Juiz de Fora: 1899/janeiro 1900.Ferry, Jean Luck. Caderno de Cultura de O Estado de São Paulo, 10.10.1999.




Bio fornecida pelo palestrante.

O ENSAÍSMO DE EDUARDO LOURENÇO: A INQUIETA E LUMINOSA EXPERIMENTAÇÃO DO (IM)POSSÍVEL – Maria de Lourdes Soares




Resumo:
O ensaio (stricto sensu): tentativa de definição, levando em consideração seus principais aspectos e o papel que desempenha na arquitetura dos gêneros literários. Ensaio-exame e ensaio-enxame: algumas considerações. Principais ensaístas portugueses. O ensaísmo de Eduardo Lourenço: temas recorrentes (a imagologia e a questão identitária; idéia de Europa) e heterodoxia. O estilo: o pendor epigráfico; as construções quiasmáticas; a incorporação do onírico e do imaginário; a dobra; a ironia, o duplo e o labirinto; a errancia; a vocação do infinito. O texto: a inquieta e luminosa experimentação do (im)possível ou a escrita no limiar do literário. O fascínio de ler Lourenço como se lê um romance.
Texto:

O ENSAÍSMO DE EDUARDO LOURENÇO: A INQUIETA E LUMINOSA EXPERIMENTAÇÃO DO (IM)POSSÍVEL

Maria de Lourdes Soares

Universidade Federal do Rio de Janeiro

      1. O ensaio: breves considerações

O que é um ensaio? Nas palavras de Eduardo Prado Coelho, o ensaio,stricto sensu, é um texto “onde o autor se interroga e nos interroga (…), é o exercício, tanto quanto possível livre, de uma razão que não procura soluções”, mas reunir elementos para que cada leitor possa elaborar as soluções possíveis. Pressupõe, portanto, “uma consciência da pluralidade dos fins e dos meios e das conexões dialécticas que concretamente os estruturam: não pode desconhecer nem a ironia nem a ação que a supera” (Coelho, 1972: p. 48-49). Os ensaios, ainda segundo o crítico, num estudo posterior, “são “textos de reflexão que (…) desenvolvem um pensamento autônomo, que não procura divulgar uma verdade estabelecida previamente, mas sim, encontrá-la e, simultaneamente, perdê-la no labirinto interminável da escrita” (Coelho, 1984a: p. 43).

Mais recentemente, retomando a sua reflexão sobre o ensaísmo, Prado Coelho sublinha “o papel instabilizador do ensaio na arquitectura dos gêneros literários” (Coelho, 1977: p. 18). Agrupando, didaticamente, os estudos sobre o ensaio em dois tipos, considera que em títulos do tipo “ensaio sobre a essência do ensaio” destaca-se “a noção de exame, com o seu rol de conseqüências: a exigência, o gosto, a prova, o peso, a balança”; já em títulos na linha de “ensaio sobre o ensaio”, sublinha-se “a importância do enxame, nuvem de pássaros, mancha indecisa de multiplicidades, proliferação ilimitada, jogo de espelhos” (Coelho, 1997, p. 20).

As considerações de Prado Coelho sobre o ensaio fundamentarão, nesta fase da pesquisa que desenvolvo, as reflexões sobre a escrita ensaística de Eduardo Lourenço.

      1. O ensaísmo de Eduardo Lourenço

“Um ensaísta é um experimentador do possível“.

Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço conta com mais de meio século de produção intelectual, veiculada através de uma admirável bibliografia, considerada em termos de extensão e de alta qualidade.

A figura e a obra do ensaísta vêm recebendo o merecido reconhecimento por parte da crítica, não apenas no âmbito da cultura lusíada, mas também no cenário europeu e internacional. Os prêmios e os títulos atribuídos ao eminente ensaísta confirmam a importância da sua obra, notadamente para os lusófonos e lusófilos. Além da outorga, em 1995, do título de Doutor Honoris Causa da UFRJ (primeira instituição a distingui-lo com este tipo de prêmio), merecem destaque, entre as inúmeras homenagens que lhe foram prestadas, a atribuição do Prêmio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988) e o Prêmio Camões (1996).

Eduardo Lourenço é certamente a personalidade lusíada de maior relevo da atualidade, sendo inclusive considerado por muitos críticos o maior estudioso da cultura portuguesa que surgiu no século XX. Presença ansiosamente aguardada nos Congressos e outros eventos afins que tematizam a cultura portuguesa, Lourenço inscreve-se com igual destaque como pensador das questões mais inquietantes do nosso século.

Desse modo, depois de publicar o já clássico O Labirinto da saudade (1978), Eduardo Lourenço dá continuidade aos seus estudos sobre Portugal e a cultura portuguesa, publicando, entre outros, Nós como futuro, texto escrito por ocasião da EXPO’98, e, em 1999, Portugal como destino seguido de Mitologia da saudade. Em 1998, publicou também O Esplendor do caos, obra em que dedica estudos sobre a situação da cultura na era da mundialização, procurando refletir sobre a desordem no imaginário finissecular, a vivência da caoticidade em que estamos mergulhados, enfim, o caos nosso de cada dia, caos que “habitamos como se fosse o próprio esplendor” (Lourenço, 1998b: p. 11).

À admiração coletiva que cerca o ensaísta, contudo, não corresponde, com a mesma intensidade, a produção de estudos objetivando um maior aprofundamento dos estudos sobre a sua obra. Foi precisamente a percepção da necessidade desse aprofundamento e a constatação da inexistência, até onde me foi possível saber, de estudos que privilegiassem os processos de construção da escrita de Lourenço que me levaram a apresentar à UFRJ, em maio de 1999, o projeto de pesquisa intitulado “O ensaísmo de: Eduardo Lourenço: o mar sem fim do pensamento e a escrita no limiar da ficção”.

A reconhecida notoriedade da sua figura poderia converter-se em obstáculo a um desejo de aproximação, no sentido de que a sua imensa projeção cultural, tal como ocorreu com Camões e Pessoa, tenderia a criar um halo mítico de efeito paralisante em termos de interlocução com o seu pensamento. O mesmo poderia ser dito em relação ao brilho da sua escrita, cuja luminosidade acabaria por inibir uma vontade de efetivo diálogo.

O que o estudo que pretendo desenvolver propõe é uma leitura que, sem recusar o inegável fascínio do ensaísmo de Lourenço e sem desconsiderar o lugar cultural em que o autor foi colocado, consiga atravessar o esplendor de seus textos (para usarmos uma palavra presente no título de um de seus livros mais recentes), sem no entanto deter-se na pura contemplação. Interessa-me pensar no porquê do fascínio que os textos de Lourenço exercem sobre o leitor — o seu modo de estar na escrita, as estratégias discursivas a que recorre —, relacionando esse poder de sedução com a vivacidade e a amplitude do seu pensamento.

Motiva-me aprofundar uma hipótese que se esboçou com mais nitidez no texto da Prova Escrita do Concurso Público para Professor Adjunto da UFRJ, que realizei em 1997 (“O ensaísmo em Portugal”), hipótese que, de certa forma, estava implícita no modo como leio Lourenço: leio-o como se lê um romance, ainda que o seu texto não se apresente ao leitor com os conhecidos protocolos de leitura romanescos. Talvez seja essa a razão por que ler Lourenço é sempre um prazer antecipado — prazer que não exclui o trabalho. Em resumo, interessa-me pesquisar a construção desse ensaio que se escreve sob o fascínio de outro território — o da ficção.

Em Portugal, renomados ensaístas (lato sensu) — Eduardo Prado Coelho, Silvina Rodrigues Lopes — dedicaram estudos a Eduardo Lourenço, fornecendo-me importantes elementos que constituíram pontos de partida para o desenvolvimento da questão.

O impulso inicial veio-me de Eduardo Prado Coelho. Leitor atento da cultura contemporânea em suas diversas manifestações artísticas, notadamente da literatura e do cinema, Prado Coelho revelou-se também um dos melhores leitores de Eduardo Lourenço, assim se referindo à obra daquele que, em sua opinião, mereceria a qualificação de verdadeiro ensaísta:

(…) soube articular, com extrema lucidez e brilhante desenvoltura da escrita, toda a tradição da esquerda portuguesa, toda a densidade existencial dos anos 50, e o mais fundo das mutações culturais de nosso tempo, na sua dimensão pulsional, errante (…) e apaixonada (Coelho, 1984 a, p. 44).

Diante da dificuldade de ler Lourenço no sentido de ultrapassar o efeito de fascínio que seus textos exercem sobre o leitor —, Prado Coelho, no artigo “Eduardo Lourenço: um rio luminoso”, sublinha a urgência cada vez maior de se ler o ensaísta, procurando encontrar a lógica específica do seu discurso. Assim, com base no livro Poesia e Metafísica (1983), o crítico procura ler Lourenço “na intertextualidade de sua imensa biblioteca”, “na trama da sua conceptualidade às vezes indecisa”, “na espessura vivida de um pensamento”. O crítico encontra na imagem do círculo aberto a melhor definição para a dinâmica do pensamento do autor de O labirinto da saudade, movimento que vai do centro ao horizonte, “da caverna ao rio”, sem contudo “perder no caminho o sentido da origem” (Coelho, 1984b, p. 280).

O impulso seguinte deu-mo o texto de Silvina Rodrigues Lopes. Autora de brilhantes estudos sobre Sophia de Mello Brayner Andresen, Agustina Bessa Luís e Maria Gabriela Llansol, Silvina Rodrigues Lopes assina também “Alguns apontamentos sobre o ensaísmo de Eduardo Lourenço”. Tomando por base Tempo e Poesia e Heterodoxia,Silvina destaca a importância do lugar da interrogação no pensamento do ensaísta, “aquele que a associa à inquietude”, não com vista à obtenção de uma resposta ou verdade definitivas, mas como “um dinamismo próprio, que leva a leitura ao ponto em que ela ‘nos ensina’ e ‘nos critica’, à deslocação de modelos e de normas teóricas”. Desse modo, em lugar de critérios prévios de juízo crítico, Lourenço “propõe um processo de leitura como aparecimento de um duplo”. Mas esse duplo da obra não é “uma simples imagem no espelho, o texto crítico não é mímesis da obra”. Entendendo-se que a “obra não é produto, mas produção, não ergon, mas energueia”, ela apenas dará lugar a “imagens motivadas, as de um espelho imaginário que não funciona segundo o princípio da causalidade, implicando em si o exercício da imaginação que permite que o invisível e o inesperado se insinue na sua superfície, que o inconsciente entre em jogo na estratégia argumentativa, tornando vivo o pensamento”. A ironia, “que corresponde a um modo de pensar, ou de escrita, que na oposição busca a passagem”, é “o nó de que derivam tanto a figura do duplo como a do labirinto, (…) hipóteses centrais do ensaísmo de Eduardo Lourenço (Lopes, 1990, p. 203-205).

Em estudo posterior, apresentado no Congresso Internacional “Portugal e os mares — um encontro de culturas” (realizado em Nápoles, em Dezembro de 1994), Silvina propõe-se a discorrer sobre a idéia de Europa no pensamento de Lourenço, sem dúvida um de seus temas centrais. Em “Europa ou o diálogo que nos falta” (Heterodoxia, 1949), o ensaísta iniciou suas reflexões sobre a Europa e a pertença de Portugal a ela, estudo inovador não só por romper o tradicional círculo de fascínio/ressentimento, “mas porque aí já se defendia o diálogo como forma de resistência a todo tipo de totalitarismos” (Lopes, 1993, p. 2). Em Nós e a Europa ou As Duas Razões (1988), outra vez a interrogação, a dinâmica do seu pensamento se confirma, procurando acompanhar a s circunstâncias e problemáticas atuais. Face a dois tipos de paralisia da história — a auto-acusação, que dominou a intelectualidade pós-Guerra, e a compulsão à celebração, que domina a pós-modernidade — , “Lourenço propõe com insistência a deslocação para outro lugar que permita à fidelidade à Europa como algo de positivo, não só a preservar, mas a fazer”. Ou seja, “uma idéia de Europa que tenha a autoridade da memória”, que “radique numa história comum e não numa identidade”, história comum que é “a da interrogação acompanhada por um sentido de errância” (Lopes, 1994, p. 3).

Ao pôr em interlocução os textos dos dois estudiosos, percebi que ganhava consistência a idéia de examinar com mais atenção a maneira pela qual a escrita de Lourenço se constrói. O exercício da imaginação, a interrogação que se desdobra em ironia e a inclusão da fantasia e do inconsciente, aspectos assinalados por Silvina, correspondem, de certa maneira, ao círculo aberto e à dimensão pulsional, errante e apaixonada, apontados por Eduardo Prado Coelho, e que podem ser vistos, na leitura que proponho, como estratégias dessa escrita ensaística que se aproxima da ficção.

Ao lado do fascínio por aquilo que Lourenço diz, é impossível não se deixar seduzir pela maneira como diz. Para tal, interessa-me acompanhar alguns aspectos do seu estilo inconfundível, sobretudo em O labirinto da Saudade, talvez o livro que mais repercussão causou no meio universitário, dando origem a diversos Cursos, Dissertações e Teses. De início, merece registro a presença de um perturbante “ou”, não disjuntivo, em alguns títulos de artigos (“Camões e o tempo ou a razão oscilante”, de Poesia e Metafísica) e de livros (O complexo de Marx ou o fim do desafio portuguêsNós e a Europa ou As Duas razões), que, embora possa ser entendido como subtitulação, parece indicar sobretudo a pujança e a dinâmica interrogativa e errante de um pensamento que se desdobra, ou ainda abertura às disponibilidades receptivas do leitor.

Lourenço recorre com freqüência a epígrafes, recortadas com extrema propriedade, e também a itálicos, que pontuam noções (por vezes polêmicas) e sublinham referências-chave. Mas, sem dúvida, um dos traços mais fascinantes da sua escrita são as construções quiasmáticas, paradoxais, que tiram o seu efeito no cruzamento ou contaminação sintática de construções normais, construções que se revelam extremamente adequadas à lógica de um pensamento cujo sentido, recorrendo às palavras de Silvina, na oposição busca a passagem: “quinhentos anos de imperialismo sem império que foram também quinhentos anos de Império sem autêntico imperialismo”, como escreve Lourenço em O labirinto da saudade (Lourenço, 1991, p. 45).

O estudo desses elementos estilísticos e o levantamento de outros recursos que fundamentam a estrutura formal do texto são os pontos atrativos que me levam a atravessar a paisagem inquieta e luminosa do ensaísmo de Eduardo Lourenço.

Em O labirinto da saudade, corajosamente, Eduardo Lourenço nomeia os dilemas e complexos do modo de ser português, não hesitando em expor a grandeza e pequenez do imaginário lusíada, ao apontar os seus mitos traumáticos (o da origem ou do nascimento, o da dominação espanhola e o do Ultimatum inglês) e a fixação obsessiva dos portugueses numa imagem irreal de si mesmos, forjada em torno de uma idéia de grandeza que era, no fundo, uma ficção.

Movendo o seu pensamento através da “Literatura como interpretação de Portugal” (e esta é sem dúvida uma das razões da sedução do seu texto), Lourenço destaca alguns momentos-chave da gestação de contra-imagens (Neo-realismo, Surrealismo, Filosofia Portuguesa, Revolução de Abril). Por fim, sublinha, na trajetória que se inicia com Garrett, passa por Eça e a Geração de 70, e chega até o Modernismo, o mais profundo e dilemático processo da moderna autognose literária portuguesa. Como não poderia deixar de ser, Lourenço recorre novamente a uma construção quiasmática para melhor traçar este percurso: do romântico “Ninguém-Portugal” de Garrett ao pessoano “português-ninguém, imerso e dissolvido no universal de todos” (Lourenço, 1991, p. 17ss).

No texto “Onze Teses por ocasião de mais uma descoberta de Portugal”, um dos capítulos de Pela mão de Alice, Boaventura S. Santos (Santos, 1997, p. 53-74) estabelece um provocador diálogo com o referido livro de Lourenço, significativamente subintitulado “Psicanálise mítica do destino português”. Contudo, o desenvolvimento desta instigante interlocução escapa aos limites deste trabalho.

À guisa de conclusão deste estudo — conclusão forçosamente provisória dado o estágio inicial em que se encontra a minha pesquisa sobre a obra de Lourenço —, decidi recorrer outra vez ao pensamento de Prado Coelho. Em nossos dias, é possível observar uma polêmica em torno de duas perspectivas extremamente polarizadas: a que conduz à “rejeição de quaisquer limites”, decorrente em grande parte da noção alargada de texto; e a que, avessa à dissolução dos limites, pratica uma espécie de “terrorismo de fronteiras”. Em lugar dessas posições extremas, Prado Coelho sugere uma terceira via, significatimente próxima à da mecânica dos fluidos, conforme a imagística que lhe é tão cara, assim encerrando o seu ensaio sobre o ensaio:

(…) na atmosfera matizada de uma cultura dita pós-moderna, sentimos que a atracção do exterior se atenua e que os limites são cada vez menos portas voltadas para a explosão da luz que vem de fora do que sutis mecanismos de rios, margens e pontes, nos quais a vocação deambulatória do ensaio enquanto exercício de liberdade e tolerância, composição harmoniosa de exame e enxame, poderá recuperar a mais profunda e apaixonante razão de ser (Coelho, 1997, p. 49).

Difícil encontrar melhor síntese para definir a ensaística daquele que ousa agitar o mar sem fim do pensamento “com a vara apaixonada da literatura” (Coelho, 1997, p. 121): a reiterada imagem do rio, a vocação deambulatória, a confluência harmoniosa do exame e do enxame. A ela gostaria apenas de acrescentar a hipótese que me fascina na ensaística de Lourenço: o texto como inquieta e luminosa experimentação do (im)possível ou a escrita ensaística que se constrói no horizonte do literário. Talvez valha a pena lembrar, como já apontaram alguns poetas e críticos da cultura portuguesa, que este modo de “estar na fronteira” (aqui entendido não como dilaceramento ou limite rígido entre dois territórios, mas como um limiar), é também um muito próprio modo “português de ser (Silveira, 1997, p. 533).

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Este texto foi uma comunicação apresentada no XVII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa, realizado na UFMG/PUC-Minas, no período de 16 a 20 de Agosto de 1999. Aqui ele corresponde às primeiras considerações sobre o ensaísmo de Lourenço, já que meu projeto de pesquisa a este respeito encontra-se em fase inicial, com o seu desenvolvimento previsto para o período de 2001-2003.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COELHO, Eduardo Coelho. Sílvio Lima. O reino flutuante. Exercícios sobre a razão e o discurso. Lisboa: Edições 70, 1972, p.45-51.

——. O ensaio em Portugal (1974-1984). Colóquio Letras no 78 (1984a), p. 44

—— Eduardo Lourenço: um rio luminoso. A mecânica dos fluidos. Lisboa: IN-CM, 1984b, p. 279-284.

——. O ensaio em geral. O cálculo das sombras. Porto: Asa, 1997, p. 18-49.

——. Eduardo Lourenço: aquele que agita o mar. O cálculo das sombras. Porto: Asa, 1997, p. 121-123.

LOPES, Silvina Rodrigues. Alguns apontamentos sobre o ensaísmo de Eduardo Lourenço. A aprendizagem do incerto. Lisboa: Litoral, 1990, p.199-205.

——. A ideia da Europa. Portugal e os Mares: um encontro de culturas. Nápoles, 1994, p. 1-7.

LOURENÇO, Eduardo. Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: IN-CM, 1988.

——. O labirinto da saudade – Psicanálise mítica do destino português. 4. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1991.

——. O esplendor do caos. Lisboa: Gradiva, 1998.

——. Nós como futuro. LisboaAssírio & Alvim, 1998.

——. Portugal como destino seguido de Mitologia da saudade. Lisboa: Gradiva, 1999.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1997.

SILVEIRA, Jorge Fernandes da. A casa do Império. 5o Congresso Abralic Cânones & Contextos. Anais. Rio de Janeiro: CNPq/ABRALIC/FINEP, 1997. V. 1, p. 531-37.





Bio fornecida pelo palestrante.

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO




Resumo:
This essay attempts at the discussion of the conditions for the survival and permanence of art in the new millennium. It discusses post-colonial culture and tradition in Brazil in the face of the new technologies and trends quickly arriving from other more developed milieus. The essay draws the epistemological lines of resistance for esthetics and art in such a culture.
Texto:

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
INTRODUÇÃO

Os 500 anos de descoberta do Brasil provocam-nos uma indagação sobre as criações que ocorreram no país no campo da arte, da literatura e da cultura, para ficarmos no campo das ciências humanas. O que marca especialmente esta data é sua coincidência com o início do novo milênio, dentro da cronologia cristã, o que nos leva, simbolicamente, a sentir que estamos fechando uma era e iniciando uma nova. Tudo isso pode, concordo, não passar de uma impressão ligada tão-somente ao calendário gregoriano cristão, data historicamente nada significativa para árabes, indianos e judeus, por exemplo.

O panorama cultural global alterou-se a tal ponto no Brasil e no mundo, nos últimos dez anos, que muitas vezes nos indagamos se permanecerão uma literatura e uma cultura como a conhecemos agora, ainda escrita, culta, erudita e literária, dentro da tradição greco-judaico-cristã-ocidental. A compreensão do mundo nesses 25 séculos de história greco-cristã parte de premissas físicas e concretas, no máximo ligadas à eletricidade, no século XIX, e à revolução da eletrônica, do laser e da Internet, no século XX. Ocorreu uma revolução tão radical nesta última década que ameaça aposentar o papel como veículo de imprensa e de cultura escrita. Boa notícia para a ecologia, graças à melhor conservação das florestas. A difusão do computador em escolas, mesmo nos países pobres, com sua contraface do CD-Rom, o disco a laser, o email, a conversa on-line, a Internet, a vídeo conferência e o hipertexto representado das redes e conexões representa uma forma radicalmente nova de comunicação entre os seres humanos. O fenômeno da televisão, com a divulgação de arte e notícias de forma simulada ao real, através da cor, movimento e linguagem oral, por via eletrônica, depois aperfeiçoado com a televisão a cabo e o vídeo doméstico, criando a especialização do espectador, passou por uma transformação ainda mais gigantesca com o correio eletrônico e muitos outros avanços tecnológicos que aparecem diariamente.

A conseqüência social mais imediata deste fenômeno é a globalização e a unificação da sensibilidade humana através de um tipo de visão de mundo única ou predominante. Mas outra conseqüência disso é que é a hegemonia da língua inglesa e a cultura por ela engendrada, que difundem seus hábitos, cultura e arte — e, naturalmente, seus produtos negociáveis. Cria-se um novo império de dominação cultural moderna através do domínio da imagem e da palavra. Este só pode ser comparado ao império latino na antigüidade. Nem mesmo os Estados nacionalistas do século XIX conseguiram a mesma penetração mundial obtida pelo império anglo-saxônico atual, entendendo-se aí principalmente a hegemonia dos Estados Unidos. É uma forma inteligente de dominar mas que se deve, principalmente, ao fato de a Inglaterra, desde o século XVIII, já se constituir num país industrializado e capitalista, o que a capacitou a utilizar a língua como uma forma de exportação de sua cultura, através de um forte sistema educacional e um bem organizado sistema administrativo das colônias, que se aliavam para utilizar a língua inglesa como principal veículo de dominação. Esta se dava não tanto através de guerras, ou unicamente pelas guerras, mas através da exportação de cultura (ver The Empire writes back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, London, Routledge, 1991. 1. Ed. 1989). Uma forma de dominação que já atua de forma cada vez mais próxima, pois é realizada através das chamadas “negociações”, seja no plano político ou econômico. Estes acordos quase nada têm de negociados, uma vez que os parceiros mais fortes sempre poderão “exportar” (isto é, impor) suas idéias e negócios com muito maior margem de aceitação (ou imposição) nas regiões humilhadas e ofendidas (ver Agnes Heller). Exemplo disso foi a “negociação” sobre a emissão de gases CO2, na última reunião de cúpula mundial, durante a qual os Estados Unidos e outros países do Primeiro Mundo, em lugar de reduzirem o grau de poluição que provocam no mundo, “negociaram” com países menos poluidores a comprarem deles uma certa quantidade “quotas de poluição”, uma vez que eles pouco poluem. Mas também pouco produzem. Assim, com esta “barganha”, ainda durante algum tempo continuará a poluição na atmosfera que a Terra como um todo provoca. Situação eticamente condenável que nos lembra as indulgências compradas pelos pecadores do Santo Papa durante o Renascimento. Daí a importância da apropriação das formas impostas pelos países dominadores, de que nos falam os autores acima.

Do ponto de vista da arte e da literatura, o computador trouxe para o leitor da telinha uma importante opção. Ele já não precisa dedicar-se apenas à observação passiva dos bonequinhos e filmes impostos pela televisão ou pela programação da TV a cabo. Ele se sente dono do universo, buscando seu assunto na Internet ou escrevendo em velocidade igual ou quase igual à do pensamento, ou pode conversar sobre inúmeros assuntos com pessoas de diversos pontos do globo, visitando endereços eletrônicos e informações de locais distantes sobre infinitos assuntos em fração de segundos. A vantagem que este espectador-leitor-escritor ganhou foi passar a utilizar, em sua leitura na Internet, quando na presença de ilustrações, os dois lobos do cérebro, quando antes só utilizava o direito, para a escrita. O ocidental pouco utilizava o lobo esquerdo do cérebro, que se destina às figuras ou desenhos. Com o computador, foi forçado, afirmam alguns especialistas, a usar os dois lobos, combinando figuras/desenhos e escrita. Aproxima-se assim da percepção do texto que tem o oriental, que sempre precisou, para interpretar e escrever o ideograma, combinar a leitura da figura visual à interpretação da escrita. (Ver também Pierre Lévy, A tecnologia da inteligência; O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, 34 Letras, 1993. 1. Ed. 1990; e também O que é o virtual?, Rio de Janeiro, 34 Letras, 1999. 1. Ed. 1995).

Outra conseqüência associada à escrita no computador é a possibilidade de realizar o sonho de Stéphane Mallarmé, em seu famoso e inacabado projeto do Livre, como mostrei na Apresentação a Globalização e literatura (Rio, Relume-Dumará, 1999, p. 37-45): no computador, pode-se até certo ponto desobedecer à ordem linear do discurso, escrevendo, recortando, deslocando, apondo sílabas, palavras e orações numa rearrumação constante do discurso, o que não poderia ser feito no texto tradicional.

Todo este fenômeno teve lugar na última década do período que Lyotard denominou “condição pós-moderna”, implicando no fim das utopias que vinham se delineando desde o século XVIII, com os grandes enciclopedistas franceses e pensadores da filosofia transcendental alemã. Este momento, iniciado na década de 1970, a partir de uma crise generalizada no mundo das artes, corresponde ao fim da busca do “Make it new” poundiano e da originalidade do modernismo da primeira fase, e à passagem para a idéia de que “Nada é new“. Tudo é repetição, rearranjo de termos já presentes na ordem do discurso anteriormente enunciado. Na condição pós-moderna a literatura e o “fim do real na condição pós-moderna veiculam percepções, produzem subjetividades e anunciam os paradigmas de novas formas de pensar, sentir e estar no mundo”, nas palavras de Fernando Fábio Fiorese, um dos ensaístas do livro, que retomo na mesma “Apresentação” daquele livro.

A crise das utopias, o sentimento de déjà vu e de melancólico “sentimento do mundo”, na expressão de Carlos Drummond de Andrade, que se apodera de artistas e produtores culturais do pós-moderno explica-se pelo acúmulo de informações permitido pelo computador, o CD-Rom, o hard disk e outros meios de armazenamento de dados quase infinitos e até então impensáveis. A maior amplitude de informação, impulsionada pelas descobertas tecnológicas e científicas a cada dia trouxe, no plano das artes, a sensação de vazio e de nada mais te-se a inventar. Isso ocorreu, pelo menos no plano da retórica, ou seja, das artes.

À diferença dos jornais, cobertos do resíduo de tinta, borrão, provocado pelo chumbo, a graxa e por máquinas pesadas, manuais ou elétricas, cria-se uma nova realidadeclean, os programas de computador e os portais de informações científico-tecnológicas, propagandas e comunicação eletrônica, abrindo para um universo de possibilidades individuais. Esta realidade virtual que nem sequer tenta mais simular a vida real, mas que cria a vida, já foi considerada compatível com a ética e as características da sociedade capitalista e puritana. É o portal de um novo mundo da comunicação. Uma história da leitura, de Alberto Manguel (São Paulo, Companhia das Letras, 1997, 1 ed. 1996), mostra-nos a evolução que preparou este novo universo infinito de simulacros idênticos ao real, e muitas vezes superiores aos originais, obtidos numa velocidade inimaginável. A técnica acompanha o progresso da humanidade em relação a uma crescente imersão no capitalismo, em que time is money. Já não há manuscritos, rabiscos, textos inéditos e únicos rascunhados à mão ou numa máquina individual, caseira. As descobertas que faziam a alegria dos especialistas em ecdótica, hermenêutica ou genética crítica. O horror da página em branca de que nos fala Maurice Blanchot em L’espace littéraire já quase deixou de existir. Um texto é composto de recortes, reaproveitamentos, revisões: composições rápidas em que surgem, em questão de segundos, através de pequenos gestos técnicos, como o automático clicar de botões de recortar, apagar e colar, um novo tipo de palimpsesto. Não há tempo para hesitações. Time is money. Os moldes de cada escrita estão armazenados na memória do computador, resíduos de outros textos que podem ser facilmente reaproveitados, sem grande emoção humana, apenas por força da máquina. O mundo clean já se aproxima perigosamente de uma certa realidade de ficção científica, pelo menos para a classe média, em que as pessoas agem como robotizadas e dominados pela máquina. Ao menos este é o tema de filmes atuais realizados nos Estados Unidos: MatrixQuero ser John Malkovitch e sem dúvida muitos outros, talvez menos criativos e convincentes.

A noção de reprodutibilidade técnica, anunciada por Walter Benjamin em “O objeto literário na época de sua reprodutibilidade técnica” repete-se e reproduz-se numa quantidade e velocidade inimaginável. O conteúdo filosófico e questionador do texto desaparece em prol da economia de palavras e de tempo. Se o meio é a mensagem, o fremir da máquina em movimento elétrico acelera a acumulação de gestos mecânicos, que não raro redundam em lesões nervosas por sua excessiva repetição.

Esta repetição, que deixava uma margem, um surplus, na teoria de Jacques Derrida, passa a ser questionada na sua produção positiva de sentidos por Jean Baudrillard emL’Échange symbolique et la mort (Paris, Gallimard, 1976). Essa série infinita de sentidos levaria a uma constante morte de significado na vida, eternamente perpetuada no capitalismo (série que pode ser interrompida pelos discursos marginais ao capitalismo, como as dos negros e das mulheres). Também Fredric Jameson em “O pós-modernismo e a sociedade de consumo” (cap. 1, in Ann Kaplan, org. O mal-estar no pós-modernismo; Teorias, práticas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993, 1. Ed. 1988, p. 25-44), menciona (p. 30) uma “construção” do sujeito burguês, que nunca teria existido, e a emergência de uma “nova experiência de tecnologia citadina” (p. 40), que Walter Benjamin já apontara em Baudelaire.

Paralelamente a esta transformação de atitudes, ocorre um fenômeno inesperado no plano da crítica literária: sucede uma exaustão com os métodos semiológicos até então utilizados, desde o Estruturalismo e a crítica pós-modernista com base em Jacques Derrida, Paul de Man, Jonathan Culler, Gilles Deleuze e outros filósofos e críticos literários. Na medida mesma em que há na sociedade contemporânea uma hipertrofia do instrumental virtual, ocorre, paralelamente, um desejo de recuperar uma dimensão histórica ou até microhistórica (nova história, ou de história das mentalidades), que abarque a totalidade dos eventos sociais que constituem o tecido social como um todo e que pode ser reconstituído a partir do texto. “Nas palavras de Michel de Certeau, o que chamamos de realidade é um inventário (quiçá incompleto) daquelas pegadas deixadas num mapa coletivo já marcado por outros traços de outras viagens” (cit. in Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 263, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). Noutros termos, a realidade é histórica. Nos estudos posteriores ao pós-moderno assiste-se a um certo retorno à análise sócio-histórico-cultural, como por exemplo entre seus criadores, os historiadores franceses Claude Braudel, Jacques Le Goff e outros representantes da da escola, ou nos seus seguidores, o professor inglês Peter Burke. Contudo, já não é uma história ingenuamente realista, nos moldes de um Arnold Hauser, de um Norbert Elias ou, em menor grau, de um Erich Auerbach. Ela pressupõe a recriação mimética da realidade através de uma narrativa que passa a constituir uma história que não se quer científica, isto é, reprodutora do real, mas recriativa deste real. (Ver sobre Costa Lima Máscaras da mímese). Na encruzilhada entre o pensamento marxista realista e esta visão quase literária de história, passando pela revisão da obra semiológica de Jacques Derrida, encontra-se a figura revolucionária de Gayatri Spivak (ver artigo Internet).

Esta indiana não se considera indiana, para ela uma criação forçada por ingleses e outros povos dominadores da Índia, buscando uma falsa união para melhor conquistá-la. Na verdade, ela se considera natural de Bengali, onde nasceu, sendo o bengali sua língua materna. Desde os 17 anos está radicada nos Estados Unidos. Em suas conferências e ensaios procurou unir a sociologia marxista com o pensamento filosófico de Jacques Derrida, depois chamado de desconstrucionismo, nos Estados Unidos, quando ele passou a lecionar em Yale, após a década de 1970, dando origem ao que se chamou movimento pós-moderno. Questionando cada palavra, buscou contestar o conteúdo essencialista da linguagem, e unir a crítica à posição marginal ocupada pelas classes subalternas com a experiência feminista de revisão textual.

Assiste-se a um fenômeno que poderíamos definir como uma dupla crise do conceito de mímese. Na década de 1960-1970, o Estruturalismo desvinculou a noção de mímese da palavra e da linguagem, desatrelando-o do real social. A linguagem foi eleita como uma explicação hegemônica e autônoma de interpretação. A luta surda que se travou entre os críticos marxistas e os pensadores que buscavam a autonomia do texto literário redundou na noção de autonomia da dimensão do imaginário e do simbólico no texto literário, libertando o signo de uma mímese colada ao real. Este processo parece ter se invertido no momento em que o pós-moderno já se esgota com relação a uma mímese vassala do real. Enquanto, no período pós-moderno, a filosofia era uma preocupação constante dos críticos, sob o influxo do pensamento de Derrida, visando a contestar os pressupostos da filosofia transcendental metafísica, no momento atual os estudos culturais e a linha de discussão centrada no pós-colonialismo atrelam-se à sociologia e apresentam questionamentos políticos, não filosóficos, às questões da cultura.

Na última década do século XX Terry Eagleton (Theory of Literature, London, Blackwell,1993, 1. Ed. 1988) e Henri Lefebvre (The construction of space, Oxford, Anthropos, 1991, 1. Ed. 1974) desconfiam da hipertrofia da linguagem como sendo capaz de servir de explicação para a totalidade dos fenômenos sociais da realidade além dos textuais. Lefebvre chega a referir-se explicitamente a tal falência.

Também a partir do pensamento filosófico de Jacques Derrida e da semiologia, mas afastando-se rapidamente dele, Edward Said, Homi Bhabha, assim como Gayatri Spivak, utilizando em sua maior extensão o conceito de diferença de Derrida e ampliam-no não só para a definição de gênero no feminismo como, igualmente, para as camadas subalternas e as minorias políticas . Esta linha se constitui numa crítica pós-colonialista que se volta para as margens, em oposição ao eixo dominador eurocêntrico.

Na mesma vertente, os estudos culturais aprofundam as redes sociológicas deste saber questionador, afastando-se cada vez mais da indagação semiológica presente em Derrida, Kristeva e mesmo Foucault.

O texto liberta-se da clausura semiológica, na qual se supunha que o signo continha o todo social em si, como na afirmação de Julia Kristeva sobre o termo ideologema, e a crítica volta-se novamente para o social, embora o veja através de um sistema mimético de representação, não como um dado concreto, como no marxismo ingênuo. Contesta-se a linguagem como metalinguagem ou um discurso retórico autônomo, para além da ideologia. A ciência é posta em questão, até no campo das ciências exatas. A lingüística não mais se constitui na grande ciência da comunicação que tudo abarca, como queria Roland Barthes em Língüística e comunicação. Ela volta a ocupar um nicho dentro das ciências humanas. A sociologia, a história e a antropologia tornam a despertar o interesse do discurso teórico e crítico universitário. A comunicação de massa e a cultura canibalizam os campos da arte e da literatura, atrelando-os à sociedade do espetáculo atual, na feliz expressão de Guy Debord (em A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto; é um aspecto discutido também por Nestor García Canclíni em Culturas híbridas, São Paulo, EDUSP, 1997, 1. Ed. 1989).

O modismo do espetáculo, que caracteriza a nossa cultura como a do olhar sem críticaencontra o seu paroxismo em Paulo Coelho, que pontifica sobre teologia em O Alquimista, e é arrastado, na sua mais profunda glória, como o andor de um santo, nas laterais de uma linha de ônibus que percorre Paris. É um espetáculo inusitado vê-lo proferir conferências eruditas nas academias, e freqüentar banquetes, a convite do Presidente da França e as maiores editoras do país, locais que há 50 anos só sonhavam penetrar os maiores representantes da alta literatura francesa.

Há no entanto a possibilidade de uma autocrítica do próprio enunciador do discurso, que se coloca no texto como pessoa, e não mais como cientista, ou seja, um sujeito afastado do objeto de seu saber. O processo epistemológico dá lugar ao processo existencial. Passa a ser “travessia” (ver Luciano Zajdsznajder, A travessia do pós-moderno (Rio de Janeiro, Gryphus, 1992; ver também O pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos), e surge o apelo a “uma ‘leitura atípica’, aquela que não pretende nenhuma exaustão, nem tem uma metodologia a priori, deixando-se levar pelaexperiência, palavra que também se liga à idéia de travessia. Uma leitura a partir das zonas menos privilegiadas do texto, ou de suas margens no dizer de Derrida, emMargens da filosofia: das notas, dos títulos, das epígrafes, das referências intra-, inter- e extratextuais” (Evando Nascimento, Derrida e a literatura. “Notas de Literatura e Filosofia nos textos da desconstrução, Niterói, EDUFF, 1999, 363 p., “Questões de princípio”, p. 15-25, p. 20). Mas saber sem o sentir perde o sentido

Já foi muito repetido que a maior revolução deste século foi a revolução feminista. Esperemos que ela não se torne um projeto adiado ou fracassado como a Revolução Comunista. De qualquer forma, adiada ela já está, pois parte de suas propostas de autonomia no plano social teráo de ser adiadas para o próximo. Foi um longo caminho que começou em fins do século XIX, com os primeiros movimentos sufragistas e a entrada da mulher para a imprensa e o mundo profissionalizado da imprensa e da literatura, com George Sand, Jane Austen e Charlottle e Emily Brontë, mas que ainda enfrenta muitos preconceitos arraigados. A pesquisa sobre o cânone, o resgate das escritoras e a discussão teórica sobre gêneros foi o caminho depois seguido pela crítica, que depois estendeu este pensamento à recuperação literária a outras “minorias”, sexuais, raciais, os povos orientais e os que produzem literatura oral. Principalmente estes últimos eram desconsiderados pelos estudiosos oriundos do pensamento eurocêntrico, uma vez que, na definição de Derrida, a oralidade baseia-se no fonocentrismo, um tipo de discurso do ouvir-dizer que não passa pela recriação da escrita ou a escritura crítica. Contudo, hoje, é a fala, a oralidade que preside às manifestações culturais mais importantes na história. O que em Derrida só se redimia pela escrita, ultrapassando o fonocentrismo do ouvir-dizer, torna-se valorização do fonocentrismo, pela reconsideração da literatura oral, da manifestação política e cultural de povos com uma cultura mais oral.

A arte e a literatura, como bem nos mostra Nestor Canclini em Culturas híbridas, passam a ser divulgadas na sua forma de baixa literatura, incorrendo num conceito muito amplo de cultura, que corresponde, na verdade, à noção de mídia como foi criado neste século. A mídia é a comunicação para as massas — não se devendo confundi-lo com a literatura oral ou popular, que sempre existiu. Esta não empregava meios de ampliação da divulgação, e era realizada pelas classes populares ou dirigida a elas. Um processo justamente inverso ao atual, em que o povo recebe pacotes de mensagens e imagens, de linguagens decodificadas para ele por pessoas bem informadas da elite intelectual que douram a pílula do conhecimento do cotidiano, oferecendo-a em pequenas doses. Não importa o que digam os bem-pensantes, como Leyla Perrone-Moysés, em sua defesa das “altas literaturas”, a verdade é que toda sorte de discursos se cruza nos meios de comunicação mais diversos, numa rede de intertextualidades: muros, programas de televisão, revistas on-line, programas de alta ou baixa qualidade, livros best-sellers e o hiperrealismo, no computador. Termina em grande parte o preconceito contra o não-erudito. Há a mistura das artes, como já vinha mencionado no Auerbach, confundindo-se alta, média e baixa literatura.

Nas universidades e meios intelectuais fala-se de decadência e finissecularismo. Nas livrarias compram-se obras de esoterismo e auto-ajuda. A própria psicanálise entra em crise, substituída por tratamentos de menor duração (ver Elisabeth Roudinesco, Mais!,Folha de São Paulo, março 2000), ligadas ao corpo e a esoterismos. A situação é crítica para as letras. Não se vendem mais livros. Editoras se unem em cartéis e conglomerados. Utilizam portais de informática. Introduzem-se em homepages. Livros inteiros são disponibilizados na Internet, mas o pagamento de direitos autorais se faz à editora só após completar-se o milheiro de vendas. Tudo passa a ter dimensões globais. E, como nos cultos milenaristas ao final do primeiro milênio, onde muitos peregrinavam pelas ruas esperando o fim do mundo e se autochicoteando, alguns prenunciam o fim da literatura e da arte. A baixa literatura e arte ditam as regras do bom-tom entre os intelectuais. As obras da chamada alta literatura destinam-se a um público altamente especializado e com um objetivo definitivo: didático, profissional, ou estimulado por um programa de televisão ou filme que apelam para este ou aquele título, como se deu com o livro O Perfume, de Patrick Susskind, uma releitura rebaixada de À Rebours, de Houysmans, que alcançou grande nível de vendagem e de que hoje ninguém mais ouviu falar. É o fenômeno da moda, da alta costura em pleno domínio das letras.

O tratamento indiscriminado de qualquer produto como produto artístico, que passaria a ocupar o espaço das belas letras, belas-artes ou da arte erudita, chega ao ápice no fim do milênio. Já na última década do século XX surgem os estudos culturais. Não se sabe ainda se são a tábua de salvação para as artes ou a aceleração de seu processo irremediável de decadência. As universidades e as revistas especializadas deixam de tratar a literatura como linguagem específica para se dividirem em departamentos ou centros voltados para a política da literatura e os problemas sociais, abrindo espaço para estudos cada vez mais politizados: women’s studies (estudos feministas), cultura latino-americana, estudos hispânicos, arte, estudos sociopolíticos. A alta literatura enclausura enclausura-se entre públicos altamente especializados, nas rodas de intelectuais e dos bares, a literatura (assim como as exposições de arte e a música erudita) não é mais o assunto. Fala-se de cinema, de psicanálise, de música popular, da economia, da vida privada. Cada um no seu buraco de pombo, para usar a expressão norte-americana que indica o aprisionamento universitário numa excessiva especialização: “pigeon-holed“.

Ainda não se sabe se os estudos culturais vieram condescender em abrir espaço para a moribunda literatura, ou se vieram acelerar um processo de perda de prestígio que poderia ainda se prolongar por mais algumas décadas, dando espaço para se alcançar algum processo de salvação pelo surgimento de alguma novidade no cenário cultural. A crítica torna-se mais sociológica, histórica, política, antropológica e menos voltada para estudos específicos da literatura, como o eram Hugo Friedrich, Wolfgang Keyser ou Vossler, nos antigos tempos do estudo da estilística textual. Acirram-se os estudos de literatura e cultura, literatura e sociedade e arte enquanto mídia. A crítica e a arte podem até continuar a se voltar para a literatura e o cinema de arte ou a obra de artista, o problema é encontrar público, seja universitário ou o geral. Criam-se núcleos, pequenos grupos especializados que continuam a ler em segmentos: literatura de autoria feminina, afro-brasileira, roman noir, romance policial. É como no início da rádio FM: as rádios AM sobreviveram, mas precisaram se tornar cada vez mais especializadas, voltando para segmentos mínimos da população: donas de casa, motoristas de caminhão, noticiário, certas seitas, tipos de música e até mesmo rádio relógio.

O VIRTUAL NA LITERATURA E NA ARTE: pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, estudos culturais

O estruturalismo consistiu num período crítico eivado de intertextualidades, de citações cruzadas, entre textos e intertextos literários que, no dizer de Julia Kristeva, se autobastavam, conduzindo a outras citações e leituras, numa incursão infindável pelo texto do outro, numa rede interminável. Já no clímax deste movimento, ou seja, no pós-modernismo, Barbara Cassin, em Máscaras da mímese, A obra de LCL, org. Hans Ulrich Gumbrecht e João Cezar de Castro Rocha, Rio de Janeiro, Record, 1999, “Transmissão e ficção”, p. 34-35, p. 25-43,), desmancha a magia das citações e das aspas, mostrando que a citação, desde Diels, o estudioso da literatura grega, é que elegia, de acordo com seu “bom gosto”, os textos dignos de citação, pois na verdade a frase citada é uma apropriação. Toda a etiqueta do processo de citação entre aspas data apenas do típógrafo Guillaume, epônimo de “guillemets”, as aspas, em francês (p. 34). Assim, a “doxografia” não passa de um “objeto filológico que corresponde ao ideal de uma transmissão por pura repetição” (p. 35). Para rivalizar com o culto livro de Genette que lançou toda a escola de análise de texto desde a década de 1970,Palymsestes, desmerece Barbara Cassim, no período pós-moderno: caracteriza a doxografia é “o que ele diz” (phêsin, em grego), enquanto legein significa “querer dizer” e apaga o falante, para que subsista apenas a “repetição da fórmula” (p. 38). Sem dúvida é uma releitura do estruturalismo e da semiologia, em que a repetição do dito e da diferença do mesmo é que vão indicar o significado semiológico dos vocábulos.

Estudos tradicionais — como a antropologia, a filosofia e a história — vêm sendo submetidos a um “profundo questionamento de qualquer formação epistemológica” — afirma Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 257, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). O que sucede é a textualização, a “literalização” de todas as antigas ciências, num sentido que antes poderia ser identificado ao de uma ideologia, como vêm fazendo Hayden White e Richard Rorty em filosofia, e Clifford Geertz e James Clifford em antropologia (idem, p. 257). Essas teorias limitam-se a apresentar narrativas ou textos culturais sobre fenômenos textuais “construídos a partir de uma aglomeração de textos” (idem, ibidem). Paralelamente, desequilibrou-se a estrutura sujeito-cientista — e objeto de estudo. O “objeto de qualquer prática discursiva não é nada mais que a própria produção dessa prática e é específico a ela” (idem, ibidem). Rompe-se assim a universalidade e a estabilidade que antes cercava o sujeito do conhecimento. Coloca-se em cheque a crença hermenêutica na quest!ao da formação da subjetividade naas construções e operações epistemológicas e metodológicas (como no caso de Um Geertz, Gadamer ou Paul Ricoeur). Estabelece-se um certo pacto em que o próprio discurso cria o seu objeto, ao contrário do pensamento hermenêutico, que antes via o objeto como um já-dado para ser conhecido pelo sujeito (ver idem, ibidem).

O que se poderia questionar aqui é se permanece um espaço irredutível que poderíamos chamar (ainda) de real. Que o real é impregnado de história, já nos disse de Certeau. Mas se este limiar é que o mundo real, aquele produzido pelo trabalho de todos, num retorno ao conceito marxista de trabalho e de produção relembrado por Lefebvre, então todas as interpretações e releituras são possíveis, e perde-se até mesmo a dimensão da ética na vida humana. Para Lefebvre, há três instâncias no que diz respeito ao real concreto, como em Platão, cada vez mais afastadas do real, em direção aos discursos de representação. Este pacto com a realidade, uma realidade que em si não teria nada de interessante, comenta Richard Rorty, no entanto nos permite uma saída para fora da desconstrução, em relação à construção de um discurso coerente que não fique circularmente eternamente se autoperguntando sua função social o tempo todo.

A LITERATURA NA ERA DO CULTURAL

Afirma Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org., Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, que hoje o texto é “considerado como produto cultural, [e] é visto como absorção, réplica a outro texto ou a vários, e em que o que era entendido como relação de dependência ou dívida para com o antecessor passa a ser compreendido como um procedimento natural e contínuo de re-escrita” (p. 237). Lembra que identidade e representação são conceitos intimamente ligados, pois a “representação, a idéia, aquilo de que é imagem no ato da lembrança resulta em conhecimento da identidade”. Esta se define como uma experiência emocional que permite a cada ser perceber-se como entidade única, apesar de suas contínuas transformações. É a contradição de ‘ser-si-mesmo’ deixando de sê-lo. O conceito de identidade opõe-se ao de alteridade e o reconhecimento da identidade de dois ou mais objetos, ou sua identificação, pressupõe sua alteridade, que lhes permite continuar ‘o mesmo’, persistir no seu ser” (p. 237; ver Greimas, A. J.; Courtes. Dicionário de semiótica. São P;aulo, Cultrix, 1979).

Temos, assim, a pressuposição de que cada obra literária desenvolve elos intertextuais com outras obras — no sentido de intertextualidade que lhe atribuem Julia Kristeva emSemeiotiké e Jean Genette em Palympsestes. Neste sentido, já não haveria a idéia de influência ou preponderância de um autor sobre outro, uma vez que os textos funcionam como redes de sentido complexas e existindo concomitantemente na sociedade atual. No caso de autores cronologicamente anteriores, eles seriam retrabalhados e reinscritos num novo todo lingüístico, pelo autor posterior na tradição literária, tratando-se por assim dizer de um caso de tradução ou transliteração. Mas, para além deste conceito, vemos delinear-se uma tal complexidade de intertextualidades que se configura um problema de hiperrealismo, como na Informática, de signos ou conteúdos que remetem a outros conjuntos de signos ou de conteúdos, indefinidamente.

O cânone literário ficaria assim sob suspeita, podendo-se afirmar que não existe literatura “pura”, no sentido das “belas-letras”, uma vez que todo texto, em última instância, estaria inscrita na totalidade do social, ou na vasta palavra cultura. Desse modo, nenhum texto poderia deixar de estar inserto na história. Um cânone literário único e definitivo seria uma contradição, uma vez que a cultura está em constante mobilidade, assim como a parole (palavra), sempre móvel, com relação à langue(língua), mais fixa. O cânone sempre vai incorporar autores do passado que vão sendo revalorizados — é o caso das escritoras do século XIX que vão sendo resgatadas — e escritores quer atuais, quer passados, uns porque passam a ser considerados, outros porque, tendo sido antes bem considerados, saem de moda ou caem desuso. É o caso, entre nós, de Coelho Neto, que hoje ninguém mais lê. O caso modelar para este fenômeno é Shakespeare, cuja própria existência já foi negada e no século XIX foi valorizado como o mais original e valioso dos dramaturgos, sendo hoje reescrito e transfigurado de todas as formas, a cada montagem e leitura crítica (ver Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org.,Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, por exemplo, a respeito das releituras de Shakespeare em nosso século)

A idéia de um kanon (em grego, vara de medir), de função puramente estética (ver Roberto Reis, “Cânon”, in José Luís Jobim, org., Palavras da crítica, Tendências e conceitos no estudo da literatura, Rio de Janeiro, Imago, 1992, Biblioteca Pierre Menard, p. 65-92, p. 70-1), isto é, com base na filosofia kantiana, que pregava o bem e o belo desinteressados, tornou-se obsoleta. O conceito cultural parece atropelar essa pureza metafísica de conceitos que se originou no pensamento da elite do século XVIII. A primeira pergunta na sociedade atual, supostamente democrática e republicana, é sobre a legitimação do conceito de belo. Quem será o juiz deste conceito? Em que definirá a medida desta beleza? Como afirma Roberto Reis: “O estudo da literatura seria melhor equacionado considerando-o dentro da dinâmica das práticas sociais: a escrita e a leitura estão sujeitas a variadas formas de controle e têm sido utilizadas como instrumento de dominação social” (idem, p. 72). A legitimação dessas obras e dos critérios seria feita pela universidade, pela crítica especializada ou a resenha jornalística nos meios de comunicação social — entretanto, no apagar das luzes do século XX, seria ainda este o critério usual? Sem dúvida, caminhamos na direção contrária à apontada por Harold Bloom em seu O cânone ocidental (Rio de Janeiro, Objetiva, 1995), que desejaria retornar a Shakespeare e apenas ao panteão de autores clássicos e anglo-saxônicos estudados em Yale até 1950. (No Brasil foram publicados recentemente, de Flavio Kothe, O cânone colonial e O cânone imperial, Brasília, ed. Da UnB).

Hoje assistimos à transformação do livro num objeto de consumo e de utilidade prática. O best-seller oferece informações importantes. Paulo Coelho, por exemplo, decifra os passos para a depuração da alma, até a ascese maior, descortinando ao leitor o caminho até Santiago de Compostella. Outros explicam o Japão na época do Xogum ou o Egito no tempo dos faraós. São historiadores que facilitam o vocabulário e o aprofundado estudo cronológico, inserindo-o numa narração cheia de graça e regada a romance, aventura e ação. O leitor sente-se elevado à categoria de intelectual, sem precisar do esforço de estudar ou dirigir-se à universidade. A literatura mostra-se “um eficaz veículo de transmissão de cultura” (Roberto Reis, idem, p. 72), mas, também, um eficaz instrumento de dominação de classe e de grupos sociais altos. Tradicionalmente, houve a exclusão dos povos da periferia européia, os asiáticos, africanos, sul-americanos — processo que está sendo em parte revertido pela atuação da Associação Internacional de Literatura Comparada neste sentido, reunindo-se e estudando o Japão (último congresso) e a África (este ano). No entanto, dada a complexidade do mundo atual, uma listagem de “grandes escritores da literatura universal”, como existia nas universidades norte-americanas e européias até a década de 1950, ou a idéia de uma Weltliteratur, como o desejava Goethe, no momento da criação da Literatura Comparada, no século passado, parece inviável hoje, podendo-se antes imaginar a coexistência de diversos cânones destinados a distintos fins e voltados para diferentes regiões do globo. Estes cânones reconheceriam explicitamente os fins a que se dedicariam, pois o critério estético, eivado de metafísica, no sentido desinteressado e superior a qualquer interesse, parece pouco convincente e até aberto à suspeita, principalmente das classes mais subalternas, se elas receberem a educação a que têm direito — um processo que tem sido retardado indefinidamente no Brasil, com a contínua queda da educação e a manutenção do salário mínimo em 75 dólares mensais. No momento atual, a quebra do conceito de nacionalidade, bem exportado através dos impérios pela escola hegemônica do Romantismo, parece também perpetuar-se pela impressionante influência dos Estados Unidos em todo o mundo, constituindo-se agora como uma nação global. Se, como nos mostra o livro The Empire writes back antes havia o imperialismo capitalista e eficaz da Inglaterra desdobrando-se através da língua, da cultura como armas de dominação cultural expandindo-se na Índia, Austrália, Canadá, etc — com uma eficiência infinitamente superior aos impérios mercantilistas no século XVI de Portugal, Espanha e Holanda, por exemplo, hoje a lição inglesa é elevada a uma infinita potência com o império norte-americano e temos o mundo transformado em aldeia global quase que exclusivamente constituído a sua imagem e semelhança.

CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E RUPTURA

Balizar a critica literária brasileira dentro desta rede de pensamentos filosóficos e lingüísticos não é tarefa fácil. Pode-se cair na armadilha do nacionalismo, enfatizando a importância de todos os críticos que se voltaram para um pensamento nacional. Assim, se destacaria a preeminência da escola da USP, liderada por Antonio Candido e Roberto Schwarz, e hoje seguida por inúmeros de seus alunos espalhados pelo mundo. Mas esse esforço poderia parecer um pouco infrutífero a partir da década de 1970, quando o pensamento especificamente “brasileiro” passou a se estender a um pensamento mais latino-americano, com pensadores como Roberto Schwarz, ou universalista, como é o caso de João Alexandre Barbosa, que incluiu nos seus ensaios estudos sobre Mallarmé e outros poetas simbolistas, na linha mais eclética de um Augusto Meyer. Inúmeras metodologias passaram a se cruzar a partir da década de 1970, as quais podem ser sintetizadas nos estudos de Literatura Comparada, que passaram a reunir estudos interdisciplinares dos mais diferentes teores. Mas com uma marcante diferença: não preconizava o fechamento em torno de temas da Literatura Brasileira nem com um instrumental oriundo tão-somente do Brasil. Esta foi uma das preocupações de Luís Costa Lima em um certo momento de sua carreira crítica: encontrar as raízes e as ramificações de uma crítica “autenticamente” brasileira (como ele desejaria ver surgir, enquanto “sistema intelectual brasileiro”). O esforço por encontrar algo totalmente autóctone tornou-se um tour de force. Aqui e ali, e no próprio pensamento de Costa Lima, surgiam influências, leituras, contágios, contaminações, apropriações. Na verdade, onde se encontrariam, em pleno século XX, esses pensamentos totalmente originais? Acabou-se por incorrer na teoria das intertextualidades, de Julia Kristeva, a partir do pensamento de Mikhail Bakhtin, e dizer-se que não é mais possível retraçar as influências e, como na rede entretecida de Jorge Luís Borges, e no Palympsestes, de Genette, todos os textos estão em todos os textos, na modernidade. Através da extrema circulação da Literatura Comparada no Brasil, a partir da década de 1980, e principalmente com a revista da ABRALIC n. 1, de Niterói, em 1991, passou-se a valorizar problemas genéricos, como a identidade cultural, a diferença filosófica ou de gênero, e a utilizar como metodologia a interdisciplinaridade, com a conjunção da história, da antropologia e da história. Abria-se um caminho internacional para os estudos da Literatura Comparada. Os apelos marxistas do local e do popular tornavam-se mais raros, e só voltaram a ocorrer no campo da literatura com a ruptura da idéia de erudito, e sua mistura com o conceito de arte popular ou baixa literatura.

O conflito entre nacional e autêntico e uma crítica livre, de caráter quem sabe francês, nos moldes de Sainte-Beuve, esteve presente no Brasil desde os seus começos. Em Alencar, “Como e por que sou romancista” e em Machado de Assis, “O instinto de nacionalidade” o importante era diferenciar-se do pensamento europeu, hegemônico, eurocêntrico. Naquele momento, de fixação das fronteiras nacionais e de uma identidade própria (até certo ponto identificada com a idéia de exótico, de tropical, de indígena e selvático) dizer-se brasileiro era criar uma diferença e afirmar-se uma identidade própria. Entretanto, os críticos literários tradicionais como Santiago Nunes, Artur Araripe, Sílvio Romero e José Veríssimo, prestaram uma atenção apenas periférica ao problema da nacionalidade. Ela se restringia à questão do tema e das descrições no que dizia respeito a cenas de natureza “brasileiras”, isto é, o que resumia a teoria da “cor local”, uma das bases do Romantismo. A verdadeira preocupação desses críticos era, entretanto, o problema estético dos textos. Estudavam a sua eficácia, sua recepção pelo público, a utilização de um vocabulário adequado, oriundo do português e não afrancesado, a descrição de pessoas da classe popular e com o vestuário típico do povo brasileiro que não denotasse influência estrangeira nem descrições excessivamente cosmopolitas ligadas a Paris.

Assim, a crítica literária brasileira nasceu não há 500 anos, mas há menos de 200, no século XIX. Surge com a independência do país, quase no Romantismo, e vence inúmeros problemas. O primeiro, é o analfabetismo do povo. Machado, como bom cronista dos costumes de sua época, assim define o grau de instrução e a política do país: somos 70% de analfabetos (ver crônica de Notas semanais). O segundo, é a ausência de universidades (a Universidade do Brasil data de 1920) e faculdades dedicadas à literatura. Até 1940, quando se cria a primeira Faculdade de Letras do país, os escritores estudavam Direito. Isso leva a uma certa generalização nos seus comentários críticos. A falta de leitura sistemática de autores, críticos, da literatura greco-latina ou de importantes histórias literárias que nos antecederam leva a um ecletismo e um generalismo de estilo que foram denominados de impressionista. É o domínio do sentimento sobre a racionalidade. Vale a impressão pessoal sem fundamento num estudo mais aprofundado ou em comparação a autores antes estudados com afinco. É grande a leitura de obras literárias mas quase nula a procura por obras filosóficas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como se constata através de seu Livro de Consulentes do século XIX. Outro problema é o elitismo de todo sistema intelectual brasileiro. Permitia-se, por exemplo, o ingresso à Biblitoeca Nacional, por exemplo, apenas a homens brancos, de terno, gravata, bengala e chapéu. Jamais descalços (escravos) nem mulheres (esperta foi George Sand, que se vestia de homem e adotou pseudônimo masculino, em pleno século XIX francês).

Conclusão

Nos 500 anos de descobertas do Brasil, talvez devêssemos cobrar de nós mesmos uma crítica pós-colonialista que implicasse na autonomia com relação às dependências do passado, nos moldes do pensamento que surge na Índia, como base para a criação de um país totalmente independente, embora constituído por um rede de línguas e culturas unificada pelos ingleses e outros dominadores artificialmente. No entanto, essa hipótese é remota dada a conjuntura globalizada do mundo atual. O fim da colônia terminou, do ponto de vista cultural, no Romatismo do período monárquico, realizando uma mudança de eixo de influência de Portugal para a França. A influência francesa culminou com o modernismo, no qual muitos manifestos, como o Pau-Brasil e o Antropófago tinham suas bases no Manifeste Caniballe, de Picabia, por exemplo (ver Benedito Nunes, Oswald canibal, São Paulo, Perspectiva). Mas por volta de 1950 a influência francesa foi substituída pela norte-americana, num grande império mundial de bases extraordinariamente globalizadas. Uma crítica pós-colonial nos levaria de volta à dicotomia nacional versus internacional. A um pensamento autóctone. As dicotomias se mostram cada vez mais abertas à suspeita num mundo complexo. Seria o autóctone o indígena? O africano? Ou o retorno à cultura do português? E que fazer com os imigrantes europeus e japoneses? Desse ponto de vista, parece-me que no multiculturalismo que deve prevalecer na cultura e na arte, nosso sistema intelectual brasileiro, que já lutou tanto para ser puramente “brasileiro” durante tantas décadas, deveria reunir os fragmentos da cultura que o compõem e se autoquestionar no sentido de influir no processo o máximo possível. A criação de uma teoria totalmente pura e autóctone, independente e original lembra-nos as teorias racistas do final do século passado e início deste. E o movimento em direção à globalização torna-se inevitável. O que não quer dizer automático nem regulado exclusivamente por outros. A lição da apropriação, já proposta entre nós pelos modernistas, parece ser o único caminho possível para uma teoria e uma prática crítica entre nós e em qualquer parte do mundo hoje, ligado por uma quase visível rede comunicacional que realiza a predição da aldeia global de McLuhan, aldeia global, multicultural mas na qual alguns exportam saberes e bens e outros os importam. Daí a importância da permanência da crítica literária e cultural.

Este texto foi escrito para uma conferência durante o Simpósio Internacional BRASIL 500 ANOS: CAMINHOS DA HISTÓRIA, SÍNTESE DE CULTURAS, realizado na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, de 9 a 14 de abril de 2000, sob a coordenação da Profa. Maria Gabriela Cardoso Fernandes da Costa, da Pró-Reitoria de Extensão e do Forum das Nações. Foi paricalmente publicado em jornal local.





Bio fornecida pelo palestrante.

Revendo os limites e possibilidades do modelo brasileiro de educação literária – Cyana Leahy-Dios




Revendo os limites e possibilidades do modelo brasileiro de educação literária

Cyana Leahy-Dios
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Introdução

Em trabalho anterior (1), tratei dos ideários filosóficos dos dois principais paradigmas de educação literária no ocidente, inspirados em sua origem no positivismo de Auguste Comte, na França, e no liberal-humanismo de John Stuart Mill, na Inglaterra. Neste texto, pretendo tratar das influências ideológicas sobre as relações entre indivíduo e sociedade mediadas pelo ensino e aprendizagem formais de literatura. A evidência empírica deste trabalho se constrói no processo constante de observação de aulas de literatura em escolas de ensino médio, e em entrevistas periódicas a alunos e professores de literatura. Como professora de teoria e prática pedagógicas de língua e literatura nacionais na UFF, acompanho regularmente licenciandos em Letras em observação de aulas e docência supervisionada daquelas disciplinas.

Observando aulas de literatura na Inglaterra em 1994-95, pude perceber as diferenças filosóficas, metodológicas e teóricas entre o modelo brasileiro e o inglês na sua prática pedagógica cotidiana. Encontrei, em meio a limitadas variações estratégicas didáticas, uma linha de pensamento que não (re)conhecia, e que precisei pesquisar e analisar para que fizesse sentido. O modelo pedagógico-literário praticado na Inglaterra, construído sobre o ideário liberal-humanista de John Stuart Mill, não se sustenta sobre a historiografia literária, nem sobre teorias literárias. Segundo observado, nos anos escolares que precedem o ingresso ao terceiro grau (sixth form), o processo de aquisição de conhecimento literário se faz através da produção de ensaios monográficos por alunos, que interpretam e comentam a leitura de textos de autores canônicos previamente selecionados para os exames de A-level.

A escritura visa a estimular e desafiar o pensamento crítico como solução de um problema a ser solucionado de forma mais ou menos independente, com o acompanhamento do professor. Obviamente, o desempenho traz a marca das condições sócio-culturais dos estudantes. Em turmas maiores, nem sempre é possível ao professor mediar de perto o desenvolvimento individual. A prática, em última instância, revela o princípio do ‘cada um por si e Deus por todos’, estando o sucesso acadêmico bastante condicionado à reserva cultural do aluno. Grupos sócio-economicamente selecionados, oriundos das classes dominantes, e familiarizados com a leitura dos clássicos serão mais bem sucedidos. Dos ‘menos iguais’ será exigido um intenso trabalho (semi-autodidata) de apropriação dos valores britânicos tradicionais revelados na ‘alta’ literatura. Embora valorize a leitura e a produção de textos, o paradigma inglês é, na prática, seletivo, excludente, e pouco democrático. Estudar literatura para os exames, na opinião da maioria dos professores entrevistados na Inglaterra, deveria ser restrito aos alunos que detêm intimidade prévia com as tradições e valores literários e culturais da nação. Tal intimidade seria avaliada através de seu acervo de leitura dos clássicos e do domínio da arte da escrita.

Neste pequeno artigo, gostaria de voltar à questão do tratamento historiográfico dos estudos de literatura no Brasil. Julgo relevante tentar compreender melhor o significado de certas reações fortemente emotivas desencadeadas pela proposta de revisão de paradigmas, objetivos, métodos e pressupostos teóricos da educação literária, uma heresia que, para os defensores do cânone patriarcal, ameaça o patrimônio literário-cultural da nação.

A leitura e o estudo de literatura: depoimentos

Minha própria formação de leitura literária se deu, principalmente, em casa. Cresci lendo Monteiro Lobato, rapidamente descartado e esquecido à primeira leitura de Machado de Assis. Menos abertamente, li também toda a obra de Eça de Queiroz, cuja sensualidade explícita era considerada pouco recomendável para leitoras muito jovens. Estimulado e praticado, o ato de ler era atividade absolutamente prazerosa.

No segundo grau comecei a estudar literatura. A matéria não me desagradava, em sua apresentação historicizada, cronológica e linear: estudar história se assemelhava a um passeio agradável por um passado curioso, recheado de outros povos e tempos. Estudar literatura significava passear pelo Brasil colônia. Não havia qualquer associação, para mim, entre ‘estudar literatura’ e ler. Na verdade, os estudos literários se assemelhavam ao desafio semilúdico de solucionar um quebra-cabeças, ou preencher palavras cruzadas, sem importância ou um sentido próprio, quer no decifrar do significado original de um poema (o que ‘o autor quis dizer com aquilo’), quer na procura pelas características marcantes do período histórico de sua produção, século a século, segundo uma lista ditada pela professora que, por sua vez, a extraía de manuais pré-prontos. Talvez por não associar o estudo de literatura à leitura, mas à história linear de fatos e datas, meu prazer de ler — atividade não escolar — permaneceu intocado. Ler e estudar (sobre) literatura eram, sem dúvida, ações distintas.

Embora as características pedagógicas do aprendizado de literatura na escola estivessem fundamentalmente desvinculadas do ato de ler, eu diria que, naquele passeio seguro e distante por um passado imutável, havia uma identidade democrática. Memorizar as datas, os fatos históricos associados, as ‘culturas’ econômicas de cada época, e as características pré-definidas das escolas/períodos literários exigia apenas algum estudo, em qualquer lugar da casa e da cidade. Não era preciso uma família letrada, coleções literárias na estante, nem mesmo era preciso uma estante. Nunca soube de qualquer colega que tivesse sido reprovada em literatura. Apesar da superficialidade histórica e da não valorização do elemento ético-estético em nossos estudos literários, não havia distinção filosófica entre leitores e não leitores, seus ambientes de origem, o nível de instrução de seus pais. A ninguém era exigido que escrevesse um ensaio sobre a ironia em ‘O Guarani’ (2) — até mesmo porque os próprios professores dificilmente estariam equipados para cumprir tal tarefa. O único requisito para passar de ano era ter boa memória.

Evidentemente, falo de um processo pedagógico-literário praticado no passado, em escola pública estadual dos anos sessenta. No presente, sabemos que a evolução dos estudos teórico-literários se reflete necessariamente nas práticas pedagógicas de literatura, se entendermos ‘teoria’ como um movimento de ação-reflexão-ação. De que forma estão imbricados hoje os estudos crítico-literários dentro e fora da academia com a praxis das salas-de-aula de literatura? Com a palavra, alunos de 3º ano de ensino médio, submetidos à educação literária no ano 2000:

  • Para quê se estuda literatura na escola?

Para saber a diferença entre os povos, entre os estilos de época, a diferença entre o manifesto futurista, realismo, modernismo. E a importância também que teve … a abertura da Semana de Arte Moderna em 1922. A gente passa a entender o que significava música, o que significava teatro, todo tipo de cultura. (Sandra M, 3º ano).

Sei lá… pra passar o tempo… (Marcelo, 3º ano).

Não sei para que decorar essas características todas, quem foi fulano… (Júlia, 3º ano)

Todo mundo fala que ler é importante… Mas para quê? Não sei, não faço a mínima idéia…(Paulo, 3º ano).

Se leitura for literatura é uma coisa, é importante, mas se for isso que a gente dá na sala, é chato… (Eduardo, 3º ano).

Não sei pra que se estuda literatura… Bom, eu acho que é pra gente aprender sobre a nossa própria cultura, né? E a cultura de outros países… (Kelly, 3º ano).

Ah, creio que é pra gente saber… saber escrever bem, talvez… (Josivânia, 3º ano).

Às vezes acho que não serve pra nada… Posso até gostar de uma história, mas e daí? Daqui a pouco eu esqueço! (Vanessa, 3º ano).

Não devia ser matéria obrigatória! (Juliana, 3º ano).

Que rumos tomou a educação literária nos dias atuais? Porque ainda se encontra vinculada ao paradigma historicista de saber sobre a produção literária fragmentada em escolas, épocas, períodos? Porque não se privilegia a leitura, o leitor na prática pedagógico-literária? Porque não é priorizado o estudo das teorias literárias, entendidas como possibilidades de leitura, ao invés das características lineares e compartimentadas de tempos de escrita? Haverá, no ano 2000, a apropriação da leitura pelos estudos literários? Ou serão ainda atos independentes e isolados? O que esperam da educação literária alunos do 1º ano do ensino médio?

  • Para quê se estuda literatura na escola?

Para a gente entender o mundo em que a gente está. Para a gente ter consciência do que a gente faz, pensa, diz… (Gabriela, 1º ano).

Hoje em dia tem muitos autores… literatura é muito importante… (Luana, 1º ano).

Pra nada. (Bianca, 1ºano).

Pra saber o que já aconteceu. (Lívia, 1º ano).

Para conhecimento, essas coisas… sei não. (Natali, 1º ano).

Gabriela, Luana, Bianca, Lívia e Natali são alunas do 1º ano do ensino médio de escola estadual no Rio de Janeiro. Entrevistadas em março e abril de 2000, no início do ano letivo, as cinco alunas ainda não haviam tido contato efetivo com a disciplina literária. No contraste entre suas respostas e as dos colegas do 3º ano (acima) é possível perceber o ideal antecipado de relacionar literatura com leitura, visando a ampliar conhecimentos – da sociedade, do Outro, de si. O contraste entre a idealização da disciplina e a prática concreta aponta para algumas categorias de análise do problema.

A expectativa de ampliação de conhecimento de mundo através da literatura se transforma em descrença na própria competência de leitura, e nos limites da disciplina literária. Há uma nítida passagem do sujeito ativo (‘ter consciência’, ‘a gente faz, diz’, ‘entender o mundo’) ou indiferente (‘para nada’, ‘sei não’) ao sujeito passivo (‘para passar o tempo’, ‘não sei para que decorar essas características todas’, ‘para saber a diferença entre os povos’) ou hostil (‘é muito chato’, ‘daqui a pouco eu esqueço’, ‘não devia ser matéria obrigatória!’). Enquanto os iniciantes na disciplina associam o estudo de literatura à leitura, os que estão concluindo o ensino médio percebem que a disciplina está dissociada da leitura, do desenvolvimento de competência lingüística, da ampliação de universos sociais — a ‘leitura de mundo’ proposta por Paulo Freire. O triângulo multidisciplinar (língua, arte, sociedade)(3) perde a mobilidade, pousado sobre o elemento social que, na realidade, é limitado ao estudo acrítico e superficial de um passado histórico imutável, escrito por uma elite intelectual situada acima do bem e do mal.

Se minha própria experiência de leitura foi privilegiada pelas características domésticas e familiares, a experiência de leitura dos jovens entrevistados sofreu a influência de amigos e da mídia, e não da escola. A maioria dos 114 entrevistados inicialmente negou ter qualquer hábito de leitura; com alguma insistência, a maioria declarou ler jornais e revistas, sendo que alguns citaram, com alguma timidez, o escritor Paulo Coelho. As formandas do curso de habilitação pedagógica exemplificaram seu acervo de leitura com os títulos apresentados na disciplina literária: Gonçalves Dias, Castro Alves, Machado de Assis. Na realidade, haviam lido apenas os excertos encontrados em seus livros didáticos, como pôde ser apurado na conversa informal que se seguiu à entrevista gravada. Futuras professoras, porém, já estavam imbuídas do perfil seletivo dominante no magistério.

É possível, assim, perceber a manutenção da distância entre leitura e educação literária existente nos anos 60, experimentada por minha geração. Adolescentes percebem que, no universo escolar, há um descompasso entre o que realmente lêem (jornais, revistas, autores rejeitados pela crítica) e o que é considerado leitura por seus professores (obras clássicas de autores canônicos). Penso tratar-se de profundo engano acusar o jovem brasileiro de não-leitor, acusação essa que funciona como mais um elo na corrente colonizadora e autofágica de avaliação sócio-cultural da nação (‘brasileiro não lê’). Se há jornais e revistas no Brasil cuja tiragem ultrapassa aquela de países ditos desenvolvidos, e cujos cidadãos são admirados como leitores vorazes e competentes, é intrigante saber: quem os lê? Por que não poderia a escola formar leitores mais críticos a partir de seu universo concreto de leituras, ao invés de apostar em uma iniciação construída sobre o ideal elevado e elitista de imposição dos clássicos?

Problemas e dilemas sociais da educação literária

Em primeiro lugar, consideremos o papel atribuído à disciplina no panorama educacional nacional. A praxisindica que quanto menor a carga horária alocada a determinada disciplina, menor sua importância acadêmica. Encontramos na maioria das escolas de ensino médio (ex-2º grau) a média otimista de duas aulas de literatura por semana. De maneira geral, não se encontra nas escolas públicas estaduais (no Rio de Janeiro) a docência de literatura brasileira como disciplina independente de língua portuguesa. Oficialmente, unificam-se as duas áreas do conhecimento, subordinando os estudos literários aos estudos da língua portuguesa, o que em princípio não deveria causar maiores danos a qualquer das duas, ciênciaarte da palavra que são.

Evidentemente, é necessária uma relação dialógica entre língua e literatura, entre discurso e sociedade, entre as artes e as ciências. Não proponho que se mantenha distância entre as áreas, mas sim que suas particularidades e especificidades sejam reconhecidas, de forma multidisciplinar. O diálogo entre as disciplinas não significa superposição amorfa. Educar pela literatura requer transdisciplinaridade entre estudos da língua, da arte e da sociedade (4), embora atravessar fronteiras de conhecimentos não signifique o aligeiramento de qualquer deles; antes, a travessia exige o aprofundamento teórico dos saberes das diferentes áreas, para que faça sentido. Como equipar professores de literatura para que entendam a importância crucial de estudar literatura para a educação plena de sujeitos sociais? Como fazer de ler e estudar literatura uma associação de atos da língua, dos discursos sociais, culturais, pedagógicos, políticos?

Sinceramente, eu achava que literatura era pra gente aprender a fazer redação. Mas hoje em dia eu vejo que não tem nada a ver. Estou começando a aprender agora o sentido realmente da literatura… O texto literário é aquele negócio de época e tal, assim, o estilo… do lugar que vem, de quem faz, porque que faz… (Haila, 3º ano)

Embora queiramos acreditar que todo professor seja pesquisador (5), a realidade revela que a maioria dos docentes em exercício nas escolas entende como ‘pesquisa’ a preparação de suas atividades pedagógicas diárias, planejamento esse em geral limitado à leitura acrítica dos manuais distribuídos pelas editoras de livros didáticos. Se lhes perguntamos acerca de sua própria leitura, quase sempre citam ‘o livro didático’, ou leituras informativas para o desempenho da profissão. Com alguma insistência, revelam o hábito de ler jornais e revistas populares. Os mesmos materiais, entretanto, não são reconhecidos como leitura quando o leitor é o aluno.

Temos, assim, algumas áreas de conflito a enfrentar, como:

  1. a dissociação entre ler e estudar literatura;
  2. a passividade docente-discente perante o livro didático;
  3. a menos-valia da educação literária nos currículos escolares e programas pedagógicos;
  4. a manutenção ‘artrítica’ do perfil historiográfico dos estudos literários;

5. o tratamento acrítico do cânone, da disciplina literária, da produção de conhecimento em literatura.

Os limites deste trabalho me permitem apenas apontar tais questões, ainda sem o necessário aprofundamento de cada problema. Tentarei apenas levantar algumas reflexões sobre os limites e as possibilidades de educar pela literatura em tempo presente.

Para quê se estuda literatura? É pra ter mais um pouco de conhecimento sobre a literatura do Brasil. Pois poucas pessoas conhecem sobre a literatura mundial que é muito abrangente e muito forte e as pessoas estão precisando disso. (Willians, 3º ano).

Alguns comentários sobre a situação dos estudos literários nas escolas públicas de ensino médio (6) se fazem necessários. A maioria das coleções didáticas de literatura adotadas nas escolas de ensino médio se apresenta em três volumes, um para cada ano letivo. Algumas são apresentadas em conjunto com questões gramaticais (língua literatura). Para quem não está familiarizado com a prática de educação literária, esclareço que não se trata das antologias de contos ou poemas, mas sim de livros didáticos de literatura, elaborados segundo o paradigma historiográfico, com abundância de nomes (de homensque contribuíram para o acervo literário brasileiro), fatos (histórico-econômicos e biográficos sobre os mesmos homens), e características (inflexíveis) de cada escola literária — nomes, fatos e características esses sistematicamente ordenados do século XVI ao início do século XX, e um pouco menos daí para diante. Tempos modernos — e pós-modernos — exigem uma reflexão sobre questões contemporâneas e, por isso, são mais complicados e resistentes às tentativas burocráticas de catalogação estruturada. Algumas coleções somam cerca de mil páginas de informação cronológica sobre a história da literatura brasileira, com excertos de textos literários sob medida para informar alunos das características de cada período/escola literária. Cada coleção é acompanhada do manual do professor, elaborado com a finalidade explícita de facilitar o trabalho docente, semperda de tempo.

Chamo a atenção para a justificativa dos manuais: o professor não tem tempo para planejar suas próprias aulas, pois se desdobra em múltiplas jornadas, devido à remuneração inadequada do trabalho docente, tornado ‘fabril’ (7). Assim, ao invés de atacarmos a causa do problema — a proporção inversa entre tempo em sala de aula e tempo de preparação/planejamento das aulas — temos o trabalho do/a professor/a supostamente facilitado pelas editoras de livros didáticos, que fazem a ‘pesquisa’ por ele/ela, para que tenha mais tempo à frente de mais turmas. Uniformiza-se a preparação do ato pedagógico. A leitura se limita aos excertos de obras literárias selecionados pela editora, analisados segundo os códigos interpretativos sugeridos nos livros didáticos, para facilitar o trabalho do professor:

Um texto é literário quando o autor põe as coisas bem ocultas, entendeu? Para que a gente possa ir buscar, possa raciocinar por causa daquele texto, entendeu? Para que a gente possa descobrir o que ele quer passar pra gente. Ele não deixa nada explícito, ele é bem oculto. A gente estuda literatura para ampliar nossos conhecimentos, melhorar a linguagem, entendeu? Saber interpretar, saber expressar o que a gente sente. (Luana, 3º ano).

A perda de prestígio social do magistério, refletida na sua remuneração, marca a auto-estima intelectual dos docentes. Em entrevistas anteriores, ouvi doze professores de ensino médio rejeitarem para si o rótulo de ‘intelectuais’, pois ‘apenas executam um trabalho feito por alguém melhor equipado’ (em geral, reverenciam o/a autor/a do livro didático); nenhum dos doze entrevistados sabia citar um título sequer lido nos últimos doze meses, enquanto três consideravam a leitura semanal do ‘manual do professor’ como leitura; e quatro declararam ler jornais e revistas femininas pelo menos uma vez a cada quinze dias. Todos eram professores de língua e literatura nacionais, e trabalhavam em média 40 horas semanais, em mais de uma escola.

Nas escolas, a alocação atribuída à disciplina literatura na grade curricular costuma ser de 90 minutos semanais. Nesses encontros, a prática habitual encontrada nas escolas é o/a professor/a mandar que os alunos leiam algumas páginas do livro didático, em seguida respondam às perguntas do livro didático, verificando erros e acertos no infalível e indiscutível gabarito de respostas encontrado no próprio livro (8). Em 1995, a coordenação de língua e literatura nacionais de determinada escola estadual distribuiu aos professores, junto ao programa de conteúdos, uma nota pedindo ‘encarecidamente ao professor para não desperdiçar o tempo do aluno com leituras de livros inteiros’. Atribui-se ao livro didático poder/saber absoluto, inquestionável e infalível. O professor intimidado silencia e faz silenciar seu aluno:

Não sei dizer quando um texto é literário. Acho que a gente estuda literatura para aprender a gostar mais de leitura. Acho que incentiva a gostar mais de leitura. Traz muita informação sobre a literatura brasileira, como surgiu, o que é literatura brasileira. Acho que isso é importante pra gente. Acho que é necessário! Eu gosto de ler mais literatura infantil, sabe? Não gosto de ficção, essas coisas não. (Daniele, 3º ano).

Literatura na escola é para inteirar o país na história. Literatura pra mim é muito ligada à história, né? Então eu penso que é pra… Veja bem, quando se mistura os movimentos literários, trovadorismo e tudo o mais, é uma parte da história, tem todo um levantamento histórico. Acho que é pra você saber o que está acontecendo hoje também. Eu gosto de ler mas não livros, eu não me interesso por livros. Me interesso por uma literatura mais cotidiana, jornais, sabe? Colunas do Paulo Coelho… (Andréia, 3º ano).

Não sei se a gente podia ler outras coisas… não ia ter questões de múltipla escolha, não tem no livro didático! (Valéria, 3º ano).

Os professores internalizam a impotência diante do poder verticalizado que se manifesta através de circulares, decretos e normas impostas, dos livros e manuais que se apresentam como auxiliares facilitadores, mas que tomam seu lugar à frente da ação pedagógica. Silenciam sua perplexidade e obedecem como podem. Sua insegurança em relação ao planejamento e seleção de atividades reflete, em última instância, a inadequação de sua formação docente. Mantém-se, dessa forma, intacto o binômio ‘poder — solidariedade’ das relações sociais entre as classes dominantes e dominadas (9).

O livro didático merece especial atenção pelo fato de ser a representação escrita e concreta do (abstrato) cânone literário nacional. Segundo tal representação, a literatura brasileira vem sendo escrita há quatro séculos por uma maioria absoluta de homens brancos de classe média e escolaridade elevada. Raros são os professores de ensino médio que praticam em suas turmas a leitura crítica de tais livros: falta tempo para discussão, falta uma (re)visão crítico-social de sua ação. Uma formação acadêmica deficiente não os educou para a leitura resistente (Barthes), ou para uma hermenêutica da suspeita (Culler):

Um texto é literário quando o título chama a atenção da pessoa para ler. Literatura… no ensino médio, pode ser qual for, tem literatura, eu queria saber por quê… Sei lá, acho que aperfeiçoa nossa escrita… Eu tenho preguiça de ler. Se for um livro muito grande às vezes perco o interesse por ele ser grosso, desanima, mas eu gosto de ler. Eu li Diário de um Mago, não todo. (Daniela, 3º ano).

Estabelece-se um círculo vicioso de difícil interrupção ao se alimentar o vácuo entre teoria e prática, ação e reflexão. Há quem julgue a formação pedagógica dos licenciandos em Letras apenas uma formalidade desagradável e desnecessária que os separa de seus diplomas. Há, no meio acadêmico, professores que não entendem o papel político da ação docente; não têm a percepção de sua responsabilidade social como professores educadores de gerações de professores; não se fazem interlocutores entre os saberes construídos dentro e fora dos muros da universidade; ignoram o significado de teoria como reflexão sobre a praxis em permanente realimentação dialógica.

Entendo que a menos valia dos estudos de literatura na escola está intimamente ligada à permanência de um paradigma que consegue desagradar igualmente a professores e alunos (10). Poucas aulas, pouco interesse, nenhuma leitura, ausência de questionamento do modelo e da prática pedagógica, num silêncio ensurdecedor.

Texto literário é… uma passagem de época, um… tipo assim, algum fato que marcou numa época que passou, é… uma grande história, uma biografia… Literatura a gente estuda para entender melhor as coisas do mundo. Literatura para mim é um… é assim, não uma atividade extra-curricular porque é mais importante, entendeu? E acrescenta à nossa cultura literária. (Renata, 3º ano).

Valho-me da reprodução de algumas falas de professores de literatura, cujos depoimentos merecem nossa reflexão continuada, com outros textos, outras críticas, para confirmar os dilemas acima levantados:

– O que é a literatura para você?

‘É o que já foi estabelecido como reprodução do homem, de uma determinada época, em uma determinada região geográfica’. (I.).

‘Mas você quer o conceito de literatura — geral ou o que eu acho??? Literatura para mim está ligada a texto literário, à criação. É realmente você criar um texto, deixar sua emoção fluir. Até mesmo textos populares, ditos populares… Sendo criação para mim já é um texto literário.’ (E.)

‘Bem, eu trabalho a literatura como recriação da realidade, né? Você recria fatos sociais que aconteceram anos atrás, séculos… e é através da literatura que a gente percebe isso. Se bem que séculos atrás ela não seria considerada literatura… seria crônica, né? E atualmente, você pega a realidade que você não pode confrontar e transforma numa coisa mais agradável, né?’ (S).

‘A literatura, para mim, é… uma arte, né? Literatura é uma guerra permanente. Do escritor, do homem diante das evidências e das não-evidências do mundo…’ (J).

‘Literatura para mim é a própria vida, né? É… onde o indivíduo pode extravasar aquilo que traz dentro de si de criativo, de imaginativo a partir do próprio mundo em que ele vive, né? A forma de colocar para fora, toda a vivência dele, né? Que ele conseguiu acumular durante toda a sua vida, de uma forma poética, de uma forma artística, de uma forma diferente, né?’ (L).

Se a educação literária, tratada de forma acelerada e acrítica, se torna, para a maioria dos alunos, ‘uma matéria desnecessária’, ‘uma combinação malfeita de português com história’, as falas dos professores, suas reticências, limites e possibilidades apontam para questões mais profundas acerca do literário, da educação literária, da abordagem do artefato literário como matéria de ensino-aprendizagem.

– Para quê estudar e ensinar literatura na escola?

‘Para expressar o pensamento do homem… Não é ensinar apenas o livro, mas jornal, revista… qualquer forma que mostre e retrate os costumes de uma época, que expresse os costumes e uma época, que expresse o pensamento do homem preso a uma região e a um determinado tempo…’ (I).

‘Bem, a gente trabalha… Acho que o texto literário não é necessariamente aquele que segue a gramática normativa. É uma criação. Sendo criação para mim já é um texto literário. Ele não precisa ter o registro formal. Agora… não é assim que a gente trabalha… é impossível.’ (E).

‘Aqui, nós tentamos trabalhar a literatura para o aluno sensibilizar o texto literário (sic). É através da sensibilização que você mostra o que é arte, não é? Ela não faz parte mas… dentro do código, não é? Ela é uma coisa boa e aprazível se você gostar.’ (S).

‘Eu acho que literatura na escola visa, em primeiro lugar, a um contato com a leitura, um contato com a cultura de maneira geral. Aqui, nós damos especificamente a literatura brasileira. A literatura portuguesa é vista nas origens: trovadorismo, o período do classicismo, humanismo e tal. Mas basicamente a literatura brasileira, proporcionando um contato com a realidade nacional, né? A visão, em primeiro lugar é cultural, nesse aspecto.’ (J).

‘ Para quê? Eu acho que, em primeiro lugar, em razão de tudo o que já foi colocado, fazer com que cada indivíduo se descubra. Fazer com que ele ultrapasse a barreira, né, do externo, e ele consiga exteriorizar porque, muitas das vezes, isso é muito difícil, né? Já que vários fatores envolvem, como o psicológico, a inibição, às vezes traumas que o próprio indivíduo traz da falha do ato de escrever, né? E conceitos que ele já traz também desde que ele se entende como aluno, né? Por exemplo: a literatura é dificílima, é difícil fazer literatura, então eu acho que, em primeiro lugar, seria nesse sentido… trazer o indivíduo para esse mundo maravilhoso que é a literatura e que infelizmente muitas pessoas não dão valor…’ (L).

Os depoimentos acima transcritos são parte das entrevistas feitas em escolas de ensino médio para o projeto de pesquisa mencionado, ainda em andamento. Ilustram a questão fundamental que este artigo pretendeu levantar: o que está sendo feito com a leitura/ literatura na escola? A pergunta se desdobra em outras: que contribuição para a cidadania, para a educação de sujeitos sociais está sendo dada pela educação literária que temos, na prática escolar cotidiana? O que é literatura para cada um de nós, e qual seu papel dentro de um projeto de educação voltado para a construção de melhores futuros para todos?

notas:

  1. Educação Literária como Metáfora Social, Niterói: Editora da UFF, previsto para 2000 (desde 1998).(volta ao topo)
  2.  Essa foi uma das primeiras tarefas impostas a uma turma de 1º ano de ensino médio na Inglaterra: ‘escreva um ensaio sobre a ironia em Hamlet’. O problema não está na leitura de William Shakespeare, mas sim na arbitrariedade de uma tarefa complexa imposta sem discussão, troca de informações, construção de conhecimento, especialmente crucial numa escola londrina freqüentada por uma maioria de filhos de migrantes. Essa questão é analisada com maior profundidade no livro citado.(volta ao topo)
  3. Ver Educação Literária como Metáfora Social. Niterói: EdUFF (no prelo).E também ‘Mulheres na literatura: a invisibilidade oficial’,Leitura: Teoria e Prática, nº 33, 1999. Campinas: ALB/Mercado Aberto.
  4. Represento a transdisciplinaridade da educação literária como uma figura geométrica, um triângulo em movimento, assentado sobre a área de estudos mais valorizada em dada sociedade — uma metáfora social. Ver Educação Literária como Metáfora Social, EdUFF (2000).
  5. Há algumas contradições paralisadoras nos mecanismos oficiais de gerenciamento do magistério público. Prega-se a necessidade de aperfeiçoamento e especialização dos professores através de estudos pós-graduados, com produção científica e titulação; entretanto, sabemos que quanto maior a qualificação, mais apurado o foco de interesse de seu trabalho. Outro problema está na baixa remuneração do magistério que, forçando os professores a uma carga horária excessiva, limita sua dedicação aos próprios estudos, à pesquisa e à preparação das aulas. Dessa forma, compromete-se irremediavelmente a construção de conhecimento através do exercício consistente da reflexão sobre a própria ação.
  6. Essa questão é tratada de forma mais detalhada em Língua e Literatura: uma questão de Educação? (Campinas: Editora Papirus, no prelo).
  7. A esse respeito, sugiro a leitura de ‘Está o professorado perdendo o controle de suas qualificações e do currículo?’, de Michael Apple e K. Teitelbaun, Teoria e Educação, nº 4, 1991, Porto Alegre: Pannonica
  8. Um relato sistemático de observação de aulas em escolas públicas de ensino médio pode ser encontrado em Língua e Literatura: uma questão de Educação? Campinas: Papirus (a sair em 2000)
  9. Robert Hodge e Gunther Kress (1991) Social Semiotiocs, New York: Polity Press. O poder hegemônico só se instaura em combinação com a ‘solidariedade’, ou seja, a conivência mais ou menos consciente dos dominados, que se revela através de diferentes formas discursivas. A cadeia de complexos ideológicos, de ‘poderes e solidariedades’, perpetua as desigualdades.
  10. As entrevistas transcritas neste texto integram o projeto ‘A invisibilidade da mulher negra brasileira na educação literária’, com apoio do PIBIC-CNPq, sob minha coordenação, desenvolvido na Faculdade de Educação da UFF. Com a colaboração de Andréa Hoffmann (licencianda em Letras — UFF e ex-bolsista do PIBIC), Wandercy de Carvalho (licenciando em Letras — UFF e bolsista do PIBIC), e Claudia Lage (professora substituta da UFF).

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

Hodge, Robert; Kress, Hodge (1991). Social Semiotiocs. New York: Polity Press.

Leahy-Dios, Cyana (2001). Língua e Literatura: uma questão de Educação? (colaboração de Claudia Lage). Campinas: Papirus.

Apple, Michael; Teitelbaun, T. (1991). “Está o professorado perdendo o controle de suas qualificações e do currículo?”,Teoria e Educação, nº 4, Porto Alegre, Pannonica.

Leahy-Dios, Cyana (2000). Educação Literária como Metáfora Social. Niterói: EdUFF

Leahy-Dios, Cyana (1999). “Mulheres na literatura: a invisibilidade oficial”, Leitura: Teoria e Prática, nº 33. Campinas: ALB/Mercado Aberto.

Benjamin, Walter (1986). Obras Escolhidas I. São Paulo: Ed. Brasiliense.

Barthes, Roland (1981). Aula. São Paulo: Cultrix.





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